{"id":95509,"date":"2017-01-19T09:06:46","date_gmt":"2017-01-19T11:06:46","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95509"},"modified":"2017-01-19T09:06:46","modified_gmt":"2017-01-19T11:06:46","slug":"cartas-damor-o-efemero-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/cartas-damor-o-efemero-feminino","title":{"rendered":"Cartas d&#8217;Amor O Ef\u00eamero Feminino"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"158\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#1\">Primeira Carta a Madame de<br \/>\nJouarre<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"96\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"152\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Segunda Carta<br \/>\na Clara<\/a><\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"94\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"178\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">Terceira Carta a Clara<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\">Quarta Carta a Clara<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Primeira Carta a Madame de Jouarre<\/h2>\n<p>Minha querida madrinha.<\/p>\n<p>Ontem, em casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a ceia Libuska,<br \/>\nestava sentada, conversando consigo, por debaixo do atroz retrato da marechala<br \/>\nde Mouy, uma mulher loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez<br \/>\npor lhe pressentir, apesar de t\u00e3o indolentemente enterrada num div\u00e3,<br \/>\numa rara gra\u00e7a no andar, gra\u00e7a altiva e ligeira de deusa e de<br \/>\nave. Bem diferente da nossa sapiente Libuska, que se move com o espl\u00eandido<br \/>\npeso de uma est\u00e1tua! E do interesse por esse outro passo, possivelmente<br \/>\nalado e di\u00e2nico (de Diana), prov\u00e9m estas gratujas.<\/p>\n<p>Quem era? Suponho que nos chegou do fundo da prov\u00edncia, de algum<br \/>\nvelho castelo do Anjou com erva nos fossos, porque me n\u00e3o lembro de<br \/>\nTer encontrado em Paris aqueles cabelos fabulosamente louros como o sol de<br \/>\nLondres em Dezembro \u2013 nem aqueles ombros deca\u00eddos, dolentes,<br \/>\nang\u00e9licos, imitados de uma madona de Mantegna, e inteiramente desusados<br \/>\nem Fran\u00e7a desde o reinado de Carlos X, do \u201cL\u00edrio no Vale\u201d<br \/>\ne dos cora\u00e7\u00f5es incompreendidos. N\u00e3o admirei com igual<br \/>\nfervor o vestido preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarelas. Mas<br \/>\nos bra\u00e7os eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia<br \/>\npender um romance triste. Deu-me assim a impress\u00e3o, ao come\u00e7o,<br \/>\nde ser uma eleg\u00edaca do tempo de Chateaubriand. Nos olhos por\u00e9m<br \/>\nsurpreendi-lhe depois uma fa\u00edsca de vivacidade sens\u00edvel \u2013<br \/>\nque a datava do s\u00e9culo XVIII. Dir\u00e1 minha madrinha: \u201cComo<br \/>\npude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado fiscalizando?\u201d<br \/>\n\u00c9 que voltei. Voltei, e da ombreira da porta readmirei os ombros de<br \/>\nvelas por tr\u00e1s, entre as orqu\u00eddeas, nimbava de ouro; e sobretudo<br \/>\no sutil encanto dos olhos \u2013 dos olhos finos e l\u00e2nguidos&#8230; Olhos<br \/>\nfinos e l\u00e2nguidos. \u00c9 a primeira express\u00e3o em que hoje<br \/>\napanho decentemente a realidade.<\/p>\n<p>Por que \u00e9 que n\u00e3o me adiantei, e n\u00e3o pedi uma \u201c<br \/>\napresenta\u00e7\u00e3o?\u201d Nem sei. Talvez o requinte em retardar,<br \/>\nque fazia com que La Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse<br \/>\nsempre o caminho mais longo. Sabe o que dava tanta sedu\u00e7\u00e3o ao<br \/>\nPal\u00e1cio das Fadas, nos tempos do rei Artur? N\u00e3o sabe. Resultados<br \/>\nde n\u00e3o ler Tennyson&#8230; Pois era a imensidade de anos que levava a chegar<br \/>\nl\u00e1, atrav\u00e9s de jardins encantados, onde cada recanto de bosque<br \/>\noferecia a emo\u00e7\u00e3o inesperada de um flirt, de uma batalha, ou<br \/>\nde um banquete&#8230; (Com que m\u00f3rbida propens\u00e3o acordei hoje para<br \/>\no estilo asi\u00e1tico!) O fato \u00e9 que, depois da contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\njunto \u00e0 ombreira, voltei a cear ao p\u00e9 da minha radiante tirana.