{"id":95515,"date":"2017-01-19T09:19:13","date_gmt":"2017-01-19T11:19:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95515"},"modified":"2017-01-19T09:19:13","modified_gmt":"2017-01-19T11:19:13","slug":"cartas-familiares-e-bilhetes-de-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-familiares-e-bilhetes-de-paris","title":{"rendered":"Cartas Familiares e Bilhetes de Paris"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"158\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#1\"><strong>Cap\u00edtulo I<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><a href=\"#2\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>Cap\u00edtulo II<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"96\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"152\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"94\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"178\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#4\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>Cap\u00edtulo IV<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Meus amigos: aconteceu uma desgra\u00e7a a Joana d\u2019Arc. A donzela<br \/>\nde Orle\u00e3es, a boa e forte lorena, salvadora do reino de Fran\u00e7a,<br \/>\nfoi beatificada pela Igreja de Roma. E (sem mal\u00edcia voltairiana o digo)<br \/>\ncom a sua entrada no c\u00e9u ela est\u00e1 perdendo o prest\u00edgio<br \/>\nque tinha na Terra, e a sua santidade j\u00e1 irremediavelmente estragou<br \/>\na sua popularidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia, contudo, figura da hist\u00f3ria aperfei\u00e7oada<br \/>\npela lenda que fosse mais popular em Fran\u00e7a que Joana d\u2019Arc,<br \/>\nLa Pucelle. Tamb\u00e9m nenhuma outra concorda mais estreitamente com os<br \/>\ngostos, os ideais e as qualidades melhores da ra\u00e7a francesa. Em primeiro<br \/>\nlugar, \u00e9 mulher, e mo\u00e7a, e bela, e loura, e soberbamente feita,<br \/>\ncomo afirmam todas as cr\u00f3nicas, desde a Espanhola at\u00e9 \u00e0<br \/>\nde Jo\u00e3o de Metz \u2013 e isto desde logo a devia tornar querida a<br \/>\num povo t\u00e3o sens\u00edvel, como o franc\u00eas, \u00e0s gra\u00e7as<br \/>\ne influ\u00eancias da formosura, ao povo que verdadeiramente criou, no culto<br \/>\nda Virgem, o culto da mulher, rainha de gra\u00e7a. Depois sa\u00edra<br \/>\nda plebe, de uma fam\u00edlia de lavradores da aldeia de Domremy, na Lorena,<br \/>\nque da servid\u00e3o dos senhores de Joinville tinha passado para o directo<br \/>\ndom\u00ednio da coroa, que trabalhavam a terra por suas m\u00e3os ou pastoreavam<br \/>\no gado, enquanto ela ficava fiando \u00e0 lareira com a m\u00e3e, numa<br \/>\nsimplicidade de vida t\u00e3o grande que nunca soube ler nem escrever \u2013<br \/>\ne a humildade desta origem naturalmente encantou sempre a gente humilde que,<br \/>\nno fundo da Inspirada, da companheira do rei de Fran\u00e7a, encontrava<br \/>\numa irm\u00e3 em ignor\u00e2ncia e pobreza, coberta com um mau saiote escarlate,<br \/>\numa paupercula bergereta. Depois a sua ac\u00e7\u00e3o no mundo \u00e9<br \/>\nde guerreira que assalta as muralhas, ergue um pend\u00e3o, desbarata hostes<br \/>\n\u2013 e esta \u00e9 a gl\u00f3ria mais amada e popular entre a ra\u00e7a<br \/>\ngaulesa, ra\u00e7a de guerra e de ru\u00eddo, cujo g\u00e9nio n\u00e3o<br \/>\nfoi ao princ\u00edpio sen\u00e3o movimento e conquista, e que, como diz<br \/>\nEstrab\u00e3o, \u00e9 \u00abdoida pela espada e sempre s\u00f4frega<br \/>\nde brigas\u00bb. Depois a sua miss\u00e3o foi expulsar o verdadeiro inimigo<br \/>\nda Fran\u00e7a, o ingl\u00eas invasor; e nenhuma outra poderia exercer<br \/>\nmais prest\u00edgio entre um povo que con serva como uma das formas do patriotismo<br \/>\na antipatia tradicional pelo Anglo-Sax\u00f3nio. Enfim, t\u00e3o profundamente<br \/>\nfrancesa \u00e9 Joana d\u2019Arc que permanece absolutamente francesa,<br \/>\nmesmo naqueles estados de alma que s\u00e3o mais alheios ao g\u00e9nio<br \/>\nda Fran\u00e7a \u2013 os de alucina\u00e7\u00e3o e de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nm\u00edstica.<\/p>\n<p>Imagine-se uma espanhola, do tipo de Santa Teresa, que recebesse como Joana<br \/>\nt\u00e3o repetidas e vis\u00edveis visitas do arcanjo S. Miguel, armado<br \/>\nda sua coura\u00e7a de diamante e transmitindo-lhe o grave recado de Deus,<br \/>\na incumb\u00eancia her\u00f3ica de desbaratar os inimigos da Espanha! O<br \/>\nque n\u00e3o faria a espanhola \u2013 que transportes, que intensidade<br \/>\nde paix\u00e3o trasbordando em gritos e hinos, que arrojos de dem\u00eancia<br \/>\ndivina! A donzela lorena, essa, cercada de vozes, de claridades celestes,<br \/>\ntratada como uma irm\u00e3 por grandes santas, levada pela vontade de Deus<br \/>\ncomo num rijo vento, conserva-se muito simples, muito prudente, cheia de bom<br \/>\nsenso, penetrando e decidindo as coisas da guerra e do Estado com o prop\u00f3sito<br \/>\nsagaz e bem-avisado de um conselheiro que encaneceu nos neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>E isto que d\u00e1 \u00e0 pobre pastora, paupercula bergereta, uma t\u00e3o<br \/>\nencantadora originalidade.<\/p>\n<p>Vis\u00f5es, como as dela, quem as n\u00e3o teve na Idade M\u00e9dia?<br \/>\nA Fran\u00e7a, mesmo no tempo de Joana, estava cheia de inspirados que conversavam<br \/>\ncom Cristo, suavam sangue, arrastavam multid\u00f5es pelo enlevo das suas<br \/>\npr\u00e9dicas ou a evid\u00eancia dos seus milagres. Mulheres tomando uma<br \/>\nlan\u00e7a, combatendo nos ass\u00e9dios, derrotando astutos capit\u00e3es,<br \/>\ntamb\u00e9m n\u00e3o eram raras, mesmo nesse prosaico s\u00e9culo XV;<br \/>\ne, contemporanea mente com Joana, as matronas da Bo\u00e9mia batalhavam<br \/>\nnas guerras dos Hussitas como \u00abmuito ferozes diabos\u00bb, segundo<br \/>\ndiz o velho Monstrelet. Inspiradas e amazonas n\u00e3o faltavam \u2013<br \/>\no que nenhuma tinha, como Joana, era o s\u00e9rio e fino ju\u00edzo no<br \/>\nmeio da alucina\u00e7\u00e3o m\u00edstica e do\u00e7ura e bondade<br \/>\nterna em meio dos recontros e da brutalidade das armas. Esta \u00e9 a sua<br \/>\nprivilegiada originalidade. E foi ela que atraiu essa espl\u00eandida popularidade<br \/>\nde padroeira nacional. Esta gl\u00f3ria de Joana, todavia, nem sempre permaneceu<br \/>\nintacta e luzente. E bem se pode afirmar que, logo em seguida \u00e0 sua<br \/>\nreabilita\u00e7\u00e3o por Calisto III, e como se a Fran\u00e7a tivesse<br \/>\nsaldado a sua d\u00edvida para com a pastora, que por ela vivera e sofrera,<br \/>\nJoana d\u2019Arc come\u00e7ou a ser esquecida. A sua mem\u00f3ria devia<br \/>\nser mesmo importuna \u00e0 coroa e \u00e0s classes nobres. Ter recebido<br \/>\num trono, e um trono heredit\u00e1rio, das m\u00e3os de uma guardadora<br \/>\nde ovelhas, nunca pode ser uma recorda\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel para<br \/>\numa velha casa real. O clero, esse n\u00e3o tinha sen\u00e3o interesse<br \/>\nem que se estabelecesse um pesado sil\u00eancio sobre aquela santa, que ele<br \/>\nqueimara por um desses enganos t\u00e3o frequentes nos cleros constitu\u00eddos,<br \/>\ndesde o pavoroso engano do G\u00f3lgota. E o povo ent\u00e3o, em Fran\u00e7a,<br \/>\nainda n\u00e3o existia como povo franc\u00eas \u2013 era apenas um agregado<br \/>\nde povos diferentes, sem comunh\u00e3o de sentimentos, donde nascesse um<br \/>\nculto patri\u00f3tico por quem t\u00e3o apaixonadamente trabalhara na<br \/>\nunidade da p\u00e1tria. Creio em verdade que, quando o \u00faltimo daqueles<br \/>\ncapit\u00e3es ingleses, para cuja expuls\u00e3o ela se armara \u00e0<br \/>\nvoz de Deus, deixou o solo de Fran\u00e7a, j\u00e1 Joana era apenas lembrada<br \/>\ncom amor por algum obscuro servo da sua aldeia de Domremy, ou por algum grato<br \/>\nburgu\u00eas dessa Orle\u00e3es que ela salvara.<\/p>\n<p>Os poetas do s\u00e9culo XVI todavia ainda cantam a virgem lorena; mas,<br \/>\natrav\u00e9s do naturalismo pag\u00e3o da Renascen\u00e7a, ela aparece<br \/>\ncom fei\u00e7\u00f5es lamentavelmente deformadas. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 a doce, a c\u00e2ndida virgem crist\u00e3, iluminada por Deus<br \/>\npara tirar da sua dor o pobre reino da Fran\u00e7a \u2013 mas uma valente<br \/>\namazona, amando o sangue, a guerra, e correndo a ela pelo mero e brutal desejo<br \/>\nde destruir, de retalhar! Assim a representa um poeta do tempo, armada, como<br \/>\numa Diana, de arco e de flechas, e toda consagrada ao homicida Marte&#8230;<\/p>\n<p>Para o ilustre Malherbe, Joana \u00e9 um h\u00e9rcules feminino, um<br \/>\ngrosso h\u00e9rcules fa\u00e7anhudo, cuja violenta morte vem como natural<br \/>\nconclus\u00e3o de violentas aventuras, e que:<\/p>\n<p>&#8230;Ayant v\u00e9cu comme un Alcide Devait mourir comme il est mort.<\/p>\n<p>Assim desfigurada pela Renascen\u00e7a, a donzela lorena conserva no entanto<br \/>\numa certa grandeza her\u00f3ica. Est\u00e1 tornada numa virago, do tipo<br \/>\ntruculento da nossa padeira de Aljubarrota, mas ainda se imp\u00f5e pela<br \/>\nfor\u00e7a, pela bravura, pelo patriotismo. Chega por\u00e9m Chapelain&#8230;<br \/>\nConhecem decerto Chapelain, o \u00fanico homem, desde que h\u00e1 homens,<br \/>\neducado cuidadosa e expressamente pela fam\u00edlia para ser um poeta \u00e9pico!<br \/>\nE foi, com efeito, um poeta \u00e9pico \u2013 e de todos os poetas, em<br \/>\ntodos tempos, o mais estupidamente fastidioso e rid\u00edculo. O assunto<br \/>\ndo seu enorme poema foi (infelizmente para ela) a infeliz Joana d\u2019Arc.<br \/>\nUm segundo processo de condena\u00e7\u00e3o n\u00e3o teria sido mais<br \/>\nfunesto \u00e0 boa libertadora do reino de Fran\u00e7a do que esta medonha<br \/>\nepopeia que a sublimava.<\/p>\n<p>A fogueira ati\u00e7ada na pra\u00e7a de Ru\u00e3o apenas a matou<br \/>\n\u2013mas o poema de Chapelain tornou a sua mem\u00f3ria perfeitamente<br \/>\nris\u00edvel. Com t\u00e3o difusa pieguice e patetice celebrou este cruel<br \/>\nhomem durante trinta intermin\u00e1veis cantos a virgindade de Joana, que<br \/>\nningu\u00e9m mais depois p\u00f4de pensar nessa virgem sem ter a tenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde lhe tro\u00e7ar a virgindade. O poema era t\u00e3o tolo que pedia repres\u00e1lias.<br \/>\nFoi Voltaire que se encarregou das repres\u00e1lias, nessa famosa e conhecida<br \/>\ngaiatice a que deu o mesmo nome da epopeia de Chapelain, La Pucelle.<\/p>\n<p>Voltaire fez mal \u2013 e decerto hoje, se ressuscitasse, reconheceria<br \/>\nque a virgem exaltada e vitoriosa que restituiu a terra de Fran\u00e7a ao<br \/>\nrei de Fran\u00e7a, merecia melhor que a tro\u00e7a cintilante de um satirista<br \/>\ngenial. \u00c9 um erro por\u00e9m supor, como pretendem agora os cat\u00f3licos<br \/>\ne os patriotas, que j\u00e1 no tempo de Voltaire a sua grande fac\u00e9cia<br \/>\nsobre a boa donzela lorena fora reprovada. Pelo contr\u00e1rio! Todo o s\u00e9culo<br \/>\nXVIII aplaudiu a fac\u00e9cia \u2013 e a concep\u00e7\u00e3o de uma<br \/>\nJoana d\u2019Arc patusea e libertina foi considerada como perfeitamente racional.<br \/>\nAs pessoas mais graves saboreavam e sabiam de cor cantos inteiros da La Pucelle,<br \/>\nde Voltaire. O virtuoso Malesherbes, ele pr\u00f3prio, pesad\u00edssima<br \/>\ncoluna de respeitabilidade, costumava recitar, com gosto, alguns dos trechos<br \/>\nmais picantes deste gaiato poema. Era uma ideia geral ent\u00e3o, por todos<br \/>\nrecebida, que s\u00f3 se podia falar da donzela lorena galhofando.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Ao nosso s\u00e9culo rom\u00e2ntico e romanesco, sens\u00edvel e simp\u00e1tico<br \/>\na todos os complicados e exaltados estados de alma, cheio de uma piedade filial<br \/>\npelo passado e s\u00f4frego de espiritualidade, competia empreender a reabilita\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Joana d\u2019Arc. J\u00e1 Chateaubriand, no seu majestoso passeio atrav\u00e9s<br \/>\nda hist\u00f3ria da Fran\u00e7a, encontrando Joana d\u2019Me, lan\u00e7a<br \/>\naos seus p\u00e9s, de passagem, algumas maravilhosas flores de eloqu\u00eancia,<br \/>\ncomo as sabia produzir esse m\u00e1gico renovador do estilo e da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a verdadeira reabilita\u00e7\u00e3o foi feita realmente por Michelet,<br \/>\nem tr\u00eas ou quatro cap\u00edtulos da Hist\u00f3ria de Fran\u00e7a,<br \/>\nque fixaram a beleza e a grandeza moral de Joana. A figura que Michelet imp\u00f5e,<br \/>\npor\u00e9m, \u00e0 nossa adora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 rigorosamente<br \/>\nhist\u00f3rica. Como sempre, aquele vidente da hist\u00f3ria idealiza<br \/>\ne simboliza com excesso e paix\u00e3o. La Pucelle n\u00e3o era exactamente<br \/>\nessa pastorinha doce, toda inoc\u00eancia e bondade, t\u00edmida e pensativa,<br \/>\nmurmurando apenas sublimes palavras de caridade e ternura divina, cheia de<br \/>\nhorror pela viol\u00eancia e pelo sangue, t\u00e3o evangelicamente pac\u00edfica<br \/>\nno meio da guerra que trazia uma bandeira ou um bast\u00e3o, para que as<br \/>\nsuas m\u00e3os c\u00e2ndidas nem sequer tocassem a espada que fere e mata.<br \/>\nTodas as testemunhas contempor\u00e2neas nos contam uma outra Joana bem diferente,<br \/>\ne talvez mais interessante, por ser mais humana. A virgem lorena, sem ter<br \/>\nnada da virago herc\u00falea e fa\u00e7anhuda que cantavam os poetas da<br \/>\nPl\u00eaiade, era uma vigorosa e corpulenta mo\u00e7a alegre, quase folgaz\u00e3,<br \/>\nsem timidez, de uma grande aud\u00e1cia de palavra e de ac\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncheia de confian\u00e7a em si e na sua miss\u00e3o e n\u00e3o desistindo<br \/>\npor vezes de uma boa e dura briga. \u00c9 ver como ela graceja como Robert<br \/>\nde Baudricourt, capit\u00e3o de Vaucouleurs, a quem viera pedir salvoconduto<br \/>\ne cartas credenciais para se apresentar a Carlos VII. O bravo capit\u00e3o,<br \/>\ncom a sua grossa mal\u00edcia tarimbeira, chasqueia a mo\u00e7a, por escolher<br \/>\na carreira das armas, em lugar de Pucelle responde logo, com agudez e desenvoltura<br \/>\nalegre: \u2013 Mais tarde, mais tarde! Quando eu tiver cumprido tudo o que<br \/>\nDeus me manda, ent\u00e3o conto arranjar tr\u00eas filhos, e o primeiro<br \/>\nh\u00e1-de ser papa, e o segundo imperador, e o terceiro talvez rei! O bom<br \/>\ncapit\u00e3o acode com redobrada galhofa: \u2013 Por Deus!, ent\u00e3o<br \/>\nquero ser o pai de um deles! Que se t\u00eam de ser pessoas de t\u00e3o<br \/>\ngrande marca, arranjo assim protector para a velhice! E a donzela lorena replica<br \/>\ncom singular finura: \u2013 N\u00e3o, n\u00e3o, gentil Robert! Quem os<br \/>\nh\u00e1-de fazer \u00e9 o Esp\u00edrito Santo! Linda r\u00e9plica!<br \/>\nMas como estamos longe da virgem timorata e c\u00e2ndida de Michelet! Em<br \/>\nquanto ao seu caridoso horror pela guerra e pelo sangue, \u00e9 certo que<br \/>\nela disse mais de uma vez, e com sincera dor, que \u00abnunca via derramar<br \/>\nsangue franc\u00eas, sem que se lhe erguessem os cabelos na cabe\u00e7a\u00bb!<br \/>\nAssim era para com o sangue franc\u00eas \u2013 mas a sua compaix\u00e3o<br \/>\ndiminu\u00eda consideravelmente quando se tratava de sangue de borgonheses<br \/>\nou de ingleses. No cerco de Orle\u00e3es, o seu intendente Aulon conta que<br \/>\na viu repetidamente acutilar o inimigo bastamente e rudemente. No assalto<br \/>\nao basti\u00e3o de Saint-Loup, Joana planta o seu estandarte nos fossos:<br \/>\nos ingleses que est\u00e3o dentro, uns trezentos, oferecem render-se, se<br \/>\nlhes d\u00e3o vida salva; Joana recusa, gritando \u00abque os h\u00e1-de<br \/>\nagarrar um a um\u00bb! S\u00e3o agarrados, e um a um passados a fio de<br \/>\nespada. Ela pr\u00f3pria fala de uma certa catana tirada a um prisioneiro<br \/>\nborgonh\u00eas, e de que gostava de se servir, por ser muito c\u00f3moda<br \/>\ne larga para a boa pranchada. O que mostra que, se a valente virgem nem sempre<br \/>\nacutilava, pelo menos sempre pranchava.<\/p>\n<p>De resto, bater com um pau, um rijo bast\u00e3o, que segundo a moda do<br \/>\ntempo ela trazia sempre na m\u00e3o, era um dos seus h\u00e1bitos mais<br \/>\nespont\u00e2neos em dias de ac\u00e7\u00e3o e de pressa.<\/p>\n<p>Nenhum destes tra\u00e7os diminui La Pucelle \u2013 antes a toma mais<br \/>\ntocante, porque a mostra mais real.<\/p>\n<p>Em quanto \u00e0 sua castidade, essa era perfeita, absoluta. O seu hero\u00edsmo,<br \/>\na origem celeste da sua miss\u00e3o, a simplicidade infantil da sua virtude,<br \/>\nquase a tornavam insexual. Os rudes homens que a cercavam (como eles mesmo<br \/>\ncontam) n\u00e3o sentiam diante dela nem a fugidia picada de um vago desejo,<br \/>\napesar da sua beleza robusta e grandemente apetec\u00edvel. S\u00f3 a<br \/>\nsua coragem lhes fazia lembrar que Joana era uma mulher, para mais estranhamente<br \/>\na admirarem.<\/p>\n<p>O duque de Alen\u00e7on, o mais formoso dos cavaleiros que a seguiam,<br \/>\ne o seu preferido como sobrinho do duque de Orle\u00e3es, a cuja causa ela<br \/>\nse votara, conta que muitas vezes dormira ao lado de Joana, debaixo da mesma<br \/>\nbarraca, e a vira despir a armadura, mostrar o que a coura\u00e7a escondia<br \/>\n(videbat ejus mammas quae pulchrae erant), sem que o importunasse um \u00fanico<br \/>\ndesejo de carne e de pecado. Pelo contr\u00e1rio! Dormia mais serenamente,<br \/>\npor se sentir sob uma protec\u00e7\u00e3o ang\u00e9lica. E se ela para<br \/>\nos homens era assim t\u00e3o pouco mulher \u2013 para ela os homens com<br \/>\nquem vivia promiscua mente, mo\u00e7os, e galantes, e bravos, eram, pelo<br \/>\nlado da virilidade, menos que sombras ou abstrac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Todas estas fei\u00e7\u00f5es formam uma Joana d\u2019Arc muito viva,<br \/>\nmuito real, perfeitamente compreens\u00edvel, e de todo ador\u00e1vel.<br \/>\nMas, ao lado desta, Michelet comp\u00f4s uma outra Joana, de uma gra\u00e7a<br \/>\nmais fr\u00e1gil, cheia de caridade, da angelidade resignada de uma m\u00e1rtir<br \/>\n\u2013 e foi essa que a poesia, e a arte, e o povo escolheram para adorar<br \/>\ne celebrar. Esta popularidade, esta devo\u00e7\u00e3o, subiu ao seu maior<br \/>\nfervor, depois dos desastres do Ano Terr\u00edvel. A Fran\u00e7a, ent\u00e3o,<br \/>\nnum certo ponto se assemelhava \u00e0 Fran\u00e7a dolorosa de Carlos VII<br \/>\n\u2013 e era que metade do seu territ\u00f3rio estava invadido pelo estrangeiro,<br \/>\ne que os alem\u00e3es de Moltke, como os ingleses de Bedford, acampavam<br \/>\ntamb\u00e9m em Orle\u00e3es.<\/p>\n<p>E havia ainda outra lament\u00e1vel semelhan\u00e7a \u2013 \u00e9<br \/>\nque em Paris se batiam franceses contra franceses, como no tempo dos Borgonheses<br \/>\ne dos Armanhacs. Bem natural era que o pensamento dos vencidos se voltasse<br \/>\npara a pobre pastora, que outrora, em dias de perigos iguais, fora a grande<br \/>\nsalvadora. Desta vez n\u00e3o surgira uma donzela inspirada do fundo da<br \/>\nLorena, nem Deus interviera por meio do seu arcanjo S. Miguel.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Lorena deixou de ser terra francesa, e S. Miguel parecia<br \/>\nestar aliado com o Hohenzollern. Mas por isso mesmo que n\u00e3o fora salva,<br \/>\na Fran\u00e7a sentiu e compreendeu melhor a grandeza daquela alma simples<br \/>\ne forte, que, outrora, com tanta for\u00e7a e tanta simplicidade a salvara.<br \/>\nA m\u00e1goa de n\u00e3o ter j\u00e1 uma Joana d\u2019Arc, e estarem<br \/>\npara sempre passados os tempos em que eram poss\u00edveis as Joanas d\u2019Arc,<br \/>\nlevou este povo de imagina\u00e7\u00e3o e sentimento a amar, com um amor<br \/>\nrenovado e mais ardentemente expresso, aquela que outrora possu\u00edra,<br \/>\nque fora uma raridade no mundo, e que nunca mais poder\u00e1 ser repetida.<\/p>\n<p>A cora\u00e7\u00f5es em que as desgra\u00e7as tinham exaltado a ideia<br \/>\nde p\u00e1tria \u2013 Joana apareceu como a encarna\u00e7\u00e3o mais<br \/>\nbela e mais pura dessa ideia excelsa.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a come\u00e7ava a viver para a esperan\u00e7a da desforra,<br \/>\ne necessitava uma padroeira, como Atenas a tivera em Minerva. Quem poderia<br \/>\nser sen\u00e3o a virgem elegida de Deus, que outrora aparecera com a sua<br \/>\nroca \u00e0 cinta, se oferecera para ser o supremo instrumento de uma desforra<br \/>\nmilagrosa? Desde ent\u00e3o, s\u00f3 desde ent\u00e3o, nasceu verdadeiramente<br \/>\nem Fran\u00e7a o culto de Joana d\u2019Arc. Culto sem descrentes e sem<br \/>\nher\u00e9ticos. Aquela pastora que, como devota, era inspirada pelo arcanjo<br \/>\nS. Miguel para servir como vassala o rei Carlos VII, encontrou franca adora\u00e7\u00e3o<br \/>\nmesmo entre os que t\u00eam por profiss\u00e3o liberal rir dos arcanjos<br \/>\ne abominar os reis. A hist\u00f3ria, a poesia, a arte, encetaram ardentemente<br \/>\na glorifica\u00e7\u00e3o da maravilhosa donzela. Os dois cap\u00edtulos<br \/>\nde Michelet, impressos num pequeno volume popular, tornaram-se um manual de<br \/>\npatriotismo. Os grandes poetas, \u00e9 verdade, uns confinados na antiguidade<br \/>\nm\u00edtica e cl\u00e1ssica, outros votados somente \u00e0 modernidade,<br \/>\noutros transviados pela metaf\u00edsica, outros teimosos ainda sobre o amor<br \/>\ne os seus mart\u00edrios, outros dedicados a um artif\u00edcio pueril<br \/>\ne picaresco, que parece ter rela\u00e7\u00e3o com a reforma do dicion\u00e1rio,<br \/>\nmas que se n\u00e3o sabe realmente a que tende, e que se chama o decadismo<br \/>\n\u2013 n\u00e3o se ocuparam de Joana d\u2019Arc: e nenhum canto verdadeiramente<br \/>\nbelo a desforrou da ignom\u00ednia de ter sido cantada por Chapelain. Os<br \/>\npintores, por\u00e9m, e os escultores ressuscitaram com entusiasmo a boa<br \/>\nlorena, uns preferindo-a na sua singeleza tocante de guardadora de ovelhas,<br \/>\noutros na sua aud\u00e1cia pitoresca de desbaratadora de ingleses. E como<br \/>\nem Fran\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 verdadeira gl\u00f3ria sem a consagra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo teatro \u2013 Paris cada noite aplaudiu a donzela, posta magnificamente<br \/>\nem melodramas e em pantomimas militares.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o tamb\u00e9m que por todos os s\u00edtios da velha Fran\u00e7a<br \/>\npor onde ela passou, ou triunfante ou humilhada, em Vaucouleurs, em Orle\u00e3es,<br \/>\nem Reims, em Ru\u00e3o, se ergueram, em sua honra, esses monumentos cuja<br \/>\nenumera\u00e7\u00e3o cansaria um t\u00e3o incans\u00e1vel enumerador<br \/>\nde monumentos como o velho Paus\u00e2nias. Em Paris a sua est\u00e1tua<br \/>\n(que \u00e9 de Fremiet, o animalista, e bem med\u00edocre) n\u00e3o<br \/>\ncessou mais de estar coberta de coroas de perp\u00e9tuas, de flores, de<br \/>\npequeninos ramos de um sou que l\u00e1 pousava a piedade dos simples. Orle\u00e3es,<br \/>\nque ela libertou, todos os anos celebrava a sua festa c\u00edvica. Domremy,<br \/>\ne a casa em que ela viveu, tomada relic\u00e1rio, foi um lugar de peregrina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE o maior n\u00famero dos tr\u00eas mil volumes que formam hoje a bibliografia<br \/>\nde Joana foram publicados neste per\u00edodo de fervor.<\/p>\n<p>Tudo isto constitui mais que a popularidade \u2013 \u00e9 j\u00e1 um<br \/>\nculto. A donzela estava tornada em Fran\u00e7a uma deusa civil.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>A Igreja n\u00e3o podia ficar alheia a este movimento nacional. \u00c9<br \/>\nverdade que fora a Igreja que queimara a doce libertadora \u2013 e que, depois<br \/>\nde a queimar, e para justificar a fogueira, a caluniara atrozmente, n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 pela sua voz, j\u00e1 forte, mas pela voz, ent\u00e3o terrivelmente<br \/>\ndogm\u00e1tica, da sua filha predilecta, a Universidade de Paris. Verdade<br \/>\n\u00e9 tamb\u00e9m que, passados uns trinta anos, o ilustre papa Calisto<br \/>\nIII, por um rescrito pontifical, ordenara ao arcebispo de Reims que, assistido<br \/>\nde dois bispos e do inquisidor-geral das heresias em Fran\u00e7a, fizesse<br \/>\na revis\u00e3o do processo de Joana d\u2019Arc.<\/p>\n<p>A primeira reuni\u00e3o deste tribunal apost\u00f3lico teve lugar em<br \/>\nParis, na Catedral de Notre-Dame.<\/p>\n<p>A\u00ed compareceu a idosa m\u00e3e de Joana, toda de luto e em l\u00e1grimas,<br \/>\nacom panhada dos seus dois filhos, Pedro e Jo\u00e3o, e de um grande povo<br \/>\nque chorava tamb\u00e9m e clamava justi\u00e7a. Estes clamores, estes<br \/>\nprantos de uma multid\u00e3o invadindo uma igreja, a suplicar que se restitua<br \/>\na gra\u00e7a a uma alma condenada, eram frequentes na Meia Idade e ainda<br \/>\nno s\u00e9culo XV. Os delegados do papa n\u00e3o se comoveram. Ao que<br \/>\nparece mesmo, chamaram a m\u00e3e de Joana \u00e0 sacristia para lhe recomendar<br \/>\nque se calmasse, n\u00e3o suscitasse embara\u00e7os, nem se alargasse<br \/>\nem queixumes talvez levianos, pois que os ju\u00edzes que tinham condenado<br \/>\nJoana como herege eram homens revestidos de altas dignidades eclesi\u00e1sticas,<br \/>\ne a quem se n\u00e3o devia imputar facilmente dolo ou injusti\u00e7a Assim<br \/>\nfalou na sacristia o arcebispo de Reims. A fogueira nesse momento ainda lhe<br \/>\nparecia justa, por ser eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>No entanto, em obedi\u00eancia ao rescrito pontifical, come\u00e7ou a<br \/>\nlenta e laboriosa revis\u00e3o do processo de Ru\u00e3o. E em Ru\u00e3o<br \/>\nmesmo, um ano depois, foi proclamada a decis\u00e3o dos revisores em nome<br \/>\ndo Padre, do Filho e do Esp\u00edrito Santo. Bem podia enfim secar as suas<br \/>\nl\u00e1grimas a m\u00e3e de Joana. A senten\u00e7a lavava a boa donzela<br \/>\n\u00abde toda a culpa de impostora, bruxaria, magia, cisma, sacril\u00e9gio,<br \/>\nidolatria, apostasia, blasf\u00e9mia, e outras pr\u00e1ticas abomin\u00e1veis,<br \/>\npor que fora condenada, segundo os artigos do processo, os quais desde agora<br \/>\nficavam cassados, anulados, aniquilados, lacerados, pois que eles revisores<br \/>\ndiziam, pronunciavam, decretavam, declamavam que tais artigos e processos<br \/>\nestavam contaminados de dolo, cal\u00fania, contradi\u00e7\u00e3o, iniquidade,<br \/>\nerro, etc., etc., e etc.!&#8230;\u00bb Enfim, com toda esta temerosa fraseologia,<br \/>\nentornada aos baldes, a Igreja apagava juridicamente a fogueira que trinta<br \/>\nanos antes acendera. O corpo puro da donzela l\u00e1 ficava em torresmos<br \/>\nentre os ti\u00e7\u00f5es da fogueira (exceptuando o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque, apesar dos teimosos esfor\u00e7os do carrasco, nunca quis arder, e<br \/>\nque foi necess\u00e1rio afogar no Sena). Mas a alma, e isso era a parte<br \/>\nimportante no s\u00e9culo XV, essa ressurgia do lume absolvida e limpa.<br \/>\nDepois, tendo conclu\u00eddo este acto que ela considerava mais de miseric\u00f3rdia<br \/>\ndo que de justi\u00e7a, a Igreja n\u00e3o se tomou a ocupar de Joana.<br \/>\nOs seus afazeres eram consider\u00e1veis \u2013 e havia outros justos,<br \/>\ne s\u00e1bios, e fil\u00f3sofos, e profetas, que estavam necessitando<br \/>\naten\u00e7\u00e3o e fogueira. E n\u00e3o creio que, durante os s\u00e9culos<br \/>\nseguintes, a Igreja desse \u00e0 donzela um pensamento. E natural mesmo<br \/>\nque no s\u00e9culo XVIII os galantes abb\u00e9s, de batina de cetim e<br \/>\np\u00f3s de \u00edris na coroa, muitas vezes lessem em ser\u00f5es mundanos<br \/>\nos trechos picantes de La Pucelle, de Voltaire, com alegria e com gosto.<\/p>\n<p>Quando, por\u00e9m, h\u00e1 vinte anos, se deu a ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\npatri\u00f3tica de Joana, e come\u00e7ou o seu culto civil, a Igreja imediatamente<br \/>\nse lan\u00e7ou no movimento com santo calor. Enquanto os seculares pediam<br \/>\nsimplesmente, para a boa lorena, est\u00e1tuas e festas \u2013 o clero<br \/>\nfranc\u00eas, subindo logo aos limites extremos da glorifica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nreclamou que ela fosse canonizada. \u00c0quela a quem o g\u00e9nio nacional<br \/>\nestava prestando homenagens, que s\u00f3 eram e s\u00f3 podiam ser da<br \/>\nTerra, a Igreja, mais rica em Deus, oferecia logo a homenagem suprema \u2013<br \/>\no c\u00e9u! Neste entusiasmo havia muita sinceridade. Todos os motivos que<br \/>\nlevavam a multid\u00e3o leiga a amar e a exaltar Joana actuavam tamb\u00e9m<br \/>\nno esp\u00edrito do clero \u2013 que \u00e9 grandemente inteligente a<br \/>\npatri\u00f3tico. Mas a este entusiasmo tamb\u00e9m se misturava muito<br \/>\ninteresse.<\/p>\n<p>N\u00e3o era bom, nem \u00fatil, que nessa hist\u00f3ria de Joana,<br \/>\nagora sempre lembrada e constantemente mostrada como a maravilhosa realiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todas as virtudes francesas, a Igreja s\u00f3 aparecesse como perseguidora,<br \/>\nao lado do carrasco, com o facho da fogueira na m\u00e3o evang\u00e9lica.<br \/>\nPor outro lado, convinha que a libertadora do reino de Fran\u00e7a fosse<br \/>\numa enviada de Deus, como tal reconhecida e venerada pela Igreja, e que, portanto,<br \/>\nno esp\u00edrito do povo a ideia de desforra nacional se misturasse intimamente<br \/>\n\u00e0 ideia de interven\u00e7\u00e3o divina. E, finalmente, desde que<br \/>\nJoana d\u2019Arc, outra vez, como no tempo de Carlos VII, tinha o dom de<br \/>\narrastar as multid\u00f5es, era vantajoso para a Igreja que uma t\u00e3o<br \/>\ngrande despertadora de f\u00e9, de emo\u00e7\u00e3o, de poesia e de<br \/>\npatriotismo estivesse colocada sobre um altar, no interior de um templo \u2013<br \/>\nporque todo o templo e os altares vizinhos n\u00e3o teriam sen\u00e3o<br \/>\na lucrar com h\u00f3speda t\u00e3o popular e atraente.<\/p>\n<p>Influ\u00edssem estes, influ\u00edssem outros motivos, o facto consider\u00e1vel<br \/>\n\u00e9 que o clero franc\u00eas come\u00e7ou a promover em Roma a canoniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Joana d\u2019Arc com um vigor, uma abund\u00e2ncia, um ru\u00eddo,<br \/>\nque inquietaram a Fran\u00e7a radical e livre-pensadora. Os bispos gritavam<br \/>\ntodos os dias, num entusiasmo impaciente e textualmente: \u00abSant\u00edssimo<br \/>\nPadre, apressai-vos a p\u00f4r sobre a fronte de Joana a aur\u00e9ola divina!\u00bb<br \/>\nE o radicalismo descontente murmurava: \u00abPara qu\u00ea?&#8230;\u00bb Em<br \/>\nRoma tudo se faz com uma prudente lentid\u00e3o: e al\u00e9m disso o Sacro<br \/>\nCol\u00e9gio, a Congrega\u00e7\u00e3o dos Ritos, o papa, todos tendiam<br \/>\na considerar a boa donzela mais como uma rep\u00fablica julgou h\u00e1bil<br \/>\nrepublicanizar Joana d\u2019Arc, instituindo em sua honra uma festa nacional<br \/>\ne civil, como a da tomada da Bastilha, com ilumina\u00e7\u00f5es e dan\u00e7as,<br \/>\nde modo a imprimir definitivamente \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o de<br \/>\nJoana um car\u00e1cter civil e oficial. Mas esta festa, que devia ser votada<br \/>\npelo parlamento, tamb\u00e9m se retardou \u2013 porque o Estado em Fran\u00e7a<br \/>\n\u00e9 uma m\u00e1quina que ainda se move com mais morosidade do que a<br \/>\nIgreja. Os bispos ent\u00e3o redobravam os esfor\u00e7os, fizeram ressoar<br \/>\ntodo o Vaticano de s\u00faplicas. E a sua \u00edntima inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nl\u00e1 se ia revelando, pois que uma das vozes eclesi\u00e1sticas mais<br \/>\npotentes e cheias de autoridade, a do padre Monsabr\u00e9, apresentava como<br \/>\nargumento que, desde que a Igreja exaltara na pessoa do reverendo La Salle<br \/>\no ensino cat\u00f3lico, para o proteger contra todas as \u00abinterven\u00e7\u00f5es<br \/>\nnefastas\u00bb, deveria sem demora exaltar na pessoa de Joana d\u2019Arc<br \/>\no patriotismo cat\u00f3lico, para que a p\u00e1tria francesa pudesse reconquistar<br \/>\no seu lugar no mundo, como verdadeira filha que e, e filha mais velha, de<br \/>\nDeus&#8230;<\/p>\n<p>O radicalismo e o livre-pensamento empalideceram. O plano dos bispos era<br \/>\nmanifesto. Assim como tinham tentado monopolizar o ensino, tentavam agora<br \/>\nmonopolizar o patriotismo \u2013 e aferrolhando Joana d\u2019Arc dentro<br \/>\nda Igreja, utilizando a sua for\u00e7a em servi\u00e7o da Igreja, procuravam<br \/>\ntornar-se eles os dispensadores exclusivos da f\u00e9 patri\u00f3tica,<br \/>\ne estabelecer no esp\u00edrito das multid\u00f5es a ideia de que a Fran\u00e7a<br \/>\ns\u00f3 pode ser salva pelo hero\u00edsmo que os bispos benzem. O livre-pensamento,<br \/>\nao que parece, ainda tentou afastar da cabe\u00e7a de Joana a aur\u00e9ola<br \/>\nque a ia tomar propriedade do clero. Mas era tarde. Le\u00e3o XIII, cedendo<br \/>\n\u00e0s exig\u00eancias do episcopado, e certo, de resto, que santificar<br \/>\nJoana era ainda honrar a Fran\u00e7a \u2013 canonizou a donzela de Orle\u00e3es.<\/p>\n<p>Assim temos no calend\u00e1rio uma nova santa, virgem e m\u00e1rtir,<br \/>\ne m\u00e1rtir que n\u00e3o sofreu mart\u00edrio por edictos pag\u00e3os<br \/>\nde Diocleciano ou de D\u00e9cio, mas por uma senten\u00e7a eclesi\u00e1stica,<br \/>\nassinada por bispos. Creio que pela primeira vez se d\u00e1 o caso singular<br \/>\nde a Igreja adorar como santa uma mulher que ainda n\u00e3o h\u00e1 muito<br \/>\nqueimara como bruxa. E ambos os julgamentos, o que a queimou e o que a santificou,<br \/>\nforam dados em nome do Padre, do Filho e do Esp\u00edrito Santo, e sob a<br \/>\ngarantia da sua inspira\u00e7\u00e3o. Tal \u00e9 a certeza e a infalibilidade<br \/>\nda Igreja. E agora que um esp\u00edrito novo a espiritualiza, e que atrav\u00e9s<br \/>\ndas ru\u00ednas do fanatismo ela tenta recuar at\u00e9 \u00e0 pureza<br \/>\nprimitiva, bem devia realmente a Igreja rever os processos de outros ilustres<br \/>\nqueimados. Quem sabe se muito deles, bem exami nado de novo o seu caso, n\u00e3o<br \/>\nmereceriam passar da fogueira para o altar? E nas trevas inferiores, onde<br \/>\njazem por senten\u00e7a eclesi\u00e1stica muitos outros m\u00e1rtires,<br \/>\ncomo Bruno e Savonarola, est\u00e3o talvez, ao sentir o aroma de incenso<br \/>\nque se evola para a antiga sacr\u00edlega e nova santa, murmurando amargamente:<br \/>\n\u00abE nos<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Enfim, eis a donzela de Orle\u00e3es canonizada \u2013 e bem se pode compreender<br \/>\na sofreguid\u00e3o com que o clero se apoderou dela e a levou em triunfo<br \/>\npara a sombra sagrada dos templos, para longe dos ma\u00e7\u00f5es, dos<br \/>\nradicais e dos livre-pensadores, que a maculavam com o bafo impuro do seu<br \/>\nentusiasmo liter\u00e1rio e racionalista.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o secara a tinta da senten\u00e7a beatificadora, e j\u00e1<br \/>\nem Notre-Dame de Paris se estava celebrando, com o devido esplendor, a sua<br \/>\nfesta, a primeira festa, com \u00f3rg\u00e3o e prociss\u00e3o, de Santa<br \/>\nJoana d\u2019Arc. O clero todo bradava vitoriosamente, pela voz de monsenhor<br \/>\nGouth- Soulard, arcebispo de Aix: \u00abJoana nostra est! Joana \u00e9<br \/>\nnossa!\u00bb! E o arcebispo de Aix n\u00e3o s\u00f3 afirmava a propriedade<br \/>\nda Igreja sobre a alma de Joana, mas sobre todos os seus feitos. \u00abJoana<br \/>\n\u00e9 nossa!\u00ab, exclamava o digno prelado numa carta p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u00abAgora s\u00f3 \u00e9 nossa! S\u00f3 n\u00f3s, cat\u00f3licos,<br \/>\ntemos a propriedade exclusiva dos seus milagres. V\u00f3s, racionalistas,<br \/>\nguardai os vossos outros grandes homens. Colocai-os no Pante\u00e3o ao lado<br \/>\ndo vosso Voltaire. Ningu\u00e9m vo-los disputa, ningu\u00e9m vo-los quer.<br \/>\nMas Joana \u00e9 nossa, nostra est! E o que e do c\u00e9u n\u00e3o \u00e9<br \/>\ndo mundo!\u00bb Assim falava o arcebispo de Aix, em palavras aladas, como<br \/>\ndiz o bom Homero \u2013 e o radicalismo rugia de furor. E ao mesmo tempo<br \/>\naquela numerosa Fran\u00e7a, que, sem ser radicalista, nem livre-pensadorista,<br \/>\nn\u00e3o se reclama todavia da Igreja cat\u00f3lica-apost\u00f3licaromana,<br \/>\npensava que sendo Joana uma francesa que vivera e sofrera pela Fran\u00e7a<br \/>\ndevia pertencer a toda a Fran\u00e7a. E o pr\u00f3prio Governo republicano<br \/>\nse sentia embara\u00e7ado, porque realmente a rep\u00fablica n\u00e3o<br \/>\npodia prestar honras oficiais a uma santa do Para\u00edso. Arrancar Deus<br \/>\ndo ensino, secularizar todas as institui\u00e7\u00f5es e, conjuntamente,<br \/>\ndecretar uma gala e iluminar os edif\u00edcios p\u00fablicos em honra<br \/>\nde Santa Joana, seria um contra-senso que nada justificaria, nem o facto de<br \/>\nJoana ter libertado a Fran\u00e7a das hostes de Bedford, pois que tamb\u00e9m<br \/>\nSanta Genoveva salvou Paris das hordas de Atila, e nem por isso o Estado lhe<br \/>\ncelebra a festa. (Pelo contr\u00e1rio! Expulsou-a da sua velha igreja, para<br \/>\nl\u00e1 colocar Victor Hugo e depois Carnot.) E para Joana d\u2019Arc,<br \/>\no primeiro resultado da sua santifica\u00e7\u00e3o foi o Estado retirar-lhe<br \/>\na aparatosa festa c\u00edvica que lhe estava prometendo em nome da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Em outros tempos, com outro povo, tudo se poderia conciliar \u2013 e Joana<br \/>\nteria a sua festa religiosa na igreja e a sua festa c\u00edvica na pra\u00e7a,<br \/>\ncomo sucede em Portugal a S. Jo\u00e3o, a Santo Ant\u00f3nio e a S. Pedro.<br \/>\nMas nesta Fran\u00e7a, dividida em duas Fran\u00e7as, a cat\u00f3lica<br \/>\ne a n\u00e3o cat\u00f3lica, ambas hostis, nada querendo ter em comum,<br \/>\ne cada uma conspurcando o que a outra adora, a boa donzela de Orle\u00e3es,<br \/>\nguerreira e santa, nunca poderia reunir e gozar pacificamente e simultaneamente<br \/>\no preito da Igreja e o preito da sociedade civil. Para ela, ou a popularidade<br \/>\nsecular, e desde logo a desconfian\u00e7a e a indiferen\u00e7a da Igreja<br \/>\n\u2013 ou a gl\u00f3ria sobre os altares, e desde logo a descren\u00e7a<br \/>\ne a desafei\u00e7\u00e3o entre as multid\u00f5es racionalistas.<\/p>\n<p>E foi o que sucedeu. Apenas o clero a quem ela fora atribu\u00edda a instalou<br \/>\ndevotamente na sua capela nova \u2013 n\u00e3o houve mais para a Fran\u00e7a<br \/>\nlivre-pensadora, nem Joana d\u2019Arc, nem boa lorena, nem donzela de Orle\u00e3es.<br \/>\nFoi como se a guerreira, que era amada pelo povo, porque no meio dele vivia,<br \/>\nse retirasse bruscamente do mundo e o renegasse, para se esconder na sombra<br \/>\ndevota de uma sacristia. Ningu\u00e9m mais a compreendeu, nem a reconheceu<br \/>\nmais, sob aquela t\u00fanica de santa que agora a cobria em vez da armadura<br \/>\nde a\u00e7o, e com aquela palma verde na m\u00e3o, em lugar da rija espada<br \/>\nborgonhesa, que t\u00e3o bem pranchava nas trincheiras de Orle\u00e3es.<br \/>\nO Estado j\u00e1 passara um tra\u00e7o amargo sobre o projecto de festa<br \/>\nnacional com que a queria exaltar. As municipalidades interromperam logo a<br \/>\nconstru\u00e7\u00e3o dos monumentos que lhe estavam erguendo. Os escultores<br \/>\nabandonaram-na aos santeiros. Os poetas n\u00e3o a celebraram mais em poemas,<br \/>\nporque ela agora pertence aos fazedores de loas. E o teatro deixou de p\u00f4r<br \/>\nJoana d\u2019Arc em melodramas e pantomimas b\u00e9licas, desde que ela,<br \/>\npela sua beatifica\u00e7\u00e3o, voando da Terra ao c\u00e9u, perdia<br \/>\na sua realidade e se desfazia em mito.<\/p>\n<p>Mas o ego\u00edsmo do clero tornou ainda mais aguda esta desafei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEra de uso em Paris, nestes \u00faltimos anos, depor flores e coroas no<br \/>\npedestal da est\u00e1tua de Joana d\u2019Arc. Nunca lhe faltaram, vistosas<br \/>\ne frescas. Para significar claramente, por\u00e9m, que essas coroas eram<br \/>\ndedicadas \u00e0 guerra e n\u00e3o \u00e0 santa, os n\u00e3o cat\u00f3licos<br \/>\ncome\u00e7aram a pintar-lhe este d\u00edstico: \u00abA Joana, queimada<br \/>\npor her\u00e9tica. \u00bb Os cat\u00f3licos, indignados com essa recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rica ultrajosa para a nova santa, vinham de noite arrancar estas<br \/>\ncoroas e deit\u00e1-las ao Sena. Mas quando as substitu\u00edam por outras,<br \/>\ndedicadas, em largos r\u00f3tulos \u00aba Santa Joana d\u2019Arc\u00bb<br \/>\n\u2013 eram os livre-pensadores que corriam de noite e arrojavam ao no as<br \/>\ncoroas devotas&#8230; E assim, pela primeira vez desde 1871, se v\u00ea a est\u00e1tua<br \/>\nda donzela desguarnecida de flores, com o pedestal nu, como o de uma hero\u00edna<br \/>\ndesdenhada ou de quem se esqueceu o hero\u00edsmo.<\/p>\n<p>Pobre Joana d\u2019Arc, t\u00e3o amada, t\u00e3o entronizada h\u00e1<br \/>\npouco na alma da Fran\u00e7a! Ela mesma esperara outrora, durante as ang\u00fastias<br \/>\nde Ru\u00e3o, que um dia \u00abtodos lhe quereriam bem\u00bb. E esse dia<br \/>\nchegara, reparador e triunfal. Todos lhe \u00abquiseram bem\u00bb \u2013<br \/>\ne todos lhe \u201cquereriam sempre bem\u00bb, se ela continuasse pertencendo<br \/>\na todos, ou se as consci\u00eancias em Fran\u00e7a n\u00e3o estivessem<br \/>\ndivididas, como estavam divididos os interesses no tempo dela, quando havia<br \/>\nduas Fran\u00e7as, a Fran\u00e7a dos Borgonheses e a Fran\u00e7a dos<br \/>\nArmagnacs.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 Borgonheses e Armagnacs \u2013 e a Fran\u00e7a<br \/>\npoliticamente \u00e9 uma. Mas h\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o mais<br \/>\nfunda: de um lado os cat\u00f3licos, do outro os racionalistas. Desde que<br \/>\na boa donzela foi, como santa, entregue ao culto ritual da Igreja, n\u00e3o<br \/>\npodia conservar mais o culto afectivo do racionalismo. Para este, o clericalismo<br \/>\n\u00e9, ser\u00e1 ainda por muito tempo, o inimigo. \u00c9 pois como<br \/>\nse Joana passasse, com as suas armas e a sua bandeira, para o inimigo. Decerto,<br \/>\na pobre hero\u00edna n\u00e3o tem culpa da sua santifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE a sua alma n\u00e3o \u00e9 menos divina por estar divinizada. Mas o<br \/>\nbom racionalista n\u00e3o pode, em boa consci\u00eancia, prestar a sua<br \/>\nhomenagem patri\u00f3tica a uma grande figura que est\u00e1 coberta de<br \/>\ntodos os atributos m\u00edsticos, a aur\u00e9ola, a palma verde, a t\u00fanica<br \/>\nde bem-aventuran\u00e7a, e cujos hero\u00edsmos foram convertidos em milagres.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a republicana ainda poderia adorar uma inspirada, mas nunca<br \/>\numa taumaturga.<\/p>\n<p>E se n\u00e3o lhe retira inteiramente nestes primeiros tempos o seu amor<br \/>\n\u2013 abst\u00e9m-se pelo menos de o traduzir em uma express\u00e3o<br \/>\np\u00fablica. Para ela, de ora em diante, n\u00e3o mais coroas ante a<br \/>\nsua est\u00e1tua, nem monumentos nas pra\u00e7as, nem livros celebradores,<br \/>\nnem festas nacionais \u2013 isolada no seu altar, na sombra da igreja, s\u00f3<br \/>\ngozar\u00e1, cada ano, a sua missa, com tochas, m\u00fasica, serm\u00e3o.<br \/>\nE uma decad\u00eancia. E aqui est\u00e1 como a santidade mata a popularidade<br \/>\ne como uma grande alma, por ter penetrado no c\u00e9u, se torna esquecida<br \/>\nna Terra.<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o pode haver d\u00favida. A Igreja mesmo a esquecer\u00e1.<br \/>\nNestes anos chegados, enquanto durar a gera\u00e7\u00e3o clerical que<br \/>\na conserva, e ela conservar o verniz fresco da uma santa nova, n\u00e3o<br \/>\nlhe faltar\u00e1 certamente um culto destacado e ruidoso. Ela \u00e9 por<br \/>\num motivo de batalha religiosa, como a Helena de uma Tr\u00f3ia devota \u2013<br \/>\ne o aparato e estridor do seu culto \u00e9 uma das formas e das estrat\u00e9gias<br \/>\nda batalha. Mas quando os tempos passarem, e vierem novas gera\u00e7\u00f5es<br \/>\neclesi\u00e1sticas, novos bispos, Santa Joana d\u2019Arc n\u00e3o ser\u00e1,<br \/>\npara esses, especialmente distinta de outros santos de Fran\u00e7a, san<br \/>\ntificados tamb\u00e9m pelo seus feitos, como Santa Genoveva ou S. Lu\u00eds.<br \/>\nTer\u00e1 o seu altar, as duas velas que lhe competem segundo o ritual \u2013<br \/>\ne nada mais, nem mesmo uma genu flex\u00e3o especial dos sacrist\u00e3es.<br \/>\nO p\u00f3 dos tempos, que tudo vai cobrindo, e que cobre tamb\u00e9m os<br \/>\nsantos, apagar\u00e1 lentamente o brilho com que ela por ora brilha. Pouco<br \/>\na pouco se tornar\u00e1 uma antigualha da Igreja, como Santa Genoveva. E<br \/>\ncomo hoje j\u00e1 se n\u00e3o escrevem hagiol\u00f3gios, a sua lenda,<br \/>\nque j\u00e1 esconde a sua hist\u00f3ria, cair\u00e1 no esquecimento.<br \/>\nA Igreja tem tantas santas, todas elas com direitos t\u00e3o iguais ao mesmo<br \/>\nculto, que n\u00e3o pode realmente devotar todo o seu fervor e todo o seu<br \/>\ncerimonial a uma \u00fanica, posta num altar mais alto por uma liturgia<br \/>\nprivilegiada. Santa Joana d\u2019Arc tem de se contentar com o que se contenta<br \/>\nSanta Eufr\u00f3sina. Ser\u00e1 uma santa como outras santas, e como elas<br \/>\nmal distinta, vaga e perdida na celeste n\u00e9voa luminosa que a todas<br \/>\nenvolve. Em cem anos, s\u00f3 algum padre muito erudito saber\u00e1 ainda<br \/>\nos feitos e os milagres da donzela de Domremy. O povo, lan\u00e7ado decerto<br \/>\nnos ardores de uma religi\u00e3o nova, ter\u00e1 totalmente esquecido<br \/>\nJoana d\u2019Arc, que pertencer\u00e1 ent\u00e3o a um culto, desalojado<br \/>\npor outro culto superior. E quando algum curioso de ru\u00ednas, nesses<br \/>\ndias, penetrando num templo do passado, e avistando sobre um altar vetusto<br \/>\numa figura de mulher com uma bandeira na m\u00e3o, perguntar de quem \u00e9<br \/>\nessa imagem poeirenta e desbotada, o guarda tr\u00f4pego do templo encolher\u00e1<br \/>\nos ombros sem saber. Se, por\u00e9m, casualmente, a\u00ed passar algum<br \/>\narque\u00f3logo, bom ledor de antigualhas, talvez pare e murmure: \u2013<br \/>\nEssa? \u00c9 uma Santa Joana das muitas Santas Joanas, que fez n\u00e3o<br \/>\nsei que milagres, numa batalha com ingleses, para os lados de Reims ou de<br \/>\nOrle\u00e3es.<\/p>\n<p>E a esse tempo, fora, nas pra\u00e7as da cidade, os her\u00f3is que<br \/>\nn\u00e3o foram canonizados, que ficaram entre os homens, na sua simples<br \/>\ngl\u00f3ria humana, conservar\u00e3o as suas est\u00e1tuas, bem limpas,<br \/>\nbem visitadas, sempre contempladas. com uma ou outra flor no pedestal \u2013<br \/>\ne ser\u00e3o ainda her\u00f3is.<\/p>\n<h2>O CONDE DE PARIS<\/h2>\n<p>O conde de Paris teve, como chefe da Casa de Fran\u00e7a e portanto pretendente<br \/>\n\u00e0 coroa de Fran\u00e7a, o defeito de n\u00e3o possuir sen\u00e3o<br \/>\nvirtudes.<\/p>\n<p>Nascido simplesmente numa velha fam\u00edlia patr\u00edcia, como os<br \/>\nLa Tremouille ou os Mirepoix, a nobreza dos seus instintos, a sua absoluta<br \/>\nrectid\u00e3o, a sua intelig\u00eancia, absorvente e destra, a sua vigorosa<br \/>\ncultura, a dignidade pur\u00edssima dos seus costumes dom\u00e9sticos,<br \/>\no activo sentimento das suas responsabilidades sociais, a sua infatig\u00e1vel<br \/>\naplica\u00e7\u00e3o ao dever, a sua bondade am\u00e1vel, a sua acolhedora<br \/>\nurbanidade, fariam do conde de Paris um raro e superior exemplar de fidalgo,<br \/>\nespalhando sobre a sua classe, agora que ela est\u00e1 inactiva e repelida<br \/>\nda vida p\u00fablica pelas desconfian\u00e7as da democracia, aquele lustre<br \/>\nque ela j\u00e1 n\u00e3o pode ganhar pela ac\u00e7\u00e3o colectiva,<br \/>\nmas apenas pelo valor intelectual e moral de algum dos seus membros que se<br \/>\ndestaque e se eleve.<\/p>\n<p>Se ele pertencesse ainda a uma antiga fam\u00edlia parlamentar, dessa alta<br \/>\nburguesia parisiense que hoje entrou na rep\u00fablica, onde representa<br \/>\nos elementos de ordem, de toler\u00e2ncia e de probidade, o conde de Paris,<br \/>\ncomo um colaborador natural da Fran\u00e7a democr\u00e1tica, teria sido<br \/>\num grande e \u00fatil cidad\u00e3o, pois que as suas qualidades e as suas<br \/>\nideias eram justamente as que mais se necessitaria num homem de Estado, neste<br \/>\nmomento hist\u00f3rico da Fran\u00e7a em que, sob a dissolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas velhas doutrinas pol\u00edticas, afloram com tanta impaci\u00eancia<br \/>\nas novas e irredut\u00edveis for\u00e7as sociais. Em qualquer dos casos,<br \/>\nao menos o conde de Paris teria sido (o que n\u00e3o foi) um homem feliz.<br \/>\nViveria pacificamente e largamente nesta terra de Fran\u00e7a, que era o<br \/>\nseu amor e o seu cuidado; exerceria uma influ\u00eancia cont\u00ednua e<br \/>\nleg\u00edtima, n\u00e3o fragment\u00e1ria, disfar\u00e7ada e constantemente<br \/>\nsobressaltada; escreveria sobre as quest\u00f5es econ\u00f3micas, que<br \/>\nlhe eram caras, livros s\u00f3lidos, bem documentados, que, por virem de<br \/>\num esp\u00edrito muito sincero e muito livre, teriam autoridade, se n\u00e3o<br \/>\npopularidade; seria da Academia, do parlamento, do Governo; certamente a natureza<br \/>\nespecial das suas virtudes p\u00fablicas o levaria \u00e0 mais alta magistratura<br \/>\nda rep\u00fablica; e sobretudo teria a satisfa\u00e7\u00e3o, para ele<br \/>\nsuprema, de servir facilmente e naturalmente a Fran\u00e7a como um bom franc\u00eas.