{"id":95505,"date":"2017-01-19T09:01:59","date_gmt":"2017-01-19T11:01:59","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95505"},"modified":"2017-01-19T09:03:46","modified_gmt":"2017-01-19T11:03:46","slug":"as-minas-do-rei-salomao-eca-de-queiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-minas-do-rei-salomao-eca-de-queiros","title":{"rendered":"As Minas do Rei Salom\u00e3o &#8211; E\u00e7a de Queir\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"158\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I &#8211; Encontro<br \/>\ncom os Meus Camaradas<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II &#8211; Primeira<br \/>\nNot\u00edcia das Minas de Salom\u00e3o<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III &#8211; O Homem<br \/>\nChamado Umbopa<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV &#8211; Os Elefantes<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V &#8211; A Nossa<br \/>\nEntrada no Deserto<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI &#8211; Penetramos<br \/>\nno Reino dos Cacuanas<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"96\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"152\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII &#8211; O Rei<br \/>\nTuala<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII &#8211; A Grande<br \/>\nDan\u00e7a<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX &#8211; Antes<br \/>\nda batalha<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X &#8211; O ataque<br \/>\nda Colina<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI &#8211; A Batalha<br \/>\nde Lu<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII &#8211; O Rei<br \/>\nIgnosi<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"94\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"178\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII &#8211; A<br \/>\nGrande Caverna<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV &#8211; O Tesouro<br \/>\nde Salom\u00e3o<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV &#8211; Nas Entranhas<br \/>\nda Terra<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#16\">Cap\u00edtulo XVI &#8211; A Partida<br \/>\nde Lu<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#17\">Cap\u00edtulo XVII &#8211; Enfim!<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I &#8211; Encontro com os Meus Camaradas<\/h2>\n<p>\u00c9 bem estranho que nesta minha idade, aos cinq\u00fcenta e seis anos<br \/>\nfeitos, esteja eu aqui, de pena na m\u00e3o, preparando-me a redigir uma<br \/>\nhist\u00f3ria! Nunca imaginei que t\u00e3o prodigiosa ocorr\u00eancia<br \/>\nse pudesse dar na minha vida &#8211; vida que me parece bem cheia, e vida que me<br \/>\nparece bem longa&#8230; Sem d\u00favida, por a ter come\u00e7ado t\u00e3o<br \/>\ncedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos<br \/>\nda escola, j\u00e1 eu andava agenciando o meu p\u00e3o por esta velha<br \/>\ncol\u00f4nia do Cabo. E por aqui fiquei desde ent\u00e3o, metido em neg\u00f3cios,<br \/>\nem servi\u00e7os, em travessias, em guerras, em trabalhos &#8211; e nessa dura<br \/>\nprofiss\u00e3o, que \u00e9 a minha, a ca\u00e7a ao elefante e ao marfim.<br \/>\nPois, com toda esta dilig\u00eancia, s\u00f3 ultimamente, h\u00e1 oito<br \/>\nmeses, arredondei o meu saco. \u00c9 um bom saco. \u00c9 um saco gra\u00fado,<br \/>\nlouvado Deus. Creio mesmo que \u00e9 um tremendo saco! E apesar disso, juro<br \/>\nque para o sentir assim, redondo e soante entre as m\u00e3os, n\u00e3o<br \/>\nme arriscava a passar outra vez os transes deste terr\u00edvel ano que l\u00e1<br \/>\nvai. N\u00e3o! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e<br \/>\ncom o saco cheio. Mas eu no fundo sou um t\u00edmido, detesto viol\u00eancias,<br \/>\ne ando farto, refarto de aventuras! Como dizia, pois, \u00e9 cousa estranh\u00edssima<br \/>\nque assim me lance a escrever um livro. N\u00e3o est\u00e1 nada no meu<br \/>\nfeitio ser homem de prosa e de letras &#8211; ainda que, como outro qualquer, aprecio<br \/>\nas belezas da Santa B\u00edblia e gozo com a Hist\u00f3ria do Rei Artur<br \/>\ne da sua T\u00e1vola Redonda. No entanto, tenho raz\u00f5es, e raz\u00f5es<br \/>\nconsider\u00e1veis, para tomar a pena com esta m\u00e3o in\u00e1bil<br \/>\nque h\u00e1 quase cinq\u00fcenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar,<br \/>\n\u00c9 bem estranho que nesta minha idade, aos cinq\u00fcenta e seis anos<br \/>\nfeitos, esteja eu aqui, de pena na m\u00e3o, preparando-me a redigir uma<br \/>\nhist\u00f3ria! Nunca imaginei que t\u00e3o prodigiosa ocorr\u00eancia<br \/>\nse pudesse dar na minha vida &#8211; vida que me parece bem cheia, e vida que me<br \/>\nparece bem longa&#8230; Sem d\u00favida, por a ter come\u00e7ado t\u00e3o<br \/>\ncedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos<br \/>\nda escola, j\u00e1 eu andava agenciando o meu p\u00e3o por esta velha<br \/>\ncol\u00f4nia do Cabo. E por aqui fiquei desde ent\u00e3o, metido em neg\u00f3cios,<br \/>\nem servi\u00e7os, em travessias, em guerras, em trabalhos &#8211; e nessa dura<br \/>\nprofiss\u00e3o, que \u00e9 a minha, a ca\u00e7a ao elefante e ao marfim.<br \/>\nPois, com toda esta dilig\u00eancia, s\u00f3 ultimamente, h\u00e1 oito<br \/>\nmeses, arredondei o meu saco. \u00c9 um bom saco. \u00c9 um saco gra\u00fado,<br \/>\nlouvado Deus. Creio mesmo que \u00e9 um tremendo saco! E apesar disso, juro<br \/>\nque para o sentir assim, redondo e soante entre as m\u00e3os, n\u00e3o<br \/>\nme arriscava a passar outra vez os transes deste terr\u00edvel ano que l\u00e1<br \/>\nvai. N\u00e3o! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e<br \/>\ncom o saco cheio. Mas eu no fundo sou um t\u00edmido, detesto viol\u00eancias,<br \/>\ne ando farto, refarto de aventuras! Como dizia, pois, \u00e9 cousa estranh\u00edssima<br \/>\nque assim me lance a escrever um livro. N\u00e3o est\u00e1 nada no meu<br \/>\nfeitio ser homem de prosa e de letras &#8211; ainda que, como outro qualquer, aprecio<br \/>\nas belezas da Santa B\u00edblia e gozo com a Hist\u00f3ria do Rei Artur<br \/>\ne da sua T\u00e1vola Redonda. No entanto, tenho raz\u00f5es, e raz\u00f5es<br \/>\nconsider\u00e1veis, para tomar a pena com esta m\u00e3o in\u00e1bil<br \/>\nque h\u00e1 quase cinq\u00fcenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar,<br \/>\n&#8211; 1 os meus companheiros, o Bar\u00e3o C\u00fartis e o digno capit\u00e3o<br \/>\nda Armada Real, John Good (a quem chamo, por h\u00e1bito, \u201co Capit\u00e3o<br \/>\nJohn\u201d) pediram-me para relatar e publicar a nossa jornada ao reino dos<br \/>\ncacuanas. Em segundo lugar, estou aqui em Durban, estirado numa cadeira, inutilizado<br \/>\npara umas semanas, com os meus achaques na perna.<\/p>\n<p>(Desde que aquele infernal le\u00e3o me tra\u00e7ou a coxa de lado a<br \/>\nlado, fiquei sujeito a estas crises, todos os anos, ordinariamente pelos fins<br \/>\ndo outono. Foi em fins de outono que apanhei a trincadela. \u00c9 duro que<br \/>\ndepois de um homem matar, no decurso da sua honrada carreira, quarenta e cinco<br \/>\nle\u00f5es, seja justamente o \u00faltimo, o quadrag\u00e9simo sexto<br \/>\nque o file e use dele como de tabaco que se masca. \u00c9 duro! Quebra a<br \/>\nrotina, a estim\u00e1vel rotina &#8211; e para mim, pessoa de ordem, qualquer<br \/>\nsurpresa me sabe pior do que fel).<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, al\u00e9m de encher os meus \u00f3cios, componho<br \/>\nesta hist\u00f3ria para meu filho Henrique, que est\u00e1 em Londres,<br \/>\ninterno no Hospital de S. Bartolomeu, estudando Medicina. \u00c9 uma maneira<br \/>\nde lhe mandar uma longu\u00edssima carta que o entretenha e que o prenda.<br \/>\nServi\u00e7o de doentes, numa enfermaria abafada e l\u00f4brega, deve pesar<br \/>\nintoleravelmente. Mesmo o retalhar cad\u00e1veres termina por ser uma rotina,<br \/>\nrica em monotonia e t\u00e9dio; e assim esta hist\u00f3ria, onde tudo<br \/>\nh\u00e1 menos t\u00e9dio, vai, por uns dias, levar ao meu rapaz uma saud\u00e1vel<br \/>\ne alegre sensa\u00e7\u00e3o de aventuras, de viagens, de for\u00e7a<br \/>\ne de vida livre. E enfim, como \u00faltima raz\u00e3o, escrevo esta cr\u00f4nica,<br \/>\npor ser, sem d\u00favida, a mais extraordin\u00e1ria que conhe\u00e7o<br \/>\n&#8211; na realidade ou na f\u00e1bula. Digo \u201cextraordin\u00e1ria\u201d<br \/>\nmesmo para os leitores profissionais de romances &#8211; apesar de nela n\u00e3o<br \/>\nhaver mulheres, al\u00e9m da pobre Fulata. H\u00e1 Gagula, sim. Mas esse<br \/>\nmonstro tinha cem anos, pouca forma humana, e n\u00e3o sensibiliza. Em todas<br \/>\nestas duzentas p\u00e1ginas, realmente, n\u00e3o passa uma saia. E todavia,<br \/>\nassim escasso como \u00e9 nas gra\u00e7as do feminino, n\u00e3o creio<br \/>\nque exista um caso mais raro e mais cativante.<\/p>\n<p>A \u00fanica vez que tive de fazer publicamente uma narra\u00e7\u00e3o<br \/>\nfoi diante dos magistrados, no Natal, quando depus como testemunha sobre a<br \/>\nmorte dos nossos servi\u00e7ais Quiva e Venvogel.<\/p>\n<p>Por essa ocasi\u00e3o comecei assim, muito dignamente, com aprova\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todos, com louvores do peri\u00f3dico de Durban: &#8211; \u201cEu, Al\u00e3o<br \/>\nQuartelmar, residente em Durban, no Natal, gentleman, declaro e juro que&#8230;\u201d<br \/>\n&#8211; N\u00e3o me parece, por\u00e9m, que seja esta a adequada maneira de<br \/>\nprincipiar um livro. Al\u00e9m disso, posso eu afirmar, em tipo de imprensa,<br \/>\nque \u201csou um gentleman? O que \u00e9 um gentleman? O que \u00e9 ser<br \/>\ngentleman? Conhe\u00e7o aqui cafres* us que o s\u00e3o; e conhe\u00e7o<br \/>\ncavalheiros chegados de Inglaterra, com grandiosas malas e an\u00e9is de<br \/>\narmas nos dedos, que o n\u00e3o s\u00e3o. Eu, pelo menos, nasci gentleman<br \/>\n&#8211; apesar de me ter volvido depois num pobre e simples ca\u00e7ador de elefantes.<br \/>\nOra, se nessa carreira e nos acasos que ela me trouxe, permaneci sempre gentleman,<br \/>\nn\u00e3o me compete a mim avaliar. Deus sabe que, com valente esfor\u00e7o,<br \/>\nprocurei conservar-me gentleman &#8211; como nascera.<\/p>\n<p>Nota:(*) Cafre = Antigo nome dado \u00e0 parte da \u00c1frica habitada<br \/>\npor n\u00e3o mu\u00e7ulmanos, a Cafraria; sin\u00f4nimo de indiv\u00edduo<br \/>\nrude, b\u00e1rbaro e ignorante. (A.H.S.) &#8211; 2 Tenho morto, \u00e9 certo,<br \/>\nmuito homem; mas estas duas m\u00e3os, bem haja a minha fortuna, est\u00e3o<br \/>\npuras de sangue in\u00fatil. Matei para que me n\u00e3o matassem. O Senhor<br \/>\ndeu-nos as nossas vidas, como sagrados dep\u00f3sitos que lhe pertencem<br \/>\ne que devemos defender. Guiei-me sempre por este princ\u00edpio; e conto<br \/>\nque o bom Deus, um dia, me dir\u00e1 l\u00e1 em cima &#8211; \u201cFizeste<br \/>\nbem, Quartelmar!\u201d Este mundo, meus amigos, \u00e9 \u00e1spero de<br \/>\natravessar; e os destinos violentos imp\u00f5em-se por vezes com uma l\u00f3gica<br \/>\ninexor\u00e1vel. Aqui estou eu, homem ordeiro, t\u00edmido, bonacheir\u00e3o,<br \/>\nque, constantemente, desde crian\u00e7a, me acho envolvido em carnificinas!<br \/>\nFelizmente nunca roubei. Uma ocasi\u00e3o, \u00e9 verdade, abalei com<br \/>\nquatro vacas que pertenciam a um cafre. Mas o cafre tinha-me rapinado sordidamente<br \/>\n\u2013 e desde ent\u00e3o essas quatro vacas trago-as sempre na consci\u00eancia.<br \/>\nS\u00f3 quatro vacas. Pois t\u00eam-me pesado mais que uma manada de gado!<br \/>\nFoi h\u00e1 dezoito meses, pouco mais ou menos, que encontrei os dois homens<br \/>\nque deviam ser meus companheiros nesta aventura singular \u00e0 terra dos<br \/>\ncacuanas. Nesse outono, eu andara numa grande batida aos elefantes, para l\u00e1<br \/>\ndo distrito de Bamanguato. Tudo nessa expedi\u00e7\u00e3o me correu mal,<br \/>\ne por fim apanhei as febres. Mal me pude ter nas pernas; larguei para as minas<br \/>\nde diamantes (as Diamanteiras), vendi o marfim que trazia, passei o carr\u00e3o<br \/>\ne o gado, debandei os ca\u00e7adores, e tomei a dilig\u00eancia para o<br \/>\nCabo. Ao fim de uma semana, no Cabo, descobri que o hotel me roubava infamemente;<br \/>\nal\u00e9m disso j\u00e1 vira todas as curiosidades, desde o novo Jardim<br \/>\nBot\u00e2nico que h\u00e1 de certamente conferir grandes benef\u00edcios<br \/>\n\u00e0 cidade, at\u00e9 ao novo Pal\u00e1cio do Parlamento que, tenho<br \/>\na certeza, n\u00e3o h\u00e1 de conferir benef\u00edcios nenhuns; de<br \/>\nsorte que decidi voltar para o Natal pelo Dunkeld, pequeno vapor costeiro<br \/>\nque estava nas docas \u00e0 espera do paquete de Inglaterra, o Edimburgh<br \/>\nCastle. Tomei passagem, e fui para bordo. Nessa tarde chegou o Edimburgh Castle;<br \/>\nos passageiros que trazia para o Natal transbordaram para o Dunkeld, e levantamos<br \/>\nferro ao p\u00f4r do sol.<\/p>\n<p>Entre os passageiros de Inglaterra, que mudaram para o Dunkeld, havia dois<br \/>\nque me despertaram logo certo interesse. Um deles, um homenzarr\u00e3o de<br \/>\nperto de trinta e cinco anos, tinha os ombros mais cheios e os bra\u00e7os<br \/>\nmais musculosos que eu at\u00e9 a\u00ed encontrara, mesmo em est\u00e1tuas.<br \/>\nAl\u00e9m disso, cabelos ondeados e cor de ouro; barbas ondeadas e cor de<br \/>\nouro; fei\u00e7\u00f5es aquilinas e de corte altivo; olhos pardos, cheios<br \/>\nde firmeza e de honestidade. Var\u00e3o espl\u00eandido que me fez pensar<br \/>\nnos antigos dinamarqueses. Para dizer a verdade, dinamarqueses s\u00f3 conheci<br \/>\num, moderno, horrivelmente moderno, que me estafou dez libras; mas lembro-me<br \/>\nde ter admirado um quadro, os Antigos Dinamarqueses, em que havia homens assim,<br \/>\nde grandes barbas amarelas e olhos claros, bebendo num bosque de carvalhos<br \/>\npor grandes cornos que empinavam \u00e0 boca. Este cavalheiro (vim a saber<br \/>\ndepois) era um ingl\u00eas, um fidalgo, um baronet. Chamava-se C\u00fartis<br \/>\n\u2013 o Bar\u00e3o C\u00fartis. E o que me feriu mais foi ele parecer-se<br \/>\nextremamente com algu\u00e9m, que eu encontrara no interior, para al\u00e9m<br \/>\nde Bamanguato. Quem?&#8230; N\u00e3o me podia lembrar.<\/p>\n<p>O sujeito que vinha com ele pertencia a um tipo absolutamente diferente,<br \/>\nbaixo, refor\u00e7ado, trigueiro, e todo rapado. Calculei logo pelas suas<br \/>\nmaneiras que t\u00ednhamos ali um oficial de marinha; e verifiquei depois,<br \/>\ncom efeito, que era um primeiro tenente da Armada Real, reformado em capit\u00e3o-tenente,<br \/>\ne por nome John Good. Este impressionou-me pelo apuro. Nunca conheci ningu\u00e9m<br \/>\nmais escarolado, mais escanhoado, mais engomado, mais envernizado! Usava no<br \/>\nolho direito um &#8211; 3 vidro, sem aro, sem cordel, e t\u00e3o fixo que parecia<br \/>\nnatural como a p\u00e1lpebra. Nem um s\u00f3 momento o surpreendi sem<br \/>\naquele vidro, e cheguei mesmo a pensar que dormia com ele cravado na \u00f3rbita.<br \/>\nS\u00f3 muito tarde descobri que \u00e0 noite o metia no bolso das cal\u00e7as<br \/>\n&#8211; no mesmo bolso em que guardava a dentadura posti\u00e7a, a mais bela,<br \/>\na mais perfeita dentadura que me recordo de ter contemplado, mesmo em an\u00fancios<br \/>\nde dentistas. E o capit\u00e3o, destas, possu\u00eda duas! Apenas nos<br \/>\nfizemos ao largo, come\u00e7ou o mau tempo. Brisa forte, n\u00e9voa \u00famida<br \/>\ne fria. Depois cada solavanco (o Dunkeld, barco de fundo chato, n\u00e3o<br \/>\nlevava carga) que n\u00e3o se podia arriscar uma passada confort\u00e1vel<br \/>\nna tolda. De sorte que me recolhi para junto da m\u00e1quina, onde fazia<br \/>\num calorzinho sereno, e ali fiquei olhando para o p\u00eandulo, que marcava,<br \/>\ncom desvios largos, o \u00e2ngulo de balan\u00e7o do Dunkeld.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00eandulo errado &#8211; rosnou de repente uma voz ao meu lado, na sombra<br \/>\nda noite que ca\u00eda.<\/p>\n<p>Olhei. Era o oficial de marinha.<\/p>\n<p>&#8211; Errado, hem?&#8230; Acha? &#8211; perguntei.<\/p>\n<p>&#8211; Acho o qu\u00ea?&#8230; Se o vapor se inclinasse quanto marca o p\u00eandulo,<br \/>\nn\u00e3o se tornava mais a levantar&#8230; Aqui est\u00e1 o que eu acho. Mas<br \/>\n\u00e9 sempre assim, com estes capit\u00e3es de marinha mercante&#8230;<\/p>\n<p>Felizmente, nesse instante, tocou a sineta do jantar, com imenso alivio<br \/>\nmeu &#8211; porque se h\u00e1, sob a c\u00fapula dos c\u00e9us, uma cousa<br \/>\ntemerosa, \u00e9 a loquacidade de um oficial da marinha de guerra, desabafando<br \/>\nsobre a in\u00e9pcia dos oficiais da marinha mercante. Pior do que essa<br \/>\ncousa temerosa &#8211; s\u00f3 a cousa inversa! O Capit\u00e3o John e eu descemos<br \/>\njuntos para o sal\u00e3o. O Bar\u00e3o C\u00fartis j\u00e1 l\u00e1<br \/>\nestava, no topo da mesa, \u00e0 direita do comandante do Dunkeld. John acomodou-se<br \/>\nao lado do seu companheiro; eu defronte, onde havia dois talheres desocupados.<br \/>\nLogo depois da sopa o comandante, com a lament\u00e1vel mania dos homens<br \/>\nde mar, come\u00e7ou a falar de ca\u00e7a. Primeiramente de ca\u00e7a<br \/>\nmi\u00fada, de condores e de abutres. Depois passou a elefantes.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! comandante (exclamou ao lado um patr\u00edcio meu, de Durban), para<br \/>\nelefantes temos presente uma grande autoridade&#8230; Se h\u00e1 homem em \u00c1frica<br \/>\nque entenda de elefantes, \u00e9 aqui o nosso companheiro e amigo Al\u00e3o<br \/>\nQuartelmar.<\/p>\n<p>Por acaso, nesse momento, eu pousara os olhos no Bar\u00e3o C\u00fartis;<br \/>\ne notei que o meu nome, assim pregoado com a minha profiss\u00e3o, lhe causara<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o e surpresa. John cravou tamb\u00e9m em mim o seu vidro,<br \/>\ncom uma curiosidade que faiscava. Por fim o bar\u00e3o inclinou-se, atrav\u00e9s<br \/>\nda mesa, e numa voz grave e funda, bem pr\u00f3pria do robusto peito de<br \/>\nonde sa\u00eda: &#8211; Pe\u00e7o perd\u00e3o &#8211; disse &#8211; mas \u00e9 porventura<br \/>\nao Senhor Al\u00e3o Quartelmar que me estou agora dirigindo? &#8211; A ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>O homenzarr\u00e3o passou a m\u00e3o pelas barbas, &#8211; e distintamente,<br \/>\nmuito distintamente, o ouvi murmurar: \u201cAinda bem!\u201d N\u00e3o<br \/>\nse passou mais nada at\u00e9 ao doce. Mas fiquei ruminando aquele espanto<br \/>\ne aquele \u201cainda bem!\u201d Depois do caf\u00e9, enchia o meu cachimbo<br \/>\npara subir \u00e0 tolda, quando o bar\u00e3o, com os seus modos s\u00e9rios<br \/>\ne lentos, se adiantou para mim, e me convidou \u201ca passar ao seu beliche,<br \/>\ntomar um grogue, e conversar&#8230;\u201d Aceitei. O bar\u00e3o ocupava um<br \/>\ncamarote &#8211; 4 de tolda, o melhor do Dunkeld, espa\u00e7oso, arejado, com<br \/>\num sof\u00e1, espelhos, e duas largas cadeiras de verga. O Capit\u00e3o<br \/>\nJohn viera tamb\u00e9m. Todos tr\u00eas nos sentamos, acendendo os cachimbos,<br \/>\nenquanto o mo\u00e7o corria pelos grogues.<\/p>\n<p>Houve primeiramente um sil\u00eancio. Outro criado entrou, a acender o<br \/>\ncandeeiro. Por fim, apareceram os grogues.<\/p>\n<p>O Bar\u00e3o C\u00fartis, ent\u00e3o, passou a m\u00e3o pelas barbas,<br \/>\nnesse jeito que lhe era costumado, e voltando-se bruscamente: &#8211; Diga-me uma<br \/>\ncousa, Senhor Quartelmar&#8230; Aqui h\u00e1 dois anos, por este tempo, esteve<br \/>\nnum s\u00edtio chamado Bamanguato, ao norte do Transval. N\u00e3o \u00e9<br \/>\nverdade? &#8211; Perfeitamente &#8211; respondi eu, pasmado de que aquele cavalheiro se<br \/>\nachasse, no seu condado, em Inglaterra, t\u00e3o bem informado das jornadas<br \/>\nque eu fazia no sul da \u00c1frica! &#8211; A neg\u00f3cio, hem? &#8211; acudiu o<br \/>\nCapit\u00e3o John.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, a neg\u00f3cio. Levei uma carrega\u00e7\u00e3o de fazendas,<br \/>\nacampei fora da feitoria, e l\u00e1 fiquei at\u00e9 liquidar.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o conservou, durante um momento, pregados em mim os seus olhos<br \/>\ncinzentos e largos. Pareceu-me que havia neles ansiedade e temor.<\/p>\n<p>&#8211; E diga-me, encontrou a\u00ed, em Bamanguato, um homem chamado Neville?<br \/>\n&#8211; Encontrei. Esteve acampado ao meu lado durante uns quinze dias, a descansar<br \/>\no gado antes de meter para o norte. Aqui h\u00e1 meses recebi eu uma carta<br \/>\nde um procurador, perguntando-me se sabia o que era feito desse sujeito&#8230;<br \/>\nRespondi como pude&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei! &#8211; atalhou o bar\u00e3o. &#8211; Li a sua resposta. Dizia o Senhor<br \/>\nQuartelmar que esse sujeito Neville partira de Bamanguato, no princ\u00edpio<br \/>\nde maio, num carr\u00e3o, com um servi\u00e7al e um ca\u00e7ador cafre<br \/>\nchamado Jim, tencionando puxar at\u00e9 Iniati, \u00faltima esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nna terra dos matabeles, para de l\u00e1 seguir a p\u00e9, depois de vender<br \/>\no carr\u00e3o. O Senhor Quartelmar acrescentava que o carr\u00e3o decerto<br \/>\no vendera ele, porque seis meses depois vira-o em poder de um portugu\u00eas.<br \/>\nEsse portugu\u00eas n\u00e3o se lembrava bem do nome do homem a quem o<br \/>\ncomprara. Sabia s\u00f3 que era um branco, e que se metera para o mato com<br \/>\num cafre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade &#8211; murmurei eu.<\/p>\n<p>Houve outro sil\u00eancio, que eu enchi com um sorvo ao grogue. Por fim<br \/>\no bar\u00e3o prosseguiu, com os olhos sempre cravados em mim, insistentes<br \/>\ne ansiosos: &#8211; O Senhor Quartelmar n\u00e3o sabe quais fossem as raz\u00f5es<br \/>\nque levavam assim esse sujeito Neville para o norte?&#8230; N\u00e3o sabe qual<br \/>\nera o fim da jornada? &#8211; Ouvi alguma cousa a esse respeito &#8211; murmurei.<\/p>\n<p>E calei-me prudentemente, porque nos \u00edamos avizinhando de um ponto<br \/>\nem que, por motivos antigos e graves, eu n\u00e3o desejava bulir.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o voltou-se para o seu companheiro, como para o consultar.<br \/>\nO outro, por entre a fumara\u00e7a do cachimbo, baixou a cabe\u00e7a num<br \/>\nsim mudo. Ent\u00e3o o meu homenzarr\u00e3o, decidido, abriu os bra\u00e7os,<br \/>\ndesabafou: &#8211; Senhor Quartelmar, vou-lhe fazer uma confid\u00eancia! Vou-lhe<br \/>\nmesmo pedir o seu conselho, e talvez o seu aux\u00edlio&#8230; O agente que<br \/>\nme remeteu a sua carta afian\u00e7ou-me que eu podia confiar absolutamente<br \/>\nno Senhor Quartelmar, que \u00e9 um homem de bem, discreto como poucos,<br \/>\ne respeitado como nenhum em toda a col\u00f4nia do Natal.<\/p>\n<p>&#8211; 5 Dei um sorvo tremendo ao conhaque, para esconder o meu embara\u00e7o<br \/>\n&#8211; porque sou extremamente modesto.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Quartelmar &#8211; concluiu o bar\u00e3o &#8211; esse sujeito chamado Neville<br \/>\nera meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! &#8211; exclamei.<\/p>\n<p>Com efeito! Agora, agora recordava eu bem com quem o bar\u00e3o se parecia!<br \/>\nEra com esse Neville. Somente o outro tinha menos corpo, e a barba escura.<br \/>\nMas nos olhos havia a mesma franqueza, e havia a mesma decis\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Era meu irm\u00e3o &#8211; continuou o bar\u00e3o. &#8211; Meu irm\u00e3o mais<br \/>\nnovo, e \u00fanico. At\u00e9 aqui h\u00e1 cinco anos, vivemos sempre<br \/>\njuntos. Depois um dia, desgra\u00e7adamente, tivemos uma quest\u00e3o,<br \/>\numa terr\u00edvel quest\u00e3o. E para lhe dizer a verdade toda, Senhor<br \/>\nQuartelmar, eu comportei-me para com meu irm\u00e3o da maneira mais injusta!<br \/>\nFoi sob o impulso do despeito, da c\u00f3lera, \u00e9 certo&#8230;Mas, em<br \/>\nsuma, comportei-me injustamente.<\/p>\n<p>&#8211; Cruelmente &#8211; murmurou do lado o Capit\u00e3o John, que fumava com os<br \/>\nolhos cerrados.<\/p>\n<p>&#8211; Cruelmente, com efeito. Como o Senhor Quartelmar sabe, em Inglaterra,<br \/>\nquando um homem morre sem testamento e n\u00e3o tem sen\u00e3o bens de<br \/>\nraiz, tudo passa para o filho mais velho. Ora sucedeu que meu pai morreu exatamente<br \/>\nquando meu irm\u00e3o Jorge e eu est\u00e1vamos assim de mal. Herdei tudo;<br \/>\ne meu irm\u00e3o, que n\u00e3o tinha profiss\u00e3o, nem habilita\u00e7\u00f5es,<br \/>\nficou sem real. O meu dever, est\u00e1 claro, era criar-lhe uma situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nindependente. \u00c9 o que todos os dias se faz em Inglaterra, nesses casos.<br \/>\nMas por esse tempo a nossa quest\u00e3o estava em carne viva. Eu n\u00e3o<br \/>\nlhe ofereci nada. Ele tamb\u00e9m, orgulhoso, sobretudo brioso, nada pediu.<br \/>\nAssim ficamos, de longe; eu rico e ele pobre&#8230; Pe\u00e7o perd\u00e3o<br \/>\nde o fatigar com estes detalhes, Senhor Quartelmar, mas preciso p\u00f4r<br \/>\nas cousas bem claras&#8230; N\u00e3o \u00e9 verdade, John? &#8211; Escrupulosamente<br \/>\nclaras! &#8211; acudiu o outro. &#8211; De resto o nosso amigo Quartelmar guarda para<br \/>\nsi esta hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pudera! &#8211; exclamei.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem &#8211; continuou o bar\u00e3o &#8211; meu irm\u00e3o possu\u00eda<br \/>\nde seu, nessa \u00e9poca, umas duzentas ou trezentas libras. Um belo dia,<br \/>\nagarra nesta mis\u00e9ria, toma o nome de Neville, e abala para \u00c1frica<br \/>\na tentar fortuna! Eu s\u00f3 o soube mais tarde, meses depois dele ter embarcado.<br \/>\nPassaram tr\u00eas anos. Not\u00edcias dele, nenhumas. Comecei a andar<br \/>\ninquieto. Escrevi-lhe. Naturalmente as minhas cartas n\u00e3o lhe chegaram.<br \/>\nE eu cada dia mais aflito! Para o Senhor Quartelmar compreender tudo bem,<br \/>\ndeve saber que, desde pequeno, desde o ber\u00e7o meu irm\u00e3o foi a<br \/>\nforte e grande afei\u00e7\u00e3o da minha vida. E, por outro lado, a nossa<br \/>\nquest\u00e3o, assim amarga e \u00e1spera por sermos ambos muito novos<br \/>\ne muito exaltados, nasceu de qu\u00ea? De uma mulher cujo nome j\u00e1<br \/>\nquase me esqueceu. E meu pobre irm\u00e3o, coitado, se ainda \u00e9 vivo,<br \/>\nn\u00e3o se lembrar\u00e1 mais do que eu. Ora aqui tem! E j\u00e1 por<br \/>\nisto o Senhor Quartelmar compreende&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente, perfeitamente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, descobrir meu irm\u00e3o passou a ser a minha id\u00e9ia<br \/>\nconstante, dia e noite. Mandei fazer aqui, no Cabo, toda a sorte de pesquisas.<br \/>\nUm dos resultados, o mais importante, foi a sua carta, Senhor Quartelmar.<br \/>\nImportante porque me dava a certeza que, meses antes, meu irm\u00e3o estava<br \/>\nna \u00c1frica, e vivo. Desde esse momento decidi vir eu mesmo, pessoalmente,<br \/>\ncontinuar as pesquisas. Agentes, por mais dedicados, mais bem pagos, n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam o interesse de cora\u00e7\u00e3o; \u00e9 com o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\njustamente que eu conto, com a perspic\u00e1cia, a inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nespecial que ele \u00e0s vezes possui. De resto sempre tencionei visitar<br \/>\nas nossas col\u00f4nias da \u00c1frica&#8230; E aqui tem o Senhor Quartelmar<br \/>\na minha hist\u00f3ria. O mais extraordin\u00e1rio, \u00e9 que o tiv\u00e9ssemos<br \/>\nencontrado logo, a si, a pessoa justamente que viu meu irm\u00e3o vivo,<br \/>\na pessoa justamente a quem eu me ia dirigir apenas chegasse ao Natal. Quer<br \/>\nque lhe diga? Acho bom agouro. Em todo o caso, aqui estou, pronto para tudo,<br \/>\ncom o meu velho amigo, o Capit\u00e3o John, companheiro fiel de muitos anos,<br \/>\nque teve a dedica\u00e7\u00e3o de me acompanhar.<\/p>\n<p>O outro encolheu os ombros, sorrindo, com a sua espl\u00eandida dentadura.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o havia neste momento nada interessante a fazer na velha Europa!&#8230;<br \/>\nGasta, insipid\u00edssima, a velha Europa! Depois, reenchendo o cachimbo,<br \/>\nacrescentou muito s\u00e9rio: &#8211; E agora que o nosso amigo Quartelmar conhece<br \/>\nos motivos que nos trazem \u00e0 \u00c1frica, e o interesse que nos prende<br \/>\na esse homem chamado Neville, espero da sua lealdade que n\u00e3o ter\u00e1<br \/>\nd\u00favida em nos dizer tudo o que sabe, ou tudo o que ouviu, a respeito<br \/>\ndele. Hem? Impressionado, respondi: &#8211; N\u00e3o tenho d\u00favida, por<br \/>\nser quest\u00e3o de sentimento.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II &#8211; Primeira Not\u00edcia das Minas de Salom\u00e3o<\/h2>\n<p>Sacudi a cinza do cachimbo na palma da m\u00e3o, e comecei, muito devagar,<br \/>\npara tudo p\u00f4r bem claro e bem exato: &#8211; Aqui est\u00e1 o que ouvi a<br \/>\nrespeito desse cavalheiro Neville.<\/p>\n<p>E isto, que me lembre, nunca, at\u00e9 ao dia de hoje, o disse a ningu\u00e9m.<br \/>\nOuvi que esse cavalheiro fora para o interior \u00e0 busca das minas de<br \/>\nSalom\u00e3o.<\/p>\n<p>Os dois homens olharam para mim, com assombro: &#8211; As minas de Salom\u00e3o\u2018?<br \/>\nQue minas?