{"id":95530,"date":"2017-01-19T09:52:05","date_gmt":"2017-01-19T11:52:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95530"},"modified":"2017-01-19T09:52:05","modified_gmt":"2017-01-19T11:52:05","slug":"memorias-de-uma-forca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/memorias-de-uma-forca","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de uma Forca"},"content":{"rendered":"<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento deste papel, onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa da sua hist\u00f3ria. Esta forca intentava escrever as suas tr\u00e1gicas Mem\u00f3rias. Deviam ser profundos documentos sobre a vida. \u00c1rvore, ningu\u00e9m sabia t\u00e3o bem o mist\u00e9rio da natureza; forca, ningu\u00e9m conhecia melhor o homem. Nenhum t\u00e3o espont\u00e2neo e verdadeiro como o homem que se torce na ponta de uma corda \u2014 a n\u00e3o ser aquele que lhe carrega sobre os<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ombros! Infelizmente, a pobre forca apodreceu e morreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os apontamentos que deixou, os menos completos s\u00e3o estes que copio \u2014 resumo das suas dores, vaga apar\u00eancia de gritos instintivos. Pudesse ela ter escrito a sua vida complexa, cheia de sangue e de melancolia! \u00c9 tempo de sabermos, enfim, qual \u00e9 a opini\u00e3o que a vasta natureza, montes, \u00e1rvores e \u00e1guas, fazem do homem impercept\u00edvel. Talvez este sentimento me leve ainda algum dia a publicar pap\u00e9is que guardo avaramente, e que s\u00e3o as Mem\u00f3rias de um \u00c1tomo e os Apontamentos de Viagem de Uma Raiz de Cipreste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz assim o fragmento que eu copio \u2014 e que \u00e9 simplesmente o pr\u00f3logo das Mem\u00f3rias: &#8220;Sou duma antiga fam\u00edlia de carvalhos, ra\u00e7a austera e forte \u2014 que j\u00e1 na Antiguidade deixava cair, dos seus ramos, pensamentos para Plat\u00e3o. Era uma fam\u00edlia hospitaleira e hist\u00f3rica: dela tinham sa\u00eddo navios para a derrota tenebrosa das \u00edndias, contos de lan\u00e7as para os alucinados das Cruzadas, e vigas para os tetos simples e perfumados que abrigaram Savonarola, Espinosa e Lutero. Meu pai, esquecido das altas tradi\u00e7\u00f5es sonoras e da sua her\u00e1ldica vegetal, teve uma vida inerte, material e profana. N\u00e3o respeitava as nobres moraisantigas, nem a ideal tradi\u00e7\u00e3o religiosa, nem os deveres da hist\u00f3ria. Era uma \u00e1rvore materialista. Tinha sido pervertida pelos enciclopedistas da vegeta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha f\u00e9, nem alma, nem Deus! Tinha a religi\u00e3o do Sol, da seiva e da \u00e1gua. Era o grande libertino da floresta pensativa. No Ver\u00e3o, enquanto sentia a fermenta\u00e7\u00e3o violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol, acolhia os grandes concertos de p\u00e1ssaros bo\u00eamios, cuspia a chuva sobre o povo curvado e humilde das ervas e das plantas e, de noite, enla\u00e7ado pelas heras lascivas, ressonava sob o sil\u00eancio sideral. Quando vinha o Inverno, com a passividade animal dum mendigo, erguia, para a impass\u00edvel ironia do azul, os seus bra\u00e7os magros e suplicantes! &#8220;Por isso n\u00f3s os seus filhos, n\u00e3o fomos felizes na vida vegetal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos meus irm\u00e3os foi levado para ser tablado de palha\u00e7os: ramo contemplativo e rom\u00e2ntico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa, pelo esc\u00e1rnio, pela