<\/p>\n<p>Mas, em vez deste calmo destino, nasceu, como outrora se dizia, \u00abnos<br \/>\ndegraus de um trono\u00bb, neto do \u00faltimo rei dos Franceses, herdeiro<br \/>\nde um princ\u00edpio, portanto herdeiro de um direito que ele considerava<br \/>\nperfeitamente leg\u00edtimo, e ao mesmo tempo de um dever que ele considerava<br \/>\nabsolutamente sagrado. E aqui aparece logo a excel\u00eancia moral deste<br \/>\npr\u00edncipe. Ser rei de Fran\u00e7a para ele n\u00e3o era s\u00f3<br \/>\na realiza\u00e7\u00e3o de um velho direito \u2013 mas antes de tudo,<br \/>\nacima de tudo, o cumprimento de um grande dever. Morto o conde de Chambord,<br \/>\ntornado ele o chefe da Casa de Fran\u00e7a, representante \u00fanico do<br \/>\nprinc\u00edpio mon\u00e1rquico \u2013 a ele incumbia, por heran\u00e7a,<br \/>\no dever de restaurar em Fran\u00e7a, para gl\u00f3ria e felicidade da<br \/>\nFran\u00e7a, esse princ\u00edpio de que era a encarna\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDever para consigo, dever para com sua casa, dever para com a sua p\u00e1tria,<br \/>\ndever mesmo para com Deus \u2013 pois que a monarquia francesa \u00e9 na<br \/>\nTerra uma das grandes servidoras do c\u00e9u. E assim claramente visto e<br \/>\ncompreendido o seu dever, este pr\u00edncipe admir\u00e1vel imediatamente<br \/>\nse aplicou a cumpri-lo, com a consci\u00eancia, a seriedade, o zelo religioso<br \/>\ncom que se aplicava a todos os deveres. N\u00e3o palpitava nele a m\u00ednima<br \/>\nfagulha de ambi\u00e7\u00e3o \u2013o que o levava era antes a submiss\u00e3o<br \/>\nfiel a Deus que o fizera nascer de reis de Fran\u00e7a, o marcava para rei<br \/>\nde Fran\u00e7a, e uma submiss\u00e3o patri\u00f3tica aos interesses<br \/>\nda p\u00e1tria que s\u00f3 na monarquia poderia de novo encontrar a paz,<br \/>\na unidade moral, o prest\u00edgio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>No cumprimento deste dever ele contrariava todas as suas inclina\u00e7\u00f5es,<br \/>\ntodos os seus gostos \u00edntimos. As tend\u00eancias, os gostos do conde<br \/>\nde Paris eram mais elevados, mas n\u00e3o eram dissemelhantes dos do conde<br \/>\nde Chambord, que nunca quis ser rei, porque o agitado Paris e o Pal\u00e1cio<br \/>\ndas Tulherias, encravado entre as sombrias cantarias do Louvre, lhe pareciam<br \/>\ndesagrad\u00e1veis, cheios de responsabilidades e cuidados, em compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos quietos confortos do castelo de Frohsdorff e dos fundos bosques onde ele<br \/>\nca\u00e7ava rijamente, t\u00e3o irrespons\u00e1vel e livre. O conde<br \/>\nde Paris, decerto, n\u00e3o queria permanecer um simples cidad\u00e3o,<br \/>\npara poder ser um simples ca\u00e7ador. Mas, a todos os brilhantes destinos,<br \/>\nsem d\u00favida preferiria viver no seu castelo de Eu, como um fidalgo rural,<br \/>\nadministrando dignamente os seus bens, educando superiormente os seus filhos,<br \/>\ncompondo narra\u00e7\u00f5es da sua mocidade militar, publicando nas revistas<br \/>\ndoutos artigos de sociologia, e envelhecendo docemente entre carinhos e leais<br \/>\namizades. O ex\u00edlio inquieto, est\u00e9ril, amargamente errante em<br \/>\nque se consumia, mais apetecida lhe tornava esta larga vida est\u00e1vel,<br \/>\nfecunda em alegrias e obras. Ele pr\u00f3prio, de resto, pensava que nunca<br \/>\nseria Filipe VII \u2013 sen\u00e3o no desterro. Mas que lhe importava?<br \/>\nO dever que o conde de Chambord n\u00e3o cumprira, por um ego\u00edsmo<br \/>\nque disfar\u00e7ava em escr\u00fapulo, tornando a realeza imposs\u00edvel<br \/>\npara que ele n\u00e3o fosse um rei poss\u00edvel \u2013 esse dever era<br \/>\nagora o seu. Tomou pois corajosamente sobre os ombros a sua cruz de pretendente<br \/>\n\u2013 e marchou.<\/p>\n<p>Mas imediatamente, nessa marcha para o trono, se ergueram contra ele todas<br \/>\nas suas virtudes. Um pretendente necessita de certos defeitos, alguns brilhantes<br \/>\ne que o mundo aclama, outros conden\u00e1veis e que desolam a pura moral,<br \/>\nmas todos \u00fateis, indispens\u00e1veis, quando n\u00e3o queira ser<br \/>\ncomo esse estranho Borb\u00f3n de Espanha, Francisco III, que h\u00e1<br \/>\ndias nos aparece reclamando tamb\u00e9m a coroa da Fran\u00e7a, mas declarando<br \/>\nque respeita a rep\u00fablica, e que n\u00e3o deseja ser sen\u00e3o,<br \/>\ncomo rei de Fran\u00e7a, um bom general de brigada em Espanha.<\/p>\n<p>O pretendente que n\u00e3o se limite ao platonismo superplat\u00f3nico<br \/>\ndeste delicioso Francisco III tem de p\u00f4r em actividade todos esses defeitos<br \/>\ncl\u00e1ssicos e que s\u00e3o, sobretudo: aud\u00e1cia temer\u00e1ria;<br \/>\nruidosa prodigalidade; o charlatanismo que produza lenda; o desprezo de todas<br \/>\nas f\u00f3rmulas legais ou express\u00f5es de soberania popular que n\u00e3o<br \/>\nsejam a confirma\u00e7\u00e3o do seu direito pessoal; um bela indiferen\u00e7a,<br \/>\numa indiferen\u00e7a de pr\u00edncipe, pela fortuna e pela vida de todos<br \/>\nos seus partid\u00e1rios; e a capacidade de montar a cavalo e surgir uma<br \/>\nmanh\u00e3 na pra\u00e7a, com uma espada nua&#8230; Ora o conde de Paris (e<br \/>\n\u00e9 esta a sua gl\u00f3ria de cidad\u00e3o) tinha justamente o horror<br \/>\nquase pudico destes defeitos, e o culto quase supersticioso das virtudes opostas,<br \/>\nsendo desses, cada dia mais raros, para quem as regras da moral p\u00fablica<br \/>\nn\u00e3o se distinguem das regras da moral privada. Dessas virtudes, nele,<br \/>\na maior era o seu respeito da legalidade e da soberania popular. A coroa de<br \/>\nFran\u00e7a, que era dada outrora por Deus por amor do povo, queria ele<br \/>\nque lhe fosse dada pelo povo sob a inspira\u00e7\u00e3o de Deus \u2013<br \/>\nconvencido que essa d\u00e1diva era absolutamente segundo o direito, e que<br \/>\na aceita\u00e7\u00e3o era absolutamente segundo o dever. T\u00e3o claro,<br \/>\ne positivo, e inequ\u00edvoco queria ele ver o consentimento da na\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque n\u00e3o aceitaria ser rei numa monarquia estabelecida por uma maioria<br \/>\nparlamentar: a sua ideia era de um grande plebiscito, em que a Fran\u00e7a<br \/>\ntoda votasse livremente a monarquia.<\/p>\n<p>Realmente, a sua consci\u00eancia s\u00f3 ficaria satisfeita quando ele<br \/>\npr\u00f3prio separasse, contasse, verificasse, os dez ou doze milh\u00f5es<br \/>\nde boletins de voto, contendo, em letras bem intelig\u00edveis, estas linhas<br \/>\nbem expressivas: \u00abQueremos Filipe, conde de Paris, para rei dos Franceses!\u00bb<br \/>\nA rep\u00fablica era para ele um facto que o desolava, mas uma constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nlegal que respeitava.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a ca\u00edra de novo na velha ilus\u00e3o jacobina \u2013<br \/>\nmas dera a essa ilus\u00e3o uma forma constitucional e jur\u00eddica,<br \/>\nque s\u00f3 ela na sua soberania absoluta podia destruir. O seu dever, pois,<br \/>\nera arrancar suavemente a Fran\u00e7a a esse erro em que ela se debatia<br \/>\ne em que se enfraquecia: e a sua ac\u00e7\u00e3o como pretendente foi<br \/>\npor isso simplesmente persuadir, pregar, lan\u00e7ar manifestos, criar comit\u00e9s<br \/>\nde propaganda, disseminar artigos de jornais, desrepublicanizar lentamente<br \/>\na Fran\u00e7a por meio da dial\u00e9ctica. Cada elei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndecerto lhe provava que a Fran\u00e7a persistia na sua ilus\u00e3o, complicando-a<br \/>\nmesmo com ilus\u00f5es novas, traduzidas em seitas novas, e que cada dia<br \/>\nse afastava mais, e por caminhos mais obscuros, da s\u00f3lida e segura<br \/>\nrealidade mon\u00e1rquica. Que lhe importava a ele, homem de dever? Recome\u00e7avam<br \/>\nos comit\u00e9s, os manifestos, a dial\u00e9ctica. E havia aqui alguma<br \/>\ncoisa de religioso, do que h\u00e1 de mais nobre no esp\u00edrito religioso,<br \/>\nque nunca descr\u00ea da convers\u00e3o do pecador e da efic\u00e1cia<br \/>\nda gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Este defeito, t\u00e3o grave num pretendente \u2013 o respeito da legalidade<br \/>\n\u2013, era o suficiente para o inutilizar \u2013 e decerto, na pura esfera<br \/>\nda consci\u00eancia, o conde de Paris se sentia feliz em se saber anulado.<br \/>\nMas todas as suas virtudes de homem concorriam para o anular, como pretendente.<br \/>\nNada o prejudicou mais que a sua mod\u00e9stia, recato em esconder o que<br \/>\nnele havia de moralmente superior. Nunca consentiu que em torno da sua pessoa<br \/>\nse formasse uma lenda atraente. A cabotinagem napole\u00f3nica, repetida<br \/>\ndepois por Boulanger, era odiosa \u00e0 sua natureza fina e grave.<\/p>\n<p>Apesar de entre os seus partid\u00e1rios abundarem os homens de letras,<br \/>\nn\u00e3o existem sobre ele livros que o contassem \u00e0 na\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u2013 quase n\u00e3o existem retratos seus, e o conde de Paris \u00e9<br \/>\nainda, para uma grande massa da Fran\u00e7a, mais um nome do que uma pessoa.<\/p>\n<p>Era o seu delicado horror \u00e0 exibi\u00e7\u00e3o que o fazia mergulhar<br \/>\ndurante meses, quase durante anos, numa penumbra discreta, donde\u2019 a<br \/>\nsua voz por fim surgia nas colunas do Figaro e do Soleil, e que, por vir assim<br \/>\ndo remoto e do vago, mal ecoava, se perdia logo entre o rumor da actualidade<br \/>\ne da vida.<\/p>\n<p>Em vez de animar as lendas favor\u00e1veis, deixava mesmo correr sobre<br \/>\no seu car\u00e1cter pequeninas lendas desagrad\u00e1veis e falsas, sem<br \/>\nque erguesse um dedo para as deter e desmanchar, como se fosse simplesmente<br \/>\num fil\u00f3sofo na sua cabana, para quem n\u00e3o existe o mundo exterior.<br \/>\nAssim toda a Fran\u00e7a o considerava um avarento. Era o velho r\u00f3tulo<br \/>\nda avareza, que fora colado a Lu\u00eds Filipe pelos rom\u00e2nticos e<br \/>\nhumanit\u00e1rios de 1830, e ficou depois tradicional para toda a fam\u00edlia<br \/>\nde Orle\u00e3es. As na\u00e7\u00f5es mais democr\u00e1ticas como a<br \/>\nFran\u00e7a conservam ainda, dos tempos em que a liberdade dos pr\u00edncipes<br \/>\nera a riqueza dos particulares, a ideia de que \u00e0 realeza compete a<br \/>\nprodigalidade, e que s\u00f3 h\u00e1bitos faustosamente perdul\u00e1rios<br \/>\nprovam uma alma verdadeiramente real. Quando os pr\u00edncipes (que a democracia<br \/>\nmuito justamente nivela com os cidad\u00e3os) se comportam como qualquer<br \/>\ncidad\u00e3o, administrando com economia e cautela a sua fortuna para garantirem<br \/>\na liberdade moral, a dignidade da vida e os dias de escassez que lhes possa<br \/>\ntrazer a desumanidade das revolu\u00e7\u00f5es \u2013 s\u00e3o logo<br \/>\nacusados desdenhosamente de forretas. Esta acusa\u00e7\u00e3o parte principalmente<br \/>\nde entre a classe m\u00e9dia, que condena nos pr\u00edncipes, como fraqueza<br \/>\ne v\u00edcio, aquilo que ela em si pr\u00f3pria exalta como virtude e<br \/>\nfor\u00e7a. A classe m\u00e9dia involuntariamente descobre, deste modo,<br \/>\no fundo da sua natureza interesseira e servil \u2013 servil, porque gratuitamente<br \/>\natribui aos pr\u00edncipes uma natureza superior, que n\u00e3o pode ser<br \/>\ngovernada pelas regras comuns a mediana humanidade; e interesseira, porque<br \/>\nindirectamente lamenta todo aquele dinheiro que os pr\u00edncipes aferrolham<br \/>\ne que, dissipado, rolaria por um declive natural para a algibeira burguesa.<br \/>\nOs \u00abcorti\u00e7os\u00bb do conde de Eu foram, creio eu, uma das grandes<br \/>\nindigna\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas do Rio de janeiro, em nenhuma<br \/>\noutra classe era ela mais viva do que na dos propriet\u00e1rios de \u00abcorti\u00e7os\u00bb.<br \/>\nEm Inglaterra, as economias do duque de Edimburgo eram ultrajadas com rancor<br \/>\npor todos aqueles que tinham enriquecido com as dissipa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo pr\u00edncipe de Gales. A Fran\u00e7a, na\u00e7\u00e3o sublimemente<br \/>\navara, que inventou o mealheiro (donde realmente tira, louvado seja ele!,<br \/>\na sua for\u00e7a, a sua fortuna, a sua grandeza), censurava asperamente<br \/>\no mealheiro do conde de Paris; e o partido republicano todos os dias escarnecia<br \/>\na parcim\u00f3nia com que ele subsidiava os jornais mon\u00e1rquicos!<br \/>\nDe facto, o conde de Paris era um desses homens econ\u00f3micos que, sob<br \/>\na solicita\u00e7\u00e3o de um dever, se tornam logo pr\u00f3digos. A<br \/>\nsua caridade n\u00e3o tinha brilho, mas solidez. Do seu rendimento uma parte<br \/>\nconsider\u00e1vel era gasta em esmolas, funda\u00e7\u00f5es, dons, escolas,<br \/>\nobras de benefic\u00eancia. E depois da sua morte, os seus amigos puderam<br \/>\nenfim desafogadamente contar que, levado pelos encargos crescentes da sua<br \/>\ngenerosidade, aquele pr\u00edncipe avarento, nos \u00faltimos anos, gastava<br \/>\nmais que o seu rendimento, como um mero e alegre estroina.<\/p>\n<p>Mas prodigalidade por ambi\u00e7\u00e3o, decerto, a n\u00e3o tinha<br \/>\nnem sequer a compreendia \u2013 e era esse outro dos seus defeitos como pretendente.<br \/>\nHoje j\u00e1 se n\u00e3o compra o imp\u00e9rio por uma soma de ouro<br \/>\nposta em cima de uma mesa, como sucedia em Roma, depois da gera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Antoninos; o dinheiro, por\u00e9m, ainda se conserva um supremo instrumento<br \/>\ndas revolu\u00e7\u00f5es e das restaura\u00e7\u00f5es. Numas e outras,<br \/>\npor\u00e9m, desgra\u00e7adamente, ele \u00e9 aplicado sobretudo ao soldado,<br \/>\ne o que com ele se paga sempre \u00e9 a indisciplina. N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nportanto, como agente pol\u00edtico, outro mais dissolvente e mais vil,<br \/>\nporque com o pretexto de conquistar a liberdade, ou com o pretexto de restaurar<br \/>\na autoridade, n\u00e3o faz mais que criar na na\u00e7\u00e3o grandes<br \/>\nmassas de rebeldes ou grandes massas de desertores. E n\u00e3o h\u00e1<br \/>\ntamb\u00e9m outro mais funesto para quem o empregue, seja a rep\u00fablica,<br \/>\nseja a monarquia \u2013 porque todo o governo que se estabele\u00e7a sobre<br \/>\na rebeli\u00e3o, ou deser\u00e7\u00e3o de tropas, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nsen\u00e3o um governo nominal e sem soberania: a verdadeira soberania n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 mais ent\u00e3o no povo, nem no pr\u00edncipe, mas no soldado.<br \/>\nUm tal governo \u00e9 criado exclusivamente para utilidade do ex\u00e9rcito<br \/>\nou, antes, de um grupo de coron\u00e9is.<\/p>\n<p>E esse grupo de coron\u00e9is que delibera, administra, disp\u00f5e<br \/>\nda riqueza p\u00fablica, mant\u00e9m ou derruba os chefes aparentes, se<br \/>\ntorna o violento senhor da rua e o dono dos cidad\u00e3os&#8230; Tais formas<br \/>\npol\u00edticas s\u00e3o hoje imposs\u00edveis dentro da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\neuropeia. A Espanha foi o \u00faltimo pa\u00eds onde elas se produziram,<br \/>\nmas onde agora, depois de passados trinta anos de disciplina, elas j\u00e1<br \/>\naparecem anacr\u00f3nicas e b\u00e1rbaras \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nmilitares, educadas no patriotismo e no respeito racional da legalidade. E<br \/>\nmesmo em Espanha, realmente, nunca foi sobre o dinheiro, sobre uma desbragada<br \/>\nprodigalidade com as tropas, \u00e0 velha maneira pretoriana, que se levantaram<br \/>\ne se mantiveram as formas revolucion\u00e1rias \u2013 mas sobre o idealismo<br \/>\npol\u00edtico. Pagar cada manh\u00e3 os jan\u00edzaros para governar<br \/>\ncom eles (e no fundo para eles) s\u00f3 se dava outrora na Arg\u00e9lia<br \/>\nno tempo do bei ou do Egipto antes de Mehemet Ali \u2013 e s\u00f3 se pode<br \/>\ndar hoje em civiliza\u00e7\u00f5es muito atrasadas, onde n\u00e3o existam<br \/>\nnem princ\u00edpios, nem costumes. Pensemos pois o que devia ser, para um<br \/>\nhomem do valor moral, e do patriotismo, e da alta cultura pol\u00edtica<br \/>\ndo conde de Paris, a ideia de dar um c\u00eantimo para insubordinar um soldado!<br \/>\nSe o conde de Paris, por\u00e9m, fosse chamado ao trono, ou por uma revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nou por um plebiscito, ou ainda pelos desastres de uma nova guerra, todos estes<br \/>\ndefeitos de pretendente se converteriam em virtudes de rei \u2013 e ele seria<br \/>\nincontestavelmente (nenhum republicano o nega) um rei admir\u00e1vel. Admir\u00e1vel,<br \/>\nainda que talvez n\u00e3o popular, porque em Fran\u00e7a a popularidade<br \/>\niria espontaneamente para um rei do tipo de Henrique IV (apesar de o Franc\u00eas<br \/>\ndo s\u00e9culo XIX ser t\u00e3o diferente do do s\u00e9culo XVI): e<br \/>\nningu\u00e9m menos do que o conde de Paris se parecia com esse fa\u00e7anhudo,<br \/>\njovial, sensual, c\u00e9ptico e bonacheir\u00e3o Henrique IV. O conde<br \/>\nde Paris era essencialmente o homem \u00edntegro, grave e crente. Se de<br \/>\nseu pai, o duque de Orle\u00e3es, herdara a fina intelig\u00eancia e a<br \/>\ngenerosidade humanit\u00e1ria \u2013 de sua m\u00e3e, princesa luterana,<br \/>\nrecebera um esp\u00edrito piedoso e s\u00e9rio, que, desenvolvido atrav\u00e9s<br \/>\nde uma forte educa\u00e7\u00e3o inglesa, o assemelhava sobretudo ao gentleman<br \/>\ningl\u00eas na sua express\u00e3o perfeita.<\/p>\n<p>Ora o feitio moral ingl\u00eas nunca pode ser popular em Fran\u00e7a.<br \/>\nO conde de Paris daria antes um rei do tipo de seu av\u00f4 Lu\u00eds Filipe<br \/>\n\u2013 com mais eleva\u00e7\u00e3o, mais requinte, uma ci\u00eancia<br \/>\nmais funda do governo e um sentimento mais exacto das ideias e ideais do seu<br \/>\ntempo. Seria como ele um pr\u00edncipe s\u00f3brio e casto, impondo o<br \/>\nsalutar exemplo de todas as virtudes dom\u00e9sticas \u2013 mas sem ter<br \/>\ncomo o av\u00f4, no seu pal\u00e1cio, lacaios especialmente encarregados<br \/>\nde mostrar \u00e0s fam\u00edlias o leito real, com as duas fronhas postas<br \/>\nlado a lado, numa ostenta\u00e7\u00e3o oficial de uni\u00e3o conjugal.<\/p>\n<p>Seria um rei simples, eliminando da realeza toda a pompa e luxo nocivo \u2013<br \/>\nmas sem passear pelas ruas de Paris com um enorme guarda-sol vermelho debaixo<br \/>\ndo bra\u00e7o, como emblema constitucional de patriarcalismo. Culto e letrado<br \/>\ntamb\u00e9m, como Lu\u00eds Filipe \u2013 mas mais sens\u00edvel do<br \/>\nque ele \u00e0s letras e \u00e0 sua for\u00e7a e dignidade, e preferindo<br \/>\nsempre governar pelas ideias a governar pelos interesses. Incapaz, como ele,<br \/>\nde amargura ou rancor \u2013 mas capaz, como o outro n\u00e3o era, de gratid\u00e3o<br \/>\ne reconhecimento aos servi\u00e7os prestados e aos bons servidores.<\/p>\n<p>Forte, como Lu\u00eds Filipe, na ci\u00eancia dos detalhes, dos factos,<br \/>\ndas datas, dos nomes, dos n\u00fameros \u2013 mas sabendo tamb\u00e9m,<br \/>\no que o av\u00f4 ignorava, as tend\u00eancias, as aspira\u00e7\u00f5es,<br \/>\nas correntes invis\u00edveis das consci\u00eancias. Cioso decerto da autoridade<br \/>\nreal \u2013 mas preferindo exercer a influ\u00eancia a exercer a vontade,<br \/>\ne a dominar mais pela cabe\u00e7a do que pela coroa. De resto, como Lu\u00eds<br \/>\nFilipe, tranquilo, trabalhador, minucioso, intr\u00e9pido, observador, organizador,<br \/>\naf\u00e1vel, superiormente bom. Com todas estas qualidades, numa grande<br \/>\nna\u00e7\u00e3o, \u00e9 f\u00e1cil ser um grande rei.<\/p>\n<p>E estas qualidades v\u00eam da fam\u00edlia, s\u00e3o ing\u00e9nitas<br \/>\nnos Orle\u00e3es. O grupo dom\u00e9stico que saiu de Lu\u00eds Filipe<br \/>\n\u00e9 realmente admir\u00e1vel. Dos filhos dele, j\u00e1 dizia o velho<br \/>\nMetternich serem \u00abrapazes como se n\u00e3o v\u00eaem e pr\u00edncipes<br \/>\ncomo n\u00e3o h\u00e1\u00bb. Todos os homens, entre os Orle\u00e3es,<br \/>\ns\u00e3o bravos, todas as mulheres virtuosas. O talento neles anda misturado<br \/>\ncom a bondade. Poucas fam\u00edlias representaram em Fran\u00e7a, com<br \/>\nmais brilho, as virtudes pr\u00f3prias da ra\u00e7a francesa \u2013 a<br \/>\ncoragem, o senso, a gra\u00e7a, a sociabilidade, a ordem, o gosto, a eleg\u00e2ncia<br \/>\naf\u00e1vel. Mesmo fisicamente, s\u00e3o excelentes exemplares de for\u00e7a<br \/>\nviril, ou de beleza pl\u00e1cida e doce. As suas exist\u00eancias t\u00eam<br \/>\nsempre uma dignidade especial, e n\u00e3o caem nunca na inutilidade tumultuosa<br \/>\nou mole que parece ser o destino dos pr\u00edncipes. Uns escrevem livros<br \/>\nde hist\u00f3ria ou comp\u00f5em mem\u00f3rias, outros viajam e exploram<br \/>\nregi\u00f5es remotas, outros aperfei\u00e7oam sem descanso os seus talentos<br \/>\nmilitares, todos de qualquer maneira procuram servir a Fran\u00e7a, de que<br \/>\ns\u00e3o uma honra.<\/p>\n<p>E do conde de Paris se pode ainda dizer que ele serviu a Fran\u00e7a mostrando<br \/>\npor toda a parte, da Europa at\u00e9 \u00e0 Am\u00e9rica, atrav\u00e9s<br \/>\ndos seus dois ex\u00edlios, o que \u00e9 a virtude, a coragem, o saber,<br \/>\na polidez, a bondade de um pr\u00edncipe franc\u00eas. Por este lado, o<br \/>\nseu desterro foi uma esp\u00e9cie de emprego p\u00fablico cheio de responsabilidades:<br \/>\ne ele achou ainda a\u00ed o meio de se dar todo a um dever e de exercer,<br \/>\ncom amor e nobreza, uma alta fun\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica. Exilado<br \/>\nde Fran\u00e7a, o conde de Paris, por toda a parte e em todas as circunst\u00e2ncias,<br \/>\nnas cortes, nos acampamentos, nas academias, na vida social, como pr\u00edncipe,<br \/>\ncomo soldado, como pensador, como escritor, como homem de fam\u00edlia,<br \/>\nincessantemente e magnificamente, ocupou-se em popularizar e fazer amar a<br \/>\nFran\u00e7a.<\/p>\n<h2>CHINESES E JAPONESES<\/h2>\n<p>A nordeste da China, ou antes da Manch\u00faria chinesa, entre o mar do<br \/>\nJap\u00e3o e o mar Amarelo, h\u00e1 uma tristonha pen\u00ednsula de<br \/>\ncostas escarpadas, que a si pr\u00f3pria se enfeitou, desde o ano de 1392,<br \/>\nquando come\u00e7ou a reinar a dinastia que ainda hoje reina (ou que ainda<br \/>\nreinava no m\u00eas, passado) com o nome risonho, luminoso e fresco de Reino<br \/>\nda Serenidade Matutina. Os Japoneses, seus vizinhos, chamam a esta terra Ko<br \/>\nRai; n\u00f3s, mais comodamente, Coreia. E um pa\u00eds t\u00e3o silencioso,<br \/>\nt\u00e3o recluso, t\u00e3o separado de toda a humanidade, mesmo dos seus<br \/>\nparentes asi\u00e1ticos, que no Jap\u00e3o e na China o designam pela<br \/>\nalcunha de Pa\u00eds Ermit\u00e3o.<\/p>\n<p>O que dele, na Europa, n\u00f3s melhor conhecemos, por estampas, \u00e9<br \/>\na figura dos seus habitantes, homens esguios e graves, de longos bigodes pendentes,<br \/>\nque usam o mais A nordeste da China, ou antes da Manch\u00faria chinesa,<br \/>\nentre o mar do Jap\u00e3o e o mar Amarelo, h\u00e1 uma tristonha pen\u00ednsula<br \/>\nde costas escarpadas, que a si pr\u00f3pria se enfeitou, desde o ano de<br \/>\n1392, quando come\u00e7ou a reinar a dinastia que ainda hoje reina (ou que<br \/>\nainda reinava no m\u00eas, passado) com o nome risonho, luminoso e fresco<br \/>\nde Reino da Serenidade Matutina. Os Japoneses, seus vizinhos, chamam a esta<br \/>\nterra Ko Rai; n\u00f3s, mais comodamente, Coreia. E um pa\u00eds t\u00e3o<br \/>\nsilencioso, t\u00e3o recluso, t\u00e3o separado de toda a humanidade,<br \/>\nmesmo dos seus parentes asi\u00e1ticos, que no Jap\u00e3o e na China o<br \/>\ndesignam pela alcunha de Pa\u00eds Ermit\u00e3o.<\/p>\n<p>O que dele, na Europa, n\u00f3s melhor conhecemos, por estampas, \u00e9<br \/>\na figura dos seus habitantes, homens esguios e graves, de longos bigodes pendentes,<br \/>\nque usam o mais Pequim deve ser uma cidade inculta.<\/p>\n<p>Aquele loquaz personagem de Edmond About que desprezava profundamente os<br \/>\n\u00c1rabes, porque \u00abos desgra\u00e7ados ainda nem sequer possu\u00edam<br \/>\ncaf\u00e9s-concertos\u00bb, representa, em caricatura, o europeu mediano,<br \/>\njulgando as civiliza\u00e7\u00f5es asi\u00e1ticas. Milhares, se n\u00e3o<br \/>\nmilh\u00f5es, de europeus n\u00e3o acreditam ainda, verdadeiramente, que<br \/>\nos Romanos e os Gregos fossem povos civilizados, pois que n\u00e3o conheciam<br \/>\na m\u00e1quina a vapor, nem a m\u00e1quina de costura, nem o piano, nem<br \/>\noutras grandezas do nosso grande tempo.<\/p>\n<p>Por isso damos a esta guerra do Jap\u00e3o e da China uma aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nerrante e sorridente. E apenas uma grossa e rude bulha entre dois pa\u00edses<br \/>\nb\u00e1rbaros, um dos quais n\u00e3o \u00e9 menos b\u00e1rbaro que<br \/>\no outro, por andar mascarado com rabonas e armas da Europa. Pretendem alguns<br \/>\nvision\u00e1rios, desses que gostam de profetizar sombriamente, que essas<br \/>\ncentenas de milh\u00f5es de b\u00e1rbaros, um dia, munidos do formid\u00e1vel<br \/>\nmaterial da nossa civiliza\u00e7\u00e3o, descer\u00e3o sobre n\u00f3s,<br \/>\nassolar\u00e3o a Europa&#8230; A ideia faz sorrir \u2013 e todo o europeu,<br \/>\nolhando em torno de si a sua for\u00e7a, a sua riqueza, as inumer\u00e1veis<br \/>\ninven\u00e7\u00f5es do saber, tanta m\u00e1quina, e a Natureza domesticada<br \/>\ne trabalhando \u00e0 sua ordem, sorri regaladamente.<\/p>\n<p>Assim o Galo-Romano outrora na sua linda vivenda de campo, repousando com<br \/>\num douto pergaminho no joelho sob os frescos p\u00f3rticos de m\u00e1rmore,<br \/>\nou passeando no seu horto entre o acanto e as roseiras entrela\u00e7adas<br \/>\naos bustos dos deuses e dos fil\u00f3sofos, sorria quando lhe contavam das<br \/>\nhordas selvagens, francos ou godos, que tinham atacado alguma velha legi\u00e3o<br \/>\nromana, longe, na terra dos p\u00e2ntanos e das brumas. Que podiam importar<br \/>\nessas gentes bestiais? N\u00e3o era a G\u00e1lia, toda a It\u00e1lia,<br \/>\numa maravilha de for\u00e7a, de riqueza, com tanta m\u00e1quina de guerra,<br \/>\nt\u00e3o fortes inven\u00e7\u00f5es do saber?&#8230; Depois, uma manh\u00e3,<br \/>\no Godo ou o Franco aparecia, montado num potro bravo, com um simples chu\u00e7o,<br \/>\ne do Galo-Romano, dos p\u00f3rticos de m\u00e1rmore, do quieto jardim<br \/>\ncheio de rosas, dos fil\u00f3sofos e de todas as inven\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo saber, s\u00f3 restava um pouco de sangue e de poeira.<\/p>\n<p>O motivo por que se est\u00e3o batendo Chineses e Japoneses n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 o que particularmente nos interessa. Ambos querem dominar o Reino<br \/>\nda Serenidade Matutina. Os Chineses, porque esse dom\u00ednio \u00e9 para<br \/>\neles uma tradi\u00e7\u00e3o secular. Os Japoneses, porque receiam (segundo<br \/>\ndizem os seus diplomatas) que a R\u00fassia, atrav\u00e9s da fraqueza<br \/>\nou da condescend\u00eancia interesseira da China, se estenda pela Coreia,<br \/>\nocupe algum dos seus portos fronteiros ao Jap\u00e3o (como Fusan), domine<br \/>\nportanto no mar do Jap\u00e3o, que os Japoneses consideram seu, e venha,<br \/>\nse n\u00e3o amea\u00e7ar a independ\u00eancia japonesa, a prejudicar<br \/>\no seu desenvolvimento comercial&#8230; Mas tudo isso \u00e9 uma quest\u00e3o<br \/>\nde remota pol\u00edtica asi\u00e1tica. O que ardentemente nos deve ocupar,<br \/>\na n\u00f3s Europeus, e mesmo a v\u00f3s Americanos, s\u00e3o as consequ\u00eancias<br \/>\nda guerra \u2013 sobretudo as consequ\u00eancias de uma derrota da China,<br \/>\nde uma boa derrota, bem estridente e humilhante, que penetre at\u00e9 ao<br \/>\nmandarinato, at\u00e9 ao inacess\u00edvel orgulho da dinastia manchu.<br \/>\nSe fosse o Jap\u00e3o o esmagado, n\u00e3o viriam da\u00ed inquieta\u00e7\u00f5es<br \/>\npara o nosso mundo ocidental. Era apenas um povo ligeiro e atrevido que levava<br \/>\numa sova. A China vitoriosa seria a China readormecida. A China vencida \u2013<br \/>\n\u00e9 a Europa amea\u00e7ada.<\/p>\n<p>A China \u00e9 um povo de quatrocentos milh\u00f5es de homens (quase<br \/>\num ter\u00e7o da humanidade!), todos extremamente intelig\u00edveis, de<br \/>\numa actividade formigueira, de uma persist\u00eancia de prop\u00f3sitos<br \/>\ne tenacidade s\u00f3 compar\u00e1vel \u00e0 dos buldogues, de uma sobriedade<br \/>\nquase asc\u00e9tica e com inacredit\u00e1vel capacidade de aturar e sofrer.<br \/>\nOs europeus que habitam e visitam a China acrescentam que eles s\u00e3o,<br \/>\nal\u00e9m disso, muito falsos, muito mentirosos, muito covardes, muito lar\u00e1pios<br \/>\ne muito sujos. Mas estes europeus, verdadeiramente, da China s\u00f3 conhecem<br \/>\na orla mar\u00edtima, os portos abertos ao com\u00e9rcio europeu, as \u00abconcess\u00f5es\u00bb,<br \/>\nHong-Kong e Xangai. E nestes portos s\u00f3 conhecem materialmente aquela<br \/>\npopula\u00e7a chinesa, iletrada e grosseira, que se emprega nos misteres<br \/>\ninferiores de barqueiro, carregador, criado, mo\u00e7o de fretes, vendedor<br \/>\nambu lante, etc. Ora, avaliar por esta baixa matula toda a sociedade chinesa<br \/>\n\u00e9 como julgar a Fran\u00e7a pelos maltrapilhos que fervilham nos<br \/>\ncais de Marselha, ou criticar o Brasil, e a sua educa\u00e7\u00e3o, a<br \/>\ne a sua cultura, e a sua for\u00e7a social, pela gente baixa que carrega<br \/>\ne descarrega fardos dos trapiches para os armaz\u00e9ns. Viajantes que se<br \/>\ntenham alongado para o Centro da China, e observado alguns modos e costumes<br \/>\ndas classes cultas, e espreitado aqui e al\u00e9m, atrav\u00e9s das fendas<br \/>\nde portas, um pouco da vida \u00edntima, da fam\u00edlia, das ideias,<br \/>\ndas cren\u00e7as, podem ser contados pelas pontas dos dedos. Os pr\u00f3prios<br \/>\nresidentes estrangeiros de Pequim, formando o pessoal das lega\u00e7\u00f5es,<br \/>\nn\u00e3o penetram na sociedade chinesa, vivem enclausurados dentro dos muros<br \/>\ndas resid\u00eancias, como os antigos judeus nos guetos, e s\u00f3 se familiarizam<br \/>\ncom os aspectos externos, ruas, lojas, frontarias de templos e perpassar das<br \/>\nmultid\u00f5es. S\u00f3 um desses residentes tinha aprofundado a China.<br \/>\nEra um secret\u00e1rio da lega\u00e7\u00e3o inglesa, que falava com<br \/>\nperfei\u00e7\u00e3o o chin\u00eas, n\u00e3o s\u00f3 o idioma popular,<br \/>\nmas a linguagem mandarina e cl\u00e1ssica, e que deixara crescer um enorme<br \/>\nrabicho. Durante trinta anos, todas as noites, este homem absolutamente achinesado<br \/>\nvestia a sua cabaia de seda, soltava o rabicho, tomava um leque e ia passar<br \/>\nalgumas horas am\u00e1veis com as fam\u00edlias nobres de Pequim. Esse<br \/>\nrealmente conheceu a China; mas, tornado chin\u00eas e portanto discreto,<br \/>\nn\u00e3o escreveu as suas impress\u00f5es \u2013 e morreu.<\/p>\n<p>Recentemente alguns empregados europeus do Governo chin\u00eas, como os<br \/>\nengenheiros e professores do arsenal de Fucheu, t\u00eam entrado suficientemente<br \/>\nno \u00e2mago do mundo chin\u00eas. E todos esses voltam contando uma China<br \/>\nmuito diferente da dos turistas que desembarcam uma manh\u00e3 no cais de<br \/>\nXangai e \u00e0 noite est\u00e3o avaliando a civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nsessenta vezes secular de um povo de quatrocentos milh\u00f5es de homens<br \/>\npelo que observaram de reles, de sujo, de grotesco e de velhaco no coolie<br \/>\nque lhes carregou a maleta para o hotel. Os que assim se internam pela China<br \/>\nv\u00eam na realidade mara-vilhados \u2013 e tendo ido para ensinar os oper\u00e1mos<br \/>\nchineses a construir metralhadoras, confessam que aprenderam, na conviv\u00eancia<br \/>\nda burguesia culta e letrada, li\u00e7\u00f5es de conduta, de ordem, de<br \/>\nrespeito filial, de profunda uni\u00e3o dom\u00e9stica, de inteligente<br \/>\neconomia, de trabalho met\u00f3dico, de subordina\u00e7\u00e3o, de pureza,<br \/>\nde zelo moral e de toda a sorte de virtudes \u00edntimas, que garantem melhor<br \/>\na grandeza, estabilidade e ventura de uma na\u00e7\u00e3o do que a mais<br \/>\nsubtil arte em fabricar obuses e manobrar torpedeiros.<\/p>\n<p>S\u00f3 se queixam da falta de higiene municipal e da porcaria das ruas<br \/>\n\u2013 que, sobretudo nas prov\u00edncias (mesmo em Cant\u00e3o e Pequim),<br \/>\ns\u00e3o quase t\u00e3o mal varridas, e t\u00e3o abundantes em lixo,<br \/>\ncomo as de Paris aqui h\u00e1 cinquenta ou sessenta anos, quando j\u00e1<br \/>\no pap\u00e1 Hugo lhe chamava a \u00abcidade radiante\u00bb, alma do mundo,<br \/>\ne toda a Europa lhe imitava, mais que hoje, os modos, as modas, as gra\u00e7as<br \/>\ne os v\u00edcios.<\/p>\n<p>Mas que os Chineses tenham s\u00f3 defeitos ou s\u00f3 qualidades, o<br \/>\ncerto e que arranjaram a seu modo uma civiliza\u00e7\u00e3o que possui<br \/>\nsem d\u00favida uma for\u00e7a prodigiosa, pois que tem sobrevivido a<br \/>\ntodas as formas de civiliza\u00e7\u00f5es criadas pelo g\u00e9nio da<br \/>\nra\u00e7a ariana: e que possui decerto tamb\u00e9m uma grande do\u00e7ura,<br \/>\nporque o tema invari\u00e1vel e secular da literatura chinesa, desde as<br \/>\nm\u00e1ximas dos fil\u00f3sofos at\u00e9 \u00e0s can\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos l\u00edrios, \u00e9 celebrar a inef\u00e1vel e incompar\u00e1vel<br \/>\nfelicidade de ser chin\u00eas, de viver na China! Com efeito, tudo tem havido<br \/>\nna China, neste \u00faltimos dez mil anos mais chegados \u2013 excepto<br \/>\num pessimista. Dentro dessa civiliza\u00e7\u00e3o forte e doce vivia a<br \/>\nChina encerrada, como todos perfeitamente sabem, porque a Muralha da China<br \/>\ntem sido uma das met\u00e1foras mais activas da ret\u00f3rica ocidental.<br \/>\nTodos os que se prezam em arquivar os feitos civilizadores do s\u00e9culo<br \/>\nsabem tamb\u00e9m como a Inglaterra, ajudada pela Fran\u00e7a, abriu brechas<br \/>\nnessa muralha para meter para dentro o \u00f3pio \u2013 o \u00f3pio que<br \/>\no Governo da China n\u00e3o queria admitir, pela raz\u00e3o verdadeiramente<br \/>\nintolerante de que o \u00f3pio enerva, envenena, destr\u00f3i, desmoraliza<br \/>\nas ra\u00e7as! A esse feito se chamou a guerra do \u00f3pio \u2013 e<br \/>\npor ela triunfaram os sagrados direitos do neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Depois de entrar vitoriosamente em Pequim, e de ter, \u00e0 velha maneira<br \/>\ndos \u00c1tilas e dos Tamerl\u00e3os, \u00abflagelos de Deus\u00bb,<br \/>\nroubado e queimado o Pal\u00e1cio de Ver\u00e3o, que era o inestim\u00e1vel<br \/>\nmuseu imperial da arte chinesa, e com ele bibliotecas, arquivos hist\u00f3ricos,<br \/>\ntoda a riqueza liter\u00e1ria daquela letrada na\u00e7\u00e3o, a Europa<br \/>\nfor\u00e7a a China a abrir na sua carta cinco portos ao com\u00e9rcio<br \/>\neuropeu, aos algod\u00f5es, \u00e0s ferragens, ninharias ocidentais, e<br \/>\nsobretudo ao \u00f3pio, ao imenso \u00f3pio, a seis a sete milh\u00f5es<br \/>\nde quilos de \u00f3pio por ano! Ora sucedeu que por esses portos, ou portas<br \/>\nrasgadas na vetusta Muralha da China, onde entravam os Europeus, sa\u00edram<br \/>\nos Chineses a ver enfim o mundo, e esta fam\u00edlia humana de que h\u00e1<br \/>\ntantos mil anos andavam separados&#8230; De ent\u00e3o, com efeito, datam os<br \/>\ndois factos consider\u00e1veis da nova China \u2013 a emigra\u00e7\u00e3o<br \/>\ne as miss\u00f5es mandadas \u00e0 Europa para estudar as nossas ci\u00eancias,<br \/>\nas nossas ind\u00fastrias, as nossas frotas e os nossos ex\u00e9rcitos.<\/p>\n<p>Estas miss\u00f5es sa\u00edram da China com curiosidade \u2013 mas<br \/>\ntamb\u00e9m com imensa repugn\u00e2ncia. O Chin\u00eas tem pelo Europeu<br \/>\num horror, de instinto e de raz\u00e3o, fisiol\u00f3gico e raciocinado,<br \/>\nque est\u00e1 muito bem caracterizado numa p\u00e1gina dos Anais Populares<br \/>\ndo Imp\u00e9rio em que se conta a primeira apari\u00e7\u00e3o dos holandeses<br \/>\nem Macau, e nas vizinhan\u00e7as de Cant\u00e3o. \u00abEstes homens (diz<br \/>\nessa amarga narra\u00e7\u00e3o) pertencem a uma ra\u00e7a selv\u00e1tica<br \/>\nque habita regi\u00f5es escuras e h\u00famidas, e que nunca teve a vantagem<br \/>\nde se relacionar e aprender com a China. S\u00e3o criaturas avermelhadas,<br \/>\nde olhos azulados e est\u00fapidos, e imensos p\u00e9s de mais de um c\u00f4vado.<\/p>\n<p>Parecem lamentavelmente ignorantes. E como aspecto exterior nada se pode<br \/>\nimaginar de mais ex\u00f3tico e repelente!\u00bb A\u00ed est\u00e1<br \/>\na impress\u00e3o que os bons flamengos (que nos parecem t\u00e3o s\u00f3lidos,<br \/>\ns\u00e3os e limpos tipos de homens) fizeram aos Chineses. E os portugueses<br \/>\nque nos fins do s\u00e9culo XV apareceram nas costas da China, e os ingleses<br \/>\ne franceses que vieram depois no rasto das nossas caravelas, n\u00e3o foram<br \/>\nmais simp\u00e1ticos aos filhos do c\u00e9u. Todos estes forasteiros lhes<br \/>\npareceram grotescos e hirsutos de figura, grosseiros e brutais de maneiras<br \/>\n\u2013 e, como costumes e moral, perfeitamente desprez\u00edveis. Para<br \/>\nque tinham eles atravessado o mar nos seus grossos navios? Para piratear ou,<br \/>\nquando muito, para traficar. Ora a classe culta da China, a grande burguesia<br \/>\nletrada, considera o neg\u00f3cio como ocupa\u00e7\u00e3o inferior e<br \/>\nbaixa \u2013 e a avidez do ganho, a fome do ouro, como a evid\u00eancia<br \/>\nde uma natureza vil. Naqueles homens turbulentos, de face dura e arrogante,<br \/>\nque berravam, constantemente sacavam de grossas catanas, e para quem a arte<br \/>\nde viver se resumia na arte de mercadejar, os Chineses n\u00e3o podiam encontrar<br \/>\nas \u00fanicas qualidades que para eles constituem o homem bom \u2013 a<br \/>\nquieta\u00e7\u00e3o, a polidez, a toler\u00e2ncia, o sentimento de equidade,<br \/>\no amor das letras e da palavra escrita, o culto da tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da autoridade. E desde ent\u00e3o a ideia do Europeu ficou associada no<br \/>\nCeleste Imp\u00e9rio \u00e0 ideia do homem mal\u00e9fico. O nome com<br \/>\nque geralmente nos honram \u00e9 o de fan-kuci, que significa o diabo estrangeiro,<br \/>\no ser que traz de fora e espalha o mal. De resto todos os outros europeus<br \/>\nque, desde a abertura dos portos, se estabelecem na China ou a visitam, n\u00e3o<br \/>\nmelhoram esta impress\u00e3o de desconfian\u00e7a e desprezo. S\u00e3o,<br \/>\nna quase totalidade, homens de neg\u00f3cio, secos, sacudidos, ocupados<br \/>\ns\u00f3 de enriquecer, passando uma vida toda material, sem gosto pelas<br \/>\ncoisas do esp\u00edrito e do saber \u2013 e portanto, segundo a ideia do<br \/>\nchin\u00eas letrado, abjectos. S\u00e3o tamb\u00e9m em grande parte marinheiros<br \/>\nque desembarcam, e pela sua indisciplina, as suas rixas, as suas bebedeiras,<br \/>\nescandalizam e desolam o Chin\u00eas, o mant\u00eam na opini\u00e3o de<br \/>\nque na ra\u00e7a europeia, al\u00e9m de avareza, s\u00f3 h\u00e1 brutalidade.<br \/>\nOs mission\u00e1mos, que deveriam ser os representantes autorizados das<br \/>\nnossas virtudes espirituais, n\u00e3o os impressionam sen\u00e3o desagradavelmente.<br \/>\nNa sua religi\u00e3o eles n\u00e3o mostram, nem unidade, nem dignidade,<br \/>\ntratando-se mutuamente de \u00abher\u00e9ticos\u00bb, de um lado a Igreja<br \/>\nCat\u00f3lica, de outro a Igreja Protestante, esta contraminando aquela,<br \/>\nque intriga contra a outra, e ainda dentro de cada igreja, divididos em seitas<br \/>\nque se guerreiam, calvinistas contra anglicanos, jesu\u00edtas contra dominicanos.<br \/>\nNos seus costumes n\u00e3o mostram humildade nem un\u00e7\u00e3o, dando-se<br \/>\nlogo todos como altos funcion\u00e1mos europeus, usurpando as ins\u00edgnias<br \/>\nexteriores dos dignit\u00e1rios chineses (como a liteira verde de quatro<br \/>\ncarregadores), desprezando as leis do imp\u00e9rio, escarnecendo os ritos<br \/>\ne os sacerdotes budistas, e tendo uma conduta toda de intoler\u00e2ncia e<br \/>\narrog\u00e2ncia. Al\u00e9m disso, a sua doutrina (sobretudo na parte moral,<br \/>\nque \u00e9 a \u00fanica que importa ao esp\u00edrito chin\u00eas) n\u00e3o<br \/>\nparece superior nem nova a quem foi educado nos livros de Conf\u00facio<br \/>\nou nos conceitos budistas. Na realidade o letrado chin\u00eas n\u00e3o<br \/>\nencontra no cristianismo sen\u00e3o contradi\u00e7\u00e3o, inverosimilhan\u00e7a<br \/>\ne n\u00e9voa; e no pouco que ele tem de bom, os seus preceitos morais, s\u00f3<br \/>\nv\u00ea, com desd\u00e9m, p\u00e1lidas e imperfeitas imita\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo confucionismo e do budismo.<\/p>\n<p>De tudo isto resulta, para o Chin\u00eas, um tremendo desd\u00e9m pelo<br \/>\nEuropeu e a convic\u00e7\u00e3o de que, intelectualmente, moralmente e<br \/>\nsocialmente, lhe \u00e9 de todo o ponto superior, e deveria ser seu mestre.<br \/>\nTodavia h\u00e1 uma qualidade que ele reconhece no Europeu \u2013 \u00e9<br \/>\na de mec\u00e2nico. \u00c9 esta, de resto, a \u00fanica superioridade<br \/>\nque nos concedem os Orientais: e qualquer br\u00e2mane hindu ou qualquer<br \/>\nulem\u00e1 mu\u00e7ulmano concordar\u00e1 que, lamentavelmente med\u00edocres,<br \/>\ncomo somos, nos nossos sistemas religiosos e \u00e9ticos, na nossa metaf\u00edsica,<br \/>\nna nossa literatura, nas nossas doutrinas sociais, temos todavia uma habilidade<br \/>\nde m\u00e3os verdadeiramente infernal para fabricar m\u00e1quinas a vapor,<br \/>\naparelhos telegr\u00e1ficos, toda a sorte de ferramentas astutas. Este talento<br \/>\nnosso, todo o Oriente decerto o considera inferior, manual, pr\u00f3prio<br \/>\nde mesteirais e de escravos. Mas concorda na sua grande utilidade (n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 nada, mesmo para um mandarim da academia de Han-Li, como uma locomotiva<br \/>\nquando ele queira andar depressa) e reflecte que, se adquirir esse talento,<br \/>\nse tornar\u00e1 um homem verdadeiramente completo, pois que \u00e0 superioridade<br \/>\nintelectual juntar\u00e1 a superioridade industrial, e ser\u00e1 duplamente<br \/>\nforte pela moral e pela mec\u00e2nica.<\/p>\n<p>Foi neste esp\u00edrito que os Chineses mandaram as suas primeiras miss\u00f5es<br \/>\nescolares \u00e0 Europa e come\u00e7aram a sua aprendizagem cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Esta inicia\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, teria sido muito fragment\u00e1ria,<br \/>\ntoda casual e sempre contrariada pelo velho e intrat\u00e1vel conservantismo<br \/>\nchin\u00eas, se a n\u00e3o estimulasse por outro lado o orgulho pol\u00edtico<br \/>\ndos mandarins e as suas violentas rivalidades com o Jap\u00e3o. A China,<br \/>\ndesde s\u00e9culos, detesta o Jap\u00e3o por motivos um pouco semelhantes<br \/>\naos que mant\u00eam a Fran\u00e7a e a Inglaterra num perp\u00e9tuo e<br \/>\nsurdo estado de antagonismo e desestima. S\u00e3o as duas grandes na\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Extremo Oriente, onde ambas aspiram o predom\u00ednio; t\u00eam um desenvolvimento<br \/>\nid\u00eantico, em literatura, em arte, mesmo em certas ind\u00fastrias<br \/>\nnacionais que ambas exportam e que se chocam nos mercados, o que ajunta \u00e0<br \/>\nemula\u00e7\u00e3o intelectual a emula\u00e7\u00e3o comercial: os<br \/>\nseus temperamentos, al\u00e9m disso, s\u00e3o dissemelhantes como o do<br \/>\nFranc\u00eas e do Ingl\u00eas, um grave e pr\u00e1tico, outro ligeiro<br \/>\ne fantasista, o que cria, no constante encontro dos homens das duas ra\u00e7as,<br \/>\numa multiplicidade de pequeninas antipatias individuais, que se prendem e<br \/>\nse somam, num vasto \u00f3dio internacional. Guerras sucessivas t\u00eam<br \/>\nintensificado essa rivalidade \u2013 e realmente o Chin\u00eas e o Japon\u00eas,<br \/>\nque ambos mutuamente se tratam de b\u00e1rbaros e de esc\u00f3ria da Terra,<br \/>\ns\u00f3 tinham tido at\u00e9 hoje um impedimento para se entredilacerarem,<br \/>\nque era o mar que os separa, a insufici\u00eancia das suas marinhas e o medo<br \/>\ncomum da Europa.<\/p>\n<p>Ora, o Jap\u00e3o, como todos sabem, realizou uma transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nextraordin\u00e1ria e decerto \u00fanica na hist&amp;oacoacute;ria. De uma manh\u00e3<br \/>\npara a tarde, sem descanso, com um ardor fren\u00e9tico, este povo ligeiro<br \/>\ne g\u00e1rrulo sacudiu as suas tradi\u00e7\u00f5es, as suas institui\u00e7\u00f5es,<br \/>\nas suas leis, os seus costumes, os seus trajes, as suas maneiras \u2013 e<br \/>\nenvergou de uma s\u00f3 vez, e toda completa, como uma farpela, a civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\neuropeia, comprada por pre\u00e7os ruinosos num \u00abarmaz\u00e9m de<br \/>\nciviliza\u00e7\u00f5es feitas\u201d. Nada representa ou deve representar<br \/>\nmelhor um estado do que o seu chefe \u2013 e ainda h\u00e1 pouco eu considerava<br \/>\nduas estampas que pintam com um relevo desolador (para o artista) a transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo velho em novo Jap\u00e3o. Numa \u00e9 o micado, ainda imperador omnipotente<br \/>\ne hier\u00e1tico, meio homem, meio deus, al\u00e7ado no seu trono, que<br \/>\nmais parece altar, todo envolto num manto de seda cor de palha, com uma mitra<br \/>\nde laca branca, onde fa\u00edscam pedrarias, im\u00f3vel e de olhos baixos<br \/>\n\u00e0 maneira de um \u00eddolo, enquanto o fumo do incenso se eleva das<br \/>\nca\u00e7oletas, e velhos daimios feudais e samurais magn\u00edficos, vestidos<br \/>\nde brocados, de bronzes dourados, os dois sabres na cintura, as duas antenas<br \/>\nde ouro tremendo no elmo, se prostram ante a majestade do Filho do Sol, tocam<br \/>\ncom a fronte as finas esteiras claras, juncadas de flores de nassari. Na outra<br \/>\nestampa, de cores vivas, \u00e9 ainda o mesmo micado, anos depois, mais<br \/>\npequeno e como diminu\u00eddo, com uma farda vermelha de general ingl\u00eas<br \/>\nque lhe faz rugas no sovaco, um capacete branco de general prussiano que lhe<br \/>\ntomba para os olhos, umas cal\u00e7as azuis de general franc\u00eas que<br \/>\nlhe fogem dos tornozelos, sentado de esguelha numa poltrona, dentro de uma<br \/>\nesta\u00e7\u00e3o de caminho de ferro, enquanto em redor se agitam funcion\u00e1mos<br \/>\nconstitucionais, de chap\u00e9us de bico, de chap\u00e9us altos, de chap\u00e9us-coco,<br \/>\napelintrados e contrafeitos, e ao longe uma locomotiva fumega e vai partir<br \/>\npor sob um arco de lona que ostenta este lema estupendo: \u00abViva a constitui\u00e7\u00e3o!\u00bb<br \/>\nEste \u00e9 o Jap\u00e3o novo. E l\u00fagubre.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 forte \u2013 porque, com os nossos horrendos chap\u00e9us<br \/>\nde bico e as nossas pantalonas agaloadas, adoptou tamb\u00e9m os nossos<br \/>\ncoura\u00e7ados, as espingardas Lebel, as metralhadoras, toda a nossa organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne ci\u00eancia militar. E, como n\u00e3o lhe falta a intelig\u00eancia<br \/>\ndestra para aplicar os nossos princ\u00edpios e usar o nosso material, e<br \/>\ncomo os seus oficiais s\u00e3o educados nas escolas, nos arsenais, nos campos<br \/>\nde manobras da Europa, em breve o Jap\u00e3o pitoresco se tornou o Jap\u00e3o<br \/>\nformid\u00e1vel, e, apesar de as fardas mal feitas lhe darem um ar xex\u00e9<br \/>\nde Entrudo, ficou sendo a grande pot\u00eancia do Extremo Oriente.<\/p>\n<p>A China observou com indiz\u00edvel nojo esta revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial do Jap\u00e3o \u2013 mas tamb\u00e9m com uma vaga inquieta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs homens que aboliam o mais santo dos cultos, o culto do passado, que se<br \/>\nenfardelavam com a rabona estrangeira, que abandonavam as suas festas religiosas<br \/>\npara aplaudir em casinos alumiados a g\u00e1s as can\u00e7onetas torpes<br \/>\nde Marselha, eram sem d\u00favida vis: mas os seus portos estavam cheios<br \/>\nde coura\u00e7ados, os seus arsenais de armamentos, um saber novo penetrara<br \/>\nna sua educa\u00e7\u00e3o, e podiam portanto, apesar de ign\u00f3beis,<br \/>\nser perigosos.<\/p>\n<p>A manhosa e forte civiliza\u00e7\u00e3o dos \u00abdiabos europeus\u00bb<br \/>\nconvertera-os numa grande pot\u00eancia asi\u00e1tica, comunicando-lhes<br \/>\nas suas manhas e a sua for\u00e7a \u2013 convinha portanto adquirir tamb\u00e9m<br \/>\nessa for\u00e7a e essas manhas para que o Imp\u00e9rio do Meio n\u00e3o<br \/>\nfosse sobrepujado pelo pequeno Imp\u00e9rio do Sol Nascente, uma vez que<br \/>\nest\u00e1 desgra\u00e7adamente provado que a espingarda Lebel mata melhor<br \/>\nque a elegante e vener\u00e1vel flecha dos avos. Foi portanto o Jap\u00e3o<br \/>\nque for\u00e7ou sobretudo a China a entrar, bem a seu pesar, na imita\u00e7\u00e3o<br \/>\neuropeia \u2013 e este passo humilhante, t\u00e3o contr\u00e1rio a todos<br \/>\nos seus sentimentos sociais, pol\u00edticos e religiosos, a que a China<br \/>\nera impedida pela indecente europeiza\u00e7\u00e3o do vizinho Jap\u00e3o,<br \/>\nmais irritou os mandarins contra o Governo, agora constitucional, do micado.<br \/>\nO velho Jap\u00e3o j\u00e1 era antip\u00e1tico \u00e0 China \u2013<br \/>\no novo Jap\u00e3o, apetrechado \u00e0 europeia, com g\u00e1s e com telefones,<br \/>\ntornou-se-lhe intoleravelmente odioso. A pr\u00f3pria quest\u00e3o da<br \/>\nCoreia, t\u00e3o antiga entre os dois povos, se complicou, se azedou com<br \/>\nesta quest\u00e3o recente e singular das inova\u00e7\u00f5es ocidentais.