<br \/>\nMas por entre a banal sandwich de foie-gras, e um copo de Tokay que Voltaire,<br \/>\nj\u00e1 velho, se recordava de ter bebido em casa de Madame de Etioles (os<br \/>\nvinhos dos Tressans descendem em linha varonil dos venenos de Brinvilliers),<br \/>\nvi, constantemente vi, os olhos finos e l\u00e2nguidos. N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nsen\u00e3o o homem, entre os animais, para misturar a languidez de um olhar<br \/>\nfino a fatias de foie-gras. N\u00e3o o faria decerto um c\u00e3o de boa<br \/>\nra\u00e7a. Mas ser\u00edamos n\u00f3s desejados pelo \u201cef\u00eamero<br \/>\nfeminino\u201d se n\u00e3o fosse esta providencial brutalidade? S\u00f3<br \/>\na por\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria que h\u00e1 no homem faz com que<br \/>\nas mulheres se resignem \u00e0 incorrig\u00edvel por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ideal, que nele h\u00e1 tamb\u00e9m \u2013 para eterna perturba\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mundo. O que mais prejudicou Petrarca aos olhos de Laura \u2013 foram<br \/>\nos \u201cSonetos\u201d. E quando Romeu, j\u00e1 com um p\u00e9 na escada<br \/>\nde seda, se demorava, exalando o seu \u00eaxtase em invoca\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00e0 noite e \u00e0 Lua \u2013 Julieta batia os dedos impacientes no<br \/>\nrebordo do balc\u00e3o, e pensava: \u201cAi, que palrador que \u00e9s,<br \/>\nfilho dos Montaigus!\u201d Este detalhe n\u00e3o vem em Shakespeare \u2013<br \/>\nmas \u00e9 comprovado por toda a Renascen\u00e7a. N\u00e3o me amaldi\u00e7oe<br \/>\npor esta sinceridade de meridional c\u00e9ptico, e mande-me dizer que nome<br \/>\ntem, na par\u00f3quia, a loura castel\u00e3 do Anjou. A prop\u00f3sito<br \/>\nde castelos: cartas de Portugal anunciam-me que o quiosque por mim mandado<br \/>\nerguer em Sintra, na minha quintarola, e que lhe destinava como \u201cseu<br \/>\npensadoiro e retiro nas horas de sesta\u201d \u2013 abateu. Tr\u00eas mil<br \/>\ne oitocentos francos achatados em entulho. Tudo tende \u00e0 ru\u00edna<br \/>\nnum pa\u00eds de ru\u00ednas. O arquiteto que o construiu \u00e9 deputado,<br \/>\ne escreve no \u201cJornal da Tarde\u201d estudos melanc\u00f3licos sobre<br \/>\nas Finan\u00e7as! O meu procurador em Sintra aconselha agora, para reedificar<br \/>\no quiosque, um estim\u00e1vel rapaz, de boa fam\u00edlia, que entende<br \/>\nde constru\u00e7\u00f5es e que \u00e9 empregado na procuradoria Geral<br \/>\nda Coroa! Talvez se eu necessitasse um jurisconsulto, me propusessem um trolha.<br \/>\n\u00c9 com estes elementos alegres, que n\u00f3s procuramos restaurar<br \/>\no nosso imp\u00e9rio de \u00c1frica! Servo humilde e devoto.<\/p>\n<h2>Primeira Carta a Clara<\/h2>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o foi na Exposi\u00e7\u00e3o dos Aguarelistas, em<br \/>\nMar\u00e7o, que eu tive consigo o meu primeiro encontro, por mandado dos<br \/>\nFados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos Tressans. Foi a\u00ed<br \/>\nque a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante de um console, cujas luzes,<br \/>\nentre os molhos de orqu\u00eddeas, punham nos seus cabelos aquele nimbo<br \/>\nde ouro que t\u00e3o justamente lhe pertence como \u201crainha de gra\u00e7a<br \/>\nentre as mulheres\u201d. Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir cansado,<br \/>\no vestido preto com relevos cor de bot\u00e3o de ouro, o leque antigo que<br \/>\ntinha fechado no rega\u00e7o; mas logo tudo em redor me pareceu irreparavelmente<br \/>\nenfadonho e feio; e voltei a readmirar, a meditar em sil\u00eancio a sua<br \/>\nbeleza, que me prendia pelo esplendor patente e compreens\u00edvel, e ainda<br \/>\npor n\u00e3o sei qu\u00ea de fino, de espiritual, de dolente e de meigo<br \/>\nque brilhava atrav\u00e9s e vinha da alma. E t\u00e3o intensamente me<br \/>\nembebi nessa contempla\u00e7\u00e3o, que levei comigo a sua imagem, decorada<br \/>\ne inteira, sem esquecer um fio dos seus cabelos ou uma ondula\u00e7\u00e3o<br \/>\nda seda que a cobria, e corri a encerrar-me com ela, alvoro\u00e7ado, como<br \/>\num artista que nalgum escuro armaz\u00e9m, entre poeira e cacos, descobrisse<br \/>\na obra sublime de um mestre perfeito.<\/p>\n<p>E, por que o n\u00e3o confessarei? Essa imagem foi para mim, ao princ\u00edpio,<br \/>\nmeramente um quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada doce<br \/>\nmomento olhava \u2013 mas para lhe louvar apenas, com crescente surpresa,<br \/>\nos encantos diversos de linha e de cor. Era somente uma rara tela, posta em<br \/>\nsacr\u00e1rio, im\u00f3vel e muda no seu brilho, sem outra influ\u00eancia<br \/>\nmais sobre mim que a de uma forma muito bela que cativa um gosto muito educado.<br \/>\nO meu ser continuava livre, atento \u00e0s curiosidades que at\u00e9 a\u00ed<br \/>\no seduziam, aberto aos sentimentos que at\u00e9 a\u00ed o solicitavam;<br \/>\n&#8211; e s\u00f3 quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo<br \/>\nde uma ocupa\u00e7\u00e3o mais pura, regressava \u00e0 imagem que em<br \/>\nmim guardava, como um Fra Ang\u00e9lico, no seu claustro, pousando os pinc\u00e9is<br \/>\nao fim do dia, e ajoelhando ante a Madona a implorar dela repouso e inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuperior.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, por\u00e9m, tudo o que n\u00e3o foi esta contempla\u00e7\u00e3o,<br \/>\nperdeu para mim o valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado<br \/>\nno fundo da minha alma, perdido na admira\u00e7\u00e3o da imagem que l\u00e1<br \/>\nrebrilhava &#8211; at\u00e9 que s\u00f3 essa ocupa\u00e7\u00e3o me pareceu<br \/>\ndigna da vida, no mundo todo n\u00e3o reconheci mais que uma apar\u00eancia<br \/>\ninconstante, e fui como um monge na sua cela, alheio \u00e0s coisas mais<br \/>\nreais, de joelhos e hirto no seu sonho, que \u00e9 para ele a \u00fanica<br \/>\nrealidade.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era, minha adorada amiga, um p\u00e1lido e passivo \u00eaxtase<br \/>\ndiante da sua imagem. N\u00e3o! Era antes um ansioso e forte estudo dela,<br \/>\ncom que eu procurava conhecer atrav\u00e9s da forma e ess\u00eancia, e<br \/>\n(pois a Beleza \u00e9 o esplendor da Verdade) deduzir das perfei\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo seu Corpo as superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surpreendi<br \/>\no segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabelo descobre, t\u00e3o<br \/>\nclara e lisa, logo me contou a retid\u00e3o do seu pensar: o seu sorriso,<br \/>\nde uma nobreza t\u00e3o intelectual, facilmente me revelou o seu desd\u00e9m<br \/>\ndo mundanal e do ef\u00eamero, a sua incans\u00e1vel aspira\u00e7\u00e3o<br \/>\npara um viver de verdade: cada gra\u00e7a de seus movimentos me traiu uma<br \/>\ndelicadeza do seu gosto: e nos seus olhos diferenciei o que neles t\u00e3o<br \/>\nadoravelmente se confunde, luz de raz\u00e3o, calor que melhor alumia&#8230;<br \/>\nJ\u00e1 a certeza de tantas perfei\u00e7\u00f5es bastaria a fazer dobrar,<br \/>\nnuma adora\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua, os joelhos mais rebeldes. Mas<br \/>\nsucedeu ainda que, ao passo que a compreendia e que a sua Ess\u00eancia se<br \/>\nme manifestava, assim vis\u00edvel e quase tang\u00edvel, uma influ\u00eancia<br \/>\ndescia dela sobre mim \u2013 uma influ\u00eancia estranha, diferente de<br \/>\ntodas as influ\u00eancias humanas, e que me dominava com transcendente onipot\u00eancia.<br \/>\nComo lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cela, comecei a aspirar \u00e0<br \/>\nsantidade, para me harmonizar e merecer a conviv\u00eancia com a Santa a<br \/>\nque me votara. Fiz ent\u00e3o sobre mim um \u00e1spero exame de consci\u00eancia.<br \/>\nInvestiguei com inquieta\u00e7\u00e3o se o meu pensar era condigno da<br \/>\npureza do seu pensar; se no meu gosto n\u00e3o haveria desconcertos que<br \/>\npudessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha id\u00e9ia da vida<br \/>\nera t\u00e3o alta e s\u00e9ria como aquela que eu pressentira na espiritualidade<br \/>\ndo seu olhar, do seu sorrir; e se meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se<br \/>\ndispersara e enfraquecera de mais para poder palpitar com paralelo vigor junto<br \/>\ndo seu cora\u00e7\u00e3o. E tem sido em mim agora um arquejante esfor\u00e7o<br \/>\npara subir a uma perfei\u00e7\u00e3o id\u00eantica \u00e0quela que<br \/>\nem si t\u00e3o submissamente adoro.<\/p>\n<p>De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha educadora.<br \/>\nE t\u00e3o dependente fiquei logo desta dire\u00e7\u00e3o, que j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o posso conceber os movimentos do meu ser sen\u00e3o governados<br \/>\npor ela e por ela enobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge<br \/>\nem mim de algum valor, id\u00e9ia ou sentimento, \u00e9 obra dessa educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque a sua alma d\u00e1 \u00e0 minha, de longe, s\u00f3 com existir e<br \/>\nser compreendida. Se hoje me abandonasse a sua influ\u00eancia &#8211; devia antes<br \/>\ndizer, como um asceta, a sua Gra\u00e7a \u2013 todo eu rolaria para uma<br \/>\ninferioridade sem remi\u00e7\u00e3o. Veja pois como se me tornou necess\u00e1ria<br \/>\ne preciosa&#8230; E considere que, para exercer esta supremacia salvadora, as<br \/>\nsuas m\u00e3os n\u00e3o tiveram de se impor sobre as minhas \u2013 bastou<br \/>\nque eu a avistasse de longe, numa festa, resplandecendo. Assim um arbusto<br \/>\nsilvestre floresce \u00e0 borda de um fosso, porque l\u00e1 em cima nos<br \/>\nremotos c\u00e9us fulge um grande sol, que n\u00e3o o v\u00ea, n\u00e3o<br \/>\no conhece, e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto<br \/>\naroma&#8230; Por isso o meu amor tinge esse sentimento indescrito e sem nome que<br \/>\na Planta, se tivesse consci\u00eancia, sentiria pela luz.<\/p>\n<p>E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo, nenhum<br \/>\nbem imploro de quem tanto pode e \u00e9 para mim dona de todo bem. S\u00f3<br \/>\ndesejo que me deixe viver sob essa influ\u00eancia, que, emanando do simples<br \/>\nbrilho das suas perfei\u00e7\u00f5es, t\u00e3o f\u00e1cil e docemente<br \/>\nopera o meu aperfei\u00e7oamento. S\u00f3 peco esta permiss\u00e3o caridosa.