farsa e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de sol, de poeira, \u00e1spero solit\u00e1rio da vida, lutador dos ventos e das neves, forte e trabalhador, foi arrancado dentre n\u00f3s, para ir ser t\u00e1bua de esquife! \u2014 Eu, o mais lastim\u00e1vel, vim a ser forca! &#8220;Desde pequeno fui triste e compassivo. Tinha grandes intimidades na floresta. Eu s\u00f3 queria o bem, o riso, a dilata\u00e7\u00e3o salutar das fibras e das almas. O orvalho de que a noite me banhava, atirava-o a umas pobres violetas, que viviam por debaixo de n\u00f3s, doces raparigas lutuosas, melancolias condensadas e vivas da grande alma silenciosa da vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agasalhava todos os p\u00e1ssaros na v\u00e9spera dos temporais. Era eu quem asilava a chuva. Ela vinha, com os cabelos esguedelhados, perseguida, mordida, retalhada pelo vento! Eu abria-lhe as ramagens e as folhas, e escondia-a ali, ao calor da seiva. O vento passava, confundido e imbecil. Ent\u00e3o a pobre chuva, que o via longe, assobiando lascivo, deixava-se escorregar silenciosamente pelo tronco, gota por gota, para o vento a n\u00e3o perceber; e ia, de rastos, por entre a erva, acolher-se \u00e0 vasta m\u00e3e \u00c1gua! Tive por esse tempo uma amizade com um rouxinol, que vinha conversar comigo durante as longas horas consteladas do sil\u00eancio. O pobre rouxinol tinha uma pena de amor! Tinha vivido num pa\u00eds distante, onde os noivados t\u00eam mais moles pregui\u00e7as: l\u00e1 se enamorara: comigo chorava em suspiros l\u00edricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E t\u00e3o m\u00edstica pena era que me disseram que o triste, de dor e de desesperan\u00e7a, se deixara cair na \u00e1gua! Pobre rouxinol! Ningu\u00e9m t\u00e3o amante, t\u00e3o vi\u00favo e t\u00e3o casto!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu queria proteger todos os que vivem. E quando as raparigas do campo vinham para junto de mim chorar, eu erguia sempre as minhas ramagens, como dedos, para apontar \u00e0 pobre alma aflita de l\u00e1grimas todos os caminhos do C\u00e9u! &#8221;Nunca mais! Nunca mais, verde mocidade distante! &#8220;Enfim, eu tinha de entrar na vida da realidade. Um dia, um daqueles homens met\u00e1licos que fazem o tr\u00e1fico da vegeta\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">veio arrancar-me \u00e0 \u00e1rvore. N\u00e3o sabia eu o que me queriam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deitaram-me sobre um carro e, ao cair da noite, os bois come\u00e7aram a caminhar, enquanto ao lado um homem cantava no sil\u00eancio da noite. Eu ia ferido e desfalecido. Via as estrelas com os seus olhares lancinantes e frios. Sentia-me separar da grande floresta. Ouvia o rumor gemente, indefinido e arrastado das \u00e1rvores. Eram vozes amigas que me chamavam! &#8220;Por cima de mim voavam aves imensas. Eu sentia-me desfalecer, num torpor vegetal, como se estivesse sendo dissipado na passividade das coisas. Adormeci. Ao amanhecer, \u00edamos entrando numa cidade. As janelas olhavam-me com olhos ensang\u00fcentados e cheios dum sol irado. Eu s\u00f3 conhecia as cidades pelas hist\u00f3rias que delas contavam as andorinhas, nos ser\u00f5es sonoros da espessura. Mas como ia deitado e amarrado com cordas, apenas via os fumos e um ar opaco. Ouvia o rumor \u00e1spero e desafinado, onde havia solu\u00e7os, risos, bocejos, e mais o surdo ro\u00e7ar da lama, e o tinido sombrio dos metais. Eu sentia enfim o cheiro mortal do homem! Fui arremessado para um p\u00e1tio infecto, onde