{"id":95534,"date":"2017-01-19T09:58:33","date_gmt":"2017-01-19T11:58:33","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95534"},"modified":"2017-01-19T10:02:55","modified_gmt":"2017-01-19T12:02:55","slug":"o-conde-dabranhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-conde-dabranhos","title":{"rendered":"O Conde d&#8217;Abranhos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"158\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong><span style=\"font-size: small;\">I &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"96\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"152\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\"><strong>II &#8211; Final<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"94\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"178\">\n<div align=\"center\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Minha Senhora: Tive, durante quinze anos, a honra t\u00e3o invejada de<br \/>\nser o secret\u00e1rio particular de seu Ex.mo Marido, Al\u00edpio Severo<br \/>\nAbranhos, Conde d&#8217;Abranhos, e consumo-me, desde o dia da sua morte, no desejo<br \/>\nde glorificar a mem\u00f3ria deste var\u00e3o eminente, Orador, Publicista,<\/p>\n<p>Estadista, Legislador e Fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p>V. Ex\u00aa, Sr\u00aa Condessa, ergue-lhe neste momento, no cemit\u00e9rio<br \/>\ndos Prazeres, um mausol\u00e9u comemorativo, onde o cinzel do escultor Craveiro<br \/>\nfaz reviver a nobre figura do Conde.<\/p>\n<p>Respeitosamente me arrojo, Sr\u00aa Condessa, a imitar o piedoso acto de<br \/>\nV. Ex\u00aa, e neste livro como o artista esculpiu no m\u00e1rmore<br \/>\no seu inv\u00f3lucro f\u00edsico eu pretendo reconstituir o seu<br \/>\nser moral. A est\u00e1tua \u00e9 assim completada pela biografia: na pedra,<br \/>\nas gera\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas poder\u00e3o contemplar a<br \/>\ngrandeza da sua atitude e a express\u00e3o do seu rosto; no livro, admirarlhe-<br \/>\n\u00e3o a eleva\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito e a rectid\u00e3o<br \/>\nda alma.<\/p>\n<p>E quem melhor do que eu poderia tornar conhecido este portugu\u00eas hist\u00f3rico<br \/>\neu, a quem ele fez a confid\u00eancia das suas cren\u00e7as, da<br \/>\nsua filosofia t\u00e3o profundamente religiosa, da sua alta ambi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndo seu puro amor da P\u00e1tria, da sua vasta ci\u00eancia pol\u00edtica?<br \/>\nEu, que tenho presente a sua correspond\u00eancia, cuidadosamente<br \/>\narquivada no copiador os seus manuscritos, os rascunhos dos seus discursos,<br \/>\nnaquela letra larga e ampla que apresentava similitude com a sua alma; eu,<br \/>\nque tive o piedoso cuidado durante quinze anos, de recolher as menores palavras<br \/>\nque sa\u00edam dos seus l\u00e1bios ai! que a anemia ia adelga\u00e7ando<br \/>\nt\u00e3o cruelmente e, apenas entrava no meu quarto andar da Rua<br \/>\ndo Carvalho, ninho dom\u00e9stico que a sua generosidade me permitiu<br \/>\nadquirir escrevia as conversas que, \u00e0 hora do ch\u00e1, ou<br \/>\nmais tarde no seu escrit\u00f3rio, me enlevavam de admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu fui a testemunha da sua vida. Outros o viram em S. Bento, nas Secretarias,<br \/>\nno Pa\u00e7o, no Gr\u00e9mio, mas s\u00f3 eu o vi, perdoe-me<br \/>\nV. Ex\u00aa, Sr\u00aa Condessa, a familiar express\u00e3o em chinelos<br \/>\ne de \u00abrobe-de-chambre\u00bb.<\/p>\n<p>Todos conhecem o grande homem. Eu, conhe\u00e7o o homem. Eu e<br \/>\nV. Ex\u00aa, de quem ele me dizia, pouco antes de morrer, no momento em que<br \/>\nlhe dava a colher de bromureto de pot\u00e1ssio: \u00abZagalo amigo,<br \/>\nao fim da experi\u00eancia de oito anos de casamento, a Lulu (porque nos<br \/>\nmomentos de expans\u00e3o comigo, era este o nome que ele lhe dava, Sr\u00aa<br \/>\nCondessa pois que, ordinariamen te, aos inferiores dizia, a Condessa,<br \/>\ne aos seus iguais, a D. Catarina) a Lulu, amigo Zagalo, tem sido mais que<br \/>\numa esposa, tem sido \u00abum b\u00e1lsamo\u00bb. Referia-se o ilustre<br \/>\nmarido de V. Ex\u00aa \u00e0s circunst\u00e2ncias dolorosas do seu primeiro<br \/>\ncasamento, a que ele se costumava, referir, chamando-lhe \u00abuma chaga\u00bb.<\/p>\n<p>Tais s\u00e3o os motivos, Sr\u00aa Condessa o desejo de lhe erguer<br \/>\num monumento espiritual e o meu conhecimento \u00edntimo da sua vida<br \/>\nque me levam, depois de demorada reflex\u00e3o, a escrever esta biografia<br \/>\ndo Conde d&#8217;Abranhos.<\/p>\n<p>Eu conhe\u00e7o ainda que as minhas tentativas liter\u00e1rias<br \/>\nt\u00eam recebido do pa\u00eds um acolhimento remunerador que me<br \/>\nescasseiam as qualidades de Estilo e de Critica, para escrever a hist\u00f3ria<br \/>\ncomplexa deste grande homem: seria necess\u00e1rio, para bem o pintar, um<br \/>\nPlutarco, ou, nos tempos mais modernos, um Victor Cousin (que ele tanto admirava),<br \/>\nou ainda, contemporaneamente, um Herculano, um Rebelo, um Castilho<br \/>\num desses astros que se destacam no c\u00e9u da nossa P\u00e1tria, com<br \/>\numa luz de serenidade eterna. Eu sei, al\u00e9m disso, n\u00e3o serem<br \/>\nnecess\u00e1rias apoteoses biogr\u00e1ficas para que o pais reconhe\u00e7a<br \/>\no homem que perdeu no Conde d&#8217;Abranhos. A dor de toda a Lisboa devia ser bem<br \/>\ngrata \u00e0 sua alma. Sim, Sr\u00aa Condessa, devia ser bem grato ao seu<br \/>\nesp\u00edrito imortal, j\u00e1 arrebatado \u00e0 serenidade dos eleitos,<br \/>\nver, c\u00e1 em baixo, nesta Capital que ele amava, nestas ruas que ele<br \/>\nt\u00e3o bem conhecia, a imponente cerim\u00f3nia do seu pr\u00e9stito<br \/>\nf\u00fanebre: o camarista que representava S. M. El-Rei; o presidente do<br \/>\nconselho que, apesar da firmeza da sua vontade de ferro, n\u00e3o podia<br \/>\nconter as l\u00e1grimas que lhe humedeciam as p\u00e1lpebras; a deputa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos meninos do Asilo de S.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o, por quem ele tomava um interesse t\u00e3o delicado<br \/>\ne a quem chamava, com aquela gra\u00e7a que nas horas felizes era o encanto<br \/>\nda sua conversa, \u00abos meus pintainhos\u00bb; a deputa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas duas casas do Parlamento, levando \u00e0 frente o orador da maioria,<br \/>\no poeta maravilhoso dos \u00abSonhos e Enleios\u00bb, que me disse estas<br \/>\npalavras memor\u00e1veis que ficar\u00e3o na Hist\u00f3ria:<br \/>\n\u00abVimos em nome da Vi\u00fava&#8230;\u00bb E como eu lhe perguntava,<br \/>\nadmirado: \u00abEm nome da Sr\u00aa Condessa?\u00bb \u00abN\u00e3o<br \/>\nrespondeu o poeta em nome da Tribuna, vi\u00fava do G\u00e9nio!\u00bb<br \/>\nE enfim, fechando o pr\u00e9stito, vinte carruagens particulares,<br \/>\nvinte e cinco da companhia e algumas de pra\u00e7a entre as quais<br \/>\nnotei com admira\u00e7\u00e3o alguns oper\u00e1rios da Sociedade \u00abProbidade<br \/>\nCrist\u00e3\u00bb, que ele tanto ajudara a formar, e que vinham pagar um<br \/>\ntributo derradeiro ao homem que, mais que nenhum em Portugal, amou, protegeu<br \/>\ne educou o oper\u00e1rio! Ali vinham, quatro numa tip\u00f3ia, nos seus<br \/>\ncasacos dos domingos, as l\u00e1grimas nos olhos, a f\u00e9 no peito,<br \/>\nlevar com saudade \u00e0 sepultura aquele que um dia exclamara na C\u00e2mara<br \/>\ndos Deputados (sess\u00e3o de 15 de Agosto, \u00abDi\u00e1rio do Governo\u00bb<br \/>\nn\u00ba 2758): \u00abN\u00e3o podemos dar ao oper\u00e1rio o<br \/>\np\u00e3o na terra, mas obrigando-o a cultivar a f\u00e9, preparamos-lhe<br \/>\nno C\u00e9u banquetes de Luz e de Bem-aventuran\u00e7a!\u00bb E quem<br \/>\nnegar\u00e1 a\u00ed que n\u00e3o seja esta a verdadeira maneira de promover<br \/>\na felicidade das classes trabalhadoras? Mas n\u00e3o foram estas as \u00fanicas<br \/>\ndemonstra\u00e7\u00f5es de luto social. A Imprensa a que ele se<br \/>\norgulhava de pertencer, e a que chamava, com tanta eleva\u00e7\u00e3o,<br \/>\no \u00abporta-voz do progresso\u00bb dedicou-lhe p\u00e1ginas<br \/>\nque, pela unanimidade do sentimento, e at\u00e9, se me \u00e9 permitido<br \/>\ndescer a estes detalhes, o tipo grande dos artigos, entre tarjas negras, lembravam<br \/>\nos funerais de um Rei.<\/p>\n<p>As musas mesmo o choraram, e quem esquecer\u00e1 essa j\u00f3ia da poesia<br \/>\nportuguesa, que dedicou \u00e0 sua morte o nosso grande l\u00edrico, o<br \/>\nautor melodioso dos \u00abC\u00e2nticos e Suspiros\u00bb? Ah! Sr\u00aa<br \/>\nCondessa, recitemos ambos, na nossa dor comum, esta estrofe, digna dos Hugos,<br \/>\ndos Passos e dos Leais: Teu corpo desce \u00e0 terra escura e fria&#8230;<\/p>\n<p>Terra de Portugal. Treva sombria Te cobre e te devora! Mas n\u00e3o perecer\u00e1<br \/>\nteu g\u00e9nio altivo, E surges para a Hist\u00f3ria redivivo como da<br \/>\nNoite a Aurora&#8230;<\/p>\n<p>A m\u00fasica mesmo (para que todas as Artes se reunissem no coro de prantos)<br \/>\nl\u00e1 lhe vai dar o seu tributo, nessa inspirada com posi\u00e7\u00e3oeA<br \/>\nCiviliza\u00e7\u00e3o\u00bb valsa dedicada \u00e0 mem\u00f3ria<br \/>\ndo ilustre Conde d&#8217;Abranhos, pelo padre Ab\u00edlio Figueira! Era tempo,<br \/>\npois, Sr\u00aa Condessa, que eu, que nessa grande explos\u00e3o de dor me<br \/>\nconservei taciturno e retra\u00eddo (devendo dizer-se que o severo ataque<br \/>\nde f\u00edgado que ent\u00e3o me prostrou, resultante das longas noites<br \/>\nde vig\u00edlia \u00e0 cabeceira do grande enfermo, me for\u00e7ou a<br \/>\num sil\u00eancio involunt\u00e1rio) venha enfim depor sobre o seu<br \/>\nt\u00famulo esta mem\u00f3ria humilde.<\/p>\n<p>A Ele, Sr\u00aa Condessa, devo tudo. O p\u00e3o do corpo e o p\u00e3o<br \/>\nda alma, me deu ele com generosidade larga e fidalga. Nunca o esquecerei.<br \/>\nPor vezes, quando me via (sobretudo.4 depois da bronquite de que padeci no<br \/>\nInverno de 1870) um pouco p\u00e1lido ou debilitado, ele pr\u00f3prio<br \/>\nia ao arm\u00e1rio do seu escrit\u00f3rio e por sua m\u00e3o me servia<br \/>\nde um, \u00e0s vezes dois c\u00e1lices de vinho do Porto de 1815. Nos<br \/>\ndias em que tinha gente a jantar, nunca se esquecia de mandar guardar alguma<br \/>\nsobremesa para eu levar a meus filhos, que lhe devem, al\u00e9m desta lembran\u00e7a<br \/>\nmimosa, a educa\u00e7\u00e3o s\u00f3lida e crist\u00e3 de que gozam<br \/>\ne que os habilitar\u00e1, espero, a entrar um dia, com justo m\u00e9rito,<br \/>\nnas Reparti\u00e7\u00f5es do Estado.<\/p>\n<p>Mas, Sr\u00aa Condessa eu sou feliz em o poder dizer bem alto<br \/>\no que acima de tudo devo ao Conde d&#8217;Abranhos, \u00e9 ter-me ele refeito<br \/>\num ser moral. Eu, que na mocidade, sob a influ\u00eancia perniciosa de leituras<br \/>\ninconvenientes e de camaradagens f\u00fateis, partilhava as ideias que a<br \/>\nsociedade condena, fui transformado pelo seu exemplo, pelos seus conselhos,<br \/>\npela sua eloqu\u00eancia e pela sua protec\u00e7\u00e3o. Sim, Sr\u00aa<br \/>\nCondessa, seu ilustre marido encontrou-me pobre, e portanto repastando-me<br \/>\nde leituras perniciosamente democr\u00e1ticas, e acompanhando com mo\u00e7os<br \/>\nde talento, \u00e9 certo, mas inteiramente devorados pelos estragos de unia<br \/>\nfilosofia materialista e de uma sociologia an\u00e1rquica; empregando-me<br \/>\ncomo seu secret\u00e1rio particular, com um ordenado suficiente \u00e0s<br \/>\nneces-sidades de minha fam\u00edlia (eu casara ent\u00e3o com a minha<br \/>\nang\u00e9lica Madalena), o Conde d&#8217;Abranhos deu-me os meios materiais de<br \/>\nme tornar um conservador convicto, um defensor fervoroso das institui\u00e7\u00f5es,<br \/>\num amigo da ordem. Pondo-me ao abrigo da pobreza, digo-o bem alto, p\u00f4s-me<br \/>\nao abrigo da deprava\u00e7\u00e3o intelectual, moral e social.<\/p>\n<p>E de V. Ex\u00aa, Sr\u00aa Condessa, que direi, que o n\u00e3o tenham<br \/>\ndito na terra os pobres de que V. Ex.\u00bb cura os males e afasta a necessidade,<br \/>\ne no C\u00e9u, os anjos de quem V. Ex.\u00bb \u00e9 seguramente predilecta<br \/>\ne decerto futura companheira? Permita-me pois, Sr\u00aa Condessa,<br \/>\nque ponha aos p\u00e9s de V. Ex\u00aa este trabalho, no qual consignei a<br \/>\nprimeira fase da carreira admir\u00e1vel do Conde d&#8217;Abranhos, essa ascens\u00e3o<br \/>\nvertiginosa \u00e0s culmin\u00e2ncias do poder, de modesto filho de Pena<br \/>\nfiel a ministro ilustre, e onde deixei o que na minha alma existe de melhor,<br \/>\nde mais nobre, de mais duradouro a minha respeitosa admira\u00e7\u00e3o<br \/>\npela grande figura do Conde d&#8217;Abranhos.<\/p>\n<p>Sou de V. Ex\u00aa o mais humilde criado Z. Z.<\/p>\n<p>Ex-secret\u00e1rio do Ex.mo Sr. Conde d&#8217;Abranhos, s\u00f3cio honor\u00e1rio<br \/>\ndo Gr\u00e9mio Recreativo do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>108 Rua do Carvalho Lisboa 1\u00ba de Janeiro de 1879.<\/p>\n<p>O CONDE D&#8217;ABRANHOS AL\u00cdPIO SEVERO ABRANHOS nasceu no ano de 1826,<br \/>\nem Penafiel, no dia de Natal.<\/p>\n<p>A Provid\u00eancia, por um s\u00edmbolo subtil e engenhoso, fez nascer<br \/>\nno dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazar\u00e9, aquele que em Portugal<br \/>\ndevia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos<br \/>\nseus interesses e do seu reino.<\/p>\n<p>Muitas vezes o Conde se comprazia em contar que, nessa noite de 24 de Dezembro<br \/>\nde 1826, Inverno que ficou na hist\u00f3ria pelas grandes neves que ca\u00edram,<br \/>\nseus pais segundo a tradi\u00e7\u00e3o venerada na fam\u00edlia<br \/>\ntinham armado um pres\u00e9pio, como era costume nesses tempos em<br \/>\nque a boa f\u00e9 portuguesa amava a piedosa devo\u00e7\u00e3o dos altares<br \/>\n\u00edntimos. Ao centro do pres\u00e9pio, florido de muita verdura, entre<br \/>\nos animais da narra\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, o Menino Jesus sorria,<br \/>\nnos bra\u00e7os de uma Virgem, obra delicadamente trabalhada por Ant\u00e3o<br \/>\nSerrano, o grande santeiro de Amarante. Em torno, ardiam as velas de cera;<br \/>\nna cozinha, cantavam nas frigideiras os roj\u00f5es da ceia; o lume de lenha<br \/>\nh\u00famida estalava jovialmente, e fora, na neve que ca\u00eda, os sinos<br \/>\nrepicavam para a missa do Galo quando a m\u00e3e do Conde, subitamente<br \/>\nSentiu o tenro ser&#8230;<\/p>\n<p>como diz o nosso grande l\u00edrico no seu poema, A M\u00e3e.<\/p>\n<p>O parto foi singularmente feliz, e, aludindo a esta circunst\u00e2ncia,<br \/>\no Conde muitas vezes me dizia, que, segundo o seu velho amigo Dr. Flores,<br \/>\na facilidade em nascer era o ind\u00edcio misterioso de um destino f\u00e1cil<br \/>\ne de imprevistas fortunas. Todos os homens providenciais Napole\u00e3o<br \/>\nI, o nosso Santo Papa Pio IX, o grande estadista Fonseca Magalh\u00e3es,<br \/>\nnasceram como dizia o Conde com chiste \u00abcom uma perna<br \/>\n\u00e0s costas!\u00bb A fortuna come\u00e7a-lhes no ventre maternal:<br \/>\na porta da vida abre-se-lhes a dois batentes, mostrando-lhes uma sequ\u00eancia<br \/>\nde \u00e9pocas gloriosas, como sal\u00f5es festivos. Outros t\u00eam<br \/>\nde arrombar com dor essa mesma porta, saindo para um destino escuro como uma<br \/>\nestrada de Inverno. Providenciais ant\u00edteses da Sorte! E o parto da<br \/>\nm\u00e3e do Conde foi t\u00e3o feliz, que, meia hora depois das primeiras<br \/>\ndores, o pequeno Al\u00edpio foi trazido triunfantemente para a sala. A<br \/>\ncomadre sentara-se casualmente diante do pres\u00e9pio, e os dois meninos<br \/>\no que havia de ser um homem, e o que fora um Deus sorriamse<br \/>\n\u00e0 claridade das velas festivas do Natal, ambos nuzinhos, ambos ao colo,<br \/>\nenquanto de fora, lan\u00e7ados vivamente, vinham os repiques do sino, atrav\u00e9s<br \/>\ndos flocos de neve! Tocante quadro; e poucos conhe\u00e7o se atendermos<br \/>\n\u00e0 gl\u00f3ria do Conde d&#8217;Abranhos que mais mere\u00e7am<br \/>\nser lan\u00e7ados na tela ou esculpidos no m\u00e1rmore.<\/p>\n<p>Os pais do Conde, \u00e9 geralmente sabido, eram pobres. Mas a origem<br \/>\nda sua fam\u00edlia n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 plebeia como afectavam<br \/>\nsupor os seus advers\u00e1rios de ideias mas, bem estudada, revela<br \/>\numa origem t\u00e3o nobre como a das melhores casas do norte de Portugal.<\/p>\n<p>Os Abranhos s\u00e3o origin\u00e1rios de Amarante e aliados, pelas mulheres,<br \/>\n\u00e0 ilustre casa de Noronha. Em 1758, D. Jacinta Ana de Sobral Vieira<br \/>\nAlcoforado e Noronha, vi\u00fava do capit\u00e3omor Teles Azurara, senhora<br \/>\nj\u00e1 avan\u00e7ada em anos, mas ainda de aspecto imponente, casara<br \/>\ncom Manuel Abranhos, que, pelas suas formas atl\u00e9ticas e beleza viril,<br \/>\nera chamado o Apolo de Amarante. Manuel Abranhos n\u00e3o era decerto um<br \/>\nfidalgo, mas \u00e9 inteiramente inexacto o dizerse, como se imprimiu na<br \/>\nRevolu\u00e7\u00e3o de Setembro, ent\u00e3o na oposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque era um carniceiro: estas insinua\u00e7\u00f5es p\u00e9rfidas desonram<br \/>\nas grandes lutas intelectuais da pol\u00edtica! D. Jacinta Ana concebera<br \/>\npor ele uma dessas paix\u00f5es, como aquelas que a poesia Al\u00edpio<br \/>\nSevero Abranhos nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal. A Provid\u00eancia,<br \/>\npor um s\u00edmbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que<br \/>\nnasceu Jesus de Nazar\u00e9, aquele que em Portugal devia ser o mais forte<br \/>\npilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu<br \/>\nreino..6 tem celebrado, e, apesar da renit\u00eancia dos parentes<br \/>\nque faz lembrar a dos Capuletos, pai e irm\u00e3o da doce Julieta (tanto<br \/>\nas fam\u00edlias hist\u00f3ricas se assemelham nos grandes sentimentos<br \/>\nque as agitam) D. Jacinta apoderou-se do belo Abranhos, e o casamento<br \/>\nfoi celebrado (recordo-o a t\u00edtulo de curiosidade hist\u00f3rica)<br \/>\npelo padre Vicente Tardinho, reitor de Varzelhe, que depois tanto se celebrizou<br \/>\nnum processo retumbante.<\/p>\n<p>J\u00e1 ent\u00e3o, digamo-lo de passagem, sob a influ\u00eancia dessa<br \/>\nvaga aragem revolucion\u00e1ria que soprava de Fran\u00e7a, tinha principiado<br \/>\nesta longa persegui\u00e7\u00e3o ao clero, que um dia devia tomar propor\u00e7\u00f5es<br \/>\nque de certo modo lembram as persegui\u00e7\u00f5es de Diocleciano.<\/p>\n<p>O casamento, escrevo-o com dor, n\u00e3o foi feliz. N\u00e3o possuo<br \/>\nos documentos necess\u00e1rios para decidir a quem pertence a responsabilidade<br \/>\ndas desintelig\u00eancias crescentes, mas \u00e9 certo que o belo Apolo<br \/>\nque, como dizia com um chiste ador\u00e1vel o Conde, \u00abfrequentava<br \/>\nmuito o seu colega Baco\u00bb, espancava t\u00e3o imprevistamente D. Jacinta,<br \/>\nque obrigou muita vez esta dama a refugiar-se em casa dos seus parentes, levando<br \/>\napenas sob as suas formas, que tinham conservado uma grande majestade aristocr\u00e1tica,<br \/>\num saiote de flanela! Apesar, por\u00e9m, destas viol\u00eancias, a paix\u00e3o<br \/>\nde D. Jacinta, que eu respeitosamente comparo \u00e0 mulher de Putifar ou<br \/>\n\u00e0s Fedras da lenda antiga, trazia-a de novo, submissa e amorosa, \u00e0<br \/>\ncasa comum e ao leito conjugal, at\u00e9 que um dia, (e aqui textualmente<br \/>\ncopio uma carta, existente no arquivo da fam\u00edlia e escrita por Segismundo<br \/>\nde Noronha, irm\u00e3o da dama espancada): \u00ab&#8230;a sova foi t\u00e3o<br \/>\nforte, que vimos a mana Jacinta entrar-nos pelo port\u00e3o da casa em camisa<br \/>\ne tendo nos ombros n\u00f3doas t\u00e3o roxas e dilatadas, que o padre<br \/>\nSim\u00f5es, o nosso bom capel\u00e3o, as comparou, com o devido respeito,<br \/>\n\u00e0s n\u00f3doas roxas nos ombros do Redentor depois de 12 horas de<br \/>\nVia Dolorosa\u00bb.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia Noronha exigiu uma repara\u00e7\u00e3o. D. Jacinta<br \/>\nveio viver com seus irm\u00e3os, e cinco meses depois deu \u00e0 luz um<br \/>\nmenino que, por se julgar que n\u00e3o sobreviveria, foi \u00e0 pressa<br \/>\nbaptizado pelo capel\u00e3o Sim\u00f5es, com o nome po\u00e9tico de<br \/>\nFlorido. Sobreviveu, por\u00e9m, felizmente. E aqui encontro um facto que,<br \/>\npor respeito \u00e0s duas fam\u00edlias Abranhos e Noronhas, n\u00e3o<br \/>\ncerco de coment\u00e1rios; \u00e9 ele igualmente justific\u00e1vel e<br \/>\nconden\u00e1vel. Bi\u00f3grafos irreverentes e temer\u00e1rios poderiam<br \/>\ntalvez emitir uma opini\u00e3o n\u00edtida, cortante, definitiva: eu abstenho-me,<br \/>\ne assim deve fazer todo o historiador honesto, sempre que se trate de factos<br \/>\nem que duas fam\u00edlias, ambas ilustres, ambas hist\u00f3ricas, tenham<br \/>\num conflito de interesses: a ordem social repousa nestas respeitosas retic\u00eancias.<\/p>\n<p>O facto \u00e9 este na sua nudez hist\u00f3rica: o menino Floridozinho<br \/>\nfoi lan\u00e7ado \u00e0 roda.<\/p>\n<p>Um irm\u00e3o, por\u00e9m e aqui dou amplamente sa\u00edda<br \/>\nao meu desejo de glorificar os Abranhos um irm\u00e3o, por\u00e9m,<br \/>\nde Apolo (que Apolo a esse tempo desaparecera de Amarante) reclamou Florido,<br \/>\nadoptou-o, educou-o, e foi recompensado desta nobre dedica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nporque Florido Abranhos foi um espelho de virtudes e uma flor de honradez.<br \/>\n\u00c9 talvez aqui a ocasi\u00e3o de destruir outro erro que tende a introduzir-se<br \/>\nna Hist\u00f3ria: o irm\u00e3o de Apolo, tio de Florido, sem estar decerto<br \/>\nnuma alta situa\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o era todavia, como perfidamente<br \/>\ninsinuou em tempos a Gazeta de Portugal, um padeiro. Como dizia o Conde com<br \/>\ngrande eleva\u00e7\u00e3o moral, estas pesquisas mi\u00fadas, mesquinhas,<br \/>\nna intimidade familiar de um homem de Estado, s\u00e3o singularmente odiosas.<\/p>\n<p>Florido, que pelo lado materno era um Noronha, casou em Penafiel, e a sua<br \/>\nvida teve a tranquilidade l\u00edmpida de um belo rio de \u00e1guas claras<br \/>\nque corre entre margens de serenidade id\u00edlica. Viveu, amou, trabalhou&#8230;<\/p>\n<p>Et sa vieillesse fut comme le soir d&#8217;un beau jour&#8230;<\/p>\n<p>Teve dois filhos uma menina que herdou a beleza de seu av\u00f4<br \/>\nApoio, e um rapaz.7 que foi Ant\u00f3nio Abranhos, o pai feliz que na noite<br \/>\nde Natal de 1826, diante da pompa do Menino Jesus no seu pres\u00e9pio iluminado,<br \/>\napertou nos bra\u00e7os o seu filho \u00fanico Al\u00edpio Severo<br \/>\nde Noronha Abranhos, futuro Conde d&#8217;Abranhos.<\/p>\n<p>O Conde, portanto, \u00e9 da fam\u00edlia dos Noronhas e dos<br \/>\nNoronhas que direi que o n\u00e3o saiba a P\u00e1tria? O seu nome est\u00e1<br \/>\nna Hist\u00f3ria pelos altos feitos e na Legenda pelos po\u00e9ticos amores.<\/p>\n<p>N\u00e3o vos lembrais da nobre can\u00e7\u00e3o: Aldina na alta torre<br \/>\nAlta torre d&#8217;Algeciras, Chora de noite e de dia Que condenou-a seu pai A n\u00e3o<br \/>\nter mais alegria&#8230;<\/p>\n<p>Levai-lhe os prantos, oh! rios, Nuvens, levai-lhe os suspiros&#8230;<\/p>\n<p>Aldina \u00e9 uma Noronha. Da torre de Algeciras restam vest\u00edgios<br \/>\ntodo um lan\u00e7o de alvenaria, evidentemente do s\u00e9culo<br \/>\nXIII, descoberto ultimamente pelo nosso distinto arque\u00f3logo Macedo<br \/>\nGar\u00e7\u00e3o, que ofereceu \u00e0 fam\u00edlia Noronha uma formosa<br \/>\nfotografia da ru\u00edna.<\/p>\n<p>Outra Noronha foi de grande beleza e ilustrou o seu nome e o da sua ra\u00e7a,<br \/>\npartilhando o leito do nosso Rei D. Afonso V.<\/p>\n<p>D. Violante de Noronha, de uma beleza cl\u00e1ssica que lhe mereceu o<br \/>\nnome de Juno (nesta fam\u00edlia, a beleza das mulheres iguala a bravura<br \/>\ndos homens) recebeu o mesmo alto favor do nosso senhor Rei D. Pedro II.<\/p>\n<p>Dos var\u00f5es desta casa citarei Fernando de Noronha, t\u00e3o cioso<br \/>\nda sua ra\u00e7a que um dia, entrando no momento em que um criado repelia<br \/>\ncom for\u00e7a seu filho Afonso que num inocente brinquedo lhe arrepelava<br \/>\nos cabelos, mandou decepar a m\u00e3o direita ao lacaio.<\/p>\n<p>Estes actos inspiravam um terror salutar e ainda que nos nossos tempos mais<br \/>\ndoces poderiam ser desaprovados e o j\u00fari decerto mandaria o seu autor<br \/>\npara a costa de \u00c1frica, eram todavia necess\u00e1rios nessa \u00e9poca<br \/>\ngloriosa da monarquia, para manter as classes nos justos limites indicados<br \/>\npela Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>Citarei tamb\u00e9m Camilo de Noronha, que, j\u00e1 neste s\u00e9culo<br \/>\nfoi not\u00e1vel como toureiro e varredor de feiras. A sua destreza no jogo<br \/>\nde pau era tal, que chegava a um arraial, apeava e destro\u00e7ava a multid\u00e3o,<br \/>\natirando homens por terra como uma crian\u00e7a que derrota um regimento<br \/>\nde soldadinhos de chumbo. Contam-se dele deliciosas anedotas. Na Covilh\u00e3,<br \/>\npor exemplo, tinha um cavalo adestrado que escoiceava, mal o alegre Camilo<br \/>\nde Noronha assobiava.<\/p>\n<p>Costumava aproxim\u00e1-lo de fidalgos e senhoras (mas sobretudo de plebeus)&#8230;<br \/>\nUm assobio r\u00e1pido, um coice imprevisto, e o indiv\u00edduo ou a dama<br \/>\neram levados em bra\u00e7os, no meio da hilaridade que entre os seus amigos<br \/>\ncausavam sempre tais fa\u00e7anhas. Sem inteiramente aprovar estas distrac\u00e7\u00f5es<br \/>\nviolentas, n\u00e3o se pode, todavia, deixar de reconhecer que h\u00e1<br \/>\nem tais actos uma plenitude de seiva, de vida animal e de for\u00e7a que<br \/>\nagrada em jovens fidalgos.<\/p>\n<p>Estas migalhas de Hist\u00f3ria, apanhadas ao acaso, pintam a tra\u00e7os<br \/>\nlargos a fei\u00e7\u00e3o desta fam\u00edlia ilustre. Os Noronhas usam<br \/>\nsobre o campo de prata tr\u00eas castelos de ouro e este mote: In Chistro<br \/>\nspes meu (em Cristo a minha esperan\u00e7a), sublime divisa, a melhor, a<br \/>\nmais nobre. E foi esta a divisa do Conde d&#8217;Abranhos, at\u00e9 que, por decreto<br \/>\ndo 1\u00ba de Janeiro de 1860, S. M. lhe concedeu o t\u00edtulo de Conde.<br \/>\nTomou ent\u00e3o este outro mote: Ex corde pro rege (do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo Rei!) Estas palavras, partindo de um homem que n\u00e3o era um cortes\u00e3o<br \/>\ne at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o mostrara especial dedica\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo Monarca, parecem-me exemplo alto e resplandecente de reconhecimento,<br \/>\nneste s\u00e9culo de ingratid\u00f5es endurecidas e lealdades frouxas.<\/p>\n<p>Foi sempre para mim um motivo de assombro que durante a sua inf\u00e2ncia,<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos n\u00e3o tivesse como Napole\u00e3o, Chateaubriand<br \/>\nou Lord Byron revelado a sua futura eleva\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito<br \/>\ne de car\u00e1cter por alguma dessas estranhas precocidades que s\u00e3o<br \/>\ncomo as fa\u00edscas inesperadas que saem de um fogo ainda incubado. Os<br \/>\nseus primeiros anos s\u00e3o sem relevo e inteiramente incaracter\u00edsticos.<br \/>\nEle mesmo o reconhecia com mod\u00e9stia, quando dizia, sorrindo: \u00abComo<br \/>\ntoda a gente, apanhei ninhos e fiz papagaios de papel&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 certo que o meio em que se passou a sua mocidade n\u00e3o oferecia<br \/>\nocasi\u00e3o a que se revelassem os seus gostos inatos e se acentuassem<br \/>\nas suas tend\u00eancias. Estou bem certo que se tivesse sido educado numa<br \/>\ndessas velhas casas morgadas, onde gera\u00e7\u00f5es letradas formavam<br \/>\nricas e s\u00e1bias bibliotecas, ver\u00edamos o pequeno Al\u00edpio<br \/>\ndeixar os ninhos e os papagaios, para se ir esconder nalgum recanto da silenciosa<br \/>\nlivraria, e ali, folhear os antigos romances de cavalaria, ou, o que era mais<br \/>\nnatural \u00e0 fei\u00e7&amp;atildatilde;o nativa do seu esp\u00edrito, ler,<br \/>\ncompreendendo-os mal, os fil\u00f3sofos do passado. E por\u00e9m sabido<br \/>\nque seu pai e n\u00e3o creio ofender a sua mem\u00f3ria revelando-o<br \/>\ntinha um pequeno e honesto estabelecimento de alfaiate, e as \u00fanicas<br \/>\npublica\u00e7\u00f5es que decerto ali se veriam entre os cortes de pano,<br \/>\nseriam os volumes do antigo Espelho da Moda. Eu creio, por\u00e9m, que esta<br \/>\nfalta de vida intelectual foi singularmente favor\u00e1vel ao seu desenvolvimento<br \/>\nf\u00edsico. N\u00e3o tendo livros que o prendessem em casa, Al\u00edpio<br \/>\npassava os seus dias pelas hortas e pelos quintais, crescendo em plena natureza,<br \/>\ncrestado pelo Sol, batido dos largos ares, e, como dizia um poeta antigo,<br \/>\nmamando \u00e0 farta nos peitos de C\u00edbele.<\/p>\n<p>Foi esta forte educa\u00e7\u00e3o rural que lhe deu aquelas cores sadias,<br \/>\naquele porte erecto, que destacavam com um t\u00e3o edificante relevo entre<br \/>\nos bustos an\u00e9micos e as faces amareladas da ra\u00e7a lisboeta. E<br \/>\na esta primitiva comunica\u00e7\u00e3o com a Natureza que ele deveu o<br \/>\nseu esp\u00edrito recto e t\u00e3o bem ponderado, amando em tudo a ordem,<br \/>\no equil\u00edbrio, a formosa disposi\u00e7\u00e3o das hierarquias. Mens<br \/>\nsana in corpore sano: que eu por mim tenho que as ideias falsas, an\u00e1rquicas,<br \/>\ns\u00e3o o resultado das organiza\u00e7\u00f5es debilitadas. As cidades<br \/>\nmodernas, com as suas ruas mal arejadas, os seus quintos andares abafados,<br \/>\no seu rumor trovejante de f\u00e1bricas e de ve\u00edculos, a luz crua<br \/>\ndo g\u00e1s, a alimenta\u00e7\u00e3o insa-lubre, formam estas gera\u00e7\u00f5es<br \/>\np\u00e1lidas, nervosas, agitadas por um desejo hist\u00e9rico de novidade,<br \/>\nde artif\u00edcio, de desordem e de viol\u00eancia. E esta a origem do<br \/>\nesp\u00edrito revolucion\u00e1rio. O homem que, pelo contr\u00e1rio,<br \/>\nhabita os campos, que respira o ar dos largos prados, repousa a vista na vasta<br \/>\nlinha do horizonte, na serenidade silenciosa das aldeias, ganha, num corpo<br \/>\nforte, um esp\u00edrito calmo: odeia a agita\u00e7\u00e3o; est\u00e1<br \/>\nnaturalmente preparado para respeitar a Autoridade, os Princ\u00edpios s\u00f3lidos,<br \/>\na Ordem, toda a ordena\u00e7\u00e3o harm\u00f3nica e bela do Estado.<\/p>\n<p>Tenho, por\u00e9m, a certeza de que o Conde, com a sua grande mod\u00e9stia,<br \/>\nn\u00e3o exprimia inteiramente a verdade quando atribu\u00eda aos ninhos<br \/>\ne aos papagaios o privil\u00e9gio de lhe absorverem todo o interesse! N\u00e3o!<br \/>\nJ\u00e1 ent\u00e3o naquele esp\u00edrito de crian\u00e7a deviam passar<br \/>\nideias, ainda indefinidas mas fortemente marcadas de originalidade: soltando<br \/>\naos ares os seus papagaios, \u00e9 de crer que pensasse na eterna aspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nda alma para os cimos azulados da gra\u00e7a; e, ao contemplar ovos de pintassilgo,<br \/>\nfofamente dispostos no fundo de um ninho muito quente e muito tenro, decerto<br \/>\nlhe devia passar na alma a ideia eterna.9 da institui\u00e7\u00e3o da<br \/>\nfam\u00edlia. Um dia mesmo, ao contar-lhe estas suposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nque me tinham atravessado o esp\u00edrito: Qual hist\u00f3ria!<br \/>\nrespondeu com bondade o Conde. Isso s\u00e3o coisas da sua<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o de poeta. Eu era um caval\u00e3o, aqui onde me<br \/>\nv\u00ea!&#8230; N\u00e3o nego, por\u00e9m, que desde novo, fui inclinadote<br \/>\na agitar quest\u00f5es sociais!&#8230;<\/p>\n<p>E quando eu vejo, hoje, mo\u00e7os sa\u00eddos das escolas, sem experi\u00eancia<br \/>\nda vida, do Estado, da Administra\u00e7\u00e3o, quererem reformar a Sociedade,<br \/>\ncomo me parece admir\u00e1vel a mod\u00e9stia deste homem not\u00e1vel,<br \/>\nque classificava assim o seu grande g\u00e9nio filos\u00f3fico:<br \/>\ninclinadote a agitar quest\u00f5es sociais!&#8230;<\/p>\n<p>Assim, pois, crescia o jovem Al\u00edpio Abranhos, quando do que<br \/>\ndepende o destino dos homens e muitas vezes a sorte das na\u00e7\u00f5es!<br \/>\nsua tia Am\u00e1lia veio a Penafiel consultar um dentista americano,<br \/>\nent\u00e3o famoso em todo o Norte.<\/p>\n<p>Esta senhora providencial (em que reaparecia a singular beleza do Apolo<br \/>\nde Amarante) casara em nova com um propriet\u00e1rio rico de Amarante, e<br \/>\nvi\u00fava, sem filhos, vivia em isolamento na sua Quinta dos Migu\u00e9is.<\/p>\n<p>Naturalmente, em Penafiel, a tia Am\u00e1lia viu frequentemente seu sobrinho<br \/>\nAl\u00edpio, e bem depressa a gra\u00e7a, a vivacidade, a esperteza do<br \/>\npequeno cativaram a tia, que, secretamente infeliz por n\u00e3o ter filhos,<br \/>\nse vira at\u00e9 ent\u00e3o obrigada a empregar o seu fundo de afei\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaternal nas aves dom\u00e9sticas e nos diversos animais da sua quinta.<br \/>\nAl\u00edpio era como um filho inesperado que lhe aparecia \u00aba meio<br \/>\ndo caminho da sua vida\u00bb (Dante).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 hoje segredo para ningu\u00e9m que o Conde d&#8217;Abranhos<br \/>\npreparava um volume de Mem\u00f3rias Intimas, quando o acometeu a doen\u00e7a.<br \/>\nE dessas notas interrompidas, truncadas, que eu transcrevo o seguinte par\u00e1grafo,<br \/>\nrelativo a este per\u00edodo decisivo da sua carreira: \u00abMinha tia<br \/>\nAm\u00e1lia concebera o plano aben\u00e7oado plano! de<br \/>\nme levar para a Quinta dos Migu\u00e9is, e mandar-me dar uma educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque me habilitasse a tomar na sociedade a posi\u00e7\u00e3o elevada que<br \/>\nnaturalmente me pertencia pela minha bisav\u00f3 paterna: numa palavra,<br \/>\nfazer de mim um Noronha, digno dos Noronhas.<\/p>\n<p>Abriu-se a este respeito com meu pai, que acedeu prontamente, deslumbrado<br \/>\npela perspectiva de me ver possuidor de uma educa\u00e7\u00e3o que os<br \/>\nseus meios de fortuna n\u00e3o lhe permitiriam darme.<\/p>\n<p>A sua vontade, por\u00e9m, encontrou formid\u00e1veis escolhos nas l\u00e1grimas<br \/>\nde minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Separar-se do filho que ela criara ao seu peito, parecia-lhe t\u00e3o<br \/>\ndoloroso como uma amputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lembra-me vagamente de a ver abra\u00e7ada a mim, dizendo, banhada em<br \/>\nrios de l\u00e1grimas: \u00d3 Lipinho, que te querem levar! Ai, Lipinho,<br \/>\nque querem fazer de ti um doutor! Mas meu pai, com o seu bom-senso, minha<br \/>\ntia, com as suas promessas, venceram essa resist\u00eancia, igual \u00e0<br \/>\nda leoa a que impudente ca\u00e7ador quer arrebatar os filhos, e numa manh\u00e3<br \/>\nde Agosto como recordo o opulento Sol nascente, cravando o mundo das<br \/>\nsuas flechas de ouro! parti com minha tia Am\u00e1lia para a pitoresca<br \/>\nQuinta dos Migu\u00e9is, onde me decorreram a inf\u00e2ncia e a puberdade,<br \/>\nprimeiro nos infantis brinquedos, mais tarde em \u00fateis estudos. E nunca<br \/>\nrevisitei a Quinta dos Migu\u00e9is, sem uma profunda saudade desses anos<br \/>\ndescuidosos, e sem ir ao pequeno cemit\u00e9rio, onde minha tia<br \/>\nAm\u00e1lia repousa no seu bem tratado jazigo, cercada de floridos goivos<br \/>\najoelhar e murmurar uma reconhecida prece, no sil\u00eancio da tarde,<br \/>\npela alma simples que me abriu a sua bolsa e me habilitou a cursar as aulas<br \/>\nda nossa s\u00e1bia Universidade.\u00bb P\u00e1gina admir\u00e1vel!<br \/>\nem que se nos revelam as qualidades eminentes do escritor e a tocante<br \/>\nbondade do homem! Que quadro aquele em que o vemos, j\u00e1 ilustre, j\u00e1<br \/>\ntitular, j\u00e1 ministro, seguir o caminho estreito do cemit\u00e9rio,<br \/>\npor alguma tarde suave de Outono, pousar o joelho sobre a relva, descobrir-se,<br \/>\ne rezar! P\u00e1gina admir\u00e1vel, repito, repassada de uma saudade<br \/>\ngrave, num colorido t\u00e3o delicado de paisagem! Na Quinta dos Migu\u00e9is<br \/>\nse passou a mocidade do Conde d&#8217;Abranhos. Ali estudou a gram\u00e1tica e<br \/>\no latim, sob a direc\u00e7\u00e3o do abade de Serzedelo, velho de raras<br \/>\nvirtudes crist\u00e3s. Ali passou as suas f\u00e9rias de formatura.<\/p>\n<p>Eu tive a honra de o acompanhar, quando o Conde foi tratar da sua elei\u00e7\u00e3o<br \/>\na Amarante, numa visita \u00e0 Quinta dos Migu\u00e9is. Do port\u00e3o,<br \/>\numa rua plantada de loureiros conduz \u00e0 casa de habita\u00e7\u00e3o,<br \/>\nbaixa, s\u00f3lida, coberta de um dos lados por uma formosa trepadeira,<br \/>\natulhada de rosinhas brancas. Um lan\u00e7o de escadas de pedra, ornado<br \/>\nde velhos vasos azuis, leva ao sal\u00e3o, grande, pintado de oca, com cortinas<br \/>\nvermelhas e brancas, e nas paredes litografias das batalhas de Napole\u00e3o.<br \/>\nTudo \u00e9 simples, patriarcal e grave. O Conde mostrou-me o seu quarto<br \/>\ne o rebordo da janela onde, em pequeno, pendurava gaiolas de grilos, com a<br \/>\nsua folhinha verde de alface. Dali descobre-se a estrada, no tra\u00e7ado<br \/>\ndo antigo caminho, onde o Conde (segundo ele pr\u00f3prio me contou) via<br \/>\ncom inveja passar as liteiras que levavam a Braga e ao Porto os fidalgos das<br \/>\nvizinhan\u00e7as. J\u00e1 ent\u00e3o, um sentimento vago pressentimento<br \/>\ndo seu alto destino ou simples aspira\u00e7\u00e3o de um esp\u00edrito<br \/>\ndistinto para os centros letrados e inteligentes o levava constantemente<br \/>\na desejar a exist\u00eancia das grandes cidades.<\/p>\n<p>Ao fundo da quinta foge um pequeno regato, muito claro, muito pausado, cujo<br \/>\nrumor tem a tristeza das \u00e1guas mansas que correm entre ervas altas;<br \/>\nas margens s\u00e3o cobertas de salgueiros; na Primavera os rouxin\u00f3is<br \/>\nenchem de ninhos aquele lugar assombrado e terno.<\/p>\n<p>Como a noite que passei na quinta era muito calma, fomos depois de jantar,<br \/>\npassear junto ao Ribeiral, que \u00e9 o nome daquele canto de paisagem eleg\u00edaca,<br \/>\ne nunca esquecerei a bela confid\u00eancia com que ali me honrou o Conde.<\/p>\n<p>V. Ex\u00aa tinha eu observado devia, muitas vezes,<br \/>\ndurante as f\u00e9rias, vir passear aqui e sentir-se inspirado&#8230;<\/p>\n<p>O Conde, que por causa da frescura da noite se estava cuidadosamente agasalhando<br \/>\nno seu cachen\u00e9, parou e disse, com aquele gesto grave que tanto impressionava<br \/>\na C\u00e2mara: N\u00e3o o conte em Lisboa, Zagalinho, mas uma noite,<br \/>\naqui compus versos! Eu n\u00e3o me atrevia a pedir-lhe que mos recitasse,<br \/>\nmas, sem d\u00favida, a claridade da Lua no meu rosto revelou um desejo<br \/>\nt\u00e3o intenso de os ouvir, que o Conde, sempre bom, me tomou o bra\u00e7o<br \/>\ne disse: Era uma noite de apetite: eu andava aqui a passear, a pensar,<br \/>\nfumando o meu charuto, que a tia Am\u00e1lia tinha horror ao fumo<br \/>\ndo tabaco quando, de repente, a Lua ergueu-se por detr\u00e1s dos<br \/>\nsalgueiros e um rouxinol p\u00f4s-se a cantar&#8230; e sem saber como, fiz uma<br \/>\nquadra. N\u00e3o a repita! Lembra-me perfeitamente: Deus existe! Tudo o<br \/>\nprova, Tanto tu, altivo Sol, Como tu, raminho humilde Onde canta o rouxinol!<br \/>\nN\u00e3o pude conter um bravo, respeitoso mas sentido.<\/p>\n<p>O pensamento \u00e9 bonito, mas n\u00e3o o diga em Lisboa, Zagalinho.<br \/>\nSe os jornais soubessem que fiz versos&#8230; Que gostinho para a oposi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Eu exclamei, rindo: Que gostinho para a oposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas que gl\u00f3ria para o minist\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>Ele acrescentou:.<\/p>\n<p>Enfim, s\u00e3o rapaziadas. Todos n\u00f3s, mais ou menos, em<br \/>\nrapazes, fomos poetas e republicanos&#8230; Antes isso que andar a beberricar<br \/>\ngenebra nos botequins e frequentar meretrizes&#8230; Mas quando se entra na verdadeira<br \/>\nvida pol\u00edtica, \u00e9 necess\u00e1rio p\u00f4r de lado esses sentimentos<br \/>\nternos&#8230;<\/p>\n<p>Eu ent\u00e3o citei, com respeito, alguns dos nossos homens de estado,<br \/>\nque foram, s\u00e3o ainda, poetas de alta imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois sim&#8230; interrompeu o Conde. Mas l\u00e1 t\u00eam<br \/>\no seu lugar marcado na forma\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio&#8230; Um poeta<br \/>\nn\u00e3o pode ser Ministro do Reino, mas pode muito bem ser Ministro da<br \/>\nMarinha.<\/p>\n<p>Grande verdade pol\u00edtica! Quando entr\u00e1mos, eu atrevi-me a pedir<br \/>\na S. Ex\u00aa que escrevesse aquela formosa quadra no \u00e1lbum de minha<br \/>\nesposa, que trouxera comigo, esperando obter, no Porto e em Braga, aut\u00f3grafos<br \/>\nde alguns poetas e prosadores das prov\u00edncias do Norte.<\/p>\n<p>O Conde tomou o \u00e1lbum, sorrindo, e retirou-se para o seu aposento.<br \/>\nQual n\u00e3o foi, na manh\u00e3 seguinte, a minha alegria, quando ele<br \/>\nmo restituiu, e li ao abrir a p\u00e1gina: Deus existe! Tudo o prova, Tanto<br \/>\ntu, altivo Sol, Como tu, raminho humilde Onde canta o rouxinol! Estes versos,<br \/>\nque eu escrevi quando me verdejavam na alma as ilus\u00f5es da mocidade,<br \/>\npoderia escrev\u00ea-los hoje que a experi\u00eancia da vida me tem demonstrado<br \/>\nque fora de Deus, n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o ilus\u00e3o e vaidade&#8230;<\/p>\n<p>Conde d&#8217;Abrunhos.<\/p>\n<p>Quando voltei a Lisboa e mostrei esta p\u00e1gina preciosa \u00e0 minha<br \/>\nMadalena que surpresa, que arrebatamento! Fal\u00e1mos at\u00e9<br \/>\ntarde, essa noite, da bondade do Conde e da vastid\u00e3o do seu g\u00e9nio.<\/p>\n<p>Se eu me detive neste incidente \u00edntimo de uma exist\u00eancia hist\u00f3rica,<br \/>\nfoi para mostrar que o Conde n\u00e3o era um homem destitu\u00eddo de<br \/>\nsentimento po\u00e9tico e de imagina\u00e7\u00e3o idealista.<\/p>\n<p>Naquele c\u00e9rebro todo ocupado de legisla\u00e7\u00e3o, de reformas,<br \/>\nde economia pol\u00edtica, de debates parlamentares, tinha havido um momento,<br \/>\nna sua mocidade, em que florescera, como uma violeta isolada mas fresca, a<br \/>\nflor delicada do sentimentalismo. E quis tamb\u00e9m provar que a poesia<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 inteiramente unia arte subalterna e pr\u00f3pria de<br \/>\nesp\u00edritos efeminados, pois que um homem de t\u00e3o robusto g\u00e9nio<br \/>\npr\u00e1tico n\u00e3o desdenhou um dia, sob a influencia de uma paisagem<br \/>\nrom\u00e2ntica, servir-se dela para exprimir um alto conceito filos\u00f3fico.<br \/>\nEstou certo de que os poetas contempor\u00e2neos, os Hugos \u00e9picos,<br \/>\nos delicados Tennysons, os Campoamores de humor\u00edstica melancolia, se<br \/>\norgulhariam deste colega que eu lhes revelo, e que, se apenas uma vez feriu<br \/>\na lira, f\u00ea-lo com tal originalidade, vigor e eleva\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque esse simples verso isolado sobe mais alto no c\u00e9u da Arte do que<br \/>\nmuitas sinfonias majestosas dos Mussets debochados ou dos Baudelaires hist\u00e9ricos:<br \/>\nDeus existe! Tudo o prova, Tanto tu, altivo Sol, Como tu, raminho humilde<br \/>\nOnde canta o rouxinol! N\u00e3o farei uma narra\u00e7\u00e3o detalhada<br \/>\nda mocidade estudiosa do Conde. Este estudo n\u00e3o \u00e9 propriamente<br \/>\numa biografia em que deva seguir, ano a ano, a carreira intelectual do seu<br \/>\nvasto esp\u00edrito. S\u00e3o simples apontamentos, quadros destacados<br \/>\nde uma nobre carreira, que servir\u00e3o para que um mais alto engenho (na<br \/>\nfrase en\u00e9rgica do \u00c9pico) reconstrua, com suficiente relevo,<br \/>\nesta soberba figura hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Desde os onze anos, pois, Al\u00edpio Abranhos viveu na companhia de sua<br \/>\ntia Am\u00e1lia, e a n\u00e3o ser nas f\u00e9rias do segundo ano, em<br \/>\nque a doen\u00e7a da m\u00e3e o chamou imperiosamente a Penafiel, n\u00e3o<br \/>\ntornou a ver seus pais.<\/p>\n<p>Compreender-se-\u00e1 facilmente que o jovem Al\u00edpio, tendo penetrado<br \/>\nnum meio mais elevado, habituado no Porto, onde estudara parte dos preparat\u00f3rios,<br \/>\ne depois em Coimbra, \u00e0s conviv\u00eancias eruditas, cultivadas, educadas,<br \/>\nse achava extremamente deslocado na companhia pobre e iletrada de seu pai.<br \/>\nQuando, durante anos, se tem vivido pela imagina\u00e7\u00e3o com os her\u00f3is<br \/>\nda Hist\u00f3ria e do Romance, quando se tem o ouvido habituado \u00e0<br \/>\nnobre linguagem dos C\u00edceros, dos Titos L\u00edvios, quando se tem<br \/>\nacostumado o esp\u00edrito aos interesses da Ci\u00eancia, da L\u00f3gica<br \/>\ne da Metaf\u00edsica n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil suportar-se<br \/>\na conversa\u00e7\u00e3o de pessoas que s\u00f3 se preocupam com pequenos<br \/>\ninteresses locais e \u00abmexericos de vila pobre\u00bb.<\/p>\n<p>Depois das largas salas e dos vastos horizontes da Quinta dos Migu\u00e9is,<br \/>\na pequena casa do pai, com o ch\u00e3o atravancado de retalhos de fazenda<br \/>\ne o ar abafado do cheiro acre dos estrugidos, a pequena vila escura, onde<br \/>\nos vizinhos v\u00e3o de noite despejar as imund\u00edcies, causavam aos<br \/>\ncostumes fidalgos daquele Noronha uma repulsa instintiva.<\/p>\n<p>J\u00e1 ent\u00e3o revelava o seu gosto pelo luxo, pelas largas habita\u00e7\u00f5es<br \/>\ntapetadas, pelo servi\u00e7o harmonioso de lacaios disciplinados. A pobreza<br \/>\ne os seus aspectos era-lhe odiosa. Quanta vez, mais tarde, quando ele subia<br \/>\no Chiado pelo meu bra\u00e7o, eu me vi for\u00e7ado a afastar com dureza<br \/>\nos pobres, que \u00e0 porta do Baltresqui, ou da Casa Havanesa, vinham,<br \/>\nsob o pretexto de filhos com fome ou de membros aleijados, reclamar esmola;<br \/>\no Conde, se os via muito perto, \u00abficava todo o dia enjoado\u00bb. Todavia<br \/>\na sua caridade \u00e9 bem conhecida, e o Asilo de S.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o, a que em parte deveu o seu t\u00edtulo, a\u00ed<br \/>\nest\u00e1 como um atestado glorioso da sua magnanimidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ele reconhecia que a caridade era a melhor institui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Estado. Quanto ao pauperismo, tinha-o como uma fatalidade social: fossem<br \/>\nquais fossem as reformas sociais, dizia, haveria sempre pobres e ricos: a<br \/>\nfortuna p\u00fablica devia estar naturalmente toda nas m\u00e3os de uma<br \/>\nclasse, da classe ilustrada, educada, bem nascida. S\u00f3 deste modo se<br \/>\npodem manter os Estados, formar as grandes ind\u00fastrias, ter uma classe<br \/>\ndirigente forte, por possuir o ouro e base da ordem social.