<br \/>\nEm Seul, na corte do pobre rei da Coreia, as influ\u00eancias chinesa e japonesa,<br \/>\nem hostilidade latente desde longos anos, combateram-se agora, nestes derradeiros<br \/>\ntempos, acerca dessas formas de civiliza\u00e7\u00e3o que o Jap\u00e3o,<br \/>\ncom o zelo dos novos convertidos, tentava introduzir na Coreia, e que a China<br \/>\nse esfor\u00e7ava em repelir, com rancor. Assim o Jap\u00e3o levava o<br \/>\nfraco e aturdido Governo coreense a criar uma escola militar de tipo europeu<br \/>\n\u2013 e imediatamente a China conseguia a sua supress\u00e3o. Depois,<br \/>\nfoi um caminho de ferro, a que a influ\u00eancia japonesa assentara os primeiros<br \/>\nrails \u2013 e que a influ\u00eancia chinesa logo tortuosamente embargou<br \/>\ne por fim destruiu.<\/p>\n<p>E, apesar de tudo, a China continuava a importar as nossas armas, a reproduzir<br \/>\nos nossos modelos \u2013 mas lentamente, a custo, sem grande confian\u00e7a<br \/>\nna sua efic\u00e1cia, e certa ainda que, numa guerra, o Jap\u00e3o, com<br \/>\ntodo o seu material e ci\u00eancia trazidos da Europa, seria esmagado pelo<br \/>\nn\u00famero incont\u00e1vel das velhas tropas chinas, manchus e t\u00e1rtaras.<\/p>\n<p>Era uma ilus\u00e3o. Apenas declarada essa guerra, em poucas semanas o<br \/>\nJap\u00e3o ocupava a Coreia, escangalhava o velho rei e o velho Governo,<br \/>\nrepelia o ex\u00e9rcito chin\u00eas, destro\u00e7ava a armada chinesa,<br \/>\ninvadia o solo chin\u00eas e come\u00e7ava uma marcha sobre Pequim, para<br \/>\nimpor ao Filho do C\u00e9u, dentro da sua cidade santa, uma paz cheia de<br \/>\nvergonha e ru\u00edna.<\/p>\n<p>Por ora o Japon\u00eas ainda marcha, ainda est\u00e1 longe de Pequim.<br \/>\nMas quando l\u00e1 entrar, como tudo o pressagia, a China ter\u00e1 sofrido<br \/>\na maior afronta de toda a sua hist\u00f3ria de seis mil anos. E que, em<br \/>\nconsequ\u00eancia dessa humilha\u00e7\u00e3o, a actual dinastia manchu<br \/>\ndesabe ou permane\u00e7a, o mandarinato, que \u00e9 eterno e sobrevive<br \/>\na todas as dinastias, h\u00e1-de raciocinar (porque \u00e9 essa a sua<br \/>\nprofiss\u00e3o) que a ultrajante derrota prov\u00e9m s\u00f3 de a China<br \/>\nn\u00e3o possuir as armas e os m\u00e9todos europeus, t\u00e3o intrinsecamente<br \/>\nfortes que, mesmo usados por homens t\u00e3o vis como os Japoneses, \u00abesc\u00f3ria<br \/>\nda Terra\u00bb, triunfam irresistivelmente de um t\u00e3o augusto poder<br \/>\ncomo o do Imp\u00e9rio Florido.<\/p>\n<p>E deste racioc\u00ednio justo resultar\u00e1 que, pelo menos militarmente,<br \/>\na China se vai tornar europeia, no que a Europa tiver de mais engenhoso, de<br \/>\nmais cient\u00edfico, de mais moderno. Ela far\u00e1 exactamente o que<br \/>\nnestes derradeiros quinze anos fez o Jap\u00e3o, nas propor\u00e7\u00f5es<br \/>\nsuperiores de quem tem quatrocentos milh\u00f5es de homens e inumer\u00e1veis<br \/>\nmilh\u00f5es de d\u00f3lares, e com aquela intelig\u00eancia, e tenacidade,<br \/>\ne senso pr\u00e1tico, e m\u00e9todo que caracterizam a ra\u00e7a. Em<br \/>\nvinte anos, em menos, a China pode ser a mais poderosa na\u00e7\u00e3o<br \/>\nmilitar da Terra.<\/p>\n<p>E n\u00e3o precisa para isso, como n\u00f3s precisamos, de inventar,<br \/>\nde criar laboriosamente: basta que compre e que aprenda, o que \u00e9 f\u00e1cil<br \/>\nao seu agudo engenho, ao seu imenso dinheiro. O g\u00e9nio ariano c\u00e1<br \/>\nest\u00e1 no Ocidente, na sua sublime e natural tarefa de calcular, de descobrir<br \/>\n\u2013 o mongol de rabicho s\u00f3 tem que olhar, escolher, adoptar.<\/p>\n<p>Ora quando a China se tornar uma na\u00e7\u00e3o militar, extremamente<br \/>\npoderosa, a Europa ficar\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o singularmente<br \/>\nperigosa. N\u00e3o que devamos recear, como tanto receiam e j\u00e1 profetizam,<br \/>\numa nova invas\u00e3o de b\u00e1rbaros da \u00c1sia. Mesmo quando na<br \/>\nChina surgisse um \u00c1tila, capaz de reunir pela energia do seu g\u00e9nio<br \/>\ntodos o povos do Oriente, para os lan\u00e7ar sobre o Ocidente \u2013 a<br \/>\nnossa civiliza\u00e7\u00e3o nunca poderia ser submergida, nem mesmo parcialmente<br \/>\ndesmantelada. A sua coes\u00e3o \u00e9 enorme, h\u00e1 uma resist\u00eancia<br \/>\ninvencivelmente forte na sua unidade social e moral \u2013 e a R\u00fassia<br \/>\nforma um baluarte que nenhum poder, mesmo organizado e apetrechado \u00e0<br \/>\neuropeia, poder\u00e1 jamais transpor.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a China est\u00e1 prodigiosamente velha \u2013 e essas<br \/>\naventuras reclamam um sangue novo e rico, como era o dos Hunos ou dos Godos.<br \/>\nDe resto, o Chin\u00eas \u00e9, como todos os povos rurais, um povo essencialmente<br \/>\npac\u00edfico. A sua educa\u00e7\u00e3o, desde longos s\u00e9culos,<br \/>\ntem sido antiguerreira \u2013 e toda a sua literatura, como toda a sua \u00e9tica,<br \/>\nensina o desprezo pelo homem de anuas. A China \u00e9 uma ra\u00e7a de<br \/>\nlavradores, governada por uma classe de literatos; e com passear sossegadamente,<br \/>\nsob os p\u00f3rticos pintados da sua vila, entre as flores e os bustos dos<br \/>\ns\u00e1bios. O homem amarelo n\u00e3o descer\u00e1 do seu peludo corcel<br \/>\nt\u00e1rtaro, soltando o velho grito de Tamerl\u00e3o: \u00abHa\u00ef-up!<br \/>\nHa\u00ef-up!\u00bb Mas vir\u00e1, todavia, o homem amarelo! Vir\u00e1<br \/>\nmuito humildemente, muito pacificamente, em grandes paquetes, com a sua trouxa<br \/>\n\u00e0s costas. Vir\u00e1, n\u00e3o para assolar, mas para trabalhar.<br \/>\nE \u00e9 essa a invas\u00e3o perigosa para o nosso velho mundo, a invas\u00e3o<br \/>\nsurda e formigueira do trabalhador chin\u00eas. A Calif\u00f3rnia mostra,<br \/>\nnas pequenas propor\u00e7\u00f5es de uma prov\u00edncia, o que poder\u00e1<br \/>\nser, no nosso populoso continente, uma ilimitada vinda de chineses. Foi em<br \/>\n1852 que chegaram a S\u00e3o Francisco da Calif\u00f3rnia os primeiros<br \/>\ncem imigrantes, ainda t\u00edmidos e incertos, procurando trabalho nas minas.<br \/>\nDez anos depois eram cem mil. Seriam hoje um milh\u00e3o, muitos milh\u00f5es<br \/>\ndeles, se o estado da Calif\u00f3rnia n\u00e3o os tivesse repelido como<br \/>\numa praga, como se repelem na Arg\u00e9lia os gafanhotos, ou na Austr\u00e1lia<br \/>\nos coelhos. N\u00e3o \u00e9, como se pensa, a fome e a mis\u00e9ria<br \/>\nque os expulsam da China. Ao contr\u00e1rio! Todos estes imigrantes que<br \/>\nv\u00eam das ricas prov\u00edncias do Sul da China pertencem a uma classe<br \/>\nrural remediada, possuem uma instru\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, trazem<br \/>\no seu pec\u00falio. N\u00e3o h\u00e1 neles o esp\u00edrito err\u00e1tico<br \/>\nde aventura \u2013 mas o prop\u00f3sito muito raciocinado de fazer fortuna<br \/>\ncomedida e s\u00f3lida, e de voltar para a China, onde deixaram a casa,<br \/>\nas mulheres, uma fam\u00edlia, um centro est\u00e1vel com quem comunicam<br \/>\nconstantemente, fielmente. Toda esta imigra\u00e7\u00e3o estava admiravelmente<br \/>\norganizada, por meio de associa\u00e7\u00f5es (tudo na China se faz por<br \/>\nassocia\u00e7\u00e3o) cujos chefes, j\u00e1 instalados na Calif\u00f3rnia,<br \/>\npromoviam a passagem dos imigrantes, os recebiam, os instalavam, lhes procuravam<br \/>\nemprego, julgavam as suas dissens\u00f5es, velavam sobre eles paternalmente.<br \/>\nAssim se forma logo sempre na cidade estrangeira uma cidade chinesa, fechada<br \/>\ne compacta, com os seus altares, as suas lojas, os seus hosp\u00edcios,<br \/>\nas suas escolas, o seu mandarim, todos os \u00f3rg\u00e3os necess\u00e1rios<br \/>\na uma pequenina China. Da\u00ed irradiam os trabalhadores. E nunca lhes<br \/>\nfalta trabalho. Em primeiro lugar, porque se contentam com a ter\u00e7a<br \/>\nparte do sal\u00e1rio do trabalhador branco. O Chin\u00eas n\u00e3o tem<br \/>\nnecessidades: uma \u00fanica cabaia de chita ou l\u00e3 grossa lhe basta<br \/>\npara uma exist\u00eancia: um pouco de arroz e dois goles de ch\u00e1 o<br \/>\nalimentam. Onde o branco, comil\u00e3o e vicioso, precisa de\u2019 ganhar<br \/>\ndois mil r\u00e9is por dia, o Chin\u00eas est\u00e1 feliz com tr\u00eas<br \/>\ntost\u00f5es, e acumula. Em segundo lugar, tem admir\u00e1veis qualidades<br \/>\nde trabalhador \u2013 pontualidade, actividade, docilidade, adapta\u00e7\u00e3o<br \/>\nperfeita a todas as formas de servi\u00e7os. S\u00e3o superiormente inteligentes<br \/>\ne inacreditavelmente sofredores. As colossais obras de aterramento feitas<br \/>\nna Calif\u00f3rnia, na Serra Nevada, s\u00f3 podiam ser executadas pela<br \/>\ndureza e infatigabilidade do nervo chin\u00eas. Sem eles, o grande caminho<br \/>\nde ferro do Pac\u00edfico nunca teria sido constru\u00eddo t\u00e3o<br \/>\nrapidamente, t\u00e3o habilmente. Na Havana, nas grandes planta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde tabaco, de a\u00e7\u00facar, de algod\u00e3o, em servi\u00e7o onde<br \/>\ntodas as ra\u00e7as sucumbem, mesmo a negra, o Chin\u00eas prospera, fica<br \/>\nmais luzidio e gordo.\u2019 S\u00f3is t\u00f3rridos, chuvas trespassantes,<br \/>\nterrenos paludosos, micr\u00f3bios e toxinas n\u00e3o t\u00eam ac\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre aquele ser, de apar\u00eancia mole e como feito de borracha. De resto,<br \/>\ncomo se sabe, a; sensibilidade nervosa do Chin\u00eas \u00e9 m\u00ednima,<br \/>\ne por isso eles s\u00e3o quase indiferentes \u00e0s penalidades usuais<br \/>\ndo c\u00f3digo chin\u00eas, a bastonada e a canga. Toda a sua sensibilidade<br \/>\n\u00e9 moral e assim, na Havana, o castigo terr\u00edvel e verdadeiramente<br \/>\ndoloroso que se imp\u00f5e ao Chin\u00eas \u00e9 cortar-lhe o rabicho.<br \/>\nO rabicho \u00e9 o s\u00edmbolo exterior da sua dignidade, como outrora,<br \/>\npara os cavaleiros godos ou francos, os densos cabelos anelados.<\/p>\n<p>O Chin\u00eas, logo que re\u00fana pelo trabalho do campo, da mina, ou<br \/>\nda f\u00e1brica, um saco de economias, vem estabelecer-se na cidade, como<br \/>\njardineiro, lavadeiro, alfaiate, sapateiro, cozinheiro, ourives, etc.<\/p>\n<p>E nestes misteres \u00e9 incompar\u00e1vel pela habilidade, a rapidez,<br \/>\na originalidade, a excel\u00eancia da m\u00e3o-de-obra. Quando as economias<br \/>\ncrescem, abandona a pequena ind\u00fastria, entra no com\u00e9rcio \u2013<br \/>\nonde \u00e9 prodigioso, pela lealdade, a finura, o faro, a prontid\u00e3o<br \/>\nem compreender todos os m\u00e9todos e manhas da pra\u00e7a. Depois, apenas<br \/>\nfaz fortuna, abala para a China, levando o dinheiro do branco, e um desprezo<br \/>\nmais intenso ainda do que trouxera pela civiliza\u00e7\u00e3o europeia.<\/p>\n<p>Um imigrante com estas capacidades \u00e9 terr\u00edvel, sobretudo em<br \/>\npa\u00edses industriais, porque altera profundamente a balan\u00e7a dos<br \/>\nsal\u00e1rios. O capital produtor tem o sonho ansioso (e leg\u00edtimo)<br \/>\nde diminuir, pela baixa dos sal\u00e1rios, as despesas de produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuando lhe aparece, portanto, um oper\u00e1rio h\u00e1bil, incans\u00e1vel,<br \/>\npontual, d\u00f3cil, que n\u00e3o faz greves, nem pol\u00edtica, \u00e9<br \/>\napenas um complemento inteligente das m\u00e1quinas, e oferece o seu trabalho<br \/>\npor metade ou um ter\u00e7o do sal\u00e1rio normal, imediatamente o aceita,<br \/>\ncom alacridade, sem curar de que ele tenha ra\u00e7a amarela, branca ou<br \/>\nverde. Foi o que aconteceu na Calif\u00f3rnia. O celestial come\u00e7ou<br \/>\nlentamente a expulsar o ianque de toda a actividade assalariada. Nas minas,<br \/>\nnas estradas, nas f\u00e1bricas, nas ind\u00fastrias, por toda a parte<br \/>\nonde se necessitavam bra\u00e7os os amarelos eram preferidos aos brancos.<br \/>\nE como esta imigra\u00e7\u00e3o se desenrolava sempre cada dia mais densa,<br \/>\ne o seu crescente conhecimento do pa\u00eds lhe aumentava os meios de expansibilidade,<br \/>\na concorr\u00eancia chinesa em breve pesou vitoriosamente no mercado, e a<br \/>\ntaxa do sal\u00e1rio baixou de um modo esfaimante para o trabalhador de<br \/>\nra\u00e7a branca. A consequ\u00eancia foi que a ra\u00e7a branca (que<br \/>\ntem inventado as teorias mais nobres sobre a liberdade do trabalho) passou<br \/>\na impedir violentamente os chineses de trabalharem. Nas mesmas f\u00e1bricas,<br \/>\npor toda a parte, o Chin\u00eas era escorra\u00e7ado, espancado, esfaqueado<br \/>\ne a pol\u00edcia da Calif\u00f3rnia desviava os olhos ben\u00e9volos.<br \/>\nAl\u00e9m disso os pol\u00edticos, sob a influ\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\noper\u00e1ria que disp\u00f5e de voto, come\u00e7avam a criar leis opressivas<br \/>\ncontra o Chin\u00eas, para lhe tornar a vida intoler\u00e1vel, o desgostar<br \/>\npara sempre as do\u00e7uras da Calif\u00f3rnia. O Chin\u00eas, por\u00e9m,<br \/>\ncom a tenacidade da sua ra\u00e7a, persistia. Cada paquete do Pac\u00edfico<br \/>\ndesembarcava em S\u00e3o Francisco mil e quinhentos, dois mil chins. Era<br \/>\ncomo uma velha praga da B\u00edblia. A popula\u00e7a oper\u00e1ria,<br \/>\nsubmergia, amea\u00e7ava o Estado com uma revolu\u00e7\u00e3o. Os pol\u00edticos<br \/>\nent\u00e3o, repuxando at\u00e9 ela estalar a doutrina de Monroe, conseguiram<br \/>\numa lei que proibia ao habitante da China penetrar no solo da Calif\u00f3rnia!<\/p>\n<p>Mas como se p\u00f4de estabelecer uma tal lei, t\u00e3o escandalosamente<br \/>\nvioladora de todos os direitos divinos e humanos? Porque a China era fraca,<br \/>\ne n\u00e3o tinha esquadras nem ex\u00e9rcitos para fazer respeitar nos<br \/>\nseus nacionais o direito que a todo o habitante da Terra assiste de percorrer<br \/>\na Terra, e de escolher nela um canto onde se instale, pacificamente trabalhe<br \/>\ne se nutra.<\/p>\n<p>Como me dizia a mim mesmo um mandarim (o \u00fanico que me foi dado conhecer,<br \/>\nhomem magn\u00edfico, de maneiras antigas e incomparavelmente aristocr\u00e1ticas,<br \/>\ne vestido com uma cabaia de seda verde-mar e fio de ouro que me perturbou),<br \/>\ncomo ele pois me dizia: \u00abO Chin\u00eas n\u00e3o poder\u00e1 viajar<br \/>\nenquanto n\u00e3o possuir, \u00e0 maneira da Europa, coura\u00e7ados<br \/>\npara o comboiar.\u00bb E por isto significava aquele vener\u00e1vel mandarim<br \/>\nque a China, quando fosse preste, deveria fazer \u00e0 Europa o que a Europa<br \/>\nfez \u00e0 China \u2013 obrig\u00e1-la a receber os seus trabalhadores<br \/>\nsob pena de a metralhar.<\/p>\n<p>E aqui est\u00e1 o perigo econ\u00f3mico que nos vir\u00e1 do Imp\u00e9rio<br \/>\nFlorido, quando ele, derrotado pelas armas europeias do Jap\u00e3o, sacudir<br \/>\no antigo torpor sob que se tem enferrujado, atirar para o lixo a flecha t\u00e1rtara,<br \/>\ne se armar e construir frotas, e conhecer profundamente o modo de as manobrar<br \/>\ne se converter numa imensa pot\u00eancia militar e mar\u00edtima \u2013<br \/>\no homem amarelo far\u00e1 logo a sua trouxa e embarcar\u00e1, confiado<br \/>\ne seguro, para vir explorar a Europa. Ser\u00e1 um movimento lento (t\u00e3o<br \/>\nlento como foi o das hordas b\u00e1rbaras para dentro do Imp\u00e9rio<br \/>\nRomano), mas que fatalmente se dar\u00e1 como a natural consequ\u00eancia<br \/>\nde quatrocentos milh\u00f5es de homens reentrarem de novo na fam\u00edlia<br \/>\nhumana. O pequeno formigueiro chin\u00eas que alastrava a Calif\u00f3rnia<br \/>\nat\u00e9 que O ianque o esmagou sob o seu grosso sapato ferrado de pregos<br \/>\n\u2013 recome\u00e7ar\u00e1 em propor\u00e7\u00f5es imensas para<br \/>\ntoda a Am\u00e9rica, para toda a Europa. E ent\u00e3o n\u00e3o se poder\u00e1<br \/>\ncontra ele decretar a persegui\u00e7\u00e3o, muito menos a expuls\u00e3o<br \/>\n\u2013 porque detr\u00e1s do imigrante chin\u00eas avan\u00e7ar\u00e1<br \/>\no coura\u00e7ado chin\u00eas: comer um chin\u00eas, segundo a express\u00e3o<br \/>\namericana, ser\u00e1 ent\u00e3o uma aventura t\u00e3o indigesta e t\u00e3o<br \/>\ncheia de perigo como \u00e9 hoje na China comer um ingl\u00eas.<\/p>\n<p>A desorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que se deu na Calif\u00f3rnia<br \/>\nvir\u00e1 repetir-se na Europa com descomunal magnitude. Nas f\u00e1bricas,<br \/>\nnas minas, no servi\u00e7o dos caminhos de ferro, n\u00e3o se ver\u00e3o<br \/>\nsen\u00e3o homens de rabicho, silenciosos e destros, fazendo por metade<br \/>\ndo sal\u00e1rio o dobro do servi\u00e7o \u2013 e o oper\u00e1rio europeu,<br \/>\neliminado, ou tem de morrer de fome, ou fazer revolu\u00e7\u00f5es, ou<br \/>\nde for\u00e7ar os estados a guerras com quatrocentos milh\u00f5es de chineses.<\/p>\n<p>\u00c9 esta a invas\u00e3o a recear \u2013 n\u00e3o a invas\u00e3o<br \/>\ntumultu\u00e1ria \u00e0 moda vand\u00e1lica. E ser\u00e1 tanto mais<br \/>\ntemerosa que ter\u00e1 por si a for\u00e7a do direito, sem que seja f\u00e1cil<br \/>\nexercer contra ela o direito da for\u00e7a. Ela ter\u00e1 al\u00e9m<br \/>\ndisso como c\u00famplice e instigador o interesse do capitalismo: porque,<br \/>\n\u00e0 maneira que as nossas classes oper\u00e1rias, mais educadas, se<br \/>\ntornarem mais indisciplinadas (ou antes, mais legitimamente exigentes) e o<br \/>\ncapital europeu travar uma Juta mais \u00e1spera com o trabalho europeu,<br \/>\na sua tend\u00eancia irresist\u00edvel ser\u00e1 utilizar a enorme massa<br \/>\nd\u00f3cil e facilmente contente que cada ano lhe remeter\u00e1 a inesgot\u00e1vel<br \/>\nChina. Em cada centro industrial da Europa haver\u00e1 assim um permanente<br \/>\ne atroz conflito de ra\u00e7as \u2013 como j\u00e1 hoje se d\u00e3o,<br \/>\ne por motivos id\u00eanticos, conflitos de nacionalidades, em que o Franc\u00eas<br \/>\nespanca o Italiano, porque o homem trigueiro de al\u00e9m dos Alpes come<br \/>\nmenos carne e pede menos sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>E se a invas\u00e3o oper\u00e1ria chinesa n\u00e3o triunfar (porque<br \/>\na for\u00e7a e a influ\u00eancia do proletariado s\u00e3o j\u00e1 imensas<br \/>\ne ainda crescem), essa invas\u00e3o ser\u00e1, num grande per\u00edodo<br \/>\ndo s\u00e9culo XX, uma nova e intensa complica\u00e7\u00e3o, sobrevindo<br \/>\na tantas, j\u00e1 t\u00e3o temerosas, que esperam os nossos pobres netos.<\/p>\n<p>Mas basta de Chineses! V\u00f3s, amigos, a\u00ed no Brasil, parece que<br \/>\nos desejais, para vos plantar e vos colher o caf\u00e9. Sereis inundados,<br \/>\nsubmergidos. Vir\u00e3o cem, vir\u00e3o logo cem mil. Daqui a dez anos<br \/>\nem S\u00e3o Paulo e no Rio tereis vastos bairros chineses, com tabuletas<br \/>\nsarapintadas de vermelho e negro, fios de lanternas de papel, covis empestados<br \/>\nde \u00f3pio, toda a sorte de associa\u00e7\u00f5es secretas, uma for\u00e7a<br \/>\nimensa crescendo na sombra, e cabaias e rabichos, sem cessar fervilhando.<br \/>\nMas tereis cozinheiros chineses, engomadores chineses \u2013 e sabeis enfim<br \/>\no que \u00e9 uma sopa superlativamente sublime e um peitilho lustroso e<br \/>\ndigno dos deuses. Todas as outras col\u00f3nias, portuguesa, italiana, alem\u00e3,<br \/>\nser\u00e3o insens\u00edvel e subtilmente empurradas para as suas p\u00e1trias<br \/>\nde origem \u2013 e o Brasil todo, em vinte anos, ser\u00e1 uma China.<\/p>\n<p>Os nativistas estourar\u00e3o de dor e nojo. E como, por caridade intelectual,<br \/>\n\u00e9 necess\u00e1rio que a todo o esp\u00edrito se d\u00ea alimento<br \/>\n\u2013 metade da Gazeta de Not\u00edcias ser\u00e1 impressa em chin\u00eas.<br \/>\nBom \u00e9, pois, que comeceis a reler o vosso Conf\u00facio, camaradas<br \/>\n\u2013 e que vos inicieis nos divinos livros fundamentais, o Chu-King, que<br \/>\n\u00e9 o Livro das Mem\u00f3rias, o Chi-King, que \u00e9 o Livro das<br \/>\nImagina\u00e7\u00f5es, o Ji-King, que \u00e9 o Livro das Mudan\u00e7as,<br \/>\ne o Li-King, que \u00e9 o Livro dos Ritos.<\/p>\n<p>De resto, todo esse chinesismo n\u00e3o ser\u00e1 para o Brasil sen\u00e3o<br \/>\num ligeiro acr\u00e9scimo de confus\u00e3o. E depois, quem sabe? Talvez<br \/>\na influ\u00eancia ambiente do confucionismo infiltre enfim e derrame no pa\u00eds<br \/>\nos princ\u00edpios salutares da doutrina perfeita \u2013 o amor da disciplina,<br \/>\ndo respeito, da toler\u00e2ncia, da ordem e da paz laboriosa.<\/p>\n<h2>O CZAR E A R\u00daSSIA<\/h2>\n<p>O czar Alexandre III, que a R\u00fassia est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas<br \/>\nsemanas sepultando com uma pompa t\u00e3o morosa e difusa, era um homem<br \/>\nexcelente, pac\u00edfico, probo e patriota. Estas qualidades, estim\u00e1veis<br \/>\ne puras, n\u00e3o merecem geralmente canoniza\u00e7\u00e3o. Delas, quando<br \/>\npossu\u00eddas e exercidas por um merceeiro, n\u00e3o resultar\u00e3o,<br \/>\ncomo benef\u00edcio para a humanidade, sen\u00e3o alguns quilos de a\u00e7\u00facar<br \/>\npesados com honestidade, ou lumin\u00e1rias penduradas de uma varanda nos<br \/>\nanivers\u00e1rios festivos de pr\u00edncipes e constitui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPossu\u00eddas, por\u00e9m, e exercidas por um autocrata todo-poderoso,<br \/>\nelas ganham uma magnitude e uma irradia\u00e7\u00e3o proporcionadas \u00e0<br \/>\nvontade ilimitada que as exerce, e delas podem provir bens inestim\u00e1veis<br \/>\npara um povo, mesmo para todo um agrupamento de povos. Ora, o czar \u00e9<br \/>\num autocrata omnipotente e de uma omnipot\u00eancia sem igual na hist\u00f3ria,<br \/>\npelo menos na hist\u00f3ria da Europa civilizada. Mesmo nas grandes civiliza\u00e7\u00f5es<br \/>\nasi\u00e1ticas, os soberanos n\u00e3o disp\u00f5em de um poder t\u00e3o<br \/>\nincircunscrito.<\/p>\n<p>Assim na China, al\u00e9m dos costumes imut\u00e1veis e dos ritos que<br \/>\npeiam a autoridade do imperador, h\u00e1 ainda, para a conter e reter, a<br \/>\nfor\u00e7a dos vice-reis, como o vice-rei de Cant\u00e3o ou o vice-rei<br \/>\nde Pechili, que, dispondo sem fiscaliza\u00e7\u00e3o dos tesouros e dos<br \/>\nex\u00e9rcitos das suas prov\u00edncias, constituem \u00fateis e formid\u00e1veis<br \/>\ncentros de oposi\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia, por\u00e9m, a autocracia \u00e9 absoluta e mais ilimitada<br \/>\nque a dos c\u00e9sares de Roma, de quem os czares, como herdeiros do cisma<br \/>\ngrego e atrav\u00e9s dos c\u00e9sares de Biz\u00e2ncio, s\u00e3o os<br \/>\nsucessores remotos. Os c\u00e9sares n\u00e3o eram propriamente d\u00e9spotas,<br \/>\ntal como se entendia ent\u00e3o o despotismo, e como ele existia no Oriente,<br \/>\nsobretudo na P\u00e9rsia, onde n\u00e3o havia estado, nem leis, nem opini\u00e3o,<br \/>\nnem propriamente homens conscientes, apenas uma horda tremenda de escravos<br \/>\nque o grande rei podia mutilar, matar, vender, lan\u00e7ar em manadas para<br \/>\naqui ou para al\u00e9m, como gado vil. Decerto Roma viu formas violentas<br \/>\nde tirania, sob certos pr\u00edncipes de natureza perversa ou transviados<br \/>\npor esse desequil\u00edbrio da vontade absoluta que se chamou a \u00abloucura<br \/>\ncesariana\u00bb. Mas eram crises transit\u00f3rias \u2013 n\u00e3o situa\u00e7\u00f5es<br \/>\nnormais. O cesarismo foi sempre na realidade uma monarquia temperada. Assim<br \/>\no consideravam os contempor\u00e2neos e os que estavam ainda pr\u00f3ximos<br \/>\nde um Nero, de um Cl\u00e1udio, de um Domiciano. \u00abN\u00e3o se deve<br \/>\nconfundir (diz o liberal Pl\u00ednio) o principado romano com o despotismo.\u00bb<br \/>\nAs antigas liberdades n\u00e3o s\u00f3, depois do imp\u00e9rio, tinham<br \/>\nficado nas leis, mas nos costumes.<\/p>\n<p>Em face dos c\u00e9sares restavam ainda muitas for\u00e7as vivas para<br \/>\nos constranger e moderar.<\/p>\n<p>Todas as magistraturas que eles nomeavam e que os ajudavam a governar o<br \/>\nimp\u00e9rio, esse Senado augusto cuja autoridade era mais antiga que a<br \/>\nsua e revestida de car\u00e1cter religioso, a opini\u00e3o p\u00fablica<br \/>\nimpaciente e loquaz, as tradi\u00e7\u00f5es, as maneiras, a sociedade,<br \/>\no patriciado, o culto, o pr\u00f3prio passado glorioso de Roma, a mem\u00f3ria<br \/>\nsempre viva dos altos feitos e das altas virtudes, eram outras for\u00e7as<br \/>\nessas que podiam fortemente limitar, e limitavam, o poder dos c\u00e9sares.<br \/>\nSomente, e da\u00ed provinha o mal, a marca\u00e7\u00e3o desses limites<br \/>\nn\u00e3o se achava constitucionalmente determinada e fixa. Nero dizia, com<br \/>\nraz\u00e3o, que os imperadores nunca sabiam exactamente o que lhes era permitido<br \/>\nou vedado. O mesmo podiam afirmar os magistrados e o Senado. Atrav\u00e9s<br \/>\ndesta incerteza se puderam produzir os males e os crimes que enegrecem a hist\u00f3ria<br \/>\naugusta. O poder cesariano n\u00e3o era ilimitado, era antes mal limitado.<\/p>\n<p>Mas mesmo dentro desses limites incertos ele foi sempre em princ\u00edpio<br \/>\n(princ\u00edpio que ainda, sob imperadores deleit\u00e1veis, se traduzia<br \/>\nem realidades) exercido em nome do povo e do Senado. Com o povo, na verdade,<br \/>\nos imperadores n\u00e3o contavam, porque o povo, desde Augusto, se desinteressara<br \/>\ndas coisas p\u00fablicas e j\u00e1 nem compreendia o orgulho ou o proveito<br \/>\nda liberdade. Quando Cal\u00edgula reuniu novamente os com\u00edcios populares,<br \/>\nsuprimidos por Tib\u00e9rio, nem um s\u00f3 homem da plebe romana apareceu<br \/>\npara votar. Estavam todos nos teatros, nos banhos, nas festas, nas romanas.<br \/>\nContando que as subsist\u00eancias permanecessem baratas e os espect\u00e1culos<br \/>\ninteressantes, o velho povo romano aplaudia o seu pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se o p\u00e3o encarecia, se os jogos circenses eram chochos,<br \/>\na velha independ\u00eancia e altivez romanas reapareciam e as est\u00e1tuas<br \/>\ndo imperador, por vezes mesmo a pessoa do imperador, recebiam dessas vaias<br \/>\nde infinita mal\u00edcia que os Italianos foram sempre magistrais.<\/p>\n<p>Os imperadores sorriam paternalmente e confiados. Fora a plebe que os fizera,<br \/>\ntirava deles um lucro seguro e n\u00e3o havia receio que o trocassem pelas<br \/>\nconting\u00eancias e mis\u00e9rias da rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>O Senado, por\u00e9m, esse era o terror dos imperadores. O sacro e augusto<br \/>\ncorpo dos padres conscritos conservava todo o seu prest\u00edgio, e o mundo<br \/>\nromano era para ele que olhava e dele que esperava. O que contribu\u00eda<br \/>\npara a sua import\u00e2ncia universal e mantinha a certeza (e mesmo a lenda)<br \/>\ndo seu poder, eram as largas mostras de respeito, de respeito humilde e filial,<br \/>\nque lhe prodigalizavam os c\u00e9sares. Todos desde Augusto se esfor\u00e7avam<br \/>\nem n\u00e3o aparecer sen\u00e3o como servidores do Senado. Mesmo sob os<br \/>\nmais demag\u00f3gicos e violentos, ele permanecia, segundo a express\u00e3o<br \/>\nde um deles, de Othon, \u00aba cabe\u00e7a e a honra do imp\u00e9rio\u00bb.<br \/>\nO pr\u00f3prio Nero concorreu para lhe aumentar o brilho e a dignidade,<br \/>\ne portanto, numa sociedade t\u00e3o hierarquizada como a sociedade romana,<br \/>\na influ\u00eancia e o mando.<\/p>\n<p>As persegui\u00e7\u00f5es que um Cl\u00e1udio ou um Domiciano exerceram<br \/>\ncontra ele provavam ainda o seu poder e a pesada sombra que ele fazia \u00e0<br \/>\nautoridade imperial. Decerto o Senado deu por vezes, em tempos j\u00e1 muito<br \/>\nservis, o exemplo de todos os servilismos, porque a fraqueza dos homens vicia<br \/>\ne anula as institui\u00e7\u00f5es mais fortes. Mas n\u00e3o impede que,<br \/>\ndurante todo o imp\u00e9rio, os c\u00e9sares sentissem sobre eles aquele<br \/>\nsoberano corpo pol\u00edtico, e a um ponto que o mais intratavelmente orgulhoso,<br \/>\num Tib\u00e9rio, n\u00e3o praticava acto de que n\u00e3o desse explica\u00e7\u00f5es<br \/>\nao Senado numa dessas \u00abgrandes e verbosas cartas\u00bb que a cada instante<br \/>\nchegavam de Capreia.<\/p>\n<p>O imperador da R\u00fassia \u00e9 que n\u00e3o tem explica\u00e7\u00f5es<br \/>\na dar a ningu\u00e9m, sen\u00e3o a Deus. O seu poder, mais absoluto que<br \/>\no de Lu\u00eds XVI porque n\u00e3o \u00e9 contrabalan\u00e7ado pelos<br \/>\nparlamentos, mais absoluto que o de Filipe porque n\u00e3o \u00e9 coarctado<br \/>\npelos fueros, corresponde de facto ao do gr\u00e3o-sult\u00e3o, no velho<br \/>\nImp\u00e9rio Otomano, que s\u00f3 tinha por limites a religi\u00e3o.<br \/>\nCom a diferen\u00e7a, por\u00e9m, que o sult\u00e3o podia ser deposto<br \/>\npor um decreto dos ulem\u00e1s e dos mollahs congregados em conc\u00edlio<br \/>\n\u2013e n\u00e3o h\u00e1 conc\u00edlio de metropolitas russos que possa<br \/>\nsuprimir uma parcela de poderio dos czares. Essa soberania \u00e9 una, indivis\u00edvel,<br \/>\ninalien\u00e1vel. Fundada sobre o sistema dos principados feudais, ela \u00e9<br \/>\ncomo uma propriedade, um morgado herdado por cada imperador, e seria nele<br \/>\nquase uma covardia, pelo menos uma baixeza, o abandonar aos seus vassalos,<br \/>\nindividualmente ou constitu\u00eddos em assembleia, uma por\u00e7\u00e3o,<br \/>\nainda m\u00ednima, do dep\u00f3sito que recebeu intacto dos antepassados<br \/>\ne que deve transmitir intacto a seus filhos. N\u00e3o s\u00f3 pela tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmedieval o czar \u00e9 o propriet\u00e1rio, o dono da R\u00fassia e<br \/>\nde todos os russos, mas pela teoria dos legistas \u00e9, como czar, o \u00fanico<br \/>\ne perp\u00e9tuo representante da na\u00e7\u00e3o, e ainda pela doutrina<br \/>\ndos te\u00f3logos \u00e9, como David, o delegado especial de Deus sobre<br \/>\na Terra. Tem a tr\u00edplice consagra\u00e7\u00e3o do costume, da lei<br \/>\ne do dogma. A civiliza\u00e7\u00e3o, a filosofia, a ci\u00eancia, a absor\u00e7\u00e3o<br \/>\nda cultura europeia t\u00eam ado\u00e7ado nas suas formas, mas n\u00e3o<br \/>\nalterado na sua ess\u00eancia, esta vetusta concep\u00e7\u00e3o da soberania<br \/>\nrussa.<\/p>\n<p>O excelente Alexandre III era, na realidade, t\u00e3o absoluto como o<br \/>\nmedonho Ivan III, h\u00e1 trezentos anos. Esse Ivan dizia aos Russos, para<br \/>\nlhes definir bem as rela\u00e7\u00f5es de czar a vassalo: \u00abEu sou<br \/>\no vosso deus, como Deus \u00e9 o meu!\u00bb E o povo russo assim o entendia.<br \/>\nPor isso suportava todas as crueldades do soberano, n\u00e3o s\u00f3 em<br \/>\nperfeita submiss\u00e3o, mas ainda adorando, e com as m\u00e3os erguidas<br \/>\npara ele, como as ra\u00e7as muito crentes, quando Deus lhe manda as priva\u00e7\u00f5es<br \/>\nda fome ou da peste. Alexandre III n\u00e3o dava da sua soberania a mesma<br \/>\nf\u00f3rmula de Ivan, mas, no fundo, tinha dela a mesma ideia: e a R\u00fassia<br \/>\ncontinua a consentir nessa ideia, se n\u00e3o j\u00e1 com fervor devoto,<br \/>\ncomo nas idades b\u00e1rbaras, pelo menos com respeito jur\u00eddico.<\/p>\n<p>Ora, num soberano possuidor de tal poder, estas virtudes simples de do\u00e7ura,<br \/>\nprobidade, patriotismo, esp\u00edrito pac\u00edfico, respeito da vida<br \/>\nhumana, que num mero cidad\u00e3o n\u00e3o t\u00eam sen\u00e3o uma<br \/>\nac\u00e7\u00e3o restrita \u00e0 fam\u00edlia, e num rei constitucional<br \/>\nn\u00e3o t\u00eam sen\u00e3o uma ac\u00e7\u00e3o restrita \u00e0<br \/>\ncorte \u2013 s\u00e3o de um alcance universal e influem nos destinos do<br \/>\nmundo, sobretudo quando a omnipot\u00eancia desse omnipotente se estende<br \/>\na cento e cinquenta milh\u00f5es de homens! Mais que tudo ainda quando a<br \/>\nessas virtudes se junta, como no imperador Alexandre, o sentimento religioso<br \/>\nda sua responsabilidade para com Deus \u2013 e quando, sob o olhar desse<br \/>\nDeus, que ele sente e que o manda, se aplica a exercer com indom\u00e1vel<br \/>\ntenacidade, com um impulso nunca afrouxado, no que \u00e9 grande e no que<br \/>\n\u00e9 m\u00ednimo, essas virtudes que recebeu de Deus. Ent\u00e3o a<br \/>\nsua do\u00e7ura natural pode produzir ao longe a felicidade de vastas massas<br \/>\npopulares; a sua probidade instintiva dilatar-se-\u00e1 em fecunda ger\u00eancia<br \/>\nda riqueza p\u00fablica. O seu patriotismo criar\u00e1 talvez a expans\u00e3o<br \/>\ne engrandecimento da p\u00e1tria; as tend\u00eancias do seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npac\u00edfico podem dar a paz ao mundo. A sua omnipot\u00eancia opera como<br \/>\numa alavanca, que, sob a press\u00e3o de cinco dedos, e n\u00e3o dedos<br \/>\nenormes do gigante Golias, mas dedos usuais e fr\u00e1geis do mediano homem<br \/>\nque passa, levantar\u00e1 facilmente a mais monstruosa das rochas. E assim,<br \/>\npor possuir as tr\u00eas ou quatro qualidades que quase todos possu\u00edmos,<br \/>\npermanecendo com elas em incur\u00e1vel obscuridade, o soberano absoluto,<br \/>\ndo tipo do czar, fica ilustre e um homem da hist\u00f3ria, principalmente<br \/>\nse teve a felicidade de viver num tempo como o nosso, tumultuoso e vazio,<br \/>\ntempo de muita turba e poucos homens.<\/p>\n<p>O czar Alexandre era caracteristicamente um russo. Ele pr\u00f3prio costumava<br \/>\ndizer, segundo contam, \u00abque a \u00fanica justifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um czar era o seu russianismo\u00bb. Mais que russo, o czar era um mujique,<br \/>\num genu\u00edno mujique coroado. Do mujique tinha a robustez enorme e mal<br \/>\nfeita, o andar bovino e lento, o olhar cismador. Os seus prazeres eram os<br \/>\ntrabalhos rudes de homem dos campos, em luta com a Natureza \u00e1spera<br \/>\n\u2013 desbastar mato, derrubar \u00e1rvores, rachar lenha.<\/p>\n<p>Em Gatchina, onde ele se escondia como numa cidadela, havia sempre, durante<br \/>\no Inverno, algumas ruas do parque a que se n\u00e3o limpava a neve \u2013<br \/>\nporque era o imperador que todas as manh\u00e3s a levantava com uma imensa<br \/>\np\u00e1 proporcionada \u00e0 sua imensa for\u00e7a e uma pesada carro\u00e7a,<br \/>\na que o senhor da R\u00fassia se atrelava. E com tudo isto, numa ternura<br \/>\nde simples, devotamente fiel \u00e0 czarina, em adora\u00e7\u00e3o diante<br \/>\ndos filhos, tremendo se um deles tossia ou dormia mal, e sacudindo pap\u00e9is<br \/>\nde Estado e cuidados do imp\u00e9rio para lhes ir consertar bonecos, ou<br \/>\npara os divertir no jardim com engra\u00e7adas fa\u00e7anhas de for\u00e7a.<\/p>\n<p>A sua intelig\u00eancia era lenta e pouco curiosa. Nunca foi homem de livros,<br \/>\nnem o interessavam as coisas da cone. O seu gosto tendia antes para o que<br \/>\n\u00e9 intrinsecamente precioso e que brilha \u2013 e coleccionava com<br \/>\nardor obras de ourivesaria, pedrarias, baixelas. No teatro, estimava sobretudo<br \/>\nos dramalh\u00f5es tremendos em que se chora, em que ele chorava. A sua<br \/>\nsuperioridade residia toda no car\u00e1cter \u2013 e sobretudo na incompar\u00e1vel<br \/>\nprobidade, no zelo ansioso com que cumpria o seu of\u00edcio de reinar.<br \/>\nO imp\u00e9rio, para Alexandre III, n\u00e3o era uma sinecura espl\u00eandida.<br \/>\nAssim como possu\u00eda todos os poderes, tomava a seu cargo todas as fun\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNaquela centraliza\u00e7\u00e3o grosseira, sem fiscaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne sem publicidade, ele tinha de substituir a sua vontade e a sua ac\u00e7\u00e3o<br \/>\na todas as ac\u00e7\u00f5es e vontades abolidas. Assim que se tratasse<br \/>\nde uma alian\u00e7a pol\u00edtica ou do conserto de uma estrada, era o<br \/>\nimperador quem decidia e dava o impulso. Um tal regime necessita uma energia<br \/>\nindom\u00e1vel, uma severidade minuciosa, um discernimento quase infal\u00edvel.<br \/>\nNa realidade, necessita g\u00e9nio. O imperador substitu\u00eda a pequenez<br \/>\ndo g\u00e9nio pela imensidade da aplica\u00e7\u00e3o. Para governar<br \/>\npor um tal sistema, Frederico II da Pr\u00fassia levantava-se estremunhado<br \/>\n\u00e0s quatro da manh\u00e3; e Napole\u00e3o trabalhava dezoito horas<br \/>\npor dia; e mesmo \u00e0 mesa, ou no banho, ou enquanto o criado o esfregava<br \/>\ntodo com \u00e1gua-de-col\u00f3nia, ditava aos seus secret\u00e1rios.<br \/>\nE nem um nem outro dirigiam m\u00e1quinas que se possam comparar com a R\u00fassia,<br \/>\npela complica\u00e7\u00e3o, pela grandeza e pela irregularidade. O czar<br \/>\nrealmente morreu desse trabalho sobre-humano. Mesmo durante as suas f\u00e9rias,<br \/>\nno Ver\u00e3o, quando residia na Dinamarca, continuava a governar a R\u00fassia,<br \/>\nem todas as miudezas, do fundo do seu quarto do castelo de Trendenburg; e,<br \/>\npara o auxiliar na tarefa pavorosa, trazia apenas consigo um copista! Era<br \/>\nsofreguid\u00e3o de auto ridade ciumenta? Desconfian\u00e7a de colabora\u00e7\u00f5es<br \/>\ninfi\u00e9is e interesseiras? Paix\u00e3o de burocrata, como tem o sult\u00e3o?<br \/>\nTalvez um pouco de tudo \u2013 mas acima de tudo o sentimento austero da<br \/>\nsua responsabilidade. O seu zelo administrativo era ainda uma forma do seu<br \/>\nzelo religioso. \u00c0 noite, aquele imperador era o homem mais esfalfado<br \/>\nde todo o imp\u00e9rio. O trabalho aqui, pela magnitude, quase condizia<br \/>\ncom o sal\u00e1rio. Poucos mujiques, nos campos, teriam arquejado sobre<br \/>\na tarefa t\u00e3o duramente como o grande mujique coroado. Com os ombros<br \/>\nca\u00eddos, como se em cima carregasse a R\u00fassia, recolhia ent\u00e3o<br \/>\nao quarto da imperatriz, onde, pai simples, cercado dos seus, era ele que<br \/>\nfazia o ch\u00e1.<\/p>\n<p>forte unidade pol\u00edtica e religiosa todas as ra\u00e7as e todos os<br \/>\ncredos, de modo que n\u00e3o houvesse dentro da R\u00fassia sen\u00e3o<br \/>\nrussos, e russos ortodoxos. Assim fortalecia a sua pr\u00f3pria autoridade,<br \/>\nporque o czar, chefe temporal, \u00e9 tamb\u00e9m chefe espiritual. Para<br \/>\nesse imenso fim, n\u00e3o desdenhou nenhum meio, mesmo pequeno \u2013 como<br \/>\nquando ordenou que na corte se empregasse s\u00f3 a l\u00edngua russa,<br \/>\ne que as senhoras restaurassem os antigos trajes russos. Nem todos os seus<br \/>\nm\u00e9todos de russifica\u00e7\u00e3o foram decerto eficazes e h\u00e1beis<br \/>\n\u2013 porque n\u00e3o \u00e9 com finlandeses oprimidos que se fazem<br \/>\nrussos leais: e a expuls\u00e3o dos judeus, por princ\u00edpio ortodoxo,<br \/>\nn\u00e3o consolida a ortodoxia, nem a purifica, porque toda a seita que<br \/>\nse torna perseguidora perde da sua for\u00e7a e corrompe o seu esp\u00edrito.<br \/>\nMas no seu anti semitismo, o czar obedecia fatalmente \u00e0s suas \u00edntimas<br \/>\nantipatias de mujique. Esfor\u00e7o mais coerente e eficaz foi a sua met\u00f3dica<br \/>\nelimina\u00e7\u00e3o do elemento e da influ\u00eancia germ\u00e2nica.<br \/>\nSob o seu reinado, a R\u00fassia quase inteiramente se desgermanizou. E<br \/>\naqui ainda o seu interesse pol\u00edtico concordava com a sua simpatia dom\u00e9stica<br \/>\n\u2013 porque \u00e0 czarina, filha do rei da Dinamarca, o antigo vencido<br \/>\nde Koenisgratz, era naturalmente odioso todo o germanismo.<\/p>\n<p>Mas a obra grandiosa do czar foi a lenta extens\u00e3o da R\u00fassia<br \/>\npara a \u00c1sia, a marcha sobre o Afeganist\u00e3o, realizada com uma<br \/>\ntenacidade, um m\u00e9todo, um saber admir\u00e1veis, apesar de todos<br \/>\nos obst\u00e1culos geogr\u00e1ficos, da resist\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nferozes e fan\u00e1ticas, da esterilidade das regi\u00f5es, nunca at\u00e9<br \/>\na\u00ed transpostas, e do disp\u00eandio incalcul\u00e1vel de milhares<br \/>\nde homens.<\/p>\n<p>Para levar a cabo esta colossal ramifica\u00e7\u00e3o do seu imp\u00e9rio<br \/>\nasi\u00e1tico, o czar necessitava de dinheiro e paz. E estes preciosos factores<br \/>\nda obra s\u00f3 a Fran\u00e7a lhos poderia garantir \u2013porque as duas<br \/>\noutras na\u00e7\u00f5es ricas e fortes, a Alemanha e a Inglaterra, rivais<br \/>\nda R\u00fassia nas suas fronteiras da Europa e da \u00c1sia, nunca concorreriam,<br \/>\ncom empr\u00e9stimos ou alian\u00e7as, para o seu engrandecimento. Por<br \/>\nisso o czar naturalmente se voltou para a Fran\u00e7a. E nunca houve uma<br \/>\nalian\u00e7a mais l\u00f3gica, fundada em interesses mais positivos.<\/p>\n<p>Os Franceses, que gostam de embelezar todos os seus neg\u00f3cios com<br \/>\numa aur\u00e9ola de sentimento, falam da fraterniza\u00e7\u00e3o irreprim\u00edvel<br \/>\nda \u00abalma russa e da alma francesa\u00bb. Estas \u00abalmas\u00bb,<br \/>\nque n\u00e3o se conhecem e que nunca se compreenderam, foram inteiramente<br \/>\nalheias a essa alian\u00e7a ou acordo, que consistiu numa troca muito tang\u00edvel<br \/>\nde servi\u00e7os muito materiais. A Fran\u00e7a deu \u00e0 R\u00fassia<br \/>\nquatro milh\u00f5es, para que empreendesse a sua conquista asi\u00e1tica;<br \/>\ne a R\u00fassia, em recompensa, tirou a Fran\u00e7a do isolamento pol\u00edtico<br \/>\nem que ela jazia, fraca, apesar de t\u00e3o forte, perante os sete milh\u00f5es<br \/>\nde soldados da Tr\u00edplice Alian\u00e7a. Por sobre isto, \u00e9 certo,<br \/>\nmuitos abra\u00e7os se trocaram, muito champanhe estalou, muito lirismo<br \/>\nbateu o voo. Mas, na realidade, foi uma transac\u00e7\u00e3o, e extremamente<br \/>\nseca.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a entregou quatro mil milh\u00f5es de francos \u2013 a<br \/>\nR\u00fassia prometeu quatro milh\u00f5es de soldados. Mil francos por<br \/>\ncada soldado. N\u00e3o \u00e9 caro, para a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>O czar nunca estimou nem podia estimar a Fran\u00e7a. \u00c0quele autocrata<br \/>\ndevoto e pudico, tudo na Fran\u00e7a lhe devia repugnar \u2013 o seu radicalismo<br \/>\npol\u00edtico, o seu cepticismo religioso, o sensualismo da sua literatura<br \/>\ne da sua arte e mesmo o cosmopolitismo leviano da sua capital.<\/p>\n<p>Decerto a Alexandre III a Fran\u00e7a aparecia como o pa\u00eds de todas<br \/>\nas irrever\u00eancias e de todas as libertinagens. A grande obra civilizadora<br \/>\nda Fran\u00e7a, se jamais reflectiu nela, certamente a atribu\u00eda e<br \/>\na limitava \u00e0 antiga Fran\u00e7a hist\u00f3rica, a Fran\u00e7a<br \/>\ngovernada pelos seus reis. Com efeito, a influ\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nfrancesa sobre a R\u00fassia, no tempo em que foi mais viva, no s\u00e9culo<br \/>\nXVIII, era toda de sociedade e de corte e ia para Sampetersburgo, n\u00e3o<br \/>\nda Fran\u00e7a, nem mesmo de Paris, mas directamente de Versalhes. As classes<br \/>\nrussas afrancesadas ainda o s\u00e3o \u00e0 maneira do s\u00e9culo XIII;<br \/>\ne, mesmo lendo os livros modernos de Paris, procuram em Zola e em Bourget<br \/>\naquela coisa especial que procuravam em Dorat ou em Crebillon. Ora, este mesmo<br \/>\nfeitio franc\u00eas da sociedade russa era profundissimamente desagrad\u00e1vel<br \/>\nao czar. Para aquele puro e devoto monarca, o esp\u00edrito da Fran\u00e7a<br \/>\nsempre pareceu venenoso.<\/p>\n<p>Amava ele ao menos o car\u00e1cter dos Franceses, a sua sociabilidade,<br \/>\na sua limpidez intelectual, a sua gra\u00e7a inventiva e f\u00e1cil, a<br \/>\nsua fina arte de alindar e popularizar? \u00c9 duvidoso que a natureza do<br \/>\nczar fosse acess\u00edvel \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o destas qualidades.<br \/>\nO que \u00e9, por\u00e9m, certo \u00e9 que o povo, que em cem anos tem<br \/>\ndemolido treze vezes a sua estrutura pol\u00edtica e que se n\u00e3o cansa<br \/>\nem a tornar cada vez mais radical, mais positiva, mais irreligiosa, devia<br \/>\nchocar todas as opini\u00f5es e cren\u00e7as daquele soberano de direito<br \/>\nimut\u00e1vel, absoluto e divino. E no dia em que ele, num banquete de gala,<br \/>\nse ergueu, escutou de p\u00e9 A Marselhesa, fez indubitavelmente ao patriotismo<br \/>\ne aos interesses da R\u00fassia o sacrif\u00edcio de sentimentos muito<br \/>\n\u00edntimos, e muito enraizados, e muito queridos.<\/p>\n<p>E a Fran\u00e7a, compreende ela e estima a R\u00fassia? Certamente que<br \/>\nn\u00e3o \u2013 apesar do que tanto se tem declamado (mais em Paris que<br \/>\nem Sampetersburgo), nestes dois derradeiros anos, acerca da uni\u00e3o das<br \/>\nduas almas. N\u00e3o pode haver liga\u00e7\u00e3o de almas onde n\u00e3o<br \/>\nexista identidade de ideias, de cren\u00e7as e de costumes. Seria imposs\u00edvel<br \/>\numa estreita alian\u00e7a moral entre Franceses e Turcos. Ora a Turquia<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 moralmente mais separada da Fran\u00e7a do que a<br \/>\nR\u00fassia. Entre Paris e Moscovo n\u00e3o existem somente, para as dist\u00e2ncias,<br \/>\nmilhares de quil\u00f3metros (que de resto os comboios expressos cada dia<br \/>\nencurtam); existem sobretudo centenas de anos, quatro ou cinco longos s\u00e9culos.<br \/>\nE sempre entre a R\u00fassia e a Fran\u00e7a se deu este radical desencontro<br \/>\nde progresso e barbaria. No s\u00e9culo XIII, quando a Fran\u00e7a e a<br \/>\nEuropa ocidental est\u00e3o na plenitude da civiliza\u00e7\u00e3o medieval,<br \/>\ne nas escolas ressoa o tumulto da filosofia, e nos conc\u00edlios se deliberam<br \/>\nas mais subtis quest\u00f5es espirituais, e os mosteiros s\u00e3o centros<br \/>\nfecundos de saber, e a arte g\u00f3tica desabrocha em maravilha, e por toda<br \/>\na parte resplende a honra a polidez da cavalaria \u2013 a R\u00fassia \u00e9<br \/>\nainda mais uma floresta que uma na\u00e7\u00e3o, onde os eslavos da plan\u00edcie,<br \/>\nhirsutos, mudos, cobertos de peles, esconchados em cho\u00e7as, s\u00e3o<br \/>\nmenos homens que bichos. Nos fins do s\u00e9culo XV, na Renascen\u00e7a,<br \/>\ndurante o m\u00e1ximo esplendor do g\u00e9nio europeu, no tempo dos grandes<br \/>\npoetas, dos grandes pintores, dos grandes humanistas, quando a diplomacia<br \/>\nsubstitui a for\u00e7a e os prazeres mais procurados s\u00e3o os do esp\u00edrito,<br \/>\ne o mundo est\u00e1 cheio de letrados e de finos amores de conversas doutas,<br \/>\ne os reis e os papas se disputam a posse dos artistas, e Francisco apanha<br \/>\nos pinc\u00e9is de Ticiano, e o faustoso D. Manuel passeia pelas veigas<br \/>\nde Sintra, entre Gil Vicente e Garcia de Resende \u2013 na R\u00fassia<br \/>\no czar Ivan IV, o homem mais civilizado do seu imp\u00e9rio, decepa por<br \/>\nsua m\u00e3o, com um grande cutelo, as cabe\u00e7as dos boiardos, faz<br \/>\ncozer em caldeir\u00f5es de cobre os pr\u00edncipes apaniguados e, depois<br \/>\nde comer brutalmente, como uma fera, vem para os p\u00e1tios da sua negra<br \/>\ncidadela ver ursos devorar as crian\u00e7as. No s\u00e9culo XVII, no grande<br \/>\ns\u00e9culo, quando Lu\u00eds XIV resplandece em Versalhes como o Sol,<br \/>\ne a gra\u00e7a e nobreza da vida e das maneiras atingiram a perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuprema, e a cultura e as belas-letras se respiravam como o ar, e qualquer<br \/>\nburguesa do Marais escrevia t\u00e3o puramente como os melhores da Academia,<br \/>\ne os escritores eram Boussuet, e Pascal, e Moli\u00e8re, e Corneille, e<br \/>\nRacine, e La Rochefoucauld, e Boileau \u2013 na R\u00fassia, em Sampetersburgo,<br \/>\nos homens de grenhas incultas at\u00e9 \u00e0 cintura, de barbas esqu\u00e1lidas<br \/>\nat\u00e9 ao umbigo, arrastavam pela lama grosseiras t\u00fanicas t\u00e1rtaras;<br \/>\nmesmo os nobres s\u00f3 tinham por distrac\u00e7\u00f5es bebedeiras<br \/>\ne brigas; as mulheres, tapadas com espessos v\u00e9us, viviam aferrolhadas,<br \/>\nsem permiss\u00e3o de sair \u00e0 rua, de aparecer a uma fresta, como<br \/>\nnos har\u00e9ns de Bagdade; e nas casas, mobiladas com rudes trastes de<br \/>\npinheiro mal pranchado, n\u00e3o havia um quadro, nem havia um livro, porque<br \/>\nningu\u00e9m na R\u00fassia sabia ler. Pedro, o Grande (esse czar genial<br \/>\nque, quando assistia \u00e0s sess\u00f5es do Senado, terminava sempre<br \/>\npor desancar os senadores com uma furiosa bengala), mandou, \u00e9 verdade,<br \/>\npor decreto, cortar todas as barbas e encurtar todas as t\u00fanicas; libertou,<br \/>\ntamb\u00e9m por decreto, as mulheres da sua reclus\u00e3o de serralho<br \/>\npersa; tornou obrigat\u00f3rias, ainda por decreto, as reuni\u00f5es sociais<br \/>\ne os saraus discretos; e estabeleceu, sempre por decreto, as maneiras com<br \/>\nque os fidalgos se deviam conduzir, os copos de aguardente a que se deviam<br \/>\nlimitar, os gestos de cortesia e defer\u00eancia com que deviam saudar as<br \/>\ndamas, e o n\u00famero moderado de chicotadas que poderiam descarregar sobre<br \/>\nos lacaios. Era um admir\u00e1vel czar \u2013 e vivia no tempo em que Racine<br \/>\nescrevia a Athalie e em que Lu\u00eds XIV, quando encontrava nos corredores<br \/>\nde Versalhes uma criada, se cosia com a parede e tirava o seu grande chap\u00e9u<br \/>\ncheio de pedrarias e plumas. Ao fim de trinta anos de energia, \u00e0 for\u00e7a<br \/>\nde rapar barbas, de substituir t\u00fanicas t\u00e1rtaras por big\u00f5es<br \/>\nfranceses e de impor aos seus nobres, por decreto imperial e sob pena de pris\u00e3o,<br \/>\nalguma amabilidade com as damas, conseguiu dar \u00e0 R\u00fassia, pelo<br \/>\nmenos \u00e0s classes superiores da R\u00fassia, uma vaga e exterior apar\u00eancia<br \/>\neuropeia.<\/p>\n<p>Mas, sob as barbas cortadas, as novas casacas de seda e as contum\u00e9lias<br \/>\nmal aprendidas \u2013 as almas ficavam russas, profundamente russas, como<br \/>\na do pr\u00f3prio Pedro, o Grande. T\u00e3o russas como eram no tempo<br \/>\nde Ivan IV, tendo apenas por fora, na roupa e nos modos, uma casquinha de<br \/>\nParis. E russas permanecem ainda, sob este czar gentil, de olhos pensativos,<br \/>\nque se chama Nicolau II, e que \u00e9 no fundo ainda um verdadeiro Ivan<br \/>\nIV por aquilo que mais importa num czar \u2013 o poder, o poder indiscriminado,<br \/>\nem frente ao qual n\u00e3o h\u00e1 outro poder. A dist\u00e2ncia moral,<br \/>\npois, que vai da Fran\u00e7a \u00e0 R\u00fassia \u00e9 a que vai de<br \/>\num Casimire P\u00e9rier a um Ivan IV. Maior ainda! Porque a Fran\u00e7a,<br \/>\npelo seu esp\u00edrito, j\u00e1 est\u00e1 no s\u00e9culo XX \u2013<br \/>\ne a R\u00fassia ainda se arrasta escuramente no esp\u00edrito do s\u00e9culo<br \/>\ndas Cruzadas, do Velho da Montanha e de Pedro, o Eremita.