n\u00e3o havia o azul e o ar. Comecei ent\u00e3o a compreender que uma grande imund\u00edcie cobre a alma do homem, porque ele se esconde tanto das vistas do Sol! &#8220;Uns homens vieram, que me deram desprezivelmente com os p\u00e9s. Eu estava num estado de torpor e de materialidade, que nem sentia as saudades da p\u00e1tria vegetal. Ao outro dia, um homem veio para mim e deu-me golpes de machado. N\u00e3o senti mais nada. Quando voltei a mim, ia outra vez amarrado no carro, e pela noite um homem aguilhoava os bois, cantando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Senti lentamente renascer a consci\u00eancia e a vitalidade. Pareciame que eu estava transformado numa outra vida org\u00e2nica. N\u00e3o sentia a magn\u00e9tica fermenta\u00e7\u00e3o da seiva, a energia vital dos filamentos e a superf\u00edcie viva das cascas. Em redor do carro iam outros homens, a p\u00e9. Sob a brancura silenciosa e compassiva da Lua, tive uma saudade infinita dos campos, do cheiro dos fenos, das aves, de toda a grande alma vivificadora de Deus, que se move entre a ramagem. Eu sentia que ia para uma vida real, de servi\u00e7o e de trabalho. Mas qual? Tinha ouvido falar das \u00e1rvores, que v\u00e3o ser lenha, aquecem e criam, e, tomando entre a conviv\u00eancia do homem a nostalgia de Deus, lutam com os seus bra\u00e7os de chamas para se desprender da terra: essas dissipamse na augusta transfigura\u00e7\u00e3o do fumo, v\u00e3o ser nuvens, ter a intimidade das estrelas e do azul, viver na serenidade branca e altiva dos imortais, e sentir os passos de Deus! &#8220;Eu tinha ouvido falar das que v\u00e3o ser vigas da casa do homem: essas, felizes e privilegiadas, sentem na penumbra amorosa a doce for\u00e7a dos beijos e dos risos; s\u00e3o amadas, vestidas, lavadas; encostam-se a elas os corpos dolorosos dos Cristos, s\u00e3o os pedestais da paix\u00e3o humana, t\u00eam a alegria imensa e orgulhosa dos que protegem; e risos das crian\u00e7as, ais namorados, confid\u00eancias, suspiros, elegias da voz, tudo o que lhes faz lembrar as murmura\u00e7\u00f5es da \u00e1gua, o estremecimento das folhas, as cantigas dos ventos \u2014 toda essa gra\u00e7a escorre sobre elas, que j\u00e1 gozaram a luz da mat\u00e9ria, como uma imensa e bondosa luz da alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu tinha ouvido falar tamb\u00e9m das \u00e1rvores de bom destino, que v\u00e3o ser mastro de navio, sentir o cheiro da maresia e ouvir as legendas do temporal, viajar, lutar, viver, levadas pelas \u00e1guas, atrav\u00e9s do infinito, entre surpresas radiosas \u2014 como almas arrancadas do corpo que fazem pela primeira vez a viagem do C\u00e9u! &#8220;Que iria eu ser?&#8230; \u2014 Chegamos. Tive ent\u00e3o a vis\u00e3o real do meu destino. Eu ia ser forca! &#8220;Fiquei inerte, dissolvida na afli\u00e7\u00e3o. Ergueram-me. Deixaram-me s\u00f3, tenebrosa, num campo. Tinha, enfim, entrado na realidade pungente da vida. O meu destino era matar. Os homens, cujas m\u00e3os andam sempre cheias de cadeias, de cordas e de pregos, tinham vindo aos carvalhos austeros buscar um c\u00famplice! Eu ia ser a eterna companheira das agonias. Presos a mim, iam balou\u00e7ar-se os cad\u00e1veres, como outrora as verdes ramagens orvalhadas! &#8220;Eu ia dar esses negros frutos: os mortos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O meu orvalho seria de sangue. Ia escutar para sempre, eu a companheira dos p\u00e1ssaros, doces tenores errantes, as agonias solu\u00e7antes, os gemidos de sufoca\u00e7\u00e3o! As almas ao partir, rasgarse- iam