<\/p>\n<p>Isto fazia necessariamente que parte da popula\u00e7\u00e3o \u00abtiritasse<br \/>\nde frio e rabeasse de fome\u00bb. Era certamente lament\u00e1vel, e ele,<br \/>\ncom o seu grande e vasto cora\u00e7\u00e3o que palpitava a todo o sofrimento,<br \/>\nlamentava-o. Mas a essa classe devia ser dada a esmola com m\u00e9todo e<br \/>\ndiscernimento: e ao Estado pertencia organizar a esmola. Porque o Conde censurava<br \/>\nmuito a caridade privada, sentimental, toda de espontaneidade. A caridade<br \/>\ndevia ser disciplinada, e, por amor dos desprotegidos, regulamentada: por<br \/>\nisso queria o Asilo, o Recolhimento dos Desvalidos, onde os pobres, tendo<br \/>\nprovado com bons documentos a sua mis\u00e9ria, tendo apresentado bons atestados<br \/>\nde moralidade, recebessem do Estado, sob a superintend\u00eancia de homens<br \/>\npr\u00e1ticos e despidos de v\u00e3s piedades, um tecto contra a chuva<br \/>\ne um caldo contra a fome. O pobre devia viver ali, separado, isolado da sociedade,<br \/>\ne n\u00e3o ser admitido a vir perturbar com a express\u00e3o da sua face<br \/>\nmagra e com a narra\u00e7\u00e3o exagerada das suas necessidades, as ruas<br \/>\nda cidade. \u00abIsole-se o pobre!\u00bb dizia ele um dia na C\u00e2mara<br \/>\ndos Deputados, sintetizando o seu magn\u00edfico projecto para a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Recolhimentos do Trabalho. O Estado forneceria grandes casar\u00f5es,<br \/>\ncom celas providas de uma enxerga, onde.13 seriam acolhidos os miser\u00e1veis.<br \/>\nPara conseguir a admiss\u00e3o, deveriam provar serem de maior idade, haverem<br \/>\ncumprido os seus deveres religiosos, n\u00e3o terem sido condenados pelos<br \/>\ntribunais (isto para evitar que oper\u00e1rios de ideias subversivas que,<br \/>\npela greve e pelo deboche, tramam a destrui\u00e7\u00e3o do Estado, viessem,<br \/>\nem dia de mis\u00e9ria, pedir a esse mesmo Estado que os recolhesse). Deveriam<br \/>\nainda provar a sobriedade dos seus costumes, nunca terem vivido amancebados<br \/>\nnem possu\u00edrem o h\u00e1bito de praguejar e blasfemar. Reconhecidas<br \/>\nestas qualidades elevadas com documentos dos p\u00e1rocos, dos regedores,<br \/>\netc., seria dada a cada miser\u00e1vel uma cela e uma ra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde caldo igual \u00e0 que t\u00eam os presos.<\/p>\n<p>Mas, dir-se-\u00e1, o Estado, ent\u00e3o sustenta-os de gra\u00e7a?<br \/>\nN\u00e3o, poderia exclamar triunfantemente o Conde, mostrando as<br \/>\np\u00e1ginas admir\u00e1veis do seu regulamento, em que se estabelecia,<br \/>\ncom um profundo sentimento dos deveres do cidad\u00e3o para com a cidade,<br \/>\nque todo o pobre admitido seria for\u00e7ado a uma consider\u00e1vel soma<br \/>\nde trabalho, segundo as suas aptid\u00f5es. O mais \u00fatil par\u00e1grafo,<br \/>\na meu ver, \u00e9 aquele que determina que grupos de pobres sejam for\u00e7ados<br \/>\na cal\u00e7ar as ruas, colocar as canaliza\u00e7\u00f5es de g\u00e1s,<br \/>\ntrabalhar em monumentos p\u00fablicos, etc. Tais servi\u00e7os, todos<br \/>\nem favor da C\u00e2mara Municipal, obrig\u00e1-la- iam a concorrer para<br \/>\na despesa desta institui\u00e7\u00e3o, aliviando assim o Estado de uma<br \/>\ngrande parte dos gastos.<\/p>\n<p>Uma vez admitidos, os recolhidos perderiam o direito de sair a n\u00e3o<br \/>\nser que provassem que iriam dali ser empregados, de tal sorte que n\u00e3o<br \/>\nlhes fosse poss\u00edvel recair nos acasos da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Em nenhuma legisla\u00e7\u00e3o humana conhe\u00e7o institui\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o justa, t\u00e3o eficaz, t\u00e3o profundamente crist\u00e3,<br \/>\nt\u00e3o beneficamente social. E mesmo muito prefer\u00edvel ao Work-House<br \/>\ningl\u00eas: ali, o pobre conserva uma soma de independ\u00eancia que lhe<br \/>\nfaz supor a exist\u00eancia de uma soma de direitos: considera-se ainda um<br \/>\ncidad\u00e3o, tem pretens\u00f5es ao respeito, \u00e0 igualdade, \u00e0<br \/>\nconsidera\u00e7\u00e3o: desobedece, revolta-se, foge do Work-House, recai<br \/>\nno deboche, na fome, na desordem, no v\u00edcio. Aqui, n\u00e3o: o pobre<br \/>\nfica prisioneiro da caridade! Perde o direito de ter fome. E as classes dirigentes,<br \/>\ntendo a certeza de que os seus pobres l\u00e1 est\u00e3o, bem aferrolhados,<br \/>\ncom uma razo\u00e1vel enxerga e um caldo di\u00e1rio, podem dormir descansadas,<br \/>\nsem receio de perturba\u00e7\u00f5es da ordem ou de revoltas do pauperismo.<\/p>\n<p>Infelizmente este projecto t\u00e3o perfeito, de que todos os jornais<br \/>\ns\u00e9rios falaram com palavras de comovida admira\u00e7\u00e3o, nunca<br \/>\nconseguiu passar nas C\u00e2maras. Motivos mesquinhamente governamentais<br \/>\nimpediram uma t\u00e3o bela institui\u00e7\u00e3o de resolver o grande<br \/>\nproblema da mis\u00e9ria, pois \u00e9 com estas s\u00e1bias medidas<br \/>\nque ela se arranca do seio da sociedade, e n\u00e3o com as vossas reformas<br \/>\nhip\u00f3critas, sofistas da revolu\u00e7\u00e3o social! Foi esta instintiva<br \/>\nrepuls\u00e3o pela pobreza, pelas maneiras rudes, pelas instala\u00e7\u00f5es<br \/>\ninc\u00f3modas, que impediu Al\u00edpio, desde que gozava na Quinta dos<br \/>\nMigu\u00e9is as vantagens da educa\u00e7\u00e3o e os regalos da riqueza,<br \/>\nde visitar ami\u00fade a casa modesta de seus pais. li por\u00e9m uma<br \/>\ncal\u00fania dizerse como o disseram certos panfletos indecorosos<br \/>\nque o Conde, j\u00e1 rico, j\u00e1 ministro, renegara a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u00c9 para mim uma honra, vir hoje, perante Portugal, explicar, destruir<br \/>\nesse erro volunt\u00e1rio e hostil.<\/p>\n<p>Logo que o Conde entrou na C\u00e2mara, fez o seu casamento t\u00e3o<br \/>\nrico e se estabeleceu em Lisboa, pensou sem demora em elevar paralelamente<br \/>\na situa\u00e7\u00e3o social de seu pai. Encontrou nele, por\u00e9m,<br \/>\nexig\u00eancias tais que tornaram imposs\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos seus desejos. As negocia\u00e7\u00f5es foram longas, muito delicadas,<br \/>\nmuito secretas. Tenho nas m\u00e3os toda essa correspond\u00eancia, e posso<br \/>\ndizer que nela o Conde mostra um tacto, uma prud\u00eancia, uma previd\u00eancia<br \/>\ngeniais. Seu pai, ao princ\u00edpio, desejou que o Conde lhe fornecesse<br \/>\nmeios de abrir em Lisboa um grande estabelecimento de alfaiate. Isto era.14<br \/>\nnaturalmente inaceit\u00e1vel. Como o Conde me disse muita vez, n\u00e3o<br \/>\npodia passar, com o correio de ministro atr\u00e1s, pela rua onde reluzisse<br \/>\na tabuleta \u00abAbranhos, Alfaiate\u00bb. Como conseguiria ele, na C\u00e2mara,<br \/>\naniquilar um advers\u00e1rio que lhe poderia responder: \u00abTudo<br \/>\nisso \u00e9 muito bonito, mas o pior \u00e9 que o senhor seu pai me estragou<br \/>\ninteiramente este par de cal\u00e7as e roubou-me na fazenda! Era imposs\u00edvel<br \/>\nesta permanente tortura moral. E o pai do Conde tanto o compreendeu, que escreveu<br \/>\n(n\u00e3o cito textualmente, pois que nem a sua ortografia, nem a sua gram\u00e1tica<br \/>\npoderiam ter lugar num livro correcto): Se n\u00e3o queres que eu<br \/>\npossua um estabelecimento do of\u00edcio em que me criei, que \u00e9 honrado<br \/>\ne me tem ajudado a viver, e \u00e0 tua m\u00e3e, ent\u00e3o o melhor<br \/>\n\u00e9 que eu v\u00e1 para a tua companhia, para tua casa, onde tua m\u00e3e,<br \/>\nque \u00e9 t\u00e3o econ\u00f3mica e t\u00e3o h\u00e1bil nos arranjos,<br \/>\npode ser uma governanta \u00fatil e poupar a tua mulher todos os inc\u00f3modos<br \/>\n\u00abdos azeites e vinagres\u00bb. (Esta express\u00e3o \u00e9 dele).<\/p>\n<p>O Conde recusou com indigna\u00e7\u00e3o. Realmente a exig\u00eancia<br \/>\n\u00e9 curiosa. Virem aquele homem e aquela mulher de Penafiel, com os h\u00e1bitos,<br \/>\nos modos, as figuras, a fala de dois trabalhadores de Penafiel, viver numa<br \/>\ncasa onde se recebia a fidalguia de Lisboa, os representantes dos Reis estrangeiros,<br \/>\na flor da literatura, a Maioria! Absurdo! Se o Conde, como ele dizia, n\u00e3o<br \/>\nfosse um homem p\u00fablico, poderia sacrificar-se a essa companhia plebeia.<br \/>\nMas como Estadista, a presen\u00e7a na sua casa daquele pai de fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nreles, a comer o arroz com a faca, a escabichar os dentes com as unhas, a<br \/>\nperguntar \u00e0s senhoras ent\u00e3o como vai essa bizarria?<br \/>\ncom o seu catarro, cuja expectora\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua<br \/>\nera repulsiva, s\u00f3 serviria para diminuir a autoridade moral do Conde<br \/>\ne o prest\u00edgio do seu talento. Em nome dos interesses superiores do<br \/>\nEstado, devia repelir aquela proposta. Se um dia tivesse a jantar o Ministro<br \/>\nde Inglaterra ou de Fran\u00e7a, no momento de uma negocia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndelicada e de alto interesse para Portugal, como poderia impressionar os diplomatas<br \/>\nestrangeiros, com o pai, ao lado, a tirar cera dos ouvidos? Foi por isso que<br \/>\nele informou o pai de que s\u00f3 o receberia em sua casa, com a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde nunca aparecer aos jantares ou \u00e0s soir\u00e9es. O velho, decerto<br \/>\nmal aconselhado por intrigantes pol\u00edticos, respondeu com uma carta<br \/>\n(que, pelas raz\u00f5es dadas, n\u00e3o cito textualmente) em que lhe<br \/>\ndiz que, desde que o filho se envergonha de seu pai, todos os arranjos s\u00e3o<br \/>\nin\u00fateis, e que cada um siga o seu caminho; eu (diz ele) n\u00e3o<br \/>\nposso, aos 55 anos, mudar os meus h\u00e1bitos e o meu catarro: sou como<br \/>\nsou; n\u00e3o tenho as maneiras de um elegante, mas tenho a minha honra<br \/>\ne os meus sentimentos. Que meu filho jante na sala e me fa\u00e7a jantar<br \/>\nna cozinha, n\u00e3o! Continua a ser Abranhos deputado, que eu continuarei<br \/>\na ser Abranhos alfaiate. Mas nem por isso deixo de ser t\u00e3o homem de<br \/>\nbem como tu.<\/p>\n<p>Homem de bem! N\u00e3o o era decerto, dando, pela sua ingrata obstina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmotivo a que se um dia se soubesse, como se soube, este incidente<br \/>\no Conde fosse insultado na imprensa e escarnecido na C\u00e2mara!<br \/>\nEsta resposta do pai desgostou muito o Conde; mas com uma bondade quase sobre-humana,<br \/>\nescreveu-lhe novamente, remetendo-lhe 200$000 r\u00e9is, e afian\u00e7ando-lhe<br \/>\nque se algum dia, por falta de trabalho ou doen\u00e7a, se encontrasse em<br \/>\nnecessidade, o avisasse logo, pois que, apesar da sua carta ofensiva, nunca<br \/>\nele, como filho crist\u00e3o, perderia o respeito que lhe devia! A esta<br \/>\ncarta t\u00e3o nobre, t\u00e3o filial, o velho alfaiate respondeu devolvendo<br \/>\na letra, nas dobras de um papel onde havia uma palavra \u00fanica:<br \/>\nM&#8230;.! N\u00e3o transcrevo a palavra (que de resto a intelig\u00eancia<br \/>\ndos que me l\u00eaem logo compreender\u00e1) porque me respeito, e nunca<br \/>\nponho nos meus livros essas obscenidades que se permitiu escrever o vision\u00e1rio<br \/>\nautor dos Miser\u00e1veis, esse \u00e9pico enf\u00e1tico de uma democracia<br \/>\nest\u00e9ril! M&#8230;.! Essa palavra foi para o Conde o desgosto grave da sua<br \/>\nvida. Era evidente.15 que seu pai, perdendo o respeito pr\u00f3prio, propendia<br \/>\npara a obscenidade! Boa raz\u00e3o tivera ele, pois, em n\u00e3o o admitir<br \/>\nem sua casa, no conv\u00edvio da sociedade mais raffin\u00e9e de Portugal!<br \/>\nDeste incidente da vida do Conde, que mais direi que o n\u00e3o saiba o<br \/>\nPa\u00eds? \u00c9 conhecido hoje (tanto o esc\u00e2ndalo popularizou<br \/>\no epis\u00f3dio) que, obstinando-se na sua ingratid\u00e3o, o alfaiate<br \/>\nmorreu pobre, sem nunca ter escrito a seu filho, que s\u00f3 o soube quando<br \/>\no velho se tinha enterrado. Mas o Sr. Carvalhosa, o deputado da oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\npor Penafiel, com essa perf\u00eddia que inspira o despeito pol\u00edtico,<br \/>\napenas teve conhecimento de que o velho expirava na mis\u00e9ria, apressou-se<br \/>\ncom pompa, com evid\u00eancia, a ir-lhe a casa, levar-lhe um m\u00e9dico<br \/>\ne enterr\u00e1-lo \u00e0 sua custa. Para qu\u00ea? Para que se pudesse<br \/>\nimprimir nos jornais da oposi\u00e7\u00e3o que o Sr.<\/p>\n<p>Ministro deixara morrer o pai numa mansarda infecta e que fora o deputado<br \/>\nda oposi\u00e7\u00e3o quem, por miseric\u00f3rdia, lhe chegara aos l\u00e1bios<br \/>\na \u00faltima malga de caldo! Eu vi o Conde chorar na intimidade da sua<br \/>\nlivraria. L\u00e1grimas de raiva, que para outras n\u00e3o havia lugar.<br \/>\nAquela morte isolada, obscura, silenciosa, numa mis\u00e9ria volunt\u00e1ria,<br \/>\nera a vingan\u00e7a do pai! Deixava-lhe aquela vergonha permanente.<br \/>\nQuem sabe mesmo se o alfaiate n\u00e3o teria combinado com a oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ntoda aquela l\u00fagubre cena, a enxerga, a apari\u00e7\u00e3o do Carvalhosa,<br \/>\na tumba de esmola! Ai, Zagalo disse-me o Conde abra\u00e7ando-me<br \/>\no maior erro da minha vida foi nascer de semelhante pai! E foi! Por<br \/>\nisso o Conde, na sua severa justi\u00e7a, deixou que o corpo do alfaiate<br \/>\nrepousasse na vala onde o levara a tumba de miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Diante de Deus, como ele dizia, considerava-se filho de sua tia. E a ela,<br \/>\nfilialmente, elevara aquele belo monumento onde o Anjo chora sobre uma coluna<br \/>\ntruncada que sustenta um livro, s\u00edmbolo da educa\u00e7\u00e3o que<br \/>\nfacultara ao Conde, e uma pequena bolsa, emblema da fortuna em terras que<br \/>\npor testamento lhe deixara.<\/p>\n<p>Mas estas digress\u00f5es necess\u00e1rias (pois que, repito, eu n\u00e3o<br \/>\nconto na sua disposi\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica os epis\u00f3dios<br \/>\nde t\u00e3o ilustre exist\u00eancia, mas apenas dou, a tra\u00e7os largos,<br \/>\nas fei\u00e7\u00f5es essenciais da sua fisionomia hist\u00f3rica) trouxeram-me<br \/>\naos anos, n\u00e3o distantes, em que o Conde d&#8217;Abranhos viu, por assim dizer,<br \/>\nPortugal a seus p\u00e9s.<\/p>\n<p>Volte pois o leitor comigo a essa formosa estrada do Porto, onde, numa liteira,<br \/>\nacompanhado pelo procurador de sua tia, vai o nosso Al\u00edpio em direc\u00e7\u00e3o<br \/>\na Coimbra.<\/p>\n<p>Os sete anos que a\u00ed viveu foram serenos e graves.<\/p>\n<p>Muitas vezes o Conde me disse que a Universidade lhe fizera uma impress\u00e3o<br \/>\nprofunda, n\u00e3o tanto como edif\u00edcio ainda que seja imponente<br \/>\naquele monumento no alto do monte, severo e isolado, como uma imut\u00e1vel<br \/>\nfortaleza de vetusta ci\u00eancia mas sobretudo como Institui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEu confesso n\u00e3o ser talvez competente para avaliar estas quest\u00f5es<br \/>\nde Ensino e de Educa\u00e7\u00e3o. A pobreza de meus pais n\u00e3o me<br \/>\npermitiu a honra vantajosa de ser bacharel, mas tendo convivido com tantos<br \/>\nhomens ilustres, eu sou como aquele antigo fabricante de \u00eddolos, que,<br \/>\n\u00e0 for\u00e7a de viver entre eles, guardava nas m\u00e3os e na t\u00fanica<br \/>\nalguma coisa do seu dourado. Al\u00e9m disso, neste assunto, como em todos,<br \/>\nsigo, por admira\u00e7\u00e3o muda e reconhecimento correcto, as ideias<br \/>\ne opini\u00f5es do Conde d&#8217;Abranhos.<\/p>\n<p>A primeira vantagem da Universidade, como institui\u00e7\u00e3o social,<br \/>\n\u00e9 a separa\u00e7\u00e3o que se forma naturalmente entre estudantes<br \/>\ne futricas, entre os que apenas vivem de revolver ideias ou teorias e aqueles<br \/>\nque vivem do trabalho. Assim, o estudante fica para sempre penetrado desta<br \/>\ngrande ideia social: que h\u00e1 duas classes uma que sabe, outra<br \/>\nque produz. A primeira, naturalmente, sendo o c\u00e9rebro, governa; a segunda,<br \/>\nsendo a m\u00e3o, opera, e veste, cal\u00e7a, nutre e paga a primeira.<\/p>\n<p>Dois mundos como diz o nosso poeta Gavi\u00e3o que se<br \/>\nn\u00e3o podem confundir e que, vivendo \u00e0 parte, com fins diferentes,<br \/>\ncaminham paralelamente na civiliza\u00e7\u00e3o, um com o t\u00edtulo<br \/>\negr\u00e9gio de Bacharel, outro com o nome emblem\u00e1tico de Futrica.<br \/>\nBachar\u00e9is s\u00e3o os pol\u00edticos, os oradores, os poetas, e,<br \/>\npor adop\u00e7\u00e3o t\u00e1cita, os capitalistas, os banqueiros, os<br \/>\naltos negociadores.<\/p>\n<p>Futricas s\u00e3o os carpinteiros, os trolhas, os cigarreiros, os alfaiates&#8230;<br \/>\nO Bacharel, tendo a consci\u00eancia da sua superioridade intelectual, da<br \/>\nautoridade que ela lhe confere, disp\u00f5e do mundo; ao Futrica resta produzir,<br \/>\npagar para que o Bacharel possa viver, e rezar ao Ser Divino para que proteja<br \/>\no Bacharel.<\/p>\n<p>O Bacharel, sendo o Esp\u00edrito, deve impedir que o Futrica, que \u00e9<br \/>\napenas a Mat\u00e9ria, aspire a viver como ele, a pensar como ele, e, sobretudo,<br \/>\na governar como ele. Deve mant\u00ea-lo portanto no seu trabalho subalterno,<br \/>\nque \u00e9 o seu destino providencial. E isto porque um sabe e o outro ignora.<\/p>\n<p>Esta ideia de divis\u00e3o em duas classes \u00e9 salutar, porque assim,<br \/>\neducados nela, os que saem da Universidade n\u00e3o correm o perigo de serem<br \/>\ncontaminados pela ideia contr\u00e1ria ideia absurda, ateia, destruidora<br \/>\nda harmonia universal de que o futrica pode saber tanto como sabe<br \/>\no bacharel. N\u00e3o, n\u00e3o pode: logo as intelig\u00eancias s\u00e3o<br \/>\ndesiguais, e assim fica destru\u00eddo esse princ\u00edpio pernicioso<br \/>\nda igualdade das intelig\u00eancias, base funesta de um socialismo perverso.<\/p>\n<p>Como pode realmente o homem que todo o dia trabalhou no seu tear, e \u00e0<br \/>\nnoite, depois do caldo de couves, dormiu do sono brutal da fadiga f\u00edsica,<br \/>\nparticipar do governo da coisa p\u00fablica como esse outro homem<br \/>\nque conhece as l\u00ednguas, tem os princ\u00edpios da Introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\naos tr\u00eas remos, estudou o Direito Romano, se penetrou do Direito Can\u00f3nico,<br \/>\nleu os poetas do s\u00e9culo, discutiu as leis no Parlamento, fez administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nnas Secretarias? Irris\u00e3o? Outra vantagem da Universidade \u00e9 a<br \/>\norganiza\u00e7\u00e3o dos seus estudos. O Conde considerava-a admir\u00e1vel<br \/>\ne a melhor garantia da Ideia Conservadora. E aqui copio textualmente o relat\u00f3rio<br \/>\nque acompanha o seu not\u00e1vel Projecto de Reforma do Ensino: \u00abT\u00eam<br \/>\nalguns esp\u00edritos \u00e1vidos de inova\u00e7\u00e3o, ainda que<br \/>\nno fundo sinceramente afei\u00e7oados aos princ\u00edpios conservadores,<br \/>\nsustentado que o sistema da Sebenta (como na sua jovial linguagem lhe chama<br \/>\na mocidade estudiosa) \u00e9 antiquado. Eu considero, por\u00e9m, a Sebenta<br \/>\ncomo a mais admir\u00e1vel disciplina para os esp\u00edritos mo\u00e7os.<br \/>\nO estudante, habituando-se, durante cinco anos, a decorar todas as noites,<br \/>\npalavra por palavra, par\u00e1grafos que h\u00e1 quarenta anos permanecem<br \/>\nimut\u00e1veis, sem os criticar, sem os comentar, ganha o h\u00e1bito<br \/>\nsalutar de aceitar sem discuss\u00e3o e com obedi\u00eancia as ideias preconcebidas,<br \/>\nos princ\u00edpios adoptados, os dogmas provados, as institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nreconhecidas. Perde a funesta tend\u00eancia que tanto mal produz<br \/>\nde querer indagar a raz\u00e3o das coisas, examinar a verdade dos<br \/>\nfactos; perde, enfim, o h\u00e1bito deplor\u00e1vel de exercer o livre-exame,<br \/>\nque n\u00e3o serve sen\u00e3o para ir fazer um processo cient\u00edfico<br \/>\na venerandas institui\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o a base da sociedade.<br \/>\nO livre-exame \u00e9 o princ\u00edpio da revolu\u00e7\u00e3o. A ordem<br \/>\no que \u00e9? A aceita\u00e7\u00e3o das ideias adoptadas. Se<br \/>\nse acostuma a mocidade a n\u00e3o receber nenhuma ideia dos seus mestres<br \/>\nsem verificar se \u00e9 exacta, corre-se o perigo de a ver, mais tarde,<br \/>\nn\u00e3o aceitar nenhuma institui\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds sem<br \/>\nse certificar se \u00e9 justa.<\/p>\n<p>Ter\u00edamos ent\u00e3o o esp\u00edrito da revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque termina pelas cat\u00e1strofes sociais! Hoje, destru\u00eddo o regime<br \/>\nabsoluto, temos a feliz certeza de que a Carta liberal \u00e9 justa, \u00e9<br \/>\ns\u00e1bia, \u00e9 \u00fatil, \u00e9 s\u00e3. Que necessidade h\u00e1<br \/>\nde a examinar, discutir, verificar, criticar, comparar, p\u00f4r em d\u00favida?<br \/>\nO h\u00e1bito de decorar a Sebenta produz mais tarde o h\u00e1bito de<br \/>\naceitar a Carta. A Sebenta \u00e9 a pedra angular da Carta! O Bacharel \u00e9<br \/>\no g\u00e9rmen do.Constitucional.\u00bb Conhe\u00e7o na filosofia contempor\u00e2nea<br \/>\nsem mesmo exceptuar os livros dos Thiers, dos Guizots, dos Bastiats,<br \/>\ndos Pag\u00e8s poucas p\u00e1ginas t\u00e3o profundas. A frase<br \/>\n\u00e9 tersa, viril, nobre, bem ponderada; a argumenta\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 s\u00e3 e cerrada, inexpugn\u00e1vel; a ideia tem a solenidade<br \/>\nsevera de um dogma. Nobre p\u00e1gina! E pensar que aquele que a escreveu<br \/>\nn\u00e3o escrever\u00e1 outra, e repousa sob o pedestal da sua est\u00e1tua,<br \/>\ncom as m\u00e3os em cruz, na terra bruta! N\u00e3o menos maravilhoso parecia<br \/>\nao Conde o sistema das rela\u00e7\u00f5es entre o estudante e o lente.<\/p>\n<p>O h\u00e1bito de depender absolutamente do lente, de se curvar servilmente<br \/>\ndiante da sua austera figura, de obter por meio de empenhos que a sua severidade<br \/>\nse abrande, forma os esp\u00edritos no salutar respeito da autoridade. O<br \/>\nsentimento excessivo da dignidade pessoal leva ao amor exagerado da independ\u00eancia<br \/>\ncivil. Cada um se torna por este modo o seu pr\u00f3prio dono, o seu chefe,<br \/>\no seu Rei, o seu Deus. E a anarquia! Assim educado, durante cinco anos, a<br \/>\ncurvar-se, a solicitar, a sorrir, a obedecer, a lisonjear, a suplicar, a depender,<br \/>\no bacharel entra na vida p\u00fablica disciplinado, e, em lugar de ser o<br \/>\nhomem que quer tomar na vida o lugar que lhe conv\u00e9m (o que seria a<br \/>\ndesorganiza\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es sociais) vai humildemente<br \/>\ncolocar-se, com um sorriso, no lugar, na fila, no cantinho que lhe marcam<br \/>\nos que governam. Assim se forma uma imperec\u00edvel harmonia social.<\/p>\n<p>O jovem Abranhos bem depressa mostrou, em Coimbra, o seu profundo amor da<br \/>\nDisciplina e da Ordem.<\/p>\n<p>O lente de Direito Natural era ent\u00e3o o velho Dr. Pascoal; j\u00e1<br \/>\nmuito m\u00edope, a sua veneranda ci\u00eancia, os seus achaques, os seus<br \/>\nservi\u00e7os de decano, inspiravam a todos os que admiram estes vetustos<br \/>\ns\u00e1bios encanecidos nos coment\u00e1rios de vetustos comp\u00eandios,<br \/>\numa admira\u00e7\u00e3o simp\u00e1tica.<\/p>\n<p>Havia, por\u00e9m, nesse curso (a recorda\u00e7\u00e3o recente das<br \/>\nguerras civis de algum modo o explica) temperamentos rebeldes e perniciosos,<br \/>\nque, por o anci\u00e3o pertencer a uma velha fam\u00edlia Miguelista,<br \/>\nprocuravam como dizia o Conde, achincalhar a prelec\u00e7\u00e3o. Foi<br \/>\nassim que uma ocasi\u00e3o, de repente, de entre os bancos, um morcego solta<br \/>\no voo, e estonteado pela luz, esvoa\u00e7a furiosamente, vai bater nos vidros,<br \/>\nvai bater nas paredes, vai bater, finalmente, no rosto vener\u00e1vel do<br \/>\nDr. Pascoal. O velho grita, o archeiro corre&#8230; Mas, como diz o nosso grande<br \/>\npoeta, autor dos C\u00e2nticos do C\u00e9u: Quem sabe donde vem a aragem<br \/>\nfresca? Quem sabe donde vem o voo d&#8217;ave? Quem sabe de onde vinha o morcego?<br \/>\nNo dia seguinte, tinha justamente o venerando doutor aberto a pauta<br \/>\nquando outro morcego, maior, mais negro, come\u00e7a a esvoa\u00e7ar furiosamente<br \/>\npela aula! O respeit\u00e1vel Dr. Pascoal fechou a pauta, saiu da aula,<br \/>\ntodo tr\u00e9mulo, todo branco&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00edpio, por\u00e9m, vira o condisc\u00edpulo indigno que soltara<br \/>\nos morcegos, e ali mesmo, na geral, decidiu, por amor da disciplina violada<br \/>\ne do professorado ultrajado, acus\u00e1-lo ao decano. Mas como repugnava<br \/>\nao seu car\u00e1cter leal ir, de viva voz, a casa do Dr. Pascoal, denunciar<br \/>\no condisc\u00edpulo, redigiu uma carta an\u00f3nima com estas palavras:<br \/>\nO vil\u00e3o que arrojou o morcego \u00e0s faces de V. Ex.\u00aa perturbou<br \/>\no recinto escolar, \u00e9 o n\u00ba 89! Era um certo Adriano Cravilho, que<br \/>\nposto que de uma intelig\u00eancia not\u00e1vel e de.18 um temperamento<br \/>\nhonesto tinha, como se diz em Coimbra, \u00abo furor de fazer partidas\u00bb.<\/p>\n<p>Uma semana depois, condenado por um processo secreto e sum\u00e1rio, era<br \/>\nriscado da Universidade perpetuamente. O respeit\u00e1vel Dr. Pascoal, por\u00e9m,<br \/>\nficara t\u00e3o reconhecido ao \u00aban\u00f3nimo\u00bb que lhe revelara<br \/>\no autor do malef\u00edcio, que costumava dizer no conselho da faculdade,<br \/>\nque, se soubesse quem era, \u00abpespegava-lhe um accessit no fim do ano.<br \/>\nPorque enfim, colegas, livrou a aula de um malvado!\u00bb Estas palavras,<br \/>\nespalhadas, impressionaram Al\u00edpio. O seu acto apareceu-lhe revestido<br \/>\nde uma import\u00e2ncia inesperada; examinando-o, descobria-lhe a nobreza,<br \/>\nvia-o como um verdadeiro servi\u00e7o feito \u00e0 Ci\u00eancia, \u00e0<br \/>\nDisciplina, \u00e0 Ordem, ao princ\u00edpio autorit\u00e1rio. E considerava<br \/>\nque se \u00e9 justifi-cado o pudor que nos faz ocultar o servi\u00e7o<br \/>\nfeito a um amigo, h\u00e1 uma falsa mod\u00e9stia em esconder um benef\u00edcio<br \/>\nprestado \u00e0 sociedade. Pode esquivar-se ao reconhecimento quem salva<br \/>\num homem n\u00e3o quem salva um princ\u00edpio! E dias antes dos<br \/>\nactos, dirigiu-se a casa do Dr. Pascoal, e escrevendo diante dele as palavras<br \/>\ntextuais da carta an\u00f3nima, convidou-o a comparar as letras, provando<br \/>\nao vener\u00e1vel professor que era ele, Al\u00edpio Abranhos, quem prestara<br \/>\naquele servi\u00e7o t\u00e3o marcante \u00e0 Disciplina.<\/p>\n<p>Pois faz favor de deixar o seu nome&#8230; faz favor de deixar o seu<br \/>\nnome exclamou o anci\u00e3o, que estava na idade em que a mem\u00f3ria<br \/>\n\u00e9 como tela gasta, que, repuxada, se esga\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00edpio deixou o seu nome e no fim do ano recebia o 1\u00ba<br \/>\naccessit.<\/p>\n<p>Teve ainda o 1\u00ba accessit no segundo ano ano em que ele, justamente,<br \/>\ndedicou a sua disserta\u00e7\u00e3o sobre o Direito das Gentes ao Dr.<br \/>\nCapelo, conhecido pela redund\u00e2ncia dos seus per\u00edodos, com esta<br \/>\ndedicat\u00f3ria: \u00abAo Deus da Eloqu\u00eancia, Ex.mo Dr. Capelo,<br \/>\nof. d. c. Al\u00edpio Abranhos, disc\u00edpulo deslumbrado\u00bb.<\/p>\n<p>Teve uma distin\u00e7\u00e3o no terceiro ano ano, exactamente,<br \/>\nem que (segundo vejo nas suas notas) a tia Am\u00e1lia lhe aumentou a mesada,<br \/>\no que habilitou Al\u00edpio a fazer presentes delicados a D. Rosalinda Carreira,<br \/>\nque a cal\u00fania ent\u00e3o apontava como concubina do seu lente de<br \/>\nDireito Civil.<\/p>\n<p>No quarto ano recebeu enfim o segundo pr\u00e9mio para o que concorreu<br \/>\numa sabatina em que, argumentando com o lente, o sofista Dr. Abreu, e enleado<br \/>\npor um sofisma complexo, lhe lan\u00e7ou estas belas palavras: \u00abn\u00e3o<br \/>\nsei o que hei-de responder; a luta \u00e9 desigual: eu s\u00f3 tenho por<br \/>\nmim o estudo e V. Ex\u00aa, tem o g\u00e9nio!\u00bb No quinto ano, ignoro<br \/>\nque recompensa recebeu a sua fecunda aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas honras, por\u00e9m, n\u00e3o eram dadas unicamente ao seu talento:<br \/>\neram, tamb\u00e9m o pr\u00e9mio da sua conduta moral. Nunca o mo\u00e7o<br \/>\nAl\u00edpio fora visto em conflitos com futricas ou em noitadas nos bilhares<br \/>\nda Baixa. O seu \u00f3dio \u00e0 estroinice era t\u00e3o grande, que,<br \/>\npara evitar a brutalidade burlesca do entrudo, refugiava-se em Celas, para<br \/>\nonde ia a p\u00e9, em deliciosas excurs\u00f5es pelas margens suaves do<br \/>\nMondego. N\u00e3o se pense, por\u00e9m, que as severidades do estudo<br \/>\nt\u00e3o justamente comparadas pelo nosso l\u00edrico a um vento esterilizador,<br \/>\ntinham ressequido no jovem Al\u00edpio as floresc\u00eancias naturais<br \/>\ndo sentimento mo\u00e7o. Se eu n\u00e3o receasse afectar uma<\/p>\n<p>forma preciosa, compar\u00e1-lo-ia a um c\u00f3digo dentre cujas folhas<br \/>\nsa\u00edsse uma flor de amorperfeito.<\/p>\n<p>Neste urso (nome pitoresco que se d\u00e1 em Coimbra aos premiados, que,<br \/>\nabsorvidos pelo estudo, se descuidam de cul-tivar as gra\u00e7as exteriores)<br \/>\nneste urso, havia um gamo se tomarmos o gamo como s\u00edmbolo animal<br \/>\ndas naturais vivacidades e das irreprim\u00edveis simpatias.<\/p>\n<p>Somente Al\u00edpio era destas naturezas prudentes que cuidadosamente<br \/>\nocultam o que o Destino, o Acaso ou a Provid\u00eancia, lhes deu de mais<br \/>\nexcessivo ou desregrado.<\/p>\n<p>Todo o homem tem v\u00edcios, ou paix\u00f5es, ou gostos perversos,<br \/>\nmas o seu dever \u00e9.19 escond\u00ea-los e mostrar-se apenas aos seus<br \/>\nsemelhantes como um ser regrado e bem equilibrado. Era assim, por exemplo,<br \/>\nque apesar de gostar de genebra, Al\u00edpio nunca se entregava a esta inclina\u00e7\u00e3o<br \/>\nna publicidade brutal dos botequins ruidosos: a\u00ed, tomava regradamente<br \/>\no seu copo de orchata. Mas, tendo assim cumprido o seu dever de homem, de<br \/>\ncidad\u00e3o, de premiado, dando um exemplo severo de s\u00e1bia sobriedade,<br \/>\njulgava poder, sem escr\u00fapulos, depois de satisfeito o dever, satisfazer<br \/>\na inclina\u00e7\u00e3o; e em casa, no seu quarto solit\u00e1rio, usava<br \/>\ncom largueza da garrafa de genebra que guardava debaixo da cama, no caixote<br \/>\nda roupa suja.<\/p>\n<p>Tocante exemplo de respeito pessoal e de submiss\u00e3o \u00e0 dec\u00eancia!<br \/>\nA mesma discri\u00e7\u00e3o usava no que se refere aos sentimentos temos:<br \/>\nseria incapaz de ir com condisc\u00edpulos, \u00abnuma tro\u00e7a\u00bb,<br \/>\na casa dessas V\u00e9nus vulgares que batem o lajedo com sapatos cambados<br \/>\ne cujo leito \u00e9 como uma pra\u00e7a p\u00fablica. Mas se a natureza,<br \/>\nnas suas inilud\u00edveis exig\u00eancias, que \u00e0s vezes os efl\u00favios<br \/>\nda Primavera ou a pregui\u00e7osa e t\u00e9pida atmosfera do Outono tornam<br \/>\nmais mordentes, o solicitasse, esperava pela noite, e, com sapatos de borracha<br \/>\npara que nem lhe ouvissem os passos, procurava as vielas mais retiradas, onde,<br \/>\ndepois de ter pactuado com a paciente que lhe seria guardado absoluto segredo,<br \/>\nsacrificava com seriedade no altar de V\u00e9nus Afrodite.<\/p>\n<p>Foi por essa discri\u00e7\u00e3o t\u00e3o digna que ningu\u00e9m<br \/>\nnem os seus companheiros souberam de um terno epis\u00f3dio<br \/>\npassado durante o seu quinto ano. Ele era ent\u00e3o h\u00f3spede das<br \/>\nBarrosos, respeit\u00e1veis velhas onde estudantes encontravam carinhos<br \/>\nmaternais por pre\u00e7os discretos. A servente, uma J\u00falia, tinha<br \/>\n18 anos, era virgem, e, segundo me confessou o Conde, a sua beleza delicada<br \/>\ne tocante fazia lembrar esses tipos de odaliscas que se encontram nos Keepsakes,<br \/>\nrecostadas em coxins, \u00e0 sombra de arcadas mouriscas, acariciando com<br \/>\na ponta agu\u00e7ada dos dedos ideais uma gazela familiar. Tanta beleza,<br \/>\nt\u00e3o nobre, numa condi\u00e7\u00e3o t\u00e3o rasteira<br \/>\na natureza compraz-se por vezes nestas ir\u00f3nicas ant\u00edteses<br \/>\ncomoveram o cora\u00e7\u00e3o de Al\u00edpio, e, uma noite em que a<br \/>\nservente dormia na sua \u00e1gua-furtada, o jovem quintanista atreveu-se<br \/>\na subir, em pontas de p\u00e9s, a admirar a forma delicada, mais bela na<br \/>\nsua camisa de estopa do que as V\u00e9nus que os artistas florentinos recostavam<br \/>\nem coxins de seda, com rouparias de damasco&#8230; Mas ao ranger perro da porta<br \/>\na servente acordou: ia gritar, assustada, quando Al\u00edpio, tapando-lhe<br \/>\na boca com a m\u00e3o (sem a magoar contudo) rogou, na balbucia\u00e7\u00e3o<br \/>\nsupli-cante do desejo: Mas ouve, filha, ouve primeiro o que te vou<br \/>\ndizer&#8230;<\/p>\n<p>O que lhe disse? Quem sabe o que ao arvoredo diz o vento, o que dizem as<br \/>\nalegres \u00e1guas correntes \u00e0s relvas dos prados, o que diz o rouxinol<br \/>\nna sombra dos salgueiros, quando sobre a colina, serena e branca, se ergue<br \/>\na Lua? Desde essa noite, Al\u00edpio n\u00e3o trocaria aquela \u00e1gua-furtada,<br \/>\nonde a cali\u00e7a ca\u00eda com a humidade, pelas salas de m\u00e1rmore<br \/>\ndo Vaticano! Mas, admir\u00e1vel exemplo da seriedade do seu esp\u00edrito,<br \/>\nmesmo ali, n\u00e3o esquecia o seu trabalho: levava os expositores, a sebenta,<br \/>\nos apontamentos, e, depois do primeiro transporte amoroso, enquanto, como<br \/>\nave fatigada, a servente se aninhava na cova da enxerga, o nosso Al\u00edpio,<br \/>\n\u00e0 luz de uma vela de sebo, ia estudando as mais altas quest\u00f5es<br \/>\ndo Direito Penal at\u00e9 que o Desejo, ferr\u00e3o desp\u00f3tico,<br \/>\no arremessava de novo aos bra\u00e7os brancos que o sono enlanguescia. Delicioso<br \/>\nid\u00edlio! E quantas vezes, nos seus anos ilustres, quando ele fazia Hist\u00f3ria,<br \/>\ndecerto lhe volveriam \u00e0 mem\u00f3ria, como um trecho de mal lembrada<br \/>\nmelodia, aqueles meses de Ver\u00e3o e de amor rom\u00e2ntico, em que a<br \/>\nbela J\u00falia e o jovem Al\u00edpio, abafando as suas risadas, faziam<br \/>\nno quarto miser\u00e1vel, sob as telhas, a ca\u00e7a aos mosquitos nas<br \/>\nparedes e aos percevejos nas frinchas&#8230;<\/p>\n<p>Ah! bem o t\u00eam dito os poetas: a mocidade, como o sol, tudo esbate<br \/>\ne envolve numa vaga n\u00e9voa de ouro; e os mosquitos que se matam aos<br \/>\nvinte anos, numa alcova amada, parecem deliciosos \u00e0queles, que, aos<br \/>\nquarenta, dormem sob cortinados de seda, sentindo na rua, junto \u00e0 porta,<br \/>\no passo respeitoso da sentinela protocolar! Quando Al\u00edpio, conclu\u00edda<br \/>\na formatura, deixou Coimbra, J\u00falia estava no terceiro m\u00eas da<br \/>\nsua gravidez. No entanto conservou-lhe sempre uma estima terna, at\u00e9<br \/>\nque um companheiro, da\u00ed a tempos, lhe escreveu, dizendo que J\u00falia<br \/>\nfora expulsa da respeit\u00e1vel casa das Barrosos (como de resto era justo)<br \/>\ne que, achando-se sem emprego, formosa e com um filho a sustentar, se lan\u00e7ara<br \/>\nna prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o o nosso grande Al\u00edpio s\u00f3 concebeu por ela<br \/>\ndesprezo e repuls\u00e3o porque naquele esp\u00edrito nobre sempre<br \/>\nhouvera o horror das miser\u00e1veis, que, esquecendo o que devem ao respeito<br \/>\npr\u00f3prio \u00e0 sociedade, \u00e0 fam\u00edlia, ao filho, v\u00e3o<br \/>\npedir ao indolente abandono do lupanar o p\u00e3o que deveriam obter das<br \/>\nseveras fadigas do trabalho. Recusou mesmo, com indigna\u00e7\u00e3o,<br \/>\na esmola que ela lhe mandara pedir, temendo que os pouco mil-r\u00e9is que<br \/>\nlhe poderia remeter, fossem porventura, contribuir para enfeitar e arrebicar<br \/>\numa nova sacerdotisa da V\u00e9nus das vielas. Tanto a esta alma severa<br \/>\ne forte repugnavam as moles condescend\u00eancias e as v\u00e3s piedades!<br \/>\nDois anos depois da sua formatura, encontr\u00e1mos Al\u00edpio Abranhos<br \/>\nem Lisboa, numa casa da Rua do Ouro que faz esquina para o Rossio, e praticando<br \/>\nno escrit\u00f3rio do famoso Dr. Vaz Correia.<\/p>\n<p>O Conde nunca me deu pormenores minuciosos sobre estes primeiros anos de<br \/>\nLisboa, nem encontro nas suas notas elementos pelos quais possa fazer deles<br \/>\numa narra\u00e7\u00e3o detalhada. O Pa\u00eds tinha ent\u00e3o atravessado<br \/>\na grande crise social que e popularmente conhecida pelo nome da Maria da Fonte.<br \/>\nN\u00e3o me proponho, neste estudo puramente \u00edntimo, fazer cr\u00edtica<br \/>\nhist\u00f3rica ou apreciar as consequ\u00eancias desta formid\u00e1vel<br \/>\nconvuls\u00e3o da nossa pol\u00edtica portuguesa.<\/p>\n<p>Uma vantagem, por\u00e9m, e insisto nela porque se prende indirectamente<br \/>\ncom a carreira pol\u00edtica do Conde d&#8217;Abranhos tir\u00e1mos<br \/>\nda Junta: e foi essa vantagem o ficar provada a impossibilidade em Portugal<br \/>\nde um desses minist\u00e9rios \u00e0 Polignac e \u00e0 Cabral, que v\u00e3o,<br \/>\ncom uma obstina\u00e7\u00e3o altiva e brutal, contra as tend\u00eancias<br \/>\ndo esp\u00edrito p\u00fablico e pretendem impor-se pela for\u00e7a em<br \/>\nlugar de conquistar pela habilidade. O povo \u00e9 como um desses monstruosos<br \/>\nelefantes da \u00cdndia de que tenho ouvido contar: de uma pujan\u00e7a<br \/>\nindom\u00e1vel e de uma simplicidade ris\u00edvel, o mundo inteiro, pela<br \/>\nviol\u00eancia, n\u00e3o o pode obrigar a caminhar contra a sua vontade,<br \/>\ne uma crian\u00e7a, pela ast\u00facia, obriga-o a fazer cabriolas grotescas.<br \/>\nO povo tem a for\u00e7a de um elemento e um regimento n\u00e3o lhe pode<br \/>\nimpor uma ideia que um simples advogado h\u00e1bil em declama\u00e7\u00e3o<br \/>\nlhe faz aceitar sem esfor\u00e7o. Isto eram verdades j\u00e1 velhas no<br \/>\nantigo mundo hel\u00e9nico. Os Polignacs, os Guizots, os Cabrais, s\u00e3o<br \/>\nportanto culpados, n\u00e3o de falta de civiliza\u00e7\u00e3o, mas de<br \/>\nfalta de ast\u00facia. Para que se h\u00e1-de combater um monstro invenc\u00edvel,<br \/>\nquando \u00e9 t\u00e3o simples iludi-lo? Os Romances de Cavalaria d\u00e3o-nos<br \/>\numa alta li\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, quando nos pintam esses medonhos<br \/>\ngigantes que guardavam as entradas das pontes, sobre torrentes tenebrosas:<br \/>\nas lan\u00e7as dos melhores cavaleiros, tentando for\u00e7ar a passagem,<br \/>\nquebravam-se de encontro \u00e0 pele cori\u00e1cea dos temerosos brutos,<br \/>\nat\u00e9 ao dia em que um bravo Percival ou um Lancelote, flor de cavalaria,<br \/>\nlhe mandavam um an\u00e3o p\u00e9rfido e h\u00e1bil em manhas, que adormecia<br \/>\nprofundamente o colosso e os cavaleiros podiam, impunemente, trepar-lhe<br \/>\nsobre o ventre monstruoso, como sobre uma montanha inerte, e entrar no castelo<br \/>\ndesejado onde os esperava um seio branco e os vinhos raros que v\u00eam das<br \/>\ncolinas de Inspruk.<\/p>\n<p>Polignac, Guizot, Cabral, quebraram as lan\u00e7as de encontro ao gigante;<br \/>\nainda hoje.21 viveriam, e decerto estariam no castelo, coroados de rosas,<br \/>\nnos bra\u00e7os da Princesa, se, em lugar do her\u00f3ico e v\u00e3o<br \/>\nesfor\u00e7o, tivessem mandado adiante o an\u00e3o, profundo em manhas.<\/p>\n<p>Os pol\u00edticos da gera\u00e7\u00e3o moderna compreenderam e aceitaram<br \/>\na grave li\u00e7\u00e3o da Maria da Fonte. O sistema da viol\u00eancia<br \/>\nfoi abandonado como in\u00fatil, e come\u00e7ou, com \u00eaxito, o d\u00factil<br \/>\nm\u00e9todo da habilidade.<\/p>\n<p>O Conde d&#8217;Abranhos, com a sua alta intui\u00e7\u00e3o, sentiu que se<br \/>\nestava preparando uma nova pol\u00edtica, que, condizendo com o seu temperamento,<br \/>\nseria o elemento natural em que a sua fortuna medraria como num terreno prop\u00edcio.<br \/>\nEle bem sabia que o governo nada perdia do seu poder discricion\u00e1rio<br \/>\nmas que apenas o disfar\u00e7ava. Em vez de bater uma forte patada<br \/>\nno pa\u00eds, clamando com for\u00e7a: Para aqui! Eu quero!<br \/>\nos governos democr\u00e1ticos conseguem tudo, com mais seguran\u00e7a<br \/>\npr\u00f3pria e toda a admira\u00e7\u00e3o da plebe, curvando a espinha<br \/>\ne dizendo com do\u00e7ura: Por aqui, se fazem favor! Acreditem que<br \/>\n\u00e9 o bom caminho! Tomemos um exemplo: o eleitor que n\u00e3o quer<br \/>\nvotar com o Governo. Ei-lo, a\u00ed, junto da urna da oposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom o seu voto hostil na m\u00e3o, inchado do seu direito. Se, para o obrigar<br \/>\na votar com o Governo o empurrarem \u00e0s coronhadas e \u00e0s cacetadas,<br \/>\no homem volta-se, puxa de uma pistola e a\u00ed temos a guerra civil.<br \/>\nPara que esta brutalidade obsoleta? N\u00e3o o espanquem, mas, pelo contr\u00e1rio,<br \/>\nacompanhem-no ao caf\u00e9 ou \u00e0 taberna, conforme estejamos no campo<br \/>\nou na cidade, paguem-lhe bebidas generosamente, perguntem-lhe pelos pequerruchos,<br \/>\nmetamlhe uma placa de cinco tos-t\u00f5es na m\u00e3o e levem-no pelo<br \/>\nbra\u00e7o, de cigarro na boca, trauteando o Hino, at\u00e9 junto da urna<br \/>\ndo Governo, vaso do Poder, ta\u00e7a da Felicidade! Tal \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana, doce, civilizada, h\u00e1bil, que faz com que se possa tiranizar<br \/>\num Pa\u00eds, com o aplauso do cidad\u00e3o e em nome da Liberdade.<\/p>\n<p>Quantas vezes me disse o Conde ser este o segredo das Democracias Constitucionais:<br \/>\n\u00abEu, que sou governo, fraco mas h\u00e1bil, dou aparentemente a Soberania<br \/>\nao povo, que \u00e9 forte e simples. Mas, como a falta de educa\u00e7\u00e3o<br \/>\no mant\u00e9m na imbecilidade, e o adormecimento da consci\u00eancia o<br \/>\namolece na indiferen\u00e7a, fa\u00e7o-o exercer essa soberania em meu<br \/>\nproveito&#8230; E quanto ao seu proveito&#8230; adeus, \u00f3 compadre! Ponho-lhe<br \/>\nna m\u00e3o uma espada; e ele, baboso, diz: eu sou a For\u00e7a! Coloco-lhe<br \/>\nno rega\u00e7o uma bolsa, e ele, inchado, afirma: eu sou a Fazenda! Ponho-lhe<br \/>\ndiante do nariz um livro, e ele exclama, de papo: eu sou a Lei! Idiota! N\u00e3o<br \/>\nv\u00ea que por tr\u00e1s dele, sou eu, astuto manejador de t\u00edteres,<br \/>\nquem move os cord\u00e9is que prendem a Espada, a Bolsa e o Livro!\u00bb<br \/>\nE eu que, durante quinze anos, vivi na honrosa intimidade do Conde d&#8217;Abranhos<br \/>\ne me penetrei nas suas ideias, estou t\u00e3o crente desta verdade, que<br \/>\ndado um Chefe de Estado irrespons\u00e1vel, ministros e uma C\u00e2mara<br \/>\nelectiva me comprometo, oh! leitores, a fazer governar esse grande<br \/>\ne velho reino da Taprobana pela Camila Pelada, do Beco dos Cavaletes! Como<br \/>\nprocederei eu? Tomo a Pelada, enamoro dela o Chefe do Estado, o que \u00e9<br \/>\nf\u00e1cil, hoje que o deboche tem as persuas\u00f5es de uma religi\u00e3o<br \/>\ne os m\u00e9todos de uma ci\u00eancia. Dirigido por ela, o Chefe do Estado<br \/>\nescolhe os ministros, e os ministros, como no conto popular, convencem os<br \/>\neleitores, que nomeiam os deputados, que os legalizem a eles, ministros, e<br \/>\n\u00e0s suas fantasias, decretos, empr\u00e9stimos e discursos! O povo,<br \/>\nsatisfeito, afirma: Eu sou o dono! Eu, rio-me. A dona \u00e9 a Camila<br \/>\ne se eu, por acaso, for o Serafim da Camila, sou eu, afinal, quem governa<br \/>\na Taprobana, dentre os len\u00e7\u00f3is de uma alcova, no Beco dos Cavaletes!<br \/>\nTudo isto o sentiu num relance o Conde, quando, depois da Maria da Fonte,<br \/>\nos minist\u00e9rios da For\u00e7a cederam o passo aos minist\u00e9rios<br \/>\nda Ast\u00facia. A Maria da Fonte foi.a introdu\u00e7\u00e3o no Estado<br \/>\nde uma nova t\u00e1ctica social.<\/p>\n<p>Entretanto, querendo vir \u00e0 arena com todas as armas, o Conde preparava<br \/>\na sua reputa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, como redactor-chefe da Bandeira<br \/>\nNacional, jornal de que, atendendo ao brilho que lhe deu a colabora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Al\u00edpio e \u00e0 sua curta exist\u00eancia, eu poderia dizer,<br \/>\nparafraseando o conhecido verso de Malherbe sobre a r\u00e1pida vida das<br \/>\nrosas que viveu o que vive um foguete, o espa\u00e7o de um estalo<br \/>\ne de um clar\u00e3o! A Bandeira Nacional era um destes muitos jornais, que<br \/>\nfundados sem capitais e n\u00e3o correspondendo a nenhuma necessidade intelectual,<br \/>\nt\u00eam na sociedade um lugar isolado e sem valor, arrastam uma vida dif\u00edcil,<br \/>\ntendo que mendigar, aqui e al\u00e9m ou da oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nou do governo a esmola de um subs\u00eddio, e, quando este lhes<br \/>\nfalta, se extin-guem por si mesmos no sil\u00eancio e na obscuridade.<\/p>\n<p>Os fundadores da Bandeira, mo\u00e7os ambiciosos que rondavam em torno<br \/>\ndas reparti\u00e7\u00f5es do Estado, tinham encontrado um patrono num<br \/>\nhomem pol\u00edtico, alta figura de relevo na hist\u00f3ria Constitucional,<br \/>\no conselheiro Gama Torres. A protec\u00e7\u00e3o que dispensava por\u00e9m<br \/>\n\u00e0 Bandeira este homem not\u00e1vel, era, como dizia finamente o Conde<br \/>\nplat\u00f3nica, toda plat\u00f3nica! N\u00e3o lhe dava dinheiro,<br \/>\nporque, chefe de fam\u00edlia, entendia, e muito bem, que a pol\u00edtica<br \/>\nn\u00e3o deve sorver fortunas, mas, pelo contr\u00e1rio, produzi-las.<br \/>\nN\u00e3o dava t\u00e3o pouco ideias, porque, apesar da sua alta ilustra\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque o torna um dos nossos grandes contempor\u00e2neos, a sua prud\u00eancia,<br \/>\na sua reserva eram tais, que raras vezes se lhe tinha ouvido uma opini\u00e3o<br \/>\nn\u00edtida.<\/p>\n<p>Sabia-se que aquela fronte um pouco calva, de entradas largas, estava recheada<br \/>\nde ideias; somente conservava-as como um tesouro escondido. Era, por assim<br \/>\ndizer, um avaro intelectual. As suas ideias eram para si; no sil\u00eancio<br \/>\ndo seu gabinete, agitava-as como o velho Grandet agitava o seu ouro, regalando-se<br \/>\ndo seu brilho e da sua sonoridade. Mas se algu\u00e9m entrava de repente,<br \/>\naferrolhava tudo \u00e0 pressa no cofre do c\u00e9rebro, e a sua larga<br \/>\ntesta, de entradas altas, n\u00e3o oferecia mais que uma fachada impenetr\u00e1vel<br \/>\ne monumental, que impressionava a todos e n\u00e3o aproveitava a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Era alto, encorpado, e os seus olhos, azulados e redondos, tinham uma singular<br \/>\nfalta de express\u00e3o e de inten\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, todos<br \/>\nsabiam que por tr\u00e1s daquele olhar parado um mundo de ideias fermentava.