<\/p>\n<p>A R\u00fassia de facto \u00e9 uma velha casa asi\u00e1tica, que tem<br \/>\numa varanda rasgada sobre a Europa. A essa varanda ela surge frequentemente<br \/>\ne, de cima dela, interv\u00e9m, com a sua for\u00e7a e com a autoridade<br \/>\nque a for\u00e7a lhe d\u00e1, nos neg\u00f3cios da Europa.<\/p>\n<p>Nesses momentos, a R\u00fassia parece europeia, porque se reveste de um<br \/>\ntraje europeu, se serve de f\u00f3rmulas europeias.<\/p>\n<p>Um pouco do ar da Europa penetra ent\u00e3o pela varanda, levando o rumor<br \/>\ndas nossas ideias e da nossas inova\u00e7\u00f5es morais. Mas \u00e9<br \/>\num ar que mal passa das grades. E, quando as portas da varanda se cerram,<br \/>\ns\u00f3 h\u00e1 dentro um Oriente antigo e muito estranho, que n\u00f3s<br \/>\nn\u00e3o podemos compreender.<\/p>\n<p>Mas, apesar de t\u00e3o remotas moralmente, a Fran\u00e7a e a R\u00fassia<br \/>\nseguir\u00e3o politicamente unidas, porque, ainda que ricas e fortes, uma<br \/>\nprecisa sempre de mais dinheiro para se estabelecer na \u00c1sia, e a outra<br \/>\nsempre de mais ex\u00e9rcitos para se defender na Europa.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio, pois, que os Franceses se devam inquietar acerca das ideias<br \/>\ndeste in\u00e9dito czar Nicolau. Da sua varanda da Europa, ele continuar\u00e1,<br \/>\nnecessariamente, como o pai, a estender, por causa da Alemanha, um olhar amor\u00e1vel<br \/>\npara a Fran\u00e7a e para a sua grande for\u00e7a vital \u2013 o bom<br \/>\ncampon\u00eas de blusa azul que amontoa as boas pe\u00e7as de cinco francos,<br \/>\narrancadas \u00e0 seara e \u00e0 vinha. Quem mais se dever\u00e1 preocupar<br \/>\ncom as ideias do czar mo\u00e7o e todo-poderoso s\u00e3o os Russos, os<br \/>\nvastos eslavos na plan\u00edcie russa, para quem ele \u00e9 Deus e pai.<br \/>\nTer\u00e3o esses um czar de progresso, como o aristocr\u00e1tico e humanit\u00e1rio<br \/>\nAlexandre II, acess\u00edvel \u00e0 infiltra\u00e7\u00e3o das ideias<br \/>\ngerm\u00e2nicas e renovadoras, ou um czar de retrocesso, como o devoto e<br \/>\nplebeu Alexandre III, hostil a todo o germanismo e protector ultra-russo do<br \/>\nvelho partido russo? Como dizia n\u00e3o sei que poeta, num verso verdadeiro<br \/>\ne detest\u00e1vel:<\/p>\n<p>N\u00e3o se podem prever as coisas de t\u00e3o longe.<\/p>\n<p>E de resto, qualquer que seja o temperamento desenvolvido pelo czar Nicolau,<br \/>\na R\u00fassia continuar\u00e1 a ser R\u00fassia \u2013 isto \u00e9,<br \/>\num imenso imp\u00e9rio, tr\u00eas quartas partes do qual s\u00e3o asi\u00e1ticas,<br \/>\ne que tem portanto de ser governado como se fosse todo asi\u00e1tico, pela<br \/>\nvontade \u00fanica e indiscutida de um autocrata, atrav\u00e9s de um funcionalismo<br \/>\ntodo dependente dessa vontade e tremendo sempre no salutar terror dela, e<br \/>\nsob a san\u00e7\u00e3o tradicional de um clero servil e ignorante. S\u00f3<br \/>\nassim se governam os estados da \u00c1sia. E, como a R\u00fassia tem tamb\u00e9m<br \/>\numa fronteira europeia, conservar\u00e1, como factor da vida social e para<br \/>\nde algum modo praticar das agita\u00e7\u00f5es intelectuais da Europa,<br \/>\num ou outro Tolstoi, pregando um idealismo evang\u00e9lico, feito de renunciamento<br \/>\ne humildade, um pouco semelhante ao faquirismo dos pa\u00edses budistas<br \/>\ne ao santonismo dos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos, e que \u00e9 a \u00fanica<br \/>\nfilosofia poss\u00edvel e permiss\u00edvel num estado autocr\u00e1tico,<br \/>\nde raiz oriental, e ainda enfaixado e imobilizado nas concep\u00e7\u00f5es<br \/>\nsociais da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<h2>A SOCIEDADE E OS CLIMAS<\/h2>\n<p>H\u00e1 anos, h\u00e1 muitos anos, quando n\u00f3s todos \u00e9ramos<br \/>\nnovos e a pol\u00edtica se conservava ainda t\u00e3o rom\u00e2ntica como<br \/>\na literatura, um estadista nosso, Fontes Pereira de Melo, aquele a quem se<br \/>\nchamava concisamente o popularmente \u00abo Fontes\u00bb, dizia num discurso<br \/>\nde Estado, comparando Portugal \u00e0s outras na\u00e7\u00f5es da Europa,<br \/>\nestas palavras consoladoras: \u00abE certo que a nossa p\u00e1tria n\u00e3o<br \/>\npossui como outras a riqueza comercial, as numerosas vias f\u00e9rreas,<br \/>\nas incont\u00e1veis f\u00e1bricas, os estaleiros, a ferramenta industrial,<br \/>\nos fortes factores do progresso: mas tem sobre elas uma superioridade, que<br \/>\nlhe garante vida mais f\u00e1cil e mais livre, e \u00e9 este luminoso<br \/>\ne magn\u00edfico c\u00e9u azul que nos cobre!\u00bb Todos n\u00f3s,<br \/>\nent\u00e3o mo\u00e7os e pervertidos pelos livros sonoros de Eug\u00e9ne<br \/>\nPelletan, o divinizador da m\u00e1quina, o bardo her\u00f3ico do progresso,<br \/>\nrimos estridentemente deste homem de Estado l\u00edrico, quase id\u00edlico,<br \/>\nque considerava um peda\u00e7o de c\u00e9u azul como uma for\u00e7a<br \/>\ncivilizadora, antepunha a do\u00e7ura do ar a todas as magnific\u00eancias<br \/>\nda ci\u00eancia, celebrava a sua terra pelos mesmo motivos por que a exaltavam<br \/>\nos poetas do Almanaque de Lembran\u00e7as, e decerto quando lhe pedissem<br \/>\nideias de governo, de administra\u00e7\u00e3o e de fomento, se contentaria<br \/>\nem mostrar os raios do sol meridional, batendo, com providencial radi\u00e2ncia,<br \/>\nnas folhas dos laranjais. Rimos estridentemente. Mas o nosso riso era todo<br \/>\nfeito de inexperi\u00eancia e de ignor\u00e2ncia. Fontes, relacionando a<br \/>\nsociologia e o clima, fazendo depender da atmosfera as qualidades e, portanto,<br \/>\na felicidade das na\u00e7\u00f5es, estava com efeito dentro de uma doutrina<br \/>\nmuito med\u00edocre, apesar de o s\u00e9culo XVIII, t\u00e3o s\u00f4frego<br \/>\nde ci\u00eancias exactas, se ter deleitado com ela, e de Montesquieu se ter<br \/>\nconstitu\u00eddo o seu defensor paternal e cl\u00e1ssico. Segundo essa<br \/>\nteoria, em cada regi\u00e3o o solo e atmosfera influem irresisti velmente<br \/>\nsobre todos os produtos da Natureza, a come\u00e7ar pelos homens e a acabar<br \/>\npelos cogumelos. Tudo prov\u00e9m (como demonstra o grande autor do Esp\u00edrito<br \/>\ndas Leis) da ac\u00e7\u00e3o que o ar exerce sobre as fibras exteriores<br \/>\ndo nosso pobre corpo. O ar frio, como o da Inglaterra ou da Su\u00e9cia,<br \/>\naperta essas fibras, aumenta a sua elasticidade, d\u00e1-lhes, portanto,<br \/>\nresist\u00eancia e vigor. O ar quente, pelo contr\u00e1rio, como o de N\u00e1poles<br \/>\nou de Portugal, relaxa essa fibras, diminui a sua elasticidade, faz-lhes decrescer<br \/>\na presteza e a for\u00e7a. Quem ganha ou sofre com isto \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque recebe um influxo de sangue mais activo e vivo, quando as fibras t\u00eam<br \/>\nrobustez e elasticidade, e mais lento e mole, quando, sob a influ\u00eancia<br \/>\nde um ar c\u00e1lido, as fibras s\u00e3o lassas, lentas e frouxas. (\u00c9<br \/>\nainda Montesquieu que est\u00e1 falando.) Daqui resultam os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\nfortes dos homens do Norte e os cora\u00e7\u00f5es fracos dos homens do<br \/>\nSul. Ora, \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o que faz o car\u00e1cter. Os homens<br \/>\ndo Norte ter\u00e3o, pois, por causa desta fortaleza do cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmais confian\u00e7a em si, o que importa mais coragem: e ter\u00e3o uma<br \/>\nconsci\u00eancia mais clara da sua superioridade, o que lhes dar\u00e1<br \/>\nfranqueza, lealdade, generosidade, aud\u00e1cia de empreendimento, tenacidade<br \/>\nde conduta, um esp\u00edrito igual e justiceiro, horror \u00e0s intrigas,<br \/>\n\u00e0s manhas, \u00e0s trai\u00e7\u00f5es e \u00e0s vingan\u00e7as<br \/>\nobl\u00edquas. O desgra\u00e7ado homem dos climas quentes (sempre seguindo<br \/>\no grande autor do Esp\u00edrito das Leis), esse ter\u00e1 todas as qualidades<br \/>\ninversas, para sua eterna humilha\u00e7\u00e3o. Para ele, e em virtude<br \/>\ndas suas fibras moles e relaxadas, a covardia, a volubilidade, a inconst\u00e2ncia<br \/>\nde prop\u00f3sito, a indol\u00eancia de corpo e alma, a deslealdade, a<br \/>\ndesconfian\u00e7a, o amor da intriga, os gostos trai\u00e7oeiros e vingativos.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses frios (continua Montesquieu) est\u00e3o os povos s\u00e3os<br \/>\ne bem constitu\u00eddos, abundantes em virtudes, com poucos v\u00edcios,<br \/>\ntodos cheios de sinceridade e de clareza, amando s\u00f3 os prazeres que<br \/>\ns\u00e3o viris e puros. Nos climas temperados est\u00e3o as gentes sens\u00edveis,<br \/>\nimpression\u00e1veis, imaginativas, inconstantes tanto nas virtudes como<br \/>\nnos v\u00edcios, incapazes dos grandes esfor\u00e7os, loquazes e v\u00e3s.<br \/>\nMas quando se penetra nos climas verdadeiramente quentes (e a\u00ed est\u00e1<br \/>\nMontesquieu convosco, amigos!) parece que nos achamos a milhares de l\u00e9guas<br \/>\nda pr\u00f3pria moral: a\u00ed o corpo n\u00e3o tem resist\u00eancia<br \/>\ne o abatimento contamina o esp\u00edrito: n\u00e3o h\u00e1 nenhuma alta<br \/>\ncuriosidade, nenhuma nobre empresa, nenhum sentimento generoso: todas as inclina\u00e7\u00f5es<br \/>\ns\u00e3o passivas ou baixas; a felicidade consiste na pregui\u00e7a, o<br \/>\nego\u00edsmo \u00e9 o m\u00f3bil supremo: as m\u00e1s paix\u00f5es<br \/>\nmultiplicam os crimes torpes: e, para n\u00e3o fazerem sequer o esfor\u00e7o<br \/>\nde se conduzirem e governarem a si pr\u00f3prios, os homens preferem a escravid\u00e3o!<br \/>\nO quadro \u00e9 medonho. Mas como \u00e9 falso e estouvadamente improvisado!<br \/>\nE como s\u00e3o corredias e f\u00e1ceis as objec\u00e7\u00f5es que<br \/>\nse podem p\u00f4r aos manes vener\u00e1veis de Montesquieu, sobre a sua<br \/>\ndilecta doutrina das influ\u00eancias climat\u00e9ricas.<\/p>\n<p>O solo e a atmosfera de Atenas n\u00e3atilde;o mudaram desde que essa atmosfera<br \/>\ne esse solo criaram a ra\u00e7a que repeliu as invas\u00f5es do Oriente,<br \/>\ndeu \u00e0 humanidade os maiores dos fil\u00f3sofos e os maiores dos artistas<br \/>\ne foi a m\u00e3e augusta da civiliza\u00e7\u00e3o. Como sucede ent\u00e3o<br \/>\nque, nesse mesmo solo e sob essa mesma atmosfera, vive e respira hoje apenas<br \/>\numa popula\u00e7a ignara, onde n\u00e3o h\u00e1 um fil\u00f3sofo nem<br \/>\num artista, e t\u00e3o frouxa que n\u00e3o consegue desembara\u00e7ar-se<br \/>\nsequer das suas quadrilhas de salteadores, ela que outrora sacudiu como simples<br \/>\np\u00f3 os ex\u00e9rcitos de Xerxes? O mesmo f\u00e1cil argumento se<br \/>\npodia transportar para Roma, que conserva o mesmo solo, o mesmo ar, e que<br \/>\ntodavia (sem fazer ofensa aos seus generais, aos seus poetas, aos seus oradores)<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 a Roma dos Cipi\u00f5es, dos C\u00e9sares, dos Virg\u00edlios,<br \/>\ndos T\u00e1citos, dos Cat\u00f5es. Mas \u00e9 sobretudo Paris, o pr\u00f3prio<br \/>\nParis, que deve embara\u00e7ar Montesquieu. O imperador Juliano, que muito<br \/>\ntempo habitou entre os Parisienses, nestas margens do Sena, diz no seu livro<br \/>\ndo Misopogon que o que mais o encantava nesses Parisienses era a gravidade<br \/>\ndo seu car\u00e1cter e a austeridade dos seus costumes! Ora o mesmo rio<br \/>\ncorre entre as mesmas margens: ainda nelas restam as ru\u00ednas do pal\u00e1cio<br \/>\nde Juliano e das termas que ele edificou: e o mesmo solo, segundo a teoria<br \/>\nde Montesquieu, devia produzir os mesmos caracteres graves, e a mesma atmosfera<br \/>\ndevia produzir os mesmos costumes puros. E onde est\u00e3o elas hoje, essa<br \/>\nausteridade e essa pureza? O pr\u00f3prio nome de Paris simboliza tudo quanto<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 grave nem puro \u2013 e Paris \u00e9, segundo todos<br \/>\nos escritores que o t\u00eam explicado e celebrado, o ber\u00e7o natural<br \/>\ndos risos, dos jogos, das gra\u00e7as inconstantes e dos v\u00edcios am\u00e1veis<br \/>\ne finos. Pode, pois, haver ainda alguma esperan\u00e7a para os povos que<br \/>\nvivem com trinta e quatro graus de calor \u00e0 sombra, e que o duro Montesquieu<br \/>\ncondena por isso a uma fatal e irresgat\u00e1vel inferioridade.<\/p>\n<p>Os climas n\u00e3o s\u00e3o, como ele pretende, t\u00e3o rigidamente<br \/>\nl\u00f3gicos na sua ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre o mesmo solo e dentro do mesmo ar pode haver duas Atenas, uma grandiosa,<br \/>\noutra reles. E debaixo dos tr\u00f3picos, esses criadores fatais da moleza,<br \/>\ndo v\u00edcio e da servid\u00e3o, brota muita energia, muita virtude,<br \/>\nmuito civismo. As qualidade fortes e as qualidades fracas n\u00e3o est\u00e3o<br \/>\ndivididas na Terra por zonas, como as plantas \u2013 de outro modo os Lap\u00f3nios<br \/>\ne os Gronelandeses seriam os povos superiores da humanidade, e n\u00e3o<br \/>\nse poderiam explicar o hero\u00edsmo, a nobreza e a disciplina social dos<br \/>\nZulos, que ocupam algumas das mais t\u00f3rridas regi\u00f5es da \u00c1frica.<br \/>\nDe facto, por esta teoria, toda a hist\u00f3ria se tornaria incompreens\u00edvel<br \/>\n\u2013 e a civiliza\u00e7\u00e3o do Alto Egipto, as destemidas conquistas<br \/>\nde Cartago, a grandeza intelectual dos Hindus seriam fen\u00f3menos absurdos,<br \/>\n\u00f3 meu ilustre Montesquieu! Se esta teoria dos climas, como a popularizou<br \/>\no espirituoso autor do Esp\u00edrito das Leis, na sua generaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ntir\u00e2nica, n\u00e3o se mant\u00e9m perante a ci\u00eancia e a hist\u00f3ria<br \/>\n\u2013 \u00e9 certo que a felicidade dos homens e dos povos depende consideravelmente<br \/>\ndo solo e do ar em que Deus os colocou. H\u00e1 em primeiro lugar a tremenda<br \/>\nquest\u00e3o dos confortos materiais! S\u00e3o eles, sobretudo eles, que<br \/>\ncomplicam a vida, a dificultam, lhe d\u00e3o o seu \u00e1spero car\u00e1cter<br \/>\nde luta. O nevoeiro, a humidade, o frio, a neve, causam em grande parte os<br \/>\nmales humanos \u2013 os males morais e os males sociais. Para se resguardarem<br \/>\ndessas intemp\u00e9ries \u00e9 que os homens necessitam casas bem apetrechadas,<br \/>\ne fog\u00f5es, e calor\u00edferos, e tapetes, e grossas cortinas, e veludos<br \/>\npesados, e mob\u00edlias acolchoadas, e peles, e carruagens, e a abund\u00e2ncia<br \/>\ndas luzes alegres. \u00c9 de facto para contrabalan\u00e7ar a mis\u00e9ria<br \/>\ndos climas r\u00edspidos que o homem apetece o luxo. S\u00f3 na beleza,<br \/>\nno brilho, nas formas ricas das coisas \u00edntimas que o cercam ele consegue<br \/>\nesquecer a fealdade e a monotonia de c\u00e9us sempre cinzentos e soturnos.<br \/>\nOra como nestas nossas imperfeitas civiliza\u00e7\u00f5es os confortos<br \/>\ne o luxo n\u00e3o se alcan\u00e7am sem dinheiro, e o dinheiro, desde os<br \/>\ngrandes erros de Eva e de Caim, n\u00e3o se alcan\u00e7a sem esfor\u00e7o,<br \/>\neis a vida tornada uma luta ansiosa e dolorosa para a conquista de um pouco<br \/>\nde ouro, ou de peda\u00e7os de papel enxo valhado que represente ouro. Da\u00ed<br \/>\nestas nossas sociedades ocidentais t\u00e3o tumultuosas, t\u00e3o confusas,<br \/>\ncom as suas f\u00e1bricas, os seus bazares, os seus bancos, as suas bolsas,<br \/>\na sua agiotagem, as suas greves, as suas revoltas, os seus crimes, a sua febre,<br \/>\na sua instabilidade, as suas opress\u00f5es escandalosas, as suas incur\u00e1veis<br \/>\nmis\u00e9rias. E tudo porque durante sete meses do ano do Senhor chove,<br \/>\nventa, neva, gela, e o c\u00e9u \u00e9 como um tecto mortu\u00e1rio,<br \/>\nforrado de papel pardo. Que se compare o homem de Londres, de Paris, de Berlim<br \/>\n\u2013 com o homem do Oriente, o feliz habitante de Damasco, ou o \u00e1rabe<br \/>\nda Palestina, ou o hindu na sua aldeia. Um abafado em peles at\u00e9 aos<br \/>\nolhos, com as cal\u00e7as arrega\u00e7adas, as m\u00e3os ambas agarradas<br \/>\nao guarda-chuva, cortando o vento, chapinhando a neve, com trevas por cima<br \/>\ne trevas em redor, arrepiado e sujo, l\u00e1 vai numa az\u00e1fama, por<br \/>\nentre a turba azafamada, aos encontr\u00f5es, na s\u00f4frega luta para<br \/>\nganhar artificialmente aquilo que a Natureza lhe recusou, um pouco de calor,<br \/>\numa pouca de claridade, um pouco de conforto, um pouco de bem-estar. A mesma<br \/>\nhora, o hindu na sua aldeia, o \u00e1rabe de Damasco no seu quintalejo,<br \/>\nserenos, sem pressas e sem cuidados, est\u00e3o cobertos pelo esplendor<br \/>\nde um c\u00e9u que \u00e9 uma fonte de alegria: um ar mais doce e macio<br \/>\nque todos os nossos veludos envolve-o numa constante car\u00edcia: para<br \/>\nse cobrir, um c\u00f4vado de linho branco lhe basta, um pouco de arroz e<br \/>\nmilho colhidos sem esfor\u00e7o, os frutos de cada \u00e1rvore, a \u00e1gua<br \/>\nl\u00edmpida da fonte comum s\u00e3o o banquete que Deus cada dia lhe<br \/>\noferece: em torno s\u00f3 v\u00ea formas graciosas e luminosas: a sua vida<br \/>\n\u00e9 toda de repouso e n\u00e3o tem terrores. Mas nem precisamos peregrinar<br \/>\nt\u00e3o longe, \u00e0 S\u00edria ou \u00e0 \u00cdndia.<\/p>\n<p>Paremos em Espanha ou Portugal, e comparemos o trabalhador do Algarve, ou<br \/>\ndas veigas da Inglaterra. Um tra\u00e7o \u00fanico marca as diferen\u00e7as<br \/>\nque opera um c\u00e9u hostil ou um c\u00e9u af\u00e1vel. No Sul o trabalho<br \/>\n\u00e9 todo feito a cantar, como uma devo\u00e7\u00e3o; no Norte o trabalho<br \/>\n\u00e9 feito sombriamente, quase amargamente, como uma condena\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAo fim do labor, largada a enxada ou a ferramenta, o repouso do homem do Sul<br \/>\n\u00e9 ainda gozado entre cantigas e dan\u00e7as, porque do seu dia afadigado<br \/>\ns\u00f3 lhe resta satisfa\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a; o homem do<br \/>\nNorte procura o repouso na garrafa de gim ou de \u00e1lcool, porque do seu<br \/>\ndia s\u00f3 quer esquecer a mis\u00e9ria e a aspereza. E porque \u00e9<br \/>\nesta diferen\u00e7a entre os dois trabalhadores? Porque um trabalha numa<br \/>\nNatureza que o afaga \u2013 e o outro numa Natureza que o atormenta.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 sobretudo nos temperamentos que os climas influem de um modo<br \/>\ntir\u00e2nico. Paris \u00e9 um exemplo, quase t\u00e3o doloroso, dessa<br \/>\nlei crua.<\/p>\n<p>Na Primavera, sob o afago macio do ar resplandecente, tudo nesta cidade<br \/>\n\u00e9 am\u00e1vel e f\u00e1cil. O homem e as pr\u00f3prias coisas<br \/>\nt\u00eam n\u00e3o sei que indefinido sorriso de universal cordialidade.<br \/>\nToda a cidade se toma hospitaleira e bem acolhedora. As melhores qualidades<br \/>\nda ra\u00e7a francesa, a polidez, a sociabilidade, a gra\u00e7a, parecem<br \/>\nreverdecer, com uma frescura nova, como as folhas nas \u00e1rvores. O estrangeiro<br \/>\nsente em tomo de si uma ambi\u00eancia fraternal. As pr\u00f3prias paix\u00f5es<br \/>\npol\u00edticas, que em Paris nunca desarmam, perdem da sua ira e do seu<br \/>\nazedume. Os jornais s\u00e3o ligeiros e cheios de novas que alegram e repousam.<br \/>\nTodos os cuidados v\u00e3o para as coisas da intelig\u00eancia, da arte<br \/>\ne do gosto. Os cocheiros de fiacres amansam. Pelas ruas, a multid\u00e3o,<br \/>\nem lugar de se empurrar febrilmente, aos encontr\u00f5es, desliza, como<br \/>\nse na vida s\u00f3 houvesse vagares delicados. Paris \u00e9 ent\u00e3o<br \/>\nverdadeiramente, como a que riam e cantavam os poetas do s\u00e9culo XVIII,<br \/>\na cidade dos jogos e dos risos.<\/p>\n<p>Mas vem o Inverno, os primeiros frios, as primeiras n\u00e9voas \u2013<br \/>\ne adeus o Paris cordial e doce.<\/p>\n<p>Toda a cidade se enruga e escurece. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 face<br \/>\nque soma, e os pr\u00f3prios muros, tornados cor de fuligem, se mostram<br \/>\ncarrancudos. Ningu\u00e9m mais pensa nas coisas da intelig\u00eancia e<br \/>\nda arte. Quem triunfa \u00e9 a Bolsa e a aspereza ego\u00edsta dos neg\u00f3cios.<br \/>\nA pol\u00edtica imediatamente se torna feroz e ressuma rancor. Os jornais,<br \/>\nal\u00e7ando o tom violento e sinistro, trasbordam de inj\u00farias e<br \/>\ns\u00f3 contam crimes. O estrangeiro deixa de ser o h\u00f3spede apetecido<br \/>\ne passa a ser o intruso irritante. Dos cocheiros n\u00e3o h\u00e1 mais<br \/>\na esperar compaix\u00e3o. Os fornecedores apresentam as contas rangendo<br \/>\nos dentes, com ferocidade. Nas ruas s\u00f3 h\u00e1 repel\u00f5es e<br \/>\npressa brutal. E Paris todo parece, findos os jogos e os risos, a p\u00e1tria<br \/>\nnatural da desconfian\u00e7a e da c\u00f3lera. Que causou esta lament\u00e1vel<br \/>\ntransforma\u00e7\u00e3o? Unicamente o desaparecimento do Sol, o c\u00e9u<br \/>\nsempre cor de chumbo, as n\u00e9voas glaciais, a lama, a tristeza invernal.<\/p>\n<p>Grande raz\u00e3o tinha o nosso Fontes! N\u00e3o h\u00e1 bem maior<br \/>\npara uma na\u00e7\u00e3o que um clima suave e luminoso. Riqueza, for\u00e7a,<br \/>\ngrandes ind\u00fastrias, minas aur\u00edferas, um com\u00e9rcio trasbordante,<br \/>\nnada, para a felicidade de um povo, vale um lindo sol e um ar aveludado. Tudo<br \/>\nse simplifica numa regi\u00e3o t\u00e9pida e clemente. O contentamento<br \/>\ndo corpo envolto em luz e calor contrabalan\u00e7a, calma, quase faz esquecer<br \/>\nos descontentamentos p\u00fablicos. As diferen\u00e7as de sortes e de<br \/>\nfortunas, que s\u00e3o a origem dos males sociais, perdem da sua irritabilidade<br \/>\ne do seu amargor sob um c\u00e9u ben\u00e9volo onde respirar, passear,<br \/>\ncontemplar, s\u00e3o prazeres superiores que Deus concede mesmo ao mendigo<br \/>\nerrante pelas estradas. A beleza exterior do mundo exterioriza a vida; a alma<br \/>\nn\u00e3o se concentra nem se dobra sobre si mesma, muito menos a si mesma<br \/>\nse consome. Terra de atmosfera transparente n\u00e3o \u00e9 prop\u00edcia<br \/>\naos rancores, aos despeitos, \u00e0s surdas invejas. A pr\u00f3pria pol\u00edtica<br \/>\n\u00e9 a\u00ed sem viol\u00eancia; o dinheiro quase n\u00e3o tem ego\u00edsmo.<br \/>\nUma bonomia esparsa envolve os cora\u00e7\u00f5es. Todos os interesses<br \/>\nse amolecem sob um fermento de vaga fraternidade. Como se vive na rua e ao<br \/>\nar, e as exist\u00eancias se misturam, todos se conhecem e todos se toleram.<br \/>\nA sociedade tende a estar em harmonia com a Natureza, e o impulso universal<br \/>\nvai sobretudo para as coisas agrad\u00e1veis. A dor nunca conserva a\u00ed<br \/>\npersist\u00eancia e lancin\u00e2ncia, e para secar l\u00e1grimas n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 como o sol. Uma manh\u00e3 radiante consola do maior desapontamento.<br \/>\nAs paix\u00f5es s\u00e3o amenas, e se o ci\u00fame \u00e9 um pouco<br \/>\nmais ruidoso \u00e9 tamb\u00e9m mais r\u00e1pido, e nunca envenena lentamente,<br \/>\nnem corr\u00f3i&#8230; Mas o bem maior est\u00e1 nas poucas necessidades da<br \/>\nvida e portanto na sua simplifica\u00e7\u00e3o e liberdade. Todos esses<br \/>\nimpedimentos (como dizem os Ingleses), que tanto atravancam as sociedades<br \/>\nsetentrionais, s\u00e3o ou podem ser ignorados. Portugal viveu muito tempo,<br \/>\ne foi feliz, com quatro cadeiras de palhinha em salas soalhadas de pinho branco.<br \/>\nO homem n\u00e3o \u00e9 escravizado pela amontoa\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nconfortos e pode mover-se sem ter de deslocar consigo, como o homem dos climas<br \/>\nfrios, uma montanha de coisas. Daqui prov\u00e9m logo a mod\u00e9stia<br \/>\ndas ind\u00fastrias, as menores exig\u00eancias de capital, o ado\u00e7amento<br \/>\ndas quest\u00f5es sociais. Quantos bens inumer\u00e1veis&#8230; Sem contar<br \/>\nque nas terras do sol a imagina\u00e7\u00e3o dos homens nunca e sombria,<br \/>\ne portanto est\u00e3o-lhe poupados os tormentos piores, os da imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Sol, que tudo alumia, enche tamb\u00e9m de claridade o esp\u00edrito.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 fantasmas interiores. O mundo n\u00edtido, repassado<br \/>\nde luz, n\u00e3o oferece mist\u00e9rios nem terrores.<\/p>\n<p>Enfim, o nosso Fontes tinha superiormente raz\u00e3o \u2013 e um bom<br \/>\nclima \u00e9 ainda a melhor base de um estado feliz.<\/p>\n<p>Todas estas reflex\u00f5es me vieram deste longo, fresco e tristonho Inverno.<br \/>\nH\u00e1 seis meses que Paris n\u00e3o v\u00ea o Sol.<\/p>\n<p>\u00c9 como se ele tivesse para sempre ficado no mar, onde mergulhou numa<br \/>\ndas \u00faltimas tardes de Agosto \u2013 Febo indolente que se n\u00e3o<br \/>\nquis arrancar mais ao seio verde de Anfitrite. Desde ent\u00e3o, para Paris,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 firmamento \u2013 apenas um tecto mole e sufocante de<br \/>\nalgod\u00e3o sujo.<\/p>\n<p>Dizem os entendidos que o Sol est\u00e1 velho, muito velho, e que j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o tem o esplendor e o vigor dos tempos em que era adorado como o<br \/>\n\u00fanico deus vis\u00edvel e o \u00fanico compreens\u00edvel. O<br \/>\nastro primordial sofre de anemia, de tanto se ter prodigalizado a mundos talvez<br \/>\ningratos \u2013 e, com as pavorosas tempestades e revolu\u00e7\u00f5es<br \/>\nque nestes \u00faltimos tempos o agitam sem cessar, a sua face apresenta<br \/>\ns\u00f3 manchas e rugas, como qualquer face humana que as afli\u00e7\u00f5es<br \/>\ndevastaram.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 talvez \u2013 e os mundos dan\u00e7am e cantam o seu canto<br \/>\npitag\u00f3rico em torno de um moribundo. Mas decr\u00e9pito, e enrugado,<br \/>\ne clor\u00f3tico, como ele est\u00e1, os homens n\u00e3o o podem dispensar<br \/>\n\u2013 sobretudo para o seu equil\u00edbrio moral. Os corpos, \u00e0<br \/>\ncusta de fog\u00f5es, de tapetes, de peli\u00e7as, v\u00e3o vegetando<br \/>\n\u2013 mas as almas, com toda esta sombra que as envolve, v\u00e3o ganhando<br \/>\num feitio sombrio. A alma de Paris est\u00e1 sombria. E \u00e9 este hoje<br \/>\no lugar melhor para se lembrar com saudade e inveja o velho verso de Eur\u00edpides<br \/>\nque diz: \u00abFelizes os que se movem com esp\u00edrito sereno e livre<br \/>\nnum ar luminoso e macio!\u00bb<\/p>\n<h2>CASIMIRE &#8211; P\u00c9RIER<\/h2>\n<p>O Sr. Casimire P\u00e9rier deu a sua demiss\u00e3o de presidente da Rep\u00fablica<br \/>\ncomo um caixeiro maltratado e zangado que em dia de crise comercial se despede<br \/>\nbruscamente do patr\u00e3o e abala, desabafando contra as torpezas da loja<br \/>\ne atirando furiosamente com as portas. Na longa hist\u00f3ria das abdica\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndesde a do velho Diocleciano, t\u00e3o preparada, t\u00e3o prudente, t\u00e3o<br \/>\ncuidadosa do bem do Estado, n\u00e3o creio que se encontre uma outra mais<br \/>\ndespida de preparo, de prud\u00eancia e de considera\u00e7\u00e3o pelo<br \/>\nEstado e pela sua seguran\u00e7a. O presidente nem realmente abdicou o poder:<br \/>\nmas uma fria manh\u00e3 saiu do pal\u00e1cio, atirou o poder para o meio<br \/>\nda rua com uma sacudidela a que n\u00e3o faltou nem coragem nem independ\u00eancia,<br \/>\ne encaminhou os passos para casa, para as do\u00e7uras da irresponsabilidade.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 um vencido que se retira \u2013 \u00e9 um enfastiado<br \/>\nque se safa.<\/p>\n<p>Toda a imprensa o cobre de inj\u00farias. \u00ab\u00c9 o covarde! \u00c9<br \/>\no desertor! E o leviano que aceitou fun\u00e7\u00f5es para que se sabia<br \/>\nincapaz! \u00c9 o fracalh\u00e3o que por vaidade se mascarava de valent\u00e3o!<br \/>\n\u00c9 o ego\u00edsta que sacrifica os interesses da sua p\u00e1tria<br \/>\nao sossego da sua digest\u00e3o! \u00c9 o capit\u00e3o que abala porque<br \/>\nrompeu o fogo! \u00c9 o caprichoso que amua porque lhe disseram que n\u00e3o.\u00bb<br \/>\nOs pr\u00f3prios jornais que, durante estes seis meses, mais concorreram,<br \/>\ncom assaltos ferozes, para o desgostar e desalojar do poder, fulminam agora<br \/>\ntriunfalmente contra a sua impot\u00eancia e contra a sua deser\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isto, a meu ver, \u00e9 excessivo \u2013 e prov\u00e9m do feitio<br \/>\ndo esp\u00edrito franc\u00eas, sempre idealista, tendendo incorrigivelmente<br \/>\npara as generaliza\u00e7\u00f5es absolutas, e que exige dos homens a for\u00e7a<br \/>\nabstracta que s\u00f3 pertence aos princ\u00edpios. Mas um homem realmente<br \/>\nn\u00e3o pode ter a rigidez impass\u00edvel de um princ\u00edpio. Os<br \/>\nprinc\u00edpios s\u00e3o insens\u00edveis e intang\u00edveis \u2013<br \/>\ne os homens s\u00e3o um feixe de nervos sujeitos a todas as influ\u00eancias,<br \/>\nmesmo as da chuva e do vento. \u00c9 absurdo pretender que um poeta seja<br \/>\nt\u00e3o po\u00e9tico como os seus poemas, um padre t\u00e3o transcendente<br \/>\ncomo o seu dogma \u2013 e que um estadista, elevado ao poder para representar<br \/>\numa ideia, se torne t\u00e3o impessoal como ela, e como ela prossiga impassivelmente<br \/>\nna sua evolu\u00e7\u00e3o, mesmo quando a Terra trema e os c\u00e9us<br \/>\nem torno caiam.<\/p>\n<p>O Sr. Casimire P\u00e9rier era simplesmente um homem, com todos os nervos<br \/>\ne susceptibilidades e irritabilidades de um homem. Talvez mesmo, herdeiro<br \/>\n\u00fanico e chefe de uma dinastia (a dos P\u00e9rier), rico, inteligente,<br \/>\nadulado pelos seus e pela sua clientela, habituado a exercer um imp\u00e9rio<br \/>\nf\u00e1cil, poupado reverentemente pela contradi\u00e7\u00e3o, ele se<br \/>\ntornara o que n\u00f3s chamamos em Portugal um menino mimalho. Se como presidente<br \/>\nda Rep\u00fablica tivesse encontrado diante de si um caminho seguro, aplainado,<br \/>\ncheio de um doce murm\u00fario de louvores, sobretudo bem defendido por<br \/>\naqueles que tinham interesse na sua marcha vitoriosa, e oferecendo apenas<br \/>\naqueles obst\u00e1culos que uma vontade mediana prontamente costeia ou destr\u00f3i<br \/>\n\u2013 sem d\u00favida teria cumprido toleravelmente a sua miss\u00e3o,<br \/>\nporque n\u00e3o lhe faltavam inten\u00e7\u00f5es excelentes nem capacidade<br \/>\nactiva. Mas, em vez disso, achou diante da sua sagrada pessoa um caminho intransit\u00e1vel,<br \/>\nin\u00f3spito, varrido de ventos glaciais, infestado de bichos venenosos,<br \/>\nensopado de lodo que lhe salpicava para as faces, e sobretudo atravancado<br \/>\nde obst\u00e1culos que os seus colaboradores, aqueles mesmos que lhe deviam<br \/>\nassegurar e defender a marcha, vinham de noite sorrateiramente erguer e eri\u00e7ar<br \/>\nde espinhos bravos O resultado foi que o pobre presidente, regelado, arranhado,<br \/>\napupado, topando contra pedregulhos, resvalando em barrancos lamacentos, desanimou<br \/>\ne fugiu por um atalho, gritando indiscretamente que aquela estrada, que era<br \/>\na da rep\u00fablica, n\u00e3o oferecia seguran\u00e7a e conduzia a desastres.<br \/>\nCertamente um her\u00f3i, um h\u00e9rcules, teria avan\u00e7ado \u2013<br \/>\nmas o Sr. Casimire P\u00e9rier n\u00e3o \u00e9 um h\u00e9rcules, nem<br \/>\num her\u00f3i, e como a Fran\u00e7a, sobretudo a burguesia francesa esgotada,<br \/>\nj\u00e1. n\u00e3o produz her\u00f3is, parece insensato exigir dele uma<br \/>\ngrandeza de alma e for\u00e7a que n\u00e3o s\u00e3o pr\u00f3prias<br \/>\nda ra\u00e7a, e muito menos da sua classe.<\/p>\n<p>A sua elei\u00e7\u00e3o, feita numa quase unanimidade, entre grandes<br \/>\nesperan\u00e7as, logo depois do assassinato de Carnot e quando toda a Fran\u00e7a<br \/>\nordeira tremia do pap\u00e3o anarquista, teve uma significa\u00e7\u00e3o<br \/>\nessencialmente conservadora. Ele era o homem do pulso forte que a Fran\u00e7a<br \/>\nchamava para suster, com esse forte pulso, a marcha das \u00abhordas revolucion\u00e1rias\u00bb.<br \/>\nFora a sua reputa\u00e7\u00e3o de energia, herdada do av\u00f4, o ministro<br \/>\nde Lu\u00eds Filipe, o grande consolidador da classe m\u00e9dia, que o<br \/>\nindicara para um governo que todos queriam resoluto e autorit\u00e1rio.<br \/>\nO que se esperava era que, do ramo mais grosso da \u00e1rvore da liberdade,<br \/>\nele fizesse um cacete. A Fran\u00e7a teria preferido um general com uma<br \/>\nespada. Mas como os tempos ainda n\u00e3o est\u00e3o maduros para o advento<br \/>\ndessa espada de soldado \u2013 a Fran\u00e7a contentava-se com o cacete<br \/>\ndo burgu\u00eas. Em todo o caso a sua elei\u00e7\u00e3o foi um al\u00edvio,<br \/>\numa esperan\u00e7a \u2013 e toda a Fran\u00e7a que tem uma conta no banco<br \/>\ne que deseja, portanto, tranquilidade e ordem em tomo do banco aclamou o homem<br \/>\nforte.<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es Casimire P\u00e9rier podia legitimamente<br \/>\npensar que seria um presidente popular. Foi uma ilus\u00e3o que durou ainda<br \/>\nmenos que a rosa de Malherbe. Na primeira manh\u00e3 que ele saiu no landau<br \/>\nde Estado, com a sua escolta de couraceiros, avistou diante de si uma Fran\u00e7a<br \/>\nmuda e glacial. Nem um sorriso af\u00e1vel que o acolhesse, nem um viva<br \/>\nalegre que o animasse. T\u00e3o estranho era este sil\u00eancio, esta aus\u00eancia<br \/>\ndas aclama\u00e7\u00f5es tradicionais do expansivo Paris, que os seus<br \/>\namigos a explicavam pelas dificuldades euf\u00f3nicas do seu nome \u2013<br \/>\nCasimire P\u00e9rier \u2013, que, composto de s\u00edlabas longas, n\u00e3o<br \/>\nse presta a ser lan\u00e7ado num viva curto e brilhante. E todavia ele nada<br \/>\nmais fizera ainda do que mostrar a sua face \u00e0 na\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas essa mesma face logo desagradou. Com efeito, na sua fotografia oficial,<br \/>\nexposta em todas as vidra\u00e7as e publicada em todos os jornais, ele aparecia<br \/>\ncom uma carantonha agressiva, um ar de buldogue extremamente desam\u00e1vel.<\/p>\n<p>Era talvez mera culpa do fot\u00f3grafo. Assim a popularidade de um chefe<br \/>\nde Estado depende por vezes da perfei\u00e7\u00e3o ou imperfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um clich\u00e9! Al\u00e9m disso, o presidente usava uns colarinhos<br \/>\nsingulares, revirados, prodigiosamente decotados, que n\u00e3o convieram<br \/>\na este povo acostumado aos colarinhos correctos, hirtos e majest\u00e1ticos<br \/>\ndo Sr. Carnot. Imediatamente se esquadrinharam outras raz\u00f5es de o suspeitar.<br \/>\nOs radicais j\u00e1 andavam denunciando com alarido as suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nmundanas e aristocr\u00e1ticas. Muito amargamente se contava que quando<br \/>\nele soube do assassinato de Carnot, estava numa soir\u00e9e ouvindo m\u00fasica,<br \/>\nsentado entre a princesa de Hennin e a condessa de Grelhufe. A democracia<br \/>\nn\u00e3o lhe perdoou mais esta condessa e esta princesa, que o contaminavam.<br \/>\nDesde logo se profetizou com rancor que o Eliseu seria um centro escandaloso<br \/>\nde aristocracia orleanista. N\u00e3o era ele pr\u00f3prio um velho amigo<br \/>\ndos Orle\u00e3es? N\u00e3o dera ele a sua demiss\u00e3o de deputado,<br \/>\nquando se decretara a expuls\u00e3o do conde de Paris? Evidentemente a sua<br \/>\npresid\u00eancia seria o pr\u00f3logo sorrateiro da monarquia&#8230;<\/p>\n<p>Mas o que mais irritava era a sua imensa fortuna, os seus tr\u00eas milh\u00f5es<br \/>\nde renda. A democracia (todos os publicistas o afirmam) \u00e9 invejosa<br \/>\n\u2013 e este presidente da Rep\u00fablica que possu\u00eda um pal\u00e1cio<br \/>\nna Rua Nicot, t\u00e3o aparatoso como o Eliseu, e vivendas de campo que<br \/>\nvaliam as vivendas reais, e coutadas de ca\u00e7a, e uma criadagem de grande<br \/>\nestilo, e requintes da vida privilegiada \u2013 parecia um contra senso,<br \/>\na nega\u00e7\u00e3o mesmo da igualdade republicana, um perigo, quase uma<br \/>\nafronta.<\/p>\n<p>Quando a opini\u00e3o assim se formava, veio a elei\u00e7\u00e3o pelo<br \/>\nc\u00edrculo que, ao subir \u00e0 presid\u00eancia, ele deixava vago.<br \/>\nEra o seu velho c\u00edrculo, a sua cidadela pol\u00edtica. Por ele devia<br \/>\nser naturalmente eleito um sub-Casimire, do mesmo feitio conservador, que<br \/>\ncontinuasse nas c\u00e2maras a obra de resist\u00eancia \u00e0 invas\u00e3o<br \/>\nsocialista. Qual! O c\u00edrculo elegeu justamente um socialista! Todo o<br \/>\npa\u00eds riu com gosto desta ingratid\u00e3o, que era uma li\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO presidente estava definitivamente impopular, mesmo entre a sua antiga clientela.<br \/>\nO radicalismo n\u00e3o cessou mais de o cobrir de ultrajes \u2013 e de<br \/>\npilh\u00e9rias. Drumont lan\u00e7ou contra ele raios e Rochefort piparotes.<br \/>\nOs seus milh\u00f5es, as suas libr\u00e9s, os seus bigodes, os seus colarinhos,<br \/>\nos seus av\u00f3s e a sua energia heredit\u00e1ria \u2013 tudo foi vilipendiado<br \/>\nou achincalhado.<\/p>\n<p>Tinha ele ao menos a afei\u00e7\u00e3o e o apoio dos conservadores?<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o: tamb\u00e9m se lhes tornara suspeito. Vendo que<br \/>\nele n\u00e3o brandia o famoso cacete, cortado na \u00e1rvore da liberdade,<br \/>\ne que a \u00abhorda revolucion\u00e1ria\u00bb n\u00e3o cessava de avan\u00e7ar,<br \/>\nos partidos conservadores come\u00e7aram a descrer da for\u00e7a conservadora<br \/>\ndo seu eleito. A afirma\u00e7\u00e3o constante que ele fazia da sinceridade<br \/>\ndo seu republicanismo, a sua afecta\u00e7\u00e3o em se pronunciar contra<br \/>\nas suas tradi\u00e7\u00f5es de classe e em se isolar das suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nelegantes eram outros motivos de irrita\u00e7\u00e3o para os moderados.<br \/>\nDe bom grado lhe diriam como o personagem de Shakespeare: \u00abV\u00f3s<br \/>\nprovais de mais, meu belo senhor, provais de mais!\u00bb Al\u00e9m disso,<br \/>\npor se ser conservador n\u00e3o se deixa de ser parisiense: e a irrever\u00eancia,<br \/>\no esp\u00edrito frondeur, o assalto ir\u00f3nico contra todo o chefe de<br \/>\nEstado que mostre hesita\u00e7\u00e3o ou fraqueza, \u00e9 um dos h\u00e1bitos<br \/>\nmais incur\u00e1veis do esp\u00edrito de Paris. Os pr\u00f3prios jornais<br \/>\nque o tinham proclamado como o esteio forte da ordem come\u00e7aram tamb\u00e9m<br \/>\ncontra ele um tiroteio maligno. Por ocasi\u00e3o do Grand Prix, o Sr.<\/p>\n<p>Casimire P\u00e9rier, penetrado da velha ideia de que a pompa refor\u00e7a<br \/>\na autoridade, resolvera ir a Longchamps, \u00e0 solenidade cl\u00e1ssica<br \/>\ndo sport franc\u00eas, em grande estado, com grandes libr\u00e9s, e precedido<br \/>\nde batedores \u00e0 antiga maneira imperial. Apenas, por uma indiscri\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos jornais, se conheceu esta tentativa de restaurar na rep\u00fablica o<br \/>\nluxo real, todo o Paris come\u00e7ou a rir \u2013 e ningu\u00e9m riu<br \/>\ncom mais mal\u00edcia que o Figaro. O presidente, assustado, suprimiu \u00e0<br \/>\n\u00faltima hora os batedores, e atravessou num landau democr\u00e1tico<br \/>\nos Campos El\u00edsios, onde se juntara uma multid\u00e3o imensa, elegante<br \/>\ne divertida, para assistir a essa magnific\u00eancia de libr\u00e9s e lacaios,<br \/>\nt\u00e3o nova e t\u00e3o pouco gozada pela gera\u00e7\u00e3o republicana.<br \/>\nQuando se avistou o landau sem picadores e sem libr\u00e9s, seco como a<br \/>\nvirtude, foi um desapontamento e uma tro\u00e7a. Aquele presidente que de<br \/>\nrepente, por medo, recolhia todo o seu luxo, o deixava escondido no canto<br \/>\nmais escuro das cocheiras do Eliseu, pareceu indizivelmente rid\u00edculo.<br \/>\nTudo isto \u00e9 min\u00fasculo.<\/p>\n<p>Mas para uma popula\u00e7\u00e3o t\u00e3o ligeira e mundana como a<br \/>\nde Paris s\u00e3o estas coisas min\u00fasculas que levantam ou derrubam<br \/>\numa popularidade e, por vezes, uma forma de governo.<\/p>\n<p>Mas os maiores t\u00e9dios do presidente vinham dos seus pr\u00f3prios<br \/>\nministros. Por defer\u00eancia para com o seu pobre antecessor, o Sr. Casimire<br \/>\nP\u00e9rier conservava o velho minist\u00e9rio em cujos bra\u00e7os<br \/>\nmorrera Carnot.<\/p>\n<p>Em lugar, por\u00e9m, de dirigir o seu minist\u00e9rio, e de fazer prevalecer<br \/>\numa pol\u00edtica conforme as suas ideias pessoais, o presidente em breve<br \/>\nreconheceu que n\u00e3o era mais de que \u00abuma m\u00e1quina de assinar\u00bb.<br \/>\nTodos os neg\u00f3cios consider\u00e1veis se tratavam sem que ele fosse<br \/>\nescutado, sequer consultado. Se tentava afirmar a sua autoridade de presidente,<br \/>\nimediatamente lhe recordavam a conduta exemplarmente discreta de Carnot, que<br \/>\nnunca impusera as suas opini\u00f5es, se submetera sempre, com todo o rigor<br \/>\nconstitucional, \u00e0s dos seus ministros. Assim todos os planos, todos<br \/>\nos projectos de reforma, que ele esperava realizar sob a sua presid\u00eancia,<br \/>\nencontravam uma oposi\u00e7\u00e3o cort\u00eas, mas irredut\u00edvel.<br \/>\nO presidente ultimamente ignorava mesmo o que se fazia nos diferentes minist\u00e9rios,<br \/>\nporque a mais t\u00edmida e modesta informa\u00e7\u00e3o que pedia era<br \/>\nt\u00e3o demorada, t\u00e3o adiada, t\u00e3o habilmente sonegada, que,<br \/>\nde pura fadiga, ele terminava por desistir, emudecer. Se indicava, por exemplo,<br \/>\na nomea\u00e7\u00e3o de um funcion\u00e1rio era certo que de todos os<br \/>\nmodos subtis e obl\u00edquos lhe recusavam. Se ao contr\u00e1rio punha<br \/>\nobjec\u00e7\u00f5es \u00e0 escolha de um prefeito, ou de um general,<br \/>\nou de um governador de col\u00f3nia, era certo tamb\u00e9m que, dias depois,<br \/>\nessa nomea\u00e7\u00e3o reapareceria, teimosamente entre os decretos apresentados<br \/>\n\u00e0 sua assinatura formal. E se ele ainda se retra\u00eda, hesitava,<br \/>\no decreto, passado uma semana, tornava a surgir entre os pap\u00e9is, implac\u00e1vel.<br \/>\nA pol\u00edtica internacional \u00e9 aquela em que tradicionalmente o<br \/>\npresidente \u00e9 sempre ouvido com defer\u00eancia, O Sr. Casimire P\u00e9rier,<br \/>\nque justamente sa\u00eda do Minist\u00e9rio dos Estrangeiros e trazia<br \/>\nportanto o conhecimento e a experi\u00eancia dos neg\u00f3cios diplom\u00e1ticos,<br \/>\nnunca era consultado.<\/p>\n<p>Como o nosso D. Jo\u00e3o VI, depois da revolu\u00e7\u00e3o de 1820,<br \/>\nele s\u00f3 sabia de manh\u00e3, pelos jornais, o que se decretara, em<br \/>\nseu nome, na v\u00e9spera. N\u00e3o era propriamente um chefe de Estado<br \/>\n\u2013 era uma estaca de Estado. Estava ali plantado no Eliseu. E n\u00e3o<br \/>\nse lhe atribu\u00eda mais sensibilidade moral do que a uma estaca. Os seus<br \/>\nministros, o seu partido, tinham deixado elevar \u00e0 presid\u00eancia<br \/>\nda c\u00e2mara Brisson, o chefe do radicalismo, seu inimigo pessoal. E esse<br \/>\nmesmo partido decretara uma acusa\u00e7\u00e3o contra Reynal, seu amigo<br \/>\n\u00edntimo. Era uma estaca, tendo a tiracolo a gr\u00e3-cruz da Legi\u00e3o<br \/>\nde Honra, e a que se prestavam honras r\u00e9gias, mas que na realidade<br \/>\nn\u00e3o contava nem na pol\u00edtica, nem na na\u00e7\u00e3o. A \u00fanica<br \/>\ncoisa para que servia \u2013 era para que os jornais lhe atirassem lama.<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es, uma bela manh\u00e3, o Sr. Casimire P\u00e9rier,<br \/>\nvendo que o minist\u00e9rio oportunista ca\u00edra, que se lhe devia seguir<br \/>\num minist\u00e9rio radical e antevendo que, t\u00e3o desconsiderado j\u00e1<br \/>\npelos seus amigos, o seria ainda mais pelos seus inimigos, agarrou no poder,<br \/>\nna gr\u00e3-cruz da Legi\u00e3o de Honra, nos seus direitos majest\u00e1ticos,<br \/>\nna sua casa civil e militar, na sua escolta de couraceiros, em todas as suas<br \/>\nhonras, atirou tudo, de escantilh\u00e3o, para o meio da rua e sacudiu os<br \/>\nombros livres. Farto de ser uma estaca \u2013 quis tornar a ser um homem.<br \/>\nO desejo \u00e9 leg\u00edtimo \u2013 e no \u00abgesto\u00bb, como agora<br \/>\nse diz, n\u00e3o deixa de haver aud\u00e1cia e eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<h2>A PROP\u00d3SITO DA DOUTRINA DE MONROE E DO NATIVISMO<\/h2>\n<p>Venezuela deve ter atingido, neste momento, o ponto supremo da sua felicidade<br \/>\nnacional \u2013 se \u00e9 certo que a na\u00e7\u00e3o reproduz sempre,<br \/>\ncolectivamente e com intensa magnitude, as virtudes e os defeitos do indiv\u00edduo.<br \/>\nO homem de Venezuela, como geralmente os homens das rep\u00fablicas latinas<br \/>\nque cercam o golfo do M\u00e9xico (se \u00e9 que eles conservam as naturezas<br \/>\nque lhes conheci), tem o apetite constante e infart\u00e1vel do brilho,<br \/>\nda publicidade, da nomeada, da import\u00e2ncia ruidosa e que reluza. (Talvez<br \/>\npor isso eles se carregam t\u00e3o profusamente de j\u00f3ias \u2013<br \/>\npara faiscarem ao longe.) Este prurido de glor\u00edola, de car\u00e1cter<br \/>\nm\u00f3rbido, constitui uma verdadeira inflama\u00e7\u00e3o aguda da<br \/>\npersonalidade. E uma heran\u00e7a do velho sangue espanhol, apesar de t\u00e3o<br \/>\nadelga\u00e7ado e aguado hoje nas veias por onde corre. Ainda por isso,<br \/>\nas vezes, leva ao hero\u00edsmo; mas quase sempre p\u00e1ra no alarde<br \/>\ne na far\u00f3fia. Transportado para a Europa, onde a expans\u00e3o da<br \/>\npersonalidade \u00e9 mais dif\u00edcil porque h\u00e1 menos espa\u00e7o<br \/>\nsocial, esse prurido toma aquele feitio a que os Franceses deram o curioso<br \/>\nnome de \u00abrastaquerismo\u00bb. De resto, o \u00abrastaquerismo\u00bb<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 uma especialidade ex\u00f3tica do Americano da costa<br \/>\ndo Pac\u00edfico e do golfo do M\u00e9xico, porque o Franc\u00eas, e<br \/>\nsobretudo o Parisiense, tamb\u00e9m o cultiva largamente e com estridor.<br \/>\nE o rastaqu\u00e8re nascido em Paris e no Bulevar \u00e9 mesmo infinitamente<br \/>\nmais desagrad\u00e1vel que o rastaqu\u00e8re importado de Guatemala ou<br \/>\ndo Peru, porque neste h\u00e1 um simp\u00e1tico fundo de ingenuidade,<br \/>\ne no outro s\u00f3 se encontra secura e pervers\u00e3o.<\/p>\n<p>Em todo o caso, esta fome canina da celebridade d\u00e1 gozos excepcionalmente<br \/>\nfortes \u00e0quele que a satisfaz. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil calcular,<br \/>\npela tabela de medidas de que disp\u00f5e a civiliza\u00e7\u00e3o, a<br \/>\nalegria colossal de um crioulo, cujo o nome e pessoa e feitos consigam um<br \/>\ndia ocupar a p\u00e1gina culta de um jornal da Europa. Se ele alcan\u00e7a<br \/>\na gl\u00f3ria superior do telegrama, ent\u00e3o a sua felicidade s\u00f3<br \/>\npoder\u00e1 ser comparada \u00e0 de um santo que, ao fim de penosos anos<br \/>\nde penit\u00eancia e de ermo, veja escancaradas diante dos seus passos as<br \/>\nportas refulgentes da bemaventuran\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Ora, Venezuela (se \u00e9 que a na\u00e7\u00e3o reproduz o indiv\u00edduo)<br \/>\nest\u00e1 hoje saboreando com indiz\u00edveis del\u00edcias este triunfo<br \/>\ninesperado. N\u00e3o s\u00f3 vem nos jornais de toda a Europa, n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 vem nos telegramas de todas as ag\u00eancias \u2013 mas, por causa<br \/>\ndela, duas altas na\u00e7\u00f5es do mundo est\u00e3o em \u00e1spero<br \/>\nconflito, e a diplomacia hesita esgazeada, e as bolsas cambaleiam tomadas<br \/>\nde p\u00e2nico, e pelos ares passa, com o seu costumado ru\u00eddo de ferro<br \/>\ne dor, a velha Belona, deusa da guerra!<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, na hist\u00f3ria moderna, mais curioso conflito do<br \/>\nque este que surge entre a Inglaterra e os Estados Unidos da Am\u00e9rica<br \/>\ndo Norte por causa de algumas milhas de terra perdidas no fundo da Venezuela.<br \/>\n\u00c9 certo que dentro desse bocado de terra existem minas de ouro \u2013<br \/>\ne onde aparece o ouro, o terr\u00edvel ouro, imediatamente os homens em<br \/>\nredor se entreolham com rancor e levam as m\u00e3os \u00e0s facas. Foi<br \/>\npor causa de umas imaginadas minas de ouro que a Inglaterra t\u00e3o vorazmente<br \/>\ntentou arrancar a Portugal o territ\u00f3rio de Manica, em \u00c1frica.<br \/>\nPor fim, em Manica n\u00e3o havia ouro \u2013 porque j\u00e1 os diligentes<br \/>\nFen\u00edcios, h\u00e1 tr\u00eas mil anos, o tinham extra\u00eddo e<br \/>\nfundido com ele \u00eddolos e alfaias para os col\u00e9gios sacerdotais<br \/>\nde Cartago e de Tiro.<\/p>\n<p>Os bons Ingleses, nessas minas vazias, s\u00f3 encontraram cacos, vasos<br \/>\nde barro e ferramentas ro\u00eddas por uma secular ferrugem, sobre as quais<br \/>\npassaram logo, com mal disfar\u00e7ada melancolia, a escrever disserta\u00e7\u00f5es<br \/>\neruditas para a Revista de Edimburgo. Porque t\u00e3o forte \u00e9 esta<br \/>\nra\u00e7a que at\u00e9 transforma em proveitos da ci\u00eancia os desapontamentos<br \/>\nque, por vezes, encontra no exerc\u00edcio da rapina. Nessas minas, por\u00e9m,<br \/>\nde Venezuela afian\u00e7am os exploradores ingleses e americanos que ainda<br \/>\nresta ouro, muito e delicioso ouro, porque os Astecas justamente tinham a\u00ed<br \/>\nos seus jazigos mais ricos e fundos. Eu desconfio desse ouro.