{"id":95519,"date":"2017-01-19T09:42:36","date_gmt":"2017-01-19T11:42:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95519"},"modified":"2017-01-19T09:47:41","modified_gmt":"2017-01-19T11:47:41","slug":"cronicas-de-londres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cronicas-de-londres","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas de Londres"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"158\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong><span style=\"font-size: small;\">I &#8211; Londres, 14 de Abril de<br \/>\n1877<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#2\">II &#8211; Londres, 14 de Maio de<br \/>\n1877<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">III &#8211; Londres, 30 de Maio de<br \/>\n1877<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\">IV &#8211; Londres, 4 de Julho de<br \/>\n1877<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#5\">V &#8211; Londres, 1 de Agosto de<br \/>\n1877<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"96\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"152\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\"><strong>VI &#8211; Londres, 15 de Agosto<br \/>\nde 1877<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#7\">VII &#8211; Londres, 1 de Setembro<br \/>\nde 1877<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#8\">VIII &#8211; Londres, 18 de Outubro<br \/>\nde 1877<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#9\">IX &#8211; Londres, 10 de Dezembro<br \/>\nde 1877<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#10\">X &#8211; Londres, 21 de Dezembro<br \/>\nde 1877<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"94\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"178\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#11\"><strong><span style=\"font-size: small;\">XI Londres, 10 de Janeiro<br \/>\nde 1878<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#12\">XII &#8211; Londres, 26 de Janeiro<br \/>\nde 1878<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#13\">XIII &#8211; Londres, 5 de Mar\u00e7o<br \/>\nde 1878<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#14\">XIV &#8211; Londres, 28 de Mar\u00e7o<br \/>\nde 1878<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#15\">XV &#8211; Londres, 21 de Maio de<br \/>\n1878<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I &#8211; Londres, 14 de Abril de 1877<\/h2>\n<p>Estamos, parece, nas v\u00e9speras da guerra.<\/p>\n<p>A Turquia deu ao ultimato da R\u00fassia uma verdadeira resposta turca<br \/>\n\u2013 verbosa, altiva, teimosa, cheia do esp\u00edrito de fatalismo mu\u00e7ulmano:<br \/>\nrecusa tudo: fazer concess\u00f5es ao Montenegro, desarmar, mandar embaixadores<br \/>\na Sampetersburgo, aceitar as interven\u00e7\u00f5es alheias, renovar quaisquer<br \/>\ngarantias, quase discutir: desprende-se assim violentamente das combina\u00e7\u00f5es<br \/>\ndiplom\u00e1ticas, carrega a espingarda e espera. Era f\u00e1cil prever<br \/>\nesta reac\u00e7\u00e3o do orgulho turco.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ano que a Sublime Porta vive num estado de humilha\u00e7\u00e3o<br \/>\npermanente. A Europa tem-na tratado como um seu subalterno dependente e inconsciente:<br \/>\nimp\u00f5e-lhe constitui\u00e7\u00f5es, governa as suas finan\u00e7as,<br \/>\ndiscute a sua administra\u00e7\u00e3o, usa da sua capital como de uma<br \/>\nsala de hotel para instalar confer\u00eancias, manda comiss\u00f5es impertinentes<br \/>\ninvestigar os seus massacres dom\u00e9sticos, d\u00e1 raz\u00e3o \u00e0s<br \/>\nprov\u00edncias que se insurreccionam, for\u00e7a-a a constantes renova\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo funcionalismo, censura as suas despesas, decide nos seus tribunais, obriga-a<br \/>\na nomear um parlamento, repreende-a, diz-lhe \u00abchut!\u00bb, desacredita-a,<br \/>\nralha-lhe, amea\u00e7a-a, n\u00e3o admite que ela tenha um esp\u00edrito<br \/>\nde ra\u00e7a, uma tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, uma necessidade<br \/>\nreligiosa e trata-a absolutamente como se ela fosse uma povoa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde negros perdida no Sul da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia durar. O Turco \u00e9 inteligente,<br \/>\norgulhoso, bravo, teimoso, fan\u00e1tico; um dia viria em que, enfastiado<br \/>\nde ver em roda de si tantos pedagogos a querer dirigi-lo e tantos ferrabrases<br \/>\na franzirem-lhe a testa \u2013 devia necessariamente dar dois passos a tr\u00e1s<br \/>\ne meter a espingarda \u00e0 cara.<\/p>\n<p>Foi o que sucedeu.<\/p>\n<p>Aceitando tacitamente a guerra, a Sublime Porta foi h\u00e1bil. Qualquer<br \/>\nnova concess\u00e3o que fizesse seria in\u00fatil: a R\u00fassia sempre<br \/>\nquis a guerra; atrav\u00e9s das declara\u00e7\u00f5es adocicadas de<br \/>\npaz, da proposta de confer\u00eancias, das esperan\u00e7as nas solu\u00e7\u00f5es<br \/>\ndiplom\u00e1ticas a R\u00fassia ia lenta e seguramente preparando a guerra.<br \/>\nA Turquia n\u00e3o a podia evitar; e indo, decisivamente, ao encontro dela<br \/>\nmostra ao menos um sentimento de dignidade e de for\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso impelia-a a grande corrente do sentimento nacional; a<br \/>\nc\u00f3lera p\u00fablica, excitada pelos ulem\u00e1s, pelo partido da<br \/>\nVelha, Turquia. \u00e9 t\u00e3o forte que concess\u00f5es demasiadas<br \/>\nou a demonstra\u00e7\u00e3o evidente de uma submiss\u00e3o \u00e0<br \/>\nEuropa faria correr um grande risco \u00e0 dinastia dos Osmanlis.<\/p>\n<p>O actual gr\u00e3o-vizir tinha de mais a mais um interesse de ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\npessoal em se mostrar resistente e en\u00e9rgico: \u00e9 que, tendo substitu\u00eddo<br \/>\nMidhat Pax\u00e1 exilado tinha de mostrar as fortes qualidades que o sentimento<br \/>\ngeral atribui a Midhat: Midhat tem um grande partido, n\u00e3o s\u00f3<br \/>\nem Constantinopla mas em todo o imp\u00e9rio; ele \u00e9 considerado como<br \/>\nhomem capaz de fazer face \u00e0 Europa, de manter a dignidade da ra\u00e7a<br \/>\nturca e de saber morrer com honra: ora o actual gr\u00e3ovizir quer provar,<br \/>\npara se manter, que n\u00e3o \u00e9 um patriota inferior a Midhat: ningu\u00e9m,<br \/>\nna diplomacia, duvida que esta raz\u00e3o de pol\u00edtica pessoal influiu<br \/>\npoderosamente para a altiva resposta da Turquia ao ultimato da R\u00fassia.<br \/>\nAcresce a estas uma outra raz\u00e3o: \u00e9 que a Turquia n\u00e3o<br \/>\npode licenciar o seu ex\u00e9rcito e que para o fazer viver tem de o fazer<br \/>\ncombater. Os Turcos t\u00eam quase duzentos mil homens mobilizados, reunidos<br \/>\nna fronteira, com grandes esfor\u00e7os e sacrif\u00edcios nos dois \u00faltimos<br \/>\nanos. Que se faria a este ex\u00e9rcito desmobilizando-o? Num pa\u00eds<br \/>\nem que n\u00e3o h\u00e1 caminhos de ferro, quase n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nestradas, estes homens, pertencendo \u00e0s prov\u00edncias mais afastadas<br \/>\ndo imp\u00e9rio, como poderiam voltar \u00e0s suas casas? O Estado n\u00e3o<br \/>\ntem dinheiro para os transportar. Com que recursos pessoais empreender\u00e3o<br \/>\neles a viagem? Nesta \u00e9poca do ano, os trabalhos do campo est\u00e3o<br \/>\nfeitos; o Estado n\u00e3o tem trabalho que lhes dar, em que se ocupariam<br \/>\neles? A maior parte, em dois anos de acampamento, t\u00eam perdido o h\u00e1bito<br \/>\ndo trabalho agr\u00edcola; o instinto da ra\u00e7a \u00e9 militar: todo<br \/>\no turco ganha facilmente o h\u00e1bito de ser soldado; perde mais facilmente<br \/>\no h\u00e1bito de ser cultivador.<\/p>\n<p>Este ex\u00e9rcito desmobilizado dispersar-se-ia atrav\u00e9s de prov\u00edncias<br \/>\npobres, assoladas pela insurrei\u00e7\u00e3o, e seria um elemento de desordem,<br \/>\nde pilhagem, de deboche, e a renova\u00e7\u00e3o das cenas da Bulg\u00e1ria:<br \/>\nassim o sentimento nacional, estreitas quest\u00f5es de ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\npessoal, inextric\u00e1veis dificuldades financeiras \u2013 a\u00ed est\u00e1<br \/>\no que leva a Turquia \u00e0 guerra.<\/p>\n<p>O imperador da R\u00fassia, por seu lado, \u00e9 impelido tamb\u00e9m<br \/>\npelo entusiasmo p\u00fablico.<\/p>\n<p>Um retraimento agora poderia causar como na Turquia um abalo revolucion\u00e1rio<br \/>\nem toda a R\u00fassia. E um \u00f3dio nacional: os jornais, pela exalta\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua c\u00f3lera, pelas narra\u00e7\u00f5es permanentes das crueldades<br \/>\ne das opress\u00f5es turcas sobre os crist\u00e3os; os comit\u00e9s<br \/>\nde Moscovo pela sua vasta influ\u00eancia; o sacerd\u00f3cio russo por<br \/>\numa pr\u00e9dica irritada e fan\u00e1tica mant\u00eam o esp\u00edrito<br \/>\nnacional num furor permanente contra o Turco; a guerra e considerada santa,<br \/>\nsem nenhuma ideia de conquista, de anexa\u00e7\u00e3o; \u00e9 poss\u00edvel<br \/>\nque a plebe e a rica burguesia mercantil de Moscovo e das cidades pensem em<br \/>\nConstantinopla; mas as classes militares, a aristocracia, sabem bem que nem<br \/>\na Inglaterra nem a \u00c1ustria lhes permitiriam aumentar o territ\u00f3rio:<br \/>\ne realmente por um puro sentimento, pela liberta\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os<br \/>\nque se batem. E no fundo os dois governos \u2013 russo e turco s\u00e3o<br \/>\nimpelidos por um fanatismo contrario.<\/p>\n<p>Qual ser\u00e1 o resultado da luta? A despropor\u00e7\u00e3o de for\u00e7as<br \/>\nna fronteira \u00e9 grave: os Russos t\u00eam duzentos e setenta e cinco<br \/>\nmil homens de infantaria, vinte mil cavalos e novecentas pe\u00e7as de artilharia.<br \/>\nOs Turcos t\u00eam cento e cinquenta mil homens de infantaria, tr\u00eas<br \/>\nmil cavalos e duzentos e dezasseis canh\u00f5es. Este n\u00famero inferior<br \/>\n\u00e9 compensado por esta considera\u00e7\u00e3o: que o Turco \u00e9<br \/>\natacado e o Russo ataca \u2013 ora \u00e9 conhecido que o Russo \u00e9<br \/>\no mais vagaroso e insuficiente dos ex\u00e9rcitos de ataque e o Turco \u00e9<br \/>\num admir\u00e1vel soldado de defesa. Ningu\u00e9m como ele para manter<br \/>\numa posi\u00e7\u00e3o: \u00e9 ainda uma qualidade que a sua religi\u00e3o<br \/>\nlhe deu: a impassibilidade.<\/p>\n<p>Os Russos decerto podem mobilizar rapidamente grandes for\u00e7as, mas<br \/>\naos Turcos basta-lhes levantar o estandarte do Profeta para que todo o maometanismo,<br \/>\nsejam quais forem as dissid\u00eancias de seita, corra \u00e0s armas.<\/p>\n<p>Kalil Pax\u00e1, o embaixador da Turquia em Paris, dizia h\u00e1 dias,<br \/>\ncomo o velhaco sorriso de velho maometano: \u2013 N\u00f3s esperamos: e<br \/>\na verdadeira guerra havemos de faz\u00ea-la com a Ar\u00e1bia e a \u00cdndia.<\/p>\n<p>Uma das infelicidades da Turquia \u00e9 talvez n\u00e3o ter realizado<br \/>\na sua alian\u00e7a com a P\u00e9rsia. A P\u00e9rsia podia fazer uma<br \/>\nterr\u00edvel divers\u00e3o sobre a fronteira asi\u00e1tica da R\u00fassia,<br \/>\ne obrig\u00e1-la a dividir as suas for\u00e7as. Mas a alian\u00e7a persa,<br \/>\nsegundo os bem informados, foi conclu\u00edda com a R\u00fassia e o ex\u00e9rcito<br \/>\npersa est\u00e1 armado, disciplinado, instru\u00eddo, comandado pela R\u00fassia.<\/p>\n<p>Que far\u00e1 a Inglaterra? H\u00e1 aqui mesmo mil opini\u00f5es.<br \/>\nA mais geral, h\u00e1 tempos, era a de absoluta indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00abA R\u00fassia\u00bb, dizia-se, \u00abn\u00e3o se atreve a tentar<br \/>\numa anexa\u00e7\u00e3o: mas mesmo que ela v\u00e1 a Constantinopla,<br \/>\nque importa \u00e0 Inglaterra?\u00bb O caminho da \u00cdndia n\u00e3o<br \/>\nfica por isso menos livre.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 digno que a Inglaterra tome o partido de massacradores<br \/>\nfan\u00e1ticos e de devedores insol\u00faveis? E depois de que serve fazermos<br \/>\nesfor\u00e7os para conservar a integridade de um pa\u00eds que todos os<br \/>\ndias, pela sua relaxa\u00e7\u00e3o e a sua imprevid\u00eancia se vai<br \/>\ndesorganizando a si mesmo? Que se lucrou com o dinheiro, o sangue, que se<br \/>\nprodigalizou na guerra de 52? Para que se h\u00e1-de intervir num duelo<br \/>\nque a hist\u00f3ria e a f\u00e9 tornam inevit\u00e1veis? Assim se falava.<\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, perante a crise, a linguagem mudou. \u00abN\u00e3o<br \/>\nse poderia realmente compreender\u00bb, diz-se agora, \u00abque a guerra<br \/>\nn\u00e3o tenha como resultado, dada a vit\u00f3ria da R\u00fassia, uma<br \/>\nanexa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio\u00bb: da\u00ed a desmembra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo imp\u00e9rio e o Russo em Constantinopla: mas ent\u00e3o, a R\u00fassia<br \/>\nestaria no Mediterr\u00e2neo, com um dos fortes portos do mar: o poder ingl\u00eas<br \/>\nteria uma diminui\u00e7\u00e3o e a sua posse sobre a \u00cdndia, um<br \/>\nprimeiro perigo. Dai vem-se \u00e0 conclus\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1ria<br \/>\nfatalmente a interven\u00e7\u00e3o. Diz-se mesmo que \u00e0 mais pequena<br \/>\nescaramu\u00e7a perdida pelos Turcos \u2013 a Inglaterra ocupar\u00e1<br \/>\nConstantinopla. A esquadra, refor\u00e7ada, est\u00e1 em caminho de Bezoka-Bay<br \/>\n\u2013 que \u00e9 a antec\u00e2mara de Constantinopla.<\/p>\n<p>Que a Inglaterra concorreu de certo modo para a guerra \u00e9 evidente:<br \/>\nconcorreu com os seus meetings sentimentais e humanit\u00e1rios no Ver\u00e3o<br \/>\npassado, dando \u00e2nimo aos Russos para seguirem a sua ideia agressiva:<br \/>\nconcorreu com a presen\u00e7a da esquadra em Constantinopla pouco depois,<br \/>\ndando \u00e2nimo aos Turcos para resistirem \u00e0 press\u00e3o pacifica<br \/>\nda Europa: concorreu depois com a ideia do protocolo que, sendo um reconhecimento<br \/>\nt\u00e1cito da justi\u00e7a e da for\u00e7a da R\u00fassia, lhe deu<br \/>\num aumento de exig\u00eancia e de hostilidade \u2013 e, sendo uma nova humilha\u00e7\u00e3o<br \/>\nimposta \u00e0 Turquia, a tomou mais despeitada e mais dif\u00edcil de<br \/>\ncondescend\u00eancias.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel, por\u00e9m, que a guerra n\u00e3o rompa por<br \/>\nestas semanas pr\u00f3ximas. No protocolo diziase que, dado o caso de uma<br \/>\nrecusa da parte da Turquia, as pot\u00eancias acordariam numa decis\u00e3o<br \/>\nulterior a tomar: mas esta decis\u00e3o, sejam quais forem as combina\u00e7\u00f5es<br \/>\ndiplom\u00e1ticas que a precedam, ter\u00e1 sempre este resultado \u2013<br \/>\ndeixar a Turquia em frente da R\u00fassia \u2013 e o resultado final, portanto,<br \/>\nser\u00e1 igualmente a guerra.<\/p>\n<p>En attendant, o ministro das Finan\u00e7as apresenta o seu or\u00e7amento<br \/>\norganizado como se a Inglaterra n\u00e3o tivesse a menor probabilidade de<br \/>\numa complica\u00e7\u00e3o militar. E um or\u00e7amento cheio de confian\u00e7a,<br \/>\npac\u00edfico e pr\u00f3spero.<\/p>\n<p>A despesa \u00e9 calculada em setenta e Oito milh\u00f5es setecentas<br \/>\ne noventa e quatro mil e quarenta e quatro libras. A receita \u00e9 calculada<br \/>\nem setenta e nove milh\u00f5es e vinte mil libras! O Tesouro tem, pois,<br \/>\no saldo a favor de duzentas e vinte e seis mil libras! Apesar deste or\u00e7amento<br \/>\ninvej\u00e1vel, a situa\u00e7\u00e3o comercial e industrial da Inglaterra<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 boa: em todo o reino h\u00e1 uma depress\u00e3o na<br \/>\nactividade. As ind\u00fastrias do carv\u00e3o e do ferro t\u00eam tido<br \/>\nno Norte um per\u00edodo terr\u00edvel de estagna\u00e7\u00e3o. Muitos<br \/>\naltos-fornos est\u00e3o apagados, muitos trabalhos de explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ncarvoeira suspensos. H\u00e1 milhares de homens sem trabalho.<\/p>\n<p>Para se ver a declina\u00e7\u00e3o geral do movimento comercial, basta<br \/>\ndizer que as grandes companhias de navega\u00e7\u00e3o entre a Inglaterra<br \/>\ne os Estados Unidos \u2013 a Inman, White Star, Guion National \u2013 reduziram<br \/>\no n\u00famero de viagens de paquetes \u2013 e que em lugar de sa\u00eddas<br \/>\nsemanais t\u00eam apenas sa\u00eddas quinzenais.<\/p>\n<p>Acresce que, na maior parte das ind\u00fastrias, a progress\u00e3o crescente<br \/>\ndas exig\u00eancias dos oper\u00e1rios, justamente neste momento de crise,<br \/>\naumenta as dificuldades: \u00e9 pelo menos o que afirmam os industriais.<\/p>\n<p>O movimento crescente para a redu\u00e7\u00e3o das horas de trabalho<br \/>\nafecta, dizem eles, certas ind\u00fastrias mortalmente: uma grande firma<br \/>\ndo Norte, exploradora de vastas minas de carv\u00e3o, que empregava tr\u00eas<br \/>\nmil oper\u00e1rios, cessou os seus trabalhos, que n\u00e3o podem sem perda,<br \/>\nafian\u00e7am eles na sua declara\u00e7\u00e3o, continuar sob o regime<br \/>\ndas horas reduzidas.<\/p>\n<p>Come\u00e7a a falar-se, com seriedade e espanto, numa nova descoberta<br \/>\namericana, o telefone: \u00e9 um tel\u00e9grafo para a transmiss\u00e3o<br \/>\ndo som. Esta ideia, que nasceu em 1861, tem tido um progresso t\u00e3o fecundo<br \/>\nque h\u00e1 dois meses j\u00e1 se apresentaram perante as provas p\u00fablicas<br \/>\ndois sistemas rivais. O mais perfeito, parece. \u00e9 o do Dr. Bell. O seu<br \/>\naparelho, que tem a apar\u00eancia de um sistema telegr\u00e1fico e um<br \/>\nprinc\u00edpio electromagn\u00e9tico, trans-mitiu sons, numa \u00faltima<br \/>\nexperi\u00eancia, feita a cento e quarenta e tr\u00eas milhas; n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 o som da voz chega perfeitamente claro, mas distinguem-se as inflex\u00f5es<br \/>\nmais leves. A experi\u00eancia foi realizada em Boston e Conway, e \u00e0quela<br \/>\nforte dist\u00e2ncia distinguia-se uma rabeca de um violoncelo; o rumor,<br \/>\nas conversa\u00e7\u00f5es, as risadas das pessoas que estavam junto do<br \/>\naparelho em Boston eram ouvidas em Conway com a distinta e exacta nitidez<br \/>\ncom que se ouve numa torrinha o que se canta no palco. Calcula-se que se poder\u00e1<br \/>\nfazer chegar o som a transatl\u00e2nticas distancias. Em Filad\u00e9lfia<br \/>\norganiza-se um concerto experimental, em que o p\u00fablico estar\u00e1<br \/>\na cinquenta milhas dos artistas.<\/p>\n<p>As novidades liter\u00e1rias s\u00e3o escassas. Ruskin, o c\u00e9lebre<br \/>\ncritico de arte, publicou um livro, que tem causado uma singular surpresa:<br \/>\n\u00e9 um livro \u00edntimo, uma confiss\u00e3o, uma confid\u00eancia<br \/>\n\u2013de qu\u00ea? De sentimentos? De aventuras? De sofrimentos ou felicidades<br \/>\npessoais? N\u00e3o: de despesas de casa! N\u00e3o sabe a gente se h\u00e1-de<br \/>\nachar este livro um come\u00e7o de imbecilidade senil ou um resto am\u00e1vel<br \/>\nde candura infantil. A alta situa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e cr\u00edtica<br \/>\nde Ruskin, personalidade original de grande relevo, aumenta o espanto. Imaginem<br \/>\no Sr. Alexandre Herculano publicando, de Vale de Lobos, um panfleto de duzentas<br \/>\np\u00e1ginas em que explicasse o que gasta em seus r\u00f3is, quanto lhe<br \/>\ncusta a lavadeira, o que emprestou a fulano, a \u00faltima conta do alfaiate,<br \/>\netc., etc. Uma coisa curiosa se v\u00ea no livro de Ruskin \u2013 \u00e9<br \/>\nque gastou em poucos anos uma fortuna de duzentas mil libras! Parte por uma<br \/>\nalta filantropia e uma santa caridade \u2013 e parte n\u00e3o sabe como;<br \/>\nporque, diz ele, viveu quinze anos com t\u00e3o s\u00f3rdida economia,<br \/>\nprivando-se t\u00e3o asperamente, que apenas gastava, pobre dele, trinta<br \/>\ncontos de r\u00e9is por ano! Agora, diz, restam-lhe duzentos e cinquenta<br \/>\ncontos: acha que n\u00e3o vale a pena conservar uma soma t\u00e3o mesquinha.<br \/>\nMete na carteira quinze contos para ir viajar este ano, e do resto faz duas<br \/>\npartes \u2013uma para dispersar em caridade, outra para empregar de modo<br \/>\nque tenha para todo o futuro mil e quinhentos mil r\u00e9is por ano: porque,<br \/>\ndiz ele, descobriu que todo o homem que n\u00e3o pode viver com este rendimento<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 digno de possuir a vida.<\/p>\n<p>Uma outra curiosidade \u00e9 a nova revista mensal O S\u00e9culo XIX.<br \/>\nTem por colaboradores os mais altos nomes de Inglaterra, desde Gladstone,<br \/>\nque ser\u00e1 em breve o primeiro-ministro, at\u00e9 ao cardeal Manning<br \/>\n\u2013 que pode vir a ser o futuro papa. A originalidade desta revista \u00e9<br \/>\nque os seus directores pediram a todos os homens ilustres de Inglaterra \u2013<br \/>\npol\u00edticos, fil\u00f3sofos, professores, cr\u00edticos \u2013 que<br \/>\nlhe escrevessem a sua opini\u00e3o individual sobre esta tese: \u00abQue<br \/>\ninflu\u00eancia exerce sobre a moral a diminui\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a<br \/>\nreligiosa?\u00bb Cada um dos homens ilustres deve responder num per\u00edodo<br \/>\ncurto, sint\u00e9tico, que se grave com a precis\u00e3o de uma defini\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a profundidade de uma m\u00e1xima. A colec\u00e7\u00e3o destas defini\u00e7\u00f5es<br \/>\nfilos\u00f3ficas, reunidas nas \u00faltimas p\u00e1ginas de cada n\u00famero<br \/>\nsob o nome de Symposium. \u00e9 altamente interessante: at\u00e9 aqui<br \/>\na declara\u00e7\u00e3o mais expl\u00edcita \u00e9 a do professor Fawcet,<br \/>\nque diz: \u00abA cren\u00e7a em Deus deve ser para os que a possam gozar<br \/>\num delicado prazer do esp\u00edrito, mas a moral est\u00e1 acima e fora<br \/>\ndesses refinamentos da intelig\u00eancia.\u00bb.<\/p>\n<p>A season \u2013 os tr\u00eas meses elegantes e aristocr\u00e1ticos de<br \/>\nLondres \u2013 come\u00e7a lentamente a organizar-se. Ordinariamente, a<br \/>\naristocracia inglesa, depois da P\u00e1scoa, vai a Paris: o pr\u00edncipe<br \/>\nde Gales \u00e9 o primeiro. Passou-se o Inverno no campo, nos castelos,<br \/>\nna ca\u00e7a, e antes do encontro oficial em Londres, vai-se respirar a<br \/>\nParis uma larga golfada de civiliza\u00e7\u00e3o: v\u00ea-se o \u00faltimo<br \/>\ntom das toilettes, os cortes da Primavera na Lafferri\u00e8re e no Worth,<br \/>\nfolheia-se o \u00faltimo livro de Goncourt, faz-se uma passagem nos sal\u00f5es<br \/>\ndo Eliseu, v\u00ea-se a novidade da P\u00e1scoa na Com\u00e9die Fran\u00e7aise,<br \/>\nvai-se ao Caf\u00e9 Anglais e \u00e0 Maison d\u2019Or, \u00e0 vontade,<br \/>\nde chap\u00e9u, o que \u00e9 para uma lady inglesa uma ador\u00e1vel<br \/>\nextravag\u00e2ncia, e volta-se \u00e0 representa\u00e7\u00e3o pesada<br \/>\ne solene de Londres. O tempo, por\u00e9m, tem estado \u00e1spero, havendo<br \/>\nfrio, com o vento do sudoeste que tem um gume gelado, e o Hyde Park tem ainda<br \/>\na parda tristeza da sua solid\u00e3o de Inverno. A great attraction desta<br \/>\nseason ser\u00e1, parece, Orleans Club. \u00c9 um clube de campo: est\u00e1<br \/>\n\u00e0 beira do Tamisa, numa paisagem am\u00e1vel, nas verduras de um<br \/>\nvasto parque. Era uma propriedade do duque de Aumale. Os prazeres do clube<br \/>\nser\u00e3o piquenique no campo, tiro aos pombos, pescas, p\u00f3lo, cr\u00edquete,<br \/>\nalmo\u00e7os na relva, bailes de musselina, soir\u00e9es no parque, etc.<\/p>\n<p>Todos os dias dois four-in-hand, conduzidos por membros do clube, levar\u00e3o<br \/>\na Orleans House os s\u00f3cios e as convidadas, porque uma fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndelicada de Orleans Club \u00e9 que ser\u00e1 tamb\u00e9m um clube feminino,<br \/>\no que lhe trar\u00e1 inevitavelmente, por um tempo, o encanto e, mais tarde,<br \/>\na ruma.<\/p>\n<p>Um outro clube original est\u00e1 em via de organiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE o clube dos torneios. Este dever\u00e1 ter uma casa ao p\u00e9 do Hyde<br \/>\nPark, onde \u00e0s cinco horas se serve o ch\u00e1 \u00e0s senhoras,<br \/>\nentre o campo: o fim principal deste clube ser\u00e1 formar torneios e ca\u00e7adas<br \/>\nao falc\u00e3o. Faz ligeiramente sorrir o programa g\u00f3tico e feudal<br \/>\ndeste clube londrino. A ca\u00e7a ao falc\u00e3o pode conceber-se desde<br \/>\nque se vistam os criados com as cores usadas na partida dos pajens do s\u00e9culo<br \/>\nXIV, se lhes borde no peito, sobre a seda, os escudos de armas e se lhes deixem<br \/>\ncrescer os cabelos louros em an\u00e9is. Assim poder\u00e3o levantar no<br \/>\npunho o carrancudo falc\u00e3o com o seu capacete de pele de b\u00fafalo<br \/>\ne a ca\u00e7a pode ter um aspecto suportavelmente feudal. Mas um torneio!<br \/>\nNegociantes da City e banqueiros de capacete e armadura, dando-se golpes de<br \/>\nmontante, numa quinta particular, ao p\u00e9 da esta\u00e7\u00e3o de<br \/>\ncaminho de ferro! Singular divers\u00e3o! O \u00faltimo torneio que houve<br \/>\nem Inglaterra foi h\u00e1 trinta anos no Castelo de Egliton. Tinha sido<br \/>\naclamada rainha da beleza legend\u00e1ria Lady Seymoun. As festas foram<br \/>\nespl\u00eandidas. Ficaram c\u00e9lebres as pessoas do elegante marqu\u00eas<br \/>\nde Londonderry. Houve um epis\u00f3dio. Um homem baixo e grosso, de nariz<br \/>\nespesso e fortes bigodes, todo coberto de uma armadura aparatosa, caiu na<br \/>\narena, estatelado, esperneando; levantaram-no e sacudiram-no; estava s\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3 um pouco humilhado: damas e cavaleiros riram; era um estrangeiro,<br \/>\nsem grande import\u00e2ncia: quatro anos depois era imperador dos Franceses!<br \/>\nUma curiosidade de Londres \u2013 foi o desafio a andar entre o c\u00e9lebre<br \/>\ncaminhador O\u2019Leary e o seu rival Welton. O desafio foi em Albert Hall<br \/>\ne durou seis dias \u2013 durante esse tempo, os andarilhos tiveram apenas<br \/>\nalgumas horas de descanso! O\u2019Leary ganhou, tendo andado quinhentas e<br \/>\nvinte milhas; Welton perdeu por dez milhas. O\u2019Leary caminhava com os<br \/>\ncotovelos apertados aos rins, calado, olhar direito, tendo agarrado em cada<br \/>\nm\u00e3o, com uma for\u00e7a convulsiva, uma varinha. Welton caminhava<br \/>\nbamboleando-se, falando, com um chicote numa das m\u00e3os, a outra \u00e0<br \/>\ncinta \u2013 e para se excitar fez-se tocar constantemente \u00e0 banda<br \/>\nalem\u00e3 de instrumentos de metal uma marcha estridente. Trinta mil pessoas<br \/>\nassistiram sucessivamente a este singular desafio. O que se provou? Incontestavelmente<br \/>\nque a constitui\u00e7\u00e3o humana tem um prodigioso poder de resist\u00eancia,<br \/>\ne que esta m\u00e1quina de carne e ossos n\u00e3o \u00e9 inferior \u00e0s<br \/>\nde Birmingham. Mas o que \u00e9 estranho \u00e9 que no tempo dos caminhos<br \/>\nde ferro \u2013 se exer\u00e7a essa preciosa for\u00e7a de resist\u00eancia,<br \/>\nnuma arte in\u00fatil, obsoleta, quase b\u00e1rbaras marchas! O grande<br \/>\nteatro da Alhambra representa uma pe\u00e7a fant\u00e1stica, cortada de<br \/>\nbailados, que tem, em Inglaterra, uma singular qualidade \u2013 e imoral!<br \/>\n\u00c9 a primeira vez que vejo num palco ingl\u00eas o amante idealizado<br \/>\ne o marido apupado! Milhares de pessoas v\u00e3o sucessivamente saborear<br \/>\naquele escandalozinho gigante. Vejam a censura inglesa! Admite esta farsa<br \/>\nimpudente, povoada de mulheres quase nuas, e recusa a Dama das Cam\u00e9lias!<br \/>\nMas \u00e9 que em Inglaterra n\u00e3o existe censura; Lord Chambellan,<br \/>\num velho caturra de outras idades, exc\u00eantrico e vari\u00e1vel, \u00e9<br \/>\na censura. Governa despoticamente do meio do seu mau humor os teatros de Londres,<br \/>\ne com tanta intelig\u00eancia que permite as farsas imorais de um rabiscador<br \/>\nidiota \u2013 e impede a representa\u00e7\u00e3o da obra de Dumas, da<br \/>\nAcademia Francesa!<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II &#8211; Londres, 14 de Maio de 1877<\/h2>\n<p>Lembram-se, decerto, de eu lhes dizer na minha \u00faltima carta que o<br \/>\nsoldado russo era o mais vagaroso dos soldados de ataque; a\u00ed t\u00eam<br \/>\na prova: h\u00e1 um m\u00eas que come\u00e7ou a guerra, e nem no Dan\u00fabio,<br \/>\nnem na \u00c1sia Menor, tem havido um facto decisivo: as estradas da Rom\u00e2nia,<br \/>\n\u00e9 verdade, t\u00eam estado quase impratic\u00e1veis pelas chuvas<br \/>\nincessantes e pelos temporais t\u00e3o oportunos que parecem estar \u00e0s<br \/>\nordens do sult\u00e3o e pertencer ao estado-maior turco; \u00e9 verdade<br \/>\nque na \u00c1sia Menor as dificuldades de transporte e de tr\u00e2nsito<br \/>\npara um forte ex\u00e9rcito invasor s\u00e3o consider\u00e1veis: todavia<br \/>\nrepete-se um facto hist\u00f3rico e militar: toda a invas\u00e3o russa<br \/>\n\u00e9 sempre uma campanha protra\u00edda e mon\u00f3tona.<\/p>\n<p>No Dan\u00fabio tem havido apenas alguns duelos de artilharia entre os<br \/>\nfortes das duas margens, com resultados (consoladores para os humanit\u00e1rios)<br \/>\nde algum cavalo morto ou de algum tecto de colmo queimado.<\/p>\n<p>O facto mais en\u00e9rgico foi a passagem de Hobart Pax\u00e1, a bordo<br \/>\nde um navio turco, atrav\u00e9s do fogo das baterias russas. \u00c0 chegada<br \/>\ndos Russos \u00e0 Rom\u00e2nia e aos portos do Dan\u00fabio, Hobbart<br \/>\nPax\u00e1 estava, em servi\u00e7o de inspec\u00e7\u00e3o, a bordo<br \/>\nde um navio de guerra \u2013 no Alto Dan\u00fabio \u2013, e ficou portanto<br \/>\nbloqueado pela instala\u00e7\u00e3o fortificada das vanguardas russas.<br \/>\nCom uma decis\u00e3o destemida, toda a for\u00e7a de caldeira, todos os<br \/>\nfogos acesos, esperando a cada momento tocar algum torpedo e ir pelos ares,<br \/>\nraspou-se \u00e0 raz\u00e3o de quinze milhas por hora, sob um fogo desesperado<br \/>\ndos Russos, inc\u00f3lume e com bandeira alta.<\/p>\n<p>Hobbart Pax\u00e1 \u00e9 certamente uma das figuras mais salientes e<br \/>\nmais originais desta guerra. E ingl\u00eas e par de Inglaterra: \u00e9<br \/>\nfilho do conde de Buckinghamshire e herdou o titulo h\u00e1 anos, quando<br \/>\ntomou assento na C\u00e2mara dos Lordes. Entrou na marinha e pouco tempo<br \/>\ndepois fezse frade. Serviu a Turquia na insurrei\u00e7\u00e3o de Creta,<br \/>\ne na guerra dos Estados Unidos quebrou muitas vezes, a bordo do seu navio<br \/>\ncors\u00e1rio, o bloqueio do Sul. Agora \u00e9 pax\u00e1 e almirante<br \/>\nturco.<\/p>\n<p>E um homem inteligente, her\u00f3ico, com s\u00e9rias qualidades de<br \/>\norganizador. Tem quarenta e cinco anos, a barba toda espessa, o olhar agudo,<br \/>\no sobrolho carregado e um certo ar de bonomia altiva. E um aventureiro de<br \/>\nbem \u2013 ou antes, uma heroicidade dispon\u00edvel, que procura emprego.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia Menor a marcha dos Russos tem encontrado dificuldades: tudo<br \/>\no que t\u00eam adiantado s\u00e3o duas milhas alem\u00e3s; \u00e9 incontest\u00e1vel<br \/>\nque em encontros parciais, mas violentos, os Turcos t\u00eam tido vantagens;<br \/>\nas for\u00e7as volunt\u00e1rias turcas organizam-se com um impulso fan\u00e1tico<br \/>\ne duplicam a resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Hoje dizia-se que algumas tribos do C\u00e1ucaso se tinham insurreccionado<br \/>\n\u2013 o que podia cortar as comunica\u00e7\u00f5es do ex\u00e9rcito<br \/>\nrusso e isol\u00e1-lo na \u00c1sia: esta noticia harmoniza-se com o despacho<br \/>\nque diz ter o czar ordenado a mobiliza\u00e7\u00e3o do quarto, s\u00e9timo<br \/>\ne d\u00e9cimo primeiro corpos de ex\u00e9rcito. Todos os correspondentes<br \/>\ns\u00e3o uniformes em elogiar a organiza\u00e7\u00e3o dos Russos: boa<br \/>\ncavalaria, equipamentos perfeitos, uma admir\u00e1vel administra\u00e7\u00e3o,<br \/>\numa disciplina exacta, pagam tudo em ouro na Rom\u00e2nia \u2013 e s\u00f3<br \/>\no que \u00e9 fornecido pela municipalidade \u00e9 pago em letras, a tr\u00eas<br \/>\nmeses. Os Rom\u00e2nicos recebem-nos fraternalmente: duvida-se todavia que<br \/>\nlhes possam ser de utilidade na guerra. Certamente o pr\u00edncipe Carlos<br \/>\n\u00e9 prussiano, da Casa de Hohenzollern, bravo, e deseja ardentemente<br \/>\numa reputa\u00e7\u00e3o militar: mas um rom\u00e2nico \u00e9 apenas<br \/>\num soldado de aparato: admir\u00e1vel nos jardins ou nos cates, com os seus<br \/>\nuniformes pesados de bordaduras \u2013 n\u00e3o tem as qualidades de resist\u00eancia,<br \/>\nde f\u00e9 e de tenacidade que fazem o bom soldado. No entanto, s\u00e3o<br \/>\nvinte ou trinta mil homens \u2013 e quando n\u00e3o sirvam sen\u00e3o<br \/>\npara guarnecer os territ\u00f3rios que os Russos forem ocupando s\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 de uma grande vantagem; s\u00e3o outros tantos milhares de russos<br \/>\ndesembara\u00e7ados das fun\u00e7\u00f5es ociosas de guarni\u00e7\u00e3o<br \/>\ne prontos para a campanha activa. O resultado definitivo da guerra n\u00e3o<br \/>\nme parece duvidoso: esta \u00e9 a s\u00e9tima ou oitava guerra turco-russa<br \/>\n\u2013 e se os Turcos n\u00e3o t\u00eam aprendido nada, os Russos t\u00eam<br \/>\naprendido tudo. O Turco \u00e9 decerto o mesmo soldado bravo, sofredor,<br \/>\nactivo de outrora; mas a guerra hoje n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o<br \/>\nde bravura ou de arranque individual; \u00e9 uma ci\u00eancia com processos<br \/>\ncient\u00edficos \u2013 e neste ponto a inferioridade turca \u00e9 absoluta.<br \/>\nDesde as pontes importantes que se esquecem de cortar at\u00e9 aos monitores<br \/>\nque deixam afundar sem raz\u00e3o \u2013 s\u00e3o verdadeiramente os<br \/>\nantigos turcos, enchendo o seu cachimbo no momento do perigo e confiando em<br \/>\nAl\u00e1.<\/p>\n<p>Aqui, naturalmente, a grande preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a atitude<br \/>\nfutura da Inglaterra; e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil perceber, atrav\u00e9s<br \/>\ndas discuss\u00f5es difusas dos jornais e dos debates confusos do parlamento<br \/>\n\u2013 qual \u00e9 a verdadeira vontade do pa\u00eds: eu penso que, como<br \/>\no minist\u00e9rio, o pa\u00eds quer intervir. O minist\u00e9rio naturalmente<br \/>\ndeclara, na c\u00e2mara e nos jornais, a sua neutralidade: mas e realmente<br \/>\numa neutralidade a que declara que conservar\u00e1 a espada na bainha \u2013<br \/>\nse os Russos se abstiverem de ideias de conquista? E uma neutralidade condicional.<br \/>\n\u00c9, rigorosamente, um come\u00e7o de interven\u00e7\u00e3o. E<br \/>\ndepois, por esta condi\u00e7\u00e3o \u2013 a absten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde conquista \u2013, vem p\u00f4r de antem\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque a l\u00f3gica dos factos tomaria mais tarde ou mais cedo inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>A R\u00fassia pode agora, decerto, declarar que n\u00e3o pretende territ\u00f3rios:<br \/>\nmas depois de os ter ocupado ter\u00e1 for\u00e7a, renunciamento bastante<br \/>\npara os restituir? Todo o estado vitorioso exige for\u00e7osamente, em definitiva,<br \/>\numa compensa\u00e7\u00e3o aos sacrif\u00edcios da guerra: dinheiro ou<br \/>\nterreno: ora a Turquia n\u00e3o tem dinheiro, logo h\u00e1-de pagar com<br \/>\nprov\u00edncias. E isto \u00e9 t\u00e3o certo \u2013 que o ex\u00e9rcito<br \/>\nrusso na \u00c1sia Menor vai acompanhado de uma corte numerosa de funcion\u00e1rios<br \/>\ncivis, prontos a organizar o pa\u00eds \u00e0 russa, a maneira que ele<br \/>\nfor conquistado. De modo que, apenas os Russos se estendam na \u00c1sia<br \/>\nMenor ou marchem sobre Constantinopla \u2013 a Inglaterra tem de dizer o<br \/>\nseu \u00abalto l\u00e1\u00bb.<\/p>\n<p>Em qualquer destes casos, \u00e9 a \u00cdndia que seria amea\u00e7ada,<br \/>\nou directamente ou no caminho que l\u00e1 leva: da\u00ed a necessidade<br \/>\nimediata de aumentar, num p\u00e9-de-guerra paralelo ao da R\u00fassia,<br \/>\no ex\u00e9rcito da \u00cdndia, o que seria um encargo intoler\u00e1vel<br \/>\npara a \u00cdndia e uma nega\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios econ\u00f3micos<br \/>\ndo Estado. A fazer tal, a Inglaterra prefere fazer a guerra.<\/p>\n<p>Junte-se a isto que a R\u00fassia, desde a sua marcha progressiva na \u00c1sia,<br \/>\ne o inimigo natural da Inglaterra: que a Inglaterra quer mostrar a sua for\u00e7a<br \/>\ne a sua influ\u00eancia; que est\u00e1 despeitada pela maneira falaz e<br \/>\ntortuosa por que a R\u00fassia conduziu as negocia\u00e7\u00f5es anteriores<br \/>\n\u00e0 guerra \u2013 e sentir-se-\u00e1 a popularidade da ideia da interven\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAl\u00e9m disso a imprensa ministerial, em artigos fren\u00e9ticos, pede<br \/>\nclaramente a guerra: e o Punch tinha raz\u00e3o outro dia \u2013 representando<br \/>\nas penas agu\u00e7adas do Daily Telegraph, do Morning Post, do Pall Mall,<br \/>\nespica\u00e7ando o enorme Le\u00e3o Brit\u00e2nico para o fazer erguer-se<br \/>\ne rugir.<\/p>\n<p>Este sentimento julgo-o geral: h\u00e1 por\u00e9m uma corrente de paix\u00e3o<br \/>\nque j\u00e1 por duas vezes tem atravessado o pa\u00eds e que o conserva<br \/>\npor um, dois dias, num estado de excita\u00e7\u00e3o, desejando a destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Turquia, como um pais b\u00e1rbaro, massacrado, fora da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesses dias fala-se em dar apoio \u00e0 R\u00fassia: repetem-se as l\u00e1grimas<br \/>\nchoradas sobre os massacres da Bulg\u00e1ria: pede-se que a frota v\u00e1<br \/>\nbombardear Constantinopla. Esta exalta\u00e7\u00e3o de sentimento \u00e9<br \/>\nlevantada artificialmente por Gladstone e pela por\u00e7\u00e3o dos liberais<br \/>\nque o seguem.<\/p>\n<p>A sua eloqu\u00eancia apaixonada, a sua convic\u00e7\u00e3o contagiosa,<br \/>\na altura do seu car\u00e1cter, arrastam um momento: Gladstone quer que se<br \/>\nabandone a Turquia, que se fa\u00e7a uma alian\u00e7a com a R\u00fassia,<br \/>\nque se divida o Imp\u00e9rio Otomano. E por algum tempo todo o mundo pensa<br \/>\nassim.<\/p>\n<p>Mas a exalta\u00e7\u00e3o abate-se, a sensibilidade recrescida acalma<br \/>\n\u2013 a raz\u00e3o pr\u00e1tica readquire os seus direitos, e o pais,<br \/>\narrefecido, continua a pensar que o sentimento perturba tudo e n\u00e3o<br \/>\nedifica nada, que a s\u00e3 pol\u00edtica do minist\u00e9rio \u00e9<br \/>\na antiga tradi\u00e7\u00e3o da Inglaterra \u2013 e que se alguma coisa<br \/>\nh\u00e1 a fazer \u00e9 dar um golpe na R\u00fassia.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o est\u00e1 muito preocupada tamb\u00e9m de um certo<br \/>\nazedume de rela\u00e7\u00f5es entre a Alemanha e a Fran\u00e7a. A Alemanha<br \/>\nparece querer renovar as antigas reclama\u00e7\u00f5es a respeito dos<br \/>\narmamentos consider\u00e1veis da Fran\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 j\u00e1<br \/>\nhoje um segredo para ningu\u00e9m que a meia demiss\u00e3o do pr\u00edncipe<br \/>\nde Bismarck foi sobretudo causada pela resist\u00eancia que ele encontrava<br \/>\nno imperador em tomar uma atitude francamente hostil \u00e0 Fran\u00e7a.<br \/>\nBismarck e Moltke s\u00e3o a alma do partido da guerra \u2013 e, se n\u00e3o<br \/>\nfosse a forte influ\u00eancia do partido da paz, quem sabe por que novas<br \/>\ncat\u00e1strofes teria passado o Ocidente da Europa. Este partido da paz<br \/>\n\u00e9 representando na corte pelo pr\u00edncipe imperial e inspirado<br \/>\npela princesa, a Inglesa, como lhe chamam em Berlim: inteligente, instru\u00edda,<br \/>\nen\u00e9rgica, correspondendo-se com os homens mais ilustres da Inglaterra,<br \/>\nela tem uma grande influ\u00eancia, naturalmente, em seu marido e, al\u00e9m<br \/>\ndisso, no imperador. \u00c9 diz-se, uma das colunas da paz. Um incidente<br \/>\ncurioso, que me foi particularmente contado, revela de resto a fragilidade<br \/>\ndesta situa\u00e7\u00e3o: por ocasi\u00e3o dos anos do imperador da<br \/>\nAlemanha tem sido costume do marechal Mac Mahon mandar um ajudante de ordens,<br \/>\ncom felicita\u00e7\u00f5es. Este ano o ajudante tardava. Grande alegria<br \/>\ndo partido da guerra.<\/p>\n<p>Era uma insol\u00eancia francesa! Era uma desfeita! Era o primeiro acto<br \/>\nhostil da desforra! O pr\u00edncipe imperial, assustado, vendo o seu pai<br \/>\ndescontente, mandou um telegrama para Paris, pedindo que o ajudante partisse<br \/>\nlogo e explicando que coment\u00e1rios perigosos se estavam formando. O<br \/>\najudante, o marqu\u00eas de Abzac, estava j\u00e1 em caminho: chegou na<br \/>\nv\u00e9spera dos anos do imperador! Desconsola\u00e7\u00e3o do partido<br \/>\nda guerra! Triunfo do partido da paz \u2013 que levou o imperador a dar uma<br \/>\ngr\u00e3-cruz ao marqu\u00eas de Abzac.<\/p>\n<p>No entanto, a Fran\u00e7a prepara tranquilamente a sua Exposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUma das curiosidades ser\u00e1 a colec\u00e7\u00e3o de preciosidades<br \/>\nque o pr\u00edncipe de Gales trouxe da \u00cdndia. Ele mesmo foi examinar<br \/>\nem Paris o lugar que lhe estava marcado. Diz-se que nessa noite, estando no<br \/>\npalco do Th\u00e9\u00e2tre Fran\u00e7ais e falando-se das pe\u00e7as<br \/>\nnovas que iriam por ocasi\u00e3o da Exposi\u00e7\u00e3o, uma linda actriz<br \/>\nlhe perguntou bruscamente: \u2013 E cr\u00ea vossa alteza que a Exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nter\u00e1 lugar? O pr\u00edncipe, um pouco embara\u00e7ado, reflectiu<br \/>\ne respondeu: \u2013 Com toda a certeza.<\/p>\n<p>O Transval, como sabem, foi anexado. Era previsto.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabem ainda as raz\u00f5es detalhadas que levaram Sir Theophilus<br \/>\nStorey a este passo extremo \u2013 mas parece que a dissolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nda rep\u00fablica era iminente: os b\u00f3eres tinham provocado uma guerra<br \/>\ne recusavam-se a pagar os impostos para a sustentar: a rep\u00fablica, sem<br \/>\nmeios, sem soldados, estava na v\u00e9spera de uma invas\u00e3o: todo<br \/>\no mundo b\u00e1rbaro que a cerca, estava em armas: era de temer \u00e0<br \/>\nprimeira insurrei\u00e7\u00e3o que houvesse no Sul de \u00c1frica um<br \/>\nlevantamento selvagem, em massa. Foi talvez para evitar este grave perigo<br \/>\n\u2013 que Sir Theophilus Storey interveio. O territ\u00f3rio do Transval<br \/>\n\u00e9 grande como todo o reino de It\u00e1lia e n\u00e3o tem mais de<br \/>\num milh\u00e3o de habitantes. Parece que a anexa\u00e7\u00e3o foi tranquila,<br \/>\nal\u00e9m, naturalmente, dos protestos plat\u00f3nicos. Na acta de anexa\u00e7\u00e3o<br \/>\no Transval \u00e9 declarado estado livre, com toda a autonomia do governo<br \/>\nlocal: as l\u00ednguas holandesa e inglesa s\u00e3o consideradas igualmente<br \/>\noficiais: certos impostos s\u00e3o abolidos \u2013 e parece que o sentimento<br \/>\npac\u00edfico \u00e9 t\u00e3o grande que n\u00e3o foi necess\u00e1ria<br \/>\nainda a presen\u00e7a de tropas inglesas. \u00c9 mais um grosso bocado<br \/>\ndo globo que entra para a vastid\u00e3o da Inglaterra! Por esta ocasi\u00e3o<br \/>\nalguns jornais t\u00eam falado de Louren\u00e7o Marques.<\/p>\n<p>Pintam-no como um pa\u00eds f\u00e9rtil, rico, de grande futuro, em<br \/>\nplena anarquia: funcion\u00e1rios, institui\u00e7\u00f5es, edif\u00edcios,<br \/>\nservi\u00e7os p\u00fablicos, actividade local \u2013 tudo \u00e9 descrito<br \/>\ncomo num estado desolador de dissolu\u00e7\u00e3o e de in\u00e9rcia.<br \/>\nO Pall Mall, jornal do governo, tem insistido nestes detalhes.<\/p>\n<p>De resto n\u00e3o \u00e9 raro encontrarmos nos jornais ingleses estas<br \/>\npinturas falsamente carregadas de civiliza\u00e7\u00e3o portuguesa na<br \/>\n\u00c1frica: e t\u00eam elas tomado um tal car\u00e1cter de exagera\u00e7\u00e3o<br \/>\ninjusta que ingleses estabelecidos na \u00c1frica t\u00eam julgado do seu<br \/>\ndever estabelecer a justa verdade, e ultimamente nos jornais do Cabo encontravam-se<br \/>\naprecia\u00e7\u00f5es extremamente favor\u00e1veis sobre o funcionalismo<br \/>\nportugu\u00eas em \u00c1frica \u2013 apresentando-o como ilustrado, de<br \/>\nvistas liberais e de uma grande benevol\u00eancia.<\/p>\n<p>As novidades liter\u00e1rias s\u00e3o escassas. Rel\u00eaem-se os livros<br \/>\nvelhos \u2013 sobretudo os que dizem respeito ao Oriente, \u00e0 Turquia<br \/>\ne \u00e0 R\u00fassia: em todas as lojas de livros se v\u00eaem edi\u00e7\u00f5es<br \/>\nrecentes do Alcor\u00e3o traduzido; e, como a Turquia \u00e9 preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo momento, as revistas liter\u00e1rias dedicam artigos s\u00f3lidos,<br \/>\nlaboriosamente compilados pelo m\u00e9todo ingl\u00eas, \u00e0 literatura<br \/>\ne poesia turcas.<\/p>\n<p>Tem-se lido muito, todavia, o novo livro do deputado Jeckins, autor de Xinx\u2019s<br \/>\nBaby; este novo romance ou panfleto romantizado chama-se Devil\u2019s Chain<br \/>\n(\u00abCadeia do Diabo\u00bb) e tem-se vendido em pouco tempo vinte mil<br \/>\nexemplares! \u00c9 uma pintura violenta, col\u00e9rica, da embriaguez<br \/>\nem Inglaterra: este grande v\u00edcio nacional, e as suas fatalidades, est\u00e1<br \/>\ncontado em epis\u00f3dios l\u00fagubres, num estilo concentrado e nervoso,<br \/>\na largos tra\u00e7os, de um modo impressionador: v\u00eaem-se todas as<br \/>\nclasses, todos os caracteres, todas as idades, virgens, m\u00e3es, sacerdotes,<br \/>\noper\u00e1rios, juizes, lordes, ministros de Estado, a Inglaterra inteira,<br \/>\narrastada pelo brande, pelo gim, pela aguardente, \u00e0 perdi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nao v\u00edcio, \u00e0 mis\u00e9ria, \u00e0 desonra, ao crime, \u00e0<br \/>\nmorte! E um pais todo que rola para o abismo, cambaleando de b\u00eabedo.<br \/>\n\u00c9 a grande Cadeia do Diabo! Satan\u00e1s prende-os uns aos outros<br \/>\npor um v\u00edcio comum \u2013 o \u00e1lcool \u2013 e, a grandes vergastadas,<br \/>\nvai-os atirando para o inferno.