<br \/>\nVeja pois quanto me conservo distante e vago, na esbatida humildade de uma<br \/>\nadora\u00e7\u00e3o que at\u00e9 receia que o seu murm\u00fario, um<br \/>\nmurm\u00fario de prece, roce o vestido da imagem divina&#8230;<\/p>\n<p>Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a toda<br \/>\na recompensa terrestre, me permitisse desenrolar junto de si, num dia de solid\u00e3o,<br \/>\na agitada confid\u00eancia do meu peito, decerto faria um ato de inef\u00e1vel<br \/>\nmiseric\u00f3rdia \u2013 como outrora a Virgem Maria quando animava os<br \/>\nseus adoradores, ermitas e santos, descendo numa nuvem e concedendo-lhes um<br \/>\nsorriso fugitivo, ou deixando-lhes cair entre as m\u00e3os erguidas uma<br \/>\nrosa do para\u00edso. Assim, amanh\u00e3, vou passar a tarde com Madame<br \/>\nde Jouarre. N\u00e3o h\u00e1 a\u00ed a santidade de uma cela ou de uma<br \/>\nermida, mas quase o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em<br \/>\npleno resplendor, e eu recebesse de si, n\u00e3o direi uma rosa, mas um<br \/>\nsorriso, ficaria ent\u00e3o radiosamente seguro de que este amor, ou este<br \/>\nmeu sentimento indescrito e sem nome que vai al\u00e9m do amor, encontra<br \/>\nante seus olhos piedade e permiss\u00e3o para esperar.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Fradique<\/b><\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Segunda Carta a Clara<\/h2>\n<p>Meu amor.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei<br \/>\nnum desolador desde a nossa Torre de Marfim), eu sentia o rumor do teu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\njunto ao meu, sem que nada os separasse sen\u00e3o uma pouca de argila mortal,<br \/>\nem ti t\u00e3o bela, em mim t\u00e3o rude \u2013 e j\u00e1 estou tentando<br \/>\nreconfigura ansiosamente, por meio deste papel inerte, esse inef\u00e1vel<br \/>\nestar contigo que \u00e9 hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema<br \/>\ne \u00fanica vida. \u00c9 que , longe da tua presen\u00e7a, cesso de<br \/>\nviver, as coisas para mim cessam de ser \u2013 e fico como um morto jazendo<br \/>\nno meio de um mundo morto, Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento<br \/>\nde vida que me d\u00e1s, s\u00f3 com pousar junto de mim e murmurar o<br \/>\nmeu nome \u2013 recome\u00e7o a aspirar desesperadamente para ti, como<br \/>\numa ressurrei\u00e7\u00e3o! Antes de te amar, antes de receber das m\u00e3os<br \/>\nde meu deus a minha Eva \u2013 que era eu, na verdade? Uma sombra flutuando<br \/>\nentre sombras. Mas tu vieste, doce adorada, para me fazer sentir a minha realidade,<br \/>\ne me permitir que eu bradasse tamb\u00e9m triunfalmente o meu \u2013 \u201cAmo,<br \/>\nlogo existo!\u201d E n\u00e3o foi s\u00f3 a minha realidade que me desvendaste<br \/>\n\u2013 mas ainda a realidade de todo este universo, que me envolvia como<br \/>\num inintelig\u00edvel e cinzento mont\u00e3o de apar\u00eancias. Quando<br \/>\nh\u00e1 dias, no terra\u00e7o de Savran, ao anoitecer, te queixavas que<br \/>\neu contemplasse as estrelas estando t\u00e3o perto dos teus olhos, e espreitasse<br \/>\no adormecer das colinas junto ao calor dos teus ombros \u2013 n\u00e3o<br \/>\nsabias, nem eu te soube ent\u00e3o explicar, que essa contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\nera ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava admirando, nas<br \/>\ncoisas, a beleza inesperada que tu sobre elas derramas por uma emana\u00e7\u00e3o<br \/>\nque te \u00e9 pr\u00f3pria, e que antes de viver ao teu lado, nunca eu<br \/>\nlhes percebera, como se n\u00e3o percebe a vermelhid\u00e3o das rosas<br \/>\nou o verde tenro das relvas antes de nascer o Sol! Foste tu, minha bem-amada,<br \/>\nque alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha inicia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAgora entendo, agora sei. E, como o antigo iniciado, posso afirmar: \u201cTamb\u00e9m<br \/>\nfui a El\u00eausis; pela larga estrada pendurei muita flor que n\u00e3o<br \/>\nera verdadeira, diante de muito altar que n\u00e3o era divino; mas a El\u00eausis<br \/>\ncheguei, em El\u00eausis penetrei \u2013 e vi e senti a verdade!&#8230;\u201d<br \/>\nE acresce ainda, para meu mart\u00edrio e gl\u00f3ria, que tu \u00e9s<br \/>\nt\u00e3o suntuosamente bela e t\u00e3o etereamente bela, de uma beleza<br \/>\nfeita de C\u00e9u e de Terra, beleza completa e s\u00f3 tua, que eu j\u00e1<br \/>\nconcebera \u2013 que nunca julgara Ainda h\u00e1 poucos instantes (dez<br \/>\ninstantes, dez minutos, que tanto gastei num desolador desde a nossa Torre<br \/>\nde Marfim), eu sentia o rumor do teu cora\u00e7\u00e3o junto ao meu, sem<br \/>\nque nada os separasse sen\u00e3o uma pouca de argila mortal, em ti t\u00e3o<br \/>\nbela, em mim t\u00e3o rude \u2013 e j\u00e1 estou tentando reconfigura<br \/>\nansiosamente, por meio deste papel inerte, esse inef\u00e1vel estar contigo<br \/>\nque \u00e9 hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema e \u00fanica<br \/>\nvida. \u00c9 que , longe da tua presen\u00e7a, cesso de viver, as coisas<br \/>\npara mim cessam de ser \u2013 e fico como um morto jazendo no meio de um<br \/>\nmundo morto, Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida<br \/>\nque me d\u00e1s, s\u00f3 com pousar junto de mim e murmurar o meu nome<br \/>\n\u2013 recome\u00e7o a aspirar desesperadamente para ti, como uma ressurrei\u00e7\u00e3o!