&#8230; Onde s\u00e3o? &#8211; Onde s\u00e3o, n\u00e3o sei. Sei apenas<br \/>\nonde dizem que est\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui h\u00e1 anos vi de longe os dois picos dos montes que, segundo corre,<br \/>\nlhes servem de muralha. Mas entre mim e os montes, meus senhores, havia duzentas<br \/>\nmilhas de deserto. E esse deserto, meus senhores, nunca houve ningu\u00e9m<br \/>\n(quero dizer, homem branco) que o atravessasse, a n\u00e3o ser um, noutras<br \/>\neras. Porque toda esta hist\u00f3ria vem muito de tr\u00e1s, de h\u00e1<br \/>\ns\u00e9culos! Eu n\u00e3o tenho d\u00favida em a contar, mas com uma<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o: \u00e9 que os cavalheiros n\u00e3o a h\u00e3o<br \/>\nde transmitir sem minha autoriza\u00e7\u00e3o. Tenho para isso raz\u00f5es,<br \/>\ne fortes. Est\u00e3o os cavalheiros de acordo? &#8211; Com certeza! Narrei ent\u00e3o,<br \/>\nlongamente, tudo o que sabia, hist\u00f3ria ou f\u00e1bula, sobre as minas<br \/>\nde Salom\u00e3o. Foi h\u00e1 trinta anos que pela primeira vez ouvi falar<br \/>\ndestas minas a um ca\u00e7ador de elefantes, um homem muito s\u00e9rio,<br \/>\nmuito indagador, que recolhera assim, nas suas jornadas atrav\u00e9s da<br \/>\n\u00c1frica, tradi\u00e7\u00f5es e lendas singularmente curiosas. Tinha-me<br \/>\neu encontrado com ele na terra dos matabeles, numa das minhas primeiras expedi\u00e7\u00f5es<br \/>\nao interior, \u00e0 busca do elefante e do marfim. Chamava-se Evans. Era<br \/>\num dos melhores ca\u00e7adores da \u00c1frica. Foi estupidamente morto<br \/>\npor um b\u00fafalo, e est\u00e1 enterrado junto \u00e0s quedas do Zambeze.<\/p>\n<p>Pois uma noite, sentados \u00e0 fogueira, no mato, sucedeu mencionar eu<br \/>\na esse Evans umas constru\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias com que<br \/>\ncasualmente dera, andando \u00e0 ca\u00e7a do koodoo por aquela regi\u00e3o<br \/>\nque forma hoje o distrito de Lidenburgo no Transval. Essas obras foram depois<br \/>\nencontradas, e aproveitadas at\u00e9, pela gente que veio trabalhar as minas<br \/>\nde ouro. Mas e ningu\u00e9m (quero dizer, nenhum branco) as tinha visto<br \/>\nantes de mim. Era uma estrada enorme, magn\u00edfica, cortada na rocha viva,<br \/>\nlevando a uma galeria sem fim, metida pela terra dentro, toda de tijolo, e<br \/>\ncom grandes pedregulhos de min\u00e9rio de ouro empilhados \u00e0 entrada.<br \/>\nObra extraordin\u00e1ria! E a ra\u00e7a que a fizera &#8211; desaparecera, sem<br \/>\ndeixar um nome, nem outro vest\u00edgio de si, al\u00e9m daquela galeria,<br \/>\nque revelavam um grande saber, uma grande ind\u00fastria e uma grande for\u00e7a!<br \/>\n&#8211; Curioso! &#8211; murmurou Evans. &#8211; Mas conhe\u00e7o melhor! E contou-me ent\u00e3o<br \/>\nque no interior, muito no interior, descobrira ele uma cidade antiqu\u00edssima,<br \/>\ntoda em ru\u00ednas, que tinha a certeza de ser Ofir, a famosa Ofir da B\u00edblia.<br \/>\nLembro-me bem a impress\u00e3o e o assombro com que eu escutei a hist\u00f3ria<br \/>\ndessa cidade fen\u00edcia perdida no sert\u00e3o da \u00c1frica, com<br \/>\nos seus restos de pal\u00e1cios, de piscinas, de templos, de colunas derrocadas!&#8230;<br \/>\nMas depois Evans ficara calado, cismando. De repente diz: &#8211; Tu j\u00e1 ouviste<br \/>\nfalar das serras de Suliman, umas grandes serras que ficam para al\u00e9m<br \/>\ndo territ\u00f3rio de Machuculumbe, a noroeste? &#8211; N\u00e3o, nunca ouvi.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, meu rapaz, a\u00ed \u00e9 que Salom\u00e3o verdadeiramente<br \/>\ntinha as suas minas, as suas minas de diamantes! &#8211; Como se sabe? &#8211; Como se<br \/>\nsabe!? Tem gra\u00e7a! Sabe-se perfeitamente. O que \u00e9 Suliman sen\u00e3o<br \/>\numa corrup\u00e7\u00e3o de Salom\u00e3o? O nome das serras, realmente,<br \/>\nsempre foi serras de Salom\u00e3o. Al\u00e9m disso, uma feiticeira do<br \/>\ndistrito de Manica, uma velha de mais de cem anos, contou-me tudo&#8230; Isto<br \/>\n\u00e9, contou-me que para l\u00e1 das serras vive um povo que \u00e9<br \/>\nda ra\u00e7a dos zulus, e fala um dialeto zulu; mas como for\u00e7a e<br \/>\ncorpul\u00eancia, e coragem, vale mais que os zulus. Pois nesse povo h\u00e1<br \/>\nvidentes, grandes feiticeiros, que de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nt\u00eam trazido o segredo de uma mina prodigiosa, que foi de um rei branco,<br \/>\nmuito antigo, e que ainda hoje est\u00e1 cheia de pedras brancas que reluzem&#8230;<br \/>\nDe sorte que n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida nenhuma.<\/p>\n<p>Para mim havia toda a d\u00favida. As ru\u00ednas de Ofir interessavam-me,<br \/>\ncomo da nossa cren\u00e7a e da B\u00edblia; mas das minas de pedras brancas<br \/>\nque reluzem, conhecidas em segredo por feiticeiros zulus, teria certamente<br \/>\nrido se n\u00e3o fora o respeito devido a um ca\u00e7ador t\u00e3o digno<br \/>\ncomo Evans. De madrugada Evans partiu a acabar tristemente nas pontas de um<br \/>\nb\u00fafalo. E n\u00e3o pensei mais em Salom\u00e3o, nem nas suas minas<br \/>\nde diamantes.<\/p>\n<p>Aqui h\u00e1 vinte anos por\u00e9m, num encontro muito singular que<br \/>\ntive no distrito de Manica, de novo ouvi falar das minas de Salom\u00e3o,<br \/>\ne de um modo que para sempre me devia impressionar. Era num s\u00edtio chamado<br \/>\na \u201caringa de Sitanda\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 pior em toda a \u00c1frica. Fruta nenhuma, ca\u00e7a<br \/>\nnenhuma, tudo seco, tudo triste &#8211; e os pretos vendem os ossos de um frango<br \/>\npor fazenda que vale uma vaca.<\/p>\n<p>Apanhei l\u00e1 um ataque de febre, e estava fraqu\u00edssimo, enfastiad\u00edssimo,<br \/>\nquando me apareceu um dia um portugu\u00eas de Louren\u00e7o Marques, acompanhado<br \/>\npor um servi\u00e7al mesti\u00e7o. Entre os portugueses de Louren\u00e7o<br \/>\nMarques &#8211; h\u00e1 sofr\u00edvel e h\u00e1 p\u00e9ssimo. Mas este era<br \/>\ndos melhores que eu vira &#8211; um homem muito alto e muito magro, de belos olhos<br \/>\nnegros, os bigodes j\u00e1 grisalhos todos retorcidos, e umas maneiras graves<br \/>\nque me fizeram pensar nos velhos fidalgos portugueses que aqui vieram h\u00e1<br \/>\ns\u00e9culos e de que tanto se l\u00ea nas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Conversamos bastante nessa noite, porque ele falava um bocado de mau ingl\u00eas,<br \/>\neu um bocado de mau portugu\u00eas; e soube que se chamava Jos\u00e9 Silveira,<br \/>\ne que possu\u00eda uma fazenda ao p\u00e9 da cidade, em Louren\u00e7o<br \/>\nMarques.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, cedo, antes de partir com o mesti\u00e7o, acordou-me<br \/>\npara se despedir, de chap\u00e9u na m\u00e3o, cort\u00eas e grave, como<br \/>\nos antigos, os que tinham Dom.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 mais ver, camarada! &#8211; Boa viagem! At\u00e9 mais ver! O homem<br \/>\nconservava, pregados em mim, os grandes olhos negros que rebrilhavam. Depois<br \/>\nacrescentou muito s\u00e9rio: &#8211; Se nos tornarmos outra vez a encontrar,<br \/>\nhei de ser a pessoa mais rica deste mundo! E pode contar, camarada, que n\u00e3o<br \/>\nme hei de esquecer de si! Nem ri. Estava debilitado para rir. Fiquei estirado<br \/>\nna manta olhando para o estranho homem que, a grandes passadas, com a cabe\u00e7a<br \/>\nalta e cheia de esperan\u00e7a, se metia pelo mato dentro.<\/p>\n<p>Passou uma semana, e melhorei da febre. Uma tarde achava-me sentado no ch\u00e3o<br \/>\ndefronte da barraca, rilhando a \u00faltima perna de um desses frangos que<br \/>\nos pretos me vendiam por chita do valor de uma vaca, e pasmando para o enorme<br \/>\ndisco do sol que descia ao fundo do deserto &#8211; quando de repente avistei, escura<br \/>\nsobre a vermelhid\u00e3o do poente, numa eleva\u00e7\u00e3o do terreno,<br \/>\na figura de um homem que era certamente europeu porque trazia um casac\u00e3o<br \/>\ncomprido. No momento mesmo em que eu dera com os olhos nele, o homem oscila,<br \/>\ncai de bru\u00e7os e come\u00e7a a arrastar-se pelo ch\u00e3o, lentamente!<br \/>\nCom um esfor\u00e7o desesperado, ainda se ergueu, e tentou pelo c\u00f4moro<br \/>\nabaixo alguns passos que cambaleavam. Por fim tombou de novo, e ficou estirado,<br \/>\ncomo morto, contra um tufo de tojo alto. Gritei a um dos meus ca\u00e7adores<br \/>\nque acudisse. E quando ele voltou, amparando o homem nos bra\u00e7os &#8211; quem<br \/>\nhei de eu ver? O Jos\u00e9 Silveira! Jos\u00e9 Silveira &#8211; eu vira antes<br \/>\no seu miser\u00e1vel esqueleto, com todos os ossos rompendo para fora da<br \/>\npele, mais seca que pergaminho e amarela como gema de ovos. Os olhos saltavam-lhe<br \/>\nda cara, \u00e0 maneira de dois bugalhos de sangue. E o cabelo que eu lhe<br \/>\nvira grisalho, vinha branco, todo branco como uma bela estriga de linho.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c1gua! &#8211; gemeu ele. &#8211; \u00c1gua, pelas cinco chagas de Cristo!<br \/>\nO infeliz tinha os bei\u00e7os horrivelmente estalados, e entre eles a l\u00edngua<br \/>\npendia-lhe, toda inchada e toda negra! Dei-lhe \u00e1gua com leite, de que<br \/>\nbebeu talvez dois quartilhos, a grandes sorvos, e sem parar. Foi necess\u00e1rio<br \/>\narrancar-lhe a vasilha. Depois caiu de costas, rompeu a delirar. Ora gemia,<br \/>\nora gritava. E era sempre sobre as serras de Suliman, os diamantes e o deserto!<br \/>\nLevei-o para dentro da tenda; e, com o pouco que tinha, fiz o pouco que podia.<br \/>\nO homem estava perdido. Rente da meia noite sossegou. Eu, esfalfado, adormeci.<br \/>\nAcordei de madrugada; e, ao primeiro alvor da luz, dou com ele (forma sinistra!)<br \/>\nde joelhos, \u00e0 porta da barraca, de olhos cravados para o longe, para<br \/>\no deserto! Nesse instante, um raio de sol que nascia frechou atrav\u00e9s<br \/>\ndo vasto descampado, e foi bater ao fundo, a cem milhas de n\u00f3s, o pico<br \/>\nmais alto das serras de Suliman. O homem soltou um grito, atirou desesperadamente<br \/>\npara diante dos dois bra\u00e7os de esqueleto: &#8211; L\u00e1 est\u00e3o<br \/>\nelas, Santo Deus, l\u00e1 est\u00e3o elas!&#8230; E dizer que n\u00e3o pude<br \/>\nl\u00e1 chegar! Parecem t\u00e3o perto! Logo ali, uns passos mais&#8230; E<br \/>\nagora acabou-se, estou perdido, ningu\u00e9m mais pode l\u00e1 ir! De<br \/>\nrepente, emudeceu. Depois virou para mim, muito devagar, face l\u00edvida<br \/>\ne como esgazeada por uma id\u00e9ia brusca.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 camarada, onde est\u00e1 voc\u00ea?&#8230; J\u00e1 o n\u00e3o<br \/>\ndistingo, vai-me a fugir a vista! &#8211; Estou aqui; sossegue, homem.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho tempo para sossegar, tenho toda a eternidade! Escute. Eu estou a<br \/>\nmorrer. Voc\u00ea tem sido bom comigo, camarada&#8230; E para que havia eu de<br \/>\nlevar o segredo para debaixo da terra? Ao menos algu\u00e9m se aproveita!<br \/>\nTalvez voc\u00ea l\u00e1 possa chegar, se conseguir atravessar esse deserto<br \/>\nque matou o meu pobre criado, que me est\u00e1 a matar a mim&#8230;Come\u00e7ou<br \/>\nent\u00e3o a procurar tremulamente dentro do peito da camisa. Tirou por<br \/>\nfim uma esp\u00e9cie de bolsa de tabaco, j\u00e1 velha, apertada com uma<br \/>\ncorreia. Estava t\u00e3o fraco que as suas pobres m\u00e3os nem puderam<br \/>\ndesfazer o n\u00f3. Fez-me um gesto, um gesto exausto, para que eu o desatasse.<br \/>\nDentro havia um farrapo de linho amarelado, com linhas escritas, num tom antiqu\u00edssimo,<br \/>\nde cor de ferrugem. E dentro do farrapo estava um papel dobrado.<\/p>\n<p>&#8211; O papel &#8211; murmurou ele numa voz que se extinguia &#8211; \u00e9 a c\u00f3pia<br \/>\ndo que est\u00e1 escrito no trapo. Levou-me anos a decifrar, a entender&#8230;<br \/>\nFoi um antepassado meu, um dos primeiros portugueses que vieram a Louren\u00e7o<br \/>\nMarques, que escreveu isso, quando estava para morrer acol\u00e1 naquelas<br \/>\nserras. Chamava-se D. Jos\u00e9 da Silveira, e j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o<br \/>\ntrezentos anos&#8230;<\/p>\n<p>Um escravo que ia com ele, e que ficara a esperar, do lado de c\u00e1<br \/>\ndo monte, vendo que o amo n\u00e3o voltava, procurou-o; foi dar com ele<br \/>\nmorto, e trouxe para Louren\u00e7o Marques o bocado de linho que tinha letras.<br \/>\nDesde ent\u00e3o ficou guardado na nossa fam\u00edlia. H\u00e1 trezentos<br \/>\nanos! E ningu\u00e9m pensou em o decifrar at\u00e9 que eu me meti nisso&#8230;<br \/>\nCustou-me a vida. Mas talvez outro consiga. Talvez outro chegue l\u00e1,<br \/>\n\u00e0s malditas serras! Ser\u00e1 ent\u00e3o o homem mais rico deste<br \/>\nmundo! O mais rico, o mais rico! Tente voc\u00ea, camarada&#8230; N\u00e3o<br \/>\nd\u00ea o papel a ningu\u00e9m! V\u00e1 voc\u00ea! As \u00faltimas<br \/>\npalavras sa\u00edram como um d\u00e9bil sopro. Caiu de costas, recome\u00e7ou<br \/>\na delirar. Da\u00ed a uma hora tudo acabou. Deus tenha a sua alma em descanso!<br \/>\nMorreu serenamente, sem esfor\u00e7o e sem dor. Por minhas m\u00e3os o<br \/>\nenterrei, bem fundo na terra, com fortes pedregulhos por cima do peito. Ao<br \/>\nmenos assim n\u00e3o dar\u00e3o com ele os chacais. Foi ao p\u00e9 da<br \/>\ncova, onde o desgra\u00e7ado jazia, que examinei o documento. Era, como<br \/>\ndisse, um farrapo de linho, rasgado de uma fralda de camisa e do tamanho de<br \/>\num palmo. No topo tinha os tra\u00e7os de um mapa, ou de um roteiro, rapidamente<br \/>\ne toscamente lan\u00e7ados.<\/p>\n<p>Era pouco mais ou menos isto: Por baixo vinham linhas escritas, numa letra<br \/>\nmuito antiga e cor de ferrugem. Para mim eram inintelig\u00edveis. Mas o<br \/>\npapel continha a decifra\u00e7\u00e3o, e dizia assim: \u201cEstou morrendo<br \/>\nde fome, numa cova da banda norte de um destes montes a que dei o nome de<br \/>\n\u201cSeios de Sab\u00e1\u201d, no que fica mais a sul. Sou D. Jos\u00e9<br \/>\nda Silveira, e escrevo isto no ano de 1590, com um peda\u00e7o de osso,<br \/>\nnum farrapo da camisa, tendo por tinta o meu sangue. Se o meu escravo aqui<br \/>\nvoltar, reparar neste escrito, e o levar para Louren\u00e7o Marques, que<br \/>\no meu amigo (aqui um nome ileg\u00edvel), logo pela primeira nau que passar<br \/>\npara o Reino, mande estas cousas ao conhecimento de El-Rei, para que Ele remeta<br \/>\numa armada a Louren\u00e7o Marques, com um tro\u00e7o de gente, que se<br \/>\nconseguir atravessar o deserto, vencer os cacuanas que s\u00e3o valentes,<br \/>\ne desfazer os seus feiti\u00e7os (devem vir muitos mission\u00e1rios)<br \/>\ntornar\u00e3o Sua Alteza o mais rico Rei da Cristandade. Com meus pr\u00f3prios<br \/>\nolhos vi os diamantes sem conta amontoados num subterr\u00e2neo que era o<br \/>\ndep\u00f3sito dos tesouros de Salom\u00e3o, e que fica por tr\u00e1s<br \/>\nde uma figura da Morte. Mas por trai\u00e7\u00e3o de Gagula, a feiticeira<br \/>\ndos cacuanas, nada pude trazer, apenas a vida! Quem vier, siga o mapa que<br \/>\ntracei, e trepe pelas neves que cobrem o Seio de Sab\u00e1, o esquerdo,<br \/>\nat\u00e9 chegar ao cimo, de onde ver\u00e1 logo, para o lado norte, a<br \/>\ngrande cal\u00e7ada feita por Salom\u00e3o. Da\u00ed siga sempre, e<br \/>\nem tr\u00eas dias de marcha encontrar\u00e1 a aringa do rei. Quem quer<br \/>\nque venha que mate Gagula. Rezem pelo descanso da minha alma. Que El-Rei Nosso<br \/>\nSenhor seja logo avisado. Adeus a todos nesta vida!\u201d Tal era o extraordin\u00e1rio<br \/>\ndocumento que textualmente li ao Bar\u00e3o C\u00fartis e ao capit\u00e3o,<br \/>\nporque trazia sempre comigo (e ainda trago) uma tradu\u00e7\u00e3o dele,<br \/>\nem ingl\u00eas, na carteira.<\/p>\n<p>Quando acabei, os dois amigos olhavam para mim, mudos de espanto. Por fim<br \/>\no capit\u00e3o, com o leve suspiro de quem repousa de uma prolongada emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nbebeu um trago de grogue &#8211; e mais sereno: &#8211; O nosso amigo, o Senhor Quartelmar,<br \/>\nn\u00e3o nos tem estado a intrujar? Meti com for\u00e7a o papel na algibeira,<br \/>\ne, erguendo-me, repliquei secamente: &#8211; Se os cavalheiros assim pensam, n\u00e3o<br \/>\nme resta mais nada sen\u00e3o desejar-lhes muito boas noites! O bar\u00e3o<br \/>\nacudiu, pousando-me no ombro a sua larga m\u00e3o: &#8211; Pelo amor de Deus,<br \/>\nSenhor Quartelmar! Nem John nem eu duvidamos da sua veracidade. Mas, enfim,<br \/>\ntenho ouvido dizer que aqui na col\u00f4nia \u00e9 cousa corrente e bem<br \/>\naceita tro\u00e7ar um pouco os que chegam, os novatos da \u00c1frica&#8230;<br \/>\nE depois essa hist\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o extraordin\u00e1ria! Insisti,<br \/>\nainda ofendido: &#8211; O original escrito pelo velho fidalgo no farrapo de camisa,<br \/>\ntenho-o em Durban! Ser\u00e1 a primeira cousa que lhes hei de mostrar em<br \/>\nchegando!&#8230; N\u00e3o h\u00e1 uma palavra&#8230;<\/p>\n<p>O bar\u00e3o atalhou, gravemente! &#8211; Toda a palavra do Senhor Quartelmar<br \/>\n\u00e9 cousa s\u00e9ria, e como tal a tomamos.<\/p>\n<p>Durante um momento ficamos calados. Eu serenei. Por fim o bar\u00e3o,<br \/>\nque dera sobre o tapete do beliche alguns passos pensativos, parou diante<br \/>\nde mim: &#8211; E meu irm\u00e3o? Confio soube o Senhor Quartelmar que meu irm\u00e3o<br \/>\ntentou tamb\u00e9m essa jornada \u00e0s minas? Narrei ent\u00e3o o que<br \/>\nme sucedera com esse sujeito Neville, quando est\u00e1vamos acampando, lado<br \/>\na lado, em Bamanguato. Eu n\u00e3o o conhecia; nem ent\u00e3o come\u00e7amos<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es, apesar de termos o gado junto. Mas conhecia perfeitamente<br \/>\no servi\u00e7al que o acompanhava, um chamado Jim. Era um bechuana, excelente<br \/>\nca\u00e7ador &#8211; e, para bechuana, esperto, consideravelmente esperto! Na<br \/>\nmanh\u00e3 em que Neville devia meter-se para o sert\u00e3o, vi Jim, ao<br \/>\np\u00e9 do meu carr\u00e3o, cortando folhas de tabaco.<\/p>\n<p>&#8211; Para onde \u00e9 essa jornada, Jim? &#8211; perguntei eu, sem curiosidade,<br \/>\ns\u00f3 para mostrar interesse ao rapaz. &#8211; Ides a elefantes? Jim mostrou<br \/>\nos dentes todos, num riso vivo: &#8211; N\u00e3o, patr\u00e3o. Vamos a cousa<br \/>\nmelhor que marfim.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor que marfim!? Ouro? &#8211; Melhor que ouro! &#8211; murmurou ele, arreganhando<br \/>\nmais a dentu\u00e7a.<\/p>\n<p>Calei-me, porque n\u00e3o convinha \u00e0 minha dignidade de patr\u00e3o<br \/>\ne de branco revelar curiosidade diante de um bechuana.<\/p>\n<p>Confesso, por\u00e9m, que fiquei intrigado. Da\u00ed a pouco Jim acabou<br \/>\nde cortar o tabaco. Mas por ali se quedou, rondando, co\u00e7ando devagar<br \/>\nos cotovelos, \u00e0 espera, com os olhos em mim. N\u00e3o dei aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 patr\u00e3o! &#8211; murmurou ele, numa \u00e2nsia de desabafar.<\/p>\n<p>Permaneci indiferente, por dignidade. Ele tornou: &#8211; \u00d3 patr\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Que \u00e9, homem? &#8211; Vamos \u00e0 procura de diamantes, patr\u00e3o!<br \/>\n&#8211; atirou-me ele ao ouvido.<\/p>\n<p>&#8211; Diamantes!? Boa! Ent\u00e3o ides para o lado oposto. Dev\u00edeis<br \/>\nmeter direito ao sul, para as Diamanteiras. O bechuana baixou mais a voz:<br \/>\n&#8211; \u00d3 patr\u00e3o! J\u00e1 ouviu falar das serras de Suliman? Pois<br \/>\nl\u00e1 \u00e9 que est\u00e3o os diamantes. O patr\u00e3o nunca ouviu?<br \/>\n&#8211; Tenho ouvido muita tolice na minha vida, Jim.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 tolice, patr\u00e3o. Eu conheci uma mulher que veio<br \/>\nde l\u00e1, com um filho, e que vivia no Natal. Morreu h\u00e1 anos, o<br \/>\nfilho por l\u00e1 anda. E foi ela que me disse tudo. H\u00e1 l\u00e1<br \/>\ndiamantes! &#8211; Olha, Jim, o que te digo \u00e9 que teu amo vai dar de comer<br \/>\naos abutres, que andam por l\u00e1 esfomeados. E tu, essa pouca carne que<br \/>\ntens nos ossos, tamb\u00e9m vai daqui direitinha aos abutres! O homem teve<br \/>\noutro riso fino: &#8211; A gente tem de morrer, e eu n\u00e3o desgosto de experimentar<br \/>\nterras novas. O elefante por aqui j\u00e1 n\u00e3o rende. O bechuana c\u00e1<br \/>\nvai para os diamantes, e o bechuana vai cantando! &#8211; Pois quando a morte te<br \/>\nagarrar pelas goelas, veremos ent\u00e3o se ainda canta o bechuana! Jim<br \/>\nabalou. Da\u00ed a meia hora o carr\u00e3o do Senhor Neville posse em<br \/>\nmarcha para o norte. Mas n\u00e3o rodara ainda dez jardas, quando Jim voltou<br \/>\npara tr\u00e1s, a correr.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, patr\u00e3o! &#8211; exclamou. &#8211; N\u00e3o me quis ir de todo sem<br \/>\nlhe dizer adeus, porque me parece que o patr\u00e3o tem raz\u00e3o, e<br \/>\nque nunca mais c\u00e1 voltamos! &#8211; Ouve c\u00e1, Jim, teu amo vai com<br \/>\nefeito \u00e0s serras de Suliman, ou tudo isso \u00e9 patranha? O bechuana<br \/>\njurou que n\u00e3o contava patranhas. O amo ia realmente em demanda das<br \/>\nserras e das minas que estavam para al\u00e9m. Ainda na v\u00e9spera o<br \/>\namo dissera que, para tentar fortuna na \u00c1frica, tanto montava ir em<br \/>\ncata de diamantes, como de ouro ou de ferro. Tudo dependia da sorte, porque<br \/>\nno torr\u00e3o tudo havia. Assim ele ia aos diamantes, que era o mais r\u00e1pido<br \/>\npara enriquecer &#8211; ou para morrer.<\/p>\n<p>Refleti um momento.<\/p>\n<p>&#8211; Escuta, Jim. Vou escrever umas palavras a teu amo. Mas h\u00e1s de prometer<br \/>\nque n\u00e3o lhas entregas sen\u00e3o em chegando a Iniati! Iniati ficava<br \/>\nda\u00ed a umas quarentas l\u00e9guas. O bechuana prometeu.<\/p>\n<p>Rasguei um bocado de papel da carteira, escrevi a l\u00e1pis estas linhas:<br \/>\n\u201cQuem vier&#8230; trepe pelas neves que cobrem o Seio de Sab\u00e1, o<br \/>\nesquerdo, at\u00e9 chegar ao cimo, de onde ver\u00e1 logo, para o lado<br \/>\nnorte, a grande cal\u00e7ada feita por Salom\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Ora, agora, Jim, quando deres este papel a teu amo, dize-lhe que<br \/>\nlho manda quem sabe, e que siga bem a indica\u00e7\u00e3o! Mas ouviste?<br \/>\nS\u00f3 lho d\u00e1s quando chegares a Iniati; que eu n\u00e3o quero<br \/>\nque ele me volte para tr\u00e1s e me venha fazer perguntas! Entendeste?<br \/>\nEnt\u00e3o abala, madra\u00e7o, que o carr\u00e3o come caminho! Jim<br \/>\nagarrou o bilhete e largou a correr. Da\u00ed a pouco o carr\u00e3o sumiu-se<br \/>\npor tr\u00e1s das colinas. E isto, em verdade, era tudo o que eu sabia a<br \/>\nrespeito desse sujeito Neville.<\/p>\n<p>Mal eu acabara, o bar\u00e3o, sem hesitar, e com perfeita simplicidade,<br \/>\ndisse: &#8211; Senhor Quartelmar, vim \u00e0 \u00c1frica procurar meu irm\u00e3o.<br \/>\nDesde que algu\u00e9m o viu, pondo-se em marcha para as serras de Suliman,<br \/>\no que devo a mim mesmo \u00e9 marchar tamb\u00e9m para esse lado. Pode<br \/>\nser que o encontre; ou que venha a saber que morreu; ou que volte sem nada<br \/>\nsaber, na antiga incerteza; ou que n\u00e3o volte, como o velho fidalgo.<br \/>\nEm todo o caso o meu dever, desde que me impus esta tarefa, \u00e9 tomar<br \/>\no caminho que meu irm\u00e3o tomou. E agora pergunto eu: quer o Senhor Quartelmar<br \/>\nvir comigo? Tamb\u00e9m n\u00e3o hesitei. Foi logo, de golpe: &#8211; Muit\u00edssimo<br \/>\nobrigado, senhor bar\u00e3o! Se tent\u00e1ssemos atravessar as cordilheiras<br \/>\nde Suliman, fic\u00e1vamos l\u00e1 como os dois Silveiras. Eis a minha<br \/>\nc\u00e2ndida convic\u00e7\u00e3o. Ora h\u00e1 em Londres um pobre rapaz<br \/>\nque anda nos seus estudos, que \u00e9 meu filho, e que me n\u00e3o tem<br \/>\nsen\u00e3o a mim neste mundo. E por ele, se n\u00e3o j\u00e1 por mim,<br \/>\nn\u00e3o me conv\u00e9m por ora morrer. Em todo o caso agrade\u00e7o<br \/>\na sua lembran\u00e7a. \u00c9 de amigo! O bar\u00e3o voltou-se para o<br \/>\nseu companheiro, com um ar profundamente desconsolado, e que quase comovia<br \/>\nnaquele homem t\u00e3o robusto e t\u00e3o nobre. O outro murmurou: &#8211; \u201c\u00c9<br \/>\npena, grande pena!\u201d &#8211; Senhor Quartelmar! &#8211; exclamou ent\u00e3o o bar\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Quando me meto numa empresa, tudo sacrifico para a levar a cabo. Eu tenho<br \/>\nfortuna, uma grande fortuna, e necessito do seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p>O Senhor Quartelmar pode, portanto, pedir-me o que quiser pelos seus servi\u00e7os,<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o digo dentro do razo\u00e1vel, mas dentro do poss\u00edvel.<br \/>\nAl\u00e9m disso, apenas chegarmos a Durban, vamos a um tabeli\u00e3o,<br \/>\ne eu obrigo-me, por uma escritura, a continuar a educa\u00e7\u00e3o de<br \/>\nseu filho, no caso de lhe acontecer a si um desastre, ou a deixar-lhe uma<br \/>\nindepend\u00eancia, no caso de eu estourar tamb\u00e9m. V\u00ea que estou<br \/>\npronto a tudo. Ainda mais. Se, por acaso, descobr\u00edssemos os diamantes,<br \/>\nmetade deles ficariam pertencendo ao Senhor Quartelmar, outra metade ao Capit\u00e3o<br \/>\nJohn. \u00c9 verdade que nenhum de n\u00f3s acredita nos diamantes, e,<br \/>\nportanto, esta vantagem conta como zero. Mas podemos aplicar a mesma regra<br \/>\na ouro ou marfim, qualquer fazenda que encontrarmos. Finalmente, escuso de<br \/>\ndizer que todas as despesas da expedi\u00e7\u00e3o correm por minha conta.<br \/>\nCreio que n\u00e3o posso fazer mais.<\/p>\n<p>Eu olhava para ele, deslumbrado: &#8211; Bar\u00e3o, essa proposta \u00e9<br \/>\na mais generosa que tenho recebido na minha vida! Mas tamb\u00e9m, que diabo,<br \/>\na empresa seria a mais arriscada em que me tenho metido&#8230; Preciso pensar.<br \/>\nE antes de chegar a Durban eu lhe darei a resposta. Por hoje ficamos aqui.<\/p>\n<p>&#8211; Ficamos aqui por hoje! &#8211; acudiu o capit\u00e3o, erguendo-se, e respirando<br \/>\ncom alivio.<\/p>\n<p>Com efeito era tarde. Dei as boas noites aos dois cavalheiros; e no meu<br \/>\nbeliche, at\u00e9 a madrugada, sonhei com o antigo D. Jos\u00e9 da Silveira,<br \/>\ncom El-Rei Salom\u00e3o, e com mont\u00f5es de pedras que reluziam no<br \/>\nfundo de uma caverna.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III &#8211; O Homem Chamado Umbopa<\/h2>\n<p>Durante o resto da jornada, pensei constantemente na proposta do bar\u00e3o.<br \/>\nMas nem eu nem ele voltamos a falar de Neville ou da travessia para as minas.<br \/>\nNa tolda e no beliche as nossas conversas rolavam todas sobre ca\u00e7a,<br \/>\nsobre aventuras de ca\u00e7a na \u00c1frica. Os dois, homens de grande<br \/>\nsport, n\u00e3o se fartavam de escutar. E eu, velho palrador, cheio de mem\u00f3rias<br \/>\ne j\u00e1 aned\u00f3tico, n\u00e3o me fartava de contar.<\/p>\n<p>Finalmente, numa espl\u00eandida tarde de janeiro (que \u00e9 aqui o<br \/>\nm\u00eas mais quente do ano) avistamos a costa de Natal &#8211; com a esperan\u00e7a<br \/>\nde dobrar a ponta de Durban ao sol posto. Toda esta costa \u00e9 ador\u00e1vel,<br \/>\ncom as suas longas dunas avermelhadas, os ricos tapetes de verdura clara,<br \/>\nas alegres arrogas dos cafres espalhadas aqui e al\u00e9m, e a orla espumosa<br \/>\ne alva do mar que rebenta nas rochas. Mas, justamente perto de Durban, a regi\u00e3o<br \/>\ntoma incompar\u00e1vel riqueza de tons. Nas ravinas, cavadas pelas enxurradas<br \/>\nde s\u00e9culos, fa\u00edscam riachos inumer\u00e1veis; o verde do mato<br \/>\n\u00e9 mais intenso; os outros verdes de jardins entremeiam-se com as planta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde a\u00e7\u00facar; e a espa\u00e7os uma casa muito branca, sorrindo<br \/>\npara a azul placidez do mar, p\u00f5e uma linda nota, humana e dom\u00e9stica,<br \/>\nna vastid\u00e3o da paisagem.<\/p>\n<p>Como disse, cont\u00e1vamos dobrar, antes do sol posto, a ponta de Durban.<br \/>\nMas quando deitamos \u00e2ncora j\u00e1 era crep\u00fasculo cerrado,<br \/>\ntarde demais para entrar a barra. T\u00ednhamos ainda essa noite a bordo;<br \/>\ne descemos ao sal\u00e3o, para um jantar quieto em \u00e1guas serenas,<br \/>\ndepois de ver o salva-vidas remar para terra com as malas do correio.<\/p>\n<p>Quando voltamos \u00e0 tolda, a lua ia alta, e t\u00e3o brilhante sobre<br \/>\nmar e praia, que quase ofuscava os lampejos largos do farol. De terra vinham,<br \/>\natrav\u00e9s do ar calmo, aqueles picantes e doces aromas de especiarias,<br \/>\nque, n\u00e3o sei por que, me fazem sempre lembrar hinos de igreja e mission\u00e1rios.<br \/>\nO bairro de Bereia parecia em festa,<br \/>\n<!-- - 14 --><br \/>\ncom todas as varandas alumiadas. Num grande brigue, ancorado ao lado, os marinheiros<br \/>\nestavam cantando, ao som do banjo. Era uma noite de encanto, como s\u00f3<br \/>\nas h\u00e1 neste aben\u00e7oado sul da \u00c1frica, que lan\u00e7ava<br \/>\nsobre a alma uma infinita paz, infinita e suave como a luz que derramava a<br \/>\nlua cheia. At\u00e9 o bull-dog de um passageiro irland\u00eas, que n\u00e3o<br \/>\ncessara de rosnar ferozmente durante toda a jornada, cedera enfim \u00e0s<br \/>\npacificadoras influ\u00eancias do sul, e dormia, estirado no conv\u00e9s,<br \/>\ncom um ar de tr\u00e9gua e de perd\u00e3o aos homens.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o, o Capit\u00e3o John e eu, est\u00e1vamos sentados junto<br \/>\n\u00e0 roda do leme, olhando e fumando em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Senhor Quartelmar? &#8211; exclamou de repente o bar\u00e3o,<br \/>\nsorrindo. &#8211; Aqui estamos em Durban&#8230; Pensou nas nossas propostas? &#8211; Vamos<br \/>\nou n\u00e3o vamos de companhia \u00e0 busca do Senhor Neville? &#8211; ecoou<br \/>\ndo lado o amigo John.