<\/p>\n<p>E, no meio desta cat\u00e1strofe, um s\u00f3 homem prospera, engorda,<br \/>\nsorri e triunfa \u2013 o destilador, o preparador do \u00e1lcool, o dono<br \/>\ndas mil tabernas. Mas l\u00e1 lhe vem o seu castigo: o \u00fanico filho,<br \/>\no \u00fanico herdeiro, de copo de aguardente em copo de gim, vem a morrer,<br \/>\nmiser\u00e1vel, num quarto de acaso, vagamente cumpliciado num crime! O<br \/>\nlivro perde pela sua exagera\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Tratado com<br \/>\nmais realidade, causaria mais convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A season vai mon\u00f3tona. Janta-se pouco, recebe-se pouco, dan\u00e7a-se<br \/>\npouco. O tempo tem estado \u00e1spero. A grande attraction \u00e9 naturalmente<br \/>\na exposi\u00e7\u00e3o anual de pinturas. N\u00e3o se pode ver em detalhe,<br \/>\nporque nestes primeiros tempos a multid\u00e3o toma \u00e0s vezes as propor\u00e7\u00f5es<br \/>\nconfusas de uma bernarda.<\/p>\n<p>Empurra-se, escorrega-se, pisa-se, vai-se, \u00e9-se levado \u2013 e<br \/>\nv\u00eaem-se de longe, nas paredes, as cores reluzir vagamente e os dourados<br \/>\ndos caixilhos cintilar: mais nada.<\/p>\n<p>A primeira impress\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 que a exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 med\u00edocre: milhares de quadros, imenso talento despendido,<br \/>\numa extraordin\u00e1ria habilidade de execu\u00e7\u00e3o \u2013 mas<br \/>\nnenhuma obra que fa\u00e7a pensar.<\/p>\n<p>Os assuntos n\u00e3o t\u00eam ideia: s\u00e3o motivos, pretextos para<br \/>\ncorrer: basta dizer que os dois grandes pintores de Inglaterra, Leighton e<br \/>\nMillais \u2013 um exp\u00f5e uma \u00abmenina vendo-se a um espelho\u00bb,<br \/>\no outro \u00abum veterano\u00bb! E o que estes dois grandes artistas t\u00eam<br \/>\na dizer este ano! Quando a gente, no col\u00e9gio, aprende aguarela, copia<br \/>\nassuntos com mais ideia e mais inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os concertos wagnerianos t\u00eam tido um sucesso. S\u00e3o compostos<br \/>\ndas principais partes das \u00f3peras de Wagner, sobretudo da sua \u00faltima<br \/>\ntrilogia her\u00f3ica, Os Nibelungos: muitos dos cantores que executaram<br \/>\na \u00f3pera em Bayreuth vieram a Londres \u2013 entre eles Madame Madonna,<br \/>\na prima-dona do maestro, a favorita, a sua grande interpretadora.<\/p>\n<p>Nestes concertos, naturalmente, fala-se muito de Wagner, das suas excentricidades,<br \/>\ndo seu orgulho, do seu g\u00e9nio, dos seus h\u00e1bitos. Um artista que<br \/>\nesteve em casa dele em Bayreuth, conta-me alguns tra\u00e7os curiosos. O<br \/>\nmaestro trabalha num sal\u00e3o enorme, com janelas imensas que abrem sobre<br \/>\num jardim, em cima de uma mesa de m\u00e1rmore. Est\u00e1 \u00e0s vezes<br \/>\nquinze a vinte dias sem escrever uma nota: de repente a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nvem: o maestro sente-a, e veste imediatamente o seu fato de trabalho. E um<br \/>\ncostume de veludo, \u00e0 maneira dos camponeses alem\u00e3es da Renascen\u00e7a.<br \/>\nAbre todas as janelas e escreve doze a quinze horas a fio, atirando os pap\u00e9is<br \/>\nde m\u00fasica para o ch\u00e3o, at\u00e9 haver em toda a sala uma camada<br \/>\nespessa. N\u00e3o emenda, nem corrige. Quando n\u00e3o trabalha passeia<br \/>\ns\u00f3 pelos campos ador\u00e1veis de Bayreuth, com dois enormes c\u00e3es<br \/>\nterra-nova, que o n\u00e3o deixam. Quando em Bayreuth ele entra num caf\u00e9,<br \/>\ntodo o mundo o segue, se descobre e deixa de fumar! N\u00e3o h\u00e1 por<br \/>\nai ningu\u00e9m que queira ir explorar a Roidaima? A Roidaima \u00e9 a<br \/>\ngrande maravilha geogr\u00e1fica destes tempos. Viajantes exploradores,<br \/>\nna Guiana Inglesa, encontraram ultimamente uma montanha de granito, na forma<br \/>\nde um dado colossal: os lados s\u00e3o perfeitamente a pique, perpendiculares:<br \/>\no plano superior est\u00e1 a uma altura de alguns mil p\u00e9s: com fortes<br \/>\n\u00f3culos de alcance v\u00ea-se que h\u00e1, em cima, uma floresta,<br \/>\ne deduz-se, por p\u00e1ssaros de v\u00e1rias formas que se v\u00eaem<br \/>\nvoar, que al\u00e9m de toda uma flora \u00e9 toda uma vida animal: haver\u00e1<br \/>\nhomens? Nunca ningu\u00e9m l\u00e1 subiu, nunca ningu\u00e9m de l\u00e1<br \/>\ndesceu; que mist\u00e9rio h\u00e1 ali? Desde o come\u00e7o do mundo<br \/>\naquele pa\u00eds a\u00e9reo est\u00e1 intacto, inexplorado, virgem.<br \/>\n\u00c9 decerto habitado: provam-no as arvores, os p\u00e1ssaros, a \u00e1gua<br \/>\ndoce que cai em cascatas pelo lado do monte: a largura em cima \u00e9 de<br \/>\nduas l\u00e9guas.<\/p>\n<p>Que esp\u00e9cie de homens habitam ali? Que ra\u00e7a? Que l\u00edngua<br \/>\nfalam? Desde Ad\u00e3o, segundo a B\u00edblia, ou desde o primeiro macaco,<br \/>\nsegundo Darwin \u2013 habita ali uma tribo, uma na\u00e7\u00e3o. Que<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o tem? Que estranhos animais se encontrar\u00e3o<br \/>\nainda l\u00e1? Que estranhas \u00e1rvores? Os jornais ingleses pedem,<br \/>\n\u00e0 uma, que se organize uma explora\u00e7\u00e3o, com bal\u00f5es,<br \/>\npara subir l\u00e1 e ver! Confesso que \u00e9 tentador: quantas maravilhas<br \/>\na ci\u00eancia poder\u00e1 ali encontrar! \u00c9 bem poss\u00edvel<br \/>\nque l\u00e1 vivam muitas das ra\u00e7as animais que no resto do globo<br \/>\ndesapareceram.<\/p>\n<p>E que sensa\u00e7\u00e3o a do explorador que, ao descer da barquinha<br \/>\ndo bal\u00e3o, ao aportar \u00e0quele mundo a\u00e9reo \u2013 visse<br \/>\num ser felpudo, um imenso macaco humano, fazendo pastar tranquilamente um<br \/>\nrebanho de mastodontes?<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III &#8211; Londres, 30 de Maio de 1877<\/h2>\n<p>Um jornal sat\u00edrico de Londres, o Fun, publicava h\u00e1 dias o seguinte<br \/>\nan\u00fancio:<\/p>\n<p>DEZ LIBRAS DE RECOMPENSA!! aos ex\u00e9rcitos russo e turco, oferecidas<br \/>\npelos correspondentes dos jornais e rep\u00f3rteres, se os ditos ex\u00e9rcitos<br \/>\nse comprometerem ao seguinte: travar uma batalha digna de um telegrama.<\/p>\n<p>A monotonia da guerra, com efeito, faz a infelicidade dos correspondentes:<br \/>\neu mesmo estive demorando uns dias esta carta na esperan\u00e7a que os Russos<br \/>\nou Turcos, na \u00c1sia ou no Dan\u00fabio, me oferecessem caritativamente<br \/>\nalgum epis\u00f3dio comovente ou algum feito decisivo.<\/p>\n<p>Mas nada! Os Russos continuam a remeter para o Dan\u00fabio uma corrente<br \/>\ncopiosa e infind\u00e1vel de regimentos: Mas, \u00e0 parte alguns duelos<br \/>\nmatinais de artilharia entre as duas margens, a campanha europeia do Dan\u00fabio<br \/>\n\u2013 \u00e9 como um livro de que apenas se escreveu o t\u00edtulo.<br \/>\nAs pessoas \u00e1vidas de emo\u00e7\u00f5es e que desejam ter os nervos<br \/>\nnuma sobre-excita\u00e7\u00e3o interessante est\u00e3o descontentes:<br \/>\na guerra apresenta a sensaboria de uma parada; algumas, mais desconfiadas,<br \/>\nreceiam um logro e que os diplomatas comecem a tratar da paz antes de os generais<br \/>\nterem travado a guerra.<\/p>\n<p>N\u00e3o se perde por esperar, por\u00e9m, e eu penso que, antes de<br \/>\npouco, a Turquia oferecer\u00e1 amplamente motivos de sensa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o dos Turcos, com efeito, apresenta-se prec\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia, no Dan\u00fabio, em Constantinopla, por todo o imp\u00e9rio,<br \/>\naparecem, como as primeiras n\u00f3doas num corpo que gangrena, os primeiros<br \/>\nind\u00edcios da cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia Menor os Russos prosperam. A tomada de Ardahan compromete<br \/>\nconsideravelmente a situa\u00e7\u00e3o dos Turcos. A guarni\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Ardahan era de oito mil homens e parece que a resist\u00eancia foi d\u00e9bil<br \/>\ne ligeiramente covarde. Os Russos, senhores de Ardahan, podem fazer marchar<br \/>\ncom seguran\u00e7a uma outra coluna de ex\u00e9rcito sobre Erzerum. Os<br \/>\nTurcos a\u00ed n\u00e3o podem oferecer uma defesa valiosa; diz-se mesmo<br \/>\nque j\u00e1 abandonaram Erzerum e formaram mais para oeste um campo entrincheirado;<br \/>\nse assim \u00e9, tomada a fortaleza de Kars e ocupada Erzerum, a Arm\u00e9nia<br \/>\nest\u00e1 nas m\u00e3os dos Russos, e a campanha da \u00c1sia Menor<br \/>\nfindou. Alguns telegramas de Constantinopla dizem, \u00e9 verdade, que os<br \/>\nTurcos retomaram Ardahan; mas esta not\u00edcia foi mandada para Constantinopla<br \/>\npor chefes turcos, que dizem t\u00ea-la recebido do kamaikan de Daghestan,<br \/>\nque declara t\u00ea-la recebido do kamaikan de uma outra tribo, que afirma<br \/>\nt\u00ea-la ouvido dizer a um circassiano! E aqui est\u00e1 o sistema de<br \/>\ninforma\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio da Guerra em Constantinopla!<br \/>\nParece de uma \u00f3pera c\u00f3mica, com m\u00fasica de Offenbach!<br \/>\nO movimento de insurrei\u00e7\u00e3o no C\u00e1ucaso com que os Turcos<br \/>\ntanto contavam, abortou miseravelmente: algumas tribos circassianas, com efeito,<br \/>\nlevantaram-se mas sem organiza\u00e7\u00e3o, sem t\u00e1ctica, e em<br \/>\nn\u00famero muito diminuto para embara\u00e7arem seriamente os Russos;<br \/>\no movimento foi facilmente dominado; diz-se que os Russos fizeram nos primeiros<br \/>\ndias uma repress\u00e3o sanguin\u00e1ria e feroz das tribos rebeldes:<br \/>\npara assustar as popula\u00e7\u00f5es faziam passar os revoltosos feitos<br \/>\nprisioneiros, atrav\u00e9s das aldeias, carregados de grilh\u00f5es, espica\u00e7ados<br \/>\npelas lan\u00e7as dos cossacos e conduzidos como animais ferozes.<\/p>\n<p>A tomada de Sokum Kale pelos turcos, que eles tanto cantaram, \u00e9,<br \/>\nno fim de tudo, um feito insignificante, in\u00fatil e, por assim dizer,<br \/>\nplat\u00f3nico. Sokum \u00e9 uma pequena aldeia mar\u00edtima, com casebres<br \/>\nde pau, deliciosa como situa\u00e7\u00e3o pitoresca, entre as suas colinas<br \/>\ne os seus bosques de laranjeiras, mas inteiramente destitu\u00edda de qualquer<br \/>\nimport\u00e2ncia estrat\u00e9gica. Nas prov\u00edncias do Sul da \u00c1sia<br \/>\nMenor, as tribos bedu\u00ednas, inimigas do Turco, come\u00e7am a mostrar<br \/>\numa agita\u00e7\u00e3o inquietadora; t\u00eam aparecido em for\u00e7a<br \/>\njunto de Jerusal\u00e9m e em todo o vale do Jord\u00e3o; os governadores<br \/>\nlocais pedem refor\u00e7os para Constantinopla; uma insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nbedu\u00edna seria, neste momento; mais uma complica\u00e7\u00e3o infeliz,<br \/>\nna lista terr\u00edvel das complica\u00e7\u00f5es infelizes da Turquia.<\/p>\n<p>Em Constantinopla, \u00abest\u00e1-se com a cabe\u00e7a perdida\u00bb:<br \/>\no minist\u00e9rio, a c\u00e2mara, o sult\u00e3o, os softas, tudo est\u00e1<br \/>\nnuma excita\u00e7\u00e3o aguda de desconfian\u00e7a. O p\u00fablico<br \/>\nn\u00e3o confia nem nos generais, nem no ministro da Guerra; diz-se que<br \/>\no minist\u00e9rio, que sabe os podres, n\u00e3o confia no ex\u00e9rcito,<br \/>\nque nem est\u00e1 armado nem equipado, nem preparado, e que a passagem do<br \/>\nDan\u00fabio pelos Russos ser\u00e1 o come\u00e7o da cat\u00e1strofe;<br \/>\no sult\u00e3o vive num estado de excita\u00e7\u00e3o cerebral, tanto<br \/>\nmais perigosa que as grandes doen\u00e7as nervosas s\u00e3o heredit\u00e1rias<br \/>\nna fam\u00edlia dos Osmanlis; e, quando soube da queda de Ardahan teve um<br \/>\nataque violento de raiva epil\u00e9ptica; percorria as salas, dando gritos,<br \/>\nrojava-se e dilacerava o fato. Os softas, isto \u00e9, a parte inteligente,<br \/>\nactiva, empreendedora da popula\u00e7\u00e3o, preparam-se, evidentemente;<br \/>\nt\u00eam feito compras consider\u00e1veis de armas, especialmente rev\u00f3lveres;<br \/>\nj\u00e1 t\u00eam organizado, como devem saber pelo tel\u00e9grafo, manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\ne esbo\u00e7os de sedi\u00e7\u00f5es. Isto obrigou o Governo a declarar<br \/>\nConstantinopla em estado de s\u00edtio: o fim desta medida \u00e9 sobretudo<br \/>\napreender as armas que os softas t\u00eam ultimamente adquirido; mas, num<br \/>\npa\u00eds mu\u00e7ulmano, este fim \u00e9 dif\u00edcil de atingir;<br \/>\nas armas s\u00e3o guardadas ou nas mesquitas ou nos quartos das mulheres,<br \/>\ne como estes dois lugares s\u00e3o para o mu\u00e7ulmano inviol\u00e1veis<br \/>\na apreens\u00e3o das armas \u00e9 imposs\u00edvel. Ora \u00e9 evidente<br \/>\nque a hostilidade dos softas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dirigida contra<br \/>\nos ministros, mas contra o pr\u00f3prio sult\u00e3o \u2013 de facto contra<br \/>\na dinastia; e, portanto, \u00e9 f\u00e1cil de ver que perigo corre a fam\u00edlia<br \/>\ndos Osmanlis, e com ela o velho regime turco.<\/p>\n<p>A Gr\u00e9cia n\u00e3o podia deixar, no meio de todas as amarguras por<br \/>\nque passa a Turquia, de vir ajuntar a sua gota de fel. Em Atenas repetem-se<br \/>\nas manifesta\u00e7\u00f5es belicosas contra a Turquia, e \u00e9 de crer<br \/>\nque o novo Governo, formado de elementos favor\u00e1veis \u00e0 guerra<br \/>\ne sob a press\u00e3o de um forte sentimento nacional, se lance na contenda<br \/>\ne aproveite o grande embara\u00e7o turco para ajustar certas contas hist\u00f3ricas<br \/>\ncom a Porta. Assim, por todos os lados, a situa\u00e7\u00e3o da Turquia<br \/>\nse escurece; \u00e9 este o momento que se escolheu para dar ao sult\u00e3o<br \/>\num sobrenome din\u00e1stico sabem que nome se adoptou? O Vitorioso! Os Russos,<br \/>\npor seu lado, acumulam, no Dan\u00fabio uma invas\u00e3o esmagadora: parece<br \/>\nque o plano \u00e9 fazer passar o Dan\u00fabio, em v\u00e1rios pontos,<br \/>\na todo o ex\u00e9rcito, e ferir simultaneamente um golpe irresist\u00edvel.<br \/>\nA demora das opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o tem sido causada somente pelas<br \/>\nchuvas embara\u00e7osas e pelas inunda\u00e7\u00f5es teimosas; tem tido<br \/>\na sua raz\u00e3o no desejo de se preparar com elementos t\u00e3o completos<br \/>\ne uma organiza\u00e7\u00e3o t\u00e3o vigorosa que a campanha n\u00e3o<br \/>\nseja depois sen\u00e3o uma s\u00e9rie de f\u00e1ceis vit\u00f3rias.<br \/>\nEstas vit\u00f3rias, verdade seja, o p\u00fablico russo come\u00e7a<br \/>\na impacientar-se por as n\u00e3o ver realizadas; e todo o estado-maior e<br \/>\na corte come\u00e7am tamb\u00e9m a sentir a necessidade de as n\u00e3o<br \/>\nprotrair mais; e sabem porqu\u00ea? Porque os m\u00e9dicos as julgam indispens\u00e1veis<br \/>\n\u00e0 sa\u00fade do imperador. Desde a sua volta a Sampetersburgo, o<br \/>\nimperador Alexandre sofre de uma grande irritabilidade nervosa e de uma esp\u00e9cie<br \/>\nde inquieta\u00e7\u00e3o alucinada, que enche de susto toda a corte. Tem<br \/>\ndurante todo o dia uma impaci\u00eancia febril por telegramas; exige que<br \/>\nos mais insignificantes detalhes do que se passa no ex\u00e9rcito lhe sejam<br \/>\ntelegrafados de minuto a minuto, exprime desconfian\u00e7as injustas e mostra-se<br \/>\nsem raz\u00e3o descontente com a marcha da guerra. Os m\u00e9dicos julgam<br \/>\nque s\u00f3 uma boa vit\u00f3ria russa poder\u00e1 acalmar esta excita\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne n\u00e3o ser\u00e1 de admirar que os Russos apressem os seus movimentos,<br \/>\nporque (o que n\u00e3o tem nada de estranho num pa\u00eds em que o imperador<br \/>\n\u00e9 tudo, e o resto nada) os planos do estado-maior devem, de ora em<br \/>\ndiante, ter em vista as receitas dos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>O que eu ainda n\u00e3o pude tirar a claro \u00e9 qual \u00e9 o verdadeiro<br \/>\nsentimento do povo russo. Alguns correspondentes dizem que a R\u00fassia<br \/>\nconsidera esta guerra como santa, e arde no mais fan\u00e1tico entusiasmo;<br \/>\noutros pintam o povo russo como extremamente descontente, indiferente \u00e0<br \/>\nguerra, e pensando que, quando tudo est\u00e1 por reformar na R\u00fassia,<br \/>\n\u00e9 insensato querer ir fora reformar a Turquia.<\/p>\n<p>Pelo que tenho ouvido a alguns russos, n\u00e3o me parece que o entusiasmo<br \/>\np\u00fablico seja grande.<\/p>\n<p>As doa\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas para a guerra n\u00e3o significam<br \/>\nnada: as que v\u00eam das municipalidades s\u00e3o quase impostas \u00e0<br \/>\nfor\u00e7a pelo Governo, as que v\u00eam dos particulares s\u00e3o um<br \/>\nmeio astucioso de obter merc\u00eas, condecora\u00e7\u00f5es e privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>A guerra foi declarada por tr\u00eas motivos: primeiro, para satisfazer<br \/>\nas classes militares (t\u00e3o preponderantes na R\u00fassia), por uma<br \/>\ncampanha de conquista; segundo, para evitar a bancarrota e salvar as dificuldades<br \/>\nfinanceiras por estes empr\u00e9stimos feitos em nome da guerra santa; terceiro,<br \/>\nporque o Governo turco concedeu uma constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o turca, na verdade, fez uma grande impress\u00e3o<br \/>\nem toda a R\u00fassia: humilhou-a. O Turco, o b\u00e1rbaro, o infiel tinha<br \/>\numa constitui\u00e7\u00e3o \u2013 essa alta express\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica \u2013 enquanto o Russo, o santo russo, vivia ainda sob o<br \/>\nbel-prazer imperial. Toda a na\u00e7\u00e3o sentia isto amargamente; por<br \/>\nse ter atrevido a diz\u00ea-lo, muito encapotadamente, o Golos foi suspenso<br \/>\npor dois meses. Um certo estremecimento de independ\u00eancia e liberalismo<br \/>\npercorreu todo o imp\u00e9rio \u2013 e o Governo sentiu bem que para distrair<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o do interior era necess\u00e1rio fazer a guerra.<br \/>\nE, com efeito, foi depois da constitui\u00e7\u00e3o turca que a pol\u00edtica<br \/>\nrussa se mostrou mais teimosa e, sob as suas apar\u00eancias, mais \u00e1vida<br \/>\nde conflito.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio, por\u00e9m, que propriamente na massa do povo russo<br \/>\nhouvesse um desejo pela guerra: a sua simpatia pelo irm\u00e3o eslavo, se<br \/>\nexiste, \u00e9 muito limitada, ou pelo menos o prolet\u00e1rio russo sabe<br \/>\nperfeitamente que o eslavo, sob o dom\u00ednio turco, \u00e9 mais feliz<br \/>\nque ele sob o dom\u00ednio do czar, e n\u00e3o se julga portanto obrigado<br \/>\na dar-lhe uma grande comisera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A burguesia, mais educada e sem grande ardor religioso, n\u00e3o v\u00ea<br \/>\nna guerra sen\u00e3o uma onera\u00e7\u00e3o suplementar de impostos<br \/>\ne de despesas. As conquistas e os aumentos territoriais s\u00e3o-lhe indiferentes:<br \/>\ncomo \u00e9 um zero no Estado, n\u00e3o lhe importa o engrandecimento<br \/>\ndo Estado.<\/p>\n<p>Julgo, portanto, que se exagera grandemente o entusiasmo russo pela guerra<br \/>\nsanta. N\u00e3o falo, naturalmente, no ex\u00e9rcito; e, todavia, no ex\u00e9rcito<br \/>\nmesmo tem havido apar\u00eancias de insubordina\u00e7\u00e3o: um regimento<br \/>\ncircassiano foi de repente mandado recolher \u00e0 R\u00fassia, por mostrar<br \/>\ntend\u00eancias rebeldes. Os regimentos circassianos estavam, diz-se, sob<br \/>\na persuas\u00e3o de que se iam bater contra os h\u00fangaros, n\u00e3o<br \/>\ncontra os maometanos; quando, por\u00e9m, viram realmente qual era o inimigo<br \/>\nestavam mais dispostos a unir-se a ele que a combat\u00ea-lo. Outros actos<br \/>\ndesagrad\u00e1veis t\u00eam sido praticados no ex\u00e9rcito russo: assim<br \/>\no comiss\u00e1rio-geral dos Fornecimentos acaba de ser fuzilado sem processo.<br \/>\nEste funcion\u00e1rio estim\u00e1vel introduziu na farinha tal quantidade<br \/>\nde cal \u2013 que realmente n\u00e3o era poss\u00edvel deixar de lhe<br \/>\nmeter algumas balas no peito. Uma certa quantidade de cal na farinha, como<br \/>\numa certa quantidade de paucampeche no vinho \u2013 s\u00e3o procedimentos<br \/>\nrazo\u00e1veis, que d\u00e3o honra, grandes proveitos e ordinariamente<br \/>\numa condecora\u00e7\u00e3o. Mas uma tal por\u00e7\u00e3o de cal que<br \/>\ntorna a farinha mais pr\u00f3pria para pintar paredes que para fazer p\u00e3o<br \/>\n\u00e9 realmente abusivo, e o Conselho de Guerra foi apenas justo dando<br \/>\n\u00e0quele funcion\u00e1rio uma disponibilidade&#8230; na eternidade.<\/p>\n<p>Continua-se aqui comentando com grande azedume o golpe de estado de Mac<br \/>\nMahon. Aquele acto importuno, violento, grosseiro na sua forma, tem provocado<br \/>\na reprova\u00e7\u00e3o da Europa inteira. \u00c9 necess\u00e1rio realmente<br \/>\nque os juizes sejam bem estreitos, a paix\u00e3o partid\u00e1ria bem feroz,<br \/>\no bom senso bem pervertido \u2013 para que, em plena paz, em plena prosperidade,<br \/>\nno meio do mais s\u00e1bio trabalho de reorganiza\u00e7\u00e3o, se lance<br \/>\ngratuitamente uma na\u00e7\u00e3o, ainda convalescente, nas agita\u00e7\u00f5es<br \/>\nda incerteza e nos perigos da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A imprensa inglesa tem sido cruel para o marechal: debaixo das formas solenes<br \/>\ndo artigo de fundo ingl\u00eas, conservadores e liberais d\u00e3o claramente<br \/>\na entender que o marechal provou n\u00e3o ter nenhuma intelig\u00eancia<br \/>\ne ter muito pouca dignidade. O Economist, h\u00e1 dias, dizia que. lisonjeira<br \/>\nque lhe tem sido feita. O marechal, por aquele acto, de que tomou perante<br \/>\na Fran\u00e7a a responsabilidade exclusiva, preparou a sua queda. De facto,<br \/>\nque ele obtenha do Senado a dissolu\u00e7\u00e3o da c\u00e2mara, ou que<br \/>\na c\u00e2mara se dissolva por iniciativa da maioria \u2013 em definitivo,<br \/>\nquem tem de dizer a \u00faltima palavras \u00e9 o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O conflito hoje \u00e9 entre o marechal e o mundo conservador, devoto<br \/>\ne aristocr\u00e1tico que ele representa \u2013 e a rep\u00fablica. A<br \/>\nFran\u00e7a tem de decidir. Ora se a Fran\u00e7a, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndecidiu pela rep\u00fablica, porque n\u00e3o h\u00e1-de agora decidir<br \/>\npela rep\u00fablica igualmente? Se alguma mudan\u00e7a houve, foi para<br \/>\nmaior consolida\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito republicano: a rep\u00fablica<br \/>\nmostrou-se moderada, trabalhadora, iniciadora; sob o seu regi-me a Fran\u00e7a<br \/>\nrecuperou-se, pagou, reorganizou-se; o pa\u00eds acostumou-se a ela; o homem<br \/>\ndo campo, que sempre lhe foi hostil, \u00e9lhe agora dedicado, vendo a forte<br \/>\nriqueza que ela estava criando \u00e0 Fran\u00e7a; as classes burguesas<br \/>\naderiram-se a ela, e a Fran\u00e7a fez-se uma alma republicana. E claro<br \/>\nportanto que, sejam quais forem as press\u00f5es ministeriais, as elei\u00e7\u00f5es<br \/>\nnovas decidir\u00e3o pela rep\u00fablica contra o marechal. Isto \u00e9,<br \/>\nmandar\u00e3o \u00e0c\u00e2mara uma maioria republicana e radical. Dar\u00e1<br \/>\num xeque ao marechal. E s\u00f3 resta a Mac Mahon demitir-se ou dar um golpe<br \/>\nde estado, destruindo a constitui\u00e7\u00e3o e a rep\u00fablica. Um<br \/>\ngolpe de estado em favor de quem? Em seu favor? Mac Mahon n\u00e3o \u00e9<br \/>\nda massa de que se fazem os reis e os imperadores. Em favor do conde de Chambord?<br \/>\nMas ele mesmo disse \u2013 que no dia em que o conde de Chambord viesse com<br \/>\na sua bandeira branca os chassepots se disparariam por si mesmo. Em favor<br \/>\ndo filho de Napole\u00e3o? Mas podia o marechal contar com o ex\u00e9rcito<br \/>\npara um golpe de estado bonapartista? N\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da guerra, se parte do ex\u00e9rcito \u00e9 ainda, por um resto<br \/>\nde h\u00e1bito e de tradi\u00e7\u00e3o, bonapartista, a maior parte,<br \/>\na melhor, a mais instru\u00edda, a mais mo\u00e7a, \u00e9 republicana,<br \/>\ne tentar uma restaura\u00e7\u00e3o imperial seria inaugurar a guerra civil.<br \/>\nQue lhe restar\u00e1 ent\u00e3o sen\u00e3o retirar-se? E a maioria radical<br \/>\nda nova c\u00e2mara poder\u00e1 ent\u00e3o escolher Gambetta.<\/p>\n<p>O marechal, julgando arrancar a Fran\u00e7a aos radicais, est\u00e1<br \/>\nsimplesmente preparando o meio de lha entregar legalmente. En attendant, o<br \/>\nprimeiro resultado deste acto extraordin\u00e1rio \u00e9 excitar a desconfian\u00e7a<br \/>\nde todos os governos europeus: cada um v\u00ea no novo minist\u00e9rio<br \/>\nde Broglie um perigo clerical: a Espanha v\u00ea o apoio dado \u00e0s tentativas<br \/>\ncarlistas; a It\u00e1lia v\u00ea a organiza\u00e7\u00e3o de uma cruzada<br \/>\na favor do papa; a Alemanha v\u00ea a possibilidade de uma guerra de desforra<br \/>\nnum interesse din\u00e1stico. Avers\u00e3o dentro, desconfian\u00e7a<br \/>\nfora \u2013 a\u00ed est\u00e1 o que inspira o minist\u00e9rio da reac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bons ausp\u00edcios para come\u00e7ar um governo! Graves not\u00edcias<br \/>\nindustriais do Norte da Inglaterra. No condado de Northumberland, quinze mil<br \/>\nmineiros de carv\u00e3o declararam-se em greve. Os patr\u00f5es, em presen\u00e7a<br \/>\nda depress\u00e3o comercial e da estagna\u00e7\u00e3o geral das ind\u00fastrias,<br \/>\nvendo que com os sal\u00e1rios actuais n\u00e3o poderiam continuar a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas minas sem perda, propuseram uma redu\u00e7\u00e3o de dez por cento<br \/>\nno sal\u00e1rio dos homens. A proposta foi recusada e \u2013 o que \u00e9<br \/>\npior e contra a tradi\u00e7\u00e3o e o costume estabelecido \u2013 recusaram-se<br \/>\na sujeitar a disputa ao tribunal de arbitragem. Isto \u00e9 novo e mostra<br \/>\nda parte dos oper\u00e1rios um sentimento de hostilidade e de azedume que<br \/>\nse n\u00e3o esperava. A greve portanto declarou-se no dia 28. Quinze mil<br \/>\nhomens em greve representa neste distrito cinquenta mil pessoas sem p\u00e3o.<br \/>\nOs \u00faltimos anos t\u00eam sido maus, e decerto n\u00e3o t\u00eam<br \/>\npermitido aos oper\u00e1rios fazer economias para esta conting\u00eancia;<br \/>\npor outro lado, os cofres das Uni\u00f5es est\u00e3o empobrecidos; os<br \/>\nmineiros dos outros distritos carvoeiros, escasso aux\u00edlio podem mandar<br \/>\naos seus companheiros de Northumberland; e, se esta greve se demorar, portanto<br \/>\nos sofrimentos ser\u00e3o terr\u00edveis. Todas as ind\u00fastrias param<br \/>\ncom esta resolu\u00e7\u00e3o fatal: de facto todas dependem do carv\u00e3o,<br \/>\ne esgotada que seja a reserva t\u00eam de cessar, de modo que a greve de<br \/>\numa classe produz a falta de trabalho a todas as outras, e s\u00e3o alguns<br \/>\ncentos de mil pessoas que v\u00e3o ficar na necessidade e na desconsola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 novidades liter\u00e1rias \u2013 a n\u00e3o ser<br \/>\na usual publica\u00e7\u00e3o de novelas. A novela tomou-se em Inglaterra<br \/>\num g\u00e9nero de com\u00e9rcio \u2013 como o ch\u00e1 ou como o tabaco.<br \/>\nL\u00ea-se uma novela como se fuma, ou como se bebe uma ch\u00e1vena de<br \/>\nch\u00e1; centenares de sujeitos, e sobretudo de senhoras, empregam-se na<br \/>\nconfec\u00e7\u00e3o deste produto. O assunto \u00e9 sempre o mesmo:<br \/>\nos embara\u00e7os que dois namorados novos, religiosos, patriotas e moralistas<br \/>\nencontram na sua uni\u00e3o \u2013 e por fim resultado feliz pelo casamento<br \/>\nou fatal pela morte. Esta ac\u00e7\u00e3o passa-se ordinariamente em Inglaterra<br \/>\nno primeiro volume, em Veneza ou em Floren\u00e7a ou em Paris no segundo,<br \/>\ne o terceiro \u00e9 originariamente dedicado \u00e0 pintura da vida do<br \/>\ncampo. O estilo \u00e9 ordinariamente de um tom corredio e mon\u00f3tono<br \/>\ncomo um fio de \u00e1gua morna que sai de uma torneira. H\u00e1 sempre<br \/>\nnestes trabalhos uma grande pretens\u00e3o \u00e0 observa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne um abuso consider\u00e1vel de frases francesas. Publica-se disto \u00e0s<br \/>\nd\u00fazias por semana.<\/p>\n<p>Os jornais ordinariamente s\u00f3 d\u00e3o not\u00edcia de alguma<br \/>\n\u2013 que por certas qualidades revela um talento nascente \u2013 ou das<br \/>\nque s\u00e3o t\u00e3o extraordinariamente m\u00e1s que a sua exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ninteressa como o estudo de um fen\u00f3meno curioso. Li uma deste g\u00e9nero,<br \/>\npublicada a semana passada: chama-se Gabriel e Eu. E uma autobiografia. \u00abGabriel\u00bb<br \/>\n\u00e9 um padre e \u00abEu\u00bb \u00e9 a sua mulher In\u00eas. \u00c9<br \/>\nela que conta a sua exist\u00eancia de namorada e de esposa \u2013 e t\u00e3o<br \/>\nsingular \u00e9 a acumula\u00e7\u00e3o de pieguice, de incongru\u00eancias,<br \/>\nde insensatezes, de sensaborias \u2013 que os tr\u00eas volumes tornam-se<br \/>\nrealmente uma leitura extraordinariamente interessante como estudo de um curioso<br \/>\ncaso de imbecilidade humana.<\/p>\n<p>Os teatros n\u00e3o d\u00e3o nada de not\u00e1vel.. Uma companhia<br \/>\nfrancesa representa na Gayty o Ami Fritz, a c\u00e9lebre com\u00e9dia<br \/>\nde Erkmann-Chatrian, que fez antes da sua apari\u00e7\u00e3o um esc\u00e2ndalo<br \/>\nt\u00e3o feio e teve depois um \u00eaxito t\u00e3o pronunciado. \u00c9<br \/>\numa esp\u00e9cie de id\u00edlio alsaciano em que se comem imensos jantares,<br \/>\nse bebem ton\u00e9is de cerveja \u2013 e um gordo e glut\u00e3o bom rapaz<br \/>\nama a casa com uma doce rapariga. Mais nada. Tudo isto entre jardim e pomar,<br \/>\ncom quadros pitorescos dos costumes alsacianos e representado com aquela fina<br \/>\narte que \u00e9 o segredo e a gl\u00f3ria do Th\u00e9\u00e2tre Fran\u00e7ais.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pe\u00e7a boa para Paris para descansar os paladares abrasados:<br \/>\ndepois de pe\u00e7as ardentes de Dumas &amp; C\u00aa, depois de todos os<br \/>\npicantes e todos os salgados da op\u00e9rette \u2013 aquele bom amigo Fritz,<br \/>\ncheio de bondade, de apetite e de sentimento, repousa e refresca. Mas em Londres<br \/>\n\u2013 os paladares n\u00e3o est\u00e3o esquentados, e n\u00e3o necessitam<br \/>\nesta calma frescura; pelo contr\u00e1rio: o muito leite que t\u00eam bebido<br \/>\nfaz-lhes desejar alguma coisa que raspe. Por isso o Ami Fritz tem tido apenas<br \/>\num sucesso agrad\u00e1vel, enquanto que os Domin\u00f3s Cor-de-Rosa, que<br \/>\nse d\u00e3o no Criterion, t\u00eam um sucesso monstruoso. \u00c9 picante.<br \/>\nE o ingl\u00eas est\u00e1-se tornando \u00e1vido de picante.<\/p>\n<p>A season continua, como dizem aqui, dull \u2013 isto \u00e9, faz bocejar.<br \/>\nUma das causas desta monotonia \u00e9 sem d\u00favida a aus\u00eancia<br \/>\ne dispers\u00e3o da fam\u00edlia real.<\/p>\n<p>A corte \u00e9 o centro da season: sem ela o high-life de Londres est\u00e1<br \/>\ncomo uma vela a que falta o vento.<\/p>\n<p>A princesa de Gales est\u00e1 em Atenas: o pr\u00edncipe de Edimburgo<br \/>\nno Egipto, o duque de Connaught na Irlanda e a rainha na Esc\u00f3cia. A<br \/>\nsua partida para a Esc\u00f3cia foi mesmo origem de um artigo do Spectator<br \/>\nque me ia matando de espanto. A imprensa inglesa n\u00e3o fala da fam\u00edlia<br \/>\nreal sen\u00e3o de joelhos: imagine-se, pois, o horror, a estranheza, a<br \/>\nboca-aberta que me causou o Spectator, dizendo, com uma frieza extraordin\u00e1ria<br \/>\ne amarga \u2013 que a partida da rainha, para o fundo da Esc\u00f3cia,<br \/>\nno momento de uma t\u00e3o grande crise na Europa era uma alta inconveni\u00eancia;<br \/>\nque o seu primeiro-ministro, cheio de gota e de confian\u00e7a na sua soberana,<br \/>\nera obrigado a fazer todas as semanas uma longa jornada de caminho de ferro<br \/>\npara ouvir uma palavra escassa dos reais l\u00e1bios; e, continuando num<br \/>\ntom de fria ironia \u00e0 inglesa, terminava por dizer que desgra\u00e7adamente<br \/>\nas pessoas reais julgavam que o que lhes convinha a elas convinha \u00e0<br \/>\nna\u00e7\u00e3o; mas que a verdade era que nada desabitua da realeza como<br \/>\na aus\u00eancia do rei \u2013 e que saber viver sem ver o aspecto do trono<br \/>\n\u00e9 o primeiro passo para a educa\u00e7\u00e3o republicana! Apanha!<br \/>\nO Spectator, como sabem, \u00e9 um dos primeiros jornais da Inglaterra.<\/p>\n<p>\u00c9 esta monotonia da season que obriga os rapazes a inventarem alguma<br \/>\ncoisa de original e de pitoresco. Dois lordes, menores de vinte e cinco anos,<br \/>\ndescobriram o seguinte: vestirem-se de padres \u2013 e irem, por todas as<br \/>\ntabernas do Strand, beber, gritar e dar o espect\u00e1culo curioso de dois<br \/>\njovens eclesi\u00e1sticos \u00e9brios. Esta maneira nova de desacreditar<br \/>\no clero n\u00e3o tinha ainda lembrado aos radicais.<\/p>\n<p>Honra seja aos dois jovens lordes, que inventaram t\u00e3o delicadamente<br \/>\nesta nova t\u00e1ctica revolucion\u00e1ria!<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV &#8211; Londres, 4 de Julho de 1877<\/h2>\n<p>Ei-los enfim do outro lado do Dan\u00fabio! Depois de ter coqueteado, por<br \/>\nespa\u00e7o de dois meses, com os Turcos, o gr\u00e3o-duque Nicolau decidiu-se<br \/>\nenfim, na noite de 26 de Julho, pelas onze horas, a fazer atravessar em botes<br \/>\numa divis\u00e3o junto a Simnitza e a come\u00e7ar a s\u00e9rio a destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Imp\u00e9rio Otomano. A cena, ao que parece, pelas descri\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo capit\u00e3o-poeta que manda as suas impress\u00f5es para o Times,<br \/>\nteve uma grandeza sinistra: o lugar de embarque da divis\u00e3o \u00e9<br \/>\ncoberto de arvoredos \u2013 e o sil\u00eancio grave dos movimentos de tropa,<br \/>\na decora\u00e7\u00e3o da noite muito escurecida de nuvens e alumiada por<br \/>\num luar l\u00edvido, a ansiedade da aventura, tudo concorreu para dar \u00e0qli2le<br \/>\nmovimento hist\u00f3rico um tom tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>O gr\u00e3o-duque passou o rio num barco com as tropas. Os Turcos fizeram<br \/>\nsobre as jangadas um fogo fraco e pregui\u00e7oso, que tinha o ar melanc\u00f3lico<br \/>\nde ser \u00abpor honra da firma\u00bb. As baterias russas bem depressa fizeram<br \/>\ncalar aquele protesto indolente; os primeiros regimentos que desembarcaram<br \/>\nrepeliram os Turcos das colinas, ocuparam as melhores posi\u00e7\u00f5es<br \/>\ne procedeu-se logo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma ponte de barcos,<br \/>\npor onde no dia seguinte, com a agrad\u00e1vel tranquilidade de um passeio<br \/>\nmilitar, atravessaram trinta mil russos! Quase ao mesmo tempo, noutro ponto<br \/>\ndo rio, em Petroceni, uma outra divis\u00e3o russa passou para o territ\u00f3rio<br \/>\nturco. A\u00ed a resist\u00eancia foi tamb\u00e9m Superficial e pr\u00f3-forma,<br \/>\ne agora os Russos t\u00eam um caminho Seguro para lan\u00e7ar, em terra<br \/>\notomana, uma invas\u00e3o irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>O que significa esta frouxa defesa dos Turcos? Foram surpreendidos? Calcularam<br \/>\nmal o ponto prov\u00e1vel da passagem e acumularam for\u00e7as em ponto<br \/>\nerrado? Resolveram uma t\u00e1ctica de absten\u00e7\u00e3o? Preferem<br \/>\nencontrar os Russos no interior, nas suas colinas fortificadas? N\u00e3o<br \/>\nse sabe. Muitos querem dizer que os Turcos est\u00e3o desmoralizados, que<br \/>\nsentem a inutilidade da resist\u00eancia e que procuram tirar o melhor partido<br \/>\nposs\u00edvel da guerra, deixando-se suavemente corromper pelo dinheiro<br \/>\nrusso. Diz-se que alguns generais chegaram a esta conclus\u00e3o que, sendo<br \/>\nimposs\u00edvel salvar a p\u00e1tria, \u00e9 conveniente com tempo engordar<br \/>\na bolsa. Diz-se que larga soma de dinheiro moscovita tem sido remetida para<br \/>\nos pax\u00e1s que comandam na margem turca do Dan\u00fabio; que os oficiais<br \/>\nsuperiores, sabendo isto, perdem o esp\u00edrito de resist\u00eancia e<br \/>\nabandonam-se \u00e0s do\u00e7uras da indisciplina; e que a totalidade<br \/>\ndo ex\u00e9rcito turco est\u00e1 positivamente a fingir que defende o<br \/>\nimp\u00e9rio. Mas realmente o comportamento dos oficiais turcos na \u00c1sia<br \/>\n\u2013 que se est\u00e3o batendo com bravura, com desespero e, coisa rara,<br \/>\ncom intelig\u00eancia, contradiz profundamente esta interpreta\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne eu penso que a t\u00e1ctica dos Turcos \u00e9 retirarem-se para as fortalezas<br \/>\ndos Balc\u00e3s, onde o grande esp\u00edrito de defesa do soldado otomano<br \/>\npode ser aproveitado com vantagens fecundas.<\/p>\n<p>Logo depois da passagem do Dan\u00fabio, o czar fez uma proclama\u00e7\u00e3o<br \/>\naos B\u00falgaros; este documento \u00e9 regularmente \u00bbantip\u00e1tico.<br \/>\nFala nos \u00abantepassados\u00bb, nos s\u00e9culos de sofrimento\u00bb;<br \/>\ntem frases antiquadas sobre o \u00absuor do trabalhador\u00bb e a \u00abhonra<br \/>\nda esposa\u00bb: abunda em preceitos de amor crist\u00e3o e \u00e9, na<br \/>\nsua totalidade, tortuoso como uma mentira, sendo mel\u00edfluo como um serm\u00e3o!<br \/>\nA opini\u00e3o em Inglaterra irrita-se com este tom hip\u00f3crita do<br \/>\nsoldado que p\u00f5e cordeiro. \u00abReuni-vos sob a bandeira russa!\u00bb,<br \/>\nexclama o czar; o que quer dizer: \u00abVinde ser uma Pol\u00f3nia n\u00famero<br \/>\ndois, meus filhos!\u00bb E eu imagino que este tom adocicado do salvador<br \/>\nque chega com centenares de mil homens deve fazer passar um frio na espinha<br \/>\ndorsal do salvado! No Montenegro a guerra continua t\u00e3o desastrosa para<br \/>\nuns como para outros. Os Montenegrinos, apesar da sua coragem her\u00f3ica,,<br \/>\nde um esp\u00edrito sublime de sacrif\u00edcio, n\u00e3o podem nada<br \/>\ncontra a esmagadora superioridade do n\u00famero. Os Turcos t\u00eam no<br \/>\nMontenegro sessenta mil homens, isto \u00e9, metade de toda a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Montenegro: o pa\u00eds, com efeito, tem pouco mais de cento e dezassete<br \/>\nmil habitantes! Contra isto n\u00e3o se resiste. Por outro lado, os Turcos<br \/>\nt\u00eam ali uma for\u00e7a empenhada em conquistar desfiladeiros nus e<br \/>\ncolinas selvagens, sem utilidade, que, bem utilizada na \u00c1sia, poderia<br \/>\nter mudado as condi\u00e7\u00f5es da guerra.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia \u00e9 incontest\u00e1vel que os Turcos t\u00eam tido<br \/>\nvantagens; os Russos foram repelidos e perderam posi\u00e7\u00f5es: as<br \/>\nopera\u00e7\u00f5es russas t\u00eam sido dirigidas com o vagar e a pacatez<br \/>\ncostumadas; isto deu tempo aos Turcos de se organizarem, de fomentarem insurrei\u00e7\u00f5es<br \/>\nentre as tribos desafectas aos Russos, de formarem legi\u00f5es curdas e<br \/>\nde melhorarem uma situa\u00e7\u00e3o militar que parecia perdida. Atribui-se<br \/>\nesta reac\u00e7\u00e3o inteligente a um oficial (n\u00e3o se diz se<br \/>\nestrangeiro, se turco) que ultimamente dirige a campanha da R\u00fassia:<br \/>\nMukhtar Pax\u00e1 conserva o comando, mas o tal misterioso oficial \u00e9<br \/>\nquem dirige, organiza e decide: cobre-o o mais impenetr\u00e1vel inc\u00f3gnito;<br \/>\nningu\u00e9m o avista, ningu\u00e9m o conhece; \u00e9 uma esp\u00e9cie<br \/>\nde esp\u00edrito inspirado; mas na verdade \u00e9 que a sua presen\u00e7a<br \/>\ntem sido para os Turcos um come\u00e7o de felicidade e quase de desforra.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o impede que em Constantinopla a inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\nseja grande. A posi\u00e7\u00e3o do sult\u00e3o \u00e9 terr\u00edvel;<br \/>\nem primeiro lugar, o ex-sult\u00e3o Murad est\u00e1 inteiramente restabelecido<br \/>\ne ocupa-se de pol\u00edtica, o que d\u00e1 aos seus partid\u00e1rios<br \/>\numa esperan\u00e7a e um pretexto para se agitarem. Se o ex-sult\u00e3o<br \/>\nMurad, que foi deposto por doen\u00e7a, est\u00e1 bom, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nraz\u00e3o para que continue exclu\u00eddo do trono que legitimamente<br \/>\nlhe pertencia. Daqui uma conspira\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua dos seus<br \/>\npartid\u00e1rios. Por outro lado, o actual sult\u00e3o tem apenas um apoio,<br \/>\num amigo \u2013 o gr\u00e3o-vizir Redif Pax\u00e1. Este apoio decerto<br \/>\n\u00e9 fone: Redif \u00e9 tudo \u2013 e a pol\u00edcia, \u00e9 o<br \/>\ndinheiro, \u00e9 o sacerd\u00f3cio, \u00e9 a imprensa; tudo domina,<br \/>\ntudo influi, de tudo disp\u00f5e. Mas os \u00f3dios que tem criado s\u00e3o<br \/>\nenormes no pal\u00e1cio, mesmo todos os desastres da guerra lhe s\u00e3o<br \/>\natribu\u00eddos. Diz-se que h\u00e1 dias se passou na presen\u00e7a<br \/>\ndo sult\u00e3o uma cena horr\u00edvel. Redif Pax\u00e1, com uma impud\u00eancia<br \/>\nde intrigante, estava dizendo ao sult\u00e3o \u2013 que tanto na \u00c1sia<br \/>\ncomo no Dan\u00fabio tudo ia \u00e0s mil maravilhas; o irm\u00e3o do<br \/>\nsult\u00e3o, Nureddin Effendi, que estava presente, ergueu-se como um tigre<br \/>\ne gritou-lhe na cara: \u2013 Mentes! Es um infame! E a tua presen\u00e7a<br \/>\naqui \u00e9 uma vergonha.<\/p>\n<p>Isto deu origem a uma cena medonha. O sult\u00e3o foi ent\u00e3o informado<br \/>\nde tudo que ignorava e vivamente solicitado de demitir Redif.<\/p>\n<p>De sorte que o pobre homem v\u00ea-se neste dilema pavoroso: se conserva<br \/>\nRedif, a indigna\u00e7\u00e3o cresce e \u00e0 primeira not\u00edcia<br \/>\nde derrota h\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o; se o demite, perde o seu<br \/>\n\u00fanico apoio, e os amigos do ex-sult\u00e3o Murad, ex-doente, reclamar\u00e3o<br \/>\nlogo a \u00bbsua reinstala\u00e7\u00e3o no trono.<\/p>\n<p>Tudo isto traz o pal\u00e1cio no ar e Constantinopla num estado de desvario.<br \/>\nComo sabem, um dos actos da ditadura de Redif foi a prorroga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo parlamento turco: as c\u00e2maras estavam-se tomando um formid\u00e1vel<br \/>\ncentro de oposi\u00e7\u00e3o: houve tantos discursos francos e atrevidos<br \/>\nna c\u00e2mara, aprovaram-se tantas ordens do dia, condenando os desperd\u00edcios<br \/>\ne as desorganiza\u00e7\u00f5es, houve tantas propostas para julgar os<br \/>\nempregados corruptos e os generais idiotas que a corte come\u00e7ou a ver<br \/>\nna c\u00e2mara um inimigo e o povo uma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Portanto a corte tratou de se desembara\u00e7ar das c\u00e2maras. Daqui<br \/>\nnovo descontentamento contra o sult\u00e3o.<\/p>\n<p>Estes detalhes s\u00e3o importantes, porque eles formam a curiosa hist\u00f3ria<br \/>\nde uma decad\u00eancia&#8230; e \u00e9 interessante seguir a vida pol\u00edtica<br \/>\ne social de Constantinopla para estudar como acaba uma dinastia maometana.<\/p>\n<p>No quartel-general russo houve um incidente infeliz. O gr\u00e3o-duque<br \/>\nNicolau, comandante-chefe, recebeu o coronel Wellesley, adido militar ingl\u00eas,<br \/>\nattach\u00e9 ao ex\u00e9rcito do Dan\u00fabio, com uma descortesia t\u00e3o<br \/>\nmanifesta, que Lorde Derby imediata-mente pediu explica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO czar ent\u00e3o recebeu o coronel Wellesley e, pelo seu acolhimento cordial<br \/>\ne distinto, apagou a impress\u00e3o que fez na sociedade inglesa a grosseria<br \/>\ndo gr\u00e3o-duque. Diz-se a este respeito, \u00e0 boca pequena, que o<br \/>\ncoronel Wellesley tem um defeito: n\u00e3o ret\u00e9m as suas pilh\u00e9rias.<br \/>\nTem esp\u00edrito e espalha-o. Em Sampetersburgo n\u00e3o se privava,<br \/>\nem todos os sal\u00f5es, de fazer as mais malignas observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre a R\u00fassia, os Russos e, especialmente, o estado-maior.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia, por tr\u00e1s de cada parede est\u00e1 o ouvido da<br \/>\npol\u00edcia. O imperador soube isto e encarregou o gr\u00e3o-duque de<br \/>\nmostrar ao engra\u00e7ado coronel que os seus ditos eram um pouco deslocados<br \/>\nem territ\u00f3rio russo; ele mesmo, mais tarde, por um acolhimento gentil,<br \/>\ndissipou a nuvem que aquela li\u00e7\u00e3o pudesse causar em Londres.<br \/>\nO coronel fica assim avisado, e tudo serena.<\/p>\n<p>Aqui cr\u00ea-se geralmente que o Governo ingl\u00eas pedir\u00e1 brevemente<br \/>\n\u00e0 c\u00e2mara um cr\u00e9dito suplementar de cinco milh\u00f5es<br \/>\npara o or\u00e7amento da guerra. Isto causa inquieta\u00e7\u00e3o. Os<br \/>\namigos do Governo tratam de explicar este pedido como uma precau\u00e7\u00e3o<br \/>\nprudente, semelhante \u00e0 que se teve no tempo da guerra franco-prussiana.<\/p>\n<p>A independ\u00eancia da B\u00e9lgica esteve ent\u00e3o amea\u00e7ada,<br \/>\ne Gladstone pediu \u00e0 c\u00e2mara um cr\u00e9dito de alguns milh\u00f5es,<br \/>\npara habilitar o Governo a ocupar Anvers se fosse necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Hoje, diz-se, o canal de Suez pode ser amea\u00e7ado e \u00e9 preciso<br \/>\nestar habilitado para fazer uma ocupa\u00e7\u00e3o imediata. Os inimigos<br \/>\ndo Governo, por\u00e9m, afirmam que este cr\u00e9dito \u00e9 uma vis\u00edvel<br \/>\nprepara\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o, que tem por fim habilitar<br \/>\nDisraeli a levar por diante os seus planos aventurosos de guerra e de conquista.<br \/>\nDiz-se que o conselho de ministros em que ele fez este pedido foi tempestuoso;<br \/>\nque parte dos seus colegas se opuseram energicamente, e que daqui resultaram<br \/>\ngraves desintelig\u00eancias no minist\u00e9rio e um germe de crise pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Uma historieta pol\u00edtica que tem chique. Parece evidente que Burghers,<br \/>\npresidente da Rep\u00fablica do Transval, tinha pelo pr\u00edncipe de<br \/>\nBismarck um fanatismo extraordin\u00e1rio e que, num \u00edmpeto de entusiasmo,<br \/>\nescreveu ao pr\u00edncipe oferendo-lhe, de m\u00e3o a m\u00e3o, a Rep\u00fablica<br \/>\ndo Transval. O pr\u00edncipe, espantado, embara\u00e7ado com o presente,<br \/>\nn\u00e3o querendo p rep\u00fablica para nada, participou isto ao Governo<br \/>\ningl\u00eas; \u00e0 vista disto, o Governo ingl\u00eas, vendo aos seus<br \/>\np\u00e9s uma rep\u00fablica sem dono, oferecida por um, recusada por outro,<br \/>\nfez o que era natural \u2013 suprimiu o presidente Burghers e meteu no bolso<br \/>\na rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Os dois grandes esc\u00e2ndalos da quinzena foram provocados por dois livros:<br \/>\num de ordem religiosa e outro de ordem moral. Ambos eles s\u00e3o graves<br \/>\nsintomas, e a excita\u00e7\u00e3o que os dois casos tem provocado na imprensa,<br \/>\nnas revistas e na opini\u00e3o prova que se v\u00ea nesses dois livros<br \/>\nmais do que express\u00f5es individuais e isoladas de opini\u00f5es nocivas.