<br \/>\nAntes de te amar, antes de receber das m\u00e3os de meu deus a minha Eva<br \/>\n\u2013 que era eu, na verdade? Uma sombra flutuando entre sombras. Mas tu<br \/>\nvieste, doce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permitir<br \/>\nque eu bradasse tamb\u00e9m triunfalmente o meu \u2013 \u201cAmo, logo<br \/>\nexisto!\u201d E n\u00e3o foi s\u00f3 a minha realidade que me desvendaste<br \/>\n\u2013 mas ainda a realidade de todo este universo, que me envolvia como<br \/>\num inintelig\u00edvel e cinzento mont\u00e3o de apar\u00eancias. Quando<br \/>\nh\u00e1 dias, no terra\u00e7o de Savran, ao anoitecer, te queixavas que<br \/>\neu contemplasse as estrelas estando t\u00e3o perto dos teus olhos, e espreitasse<br \/>\no adormecer das colinas junto ao calor dos teus ombros \u2013 n\u00e3o<br \/>\nsabias, nem eu te soube ent\u00e3o explicar, que essa contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\nera ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava admirando, nas<br \/>\ncoisas, a beleza inesperada que tu sobre elas derramas por uma emana\u00e7\u00e3o<br \/>\nque te \u00e9 pr\u00f3pria, e que antes de viver ao teu lado, nunca eu<br \/>\nlhes percebera, como se n\u00e3o percebe a vermelhid\u00e3o das rosas<br \/>\nou o verde tenro das relvas antes de nascer o Sol! Foste tu, minha bem-amada,<br \/>\nque alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha inicia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAgora entendo, agora sei. E, como o antigo iniciado, posso afirmar: \u201cTamb\u00e9m<br \/>\nfui a El\u00eausis; pela larga estrada pendurei muita flor que n\u00e3o<br \/>\nera verdadeira, diante de muito altar que n\u00e3o era divino; mas a El\u00eausis<br \/>\ncheguei, em El\u00eausis penetrei \u2013 e vi e senti a verdade!&#8230;\u201d<br \/>\nE acresce ainda, para meu mart\u00edrio e gl\u00f3ria, que tu \u00e9s<br \/>\nt\u00e3o suntuosamente bela e t\u00e3o etereamente bela, de uma beleza<br \/>\nfeita de C\u00e9u e de Terra, beleza completa e s\u00f3 tua, que eu j\u00e1<br \/>\nconcebera \u2013 que nunca julgara ora\u00e7\u00e3o. E nesta desoladora<br \/>\ninsufici\u00eancia do verbo humano, \u00e9 como o mais inculto e o mais<br \/>\niletrado que ajoelho ante ti, e levanto as m\u00e3os, e te asseguro a \u00fanica<br \/>\nverdade, melhor que todas as verdades \u2013 que te amo, e te amo, e te amo,<br \/>\ne te amo!&#8230;<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Fradique<\/b><\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Terceira Carta a Clara<\/h2>\n<p>Toda em queixumes, quase rabugenta, e mentalmente trajada de luto, me apareceu<br \/>\nhoje a tua carta com os primeiros frios de Outubro. E por qu\u00ea, minha<br \/>\ndoce descontente? Porque, mais fero de cora\u00e7\u00e3o que um Trastamara<br \/>\nou um B\u00f3rgia, estive cinco dias (cinco curtos dias de Outono) sem te<br \/>\nmandar uma linha, afirmando essa verdade t\u00e3o patente e de ti conhecida<br \/>\ncomo o disco do Sol \u2013 \u201cque s\u00f3 em ti penso, e s\u00f3<br \/>\nem ti vivo!&#8230;\u201d Mas n\u00e3o sabes tu, oh super amada, que a tua lembran\u00e7a<br \/>\nme palpita na alma t\u00e3o natural e perenemente como o sangue no cora\u00e7\u00e3o?<br \/>\nQue outro princ\u00edpio governa e mant\u00e9m a minha vida sen\u00e3o<br \/>\no teu amor? Realmente necessitas ainda, cada manha, um certificado, em letra<br \/>\nbem firme, de que minha paix\u00e3o est\u00e1 viva e vi\u00e7osa e te<br \/>\nenvia os bons-dias? Para qu\u00ea? Para sossego da tua incerteza? Meu Deus!<br \/>\nN\u00e3o ser\u00e1 antes par regalo do teu orgulho? Sabes que \u00e9s<br \/>\ndeusa, e reclamas incessantemente o incenso e os c\u00e2nticos do teu devoto.<br \/>\nMas Santa Clara, tua padroeira, era uma grande santa, de alta linhagem, de<br \/>\ntriunfal beleza, amiga de S&gt; Francisco de Assis, confidente de Greg\u00f3rio<br \/>\nIX, fundadora de mosteiros, suave fonte de piedade e milagres \u2013 e todavia<br \/>\ns\u00f3 \u00e9 festejada uma vez, cada ano, a 27 de Agosto! Sabes bem<br \/>\nque estou gracejando, Santa Clara da minha f\u00e9! N\u00e3o! N\u00e3o<br \/>\nmandei linha sup\u00e9rflua, porque todos os males bruscamente se abateram<br \/>\nsobre mim: um defluxo burlesco, com melancolia, obtusidade e espirros: um<br \/>\nconfuso duelo, de que fui o enfastiado padrinho, e em que apenas um ramo seco<br \/>\nde olaia sofreu, cortado por uma bala; e, enfim, um amigo que regressou da<br \/>\nAbiss\u00ednia, cruelmente abissinizante, e a quem tive de escutar com resignado<br \/>\npasmo as caravanas, os perigos, os amores, as fa\u00e7anhas e os le\u00f5es!