nos meus pregos. Eu, a \u00e1rvore do sil\u00eancio e do mist\u00e9rio religioso, eu, cheia de augusta alegria orvalhada e dos salmos sonoros da vida, eu, que Deus conhecia por boa consoladora, havia de mostrar-me \u00e0s nuvens, ao vento, aos meus antigos camaradas puros e justos, eu, a \u00e1rvore viva dos montes, de intimidade com a podrid\u00e3o, de camaradagem com o carrasco, sustentando alegremente um cad\u00e1ver pelo pesco\u00e7o, para os corvos o esfarraparem! &#8220;E isto ia ser! Fiquei hirta e impass\u00edvel como nas nossas florestas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">os lobos, quando se sentem morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Era a afli\u00e7\u00e3o. Eu via ao longe a cidade coberta de n\u00e9voa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Veio o sol. Em roda de mim come\u00e7ou a juntar-se o povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, atrav\u00e9s dum desfalecimento, senti o ru\u00eddo de m\u00fasicas tristes, o rumor pesado dos batalh\u00f5es, e os cantos dolentes dos padres. Entre dois c\u00edrios, vinha um homem l\u00edvido. Ent\u00e3o, confusamente, como nas apar\u00eancias inconscientes do sonho, senti um estremecimento, uma grande vibra\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, depois a melodia monstruosa e arrastada do canto cat\u00f3lico dos mortos! &#8220;Voltou-me a consci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Estava s\u00f3. O povo dispersava-se e descia para os povoados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m! A voz dos padres descia lentamente, como a \u00faltima \u00e1gua duma mar\u00e9. Era o fim da tarde. Vi. Vi livremente. Vi! Dependurado de mim, hirto, esguio, com a cabe\u00e7a ca\u00edda e deslocada, estava o enforcado! Arrepiei-me! &#8220;Eu sentia o frio e a lenta ascens\u00e3o da podrid\u00e3o. Ia ficar ali, de noite, s\u00f3, naquele descampado sinistro, tendo nos bra\u00e7os aquele cad\u00e1ver! Ningu\u00e9m! &#8220;O sol ia-se, o sol puro. Onde estava a alma daquele cad\u00e1ver? Tinha passado j\u00e1? Tinha-se dissipado na luz, nos vapores, nas vibra\u00e7\u00f5es? Eu sentia os passos tristes da noite, que vinha. O vento empurrava o cad\u00e1ver, a corda rangia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu tremia, numa febre vegetal, dilacerante e silenciosa. N\u00e3o podia ficar ali s\u00f3. O vento levar-me-ia, atirando-me, aos peda\u00e7os, para a antiga p\u00e1tria das folhas. N\u00e3o. O vento era brando: quase somente a respira\u00e7\u00e3o da sombra! Tinha vindo ent\u00e3o o tempo em que a grande natureza, a natureza religiosa, era abandonada \u00e0s feras humanas? Os carvalhos j\u00e1 n\u00e3o eram, pois, uma alma? Podiam, com justi\u00e7a, vir o machado e as cordas buscar os ramos criados pela seiva, pela \u00e1gua e pelo sol, trabalho suado da natureza, forma resplandecente da inten\u00e7\u00e3o de Deus, e lev\u00e1-los para as impiedades, para os tablados da forca onde apodrecem as almas, para os esquifes onde apodrecem os corpos? E as ramagens puras, que foram testemunhas das religi\u00f5es, j\u00e1 n\u00e3o serviam sen\u00e3o para executar as penalidades humanas? Serviam s\u00f3 para sustentar as cordas, onde os saltimbancos bailam, e os condenados se torcem? N\u00e3o podia ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pesava sobre a natureza uma fatalidade infame. As almas dos mortos, que sabem o segredo e compreendem a vegeta\u00e7\u00e3o, achariam grotesco que as \u00e1rvores, depois de terem sido colocadas por Deus na