<\/p>\n<p>O que causou mais barulho foi o livro de ordem religiosa, o Priest in Absolution;<br \/>\neste livro, que se deveria chamar \u00abO Padre e a Confiss\u00e3o\u00bb,<br \/>\n\u00e9 simplesmente uma exposi\u00e7\u00e3o do velho sistema cat\u00f3lico,<br \/>\na domina\u00e7\u00e3o do padre na fam\u00edlia pela sua influ\u00eancia<br \/>\nna mulher. Ensina-se nele como o padre se deve apossar do esp\u00edrito<br \/>\nfraco da esposa ou da filha, domin\u00e1-lo, reinar nele, e por ele estar<br \/>\nsenhor da fortuna, das opini\u00f5es, dos actos do homem. Podem imaginar<br \/>\no alarido que o descaramento desta doutrina, impressa em panfleto, causou<br \/>\nna protestante Inglaterra.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos que a m\u00e3o do catolicismo romano, do catolicismo do<br \/>\nSyllabus, se estende lentamente sobre a Inglaterra, para se apossar dela.<br \/>\nComo um v\u00edrus venenoso que lenta e obscuramente se espalhe nas veias<br \/>\ne nos tecidos de um corpo s\u00e3o \u2013 o esp\u00edrito ultramontano<br \/>\npenetra surdamente toda a Inglaterra.<\/p>\n<p>Em todas as igrejas, em todos os ritos, se sente esta lenta absor\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA evolu\u00e7\u00e3o come\u00e7a lentamente sempre pela decora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas igrejas e pela cerim\u00f3nia do culto: a antiga nudez severa dos templos<br \/>\nprotestantes considera-se excessivamente fria e tendente a arrefecer o zelo<br \/>\ne a assiduidade; por isso, pensa-se que as flores, a m\u00fasica, os cantos,<br \/>\nas arma\u00e7\u00f5es, deveriam ser introduzidas como um meio de atrac\u00e7\u00e3o<br \/>\ne como um acr\u00e9scimo de adora\u00e7\u00e3o: os padres, ent\u00e3o,<br \/>\nimaginam que o roup\u00e3o branco, que \u00e9 a vestimenta protestante,<br \/>\n\u00e9 de uma simplicidade muito secular e principiam a cobrir-se de vestimentas<br \/>\ncomplicadas e simb\u00f3licas do culto romano. Imediatamente as cerim\u00f3nias<br \/>\nsimples e severas do protestantismo come\u00e7am a ser sobrecarregadas com<br \/>\no aparatoso cerimonial da celebra\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica; depois<br \/>\nvem-se exigir aos fi\u00e9is uma atitude diferente: as genuflex\u00f5es,<br \/>\nas pancadas no peito e o ros\u00e1rio tornamse obrigat\u00f3rios; da\u00ed<br \/>\nv\u00eam certas celebra\u00e7\u00f5es em comum muito semelhantes \u00e0s<br \/>\nnovenas, aos meses de Maria. Logo exige-se a confiss\u00e3o secreta, a penit\u00eancia;<br \/>\nformam-se sociedades de adora\u00e7\u00f5es, e pouco a pouco, por este<br \/>\nprocesso, cada templo protestante se vai convertendo numa igreja cat\u00f3lica.<br \/>\nDebalde a Igreja oficial protesta, condena, grita.<\/p>\n<p>A convers\u00e3o vai-se fazendo lentamente mas seguramente. As mulheres,<br \/>\nsobretudo, s\u00e3o a grande alma do movimento: a inglesa \u00e9 sens\u00edvel,<br \/>\nexaltada, voluptuosa, e bem depressa encontra na nova cerim\u00f3nia \u00e0<br \/>\nromana um encanto, uma ternura, uma poesia, que n\u00e3o lhe d\u00e3o<br \/>\na seca pr\u00e9dica protestante, numa casa nua e alumiada a g\u00e1s.<br \/>\nPor isso, tantas mulheres se convertem. Al\u00e9m disso, na alta sociedade,<br \/>\nser cat\u00f3lico come\u00e7a a ser elegante.<\/p>\n<p>As grandes fam\u00edlias aristocr\u00e1ticas de Inglaterra, Norfolk,<br \/>\nRipon, Bute, s\u00e3o cat\u00f3licas e, para serem recebidos nos seus<br \/>\nc\u00edrculos \u00edntimos, os ambiciosos da sociedade n\u00e3o t\u00eam<br \/>\nd\u00favida em se converter. Mas este movimento, ao menos at\u00e9 aqui,<br \/>\ntem sido t\u00edmido, oculto, e acanhado: o Priest in Absolution \u00e9<br \/>\na sua primeira exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica; \u00e9 uma esp\u00e9cie<br \/>\nde grito m\u00edstico lan\u00e7ado pela seita: \u00abComecemos pelas<br \/>\nmulheres e a sociedade \u00e9 nossa!\u00bb Toda a Inglaterra protestante<br \/>\ne sensata tremeu de furor: a opini\u00e3o geral \u00e9 que para os jesu\u00edtas<br \/>\nn\u00e3o se deve empregar o argumento, mas a for\u00e7a. O Punch, como<br \/>\ncr\u00edtica do livro, apresenta a forte figura simb\u00f3lica de John<br \/>\nBull agarrando o jesu\u00edta pelas orelhas, arrastando-o para longe para<br \/>\no sovar \u00e0 vontade! Os jornais t\u00eam visos de c\u00f3lera. Tem<br \/>\nhavido interpela\u00e7\u00f5es ao Governo sobre a publica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo livro \u2013 e todo este barulho tem lan\u00e7ado uma grande luz sobre<br \/>\na sociedade cat\u00f3lica que o publicou e que se chama Sociedade da Santa<br \/>\nCruz.<\/p>\n<p>Eu estou habilitado a dizer-lhes quais s\u00e3o os estatutos desta sociedade,<br \/>\npois que li __fragmentos, e ver\u00e3o por eles qual \u00e9 o esp\u00edrito<br \/>\ndela e o seu objecto. A sociedade foi formada h\u00e1 doze anos e comp\u00f5e-se<br \/>\nde bispos, vig\u00e1rios, di\u00e1conos e todos os que se preparam para<br \/>\nas ordens santas. Pela regra dos estatutos, cada membro \u00e9 obrigado<br \/>\na confessar-se todas as vezes que julgue a consci\u00eancia sobrecarregada;<br \/>\nfazer um retiro todos os anos; benzer tudo o que comer; nunca se levantar<br \/>\nmais tarde que as sete e meia da manh\u00e3; nunca comer com prazer, mas<br \/>\ns\u00f3 com necessidade; vestir com pobreza; n\u00e3o ir a teatros nem<br \/>\nbailes, nem concertos, nem outros lugares de esc\u00e2ndalo; nem falar mal<br \/>\nde ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser quando isto for um dever (!); evitar as<br \/>\nconversa\u00e7\u00f5es fr\u00edvolas e a sociedade das mulheres; nunca<br \/>\nencarar com o rosto ou com o corpo das mulheres (!)&#8230;, etc., etc.<\/p>\n<p>V\u00eaem por estas recomenda\u00e7\u00f5es o esp\u00edrito geral<br \/>\nda sociedade, e o que ela queria fazer da Inglaterra, se a sua influ\u00eancia<br \/>\npenetrasse o povo; e \u00e9 realmente inaudito que uma seita queira converter<br \/>\no pa\u00eds mais sensato, mais liberal, mais moderno, mais activo \u2013<br \/>\nnuma esp\u00e9cie de Espanha devota e l\u00fagubre do tempo de Fernando<br \/>\nVII! Diz-se que diante da condena\u00e7\u00e3o geral que a opini\u00e3o<br \/>\ndeu ao livro, a Sociedade da Santa Cruz o vai retirar da circula\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de certo modo reneg\u00e1-lo. Isto n\u00e3o desculpa o esp\u00edrito<br \/>\nda sociedade e aumenta-lhe o descr\u00e9dito porque lhe revela a hipocrisia.<\/p>\n<p>O outro livro, Frutos da Filosofia, de que se tem vendido, diz-se, milh\u00f5es<br \/>\nde exemplares, \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o semim\u00e9dica e semiobscena<br \/>\ndos meios de impedir a gravidez! Com um impudor estupendo, este folheto que<br \/>\na Inglaterra inteira est\u00e1 neste momento devorando come\u00e7a por<br \/>\ndizer que nada mais desagrad\u00e1vel do que ter filhos; em primeiro lugar,<br \/>\nque \u00e9 um terr\u00edvel encargo individual, em segundo lugar, porque<br \/>\no aumento da popula\u00e7\u00e3o, em despropor\u00e7\u00e3o com os<br \/>\nmeios de subsist\u00eancia em Inglaterra, pode trazer a ru\u00edna do pa\u00eds.<br \/>\nE da\u00ed segue-se, num estilo bem trabalhado e t\u00e9cnico, uma s\u00e9rie<br \/>\nde receitas medonhas para esterilizar a mulher, ou pior ainda&#8230; A gravidade<br \/>\ndo facto \u2013 \u00e9 que este livro vende-se aos milh\u00f5es de exemplares<br \/>\ne que a avidez do p\u00fablico mostra que ele est\u00e1 convencido da<br \/>\nsua utilidade e deseja aprender os seus processos. Os autores, ou antes os<br \/>\nreprodutores, porque o livro \u00e9 quase todo composto por um especialista<br \/>\namericano, foram condenados; mas o esc\u00e2ndalo e a publicidade do processo<br \/>\ntiveram apenas como resultado dar ao livro uma fama insensata e enriquecer<br \/>\nos editores, e espalh\u00e1-lo de tal modo que \u00e9 raro encontrar um<br \/>\nsujeito que n\u00e3o o tenha no bolso da sobrecasaca, como um manual c\u00f3modo<br \/>\ne \u00e0 m\u00e3o de desmoraliza\u00e7\u00e3o e de deboche.<\/p>\n<p>Passemos \u00e0 sociedade. O le\u00e3o do dia em Londres \u00e9 o<br \/>\ngeneral Grant, ex-presidente dos Estados Unidos. Festas, bailes, recep\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsolenidades, tudo o que se pode fazer para celebrar um her\u00f3i lhe tem<br \/>\nsido prodigalizado, com uma abund\u00e2ncia for\u00e7ada, ia quase a dizer<br \/>\nafectada. O ministro dos Estados Unidos deu-lhe um grande jantar, a que assistiu<br \/>\no pr\u00edncipe de Gales. A fei\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica deste<br \/>\njantar foi que, sendo dado pelo ministro americano, na lega\u00e7\u00e3o<br \/>\namericana, a um presidente americano, havia tudo, excepto americanos! Diz-se<br \/>\nque a raz\u00e3o \u00e9 que o ministro n\u00e3o encontrara em toda a<br \/>\ncol\u00f3nia americana que habita Londres ningu\u00e9m \u00e0 altura<br \/>\nde se sentar \u00e0 mesa com o pr\u00edncipe de Gales! Isto tem causado<br \/>\nem Londres uma doce hilaridade. O que mais impressiona, parece, no general<br \/>\nGrant \u00e9 a sua taciturnidade.<\/p>\n<p>E quase imposs\u00edvel arrancar-lhe uma palavra. Tem atravessado as festas,<br \/>\nos bailes, os jantares, com os l\u00e1bios cerrados como um trapista. No<br \/>\njantar que lhe deu o duque de Wellington esteve, at\u00e9 \u00e0 sobremesa,<br \/>\nim\u00f3vel e mudo: e de repente, dirigindo-se ao duque, perguntou-lhe no<br \/>\nmeio de um sil\u00eancio solene: \u2013 Qual foi o maior n\u00famero de<br \/>\nsoldados que seu pai comandou, duque? O duque disse que, aproximadamente,<br \/>\nduzentos mil homens.<\/p>\n<p>\u2013 E eu meio milh\u00e3o \u2013 respondeu Grant.<\/p>\n<p>E desde ent\u00e3o, h\u00e1 quinze dias, n\u00e3o tornou a falar.<\/p>\n<p>Madame Grant tem divertido a sociedade inglesa com alguns equ\u00edvocos<br \/>\nque se tornar\u00e3o hist\u00f3ricos. H\u00e1 dias dizia no sal\u00e3o<br \/>\ndo pr\u00edncipe de Gales: \u2013 Tive ontem o prazer de conhecer um dos<br \/>\ngrandes homens de Inglaterra, ao que me dizem, o senhor Blackstone.<\/p>\n<p>Todo o mundo arregalou os olhos. Blackstone! Quem seria? Descobriu-se, depois<br \/>\nde grandes averigua\u00e7\u00f5es, que Blackstone era simplesmente \u2013<br \/>\nGladstone! Um canc\u00e3 de sociedade: diz-se que o pr\u00edncipe de Gales<br \/>\nestivera h\u00e1 dias para morrer. Depois da corrida de Ascot, tinha ido<br \/>\nvisitar um amigo a Temple House, um espl\u00eandido parque, ao p\u00e9<br \/>\nde Ascot.<\/p>\n<p>Tinha estado a fumar um cigarro, conversando \u00e0 sombra de um cedro<br \/>\ndo L\u00edbano \u2013 e acabava de se levantar quando, com um estalo formid\u00e1vel,<br \/>\no cedro partiu e desabou! Um minuto mais cedo e o pr\u00edncipe de Gales<br \/>\nestava com os seus antepassados. Ser\u00e1 agoiro? O imperador do Brasil<br \/>\ncontinua a ser favorito, como aqui se diz, da sociedade de Londres. A sua<br \/>\nactividade sobretudo \u00e9 admirada: a p\u00e9 desde as seis da manh\u00e3,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 institui\u00e7\u00e3o, museu, galeria, biblioteca,<br \/>\npal\u00e1cio, hospital, curiosidade, homem ilustre, que n\u00e3o visite,<br \/>\nque n\u00e3o estude.<\/p>\n<p>Em todas as sociedades de que \u00e9 feito membro tem sempre uma palavra<br \/>\ninteressante a dizer, uma comunica\u00e7\u00e3o curiosa a fazer. Com tudo<br \/>\nisto, uma simplicidade quase plebeia. A sua comitiva, por\u00e9m, que ele<br \/>\ntraz nesta roda-viva h\u00e1 um ano, come\u00e7a a perder a cabe\u00e7a,<br \/>\nde fadiga e de estonteamento: no dia em que suas majestades tomavam o trem<br \/>\nde Paris para Londres, a algu\u00e9m da comitiva ia esquecendo na plataforma<br \/>\nda esta\u00e7\u00e3o uma pequena mala contendo j\u00f3ias no valor de<br \/>\ncento e vinte mil libras! Felizmente, segundos antes da partida do trem, a<br \/>\nimperatriz deu pela falta, e as j\u00f3ias continuam a adornar as toilettes<br \/>\nde sua majestade.<\/p>\n<p>Diz-se geralmente que, em Portugal, o p\u00fablico tem ideia de que o<br \/>\nGoverno deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo; tira-se daqui a conclus\u00e3o<br \/>\nque somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos<br \/>\nde uma larga liberdade e inaptos para a independ\u00eancia. A nossa pobreza<br \/>\nrelativa \u00e9 atribu\u00edda a este h\u00e1bito pol\u00edtico e<br \/>\nsocial de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as m\u00e3os<br \/>\ne olhos para ele como para uma Provid\u00eancia sempre presente. Pois bem:<br \/>\nem Inglaterra, pa\u00eds de iniciativa individual, de alta independ\u00eancia<br \/>\npessoal, o p\u00fablico considera o parlamento como uma esp\u00e9cie de<br \/>\npai ben\u00e9volo que tudo deve fazer, tudo remediar, tudo compor. As peti\u00e7\u00f5es<br \/>\nfeitas por indiv\u00edduos ao parlamento sobre neg\u00f3cios particulares<br \/>\n\u2013 contam-se por milhares e milhares em cada sess\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas peti\u00e7\u00f5es s\u00e3o metidas em grandes sacos e remetidas<br \/>\npara as f\u00e1bricas de papel, onde v\u00e3o ser mat\u00e9ria-prima<br \/>\npara peti\u00e7\u00f5es futuras; mas algumas, por mais curiosas, s\u00e3o<br \/>\nconhecidas e fazem a felicidade dos jornais sat\u00edricos. Assim tem causado<br \/>\nhilaridade a peti\u00e7\u00e3o muito s\u00e9ria e muito grave de uma<br \/>\nfam\u00edlia de rendeiros que reclama ao parlamento contra o seguinte esc\u00e2ndalo:<br \/>\num empregado da pol\u00edcia, seu vizinho, fez uma armadilha no quintal<br \/>\ne matou-lhe dois gatos! A fam\u00edlia pede \u00e0 c\u00e2mara dos deputados<br \/>\nque a indemnize, processe a pol\u00edcia e lhe substitua os gatos! H\u00e1<br \/>\nagora um costume, nas inculcadeiras de criadas em Londres, de que se fala<br \/>\nmuito e que me parece suficientemente impudente. As inculcadeiras t\u00eam<br \/>\n\u00e1lbuns com as fotografias das criadas, para que o patr\u00e3o, ou<br \/>\na patroa, possa ver se a cara lhe conv\u00e9m, antes de saber se lhes conv\u00eam<br \/>\nos servi\u00e7os.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui muito bem. Uma cara simp\u00e1tica a servir \u00e0 mesa<br \/>\ndo almo\u00e7o, com uma fresca touca branca, \u00e9 certamente prefer\u00edvel<br \/>\nao car\u00e3o macilento de uma matrona azedada. Mas \u2013 coisa suspeita!<br \/>\n\u2013 a maior parte destas fotografias t\u00eam os bra\u00e7os nus e<br \/>\no colo decotado!!! Que lhes parece? E para que \u00e9 necess\u00e1rio,<br \/>\nantes de tomar uma criada, saber se ela tem os bra\u00e7os redondos e o<br \/>\nseio bonito? Sobretudo \u2013 quando este \u00e1lbum \u00e9 destinado<br \/>\na ser examinado n\u00e3o s\u00f3 pelos patr\u00f5es (e ent\u00e3o<br \/>\nainda se compreende) mas pelas patroas! A Inglaterra, positivamente, vai \u00e0<br \/>\nvela! Na Esc\u00f3cia, os jornais v\u00eam cheios de detalhes sobre o caso<br \/>\nde Miss Grant. Miss Grant era h\u00e1 anos filha de um pobre caseiro, numa<br \/>\naldeia da Esc\u00f3cia, que por morte de um tio, de quem ningu\u00e9m<br \/>\nj\u00e1 se lembrava e que vivia na \u00cdndia, se achou, uma bela manh\u00e3<br \/>\nde Abril, senhora de uma fortuna prodigiosa: al\u00e9m das propriedades<br \/>\nriqu\u00edssimas, s\u00f3 em dinheiro recebeu esta gentil lavradeira a<br \/>\nbagatela romanesca de trezentas mil libras! Era bonita e esperta. Come\u00e7ou<br \/>\na viver com grande luxo, fez um pal\u00e1cio para os pais, e era feliz \u2013<br \/>\nquando aparece em cena uma linda rapariga, chamada Miss Temple. Desde esse<br \/>\ndia, Miss Grant come\u00e7a a mostrar-se exc\u00eantrica: em primeiro lugar,<br \/>\nconsegue que Miss Temple deixe pai, m\u00e3e, rompa com todas as suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ne venha viver com ela; em seguida, as duas gentis criaturas fazem um contrato<br \/>\np\u00fablico pelo qual se Comprometem a nunca casar e a viverem sempre juntas:<br \/>\nfinalmente, Miss Grant faz um testamento pelo qual, no caso de morrer primeiro,<br \/>\ndeixaria a Miss Temple um milh\u00e3o de libras se a mesma Miss Temple nunca<br \/>\na deixasse e se comprometesse a repelir toda a corte e casamento. O romance<br \/>\nseguia encantadoramente quando, o ano passado, Miss Temple, muito ingrata,<br \/>\nmuito desprendida, casou. Miss Grant n\u00e3o destruiu o testamento, mas<br \/>\ncaiu numa melancolia m\u00f3rbida e, h\u00e1 meses, morreu de paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Um obscuro cirurgi\u00e3o de uma aldeia da Esc\u00f3cia herdou, ab intestado,<br \/>\naquela colossal fortuna.<\/p>\n<p>Mas agora a fam\u00edlia Temple quer que o testamento se considere v\u00e1lido,<br \/>\nfaz processo e esperam-se revela\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias,<br \/>\nque far\u00e3o esc\u00e2ndalo em toda a Inglaterra.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V &#8211; Londres, 1 de Agosto de 1877<\/h2>\n<p>Desde que os Russos est\u00e3o do lado de l\u00e1 dos Balc\u00e3s,<br \/>\nno caminho que leva a Constantinopla, todo o interesse da \u00faltima semana<br \/>\nse tem resumido nesta interroga\u00e7\u00e3o: que vai fazer a Inglaterra?<br \/>\nLondres ficou at\u00f3nita segunda-feira passada, quando soube que o Governo<br \/>\nia mantas tropas para o Mediterr\u00e2neo. \u00abE a guerra!\u00ab, exclamava-se<br \/>\npor toda a parte. N\u00e3o era a guerra ainda, mas era aviso ao leitor.<br \/>\nO leitor, neste caso, \u00e9 o czar. Com efeito, depois de muitas ordens<br \/>\ne contra-ordens, que mostravam uma grande vacila\u00e7\u00e3o, tr\u00eas<br \/>\nmil homens foram remetidos para Malta e Gibraltar, e instru\u00e7\u00f5es<br \/>\ndadas a outros corpos para estarem preparados, inclusive o Corpo de Administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nMilitar, que s\u00f3 acompanha as divis\u00f5es expedicion\u00e1rias.<br \/>\nIsto tinha uma fei\u00e7\u00e3o singularmente guerreira. Soube-se logo<br \/>\nque na C\u00e2mara dos Lordes e na C\u00e2mara dos Comuns o minist\u00e9rio<br \/>\nseria interrogado sobre a significa\u00e7\u00e3o destes preparativos \u2013<br \/>\ne havia uma curiosidade pungente em escutar a resposta de Lord Derby.<\/p>\n<p>Lord Derby deu a \u00fanica resposta que se podia dar \u2013 diplom\u00e1tica<br \/>\ne reservada. Declarou que as tropas s\u00e3o simplesmente para refor\u00e7ar<br \/>\nas guarni\u00e7\u00f5es de Malta e de Gibraltar, que, nesta ocasi\u00e3o<br \/>\nem que a regi\u00e3o mediterr\u00e2nea est\u00e1 num estado de perturba\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnecessitavam ser fortemente completadas. Esta resposta naturalmente n\u00e3o<br \/>\nsignificava nada \u2013 sen\u00e3o que a verdade n\u00e3o podia ser dita.<\/p>\n<p>Realmente Gibraltar s\u00f3 pode ser atacada por terra, pela Espanha,<br \/>\ne n\u00e3o consta que a Espanha tenha a m\u00ednima inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde declarar a guerra \u00e0 Inglaterra; enquanto a Malta, s\u00f3 pode<br \/>\nser atacada por mar \u2013 e n\u00e3o \u00e9 portanto de nenhuma utilidade<br \/>\naumentar a for\u00e7a de terra; sobretudo se se considerar que, entre as<br \/>\ntropas enviadas a Malta e a Gibraltar, vai o 17\u00ba de Lanceiros, e que<br \/>\nrealmente n\u00e3o se concebe para que possa servir em Malta ou em Gibraltar<br \/>\num forte regimento de cavalaria. N\u00e3o est\u00e1 nos h\u00e1bitos<br \/>\nda guerra opor a navios coura\u00e7ados os regimentos de lanceiros. Era<br \/>\nevidente, portanto, que a expedi\u00e7\u00e3o ia simplesmente a Gibraltar<br \/>\ne a Malta para estar mais perto do seu verdadeiro destino; e este destino,<br \/>\nningu\u00e9m o ignora, \u00e9 Gal\u00edpoli.<\/p>\n<p>A pequena pen\u00ednsula onde est\u00e1 Gal\u00edpoli, que domina<br \/>\na entrada dos Dardanelos, pode ser, em poucos dias, convertida num campo entrincheirado,<br \/>\ninacess\u00edvel por terra, inexpugn\u00e1vel por mar, onde a Inglaterra<br \/>\nse poderia estabelecer \u2013 e, senhora daquela posi\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel,<br \/>\nditar as suas condi\u00e7\u00f5es, se se tratasse de paz, ou preparar<br \/>\nos seus movimentos, se se tratasse de guerra.<\/p>\n<p>Isto, por\u00e9m, n\u00e3o parece t\u00e3o f\u00e1cil. Com que car\u00e1cter<br \/>\nvai a Inglaterra estabelecer-se em Gal\u00edpoli? Como aliada da Turquia?<br \/>\nMas ent\u00e3o tem de o manifestar claramente, por algum acto p\u00fablico<br \/>\nde alian\u00e7a, e por este facto lan\u00e7a-se isolada em uma guerra<br \/>\ncontra a R\u00fassia, sem estar de modo nenhum preparada militarmente para<br \/>\nesta eventualidade temer\u00e1ria. Vai simplesmente a Gal\u00edpoli como<br \/>\nneutral? Mas consentir\u00e3o os Turcos que uma na\u00e7\u00e3o neutral<br \/>\nse estabele\u00e7a com armas e bagagens no seu territ\u00f3rio? N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 natural; os Turcos est\u00e3o extremamente despeitados com a Inglaterra<br \/>\ne com a sua atitude indiferente; sempre acreditaram que a Inglaterra, declarada<br \/>\na guerra, os ajudaria e seguiria, sem hesitar, a sua pol\u00edtica tradicional.<\/p>\n<p>Consideram-se logrados; e n\u00e3o \u00e9 presum\u00edvel que lhe<br \/>\npermitissem um desembarque em Gal\u00edpoli sem que a Inglaterra lhes prometesse<br \/>\numa alian\u00e7a decidida: haveria, com efeito, alguma coisa de monstruoso,<br \/>\nda parte da Inglaterra, em ocupas Gal\u00edpoli pelos seus pr\u00f3prios<br \/>\ninteresses, sem se dignar ajudar o dono do territ\u00f3rio quando ele est\u00e1<br \/>\nem perigo. Os Turcos nunca consentiriam nesta humilha\u00e7\u00e3o; resistiriam<br \/>\ne, como n\u00e3o duvidam de nada, fariam fogo sobre o primeiro navio ingl\u00eas<br \/>\nque se aproximasse de Gal\u00edpoli, com tanta mais vontade quanto maior<br \/>\n\u00e9 o despeito que lhes causa a neutralidade inglesa. Portanto, a Inglaterra<br \/>\ns\u00f3 pode ir a Gal\u00edpoli \u2013 ou como aliada ou como inimiga<br \/>\ndo Turco. No primeiro caso, provoca uma guerra gratuita, sem estar preparada<br \/>\npara tal; no segundo, tem de ajudar \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio<br \/>\nTurco, renegando a sua pol\u00edtica e combatendo os seus pr\u00f3prios<br \/>\ninteresses.<\/p>\n<p>Leio em muitos jornais e ou\u00e7o muitos pol\u00edticos dizerem que<br \/>\na ocupa\u00e7\u00e3o de Gal\u00edpoli \u00e9 um acto de profunda pol\u00edtica;<br \/>\nque os Turcos ser\u00e3o fatalmente batidos e que a Bulg\u00e1ria e a<br \/>\nB\u00f3snia dever\u00e3o ser arrancadas ao dom\u00ednio turco; que,<br \/>\nassim, os Turcos ser\u00e3o zero na Europa, e o territ\u00f3rio que lhes<br \/>\nfor deixado, cercado por todos os lados de inimigos, oferecendo poucas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde defesa e enormes facilidades de ataque, ser\u00e1 inteiramente impotente<br \/>\npara formar uma barreira s\u00e9ria em torno de Constantinopla; que Constantinopla<br \/>\nficar\u00e1 assim \u00e0 merc\u00ea da menor invas\u00e3o e que, portanto,<br \/>\nos Dardanelos, o mar da M\u00e1rmara e o mar Negro n\u00e3o ter\u00e3o<br \/>\nquem os defenda, porque o Turco na Europa n\u00e3o ser\u00e1 mais que<br \/>\numa sombra! Portanto, dizem, logo que a Inglaterra esteja estabelecida em<br \/>\nGal\u00edpoli ela far\u00e1 as vezes do Turco, e guardar\u00e1 a passagem<br \/>\ndos Dardanelos.<\/p>\n<p>Tudo isto \u00e9 muito engenhoso; mas, pergunto, para quem guardar\u00e1<br \/>\nela os Dardanelos? Se n\u00e3o for para si somente, de que lhe serve guard\u00e1-los<br \/>\ne defend\u00ea-los? E se for para si somente ent\u00e3o declara a guerra<br \/>\nao mundo inteiro. Se a Inglaterra pode fazer passar os Dardanelos aos seus<br \/>\nnavios de guerra, \u00e9 claro que os tratados que fecharam os estreitos<br \/>\nest\u00e3o despeda\u00e7ados e que, portanto, todas as na\u00e7\u00f5es<br \/>\nt\u00eam direito de os usar. Suponhamos que uma fragata alem\u00e3 ou francesa<br \/>\nse apresenta para passar os Dardanelos: que far\u00e1 a Inglaterra? Fazer-lhe<br \/>\nfogo? Ent\u00e3o \u00e9 a guerra contra a Europa e a Am\u00e9rica. Permitir<br \/>\na passagem? Mas ent\u00e3o com que fins se estabelece como guarda dos estreitos?<br \/>\nSe todo o mundo pode passar, \u00e9 in\u00fatil que algu\u00e9m os guarde.<br \/>\nIsto parece-me l\u00f3gico.<\/p>\n<p>A expedi\u00e7\u00e3o, portanto, a Gal\u00edpoli parece-me cercada<br \/>\nde tantas dificuldades e semente de tantas complica\u00e7\u00f5es que<br \/>\nrealmente n\u00e3o creio que o Governo a decida t\u00e3o facilmente.<\/p>\n<p>A remessa de tropas \u00e9 apenas, a meu ver, um destes movimentos que<br \/>\n\u00e0s vezes faz um homem para mostrar que n\u00e3o dorme, que est\u00e1<br \/>\nalerta e que n\u00e3o ser\u00e1 prudente meter-lhe a m\u00e3o na algibeira.<br \/>\nE a prova \u00e9 que ontem o Governo, interpelado sobre se levantaria cr\u00e9ditos<br \/>\nsuplementares para fazer face \u00e0 expedi\u00e7\u00e3o de tropas,<br \/>\ndeclarou que n\u00e3o: que Malta e Gibraltar se achavam agora devidamente<br \/>\ndefendidas, e que, este ano, n\u00e3o se tornaria a falas em remessa de<br \/>\ngente, nem havia ocasi\u00e3o de pedir, pelo Minist\u00e9rio da Guerra,<br \/>\nfundos excepcionais. No entanto, com esta terr\u00edvel quest\u00e3o do<br \/>\nOriente, a gente nunca est\u00e1 sossegada e, quando menos espera, no terreno<br \/>\nmais seguro abre-se uma fenda, e de tr\u00e1s da parede mais inofensiva<br \/>\nsai uma descarga.<\/p>\n<p>O grande acontecimento da quinzena \u00e9 a formid\u00e1vel insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\noper\u00e1ria que rebentou nos Estados Unidos. As companhias de caminhos<br \/>\nde ferro de Baltimore e Ohio reduziram os sal\u00e1rios dos empregados de<br \/>\ndez por cento e aumentaram duas horas de trabalho por dia. Isto originou uma<br \/>\ngreve. As companhias recrutaram novo pessoal, mas os grevistas atacaram estes<br \/>\nintrusos, espancaram a pol\u00edcia que os defendia e, final-mente,. resistiram<br \/>\n\u00e0 Guarda Nacional. O movimento, ent\u00e3o, espalhou-se como fogo<br \/>\nem restolho: dez estados tomaram parte na resist\u00eancia, a greve estendeu-se<br \/>\na cinquenta mil milhas de caminho de ferro, a popula\u00e7\u00e3o baixa<br \/>\ntomou o partido dos grevistas e esteve-se em v\u00e9spera de uma temerosa<br \/>\nguerra civil. Houve verdadeiras batalhas entre os insurrectos e a tropa, e<br \/>\npode-se fazer uma ideia do desastre sabendo que s\u00f3 em Pittsburgh os<br \/>\npreju\u00edzos causados pela insurrei\u00e7\u00e3o elevam-se a tr\u00eas<br \/>\nmil e seiscentos contos! Infelizmente as tropas dos Estados Unidos est\u00e3o<br \/>\nmuito espalhadas, ocupadas sempre em escaramu\u00e7as com os \u00edndios<br \/>\ndo interior; e como a maior parte dos caminhos de ferro estavam in\u00fateis<br \/>\nn\u00e3o foi poss\u00edvel envi\u00e1-las logo para os pontos amea\u00e7ados;<br \/>\npor outro lado, a Guarda Nacional, composta da plebe, simpatizava por quase<br \/>\ntoda a parte com a insurrei\u00e7\u00e3o, ou pelo menos n\u00e3o a atacou<br \/>\ncom energia. Felizmente, por\u00e9m, os cidad\u00e3os, vendo o perigo,<br \/>\norganizaram-se em comit\u00e9s, armaram-se, improvisaram-se em ex\u00e9rcito<br \/>\ne conseguiram dominas a insurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tem-se procurado investigar as causas que quase tornaram uma greve numa<br \/>\nguerra civil, e tem-se dito geralmente que o motivo principal foi o \u00f3dio<br \/>\nque existe na Am\u00e9rica contra as companhias de caminhos de ferro.<\/p>\n<p>Com efeito, o seu enorme poder, a sua maneira desp\u00f3tica de servir<br \/>\no p\u00fablico, o excesso das suas tarifas, as vergonhosas especula\u00e7\u00f5es<br \/>\nque elas fazem, a pouca aten\u00e7\u00e3o que d\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a<br \/>\ndos passageiros, as fraudes que se cometem no transporte de mercadorias \u2013<br \/>\ntudo isto tem-lhes alienado as simpatias da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lembram-se, decerto, que a agita\u00e7\u00e3o grangista teve h\u00e1<br \/>\nanos por origem a organiza\u00e7\u00e3o de uma forte resist\u00eancia<br \/>\ncontra a tirania das companhias; os pre\u00e7os excessivos por que elas<br \/>\ntransportavam todos os produtos agr\u00edcolas, sobretudo os gr\u00e3os<br \/>\ndo interior da Am\u00e9rica para os portos do Atl\u00e2ntico, absorvendo<br \/>\no melhor do produto das lavouras, chegaram a causar uma tal oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se falou por esse tempo em revolu\u00e7\u00e3o da parte da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nagr\u00edcola do Oeste.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o, pois, que se pensa que as simpatias<br \/>\nque a popula\u00e7\u00e3o mostrou pela causa dos grevistas foram devidas<br \/>\na este sentimento de hostilidade.<\/p>\n<p>Isto, por\u00e9m, n\u00e3o basta para explicar uma t\u00e3o formid\u00e1vel<br \/>\ninsurrei\u00e7\u00e3o, uma insurrei\u00e7\u00e3o que fez milh\u00f5es<br \/>\ne milh\u00f5es de preju\u00edzos, que dispunha de artilharia, que formou<br \/>\ncampos entrincheirados e que se preparava simplesmente para sustentar uma<br \/>\nguerra civil. A explica\u00e7\u00e3o, enquanto a mim, \u00e9 esta: a<br \/>\ngreve foi desenvolvida e transformada em revolta pelo imenso partido socialista<br \/>\nou comunista. Este partido, na Am\u00e9rica, \u00e9 muito diferente dos<br \/>\nsocialistas europeus: aqui o socialismo \u00e9 um sistema social, pol\u00edtico,<br \/>\nmoral, religioso. Na Am\u00e9rica o socialismo \u00e9 uma hostilidade<br \/>\nbruta e instintiva contra todo o que possui e que acumula; l\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 ideias, h\u00e1 apetites insatisfeitos. E o chamar realmente a<br \/>\nesses grupos socialistas \u00e9 um erro que cometem frequentemente os jornais<br \/>\neuropeus; na Am\u00e9rica d\u00e3o-lhes um nome mais exacto, chamam-lhes<br \/>\nos roughs, isto \u00e9, a rudez, a canalha. Esta multid\u00e3o violenta<br \/>\n\u00e9, sobretudo, estrangeira; n\u00e3o se deve esquecer que a Am\u00e9rica<br \/>\n\u00e9 um ref\u00fagio, um asilo, o \u00faltimo recurso de tudo o que<br \/>\na Europa tem de gente aventureira, turbulenta, descontente, \u00e1vida e<br \/>\nviciosa. A Irlanda, a Fran\u00e7a, a Alemanha mesmo, mandam o que t\u00eam<br \/>\nde pior \u2013 a par, j\u00e1 se v\u00ea, de muito trabalhador honesto<br \/>\ne \u00fatil. Esta multid\u00e3o que vai procurar trabalho tem a mania<br \/>\nde se acumular nas cidades; ser-lhe-ia f\u00e1cil encontrar emprego altamente<br \/>\nremunerado no interior, nos estados agr\u00edcolas t\u00e3o faltos de<br \/>\nbra\u00e7os; mas os seus h\u00e1bitos, os seus v\u00edcios, a antipatia<br \/>\npela lavoura, prende-os \u00e0s cidades. A\u00ed, naturalmente, o trabalhador<br \/>\n\u00e9 menos necessitado, e portanto milhares desses emigrantes encontram-se<br \/>\nna mis\u00e9ria, na ociosidade e na desespera\u00e7\u00e3o. Nova Iorque,<br \/>\nFilad\u00e9lfia, San Francisco, Baltimore, Chicago, transbordam desta canalha.<br \/>\nOra justamente sucede que, nestes \u00faltimos tempos, a crise prolongada<br \/>\ndos neg\u00f3cios, na Am\u00e9rica, tem dado a esta popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndias muito prolongados de mis\u00e9ria; e j\u00e1 h\u00e1 tempos se<br \/>\nnotava nela uma funda e crescente irrita\u00e7\u00e3o. O sentimento que<br \/>\na domina \u00e9 uma esp\u00e9cie de c\u00f3lera bruta contra uma sociedade<br \/>\nrica, onde eles s\u00e3o mendigos \u2013 e contra um mundo que goza, e<br \/>\nno meio do qual eles sofrem.<\/p>\n<p>A greve veio, a prop\u00f3sito, oferecer-lhes um meio de desforra. Logo<br \/>\nque viram que ela se espalhava, tomava propor\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias,<br \/>\ndisparava os primeiros tiros, a canalha juntouse- lhe com entusiasmo. Em Nova<br \/>\nIorque, em Chicago, em Pittsburgh, apareceram logo chefes agitadores que impeliram<br \/>\nas massas descontentes \u00e0 revolta. O que queriam eles? Nada.<\/p>\n<p>Destruir, vingar-se vagamente. E tanto isto \u00e9 assim que em todos<br \/>\nos pontos mais atacados a revolta teve um car\u00e1cter bruto de viol\u00eancia<br \/>\nao acaso, destru\u00edam, queimavam, abatiam sem discriminar, na excita\u00e7\u00e3o<br \/>\nda c\u00f3lera satisfeita, sem outro fim do que dar cabo de uma sociedade<br \/>\nonde se achavam mal. Em Pittsburgh, por exemplo, a destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\nfoi est\u00fapida e bestial: escangalhar, escangalhar! \u2013 era o programa.<br \/>\nCertas barbaridades extraordin\u00e1rias revelam a loucura de uma plebe<br \/>\ninsensata: em Pittsburgh, depois de aprisionar destacamentos de Guarda Nacional,<br \/>\nfechavam-nos em casas e procuravam queim\u00e1-los vivos! Ao mesmo tempo,<br \/>\ne por toda a parte, se saqueava e se assassinava! E o Governo teve que empregar<br \/>\ncontra esta insurrei\u00e7\u00e3o da c\u00f3lera uma repress\u00e3o<br \/>\nde tirano. Colocava-se artilharia nas ruas e varria-se a canalha! As correspond\u00eancias<br \/>\nque devem conter os terr\u00edveis detalhes da insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nainda n\u00e3o chegaram \u00e0 Europa; mas receia-se que o desastre, a<br \/>\ndestrui\u00e7\u00e3o de propriedades, a perda de vidas, ser\u00e3o maiores<br \/>\ndo que os telegramas indicam, e que esta fatal revolta seja mais terr\u00edvel<br \/>\nainda por ser um sintoma e mostrar a exist\u00eancia de um elemento que pode<br \/>\ncausar aos Estados Unidos, tarde ou cedo, uma pavorosa crise social.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas dias tem-se aqui recebido, da \u00cdndia,<br \/>\nnoticias de um car\u00e1cter aterrador. A fome amea\u00e7a, com uma intensidade<br \/>\ncrescente. S\u00f3 em Madras e em Mysore, o Governo est\u00e1 dando ra\u00e7\u00f5es<br \/>\nmesquinhas (por n\u00e3o poder ser doutro modo) a um milh\u00e3o e duzentos<br \/>\nmil esfomeados! E a propor\u00e7\u00e3o da mortalidade cresce de um modo<br \/>\nque, se isto dura por mais oito meses, a popula\u00e7&amp;atiatilde;o do Sul da<br \/>\n\u00cdndia sofrer\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o sem antecedentes<br \/>\nna hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o, em Inglaterra, est\u00e1-se preocupando muito com o<br \/>\naspecto da pol\u00edtica francesa. O dia das elei\u00e7\u00f5es ainda<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 fixado; mas as dificuldades crescem para o Governo,<br \/>\nporque a famosa alian\u00e7a dos conservadores falhou. Os legitimistas est\u00e3o<br \/>\nfuriosos, porque v\u00eaem que a pol\u00edtica do Governo tende para uma<br \/>\nvit\u00f3ria eleitoral dos bonapartistas; os bonapartistas gritam contra<br \/>\no marechal, por ele n\u00e3o permitir que, antes de 1880, se reclame abertamente<br \/>\no imp\u00e9rio; os orleanistas est\u00e3o desinquietos com a influ\u00eancia<br \/>\ndos bonapartistas \u2013 que poderia, no caso do triunfo do imp\u00e9rio,<br \/>\nresultar num segundo desterro para os pr\u00edncipes de Orle\u00e3es \u2013<br \/>\ne queixam-se da parcialidade que o minist\u00e9rio mostra contra eles na<br \/>\nescolha dos candidatos oficiais. Todos gritam, e no entanto os republicanos<br \/>\nganham em for\u00e7a, em uni\u00e3o, em t\u00e1ctica e em influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Daqui v\u00eam os boatos recentes de novo golpe de estado. Mas em favor<br \/>\nde quem? E aqui que eu vou surpreender os leitores da Actualidade&#8230; \u00abem<br \/>\nfavor do filho de Mac Mahon!\u00bb E pelo menos o que se diz em Paris e o<br \/>\nque se imprime em Londres! No entanto, a mim parece-me que \u00abmac mahonismo<br \/>\npor direito heredit\u00e1rio\u00bb e muito c\u00f3mico para poder ser<br \/>\nveros\u00edmil. A Whitehall Review, o mais elegante jornal hebdomad\u00e1rio<br \/>\nde Londres, um \u00f3rg\u00e3o de alta sociedade, publica no seu \u00faltimo<br \/>\nn\u00famero, num lugar proeminente, a declara\u00e7\u00e3o seguinte:<\/p>\n<p>\u00abPede-se-nos para declarar que Sir Chames Tempest se valer\u00e1<br \/>\ndos \u00fanicos meios que a Igreja Cat\u00f3lica lhe fornece para se lavar<br \/>\nda desonra que foi lan\u00e7ada sobre ele e a sua fam\u00edlia, e que<br \/>\nintentar\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o judicial. Igualmente se nos pede<br \/>\npara declarar que Sir Charles Tempest n\u00e3o foi a Paris em persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos fugitivos, mas ficou tranquilamente na sua propriedade de Northamptonshire,<br \/>\nsendo o \u00faltimo a saber do que se passava \u2013t\u00e3o pouco suspeitava<br \/>\no infeliz gentleman a exist\u00eancia do mal.\u00bb E o jornal acrescenta,<br \/>\ncomo por sua conta e risco: \u00abA esposa infiel e o seu amante est\u00e3o<br \/>\nem Paris. Todas as simpatias est\u00e3o com o infeliz Sir Charles.\u00bb<\/p>\n<p>Este extraordin\u00e1rio par\u00e1grafo, que t\u00e3o estranho parece<br \/>\naos nossos h\u00e1bitos meridionais, \u00e9 a conclus\u00e3o de um facto<br \/>\nque tem causado grande esc\u00e2ndalo. \u00c9 simples em si, como ver\u00e3o.<br \/>\nA mulher de Sir Tempest fugiu (como tantas outras fogem hoje em dia) com um<br \/>\namante \u2013 ele mesmo casado com uma ador\u00e1vel senhora de vinte e<br \/>\ndois anos, \u00edntima amiga da princesa de Gales.<\/p>\n<p>O que fez esc\u00e2ndalo foi pertencer a fugitiva a uma das mais respeit\u00e1veis<br \/>\nfam\u00edlias cat\u00f3licas de Inglaterra e passar por ser uma das mulheres<br \/>\nmais s\u00e9rias da aristocracia inglesa. O facto em si, digo, \u00e9<br \/>\nbanal, e n\u00e3o merece uma linha de coment\u00e1rio: a grande sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nprov\u00e9m de que alguns jornais, por esta ocasi\u00e3o, lembraram-se<br \/>\nde fazer uma esp\u00e9cie de revista retrospectiva da moralidade inglesa<br \/>\ndurante os \u00faltimos dez anos e chegaram \u00e0 conclus\u00e3o, muito<br \/>\nexacta, que neste \u00faltimo per\u00edodo a imoralidade, sobretudo na<br \/>\nsociedade mais rica, tem tomado tais propor\u00e7\u00f5es que Paris, Madrid,<br \/>\nViena, N\u00e1poles, as cidades cl\u00e1ssicas do adult\u00e9rio e do<br \/>\nesc\u00e2ndalo, ficam humildemente na sombra perante a colossal corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Londres. Que tudo quanto o v\u00edcio tem inventado de mais m\u00f3rbido<br \/>\ne de mais exc\u00eantrico floresce em Londres era sabido; mas supunha-se<br \/>\n(os estrangeiros supunham, ao menos) que a sociedade cultivada tinha no mais<br \/>\nalto grau as qualidades de honestidade, de fidelidade, de pudor, de probidade<br \/>\ndom\u00e9stica, que foram sempre um dos grandes orgulhos ingleses. Pois<br \/>\nbem, pelo que dizem os mais bem informados, os \u00faltimos dez anos t\u00eam<br \/>\ntrazido uma transforma\u00e7\u00e3o dissolvente da honestidade inglesa.<br \/>\nOs adult\u00e9rios, as fugas, os raptos, as sedu\u00e7\u00f5es, os div\u00f3rcios,<br \/>\nos crimes de fam\u00edlia, acumulam-se de ano para ano, dando \u00e0 alta<br \/>\nsociedade inglesa o aspecto sucessivamente decomponente de um fruto que apodrece.<br \/>\nEnquanto a mim, sempre o pensei: mas n\u00e3o esperava v\u00ea-lo impresso<br \/>\ne com cores t\u00e3o carregadas nas mais s\u00e9rias revistas e pelos<br \/>\nmoralistas mais estimados.<\/p>\n<p>Basta observar um pouco as maneiras da inglesa moderna para se ver que ela<br \/>\npoder\u00e1 ser tudo \u2013 uma h\u00e1bil cavaleira, uma excelente ca\u00e7adora,<br \/>\num forte cocheiro, uma ador\u00e1vel amante, uma excelente atiradora \u00e0<br \/>\npistola, um \u00f3ptimo companheiro de viagem, um atrevido parceiro para<br \/>\numa partida de bacar\u00e1 \u2013, tudo, menos uma esposa e uma m\u00e3e.<br \/>\nA maneira como se vestem, o atrevimento dos olhares, o h\u00e1bito das conversa\u00e7\u00f5es<br \/>\npicantes, o v\u00edcio do namoro, o gosto pelas bebidas fortes, a paix\u00e3o<br \/>\npelos exerc\u00edcios masculinos, a avidez de independ\u00eancia, o desd\u00e9m<br \/>\np\u00fablico \u2013 tudo revela, a quem as conhece, uma tend\u00eancia<br \/>\nirresist\u00edvel para o amor livre. A isto junte-se o temperamento ardente,<br \/>\numa imagina\u00e7\u00e3o excitada, uma natureza volunt\u00e1ria \u2013<br \/>\ne compreender-se-\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o. A \u00fanica coisa que<br \/>\nret\u00e9m ainda \u00e9 o medo da opini\u00e3o, do esc\u00e2ndalo,<br \/>\nda impress\u00e3o; no dia em que este salutar receio diminuir, ou por cair<br \/>\nem descr\u00e9dito ou por o impulso da paix\u00e3o ser mais forte \u2013<br \/>\na Inglaterra voltar\u00e1 aos tempos mais devassos da sua hist\u00f3ria,<br \/>\ne repetir-se-\u00e1 a \u00e9poca fatal dos Stuarts.<\/p>\n<p>Contra esta corrup\u00e7\u00e3o a corte procura reagir por uma \u00e1spera<br \/>\nseveridade: assim \u00e9 sabido que, quando se apresentou \u00e0 rainha<br \/>\no programa do \u00faltimo concerto real em Windsor, ela mesma, por seu punho,<br \/>\nriscou o nome de Madame Adelina Patti, declarando que nunca admitiria no pa\u00e7o<br \/>\numa mulher que conhecidamente tinha um amante; o que n\u00e3o impede que<br \/>\nas aventuras amorosas de Madame Patti lhe tenham dado em Londres uma esp\u00e9cie<br \/>\nde aur\u00e9ola her\u00f3ica \u2013 a ponto que a sua simples apari\u00e7\u00e3o<br \/>\nem cena \u00e9 saudada por aclama\u00e7\u00f5es que parecem dirigir-se<br \/>\nmenos \u00e0 cantora ilustre que \u00e0 hero\u00edna c\u00e9lebre<br \/>\nde um drama conjugal. Sinto n\u00e3o ter novidades liter\u00e1rias ou<br \/>\ndram\u00e1ticas a dar-lhes. As \u00faltimas semanas t\u00eam sido est\u00e9reis:<br \/>\no abuso das controv\u00e9rsias pol\u00edticas parece ter diminu\u00eddo<br \/>\na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u2013 e as for\u00e7as intelectuais,<br \/>\nque em tempos calmos se empregam no romance ou no poema, voltam-se neste per\u00edodo<br \/>\nde excita\u00e7\u00e3o p\u00fablica para o artigo de jornal ou para<br \/>\no cap\u00edtulo de revista.<\/p>\n<p>A grande novidade em Londres \u00e9 a chegada de um h\u00f3spede ilustre<br \/>\n\u2013 o Sr. Pongo. Quem \u00e9 o Sr. Pongo? \u00c9 uma personagem em<br \/>\nque todo o mundo fala, por quem as mulheres andam entusiasmadas, cuja fotografia<br \/>\nse vende a cada canto e cujas ac\u00e7\u00f5es mais insignificantes s\u00e3o<br \/>\nregistadas em tipo gra\u00fado pelos jornais mais s\u00e9rios.<\/p>\n<p>O Sr. Pongo n\u00e3o \u00e9 um pr\u00edncipe, nem um general, nem<br \/>\num escritor, nem um descobridor, nem sequer um rabequista \u2013 \u00e9<br \/>\nsimplesmente um macaco! Mas que macaco! \u00c9 um gorilha: o primeiro, o<br \/>\n\u00fanico que tem vindo \u00e0 Europa! Este ilustre h\u00f3spede, que<br \/>\nesteve primeiro em Berlim, que deu lugar a troca de notas diplom\u00e1ticas<br \/>\nentre o Governo ingl\u00eas e o alem\u00e3o a respeito da sua posse, chegou<br \/>\na Londres, onde \u00e9 objecto de um fanatismo insensato. O Sr. Pongo (\u00e9<br \/>\nassim que \u00e9 geralmente conhecido) tem quatro anos de idade, ainda n\u00e3o<br \/>\nentrou no per\u00edodo de denti\u00e7\u00e3o, j\u00e1 tem tr\u00eas<br \/>\np\u00e9s e tr\u00eas quartos de altura e os seus m\u00fasculos s\u00e3o<br \/>\nde uma extrema for\u00e7a e agilidade. Comia ordinariamente farin\u00e1ceos<br \/>\ne frutas, mas ultimamente o seu guarda, tendo-lhe dado um peda\u00e7o de<br \/>\nbife, notou que Pongo o devorava com singular apetite. Come\u00e7aram a<br \/>\ndar-lhe carne e \u00e1gua; come tudo o que come um gentleman: o seu almo\u00e7o<br \/>\n\u00e9 como o de qualquer de nos \u2013 ovos e costeletas ou beefsteak.<\/p>\n<p>Ao princ\u00edpio s\u00f3 bebia \u00e1gua, mas veio-se \u00e0 conclus\u00e3o<br \/>\nque poderia beber tudo \u2013 desde Bord\u00e9us at\u00e9 Moet et Chandon;<br \/>\na sua bebida favorita, por\u00e9m, \u00e9 a cerveja. Depois dos repastos<br \/>\nd\u00e3o-lhe um charuto, que ele fuma, deitando o fumo pelo nariz. A sua<br \/>\nfisionomia e t\u00e3o inteligente, t\u00e3o viva, que, sem falar, compreende-se<br \/>\ntudo o que ele quer dizer, pela vivacidade brilhante do olhar e pelo movimento<br \/>\ndos bei\u00e7os.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o se exprimir, parece compreender certas express\u00f5es<br \/>\nhumanas: assim, quando ouve uma boa gargalhada, exalta-se, aplaude com as<br \/>\nm\u00e3os, ri e parece cheio de j\u00fabilo. Mas o que h\u00e1 nele<br \/>\nde mais humano \u00e9 o instinto, pr\u00f3prio de crian\u00e7as, de<br \/>\nlevar tudo \u00e0 boca: assim, se lhe d\u00e3o um l\u00e1pis, antes<br \/>\nde tratas de escrevinhar, leva o l\u00e1pis \u00e0 boca \u2013 como um<br \/>\nbaby.<\/p>\n<p>O gorilha \u00e9, como sabem, o animal do qual o homem prov\u00e9m directamente,<br \/>\nsegundo as teorias modernas. At\u00e9 aqui nunca fora poss\u00edvel ca\u00e7ar<br \/>\num vivo \u2013 e explica-se o interesse fan\u00e1tico que excita em Londres<br \/>\na presen\u00e7a deste nosso vener\u00e1vel antepassado.