&#8230;<br \/>\nE a\u00ed est\u00e1 a minha pobre Clara, solit\u00e1ria nas suas florestas,<br \/>\nficou sem essa folha, cheia das minhas letras, e t\u00e3o in\u00fatil<br \/>\npar a seguran\u00e7a do seu cora\u00e7\u00e3o como as folhas que a cerca,<br \/>\nj\u00e1 murchas decerto e dan\u00e7ando no vento.<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o sei como se comportam os teus bosques; &#8211; mas aqui as folhas<br \/>\ndo meu pobre jardim amarelam e rolam na erva \u00famida. Para me consolar<br \/>\nda verdura perdida, acendi o meu lume: &#8211; e toda a noite de ontem mergulhei<br \/>\nna muito velha cr\u00f4nica de um cronista medieval da minha terra, que se<br \/>\nchama Fern\u00e3o Lopes. A\u00ed se conta de um rei que recebeu o d\u00e9bil<br \/>\nnome de \u201cFormoso\u201d, e que, por causa de um grande amor, desdenhou<br \/>\nprincesas de Castela e de Arar\u00e3o, dissipou tesouros, afrontou sedi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsofreu a desafei\u00e7\u00e3o dos povos, perdeu a vassalagem de castelos<br \/>\ne terras, e quase estragou o reino! Eu j\u00e1 conhecia a cr\u00f4nica<br \/>\n\u2013 mas s\u00f3 agora compreendo o rei. E grandemente o invejo, minha<br \/>\nlinda Clara! Quando se ama como ele (ou como eu), deve ser um contentamento<br \/>\nespl\u00eandido o ter princesas da cristandade, e tesouros, e um povo, e<br \/>\num reino forte para sacrificar a dois olhos, finos e l\u00e2nguidos, sorrindo<br \/>\npelo que esperam e mais pelo que prometem&#8230; Na verdade s\u00f3 se deve<br \/>\namar quando se \u00e9 rei \u2013 porque s\u00f3 ent\u00e3o se pode<br \/>\ncomprovar a altura do sentimento com a magnific\u00eancia do sacrif\u00edcio.<br \/>\nMas um mero vassalo como eu (sem hoste ou castelo), que possui ele de rico,<br \/>\nou de nobre, ou de belo para sacrificar? Tempo, fortuna, vida? Mesquinhos<br \/>\nvalores. \u00c9 como ofertar na m\u00e3o aberta um pouco de p\u00f3.<br \/>\nE depois a bem-amada nem sequer fica na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E por hist\u00f3ria \u2013 muito aprovo, minha estudiosa Clara, que andes<br \/>\nlendo a do divino Buda. Dizes, desconsoladamente, que ele te parece apenas<br \/>\n\u201cum Jesus muito complicado\u201d. Mas, meu amor, \u00e9 necess\u00e1rio<br \/>\ndesentulhar esse pobre Buda da densa aluvi\u00e3o de Lendas e Maravilhas<br \/>\nque sobre ele tem acarretado, durante s\u00e9culos, a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nda \u00c1sia. Tal como ela foi, desprendida da sua mitologia, e na sua nudez<br \/>\nhist\u00f3rica \u2013 nunca alma melhor visitou a Terra, e nada iguala,<br \/>\ncomo virtude her\u00f3ica, a \u201cNoite do Renunciamento\u201d. Jesus<br \/>\nfoi um prolet\u00e1rio, um mendigo sem vinha ou leira, sem amor nenhum terrestre,<br \/>\nque errava pelos campos da Galil\u00e9ia, aconselhando aos homens a que<br \/>\nabandonassem como ele os seus lares e bens, descessem \u00e0 solid\u00e3o<br \/>\ne \u00e0 mendicidade, para penetrarem um dia num Reino venturoso, abstrato,<br \/>\nque est\u00e1 nos C\u00e9us. Nada sacrificava em si e instigava os outros<br \/>\nao sacrif\u00edcio \u2013 chamando todas as grandezas ao n\u00edvel da<br \/>\nsua humildade. O Buda, pelo contr\u00e1rio, era um Pr\u00edncipe, e como<br \/>\neles costumam ser na \u00c1sia, de ilimitado poder, de ilimitada riqueza:<br \/>\ncasara por um imenso amor, e da\u00ed lhe viera um filho, em quem esse amor<br \/>\nmais se sublimara: &#8211; e este pr\u00edncipe, este esposo, este pai, um dia,<br \/>\npor dedica\u00e7\u00e3o aos homens, deixa o seu pal\u00e1cio, o seu<br \/>\nreino, a esposada do seu cora\u00e7\u00e3o, o filhinho adormecido no ber\u00e7o<br \/>\nde n\u00e1car, e, sob a rude estamenha de um mendicante, vai atrav\u00e9s<br \/>\ndo mundo esmolando e pregando a ren\u00fancia aos deleites, o aniquilamento<br \/>\nde todo o desejo, o ilimitado amor pelos seres, o incessante aperfei\u00e7oamento<br \/>\nna caridade, o desd\u00e9m forte do ascetismo que se tortura, a cultura<br \/>\nperene da miseric\u00f3rdia que resgata, e a confian\u00e7a na morte&#8230;<\/p>\n<p>Incontestavelmente, a meu ver (tanto quanto estas excelsas coisas se podem<br \/>\ndiscernir de uma casa de Paris, no s\u00e9culo XIX e com defluxo) a vida<br \/>\ndo Buda \u00e9 mais merit\u00f3ria. E depois considera a diferen\u00e7a<br \/>\ndo ensino dos dois divinos Mestres. Um, Jesus, diz: \u201cEu sou filho de<br \/>\nDeus, e insto com cada um de v\u00f3s, homens mortais, em que pratiqueis<br \/>\no bem durante os poucos anos que passais na Terra, para que eu depois, em<br \/>\npr\u00eamio, vos d\u00ea a cada um, individualmente, uma exist\u00eancia<br \/>\nsuperior, infinita em anos e infinita em del\u00edcias, num pal\u00e1cio<br \/>\nque est\u00e1 al\u00e9m das nuvens e que \u00e9 de meu Pai!