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso observar quantos homens p\u00fablicos do nosso pa\u00eds<br \/>\nt\u00eam esta apar\u00eancia apagada, vazia, vaga, abstracta, son\u00e2mbula;<br \/>\ne, todavia, eu que pelo Conde fui admitido a conhec\u00ea-los, sei quanto<br \/>\ng\u00e9nio habita em segredo naquelas cabe\u00e7as calvas ou cabeludas,<br \/>\na que os superficiais, n\u00e3o lhes conhecendo as secretas riquezas, acham<br \/>\num aspecto alvar. \u00c9 que n\u00f3s somos uma ra\u00e7a reservada,<br \/>\ninimiga da ostenta&amp;ccedccedil;\u00e3o e das atitudes: ao inverso dos franceses,<br \/>\nque mal t\u00eam uma ponta de talento, tratam de o fazer brilhar, reluzir,<br \/>\ndeslumbrar, n\u00f3s, com vastid\u00f5es de g\u00e9nio no interior,<br \/>\ndesprezamos estas demonstra\u00e7\u00f5es vaidosas e guardamos para n\u00f3s<br \/>\nmesmos as nossas riquezas intelectuais. Assim faz o \u00e1rabe, que cerca<br \/>\nos seus jardins deliciosos e as suas habita\u00e7\u00f5es douradas de<br \/>\num muro negro de pedra e lama, de modo que se julga ver uma cabana onde realmente<br \/>\nexiste uma Alhambra! Mas n\u00e3o somos n\u00f3s de ra\u00e7a \u00e1rabe?<br \/>\nPor isso nunca o Conselheiro Gama Torres se dignou fazer \u00e0 Bandeira<br \/>\nNacional a esmola de uma ideia. Deu-lhe, por\u00e9m, a protec\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu nome; dizia-se \u00aba Bandeira do Gama Torres\u00bb e isto trazia<br \/>\nao jornal uma autoridade imprevista.<\/p>\n<p>Muitas vezes, segundo me contou o Conde, durante os meses de Estio em que<br \/>\na pol\u00edtica, refugiada na sombra das quintas ou na frescura das praias,<br \/>\ndormita, o redactor da Bandeira, sem assunto para o seu artigo de fundo, recorria<br \/>\nao g\u00e9nio do Conselheiro, como um pobre envergonhado. Gama Torres, por\u00e9m,<br \/>\ncolocando-se no meio da casa, as pernas afastadas, o ventre saliente, as m\u00e3os<br \/>\natr\u00e1s das costas, fitava o soalho e.23 bamboleando o cr\u00e2nio fecundo,<br \/>\nmurmurava surdamente: Ele h\u00e1 muitas quest\u00f5es!&#8230; H\u00e1<br \/>\nquest\u00f5es terr\u00edveis. H\u00e1 a prostitui\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\no pauperismo&#8230; Ele h\u00e1 muitas quest\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Mas, repito-o, era um avaro intelectual que n\u00e3o gostava de fazer<br \/>\na esmola de uma ideia. N\u00e3o o censuro, pois \u00e9 sabido que ele<br \/>\ndava todo o seu tempo e todo o seu g\u00e9nio \u00e0s grandes quest\u00f5es<br \/>\nsociais. Elas preocupavam-no tanto que era usual sempre que diante<br \/>\ndele se falava de assuntos pol\u00edticos ouvi-lo murmurar soturnamente:<br \/>\nEle h\u00e1 muitas quest\u00f5es! Quest\u00f5es terr\u00edveis:<br \/>\no pauperismo, a prostitui\u00e7\u00e3o! S\u00e3o grandes quest\u00f5es!<br \/>\nQuest\u00f5es terr\u00edveis! E pareciam com efeito terr\u00edveis essas<br \/>\nquest\u00f5es, de uma tenebrosidade de abismo, quando se via o olhar esgazeado<br \/>\ncom que ele parecia contempl\u00e1-las mentalmente.<\/p>\n<p>Pouco tempo antes da sua morte, lembro-me de o ter visto, uma noite, em<br \/>\nCasa do Conde, numa ocasi\u00e3o de crise ministerial, e nunca esquecerei<br \/>\na terr\u00edvel impress\u00e3o que me deixou aquele grande homem, de p\u00e9<br \/>\nno meio da sala, esgazeando o olhar em redor e dizendo cavamente:<br \/>\nOs senhores podem cr\u00ea-lo, nem tudo s\u00e3o chala\u00e7as; ele h\u00e1<br \/>\nquest\u00f5es terr\u00edveis&#8230; A prostitui\u00e7\u00e3o, o pauperismo,<br \/>\no ultramontanismo&#8230; Quest\u00f5es terr\u00edveis.<\/p>\n<p>E no sil\u00eancio apavorado que deixara aquela voz prof\u00e9tica, em<br \/>\nque se sentia a amea\u00e7a de graves tormentas sociais rolando do fundo<br \/>\ndo horizonte, aproximei-me instintivamente do Conde, como quem procura asilo<br \/>\nseguro.<\/p>\n<p>Tal era o director da Bandeira. Devo acrescentar que os \u00fanicos artigos<br \/>\nque ele dava para o jornal anunciavam as suas jornadas para a Ericeira, ou<br \/>\nos partos frequentes de sua esposa, ou ainda os progressos da sua doen\u00e7a<br \/>\nde bexiga: artigos curtos, de resto, mas numa linguagem tersa, firme, grave,<br \/>\nem que se sentia o homem de Estado! A colabora\u00e7\u00e3o de Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos na Bandeira Nacional veio dar ao jornal an\u00e9mico um sangue<br \/>\nnovo e vivo. Eu possuo precioso presente do Conde uma colec\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Bandeira, ricamente encadernada, e muitas vezes, abrindo-a com vene-ra\u00e7\u00e3o,<br \/>\nme repasto desses artigos, que, como prosa e como argumenta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nlan\u00e7am na sombra os famigerados Girardins, os Sampaios t\u00e3o preconizados.<br \/>\nQuereria transcrever alguns desses modelos de literatura jornal\u00edstica,<br \/>\nmas a estreiteza deste estudo apenas me permite extractar um trecho, por onde<br \/>\no leitor pressentir\u00e1 o colosso, como Cuvier, por uma v\u00e9rtebra,<br \/>\nadivinhou o mastodonte.<\/p>\n<p>O jornal, a quem o minist\u00e9rio desse per\u00edodo recusara, sem<br \/>\nraz\u00e3o, um honroso subs\u00eddio, fazia uma oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\namarga. O ministro apresentara um projecto de reforma administrativa. Estas<br \/>\nreformas t\u00eam sido t\u00e3o numerosas em Portugal tal \u00e9<br \/>\no honroso esfor\u00e7o de todos os governos para um ideal melhor<br \/>\nque n\u00e3o posso precisar os princ\u00ed-pios sobre que esta se baseava:<br \/>\ndebalde tenho perguntado aos homens p\u00fablicos que ent\u00e3o a discutiram<br \/>\ne votaram: nenhum se recorda. Deduzo, por\u00e9m, dos artigos da Bandeira,<br \/>\nque o seu esp\u00edrito era centralizador. Foi ent\u00e3o que Al\u00edpio<br \/>\nescreveu esse artigo, tanto mais admir\u00e1vel quanto \u00e9 certo que<br \/>\nele concordava inteiramente com os princ\u00edpios defendidos na reforma.<br \/>\nPor\u00e9m, jornalista de oposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o duvidou fulmin\u00e1-los<br \/>\ntal era a sua lealdade aos compromissos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Eis a conclus\u00e3o desse trecho imortal: \u00ab&#8230;A centraliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\npois, chamando toda a vida pol\u00edtica do pa\u00eds ao centro, \u00e0<br \/>\ncapital, \u00e0 cabe\u00e7a da Na\u00e7\u00e3o, cria, por assim dizer,<br \/>\num estado pol\u00edtico plet\u00f3rico e apopl\u00e9ctico, em que \u00e9<br \/>\no centro que tem todo o sangue, todo o vigor, e as extremidades, onde n\u00e3o<br \/>\nchega a circula\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que elas se conservem<br \/>\nnum calor ben\u00e9fico e saud\u00e1vel, arrefecem, e, em breve, definham,<br \/>\nficando como organismos mortos, apenas ligados, para assim me exprimir, por<br \/>\ntend\u00f5es artificiais, que o mais pequeno choque despeda\u00e7a, o<br \/>\nque produz a situa\u00e7\u00e3o anormal dum corpo que, por falta duma<br \/>\nvitalidade.24 que o mantenha intacto e compacto, se v\u00ea a cada momento<br \/>\narriscado a perder membros essenciais, cuja falta lhe faz imediatamente sentir<br \/>\na aproxima\u00e7\u00e3o da morte, sendo j\u00e1 tarde para lhe insuflar<br \/>\n\u00e0 pressa uma vida, que, de resto, apenas poder\u00e1 ser artificial,<br \/>\ne que rapidamente se extinguiria, deixando, consequentemente, a gangrena moral<br \/>\nfazer a sua sinistra obra de destrui\u00e7\u00e3o e de decomposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQue o saiba, pois, o Governo, que, em desprezo de todos os princ\u00edpios<br \/>\nmais provados da Economia e do Direito, est\u00e1 \u00e0 frente da nossa<br \/>\nentidade nacional: se a sua reforma for avante, arrisca-se a que o pa\u00eds<br \/>\nse decomponha socialmente e que a posteridade um dia, vendo o seu cad\u00e1ver<br \/>\n\u00e0 beira da estrada da civiliza\u00e7\u00e3o, diga, apontando com<br \/>\nhorror para os loucos que t\u00eam nas m\u00e3os culpadas as r\u00e9deas<br \/>\nda governa\u00e7\u00e3o: eis a\u00ed os assassinos!\u00bb Mostrem-me,<br \/>\nse a conhecem, em todo o jornalismo contempor\u00e2neo, uma p\u00e1gina<br \/>\nigual! Como o per\u00edodo se desenrola em curvas lustrosas e fluentes,<br \/>\nseguindo na cad\u00eancia mel\u00f3dica e quando o leitor, ext\u00e1tico,<br \/>\nimagina que ele vai findar, ei-lo que se reergue e se arqueia, mais l\u00edmpido<br \/>\ne mais f\u00e1cil, para fechar num remate sonoro e magistral.<\/p>\n<p>Assim, nas praias do mar Tirreno, se sucedem e se produzem umas das outras<br \/>\nas ondas de curvas moles em que os antigos viam as linhas harm\u00f3nicas<br \/>\nde V\u00e9nus, m\u00e3e do Amor! Que imagem aquela, em que a posteridade,<br \/>\n\u00e0 beira da estrada da civiliza\u00e7\u00e3o, depara com Portugal<br \/>\nexangue, fulminado pela apoplexia causada pelo excesso de sangue administrativo<br \/>\nno c\u00e9rebro, e exclama: eis ai os assassinos!, mostrando faces<br \/>\np\u00e1lidas de estadistas que se encolhem na sombra! N\u00e3o me admira<br \/>\npor isso, que, sempre que em Portugal se anuncia uma reforma administrativa,<br \/>\neste sublime artigo reapare\u00e7a textualmente, palavra por palavra, nos<br \/>\nperi\u00f3dicos que por dever de partido combatem a centraliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncausando sempre a mesma impress\u00e3o profunda.<\/p>\n<p>Somente, com respeito o digo aos meus colegas da imprensa, \u00e9 lament\u00e1vel<br \/>\nque o reproduzam como obra original tanto mais que todos os letrados<br \/>\nlhe conhecem o autor, e at\u00e9 a Selecta para o curso de Portugu\u00eas<br \/>\ndo segundo ano dos liceus o coleccionou, como um modelo de estilo orat\u00f3rio<br \/>\ne jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>De resto, a facilidade do Conde era extraordin\u00e1ria. Prova-o bem uma<br \/>\nanedota, que me \u00e9 referida por um s\u00e1bio professor de economia<br \/>\npol\u00edtica, que ao tempo escrevia na Bandeira folhetins de muita imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nComo disse, o governo tinha recusado um subs\u00eddio a esta folha (tanto<br \/>\nem Portugal \u00e9 pertinaz a tradi\u00e7\u00e3o cruel de esfomear o<br \/>\nG\u00e9nio!) e a Bandeira rugia na oposi\u00e7\u00e3o, quando o ministro<br \/>\nfez a nomea\u00e7\u00e3o de um certo Abranches (hoje personalidade esquecida),<br \/>\nnomea\u00e7\u00e3o considerada por toda a gente de bem como um favor torpe.<br \/>\nHavia de resto no caso uma complica\u00e7\u00e3o asquerosa de esposa cedida<br \/>\n\u00e0 concupisc\u00eancia de um estadista l\u00fabrico.<\/p>\n<p>Era uma magn\u00edfica ocasi\u00e3o \u00abde escachar\u00bb o minist\u00e9rio,<br \/>\ne o nosso Al\u00edpio, imediatamente comp\u00f4s um artigo que<br \/>\no s\u00e1bio professor que me relata a anedota compara \u00e0s s\u00e1tiras<br \/>\nde Juvenal e \u00e0s verrinas cl\u00e1ssicas de C\u00edcero indignado.<\/p>\n<p>O Governo, por\u00e9m, que a essa hora sentira que era imperioso abafar<br \/>\ntodo o protesto, calculou logo que o ataque mais violento lhe viria decerto<br \/>\nda Bandeira Nacional. Por isso viu-se, \u00e0 meianoite, o gerente do jornal,<br \/>\nque fora chamado a casa do ministro, precipitar-se desvairado na redac\u00e7\u00e3o,<br \/>\nexclamando: O Governo d\u00e1 a cheta! duzentos mil-r\u00e9is<br \/>\npor m\u00eas! E correndo \u00e0 janela, berrar com for\u00e7a para o<br \/>\nfundo do p\u00e1tio, onde era a tipografia: Tio Mar\u00e7al, suspenda<br \/>\na tiragem! Traga c\u00e1 acima a desanda! Temos cheta! E enquanto o tio<br \/>\nMar\u00e7al mandava desfazer a verrina, o nosso Al\u00edpio, tomando a<br \/>\npena, improvisou outro artigo, louvando o despacho do Abranches que<br \/>\no s\u00e1bio.25 professor que me conta este not\u00e1vel incidente, compara,<br \/>\npelo seu vigor, a sua l\u00f3gica, a sua eleva\u00e7\u00e3o moral e<br \/>\na penetra\u00e7\u00e3o dos seus argumentos, \u00e0s defesas mais c\u00e9lebres<br \/>\nda hist\u00f3ria alguma coisa de semelhante a Lorde Brougham, defendendo,<br \/>\nna C\u00e2mara dos Pares de Inglaterra, a desolada princesa Carolina! Quando<br \/>\num homem possui tais poderes intelectuais e faz deles um uso t\u00e3o \u00fatil,<br \/>\na sua carreira pol\u00edtica est\u00e1 marcada, e, olhar para ele, \u00e9<br \/>\ncomo ver uma prolonga\u00e7\u00e3o verdejante de altos arcos triunfais.<\/p>\n<p>Mas tal \u00e9 a tradicional ingratid\u00e3o dos grandes<br \/>\no Governo, depois de obter aquela defesa sublime do seu patrocinato torpe,<br \/>\nsuspendeu imediatamente o subs\u00eddio, porque j\u00e1 ent\u00e3o era<br \/>\nclaro que a Bandeira, desamparada de assinantes em lhe faltando aquele<br \/>\napoio, findaria a sua gloriosa marcha avante.<\/p>\n<p>Na sua justa c\u00f3lera, Al\u00edpio quis escrever um terceiro artigo<br \/>\nem que o caso Abranches fosse revelado na sua realidade abjecta. Mas era tarde:<br \/>\npassara um m\u00eas, a opini\u00e3o desinteressarase do incidente, e o<br \/>\nAbranches, inamovivelmente instalado na sua sinecura, parecia indiferente<br \/>\n\u00e0s c\u00f3leras da opini\u00e3o ou \u00e0 cr\u00edtica dos<br \/>\npoderes p\u00fablicos. A Bandeira, pois, despediu-se dos seus leitores num<br \/>\nartigo admir\u00e1vel em que Al\u00edpio exclama: \u00abA Bandeira n\u00e3o<br \/>\nmorre: enrola-se por um momento, em virtude de considera\u00e7\u00f5es<br \/>\nparticulares, mas para se desfraldar ovante, um dia, cedo, e palpitar ent\u00e3o<br \/>\nbem alto no parapeito da Civiliza\u00e7\u00e3o, a todos os ventos da Liberdade!<br \/>\nDesgostado com as lutas da imprensa por este indigno procedimento do minist\u00e9rio,<br \/>\nAl\u00edpio recome\u00e7ou a aplicar-se ao seu trabalho de advogado, sendo<br \/>\nmais ass\u00edduo ao escrit\u00f3rio do famoso Dr. Vaz Correia, com quem<br \/>\npraticava. Vaz Correia, de quem Al\u00edpio celebrara muitas vezes na Bandeira<br \/>\nos triunfos forenses, tinha por Al\u00edpio uma considera\u00e7\u00e3o<br \/>\na que se misturava tocantemente uma simpatia paternal. Quem n\u00e3o conheceu<br \/>\nde resto a\u00ed o Dr. Vaz Correia? Ele oferecia plenamente o tipo do r\u00e1bula.<br \/>\nQue esta palavra n\u00e3o seja tomada no seu sentido grotesco: o Dr. Vaz<br \/>\nCorreia era um resplandecente espelho de lealdade. Os seus olhinhos vivos<br \/>\nque espreitavam por cima dos \u00f3culos, a sua canta redonda e enrugada,<br \/>\nas duas repas de cabelo grisalho, espetadas como orelhas de diabo de cada<br \/>\nlado da calva, a alta gravata de seda preta \u00e0s pintas, o colete de<br \/>\nxadrezinho, e o h\u00e1bito de falar com as m\u00e3os atr\u00e1s das<br \/>\ncostas, tornando saliente a sua barriguinha pr\u00f3spera, s\u00e3o fei\u00e7\u00f5es<br \/>\ndele bem conhecidas em Lisboa.<\/p>\n<p>O que menos se conhecia era a sua grande bondade, que me faria dizer<br \/>\nse eu n\u00e3o odiasse as preciosidades de linguagem que naquele<br \/>\nPegas havia um S. Crist\u00f3v\u00e3o! E digo S.<\/p>\n<p>Crist\u00f3v\u00e3o, porque, entre toda a popula\u00e7\u00e3o santificada<br \/>\ndo Reino dos C\u00e9us, este bom gigante, com a sua bonomia, a sua paci\u00eancia,<br \/>\no seu ar paterno, me parece um modelo am\u00e1vel de bondade terrestre.<\/p>\n<p>Eu, na realidade, ignoro os actos de bondade do Dr. Vaz Correia. Devia-os<br \/>\nter por\u00e9m, e grandes: mas a sua hist\u00f3ria \u00edntima \u00e9-me<br \/>\ndesconhecida. Todavia, a avaliar pelo seu procedimento com Al\u00edpio,<br \/>\njustifica-se que eu o compare com S. Crist\u00f3v\u00e3o, que, apoiado<br \/>\nao seu pinheiro, ajudava os fracos e os fatigados a passar a torrente trai\u00e7oeira.<\/p>\n<p>Uma crise, com efeito, estalara na vida serena de Al\u00edpio Abranhos.<br \/>\nSua tia Am\u00e1lia, de cujas mesadas vivia e com cuja fortuna contava,<br \/>\nacabava, inesperadamente, de contrair segundas n\u00fapcias com um jovem<br \/>\ndelegado de Amarante. Nem a idade, nem a obesidade (que lhe viera nos \u00faltimos<br \/>\nanos), nem o respeito dos pr\u00f3prios cabelos grisalhos a retiveram, e,<br \/>\npossu\u00edda de uma chama tardia mas exigente, trocou a del\u00edcia<br \/>\ntoda moral de apoiar a ilustre carreira do sobrinho, pelos encantos baixamente<br \/>\nmateriais de um esposo robusto. Foi para o futuro estadista um golpe severo.<br \/>\nSua tia, \u00e9 certo, n\u00e3o lhe suspendia presentemente a mesada:<br \/>\nmas a certeza da sua fortuna dissipava-se,.26 porque, n\u00e3o s\u00f3<br \/>\numa dama de paix\u00f5es t\u00e3o ardentes poderia, apesar da idade, ter<br \/>\ndescend\u00eancia, mas decerto, acorrentada \u00e0 vontade do marido, veria<br \/>\ntodas as suas posses passarem para os bolsos cio delegado e dos parentes esfomeados<br \/>\nque lhe cercavam as propriedades com olhos \u00e1vidos e cobi\u00e7osos.<\/p>\n<p>Al\u00edpio teve dias de amargura: n\u00e3o era daqueles seres orgulhosos<br \/>\nque erguem alto a cabe\u00e7a e cr\u00eaem que podem apoderar-se da fortuna<br \/>\npelo jogo simples das suas energias naturais. Pelo contr\u00e1rio, o nosso<br \/>\nAl\u00edpio era destes s\u00e1bios esp\u00edritos que nunca se arriscam<br \/>\nna estrada da vida sem irem bem amparados da esquerda e da direita, sem algu\u00e9m<br \/>\nque os alumie adiante, e algu\u00e9m que por tr\u00e1s os proteja das<br \/>\nferas imprevistas.<\/p>\n<p>Este desalento do seu esp\u00edrito espalhava-se-lhe na express\u00e3o;<br \/>\ne o Dr. Vaz Correia, sabedor do caso, vendo-o dobrado sobre os autos como<br \/>\n\u00absobre o rio do destino\u00bb, segundo a express\u00e3o b\u00edblica,<br \/>\nperguntou-lhe um dia, do fundo da sua poltrona: O amigo conhece o<br \/>\nDesembargador Amado? N\u00e3o conhe\u00e7o, senhor doutor. Isto<br \/>\n\u00e9, conhe\u00e7o de reputa\u00e7\u00e3o, de vista, mas n\u00e3o<br \/>\npessoalmente.<\/p>\n<p>O doutor mergulhou sobre o papel selado, e, durante minutos, a sua longa<br \/>\npena de pato fez prosa s\u00e1bia. Por fim, recostando-se novamente na poltrona:<br \/>\nEnt\u00e3o o amigo n\u00e3o conhece o Desembargador Amado?<br \/>\nN\u00e3o conhe\u00e7o, senhor doutor. Isto \u00e9, repito, pelo menos<br \/>\npessoalmente. Pessoa muito estim\u00e1vel, dizem.<\/p>\n<p>O doutor anediou as duas repas grisalhas da calva, e depois de tossicar:<br \/>\nPois se o amigo quer, eu levo-o a casa do Desembargador Amado, que<br \/>\ns\u00e3o amanh\u00e3 os anos da filha. Conhece a filha? N\u00e3o<br \/>\nconhe\u00e7o, senhor doutor. Isto \u00e9, do mesmo modo, n\u00e3o conhe\u00e7o<br \/>\npessoalmente.<\/p>\n<p>Boa mo\u00e7a! Muito galante disse respeitosamente<br \/>\nAl\u00edpio.<\/p>\n<p>Este di\u00e1logo foi, poderia dizer-se, a origem do casamento do Conde<br \/>\nd&#8217;Abranhos, de que eu, segundo as notas do pr\u00f3prio Conde e os relatos<br \/>\nde testemunhas presenciais, quero dar uma narra\u00e7\u00e3o detalhada.<\/p>\n<p>O Sr. Desembargador Amado era de uma boa fam\u00edlia do Norte e tivera<br \/>\numa carreira singularmente f\u00e1cil. Dizia-se dele: \u00abaquele deixou-se<br \/>\nir e chegou\u00bb.<\/p>\n<p>Sustentado pela vasta influ\u00eancia da parentela, fora com efeito levado,<br \/>\nsem abalos nem choques, numa ascens\u00e3o gradual e confort\u00e1vel,<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 sua poltrona de damasco vermelho da Rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Lisboa. A\u00ed se deixara cair com o peso da sua obesidade, e cruzando<br \/>\nas m\u00e3os sobre o est\u00f4mago, come\u00e7ara a ruminar regaladamente.<br \/>\nQue de modo nenhum se creia que eu queira diminuir com azedume os m\u00e9ritos<br \/>\ndeste var\u00e3o obeso: quero somente mostrar a natureza, toda de indol\u00eancia<br \/>\ne de ego\u00edsmo, do Desembargador Amado, ocupado em se nutrir com abund\u00e2ncia,<br \/>\natento exclusivamente ao jogo das suas fun\u00e7\u00f5es, assustado se<br \/>\na bexiga, ou o ba\u00e7o, ou o f\u00edgado denunciavam altera\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsem ter coragem de se mexer do sof\u00e1 durante noites inteiras, completamente<br \/>\ndesinteressado dos homens e mesmo de Deus.<\/p>\n<p>O nosso imortal Jos\u00e9 Est\u00eav\u00e3o, vendo-o um dia entrar<br \/>\nnuma recep\u00e7\u00e3o em casa do chorado duque de Saldanha, exclamou,<br \/>\ndesignando-o com um verso conhecido de Juvenal: Aquele ventre que<br \/>\nali vem, \u00e9 o Amado! Era com efeito um ventre, que em certos dias da<br \/>\nsemana punha sonolentamente os \u00f3culos, e assinava com a m\u00e3o<br \/>\npapuda, onde os colegas lhe indicavam com o dedo; da sua ci\u00eancia jur\u00eddica,<br \/>\nnada direi, para n\u00e3o envergonhar as paredes e os m\u00f3veis deste.27<br \/>\nquarto onde escrevo; da sua honestidade, sei que a sua grande fortuna e as<br \/>\nsuas pro-priedades de Azeit\u00e3o o tornavam indiferente \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo dinheiro: mas condenaria Jesus e absolveria o mau ladr\u00e3o, se o peitassem<br \/>\ncom um casal de patos bem gordos ou com um salm\u00e3o fresco do Rio Minho.<\/p>\n<p>Fazia, ao comer a sopa, um glou-glou nojento e repelente, e atirava para<br \/>\no soalho os escarros que merecia na face. Tal era esta besta obesa. O Conde<br \/>\ndetestava-o. E eu mesmo, apenas o respeito que lhe devia como sogro de S.<br \/>\nEx\u00aa, me impediu certa noite ainda tremo ao record\u00e1lo!<br \/>\nde lhe atirar estas m\u00e3os ao pesco\u00e7o gordalhufo, e apertar-lho,<br \/>\napertar-lho at\u00e9 que lhe pendesse, inchada e negra, aquela l\u00edngua<br \/>\nonde a banalidade era mais usual que a saliva, e lhe sa\u00edssem das \u00f3rbitas<br \/>\naqueles olhos que s\u00f3 tinham fixado neste mundo com algum interesse<br \/>\nas postas de vitela de que se abarrotava.<\/p>\n<p>Era uma noite que ele passara em casa do Conde. Desde o jantar, estirado<br \/>\nnuma poltrona, s\u00f3 denunciando a sua presen\u00e7a por arrotos frequentes,<br \/>\ntinha dormido o sono bestial do seu enfartamento senil. Eu estava justamente<br \/>\ncontando \u00e0 Sr\u00aa Condessa, que me escutava com interesse, uma deliciosa<br \/>\nanedota do Sr. D. Jo\u00e3o VI que lera nessa tarde quando ouvi,<br \/>\ndo fundo da poltrona onde dormitava o Vitellius, estas palavras, naquela voz<br \/>\nespessa e brutal que era a repercuss\u00e3o sonora da sua intelig\u00eancia:<br \/>\nOl\u00e1, senhor secret\u00e1rio, veja l\u00e1 em baixo se j\u00e1<br \/>\nvieram com a sege!&#8230;<\/p>\n<p>Eu fiquei petrificado, com a lividez da cal. Mas a Sr\u00aa Condessa que<br \/>\nsejam quais forem as suas culpas tinha delicadezas tocantes,<br \/>\nacudiu imediatamente.<\/p>\n<p>Oh pap\u00e1! E agitando a campainha, dirigiu-se ao Jo\u00e3o<br \/>\nque aparecera.<\/p>\n<p>Veja se j\u00e1 est\u00e1 a carruagem do pap\u00e1! Enquanto<br \/>\nfui secret\u00e1rio do Conde, tratei com Fidalgos, com Ministros, com Embaixadores,<br \/>\ncom Augustos Personagens, e s\u00f3 recebi de S. Ex.\u00aa e poderia<br \/>\ndizer de S.S. MM. e AA. aquela ben\u00e9vola considera\u00e7\u00e3o<br \/>\nque talvez as minhas aptid\u00f5es justificassem, mas que eu recebia como<br \/>\npreciosa recompensa da minha dedica\u00e7\u00e3o. Mesmo junto dos degraus<br \/>\ndo Trono, s\u00f3 encontrei bondade, e a m\u00e3o que eu ia beijar na<br \/>\nhumildade tradicional, apertava a minha com uma simpatia que me deixava na<br \/>\nalma impress\u00f5es inesquec\u00edveis.<\/p>\n<p>S\u00f3 aquela obesa carca\u00e7a se arrojou a tratar-me como um lacaio!<br \/>\nMorreu. Morreu da bexiga. Notou-se com admira\u00e7\u00e3o o f\u00e9tido<br \/>\nque lhe saiu do corpo, depois de morto, e a decomposi\u00e7\u00e3o muito<br \/>\nr\u00e1pida das mat\u00e9rias serosas: isto talvez fosse a dissolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo corpo; mas o cheiro asqueroso vinha da sua alma torpe que se soltava, dando<br \/>\na exala\u00e7\u00e3o de uma latrina que se destapa.<\/p>\n<p>O caix\u00e3o em que o levaram pesava arrobas, e quando o embalsamaram<br \/>\ne lhe extra\u00edram o c\u00e9rebro, viram que n\u00e3o era mais volumoso<br \/>\nque o de um bacorinho rec\u00e9m-nascido. Na cavidade craniana meteram-lhe<br \/>\num peda\u00e7o de esponja velha, decerto mais \u00fatil e t\u00e3o inteligente<br \/>\ncomo o c\u00e9rebro que substitu\u00eda! Amortalharam-no na sua beca de<br \/>\ncetim, que n\u00e3o cobre agora um desembargador mais morto e mais<br \/>\np\u00fatrido do que tinha coberto nos dias de sess\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Lisboa. Levaramno ao Alto de S. Jo\u00e3o, ao passo de quatro \u00e9guas<br \/>\ncobertas de panos negros; e as quatro \u00e9guas agitavam a cabe\u00e7a,<br \/>\nparecendo vaidosas do cad\u00e1ver que arrastavam: foi o \u00fanico orgulho<br \/>\nque inspirou jamais a companhia da sua pessoa. Ali apodrece aquele resto de<br \/>\nmat\u00e9ria mal organizada, que rebolou durante anos pela terra, sob o<br \/>\nnome desacreditado de Justiniano Sarmento Amado.<\/p>\n<p>Este ventre segundo a frase de Jos\u00e9 Est\u00eav\u00e3o<br \/>\nera naturalmente um t\u00edtere, um t\u00edtere obeso nas m\u00e3os<br \/>\nde sua mulher: era ela quem lhe puxava as guitas da vontade. D. Laura Amado,<br \/>\nde aspecto, dava a impress\u00e3o de uma r\u00e9gua: esguia, chata, erecta,.28<br \/>\nperpendicular, com o seu vestido de seda negra, parecia, n\u00e3o uma senhora,<br \/>\nvivendo num pr\u00e9dio \u00e0 Estrela, mas uma cria\u00e7\u00e3o<br \/>\npitoresca do ilustre Dickens. Moralmente, tinha a mesma rigidez dura e inflex\u00edvel,<br \/>\no mesmo rectil\u00edneo de r\u00e9gua. Era uma devota, de uma pontualidade<br \/>\nde m\u00e1quina no cumprimento da sua devo\u00e7\u00e3o. Desde nova<br \/>\nat\u00e9 ao dia em que a levou uma benem\u00e9rita escarlatina, rezou,<br \/>\nrezou imperturbavelmente, cronometricamente, com um tique-tique-tique, de<br \/>\nrel\u00f3gio.<\/p>\n<p>Era dotada de uma l\u00edngua feroz com que lacerava todas aquelas<br \/>\nporque raras vezes, decerto por pudor, se referia aos homens que n\u00e3o<br \/>\nexerciam uma devo\u00e7\u00e3o t\u00e3o complicada, ou tinham os gozos,<br \/>\nos luxos, as paix\u00f5es que lhe proibia o seu Deus, um Deus especial,<br \/>\ndela um Deus terr\u00edvel, que vivia na Igreja de S. Domingos,<br \/>\ninsaci\u00e1vel de louvores, pr\u00f3digo de cat\u00e1strofes, sempre<br \/>\npronto a despedir, como raios, doen\u00e7as mortais ou desgostos com as<br \/>\ncriadas, e que era necess\u00e1rio abrandar constantemente com promessas,<br \/>\nmissas, ladainhas e ofertas, porque o seu divino temperamento, de uma irritabilidade<br \/>\nfora do vulgar, o mantinha no desejo fren\u00e9tico de fazer mal.<\/p>\n<p>O sacerdote particular deste Deus, o int\u00e9rprete na terra das suas<br \/>\nvontades, era o padre Augusto, que morava numa casa de h\u00f3spedes \u00e0s<br \/>\nPortas de Santo Ant\u00e3o, e de quem D. Laura recebia a direc\u00e7\u00e3o<br \/>\nespiritual, as ordens, os conselhos, as admoesta\u00e7\u00f5es e as baforadas<br \/>\ndo h\u00e1lito impregnado de alho.<\/p>\n<p>Pode parecer irrespeitosa esta aprecia\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia<br \/>\nAmado, mas, para minha justifica\u00e7\u00e3o, direi, que o Ex.mo Conde<br \/>\na abominava. E todavia tanto a sua polidez era perfeita nunca<br \/>\ndeixou de beijar respeitosamente a m\u00e3o de sua devota sogra<br \/>\nm\u00e3o magra, amarela e seca como um caranguejo, de longos dedos que ela<br \/>\ntinha sempre postos em atitude de reza, contra o peito, na igreja, sobre o<br \/>\nrega\u00e7o, na sala, e em cima do prato, \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Desta devota, e do outro, do mont\u00e3o de gordura de que falei acima,<br \/>\ntinha nascido um anjo.<\/p>\n<p>Que me perdoe a mem\u00f3ria do Conde, mas D. Virg\u00ednia Sarmento<br \/>\nAmado, primeira Condessa d&#8217;Abranhos, era um anjo! N\u00e3o ignoro os seus<br \/>\nerros: mas se, para os atenuar, n\u00e3o bastasse lembrar-me que h\u00e1<br \/>\n1800 anos, Jesus de Nazar\u00e9 defendeu das pedras farisaicas a pobre mulher<br \/>\namorosa prostrada a seus p\u00e9s, bastar-me-ia recordar a bondade de D.<br \/>\nVirg\u00ednia, a sua tocante delicadeza, o mimo das suas maneiras, aquela<br \/>\nnecessidade de ver todos \u00e0 volta dela confort\u00e1veis e contentes&#8230;<\/p>\n<p>Era um anjo, tanto na sua alma, viva e toda espont\u00e2nea, como nos seus<br \/>\ncabelos loiros, sempre um pouco desordenados, nos seus grandes olhos activos<br \/>\ne banhados num largo riso doce, no seu nariz t\u00e3o fino, de um tom de<br \/>\nmarfim, na sua figura delicada, patr\u00edcia, de movimentos de ave&#8230; Era<br \/>\num anjo! Desta fam\u00edlia, o pai foi magistrado condecorado, a m\u00e3e,<br \/>\ndevota respeitada, e a filha segundo a lei e a moral corrente<br \/>\ncriminosa repulsiva. Hoje, dormem os tr\u00eas no jazigo monumental do Alto<br \/>\nde S. Jo\u00e3o, e eu estou bem certo que esta opini\u00e3o dos homens<br \/>\nn\u00e3o foi corroborada por Deus. A devota estimada est\u00e1, n\u00e3o<br \/>\no duvido, atravessada pelo espeto tradicional, que um diabo, por toda a Eternidade,<br \/>\nvai fazendo girar, para a assar ora de um lado ora do outro. O pai, magistrado<br \/>\ncoberto de honras, imposs\u00edvel para ser de Deus, muito abjecto para<br \/>\nser do Diabo, deve estar nesse lugar tenebroso, latrina da Eternidade, onde<br \/>\nos Vitellius torpes e os Amados p\u00fatridos chafur-dam para todo o sempre<br \/>\nnuma massa l\u00edquida, feita dos excrementos dos homens e da baba das<br \/>\nferas.<\/p>\n<p>E ela, a doce culpada, a loira condessa, parece-me v\u00ea-la, com um vestido<br \/>\nc\u00e2ndido, a palma verde na m\u00e3o, os fios de ouro fino dos seus<br \/>\ncabelos soltos, banhada na luz paradis\u00edaca e m\u00edstica que sai<br \/>\ndos olhos de Deus.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o me acusem de ir, nestas aprecia\u00e7\u00f5es, de encontro<br \/>\n\u00e0 moral social, ou,.29 possu\u00eddo de um orgulho sobre-humano,<br \/>\nde dar indiscretamente um conselho a Deus. O crime de Virg\u00ednia \u00e9<br \/>\nhorroroso mas a sua pessoa era ador\u00e1vel. \u00c0 que pecara<br \/>\ncomo ela, Cristo perdoou, e lavada a culpa pelo perd\u00e3o divino<br \/>\no que nos resta \u00e9 uma deliciosa crian\u00e7a loira, daquele<br \/>\nloiro que um dia cantou em versos inolvid\u00e1veis o mavioso poeta das<br \/>\nN\u00e9voas: O ouro da tua tran\u00e7a Vaie os milh\u00f5es dum avaro;<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 pagar muito caro Morrer por a ter beijado!&#8230;<\/p>\n<p>Este anjo fazia 18 anos na noite em que o Dr. Vaz Correia conduziu Al\u00edpio<br \/>\n\u00e0 casa apala\u00e7ada do Desembargador Amado.<\/p>\n<p>O Conde, que era supersticioso como Napole\u00e3o e Lamartine, contou-me<br \/>\ndepois que entrara na sala com o p\u00e9 esquerdo.<\/p>\n<p>Preocupado com isto, quando se achou defronte de uma grande barriga que<br \/>\num amplo colete branco vestia, em lugar de dizer \u00abSr. Desembargador\u00bb,<br \/>\ntitubeou \u00abSr. Conselheiro\u00bb, o que foi t\u00e3o agrad\u00e1vel<br \/>\nao obeso magistrado, que, ao apresentar Al\u00edpio \u00e0 sua seca e<br \/>\nhirta esposa, exclamou: \u00c9 j\u00e1 colega do Vaz&#8230; Diz que<br \/>\n\u00e9 um talentarr\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Isto fez m\u00e1 impress\u00e3o na devota senhora, que, em todos os<br \/>\nhomens novos e com talento, via invariavelmente inimigos da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o nosso Al\u00edpio desfez bem depressa esta impress\u00e3o hostil,<br \/>\nafian\u00e7ando a D. Laura, o que era de resto exacto, que sempre, antes<br \/>\ne depois dos actos em Coimbra, ia \u00e0 S\u00e9 Nova, prostrar-se aos<br \/>\np\u00e9s da imagem de Nossa Senhora da Sa\u00fade, antes, a implorar a<br \/>\nsua m\u00edstica influ\u00eancia nos lentes, depois, a agradecer humildemente<br \/>\no nemine discrepante. E corroborou esta descri\u00e7\u00e3o da piedade<br \/>\ndos seus costumes, mostrando a gravidade das suas maneiras: em vez de procurar<br \/>\na companhia das meninas, que, de boquinha ao lado e olhos doces, perturbam<br \/>\na paz dos esp\u00edritos puros, foi de prefer\u00eancia juntar-se ao grupo<br \/>\nsevero dos magistrados e s\u00f3lidos negociantes. E isto fez dizer a D.<br \/>\nLaura que Al\u00edpio parecia ser \u00abum mo\u00e7o de prop\u00f3sito\u00bb.<\/p>\n<p>A soir\u00e9e era de resto animada; e pelo conhecimento que eu mais tarde<br \/>\ntive da famosa sala do Desembargador e das pessoas que habitualmente a frequentavam,<br \/>\ne pensando na influ\u00eancia que essa noite exerceu no destino do Conde<br \/>\nd&#8217;Abranhos, mais de uma vez me tenho entretido a reconstituir essa soir\u00e9e,<br \/>\ncom os seus personagens, os seus agrupamentos e a sua decora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali est\u00e1, sob o retrato a \u00f3leo do Desembargador, o alto sof\u00e1<br \/>\nde damasco vermelho e as quatro poltronas empertigadas e sentenciosas em que<br \/>\nse sentam D. Laura e as duas ricas manas Vitorino, ambas magras, cor de cidra,<br \/>\nde nariz acavalado, band\u00f3s achatados, com enfeites pretos, todas de<br \/>\numa tonalidade negra onde destaca o len\u00e7o branco, sustentado na m\u00e3o<br \/>\nseca de cordoveias fortes, sobre o rega\u00e7o. Muito liberais, seu irm\u00e3o,<br \/>\nmagistrado, fora enforcado no Porto no tempo de D. Miguel, e este incidente<br \/>\npat\u00e9tico, de que ainda falam, parece ter-lhes perpetuado a tristeza<br \/>\nna alma e a amarelid\u00e3o na face.<\/p>\n<p>Ali vejo tamb\u00e9m o velho Serr\u00e3o, coronel reformado, com o seu<br \/>\nespesso bigode grisalho, aparado \u00e0 tesoura, a cal\u00e7a cor de flor<br \/>\nde alecrim esticada pelas presilhas, ainda rijo, cheio de opini\u00f5es,<br \/>\ncensurando com rancor as promo\u00e7\u00f5es do ex\u00e9rcito e acompanhando<br \/>\numa filha, aquela magrinha de vestido de cassa com pintinhas, dentes maus<br \/>\ndo abuso dos doces, omoplatas salientes sob o estofo transparente, e tendo,<br \/>\na falar com os homens, a impertin\u00eancia familiar de quem est\u00e1<br \/>\nsempre a pensar nos seus vinte contos de r\u00e9is de dote. Na sombra, quase<br \/>\na um canto, l\u00e1 est\u00e1 a pobre D. Joana Carneiro, triste e macerada,<br \/>\ncom o seu cirro no est\u00f4mago, muito lamentada por todos, que admiram<br \/>\na sua resigna\u00e7\u00e3o, apesar de lhe censurarem o mau h\u00e1lito.<\/p>\n<p>Junto ao piano, vejo ainda D. Am\u00e1lia Saraiva, cujos seios enormes<br \/>\nparecem dois pequenos odres; traz sempre sua filhinha, de 7 anos, a Julinha,<br \/>\nque durante toda a noite, muito sossegada, com o cabelo encaixando-lhe a canta<br \/>\nmagra, folheia o volume ilustrado da \u00c1sia Pitoresca, admirando pagodes<br \/>\n\u00edndios e selvagens seminus, at\u00e9 que a chamam para recitar: ent\u00e3o,<br \/>\nno c\u00edrculo admirador, sob o olhar ansioso da m\u00e3e, cujos odres<br \/>\narfam de emo\u00e7\u00e3o, diz, numa vozinha fina e igual, como o correr<br \/>\ndo fiozinho de \u00e1gua numa torneira estreita: Vai alta a Lua na mans\u00e3o<br \/>\nda morte, J\u00e1 meia-noite com vagar soou&#8230;<\/p>\n<p>Ao fundo, junto \u00e0 mesa do voltarete j\u00e1 armada, o Conselheiro<br \/>\nAndrade, atra\u00eddo para ali pela paix\u00e3o das cartas, vai fazendo<br \/>\na sua paci\u00eancia devagar, e explicando os seus contratempos de lavoura<br \/>\nao amigo Torres Pato e a outro personagem taciturno, apenas conhecido pelo<br \/>\nnome de \u00abo Doutor\u00bb, que, muito apertado numa sobrecasaca azul,<br \/>\ns\u00f3 quebra o seu sil\u00eancio l\u00fagubre para murmurar, com a<br \/>\ntesta franzida numa grande concentra\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito:<br \/>\n\u00c9 not\u00e1vel! Homem, \u00e9 not\u00e1vel! Mais al\u00e9m,<br \/>\nvejo ainda, de peito alto e penteado soberbo, a bela Lu\u00edsa Fradinho,<br \/>\ncasada h\u00e1 pouco com o Dr. Fradinho, advogado e publicista, que aparece<br \/>\natr\u00e1s, fincando no nariz a luneta de ouro ou retorcendo entre os dedos<br \/>\nfinos a ponta das su\u00ed\u00e7as de azeviche.<\/p>\n<p>D. Lu\u00edsa \u00e9, nas soir\u00e9es do Desembargador, a bella,<br \/>\na sereia. O coronel, o conselheiro, os magistrados admiram os seus soberbos<br \/>\nolhos, o seu corpo de est\u00e1tua, as suas toilettes de enxoval; diz-se<br \/>\nbaixo que inspirou uma paix\u00e3o a um Augusto Personagem; os seus movimentos,<br \/>\nos seus olhares, os seus gestos, s\u00e3o seguidos por olhos vorazes de<br \/>\nvelhas que a criticam, sob a vaga sensa\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia<br \/>\nque deve ter nos homens aquela soberba criatura de cor de pele t\u00e3o<br \/>\nbrilhante: uma, acha que ela ri atabalhoadamente e com coquetismo; outra,<br \/>\nque arru\u00edna o marido em vestidos; e quando ao fim da noite o Dr. Fradinho<br \/>\nlhe diz: \u00abs\u00e3o horas, filha, vai-te agasalhar\u00bb todos,<br \/>\no coronel, o conselheiro, as damas, a doente do est\u00f4mago, os seguem<br \/>\ncom os olhos, com um pensamento involunt\u00e1rio ao leito conjugal, onde<br \/>\ndecerto se v\u00e3o recolher.<\/p>\n<p>Ao canto do sof\u00e1, no seu lugar consagrado, l\u00e1 vejo tamb\u00e9m,<br \/>\nde grande casaco negro e volta branca, com a face gorda, grave, trigueira,<br \/>\nmuito barbeada, o reverendo padre Augusto.<\/p>\n<p>Junto da janela, a ador\u00e1vel Virg\u00ednia e as duas amigas, as<br \/>\nfilhas do Conselheiro Andrade, cochicham vivamente, com as cabecinhas muito<br \/>\njuntas.<\/p>\n<p>E ao p\u00e9 da mesa do voltarete, numa poltrona, enfartado e obtuso,<br \/>\ndormita o obeso Amado.<\/p>\n<p>Tal devia ser ent\u00e3o uma soir\u00e9e em casa do Desembargador; e<br \/>\nnaquele meio um tanto incaracter\u00edstico, a figura aprumada do jovem<br \/>\nredactor da Bandeira, seria, decerto, de vivo destaque.<\/p>\n<p>Al\u00edpio era ent\u00e3o, digo-o afoitamente, um formoso mo\u00e7o:<br \/>\nde elevada estatura, bem proporcionado, a testa larga e alta como a ideia<br \/>\nque abrigava, os ombros s\u00f3lidos de quem pode, sem esfor\u00e7o, sustentar<br \/>\num mundo, o olhar azulado, penetrante, preparado pela natureza para sondar,<br \/>\nnas suas mais long\u00ednquas consequ\u00eancias, as altas resolu\u00e7\u00f5es<br \/>\npol\u00edticas um desses olhares que atravessam e exploram num breve<br \/>\nrelance todo um.31 problema complicado a barba aloirada, em colar,<br \/>\ncomo nesse tempo era ainda a moda, e se v\u00ea no retrato do imortal Garrett<br \/>\ntal era, aos 26 anos, o futuro Conde d&#8217;Abranhos. E posso dizer que<br \/>\nn\u00e3o foi sem desapontamento (que me perdoem este expressivo galicismo)<br \/>\nque Virg\u00ednia, as Andrades, e, ouso afirm\u00e1-lo, a bela Fradinho,<br \/>\nviram aquele esbelto mo\u00e7o afastar-se da sua companhia graciosa, para<br \/>\nir, pausado e grave, conversar com o conselheiro, o coronel e o amigo Torres<br \/>\nPato.<\/p>\n<p>Aconteceu mesmo que ao ch\u00e1, quando Al\u00edpio j\u00e1<br \/>\nent\u00e3o o excessivo calor de uma sala lhe dava opress\u00f5es asm\u00e1ticas<br \/>\nse aproximava da janela, notou que a bela Fradinho conservava na m\u00e3o<br \/>\na sua ch\u00edcara vazia. Imediatamente, como um verdadeiro Noronha, muito<br \/>\nhomem de sala, muito homem de corte, Al\u00edpio apressou-se a tomar-lha<br \/>\nda m\u00e3o, depositando-a sobre o piano. D. Lu\u00edsa agradeceu, e logo<br \/>\ncom grande volubilidade: Creio ter visto V. Ex\u00aa na galeria da<br \/>\nC\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>Eu frequento com regularidade as sess\u00f5es da C\u00e2mara,<br \/>\nminha senhora foi a resposta grave do redactor da Bandeira.<\/p>\n<p>E como havia junto da bela Fradinho uma poltrona vazia, sentou-se respeitosamente,<br \/>\ne bem depressa a conversa, dirigida pela inteligente senhora, tomou um tom<br \/>\nelevado e cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Falavam de oradores ilustres, dos folhetins not\u00e1veis da Revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde poetas e de Arte quando Al\u00edpio percebeu com terror que as<br \/>\nmatronas, o coronel, o conselheiro, D. Laura e as duas colegiais, tinham os<br \/>\nolhos cravados naquele di\u00e1logo isolado. Afastou-se logo um pouco, endireitando-se<br \/>\nna poltrona; mas isto s\u00f3 tornava mais saliente a gesticula\u00e7\u00e3o<br \/>\nanimada da bela Fradinho! Ent\u00e3o, aterrado de suspeitas poss\u00edveis,<br \/>\nAl\u00edpio ergueu-se bruscamente. Para ele nada existia mais sagrado que<br \/>\na Fam\u00edlia, e esses assaltos \u00e0 honra conjugal, que a sociedade,<br \/>\nculpadamente, complacentemente admite e at\u00e9 idealiza, considerava-os,<br \/>\ncomo muitas vezes mo afirmou, o c\u00famulo da torpeza, sobretudo tratando-se<br \/>\nde senhoras que, pela sua posi\u00e7\u00e3o social, muito observadas,<br \/>\nn\u00e3o podem trazer ao sedutor sen\u00e3o desgostos e embara\u00e7os<br \/>\nna sua exist\u00eancia, al\u00e9m de darem um exemplo funesto \u00e0s<br \/>\nclasses subalternas.<\/p>\n<p>Foi sempre fiel a este severo princ\u00edpio. \u00c9 certo que o acusaram<br \/>\nde ter rela\u00e7\u00f5es culpadas com a mulher de um tal Bento, correeiro<br \/>\nnas Portas de Santo Ant\u00e3o, mas este caso \u00e9 inteiramente diferente.<br \/>\nO correeiro era t\u00e3o insens\u00edvel \u00e0 honra do seu lar, que<br \/>\nconsentia que sua mulher fosse visitar diariamente uma tia que ele<br \/>\nsabia ter falecido havia meses. Al\u00e9m disso, pela sua posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmodesta, esta liga\u00e7\u00e3o nunca poderia ser posta em evid\u00eancia<br \/>\nnem andar nas conversas da cidade, n\u00e3o correndo assim o risco de ser<br \/>\numa li\u00e7\u00e3o perniciosa para a mocidade.<\/p>\n<p>Por estas considera\u00e7\u00f5es que ele pesou conscienciosamente<br \/>\nantes de se entregar a actos libidinosos com a mulher do correeiro<br \/>\nAl\u00edpio julgou poder, sem risco para a ordem social e sem preju\u00edzo<br \/>\npara a sua carreira, permitir-se este gozo oculto.<\/p>\n<p>De resto, ele compensou com nobreza a inj\u00faria moral que fizera ao<br \/>\ncorreeiro, pois que, quando este art\u00edfice faliu, Al\u00edpio, ent\u00e3o<br \/>\ndeputado, proporcionou-lhe uma proveitosa situa\u00e7\u00e3o numa reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Estado.<\/p>\n<p>Foi, pois, sob a influ\u00eancia destes altos princ\u00edpios que ele<br \/>\nse arrancou com dignidade \u00e0 conversa cativante da bela Fradinho, indo<br \/>\nmesmo dizer ao marido, que, de perna tra\u00e7ada, fumava na saleta pr\u00f3xima:<br \/>\nAcabo de ter uma conversa muito filos\u00f3fica com sua Ex.ma esposa,<br \/>\ne raras vezes tenho visto uma senhora t\u00e3o instru\u00edda&#8230; Discutimos<br \/>\nV\u00edtor Hugo&#8230;<\/p>\n<p>Ah, ah! Sim, \u00e9 apreciadora! &#8230; E eu n\u00e3o lhe pro\u00edbo<br \/>\nesse gostinho, porque sou do meu s\u00e9culo e entendo que uma mulher, para<br \/>\nfazer figura na sociedade, deve ter o seu bocado de literatura e o seu vernizinho<br \/>\nde filosofia.<\/p>\n<p>Tem V. Ex\u00aa muita raz\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Mas tinha-se feito na sala um sil\u00eancio e havia em todos os rostos<br \/>\num riso mudo de.32 aprova\u00e7\u00e3o complacente. Dirigida por D. Am\u00e1lia,<br \/>\nde seios cheios como dois odres, Julinha estava no meio da sala, amarelinha,<br \/>\nesguia, de membrozinhos moles e olheiras fundas, e da sua boquinha aberta<br \/>\ncomo o bico de um pintainho que espera um gr\u00e3o de milho, sa\u00eda<br \/>\numa vozinha tr\u00e9mula que dizia: \u00c9 noite, o astro saudoso Rompe<br \/>\na custo o pl\u00fambeo c\u00e9u; Tolda-lhe o rosto formoso Alvacento,<br \/>\nh\u00famido v\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>Esta precoce menina foi depois D. J\u00falia de Mendon\u00e7a, esposa<br \/>\ndo meu chorado amigo Carlos Lu\u00eds de Mendon\u00e7a, h\u00e1bil taqu\u00edgrafo<br \/>\nda C\u00e2mara dos Deputados. N\u00e3o correspondeu, por\u00e9m, a sua<br \/>\nvida de mulher ao seu delicado sentimento de crian\u00e7a, pois, como \u00e9<br \/>\nsabido, esquecendo o que devia a si pr\u00f3pria, a Carlos Lu\u00eds e<br \/>\n\u00e0 Sociedade, foi encontrada, na pr\u00f3pria alcova conjugal, nos<br \/>\nbra\u00e7os plebeus de um Alfredo, gal\u00e3 do Gin\u00e1sio. E era<br \/>\ntal a sua perversidade estes pormenores n\u00e3o s\u00e3o indiscretos,<br \/>\npois que os dois esposos repousam no cemit\u00e9rio dos Prazeres<br \/>\nque tirava da gaveta do seu esposo as melhores camisas e as ceroulas mais<br \/>\nfinas, com que presenteava o abjecto comediante, que a seduzira pelos cabelos<br \/>\nencaracolados e os olhos langorosos de trovador de balada. Ah! bem mal pagou<br \/>\nos desvelos de sua m\u00e3e, que a educou no culto de tudo o que \u00e9<br \/>\nfino e delicado, ensinando-lhe, de pequena, os poemas dos nossos melhores<br \/>\nl\u00edricos, cercandolhe a mocidade de exemplos t\u00e3o elevados.<br \/>\nOs c\u00e2ndidos l\u00edrios que tinham sido semeados naquela alma refloresceram<br \/>\nmais tarde em venenosas plantas! Aos sete anos, por\u00e9m, era um pequenino<br \/>\nanjo, dotado de extraordin\u00e1ria mem\u00f3ria: e nada mais doce do<br \/>\nque o meigo langor dos seus olhos, quando dizia, apertando as m\u00e3os<br \/>\ncontra o peitinho, onde decerto j\u00e1 se rosavam os dois frutos g\u00e9meos<br \/>\ndo seio: Meiga Lua, os teus segredos Onde os deixaste ficar? Deixaste-os nos<br \/>\narvoredos Das praias d&#8217;al\u00e9m do mar? E mesmo o nosso Al\u00edpio,<br \/>\nimpressionado pela revela\u00e7\u00e3o de uma alma t\u00e3o sens\u00edvel<br \/>\nnum corpo t\u00e3o franzino, n\u00e3o p\u00f4de conter uma exclama\u00e7\u00e3o:<br \/>\nBravo \u00e0 Julinha! H\u00e1-de ser uma mulher de grande ilustra\u00e7\u00e3o!<br \/>\nBravo, bravo! E Julinha, devorada de beijos, passava dos lindos bra\u00e7os<br \/>\ncheios de rendas da bela Fradinho, para os joelhos do respeit\u00e1vel coronel,<br \/>\nque lhe dizia: Ah! sua pequena, essa cachim\u00f3nia \u00e9 que<br \/>\neu queria para a minha Catarina&#8230; Mas aquilo para versos \u00e9 uma tumba&#8230;<\/p>\n<p>Pois \u00e9 grande prenda, coronel&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 grande prenda para a sociedade, Sr\u00aa D. Vitorina&#8230;<br \/>\nMas a rapariga nunca teve mem\u00f3ria, e eu nunca quis puxar por ela, porque<br \/>\n\u00e9 delicada, e filha \u00fanica.<\/p>\n<p>Tem raz\u00e3o, coronel.<\/p>\n<p>Parece-me que tenho, Sr\u00aa D. Vitorina.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Al\u00edpio, que voltara para a saleta onde os homens<br \/>\nfumavam, viu, com espanto, o Dr. Fradinho aproximar-se dele, pedir-lhe em<br \/>\nnome das senhoras que recitasse \u00abalguma coisa\u00bb ao piano, e, sem<br \/>\nquase lhe dar tempo a colocar no parapeito da janela o charuto meio fumado,<br \/>\narrast\u00e1-lo para a sala, exclamando: Aqui o trago \u00e0 for\u00e7a!