<\/p>\n<p>N\u00e3o tugi. Mas ergui-me, e fui, devagar, sacudir para fora da amurada<br \/>\na cinza do meu cachimbo. A verdade \u00e9 que, depois de muito matutar,<br \/>\neu ainda n\u00e3o tomara uma resolu\u00e7\u00e3o, &#8211; ou antes a minha<br \/>\nresolu\u00e7\u00e3o permanecia vaga, informe, mal assente, necessitando<br \/>\num pequeno impulso exterior que a definisse e a fixasse. E foi justamente<br \/>\naquela exclama\u00e7\u00e3o risonha dos dois, o movimento de me erguer<br \/>\ne de me abeirar da amurada, que tudo fixou e definiu no meu \u00e2nimo. Ainda<br \/>\na cinza n\u00e3o ca\u00edra na \u00e1gua e j\u00e1 eu estava resolvido<br \/>\na partir.<\/p>\n<p>&#8211; Pensei e vou! &#8211; declarei, voltando a sentar-me. &#8211; E se os cavalheiros<br \/>\nme d\u00e3o licen\u00e7a, direi as raz\u00f5es por que, e as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom qu\u00ea.<\/p>\n<p>Expus logo as condi\u00e7\u00f5es, muito claramente: O bar\u00e3o,<br \/>\nem primeiro lugar, corria com todas as despesas; e qualquer achado de valor,<br \/>\ndiamantes, ouro ou marfim, feito durante a expedi\u00e7\u00e3o, seria<br \/>\nirm\u00e3mente dividido entre mim e o Capit\u00e3o John. Em segundo lugar,<br \/>\no bar\u00e3o pagar-me-ia em dinheiro de contado, antes de partirmos, quinhentas<br \/>\nlibras, comprometendo-me eu a acompanh\u00e1-lo e fielmente servi-lo at\u00e9<br \/>\nque a jornada terminasse ou por um triunfo, ou por um desastre, ou simplesmente<br \/>\npor se reconhecer a sua inutilidade. Em terceiro lugar, o bar\u00e3o obrigar-se-ia,<br \/>\npor uma escritura, a dar anualmente a meu filho, em quanto durassem os seus<br \/>\nestudos, uma pens\u00e3o de duzentas libras, no caso de eu morrer ou ficar<br \/>\ninutilizado&#8230;<\/p>\n<p>Ainda eu n\u00e3o findara, j\u00e1 o bar\u00e3o aceitara tudo, largamente,<br \/>\nalegremente! \u201cO que eu quero, seja por que pre\u00e7o for (dizia ele),<br \/>\n\u00e9 a sua companhia, Senhor Quartelmar, \u00e9 o socorro da sua experi\u00eancia!\u201d<br \/>\n&#8211; Muito bem. Pois agora, depois de dizer as condi\u00e7\u00f5es em que<br \/>\nvou, quero dizer as raz\u00f5es por que vou. \u00c9 porque se n\u00f3s<br \/>\ntentarmos atravessar as serras de Suliman, n\u00e3o voltamos de l\u00e1<br \/>\nvivos! O que sucedeu ao velho Silveira, ao que tinha Dom, h\u00e1 trezentos<br \/>\nanos; o que sucedeu ao outro, ao que n\u00e3o tinha Dom, aqui h\u00e1<br \/>\nvinte; o que sucedeu naturalmente ao Senhor Neville, \u00e9 o que nos vai<br \/>\nsuceder a n\u00f3s! N\u00e3o sa\u00edmos de l\u00e1 vivos. Olhei atentamente<br \/>\npara os dois homens. O amigo John arrepiou um bocado a face. O bar\u00e3o<br \/>\nficou impass\u00edvel, murmurando apenas: &#8211; \u201cCorremos-lhe o risco!\u201d<br \/>\nEu prossegui: &#8211; Agora dir\u00e3o os cavalheiros: \u201cSe julgas que n\u00e3o<br \/>\nsais de l\u00e1 vivo, para que vais l\u00e1?\u201d Em primeiro lugar,<br \/>\nporque sou fatalista. Se Deus j\u00e1 decidiu que eu hei de morrer<br \/>\n<!-- - 15 --><br \/>\nnas montanhas de Suliman, nas montanhas de Suliman hei de morrer ainda que<br \/>\nl\u00e1 n\u00e3o v\u00e1. E se Deus decidiu j\u00e1 o contr\u00e1rio,<br \/>\nposso l\u00e1 ir impunemente e de cara alegre. Isto \u00e9 claro. Em segundo<br \/>\nlugar, estou velho, e j\u00e1 vivi tr\u00eas vezes mais do que costuma<br \/>\nviver na \u00c1frica um ca\u00e7ador de elefantes. De sorte que, continuando<br \/>\nnesta carreira, e, desgra\u00e7adamente, n\u00e3o tenho outra, que posso<br \/>\neu durar ainda? Uns anos. Ora se morresse agora, com as d\u00edvidas que<br \/>\nme pesam em cima, o meu pobre rapaz ficava numa situa\u00e7\u00e3o m\u00e1,<br \/>\ncoitado dele! Em quanto que assim, com quinhentas libras soantes, saldo as<br \/>\nd\u00edvidas; e se estourar, o meu rapaz tem diante de si duzentas libras<br \/>\npor ano para acabar o curso e para se estabelecer. Ora aqui t\u00eam os cavalheiros<br \/>\na cousa em duas palavras.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o ergueu-se, excelente homem! E apertou-me as m\u00e3os com<br \/>\nefus\u00e3o. &#8211; Essas raz\u00f5es, a \u00faltima sobretudo, fazem-lhe<br \/>\nimensa honra, Senhor Quartelmar. Imensa honra! Em quanto a sairmos vivos ou<br \/>\nn\u00e3o da aventura, o tempo dir\u00e1. Eu, por mim, estou decidido a<br \/>\nir at\u00e9 ao cabo, seja qual for, triunfo ou morte! Em todo o caso, se<br \/>\ntemos assim de morrer t\u00e3o cedo, n\u00e3o me parecia mau que antes<br \/>\ndisso, pelo caminho, arranj\u00e1ssemos uma batida aos elefantes. Sempre<br \/>\ndesejei ca\u00e7ar o elefante, e com a perspectiva de deixar assim os ossos<br \/>\nnas serras de Suliman, \u00e9 prudente que me apresse&#8230; N\u00e3o \u00e9<br \/>\nverdade, John? &#8211; Com certeza!&#8230; De resto, todos n\u00f3s vimos j\u00e1<br \/>\nmuitas vezes a morte diante dos olhos. \u00c9 um detalhe; para que se h\u00e1<br \/>\nde insistir nele? Viemos \u00e0 \u00c1frica com certo fim. H\u00e1 perigos?<br \/>\nAcabou-se. Deus \u00e9 grande.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 tudo, portanto, decidido &#8211; conclu\u00ed eu &#8211; e parece-me<br \/>\nque chegou a ocasi\u00e3o de um grogue.<\/p>\n<p>Fomos ao grogue.<\/p>\n<p>No dia seguinte desembarcamos. Alojei os meus amigos numa \u201cbarraca\u201d<br \/>\nque possuo na Bereia, e a que chamo, em dias de orgulho, \u201ca minha casa\u201d.<br \/>\n\u00c9 constru\u00edda de tijolo, com um telhado de zinco que abriga tr\u00eas<br \/>\nquartos e uma cozinha. Em redor, por\u00e9m, est\u00e1 plantado um bom<br \/>\njardim, com espl\u00eandidas \u00e1rvores e flores, que um dos meus ca\u00e7adores,<br \/>\nchamado Jack, traz lindamente tratadas. \u00c9 um pobre homem a quem um<br \/>\nb\u00fafalo esmigalhou a perna na terra dos sicucunes. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\npode seguir a ca\u00e7a; mas, na sua qualidade de Griqua, jardina bem &#8211;<br \/>\ncousa que um zulu nunca faria decentemente. O zulu tem horror \u00e0s artes<br \/>\nda paz.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o e o seu amigo dormiram numa tenda que lhes armei no jardim<br \/>\n(dentro de casa n\u00e3o havia espa\u00e7o), no meio do laranjal. Aqui,<br \/>\nem Durban, as laranjeiras t\u00eam ao mesmo tempo a flor e o fruto; de sorte<br \/>\nque, com o perfume todo em torno, e o\u2019 brilho das laranjas cor de ouro,<br \/>\ne o murm\u00fario de \u00e1guas correntes, o s\u00edtio era apraz\u00edvel<br \/>\ne grato. H\u00e1 pior na Europa. Logo no dia seguinte, sem mais tardan\u00e7a,<br \/>\ncome\u00e7amos os preparativos. Antes de tudo fomos ao tabeli\u00e3o lavrar<br \/>\na escritura, em que o bar\u00e3o se obrigava a pensionar o meu rapaz; houve<br \/>\ndificuldade, por jazerem em Inglaterra as propriedades do bar\u00e3o: mas<br \/>\narranjou-se uma \u201ctangente\u201d, e, segura, gra\u00e7as \u00e0s<br \/>\nartes de um advogado que, pelos seus servi\u00e7os, apresentou a conta infame<br \/>\nde vinte libras! Depois recebi o meu cheque de quinhentas libras. Satisfeita<br \/>\nassim a prud\u00eancia, passamos a comprar o carr\u00e3o e as juntas de<br \/>\nbois. Descobrimos um carr\u00e3o excelente, com eixo de ferro, s\u00f3lido<br \/>\ne leve, que j\u00e1 fizera uma excurs\u00e3o a Louren\u00e7o Marques<br \/>\n&#8211; o<br \/>\n<!-- - 16 --><br \/>\nque garantia a firmeza e resist\u00eancia das madeiras. Era um carr\u00e3o<br \/>\ndos que chamamos de meia-tenda &#8211; isto \u00e9, toldado somente at\u00e9<br \/>\nao meio, e aberto em frente para as bagagens. Sob o toldo tinha almofad\u00f5es<br \/>\nonde podiam dormir bem duas pessoas; al\u00e9m disso suspens\u00f5es para<br \/>\nas espingardas e bolsos de guardar roupa. Custou-nos cento e vinte e cinco<br \/>\nlibras, e saiu barato. As juntas de bois eram dez, magn\u00edficas. Ordinariamente<br \/>\npara uma jornada atrelam-se oito juntas; mas para uma aventura destas, vinte<br \/>\nbois n\u00e3o v\u00e3o demais. Todos eram de ra\u00e7a zulu; a mais<br \/>\npequena da \u00c1frica, mas a melhor; e todos eles salgados. Chamamos aqui<br \/>\nsalgados aos bois j\u00e1 muito jornadeados pelo sul da \u00c1frica, e<br \/>\n\u00e0 prova, portanto, da \u201c\u00e1gua vermelha\u201d &#8211; que destr\u00f3i<br \/>\n\u00e0s vezes todas as juntas de um carr\u00e3o. Al\u00e9m disso, todos<br \/>\ntinham sido vacinados contra a maleita de pulm\u00f5es, forma horr\u00edvel<br \/>\nde pneumonia, que \u00e9 nestas terras um flagelo para o gado.<\/p>\n<p>Em seguida organizamos provis\u00f5es e rem\u00e9dios. Este detalhe<br \/>\ndemandava ci\u00eancia e cuidado, porque convinha, numa empresa t\u00e3o<br \/>\nacidentada, que nem faltasse o necess\u00e1rio, nem o carr\u00e3o partisse<br \/>\nabarrotado e carregado em demasia. Para os rem\u00e9dios foi-nos de grande<br \/>\nutilidade o Capit\u00e3o John, que em tempos estudara para m\u00e9dico<br \/>\nda Armada, e que (al\u00e9m de possuir, muito a prop\u00f3sito para n\u00f3s,<br \/>\num estojo de cirurgia e uma farm\u00e1cia de viagem), conservara conhecimentos<br \/>\ngen\u00e9ricos e uma toler\u00e1vel pr\u00e1tica. Durante a nossa estada<br \/>\nem Durban cortou ele o dedo polegar a um cafre com uma maestria &#8211; que fazia<br \/>\napetite ver! O que o perturbou foi o cafre (que observara a opera\u00e7\u00e3o<br \/>\nem perfeita impassibilidade) pedir-lhe depois para lhe p\u00f4r outro dedo<br \/>\nnovo.<\/p>\n<p>Restava, enfim, a importante quest\u00e3o de criados e armas. Armas t\u00ednhamos<br \/>\npor onde as escolher &#8211; entre as que eu possu\u00eda e a cole\u00e7\u00e3o<br \/>\nespl\u00eandida que o bar\u00e3o trouxera de Inglaterra. Sete espingardas<br \/>\nde dois canos para diferentes ca\u00e7as, tr\u00eas carabinas Winchester,<br \/>\ntr\u00eas rev\u00f3lveres Colts \u2013 assim ficou constitu\u00eddo<br \/>\no nosso armamento. Em quanto a criados, depois de muita consulta e reflex\u00e3o,<br \/>\ndecidimos limitar o n\u00famero a cinco &#8211; um guia, um boieiro, e tr\u00eas<br \/>\nservi\u00e7ais. Boieiro e guia achamos n\u00f3s facilmente em dois zulus,<br \/>\nque se chamavam &#8211; um G\u00f4za e outro Tom. Mas os servi\u00e7ais eram<br \/>\nde mais dif\u00edcil e delicada escolha. Da paci\u00eancia, da fidelidade,<br \/>\nda coragem dos servi\u00e7ais poderiam muitas vezes depender as nossas pobres<br \/>\nvidas nesta aventura igual.<\/p>\n<p>Finalmente, arranjei dois: um hotentote* chamado Venvogel, e um rapazito<br \/>\nzulu, de nome Quiva, que tinha o m\u00e9rito (consider\u00e1vel para os<br \/>\nmeus companheiros) de falar ingl\u00eas com flu\u00eancia. O hotentote j\u00e1<br \/>\neu conhecia. Era um dos melhores \u201cfarejadores de ca\u00e7a\u201d<br \/>\nde toda a \u00c1frica. Ningu\u00e9m mais rijo nem mais resistente. O seu<br \/>\ndefeito s\u00e9rio consistia na bebida. Mas como \u00edamos para regi\u00e3o<br \/>\nonde n\u00e3o h\u00e1 \u201c\u00e1guas ardentes\u201d nem quase \u00e1guas<br \/>\ncorrentes, pouco importava esta fragilidade do digno Venvogel.<\/p>\n<p>(*) Hotentote = de ou pertencente ou relativo a Hotent\u00f3tia, sul da<br \/>\n\u00c1frica; de l\u00edngua e pronuncia confusa. (A.H.S.) T\u00ednhamos,<br \/>\npois, dois servi\u00e7ais. O terceiro parecia imposs\u00edvel descortinar.<br \/>\nTentei, tentei &#8211; at\u00e9 que resolvemos partir sem ele, esperando encontrar,<br \/>\nantes de metermos para o deserto, algum homem aproveit\u00e1vel entre Iniati<br \/>\ne Zucanga. Na v\u00e9spera, por\u00e9m, da nossa partida est\u00e1vamos<br \/>\njantando, quando Quiva, o rapaz zulu,<br \/>\n<!-- - 17 --><br \/>\nveio anunciar que um homem se viera sentar no meu portal, \u00e0 minha espera.<br \/>\nMandei entrar. Apareceu um rapag\u00e3o muito esbelto, robusto, magn\u00edfico,<br \/>\naparentando trinta anos, e claro de mais para zulu. Floreou no ar o cajado<br \/>\n\u00e0 maneira de sauda\u00e7\u00e3o, encruzou-se sobre o soalho, a<br \/>\num canto, e ficou calado com singular dignidade. N\u00e3o lhe dei aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAssim se deve proceder com os zulus. Se o branco lhes fala com prontid\u00e3o<br \/>\ne agrado, o zulu conclui imediatamente que est\u00e1 tratando com pessoa<br \/>\nde pouco comando. Observei, no entanto, que este homem era um hesita um homem-de-anel<br \/>\n&#8211; isto \u00e9, que trazia na cabe\u00e7a aquela esp\u00e9cie de rodilha,<br \/>\nfeita de goma, e toda lustrosa de sebo, que eles entremeiam na grenha e usam,<br \/>\nquando chegam a uma idade de respeito, ou atingem nas suas aringas uma posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuperior. Tamb\u00e9m me pareceu reconhecer aquela cara &#8211; realmente bela.<\/p>\n<p>&#8211; Bem &#8211; disse por fim &#8211; como te chamas? &#8211; Umbopa &#8211; respondeu o homem numa<br \/>\nvoz lenta e grave.<\/p>\n<p>&#8211; Estou a pensar que j\u00e1 te vi algures.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1, Macumaz\u00e3! Macumaz\u00e3 \u00e9 o meu nome cafre<br \/>\n&#8211; e significa aquele que se levanta pelo meio da noite para vigiar; ou antes,<br \/>\naquele que conserva sempre os olhos bem abertos.<\/p>\n<p>&#8211; Macumaz\u00e3 &#8211; continuou o zulu &#8211; viu-me em Izand-luana, na v\u00e9spera<br \/>\nda batalha&#8230;<\/p>\n<p>Lembrei-me ent\u00e3o completamente. Eu fui um dos guias de Lorde Chelmsford,<br \/>\nna desgra\u00e7ada guerra com os zulus. Por acaso, na v\u00e9spera da<br \/>\nBatalha de Izand-luana, que consumou o desastre das tropas inglesas, fui mandado<br \/>\nlevar para fora do acampamento uns poucos de carr\u00f5es de bagagens. Quando<br \/>\nse estava atrelando o gado, este homem (que comandava um tro\u00e7o de cafres,<br \/>\ndos ind\u00edgenas auxiliares) veio para mim, dizendo que o acampamento<br \/>\nn\u00e3o estava seguro, que era certa uma surpresa, e que o vento trazia<br \/>\ncheiro de inimigo. Respondi-lhe que \u201cdobrasse a l\u00edngua\u201d,<br \/>\ne deixasse a seguran\u00e7a do acampamento a melhores cabe\u00e7as que<br \/>\na dele. Pois grande raz\u00e3o tinha o zulu! Logo nessa noite o acampamento<br \/>\nfoi terrivelmente assaltado&#8230;<\/p>\n<p>Tudo isso, por\u00e9m, vem na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211; Que queres tu? &#8211; perguntei. &#8211; Lembro-me perfeitamente de ti.<\/p>\n<p>Dize o que queres.<\/p>\n<p>&#8211; Quero isto. Correu aqui voz que Macumaz\u00e3 vai para o norte, numa<br \/>\ngrande expedi\u00e7\u00e3o, com os chefes brancos que vieram de al\u00e9m-mar.<br \/>\n\u00c9 verdadeira a voz? &#8211; Verdadeira.<\/p>\n<p>&#8211; Correu aqui tamb\u00e9m voz que Macumaz\u00e3 e os chefes iam para<br \/>\no lado do Rio Lucanga, que fica a um bom quarto de lua de jornada do distrito<br \/>\nde Manica. \u00c9 verdade? Franzi o sobrolho, descontente de ver assim t\u00e3o<br \/>\nconhecido o roteiro da nossa expedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Para que queres tu saber? Que tens com isso? &#8211; Tenho isto, oh brancos!<br \/>\nQue se ides assim para t\u00e3o longe, eu quereria ir convosco.<\/p>\n<p>Havia uma altivez nas maneiras deste homem, e especialmente no seu emprego<br \/>\nda express\u00e3o \u201coh brancos\u201d em lugar de \u201coh inkosis\u201d<br \/>\n(chefes), que me surpreendeu grandemente.<\/p>\n<p><!-- - 18 --><br \/>\n&#8211; Est\u00e1s esquecendo a quem falas! &#8211; repliquei. \u2013 As palavras saem-te<br \/>\ndemasiadas e imprudentes. Como \u00e9 o teu nome? Onde \u00e9 a tua aringa?<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio saber quem temos diante de n\u00f3s! &#8211; O meu<br \/>\nnome \u00e9 Umbopa. Sou da ra\u00e7a dos zulus, mas n\u00e3o sou zulu.<br \/>\nO s\u00edtio da minha tribo \u00e9 muito longe, para o norte; os meus<br \/>\nficaram l\u00e1 quando os zulus desceram para aqui, h\u00e1 muito, h\u00e1<br \/>\nmais de mil anos, antes de Chaca ser rei. N\u00e3o tenho, aringa. Muitos<br \/>\nanos v\u00e3o que ando errante. Quando vim do norte era crian\u00e7a.<br \/>\nDepois fui dos homens de Cetevaio no regimento de Nomabacosi. Por fim fugi<br \/>\ndos zulus e vim para o Natal para ver as artes dos brancos. Foi ent\u00e3o<br \/>\nque servi na guerra contra Cetevaio, e que te encontrei, Macumaz\u00e3!<br \/>\nAgora tenho trabalho no Natal. Mas estou farto, quero ir para o norte. O meu<br \/>\nlugar n\u00e3o \u00e9 aqui. N\u00e3o pe\u00e7o soldada, mas sou valente,<br \/>\ne valho bem o p\u00e3o que comer. Eis as palavras que tinha a dizer.<\/p>\n<p>Este homem e a sua grande maneira de falar &#8211; intrigavam-me singularmente.<br \/>\nEra certo para mim que s\u00f3 dir\u00e1 a verdade; mas na cor, nos modos,<br \/>\ndiferia muito o zulu ordin\u00e1rio; e a sua oferta de vir conosco sem soldada,<br \/>\nextraordin\u00e1ria num africano, enchia-me de desconfian\u00e7a. Na d\u00favida,<br \/>\ntraduzi as estranhas falas aos meus amigos, solicitei-lhes conselho. O bar\u00e3o<br \/>\npediu-me que mandasse p\u00f4r o homem de p\u00e9. Umbopa ergueu-se, deixando<br \/>\nescorregar ao mesmo tempo o vasto casac\u00e3o militar que o envolvia, e<br \/>\nficou diante de n\u00f3s, mudo, erecto, soberbo, todo nu, com um simples<br \/>\npeda\u00e7o de pano em torno dos rins e um fio de garras de le\u00e3o<br \/>\nenrolado ao pesco\u00e7o. Era, realmente, um espl\u00eandido homem! Tinha<br \/>\nmais de dois metros de altura, e largo em propor\u00e7\u00e3o, \u00e1gil<br \/>\nadmir\u00e1vel de formas. Na luz da sala em que est\u00e1vamos, a pele<br \/>\nparecia apenas muito trigueira, como a de um \u00e1rabe.<\/p>\n<p>Aqui e al\u00e9m, pelo corpo, conservava cicatrizes terr\u00edveis de<br \/>\nantigos golpes de azagaia.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o foi direito a ele, e cravou-lhe os olhos nos olhos, que se<br \/>\nn\u00e3o baixaram, e que rebrilharam: &#8211; Gosto de ti Umbopa &#8211; disse em ingl\u00eas<br \/>\n&#8211; e tomo-te ao meu servi\u00e7o. Umbopa evidentemente compreendeu, porque<br \/>\nmurmurou em zulu: &#8211; Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>&#8211; Depois, atirando um olhar para a grande estatura e for\u00e7a do branco,<br \/>\nacrescentou: &#8211; Somos dois homens, tu e eu!<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV &#8211; Os Elefantes<\/h2>\n<p>Sa\u00edmos de Durban no fim de janeiro, e andadas quase as trezentas l\u00e9guas<br \/>\nque v\u00e3o daqui ao s\u00edtio em que se juntam os rios Lucanga e Calucue,<br \/>\nchegamos, pelos meados de maio, a Iniati, n\u00e3o longe da aringa de Sitanda,<br \/>\nonde acampamos.<\/p>\n<p>Durante a jornada tivemos aventuras v\u00e1rias, mas daquelas que s\u00e3o<br \/>\nusuais em todas as travessias da \u00c1frica e j\u00e1 muito contadas<br \/>\nnos livros. Em Iniati, \u00faltima esta\u00e7\u00e3o mercante da terra<br \/>\ndos matabeles, onde Lobengula (esse atroz velhaco!) \u00e9 rei, separamo-nos,<br \/>\ncom fundas saudades, do nosso confort\u00e1vel carr\u00e3o. Dos vinte<br \/>\nbois que troux\u00e9ramos de Durban, s\u00f3 doze restavam. Um morrera<br \/>\nda mordedura da cobra, tr\u00eas<br \/>\n<!-- - 19 --><br \/>\nda falta de \u00e1gua; um perdeu-se; os outros tr\u00eas comeram uma erva<br \/>\nvenenosa, chamada tulipa. Os restantes deixamo-los com o vag\u00e3o ao cuidado<br \/>\nde G\u00f4za e de Tom (o boieiro e o guia), pedindo a um digno mission\u00e1rio<br \/>\nescoc\u00eas que habita aquele desterro, que caridosamente nos vigiasse o<br \/>\ncarr\u00e3o, o gado e os homens. E no dia seguinte, acompanhados por Umbopa,<br \/>\nQuiva, Venvogel, e meia d\u00fazia de carregadores que arranjamos em Iniati,<br \/>\nlargamos para o deserto, a p\u00e9, em seguimento da nossa temer\u00e1ria<br \/>\naventura.<\/p>\n<p>Era de madrugada; e lembrei-me que no momento de nos pormos em marcha est\u00e1vamos<br \/>\ntodos tr\u00eas bem comovidos! Cada um perguntava a si mesmo, decerto, se<br \/>\njamais tornaria a ver o carr\u00e3o, os bois e o mission\u00e1rio. Eu,<br \/>\npor mim, levava a certeza que n\u00e3o. Os primeiros passos foram lentos,<br \/>\ndados em grave sil\u00eancio. Mas, de repente, Umbopa, que marchava na frente,<br \/>\nrompeu num grande canto &#8211; uma can\u00e7\u00e3o zulu, dizendo de uns homens<br \/>\nque, cansados da vida e da monotonia das cousas, se tinham metido ao deserto,<br \/>\npara achar ocupa\u00e7\u00e3o ou morrer, e que, para al\u00e9m dos sert\u00f5es,<br \/>\nsubitamente, encontravam um para\u00edso cheio de raparigas mo\u00e7as,<br \/>\nde gado, de ca\u00e7a, e de inimigos para matar! Esta can\u00e7\u00e3o<br \/>\npareceu-nos de boa promessa.<\/p>\n<p>A quinze dias de marcha de Iniati come\u00e7amos a atravessar uma regi\u00e3o<br \/>\narborizada e farta em \u00e1guas. As colinas estavam espessamente cobertas<br \/>\nde mato que os ind\u00edgenas chamam irado; e por toda a parte se estendiam<br \/>\nbosques de machabelas, \u00e1rvores que d\u00e3o um fruto amarelo, enorme,<br \/>\nquase todo caro\u00e7o, mas deliciosamente fresco e doce. As folhas e frutos<br \/>\ndestas \u00e1rvores s\u00e3o o alimento querido dos elefantes; e decerto<br \/>\nos imensos animais andavam perto, porque a cada passo top\u00e1vamos arbustos<br \/>\nquebrados e desarraigados. O elefante por onde vai comendo, vai assolando.<\/p>\n<p>Uma tarde, depois de uma caminhada fatigante, chegamos a um s\u00edtio<br \/>\nparticularmente pitoresco e de am\u00e1vel repouso. Era junto de um outeiro<br \/>\ntodo vestido de arvoredo. Ao p\u00e9 serpeava o leito seco de um rio, conservando<br \/>\nainda aqui e al\u00e9m po\u00e7as de \u00e1gua cristalina e fria, espezinhadas<br \/>\nem redor pelas largas pegadas de feras. Em frente verdejava um belo parque<br \/>\nde mimosas, machabelas e outras \u00e1rvores ainda, raras e cheias de flor:<br \/>\ne em torno era o mato, o mato silencioso, denso, impenetr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Decidimos ficar ali e construir um scherm, a pouca dist\u00e2ncia de uma<br \/>\ndas po\u00e7as de \u00e1gua. O scherm \u00e9 uma esp\u00e9cie de acampamento<br \/>\nentrincheirado, que se faz cortando grande quantidade de mato espinhoso e<br \/>\narmando-o circularmente numa vasta e rude sebe que forma defesa. Todo o espa\u00e7o<br \/>\ninterior se aplaina como uma arena; ao centro amontoa-se erva seca, um capim<br \/>\nchamado tambouki, que serve de div\u00e3 e de cama; aqui e al\u00e9m,<br \/>\nem volta, acendem-se alegres fogueiras.<\/p>\n<p>Quando acabamos de arranjar o scherm &#8211; vinha nascendo a lua. O jantar estava<br \/>\npronto. Bem parco era ele, composto dos tutanos e lombos de uma girafa, que<br \/>\nnessa tarde, ao fim da sesta, fora morta pelo Capit\u00e3o John com um tiro<br \/>\nprovidencial. Mas depois de cora\u00e7\u00e3o de elefante (a mais fina<br \/>\ndelicia que se pode ter), tutano e lombo de girafa s\u00e3o os petiscos<br \/>\nsuperiores da \u00c1frica, e grandemente os saboreamos sob o esplendor da<br \/>\nlua cheia, que ia alta nos c\u00e9us. Depois acendemos os cachimbos, e conversamos<br \/>\nno vasto sil\u00eancio em roda do lume. Os meus companheiros n\u00e3o se<br \/>\nfartavam de contemplar aquela cena de sert\u00e3o, familiar para mim, com<br \/>\nos meus quarenta anos de \u00c1frica, mas que a eles s\u00f3 oferecia<br \/>\nestranhezas \u2013 at\u00e9 na maneira por que as claridades alumiam, at\u00e9<br \/>\nna maneira por que a noite \u00e9 silenciosa. Eu por mim,<br \/>\n<!-- - 20 --><br \/>\nconfesso, admirava sobretudo o nosso excelente Capit\u00e3o John. Ali estava<br \/>\nele, no interior da terra negra, em pleno deserto, estirado em cima de um<br \/>\nsaco de couro, &#8211; t\u00e3o apurado, t\u00e3o correto, t\u00e3o bem pregado,<br \/>\ncomo se viesse de passear num parque luxuoso de castelo ingl\u00eas, em dia<br \/>\nde ca\u00e7a ao fais\u00e3o. Tinha um fato completo de cheviote castanho,<br \/>\ncom chap\u00e9u da mesma fazenda, polainas irrepreens\u00edveis, luvas<br \/>\namarelas de pele de c\u00e3o, a face escanhoada, mon\u00f3culo no olho,<br \/>\nos dentes posti\u00e7os rebrilhando em gl\u00f3ria! Nunca o sert\u00e3o<br \/>\nafricano vira decerto um homem mais catita. At\u00e9 trazia colarinhos altos<br \/>\n(colarinhos de guta-percha), de que emalara na mochila uma escandalosa por\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; \u201cpor serem leves (dizia ele), f\u00e1ceis de lavar, e dar logo \u00e0<br \/>\ngente um ar de asseio e distin\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Pois assim estivemos muito tempo, sob o magn\u00edfico luar, conversando<br \/>\ne observando os cafres, que chupavam a doca nos seus longos cachimbos feitos<br \/>\nde cornos de \u00e9lan, e que, um por um, se iam enrolando nas mantas e<br \/>\nestirando \u00e0 beira do lume. S\u00f3 Umbopa por fim ficou acordado,<br \/>\nlonge dos cafres (a quem geralmente n\u00e3o admitia familiaridades), com<br \/>\no queixo encostado ao punho, os olhos perdidos na lua, numa daquelas abstra\u00e7\u00f5es<br \/>\nem que por vezes eu o surpreendera desde o come\u00e7o da nossa jornada.<\/p>\n<p>De repente, da profundidade do mato, por tr\u00e1s de n\u00f3s, subiu<br \/>\nno ar um longo e rouco rugido. \u201c\u00c9 um le\u00e3o!\u201d exclamei.<br \/>\nTodos nos erguemos, a escutar. Quase imediatamente, junto \u00e0 po\u00e7a<br \/>\nde \u00e1gua pura, vizinha do nosso scherm, ressoou, como em resposta, a<br \/>\nestridente tromba de um elefante. \u201cUncungunlovo! Uncungunlovo!\u201d,<br \/>\nElefante! Elefante! murmuraram \u00e0 uma os cafres, levantando as cabe\u00e7as<br \/>\ndas mantas; e momentos depois avistamos uma fila de enormes e escuras formas,<br \/>\nmovendo-se devagar da beira da \u00e1gua para o mato. O capit\u00e3o,<br \/>\ncom um salto, agarrara a espingarda. Tive de o segurar pelo bra\u00e7o:<br \/>\n&#8211; \u00c9 in\u00fatil, n\u00e3o se faz nada. Nada de barulho. Deix\u00e1-los<br \/>\nir.<\/p>\n<p>&#8211; Em todo o caso &#8211; disse o bar\u00e3o excitado &#8211; este s\u00edtio para<br \/>\num ca\u00e7ador \u00e9 um verdadeiro para\u00edso! Se aqui fic\u00e1ssemos<br \/>\num dia ou dois?&#8230;<\/p>\n<p>Estranhei; porque at\u00e9 a\u00ed o bar\u00e3o, impaciente, viera-nos<br \/>\nsempre apressando para diante &#8211; sobretudo desde que soubera em Iniati, pelo<br \/>\nmission\u00e1rio, que dois anos antes um ingl\u00eas, chamado Neville vendera<br \/>\nali o carr\u00e3o em que viera de Bamanguato e se internara no sert\u00e3o<br \/>\ncom um cafre por servi\u00e7al. Mas ouvira o le\u00e3o, ouvira o elefante<br \/>\n&#8211; e os seus instintos de ca\u00e7ador dominavam, irresistivelmente.<\/p>\n<p>&#8211; Pois muito bem, filhos meus &#8211; disse eu &#8211; uma vez que se quer um bocado<br \/>\nde divertimento, ter-se-\u00e1; mas amanh\u00e3. Por agora \u00e9 tratar<br \/>\nde dormir, e erguer com o primeiro luzir do dia, para apanhar esse rico gado<br \/>\nantes que ele v\u00e1 aos seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Toca pois a acomodar.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o John (extraordin\u00e1rio homem!) tirou o fato, sacudiu-o,<br \/>\nmeteu o mon\u00f3culo e os dentes posti\u00e7os dentro do bolso das cal\u00e7as,<br \/>\ndobrou tudo cuidadosamente, guardou tudo ao abrigo do orvalho debaixo do seu<br \/>\nmakintosh, alisou o cabelo, tomou um bochecho de \u00e1gua, e estirou-se<br \/>\nde lado para dormir com corre\u00e7\u00e3o e conforto. O bar\u00e3o<br \/>\ne eu, depois de contemplar, rindo, estes requintes, embrulhamo-nos simplesmente<br \/>\nnum cobertor; e da\u00ed a pouco envolvia-nos aquele sono profundo, absoluto,<br \/>\nsem sonhos, sem movimentos, que \u00e9 a recompensa e a consola\u00e7\u00e3o<br \/>\nde quem moureja por estas terras negras.<\/p>\n<p><!-- - 21 --><br \/>\nCom o primeiro alvor da madrugada est\u00e1vamos a p\u00e9, preparando<br \/>\npara a a\u00e7\u00e3o. Tomamos as carabinas, muni\u00e7\u00f5es abundantes,<br \/>\ncantis cheios de ch\u00e1 frio (que \u00e9 a melhor bebida, a \u00fanica,<br \/>\nquando se ca\u00e7a), e partimos, depois de engolir de p\u00e9 um almo\u00e7o<br \/>\nbreve, acompanhados de Umbopa, de Quiva e de Venvogel.<\/p>\n<p>N\u00e3o tivemos dificuldade em achar o carreiro aberto e pisado pelos<br \/>\nelefantes, que, segundo Venvogel declarou, deviam ser uns vinte ou trinta,<br \/>\na maior parte machos e todos crescidos. Mas o bando afastara-se durante a<br \/>\nnoite; e eram quase nove horas, j\u00e1 o calor ardia em c\u00e9u e terra,<br \/>\nquando pelos arbustos quebrados, pelas cascas e folhas de \u00e1rvores esmagadas,<br \/>\ne pelos montes de bosta fumegaste, percebemos que os bichos andavam cerca<br \/>\n&#8211; e seguros. Da\u00ed a instantes, efetivamente, avistamos o rebanho todo,<br \/>\nuns vinte a trinta elefantes (como Venvogel calculara), parados numa cova<br \/>\nde terreno, quietos, tendo decerto acabado o primeiro repasto, e sacudindo<br \/>\ncom lentid\u00e3o e majestade as suas imensas orelhas. Era uma vista soberba!<br \/>\nS\u00f3 as h\u00e1 assim na \u00c1frica! Est\u00e1vamos separados<br \/>\ndeles por umas cem jardas. Agarrei um punhado de capim e atirei-o ao ar para<br \/>\ntomar a dire\u00e7\u00e3o do vento; porque se um elefante nos farejasse,<br \/>\nbem sabia eu que, antes de podermos p\u00f4r as carabinas \u00e0 cara,<br \/>\no rebanho inteiro abalava. A aragem, se alguma corria, soprava para n\u00f3s<br \/>\ndo lado dos bichos; de sorte que rastejamos cuidadosamente atrav\u00e9s<br \/>\ndo mato, mudos, sem respirar, at\u00e9 nos aproximarmos umas quarenta jardas<br \/>\nmal medidas. Justamente diante de n\u00f3s, e de ilharga para n\u00f3s,<br \/>\nestacionavam tr\u00eas magn\u00edficos elefantes machos, um deles com enormes<br \/>\ndentes e o ar supremo de um patriarca. Avisei, baixinho, os companheiros,<br \/>\nque me encarregava do animal do meio; o bar\u00e3o apontou ao mais pequeno,<br \/>\nao da esquerda; o capit\u00e3o ao \u201cpatriarca\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Agora! &#8211; murmurei.