<\/p>\n<p>Os Astecas segundo as \u00faltimas revela\u00e7\u00f5es das ci\u00eancias<br \/>\netnol\u00f3gicas, descendem dos Fen\u00edcios, que nas suas esguias trirremes<br \/>\ne olhando a p\u00e1lida Estrela Polar, navegaram todos os mares, aportaram<br \/>\na todas as costas, tiveram Gamas e Colombos mais de dois mil anos antes das<br \/>\nna\u00e7\u00f5es ib\u00e9ricas, e conheceram realmente o mundo quase<br \/>\nt\u00e3o bem como o velho Eliseu R\u00e9clus. Ora, se os Fen\u00edcios,<br \/>\nesses formid\u00e1veis esgravatadores de ouro e de metais preciosos, estiveram<br \/>\njamais nas regi\u00f5es de Venezuela, receio bem que n\u00e3o se encontre<br \/>\nnelas, como n\u00e3o se encontrou em Manica, ouro bastante para cunhar uma<br \/>\nlibra falsa.<\/p>\n<p>Em todo o caso a auri sacra fames (a \u00abmaldita fome do ouro\u00bb,<br \/>\nou a \u00absagrada fome do ouro\u00bb, segundo a tradu\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais ou menos psicol\u00f3gica que se fizer do vers\u00edculo) n\u00e3o<br \/>\nconstitui sen\u00e3o um factor subalterno desta brusca dissid\u00eancia<br \/>\nanglo-americana. Os dois fortes irm\u00e3os est\u00e3o em c\u00f3lera,<br \/>\nquase est\u00e3o em guerra, com fins mais nobres, por causa de uma doutrina<br \/>\n\u2013 por causa da t\u00e3o falada e t\u00e3o incompreendida doutrina<br \/>\nde Monroe. Seria, pois, essa uma guerra (se a houvesse) originada num ponto<br \/>\nde casu\u00edstica pol\u00edtica. Amplo e leg\u00edtimo orgulho para<br \/>\ntodos os legistas e todos os fazedores de sociologias. J\u00e1 havia s\u00e9culos<br \/>\nque os homens, materializados, se n\u00e3o batiam por divergirem na interpreta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um ditame. Agora, ao menos, alvorece sobre n\u00f3s a doce e feroz esperan\u00e7a<br \/>\nde que se alague de sangue e se cubra de ru\u00ednas um certo par\u00e1grafo<br \/>\nobscuro e tortuoso do tratado de direito internacional.<\/p>\n<p>Oh!, esta doutrina de Monroe! Que estranha evolu\u00e7\u00e3o ela sofreu<br \/>\ndesde que saiu, t\u00e3o Oh!, esta doutrina de Monroe! Que estranha evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nela sofreu desde que saiu, t\u00e3o h\u00e1 setenta anos, entre muita<br \/>\ngritaria, muita poeira e muito sangue. Em 1803 foi a Venezuela, que sacudira<br \/>\nas \u00abalgemas espanholas\u00bb; depois, j\u00e1 em tempo da Santa Alian\u00e7a,<br \/>\ntinham sido Guatemala e o Peru \u2013 e esta ingratid\u00e3o do Peru amargurou<br \/>\nmais penosamente do que as outras o cora\u00e7\u00e3o paternal de Fernando<br \/>\nVII, que dele esperava sempre, por tradi\u00e7\u00e3o, uma fonte de riqueza<br \/>\nperene e f\u00e1cil. Tais emancipa\u00e7\u00f5es constitu\u00edam<br \/>\nesses actos de \u00abrebeli\u00e3o e for\u00e7a popular\u00bb, t\u00e3o<br \/>\nsoberanamente condenados pela Santa Alian\u00e7a. Para os anular e os governos<br \/>\nque deles tinham sa\u00eddo (governos viciosos e falsos, pois que se baseavam<br \/>\nsobre o v\u00edcio e a falsidade da soberania nacional) \u00e9 que a Santa<br \/>\nAlian\u00e7a se criara e se armara, sob o olhar aprovador de Deus, amigo<br \/>\nparticular da Casa de \u00c1ustria. Por isso a Santa Alian\u00e7a, apenas<br \/>\nacabou de consertar os neg\u00f3cios de Fernando VII em Espanha, e de aferrolhar<br \/>\nos liberais nas pris\u00f5es do Santo Of\u00edcio e nos pres\u00eddios<br \/>\nde \u00c1frica, come\u00e7ou a pensar em lhe consertar tamb\u00e9m os<br \/>\nneg\u00f3cios na Am\u00e9rica espanhola, e em lhe reduzir de novo as novas<br \/>\ncol\u00f3nias a uma sujei\u00e7\u00e3o filial, redourando assim o necess\u00e1rio<br \/>\nprest\u00edgio dos Bourbons, e dando simultaneamente uma r\u00edspida<br \/>\nli\u00e7\u00e3o aos povos que se quisessem abandonar \u00e0 desleal<br \/>\nquimera da liberdade. Com t\u00e3o santos intuitos se reuniu o Congresso<br \/>\nde Verona, onde se deviam assentar as bases de uma ac\u00e7\u00e3o entre<br \/>\ntodas as pot\u00eancias aliadas, para o exterm\u00ednio dessas abomin\u00e1veis<br \/>\nrep\u00fablicas latinas, formadas com os peda\u00e7os partidos do Imp\u00e9rio<br \/>\nEspanhol.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o perante esta poss\u00edvel invas\u00e3o da Am\u00e9rica<br \/>\nespanhola republicanizada que se levantou pesadamente a voz deselegante, mas<br \/>\njusta, do presidente Monroe. A situa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos era<br \/>\ncom efeito dif\u00edcil. Todas as col\u00f3nias espanholas tinham apenas<br \/>\nimitado o exemplo revolucion\u00e1rio da col\u00f3nia inglesa \u2013<br \/>\ne cada uma aclamava o seu pequeno Washington.<\/p>\n<p>As constitui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas com que se tinham dotado<br \/>\neram traduzidas da constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos \u2013 e<br \/>\nassim concorriam para dar a todo o continente uma vasta harmonia pol\u00edtica<br \/>\ne econ\u00f3mica. Por virtude dessas rebeli\u00f5es, o solo da Am\u00e9rica<br \/>\nficara limpo de todas as m\u00e1culas do absolutismo; e do rio da Prata<br \/>\nao rio de S. Louren\u00e7o n\u00e3o havia j\u00e1, felizmente, nem um<br \/>\npenacho de vice-rei, nem uma roupeta de jesu\u00edta, nem um c\u00e1rcere<br \/>\nde Inquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podiam, pois, os Estados Unidos consentir que uma frota aliada, com pavilh\u00e3o<br \/>\napost\u00f3lico, viesse desmanchar esta obra de liberdade e mesmo de civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que ela fora a inspiradora e a mestra? E a condena\u00e7\u00e3o, pela<br \/>\nEuropa, dessa soberania que os crioulos espanh\u00f3is se tinham legitimamente<br \/>\narrogado n\u00e3o era a condena\u00e7\u00e3o injusta e impl\u00edcita<br \/>\ndo direito com que os Estados Unidos tinham sacudido o dom\u00ednio ingl\u00eas?<br \/>\nA opini\u00e3o, em toda a Am\u00e9rica do Norte, foi logo rancorosamente<br \/>\nhostil a qualquer ac\u00e7\u00e3o da Santa Alian\u00e7a contra as novas<br \/>\nrep\u00fablicas latinas, ainda fracas e convalescentes da causa espanhola.<br \/>\nE o presidente Monroe n\u00e3o fez mais, na sua famosa mensagem de Dezembro,<br \/>\ndo que traduzir este pronto e vivo sentimento da na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o<br \/>\nhouve a\u00ed pois uma doutrina nova, sa\u00edda como uma Minerva armada<br \/>\nda sua cabe\u00e7a, que certamente n\u00e3o era ol\u00edmpica. Monroe<br \/>\napenas formulou oficialmente a vontade \u00edntima e popular dos estados.<br \/>\nE deu mesmo \u00e0 sua f\u00f3rmula o tom mais discreto e mais modesto.<br \/>\nNesses tempos distantes os Estados Unidos ainda n\u00e3o tinham adoptado,<br \/>\nnos seus modos pol\u00edticos, essa arrog\u00e2ncia estridente a que os<br \/>\nIngleses chamam estilo de \u00e1guia desfraldada.<\/p>\n<p>Monroe, falando \u00e0 Santa Alian\u00e7a, n\u00e3o esquece que ela<br \/>\nse comp\u00f5e de reis da Casa de Bourbon e da Casa de Habsburgo. E na sua<br \/>\nmensagem, atrav\u00e9s da firmeza que d\u00e1 \u00e0 consci\u00eancia<br \/>\ndo direito, h\u00e1 um agrad\u00e1vel vislumbre da antiga polidez colonial.<br \/>\n\u00abA nossa pol\u00edtica para com a Europa (diz ele nessa mensagem t\u00e3o<br \/>\nfamosa) consiste em n\u00e3o intervir nunca nos neg\u00f3cios internos<br \/>\nd\u00e1s pot\u00eancias; considerar como leg\u00edtimos todos os governos<br \/>\nde facto, manter com eles rela\u00e7\u00f5es cordiais, conservando uma<br \/>\natitude franca e viril, sem recusar nunca as reclama\u00e7\u00f5es justas<br \/>\ne sem nunca nos submeter a ofensas ou injusti\u00e7as&#8230; Enquanto por\u00e9m<br \/>\nao continente da Am\u00e9rica, as circunst\u00e2ncias s\u00e3o eminentemente<br \/>\ne conspicuamente diferentes. E poss\u00edvel que as pot\u00eancias aliadas<br \/>\nestendam e transportem os seus sistemas pol\u00edticos para este continente,<br \/>\nsem grave risco da nossa paz e da nossa felicidade: nem \u00e9 f\u00e1cil<br \/>\nde acreditar que os nossos irm\u00e3os do Sul, abandonados \u00e0 sua<br \/>\ninspira\u00e7\u00e3o, adoptassem semelhantes sistemas. E portanto perfeitamente<br \/>\nimposs\u00edvel que n\u00f3s v\u00edssemos com indiferen\u00e7a qualquer<br \/>\ninterven\u00e7\u00e3o, e sob qualquer forma, das pot\u00eancias aliadas&#8230;\u00bb<br \/>\nTais s\u00e3o as recatadas palavras que constituem aquilo que t\u00e3o<br \/>\npomposamente se chama hoje a doutrina de Monroe. Que elas s\u00e3o justas<br \/>\ne pr\u00e1ticas e que em 1823, nas v\u00e9speras do Congresso de Verona,<br \/>\nse tinham tornado grandemente necess\u00e1rias, ningu\u00e9m o pode negar,<br \/>\ndesde que conhe\u00e7a a hist\u00f3ria do dom\u00ednio espanhol na Am\u00e9rica<br \/>\ne o esp\u00edrito arcaicamente absolutista do metternichismo e da Santa<br \/>\nAlian\u00e7a: mas e tamb\u00e9m ineg\u00e1vel que esta declara\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica est\u00e1 rigorosamente limitada pela sua pr\u00f3pria<br \/>\ndata, nada significa fora do momento hist\u00f3rico que a originou e s\u00f3<br \/>\npoderia ser desenterrada dos arquivos e reaplicada se as pot\u00eancias da<br \/>\nEuropa se coligassem de novo para arvorar a bandeira apost\u00f3lica e tentar<br \/>\nna Am\u00e9rica o restabelecimento de sistemas obsoletos, que elas pr\u00f3prias<br \/>\nj\u00e1 arremessaram para o lixo do passado&#8230; E notemos ainda que a declara\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Monroe, nem ao menos no momento em que se produziu, em 1823, teve efic\u00e1cia<br \/>\n\u2013 pois n\u00e3o foi ela nem o sentimento dos Estados Unidos, de que<br \/>\nera a express\u00e3o, que atemorizaram a Santa Alian\u00e7a e a impediram<br \/>\nde repelir para al\u00e9m do Atl\u00e2ntico as fa\u00e7anhas restauradoras<br \/>\nde Espanha e de N\u00e1poles, reintegrando o bom do Fernando VII na posse<br \/>\naur\u00edfera da sua Venezuela, do seu M\u00e9xico, do seu Peru. N\u00e3o!<br \/>\nO que deteve a Santa Alian\u00e7a foi simplesmente a atitude da Inglaterra,<br \/>\nque protegeu as tenras rep\u00fablicas da Am\u00e9rica do Sul, as reconheceu<br \/>\nlogo como governos leg\u00edtimos \u2013 com o vivo mercantil receio de<br \/>\nque a restaura\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica da Espanha no Novo Mundo<br \/>\nfosse (como fatalmente seria) a restaura\u00e7\u00e3o paralela do seu<br \/>\nsistema econ\u00f3mico, que exclu\u00eda dos portos coloniais todo o tr\u00e1fico,<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o e ind\u00fastria ingleses. A mensagem do presidente<br \/>\nMonroe era um decreto-protesto, desacompanhado de for\u00e7a; e a Santa<br \/>\nAlian\u00e7a podia bem impunemente encolher os seus reais ombros e mandar<br \/>\nvogar as suas frotas, levando j\u00e1 vice-reis e inquisidores-mores, envernizados<br \/>\nde fresco e com garrotes novos. Mas a oposi\u00e7\u00e3o da Inglaterra<br \/>\nera um obst\u00e1culo absoluto, porque em 1823 todas as esquadras juntas<br \/>\nda Santa Alian\u00e7a e as do mundo todo n\u00e3o podiam arriscar sequer<br \/>\na ponta das suas proas fora dos portos onde se abrigavam sem permiss\u00e3o<br \/>\nda Inglaterra, j\u00e1 ent\u00e3o, e mais que hoje, senhora soberana dos<br \/>\nmares.<\/p>\n<p>Pois foi desta frase do presidente Monroe, j\u00e1 plat\u00f3nica e<br \/>\nest\u00e9ril em 1823, que os ianques, com o natural orgulho de quem sente<br \/>\ncada dia surdirem em si for\u00e7as novas, e com a ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde passarem perante o mundo como criadores \u00fanicos da sua grandeza,<br \/>\ne ainda tamb\u00e9m com esse surdo despeito que os povos coloniais conservam<br \/>\ncontra os seus antigos dominadores, cuja civiliza\u00e7\u00e3o mais requintada,<br \/>\npor ser mais velha e complexa, eles nunca podem igualar na sua beleza, estabilidade<br \/>\ne brilho hist\u00f3rico \u2013 extra\u00edram essa singular f\u00f3rmula<br \/>\nda Am\u00e9rica para os Americanos! O que significa (se eu n\u00e3o interpreto<br \/>\nmal o sentimento que inspirou a f\u00f3rmula) que a Am\u00e9rica, sendo<br \/>\numa obra exclusiva da ra\u00e7a americana, s\u00f3 pertence \u00e0 ra\u00e7a<br \/>\namericana, e s\u00f3 pela ra\u00e7a americana pode ser explorada e gozada.<\/p>\n<p>Ora, dos dois termos que ela encerra logo um me parece fict\u00edcio e<br \/>\nn\u00e3o existente: porque se todos sabemos muito toleravelmente, aprovados<br \/>\nno atlas, o que \u00e9 e onde est\u00e1 a Am\u00e9rica, n\u00e3o se<br \/>\npercebe t\u00e3o facilmente o que seja e onde esteja a ra\u00e7a americana.<br \/>\nCertamente existiu (e ainda existem dela restos dizimados e perseguidos) uma<br \/>\nverdadeira ra\u00e7a americana, que todos os comp\u00eandios de etnologia<br \/>\nescrevem, e que se compunha amontoadamente dos Tinehs, dos Algonquins, dos<br \/>\nIroqueses, dos Apalaches, dos Astecas, dos Incas, dos Cara\u00edbas, dos<br \/>\nGuaranis e de toda a gigantesca gente patag\u00f3nia. Esses sem d\u00favida,<br \/>\nou fossem bascos, ou ind\u00edgenas da \u00c1frica setentrional, ou homens<br \/>\ndo Extremo Oriente, ou tivessem ido atrav\u00e9s do submerso continente<br \/>\nda Atl\u00e2ntida, ou tivessem subido pela Alta Sib\u00e9ria e penetrado<br \/>\npelo estreito de Bering, esses eram os leg\u00edtimos donos da Am\u00e9rica,<br \/>\ncujos desertos povoaram e onde estabeleceram civiliza\u00e7\u00f5es primitivas<br \/>\ne originais, que iam desde a tribo ca\u00e7adora at\u00e9 \u00e0s cidades<br \/>\ndos Astecas cheias de templos e de artes. Mas n\u00e3o \u00e9 decerto<br \/>\npara esses que os compatriotas do presidente Monroe reclamam o dom\u00ednio<br \/>\ne o gozo exclusivo da Am\u00e9rica \u2013 pois que esses (tamb\u00e9m<br \/>\npor uma estranha aplica\u00e7\u00e3o da doutrina de Monroe) s\u00e3o<br \/>\nperseguidos, exterminados, como animais que, pela sua pr\u00f3pria animalidade,<br \/>\nmaculam o esplendor da civiliza\u00e7\u00e3o americana e ocupam no solo,<br \/>\ncom as suas pobres cho\u00e7as, um espa\u00e7o que pertence ao civilizado<br \/>\ne aos seus pr\u00e9dios de dezasseis andares. Fora desses, por\u00e9m,<br \/>\nhoje raros, t\u00e3o raros que s\u00f3 constituem uma curiosidade etnol\u00f3gica<br \/>\ne como que pertencem j\u00e1 ao bricabraque humano, eu, na Am\u00e9rica,<br \/>\ns\u00f3 vejo uma ra\u00e7a, que \u00e9 a europeia, nas grandes fam\u00edlias<br \/>\nem que a geografia e a hist\u00f3ria moderna a dividiu \u2013 os Sax\u00f3nicos,<br \/>\nos Germ\u00e2nicos, os Escandinavos, os Franceses, os Italianos, os Espanh\u00f3is,<br \/>\nos Portugueses&#8230; Em todo o vasto continente americano n\u00e3o h\u00e1<br \/>\numa cidade, um centro activo, onde exista, se possa descobrir um \u00fanico<br \/>\namericano. Em Nova Iorque, onde se agitam dois milh\u00f5es de homens que<br \/>\ns\u00e3o irlandeses, ou ingleses, ou escoceses, ou alem\u00e3es, ou suecos,<br \/>\nou franceses, ou italianos, ou russos, ou espanh\u00f3is, ou portugueses,<br \/>\n\u00e9 f\u00e1cil ainda encontrar chineses, japoneses, hindus, t\u00e1rtaros,<br \/>\npersas, marroquinos, \u00e1rabes do deserto, negros dos mais negros fundos<br \/>\nde \u00c1frica: mas \u00e9 imposs\u00edvel descortinar um homem, que,<br \/>\nno puro sentido etnol\u00f3gico, seja um americano. Para se ver este esp\u00e9cime<br \/>\nvener\u00e1vel dos velhos senhores do solo \u00e9 necess\u00e1rio empreender<br \/>\numa viagem, passar para al\u00e9m de Omaha, para al\u00e9m do territ\u00f3rio<br \/>\ndo Nebrasca, para al\u00e9m do pa\u00eds dos b\u00fafalos; e a\u00ed<br \/>\nser\u00e1 poss\u00edvel, em torno a alguma esta\u00e7\u00e3o do caminho<br \/>\nde ferro do Pac\u00edfico, avistar um americano, cor de cobre, de longas<br \/>\nguedelhas corredias, mirrado e embrutecido, que pede esmola e se co\u00e7a<br \/>\npor entre os farrapos da camisa e das pantalonas recebidas, pelo Natal, na<br \/>\ngrande distribui\u00e7\u00e3o, como esmola do alto pai, do grande chefe<br \/>\nbranco que est\u00e1 em Washington.<\/p>\n<p>Ora, sendo estes realmente os \u00fanicos puros americanos, a grande m\u00e1xima<br \/>\npol\u00edtica tem de ser interpretada deste outro modo, mais coerente e<br \/>\nmais franco: \u00abA Am\u00e9rica pertence exclusivamente aos europeus<br \/>\nque nasceram na Am\u00e9rica. E este o seu ver\u00eddico sentido. E dele<br \/>\nprov\u00e9m a doutrina ruidosa do nativismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 todavia nenhuma originalidade nesta doutrina do nativismo.<br \/>\nNem ela nasceu na Am\u00e9rica. Mais de dois mil anos certamente s\u00e3o<br \/>\npassados desde que a China a concebeu e a praticou. O nativismo \u00e9,<br \/>\ncom efeito, um produto chin\u00eas, adoptado durante algum tempo pelo Jap\u00e3o,<br \/>\ndepois por ele abandonado como caduco e caturra, e agora posto, com grande<br \/>\nalarido, em circula\u00e7\u00e3o pelos povos americanos.<\/p>\n<p>Foi durante a dinastia dos Tsin e reinando o imperador Huang-Ti que apareceu<br \/>\nna China e se apoderou dos esp\u00edritos este princ\u00edpio novo do<br \/>\nnativismo. Esse imperador Huang-Ti era um bandido, de ilimitado orgulho, ignorante<br \/>\ne falso, que alterou toda a constitui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da<br \/>\nChina, delapidou as finan\u00e7as, inventou uma religi\u00e3o grotesca<br \/>\nem que confusamente entravam a humanidade e tr\u00eas esp\u00edritos que<br \/>\nhabitam numa ilha, cometeu o sacril\u00e9gio de reformar o calend\u00e1rio,<br \/>\nperseguiu os poetas e os eruditos e queimou todos os livros sagrados da China.<br \/>\n(O que prova que as ideias extravagantes nascem sobretudo nos tempos de anarquia<br \/>\ne de decad\u00eancia moral.) Somente os Chineses puseram na aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeste princ\u00edpio, imposto por um tirano fantasista, aquela coer\u00eancia<br \/>\nforte e rigor que sempre os caracteriza na pr\u00e1tica das suas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Desde que o escandaloso Huang-Ti e os seus mandarins (entre os quais dominava<br \/>\num certo Liseu, meio letrado e meio feiticeiro) conceberam a ideia de que<br \/>\no uso da China devia ser vedado a todos os que n\u00e3o fossem nativos \u2013<br \/>\nfecharam a China, fecharam materialmente toda a China do lado da terra com<br \/>\na Grande Muralha, e do lado do mar, nas embocaduras dos rios, com fortes correntes<br \/>\nde bronze e hediondos drag\u00f5es de madeira pintada. Depois, assim enclausurados<br \/>\nna sua China como uma imensa e silenciosa cidadela, o mundo nunca mais soube<br \/>\ndeles e quase perdeu a no\u00e7\u00e3o da sua exist\u00eancia entre as<br \/>\ngentes. De resto, durante os seguintes s\u00e9culos, se, apesar de todas<br \/>\nessas correntes e muralhas, algum estranho penetrava na China por motivos<br \/>\nespirituais ou temporais, logo uma popula\u00e7a nativista corria sobre<br \/>\nele com bambus e cutelos, e do intruso abomin\u00e1vel s\u00f3 restava<br \/>\nem breve uma massa ro\u00edda e retalhada em cima de um charco de sangue.<br \/>\nOs Japoneses, mais doces e de natureza c\u00e9ptica, nunca se abandonaram<br \/>\na estas ferocidades nativistas, e quando muito corriam o estrangeiro \u00e0<br \/>\npedrada, pelas ruas, at\u00e9 ao batel de que ele desembarcara. E na Am\u00e9rica,<br \/>\nainda mais doce e mais polida, o nativismo todo se limita a uns gritos nos<br \/>\njornais \u2013 e o intruso \u00e9 meramente corrido a adjectivos. Assim,<br \/>\nas ideias fortes, na sua costumada marcha de oriente para ocidente, se enervam<br \/>\ne se amolecem.<\/p>\n<p>Considerando, por\u00e9m, com seriedade, e sem desejos de sorrir, esse<br \/>\ncurioso fen\u00f3meno do nativismo chin\u00eas, muito facilmente se lhe<br \/>\nencontra justifica\u00e7\u00e3o e at\u00e9 grandeza. Os Chineses n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o somente os primitivos senhores da China, mas s\u00e3o os primitivos<br \/>\ne \u00fanicos criadores da sua civiliza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 s\u00f3<br \/>\ndeles, bem original e bem pr\u00f3pria, sem mistura de ideia ou forma alheia.<br \/>\nForam eles, s\u00f3 eles, que tiraram da sua raz\u00e3o, do seu sentimento<br \/>\ne da sua fantasia tudo o que temporalmente e espiritualmente constitui a China,<br \/>\na sua organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a sua religi\u00e3o, a<br \/>\nsua moral, o seu direito, a sua agricultura, a sua ind\u00fastria, a sua<br \/>\nliteratura, a sua arte, os seus cerimoniais, as suas armas, os seus trajes&#8230;<br \/>\nToda a China \u00e9 absolutamente e unicamente de inven\u00e7\u00e3o<br \/>\nchinesa. N\u00e3o h\u00e1 ideia ou costume, nem mesmo uma pequena regra<br \/>\nde etiqueta, nem mesmo uma ligeira forma de vaso, que fosse importada do mundo<br \/>\nexterior, que para eles \u00e9 b\u00e1rbaro, e que fica para al\u00e9m<br \/>\nda Grande Muralha e do mar Amarelo. E t\u00e3o intensamente homog\u00e9nea<br \/>\n\u00e9 esta civiliza\u00e7\u00e3o que qualquer ideia ou costume que<br \/>\nchegue de fora e consiga cair nesse compacto fundo de costumes e de ideias<br \/>\nn\u00e3o se funde, n\u00e3o penetra na circula\u00e7\u00e3o da vida<br \/>\nambiente: fica enquistada, no lugar onde pousou, como um caro\u00e7o est\u00e9ril,<br \/>\ne em breve se mirra e se desfaz. E pelo mesmo motivo, para onde quer que emigre<br \/>\n(agora que emigra) o Chin\u00eas instala uma pequena China, onde vive de<br \/>\numa exist\u00eancia s\u00f3 chinesa, tendo j\u00e1 ao lado um esquife<br \/>\nchin\u00eas para que, apenas morto, o reconduzam dentro dele \u00e0 grande<br \/>\nChina.<\/p>\n<p>Dada pois esta absoluta originalidade e homogeneidade da sua civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\no nativismo chin\u00eas \u00e9 l\u00f3gico e leg\u00edtimo. O Chin\u00eas<br \/>\nprova soberbamente que, para construir uma civiliza\u00e7\u00e3o completa,<br \/>\ntoda inteira, desde as bases da moral at\u00e9 ao feitio dos sapatos, e<br \/>\nsolidamente est\u00e1vel (a mais est\u00e1vel que conhece a hist\u00f3ria),<br \/>\nn\u00e3o lhe foi necess\u00e1rio importar um \u00fanico princ\u00edpio,<br \/>\num \u00fanico utens\u00edlio, uma \u00fanica forma linear \u2013 e<br \/>\nportanto muito justamente pensa que o homem alheio \u00e0 China, o estrangeiro<br \/>\n(que era um selvagem quando ele j\u00e1 exercia todas as artes) n\u00e3o<br \/>\ntem direito a gozar e a partilhar os benef\u00edcios de uma obra que nada<br \/>\nlhe custou, nem a ele nem aos seus, e para a qual n\u00e3o contribuiu com<br \/>\nnenhum elemento fundamental nem mesmo com nenhum retoque que a embelezasse.<br \/>\nPor outro lado, essa civiliza\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 ele concebeu,<br \/>\ntanta felicidade lhe d\u00e1 (para o Chin\u00eas, como todos os moralistas<br \/>\ne poetas afirmam, n\u00e3o h\u00e1 ventura mais certa na Terra do que<br \/>\nnascer e ser chin\u00eas) que n\u00e3o pode admitir que o estrangeiro venha,<br \/>\ncom as suas ideias, e as suas cren\u00e7as, e os seus m\u00e9todos desmanchar<br \/>\na harmonia da sua ordem social, macular-lhe talvez a pureza, abalar-lhe talvez<br \/>\na solidez e comprometer portanto essa imensa felicidade que nela encontram<br \/>\nh\u00e1 mais de quatro mil anos mais de quatrocentos milh\u00f5es de homens.<br \/>\nO sentimento dos Chineses realmente equivale ao que seria o nosso, na Europa,<br \/>\nse os Amarelos viessem, com mission\u00e1rios, com empreiteiros, com letrados,<br \/>\ncom art\u00edfices, instar, fazer propaganda para que n\u00f3s us\u00e1ssemos<br \/>\nrabicho, habit\u00e1ssemos casas de bambu e papel e viaj\u00e1ssemos em<br \/>\nliteiras de machos, s\u00f3 l\u00eassemos o livro dos Deveres Filiais e<br \/>\nqueim\u00e1ssemos cada manh\u00e3 um rolo de cera perfumada em louvor<br \/>\nde Conf\u00facio. Como a Europa ent\u00e3o soltaria o grito un\u00e2nime<br \/>\ne feroz de supremo nativismo: \u00abFora os Chineses!\u00bb A Europa \u00e9<br \/>\npara os Europeus! De resto, esse grito rancoroso j\u00e1 o brama sem cessar<br \/>\na Calif\u00f3rnia, contra os pobres celestiais que v\u00eam trabalhar a<br \/>\nS. Francisco, e sem que eles intrusivamente missionem as suas ideias ou os<br \/>\nseus costumes (como n\u00f3s fazemos na China), e s\u00f3 porque no meio<br \/>\nda cidade branca, de ra\u00e7a sax\u00f3nica irisada de espanhola, faz<br \/>\numa mancha irritante aquela col\u00f3nia amarela, de cabaia e de rabicho,<br \/>\nque cheira adocicadamente a \u00f3pio.<\/p>\n<p>Mas se o nativismo chin\u00eas, fundado na originalidade e intransig\u00eancia<br \/>\nda sua civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 claramente compreens\u00edvel<br \/>\n\u2013 quem pode compreender o nativismo americano e a pretens\u00e3o estranha<br \/>\nde excluir a Europa do uso e gozo de uma Am\u00e9rica que a Europa fez,<br \/>\ncom o esfor\u00e7o do seu g\u00e9nio, e que todos os dias, incessantemente,<br \/>\ncontinua fazendo como a sua obra mais querida. Todos os dias! Pois, como disse<br \/>\ncom fina profundidade um humorista ingl\u00eas, o que a Inglaterra sobretudo<br \/>\nexporta para os Estados Unidos \u00e9 os pr\u00f3prios Estados Unidos.<br \/>\nCom efeito, de cada porto da Europa, em cada paquete, v\u00e3o Estados Unidos<br \/>\npara os Estados Unidos (assim como vai Brasil para o Brasil) \u2013 v\u00e3o<br \/>\nos homens, e v\u00e3o as ideias, e os obreiros, e v\u00e3o os materiais<br \/>\ncom que se erguem civiliza\u00e7\u00f5es. E cada semana, por cada paquete,<br \/>\na Am\u00e9rica recebe um bocado de si mesma, com que se vai robustecendo<br \/>\ne com que se vai alargando. De norte a sul, n\u00e3o h\u00e1 em todo o<br \/>\ncontinente americano (com excep\u00e7\u00e3o dos toucados de penas dos<br \/>\n\u00edndios) um \u00fanico princ\u00edpio, um \u00fanico costume,<br \/>\numa \u00fanica forma que fosse originariamente inventada na Am\u00e9rica.<br \/>\nTudo foi aqui concebido por n\u00f3s e por n\u00f3s experimentado num<br \/>\nprodigioso labor de s\u00e9culos. Os Chineses criaram a sua religi\u00e3o,<br \/>\no seu direito, a sua moral, a sua filosofia, a sua arquitectura, o seu alfabeto.<br \/>\nMas a arquitectura, a moral, os c\u00f3digos, os dogmas usados na Am\u00e9rica,<br \/>\ntodas as institui\u00e7\u00f5es fundamentais da sua sociedade, s\u00e3o<br \/>\na obra magn\u00edfica de alguns europeus que nunca conheceram a Am\u00e9rica.<br \/>\nAs l\u00ednguas em que a Am\u00e9rica proclama os princ\u00edpios do<br \/>\nseu nativismo foram pela Europa inventadas e polidas. A pr\u00f3pria tinta<br \/>\ncom que imprimem os jornais em que nos acusam de intrusos fomos n\u00f3s<br \/>\nque a imagin\u00e1mos e remexemos. E se os Europeus nunca tivessem fabricado<br \/>\nsapatos, \u2013 ainda as finas damas de Nova Iorque andavam descal\u00e7as!<\/p>\n<p>Os elementos primordiais desta civiliza\u00e7\u00e3o foram levados, \u00e9<br \/>\ncerto, para a Am\u00e9rica pelos primeiros europeus nas primeiras naus.<br \/>\nMas depois desses dias imprudentes de Colombo, de Cabral, de Magalh\u00e3es,<br \/>\nde Balboa, de Grijalva, quase quatrocentos anos s\u00e3o passados. Neste<br \/>\ncomprido espa\u00e7o de hist\u00f3ria os Americanos, estabelecidos no<br \/>\nseu continente, tendo fixado as divis\u00f5es geogr\u00e1ficas, tendo<br \/>\nexperimentado as terras ar\u00e1veis, com o habitat e o p\u00e3o seguros,<br \/>\nbem poderiam ter desenvolvido esses elementos e completado uma civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nsua, pr\u00f3pria, adaptada ao seu clima, \u00e0 sua natureza, \u00e0s<br \/>\nnecessidades novas das ra\u00e7as fundidas. Mas n\u00e3o! Essa Am\u00e9rica,<br \/>\nque tanto se ufana de g\u00e9nio inventivo, nada inventou nestes \u00faltimos<br \/>\ntrezentos anos, que t\u00eam sido os mais fecundamente activos da humanidade.<br \/>\nE fomos n\u00f3s, aqui nesta esfalfada Europa, que, suando e gemendo, continu\u00e1mos<br \/>\na espantosa tarefa da civiliza\u00e7\u00e3o, descobrindo as leis universais,<br \/>\ncriando as ci\u00eancias naturais, construindo os sistemas de filosofia,<br \/>\napurando a beleza das artes, fundando ind\u00fastrias, dando ao mundo a<br \/>\nimprensa, a electricidade, o g\u00e1s, o vapor, os teares, os tel\u00e9grafos,<br \/>\nmilh\u00f5es de livros, toda a sorte de ideias!&#8230; E desses benef\u00edcios<br \/>\ninumer\u00e1veis recebidos pelas naus da carreira, logo a boa Am\u00e9rica<br \/>\nse utilizava e gozava, conspirando j\u00e1, surdamente, contra a nossa supremacia.<br \/>\nO motivo que ela invocava para esta sua soturna absten\u00e7\u00e3o na<br \/>\nobra humana do progresso era que o g\u00e9nio estava sufocado sob a dureza<br \/>\ndo regime colonial. Vieram as independ\u00eancias, findaram os regimes coloniais<br \/>\n\u2013 e a Am\u00e9rica continuou unicamente a viver \u00e0 custa intelectual<br \/>\nda Europa. Em mais de um s\u00e9culo de independ\u00eancia, esses pr\u00f3prios<br \/>\nEstados Unidos, que se proclamam o povo iniciador da Am\u00e9rica, n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam con-corrido para a obra da civiliza\u00e7\u00e3o do mundo com<br \/>\numa ideia nova, nem com uma forma nova. Quando muito, fazem aplica\u00e7\u00f5es<br \/>\nsubalternas e complicadas dos nossos princ\u00edpios originais. A sua \u00fanica<br \/>\ninven\u00e7\u00e3o \u00e9 talvez o telefone \u2013 que, se n\u00e3o<br \/>\nfosse emendado e refundido pelos mec\u00e2nicos ingleses, ainda hoje permaneceria<br \/>\num aparelho grotesco e radicalmente in\u00fatil.<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 esta Am\u00e9rica, a quem a Europa forneceu todos os elementos<br \/>\nessenciais para ela existir socialmente, e politicamente, e intelectualmente,<br \/>\ne industrialmente, que agora grita \u00e0 Europa com soberano desplante:<br \/>\n\u00abFora deste continente, que \u00e9 nosso e que n\u00f3s fizemos!<br \/>\nA Am\u00e9rica \u00e9 exclusivamente para os Americanos! N\u00f3s n\u00e3o<br \/>\nqueremos c\u00e1 nem a vossa influ\u00eancia, nem a vossa actividade, nem<br \/>\nquase a vossa presen\u00e7a!\u00bb \u00c9 grave. E h\u00e1 aqui certamente<br \/>\numa escandalosa ingratid\u00e3o. Porque, se Europeus e Americanos definitivamente<br \/>\nse desquitassem e cada um recolhesse aquilo que \u00e9 obra lenta do seu<br \/>\ng\u00e9nio, os Americanos ficariam subitamente sem religi\u00e3o, sem<br \/>\nleis, sem moral, sem ci\u00eancia, sem artes, sem ind\u00fastrias, sem<br \/>\ncostumes, sem tudo o que constitui a vida superior de um povo, e seriam apenas<br \/>\nuns selvagens louros, uns \u00abpeles-brancas\u00bb, absolutamente iguais<br \/>\naos peles-vermelhas que eles consideram uma mancha na civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo continente e que por isso perseguem a tiro, como os ursos e como os b\u00fafalos.<\/p>\n<p>N\u00e3o! S\u00f3 \u00e9 legitimamente admiss\u00edvel o nativismo<br \/>\nnum povo que, como o Chin\u00eas, tenha originalmente concebido e realizado<br \/>\na sua civiliza\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o quer portanto que o estrangeiro,<br \/>\nintroduzindo nela princ\u00edpios e formas heterog\u00e9neos, lhes desmanche<br \/>\na beleza e a utilidade. Uma Muralha da China \u00e9 ent\u00e3o uma constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nperfeitamente racional. Um tal povo j\u00e1 soberbamente provou que a si<br \/>\npr\u00f3prio se basta e se completa, e que, na ordem espiritual e na ordem<br \/>\nmaterial, \u00e9 independente de todos, n\u00e3o sendo, pela for\u00e7a<br \/>\nexperimentada das suas institui\u00e7\u00f5es, inferior a nenhum.<\/p>\n<p>O seu nativismo representa ent\u00e3o a justa e necess\u00e1ria defesa<br \/>\ndessas institui\u00e7\u00f5es, onde encontrou felicidade e estabilidade.<br \/>\nMas entre povos de civiliza\u00e7\u00f5es id\u00eanticas, e dos quais<br \/>\num, o nativista, tudo recebeu do outro, desde os dogmas at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nferramentas, o nativismo \u00e9 simplesmente o medo ego\u00edsta da concorr\u00eancia.<br \/>\nE de que pode provir esse medo? Unicamente do sentimento da pr\u00f3pria<br \/>\ninferioridade.<\/p>\n<p>E eis a\u00ed porque eu n\u00e3o compreendo o nativismo em povos t\u00e3o<br \/>\norgulhosos como os povos americanos \u2013 pois que dele resulta meramente<br \/>\nque o homem da Am\u00e9rica se declara em altos brados, e ante o mundo,<br \/>\ninferior ao homem da Europa.<\/p>\n<p>O que significa realmente o Americano proclamando nos seus jornais ou nos<br \/>\nseus parlamentos que aquele seu bocado da Am\u00e9rica \u00e9 s\u00f3<br \/>\npara ele e que n\u00e3o quer l\u00e1, nem a influ\u00eancia, nem a actividade,<br \/>\nnem mesmo a presen\u00e7a do Europeu? Significa no fundo simplesmente esta<br \/>\nconfiss\u00e3o bem humilhante: \u00abEu sou indolente, o Europeu \u00e9<br \/>\nlaborioso; eu sou obtuso, o Europeu \u00e9 inteligente; eu sou fraco, o<br \/>\nEuropeu \u00e9 forte&#8230; Se o Europeu aqui entra, eu, na luta e concorr\u00eancia<br \/>\nda vida, sou indubitavelmente vencido! Portanto ergamos contra o Europeu uma<br \/>\ngrande muralha, \u00e0 boa moda da velha China! Oh, Americano, meu valente,<br \/>\ncomo podes tu, sem corar, fazer uma confiss\u00e3o de fraqueza? E depois<br \/>\nconsidera que se tu pr\u00f3prio te declaras inferior ao Europeu em actividade,<br \/>\ninte-lig\u00eancia e for\u00e7a \u2013 implicitamente reconheces que o<br \/>\nEuropeu, possuindo qualidades superiores \u00e0s tuas, poder\u00e1 muito<br \/>\nmelhor que tu explorar, valorizar, civilizar, para bem geral da humanidade,<br \/>\nesse peda\u00e7o de Am\u00e9rica de que tu \u00e9s o dono geogr\u00e1fico.<br \/>\nOs interesses superiores da humanidade reclamariam, portanto, que esse bocado<br \/>\nde terra te fosse expropriado, e que outros (que tu pr\u00f3prio reconheces<br \/>\ncomo mais fortes e mais h\u00e1beis) fossem a\u00ed criar a obra de civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque tu, com as m\u00e3os contritas sobre o peito, te confessas impotente<br \/>\npara fundar.<\/p>\n<p>E se insistisses na tua muralha, n\u00e3o deverias estranhar que os outros<br \/>\na atacassem em nome desses altos interesses humanos, e fundados nas confiss\u00f5es<br \/>\nde inferioridade intelectual e f\u00edsica \u2013 que tu fizeste, t\u00e3o<br \/>\ntransparentemente, quando pregavas o teu nativismo com um \u00edmpeto que<br \/>\nera todo feito de abdica\u00e7\u00e3o! Nativismo! Quem pode conceber a<br \/>\nInglaterra, ou a Fran\u00e7a, ou a Alemanha, ou na\u00e7\u00f5es onde<br \/>\nhaja um pensamento e um bra\u00e7o, pregando o nativismo, e regateando a<br \/>\nqualquer homem o direito de vir para o meio delas labutar na obra humana?<br \/>\nDe resto n\u00e3o existem, na realidade, povos nativistas. O que existe<br \/>\nem cada povo \u00e9 um certo n\u00famero de nativos que, por falta de<br \/>\nqualidades activas, destras e rijas, sucumbem e murcham naquelas mesmas carreiras<br \/>\nem que outros, que n\u00e3o s\u00e3o nativos, prosperam e florescem.<\/p>\n<p>\u00c9 o lojista que tem de fechar a loja deserta, enquanto ao lado o<br \/>\nlojista estrangeiro alarga a sua, onde a multid\u00e3o se apinha. \u00c9<br \/>\no escritor que v\u00ea os livros estrangeiros vendidos, discutidos, envolvidos<br \/>\nna vida intelectual, enquanto os seus ao fundo dos armaz\u00e9ns apodrecem,<br \/>\nno sil\u00eancio, na escurid\u00e3o e no p\u00f3 das obras mortas. \u00c9<br \/>\no arquitecto a que nem o Estado, nem os particulares confiaram a constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um muro de quintal, e que assiste aos triunfos do arquitecto estrangeiro,<br \/>\nencarregado de cobrir a cidade de casas e monumentos. E o m\u00e9dico sem<br \/>\ndoentes que por tr\u00e1s dos vidros, roendo som-briamente as unhas, conta<br \/>\na longa fila de clientes que enfia para dentro da porta do seu vizinho, o<br \/>\nespecialista estrangeiro. \u00c9 sobretudo o homem das profiss\u00f5es<br \/>\nliberais, \u00e1vido de publicidade, de posi\u00e7\u00e3o, de influ\u00eancia,<br \/>\nque permanece na obscuridade, no abandono, ao passo que o estrangeiro \u00e9<br \/>\nacolhido, reclamado, festejado. Estes s\u00e3o os verdadeiros nativistas<br \/>\n\u2013 os que falharam em face do estrangeiro que acertou. A ilus\u00e3o<br \/>\ne a vaidade nunca lhes consentiriam reconhecer que a sua derrota proveio da<br \/>\nsua insufici\u00eancia \u2013 e \u00e9 como consola\u00e7\u00e3o interior,<br \/>\ne mesmo como desculpa publica, que eles se consideram e se proclamam v\u00edtimas<br \/>\nde uma vasta calamidade social, a invas\u00e3o das ra\u00e7as estrangeiras,<br \/>\nque alastra, tudo atravanca, se imp\u00f5e pela brutalidade do n\u00famero<br \/>\ne pela parcialidade do privil\u00e9gio, e tiram ao pobre nativo esmagado<br \/>\na parte que lhe competia do p\u00e3o e do solo natal. A identidade do descontentamento<br \/>\nfaz que todos estes descontentes se juntem, mutuamente desabafem, e se exaltem,<br \/>\ne findem por organizar uma seita que v\u00e1 pregando a salvadora ideia<br \/>\nnativista. E na maior parte dos casos n\u00e3o \u00e9 com a esperan\u00e7a<br \/>\nque essa ideia triunfe, pois que eles sentem bem quanto ela \u00e9 socialmente<br \/>\nintriunf\u00e1vel, mas apenas com o intuito, em parte ing\u00e9nuo e em<br \/>\nparte astuto, de encontrarem no exerc\u00edcio dessa estranha profiss\u00e3o<br \/>\nde nativista os proventos, a influ\u00eancia f\u00e1cil e a posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque n\u00e3o souberam granjear nas outras profiss\u00f5es em que a sua<br \/>\nmediocridade foi factor da sua derrota. E esse intuito frequentemente o logram<br \/>\n\u2013 porque t\u00e3o profunda \u00e9 a credulidade emotiva das multid\u00f5es<br \/>\nque n\u00e3o h\u00e1 bandeira nova, por mais fr\u00e1gil, com um mote<br \/>\nnovo por mais irracional, que, bem desfraldada na rua, n\u00e3o re\u00fana<br \/>\ne levante uma legi\u00e3o. E durante esse curto momento, um bom nativista<br \/>\nsaboreia as gl\u00f3rias de um chefe, de um messias. Mas tamb\u00e9m t\u00e3o<br \/>\nr\u00e1pida \u00e9 a reac\u00e7\u00e3o do bom senso nas multid\u00f5es<br \/>\neducadas que, reconhecida a fragilidade da bandeira e a irracionalidade do<br \/>\nmote, a legi\u00e3o que se formava ao come\u00e7o da rua fica reduzida,<br \/>\nantes mesmo que se desemboque na pra\u00e7a, a alguns arruaceiros e a alguns<br \/>\nsimpl\u00f3rios.<\/p>\n<p>\u00c9 esse o desagrad\u00e1vel momento para o nativista \u2013 porque<br \/>\nent\u00e3o se descobre que aquilo que se julgara ser o movimento forte de<br \/>\numa na\u00e7\u00e3o era apenas o despeito, ou a manha, ou a ilus\u00e3o<br \/>\nde alguns falhados.<\/p>\n<p>Por isso nunca me inquietei quando, l\u00e1 um ano, tanto se falava na<br \/>\nagita\u00e7\u00e3o nativista do Brasil.<\/p>\n<p>O Brasil nativista! Porqu\u00ea? \u00c9 poss\u00edvel que a\u00ed,<br \/>\ncomo em toda a parte, haja um outro ladino que visse no exerc\u00edcio do<br \/>\nnativismo uma profiss\u00e3o f\u00e1cil, sem habilita\u00e7\u00f5es<br \/>\nobrigat\u00f3rias, sem horas presas, altamente rendosa e mesmo divertida.<br \/>\n(N\u00e3o se tomou hoje em Fran\u00e7a o anti-semitismo uma carreira soberba<br \/>\nque leva a celebridade e \u00e0 fortuna?) E prov\u00e1vel tamb\u00e9m<br \/>\nque, sobretudo no Rio, onde a concorr\u00eancia j\u00e1 \u00e9 \u00e1spera,<br \/>\nalguns derrotados da vida atribuam candidamente a sua derrota, n\u00e3o<br \/>\n\u00e0 pr\u00f3pria inabilidade e fraqueza, mas \u00e0 for\u00e7a<br \/>\nesmagadora de um fen\u00f3meno social, ao n\u00famero invasor das ra\u00e7as<br \/>\nalheias. E \u00e9 quase certo ainda que muitos mo\u00e7os, com a ingenuidade<br \/>\num pouco tumultuosa que \u00e9 pr\u00f3pria da nossa ra\u00e7a, confundindo<br \/>\nnativismo com nacionalismo, tivessem concebido o sonho de um Brasil s\u00f3<br \/>\nbrasileiro. Estas ideias e interesses, tendo um fundo id\u00eantico de nega\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsem d\u00favida se juntariam, atravancariam a rua com o seu bando e a sua<br \/>\nbandeira, e por motivo daquela excita\u00e7\u00e3o contagiosa, que tanto<br \/>\nprejudica as sociedades meridionais, encontrariam apoio, por um momento, entre<br \/>\nmultid\u00f5es cr\u00e9dulas e com os nervos ainda abalados por uma dura<br \/>\nguerra civil. Mas essa influ\u00eancia do nativismo s\u00f3 podia ser (como<br \/>\nfoi, creio eu) muito transit\u00f3ria, no meio de uma na\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o amor\u00e1vel, t\u00e3o generosa, t\u00e3o hospitaleira,<br \/>\nt\u00e3o europeia e de t\u00e3o vasta fraternidade como \u00e9 o Brasil,<br \/>\npara sua grande honra entre as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As rep\u00fablicas semimortas da Am\u00e9rica Central, uma Guatemala,<br \/>\numa Nicar\u00e1gua, um Equador, s\u00e3o nativistas com paix\u00e3o,<br \/>\ne o seu nativismo \u00e9 compreens\u00edvel \u2013 porque nelas n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 abundam os homens falhados, mas elas pr\u00f3prias s\u00e3o<br \/>\npa\u00edses falhados.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a sua carreira de nacionalidades sem para isso terem habilita\u00e7\u00f5es<br \/>\nou capitais, e em breve ca\u00edram em tal desordem civil e em tal mis\u00e9ria<br \/>\nmoral que toda a intelig\u00eancia, toda a actividade, toda a for\u00e7a<br \/>\ngradualmente se lhes sumiram, e hoje qualquer aventureiro que l\u00e1 entre,<br \/>\nsendo um pouco esperto e um pouco vidente, se pode tornar num instante o seu<br \/>\nexplorador e mesmo seu dono. Mas o Brasil, esse, nativista! Como poderia ser?<br \/>\nO nativismo na Am\u00e9rica espanhola \u00e9 sempre sentimento invejoso<br \/>\nde mulato que tem alma mulata e que falhou. Ora, o Brasil \u00e9 branco,<br \/>\nde alma branca \u2013 e est\u00e1, como na\u00e7\u00e3o, em pleno e<br \/>\nvivo \u00eaxito (apesar destes anos de atrapalha\u00e7\u00e3o pol\u00edtica,<br \/>\nque vem n\u00e3o da falta de ideias, mas da falta de pessoal, junta a um<br \/>\nindividualismo exagerado que produz indisciplina). E nem pode deixar de estar<br \/>\nem \u00eaxito, sendo como \u00e9 um povo superiormente inteligente, provadamente<br \/>\nactivo e escandalosamente rico. Com tais qualidades, que inveja pode ele ter<br \/>\ndo estrangeiro e que medo da sua concorr\u00eancia? E n\u00e3o tem, como<br \/>\nsoberbamente o prova cada dia com a sua magn\u00edfica franqueza hospitaleira;<br \/>\nporque a hospitalidade n\u00e3o \u00e9 somente um sinal de do\u00e7ura,<br \/>\n\u00e9 sobretudo um sinal de for\u00e7a.<\/p>\n<p>E aqui est\u00e1 como, levado pela tagarelice godo-latina, eu me deixei<br \/>\nda doutrina de Monroe, para divagar atrav\u00e9s do nativismo, seu filho<br \/>\nbastardo e petulante.<\/p>\n<p>De resto, agora que ela foi bem definida num relat\u00f3rio parlamentar<br \/>\nao Senado, em Washington, essa boa doutrina interessa menos os estados da<br \/>\nEuropa do que as na\u00e7\u00f5es do continente americano \u2013 porque<br \/>\ndesde hoje ela j\u00e1 n\u00e3o constitui uma defesa contra a preponder\u00e2ncia<br \/>\nda Europa na livre Am\u00e9rica, mas estabelece um verdadeiro princ\u00edpio<br \/>\nde agress\u00e3o contra a autonomia das rep\u00fablicas am\u00e9rico-latinas.<br \/>\nEm virtude da antiga doutrina, tal como ela era pregada ainda h\u00e1 pouco<br \/>\npelos patriotas de Washington, os Estados Unidos pretendiam que nenhuma na\u00e7\u00e3o<br \/>\neuropeia pudesse, pela for\u00e7a e pela conquista, adquirir um peda\u00e7o<br \/>\nqualquer do continente americano, onde fossem estabelecer os seus m\u00e9todos<br \/>\nvetustos de pol\u00edtica e de administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, os patriotas de Washington decretam que nenhuma na\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo continente americano poder\u00e1 ceder, trocar ou vender a uma na\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Europa uma parcela, mesmo m\u00ednima, do seu territ\u00f3rio, sem<br \/>\no consentimento dos Estados Unidos, que nunca o dar\u00e3o, para evitar<br \/>\nque se formem sobre o limpo solo da Am\u00e9rica focos de infec\u00e7\u00e3o<br \/>\neuropeia! Ora o direito de propriet\u00e1rio inclui necessariamente o direito<br \/>\nde ceder, trocar, doar, vender, a totalidade ou uma parte da sua propriedade.<br \/>\nE este um princ\u00edpio que est\u00e1 em todos os c\u00f3digos dos<br \/>\ncivilizados e mesmo em todo o direito costum\u00e1rio dos selvagens. Desde<br \/>\nque se contesta ao possuidor o direito de dispor da coisa possu\u00edda,<br \/>\nimplicitamente se lhe contesta a plenitude directa da propriedade. Propriet\u00e1rio<br \/>\ndirecto e pleno \u00e9 aquele que, usufruindo a terra, tem simultaneamente<br \/>\no direito de a alienar. Aquele que habita a terra, e a cultiva, e vive dos<br \/>\nfrutos dela, mas n\u00e3o tem a faculdade de alienar nem uma \u00e1rvore<br \/>\nnem uma pedra \u00e9 usufrutu\u00e1rio. n\u00e3o senhorio. Se algu\u00e9m,<br \/>\nvindo de longe, lhe prop\u00f5e a compra dessa pedra ou dessa \u00e1rvore,<br \/>\no usufrutu\u00e1rio nada pode resolver sem tirar respeitosamente o seu chap\u00e9u<br \/>\ne implorar a permiss\u00e3o do senhorio. Ora, os Estados Unidos pretendem,<br \/>\npor uma vota\u00e7\u00e3o do Congresso, determinar que os povos do continente<br \/>\namericano s\u00e3o meramente usufrutu\u00e1rios dos territ\u00f3rios<br \/>\nque habitam, pois que s\u00f3 t\u00eam direito de os fruir, n\u00e3o<br \/>\nde os alienar sem consentimento \u2013 e conjuntamente, pela mesma vota\u00e7\u00e3o,<br \/>\neles se declaram senhorios directos de todo o continente, pois que s\u00f3<br \/>\na eles pertencer\u00e1 dar ou negar esse consentimento. E uma portentosa<br \/>\nconquista, t\u00e3o portentosa e f\u00e1cil que quase parece c\u00f3mica.<br \/>\nUma tarde, de repente, no fim de uma sess\u00e3o do Congresso, o ianque<br \/>\nsurge como o dono de toda a Am\u00e9rica. Em torno j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nhaveria sen\u00e3o na\u00e7\u00f5es usufrutu\u00e1rias. O povo brasileiro<br \/>\npensa possuir o Brasil? O Brasil todo, desde o rio Parima at\u00e9 ao rio<br \/>\nParan\u00e1, \u00e9 do ianque. Ao povo brasileiro s\u00f3 pertence habitar<br \/>\no solo, plantar nele zelosamente o seu caf\u00e9 e estar quieto. Mas se<br \/>\num dia tiver a livre ideia de vender ao Ingl\u00eas ou ao Turco tr\u00eas<br \/>\nmetros de areal ou de sen\u00e3o ter\u00e1 de ir, com a fronte baixa,<br \/>\nimplorar a licen\u00e7a do ianque, que lha recusar\u00e1, rispidamente,<br \/>\ncom um vasto gesto senhorial&#8230;<\/p>\n<p>E ainda h\u00e1 aqui modera\u00e7\u00e3o da parte dos Estados Unidos<br \/>\n\u2013 porque poderiam, em vez de declarar os povos da Am\u00e9rica simples<br \/>\nusufrutu\u00e1rios, decretar que eles seriam, a partir deste ano de 1896,<br \/>\nmeros rendeiros, devendo pagar-lhes cada semestre a renda dos territ\u00f3rios<br \/>\nfru\u00eddos, sob pena de expuls\u00e3o. Os Franceses dizem, com a sua<br \/>\nusual raz\u00e3o e finura, que quand on prend du galon on n\u2019en saurait<br \/>\ntrop prendre. Se os Estados Unidos est\u00e3o em veia forte de arrebatar<br \/>\npropriedade, porque a n\u00e3o arrebatam toda e completa com os deleit\u00e1veis<br \/>\nbenef\u00edcios da renda? Seria isso um grandioso dom\u00ednio \u00e0<br \/>\nvelha moda oriental. S\u00f3 povos tribut\u00e1rios em toda a Am\u00e9rica<br \/>\ne l\u00e1 no alto o ianque, gr\u00e3o-senhor! E todos os anos, ent\u00e3o,<br \/>\nsubiriam do Sul e do Centro lentas filas de emiss\u00e1rios, uns sobra\u00e7ando<br \/>\nvelhas carteiras ajoujadas de papel (\u00e0 falta de ouro), outros carregando<br \/>\nfardos cheios de cacau ou de caf\u00e9, e todos a caminho de Washington,<br \/>\na depor o tributo nos degraus do Capit\u00f3lio, aos p\u00e9s do presidente<br \/>\ndos Estados Unidos, o presidente dos presidentes, dono supremo dos homens,<br \/>\ncomo o velho Xerxes. Esse espect\u00e1culo deleitaria o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todos aqueles para quem a grande fraternidade democr\u00e1tica da Am\u00e9rica<br \/>\n\u00e9 a mais divertida de todas as pilh\u00e9rias sociais deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Na minha aldeia, no Norte de Portugal, se um lavrador que durante anos amanhou<br \/>\numa terra recebe bruscamente de um cavalheiro seu vizinho a intima\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que essa leira de vinho e p\u00e3o lhe pertence por posse directa, como<br \/>\nantigo senhorio \u2013 come\u00e7a por co\u00e7ar a cabe\u00e7a e comer<br \/>\nnessa noite, \u00e0 lareira, o seu caldo com mais lentid\u00e3o e sil\u00eancio.<br \/>\nDe manh\u00e3, ao primeiro sol, enverga a jaqueta e vai ao letrado, a quem<br \/>\nescuta pensativamente e paga cinco tost\u00f5es.<\/p>\n<p>Depois volta ao lugar e pede, de chap\u00e9u na m\u00e3o, ao cavalheiro<br \/>\nas suas provas, os seus pap\u00e9is. O cavalheiro n\u00e3o tem provas<br \/>\n\u2013 tem s\u00f3 a sua arrog\u00e2ncia, o seu palacete, os seus criados<br \/>\nde estrebaria e monte, a sua influ\u00eancia na freguesia. E quer a terra!<br \/>\nEnt\u00e3o o lavrador volta ao canto da lareira e agarra no cajado. E nessa<br \/>\ntarde h\u00e1, junto de qualquer sebe onde se enrosca e rescende a madressilva,<br \/>\num cavalheiro com uma clav\u00edcula e tr\u00eas costelas absolutamente<br \/>\npartidas. E assim na minha pequenina aldeia. N\u00e3o sei como \u00e9<br \/>\nnessa imensa Am\u00e9rica.<\/p>\n<h2>O INVERNO EM PARIS<\/h2>\n<p>Este Inverno em Paris, reuniu todas as condi\u00e7\u00f5es para ser esplendidamente<br \/>\nelegante e alegre.<\/p>\n<p>Teve dezasseis graus abaixo de zero, a neve endurecida e branqueando o Bosque<br \/>\nde Bolonha, todos os lagos gelados e um sol claro e fino num c\u00e9u de<br \/>\ntons delicados.