<\/p>\n<p>Milhares de pessoas afluem a admirar esta esp\u00e9cie de homem primitivo,<br \/>\nque h\u00e1 alguns mil anos era o que havia de mais perfeito na superf\u00edcie<br \/>\nda Terra e era ent\u00e3o o rei da Cria\u00e7\u00e3o! Quem sabe se daqui<br \/>\na alguns mil anos, quando a ra\u00e7a humana, tal qual \u00e9 hoje, tiver<br \/>\nquase desaparecido para dar lugar a uma forma humana mais perfeita, um s\u00e1bio<br \/>\nent\u00e3o n\u00e3o encontrar\u00e1, nos desertos ou nos bosques, um<br \/>\n\u00faltimo homem e n\u00e3o vir\u00e1 exp\u00f4-lo, em triunfo, nalguma<br \/>\nLondres dessa \u00e9poca? E os seres mais perfeitos de ent\u00e3o vir\u00e3o<br \/>\ncontemplar com espanto o seu antepassado, o homem, como n\u00f3s contemplamos<br \/>\nhoje o nosso antepassado, o gorilha! Segundo os especialistas, o que h\u00e1<br \/>\nde mais extraordin\u00e1rio neste gorilha \u00e9 que n\u00e3o tem p\u00ealo,<br \/>\no que prova, creio, que a sua ra\u00e7a \u00e9 justamente a imediata antes<br \/>\ndo homem&#8230;<\/p>\n<p>Realmente, a n\u00e3o ser a sua cor escura, nada o distingue de um homem<br \/>\nfeio, com uma barba por baixo do queixo. O Sr. Pongo, naturalmente, n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 preso: vive num pequeno parque (no Aqu\u00e1rio de Westminster)<br \/>\nque lhe foi destinado.<\/p>\n<p>A multid\u00e3o n\u00e3o parece importun\u00e1-lo: de resto, todas<br \/>\nas medidas est\u00e3o tomadas para que o n\u00e3o molestem. O sentimento<br \/>\ngeral, quando a gente o v\u00ea, \u00e9 de pasmo e de melancolia. A sua<br \/>\nface, a sua figura, os seus gestos, a maneira de se sentar, de passear encostado<br \/>\n\u00e0 bengala, s\u00e3o t\u00e3o humanos \u2013 ia quase a dizer,<br \/>\nt\u00e3o modernos \u2013 que sentimos uma esp\u00e9cie de venera\u00e7\u00e3o<br \/>\npor aquele av\u00f4 da ra\u00e7a humana e um certo desd\u00e9m por n\u00f3s<br \/>\nmesmos, que h\u00e1 alguns mil anos \u00e9ramos apenas aquilo!.<\/p>\n<p>O que mais o importuna, a meu entender, s\u00e3o as mulheres. As inglesas,<br \/>\nque positivamente s\u00e3o doidas, est\u00e3o apaixonadas, em massa, pelo<br \/>\ngorilha. Um jornal, hoje, contava que ontem foi necess\u00e1rio arranc\u00e1-lo<br \/>\ndos bra\u00e7os de uma senhora, que o devorava de beijos e n\u00e3o o<br \/>\nqueria largar, declarando que era encantador. O gorilha, que \u00e9 ainda<br \/>\ninfante e n\u00e3o chegou \u00e0 idade do Sentimento, parece apreciar<br \/>\nmediocremente estes excessos de ternura. Noutro dia, encheu de bofetadas uma<br \/>\nmiss que lhe estava a \u00abfazer olho\u00bb. E esta li\u00e7\u00e3o<br \/>\nde moralidade e de conveni\u00eancia, dada por um macaco a uma senhora, aumentou<br \/>\nsingularmente o meu respeito pelo simp\u00e1tico Pongo.<\/p>\n<p>O \u00fanico receio do povo de Londres \u00e9 que ele morra.<\/p>\n<p>Receia-se o Inverno, mas, at\u00e9 agora, dorme bem, almo\u00e7a o seu<br \/>\nbeefsteak, janta sopa, roastbeef e sobremesa, fuma tr\u00eas ou quatro charutos<br \/>\npor dia, palita os dentes, dorme a sesta \u2013 e faz tudo o que faz qualquer<br \/>\ningl\u00eas, excepto ter uma opini\u00e3o sobre a quest\u00e3o do Oriente,<br \/>\no que \u00e9, penso eu, uma qualidade a seu favor!<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>VI &#8211; Londres, 15 de Agosto de 1877<\/h2>\n<p>Devo dar nesta correspond\u00eancia, como fez a rainha no discurso de encerramento<br \/>\ndas c\u00e2maras, o lugar proeminente \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo dia \u2013 a fome na \u00cdndia. Uma calamidade, a maior decerto por<br \/>\nque tem passado a \u00cdndia desde que a Inglaterra a governa e que pode<br \/>\narrastar graves consequ\u00eancias pol\u00edticas, amea\u00e7a o vasto<br \/>\nterrit\u00f3rio da presid\u00eancia de Madras.<\/p>\n<p>Dezoito milh\u00f5es de habitantes t\u00eam fome! O ano passado as colheitas<br \/>\nda \u00cdndia do Sul falharam, mas ent\u00e3o os celeiros estavam bem<br \/>\nprovidos, a popula\u00e7\u00e3o tinha economias, o gado de transporte<br \/>\nabundava, o tesouro do Governo n\u00e3o se esvaziava e a cat\u00e1strofe<br \/>\ncombateu-se com vantagem; depois, calculava-se que a colheita deste ano seria<br \/>\nimensa, e a escassez de que se sofria seria compensada\u00bb pela abund\u00e2ncia<br \/>\nde que se ia gozar. Quando viesse a mon\u00e7\u00e3o do sudoeste, a chuva<br \/>\ncairia, a colheita seria rica, podia-se esperar! Sucede, por\u00e9m, que<br \/>\na mon\u00e7\u00e3o falha, a chuva n\u00e3o vem, a colheita perde-se<br \/>\ne a fome declarase.<\/p>\n<p>A grande fome \u00e9 sucedida por uma fome maior, e diante da calamidade<br \/>\nos celeiros achamse vazios, as economias da popula\u00e7\u00e3o exaustas,<br \/>\no tesouro do Governo gasto e a esperan\u00e7a perdida. E o que \u00e9<br \/>\nmais: o ano de sofrimento, com uma alimenta\u00e7\u00e3o escassa, enfraqueceu<br \/>\na popula\u00e7\u00e3o moralmente e fisicamente; a nova fome encontra os<br \/>\ncorpos alquebrados e as almas sucumbidas. Isto explica porque j\u00e1 t\u00eam<br \/>\nmorrido nas primeiras semanas de escassez quinhentas mil pessoas! A presid\u00eancia<br \/>\nde Madras \u00e9 um vasto territ\u00f3rio cheio de aldeias: o n\u00famero<br \/>\ndos prolet\u00e1rios, dos que n\u00e3o t\u00eam nenhuma esp\u00e9cie<br \/>\nde propriedade, sobe a cinco milh\u00f5es: esta parte da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 a primeira, naturalmente, a sucumbir \u00e0 necessidade. Os que<br \/>\npossuem, isto \u00e9, os que t\u00eam uma pouca de terra ou gado, poder\u00e3o<br \/>\ndurante algum tempo fazer face \u00e0 escassez, sobretudo vendendo as suas<br \/>\nj\u00f3ias, que s\u00e3o na \u00cdndia o emprego natural das economias;<br \/>\nmas, findo este recurso, morto todo o gado pela falta de pastos, tendo os<br \/>\npre\u00e7os duplicado \u2013 estes doze milh\u00f5es de homens ficam<br \/>\nno mesmo estado de mis\u00e9ria que os cinco milh\u00f5es de prolet\u00e1rios,<br \/>\ne toda a popula\u00e7\u00e3o, ou tem de ser sustentada pelo Governo ou<br \/>\nde morrer irremediavelmente.<\/p>\n<p>Mas pode o Governo realmente alimentar dezoito milh\u00f5es de habitantes<br \/>\ncom cereal importado? E como h\u00e1-de transport\u00e1-lo para o interior<br \/>\nde um territ\u00f3rio largo como tr\u00eas ou quatro vezes Portugal\u00bb?<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 caminhos de ferro, quase todo o transporte \u00e9 feito<br \/>\nem carros de bois, mas, se os homens morrem por falta de p\u00e3o, os bois<br \/>\nest\u00e3o morrendo rapidamente por falta de pastos. Os transportes escasseiam<br \/>\ncomo o alimento. De sorte que, em certas partes mais retiradas do territ\u00f3rio,<br \/>\na popula\u00e7\u00e3o \u2013 dizem os jornais \u2013 tem \u00abfatalmente<br \/>\nde ser abandonada \u00e0 fome\u00bb. Isto \u00e9 horr\u00edvel.<\/p>\n<p>As descri\u00e7\u00f5es que come\u00e7am a chegar do aspecto do distrito<br \/>\nfazem estremecer: a perder de vista, a terra seca, exausta, tem uma cor quase<br \/>\nnegra; n\u00e3o se descobre nenhuma verdura. A \u00e1gua dos po\u00e7os,<br \/>\nsalobra e infecta, d\u00e1 doen\u00e7as terr\u00edveis aos que a bebem.<br \/>\nS\u00f3 se v\u00ea gente l\u00edvida, de uma magreza de esqueleto, com<br \/>\no tremor da febre, em andrajos. O colmo, que forma os tectos das casas, foi<br \/>\npor toda a parte tirado para substituir a forragem do gado de todos os pontos.<br \/>\nMilhares e milhares de pessoas v\u00eam emigrando acossadas pela fome, implorando<br \/>\ndesesperadamente socorro dos empregados do Governo. E come\u00e7a a aparecer<br \/>\numa doen\u00e7a pr\u00f3pria da fome, que \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde p\u00fastulas na pele! Nesta crise o governador do estado, o duque de<br \/>\nBuckingham, presidiu a um grande meeting em Madras, onde se resolveu pedir<br \/>\naux\u00edlio \u00e0 Inglaterra; a organiza\u00e7\u00e3o administrativa,<br \/>\nque obriga cada estado da \u00cdndia a prover \u00e0s suas pr\u00f3prias<br \/>\nnecessidades, n\u00e3o pode ser respeitada nesta desgra\u00e7a. E necess\u00e1rio<br \/>\nrecorrer ao resto da \u00cdndia, \u00e0 Inglaterra, a todo o vasto Imp\u00e9rio<br \/>\nBrit\u00e2nico, e, se for necess\u00e1rio, estender a m\u00e3o \u00e0<br \/>\ncaridade do mundo\u00bb \u00c9 justo dizer-se que a imprensa inglesa pede<br \/>\ncom grande energia que todos os recursos da Inglaterra sejam postos em ac\u00e7\u00e3o<br \/>\npara fornecimento r\u00e1pido de alimento, ainda que se gastem milh\u00f5es.<br \/>\nReclama-se que se encham de cereal os dep\u00f3sitos; que se estabele\u00e7am<br \/>\ncaminhos de ferro de campanha, para levar socorro aos pontos mais remotos;<br \/>\nque se formem servi\u00e7os de transporte de carros puxados por homens;<br \/>\nque se promova um vasto sistema de po\u00e7os artesianos; que se levantem<br \/>\ngrandes acampamentos-asilos \u2013 onde os esfomeados recebam ra\u00e7\u00f5es;<br \/>\nque se inste fortemente com a caridade de todo o imp\u00e9rio \u2013 e,<br \/>\nenfim, que se fa\u00e7a tudo o que pode dar o dinheiro! Se a calamidade<br \/>\nse pode combater com libras esterlinas, diz-se que se empenhe a luta. Libras<br \/>\nesterlinas n\u00e3o faltam! E que me dizem \u00e0 campanha do Dan\u00fabio?<br \/>\nPositivamente, os Turcos s\u00e3o um povo de surpresas. H\u00e1 dois meses,<br \/>\nentusiastas da R\u00fassia diziam-nos: \u00abV\u00e3o ver, v\u00e3o<br \/>\nver, o que \u00e9 uma guerra r\u00e1pida e uma li\u00e7\u00e3o tremenda!<br \/>\nA R\u00fassia vai mandar dois ex\u00e9rcitos: um \u00e0 \u00c1sia,<br \/>\noutro ao Dan\u00fabio; um conquista a Arm\u00e9nia, outra entra em Constantinopla;<br \/>\ne o Imp\u00e9rio Otomano esfarela-se como um torr\u00e3o seco!\u00bb<br \/>\nE os melhores amigos da Turquia calavam-se, receando bem que esta profecia<br \/>\natrevida se realizasse em quatro semanas&#8230;<\/p>\n<p>Com efeito, uma invas\u00e3o preparada, de h\u00e1 muito apregoada,<br \/>\nornada de proclama\u00e7\u00f5es e coberta de b\u00ean\u00e7\u00e3os,<br \/>\ncome\u00e7a a mover-se e, como um rio que se bifurca, corre de um lado sobre<br \/>\na \u00c1sia, do outro sobre o Dan\u00fabio. E a profecia come\u00e7a<br \/>\nsinistramente a realizar-se! Em quatro semanas o ex\u00e9rcito russo, com<br \/>\numa tranquilidade de parada e, por assim dizer, a divertir-se, quase que conquista<br \/>\na Arm\u00e9nia. E os entusiastas da R\u00fassia a gritar logo: \u00abQue<br \/>\nlhes diz\u00edamos n\u00f3s? L\u00e1 devor\u00e1mos a Arm\u00e9nia.\u00bb<br \/>\nAs igrejas de Sampetersburgo ressoavam de te Deum, e o czar come\u00e7ava<br \/>\na fazer a lista dos funcion\u00e1rios que deviam ir administrar a nova conquista<br \/>\ne levar \u00e0s popula\u00e7\u00f5es arm\u00e9nias as do\u00e7uras<br \/>\nda tirania russa.<\/p>\n<p>De repente, z\u00e1s! Sem se saber como, de manh\u00e3 para a noite,<br \/>\nMuktar Pax\u00e1 aparece \u2013 e os Russos vitoriosos, os Russos conquistadores,<br \/>\ncome\u00e7am a recuar, a perder terreno, a abandonar posi\u00e7\u00f5es,<br \/>\na levantar os cercos come\u00e7ados; a retirada transforma-se em debandada;<br \/>\nMuktar Pax\u00e1, sempre, sem se saber muito bem como, vai-os levando, de<br \/>\nderrota em derrota, at\u00e9 os sacudir, com o sabre sobre a ilharga, para<br \/>\nl\u00e1 da fronteira persa! E a Arm\u00e9nia estava livre! Os entusiastas<br \/>\nda R\u00fassia mordiam um pouco o bei\u00e7o; mas, com o seu aplomb ordin\u00e1rio,<br \/>\nrecome\u00e7avam: \u00ab\u00c9 verdade, \u00e9 uma derrota. Mas tamb\u00e9m,<br \/>\na falar verdade, n\u00f3s n\u00e3o quer\u00edamos a Arm\u00e9nia para<br \/>\nnada. A campanha da Arm\u00e9nia era uma divers\u00e3o. O verdadeiro fim,<br \/>\no objecto da guerra \u00e9 Constantinopla. A verdadeira luta \u00e9 aqui<br \/>\nno Dan\u00fabio, na Bulg\u00e1ria. V\u00e3o ver. V\u00e3o ver como<br \/>\nem duas semanas n\u00f3s estamos em Constantinopla!\u00bb E os apaixonados<br \/>\nda Turquia, ainda os mais ing\u00e9nuos, pensavam com terror que era bem<br \/>\nposs\u00edvel que assim fosse. A Turquia estava t\u00e3o pobre! O seu<br \/>\nex\u00e9rcito t\u00e3o mal comandado! A sua administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o corrupta! O seu armamento t\u00e3o incompleto! A sua vitalidade<br \/>\nt\u00e3o debilitada!&#8230; Com efeito, a R\u00fassia p\u00f5e-se em movimento,<br \/>\ne a nova profecia come\u00e7a a ter uma realiza\u00e7\u00e3o maravilhosa.<br \/>\nEm duas semanas os Russos atravessam o Dan\u00fabio, estabelecem-se na Bulg\u00e1ria,<br \/>\ndirigem-se para os Balc\u00e3s, passam os Balc\u00e3s como numa m\u00e1gica<br \/>\ne come\u00e7am a preparar a marcha triunfal sobre Constantinopla. \u00abQue<br \/>\nlhes diz\u00edamos n\u00f3s?\u00bb, exclamam os russ\u00f3filos. \u00abL\u00e1<br \/>\nv\u00e3o eles. Al\u00e9m de amanh\u00e3, o estandarte russo flutuar\u00e1<br \/>\nem Santa Sofia!\u00bb Sampetersburgo recome\u00e7ava os seus te Deum, o<br \/>\nczar reescrevia as suas listas de funcion\u00e1rios, a Europa estremecia.<br \/>\nPensava-se em intervir. Positivamente, santo Deus!, o fim da Turquia chegou!&#8230;<br \/>\nA \u00c1ustria, assustada com o novo vizinho que se instala, come\u00e7a<br \/>\na mobilizar: a Inglaterra manda tr\u00eas mil homens para Malta e fala em<br \/>\nocupar Gal\u00edpoli: a Gr\u00e9cia agita-se, como um abutre que esvoa\u00e7a<br \/>\nsobre um ferido que vai morrer, e o sult\u00e3o faz \u00e0 pressa as suas<br \/>\nmalas, para passar para a \u00c1sia, de volta aos lugares origin\u00e1rios<br \/>\nda sua ra\u00e7a \u2013 com o Alcor\u00e3o, o serralho, o estandarte<br \/>\ndo Profeta e o seu cozinheiro franc\u00eas! De repente, sem se saber como<br \/>\ntamb\u00e9m, os Russos sofrem o desastre medonho de Plevna; no dia seguinte,<br \/>\ns\u00e3o batidos em Lotcha; no outro dia, em Osman Bazar. Osman Pax\u00e1<br \/>\nacossaos contra o Dan\u00fabio; o general Gurko, que passava os Balc\u00e3s,<br \/>\n\u00e9 derrotado; o ex\u00e9rcito que ocupava a Bulg\u00e1ria tem de<br \/>\nevacuar aos peda\u00e7os; cercos importantes s\u00e3o levantados, campos<br \/>\nformid\u00e1veis desfeitos. E o que se tinha passado na Arm\u00e9nia repetiu-se<br \/>\nno Dan\u00fabio! A invas\u00e3o que falhou na \u00c1sia, falhou na Europa!<br \/>\nSampetersburgo engole os seus te Deum, o czar rasga as listas, a \u00c1ustria<br \/>\nrespira e desmobiliza, o sult\u00e3o desfaz as malas \u2013 e os Turcos,<br \/>\nespantados, olhando em roda de si, acham-se vitoriosos na \u00c1sia e na<br \/>\nEuropa! A que se deve esta prodigiosa aventura? A muitas causas, creio eu.<br \/>\nMas a primeira, a principal, a causa-m\u00e3e, \u00e9 que os Russos desprezaram<br \/>\nos Turcos de mais: n\u00e3o lhes supunham \u2013 nem coragem, nem estrat\u00e9gia,<br \/>\nnem armamento, nem dinheiro, nem actividade, nem dedica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEntenderam que um punhado de russos podia ir e comer prov\u00edncias como<br \/>\nbagos de uvas. Portanto mandavam for\u00e7as incompletas, dividiam-nas,<br \/>\ndispersavam-nas, iam para diante, \u00e0 tonta, com uma bravura de guerrilha<br \/>\ne uma imprud\u00eancia de estudantes quando de repente se encontraram diante<br \/>\nde ex\u00e9rcitos mais numerosos, com generais mais h\u00e1beis, planos<br \/>\nmais definidos; o resultado \u00e9 a derrota! Acresce a isto que no ex\u00e9rcito<br \/>\nrusso tudo \u00e9 mau, excepto o soldado e a arma. Os generais s\u00e3o<br \/>\nest\u00fapidos, a administra\u00e7\u00e3o \u00e9 corrupta. Quando<br \/>\no soldado se bate, \u00e9 sacrificado pela in\u00e9pcia dos chefes, quando<br \/>\nse n\u00e3o bate, \u00e9 esfomeado pela fraude do comissariado. O que<br \/>\nse conta dos planos dos gr\u00e3o-duques que comandam \u00e9 t\u00e3o<br \/>\natroz como o que se diz dos administradores que fornecem. O desastre de Plevna<br \/>\n\u00e9 um erro idiota do gr\u00e3o-duque: mandar milhares de soldados<br \/>\natacar posi\u00e7\u00f5es elevadas, entrincheiradas, ocupadas por artilharia<br \/>\ne por um n\u00famero superior de gente \u2013 \u00e9 o mesmo que condenar<br \/>\nsoldados \u00e0 morte em conselho de guerra. Por outro lado, deix\u00e1-los<br \/>\num e dois dias sem ra\u00e7\u00e3o, sem \u00e1gua, ou com mantimentos<br \/>\npodres e \u00e1gua insalubre, sem tendas e sem provis\u00f5es \u2013<br \/>\ne o mesmo que espalhar voluntariamente num ex\u00e9rcito os germes de uma<br \/>\nepidemia. Em qualquer dos casos, \u00e9 crime! O que perdeu a R\u00fassia,<br \/>\nnesta campanha de quatro meses, foi o excesso impaciente de ambi\u00e7\u00e3o:<br \/>\nquiseram fazer ao mesmo tempo muitas coisas brilhantes: atravessar o Dan\u00fabio,<br \/>\ncercar Rustchuk, invadir a Bulg\u00e1ria, passar os Balc\u00e3s, investir<br \/>\nSistova. Para todas estas empresas tiveram que dividir o ex\u00e9rcito,<br \/>\nfraccion\u00e1-lo, enfraquec\u00ea-lo. Em lugar de conservar na m\u00e3o<br \/>\num grosso cacete s\u00f3lido, desfizeram-no numas poucas de fr\u00e1geis<br \/>\nbandines.<\/p>\n<p>Os Turcos, bons estrat\u00e9gicos, reuniram fortes massas e foram quebrando<br \/>\ne destruindo uma a uma estas for\u00e7as dispersas. Os Russos, reconhecendo<br \/>\nagora o seu erro, concentram-se no Dan\u00fabio e preparam-se para uma ac\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais concreta. Mas e tarde: o Inverno adianta-se, e esta campanha de Ver\u00e3o,<br \/>\ncom os sacrif\u00edcios que custou, os milh\u00f5es que absorveu, as vidas<br \/>\nque destruiu \u2013 est\u00e1 perdida: \u00e9 como uma bola de sab\u00e3o<br \/>\nquebrada, que produz nada, nada, nada! De quem \u00e9 a culpa? Do regime<br \/>\nrusso, incontestavelmente do absolutismo. Num pa\u00eds em que nada depende<br \/>\ndo m\u00e9rito e tudo depende da posi\u00e7\u00e3o do nascimento, o<br \/>\nresultado \u00e9 este: em lugar de dar o comando a um estrat\u00e9gico,<br \/>\nd\u00e1-se a um gr\u00e3o-duque idiota, porque \u00e9 gr\u00e3o-duque;<br \/>\nem lugar de confiar a administra\u00e7\u00e3o a uma intelig\u00eancia,<br \/>\nconfia-se a um pr\u00edncipe, porque \u00e9 pr\u00edncipe. O gr\u00e3o-duque<br \/>\n\u00e9 batido sempre e o pr\u00edncipe desorganiza tudo. \u00c9 l\u00f3gico.<br \/>\nE todos os correspondentes ingleses, os mais h\u00e1beis, os mais experientes<br \/>\nde coisas militares, s\u00e3o acordes em dizer que, se a administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nmilitar continua nas mesmas m\u00e3os in\u00e1beis e se os planos da campanha<br \/>\ncontinuam a ser feitos pelos gr\u00e3o-duques, a R\u00fassia pode sofrer<br \/>\na desfeita hist\u00f3rica de ser posta fora dos dom\u00ednios turcos,<br \/>\n\u00e0 coronhada! Em Sampetersburgo come\u00e7a-se a murmurar com muito<br \/>\ndespeito da direc\u00e7\u00e3o da campanha. E \u00e9 bem poss\u00edvel<br \/>\nque um desastre militar fosse a origem de uma transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial. O Russo \u00e9 j\u00e1 bastante instru\u00eddo para saber perfeitamente<br \/>\nque vive sob um regime odioso. As conspira\u00e7\u00f5es repetidas que,<br \/>\nde tempos a tempos, v\u00eam abortar nas m\u00e3os da Pol\u00edcia s\u00e3o<br \/>\nas explos\u00f5es impacientes e extempor\u00e2neas de um forte sentimento,<br \/>\nque trabalha surdamente a massa da na\u00e7\u00e3o. Esta guerra actual<br \/>\nfoi considerada sem entusiasmo: viam-se muito bem os sacrif\u00edcios que<br \/>\nela custava, sem se ter uma grande f\u00e9 nas vantagens que ela traria.<\/p>\n<p>Mas, depois de come\u00e7ada, naturalmente, o grande orgulho nacional<br \/>\nexaltou-se e interessouse.<\/p>\n<p>Se a R\u00fassia agora se visse derrotada pelo Turco, isto \u00e9, pelo<br \/>\nseu inimigo de ra\u00e7a e de religi\u00e3o, pelo desprezado Turco, atribuiria<br \/>\nlogo a derrota aos erros do Governo e aos v\u00edcios do regime, e uma grande<br \/>\nrevolu\u00e7\u00e3o seria prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de espantar que o mesmo ex\u00e9rcito concorresse<br \/>\npara essa revolu\u00e7\u00e3o. O ex\u00e9rcito conhece as suas altas<br \/>\nqualidades e est\u00e1 descontente pela m\u00e1 direc\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o leva aos desastres\u00bb Al\u00e9m disso, para a multid\u00e3o<br \/>\nde oficiais, mo\u00e7os, entusiastas, instru\u00eddos, apaixonados de<br \/>\nideias modernas, esta campanha \u00e9 um complemento de educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nliberal.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, acostumam-se a ver de perto os v\u00edcios da administra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs falsifica\u00e7\u00f5es dos comissariados, a vergonhosa qualidade das<br \/>\nra\u00e7\u00f5es, a insufici\u00eancia dos socorros sanit\u00e1rios,<br \/>\na desorganiza\u00e7\u00e3o das ambul\u00e2ncias, das pagadorias, de tudo;<br \/>\nos hospitais apinhados, a imbecilidade vis\u00edvel dos generais \u2013<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para aumentar<br \/>\no respeito pelo regime autocr\u00e1tico. Al\u00e9m disso, o pa\u00eds<br \/>\nem que operam \u00e9 um ninho de republicanos, de socialistas, de descontentes.<br \/>\nBelgrado, Bucareste, etc.\u00bb, fervilham de esp\u00edritos revolucion\u00e1rios:<br \/>\no contacto com esse mundo, com a multid\u00e3o de correspondentes, de jornalistas,<br \/>\na leitura mais ass\u00eddua dos peri\u00f3dicos, etc., s\u00e3o outras<br \/>\ntantas ocasi\u00f5es de fazer no esp\u00edrito dessa mocidade militar<br \/>\num lento trabalho de oposi\u00e7\u00e3o ao regime que os governa t\u00e3o<br \/>\nmal! E esta classe en\u00e9rgica voltaria \u00e0 R\u00fassia cheia de<br \/>\nesperan\u00e7as de emancipa\u00e7\u00f5es e de ideias de democracia.<\/p>\n<p>Talvez as pessoas que me l\u00eaem creiam que isto s\u00e3o hip\u00f3teses<br \/>\nfantasmag\u00f3ricas. Pois bem, que me expliquem ent\u00e3o este facto,<br \/>\nque v\u00e1rios correspondentes ingleses testemunham. H\u00e1 semanas<br \/>\ndava-se num teatro de Bucareste uma representa\u00e7\u00e3o a que assistiu<br \/>\ngrande n\u00famero de oficiais. Uma actriz francesa tinha que dizer uma<br \/>\ncan\u00e7\u00e3o num dos actos da pe\u00e7a: no momento em que a orquestra<br \/>\npreludiava e ela ia gorjear o seu couplet, uma voz gritou: \u2013 A Marselhesa.<br \/>\nA Marselhesa! E imediatamente, numerosos oficiais russos, fardados, esqueceram-se,<br \/>\ngritando com frenesi: \u2013 A Marselhesa, A Marselhesa! Ora justamente,<br \/>\nA Marselhesa \u00e9 proibida em Bucareste. Grande embara\u00e7o nos bastidores.<br \/>\nA mocidade militar berrava, uivava, gania: \u2013 A Marselhesa, A Marselhesa!<br \/>\nAlguns bancos come\u00e7avam a perder os p\u00e9s e as travessas. O chefe<br \/>\nda orquestra, assustado, fez um sinal: A Marselhesa rompeu, a actriz segue<br \/>\ncantando com grande vigor e os oficiais, delirantes, fazem uma ova\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 cantora\u2013e \u00e0 cantiga! No outro dia o teatro foi fechado<br \/>\na pedido do gr\u00e3o-duque Nicolau! As c\u00e2maras encerraram-se sem<br \/>\nter feito nada de glorioso: e, a respeito de c\u00e2maras e de constitucionalismo,<br \/>\ndeixem-me contar-lhes o caso da elei\u00e7\u00e3o de Lord Burghley, que<br \/>\n\u00e9 um exemplo curioso do valor que tem em Inglaterra a representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nparlamentar. E mais uma ilus\u00e3o a perder sobre esta pobre Inglaterra!<br \/>\nO circulo de Northamptonshire fica vago pela morte do ministro da Marinha,<br \/>\nMr. Ward Hunt. No c\u00edrculo, um dos grandes personagens \u00e9 o marqu\u00eas<br \/>\nde Exeter \u2013 o qual, nesta circunst\u00e2ncia, tratou de fazer nomear,<br \/>\nsegundo a tradi\u00e7\u00e3o das velhas fam\u00edlias inglesas, seu<br \/>\nfilho primog\u00e9nito, Lord Burghley. Os influentes do circulo (os influentes<br \/>\nconservadores, naturalmente) aplaudiram a escolha: n\u00e3o trataram de<br \/>\nsaber se Lord Burghley tinha aptid\u00f5es, pr\u00e1tica ou conhecimento<br \/>\nqualquer das coisas p\u00fablicas; era um lorde, filho de um pai conservador,<br \/>\nrico, deveria possuir um dia grandes propriedades no circulo, podia votar<br \/>\n\u2013 era o que bastava! Quer, por\u00e9m, a etiqueta eleitoral que o<br \/>\ncandidato fa\u00e7a um discurso de profiss\u00e3o de f\u00e9 aos seus<br \/>\neleitores nas v\u00e9speras de elei\u00e7\u00e3o. Sucede tamb\u00e9n<br \/>\nque Lord Burghley \u00e9 um rapaz de vinte e oito anos, foi militar e at\u00e9<br \/>\nagora a sua ocupa\u00e7\u00e3o tem sido valsar, folgar, ca\u00e7ar e<br \/>\ncumprir os deveres gentis de um janota de Londres.<\/p>\n<p>Podia-se, pois, recear que o seu discurso aos eleitores n\u00e3o tivesse<br \/>\nnem uma grande altura pol\u00edtica, nem um grande valor orat\u00f3rio:<br \/>\nmas, realmente, n\u00e3o se supunha que o mancebo pudesse juntar numa ora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um quarto de hora tantas coisas singulares. Come\u00e7ou este mo\u00e7o<br \/>\npor dizer \u2013 \u00abque realmente n\u00e3o entendia nada, mas absolutamente<br \/>\nnada, a respeito de pol\u00edtica! Que os seus princ\u00edpios n\u00e3o<br \/>\nimportavam tamb\u00e9m, porque os que lhe queriam bem votariam por ele,<br \/>\nsem fazer caso dos princ\u00edpios!\u00bb Depois deste ex\u00f3rdio,<br \/>\no candidato deu a sua opini\u00e3o a respeito da quest\u00e3o do Oriente,<br \/>\ne exprimiu-se assim: \u00abEnquanto \u00e0 quest\u00e3o do Oriente e<br \/>\nse a Inglaterra deve fazer guerra, parece-me que a maior parte dos que me<br \/>\nescutam t\u00eam amigos no ex\u00e9rcito e n\u00e3o gostariam de saber<br \/>\nque esses amigos tinham tido os narizes rachados, ou as orelhas cortadas;<br \/>\npor mim\u00bb, exclamou, \u00abse h\u00e1 uma coisa a que eu ponha objec\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 a que me esborrachem o nariz ou que me cortem as orelhas\u00bb\u00bb<br \/>\nQue lhes parece\u00bb? Mas a\u00ed vai o melhor: Um eleitor ent\u00e3o<br \/>\nfez-lhe v\u00e1rias perguntas a respeito das suas ideias sobre a administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nlocal: o nobre lorde fitou-o e respondeu at\u00f3nito: \u00abAdministra\u00e7\u00e3o<br \/>\nlocal\u00bb? \u00c9 a primeira vez que ou\u00e7o falar em semelhante<br \/>\ncoisa!\u00bb Gargalhada estridente. O mancebo enfurece-se e grita \u00abque<br \/>\nn\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de saber nada a respeito dessa trapalhada,<br \/>\nporque foi tomado de surpresa nesta elei\u00e7\u00e3o e s\u00f3 teve<br \/>\num dia para decorar alguma coisa!\u00bb \u2013 Basta! Basta! \u2013 gritaram<br \/>\nalguns.<\/p>\n<p>\u2013 Tamb\u00e9m me parece que basta, porque realmente estou farto<br \/>\nda ma\u00e7ada! \u2013 exclamou o elegante lorde\u00bb No dia seguinte,<br \/>\nos influentes do c\u00edrculo publicaram a seguinte extraordin\u00e1ria<br \/>\ndeclara\u00e7\u00e3o, de que dou um resumo:<\/p>\n<p>\u00abQue sentiam muito ter aconselhado Lord Burghley a fazer um discurso,<br \/>\nporque, tendo sua senhoria tido muito pouco tempo para se preparar para discuss\u00f5es<br \/>\npol\u00edticas, n\u00e3o pudera responder decentemente \u00e0s perguntas<br \/>\nque lhe tinham sido dirigidas pelos principais eleitores. Mas que afirmavam<br \/>\nque sua senhoria daria um excelente deputado!\u00bb.<\/p>\n<p>Isto parece fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>Os amigos do candidato liberal estavam radiosos; era imposs\u00edvel que<br \/>\ndepois daquele discurso, em que Lord Burghley se declarou, ingenuamente, idiota,<br \/>\nsua senhoria tivesse um voto, n\u00e3o contando com o seu! N\u00e3o se<br \/>\npodia realmente supor que um dos c\u00edrculos mais ricos, mais importantes,<br \/>\nmais progressivos da Inglaterra, que at\u00e9 a\u00ed fora representado<br \/>\npela alta capacidade de Mr. Ward Hunt, o ministro da Marinha, mandasse ao<br \/>\nparlamento um sujeito \u2013 que \u00abnunca ouviu falar de semelhante coisa\u00bb,<br \/>\nreferindo-se \u00e0 administra\u00e7\u00e3o local. Pois bem: dada a<br \/>\nvota\u00e7\u00e3o, verificou-se que Lord Burghley era deputado por uma<br \/>\nmaioria de mil e quinhentos votos! Os jornais dizem, com raz\u00e3o, que<br \/>\nisto faz desesperar de tudo. Porque enfim que raz\u00e3o tiveram para preferir<br \/>\naquele est\u00fardio imbecil ao seu opositor, um homem instru\u00eddo,<br \/>\ndigno, com uma educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e uma pr\u00e1tica<br \/>\nadministrativa? A raz\u00e3o decr\u00e9pita, obsoleta, feudal \u2013<br \/>\nde que Lord Burghley \u00e9 um lorde, filho de lorde, da antiga fam\u00edlia<br \/>\nCecil, milion\u00e1rio, propriet\u00e1rio&#8230; e foram levados pelo preju\u00edzo<br \/>\ntradicional, que lhes fez admirar, venerar, servir e preferir a tudo aquela<br \/>\nfam\u00edlia ilustre que reina no condado e que lhes faz a honra de lhes<br \/>\naceitar uma renda enorme em troco da licen\u00e7a que lhes outorga de lavrarem<br \/>\na terra e de lhe mandarem as melhores frutas ao castelo!&#8230; Que o lorde seja<br \/>\nest\u00fapido, infame, devasso, que importa\u00bb? \u00c9 o lorde.<\/p>\n<p>Como tal, \u00e9 ele que deve administrar, ser deputado, general e almirante.\u00bb.<br \/>\nE quando se lhe fala em administra\u00e7\u00e3o local, nada mais natural<br \/>\nque ele encolha os ombros e declare que nunca ouviu falar em semelhante coisa!&#8230;<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o\u00bb \u00c9 o lorde!<br \/>\nUm processo instaurado contra tr\u00eas agentes de policia, implicados numa<br \/>\ngrande fraude financeira e acusados de terem feito escapar um certo n\u00famero<br \/>\nde fals\u00e1rios not\u00e1veis, tem chamado as aten\u00e7\u00f5es<br \/>\ncr\u00edticas para a organiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia inglesa.<br \/>\nE reconhece-se com melancolia que, neste ponto, a Inglaterra est\u00e1 muito<br \/>\nabaixo, como sistema e como pessoal, das na\u00e7\u00f5es continentais.<\/p>\n<p>Os agentes da policia (detectives) s\u00e3o decerto suficientes, como<br \/>\nestrat\u00e9gia e como finura para capturar o ladr\u00e3o vulgar, bronco<br \/>\ne assustado, que abre com chave falsa uma porta traseira ou vasculha as algibeiras<br \/>\nde um sujeito distra\u00eddo: mas desde que se trata de um criminoso astuto,<br \/>\ncom meios, vastas rela\u00e7\u00f5es, inventivo e expedito, o detective<br \/>\nactual \u00e9 invariavelmente logrado.<\/p>\n<p>Isto prov\u00e9m de que s\u00e3o escolhidos sem educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA policia \u00e9 uma ci\u00eancia que devia ter a sua aprendizagem, os<br \/>\nseus comp\u00eandios, a sua pr\u00e1tica. Mas aqui tudo o que se exige<br \/>\nnum detective \u00e9 que ele conhe\u00e7a bem Londres e que tenha uma<br \/>\ncerta coragem; ora os grandes ladr\u00f5es conhecem Londres ainda melhor<br \/>\ne s\u00e3o, por profiss\u00e3o, mais destemidos! O perigo d\u00e1lhes<br \/>\na inven\u00e7\u00e3o, a ideia, a fa\u00edsca; e enquanto o detective<br \/>\nvai farejando e seguindo antiquados e rotineiros meios de ca\u00e7a (que<br \/>\nos criminosos sabem de cor e que evitam a rir) o p\u00e1ssaro desaparece.<br \/>\nEm Fran\u00e7a, na \u00c1ustria, na It\u00e1lia, a pol\u00edcia \u00e9<br \/>\ncomposta de homens que recebem na prefeitura uma educa\u00e7\u00e3o demorada,<br \/>\nque trabalham ao principio sob a direc\u00e7\u00e3o de chefes h\u00e1beis<br \/>\ne que se v\u00e3o assim iniciando lentamente nas t\u00e1cticas, nas regras,<br \/>\nnos segredos, nas inven\u00e7\u00f5es recentes da profiss\u00e3o: ganham<br \/>\ndeste modo um tacto, um h\u00e1bito de expediente r\u00e1pido, um faro,<br \/>\num esp\u00edrito de intriga e de enredo, uma percep\u00e7\u00e3o repentina,<br \/>\num talento inventivo, que os tornam tem\u00edveis.<\/p>\n<p>Enquanto ao pol\u00edcia ordin\u00e1rio, o policeman, que vigia a rua,<br \/>\npode dizer-se que em Inglaterra, pouco a pouco, um sistema errado tem-nos<br \/>\ntornado in\u00fateis para tudo que n\u00e3o seja policiar o movimento<br \/>\ndas ruas, dar indica\u00e7\u00f5es a quem n\u00e3o conhece a cidade<br \/>\ne acompanhar os b\u00eabados mais sonolentos. N\u00e3o se lhes pe\u00e7a<br \/>\nmais nada. Isto prov\u00e9m de que ultimamente todos os comiss\u00e1rios<br \/>\ne chefes de policia s\u00e3o antigos oficiais do ex\u00e9rcito; e o seu<br \/>\nprimeiro cuidado \u00e9, por consequ\u00eancia, com o h\u00e1bito do<br \/>\nregimento, dar \u00e0 for\u00e7a policial. \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\num aspecto militar\u00bb Escolhem os homens n\u00e3o pela sua aptid\u00e3o,<br \/>\nmas pela sua estatura. Contanto que sejam enormes, barbados, de movimentos<br \/>\nsecos, direitos como um poste e agranadeirados, n\u00e3o se lhes reclama<br \/>\nmais nada\u00bb Fardam-nos, ensinam-lhes a marchar com tesura e entregamlhes<br \/>\na protec\u00e7\u00e3o da cidade. Isto explica porque se v\u00ea a cada<br \/>\nesquina de Londres um policeman colossal, herc\u00faleo, im\u00f3vel,<br \/>\nrolando em roda olhares severos, e na esquina oposta, risonho, um pickpocket<br \/>\n\u2013 \u00e9 que se procurou um tambor-mor e n\u00e3o um h\u00e1bil.<\/p>\n<p>Os comiss\u00e1rios t\u00eam orgulho nestas colec\u00e7\u00f5es de<br \/>\ncorpanzis, fazem manobras a desfilar a dois de fundo, e no entanto o cidad\u00e3o<br \/>\n\u00e9 roubado e assassinado com um doce sossego de fac\u00ednora.<\/p>\n<p>\u00c9 que estes gigantes s\u00e3o ordinariamente est\u00fapidos,<br \/>\ncomo todos os gigantes. Naquela imensa massa de m\u00fasculos e osso, h\u00e1<br \/>\nl\u00e1 no alto, num canto, um bocadinho de miolos, bastante para que ele<br \/>\nsaiba distinguir o nome das ruas. De resto, for\u00e7a de bra\u00e7o,<br \/>\ns\u00e9rio! Se se trata de levantas um b\u00eabado, bem! Agarram nele,<br \/>\ncomo numa pele, metem-no debaixo do bra\u00e7o e v\u00e3o a marche-marche;<br \/>\nmas se se trata de descobrir um crime, boas noites! O gigante, a quem se pede<br \/>\num esfor\u00e7o do intelecto, arregala os olhos e baba-se! O herdeiro presuntivo<br \/>\ndo herdeiro presuntivo, isto \u00e9, o filho mais velho do pr\u00edncipe<br \/>\nde Gales, est\u00e1 perigosamente doente h\u00e1 semanas, com uma febre<br \/>\ntif\u00f3ide. Recentemente uma reca\u00edda tem-no colocado em perigo.<br \/>\nO que me espanta \u00e9 a indiferen\u00e7a gelada que o p\u00fablico<br \/>\ningl\u00eas, sempre t\u00e3o s\u00f4frego de fazer espalhafato com o seu<br \/>\namor \u00e0 dinastia, tem mostrado por esta infeliz crian\u00e7a. Nem<br \/>\numa linha orat\u00f3ria nos jornais, nem uma express\u00e3o dedicada de<br \/>\nsimpatia, nada! Apenas, nas not\u00edcias da corte, as quatro palavras secas<br \/>\nque o declaram mal. N\u00e3o me espanta menos ler logo, mais abaixo, nessas<br \/>\nnot\u00edcias, as ca\u00e7adas, os jantares, as corridas de que o pr\u00edncipe<br \/>\nde Gales \u00e9 o centro glorioso: enfim, a realeza tem certas escravid\u00f5es<br \/>\nde etiqueta, que n\u00e3o deixa tempo aos deveres da paternidade, ou \u00e0s<br \/>\ninquieta\u00e7\u00f5es do sentimento.<\/p>\n<p>Mas porque \u00e9 que, na ocasi\u00e3o em que o pr\u00edncipe est\u00e1<br \/>\npior, a princesa de Gales, sua m\u00e3e, uma senhora de t\u00e3o altas<br \/>\nvirtudes, um car\u00e1cter t\u00e3o nobre, t\u00e3o dedicado, vai para<br \/>\no Teatro do Criterion ouvir as pilh\u00e9rias de uma farsa picante \u2013<br \/>\nos Domin\u00f3s Cor-de-Rosa. Decerto n\u00e3o \u00e9 por sua vontade;<br \/>\na princesa de Gales tem as qualidades antigas da m\u00e3e de fam\u00edlia<br \/>\nromana: o seu desejo seria criar seus filhos e fiar o linho. Mas porque vai<br \/>\nent\u00e3o ao Criterion? Ingleses, a quem tenho feito esta pergunta, encolhem<br \/>\nmisteriosamente os ombros e murmuram: \u00abA etiqueta!\u00bb Nenhuma novidade<br \/>\nliter\u00e1ria, a n\u00e3o ser o livro de Gallenga, o correspondente do<br \/>\nTimes em Constantinopla, sobre alguns dos epis\u00f3dios mais caracter\u00edsticos<br \/>\nda quest\u00e3o do Oriente. Este livro, que \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua correspond\u00eancia, tem um lado curioso: mostra o poder, em Inglaterra,<br \/>\nde um correspondente de jornal. Gallenga convenceu-se em Constantinopla que<br \/>\no embaixador ingl\u00eas, Sir G. Elliot, n\u00e3o representava com vanta-gem<br \/>\nos interesses brit\u00e2nicos na Turquia. Apenas formou esta ideia, dirigiu-se<br \/>\n\u00e0 embaixada e intimou o embaixador para mudar rapidamente uma pol\u00edtica<br \/>\nque ele, correspondente do Times, julgava nociva.<\/p>\n<p>O embaixador n\u00e3o o mandou expulsar pelo mordomo, porque isso seria<br \/>\ninsultar o Times, o que equivale a ofender a City, o que significa injuriar<br \/>\na Inglaterra, mas contentou-se em resmungar monoss\u00edlabos com os olhos<br \/>\nfitos obstinadamente no fog\u00e3o, que, sendo Ver\u00e3o, estava apagado.<br \/>\nGallenga, como ele diz, escandalizou-se com aquela falta de aten\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0s suas observa\u00e7\u00f5es e com aquele costume rid\u00edculo<br \/>\nde olhar para um fog\u00e3o apagado. Deixou a embaixada, veio para o seu<br \/>\nhotel e come\u00e7ou aquela s\u00e9rie de correspond\u00eancias, que<br \/>\nrevolveram profundamente a opini\u00e3o e obrigaram o Governo a demitir<br \/>\no embaixador! Gallenga, agora, no seu livro, conta esta curiosa campanha,<br \/>\ntodo enlevado num doce j\u00fabilo! Feliz Gallenga! Outro dia entrei por<br \/>\nacaso no primeiro tribunal de Londres onde o lord chief justice, o primeiro<br \/>\nmagistrado da Inglaterra, estava resumindo um caso de tentativa de assassinato.<br \/>\nO r\u00e9u, um homem grosso, de barba amarelada, foi condenado a trabalhos<br \/>\np\u00fablicos por toda a vida; depois de ler a senten\u00e7a, o lord chief<br \/>\njustice parou um momento, fitou o r\u00e9u e, com aquele largo e pomposo<br \/>\ngesto que todo Londres conhece, exclamou: \u2013 A\u00ed est\u00e1! Vivereis<br \/>\nem servid\u00e3o penal! N\u00e3o tivestes a intelig\u00eancia de prever<br \/>\nas consequ\u00eancias que vos traria a vossa conduta, e \u00e9 deplor\u00e1vel<br \/>\nque n\u00e3o tiv\u00e9sseis a coragem de deixar este mundo antes do que<br \/>\nincorrer nesta pena infamante! Se isto n\u00e3o \u00e9 descompor um r\u00e9u<br \/>\npor ele se n\u00e3o ter suicidado, ent\u00e3o n\u00e3o sei o que \u00e9.<br \/>\nFiquei at\u00f3nito. Meditem bem nisto: censurar o r\u00e9u, asperamente,<br \/>\npor ele n\u00e3o ter tomado ars\u00e9nico, ou se n\u00e3o ter enforcado<br \/>\ncom a gravata! N\u00e3o, realmente \u00e9 das coisas mais singulares de<br \/>\nque podem rezar os anais da magistratura europeia! Not\u00edcias do amigo<br \/>\nPongo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 \u00f3ptimo. Como parecia aborrecer-se bastante, os s\u00e1bios,<br \/>\nque o vigiam zelosamente, resolveram cerc\u00e1-lo de alguma sociedade.<br \/>\nVieram dos jardins zool\u00f3gicos tr\u00eas chimpanz\u00e9s para lhe<br \/>\nfazerem \u2013 ia quase a dizer, a partida de whist \u2013, para lhe fazerem<br \/>\ncompanhia ao jantar e falarem das queridas florestas de \u00c1frica. Um<br \/>\ndos chimpanz\u00e9s \u00e9 engra\u00e7ado como um clown e estroina como<br \/>\num lorde: desde a sua chegada, a casa do amigo Pongo ressoa de gritos, vacila<br \/>\ncom os pulos, vibra de toda a \u00e1gil, espirituosa, ladina inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo faceto chimpanz\u00e9. Pongo aprecia esta vivacidade, e tem por ele uma<br \/>\nestima reflectida e protectora: faz em geral, aos seus tr\u00eas h\u00f3spedes,<br \/>\nas honras da casa com benevol\u00eancia, mas as delicadezas mais especiais<br \/>\ns\u00e3o para esse chimpanz\u00e9: se lhe d\u00e3o charutos, oferece-lhe<br \/>\nsempre o maior; h\u00e1 dias deram-lhe um chap\u00e9u e o excelente Pongo<br \/>\nfoi logo enterr\u00e1-lo na c\u00f3mica cabe\u00e7a do seu amigo, recuando<br \/>\num pouco, depois de saborear a pilh\u00e9ria daquela toilette humana. Quando<br \/>\nbebe, passa-lhe logo em seguida o copo, gravemente, com um sorriso. Agora<br \/>\numa coisa extraordin\u00e1ria: Mr.<\/p>\n<p>Pongo detesta Darwin! Darwin \u00e9, como sabem (\u00e9 quase rid\u00edculo<br \/>\nlembr\u00e1-lo), o grande fil\u00f3sofo e naturalista que primeiro estabeleceu<br \/>\na teoria da descend\u00eancia do homem, e declarou-o nascido directamente<br \/>\ndo macaco. Parecia natural que Pongo, vendo pela primeira vez o s\u00e1bio<br \/>\nilustre que lhe deu uma t\u00e3o alta posi\u00e7\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfazendo-o pai do g\u00e9nero humano, lhe daria ao menos um shakehands cordial.<br \/>\nPois n\u00e3o senhor! Detesta-o. Com uma ingratid\u00e3o africana, apenas<br \/>\no avista, franze a testa, arreganha os dentes, fita-o, volta-lhe as costas.<br \/>\nE todavia se h\u00e1 uma bela e doce fisionomia, \u00e9 a de Darwin com<br \/>\na sua longa barba branca! A amizade de Pongo \u00e9 pelo ilustre professor<br \/>\nTyndall: quando o v\u00ea, atira-se- lhe aos bra\u00e7os e, com uma ideia<br \/>\ninfame da limpeza do grande s\u00e1bio, come\u00e7a a cat\u00e1-lo com<br \/>\nfrenesi! E o que Tyndall ri! Comoveu-me, h\u00e1 dias, ver Darwin, e Tyndall,<br \/>\ne Fawcett, e outros s\u00e1bios famosos, honra e esplendor da humanidade,<br \/>\nvirem fazer a sua visita de amizade a este vener\u00e1vel av\u00f4 da ra\u00e7a<br \/>\nhumana! Mas francamente, a atitude do gorilha para com Darwin chocou-me. Estimo-o<br \/>\ntalvez menos. E a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o \u00e9 esta: Pongo<br \/>\nconhece que Darwin o declarou pai do homem: e Pongo, que j\u00e1 tem viajado<br \/>\nbastante, que esteve em Berlim, que conhece a popula\u00e7\u00e3o toda<br \/>\nde Londres, que tem feito observa\u00e7\u00f5es prolongadas sobre o homem,<br \/>\nest\u00e1 furioso com Darwin e com a sua teoria. \u00abO qu\u00ea!\u00bb,<br \/>\npensa ele; \u00abisto, este ser de chap\u00e9u alto e luneta no olho, que<br \/>\npaga um xelim para me vir ver, \u00e9 que \u00e9 o meu descendente? E<br \/>\na isto que Darwin chama um gorilha aperfei\u00e7oado? Mas esse s\u00e1bio<br \/>\nn\u00e3o tem ent\u00e3o escr\u00fapulo em lan\u00e7ar uma n\u00f3doa<br \/>\ninfamante na respeit\u00e1vel classe dos gorilhas? Esse s\u00e1bio \u00e9<br \/>\num mau homem!\u00bb E volta-lhe as costas. A raz\u00e3o \u00e9 clara:<br \/>\nele n\u00e3o o considera um observador profundo, acha-o um reles caluniador!<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII &#8211; Londres, 1 de Setembro de 1877<\/h2>\n<p>H\u00e1 oito dias que dura a batalha de Chipka. Pela tenacidade her\u00f3ica,<br \/>\n\u00e9, creio, o maior duelo militar dos tempos modernos. Chipka \u00e9<br \/>\numa das passagens, uma das portas abertas naquela grande parede dos Balc\u00e3s,<br \/>\nque defende a Turquia turca. N\u00e3o \u00e9 propriamente um desfiladeiro,<br \/>\ncomo a Porta de Ferro, ou os outros passes; \u00e9 um vale formado pela<br \/>\ninterrup\u00e7\u00e3o da cordilheira, de quase cem milhas de largura:<br \/>\nn\u00e3o um vale plano, docemente cavado e por toda a parte pratic\u00e1vel,<br \/>\nmas um vale rugoso com colinas \u00e1speras, precip\u00edcios, rochas<br \/>\ne, a espa\u00e7os, espessamente arborizado. Foi por ali que o general Gurko<br \/>\npassou, h\u00e1 um m\u00eas, triunfantemente, na sua marcha para Constantinopla!<br \/>\nEssa aventura, t\u00e3o interessante pelo romanesco como rid\u00edcula<br \/>\npela estrat\u00e9gia, falhou; mas os Russos conservaram-se senhores da passagem,<br \/>\ne tinham ali uma guarni\u00e7\u00e3o de tr\u00eas mil homens, Foi contra<br \/>\nesta fraca for\u00e7a, bem entrincheirada todavia, que Suleiman Pax\u00e1<br \/>\narremessou todo o seu ex\u00e9rcito. Os Russos foram logo poderosamente<br \/>\nrefor\u00e7ados, e desde ent\u00e3o uma luta col\u00e9rica, desesperada,<br \/>\nher\u00f3ica, redemoinha por todo o vale, sem que os Russos tenham sido<br \/>\ndesalojados, sem que os Turcos hajam enfraquecido por um momento a viol\u00eancia<br \/>\ndo ataque! Batem-se com fuzilaria, com artilharia, a baioneta, desde os primeiros<br \/>\nclar\u00f5es da madrugada; e, como as noites s\u00e3o de luar \u2013<br \/>\no claro luar do Sul da Europa \u2013, o duelo n\u00e3o cessa com a noite.<br \/>\nNos primeiros dois dias, as tropas n\u00e3o dormiram, nem cozinharam. Agora<br \/>\nos regimentos revezam-se, e como os dois lados est\u00e3o constantemente<br \/>\nrecebendo refor\u00e7os, o combate sustenta-se numa f\u00faria crescente.<\/p>\n<p>Para qu\u00ea semelhante luta, pergunta-se com espanto. Compreende-se,<br \/>\nat\u00e9 certo ponto, porque os Russos defendem Chipka: conquistaram aquela<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se querem deixar expulsar sem resist\u00eancia,<br \/>\n\u00e9 natural; abandon\u00e1-la sem luta a Suleiman Pax\u00e1 era uma<br \/>\nprova de desalento, que faria nas tropas russas, j\u00e1 desanimadas, a<br \/>\nimpress\u00e3o repetida de uma nova derrota.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Chipka domina toda a regi\u00e3o de Grabova, onde vivem<br \/>\nnas aldeias crist\u00e3s alguns milhares de b\u00falgaros; estes interessantes<br \/>\neslavos, quando viram os Russos senhores de Chipka e se julgaram implicitamente<br \/>\nvitoriosos, apressaram-se a destruir a popula\u00e7\u00e3o turca pelo<br \/>\nprocesso sum\u00e1rio de queimar os homens em fogueiras, violar as mulheres<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 morte e degolar corajosamente as crian\u00e7as. Ora<br \/>\nse os Russos se retiram de Chipka e os Turcos a ocupam, tornando-se senhores<br \/>\nda regi\u00e3o, \u00e9 evidente que far\u00e3o passar aos b\u00falgaros<br \/>\num quarto de hora desagrad\u00e1vel, o que, no fundo, \u00e9 odiosamente<br \/>\njusto. Portanto, os Russos, sustentando-se em Chipka, procuram salvar os b\u00falgaros<br \/>\ndesta temerosa repres\u00e1lia; se tanto \u00e9 que esta considera\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumanit\u00e1ria \u00e9 bastante para explicar a resist\u00eancia russa.<\/p>\n<p>Mas, os amigos dos Russos explicam-na assim, e e lisonjeiro para a humanidade<br \/>\nque essa seja a raz\u00e3o exacta.