<\/p>\n<p>Bum! Bum! Bum! O elefante do bar\u00e3o tombou redondo, varado no cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO meu caiu pesadamente sobre os joelhos; mas quando pensei que ia desabar<br \/>\npara o lado, morto, vejo a enorme massa que se ergue e larga galopando por<br \/>\ndiante de mim. Meti-lhe segunda bala na ilharga, que o abateu. \u00c0 pressa,<br \/>\ncom dois cartuchos mais na carabina, corri para ele e findei-lhe misericordiosamente<br \/>\na agonia. Voltei-me ent\u00e3o para ver o que se passara com o elefante<br \/>\ndo capit\u00e3o, o \u201cpatriarca\u201d, que eu ouvira por tr\u00e1s<br \/>\nde mim bramando de dor e f\u00faria. Encontrei John excitad\u00edssimo.<br \/>\nAo que parece, o elefante, apenas ferido, rompera contra ele (que meramente<br \/>\nteve tempo de se desviar com um salto), e seguira, furioso e sem ver, para<br \/>\na banda do nosso acampamento. O resto do rebanho no entanto, espavorido, rompera<br \/>\npara o outro lado, atrav\u00e9s da espessura.<\/p>\n<p>Durante um momento ficamos indecisos entre seguir o \u201cpatriarca\u201d<br \/>\nferido ou o resto da manada. Por fim resolvemos bater atr\u00e1s do bando.<br \/>\nSegui-los era f\u00e1cil, porque tinham aberto um caminho, mais largo e<br \/>\nliso que uma estrada real, esmagando o mato espesso como se fosse relva de<br \/>\nprimavera. Ach\u00e1-los, por\u00e9m, era mais complicado; e tivemos,<br \/>\ndurante duas infind\u00e1veis horas, de marchar sob um sol faiscante, antes<br \/>\nde os avistarmos. L\u00e1 estavam todos outra vez muito juntos (exceto um<br \/>\ndos machos); e pela inquieta\u00e7\u00e3o com que se mexiam, pelo constante<br \/>\nerguer das trombas desconfiadas, farejando o ar &#8211; era claro que esperavam,<br \/>\ntemiam outro ataque. Um dos machos afastado, \u00e0 laia de sentinela, vigiava<br \/>\npara o nosso lado, de tromba amea\u00e7adora e alta.<\/p>\n<p><!-- - 22 --><br \/>\nEntre ele e n\u00f3s mediavam umas sessenta jardas. Se este \u201ccavalheiro\u201d<br \/>\nnos pressentisse, dava sinal e o rebanho abalava, tanto mais facilmente quanto<br \/>\nnos ach\u00e1vamos, bichos e homens, em terreno descoberto. De sorte que<br \/>\ntodos tr\u00eas lhe apontamos, todos tr\u00eas lhe atiramos. Bum! Bum! Bum!<br \/>\nMorto! Mas os outros partiram, numa desfilada, como colinas rolando. Infelizmente<br \/>\npara eles, logo adiante havia um nullah, isto \u00e9, uma ribeira seca,<br \/>\ncom as bordas abarrancadas do nosso lado e quase a pique do lado fronteiro<br \/>\n(s\u00edtio parecido \u00e0quele em que o Pr\u00edncipe Imperial foi<br \/>\nmorto na Zulul\u00e2ndia). Para a\u00ed justamente se atiraram os elefantes<br \/>\nem tropel. Quando chegamos \u00e0 borda, demos com eles em medonha confus\u00e3o,<br \/>\nesfor\u00e7ando-se por trepar a outra ribanceira (escarpada e hirta), empurrando-se<br \/>\nuns aos outros, num furor e ego\u00edsmo verdadeiramente humanos, e atroando<br \/>\nos ares de bramidos. A nossa oportunidade era escandalosamente brilhante.<br \/>\nSem outra demora, disparando t\u00e3o depressa como carreg\u00e1vamos,<br \/>\ndemos cabo de cinco elefantes; e ter\u00edamos dizimado o rebanho inteiro<br \/>\nse eles de repente, abandonando a teima est\u00fapida de galgar a ribanceira,<br \/>\nn\u00e3o largassem a fugir ao comprido do leito seco que se perdia ao longe<br \/>\nna espessura. Est\u00e1vamos cansados demais para os perseguir, enjoados<br \/>\ntamb\u00e9m dessa vasta mortandade. Oito elefantes numa manh\u00e3, antes<br \/>\ndo lunch, \u00e9 decente.<\/p>\n<p>De sorte que, depois de descansarmos e vermos os cafres cortar os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\na dois dos elefantes para servir \u00e0 ceia, voltamos vagarosamente os<br \/>\npassos para o acampamento, devagar, satisfeitos com a proeza, e calculando<br \/>\no valor do marfim, que no dia seguinte, cedo, os carregadores viriam serrar.<\/p>\n<p>Ao passar no s\u00edtio em que o capit\u00e3o tinha ferido o \u201cpatriarca\u201d,<br \/>\nencontramos um rebanho de elands. N\u00e3o lhe atiramos, porque n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 nada no eland que valha dinheiro, e mantimentos j\u00e1 traz\u00edamos,<br \/>\ndeliciosos e abundantes. O bando passou ao nosso &#8211; lado, ligeiro e trotando;<br \/>\ndepois, adiante, onde se erguia um tufo de arbustos em flor, parou; e todos<br \/>\na um tempo se voltaram, a olhar para n\u00f3s, espantados.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o nunca vira um eland. Quis aproveitar a ocasi\u00e3o;<br \/>\ndeu a carabina a Umbopa, e seguido de Quiva adiantou-se, de mon\u00f3culo<br \/>\nfito, para o tufo de arbustos em flor. O bar\u00e3o e eu sentamo-nos \u00e0<br \/>\nespera, numa pedra.<\/p>\n<p>O sol ia justamente descendo, num grande esplendor de vermelho e ouro. O<br \/>\nbar\u00e3o e eu contempl\u00e1vamos, calados, aquela beleza de c\u00e9u<br \/>\ne luz, quando, de repente, ouvimos o bramido de um elefante e vimos, escura<br \/>\nsobre a vermelhid\u00e3o do poente, uma vasta forma avan\u00e7ando a galope,<br \/>\nde tromba erguida e cauda espetada. Logo imediatamente vimos outra cousa horr\u00edvel:<br \/>\no capit\u00e3o, e Quiva, o servi\u00e7al zulu, fugindo para n\u00f3s<br \/>\nnuma carreira perdida, perseguidos pelo elefante! Era o grande bicho ferido,<br \/>\no \u201cpatriarca\u201d, que ali ficara errando.<\/p>\n<p>Agarramos num \u00edmpeto as carabinas. Mas qu\u00ea! Fera e homens,<br \/>\ncorrendo para n\u00f3s, vinham juntos! Se dispar\u00e1ssemos, a bala podia<br \/>\nvarar John ou Quiva&#8230; E assim ficamos nesta indecis\u00e3o, com o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\na tremer, quando o pobre capit\u00e3o escorrega naqueles infames botins<br \/>\nde bezerro com que teimava em trilhar o sert\u00e3o &#8211; e cai, estatelado,<br \/>\nde face na terra, diante mesmo do enorme elefante que chegava bramindo! Fugiu-nos<br \/>\na respira\u00e7\u00e3o! O pobre camarada estava perdido! Largamos ainda<br \/>\na correr para ele, desesperadamente. E o desastre veio, com efeito &#8211; mas de<br \/>\num modo bem diferente. Quiva, o zulu (valente, her\u00f3ico rapaz que era!),<br \/>\nvendo o amo por terra,<br \/>\n<!-- - 23 --><br \/>\nvolta-se, e arremessa a azagaia a toda a for&amp;ccediccedil;a contra a tromba do elefante.<br \/>\nA fera lan\u00e7a um uivo de dor, arrebata o desgra\u00e7ado zulu, bate<br \/>\ncom ele no ch\u00e3o, p\u00f5e-lhe uma imensa pata sobre as pernas, e<br \/>\nenrodilhando-lhe a tromba no peito, rasga-o literalmente, o rasga em dois.<br \/>\nCorremos, cheios de horror, fizemos fogo uma vez, outra vez, furiosamente<br \/>\n&#8211; at\u00e9 que o elefante se abateu como um monte sobre os peda\u00e7os<br \/>\nsangrentos do zulu.<\/p>\n<p>Foi um instante de indiz\u00edvel consterna\u00e7\u00e3o. Apesar de<br \/>\nendurecido por quarenta anos de ca\u00e7a e carnificinas, eu pr\u00f3prio<br \/>\nsentia um \u201cn\u00f3 na garganta\u201d, e creio que me fiz p\u00e1lido.<br \/>\nO bar\u00e3o tremia todo. E o pobre capit\u00e3o torcia as m\u00e3os,<br \/>\nna dor de ver assim despeda\u00e7ado o servo valente que dera a vida por<br \/>\nele.<\/p>\n<p>S\u00f3 Umbopa teve a palavra serena que convinha \u00e0 disciplina.<br \/>\nVeio, com os seus passos altivos e leves, contemplar os restos de Quiva, numa<br \/>\npo\u00e7a de sangue, junto \u00e0 massa enorme do elefante; moveu a m\u00e3o<br \/>\nno ar e disse: &#8211; Morreu. Bem dele, que morreu como um homem!<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>Cap\u00edtulo V &#8211; A Nossa Entrada no Deserto<\/h2>\n<p>T\u00ednhamos morto nove elefantes. Dois longos dias levamos a serrar-lhes<br \/>\nos dentes e a enterr\u00e1-los com cuidado debaixo de uma \u00e1rvore<br \/>\nenorme, que destacava isoladamente na vasta plan\u00edcie, e formava um<br \/>\n\u201csinal\u201d inesquec\u00edvel. Era um espl\u00eandido lote de marfim!<br \/>\nS\u00f3 os dentes do \u201cpatriarca\u201d pesavam (tanto quanto pude<br \/>\navaliar) uns cento e setenta arr\u00e1teis! O pobre Quiva, esse, sepultamo-lo<br \/>\nao p\u00e9 da colina, com uma azagaia ao lado, para se defender dos esp\u00edritos<br \/>\nmalignos na sua dif\u00edcil jornada para o para\u00edso zulu. Ao romper<br \/>\ndo terceiro dia levantamos o acampamento &#8211; todos n\u00f3s fazendo votos,<br \/>\nno sil\u00eancio da nossa alma, para que nos fosse dado voltar um dia! Eu,<br \/>\nmentalmente, acrescentava: &#8211; \u201cvoltar e desenterrar este rico marfim!\u201d<br \/>\nDepois de uma fatigante marcha, cortada desses epis\u00f3dios africanos<br \/>\nque todos os africanistas experimentam, chegamos enfim \u00e0 arroga de<br \/>\nSitanda, ao p\u00e9 do Rio Lucanga. A\u00ed era verdadeiramente o nosso<br \/>\n\u201cponto de partida\u201d. A\u00ed come\u00e7ariam as nossas mis\u00e9rias.<\/p>\n<p>Perfeitamente me lembro do s\u00edtio, e da nossa chegada. Para a direita<br \/>\ndescia, trans-malhada, uma pequena povoa\u00e7\u00e3o de negros, com currais<br \/>\nde gado murados de pedra solta, e leiras de terra cultivada ao comprido da<br \/>\n\u00e1gua clara. Por tr\u00e1s da aldeia ondulavam grandes pradarias de<br \/>\nerva alta, onde a ca\u00e7a abundante esvoa\u00e7ava. E para a esquerda<br \/>\nera o escuro, silencioso, infind\u00e1vel deserto.<\/p>\n<p>O nosso acampamento ficou junto desse riacho alegre, que corria entre arbustos<br \/>\nem flor. Defronte, erguia-se um outeiro pedregoso. Apenas erguemos as tendas,<br \/>\nsubi l\u00e1 com o bar\u00e3o. Era aquele o s\u00edtio, aquele o outeiro<br \/>\nonde eu vira, havia vinte anos, numa tarde como esta, a figura do pobre Silveira,<br \/>\ncom o seu grande casac\u00e3o comprido, aparecer cambaleando, toda escura<br \/>\nna vermelhid\u00e3o do poente. Como ent\u00e3o, o globo do sol, afogueado,<br \/>\ndescia j\u00e1 rente da terra &#8211; e os seus raios flexavam, obliquamente,<br \/>\naquele deserto coberto de tojo baixo, sombrio, sem \u00e1gua, sem vida,<br \/>\nterrivelmente mudo, que matara o pobre portugu\u00eas, que nos ia talvez<br \/>\nmatar a n\u00f3s.<br \/>\n<!-- - 24 --><br \/>\nFicamos olhando para ele em sil\u00eancio. O ar era de uma admir\u00e1vel<br \/>\nfinura e transpar\u00eancia; e longe, muito ao longe, pod\u00edamos distinguir,<br \/>\nrecortada no horizonte, palidamente azulada e com laivos brancos de neve,<br \/>\na cordilheira de Suliman. Mostrei-a ao meu companheiro: &#8211; A entrada das minas<br \/>\nde Salom\u00e3o l\u00e1 est\u00e1&#8230; Chegaremos n\u00f3s l\u00e1?<br \/>\nNesse instante, senti algu\u00e9m por tr\u00e1s de n\u00f3s respirando:<br \/>\nera Umbopa, que trepara tamb\u00e9m ao c\u00f4moro, e considerava o deserto<br \/>\ncom pensativa gravidade. Vendo que eu reparara nele, deu um passo lento, depois<br \/>\noutro mais lento. E dirigindo-se ao bar\u00e3o (a quem parecia ter-se afei\u00e7oado),<br \/>\napontando com a sua grande azagaia para o lado dos montes: &#8211; \u00c9 para<br \/>\naquela terra al\u00e9m que tu vais, Incubu? Incubu \u00e9 uma palavra<br \/>\ndo dialeto zulu, que significa \u201celefante\u201d, e que servia, entre<br \/>\nos cafres, para designar o nosso chefe. Estranhei a aud\u00e1cia de Umbopa,<br \/>\ne perguntei-lhe asperamente que tosca maneira era essa de falar a seu amo&#8230;<br \/>\nQue o negro d\u00ea uma alcunha negra ao patr\u00e3o, por lhe ser mais<br \/>\nfacilmente pronunci\u00e1vel que o nome &#8211; v\u00e1! Que a um como eu, pobre<br \/>\nca\u00e7ador que ganha o seu p\u00e3o, o negro se dirija sempre pela alcunha<br \/>\nnegra &#8211; v\u00e1 ainda! Mas que a atire \u00e0 face de um senhor, de um<br \/>\nfidalgo &#8211; isso n\u00e3o! &#8211; Fala assim aos teus iguais &#8211; gritei eu. &#8211; Fala<br \/>\nassim aos que contigo comem da mesma gamela! O zulu teve uma risadinha doce<br \/>\nque me enfureceu.<\/p>\n<p>&#8211; Que sabes tu &#8211; acrescentou ele &#8211; se eu n\u00e3o sou igual ao amo que<br \/>\nsirvo? Ele pertence a uma grande casta; pelo olhar se v\u00ea logo; mas talvez<br \/>\neu perten\u00e7a a uma casta maior! Pelo menos sou t\u00e3o forte como<br \/>\nele, e posso com ele repartir o que tenho no cora\u00e7\u00e3o. S\u00ea<br \/>\npois a minha boca, oh Macumaz\u00e3! Dize as minhas palavras ao Incubu meu<br \/>\namo! E atende-as tu tamb\u00e9m, porque em mim s\u00f3 h\u00e1 verdade!<br \/>\nFiquei perfeitamente indignado. Nunca um cafre me falara naquele tremendo<br \/>\ntom! Mas, n\u00e3o sei por que, o maldito zulu tinha a arte de me impressionar.<br \/>\nAl\u00e9m disso, sentia uma viva curiosidade&#8230; De sorte que lhe traduzi<br \/>\nas palavras, &#8211; acrescentando que a criatura me parecia imprudente e ousada.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o, por\u00e9m, homem de excelente paci\u00eancia, voltou-se<br \/>\nsorrindo para o zulu: &#8211; \u00c9 para as montanhas que vou com efeito, Umbopa!<br \/>\nVou em procura de um homem da minha ra\u00e7a, de um irm\u00e3o meu, que<br \/>\natravessou este deserto, e que eu suponho estar al\u00e9m! O zulu moveu<br \/>\nlentamente a cabe\u00e7a: &#8211; Assim \u00e9, assim \u00e9&#8230; Encontrei<br \/>\num homem no caminho que me disse: H\u00e1 dois anos que um branco se meteu<br \/>\ntamb\u00e9m ao deserto como n\u00f3s, levando um s\u00f3 servi\u00e7al&#8230;<br \/>\nNunca mais voltaram&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem te disse? &#8211; perguntei, vivamente. &#8211; Por que te saem s\u00f3 agora<br \/>\nessas palavras? Onde te disseram? Antes de Iniati, um homem que ele encontrara<br \/>\nno caminho. Contara-lhe que o branco se parecia com o chefe Incubu, mas tinha<br \/>\na barba escura; e que ia seguido por um ca\u00e7ador bechuana chamado Jim.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o eles! &#8211; exclamei. &#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida! S\u00e3o<br \/>\neles! Jim conhecia eu bem&#8230;<\/p>\n<p>O bar\u00e3o ficou pensativo.<\/p>\n<p><!-- - 25 --><br \/>\n&#8211; Se meu irm\u00e3o tinha decidido atravessar o deserto &#8211; murmurou por fim<br \/>\n&#8211; ou o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito n\u00e3o era da t\u00eampera<br \/>\ndele. Ou n\u00e3o vive, ou est\u00e1 para l\u00e1 das serras.<\/p>\n<p>O zulu, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos brilhantes, tornou<br \/>\nmuito gravemente.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma longa jornada, Incubu.<\/p>\n<p>&#8211; Quartelmar, diga-lhe que n\u00e3o h\u00e1 jornada que o homem n\u00e3o<br \/>\npossa empreender &#8211; replicou o bar\u00e3o (que evidentemente estimava e considerava<br \/>\naquele singular zulu). Nada h\u00e1 que o homem n\u00e3o possa fazer;<br \/>\nnem desertos que n\u00e3o possa atravessar, nem montanhas que n\u00e3o<br \/>\npossa subir, se puser nisso alma e vontade. O essencial \u00e9 contarmos<br \/>\na vida por cousa nenhuma, alegremente prontos a conserv\u00e1-la ou a perd\u00ea-la,<br \/>\nsegundo Deus ordenar.<\/p>\n<p>Quando o zulu compreendeu, toda a face se lhe iluminou: &#8211; Grandes palavras,<br \/>\nmeu pai Incubu! Grandes, soberbas palavras que enchem bem a boca de um forte!<br \/>\nQue \u00e9 a vida, na verdade? \u00c9 a semente da erva que o vento sopra<br \/>\naqui e al\u00e9m. \u00c0s vezes cai em boa terra e frutifica; outras vezes,<br \/>\nna rocha dura e definha&#8230; O homem nasce para morrer. Mais tarde ou mais cedo,<br \/>\nque importa? \u00c9 sempre a morte. Eu por mim irei contigo, Incubu! Irei<br \/>\npor montanha e deserto, e ser-te-ei sempre fiel&#8230;<\/p>\n<p>Parou. E subitamente rompeu numa dessas rajadas de poesia, freq\u00fcentes<br \/>\nnos zulus, que tanto surpreendem os que pela primeira vez as testemunham,<br \/>\ne que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nem gera\u00e7\u00e3o, mostram que se a ra\u00e7a n\u00e3o \u00e9<br \/>\ninteligente, \u00e9 pelo menos imaginativa.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 a vida (exclamava Umbopa, abrindo os bra\u00e7os, naquele<br \/>\ntom cantado que os zulus tomam nesses momentos de exalta\u00e7\u00e3o).<br \/>\nQue \u00e9 a vida? Dizei-me, oh brancos, v\u00f3s que sabeis os segredos<br \/>\ndeste mundo, e do mundo das estrelas que brilha por cima, e do outro mundo<br \/>\nque est\u00e1 para al\u00e9m das estrelas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me<br \/>\no segredo da vida! De onde vem ela; para onde vai?&#8230; N\u00e3o podeis, n\u00e3o<br \/>\nsabeis! Escutai ent\u00e3o! N\u00f3s sa\u00edmos da treva, e para a<br \/>\ntreva marchamos. Como um p\u00e1ssaro acossado pela tormenta, n\u00f3s<br \/>\nsa\u00edmos do fundo da escurid\u00e3o; durante um momento passamos, e<br \/>\nas asas brilham-nos \u00e0 luz das fogueiras; depois, de novo e para sempre,<br \/>\nmergulhamos na treva! A vida \u00e9 o pirilampo que fulgura de noite e de<br \/>\ndia \u00e9 negro! \u00c9 o h\u00e1lito dos rebanhos no ar de inverno!<br \/>\n\u00c9 a sombra que corre sobre a relva, e que desaparece ao poente!&#8230;<\/p>\n<p>Calara-se, com os bra\u00e7os ainda abertos, o olhar perdido nas alturas.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s um homem bem singular, Umbopa! &#8211; exclamou o bar\u00e3o, que<br \/>\no escutara assombrado.<\/p>\n<p>O outro pareceu acordar, sorriu: &#8211; Creio que nos assemelhamos, Incubu. Talvez<br \/>\neu tamb\u00e9m v\u00e1 procurando um irm\u00e3o entre as gentes que<br \/>\nest\u00e3o para l\u00e1 das montanhas.<\/p>\n<p>Olhei para Umbopa, com o sobrolho franzido.<\/p>\n<p>&#8211; Que gentes? Que sabes tu das gentes que vivem para l\u00e1 das montanhas?<br \/>\n&#8211; Pouco, Macumaz\u00e3, muito pouco. H\u00e1 para al\u00e9m uma terra<br \/>\nde feiti\u00e7os, de jardins, de gente valente&#8230; H\u00e1 tamb\u00e9m<br \/>\numa grande estrada branca, toda de pedra. Assim ouvi. Mas de que vale dizer?<br \/>\nQuem l\u00e1 chegar, l\u00e1 ver\u00e1!<br \/>\n<!-- - 26 --><br \/>\nAquele homem, evidentemente, sabia alguma cousa que n\u00e3o queria revelar.<br \/>\nEle decerto percebeu a minha desconfian\u00e7a &#8211; porque acudiu, espalmando<br \/>\nas m\u00e3os: &#8211; N\u00e3o te arreceies, Macumaz\u00e3! N\u00e3o te<br \/>\narreceies! N\u00e3o abro covas, para que tu caias dentro. Se chegarmos a<br \/>\natravessar o deserto, eu te contarei o que sei. Mas a Morte est\u00e1 l\u00e1<br \/>\ncom uma lan\u00e7a, \u00e0 nossa espera. Melhor te fora, Macumaz\u00e3,<br \/>\nvoltar aos teus elefantes&#8230; Falei o que tinha a falar.<\/p>\n<p>E meneando a azagaia \u00e0 maneira de sauda\u00e7\u00e3o, desceu<br \/>\no c\u00f4moro, recolheu ao acampamento &#8211; onde da\u00ed a instantes o encontramos<br \/>\nlimpando uma carabina, atento, calado, como qualquer servo cafre vazio de<br \/>\npensamento e vontade. &#8211; Homem extraordin\u00e1rio! &#8211; murmurou o bar\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Extraordin\u00e1rio demais! N\u00e3o gosto nada daqueles mist\u00e9rios&#8230;<br \/>\nMas, enfim, n\u00f3s estamos metidos numa aventura fant\u00e1stica, e<br \/>\num zulu misterioso, demais ou de menos &#8211; n\u00e3o tira nem p\u00f5e.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte come\u00e7amos os preparativos para a marcha.<br \/>\nEra imposs\u00edvel naturalmente levar conosco, atrav\u00e9s do deserto,<br \/>\ntodo o pesado armamento, e as cantinas. Fomos portanto for\u00e7ados (depois<br \/>\nde debandar os carregadores) a confiar tudo a um velho cafre, um atroz sacripanta,<br \/>\nque possu\u00eda ali uma aringa consider\u00e1vel. Bem penoso me era abandonar<br \/>\nas nossas magn\u00edficas armas \u00e0 merc\u00ea daquele velho malandro<br \/>\n&#8211; cujos olhos se fixavam j\u00e1 nos nossos bens com um fulgor de cobi\u00e7a<br \/>\ne rapina. Tomei por isso as minhas precau\u00e7\u00f5es. Comecei por carregar<br \/>\nas espingardas. Depois declarei ao bandido, num tom cavo, que aqueles canos<br \/>\nestavam enfeiti\u00e7ados &#8211; e que se ele lhes tocasse \u201cali\u201d<br \/>\n(mostrei o gatilho), os dem\u00f4nios fugiriam de dentro despedindo um raio!<br \/>\nImediatamente (como eu calculara), o cafre puxou o gatilho a uma carabina<br \/>\nExpress. E o raio partiu. Partiu, com tanta felicidade, que matou uma vaca<br \/>\nque pastava pacificamente a dist\u00e2ncia, \u00e0 beira da \u00e1gua<br \/>\n&#8211; e atirou o velho de pernas ao ar, com a inesperada for\u00e7a do recuo.<br \/>\nO pavor do malandro foi indiz\u00edvel. Tremia todo, dava pulos em volta<br \/>\nda vaca morta (que depois, mais tranq\u00fcilo e com toda a impud\u00eancia,<br \/>\nqueria que eu lhe pagasse), olhava para o c\u00e9u, olhava para o ch\u00e3o&#8230;<br \/>\nPor fim rompeu aos berros: &#8211; Tirem esses dem\u00f4nios que estouram! Ponham-nos<br \/>\nl\u00e1 em cima, sobre o colmo!&#8230; Ai, que n\u00e3o fica vivo um de n\u00f3s!<br \/>\nApenas ele serenou, continuei a minha pr\u00e9dica. Afirmei-lhe, com olhares<br \/>\nesgazeados, que se ao voltarmos, uma s\u00f3 arma daquelas faltasse, eu,<br \/>\nque possu\u00eda as artes dos brancos, o mataria a ele e a toda a sua gente<br \/>\npor meio de bruxarias sangrentas; e que se n\u00f3s morr\u00eassemos e<br \/>\nele tentasse apoderar-se do que era nosso, eu voltaria em esp\u00edrito<br \/>\npersegui-lo, puxar-lhe de noite pelos p\u00e9s, tornar-lhe o gado bravo,<br \/>\ndessorar-lhe o leite fresco, secar-lhe a semente da terra, &#8211; e fazer a vida<br \/>\nna aringa t\u00e3o dura e terr\u00edvel que seus pr\u00f3prios filhos<br \/>\no amaldi\u00e7oariam&#8230; Enfim, dei-lhe uma id\u00e9ia razo\u00e1vel<br \/>\ndo inferno, com horrores in\u00e9ditos. O velho malandro, espavorido, jurou<br \/>\nque olharia pelas nossas armas como se fossem os ossos de seu pai! Era um<br \/>\npatife infinitamente supersticioso.<\/p>\n<p>Em seguida combinamos o que n\u00f3s cinco &#8211; o bar\u00e3o, o Capit\u00e3o<br \/>\nJohn, eu, Umbopa e Venvogel &#8211; dev\u00edamos levar conosco atrav\u00e9s<br \/>\ndo deserto. Muito calculamos, muito experimentamos. N\u00e3o logramos chegar<br \/>\na um peso menor de quarenta arr\u00e1teis por homem. E havia escassamente<br \/>\no necess\u00e1rio! Eis aqui o que conduz\u00edamos: Cinco espingardas<br \/>\n&#8211; com a competente muni\u00e7\u00e3o (quatrocentas cargas);<br \/>\n<!-- - 27 --><br \/>\nTr\u00eas rev\u00f3lveres; Cinco cantis de \u00e1gua, de cinco quartilhos<br \/>\ncada um; Cinco mantas. Vinte e cinco arr\u00e1teis de biltong &#8211; que \u00e9<br \/>\numa esp\u00e9cie de carne-seca; Dez arr\u00e1teis de contas de vidro para<br \/>\npresentes aos ind\u00edgenas; Navalhas, f\u00f3sforos, um compasso, um<br \/>\nfiltro de algibeira, uma enx\u00f3, uma garrafa de conhaque, tabaco &#8211; e<br \/>\nos fatos que t\u00ednhamos no corpo.<\/p>\n<p>Era tudo; e era pouco, como necessidade e conforto, numa semelhante empresa!<br \/>\nAinda assim peso consider\u00e1vel para cinco homens acarretarem, por um<br \/>\nsol terr\u00edvel, atrav\u00e9s de um deserto est\u00e9ril! Depois,<br \/>\ncom imensas dificuldades, persuadimos tr\u00eas negros da aldeola a acompanharem-nos<br \/>\ndurante vinte milhas, levando cada um \u00e0s costas uma larga caba\u00e7a<br \/>\nde \u00e1gua fresca. O meu fim era podermos encher de novo os cantis, depois<br \/>\nda primeira noite de marcha (porque decid\u00edramos partir na frescura<br \/>\nda noite). Os negros, a quem eu contara que \u00edamos ca\u00e7ar o avestruz,<br \/>\nn\u00e3o acreditaram; tinham por certo que morrer\u00edamos de sede e<br \/>\nde fome no grande sert\u00e3o; eles pr\u00f3prios temiam a morte e os<br \/>\ndem\u00f4nios que vagam no deserto; e s\u00f3 consentiram em nos seguir,<br \/>\na troco de tr\u00eas facas de mato e de uma manta vermelha.<\/p>\n<p>Durante todo esse dia descansamos e dormimos. Ao p\u00f4r do sol celebramos<br \/>\num grandioso jantar, de ca\u00e7a, de carne fresca e de ch\u00e1 &#8211; \u201co<br \/>\n\u00faltimo ch\u00e1, observou John com melancolia, que naturalmente beber\u00edamos<br \/>\npor longos e longos meses\u201d.<\/p>\n<p>Depois, apetrechadas as mochilas, esperamos que nascesse a lua. Perto das<br \/>\nnove horas subiu ela, em toda a sua serena e pensativa gl\u00f3ria, inundando<br \/>\nde luz branca e vaga todo o imenso deserto, que parecia t\u00e3o mudo, solene,<br \/>\nimpenetr\u00e1vel e virgem de pegadas humanas como o claro firmamento que<br \/>\npor cima resplandecia. Com a lua que se erguia nos erguemos n\u00f3s tamb\u00e9m.<br \/>\nTudo estava pronto, os negros de cajado na m\u00e3o; e todavia hesit\u00e1vamos<br \/>\nainda, como o fraco homem hesita sempre perante o irrevog\u00e1vel. Lembro-me<br \/>\nbem. Adiante de n\u00f3s alguns passos, Umbopa, de azagaia na m\u00e3o,<br \/>\ncom a carabina a tiracolo, olhava fixamente para o deserto; atr\u00e1s de<br \/>\nn\u00f3s, num grupo, Venvogel, com os tr\u00eas negros que levavam as caba\u00e7as<br \/>\nde \u00e1gua, esperavam, direitos e mudos; e n\u00f3s tr\u00eas, os homens<br \/>\nbrancos, muito juntos, sent\u00edamos bater forte o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De repente, o bar\u00e3o tirou devagar o chap\u00e9u. E com profunda<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o: &#8211; Amigos, vamos come\u00e7ar uma das mais estranhas<br \/>\njornadas que homens t\u00eam ousado tentar. O que ser\u00e1 de n\u00f3s,<br \/>\nn\u00e3o sei; mas, para bem ou para mal, juntos estamos, juntos nos encontraremos<br \/>\nsempre! E agora, antes de partir, ergamos o pensamento para Aquele que tudo<br \/>\npode! Escondeu a face entre as m\u00e3os, ficou im\u00f3vel. O Capit\u00e3o<br \/>\nJohn e eu baixamos tamb\u00e9m a cabe\u00e7a, com rever\u00eancia, com<br \/>\nhumildade. Eu por mim, confesso, nunca fui homem de ora\u00e7\u00f5es.<br \/>\nCa\u00e7adores de elefantes, na dura vida da \u00c1frica, raro se lembram<br \/>\nde falar a Deus. Em todo o caso, naquele momento, rezei. Rezei com fervor;<br \/>\ne senti-me depois mais alegre e mais leve. Creio que o capit\u00e3o (religioso<br \/>\nno fundo, apesar de praguejar medonhamente) tamb\u00e9m rezou. O bar\u00e3o,<br \/>\nesse, era homem de piedade e cren\u00e7a&#8230; Quando destapou o rosto, olhou<br \/>\nem redor, ergueu o bra\u00e7o, e com um belo ar de resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de esperan\u00e7a:<br \/>\n<!-- - 28 --><br \/>\n&#8211; Pronto?&#8230; Larga! Os bord\u00f5es ressoaram na terra dura, &#8211; e largamos.<\/p>\n<p>Para nos guiar no deserto t\u00ednhamos apenas as distantes montanhas<br \/>\nde Suliman, e o roteiro que o velho D. Jos\u00e9 da Silveira tra\u00e7ara<br \/>\nno peda\u00e7o de camisa. Cada um de n\u00f3s trazia na algibeira uma<br \/>\nc\u00f3pia desse mapa rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido<br \/>\nriscadas por um homem meio morto, h\u00e1 trezentos anos &#8211; era bem certa<br \/>\na sua utilidade? A nossa salva\u00e7\u00e3o, naquela jornada, seria encontrar<br \/>\na lagoa, ou po\u00e7a de \u00e1gua salobra que o velho fidalgo portugu\u00eas<br \/>\nmarcara a meio caminho entre a aldeia de onde part\u00edramos e as serras<br \/>\nde Suliman. Se a n\u00e3o ach\u00e1ssemos, t\u00ednhamos certa a morte,<br \/>\numa morte terr\u00edvel, a morte pela sede. E, para mim, a probabilidade<br \/>\nde descobrir uma lagoa de tr\u00eas ou quatro metros naquela vastid\u00e3o<br \/>\nde areia e tojo, parecia-me m\u00ednima, infinit\u00e9sima. Mesmo supondo<br \/>\nque o portugu\u00eas a marcara com exatid\u00e3o &#8211; quem nos afian\u00e7ava<br \/>\nque, nesses trezentos anos, ela n\u00e3o secara ou n\u00e3o fora coberta<br \/>\npelas areias movedi\u00e7as? Era nisto que eu pensava &#8211; enquanto silenciosamente,<br \/>\ncomo sombras, \u00edamos marchando sob o luar silencioso. O caminho n\u00e3o<br \/>\nera f\u00e1cil; o tojo denso e espinhoso retardava-nos o passo; a areia<br \/>\nmetia-se nos sapatos, e cada meia hora dev\u00edamos parar para os esvaziar;<br \/>\ne, apesar da noite n\u00e3o estar quente, havia no ar alguma cousa de pesado<br \/>\ne de espesso, que amolentava. Mas o que sobretudo nos oprimia era a solid\u00e3o,<br \/>\no sil\u00eancio &#8211; o infinito, terr\u00edvel sil\u00eancio. John ainda<br \/>\ntentou assobiar uma cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho<br \/>\nde Teus Doces Olhos, parecia l\u00fagubre naquela severa imensidade. O engra\u00e7ado<br \/>\nhomem emudeceu. E seguimos numa fila muda atrav\u00e9s do mato mudo.<\/p>\n<p>Perto da meia-noite, sobreveio uma aventura que nos assustou &#8211; e depois<br \/>\nnos divertiu imensamente. John, como marinheiro, levava a b\u00fassola,<br \/>\ne marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro &#8211; John desaparece!<br \/>\nAo mesmo tempo rompia, em torno de n\u00f3s, uma balb\u00fardia medonha<br \/>\nde roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo &#8211; e vemos formas, como<br \/>\ngarupas, galopando atrav\u00e9s do tojo, entre rolos de areia. Os negros<br \/>\natiraram-se ao ch\u00e3o, gritando que eram \u201cdem\u00f4nios acordados\u201d!<br \/>\nEu pr\u00f3prio e o bar\u00e3o ficamos surpresos; e o nosso assombro cresceu<br \/>\nquando avistamos John, aparentemente montado num potro, fugindo aos gal\u00f5es<br \/>\npara o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento mais &#8211; e<br \/>\nvemo-lo sacudir os bra\u00e7os no ar, e de novo desaparecer, no mato baixo,<br \/>\ncom um baque tremendo. Corremos para ele e percebemos o caso estranho: t\u00ednhamos<br \/>\nido cair no meio de um rebanho de zebras adormecidas; John estatelara-se exatamente<br \/>\nsobre as costas de uma enorme; e o bicho, pulando espavorido, balara com o<br \/>\nnosso amigo nas ancas. Felizmente n\u00e3o se magoara no tombo final; fomos<br \/>\ndar com ele sentado na areia, de mon\u00f3culo firmemente cravado no olho,<br \/>\naturdido, indignado &#8211; mas intacto de pele e de osso.