\u201d O<br \/>\nBuda, esse, diz simplesmente: \u201cEu sou um pobre frade mendicante, e peco-vos<br \/>\nque sejais bons durante a vida, porque de v\u00f3s, em recompensa, nascer\u00e3o<br \/>\noutros melhores, e desses outros ainda mais perfeitos, e assim, pela pr\u00e1tica<br \/>\ncrescente da virtude em cada gera\u00e7\u00e3o, se estabelecer\u00e1<br \/>\npouco a pouco na Terra a virtude universal!\u201d A justi\u00e7a do justo,<br \/>\nportanto, segundo Jesus, s\u00f3 aproveita egoisticamente ao justo. E a<br \/>\njusti\u00e7a do justo, segundo Buda, aproveira ao ser que o substituir na<br \/>\nexist\u00eancia, e depois ao outro que deve nascer, sempre durante a passagem<br \/>\nna Terra, para lucro eterno da Terra. Jesus cria uma aristocracia de santos,<br \/>\nque arrebata para o C\u00e9u onde ele \u00e9 Rei, e que constituem a corte<br \/>\ndo C\u00e9u para deleite da sua divindade: &#8211; e n\u00e3o vem dela proveito<br \/>\ndireto para o Mundo, que continua a sofrer da sua por\u00e7\u00e3o de<br \/>\nMal, sempre indiminu\u00edda. O Buda, esse, cria, pela soma das virtudes<br \/>\nindividuais, santamente acumuladas, uma humanidade que em cada ciclo nasce<br \/>\nprogressivamente melhor, que por fim se torna perfeita, e que se estende a<br \/>\ntoda Terra donde o Mal desaparece, e onde o Buda \u00e9 sempre, \u00e0<br \/>\nbeira do caminho rude, o mesmo frade mendicante. Eu, minha flor, sou pelo<br \/>\nBuda. Em todo o caso, esses dois Mestres possu\u00edram, para bem dos homens,<br \/>\na maior Por\u00e7\u00e3o de divindade que at\u00e9 hoje tem sido dado<br \/>\n\u00e0 alma humana conter. De resto, tudo isto \u00e9 muito complicado;<br \/>\ne tu sabiamente procederias em deixar o Buda no seu budismo, e, uma vez que<br \/>\nesses teus bosques s\u00e3o t\u00e3o admir\u00e1veis, em te retemperar<br \/>\nna sua forca e nos seus aromas salutares. O Buda pertence \u00e0 cidade<br \/>\ne ao col\u00e9gio de Franca: no campo a verdadeira Ci\u00eancia deve cair<br \/>\ndas \u00e1rvores, como nos tempos de Eva. Qualquer folha de olmo te ensina<br \/>\nmais que todas as folhas dos livros. Sobretudo do que eu &#8211; que aqui estou<br \/>\npontificando, e fazendo pedantemente, ante os teus lindos olhos, t\u00e3o<br \/>\nfinos e meigos, um curso escandaloso de Religi\u00f5es Comparadas.<\/p>\n<p>S\u00f3 me restam tr\u00eas polegadas de papel \u2013 e ainda te n\u00e3o<br \/>\ncontei, oh doce exilada, as novas de Paris, acta Urbis. (Bom, agora latim!)<br \/>\nS\u00e3o raras, e p\u00e1lidas. Chove; continuamos em rep\u00fablica;<br \/>\nMadame de Jouarre, que chegou da Rocha com menos cabelos brancos, mas mais<br \/>\ncruel, convidou alguns desventurados (dos quais eu o maior) para escutarem<br \/>\ntr\u00eas cap\u00edtulos dum novo atentado do bar\u00e3o de Fernay sobre<br \/>\na Gr\u00e9cia; os jornais publicam outro pref\u00e1cio do sr. Renan, todo<br \/>\ncheio do sr. Renan, e em que ele se mostra, como sempre, o enternecido e erudito<br \/>\nvig\u00e1rio de Nossa Senhora da raz\u00e3o; e temos, enfim, um casamento<br \/>\nde paix\u00e3o e de luxo, o do nosso escultural visconde de Fonblant com<br \/>\nmademoiselle Degrave, aquela nariguda, magrinha e de maus dentes, que herdou,<br \/>\nmilagrosamente, os dois milh\u00f5es do cervejeiro e que tem t\u00e3o<br \/>\nlindamente engordado e ri com dentes t\u00e3o lindos. Eis tudo, minha adorada&#8230;<br \/>\nE \u00e9 tempo que te mande, em mont\u00e3o, nesta linha, as saudades,<br \/>\nos desejos e as coisas ardentes e suaves e sem nome de que meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 cheio, sem que se esgote por mais que plenamente as arremesse<br \/>\naos teus p\u00e9s ador\u00e1veis, que beijo com submiss\u00e3o e com<br \/>\nf\u00e9.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Fradique<\/b><\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Quarta Carta a Clara<\/h2>\n<p>Minha amiga.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que eu parto, e para uma viagem muito longa e remota, que<br \/>\nser\u00e1 como um desaparecimento. E \u00e9 verdade ainda que a empreendo<br \/>\nassim bruscamente, n\u00e3o por curiosidade de um esp\u00edrito que j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o tem curiosidades \u2013 mas para findar do modo mais condigno<br \/>\ne mais belo uma liga\u00e7\u00e3o, que, como a nossa, n\u00e3o deveria<br \/>\nnunca ser maculada por uma agonia tormentosa e lenta.