<\/p>\n<p>Mas porque atacam os Turcos a passagem de Chipka? Que lhes importa que tr\u00eas<br \/>\nmil homens ocupem sem utilidade e sem vantagem aquele vale? Se Suleiman Pax\u00e1<br \/>\nse quer vir juntar do lado de c\u00e1 dos Balc\u00e3s com Osmand Pax\u00e1,<br \/>\nporque n\u00e3o atravessou por alguma das outras passagens que est\u00e3o<br \/>\nlivres, em lugar de escolher justamente aquela que os Russos ocupam? E se<br \/>\nn\u00e3o queria deixar atr\u00e1s de si aquele n\u00facleo de for\u00e7a<br \/>\ninimiga, porque n\u00e3o fez cercar as posi\u00e7\u00f5es russas em<br \/>\nlugar de as atacar? Quatro ou cinco mil turcos em redor de Chipka, bem fortificados<br \/>\ne ocupando as alturas, seriam bastantes para terem os Russos in\u00fateis<br \/>\ne fechados, como p\u00e1ssaros numa gaiola. Mas n\u00e3o; ataca Chipka<br \/>\ne perde j\u00e1 perto de vinte mil home_______________________________ns<br \/>\nnaquela tentativa insensata. Pergunta-se geralmente: porqu\u00ea? Eu estou<br \/>\nhabilitado a dar a minha interpreta\u00e7\u00e3o; n\u00e3o a garanto,<br \/>\nmas foi-me revelada por pessoa que est\u00e1 muito informada da pol\u00edtica<br \/>\nmi\u00fada e das intrigas de Constantinopla. Suleiman Pax\u00e1 atacou<br \/>\nChipka porque isso lhe foi ordenado pelo sult\u00e3o. Esta batalha monstruosa,<br \/>\nem que j\u00e1 morreram vinte mil turcos, n\u00e3o foi decidida num conselho<br \/>\nde guerra, foi resolvida no serralho. Desde que o general Gurko ocupou h\u00e1<br \/>\num m\u00eas Chipka, passando os Balc\u00e3s, entrando na Rom\u00e9lia<br \/>\ne fazendo pisar assim \u00e0s tropas russas o solo sagrado da Turquia turca,<br \/>\num terror pueril mas indomin\u00e1vel apossou-se do sult\u00e3o.<\/p>\n<p>Via j\u00e1 os Russos em Constantinopla, os seus pal\u00e1cios do B\u00f3sforo<br \/>\nsaqueados, o serralho disperso e vendido a retalho pelos mercados da P\u00e9rsia<br \/>\ne da Ar\u00e1bia, ele mesmo talvez prisioneiro na Sib\u00e9ria. Debalde<br \/>\no corpo diplom\u00e1tico e ministros o tranquilizavam: o seu terror crescia<br \/>\ntodos os dias, excitado pelo pavor das mulheres. Realmente \u00e9 dif\u00edcil<br \/>\nque um sult\u00e3o se conserve a sangue-frio, sentindo em roda de si os<br \/>\ngemidos de ang\u00fastia, os gritos de medo das suas tr\u00eas mil concubinas!<br \/>\nUm coro lacrimoso de mulheres solu\u00e7antes amolece o temperamento mais<br \/>\nresistente. Uma bela manh\u00e3 o sult\u00e3o declara que abandonava Constantinopla<br \/>\ne que se ia refugiar na \u00c1sia, em Brussa; esta resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ntinha-lhe sido inspirada por Mahmed Pax\u00e1, o seu favorito, um intrigante<br \/>\ntortuoso e covarde, que domina pelas mulheres e que representa na pol\u00edtica<br \/>\nturca o verdadeiro elemento asi\u00e1tico \u2013 a intriga do serralho.<br \/>\nOs ministros, o divan, ficaram aterrados com esta resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nfant\u00e1stica, e iam empregar talvez meios extremos de coer\u00e7\u00e3o,<br \/>\nquando a vit\u00f3ria de Plevna, a vit\u00f3ria de Lochta, a vit\u00f3ria<br \/>\ndo rio Lon, sobretudo a retirada do general Gurko, vieram dar um certo alento<br \/>\nao sult\u00e3o: desfizeram-se as malas momentaneamente; mas o serralho conservou<br \/>\num terror oculto daqueles tr\u00eas mil ou quatro mil homens que tinham ficado<br \/>\nem Chipka, que eram uma amea\u00e7a permanente, e com a m\u00e3o do inimigo<br \/>\nainda estendida para Constantinopla.<\/p>\n<p>\u00c0 maneira que os dias decorriam e que aquela for\u00e7a se ia mantendo<br \/>\nem Chipka, impass\u00edvel e teimosa, a inquieta\u00e7\u00e3o no serralho<br \/>\ncrescia. Chipka tomou-se um pesadelo: aqueles malditos regimentos estabelecidos<br \/>\n\u00e0s portas da Rom\u00e9lia e comendo tranquilamente o seu rancho traziam<br \/>\no pal\u00e1cio numa atroz irrita\u00e7\u00e3o nervosa. Porque se n\u00e3o<br \/>\niam tamb\u00e9m? Que faziam ali com os seus olhos azuis de eslavos fitos<br \/>\nem Constantinopla? Por fim, o sult\u00e3o e o serralho perdiam o sono, o<br \/>\napetite, o gozo tranquilo dos prazeres do amor. Aquilo n\u00e3o podia durar.<br \/>\nE uma manh\u00e3 o sult\u00e3o escrevia directamente a Suleiman: que fizesse<br \/>\ntodos os sacrif\u00edcios, abandonasse todos os planos, mas que lhe sacudisse<br \/>\naqueles russos de Chipka, para ele poder, enfim, dormir, comer e saborear<br \/>\nos encantos do sentimento.<\/p>\n<p>E ai est\u00e1 porque j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o vinte mil turcos<br \/>\n\u2013 para acalmar os nervos do sult\u00e3o! Esta batalha de Chipka deu<br \/>\nlugar ao maior feito jornal\u00edstico de que h\u00e1 mem\u00f3ria \u2013<br \/>\no telegrama do correspondente do Daily News, o c\u00e9lebre jornal de Londres.<\/p>\n<p>Este rapaz, porque tem apenas vinte e quatro anos, que se chama Forbes e<br \/>\nque j\u00e1 era ilustre por correspond\u00eancias admir\u00e1veis (telegrafadas),<br \/>\nsobretudo a que descrevia a passagem do Dan\u00fabio e a que contava a batalha<br \/>\nde Plevna, logo que soube que havia combate em Chipka e antevendo a import\u00e2ncia<br \/>\nda luta, partiu do quartel-general russo onde se achava e chegou, a marchas<br \/>\nfor\u00e7adas, a Chipka, no segundo dia de batalha: ali esteve tr\u00eas<br \/>\ndias tomando notas e estudando a situa\u00e7\u00e3o, ora a cavalo, ora<br \/>\nnas trincheiras, sempre no meio do fogo, at\u00e9 que adquiriu a no\u00e7\u00e3o<br \/>\nexacta da contenda; voltou sem descansar, rebentando cavalos, para o quartel-general<br \/>\nrusso; a\u00ed o czar interrogou-o, e foi ele o primeiro a dar detalhes<br \/>\nda batalha ao Estado-Maior; e, imediatamente, por meios que ele n\u00e3o<br \/>\nrevela, mas que constituem toda uma campanha, conseguiu mandar ao Daily News<br \/>\num telegrama de seis colunas e meia (como esta p\u00e1gina de Actualidade<br \/>\nem letra mi\u00fada) descrevendo o combate, e os seus epis\u00f3dios,<br \/>\ncom um vigor, um colorido, um realismo, que fazem deste telegrama uma maravilha<br \/>\nde informa\u00e7\u00e3o e um primor de literatura. Que diferen\u00e7a<br \/>\ndos magros e melanc\u00f3licos telegramas que a Ag\u00eancia Havas fornece,<br \/>\npor grosso, aos jornais de a\u00ed. Mas tamb\u00e9m n\u00f3s n\u00e3o<br \/>\ntiramos, como o Daily News, duzentos mil exemplares por dia! O processo feito<br \/>\na Gambetta \u00e9 aqui motivo de um espanto extremo. H\u00e1, todavia,<br \/>\nna cr\u00edtica dos jornais ingleses, conservadores e radicais, mais desd\u00e9m<br \/>\nque indigna\u00e7\u00e3o; o facto \u00e9 classificado com uma profus\u00e3o<br \/>\nde ep\u00edtetos infamantes, que se podem resumir neste: disparate idiota.<\/p>\n<p>Como! O Governo processa um homem pol\u00edtico por um discurso da mais<br \/>\nmoderada oposi\u00e7\u00e3o parlamentar, pronunciado numa reuni\u00e3o<br \/>\nparticular? Como! Tendo os jornais de Fran\u00e7a publicado por inteiro<br \/>\nou por extractos esse documento o Governo s\u00f3 processa a Rep\u00fablique<br \/>\nFran\u00e7aise? Como! Na v\u00e9spera das elei\u00e7\u00f5es, quando<br \/>\na sua prud\u00eancia devia procurar chamar todos os sufr\u00e1gios, irrita<br \/>\ne desespera o pa\u00eds por um acto t\u00e3o inconstitucional, alienando<br \/>\nde si as simpatias mais conservadoras? Como! Querendo aniquilar o radicalismo,<br \/>\nd\u00e1-lhe as honras de uma persegui\u00e7\u00e3o injusta, o que \u00e9<br \/>\no mesmo que criar-lhe uma propaganda gratuita? Como! Sendo-lhe indispens\u00e1vel<br \/>\np\u00f4r na sombra a influ\u00eancia de Gambetta, procura dar-lhe a maior<br \/>\ngl\u00f3ria e torn\u00e1-lo, pelo mart\u00edrio, quase augusto? Como!<br \/>\nDesejando abafar-lhe a voz, d\u00e1-lhe ocasi\u00e3o de fazer uma defesa<br \/>\nque ecoar\u00e1 em toda a Fran\u00e7a e em toda a Europa? Mas est\u00e3o<br \/>\nidiotas! O doutrinarismo de M. de Broglie emparveceu-o e o bonapartismo de<br \/>\nM. de Fourton ensandeceu-o. A\u00ed est\u00e1 como falam os jornais ingleses.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio por\u00e9m que estejam na verdade. M. de Broglie e M.<br \/>\nde Fourton s\u00e3o tudo menos tolos.<\/p>\n<p>Os tolos n\u00e3o s\u00e3o usualmente primeiros-ministros de Fran\u00e7a.<br \/>\nM. de Broglie e M. de Fourton s\u00e3o simplesmente l\u00f3gicos. Realmente<br \/>\no que pretendem eles? Impor \u00e0 Fran\u00e7a um governo militar, ditatorial,<br \/>\ndesp\u00f3tico, reaccion\u00e1rio e clerical, de que Mac Mahon seja o<br \/>\nDeus e eles seus profetas.<\/p>\n<p>Mas enquanto houver em Fran\u00e7a uma coisa que se chama a constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 for\u00e7oso, por mais M. de Broglie que se seja, governar dentro<br \/>\nda constitui\u00e7\u00e3o; pode-se torn\u00e1-la el\u00e1stica, interpret\u00e1-la<br \/>\ncom todas as subtilezas maquiav\u00e9licas e todas as tortuosidades jesu\u00edticas,<br \/>\nalargar-lhe as costuras, torc\u00ea-la at\u00e9 quase a quebrar, fazer-lhe<br \/>\nespremer as decis\u00f5es mais absurdas, viol\u00e1-la mesmo um pouco<br \/>\naqui e acol\u00e1, mas h\u00e1 uma coisa que se n\u00e3o pode fazer:<br \/>\n\u00e9 atir\u00e1-la para debaixo da mesa, para os pap\u00e9is sujos!<br \/>\nE enquanto a constitui\u00e7\u00e3o for a lei da Fran\u00e7a o Governo<br \/>\nn\u00e3o pode ser uma ditadura. Mas como se h\u00e1-de ent\u00e3o suprimir<br \/>\nesta constitui\u00e7\u00e3o atravancadora e impertinente? Por um golpe<br \/>\nde estado. E o motivo para um golpe de estado? H\u00e1 muitos, mas o melhor<br \/>\n\u2013 \u00e9 a insurrei\u00e7\u00e3o. E onde est\u00e1 a insurrei\u00e7\u00e3o?<br \/>\nProvoca-se. E por este declive l\u00f3gico que o Governo decidiu processar<br \/>\nGambetta. O que se pretende \u00e9 irritar os republicanos, at\u00e9 lhes<br \/>\nfazer perder a cabe\u00e7a e os levar \u00e0s barricadas. Para isso, um<br \/>\nprocesso como este de Gambetta, algumas viol\u00eancias mais, uma persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\nsistem\u00e1tica \u00e0 imprensa, meia d\u00fazia de actos bem inconstitucionais<br \/>\ne, pensam os homens ilustres da direita, \u00e9 imposs\u00edvel que Paris,<br \/>\nLi\u00e3o ou Marselha n\u00e3o saiam para a rua. E ent\u00e3o, dada<br \/>\na insurrei\u00e7\u00e3o, espantada a Fran\u00e7a, o Governo atira a<br \/>\nconstitui\u00e7\u00e3o pelos ares, assume a ditadura para salvar a ordem<br \/>\ne fez-se a escamotea\u00e7\u00e3o. \u00c9 este, parece-me, o fim do<br \/>\nGoverno. Somente, para lograr um franc\u00eas, n\u00e3o h\u00e1 como<br \/>\noutro franc\u00eas. E o franc\u00eas tem sobretudo a paix\u00e3o de lograr<br \/>\no Governo. Os republicanos sentem perfeitamente a que terreno o minist\u00e9rio<br \/>\nos quer chamar, e com uma virtude maliciosa conservam-se teimosamente na ordem,<br \/>\nembrulham-se na legalidade, abra\u00e7am-se sofregamente na constitui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE d\u00e1-se o espect\u00e1culo curioso de velhos conspiradores, insurrectos<br \/>\nde profiss\u00e3o, defendendo com grande pompa e com ardor a ordem, e o<br \/>\nminist\u00e9rio, composto de conservadores, fermentando tortuosamente a<br \/>\ninsurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E se este sistema continuar, o minist\u00e9rio ser\u00e1 logrado: pode<br \/>\nperseguir, irritar e vexar; os republicanos sorrir\u00e3o, cumprimentar\u00e3o<br \/>\ne volver\u00e3o olhos devotos. resignados, para a est\u00e1tua da lei;<br \/>\ne quando chegarem as elei\u00e7\u00f5es mandar\u00e3o, com bonomia,<br \/>\nquatro-centos deputados republicanos! E o minist\u00e9rio, n\u00e3o tendo<br \/>\npodido vencer pela insurrei\u00e7\u00e3o e n\u00e3o podendo viver pela<br \/>\nlegalidade, tem de se dobrar ou de se safar! E aqui est\u00e1 o que \u00e9<br \/>\numa alta com\u00e9dia pol\u00edtica. Esta esta\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\npara tudo, em Inglaterra, um tempo de f\u00e9rias. A gente rica, que \u00e9<br \/>\na que faz tudo em Inglaterra, n\u00e3o faz nada neste m\u00eas sen\u00e3o<br \/>\nca\u00e7ar, viajar no continente, banhar-se no mar salgado, ou bordejar<br \/>\nnos iates.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edtica, n\u00e3o se escreve, n\u00e3o<br \/>\nse inventa, n\u00e3o se intriga. O bem e o mal est\u00e3o em f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Londres est\u00e1 absolutamente deserta, isto \u00e9, dos seus quatro<br \/>\nmilh\u00f5es de habitantes, apenas lhe restam tr\u00eas milh\u00f5es<br \/>\nnovecentos e cinquenta mil. Mas justamente os cinquenta mil que faltam \u00e9<br \/>\nque s\u00e3o Londres; s\u00e3o os pol\u00edticos, os estadistas, os<br \/>\nromancistas, os pintores, os fil\u00f3sofos, os inventores, os elegantes,<br \/>\nos cantores, as cocotes e os lordes. O que resta \u00e9 a vil e escura multid\u00e3o,<br \/>\nque redemoinha na City labutando e traficando. N\u00e3o conta. Os pal\u00e1cios<br \/>\nest\u00e3o fechados, o parlamento cerrado, as \u00f3peras mudas, as galerias<br \/>\ndesertas, os ateliers abandonados, os clubes solit\u00e1rios, as escolas<br \/>\nem f\u00e9rias, a imprensa ociosa, os parques l\u00fagubres, a vida dispersa.<br \/>\nN\u00e3o tenho por isso nenhum livro a criticar, nenhum esc\u00e2ndalo<br \/>\na contar, nenhuma obra de arte a celebrar. Nada, nada, nada! \u00c9 nesta<br \/>\nociosidade e nesta melanc\u00f3lica escassez que \u00e0s vezes me entretenho<br \/>\na seguir o novo divertimento que tem por nome os casos dif\u00edceis. Este<br \/>\nexerc\u00edcio do intelecto, que \u00e9 feito por meio dos jornais, n\u00e3o<br \/>\nos grandes jornais pol\u00edticos e liter\u00e1rios mas os pequenos jornais<br \/>\nde esc\u00e2ndalo, de mexerico, de pilh\u00e9ria, ou de curiosidade, este<br \/>\ndivertimento, digo, consiste no seguinte: o jornal prop\u00f5e aos seus<br \/>\nleitores a solu\u00e7\u00e3o de um caso dif\u00edcil da vida e na semana<br \/>\nseguinte publica a resposta obtida. \u00c9 muito interessante ler estas<br \/>\nopini\u00f5es, que formam positivamente um guia social nas dificuldades<br \/>\nhumanas. Assim, por exemplo, h\u00e1 dias um destes, o Vanity, propunha<br \/>\no seguinte caso: Miss A. recebe no mesmo dia duas propostas de casamento:<br \/>\numa de Jo\u00e3o, que ela ama e que \u00e9 pobre, outra de Paulo, que<br \/>\nela n\u00e3o ama e que \u00e9 muito rico, bastante agrad\u00e1vel e<br \/>\nsimp\u00e1tico, e por quem ela tem uma estima completa. Que deve fazer Miss<br \/>\nA.? Vamos l\u00e1, qual \u00e9 a opini\u00e3o dos leitores da Actualidade?<br \/>\nHem? Querem saber a opini\u00e3o em Inglaterra? O jornal fez a pergunta<br \/>\na semana passada, s\u00e1bado. Pois bem: imediatamente, de todos os pontos<br \/>\nde Inglaterra, das vilas e das cidades, de nobres e de plebeus, pelo tel\u00e9grafo<br \/>\ne pelo correio, vieram centenares, milhares, dezenas de milhares de respostas!<br \/>\nE todas a mesma.<\/p>\n<p>Qual? Esta: \u00abQue case com Paulo e que se arranje depois com Jo\u00e3o!\u00bb<br \/>\nO Diabo, no inferno, deu uivos de prazer com esta decis\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nun\u00e2nime.<\/p>\n<p>Outro jornal apresentava h\u00e1 dias um caso dif\u00edcil, que eu proponho<br \/>\nigualmente aos leitores da Actualidade, pedindo que enviem ao jornal as suas<br \/>\nrespostas e suplicando \u00e0 redac\u00e7\u00e3o que as publique integralmente.<\/p>\n<p>\u00c9 um caso interessante, que nos pode acontecer a todos, e de uma<br \/>\nsolu\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Eu modifico-o um pouco, porque tal como<br \/>\naparece no jornal ingl\u00eas n\u00e3o seria bem compreendido em Portugal.<br \/>\nEi-lo: A. convida para jantar na sua casa de rapaz solteiro o amigo Jo\u00e3o<br \/>\ne o amigo Pedro, para as seis horas. As seis horas menos um quarto o amigo<br \/>\nJo\u00e3o chega e conta a A. que nessa manh\u00e3 teve uma quest\u00e3o<br \/>\nseri\u00edssima com o amigo Pedro, que a honra n\u00e3o lhes permite uma<br \/>\nreconcilia\u00e7\u00e3o e que, se se encontrarem, \u00e9 para se dilacerarem.<br \/>\nNeste momento d\u00e3o seis horas e entra o amigo Pedro. Que deve fazer<br \/>\no infeliz A.? P. S. \u2013 Um amigo meu que se interessa vivamente pelos<br \/>\ncasos dif\u00edceis corre, neste momento, todo alvoro\u00e7ado, a comunicar-me<br \/>\numa resposta, uma nova solu\u00e7\u00e3o dada ao caso de Miss A.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o profunda, t\u00e3o profundamente moderna, que a transcrevo<br \/>\nintegralmente: \u00abSe Miss A. ama Jo\u00e3o, que \u00e9 pobre, e \u00e9<br \/>\namada por Paulo, que \u00e9 rico (reparem bem!) \u2013 case com Jo\u00e3o<br \/>\ne entenda-se depois com Paulo!\u00bb Esta resposta, que vem num jornal muito<br \/>\nelegante de Londres, \u00e9 das coisas mais h\u00e1beis que tenho lido<br \/>\nnos meus tenros anos! Sobretudo se se reparar na observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque a acompanha, e que reza assim: \u00abPorque aconselhar Miss A. a que<br \/>\ncase com Paulo e que se arranje com Jo\u00e3o \u00e9 completamente pueril.\u00bb<br \/>\nPueril, \u00e9 sublime!<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII &#8211; Londres, 18 de Outubro de 1877<\/h2>\n<p>Pe\u00e7o aos meus leitores (se tenho dois) ou ao meu leitor (se tenho<br \/>\num) que n\u00e3o atribuam o meu sil\u00eancio de algumas semanas a uma<br \/>\nsuspens\u00e3o absoluta de acontecimentos em Inglaterra e no universo. N\u00e3o.<br \/>\nO mundo tem continuado a rolar com uma toler\u00e1vel regularidade e os<br \/>\nhomens, sobre ele, a fornecerem assunto a localistas e a correspondentes.<\/p>\n<p>Os motivos do meu recolhimento s\u00e3o todos particulares. Assim, por<br \/>\nexemplo, s\u00f3 a Fran\u00e7a que mat\u00e9ria n\u00e3o tem dado,<br \/>\nnestas \u00faltimas semanas, a uma pena de boa vontade! Manifestos de sensa\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntiranias de Governo, elei\u00e7\u00f5es impressionadoras, amea\u00e7as<br \/>\nde golpe de estado \u2013 tudo essa boa Fran\u00e7a, que n\u00e3o gosta<br \/>\nde deixar o mundo sem objecto de conversa\u00e7\u00e3o, tem prodigalizado<br \/>\ncom a sua fecundidade de pa\u00eds de g\u00e9nio.<\/p>\n<p>Aqui, em Londres, quem abrir um jornal ingl\u00eas h\u00e1-de pensar<br \/>\nque no universo s\u00f3 existe a Fran\u00e7a: \u00e9 dela que se fala,<br \/>\n\u00e9 sobre ela que se escreve; tudo o mais fica numa penumbra subalterna.<br \/>\nAs elei\u00e7\u00f5es de 14 de Outubro n\u00e3o foram para ningu\u00e9m<br \/>\numa surpresa. A maioria republicana era certa. Podia-se supor, como sucedeu,<br \/>\nque a press\u00e3o ministerial, t\u00e3o mi\u00fada e t\u00e3o pesada,<br \/>\nt\u00e3o vexat\u00f3ria e t\u00e3o arbitr\u00e1ria, roubaria alguns<br \/>\nvotos aos republica-nos; mas em definitivo, a Fran\u00e7a, que \u00e9<br \/>\ncentro-esquerda, daria uma maioria mais ou menos numerosa \u00e0 rep\u00fablica.<br \/>\nAlguns jornais dizem que a esquerda, pelo facto de n\u00e3o trazer \u00e0<br \/>\nc\u00e2mara os hist\u00f3ricos e famosos trezentos e sessenta e tr\u00eas,<br \/>\nsofreu uma derrota moral: eu penso que a circunst\u00e2ncia de conseguir<br \/>\ntrazer trezentos e vinte, pouco mais ou menos, dada uma tal tirania governamental,<br \/>\n\u00e9 uma vit\u00f3ria eloquente.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o em Fran\u00e7a exerce, al\u00e9m da for\u00e7a<br \/>\nque lhe d\u00e1 a sua organiza\u00e7\u00e3o poderosa e sagaz, uma irresist\u00edvel<br \/>\natrac\u00e7\u00e3o sobre um povo educado na centraliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTudo treme quando ela franze o sobrolho, e ningu\u00e9m deixa de ficar enlevado<br \/>\nquando ela sorri; em tais circunst\u00e2ncias, ter-lhe resistido, como lhe<br \/>\nresistiu, mostra na Fran\u00e7a convic\u00e7\u00f5es bem serias e uma<br \/>\nvontade bem definida.<\/p>\n<p>Que resta ao marechal agora? Num pa\u00eds sensato, como a Inglaterra,<br \/>\na coisa seria simples: o minist\u00e9rio batido seria demitido e o partido<br \/>\ntriunfante chamado ao poder, ningu\u00e9m se agitaria, e a complicada m\u00e1quina<br \/>\ndo Estado continuaria a rolar docemente nos seus carris. Em Fran\u00e7a,<br \/>\nn\u00e3o. O minist\u00e9rio vencido teima, pela voz dos seus jornais,<br \/>\nem se considerar vencedor e amea\u00e7a com baionetadas todos os que n\u00e3o<br \/>\nforem dessa opini\u00e3o extravagante. Consultou-se a vontade do pa\u00eds,<br \/>\ne quando ele respondeu por milh\u00f5es de vozes an\u00e3o! o minist\u00e9rio<br \/>\ndiz, com um sorriso: \u00abBem; como o pa\u00eds respondeu \u00absim!\u00bb<br \/>\nn\u00f3s c\u00e1 ficamos, para obedecer ao pa\u00eds.\u00bb E se o<br \/>\npa\u00eds amanh\u00e3, vendo que o \u00abn\u00e3o!\u00bb que ele dissera<br \/>\npela boca das suas pessoas n\u00e3o era escutado, se resolvesse repetir<br \/>\no \u00abn\u00e3o\u00bb pela boca das suas espingardas, o minist\u00e9rio<br \/>\ntraria para a rua a artilharia, conti-nuando a afirmar com tranquilidade:<br \/>\n\u00abComo o pa\u00eds insiste em dizer que \u00absim\u00bb, n\u00f3s<br \/>\nn\u00e3o podemos ceder! N\u00f3s n\u00e3o podemos!&#8230;\u00bb A indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\ncontra o marechal, aqui, continua a exprimir-se violentamente. Uma pergunta<br \/>\n\u00e0s vezes fa\u00e7o eu a mim mesmo, pasmado: \u00abSer\u00e1 poss\u00edvel<br \/>\nque o Governo franc\u00eas n\u00e3o leia os jornais ingleses? E, se os<br \/>\nl\u00ea, n\u00e3o lhe faz impress\u00e3o nenhuma ver a imprensa un\u00e2nime<br \/>\nde um grande pa\u00eds, da Inglaterra, condenando ao longo das suas primeiras<br \/>\np\u00e1ginas a ilegalidade da sua exist\u00eancia? Pode-se desprezar assim<br \/>\na opini\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o t\u00e3o inteligente, t\u00e3o<br \/>\nsensata, t\u00e3o positiva, t\u00e3o imparcial?\u00bb O minist\u00e9rio,<br \/>\n\u00e9 verdade, embirra profundamente com os jornais ingleses, a ponto de<br \/>\nlhes proibir a venda como pe\u00e7onhenta, mas o facto de lhes proibir a<br \/>\npropaganda n\u00e3o obsta a que lhe deva reconhecer a sensatez: e todos<br \/>\nos dias os jornais mostram claramente aos Srs. de Broglie e de Fourton que<br \/>\neles est\u00e3o simplesmente levando o seu pa\u00eds \u00e0 guerra civil<br \/>\ne \u00e0 guerra estrangeira. Que eles n\u00e3o o acreditem quando o l\u00eaem<br \/>\nnos jornais radicais de Paris, compreende-se, mas que o n\u00e3o escutem<br \/>\nquando s\u00e3o os jornais estrangeiros conservadores que o gritam por todas<br \/>\nas linhas, \u00e9 de espantar! A n\u00e3o ser que, ciente e conscientemente,<br \/>\neles queiram a guerra estrangeira e a guerra civil; nesse caso, espera-os,<br \/>\n\u00e9 de recear, uma grilheta nova e de bom ferro nas gal\u00e9s am\u00e1veis<br \/>\nde Toulon.<\/p>\n<p>As novidades daqui s\u00e3o escassas. Chove. O Inverno instalou-se, e<br \/>\nvem este ano de um humor terr\u00edvel: os duches que nos atira para cima,<br \/>\nas lan\u00e7adas de nordeste agudo com que nos trespassa, as rajadas com<br \/>\nque nos sacode, n\u00e3o t\u00eam conta. Ou\u00e7o-o todas as noites<br \/>\nrugir e chorar, e n\u00e3o compreendo o que fizeram a este rabugento velho.<br \/>\nPor ora ainda n\u00e3o nos cobriu de neve: \u00e9 uma galanteria que guarda<br \/>\nprovavelmente para o Natal; os meteorologistas seus amigos, a quem ele faz<br \/>\nconfid\u00eancias, dizem-nos que n\u00e3o h\u00e1 a esperar dele, este<br \/>\nano, nem dem\u00eancia, nem desleixo. Vem activo e mau. O que nos espera!<br \/>\nDe resto o grande acontecimento \u00e9 o Caso Ponge. N\u00e3o sei se sabem<br \/>\na\u00ed deste epis\u00f3dio judicial.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 simples. Um sujeito, Louis Stanton, casou por<br \/>\ndinheiro com uma mulher e vivia por amor com outra. Para n\u00e3o se ver<br \/>\nembara\u00e7ado nos seus sentimentos colocou a esposa em casa do seu irm\u00e3o<br \/>\ne foi habitar com a amante para o campo. Passado tempo, a esposa come\u00e7ou<br \/>\na definhar, a adoecer \u2013 e quando ela morreu num estado de anemia e de<br \/>\nmagreza medonhas, os m\u00e9dicos chamados a examinar (em vista das suspeitas<br \/>\nnascentes) declararam que a pobre senhora fora sistematicamente morta \u00e0<br \/>\nfome! Ergueu-se um grito de horror em toda a Inglaterra. Louis Stanton, a<br \/>\nsua amante (uma rapariga de dezanove anos), o irm\u00e3o de Louis e a cunhada<br \/>\nforam presos, julgados e condenados \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1, em resumo, o pr\u00f3logo.<\/p>\n<p>As audi\u00eancias causaram a excita\u00e7\u00e3o de um drama, comovente:<br \/>\nos depoimentos das testemunhas, as respostas dos r\u00e9us, os discursos<br \/>\ne r\u00e9plicas dos advogados, as frases sempre not\u00e1veis do ilustre<br \/>\njuiz Hawkins, eram devorados por todo o pa\u00eds com a sofreguid\u00e3o<br \/>\nde uma novela de sensa\u00e7\u00e3o! O tribunal estava apinhado de celebridades,<br \/>\nmesmo de ladies famosas, cujos lacaios traziam em cestos lanche e champanhe<br \/>\npara sustentar as for\u00e7as da dama delicada, nas fadigas daquelas longas<br \/>\naudi\u00eancias.<\/p>\n<p>Desenhistas h\u00e1beis, postados em todos os cantos, esbo\u00e7avam<br \/>\na atitude dos r\u00e9us, os gestos de afli\u00e7\u00e3o, as convuls\u00f5es<br \/>\nda pobre amante (Alice Rhodes) \u2013 e estes desenhos eram vendidos nas<br \/>\nruas e encaixilhados em sal\u00f5es. Enfim, um verdadeiro processo de prazer.<\/p>\n<p>A \u00faltima audi\u00eancia, de que pude surpreender, atrav\u00e9s<br \/>\nda multid\u00e3o, alguns epis\u00f3dios, foi tr\u00e1gica. Nunca ouvi<br \/>\nnada t\u00e3o poderoso como o discurso do juiz aos jurados, fazendo o sum\u00e1rio<br \/>\ndo processo. De p\u00e9, falou durante sete horas, com uma eloqu\u00eancia<br \/>\nsombria e elevada que destilava a morte. Pareceu-me ter mais a paix\u00e3o<br \/>\nde um acusador do que a veracidade de um juiz. Mas como arte, era maravilhoso.<br \/>\nQuando o j\u00fari voltou com o veredicto, provando o crime, houve um momento<br \/>\nde terr\u00edvel impress\u00e3o. O juiz ergueu-se, colocou sobre a cabe\u00e7a<br \/>\num gorro negro e todo o mundo se p\u00f4s de p\u00e9, num sil\u00eancio<br \/>\nansioso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o leu, com voz lenta, a senten\u00e7a de morte.<\/p>\n<p>Os dois r\u00e9us estavam como hirtos; mas as duas senhoras estavam sustentadas<br \/>\nnos bra\u00e7os de dois comiss\u00e1rios de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Quando o juiz Hawkins findou a leitura, ergueu o bra\u00e7o e disse: \u2013<br \/>\nQue Deus tenha miseric\u00f3rdia das vossas almas.<\/p>\n<p>Toda a audi\u00eancia respondeu com a mesma voz lamentosa: \u2013 Amen!<br \/>\nNo dia seguinte um jornal, o Daily Telegraph creio eu, insinuou que lhe parecia<br \/>\nbem pouco comprovado o crime, e bem severa a senten\u00e7a. Outro jornal<br \/>\nretomou o assunto, repetindo a mesma opini\u00e3o; e depois outro, outro<br \/>\ne outro. Imediatamente a opini\u00e3o agita-se: os jornais come\u00e7am<br \/>\na publicar cartas, que, numa argumenta\u00e7\u00e3o cerrada e sagaz, provavam<br \/>\na falta de provas do homic\u00eddio; depois advogados escreveram, censurando<br \/>\na marcha do processo, cheio de nulidades; logo sacerdotes, membros do parlamento,<br \/>\nmulheres, m\u00e3es de fam\u00edlia, de todas as partes de Inglaterra,<br \/>\ncada um do seu ponto de vista, com os seus argumentos especiais, censuraram<br \/>\na condena\u00e7\u00e3o: e enfim, coisa grave, os m\u00e9dicos come\u00e7aram<br \/>\na declarar que os sintomas apresentados no exame do cad\u00e1ver n\u00e3o<br \/>\neram de morte por fome, mas de tub\u00e9rculos no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Imediatamente, instala-se em Canon Street Hotel uma comiss\u00e3o de pessoas<br \/>\nimportantes para obter da rainha a comuta\u00e7\u00e3o da pena: fazem-se<br \/>\nmeetings, abrem-se peti\u00e7\u00f5es \u00e0 assinatura p\u00fablica,<br \/>\ne toda a Inglaterra, profundamente revolvida por esta agita\u00e7\u00e3o,<br \/>\npede o perd\u00e3o para os r\u00e9us! Em vista disto, o Governo perdoa!<br \/>\nAo princ\u00edpio foi um clamor de triunfo. Mas depois vem a reflex\u00e3o.<br \/>\nQue tinha feito a Inglaterra? Tinha destru\u00eddo a senten\u00e7a de<br \/>\num tribunal, com uma agita\u00e7\u00e3o popular. Mas ent\u00e3o a lei,<br \/>\nos c\u00f3digos, a justi\u00e7a, os magistrados, as f\u00f3rmulas, tudo<br \/>\n\u00e9 in\u00fatil, s\u00f3 quem decide em \u00faltimo recurso \u00e9<br \/>\na imprensa e o p\u00fablico. Todo o mundo estava um pouco embara\u00e7ado<br \/>\ncom a vit\u00f3ria. E ent\u00e3o francamente cada um come\u00e7ou a<br \/>\nconsiderar que se tinha ido longe no movimento apaixonado da sensibilidade.<\/p>\n<p>A rainha tinha-se talvez apressado de mais a perdoar. A administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nda justi\u00e7a passara, por um golpe de estado popular, das m\u00e3os<br \/>\nda magistratura para as m\u00e3os do p\u00fablico; a institui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo j\u00fari \u00e9 in\u00fatil; os processos ociosos; os crimes seriam<br \/>\ncondenados ou absolvidos segundo o bom ou mau humor da opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Se basta fazer meetings para perdoar um r\u00e9u, nada impede hoje uma<br \/>\nabsolvi\u00e7\u00e3o permanente para o crime. E aqui t\u00eam este grande<br \/>\npa\u00eds que, depois de ter feito comutar uma pena por sentimentalismo,<br \/>\ndesejaria aqui v\u00ea-la aplicada por legalidade. Singular situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 verdade? E exclusivamente inglesa! Enquanto a mim penso<br \/>\nque os r\u00e9us n\u00e3o eram absolutamente culpados: houve neglig\u00eancia<br \/>\nem tratar a pobre senhora, mas n\u00e3o houve inten\u00e7\u00e3o de<br \/>\na matar; por outro lado, parece-me que o exemplo \u00e9 mau e que abala<br \/>\ntoda a constitui\u00e7\u00e3o da Inglaterra esta obedi\u00eancia do Governo<br \/>\n\u00e0s impress\u00f5es da multid\u00e3o. Em todo o caso, a\u00ed<br \/>\ndir\u00e3o consigo, \u00abantes tremelique a constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se enforquem quatro inocentes!\u00bb E do Oriente? Depois de uma suspens\u00e3o<br \/>\nde hostilidades, imposta pela neve e pela chuva, os Turcos foram horrivelmente<br \/>\nbatidos na \u00c1sia. Muktar Pax\u00e1 perdeu dezenas de canh\u00f5es,<br \/>\nmilhares de prisioneiros e fugiu para Kars derrotado. E um desastre, mas facilmente<br \/>\nrepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em virtude da esta\u00e7\u00e3o, os Russos n\u00e3o se podem aproveitar<br \/>\nda sua vit\u00f3ria: vem tarde, se Muktar Pax\u00e1 fugiu e n\u00e3o<br \/>\nse lhe pode opor, l\u00e1 est\u00e1 o Inverno para substituir o general<br \/>\nvencido e p\u00f4r barreiras de gelo e de torrentes onde faltam as barreiras<br \/>\nde homens. Kars, que Muktar Pax\u00e1 protegia, fica em todo o caso protegida<br \/>\npelo mesmo, e n\u00e3o \u00e9 nesta campanha que os Russos poder\u00e3o<br \/>\nocupar aquela fortaleza, chave da Arm\u00e9nia.<\/p>\n<p>De resto, no Dan\u00fabio, sil\u00eancio, expectativa, frio e doen\u00e7as,<br \/>\nnos ex\u00e9rcitos ociosos. Novidades liter\u00e1rias ou teatrais, zero.<br \/>\nA Inglaterra intelectual ou dorme ou trabalha em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A costumada produ\u00e7\u00e3o de novelas, sim, essa continua regular<br \/>\ncomo a fabrica\u00e7\u00e3o do p\u00e3o, para manter vibrantes os nervos<br \/>\ndas misses e das ladies.<\/p>\n<p>Not\u00edcias comerciais tristes: uma estagna\u00e7\u00e3o total dos<br \/>\nneg\u00f3cios: uma pausa terr\u00edvel na estrutura industrial.<\/p>\n<p>Este Inverno vem carrancudo: que nos reserva ele? Por toda a parte inquieta\u00e7\u00f5es,<br \/>\napreens\u00f5es, necessidades&#8230;<\/p>\n<p>Fez excelente efeito aqui a maneira inteligente e delicada por que Stanley,<br \/>\nao fim da sua \u00e9pica viagem atrav\u00e9s de \u00c1frica, foi recebido<br \/>\npelos Portugueses. Tudo se passou com excelente gosto. N\u00e3o era natural<br \/>\nrealmente que o recebessem \u00e0 paulada; mas era de recear, com a indiferen\u00e7a<br \/>\nnacional, que ele passasse despercebido ou que o incomodassem, pedindo-lhe<br \/>\no passaporte. Felizmente, a recep\u00e7\u00e3o foi digna e honrosa para<br \/>\nn\u00f3s. Ainda h\u00e1 portugueses em Portugal!<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX &#8211; Londres, 10 de Dezembro de 1877<\/h2>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel come\u00e7ar uma correspond\u00eancia \u2013<br \/>\n\u00e9 quase imposs\u00edvel come\u00e7ar uma carta particular \u2013<br \/>\nsem falar da Fran\u00e7a. A quest\u00e3o do Oriente est\u00e1 no \u00faltimo<br \/>\nplano: apenas a gente se lembra que h\u00e1 algures um pa\u00eds assolado<br \/>\npela guerra, milhares de homens que morrem, guarni\u00e7\u00f5es esfomeadas,<br \/>\ngenerais her\u00f3icos, cidades tomadas, um czar imposs\u00edvel e um<br \/>\nsult\u00e3o absurdo! O que lembra \u00e9 a Fran\u00e7a. Quais s\u00e3o<br \/>\nas not\u00edcias de Fran\u00e7a, hoje? \u2013 \u00e9 a pergunta inglesa<br \/>\nde antes de almo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 da Fran\u00e7a que se ocupam os literatos pol\u00edticos nos<br \/>\nseus artigos de fundo, os caricaturistas nos seus desenhos, os sacerdotes<br \/>\nnos seus serm\u00f5es e os autores de can\u00e7onetas nas suas rimas.<br \/>\nFalemos, pois, da Fran\u00e7a. E em primeiro lugar fa\u00e7amos justi\u00e7a<br \/>\nao marechal Mac Mahon.<\/p>\n<p>Este excelente homem n\u00e3o \u00e9 culpado em coisa alguma do que<br \/>\nse passa, do que se tem passado em Fran\u00e7a desde 16 de Maio: velho,<br \/>\num pouco reum\u00e1tico, entendendo alguma coisa de soldados e muito de<br \/>\njardinagem, ocupando-se imensamente das suas rosas e dos seus lilases e quase<br \/>\nnada do seu pa\u00eds, um pouco apertado de d\u00edvidas e cheio de um<br \/>\nhumor condescendente e am\u00e1vel \u2013 o presidente da Rep\u00fablica<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 um car\u00e1cter, \u00e9 um cabide.<\/p>\n<p>Um grupo intrigante, fan\u00e1tico, ego\u00edsta, glut\u00e3o de poder<br \/>\nimoral, rid\u00edculo \u2013 se n\u00e3o fosse tr\u00e1gico \u2013,<br \/>\nserve-se dele como de um aparelho de pau onde dependura decis\u00f5es e<br \/>\nas suas frases.<\/p>\n<p>Este grupo, que se comp\u00f5e de padres astutos, de devotos elegantes,<br \/>\nde doutrin\u00e1rios de sal\u00e3o, de alguns caducos aristocratas de<br \/>\noutras eras e de ajudantes-de-campo crivados de d\u00edvidas, cheios de<br \/>\ngal\u00f5es e abundantes de fac\u00e9cias, este grupo tem uma ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndecente: possuir a Fran\u00e7a \u2013 para seu uso, em primeiro lugar,<br \/>\ne um pouco para uso do papa tamb\u00e9m. Possuir a Fran\u00e7a, dispor<br \/>\ndo seu ex\u00e9rcito, das suas finan\u00e7as, de tantos empregos a dar,<br \/>\nrepresent\u00e1-la diante do mundo, fazer as honras da casa por ocasi\u00e3o<br \/>\nda Exposi\u00e7\u00e3o, ocupar os seus pal\u00e1cios, tratar de mano<br \/>\na mano imperadores e rainhas, entrar na hist\u00f3ria, ainda que seja com<br \/>\numa chave falsa \u2013 \u00e9 realmente, devemos confess\u00e1-lo, muito<br \/>\nagrad\u00e1vel. E o marechal Mac Mahon, ou antes, o grupo que o inspira<br \/>\ne que lhe puxa os cord\u00e9is \u2013 tem realmente toda a raz\u00e3o<br \/>\nem querer guardar aposta.<\/p>\n<p>Somente h\u00e1 uma certa entidade que se op\u00f5e a esta am\u00e1vel<br \/>\ncombina\u00e7\u00e3o e que se chama a Fran\u00e7a republicana: \u00e9<br \/>\nquase nada: s\u00e3o apenas dez milh\u00f5es de eleitores. Esta entidade<br \/>\ntem a loucura de querer que a Fran\u00e7a n\u00e3o perten\u00e7a a um<br \/>\ngrupo equ\u00edvoco de batinas, e de saias, mas que se perten\u00e7a a<br \/>\nsi mesma. Esta entidade \u00e9 portanto considerada \u2013 no Pal\u00e1cio<br \/>\ndo Eliseu \u2013 como perfeitamente plebeia, impertinente, grosseira e perigosa<br \/>\npara os interesses dos bispos e das duquesas.<\/p>\n<p>Que se h\u00e1-de fazer portanto a esta entidade? Esmag\u00e1-la. Como?<br \/>\nDar-lhe um nome feio, chamar-lhe radical, atribuir-lhe inten\u00e7\u00f5es<br \/>\ncriminosas e usar por isso todos os meios de a repelir \u2013 pelas elei\u00e7\u00f5es<br \/>\nao princ\u00edpio, pelos tiros depois. Tentou-se primeiro a elei\u00e7\u00e3o:<br \/>\na intriga falhou: a entidade temida, a Fran\u00e7a republicana, voltou mais<br \/>\namea\u00e7adora e mais forte. Que resta portanto? Tentar o tiro. E vamos<br \/>\nter tiros, ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui ningu\u00e9m duvida que o marechal vai obter uma segunda dissolu\u00e7\u00e3o;<br \/>\na c\u00e2mara dos deputados \u00e9 natural recusar-se a obedecer, e constitui-se<br \/>\nem conven\u00e7\u00e3o: o marechal manda contra a c\u00e2mara alguns<br \/>\nregimentos: que far\u00e1 ent\u00e3o o povo? Que far\u00e3o ent\u00e3o<br \/>\nos soldados? Esta \u00faltima quest\u00e3o \u00e9 grave: qual ser\u00e1<br \/>\na atitude do ex\u00e9rcito? Ter\u00e1 a obedi\u00eancia passiva e est\u00fapida<br \/>\ndos primeiros tempos do imp\u00e9rio \u2013 ou mais educado, mais saido<br \/>\ndo seio do povo, tendo simpatias republicanas, recusar-se-\u00e1 a tentar<br \/>\na destrui\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica? Esta \u00e9 a quest\u00e3o:<br \/>\ntodas as tentativas de compromisso s\u00e3o ef\u00e9meras: s\u00e3o<br \/>\nepis\u00f3dios: o fundo da discuss\u00e3o \u00e9 este \u2013 a Fran\u00e7a<br \/>\nrepublicana quer que o marechal saia e o marechal n\u00e3o quer sair.<\/p>\n<p>N\u00e3o quer sair porque se acha bem: a marechala quer fazer aos reis<br \/>\ne aos pr\u00edncipes as honras da Exposi\u00e7\u00e3o: os padres que<br \/>\no cercam n\u00e3o querem que o triunfo da rep\u00fablica inaugure uma<br \/>\npol\u00edtica antipapal; o visconde de Harcourt, alma danada (ao que dizem)<br \/>\ndesta intriga, n\u00e3o quer perder os sal\u00f5es do Eliseu, onde triunfa<br \/>\ne onde \u00e9 le\u00e3o; o duque de Broglie n\u00e3o quer abdicar da<br \/>\nsua influ\u00eancia, oculta ou clara, no Governo da Fran\u00e7a: ningu\u00e9m<br \/>\nquer sair, todos se acham confort\u00e1veis no poder. E, como n\u00e3o<br \/>\npodem coabitar com a rep\u00fablica, h\u00e3o-de fazer tudo para que a<br \/>\nrep\u00fablica saia. Para isso contam com uma espingarda: resta saber se<br \/>\na espingarda lhes rebentar\u00e1 nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Os neg\u00f3cios da Turquia v\u00e3o mal. Os generais a que o sult\u00e3o<br \/>\nconcedera o t\u00edtulo sonoro de Vitoriosos \u2013 come\u00e7am regularmente<br \/>\na ser vencidos. Muktar Pax\u00e1, na \u00c1sia, viu o seu ex\u00e9rcito<br \/>\ndestru\u00eddo; e Osman Pax\u00e1, na Europa, teve de entregar Plevna,<br \/>\nrender-se sem condi\u00e7\u00f5es, depois de uma luta her\u00f3ica em<br \/>\nque ele foi gravemente ferido. Faltam detalhes deste desastre, mas as suas<br \/>\nconsequ\u00eancias s\u00e3o terr\u00edveis: os Russos podem agora arremessar<br \/>\ncontra Suleiman, ou contra Mehemet-Ali, o grosso dos ex\u00e9rcitos que<br \/>\ncercavam Plevna. E aqueles generais acham-se diante dos n\u00fameros superiores<br \/>\nde tropas exaltadas pela vit\u00f3ria, com boas comunica\u00e7\u00f5es<br \/>\nasseguradas, e tendo ganho, numa campanha de cinco ou seis meses, uma experi\u00eancia<br \/>\nmilitar onde os erros se tornam mais raros. Plevna fez, no entanto, uma defesa<br \/>\nadmir\u00e1vel: parece que (ao contr\u00e1rio do que diziam os jornais<br \/>\namigos da Turquia, afirmando que as provis\u00f5es abundavam dentro da cidade)<br \/>\no ex\u00e9rcito de Osman Pax\u00e1 morria de fome: o primeiro grito dos<br \/>\nsoldados rendidos foi pedir p\u00e3o! Compreende-se que Osman Pax\u00e1<br \/>\nquisesse fazer uma surtida desesperada: e colhido pela frente e pela retaguarda,<br \/>\nsucumbisse numa luta desigual. Quase cem mil homens cercavam Plevna: os refor\u00e7os<br \/>\naglomerados ultimamente elevavam este n\u00famero a cento e cinquenta mil.<br \/>\nOsman Pax\u00e1 n\u00e3o devia ter mais do que trinta e cinco a quarenta<br \/>\nmil soldados, que as priva\u00e7\u00f5es, a fome, o desalento, tornavam<br \/>\nde pouco uso perante for\u00e7as bem providas. Agora o caminho para Andrinopla<br \/>\nest\u00e1 aberto, ou, pelo menos, os ex\u00e9rcitos turcos em campanha<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o bastante fortes para se oporem ao grosso do ex\u00e9rcito<br \/>\nrusso, logo que ele tenha esse objectivo. Andrinopla pode oferecer uma resist\u00eancia<br \/>\nprolongada: mas os Russos n\u00e3o se demorariam nas opera\u00e7\u00f5es<br \/>\ndif\u00edceis de um cerco de Inverno, nem quereriam renovar os assaltos<br \/>\nmort\u00edferos que dizimaram as suas for\u00e7as nas primeiras tentativas<br \/>\ncontra Plevna: e, portanto, o mais natural \u00e9 que deixem diante de Andrinopla<br \/>\numa for\u00e7a de observa\u00e7\u00e3o, que torneiem a cidade e se dirijam<br \/>\na Constantinopla. E a\u00ed \u00e9 que come\u00e7a uma nova fase da<br \/>\nguerra: ou campanha diplom\u00e1tica, ou conflito geral, ou ent\u00e3o,<br \/>\na paz! \u00c9 agora que se vai ver quais s\u00e3o as verdadeiras inten\u00e7\u00f5es<br \/>\nda R\u00fassia. Se fez a guerra com um fim puramente crist\u00e3o e libertador,<br \/>\nest\u00e1 j\u00e1, pelas vit\u00f3rias ganhas, no direito de propor<br \/>\na paz, impondo \u00e0 Turquia condi\u00e7\u00f5es que garantam a felicidade<br \/>\ndas popula\u00e7\u00f5es eslavas: se por\u00e9m a virem avan\u00e7ar<br \/>\npara Constantinopla, ent\u00e3o ela descobre a garra conquistadora, e resta<br \/>\nsaber o que dir\u00e3o a Inglaterra e a \u00c1ustria.<\/p>\n<p>O acontecimento mais not\u00e1vel da \u00faltima quinzena, em Londres,<br \/>\nfoi o casamento do duque de Norfolk, o primeiro fidalgo de Inglaterra, conde-marechal<br \/>\ndo reino, chefe do partido cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>Toda a alta aristocracia papista assistiu \u00e0 cerim\u00f3nia, que<br \/>\nfoi celebrada na capela dos padres do Orat\u00f3rio, em Brompton, com um<br \/>\nesplendor romano. A noiva \u00e9 Lady Flora Hastings, filha da condessa<br \/>\nde London, novamente convertida ao catolicismo; os presentes que recebeu s\u00e3o<br \/>\nde uma prodigalidade e de um luxo incompar\u00e1veis: entre a profus\u00e3o<br \/>\nde j\u00f3ias, colares de diamantes, colec\u00e7\u00f5es de rubis sem<br \/>\nigual, adere\u00e7os de safiras que levaram anos a coleccionar, montes de<br \/>\np\u00e9rolas inigual\u00e1veis, apareceram dois presentes not\u00e1veis:<br \/>\num \u00e9 uma rel\u00edquia de um santo, 5. Tom\u00e1s de Aquino, creio<br \/>\neu; outro \u00e9 um colar de diamantes e rubis que pertencia a Maria Stuart,<br \/>\ne que entrar\u00e1 por heran\u00e7a nas j\u00f3ias da Casa de Norfolk.<br \/>\nA rainha que, nestes casamentos aristocr\u00e1ticos, faz, segundo a antiga<br \/>\ntradi\u00e7\u00e3o, um presente \u00e0 noiva, desta vez absteve-se.<br \/>\nDaqui, grande esc\u00e2ndalo. Ordinariamente o presente da rainha \u00e9<br \/>\num rico xaile de caxemira: e s\u00e3o tantos os que distribui que parece<br \/>\nque em Windsor ou no Pal\u00e1cio de S. James deve haver armaz\u00e9ns<br \/>\nsubterr\u00e2neos atulhados daquele vistoso artigo. Os jornais alegres perguntam<br \/>\ntodos, com grandes fac\u00e9cias, porque \u00e9 que no casamento do primeiro<br \/>\nnobre de Inglaterra, de um parente de reis, que na corte tem lugar antes dos<br \/>\npr\u00edncipes, sua majestade n\u00e3o deu ao menos o xaile. Que d\u00ea<br \/>\no xaile! Que n\u00e3o se fique com o xaile! \u2013 grita a imprensa sat\u00edrica.<br \/>\nPorque \u00e9 um erro continental supor que a rainha de Inglaterra \u00e9<br \/>\ncercada de uma tal venera\u00e7\u00e3o que a pilh\u00e9ria n\u00e3o<br \/>\nse atreva a transpor as portas do pa\u00e7o. N\u00e3o: a rainha, como<br \/>\noutra qualquer mortal, \u00e9 (quando isso \u00e9 justo) criticada, epigramatizada<br \/>\ne caricaturada; e nesta ocasi\u00e3o a ocorr\u00eancia do xaile tem sido<br \/>\nobjecto da muito grossa jovialidade sax\u00f3nia.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a rainha ofendeu todo o partido cat\u00f3lico;<br \/>\ndiz-se que a raz\u00e3o da sua absten\u00e7\u00e3o foi o ser Lady Flora<br \/>\numa nova convertida e o detestar a rainha as novas convertidas. Admite as<br \/>\nantigas fam\u00edlias cat\u00f3licas, mas as convers\u00f5es recentes<br \/>\ns\u00e3o-lhe particularmente antip\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Uma condessa muito ilustre e ainda mais bonita, casada com um cat\u00f3lico,<br \/>\nmostrava tend\u00eancia ultimamente de \u00abpassar para Roma\u00bb, como<br \/>\naqui se diz. A rainha, na \u00faltima recep\u00e7\u00e3o, chamoua e<br \/>\ndisse-lhe simplesmente: \u2013 N\u00e3o h\u00e1 nada pior para uma senhora<br \/>\nque abandonar a religi\u00e3o de seus pais.<\/p>\n<p>Foi o bastante: a pobre condessa perdeu toda a veleidade de beijar a chinela<br \/>\ndo papa; ficou-se no protestantismo por ordem superior. Acho este caso delicioso.<br \/>\nUma devota \u2013 morrendo do desejo de ouvir uma boa missa cantada ou de<br \/>\nseguir o m\u00eas de Maria \u2013 \u00e9 obrigada a contentar-se com a<br \/>\nseca leitura da B\u00edblia para n\u00e3o desagradar\u00e1s reais pessoas.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da religi\u00e3o, ou\u00e7o dizer, mas n\u00e3o<br \/>\no garanto, que o pr\u00edncipe Leopoldo, o filho mais novo da rainha, se<br \/>\nvai fazer padre. Este mo\u00e7o, de uma natureza e de um temperamento diferente<br \/>\ndos irm\u00e3os, letrado, um pouco poeta, m\u00edstico e extremamente<br \/>\ndoente \u2013 daria talvez, nos tempos passados, um daqueles pr\u00edncipes<br \/>\nque edificavam um mosteiro e, na falta de um reino temporal, ali ficavam governando<br \/>\num pequeno povo de monges, escreviam um tratado sobre um meio de expurgar<br \/>\no Dem\u00f3nio e obtinham, pela sua parentela real, uma canoniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nem Roma.