<\/p>\n<p>Depois disto marchamos sossegadamente at\u00e9 perto das duas horas da<br \/>\nnoite. Fizemos ent\u00e3o uma paragem, bebemos uns goles de \u00e1gua<br \/>\n(n\u00e3o muitos, nem largos, porque a \u00e1gua passava a ser preciosa),<br \/>\ne ao fim de trinta minutos de descanso recome\u00e7amos a caminhar para<br \/>\ndiante, para diante sempre, at\u00e9 que o nascente se tingiu de laivos<br \/>\nde rosa. Vimos as estrelas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se<br \/>\nao r\u00e9s do horizonte, a lua declinar mais l\u00edvida que um c\u00edrio,<br \/>\nlongos raios de luz varar<br \/>\n<!-- - 29 --><br \/>\ne colorir de fogos os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se de uma tr\u00eamula<br \/>\nrefra\u00e7\u00e3o de ouro &#8211; e ser dia! N\u00e3o paramos, apesar de<br \/>\nj\u00e1 cansados &#8211; pela certeza de que bem cedo o sol, nado e alto, nos<br \/>\nimpediria de dar um passo \u00fanico, sob o seu t\u00f3rrido esplendor.<br \/>\nCom efeito, \u00e0s seis horas j\u00e1 ardia! Por felicidade avistamos<br \/>\nent\u00e3o na plan\u00edcie um mont\u00e3o de rochas. Para l\u00e1<br \/>\nnos arrastamos, exaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra,<br \/>\npousada sobre grossos blocos, fazia como um telheiro, cuja sombra ca\u00eda<br \/>\nsobre um peda\u00e7o de areia fina. Abrigo providencial! Ali nos aninhamos;<br \/>\ne, depois de beber alguns goles de \u00e1gua bem contados e de comer uma<br \/>\nlasca de biltong, adormecemos deliciosamente.<\/p>\n<p>\u00c0s tr\u00eas horas acordamos. Os carregadores, que tinham trazido<br \/>\nas caba\u00e7as, j\u00e1 se preparavam para voltar \u00e0 sua arroga.<br \/>\nDe sorte que absorvemos uma farta tarra\u00e7ada de \u00e1gua, enchemos<br \/>\nde novo os cantis, e distribu\u00edmos pelos homens as facas de mato prometidas.<br \/>\nDa\u00ed a instantes vimo-los (n\u00e3o sem uma vaga melancolia) voltar<br \/>\ncostas ao deserto e romper a marcha para o lado da sua aldeia, para o lado<br \/>\nda frescura e da \u00e1gua! \u00c0s quatro e meia metemos de novo a caminho.<br \/>\nA cada passo, tudo de redor se parecia alargar em sil\u00eancio e desola\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAo princ\u00edpio ainda avist\u00e1vamos, aqui e al\u00e9m, entre o<br \/>\nmato, um avestruz. Depois, nem mesmo reptis top\u00e1vamos na plan\u00edcie<br \/>\narenosa. A nossa \u00fanica companhia era a mosca, a mosca ordin\u00e1ria<br \/>\ne caseira&#8230; Digno e vener\u00e1vel animal! Em qualquer lugar em que o homem<br \/>\npenetre, deserto, montanha, caverna &#8211; a mosca l\u00e1 est\u00e1. Foi este<br \/>\ndecerto o primeiro dos seres vivos que surgiu sobre a terra. J\u00e1 havia<br \/>\nmoscas para pousar no nariz de Ad\u00e3o. O derradeiro homem h\u00e1 de<br \/>\nmorrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno \u00e0 face. E talvez haja moscas<br \/>\nno Para\u00edso.<\/p>\n<p>Ao sol posto paramos, esperando que nascesse a lua. Mais bela e serena que<br \/>\nnunca surgiu ela \u00e0s dez horas &#8211; e toda a noite, sob o seu calmo e pensativo<br \/>\nbrilho, na mudez da vastid\u00e3o, caminhamos, caminhamos&#8230; O sol nado<br \/>\np\u00f4s um termo \u00e0 valente marcha. Sorvemos por conta uns goles de<br \/>\n\u00e1gua dos cantis, atiramo-nos para cima da areia, e ali nos tomou o<br \/>\nsono a todos quatro simultaneamente. N\u00e3o havia necessidade que um velasse.<br \/>\nNada t\u00ednhamos a recear, nem de homem nem de fera, naquela imensidade<br \/>\ndespovoada. Desta vez, por\u00e9m, nenhuma rocha nos abrigava &#8211; e \u00e0s<br \/>\nsete horas acordamos sob o sol faiscante, com a sensa\u00e7\u00e3o que<br \/>\ndeve experimentar um bife de lombo, achatado sobre a grelha. Est\u00e1vamos<br \/>\nsendo fritos! O sol por cima, a areia por baixo, secavam-nos o sangue nas<br \/>\nveias. Todos nos erguemos, de salto, quase sem respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Santo Deus! &#8211; murmurou o bar\u00e3o, sacudindo os enxames de moscas.<\/p>\n<p>&#8211; Pode-se chamar a isto calor! &#8211; gemeu do lado o capit\u00e3o, que arquejava.<\/p>\n<p>Podia-se chamar, na verdade. E eram apenas sete horas! Em toda a vasta extens\u00e3o<br \/>\nnem um abrigo! S\u00f3 mato rasteiro &#8211; e por cima uma vibra\u00e7\u00e3o<br \/>\nradiante, t\u00e3o viva e intensa, que v\u00edamos tremer o ar.<\/p>\n<p>&#8211; Que se h\u00e1 de fazer? &#8211; exclamou o bar\u00e3o. &#8211; \u00c9 imposs\u00edvel<br \/>\nag\u00fcentar isto! Olhamos uns para os outros, estupidamente.<\/p>\n<p>&#8211; Se abr\u00edssemos uma cova? &#8211; lembrou John. \u2013 Pod\u00edamos<br \/>\nmeter-nos dentro e cobrir-nos com tojo&#8230;\u00c9 uma id\u00e9ia. N\u00e3o<br \/>\nbrilhante! Mas era a \u00fanica; de modo que, j\u00e1<br \/>\n<!-- - 30 --><br \/>\ncom a enx\u00f3, j\u00e1 com as m\u00e3os, passamos a abrir uma cova<br \/>\ndo tamanho aproximado de uma larga cama. Cortamos uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mato; e ali nos sepultamos, colados como sardinhas numa caixa todos quatro,<br \/>\no bar\u00e3o, John; eu e Umbopa, &#8211; porque Venvogel, como hotentote, n\u00e3o<br \/>\nsentia os ardores do sol. Foi ele que nos cobriu de mato. Realmente, assim,<br \/>\nest\u00e1vamos ao abrigo dos raios perpendiculares do sol; mas que pavorosa<br \/>\nard\u00eancia a daquela fossa, em que cada torr\u00e3o, junto do corpo,<br \/>\nera como uma brasa viva! N\u00e3o compreendo como nos desenterramos vivos.<br \/>\nDormir, imposs\u00edvel! Jaz\u00edamos estendidos, hirtos, sem ter j\u00e1<br \/>\nque suar, quase curtidos, arquejando ansiosamente. S\u00f3 possu\u00edamos<br \/>\no consolo de umedecer, de vez em quando, os bei\u00e7os com uma gota de<br \/>\n\u00e1gua muito medida! Esta avara medi\u00e7\u00e3o da \u00e1gua<br \/>\nera o tormento maior. A cada instante necessit\u00e1vamos recalcar a furiosa<br \/>\ntenta\u00e7\u00e3o de sorver de um s\u00f3 trago os quatro cantis. Mas<br \/>\nqu\u00ea! Se a \u00e1gua faltasse &#8211; breve viria a morte! Tudo tem um fim<br \/>\nneste mundo, diz a sabedoria oriental, contanto que se possa esperar. Esperamos;<br \/>\na horr\u00edvel, intermin\u00e1vel manh\u00e3 passou; e pelas tr\u00eas<br \/>\nhoras preferimos encontrar a morte, andando (se a morte tinha de vir) a ser<br \/>\npor ela lentamente envolvidos naquele infame buraco.<\/p>\n<p>Reconfortamo-nos com um curto sorvo \u00e0 nossa \u00e1gua, &#8211; que diminu\u00eda<br \/>\nterrivelmente, e subira j\u00e1 \u00e0 temperatura do sangue. E com um<br \/>\nesfor\u00e7o rompemos de novo atrav\u00e9s da plan\u00edcie flamejante.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos transposto umas dezessete l\u00e9guas de ermo. Ora, no<br \/>\nroteiro do velho D. Jos\u00e9 da Silveira, a total extens\u00e3o do deserto<br \/>\nestava fixada em quarenta l\u00e9guas; e a famosa po\u00e7a de \u00e1gua<br \/>\nsalobra vinha marcada a meio do deserto. A esse tempo, portanto, dev\u00edamos<br \/>\nestar a umas tr\u00eas l\u00e9guas da \u00e1gua &#8211; se a \u00e1gua existia!<br \/>\nEm toda a tarde, por\u00e9m, fizemos pouco mais de uma milha por hora. Ao<br \/>\np\u00f4r do sol paramos \u00e0 espera da lua. Deixei-me cair para o ch\u00e3o,<br \/>\ncomo um morto; cerrei os olhos. Mas da\u00ed a um instante Umbopa fez-me<br \/>\nerguer e notar, \u00e0 distancia de oito ou nove milhas, uma esp\u00e9cie<br \/>\nde outeiro redondo e liso que se erguia, abruptamente, na plan\u00edcie<br \/>\nrasa.<\/p>\n<p>N\u00e3o parecia uma eleva\u00e7\u00e3o natural de terreno, na sua<br \/>\nsemelhan\u00e7a estranha com uma metade de laranja. Quando me tornei a deitar<br \/>\nadormeci logo, murmurando: \u201cQue ser\u00e1?&#8230;\u201d Ao romper da<br \/>\nlua de novo partimos, j\u00e1 alquebrados de cansa\u00e7o e de sede. O<br \/>\nandar franco e firme acabara para n\u00f3s. Era agora um arrastar de passos<br \/>\nquase cambaleantes, com paragens bruscas de meia em meia hora, em que ca\u00edamos<br \/>\npara cima da areia, sem for\u00e7a, de cora\u00e7\u00e3o desmaiado.<br \/>\nNem \u00e2nimo nos restava para conversar. At\u00e9 a\u00ed ainda gracej\u00e1vamos,<br \/>\nheroicamente. John sobretudo &#8211; jovial camarada! Mas agora! Nem voz t\u00ednhamos<br \/>\npara gemer! Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e de alma,<br \/>\nchegamos ao p\u00e9 do c\u00f4moro estranho. Era uma esp\u00e9cie de<br \/>\nduna de areia, escura, lisa, atarracada, da altura de uns trinta metros, e<br \/>\ncobrindo na base duas leiras de terreno. Paramos. E desesperados com a sede,<br \/>\nsorvemos o resto da \u00e1gua. T\u00ednhamos meio quartilho por boca!<br \/>\nPod\u00edamos ter emborcado um almude! Cada um em sil\u00eancio se estendeu<br \/>\npara dormir. Eu fechava os olhos, resvalava j\u00e1 docemente no esquecimento<br \/>\ne no sonho, quando ouvi Umbopa ao meu lado murmurar para si pr\u00f3prio<br \/>\nem zulu: &#8211; O que \u00e9 a vida! Se amanh\u00e3 n\u00e3o achamos \u00e1gua,<br \/>\na lua, ao nascer, encontra aqui quatro mortos&#8230; Vida, sombra que passa! Vida,<br \/>\nmurm\u00fario que finda!<br \/>\n<!-- - 31 --><br \/>\nApesar do calor senti um arrepio. Pois tanta era a fadiga, que confortado<br \/>\npor esta probabilidade (uma agonia de sede num deserto de areia!), adormeci<br \/>\nprofundamente.<\/p>\n<p>Eram quatro da manh\u00e3 quando acordei. E, bruscamente, entrou comigo<br \/>\na tortura da sede.<\/p>\n<p>Estivera todo o tempo sonhando que passeava \u00e0 beira de um regato<br \/>\nde \u00e1gua, muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes \u00e1rvores<br \/>\nde frutas&#8230; Quando me ergui, esfreguei a face com ambas as m\u00e3os; m\u00e3os<br \/>\ne face pareceram-me mais secas e duras do que couro; e as p\u00e1lpebras<br \/>\ne os bei\u00e7os estavam t\u00e3o pegados, t\u00e3o colados, que tive<br \/>\nde os descerrar \u00e0 for\u00e7a com os dedos, como se os unisse uma<br \/>\ncola forte. A madrugada ainda vinha longe; mas n\u00e3o reinava no ar a<br \/>\nnatural frescura matutina, antes uma espessura mole e morna intoleravelmente<br \/>\npesada. Os outros dormiam&#8230; Fiquei calado, olhando em redor a desolada solid\u00e3o.<br \/>\nE pouco a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murm\u00fario<br \/>\nfresco do regato que corria, o ramalhar da verdura, pios de aves, e toda uma<br \/>\nsensa\u00e7\u00e3o de paz, de sombra, de abund\u00e2ncia, que me fazia<br \/>\nsorrir sozinho num imenso contentamento&#8230; Ao mesmo tempo tinha a certeza<br \/>\ndo deserto e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei! Voltei<br \/>\na mim, quando os outros em redor se come\u00e7aram a mexer, erguendo-se<br \/>\ndevagar sobre o cotovelo, esfregando como eu as faces ressequidas, separando<br \/>\n\u00e0 for\u00e7a, como eu, os l\u00e1bios sem saliva e mirrados. J\u00e1<br \/>\nrompia a claridade. Apenas acordados todos, e conscientes, come\u00e7amos<br \/>\na falar da nossa situa\u00e7\u00e3o &#8211; que era sombriamente desesperada.<br \/>\nN\u00e3o nos restava uma gota de \u00e1gua! Voltamos os cantis para baixo,<br \/>\nchupamos-lhes os gargalos. Mais secos que ossos! O Capit\u00e3o John, que<br \/>\nguardara a garrafa de conhaque, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento<br \/>\nolhar. &#8211; Mas o bar\u00e3o arrancou-lha das m\u00e3os. Beber \u00e1lcool,<br \/>\nnaquele estado?&#8230; Era a morte.<\/p>\n<p>&#8211; Mortos estamos n\u00f3s &#8211; murmurou o capit\u00e3o encolhendo os ombros<br \/>\n&#8211; se daqui \u00e0 noite n\u00e3o achamos \u00e1gua! &#8211; Se o roteiro do<br \/>\nportugu\u00eas estivesse exato &#8211; disse eu suspirando &#8211; a po\u00e7a de \u00e1gua<br \/>\ndevia aparecer por aqui algures&#8230; Foi nesta altura exatamente que ele a achou&#8230;Os<br \/>\noutros nem responderam. Realmente, nenhum de n\u00f3s tinha j\u00e1 confian\u00e7a<br \/>\nno roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a po\u00e7a existisse &#8211; como encontrar<br \/>\nnessa imensid\u00e3o o s\u00edtio exato e preciso onde ela estaria, mais<br \/>\npequena e perdida do que uma moeda de prata numa praia de areia? S\u00f3<br \/>\npor um \u201cbamb\u00farrio\u201d! Ou s\u00f3 se ela jazesse junto de<br \/>\nacidente do terreno, que pela sua especial sali\u00eancia, na vasta plan\u00edcie,<br \/>\ninevitavelmente atra\u00edsse os olhares e os passos.<\/p>\n<p>A claridade ia crescendo; e quando assim est\u00e1vamos, lan\u00e7ando<br \/>\nconjeturas, nesta terr\u00edvel ansiedade &#8211; reparei que o nosso hotentote<br \/>\nVenvogel andava a dist\u00e2ncia, com os olhos no ch\u00e3o, lentamente,<br \/>\ncomo quem procura um rasto&#8230; De repente parou, soltou um grito, com o bra\u00e7o<br \/>\nespetado para a terra. &#8211; Que \u00e9? &#8211; exclamamos todos.<\/p>\n<p>E corremos alvoro\u00e7adamente.<\/p>\n<p>&#8211; Pegadas de cor\u00e7o! &#8211; bradou ele em triunfo, apontando para o ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o? &#8211; Cor\u00e7os nunca andam longe da \u00e1gua!<br \/>\n<!-- - 32 --><br \/>\n&#8211; \u00c9 verdade! &#8211; gritei eu. &#8211; E louvado por isso seja Deus! Foi como<br \/>\nse renasc\u00eassemos \u00e0 vida. N\u00e3o era ainda a \u00e1gua &#8211;<br \/>\nmas a esperan\u00e7a dela, para breve! E numa crise aflitiva como a nossa,<br \/>\numa esperan\u00e7a, por mais vaga e t\u00eanue, vale sobretudo pela coragem<br \/>\nde que enche logo a alma. Venvogel, no entanto, come\u00e7ara a andar em<br \/>\nredor, com o nariz erguido (o seu largo nariz mais chato que o de um bull-dog),<br \/>\nsorvendo o ar quente, farejando.<\/p>\n<p>&#8211; Cheiro \u00e1gua! &#8211; dizia ele &#8211; cheiro \u00e1gua! E n\u00f3s todos<br \/>\natr\u00e1s dele, farejando tamb\u00e9m, quase j\u00e1 v\u00edamos<br \/>\na \u00e1gua &#8211; sabendo bem que estes hotentotes, como todos os selvagens,<br \/>\npossuem um faro maravilhoso. Mas nesse instante, os grandes raios do sol que<br \/>\nnascia, bateram-nos o rosto. E olhando, descobrimos uma t\u00e3o grandiosa<br \/>\npaisagem, que por um momento esquecemos a \u00e1gua e os tormentos da sede!<br \/>\nDiante de n\u00f3s, a umas dez ou doze l\u00e9guas, rebrilhando como prata<br \/>\nnos primeiros raios do dia, erguiam-se os dois enormes montes que o portugu\u00eas<br \/>\nchamara os \u201cSeios de Sab\u00e1\u201d; e de cada lado deles, estendendo-se<br \/>\nsem fim, durante centenas de milhas, a vasta cordilheira de Suliman! N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 poss\u00edvel transmitir, no verbo humano, a incompar\u00e1vel<br \/>\ngrandeza e beleza daquele quadro de montanha! Ali estavam as duas enormes<br \/>\nserras que n\u00e3o t\u00eam iguais na \u00c1frica, nem creio que no<br \/>\nresto do mundo, medindo pelo menos mais de quinze mil p\u00e9s de altura,<br \/>\nemergindo da cordilheira infinita &#8211; brancas, mudas, de portentosa solenidade,<br \/>\nenchendo o c\u00e9u at\u00e9 acima das nuvens. E o que esmagava a alma,<br \/>\nera a assombrosa estrutura. A cordilheira estendia-se como um muro disforme<br \/>\nde granito, da altura de mil p\u00e9s; as duas serras formavam como os dois<br \/>\ntorre\u00f5es de uma porta, perdidos nas profundidades; a parte da serra<br \/>\nque separava os dois montes, sendo talhada a pique, lisa e rigorosamente horizontal<br \/>\nno alto, reproduzia a configura\u00e7\u00e3o de uma porta prodigiosa;<br \/>\ne o aspecto todo era como o de uma muralha cercando uma cidade fabulosa de<br \/>\nsonho ou de lenda! Bem justamente chamara o velho fidalgo portugu\u00eas<br \/>\naos dois montes \u201cSeios de Sab\u00e1\u201d! Tinham, com efeito, a<br \/>\nforma perfeita de dois peitos de mulher; as suas vastas faldas iam subindo<br \/>\nda plan\u00edcie, numa curva doce e t\u00famida, parecendo \u00e0quela<br \/>\ndist\u00e2ncia formosamente redondas e lisas; e no cimo de cada uma, um imenso<br \/>\nouteiro sobreposto, todo coberto de neve, semelhava exatissimamente a ponta,<br \/>\no bico de um peito. Prodigiosa estrutura! Se a Terra, como pretendia a antiga<br \/>\nmitologia, \u00e9 uma mulher, a enorme Cibele &#8211; a\u00ed estavam decerto<br \/>\nos seus peitos ub\u00e9rrimos! Mas \u00e0 minha imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\n(nunca muito inventiva, mas perturbada e excitada nesse momento pela fraqueza),<br \/>\naquilo tudo se afigurava uma muralha estupenda, cercando e defendendo uma<br \/>\nregi\u00e3o de infinito mist\u00e9rio; e a cada instante me parecia que<br \/>\na porta de granito ia rolar, abrir-se com fragor, e desvendar algum segredo<br \/>\nsecular &#8211; o segredo talvez da terra da \u00c1frica! E o mais extraordin\u00e1rio<br \/>\nfoi que, enquanto assim contempl\u00e1vamos assombrados, come\u00e7aram<br \/>\na subir, a aglomerar-se em torno aos dois montes, lentas e estranhas n\u00e9voas<br \/>\ne nuvens, como para esconder aos nossos olhos mortais a majestade daquele<br \/>\n\u00e1dito, que uma vontade divina nos deixara por um momento entrever.<br \/>\nDa\u00ed a pouco os \u201cSeios de Sab\u00e1\u201d estavam envolvidos<br \/>\nde todo, resguardados sob o m\u00edstico v\u00e9u &#8211; atrav\u00e9s do<br \/>\nqual s\u00f3 pod\u00edamos distinguir agora as suas linhas, formidavelmente<br \/>\nespectrais!&#8230; Depois, mais tarde, descobrimos que esses montes, em tudo singulares,<br \/>\nestavam ordinariamente velados por esta curiosa n\u00e9voa, como por uma<br \/>\ncortina de sacr\u00e1rio. S\u00f3 a certas horas, ao<br \/>\n<!-- - 33 --><br \/>\nromper do sol, a cortina se descerrava, como numa celebra\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndesvendando aos homens a maravilha sem-par.<\/p>\n<p>Passada a violenta surpresa, de novo nos consideramos, com a mesma ansiosa<br \/>\ninterroga\u00e7\u00e3o &#8211; \u201cque fazer?\u201d Venvogel insistia, convencido,<br \/>\nque lhe cheirava a \u00e1gua; mas debalde busc\u00e1vamos, trilh\u00e1vamos<br \/>\no terreno em redor, esquadrinh\u00e1vamos atrav\u00e9s do mato. Nada!<br \/>\nS\u00f3 a areia ondulando, com manchas de matagal. Demos a volta toda ao<br \/>\nsingular outeiro, onde par\u00e1ramos de noite. Avan\u00e7amos para os<br \/>\nlados, em todas as dire\u00e7\u00f5es do vento, com atentos e lentos passos,<br \/>\ne olhos s\u00f4fregos que furavam a terra. Nada! Nenhum vest\u00edgio de<br \/>\numa nascente, de uma po\u00e7a, de um charco. S\u00f3 areia, \u00e1rido<br \/>\ntojo.<\/p>\n<p>&#8211; Idiota! &#8211; gritei eu desesperado com o hotentote. &#8211; N\u00e3o h\u00e1;<br \/>\nnunca houve aqui \u00e1gua! Naquela \u00e1spera, \u00e1rida imensidade<br \/>\nn\u00e3o parecia, com efeito, haver possibilidade, nem sequer verossimilhan\u00e7a<br \/>\nde \u00e1gua&#8230; E quanto tempo de resto poderia durar ali uma \u201cpo\u00e7a<br \/>\nsalobra\u201d, como a que encontrara o velho fidalgo, sem ser chupada pelo<br \/>\nsol ardente ou atulhada pelas areias movedi\u00e7as? No entanto Venvogel,<br \/>\no hotentote, continuava a farejar, com as ventas erguidas e abertas: &#8211; Eu<br \/>\nsinto o cheiro de \u00e1gua, patr\u00e3o. Sinto-a no ar! &#8211; No ar n\u00e3o<br \/>\nduvido. H\u00e1 \u00e1gua que farte nas nuvens! Tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nduvido que venha a cair. Mas h\u00e1 de ser para nos lavar os esqueletos!<br \/>\nO bar\u00e3o, no entanto, cofiava a barba pensativamente: &#8211; E todavia &#8211;<br \/>\nmurmurava ele &#8211; por aqui a encontrou o velho portugu\u00eas! O s\u00edtio<br \/>\n\u00e9 este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exato, na linha direita<br \/>\nde norte a sul, da arroga de Sitanda \u00e0s serras. \u00c9 aqui. Aqui<br \/>\nesteve \u00e1gua! Sim, mas h\u00e1 trezentos anos! Em tr\u00eas s\u00e9culos<br \/>\nmuita \u00e1gua brota e seca! Quem nos afian\u00e7ava de resto a exatid\u00e3o<br \/>\ndo portugu\u00eas, esva\u00eddo de fome, meio delirado, no come\u00e7o<br \/>\nda sua agonia! J\u00e1 n\u00e3o era pequena estranheza que ele a tivesse<br \/>\nencontrado nesta deserta imensidade, justamente quando dela lhe dependia a<br \/>\nvida!&#8230; A n\u00e3o ser que para ela fosse atra\u00eddo insensivelmente<br \/>\ne naturalmente por algum acidente de terreno, muito saliente e muito vis\u00edvel<br \/>\nde longe &#8211; como um bosque, uma colina&#8230; Uma colina! E quando eu assim pensava,<br \/>\neis que o bar\u00e3o grita, como ecoando o meu pensamento: &#8211; No alto da<br \/>\ncolina! Talvez a \u00e1gua esteja no alto da colina! &#8211; Tolice! &#8211; acudiu<br \/>\no capit\u00e3o encolhendo os ombros. &#8211; \u00c1gua no topo de uma colina!<br \/>\nOnde se viu isso? &#8211; Procuremos! &#8211; disse eu, com um bater de cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nque era todo de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Trepamos ansiosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. De repente estaca,<br \/>\ncom os bra\u00e7os no ar: &#8211; Nanzie manzie! (\u00e1gua aqui!) Pulamos para<br \/>\njunto dele; e com efeito, mesmo no topo da colina, numa cova redonda como<br \/>\numa ta\u00e7a, l\u00e1 estava \u00e1gua, \u00e1gua escura, \u00e1gua<br \/>\nl\u00f4brega &#8211; mas \u00e1gua! \u00c1gua! \u00c1gua!<br \/>\n<!-- - 34 --><br \/>\nGrit\u00e1vamos de puro gozo. E num momento, estirados de barriga no ch\u00e3o,<br \/>\ncom as faces na po\u00e7a, sorv\u00edamos deliciosamente, a grandes e<br \/>\nr\u00e1pidos sorvos, aquele l\u00edquido desapetitoso, que t\u00e3o<br \/>\nbem imitava \u00e1gua. C\u00e9us! O que bebemos! E mal findamos de beber,<br \/>\narrancamos o fato, saltamos para o charco, e, sentados nele, ficamos horas<br \/>\na embeber-nos de frescura atrav\u00e9s da pele &#8211; da nossa pobre pele mais<br \/>\ndura e mais seca que um pergaminho secular. Quando nos erguemos, refrigerados<br \/>\ne saciados, ca\u00edmos sobre a carne-seca. Comemos a fartar. Uma longa<br \/>\ncachimbada por cima completou aquela hora de consola\u00e7\u00e3o. E o<br \/>\nsono que nos tomou at\u00e9 ao meio-dia, deitados junto da po\u00e7a e<br \/>\nda sua umidade, foi profundo e bendito! Todo aquele dia tardamos junto da<br \/>\n\u00e1gua bebendo dela, mergulhando nela, olhando para ela &#8211; e dando louvores<br \/>\nsem conta ao velho fidalgo, que t\u00e3o exatamente a marcara no mapa. Por<br \/>\nfim, tendo enchido de \u00e1gua os est\u00f4magos e os cantis, continuamos<br \/>\na marcha, mais animados e \u00e1geis, ao erguer da lua cheia. Fizemos vinte<br \/>\ne cinco milhas nessa noite. N\u00e3o tornamos a encontrar \u00e1gua. Mas<br \/>\nsegu\u00edamos confiados, com a certeza de a achar, abundante e fresca,<br \/>\nnas faldas das serras. Quando o sol se ergueu e desfez as n\u00e9voas, avistamos<br \/>\nde novo a cordilheira e os dois \u201cSeios de Sab\u00e1\u201d (agora<br \/>\nafastados de n\u00f3s apenas vinte milhas), tomando o c\u00e9u com a sua<br \/>\nmajestade sublime. Essas vinte milhas cobrimo-las durante a noite. E ao outro<br \/>\nalvorecer pisamos enfim as primeiras ladeiras do seio esquerdo de Sab\u00e1!<br \/>\nCom amargo espanto n\u00e3o encontramos \u00e1gua, e a nossa j\u00e1<br \/>\nia findando! N\u00e3o havia agora esperan\u00e7a de topar nascentes antes<br \/>\nde chegarmos \u00e0 linha de neve, que branquejava l\u00e1 longe, no alto<br \/>\nda serra; e j\u00e1 a sede nos come\u00e7ava outra vez a torturar. Desconsoladamente,<br \/>\nfomos arrastando os passos por sobre o t\u00f3rrido ch\u00e3o de lava<br \/>\nque formava a base do monte. Caminhada atroz! Pelas onze horas da manh\u00e3,<br \/>\napesar de curtos repousos, est\u00e1vamos exaustos &#8211; por causa sobretudo<br \/>\ndos ladrilhos de lava, \u00e1speros e rugosos, que nos magoavam horrivelmente<br \/>\nos p\u00e9s. De sorte que, descobrindo a umas trezentas jardas acima, grossos<br \/>\npedregulhos de lava, decidimos descansar umas fartas horas \u00e0 sua sombra<br \/>\nprovidencial. Para l\u00e1 nos empurramos; por l\u00e1 nos abrigamos.<br \/>\nE n\u00e3o foi pequena surpresa (se ainda nos restava a faculdade de experimentar<br \/>\nsurpresas!) avistar a pequena dist\u00e2ncia, num planalto formando terra\u00e7o<br \/>\nsobre um barranco, uma extensa e fresca tira de verduras. Evidentemente a<br \/>\nlava, decompondo-se, formara ali um ch\u00e3o de terra, onde as sementes<br \/>\ntrazidas por p\u00e1ssaros tinham alastrado e verdejado&#8230; Demos, por\u00e9m,<br \/>\npouca aten\u00e7\u00e3o a essas ervagens, porque n\u00e3o havia l\u00e1<br \/>\nnem fruto nem \u00e1gua &#8211; e de relva s\u00f3 Nabucodonosor se conseguiu<br \/>\nalimentar. Ali ficamos, pois, estirados \u00e0 sombra dos pedregulhos, sem<br \/>\nfor\u00e7a no corpo e sem esperan\u00e7a na alma, pensando que nunca homens<br \/>\nde senso se tinham arriscado a mais est\u00e9ril, mais absurda aventura!<br \/>\nUmbopa, no entanto, depois de considerar algum tempo em sil\u00eancio a leira<br \/>\nde verduras, caminhara para l\u00e1 lentamente. E qual n\u00e3o \u00e9<br \/>\no meu assombro ao ver aquele indiv\u00edduo, ordinariamente t\u00e3o composto<br \/>\ne grave, romper em pulos fren\u00e9ticos, brandindo na m\u00e3o o quer<br \/>\nque fosse de verde! Arremetemos para ele, na esperan\u00e7a ansiosa de \u00e1gua<br \/>\ndescoberta.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 \u00e1gua Umbopa? &#8211; gritava eu pulando por sobre a lava.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c1gua e sustento, Macumaz\u00e3! &#8211; exclamava ele agitando no ar<br \/>\na cousa verde, com efusivo triunfo.<br \/>\n<!-- - 35 --><br \/>\nPercebi enfim o que era. Era um mel\u00e3o! T\u00ednhamos dado num meloal,<br \/>\num enorme meloal bravo, com milhares de mel\u00f5es, a cair de maduros!<br \/>\n&#8211; Mel\u00f5es! &#8211; uivei eu para os companheiros que corriam atr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; Mel\u00f5es! Mel\u00f5es! &#8211; foi o berro vitorioso que ressoou nas<br \/>\nquebradas.<\/p>\n<p>Num momento, cada um de n\u00f3s tinha os dentes cravados num mel\u00e3o,<br \/>\nsofregamente. Comemos ali, entre todos, uns trinta mel\u00f5es; e apesar<br \/>\nde med\u00edocres, creio que nunca nada na vida me soube t\u00e3o deliciosamente.<br \/>\nMas o mel\u00e3o n\u00e3o alimenta \u2013 e refrescada a sede n\u00e3o<br \/>\ntardou a fome, mais intensa e aguda. Conserv\u00e1vamos ainda o biltong,<br \/>\na carne-seca; mas j\u00e1 nos enjoava atrozmente; e al\u00e9m disso dev\u00edamos<br \/>\npoup\u00e1-la com avaro cuidado, pela incerteza de encontrar outras provis\u00f5es<br \/>\nna longa ascens\u00e3o da serra.<\/p>\n<p>Nesse dia, por\u00e9m, est\u00e1vamos \u201cem sorte, decididamente\u201d,<br \/>\ncomo disse John. Lan\u00e7ando os olhos para o deserto, enquanto convers\u00e1vamos<br \/>\nsobre esta terr\u00edvel evid\u00eancia, a fome &#8211; vi de repente uns oito<br \/>\nou dez grandes p\u00e1ssaros voando em dire\u00e7\u00e3o a n\u00f3s,<br \/>\nlentamente.<\/p>\n<p>&#8211; Atire, patr\u00e3o, atire! &#8211; exclamou baixo o nosso servo hotentote,<br \/>\naca\u00e7apando-se imediatamente no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Os outros agacharam-se tamb\u00e9m, para que, confundidos com a cor da<br \/>\nlava, n\u00e3o f\u00f4ssemos avistados pelos p\u00e1ssaros. Era um bando<br \/>\nde enormes betardas, que, no seu v\u00f4o direito e alto, deviam passar a<br \/>\numas cinq\u00fcenta jardas por cima das nossas cabe\u00e7as. Tomei uma carabina<br \/>\nWinchester, e esperei acocorado. Quando o bando vinha perto, ergui-me, com<br \/>\num grito e um salto. Assustados, os p\u00e1ssaros juntaram-se todos precipitadamente<br \/>\nem mont\u00e3o; e atirando \u00e0 massa escura, pude facilmente abater<br \/>\num soberbo bicho, que pesava pelo menos vinte arr\u00e1teis. Dentro de meia<br \/>\nhora ardia uma fogueira de talos secos de mel\u00e3o; e o bicho alourava<br \/>\nem cima. Foi um banquete! Comemos aquela betarda toda, fora carca\u00e7a<br \/>\ne bico!<\/p>\n<p>Nessa noite continuamos a ascens\u00e3o do monte, \u00e0 luz da lua,<br \/>\ncarregados de mel\u00f5es para a sede. \u00c0 maneira que sub\u00edamos,<br \/>\no ar esfriava consoladoramente. Ao clarear do dia est\u00e1vamos a umas<br \/>\ndoze milhas da linha de neve. Encontramos mais mel\u00f5es; e a \u00e1gua<br \/>\nenfim, louvado Deus, j\u00e1 n\u00e3o nos inquietava, porque bem cedo<br \/>\npenetrar\u00edamos nas regi\u00f5es do gelo. No entanto, era imenso o<br \/>\nnosso pasmo de n\u00e3o encontrar nascentes, quedas de \u00e1gua, um riacho<br \/>\ncorrente; porque decerto no ver\u00e3o as neves, derretendo, deviam encher<br \/>\nde \u00e1gua aquelas encostas. Por onde corria a \u00e1gua, pois? Para<br \/>\nonde se sumia a \u00e1gua? S\u00f3 mais tarde descobrimos que por uma<br \/>\ncausa ainda hoje para mim incompreens\u00edvel, toda a \u00e1gua, em riacho<br \/>\nou em queda, descia pela vertente norte da serra. A subida cada vez se tornava<br \/>\nmais \u00e1spera e custosa. Apenas faz\u00edamos uma milha por hora. A<br \/>\ncarne-seca acabara. Mel\u00f5es, nenhuns mais encontramos. O frio aumentava<br \/>\nquase a cada passada, o que nos permitia certamente caminhar de dia, mas nos<br \/>\nregelava de noite, terrivelmente! Havia agora muitas horas que n\u00e3o<br \/>\ncom\u00edamos. A serra subia, subia diante de n\u00f3s, cada vez mais<br \/>\ndesolada, mais nua de verdura ou vida. Os nossos momentos de repouso passavam<br \/>\nnum sil\u00eancio sombrio e cheio de desesperan\u00e7a. Eu, por mim, ia<br \/>\nj\u00e1 t\u00e3o debilitado e confuso, que, desses tr\u00eas dias que<br \/>\nnos levou a ascens\u00e3o da serra, n\u00e3o me recordo com bastante nitidez<br \/>\n&#8211; e s\u00f3 poderia reconstru\u00ed-los pelos apontamentos do meu Di\u00e1rio.