<\/p>\n<p>H\u00e1 dez anos, mesmo sob a rep\u00fablica (que por profiss\u00e3o<br \/>\nse deve sempre mostrar modesta e austera), tais belezas invernais excitariam<br \/>\nde modo sobreagudo esse famoso amor do prazer que todos os moralistas afirmam<br \/>\nser o motor natural do car\u00e1cter franc\u00eas. Assim como o Ver\u00e3o<br \/>\natrai os homens para as simplicidades e verdades da Natureza \u2013 o Inverno<br \/>\npor toda a parte incita aos requintes da sociabilidade: mas principalmente<br \/>\nem Paris, onde o frio e a neve foram sempre os principais criadores dessa<br \/>\nactividade mundana que tantas formas interessantes reveste, abrangendo, j\u00e1<br \/>\nna ordem intelectual, j\u00e1 na ordem f\u00edsica, uma infinidade de<br \/>\nexerc\u00edcios e de emo\u00e7\u00f5es, desde a patinagem at\u00e9<br \/>\nao neo-evangelismo. Actividade absolutamente incong\u00e9nere com o Ver\u00e3o,<br \/>\no p\u00f3, o sol rutilante, e as \u00e1rvores todas cheias de folhas e<br \/>\np\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o das ideias necessita o Inverno,<br \/>\no conchego pensativo dos fog\u00f5es acesos e c\u00e9us velados, \u00e1rvores<br \/>\ndespidas, uma Natureza sem brilho que n\u00e3o distraia das contempla\u00e7\u00f5es<br \/>\nabstractas. Nunca se concebeu um poema, ou uma grande e nova teoria cient\u00edfica,<br \/>\nem Maio ou Julho, quando os prados est\u00e3o em flor, e as \u00e1guas<br \/>\nmurmurantes, as densas e frescas sombras despertam irresistivelmente no homem<br \/>\nos velhos instintos ad\u00e2micos da ociosidade divina.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m que o Inverno, para ser fecundo,<br \/>\nse conserve luminoso, seco, vivo, fino, crespo, com aquela ligeireza de ar,<br \/>\nabundante em oxig\u00e9nio que t\u00e3o bem excita e tonifica a vitalidade<br \/>\nnervosa. Inverno morrinhento, pardo, mole, morno, grosso, \u00e9 inteiramente<br \/>\nhostil \u00e0s alegrias da sociabilidade, \u00e0s inven\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo esp\u00edrito, a toda a esp\u00e9cie de actividade quer ele se traduza<br \/>\npor bailes, quer por livros. Mas \u00e9 sobretudo desfavor\u00e1vel ao<br \/>\nbrilho faustoso de uma cidade mundana \u2013 porque inteiramente adormenta<br \/>\ne debilita toda a energia festiva. Ora em Paris, este Inverno foi favo-ravelmente<br \/>\nseco, assoalhado, bem gelado, vivificante e excitante \u2013 e todavia foi<br \/>\ntriste. Nem festas, nem pompas, nem a tradicional representa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas classes patr\u00edcias, nem o luxo casual e exuberante que transborda<br \/>\npara as ruas, nem sequer aquele movimento de uma cintila\u00e7\u00e3o,<br \/>\num pouco febril, que, no simples e vivo cruzar das carruagens, na mera anima\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um olhar que passa e sorri, prova quanto uma sociedade se est\u00e1 divertindo<br \/>\ncom seguran\u00e7a e com vigor. Pelo contr\u00e1rio! Paris teve neste<br \/>\nInverno um ar parado e pensativo. Reparando bem, existia mesmo um estranho<br \/>\nconstrangimento e mal-estar moral.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m parecia disposto ao prazer \u2013 ou havia em todos como<br \/>\num receio, um escr\u00fapulo de se abandonarem ao prazer ruidosamente e<br \/>\ndespreocupadamente. E claro que Paris, meus amigos, n\u00e3o se tornou de<br \/>\nrepente um mortificado convento de trapistas. Ainda se dan\u00e7a, ainda<br \/>\nse abrem garrafas de champanhe, ainda se encomendam nas modistas vestidos<br \/>\nde tr\u00eas mil francos. Mas n\u00e3o houve, n\u00e3o h\u00e1 j\u00e1<br \/>\naquele viver ardente e livre, e a eleg\u00e2ncia petulante, e a jovial aud\u00e1cia<br \/>\nno prazer, e a estonteada acumula\u00e7\u00e3o de festas, que eram a gl\u00f3ria<br \/>\nmundana destes invernos de Paris, quando Deus os dotava de toda a sua beleza<br \/>\ninvernal. E porqu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>Por um motivo que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 parisiense, mas europeu,<br \/>\ne que seria grandemente honroso se nele entrasse apenas a generosidade, e<br \/>\nn\u00e3o entrasse tamb\u00e9m muito ego\u00edsmo, e algum medo.<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 delicado pudor, generosidade de quem n\u00e3o quer,<br \/>\nmostrando a riqueza pr\u00f3pria, tornar mais pungente nos miser\u00e1veis<br \/>\no sentimento da sua mis\u00e9ria? N\u00e3o, decerto. \u00c9 tamb\u00e9m<br \/>\nmedo. \u00c9 o medo crescente que os ricos t\u00eam dos pobres &#8211; desde<br \/>\nque os pobres s\u00e3o uma irresist\u00edvel for\u00e7a, que se une.<br \/>\nse disciplina, se concentra, se prepara, N\u00e3o se mostra hoje o luxo,<br \/>\nsobretudo para que ele n\u00e3o irrite mais a indig\u00eancia. Todo o milion\u00e1rio<br \/>\nse sente amea\u00e7ado, e evita prudentemente estender, como outrora, os<br \/>\nseus milh\u00f5es ao sol. \u00c9 que outrora o Estado por meio da sua<br \/>\npol\u00edcia, do ex\u00e9rcito, de todos os instrumentos de governo, defendeu<br \/>\nsempre o milion\u00e1rio e o seu milh\u00e3o. Ainda o defendeu, ou seja<br \/>\nmonarquia ou seja a rep\u00fablica, porque tem ainda a sua base nas classes<br \/>\nm\u00e9dias, possuidoras da riqueza. Mas hoje j\u00e1 se considera prov\u00e1vel,<br \/>\ntalvez pr\u00f3xima, uma outra organiza\u00e7\u00e3o social em que o<br \/>\nEstado tenha por base as grandes massas prolet\u00e1rias, e, em lugar de<br \/>\nconsolidar, desmanche o poder do capitalismo.<\/p>\n<p>Quem diria, h\u00e1 dez anos, que nas ruas de Paris, duzentas mil pessoas<br \/>\ngritariam como gritaram no dia em que Drumont, amnistiado, voltou de Bruxelas:<br \/>\n&#8211; \u00abAbaixo Rothschild\u00bb ? Grito estranho, que revela o advento de<br \/>\num mundo novo. Por isso Rothschild (e tomo aqui Rothschild como um s\u00edmbolo<br \/>\ncapitalista) se retrai, se esbate, elimina em si, em torno de si, tudo o que<br \/>\nmuito brilhantemente mostre e prove o seu rothschildismo.<\/p>\n<p>\u00c9 a antiga hist\u00f3ria da aristocracia, escondendo nos arm\u00e1rios<br \/>\nas fardas douradas dos lacaios, raspando nas portinholas dos coches os bras\u00f5es<br \/>\nmuito vistosos. Por seu turno a plutocracia se faz toda modesta e simples.<br \/>\nNem estrondo de festas, nem luxo que cintile ao longe. Tudo muito discreto,<br \/>\nmuito disfar\u00e7ado, As cortinas das janelas bem corridas para que se<br \/>\nn\u00e3o aviste de fora a luz dos lustres. S\u00f3 tr\u00eas ou quatro<br \/>\namigos a jantar, com um champanhe t\u00edmido, E quando se dan\u00e7a<br \/>\n\u00e9 por subscri\u00e7\u00e3o, em benef\u00edcio de algum asilo<br \/>\nou creches, para que at\u00e9 o prazer pare\u00e7a estar ao servi\u00e7o<br \/>\ndo sofrimento.<\/p>\n<p>Paris, o Paris rico n\u00e3o se diverte com t\u00e3o brilhante despreocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nporque n\u00e3o h\u00e1 em roda dele, em frente dele, um outro grande<br \/>\nParis, o Paris pobre que o entristece e que o intimida.<\/p>\n<p>Esse Paris miser\u00e1vel \u00e9 muito velho \u2013 e nunca impedira<br \/>\nat\u00e9 h\u00e1 pouco, nem impusera reservas ao esplendor ruidoso do<br \/>\nParis opulento. O que \u00e9 novo, o que vem datando destes anos recentes,<br \/>\n\u00e9 o sentimento que ele inspira, um sentimento atento e inquieto, misturado<br \/>\nde ternura e de terror. Apesar de o Evangelho ser t\u00e3o antigo, e de<br \/>\nhaver em todas as revolu\u00e7\u00f5es feitas por Paris um fundo de instintos<br \/>\nevang\u00e9licos ao lado das reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas,<br \/>\no pobre, t\u00e3o recomendado pelo Evangelho, foi sempre para o parisiense<br \/>\nde prazer e de luxo um ser pouco interessante, quase importuno, que maculava<br \/>\na magnific\u00eancia harm\u00f3nica da cidade, que podia ser casualmente<br \/>\nsocorrido, mas que devia ser sobretudo vigiado e reprimido. Nunca at\u00e9<br \/>\nh\u00e1 pouco a ideia de que em Paris se morre de fome e de frio atormentara<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o parisiense. A mis\u00e9ria era mesmo considerada<br \/>\ncomo uma exagera\u00e7\u00e3o orat\u00f3ria dos tribunos revolucion\u00e1rios.<br \/>\nNo meio de uma civiliza\u00e7\u00e3o t\u00e3o produtiva, como poderia<br \/>\nfaltar trabalho, e portanto p\u00e3o, ao homem laborioso e decidido? Os<br \/>\ndesgra\u00e7ados, se existiam tal como os pintava pateticamente a literatura<br \/>\nhumanitarista, s\u00f3 \u00e0 sua indol\u00eancia e instintos de v\u00edcio<br \/>\ndeviam certamente a sua desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim pensavam os ricos \u2013 o que n\u00e3o impedia que exercessem<br \/>\numa certa caridade desde que ela era motivo de bazares elegantes ou de cotillons<br \/>\npatrocinados por duquesas.<\/p>\n<p>De resto l\u00e1 estava o Estado que se encarregava dos pobres \u2013<br \/>\nou para os socorrer, por meio da assist\u00eancia p\u00fablica, enquanto<br \/>\neles se mantinham submissos, para os reprimir por meio da pol\u00edcia,<br \/>\nquando uma exagerada no\u00e7\u00e3o dos seus direitos \u00e0 vida e<br \/>\n\u00e0 igualdade os tornava turbulentos.<\/p>\n<p>Este modo de sentir, em que havia mais leviandade do que dureza, tem sido,<br \/>\nnestes \u00faltimos anos, inteiramente modificado, louvado seja Deus e louvado<br \/>\nseja Paris. Muitas causas determinaram esta evolu\u00e7\u00e3o, que \u00e9<br \/>\numa consider\u00e1vel revolu\u00e7\u00e3o moral. Mas a principal \u00e9<br \/>\nque o pobre saiu do seu obscuro e silencioso opr\u00f3brio, apareceu como<br \/>\nclasse, revelou a sua for\u00e7a e falou. Apesar de todas as revolu\u00e7\u00f5es,<br \/>\no pobre, em Fran\u00e7a, permanecera sempre, de facto, calado. Ainda em<br \/>\n1848, durante um per\u00edodo ali\u00e1s repassado de humanitarismo sentimental,<br \/>\nse gritava na Assembleia Nacional e com aplauso de todas as classes: \u00abSil\u00eancio<br \/>\nao pobre!\u00bb O pobre era um mudo, que passava isoladamente na sombra e<br \/>\nde olhos baixos. De vez em quando, furioso, roubava uma espingarda e assaltava<br \/>\na sociedade. O ex\u00e9rcito acudia, sufocava a escandalosa revolta. A sociedade<br \/>\nrespirava, e continuava o jantar interrompido, declarando com indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o pobre era uma fera. E o pobre, como uma fera, recolhia silenciosamente<br \/>\nao seu covil.<\/p>\n<p>O seu primeiro triunfo foi quando, em vez de se revoltar, se come\u00e7ou<br \/>\na explicar, tranquilamente, como um ser sensato e cheio de justi\u00e7a.<br \/>\nEsta voz nova, triste e profunda, impressionou, foi escutada.<\/p>\n<p>O rico s\u00f3 desde ent\u00e3o verdadeiramente conheceu o pobre \u2013<br \/>\ncome\u00e7ou a saber o que \u00e9 ser pobre. As duas classes viviam totalmente<br \/>\nseparadas, uma no seu escuro inferno, outra no seu vistoso para\u00edso<br \/>\n\u2013 e os palet\u00f3s, bem acolchoados, s\u00f3 tinham uma no\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito vaga de que havia farrapos, por os avistar de longe, na rua e na penumbra.<br \/>\nEm Londres, h\u00e1 dez ou doze anos, foi uma tremenda surpresa quando,<br \/>\npor ordem do parlamento, se fez um demorado inqu\u00e9rito aos slums, os<br \/>\nbairros indizivelmente miser\u00e1veis, onde vive, ou antes, onde lentamente<br \/>\nmorre a mais desgra\u00e7ada, faminta e l\u00fagubre popula\u00e7a de<br \/>\ntoda a Europa. O qu\u00ea! Havia pois fam\u00edlias que andam quase nuas,<br \/>\ne dormem durante os mais duros invernos na terra h\u00famida, e comem apenas<br \/>\nas hortali\u00e7as podres que s\u00e3o apanhadas \u00e0 noitinha no<br \/>\nlixo e nos enxurros, \u00e0 roda dos mercados. A gente que tem uma conta<br \/>\nlarga no alfaiate, e \u00e9 muito dif\u00edcil na escolha do seu champanhe,<br \/>\nn\u00e3o podia acreditar que na rica Londres do s\u00e9culo XIX houvesse<br \/>\ntais vergonhas p\u00fablicas. E o sentimento geral, mesmo entre os mais<br \/>\nduros, foi que mis\u00e9rias t\u00e3o dolorosas se n\u00e3o deviam permitir<br \/>\nnuma terra crist\u00e3.<\/p>\n<p>O mesmo espanto se tem dado em Paris, e com a mesma revolta da consci\u00eancia<br \/>\nperante a revela\u00e7\u00e3o real e minuciosa das mis\u00e9rias do<br \/>\nproletariado, que \u00e9 uma das dores do socialismo, e a mais fecunda,<br \/>\na mais pr\u00e1tica, porque opera sobre o sentimento. \u00c9 desde ent\u00e3o<br \/>\nque grandes for\u00e7as sociais como s\u00e3o a Igreja, a literatura,<br \/>\na arte come\u00e7aram a preocupar-se com o pobre, a compreender amoravelmente<br \/>\na justi\u00e7a e o amor que se lhe deve, e a espalhar nas almas, cada uma<br \/>\npelo meio que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, a salutar li\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 da bondade activa e militante, mas do renunciamento,<br \/>\nde um verdadeiro renunciamento social, em que os ricos se despojem para que<br \/>\nchegue a todos um pouco do p\u00e3o da terra. E digo a Igreja tamb\u00e9m,<br \/>\nporque tamb\u00e9m ela andava esquecida dos pobres, apesar de ser a sua<br \/>\nm\u00e3e natural. Todos t\u00ednhamos, com efeito, esquecido o pobre,<br \/>\nnesta grande ilus\u00e3o e deslumbramento do progresso material que nos<br \/>\nabsorveu e obcecou setenta anos. Enganados pela ci\u00eancia, embrulhados<br \/>\nnas subtilezas balofas da economia pol\u00edtica, maravilhados como crian\u00e7as<br \/>\npelas habilidades da mec\u00e2nica, durante setenta anos constru\u00edmos<br \/>\nfreneticamente vapores, caminhos de ferro, m\u00e1quinas, f\u00e1bricas,<br \/>\ntel\u00e9grafos, uma imensa ferramentagem, imaginando que por ela realizar\u00edamos<br \/>\na felicidade definitiva dos homens e mal antevendo que aos nossos p\u00e9s,<br \/>\ne por motivo mesmo dessa nova civiliza\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria,<br \/>\nse estava criando uma massa imensa de mis\u00e9ria humana, e que, com cada<br \/>\npeda\u00e7o de ferro que fund\u00edamos e capitaliz\u00e1vamos, \u00edamos<br \/>\ncriar mais um pobre! No fim destes setenta anos de martelar e de forjar, havia<br \/>\ncom efeito alguns sujeitos muito gordos e muito ricos \u2013 mas havia uma<br \/>\nmultid\u00e3o de famintos, mais faminta e maior que nenhuma que o mundo<br \/>\nvira desde o velho patriciado romano.<\/p>\n<p>Foi esta multid\u00e3o, setenta anos muda e trabalhando, que por fim,<br \/>\nsem cessar de trabalhar, falou; contou o seu opr\u00f3brio, pediu justi\u00e7a.<br \/>\nE como a alma humana n\u00e3o \u00e9 pior nem melhor que no tempo de Jesus,<br \/>\ncontempor\u00e2neo de Tib\u00e9rio, a dolorosa voz entrou nela, e tr\u00e1-la<br \/>\ndesde ent\u00e3o entristecida e inclinada ao amor.<\/p>\n<p>N\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 hoje, sobretudo nas civiliza\u00e7\u00f5es<br \/>\nmuito intelectuais, aquele duro e soberbo ego\u00edsmo que tornava os felizes<br \/>\nt\u00e3o alheios aos desgra\u00e7ados e \u00e0s causas da sua desgra\u00e7a!<br \/>\nlodo o homem digno desse nome se sente hoje solid\u00e1rio com os homens<br \/>\ntodos e n\u00e3o separa inteiramente o seu bem-estar do bem-estar universal.<br \/>\nJ\u00e1 o desconforto do nosso vizinho nos impede de gozar, com um gozo<br \/>\npleno e sem mistura, o nosso pr\u00f3prio conforto. E quando sejam ainda<br \/>\nraros os que empregam toda a sua energia em melhorar a sorte dos que n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam sorte, s\u00e3o inumer\u00e1veis j\u00e1 aqueles que d\u00e3o<br \/>\nao seu semelhante desvalido um pensamento constante de piedade e simpatia.<br \/>\n\u00c9 ainda uma fraternidade plat\u00f3nica, passada nas regi\u00f5es<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o: mas que progresso enorme, desde o tempo em que essa<br \/>\nideia de fraternidade n\u00e3o sa\u00eda das regras frias da raz\u00e3o<br \/>\nfilos\u00f3fica! Que um homem hoje se n\u00e3o possa sentar diante da<br \/>\nsua mesa farta sem pensar, com fugitiva melancolia, nos que t\u00eam fome,<br \/>\ne que n\u00e3o estenda \u00e0 noite os p\u00e9s para o lume do seu fog\u00e3o,<br \/>\nouvindo fora silvar o nordeste gelado, sem ter um momento de piedade pelos<br \/>\nque est\u00e3o sofrendo frio \u2013 s\u00e3o fortes evid\u00eancias<br \/>\nestas de uma alta revolu\u00e7\u00e3o moral. E s\u00e3o estados de alma<br \/>\nmuito novos.<\/p>\n<p>Sempre existiu a piedade pelos que sofrem \u2013 mas era a piedade pelo<br \/>\nindiv\u00edduo isolado, e que os nossos olhos testemunhavam e palpavam o<br \/>\nsofrimento. Sempre o pobre que batia \u00e0 porta, mostrando a sua magreza,<br \/>\nos seus farrapos, a sua chaga mal lavada, excitou as compaix\u00f5es moment\u00e2neas,<br \/>\nlevou no saco a sua esmola. Esta grande emo\u00e7\u00e3o, por\u00e9m,<br \/>\nque se sente hoje pelo colectivo de vastas classes prolet\u00e1rias, este<br \/>\ndesejo de lhes garantir um al\u00edvio dur\u00e1vel, este esfor\u00e7o<br \/>\nhumanit\u00e1rio que trabalha e conspira para nivelar as fortes desigualdades<br \/>\necon\u00f3micas \u2013 s\u00e3o produtos morais deste tempo, e a sua<br \/>\nobra mais dif\u00edcil e mais honrosa.<\/p>\n<p>Ora esta preocupa\u00e7\u00e3o nova das almas influi necessariamente<br \/>\nnos costumes. O homem, quando sensibilizado, p\u00f5e logo nos seus menores<br \/>\nmodos de ver uma certa reserva e gravidade pensativa. E toda a nossa Europa<br \/>\nocidental anda profundamente sensibilizada. Um t\u00e9pido bafo de espiritualismo<br \/>\ne de amor humano, vindo de horizontes ainda desconhecidos, amacia e aquece<br \/>\nos cora\u00e7\u00f5es. Neste estado de sentimentalidade afectiva, a intelig\u00eancia,<br \/>\nque se torna sempre mais recta quando o sentimento a inspira, facilmente reconhece<br \/>\na injusti\u00e7a afrontosa das desigualdades sociais. E assim existem j\u00e1<br \/>\nhoje ricos que consideram quase injusto o excesso da sua riqueza. Ainda decerto<br \/>\nn\u00e3o atingiram (nem atingir\u00e3o talvez jamais) aquela perfeita<br \/>\neleva\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica que levava os santos a partilhar<br \/>\ncom os famintos, com os regelados, a metade do seu p\u00e3o e da sua capa.<br \/>\nMas onde evidentemente j\u00e1 chegaram \u00e9 a um certo escr\u00fapulo<br \/>\nmoral de tornar muito patente o esc\u00e2ndalo da sua fortuna e de ofuscar<br \/>\na indig\u00eancia com a publica\u00e7\u00e3o da sua abund\u00e2ncia.<br \/>\nDesde que tanta gente morre positivamente de fome, e que toda uma legi\u00e3o<br \/>\nde profetas clama contra uma sociedade em que tal morte \u00e9 poss\u00edvel,<br \/>\nh\u00e1 naturalmente da parte dos ricos uma grande timidez em abrir as suas<br \/>\njanelas e revelar a fortuna ostentosa da sua mesa. A nova corrente de ideias<br \/>\ncriou esta coisa estranha \u2013 a riqueza envergonhada. O milion\u00e1rio,<br \/>\npor pudor, esconde os seus milh\u00f5es. Assim como nos primeiros tempos<br \/>\nda grande revolu\u00e7\u00e3o, e ainda mesmo depois em 1830, muitos fidalgos<br \/>\nocultavam os seus t\u00edtulos, se proclamavam plebeus, se gabavam de ter<br \/>\npor suas m\u00e3os cavado a terra ou manejado o martelo, os rica\u00e7os<br \/>\nde agora afectam uma estreita mediocridade de fortuna, e disfar\u00e7am<br \/>\npudicamente o seu ouro. Ningu\u00e9m ousa fazer tilintar a sua bolsa cheia.<br \/>\nE como as festas, os bailes, os jantares s\u00e3o a mais natural manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nda riqueza, numa cidade t\u00e3o activamente social como a de Paris, todo<br \/>\nesse movimento sumptuoso se acalma, se esconde, desaparece lentamente, insensivelmente.<br \/>\nH\u00e1 como um receio delicado de ofender o pobre. Todos sentem que o dinheiro<br \/>\ndissipado no luxo deveria antes ser empregado na caridade \u2013 e n\u00e3o<br \/>\nse celebram festas de riqueza, por isso mesmo que elas parecem roubos feitas<br \/>\n\u00e0 pobreza. Realmente com que coragem se pode dar um rico jantar, cujo<br \/>\nluxo e flores e requintes ser\u00e3o contados na mesma p\u00e1gina do<br \/>\njornal em que vir\u00e1 a hist\u00f3ria angustiosa de velhos ou de crian\u00e7as<br \/>\nencontrados nas suas trapeiras, entre farrapos, mortos de fome, de pura fome?<br \/>\nOutrora a neve, a neve dura sob um sol resplandecente, era em Paris o motivo<br \/>\nde um luxo especial de Inverno, que ia at\u00e9 aos tren\u00f3s dourados<br \/>\nsulcando as avenidas do Bois&#8230; Mas quem se atreve a todas estas ostenta\u00e7\u00f5es<br \/>\nhoje, quando os jornais radicais (e muito justamente radicais) contam cada<br \/>\ndia que criancinhas sem abrigo, sem um ti\u00e7\u00e3o que as aque\u00e7a,<br \/>\nsem uma c\u00f4dea que as reconforte, morrem, transidas de frio, sob as pontes<br \/>\nde Paris? Cada fog\u00e3o aceso quase que faz mancha, numa cidade onde tantos<br \/>\nmilhares de criaturas n\u00e3o t\u00eam um sou para comprar uma acha.<\/p>\n<p>E se ningu\u00e9m ainda, por este sentimento, se priva de acender o seu<br \/>\nfog\u00e3o \u2013 muitos fecham as janelas para que o brilho do lume rico<br \/>\nn\u00e3o seja visto de fora por aqueles que erram, com escassos farrapos,<br \/>\npor entre neblinas geladas.<\/p>\n<p>E eis a\u00ed por que o Inverno foi t\u00e3o triste em Paris. A cidade<br \/>\ndas gra\u00e7as e dos risos apaga o antigo fulgor do seu riso, e esconde<br \/>\na vivacidade da sua gra\u00e7a um pouco por defer\u00eancia, muito por<br \/>\nmedo daquela outra cidade que est\u00e1 em torno, mostrando como uma acusa\u00e7\u00e3o<br \/>\npermanente a sua face esfaimada, onde os risos s\u00e3o raros, e quando<br \/>\nv\u00eam s\u00e3o amargos. E quase \u00e0s escondidas, de portas bem<br \/>\ncalefetadas, que Paris se diverte. E este constrangimento espalha sobre os<br \/>\nseus pr\u00f3prios divertimentos uma indefinida sombra de t\u00e9dio \u2013<br \/>\nporque, como diz um dos mais velhos e mais sinceros prov\u00e9rbios de Fran\u00e7a,<br \/>\ne em que o povo franc\u00eas se pintou todo \u2013 o\u00f9 il y a de la<br \/>\ng\u00e8ne il n\u2019y a plus de plaisir. Assim um dos primeiros e inesperados<br \/>\nresultados do momento socialista \u00e9 a austeridade de Paris, o seu renunciamento<br \/>\nfor\u00e7ado ao prazer vistoso e franco. A festiva cidade est\u00e1 passando<br \/>\npor aquela crise de gravidade sorumb\u00e1tica que Londres atravessou no<br \/>\ntempo de Cromwell e dos puritanos, quando era quase um crime de Estado cantar<br \/>\numa can\u00e7\u00e3o numa taberna, ou apertar o gib\u00e3o com um la\u00e7o<br \/>\nde cores garridas.<\/p>\n<p>Crise perigosa, porque a deusa da Alegria, como a deusa da Fortuna, raras<br \/>\nvezes volta aos s\u00edtios donde foi expulsa por motivos de doutrina. A<br \/>\nInglaterra, que at\u00e9 Cromwell era t\u00e3o cheia de festivais e folgan\u00e7as<br \/>\nque se chamava Merry England, a jovial Inglaterra, passou a ser a terra cl\u00e1ssica<br \/>\nda insipidez. Debalde a monarquia foi restaurada, e os puritanos desapareceram<br \/>\ncom as suas longas capas negras, o seu rancor a toda a gra\u00e7a e todo<br \/>\no riso \u2013 o puritanismo ficou pesando sobre a pobre Inglaterra, como<br \/>\numa grande sombra de jazigo. As almas tinham tomado resignadamente o h\u00e1bito<br \/>\nda sensaboria, e j\u00e1 vegetavam nela como num escuro elemento natural.<br \/>\nS\u00f3 agora, depois de quase tr\u00eas s\u00e9culos, \u00e9 que,<br \/>\npor esfor\u00e7o lento do velho temperamento sax\u00f3nico, ela come\u00e7a<br \/>\na emergir dos cinzentos v\u00e9us puritanos, e a retomar um pouco do lustre,<br \/>\nda espontaneidade jucunda, da ligeireza galante do tempo em que era a Merry<br \/>\nEngland, a jovial Inglaterra.<\/p>\n<p>Quem sabe tamb\u00e9m se a Fran\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 rindo<br \/>\nem surdina os seus \u00faltimos risos \u2013 e se, com o advento do quarto<br \/>\nestado, com o triunfo social do proletariado, ela se n\u00e3o tornar\u00e1,<br \/>\npor seu turno, a p\u00e1tria cl\u00e1ssica da melancolia! Com efeito uma<br \/>\nvelha profecia do monge de Orval anuncia que, a\u00ed por 1897 ou 1898,<br \/>\nParis deixar\u00e1 de rir. O terr\u00edvel monge, que viveu no s\u00e9culo<br \/>\nXV, previu Lu\u00eds Filipe, profetizou a guerra de 70. E esta nova amea\u00e7a,<br \/>\no fim do riso de Paris, bem se pode tamb\u00e9m realizar: porque j\u00e1<br \/>\naquele riso que tem sido, desde o s\u00e9culo XVIII, a sedu\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Europa, se produz com esfor\u00e7o em l\u00e1bios que est\u00e3o<br \/>\np\u00e1lidos e come\u00e7am a murchar.<\/p>\n<p>Que aproveitem pois este resto de alegria, e corram depressa antes que ela<br \/>\nse extinga, aqueles que vinham a Paris, sobretudo com o fim profano de serem<br \/>\nos h\u00f3spedes acariciados e deliciosamente acolhidos dos jogos, das gra\u00e7as<br \/>\ne dos risos.<\/p>\n<h2>A PROP\u00d3SITO DO TERMIDOR<\/h2>\n<p>Victorien Sardou, h\u00e1 cinco ou seis anos, escreveu (ou antes maquinou,<br \/>\nporque este verbo melhor lhe compete) um drama intitulado Termidor, que foi<br \/>\nrepresentado uma vez na Com\u00e9die Fran\u00e7aise e imediatamente proibido<br \/>\npelo Governo como funesto para a rep\u00fablica e para a liberdade. Termidor,<br \/>\ncom efeito, ressuscitava uma \u00e9poca essencialmente antilivre e antirepublicana,<br \/>\npois que durante ela se desenrolou o reinado do Terror e a sangrenta tirania<br \/>\nde Robespierre.<\/p>\n<p>Mas, coisa democraticamente divertida, a pe\u00e7a de Sardou foi interdita,<br \/>\nem nome da rep\u00fablica e da liberdade, por isso mesmo que, atrav\u00e9s<br \/>\ndela, em falas amargas e em epis\u00f3dios demonstrativos, se condenava<br \/>\no despotismo. A raz\u00e3o aduzida pelo Governo ou, antes, pela maioria<br \/>\ndas c\u00e2maras, que, sob o comando fogoso de Clemenceau (ent\u00e3o omnipotente),<br \/>\nvotou a proibi\u00e7\u00e3o de Termidor: porque todo o verdadeiro e leal<br \/>\nrepublicano deve aceitar a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa em bloco. Nesse<br \/>\ndia nasceu ou, pelo menos, foi cunhada em aforismo e penetrou na circula\u00e7\u00e3o<br \/>\nbanal a doutrina, hoje famosa, do bloco. Consiste ela em que o bom republicano,<br \/>\nverdadeiramente \u00fatil \u00e0 rep\u00fablica, deve adoptar a Revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nFrancesa em todo o seu conjunto, na sua absoluta totalidade, com todos os<br \/>\nseus benef\u00edcios magn\u00edficos e todos os seus crimes bestiais,<br \/>\nsem separar, sem escolher, sem sorrir a Camile Desmoulins, porque ele foi<br \/>\ngeneroso e po\u00e9tico, sem repelir Marat, porque ele foi s\u00f3rdido<br \/>\ne sangrento, amando tudo, reverenciando tudo, os homens todos, as festas todas,<br \/>\nos her\u00f3is e os canalhas, a aboli\u00e7\u00e3o dos direitos feudais<br \/>\ne as matan\u00e7as de Setembro, como se essa revolu\u00e7\u00e3o fosse<br \/>\nna realidade um bloco, um bloco de metais fundidos, onde se n\u00e3o pudesse<br \/>\nestremar o ouro puro do chumbo vil e onde o chumbo estivesse t\u00e3o sumido<br \/>\nno ouro que na realidade tudo parecesse e valesse ouro. E segundo esta dogm\u00e1tica<br \/>\ndoutrina, um governo republicano, mesmo reconhe-cendo a s\u00f3s com o seu<br \/>\npenacho que Robespierre foi vagamente rid\u00edculo como papa (papa do Ente<br \/>\nSupremo) e secamente sanguin\u00e1rio como ditador, nunca poderia permitir<br \/>\nque Robespierre, que \u00e9 um dos bocados considerados do bloco, afrontasse<br \/>\numa pateada num teatro de Paris.<\/p>\n<p>Da\u00ed a supress\u00e3o ditatorial de Termidor. E havia ainda a velha<br \/>\nraz\u00e3o dos governos (t\u00e3o velha, e decr\u00e9pita, e tr\u00e9mula,<br \/>\ne tonta, que eu pasmo como ela ainda pode aparecer nas assembleias e ser tomada<br \/>\npor uma realidade viva), a safada raz\u00e3o da ordem p\u00fablica.<\/p>\n<p>Com efeito, segundo afirmava o Governo, os jacobinos e os sebastianistas<br \/>\n(porque esta alcunha do Brasil, tirada da po\u00e9tica seita de Portugal,<br \/>\nconv\u00e9m admiravelmente aos realistas de Fran\u00e7a) tinham planeado<br \/>\ndescer em massas densas sobre a Com\u00e9die Fran\u00e7aise, uns para<br \/>\napupar o reinado do Terror e aclamar Sardou, que o denegria, os outros para<br \/>\nvitoriar Robespierre e quebrar Sardou e os bancos: e ambos para uivarem e<br \/>\nmutuamente se tratarem de \u00abgarotos\u00bb, em nome de 89 e da Declara\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Direitos do Homem.<\/p>\n<p>At\u00e9 se murmurava com terror que nessa noite devia aparecer Lissagaray,<br \/>\no pr\u00f3prio Lissagaray, o formid\u00e1vel Lissagaray. Eu nunca soube<br \/>\nquem fosse esse homem assus-tador, nem mesmo se era um homem ou um s\u00edmbolo<br \/>\ncomo Ferrabr\u00e1s e Polifemo. Na minha mocidade, quando eu conspirava<br \/>\nem Lisboa, na Travessa da Concei\u00e7\u00e3o Nova, contra Napole\u00e3o<br \/>\nIII, havia em Paris um Lissagaray, tamb\u00e9m terr\u00edvel, em quem<br \/>\nRochefort dera alegremente ou estocadas ou bengaladas. Seria ainda esse, e<br \/>\nainda terr\u00edvel? Em todo o caso, s\u00edmbolo social ou homem mortal<br \/>\ne espancado, Lissagaray nessa noite devia vir! O Governo sufocou Sardou para<br \/>\nsalvar a ordem. E a Com\u00e9die Fran\u00e7aise, em vez de Termidor, deu<br \/>\na pe\u00e7a que melhor convinha, como coment\u00e1rio \u2013 o Tartufo.<\/p>\n<p>Pois bem! Cinco anos v\u00e3o passados, como se dizia nos romances rom\u00e2nticos.<br \/>\nE a\u00ed temos n\u00f3s Termidor representado no teatro da Porte St.<br \/>\nMartin, durante dois meses, sob a benevol\u00eancia paternal do Governo e<br \/>\nno meio de uma risonha e deliciosa ordem p\u00fablica! E notai que mestre<br \/>\nSardou, sagaz cozinheiro de guisados teatrais, sabendo bem que nunca se deve<br \/>\nservir um prato da v\u00e9spera sem um molho novo e fortemente apimentado,<br \/>\nintroduziu em Termidor epis\u00f3dios in\u00e9ditos e todos desagrad\u00e1veis<br \/>\npara a Revolu\u00e7\u00e3o, uns mostrando a sua incoer\u00eancia an\u00e1rquica,<br \/>\noutros enegrecendo a sua ferocidade impiedosa. At\u00e9 h\u00e1 uma sess\u00e3o<br \/>\nda Conven\u00e7\u00e3o, a sess\u00e3o de 9 de Termidor, em que Robespierre<br \/>\nfoi acusado e derrubado, reconstitu\u00edda num cen\u00e1rio erudito,<br \/>\ncom as bancadas e as tribunas, e os convencionais mais ilustres, e o povo<br \/>\ntumultuoso, e as grandes invectivas hist\u00f3ricas, e os gestos, os apupos,<br \/>\nos rugidos, os ultrajes, e Robespierre de casaca cor de pinh\u00e3o, com<br \/>\no punho fechado, gritando ao presidente Collot-d\u2019Herbois: \u00abPela<br \/>\n\u00faltima vez te pe\u00e7o a palavra, presidente de assassinos!\u00bb<br \/>\nE todavia, apesar destas exibi\u00e7\u00f5es irritantes, que o Governo<br \/>\nh\u00e1 cinco anos temia, ou afectava temer, por causa da velha ordem e<br \/>\nda rever\u00eancia que se deve ao bloco, todas as noites Termidor se desenrola<br \/>\nno meio de um sossego atento, como se em vez da Revolu\u00e7\u00e3o se<br \/>\ntratasse da Renascen\u00e7a ou da Guerra dos Cem Anos. O que interessa n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 a sorte de liberdade. Termidor, com efeito, ressuscitava uma \u00e9poca<br \/>\nessencialmente antilivre e antirepublicana, pois que durante ela se desenrolou<br \/>\no reinado do Terror e a sangrenta tirania de Robespierre.<\/p>\n<p>Mas, coisa democraticamente divertida, a pe\u00e7a de Sardou foi interdita,<br \/>\nem nome da rep\u00fablica e da liberdade, por isso mesmo que, atrav\u00e9s<br \/>\ndela, em falas amargas e em epis\u00f3dios demonstrativos, se condenava<br \/>\no despotismo. A raz\u00e3o aduzida pelo Governo ou, antes, pela maioria<br \/>\ndas c\u00e2maras, que, sob o comando fogoso de Clemenceau (ent\u00e3o omnipotente),<br \/>\nvotou a proibi\u00e7\u00e3o de Termidor: porque todo o verdadeiro e leal<br \/>\nrepublicano deve aceitar a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa em bloco. Nesse<br \/>\ndia nasceu ou, pelo menos, foi cunhada em aforismo e penetrou na circula\u00e7\u00e3o<br \/>\nbanal a doutrina, hoje famosa, do bloco. Consiste ela em que o bom republicano,<br \/>\nverdadeiramente \u00fatil \u00e0 rep\u00fablica, deve adoptar a Revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nFrancesa em todo o seu conjunto, na sua absoluta totalidade, com todos os<br \/>\nseus benef\u00edcios magn\u00edficos e todos os seus crimes bestiais,<br \/>\nsem separar, sem escolher, sem sorrir a Camile Desmoulins, porque ele foi<br \/>\ngeneroso e po\u00e9tico, sem repelir Marat, porque ele foi s\u00f3rdido<br \/>\ne sangrento, amando tudo, reverenciando tudo, os homens todos, as festas todas,<br \/>\nos her\u00f3is e os canalhas, a aboli\u00e7\u00e3o dos direitos feudais<br \/>\ne as matan\u00e7as de Setembro, como se essa revolu\u00e7\u00e3o fosse<br \/>\nna realidade um bloco, um bloco de metais fundidos, onde se n\u00e3o pudesse<br \/>\nestremar o ouro puro do chumbo vil e onde o chumbo estivesse t\u00e3o sumido<br \/>\nno ouro que na realidade tudo parecesse e valesse ouro. E segundo esta dogm\u00e1tica<br \/>\ndoutrina, um governo republicano, mesmo reconhe-cendo a s\u00f3s com o seu<br \/>\npenacho que Robespierre foi vagamente rid\u00edculo como papa (papa do Ente<br \/>\nSupremo) e secamente sanguin\u00e1rio como ditador, nunca poderia permitir<br \/>\nque Robespierre, que \u00e9 um dos bocados considerados do bloco, afrontasse<br \/>\numa pateada num teatro de Paris.<\/p>\n<p>Da\u00ed a supress\u00e3o ditatorial de Termidor. E havia ainda a velha<br \/>\nraz\u00e3o dos governos (t\u00e3o velha, e decr\u00e9pita, e tr\u00e9mula,<br \/>\ne tonta, que eu pasmo como ela ainda pode aparecer nas assembleias e ser tomada<br \/>\npor uma realidade viva), a safada raz\u00e3o da ordem p\u00fablica.<\/p>\n<p>Com efeito, segundo afirmava o Governo, os jacobinos e os sebastianistas<br \/>\n(porque esta alcunha do Brasil, tirada da po\u00e9tica seita de Portugal,<br \/>\nconv\u00e9m admiravelmente aos realistas de Fran\u00e7a) tinham planeado<br \/>\ndescer em massas densas sobre a Com\u00e9die Fran\u00e7aise, uns para<br \/>\napupar o reinado do Terror e aclamar Sardou, que o denegria, os outros para<br \/>\nvitoriar Robespierre e quebrar Sardou e os bancos: e ambos para uivarem e<br \/>\nmutuamente se tratarem de \u00abgarotos\u00bb, em nome de 89 e da Declara\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Direitos do Homem.<\/p>\n<p>At\u00e9 se murmurava com terror que nessa noite devia aparecer Lissagaray,<br \/>\no pr\u00f3prio Lissagaray, o formid\u00e1vel Lissagaray. Eu nunca soube<br \/>\nquem fosse esse homem assus-tador, nem mesmo se era um homem ou um s\u00edmbolo<br \/>\ncomo Ferrabr\u00e1s e Polifemo. Na minha mocidade, quando eu conspirava<br \/>\nem Lisboa, na Travessa da Concei\u00e7\u00e3o Nova, contra Napole\u00e3o<br \/>\nIII, havia em Paris um Lissagaray, tamb\u00e9m terr\u00edvel, em quem<br \/>\nRochefort dera alegremente ou estocadas ou bengaladas. Seria ainda esse, e<br \/>\nainda terr\u00edvel? Em todo o caso, s\u00edmbolo social ou homem mortal<br \/>\ne espancado, Lissagaray nessa noite devia vir! O Governo sufocou Sardou para<br \/>\nsalvar a ordem. E a Com\u00e9die Fran\u00e7aise, em vez de Termidor, deu<br \/>\na pe\u00e7a que melhor convinha, como coment\u00e1rio \u2013 o Tartufo.<\/p>\n<p>Pois bem! Cinco anos v\u00e3o passados, como se dizia nos romances rom\u00e2nticos.<br \/>\nE a\u00ed temos n\u00f3s Termidor representado no teatro da Porte St.<br \/>\nMartin, durante dois meses, sob a benevol\u00eancia paternal do Governo e<br \/>\nno meio de uma risonha e deliciosa ordem p\u00fablica! E notai que mestre<br \/>\nSardou, sagaz cozinheiro de guisados teatrais, sabendo bem que nunca se deve<br \/>\nservir um prato da v\u00e9spera sem um molho novo e fortemente apimentado,<br \/>\nintroduziu em Termidor epis\u00f3dios in\u00e9ditos e todos desagrad\u00e1veis<br \/>\npara a Revolu\u00e7\u00e3o, uns mostrando a sua incoer\u00eancia an\u00e1rquica,<br \/>\noutros enegrecendo a sua ferocidade impiedosa. At\u00e9 h\u00e1 uma sess\u00e3o<br \/>\nda Conven\u00e7\u00e3o, a sess\u00e3o de 9 de Termidor, em que Robespierre<br \/>\nfoi acusado e derrubado, reconstitu\u00edda num cen\u00e1rio erudito,<br \/>\ncom as bancadas e as tribunas, e os convencionais mais ilustres, e o povo<br \/>\ntumultuoso, e as grandes invectivas hist\u00f3ricas, e os gestos, os apupos,<br \/>\nos rugidos, os ultrajes, e Robespierre de casaca cor de pinh\u00e3o, com<br \/>\no punho fechado, gritando ao presidente Collot-d\u2019Herbois: \u00abPela<br \/>\n\u00faltima vez te pe\u00e7o a palavra, presidente de assassinos!\u00bb<br \/>\nE todavia, apesar destas exibi\u00e7\u00f5es irritantes, que o Governo<br \/>\nh\u00e1 cinco anos temia, ou afectava temer, por causa da velha ordem e<br \/>\nda rever\u00eancia que se deve ao bloco, todas as noites Termidor se desenrola<br \/>\nno meio de um sossego atento, como se em vez da Revolu\u00e7\u00e3o se<br \/>\ntratasse da Renascen\u00e7a ou da Guerra dos Cem Anos. O que interessa n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 a sorte de universal. Eram c\u00e9pticos, eram sensualistas, eram<br \/>\nrid\u00edculos \u2013 mas lutavam pela verdade abstracta e tinham como<br \/>\nfim a salva\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Eram homens cheios de ideias grandes e de ideias mesquinhas, de qualidades<br \/>\nbaixas e de qualidades magn\u00e2nimas. Mas, desde que uma hist\u00f3ria<br \/>\nverdadeiramente cr\u00edtica e n\u00e3o cantada ao som da lira ou rugida<br \/>\ncomo um vitup\u00e9rio, \u00e0 Carlyle, os mostrou assim simples homens<br \/>\n\u2013 todo o interesse vivo e fumegante que eles se inspiravam se apagou.<br \/>\nAh!, a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa n\u00e3o \u00e9 uma epopeia super-humana,<br \/>\nno g\u00e9nero da guerra dos tit\u00e3s?&#8230; Ent\u00e3o n\u00e3o gastemos<br \/>\nmais com ela as nossas preciosas emo\u00e7\u00f5es. Que fique de uma vez<br \/>\ne definitivamente arrumada no cat\u00e1logo geral da hist\u00f3ria, como<br \/>\na Reforma, ou a Jacquerie, ou a Guerra dos Cem Anos, ou o imp\u00e9rio portugu\u00eas<br \/>\ndo Oriente. N\u00e3o lhe devemos j\u00e1 a nossa paix\u00e3o \u2013<br \/>\napenas a nossa investiga\u00e7\u00e3o. Seria pueril que nos exalt\u00e1ssemos<br \/>\nmais por Danton e Robespierre do que por Cipi\u00e3o ou por Carlos, o Temer\u00e1rio.<br \/>\nO que a uns e outros compete s\u00e3o dissertas teses, bem documentadas,<br \/>\ncom notas e com gloss\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas, desde que n\u00f3s n\u00e3o conservamos mais a Revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre o vivificante calor das nossas discuss\u00f5es, e n\u00e3o a abrigamos<br \/>\nsob os nossos entusiasmos, ela ficou como abandonada e sem defesa contra a<br \/>\ngoela tragadora do tempo. N\u00e3o \u00e9 hoje um peda\u00e7o da nossa<br \/>\nvida \u2013 \u00e9 apenas um cap\u00edtulo da Hist\u00f3ria Moderna.<br \/>\nJ\u00e1 se tornou coisa morta \u2013 est\u00e1 para al\u00e9m do Letes,<br \/>\ndo rio dos mortos. E essa c\u00f4ncava goela do tempo a que o poeta chamava<br \/>\no \u00abP\u00f3rtico do Esquecimento\u00bb, j\u00e1 come\u00e7a a<br \/>\nestirar sobre ela a sua sombra densa. N\u00f3s assistimos assim ao esvaecimento<br \/>\nda Revolu\u00e7\u00e3o. Cada ano que passa a vai levando mais para longe<br \/>\nde n\u00f3s, num alongamento que lhe esbate os fortes relevos e em que as<br \/>\nsuas vivas, ardentes cores, desmerecem, esmorecem.<\/p>\n<p>Era um grupo movente de gente viva \u2013 n\u00e3o \u00e9 mais que<br \/>\numa galeria de figuras paradas, sob uma luz neutra. Ainda se v\u00eaem ao<br \/>\nlonge os madeiros da guilhotina (\u00e9 mesmo o que se v\u00ea mais nitidamente):<br \/>\nmas j\u00e1 se n\u00e3o percebe aquele jorrar e fumegar de sangue, que<br \/>\nh\u00e1 pouco era motivo de tanta c\u00f3lera e tanta dor. A Conven\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 como esborratada, sem que se lhe possam reconhecer as faces violentas<br \/>\ne populares. O Clube dos Jacobinos n\u00e3o \u00e9 mais que um tremer<br \/>\nde manchas negras e an\u00f3nimas. A gra\u00e7a tocante ou o hero\u00edsmo<br \/>\ndas Charlotte Corday, das Lamballe, est\u00e1 t\u00e3o desbotado que nem<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o mais sect\u00e1rio por elas se entusiasma. A vasta<br \/>\nvoz de Mirabeau, que ainda h\u00e1 pouco ressoava entre n\u00f3s, nos<br \/>\nfazia estremecer, \u00e9 simplesmente um murm\u00fario indistinto. De<br \/>\nDanton, que enchia o mundo, resta uma sombra sobre um muro. E j\u00e1 nem<br \/>\nse percebe a cor da casaca de Robespierre! Todos n\u00f3s a conhec\u00edamos,<br \/>\nessa casaca que ele trazia t\u00e3o escovada, t\u00e3o tesa, t\u00e3o<br \/>\nautorit\u00e1ria&#8230; E j\u00e1 n\u00e3o nos lembra, nem podemos verificar<br \/>\na esta dist\u00e2ncia de al\u00e9m-Letes, se era azul ou cor de pinh\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 definitiva esta entrada da Revolu\u00e7\u00e3o na paz silenciosa<br \/>\ndos arquivos? Ressurgir\u00e1 ela desse jazigo erudito, como agora ressurgiu<br \/>\nNapole\u00e3o? Duvido. Napole\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i simples,<br \/>\ncompreens\u00edvel, f\u00e1cil de reconstruir, sem os profundos trabalhos<br \/>\npara que o nosso tempo \u00e9 impr\u00f3prio. A Revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\npelo contr\u00e1rio, \u00e9 imensa e complicada, cheia de ideias e de<br \/>\nhomens, um pesado mundo, dif\u00edcil de ressuscitar e de repuxar para a<br \/>\nluz. E pois quase certo que ela ficar\u00e1 no vasto cemit\u00e9rio do<br \/>\npassado, ao lado das outras grandes \u00e9pocas monas. E quando algum dos<br \/>\nseus her\u00f3is voltar a aparecer, durante algumas noites, no tablado de<br \/>\num teatro de Paris, n\u00e3o despertar\u00e1 mais entusiasmos ou mais<br \/>\nc\u00f3leras do que Carlos V ou C\u00e9sar B\u00f3rgia, quando esses<br \/>\nilustres, vestidos de trajes ricos, exprimem sentimentos fortes por meio de<br \/>\nbelos versos. De facto a Revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 bastante<br \/>\nmorta para come\u00e7ar a ser tratada em verso.<\/p>\n<p>Termidor ainda \u00e9 em prosa. Daqui a alguns anos Mirabeau, Marat, Robespierre,<br \/>\ndir\u00e3o as grandes ideias e as grandes paix\u00f5es da Revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\natrav\u00e9s de cinco actos, em alexandrinos sonoros, de rima preciosa.<br \/>\nAnos depois os tr\u00eas homens terr\u00edveis, \u00e0 boca do prosc\u00e9nio,<br \/>\ncobertos de veludo, com a m\u00e3o sobre o peito, entre largas rajadas de<br \/>\norquestra, cantar\u00e3o um terceto sublime de tenor, bar\u00edtono e<br \/>\nbaixo.<\/p>\n<p>N\u00e3o me atrevo a prever quando a Revolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1<br \/>\nposta em bailado. Mas no dia glorioso em que Danton, vestido de malha cor-de-rosa<br \/>\ne dan\u00e7ando um pas-de-deux patri\u00f3tico, ordene por m\u00edmica<br \/>\nas matan\u00e7as de Setembro, e em que Madame Rolland, de saias de gaze<br \/>\ntufadas e os bra\u00e7os em arco, suba com piruetas graciosas a uma guilhotina,<br \/>\ntoda engrinaldada de flores, podemos respirar e considerar que se fechou o<br \/>\nciclo hist\u00f3rico da Revolu\u00e7\u00e3o e saudar os tempos novos.<\/p>\n<h2>FESTAS RUSSAS \u2013 AS DECORA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n<p>A Fran\u00e7a, na\u00e7\u00e3o ditosa, durante tr\u00eas dias caminhou,<br \/>\ncomo Ruy Blas, toute vivante dans son r\u00eave \u00e9toil\u00e9, ruidosamente<br \/>\ndesperta e vivendo o sonho radiante que nestes tr\u00eas anos andara sonhando,<br \/>\nentre tanta esperan\u00e7a, tanta ansiedade e tanto remoque ir\u00f3nico<br \/>\ndas velhas monarquias que a cercam. Durante tr\u00eas dias o czar esteve<br \/>\nem Paris. O czar em Paris! Dois milh\u00f5es de parisienses, a que se juntou<br \/>\num milh\u00e3o de provinciais, contemplaram enfim o senhor de todas as R\u00fassias,<br \/>\nreal, n\u00e3o pintado, numa caleche que tinha na portinhola o bras\u00e3o<br \/>\nde Paris, com os joelhos a tocar nos joelhos do presidente da Rep\u00fablica,<br \/>\nentre as escoltas da Guarda Republicana, circulando nas ruas e na poeira de<br \/>\nParis, visitando o presidente do Senado e o presidente da C\u00e2mara, penetrando<br \/>\nem Notre-Dame para se inclinar ante a Virgem a que rezou Joana d\u2019Arc,<br \/>\ndescendo \u00e0s criptas do Pante\u00e3o para depor uns ramos de orqu\u00eddeas<br \/>\nsobre a tumba de Carnot, assistindo a uma sess\u00e3o da Academia Francesa<br \/>\nem que os imortais disseram versos e discutiram o dicion\u00e1rio (que nesse<br \/>\ndia, simbolicamente, chegara ao substantivo amizade), cimentando a pedra inicial<br \/>\nda Exposi\u00e7\u00e3o de 1900, folheando nos arquivos da Sainte-Chapelle<br \/>\no vetusto pergaminho esclav\u00f3nico sobre que juraram os primeiros reis<br \/>\nde Fran\u00e7a, bebendo champanhe Montebelo no h\u00f4tel de ville com<br \/>\na muncipalidade radical e socialista, percorrendo os Inv\u00e1lidos por<br \/>\nentre as bandeiras tomadas na Crimeia, at\u00e9 ao t\u00famulo de Napole\u00e3o,<br \/>\npassando revista, no acampamento hist\u00f3rico de Ch\u00e2lons, a oitenta<br \/>\nmil homens do ex\u00e9rcito reconstitu\u00eddo, rindo na Com\u00e9die<br \/>\nFran\u00e7aise com a mais cl\u00e1ssica das com\u00e9dias de Moli\u00e8re,<br \/>\ne rindo tamb\u00e9m na galerias de Versalhes com a mais garota das farsas<br \/>\nde Meilhac, prestando um preito igual \u00e0 velha Fran\u00e7a e \u00e0<br \/>\nFran\u00e7a nova, e sobretudo, mais que tudo, espalhando por sobre a multid\u00e3o<br \/>\nencantada um olhar que os jornais mais cometidos classificam de doce e carinhoso.<br \/>\nDurante tr\u00eas dias a Fran\u00e7a condensada em Paris gozou, deslumbrada,<br \/>\nesta realiza\u00e7\u00e3o triunfal do seu sonho de tr\u00eas anos. Ah!<br \/>\nSe, depois dos abra\u00e7os de Cronstadt e das efus\u00f5es de Toulon,<br \/>\ne do almirante Avelance acolhido nos bulevares como outrora a pomba foi acolhida<br \/>\nna arca, o czar viesse a Paris!&#8230; O czar veio a Paris. Veio a Paris trazendo<br \/>\na R\u00fassia, porque a R\u00fassia toda se resume nele, e trazendo a<br \/>\nimperatriz e a sua filhinha Olga, e at\u00e9 o seu c\u00e3o Lofki.<\/p>\n<p>Para receber este bem-desejado a Fran\u00e7a alvoro\u00e7adamente prodigalizou<br \/>\no seu dinheiro, o seu g\u00e9nio decorativo e o seu entusiasmo. E o resultado,<br \/>\nmeus queridos, n\u00e3o se me afigurou sumptuoso. O Franc\u00eas, por isso<br \/>\nmesmo que \u00e9 eminentemente intelectual, n\u00e3o tem o engenho decorativo,<br \/>\nnem o pl\u00e1stico dom de criar o pitoresco. Quando as suas gl\u00f3rias<br \/>\no levam a enfeitar as suas cidades, nunca a sua inven\u00e7\u00e3o vai<br \/>\nal\u00e9m de mastros, colunas de lona pintada e molhos de bandeiras que<br \/>\nemergem de escudos de papel\u00e3o cinzento formando uma pan\u00f3plia<br \/>\ntriste. E depois deste esfor\u00e7o os decoradores muni-cipais ficam exaustos.<br \/>\nDesta vez, como o patriotismo os exaltava, tiveram um arranque de imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ne cobriram os ramos desfolhados dos castanheiros dos Campos El\u00edsios<br \/>\ncom florinhas de papel escarlates e brancas. Paris inteiro se maravilhou com<br \/>\nesta ornamenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 usual em todas as aldeias da<br \/>\nChina, e que os bons burgueses alem\u00e3es de Wurtemberg tinham j\u00e1<br \/>\ninventado em 1805, para festejar Napole\u00e3o. Qualquer vila da It\u00e1lia,<br \/>\nda Espanha ou de Portugal desenvolve realmente mais cor e brilho, no adorno<br \/>\ndas suas ruas, para solenizar o seu santo padroeiro (com quem todavia \u00e9<br \/>\nfamiliar, e de quem j\u00e1 nada espera, nem mesmo chuva em tempo de seca)<br \/>\ndo que este rico e genial Paris para festejar o grande soberano que lhe trazia<br \/>\na seguran\u00e7a e a paz. Para todo o Franc\u00eas, de resto, \u00e9<br \/>\nmais f\u00e1cil compor uma l\u00facida, fina e bem coordenada tese hist\u00f3rica<br \/>\ndo que guarnecer a sua janela com eleg\u00e2ncia aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Pelo mesmo motivo, pelo admir\u00e1vel equil\u00edbrio da sua raz\u00e3o,<br \/>\no Franc\u00eas n\u00e3o tem a vistosa e sonora arte do entusiasmo. Os Espanh\u00f3is<br \/>\ndizem que quem em certas ocasi\u00f5es n\u00e3o perde a A Fran\u00e7a,<br \/>\nna\u00e7\u00e3o ditosa, durante tr\u00eas dias caminhou, como Ruy Blas,<br \/>\ntoute vivante dans son r\u00eave \u00e9toil\u00e9, ruidosamente desperta<br \/>\ne vivendo o sonho radiante que nestes tr\u00eas anos andara sonhando, entre<br \/>\ntanta esperan\u00e7a, tanta ansiedade e tanto remoque ir\u00f3nico das<br \/>\nvelhas monarquias que a cercam. Durante tr\u00eas dias o czar esteve em Paris.