floresta com os bra\u00e7os estendidos, para aben\u00e7oar a terra e a \u00e1gua, fossem arrastadas para as cidades, e obrigadas, pelo homem, a estender o bra\u00e7o da forca para aben\u00e7oar os carrascos! &#8220;E depois de sustentarem os ramos de verdura que s\u00e3o os fios misteriosos, mergulhados no azul, por onde Deus prende a terra \u2014fossem sustentar as cordas da forca, que s\u00e3o as fitas infames, por onde o homem se prende \u00e0 podrid\u00e3o! N\u00e3o! se as ra\u00edzes dos ciprestes contassem isto em casa dos mortos \u2014 faziam estalar de riso a sepultura! &#8220;Assim falava eu na solid\u00e3o. A noite vinha lenta e fatal. O cad\u00e1ver balou\u00e7ava-se ao vento. Comecei a sentir palpita\u00e7\u00f5es de asas. Voavam sombras por cima de mim. Eram os corvos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pousaram. Eu sentia o ro\u00e7ar das suas penas imundas; afiavam os bicos no meu corpo; penduravam-se, ruidosos, cravando-me as garras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Um pousou no cad\u00e1ver e p\u00f4s-se a roer-lhe a face! Solucei dentro de mim. Pedi a Deus que me apodrecesse subitamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era uma \u00e1rvore das florestas a quem os ventos falavam! Servia agora para afiar os bicos dos corvos, e para que os homens dependurassem de mim os cad\u00e1veres, como vestidos velhos de carne, esfarrapados! Oh! meu Deus! \u2014 solu\u00e7ava eu ainda \u2014 eu n\u00e3o quero ser rel\u00edquia de tortura: eu alimentava, n\u00e3o quero aniquilar: era a amiga do semeador, n\u00e3o quero ser a aliada do coveiro! Eu n\u00e3o posso e n\u00e3o sei ser a Justi\u00e7a. A vegeta\u00e7\u00e3o tem uma augusta ignor\u00e2ncia: a ignor\u00e2ncia do sol, do orvalho e dos astros. Os bons, os ang\u00e9licos, os maus s\u00e3o os mesmos corpos inviol\u00e1veis, para a grande natureza sublime e compassiva. \u00d3 meu Deus, liberta-me deste mal humano t\u00e3o agu\u00e7ado e t\u00e3o grande, que se traspassa a si, atravessa de lado a lado a natureza, e ainda te vai ferir, a ti, no C\u00e9u! Oh! Deus, o c\u00e9u azul, todas as manh\u00e3s, me dava os orvalhos, o calor fecundo, a beleza imaterial e fluida da brancura, a transfigura\u00e7\u00e3o pela luz, toda a bondade, toda a gra\u00e7a, toda a sa\u00fade: \u2014 n\u00e3o queiras que, em compensa\u00e7\u00e3o, eu lhe mostre, amanh\u00e3, ao seu primeiro olhar, este cad\u00e1ver esfarrapado! &#8220;Mas Deus dormia, entre os seus para\u00edsos de luz. Vivi tr\u00eas anos nestas ang\u00fastias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Enforquei um homem \u2014 um pensador, um pol\u00edtico, filho do Bem e da Verdade, alma formosa cheia das formas do ideal, combatente da Luz. Foi vencido, foi enforcado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Enforquei um homem que tinha amado uma mulher e tinha fugido com ela. O seu crime era o amor, que Plat\u00e3o chama mist\u00e9rio, e Jesus chamou lei. O c\u00f3digo puniu a fatalidade magn\u00e9tica da atra\u00e7\u00e3o das almas, e corrigiu Deus com a forca! &#8220;Enforquei tamb\u00e9m um ladr\u00e3o. Este homem era tamb\u00e9m oper\u00e1rio. Tinha mulher, filhos, irm\u00e3os e m\u00e3e. No Inverno n\u00e3o teve trabalho, nem lume, nem p\u00e3o. Tomado dum desespero nervoso, roubou. Foi enforcado ao Sol-posto. Os corvos n\u00e3o vieram. O corpo foi para a terra limpo, puro e s\u00e3o. Era um pobre corpo que tinha sucumbido por eu o apertar de mais, como a alma tinha sucumbido por Deus a alargar e a encher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Enforquei