<br \/>\nNa nota, com data de 22 de maio, encontro isto: &#8211; \u201cPartimos ao nascer<br \/>\ndo sol. Vamos meio<br \/>\n<!-- - 36 --><br \/>\ndesmaiados de fraqueza. S\u00f3 quatro milhas andadas. Comemos os peda\u00e7os<br \/>\nde neve que come\u00e7amos a encontrar. Frio intenso. Cada um de n\u00f3s<br \/>\nbebe uma gota de conhaque. Para dormir, amontoamo-nos uns sobre os outros;<br \/>\nnem assim conservamos calor. Estamos verdadeiramente sofrendo de fome. Julguei<br \/>\nque Venvogel, o nosso hotentote, ia morrer esta noite\u201d. &#8211; Tudo isto<br \/>\n\u00e9 j\u00e1 terr\u00edvel. Mas o seguinte apontamento, datado de<br \/>\n23 de maio, recorda sofrimentos mais vivos. &#8211; \u201cEstamos numa situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmedonha. A n\u00e3o ser que encontremos que comer hoje, o nosso fim est\u00e1<br \/>\npr\u00f3ximo. O conhaque acabou. Venvogel que, como todos os hotentotes,<br \/>\nn\u00e3o pode ag\u00fcentar frio, parece perdido. As \u00e2nsias agudas<br \/>\nda fome passaram. O que eu sinto (e os outros dizem que sentem o mesmo) \u00e9<br \/>\numa esp\u00e9cie de adormecimento, de torpor no est\u00f4mago. Estamos<br \/>\nao n\u00edvel da grande escarpa, que eu chamo a porta, o colossal muro de<br \/>\nterra, lava e rocha, que liga os dois seios de Sab\u00e1. Para tr\u00e1s<br \/>\nde n\u00f3s estende-se o deserto que atravessamos&#8230; Para que o atravessamos<br \/>\nn\u00f3s?\u201d Logo abaixo destas linhas h\u00e1 outra, escrita decerto<br \/>\nnum dos momentos em que par\u00e1vamos: &#8211; \u201cDeus se amerceie de n\u00f3s,<br \/>\nque chegou o nosso fim!\u201d.<\/p>\n<p>Esta linha n\u00e3o tem data, mas sem d\u00favida foi tra\u00e7ada<br \/>\nno dia 24. Depois, os apontamentos falham; mas eu muito bem me recordo dos<br \/>\nsucessos nesse estranho dia. \u00cdamos ent\u00e3o caminhando atrav\u00e9s<br \/>\nda neve, com paragens incessantes, impostas pela incompar\u00e1vel fadiga.<br \/>\nTudo em redor era radiantemente, indescritivelmente branco. E esta absoluta<br \/>\nbrancura, sob o absoluto sil\u00eancio, tornava-se tanto mais desoladora,<br \/>\nquanto evidenciava a aus\u00eancia de vida &#8211; e a impossibilidade de achar<br \/>\nque comer, fosse animal ou planta. Quase ao p\u00f4r do sol chegamos junto<br \/>\nda \u201cponta do seio\u201d, dessa enorme colina de neve dura, que, pousada<br \/>\nno topo da montanha (da montanha que reproduzia a forma perfeita de um seio),<br \/>\nparecia ela pr\u00f3pria o bico desse peito descomunal. Apesar de exaustos,<br \/>\nprendemo-nos um instante na admira\u00e7\u00e3o daquele espl\u00eandido<br \/>\ncume de monte &#8211; mais espl\u00eandido ainda pela luz vermelha e cor-de-rosa<br \/>\nem que os raios do sol poente o envolviam, dando-lhe um tom de carne, de uma<br \/>\ncarne sobrenatural que de si irradiasse luz. Mas a admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o podia durar em homens colocados, como n\u00f3s, a t\u00e3o<br \/>\nextrema vizinhan\u00e7a da morte. O nosso mal era sobretudo o frio. Bem<br \/>\ncomidos, estimulados por um vinho generoso, ainda poder\u00edamos ag\u00fcentar<br \/>\na pavorosa temperatura daquelas neves eternas. Mas assim, moribundos de fome,<br \/>\n&#8211; como resistir \u00e0 noite que vinha caindo? Quando o sol nos faltasse,<br \/>\ncomo viver\u00edamos, a menos de encontrar um abrigo? Abrigo!&#8230; Onde estava<br \/>\nele, nessa branca e lisa vastid\u00e3o de neve? &#8211; A cova de que fala o portugu\u00eas,<br \/>\nno papel, deve ser por aqui &#8211; murmurou o Capit\u00e3o John.<\/p>\n<p>Pobre John! Tinha os olhos (como os outros, como eu decerto) encovados,<br \/>\nesgazeados, rebrilhantes de febre, sobre a lividez da face hirsuta. Considerei<br \/>\num momento o pobre amigo, encolhendo os ombros: &#8211; Cova! Se tal cova existe&#8230;<br \/>\nNa cova estamos n\u00f3s, ou \u00e0 beira dela.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o, por\u00e9m, agora acreditava firmemente na escrupulosa<br \/>\nexatid\u00e3o do velho D. Jos\u00e9 da Silveira. \u201cSe ele a achou<br \/>\n(argumentava o bar\u00e3o, e com raz\u00e3o) \u00e9 que essa cova est\u00e1<br \/>\nsituada de tal sorte, t\u00e3o saliente e t\u00e3o vis\u00edvel, que<br \/>\nn\u00e3o pode deixar de atrair os olhos, e logo os passos de quem for trepando<br \/>\na serra\u201d.<\/p>\n<p><!-- - 37 --><br \/>\n&#8211; Ainda a encontramos, e antes do sol posto! &#8211; afirmou ele, com um grande<br \/>\ngesto de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Se a n\u00e3o encontramos (foi a minha consoladora r\u00e9plica) e<br \/>\na noite vier sobre n\u00f3s, assim desabrigados, \u00e9 o fim da nossa<br \/>\naventura. Em todo o caso, real ou metaforicamente, \u00e9 a cova! Durante<br \/>\ndez ou doze minutos arrastamos os passos num sil\u00eancio mortal. Umbopa<br \/>\nia adiante, com os ombros abafados na manta curta, e um cinto de couro muito<br \/>\napertado, arrochado em volta da cinta \u201cpara encolher a fome\u201d.<br \/>\nEu seguia atr\u00e1s, quase vergado em dois. De repente tropecei nele, que<br \/>\nparara, e que me agarrou pelo bra\u00e7o: &#8211; Macumaz\u00e3, acol\u00e1!<br \/>\n&#8211; exclamou surdamente, apontando com o cajado.<\/p>\n<p>O que ele apontava era a linha abrupta onde come\u00e7ava, subindo, a<br \/>\nprimeira encosta do \u201cbico do peito\u201d. E a\u00ed, na brancura<br \/>\nda neve, destacava uma mancha preta.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a caverna! &#8211; exclamou Umbopa.<\/p>\n<p>Talvez fosse! Parecia, com efeito, a abertura negra de um buraco. Para l\u00e1<br \/>\nendireitamos os passos. E na realidade encontramos uma gruta, de entrada baixa<br \/>\ne l\u00f4brega, que bem podia ser a que o velho D. Jos\u00e9 da Silveira<br \/>\nmarcara no seu roteiro. Em todo o caso ali estava um abrigo. E bendito era<br \/>\no seu encontro &#8211; porque (como sucede nestas latitudes) o sol sumiu-se subitamente,<br \/>\ne logo atr\u00e1s dele, de golpe, sem crep\u00fasculo, sem grada\u00e7\u00e3o,<br \/>\na noite caiu, gelada e negra. Enfiamos bem depressa para dentro da caverna,<br \/>\ncomo animais acossados: Aconchegamo-nos uns contra os outros, sentados no<br \/>\nch\u00e3o, costas com costas. E ali ficamos na treva, mudos, tiritando e<br \/>\nprocurando esquecer no sono a nossa extrema mis\u00e9ria. Mas o frio, intenso<br \/>\ndemais, n\u00e3o nos consentia dormir. Estou convencido que, naquela altura,<br \/>\no term\u00f4metro marcaria regularmente quatorze ou quinze graus abaixo de<br \/>\nzero! E era esta temperatura que t\u00ednhamos de afrontar, de todo alquebrados<br \/>\nde fadiga, meio inanimados de fome! Pois ali estivemos em mont\u00e3o, encolhidos<br \/>\nuns nos outros, durante a infind\u00e1vel noite, sentindo a cada instante,<br \/>\natrav\u00e9s do corpo, come\u00e7os de congela\u00e7\u00e3o ora num<br \/>\np\u00e9, ora nos dedos, ora na orelha. Debalde nos apert\u00e1vamos! Para<br \/>\nqu\u00ea! Nenhum tinha em si calor bastante para comunicar \u00e0 carca\u00e7a<br \/>\nalheia. \u00c0s vezes um conseguia dormitar durante momento, mas para acordar<br \/>\nlogo em sobressalto, recome\u00e7ar a tremer. De resto, naquelas condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\no sono que se prolongasse &#8211; decerto se tornaria eterno. Foi uma noite angustiosa!<br \/>\nEu, por mim, creio que me conservei vivo por um violent\u00edssimo e teimos\u00edssimo<br \/>\nesfor\u00e7o da vontade.<\/p>\n<p>Um pouco antes da madrugada, Venvogel, o nosso pobre hotentote, cujos dentes<br \/>\ntoda a noite tinham batido como castanholas, chamou baixo por mim, deu um<br \/>\npequeno suspiro, e ficou profundamente sossegado, como se tivesse adormecido.<br \/>\nAs costas dele pousavam contra as minhas costas. Pareceu-me que as sentia<br \/>\npouco a pouco arrefecer. Por fim tornaram-se, positivamente, como uma grande<br \/>\npedra de gelo que me regelava. Duas vezes as repeli. Duas vezes a pedra se<br \/>\nabateu sobre mim, mais fria. O ar, no entanto, clareava. A entrada da cova<br \/>\nfoi aparecendo como uma n\u00e9voa luminosa, feita da refra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo sol sobre a neve. Uma luz mais viva e fixa estendeu para dentro a sua brancura<br \/>\n&#8211; e olhando ent\u00e3o para tr\u00e1s, descobri que o pobre hotentote<br \/>\nestava morto! Decerto morrera quando o ouvi suspirar. Pobre Venvogel! N\u00e3o<br \/>\nadmirava que lhe tivesse sentido as costas cada vez mais frias, mais frias&#8230;<br \/>\nA sua mis\u00e9ria findara. Ali estava agora, na mesma postura, com as m\u00e3os<br \/>\napertadas em torno<br \/>\n<!-- - 38 --><br \/>\ndos joelhos, a cabe\u00e7a ca\u00edda para baixo, gelado. Todos nos erguemos<br \/>\nde salto, com horror. J\u00e1 a esse tempo o dia penetrara na caverna, numa<br \/>\nluz morti\u00e7a e vaga. &#8211; De repente, ao meu lado, ressoou um grito. Volto<br \/>\na cabe\u00e7a, vivamente. E vejo &#8211; vejo ao fundo da gruta, que n\u00e3o<br \/>\ntinha mais de quatro metros, uma forma, uma figura humana, sentada numa pedra,<br \/>\ncom a cabe\u00e7a toda desca\u00edda sobre o peito, os bra\u00e7os hirtos<br \/>\ne pendentes para o ch\u00e3o! Aproximei-me mais, aterrado. E percebi que<br \/>\nera tamb\u00e9m um morto. Pior ainda, percebi que era um branco! Os nossos<br \/>\nnervos, desorganizados j\u00e1, n\u00e3o puderam com esta nova e brusca<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o. Trope\u00e7ando uns nos outros, largamos desesperadamente<br \/>\na fugir para fora da caverna.<\/p>\n<p>Mas depois, fora, na plena luz, olhamos uns para os outros &#8211; envergonhados.<\/p>\n<p>&#8211; Vou ver outra vez &#8211; exclamou o bar\u00e3o terrivelmente p\u00e1lido.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez a figura que vimos seja de meu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Era poss\u00edvel. E um por um, num sil\u00eancio apavorado, atr\u00e1s<br \/>\ndo bar\u00e3o, tornamos a penetrar na gruta. Ao princ\u00edpio, deslumbrados<br \/>\npela grande luz exterior e pela alvura da neve, nada distingu\u00edamos<br \/>\nna penumbra c\u00f4ncava. Por fim a estranha, horr\u00edvel figura destacou,<br \/>\nsurgiu na sombra. Avan\u00e7amos para ela. O bar\u00e3o ajoelhou, espreitou<br \/>\na face morta, teve um suspiro de alivio: &#8211; N\u00e3o, gra\u00e7as a Deus,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 ele! Fui tamb\u00e9m olhar. N\u00e3o, nem remotamente<br \/>\nse parecia com esse sujeito chamado Neville, que eu encontrara em Bamanguato.<br \/>\nO cad\u00e1ver era o de um homem alto, de meia idade, com fei\u00e7\u00f5es<br \/>\naquilinas, cabelo j\u00e1 grisalho, e longos bigodes negros. A pele, perfeitamente<br \/>\namarela, estava toda esticada sobre os ossos. N\u00e3o tinha fato, a n\u00e3o<br \/>\nser uns restos de meias altas, de l\u00e3, at\u00e9 aos joelhos. Do pesco\u00e7o,<br \/>\npreso por uma correntezinha, pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros<br \/>\nhirtos se lhe tinham petrificado.<\/p>\n<p>&#8211; Quem poder\u00e1 ser? &#8211; murmurei, assombrado.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o John contemplava a figura, pensativamente.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho uma id\u00e9ia&#8230; N\u00e3o pode ser sen\u00e3o ele! \u00c9<br \/>\no velho fidalgo! \u00c9 D. Jos\u00e9 da Silveira! Eu e o bar\u00e3o<br \/>\nsoltamos o mesmo grito de incredulidade: &#8211; Imposs\u00edvel! H\u00e1 trezentos<br \/>\nanos! Mas o capit\u00e3o tinha as suas raz\u00f5es, e decisivas. Numa<br \/>\ntemperatura como a da cova, que \u00e9 a de uma geleira, um corpo morto<br \/>\npode perfeitamente conservar-se trezentos anos &#8211; e mesmo tr\u00eas mil&#8230;<br \/>\nEssa temperatura, de quinze a dezessete graus abaixo de zero, nunca ali mudava;<br \/>\nnenhum raio de sol entrara jamais naquela cova voltada para noroeste; n\u00e3o<br \/>\nhavia animais que ali penetrassem e que destru\u00edssem o corpo. Que importavam<br \/>\ntr\u00eas s\u00e9culos? A carne de a\u00e7ougue, que vem da Nova-Zel\u00e2ndia<br \/>\npara Londres dentro das geleiras artificiais, est\u00e1 fresca ao fim de<br \/>\ntrinta dias; e conservada em iguais condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se<br \/>\ndeterioraria ao fim de trinta s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Naturalmente o escravo (de quem ele fala no papel), quando o encontrou morto,<br \/>\ntirou-lhe o fato, n\u00e3o se deu ao trabalho de o enterrar, e abalou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E olhai! &#8211; acrescentou o capit\u00e3o apanhando uma esp\u00e9cie de<br \/>\nosso da forma de um l\u00e1pis, e agu\u00e7ado, que jazia no ch\u00e3o,<br \/>\nao lado. &#8211; Aqui est\u00e1 com que ele desenhou o mapa! Tirou sangue do bra\u00e7o,<br \/>\nescreveu com esta ponta de osso! Passamos o osso de<br \/>\n<!-- - 39 --><br \/>\nm\u00e3o em m\u00e3o, em sil\u00eancio, esquecendo as nossas pr\u00f3prias<br \/>\nmis\u00e9rias no espanto daquele encontro. J\u00e1 n\u00e3o podia haver<br \/>\nd\u00favida. Ali estava ele, pois, sentado numa pedra, frio e duro como<br \/>\nela, o homem cujo derradeiro escrito, tra\u00e7ado havia mais de trezentos<br \/>\nanos, nos trouxera ao lugar mesmo onde ele o escrevera &#8211; para o encontrar<br \/>\na ele pr\u00f3prio, na mesma atitude em que, com seu sangue, riscava o roteiro<br \/>\nque al\u00e9m-t\u00famulo nos guiava! Incompar\u00e1vel maravilha! Ali<br \/>\ntinha eu na m\u00e3o a rude pena com que ele tra\u00e7ara essas linhas!<br \/>\nE parecia que ante mim, pouco a pouco, ressurgiam vis\u00edveis, redivivos,<br \/>\nos momentos passados h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos: o her\u00f3ico<br \/>\nfidalgo, morto de frio e de fome, procurando revelar ao seu rei o segredo<br \/>\nimenso que descobrira; a camisa rasgada, a veia aberta; as linhas tr\u00eamulas<br \/>\nansiosamente lan\u00e7adas; a pena informe, escorregando-lhe da m\u00e3o;<br \/>\na treva da noite enchendo a cova; o derradeiro beijo pousado no crucifixo;<br \/>\num pensamento dado ainda aos seus, \u00e0 terra de onde partira num gale\u00e3o,<br \/>\nao rei que servia com indomada f\u00e9; por fim a morte, o lento e sereno<br \/>\nresvalar para a morte, naquele imenso sil\u00eancio e na imensa solid\u00e3o!<br \/>\nPor vezes mesmo, olhando para ele, parecia-me reconhecer as aquilinas e en\u00e9rgicas<br \/>\nfei\u00e7\u00f5es do seu descendente, o pobre Silveira, que me morrera<br \/>\nnos bra\u00e7os. Talvez a imagina\u00e7\u00e3o. Em todo o caso ele ali<br \/>\nestava, o primeiro, o antepassado, esse de quem o seu remoto neto me falara,<br \/>\nestendendo os olhos j\u00e1 embaciados para os distantes seios de Sab\u00e1.<br \/>\nAli estava; e provavelmente l\u00e1 est\u00e1 ainda, l\u00e1 estar\u00e1,<br \/>\natrav\u00e9s dos s\u00e9culos que h\u00e3o de vir, para espantar outros<br \/>\naventurosos homens como n\u00f3s, se jamais houver outros que cheguem a<br \/>\npenetrar na sua espantosa e solit\u00e1ria tumba! &#8211; Vamos embora! &#8211; exclamou<br \/>\no bar\u00e3o, muito p\u00e1lido. Mas parou. E apontando para o corpo de<br \/>\nVenvogel, que ficara na mesma postura, com os joelhos \u00e0 boca, os bra\u00e7os<br \/>\napertados em volta dos joelhos: &#8211; Demos uma companhia ao pobre morto, para<br \/>\ndormir neste esquecimento.<\/p>\n<p>Erguemos ent\u00e3o o cad\u00e1ver de Venvogel e colocamo-lo sentado<br \/>\nna pedra, junto do velho fidalgo portugu\u00eas. Depois o bar\u00e3o quebrou<br \/>\na corrente que pendia do pesco\u00e7o de D. Jos\u00e9 da Silveira, e guardou<br \/>\no crucifixo no seio. Eu pr\u00f3prio tomei o osso em forma de l\u00e1pis.<br \/>\nAqui o tenho ao meu lado, enquanto estas linhas escrevo. \u00c0s vezes assino<br \/>\ncom ele o meu nome. Finalmente, tendo-os deixado lado a lado, o altivo fidalgo<br \/>\nde outras eras e o pobre servo hotentote, a passar a sua eterna vig\u00edlia<br \/>\nentre essas eternas neves, sa\u00edmos da caverna para a luz &#8211; espl\u00eandida<br \/>\n&#8211; e retomamos em fila o nosso triste caminho, pensando que bem cedo estar\u00edamos<br \/>\ncomo eles, gelados e hirtos, num barranco da serra.<\/p>\n<p>Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegamos enfim \u00e0 extremidade<br \/>\ndo planalto do monte, sobre o qual assentava o \u201cbico do peito\u201d.<br \/>\nE foi uma grande emo\u00e7\u00e3o. Por baixo de n\u00f3s, adiante de<br \/>\nn\u00f3s, estava (devia estar) enfim essa regi\u00e3o misteriosa para<br \/>\nal\u00e9m das serras, que n\u00f3s v\u00ednhamos demandando; mas toda<br \/>\nela se ocultava sob um denso nevoeiro. Ali ficamos pois repousando, esperando.<br \/>\nPouco a pouco, as camadas mais altas da n\u00e9voa foram-se desfazendo.<br \/>\nAvistamos ent\u00e3o um pendor da serra, muito doce e todo coberto de neve.<br \/>\nDepois outras camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e apareceu aos nossos<br \/>\nolhos famintos uma campina de erva verde, um regato correndo atrav\u00e9s,<br \/>\ne \u00e0 beira da \u00e1gua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animais<br \/>\nque nos pareceram ant\u00edlopes.<\/p>\n<p><!-- - 40 --><br \/>\nA nossa alegria &#8211; foi como a de uma ressurrei\u00e7\u00e3o. Ca\u00e7a!<br \/>\nAli estava ca\u00e7a para comer, e deliciosa! Era a salva\u00e7\u00e3o,<br \/>\nera a vida! A dificuldade era ca\u00e7ar &#8211; essa ca\u00e7a!&#8230; Lembro-me<br \/>\nque, no nosso imenso alvoro\u00e7o, tivemos uma r\u00e1pida e atarantada<br \/>\ndiscuss\u00e3o, em voz baixa e tr\u00eamula &#8211; se dev\u00edamos aproximarmos<br \/>\nda ca\u00e7a ou fazer fogo dali; se dev\u00edamos usar as carabinas Winchester<br \/>\nou a Express! Indecis\u00e3o terr\u00edvel &#8211; porque de acertar ou falhar<br \/>\ndependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me decidi. Se tent\u00e1ssemos<br \/>\natravessar o pendor da neve, pod\u00edamos espantar o rebanho. E a carabina<br \/>\nExpress, apesar de um alcance inferior, era prefer\u00edvel \u2013 porque<br \/>\nas balas explosivas mais facilmente apanhariam algum dos ant\u00edlopes.<\/p>\n<p>Enfim, fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou tremendamente<br \/>\nnas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que, alegria sem-par! &#8211; vemos<br \/>\num dos animais por terra esperneando furiosamente. Berramos de puro gozo.<br \/>\nEst\u00e1vamos salvos! Salvos! De fome j\u00e1 n\u00e3o morr\u00edamos!<br \/>\nCorremos aos trambolh\u00f5es pela neve abaixo; e em poucos momentos t\u00ednhamos<br \/>\nnas m\u00e3os os f\u00edgados e o cora\u00e7\u00e3o do animal, quentes<br \/>\ne fumegando! Mas surgia uma dificuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a<br \/>\nca\u00e7a? &#8211; Gente faminta n\u00e3o tem exig\u00eancias! &#8211; gritou excitadamente<br \/>\no Capit\u00e3o John. &#8211; A ela, e crua! N\u00e3o restava outra solu\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; e n\u00e3o nos pareceu repugnante. Arrefecemos as v\u00edsceras na neve,<br \/>\nlavamo-las na \u00e1gua corrente &#8211; e devoramo-las com voracidade! Parece<br \/>\nhorr\u00edvel; mas confesso que aquela carne crua me soube divinamente!<br \/>\nDa\u00ed a um quarto de hora, que mudan\u00e7a! Voltara-nos a vida, o<br \/>\nvigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu, por mim, sentia positivamente<br \/>\no sangue degelar-se, correr-me dentro das veias! O bar\u00e3o apertou as<br \/>\nm\u00e3os, e disse simplesmente: &#8211; Louvado seja Deus por isto! Ficamos olhando<br \/>\nuns para os outros, muito tempo, sem fala, num sorriso mudo. E n\u00e3o<br \/>\nhavia em n\u00f3s outra sensa\u00e7\u00e3o &#8211; sen\u00e3o a de estarmos<br \/>\nsalvos, de estarmos vivos! Por fim adormecemos, envoltos docemente no sol,<br \/>\nque subia macio e t\u00e9pido. Quando acordamos, e esfregamos os olhos,<br \/>\no nevoeiro desaparecera. Toda a vasta regi\u00e3o, embaixo nos apareceu<br \/>\nnum relance. Demos um grande ah, lento e maravilhado! Nunca eu vira (nem outra<br \/>\nvez verei!) terra mais deslumbrante! Mudo ainda, tonto da fadiga e da fome<br \/>\npassada, parecia-me que morrera, que chegara ao Para\u00edso, e que o Senhor<br \/>\nnos ia aparecer! Est\u00e1vamos no planalto de um dos \u201cSeios de Sab\u00e1\u201d,<br \/>\ncom um dos \u201cbicos do peito\u201d, erguendo-se por tr\u00e1s de n\u00f3s<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s nuvens, sublime e brilhante de neve. Logo por baixo desciam<br \/>\nos vastos pendores da serra, numa profundidade de cinco mil p\u00e9s; e<br \/>\npara al\u00e9m das derradeiras faldas, a perder de vista, eram l\u00e9guas<br \/>\ne l\u00e9guas de uma terra esplendidamente f\u00e9rtil, de ador\u00e1vel<br \/>\nbeleza. Vimo-la desdobrada ante n\u00f3s, como um imenso mapa em relevo;<br \/>\ne os seus encantos diferentes, assim abrangidos num relance, davam a impress\u00e3o<br \/>\nde um para\u00edso resumido, onde Deus prodigamente tivesse reunido as suas<br \/>\nobras melhores. Escassamente se pode detalhar uma paisagem t\u00e3o formosa<br \/>\ne v\u00e1ria. Aqui alastrava-se uma vasta mancha de floresta; al\u00e9m<br \/>\num rio ondulava com vivos brilhos de a\u00e7o novo; para diante longas pradarias<br \/>\ntapetavam o solo de verde tenro e claro; mais longe era um lago que brilhava,<br \/>\ngrandes rebanhos<br \/>\n<!-- - 41 --><br \/>\nque pastavam, ou uma colina onde a \u00e1gua viva borbulhava e faiscava<br \/>\nentre as rochas. As culturas abundavam, ricamente coloridas. A cada instante<br \/>\nentre pomares e regatos avist\u00e1vamos aldeias graciosas, com as cabanas<br \/>\ncoroadas por um teto de colmo agudo. De tudo se elevava uma sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nprodigiosa de vida, de fartura, de paz. No horizonte surgiam picos de serras<br \/>\nremotas, cobertas de neves. E um sol radiante derramava ilimitadamente a alegria<br \/>\ndo seu fulgor de ouro.<\/p>\n<p>Duas cousas nos impressionaram. Primeiramente, que aquela regi\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o rica estivesse pelo menos cinco mil p\u00e9s acima do n\u00edvel<br \/>\ndo deserto. E depois que toda a \u00e1gua da serra corresse de sul para<br \/>\nnorte, do lado oposto ao sert\u00e3o, indo unir-se ao magn\u00edfico rio<br \/>\nque se perdia no horizonte azulado. Nenhum de n\u00f3s falava, arroubados<br \/>\nna contempla\u00e7\u00e3o daquela incompar\u00e1vel natureza. Por fim<br \/>\no bar\u00e3o estendeu o bra\u00e7o: &#8211; H\u00e1 uma estrada marcada no<br \/>\nmapa, com o nome de estrada de Salom\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdade?<br \/>\nPois l\u00e1 est\u00e1, al\u00e9m, para a direita&#8230;<\/p>\n<p>E com efeito, para a direita, nos primeiros declives da serra, abaixo dos<br \/>\nnossos p\u00e9s, branquejava uma grande estrada! Unhamos j\u00e1 perdido<br \/>\ntoda a faculdade de admirar. E a nenhum de n\u00f3s pareceu estranho, que,<br \/>\nno topo de uma montanha, no centro da \u00c1frica, a centos de l\u00e9guas<br \/>\nde toda a ci\u00eancia e civiliza\u00e7\u00e3o, houve uma estrada, com<br \/>\nas propor\u00e7\u00f5es e grandeza de uma velha via romana, branca como<br \/>\nneve, talhada sobre os abismos.<\/p>\n<p>&#8211; O melhor \u00e9 descermos &#8211; disse simplesmente o Capit\u00e3o John.<br \/>\nA estrada ficava (como disse) \u00e0 nossa direita, surgindo por tr\u00e1s<br \/>\nde grossas penedias que se amontoavam no primeiro pendor da serra. Cortamos<br \/>\npara l\u00e1, devagar, ora atrav\u00e9s de grandes espa\u00e7os de neve,<br \/>\nora por sobre montes de lava. Quando dobramos por fim as penedias, avistamo-la<br \/>\nde repente, embaixo, a algumas jardas. Era magn\u00edfica, toda cortada<br \/>\nna rocha viva, e admiravelmente conservada! Mas, cousa extraordin\u00e1ria,<br \/>\nparecia come\u00e7ar ali, ao meio da serra, bruscamente. Continuamos a descida<br \/>\nalvoro\u00e7ados, pusemos enfim os p\u00e9s sobre as suas fortes lajes.<br \/>\nOlhamos, exploramos em redor. A estranha via findava com efeito ali, na serra,<br \/>\nentre umas rochas de lava entremeadas de neve! &#8211; Extraordin\u00e1rio! &#8211;<br \/>\nexclamou o bar\u00e3o. &#8211; Por que come\u00e7a esta estrada assim, ou por<br \/>\nque acaba assim, de repente, no meio da serra? Abanei a cabe\u00e7a, em<br \/>\nperfeita ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que percebo &#8211; disse o capit\u00e3o co\u00e7ando o queixo.<\/p>\n<p>&#8211; Esta estrada \u00e9 simplesmente maravilhosa! N\u00e3o acaba aqui.<\/p>\n<p>Antigamente galgava a cordilheira e seguia pelo deserto. Mas a parte que<br \/>\ngalgava a serra para al\u00e9m, foi coberta por mont\u00f5es de lava,<br \/>\nnalguma erup\u00e7\u00e3o; e a parte que cortava o deserto foi invadida<br \/>\npelas areias movedi\u00e7as. N\u00e3o pode ser sen\u00e3o isto.<\/p>\n<p>Talvez fosse. Em todo o caso largamos os passos por sobre essa surpreendente<br \/>\nestrada, que tinha o nome de Salom\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta suave descida por uma magn\u00edfica cal\u00e7ada, com as for\u00e7as<br \/>\nrestauradas, e a abund\u00e2ncia a esperar-nos embaixo, nos f\u00e9rteis<br \/>\ncampos cheios de gado, &#8211; era bem diferente da subida pela neve acima, extenuados<br \/>\nde fome e de fadiga, e com aflitiva incerteza do que estaria para al\u00e9m.<br \/>\nNa verdade, se n\u00e3o fosse a triste lembran\u00e7a do pobre Venvogel<br \/>\ne da sinistra cova, onde ele espectralmente ficara ao lado do velho fidalgo<br \/>\nde outras eras, poder\u00edamos cantar de pura alegria. A cada milha que<br \/>\n<!-- - 42 --><br \/>\nand\u00e1vamos, o ar cada vez se tornava mais macio e t\u00e9pido; e a<br \/>\nregi\u00e3o em torno parecia crescer para n\u00f3s, a transbordar de abund\u00e2ncia<br \/>\ne beleza. A estrada, essa, era positivamente portentosa. Afirmava o bar\u00e3o<br \/>\nque tinha semelhan\u00e7as com a estrada do Saint-Gothard sobre os Alpes.<br \/>\nEu, por mim, n\u00e3o vira maravilha maior! Num certo s\u00edtio abria-se<br \/>\numa ravina medonha, de uns trezentos p\u00e9s de largura, de uma profundidade<br \/>\nde mais de cem p\u00e9s; pois este abismo estava vadeado por um colossal<br \/>\naqueduto, com arcos para a passagem das torrentes, sobre o qual a estrada<br \/>\nseguia com soberba seguran\u00e7a. Noutros s\u00edtios cortada em ziguezagues<br \/>\nna rocha, contornava pavorosos precip\u00edcios, com parapeitos que a defendiam<br \/>\ne formavam balc\u00f5es sobre o abismo. Mais adiante, perfurava um monte<br \/>\nde rocha, com um t\u00fanel de trinta jardas.<\/p>\n<p>Nas paredes deste t\u00fanel corriam singulares relevos, representando<br \/>\nguerreiros com cotas de malha, que retesavam arcos, guiavam carros de combate.<br \/>\nHavia mesmo uma grande cena de batalha, com lan\u00e7as em confus\u00e3o,<br \/>\ne cativos acorrentados.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo isto \u00e9 obra eg\u00edpcia &#8211; dizia o bar\u00e3o parando<br \/>\na cada instante. &#8211; Tudo isto eu vi nos templos do alto Egito. O nome da estrada<br \/>\nviera de Salom\u00e3o. Mas estas esculturas s\u00e3o das m\u00e3os de<br \/>\neg\u00edpcios.<\/p>\n<p>Pela uma hora da tarde t\u00ednhamos descido a montanha at\u00e9 as<br \/>\nfaldas baixas onde come\u00e7ava o arvoredo. Ao princ\u00edpio eram apenas<br \/>\nraros arbustos silvestres. Depois a estrada penetrava num bosque de olmos,<br \/>\nuns olmos com as folhas que brilham como prata, e que eu supunha s\u00f3<br \/>\nexistirem no Cabo.<\/p>\n<p>&#8211; Estamos ao menos em terra de lenha! \u2013 exclamou entusiasmado o Capit\u00e3o<br \/>\nJohn. &#8211; Vamos parar, e cozinhar um jantar. Eu, por mim, j\u00e1 digeri aquela<br \/>\ncarne crua&#8230; Reentremos solenemente na civiliza\u00e7\u00e3o! Todos,<br \/>\ncom efeito, t\u00ednhamos fome; e deixando a estrada, fomos em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\na um regato que brilhava a dist\u00e2ncia entre \u00e1rvores e relvas.<br \/>\nBem depressa fizemos um fogo de ramos secos; e, cortando suculentos bifes<br \/>\ndo lombo do ant\u00edlope que troux\u00e9ramos conosco, assamo-los na<br \/>\nponta de espetos de pau, \u00e0 velha maneira dos cafres. Ao fim do delicioso<br \/>\nrepasto acendemos os cachimbos &#8211; e estirados \u00e0 sombra das frescas \u00e1rvores,<br \/>\ngozamos enfim, depois de t\u00e3o longos e duros dias, um repouso perfeito.<\/p>\n<p>O lugar era ador\u00e1vel. O regato, muito frio e muito puro, cantava<br \/>\nsobre seixos que reluziam. As margens verdejavam, cobertas de fetos espl\u00eandidos,<br \/>\nentremeados com plumas de espargos silvestres. Aqui e al\u00e9m cresciam<br \/>\ntufos de flores. Uma brisa, t\u00e9pida e macia como veludo, sussurrava<br \/>\nnas folhas dos olmos. Bandos de rolas arrulhavam meigamente. E, de ramo em<br \/>\nramo, faiscavam as asas de p\u00e1ssaros mais brilhantes que j\u00f3ias.