<br \/>\n&#8230; E agora \u00e9 obrig\u00e1-lo! Debalde Al\u00edpio exp\u00f4s que<br \/>\na seriedade dos seus trabalhos n\u00e3o lhe facultara nunca a oportunidade<br \/>\nde decorar as poesias sublimes dos Garretts ou dos Castilhos&#8230; N\u00e3o<br \/>\naceitaram a desculpa. Custava a compreender, realmente, que um bacharel formado<br \/>\nn\u00e3o soubesse alguma poesia bonita, de mais tendo, durante anos, dirigido<br \/>\ncom tanta eloqu\u00eancia a Bandeira Nacional! N\u00e3o, as senhoras n\u00e3o<br \/>\nlhe perdoavam. Ali estava a D. Lu\u00edsa ao piano, com o pezinho no pedal<br \/>\ndos graves! Era necess\u00e1rio ser complacente! Era dia de anos<br \/>\ne de folia como disse padre Augusto.<\/p>\n<p>Al\u00edpio via, em redor, rostos abertos num riso de admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nantecipada, e parecendo-lhe que os olhos de D. Virg\u00ednia, cujos cabelos<br \/>\nloiros o tinham impressionado, se fixavam nele com uma suplica\u00e7\u00e3o<br \/>\nquase tocante, apoderou-se das costas de uma cadeira, e depois de passar o<br \/>\nlen\u00e7o sobre os bei\u00e7os, disse com gravidade: Eu obede\u00e7o<br \/>\na V. Ex.as . Somente devo dizer que n\u00e3o sou recitador. E apenas por<br \/>\ncomprazer&#8230; Em Coimbra, \u00e0s vezes, por brincadeira, recitava, mas,<br \/>\nrealmente, n\u00e3o tenho nenhuma poesia estudada&#8230; Enfim, vou dizer Ci\u00fames<br \/>\ndo C\u00e9u, do nosso chorado Gomes Gui\u00e3es.<\/p>\n<p>A bela Fradinho feriu o teclado, e Al\u00edpio come\u00e7ou estes formosos<br \/>\nversos, que um acompanhamento doce, gemente e triste, acentuava deliciosamente:<br \/>\nRecordas-te, Elvira, dessa praia triste Onde passe\u00e1mos, uma noite,<br \/>\ns\u00f3s? O luar brilhava sobre o mar quieto, E tu murmuravas, a tremer-te<br \/>\na voz: Para que levantas, sem cessar, poeta, A fronte, e contemplas a Lua<br \/>\nsem v\u00e9u? N\u00e3o v\u00eas tu, poeta, dentro dos meus olhos, Segredos<br \/>\nmais fundos que os que tem o c\u00e9u? Mas os Ci\u00fames do C\u00e9u<br \/>\ns\u00e3o bem conhecidos. N\u00e3o h\u00e1 em todo Lamartine um canto<br \/>\nmais desolado e mais filos\u00f3fico. Elvira queixa-se que os olhos do poeta<br \/>\nse elevem constantemente, explorando os c\u00e9us, indo procurar, l\u00e1<br \/>\nlonge, o ideal, quando ele est\u00e1 ali perto, num olhar do ser que o adora.<br \/>\nMas o poeta explica a sua alma: encontra nas grandes alturas, a que se eleva,<br \/>\num gozo divino que nunca encontraria na terra. E Elvira, toda zelosa de que<br \/>\nhaja no Universo alguma coisa que o poeta lhe prefira, mesmo o C\u00e9u,<br \/>\nmesmo a divina face de Deus, promete fazer-lhe conhecer um gozo maior que<br \/>\nlhe far\u00e1 esquecer o mist\u00e9rio insond\u00e1vel que o atrai:<br \/>\n\u00abSou tua!\u00bb exclama, unindo os seus l\u00e1bios aos dele num<br \/>\nbeijo infind\u00e1vel. E o poeta, recordando esse momento, em que a sua<br \/>\nalma conheceu o \u00eaxtase supremo, exclama, torturado pela saudade: Vento<br \/>\nque murmuras, onde est\u00e3o os ecos, O timbre divino dessa meiga voz?<br \/>\nOnde est\u00e3o, rochedos, os ais magoados, Tristes, que solt\u00e1mos<br \/>\nnessa noite s\u00f3s? Sobre a areia branca reclinaste o corpo, Eu prendi-te<br \/>\na cinta na m\u00e3o palpitante&#8230;<\/p>\n<p>E um beijo infinito desfez-se na aragem, Rosa desfolhada na brisa distante!<br \/>\nMas nesse momento, erguendo casualmente os olhos para a porta da sala, o nosso<br \/>\nAl\u00edpio viu com espanto o Dr. Vaz Correia, em bicos de p\u00e9s, que<br \/>\nlhe fazia com os olhos, com os bei\u00e7os, acenos impacientes que pareciam<br \/>\nsignificar: N\u00e3o! n\u00e3o! Cuidado! Ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>Mas D. Lu\u00edsa bateu uma nota grave e Al\u00edpio, atarantado, come\u00e7ou<br \/>\na seguinte estrofe: Que divinos beijos, que solu\u00e7os brandos, Que momento<br \/>\ndoce, que ideal anseio&#8230;<\/p>\n<p>A Lua de prata, no azul suspensa, Inundava a curva branca do teu seio.<\/p>\n<p>Seio d&#8217;alabastro, cor d&#8217;espuma, Luminoso, quente, palpitante e meu!<br \/>\nE que me faria esquecer o mundo, Renegar a cren\u00e7a, proclamar-me ateu!<br \/>\nVaz Correia ent\u00e3o n\u00e3o se conteve: lan\u00e7ou no sil\u00eancio<br \/>\npesado a sua grossa tosse catarrosa; e quando Al\u00edpio, naturalmente,<br \/>\nergueu a vista para ele, como de resto todos os presentes, viu-o mudo, hirto,<br \/>\napopl\u00e9ctico, cravando-lhe um olhar chamejante. Mas, levado pelo ritmo<br \/>\nda m\u00fasica, Al\u00edpio, enfiado, teve de continuar: N\u00e3o mais<br \/>\nos meus olhos quero erguer a Deus&#8230;<\/p>\n<p>A voz seca e dura de D. Laura cortou a recita\u00e7\u00e3o:<br \/>\nVirg\u00ednia! V\u00e1 l\u00e1 para dentro! V\u00e1 l\u00e1 para<br \/>\ndentro, menina, que isto n\u00e3o \u00e9 para senhoras! E Al\u00edpio,<br \/>\naterrado, reconheceu que tinha provocado um esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Com a sua penetra\u00e7\u00e3o maravilhosa, compreendeu logo que s\u00f3<br \/>\nse poderia salvar se conseguisse improvisar algumas estrofes, em que o poeta,<br \/>\nfindo o seu reprov\u00e1vel del\u00edrio, repelisse a sedu\u00e7\u00e3o<br \/>\nda carne representada por Elvira, e voltasse a orgulhosa fronte para o C\u00e9u,<br \/>\nvivo espelho da alma. Isto daria decerto uma formosa inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nmoral ao canto l\u00fabrico&#8230;<\/p>\n<p>Mas Al\u00edpio n\u00e3o era poeta! Como ele me disse depois, teria<br \/>\ndado, naquele momento, todos os seus trabalhos, a sua soberba disserta\u00e7\u00e3o<br \/>\nacad\u00e9mica, os seus maravilhosos artigos pol\u00edticos, para ter<br \/>\na pot\u00eancia imaginativa de um Hugo ou de um Garrett, e improvisar um<br \/>\nfecho profundamente religioso, que imediatamente lhe conciliasse aquelas honradas<br \/>\nsenhoras! Mas, na impossibilidade de o fazer, embrulhou versos, saltou estrofes,<br \/>\ne apressado, concluiu: N\u00e3o te esque\u00e7as nunca desse instante,<br \/>\nElvira, E o que me dizias, a tremer-te a voz, E o luar de prata, que inundava<br \/>\na praia Onde nos am\u00e1mos, uma noite, s\u00f3s.<\/p>\n<p>Calou-se. Vozes discretas disseram, aqui e al\u00e9m: Muito bonito!<br \/>\nmuito bem! E coberto de suores frios, Al\u00edpio enfiava para a saleta,<br \/>\nquando Vaz Correia lhe travou do bra\u00e7o, rosnando com uma voz apopl\u00e9ctica:<br \/>\nF\u00ea-la bonita! Limpe a m\u00e3o \u00e0 parede! Est\u00e1<br \/>\ntudo perdido&#8230; Fez esc\u00e2ndalo grosso!.<\/p>\n<p>\u00d3 senhor doutor, mas&#8230;<\/p>\n<p>Tudo pela \u00e1gua abaixo! Um homem de bom-senso, um premiado!<br \/>\nP\u00f4s-se a recitar dessas indec\u00eancias! A m\u00e3e est\u00e1<br \/>\ncomo uma fera! Tudo perdido!&#8230; escute V. Ex\u00aa&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o escuto nada. Lavo da\u00ed as minhas m\u00e3os. O<br \/>\nsenhor imagina que se encontra todos os dias uma rapariga bem-educada, e bonita,<br \/>\ncom doze mil cruzados de renda?<\/p>\n<p>Quem? Que quer V. Ex\u00aa dizer? Quero dizer que o trouxe aqui para agradar<br \/>\n\u00e0 pequena, \u00e0 m\u00e3e, ao pai, ao padre Augusto, \u00e0s<br \/>\nVitorinos e que o senhor, como um simpl\u00f3rio, escandaliza as Vitorinos,<br \/>\no padre Augusto, o pai, a m\u00e3e e a pequena! Limpe a m\u00e3o \u00e0<br \/>\nparede, e&#8230; chafurde no atoleiro!<\/p>\n<p>V. Ex\u00aa \u00e9 severo&#8230;<\/p>\n<p>Severo? O senhor chama-me severo? O senhor acha de bom-senso, p\u00f4r-se<br \/>\nno meio de uma sala a dizer obscenidades? \u00c9 uma poesia&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 uma obscenidade! Eu n\u00e3o sabia&#8230; E uma poesia conhecida&#8230;<br \/>\nRecita-se em toda a parte.<\/p>\n<p>Isto aqui n\u00e3o \u00e9 toda a parte. Isto aqui \u00e9 a casa da<br \/>\nD. Laura e do padre Augusto.<\/p>\n<p>Aqui recita-se o Agnus Dei e a ladainha&#8230; E em dias de festa, em dia de<br \/>\nanos, por excep\u00e7\u00e3o, a pequena, por galantaria, recita a Lua<br \/>\nde Londres!&#8230;<\/p>\n<p>Vou pedir desculpa \u00e0 Sr\u00aa D. Laura disse Al\u00edpio com decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Lavo da\u00ed as minhas m\u00e3os respondeu o doutor friamente.<\/p>\n<p>E Al\u00edpio, imediatamente, com aquela en\u00e9rgica decis\u00e3o<br \/>\nque mais tarde, nas crises pol\u00edticas, tantas vezes lhe deu o triunfo,<br \/>\ndirigiu-se para o sof\u00e1 de damasco vermelho, onde D. Laura, erecta,<br \/>\np\u00e1lida, o nariz mais longo, o recebeu de olhos chamejantes.<\/p>\n<p>Minha senhora, eu venho dar uma explica\u00e7\u00e3o a V. Ex\u00aa.<\/p>\n<p>E uma indec\u00eancia, senhor doutor&#8230; vir a uma fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>Eu rogo a V. Ex\u00aa o favor de um momento, um momento s\u00f3. V. Ex\u00aa<br \/>\n\u00e9 muito crist\u00e3 para me condenar sem me ouvir. Direi s\u00f3<br \/>\na V. Ex\u00aa cr\u00ea V. Ex\u00aa que eu viria a uma casa, a casa de V.<br \/>\nEx\u00aa, que eu respeito, que sempre respeitei como uma das senhoras mais<br \/>\nvirtuosas de Lisboa, um modelo de qualidades crist\u00e3s, um anjo de caridade,<br \/>\numa m\u00e3e exemplar que eu viria de caso pensado afrontar os princ\u00edpios<br \/>\nmais sagrados princ\u00edpios que s\u00e3o os meus? V. Ex\u00aa responda<br \/>\na isto. Eu pe\u00e7o a V. Ex\u00aa que responda a isto.<\/p>\n<p>Foi justamente por isso, Sr. Al\u00edpio, que me escandalizei&#8230;<\/p>\n<p>Que V. Ex\u00aa considere. Pedem-me para recitar. Para ser agrad\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>D. Casimira Vitorino, que estava ao lado, hirta, sinistra e enrugada, interrompeu:<br \/>\nEscusava, para ser agrad\u00e1vel, de se p\u00f4r a dizer porcarias.<\/p>\n<p>O Sr\u00aa D. Casimira, \u00f3 minhas senhoras, por quem s\u00e3o! V.<br \/>\nEx.as bem v\u00eaem&#8230; Os Ci\u00fames do C\u00e9u, s\u00e3o uma poesia<br \/>\nconhecida, considerada pela melhor cr\u00edtica como uma magn\u00edfica<br \/>\npe\u00e7a l\u00edrica&#8230; Refiro-me \u00e0 forma. O assunto, confesso,<br \/>\n\u00e9 torpe, \u00e9 infame&#8230; Mas, quando se recita, \u00e9 para se<br \/>\napreciar a forma. E como uma m\u00fasica ao ouvido&#8230; Eu n\u00e3o sei<br \/>\noutra poesia de cor&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembrei, de repente, daquela abjecta cena no areal&#8230; Depois,<br \/>\nlevado pelo fogo da declama\u00e7\u00e3o&#8230; Mas acreditem V. Ex.as que<br \/>\ncompreendo a sua desaprova\u00e7\u00e3o, acuso-me, quero-me mal por a<br \/>\nter recitado como al\u00e9m disso se recita em casas muito respeit\u00e1veis&#8230;<\/p>\n<p>Mas confesso que o assunto \u00e9 torpe&#8230; V. Ex\u00aa n\u00e3o me conhecem<br \/>\nmas o Dr. Vaz Correia conhece os meus princ\u00edpios morais, o meu horror<br \/>\n\u00e0 devassid\u00e3o, a minha indigna\u00e7\u00e3o com todos os<br \/>\ncasos de infidelidade conjugal, enfim, as minhas convic\u00e7\u00f5es.<br \/>\nApelo para ele&#8230;<\/p>\n<p>E sem esperar a resposta, curvando-se profundamente, afastou-se, atravessou<br \/>\na sala, indo encalhar junto da mesa do voltarete.<\/p>\n<p>Frescalhotes, os versos disse-lhe o Conselheiro Andrade.<\/p>\n<p>Al\u00edpio acudiu: Oh! Sr. Conselheiro, nem me fale nisso! Que desgosto&#8230;<br \/>\nEu n\u00e3o imaginei&#8230;<\/p>\n<p>Qual hist\u00f3ria! Eu, n\u00e3o me pareceu bem por causa das pequenas,<br \/>\nmas c\u00e1 por mim, gosto de versinhos picantes&#8230; Lembra-se do Bocage?<br \/>\nSete vezes amor voltou, \u00e9&#8230; O qu\u00ea, tr\u00eas matadores? O amigo<br \/>\nTorres, o senhor muda-lhes as cores, com certeza! No entanto Al\u00edpio,<br \/>\nda mesa do voltarete, seguia os movimentos do padre Augusto; vira-o erguer-se<br \/>\npesadamente da cadeira, ir fazer uma c\u00f3cega no pesco\u00e7o da Julinha;<br \/>\ndepois, com as m\u00e3os por baixo das abas do casaco, fazendo-as saltar,<br \/>\nconversar, curvado, com a bela Fradinho: finalmente, devagar, ir para a Saleta<br \/>\ndos Fumistas. Al\u00edpio precipitou-se logo, e dirigindo-se vivamente a<br \/>\nele: \u00d3 Sr. Padre Augusto, eu, sem ter a honra de conhecer V. Ex\u00aa,<br \/>\nvenho pedir-lhe um favor. V.<\/p>\n<p>Ex\u00aa \u00e9 um sacerdote de grande ilustra\u00e7\u00e3o, de grande<br \/>\nvirtude, de grande eloqu\u00eancia, e deve compreender a minha situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEu, pediram-me para recitar&#8230;<\/p>\n<p>O padre Augusto que conservava uma das m\u00e3os com o cigarro por tr\u00e1s<br \/>\ndas costas, disse, raspando o queixo com a outra: Homem, ele n\u00e3o \u00e9<br \/>\nl\u00e1 por dizer&#8230; Mas olhe que os versos s\u00e3o de arrepiar&#8230; Eu<br \/>\nestava a v\u00ea-los diante de mim, no areal, a mulher deitada, o homem&#8230;<br \/>\n\u00d3 senhor doutor!&#8230;<\/p>\n<p>Mas V. Ex\u00aa sabe o que \u00e9 poesia: quest\u00e3o de imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde exagera\u00e7\u00e3o! Mas \u00e9 que realmente est\u00e1 a gente<br \/>\na v\u00ea-los. \u00c8 que se me n\u00e3o tira o quadro dos olhos! A mulher<br \/>\ntoda desapertada&#8230; Foi um desgosto para a Sr\u00aa D. Laura. E se V. Ex\u00aa<br \/>\nsoubesse com que cuidado, com que recato tem sido educada a Virgininha. E<br \/>\na primeira que ela ouve&#8230; \u00c9 a primeira e \u00e9 de m\u00e3o-cheia!<br \/>\nPois Sr. Padre Augusto, V. Ex\u00aa \u00e9 um sacerdote, e eu, acredite,<br \/>\ntenho pelo clero o respeito mais profundo. Verdadeiramente, curvo-me diante<br \/>\nde V. Ex\u00aa porque tem experi\u00eancia, e sei que virtude, que saber,<br \/>\nque dedica\u00e7\u00e3o se escondem debaixo de uma batina modesta&#8230; E<br \/>\nrealmente o que eu desejo \u00e9 que V. Ex\u00aa seja verdadeiramente um<br \/>\nsacerdote crist\u00e3o. Isto \u00e9, que restabele\u00e7a a harmonia<br \/>\ne que dissipe a irrita\u00e7\u00e3o da Sr\u00aa D. Laura. Eu j\u00e1<br \/>\nlhe expliquei, j\u00e1 lhe supliquei&#8230; Mas fi-lo a tartamudear&#8230; A sua<br \/>\nvirtude inspira-me um respeito! Desejo que V. Ex\u00aa a conven\u00e7a de<br \/>\nque eu, foi na minha boa f\u00e9, na minha inoc\u00eancia, por estupidez<br \/>\na\u00ed est\u00e1 o que foi por estupidez, sem reparar, que comecei a<br \/>\nrecitar&#8230; E aqui lho digo em segredo, suprimi v\u00e1rias estrofes, as<br \/>\npiores! Lembrei-me a tempo&#8230; V. Ex\u00aa fa\u00e7a-me isto. N\u00e3o<br \/>\nLhe ofere\u00e7o a minha dedica\u00e7\u00e3o, porque ela lhe \u00e9<br \/>\nin\u00fatil; mas se, como advogado, como jornalista, como homem, como crente,<br \/>\npuder um dia ser-lhe prest\u00e1vel, \u00e9 dizer: aqui, Al\u00edpio!<br \/>\ne Al\u00edpio l\u00e1 estar\u00e1, ao p\u00e9 de V. Ex\u00aa.<\/p>\n<p>\u00d3 senhor, muito obrigado, muito obrigado! N\u00e3o \u00e9 para<br \/>\ntanto. Deixe estar que eu falarei a D.<\/p>\n<p>Laura. Eu falarei. H\u00e1-de se arranjar&#8230; H\u00e1-de ficar tudo em<br \/>\npaz.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o muito a V. Ex\u00aa disse Al\u00edpio; e ia a retirar-se<br \/>\nquando a voz do padre Augusto o chamou com um psiu! discreto.<\/p>\n<p>Al\u00edpio voltou-se, e o padre, levando-o para o v\u00e3o de uma janela:<br \/>\nDesculpe a curiosidade. Mas eu, nestas coisas de literatura, sou curioso.<br \/>\nSou apreciador.<\/p>\n<p>Gosto de bons versos&#8230; quando s\u00e3o bons! E baixando a voz: Vamos<br \/>\nl\u00e1 a ver como s\u00e3o as tais quadras&#8230;<\/p>\n<p>Quais? As que suprimi? Sim, as que suprimiu.<\/p>\n<p>Ah, deliciosas! E, complacente, o nosso Al\u00edpio recitou ao ouvido<br \/>\ndo padre Augusto estas estrofes de um ardente erotismo l\u00edrico: Fria,<br \/>\nme dizias! Fria, tu, mulher? Mas esses teus bra\u00e7os que s&#8217;estorcem,<br \/>\nloucos, Esse fr\u00e1gil corpo que o del\u00edrio agita, Dessa ardente<br \/>\nboca os gemidos roucos? Porque balbucias no del\u00edrio, diz? Porque desfaleces,<br \/>\nadorada amante? Oh! d\u00e1-me os teus l\u00e1bios, oh, invoca a morte&#8230;<\/p>\n<p>Que morrer \u00e9 doce neste doce instante! O padre Augusto co\u00e7ou<br \/>\nvivamente a cabe\u00e7a: Hum! E o que eu dizia, \u00e9 estar a v\u00ea-los.<br \/>\n\u00c9 que os estou a ver! Pois \u00e9 uma bela poesia&#8230; E l\u00e1<br \/>\ndirei a D. Laura: tudo se acomoda, tudo se acomoda&#8230; Bela poesia! Durante<br \/>\no resto da noite a atitude de Al\u00edpio foi reservada e prudente. Passou-a<br \/>\njunto da mesa do voltarete, em sil\u00eancio, seguindo com uma aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ngrave o interessante movimento das vazas. Mas, como me confessou mais tarde,<br \/>\n\u00abtinha a cabe\u00e7a em fogo\u00bb. As palavras do Dr.<\/p>\n<p>Vaz Correia voltavam-lhe constantemente \u00e0 mem\u00f3ria, tocando<br \/>\na rebate e alvoro\u00e7ando-lhe a imagina\u00e7\u00e3o: \u00abEu trouxe-o<br \/>\naqui para agradar \u00e0 m\u00e3e e \u00e0 pequena! E parecia-lhe ent\u00e3o<br \/>\nque no seu futuro, que ultimamente se carregara, apareciam, aqui e al\u00e9m,<br \/>\ncomo abertas reluzentes, clar\u00f5es entrevistos de felicidades poss\u00edveis!<br \/>\nDoze mil cruzados de renda! E o Desembargador, com aquela obesidade, m\u00f3rbida,<br \/>\nD. Laura, com aquela amarelid\u00e3o artr\u00edtica, n\u00e3o podiam<br \/>\ndecerto, coitados, durar muito&#8230; Os cabelos de Virg\u00ednia eram na realidade<br \/>\ndeliciosos&#8230; E uma cadeira em S. Bento tornar-se-ia decerto acess\u00edvel<br \/>\na quem dispusesse de uma renda de doze mil cru-zados. Excelente casa aquela:<br \/>\nmob\u00edlia s\u00f3lida e \u00fatil, boas pratas, bom piano! E o seu<br \/>\ndesejo de agradar \u00e0 fam\u00edlia, aos amigos, era t\u00e3o intenso,<br \/>\nque, tendo o Conselheiro (que perdia) falado com irrita\u00e7\u00e3o em<br \/>\n\u00abcalistos\u00bb, o nosso prudente Al\u00edpio levantou-se sem ru\u00eddo,<br \/>\nafastando-se discretamente.<\/p>\n<p>A sua soir\u00e9e fora at\u00e9 ali singularmente infeliz: querendo<br \/>\nser am\u00e1vel com a bela Fradinho, vira nos olhares indignados das senhoras<br \/>\nque se suspeitava das suas inten\u00e7\u00f5es; desejando dar \u00e0<br \/>\nsociedade o gozo de uma bela poesia bem recitada, ofendia os sentimentos pudicos<br \/>\nde D.<\/p>\n<p>Laura; pensando lisonjear o Conselheiro pelo prazer que manifestava em o<br \/>\nver jogar, encalistava-o! Ent\u00e3o, para n\u00e3o chocar nenhuma susceptibilidade,<br \/>\npara n\u00e3o ferir nenhuma conveni\u00eancia como um homem que numa loja<br \/>\nde bric-\u00e0-brac n\u00e3o se move, com medo de partir alguma pe\u00e7a<br \/>\ncara o nosso Al\u00edpio refugiou-se no v\u00e3o de uma janela, e ali<br \/>\nficou, entre as cortinas, solit\u00e1rio, im\u00f3vel. Esse isolamento<br \/>\nvolunt\u00e1rio, por\u00e9m, foi-lhe a breve trecho amplamente compensado:<br \/>\nquando examinava, atrav\u00e9s da vidra\u00e7a, o c\u00e9u que se toldava,<br \/>\num ruge-ruge de seda correu sobre a esteira da sala, e voltando-se, p\u00f4de<br \/>\nver D. Virg\u00ednia que passava, e que lhe deu um longo olhar, um olhar<br \/>\nde muda repreens\u00e3o, como se ela tamb\u00e9m lhe quisesse dizer: Para<br \/>\nque levantas, sem cessar, poeta, A fronte e contemplas a Lua sem v\u00e9u?<br \/>\nN\u00e3o v\u00eas tu, poeta, dentro dos meus olhos, Segredos mais fundos<br \/>\nque os que tem o c\u00e9u? Foi grande a sua tenta\u00e7\u00e3o de entrar<br \/>\nna sala, de falar com ela. Reteve-o, por\u00e9m, o receio da indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\nde D. Laura, quando visse o homem que recitava versos l\u00fabricos em conversa<br \/>\n\u00edntima com sua filha.<\/p>\n<p>Por isso, e porque eram onze horas, foi despedir-se de D. Laura; e qual<br \/>\nn\u00e3o foi a sua como\u00e7\u00e3o quando a ouviu, com uma voz que,<br \/>\nagora, era quase branda e amiga, dizer-lhe: Quando quiser, senhor doutor,<br \/>\nesta casa est\u00e1 \u00e0s suas ordens. Teremos muito gosto em o ver&#8230;<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 dela, padre Augusto sorria e o nosso Al\u00edpio compreendeu<br \/>\nque era \u00e0 diplom\u00e1tica interven\u00e7\u00e3o do honrado sacerdote<br \/>\nque ele devia aquela benevol\u00eancia inesperada.<\/p>\n<p>Que influ\u00eancia ele tinha, o reverendo! Tudo em D. Laura mudara: a<br \/>\nvoz, o olhar, e at\u00e9 a m\u00e3o que, agora, lhe pareceu menos hirta,<br \/>\nmais quente, mais humana.<\/p>\n<p>E ao descer, abafando-se cuidadosamente no seu cachen\u00e9, perguntou<br \/>\nao criado que o acompanhava: Sabe-me dizer onde mora o Sr. Padre Augusto?<br \/>\n\u00c0s portas de Santo Ant\u00e3o, 36, segundo, meu senhor. Em casa da<br \/>\nGerv\u00e1sio.<\/p>\n<p>E da\u00ed a dois dias, como havia em casa da Adelaide Gerv\u00e1sio<br \/>\num quarto devoluto, Al\u00edpio tomava-o e passava a ser o companheiro,<br \/>\no confidente e o amigo do ben\u00e9volo sacerdote.<\/p>\n<p>Muitas vezes me disse o Conde, anos depois, que esta conviv\u00eancia com<br \/>\no padre Augusto lhe fora extremamente instrutiva, porque o esclarecera definitivamente<br \/>\nsobre os costumes \u00edntimos dos senhores eclesi\u00e1sticos, e destru\u00edra<br \/>\nmuitos preju\u00edzos que uma tradi\u00e7\u00e3o injusta formou em volta<br \/>\ndo clero, em hostilidade aos excessos dos frades. Assim se convenceu que \u00e9<br \/>\nabsolutamente infundada a reputa\u00e7\u00e3o que t\u00eam S. Ex.as de<br \/>\ncostumes l\u00fabricos. \u00abDurante dezoito meses que vivi com o padre<br \/>\nAugusto, Zagalinho, nem por palavras, nem por olhares, nem por obras, o vi<br \/>\ndesviar-se da regra imposta pelos votos. Um modelo de castidade, Zagalinho!<br \/>\nUm model\u00e3o! Ele mesmo, pelos seus olhos, se certificara desta verdade.<br \/>\nO seu quarto e o do padre Augusto eram separados por um tabique, onde outrora<br \/>\nhouvera uma comunica\u00e7\u00e3o sem porta. Esta abertura, para isolar<br \/>\nos dois quartos, fora depois tapada com uma simples lona coberta de papel<br \/>\npintado, onde um pequeno rasg\u00e3o triangular permitia a Al\u00edpio<br \/>\nmergulhar um olho observador no interior do quarto do reverendo. Conseguiu<br \/>\nassim verificar que este homem inteligente poderia ser comparado (se tal compara\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o fosse ofensiva da sua qualidade de sacerdote crist\u00e3o) ao<br \/>\nprofeta do Isl\u00e3, de quem as legendas do deserto celebram os costumes<br \/>\nsimples e o amor das ocupa\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas. O reverendo<br \/>\nsacerdote, ele pr\u00f3prio, passajava as suas meias, cosia as suas voltas<br \/>\ne limpava a batina com benzina; vivia arrumando, espanejando o quarto, e todos<br \/>\nos dias polia o seu candeeiro de lat\u00e3o, com uma dissolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde \u00e1cido ox\u00e1lico que ele mesmo ia comprar \u00e0 Farm\u00e1cia<br \/>\nAzevedo. Pendurado defronte da janela, tinha um can\u00e1rio de que tratava<br \/>\ncom cuidados femininos. \u00c0 noite, ao recolher, dispunha sobre a mesa<br \/>\num covilhete de marmelada, uma garrafa de Porto (de que D. Laura o tinha sempre<br \/>\nbem provido) e com satisfa\u00e7\u00e3o e m\u00e9todo, tomava a sua<br \/>\nceia, tendo defronte o brevi\u00e1rio aberto que ia lendo. Al\u00edpio<br \/>\nnunca o viu tomar mais de meio c\u00e1lice de Porto, aos pequenos goles,<br \/>\nque conservava um momento na boca, saboreando-lhe o aroma, e que engolia com<br \/>\num estalo pl\u00e1cido. Depois, despia-se, dobrava a roupa com m\u00e9todo<br \/>\nminucioso e da\u00ed a pouco ressonava com estridor. Vida de um santo! Uma<br \/>\ntarde de grande calma, em meados de Agosto, a engomadeira da casa, depois<br \/>\nde levar a roupa a Al\u00edpio, entrou no quarto do padre Augusto. Era uma<br \/>\nformosa rapariga. Al\u00edpio imediatamente correu a aplicar o olho ao rasg\u00e3o<br \/>\nda lona, a observar o que faria o eclesi\u00e1stico, s\u00f3 no quarto<br \/>\ncom a engomadeira, naquela tarde de Ver\u00e3o em que a casa estava solit\u00e1ria<br \/>\ne calada. Padre Augusto dormitava na sua poltrona, com o len\u00e7o de seda<br \/>\nsobre o rosto, as pernas estendidas, as m\u00e3os sobre o ventre. Al\u00edpio<br \/>\njulgava.39 que passaria ao menos os dedos pelo queixo da rapariga, que lhe<br \/>\nbeliscaria o bra\u00e7o apetitoso. Pois n\u00e3o: ergueu a ponta do len\u00e7o,<br \/>\ne vendo com o olho meio fechado que era a engomadeira, continuou a sua sesta<br \/>\npl\u00e1cida! Excesso de quebreira, dir-se-\u00e1. N\u00e3o, porque<br \/>\nda\u00ed a pouco Al\u00edpio ouviu-lhe dizer por baixo do len\u00e7o:<br \/>\n\u00d3 menina, que n\u00e3o esque\u00e7a o par de pe\u00fagas que<br \/>\nficou da outra vez.<\/p>\n<p>T\u00e3o grande era a sua indiferen\u00e7a \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo amor! Era, al\u00e9m disso, s\u00f3brio o que destr\u00f3i inteiramente<br \/>\na conhecida e lend\u00e1ria gula can\u00f3nica e n\u00e3o de todo hostil<br \/>\n\u00e0s profanidades da arte, pois que, sempre que o homem do realejo fazia,<br \/>\nao cair das tardes de Ver\u00e3o, o seu giro no bairro, padre Augusto propunha<br \/>\nentre os h\u00f3spedes da D. Adelaide uma subscri\u00e7\u00e3o de cinco-r\u00e9is<br \/>\npor cabe\u00e7a, para mandar tocar ao italiano as pe\u00e7as escolhidas<br \/>\nda Norma, que ele escutava com deleite.<\/p>\n<p>O fraco deste santo era o alho; gostava dele cru: esfregava com alho o gume<br \/>\nda faca, o miolo do p\u00e3o, o fundo do prato, e dizia sempre depois desta<br \/>\nopera\u00e7\u00e3o: Muito estomacal, caros companheiros, muito estomacal&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o era um fan\u00e1tico; nunca a sua conversa\u00e7\u00e3o<br \/>\nreca\u00eda sobre \u00abquest\u00f5es religiosas\u00bb. Quando se falava<br \/>\ndiante dele do progresso das ideias revolucion\u00e1rias, n\u00e3o se<br \/>\nexaltava, mas, co\u00e7ando o queixo, dizia: Pois ser\u00e1 o que quiserem,<br \/>\ncaros companheiros, ser\u00e1 o que quiserem. Mas lembrem-se das palavras<br \/>\nde Cristo: \u00abN\u00e3o prevalecer\u00e3o contra ele as portas do Inferno;<br \/>\na barca de Pedro n\u00e3o se submergir\u00e1!\u00bb E se ouvia algum<br \/>\ndos companheiros um certo Azevedo do Minist\u00e9rio do Reino, sobretudo,<br \/>\nproferir impiedades ou achincalhar os dogmas, o bom sacerdote sorria: Tudo<br \/>\nisso \u00e9 muito bom enquanto se tem sa\u00fade, amigo Azevedo. Mas quando<br \/>\nvem a velhice, e as doen\u00e7as, e o final&#8230; Eh! Eh! O amigo ver\u00e1<br \/>\ncomo se chega \u00e0s boas ideias. Ver\u00e1 como ainda me manda chamar!<br \/>\nN\u00e3o, que a Eternidade \u00e9 coisa s\u00e9ria! Tal era este santo<br \/>\nhomem. As suas ocupa\u00e7\u00f5es eram simples: de manh\u00e3, dizer<br \/>\nmissa em S.<\/p>\n<p>Domingos; durante o resto do dia, salvar a alma de D. Laura.<\/p>\n<p>Nem gula, nem lubricidade, nem ambi\u00e7\u00e3o. Os tr\u00eas Inimigos<br \/>\nda alma, da Cartilha, os tr\u00eas sinistros colegas Mundo, Diabo e Carne<br \/>\nque de bra\u00e7o dado rondam em volta da humanidade, \u00e0 ca\u00e7a<br \/>\ndas almas indefesas, ou nunca ousaram aproximar-se deste var\u00e3o impec\u00e1vel,<br \/>\nou, se o fizeram, foram vergonhosamente escorra\u00e7ados, como ratos se<br \/>\nme permitem a compara\u00e7\u00e3o surpreendidos sobre um velho peda\u00e7o<br \/>\nde queijo.<\/p>\n<p>A admira\u00e7\u00e3o que ele inspirou a Al\u00edpio foi grande e<br \/>\nduradoira.<\/p>\n<p>Muitas vezes ouvi o Conde afirmar, quando se agitavam as grandes quest\u00f5es<br \/>\ndo Clero, do Ultramontanismo: N\u00e3o, n\u00e3o&#8230; N\u00e3o \u00e9<br \/>\ntanto assim! O Clero \u00e9 extremamente virtuoso. Olhe, um padre conhe\u00e7o<br \/>\neu, o padre Augusto, que foi meu companheiro nas Portas de Santo Ant\u00e3o&#8230;<br \/>\nUma vez&#8230;<\/p>\n<p>E era certo ent\u00e3o vir alguma deliciosa anedota, em que as virtudes<br \/>\ndo padre Augusto resplandeciam, como j\u00f3ias fulgurantes delicadamente<br \/>\nengastadas.<\/p>\n<p>E julgando todos os eclesi\u00e1sticos, de todo o Universo, por este sacerdote<br \/>\nque conhecera na mocidade tanto o seu esp\u00edrito pr\u00e1tico amava<br \/>\nas opini\u00f5es a posteriori e fundadas na experi\u00eancia o Conde nunca<br \/>\nconcebeu o clero sen\u00e3o como uma classe cheia de virtudes, passajando<br \/>\nmeias, indiferente \u00e0s engomadeiras e cheia de benevol\u00eancia pelas<br \/>\nfraquezas humanas.<\/p>\n<p>Poucos dias depois da sua instala\u00e7\u00e3o na casa de h\u00f3spedes<br \/>\nde D. Adelaide, a intimidade de Al\u00edpio com o padre Augusto era t\u00e3o<br \/>\ncompleta, que \u00e0 noite, depois de deitados, ainda conversavam atrav\u00e9s<br \/>\ndo tabique. O assunto nunca variava: os Amados, as virtudes de D.<\/p>\n<p>Laura, as prendas de D. Virg\u00ednia, as capacidades do Desembargador,<br \/>\nos m\u00e9ritos da Ana cozinheira de tal sorte que ao fim de uma semana<br \/>\nAl\u00edpio conhecia os Amados, os seus h\u00e1bitos, os seus fracos,<br \/>\nas suas propriedades, os seus gostos, as suas ideias, melhor do que se, com<br \/>\na sua pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o, os tivesse concebido e descrito<br \/>\nnas folhas manuscritas de um romance.<\/p>\n<p>Foi deste modo que ele veio a esclarecer qual o tipo de marido que D. Laura<br \/>\ndesejava para sua filha. Esse tipo n\u00e3o demonstrava ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndesordenadas: um bacharel, de costumes honestos, com uma carreira come\u00e7ada,<br \/>\ntemente a Deus, sem t\u00edsicos na fam\u00edlia, observando os jejuns,<br \/>\necon\u00f3mico, caseiro e pontual \u00e0 missa.<\/p>\n<p>Al\u00edpio, com uma grande humildade, interrogou-se, sondou-se, folheou-se<br \/>\ncomo quem folheia um livro, e achou que correspondia exactamente ao tipo de<br \/>\nD. Laura. Estou certo de que, se encontrasse em si condi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndivergentes se se reconhecesse inclinado \u00e0 frequenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos bilhares, ou fraco diante da beleza, ou se algum seu parente tivesse deitado<br \/>\nsangue pela boca, estou certo (pois conheci bem aquele car\u00e1cter rectil\u00edneo<br \/>\ne r\u00edgido), de que ele se teria considerado indigno de ser o marido<br \/>\nda loira Virg\u00ednia. Mas como nenhuma destas circunst\u00e2ncias object\u00e1veis<br \/>\nconcorria nele, Al\u00edpio n\u00e3o hesitou, e, habilmente, deixou ver<br \/>\nao padre Augusto que ali, do outro lado do tabique, existia um bacharel com<br \/>\ntodas as qualidades de sa\u00fade, de f\u00e9, de moral e de dis-ciplina<br \/>\nque D. Laura exigia do futuro marido de sua filha Virg\u00ednia, loira como<br \/>\nos loiros trigos, segundo a formosa express\u00e3o do poeta.<\/p>\n<p>Padre Augusto, de resto, reconhecia-o; e a sua simpatia crescia por aquele<br \/>\nmo\u00e7o que n\u00e3o blasfemava, o acompanhava no seu passeio higi\u00e9nico<br \/>\nao comprido do Cais do Sodr\u00e9, que o tinha presenteado com duas formosas<br \/>\nnavalhas de barba, e que, uma noite em que ele estava sofrendo de um defluxo<br \/>\nterr\u00edvel, lhe pusera um sinapismo de mostarda com cuidados e carinhos<br \/>\nde enfermeira. De tal sorte que esse mo\u00e7o exemplar, ben\u00e9volo,<br \/>\ndoce, instru\u00eddo, se tornara a preocupa\u00e7\u00e3o dominante do<br \/>\nbom sacerdote; e mal chegava a casa do Desembargador, ainda antes de se servir<br \/>\na sopa, padre Augusto, puxando o guardanapo para o pesco\u00e7o, encetava<br \/>\no assunto querido: Al\u00edpio! Todavia, D. Laura podia verificar por si<br \/>\nmesma as qualidades de Al\u00edpio ou pelo menos aquela que mais a interessava:<br \/>\na sua devo\u00e7\u00e3o. Na missa das nove, em S. Domingos, no Lausperene,<br \/>\nno Sant\u00edssimo, no M\u00eas de Maria, ela podia ver aquele bacharel<br \/>\nimpec\u00e1vel, ora de joelhos, devorando as ora\u00e7\u00f5es do seu<br \/>\nripan\u00e7o, ora de p\u00e9, a cabe\u00e7a ca\u00edda numa medita\u00e7\u00e3o<br \/>\ngrave, ora est\u00e1tico, contemplando a edificante cintila\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos altares. Nunca os seus olhos se distra\u00edam, solicitados por algum<br \/>\nchap\u00e9u mais alto em que se destacasse a cor viva de um ramalhete, ou<br \/>\npor qualquer ruge-ruge de folhos de seda. N\u00e3o. Ali estava, s\u00e9rio,<br \/>\ncompenetrado, circunspecto, reverente. \u00c0 sa\u00edda, ao passar por<br \/>\nD. Laura, uma cortesia respeitosa; e depois, taque-taquetaque, no seu caminho,<br \/>\ncom o seu livro debaixo do bra\u00e7o, os olhos nas pedras da cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>\u00c9 um modelo dizia um dia D. Laura. Um rapaz assim \u00e9 que d\u00e1<br \/>\ngosto a uma m\u00e3e.<\/p>\n<p>Estas palavras, repetidas \u00e0 noite pelo padre Augusto, mostraram a<br \/>\nAl\u00edpio que ele podia enfim, com honestidade, fazer ao sacerdote a confid\u00eancia<br \/>\ndo seu sentimento e da sua ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>F\u00ea-lo com palavras dignas, graves, elevadas&#8230; Desde que vira D. Virg\u00ednia,<br \/>\namava-a. Amava-a, menos pela sua beleza que era grande, que era cativante<br \/>\ndo que pelas qualidades morais que ela n\u00e3o podia deixar de ter, sendo<br \/>\n\u00abfilha de tal m\u00e3e\u00bb. N\u00e3o se atrevera, ao princ\u00edpio,<br \/>\na dizer-lho a ele, padre Augusto; n\u00e3o o conhecendo bem, poderia suspeitar<br \/>\nque, pobre bacharel, ele apenas aspirasse ao dote da senhora. Mas agora o<br \/>\npadre Augusto conhecia-o, n\u00e3o \u00e9 verdade? Estava bem certo do<br \/>\nseu desinteresse, do seu desprendimento de todas as ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde dinheiro n\u00e3o \u00e9 verdade? Julgava ent\u00e3o poder desabafar<br \/>\nno seio de um amigo sincero! Amava a Sr\u00aa D. Virg\u00ednia! Mas uma<br \/>\ncoisa pedia.41 ao padre Augusto uma coisa lhe pedia, ali, como amigo, como<br \/>\ncompanheiro que n\u00e3o dissesse nada \u00e0s senhoras! Se ele tivesse<br \/>\nurna posi\u00e7\u00e3o social, uma s\u00f3lida fortuna em terras, um<br \/>\nt\u00edtulo de fidalguia deste reino, ent\u00e3o, decerto, n\u00e3o<br \/>\nhesitaria em revelar o alto anelo do seu cora\u00e7\u00e3o! Mas estava<br \/>\napenas no come\u00e7o da sua carreira, infelizmente. Por mod\u00e9stia,<br \/>\npor dignidade, por circunspec\u00e7\u00e3o, devia calar-se&#8230; E todavia,<br \/>\nsentia em si energias, delicadezas, todas as condi\u00e7\u00f5es para<br \/>\nfazer feliz, bem feliz, uma menina&#8230; Sabia o padre Augusto o que ele desejaria?<br \/>\nCasar com ela, ter uma pequenina casa em Campolide, ilustrar-se na carreira<br \/>\ndo foro, viver com conforto, e ter um velho amigo respeit\u00e1vel que viesse<br \/>\ntodos os dias comer a sopa com intimidade e fazer a sua partida de voltarete&#8230;<br \/>\nUm amigo como o padre Augusto&#8230; Que se ele casasse, o padre Augusto n\u00e3o<br \/>\nhavia de ficar a viver ali, no quarto estreito da Adelaide Gerv\u00e1sio,<br \/>\ncom janela para as pedras do sagu\u00e3o! Havia de viver com eles, ter o<br \/>\nseu talher \u00e0 mesa, a sua roupa branca bem tratada, o seu caldo de galinha<br \/>\n\u00e0 noite, os carinhos de uma fam\u00edlia&#8230; Mas enfim, tudo aquilo<br \/>\neram sonhos&#8230;<\/p>\n<p>Da\u00ed a dias, ao sair da Igreja de S. Domingos, Virg\u00ednia que,<br \/>\ncomo me afirmou o Conde mais tarde, tinha, em rapariga, o h\u00e1bito de<br \/>\nescutar \u00e0s portas ao ver Al\u00edpio, corou prodigiosamente.<\/p>\n<p>Na semana seguinte, Al\u00edpio recebeu do padre Augusto um convite verbal<br \/>\npara ir passar a noite com os Amados. Aceitou. Foi uma soir\u00e9e \u00edntima<br \/>\ngrave, um pouco silenciosa, edificante. Al\u00edpio falou da sua excelente<br \/>\ntia, da sua caridade e da caridade dos Noronhas. Contou a maravilha de um<br \/>\nvelho, ao p\u00e9 de Penafiel, que vivia havia vinte anos em estado de gra\u00e7a;<br \/>\nnarrou anedotas piedosas de Fr. Bartolomeu dos M\u00e1rtires; provou como<br \/>\ntodos os pa\u00edses protestantes a Inglaterra, a Alemanha, a Su\u00e9cia<br \/>\niam numa decad\u00eancia progressiva e fatal; voltou as p\u00e1ginas da<br \/>\nPrece \u00e0 Virgem que Virg\u00ednia tocou com mimo ao piano, e fez,<br \/>\ncom padre Augusto, o voltarete do Sr. Desembargador.<\/p>\n<p>E, quando recolhia com o sacerdote \u00e0s portas de Santo Ant\u00e3o,<br \/>\nteve o gozo de lhe ouvir estas palavras memor\u00e1veis: N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nque ver, o amigo deu no goto \u00e0s senhoras! E todos aprovamos. Isto \u00e9,<br \/>\no nosso Desembargador \u00e9 que parece um bocado renitente&#8230;<\/p>\n<p>Se a Sr\u00aa D. Laura quiser&#8230; Isto \u00e9, se o padre Augusto quiser!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o digo que n\u00e3o. Estimam-me na fam\u00edlia&#8230; V\u00e3o<br \/>\nmuito pelo que eu digo&#8230; Mas \u00e0s vezes o nosso Desembargador tem birras!<br \/>\nTinha come\u00e7ado a chuviscar, e para que o padre Augusto, t\u00e3o<br \/>\nsujeito a defluxos, se n\u00e3o constipasse, o nosso Al\u00edpio, sempre<br \/>\nbom, sempre afectuoso, tomou generosamente uma tip\u00f3ia.<\/p>\n<p>As birras do obeso e obtuso Amado eram realmente singulares. Sem raz\u00e3o,<br \/>\nde repente, embirrava. E era ent\u00e3o como o obst\u00e1culo bruto, inerte,<br \/>\nmaterial, de um enorme pedregulho numa estrada. Era uma resist\u00eancia<br \/>\npassiva e espessa: as bochechas tornavam-se-lhe mais balofas, as p\u00e1lpebras<br \/>\npapudas mais pesadas, e sem dar raz\u00f5es, rosnava surdamente: N\u00e3o<br \/>\nestou pelos autos&#8230; N\u00e3o vai&#8230; N\u00e3o me calha.<\/p>\n<p>E causava indigna\u00e7\u00e3o e horror, sentir aquela massa bestial<br \/>\ne adiposa, atravancando obstinadamente o caminho! O Dr. Vaz Correia, que todas<br \/>\nas manh\u00e3s pedia a Al\u00edpio que lhe fizesse o relato do estado<br \/>\ndo neg\u00f3cio, tinha-o avisado: E cuidado com esse animal! Se ele come\u00e7a<br \/>\na dizer que n\u00e3o calha, acabou-se. Voc\u00ea esbarra e n\u00e3o h\u00e1-de<br \/>\nir para diante.<\/p>\n<p>Como conseguiu Al\u00edpio desvanecer a resist\u00eancia inerte e espessa<br \/>\ndo Desembargador? N\u00e3o possuo documentos em que possa basear uma narra\u00e7\u00e3o<br \/>\naned\u00f3tica fidedigna. Sei apenas que ao fim de tr\u00eas meses Al\u00edpio<br \/>\nia ent\u00e3o todas as quintas e.42 domingos a casa dos Amados o Desembargador,<br \/>\nsegundo a express\u00e3o pitoresca do Dr. Vaz Correia, come\u00e7ou a<br \/>\n\u00abderreter\u00bb. J\u00e1 dizia: N\u00e3o \u00e9 mau rapaz&#8230;<br \/>\nCome\u00e7a a calhar-me! Pude averiguar que o nosso fino Al\u00edpio lhe<br \/>\ndera uma receita para fazer ch\u00e1 de erva cidreira, que aliviava o Desembargador<br \/>\nnas suas digest\u00f5es monstruosas. No dia dos seus anos, publicou na Semana<br \/>\numa leve biografia, em que, num grandioso estilo \u00e0 Plutarco, a integridade<br \/>\ndo Desembargador era comparada \u00e0 dos S\u00e9necas e dos Cat\u00f5es.<\/p>\n<p>Por fim teve ocasi\u00e3o de lhe prestar um servi\u00e7o resplandecente,<br \/>\nque muito deve ter contribu\u00eddo para o \u00abderretimento\u00bb do<br \/>\nDesembargador.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria foi-me assim contada: no escrit\u00f3rio do Dr. Vaz<br \/>\nCorreia praticava, havia anos, um certo Dr. Pimentel, mo\u00e7o estim\u00e1vel,<br \/>\nmas que, segundo a express\u00e3o moderna, \u00abtinha telha\u00bb.<\/p>\n<p>Era um mancebo franzino melanc\u00f3lico, de grande nariz e lunetas de<br \/>\nouro, que passava horas em sil\u00eancio, catando um a um os p\u00ealos<br \/>\ndo bigode.<\/p>\n<p>Excessivamente met\u00f3dico, sempre, antes de sair, lavava cuidadosamente<br \/>\nos bicos das penas de pato, para que n\u00e3o se estragassem. Tinha sobre<br \/>\na mesa pequenas caixas feitas de cartas de jogar, com d\u00edsticos em letra<br \/>\ng\u00f3tica que lhes designavam a serventia: caixa das penas, caixa da borracha,<br \/>\ncaixa do limpa-penas, caixa das obreias, etc. Era t\u00e3o escrupuloso das<br \/>\ncoisas que lhe pertenciam, que fazia no alto dos seus l\u00e1pis uma larga<br \/>\nincis\u00e3o onde escrevia o seu nome.<\/p>\n<p>Tinha casado novo e quando se referia a sua mulher, dizia sempre: a minha<br \/>\nsenhora. Fora ela que lhe bordara a almofada de veludo verde sobre que se<br \/>\nsentava. Esta almofada era para ele objecto de uma venera\u00e7\u00e3o<br \/>\nsupersticiosa: antes de se sentar, espanejava-a cuidadosamente, e ao levantar-se,<br \/>\nquando sa\u00eda, cobria-a religiosamente com um peda\u00e7o de cassa.<br \/>\nO seu terror Constante era que, na sua aus\u00eancia, algu\u00e9m se sentasse<br \/>\nsobre a almofada de sua senhora; por isso, tinha preparado um letreiro que<br \/>\ncolava com uma obreia \u00e0s costas da cadeira e onde se lia, escrito a<br \/>\ntinta azul: \u00abPede-se que se respeite esta cadeira, que \u00e9 do Dr.<br \/>\nPimentel\u00bb. Isto, por\u00e9m, incitava indiv\u00edduos facetos a<br \/>\nsentarem-se com ferocidade sobre a almofada sagrada, e por vezes, ao entrar<br \/>\nsubitamente no escrit\u00f3rio, o Dr. Pimentel ficava petrificado, vendo<br \/>\num corpanzil profano repoltreado sobre os veludos que sua senhora, com as<br \/>\nsuas pr\u00f3prias m\u00e3os, bordara amorosamente! Tais irrever\u00eancias,<br \/>\npara ele, eram crimes, e, com uma estrita ideia de justi\u00e7a penal e<br \/>\na perversidade natural aos hipocondr\u00edacos, inventou uma desforra medonha:<br \/>\narranjou um prego, muito agudo, de cabe\u00e7a muito chata, que colocava<br \/>\nsobre a almofada de bico para o ar, de modo que se algum jocoso ousasse profanar<br \/>\na sua almofada, o horr\u00edvel prego penetrava-lhe na carne, sendo assim<br \/>\no delito imediatamente seguido da penalidade. N\u00e3o revelou a ningu\u00e9m<br \/>\nesta perf\u00eddia, nem sequer destruiu o aviso escrito a tinta azul, como<br \/>\nse, para gozar melhor a vingan\u00e7a, quisesse facilitar a ofensa.<\/p>\n<p>Foi por esse tempo que uma manh\u00e3 em que o Dr. Pimentel sa\u00edra,<br \/>\no Desembargador Amado apareceu inesperadamente no escrit\u00f3rio: tinha<br \/>\numa demanda com um vizinho, propriet\u00e1rio de Campolide, e vinha falar<br \/>\ncom o Dr. Vaz Correia, que nesse momento trovejava na Boa Hora.<\/p>\n<p>Al\u00edpio, apenas avistou na porta o ventre enorme do Desembargador,<br \/>\nprecipitou-se a tirar-lhe o chap\u00e9u das m\u00e3os, a perguntar-lhe<br \/>\npelas senhoras; ofereceu-se mesmo para ir \u00e0 Boa Hora buscar o Dr. Vaz<br \/>\nCorreia.<\/p>\n<p>Nada de inc\u00f3modos disse Amado eu espero. Que, com este calor, at\u00e9<br \/>\nn\u00e3o se me d\u00e1 de descansar&#8230;<\/p>\n<p>Quer V. Ex\u00aa um copo de orchata? (o Dr. Vaz Correia tinha sempre, na<br \/>\nsaleta de dentro, uma caixa de orchata fresca, nos meses de Ver\u00e3o).<\/p>\n<p>Pois venha de l\u00e1 a orchata. Vai de refresco. Al\u00edpio entrara<br \/>\nna saleta e preparava.43 a bebida quando um berro medonho vindo do escrit\u00f3rio<br \/>\natroou a casa! Correu, aterrado. De p\u00e9, junto \u00e0 poltrona do<br \/>\nDr. Pimentel, l\u00edvido, os olhos esgazeados, a boca aberta, exalando<br \/>\nmugidos de dor, o Desembargador apertava nas duas m\u00e3os abertas as suas<br \/>\nrotundidades posteriores! Que foi, Sr. Desembargador, que foi? Enterrou-se-me<br \/>\numa coisa! O escrevente que acudira, p\u00e1lido, aos mugidos do magistrado,<br \/>\nteve um grito de horror: Deve ser o prego do Sr. Dr. Pimentel! E desapareceu,<br \/>\naterrado decerto das consequ\u00eancias de t\u00e3o grande crime.<\/p>\n<p>Sem perder o sangue-frio, o nosso Al\u00edpio puxou o ferido para junto<br \/>\nda janela, acocorou-se, levantou as abas do casaco, e logo descobriu a cabe\u00e7a<br \/>\namarela de um prego reluzindo sobre a cal\u00e7a preta de S. Ex\u00aa, cravado<br \/>\nna carne.<\/p>\n<p>O Desembargador, quase desmaiado, com camarinhas de suor frio na testa,<br \/>\nn\u00e3o queria que Al\u00edpio arrancasse o prego: ouvira dizer que uma<br \/>\nfaca, um punhal, um ferro que se arrancam de uma ferida, causam imediatamente<br \/>\na morte pela hemorragia. E com gemidos roucos, pedia um m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Mas o escrevente desapareceu cobardemente Al\u00edpio estava s\u00f3<br \/>\nno escrit\u00f3rio. Ent\u00e3o, com uma decis\u00e3o brusca, como as<br \/>\nque se contam de Dupuytren, de N\u00e9laton, dos grandes operadores cl\u00e1ssicos,<br \/>\nAl\u00edpio puxou vivamente o prego. O Desembargador deu um mugido terr\u00edvel,<br \/>\ne Al\u00edpio, sustentando-o, amparando-o nos bra\u00e7os, levou-o at\u00e9<br \/>\n\u00e0 poltrona amiga do Dr. Vaz Correia.<\/p>\n<p>S. Ex\u00aa, por\u00e9m, arquejava de dor. Parecia-lhe que tinha ali uma<br \/>\nbrasa, sentia o sangue empapar-lhe a ceroula&#8230; Queria um m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, num relance, Al\u00edpio sentiu que tinha ali, ferido, necessitando<br \/>\naux\u00edlio, um magistrado, um propriet\u00e1rio, um crist\u00e3o,<br \/>\num semelhante, o pai de Virg\u00ednia, e com uma voz repassada de cuidado<br \/>\ne de solicitude: N\u00e3o se assuste, Sr. Desembargador. N\u00e3o \u00e9<br \/>\nnada&#8230; Venha V. Ex\u00aa comigo&#8230;<\/p>\n<p>E amparando-o sempre, levou-o consigo a um quarto desabitado, que era a<br \/>\ncozinha daquele primeiro andar: a\u00ed havia um lavat\u00f3rio e uma<br \/>\nesponja dependurada na parede por um barbante.<\/p>\n<p>Com cuidado, tirou o casaco ao Desembargador, desabotoou-lhe com respeito<br \/>\nas cal\u00e7as, as ceroulas de linho, e acocorando-se, examinou a parte<br \/>\nferida de onde corria um fio de sangue breve, como um pedacinho de retr\u00f3s<br \/>\nvermelho.<\/p>\n<p>\u00c9 muito fundo? gemeu o magistrado.<\/p>\n<p>Uma bagatela, Sr. Desembargador, uma arranhadura.<\/p>\n<p>Limpou com a toalha o breve fio de sangue; encheu a bacia de \u00e1gua<br \/>\nfresca, tomou a esponja e pedindo ao respeit\u00e1vel magistrado que se<br \/>\nagachasse, ele mesmo, Al\u00edpio Abranhos, da casa dos Noronhas, esponjou<br \/>\ncom amor a n\u00e1dega obesa de S. Ex\u00aa! Que al\u00edvio! roncava<br \/>\no magistrado, respirando com esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Fresquinho, hem, Sr. Desembargador? E esponjava sol\u00edcito, tomava<br \/>\nmais \u00e1gua na cova da m\u00e3o, chapinhava a carne mole.<\/p>\n<p>Melhor, Sr. Desembargador? Mais aliviado, amigo, mais aliviado&#8230;<\/p>\n<p>Depois, com uma toalha limpa, secou a pele, repuxou a camisa, apertou as<br \/>\nceroulas de S. Ex\u00aa, que o deixava fazer, com os bra\u00e7os moles,<br \/>\nas p\u00e1lpebras m\u00f3rbidas, bufando, a face l\u00edvida, toda banhada<br \/>\nde suores dolorosos.<\/p>\n<p>Depois, deu-lhe um copo de orchata, acomodou-o no canap\u00e9, e agarrando<br \/>\nno chap\u00e9u, correu a buscar uma tip\u00f3ia.