<br \/>\nO czar em Paris! Dois milh\u00f5es de parisienses, a que se juntou um milh\u00e3o<br \/>\nde provinciais, contemplaram enfim o senhor de todas as R\u00fassias, real,<br \/>\nn\u00e3o pintado, numa caleche que tinha na portinhola o bras\u00e3o de<br \/>\nParis, com os joelhos a tocar nos joelhos do presidente da Rep\u00fablica,<br \/>\nentre as escoltas da Guarda Republicana, circulando nas ruas e na poeira de<br \/>\nParis, visitando o presidente do Senado e o presidente da C\u00e2mara, penetrando<br \/>\nem Notre-Dame para se inclinar ante a Virgem a que rezou Joana d\u2019Arc,<br \/>\ndescendo \u00e0s criptas do Pante\u00e3o para depor uns ramos de orqu\u00eddeas<br \/>\nsobre a tumba de Carnot, assistindo a uma sess\u00e3o da Academia Francesa<br \/>\nem que os imortais disseram versos e discutiram o dicion\u00e1rio (que nesse<br \/>\ndia, simbolicamente, chegara ao substantivo amizade), cimentando a pedra inicial<br \/>\nda Exposi\u00e7\u00e3o de 1900, folheando nos arquivos da Sainte-Chapelle<br \/>\no vetusto pergaminho esclav\u00f3nico sobre que juraram os primeiros reis<br \/>\nde Fran\u00e7a, bebendo champanhe Montebelo no h\u00f4tel de ville com<br \/>\na muncipalidade radical e socialista, percorrendo os Inv\u00e1lidos por<br \/>\nentre as bandeiras tomadas na Crimeia, at\u00e9 ao t\u00famulo de Napole\u00e3o,<br \/>\npassando revista, no acampamento hist\u00f3rico de Ch\u00e2lons, a oitenta<br \/>\nmil homens do ex\u00e9rcito reconstitu\u00eddo, rindo na Com\u00e9die<br \/>\nFran\u00e7aise com a mais cl\u00e1ssica das com\u00e9dias de Moli\u00e8re,<br \/>\ne rindo tamb\u00e9m na galerias de Versalhes com a mais garota das farsas<br \/>\nde Meilhac, prestando um preito igual \u00e0 velha Fran\u00e7a e \u00e0<br \/>\nFran\u00e7a nova, e sobretudo, mais que tudo, espalhando por sobre a multid\u00e3o<br \/>\nencantada um olhar que os jornais mais cometidos classificam de doce e carinhoso.<br \/>\nDurante tr\u00eas dias a Fran\u00e7a condensada em Paris gozou, deslumbrada,<br \/>\nesta realiza\u00e7\u00e3o triunfal do seu sonho de tr\u00eas anos. Ah!<br \/>\nSe, depois dos abra\u00e7os de Cronstadt e das efus\u00f5es de Toulon,<br \/>\ne do almirante Avelance acolhido nos bulevares como outrora a pomba foi acolhida<br \/>\nna arca, o czar viesse a Paris!&#8230; O czar veio a Paris. Veio a Paris trazendo<br \/>\na R\u00fassia, porque a R\u00fassia toda se resume nele, e trazendo a<br \/>\nimperatriz e a sua filhinha Olga, e at\u00e9 o seu c\u00e3o Lofki.<\/p>\n<p>Para receber este bem-desejado a Fran\u00e7a alvoro\u00e7adamente prodigalizou<br \/>\no seu dinheiro, o seu g\u00e9nio decorativo e o seu entusiasmo. E o resultado,<br \/>\nmeus queridos, n\u00e3o se me afigurou sumptuoso. O Franc\u00eas, por isso<br \/>\nmesmo que \u00e9 eminentemente intelectual, n\u00e3o tem o engenho decorativo,<br \/>\nnem o pl\u00e1stico dom de criar o pitoresco. Quando as suas gl\u00f3rias<br \/>\no levam a enfeitar as suas cidades, nunca a sua inven\u00e7\u00e3o vai<br \/>\nal\u00e9m de mastros, colunas de lona pintada e molhos de bandeiras que<br \/>\nemergem de escudos de papel\u00e3o cinzento formando uma pan\u00f3plia<br \/>\ntriste. E depois deste esfor\u00e7o os decoradores muni-cipais ficam exaustos.<br \/>\nDesta vez, como o patriotismo os exaltava, tiveram um arranque de imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ne cobriram os ramos desfolhados dos castanheiros dos Campos El\u00edsios<br \/>\ncom florinhas de papel escarlates e brancas. Paris inteiro se maravilhou com<br \/>\nesta ornamenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 usual em todas as aldeias da<br \/>\nChina, e que os bons burgueses alem\u00e3es de Wurtemberg tinham j\u00e1<br \/>\ninventado em 1805, para festejar Napole\u00e3o. Qualquer vila da It\u00e1lia,<br \/>\nda Espanha ou de Portugal desenvolve realmente mais cor e brilho, no adorno<br \/>\ndas suas ruas, para solenizar o seu santo padroeiro (com quem todavia \u00e9<br \/>\nfamiliar, e de quem j\u00e1 nada espera, nem mesmo chuva em tempo de seca)<br \/>\ndo que este rico e genial Paris para festejar o grande soberano que lhe trazia<br \/>\na seguran\u00e7a e a paz. Para todo o Franc\u00eas, de resto, \u00e9<br \/>\nmais f\u00e1cil compor uma l\u00facida, fina e bem coordenada tese hist\u00f3rica<br \/>\ndo que guarnecer a sua janela com eleg\u00e2ncia aceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Pelo mesmo motivo, pelo admir\u00e1vel equil\u00edbrio da sua raz\u00e3o,<br \/>\no Franc\u00eas n\u00e3o tem a vistosa e sonora arte do entusiasmo. Os Espanh\u00f3is<br \/>\ndizem que quem em certas ocasi\u00f5es n\u00e3o perde a amantes da simetria,<br \/>\nn\u00e3o quiseram desmanchar a tonalidade neutra destas festas e de prop\u00f3sito<br \/>\nrasparam o relevo dos seus pensamentos e apagaram o fulgor das suas imagens?<br \/>\nN\u00e3o sei \u2013 mas foram ba\u00e7os, muito ba\u00e7os. E assim<br \/>\nfoi Paris, e at\u00e9 o pr\u00f3prio c\u00e9u sobre Paris, que se manteve<br \/>\nsempre entre cor de p\u00e9rola e cor de cinza, retra\u00eddo e reser-vado,<br \/>\nsem enegrecer e sem verter chuveiros descorteses, mas tamb\u00e9m sem francamente<br \/>\nse vestir de luxuoso azul e espargir os seus raios de festa, como o faria<br \/>\no c\u00e9u de Espanha.<\/p>\n<h2>AINDA AS FESTAS RUSSAS \u2013 OS JORNAIS<\/h2>\n<p>Notava eu ontem a recatada sobriedade destas festas. E no entanto todos os<br \/>\njornais de Paris vos afirmaram em colunas s\u00f3lidas que as festas realizaram<br \/>\nas maravilhas sempre irrealiz\u00e1veis das Mil e Uma Noites, e que o entusiasmo<br \/>\nabalou o firmamento at\u00f3nito, e que uma inspira\u00e7\u00e3o nova<br \/>\ne rara arfou na lira dos poetas! N\u00e3o h\u00e1 aqui todavia exagera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs Parisienses (ainda que pela maior parte nascidos em Marselha) n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o exagerados.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui apenas um excelente sistema, desde longos anos adoptado pela<br \/>\nimprensa de Paris, que n\u00f3s dever\u00edamos sofregamente seguir no<br \/>\nBrasil e Portugal, e que consiste em afirmar, com afoita certeza, sem escr\u00fapulos,<br \/>\nsem pudores, que tudo quanto se diz ou se faz em Paris \u00e9 perfeito,<br \/>\ndo mais nobre gosto, de um esplendor soberbo, e desmedidamente superior ao<br \/>\nque se faz e se diz nas outras na\u00e7\u00f5es subalternas. Excelente<br \/>\ne fecundo sistema! Ele termina por plantar fortemente, no esp\u00edrito<br \/>\ndos outros, como um dogma, a ideia da supremacia total da Fran\u00e7a \u2013<br \/>\ne sobretudo convence a Fran\u00e7a da sua supremacia, e absolutamente a<br \/>\npenetra daquela confian\u00e7a pr\u00f3pria que \u00e9 sempre a inspiradora<br \/>\ndos grandes feitos e das grandes obras.<\/p>\n<p>Meus amigos, louvor bem entendido deve come\u00e7ar por n\u00f3s, porque<br \/>\nnesse caso ele se torna uma verdadeira forma da caridade. Mal daqueles que,<br \/>\npor humor sombrio ou por desalento muito expansivo, se cobrem de cinza diante<br \/>\ndo mundo porque o mundo imediatamente, por cima da cinza, os cobre de lama.<br \/>\nA humildade s\u00f3 foi poss\u00edvel na Tebaida \u2013 e os pr\u00f3prios<br \/>\nsantos nunca se mostram aos homens sem a sua pomposa aur\u00e9ola.<\/p>\n<p>A ovelha, enquanto balava timoratamente e baixava o focinho, foi sempre<br \/>\ntosquiada pelo tosquiador e comida pelo lobo; at\u00e9 que um dia (segundo<br \/>\nnos ensina uma vener\u00e1vel f\u00e1bula oriental), tendo envergado uma<br \/>\npele de pantera para substituir o seu pobre p\u00ealo rapado, viu o lobo<br \/>\ntremer diante dela e recuar, o tosquiador fugir com as suas luzidias tesouras,<br \/>\ne findou por se instalar e pastar tranquilamente no relvoso vale onde o lobo<br \/>\nreinava. Esse desde a Antiguidade se adoptou o pav\u00e3o como a ave mais<br \/>\nornamental e a mais bela, \u00e9 porque desde os primeiros dias da hist\u00f3ria<br \/>\no pav\u00e3o se empavonou, e desdobrou a cauda, e reluziu magnificamente<br \/>\nao sol, e imp\u00f4s a sua plumagem \u00e0 admira\u00e7\u00e3o dos<br \/>\npovos e dos reis. \u00abTem a confian\u00e7a em ti, proclama o teu valor,<br \/>\ne logo possuir\u00e1s a perfeita arte de viver.\u00bb Assim prega o Mefist\u00f3feles<br \/>\nde Goethe. Mas o bom Mefisto, t\u00e3o astuto psic\u00f3logo, devia acrescentar<br \/>\nque a proclama\u00e7\u00e3o do nosso m\u00e9rito \u00e9 um exerc\u00edcio<br \/>\nexcelente para aumentar e mesmo para adquirir efectivamente esse m\u00e9rito.<br \/>\nUm outro ap\u00f3logo oriental conta que a negra gralha tanto e t\u00e3o<br \/>\nestridulamente afirmou que era branca que terminou por embranquecer.<\/p>\n<p>\u00c9 este um fen\u00f3meno que o fabulista antigo n\u00e3o conhecia,<br \/>\nmas que anda hoje em todos os comp\u00eandios de fisiologia e que se chama<br \/>\na auto-sugest\u00e3o. Com efeito, quem sem descanso apregoe a sua virtude,<br \/>\na si pr\u00f3prio se sugestiona virtuosamente e acaba por ser \u00e0s<br \/>\nvezes virtuoso. A exalta\u00e7\u00e3o afectada da nossa for\u00e7a actua<br \/>\ncomo um est\u00edmulo permanente, que equivale realmente \u00e0 for\u00e7a.<br \/>\nE quem engrandece desmedidamente o seu pequenino feito mostra que sente a<br \/>\nnobreza de empreender altas coisas, prova o seu gosto pelos aplausos dos homens<br \/>\ne est\u00e1 portanto j\u00e1 no caminho e com o feitio moral para praticar<br \/>\num feito grande.<\/p>\n<p>N\u00e3o suponhais, pois, amigos, que nestas t\u00fargidas narrativas<br \/>\ndos jornais de Paris h\u00e1 uma pueril e palavrosa exagera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o! H\u00e1 o intento muito leg\u00edtimo e muito patri\u00f3tico<br \/>\nde afirmar a superioridade da Fran\u00e7a, mesmo em mat\u00e9ria de flores<br \/>\nde papel e de colunas de lona \u2013 e de manter portanto nos \u00e2nimos<br \/>\nalheios esse respeito e nos pr\u00f3prios essa confian\u00e7a que s\u00e3o<br \/>\npara os homens e para as na\u00e7\u00f5es dois formid\u00e1veis elementos<br \/>\nde \u00eaxito. Tamb\u00e9m eu outrora supunha que essas amplifica\u00e7\u00f5es<br \/>\nque de uma lamparina fazem um sol provinham sempre de um esp\u00edrito exagerado,<br \/>\ninconsciente, falseador de propor\u00e7\u00f5es. Mas fui muito finamente<br \/>\nesclarecido por um mestre eminente. Este mestre era um cozinheiro chin\u00eas.<br \/>\nN\u00e3o se mostrou, por\u00e9m, sempre a China uma segura mestra da humanidade?<br \/>\nPois h\u00e1 muitos anos, uma tarde, na Havana, estando com um amigo no<br \/>\nseu jardim a tomar ch\u00e1 gelado, sob um caramanch\u00e3o de magn\u00f3lias,<br \/>\nvimos de repente o cozinheiro da casa, esse chin\u00eas, correr, de rabicho<br \/>\neri\u00e7ado gritando que matara uma cobra! O meu amigo, que era alem\u00e3o,<br \/>\nbanqueiro e erudito, e portanto triplamente amador de dados positivos, quis<br \/>\nlogo saber o tamanho exacto dessa cobra, que assim invadira os seus quietos<br \/>\narvoredos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o chin\u00eas, \u00e0 moda chinesa, desenhou, com um pau<br \/>\nque trazia na m\u00e3o, sobre a areia lisa do jardim, uma imensa cobra,<br \/>\numa jib\u00f3ia, de tr\u00eas longos metros, mais grossa que um tronco<br \/>\nde palmeira, e com umas goelas t\u00e3o furiosamente escancaradas que o<br \/>\nbanqueiro e eu recu\u00e1mos, inquietos, para o fundo do caramanch\u00e3o.<br \/>\nE o bom chin\u00eas, para nos sossegar, passou o p\u00e9 pela areia, apagou<br \/>\no monstro desenhado, com a serenidade forte com que derrubara o monstro vivo.<\/p>\n<p>Foi louvado, foi recompensado \u2013 e nessa tarde o seu arroz de caril<br \/>\ncubano, o seu pato da Florida \u00e0 vera-cruzana atingiram uma perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que todos sentimos o esfor\u00e7o de um g\u00e9nio que um triunfo estimula<br \/>\na outros triunfos.<\/p>\n<p>Ao outro dia, por\u00e9m, de manh\u00e3, o cocheiro, a quem decerto<br \/>\nas gl\u00f3rias do chin\u00eas tinham impacientado, apareceu diante de<br \/>\nn\u00f3s, na varanda, trazendo na m\u00e3o, embrulhada num velho jornal,<br \/>\na cobra.<\/p>\n<p>Oh!, furor! Era um bichinho discreto, quase uma lombriga, de vinte ou trinta<br \/>\ncent\u00edmetros, e pouco mais encorpado que um l\u00e1pis! O chin\u00eas<br \/>\nfoi chamado, posto diante da realidade, interpelado com tumultuoso azedume.<\/p>\n<p>\u2013 Para qu\u00ea&#8230; \u2013 bradava o meu amigo, brandindo o seu enorme<br \/>\ncachimbo de porcelana \u2013, para que foi essa indecente, essa infame exagera\u00e7\u00e3o?<br \/>\nCom uma perfeita seguran\u00e7a de modo e de alma, o chin\u00eas respondeu:<br \/>\n\u2013 N\u00e3o foi exagera\u00e7\u00e3o, amo. Foi para me convencer<br \/>\na mim e para que os outros se persuadissem que eu era capaz de tanto, e para<br \/>\nme dar \u00e2nimo noutra ocasi\u00e3o a matar uma cobra maior! Mas n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 exagera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu, com o cl\u00e1ssico cruzar de bra\u00e7os com que outrora<br \/>\nPilatos perguntou a Jesus o que era a verdade, exclamei: \u2013 Homem, mas<br \/>\nque \u00e9 ent\u00e3o exagera\u00e7\u00e3o? O admir\u00e1vel chin\u00eas<br \/>\npousou sobre mim os olhinhos obl\u00edquos, onde senti a madureza e a sucul\u00eancia<br \/>\nde um saber quarenta vezes secular, e deixou escorregar estas palavras profundas:<br \/>\n\u2013 Exagera\u00e7\u00e3o era pintar a cobra e depois p\u00f4r-lhe<br \/>\nquatro pernas!<\/p>\n<h2>MAIS UMA VEZ AS FESTAS RUSSAS \u2013 O POVO<\/h2>\n<p>Mas que as festas de Paris n\u00e3o fossem festivas, e as suas ilumina\u00e7\u00f5es<br \/>\nn\u00e3o fossem iluminadas, e as suas poesias n\u00e3o fossem po\u00e9ticas,<br \/>\nnada importa, porque o czar n\u00e3o veio de t\u00e3o longe (n\u00e3o<br \/>\nfalo naturalmente de Sampetersburgo, que dista apenas tr\u00eas dias do Bulevar,<br \/>\nmas do seu trono de autocrata, que fica a muitos milhares de l\u00e9guas<br \/>\ne a muitos centos de anos da pra\u00e7a do h\u00f4tel de ville) para admirar<br \/>\nestrelas de g\u00e1s ou saborear versos perfeitos.<\/p>\n<p>Veio essencialmente para ver como \u00e9 este formid\u00e1vel povo que,<br \/>\nem menos de um s\u00e9culo, matou um rei, dep\u00f4s e expulsou furiosamente<br \/>\noutros dois, escangalhou dois imp\u00e9rios napole\u00f3nicos, sacudiu<br \/>\nv\u00e1rias ditaduras, fez e desfez inumer\u00e1veis constitui\u00e7\u00f5es&#8230;<br \/>\nE veio ainda para observar como \u00e9 o ex\u00e9rcito de que disp\u00f5e<br \/>\neste povo, ex\u00e9rcito esmigalhado, h\u00e1 vinte anos, em vinte campos<br \/>\nde batalha, e que agora nos aparece t\u00e3o inteiro, t\u00e3o novo, t\u00e3o<br \/>\nforte, t\u00e3o vi\u00e7oso, t\u00e3o reluzente, como se nunca tivesse<br \/>\nservido. Pois bem, sendo assim, a Fran\u00e7a plenamente contentou o imperador<br \/>\nda R\u00fassia. Esta cidade de Paris, incorrig\u00edvel destruidora dos<br \/>\nseus pr\u00f3prios tronos, come\u00e7ou por se mostrar encantadoramente<br \/>\nrespeitadora dos tronos alheios. A atmosfera republicana de Paris, durante<br \/>\ntr\u00eas dias, n\u00e3o cessou de ressoar com sinceros e convencidos gritos<br \/>\nde \u00abViva o imperador! Viva a imperatriz!\u00bb N\u00e3o houve nesta<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o radical, enquanto o czar foi seu h\u00f3spede, a<br \/>\nmenor, a mais fugitiva express\u00e3o de radicalismo.<\/p>\n<p>A muito socialista municipalidade de Paris recebeu os autocratas russos,<br \/>\ntipos supremos do despotismo supremo, com a etiqueta e grave rever\u00eancia<br \/>\ncom que um parlamento no velho regime teria acolhido o rei de Fran\u00e7a<br \/>\ne o seu manto de flores-de-lis.<\/p>\n<p>O feroz esp\u00edrito igualit\u00e1rio foi sufocado para se admirarem,<br \/>\nsem reserva, com risonho agrado, a pompa mon\u00e1rquica, os uniformes de<br \/>\ncorte, os grandes lacaios empoados. Nos velhos faubourgs revolucion\u00e1rios,<br \/>\nna cl\u00e1ssica regi\u00e3o das barricadas, foi arvorada em cada janela<br \/>\na bandeira imperial do czar, essa bandeira amarela onde a \u00e1guia negra<br \/>\nempolga numa das garras o globo, que simboliza o povo, e na outra o ceptro,<br \/>\nque simboliza o l\u00e1tego. N\u00e3o houve cidad\u00e3o por mais livre<br \/>\nque n\u00e3o tomasse, por um momento, diante do senhor da R\u00fassia,<br \/>\na atitude reverente de um mujique russo \u2013 e a liberdade n\u00e3o cessou<br \/>\nde oferecer \u00e0 tirania as mais belas flores dos jardins de Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas sobretudo, meus amigos, que ordem, que disciplina, que polidez, que<br \/>\nmagn\u00edfica do\u00e7ura mostrou esse revolucion\u00e1rio povo de<br \/>\nParis! Mais de quatro milh\u00f5es de gente se amontoaram nesta cidade,<br \/>\nque s\u00f3 tem espa\u00e7o para dois milh\u00f5es (e metade desse espa\u00e7o<br \/>\nescandalosamente tomado pelas mangas bufantes e pelos chap\u00e9us floridos<br \/>\ndas mulheres), e n\u00e3o houve uma briga, um atropelamento, um destes violentos<br \/>\nredemoinhos de c\u00f3lera ou medo que ensanguentam sempre as festas c\u00edvicas.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3pria coroa\u00e7\u00e3o deste czar apenas se juntara uma<br \/>\nturba de quatrocentos mil homens numa livre e vasta plan\u00edcie de Moscovo,<br \/>\ne logo morreram esmagados quatro mil! Aqui eram quatro milh\u00f5es, em<br \/>\nruas estreitas entalados entre casas e filas de cavalaria, e (segundo juram<br \/>\nas estat\u00edsticas da pol\u00edcia) morreu unicamente um sujeito da<br \/>\nprov\u00edncia, j\u00e1 velho, pela ruptura de um aneurisma. E era uma<br \/>\nmultid\u00e3o mal dormida, porque n\u00e3o achava cama nos hot\u00e9is,<br \/>\nmal comida, porque n\u00e3o conseguira mesas nos restaurantes, e portanto<br \/>\ncom desculp\u00e1veis tend\u00eancias a esse humor \u00e1spero e brig\u00e3o<br \/>\nque d\u00e1 um chouri\u00e7o mal mastigado sobre um banco de pra\u00e7a<br \/>\nque serviu de colch\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o! Paris, que recebia um imperador, quis ser todo ele, durante<br \/>\nuns dias, uma verdadeira corte, e mostrou as maneiras nobres de uma popula\u00e7a<br \/>\npalaciana. E o czar assim o reconheceu declarando que Paris lhe parecera,<br \/>\npela ordem e pela polidez, um imenso sal\u00e3o. Era um sal\u00e3o, mas<br \/>\num sal\u00e3o do Velho Regime, daqueles que frequentava sem receio Mr. de<br \/>\nCoislin, o homem mais bem-educado de todos os tempos e de todas as ra\u00e7as<br \/>\n\u2013 porque nos sal\u00f5es democr\u00e1ticos, e mesmo constitucionais,<br \/>\nh\u00e1 sempre empurr\u00e3o, costelas pisadas, sobretudo \u00e0 meia-noite,<br \/>\nquando se abrem ao fundo as portas benditas do bufete da ceia.<\/p>\n<p>Bem sei que C\u00e9sar conquistou as G\u00e1lias, e que h\u00e1 aqui<br \/>\nportanto o delicioso resultado de dezoito s\u00e9culos de civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas as legi\u00f5es de C\u00e9sar tamb\u00e9m circularam em Espanha,<br \/>\ntamb\u00e9m desembarcaram em Inglaterra, e nesses dois pa\u00edses admir\u00e1veis<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 gala sem pancada, nem turba sem rolo grosso. N\u00e3o<br \/>\nregateemos pois os louvores a este povo, que \u00e9 ainda mais bem-educado<br \/>\ndo que Mr. Coislin.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da Fran\u00e7a civil, que tanto contentou o czar, este senhor<br \/>\nde todas as R\u00fassias vinha tamb\u00e9m ver a Fran\u00e7a militar.<br \/>\nEsse solene exame teve lugar no campo hist\u00f3rico de Ch\u00e2lons.<\/p>\n<p>Oitenta mil homens manobraram e desfilaram diante do imperador a cavalo,<br \/>\ne diante do presidente da Rep\u00fablica, sentado entre as senhoras, num<br \/>\nlandau.<\/p>\n<p>(Oh! Esta abomin\u00e1vel teima da rep\u00fablica, que imp\u00f5e<br \/>\nao chefe do Estado, como uniforme, a casaca preta de criado de hotel, lhe<br \/>\nn\u00e3o permite os dois actos t\u00e3o essenciais numa democracia armada,<br \/>\no andar a p\u00e9 e o andar a cavalo, e o cola fatalmente, em virtude mesmo<br \/>\nda sua grandeza, \u00e0s almofadas pacatas de uma caleche civil!).<\/p>\n<p>Tem havido grandes batalhas em que n\u00e3o chegaram a entrar os oitenta<br \/>\nmil soldados que se apresentaram nesta revista de gala. Na batalha de Fars\u00e1lia,<br \/>\nque decidiu da sorte do mundo, apenas combateram setenta mil homens. A batalha<br \/>\nde Hastings, que consumou a conquista da Inglaterra pelos Normandos; a batalha<br \/>\nde Azincourt, que deu metade da Fran\u00e7a aos Ingleses; a batalha de Lutzen,<br \/>\nem que morreu Gustavo Adolfo e que terminou a Guerra dos Trinta Anos; a batalha<br \/>\nde Marengo, que entregou a It\u00e1lia aos Franceses, outras muitas foram<br \/>\npelejadas com menos de oitenta mil homens.<\/p>\n<p>Foi pois esta uma cerim\u00f3nia grandemente militar, apesar de que o<br \/>\nchefe do ex\u00e9rcito, segundo a constitui\u00e7\u00e3o, estava no<br \/>\nlandau, de casaca, entre as senhoras. E t\u00e3o bela, na sua totalidade<br \/>\ne nos seus detalhes, provando t\u00e3o soberbamente a grandeza militar readquirida<br \/>\npela Fran\u00e7a, que logo depois, ao almo\u00e7o, no meio de quinhentos<br \/>\noficiais, o czar ergueu o seu copo de champanhe e proclamou a confraternidade<br \/>\nde armas entre Franceses e Russos.<\/p>\n<p>Portanto, amigos, esta visita certamente p\u00f4s no esp\u00edrito do<br \/>\nsenhor de todas as R\u00fassias muita seguran\u00e7a, porque ele verificou<br \/>\nque este povo que lhe estende os bra\u00e7os, h\u00e1 tr\u00eas anos,<br \/>\ncomo noivo deslumbrado, \u00e9 na sua cidade em festa extremamente doce,<br \/>\ne \u00e9 no campo em armas extremamente forte.<\/p>\n<p>Ora, que mais se pode desejar num amigo, com quem se vai trilhar um bocado<br \/>\nde caminho na hist\u00f3ria, do que muita do\u00e7ura aliada a muita for\u00e7a?<br \/>\nMas o povo franc\u00eas, esse, com que seguran\u00e7a ou certeza ficou<br \/>\ndepois que a vasta R\u00fassia veio a Paris, na pessoa um pouco franzina<br \/>\ne melanc\u00f3lica desse seu c\u00e9sar a que ela chama paizinho! Essa<br \/>\nimpress\u00e3o talvez se resuma nas palavras consider\u00e1veis que eu<br \/>\nouvi a um condutor de \u00f3nibus. Chovia: apenas tr\u00eas passageiros<br \/>\nocupavam as longas banquetas de veludo; e o digno homem, na plataforma, filosofava<br \/>\nsobre as festas russas, com um sujeito bilioso, zarolho, de barbicha rala<br \/>\ne ruiva, que parecia minado por um cepticismo mortal.<\/p>\n<p>O imenso \u00f3nibus parara na esta\u00e7\u00e3o do Arco da Estrela.<br \/>\nE o condutor concluiu, \u00e0 pressa, num gesto que trasbordava e triunfava:<br \/>\n\u2013 Enfim, seja como for!&#8230; Agora \u00e9 trabalhar para a Exposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne j\u00e1 se n\u00e3o est\u00e1 sempre com medo e podem vir os reis<br \/>\ne os imperadores, sem que a rep\u00fablica fique a\u00ed para um canto<br \/>\nenvergonhada! Admirei esta s\u00edntese. E senti que ela resumia numa forma<br \/>\ngrossa e r\u00e1pida, numa forma adequada a um \u00f3nibus, o sentimento<br \/>\ndas classes que se chamam dirigentes.<\/p>\n<p>Este homem de bon\u00e9 agaloado, que vive carimbando bilhetes, sem d\u00favida<br \/>\npertence por nascimento, se n\u00e3o j\u00e1 por direito democr\u00e1tico,<br \/>\n\u00e0 casta pol\u00edtica. H\u00e1 nele em bot\u00e3o um pr\u00f3ximo<br \/>\nconselheiro municipal, talvez um deputado, em todo o caso um dirigente. E<br \/>\na sua opini\u00e3o sobre a amizade franco-russa, ainda que enunciada sem<br \/>\neleg\u00e2ncia acad\u00e9mica, n\u00e3o seria decerto desmentida pelos<br \/>\naltos corpos do Estado.<\/p>\n<p>Mas o sentimento do povo mi\u00fado, das classes dirigidas, esse mais<br \/>\nespecialmente me foi revelado por um pequeno de sete anos, que toda esta tarde,<br \/>\nsob os castanheiros e as faias do jardim vizinho, brandindo uma bandeira russa<br \/>\ne esporeando um corcel de pau, ainda n\u00e3o cessou de ganir esta copla<br \/>\ndecisiva:<\/p>\n<p>La Russie, la France, Se donnant la main, Garden l\u2019 esp\u00e9rance<br \/>\nD\u2019aller \u00e0 Berlin Dire ao vieux Guillaume&#8230;<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da folhagem copada que este fusco Outubro ainda n\u00e3o<br \/>\narrancou do arvoredo, n\u00e3o logrei perceber o que a Fran\u00e7a e a<br \/>\nR\u00fassia, assim de m\u00e3os dadas, iam a Berlim dizer ao velho Guilherme&#8230;<br \/>\nE porqu\u00ea ao velho Guilherme? Esse av\u00f4 augusto morreu. E agora<br \/>\nh\u00e1 em Berlim um Guilherme novo, a quem \u00e9 excessivamente perigoso<br \/>\no dizer coisas.<\/p>\n<p>Em todo o caso, a copla esgani\u00e7ada do meu pequeno vizinho desenha<br \/>\nmuito graficamente a atitude das duas na\u00e7\u00f5es que se entrefestejam.<br \/>\nA Fran\u00e7a, a R\u00fassia, com efeito, deram as m\u00e3os, estas<br \/>\nm\u00e3os t\u00e3o diversas, uma t\u00e3o fina e criadora, outra t\u00e3o<br \/>\ngrossa e inerte, e t\u00eam entre si uma esperan\u00e7a&#8230; Qual? Possa<br \/>\nela ser a esperan\u00e7a de ficarem cada um em sua casa, tratando dos seus<br \/>\ncomplicados neg\u00f3cios dom\u00e9sticos, sem dizerem nada aos Guilhermes,<br \/>\nvelhos ou novos, e deixando a pobre Europa passar com tranquilidade os derradeiros<br \/>\nanos deste agitado s\u00e9culo.<\/p>\n<h2>AOS ESTUDANTES DO BRASIL<\/h2>\n<p><b>Sobre o caso que deles conta Madame Sara Bernhardt<\/b><\/p>\n<p><b>I<\/b><\/p>\n<p>Madame Sara Bernhardt publicou recentemente no Figaro uma concisa apologia<br \/>\nda sua vida e do seu g\u00e9nio.<\/p>\n<p>Apesar da concis\u00e3o, t\u00e3o substancial e recheado de factos nos<br \/>\naparece este papel que bem penso que a consider\u00e1vel senhora o poderia<br \/>\nter intitulado: \u00abHist\u00f3ria da Minha Miss\u00e3o e da Minha Influ\u00eancia<br \/>\nCivilizadora na Am\u00e9rica do Norte e do Sul\u00bb. E se em tal documento,<br \/>\ndesde hoje hist\u00f3rico, h\u00e1 verdade hist\u00f3rica, v\u00f3s,<br \/>\na\u00ed no Brasil, meus amigos, sois estranhamente culpados! Sois horrendamente<br \/>\nculpados, oh!, meus doces amigos! Ora, eu creio que a apologia de Madame Sara<br \/>\nBernhardt \u00e9 s\u00f3lida e ver\u00eddica. Ela n\u00e3o nasceu<br \/>\nnem da vaidade, nem da ilus\u00e3o. N\u00e3o temos aqui uma velha e manhosa<br \/>\nactriz que, por h\u00e1bito de camarim e de maquilhagem, devendo recapitular<br \/>\ndiante de um p\u00fablico cr\u00e9dulo a sua carreira, a sobrecarrega<br \/>\n\u00e0 pressa com grossas pinceladas de p\u00farpura e de ouro, para lhe<br \/>\ndar a radi\u00e2ncia posti\u00e7a de um sol. N\u00e3o temos aqui tamb\u00e9m<br \/>\numa ing\u00e9nua criatura que, vivendo sempre dentro de uma luminosa n\u00e9voa<br \/>\nde louvores, perde o sentimento exacto da sua estatura, se considera t\u00e3o<br \/>\ngrande como esse iluminante nevoeiro a aparenta, e, docemente embriagada,<br \/>\nalude \u00e0 sua grandeza com a simplicidade e a gra\u00e7a lhana com<br \/>\nque aludiria \u00e0 cor dos seus olhos que n\u00e3o pode disfar\u00e7ar<br \/>\nnem pintar. N\u00e3o! Nesta apologia de Madame Bernhardt h\u00e1 meramente<br \/>\numa mulher muito conscienciosa, muito s\u00e9ria, que, em perfeito sil\u00eancio<br \/>\ne perfeita solid\u00e3o, longe do sussurro adulador das turbas, se coloca<br \/>\nem frente da sua vida, a interroga, a esquadrinha, e a vive, e n\u00e3o<br \/>\nencontrando atrav\u00e9s dela sen\u00e3o altos feitos, concep\u00e7\u00f5es<br \/>\ngeniais, triunfos radiosos, influ\u00eancias nobremente exercidas, se v\u00ea<br \/>\nfor\u00e7ada (apesar da sua mod\u00e9stia e da sua humildade) a confessar<br \/>\npublicamente, estridentemente, que \u00e9 her\u00f3ica, que \u00e9 genial,<br \/>\nque \u00e9 triunfadora e que bem mereceu dos povos! Por isso Madame Bernhardt,<br \/>\nmuito candidamente e baixando os olhos, chamou ao seu documento Exame de Consci\u00eancia.<\/p>\n<p>De resto, os motivos que a levaram a empreender este grave Exame garantem<br \/>\na sua veracidade. Sen\u00e3o, vede! A literatura de Paris, aquela parte<br \/>\nda literatura que mais especialmente vive do teatro, criando, criticando,<br \/>\nnoticiando, ou apenas parasitando, resolveu celebrar a apoteose de Madame<br \/>\nSara Bernhardt. Apoteose absolutamente leg\u00edtima. Madame Bernhardt n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 somente a actriz de garganta de ouro e alada inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque, atrav\u00e9s dos dois mundos, com muita gl\u00f3ria e muito lucro,<br \/>\nnos tem arrulhado e rugido D. Sol, a Dama das Cam\u00e9lias, a Fedra, a<br \/>\nTeodora e outras tocantes ou terr\u00edveis. Um m\u00e9rito mais raro<br \/>\ne mais esteticamente precioso a torna merecedora de todas essas honras cesarianas,<br \/>\nquase divinas, que (segundo ela afirma) a Terra un\u00e2nime lhe tem prodigalizado.<br \/>\nComo muito bem notou o bom poeta Rostand, num dos sonetos jaculat\u00f3rios<br \/>\nque foram declamados nesse dia de apoteose (porque agora, em Paris, como em<br \/>\nLisboa no tempo do senhor D. Jo\u00e3o VI, n\u00e3o h\u00e1 festa sem<br \/>\nsoneto), Madame Bernhardt \u00e9 a derradeira inspirada que nos resta, neste<br \/>\ns\u00e9culo de chata e mon\u00f3tona materialidade, capaz de ressuscitar,<br \/>\ncom sumptuoso idealismo, as emo\u00e7\u00f5es e as maneiras das idades<br \/>\n\u00e9picas e romanescas. E este dom \u00e9 inestim\u00e1vel. S\u00f3<br \/>\nMadame Bernhardt, com efeito, sabe ainda descer uma branca e tr\u00e1gica<br \/>\nescadaria e parar pateticamente em cada branco degrau com solenes brocados<br \/>\nbrancos a arrastar, exalando toda ela fatalidade e terror! S\u00f3 ela sabe,<br \/>\nnum altivo cen\u00e1rio de arcarias e douradas ab\u00f3badas, atravessar<br \/>\nentre alas de escravos ou de pr\u00edncipes, toda rutilante e hirta com<br \/>\no peso das pedrarias, os olhos hieraticamente est\u00e1ticos, erguendo na<br \/>\nm\u00e3o um l\u00edrio p\u00e1lido! S\u00f3 ela ainda sabe, com o<br \/>\nbra\u00e7o nu, brandindo um ferro, lan\u00e7ar uma impreca\u00e7\u00e3o<br \/>\nao destino. S\u00f3 ela pode ainda ser, entre n\u00f3s, a cortes\u00e3<br \/>\nhindu, coroada de rosas e enamorada de um deus! S\u00f3 ela, nestes tempos<br \/>\nde crime deselegante, assassina com eleg\u00e2ncia!&#8230;<\/p>\n<p>Ora, no meio do descorado burguesismo do drama contempor\u00e2neo, e da<br \/>\nchocarrice vil\u00e3 das com\u00e9dias e da universal fealdade das atitudes,<br \/>\nestas coisas grandiosas que Madame Bernhardt ainda sabe fazer, com t\u00e3o<br \/>\nespl\u00eandido relevo, s\u00e3o uma consola\u00e7\u00e3o para os que<br \/>\nconservam o salutar amor do pitoresco e do romanesco. E acresce ainda que<br \/>\nesta privilegiada mulher, quer represente em Paris, quer se exiba em Nicar\u00e1gua,<br \/>\ntodas as noites, depois de muito arrulhar e t\u00e3o arrulhadamente que<br \/>\nningu\u00e9m percebe as do\u00e7uras que ela arrulhou, e depois de rugir<br \/>\ne t\u00e3o rugidoramente que ningu\u00e9m compreende os furores que ela<br \/>\nrugiu, tem sempre a\u00ed, cerca das onze horas ou onze e meia, um momento,<br \/>\ndois momentos, em que \u00e9 genuinamente e incomparavelmente sublime.<\/p>\n<p>De sorte que ningu\u00e9m, com algum gosto pela paix\u00e3o e pela sua<br \/>\nexpress\u00e3o decorativa, pode regatear a apoteose a esta princesa dos<br \/>\ngritos magn\u00edficos e rainha das nobres atitudes.<\/p>\n<p>A apoteose devia consistir num almo\u00e7o no Grand H\u00f4tel, a trinta<br \/>\nfrancos por cabe\u00e7a, vinho compreendido&#8230; Sim, amigos velemos a face,<br \/>\ngemendo! Grand H\u00f4tel, trinta francos \u2013vinho compreendido!&#8230; Que<br \/>\nquereis? E a irremedi\u00e1vel pelintrice dos tempos. Ah!, n\u00e3o! N\u00e3o<br \/>\nestamos no s\u00e9culo radiante, nesse Domingo de P\u00e1scoa em que Petrarca,<br \/>\nvestido com a t\u00fanica de p\u00farpura que lhe dera Robert de Anjou,<br \/>\ntrovador e rei de N\u00e1poles, precedido pela assembleia da nobreza, toda<br \/>\nemplumada e coberta tamb\u00e9m de escarlate e de ouro, seguido pelo Senado<br \/>\nnos seus grandes mantos de brocado verde, atravessava as ruas de Roma, entre<br \/>\nas aclama\u00e7\u00f5es de um povo deslumbrado, sob uma perfumada chuva<br \/>\nde flores, para receber nas escadas do Capit\u00f3lio, das m\u00e3os do<br \/>\ns\u00edndico romano, a coroa de louros, a coroa dos antigos triunfos, enquanto<br \/>\nressoavam as tubas e repicavam os sinos, e diante do poeta se inclinavam todos<br \/>\nos estandartes da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Ah!, decerto Madame Sara Bernhardt seria a mulher para atravessar os bulevares<br \/>\nde Paris soberbamente envolta na t\u00fanica de p\u00farpura de Robert<br \/>\nde Anjou. Mas s\u00f3 ela nos resta \u2013 e tudo o mais nos falta! J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 rei de N\u00e1poles, bom humanista e bom trovador,<br \/>\npara remeter por uma embaixada a p\u00farpura augusta! J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 nobreza que, para uma gala po\u00e9tica, se cubra de veludos recamados<br \/>\nde ouro! J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 senadores arrastando brocados verdes<br \/>\nsobre um ch\u00e3o juncado de rosas! J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 sinos<br \/>\nque repiquem, nem pend\u00f5es que se inclinem quando um poeta passa! J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 nada \u2013 h\u00e1 s\u00f3 Madame Bernhardt, o<br \/>\nGrand H\u00f4tel e um resto de vinho falsificado. Todavia sejamos justos.<br \/>\nAl\u00e9m do almo\u00e7o, e do hino, e do soneto inevit\u00e1vel de<br \/>\nCopp\u00e9e, havia no programa da apoteose \u2013 uma surpresa. Todo Paris,<br \/>\ntodo Paris de teatro, se entreolhava sorrindo com enternecimento (ou com mal\u00edcia)<br \/>\ne se entressegredava a surpresa.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da apoteose, os jornais, piscando o olho, aludiram \u00e0<br \/>\nsurpresa. J\u00e1 mesmo Madame Bernhardt, s\u00e9ria e grave, conhecia<br \/>\na surpresa. Sabeis qual era a surpresa?&#8230; No dia da apoteose, cedo, de manh\u00e3,<br \/>\no Estado iria ao Grand H\u00f4tel, penetraria p\u00e9 ante p\u00e9 na<br \/>\nsala do almo\u00e7o ainda deserta, e, diante do lugar bem enfeitado de Madame<br \/>\nBernhardt resvalaria sorrateiramente, entre o prato e o guardanapo, a cruz<br \/>\nda Legi\u00e3o de Honra! Esta era a surpresa.<\/p>\n<p>E foi ent\u00e3o que o Figaro (com aquele seu belo faro espanhol pelas<br \/>\ncoisas intensamente picarescas) pediu a Madame Sara Bernhardt que procedesse<br \/>\na um exame de consci\u00eancia, recolhesse a sua vida t\u00e3o largamente<br \/>\nespalhada pelo mundo, a interrogasse com severa sinceridade e declarasse depois,<br \/>\nperante a Europa, pondo a m\u00e3o sobre o ardente cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nse na realidade se considerava merecedora da apoteose, do almo\u00e7o, do<br \/>\nhino, do soneto e da surpresa. Madame Sara Bernhardt, naturalmente habituada<br \/>\naos lances pat\u00e9ticos, n\u00e3o hesitou.<\/p>\n<p>E, durante uma longa noite, na sua alcova (ou no seu orat\u00f3rio, que<br \/>\nesta terr\u00edvel mulher \u00e9 capac\u00edssima de o ter!), recolhida,<br \/>\nensimesmada, segundo a velha f\u00f3rmula metaf\u00edsica, esmiu\u00e7ou<br \/>\ntoda a sua vida, nos seus motivos e nos seus resultados, com o escrupuloso<br \/>\nrigor de quem, estando diante de si pr\u00f3pria, se sentia diante de uma<br \/>\ndivindade&#8230; E ao outro dia de manh\u00e3 subiu \u00e0 mais alta coluna<br \/>\ndo Figaro, e muito sobriamente, recusando ao seu discurso esses bordados e<br \/>\nlavores que prodigaliza nos seus vestidos, declarou que, tendo examinado a<br \/>\nsua consci\u00eancia, considerava-se merecedora da apoteose, do almo\u00e7o,<br \/>\ndo hino, do soneto e da surpresa! E assim se considerava porque, al\u00e9m<br \/>\nde ser uma artista genial e de ter herculeamente trabalhado, concorrera (escutai!,<br \/>\nescutai!, n\u00e3o percais isto!) \u2013 concorrera a civilizar a Austr\u00e1lia,<br \/>\no Canad\u00e1, sobretudo a Am\u00e9rica do Sul, e a implantar nessas regi\u00f5es<br \/>\no amor da Fran\u00e7a, das letras francesas e da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nfrancesa! E de um modo t\u00e3o insinuante, com uma gra\u00e7a t\u00e3o<br \/>\nintelectual, que recebera desses povos (escutai!, escutai!, por Deus!, n\u00e3o<br \/>\npercais agora este final!) recebera desses povos ova\u00e7\u00f5es, preitos,<br \/>\nvassalagens, gritos de reconhecimento, honras quase divinas, como s\u00f3<br \/>\nas recebem os conquistadores de almas e os anunciadores de evangelhos!&#8230;<br \/>\nE seguidamente Madame Bernhardt citou, como provas hist\u00f3ricas, esses<br \/>\npreitos, essas vassalagens. Disse o desembarque triunfal na Austr\u00e1lia.<br \/>\nDisse o portentoso cortejo no Canad\u00e1, sobre a neve. Disse o epis\u00f3dio<br \/>\npavoroso com as senhoras do Chile. E, por fim, disse o caso supremo, o caso<br \/>\nque ultrapassa todos os casos, o caso com os estudantes do Brasil! Ah!, meus<br \/>\ndoces amigos, \u00e9 verdade!&#8230; Mas, para conversar sobre este caso, que<br \/>\nme sufoca, eu necessito o ar, o espa\u00e7o e a tranquilidade de outro bilhete.<\/p>\n<p><b>II<\/b><\/p>\n<p>Agora, neste bilhete, mais arejado e espa\u00e7oso, podemos sem precipita\u00e7\u00e3o<br \/>\nconversar, \u00f3 meus amigos, sobre o caso sufocante. E v\u00f3s mesmos<br \/>\nreconhecereis que ele \u00e9 supremo e ultrapassa em sombria estranheza<br \/>\ntodos os casos gloriosamente sucedidos a Madame Sara Bernhardt durante a sua<br \/>\njornada civilizadora atrav\u00e9s dos continentes novos. Sen\u00e3o, vede!<br \/>\nTomemos respeitosamente o primeiro feito contado pela genial senhora com uma<br \/>\nsimplicidade t\u00e3o nobre, no seu Exame de Consci\u00eancia. E a chegada<br \/>\n\u00e0 Austr\u00e1lia. Madame Bernhardt aporta a essa terra privilegiada<br \/>\nda l\u00e3 e do ouro. No cais de desembarque, tapetado e florido, est\u00e1<br \/>\nesperando por ela, numa tr\u00e9mula ansiedade, a municipalidade de Melburne,<br \/>\ncom todas as ins\u00edgnias tradicionais dos velhos munic\u00edpios ingleses,<br \/>\na dalm\u00e1tica de romeira de arminhos, os quatro trombeteiros, porta-espada<br \/>\ne o porta-ceptro. Nas docas os apitos de todos os vapores encorados apitam<br \/>\ncom desesperado entusiasmo. Em cada torre adeja a tricolor. Madame Bernhardt<br \/>\ndesembarca com essa simplicidade com que sempre desembarcam os verdadeiros<br \/>\nconquistadores, os verdadeiros civilizadores \u2013Santo Agostinho na Inglaterra,<br \/>\nCortez no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Entra no seu hotel; p\u00f5e um pouco de p\u00f3-de-arroz; janta; representa<br \/>\na Tosca \u2013 e imediatamente (como ela diz, em palavras memor\u00e1veis<br \/>\nque eu n\u00e3o altero) \u00aba col\u00f3nia francesa, que at\u00e9<br \/>\na\u00ed vivera numa posi\u00e7\u00e3o subalterna e oprimida, ergueu<br \/>\nlivremente a cabe\u00e7a e come\u00e7ou a dominar na Austr\u00e1lia!\u00bb<br \/>\nIsto \u00e9 certamente inesperado. Mas n\u00e3o h\u00e1, neste feito<br \/>\nde Madame Bernhardt, nada de. extravagante ou de estranho. \u00c9 a cl\u00e1ssica<br \/>\nfa\u00e7anha, tantas vezes consumada atrav\u00e9s da hist\u00f3ria \u2013<br \/>\na liberta\u00e7\u00e3o de uma ra\u00e7a! Madame Sara, como Joana d\u2019Arc,<br \/>\narranca \u00e0 opress\u00e3o dos Ingleses um precioso bocado da Fran\u00e7a.<br \/>\nCom pequeninas diferen\u00e7as (que nada importam em quest\u00f5es de<br \/>\nhero\u00edsmo) ela \u00e9 a Pucelle de Melburne. E notai mesmo a superioridade<br \/>\nhumanit\u00e1ria de Sara. A Virgem de Orle\u00e3es desoprimiu a Fran\u00e7a<br \/>\nderramando o sangue dos Ingleses e Borgonheses, e muitas canadas desse sangue<br \/>\npela sua m\u00e3o, porque a forte virgem n\u00e3o desgostava das rijas<br \/>\ncutiladas. Madame Bernhardt, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o libertou os seus<br \/>\nirm\u00e3os matando \u2013 mas morrendo! Morrendo no quinto acto da Dama<br \/>\ndas Cam\u00e9lias, no quinto acto do Hern\u00e2ni, no quinto acto da Fedra!<br \/>\nMorrendo sempre, pelo punhal, pelo veneno, pela tuberculose! E a cada sacrif\u00edcio<br \/>\nda sua vida correspondia um benef\u00edcio para a sua p\u00e1tria! Quanto<br \/>\nmais ela desabava morta no tablado, com aquele sublime morrer que \u00e9<br \/>\ns\u00f3 dela \u2013 mais a col\u00f3nia francesa, levantando a cabe\u00e7a,<br \/>\nse afirmava e estendia o seu dom\u00ednio! De tal sorte que se ela n\u00e3o<br \/>\ncessasse de morrer por ter findado a sua escritura, a Austr\u00e1lia seria<br \/>\nhoje uma prov\u00edncia de Fran\u00e7a, exclusivamente francesa, onde<br \/>\no \u00faltimo ingl\u00eas estaria comendo o \u00faltimo canguru a sombra<br \/>\ndo \u00faltimo eucalipto! Mas atravessemos os mares e observemos os triunfos<br \/>\nnovos com que Madame Sara Bernhardt \u00e9 acolhida no Canad\u00e1. \u00abA\u00ed<br \/>\n(conta a sonora artista, em frases que humildemente copio) o meu tren\u00f3<br \/>\nandava sempre seguido e acompanhado por todos os senadores e deputados! Sem<br \/>\nd\u00favida este cortejo \u00e9 raro! Mas n\u00e3o h\u00e1 ainda aqui<br \/>\nnada de ex\u00f3tico ou de sombrio. Ao contr\u00e1rio! \u00c9 um claro,<br \/>\ndelicado, alegre quadro de neve e de representa\u00e7\u00e3o nacional.<br \/>\nA neve, toda branca, sob um c\u00e9u todo branco, cobre o Canad\u00e1:<br \/>\nenvolta em peles, Madame Bernhardt ocupa soberanamente um tren\u00f3 dourado<br \/>\nque fende finamente a neve: e em torno dela, sobre patins ligeiros, de m\u00e3os<br \/>\nna cinta, a assembleia legislativa desliza pela dura neve em curvas airosas,<br \/>\ncom garbo parlamentar, segundo a ordem do dia. Porque, notai bem o que especializa<br \/>\nMadame Bernhardt. N\u00e3o s\u00e3o dois ou tr\u00eas deputados galanteadores,<br \/>\nou algum senador desgarrado que segue o tren\u00f3 de Sara. N\u00e3o,<br \/>\ns\u00e3o os senadores e deputados reunidos em assembleia! Quem vai correndo<br \/>\nno sulco branco, atrav\u00e9s da neve branca, \u00e9 o poder legislativo!<br \/>\nDe outro modo n\u00e3o haveria (conforme acentua Madame Bernhardt) a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial e nacional de lhe dar preito a ela, como a alt\u00edssima representante<br \/>\nda Fran\u00e7a. E bem podemos, pois, pensar que as duas c\u00e2maras electivas<br \/>\nseguiam Madame Bernhardt funcionando, providas do seu presidente e dos secret\u00e1rios,<br \/>\ne da tribuna, e do copo de \u00e1gua, e que celebravam em torno do tren\u00f3<br \/>\ndivino, na carreira jovial, a sua sess\u00e3o ordin\u00e1ria. Naquele<br \/>\npur\u00edssimo ar, sob o fino sol que arranca um fulgor arg\u00eanteo \u00e0<br \/>\nneve, enquanto o tren\u00f3 corria, e com ele corria a representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional, proveitosamente se cruzavam as interpela\u00e7\u00f5es, as mo\u00e7\u00f5es,<br \/>\nas remessas para a mesa, as emendas ao or\u00e7amento, as afirma\u00e7\u00f5es<br \/>\ntranquilizadoras do minist\u00e9rio \u00abque h\u00e1-de sempre manter<br \/>\na ordem\u00bb, e os apartes vibrantes de uma oposi\u00e7\u00e3o irritada!<br \/>\nAbafada, com uma nobre eleg\u00e2ncia, em espessas peli\u00e7as, imperialmente<br \/>\nreclinada naquele tren\u00f3 que \u00e9 um trono, correndo as p\u00e1lpebras<br \/>\nlangorosas, num sorriso indulgente, Madame Bernhardt recolhe silenciosamente<br \/>\n(para a transmitir \u00e0 Fran\u00e7a) esta homenagem imensa da constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Canad\u00e1! E por vezes mesmo, sem querer, ao saudar um membro do Parlamento,<br \/>\ncom um jeito do regalo, ela choca e derruba um projecto de lei, um fecundo<br \/>\nprojecto de lei, que por sobre o tren\u00f3 ia voando da c\u00e2mara electiva<br \/>\npara a c\u00e2mara j alta, e que cai, fica perdido na neve, enquanto o triunfante<br \/>\ncortejo rola, e legisla, e j\u00e1 se perde nos horizontes encaramelados<br \/>\nonde se agita, negro sobre a alvura, o bra\u00e7o do presidente, que repica<br \/>\na campainha, porque Madame Bernhardt vai para o ensaio e a sess\u00e3o est\u00e1<br \/>\nencerrada! Contemplemos ainda um instante este quadro consolador, o mais belo,<br \/>\ntalvez, de que se ufana a hist\u00f3ria constitucional do s\u00e9culo<br \/>\nXIX, e embarquemos de novo, descendo ao longo da luminosa costa do Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Estamos no Chile e Madame Bernhardt est\u00e1 connosco. \u00abA\u00ed<br \/>\n(diz ela no seu Exame de Consci\u00eancia e em palavras impressionantes que<br \/>\neu, com pena rendida, traslado) as senhoras mais distintas e os homens mais<br \/>\nelegantes da sociedade chilena recitavam diante de mim, para me prestar homenagem,<br \/>\nfolhetins inteiros de Jules Lem\u00e2itre no Journal des Debats que eles<br \/>\ntinham aprendido de cor! \u00abAh, meus amigos! Desde que pis\u00e1mos<br \/>\na Am\u00e9rica do Sul j\u00e1 as coisas se v\u00e3o estragando \u2013<br \/>\ne n\u00e3o nos encontramos aqui diante de manifesta\u00e7\u00f5es t\u00e3o<br \/>\nnaturais e t\u00e3o socialmente singelas como as do Canad\u00e1 e as da<br \/>\nAustr\u00e1lia. Considerai este quadro, que me parece inquietante. Um largo<br \/>\nsal\u00e3o, bem alumiado, senhoras decotadas, com flores nas tran\u00e7as,<br \/>\nnos olhos um fulgor redobradamente chileno, e o doce peito nacarado a arfar.<br \/>\nEm frente, noutra ala, cavalheiros elegantes, talvez condecorados, sorrindo,<br \/>\ncom o sorrir l\u00edvido e arrepanhado de atrapalha\u00e7\u00e3o (essa<br \/>\natrapalha\u00e7\u00e3o que v\u00f3s reconheceis, a atrapalha\u00e7\u00e3o<br \/>\nde manh\u00e3 de exame!) e palpando no bolso traseiro da casaca o jornal<br \/>\nque decoraram. No fundo, mam\u00e3s gordas de nariz pensativo. Entre as<br \/>\nportas, pap\u00e1s, passando sobre a calva uma lenta m\u00e3o que a ansiedade<br \/>\nhumedece. Dez horas. Um rolar de coche. Madame Sara Bernhardt entra, arrastando<br \/>\num desses tremendos vestidos de um esplendor quase furioso, compostos especialmente<br \/>\npara a rep\u00fablicas espanholas do Pac\u00edfico. E imedia-tamente as<br \/>\nlindas damas decotadas, os cavalheiros condecorados, erguendo o bra\u00e7o<br \/>\ndireito, recitam, num coro largo, os folhetins de Jules Lemaitre no Journal<br \/>\ndes Debats! N\u00e3o sei se havia acompanhamento de orquestra. Madame Bernhardt,<br \/>\nno Exame de Consci\u00eancia, n\u00e3o alude \u00e0 orquestra. Era, pois,<br \/>\num recitativo seco, em que os bar\u00edtonos exprimiam o que nos folhetins<br \/>\nde Lemaitre h\u00e1 sempre de filos\u00f3fico, e os sopranos, de rutilantes<br \/>\nolhos, exprimiam o que neles h\u00e1 de ornadamente mel\u00f3dico. No<br \/>\nmeio da sala, sob o lustre, Madame Bernhardt respirava o aroma intelectual<br \/>\ne cr\u00edtico daquela personagem estupenda. Os folhetins de Lemaitre ocupavam<br \/>\nent\u00e3o no Journal des Debats duas p\u00e1ginas, e por doze colunas<br \/>\nse alastravam. Certamente, de vez em quando, os criados circulavam, oferecendo<br \/>\naos coristas arquejantes \u00e1gua nevada e azucarillos. Depois de novo<br \/>\nos bra\u00e7os se erguiam, o coro majestoso recome\u00e7ava e atrav\u00e9s<br \/>\ndas janelas abertas os peri\u00f3dicos mel\u00f3dicos de Lemaitre rolavam,<br \/>\nlentamente se esva\u00edam na noite estrelada do Sul, como um incenso de<br \/>\nfabrica\u00e7\u00e3o francesa ofertado ao g\u00e9nio da terra francesa.<br \/>\nE, sempre no meio da sala, Madame Bernhardt, im\u00f3vel no seu mirabolante<br \/>\nvestido de exporta\u00e7\u00e3o, com um sorrir divinal, aquele sorrir<br \/>\nque hoje \u00e9 s\u00f3 dela, depois de ter sido de Melp\u00f3mene,<br \/>\naprovando a boa pron\u00fancia e a boa mem\u00f3ria da pr\u00f3spera<br \/>\nna\u00e7\u00e3o chilena&#8230; Meus amigos, fujamos deste espect\u00e1culo<br \/>\nhorr\u00edfico! Depressa, corramos ao cais de Santiago! Depressa, trepemos<br \/>\nao tombadilho do paquete que fumega! O mar \u00e9 benigno porque sabe quem<br \/>\nsobre ele vai navegar&#8230; J\u00e1 estamos passando o estreito de Magalh\u00e3es,<br \/>\ne ao longe, na costa, avistamos os fogos dos Patag\u00f3nios. Na Patag\u00f3nia&#8230;<br \/>\nMas deixai que eu consulte o Exame de Consci\u00eancia, glorioso roteiro<br \/>\ndesta jornada gloriosa. N\u00e3o! Na Patag\u00f3nia. Madame Bernhardt,<br \/>\nque vai connosco, n\u00e3o teve nenhuma ova\u00e7\u00e3o, nem sob a<br \/>\nforma de folhetins, nem sob a forma de sess\u00e3o legislativa. A proa do<br \/>\nnosso paquete j\u00e1 rasga firmemente as \u00e1guas onde se balan\u00e7aram,<br \/>\nhesitantes, as caravelas de Pedro \u00c1lvares. Eis o Rio de Janeiro. Salve,<br \/>\nterra am\u00e1vel! O p\u00e3o de A\u00e7\u00facar surge todo cor-de-rosa<br \/>\ncom uma fronte que a alegria ilumina&#8230;<\/p>\n<p>Mas a folha do meu bilhete findou \u2013 necessito outra folha. Assim,<br \/>\nfolha com folha, se faz um bosque: um bosque onde eu me quereria esconder<br \/>\npara n\u00e3o presenciar os casos estranhos e sombrios que, com Sara e por<br \/>\nSara, se v\u00e3o passar nesta terra que \u00e9 quase a minha terra.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed vem a catraia da Alf\u00e2ndega, e a Dama das Cam\u00e9lias,<br \/>\nD. Sol, Fedra, outras ainda, tocantes ou terr\u00edveis, todas numa s\u00f3,<br \/>\ndesembarcaram.<\/p>\n<p><b>III<\/b><\/p>\n<p>Enfim eis Madame Bernhardt nessas terras t\u00e3o famosas de Santa Cruz,<br \/>\nque (segundo se depreende do seu Exame de Consci\u00eancia) ela, \u00e0<br \/>\nmaneira dos Sousas e dos Anchietas, foi simultaneamente conquistar e civilizar.