vinte. Os corvos conheciam-me. A natureza via a minha dor \u00edntima; n\u00e3o me desprezou; o Sol alumiava-me com glorifica\u00e7\u00e3o, as nuvens vinham arrastar por mim a sua mole nudez, o vento falava-me e contava a vida da floresta, que eu tinha deixado, a vegeta\u00e7\u00e3o saudava-me com meigas inclina\u00e7\u00f5es da folhagem: Deus mandava-me o orvalho, frescura que prometia o perd\u00e3o natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegeta\u00e7\u00e3o, que me sentia esfriar, mandou-me os seus vestidos de hera. Os corvos n\u00e3o voltaram: n\u00e3o voltaram os carrascos. Sentia em mim a antiga serenidade da natureza divina. As efloresc\u00eancias, que tinham fugido de mim, deixando-me s\u00f3 no solo \u00e1spero, come\u00e7aram a voltar, a nascer, em roda de mim, como amigas verdes e esperan\u00e7osas. A natureza parecia consolar-me. Eu sentia chegar a podrid\u00e3o. Um dia de n\u00e9voas e de ventos, deixeime cair tristemente no ch\u00e3o, entre a relva e a umidade, e pusme silenciosamente a morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os musgos e as relvas cobriam-me, e eu comecei a sentir-me dissolver na mat\u00e9ria enorme, com uma do\u00e7ura inef\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O corpo esfria-me: eu tenho a consci\u00eancia da minha transforma\u00e7\u00e3o lenta de podrid\u00e3o em terra. Vou, vou. \u00d3 terra, adeus! Eu derramo-me j\u00e1 pelas ra\u00edzes. Os \u00e1tomos fogem para toda a vasta natureza, para a luz, para a verdura. Mal ou\u00e7o o rumor humano. \u00d3 antiga C\u00edbele, eu vou escorrer na circula\u00e7\u00e3o material do teu corpo! Vejo ainda indistintamente a apar\u00eancia humana, como uma confus\u00e3o de id\u00e9ias, de desejos, de desalentos, entre os quais passam, diafanamente, bailando, cad\u00e1veres! Mal te vejo, \u00f3 mal humano! No meio da vasta felicidade difusa do azul, tu \u00e9s, apenas, como um fio de sangue! As efloresc\u00eancias, como vidas esfomeadas, come\u00e7am a pastarme! N\u00e3o \u00e9 verdade que ainda l\u00e1 em baixo, no poente, os abutres fazem o invent\u00e1rio do corpo humano? \u00f3 mat\u00e9ria, absorve-me! Adeus! para nunca mais, terra infame e augusta! Eu vejo j\u00e1 os astros correrem como l\u00e1grimas pela face do c\u00e9u. Quem chora assim? Eu sinto-me desfeita na vida formid\u00e1vel da terra! \u00f3 mundo escuro, de lama e de ouro, que \u00e9s um astro no infinito \u2014 adeus! adeus! \u2014 deixo-te herdeiro da minha corda podre!&#8221;<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Gazeta de Portugal, 23 de Dezembro de 1867<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E\u00e7a de Queir\u00f3s Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento deste papel, onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa da sua hist\u00f3ria. Esta forca intentava escrever as suas tr\u00e1gicas Mem\u00f3rias. Deviam ser profundos documentos sobre a vida. \u00c1rvore, ningu\u00e9m sabia t\u00e3o bem o mist\u00e9rio da natureza; forca, ningu\u00e9m conhecia melhor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95530","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Mem\u00f3rias de uma Forca, E\u00e7a de Queir\u00f3s Mem\u00f3rias de uma Forca<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Mem\u00f3rias de uma Forca, E\u00e7a de Queir\u00f3s, Obra Liter\u00e1ria, Prosa, Folhetim, Literatura, Mem\u00f3rias de uma Forca\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, 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