<\/p>\n<p>Ele mesmo o acompanhou a casa recomendando ao cocheiro que fosse devagar,.44<br \/>\npara que os solavancos n\u00e3o irritassem a parte ferida.<\/p>\n<p>O Desembargador esteve uma semana no leito: e ao m\u00e9dico que o vinha<br \/>\nver, ao padre Augusto, a D. Laura, a Virg\u00ednia, a todos os amigos da<br \/>\ncasa, repetia: Aquilo foi o meu Anjo salvador! Referia-se a Al\u00edpio,<br \/>\nque, dois meses depois, numa manh\u00e3 de Outubro, casava com D. Virg\u00ednia<br \/>\nSarmento Amado, encantadora herdeira de doze mil cruzados de renda.<\/p>\n<p>Foram passar a lua de mel para a casa de Campolide. Por\u00e9m, deste<br \/>\nper\u00edodo de felicidade profunda, nada deve escrever a minha pena. A<br \/>\nalcova nupcial tem o augusto recato de um templo, e \u00e0 sua porta o anjo<br \/>\ndos amores delicados vela com as asas abertas, o olhar risonho, e o dedo sobre<br \/>\nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Deixemos, pois, este par enamorado passear sob os murmurosos arvoredos da<br \/>\nquinta, ao r\u00edtmico som das \u00e1guas que cantam nas bacias de m\u00e1rmore<br \/>\ne vejamos o que a essa hora se passava na terra.<\/p>\n<p>Para qualquer na\u00e7\u00e3o que volvamos os nossos olhos, vemos, sob<br \/>\na aparente tranquilidade, fazer-se uma muda transforma\u00e7\u00e3o interior.<\/p>\n<p>\u00c9 este realmente o momento em que se preparam os factos que deram<br \/>\n\u00e0 hist\u00f3ria do s\u00e9culo XIX o seu car\u00e1cter grandioso.<\/p>\n<p>Ali vemos, no pequeno Estado da Pr\u00fassia, um militar com cara de freire<br \/>\nvelho, sob um capacete de forma b\u00e1rbara, preparar ocultamente, por<br \/>\ndesconhecidos processos cient\u00edficos, a destrui\u00e7\u00e3o infal\u00edvel<br \/>\ndos antigos ex\u00e9rcitos, comandados pelos m\u00e9todos antigos da inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da bravura; e ao lado, um grosso diplomata de cacha\u00e7o de touro, t\u00e3o<br \/>\nseguro de si como se tivesse na m\u00e3o o dado de ferro do destino, tramando<br \/>\napoderar-se da Europa Central, dilatando o pequeno Estado do Brandeburgo at\u00e9<br \/>\n\u00e0s propor\u00e7\u00f5es de um Imp\u00e9rio Germ\u00e2nico, e<br \/>\nsoprando um esguio Hohenzollern devoto, at\u00e9 lhe dar a corpul\u00eancia<br \/>\nher\u00f3ica de um C\u00e9sar g\u00f3tico.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, vemos a sinistra matilha republicana e mazinista, a que<br \/>\nse aliou, ai! uma dinastia gloriosa alucinada de ambi\u00e7\u00e3o, arremessar-se,<br \/>\naos clamores fanfarr\u00f5es de um Garibaldi, contra o trono de S. Pedro<br \/>\nonde um velho sublime ora imperturbavelmente, e aos que lhe arrancam a posse<br \/>\nde algumas l\u00e9guas de terra, responde pela voz de um conc\u00edlio,<br \/>\napoderandose do dom\u00ednio ilimitado da alma universal.<\/p>\n<p>Na Espanha, vemos generais despeitados e insensatos, s\u00f4fregos de honras,<br \/>\ntramar contra o princ\u00edpio de que emanam e o trono que lhes d\u00e1<br \/>\nsignifica\u00e7\u00e3o; e decerto veremos mais tarde as paix\u00f5es<br \/>\nplebeias, soltas por eles do garrote providencial que as mantinha, precipitarem-se<br \/>\natrav\u00e9s da na\u00e7\u00e3o espanhola, destruindo tudo sem discernimento,<br \/>\ncomo touros devastadores \u00e0 solta numa horta bem plantada.<\/p>\n<p>Olhemos para a Inglaterra, esse disforme imp\u00e9rio artificial, maior<br \/>\nque nenhum imp\u00e9rio cl\u00e1ssico, feito de continentes distantes<br \/>\nligados entre si por fios telegr\u00e1ficos que pousam no fundo dos mares.<br \/>\nEssa imensa mole mal equilibrada amea\u00e7a a cada momento dessoldar-se,<br \/>\naqui e al\u00e9m, na \u00cdndia, na \u00c1frica, na Oce\u00e2nia; uma<br \/>\noligarquia, mais orgu-lhosa do seu dom\u00ednio universal que o patriciato<br \/>\nromano, mal a pode manter unida pelo ferro e pelo ouro; e no entanto a revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial, com um movimento preciso, compassado, geom\u00e9trico, autom\u00e1tico,<br \/>\nvai preparando o fim dessa oligarquia obsoleta e a dissolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo imenso Imp\u00e9rio balofo.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia autocr\u00e1tica, a s\u00f3 vontade de um homem, do<br \/>\nHomem, do Czar, realiza com uma palavra o que a Am\u00e9rica do Norte s\u00f3<br \/>\npode conseguir dispendendo milhares de milh\u00f5es e regando o solo de<br \/>\nsangue: na R\u00fassia e na Am\u00e9rica os escravos s\u00e3o livres.<br \/>\nNo imp\u00e9rio, uma assinatura consegue o que na rep\u00fablica s\u00f3<br \/>\npode alcan\u00e7ar-se com uma guerra civil profunda li\u00e7\u00e3o<br \/>\nque nos d\u00e1 o poder social concentrado nas m\u00e3os de um eleito.<\/p>\n<p>Voltemos, enfim, os olhos para a Fran\u00e7a a Mater-G\u00e1lia: nunca<br \/>\nmais alta a vimos, gloriosa e firme resplandecendo sob os Napole\u00f5es.<br \/>\nNunca a sua homogeneidade pareceu mais s\u00f3lida e o seu messianismo mais<br \/>\npenetrante. Paris reedificado, arejado, verdejante, rectil\u00edneo, resplandece.<br \/>\nAs suas modas s\u00e3o por um momento dogmas, como as suas filosofias: dela<br \/>\no mundo recebe com devo\u00e7\u00e3o a Crinoline e o Positivismo. A tra-di\u00e7\u00e3o<br \/>\ngalante das classes fidalgas permanece t\u00e3o inalter\u00e1vel, que<br \/>\num descendente dos La Tr\u00e9mouille, que tinham preced\u00eancia sobre<br \/>\no Rei, paga por 25000 cruzados as botinas de cetim com que M.lle Cora Pearl<br \/>\nse estreia no teatro.<\/p>\n<p>O formoso desd\u00e9m gaul\u00eas que inspirava calembours aos que subiam<br \/>\n\u00e0 guilhotina, conserva-se t\u00e3o brilhante que, na suave praia<br \/>\nde Biarritz, coron\u00e9is elegantes, ouvindo o Sr. de Bismark desenvolver<br \/>\nos seus planos, murmuram com gra\u00e7a: \u00abQue idiota!\u00bb A salutar<br \/>\ninflu\u00eancia religiosa penetra por tal forma a vida social, que, mesmo<br \/>\nnas figuras de cotillon, as marcas mais delicadas representam mitrazinhas<br \/>\nepiscopais e pequenos b\u00e1culos de chocolate.<\/p>\n<p>A galantaria francesa est\u00e1 t\u00e3o rediviva, que um letrado da<br \/>\nAcademia n\u00e3o hesita em assinar os seus escritos: Merim\u00e9e, bobo<br \/>\nde S. M. a Imperatriz. O luxo, que promove a prosperidade industrial, \u00e9<br \/>\nt\u00e3o refinado, que custam contos de r\u00e9is as robes de chambre<br \/>\ndo Sr. Duque de Morny e a d\u00edvida de uma virtuosa dama, \u00e0 sua<br \/>\ncostureira de roupa branca, ultrapassa a soma fabulosa de noventa e seis mil<br \/>\ncruzados! Formoso espect\u00e1culo de um pa\u00eds pr\u00f3spero! direis.<br \/>\nAi! Ai de n\u00f3s! Nesta formosa harmonia se percebem sintomas sinistros:<br \/>\nj\u00e1 o imortal Cousin jaz no seu leito de dor, com a sua doen\u00e7a<br \/>\nde f\u00edgado; j\u00e1 um Thiers ousa condenar a soberba expedi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo M\u00e9xico; j\u00e1 o esp\u00edrito frondista das salas aplaude<br \/>\nos epigramas de um Pr\u00e9vost-Paradol e os boulevards riem quando um garoto,<br \/>\nRocheforte, injuria a cuia de S. M. a Imperatriz; e, suprema dor, j\u00e1<br \/>\nC\u00e9sar, devorado pela doen\u00e7a pertinaz, passa os seus dias em<br \/>\nbanhos de sal, a p\u00e1lpebra m\u00f3rbida, o pulso, que um dia salvara<br \/>\na ordem e a sociedade, abandonado entre os dedos do especialista Ricord. E<br \/>\nno entanto, de um rochedo do mar da Mancha, um personagem lend\u00e1rio,<br \/>\num S. Paulo rom\u00e2ntico da Santa Democracia, t\u00e3o extraordin\u00e1rio<br \/>\nde g\u00e9nio e t\u00e3o alucinado de orgulho que se confunde a si mesmo<br \/>\ncom Deus e se cr\u00ea no segredo da Natureza, escreve Os Miser\u00e1veis,<br \/>\nAs Contempla\u00e7\u00f5es, A Lenda dos S\u00e9culos, e profetisa, em<br \/>\natitudes teatrais, a monstruosa desforra da plebe e uma vaga fraternidade<br \/>\ndos homens reconciliados.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a Europa enquanto o nosso Al\u00edpio murmura ao ouvido de<br \/>\nVirg\u00ednia aquelas palavras eternas que h\u00e1 tr\u00eas mil anos<br \/>\nsaem dos l\u00e1bios dos amantes.<\/p>\n<p>E agora volvamos os olhos para Portugal. Em Portugal, nessa \u00e9poca,<br \/>\nn\u00e3o vejo que se passe coisa alguma, a n\u00e3o ser que o Minist\u00e9rio<br \/>\nCardoso Torres acaba de declarar que o seu programa ser\u00e1: Ordem, Moralidade<br \/>\ne Economia.<\/p>\n<p>\u00c9 pois nesta serena e calma unidade nacional que Al\u00edpio Abranhos<br \/>\naparece e entra a passos largos nos umbrais da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A maneira como Al\u00edpio Abranhos foi eleito deputado, parece inteiramente<br \/>\nprovidencial. O minist\u00e9rio Cardoso Torres tinha, como \u00e9 sabido<br \/>\ndos que conhecem a hist\u00f3ria pol\u00edtica dessa \u00e9poca, dissolvido<br \/>\nas c\u00e2maras. O minist\u00e9rio antecedente, denominado Minist\u00e9rio<br \/>\nBexigoso (de cinco ministros, coincid\u00eancia singular, tr\u00eas eram<br \/>\npicados das bexigas) n\u00e3o ca\u00edra segundo os m\u00e9todos parlamentares:<br \/>\nalu\u00edra, sumira-se. Em plena maioria, sem raz\u00e3o, sem discuss\u00e3o,<br \/>\nde repente, desaparecera caso singular, depois, muitas vezes repetido, e compar\u00e1vel<br \/>\n\u00e0 conhecida cat\u00e1strofe da corveta Sarago\u00e7a. A Sarago\u00e7a,<br \/>\nnum dia delicioso de Junho, num mar t\u00e3o calmo como uma larga ta\u00e7a<br \/>\nde leite, sem borrasca, sem vento, caiu no fundo do mar. O casco, parece,<br \/>\nestava t\u00e3o podre que se dissolveu como a\u00e7\u00facar numa x\u00edcara<br \/>\nde ch\u00e1. Um indiv\u00edduo que.46 estava na esplanada vendo-a dar<br \/>\numa curva magn\u00edfica sob um sol resplandecente, abaixara-se para apertar<br \/>\num atilho do sapato, e, ao erguer-se, n\u00e3o viu mais a corveta: sondou<br \/>\nansiosamente com o \u00f3culo o horizonte azul-ferrete; olhou aflito em<br \/>\nredor, pela praia; mesmo, num gesto grotesco mas muito naturalmente instintivo,<br \/>\napalpou sofregamente as algibeiras: nada! O mar brilhava sereno, azul, im\u00f3vel,<br \/>\ncoberto de sol.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio Bexigoso acabou como a corveta Sarago\u00e7a. O novo<br \/>\nminist\u00e9rio foi portanto tirado do mesmo grupo da maioria e, consequentemente,<br \/>\ndissolveu as c\u00e2maras, precau\u00e7\u00e3o exagerada, porque os chefes<br \/>\nda maioria afirmavam ao ilustre Dr. Cardoso que dariam ao novo governo se<br \/>\nele, como o governo anterior, fosse pela Ordem, pela Moralidade e pela Economia<br \/>\num apoio eficaz e homog\u00e9neo.<\/p>\n<p>Raz\u00f5es facilmente compreens\u00edveis determinaram o Dr. Cardoso<br \/>\nTorres a persistir na dissolu\u00e7\u00e3o tanto mais quanto no primeiro<br \/>\nConselho de Ministros, o Dr. Cardoso e os seus colegas, conferindo a lista<br \/>\nde parentes, amigos e notabilidades que desejavam fazer entrar na C\u00e2mara,<br \/>\nreconheceram que necessitavam de vinte e tr\u00eas c\u00edrculos, e que<br \/>\nhavia apenas, presentemente, quatro vagaturas. E como, al\u00e9m disso,<br \/>\nesses vinte e tr\u00eas indiv\u00edduos eram geralmente homens de ilustra\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde respeitabilidade, de boas letras e de fortuna, a dissolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nera justa.<\/p>\n<p>S. M. concedeu-a o que produziu aquele artigo c\u00e9lebre do Estandarte,<br \/>\njornal do Governo dos Bexigosos, que amea\u00e7ava S. M. com a sorte de<br \/>\nLu\u00eds XVI ou de Carlos I exactamente oito dias depois do artigo em que<br \/>\no mesmo jornal comparava S. M., pelas virtudes, a Tito, pela justi\u00e7a,<br \/>\na S. Lu\u00eds, e pelo respeito da Constitui\u00e7\u00e3o, \u00e0<br \/>\nRainha Vit\u00f3ria! A resposta do Globo, jornal do Dr. Cardoso Torres,<br \/>\nfoi en\u00e9rgica: dizia que s\u00f3 se podia responder com um chicote<br \/>\na um jornalista que amea\u00e7ava com o cadafalso S. M., que, pelas virtudes,<br \/>\nestava muito acima de S. Lu\u00eds, e, pelo respeito da Constitui\u00e7\u00e3o,<br \/>\nera incomparavelmente superior a Sua Graciosa Majestade a Rainha Vit\u00f3ria<br \/>\neloquente artigo, e que apareceu exactamente quinze dias depois de outro,<br \/>\nviolento, em que, ent\u00e3o na oposi\u00e7\u00e3o, o redactor do Globo,<br \/>\ninspirado pelo Dr. Cardoso, dava claramente a entender que o fim prov\u00e1vel<br \/>\nde S. M. seria a guilhotina de Lu\u00eds XVI, ou pelo menos o cadafalso<br \/>\nde Carlos I! Pondo em relevo estes factos, eu n\u00e3o quero por forma alguma<br \/>\ninsinuar que haja na imprensa pol\u00edtica falta de sinceridade, de l\u00f3gica<br \/>\nou de dignidade. Quero apenas fazer sentir a perniciosa influ\u00eancia da<br \/>\nambi\u00e7\u00e3o e da paix\u00e3o em esp\u00edritos cultos. Creio,<br \/>\npor\u00e9m, que S. M., ao ver-se alternadamente destinado, pelo mesmo jornal,<br \/>\nao cadafalso de Lu\u00eds XVI ou \u00e0 canoniza\u00e7\u00e3o de S.<br \/>\nLu\u00eds, decerto n\u00e3o experimentaria nem terror, nem vaidade, pois<br \/>\nque nenhuma destas amea\u00e7as representavam o desejo \u00edntimo do<br \/>\njornalista, mas eram apenas a explos\u00e3o de uma c\u00f3lera biliosa<br \/>\nou de um reconhecimento enternecido, e, muitas vezes mesmo, uma manobra \u00fatil<br \/>\nna t\u00e1ctica da vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Um dos c\u00edrculos menos disputados era, nessa ocasi\u00e3o, o de<br \/>\nFreixo de Espada \u00e0 Cinta.<\/p>\n<p>Propunha-se como deputado da oposi\u00e7\u00e3o um obscuro Gerv\u00e1sio<br \/>\nMaldonado, propriet\u00e1rio local, com uma parentela larga na terra, interesses<br \/>\nde lavoura, etc., e o governo Cardoso Torres combatia-o, apresentando na lista<br \/>\ngovernamental, como candidato por Freixo de Espada \u00e0 Cinta, o mo\u00e7o<br \/>\nbacharel Artur Gavi\u00e3o, filho do presidente do Banco Nacional, que o<br \/>\npai, cansado da sua dissipa\u00e7\u00e3o, queria for\u00e7ar, pelos<br \/>\ndeveres que lhe imporia S. Bento isto \u00e9 o Parlamento a uma vida disciplinada,<br \/>\ns\u00f3bria e \u00fatil.<\/p>\n<p>Conta-se que o Sr. Alexandre Herculano, a este respeito, dissera, com aquele<br \/>\nesp\u00edrito misantropo que a sua voz r\u00edspida acentuava de um relevo<br \/>\namargo: Se o Gavi\u00e3o queria morigerar o rapaz, devia-o conservar no<br \/>\nbordel, e n\u00e3o o mandar para o Parlamento! Mas o que eu penso do Sr.<br \/>\nAlexandre Herculano, dos seus ditos, da sua.47 misantropia, da sua moral e<br \/>\ndas suas letras, escrev\u00ea-lo-ei um dia, desassombradamente.<\/p>\n<p>O Sr. Artur Gavi\u00e3o (que t\u00e3o desgra\u00e7adamente morreu<br \/>\ndepois afogado ao p\u00e9 de Caxias), era pois o candidato governamental<br \/>\npor Freixo de Espada \u00e0 Cinta, quando Joaquim Os\u00f3rio Teixeira,<br \/>\nministro da Justi\u00e7a, declarou, com decis\u00e3o, que era sim-plesmente<br \/>\numa afronta ao Bom-Senso, \u00e0 C\u00e2mara e \u00e0 Dignidade do Governo,<br \/>\nnomear por Freixo de Espada \u00e0 Cinta um indiv\u00edduo que, \u00e0s<br \/>\nquatro horas da tarde, descia o Chiado, numa tip\u00f3ia, com meretrizes<br \/>\nandaluzas, inteiramente embriagado.<\/p>\n<p>Gavi\u00e3o pai, mais tarde, afirmava que esta oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo ministro da Justi\u00e7a n\u00e3o era inspirada por puros motivos de<br \/>\nmoralidade p\u00fablica, mas constitu\u00eda a vingan\u00e7a pessoal<br \/>\nde uma antiga humilha\u00e7\u00e3o, caso complicado de letras a tr\u00eas<br \/>\nmeses, etc., etc&#8230; como ele acrescentava com uma retic\u00eancia maligna.<\/p>\n<p>O Presidente do Conselho, por\u00e9m, amigo do Gavi\u00e3o, e desejando<br \/>\nconservar ao Governo aquele s\u00f3lido apoio do Capital e da Propriedade,<br \/>\ninsistia na candidatura do libertino Artur.<\/p>\n<p>Um dia, contudo, Joaquim Os\u00f3rio Teixeira declarou que faria dessa<br \/>\ncandidatura uma quest\u00e3o pessoal, que ele n\u00e3o podia autorizar<br \/>\no patrocinato legal do deboche, e que, se o Colega Cardoso insistisse, ele,<br \/>\nJoaquim Teixeira, trotaria para Sintra a p\u00f4r a sua demiss\u00e3o nas<br \/>\nm\u00e3os de S. M.<\/p>\n<p>Cardoso, receando o conflito, riscou sem mais observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nda lista governamental o nome do jovial libertino.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, por\u00e9m, em casa, ao ch\u00e1, exprimiu com azedume<br \/>\no seu embara\u00e7o: n\u00e3o s\u00f3 descontentava o Gavi\u00e3o<br \/>\npai um colosso mas a\u00ed ficava o c\u00edrculo de Freixo de Espada \u00e0<br \/>\nCinta vazio, vi\u00favo&#8230;<\/p>\n<p>Homem acudiu imediatamente o Dr. Vaz Correia, velho amigo da casa parece-me<br \/>\nque tenho exactamente o que lhe conv\u00e9m: o Al\u00edpio Abranhos! Cardoso<br \/>\nTorres n\u00e3o o conhecia pessoalmente. Vaz Correia, por\u00e9m demonstrou-lhe<br \/>\ncom abund\u00e2ncia eloquente as vantagens da escolha: como fam\u00edlia,<br \/>\nAl\u00edpio era um Noronha; como ilustra\u00e7\u00e3o, um premiado;<br \/>\ncomo posi\u00e7\u00e3o de fortuna, era genro do Amado; como experi\u00eancia<br \/>\npol\u00edtica, fora redactor da Bandeira, formado na prudente escola do<br \/>\ntaciturno e profundo Conselheiro Gama Torres; como maneiras um fidalgo; como<br \/>\nlealdade um Baiardo! E Cardoso, apontando-lhe imediatamente no livro de notas<br \/>\nque trazia sempre consigo, o nome, a idade, a morada e os pr\u00e9mios,<br \/>\nretomou a sua x\u00edcara de ch\u00e1, dizendo: Pois mande-mo c\u00e1.<br \/>\nMetemo-lo por Freixo! As elei\u00e7\u00f5es realizaram-se da\u00ed a<br \/>\ntr\u00eas semanas e o minist\u00e9rio teve uma maioria compacta, s\u00f3lida,<br \/>\nhomog\u00e9nea.<\/p>\n<p>Os jornais da oposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 certo, afirmaram que, como<br \/>\ncorrup\u00e7\u00e3o, tricas, viol\u00eancias, peitas, influ\u00eancias<br \/>\nobscenas, n\u00e3o s\u00f3 continuavam a tradi\u00e7\u00e3o obsoleta<br \/>\ndos Cabrais, mas ofereciam a evid\u00eancia dolorosa da nossa decad\u00eancia<br \/>\nsocial! O Estandarte dizia: \u00abE imenso como torpeza; mas n\u00f3s aplaudimos,<br \/>\nporque um minist\u00e9rio que assim procede, inspira, ipso facto, um nojo<br \/>\ngen\u00e9rico. Este governo n\u00e3o h\u00e1-de cair porque n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 um edif\u00edcio. Tem que sair com benzina, porque \u00e9 uma<br \/>\nn\u00f3doa!\u00bb O Progresso Social afirmava: \u00absomos o esc\u00e1rnio<br \/>\nda Europa!\u00bb A Nacionalidade informava com chiste: \u00abEst\u00e1<br \/>\naveriguado que a maior parte das urnas tinham fundos falsos: nada admira o<br \/>\nexpediente, vindo de um minist\u00e9rio de pelotiqueiros\u00bb aludindo<br \/>\nmaliciosamente ao ministro das Obras P\u00fablicas, cuja per\u00edcia<br \/>\nem fazer habilidades com cartas era geralmente estimada e muito apreciada<br \/>\nna socie-dade.<\/p>\n<p>Mas o Globo, jornal do Governo, teve esta sa\u00edda resplandecente: \u00abO<br \/>\nEstandarte,.48 jornal dos Bexigosos, escreve no seu artigo de ontem: \u00abO<br \/>\ngoverno n\u00e3o h\u00e1-de cair porque n\u00e3o \u00e9 um edif\u00edcio.<br \/>\nTem que sair com benzina porque \u00e9 uma n\u00f3doa!\u00bb Este plagiato<br \/>\n\u00e9 torpe: aquela frase foi escrita por n\u00f3s, ipsis verbis, no<br \/>\nn\u00ba 1214 deste jornal, na ocasi\u00e3o em que os Bexigosos elegeram<br \/>\na c\u00e2mara passada\u00bb.<\/p>\n<p>Ambos os partidos se consideravam reciprocamente uma n\u00f3doa e se queriam<br \/>\nsuprimir com benzina! Ah, quando se compenetrar\u00e1 a Imprensa da eleva\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu sacerd\u00f3cio? A \u00fanica elei\u00e7\u00e3o que nunca foi<br \/>\nvituperada nos jornais da oposi\u00e7\u00e3o foi a de Freixo. Com efeito<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos, logo que soube da sua nomea\u00e7\u00e3o, prevendo<br \/>\nos uivos da minoria, correu as redac\u00e7\u00f5es, onde, do tempo da<br \/>\nsua colabora\u00e7\u00e3o na Bandeira, conservara liga\u00e7\u00f5es<br \/>\nafectuosas, e foi dizendo, aqui e al\u00e9m, com uma not\u00e1vel habilidade<br \/>\npol\u00edtica: Voc\u00eas compreendem. Eu venho por Freixo. Venho pelo<br \/>\nGoverno&#8230; Mas eu n\u00e3o me liguei, n\u00e3o me comprometi. Estou na<br \/>\nexpectativa. Voc\u00eas compreendem&#8230;<\/p>\n<p>Compreenderam, creio e a Nacionalidade escreveu mesmo: \u00abo melhor resultado<br \/>\ndestas elei\u00e7\u00f5es, foi mandar \u00e0 C\u00e2mara o nosso antigo<br \/>\ncondisc\u00edpulo, o Ex.mo Al\u00edpio Abranhos, esposo da formosa filha<br \/>\ndo digno Desembargador Amado, e que j\u00e1 nos bancos da Universidade era<br \/>\njustamente reputado pelos seus dotes not\u00e1veis de orador\u00bb.<\/p>\n<p>Eu conservo religiosamente a carta que Al\u00edpio Abranhos escreveu ao<br \/>\nDr. Cardoso Torres, agradecendo a sua elei\u00e7\u00e3o. Considero-a sinceramente<br \/>\num modelo epistolar; ela pode realmente sofrer compara\u00e7\u00e3o com<br \/>\ntodas as cartas hist\u00f3ricas sem exceptuar a c\u00e9lebre carta do<br \/>\nDr. Samuel Johnson ao Conde de Chesterfield. Eis esse not\u00e1vel monu-mento<br \/>\nde estilo: Ex.mo Sr.<\/p>\n<p>Vindo expressar a V. Ex\u00aa o meu reconhecimento imorredouro pela maneira<br \/>\nespont\u00e2nea como V. Ex\u00aa me abriu de par em par as portas da vida<br \/>\np\u00fablica, eu n\u00e3o julgo necess\u00e1rio produzir bem alto a<br \/>\nafirma\u00e7\u00e3o da minha profunda ades\u00e3o ao Governo. O minist\u00e9rio<br \/>\na que V. Ex.0 preside representa o que h\u00e1 de mais elevado como intelig\u00eancia,<br \/>\nde mais completo como ci\u00eancia de administra\u00e7\u00e3o, de mais<br \/>\nestrito como moral, e de mais genu\u00edno como elemento conservador. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 quase m\u00e9rito em que um homem que s\u00f3 deseja para o<br \/>\nseu pais instru\u00e7\u00e3o, administra\u00e7\u00e3o proba, moral<br \/>\ne ordem d\u00ea o seu apoio incondicional e absoluto a quem t\u00e3o alto<br \/>\ngarante a prosperidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Quero contudo expressar a V. Ex.0 a minha dedica\u00e7\u00e3o particular<br \/>\npara com a pessoa de V. Ex\u00aa e rogar-lhe que me d\u00ea o mais depressa<br \/>\nposs\u00edvel ocasi\u00e3o de publicamente lha patentear n\u00e3o porque<br \/>\nme pese esta honrosa d\u00edvida de gratid\u00e3o, mas porque me consumo<br \/>\nno desejo de dar publicamente um testemunho da minha admira\u00e7\u00e3o<br \/>\npelas altas qualidades pol\u00edticas e individuais de V. Ex\u00aa.<\/p>\n<p>De V. Ex\u00aa, etc.<\/p>\n<p>AL\u00cdPIO ABRANHOS.<\/p>\n<p>Esta carta deu ocasi\u00e3o a que se estabelecesse nas regi\u00f5es<br \/>\npol\u00edticas um \u00fatil e nobre princ\u00edpio, que muito tem concorrido<br \/>\npara manter perante o pa\u00eds o prest\u00edgio dos homens p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Quando, tr\u00eas meses depois de a ter escrito, Al\u00edpio Abranhos<br \/>\npassou para os bancos da oposi\u00e7\u00e3o e pronunciou aquele not\u00e1vel<br \/>\ndiscurso em que provou claramente ao pa\u00eds que o Governo Cardoso Torres<br \/>\nn\u00e3o possu\u00eda nem intelig\u00eancia, nem ci\u00eancia, nem.49<br \/>\nordem, nem economia, nem moralidade, Cardoso Torres, num conden\u00e1vel<br \/>\nimpulso de vingan\u00e7a mesquinha, quis tornar p\u00fablica a carta que<br \/>\neu respeitosamente citei.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia decerto nada de desagrad\u00e1vel para Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos na publica\u00e7\u00e3o dessa eloquente p\u00e1gina de prosa,<br \/>\nmas tal publicidade, autorizada por tal individualidade, equivalia a desconhecer<br \/>\no salutar princ\u00edpio do segredo da correspond\u00eancia privada, em<br \/>\nmat\u00e9ria pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Por isso, em defesa do princ\u00edpio, Al\u00edpio Abranhos intimou<br \/>\nCardoso Torres a que n\u00e3o publicasse a sua carta.<\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es foram longas e muito delicadas. Mas em presen\u00e7a<br \/>\nda opini\u00e3o de v\u00e1rios membros do Governo, de numerosos membros<br \/>\nda maioria, de jornalistas e notabilidades de todos os credos pol\u00edticos,<br \/>\nficou estabelecido que uma carta particular n\u00e3o sofria publica\u00e7\u00e3o;<br \/>\nque tal regra, a desprezar-se, estabeleceria um pernicioso sistema de vingan\u00e7as<br \/>\ne de repres\u00e1lias; que, nesse caso, muitas cartas, que por motivos \u00f3bvios<br \/>\nconvinha guardar nas secretarias, apareceriam a p\u00fablico; e finalmente<br \/>\nque era do interesse de todos os partidos e indispens\u00e1vel \u00e0<br \/>\nsua considera\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que nunca vissem a luz da publicidade<br \/>\ndocumentos privados, isto em obedi\u00eancia \u00e0quela s\u00e1bia regra<br \/>\npol\u00edtica, t\u00e3o pitorescamente formulada por Napole\u00e3o I:<br \/>\n\u00ab\u00e9 necess\u00e1rio que a roupa suja seja sempre lavada em fam\u00edlia!\u00bb<br \/>\nTemos pois Al\u00edpio Abranhos deputado por Freixo de Espada \u00e0 Cinta.<br \/>\nA sua surpresa, ao ver-se subitamente e inesperadamente instalado numa cadeira<br \/>\nem S. Bento, foi na realidade deliciosa.<\/p>\n<p>Decerto, contava entrar um dia na vida p\u00fablica, onde logicamente<br \/>\no chamavam o seu talento e os seus estudos, mas n\u00e3o esperava que fosse<br \/>\nt\u00e3o cedo, apenas chegado da quinta de Campolide e das pieguices da<br \/>\nlua de mel. Podia pois dizer com orgulho que n\u00e3o fora a intriga, a<br \/>\ncorrup\u00e7\u00e3o, a press\u00e3o que lhe davam a posse daquele c\u00edrculo,<br \/>\nque se tinha aberto de par em par ao seu talento dominador. Ele, de facto,<br \/>\nconhecia t\u00e3o pouco Freixo de Espada \u00e0 Cinta, que lhe sucedeu<br \/>\ndizer no agradecimento que dirigiu aos seus eleitores: \u00abUm dia, meus<br \/>\namigos, irei visitar a vossa bela prov\u00edncia do Minho, que eu apenas<br \/>\nconhe\u00e7o incompletamente, e espero ent\u00e3o, \u00f3 freixenses,<br \/>\napertar a vossa m\u00e3o honrada de verdadeiros liberais e de verdadeiros<br \/>\nportugueses!\u00bb Ora \u00e9 bem sabido que Freixo de Espada \u00e0<br \/>\nCinta n\u00e3o \u00e9 no Minho: \u00e9 em Tr\u00e1s-os- Montes.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, este natural equ\u00edvoco de que ele mesmo mais tarde se<br \/>\nria com bonomia \u00e9 a prova mais decisiva de que Al\u00edpio Abranhos<br \/>\nfoi eleito deputado, n\u00e3o por ter \u00abintrigado\u00bb num c\u00edrculo,<br \/>\nmas pela simples evid\u00eancia do seu formoso talento.<\/p>\n<p>De resto, apenas abertas as C\u00e2maras, tendo-se informado com cuidado<br \/>\ndos nomes das pessoas influentes de Freixo de Espada \u00e0 Cinta, a todas<br \/>\nescreveu, oferecendo a sua influ\u00eancia, os servi\u00e7os da sua eloqu\u00eancia<br \/>\ne a sua casa.<\/p>\n<p>E foi infatig\u00e1vel: cartas de empenho, recomenda\u00e7\u00f5es<br \/>\npara examinadores, Cruzes de Cristo, empregos subalternos, licen\u00e7as<br \/>\npara visitar Monserrate, tudo deu prodigamente, espontaneamente aos freixenses.<br \/>\nNenhuma solicita\u00e7\u00e3o vinda de Freixo era descuidada.<\/p>\n<p>Mesmo um jovem poeta, filho de um influente, que viera implorar a sua protec\u00e7\u00e3o<br \/>\nteve o orgulho de ver o seu drama Vingan\u00e7a de um Rival representado<br \/>\nem D. Maria, ainda que sofreu no fim o desgosto de uma pateada memor\u00e1vel.<br \/>\nAl\u00edpio, por\u00e9m, consolou-o, empregandoo imediatamente na reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas Contribui\u00e7\u00f5es indirectas.<\/p>\n<p>No primeiro ano em que eu exerci as fun\u00e7\u00f5es de seu secret\u00e1rio<br \/>\nparticular, muitas vezes notei, \u00e0 mesa, ou \u00e0 noite na sala,<br \/>\nindiv\u00edduos silenciosos que se sentavam com timidez na borda das cadeiras,<br \/>\nse levantavam sempre que o Conde lhes passava rente, e tinham nas fisionomias<br \/>\ne nos fraques o quer que fosse de ins\u00f3lito: eram freixenses que vinham<br \/>\n\u00e0 Capital e ali encontravam uma hospitalidade ben\u00e9vola, e que,<br \/>\nde volta \u00e0 sua.montanha, celebravam o poder do deputado e a sua grande<br \/>\nafabilidade. Naturalmente, logo que o Conde foi nomeado Par do Reino, esta<br \/>\nbenevol\u00eancia sistem\u00e1tica findou, e ele, segundo a sua engra\u00e7ada<br \/>\nexpress\u00e3o, \u00ablivrou-se para sempre daquela horda de carrapatos!\u00bb<br \/>\nComo j\u00e1 disse, a sua nomea\u00e7\u00e3o causou a Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos uma viva alegria. Mais tarde, a Condessa contou-me que, poucos dias<br \/>\ndepois da elei\u00e7\u00e3o, o surpreendera, uma manh\u00e3, diante<br \/>\ndo espelho, vestido com a sua farda nova de deputado e exclamando: Pe\u00e7o<br \/>\na palavra, Sr. Presidente! Ordem! Ordem! Apoiado! N\u00e3o seremos n\u00f3s<br \/>\nque desertaremos a bandeira do progresso! A Sr\u00aa Condessa, na sua simplicidade<br \/>\nde mulher, ria deste incidente. Mas a mim comoveu-me e fez-me pensar em Dem\u00f3stenes,<br \/>\nensaiando, junto do mar, as suas ap\u00f3strofes sublimes aos tiranos.<\/p>\n<p>Toda a fam\u00edlia, de resto, gozava prodigiosamente este triunfo inesperado.<br \/>\nSua tia mesmo escreveu-lhe uma longa carta que tenho diante de mim em que<br \/>\na sua ternura divagava nos ziguezagues, da grossa letra de ganchos. Pedia-lhe<br \/>\nque nunca se esquecesse de que a ela devia \u00aba grande posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque tinha\u00bb e prometia visit\u00e1-lo com seu marido, \u00abn\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 para ver as belezas da Capital, mas para te admirar agora que est\u00e1s<br \/>\nno poleiro!\u00bb At\u00e9 D. Laura, t\u00e3o desinteressada das coisas<br \/>\nda terra, lia o extracto das sess\u00f5es nos jornais, gozando de ver impresso<br \/>\no nome do genro, e o padre Augusto, apesar da sua habitual pacatez, ia agora<br \/>\ntodas as noites ao Martinho, para surpreender, no brouha-ha das conversas,<br \/>\nos elogios dados a Al\u00edpio Abranhos. D. Virg\u00ednia, essa frequentava<br \/>\nassiduamente a galeria da C\u00e2mara, at\u00e9 ao dia em que o estado<br \/>\nadiantado da sua gravidez n\u00e3o lhe permitiu, como ela dizia, \u00abmostrar-se<br \/>\ndecentemente em p\u00fablico\u00bb.<\/p>\n<p>Contudo, Al\u00edpio conservava na C\u00e2mara um sil\u00eancio discreto.<br \/>\nEu poderia dizer, parafraseando um dito hist\u00f3rico, que n\u00e3o estava<br \/>\nembatucado, mas sim concentrado. No entanto, preparavase: ia-se penetrando<br \/>\ndos h\u00e1bitos parlamentares, estudava o regulamento, o mecanismo legislativo,<br \/>\nas tricas; por assim dizer, agu\u00e7ava devagar e com prud\u00eancia as<br \/>\nfinas l\u00e2minas do esp\u00edrito loquaz. Formava ent\u00e3o a sua<br \/>\nbiblioteca de homem de Estado: munira-se dos discursos de Mirabeau, de Berryer,<br \/>\nde Lamartine, de Guizot; adquiriu o \u00fatil dicion\u00e1rio de conversa\u00e7\u00e3o;<br \/>\nestudou aturadamente as institui\u00e7\u00f5es da B\u00e9lgica; mas,<br \/>\nsobretudo, frequentava, escutava os velhos parlamentares, os venerandos pr\u00e1ticos<br \/>\nda pol\u00edtica constitucional. Como Aquiles, recolhido na sua tenda, Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos forjava as suas armas para a batalha.<\/p>\n<p>A sua estreia, isto \u00e9, a primeira palavra que soltou na C\u00e2mara,<br \/>\nfoi singularmente admirada.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi propriamente um discurso: apenas um. curto aparte. Mas, como<br \/>\nnum gole de \u00e1gua se cont\u00e9m um mundo de organismos, num aparte<br \/>\npode existir toda uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos um exemplo cl\u00e1ssico, desta verdade pol\u00edtica, na sess\u00e3o<br \/>\nda Conven\u00e7\u00e3o que precedeu a queda de Robespierre: o sinistro<br \/>\ne seco ditador, na tribuna, sente de repente a voz perturbarse- lhe, sumir-se-lhe&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 o sangue de Danton que te sufoca! grita-lhe Lemaillet.<\/p>\n<p>O estremecimento, o grito de apoio que corre nas galerias a esta l\u00fagubre<br \/>\nap\u00f3strofe, prova que Robespierre est\u00e1 bem abandonado pela Fran\u00e7a,<br \/>\nque chegou enfim o glorioso Termidor! O aparte do nosso Al\u00edpio n\u00e3o<br \/>\nteve decerto esta \u00eanfase tr\u00e1gica, porque n\u00e3o se tratava,<br \/>\nfelizmente, de abater um tirano. Era simplesmente a discuss\u00e3o da resposta<br \/>\nao discurso da Coroa: falava o obeso Sr. Gomos Barreto, da minoria, afecto<br \/>\naos Bexigosos, que, o rosto incandescente, o punho alto, atacava o minist\u00e9rio<br \/>\nCardoso Torres em per\u00edodos brutais.<\/p>\n<p>Quem sois? Para onde ides? exclamava ele. O que representais v\u00f3s<br \/>\nno pa\u00eds?.Onde est\u00e3o as vossas medidas, os vossos benef\u00edcios?<br \/>\nNingu\u00e9m vos conhece! \u00c9reis uma minoria obscura e intrigante<br \/>\n(ordem! ordem!). Intrigante, Sr. Presidente, uma minoria intrigante e tortuosa!<br \/>\nDe repente, vejo-vos a\u00ed, nessas cadeiras amadas do poder&#8230; Tenho o<br \/>\ndireito de vos perguntar: como vos chamais, que fazeis a\u00ed? Como entrastes<br \/>\nv\u00f3s para aqui? V\u00f3s sois o minist\u00e9rio que entrou para<br \/>\no poder com uma gazua! Mas nesse momento Al\u00edpio ergue-se e brada: E<br \/>\nv\u00f3s sois o minist\u00e9rio que se sumiu daqui por um al\u00e7ap\u00e3o!<br \/>\nEnt\u00e3o, a esta rancorosa alus\u00e3o ao modo como o gabinete dos Bexigosos<br \/>\ntinha desaparecido do poder, \u00e0 maneira da corveta Sarago\u00e7a,<br \/>\numa enorme hilaridade sacode as ilhargas da C\u00e2mara, das galerias, dos<br \/>\nesten\u00f3grafos&#8230; uma hilaridade imensa, como aquela que o velho Homero<br \/>\np\u00f5e na boca dos Deuses e que fazia tremer as colunas de cristal do<br \/>\nOlimpo. Bravos roucos saem impetuosamente das galerias negrejantes de gente.<br \/>\nE o presidente, o honrado Dr. Ant\u00e3o Carneiro, escarlate de jovialidade<br \/>\ncontida, fungando pelo nariz frouxos de riso mal comprimidos, repica furiosamente<br \/>\na campainha&#8230;<\/p>\n<p>S\u00e3o os do al\u00e7ap\u00e3o! S\u00e3o os do al\u00e7ap\u00e3o!<br \/>\nruge com j\u00fabilo a maioria.<\/p>\n<p>As lunetas de Gomes Barreto ca\u00edram; bagas de suor cobrem-lhe a testa<br \/>\ncor de cidra, e, aniquilado, engolindo ainda alguns per\u00edodos confusos,<br \/>\nrola da tribuna com a in\u00e9rcia de uma pedra desequilibrada! Todos os<br \/>\njornais, na manh\u00e3 seguinte, citavam o dito, e Al\u00edpio Abranhos<br \/>\nentrou na popularidade.<\/p>\n<p>Gozou ele este triunfo? N\u00e3o. Muitas vezes mo disse mais tarde: aquele<br \/>\ndito sa\u00edra-lhe da boca inesperadamente, involuntariamente, como um<br \/>\nataque de tosse, como um arroto! N\u00e3o o pudera conter. O que ele estava<br \/>\npreparando, desde o come\u00e7o do discurso de Gomes Barreto, era esta bela<br \/>\nfrase: \u00abN\u00f3s chamamo-nos o Progresso e vamos para a Liberdade!\u00bb<br \/>\nE infelizmente sa\u00edra-lhe este dito, pitoresco sim, mas baixamente popular.<\/p>\n<p>Al\u00edpio Abranhos teve assim o desgosto de passar durante algum tempo<br \/>\npor \u00abum grande<\/p>\n<p>chalaceador\u00bb.<\/p>\n<p>As orelhas abrasaram-se-lhe de vergonha quando, nessa noite, o padre Augusto<br \/>\nlhe veio dizer que no Martinho era voz geral que \u00abpara chala\u00e7a<br \/>\nn\u00e3o havia outro!\u00bb Quisera estrear-se, mostrando a profundeza<br \/>\nde um fil\u00f3sofo, e faziam-lhe a reputa\u00e7\u00e3o de um folhetinista&#8230;<br \/>\nTeve rancor ao seu aparte. Neg\u00e1-lo era imposs\u00edvel: l\u00e1<br \/>\nvinha ao outro dia no Di\u00e1rio das C\u00e2maras, com esta indica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo movimento (imensa hilaridade).<\/p>\n<p>Teve ent\u00e3o de sofrer um mart\u00edrio mudo, grotesco, de receber<br \/>\nparab\u00e9ns por uma fa\u00e7anha que o vexava. O Cardoso Torres dissera-lhe:<br \/>\n\u00c9 disso que se quer! E disso que se quer! Vejo que o amigo<br \/>\n\u00e9 homem de pilh\u00e9ria. E mat\u00e1-los com dichotes &#8230;.<\/p>\n<p>Que agonia! E pior ainda foi quando sua tia lhe escreveu, dizendo que em<br \/>\nAmarante, em casa das Neves e das Cunhas, \u00abse tinha falado muito da<br \/>\npilh\u00e9ria que ele dissera na C\u00e2mara, que fizera rir toda Lisboa\u00bb<br \/>\ne que a opini\u00e3o de todos era que devia ser muito temido, \u00abpor<br \/>\ncausa das chala\u00e7as que soltava\u00bb. Isto era odioso para um esp\u00edrito<br \/>\nelevado como o de Al\u00edpio Abranhos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a sua atitude tornou-se cautelosa. Para destruir aquela falsa,<br \/>\ngrotesca fama de \u00abchalaceador\u00bb, assombreou, sublinhou a sua natural<br \/>\nseriedade. Tornou bem patente que aquele dito era, nos seus h\u00e1bitos<br \/>\nintelectuais, uma extravag\u00e2ncia isolada. Conversava com prud\u00eancia,<br \/>\nevitando tudo o que pudesse ser tomado como \u00abgracejo\u00bb, \u00absa\u00edda\u00bb<br \/>\nou \u00abpilh\u00e9ria\u00bb. A sua atitude na C\u00e2mara era como a<br \/>\nafirma\u00e7\u00e3o exterior da gra-vidade dos seus pensamentos: conservava-se<br \/>\nerecto, com os bra\u00e7os cruzados, a testa franzida, pensativo. E um dia<br \/>\nque Cardoso Torres lhe disse: O amigo recolheu-se ao sil\u00eancio.<br \/>\nAtire-lhes outro epigrama, homem! N\u00e3o os deixe&#8230;<\/p>\n<p>espicace-os! Al\u00edpio respondeu, despeitado: Quando eu combater<br \/>\na oposi\u00e7\u00e3o, Sr. Cardoso Torres, h\u00e1-de ser com a l\u00f3gica<br \/>\nn\u00e3o com a pilh\u00e9ria! Pois sim, mas olhe que o<br \/>\nrid\u00edculo \u00e9 uma grande arma.<\/p>\n<p>N\u00e3o a sei manejar, Sr. Cardoso Torres.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias! &#8230; O amigo tem gra\u00e7a&#8230; E utiliz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Al\u00edpio Abranhos tomou rancor a este cavalheiro, e eu posso mesmo,<br \/>\ncom afoiteza, datar desta entrevista a sua resolu\u00e7\u00e3o de se separar<br \/>\ndo minist\u00e9rio Cardoso Torres.<\/p>\n<p>Entretanto ele compreendia que a maneira eficaz e digna de mostrar \u00e0<br \/>\nC\u00e2mara e ao pa\u00eds a verdadeira fei\u00e7\u00e3o do seu talento<br \/>\ns\u00e9rio, era pronunciar um grande discurso de eloqu\u00eancia grave:<br \/>\npreparou-se ent\u00e3o com fervor para a sua verdadeira estreia.<\/p>\n<p>Os projectos pueris nesse momento em discuss\u00e3o, n\u00e3o lhe davam<br \/>\na oportunidade de fazer uma ora\u00e7\u00e3o elevada. Eram medidas subalternas<br \/>\nestradas, um projecto de caminho de ferro, legisla\u00e7\u00e3o<br \/>\npara as col\u00f3nias uma s\u00e9rie de trabalhos mon\u00f3tonos,<br \/>\nem que se comprazia o esp\u00edrito mesquinhamente pr\u00e1tico de Cardoso<br \/>\nTorres, e que a maioria votava, distra\u00edda, desinteressada, perante<br \/>\nas galerias vazias.<\/p>\n<p>Esperava-se, por\u00e9m, uma Reforma da Instru\u00e7\u00e3o, e Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos decidiu fazer nessa ocasi\u00e3o a sua \u00abestreia de estadista\u00bb.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o deste discurso c\u00e9lebre foi feita no meio<br \/>\nde preocupa\u00e7\u00f5es graves de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Chegava Mar\u00e7o e com ele o nono m\u00eas de gravidez de D. Virg\u00ednia<br \/>\nAbranhos. D. Laura instalarase em casa do genro para se achar mais perto da<br \/>\nfilha no momento do transe. Uma bela mo\u00e7a de Campolide, a futura ama,<br \/>\nj\u00e1 estava em casa, e toda a noite ardiam lamparinas propiciat\u00f3rias<br \/>\njunto de santos especiais.<\/p>\n<p>Entretanto, no seu escrit\u00f3rio, Al\u00edpio Abranhos, cercado de<br \/>\nautores, compunha o seu discurso.<\/p>\n<p>A Condessa, mais tarde, muitas vezes me confessou quanto a afectava, no<br \/>\nmeio dos seus terrores pois estava certa de que morreria ver<br \/>\nde repente, \u00e0s onze horas, \u00e0 meia-noite, o marido entrar-lhe<br \/>\npelo quarto, de chinelos e robe de chambre, o olhar brilhante, e ler-lhe algum<br \/>\nper\u00edodo magn\u00edfico que acabava de produzir. Com a roupa sobre<br \/>\no queixo, a face um pouco inchada, que lhe repuxava a pele em torno dos olhos,<br \/>\nescutava, olhando a sombra grotesca, de grande nariz, que o perfil de Al\u00edpio<br \/>\nprojectava sobre a parede, e aterrava-se pensando que o menino ou<br \/>\na menina pudesse nascer com aquele nariz descomunal, fora de toda<br \/>\na propor\u00e7\u00e3o, de tromba, medonho! Enfim o dia chegou. Nessa manh\u00e3<br \/>\nD. Virg\u00ednia tinha sentido de madrugada algumas dores, e isto causou<br \/>\nentre D. Laura e Al\u00edpio uma pequena alterca\u00e7\u00e3o ao almo\u00e7o.<br \/>\nA velha devota n\u00e3o compreendia que Al\u00edpio Abranhos fosse \u00e0<br \/>\nC\u00e2mara nesse dia, quando sua mulher estava numa crise t\u00e3o grave<br \/>\ne na proximidade de um perigo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas, minha senhora, eu estou inscrito para falar&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 falas nem discursos! O seu dever \u00e9 estar<br \/>\naqui, a animar a pequena&#8230; O seu lugar hoje \u00e9 em casa! Primeiro que<br \/>\ntudo est\u00e3o os deveres que tem para com sua mulher.<\/p>\n<p>Al\u00edpio Abranhos aniquilou-a com esta nobre frase: Se tenho<br \/>\ngrandes deveres para com minha mulher, n\u00e3o os tenho menores para com<br \/>\no meu pa\u00eds.<\/p>\n<p>E para terminar o incidente, acrescentou para o criado: Jos\u00e9,<br \/>\nv\u00e1-me buscar uma tip\u00f3ia. Fechada! Tomara, logo ao erguer-se,<br \/>\nduas gemadas para clarear a voz, fortific\u00e1-la, e queria.53 evitar o<br \/>\nfrio dessa \u00e1spera manh\u00e3 de Mar\u00e7o. O tempo, com efeito,<br \/>\ninquietava-o: havia um sudoeste brusco no ar enevoado, e ele receava que a<br \/>\nchuva afastasse o p\u00fablico da galeria.<\/p>\n<p>Choveu, infelizmente, a torrentes; e Al\u00edpio teve o desgosto de ver,<br \/>\nao chegar a S. Bento, que n\u00e3o s\u00f3 a C\u00e2mara era menos numerosa<br \/>\ndo que habitualmente, mas que os bancos das galerias estavam quase desertos.<\/p>\n<p>Os deputados que tinham vindo a p\u00e9 e traziam as botas encharcadas<br \/>\ne os joelhos h\u00famidos passeavam nos corredores; ruidosamente a chuva<br \/>\nfustigava a clarab\u00f3ia. E Al\u00edpio n\u00e3o p\u00f4de deixar<br \/>\nde pensar com despeito, que havia da parte de Deus uma certa ingratid\u00e3o,<br \/>\nfazendo t\u00e3o chuvosa essa manh\u00e3 memor\u00e1vel, em que ele<br \/>\nvinha \u00e0 C\u00e2mara defender o sagrado princ\u00edpio da educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nreligiosa.<\/p>\n<p>Tem a palavra o Sr. Al\u00edpio Abranhos disse enfim,<br \/>\nna sua voz um pouco fanhosa, o presidente, Dr. Ant\u00e3o Carneiro.<\/p>\n<p>Muitas vezes o Conde me confessou que sentiu nesse momento uma agonia: o<br \/>\nest\u00f4mago contra\u00eda-se-lhe, e receou um momento que uma s\u00fabita<br \/>\ndor de ventre o obrigasse a correr \u00e0 latrina situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmedonha ou que, de repente, se lhe varresse da mem\u00f3ria todo<br \/>\no discurso, que, havia tr\u00eas noites, declamava sucessivamente no sil\u00eancio<br \/>\ndo seu escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Felizmente para o pa\u00eds, nem a mem\u00f3ria nem a entranha o tra\u00edram&#8230;<br \/>\ne Al\u00edpio Abranhos, nessa fria manh\u00e3 de Mar\u00e7o, fez o primeiro<br \/>\ndiscurso da sua fecunda e grandiosa carreira pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Este discurso \u00e9 bem conhecido.2 Alguns dos seus melhores trechos<br \/>\nest\u00e3o transcritos na Selecta para uso dos alunos do 3\u00ba ano de<br \/>\nportugu\u00eas.<\/p>\n<p>O Conde conservou sempre por este primeiro trabalho uma predilec\u00e7\u00e3o<br \/>\nparcial. Ele \u00e9, com efeito, apesar do liberalismo exagerado que o caracteriza<br \/>\ne que mais tarde a experi\u00eancia, o poder, os anos, o conhecimento<br \/>\ndos homens devia t\u00e3o cabalmente diminuir a obra literariamente<br \/>\nmais bem trabalhada do Conde.<\/p>\n<p>Esse exagero liberal, \u00e9, por\u00e9m, facilmente explic\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3, ent\u00e3o, ainda mo\u00e7o, o seu esp\u00edrito,<br \/>\napesar de grave e reflectido, era suscept\u00edvel de um certo entusiasmo,<br \/>\nmas tamb\u00e9m o discurso, composto sob a influ\u00eancia de recentes<br \/>\nleituras de Mirabeau e de Lamartine, tomara naturalmente a ampla ret\u00f3rica<br \/>\nliberal que domina as ora\u00e7\u00f5es desses mestres. Esse excessivo<br \/>\nesp\u00edrito de liberalismo pode-se dizer que \u00e9 puramente reflexivo:<br \/>\nassemelhando-se tanto \u00e0 eloqu\u00eancia desses inspiradores, o discurso<br \/>\nconservou alguma coisa das suas doutrinas. Que \u00e9, por\u00e9m, genuinamente<br \/>\nde Al\u00edpio Abranhos, atestam-no o estilo, o colorido, o per\u00edodo.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o conhece essa formosa imagem sobre o envenenamento das fontes<br \/>\np\u00fablicas, comparado ao envenenamento das nascentes do esp\u00edrito?<br \/>\nQue formoso quadro aquele em que descreve o \u00absombrio vulto de Filipe<br \/>\nII\u00bb no Escorial! Com que vigor pinta a poesia dos tempos cavalheirescos<br \/>\nda Meia Idade! Que p\u00e1gina aquela em que descreve a invas\u00e3o dos<br \/>\nB\u00e1rbaros e \u00abo cavalo de Atua que, onde pousa a pata, faz secar<br \/>\na erva dos prados!\u00bb Que sublime ap\u00f3strofe arremessada a Tib\u00e9rio!<br \/>\nQue tra\u00e7os de um pitoresco hist\u00f3rico nossa imagem sobre o \u00absombrio<br \/>\njesu\u00edta, aqui metendo na m\u00e3o de Ravaillac o punhal regicida,<br \/>\nal\u00e9m aperrando a clavina que h\u00e1-de fazer em estilha\u00e7os<br \/>\nos vidros do coche de D. Jos\u00e9 I, depois vertendo na ta\u00e7a de<br \/>\nvinho de Chipre que o Papa Clemente leva aos l\u00e1bios, o veneno negro<br \/>\ndos B\u00f3rgias!\u00bb Que per\u00edodos repassados de l\u00e1grimas<br \/>\nsobre o cadafalso de Lu\u00eds XVI! Que grandeza \u00e9pica, descrevendo,<br \/>\natrav\u00e9s da Europa \u00abo galope triunfante do cavalo branco de Napole\u00e3o!\u00bb<br \/>\nPoderia dizer-se que tudo isto nem sempre vinha a prop\u00f3sito; poderia<br \/>\ndizer-se mesmo, como o conhecido litigante ao advogado loquaz: \u00abN\u00e3o<br \/>\nse trata de Roma, de Cartago, nem da destrui\u00e7\u00e3o de Babil\u00f3nia:<br \/>\ntrata-se do meu sobrinho. Fale do meu sobrinho!\u00bb Mas a isto deverse-<br \/>\nia responder: \u00abEnt\u00e3o reclamai para sempre a supress\u00e3o<br \/>\nda Poesia, da Eloqu\u00eancia e do G\u00e9nio!