<\/p>\n<p>Nenhum falava, no enlevo daquela paz e daquela do\u00e7ura. E por muito<br \/>\ntempo nenhum de n\u00f3s se moveu &#8211; at\u00e9 que o Capit\u00e3o John,<br \/>\nsurgindo de repente nu do leito espesso de fetos onde se enterrara, correu<br \/>\npara o riacho, e mergulhou num longo e ruidoso banho. Deitado de costas, num<br \/>\nbem-estar indiz\u00edvel, ocupei-me ent\u00e3o a observar aquele homem<br \/>\nadmir\u00e1vel, que, apenas se achava numa regi\u00e3o de ordem, retomava<br \/>\nos seus complicados h\u00e1bitos de asseio e de eleg\u00e2ncia. Depois<br \/>\ndo banho, o nosso excelente amigo revestiu a camisa de flanela; e sentando-se<br \/>\n\u00e0 beira do regato, rompeu a lavar os seus colarinhos de guta-percha.<br \/>\nFinda esta barrela sacudiu, escovou, esticou as cal\u00e7as, o colete, o<br \/>\njaquet\u00e3o, dobrou tudo cuidadosamente, e p\u00f4s-<br \/>\n<!-- - 43 --><br \/>\nlhe por cima pedras para acamar e desfazer os vincos. Em seguida, profundamente<br \/>\nconcentrado, passou \u00e0s botas, que esfregou com uma m\u00e3o cheia<br \/>\nde feto, e depois besuntou com gordura de ant\u00edlope (que pusera de lado)<br \/>\nat\u00e9 lhes dar uma apar\u00eancia comparativamente lustrosa e decente.<br \/>\nTendo-as examinado com cuidado, de mon\u00f3culo fixo e cabe\u00e7a \u00e0<br \/>\nbanda, encetou outras e mais delicadas opera\u00e7\u00f5es. De um pequeno<br \/>\nsaco que trazia na mochila, tirou um espelhinho e examinou cuidadosamente<br \/>\ndentes, olhos, cabelos, barba &#8211; a barba j\u00e1 grossa de oito dias. Este<br \/>\nexame parecia humilh\u00e1-lo, porque abanava a cabe\u00e7a com desconsola\u00e7\u00e3o<br \/>\ne t\u00e9dio. Come\u00e7ou ent\u00e3o pelas unhas que aparou e poliu;<br \/>\ndepois seguiu ao cabelo que acamou e apartou&#8230; Mas de repente, com uma id\u00e9ia,<br \/>\ncal\u00e7ou as botas que pusera ao lado; e assim, de botas, com as pernas<br \/>\nnuas, e em camisa de flanela, ergueu-se para ir pendurar o espelhinho num<br \/>\nramo de \u00e1rvore. O arranjo n\u00e3o provou satisfatoriamente, porque<br \/>\nvoltou para a beira do regato, e com custo e arte equilibrou o espelho numa<br \/>\nfolha grossa de feto. Tornou logo a meter a m\u00e3o no saco e tirou uma<br \/>\nnavalha de barba&#8230; \u201cSanto Deus! pensei eu erguendo-me no cotovelo,<br \/>\no homem ir\u00e1 fazer a barba?\u201d Ia. Tomando outra vez o peda\u00e7o<br \/>\nde gordura de ant\u00edlope com que ensebara as botas, lavou-a escrupulosamente<br \/>\nno regato, esfregou com ela desesperadamente a face e o queixo, e principiou<br \/>\na rapar o p\u00ealo \u00e1spero de dez dias. Era por\u00e9m uma opera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndif\u00edcil, porque cada movimento da navalha vinha acompanhado de um angustioso<br \/>\ngemido. Por fim conseguiu escanhoar a face esquerda e metade do queixo. Grande<br \/>\nsuspiro de al\u00edvio! E ia atacar a outra face &#8211; quando, de repente, vi<br \/>\numa cousa passar e lampejar por cima da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>John deu um pulo, com uma praga. Ergui-me tamb\u00e9m de salto &#8211; e na<br \/>\nmesma margem do regato, \u00e0 dist\u00e2ncia de uns trinta passos, dei<br \/>\ncom os olhos num bando de homens. Era uma gente de grande estatura, imensamente<br \/>\nrobusta, e cor de cobre.<\/p>\n<p>Alguns deles traziam aos ombros peles de leopardo, e na cabe\u00e7a umas<br \/>\ncoroas de altas penas, negras, direitas, que ondulavam na brisa. Em frente<br \/>\ndo bando, um rapaz de uns dezessete anos conservava ainda o bra\u00e7o erguido<br \/>\ne o corpo inclinado, na atitude graciosa de uma est\u00e1tua que eu vira<br \/>\nno Cabo, um efebo grego que lan\u00e7a um dardo. Evidentemente a cousa que<br \/>\npassara e brilhara era um dardo &#8211; e fora o mo\u00e7o airoso que o arremessara.<\/p>\n<p>Quase imediatamente, um velho, de ar marcial, saiu dentre o grupo, e, agarrando<br \/>\no bra\u00e7o do rapaz, falou-lhe baixo como se o avisasse. Em seguida todos<br \/>\navan\u00e7aram para n\u00f3s.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o, John e Umbopa, tinham logo agarrado e apontado as carabinas.<br \/>\nOs homens todavia continuavam avan\u00e7ando, devagar, em grupo. Percebi<br \/>\nlogo que nunca tinham visto espingardas, pelo modo como afrontavam assim tranq\u00fcilamente<br \/>\nos tr\u00eas canos erguidos.<\/p>\n<p>&#8211; Baixem as armas! &#8211; gritei aos outros.<\/p>\n<p>Tinha compreendido tamb\u00e9m que a nossa seguran\u00e7a entre essa<br \/>\ngente selvagem dependia toda de concilia\u00e7\u00e3o e de ardil. Apenas<br \/>\npois os companheiros baixaram as armas, caminhei lentamente para o velho.<\/p>\n<p>&#8211; Bem-vindo! &#8211; exclamei em zulu, ao acaso, sem saber que idioma entenderiam<br \/>\naqueles homens.<\/p>\n<p><!-- - 44 --><br \/>\nCom surpresa minha, o velho compreendeu. E respondeu logo, n\u00e3o em zulu,<br \/>\nmas num outro dialeto, t\u00e3o parecido com o zulu, que Umbopa e eu o percebemos<br \/>\nperfeitamente: &#8211; Bem-vindo! Como viemos a saber depois, a l\u00edngua deste<br \/>\npovo era uma forma antiquada da l\u00edngua zulu &#8211; e estando para o zulu<br \/>\ndo sul como o ingl\u00eas do tempo dos Tudores est\u00e1 para o ingl\u00eas<br \/>\npolido do s\u00e9culo XIX. No entanto, o velho avan\u00e7ara outro passo,<br \/>\nerguendo a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; De onde vindes? &#8211; continuou ele. &#8211; Quem sois? Por que tendes tr\u00eas<br \/>\nde v\u00f3s as faces brancas, e o outro a pele como n\u00f3s e como os<br \/>\nfilhos de nossas m\u00e3es? E apontava para Umbopa &#8211; que na realidade, pela<br \/>\nfigura, pela cor, pelas fei\u00e7\u00f5es, era muito semelhante \u00e0queles<br \/>\nhomens formid\u00e1veis. Eu ent\u00e3o repeti a sauda\u00e7\u00e3o<br \/>\nao velho. E, muito espa\u00e7adamente, para que ele apanhasse bem o meu<br \/>\nzulu: &#8211; Somos gente de outros s\u00edtios; vimos em boa paz, e este homem<br \/>\n\u00e9 nosso servo.<\/p>\n<p>O velho abanou lentamente a cabe\u00e7a, ornada de imensas plumas negras<br \/>\nque ondulavam.<\/p>\n<p>&#8211; Mentes! A gente de outros s\u00edtios n\u00e3o pode atravessar as<br \/>\nmontanhas, nem o deserto sem \u00e1gua onde toda vida acaba. Mas n\u00e3o<br \/>\nimporta que mintas&#8230; Se sois estranhos e vindes de outros s\u00edtios,<br \/>\ntendes de morrer, porque n\u00e3o \u00e9 permitido a ningu\u00e9m entrar<br \/>\nna terra dos cacuanas. \u00c9 a vontade do nosso rei. Preparai-vos pois<br \/>\npara morrer, oh gentes! Fiquei um pouco perturbado &#8211; tanto mais que vi alguns<br \/>\nselvagens levarem logo a m\u00e3o ao cinto de onde lhes pendiam umas armas<br \/>\nem forma de pesadas navalhas.<\/p>\n<p>&#8211; Que diz esse malandro? &#8211; perguntou o capit\u00e3o, percebendo o meu<br \/>\nembara\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Diz simplesmente que nos vai retalhar \u00e0 faca.<\/p>\n<p>&#8211; Santo Deus! &#8211; murmurou o nosso amigo.<\/p>\n<p>E, como era seu costume, em frente de um perigo ou de uma crise, passou<br \/>\nnervosamente a m\u00e3o pelo queixo e pelos bei\u00e7os. Alguma cousa<br \/>\ndecerto lhe sucedeu ent\u00e3o \u00e0 dentadura posti\u00e7a (que momentos<br \/>\nantes tirara para lavar e que tornara a p\u00f4r), porque num relance lhe<br \/>\nvi os dentes todos de fora, e logo sumidos para dentro! N\u00e3o percebi<br \/>\nbem o caso. Mas qual \u00e9 o meu espanto quando os cacuanas soltam um grito<br \/>\nde terror, e recuam para tr\u00e1s, em tropel! &#8211; Que foi? &#8211; exclamei.<\/p>\n<p>&#8211; Foram os dentes! &#8211; acudiu o bar\u00e3o, excitadamente. \u2013 Os selvagens<br \/>\nviram-lhe os dentes a mover-se&#8230; Tira-os de todo, John, tira-os de todo.<br \/>\nTalvez os assustes.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o prontamente compreendeu, passou a m\u00e3o devagar por<br \/>\nsobre a boca, e escamoteou a dentadura. Os cacuanas, no entanto, numa \u00e2nsia<br \/>\nde curiosidade, avan\u00e7avam de novo, com os olhos arregalados para John.<br \/>\nE foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a m\u00e3o, com<br \/>\nsolenidade: &#8211; Quem \u00e9 este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto,<br \/>\nas pernas nuas, cabelos s\u00f3 em metade da cara, e um grande olho que<br \/>\nreluz? Quem \u00e9 ele e que faz mexer assim \u00e0 vontade os dentes<br \/>\npara dentro e para fora da boca? &#8211; Abra a boca, John! &#8211; murmurei eu baixo<br \/>\npara o capit\u00e3o. John arreganhou os bei\u00e7os, e exibiu duas gengivas<br \/>\nmuito vermelhas, desdentadas como as de um rec\u00e9m-nascido. Entre os<br \/>\nselvagens passou um sussurro de espanto.<\/p>\n<p><!-- - 45 --><br \/>\n&#8211; Onde est\u00e3o os dentes? Ainda agora tinha dentes! &#8211; exclamavam eles,<br \/>\nentre si, com gestos apavorados. Ent\u00e3o John deu um movimento vagaroso<br \/>\n\u00e0 cabe\u00e7a, passou a m\u00e3o pela boca com soberana indiferen\u00e7a,<br \/>\ne desfranzindo de novo os bei\u00e7os &#8211; mostrou duas espl\u00eandidas filas<br \/>\nde dentes, muito fortes, muito s\u00e3os, que rebrilhavam.<\/p>\n<p>No mesmo instante o rapaz que despedira o dardo arremessou-se para o ch\u00e3o,<br \/>\ncom gritos espavoridos. Todo o bando tapava as faces com as m\u00e3os, num<br \/>\nterror. E o velho, que parecia o mais resoluto, tremia tanto, e t\u00e3o<br \/>\nencolhido, que lhe batiam os joelhos um contra o outro.<\/p>\n<p>S\u00f3 quem conhece selvagens e a mobilidade daquelas imagina\u00e7\u00f5es<br \/>\ninfantis, pode compreender como subitamente, em cada um deles, ao desejo de<br \/>\nnos matar ia j\u00e1 sucedendo o impulso de nos adorar&#8230; Quando o velho<br \/>\ntornou a levantar a voz, foi muito humildemente e numa postura de s\u00faplica:<br \/>\n&#8211; V\u00f3s sois esp\u00edritos! Bem vejo que sois esp\u00edritos, oh<br \/>\ngentes! Nunca houve homem nascido de mulher que tivesse s\u00f3 cabelo num<br \/>\nlado da cara, e um olho redondo e transparente, e dentes que se derretem e<br \/>\nde repente crescem outra vez&#8230; V\u00f3s sois esp\u00edritos. Perdoai-nos,<br \/>\nsenhores, perdoai-nos! Aproveitei logo esta espl\u00eandida ocasi\u00e3o.<br \/>\nE estendendo o bra\u00e7o, com soberba magnanimidade: &#8211; Estais perdoados.<\/p>\n<p>Era por\u00e9m necess\u00e1rio, para nossa salva\u00e7\u00e3o, que<br \/>\ndeslumbr\u00e1ssemos e inteiramente nos apoder\u00e1ssemos daquelas almas<br \/>\nferozes e simples. E para isso, na \u00c1frica (como noutras partes) o mais<br \/>\npronto instrumento \u00e9 o sobrenatural. N\u00e3o hesitei portanto (com<br \/>\nvergonha o confesso) em me atribuir, a mim e aos meus companheiros, uma origem<br \/>\ndivina! De resto, com o negro da \u00c1frica Central, que pela primeira<br \/>\nvez v\u00ea o branco, e assiste a alguns dos milagres que o branco pode realizar<br \/>\ncom os pequenos recursos da sua pequena civiliza\u00e7\u00e3o, este procedimento<br \/>\n\u00e9 o mais seguro e o mais humano. O selvagem fica desde logo (pelo menos<br \/>\npor algum tempo) contido dentro do respeito, absolutamente razo\u00e1vel<br \/>\ne trat\u00e1vel; e assim, poupando ao negro as trai\u00e7\u00f5es, os<br \/>\nbrancos poupam a si pr\u00f3prios as repres\u00e1lias.<\/p>\n<p>Ergui pois a m\u00e3o, e disse, com vagar e majestade: &#8211; J\u00e1 que<br \/>\nvos perdoei, porque sois ignorantes, condescendo tamb\u00e9m em vos dizer<br \/>\nquem somos. Somos esp\u00edritos! Vivemos al\u00e9m, por cima das nuvens,<br \/>\nnuma daquelas estrelas que v\u00f3s vedes de noite brilhar. E viemos visitar<br \/>\nesta terra, mas em paz e para alegria de todos! Entre os ind\u00edgenas<br \/>\ncorreram grandes ah! ah! lentos e maravilhados.<\/p>\n<p>Eu prossegui, mais grave: &#8211; N\u00f3s conhecemos todos os reis e todas<br \/>\nas gentes. E eu, que sou a voz dos outros, conhe\u00e7o todas as l\u00ednguas.<\/p>\n<p>&#8211; A nossa bem mal! &#8211; arriscou com timidez o velho guerreiro. Dardejei-lhe<br \/>\num olhar chamejante que o estarreceu. E gritei logo, para fazer uma divers\u00e3o<br \/>\nbrusca \u00e0quela observa\u00e7\u00e3o t\u00e3o justa e perigosa:<br \/>\n&#8211; Viemos em paz, \u00e9 certo! Mas fomos recebidos em guerra. E talvez dev\u00eassemos<br \/>\ncastigar j\u00e1 o ultraje feito por esse mo\u00e7o, que sem provoca\u00e7\u00e3o<br \/>\natirou uma faca ao esp\u00edrito divino, cujos dentes de repente nascem<br \/>\ne caem.<\/p>\n<p>&#8211; Oh n\u00e3o! Meu senhor! &#8211; gritou numa ansiosa s\u00faplica o velho<br \/>\nguerreiro. &#8211; Poupai-o! Poupai-o, que \u00e9 o filho do nosso rei! Eu sou<br \/>\nseu tio, que o ajudei a criar. S\u00f3<br \/>\n<!-- - 46 --><br \/>\neu respondo por cada gota do sangue que lhe gira nas veias!&#8230; Oh meu senhor,<br \/>\na clem\u00eancia vai bem aos esp\u00edritos! Afetei n\u00e3o compreender<br \/>\na angustiosa prece, &#8211; e tornei, com superior indiferen\u00e7a: &#8211; As nossas<br \/>\nmaneiras de castigar s\u00e3o simples e terr\u00edveis. Num instante ides<br \/>\nver&#8230; Tu, escravo que nos segues (e aqui encarei para Umbopa), d\u00e1-me<br \/>\na arma de feiti\u00e7os que troveja. Umbopa, que assistira absolutamente<br \/>\nimpass\u00edvel e s\u00e9rio a todas as minhas afirma\u00e7\u00f5es<br \/>\nde divindade, e que (zulu inteligente, afeito aos branco e \u00e0s suas<br \/>\nmanhas) lhe percebera o alcance &#8211; estendeu-me uma carabina Winchester, com<br \/>\nhumil\u00edssima rever\u00eancia.<\/p>\n<p>Justamente nesse instante avistei, para al\u00e9m do riacho, a umas setenta<br \/>\njardas de dist\u00e2ncia, um pequeno ant\u00edlope, im\u00f3vel sobre<br \/>\num mont\u00e3o de rochas.<\/p>\n<p>&#8211; Vedes aquele gamo? &#8211; exclamei eu para os selvagens.<\/p>\n<p>&#8211; Julgais poss\u00edvel que um simples homem, nascido do ventre da mulher,<br \/>\no mate daqui de onde estou, s\u00f3 com fazer estalar um pequeno trov\u00e3o?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! &#8211; murmurou recuando o velho guerreiro.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel para homem nascido do ventre da<br \/>\nmulher! &#8211; Ides ver.<\/p>\n<p>Apontei. Bum! E subitamente o gamo, dando um pulo furioso no ar, tombou<br \/>\nmorto, im\u00f3vel, estatelado nas pedras. Um fundo murm\u00fario de assombro,<br \/>\nde terror, passou entre os cacuanas&#8230; Eu acrescentei simplesmente: &#8211; A\u00ed<br \/>\nest\u00e1. E se tendes fome, podeis ir buscar aquele gamo! O velho fez um<br \/>\nsinal. Dois homens, correndo, trouxeram a ca\u00e7a. E amontoados em volta<br \/>\ndela, todos em sil\u00eancio (num sil\u00eancio que era religioso pelo pavor<br \/>\nque continha), ficaram contemplando boquiabertos o buraco da bala que lhe<br \/>\nacertara entre os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o estais satisfeitos &#8211; volvi eu ainda &#8211; se em vez de um gamo<br \/>\nme quereis ver matar um homem, que um de v\u00f3s se coloque al\u00e9m<br \/>\nsobre as pedras ou mais longe, e o raio ir\u00e1 ter com ele.<\/p>\n<p>Houve um movimento geral dos cacuanas, recuando e protestando.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! N\u00e3o! &#8211; gritaram alguns. &#8211; Acreditamos, acreditamos&#8230;<br \/>\nN\u00e3o vale a pena gastar feiti\u00e7os com n\u00f3s outros, que acreditamos<br \/>\ne que somos amigos! O velho guerreiro interveio, com alacridade: &#8211; Assim \u00e9!<br \/>\nN\u00f3s somos amigos. E para que nos conhe\u00e7ais bem, oh almas das<br \/>\nestrelas, que trovejais e matais t\u00e3o de longe, sabei que eu sou Infand\u00f3s,<br \/>\nfilho de Cafa, antigo rei dos cacuanas. Este mo\u00e7o \u00e9 Escraga,<br \/>\nfilho de Tuala, nosso rei! Tuala, o homem de mil mulheres, senhor dos cacuanas,<br \/>\nterror dos seus inimigos, sentinela da Grande-Estrada, sabedor das artes negras,<br \/>\nchefe de cem mil guerreiros, Tuala o supremo, Tuala o de um s\u00f3 olho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta &#8211; interrompi sobranceiramente. &#8211; Leva-nos ent\u00e3o ao Rei Tuala.<br \/>\nPorque, nas nossas jornadas pelo mundo, n\u00f3s s\u00f3 falamos a reis!<br \/>\n&#8211; Certamente, meu senhor, certamente&#8230; Mas n\u00f3s and\u00e1vamos ca\u00e7ando<br \/>\nnestes s\u00edtios, e estamos a tr\u00eas dias de jornada da aringa do<br \/>\nrei. S\u00e3o tr\u00eas dias que tendes de caminhar.<\/p>\n<p>&#8211; Caminharemos. Escuta tu, por\u00e9m, Infand\u00f3s, e tu, Escraga,<br \/>\nfilho de Tuala! Se por acaso tentardes no caminho armar-nos uma trai\u00e7\u00e3o,<br \/>\nou se essa id\u00e9ia vos<br \/>\n<!-- - 47 --><br \/>\natravessar sequer a cabe\u00e7a, n\u00f3s, que tudo adivinhamos, tomaremos<br \/>\nde v\u00f3s tal vingan\u00e7a, que far\u00e1 ainda estremecer os filhos<br \/>\nde vossos filhos. Aquele cujo olho reluz, e cujos dentes v\u00e3o e v\u00eam,<br \/>\nincendiar\u00e1 todas as vossas searas com a chama do seu olho, e despeda\u00e7ar\u00e1<br \/>\ntodas as vossas carnes com as pontas das suas presas! E n\u00f3s faremos<br \/>\nressoar os canos que trovejam de uma maneira que ser\u00e1 pavorosa! Toda<br \/>\na \u00e1gua secar\u00e1. Todo o gado morrer\u00e1. E os esp\u00edritos<br \/>\nmaus vir\u00e3o, \u00e0 nossa voz, dispersar os vossos ossos&#8230; E agora<br \/>\na caminho.<\/p>\n<p>Esta tremenda fala era quase sup\u00e9rflua &#8211; porque os nossos novos amigos<br \/>\nacreditavam, superabundantemente, nos nossos poderes sobrenaturais. Ainda<br \/>\nassim o velho Infand\u00f3s saudou-nos com uma rever\u00eancia mais funda<br \/>\ne mais servil, repetindo tr\u00eas vezes estas palavras: Krum! Krum! Krum!<br \/>\nComo depois soubemos, \u00e9 esta a maneira cacuana de saudar o rei. Corresponde<br \/>\nao Baiete! dos zulus.<\/p>\n<p>Depois o velho atirou um gesto aos seus, que imediatamente carregaram \u00e0s<br \/>\ncostas as nossas mochilas, cantinas, mantas e outras miudezas &#8211; exceto as<br \/>\nespingardas, de que eles se afastavam em grandes voltas e com olhares de terror.<\/p>\n<p>Um deles lan\u00e7ou m\u00e3o ao fato do Capit\u00e3o John, ainda<br \/>\ncuidadosamente dobrado \u00e0 beira da \u00e1gua. O excelente John deu<br \/>\nlogo um pulo para as cal\u00e7as. E rompeu ent\u00e3o uma imensa alterca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu senhor &#8211; gritava Infand\u00f3s &#8211; n\u00e3o consentirei<br \/>\nque o meu senhor carregue com essas cousas! &#8211; Mas \u00e9 que eu quero p\u00f4r<br \/>\nas cal\u00e7as! &#8211; berrava John.<\/p>\n<p>&#8211; Todos somos aqui seus escravos para servir e carregar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas as cal\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu senhor!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Larga as cal\u00e7as, malandro! Tive de intervir, sufocado de riso.<\/p>\n<p>&#8211; Escute, John. O caso \u00e9 mais s\u00e9rio do que parece. Um dos<br \/>\nmotivos do terror que estamos inspirando \u00e9 a sua luneta, a sua cara<br \/>\nmeia barbada e meia rapada, os seus dentes posti\u00e7os, e essas pernas<br \/>\nbrancas \u00e0 mostra&#8230; Tudo isso espanta as imagina\u00e7\u00f5es<br \/>\nde selvagens. E se o amigo quer que n\u00e3o nos percam o medo, \u00e9<br \/>\nnecess\u00e1rio continuar a aparecer-lhes nessa figura. Se o amigo lhes<br \/>\nsurgir amanh\u00e3 de outro modo, tomam-nos por impostores, e a nossa vida<br \/>\nn\u00e3o vale mais um pataco. Assim o viram nesta terra, assim nela tem<br \/>\nde ficar.<\/p>\n<p>John, inquieto, hesitante, voltou os olhos para o bar\u00e3o: &#8211; O amigo<br \/>\nQuartelmar tem raz\u00e3o &#8211; afirmou o bar\u00e3o. &#8211; E d\u00e1 gra\u00e7as<br \/>\na Deus que j\u00e1 estavas de botas, e que a temperatura \u00e9 t\u00e3o<br \/>\ndoce.<\/p>\n<p>John teve um suspiro de furiosa resigna\u00e7\u00e3o. E, durante a nossa<br \/>\nestada na terra dos cacuanas, foi assim que John se mostrou sempre e praticou<br \/>\nnot\u00e1veis feitos &#8211; de botas, de pernas nuas, com uma metade de cara<br \/>\nrapada, outra coberta de barba, e a fralda voando ao vento!<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>Cap\u00edtulo VI &#8211; Penetramos no Reino dos Cacuanas<\/h2>\n<p>Toda essa tarde trilhamos a larga, magn\u00edfica estrada que seguia infindavelmente<br \/>\npara o lado de noroeste. Alguns dos negros marchavam adiante (uns cem passos),<br \/>\ncomo vedetas. Outros seguiam levando as nossas bagagens. N\u00f3s \u00edamos<br \/>\nno meio, entre Infand\u00f3s e Escraga.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, Infand\u00f3s e eu desca\u00edmos numa palestra familiar<br \/>\ne amig\u00e1vel. O velho era esperto e loquaz.<\/p>\n<p>&#8211; Quem fez esta estrada, Infand\u00f3s? &#8211; Foi feita h\u00e1 muito tempo,<br \/>\nmeu senhor. Ningu\u00e9m sabe quando; nem mesmo uma mulher que tudo sabe,<br \/>\nGagula, que tem vivido atrav\u00e9s de gera\u00e7\u00f5es&#8230; J\u00e1<br \/>\nningu\u00e9m pode fazer estradas assim&#8230; Mas o rei n\u00e3o consente<br \/>\nque se desmanche, nem que lhe cres\u00e7a a erva por cima.<\/p>\n<p>&#8211; E h\u00e1 quanto tempo vivem aqui os cacuanas, Infand\u00f3s? &#8211; A<br \/>\nnossa gente, meu senhor, veio para aqui de grandes terras que est\u00e3o<br \/>\npara al\u00e9m (indicava o Norte) h\u00e1 mais de dez mil milhares de<br \/>\nluxa. Para baixo n\u00e3o puderam seguir, segundo diziam nossos av\u00f3s,<br \/>\nque o disseram a nossos pais, e segundo conta Gagula, a mulher que tudo sabe.<br \/>\nN\u00e3o puderam por causa das altas montanhas que est\u00e3o em redor,<br \/>\ne do deserto onde tudo morre. De modo que, como a terra era f\u00e9rtil,<br \/>\naqui assentaram; e tantos e t\u00e3o fortes se tornaram que, agora, quando<br \/>\nTuala, nosso rei, chama os seus regimentos, o ch\u00e3o treme todo com o<br \/>\nseu peso, e at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7a s\u00f3 se v\u00eaem<br \/>\nplumas de guerreiros e lan\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Mas se a terra est\u00e1 murada de montanhas e se n\u00e3o tendes<br \/>\nvizinhos, para que s\u00e3o tantos soldados? &#8211; A terra est\u00e1 aberta<br \/>\npara al\u00e9m (e indicava o Norte). E \u00e0s vezes descem de l\u00e1<br \/>\nmultid\u00f5es que n\u00e3o sabemos quem s\u00e3o, e que n\u00f3s<br \/>\ndestru\u00edmos. J\u00e1 correu a ter\u00e7a parte de uma vida de homem<br \/>\ndesde a \u00faltima guerra. Depois houve outra guerra, mas foi entre n\u00f3s,<br \/>\nirm\u00e3o contra irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como foi isso, Infand\u00f3s? Infand\u00f3s come\u00e7ou ent\u00e3o<br \/>\numa dessas hist\u00f3rias de pretendentes e de guerras din\u00e1sticas,<br \/>\nque abundam em todos os continentes. O pai dele, Capa, que era o rei dos cacuanas,<br \/>\ntivera por primeiros filhos, da primeira mulher (ele, Infand\u00f3s, era<br \/>\nfilho de uma concubina) dois g\u00eameos. Ora a lei dos cacuanas manda que,<br \/>\nde dois g\u00eameos reais, o mais fraco seja sempre destru\u00eddo. Mas<br \/>\na m\u00e3e, por piedade e amor, escondeu o g\u00eameo mais fraco, que se<br \/>\nchamava Tuala, e, ajudada por Gagula, educou-o em segredo numa caverna. Quando<br \/>\nCapa morreu, o g\u00eameo mais velho, que se chamava Imotu, foi portanto<br \/>\nrei; e logo depois teve da sua mulher favorita um filho por nome Ignosi. Ora<br \/>\npor esse tempo passara a guerra com os povos do Norte; os campos n\u00e3o<br \/>\ntinham sido semeados; veio uma fome; e havia grande mis\u00e9ria e dor entre<br \/>\no povo, que, como uma fera esfaimada, rosnava, procurando com os olhos sangrentos<br \/>\nalguma cousa em redor para despeda\u00e7ar. Foi ent\u00e3o que Gagula,<br \/>\na mulher que tudo sabe e que n\u00e3o morre, rompeu a dizer que os males<br \/>\ntodos provinham de que Imotu reinava sem ser rei. Imotu, a esse tempo, estava<br \/>\ndoente na sua cubata, com uma ferida.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a correr um clamor entre o povo. Por fim Gagula, um dia,<br \/>\nre\u00fane os soldados, vai buscar Tuala, o g\u00eameo mais novo que ela<br \/>\ne a m\u00e3e tinham escondido nas cavernas, apresenta-o ao povo, descobre-lhe<br \/>\na cinta, e mostra a marca real com que entre os cacuanas os reis s\u00e3o<br \/>\nmarcados ao nascer \u2013 uma tatuagem representando uma<br \/>\n<!-- - 49 --><br \/>\ncobra, que se enrosca em torno do ventre real, e vem reunir, sobre o umbigo<br \/>\nreal, a cabe\u00e7a e o rabo. E ao mesmo tempo, Gagula gritava: \u201cEis<br \/>\no vosso verdadeiro rei, que eu salvei e que escondi, para ele vos vir salvar<br \/>\nagora!\u201d O povo, tonto de fome, ignorando a verdade, espantado com a<br \/>\nevid\u00eancia da marca real, largou a bradar: \u201cEste \u00e9 o rei!<br \/>\nEste \u00e9 o rei!\u201d Alguns sabiam bem que n\u00e3o \u2013 e que<br \/>\nneste s\u00f3 havia impostura. Mas nesse momento, ouvindo os alaridos, o<br \/>\nRei Imotu sai doente e tr\u00f4pego da sua cubata, com a mulher e com o filho<br \/>\nque tinha tr\u00eas anos, a saber por que vinham tantos brados e por que<br \/>\npediam eles \u201co rei!\u201d Imediatamente Tuala, o irm\u00e3o, corre<br \/>\npara ele e crava-lhe uma faca no cora\u00e7\u00e3o! E o povo, que as a\u00e7\u00f5es<br \/>\ndecididas e bruscas sempre fascinam, gritou logo: \u201cTuala \u00e9 rei!<br \/>\nTuala provou que \u00e9 rei!\u201d Diante disto a pobre mulher de Imotu<br \/>\nagarrou o filho, o seu Ignosi, e fugiu. Ainda apareceu, passados dias, numa<br \/>\narroga, pedindo de comer. Depois viram-na seguir para os lados dos montes<br \/>\ne nunca mais voltou.<\/p>\n<p>&#8211; De modo &#8211; observei eu interessado por esta p\u00e1gina de hist\u00f3ria<br \/>\nnegra &#8211; que Tuala n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro rei.<\/p>\n<p>O velho respondeu com prud\u00eancia: &#8211; Tuala, o grande, \u00e9 rei.<br \/>\nMas se Ignosi vivesse ainda, s\u00f3 esse tinha o leg\u00edtimo direito<br \/>\nde reinar sobre os cacuanas. A cobra sagrada foi-lhe marcada em torno da cinta.<br \/>\nO rei \u00e9 ele. Somente decerto h\u00e1 muito que Ignosi morreu&#8230;<\/p>\n<p>Casualmente, nesse instante, voltando-me para falar aos camaradas que marchavam<br \/>\natr\u00e1s &#8211; esbarrei com Umbopa, que quase me pisava os calcanhares, absorto<br \/>\nnaquela hist\u00f3ria de Imotu e de Ignosi, com uma curiosidade, um interesse<br \/>\nque lhe punham nos olhos um brilhar desusado, lhe davam a express\u00e3o<br \/>\nde quem de repente lembra cousas vagas, remotas, semi-esquecidas, perturbadoras.<br \/>\nNessa ocasi\u00e3o permaneci indiferente. Mas, depois, atrav\u00e9s da<br \/>\njornada, muitas vezes pensei naquela ansiosa, esgazeada curiosidade do zulu.<\/p>\n<p>No entanto j\u00e1 trilh\u00e1ramos algumas fortes milhas de estrada.<br \/>\nAs montanhas de Sab\u00e1 ficavam para tr\u00e1s, envoltas nos seus m\u00edsticos<br \/>\nv\u00e9us de n\u00e9voa. E o pa\u00eds cada vez se oferecia mais formoso<br \/>\ne mais rico.<\/p>\n<p>Ao come\u00e7o da tarde avistamos enfim uma grande povoa\u00e7\u00e3o,<br \/>\n&#8211; que, segundo Infand\u00f3s nos declarou, pertencia ao seu comando militar<br \/>\ne continha uma vasta guarni\u00e7\u00e3o. O velho guerreiro mandara mensageiros<br \/>\nadiante, correndo, num passo de gazela, a anunciar a nossa vinda. E quando<br \/>\nnos aproximamos da aldeia, descobrimos, com efeito, saindo das portas e marchando<br \/>\nao nosso encontro, densas companhias de soldados.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o tocou-me no bra\u00e7o, com um receio que \u201cas cousas<br \/>\nse apresentassem desagradavelmente\u201d. Infand\u00f3s decerto compreendeu,<br \/>\npelo tom, pelo franzir de sobrancelhas do bar\u00e3o, o sobressalto que<br \/>\no tomara (e a mim), porque acudiu ansiosamente, com redobrada rever\u00eancia:<br \/>\n&#8211; Que os meus senhores n\u00e3o suspeitem de mim! Aquele \u00e9 um dos<br \/>\nregimentos que eu comando! Mandei-o sair e desfilar, para prestar as honras<br \/>\naos que v\u00eam do mundo das estrelas&#8230;<\/p>\n<p>Esbocei um gesto e um sorriso de soberana indiferen\u00e7a. Realmente<br \/>\nestava bem inquieto!<br \/>\n<!-- - 50 --><br \/>\nA povoa\u00e7\u00e3o ficava \u00e0 direita da estrada, separada dela<br \/>\npor um declive de terreno areado e bem pisado, onde o regimento se formara<br \/>\nem parada. Havia ali talvez uns tr\u00eas mil homens. E quando nos acercamos,<br \/>\npudemos ver, com admira\u00e7\u00e3o e assombro, de que espl\u00eandida,<br \/>\nde que formid\u00e1vel ra\u00e7a eram estes guerreiros cacuanas! Nenhum<br \/>\nmedia menos de seis p\u00e9s de altura; e todos veteranos de quarenta anos,<br \/>\n\u00e1geis, experientes, prodigiosamente robustos, endurecidos por exerc\u00edcios<br \/>\nperp\u00e9tuos. Sobre a cabe\u00e7a todos traziam a coroa de altas e pesadas<br \/>\nplumas negras, sempre tremendo ao vento. Em volta da cinta pendia-lhes um<br \/>\nsai\u00e3o feito de rabos de boi, muito juntos uns aos outros e brancos;<br \/>\ne no bra\u00e7o esquerdo sustentavam escudos redondos de ferro, recobertos<br \/>\nde couro pintado de branco. Por armas tinham uma azagaia semelhante \u00e0<br \/>\ndos zulus &#8211; e tr\u00eas facas (uma no cinto, duas em presilhas no escudo),<br \/>\nfacas enormes que eles chamam tolas e que arremessam a dist\u00e2ncias de<br \/>\ncinq\u00fcenta jardas e mais, com uma certeza terr\u00edvel.<\/p>\n<p>As companhias conservavam-se mais im\u00f3veis que est\u00e1tuas de<br \/>\nbronze. Mas, \u00e0 medida que \u00edamos passando em frente delas, cada<br \/>\noficial (que se distinguia por uma capa de pele de leopardo) dava um sinal;<br \/>\ne os homens, brandindo a azagaia no ar, soltavam a sauda\u00e7\u00e3o<br \/>\nreal, a grande voz: Krum! Krum! Krum! Assim penetramos na povoa\u00e7\u00e3o<br \/>\nao rumor de aclama\u00e7\u00f5es. A aldeia devia ter uma milha de circunfer\u00eancia;<br \/>\ne era defendida por um largo fosso e por uma alta estacada feita de troncos<br \/>\nde \u00e1rvores. Na porta central, do lado da estrada, havia uma ponte levadi\u00e7a.