<br \/>\nE eu tenho pressa de chegar tamb\u00e9m ao caso estranho, \u00e0 homenagem<br \/>\nestranha que ela de v\u00f3s recebeu, oh!, meus amigos, tal como vem nesse<br \/>\nExame de Consci\u00eancia. com uma simplicidade, um tom de grave mod\u00e9stia,<br \/>\nque s\u00e3o deliciosamente tocantes. \u00abNo Brasil (diz Madame Bernhardt,<br \/>\nem palavras que copio e que desejo fiquem para sempre adicionadas \u00e0<br \/>\nhist\u00f3ria da rep\u00fablica), no Brasil os estudantes arrancavam os<br \/>\nsabres e distribu\u00edam cutiladas, porque os n\u00e3o deixavam desengatar<br \/>\nos meus cavalos, meter os ombros nos varais e puxar eles a minha carruagem!<br \/>\nAqui est\u00e1! \u00c9 simplesmente esta beleza! E agora dizei se tal<br \/>\ncaso n\u00e3o ultrapassa em estranheza sombria todos os casos passados com<br \/>\nSara na sua imortal miss\u00e3o atrav\u00e9s da Am\u00e9rica! Ele cont\u00e9m<br \/>\ntodos os horrores. E a arma furiosamente arrancada! \u00c9 o golpe e o sangue<br \/>\npingando! \u00c9 toda uma mocidade, primavera sagrada, que se engata aos<br \/>\nvarais de uma caleche e puxa trotando! Porque v\u00f3s n\u00e3o puxastes&#8230;<br \/>\nE o que torna o vosso acto humanamente atroz (por ser t\u00e3o contr\u00e1rio<br \/>\n\u00e0 leis sagradas da humanidade nas suas rela\u00e7\u00f5es com os<br \/>\nve\u00edculos de rodas) \u00e9 que v\u00f3s n\u00e3o puxastes envolvidos<br \/>\ne como impelidos por um sentimento universal e cong\u00e9nere. Se todo o<br \/>\nBrasil, num un\u00e2nime entusiasmo, bradasse \u2013 puxemos! \u2013 v\u00f3s<br \/>\npoder\u00edeis muito justificadamente, como cidad\u00e3os de uma rep\u00fablica,<br \/>\nobedecer a essa ardente decis\u00e3o da soberania popular. Mas n\u00e3o!<br \/>\nAo contr\u00e1rio! Houve algu\u00e9m, e algu\u00e9m muito respeit\u00e1vel<br \/>\n(como observou e contou Madame Bernhardt), que vos queria impedir de meter<br \/>\nos ombros livres aos varais, e puxar! Quem foi esse algu\u00e9m? O Estado,<br \/>\nciumento de que pux\u00e1sseis a um carro que n\u00e3o era o carro dele?<br \/>\nO g\u00e9nio da liberdade, indignado? Simplesmente a pol\u00edcia zelosa,<br \/>\npara obstar a que nas ruas se estabelecesse uma confus\u00e3o deplor\u00e1vel<br \/>\nentre as fun\u00e7\u00f5es que pertencem aos cavalos e as fun\u00e7\u00f5es<br \/>\nque pertencem aos estudantes? N\u00e3o sei, Madame Bernhardt n\u00e3o<br \/>\no revela \u2013 mas houve algu\u00e9m. Houve um peito generoso que se colocou<br \/>\nentre v\u00f3s \u2013 e os arreios que apetec\u00edeis. V\u00f3s trespassastes<br \/>\nesse peito com um ferro iracundo \u2013 e correstes para os arreios! E pois<br \/>\npara esse degradante fim que a mocidade acad\u00e9mica do Brasil arranca<br \/>\nas espadas que lhe pendem da cintura airosa?&#8230; Mas sossegai \u2013 eu n\u00e3o<br \/>\nlan\u00e7arei aqui um paralelo sublime entre aqueles que se batem para sacudir<br \/>\num jugo e aqueles que se batem para obter um freio! E n\u00e3o me digais,<br \/>\ncontritos, que Madame Sara \u00e9 mulher, e que tem g\u00e9nio, e que<br \/>\nvisitou a Academia, e que v\u00f3s contais vinte estouvadas primaveras,<br \/>\ne que o sol do Brasil escalda \u2013 e que todas estas circunst\u00e2ncias<br \/>\nestonteadoras vos precipitaram (uma noite em que o vinho de Colares estava<br \/>\nespecialmente fresco e saboroso) da intelectualidade na cavalidade! Ocas desculpas,<br \/>\nmeus doces amigos. Quando eu era estudante, tamb\u00e9m Coimbra foi visitada<br \/>\npor belos, g\u00e9nios, sob o sol exaltador de Maio, estando j\u00e1 desabrochada<br \/>\na flor do Ponto. Veio um prestidigitador; veio um rabequista; veio a divina<br \/>\nGabriela, que j\u00e1 me n\u00e3o recordo se dan\u00e7ava na corda,<br \/>\nse representava melodramas, mas que era divina. N\u00f3s acolhemos todos<br \/>\nesses g\u00e9nios soberbamente, como homens livres. Convid\u00e1mos o<br \/>\nrabequista a cear, na taverna do Cavalheiro, essa sardinha e esse bife sombrio<br \/>\nque, desde os tempos de el-rei D. Dinis, a Academia de Coimbra oferece \u00e0s<br \/>\nalmas onde descobre verdadeira grandeza. Nessa ceia, justamente, o Colares<br \/>\nesteve, como nunca, fresco e saboroso \u2013 e mais tarde, alta noite, na<br \/>\nCoura\u00e7a dos Ap\u00f3stolos, sob o luar enfiado de Maio, espanc\u00e1mos<br \/>\no rabequista. \u00c0 divina Gabriela dedic\u00e1mos sonetos excelsos,<br \/>\nde subtil e coruscante rima. Depois um belo mo\u00e7o passou, cravou em<br \/>\nGabriela um olhar fatal e negro e Gabriela seguiu o belo mo\u00e7o para<br \/>\numa casinha branca que ficava entre as ac\u00e1cias de Santa Clara, onde<br \/>\na vida lhe correu, submissa e doce, consertando a roupa branca do belo mo\u00e7o<br \/>\nque passara. Assim Coimbra, no seu tempo, tratava os g\u00e9nios que a visitavam,<br \/>\nexactamente como Jerusal\u00e9m tratava os profetas que a ela vinham \u2013<br \/>\ne que logo eram submetidos pela sua for\u00e7a, ou corrompidos e presos<br \/>\npelo encanto da sua gra\u00e7a. Decerto, ningu\u00e9m na Europa quereria<br \/>\nque v\u00f3s espanc\u00e1sseis Sara. Esses desastres s\u00e3o mais adequados<br \/>\naos rabequistas. Mas seria honroso para o Brasil e para a sua mocidade que<br \/>\nSara, a triunfal, se quedasse entre v\u00f3s, com o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nvencido, nalguma clara ch\u00e1cara, entre mangueiras, consertando roupa<br \/>\nbranca! N\u00e3o!, em vez disso, depois de duras cutiladas naqueles que<br \/>\nvos queriam salvar do humilhante servi\u00e7o \u2013 desengatastes as \u00e9guas<br \/>\nde Sara, lan\u00e7astes aos ombros democr\u00e1ticos os tirantes de Sara,<br \/>\ne puxastes a caleche de Sara, trotando, talvez relinchando! Caso horr\u00edfico<br \/>\n\u2013 e inesperadamente novo. Que o c\u00e9u seja ardente ou g\u00e9lido,<br \/>\npor toda a parte a mocidade \u00e9 excessiva e fantasista. Em Coimbra eu<br \/>\nassisti aos del\u00edrios mais variados \u2013 e de todos partilhei. Fizemos<br \/>\ntr\u00eas revolu\u00e7\u00f5es; derrub\u00e1mos reitores excelentes,<br \/>\ns\u00f3 pelo prazer de derrubar e exercer a for\u00e7a demag\u00f3gica;<br \/>\nproclam\u00e1mos uma manh\u00e3 a liberta\u00e7\u00e3o da Pol\u00f3nia,<br \/>\nmandando um cartel de desafio ao czar; penetr\u00e1mos, em comiss\u00e3o,<br \/>\nnum cemit\u00e9rio para intimar a morte a que nos revelasse o seu segredo;<br \/>\ndestru\u00edmos uma noite, atrav\u00e9s da cidade, todos os mastros e<br \/>\narcos de buxo e molhos de bandeiras e obeliscos de lona, erguidos para celebrar<br \/>\nn\u00e3o sei que gl\u00f3ria nacional, porque eles contrariavam as leis<br \/>\nda nossa est\u00e9tica; abandon\u00e1mos a Universidade, num clamoroso<br \/>\n\u00eaxodo, para ir fundar nos arredores do Porto uma civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais ou menos em harmonia com o nosso horror aos comp\u00eandios; atac\u00e1mos<br \/>\ne dispers\u00e1mos prociss\u00f5es por as n\u00e3o considerar suficientemente<br \/>\nespiritualistas; organiz\u00e1mos uma associa\u00e7\u00e3o secreta para<br \/>\nrenovar a guerra dos tit\u00e3s e destronar Jeov\u00e1&#8230; Fomos medonhos<br \/>\n\u2013 e quase todos os anos nos batemos com as tropas que o Governo mandava<br \/>\npara nos manter dentro da dec\u00eancia e do racioc\u00ednio. Na realidade<br \/>\n(com excep\u00e7\u00e3o de estudar) tudo fizemos \u2013 mas nunca metemos<br \/>\nos ombros aos varais de carros, nunca pux\u00e1mos&#8230;<\/p>\n<p>E todavia, todavia&#8230; Sim!, pux\u00e1mos! Nem eu desejo esconder esse<br \/>\nfacto, que nos honra.<\/p>\n<p>Pux\u00e1mos, em 1867. Pux\u00e1mos uma pesada caleche forrada de damasco<br \/>\nazul, a galope, relinchando de puro entusiasmo&#8230; Mas sabeis v\u00f3s quem<br \/>\nn\u00f3s assim pux\u00e1vamos atrav\u00e9s das hist\u00f3ricas ruas<br \/>\nde Coimbra? O vig\u00e9simo oitavo rei de Portugal, que descera do seu trono<br \/>\noito vezes secular para visitar a Academia. E sabeis v\u00f3s o que fizera<br \/>\nesse rei para que n\u00f3s assim o pux\u00e1ssemos com t\u00e3o quadrupedante<br \/>\ne relinchante amor? Esse rei magn\u00e2nimo, logo ao entrar em Coimbra, por<br \/>\naquela Ponte Velha, que foi talvez o mais doce, po\u00e9tico e encantado<br \/>\nlugar da Terra, ergueu a sua m\u00e3o real e concedeu \u00e0 Academia<br \/>\noito dias de feriado! Oito dias de feriado!&#8230; Desde logo (como compreendeis)<br \/>\neste nobre rei tomou para n\u00f3s as propor\u00e7\u00f5es augustas<br \/>\nde um Trajano, de um Tito, de um Marco Aur\u00e9lio, de um desses imperantes<br \/>\nprovidenciais, a quem Deus, por suas pr\u00f3prias m\u00e3os, comp\u00f5e<br \/>\numa alma especialmente virtuosa para que eles tornem os povos ditosos. Um<br \/>\nt\u00e3o imenso benfeitor n\u00e3o poderia ser puxado atrav\u00e9s das<br \/>\nruas de Coimbra pelos mesmos animais inferiores que puxam os \u00f3nibus,<br \/>\nas carro\u00e7as do lixo ou as vit\u00f3rias da burguesia iletrada. A<br \/>\nsua grandeza moral competiam, como \u00e0 gl\u00f3ria de Alexandre, o<br \/>\nGrande, ao entrar em Babil\u00f3nia, fulvas parelhas de le\u00f5es de<br \/>\njuba her\u00f3ica. Em Coimbra, por\u00e9m (pelo menos no meu tempo), n\u00e3o<br \/>\nabundavam os le\u00f5es. Os \u00fanicos animais supe-riores e her\u00f3icos<br \/>\n\u00e9ramos n\u00f3s, os estudantes. Os lentes, esses sempre os consider\u00e1mos<br \/>\ncomo animais inferiores e, al\u00e9m disso, irracionais. De sorte que n\u00e3o<br \/>\nhesit\u00e1mos perante este servi\u00e7o de cocheira. E para que esse<br \/>\nnobil\u00edssimo rei fosse nobremente puxado \u2013 pux\u00e1mos n\u00f3s,<br \/>\ncom nobreza. Metendo os ombros aos varais cumprimos um alto dever c\u00edvico,<br \/>\nporque conserv\u00e1mos \u00e0quele rei admir\u00e1vel, que nos dera<br \/>\noito dias de feriado, o prest\u00edgio e o brilho vitorioso que lhe falhariam<br \/>\nse o puxassem simples cavalos sem educa\u00e7\u00e3o, sem exames de latim<br \/>\ne l\u00f3gica, sem no\u00e7\u00f5es de direito romano, sem opini\u00f5es<br \/>\nmetaf\u00edsicas, sem luvas, sem ideal!<\/p>\n<p>Aqui est\u00e3o os motivos transcendentes por que n\u00f3s pux\u00e1vamos<br \/>\na carruagem. Mas v\u00f3s, desgra\u00e7ados!&#8230; Madame Bernhardt n\u00e3o<br \/>\nvos deu oito dias, nem mesmo um solit\u00e1rio e curto dia de feriado \u2013<br \/>\ne v\u00f3s desengatais os cavalos da Dama das Cam\u00e9lias e trotais<br \/>\nsob as r\u00e9deas de Fedra! Que fareis v\u00f3s, ent\u00e3o, quando<br \/>\nde novo possuirdes um imperador ou um rei, e esse imperante, na sua amorosa<br \/>\nvisita de reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e0 mocidade, vos der oito, ou<br \/>\ntalvez (porque no Brasil \u00e9 tudo grande) dezasseis dias de feriado!<br \/>\nDezasseis dias! Oh!, meus irm\u00e3os de al\u00e9mmar \u2013 dezasseis<br \/>\ndias! Que fareis ent\u00e3o, nesse deslumbramento incompar\u00e1vel? Decentemente<br \/>\nn\u00e3o podeis prestar a esse imperante magn\u00edfico as horas que destes<br \/>\na uma bela dama, s\u00f3 porque ela recitava Racine \u2013 pondo os seus<br \/>\nmoribundos olhos em alvo. V\u00f3s desperdi\u00e7astes assim, com uma<br \/>\nsimples actriz ambulante, a homenagem que a humanidade (pelo menos deste lado<br \/>\ndo Atl\u00e2ntico) reserva para os profetas, os enviados de Deus, os grandiosos<br \/>\ndadores de feriados! E o mais desgra\u00e7ado \u00e9 que agora toda a<br \/>\nc\u00f3mica genial ou dan\u00e7arina sublime que v\u00e1 ao Brasil espera<br \/>\na vassalagem que prestastes a Sara e que Sara papagueou logo estridentemente<br \/>\nao mundo, em cima da coluna triunfal do Figaro. Certamente em breve recebereis<br \/>\na visita da falada R\u00e9jane, de Hading, a bela, ou da muito garota e<br \/>\nmuito plangente Ivette Guibert. E, arrepiado de horror, j\u00e1 daqui vejo<br \/>\nessa Guibert, horas depois de desembarcar na vossa terra, descendo as escadas<br \/>\ndo hotel, cal\u00e7ando aquelas imensas luvas pretas que s\u00e3o a parte<br \/>\nmais consider\u00e1vel do seu talento, e dizendo risonhamente ao criado:<br \/>\n\u2013 Estou pronta&#8230; Mande engatar os estudantes.<\/p>\n<p>E por fim, para findar, sabeis v\u00f3s qual \u00e9 o verdadeiro e \u00edntimo<br \/>\nhorror do vosso caso? E que v\u00f3s nunca arrancastes essas espadas (que<br \/>\nde resto n\u00e3o usais) e nunca na realidade puxastes a essa carruagem<br \/>\nque Madame Bernhardt concebeu. Mas todos v\u00f3s, que tendes algumas no\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmesmo incertas, de metaf\u00edsica, conheceis o grande princ\u00edpio<br \/>\nde Kant. Este ultraprofundo fil\u00f3sofo estabeleceu que para nada importa<br \/>\na exist\u00eancia ou n\u00e3o exist\u00eancia das coisas \u2013 e s\u00f3<br \/>\nimporta a cren\u00e7a ou n\u00e3o cren\u00e7a que os homens t\u00eam<br \/>\nnas coisas. Assim \u00e9 perfeitamente indiferente que Cristo, como Cristo,<br \/>\nexistisse realmente numa certa prov\u00edncia romana que se chamava a Judeia:<br \/>\no que importa, e importou para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo, foi<br \/>\nque os homens acreditassem na exist\u00eancia de Cristo, como Cristo. No<br \/>\nuniverso n\u00e3o existe, com certeza, sen\u00e3o o pensamento \u2013<br \/>\ne desde que o pensamento se concretiza e cria um ser ou um facto, esse facto<br \/>\nou esse ser existem, e de uma exist\u00eancia indestrut\u00edvel, porque<br \/>\nparticipa da indestrutibilidade do pensamento. Ora, hoje toda a Europa culta<br \/>\nque l\u00ea o Figaro claramente e firmemente cr\u00ea que v\u00f3s puxastes<br \/>\na essa carruagem que o fogoso pensamento de Sara criou, para sua maior gl\u00f3ria.<br \/>\nE, portanto, segundo esse s\u00f3lido princ\u00edpio de Kant que todas<br \/>\nas escolas reconhecem \u2013 vos puxastes&#8230; E agora, para todo o sempre,<br \/>\nna Europa que l\u00ea o Figaro a ideia de estudantes do Brasil se ligar\u00e1<br \/>\na arreios, a freios e a uma caleche cheia de Bernhardt, que rola, num trote<br \/>\nentusi\u00e1stico, levando entre os varais, em vez de burros, doutores.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a derradeira cria\u00e7\u00e3o da p\u00e9rfida Sara!<br \/>\nQuando ela voltar ao Brasil n\u00e3o lhe arranqueis o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npelas costas. E depois considerai que a inspirada senhora necessitava justificar<br \/>\na cruz da Legi\u00e3o de Honra \u2013 e deslumbrar, com uma estupenda lista<br \/>\nde triunfos, o Estado, que lha devia resvalar entre o prato e o guardanapo.<br \/>\nPor isso no Brasil ela vos atrelou \u00e0 sua carruagem! Por isso na Canad\u00e1<br \/>\narrastou atr\u00e1s do seu tren\u00f3 o poder legislativo! Por isso for\u00e7ou<br \/>\naquelas pobres senhoras do Chile a recitar os folhetins do bom Jules Lemaitre,<br \/>\nque \u00e9 influente na Revista dos Dois Mundos e portanto nos minist\u00e9rios&#8230;<br \/>\nE tudo debalde, oh gentil D. Sol! O Estado, obtuso e duro, n\u00e3o se comoveu,<br \/>\nn\u00e3o foi ao Grand H\u00f4tel, p\u00e9 ante p\u00e9, meter entre<br \/>\no guardanapo e o prato de Sara a cruz da Legi\u00e3o de Honra. Madame Bernhardt<br \/>\nnecessita portanto apresentar outra lista de triunfos ainda mais decisivos,<br \/>\nde homenagens ainda mais prodigiosas! E para o ano, quando voltar a esta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas apoteoses e das cruzes, a boa Madame Bernhardt, rigidamente sincera e<br \/>\nver\u00eddica, trepar\u00e1 de novo \u00e0 alta coluna do Figaro, e<br \/>\npublicar\u00e1, perante a Europa at\u00f3nita, outro Exame de Conci\u00eancia,<br \/>\nem que dir\u00e1, com palavras que para sempre ressoar\u00e3o atrav\u00e9s<br \/>\nda hist\u00f3ria: \u2014 \u00abNos Estados Unidos do Norte, todas as manh\u00e3s,<br \/>\nantes de almo\u00e7o, eu trotava pelas avenidas de Washington montada no<br \/>\npresidente MacKinley!\u00bb<\/p>\n<h2>REVOLTA DE ESTUDANTES<\/h2>\n<p>Paris est\u00e1 em revolta \u2013 quase se podia dizer em revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTem havido com efeito todas as cenas cl\u00e1ssicas das revolu\u00e7\u00f5es<br \/>\nparisienses: assalto \u00e0 Prefeitura de pol\u00edcia: bar-ricadas feitas<br \/>\ncom \u00f3nibus derrubados: inc\u00eandios de quiosques; destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\nde caf\u00e9s; comit\u00e9s em perman\u00eancia; corte de canos de g\u00e1s,<br \/>\nlan\u00e7ando em treva ruas e bulevares; pol\u00edcias arremessados ao<br \/>\nSena; e clamores de \u00abviva a anarquia!\u00bb Nada falta.<\/p>\n<p>Dizem (talvez exageradamente) que os mortos s\u00e3o quase trinta e que<br \/>\nos feridos excedem dois mil! Porqu\u00ea esta revolta assim sangrenta? Por<br \/>\ncausa de uma mulher nua e de um senador pudibundo! N\u00e3o \u00e9 decerto<br \/>\na primeira vez, desde Helena de Tr\u00f3ia, que os homens se entretrucidam<br \/>\npor causa da nudez de uma mulher. Mas \u00e9 certamente a vez primeira que<br \/>\numa cidade levanta barricadas por causa da pudic\u00edcia de um senador.<br \/>\nA hist\u00f3ria \u00e9 grotesca e lament\u00e1vel. Os estudantes da<br \/>\nEscola de Belas-Artes de Paris organizam todos os anos um baile, que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 p\u00fablico, e que pelos elementos que o constituem se intitula<br \/>\no \u00abBaile das Quatro Artes\u00bb. E sempre uma festa extremamente fantasista.<br \/>\nE onde se poder\u00e1 produzir mais naturalmente a fantasia do que num baile<br \/>\nde artistas, mo\u00e7os e livres, que nos dom\u00ednios da imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00eam mesmo o direito nato de serem fant\u00e1sticos? Ora este ano os<br \/>\nescultores do atelier de Falgui\u00e8re resolveram aparecer no baile levando<br \/>\nem triunfo sobre um andor, como uma deusa de beleza, e na atitude de Diana<br \/>\narmando o arco, uma certa Sara Brown, que \u00e9 dos mais lindos e perfeitos<br \/>\nmodelos de Paris. Escuso acrescentar que essa Sara, na sua qualidade de Diana,<br \/>\nia pouco vestida. Na verdade, para cobrir o esplendor do seu corpo, que tem<br \/>\nsido reproduzido largamente no m\u00e1rmore e na tela, ela levava apenas<br \/>\n(anacronismo deplor\u00e1vel) meias de seda preta e sapatos. Seria de mais,<br \/>\nna Gr\u00e9cia, e no tempo de Diana.<\/p>\n<p>Em Paris, em 1893, \u00e9 talvez pouco \u2013 e uma leve t\u00fanica,<br \/>\num v\u00e9u, um cendal, teriam poupado os desastres e o sangue. No entanto,<br \/>\nda parte dos estudantes n\u00e3o havia, nesta exibi\u00e7\u00e3o triunfal<br \/>\nda bela Sara, nenhuma inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eram artistas que em sua casa, numa festa particular onde s\u00f3 se podia<br \/>\npenetrar por convite, celebravam com honras pag\u00e3s um tipo perfeito<br \/>\nde beleza feminina. Penso mesmo que eles mostraram pouca fantasia e inven\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u2013 porque repetiram numa noite de festa as ocupa\u00e7\u00f5es habituais<br \/>\ndos dias de escola. A sua profiss\u00e3o, como artistas e escultores, \u00e9<br \/>\ncontemplar, compreender, reproduzir a forma humana. E levando consigo para<br \/>\no baile o modelo nu numa atitude de est\u00e1tua, estes rapazes transformavam<br \/>\na festa em atelier e n\u00e3o estavam fazendo uma p\u00e2ndega \u2013<br \/>\nmas estudando uma li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensou, por\u00e9m, assim o senador Berenger. E aqui aparece<br \/>\neste terr\u00edvel homem.<\/p>\n<p>O senador Berenger \u00e9 o presidente da Liga contra a Indec\u00eancia<br \/>\nnas Ruas. Os fins desta associa\u00e7\u00e3o, para quem conhece Paris,<br \/>\ne sobretudo a linha dos bulevares da Madalena \u00e0 Bastilha, n\u00e3o<br \/>\nnecessitam de ser explicados \u2013 nem justificados. E uma \u00fatil associa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nquase providencial. E quem tenha filhas, e por vezes necessite atravessar<br \/>\ncom elas os bulevares, deve concorrer, com a sua quota mensal, para a for\u00e7a,<br \/>\nefic\u00e1cia e desenvolvimento da Liga. O seu \u00fanico defeito \u00e9<br \/>\no seu presidente \u2013 porque este homem excessivo, que tem setenta anos<br \/>\ne uma pudibundice man\u00edaca, n\u00e3o s\u00f3 investe, em nome da<br \/>\nLiga contra todas as indec\u00eancias incontest\u00e1veis e patentes das<br \/>\nruas \u2013 mas contra todo o acto humano que vagamente se lhe afigure revelar<br \/>\numa tend\u00eancia impudica. E para este anci\u00e3o, cat\u00f3nico e<br \/>\ncaturra, tudo no universo \u00e9 impudic\u00edcia. Uma senhora, para atravessar<br \/>\na lama, levanta um pouco a saia \u2013 imediatamente Berenger chama um pol\u00edcia.<br \/>\nNa vidra\u00e7a de um livreiro, sobre a capa ilustrada de um romance, h\u00e1<br \/>\numa imagem um pouco decotada \u2013 logo Berenger, com os cabelos eri\u00e7ados<br \/>\nde horror, querela do livreiro e do livro. Por tr\u00e1s de uma porta soa<br \/>\no rumor de um beijo \u2013 sem demora Berenger pretende arrombar a porta<br \/>\ne autuar o cupido. Ultimamente chamou aos tribunais o autor de um livro cient\u00edfico,<br \/>\nde medicina, por indecente! \u00c9 ele que conspira para que se cubram com<br \/>\ngrossas camisas de lona todas as est\u00e1tuas antigas do Museu do Louvre<br \/>\ne se Berenger triunfasse ver\u00edamos nas igrejas S. Sebasti\u00e3o metido<br \/>\ncastamente dentro de uma longa sobrecasaca de pano preto. At\u00e9 a nudez<br \/>\ndos animais o indigna \u2013 e afirmam os seus amigos que ele se prepara<br \/>\na apresentar um projecto de lei para que todos os c\u00e3es e cavalos de<br \/>\nParis andem de tanga! O seu horror, que lhe amargura a velhice, \u00e9 que<br \/>\nhaja dois sexos. Berenger queria que houvesse um s\u00f3 \u2013 o neutro.<br \/>\nE n\u00e3o podendo realizar esta reforma na humanidade \u2013 trabalha<br \/>\npara a realizar na gram\u00e1tica. Assim ele evitar\u00e1 o afrontoso<br \/>\nesc\u00e2ndalo de haver substantivos masculinos e femininos, vivendo promiscuamente,<br \/>\nfechados no mesmo dicion\u00e1rio, e fazendo talvez l\u00e1 dentro poucas-vergonhas!<br \/>\nTal \u00e9 Berenger.<\/p>\n<p>Imaginem, pois, o furor deste var\u00e3o cast\u00edssimo ao saber do<br \/>\nBaile das Quatro Artes, e da bela Sara nua! Tr\u00e9mulo, pulou \u00e0<br \/>\ntribuna do Senado, e trovejou! Dali correu aos tribunais e querelou! E eis<br \/>\na pobre Sara, a gentil Diana, e os estudantes requintadamente est\u00e9ticos<br \/>\nque a tinham conduzido em triunfo \u2013 citados perante o correccional como<br \/>\npromotores de indec\u00eancias p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O furor pudico de Berenger fora grande \u2013 mas como dizer o furor art\u00edstico<br \/>\ndos estudantes? Havia neles muitos sentimentos ofendidos \u2013 sentimentos<br \/>\nde arte, sentimentos de classe, sentimentos de liberdade, sentimentos de tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nescolar e de tradi\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. E a ideia de que este<br \/>\nvelho caturra arrastava aos tribunais, como obscenos, artistas de vinte anos,<br \/>\nque, \u00e0 maneira dos seus antigos confrades da Gr\u00e9cia e da It\u00e1lia,<br \/>\ncelebravam, numa festa particular, toda sua e somente escolar, a beleza de<br \/>\num modelo, que eles todos os dias copiam na escola, e que o seu mestre Falgui\u00e8re<br \/>\nj\u00e1 reproduziu em m\u00e1rmores ilustres \u2013 pareceu intoler\u00e1vel.<br \/>\nDa\u00ed \u00f3dio imenso a Berenger. E, portanto, tro\u00e7a imensa<br \/>\norganizada contra Berenger. N\u00e3o sei como procedem os estudantes de<br \/>\nS\u00e3o Paulo ou do Rio, para celebrar as suas grandes tro\u00e7as oficiais.<br \/>\nEm Coimbra \u00e9 uma enorme multid\u00e3o armada de tambores, panelas,<br \/>\nlatas, ferragens, apitos estridentes, buzinas horrendas, que, alta noite,<br \/>\nse acerca da casa do \u00abtro\u00e7ado\u00bb e rompe bruscamente num<br \/>\ncharivari descomunal, que n\u00e3o cessa, vai mesmo crescendo demoniacamente,<br \/>\nat\u00e9 que o \u00abtro\u00e7ado\u00bb fuja pelos telhados, ou morra<br \/>\nde terror, ou se humilhe e implore absolvi\u00e7\u00e3o. Em Paris a grande<br \/>\ntro\u00e7a escolar \u00e9 feita por meio do mon\u00f3mio, que \u00e9<br \/>\numa longa bicha de mil ou dois mil estudantes, serpenteando pelas ruas, berrando<br \/>\no nome do \u00abtro\u00e7ado\u00bb e intimando as popula\u00e7\u00f5es<br \/>\na que o \u00abvilipendiem\u00bb. E h\u00e1 alguma coisa de imponente e<br \/>\nde dram\u00e1tico nesta imensa fila escura, semelhante de longe a uma cobra<br \/>\ninfind\u00e1vel, que se estende, coleia pelas vielas estreitas do Bairro<br \/>\nLatino, e clama, como ultimamente, no mesmo compasso lento e sinistro: \u00abVilipendiai<br \/>\nBerenger! Vilipendiai Berenger!\u00bb Ora, quando um destes mon\u00f3mios,<br \/>\ndomingo passado, ia vilipendiando Berenger, teve um conflito com a pol\u00edcia.<br \/>\nOu antes, ao que parece, o mon\u00f3mio findara, os estudantes tinham-se<br \/>\nestabelecido no Caf\u00e9 d\u2019Harcourt, para descansar e refrescar,<br \/>\nquando a pol\u00edcia, despropositadamente, invadiu o caf\u00e9, fez um<br \/>\nrolo medonho e brutal. E por grande desgra\u00e7a, na balb\u00fardia foi<br \/>\nmorto um pobre rapaz, que tomava pacificamente o seu bock, que n\u00e3o<br \/>\nera estudante, e apenas amigo e camarada de estudantes.<\/p>\n<p>Daqui imediatamente se seguiram todos os incidentes tradicionais de uma<br \/>\nrevolta acad\u00e9mica: imensa excita\u00e7\u00e3o; forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um comit\u00e9 de resist\u00eancia; intima\u00e7\u00e3o ao Governo<br \/>\npara que demitisse o prefeito da pol\u00edcia, respons\u00e1vel pela injustificada<br \/>\nbrutalidade dos seus agentes; e perante a recusa do Governo, a desordem nas<br \/>\nruas, o assalto \u00e0 Prefeitura, os recontros sangrentos com as for\u00e7as<br \/>\npoliciais, o Bairro Latino em estado de s\u00edtio e metade de Paris cheio<br \/>\nde baionetas.<\/p>\n<p>O estudantes, geralmente, t\u00eam a revolta muito f\u00e1cil, mas muito<br \/>\ncurta. E desde que os barulhos s\u00e3o feitos unicamente por estudantes,<br \/>\na ordem renasce de repente, quando uma madrugada eles se sentem esfalfados<br \/>\nde tanto berro e de tanto encontr\u00e3o, e recolhem-se a casa para mudar<br \/>\nde roupa e de entusiasmo. Mas em Paris, desgra\u00e7adamente, mais que em<br \/>\nnenhuma outra cidade, h\u00e1 uma verdadeira classe revolucion\u00e1ria,<br \/>\nque \u00e9 composta das derradeiras, das mais baixas, mais viciosas e mais<br \/>\nviolentas camadas do proletariado. S\u00e3o os selvagens da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\n(a frase \u00e9 conhecida). E s\u00e3o eles que tornam qualquer motim<br \/>\nem Paris excessivamente perigoso, porque acodem logo a agrav\u00e1-lo, introduzindo<br \/>\nnele a viol\u00eancia bestial, o furor de destrui\u00e7\u00e3o e a desordem<br \/>\npor amor da desordem. Que o motivo do tumulto seja uma justa teoria pol\u00edtica,<br \/>\nou uma indigna\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria, ou um entusiasmo patri\u00f3tico,<br \/>\no \u00abselvagem\u00bb, que nada sabe de p\u00e1tria, nem de humanidade,<br \/>\nnem de justi\u00e7a, corre logo com o seu cacete, a sua faca e a sua lata<br \/>\nde petr\u00f3leo, \u00e1vido de desancar, de queimar, demolir.<\/p>\n<p>E foi justamente o que sucedeu nesta simp\u00e1tica arrua\u00e7a dos<br \/>\nestudantes, onde a leg\u00edtima c\u00f3lera n\u00e3o exclu\u00eda<br \/>\numa alegre modera\u00e7\u00e3o. O selvagem apareceu e logo tudo tomou<br \/>\num car\u00e1cter feroz e sangrento. Desde esse momento, o Governo exerceu<br \/>\numa repress\u00e3o especial \u2013 n\u00e3o prudente e adequada a estudantes,<br \/>\nmas implac\u00e1vel e adequada a bandidos. E da\u00ed se seguiram todos<br \/>\nesses incidentes, de que os jornais contam a cr\u00f3nica lament\u00e1vel,<br \/>\ne que pela aud\u00e1cia dos tumultuosos e pela imensa brutalidade da pol\u00edcia<br \/>\nderam por triste resultado, ao que se diz, trinta mortos e dois mil feridos.<\/p>\n<p>E porqu\u00ea? Por causa do bailarico das Quatro Artes! Por causa tamb\u00e9m<br \/>\ndeste calor temeroso que excita os temperamentos. E hoje um facto cientificamente<br \/>\nexplicado que as revoltas populares s\u00f3 se d\u00e3o, sobretudo nos<br \/>\npa\u00edses do Norte, durante os meses quentes do ano. O term\u00f3metro<br \/>\ncom quarenta graus \u00e0 sombra, uma atmosfera pesada e el\u00e9ctrica,<br \/>\nleva as multid\u00f5es a enfurecer-se por coisas que, durante o Inverno<br \/>\ne com as ruas cheias de neve, as deixaria indiferentes. E n\u00e3o compreendo<br \/>\ncomo se n\u00e3o tentou ainda, de um modo met\u00f3dico (porque casual<br \/>\ne irregularmente j\u00e1 se tem feito), sufocar as arrua\u00e7as por meio<br \/>\nde \u00e1gua fria. O sistema j\u00e1 o possu\u00edmos, admiravelmente<br \/>\norganizado, no servi\u00e7o de inc\u00eandios. Uma. revolta \u00e9 sempre<br \/>\ncomparada em literatura a um grande inc\u00eandio. E n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nmotivo para que se n\u00e3o apague, na realidade, por meio de bombas. Tr\u00eas<br \/>\nou quatro bombas a vapor, esguichando sobre uma multid\u00e3o formid\u00e1veis<br \/>\ne irresist\u00edveis jactos de \u00e1gua fria, seriam, a meu ver, mais<br \/>\neficazes do que cargas da cavalaria. Uma carga irrita sempre aqueles contra<br \/>\nquem ela se d\u00e1 \u2013 e o instinto da coragem, o desespero da desforra,<br \/>\no fundo de hero\u00edsmo que t\u00eam em si todas as multid\u00f5es,<br \/>\nimpele \u00e0 resist\u00eancia e \u00e0 luta. Mas o desfor\u00e7o,<br \/>\na resist\u00eancia s\u00e3o imposs\u00edveis contra uma bomba de inc\u00eandio<br \/>\na esguichar. O homem acutilado pela pol\u00edcia quer acutilar tamb\u00e9m,<br \/>\nporque tem uma arma igual e se sente bravo. O homem alagado, encharcado, perde<br \/>\ntodo o valor porque se sente grotesco. N\u00e3o v\u00ea ante si outro homem<br \/>\nsobre quem se vingue: \u2013 v\u00ea apenas um longo esguicho de \u00e1gua<br \/>\nque o ensopa e o constipa. E uma humilha\u00e7\u00e3o acabrunhadora. N\u00e3o<br \/>\nse pode apedrejar um esguicho, nem esfaquear um esguicho.<\/p>\n<p>Diante de um esguicho \u2013 s\u00f3 resta fugir para secar. Al\u00e9m<br \/>\ndisso, as plebes t\u00eam um horror imenso \u00e0 \u00e1gua fria \u2013<br \/>\ne tal que afrontaria uma bala, larga a correr diante de um duche. Acresce<br \/>\nainda que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que n\u00e3o receie a \u00e1gua,<br \/>\ndesde que est\u00e1 vestido. Nu, o homem marcha ainda para o elemento l\u00edquido.<br \/>\nMas de casaco e de chap\u00e9u \u2013 n\u00e3o o acomete.<\/p>\n<p>A bomba de inc\u00eandio, adoptado este m\u00e9todo, n\u00e3o s\u00f3<br \/>\noperaria como afugentadora, mas como sedativa. Calmaria e exalta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne com ela a revolu\u00e7\u00e3o. E depois seria uma repress\u00e3o perfeitamente<br \/>\ndoce, humanit\u00e1ria. N\u00e3o mais feridos, nem mortos. Apenas molhados.<br \/>\nQuando muito, endefluxados. Findo o motim, os vencidos iriam tomar um grande<br \/>\nsuadouro e a ordem ficaria satisfeita. Ao s\u00e9culo XIX competia, dado<br \/>\no seu esp\u00edrito humanit\u00e1rio, fazer esta reforma consider\u00e1vel<br \/>\nna supress\u00e3o das revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2>AS CAT\u00c1STROFES E AS LEIS DE EMO\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Desde que n\u00e3o conversamos, meus amigos, este nosso Velho Mundo e os<br \/>\noutros mais velhos que se estendem para Oriente t\u00eam sido visitados por<br \/>\nmales inumer\u00e1veis, uns trazidos pelas viol\u00eancias da Natureza,<br \/>\noutros pela viol\u00eancia dos homens, porque o consciente e o inconsciente<br \/>\n(se \u00e9 que este realmente existe) rivalizaram, como sempre, na produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nda dor.<\/p>\n<p>No Jap\u00e3o foi um desses pavorosos \u00abmacar\u00e9us\u00bb, que<br \/>\ntanto assustavam os nossos navegadores do s\u00e9culo XVI, invadindo em<br \/>\ndesmedido vagalh\u00e3o l\u00e9guas de costa e lambendo aldeias, cidades,<br \/>\ncentenas de milhares de criaturas, como se fossem apenas conchas e areia leve.<br \/>\nNa China a costumada trasborda\u00e7\u00e3o de rios, afogando nessa noite<br \/>\nquinhentos mil chineses, um milh\u00e3o de chineses, todo um imenso e escuro<br \/>\nformigueiro chin\u00eas, com a simplicidade com que entre n\u00f3s um riacho,<br \/>\ndepois da chuvas, alaga um feijoal em uma horta ribeirinha. Na \u00cdndia<br \/>\na peste junta com a fome, \u00e0 velha maneira oriental, com esse horrendo<br \/>\nfeitio das expia\u00e7\u00f5es b\u00edblicas em que os esfaimados findam<br \/>\npor comer os cad\u00e1veres, e os pest\u00edferos, aos centos, agonizam<br \/>\n\u00e0 beira dos caminhos, em breve todos brancos de ossadas.<\/p>\n<p>Na Arm\u00e9nia uma prodigiosa matan\u00e7a de trezentos mil crist\u00e3os,<br \/>\nmetodicamente dirigida pelas autoridades mu\u00e7ulmanas, com muita ordem,<br \/>\nmuito vagar, horas regulamentares para assassinar e para descansar e uma escrupulosa<br \/>\nescritura\u00e7\u00e3o. Na Turquia e na Gr\u00e9cia uma guerra, que<br \/>\nn\u00e3o ressuscitou a luta cl\u00e1ssica do orientalismo e do helenismo<br \/>\n(porque j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 orientais e ainda menos helenos), mas<br \/>\nrenovou uma briga entre a cruz e o crescente, briga toda concebida no esp\u00edrito<br \/>\ndo s\u00e9culo XIX, racionalista e positiva, em que os pr\u00edncipes<br \/>\ncrist\u00e3os (at\u00e9 o papa) se colocaram num utilit\u00e1rio entusiasmo<br \/>\ndo lado do crescente, de sorte que a cruz teve de fugir com um dos bra\u00e7os<br \/>\npartidos por esses caminhos tess\u00e1licos por onde outrora o Grego costumava<br \/>\nalegremente acossar o Persa numeroso. Na ilha de Creta, t\u00e3o querida<br \/>\na J\u00fapiter, horrores inenarr\u00e1veis, sob a vigil\u00e2ncia pensativa<br \/>\ne paternal de seis esquadras da Europa. Em Espanha bombas e supl\u00edcios.<br \/>\nE enfim neste Paris o dia doloroso em que a ci\u00eancia, sob a forma de<br \/>\num cinematogr\u00e1fico, queimou por seu turno, num vasto auto-de-f\u00e9,<br \/>\na religi\u00e3o, representada por piedosas senhoras que celebravam uma festa<br \/>\nde devo\u00e7\u00e3o e caridade cat\u00f3lica&#8230;<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o sei, meus amigos, se estas desgra\u00e7as realmente<br \/>\nvos interessam, vos comovem \u2013 porque a dist\u00e2ncia actua sobre a<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o exactamente como actua sobre o som. A mesma dura lei<br \/>\nf\u00edsica rege desgra\u00e7adamente a ac\u00fastica e a sensibilidade.<br \/>\n\u00c9 sempre em ambas o id\u00eantico e t\u00e3o racional princ\u00edpio<br \/>\ndas ondula\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o decrescendo \u00e0 maneira<br \/>\nque se afastam do seu centro, at\u00e9 que docemente se imobilizam e morrem:<br \/>\nse elas traziam um som que vinha vibrando \u2013 o som cala quando elas param:<br \/>\nse traziam um terror que vinha tremendo \u2013 o terror finda quando elas<br \/>\nfindam.<\/p>\n<p>Bruscas, grossas, frementes, r\u00e1pidas em torno ao choque que as produziu,<br \/>\nessas ondula\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais, nos horizontes<br \/>\nremotos, do que um vago, quase liso arfar, que mal se diferen\u00e7a da<br \/>\nin\u00e9rcia. Sen\u00e3o vede! Em Pequim, subitamente, uma tarde, ribomba<br \/>\num pavoroso trov\u00e3o \u2013 e ao mesmo tempo pega fogo na vistosa cabaia<br \/>\nde um mandarim muito ilustre, que morre queimado. Por todo Pequim a impress\u00e3o<br \/>\n\u00e9 tremenda. At\u00e9 o imperador, filho do Sol, nos seus grandes<br \/>\njardins, estremeceu, aterrado com aquele imprevisto troar de um c\u00e9u<br \/>\npuro: e nas vielas mais s\u00f3rdidas os coolies mais piolhentos interromperam<br \/>\num momento o seu negro trabalho para lamentar com exclama\u00e7\u00f5es<br \/>\no mandarim muito ilustre. Mas a\u00ed est\u00e1! A vinte ou trinta l\u00e9guas<br \/>\nde Pequim o terrifico trov\u00e3o foi apenas um rumor que se confundiu com<br \/>\no rolar das carro\u00e7as nas lajes \u2013 e, quando se contou nas lojas<br \/>\nloquazes dos barbeiros o desastre do mandarim em chamas, s\u00f3 algum n\u00e9dio<br \/>\nfuncion\u00e1rio, com sab\u00e3o na bochecha, murmurou oficialmente algum<br \/>\n\u00abah!\u00bb desinteressado e mole&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 que o som do trov\u00e3o e a emo\u00e7\u00e3o do desastre<br \/>\nvieram trazidos por ondula\u00e7\u00f5es, que, a trinta l\u00e9guas<br \/>\nde Pequim, seu centro vivo, j\u00e1 se alisavam, imobilizavam, morriam.<\/p>\n<p>E quando aqui na Europa, de manh\u00e3, sabemos pelo tel\u00e9grafo<br \/>\nbisbilhoteiro do mandarim e do trov\u00e3o, nem o nosso ouvido sente o mais<br \/>\nt\u00e9nue som, nem o nosso cora\u00e7\u00e3o a mais t\u00e9nue piedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o ondularam at\u00e9 n\u00f3s as ondula\u00e7\u00f5es ac\u00fasticas<br \/>\ne emotivas. E \u00e9 com absoluta placidez que murmuramos: \u00abHouve<br \/>\nem Pequim um grande trov\u00e3o; e \u2013 tem gra\u00e7a! \u2013 ardeu<br \/>\num mandarim!\u00bb Mas ent\u00e3o essa confraternidade humana \u2013 pela<br \/>\nsublime for\u00e7a da qual nada do que \u00e9 humano deve ser alheio ao<br \/>\nhomem? N\u00e3o existe? Oh, certamente \u2013 mas para todo o homem, mesmo<br \/>\no mais culto, a humanidade consiste essencialmente naquela por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde homens que residem no seu bairro. Todos os outros restantes, \u00e0 maneira<br \/>\nque se afastam desse centro privilegiado, se v\u00e3o gradualmente desarmonizando<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o ao seu sentimento, de sorte que os mais remotos j\u00e1<br \/>\nquase os n\u00e3o distinguem da Natureza inanimada. Quando qualquer de n\u00f3s,<br \/>\nno seu quieto e salubre bairro, ouve contar que uma furiosa peste matou trinta<br \/>\nmil patag\u00f3nios, fica exactamente penetrado daquela quantidade de compaix\u00e3o<br \/>\nque o invadiria ao saber que um furac\u00e3o derrubara trinta mil \u00e1rvores<br \/>\nde um bosque. E de um bosque muito long\u00ednquo, de uma regi\u00e3o<br \/>\nmuito desconhecida! Porque se as \u00e1rvores destru\u00eddas fossem as<br \/>\ndo nosso doce Bosque de Bolonha, que n\u00f3s amamos, t\u00e3o ornadas<br \/>\ne verdes em Maio, t\u00e3o puramente vestidas de branca neve quando o Inverno<br \/>\nse faz elegante e fino \u2013 a nossa m\u00e1goa teria uma intensidade<br \/>\ninfinitamente mais viva do que com a aniquila\u00e7\u00e3o desses vastos<br \/>\nmilhares de patag\u00f3nios.<\/p>\n<p>E esta estreiteza da emo\u00e7\u00e3o deriva de leis t\u00e3o fatais<br \/>\nque n\u00e3o se d\u00e1 somente nas almas de caridade estreita \u2013<br \/>\nmas ainda nas mais ternas e nas mais largas, naquelas que parecem abrigar<br \/>\nna sua amplid\u00e3o do padecer humano&#8230; O bom senhor S. Vicente de Paulo,<br \/>\na quem o encontro de uma criancinha tremendo de frio ao canto de uma rua arrancava<br \/>\nprantos desolados, que corriam enquanto ele corria com a criancinha sofregamente<br \/>\napertada nos seus bra\u00e7os, s\u00f3 teria um p\u00e1lido e resignado<br \/>\nsuspiro quando ouvisse que, tamb\u00e9m na Tart\u00e1ria, em outras vielas<br \/>\nregeladas, outras criancinhas tiri-tavam e choravam \u2013 se \u00e9 que<br \/>\na homem t\u00e3o ocupado com as mis\u00e9rias de Fran\u00e7a restava<br \/>\ntempo para suspirar com as mis\u00e9rias da Tart\u00e1ria.<\/p>\n<p>E at\u00e9 talvez o muito divino S. Francisco, o ador\u00e1vel pobrezinho<br \/>\nde Assis, irm\u00e3o de todos os seres e para quem os pr\u00f3prios passarinhos<br \/>\ndas veigas de It\u00e1lia eram irm\u00e3os muito queridos, n\u00e3o<br \/>\nsentisse a sua costumada ternura, t\u00e3o alvoro\u00e7ada e activa, pelos<br \/>\npobres da Noruega, e n\u00e3o se reconhecesse inteiramente irm\u00e3o<br \/>\ndos pardaizinhos da Finl\u00e2ndia! A superior sapi\u00eancia das na\u00e7\u00f5es<br \/>\nj\u00e1 formulou esta lei naquele seu fino ad\u00e1gio: \u00abO cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o sente o que os olhos n\u00e3o v\u00eaem.\u00bb Para chorar<br \/>\n\u00e9 necess\u00e1rio ver. A mais pequenina dor que diante de n\u00f3s<br \/>\nse produza e diante de n\u00f3s gema, p\u00f5e na nossa alma uma comisera\u00e7\u00e3o<br \/>\ne na nossa carne um arrepio, que lhe n\u00e3o dariam as mais pavorosas cat\u00e1strofes<br \/>\npassadas longe, noutro tempo ou sob outros c\u00e9us. Um homem ca\u00eddo<br \/>\na um po\u00e7o na minha rua mais ansiadamente me sobressalta que cem mineiros<br \/>\nsepultados numa mina da Sib\u00e9ria \u2013 e um carro esmagando a pata<br \/>\nde um c\u00e3o, em frente \u00e0 nossa janela, \u00e9 um caso infinitamente<br \/>\nmais aflitivo do que a her\u00f3ica e ador\u00e1vel Joana d\u2019Arc<br \/>\nqueimada na pra\u00e7a de Ru\u00e3o! A dist\u00e2ncia e o tempo fazem<br \/>\ndas mais grossas trag\u00e9dias ligeiras not\u00edcias \u2013 onde nenhum<br \/>\nesp\u00edrito s\u00e3o, bem equilibrado, encontra motivo de ang\u00fastia<br \/>\nou pranto. Hoje certamente ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser algum velho e<br \/>\nalto dignit\u00e1rio da Igreja ou do Estado, assistiria, com os olhos secos<br \/>\ne o cora\u00e7\u00e3o quieto, ao supl\u00edcio de Joana d\u2019Arc<br \/>\n\u2013 mas nenhum fisiologista garantiria a sanidade intelectual de um sujeito<br \/>\nque, na solid\u00e3o da sua alcova, com as janelas cerradas, se desfizesse<br \/>\nem l\u00e1grimas por os Ingleses terem outrora supliciado Joana d\u2019Arc.<\/p>\n<p>No entanto, v\u00f3s observais, amigos, que j\u00e1 repetidamente chorastes<br \/>\n(porque sois bons) com dores humanas, n\u00e3o somente sucedidas longe do<br \/>\nvosso bairro, mas fora do vosso s\u00e9culo; e algum mesmo me mostrar\u00e1,<br \/>\ncomo emblema irrecus\u00e1vel da confraternidade humana, o len\u00e7o<br \/>\nsentidamente humedecido na v\u00e9spera ao escutar os adeuses de Lu\u00eds<br \/>\nXVI aos filhos na pris\u00e3o do Templo, ou mesmo a antiga In\u00eas de<br \/>\nCastro balbuciando as suas s\u00faplicas aos p\u00e9s do antigo Afonso<br \/>\nIV! Decerto! E mesmo j\u00e1 muitas vezes tereis sufocado generosos solu\u00e7os<br \/>\ncom mis\u00e9rias e tormentos de criaturas que s\u00f3 viveram no mundo<br \/>\na\u00e9reo da imagina\u00e7\u00e3o e do sonho. Mas quando, onde foi<br \/>\nque assim vos comovestes, t\u00e3o humanamente? Quando? Onde? No teatro,<br \/>\nou nas p\u00e1ginas de um romance, ou mesmo atrav\u00e9s dos sinceros<br \/>\nversos de um poema, quando a arte, encarnando os seres dolorosos que concebeu<br \/>\nou ressuscitando com flagrante e magn\u00edfica realidade as figuras mortas<br \/>\nda hist\u00f3ria, torna durante um momento essas criaturas, n\u00e3o somente<br \/>\nvossas contempor\u00e2neas, mas vossas vizinhas, moradoras no bairro em que<br \/>\nmorais, respiradoras do ar que respirais, e pertencentes portanto \u00e0quela<br \/>\npor\u00e7\u00e3o de humanidade pr\u00f3xima e tang\u00edvel, cujas<br \/>\ndores se partilham, porque confinam com as nossas&#8230; E depois, tal sujeito<br \/>\n\u2013 que choramingou, no fundo do seu camarote, assistindo \u00e0 morte<br \/>\nda Dama das Cam\u00e9lias, morta pela mil\u00e9sima vez, na sua alcova<br \/>\nde lona e papel\u00e3o \u2013 recolher\u00e1 a casa e ler\u00e1 no<br \/>\njornal, com absoluta indiferen\u00e7a, mastigando a torrada, que duzentas<br \/>\nmulheres, com os filhinhos nos bra\u00e7os, morreram afogadas num naufr\u00e1gio,<br \/>\nlonge, nos mares da Indochina! Sim, amigos, essas duzentas m\u00e3es afogadas<br \/>\nnas vagas indochinesas certamente vos ser\u00e3o estranhas, e como n\u00e3o<br \/>\nexistentes! Se elas tivessem naufragado nos mares dos A\u00e7ores, j\u00e1<br \/>\nsem d\u00favida t\u00e3o pat\u00e9tica nova vos arrancaria algum vago<br \/>\nmurm\u00fario de simpatia. Mas se elas houvessem perecido, elas e os pobres<br \/>\nfilhinhos, na ba\u00eda do Rio de Janeiro, que incompar\u00e1vel cat\u00e1strofe<br \/>\n\u2013 e como v\u00f3s correr\u00edeis pelas ruas, p\u00e1lidos cheios<br \/>\nde espanto! Que digo eu? Para vos comover nem seriam necess\u00e1rias duzentas<br \/>\ndesgra\u00e7adas \u2013 bastaria que naufragassem duas, se v\u00f3s as<br \/>\nconhec\u00easseis de nome e de rosto! Porque, segundo a cruel lei f\u00edsica<br \/>\nque regula os fen\u00f3menos da emo\u00e7\u00e3o \u2013 um empregado<br \/>\nda Alf\u00e2ndega que caiu de um barco e desapareceu na ba\u00eda do Rio<br \/>\nde Janeiro vale, para o habitante do Rio, mil pescadores despeda\u00e7ados<br \/>\nsobre os rochedos nas costas da Isl\u00e2ndia! Ah, esta abomin\u00e1vel<br \/>\ninflu\u00eancia da dist\u00e2ncia sobre o nosso imperfeito cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\nBem recordo uma noite em que, numa vila de Portugal, uma senhora lia, \u00e0<br \/>\nluz do candeeiro, que dourava mais radiantemente os seus cabelos j\u00e1<br \/>\ndourados, um jornal da tarde. Em torno da mesa outras senhoras costuravam.<\/p>\n<p>Espalhados pelas cadeiras e no div\u00e3, tr\u00eas ou quatro homens<br \/>\nfumavam, na doce indol\u00eancia do t\u00e9pido ser\u00e3o de Maio. E<br \/>\npelas janelas abertas sobre o jardim entrava, com um sussurro das fontes,<br \/>\no aroma das roseiras. No jornal que o criado trouxera e ela nos lia, abundavam<br \/>\nas calamidades. Era uma dessas semanas tamb\u00e9m em que pela viol\u00eancia<br \/>\nda Natureza e pela c\u00f3lera dos homens se desencadeia o mal sobre a Terra.<\/p>\n<p>Ela lia as cat\u00e1strofes lentamente, com a serenidade que t\u00e3o<br \/>\nbem convinha ao seu sereno e puro perfil latino. \u00abNa ilha de Java um<br \/>\nterramoto destru\u00edra vinte aldeias, matara duas mil pessoas&#8230;\u00bb<br \/>\nAs agulhas atentas picavam os estofos ligeiros; o fumo dos cigarros rolava<br \/>\ndocemente na aragem mansa \u2013 e ningu\u00e9m comentou, sequer se interessou<br \/>\npela imensa desventura de Java. Java \u00e9 t\u00e3o remota, t\u00e3o<br \/>\nvaga no mapa! Depois, mais perto, na Hungria, \u00abum rio trasbordara, destruindo<br \/>\nvilas, searas, os homens e os gados&#8230;\u00bb. Algu\u00e9m murmurou, atrav\u00e9s<br \/>\nde um l\u00e2nguido bocejo: \u00abQue desgra\u00e7a!\u00bb A delicada<br \/>\nsenhora continuava, sem curiosidade, muito calma, aureolada de ouro pela luz.<br \/>\nNa B\u00e9lgica, numa greve desesperada de oper\u00e1rios que as tropas<br \/>\ntinham atacado, houvera entre os mortos quatro mulheres, duas criancinhas&#8230;<br \/>\nEnt\u00e3o, aqui e al\u00e9m, na aconchegada sala, vozes j\u00e1 mais<br \/>\ninteressadas exclamaram brandamente: \u00abQue horror!&#8230; Estas greves!&#8230;<br \/>\nPobre gente!&#8230;\u00bb De novo o bafo suave, vindo de entre as rosas, nos<br \/>\nenvolveu, enquanto a nossa loura amiga percorria o jornal atulhado de males.<br \/>\nE ela mesma ent\u00e3o teve um \u00aboh!\u00bb de dolorida surpresa. No<br \/>\nSul da Fran\u00e7a, \u00abjunto \u00e0 fronteira, um trem descarrilando<br \/>\ncausara tr\u00eas mortes, onze ferimentos&#8230;\u00bb Uma curta emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nj\u00e1 sincera, passou atrav\u00e9s de n\u00f3s com aquela desgra\u00e7a<br \/>\nquase pr\u00f3xima, na fronteira da nossa pen\u00ednsula, num comboio<br \/>\nque desce a Portugal, onde viajam portugueses&#8230; Todos lamentar\u00edamos,<br \/>\ncom express\u00f5es j\u00e1 vivas, estendidos nas poltronas, gozando a<br \/>\nnossa seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>A leitora, t\u00e3o cheia de gra\u00e7a, virou a p\u00e1gina do jornal<br \/>\ndoloroso, e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro<br \/>\ne sereno&#8230;. E, de repente, solta um grito, leva as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a:<br \/>\n\u2013 Santo Deus!&#8230;<\/p>\n<p>Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando:<br \/>\n\u2013 Foi a Lu\u00edsa Carneiro, da Bela Vista&#8230; Esta manh\u00e3! Desmanchou<br \/>\num p\u00e9! Ent\u00e3o a sala inteira se alvorotou num tumulto de surpresa<br \/>\ne desgosto.<\/p>\n<p>As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltrona;<br \/>\ne todos se debru\u00e7aram, reliam a not\u00edcia no jornal amargo, se<br \/>\nrepastavam da dor que ela exalava!&#8230; A Luisinha Carneiro! Desmanchara um<br \/>\np\u00e9! J\u00e1 um criado correra, furiosamente, para a Bela Vista, buscar<br \/>\nnot\u00edcias por que ansi\u00e1vamos. Sobre a mesa, aberto, batido da<br \/>\nlarga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela not\u00edcia que o enchia<br \/>\ntodo, o enegrecia.<\/p>\n<p>Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados<br \/>\nmatando crian\u00e7as, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes<br \/>\ne guerras, tudo desaparecera \u2013 era sombra ligeira e remota. Mas o p\u00e9<br \/>\ndesmanchado da Lu\u00edsa Carneiro esmagava os nossos cora\u00e7\u00f5es&#8230;<br \/>\nPudera! Todos n\u00f3s conhec\u00edamos a Luisinha \u2013 e ela morava<br \/>\nadiante, no come\u00e7o da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa<br \/>\nse debru\u00e7ava do muro, dando \u00e0 rua sombra e perfume.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV &nbsp; Cap\u00edtulo I Meus amigos: aconteceu uma desgra\u00e7a a Joana d\u2019Arc. A donzela de Orle\u00e3es, a boa e forte lorena, salvadora do reino de Fran\u00e7a, foi beatificada pela Igreja de Roma. 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