\u00bb Cada uma destas grandes<br \/>\nimagens, destinadas a enriquecer o pec\u00falio nacional da orat\u00f3ria<br \/>\ncl\u00e1ssica, era seguida de um estalar entusiasta de \u00abbravos!\u00bb,<br \/>\nde \u00absublimes!\u00bb A voz, muito admirada, tinha uma plenitude met\u00e1lica<br \/>\ne sonora e ia, nas suas ondula\u00e7\u00f5es vibrantes, como ondas triunfantes<br \/>\nque banham os rochedos da praia, bater os renques de peitos dilatados e ext\u00e1ticos.<br \/>\nO gesto foi considerado perfeito, ainda que as frequentes punhadas no rebordo<br \/>\nda tribuna, dando um som oco de pau, pareceram demasiadamente impetuosas.<\/p>\n<p>E Al\u00edpio, que subira \u00e0 tribuna \u00absimples Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos\u00bb era, quando desceu, \u00abo nosso inspirado Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos!\u00bb Muitas vezes este adjectivo, ou outros paralelos<br \/>\n\u00abo nosso espirituoso, o nosso f\u00e9rtil\u00bb s\u00e3o<br \/>\ntodo o proveito de uma vida de labor e de produ\u00e7\u00e3o. Quantos<br \/>\nd\u00e3o tudo o que cont\u00e9m o c\u00e9rebro, at\u00e9 \u00e0<br \/>\n\u00faltima gota, ficando depois, para sempre, com o aspecto grotesco e<br \/>\ntriste de um lim\u00e3o espremido cuja recompensa \u00e9, ao fim<br \/>\nde tanto esfor\u00e7o doloroso, uma sinecurazinha numa reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Estado e um adjectivo adiante do nome! Mas, para Al\u00edpio Abranhos,<br \/>\na recompensa n\u00e3o se limitou a um adjectivo, e esse discurso foi o come\u00e7o<br \/>\nda sua prodigiosa carreira.<\/p>\n<p>Ao entrar em casa, ainda vibrante das emo\u00e7\u00f5es da C\u00e2mara,<br \/>\nesperava-o outra alegria, mais grave, mais \u00edntima: era pai! Era pai<br \/>\ndesde as tr\u00eas horas da tarde! Foi sua sogra que lho veio anunciar ao<br \/>\nalto da escada, num grito: E o senhor at\u00e9 a estas horas por<br \/>\nfora! Est\u00e1 tudo acabado! E um menino! E com a maior felicidade! &#8230;<br \/>\n\u00c9 um menino! O seu vivo retrato! N\u00e3o descreverei a cena tocante<br \/>\ne doce que se passou no quarto da parturiente, porque a ela n\u00e3o assisti.<br \/>\nN\u00e3o quero, como esses bi\u00f3grafos de antigos reis e estadistas,<br \/>\nque descrevem os gestos e as palavras de cenas passadas em outros s\u00e9culos,<br \/>\nintroduzir o elemento imaginativo, o romance, neste trabalho hist\u00f3rico.<br \/>\nMas todos n\u00f3s podemos conceber a emo\u00e7\u00e3o desse pai, sa\u00eddo<br \/>\napenas de um triunfo social para vir gozar inesperadamente um triunfo dom\u00e9stico,<br \/>\nno mesmo dia orador consagrado e pai venturoso.<\/p>\n<p>Dizem-me que Al\u00edpio Abranhos, acabrunhado de uma felicidade muito<br \/>\nforte, se deixou cair numa poltrona com os olhos banhados de l\u00e1grimas,<br \/>\no filho nos bra\u00e7os, envolto nas suas faixas brancas, e murmurou:<br \/>\nIsto \u00e9 um dia hist\u00f3rico&#8230; isto \u00e9 um dia hist\u00f3rico!<br \/>\nPassou-se ent\u00e3o dos dois lados da cama onde D. Virg\u00ednia, branca<br \/>\ncomo as rendas da fronha, sorria de um vago sorriso exausto uma tocante<br \/>\ntroca de impress\u00f5es exaltadas. Al\u00edpio contava o seu discurso<br \/>\ne D. Laura o parto.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara ergueu-se como um s\u00f3 homem, e eram bravos,<br \/>\neram berros! As primeiras dores foram terr\u00edveis, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 verdade, filha? Estava agarrada ao meu bra\u00e7o, que at\u00e9<br \/>\ntenho a certeza que me deixou uma n\u00f3doa negra.<\/p>\n<p>Coitadinha! Mas o melhor foi quando eu desci; os apertos de m\u00e3o,<br \/>\nos abra\u00e7os&#8230;<\/p>\n<p>Abra\u00e7os merece ela, que se portou com muita coragem! E a<br \/>\ncrian\u00e7a, que saiu como por uma porta aberta&#8230;<\/p>\n<p>Ao canto do quarto, o novo ser, tenra verg\u00f4ntea da casa dos Noronhas,<br \/>\nindo dos bra\u00e7os da parteira para os bra\u00e7os da ama, chorava baixinho,<br \/>\ncom um som de boneca a que se aperta o est\u00f4mago, nas suas primeiras<br \/>\ncontrariedades humanas.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia, \u00abem aten\u00e7\u00e3o \u00e0 coincid\u00eancia<br \/>\ndo seu nascimento e do triunfo do.pap\u00e1\u00bb, como disse o padre Augusto,<br \/>\nfoi decidido que o menino se chamasse Carlos Benvindo.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo legislativo desse ano, Al\u00edpio Abranhos fez<br \/>\nainda dois discursos, um, sobre pol\u00edtica colonial, outro, sobre o projecto<br \/>\ndo Caminho de Ferro de Leste. Este \u00faltimo \u00e9 sobremodo eloquente:<br \/>\npoder-se-ia chamar a Ode ao Caminho de Ferro.<\/p>\n<p>Nunca o utilit\u00e1rio modo de comunica\u00e7\u00e3o foi descrito<br \/>\ncom tal colorido, com tal vigor de imagina\u00e7\u00e3o: \u00abVede-lo<br \/>\nexclama o orador esse monstro de ferro, soltando das narinas<br \/>\nturbilh\u00f5es de fumo, semelhante ao Leviat\u00e3 da f\u00e1bula!<br \/>\n(bravo! bravo!) Vede-lo, atravessando como um rel\u00e2mpago os mais \u00e1ridos<br \/>\nterrenos: e que maravilhoso espect\u00e1culo se nos oferece ent\u00e3o:<br \/>\nao contr\u00e1rio do cavalo de Atua, cuja pata fazia secar a erva dos prados,<br \/>\npor onde passa este novo cavalo de fogo (bravo! bravo!) brotam as searas,<br \/>\ncobrem-se as colinas de vinha, (muito bem! muito bem!) penduram-se os rebanhos<br \/>\nnas encostas verdejantes dos montes, murmuram os ribeiros nas azinhagas, ondulam<br \/>\nas searas (muito bem!) e o jovial lavrador l\u00e1 vai, satisfeito e alegre,<br \/>\ncantando as deliciosas can\u00e7\u00f5es do campo, junto \u00e0 esposa<br \/>\nfiel, coroada das mimosas flores dos prados! (Bravo! Bravo! Sensa\u00e7\u00e3o!).<\/p>\n<p>Encerradas as sess\u00f5es, Al\u00edpio Abranhos, sua esposa e o tenro<br \/>\nBenvindo partiram para Campolide, onde iam passar o Ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram tr\u00eas meses de concentra\u00e7\u00e3o, de \u00edntima felicidade.<br \/>\nTinham passado ali, havia um ano, a sua lua de mel, e a sombra de cada \u00e1rvore,<br \/>\ncada moita de flores, possu\u00edam para eles o valor de uma recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeliciosa: a quinta tornara-se-lhes como uma vasta confidente simp\u00e1tica;<br \/>\nera com orgulho que lhe levavam o tenro Bibi, rabujando nos bra\u00e7os<br \/>\nda ama, como o fruto vivo do amor que ela protegera.<\/p>\n<p>Mas nem por isso Al\u00edpio Abranhos ficou inactivo. Trabalhou muito<br \/>\ne ali escreveu trechos, imagens, perora\u00e7\u00f5es de futuros discursos.<br \/>\nFoi ali tamb\u00e9m que ele tomou, passeando \u00e0 tarde na bela alameda<br \/>\nde loureiros, como costumava, devagar, com as m\u00e3os atr\u00e1s das<br \/>\ncostas, a resolu\u00e7\u00e3o importante que devia ter na sua carreira<br \/>\numa influ\u00eancia t\u00e3o grave.<\/p>\n<p>O minist\u00e9rio Cardoso Torres, ao fim da \u00faltima sess\u00e3o<br \/>\nparlamentar, estava gasto. Esta express\u00e3o a que eu chamaria, se me<br \/>\nn\u00e3o contivesse o respeito, a \u00abg\u00edria constitucional\u00bb,<br \/>\nrefere-se a um fen\u00f3meno vener\u00e1vel e repetido, que eu nunca com-preendi<br \/>\nbem, apesar das explica\u00e7\u00f5es ben\u00e9volas que me foram dadas<br \/>\npor conservadores, republicanos e c\u00e9pticos.<\/p>\n<p>H\u00e1 minist\u00e9rios que se gastam. E todavia, esses minist\u00e9rios,<br \/>\ncomo os outros, administram o tesouro com honestidade, fazem o expediente<br \/>\ndas secretarias com suficiente regularidade, mant\u00eam no pa\u00eds uma<br \/>\nordem ben\u00e9fica, n\u00e3o oprimem nem a imprensa nem a consci\u00eancia,<br \/>\ns\u00e3o respeitosos para com o Chefe de Estado, acompanham com dignidade,<br \/>\nao Alto de S. Jo\u00e3o, todos os defuntos ilustres, falam nas C\u00e2maras<br \/>\ncom honrosa correc\u00e7\u00e3o, s\u00e3o na vida privada cidad\u00e3os<br \/>\nestim\u00e1veis, e no entanto ao fim de alguns meses desta rotina<br \/>\nhonesta, pacata e higi\u00e9nica gastam-se.<\/p>\n<p>Gastam-se porqu\u00ea? Compreende-se que um minist\u00e9rio que luta<br \/>\ncom dificuldades, que se coloca ao trav\u00e9s da opini\u00e3o p\u00fablica,<br \/>\nse gaste, como ao trav\u00e9s de um fr\u00e1gil estacado que uma corrente<br \/>\nhostil incessantemente bate. Compreende-se ainda que um governo criado especialmente<br \/>\npara resolver certas quest\u00f5es sociais ou pol\u00edticas, se torne<br \/>\ndesnecess\u00e1rio, desde que as tenha resolvido, e fique como o z\u00e2ng\u00e3o<br \/>\nque fecundou a abelha e \u00e9 da\u00ed em diante um in\u00fatil.<\/p>\n<p>Mas quando se n\u00e3o d\u00e1 nenhuma destas hip\u00f3teses, quando<br \/>\nos ministros n\u00e3o foram trazidos do seio da sua fam\u00edlia para<br \/>\nresolver quest\u00f5es sociais, ou porque as n\u00e3o haja, ou<br \/>\nporque seja um princ\u00edpio tacitamente estabelecido deix\u00e1-las<br \/>\nsem resolu\u00e7\u00e3o quando,.56 em lugar de se esfor\u00e7arem<br \/>\ncontra a larga corrente da opini\u00e3o, os ministros lhe bolam regaladamente<br \/>\nno dorso, n\u00e3o compreendo como um minist\u00e9rio se possa gastar.<\/p>\n<p>Um dia pedi respeitosamente ao Conde d&#8217;Abranhos a explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda palavra e do fen\u00f3meno, e S. Ex\u00aa, o que raras vezes sucedia,<br \/>\ndeu uma resposta vaga, tortuosa, reticente: \u00c9 uma coisa que<br \/>\nse sente no ar. \u00c9 um n\u00e3o sei qu\u00ea&#8230; Sente-se que a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 gasta&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o me permitiu o respeito que insistisse, mas, no fundo do meu entendimento,<br \/>\nguardo um secreto terror por este fen\u00f3meno incompreens\u00edvel!<br \/>\nO minist\u00e9rio Cardoso Torres estava portanto gasto. Calculava-se que<br \/>\nele pudesse talvez sobreviver durante grande parte da pr\u00f3xima sess\u00e3o,<br \/>\nmas, para o fim de Abril, devia desaparecer subitamente, como tinham desaparecido<br \/>\nos Bexigosos e a corveta Sarago\u00e7a! O Partido Nacional retomaria ent\u00e3o<br \/>\no poder, e Al\u00edpio Abranhos que, agora, era Governo, Influ\u00eancia,<br \/>\nFor\u00e7a, Lei, passaria a ser o deputado loquaz de uma oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e9ril, pois que ningu\u00e9m acreditava que os Reformadores<br \/>\na que pertencia Cardoso Torres tendo subido ao poder por um acaso,<br \/>\nvissem esse acaso repetir-se. Os Reformadores eram pois, na frase cl\u00e1ssica,<br \/>\n\u00abum partido sem futuro\u00bb. O pr\u00f3ximo minist\u00e9rio Nacional<br \/>\nhavia de colar-se \u00e0s cadeiras do poder durante anos. E poderia, durante<br \/>\nanos, Al\u00edpio Abranhos ver as suas faculdades, o seu g\u00e9nio, gastarem-se<br \/>\nna ret\u00f3-rica hostil e rancorosa da oposi\u00e7\u00e3o? Al\u00e9m<br \/>\ndisso o seu c\u00edrculo de Freixo n\u00e3o era ainda um c\u00edrculo<br \/>\ncerto. Durante esses curtos meses de sess\u00e3o, Al\u00edpio n\u00e3o<br \/>\ntivera tempo de prender definitivamente, pela gratid\u00e3o, pelo interesse,<br \/>\npela lisonja, pelos servi\u00e7os prestados, os influentes de Freixo. Se<br \/>\nos Nacionais dissolvessem a C\u00e2mara, quem sabe se Al\u00edpio Abranhos<br \/>\nn\u00e3o se veria empurrado involuntariamente para as do\u00e7uras da<br \/>\nvida \u00edntima, fazendo biribi no beicinho do Bibi, sob as sombras de<br \/>\nCampolide, enquanto outros, sem a sua eloqu\u00eancia nem os seus estudos,<br \/>\ntrotariam para Bel\u00e9m, repoltreando-se nas almofadas do poder? Decerto<br \/>\ntinha deveres para com Cardoso Torres: fora ele que o nomeara deputado, que<br \/>\nlhe abrira as portas da vida p\u00fablica, que o fizera&#8230; Mas, por outro<br \/>\nlado, tinha deveres maiores para consigo mesmo, para com a sua carreira, o<br \/>\nseu nome, e, sobretudo, para com o tenro Bibi.<\/p>\n<p>N\u00e3o devia ele tornar-se grande no seu pa\u00eds, para um dia poder<br \/>\napoiar a carreira do Bibi? Tinha ainda deveres para com Virg\u00ednia, a<br \/>\nquem pesava a obscuridade social, e que, como uma verdadeira portuguesa, ansiava<br \/>\npor fazer a sua grande mesura de corte diante de SS. MM.<\/p>\n<p>Tinha enfim deveres para com o pa\u00eds, ao qual n\u00e3o podia negar<br \/>\nos servi\u00e7os do seu alto entendimento! Estas considera\u00e7\u00f5es<br \/>\npesou-as bem Al\u00edpio Abranhos, nessas horas da tarde em que passeava<br \/>\nsolit\u00e1rio na alameda de loureiros; e quando em princ\u00edpios de<br \/>\nNovembro voltou para Lisboa, tinha decidido, no segredo da sua alma, passar-se<br \/>\ncom as suas armas de eloqu\u00eancia e a sua bagagem de saber para o campo<br \/>\ninimigo. Ia fazer-se oposi\u00e7\u00e3o! Esta resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o a revelou a ningu\u00e9m, nem \u00e0 sua esposa<br \/>\nmas durante meses preparou o grande discurso em que explicaria, como ele disse,<br \/>\n\u00abas raz\u00f5es de Estado que me fazem passar destas bancadas est\u00e9reis<br \/>\n(e designava a maioria) para aqueles bancos fecundos!\u00bb (e mostrava a<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Muitas vezes este grande acto pol\u00edtico foi chamado uma \u00abindecente<br \/>\ntrai\u00e7\u00e3o\u00bb. Nada mais absurdo. Pergunto eu: que \u00e9<br \/>\ntrair? \u00c9 abandonar os ideais que se serviram, e passar, sem raz\u00e3o,<br \/>\npara o servi\u00e7o de ideais opostos que at\u00e9 a\u00ed se combatiam!<br \/>\nIsto \u00e9 normalmente, materialmente, uma trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas havia entre os Reformadores e os Nacionais ideais opostos? Abandonava<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos ideias queridas, para ir, por interesses grosseiros,<br \/>\ndefender ideias.57 detestadas? N\u00e3o.<\/p>\n<p>As ideias que servia entre os Reformadores, ia servi-las entre os Nacionais.<\/p>\n<p>Em Religi\u00e3o, que eram os Reformadores? Cat\u00f3licos, Apost\u00f3licos,<br \/>\nRomanos. E os Nacionais? Idem.<\/p>\n<p>Em Pol\u00edtica, o que eram os Rei armadores? Conservadores constitucionais.<br \/>\nE os Nacionais? Idem.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinham ambos o mesmo amor pela dinastia? O mesmo.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram ambos sustent\u00e1culos dedicados da propriedade?<br \/>\nDedicad\u00edssimos.<\/p>\n<p>N\u00e3o desejavam ambos a estrita aplica\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3 da Constitui\u00e7\u00e3o, de toda a Constitui\u00e7\u00e3o?<br \/>\nDesejavam-na ambos, ardentemente.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram ambos centralizadores? Eram.<\/p>\n<p>N\u00e3o estavam ambos firmes na manuten\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito<br \/>\npermanente? Firm\u00edssimos, ambos.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinham ambos um nobre rancor aos princ\u00edpios revolucion\u00e1rios?<br \/>\nUm rancor nobil\u00edssimo.<\/p>\n<p>E em quest\u00f5es de Instru\u00e7\u00e3o, de Imprensa, de Pol\u00edcia,<br \/>\nn\u00e3o tinham ambos as mesmas \u00f3ptimas ideias? Absolutamente as<br \/>\nmesmas.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram ambos patriotas? Fanaticamente! Ent\u00e3o? Pode-se<br \/>\ndizer que Al\u00edpio Abranhos, indo dos Reformadores para os Nacionais,<br \/>\ntra\u00eda as suas ideias? N\u00e3o! Certamente n\u00e3o! Mas, dir-se-\u00e1,<br \/>\ntraiu o seu amigo Cardoso Torres.<\/p>\n<p>Distingamos: Em Cardoso Torres h\u00e1 o homem e o pol\u00edtico. Trair<br \/>\no homem, seria, por exemplo, (ainda que tal suposi\u00e7\u00e3o me faz<br \/>\ntremer de horror) p\u00f4r m\u00e3o libidinosa no seio respeit\u00e1vel<br \/>\nde D.<\/p>\n<p>Josefa Cardoso Torres. Al\u00edpio Abranhos f\u00ea-lo? O vosso sil\u00eancio<br \/>\ngrave \u00e9 a melhor resposta! Mas traiu o pol\u00edtico, direis. Vejamos:<br \/>\nque \u00e9 um pol\u00edtico? E um ser que simboliza um complexo de ideias:<br \/>\ns\u00f3 se pode tra\u00ed-lo, traindo as ideias que ele representa. Ora<br \/>\neu provei suficientemente que Al\u00edpio Abranhos n\u00e3o traiu<br \/>\nnem em Religi\u00e3o, nem em Moral, nem em Economia Pol\u00edtica, nem<br \/>\nem Administra\u00e7\u00e3o, nem em Pedagogia as ideias representadas<br \/>\npelo Ex.mo Cardoso Torres.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 pois a trai\u00e7\u00e3o? Dizei-o. Ah! esses olhares<br \/>\nno ch\u00e3o, essa express\u00e3o consternada, provam sobejamente que<br \/>\nnada tendes a responder aos meus argumentos impec\u00e1veis! Passou pois<br \/>\npara a oposi\u00e7\u00e3o o nosso grande Al\u00edpio, e com que prodigiosa<br \/>\nimpress\u00e3o esse passo foi recebido no pa\u00eds, di-lo a Hist\u00f3ria<br \/>\nConstitucional.<\/p>\n<p>Foi no discurso de resposta ao Discurso da Coroa que se viu Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos subir \u00e0 tribuna, e com palavras comovidas, dizer que a sua<br \/>\nconsci\u00eancia, os seus princ\u00edpios, o seu patriotismo, for\u00e7avam-no<br \/>\na separar-se de amigos \u00abcujo estandarte segui\u00bb exclamava<br \/>\n\u00abenquanto julguei que eles levavam o Pa\u00eds \u00e0 conquista<br \/>\ndo Progresso mas de quem me separo com dor, ainda que com firmeza,<br \/>\nno dia em que vejo que eles impelem a minha P\u00e1tria, esta P\u00e1tria<br \/>\nque eu amo mais do que amei minha m\u00e3e para os abismos e para<br \/>\na ru\u00edna!\u00bb (Bravo! Bravo!) Com um grande tacto pol\u00edtico,<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos nunca disse claramente, nesse discurso magistral, os<br \/>\nfactos que lhe provavam que o Ex.mo Cardoso Torres fosse arrastando Portugal<br \/>\naos Abismos; mas os apoiados un\u00e2nimes, os bravos fren\u00e9ticos da<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o, mostravam-lhe que, ainda que ele, por respeito aos<br \/>\nseus antigos camaradas, calasse esses factos, a oposi\u00e7\u00e3o os<br \/>\ncompreendia absolutamente.<\/p>\n<p>Assim, que grande ova\u00e7\u00e3o quando Al\u00edpio Abranhos tra\u00e7ou<br \/>\no inspirado quadro do estado do Pa\u00eds sob a administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nCardoso Torres: \u00abOlhai em redor, e vede este formoso torr\u00e3o de<br \/>\nPortugal, que v\u00f3s jurastes, nas m\u00e3os de El-Rei defender e fazer.58<br \/>\nprosperar; olhai e dizei-me se sois dignos de estar nesses bancos uma hora<br \/>\nmais: por toda a parte o esbanjamento da fazenda p\u00fablica, por toda<br \/>\na parte o patrocinato primando o m\u00e9rito; a escola, essa fonte p\u00fablica,<br \/>\nseca de instru\u00e7\u00e3o; as f\u00e9rteis campinas, desoladas; as<br \/>\nestradas que prometestes, cobertas dos pedregulhos e das lamas da inc\u00faria;<br \/>\nas cadeias, esses dep\u00f3sitos do mal, trasbordando; e o pobre campon\u00eas,<br \/>\nque sucumbe ao peso dos impostos, regando com l\u00e1grimas o gr\u00e3o<br \/>\nescasso que lhe d\u00e1 um solo desolado!\u00bb (Bravo! Bravo!). E os ministros,<br \/>\nnos seus bancos, com os bra\u00e7os frouxos, a cabe\u00e7a pendente, sentindo<br \/>\nretumbar-lhes aos ouvidos aquela voz, igual a outra que na Antiguidade, do<br \/>\nfundo dos ares apostrofara Caim, pareciam contemplar, aterrados, a vis\u00e3o<br \/>\npavorosa da P\u00e1tria arruinada! A sensa\u00e7\u00e3o foi prodigiosa.<\/p>\n<p>Nessa noite, quando, deitado no seu sof\u00e1 exausto do seu grande feito<br \/>\norat\u00f3rio, Al\u00edpio se reconfortava na placidez do ch\u00e1 dom\u00e9stico,<br \/>\nrecebeu uma carta do Conselheiro Guedes Navarro, chefe da oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nNacional, em que lhe dizia, depois de outras considera\u00e7\u00f5es:<br \/>\n\u00abComo discurso, poucos conhe\u00e7o iguais em Mirabeau ou em Lamartine.<br \/>\nE para o partido Nacional uma honra, n\u00e3o s\u00f3 ter recebido nas<br \/>\nsuas fileiras um homem do seu valor, mas ter dado ocasi\u00e3o a que pronunciasse<br \/>\num discurso de tal eleva\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 somente<br \/>\npara cumprir o nosso pacto, que lhe ser\u00e1 guardada uma pasta na forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um minist\u00e9rio Nacional. Essa pasta n\u00e3o \u00e9, d&#8217;ora em<br \/>\ndiante, a recompensa da sua ades\u00e3o: \u00e9 uma necessidade de exist\u00eancia<br \/>\npara o partido Nacional, que ter\u00e1 em V. Ex\u00aa, de futuro, o seu<br \/>\nMirabeau conservador.\u00bb Donde se deduz, de resto, que Al\u00edpio Abranhos,<br \/>\ncom um grande alcance pol\u00edtico e uma profunda experi\u00eancia dos<br \/>\nhomens, n\u00e3o dera aquele passo sem primeiro ter garantidos todos os<br \/>\nmeios de penetrar no poder, e prestar ao Pa\u00eds aqueles altos servi\u00e7os<br \/>\nque lhe estava preparando o seu g\u00e9nio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O desespero do governo e da maioria teve um raro car\u00e1cter de alucina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos passou a ser o infame, o canalha. Nessa mesma noite<br \/>\ntoda a sua vida foi explorada, rebuscada como uma velha algibeira, na esperan\u00e7a<br \/>\nde se encontrar algum esc\u00e2ndalo esquecido. Disse-se que fora o amante<br \/>\nda velha Madame Gato, que tinha um prost\u00edbulo no Arco do Bandeira;<br \/>\nespalhou-se que era filho de um sapateiro de Penafiel, muitas vezes condenado<br \/>\npor ladr\u00e3o; afirmou-se que vivia em desaven\u00e7as cont\u00ednuas<br \/>\ncom sua mulher e que os vizinhos ouviam de noite os gritos das lutas conjugais;<br \/>\ncontou-se que o velho Dr. Vaz Correia lhe dera pontap\u00e9s no escrit\u00f3rio,<br \/>\npor o ter encontrado a falsificar um documento; murmurou-se que era dado em<br \/>\nCoimbra a deboches contra a natureza.<\/p>\n<p>Dos artigos dos jornais nem falarei, para n\u00e3o concorrer a desacreditar<br \/>\nmais ainda, perante o p\u00fablico, uma institui\u00e7\u00e3o a que<br \/>\nimplicitamente perten\u00e7o.<\/p>\n<p>Sentia-se que a sess\u00e3o seguinte seria, na frase consagrada, \u00abtempestuosa\u00bb.<br \/>\nCom efeito, as galerias trasbordavam de gente: todos os amigos que outrora<br \/>\npertenciam \u00e0s soir\u00e9es do Desembargador Amado, e que, agora,<br \/>\ncome\u00e7avam a frequentar a casa dos Abranhos, l\u00e1 estavam. Esperava-se<br \/>\nque em presen\u00e7a das recrimina\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o podiam<br \/>\ndeixar de se produzir da parte da maioria indignada, Al\u00edpio Abranhos<br \/>\npronunciaria outro discurso, no qual o orador se mostrasse, na frase que ouvi<br \/>\na n\u00e3o sei que personagem: \u00abDem\u00f3stenes multiplicado por<br \/>\ntr\u00eas!\u00bb L\u00e1 estava o coronel Serr\u00e3o, que idolatrava<br \/>\nAl\u00edpio, descarregando olhadelas ferozes como cutiladas sobre os \u00abcachorros<br \/>\nda maioria!\u00bb L\u00e1 estava o Conselheiro Andrade, que acompanhava<br \/>\nD. Virg\u00ednia e a bela Fradinho; l\u00e1 estava o sobrinho da pobre<br \/>\nD. Joana Carneiro, em bicos de p\u00e9s, na \u00faltima bancada, e \u00e0<br \/>\nfrente, mais sombrio, mais meditativo, o Doutor.<\/p>\n<p>Antes da ordem do dia, um deputado de estatura herc\u00falea e de voz<br \/>\nde ronc\u00e3o, pediu a palavra.<\/p>\n<p>Era o famoso Gorj\u00e3o, e a sua presen\u00e7a na tribuna, onde ele<br \/>\nsubiu, se plantou, fazendo reluzir sob as sobrancelhas espessas um olhar coruscante,<br \/>\nrevelou suficientemente o plano infame da maioria. Eu classifico este plano<br \/>\ncom uma palavra: tentativa de assassinato.<\/p>\n<p>O famoso Gorj\u00e3o representava no partido dos Rei armadores, a que<br \/>\nele de resto sempre pertenceu, o papel que desempenhava nas redac\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos jornais parisienses da Restaura\u00e7\u00e3o o espadachim, t\u00e3o<br \/>\npoderosamente descrito por Balzac. O espadachim era ordinariamente um antigo<br \/>\noficial da Guarda Imperial, que a Restaura\u00e7\u00e3o reformara, e que,<br \/>\nlevado \u00e0 mis\u00e9ria pelo absinto, o tabaco e as f\u00eameas, alugava<br \/>\na for\u00e7a do seu pulso e a sua destreza \u00e0 espada a algum jornal<br \/>\nde combate. De olho avinhado, voz catarrosa, bigode erri\u00e7ado, grande<br \/>\ncasaco debruado de astrac\u00e3 abotoado at\u00e9 ao pesco\u00e7o, cabelo<br \/>\n\u00e0 escovinha, chap\u00e9u ao lado, este personagem temeroso passava<br \/>\no seu dia na antessala de uma redac\u00e7\u00e3o, queimando o cachimbo<br \/>\nde espuma, repastando-se nos jornais de hist\u00f3rias de crimes e de roubos,<br \/>\ne esperando que pessoas ofendidas subissem as escadas, a pedir a explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um artigo muito insultante ou de uma cal\u00fania muito directa. E se<br \/>\nalgum desgra\u00e7ado aparecia, o feroz indiv\u00edduo erguia a sua enorme<br \/>\nestatura, escarrava grosso no ch\u00e3o, e perguntava com voz agressiva<br \/>\ne o olho raiado de sangue: As suas armas? Os seus padrinhos? As ordens!<br \/>\nE, ou o ofendido recuava diante da medonha apari\u00e7\u00e3o deste c\u00e3o<br \/>\nde fila ou, ao outro dia, recebia, atrav\u00e9s de uma entranha<br \/>\nessencial, a l\u00e2mina infal\u00edvel da sua espada.<\/p>\n<p>Gorj\u00e3o era, entre os Reformadores, o espadachim do partido. Ele foi,<br \/>\ndurante vinte anos, neste pa\u00eds, o pap\u00e3o! A sua barba negra era<br \/>\nferoz, e quando descia o Chiado com o chap\u00e9u sobre o olho, fazendo<br \/>\nsibilar a bengala, um terror invenc\u00edvel contra\u00eda o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos cidad\u00e3os&#8230; A sua biografia, desde Coimbra, era uma lenda pavorosa<br \/>\nde cabe\u00e7as partidas, queixos esmigalhados, tremendos hero\u00edsmos<br \/>\nde pulso. Quando entrava num caf\u00e9, toda a gente se curvava palidamente<br \/>\nsobre o peri\u00f3dico ou o copo de genebra, evitando ser notado por ele<br \/>\npois se dizia que o seu olhar era imediatamente seguido do seu murro.<br \/>\nO Marrare, ent\u00e3o florescente, era o antro desta fera. Quando ele morreu<br \/>\nde um catarro de bexiga, Lisboa sentiu um al\u00edvio suave e as costas<br \/>\ndos cidad\u00e3os endireitaram-se, porque j\u00e1 n\u00e3o as amea\u00e7ava<br \/>\nde alto a bengala do Gorj\u00e3o.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o perversa da maioria era, pois, clara: Gorj\u00e3o,<br \/>\nda tribuna, injuriava Al\u00edpio; Al\u00edpio, bravo, retorquia com irrita\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne Gorj\u00e3o, nos corredores, esmagava Al\u00edpio a murros, ou, ao outro<br \/>\ndia, nas terras da P\u00f3lvora, varava-o com uma espadeirada! Parece hoje<br \/>\nprovado que tal plano fora resolvido numa reuni\u00e3o da maioria: vergonha<br \/>\neterna! N\u00e3o procederia de outro modo uma conjura\u00e7\u00e3o de<br \/>\nzulos, agachados ferozmente entre o alto tojo africano, no Kraal de Cettivayo!<br \/>\nEste grosso brutamontes entrara para S. Bento para assassinar a Eloqu\u00eancia,<br \/>\no Patriotismo e o G\u00e9nio, na pessoa de Al\u00edpio Abranhos! Ainda<br \/>\nbem que te matou, fera, um providencial catarro de bexiga: a tua bengala n\u00e3o<br \/>\nmais oprime os homens livres, e eu posso impunemente, e com regozijo, escarrar-te<br \/>\nsobre a sepultura j\u00e1 que o haver-te escarrado na face ter-me-ia<br \/>\nsido imposs\u00edvel, por ser, como sou, de constitui\u00e7\u00e3o delicada!<br \/>\nCom efeito, as fauces do c\u00e3o de fila abriram-se, e durante uma hora<br \/>\nladrou a inj\u00faria; e como ele tinha (meu Deus, sejamos justos com todo<br \/>\no mundo!) uma certa habilidade de prosa, uma experi\u00eancia astuta da perf\u00eddia<br \/>\nparlamentar, n\u00e3o o fez claramente, o que lhe atrairia sobre o dorso<br \/>\nas severidades do Regulamento. N\u00e3o pronunciou o nome de Al\u00edpio.<br \/>\nFalou apenas do traidor, do ap\u00f3stata, e sob esta designa\u00e7\u00e3o<br \/>\nvilmente vaga, rugiu, com punhadas de atleta, a sua verrina estudada. O desgra\u00e7ado,<br \/>\npor\u00e9m, participava, como todos os da sua corpul\u00eancia, da cl\u00e1ssica<br \/>\nestupidez.dos colossos: n\u00e3o contava com a finura, a habilidade, o g\u00e9nio<br \/>\nde Al\u00edpio.<\/p>\n<p>Com efeito, o nosso her\u00f3i deu-lhe uma li\u00e7\u00e3o severa:<br \/>\ntodo o tempo que o Rold\u00e3o da Baixa trovejou, Al\u00edpio, curvado,<br \/>\nrufava tranquilamente com os dedos sobre a sua pasta de verniz.<\/p>\n<p>E quando, entre os aplausos da maioria alucinada, o medonho Gorj\u00e3o<br \/>\nterminou, lan\u00e7ando uma ap\u00f3strofe \u00abaos cobardes que sob<br \/>\na inj\u00faria, em lugar de erguer a cabe\u00e7a em desafio, rufam, agachados,<br \/>\nsobre as mesas\u00bb Al\u00edpio, que todos esperavam ver pular para a<br \/>\ntribuna, tomou serenamente o Di\u00e1rio do Governo, e p\u00f4s-se a folhe\u00e1-lo<br \/>\ncom pla-cidez.<\/p>\n<p>Dos bancos da maioria sa\u00edram vozes: Que nojo! Que abjec\u00e7\u00e3o!<br \/>\nMas o grande homem, p\u00e1lido, sim, de emo\u00e7\u00e3o reprimida,<br \/>\nmas sereno na apar\u00eancia, continuou imperturb\u00e1vel a folhear o<br \/>\nDi\u00e1rio do Governo. Assim o plano da maioria falhava. Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos, provocado, insultado, caluniado, lia o Di\u00e1rio do Governo!<br \/>\nEsperando provocar-lhe uma c\u00f3lera fatal, produziam-lhe apenas uma serenidade<br \/>\nsublime! Daqui, uma raiva desordenada e outro orador da maioria, o Sr. Albino<br \/>\nPeixoto, subir \u00e0 tribuna: depois do Rold\u00e3o trovejante, era Sim\u00e3o<br \/>\nde N\u00e2ntua, o mel\u00edfluo.<\/p>\n<p>Este personagem, com efeito, pela face redondinha e jovial, de \u00f3culos<br \/>\nde ouro, por todo o seu serzinho barrigudo, pela untuosidade vaga das suas<br \/>\npalavras, pela sua pl\u00e1cida polidez, assemelhava-se ao am\u00e1vel<br \/>\nfilantropo, cheio de prov\u00e9rbios e de virtude, de que fala o livro querido<br \/>\nonde aprendemos a soletrar.<\/p>\n<p>O seu discurso foi a repeti\u00e7\u00e3o das mesmas inj\u00farias,<br \/>\nmas em voz suave e chorosa. Os vitup\u00e9rios que o outro rugira, este<br \/>\nlagrimejou-os. Era, de resto, pessoa de uma proverbial pacatez: havia nos<br \/>\nseus movimentos a hesitante timidez de um m\u00edope que perdeu os \u00f3culos;<br \/>\ncaminhava na vida como na rua, com extremo cuidado, evitando pisar um calo<br \/>\nou uma susceptibilidade.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia da sua autoridade intelectual (e n\u00e3o, como<br \/>\nvilmente se disse, porque deste n\u00e3o tinha medo), Al\u00edpio decidiu<br \/>\nresponder-lhe.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio que se fez na C\u00e2mara quando Al\u00edpio Abranhos<br \/>\nse ergueu e pediu a palavra, foi um daqueles cl\u00e1ssicos sil\u00eancios<br \/>\nmuito conhecidos e estimados em ret\u00f3rica \u00abque precedem<br \/>\nas tempestades\u00bb.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou por dizer que se erguia para responder ao Sr. Albino Peixoto<br \/>\ne s\u00f3 ao Sr. Albino Peixoto acrescentando estas palavras<br \/>\nt\u00e3o admiradas, t\u00e3o dignas de ficarem cl\u00e1ssicas (ainda<br \/>\nque se disse depois perfidamente que ele as imitara de Guizot): Pode<br \/>\no ilustre deputado acumular as cal\u00fanias, elas n\u00e3o chegar\u00e3o<br \/>\n\u00e0 altura do meu desprezo! Peixoto ergueu-se de um jacto, e erecto palid\u00edssimo:<br \/>\nO ilustre deputado insinua que eu sou um caluniador?&#8230;<\/p>\n<p>Ordem! Ordem! Resposta admir\u00e1vel de Al\u00edpio Abranhos:<br \/>\nEu n\u00e3o quero insinuar que o ilustre deputado \u00e9 um caluniador.<br \/>\nEu s\u00f3 afirmei, e claramente, que o ilustre deputado acumulou cal\u00fanias!<br \/>\nOrdem! Ordem! Leio no extracto da sess\u00e3o esta infecta interrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Gorj\u00e3o: N\u00e3o responda, Peixoto! Para os cobardes,<br \/>\ns\u00f3 o escarro ou o chicote&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00edpio Abranhos n\u00e3o se dignou responder-lhe.<\/p>\n<p>Mas o pac\u00edfico Peixoto, que decerto a maioria excitava, exclamou<br \/>\nl\u00edvido: O desprezo de um homem de bem poderia magoar-me, o<br \/>\ndesprezo de um traidor.s\u00f3 me regozija! Triunfante r\u00e9plica de<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos: Traidores s\u00e3o os que vendem a sua pena<br \/>\ne fazem de um jornal um prost\u00edbulo! Esta alus\u00e3o a certos factos<br \/>\nlament\u00e1veis da carreira jornal\u00edstica de Albino Peixoto, produziu<br \/>\numa tormenta que eu encontro assim descrita no Di\u00e1rio das C\u00e2maras:<br \/>\n(Sensa\u00e7\u00e3o prolongada.<\/p>\n<p>Diversas interrup\u00e7\u00f5es que n\u00e3o chegam \u00e0 mesa<br \/>\ndos taqu\u00edgrafos. Os senhores deputados, de p\u00e9, em grande confus\u00e3o,<br \/>\ntrocam palavras col\u00e9ricas. O Sr. Presidente, n\u00e3o podendo fazer-se<br \/>\nescutar, suspende a sess\u00e3o).<\/p>\n<p>O que me resta contar \u00e9 doloroso. Nos corredores da C\u00e2mara,<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos \u00e9 subitamente interpelado pelo Dr. Albino Peixoto,<br \/>\nque se lan\u00e7a de entre um grupo da maioria, e lhe grita: Retire<br \/>\nas palavras que disse, senhor! Al\u00edpio, prudente, balbuciou:<br \/>\nMas colega&#8230; mas caro colega&#8230;<\/p>\n<p>Retire as palavras, canalha! rugiu Peixoto.<\/p>\n<p>Al\u00edpio (como ele me disse depois) ia talvez, por amor da dignidade<br \/>\nparlamentar, retir\u00e1-las, quando Gorj\u00e3o, intervindo bruscamente,<br \/>\ntrovejou: N\u00e3o retira nada! Entre cavalheiros, estas quest\u00f5es<br \/>\nde honra n\u00e3o se tratam assim. N\u00e3o retira nada! Venha da\u00ed,<br \/>\nPeixoto&#8230;<\/p>\n<p>Arrastou o Dr. Peixoto e, da\u00ed a pouco, voltava acompanhado de um<br \/>\ncerto Sequeira, que depois morreu em \u00c1frica, e dirigindo-se a Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos: Preciso fazer-lhe uma comunica\u00e7\u00e3o s\u00e9ria.<br \/>\nTenha a bondade de nos acompanhar ao gabinete A da Comiss\u00e3o de Fazenda.<\/p>\n<p>Al\u00edpio seguiu-o, e, com ele, todos os seus amigos, na expectativa<br \/>\nexcitante de um conflito inesperado. Por\u00e9m entraram s\u00f3s no gabinete<br \/>\nA da Comiss\u00e3o de Fazenda e a\u00ed Gorj\u00e3o, que retomara o<br \/>\nseu ar pomposo, declarou: Vimos aqui numa miss\u00e3o de honra.<br \/>\nO nosso amigo, Dr. Albino Peixoto, reclama uma satisfa\u00e7\u00e3o. V.<br \/>\nEx\u00aa chamou-lhe vendido&#8230;<\/p>\n<p>Mas primeiro tinha-me ele chamado&#8230;<\/p>\n<p>V. Ex\u00aa chamou-lhe vendido! O que ele tinha chamado a V. Ex\u00aa<br \/>\n\u00e9-nos perfeitamente indiferente. V. Ex\u00aa chamou-lhe vendido, e,<br \/>\nou V. Ex\u00aa, quando se abrir de novo a sess\u00e3o d\u00e1 explica\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Eu estou pronto a dar explica\u00e7\u00f5es&#8230; (Ou\u00e7o<br \/>\ndaqui estas palavras precipitadas de Al\u00edpio Abranhos, que, com os seus<br \/>\naltos princ\u00edpios de civiliza\u00e7\u00e3o, tinha o horror dos conflitos<br \/>\nde for\u00e7a).<\/p>\n<p>Perfeitamente. As explica\u00e7\u00f5es s\u00e3o estas: V.<br \/>\nEx\u00aa sobe \u00e0 tribuna e diz: \u00abDeclaro que, quando disse que<br \/>\no meu amigo Albino Peixoto era um vendido, menti, e que tenho as provas mais<br \/>\nevidentes da sua probidade impec\u00e1vel!\u00bb Ent\u00e3o os<br \/>\nsenhores querem que eu diga publicamente que menti?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o querendo dar esta explica\u00e7\u00e3o, tenha a bondade<br \/>\nde nos dizer a que horas poderemos encontrar dois amigos seus, para regular<br \/>\nas condi\u00e7\u00f5es do combate&#8230;<\/p>\n<p>Do combate?&#8230; Mas, queridos colegas, ponham-se no meu lugar&#8230;<\/p>\n<p>A estas palavras t\u00e3o cordiais, t\u00e3o conciliadoras, o brutal<br \/>\nGorj\u00e3o respondeu: No seu lugar qualquer de n\u00f3s tinha<br \/>\nh\u00e1 muito tempo marcado a hora e as armas! V. Ex\u00aa que diz?<br \/>\nAo menos quero consultar alguns amigos&#8230;<\/p>\n<p>Consulte V. Ex\u00aa os seus amigos.<\/p>\n<p>Consultou, com efeito, dois amigos mas, infelizmente, escolheu aqueles<br \/>\nque.eram menos pr\u00f3prios para promover uma solu\u00e7\u00e3o humana,<br \/>\nsensata e crist\u00e3. N\u00e3o os mencionarei, porque vivem ainda e ocupam<br \/>\naltas situa\u00e7\u00f5es no Estado. Chamarei a um A e ao outro B.<\/p>\n<p>A, fidalgo de alto porte, recebera das tradi\u00e7\u00f5es da sua ra\u00e7a,<br \/>\num pouco deteriorada, o preconceito cl\u00e1ssico do ponto de honra. B,<br \/>\nmo\u00e7o estim\u00e1vel, valente, ca\u00e7ador, possu\u00eda uma<br \/>\n\u00fanica especialidade: a sua destreza \u00e0 pistola e ao sabre. Ambos,<br \/>\nem quest\u00f5es de honra, tinham a manter uma reputa\u00e7\u00e3o de<br \/>\nseriedade e de valor. De resto, tanto um como o outro, perfeitos cavalheiros,<br \/>\nmas, infelizmente, muito predispostos, por \u00edndole, a solu\u00e7\u00f5es<br \/>\nviolentas.<\/p>\n<p>Estes dois amigos opinaram, com a unanimidade de um coro antigo, que aceitar<br \/>\ntal exig\u00eancia, era aceitar, implicitamente, uma humilha\u00e7\u00e3o<br \/>\ninfamante. Um homem que se declara mentiroso, fecha diante de si as portas<br \/>\nda Sociedade, da Vida P\u00fablica e dos seus conhecidos. O Sr.<\/p>\n<p>Abranhos passaria da\u00ed por diante a ser um cobarde estabelecido. O<br \/>\nmedo seria a sua profiss\u00e3o. Tornar-se-ia o homem que se pode insultar<br \/>\nsem perigo. B disse-lhe mesmo brutalmente: Um homem que comete no<br \/>\ncome\u00e7o da sua vida p\u00fablica uma tal cobardia, torna-se, mais<br \/>\ntarde ou mais cedo, um armaz\u00e9m de pancada! Mostre que \u00e9 homem<br \/>\ne ningu\u00e9m o torna a insultar.<\/p>\n<p>Que se podia responder a isto? Havia, sob o ponto de vista social, alguma<br \/>\nverdade naquelas frases triviais. Al\u00edpio Abranhos ou tinha de ceder<br \/>\n\u00e0s regras absurdas, obsoletas, monstruosas que regulam a sociedade,<br \/>\nou tinha de abandonar essa sociedade e a carreira que um dia lhe daria o delicioso<br \/>\nprazer de a dominar.<\/p>\n<p>Mas a ideia de se colocar diante de uma espada desembainhada ou de uma pistola<br \/>\naperrada! Teve, um momento, o desejo furioso de fugir com D. Virg\u00ednia,<br \/>\ncom o Bibi, para um canto ignorado da terra, e a\u00ed, vil mas intacto,<br \/>\nsem elogios nos jornais, mas com todos os membros no corpo, gozar egoistamente<br \/>\no amor, a paternidade, o repouso, a natureza, o conforto&#8230;<\/p>\n<p>Mas consentiria Virg\u00ednia em ser a esposa do cobarde Al\u00edpio?<br \/>\nN\u00e3o seria cruel condenar Bibi a ser o filho do abjecto Abranhos? Que<br \/>\ndiriam os jornais? Que diria o coronel Serr\u00e3o? Que risadas no Marrare!<br \/>\nEsta ideia torturava-o. E foi com grande dignidade que respondeu a A e a B:<br \/>\nEu n\u00e3o tenho medo, os amigos bem o sabem. A minha quest\u00e3o<br \/>\n\u00e9 de princ\u00edpios. Sou um homem de progresso, e repugna-me esse<br \/>\nmeio de salvar a honra, \u00e0 maneira da Idade M\u00e9dia! Mas enfim,<br \/>\na sociedade \u00e9 a sociedade&#8230; V\u00e3o-se entender com a fera do Gorj\u00e3o.<br \/>\nEspero-os em casa&#8230; Mas prud\u00eancia, lembrem-se que tenho fam\u00edlia.<\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es foram longas, muito delicadas. Infelizmente,<br \/>\nparece que desde a primeira palavra entre as testemunhas, ficou assente a<br \/>\npriori, como base natural da argumenta\u00e7\u00e3o, que \u00abhaveria<br \/>\nduelo\u00bb, e, \u00e0s 8 horas da noite, Al\u00edpio recebeu no seu<br \/>\nescrit\u00f3rio os seus amigos A e B, que lhe anunciaram em voz baixa que<br \/>\nele, Al\u00edpio Abranhos, se batia \u00e0 espada, \u00e0s sete da manh\u00e3,<br \/>\nna Cruz Quebrada, e que os do Peixoto lhe deixavam a ele, Abranhos, a escolha<br \/>\ndo cirurgi\u00e3o que melhor lhe conviesse.<\/p>\n<p>Um cirurgi\u00e3o! exclamou Al\u00edpio, juntando as<br \/>\nm\u00e3os, at\u00f3nito.<\/p>\n<p>E necess\u00e1rio um cirurgi\u00e3o, para o caso de ser preciso,<br \/>\npor exemplo, ligar uma art\u00e9ria. Enfim, \u00e9 sempre indispens\u00e1vel<br \/>\num cirurgi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00edpio curvou-se, calado. H\u00e1, em certos sil\u00eancios humanos,<br \/>\nem certo humano vergar de ombros, uma ironia feroz, que deve fazer corar o<br \/>\ndestino, envergonhado da sua tirania&#8230; Al\u00edpio Abranhos ficou s\u00f3<br \/>\nno escrit\u00f3rio, prostrado sobre o canap\u00e9 tendo diante<br \/>\nde si a vis\u00e3o n\u00edtida de um corpo retalhado a golpes de espada,<br \/>\nque uma vi\u00fava pranteia, esguedelhada.<\/p>\n<p>A voz do padre Augusto que, como costumava, dizia algum inocente gracejo<br \/>\n\u00e0 Joana, (bonita criada que eu ainda conheci) tirou-o deste leg\u00edtimo<br \/>\ntorpor, e de repente, como um p\u00e1ssaro que subitamente atravessa uma<br \/>\nsala aberta, uma ideia de um engenho subtil atravessou-lhe o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Abriu a porta, chamou o padre, e com uma gravidade que fez arregalar de<br \/>\nterror os olhos do bom eclesi\u00e1stico, murmurou: Padre Augusto,<br \/>\nvou-lhe confiar um grande segredo&#8230; Um segredo tremendo, que h\u00e1-de<br \/>\nficar consigo.<\/p>\n<p>O padre, aterrado, balbuciou: \u00c9 em confiss\u00e3o? E segredo<br \/>\nde confiss\u00e3o? N\u00e3o! exclamou logo Al\u00edpio.<br \/>\nPelo amor de Deus! Nem por sombras o considere segredo de confiss\u00e3o.<br \/>\nQue tolice! Credo! Isso estragava tudo&#8230; Fique bem entendido que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 segredo de confiss\u00e3o&#8230; Mas \u00e9 um segredo que lhe confio:<br \/>\nbato-me amanh\u00e3 em duelo! Caramba! exclamou o respeit\u00e1vel<br \/>\nsacerdote, caindo de chofre no canap\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Al\u00edpio, sentando-se junto dele, contou-lhe a hist\u00f3ria<br \/>\ndo seu duelo. E terminou dizendo: Se eu lhe digo tudo isto \u00e9<br \/>\npara que seja o amigo que amanh\u00e3, se houver desgra\u00e7a, console<br \/>\na Virgininha. E agora adeus, que tenho pap\u00e9is a p\u00f4r em ordem&#8230;<br \/>\nMas guarde o segredo, que pode a coisa chegar aos ouvidos da pol\u00edcia<br \/>\ne transtorna-se tudo.<\/p>\n<p>O sacerdote queria objectar, pregar, parabolar mas Al\u00edpio,<br \/>\nsuave e firme, empurrando-o pelos ombros: \u00c9 uma coisa decidida.<br \/>\nAdeus. E agora veja l\u00e1, padre Augusto, n\u00e3o o v\u00e1 dizer&#8230;<br \/>\nQue a pol\u00edcia, se o sabe, impede a coisa&#8230; Adeus. E amanh\u00e3,<br \/>\n\u00e0s sete, na Cruz Quebrada. N\u00e3o se esque\u00e7a \u00e0s<br \/>\nsete e guarde-me o segredo, amigo.<\/p>\n<p>Padre Augusto foi ao cabide do corredor, agarrou o chap\u00e9u, e precipitou-se<br \/>\npela escada, como uma pedra que rola.<\/p>\n<p>Ao outro dia, \u00e0s sete da manh\u00e3 uma manh\u00e3 clara,<br \/>\nfria e seca quando Al\u00edpio com as suas testemunhas chegavam<br \/>\nao s\u00edtio aprazado, o Regedor de Bel\u00e9m e seis cabos de pol\u00edcia,<br \/>\ndesembocando com f\u00faria de tr\u00e1s de um maci\u00e7o de \u00e1rvores,<br \/>\napoderaram-se dos sete cavalheiros (incluindo o respeit\u00e1vel Teles,<br \/>\ncirurgi\u00e3o)! Foram postos em liberdade \u00e0s dez horas, de sorte<br \/>\nque D. Virg\u00ednia soube por seu marido do perigo que ele correra, e da<br \/>\ninterven\u00e7\u00e3o providencial, que lho salvara. O seu orgulho foi<br \/>\ngrande. Al\u00edpio tomou para ela as propor\u00e7\u00f5es de um d&#8217;Artagnan,<br \/>\nde um Conde de Monte Cristo! E a sua ternura, os seus afagos, a sua admira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nestavam dando a Al\u00edpio momentos deliciosos, quando a Joana lhe veio<br \/>\ndizer que os Srs. A e B, desejavam absolutamente falarlhe e esperavam na sala.<\/p>\n<p>H\u00e1-de ser para o almo\u00e7o&#8230; H\u00e1 sempre um almo\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o era para este fim honesto: era para lhe dizer<br \/>\npara que A lhe dissesse secamente, sem se sentar, com as m\u00e3os nos bolsos<br \/>\ndas cal\u00e7as, fazendo tilintar nervosamente um molho de chaves:<br \/>\nEst\u00e1 provado temos a prova evidente que a pol\u00edcia<br \/>\nfoi avisada por um amigo desta casa&#8230; Isto \u00e9 uma brincadeira torpe.<br \/>\nNem as testemunhas do Peixoto, nem n\u00f3s, somos pessoas com quem se brinque<br \/>\ntorpemente. O duelo que n\u00e3o p\u00f4de ter lugar hoje, h\u00e1-de<br \/>\nter lugar amanh\u00e3, no Lumiar. Se a pol\u00edcia aparecer de novo,<br \/>\no que n\u00e3o \u00e9 natural, agora que ela est\u00e1 desprevenida,<br \/>\nficaremos cientes que o mesmo amigo desta casa a avisou, e nesse caso n\u00f3s<br \/>\ntodos nos consideraremos ofendidos, e V. Ex\u00aa ter\u00e1 de se bater<br \/>\npor ordem de n\u00famero, com o amigo Gorj\u00e3o, o amigo Sequeira, o<br \/>\namigo B, este criado de V. Ex\u00aa, e depois, com o Peixotinho! Cinco duelos<br \/>\nem lugar de um! Mas eu dou a minha palavra de honra&#8230; Eu n\u00e3o<br \/>\ntenho culpa&#8230; \u00c9 um assassinato!.<\/p>\n<p>Temos a honra de desejar a V. Ex\u00aa muito boas tardes. Aqui estaremos<br \/>\namanh\u00e3, \u00e0s sete. E a mesma tip\u00f3ia, o cocheiro \u00e9<br \/>\nseguro&#8230; E o Pintado. N\u00e3o se incomode V. Ex\u00aa&#8230; Criado de V.<br \/>\nEx\u00aa&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00edpio, s\u00f3 no escrit\u00f3rio, teve um grito de revolta:<br \/>\nA\u00ed est\u00e1 o que \u00e9 um homem de bem meter-se com<br \/>\nespadachins! Se ele tivesse posto este neg\u00f3cio nas m\u00e3os prudentes<br \/>\ndo Conselheiro Andrade ou do Fradinho, por exemplo, a solu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndecerto teria sido outra, toda honrosa, toda amig\u00e1vel; mas entregara-a<br \/>\na dois personagens s\u00f4fregos de publicidade, pedantes do ponto de honra<br \/>\ne ali estava agora, empurrado fatalmente para diante de uma espada<br \/>\nnua! Que se passou na alma deste grande homem, nessa noite de agonia? Mal<br \/>\nsabiam os que passavam, \u00e0 sa\u00edda de S. Carlos, pelo Largo do<br \/>\nQuintela, que ali, no segundo andar, por tr\u00e1s de uma janela iluminada,<br \/>\nhavia um Horto, uma hora do Jardim das Oliveiras.<\/p>\n<p>Quantas sensa\u00e7\u00f5es, ideias, imagina\u00e7\u00f5es, se revolveram<br \/>\nnaquele vasto e complicado c\u00e9rebro de estadista. Ele revelou-me algumas<br \/>\ndessas torturas em detalhe. Ao princ\u00edpio tentou correr a casa do Petit,<br \/>\ne pedir-lhe que lhe ensinasse um bote-secreto, desses de que lera nos romances,<br \/>\nque se aprendem em It\u00e1lia e que inspiram terror nas salas de esgrima.<br \/>\nPensou em fazer o seu testamento, mas pareceu-lhe um mau agoiro l\u00fagubre.