<\/p>\n<p>As fa\u00e7anhas da for\u00e7a muscular repetem-se sob as formas mais<br \/>\ninesperadas; depois dos sujeitos que nadam vinte l\u00e9guas em doze horas;<br \/>\ndepois dos indiv\u00edduos que caminham em volta de um circo quinhentas<br \/>\nmilhas em tr\u00eas dias, temos agora um novo her\u00f3i: o homem que valsa<br \/>\nseis horas consecutivas. Este magan\u00e3o \u00e9 d\u00e9bil, esguio,<br \/>\nalourado, frisado, com uns olhinhos vivos, ademanes nervosos e uma voz de<br \/>\ngrilo. Das seis da tarde \u00e0 meia-noite, valsa, valsa, valsa, sem respirar<br \/>\nmais alto, sem suar, sem se lhe desmanchar o frisado, cansando vinte, trinta,<br \/>\nquarenta pares e bebendo, sempre a valsar, caldos pelo bico de um bule. \u00c9<br \/>\nsublime e odioso. Na primeira hora, o espect\u00e1culo \u00e9 trivial<br \/>\ne pouco elegante porque o homem valsa pior que qualquer dan\u00e7arino;<br \/>\nna segunda hora, o facto come\u00e7a a surpreender; na terceira hora, principia-se<br \/>\na achar extraordin\u00e1rio e n\u00e3o se v\u00eaem pelos cantos da sala,<br \/>\nsen\u00e3o mulheres extenuadas que o magan\u00e3o esfalfou, valsando,<br \/>\nvalsando; na quarta hora, o caso torna-se fenomenal, a cabe\u00e7a anda<br \/>\n\u00e0 roda; na quinta hora, come\u00e7a-se a ter \u00f3dio \u00e0quela<br \/>\npersonagem, que, com um sorriso ameno, gira, torneia, perpassa, delira, sempre<br \/>\n\u00e0 roda, sempre \u00e0 roda; na sexta hora, a gente come\u00e7a<br \/>\na ter vontade de matar o mariola: felizmente h\u00e1 policias; mas a impress\u00e3o<br \/>\n\u00e9 terr\u00edvel, e vem-se para a rua meio louco, sentindo as casas,<br \/>\nos candeeiros, as carruagens, valsar, valsar com um sorriso doce e cabelos<br \/>\nfrisados. E um espect\u00e1culo medonho! Agora uma not\u00edcia triste:<br \/>\no nosso amigo Pongo morreu, o ilustre gorilha. Foram chamados os m\u00e9dicos<br \/>\nmais ilustres, mas os seus dias estavam contados pelas Parcas que se ocupam<br \/>\ndos macacos.<\/p>\n<p>Pensou-se ao princ\u00edpio que o clima, a nostalgia, ou talvez o t\u00e9dio<br \/>\no teriam morto; mas os anatomistas, que o abriram para o estudarem, mostraram<br \/>\nque o mal que o destruiu tinha uma causa bem mais natural num macaco: dentro<br \/>\ndo est\u00f4mago do ilustre Pongo acharam-se pregos, um pequeno canivete,<br \/>\nrolhas, uma luneta, uma luva, um cabo de guarda-sol e outras curiosidades.<br \/>\nEste av\u00f4 da ra\u00e7a humana n\u00e3o tinha da escolha dos seus<br \/>\nalimentos nem mais discernimento nem mais dignidade que um qualquer reles<br \/>\nmacaco de meia moeda o casal.<\/p>\n<p>Grande desilus\u00e3o!<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>X &#8211; Londres, 21 de Dezembro de 1877<\/h2>\n<p>Londres foi ontem \u00e0 noite agitada pelo espantoso boato de que a Inglaterra<br \/>\ntinha comprado o Egipto!!! Nos teatros, nas ruas, nos clubes, nos restaurantes,<br \/>\ndizia-se com uma satisfa\u00e7\u00e3o um pouco estonteada: \u2013 Compr\u00e1mos<br \/>\no Egipto! Demos um ror de milh\u00f5es pelo Egipto! Eu soube a not\u00edcia<br \/>\npor um amigo meu, que \u00e0 uma hora da noite se precipitou na minha sala;<br \/>\nesguedelhado, com o la\u00e7o da gravata branca para as costas, soprando<br \/>\ncomo um monstro dos mares, atirou-se para uma poltrona ao p\u00e9 do fog\u00e3o<br \/>\ne exclamou com palavras ofegantes: \u2013 Acabou-se! Est\u00e1 terminada<br \/>\na crise! Acab\u00e1mos agora mesmo de comprar o Egipto!&#8230;<\/p>\n<p>Eu levantei a cabe\u00e7a do meu trabalho e, dominando uma como\u00e7\u00e3o<br \/>\nviolenta, perguntei com tranquilidade: \u2013 Por quanto? \u2013 Centenas<br \/>\nde milh\u00f5es. Um neg\u00f3cio \u00f3ptimo. A quest\u00e3o do Oriente<br \/>\nest\u00e1 acabada: agora que espatifem \u00e0 vontade o Imp\u00e9rio<br \/>\nTurco. N\u00f3s temos o que precis\u00e1vamos \u2013 o Egipto e o canal<br \/>\nde Suez! Constantinopla n\u00e3o nos serve para nada! E sem derramar uma<br \/>\ngota de sangue! Derramando, sim, ondas de ouro! Mas pouh!&#8230; O ouro sobra.<br \/>\nAl\u00e9m disso, o rendimento do Egipto em tr\u00eas ou quatro anos d\u00e1<br \/>\nquinze por cento do capital empregado! E que golpe para a R\u00fassia! Com<br \/>\no dinheiro que recebe, a Turquia paga a sua d\u00edvida, ganha cr\u00e9dito,<br \/>\nequipa ex\u00e9rcitos, continua a guerra e faz repassar o Dan\u00fabio<br \/>\naos Russos \u2013 a pontap\u00e9s! Grande homem Lord Beaconsfield! Hem!?<br \/>\nConfesso francamente que dormi mal. Comprar o Egipto! O qu\u00ea! A grande<br \/>\ne bela terra dos fara\u00f3s, dos Ptolomeus, dos sult\u00f5es, de As Mil<br \/>\ne Uma Noites; o Egipto de Ses\u00f3stris, de Cle\u00f3patra, e de Harun<br \/>\nAl-Raschid; a terra monumental e hier\u00e1tica, o pa\u00eds do Nilo,<br \/>\ndas Pir\u00e2mides e dos templos maravilhosos; o vale onde est\u00e1 Tebas<br \/>\nde cem portas e o Cairo de cem mesquitas; o terreno fecundo e inesgot\u00e1vel<br \/>\nque alimentou o Imp\u00e9rio Romano; este pa\u00eds prodigioso onde a<br \/>\nhist\u00f3ria \u00e9 mais maravilhosa que a legenda, o qu\u00ea! Esta<br \/>\nna\u00e7\u00e3o-av\u00f3, mais antiga que Jeov\u00e1, comprada, vilmente<br \/>\ncomprada como um chap\u00e9u do Roxo, ou um quarteir\u00e3o de p\u00earas<br \/>\nda tia Vic\u00eancia! \u00c9 poss\u00edvel isto? Um sujeito de su\u00ed\u00e7as<br \/>\ne de polainas, chegando a Constantinopla e, depois de um olhar de conhecedor<br \/>\ne de uma tossezinha de decis\u00e3o, dizer sossegadamente, apontando para<br \/>\no Egipto: \u2013 Isto: quanto? \u2013 Tanto. \u2013 Bem. Embrulhe e mande<br \/>\na casa! H\u00e3o-de concordar que \u00e9 forte. Que conquistassem, v\u00e1,<br \/>\nque lhe dessem a honra de o invadir, de o assolar, de o acorrentar, compreende-se:<br \/>\n\u00e9 da tradi\u00e7\u00e3o: o Egipto tem passado a sua exist\u00eancia<br \/>\na ser invadido: quem o quer, d\u00e1-lhe ao menos a satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde lutar por ele; mas compr\u00e1-lo! Dar por ele \u2013 n\u00e3o sangue,<br \/>\nmas notas do Banco de Inglaterra! Cham\u00e1-lo a si e entregar um recibo&#8230;<br \/>\nE verdadeiramente uma ideia de merceeiro! Mas que tem a sua grandeza, concordemos:<br \/>\numa transac\u00e7\u00e3o desta ordem eleva a compra e venda \u00e0 altura<br \/>\nda epopeia: e um balc\u00e3o sobre o qual se regateiam destes neg\u00f3cios<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o po\u00e9tico como o campo de batalha de Tr\u00f3ia.<\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, averigua-se que o boato era prematuro: alguns ainda<br \/>\ninsistem que se comprou, sim \u2013 n\u00e3o o Egipto, mas a ilha de Creta:<br \/>\na verdade, por\u00e9m, \u00e9 que as decis\u00f5es do Governo, se est\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 expressas em facto s\u00e3o ainda secretas \u2013 e eu apenas<br \/>\nconto este incidente para dar a medida da excita\u00e7\u00e3o que existe<br \/>\nem Londres.<\/p>\n<p>Este excitement foi produzido pela convoca\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria<br \/>\ndo parlamento: os rumores mais fant\u00e1sticos circularam logo, e os consolidados<br \/>\ndesceram tr\u00eas quartos por cento, o que, diga-se de passagem, custa aos<br \/>\npossuidores de t\u00edtulos a pequena soma de cinco milh\u00f5es de libras<br \/>\nesterlinas. A primeira ideia foi que o Governo ia declarar a guerra \u00e0<br \/>\nR\u00fassia e que reunia o parlamento para lhe pedir a aprova\u00e7\u00e3o<br \/>\nconstitucional desta aventura dram\u00e1tica: mas semelhante suposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nera absurda: o Governo n\u00e3o pode sen\u00e3o expor \u00e0s c\u00e2maras<br \/>\na gravidade da situa\u00e7\u00e3o, apresentar a sua opini\u00e3o, ver<br \/>\nse o parlamento a aprova e perguntar-lhe se n\u00e3o seria conveniente colocar<br \/>\no ex\u00e9rcito e a armada \u00e0 altura da crise. Em todo o caso as c\u00e2maras<br \/>\ndo com\u00e9rcio est\u00e3o-se j\u00e1 apresentando ao Governo em favor<br \/>\nde uma pol\u00edtica pac\u00edfica e neutra, e nas principais cidades<br \/>\ncelebram-se meetings para lembrar a Lord Beaconsfield que o contribuinte ingl\u00eas<br \/>\nn\u00e3o tem a m\u00ednima inten\u00e7\u00e3o de pagar um xelim a<br \/>\nmais para que o gr\u00e3o-turco continue a divertir-se nos langorosos \u00f3cios<br \/>\ndo serralho! Eu julgo que o pa\u00eds faz bem e exprimiu com tempo e com<br \/>\nfirmeza o seu desejo de paz, porque, abandonando-se \u00e0s suas pr\u00f3prias<br \/>\ninspira\u00e7\u00f5es e aspira\u00e7\u00f5es, Lord Beaconsfield declararia<br \/>\na guerra amanh\u00e3: o seu \u00f3dio \u00e0 R\u00fassia e \u00e0<br \/>\nra\u00e7a eslava s\u00f3 \u00e9 igualado pela sua paix\u00e3o pela<br \/>\nra\u00e7a sem\u00edtica e pelas na\u00e7\u00f5es ar\u00e1bicas:<br \/>\nama, al\u00e9m disso, na pol\u00edtica, o elemento dram\u00e1tico e<br \/>\nbrilhante: tem o temperamento batalhador e militante que ele outrora atribuiu<br \/>\nao seu her\u00f3i Tancredo: tem-se colocado como um antagonista hist\u00f3rico<br \/>\ndo czar, o que lisonjeia o seu orgulho de judeu e de plebeu: al\u00e9m disso,<br \/>\nsendo um perfeito cortes\u00e3o, desejaria dar \u00e0 rainha Vit\u00f3ria<br \/>\no presente que mais a encantaria \u2013 uma guerra em favor da Turquia. Porque<br \/>\na pessoa que no reino \u00e9 mais anti-russa, mais pr\u00f3-turca, mais<br \/>\nfan\u00e1tica da pol\u00edtica tradicional, da alian\u00e7a otomana,<br \/>\nmais zelosa dos chamados interesses brit\u00e2nicos e mais pronta \u00e0<br \/>\nguerra, \u00e9 a rainha.<\/p>\n<p>E tem-no mostrado ultimamente de um modo t\u00e3o saliente que causa alguma<br \/>\nsurpresa e muita tristeza aos que est\u00e3o acostumados a v\u00ea-la observar,<br \/>\nreligiosamente, as regras mais exactas da absten\u00e7\u00e3o constitucional.<br \/>\nEm primeiro lugar a rainha publicou ultimamente um \u00abpanfleto contra<br \/>\na R\u00fassia\u00bb: e eu me explico: o Sr. Theodore Martin est\u00e1<br \/>\nimprimindo uma biografia do pr\u00edncipe Alberto, cujos elementos e documentos<br \/>\ns\u00e3o fornecidos pela rainha: a rainha \u00e9, de facto, a colaboradora<br \/>\nessencial deste trabalho: h\u00e1 p\u00e1ginas que est\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nprofundamente impregnadas das suas opini\u00f5es, das suas simpatias, direi<br \/>\nmesmo das suas afei\u00e7\u00f5es, que parece que o nome de Theodore Martin<br \/>\n\u00e9 apenas um pseud\u00f3nimo liter\u00e1rio sob o qual se oculta<br \/>\na rainha Vit\u00f3ria: ora justamente o terceiro tomo desta biografia acaba<br \/>\nde ser publicado, e refere-se ao per\u00edodo da vida do pr\u00edncipe<br \/>\nno tempo da Guerra da Crimeia: as cartas do pr\u00edncipe transcritas, os<br \/>\nseus discursos, as suas opini\u00f5es, a reprodu\u00e7\u00e3o das suas<br \/>\nconversa\u00e7\u00f5es, sobretudo a hist\u00f3ria da sua influ\u00eancia<br \/>\nna pol\u00edtica inglesa desse tempo, mostram que ele tinha a maior simpatia<br \/>\npela guerra contra a R\u00fassia e que concorreu poderosamente para a sua<br \/>\nrealiza\u00e7\u00e3o: o volume inteiro \u00e9 a apologia prolongada<br \/>\ndesta simpatia, e a rainha, por interm\u00e9dio do Sr. Martin, revestindo-se<br \/>\ndas opini\u00f5es do seu marido, e fazendo, neste momento, a sua glorifica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nd\u00e1 claramente ao pa\u00eds a express\u00e3o das suas opini\u00f5es<br \/>\npessoais. Diz-se mesmo que, depois de um dos \u00faltimos conselhos de ministros,<br \/>\nem que Lord Derby e Lord Salisbury tinham energicamente advogado uma pol\u00edtica<br \/>\nde absten\u00e7\u00e3o, a rainha disse a Lord Beaconsfield, dando-lhe<br \/>\neste terceiro volume da Vida do Pr\u00edncipe Alberto: \u2013 Pe\u00e7a<br \/>\naos seus colegas que desejam a paz que leiam este livro: t\u00eam muito que<br \/>\naprender aqui. De facto o volume \u00e9 um ataque terr\u00edvel contra<br \/>\na R\u00fassia, contra a falsidade tortuosa da sua pol\u00edtica, a instabilidade<br \/>\ndesonesta das suas promessas e a intensidade das suas ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas a maior demonstra\u00e7\u00e3o da rainha em favor da guerra, foi<br \/>\na sua recente visita a Lord Beaconsfield: n\u00e3o uma visita particular,<br \/>\nmas oficial, em cerim\u00f3nia, como rainha de Inglaterra e imperatriz das<br \/>\n\u00cdndias. Semelhante honra \u00e9 t\u00e3o extraordin\u00e1ria,<br \/>\nt\u00e3o contr\u00e1ria aos h\u00e1bitos da corte e aos costumes da<br \/>\nrainha, que, ao saber tal, todo o reino ficou mudo de espanto. O imperador<br \/>\ndo Brasil, o imperador da R\u00fassia, a imperatriz da \u00c1ustria, todos<br \/>\nos pr\u00edncipes herdeiros e todas as coroas europeias t\u00eam vindo<br \/>\na Inglaterra, e a rainha nunca lhes fez uma visita: \u00e9 in\u00fatil<br \/>\ndizer que nunca a fez a um lorde de Inglaterra nem a nenhum dos seus primeiros-ministros,<br \/>\nnem mesmo a Lord Granville, por quem ela tem a maior simpatia pessoal. Portanto,<br \/>\na sua cerimoniosa jornada a Hughender Manor, propriedade e resid\u00eancia<br \/>\ncastel\u00e3 de Lord Beaconsfield, deu origem \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais fant\u00e1sticas e aos boatos mais insensatos; mas a verdade \u00e9<br \/>\n(e todas as pessoas razo\u00e1veis o compreendem) que a rainha, fazendo<br \/>\numa tal honra ao ministro que mais advoga a guerra, quis manifestar que lhe<br \/>\ndava todo o seu apoio e que estava com ele na mais perfeita comunidade de<br \/>\nvistas e talvez de decis\u00f5es. Mas que importa toda esta manobra de ministros<br \/>\ne da rainha se a Inglaterra quer o contr\u00e1rio? E quando o forte John<br \/>\nBull exprimir resolutamente a sua vontade, os altos personagens do minist\u00e9rio<br \/>\ne da corte t\u00eam de obedecer como os bois obedecem ao carreiro.<\/p>\n<p>Da guerra n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o not\u00edcias mais ou menos<br \/>\nincertas: assim n\u00e3o creio que se deva dar muito cr\u00e9dito ao espantoso<br \/>\nboato de que Suleiman Pax\u00e1 apareceu inesperadamente em Constantinopla<br \/>\n\u00e0 testa de dez mil homens, para fazer uma revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nderrubar o Governo, exonerar o sult\u00e3o e criar uma ditadura militar<br \/>\nsob o nome do ex-sult\u00e3o Murad, destinada a continuar a guerra at\u00e9<br \/>\n\u00e0 \u00faltima extremidade. Suleiman Pax\u00e1, \u00e9 certo,<br \/>\npertence ao partido fan\u00e1tico, \u00e9 uma esp\u00e9cie de general<br \/>\nsofta, inimigo das reformas europeias, ciumento das velhas tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\notomanas, hostil ao estrangeiro e \u00e0 sua influencia: mas, por isso mesmo,<br \/>\ncreio, bastante patriota para n\u00e3o querer complicar a guerra estrangeira<br \/>\ncom uma revolta interior, e p\u00f4r \u00e0 testa do Governo homens de<br \/>\nquem a Europa desconfia, neste momento em que o seu pa\u00eds mais precisa<br \/>\na benevol\u00eancia e a confian\u00e7a da Europa.<\/p>\n<p>E o mais cr\u00edvel \u00e9 que a ele fosse a Constantinopla organizar<br \/>\num ex\u00e9rcito que defenda o caminho para a capital no caso que Andrinopla<br \/>\nfosse tomada ou torneada.<\/p>\n<p>Tudo isto indica que a paz ainda vem longe: a R\u00fassia, exaltada com<br \/>\nas suas \u00faltimas vit\u00f3rias, sentindo-se fortemente apoiada pela<br \/>\nAlemanha e tendo todas as raz\u00f5es para se julgar apoiada pela \u00c1ustria,<br \/>\nalarga as suas pretens\u00f5es, e quase n\u00e3o oculta que planeia a<br \/>\ndesmembra\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Otomano; a Turquia, pelo seu<br \/>\nlado, exasperada pela humilha\u00e7\u00e3o das derrotas, tendo adquirido<br \/>\ncom as primeiras vit\u00f3rias uma extrema confian\u00e7a em si mesma,<br \/>\nanimada pela atitude activa da Inglaterra, pressentindo a proximidade de uma<br \/>\ninterven\u00e7\u00e3o em seu favor, objecta, mais que nunca, a meter a<br \/>\nespada na bainha: e os sofrimentos na Bulg\u00e1ria e na \u00c1sia, agora<br \/>\nque as inclem\u00eancias se v\u00eam juntar aos desastres da guerra, amea\u00e7am<br \/>\nprotrair-se indefinidamente. E, para haver mais uma acha na fogueira, a S\u00e9rvia<br \/>\nacaba de lan\u00e7ar o seu ex\u00e9rcito de aventura sobre a Turquia meio<br \/>\nvencida. O procedimento do pr\u00edncipe Milan e do Governo s\u00e9rvio<br \/>\n\u00e9 aqui julgado (mesmo pelos inimigos da Turquia) com uma severidade<br \/>\nem que h\u00e1 mais desprezo que indigna\u00e7\u00e3o. Alguns jornais<br \/>\nmesmo afectam n\u00e3o tocar no assunto, como muito vil para uma pena honesta.<br \/>\nCom efeito, a S\u00e9rvia tem-se comportado pulhamente: batida pela Turquia,<br \/>\nquase sem esfor\u00e7o, tratada de covarde pelo imperador da R\u00fassia<br \/>\nno c\u00e9lebre discurso de Moscovo, aceita com reconhecimento uma paz que<br \/>\nas na\u00e7\u00f5es mendigaram para ela, e obriga-se por um tratado a<br \/>\nconservar-se neutral, forem quais forem as ocorr\u00eancias: a R\u00fassia<br \/>\ndeclara a guerra, e no primeiro momento parece levar de vencida os ex\u00e9rcitos<br \/>\notomanos; a S\u00e9rvia logo, com a cobardia de quem \u00e9 forte para<br \/>\ncom homem derrubado, tira metade da espada fora da bainha; mas as coisas mudam,<br \/>\ne \u00e9 a Turquia que sobre toda a linha ganha vit\u00f3rias decisivas;<br \/>\nimediatamente a S\u00e9rvia esconde a espada e d\u00e1 parab\u00e9ns<br \/>\ncortes\u00e3os ao sult\u00e3o. Os Turcos s\u00e3o de novo batidos na<br \/>\nArm\u00e9nia e no Dan\u00fabio, e eis a S\u00e9rvia a menear-se num<br \/>\nrepentino impulso guerreiro; Plevna cai, e a S\u00e9rvia une-se ao imperador,<br \/>\nque a tratou publicamente de covarde, e contra todas as leis da honra e todos<br \/>\nos deveres da coragem vai dar na Turquia o coice do asno! N\u00e3o me espanto<br \/>\nde que o Daily Telegraph trate o pr\u00edncipe Milan de biltrezito! Estamos<br \/>\nem f\u00e9rias do Natal; \u00e9 esta a \u00e9poca das festas de fam\u00edlia,<br \/>\ndo plum-pudding e de uma praga de versos, de publica\u00e7\u00f5es, de<br \/>\nbaladas, de contos aleg\u00f3ricos, de cromos-litografias, celebrando o<br \/>\nvelho ano, o bom Christmas, o ano novo e as do\u00e7uras do lar! O Natal<br \/>\nd\u00e1 lugar a uma singular esp\u00e9cie de literatura, que \u00e9<br \/>\npara as letras o que o plum-pudding \u00e9 para a confeitaria \u2013 um<br \/>\nproduto pesado e indigesto que todo o mundo gosta de ver sobre a mesa, em<br \/>\nque ningu\u00e9m toca e que a gente grande estima pela alegria que d\u00e1<br \/>\n\u00e0s crian\u00e7as. E sobretudo para as crian\u00e7as que s\u00e3o<br \/>\nescritas estas poesias piegas e estas hist\u00f3rias de fantasmas, desenhadas<br \/>\nestas vistas convencionais da neve e estas figuras grotescas da caridade.<br \/>\nOs jornais ou revistas, todas as publica\u00e7\u00f5es, p\u00f5em de<br \/>\nparte o bom senso, a ci\u00eancia ou a arte e dedicam um n\u00famero a<br \/>\nestas criancices, que se chama o \u00abn\u00famero de Natal\u00bb, e que,<br \/>\npela venda prodigiosa que tem, constitui um dos rendimentos das publica\u00e7\u00f5es<br \/>\ninglesas. Os teatros fazem o mesmo: e todos, sem excep\u00e7\u00e3o, representam<br \/>\nnesta \u00e9poca a pantomima, esp\u00e9cie de m\u00e1gica desordenada,<br \/>\ncheia de transforma\u00e7\u00e3o, de bailados e de gl\u00f3rias, onde<br \/>\naparecem simultaneamente actores, palha\u00e7os, c\u00e3es s\u00e1bios,<br \/>\nvirtuosos ilustres, feras, dan\u00e7armos c\u00e9lebres, habitantes de<br \/>\npa\u00edses ex\u00f3ticos (lap\u00f3nios ou patag\u00f3nios), macacos,<br \/>\nesquadr\u00f5es de cavalaria e cascatas naturais! Estas representa\u00e7\u00f5es<br \/>\nduram tr\u00eas meses, e toda a fam\u00edlia verdadeiramente inglesa e<br \/>\nque respeita as tradi\u00e7\u00f5es vai ver a pantomima pelo menos tr\u00eas<br \/>\nvezes, com todas as crian\u00e7as e todos os criados: \u00e9 uma solenidade<br \/>\ndom\u00e9stica.<\/p>\n<p>De resto o tempo tem estado espl\u00eandido, em toda a Inglaterra; neve<br \/>\ne sol: de noite a neve cai para dar a sua beleza especial aos campos e \u00e0s<br \/>\ncidades; de dia o sol vem para iluminar a neve e fazer o ar alegre. J\u00e1<br \/>\nse patina, porque toda a \u00e1gua parada est\u00e1 gelada. Temos tido<br \/>\noito a dez graus abaixo de zero (cent\u00edgrados).<\/p>\n<p>Depois do Natal come\u00e7a a emigra\u00e7\u00e3o da gente rica para<br \/>\no Sul. O lugar favorito \u00e9 a formosa ilha de Wight, onde h\u00e1 bosques<br \/>\nde cam\u00e9lias e erra no ar de Inverno uma perp\u00e9tua reminisc\u00eancia<br \/>\nda Primavera. A prop\u00f3sito da ilha de Wight, um amigo meu que de l\u00e1<br \/>\nveio contame uma deliciosa anedota sobre o ilustre Tennyson, o maior poeta<br \/>\nde Inglaterra e do seu tempo, talvez.<\/p>\n<p>Tennyson vive na ilha de Wight, no seu delicioso retiro cheio de flores<br \/>\ne de p\u00e1ssaros: est\u00e1 velho agora, e a sua qualidade caracter\u00edstica,<br \/>\nque foi sempre a mod\u00e9stia, tem tomado sempre com os anos uma intensidade<br \/>\nexagerada: n\u00e3o h\u00e1 nada que o sublime poeta de Locksley Hall,<br \/>\nde Mand e dos Id\u00edlios de El-Rei deteste mais do que ver um curioso<br \/>\ncontempl\u00e1-lo. Tennyson \u00e9 pessoalmente uma figura po\u00e9tica,<br \/>\ne os seus longos cabelos brancos, em an\u00e9is, a sua comprida barba nevada<br \/>\ne a extraordin\u00e1ria do\u00e7ura dos seus olhos exercem um encanto<br \/>\ne provocam um respeito enternecedor em quem pela primeira vez o encontra.<br \/>\nE portanto, natural que a sua celebridade, o fanatismo que os Ingleses, e<br \/>\nsobretudo as inglesas, t\u00eam por ele, a beleza da sua pessoa, o exponham<br \/>\na ser muitas vezes objecto da curiosidade e de uma admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nimpertinente. O que faz, pois, Tennyson quando passeia nos deliciosos caminhos<br \/>\nda ilha de Wight? Que imaginam que faz? Traz um grande len\u00e7o na m\u00e3o<br \/>\ne, apenas sente passos, atira-o para cima do chap\u00e9u e cobre cuidadosamente<br \/>\no rosto! Um ingl\u00eas \u00e9 sempre exc\u00eantrico, mesmo quando \u00e9<br \/>\nsublime.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>XI Londres, 10 de Janeiro de 1878<\/h2>\n<p>Onde est\u00e3o os tempos saudosos, em que cada telegrama nos trazia uma<br \/>\nvit\u00f3ria turca? Onde est\u00e3o esses dias em que os correspondentes<br \/>\nnos pintavam as cargas irresist\u00edveis da infantaria otomana, atroando<br \/>\nos c\u00e9us com o grito de \u00abAl\u00e1! Al\u00e1!\u00bb e pulverizando<br \/>\ndivis\u00f5es russas? Onde est\u00e3o os Vitoriosos e os ghazis? Onde<br \/>\nest\u00e3o as l\u00e1grimas do imperador da R\u00fassia choradas nas<br \/>\nnoites da derrota? Onde est\u00e3o as horas alegres em que um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nliberal se regozijava, pensando que o czar e o seu Governo autorit\u00e1rio,<br \/>\ndesp\u00f3tico, teocr\u00e1tico, semib\u00e1rbaro, humilhado pelas derrotas<br \/>\nna Bulg\u00e1ria, seria na R\u00fassia feito em peda\u00e7os por uma<br \/>\nrevolu\u00e7\u00e3o niilista? Ai, tudo nos passou! Hoje o que se nos diz<br \/>\ncada dia \u00e9 que mais uma fortaleza turca foi tomada, mais um regimento<br \/>\naprisionado, mais um passe dos Balc\u00e3s atravessado, mais uma enxada<br \/>\ncavada na sepultura da Turquia. O czar n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9<br \/>\ndestronado, mas \u00e9 recebido em Sampetersburgo com um fanatismo t\u00e3o<br \/>\nalucinado que pessoas deixam-se atropelar para se poderem prostrar, beijar-lhes<br \/>\nas botas, tocar com a ponta dos dedos na bainha da sua espada santa! E s\u00e3o<br \/>\nos ministros do sult\u00e3o que dizem ao novo parlamento em Constantinopla:<br \/>\n\u00abEstamos perdidos, rendamo-nos!\u00bb \u00c9 doloroso ver que esta<br \/>\nguerra injusta tem como resultado fortificar, enfatuar, perpetuar um governo<br \/>\ninimigo de toda a liberdade, defensor de todo o despotismo, cuja justi\u00e7a<br \/>\nse chama Sib\u00e9ria, cuja administra\u00e7\u00e3o se chama Pol\u00f3nia,<br \/>\nque tempera a liberdade dos jornais pelo assassinato dos jornalistas, que<br \/>\nliberta os servos para melhor os poder explorar pelos impostos, que condena<br \/>\num romancista ou um poeta a pris\u00e3o perp\u00e9tua se o seu poema ou<br \/>\na sua novela desagradam \u00e0 pol\u00edcia, que expulsa o estrangeiro<br \/>\nsuspeito de liberalismo como se enxota um c\u00e3o, que tem como sistema<br \/>\nde governo a dela\u00e7\u00e3o e a espionagem, que chicoteia as mulheres<br \/>\ncujos maridos n\u00e3o conv\u00eam, que exila os maridos cujas mulheres<br \/>\nconv\u00eam e que civiliza as ra\u00e7as de civiliza\u00e7\u00e3o inferior<br \/>\n\u2013 destruindo-as. Eu n\u00e3o tenho certamente nenhuma simpatia pelo<br \/>\nsult\u00e3o: uma t\u00e3o rica por\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio<br \/>\neuropeu, como a Turquia, nas m\u00e3os de uma ra\u00e7a pregui\u00e7osa<br \/>\ne asiaticamente passiva \u00e9 certamente uma perda para a civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 uma esteriliza\u00e7\u00e3o de for\u00e7a produtiva; mas se<br \/>\no golpe ao Urso Branco, ao campe\u00e3o da tirania, pudesse vir da Turquia,<br \/>\nhurra pela Turquia!, hurra pelo china ou pelo mongol!, hurra por qualquer<br \/>\npovo negro ou nu que pudesse libertar a R\u00fassia, a Europa, a liberdade<br \/>\ne o pensamento desta tenebrosa entidade, o Governo do czar! Infelizmente n\u00e3o<br \/>\nnos \u00e9 dada essa doce consola\u00e7\u00e3o. E, todavia, \u00e9<br \/>\nneste momento ou nunca que a R\u00fassia corre um perigo. O armist\u00edcio<br \/>\ncom a Turquia est\u00e1 assinado, parece. O czar deve agora apresentar,<br \/>\nnecessariamente, as suas condi\u00e7\u00f5es de paz e revelar a extens\u00e3o<br \/>\ndas pretens\u00f5es: se elas forem tais que prejudiquem os interesses brit\u00e2nicos,<br \/>\no Governo de Lord Beaconsfield est\u00e1 ligado, pelas suas declara\u00e7\u00f5es<br \/>\ne pela sua honra, a fazer a guerra. E este o momento cr\u00edtico. A Inglaterra<br \/>\nh\u00e1 meses que diz: \u00abEsperemos, at\u00e9 ver o que a R\u00fassia<br \/>\nquer.\u00bb A R\u00fassia tem nestas semanas \u00faltimas de dizer o<br \/>\nque quer. E a Inglaterra de dizer o que faz.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que uma coisa \u00e9 o Governo de Inglaterra e outra<br \/>\ncoisa \u00e9 a Inglaterra: que a rainha e Lord Beaconsfield desejam a guerra,<br \/>\npelas suas inclina\u00e7\u00f5es pessoais, \u00e9 certo; mas estes bons<br \/>\ndesejos dos elementos decorativos da constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nbastam; \u00e9 necess\u00e1rio que a grande massa, o contribuinte, o eleitor<br \/>\nse queiram bater \u2013 e \u00e9 neste elemento dominante que eu vejo uma<br \/>\nantipatia muito decidida por qualquer ac\u00e7\u00e3o militar. O Partido<br \/>\nConservador, em Inglaterra, vive num estado de irritabilidade acerca de pol\u00edtica<br \/>\nestrangeira; \u00e9, de natureza, b\u00e9lico e fanfarr\u00e3o: conserva<br \/>\no antigo ideal da can\u00e7\u00e3o: \u00abBrit\u00e2nia governando as<br \/>\nondas e \u00e1rbitra das na\u00e7\u00f5es.\u00bb Que em qualquer ponto<br \/>\nda Europa haja um tiro, e os conservadores ingleses querem logo mandar l\u00e1<br \/>\na frota, a vasta frota! Foram eles que fizeram a Guerra da Crimeia: foram<br \/>\neles que gritaram que a Inglaterra devia intervir, pelo Sul, na guerra da<br \/>\nAm\u00e9rica. Fora eles que declararam que a na\u00e7\u00e3o estava<br \/>\npara sempre desonrada por n\u00e3o ter tirado a espada em favor da Fran\u00e7a.<br \/>\nSe a na\u00e7\u00e3o os tivesse escutado, t\u00ea-la-iam lan\u00e7ado<br \/>\nnas aventuras mais desastrosas.<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o desta complica\u00e7\u00e3o do Oriente t\u00eam<br \/>\nestado constantemente a levar a m\u00e3o aos copos da espada, de testa franzida<br \/>\npara a R\u00fassia: e foram em parte estes actos de arreganho que provocaram<br \/>\na guerra; e se o Governo n\u00e3o tivesse recusado aceitar o memorando de<br \/>\nBerlim, a Turquia n\u00e3o se teria mostrado t\u00e3o resistente nas confer\u00eancias<br \/>\nde Constantinopla; se o Governo n\u00e3o tivesse mandado a esquadra \u00e0<br \/>\nbaia de Besika, a Turquia, que se julgou logo apoiada, n\u00e3o teria sido<br \/>\nt\u00e3o intrat\u00e1vel. E agora, que a guerra est\u00e1 finda, p\u00f5e<br \/>\noutra vez a m\u00e3o na espada a prop\u00f3sito das condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde paz. Resta saber se o pa\u00eds lhe n\u00e3o tirar\u00e1 a espada<br \/>\nda m\u00e3o. At\u00e9 aqui parece muito resolvido a isso; pelo menos,<br \/>\na julgar pelas peti\u00e7\u00f5es, protestos, meetings. representa\u00e7\u00f5es,<br \/>\na maioria liberal da na\u00e7\u00e3o quer trabalhar e n\u00e3o guerrear;<br \/>\ne firmemente declaram \u2013 que nenhuma condi\u00e7\u00e3o de paz, \u00abnenhuma<br \/>\nexig\u00eancia russa p\u00f5e em perigo os interesses da Inglaterra, nem<br \/>\nmesmo a posse de Constantinopla\u00bb. E aqui est\u00e1 o argumento: os<br \/>\nque querem a guerra dizem que se a R\u00fassia for a Constantinopla, primeiro,<br \/>\np\u00f5e em perigo a supremacia da marinha inglesa no Mediterr\u00e2neo;<br \/>\nsegundo, abala o prest\u00edgio ingl\u00eas na \u00cdndia; terceiro,<br \/>\ntornando-se uma forte pot\u00eancia, pode arrancar \u00e0 Inglaterra o<br \/>\nuso do canal de Suez e do seu caminho para a \u00cdndia. E, dizem os partid\u00e1rios<br \/>\nda paz, n\u00f3s respondemos a isto: primeiro, que a marinha inglesa \u00e9<br \/>\nmais forte que todas as marinhas do mundo juntas, e que os Russos n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam nem dinheiro, nem os construtores para criar uma frota que tenha<br \/>\na d\u00e9cima quinta parte da for\u00e7a da nossa, nem num s\u00e9culo;<br \/>\nsegundo, que os hindus n\u00e3o nos amam nem nos desamam pela maior ou menor<br \/>\nprotec\u00e7\u00e3o que n\u00f3s damos aos seus correligion\u00e1rios<br \/>\nmaometanos na Europa; e a prova \u00e9 que, meses depois de n\u00f3s nos<br \/>\ntermos batido pelos maometanos da Europa, na Crimeia, os maometanos da \u00cdndia<br \/>\nmostraram-nos a sua indel\u00e9vel gratid\u00e3o, fazendo contra n\u00f3s<br \/>\na mais formid\u00e1vel insurrei\u00e7\u00e3o dos tempos modernos!; terceiro,<br \/>\nque a R\u00fassia, em Constantinopla, tornar-se-ia a mais fraca das pot\u00eancias<br \/>\nocidentais: cercada do \u00f3dio da \u00c1ustria, da rivalidade da Alemanha<br \/>\ne da nossa cont\u00ednua vigil\u00e2ncia, a sua posi\u00e7\u00e3o seria<br \/>\nde um perigo permanente, obrigando-a a armamentos ruinosos, a um estado de<br \/>\nincerteza fatal ao seu com\u00e9rcio. E bastaria uma frota nas alturas de<br \/>\nCreta para a manter num estado de inac\u00e7\u00e3o impotente.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita verdade nesta argumenta\u00e7\u00e3o do partido da paz,<br \/>\ne \u00e9 esta a argumenta\u00e7\u00e3o em que se baseiam as representa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos meetings. Mas s\u00e3o estes meetings a express\u00e3o exacta do pensamento<br \/>\ndo pa\u00eds? Eu tive ocasi\u00e3o de assistir ao grande meeting de Newcastle.<br \/>\n\u00cb verdade que era em favor da guerra. Mas n\u00e3o \u00e9 das suas<br \/>\nresolu\u00e7\u00f5es que eu quero contar, \u00e9 da sua atitude. Havia<br \/>\ntodas as condi\u00e7\u00f5es de seriedade: estavam tr\u00eas a quatro<br \/>\nmil pessoas; era na sala monstro dos Pa\u00e7os do Concelho; falava o deputado<br \/>\nHammond, homem estimado. E aqui est\u00e1 o que se passou.<\/p>\n<p>Durante um quarto de hora Hammond falou, entre aplausos dos conservadores<br \/>\ne assobios dos radicais. Mas, nas palmas ou nos apupos, havia como uma indiferen\u00e7a<br \/>\ndistra\u00edda. As suas imagens mais preparadas, os adjectivos mais sonoros,<br \/>\nn\u00e3o conseguiam encadear a aten\u00e7\u00e3o; e eu notei que parte<br \/>\nda sua vasta audi\u00eancia se voltava repetidamente para o fundo da sala,<br \/>\nonde se eleva uma galeria em anfiteatro, naquela noite t\u00e3o escura de<br \/>\numa multid\u00e3o espessa. Era evidente que na galeria alguma coisa produzia<br \/>\naquele fr\u00e9mito de curiosidade. Eu mesmo esqueci o orador que bracejava<br \/>\nna plataforma falando da honra da Inglaterra, e apliquei-me a descobrir o<br \/>\ncaso interessante da galeria. At\u00e9 que achei. Era um homem, um velho,<br \/>\nque estava num dos bancos da frente, im\u00f3vel, com uma larga face barbada<br \/>\ne risonha. E verifiquei que o que produzia impress\u00e3o era uma coisa<br \/>\nque ele tinha na cabe\u00e7a; evidentemente o p\u00fablico, como eu, desejava<br \/>\nsaber o que era, porque, estando a galeria mal alumiada, n\u00e3o era poss\u00edvel,<br \/>\n\u00e0 dist\u00e2ncia, apreciar-se: n\u00e3o era um chap\u00e9u redondo,<br \/>\nnem um chap\u00e9u de bicos, nem um barrete, nem um capuz, nem um turbante,<br \/>\nnem um capacete: o que era ent\u00e3o? As risadas convulsivas das pessoas<br \/>\nque na galeria o cercavam picavam mais a minha curiosidade e a de tr\u00eas<br \/>\nmil pessoas que estavam em baixo, na sala. Pouco a pouco, por um movimento<br \/>\ncomunicativo, toda a gente se voltara para a galeria, estendendo o pesco\u00e7o,<br \/>\nagu\u00e7ando o olhar, erguendo-se em bicos de p\u00e9s; e o deputado<br \/>\nHammond n\u00e3o tinha diante de si, para receber os argumentos pol\u00edticos,<br \/>\nsen\u00e3o nucas e costas. O velho, decerto compreendendo que era o centro<br \/>\ndaquela curiosidade lisonjeira, ergueu-se com solenidade. Gritaram-lhe logo<br \/>\nque viesse para os degraus de baixo! A reclama\u00e7\u00e3o era engenhosa;<br \/>\nmal ele descesse, a luz de um dos lustres alumiar-lhe-ia a cabe\u00e7a e<br \/>\npoder\u00edamos enfim saber que estranho objecto Lhe cercava as c\u00e3s.<br \/>\nO velho condescendeu e, apenas entrou no foco de luz, uma gargalhada estridente,<br \/>\necoante, trovejante, fez oscilar os muros. Tinham visto o que ele tinha na<br \/>\ncabe\u00e7a, o velho! Era uma coroa de louros! Porqu\u00ea? Era um bardo?<br \/>\nEra o Tasso? Era o nosso Cam\u00f5es? Quem o coroara? Que batalha ganhara?<br \/>\nQue epopeia compusera? Era um deus marinho? Enfim descobrimos o motivo: o<br \/>\nrespeit\u00e1vel anci\u00e3o estava profundamente b\u00eabado! E, vendo-se<br \/>\nacolhido por uma aclama\u00e7\u00e3o t\u00e3o jovial, n\u00e3o hesitou<br \/>\ne falou! Falou dez minutos: salvas de palmas virgulavam-lhe cada ora\u00e7\u00e3o;<br \/>\nque triunfo, por J\u00fapiter! O deputado Hammond, na plataforma, l\u00edvido,<br \/>\nmascando uma bela imagem que come\u00e7ara a desenrolar, cruzava os bra\u00e7os<br \/>\ncom um desespero tr\u00e1gico: o seu olhar dizia claramente: \u00abPovo<br \/>\nvil, na\u00e7\u00e3o imunda!\u00bb Mas o povo delirava; e eu, aplicando<br \/>\no ouvido, pude vagamente perceber que o velho aconselhava os seus concidad\u00e3os<br \/>\na que fossem, em massa, \u00e0 taverna dos Bra\u00e7os de El-Rei, onde<br \/>\no gim era especialmente bom e as raparigas que o serviam singularmente rechonchudas;<br \/>\naconselhava-o com exalta\u00e7\u00e3o, com a f\u00e9 de um mission\u00e1rio;<br \/>\ne, coroado de louro sorria, o bom velho! Hammond n\u00e3o se conteve, invocou<br \/>\na pol\u00edcia. Mas ent\u00e3o o ver\u00e1s! O p\u00fablico, num frenesi,<br \/>\nassobiou a pol\u00edcia. O qu\u00ea? Levar, expulsar um homem que tinha<br \/>\nverdades t\u00e3o proveitosas a revelar aos seus compatriotas? N\u00e3o!<br \/>\nE o velho debatia-se entre dois pol\u00edcias, surpreendido, mostrando as<br \/>\nsuas c\u00e3s, a sua inoc\u00eancia e a sua coroa de louros. A pol\u00edcia<br \/>\nn\u00e3o o expulsou, mas f\u00ea-lo sentar. O deputado recome\u00e7ou.<br \/>\nMas ai! Quem o escutava? Todos os olhos, todos os cora\u00e7\u00f5es,<br \/>\ns\u00e3o para o bom velho que, sentado no mais alto degrau da galeria, como<br \/>\nna gl\u00f3ria de um trono, ostentava a sua face honesta e pac\u00edfica,<br \/>\ncom um bom sorriso jovial, coroado de louros, profundamente b\u00eabado.<\/p>\n<p>O meeting dispersou, sem se tomar nenhuma resolu\u00e7\u00e3o: e creio<br \/>\nque a maioria foi aos Bra\u00e7os de El-Rei verificar a qualidade do gim<br \/>\ne as formas das serventes.<\/p>\n<p>A Inglaterra \u00e9 uma grande na\u00e7\u00e3o. Longe de mim apresentar<br \/>\neste meeting como o tipo cl\u00e1ssico dos meetings ingleses. N\u00e3o.<br \/>\nConto apenas o que me parece ser um caso divertido.<\/p>\n<p>Chega-me neste momento uma triste not\u00edcia. V\u00edtor Manuel morreu:<br \/>\nainda ontem o seu antigo ministro, velho amigo e camarada de armas, o cavalheiresco<br \/>\ngeneral de La Marmora era enterrado \u2013 j\u00e1 hoje desaparece ele,<br \/>\no rei galantuomo, uma das personalidades mais interessantes da pol\u00edtica<br \/>\nmoderna. Perde-se assim um grande patriota; porque o tra\u00e7o eficiente<br \/>\ndo seu car\u00e1cter foi este: amar a sua p\u00e1tria; n\u00e3o a sua<br \/>\npequena p\u00e1tria, a Sab\u00f3ia, mas a sua grande p\u00e1tria, a<br \/>\nIt\u00e1lia.<\/p>\n<p>A sua biografia \u00e9 ao mesmo tempo a cr\u00f3nica da It\u00e1lia<br \/>\nunida. No fim da batalha de Novara, V\u00edtor Manuel, ent\u00e3o mo\u00e7o,<br \/>\nque se batera heroicamente, retirava-se do campo desastroso \u2013quando<br \/>\nde repente, estacando o cavalo e brandindo a espada para o lado onde se acendiam<br \/>\nos fogos do acampamento austr\u00edaco, exclamou: \u2013 Per Dio! L\u2019Italia<br \/>\nse far\u00e0! E toda a sua vida foi passada a fazer a It\u00e1lia. Foi<br \/>\neste o seu pensamento central; a ele sacrificou tudo; inclina\u00e7\u00f5es<br \/>\npessoais, repugn\u00e2ncias de educa\u00e7\u00e3o, devo\u00e7\u00f5es<br \/>\nsecretas, at\u00e9 orgulhos de fam\u00edlia; decerto lhe custou a ele,<br \/>\neducado por padres e amigo de Pio IX, cat\u00f3lico fervente no fundo, causar<br \/>\ntanta amargura ao chefe da Igreja; decerto lhe doeu a ele, de uma ra\u00e7a<br \/>\nt\u00e3o altiva, ceder \u00e0 Fran\u00e7a a Sab\u00f3ia, ber\u00e7o<br \/>\nda sua ra\u00e7a; decerto lhe foi amargo o dia em que teve de dar sua filha<br \/>\nClotilde ao pr\u00edncipe Napole\u00e3o, ateu, de uma fam\u00edlia de<br \/>\naventureiros, quase velho, de costumes t\u00e3o livres. Mas a It\u00e1lia<br \/>\nexigia um sacrif\u00edcio. Decerto havia nele muita ambi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA fam\u00edlia de Sab\u00f3ia \u00e9 orgulhosa, e ele n\u00e3o seria<br \/>\nhomem se lhe n\u00e3o fizesse bater o cora\u00e7\u00e3o a ideia de reinar<br \/>\nna It\u00e1lia unida, e de deixar o trono, que foi de c\u00e9sares e de<br \/>\npapas, \u00e0 sua ra\u00e7a; mas se esse orgulho concorreu para fazer<br \/>\numa grande na\u00e7\u00e3o livre, que esse orgulho seja bendito! Pessoalmente<br \/>\nera o tipo do fidalgo: nobre, fiel \u00e0 sua palavra, bravo, de h\u00e1bitos<br \/>\ns\u00f3brios; ca\u00e7ar o chamois, comer a pulenta, viver nos montes,<br \/>\nbastava-lhe; nos jantares oficiais conversava sem tocar nos pratos, com as<br \/>\nm\u00e3os apoiadas aos copos da espada; era um conversador fino, vivo, r\u00e1pido,<br \/>\nsobretudo quando falava no seu querido dialecto piemont\u00eas. Em campanha<br \/>\ngostava de dormir ao relento, embrulhado numa capa. Amava o cavalo como um<br \/>\ncavaleiro andante.<\/p>\n<p>Depois da batalha de Novara, quando o desp\u00f3tico general Radeztky<br \/>\nveio combinar \u00e0 sua tenda as condi\u00e7\u00f5es do armist\u00edcio,<br \/>\nV\u00edtor Manuel n\u00e3o quis tratar sem que lhe fosse restitu\u00eddo<br \/>\no seu cavalo favorito, que fora perdido na confus\u00e3o da retirada. Este<br \/>\ntra\u00e7o tem um ar de legenda her\u00f3ica, que encanta. Eram estes<br \/>\nrasgos que o faziam amado.<\/p>\n<p>Fala-se, com um certo ar repreensivo, dos seus muitos amores; para mim torna-se<br \/>\nsimplesmente mais simp\u00e1tico; ele n\u00e3o era um fil\u00f3sofo,<br \/>\nnem um abade, nem um m\u00edstico: a sua adora\u00e7\u00e3o da beleza<br \/>\nfaz parte do seu car\u00e1cter de her\u00f3i. A fidelidade a uma s\u00f3<br \/>\n\u00e9 sentimento belo, mas pertence aos tempos l\u00edricos do rei Artur<br \/>\ne da T\u00e1vola Redonda. Sir Galahad, que tinha um l\u00edrio no escudo,<br \/>\ndizia, percorrendo o mundo \u00e0 busca do Santo Graal: \u00abEu sou forte,<br \/>\nporque sou virgem.\u00bb E uma santa palavra; mas Sir Galahad, a n\u00e3o<br \/>\nser em verso e interpretado por Tennyson, faz ligeiramente sorrir. E neste<br \/>\nponto, o rei galantuomo seguia as tradi\u00e7\u00f5es de seus av\u00f3s<br \/>\nda Renascen\u00e7a, e n\u00e3o as dos cavaleiros do rei Artur.<\/p>\n<p>Foi uma pleurisia que o matou. Os pr\u00edncipes de Sab\u00f3ia vivem<br \/>\npouco. Em crian\u00e7as s\u00e3o d\u00e9beis; depois, subitamente, tomam<br \/>\num desenvolvimento robusto e declinam depressa. At\u00e9 ao momento extremo<br \/>\nconservou o esp\u00edrito l\u00facido. Minutos antes de expirar, chamou<br \/>\no pr\u00edncipe Humberto, apertou-lhe a m\u00e3o, deu-lhe um olhar de<br \/>\namor e disse serenamente: \u00abAddio!\u00bb O pr\u00edncipe saiu chorando<br \/>\ndesesperadamente, e o rei morria. Tinha comungado. Dois vig\u00e1rios do<br \/>\nVaticano tinham vindo, com a b\u00ean\u00e7\u00e3o do papa, levantar<br \/>\na excomunh\u00e3o. Pio IX, ao saber que a agonia do rei se aproximava, disse,<br \/>\nmuito agitado: \u2013 Se n\u00e3o fossem estas pernas, que n\u00e3o querem,<br \/>\neu mesmo levaria os sacramentos ao rei! \u00c9 singular que V\u00edtor<br \/>\nManuel, que vira passar como um sonho toda a velha It\u00e1lia, tudo o que<br \/>\nse lhe op\u00f4s e que o combateu \u2013 pr\u00edncipes desp\u00f3ticos,<br \/>\ngr\u00e3o-duques intriguistas, Bourbons fan\u00e1ticos, o grande Mazzini,<br \/>\ncarbon\u00e1rios e conspiradores, camisas-vermelhas e garibaldinos \u2013<br \/>\ns\u00f3 n\u00e3o sobreviveu ao seu grande advers\u00e1rio: o papa. Esse<br \/>\na\u00ed fica, como uma personifica\u00e7\u00e3o da velha It\u00e1lia<br \/>\nsacerdotal e autorit\u00e1ria. E \u00e9 esse que, depois de tantas lutas<br \/>\ne de tantas inj\u00farias, o ajuda a bem morrer.<\/p>\n<p>Assim v\u00e3o desaparecendo os grandes italianos da unifica\u00e7\u00e3o:<br \/>\nCavour, Ratazzi, Mazzini e V\u00edtor Manuel. Garibaldi resta, mas t\u00e3o<br \/>\nvelho que est\u00e1 mais na hist\u00f3ria que na vida.<\/p>\n<p>E o velho papa fica, intrat\u00e1vel, indom\u00e1vel, perturbando o<br \/>\nmundo mesmo do seu leito de morte, vendo os seus inimigos morrerem um a um,<br \/>\ne tendo a consola\u00e7\u00e3o de ver alguns virem, na hora final, pedir-lhe<br \/>\nhumildemente a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o. Por isso os cat\u00f3licos<br \/>\naqui est\u00e3o radiosos. Mas que importa? Os homens passam, s\u00e3o<br \/>\na parte decorativa das ideias; e se \u00e9 V\u00edtor Manuel que morre<br \/>\ne o papa que sobrevive, \u00e9 todavia o ultramontanismo que expira e a<br \/>\ndemocracia que fica.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>XII &#8211; Londres, 26 de Janeiro de 1878<\/h2>\n<p>Esta semana tem sido certamente fecunda em epis\u00f3dios hist\u00f3ricos<br \/>\ne que pela sua natureza fornecem belas ant\u00edteses ret\u00f3ricas:<br \/>\npompas funer\u00e1rias em It\u00e1lia, pompas nupciais em Espanha; o papa,<br \/>\nque materialmente agoniza, o sult\u00e3o, que agoniza politicamente; intrigas<br \/>\neclesi\u00e1sticas e intrigas diplom\u00e1ticas; isto com algumas guerrazinhas<br \/>\nsecund\u00e1rias, aqui e al\u00e9m, na \u00c1frica e na Am\u00e9rica,<br \/>\nalimenta com superfluidade a curiosidade europeia. Mas, ainda assim, \u00e9<br \/>\nem Londres que se tem concentrado o interesse dram\u00e1tico do momento;<br \/>\ntemos vivido aqui numa excita\u00e7\u00e3o, um excitement capaz de arruinar<br \/>\na constitui\u00e7\u00e3o mais robusta. Sobretudo nestes \u00faltimos<br \/>\ntr\u00eas dias cada hora nos traz uma grande sensa\u00e7\u00e3o; e cada<br \/>\nnot\u00edcia \u00e9 um choque el\u00e9ctrico. Ora \u00e9 o Governo<br \/>\nque vai pedir para armamentos sessenta milh\u00f5es de libras! Ora \u00e9<br \/>\na frota inglesa que \u00e9 mandada a Constantinopla! Ora s\u00e3o trinta<br \/>\nmil homens expedidos para Gal\u00edpoli! Depois \u00e9 Lord Derby que<br \/>\npediu o demiss\u00e3o, por ser oposto \u00e0 guerra! Em seguida, \u00e9<br \/>\na Inglaterra que, prevendo a partilha do Imp\u00e9rio Turco, fez desembarcar<br \/>\ncem mil homens no Egipto!&#8230; Toda a sorte de boatos fantasistas, de que aproveitam<br \/>\nos jogadores de fundos e as administra\u00e7\u00f5es dos jornais. E tudo<br \/>\nisto d\u00e1 lugar a uma quest\u00e3o feroz, desde que um ingl\u00eas<br \/>\nencontra outro ingl\u00eas; porque o pa\u00eds, dominado por impress\u00f5es,<br \/>\ne portanto indiferente aos racioc\u00ednios, est\u00e1 dividido em dois<br \/>\npartidos: os que querem a guerra a todo o pre\u00e7o e os que a todo o pre\u00e7o<br \/>\nquerem a paz.<\/p>\n<p>Uns parecem querer tomar como casus belli o simples facto de que o embaixador<br \/>\nrusso passeie nas ruas de Londres; os outros parecem quase dispostos a n\u00e3o<br \/>\nse mexer nem mesmo que um ex\u00e9rcito invasor desembarcasse em Dover!<br \/>\nO Governo, esse, pretende tomar um caminho m\u00e9dio: desejar a paz em<br \/>\nprinc\u00edpio e esfor\u00e7ar-se por a conservar; mas fazer a guerra,<br \/>\nse a R\u00fassia, pelas suas exig\u00eancias, ferir alguns dos grandes<br \/>\ninteresses brit\u00e2nicos. Isto parece, com efeito, o racional: \u00e9<br \/>\numa neutralidade condicional, que vela, armada.