<\/p>\n<p>Decerto, agora que eu dolorosamente reconhe\u00e7o que sobre o nosso t\u00e3o<br \/>\nvi\u00e7oso e forte amor se vai em breve exercer a lei universal de perecimento<br \/>\ne fim das coisas \u2013 eu poderia, poder\u00edamos ambos, tentar, por<br \/>\num esfor\u00e7o destro e delicado do cora\u00e7\u00e3o e da intelig\u00eancia,<br \/>\no seu prolongamento fict\u00edcio. Mas seria essa tentativa digna de si,<br \/>\nde mim, da nossa lealdade \u2013 e da nossa paix\u00e3o? N\u00e3o! S\u00f3<br \/>\nnos preparar\u00edamos assim um arrastado tormento, sem a beleza dos tormentos<br \/>\nque a alma apetece e aceita, nos puros momentos de f\u00e9 e todo deslustrado<br \/>\ne desfeado por impaci\u00eancias, recrimina\u00e7\u00f5es, inconfessados<br \/>\narrependimentos, falsa ressurrei\u00e7\u00f5es do desejo, e de todos os<br \/>\nenervamentos as saciedade. N\u00e3o conseguir\u00edamos deter a marcha<br \/>\nda lei inexor\u00e1vel \u2013 e um dia nos encontrar\u00edamos, um diante<br \/>\ndo outro, como vazios, irreparavelmente tristes, e cheios do amargor da luta<br \/>\nin\u00fatil. E de uma cousa t\u00e3o pura e s\u00e3 e luminosa, como<br \/>\nfoi o nosso amor, s\u00f3 nos ficaria, presente e pungente, a recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\nde destro\u00e7os e farrapos feitos por nossas m\u00e3os, e por elas rojados<br \/>\ncom desespero no p\u00f3 derradeiro de tudo.<\/p>\n<p>N\u00e3o! Tal acabar seria intoler\u00e1vel. E depois como toda a luta<br \/>\n\u00e9 ruidosa, e se ano pode nunca disciplinar e enclausurar no segredo<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o, n\u00f3s deixar\u00edamos decerto entrever enfim<br \/>\nao mundo um sentimento que dele escondemos por altivez, n\u00e3o por cautela<br \/>\n\u2013 e o mundo conheceria o nosso amor justamente quando ele j\u00e1<br \/>\nperdera a eleva\u00e7\u00e3o e a grandeza que quase o santificam&#8230; De<br \/>\nresto, que importa o mundo? S\u00f3 para n\u00f3s, que fomos um para o<br \/>\noutro e amplamente o mundo todo, \u00e9 que devemos evitar ao nosso amor<br \/>\na lenta decomposi\u00e7\u00e3o que degrada.<\/p>\n<p>Para perp\u00e9tuo orgulho do nosso cora\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio<br \/>\nque desse amor, que tem de perecer como tudo o que vive, mesmo o Sol \u2013<br \/>\nnos fique uma mem\u00f3ria t\u00e3o l\u00edmpida e perfeita que ela<br \/>\ns\u00f3 por si nos possa dar, durante o porvir melanc\u00f3lico, um pouco<br \/>\ndessa felicidade e encanto que o pr\u00f3prio amor nos deu quando era em<br \/>\nn\u00f3s uma sublime realidade governando o nosso ser.<\/p>\n<p>A morte, na plenitude da beleza e da for\u00e7a, era considerada pelos<br \/>\nantigos como o melhor benef\u00edcio dos deuses \u2013 sobretudo para os<br \/>\nque sobreviviam, porque sempre a face amada que passara lhes permanecia na<br \/>\nmem\u00f3ria com o seu natural vi\u00e7o e s\u00e3 formosura, e n\u00e3o<br \/>\nmirrada e deteriorada pela fadiga, pelas l\u00e1grimas, pela desesperan\u00e7a,<br \/>\npelo amor. Assim deve ser tamb\u00e9m com o nosso amor.<\/p>\n<p>Por isso mal lhe surpreendi os primeiros desfalecimentos, e, desolado, verifiquei<br \/>\nque o tempo o ro\u00e7ara com a frialdade da sua foice \u2013 decidi partir,<br \/>\ndesaparecer. O nosso amor, minha amiga, ser\u00e1 assim como uma flor milagrosa<br \/>\nque cresceu, desabrochou, deu todo o seu aroma \u2013 e, nunca cortada, nem<br \/>\nsacudida dos ventos ou das chuvas, nem de leve emurchecida, fica na sua haste<br \/>\nsolit\u00e1ria, encantando ainda com as suas cores os nossos olhos quando<br \/>\npara ela de longe se volvem, e para sempre, atrav\u00e9s da idade, e perfumando<br \/>\na nossa vida.<\/p>\n<p>Da minha vida sei, pelo menos, que ela perpetuamente ser\u00e1 iluminada<br \/>\ne perfumada pela sua lembran\u00e7a. Eu sou na verdade como um desses pastores<br \/>\nque outrora, caminhando pensativamente por uma colina da Gr\u00e9cia, viam<br \/>\nde repente, ante os seus olhos ext\u00e1ticos, V\u00eanus magn\u00edfica<br \/>\ne amorosa que lhes abria os bra\u00e7os brancos. Durante um momento o pastor<br \/>\nmortal repousava sobre o seio divino, e sentia o murm\u00fario do divino<br \/>\nsuspirar. Depois havia um leve fr\u00eamito \u2013 e ele s\u00f3 encontrava<br \/>\nante si uma nuvem recendente que se levantavam se sumia nos ares por entre<br \/>\no v\u00f4o claro das pombas. Apanhava seu cajado, descia a colina&#8230; Mas<br \/>\npara sempre, atrav\u00e9s da vida, conservava um deslumbramento inef\u00e1vel.<br \/>\nOs anos poderiam rolar, e o seu gado morrer, e a ventania levar o colmo da<br \/>\nsua choupana, e todas as mis\u00e9rias da velhice sobre ele ca\u00edrem<br \/>\n\u2013 que sem cessar sua alma resplandecia, e um sentimento de gl\u00f3ria<br \/>\nultra-humano o elevava acima do transit\u00f3rio e do perec\u00edvel,<br \/>\nporque na fresca manha de Maio, al\u00e9m, sobre o cimo da colina, ele tivera<br \/>\no seu momento de diviniza\u00e7\u00e3o entre o mirto e o tomilho! Adeus,<br \/>\nminha amiga. Pela felicidade incompar\u00e1vel que me deu \u2013 seja perpetuamente<br \/>\nbendita.<\/p>\n<p><b>Fradique<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Primeira Carta a Madame de Jouarre Segunda Carta a Clara Terceira Carta a Clara Quarta Carta a Clara &nbsp; E\u00e7a de Queir\u00f3s Primeira Carta a Madame de Jouarre Minha querida madrinha. 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