<br \/>\nDesejou ent\u00e3o que houvesse uma revolu\u00e7\u00e3o, ou um inc\u00eandio<br \/>\nque devorasse metade da cidade, uma cat\u00e1strofe social, e ficava a olhar,<br \/>\ndesesperadamente, para a tenebrosa pacatez do Largo do Quintela. Lembrouse<br \/>\ncom prazer, com esperan\u00e7a, que o Peixotinho sofria de um aneurisma&#8230;<br \/>\nQuis rezar, mas distra\u00eda-se: permanentemente, via a mesma vis\u00e3o<br \/>\nda v\u00e9spera um corpo traspassado de estocadas, e uma vi\u00fava,<br \/>\ndesgrenhada, solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>Que desespero! E ainda nessa tarde estava t\u00e3o seguro, j\u00e1 com<br \/>\ntodo o perigo passado, saboreando as felicita\u00e7\u00f5es do seu f\u00e1cil<br \/>\nhero\u00edsmo, descansado para sempre, e agora ali se via outra vez, reca\u00eddo<br \/>\nnas agonias da incerteza e nos terrores da Eternidade&#8230;<\/p>\n<p>Enfim, ao outro dia, depois de um sono agitado, uma carruagem que parou<br \/>\n\u00e0 porta despertouo.<\/p>\n<p>Dissera na v\u00e9spera a D. Virg\u00ednia que havia, com efeito um<br \/>\nalmo\u00e7o de amigos no Farol da Guia, e que deviam sair cedo; e t\u00e3o<br \/>\npersuadida ela ficara, que apenas murmurou, meio a dormir, voltando-se para<br \/>\na parede: Tem cautela&#8230; N\u00e3o fa\u00e7as excessos, sabes que<br \/>\nte d\u00e1 a dor&#8230;<\/p>\n<p>Aludia a certos espasmos nervosos de que ele sofria no est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Partiram. A manh\u00e3, muito fria, estava nublada e parda. A e B, justo<br \/>\n\u00e9 diz\u00ea-lo, que na v\u00e9spera se tinham mostrado t\u00e3o<br \/>\nsecos, t\u00e3o cortantes, representavam agora com uma solicitude tocante<br \/>\no seu papel de padrinhos. Enquanto a caleche batia e parecia a Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos que uma tal velocidade era um exagero irritante davam-lhe<br \/>\nconselhos pr\u00e1ticos, tirados da pr\u00f3pria experi\u00eancia e adequados<br \/>\naos conhecimentos elementares que Al\u00edpio Abranhos tinha da esgrima:<br \/>\nque se n\u00e3o descobrisse muito; a ponta da espada sempre diante<br \/>\ndos olhos do advers\u00e1rio; que nunca recuasse e a sua solicitude<br \/>\nera t\u00e3o grande, que apagaram os charutos matinais, vendo que o fumo<br \/>\nenjoava Al\u00edpio. O grande orador, no entanto, como ele me revelou mais<br \/>\ntarde, sentia uma lassitude extrema, o desejo m\u00f3rbido de um sono profundo,<br \/>\nde anos, em que nada o perturbasse, nem os despeitos do Peixotinho, nem as<br \/>\ncrises do Estado, nem a piedade dos seus amigos. Por vezes uma casa, ou uma<br \/>\nesquina de rua, recordavam-lhe outras \u00e9pocas de felicidade tranquila,<br \/>\nem que a morte lhe aparecia como uma hip\u00f3tese distante. A morte!&#8230;<br \/>\nMaldi\u00e7\u00e3o! Ia agora talvez para ela, ao trote exagerado, estupidamente<br \/>\nexagerado,.65 daquela magra parelha de pra\u00e7a&#8230; Lamentou ent\u00e3o<br \/>\nas coisas boas da vida os jantarzinhos em fam\u00edlia, as car\u00edcias<br \/>\nde Virg\u00ednia, o seu quarto em casa das Barrosos, em Coimbra, e os folhados<br \/>\nde coc\u00f3, de que gostava tanto! Mas, temendo que o seu sil\u00eancio<br \/>\npudesse ser tomado como a prostra\u00e7\u00e3o do medo, come\u00e7ou<br \/>\na falar com os seus amigos de pol\u00edtica com uma prodigiosa lucidez e<br \/>\nsegundo me afirmou depois um destes cavalheiros num tom em<br \/>\nque se sentia uma solenidade de testamento.<\/p>\n<p>Chegaram enfim, e viram logo, ao p\u00e9 de uma \u00e1rvore magra, o<br \/>\ngrupo do Peixotinho e dos padrinhos, tagarelando jovialmente.<\/p>\n<p>Depois das sauda\u00e7\u00f5es tradicionais, os quatro cavalheiros,<br \/>\nreunidos ao p\u00e9 da \u00e1rvore, falaram baixo, marcaram o terreno,<br \/>\ndesembrulharam as espadas e colocaram os advers\u00e1rios nos seus lugares,<br \/>\ncom uma vivacidade muda, que parecia a Al\u00edpio Abranhos compar\u00e1vel,<br \/>\nsegundo o que lera, aos preparativos r\u00e1pidos e taciturnos dos carrascos<br \/>\nsobre o cadafalso.<\/p>\n<p>Apenas colocado, Al\u00edpio sentiu com terror tom\u00e1-lo um vago<br \/>\nenjoo: ou fosse o balan\u00e7o da tip\u00f3ia ou o ar frio da madrugada,<br \/>\no est\u00f4mago, segundo a frase popular, \u00abembrulhava-se-lhe\u00bb.<\/p>\n<p>Quando lhe deram a sua espada, um suor frio banhou-lhe a testa; uma debilidade<br \/>\nesva\u00eda-lhe os rins&#8230; Desejou vivamente uma cama, um encosto, mas vendo<br \/>\nque o Peixotinho o fixava por tr\u00e1s dos \u00f3culos de ouro, resolveu<br \/>\nser her\u00f3ico e plantou-se firmemente sobre o solo, erecto, esperando<br \/>\no sinal.<\/p>\n<p>A, bateu as palmas e ent\u00e3o, subitamente, viram Al\u00edpio<br \/>\nesgazear os olhos, abrir a boca e apoiando-se fortemente sobre a espada, debru\u00e7ado<br \/>\nsobre ela, vomitar, vomitar longamente, primeiro res\u00edduos mal digeridos<br \/>\nde comida, depois uma baba gelatinosa, e finalmente, com anseios roucos, fezes<br \/>\nesverdeadas! A, sustentava-o pelos ombros; B, amparava-lhe a cabe\u00e7a,<br \/>\ne o grande orador, entre os pux\u00f5es dos v\u00f3mitos, murmurava com<br \/>\nos l\u00e1bios babados: \u00c9 do est\u00f4mago! &#8230; \u00c9<br \/>\num bocado&#8230; de indigest\u00e3o! Todos viram bem que \u00abera do est\u00f4mago\u00bb<br \/>\ne ningu\u00e9m duvidou do seu valor.<\/p>\n<p>Peixoto, por\u00e9m esquecendo toda a delicadeza, disse alto, com desd\u00e9m,<br \/>\nvoltando-se para os seus padrinhos: Eu esperarei&#8230; Deix\u00e1-lo<br \/>\nvomitar&#8230; Que vomite, que vomite! Tanto desprezo indignou Al\u00edpio:<br \/>\nendireitou-se, p\u00e1lido, e tomando o ferro, balbuciou: Estou<br \/>\nbem, estou melhor&#8230; vamos a isto! E com uma patada na terra mole, ergueu<br \/>\nalto a espada.<\/p>\n<p>O Conde contou-me depois que mal tivera consci\u00eancia da luta; vira<br \/>\nos dois longos clar\u00f5es das l\u00e2minas lustrosas, e subitamente sentiu<br \/>\nna orelha uma frialdade fina, penetrante. Recuou com um berro: Estou<br \/>\nferido! Estou ferido na orelha! O cirurgi\u00e3o correu e a serenidade<br \/>\npenetrou longamente, largamente a alma de Al\u00edpio, quando o ouviu declarar:<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 nada; \u00e9 um golpezito. Com adesivo est\u00e1<br \/>\npronto em tr\u00eas dias! A honra foi, no cerimonial do estilo, declarada<br \/>\nsatisfeita; os dois advers\u00e1rios que, segundo dizia a acta, se tinham<br \/>\nbatido como le\u00f5es, apertaram-se as m\u00e3os, chamando-se Excel\u00eancias,<br \/>\ne Al\u00edpio voltou para Lisboa com os seus padrinhos, na tip\u00f3ia,<br \/>\ntapando a orelha com o len\u00e7o.<\/p>\n<p>Tal foi este combate hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Os jornais da oposi\u00e7\u00e3o celebraram o orador que sustentava<br \/>\nas suas ideias com a espada e derramava por elas o sangue da sua orelha. D.<br \/>\nVirg\u00ednia sentiu todo o seu amor.66 flamejar mais alto e mais forte,<br \/>\npor este homem que lhe parecia superior aos Rold\u00f5es e aos Oliveiros.<\/p>\n<p>Os jornais do Governo, esses sim, falaram com esc\u00e1rnio dos v\u00f3mitos<br \/>\ndo orador, mas foram bem depressa reduzidos ao sil\u00eancio pelos jornais<br \/>\nda oposi\u00e7\u00e3o, que lembraram que anos antes, o Ministro das Obras<br \/>\nP\u00fablicas, batendo-se em duelo, n\u00e3o vomitara, mas tivera um t\u00e3o<br \/>\nvergonhoso contratempo intestinal, que fora necess\u00e1rio conduzi-lo a<br \/>\numa venda pr\u00f3xima, onde, durante horas, o prostrado estadista circulou<br \/>\nlividamente de um banco da cozinha para um recanto do p\u00e1tio, como sob<br \/>\na influ\u00eancia dissolvente de \u00f3leo de r\u00edcino tomado sem<br \/>\ndiscernimento! Como, por\u00e9m, nem a intempestiva indigest\u00e3o de<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos, nem o desastroso relaxamento do Sr. Ministro das Obras<br \/>\nP\u00fablicas foram exarados nas actas, o p\u00fablico considerou estas<br \/>\ninsinua\u00e7\u00f5es como meras t\u00e1cticas de discuss\u00e3o pol\u00edtica<br \/>\ne a coragem de Al\u00edpio ficou estabelecida em bases duradoiras. Mais<br \/>\ntarde o Conde tinha mesmo uma certa vaidade neste duelo, a que ele chamava<br \/>\no seu \u00abbaptismo de sangue\u00bb. Pelo menos deveu-lhe um resultado<br \/>\nestim\u00e1vel: depois dessa gota de sangue, os coment\u00e1rios irritantes<br \/>\nsobre a sua passagem para a oposi\u00e7\u00e3o foram respeitosamente suprimidos.<\/p>\n<p>Foi por este tempo se me n\u00e3o enganam os documentos que possuo<br \/>\nque se come\u00e7ou a organizar em torno de Al\u00edpio Abranhos<br \/>\num grupo fiel de amigos \u00edntimos, a que se chamou maliciosamente a coterie<br \/>\nAbranhos ou a panelinha Abranhos, mas que eu depois designei num folhetim<br \/>\ndo Globo geralmente estimado, com o nome mais respeitoso e mais justo de \u00abSal\u00e3o<br \/>\nde S. Ex\u00aa\u00bb. N\u00e3o se creia, por\u00e9m, que eu digo o Sal\u00e3o<br \/>\nde S. Ex\u00aa como diria o sal\u00e3o de M.me R\u00e9camier, o sal\u00e3o<br \/>\nde M.me de Girardin, ou o sal\u00e3o de M.me Adolphe Adam, ou ainda, numa<br \/>\nordem mais ef\u00e9mera e mais bo\u00e9mia, o sal\u00e3o de M.me Troubetsko\u00ef;<br \/>\nestes sal\u00f5es s\u00e3o uma pura institui\u00e7\u00e3o parisiense,<br \/>\nque Londres, Viena, Roma, Madrid, Berlim, copiam, dando-lhe a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nparticular da ra\u00e7a, das maneiras e da preocupa\u00e7\u00e3o nacional.<br \/>\nTudo difere, por exemplo, entre um sal\u00e3o de Berlim e um sal\u00e3o<br \/>\nde Roma, desde a decora\u00e7\u00e3o das salas at\u00e9 \u00e0s figuras<br \/>\nfamiliares e caracter\u00edsticas. Num sal\u00e3o berlinense, tudo \u00e9<br \/>\nduro, estreito, hirto, fortemente destacado, desde a cor viva dos pap\u00e9is<br \/>\nou das sedas baratas, at\u00e9 \u00e0 forte ilumina\u00e7\u00e3o de<br \/>\num g\u00e1s econ\u00f3mico, que d\u00e1 o mesmo tom \u00e1spero ao<br \/>\nloiro seco dos cabelos das mulheres e \u00e0 figura regrada do oficial de<br \/>\nEstado-Maior.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, num sal\u00e3o de Roma, tudo \u00e9 discreto,<br \/>\nde meias-tintas, s\u00f3brio, desde a decora\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rmores<br \/>\npl\u00e1cidos, dos doirados leves, da luz aristocr\u00e1tica dos candelabros,<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 palidez dos rostos, ao frufru subtil das caudas dos cardeais<br \/>\ne ao murm\u00fario brando do italiano, falado por vozes discretas e delicadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o falo por experi\u00eancia pr\u00f3pria. A minha posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsubalterna na sociedade nunca me permitiu viajar ou penetrar nesses recintos<br \/>\naugustos, mas uma pessoa eminente da minha fam\u00edlia, meu bom tio Juli\u00e3o,<br \/>\ntouriste bem conhecido, tem-me esclarecido sobre estas formas luxuosas das<br \/>\nciviliza\u00e7\u00f5es superiores.<\/p>\n<p>Em Lisboa, por\u00e9m, o Sal\u00e3o n\u00e3o existe. N\u00e3o me<br \/>\ncompete estudar aqui as raz\u00f5es desta defici\u00eancia: enuncio somente<br \/>\no facto; portanto, quando digo o Sal\u00e3o do Conde d&#8217;Abranhos, quero designar<br \/>\numa reuni\u00e3o pacata e \u00edntima, onde se toma um ch\u00e1 bem<br \/>\nservido, se abre uma mesa de voltarete, se toca uma valsa conhecida e se fala<br \/>\nno pre\u00e7o dos g\u00e9neros ou nos \u00abpodres\u00bb das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>As soir\u00e9es do Conde d&#8217;Abranhos eram desta estim\u00e1vel esp\u00e9cie.<br \/>\nN\u00e3o havia cerimonial nem aparato: \u00e0s dez horas vinha o ch\u00e1<br \/>\ncom torradas e bolachas de \u00e1gua e sal; \u00e0s vezes duas senhoras<br \/>\nenla\u00e7adas valsavam graciosamente; n\u00e3o poucas vezes eu fui chamado<br \/>\na recitar alguma poesia dos nossos grandes l\u00edricos; e os homens graves<br \/>\nrepousavam dos cuidados do Estado num pacato voltarete a Vint\u00e9m.<\/p>\n<p>Insisto nestes detalhes, para destruir a errada opini\u00e3o (que tende<br \/>\na introduzir-se na.Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea) de que o Sal&amp;atiatilde;o<br \/>\nAbranhos era uma caverna pol\u00edtica. N\u00e3o nego decerto que por<br \/>\nvezes se n\u00e3o falasse dos neg\u00f3cios p\u00fablicos, e que, quando<br \/>\no Ex.mo Conde era ministro, as personalidades eminentes da maioria n\u00e3o<br \/>\nviessem tomar sem cerim\u00f3nia a sua ch\u00e1vena de ch\u00e1. Posso,<br \/>\npor\u00e9m, afirmar, que nunca nestas pacatas soir\u00e9es se decidiram<br \/>\nou se combinaram os grandes movimentos da pol\u00edtica, como sucede nos<br \/>\nsal\u00f5es estrangeiros, onde, segundo me tem contado meu bom tio Juli\u00e3o,<br \/>\nse tramam, por tr\u00e1s dos leques, golpes de Estado e se decidem os destinos<br \/>\nda P\u00e1tria entre duas vazas de whist! Os \u00edntimos dos Abranhos,<br \/>\neram, na sua quase totalidade, os antigos familiares do Desembargador Amado.<\/p>\n<p>Era o coronel Serr\u00e3o sempre o primeiro a chegar, bufando<br \/>\nalto, de aspecto feroz e cora\u00e7\u00e3o bondoso, sempre com sua filha<br \/>\nCatarina, magra e estonteada, de grande cuja, os dentes maus do abuso dos<br \/>\ndoces, as omoplatas salientes sob o corpete do vestido atabalhoado. Nunca<br \/>\nsimpatizei com esta fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Era a excelente D. Joana Carneiro, cujo cirro no est\u00f4mago alastrava,<br \/>\ninspirando geral compaix\u00e3o, sempre triste, trazendo todas as noites<br \/>\na narra\u00e7\u00e3o dos sintomas crescentes da sua doen\u00e7a. Acompanhava-a,<br \/>\nami\u00fade, um sobrinho, marialva de cal\u00e7a justa e jaquet\u00e3o<br \/>\ncingido, grande frequentador do Caf\u00e9 Central, com voz rouca da noitada<br \/>\nda v\u00e9spera, e sempre acanhado de se encontrar naquela sala, entre senhoras,<br \/>\nnum lugar onde nem havia fadistas, nem pilecas, nem meios litros. Sua tia,<br \/>\ninquieta do futuro, procurava afincadamente coloc\u00e1-lo numa reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Estado.<\/p>\n<p>Era ainda a enorme D. Am\u00e1lia Saraiva, a que tamb\u00e9m j\u00e1<br \/>\nme referi neste trabalho: os seios fenomenais desta senhora, que se iam desenvolvendo<br \/>\nprogressivamente com os anos, pareciam dois mundos. Quando desapertasse o<br \/>\nvestido fortemente espartilhado que os continha, o trasbordar daquelas duas<br \/>\nprodigiosas massas de tecido celular devia ser um espect\u00e1culo pavoroso<br \/>\ne grandioso! Vi\u00fava de um homem que prestara vagos servi\u00e7os ao<br \/>\nEstado, reclamava agora com pertin\u00e1cia uma justa pens\u00e3o. Vinha<br \/>\ngeralmente com sua delicada filha, a tocante Julinha, ador\u00e1vel pela<br \/>\nfidelidade e gra\u00e7a juvenil com que recitava A Lua de Londres e outras<br \/>\nmaravilhas da literatura p\u00e1tria.<\/p>\n<p>N\u00e3o devo esquecer o Conselheiro Andrade, agora frequentador ass\u00edduo<br \/>\ndo Sal\u00e3o Abranhos, pequeno, aprumado, escarolado, com o seu perfil<br \/>\nde jurista, as suicinhas brancas, o ar pr\u00f3spero. Propriet\u00e1rio<br \/>\nabastado do Ribatejo, continuava a dar toda a sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0<br \/>\nagricultura, e, como agora escrevia artigos profundos no Arquivo Rural, este<br \/>\nlado liter\u00e1rio da sua personalidade estabeleceu entre n\u00f3s uma<br \/>\nsimpatia, que, vindo de um homem t\u00e3o opulento, \u00e9 ainda uma das<br \/>\nhonras da minha carreira.<\/p>\n<p>Infal\u00edvel, tamb\u00e9m, era o Doutor, aquele cavalheiro estim\u00e1vel,<br \/>\nmas de aspecto l\u00fagubre, que todos apenas conheciam por este nome: o<br \/>\nDoutor. Sempre vestido de preto, sempre de luvas, amarelo como uma cidra,<br \/>\npersistia na sua mudez taciturna; por\u00e9m, continuava a escutar com uma<br \/>\naten\u00e7\u00e3o intensa, a testa franzida, piscando vivamente os olhos,<br \/>\ncomo num profundo trabalho cerebral. Respeitador fervente das institui\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndas personalidades oficiais, ningu\u00e9m sabia ainda onde ele vivia, nem<br \/>\nde que vivia: mas precipitava-se com tanta venera\u00e7\u00e3o (porque<br \/>\nera homem de sociedade) a tomar as x\u00edcaras vazias das m\u00e3os das<br \/>\nsenhoras, dizia com tanta convic\u00e7\u00e3o, na sua voz cavernosa, \u00abtem<br \/>\nV. Ex\u00aa carradas de raz\u00e3o\u00bb; que era geralmente considerado<br \/>\ncomo um excelente mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas a maior anima\u00e7\u00e3o daquelas soir\u00e9es era dada, como<br \/>\noutrora em casa do Desembargador, pelos nossos conhecidos Fradinhos. O Dr.<br \/>\nFradinho, que teve depois uma t\u00e3o gloriosa carreira, n\u00e3o passava<br \/>\nent\u00e3o de um modesto advogado. Possu\u00eda, por\u00e9m, uma certa<br \/>\nfortuna, e com as suas lunetas de ouro e o farto bigode, era na verdade um<br \/>\nbelo homem. Nada encantava nele todavia como a vivacidade da conversa; n\u00e3o,<br \/>\nem boa.68 verdade, que eu jamais lhe ouvisse expor uma ideia original ou um<br \/>\ndito faiscante: mas era fecundo e verboso. Ningu\u00e9m conhecia melhor<br \/>\na nossa legisla\u00e7\u00e3o, e sobretudo a da B\u00e9lgica, o seu pa\u00eds<br \/>\nfavorito. Era al\u00e9m disso activo, ambicioso, d\u00factil, e a sua<br \/>\nadmira\u00e7\u00e3o, a sua dedica\u00e7\u00e3o por Al\u00edpio Abranhos,<br \/>\ndavam o tra\u00e7o dominante do seu car\u00e1cter.<\/p>\n<p>Al\u00edpio Abranhos teve assim o desgosto de passar durante algum tempo<br \/>\npor \u00abum grande<\/p>\n<p>chalaceador\u00bb.<\/p>\n<p>As orelhas abrasaram-se-lhe de vergonha quando, nessa noite, o padre Augusto<br \/>\nlhe veio dizer que no Martinho era voz geral que \u00abpara chala\u00e7a<br \/>\nn\u00e3o havia outro!\u00bb Quisera estrear-se, mostrando a profundeza<br \/>\nde um fil\u00f3sofo, e faziam-lhe a reputa\u00e7\u00e3o de um folhetinista&#8230;<br \/>\nTeve rancor ao seu aparte. Neg\u00e1-lo era imposs\u00edvel: l\u00e1<br \/>\nvinha ao outro dia no Di\u00e1rio das C\u00e2maras, com esta indica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo movimento (imensa hilaridade).<\/p>\n<p>Teve ent\u00e3o de sofrer um mart\u00edrio mudo, grotesco, de receber<br \/>\nparab\u00e9ns por uma fa\u00e7anha que o vexava. O Cardoso Torres dissera-lhe:<br \/>\n\u00c9 disso que se quer! E disso que se quer! Vejo que o amigo<br \/>\n\u00e9 homem de pilh\u00e9ria. E mat\u00e1-los com dichotes &#8230;.<\/p>\n<p>Que agonia! E pior ainda foi quando sua tia lhe escreveu, dizendo que em<br \/>\nAmarante, em casa das Neves e das Cunhas, \u00abse tinha falado muito da<br \/>\npilh\u00e9ria que ele dissera na C\u00e2mara, que fizera rir toda Lisboa\u00bb<br \/>\ne que a opini\u00e3o de todos era que devia ser muito temido, \u00abpor<br \/>\ncausa das chala\u00e7as que soltava\u00bb. Isto era odioso para um esp\u00edrito<br \/>\nelevado como o de Al\u00edpio Abranhos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a sua atitude tornou-se cautelosa. Para destruir aquela falsa,<br \/>\ngrotesca fama de \u00abchalaceador\u00bb, assombreou, sublinhou a sua natural<br \/>\nseriedade. Tornou bem patente que aquele dito era, nos seus h\u00e1bitos<br \/>\nintelectuais, uma extravag\u00e2ncia isolada. Conversava com prud\u00eancia,<br \/>\nevitando tudo o que pudesse ser tomado como \u00abgracejo\u00bb, \u00absa\u00edda\u00bb<br \/>\nou \u00abpilh\u00e9ria\u00bb. A sua atitude na C\u00e2mara era como a<br \/>\nafirma\u00e7\u00e3o exterior da gra-vidade dos seus pensamentos: conservava-se<br \/>\nerecto, com os bra\u00e7os cruzados, a testa franzida, pensativo. E um dia<br \/>\nque Cardoso Torres lhe disse: O amigo recolheu-se ao sil\u00eancio.<br \/>\nAtire-lhes outro epigrama, homem! N\u00e3o os deixe&#8230;<\/p>\n<p>espicace-os! Al\u00edpio respondeu, despeitado: Quando eu combater<br \/>\na oposi\u00e7\u00e3o, Sr. Cardoso Torres, h\u00e1-de ser com a l\u00f3gica<br \/>\nn\u00e3o com a pilh\u00e9ria! Pois sim, mas olhe que o<br \/>\nrid\u00edculo \u00e9 uma grande arma.<\/p>\n<p>N\u00e3o a sei manejar, Sr. Cardoso Torres.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias! &#8230; O amigo tem gra\u00e7a&#8230; E utiliz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Al\u00edpio Abranhos tomou rancor a este cavalheiro, e eu posso mesmo,<br \/>\ncom afoiteza, datar desta entrevista a sua resolu\u00e7\u00e3o de se separar<br \/>\ndo minist\u00e9rio Cardoso Torres.<\/p>\n<p>Entretanto ele compreendia que a maneira eficaz e digna de mostrar \u00e0<br \/>\nC\u00e2mara e ao pa\u00eds a verdadeira fei\u00e7\u00e3o do seu talento<br \/>\ns\u00e9rio, era pronunciar um grande discurso de eloqu\u00eancia grave:<br \/>\npreparou-se ent\u00e3o com fervor para a sua verdadeira estreia.<\/p>\n<p>Os projectos pueris nesse momento em discuss\u00e3o, n\u00e3o lhe davam<br \/>\na oportunidade de fazer uma ora\u00e7\u00e3o elevada. Eram medidas subalternas<br \/>\nestradas, um projecto de caminho de ferro, legisla\u00e7\u00e3o<br \/>\npara as col\u00f3nias uma s\u00e9rie de trabalhos mon\u00f3tonos,<br \/>\nem que se comprazia o esp\u00edrito mesquinhamente pr\u00e1tico de Cardoso<br \/>\nTorres, e que a maioria votava, distra\u00edda, desinteressada, perante<br \/>\nas galerias vazias.<\/p>\n<p>Esperava-se, por\u00e9m, uma Reforma da Instru\u00e7\u00e3o, e Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos decidiu fazer nessa ocasi\u00e3o a sua \u00abestreia de estadista\u00bb.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o deste discurso c\u00e9lebre foi feita no meio<br \/>\nde preocupa\u00e7\u00f5es graves de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Chegava Mar\u00e7o e com ele o nono m\u00eas de gravidez de D. Virg\u00ednia<br \/>\nAbranhos. D. Laura instalarase em casa do genro para se achar mais perto da<br \/>\nfilha no momento do transe. Uma bela mo\u00e7a de Campolide, a futura ama,<br \/>\nj\u00e1 estava em casa, e toda a noite ardiam lamparinas propiciat\u00f3rias<br \/>\njunto de santos especiais.<\/p>\n<p>Entretanto, no seu escrit\u00f3rio, Al\u00edpio Abranhos, cercado de<br \/>\nautores, compunha o seu discurso.<\/p>\n<p>A Condessa, mais tarde, muitas vezes me confessou quanto a afectava, no<br \/>\nmeio dos seus terrores pois estava certa de que morreria ver<br \/>\nde repente, \u00e0s onze horas, \u00e0 meia-noite, o marido entrar-lhe<br \/>\npelo quarto, de chinelos e robe de chambre, o olhar brilhante, e ler-lhe algum<br \/>\nper\u00edodo magn\u00edfico que acabava de produzir. Com a roupa sobre<br \/>\no queixo, a face um pouco inchada, que lhe repuxava a pele em torno dos olhos,<br \/>\nescutava, olhando a sombra grotesca, de grande nariz, que o perfil de Al\u00edpio<br \/>\nprojectava sobre a parede, e aterrava-se pensando que o menino ou<br \/>\na menina pudesse nascer com aquele nariz descomunal, fora de toda<br \/>\na propor\u00e7\u00e3o, de tromba, medonho! Enfim o dia chegou. Nessa manh\u00e3<br \/>\nD. Virg\u00ednia tinha sentido de madrugada algumas dores, e isto causou<br \/>\nentre D. Laura e Al\u00edpio uma pequena alterca\u00e7\u00e3o ao almo\u00e7o.<br \/>\nA velha devota n\u00e3o compreendia que Al\u00edpio Abranhos fosse \u00e0<br \/>\nC\u00e2mara nesse dia, quando sua mulher estava numa crise t\u00e3o grave<br \/>\ne na proximidade de um perigo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas, minha senhora, eu estou inscrito para falar&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 falas nem discursos! O seu dever \u00e9 estar<br \/>\naqui, a animar a pequena&#8230; O seu lugar hoje \u00e9 em casa! Primeiro que<br \/>\ntudo est\u00e3o os deveres que tem para com sua mulher.<\/p>\n<p>Al\u00edpio Abranhos aniquilou-a com esta nobre frase: Se tenho<br \/>\ngrandes deveres para com minha mulher, n\u00e3o os tenho menores para com<br \/>\no meu pa\u00eds.<\/p>\n<p>E para terminar o incidente, acrescentou para o criado: Jos\u00e9,<br \/>\nv\u00e1-me buscar uma tip\u00f3ia. Fechada! Tomara, logo ao erguer-se,<br \/>\nduas gemadas para clarear a voz, fortific\u00e1-la, e queria.53 evitar o<br \/>\nfrio dessa \u00e1spera manh\u00e3 de Mar\u00e7o. O tempo, com efeito,<br \/>\ninquietava-o: havia um sudoeste brusco no ar enevoado, e ele receava que a<br \/>\nchuva afastasse o p\u00fablico da galeria.<\/p>\n<p>Choveu, infelizmente, a torrentes; e Al\u00edpio teve o desgosto de ver,<br \/>\nao chegar a S. Bento, que n\u00e3o s\u00f3 a C\u00e2mara era menos numerosa<br \/>\ndo que habitualmente, mas que os bancos das galerias estavam quase desertos.<\/p>\n<p>Os deputados que tinham vindo a p\u00e9 e traziam as botas encharcadas<br \/>\ne os joelhos h\u00famidos passeavam nos corredores; ruidosamente a chuva<br \/>\nfustigava a clarab\u00f3ia. E Al\u00edpio n\u00e3o p\u00f4de deixar<br \/>\nde pensar com despeito, que havia da parte de Deus uma certa ingratid\u00e3o,<br \/>\nfazendo t\u00e3o chuvosa essa manh\u00e3 memor\u00e1vel, em que ele<br \/>\nvinha \u00e0 C\u00e2mara defender o sagrado princ\u00edpio da educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nreligiosa.<\/p>\n<p>Tem a palavra o Sr. Al\u00edpio Abranhos disse enfim,<br \/>\nna sua voz um pouco fanhosa, o presidente, Dr. Ant\u00e3o Carneiro.<\/p>\n<p>Muitas vezes o Conde me confessou que sentiu nesse momento uma agonia: o<br \/>\nest\u00f4mago contra\u00eda-se-lhe, e receou um momento que uma s\u00fabita<br \/>\ndor de ventre o obrigasse a correr \u00e0 latrina situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmedonha ou que, de repente, se lhe varresse da mem\u00f3ria todo<br \/>\no discurso, que, havia tr\u00eas noites, declamava sucessivamente no sil\u00eancio<br \/>\ndo seu escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Felizmente para o pa\u00eds, nem a mem\u00f3ria nem a entranha o tra\u00edram&#8230;<br \/>\ne Al\u00edpio Abranhos, nessa fria manh\u00e3 de Mar\u00e7o, fez o primeiro<br \/>\ndiscurso da sua fecunda e grandiosa carreira pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Este discurso \u00e9 bem conhecido.2 Alguns dos seus melhores trechos<br \/>\nest\u00e3o transcritos na Selecta para uso dos alunos do 3\u00ba ano de<br \/>\nportugu\u00eas.<\/p>\n<p>O Conde conservou sempre por este primeiro trabalho uma predilec\u00e7\u00e3o<br \/>\nparcial. Ele \u00e9, com efeito, apesar do liberalismo exagerado que o caracteriza<br \/>\ne que mais tarde a experi\u00eancia, o poder, os anos, o conhecimento<br \/>\ndos homens devia t\u00e3o cabalmente diminuir a obra literariamente<br \/>\nmais bem trabalhada do Conde.<\/p>\n<p>Esse exagero liberal, \u00e9, por\u00e9m, facilmente explic\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3, ent\u00e3o, ainda mo\u00e7o, o seu esp\u00edrito,<br \/>\napesar de grave e reflectido, era suscept\u00edvel de um certo entusiasmo,<br \/>\nmas tamb\u00e9m o discurso, composto sob a influ\u00eancia de recentes<br \/>\nleituras de Mirabeau e de Lamartine, tomara naturalmente a ampla ret\u00f3rica<br \/>\nliberal que domina as ora\u00e7\u00f5es desses mestres. Esse excessivo<br \/>\nesp\u00edrito de liberalismo pode-se dizer que \u00e9 puramente reflexivo:<br \/>\nassemelhando-se tanto \u00e0 eloqu\u00eancia desses inspiradores, o discurso<br \/>\nconservou alguma coisa das suas doutrinas. Que \u00e9, por\u00e9m, genuinamente<br \/>\nde Al\u00edpio Abranhos, atestam-no o estilo, o colorido, o per\u00edodo.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o conhece essa formosa imagem sobre o envenenamento das fontes<br \/>\np\u00fablicas, comparado ao envenenamento das nascentes do esp\u00edrito?<br \/>\nQue formoso quadro aquele em que descreve o \u00absombrio vulto de Filipe<br \/>\nII\u00bb no Escorial! Com que vigor pinta a poesia dos tempos cavalheirescos<br \/>\nda Meia Idade! Que p\u00e1gina aquela em que descreve a invas\u00e3o dos<br \/>\nB\u00e1rbaros e \u00abo cavalo de Atua que, onde pousa a pata, faz secar<br \/>\na erva dos prados!\u00bb Que sublime ap\u00f3strofe arremessada a Tib\u00e9rio!<br \/>\nQue tra\u00e7os de um pitoresco hist\u00f3rico nossa imagem sobre o \u00absombrio<br \/>\njesu\u00edta, aqui metendo na m\u00e3o de Ravaillac o punhal regicida,<br \/>\nal\u00e9m aperrando a clavina que h\u00e1-de fazer em estilha\u00e7os<br \/>\nos vidros do coche de D. Jos\u00e9 I, depois vertendo na ta\u00e7a de<br \/>\nvinho de Chipre que o Papa Clemente leva aos l\u00e1bios, o veneno negro<br \/>\ndos B\u00f3rgias!\u00bb Que per\u00edodos repassados de l\u00e1grimas<br \/>\nsobre o cadafalso de Lu\u00eds XVI! Que grandeza \u00e9pica, descrevendo,<br \/>\natrav\u00e9s da Europa \u00abo galope triunfante do cavalo branco de Napole\u00e3o!\u00bb<br \/>\nPoderia dizer-se que tudo isto nem sempre vinha a prop\u00f3sito; poderia<br \/>\ndizer-se mesmo, como o conhecido litigante ao advogado loquaz: \u00abN\u00e3o<br \/>\nse trata de Roma, de Cartago, nem da destrui\u00e7\u00e3o de Babil\u00f3nia:<br \/>\ntrata-se do meu sobrinho. Fale do meu sobrinho!\u00bb Mas a isto deverse-<br \/>\nia responder: \u00abEnt\u00e3o reclamai para sempre a supress\u00e3o<br \/>\nda Poesia, da Eloqu\u00eancia e do G\u00e9nio!\u00bb Cada uma destas grandes<br \/>\nimagens, destinadas a enriquecer o pec\u00falio nacional da orat\u00f3ria<br \/>\ncl\u00e1ssica, era seguida de um estalar entusiasta de \u00abbravos!\u00bb,<br \/>\nde \u00absublimes!\u00bb A voz, muito admirada, tinha uma plenitude met\u00e1lica<br \/>\ne sonora e ia, nas suas ondula\u00e7\u00f5es vibrantes, como ondas triunfantes<br \/>\nque banham os rochedos da praia, bater os renques de peitos dilatados e ext\u00e1ticos.<br \/>\nO gesto foi considerado perfeito, ainda que as frequentes punhadas no rebordo<br \/>\nda tribuna, dando um som oco de pau, pareceram demasiadamente impetuosas.<\/p>\n<p>E Al\u00edpio, que subira \u00e0 tribuna \u00absimples Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos\u00bb era, quando desceu, \u00abo nosso inspirado Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos!\u00bb Muitas vezes este adjectivo, ou outros paralelos<br \/>\n\u00abo nosso espirituoso, o nosso f\u00e9rtil\u00bb s\u00e3o<br \/>\ntodo o proveito de uma vida de labor e de produ\u00e7\u00e3o. Quantos<br \/>\nd\u00e3o tudo o que cont\u00e9m o c\u00e9rebro, at\u00e9 \u00e0<br \/>\n\u00faltima gota, ficando depois, para sempre, com o aspecto grotesco e<br \/>\ntriste de um lim\u00e3o espremido cuja recompensa \u00e9, ao fim<br \/>\nde tanto esfor\u00e7o doloroso, uma sinecurazinha numa reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Estado e um adjectivo adiante do nome! Mas, para Al\u00edpio Abranhos,<br \/>\na recompensa n\u00e3o se limitou a um adjectivo, e esse discurso foi o come\u00e7o<br \/>\nda sua prodigiosa carreira.<\/p>\n<p>Ao entrar em casa, ainda vibrante das emo\u00e7\u00f5es da C\u00e2mara,<br \/>\nesperava-o outra alegria, mais grave, mais \u00edntima: era pai! Era pai<br \/>\ndesde as tr\u00eas horas da tarde! Foi sua sogra que lho veio anunciar ao<br \/>\nalto da escada, num grito: E o senhor at\u00e9 a estas horas por<br \/>\nfora! Est\u00e1 tudo acabado! E um menino! E com a maior felicidade! &#8230;<br \/>\n\u00c9 um menino! O seu vivo retrato! N\u00e3o descreverei a cena tocante<br \/>\ne doce que se passou no quarto da parturiente, porque a ela n\u00e3o assisti.<br \/>\nN\u00e3o quero, como esses bi\u00f3grafos de antigos reis e estadistas,<br \/>\nque descrevem os gestos e as palavras de cenas passadas em outros s\u00e9culos,<br \/>\nintroduzir o elemento imaginativo, o romance, neste trabalho hist\u00f3rico.<br \/>\nMas todos n\u00f3s podemos conceber a emo\u00e7\u00e3o desse pai, sa\u00eddo<br \/>\napenas de um triunfo social para vir gozar inesperadamente um triunfo dom\u00e9stico,<br \/>\nno mesmo dia orador consagrado e pai venturoso.<\/p>\n<p>Dizem-me que Al\u00edpio Abranhos, acabrunhado de uma felicidade muito<br \/>\nforte, se deixou cair numa poltrona com os olhos banhados de l\u00e1grimas,<br \/>\no filho nos bra\u00e7os, envolto nas suas faixas brancas, e murmurou:<br \/>\nIsto \u00e9 um dia hist\u00f3rico&#8230; isto \u00e9 um dia hist\u00f3rico!<br \/>\nPassou-se ent\u00e3o dos dois lados da cama onde D. Virg\u00ednia, branca<br \/>\ncomo as rendas da fronha, sorria de um vago sorriso exausto uma tocante<br \/>\ntroca de impress\u00f5es exaltadas. Al\u00edpio contava o seu discurso<br \/>\ne D. Laura o parto.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara ergueu-se como um s\u00f3 homem, e eram bravos,<br \/>\neram berros! As primeiras dores foram terr\u00edveis, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 verdade, filha? Estava agarrada ao meu bra\u00e7o, que at\u00e9<br \/>\ntenho a certeza que me deixou uma n\u00f3doa negra.<\/p>\n<p>Coitadinha! Mas o melhor foi quando eu desci; os apertos de m\u00e3o,<br \/>\nos abra\u00e7os&#8230;<\/p>\n<p>Abra\u00e7os merece ela, que se portou com muita coragem! E a<br \/>\ncrian\u00e7a, que saiu como por uma porta aberta&#8230;<\/p>\n<p>Ao canto do quarto, o novo ser, tenra verg\u00f4ntea da casa dos Noronhas,<br \/>\nindo dos bra\u00e7os da parteira para os bra\u00e7os da ama, chorava baixinho,<br \/>\ncom um som de boneca a que se aperta o est\u00f4mago, nas suas primeiras<br \/>\ncontrariedades humanas.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia, \u00abem aten\u00e7\u00e3o \u00e0 coincid\u00eancia<br \/>\ndo seu nascimento e do triunfo do.pap\u00e1\u00bb, como disse o padre Augusto,<br \/>\nfoi decidido que o menino se chamasse Carlos Benvindo.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo legislativo desse ano, Al\u00edpio Abranhos fez<br \/>\nainda dois discursos, um, sobre pol\u00edtica colonial, outro, sobre o projecto<br \/>\ndo Caminho de Ferro de Leste. Este \u00faltimo \u00e9 sobremodo eloquente:<br \/>\npoder-se-ia chamar a Ode ao Caminho de Ferro.<\/p>\n<p>Nunca o utilit\u00e1rio modo de comunica\u00e7\u00e3o foi descrito<br \/>\ncom tal colorido, com tal vigor de imagina\u00e7\u00e3o: \u00abVede-lo<br \/>\nexclama o orador esse monstro de ferro, soltando das narinas<br \/>\nturbilh\u00f5es de fumo, semelhante ao Leviat\u00e3 da f\u00e1bula!<br \/>\n(bravo! bravo!) Vede-lo, atravessando como um rel\u00e2mpago os mais \u00e1ridos<br \/>\nterrenos: e que maravilhoso espect\u00e1culo se nos oferece ent\u00e3o:<br \/>\nao contr\u00e1rio do cavalo de Atua, cuja pata fazia secar a erva dos prados,<br \/>\npor onde passa este novo cavalo de fogo (bravo! bravo!) brotam as searas,<br \/>\ncobrem-se as colinas de vinha, (muito bem! muito bem!) penduram-se os rebanhos<br \/>\nnas encostas verdejantes dos montes, murmuram os ribeiros nas azinhagas, ondulam<br \/>\nas searas (muito bem!) e o jovial lavrador l\u00e1 vai, satisfeito e alegre,<br \/>\ncantando as deliciosas can\u00e7\u00f5es do campo, junto \u00e0 esposa<br \/>\nfiel, coroada das mimosas flores dos prados! (Bravo! Bravo! Sensa\u00e7\u00e3o!).<\/p>\n<p>Encerradas as sess\u00f5es, Al\u00edpio Abranhos, sua esposa e o tenro<br \/>\nBenvindo partiram para Campolide, onde iam passar o Ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Foram tr\u00eas meses de concentra\u00e7\u00e3o, de \u00edntima felicidade.<br \/>\nTinham passado ali, havia um ano, a sua lua de mel, e a sombra de cada \u00e1rvore,<br \/>\ncada moita de flores, possu\u00edam para eles o valor de uma recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeliciosa: a quinta tornara-se-lhes como uma vasta confidente simp\u00e1tica;<br \/>\nera com orgulho que lhe levavam o tenro Bibi, rabujando nos bra\u00e7os<br \/>\nda ama, como o fruto vivo do amor que ela protegera.<\/p>\n<p>Mas nem por isso Al\u00edpio Abranhos ficou inactivo. Trabalhou muito<br \/>\ne ali escreveu trechos, imagens, perora\u00e7\u00f5es de futuros discursos.<br \/>\nFoi ali tamb\u00e9m que ele tomou, passeando \u00e0 tarde na bela alameda<br \/>\nde loureiros, como costumava, devagar, com as m\u00e3os atr\u00e1s das<br \/>\ncostas, a resolu\u00e7\u00e3o importante que devia ter na sua carreira<br \/>\numa influ\u00eancia t\u00e3o grave.<\/p>\n<p>O minist\u00e9rio Cardoso Torres, ao fim da \u00faltima sess\u00e3o<br \/>\nparlamentar, estava gasto. Esta express\u00e3o a que eu chamaria, se me<br \/>\nn\u00e3o contivesse o respeito, a \u00abg\u00edria constitucional\u00bb,<br \/>\nrefere-se a um fen\u00f3meno vener\u00e1vel e repetido, que eu nunca com-preendi<br \/>\nbem, apesar das explica\u00e7\u00f5es ben\u00e9volas que me foram dadas<br \/>\npor conservadores, republicanos e c\u00e9pticos.<\/p>\n<p>H\u00e1 minist\u00e9rios que se gastam. E todavia, esses minist\u00e9rios,<br \/>\ncomo os outros, administram o tesouro com honestidade, fazem o expediente<br \/>\ndas secretarias com suficiente regularidade, mant\u00eam no pa\u00eds uma<br \/>\nordem ben\u00e9fica, n\u00e3o oprimem nem a imprensa nem a consci\u00eancia,<br \/>\ns\u00e3o respeitosos para com o Chefe de Estado, acompanham com dignidade,<br \/>\nao Alto de S. Jo\u00e3o, todos os defuntos ilustres, falam nas C\u00e2maras<br \/>\ncom honrosa correc\u00e7\u00e3o, s\u00e3o na vida privada cidad\u00e3os<br \/>\nestim\u00e1veis, e no entanto ao fim de alguns meses desta rotina<br \/>\nhonesta, pacata e higi\u00e9nica gastam-se.<\/p>\n<p>Gastam-se porqu\u00ea? Compreende-se que um minist\u00e9rio que luta<br \/>\ncom dificuldades, que se coloca ao trav\u00e9s da opini\u00e3o p\u00fablica,<br \/>\nse gaste, como ao trav\u00e9s de um fr\u00e1gil estacado que uma corrente<br \/>\nhostil incessantemente bate. Compreende-se ainda que um governo criado especialmente<br \/>\npara resolver certas quest\u00f5es sociais ou pol\u00edticas, se torne<br \/>\ndesnecess\u00e1rio, desde que as tenha resolvido, e fique como o z\u00e2ng\u00e3o<br \/>\nque fecundou a abelha e \u00e9 da\u00ed em diante um in\u00fatil.<\/p>\n<p>Mas quando se n\u00e3o d\u00e1 nenhuma destas hip\u00f3teses, quando<br \/>\nos ministros n\u00e3o foram trazidos do seio da sua fam\u00edlia para<br \/>\nresolver quest\u00f5es sociais, ou porque as n\u00e3o haja, ou<br \/>\nporque seja um princ\u00edpio tacitamente estabelecido deix\u00e1-las<br \/>\nsem resolu\u00e7\u00e3o quando,.56 em lugar de se esfor\u00e7arem<br \/>\ncontra a larga corrente da opini\u00e3o, os ministros lhe bolam regaladamente<br \/>\nno dorso, n\u00e3o compreendo como um minist\u00e9rio se possa gastar.<\/p>\n<p>Um dia pedi respeitosamente ao Conde d&#8217;Abranhos a explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda palavra e do fen\u00f3meno, e S. Ex\u00aa, o que raras vezes sucedia,<br \/>\ndeu uma resposta vaga, tortuosa, reticente: \u00c9 uma coisa que<br \/>\nse sente no ar. \u00c9 um n\u00e3o sei qu\u00ea&#8230; Sente-se que a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 gasta&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o me permitiu o respeito que insistisse, mas, no fundo do meu entendimento,<br \/>\nguardo um secreto terror por este fen\u00f3meno incompreens\u00edvel!<br \/>\nO minist\u00e9rio Cardoso Torres estava portanto gasto. Calculava-se que<br \/>\nele pudesse talvez sobreviver durante grande parte da pr\u00f3xima sess\u00e3o,<br \/>\nmas, para o fim de Abril, devia desaparecer subitamente, como tinham desaparecido<br \/>\nos Bexigosos e a corveta Sarago\u00e7a! O Partido Nacional retomaria ent\u00e3o<br \/>\no poder, e Al\u00edpio Abranhos que, agora, era Governo, Influ\u00eancia,<br \/>\nFor\u00e7a, Lei, passaria a ser o deputado loquaz de uma oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e9ril, pois que ningu\u00e9m acreditava que os Reformadores<br \/>\na que pertencia Cardoso Torres tendo subido ao poder por um acaso,<br \/>\nvissem esse acaso repetir-se. Os Reformadores eram pois, na frase cl\u00e1ssica,<br \/>\n\u00abum partido sem futuro\u00bb. O pr\u00f3ximo minist\u00e9rio Nacional<br \/>\nhavia de colar-se \u00e0s cadeiras do poder durante anos. E poderia, durante<br \/>\nanos, Al\u00edpio Abranhos ver as suas faculdades, o seu g\u00e9nio, gastarem-se<br \/>\nna ret\u00f3-rica hostil e rancorosa da oposi\u00e7\u00e3o? Al\u00e9m<br \/>\ndisso o seu c\u00edrculo de Freixo n\u00e3o era ainda um c\u00edrculo<br \/>\ncerto. Durante esses curtos meses de sess\u00e3o, Al\u00edpio n\u00e3o<br \/>\ntivera tempo de prender definitivamente, pela gratid\u00e3o, pelo interesse,<br \/>\npela lisonja, pelos servi\u00e7os prestados, os influentes de Freixo. Se<br \/>\nos Nacionais dissolvessem a C\u00e2mara, quem sabe se Al\u00edpio Abranhos<br \/>\nn\u00e3o se veria empurrado involuntariamente para as do\u00e7uras da<br \/>\nvida \u00edntima, fazendo biribi no beicinho do Bibi, sob as sombras de<br \/>\nCampolide, enquanto outros, sem a sua eloqu\u00eancia nem os seus estudos,<br \/>\ntrotariam para Bel\u00e9m, repoltreando-se nas almofadas do poder? Decerto<br \/>\ntinha deveres para com Cardoso Torres: fora ele que o nomeara deputado, que<br \/>\nlhe abrira as portas da vida p\u00fablica, que o fizera&#8230; Mas, por outro<br \/>\nlado, tinha deveres maiores para consigo mesmo, para com a sua carreira, o<br \/>\nseu nome, e, sobretudo, para com o tenro Bibi.<\/p>\n<p>N\u00e3o devia ele tornar-se grande no seu pa\u00eds, para um dia poder<br \/>\napoiar a carreira do Bibi? Tinha ainda deveres para com Virg\u00ednia, a<br \/>\nquem pesava a obscuridade social, e que, como uma verdadeira portuguesa, ansiava<br \/>\npor fazer a sua grande mesura de corte diante de SS. MM.<\/p>\n<p>Tinha enfim deveres para com o pa\u00eds, ao qual n\u00e3o podia negar<br \/>\nos servi\u00e7os do seu alto entendimento! Estas considera\u00e7\u00f5es<br \/>\npesou-as bem Al\u00edpio Abranhos, nessas horas da tarde em que passeava<br \/>\nsolit\u00e1rio na alameda de loureiros; e quando em princ\u00edpios de<br \/>\nNovembro voltou para Lisboa, tinha decidido, no segredo da sua alma, passar-se<br \/>\ncom as suas armas de eloqu\u00eancia e a sua bagagem de saber para o campo<br \/>\ninimigo. Ia fazer-se oposi\u00e7\u00e3o! Esta resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o a revelou a ningu\u00e9m, nem \u00e0 sua esposa<br \/>\nmas durante meses preparou o grande discurso em que explicaria, como ele disse,<br \/>\n\u00abas raz\u00f5es de Estado que me fazem passar destas bancadas est\u00e9reis<br \/>\n(e designava a maioria) para aqueles bancos fecundos!\u00bb (e mostrava a<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Muitas vezes este grande acto pol\u00edtico foi chamado uma \u00abindecente<br \/>\ntrai\u00e7\u00e3o\u00bb. Nada mais absurdo. Pergunto eu: que \u00e9<br \/>\ntrair? \u00c9 abandonar os ideais que se serviram, e passar, sem raz\u00e3o,<br \/>\npara o servi\u00e7o de ideais opostos que at\u00e9 a\u00ed se combatiam!<br \/>\nIsto \u00e9 normalmente, materialmente, uma trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas havia entre os Reformadores e os Nacionais ideais opostos? Abandonava<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos ideias queridas, para ir, por interesses grosseiros,<br \/>\ndefender ideias.57 detestadas? N\u00e3o.<\/p>\n<p>As ideias que servia entre os Reformadores, ia servi-las entre os Nacionais.<\/p>\n<p>Em Religi\u00e3o, que eram os Reformadores? Cat\u00f3licos, Apost\u00f3licos,<br \/>\nRomanos. E os Nacionais? Idem.<\/p>\n<p>Em Pol\u00edtica, o que eram os Rei armadores? Conservadores constitucionais.<br \/>\nE os Nacionais? Idem.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinham ambos o mesmo amor pela dinastia? O mesmo.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram ambos sustent\u00e1culos dedicados da propriedade?<br \/>\nDedicad\u00edssimos.<\/p>\n<p>N\u00e3o desejavam ambos a estrita aplica\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3 da Constitui\u00e7\u00e3o, de toda a Constitui\u00e7\u00e3o?<br \/>\nDesejavam-na ambos, ardentemente.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram ambos centralizadores? Eram.<\/p>\n<p>N\u00e3o estavam ambos firmes na manuten\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito<br \/>\npermanente? Firm\u00edssimos, ambos.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinham ambos um nobre rancor aos princ\u00edpios revolucion\u00e1rios?<br \/>\nUm rancor nobil\u00edssimo.<\/p>\n<p>E em quest\u00f5es de Instru\u00e7\u00e3o, de Imprensa, de Pol\u00edcia,<br \/>\nn\u00e3o tinham ambos as mesmas \u00f3ptimas ideias? Absolutamente as<br \/>\nmesmas.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram ambos patriotas? Fanaticamente! Ent\u00e3o? Pode-se<br \/>\ndizer que Al\u00edpio Abranhos, indo dos Reformadores para os Nacionais,<br \/>\ntra\u00eda as suas ideias? N\u00e3o! Certamente n\u00e3o! Mas, dir-se-\u00e1,<br \/>\ntraiu o seu amigo Cardoso Torres.<\/p>\n<p>Distingamos: Em Cardoso Torres h\u00e1 o homem e o pol\u00edtico. Trair<br \/>\no homem, seria, por exemplo, (ainda que tal suposi\u00e7\u00e3o me faz<br \/>\ntremer de horror) p\u00f4r m\u00e3o libidinosa no seio respeit\u00e1vel<br \/>\nde D.<\/p>\n<p>Josefa Cardoso Torres. Al\u00edpio Abranhos f\u00ea-lo? O vosso sil\u00eancio<br \/>\ngrave \u00e9 a melhor resposta! Mas traiu o pol\u00edtico, direis. Vejamos:<br \/>\nque \u00e9 um pol\u00edtico? E um ser que simboliza um complexo de ideias:<br \/>\ns\u00f3 se pode tra\u00ed-lo, traindo as ideias que ele representa. Ora<br \/>\neu provei suficientemente que Al\u00edpio Abranhos n\u00e3o traiu<br \/>\nnem em Religi\u00e3o, nem em Moral, nem em Economia Pol\u00edtica, nem<br \/>\nem Administra\u00e7\u00e3o, nem em Pedagogia as ideias representadas<br \/>\npelo Ex.mo Cardoso Torres.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 pois a trai\u00e7\u00e3o? Dizei-o. Ah! esses olhares<br \/>\nno ch\u00e3o, essa express\u00e3o consternada, provam sobejamente que<br \/>\nnada tendes a responder aos meus argumentos impec\u00e1veis! Passou pois<br \/>\npara a oposi\u00e7\u00e3o o nosso grande Al\u00edpio, e com que prodigiosa<br \/>\nimpress\u00e3o esse passo foi recebido no pa\u00eds, di-lo a Hist\u00f3ria<br \/>\nConstitucional.<\/p>\n<p>Foi no discurso de resposta ao Discurso da Coroa que se viu Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos subir \u00e0 tribuna, e com palavras comovidas, dizer que a sua<br \/>\nconsci\u00eancia, os seus princ\u00edpios, o seu patriotismo, for\u00e7avam-no<br \/>\na separar-se de amigos \u00abcujo estandarte segui\u00bb exclamava<br \/>\n\u00abenquanto julguei que eles levavam o Pa\u00eds \u00e0 conquista<br \/>\ndo Progresso mas de quem me separo com dor, ainda que com firmeza,<br \/>\nno dia em que vejo que eles impelem a minha P\u00e1tria, esta P\u00e1tria<br \/>\nque eu amo mais do que amei minha m\u00e3e para os abismos e para<br \/>\na ru\u00edna!\u00bb (Bravo! Bravo!) Com um grande tacto pol\u00edtico,<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos nunca disse claramente, nesse discurso magistral, os<br \/>\nfactos que lhe provavam que o Ex.mo Cardoso Torres fosse arrastando Portugal<br \/>\naos Abismos; mas os apoiados un\u00e2nimes, os bravos fren\u00e9ticos da<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o, mostravam-lhe que, ainda que ele, por respeito aos<br \/>\nseus antigos camaradas, calasse esses factos, a oposi\u00e7\u00e3o os<br \/>\ncompreendia absolutamente.