<\/p>\n<p>Eu, por mim, desejaria bem que a R\u00fassia ferisse, mas ferisse mortalmente,<br \/>\nalgum interesse ingl\u00eas, para que a Inglaterra fosse obrigada a atirar<br \/>\num golpe ao Urso Branco. Um dos meus grandes \u00f3dios pol\u00edticos<br \/>\n\u00e9 a R\u00fassia, n\u00e3o o povo russo, que tem qualidades magn\u00edficas,<br \/>\nmas o Governo russo, que n\u00e3o s\u00f3 exerce o despotismo em sua casa<br \/>\nmas que o defende, o auxilia e o promove nas casas alheias. O czar Nicolau,<br \/>\ncomo seu pai Alexandre, foi, enquanto vivo, o grande paladino do absolutismo<br \/>\nna Europa; em toda a parte em que um movimento de liberdade se manifestava,<br \/>\nele corria a ajudar a sufoc\u00e1-lo; todo o trono desp\u00f3tico e tir\u00e2nico<br \/>\nque uma revolu\u00e7\u00e3o abalava, tinha-o ao seu lado como defensor<br \/>\noficial do despotismo.<\/p>\n<p>O actual czar, apesar dos sentimentos humanit\u00e1rios que se lhe atribuem<br \/>\ne de que as suas alocu\u00e7\u00f5es transbordam at\u00e9 \u00e0 pieguice,<br \/>\nherdou esta miss\u00e3o desgra\u00e7ada; n\u00e3o teve ainda ocasi\u00e3o<br \/>\nde tirar a espada em favor de uma tirania sacudida; mas tem apoiado com a<br \/>\nsua influ\u00eancia, com os seus conselhos, com o seu dinheiro, todas as<br \/>\ntentativas mais ou menos aventureiras que se t\u00eam feito contra o livre<br \/>\nesp\u00edrito da \u00e9poca: foi ele que mais embara\u00e7ou e contrariou<br \/>\no movimento liberal de 68 em Espanha, foi ele que deu o mais alto aplauso<br \/>\nao minist\u00e9rio Broglie, de ominosa mem\u00f3ria; foi dele que D. Carlos,<br \/>\nna sua criminosa guerra civil, recebeu as palavras mais animadoras; o seu<br \/>\ndesejo de colocar o conde de Chambord em Fran\u00e7a, D. Miguel em Portugal,<br \/>\nrestabelecer os Bourbons em N\u00e1poles e restituir os ducados de It\u00e1lia<br \/>\naos pr\u00edncipes fan\u00e1ticos e tiranetes. Isto, reunido \u00e0<br \/>\nmaneira como a R\u00fassia \u00e9 governada, tomam-no pouco simp\u00e1tico<br \/>\na todo o esp\u00edrito liberal. \u00c9 claro que n\u00e3o falo aqui<br \/>\ndo czar-homem, esse, dizem, \u00e9 bondoso, compassivo, af\u00e1vel, sens\u00edvel,<br \/>\num perfeito gentleman; falo do czarideia, da miss\u00e3o que ele encarna<br \/>\ne da pol\u00edtica que representa.<\/p>\n<p>Seria portanto com ganidos de j\u00fabilo que os liberais veriam a Inglaterra<br \/>\ndar-lhe um golpe valente; n\u00e3o como no tempo da Crimeira: ent\u00e3o<br \/>\nos aliados, atacando e tomando Sebastopol, n\u00e3o fizeram mais do que<br \/>\nfazer c\u00f3cegas no calcanhar do colosso e limar uma unha do imenso urso;<br \/>\nn\u00e3o, o que se deseja \u00e9 que o golpe seja ao cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nbem ao meio do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O czar vencido era a R\u00fassia libertada. O povo russo perdeu a docilidade<br \/>\nde crian\u00e7a dependente: tem visto, tem olhado para fora da fronteira,<br \/>\nsabe que h\u00e1 uma coisa que se chama liberdade, outra que se chama constitui\u00e7\u00e3o,<br \/>\numa certa reuni\u00e3o de vontades e de raz\u00f5es que se chama parlamento,<br \/>\netc., etc. \u2013 e tem vontade de provar destes frutos excelentes que crescem<br \/>\nnas terras alheias. Se o povo sofresse duas ou tr\u00eas derrotas providenciais,<br \/>\nperdia todo o respeito, toda a ilus\u00e3o sobre o seu czar, e ou o obrigava<br \/>\ndelicadamente a ir divertir-se para a It\u00e1lia ou o for\u00e7ava a<br \/>\nn\u00e3o ser mais que a f\u00f3rmula simb\u00f3lica do Governo, de que<br \/>\nele, povo, ser\u00e1, pelos seus representantes e pelos seus jornais, o<br \/>\nmotor real. Por isso, \u00e9 com m\u00e1goa, \u00e9 com prantos, que<br \/>\nvemos escapar esta ocasi\u00e3o \u00fanica de ver a Inglaterra, campe\u00e3<br \/>\nda liberdade, como diz a can\u00e7\u00e3o, desfazer a tiros o Governo<br \/>\ndo czar e o seu terr\u00edvel maquinismo.<\/p>\n<p>Porque lan\u00e7ada a Inglaterra contra a R\u00fassia, o resultado n\u00e3o<br \/>\nera duvidoso. E \u00e9 triste, \u00e9 desolante, ver em lugar disto o<br \/>\nczar ganhando batalhas, tomando cidades, arrecadando indemniza\u00e7\u00f5es<br \/>\nde guerra, o czar alargando o seu territ\u00f3rio, o czar crescendo em for\u00e7a,<br \/>\no czar consolidando-se, o czar amado, o czar vitorioso! Esta inimizade ao<br \/>\nczar n\u00e3o implica, todavia, nenhuma simpatia pelo sult\u00e3o. O Governo<br \/>\nda Porta \u00e9 t\u00e3o detest\u00e1vel como o Governo do Pal\u00e1cio<br \/>\nde Inverno. Talvez mais, mesmo. Decerto a situa\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os<br \/>\nna Bulg\u00e1ria e nas prov\u00edncias turcas era lament\u00e1vel; muitos<br \/>\ncorrespondentes ingleses, pr\u00f3-turcos, esfor\u00e7am-se em provar<br \/>\nque os crist\u00e3os eram felizes, pouco carregados de impostos, de nenhum<br \/>\nmodo violentados nas suas cren\u00e7as, gozando uma liberdade consider\u00e1vel<br \/>\nde trabalho e possuindo mesmo uma prosperidade relativa. Mas se isto \u00e9<br \/>\nassim, porque eram os Russos recebidos por estas popula\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom o entusiasmo com que se recebe um salvador? Quando o general Gurko passou<br \/>\nos Balc\u00e3s, por cada campon\u00eas b\u00falgaro que se reclamava<br \/>\npara puxar, nas passagens das montanhas, as pe\u00e7as de artilharia, apareciam<br \/>\ncem! E os que, por sup\u00e9rfluos, eram exclu\u00eddos deste servi\u00e7o<br \/>\nmuar, queriam ao menos, por dedica\u00e7\u00e3o, ir ao p\u00e9 da carreta<br \/>\npuxar por uma ponta da corda, tocar a pe\u00e7a libertadora com as suas<br \/>\npr\u00f3prias m\u00e3os, fazer qualquer servi\u00e7o, mostrar a gratid\u00e3o<br \/>\ne o reconhecimento do homem salvo.<\/p>\n<p>Quando os Russos entravam em S\u00f3fia, em Andrinopla, eram recebidos<br \/>\ncom fanatismo: os soldados desapareciam sob as flores arremessadas; os lojistas<br \/>\nofereciam os seus armaz\u00e9ns de gra\u00e7a. O russo era o Messias muito<br \/>\nesperado. Ora \u00e9 evidente que se eles (como querem dizer certos correspondentes)<br \/>\neram t\u00e3o felizes sob a lei turca n\u00e3o teriam recebido com tanta<br \/>\npaix\u00e3o quem vinha destruir essa lei. E, pois, de crer que a prosperidade<br \/>\nde que se fala n\u00e3o existiu nunca sen\u00e3o na prosa dos correspondentes,<br \/>\nde envolta com alguma m\u00e1 gram\u00e1tica. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o<br \/>\na Bulg\u00e1ria, nem observei nunca de perto esp\u00e9cime algum da administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nturca; mas estive no Egipto e lembro-me da impress\u00e3o geral que me ficou<br \/>\nda condi\u00e7\u00e3o dos fel\u00e1s, pobres cultivadores da terra;<br \/>\no chino nas Antilhas, o negro nas col\u00f3nias espanholas, gozam uma verdadeira<br \/>\nfelicidade, comparados com o miser\u00e1vel, o acabrunhado, o desgra\u00e7ado<br \/>\nfel\u00e1.<\/p>\n<p>Quem observa como eles vivem, como os tratam, sente vagamente um insulto<br \/>\n\u00e0 natureza humana; n\u00e3o quero dizer que os crist\u00e3os da<br \/>\nBulg\u00e1ria estivessem nas mesmas condi\u00e7\u00f5es abjectas; mas<br \/>\na similitude da administra\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia e turca deve produzir<br \/>\numa igualdade de vexame. Portanto, honra e gl\u00f3ria a quem os fosse libertar!<br \/>\nA R\u00fassia n\u00e3o era talvez o pa\u00eds mais autorizado para o<br \/>\nfazer, ela que trata&#8230; como trata os pobres camponeses, antigos servos.<\/p>\n<p>Mas, enfim, foi a R\u00fassia que se dedicou, que apareceu na Bulg\u00e1ria<br \/>\na sacudir a tirania otomana: bem!, hurra pela R\u00fassia! Hurra pela Patag\u00f3nia,<br \/>\nse tivesse sido a Patag\u00f3nia! Mas agora que o czar livrou os B\u00falgaros<br \/>\ndo sult\u00e3o, venha algu\u00e9m, mais civilizado ainda, a livrar os<br \/>\nRussos do czar. Eis o verdadeiro ideal liberal.<\/p>\n<p>Mas esta esperan\u00e7a devemo-la perder. Toda a esperan\u00e7a da guerra<br \/>\nfindou. Direi mesmo que, h\u00e1 dias, o procedimento do Governo ingl\u00eas<br \/>\nfoi tal que se pode acreditar que ele tinha esquecido as suas declara\u00e7\u00f5es<br \/>\norgulhosas e que, fosse qual fosse a ofensa feita pela R\u00fassia aos interesses<br \/>\ningleses, o le\u00e3o brit\u00e2nico, caduco e pesado com a sua indigest\u00e3o<br \/>\nde ouro, n\u00e3o mexeria nem uma pata. Um jornal franc\u00eas, mesmo,<br \/>\ncome\u00e7ou o seu artigo de fundo, dizendo: \u00abA Inglaterra n\u00e3o<br \/>\nexiste! A Inglaterra desapareceu da superf\u00edcie do orbe! Alv\u00edssaras<br \/>\na quem achar a Inglaterra!\u00bb O Journal des Debats, dizia, com mais gravidade<br \/>\nde estilo: \u00abL\u2019affaissement d\u2019Angleterre est complet.\u00bb<br \/>\nCom efeito, o Governo convocara o parlamento para lhe pedir fundos dado o<br \/>\ncaso que alguma coisa sucedesse; pois bem, o armist\u00edcio estava-se tratando,<br \/>\numa divis\u00e3o russa marchava sobre Gal\u00edpoli, outra sobre Constantinopla<br \/>\n\u2013 e o Governo n\u00e3o pedia os fundos! A tomada de Constantinopla<br \/>\nn\u00e3o era considerada grave! O que seria grave, ent\u00e3o? Mas a opini\u00e3o<br \/>\nfez tanto barulho que o Governo acordou e, ainda meio a dormir, declarou que<br \/>\nhavia de pedir os fundos \u00abal\u00e9m de amanh\u00e3\u00bb. Gra\u00e7as<br \/>\na Deus! Mas esses fundos n\u00e3o ser\u00e3o empregados, nem pedidos talvez,<br \/>\nporque hoje conhecem-se as exig\u00eancias da R\u00fassia, e elas n\u00e3o<br \/>\ncont\u00eam nada que ofenda os interesses ingleses. O urso teve medo do le\u00e3o.<br \/>\nEstende a pata de um modo suave e prudente. Eis o que, em resumo e tanto quanto<br \/>\nse sabe, a R\u00fassia pede: Autonomia da Rom\u00e2nia; Autonomia da S\u00e9rvia;<br \/>\nAnexa\u00e7\u00e3o da Bessar\u00e1bia; Cess\u00e3o do porto de Batum;<br \/>\nEntrada das tropas em Constantinopla para a\u00ed embarcarem para Odessa.<\/p>\n<p>Indemniza\u00e7\u00e3o de um milliard de rublos, ou sejam, quatro milliards<br \/>\nde francos, ou sejam, cento e cinquenta milh\u00f5es de libras esterlinas,<br \/>\ne para garantia, at\u00e9 inteiro pagamento, ocupa\u00e7\u00e3o da Arm\u00e9nia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nestas condi\u00e7\u00f5es (a quest\u00e3o dos<br \/>\nDardanelos \u00e9 deixada para mais tarde) nada que ofenda os interesses<br \/>\ningleses. H\u00e1, \u00e9 verdade, a entrada em Constantinopla: mas nesta<br \/>\nexig\u00eancia os Russos t\u00eam raz\u00e3o: em primeiro lugar, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 poss\u00edvel negar \u00e0s tropas vitoriosas, que tanto sofreram<br \/>\ne t\u00e3o bem se bateram, esta marcha triunfal na capital inimiga, que<br \/>\n\u00e9 a grande recompensa militar e a consagra\u00e7\u00e3o vis\u00edvel<br \/>\nda gl\u00f3ria: mas h\u00e1 outra raz\u00e3o; \u00e9 que embarcar<br \/>\nas tropas em Constantinopla e faz\u00ea-las ir para Odessa \u00e9 a maneira<br \/>\nmais f\u00e1cil, mais barata, mais pr\u00e1tica, quase a \u00fanica<br \/>\nposs\u00edvel de chamar o ex\u00e9rcito \u00e0 R\u00fassia. Imagine-se<br \/>\nque despesa, que trabalho, que sofrimento, se as tropas tiverem, nesta esta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde tomar a atravessar os Balc\u00e3s, de repassar o Dan\u00fabio (o que<br \/>\n\u00e9, em virtude do gelo, quase impratic\u00e1vel) e de voltar \u00e0<br \/>\nR\u00fassia por terra. Al\u00e9m disso, se os Prussianos entraram em Paris,<br \/>\ncapital da civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o, nem<br \/>\npol\u00edtica nem moral, por que os Russos n\u00e3o entrem em Constantinopla,<br \/>\nsimples cidade pitoresca.<\/p>\n<p>A indemniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o creio que ofere\u00e7a dificuldades.<br \/>\nEis, penso, o que se vai passar: a R\u00fassia, como garantia, ocupa a Arm\u00e9nia:<br \/>\n\u00e9 claro que a Turquia, nem como pilh\u00e9ria, pode pensar em pagar<br \/>\ncento e cinquenta milh\u00f5es de libras: portanto, os Russos estabelecem-se<br \/>\nna Arm\u00e9nia; mas como esta ocupa\u00e7\u00e3o, num dos caminhos<br \/>\nposs\u00edveis para a \u00cdndia, \u00e9 extremamente desagrad\u00e1vel<br \/>\naos Ingleses, a Inglaterra empresta os milh\u00f5es \u00e0 Turquia para<br \/>\npagar \u00e0 R\u00fassia e recebe como garantia a suserania do Egipto.<br \/>\nA R\u00fassia embolsa, a Inglaterra estabelece-se no seu bem-amado canal<br \/>\nde Suez e todo o mundo fica contente, excepto, j\u00e1 se sabe, o pobre<br \/>\nTurco.<\/p>\n<p>Eis o que eu penso prov\u00e1vel; mas nesta quest\u00e3o do Oriente<br \/>\nas complica\u00e7\u00f5es crescem como os tortulhos \u2013 conjecturar<br \/>\ntorna-se t\u00e3o pretensioso como adivinhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que a imprensa portuguesa se tenha ocupado muito de um<br \/>\nassunto que profundamente interessa ao pa\u00eds e a que a imprensa inglesa<br \/>\ndesde ontem d\u00e1 uma certa aten\u00e7\u00e3o. Refiro-me \u00e0<br \/>\nmorte de Pio IX e ao direito que tem Portugal de opor o seu veto \u00e0<br \/>\nnomea\u00e7\u00e3o de novo papa. Este direito, que pertence igualmente<br \/>\n\u00e0 Fran\u00e7a, Espanha e \u00c1ustria, est\u00e1 nas v\u00e9speras<br \/>\nde ser oportunamente reclamado, porque sua santidade tem bem pr\u00f3xima<br \/>\na hora de subir para o seio de Aquele que h\u00e1 trinta anos, com fortunas<br \/>\ndiversas, ele representa oficialmente na Terra. A esta hora h\u00e1 no Vaticano<br \/>\numa destas intrigas subtis e maravilhosas, perante as quais os enredos diplom\u00e1ticos<br \/>\nou os antigos imbr\u00f3glios das com\u00e9dias espanholas s\u00e3o<br \/>\ncoisas simples e elementares.<\/p>\n<p>Os cardeais t\u00eam, na sua dupla qualidade de italianos e de padres,<br \/>\no g\u00e9nio refinado da intriga astuta: e neste caso de sucess\u00e3o<br \/>\npapal s\u00e3o italianos contra italianos e padres contra padres.<\/p>\n<p>Os cardeais estrangeiros, ou ausentes nas suas dioceses, ou afastados da<br \/>\nfrequenta\u00e7\u00e3o \u00edntima dos quartos de sua santidade, s\u00e3o<br \/>\napenas como o coro de certas \u00f3peras antiquadas, que na cena final,<br \/>\ndos dois lados do palco, se pronunciam uns por este, outros por aquele pretendente<br \/>\n\u00e0 m\u00e3o da princesa. O grande enredo \u00e9 entre os italianos:<br \/>\na\u00ed tudo o que a finura tem de mais agu\u00e7ado, tudo o que a duplicidade<br \/>\ntem de mais tortuoso, os disfarces mais rebu\u00e7ados, as escava\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais subterr\u00e2neas, as influenciazinhas mais distantes, as caluniazinhas<br \/>\npicantes, a preciosa posse de segredos, as capta\u00e7\u00f5es mel\u00edfluas,<br \/>\ntudo serve, tudo se emprega para fazer um papa.<\/p>\n<p>\u00c9 bizantino e maquiav\u00e9lico. A primeira coisa a conseguir para<br \/>\num cardeal pretendente \u00e9 a recomenda\u00e7\u00e3o do papa. Sua<br \/>\nsantidade, se conservar o esp\u00edrito claro na hora suprema, decerto por<br \/>\numa palavra, um olhar, um aperto de m\u00e3o, uma alus\u00e3o, h\u00e1-de<br \/>\nmostrar a sua prefer\u00eancia: isto \u00e9 esperado, \u00e9 certo: e<br \/>\numa tal escolha da boca do papa, num tal momento, ter\u00e1 para muitos<br \/>\na for\u00e7a de uma ordem divina.<\/p>\n<p>A outra coisa a obter \u00e9 mais moderna e toda eleitoral: s\u00e3o<br \/>\nvotos. E aqui que os fios da intriga se emaranham.<\/p>\n<p>Enfim a \u00faltima condi\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o haja<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o ou veto. \u00c9 neste ponto que Portugal tem hoje,<br \/>\nem Roma e no Vaticano, mais import\u00e2ncia que as grandes pot\u00eancias<br \/>\nunidas. O conclave sabe e todos s\u00e3o acordes que a Fran\u00e7a, a<br \/>\nEspanha, a \u00c1ustria, todas com raz\u00f5es diversas, n\u00e3o exercer\u00e3o<br \/>\no seu direito. Mas Portugal pretende exerc\u00ea-lo ou, pelo menos, assim<br \/>\no cr\u00eaem os cardeais. Daqui uma como\u00e7\u00e3o muito nervosa,<br \/>\nem suas emin\u00eancias. Nos princ\u00edpios deste m\u00eas o senhor conde<br \/>\nde Tomar, nosso embaixador em Roma, foi recebido pelo papa, e este simples<br \/>\nfacto causou, posso afirm\u00e1-lo, no mundo eclesi\u00e1stico de Roma,<br \/>\ntanta sensa\u00e7\u00e3o como a morte de V\u00edtor Manuel.<\/p>\n<p>Porque o que se receia entre os cardeais n\u00e3o \u00e9 que Portugal<br \/>\ninterfira por interesses propriamente seus, mas que se encarregue de representar<br \/>\nos interesses das pot\u00eancias que n\u00e3o t\u00eam direito de veto.<br \/>\nEstas duas pot\u00eancias s\u00e3o a Alemanha e a It\u00e1lia: os seus<br \/>\ninteresses seriam um papa liberal; Portugal \u00e9 essencialmente liberal<br \/>\ne, al\u00e9m disso, unido \u00e0s duas cortes pela Casa de Sab\u00f3ia<br \/>\ne pela Casa de Coburgo; portanto, concluem os cardeais, \u00e9 bem poss\u00edvel<br \/>\nque Portugal v\u00e1, pela sua oposi\u00e7\u00e3o, fazer valer no conclave<br \/>\nos interesses das duas na\u00e7\u00f5es inimigas do Vaticano.<\/p>\n<p>O direito de veto n\u00e3o \u00e9 exercido pelo embaixador, mas por<br \/>\num cardeal, que se encarrega de apresentar no conclave o protesto, em nome<br \/>\nda na\u00e7\u00e3o que o lan\u00e7a: diz-se em Roma que h\u00e1 j\u00e1<br \/>\num cardeal que tem na algibeira da sua batina o veto de Portugal \u2013 na<br \/>\naus\u00eancia do \u00fanico cardeal portugu\u00eas, que \u00e9 o patriarca<br \/>\nde Lisboa. Daqui uma intriga desesperada, \u00e1vida de saber quem o cardeal<br \/>\nportador.<\/p>\n<p>Os dois cardeais que t\u00eam mais probabilidades de se sentar no trono<br \/>\nde 5. Pedro s\u00e3o o cardeal Billio e o cardeal Monaco de la Valleta.<br \/>\nT\u00eam ambos cinquenta anos, a mais alta jerarquia eclesi\u00e1stica,<br \/>\numa ambi\u00e7\u00e3o extrema, uma ast\u00facia penetrante. Monaco de<br \/>\nla Valleta ajudou \u00e0 composi\u00e7\u00e3o do Syllabus, mas exprime<br \/>\nopini\u00f5es liberais quando v\u00ea que, numa circunst\u00e2ncia dada,<br \/>\nisso pode trazer-lhe um apoio forte na realiza\u00e7\u00e3o da sua esperan\u00e7a.<br \/>\nIsto pinta o fino prelado. Billio tem seguido sempre a mesma t\u00e1ctica:<br \/>\ne ambos eles procuram ansiosamente averiguar qual \u00e9 o cardeal portador<br \/>\ndo veto de Portugal, que pode no momento \u00faltimo separ\u00e1-los da<br \/>\ndesejada tiara. Portugal tem pois, neste momento, uma voz, numa grave quest\u00e3o<br \/>\neuropeia, em que poucos a t\u00eam. E os que n\u00e3o podem falar t\u00eam<br \/>\nos mais altos interesses na solu\u00e7\u00e3o desta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Portugal pode entrar e falar no conclave. A Alemanha, a It\u00e1lia, a<br \/>\nInglaterra, n\u00e3o podem. \u00c9 f\u00e1cil de ver a nossa import\u00e2ncia<br \/>\nneste momento, em que temos o privil\u00e9gio de entrar quando as grandes<br \/>\npot\u00eancias t\u00eam de ficar \u00e0 porta.<\/p>\n<p>De todos os fen\u00f3menos naturais, o som era decerto aquele que, at\u00e9<br \/>\naqui, a ci\u00eancia e os inventores tinham perturbado menos. Pelo menos,<br \/>\nem compara\u00e7\u00e3o da electricidade e da luz \u2013 obrigadas a<br \/>\nfazer o mais reles do servi\u00e7o \u2013, o som gozava uma tranquilidade<br \/>\nrelativa. Neste s\u00e9culo uma tal paz n\u00e3o podia durar. O Dr. Bell<br \/>\nfoi o primeiro a inquiet\u00e1-lo, com a inven\u00e7\u00e3o do telefone.<br \/>\nE agora temos um outro fantasista, que apenas pretende isso \u2013 guardar<br \/>\no som de conserva. O aparelho (h\u00e1 necessariamente um aparelho) recebe,<br \/>\npor exemplo, o discurso do orador, guarda-o e da\u00ed a meses, ou anos,<br \/>\npode reproduzi-lo com a voz do orador e as suas menores inflex\u00f5es,<br \/>\ndesde os \u00edmpetos da ret\u00f3rica at\u00e9 \u00e0 tosse ou espirros<br \/>\ncasuais. Deve-se fazer proximamente em Londres uma grande experi\u00eancia.<br \/>\nA primeira aplica\u00e7\u00e3o em que se vai empregar, ao que parece,<br \/>\n\u00e9 nas disposi\u00e7\u00f5es da \u00faltima vontade. Em lugar<br \/>\nde fazer o testamento por escrito, o moribundo fala o seu testamento, o aparelho<br \/>\nrecolhe as palavras e, dado o caso de uma contesta\u00e7\u00e3o judici\u00e1ria,<br \/>\no aparelho vem ao tribunal e reproduz a mesma voz do moribundo cortada dos<br \/>\nmesmos gemidos. A descri\u00e7\u00e3o do aparelho \u00e9 complicada,<br \/>\nmas, tanto quanto pude perceber, consiste nisto, por alto: um t\u00edmpano,<br \/>\nde uma sensibilidade quase sobrenatural, \u00e0 medida que vibra com os<br \/>\nsons recebidos vai imprimindo numa tira de massa um certo n\u00famero de<br \/>\nsinais c\u00f4ncavos; essa tira, voltada do avesso e solidificada, apresenta<br \/>\nas sali\u00eancias correspondentes \u00e0s press\u00f5es que recebeu<br \/>\ndo outro lado; essas sali\u00eancias, operando sobre um complicad\u00edssimo<br \/>\naparelho pelo sistema dos cilindros de realejo, reproduzem com uma excita\u00e7\u00e3o<br \/>\nmilagrosa os sons recebidos pelo t\u00edmpano.<\/p>\n<p>Nada mais simples&#8230;<\/p>\n<p>As criadas inglesas, julgando sem d\u00favida que as soldadas actuais<br \/>\neram perfeitamente indignas de seres inteligentes, formaram uma esp\u00e9cie<br \/>\nde associa\u00e7\u00e3o para se criarem benef\u00edcios suplementares;<br \/>\ne estes consistem em apanhar cartas comprome-tedoras \u00e0s amas e venderem-lhas<br \/>\npor pre\u00e7os respeit\u00e1veis. O caso infeliz de uma senhora muito<br \/>\nsens\u00edvel que se viu obrigada a pagar por um bilhete de tr\u00eas linhas<br \/>\nvinte e cinco contos de r\u00e9is revelou a exist\u00eancia desta quadrilha<br \/>\nam\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os neg\u00f3cios de cartas t\u00eam-se reproduzido com uma tal abund\u00e2ncia<br \/>\nque os jornais pedem a interven\u00e7\u00e3o do parlamento e a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde leis severas. Mas a melancolia do caso, quem jamais o diria?, \u00e9<br \/>\nque as criadas tinham por associados, imaginem quem&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\npodem imaginar! Tinham por associados os pr\u00f3prios amantes das amas.<br \/>\nSujeitos elegantes, de formas robustas e fisionomia simp\u00e1tica (tudo<br \/>\no que reclamam os comp\u00eandios de ret\u00f3rica em Portugal para se<br \/>\nser um bom orador), tinham por profiss\u00e3o impressionar senhoras de temperamento<br \/>\nsentimental, provocar uma correspond\u00eancia picante e deixar, por descuido,<br \/>\ncair um bilhete diab\u00f3lico nas m\u00e3os subtis de uma criada de quarto:<br \/>\nesta reclama da senhora o pre\u00e7o do bilhete (havia uma tarifa: simples<br \/>\nplatonismo, quinhentas libras; rendez-vous, mil libras; alus\u00f5es ao<br \/>\nfacto consumado, pre\u00e7os vari\u00e1veis e em propor\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a fortuna da fr\u00e1gil esposa) e, obtida a soma, partilha-a com o<br \/>\nsedutor. \u00c9 simples e pr\u00e1tico. As senhoras sens\u00edveis andam<br \/>\naterradas; ser\u00e1 imposs\u00edvel, de ora em diante, o come\u00e7ar<br \/>\numa intriga po\u00e9tica antes de se ter a certeza que o cavalheiro n\u00e3o<br \/>\npertence a esta terr\u00edvel sociedade, ou que, pelo menos, os seus pre\u00e7os<br \/>\ns\u00e3o razo\u00e1veis. N\u00e3o h\u00e1 fortuna que baste \u2013<br \/>\nse as senhoras t\u00eam de pagar por vinte e cinco contos cada bilhete inflamado.<br \/>\nA ternura torna-se uma coisa t\u00e3o cara, sobretudo a ternura ileg\u00edtima,<br \/>\nque apenas as esposas dos mais poderosos banqueiros da Europa est\u00e3o<br \/>\nhabilitadas a poder amar. E o que \u00e9 mais curioso \u00e9 que aos que<br \/>\npedem leis severas contra esta inteligente especula\u00e7\u00e3o sentimental<br \/>\nrespondem os homens pr\u00e1ticos que diminuir o perigo do esc\u00e2ndalo<br \/>\n\u00e9 aumentar implicitamente o pecado \u2013 e que esta terr\u00edvel<br \/>\nassocia\u00e7\u00e3o, sendo da mais alta moralidade indirecta, em lugar<br \/>\nde ser perseguida deve ser favorecida. Pobres senhoras sens\u00edveis!<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>XIII &#8211; Londres, 5 de Mar\u00e7o de 1878<\/h2>\n<p>Finalmente ontem, pelas tr\u00eas horas da tarde, em San Stefano, a paz<br \/>\nentre a Turquia e a R\u00fassia foi assinada. Ontem era na hist\u00f3ria<br \/>\nimperial da R\u00fassia um dia ilustre: era o anivers\u00e1rio da emancipa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos servos, do nascimento do imperador e da sua subida ao trono: e por um<br \/>\nrefinamento de vaidade czariana foi ontem o dia escolhido para completar,<br \/>\npor uma assinatura num papel, o fim do Imp\u00e9rio Turco. Devia ter sido<br \/>\ndecerto para Alexandre II um momento de orgulho hiperb\u00f3lico ouvindo<br \/>\ndebaixo da janela do Pal\u00e1cio de Inverno milhares de vassalos cantarem,<br \/>\ncom a cabe\u00e7a descoberta, como no respeito de uma celebra\u00e7\u00e3o<br \/>\nreligiosa, o hino do czar \u2013 o pensar que no dia em que fazia vinte e<br \/>\ntr\u00eas anos que seu pai Nicolau vencido e humilhado morria de despeito,<br \/>\nele tomava a desforra das derrotas passadas, recuperava as prov\u00edncias<br \/>\nperdidas, rasgava o ofensivo Tratado de Paris, destru\u00eda o Imp\u00e9rio<br \/>\nOtomano, humilhava grandes pot\u00eancias e ganhava um lugar entre os grandes<br \/>\nconquistadores do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Nesse momento verdadeiramente p\u00f4de crer na miss\u00e3o da Santa<br \/>\nR\u00fassia.<\/p>\n<p>De resto em Sampetersburgo, ao que dizem os telegramas desta manh\u00e3,<br \/>\no entusiasmo tomou as propor\u00e7\u00f5es de um delirium tremens. O imperador<br \/>\nlevou tr\u00eas horas a ir do pal\u00e1cio ao teatro, no meio de uma multid\u00e3o<br \/>\nfan\u00e1tica uivando o hino imperial, \u00e9bria de orgulho nacional,<br \/>\naclamando Alexandre, o Libertador. Em San Stefano, o gr\u00e3o-duque Nicolau<br \/>\npassou uma revista de cerimonial \u00e0s tropas, e os arautos anunciaram,<br \/>\nao som das m\u00fasicas triunfais, o fim da campanha. Depois te Deum, jantares,<br \/>\nchampanhe e hurras pela Santa R\u00fassia! De resto, os Turcos, com a passividade<br \/>\ne a resigna\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a fatalista, aceitam a derrota,<br \/>\nque \u00e9 uma determina\u00e7\u00e3o de Al\u00e1, e n\u00e3o parecem<br \/>\nter conservado rancor aos Russos. Os correspondentes citam como perfeita a<br \/>\nconfraterniza\u00e7\u00e3o dos soldados russos e turcos: v\u00eaem-se,<br \/>\njunto \u00e0s linhas de demarca\u00e7\u00e3o, conversando, jogando,<br \/>\ncantando, dan\u00e7ando, fumando, numa patuscada de bons amigos: um correspondente<br \/>\ntelegrafa que anteontem, na estrada de Pera, encontrara dois fortes destacamentos<br \/>\nde tropas russas e turcas, que, tendo-se encontrado no mesmo caminho, faziam<br \/>\na passeata em fileiras misturadas, os oficiais em grupo, formando adiante,<br \/>\nas bandas unidas tocando com denodo A Filha de Madame Angot. Os Turcos n\u00e3o<br \/>\nparecem protestar: de Istambul v\u00eam todos os dias a San Stefano milhares<br \/>\nde curiosos ver os Russos, apertar-lhes a m\u00e3o, dar-lhes os parab\u00e9ns<br \/>\nde boa chegada: de resto, os negociantes de Constantinopla est\u00e3o encantados<br \/>\ncom a presen\u00e7a daqueles milhares de consumidores, que duplicar\u00e3o<br \/>\nos pre\u00e7os dos g\u00e9neros.<\/p>\n<p>A \u00fanica criatura viva que em San Stefano protestou foi um jumento.<br \/>\nEste ilustre descendente do amigo de Sancho e do amigo de Maomet mostrou desde<br \/>\no come\u00e7o das negociatas da paz uma inquieta\u00e7\u00e3o que bem<br \/>\ndepressa se definiu num \u00f3dio asinino contra os Russos. E o burro de<br \/>\num cangalheiro \u2013 e apenas pressente um uniforme russo afila a orelha,<br \/>\nfirma-se nas patas dianteiras e escouceia com um patriotismo que deve fazer<br \/>\ncorar o sult\u00e3o e os pax\u00e1s. E, dizem os correspondentes, a grande<br \/>\ncuriosidade de San Stefano, e faz o divertimento dos oficiais de sua alteza<br \/>\no gr\u00e3o-duque Vitorino. Debalde se tem procurado convenc\u00ea-lo da<br \/>\nnova vantagem e do novo progresso que a Turquia, ou o bocadito da Turquia<br \/>\nque resta, vai gozar sob o protectorado russo; o jumento, com a teima que<br \/>\nfaz a honra e a for\u00e7a da sua ra\u00e7a, responde com coices aos argumentos.<br \/>\nEste jumento ficar\u00e1 na hist\u00f3ria. \u00c9, depois de Osman Pax\u00e1,<br \/>\na \u00fanica alma viril do imp\u00e9rio. \u00c9 o \u00faltimo patriota<br \/>\nturco! Eis pois enfim finda a Turquia: as condi\u00e7\u00f5es da paz n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o conhecidas sen\u00e3o nas suas linhas gerais, mas tanto quanto<br \/>\nse sabe, e n\u00e3o se sabe tudo, a Turquia perde a Rom\u00e2nia, a S\u00e9rvia,<br \/>\no Montenegro como tribut\u00e1rios, perde a B\u00f3snia, perde toda a<br \/>\nBulg\u00e1ria, perde quase toda a Rom\u00e9lia e fica-lhe apenas na Europa<br \/>\numa tira de terra em volta de Constantinopla: o espa\u00e7o para se plantarem<br \/>\nas hortas da cidade, uma migalha de territ\u00f3rio para os legumes. Na<br \/>\n\u00c1sia perde o melhor da Arm\u00e9nia. Como pot\u00eancia europeia<br \/>\nfindou: \u00e9 uma pot\u00eancia asi\u00e1tica. Ei-los enfim, depois<br \/>\nde tantos s\u00e9culos, expulsos do continente; mas custou: entre a guerra<br \/>\nque os arrojou do Algarve e da Andaluzia at\u00e9 \u00e0 campanha que<br \/>\nos sacode da Rom\u00e9lia e da Bulg\u00e1ria mediaram s\u00e9culos.<br \/>\nA luta come\u00e7ada pelos reis cat\u00f3licos da Pen\u00ednsula \u00e9<br \/>\ncompletada pelo czar e ser\u00e1 terminada pelo czar; Constantinopla \u00e9<br \/>\ndeixada simplesmente aos Turcos, como um favor transit\u00f3rio, que bem<br \/>\ndepressa perder\u00e3o tamb\u00e9m; o sult\u00e3o levar\u00e1 a sua<br \/>\ncorte, o seu serralho, os seus eunucos e os seus tamborins para Drussa ou<br \/>\npara Esmirna, na \u00c1sia Menor, e nunca mais ouviremos falar dele; reentrar\u00e3o,<br \/>\ncom toda a in\u00e9rcia do fatalismo, na passividade e no animalismo da<br \/>\nvida puramente asi\u00e1tica; esquecer\u00e3o tudo o que aprenderam na<br \/>\nEuropa, e na desgra\u00e7a, prendendo-se mais ao mais puro maometanismo<br \/>\ne isolando-se no Alcor\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e3o bem depressa mais<br \/>\ndo que um povo pitoresco e semib\u00e1rbaro que se ir\u00e1 visitar, com<br \/>\nrisco e com fadiga, ao interior da \u00c1sia Menor! Assim acabam os imp\u00e9rios.<\/p>\n<p>Evidentemente, o sult\u00e3o, os pax\u00e1s, cederam tudo para conservar<br \/>\nConstantinopla: Constantinopla \u00e9 a vida doce e mole nos har\u00e9ns<br \/>\nde Istambul e nos jaliks do B\u00f3sforo: contanto que lhes restem as do\u00e7uras<br \/>\ndo kief, a sesta nos quiosques das Aguas Doces da Europa e as belas circassianas<br \/>\nbem educadas no deboche, que lhes importa o mais? A filosofia deste pa\u00eds<br \/>\n\u00e9 a seguinte: um pa\u00eds sacrificado ao ego\u00edsmo da sua classe<br \/>\ndirigente. O Times chega a afian\u00e7ar que por um contrato secreto com<br \/>\na R\u00fassia os pax\u00e1s continuar\u00e3o a receber os seus rendimentos<br \/>\ne os seus tributos especiais, que n\u00e3o ser\u00e3o afectados pelo pagamento<br \/>\nda indemniza\u00e7\u00e3o de guerra. Quem vai pagar \u00e9 o pobre campon\u00eas<br \/>\notomano, t\u00e3o s\u00f3brio, t\u00e3o bravo, t\u00e3o honesto. Sempre<br \/>\na velha, a velha hist\u00f3ria: aristocracias ligando-se para a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas suas plebes! E que faz, no entanto, a Inglaterra? Arma-se at\u00e9 aos<br \/>\ndentes: arma-se com um luxo quase b\u00e1rbaro: solta dos seus estaleiros<br \/>\nfileiras de coura\u00e7ados; acumula montanhas de torpedos; quer tornar<br \/>\nos seus obuses mais numerosos que as areias das praias! Leio todos os dias,<br \/>\npor curiosidade, a lista dos preparativos nos arsenais, nas usinas do Governo,<br \/>\nnas f\u00e1bricas de canh\u00f5es; confunde a imagina\u00e7\u00e3o!<br \/>\nOs seis milh\u00f5es de libras votados h\u00e1 um m\u00eas est\u00e3o,<br \/>\ndiz-se, quase gastos \u2013 e tudo isto para qu\u00ea? Para ir \u00e0<br \/>\nconfer\u00eancia. Est\u00e1 fazendo a sua toilette da confer\u00eancia.<br \/>\nCom efeito, como ningu\u00e9m sabe as condi\u00e7\u00f5es da paz, todo<br \/>\no interesse est\u00e1 na confer\u00eancia. Em que prejudicam essas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\na Inglaterra ou a \u00c1ustria? Mist\u00e9rio. H\u00e1-de saber-se amanh\u00e3,<br \/>\nou al\u00e9m. E \u00e9 ent\u00e3o que a dificuldade come\u00e7a, se<br \/>\nse vir que elas s\u00e3o incompat\u00edveis com os interesses, com a dignidade,<br \/>\ncom a mesma seguran\u00e7a da Inglaterra.<\/p>\n<p>Duas das condi\u00e7\u00f5es que decerto seriam um motivo de conflito,<br \/>\na entrega da frota turca aos Russos e a hipoteca do tributo do Egipto ao pagamento<br \/>\nda indemniza\u00e7\u00e3o da guerra, diz-se que foram suprimidas. Foram?<br \/>\nAlguns jornais duvidam. Assim a impaci\u00eancia de saber verdadeiramente<br \/>\nas verdadeiras condi\u00e7\u00f5es desta paz \u00e9 ansiosa, cheia de<br \/>\np\u00e2nico. Da sua publica\u00e7\u00e3o sair\u00e1 uma nova guerra?<br \/>\nElas devem ser, com efeito, bem extraordin\u00e1rias, visto que a R\u00fassia<br \/>\nas tem conservado t\u00e3o secretas e que se est\u00e1 preparando como<br \/>\npara uma outra campanha: mobiliza\u00e7\u00e3o de corpos de ex\u00e9rcito,<br \/>\nencomenda de torpedos, fabrica\u00e7\u00e3o de canh\u00f5es, tudo isto<br \/>\nprova que o czar conta com a oposi\u00e7\u00e3o da Inglaterra e talvez<br \/>\nda \u00c1ustria, quando sabidas as condi\u00e7\u00f5es da paz, e que<br \/>\nesta preparado para se bater em sua defesa.<\/p>\n<p>Mas que pode fazer a Inglaterra? A Inglaterra tem de aceitar os factos realizados.<br \/>\nN\u00e3o tem alian\u00e7as: a Fran\u00e7a est\u00e1 decidida a n\u00e3o<br \/>\nse mexer, nem para dar uma opini\u00e3o; at\u00e9 declarou que vai \u00e0<br \/>\nconfer\u00eancia contra vontade, por dever de etiqueta; a \u00c1ustria<br \/>\nest\u00e1 imobilizada pela Alemanha; a It\u00e1lia igualmente. O que resta<br \/>\n\u00e0 Inglaterra? Os pequenos estados constitucionais, com que ela poderia<br \/>\nformar uma cruzada liberal contra a R\u00fassia. Armemos os pequenos estados<br \/>\nconstitucionais, diz-se aqui, armemos a B\u00e9lgica, a Holanda, Portugal,<br \/>\ne teremos um efectivo de duzentos mil homens. Mas esta alian\u00e7a com<br \/>\nos pequenos n\u00e3o parece do gosto da pol\u00edtica de Lord Beaconsfield;<br \/>\nos jornais tories nem mesmo lhe d\u00e3o a import\u00e2ncia de lhe enunciar<br \/>\na possibilidade; ela n\u00e3o daria \u00e0 Inglaterra, estrategicamente,<br \/>\num concurso eficaz, e s\u00f3 traria a esses estados cat\u00e1strofes.<br \/>\nNenhum deles tem interesses na quest\u00e3o do Oriente; nenhum deles tem<br \/>\na loucura de gastar o seu sangue (dado que a Inglaterra forne\u00e7a o dinheiro)<br \/>\npara batalhar as batalhas da Inglaterra; nenhum deles aceitaria comprometer<br \/>\no seu progresso, a sua tranquilidade, o seu com\u00e9rcio, o seu trabalho,<br \/>\nsem mesmo poder esperar compensa\u00e7\u00f5es; a Inglaterra n\u00e3o<br \/>\ntem sido uma m\u00e3e t\u00e3o carinhosa que mere\u00e7a que se fa\u00e7a<br \/>\npor ela sacrif\u00edcios quando ela est\u00e1 em dificuldades: a sua gratid\u00e3o<br \/>\n\u00e9 suspeita; n\u00e3o h\u00e1, como ela, para abandonar um amigo<br \/>\nnum dia de crise; vide a hist\u00f3ria lament\u00e1vel da Dinamarca. Os<br \/>\npequenos estados, portanto, declinariam, sem d\u00favida, a honra desta<br \/>\nalian\u00e7a ilustre. E a Inglaterra s\u00f3 tem a continuar isolada.<\/p>\n<p>E \u00e9 assim que a Alemanha paga \u00e0 R\u00fassia a sua d\u00edvida<br \/>\nde 1870 e 1871. O que tem sido esta guerra do Oriente? O pagamento de uma<br \/>\nd\u00edvida de gratid\u00e3o. A R\u00fassia em 1870 deixou a Alemanha<br \/>\narrancar \u00e0 Fran\u00e7a duas prov\u00edncias e cinco milliards e<br \/>\nconstituir a unidade germ\u00e2nica na fam\u00edlia dos Hohenzollerns.<br \/>\nA Alemanha, por seu turno, deixa a R\u00fassia estender-se do lado da \u00c1sia<br \/>\ne da Turquia, encarregando-se de conservar a Europa quieta e im\u00f3vel.<br \/>\nTudo isto se passa entre Guilherme Hohenzollern e Alexandre Romanoff, e entre<br \/>\nos dois velhos amigos, os dois velhos compadres de Frankf\u00fcrt, Bismarck<br \/>\ne Gortschatcoff. Delicadezas trocadas entre personagens! E Bismarck, por outro<br \/>\nlado, consegue um grande fim: a R\u00fassia quanto mais se alarga mais se<br \/>\nenfraquece, quanto mais se arma mais se arru\u00edna. A Alemanha anima-a<br \/>\nneste caminho, como os agiotas animam os filhos-fam\u00edlias \u00e0 vida<br \/>\naventureira e rica. A R\u00fassia, concentrando-se, desenvolvendo os seus<br \/>\npoderosos recursos, formando-se para a liberdade, ser\u00e1 um terr\u00edvel<br \/>\nvizinho para a Alemanha; mas a R\u00fassia, lan\u00e7ando-se nas aventuras<br \/>\nda cruzada crist\u00e3 na \u00c1sia e da cruzada pan-eslavista no Sul<br \/>\nda Europa, marcha \u00e0 sua ru\u00edna, pelos desperd\u00edcios da<br \/>\nfor\u00e7a. De modo que Bismarck, ao mesmo tempo que paga a d\u00edvida<br \/>\nde gratid\u00e3o ao seu aliado, impele-o implicitamente \u00e0 decad\u00eancia.<br \/>\nPol\u00edtica s\u00e1bia, bem pr\u00f3pria do antigo coronel dos couraceiros<br \/>\nque uma ret\u00f3rica consagrada transformou no solit\u00e1rio de Varzin.<\/p>\n<p>Annuncio vobis gaundium magnum: habemos pontificem. Desde esta declara\u00e7\u00e3o<br \/>\nlan\u00e7ada de uma janela do Vaticano sobre o povo romano, na Pra\u00e7a<br \/>\nde 5. Pedro, todas as preocupa\u00e7\u00f5es do mundo cat\u00f3lico<br \/>\ne incat\u00f3lico est\u00e3o fixadas em Joaquin Pecci, Le\u00e3o XIII,<br \/>\npapa infal\u00edvel pela reuni\u00e3o dos votos de quarenta e cinco cardeais<br \/>\nfal\u00edveis. O que prova que quarenta e cinco falibilidades fazem uma<br \/>\ninfalibilidade. Le\u00e3o XIII parece ser um homem r\u00edgido, com experi\u00eancia<br \/>\ndo mundo e do governo, pr\u00e1tico, bom administrador, de tend\u00eancias<br \/>\nligeiramente liberais, de vida austera, letrado, poeta mesmo. A sua figura<br \/>\n\u00e9 um pouco asc\u00e9tica, n\u00e3o tem nada daquela doce e risonha<br \/>\nvelhice de Pio IX, t\u00e3o cheia de afabilidade, de suavidade, de gra\u00e7a<br \/>\ne de finura: Le\u00e3o XIII tem uma velhice seca, imponente, um pouco triste.<\/p>\n<p>O povo romano deu vivas ao saber a sua nomea\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o<br \/>\nimpediu que ontem apedrejasse as janelas do Pal\u00e1cio Toleschi, que se<br \/>\niluminara para celebrar a coroa\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o XIII.<\/p>\n<p>Isto prov\u00e9m do exacto sentimento italiano: estimam bem que o papa<br \/>\nseja um italiano que resida em Roma, depois de ter sido nomeado em Roma, e<br \/>\nque seja liberal \u2013 mas n\u00e3o querem que o papado saia do Vaticano<br \/>\ne se misture \u00e0 vida civil. A nomea\u00e7\u00e3o do italiano Pecci<br \/>\nagradou-lhes \u2013 mas que os pal\u00e1cios de Roma fa\u00e7am ilumina\u00e7\u00f5es,<br \/>\nagora que ele est\u00e1 nomeado, n\u00e3o! O Governo \u00e9 absolutamente<br \/>\nda mesma ideia: e toda a demonstra\u00e7\u00e3o papal fora das sombras<br \/>\ndo Vaticano encontrar\u00e1 a sua reprova\u00e7\u00e3o; e assim n\u00e3o<br \/>\npermitiu que a coroa\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o XIII fosse p\u00fablica.<br \/>\nIsto dar\u00e1 em breve a sua consequ\u00eancia. Le\u00e3o XIII encerrar-se-\u00e1<br \/>\nno Vaticano, como Pio IX, e p\u00f4r-se-\u00e1 em hostili-dade ao Governo<br \/>\nitaliano e ao mundo liberal, como Pio IX, o que \u00e9 no fundo a l\u00f3gica,<br \/>\na for\u00e7a e a gl\u00f3ria do papa e do papado.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma novidade liter\u00e1ria ou teatral. A pol\u00edtica<br \/>\nabsorve toda a actividade cerebral: os fil\u00f3sofos fazem artigos de pol\u00edtica<br \/>\nnas revistas; os romancistas, mais batalhadores e mais exaltados, fazem-na<br \/>\nnos jornais; os poetas fazem can\u00e7\u00f5es b\u00e9licas; e os pintores<br \/>\nalegorias patri\u00f3ticas: e todas estas produ\u00e7\u00f5es s\u00e3o<br \/>\nmed\u00edocres. A imprensa tem-se, sobre a quest\u00e3o do Oriente, entregado<br \/>\na um fluxo labial desordenado. Rolam torrentes de prosa e de ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>Entre os que se chamam partido da paz \u2013 e os que se chamam partido<br \/>\nda guerra \u2013 h\u00e1 uma luta de eloqu\u00eancia, que tem todos os<br \/>\npesados furores, todo o animal encarni\u00e7amento do boxe.<\/p>\n<p>Os jornais da guerra \u2013 tomam sobretudo \u00e0 sua conta o infeliz<br \/>\nLord Derby. Este pol\u00edtico \u00e9 digno de piedade: todas as contrariedades<br \/>\npor que tem passado a Inglaterra s\u00e3o-lhe atribu\u00eddas com um luxo<br \/>\nde ep\u00edtetos injuriosos e um hiperbolismo de verrina \u2013 que causa<br \/>\nmelancolia. A Vanity Fair, um jornal elegante, de boa sociedade, estimado,<br \/>\nrespeit\u00e1vel, abandona-se sobre Lord Derby a excessos que a pol\u00edtica<br \/>\ncostuma reprimir. \u00c0s vezes come\u00e7a os seus artigos com modera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nbom racioc\u00ednio, linguagem correcta: de repente, encontra na sua argumenta\u00e7\u00e3o<br \/>\no nome de Lord Derby. Endoidece. Atira-se a ele, morde-o, espezinha-o, arranca-lhe<br \/>\npeda\u00e7os de membros, bate-o como um bife, chafurda-o na lama, baba-se<br \/>\nde c\u00f3lera. H\u00e1 dias representava Lord Derby, de joelhos diante<br \/>\ndo embaixador russo Schuvalloff, rogando-lhe que por piedade n\u00e3o humilhasse<br \/>\nmais a Inglaterra: Lord Derby beijava-lhe as m\u00e3os, abra\u00e7ava-lhe<br \/>\nas pernas&#8230;<\/p>\n<p>Aqui traduzo: \u2013 Fora daqui! \u2013 brada Schuvalloff.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, conde, deixe-me estar a seus p\u00e9s. N\u00e3o<br \/>\nhumilhe mais a Inglaterra. N\u00f3s fazemos tudo.<\/p>\n<p>Retiramos a frota. Destru\u00edmos a frota. Quer que destruamos a frota?<br \/>\n\u00c9 s\u00f3 vossa excel\u00eancia diz\u00ea-lo! \u00c9 um momento,<br \/>\ncom dinamite.<\/p>\n<p>\u2013 Fora daqui, pulha! \u2013 Sim, sou um pulha! Obrigado. Que honra<br \/>\nque vossa excel\u00eancia se digne notar que eu sou um pulha! Sou-o realmente,<br \/>\nj\u00e1 que vossa excel\u00eancia o diz. Deixe-me beijar mais a sua m\u00e3o;<br \/>\nque quer que eu fa\u00e7a para lhe provar a minha adora\u00e7\u00e3o?<br \/>\nQuer que cante de galo? Neste momento o p\u00fablico, fora, vem fazer um<br \/>\ncharivari debaixo das janelas do embaixador.<\/p>\n<p>Uma pedrada quebra um vidro. E logo entra, arremessado pela janela, um gato<br \/>\nmorto.<\/p>\n<p>Schuvalloff d\u00e1 um pontap\u00e9 em Lord Derby, exclamando: \u2013<br \/>\nV\u00ea, imbecil. A\u00ed est\u00e1 j\u00e1 esse grosseiro povo da<br \/>\nInglaterra a insultar-me, a atirar-me bichos mortos.<\/p>\n<p>\u2013 O gato morto? \u2013 grita Lord Derby. \u2013 O gato morto era<br \/>\npara mim! Todos os gatos mortos s\u00e3o para mim! Eles sabem que eu mordo-me<br \/>\npor gatos mortos. (Abra\u00e7a-se ao gato morto, beija o gato morto.) Senhor<br \/>\nconde, uma palavra! Diga que a R\u00fassia, a santa R\u00fassia, a nobre<br \/>\nR\u00fassia, a R\u00fassia nossa ama \u2013n\u00e3o h\u00e1-de bater<br \/>\nna Inglaterra, nem fazer-nos mal, nem assustar-nos.<\/p>\n<p>Diga-o, senhor conde! Veja: rojo a minha cabeleira no ch\u00e3o, verto<br \/>\nas minhas l\u00e1grimas \u2013 apertando contra mim o meu gato morto! \u2013<br \/>\nFora daqui, covarde, ou trabalha o chicote \u2013 diz Schuvalloff.<\/p>\n<p>\u2013 Eu saio, eu saio, excelent\u00edssimo senhor. Vossa excel\u00eancia<br \/>\nmande; eu saio, eu saio aos recu\u00f5es. Mas primeiro permita, d\u00ea<br \/>\nlicen\u00e7a, \u00e9 um instante&#8230; (Atira-se-lhe aos p\u00e9s e p\u00f5e-se<br \/>\ncom humildade a lamber-lhe o verniz das botas.) Que me dizem a este meio de<br \/>\nfazer pol\u00e9mica \u2013 com um ministro da Inglaterra? O Echo, jornal<br \/>\nde paz, procede de outro modo. Traduzo um dos seus \u00faltimos per\u00edodos:<br \/>\n\u00abOs estudantes de medicina de Londres, que t\u00eam sido t\u00e3o<br \/>\nconsp\u00edcuos em todas as manifesta\u00e7\u00f5es belicosas dos \u00faltimos<br \/>\ndias, escrevem uma carta ao Echo prevenindo-nos de que vir\u00e3o a esta<br \/>\nredac\u00e7\u00e3o dar-nos uma correc\u00e7\u00e3o que, segundo eles,<br \/>\nmerece a maneira como temos castigado esta importuna e imbecil interven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos senhores estudantes nos meetings b\u00e9licos. Pois bem, prevenimos<br \/>\napenas os senhores estudantes disto: que h\u00e1, empregadas na redac\u00e7\u00e3o<br \/>\ne imprensa do Echo, cento e cinquenta pessoas, que a provis\u00e3o de bengalas<br \/>\n\u00e9 s\u00f3lida e que a vontade \u00e9 boa. Que suas senhorias venham<br \/>\nquanto antes.\u00bb O Echo \u00e9 um dos melhores e mais acreditados jornais<br \/>\nde Londres. Naturalmente, os grandes jornais, os jornais-personagens, o Times,<br \/>\no Daily Telegraph, o Daily News, o Standard, o Morning Post, conservam uma<br \/>\ncompostura mais digna, e nunca perdem a linha majestosa.<\/p>\n<p>Mas tudo o que a ironia, o sarcasmo, a alus\u00e3o p\u00e9rfida, podem<br \/>\nproduzir de mais acerado \u00e9 trocado entre eles numa prosa correcta e<br \/>\ngrave. S\u00e3o gentlemen que se trocam num sal\u00e3o inj\u00farias<br \/>\nbem redigidas, com uma atitude cort\u00eas, o fel no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o sorriso nos l\u00e1bios. Nunca vi tanto \u00f3dio \u2013 sob tanta<br \/>\npolidez.