<\/p>\n<p>Assim, que grande ova\u00e7\u00e3o quando Al\u00edpio Abranhos tra\u00e7ou<br \/>\no inspirado quadro do estado do Pa\u00eds sob a administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nCardoso Torres: \u00abOlhai em redor, e vede este formoso torr\u00e3o de<br \/>\nPortugal, que v\u00f3s jurastes, nas m\u00e3os de El-Rei defender e fazer.58<br \/>\nprosperar; olhai e dizei-me se sois dignos de estar nesses bancos uma hora<br \/>\nmais: por toda a parte o esbanjamento da fazenda p\u00fablica, por toda<br \/>\na parte o patrocinato primando o m\u00e9rito; a escola, essa fonte p\u00fablica,<br \/>\nseca de instru\u00e7\u00e3o; as f\u00e9rteis campinas, desoladas; as<br \/>\nestradas que prometestes, cobertas dos pedregulhos e das lamas da inc\u00faria;<br \/>\nas cadeias, esses dep\u00f3sitos do mal, trasbordando; e o pobre campon\u00eas,<br \/>\nque sucumbe ao peso dos impostos, regando com l\u00e1grimas o gr\u00e3o<br \/>\nescasso que lhe d\u00e1 um solo desolado!\u00bb (Bravo! Bravo!). E os ministros,<br \/>\nnos seus bancos, com os bra\u00e7os frouxos, a cabe\u00e7a pendente, sentindo<br \/>\nretumbar-lhes aos ouvidos aquela voz, igual a outra que na Antiguidade, do<br \/>\nfundo dos ares apostrofara Caim, pareciam contemplar, aterrados, a vis\u00e3o<br \/>\npavorosa da P\u00e1tria arruinada! A sensa\u00e7\u00e3o foi prodigiosa.<\/p>\n<p>Nessa noite, quando, deitado no seu sof\u00e1 exausto do seu grande feito<br \/>\norat\u00f3rio, Al\u00edpio se reconfortava na placidez do ch\u00e1 dom\u00e9stico,<br \/>\nrecebeu uma carta do Conselheiro Guedes Navarro, chefe da oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nNacional, em que lhe dizia, depois de outras considera\u00e7\u00f5es:<br \/>\n\u00abComo discurso, poucos conhe\u00e7o iguais em Mirabeau ou em Lamartine.<br \/>\nE para o partido Nacional uma honra, n\u00e3o s\u00f3 ter recebido nas<br \/>\nsuas fileiras um homem do seu valor, mas ter dado ocasi\u00e3o a que pronunciasse<br \/>\num discurso de tal eleva\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 somente<br \/>\npara cumprir o nosso pacto, que lhe ser\u00e1 guardada uma pasta na forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um minist\u00e9rio Nacional. Essa pasta n\u00e3o \u00e9, d&#8217;ora em<br \/>\ndiante, a recompensa da sua ades\u00e3o: \u00e9 uma necessidade de exist\u00eancia<br \/>\npara o partido Nacional, que ter\u00e1 em V. Ex\u00aa, de futuro, o seu<br \/>\nMirabeau conservador.\u00bb Donde se deduz, de resto, que Al\u00edpio Abranhos,<br \/>\ncom um grande alcance pol\u00edtico e uma profunda experi\u00eancia dos<br \/>\nhomens, n\u00e3o dera aquele passo sem primeiro ter garantidos todos os<br \/>\nmeios de penetrar no poder, e prestar ao Pa\u00eds aqueles altos servi\u00e7os<br \/>\nque lhe estava preparando o seu g\u00e9nio pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O desespero do governo e da maioria teve um raro car\u00e1cter de alucina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos passou a ser o infame, o canalha. Nessa mesma noite<br \/>\ntoda a sua vida foi explorada, rebuscada como uma velha algibeira, na esperan\u00e7a<br \/>\nde se encontrar algum esc\u00e2ndalo esquecido. Disse-se que fora o amante<br \/>\nda velha Madame Gato, que tinha um prost\u00edbulo no Arco do Bandeira;<br \/>\nespalhou-se que era filho de um sapateiro de Penafiel, muitas vezes condenado<br \/>\npor ladr\u00e3o; afirmou-se que vivia em desaven\u00e7as cont\u00ednuas<br \/>\ncom sua mulher e que os vizinhos ouviam de noite os gritos das lutas conjugais;<br \/>\ncontou-se que o velho Dr. Vaz Correia lhe dera pontap\u00e9s no escrit\u00f3rio,<br \/>\npor o ter encontrado a falsificar um documento; murmurou-se que era dado em<br \/>\nCoimbra a deboches contra a natureza.<\/p>\n<p>Dos artigos dos jornais nem falarei, para n\u00e3o concorrer a desacreditar<br \/>\nmais ainda, perante o p\u00fablico, uma institui\u00e7\u00e3o a que<br \/>\nimplicitamente perten\u00e7o.<\/p>\n<p>Sentia-se que a sess\u00e3o seguinte seria, na frase consagrada, \u00abtempestuosa\u00bb.<br \/>\nCom efeito, as galerias trasbordavam de gente: todos os amigos que outrora<br \/>\npertenciam \u00e0s soir\u00e9es do Desembargador Amado, e que, agora,<br \/>\ncome\u00e7avam a frequentar a casa dos Abranhos, l\u00e1 estavam. Esperava-se<br \/>\nque em presen\u00e7a das recrimina\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o podiam<br \/>\ndeixar de se produzir da parte da maioria indignada, Al\u00edpio Abranhos<br \/>\npronunciaria outro discurso, no qual o orador se mostrasse, na frase que ouvi<br \/>\na n\u00e3o sei que personagem: \u00abDem\u00f3stenes multiplicado por<br \/>\ntr\u00eas!\u00bb L\u00e1 estava o coronel Serr\u00e3o, que idolatrava<br \/>\nAl\u00edpio, descarregando olhadelas ferozes como cutiladas sobre os \u00abcachorros<br \/>\nda maioria!\u00bb L\u00e1 estava o Conselheiro Andrade, que acompanhava<br \/>\nD. Virg\u00ednia e a bela Fradinho; l\u00e1 estava o sobrinho da pobre<br \/>\nD. Joana Carneiro, em bicos de p\u00e9s, na \u00faltima bancada, e \u00e0<br \/>\nfrente, mais sombrio, mais meditativo, o Doutor.<\/p>\n<p>Antes da ordem do dia, um deputado de estatura herc\u00falea e de voz<br \/>\nde ronc\u00e3o, pediu a palavra.<\/p>\n<p>Era o famoso Gorj\u00e3o, e a sua presen\u00e7a na tribuna, onde ele<br \/>\nsubiu, se plantou, fazendo reluzir sob as sobrancelhas espessas um olhar coruscante,<br \/>\nrevelou suficientemente o plano infame da maioria. Eu classifico este plano<br \/>\ncom uma palavra: tentativa de assassinato.<\/p>\n<p>O famoso Gorj\u00e3o representava no partido dos Rei armadores, a que<br \/>\nele de resto sempre pertenceu, o papel que desempenhava nas redac\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos jornais parisienses da Restaura\u00e7\u00e3o o espadachim, t\u00e3o<br \/>\npoderosamente descrito por Balzac. O espadachim era ordinariamente um antigo<br \/>\noficial da Guarda Imperial, que a Restaura\u00e7\u00e3o reformara, e que,<br \/>\nlevado \u00e0 mis\u00e9ria pelo absinto, o tabaco e as f\u00eameas, alugava<br \/>\na for\u00e7a do seu pulso e a sua destreza \u00e0 espada a algum jornal<br \/>\nde combate. De olho avinhado, voz catarrosa, bigode erri\u00e7ado, grande<br \/>\ncasaco debruado de astrac\u00e3 abotoado at\u00e9 ao pesco\u00e7o, cabelo<br \/>\n\u00e0 escovinha, chap\u00e9u ao lado, este personagem temeroso passava<br \/>\no seu dia na antessala de uma redac\u00e7\u00e3o, queimando o cachimbo<br \/>\nde espuma, repastando-se nos jornais de hist\u00f3rias de crimes e de roubos,<br \/>\ne esperando que pessoas ofendidas subissem as escadas, a pedir a explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um artigo muito insultante ou de uma cal\u00fania muito directa. E se<br \/>\nalgum desgra\u00e7ado aparecia, o feroz indiv\u00edduo erguia a sua enorme<br \/>\nestatura, escarrava grosso no ch\u00e3o, e perguntava com voz agressiva<br \/>\ne o olho raiado de sangue: As suas armas? Os seus padrinhos? As ordens!<br \/>\nE, ou o ofendido recuava diante da medonha apari\u00e7\u00e3o deste c\u00e3o<br \/>\nde fila ou, ao outro dia, recebia, atrav\u00e9s de uma entranha<br \/>\nessencial, a l\u00e2mina infal\u00edvel da sua espada.<\/p>\n<p>Gorj\u00e3o era, entre os Reformadores, o espadachim do partido. Ele foi,<br \/>\ndurante vinte anos, neste pa\u00eds, o pap\u00e3o! A sua barba negra era<br \/>\nferoz, e quando descia o Chiado com o chap\u00e9u sobre o olho, fazendo<br \/>\nsibilar a bengala, um terror invenc\u00edvel contra\u00eda o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos cidad\u00e3os&#8230; A sua biografia, desde Coimbra, era uma lenda pavorosa<br \/>\nde cabe\u00e7as partidas, queixos esmigalhados, tremendos hero\u00edsmos<br \/>\nde pulso. Quando entrava num caf\u00e9, toda a gente se curvava palidamente<br \/>\nsobre o peri\u00f3dico ou o copo de genebra, evitando ser notado por ele<br \/>\npois se dizia que o seu olhar era imediatamente seguido do seu murro.<br \/>\nO Marrare, ent\u00e3o florescente, era o antro desta fera. Quando ele morreu<br \/>\nde um catarro de bexiga, Lisboa sentiu um al\u00edvio suave e as costas<br \/>\ndos cidad\u00e3os endireitaram-se, porque j\u00e1 n\u00e3o as amea\u00e7ava<br \/>\nde alto a bengala do Gorj\u00e3o.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o perversa da maioria era, pois, clara: Gorj\u00e3o,<br \/>\nda tribuna, injuriava Al\u00edpio; Al\u00edpio, bravo, retorquia com irrita\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne Gorj\u00e3o, nos corredores, esmagava Al\u00edpio a murros, ou, ao outro<br \/>\ndia, nas terras da P\u00f3lvora, varava-o com uma espadeirada! Parece hoje<br \/>\nprovado que tal plano fora resolvido numa reuni\u00e3o da maioria: vergonha<br \/>\neterna! N\u00e3o procederia de outro modo uma conjura\u00e7\u00e3o de<br \/>\nzulos, agachados ferozmente entre o alto tojo africano, no Kraal de Cettivayo!<br \/>\nEste grosso brutamontes entrara para S. Bento para assassinar a Eloqu\u00eancia,<br \/>\no Patriotismo e o G\u00e9nio, na pessoa de Al\u00edpio Abranhos! Ainda<br \/>\nbem que te matou, fera, um providencial catarro de bexiga: a tua bengala n\u00e3o<br \/>\nmais oprime os homens livres, e eu posso impunemente, e com regozijo, escarrar-te<br \/>\nsobre a sepultura j\u00e1 que o haver-te escarrado na face ter-me-ia<br \/>\nsido imposs\u00edvel, por ser, como sou, de constitui\u00e7\u00e3o delicada!<br \/>\nCom efeito, as fauces do c\u00e3o de fila abriram-se, e durante uma hora<br \/>\nladrou a inj\u00faria; e como ele tinha (meu Deus, sejamos justos com todo<br \/>\no mundo!) uma certa habilidade de prosa, uma experi\u00eancia astuta da perf\u00eddia<br \/>\nparlamentar, n\u00e3o o fez claramente, o que lhe atrairia sobre o dorso<br \/>\nas severidades do Regulamento. N\u00e3o pronunciou o nome de Al\u00edpio.<br \/>\nFalou apenas do traidor, do ap\u00f3stata, e sob esta designa\u00e7\u00e3o<br \/>\nvilmente vaga, rugiu, com punhadas de atleta, a sua verrina estudada. O desgra\u00e7ado,<br \/>\npor\u00e9m, participava, como todos os da sua corpul\u00eancia, da cl\u00e1ssica<br \/>\nestupidez.dos colossos: n\u00e3o contava com a finura, a habilidade, o g\u00e9nio<br \/>\nde Al\u00edpio.<\/p>\n<p>Com efeito, o nosso her\u00f3i deu-lhe uma li\u00e7\u00e3o severa:<br \/>\ntodo o tempo que o Rold\u00e3o da Baixa trovejou, Al\u00edpio, curvado,<br \/>\nrufava tranquilamente com os dedos sobre a sua pasta de verniz.<\/p>\n<p>E quando, entre os aplausos da maioria alucinada, o medonho Gorj\u00e3o<br \/>\nterminou, lan\u00e7ando uma ap\u00f3strofe \u00abaos cobardes que sob<br \/>\na inj\u00faria, em lugar de erguer a cabe\u00e7a em desafio, rufam, agachados,<br \/>\nsobre as mesas\u00bb Al\u00edpio, que todos esperavam ver pular para a<br \/>\ntribuna, tomou serenamente o Di\u00e1rio do Governo, e p\u00f4s-se a folhe\u00e1-lo<br \/>\ncom pla-cidez.<\/p>\n<p>Dos bancos da maioria sa\u00edram vozes: Que nojo! Que abjec\u00e7\u00e3o!<br \/>\nMas o grande homem, p\u00e1lido, sim, de emo\u00e7\u00e3o reprimida,<br \/>\nmas sereno na apar\u00eancia, continuou imperturb\u00e1vel a folhear o<br \/>\nDi\u00e1rio do Governo. Assim o plano da maioria falhava. Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos, provocado, insultado, caluniado, lia o Di\u00e1rio do Governo!<br \/>\nEsperando provocar-lhe uma c\u00f3lera fatal, produziam-lhe apenas uma serenidade<br \/>\nsublime! Daqui, uma raiva desordenada e outro orador da maioria, o Sr. Albino<br \/>\nPeixoto, subir \u00e0 tribuna: depois do Rold\u00e3o trovejante, era Sim\u00e3o<br \/>\nde N\u00e2ntua, o mel\u00edfluo.<\/p>\n<p>Este personagem, com efeito, pela face redondinha e jovial, de \u00f3culos<br \/>\nde ouro, por todo o seu serzinho barrigudo, pela untuosidade vaga das suas<br \/>\npalavras, pela sua pl\u00e1cida polidez, assemelhava-se ao am\u00e1vel<br \/>\nfilantropo, cheio de prov\u00e9rbios e de virtude, de que fala o livro querido<br \/>\nonde aprendemos a soletrar.<\/p>\n<p>O seu discurso foi a repeti\u00e7\u00e3o das mesmas inj\u00farias,<br \/>\nmas em voz suave e chorosa. Os vitup\u00e9rios que o outro rugira, este<br \/>\nlagrimejou-os. Era, de resto, pessoa de uma proverbial pacatez: havia nos<br \/>\nseus movimentos a hesitante timidez de um m\u00edope que perdeu os \u00f3culos;<br \/>\ncaminhava na vida como na rua, com extremo cuidado, evitando pisar um calo<br \/>\nou uma susceptibilidade.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia da sua autoridade intelectual (e n\u00e3o, como<br \/>\nvilmente se disse, porque deste n\u00e3o tinha medo), Al\u00edpio decidiu<br \/>\nresponder-lhe.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio que se fez na C\u00e2mara quando Al\u00edpio Abranhos<br \/>\nse ergueu e pediu a palavra, foi um daqueles cl\u00e1ssicos sil\u00eancios<br \/>\nmuito conhecidos e estimados em ret\u00f3rica \u00abque precedem<br \/>\nas tempestades\u00bb.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou por dizer que se erguia para responder ao Sr. Albino Peixoto<br \/>\ne s\u00f3 ao Sr. Albino Peixoto acrescentando estas palavras<br \/>\nt\u00e3o admiradas, t\u00e3o dignas de ficarem cl\u00e1ssicas (ainda<br \/>\nque se disse depois perfidamente que ele as imitara de Guizot): Pode<br \/>\no ilustre deputado acumular as cal\u00fanias, elas n\u00e3o chegar\u00e3o<br \/>\n\u00e0 altura do meu desprezo! Peixoto ergueu-se de um jacto, e erecto palid\u00edssimo:<br \/>\nO ilustre deputado insinua que eu sou um caluniador?&#8230;<\/p>\n<p>Ordem! Ordem! Resposta admir\u00e1vel de Al\u00edpio Abranhos:<br \/>\nEu n\u00e3o quero insinuar que o ilustre deputado \u00e9 um caluniador.<br \/>\nEu s\u00f3 afirmei, e claramente, que o ilustre deputado acumulou cal\u00fanias!<br \/>\nOrdem! Ordem! Leio no extracto da sess\u00e3o esta infecta interrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Gorj\u00e3o: N\u00e3o responda, Peixoto! Para os cobardes,<br \/>\ns\u00f3 o escarro ou o chicote&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00edpio Abranhos n\u00e3o se dignou responder-lhe.<\/p>\n<p>Mas o pac\u00edfico Peixoto, que decerto a maioria excitava, exclamou<br \/>\nl\u00edvido: O desprezo de um homem de bem poderia magoar-me, o<br \/>\ndesprezo de um traidor.s\u00f3 me regozija! Triunfante r\u00e9plica de<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos: Traidores s\u00e3o os que vendem a sua pena<br \/>\ne fazem de um jornal um prost\u00edbulo! Esta alus\u00e3o a certos factos<br \/>\nlament\u00e1veis da carreira jornal\u00edstica de Albino Peixoto, produziu<br \/>\numa tormenta que eu encontro assim descrita no Di\u00e1rio das C\u00e2maras:<br \/>\n(Sensa\u00e7\u00e3o prolongada.<\/p>\n<p>Diversas interrup\u00e7\u00f5es que n\u00e3o chegam \u00e0 mesa<br \/>\ndos taqu\u00edgrafos. Os senhores deputados, de p\u00e9, em grande confus\u00e3o,<br \/>\ntrocam palavras col\u00e9ricas. O Sr. Presidente, n\u00e3o podendo fazer-se<br \/>\nescutar, suspende a sess\u00e3o).<\/p>\n<p>O que me resta contar \u00e9 doloroso. Nos corredores da C\u00e2mara,<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos \u00e9 subitamente interpelado pelo Dr. Albino Peixoto,<br \/>\nque se lan\u00e7a de entre um grupo da maioria, e lhe grita: Retire<br \/>\nas palavras que disse, senhor! Al\u00edpio, prudente, balbuciou:<br \/>\nMas colega&#8230; mas caro colega&#8230;<\/p>\n<p>Retire as palavras, canalha! rugiu Peixoto.<\/p>\n<p>Al\u00edpio (como ele me disse depois) ia talvez, por amor da dignidade<br \/>\nparlamentar, retir\u00e1-las, quando Gorj\u00e3o, intervindo bruscamente,<br \/>\ntrovejou: N\u00e3o retira nada! Entre cavalheiros, estas quest\u00f5es<br \/>\nde honra n\u00e3o se tratam assim. N\u00e3o retira nada! Venha da\u00ed,<br \/>\nPeixoto&#8230;<\/p>\n<p>Arrastou o Dr. Peixoto e, da\u00ed a pouco, voltava acompanhado de um<br \/>\ncerto Sequeira, que depois morreu em \u00c1frica, e dirigindo-se a Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos: Preciso fazer-lhe uma comunica\u00e7\u00e3o s\u00e9ria.<br \/>\nTenha a bondade de nos acompanhar ao gabinete A da Comiss\u00e3o de Fazenda.<\/p>\n<p>Al\u00edpio seguiu-o, e, com ele, todos os seus amigos, na expectativa<br \/>\nexcitante de um conflito inesperado. Por\u00e9m entraram s\u00f3s no gabinete<br \/>\nA da Comiss\u00e3o de Fazenda e a\u00ed Gorj\u00e3o, que retomara o<br \/>\nseu ar pomposo, declarou: Vimos aqui numa miss\u00e3o de honra.<br \/>\nO nosso amigo, Dr. Albino Peixoto, reclama uma satisfa\u00e7\u00e3o. V.<br \/>\nEx\u00aa chamou-lhe vendido&#8230;<\/p>\n<p>Mas primeiro tinha-me ele chamado&#8230;<\/p>\n<p>V. Ex\u00aa chamou-lhe vendido! O que ele tinha chamado a V. Ex\u00aa<br \/>\n\u00e9-nos perfeitamente indiferente. V. Ex\u00aa chamou-lhe vendido, e,<br \/>\nou V. Ex\u00aa, quando se abrir de novo a sess\u00e3o d\u00e1 explica\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Eu estou pronto a dar explica\u00e7\u00f5es&#8230; (Ou\u00e7o<br \/>\ndaqui estas palavras precipitadas de Al\u00edpio Abranhos, que, com os seus<br \/>\naltos princ\u00edpios de civiliza\u00e7\u00e3o, tinha o horror dos conflitos<br \/>\nde for\u00e7a).<\/p>\n<p>Perfeitamente. As explica\u00e7\u00f5es s\u00e3o estas: V.<br \/>\nEx\u00aa sobe \u00e0 tribuna e diz: \u00abDeclaro que, quando disse que<br \/>\no meu amigo Albino Peixoto era um vendido, menti, e que tenho as provas mais<br \/>\nevidentes da sua probidade impec\u00e1vel!\u00bb Ent\u00e3o os<br \/>\nsenhores querem que eu diga publicamente que menti?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o querendo dar esta explica\u00e7\u00e3o, tenha a bondade<br \/>\nde nos dizer a que horas poderemos encontrar dois amigos seus, para regular<br \/>\nas condi\u00e7\u00f5es do combate&#8230;<\/p>\n<p>Do combate?&#8230; Mas, queridos colegas, ponham-se no meu lugar&#8230;<\/p>\n<p>A estas palavras t\u00e3o cordiais, t\u00e3o conciliadoras, o brutal<br \/>\nGorj\u00e3o respondeu: No seu lugar qualquer de n\u00f3s tinha<br \/>\nh\u00e1 muito tempo marcado a hora e as armas! V. Ex\u00aa que diz?<br \/>\nAo menos quero consultar alguns amigos&#8230;<\/p>\n<p>Consulte V. Ex\u00aa os seus amigos.<\/p>\n<p>Consultou, com efeito, dois amigos mas, infelizmente, escolheu aqueles<br \/>\nque.eram menos pr\u00f3prios para promover uma solu\u00e7\u00e3o humana,<br \/>\nsensata e crist\u00e3. N\u00e3o os mencionarei, porque vivem ainda e ocupam<br \/>\naltas situa\u00e7\u00f5es no Estado. Chamarei a um A e ao outro B.<\/p>\n<p>A, fidalgo de alto porte, recebera das tradi\u00e7\u00f5es da sua ra\u00e7a,<br \/>\num pouco deteriorada, o preconceito cl\u00e1ssico do ponto de honra. B,<br \/>\nmo\u00e7o estim\u00e1vel, valente, ca\u00e7ador, possu\u00eda uma<br \/>\n\u00fanica especialidade: a sua destreza \u00e0 pistola e ao sabre. Ambos,<br \/>\nem quest\u00f5es de honra, tinham a manter uma reputa\u00e7\u00e3o de<br \/>\nseriedade e de valor. De resto, tanto um como o outro, perfeitos cavalheiros,<br \/>\nmas, infelizmente, muito predispostos, por \u00edndole, a solu\u00e7\u00f5es<br \/>\nviolentas.<\/p>\n<p>Estes dois amigos opinaram, com a unanimidade de um coro antigo, que aceitar<br \/>\ntal exig\u00eancia, era aceitar, implicitamente, uma humilha\u00e7\u00e3o<br \/>\ninfamante. Um homem que se declara mentiroso, fecha diante de si as portas<br \/>\nda Sociedade, da Vida P\u00fablica e dos seus conhecidos. O Sr.<\/p>\n<p>Abranhos passaria da\u00ed por diante a ser um cobarde estabelecido. O<br \/>\nmedo seria a sua profiss\u00e3o. Tornar-se-ia o homem que se pode insultar<br \/>\nsem perigo. B disse-lhe mesmo brutalmente: Um homem que comete no<br \/>\ncome\u00e7o da sua vida p\u00fablica uma tal cobardia, torna-se, mais<br \/>\ntarde ou mais cedo, um armaz\u00e9m de pancada! Mostre que \u00e9 homem<br \/>\ne ningu\u00e9m o torna a insultar.<\/p>\n<p>Que se podia responder a isto? Havia, sob o ponto de vista social, alguma<br \/>\nverdade naquelas frases triviais. Al\u00edpio Abranhos ou tinha de ceder<br \/>\n\u00e0s regras absurdas, obsoletas, monstruosas que regulam a sociedade,<br \/>\nou tinha de abandonar essa sociedade e a carreira que um dia lhe daria o delicioso<br \/>\nprazer de a dominar.<\/p>\n<p>Mas a ideia de se colocar diante de uma espada desembainhada ou de uma pistola<br \/>\naperrada! Teve, um momento, o desejo furioso de fugir com D. Virg\u00ednia,<br \/>\ncom o Bibi, para um canto ignorado da terra, e a\u00ed, vil mas intacto,<br \/>\nsem elogios nos jornais, mas com todos os membros no corpo, gozar egoistamente<br \/>\no amor, a paternidade, o repouso, a natureza, o conforto&#8230;<\/p>\n<p>Mas consentiria Virg\u00ednia em ser a esposa do cobarde Al\u00edpio?<br \/>\nN\u00e3o seria cruel condenar Bibi a ser o filho do abjecto Abranhos? Que<br \/>\ndiriam os jornais? Que diria o coronel Serr\u00e3o? Que risadas no Marrare!<br \/>\nEsta ideia torturava-o. E foi com grande dignidade que respondeu a A e a B:<br \/>\nEu n\u00e3o tenho medo, os amigos bem o sabem. A minha quest\u00e3o<br \/>\n\u00e9 de princ\u00edpios. Sou um homem de progresso, e repugna-me esse<br \/>\nmeio de salvar a honra, \u00e0 maneira da Idade M\u00e9dia! Mas enfim,<br \/>\na sociedade \u00e9 a sociedade&#8230; V\u00e3o-se entender com a fera do Gorj\u00e3o.<br \/>\nEspero-os em casa&#8230; Mas prud\u00eancia, lembrem-se que tenho fam\u00edlia.<\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es foram longas, muito delicadas. Infelizmente,<br \/>\nparece que desde a primeira palavra entre as testemunhas, ficou assente a<br \/>\npriori, como base natural da argumenta\u00e7\u00e3o, que \u00abhaveria<br \/>\nduelo\u00bb, e, \u00e0s 8 horas da noite, Al\u00edpio recebeu no seu<br \/>\nescrit\u00f3rio os seus amigos A e B, que lhe anunciaram em voz baixa que<br \/>\nele, Al\u00edpio Abranhos, se batia \u00e0 espada, \u00e0s sete da manh\u00e3,<br \/>\nna Cruz Quebrada, e que os do Peixoto lhe deixavam a ele, Abranhos, a escolha<br \/>\ndo cirurgi\u00e3o que melhor lhe conviesse.<\/p>\n<p>Um cirurgi\u00e3o! exclamou Al\u00edpio, juntando as<br \/>\nm\u00e3os, at\u00f3nito.<\/p>\n<p>E necess\u00e1rio um cirurgi\u00e3o, para o caso de ser preciso,<br \/>\npor exemplo, ligar uma art\u00e9ria. Enfim, \u00e9 sempre indispens\u00e1vel<br \/>\num cirurgi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00edpio curvou-se, calado. H\u00e1, em certos sil\u00eancios humanos,<br \/>\nem certo humano vergar de ombros, uma ironia feroz, que deve fazer corar o<br \/>\ndestino, envergonhado da sua tirania&#8230; Al\u00edpio Abranhos ficou s\u00f3<br \/>\nno escrit\u00f3rio, prostrado sobre o canap\u00e9 tendo diante<br \/>\nde si a vis\u00e3o n\u00edtida de um corpo retalhado a golpes de espada,<br \/>\nque uma vi\u00fava pranteia, esguedelhada.<\/p>\n<p>A voz do padre Augusto que, como costumava, dizia algum inocente gracejo<br \/>\n\u00e0 Joana, (bonita criada que eu ainda conheci) tirou-o deste leg\u00edtimo<br \/>\ntorpor, e de repente, como um p\u00e1ssaro que subitamente atravessa uma<br \/>\nsala aberta, uma ideia de um engenho subtil atravessou-lhe o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Abriu a porta, chamou o padre, e com uma gravidade que fez arregalar de<br \/>\nterror os olhos do bom eclesi\u00e1stico, murmurou: Padre Augusto,<br \/>\nvou-lhe confiar um grande segredo&#8230; Um segredo tremendo, que h\u00e1-de<br \/>\nficar consigo.<\/p>\n<p>O padre, aterrado, balbuciou: \u00c9 em confiss\u00e3o? E segredo<br \/>\nde confiss\u00e3o? N\u00e3o! exclamou logo Al\u00edpio.<br \/>\nPelo amor de Deus! Nem por sombras o considere segredo de confiss\u00e3o.<br \/>\nQue tolice! Credo! Isso estragava tudo&#8230; Fique bem entendido que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 segredo de confiss\u00e3o&#8230; Mas \u00e9 um segredo que lhe confio:<br \/>\nbato-me amanh\u00e3 em duelo! Caramba! exclamou o respeit\u00e1vel<br \/>\nsacerdote, caindo de chofre no canap\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Al\u00edpio, sentando-se junto dele, contou-lhe a hist\u00f3ria<br \/>\ndo seu duelo. E terminou dizendo: Se eu lhe digo tudo isto \u00e9<br \/>\npara que seja o amigo que amanh\u00e3, se houver desgra\u00e7a, console<br \/>\na Virgininha. E agora adeus, que tenho pap\u00e9is a p\u00f4r em ordem&#8230;<br \/>\nMas guarde o segredo, que pode a coisa chegar aos ouvidos da pol\u00edcia<br \/>\ne transtorna-se tudo.<\/p>\n<p>O sacerdote queria objectar, pregar, parabolar mas Al\u00edpio,<br \/>\nsuave e firme, empurrando-o pelos ombros: \u00c9 uma coisa decidida.<br \/>\nAdeus. E agora veja l\u00e1, padre Augusto, n\u00e3o o v\u00e1 dizer&#8230;<br \/>\nQue a pol\u00edcia, se o sabe, impede a coisa&#8230; Adeus. E amanh\u00e3,<br \/>\n\u00e0s sete, na Cruz Quebrada. N\u00e3o se esque\u00e7a \u00e0s<br \/>\nsete e guarde-me o segredo, amigo.<\/p>\n<p>Padre Augusto foi ao cabide do corredor, agarrou o chap\u00e9u, e precipitou-se<br \/>\npela escada, como uma pedra que rola.<\/p>\n<p>Ao outro dia, \u00e0s sete da manh\u00e3 uma manh\u00e3 clara,<br \/>\nfria e seca quando Al\u00edpio com as suas testemunhas chegavam<br \/>\nao s\u00edtio aprazado, o Regedor de Bel\u00e9m e seis cabos de pol\u00edcia,<br \/>\ndesembocando com f\u00faria de tr\u00e1s de um maci\u00e7o de \u00e1rvores,<br \/>\napoderaram-se dos sete cavalheiros (incluindo o respeit\u00e1vel Teles,<br \/>\ncirurgi\u00e3o)! Foram postos em liberdade \u00e0s dez horas, de sorte<br \/>\nque D. Virg\u00ednia soube por seu marido do perigo que ele correra, e da<br \/>\ninterven\u00e7\u00e3o providencial, que lho salvara. O seu orgulho foi<br \/>\ngrande. Al\u00edpio tomou para ela as propor\u00e7\u00f5es de um d&#8217;Artagnan,<br \/>\nde um Conde de Monte Cristo! E a sua ternura, os seus afagos, a sua admira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nestavam dando a Al\u00edpio momentos deliciosos, quando a Joana lhe veio<br \/>\ndizer que os Srs. A e B, desejavam absolutamente falarlhe e esperavam na sala.<\/p>\n<p>H\u00e1-de ser para o almo\u00e7o&#8230; H\u00e1 sempre um almo\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o era para este fim honesto: era para lhe dizer<br \/>\npara que A lhe dissesse secamente, sem se sentar, com as m\u00e3os nos bolsos<br \/>\ndas cal\u00e7as, fazendo tilintar nervosamente um molho de chaves:<br \/>\nEst\u00e1 provado temos a prova evidente que a pol\u00edcia<br \/>\nfoi avisada por um amigo desta casa&#8230; Isto \u00e9 uma brincadeira torpe.<br \/>\nNem as testemunhas do Peixoto, nem n\u00f3s, somos pessoas com quem se brinque<br \/>\ntorpemente. O duelo que n\u00e3o p\u00f4de ter lugar hoje, h\u00e1-de<br \/>\nter lugar amanh\u00e3, no Lumiar. Se a pol\u00edcia aparecer de novo,<br \/>\no que n\u00e3o \u00e9 natural, agora que ela est\u00e1 desprevenida,<br \/>\nficaremos cientes que o mesmo amigo desta casa a avisou, e nesse caso n\u00f3s<br \/>\ntodos nos consideraremos ofendidos, e V. Ex\u00aa ter\u00e1 de se bater<br \/>\npor ordem de n\u00famero, com o amigo Gorj\u00e3o, o amigo Sequeira, o<br \/>\namigo B, este criado de V. Ex\u00aa, e depois, com o Peixotinho! Cinco duelos<br \/>\nem lugar de um! Mas eu dou a minha palavra de honra&#8230; Eu n\u00e3o<br \/>\ntenho culpa&#8230; \u00c9 um assassinato!.<\/p>\n<p>Temos a honra de desejar a V. Ex\u00aa muito boas tardes. Aqui estaremos<br \/>\namanh\u00e3, \u00e0s sete. E a mesma tip\u00f3ia, o cocheiro \u00e9<br \/>\nseguro&#8230; E o Pintado. N\u00e3o se incomode V. Ex\u00aa&#8230; Criado de V.<br \/>\nEx\u00aa&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00edpio, s\u00f3 no escrit\u00f3rio, teve um grito de revolta:<br \/>\nA\u00ed est\u00e1 o que \u00e9 um homem de bem meter-se com<br \/>\nespadachins! Se ele tivesse posto este neg\u00f3cio nas m\u00e3os prudentes<br \/>\ndo Conselheiro Andrade ou do Fradinho, por exemplo, a solu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndecerto teria sido outra, toda honrosa, toda amig\u00e1vel; mas entregara-a<br \/>\na dois personagens s\u00f4fregos de publicidade, pedantes do ponto de honra<br \/>\ne ali estava agora, empurrado fatalmente para diante de uma espada<br \/>\nnua! Que se passou na alma deste grande homem, nessa noite de agonia? Mal<br \/>\nsabiam os que passavam, \u00e0 sa\u00edda de S. Carlos, pelo Largo do<br \/>\nQuintela, que ali, no segundo andar, por tr\u00e1s de uma janela iluminada,<br \/>\nhavia um Horto, uma hora do Jardim das Oliveiras.<\/p>\n<p>Quantas sensa\u00e7\u00f5es, ideias, imagina\u00e7\u00f5es, se revolveram<br \/>\nnaquele vasto e complicado c\u00e9rebro de estadista. Ele revelou-me algumas<br \/>\ndessas torturas em detalhe. Ao princ\u00edpio tentou correr a casa do Petit,<br \/>\ne pedir-lhe que lhe ensinasse um bote-secreto, desses de que lera nos romances,<br \/>\nque se aprendem em It\u00e1lia e que inspiram terror nas salas de esgrima.<br \/>\nPensou em fazer o seu testamento, mas pareceu-lhe um mau agoiro l\u00fagubre.<br \/>\nDesejou ent\u00e3o que houvesse uma revolu\u00e7\u00e3o, ou um inc\u00eandio<br \/>\nque devorasse metade da cidade, uma cat\u00e1strofe social, e ficava a olhar,<br \/>\ndesesperadamente, para a tenebrosa pacatez do Largo do Quintela. Lembrouse<br \/>\ncom prazer, com esperan\u00e7a, que o Peixotinho sofria de um aneurisma&#8230;<br \/>\nQuis rezar, mas distra\u00eda-se: permanentemente, via a mesma vis\u00e3o<br \/>\nda v\u00e9spera um corpo traspassado de estocadas, e uma vi\u00fava,<br \/>\ndesgrenhada, solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>Que desespero! E ainda nessa tarde estava t\u00e3o seguro, j\u00e1 com<br \/>\ntodo o perigo passado, saboreando as felicita\u00e7\u00f5es do seu f\u00e1cil<br \/>\nhero\u00edsmo, descansado para sempre, e agora ali se via outra vez, reca\u00eddo<br \/>\nnas agonias da incerteza e nos terrores da Eternidade&#8230;<\/p>\n<p>Enfim, ao outro dia, depois de um sono agitado, uma carruagem que parou<br \/>\n\u00e0 porta despertouo.<\/p>\n<p>Dissera na v\u00e9spera a D. Virg\u00ednia que havia, com efeito um<br \/>\nalmo\u00e7o de amigos no Farol da Guia, e que deviam sair cedo; e t\u00e3o<br \/>\npersuadida ela ficara, que apenas murmurou, meio a dormir, voltando-se para<br \/>\na parede: Tem cautela&#8230; N\u00e3o fa\u00e7as excessos, sabes que<br \/>\nte d\u00e1 a dor&#8230;<\/p>\n<p>Aludia a certos espasmos nervosos de que ele sofria no est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Partiram. A manh\u00e3, muito fria, estava nublada e parda. A e B, justo<br \/>\n\u00e9 diz\u00ea-lo, que na v\u00e9spera se tinham mostrado t\u00e3o<br \/>\nsecos, t\u00e3o cortantes, representavam agora com uma solicitude tocante<br \/>\no seu papel de padrinhos. Enquanto a caleche batia e parecia a Al\u00edpio<br \/>\nAbranhos que uma tal velocidade era um exagero irritante davam-lhe<br \/>\nconselhos pr\u00e1ticos, tirados da pr\u00f3pria experi\u00eancia e adequados<br \/>\naos conhecimentos elementares que Al\u00edpio Abranhos tinha da esgrima:<br \/>\nque se n\u00e3o descobrisse muito; a ponta da espada sempre diante<br \/>\ndos olhos do advers\u00e1rio; que nunca recuasse e a sua solicitude<br \/>\nera t\u00e3o grande, que apagaram os charutos matinais, vendo que o fumo<br \/>\nenjoava Al\u00edpio. O grande orador, no entanto, como ele me revelou mais<br \/>\ntarde, sentia uma lassitude extrema, o desejo m\u00f3rbido de um sono profundo,<br \/>\nde anos, em que nada o perturbasse, nem os despeitos do Peixotinho, nem as<br \/>\ncrises do Estado, nem a piedade dos seus amigos. Por vezes uma casa, ou uma<br \/>\nesquina de rua, recordavam-lhe outras \u00e9pocas de felicidade tranquila,<br \/>\nem que a morte lhe aparecia como uma hip\u00f3tese distante. A morte!&#8230;<br \/>\nMaldi\u00e7\u00e3o! Ia agora talvez para ela, ao trote exagerado, estupidamente<br \/>\nexagerado,.65 daquela magra parelha de pra\u00e7a&#8230; Lamentou ent\u00e3o<br \/>\nas coisas boas da vida os jantarzinhos em fam\u00edlia, as car\u00edcias<br \/>\nde Virg\u00ednia, o seu quarto em casa das Barrosos, em Coimbra, e os folhados<br \/>\nde coc\u00f3, de que gostava tanto! Mas, temendo que o seu sil\u00eancio<br \/>\npudesse ser tomado como a prostra\u00e7\u00e3o do medo, come\u00e7ou<br \/>\na falar com os seus amigos de pol\u00edtica com uma prodigiosa lucidez e<br \/>\nsegundo me afirmou depois um destes cavalheiros num tom em<br \/>\nque se sentia uma solenidade de testamento.<\/p>\n<p>Chegaram enfim, e viram logo, ao p\u00e9 de uma \u00e1rvore magra, o<br \/>\ngrupo do Peixotinho e dos padrinhos, tagarelando jovialmente.<\/p>\n<p>Depois das sauda\u00e7\u00f5es tradicionais, os quatro cavalheiros,<br \/>\nreunidos ao p\u00e9 da \u00e1rvore, falaram baixo, marcaram o terreno,<br \/>\ndesembrulharam as espadas e colocaram os advers\u00e1rios nos seus lugares,<br \/>\ncom uma vivacidade muda, que parecia a Al\u00edpio Abranhos compar\u00e1vel,<br \/>\nsegundo o que lera, aos preparativos r\u00e1pidos e taciturnos dos carrascos<br \/>\nsobre o cadafalso.<\/p>\n<p>Apenas colocado, Al\u00edpio sentiu com terror tom\u00e1-lo um vago<br \/>\nenjoo: ou fosse o balan\u00e7o da tip\u00f3ia ou o ar frio da madrugada,<br \/>\no est\u00f4mago, segundo a frase popular, \u00abembrulhava-se-lhe\u00bb.<\/p>\n<p>Quando lhe deram a sua espada, um suor frio banhou-lhe a testa; uma debilidade<br \/>\nesva\u00eda-lhe os rins&#8230; Desejou vivamente uma cama, um encosto, mas vendo<br \/>\nque o Peixotinho o fixava por tr\u00e1s dos \u00f3culos de ouro, resolveu<br \/>\nser her\u00f3ico e plantou-se firmemente sobre o solo, erecto, esperando<br \/>\no sinal.<\/p>\n<p>A, bateu as palmas e ent\u00e3o, subitamente, viram Al\u00edpio<br \/>\nesgazear os olhos, abrir a boca e apoiando-se fortemente sobre a espada, debru\u00e7ado<br \/>\nsobre ela, vomitar, vomitar longamente, primeiro res\u00edduos mal digeridos<br \/>\nde comida, depois uma baba gelatinosa, e finalmente, com anseios roucos, fezes<br \/>\nesverdeadas! A, sustentava-o pelos ombros; B, amparava-lhe a cabe\u00e7a,<br \/>\ne o grande orador, entre os pux\u00f5es dos v\u00f3mitos, murmurava com<br \/>\nos l\u00e1bios babados: \u00c9 do est\u00f4mago! &#8230; \u00c9<br \/>\num bocado&#8230; de indigest\u00e3o! Todos viram bem que \u00abera do est\u00f4mago\u00bb<br \/>\ne ningu\u00e9m duvidou do seu valor.<\/p>\n<p>Peixoto, por\u00e9m esquecendo toda a delicadeza, disse alto, com desd\u00e9m,<br \/>\nvoltando-se para os seus padrinhos: Eu esperarei&#8230; Deix\u00e1-lo<br \/>\nvomitar&#8230; Que vomite, que vomite! Tanto desprezo indignou Al\u00edpio:<br \/>\nendireitou-se, p\u00e1lido, e tomando o ferro, balbuciou: Estou<br \/>\nbem, estou melhor&#8230; vamos a isto! E com uma patada na terra mole, ergueu<br \/>\nalto a espada.<\/p>\n<p>O Conde contou-me depois que mal tivera consci\u00eancia da luta; vira<br \/>\nos dois longos clar\u00f5es das l\u00e2minas lustrosas, e subitamente sentiu<br \/>\nna orelha uma frialdade fina, penetrante. Recuou com um berro: Estou<br \/>\nferido! Estou ferido na orelha! O cirurgi\u00e3o correu e a serenidade<br \/>\npenetrou longamente, largamente a alma de Al\u00edpio, quando o ouviu declarar:<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 nada; \u00e9 um golpezito. Com adesivo est\u00e1<br \/>\npronto em tr\u00eas dias! A honra foi, no cerimonial do estilo, declarada<br \/>\nsatisfeita; os dois advers\u00e1rios que, segundo dizia a acta, se tinham<br \/>\nbatido como le\u00f5es, apertaram-se as m\u00e3os, chamando-se Excel\u00eancias,<br \/>\ne Al\u00edpio voltou para Lisboa com os seus padrinhos, na tip\u00f3ia,<br \/>\ntapando a orelha com o len\u00e7o.<\/p>\n<p>Tal foi este combate hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Os jornais da oposi\u00e7\u00e3o celebraram o orador que sustentava<br \/>\nas suas ideias com a espada e derramava por elas o sangue da sua orelha. D.<br \/>\nVirg\u00ednia sentiu todo o seu amor.66 flamejar mais alto e mais forte,<br \/>\npor este homem que lhe parecia superior aos Rold\u00f5es e aos Oliveiros.<\/p>\n<p>Os jornais do Governo, esses sim, falaram com esc\u00e1rnio dos v\u00f3mitos<br \/>\ndo orador, mas foram bem depressa reduzidos ao sil\u00eancio pelos jornais<br \/>\nda oposi\u00e7\u00e3o, que lembraram que anos antes, o Ministro das Obras<br \/>\nP\u00fablicas, batendo-se em duelo, n\u00e3o vomitara, mas tivera um t\u00e3o<br \/>\nvergonhoso contratempo intestinal, que fora necess\u00e1rio conduzi-lo a<br \/>\numa venda pr\u00f3xima, onde, durante horas, o prostrado estadista circulou<br \/>\nlividamente de um banco da cozinha para um recanto do p\u00e1tio, como sob<br \/>\na influ\u00eancia dissolvente de \u00f3leo de r\u00edcino tomado sem<br \/>\ndiscernimento! Como, por\u00e9m, nem a intempestiva indigest\u00e3o de<br \/>\nAl\u00edpio Abranhos, nem o desastroso relaxamento do Sr. Ministro das Obras<br \/>\nP\u00fablicas foram exarados nas actas, o p\u00fablico considerou estas<br \/>\ninsinua\u00e7\u00f5es como meras t\u00e1cticas de discuss\u00e3o pol\u00edtica<br \/>\ne a coragem de Al\u00edpio ficou estabelecida em bases duradoiras. Mais<br \/>\ntarde o Conde tinha mesmo uma certa vaidade neste duelo, a que ele chamava<br \/>\no seu \u00abbaptismo de sangue\u00bb. Pelo menos deveu-lhe um resultado<br \/>\nestim\u00e1vel: depois dessa gota de sangue, os coment\u00e1rios irritantes<br \/>\nsobre a sua passagem para a oposi\u00e7\u00e3o foram respeitosamente suprimidos.<\/p>\n<p>Foi por este tempo se me n\u00e3o enganam os documentos que possuo<br \/>\nque se come\u00e7ou a organizar em torno de Al\u00edpio Abranhos<br \/>\num grupo fiel de amigos \u00edntimos, a que se chamou maliciosamente a coterie<br \/>\nAbranhos ou a panelinha Abranhos, mas que eu depois designei num folhetim<br \/>\ndo Globo geralmente estimado, com o nome mais respeitoso e mais justo de \u00abSal\u00e3o<br \/>\nde S. Ex\u00aa\u00bb. N\u00e3o se creia, por\u00e9m, que eu digo o Sal\u00e3o<br \/>\nde S. Ex\u00aa como diria o sal\u00e3o de M.me R\u00e9camier, o sal\u00e3o<br \/>\nde M.me de Girardin, ou o sal\u00e3o de M.me Adolphe Adam, ou ainda, numa<br \/>\nordem mais ef\u00e9mera e mais bo\u00e9mia, o sal\u00e3o de M.me Troubetsko\u00ef;<br \/>\nestes sal\u00f5es s\u00e3o uma pura institui\u00e7\u00e3o parisiense,<br \/>\nque Londres, Viena, Roma, Madrid, Berlim, copiam, dando-lhe a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nparticular da ra\u00e7a, das maneiras e da preocupa\u00e7\u00e3o nacional.<br \/>\nTudo difere, por exemplo, entre um sal\u00e3o de Berlim e um sal\u00e3o<br \/>\nde Roma, desde a decora\u00e7\u00e3o das salas at\u00e9 \u00e0s figuras<br \/>\nfamiliares e caracter\u00edsticas. Num sal\u00e3o berlinense, tudo \u00e9<br \/>\nduro, estreito, hirto, fortemente destacado, desde a cor viva dos pap\u00e9is<br \/>\nou das sedas baratas, at\u00e9 \u00e0 forte ilumina\u00e7\u00e3o de<br \/>\num g\u00e1s econ\u00f3mico, que d\u00e1 o mesmo tom \u00e1spero ao<br \/>\nloiro seco dos cabelos das mulheres e \u00e0 figura regrada do oficial de<br \/>\nEstado-Maior.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, num sal\u00e3o de Roma, tudo \u00e9 discreto,<br \/>\nde meias-tintas, s\u00f3brio, desde a decora\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rmores<br \/>\npl\u00e1cidos, dos doirados leves, da luz aristocr\u00e1tica dos candelabros,<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 palidez dos rostos, ao frufru subtil das caudas dos cardeais<br \/>\ne ao murm\u00fario brando do italiano, falado por vozes discretas e delicadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o falo por experi\u00eancia pr\u00f3pria. A minha posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsubalterna na sociedade nunca me permitiu viajar ou penetrar nesses recintos<br \/>\naugustos, mas uma pessoa eminente da minha fam\u00edlia, meu bom tio Juli\u00e3o,<br \/>\ntouriste bem conhecido, tem-me esclarecido sobre estas formas luxuosas das<br \/>\nciviliza\u00e7\u00f5es superiores.<\/p>\n<p>Em Lisboa, por\u00e9m, o Sal\u00e3o n\u00e3o existe. N\u00e3o me<br \/>\ncompete estudar aqui as raz\u00f5es desta defici\u00eancia: enuncio somente<br \/>\no facto; portanto, quando digo o Sal\u00e3o do Conde d&#8217;Abranhos, quero designar<br \/>\numa reuni\u00e3o pacata e \u00edntima, onde se toma um ch\u00e1 bem<br \/>\nservido, se abre uma mesa de voltarete, se toca uma valsa conhecida e se fala<br \/>\nno pre\u00e7o dos g\u00e9neros ou nos \u00abpodres\u00bb das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>As soir\u00e9es do Conde d&#8217;Abranhos eram desta estim\u00e1vel esp\u00e9cie.<br \/>\nN\u00e3o havia cerimonial nem aparato: \u00e0s dez horas vinha o ch\u00e1<br \/>\ncom torradas e bolachas de \u00e1gua e sal; \u00e0s vezes duas senhoras<br \/>\nenla\u00e7adas valsavam graciosamente; n\u00e3o poucas vezes eu fui chamado<br \/>\na recitar alguma poesia dos nossos grandes l\u00edricos; e os homens graves<br \/>\nrepousavam dos cuidados do Estado num pacato voltarete a Vint\u00e9m.<\/p>\n<p>Insisto nestes detalhes, para destruir a errada opini\u00e3o (que tende<br \/>\na introduzir-se na.Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea) de que o Sal\u00e3o<br \/>\nAbranhos era uma caverna pol\u00edtica. N\u00e3o nego decerto que por<br \/>\nvezes se n\u00e3o falasse dos neg\u00f3cios p\u00fablicos, e que, quando<br \/>\no Ex.mo Conde era ministro, as personalidades eminentes da maioria n\u00e3o<br \/>\nviessem tomar sem cerim\u00f3nia a sua ch\u00e1vena de ch\u00e1. Posso,<br \/>\npor\u00e9m, afirmar, que nunca nestas pacatas soir\u00e9es se decidiram<br \/>\nou se combinaram os grandes movimentos da pol\u00edtica, como sucede nos<br \/>\nsal\u00f5es estrangeiros, onde, segundo me tem contado meu bom tio Juli\u00e3o,<br \/>\nse tramam, por tr\u00e1s dos leques, golpes de Estado e se decidem os destinos<br \/>\nda P\u00e1tria entre duas vazas de whist! Os \u00edntimos dos Abranhos,<br \/>\neram, na sua quase totalidade, os antigos familiares do Desembargador Amado.<\/p>\n<p>Era o coronel Serr\u00e3o sempre o primeiro a chegar, bufando<br \/>\nalto, de aspecto feroz e cora\u00e7\u00e3o bondoso, sempre com sua filha<br \/>\nCatarina, magra e estonteada, de grande cuja, os dentes maus do abuso dos<br \/>\ndoces, as omoplatas salientes sob o corpete do vestido atabalhoado. Nunca<br \/>\nsimpatizei com esta fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Era a excelente D. Joana Carneiro, cujo cirro no est\u00f4mago alastrava,<br \/>\ninspirando geral compaix\u00e3o, sempre triste, trazendo todas as noites<br \/>\na narra\u00e7\u00e3o dos sintomas crescentes da sua doen\u00e7a. Acompanhava-a,<br \/>\nami\u00fade, um sobrinho, marialva de cal\u00e7a justa e jaquet\u00e3o<br \/>\ncingido, grande frequentador do Caf\u00e9 Central, com voz rouca da noitada<br \/>\nda v\u00e9spera, e sempre acanhado de se encontrar naquela sala, entre senhoras,<br \/>\nnum lugar onde nem havia fadistas, nem pilecas, nem meios litros. Sua tia,<br \/>\ninquieta do futuro, procurava afincadamente coloc\u00e1-lo numa reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Estado.<\/p>\n<p>Era ainda a enorme D. Am\u00e1lia Saraiva, a que tamb\u00e9m j\u00e1<br \/>\nme referi neste trabalho: os seios fenomenais desta senhora, que se iam desenvolvendo<br \/>\nprogressivamente com os anos, pareciam dois mundos. Quando desapertasse o<br \/>\nvestido fortemente espartilhado que os continha, o trasbordar daquelas duas<br \/>\nprodigiosas massas de tecido celular devia ser um espect\u00e1culo pavoroso<br \/>\ne grandioso! Vi\u00fava de um homem que prestara vagos servi\u00e7os ao<br \/>\nEstado, reclamava agora com pertin\u00e1cia uma justa pens\u00e3o. Vinha<br \/>\ngeralmente com sua delicada filha, a tocante Julinha, ador\u00e1vel pela<br \/>\nfidelidade e gra\u00e7a juvenil com que recitava A Lua de Londres e outras<br \/>\nmaravilhas da literatura p\u00e1tria.<\/p>\n<p>N\u00e3o devo esquecer o Conselheiro Andrade, agora frequentador ass\u00edduo<br \/>\ndo Sal\u00e3o Abranhos, pequeno, aprumado, escarolado, com o seu perfil<br \/>\nde jurista, as suicinhas brancas, o ar pr\u00f3spero. Propriet\u00e1rio<br \/>\nabastado do Ribatejo, continuava a dar toda a sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0<br \/>\nagricultura, e, como agora escrevia artigos profundos no Arquivo Rural, este<br \/>\nlado liter\u00e1rio da sua personalidade estabeleceu entre n\u00f3s uma<br \/>\nsimpatia, que, vindo de um homem t\u00e3o opulento, \u00e9 ainda uma das<br \/>\nhonras da minha carreira.<\/p>\n<p>Infal\u00edvel, tamb\u00e9m, era o Doutor, aquele cavalheiro estim\u00e1vel,<br \/>\nmas de aspecto l\u00fagubre, que todos apenas conheciam por este nome: o<br \/>\nDoutor. Sempre vestido de preto, sempre de luvas, amarelo como uma cidra,<br \/>\npersistia na sua mudez taciturna; por\u00e9m, continuava a escutar com uma<br \/>\naten\u00e7\u00e3o intensa, a testa franzida, piscando vivamente os olhos,<br \/>\ncomo num profundo trabalho cerebral. Respeitador fervente das institui\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndas personalidades oficiais, ningu\u00e9m sabia ainda onde ele vivia, nem<br \/>\nde que vivia: mas precipitava-se com tanta venera\u00e7\u00e3o (porque<br \/>\nera homem de sociedade) a tomar as x\u00edcaras vazias das m\u00e3os das<br \/>\nsenhoras, dizia com tanta convic\u00e7\u00e3o, na sua voz cavernosa, \u00abtem<br \/>\nV. Ex\u00aa carradas de raz\u00e3o\u00bb; que era geralmente considerado<br \/>\ncomo um excelente mo\u00e7o.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Final<\/h2>\n<p>Mas a maior anima\u00e7\u00e3o daquelas soir\u00e9es era dada, como<br \/>\noutrora em casa do Desembargador, pelos nossos conhecidos Fradinhos. O Dr.<br \/>\nFradinho, que teve depois uma t\u00e3o gloriosa carreira, n\u00e3o passava<br \/>\nent\u00e3o de um modesto advogado. Possu\u00eda, por\u00e9m, uma certa<br \/>\nfortuna, e com as suas lunetas de ouro e o farto bigode, era na verdade um<br \/>\nbelo homem. Nada encantava nele todavia como a vivacidade da conversa; n\u00e3o,<br \/>\nem boa.68 verdade, que eu jamais lhe ouvisse expor uma ideia original ou um<br \/>\ndito faiscante: mas era fecundo e verboso. Ningu\u00e9m conhecia melhor<br \/>\na nossa legisla\u00e7\u00e3o, e sobretudo a da B\u00e9lgica, o seu pa\u00eds<br \/>\nfavorito. Era al\u00e9m disso activo, ambicioso, d\u00factil, e a sua<br \/>\nadmira\u00e7\u00e3o, a sua dedica\u00e7\u00e3o por Al\u00edpio Abranhos,<br \/>\ndavam o tra\u00e7o dominante do seu car\u00e1cter.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o II &#8211; Final &nbsp; &nbsp; INTRODU\u00c7\u00c3O Minha Senhora: Tive, durante quinze anos, a honra t\u00e3o invejada de ser o secret\u00e1rio particular de seu Ex.mo Marido, Al\u00edpio Severo Abranhos, Conde d&#8217;Abranhos, e consumo-me, desde o dia da sua morte, no desejo de glorificar a 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