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>XIV &#8211; Londres, 28 de Mar\u00e7o de 1878<\/h2>\n<p>Lord Derby, e com ele toda a Inglaterra, acaba de fazer uma descoberta imensa:<br \/>\nLord Derby descobriu a Gr\u00e9cia. Desde a renova\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o<br \/>\ndo Oriente, h\u00e1 dois anos, a Gr\u00e9cia, por um imobilidade obrigat\u00f3ria,<br \/>\nnos \u00faltimos planos, sem que ningu\u00e9m parecesse reconhecer a justi\u00e7a<br \/>\ndos seus direitos, ou pensar na utilidade da sua interven\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTodas as prov\u00edncias sujeitas \u00e0 Porta e todos os estados tribut\u00e1rios<br \/>\ntinham sido autorizados ou chamados a cooperar, pela insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nou pela guerra aberta, na destrui\u00e7\u00e3o do poder otomano. A R\u00fassia<br \/>\ntinha ajudado a S\u00e9rvia, animado e lisonjeado o Montenegro, e especialmente<br \/>\napelado para a Rom\u00e2nia: todos estes principados crist\u00e3os deviam<br \/>\nnaturalmente, em justifica\u00e7\u00e3o do seu patriotismo e em demonstra\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua f\u00e9, ajudar a grande cruzada da liberta\u00e7\u00e3o dos<br \/>\ncrist\u00e3os empreendida pelo czar. Acontece, por\u00e9m, que a Gr\u00e9cia<br \/>\ntinha prov\u00edncias suas, pela religi\u00e3o e pela ra\u00e7a, sob<br \/>\no dom\u00ednio turco, e ningu\u00e9m parecia desejar que ela tentasse<br \/>\npelos seus correligion\u00e1rios o que estavam tentando os principados.<br \/>\nE todavia o Epiro, a Tess\u00e1lia, a Maced\u00f3nia, s\u00e3o prov\u00edncias<br \/>\ngregas e crist\u00e3s, que a Porta explora e tiraniza, como a Bulg\u00e1ria<br \/>\nou como a B\u00f3snia. Para libertar as suas popula\u00e7\u00f5es, em<br \/>\nid\u00eanticas condi\u00e7\u00f5es, a S\u00e9rvia, o Montenegro, a<br \/>\nRom\u00e2nia, tinham tomado as armas com admira\u00e7\u00e3o da Europa,<br \/>\ne apenas alguns vagos protestos plat\u00f3nicos rosnados em surdina pela<br \/>\n\u00c1ustria. Mas apenas a Gr\u00e9cia mostrou um desejo de libertar as<br \/>\nsuas prov\u00edncias os protestos vieram de todas as partes, muito precisos,<br \/>\nmuito impacientes: a R\u00fassia ficou indignada, a \u00c1ustria descontente,<br \/>\na Inglaterra nervosa.<\/p>\n<p>\u00c0s primeiras veleidades belicosas do minist\u00e9rio de Atenas<br \/>\ntodos os representantes das pot\u00eancias, com uma rara uniformidade, correram<br \/>\na impor-lhe uma inac\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Quando o Governo grego,<br \/>\narrastado pela press\u00e3o inilud\u00edvel do sentimento popular, fez<br \/>\nmobilizar o pequeno ex\u00e9rcito grego, as grandes pot\u00eancias amea\u00e7aram-na<br \/>\nclaramente de a deixar exposta as vingan\u00e7as da Porta, e de n\u00e3o<br \/>\nimpedir o bombardeamento do Pireu pela esquadra de Hobbart Pax\u00e1. Quando<br \/>\nnum momento de impulso patri\u00f3tico o Governo grego, indiferente \u00e0s<br \/>\nadvert\u00eancias da Europa, ou n\u00e3o as julgando sinceras e apenas<br \/>\npr\u00f3-forma, fez avan\u00e7ar tropas na Tess\u00e1lia, as pot\u00eancias<br \/>\nobrigaram-na, quase sob press\u00e3o de um ultimato, a fazer retroceder<br \/>\no ex\u00e9rcito e dar explica\u00e7\u00f5es ao sult\u00e3o. A Gr\u00e9cia<br \/>\nroeu o seu freio e limitou-se a manter na Tess\u00e1lia e no Epiro uma pequena<br \/>\ninsurrei\u00e7\u00e3o inflama-t\u00f3ria, para n\u00e3o deixar morrer<br \/>\no fogo patri\u00f3tico e para dar ocupa\u00e7\u00e3o aos temperamentos<br \/>\nmais exaltados.<\/p>\n<p>Mal sabia a Gr\u00e9cia, t\u00e3o descontente ent\u00e3o, que estava<br \/>\nnas v\u00e9speras de ser chamada pela Inglaterra a representar um grande<br \/>\npapel na quest\u00e3o do Oriente; ou, se o sabia, com a sua finura habitual<br \/>\nesperava, fazendo um rosto triste que iludiu os mais astutos, a ocorr\u00eancia<br \/>\ngloriosa. Ela n\u00e3o tardou a aparecer sob a forma da proposta de Lord<br \/>\nDerby na sua grande campanha diplom\u00e1tica. Opor ao pan-eslavismo o helenismo<br \/>\n\u00e9 sem d\u00favida um belo pensamento, e a oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nimpaciente e quase rancorosa que a R\u00fassia fez \u00e0 proposta inglesa<br \/>\nmostra, s\u00f3 por si, como ela julgou a grande obra eslava profundamente<br \/>\namea\u00e7ada pela apari\u00e7\u00e3o em cena deste novo factor, a Gr\u00e9cia.<br \/>\nLord Derby jogou uma brilhante carta: fazer entrar a Gr\u00e9cia no congresso,<br \/>\nmesmo sem voto, era ipso facto levantar no congresso a quest\u00e3o grega:<br \/>\na R\u00fassia, mesmo a seu pesar, n\u00e3o poderia opor-se a que a sua<br \/>\nobra de liberta\u00e7\u00e3o fosse completada, restituindo-se \u00e0<br \/>\nGr\u00e9cia a Maced\u00f3nia, a Tess\u00e1lia e o Epiro, Creta, etc.<br \/>\nQuem se bateu para libertar os crist\u00e3os da Bulg\u00e1ria n\u00e3o<br \/>\npode opor-se a que se libertem os crist\u00e3os das outras prov\u00edncias.<\/p>\n<p>Com estes novos territ\u00f3rios, t\u00e3o f\u00e9rteis, a Gr\u00e9cia<br \/>\nganha uma for\u00e7a inesperada e torna-se uma pot\u00eancia forte.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os do ex-Imp\u00e9rio Turco v\u00eaem-se assim colocados<br \/>\nentre a influ\u00eancia de dois pa\u00edses da sua religi\u00e3o: mas<br \/>\num, a R\u00fassia, desp\u00f3tico e opressivo \u2013 outro, a Gr\u00e9cia,<br \/>\nconstitucional e liberal; um puramente militar, outro exclusivamente comercial;<br \/>\num pensando em conquistar, o outro em enriquecer. E naturalmente as simpatias<br \/>\ndos crist\u00e3os ir\u00e3o para a Gr\u00e9cia; esta anexa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmoral de simpatias transformar-se-\u00e1 mais tarde em anexa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaterial de territ\u00f3rios. A Bulg\u00e1ria crist\u00e3 do rito grego<br \/>\npenderia fatalmente para a Gr\u00e9cia. Que daqui a anos reapare\u00e7a<br \/>\na quest\u00e3o do Oriente sob a forma mais resumida e mais directa de saber<br \/>\na quem em definitivo deve pertencer Constantinopla \u2013 e apresenta-se<br \/>\numa solu\u00e7\u00e3o natural, pacifica, que \u00e9 n\u00e3o deixar<br \/>\nConstantinopla nem aos Russos nem aos Ingleses, e d\u00e1-la simplesmente<br \/>\naos Gregos, seus donos por direito hist\u00f3rico. E aqui temos um forte<br \/>\nimp\u00e9rio hel\u00e9nico, fazendo barreira as tend\u00eancias invasoras<br \/>\ndo imp\u00e9rio eslavo.<\/p>\n<p>Esta solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia levantar oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nno povo russo, porque o seu interesse na quest\u00e3o do Oriente \u00e9<br \/>\ntodo de religi\u00e3o. E que maior satisfa\u00e7\u00e3o que ver os gregos<br \/>\nem Constantinopla e Santa Sofia catedral do rito grego? O povo na R\u00fassia<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 pan-eslavista; o pan-eslavismo \u00e9 um fanatismo puramente<br \/>\nmilitar do estado-maior e de alguns oficiais exaltados: o povo o que deseja<br \/>\n\u00e9 mais p\u00e3o, menos tributo, uma constitui\u00e7\u00e3o talvez<br \/>\n(e isto os mais ilustrados), e que os seus correligion\u00e1rios n\u00e3o<br \/>\nestejam sob o dom\u00ednio odiado do Turco: que a cruz grega volte a dominar<br \/>\nnas mesquitas de Constantinopla, e todas as aspira\u00e7\u00f5es do povo<br \/>\nrusso, em mat\u00e9ria de pol\u00edtica externa, est\u00e3o amplamente<br \/>\nrealizadas.<\/p>\n<p>Por seu lado, a \u00c1ustria n\u00e3o poderia sen\u00e3o felicitar-se<br \/>\nde ver junto \u00e0s suas fronteiras um reino hel\u00e9nico: as suas prov\u00edncias<br \/>\neslavas n\u00e3o correm risco de tender ent\u00e3o a unir-se .ao imp\u00e9rio<br \/>\neslavo, o que seria inevit\u00e1vel se em lugar dos Gregos fossem os Russos<br \/>\nque se viessem estabelecer junto dela. A Hungria, para quem o \u00f3dio<br \/>\ndo pan-eslavismo \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o sagrada, veria com prazer<br \/>\nos Gregos em Constantinopla. A Alemanha n\u00e3o poderia opor-se a uma combina\u00e7\u00e3o<br \/>\nque impede a R\u00fassia, sua aliada presente e sua inimiga prov\u00e1vel,<br \/>\nde se estender at\u00e9 ao Mediterr\u00e2neo. As pot\u00eancias ocidentais<br \/>\nregozijar-se-iam de ver dominar nos Dardanelos uma na\u00e7\u00e3o comercial,<br \/>\nque n\u00e3o impediria, como a R\u00fassia, o tr\u00e1fico do mar Negro,<br \/>\nantes o facilitaria. E a Inglaterra, tendo feito o imp\u00e9rio hel\u00e9nico,<br \/>\nobtinha o resultado mais agrad\u00e1vel e mais seguro; n\u00e3o podendo<br \/>\nela mesmo estabelecer-se nos Dardanelos, colocava l\u00e1 uma pot\u00eancia<br \/>\namiga e aliada, sua pr\u00f3pria obra, governada por uma imita\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua constitui\u00e7\u00e3o, reconhecida ao benfeitor, facilmente domin\u00e1vel<br \/>\nno caso de ingratid\u00e3o, sem ambi\u00e7\u00f5es na \u00cdndia,<br \/>\nnem interesses no canal de Suez, e que seria no Oriente uma esp\u00e9cie<br \/>\nde seu mordomo.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o, portanto, s\u00f3 pode vir do czar, da corte<br \/>\ne do partido militar na R\u00fassia. Para esses, o estabelecimento de um<br \/>\nimp\u00e9rio grego \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o das suas ambi\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndo seu ideal pol\u00edtico e hist\u00f3rico, do que eles chamam a sua<br \/>\nmiss\u00e3o; seria al\u00e9m disso uma diminui\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel<br \/>\nna autoridade do czar; hoje o imperador \u00e9 papa; mas que amanh\u00e3<br \/>\no patriarca do rito grego se estabele\u00e7a em Constantinopla, capital<br \/>\ndo imp\u00e9rio Grego, e o sacerd\u00f3cio moscovita, em breve o povo<br \/>\nmesmo, o reconhecer\u00e1 como seu chefe espiritual. Portanto, o czar vai<br \/>\nopor-se \u00e0 entrada da Gr\u00e9cia no congresso com todas as obstina\u00e7\u00f5es,<br \/>\ntodas as manhas, todos os equ\u00edvocos, todos os subterf\u00fagios que<br \/>\nconstituem a perigosa ci\u00eancia dos diplomatas russos; se assim n\u00e3o<br \/>\nobtiver o seu fim, embrulhar\u00e1 a quest\u00e3o de modo que o congresso<br \/>\nse n\u00e3o re\u00fana; e em \u00faltimo caso apelar\u00e1 para as<br \/>\narmas, porque prefere uma nova guerra, mesmo no estado de fraqueza e de pobreza<br \/>\ndas suas finan\u00e7as, a consentir que se agite sequer a quest\u00e3o<br \/>\ndo imp\u00e9rio hel\u00e9nico.<\/p>\n<p>Por isso eu penso que a resposta de Lord Derby, h\u00e1bil, racional,<br \/>\n\u00fatil, \u00e9 no fim o meio de apressar a crise e de trazer a Inglaterra<br \/>\ne a R\u00fassia a um conflito; e ainda que se d\u00eaem outras raz\u00f5es<br \/>\nde rompimento, no fundo, se a R\u00fassia tira de novo a espada um dos seus<br \/>\nfins ser\u00e1 impedir uma extens\u00e3o de territ\u00f3rio da Gr\u00e9cia,<br \/>\nn\u00facleo e base de um imp\u00e9rio hel\u00e9nico.<\/p>\n<p>Mas reunir-se-\u00e1 esse famoso congresso? As probabilidades diminuem<br \/>\ntodos os dias: o que o adia hoje, e que talvez o impe\u00e7a mais tarde,<br \/>\n\u00e9 aparentemente uma simples quest\u00e3o de forma; a Inglaterra pretende<br \/>\nque o congresso tenha direito a discutir todos os artigos do tratado de paz<br \/>\nrusso-turco. A R\u00fassia recusa esta larga liberdade de discuss\u00e3o.<br \/>\nPara facilitar uma concilia\u00e7\u00e3o, a Inglaterra pede ao menos que<br \/>\na R\u00fassia declare que todos os artigos do tratado estar\u00e3o sujeitos<br \/>\na discuss\u00e3o, ainda que praticamente estabele\u00e7a que alguns n\u00e3o<br \/>\nser\u00e3o discutidos; a R\u00fassia recusa a fazer mesmo esta declara\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm tais condi\u00e7\u00f5es, a Inglaterra n\u00e3o vai ao congresso.<br \/>\nAs raz\u00f5es de Lord Derby s\u00e3o \u00f3bvias: se os tr\u00eas<br \/>\nimperadores est\u00e3o de acordo, se a \u00c1ustria e a Alemanha est\u00e3o<br \/>\ndecididas a aprovar o tratado, se o voto da It\u00e1lia pertence, como \u00e9<br \/>\nprov\u00e1vel, igualmente \u00e0 R\u00fassia, que iria a Inglaterra<br \/>\nfazer ao congresso? P\u00f4r a sua assinatura num documento que fere os seus<br \/>\ninteresses? Fazer um simples protesto plat\u00f3nico, que seria como a confirma\u00e7\u00e3o<br \/>\np\u00fablica da sua fraqueza e do seu isolamento? Mais vale, portanto, n\u00e3o<br \/>\nir ao congresso e tomar medidas decisivas para que, sejam quais forem as circunst\u00e2ncias<br \/>\ndo futuro, os dois grandes interesses brit\u00e2nicos na Turquia europeia,<br \/>\nConstantinopla e Gal\u00edpoli, sejam conservados intactos e inatacados.<\/p>\n<p>Nestas recusas sucessivas da R\u00fassia a toda a concilia\u00e7\u00e3o,<br \/>\nv\u00ea-se bem a inten\u00e7\u00e3o que a domina: \u00e9 impedir a<br \/>\nreuni\u00e3o do congresso, com receio de que, al\u00e9m das objec\u00e7\u00f5es<br \/>\nao tratado, apare\u00e7a a terr\u00edvel quest\u00e3o hel\u00e9nica,<br \/>\nsob a protec\u00e7\u00e3o da Inglaterra. E da parte da Inglaterra todo<br \/>\no esfor\u00e7o \u00e9 fazer introduzir esta quest\u00e3o no congresso.<br \/>\nA Gr\u00e9cia \u00e9, penso, neste momento um pomo de disc\u00f3rdia.<br \/>\nE a quest\u00e3o do Oriente toma enfim uma fase mais clara e mais definida:<br \/>\nem substitui\u00e7\u00e3o ao Imp\u00e9rio Turco a Inglaterra quero estabelecimento<br \/>\nde um imp\u00e9rio grego, que seja uma barreira hist\u00f3rico-militar<br \/>\ncontra a R\u00fassia; a R\u00fassia op\u00f5e-se com todas as suas for\u00e7as<br \/>\na esta solu\u00e7\u00e3o ajudada pelos dois imperadores seus aliados,<br \/>\nque s\u00e3o movidos por simpatia de corte a corte, em desprezo dos seus<br \/>\nverdadeiros interesses nacionais.<\/p>\n<p>Mas que fazem as duas outras grandes pot\u00eancias? A It\u00e1lia hesita,<br \/>\na Fran\u00e7a cala-se. Se estas duas na\u00e7\u00f5es latinas se decidissem<br \/>\na ajudar a ideia inglesa, ter\u00edamos assim duas formid\u00e1veis coaliz\u00f5es<br \/>\nem face uma da outra: de um lado, a R\u00fassia, a Alemanha, a \u00c1ustria,<br \/>\nesp\u00e9cie de Santa Alian\u00e7a dos tr\u00eas imperadores autorit\u00e1rios;<br \/>\ndo outro, a Inglaterra, a Fran\u00e7a, a It\u00e1lia, os tr\u00eas estados<br \/>\nlivres e democr\u00e1ticos: o Oriente contra o Ocidente: o Ocidente querendo<br \/>\no imp\u00e9rio hel\u00e9nico em substitui\u00e7\u00e3o do Turco, e<br \/>\no Oriente querendo a partilha do Imp\u00e9rio Turco entre si, sendo a maior<br \/>\nparte destinada a formar uma depend\u00eancia moscovita. N\u00e3o \u00e9<br \/>\nimprov\u00e1vel que a quest\u00e3o do Oriente, num certo tempo, tome estas<br \/>\nformid\u00e1veis e dram\u00e1ticas propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e3o os Gregos gente para constituir e formar um imp\u00e9rio?<br \/>\nAt\u00e9 aqui os Gregos t\u00eam sido os mais absurdos pol\u00edticos<br \/>\nda Europa: o Governo de Atenas \u00e9 uma farsa que About pintou, com muito<br \/>\nesp\u00edrito e muita verdade, como uma das grandes bambochatas constitucionais<br \/>\ndo s\u00e9culo. As suas finan\u00e7as s\u00e3o deplor\u00e1veis. A<br \/>\nsua administra\u00e7\u00e3o uma balb\u00fardia.<\/p>\n<p>Mas a isto pode-se dizer que aos Gregos tem faltado uma oportunidade de<br \/>\nrevelar as suas qualidades industriosas, sagazes, activas, expansivas. O territ\u00f3rio<br \/>\nque possuem \u00e9 o mais \u00e1rido e o mais est\u00e9ril da Europa.<br \/>\nSem agricultura e sem ind\u00fastria, as for\u00e7as vitais emigram e<br \/>\nv\u00e3o levar a outras terras a sua perseveran\u00e7a e a sua habilidade.<br \/>\nOs gregos mais ricos, mais pr\u00f3speros, a alta burguesia grega que tem<br \/>\no capital e a iniciativa n\u00e3o est\u00e1 na Gr\u00e9cia; est\u00e1<br \/>\nem Londres, em Berlim, em Viena, em Frankf\u00fcrt, em Constantinopla, em<br \/>\nSampetersburgo e em Paris. D\u00ea-se-lhe um territ\u00f3rio f\u00e9rtil,<br \/>\numa cidade como Constantinopla que seja um grande entreposto de comercio,<br \/>\nminas a explorar, uma frota de transporte, e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida<br \/>\nque a habilidade comercial do grego, a mais fina ra\u00e7a do Levante, poderia<br \/>\nconstituir uma na\u00e7\u00e3o pr\u00f3spera. A pol\u00edtica, a administra\u00e7\u00e3o,<br \/>\nas finan\u00e7as, n\u00e3o seriam como agora governadas pelos intrigantes<br \/>\nde Atenas, mas pelas verdadeiras capacidades gregas que neste momento est\u00e3o<br \/>\nespalhadas pela Europa \u00e0 testa de grandes firmas comerciais e industriais.<br \/>\nE lentamente a experi\u00eancia da pr\u00f3pria for\u00e7a, a responsabilidade<br \/>\nde governar uma grande extens\u00e3o de territ\u00f3rio, uma comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais directa com a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, a necessidade de se<br \/>\norganizarem para se fortalecerem, daria ao povo grego aquela seriedade pol\u00edtica<br \/>\ne aquela ci\u00eancia social que fazem os pa\u00edses pr\u00f3speros.<\/p>\n<p>Est\u00e3o lembrados talvez do desastre sucedido h\u00e1 anos no navio<br \/>\ningl\u00eas Captain, que de repente, por um tempo quase sereno, na ba\u00eda<br \/>\nde Biscaia, se voltou, como um simples ca\u00edque do Tejo, destruindo mais<br \/>\nde quatrocentas vidas. Um desastre quase igual acaba de suceder a uma admir\u00e1vel<br \/>\nfragata de guerra, a Eur\u00eddice, que voltava das Antilhas Inglesas com<br \/>\nmais de trezentas pessoas a bordo. Ao avistar a praia de Inglaterra, a dist\u00e2ncia<br \/>\nde tiro da ilha de Wight, navegando com todo o pano, \u00e9 de repente apanhada<br \/>\npor um furac\u00e3o de neve, embrulhada, e em cinco minutos desaparece no<br \/>\nfundo do mar, arrastando todas as vidas num furioso turbilh\u00e3o de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Apenas duas pessoas se salvaram. Uma tal cat\u00e1strofe aterra pela quantidade<br \/>\nde exist\u00eancias perdidas e pela facilidade com que foi produzida. Uma<br \/>\nfragata de primeira ordem, que em tempo quase sereno navega a todo o pano,<br \/>\nparece um maquinismo indestrut\u00edvel ou, pelo menos, oferecendo uma resist\u00eancia<br \/>\neficaz; pois bem, levanta-se um sopro de vento, embrulhase a vela e mergulha-a<br \/>\nno fundo do mar, com a rapidez com que uma crian\u00e7a afunda com a m\u00e3o<br \/>\num barquinho de corti\u00e7a numa bacia de \u00e1gua! O furac\u00e3o<br \/>\nde neve foi instant\u00e2neo e fugitivo como um sopro que apaga uma vela.<br \/>\nAs pessoas que passeavam na esplanada de Ventuar tinham visto a fragata passando<br \/>\na todo o pano, juntamente com um brigue e uma pequena escuna. De repente abate-se<br \/>\no turbilh\u00e3o de neve de vendaval. A gente tem apenas tempo de segurar<br \/>\nos chap\u00e9us e de se abafar nos palet\u00f3s.<\/p>\n<p>Quando, passado o furac\u00e3o, tornam a olhar para o mar, v\u00eaem<br \/>\napenas o brigue e a escuna, seguindo tranquilamente: a fragata tinha desaparecido.<br \/>\nNem a ponta de um mastro era vis\u00edvel: o mar, um pouco grosso, balan\u00e7ava-se<br \/>\ntranquilamente e trezentas pessoas estavam agonizando debaixo de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Que trezentos homens s\u00e3os, fortes e alegres, voltando ao pa\u00eds,<br \/>\n\u00e0 fam\u00edlia, estejam \u00e0 vista das suas casas; que passe<br \/>\num sopro de neve e que em alguns segundos os arroje para o fundo do mar, que<br \/>\no c\u00e9u clareie e que o Sol imediatamente continue a brilhar, como se<br \/>\nnada se tivesse passado \u2013 \u00e9 l\u00fagubre! Tinha escrito estas<br \/>\nlinhas, e ia falar-lhes de algumas curiosas novidades liter\u00e1rias e<br \/>\nart\u00edsticas, quando not\u00edcias inesperadas e surpreendentes me<br \/>\nfor\u00e7aram a voltar de novo \u00e0 pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a R\u00fassia deu ontem a sua resposta definitiva \u00e0<br \/>\nInglaterra: n\u00e3o admite a livre discuss\u00e3o da totalidade ao tratado<br \/>\nde paz e declara que, neste ponto, o seu interesse e a sua honra n\u00e3o<br \/>\nlhe permitem nenhuma concess\u00e3o. Portanto, o congresso n\u00e3o se<br \/>\nre\u00fane.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, Lord Derby deu hoje a sua demiss\u00e3o. Esta demiss\u00e3o,<br \/>\ntantas vezes anunciada e contradita em ocasi\u00f5es em que oferecia uma<br \/>\ncerta l\u00f3gica, veio quando parecia quase absolutamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m o sabia at\u00e9 ao momento em que, entrando ontem na C\u00e2mara<br \/>\ndos Lordes, Lord Derby n\u00e3o se sentou no banco dos ministros e foi ocupar<br \/>\num lugar nos bancos da oposi\u00e7\u00e3o. As suas explica\u00e7\u00f5es<br \/>\nforam breves e feitas com uma solenidade triste: disse que at\u00e9 \u00e0quele<br \/>\ndia estivera na mais estreita concord\u00e2ncia de ideias com os seus colegas,<br \/>\nmas que, tendo eles tomado ultimamente resolu\u00e7\u00f5es que lhe pareciam<br \/>\ncontr\u00e1rias aos interesses do pa\u00eds, ele vira-se for\u00e7ado,<br \/>\ncom m\u00e1goa, a separar-se dos seus colegas. Estas palavras causaram na<br \/>\nC\u00e2mara uma inquieta\u00e7\u00e3o extrema: que resolu\u00e7\u00f5es<br \/>\neram essas? Se Lord Derby, que fora no gabinete o sustent\u00e1culo da paz,<br \/>\nse retirava, \u00e9 que essas resolu\u00e7\u00f5es que o tornavam incompat\u00edvel<br \/>\ncom os seus amigos tinham o car\u00e1cter de um principio da guerra. Que<br \/>\nseria? Estaria a esquadra em Constantinopla? Ter-se-ia tomado Gal\u00edpoli?<br \/>\nLord Beaconsfield, erguendo-se, p\u00f4s um termo \u00e0s incertezas: come\u00e7ou<br \/>\npor fazer o que se poderia chamar a ora\u00e7\u00e3o f\u00fanebre de<br \/>\nLord Derby: falou na amizade que durante trinta anos de vida p\u00fablica<br \/>\no ligara a Lord Derby e que ele considerava uma das felicidades e honras da<br \/>\nsua carreira; fez, com tra\u00e7os \u00e0 romancista, como romancista<br \/>\nque \u00e9, o retrato moral de Lord Derby; e as suas palavras demonstravam<br \/>\numa m\u00e1goa t\u00e3o grave daquela separa\u00e7\u00e3o e uma estima<br \/>\nt\u00e3o elevada pelo estadista que Lord Derby, sob uma emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nirreprim\u00edvel, p\u00f4s as m\u00e3os sobre o rosto e solu\u00e7ou.<br \/>\nA C\u00e2mara, impressionada, assustada, n\u00e3o sabia se aquelas l\u00e1grimas<br \/>\neram pela perda dos seus amigos, se pelas desgra\u00e7as que antevia ao<br \/>\nseu pa\u00eds. Enfim, Lord Beaconsfield declarou que a resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ntomada e que tinha determinado a demiss\u00e3o de Lord Derby fora a chamada<br \/>\n\u00e0s armas dos corpos de reserva.<\/p>\n<p>Desapontamento geral! O qu\u00ea? Por uma simples medida preventiva, Lord<br \/>\nDerby, o chefe da mais ilustre casa tory, separava-se dos tories? E que falta<br \/>\nde l\u00f3gica! N\u00e3o fora Lord Derby que pelas suas exig\u00eancias,<br \/>\nali\u00e1s justificadas, fizera abortar o congresso? Podia ele pois reprovar<br \/>\nque o Governo tomasse as precau\u00e7\u00f5es que exigiam logicamente<br \/>\nos interesses ingleses desde que o congresso falhara? Constitu\u00eddo de<br \/>\nboa ou m\u00e1 f\u00e9, o congresso era o \u00fanico meio de trazer<br \/>\numa solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica \u00e0s quest\u00f5es pendentes,<br \/>\nque, tendo ela falhado, s\u00f3 podem ser decididas pelas armas. Como \u00e9<br \/>\nque Lord Derby, depois de ter pela sua pol\u00edtica desarranjado essa solu\u00e7\u00e3o<br \/>\npac\u00edfica, se op\u00f5e a que se adoptem preven\u00e7\u00f5es<br \/>\npara o caso do conflito armado? A Inglaterra s\u00f3 podia defender os seus<br \/>\ninteresses ou com raz\u00f5es no congresso ou com canh\u00f5es no campo<br \/>\nde batalha: Lord Derby n\u00e3o quer ir ao congresso das raz\u00f5es e<br \/>\nzanga-se porque o Governo, em consequ\u00eancia disso, se prepara a carregar<br \/>\nas pe\u00e7as. Por que modo pretende ele ent\u00e3o defender os interesses<br \/>\nbrit\u00e2nicos, de que ele h\u00e1 tr\u00eas anos \u00e9 o porta-voz<br \/>\ne o arauto? Nem pelo direito, nem pela for\u00e7a. Como ent\u00e3o? Lord<br \/>\nDerby \u00e9 um homem muito pr\u00e1tico para cair numa tal inconsequ\u00eancia.<br \/>\nNem \u00e9 de supor que vendo diante de si a crise que ele provocou, com<br \/>\nraz\u00e3o, pela sua pol\u00edtica queira fugir, por timidez e excesso<br \/>\nde temperamento pacifico, \u00e0s responsabilidades que ela traz. H\u00e1<br \/>\nportanto outra coisa: isto \u00e9, a simples chamada da reserva n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 toda a raz\u00e3o da demiss\u00e3o de Lord Derby. Se ele se separa<br \/>\ndos seus colegas, \u00e9 porque os seus colegas decerto decidiram alguma<br \/>\noutra coisa, bem mais definitiva que uma simples precau\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO qu\u00ea? That is the question. \u00c9 o que se saber\u00e1 dentro<br \/>\nde dias.<\/p>\n<p>En attendant, o esquema do congresso, do imp\u00e9rio hel\u00e9nico,<br \/>\netc., todas as belas concep\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e geogr\u00e1ficas<br \/>\nde Lord Derby est\u00e3o perdidas, ficam nos cart\u00f5es do Foreign Office.<\/p>\n<p>E o que resta \u00e9 Lord Beaconsfield, com o seu ardente desejo de guerra,<br \/>\nlivre dos embara\u00e7os pac\u00edficos que punha Lord Derby, apoiado<br \/>\npela corte, que tamb\u00e9m deseja a guerra, e sustentado \u00e0 outrance<br \/>\npela parte dos tories que n\u00e3o t\u00eam repouso nem alegria enquanto<br \/>\nse n\u00e3o trocarem entre Ingleses e Russos os primeiros tiros no B\u00f3sforo.<\/p>\n<p>Esta carta j\u00e1 vai longa. Mas preciso contar-lhes um pequeno facto<br \/>\npicante de que falam aqui os jornais da sociedade, e que, sendo para n\u00f3s<br \/>\napenas engra\u00e7ado, tem produzido nos Ingleses um furor sombrio. Trata-se,<br \/>\ncomo quase sempre, do pr\u00edncipe de Gales. Sua alteza, a semana passada<br \/>\nestando em Paris, fez uma visita ao Figaro. At\u00e9 aqui nada de extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Querendo dar uma tal honra a um jornal franc\u00eas, escolheu um jornal<br \/>\ndas cocotes e dos apostadores de corridas, o \u00f3rg\u00e3o oficial da<br \/>\nvida escandalosa. At\u00e9 aqui nada de criminoso. A visita foi feita \u00e0s<br \/>\nduas horas da noite, e nas salas do Figaro estavam os artistas mais estroinas<br \/>\nde Paris e algumas lindas actrizes que, al\u00e9m da arte dram\u00e1tica,<br \/>\nprofessam acessoriamente o amor livre por pre\u00e7os conhecidos no Bulevar.<br \/>\nAt\u00e9 aqui nada de violento. Houve uma ceia, nada mais natural. Mas foi<br \/>\nao fim da ceia que se deu o pequeno facto que causa nos Ingleses desespero<br \/>\nsoturno; o elegante redactor Francis Magnard ergueu-se e, de copo em punho,<br \/>\nprop\u00f4s uma sa\u00fade \u00e0 rainha Vit\u00f3ria: \u00e9 do<br \/>\nestilo ingl\u00eas que esta sa\u00fade seja seguida de aplausos e \u00e9<br \/>\nda etiqueta que o sinal dos aplausos seja dado pela pessoa mais respeit\u00e1vel.<br \/>\nA pessoa mais respeit\u00e1vel que nessa ocasi\u00e3o bateu as palmas<br \/>\nde cerim\u00f3nia foi Mademoiselle Theo, uma das actrizes dos Buffos, a<br \/>\nquem n\u00e3o julgo fazer inj\u00faria chamando-lhe uma esbelta e ilustre<br \/>\nprostituta. O pr\u00edncipe de Gales, numa espirituosa resposta, agradeceu<br \/>\na Mademoiselle Theo e a outras cocotes e folhetinistas a honra que faziam<br \/>\nem beber \u00e0s duas horas da noite, na redac\u00e7\u00e3o do Figaro,<br \/>\n\u00e0 sa\u00fade de sua m\u00e3e, a rainha de Inglaterra.<\/p>\n<p>Como v\u00eaem \u00e9 apenas picante \u2013 mas h\u00e1 ingleses severos<br \/>\na quem tem ca\u00eddo o cabelo de pensar neste toast singular.<\/p>\n<p>Um jornal de Londres observa que se t\u00eam feito toasts \u00e0 rainha<br \/>\nde Inglaterra nos lugares mais extraordin\u00e1rios, no alto das Pir\u00e2mides,<br \/>\nnas ru\u00ednas de Tebas, nos sert\u00f5es de \u00c1frica, nos templos<br \/>\nde Pequim, no P\u00f3lo Norte, nos juncais do Ganges, no alto do Calv\u00e1rio,<br \/>\nsobre o Niagara, nas cabanas dos cafres, nos mosteiros do L\u00edbano; mas<br \/>\nque \u00e9 a primeira vez que se faz num lupanar! Lupanar, acho severo para<br \/>\no Figuro. Mas que \u00e9 um lugar esquisito para uma sa\u00fade t\u00e3o<br \/>\nrespeit\u00e1vel \u2013 \u00e9.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>XV &#8211; Londres, 21 de Maio de 1878<\/h2>\n<p>H\u00e1 entre os prov\u00e9rbios diplom\u00e1ticos um que diz: \u00abQuando<br \/>\na Fran\u00e7a est\u00e1 descontente, a Europa est\u00e1 em perigo.\u00bb<br \/>\nPode-se dizer que quando a Fran\u00e7a est\u00e1 feliz, a Europa est\u00e1<br \/>\ntranquila: desde que a Exposi\u00e7\u00e3o se abriu, e que a Fran\u00e7a<br \/>\ncelebra em Paris a sua grande festa de ressurrei\u00e7\u00e3o, toda a<br \/>\nEuropa tem um tom mais calmo; corre uma aragem consoladora de paz e de concilia\u00e7\u00e3o,<br \/>\na mesma actividade de armamentos afrouxou e os homens de guerra e de rapina,<br \/>\nos Bismarcks e os Gortschakoffs, aproveitam este intervalo sereno para curarem<br \/>\nos seus reumatismos. Exala-se da Exposi\u00e7\u00e3o, parece, uma emana\u00e7\u00e3o<br \/>\nde conc\u00f3rdia, de trabalho, de civiliza\u00e7\u00e3o, que enche<br \/>\nos esp\u00edritos de um salutar desejo de fraternidade e de paz.<\/p>\n<p>As espadas meio sa\u00eddas recaem na bainha, as vozes irritadas de desafio<br \/>\nado\u00e7am-se em explica\u00e7\u00f5es pl\u00e1cidas, o czar humaniza-se,<br \/>\na Inglaterra desfranze a carranca e todo o mundo respira um vago aroma de<br \/>\nfolhas de oliveira, s\u00edmbolos de paz. E a Exposi\u00e7\u00e3o de<br \/>\nParis, \u00e9 essa colossal acumula\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia, de<br \/>\narte, de ind\u00fastria, que espalha em redor, na Europa, um influxo santo<br \/>\nde serenidade. Paris, no fundo, \u00e9 a grande capital da civiliza\u00e7\u00e3o;<br \/>\no seu messianismo \u00e9 incontest\u00e1vel; o que ela pensa \u00e9-nos<br \/>\ndogma, o que ela quer \u00e9-nos lei: o mundo instintivamente obedece-lhe:<br \/>\nh\u00e1 nela n\u00e3o sei que gra\u00e7a magnetizadora, que forte ascend\u00eancia<br \/>\nespiritual a que se n\u00e3o resiste: a humanidade civilizada tem por ela<br \/>\num vago amor e deixa-se docemente tiranizar: se ela nos imp\u00f5e a idiota<br \/>\ncan\u00e7\u00e3o C&#8217;est l&#8217;amant d\u2019Amanda, protestamos primeiro, rimos<br \/>\ndepois. Terminamos todos por a cantar; se ela nos imp\u00f5e uma ideia social,<br \/>\npodemos um momento hesitar, acabamos todos por a servir: o que ela cria tem<br \/>\na nossa admira\u00e7\u00e3o certa, ou seja Offenbach ou seja Gambetta;<br \/>\nela exerce a fascina\u00e7\u00e3o de certos olhos de mulheres, cuja luz<br \/>\nconvence; hoje Paris quer a paz, e a Europa j\u00e1 n\u00e3o se atreve<br \/>\na fazer a guerra.<\/p>\n<p>Aqui, pelo menos, n\u00e3o se fala sen\u00e3o da Exposi\u00e7\u00e3o:<br \/>\na ordem do dia \u00e9 ir a Paris; os indiv\u00edduos que ainda murmuram<br \/>\nalgumas frases sobre a Bulg\u00e1ria, o Tratado de San Stefano, Constantinopla,<br \/>\netc., parecem obsoletos e caturras. Quem se ocupa do eslavo? Que significam<br \/>\nessas antigualhas l\u00fagubres? O que importa \u00e9 chegar a Paris,<br \/>\nsaltar a um fiacre e abalar para o Trocadero! E o que atrai a Paris n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 tanto admirar as maravilhas que o mundo l\u00e1 reuniu, como ver<br \/>\na valente cidade outra vez feliz e triunfante; ver a formosa cabe\u00e7a<br \/>\nda Fran\u00e7a de novo levantada ao alto, depois de ter estado durante oito<br \/>\nanos voluntariamente curvada para o ch\u00e3o. H\u00e1 oito anos! Neste<br \/>\nmesmo m\u00eas de Maio, franceses bateram-se contra franceses numa guerra<br \/>\nferoz e fan\u00e1tica, sob os frios olhares dos Prussianos, que de redor,<br \/>\nde bra\u00e7os cruzados, esperando sossegadamente os seus cinco milliards,<br \/>\nviam, cofiando as barbas doutorais, Paris a arder! E sete anos depois, pagas<br \/>\ntodas as d\u00edvidas, libertado todo o territ\u00f3rio e reedificadas<br \/>\ntodas as ru\u00ednas, replantados todos os campos, a Fran\u00e7a est\u00e1<br \/>\nbastante de posse de si mesma, bastante rica, com vagares bastantes para dar<br \/>\nao mundo, na sua capital embelezada, a maior festa de civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeste s\u00e9culo. Valente na\u00e7\u00e3o! Diz-se que toda esta forte<br \/>\nressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 devida \u00e0 rep\u00fablica. Bom<br \/>\nDeus, sejamos justos, \u00e9 devida \u00e0 Fran\u00e7a! \u00c9 o seu<br \/>\nimenso poder recuperativo, o seu g\u00e9nio, a sua laboriosidade, a sua<br \/>\nordem, a sua economia, a sua s\u00e1bia previd\u00eancia, que a habilitaram,<br \/>\ndepois de um curto espa\u00e7o de recolhimento e de trabalho, a reaparecer<br \/>\n\u00e0 frente da civiliza\u00e7\u00e3o, mais forte, mais rica, mais<br \/>\ninteligente, outra vez la belle France. E aparece-nos com uma fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe n\u00e3o conhec\u00edamos \u2013 n\u00f3s os que fomos educados<br \/>\nquando j\u00e1 o imp\u00e9rio estava feito \u2013 aparece-nos grave e<br \/>\nalegre.<\/p>\n<p>N\u00e3o perdeu nada de verve, e ganhou muito de reflex\u00e3o: abandonou<br \/>\nsobretudo um dos seus defeitos irritantes, a jact\u00e2ncia \u2013 aquele<br \/>\nalarde fanfarr\u00e3o, retorcendo as guias e de m\u00e3o na cinta, que<br \/>\nfazia propor aos mais pr\u00e1ticos, aos mais moderados, como Emile de Girardon,<br \/>\nque n\u00e3o se batessem os Prussianos a tiro, mas a coronhadas, por desprezo!<br \/>\nAs felicita\u00e7\u00f5es da imprensa inglesa \u00e0 Fran\u00e7a pela<br \/>\nsua aleluia t\u00eam sido nobres, fraternais, profundas. A Fran\u00e7a<br \/>\ntem-se enternecido. Mas o que a lisonjeou, o que a electrizou, foram as belas<br \/>\npalavras do pr\u00edncipe de Gales no banquete que lhe ofereceram em Paris<br \/>\nos expositores ingleses. Respondendo \u00e0 sa\u00fade que lhe fizera<br \/>\nLord Granville, dirigiu-se ao ministro das Obras P\u00fablicas de Fran\u00e7a,<br \/>\ne disse-lhe: \u00abDiga \u00e0 Fran\u00e7a que a amo de todo o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque ningu\u00e9m segue mais comovido a sua prodigiosa prosperidade e que<br \/>\na Inglaterra se regozija em concorrer para o esplendor da Exposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfeita no pa\u00eds que sobre todos estima, e a quem tanto deve. Estas frases<br \/>\nforam cobertas por um hurra prodigioso dos trezentos expositores ingleses<br \/>\nque se sentavam no banquete, que eram todos celebridades da aristocracia,<br \/>\nda ci\u00eancia, da arte, da ind\u00fastria \u2013 e no outro dia ecoavam<br \/>\npor toda a Fran\u00e7a. A alegria dos jornais republicanos foi imensa: em<br \/>\nartigos comovidos, todos agradeceram as palavras mais amigas, e as primeiras<br \/>\nque um pr\u00edncipe estrangeiro dirige \u00e0 Fran\u00e7a depois dos<br \/>\nseus desastres. O Paris Journal, como um homem que a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nsufoca e que p\u00f5e todo o seu reconhecimento numa exclama\u00e7\u00e3o<br \/>\ncurta e balbuciada, imprimiu apenas em caracteres grossos: Merci, monseigneur!<br \/>\nO facto \u00e9 que o pr\u00edncipe de Gales \u00e9 hoje um dos homens<br \/>\nmais populares da Fran\u00e7a. Paris adora-o; sem lhe fazerem as ova\u00e7\u00f5es,<br \/>\nque a gravidade republicana n\u00e3o comporta, cercam-no, onde quer que<br \/>\nv\u00e1, de uma simpatia comovida. Em Inglaterra mesmo, a satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo discurso do pr\u00edncipe \u00e9 grande. No fundo, se a Inglaterra<br \/>\ntem uma simpatia, digamos um fraco, \u00e9 a Fran\u00e7a. E ama-a desinteressadamente:<br \/>\na Inglaterra \u00e9 um pais de racioc\u00ednio muito pr\u00e1tico para<br \/>\nsonhar quimeras, e supor que a Fran\u00e7a, porque um pr\u00edncipe ingl\u00eas<br \/>\nergue o seu copo de champanhe e lhe dirige em franc\u00eas muito parisiense<br \/>\nalgumas palavras de simpatia pessoal no calor de um bom jantar \u2013 que<br \/>\na Fran\u00e7a vai, toda reconhecida, apoiar a Inglaterra nas suas pretens\u00f5es<br \/>\nou nos seus interesses pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A Inglaterra, por exemplo, na quest\u00e3o do Oriente, n\u00e3o conta<br \/>\ncom a Fran\u00e7a; n\u00e3o espera nada dela, em circunst\u00e2ncia alguma,<br \/>\na n\u00e3o ser naturalmente aquele alto apoio moral, a simpatia de esp\u00edrito<br \/>\nque se devem duas grandes na\u00e7\u00f5es que s\u00e3o no mundo respons\u00e1veis<br \/>\npelo progresso humano. O amor da Inglaterra \u00e0 Fran\u00e7a (que se<br \/>\ntem sempre desenvolvido desde 1830, mas que tomou uma fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais \u00edntima desde a queda do infecto imp\u00e9rio) tem bases seguras,<br \/>\ncom ra\u00edzes no mesmo temperamento das duas na\u00e7\u00f5es, e \u00e9<br \/>\na garantia, creio, de uma longa paz entre elas. Em primeiro lugar estimam-se<br \/>\ncomo dois velhos combatentes leais, que foram um para outro causa de grande<br \/>\ngl\u00f3ria: se a Inglaterra expulsou a Fran\u00e7a da \u00cdndia, a<br \/>\nFran\u00e7a promoveu e realizou a expuls\u00e3o dos Ingleses da Am\u00e9rica;<br \/>\nse Napole\u00e3o, durante dez anos, teve, atrav\u00e9s do continente,<br \/>\na Inglaterra em perp\u00e9tuo \u00e9chec, o le\u00e3o brit\u00e2nico<br \/>\ntomou a sua desforra em Waterloo; depois foram aliados na Crimeia e aliados<br \/>\nna China. Mesmo combatendo-a, ou recusando-lhe o seu aux\u00edlio, a Inglaterra<br \/>\ni5ez \u00e0 Fran\u00e7a impag\u00e1veis servi\u00e7os: em Waterloo<br \/>\ndesembara\u00e7ou-a de um tirano insensato; em 1870, deixando consumar o<br \/>\ngrande desastre, desembara\u00e7ou-a para sempre dos Bonapartes. Terminado<br \/>\no per\u00edodo da guerra, as rela\u00e7\u00f5es comerciais das duas<br \/>\nna\u00e7\u00f5es vizinhas cresceram a ponto que, sem uma, a outra faria<br \/>\nbancarrota. O Ingl\u00eas, que n\u00e3o sabe l\u00edngua nenhuma, s\u00f3<br \/>\ncondescende em aprender o franc\u00eas; \u00e9 por isso talvez que \u00e9<br \/>\na na\u00e7\u00e3o que mais visita; \u00e9 raro o ingl\u00eas que n\u00e3o<br \/>\ntenha percorrido a Fran\u00e7a; socialmente, Paris \u00e9 quase tanto<br \/>\na sua capital como Londres; se em Paris encontra a vivacidade, o brilho, a<br \/>\nverve da vida que o seduz, na prov\u00edncia encontra as s\u00f3lidas<br \/>\nqualidades que admira e sem as quais n\u00e3o concede a sua estima \u2013<br \/>\nas qualidades de trabalho, de virtude dom\u00e9stica, de perseveran\u00e7a<br \/>\ne de probidade. A Fran\u00e7a \u00e9 o jardim de Inglaterra: e l\u00e1<br \/>\nque o negociante vai descansar do tr\u00e1fico da City, o fidalgo da monotonia<br \/>\nda vida do campo, o professor dos trabalhos da escola, o cl\u00e9rigo da<br \/>\nsecura das miss\u00f5es. \u00c9 a \u00fanica na\u00e7\u00e3o que<br \/>\no baixo povo estima; french, frenchman, s\u00e3o as palavras com que a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesigna o estrangeiro am\u00e1vel; quando as ruas, nalguma gala nacional,<br \/>\nse empavezam e se adornam, a \u00fanica bandeira europeia que se v\u00ea<br \/>\n\u00e9 a her\u00f3ica tricolor; nos livreiros das mais pequenas vilas<br \/>\nse vendem livros franceses. O ingl\u00eas tem um reconhecimento profundo<br \/>\nao pais que produz o vinho de Borgonha; a inglesa \u00e9 grata \u00e0<br \/>\nterra que lhe manda as sedas de Li\u00e3o.<\/p>\n<p>A gente menos educada, que n\u00e3o sabe qual \u00e9 a forma de governo<br \/>\nque rege a Espanha ou a It\u00e1lia, est\u00e1 ao facto inteiramente da<br \/>\nmoderna hist\u00f3ria da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Nas classes ilustradas, a hist\u00f3ria e a literatura francesas s\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o familiares como a inglesa. Em todos os grandes jornais h\u00e1<br \/>\ndiariamente um artigo de fundo sobre os neg\u00f3cios interiores da Fran\u00e7a;<br \/>\na campanha contra o minist\u00e9rio Broglie, o ano passado, era dirigida<br \/>\npelo Times. E a amizade da Inglaterra pela Fran\u00e7a \u00e9 t\u00e3o<br \/>\nforte que lhe faz sacrif\u00edcios; h\u00e1 um ano que a Inglaterra \u00e9<br \/>\naconselhada, instada, persuadida, tentada a que ocupe o Egipto: e porque tem<br \/>\nresistido? Para n\u00e3o ferir susceptibilidades francesas.<\/p>\n<p>O Daily Telegraph disse num artigo memor\u00e1vel: \u00abPercamos todos<br \/>\nos interesses, mas n\u00e3o desagrademos aos Parisienses.\u00bb E foi para<br \/>\nagradar aos Parisienses que a Inglaterra mandou \u00e0 Exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\no que em arte e ind\u00fastria tinha de melhor, do passado e do presente.<br \/>\nE a Inglaterra certamente que mais concorre para o esplendor da Exposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne a Inglaterra inteira, como dizem os grandes jornais, falou pela boca do<br \/>\npr\u00edncipe de Gales.<\/p>\n<p>T\u00eam sido singularmente lament\u00e1veis os sucessos do Lancashire,<br \/>\nonde milhares e milhares de oper\u00e1rios tecel\u00f5es est\u00e3o<br \/>\nem greve. Os motivos desta greve s\u00e3o complicados e prendem-se com uma<br \/>\ndif\u00edcil quest\u00e3o de economia pol\u00edtica. Em presen\u00e7a<br \/>\nda grande depress\u00e3o no com\u00e9rcio dos algod\u00f5es e dos tecidos,<br \/>\nos oper\u00e1rios entendem que \u00e9 necess\u00e1rio produzir menos<br \/>\npara que os grandes dep\u00f3sitos existentes se esvaziem e o equil\u00edbrio<br \/>\ndo mercado se restabele\u00e7a: os patr\u00f5es entendem que \u00e9<br \/>\nnecess\u00e1rio produzir na mesma propor\u00e7\u00e3o anterior, mas<br \/>\nque \u00e9 indispens\u00e1vel baixar o pre\u00e7o da m\u00e3o-de-obra.<br \/>\nEsta desintelig\u00eancia produziu uma greve, a maior que se tem dado em<br \/>\nInglaterra h\u00e1 cinquenta anos. Greve cuja especialidade bem triste foi<br \/>\na de que esteve pr\u00f3xima a tomar o aspecto de uma revolta. Os oper\u00e1rios<br \/>\nde Lancashire passaram sempre por serem os mais inteligentes, os mais s\u00e9rios,<br \/>\nos mais honestos, da grande popula\u00e7\u00e3o obreira da Inglaterra:<br \/>\nnuma semana, num momento de irrita\u00e7\u00e3o, de vingan\u00e7a ou<br \/>\nde desesperan\u00e7a, perderam esta nobre reputa\u00e7\u00e3o. Hoje<br \/>\nos jornais s\u00e9rios consideram-nos \u00abcomo a mais infecta popula\u00e7a\u00bb.<br \/>\nQue se passou? Que os oper\u00e1rios, em lugar de discutirem tranquilamente<br \/>\n(como pediam jornais s\u00e9rios) o meio de conciliar as suas diverg\u00eancias<br \/>\ncom os patr\u00f5es, preferiram fazer uma pequena insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nlocal com todos os incidentes t\u00edpicos \u2013 janelas quebradas, pol\u00edcia<br \/>\napedrejada, etc. Ao princ\u00edpio, isto pareceu apenas um desabafo de temperamento<br \/>\nexaltado: esperou-se que a raz\u00e3o voltaria, com ela a tranquilidade.<br \/>\nMas ou que a impassibilidade dos patr\u00f5es diante desta manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde for\u00e7a os irritava; ou que pequenas desordens locais lhes dessem<br \/>\no apetite de uma verdadeira insurrei\u00e7\u00e3o provincial; ou que uma<br \/>\nmultid\u00e3o imensa de popula\u00e7a vadia e ociosa se viesse reunir,<br \/>\nna esperan\u00e7a dos proveitos que traz a anarquia, \u00e0 massa mais<br \/>\ns\u00e9ria dos oper\u00e1rios, o facto \u00e9 que o que come\u00e7ara<br \/>\npor uma algazarra ia terminando numa revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As janelas quebradas levaram \u00e0s portas arrombadas; depois de algumas<br \/>\npedradas atiradas \u00e0 pol\u00edcia vieram os tiros dados contra as<br \/>\ntropas \u2013 e por todo o distrito que cerca Manch\u00e9ster, durante<br \/>\ntr\u00eas dias, reinou uma anarquia que lembra as cl\u00e1ssicas guerras<br \/>\ncivis de Navarra.<\/p>\n<p>Manufacturas incendiadas, casas destru\u00eddas, lojas de bebidas saqueadas,<br \/>\npatr\u00f5es perseguidos a tiros, reclama\u00e7\u00f5es for\u00e7adas<br \/>\nde dinheiro e de provis\u00f5es, nada faltou para dar ao distrito de Manch\u00e9ster<br \/>\no aspecto atroz de uma prov\u00edncia em poder das hordas de Saballs ou<br \/>\nde Dorregaray. No entanto, a fei\u00e7\u00e3o t\u00edpica deste sucesso<br \/>\n\u00e9 que os jornais radicais e liberais n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o<br \/>\nse indignaram, mas nem sequer lamentaram: limitaram-se a contar secamente<br \/>\nos ultrajes cometidos. Das associa\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias n\u00e3o<br \/>\nsaiu um \u00fanico protesto contra estas desordens. E n\u00e3o se pode<br \/>\nnegar que a insurrei\u00e7\u00e3o tenha nas classes radicais uma vaga,<br \/>\numa imponder\u00e1vel simpatia.<\/p>\n<p>Tropas rapidamente concentradas puseram, naturalmente, fim a este estado<br \/>\ntumultuoso, e os patr\u00f5es sentiram logo a necessidade de entrar em concilia\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom os oper\u00e1rios, que montam a mais de cem mil.<\/p>\n<p>Se esta concilia\u00e7\u00e3o se n\u00e3o fizer, creio que veremos<br \/>\ngraves acontecimentos. E muito bonito realmente falar na ordem, no respeito<br \/>\n\u00e0 propriedade, no sentimento de obedi\u00eancia \u00e0 lei, etc.,<br \/>\nmas quando milhares de homens v\u00eaem a sua fam\u00edlia sem lume na<br \/>\nlareira, sem um peda\u00e7o de p\u00e3o, os filhos a morrer de mis\u00e9ria,<br \/>\ne ao mesmo tempo os patr\u00f5es, pr\u00f3speros e fartos, comprando propriedades,<br \/>\nquadros, apostando nas corridas e dando bailes que custam centos de libras,<br \/>\nbom Deus, \u00e9 dif\u00edcil ir falar aos desgra\u00e7ados de regras<br \/>\nde economia pol\u00edtica e convenc\u00ea-los que, em virtude dos melhores<br \/>\nautores da ci\u00eancia econ\u00f3mica, eles devem continuar por alguns<br \/>\nmeses mais a comer vento e aquecer-se \u00e0 cal das paredes!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I &#8211; Londres, 14 de Abril de 1877 II &#8211; Londres, 14 de Maio de 1877 III &#8211; 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