<\/p>\n<p>Parecia uma aldeia admiravelmente bem ordenada. Ao centro, entre \u00e1rvores,<br \/>\ncorria uma ampla, extensa rua, cortada em \u00e2ngulos retos por outras mais<br \/>\nestreitas, formando s\u00e9ries de quarteir\u00f5es, cada um dos quais<br \/>\nalojava uma companhia. As cubatas, redondas, feitas de uma grossa verga entrela\u00e7ada,<br \/>\nfindavam, \u00e0 maneira das dos zulus, por tetos de colmo em forma de zimb\u00f3rio<br \/>\nagudo; mas, diferentes nisto das dos zulus, tinham uma porta larga e f\u00e1cil,<br \/>\ne eram cercadas por uma varanda, cujo ch\u00e3o de cal dura rebrilhava ao<br \/>\nsol. Os dois lados da grande rua apinhavam-se de mulheres, que tinham corrido<br \/>\nde todas as cubatas para nos admirar. Era uma bela ra\u00e7a de mulheres<br \/>\n&#8211; altas, airosas, esplendidamente feitas, com o cabelo mais ondeado que encarapinhado,<br \/>\nas fei\u00e7\u00f5es por vezes aquilinas, e os bei\u00e7os sempre finos.<br \/>\nMas o que mais nos impressionou foi o seu ar grave e s\u00e9rio. Nem pasmo<br \/>\nselvagem, nem risos, nem inj\u00farias, ao verem-nos desfilar, t\u00e3o<br \/>\nestranhos e diferentes de todos os homens que at\u00e9 a\u00ed tinham<br \/>\nencontrado. Nem mesmo a singular figura de John lhes arrancou uma exclama\u00e7\u00e3o;<br \/>\napenas os largos olhos negros se lhes arregalavam para as pernas n\u00edveas<br \/>\ndo pobre amigo que, ro\u00eddo de vergonha, praguejava baixo.<\/p>\n<p>Quando chegamos ao centro da aldeia, Infand\u00f3s parou em frente de<br \/>\numa espa\u00e7osa e rica cubata, cercada de depend\u00eancias menores,<br \/>\nentre arvoredo. E com palavras grandiosas, \u00e0 maneira dos zulus, ofereceu-nos<br \/>\na hospitalidade: &#8211; Aqui habitareis, meus senhores. E n\u00e3o tereis de<br \/>\napertar o ventre com fome! Em breve vos traremos mel, leite, uma ou duas vacas,<br \/>\nalguns carneiros. N\u00e3o \u00e9 muito, oh Esp\u00edritos! Mas \u00e9<br \/>\ndado por cora\u00e7\u00f5es, que se regozijam de vos ver.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem, Infand\u00f3s &#8211; murmurei eu. &#8211; O que precisamos, sobretudo,<br \/>\n\u00e9 descansar, fatigados da nossa descida atrav\u00e9s dos espa\u00e7os<br \/>\ne dos reinos do ar.<\/p>\n<p><!-- - 51 --><br \/>\nA cubata era muito confort\u00e1vel, com erva arom\u00e1tica espalhada<br \/>\nno ch\u00e3o, grandes peles servindo de leitos, e vistosos c\u00e2ntaros<br \/>\npara a \u00e1gua. Da\u00ed a pouco, entre cantos e risos, apareceu \u00e0<br \/>\nporta um bando de raparigas trazendo leite, mel em covilhetes, frutas em cestos;<br \/>\ne atr\u00e1s dois rapazes seguiam, arrastando um vitelo pelos cornos. Um<br \/>\ndos rapazes, tirando a faca do cinto, matou o vitelo de um golpe; e logo o<br \/>\noutro, \u00e1gil e destramente, o esfolou e retalhou.<\/p>\n<p>Ajudado por uma das raparigas (que era extremamente bonita), Umbopa passou<br \/>\na cozer a carne numa panela de barro, sobre uma alegre fogueira acesa \u00e0<br \/>\nporta da cubata; e n\u00f3s mandamos convidar Infand\u00f3s e Escraga<br \/>\npara partilharem do nosso repasto. Quando entraram, notei que, para comer,<br \/>\nse n\u00e3o encruzavam no ch\u00e3o \u00e0 maneira dos zulus &#8211; mas se<br \/>\nsentavam em pequenos bancos, que abundavam na cubata encostados \u00e0s<br \/>\nparedes. O jantar foi longo e af\u00e1vel. O velho guerreiro todo ele exibia<br \/>\ndo\u00e7ura e respeito. Mas o rapaz Escraga parecia olhar para n\u00f3s,<br \/>\ne para cada um dos nossos gestos, com singular desconfian\u00e7a. Talvez,<br \/>\nao ver que n\u00f3s com\u00edamos, beb\u00edamos, e t\u00ednhamos<br \/>\nas necessidades de qualquer cacuana, come\u00e7ava a suspeitar da nossa<br \/>\norigem divina. N\u00e3o me agradou este sentimento, t\u00e3o real e l\u00f3gico.<br \/>\nQue nos poderia assegurar as vidas, perdidos entre aquelas turbas negras,<br \/>\nsen\u00e3o o terror supersticioso? Depois de jantar acendemos os cachimbos<br \/>\n&#8211; o que encheu os nossos amigos de espanto. Na terra dos cacuanas, como na<br \/>\ndos zulus, a planta do tabaco cresce em abund\u00e2ncia \u2013 mas eles<br \/>\ns\u00f3 a sabem usar torrada e seca, pulverizada. S\u00f3 conhecem o rap\u00e9.<\/p>\n<p>No entanto conversamos a respeito da nossa jornada. Infand\u00f3s j\u00e1<br \/>\ntudo organizara para que ela continuasse na madrugada seguinte, mandando adiante<br \/>\nemiss\u00e1rios a prevenir Tuala da nossa chegada ao seu reino. Tuala estava<br \/>\nent\u00e3o na sua grande cidade de Lu, preparando-se para a revista de tropas,<br \/>\na dan\u00e7a das flores e ca\u00e7a aos feiticeiros, que constituem a<br \/>\nmaior solenidade religiosa e militar dos cacuanas, na primeira semana de junho.<br \/>\nE segundo afirmava Infand\u00f3s, n\u00f3s dev\u00edamos (a n\u00e3o<br \/>\nser que nos detivessem os rios transbordados) entrar as portas de Lu ao fim<br \/>\nde dois dias de marcha.<\/p>\n<p>Depois, como come\u00e7avam a luzir as estrelas e a aldeia ia caindo em<br \/>\nsil\u00eancio, os nossos amigos deixaram a cubata. E tr\u00eas de n\u00f3s<br \/>\natiraram-se logo para cima dos leitos de peles, enquanto outro, com as carabinas<br \/>\ncarregadas, velava, no seu turno de sentinela, para prevenir as trai\u00e7\u00f5es.<br \/>\nMas essa primeira noite na terra dos cacuanas foi muito calma e segura.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>Cap\u00edtulo VII &#8211; O Rei Tuala<\/h2>\n<p>N\u00e3o me dilatarei nos incidentes da nossa jornada at\u00e9 Lu \u2013<br \/>\nque nem foram consider\u00e1veis nem pitorescos. Durante dois longos dias<br \/>\ntrilhamos a estrada de Salom\u00e3o, por entre ricas terras cultivadas,<br \/>\ne alegres povoa\u00e7\u00f5es que nos encantavam pelo seu ar florescente<br \/>\ne calmo. A cada instante passavam por n\u00f3s tro\u00e7os de gente armada,<br \/>\nregimentos emplumados marchando tamb\u00e9m para a cidade, para o grande<br \/>\nfestival sagrado. No segundo dia, ao p\u00f4r do sol, paramos numa colina,<br \/>\nque a estrada<br \/>\n<!-- - 52 --><br \/>\ngalgava por entre dois renques de \u00e1rvores em flor; e embaixo, numa<br \/>\nplan\u00edcie deliciosamente f\u00e9rtil, avistamos enfim Lu, a capital<br \/>\ndos cacuanas.<\/p>\n<p>Para cidade da \u00c1frica era enorme, &#8211; com seis milhas talvez de circunfer\u00eancia,<br \/>\ntoda ela defendida por estacadas, e rodeada de pomares e de vastas aringas,<br \/>\nonde se aquartelavam tropas. Pelo centro corria um largo e claro rio, vadeado<br \/>\npor pontes. Para o norte, a duas milhas, erguia-se uma colina, que oferecia<br \/>\na forma singular de uma ferradura; e, mais longe a umas sessenta milhas, surgiam<br \/>\nbruscamente da plan\u00edcie, em tri\u00e2ngulo, tr\u00eas serras isoladas,<br \/>\nescarpadas, todas cobertas de neve.<\/p>\n<p>&#8211; A estrada &#8211; explicou Infand\u00f3s, vendo que contempl\u00e1vamos<br \/>\ncom estranheza os tr\u00eas montes &#8211; acaba al\u00e9m nessas serras, que<br \/>\nse chamam as Tr\u00eas Feiticeiras.<\/p>\n<p>&#8211; E por que acaba al\u00e9m, Infand\u00f3s? &#8211; Quem sabe! &#8211; murmurou<br \/>\no velho encolhendo os ombros. \u2013 As tr\u00eas montanhas est\u00e3o<br \/>\ntodas furadas por cavernas. H\u00e1 no meio delas uma cova imensa. \u00c9<br \/>\nl\u00e1 que se sepultam agora os nossos reis. E era ali que os homens antigos,<br \/>\nque sabiam tudo, vinham buscar certas cousas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que cousas, Infand\u00f3s? &#8211; exclamei eu, cravando nele um olhar que<br \/>\no sondava.<\/p>\n<p>O velho sorriu, com uma grossa mal\u00edcia de negro: &#8211; Os esp\u00edritos<br \/>\nque v\u00eam das estrelas sabem decerto mais do que um cacuana&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito! &#8211; acudi eu, num tom ciente e profundo. &#8211; E por isso te posso<br \/>\ndizer, Infand\u00f3s, que esses homens antigamente vinham procurar um ferro<br \/>\namarelo que rebrilha, e umas pedras brancas que fa\u00edscam.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez fosse, talvez fosse! &#8211; balbuciou Infand\u00f3s, embara\u00e7ado,<br \/>\nafastando-se bruscamente para lan\u00e7ar uma ordem aos carregadores da<br \/>\nbagagem.<\/p>\n<p>&#8211; Acol\u00e1 &#8211; disse eu aos companheiros mostrando as Tr\u00eas Feiticeiras<br \/>\n&#8211; est\u00e3o as minas de Salom\u00e3o! Todos tr\u00eas, comovidos, ficamos<br \/>\na olhar aqueles montes t\u00e3o pr\u00f3ximos, onde jaziam ainda talvez<br \/>\n(se o velho D. Jos\u00e9 da Silveira contara a verdade) os mais ricos tesouros<br \/>\nda terra&#8230; A que prodigioso momento chegara a nossa aventura! De repente,<br \/>\nquando assim pasm\u00e1vamos, o sol desapareceu &#8211; e a noite caiu, sem transi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nvisivelmente, como uma cousa tang\u00edvel. Naquelas latitudes n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 crep\u00fasculo. A luz acaba como a chama de um bico de g\u00e1s<br \/>\nque se fecha; e, num instante, a terra toda fica envolta numa cortina de treva.<br \/>\nNessa ocasi\u00e3o, por\u00e9m, durou pouco a escurid\u00e3o, porque<br \/>\nbem cedo a mais larga e espl\u00eandida lua, que me lembro de ter visto,<br \/>\nsubiu majestosamente ao c\u00e9u, derramando uma t\u00e3o sublime refulg\u00eancia,<br \/>\nt\u00e3o divinamente serena, que, sem saber por que, cada um de n\u00f3s<br \/>\ntirou o chap\u00e9u, como num templo, ante uma imagem sagrada.<\/p>\n<p>Infand\u00f3s, por\u00e9m, quebrou a nossa contempla\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndando o sinal de descer para a cidade, que, agora, batida de luar, cheia de<br \/>\nlumes, parecia infind\u00e1vel atrav\u00e9s da plan\u00edcie. E da\u00ed<br \/>\na uma hora, tendo passado a ponte levadi\u00e7a, entre piquetes de sentinelas<br \/>\na quem Infand\u00f3s deu baixo o santo-e-senha, segu\u00edamos calados<br \/>\npela rua central de Lu, toda ladeada de sombras de \u00e1rvores e de senzalas<br \/>\nonde se cozinhava. Levou uma hora antes de chegarmos \u00e0 grade de um<br \/>\np\u00e1tio redondo, com o ch\u00e3o muito batido e duro, todo caiado de<br \/>\nbranco. Em volta erguiam-se cubatas espa\u00e7osas, cobertas de colmo. Eram<br \/>\nali (segundo declarou Infand\u00f3s) os nossos \u201chumildes pousos\u201d.<\/p>\n<p><!-- - 53 --><br \/>\nCada um de n\u00f3s tinha, s\u00f3 para si, uma cubata. Havia dentro um<br \/>\ngrande asseio. Os leitos eram feitos com peles estendidas sobre enxerg\u00f5es<br \/>\nde erva arom\u00e1tica. Uma esteira tapetava o solo. Tripe\u00e7as pintadas<br \/>\nalternavam com frescas vasilhas de \u00e1gua. N\u00e3o pod\u00edamos<br \/>\nesperar mais cuidadosa hospedagem! E apenas nos lavamos, sacudimos o p\u00f3,<br \/>\napareceu logo um bando de raparigas, das mais belas que at\u00e9 a\u00ed<br \/>\nencontr\u00e1ramos no pa\u00eds, trazendo leite, carnes assadas e bolos<br \/>\nde milho, em vistosos pratos de madeira.<\/p>\n<p>Depois da ceia fizemos reunir todas as quatro camas na maior das cubatas<br \/>\n(precau\u00e7\u00e3o que encheu de riso as raparigas), &#8211; e n\u00e3o<br \/>\ntardamos em adormecer com grata tranq\u00fcilidade. Acordamos quando o sol<br \/>\nia nado &#8211; e a primeira e apraz\u00edvel impress\u00e3o que recebemos foi<br \/>\na do bando das raparigas, acocoradas no ch\u00e3o, a um canto, \u00e0<br \/>\nespera que despert\u00e1ssemos \u201cpara nos ajudar a lavar e a vestir\u201d.<\/p>\n<p>Quando uma delas, a mais alta (e que figura! que bra\u00e7os!) fez esta<br \/>\nam\u00e1vel oferta, o Capit\u00e3o John teve uma exclama\u00e7\u00e3o,<br \/>\num gesto de atroz desespero: &#8211; Vestir! \u00c9 bom de dizer! Quando uma pessoa<br \/>\nn\u00e3o tem sen\u00e3o uma camisa e um par de botas!&#8230; E com estas raparigas<br \/>\ntodas, bonitas raparigas, a\u00ed por essa cidade&#8230; N\u00e3o! Isto n\u00e3o<br \/>\npode continuar! Eu n\u00e3o arredo p\u00e9 daqui da cubata, sen\u00e3o<br \/>\nde cal\u00e7as! Quero as cal\u00e7as! Vi o meu amigo t\u00e3o decidido,<br \/>\nque reclamei as cal\u00e7as. Mas uma das raparigas voltou da\u00ed a momentos,<br \/>\ndeclarando que essas sagradas e maravilhosas rel\u00edquias, tinham sido<br \/>\nj\u00e1 mandadas ao rei! O furor do nosso John foi imenso. Teve de se contentar<br \/>\nem barbear a face direita; porque na esquerda n\u00e3o consentimos n\u00f3s<br \/>\nque ele eliminasse um s\u00f3 p\u00ealo, \u00e0 farta su\u00ed\u00e7a<br \/>\nque j\u00e1 lhe crescera. Aquela cara espantosa, rapada de um lado, barbuda<br \/>\ndo outro, era uma das evid\u00eancias da nossa ra\u00e7a sobrenatural.<br \/>\nTodos n\u00f3s, de resto, t\u00ednhamos aspectos estranhos. Os cabelos<br \/>\ndo bar\u00e3o, amarelos e sempre longos, desciam-lhe agora at\u00e9 aos<br \/>\nombros, numa juba rude, que lhe dava o ar de um b\u00e1rbaro dos tempos<br \/>\ndo Rei Olof.<\/p>\n<p>O almo\u00e7o j\u00e1 esperava, fora, no terreiro, em ca\u00e7oulas<br \/>\nque fumegavam. Mas, primeiramente, quisemos tomar o nosso tub, atirar pelas<br \/>\ncostas alguns frios baldes de \u00e1gua. E o assombro, a desconsola\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas raparigas foi consider\u00e1vel, quando lhe pedimos pudicamente que<br \/>\nse retirassem, cerrando a porta de vime&#8230;<\/p>\n<p>Logo depois do almo\u00e7o, Infand\u00f3s apareceu anunciando que El-Rei<br \/>\nTuala nos mandava muito saudar, e esperava a nossa compar\u00eancia em pal\u00e1cio.<br \/>\nDeclarei imediatamente, com indiferen\u00e7a e altivez, que ainda nos ach\u00e1vamos<br \/>\ncansados, t\u00ednhamos ainda um cachimbo a fumar, etc., etc.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m sempre, tratando com potentados negros, n\u00e3o mostrar<br \/>\npressa nem respeito. Tomam invariavelmente a polidez por pavor. De sorte que,<br \/>\napesar da nossa ansiedade em ver o terr\u00edvel Tuala, retardamos nas cubatas<br \/>\numa farta hora, preparando, ao mesmo tempo, os escassos presentes que destin\u00e1vamos<br \/>\nao rei e \u00e0 corte: a espingarda do pobre Venvogel, um bocado de seda,<br \/>\nalguns fios de contas de vidro. Afinal partimos, guiados por Infand\u00f3s<br \/>\n&#8211; e seguidos por Umbopa, que levava as d\u00e1divas.<\/p>\n<p>Ao fim de um curto quil\u00f4metro, chegamos a um imenso terreiro, com<br \/>\no ch\u00e3o duro e caiado de branco como o das nossas moradas, e cercado<br \/>\npor uma estacada<br \/>\n<!-- - 54 --><br \/>\nbaixa. Em redor, fora da estacada, corria uma fileira de cubatas, que (segundo<br \/>\nnos informou Infand\u00f3s) pertenciam \u00e0s mulheres do rei; e ao fundo,<br \/>\nfronteira \u00e0 porta por onde entr\u00e1ramos, estendia-se uma constru\u00e7\u00e3o,<br \/>\numa cubata enorme, com varas e plumas espetadas no teto de colmo, que era<br \/>\no pal\u00e1cio real. No recinto n\u00e3o crescia uma \u00e1rvore; e<br \/>\ntodo ele estava nesse dia cheio de regimentos em forma, perfilados, im\u00f3veis,<br \/>\nverdadeiramente magn\u00edficos, com os seus altos penachos, os escudos<br \/>\nbrancos, as lan\u00e7as a rebrilhar.<\/p>\n<p>Em frente \u00e0 cubata real ficava um espa\u00e7o vazio, com uns poucos<br \/>\nde escabelos de madeira. A convite do bom Infand\u00f3s, ocupamos tr\u00eas<br \/>\ndesses assentos privilegiados, tendo Umbopa por tr\u00e1s, de p\u00e9;<br \/>\ne assim ficamos \u00e0 espera, no meio de um sil\u00eancio absoluto, sentindo<br \/>\ncravados sobre n\u00f3s oito mil pares de olhos s\u00f4fregos. Finalmente,<br \/>\na porta da cubata rangeu \u2013 e surgiu dela uma figura gigantesca, com<br \/>\num espl\u00eandido manto de peles de tigre lan\u00e7ado sobre o ombro,<br \/>\ne uma azagaia na m\u00e3o. Atr\u00e1s dele vinha Escraga e uma outra criatura<br \/>\nestranha, equ\u00edvoca, que nos pareceu uma macaca &#8211; uma macaca velh\u00edssima<br \/>\ne friorenta, toda embrulhada em peles. A figura gigantesca abateu-se pesadamente<br \/>\nsobre uma das tripe\u00e7as de pau. Escraga permaneceu de p\u00e9, por<br \/>\ntr\u00e1s, apoiado \u00e0 lan\u00e7a. A velha macaca arrastou-se para<br \/>\na sombra que lan\u00e7ava a cubata real, e ali se acocorou lentamente.<\/p>\n<p>O mesmo sil\u00eancio continuava no entanto opressivo, aflitivo. Ent\u00e3o<br \/>\na figura gigantesca arrojou o manto que a envolvia, e ergueu-se, oferecendo<br \/>\n\u00e0s vistas a sua real pessoa, verdadeiramente terr\u00edfica! Nunca<br \/>\nem minha longa vida encarei um homem mais repulsivo. E ainda \u00e0s vezes<br \/>\nrevejo, ante mim, aquela face horr\u00edvel com os bei\u00e7os muito grossos,<br \/>\nressudando sensualidade, as ventas enormes e chatas de fera, e o olho \u00fanico<br \/>\n(porque o outro era apenas um buraco negro) atrozmente brilhante, de um brilho<br \/>\nfrio e cruel. Uma cota de malha reluzente cobria-lhe o corpo formid\u00e1vel.<br \/>\nDa cinta pendia-lhe o sai\u00e3o do uniforme, feito de rabos brancos de<br \/>\nboi. Ao pesco\u00e7o trazia uma gargalheira de ouro; e da testa, onde luzia<br \/>\num menor diamante bruto, subia-lhe, ondeando no ar, um tufo espl\u00eandido<br \/>\nde plumas de avestruz.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio ainda pesou, mais profundo, diante daquela presen\u00e7a<br \/>\nassustadora! Mas de repente o monstro (que logo compreendemos ser Tuala, o<br \/>\nrei) levantou a lan\u00e7a no ar. Oito mil lan\u00e7as faiscaram ao sol.<br \/>\nE de oito mil peitos rompeu, atroando o c\u00e9u, a grande aclama\u00e7\u00e3o<br \/>\nreal: Krum! Krum! Krum! Depois, no sil\u00eancio que reca\u00eda, vibrou<br \/>\numa voz, agud\u00edssima, estr\u00eddula, horripilante, e que parecia<br \/>\nvir da macaca agachada \u00e0 sombra: &#8211; Treme e adora, oh povo! \u00c9<br \/>\no rei! E oito mil peitos de novo atroaram o c\u00e9u, bradando: &#8211; \u00c9<br \/>\no rei! \u00c9 o rei! Treme e adora, oh povo! E tudo de novo emudeceu. Mas<br \/>\nquase imediatamente, ao nosso lado, houve um ru\u00eddo de ferro batendo<br \/>\nsobre pedra.<\/p>\n<p>Era um soldado que deixara cair o escudo.<\/p>\n<p>Tuala dardejou logo o olho cruel para o s\u00edtio onde o som retinira:<br \/>\n&#8211; Avan\u00e7a tu! &#8211; berrou, num tom trovejante.<\/p>\n<p>Um soberbo rapag\u00e3o saiu da fileira, ficou perfilado.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e3o infernal! &#8211; rugiu o rei. &#8211; Foste tu que deixaste cair o escudo?<br \/>\nQueres que eu, teu chefe, seja escarnecido pelas gentes que v\u00eam das<br \/>\nestrelas?<br \/>\n<!-- - 55 --><br \/>\n&#8211; Foi sem querer, oh mestre das artes negras! &#8211; acudiu o rapaz, cuja pele<br \/>\nfusca parecia empalidecer.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, tamb\u00e9m sem querer, vais morrer! O soldado baixou a cabe\u00e7a<br \/>\ne murmurou simplesmente: &#8211; Eu sou a r\u00e9s do rei! &#8211; Escraga! &#8211; bramiu<br \/>\nTuala. &#8211; Mostra como sabes usar bem a lan\u00e7a. Vara-me aquele c\u00e3o!<br \/>\nO odioso Escraga deu um passo para diante, com um sorrisinho feroz, e levantou<br \/>\no dardo. O desgra\u00e7ado tapou a face, e esperou, im\u00f3vel. N\u00f3s<br \/>\nnem respir\u00e1vamos, petrificados. \u201cUm, dois, tr\u00eas!\u201d<br \/>\nEscraga soltou a lan\u00e7a. O soldado atirou os bra\u00e7os ao ar, caiu<br \/>\nmorto.<\/p>\n<p>Dentre os regimentos saiu ent\u00e3o um longo murm\u00fario que rolou,<br \/>\nondulou, se esvaiu por fim no sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o, l\u00edvido de indigna\u00e7\u00e3o, agarrara a espingarda<br \/>\ndas m\u00e3os de Umbopa. E eu, aflito, tive de o agarrar a ele, lembrar<br \/>\nque as nossas vidas estavam \u00e0 merc\u00ea do rei, e que \u00e9ramos<br \/>\nquatro contra todo um reino.<\/p>\n<p>Tuala, no entanto, sorria sinistramente: &#8211; O golpe foi bom. Arrastem para<br \/>\nfora o c\u00e3o morto.<\/p>\n<p>Quatro homens sa\u00edram da fileira, levaram o corpo.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o a mesma voz esgani\u00e7ada, sibilante, horr\u00edvel<br \/>\n(que evidentemente era da macaca) cortou o ar: &#8211; A palavra do rei foi dita!<br \/>\nA vontade do rei foi feita! Treme e adora, oh povo! E cobri bem depressa as<br \/>\nmanchas de sangue. A palavra foi dita, a vontade foi feita! Uma rapariga saiu<br \/>\nde tr\u00e1s da cubata real com um vaso de lou\u00e7a, e, atirando dele<br \/>\ncal \u00e0s m\u00e3os cheias, escondeu as n\u00f3doas horr\u00edveis.<br \/>\nTuala permanecia im\u00f3vel, como um \u00eddolo.<\/p>\n<p>Por fim, lentamente, voltou para n\u00f3s a face medonha.<\/p>\n<p>&#8211; Gente branca! &#8211; disse ele. &#8211; Gente branca, que vindes n\u00e3o sei de<br \/>\nonde, nem sei a qu\u00ea, sede bem-vinda! &#8211; Bem estejas, rei dos cacuanas!<br \/>\n&#8211; respondi eu, com dignidade.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio, atrav\u00e9s do qual ficamos im\u00f3veis,<br \/>\nsentados, com os olhos cravados no monstro.<\/p>\n<p>&#8211; Gente branca &#8211; volveu ele &#8211; que vindes v\u00f3s procurar aqui? &#8211; Vimos<br \/>\ndo mundo das estrelas, oh rei! N\u00e3o indagues como, nem para qu\u00ea.<br \/>\nS\u00e3o cousas muito altas para ti, Tuala.<\/p>\n<p>O rei franziu a face, de um modo inquietador: &#8211; Altas me parecem as vossas<br \/>\npalavras, gentes das estrelas!..\u2019. N\u00e3o esque\u00e7ais que as<br \/>\nestrelas est\u00e3o longe e a minha vontade est\u00e1 perto&#8230; Pode bem<br \/>\nser que saiais daqui como aquele que agora levaram.<\/p>\n<p>Era necess\u00e1rio ostentar um soberbo desd\u00e9m da amea\u00e7a.<br \/>\nComecei por lan\u00e7ar uma risada, muito cantada (e na verdade muito for\u00e7ada):<br \/>\n&#8211; Oh rei, tem cautela! N\u00e3o caminhes sobre brasas, que podes escaldar<br \/>\nos p\u00e9s! Toca num s\u00f3 dos nossos cabelos e a tua destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 certa. N\u00e3o te disseram estes (e apontei para Infand\u00f3s<br \/>\ne Escraga), que esp\u00e9cie de homens n\u00f3s somos, e que grandes artes<br \/>\ntemos? Viste tu algu\u00e9m como n\u00f3s, entre os filhos dos homens?<br \/>\n<!-- - 56 --><br \/>\n&#8211; Nunca vi &#8211; murmurou ele.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te contaram esses como n\u00f3s damos a morte de longe, atrav\u00e9s<br \/>\nde um trov\u00e3o? &#8211; N\u00e3o creio! &#8211; exclamou Tuala, batendo fortemente<br \/>\no joelho. &#8211; Mostrai-me primeiro, v\u00f3s mesmos, a vossa arte. Matai um<br \/>\ndesses homens que est\u00e3o al\u00e9m (apontava uma companhia de soldados<br \/>\nmagn\u00edficos, junto \u00e0 porta da aringa) e eu prometo acreditar!<br \/>\nRepliquei que n\u00e3o derram\u00e1vamos nunca sangue de homem, sen\u00e3o<br \/>\nem justo castigo. Mas que o rei soltasse um boi para dentro do p\u00e1tio,<br \/>\natrav\u00e9s dos soldados, e antes dele correr vinte passos, cairia morto,<br \/>\nde chofre. O rei rompeu a rir.<\/p>\n<p>&#8211; Um boi! Um boi!&#8230; N\u00e3o, matai um homem para eu acreditar! &#8211; Perfeitamente!<br \/>\n&#8211; exclamei eu, com tranq\u00fcilidade. &#8211; Ergue-te tu, oh rei, caminha atrav\u00e9s<br \/>\ndo p\u00e1tio, e antes de chegares ao portal da aringa rolar\u00e1s morto<br \/>\nno ch\u00e3o. Ou, se n\u00e3o queres ir tu mesmo, manda teu filho Escraga.<\/p>\n<p>A isto, Escraga deu um grito, lan\u00e7ou um pulo, e fugiu para dentro<br \/>\nda aringa real.<\/p>\n<p>Perante a estranha aud\u00e1cia com que lhe prop\u00fanhamos, para mostrar<br \/>\nas nossas artes m\u00e1gicas, matar um pr\u00edncipe ou um boi, \u00e0<br \/>\nsua escolha &#8211; Tuala ficou esgazeadamente perplexo. O seu olho coruscante ora<br \/>\nse pousava em n\u00f3s, ora no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois, num tom surdo: &#8211; Bem, que enxotem uma vaca para dentro do p\u00e1tio!<br \/>\nDois homens, imediatamente, largaram correndo.<\/p>\n<p>&#8211; Bar\u00e3o &#8211; disse eu ao nosso amigo &#8211; chegou a sua vez. Mate a vaca.<br \/>\nN\u00e3o quero que imaginem que s\u00f3 eu sei fazer as maravilhas.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o tomou a carabina Express, e esperou, no fundo sil\u00eancio<br \/>\nque se alargara. Por fim, \u00e0 porta da aringa, houve um ru\u00eddo;<br \/>\ne vimos entrar por ela, correndo, enxotada, uma grande vaca ru\u00e7a. Ao<br \/>\navistar a multid\u00e3o, o animal estacou, olhou estupidamente, deu uma<br \/>\nvolta lenta, e mugiu.<\/p>\n<p>&#8211; Agora! &#8211; gritei ao bar\u00e3o, vendo a vaca de lado e em bom alvo.<\/p>\n<p>Bum! O tiro partiu, a vaca tombou, varada no cora\u00e7\u00e3o. De toda<br \/>\na enorme soldadesca se exalou um murm\u00fario de admira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne terror.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o menti, Rei Tuala? &#8211; exclamei eu, fitando o monstro com altivez.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, \u00e9 verdade &#8211; rosnou ele.<\/p>\n<p>Baixara o olho cruel; parecia atemorizado. Eu continuei, com soberana confian\u00e7a:<br \/>\n&#8211; Escuta, Tuala! Na arte m\u00e1gica de destruir, ningu\u00e9m nos vence.<br \/>\nDestru\u00edmos de longe a vida dos homens, e a vida dos animais&#8230; E as<br \/>\npr\u00f3prias armas, os ferros mais duros, reduzimo-los de longe a estilha\u00e7os.<br \/>\nEscuta! Manda cravar al\u00e9m no ch\u00e3o, com a ponta do ferro voltada<br \/>\npara cima, essa lan\u00e7a que tens na m\u00e3o, a tua pr\u00f3pria<br \/>\nlan\u00e7a, que nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei! Espantado,<br \/>\no rei cedeu. Um soldado cravou no ch\u00e3o, ao fundo da aringa, a lan\u00e7a<br \/>\nreal, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol.<\/p>\n<p>&#8211; Bem &#8211; disse eu. &#8211; Agora, v\u00ea em que estilhas vai ficar a tua lan\u00e7a<br \/>\ninvenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Apontei, disparei; a bala bateu na folha da lan\u00e7a e separou-a em<br \/>\nbocados. Um sussurro maior, de assombro, rolou atrav\u00e9s do terreiro.<\/p>\n<p><!-- - 57 --><br \/>\nDei ent\u00e3o um passo para o rei, com a carabina na m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Tuala, este tubo m\u00e1gico que troveja e destr\u00f3i, \u00e9<br \/>\num presente que te fazemos. Se te mostrares leal conosco, ensinar-te-emos<br \/>\no segredo de o usar e de vencer com ele. Mas se descobrirmos trai\u00e7\u00e3o<br \/>\nem ti, esse pr\u00f3prio tubo se voltar\u00e1 contra o teu peito, e ser\u00e1s<br \/>\ncomo a vaca morta ou como a lan\u00e7a partida. Aqui tens.<\/p>\n<p>E estendi-lhe a arma. Ele tomou-a com desconfian\u00e7a, com uma seca<br \/>\nantipatia, e p\u00f4-la no ch\u00e3o, aos p\u00e9s, devagar. Nesse instante,<br \/>\naquela figura estranha que o acompanhara, e que me parecera uma velha macaca,<br \/>\ndeu um guincho e surgiu da sombra da cubata real, onde permanecera agachada.<br \/>\nMuito devagar, muito devagar, vinha caminhando nas quatro patas; mas quando<br \/>\nchegou defronte do rei, ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura<br \/>\nde peles que a envolvia, e mostrou, aos nossos olhos at\u00f4nitos, um vulto<br \/>\nextraordinariamente sinistro e quase fant\u00e1stico. Era uma mulher, evidentemente,<br \/>\numa mulher velh\u00edssima, tendo passado todos os limites conhecidos da<br \/>\nvida humana. A face que voltou para n\u00f3s estava reduzida ao tamanho<br \/>\nde uma facezinha de crian\u00e7a, de uma crian\u00e7a de um ano, toda<br \/>\nem rugas profundas, ressequidas, duras e amarelas, como se fossem entalhadas<br \/>\nem marfim. A boca j\u00e1 se n\u00e3o via, de sumida, entre o queixo sa\u00eddo<br \/>\npara fora e extremamente agudo &#8211; e a testa proeminente, l\u00edvida, com<br \/>\nduas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A cabe\u00e7a, de fato,<br \/>\npareceria a de um cad\u00e1ver curtido ao sol, se os olhos grandes n\u00e3o<br \/>\nrefulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal daquele semblante<br \/>\nestava no cr\u00e2nio, todo nu, pelado, liso como uma bola, e a que ela fazia<br \/>\nmover e enrugar a pele, como as cobras contraem e movem o capelo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se podia contemplar aquela criatura sem um arrepio de horror.<br \/>\nDurante um momento, o estranho monstro permaneceu im\u00f3vel &#8211; depois estendeu<br \/>\nlentamente um bra\u00e7o descarnado, a m\u00e3o seca de Parca, verdadeira<br \/>\ngarra armada de unhas longas e recurvas, e come\u00e7ou, numa voz silvante<br \/>\nque regelava: &#8211; Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, c\u00e9us,<br \/>\ncousas vivas e cousas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o esp\u00edrito<br \/>\ndesceu dentro de mim e eu vou profetizar! As s\u00edlabas findaram num uivo<br \/>\nlongo e triste. Toda a multid\u00e3o, que enchia a aringa, parecia gelada<br \/>\nde terror. E eu mesmo, que vira tantas vezes na \u00c1frica os esgares e<br \/>\nas declama\u00e7\u00f5es das feiticeiras, senti n\u00e3o sei que peso<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o. A velha era decerto terr\u00edfica.<\/p>\n<p>&#8211; Som de passos, som de passos que vem! &#8211; prosseguiu ela, com a garra tr\u00eamula<br \/>\nno ar. &#8211; S\u00e3o os passos da gente branca que vem de longe! \u00c9 a<br \/>\nterra que treme sob os passos dos brancos. Cheiro a sangue, cheiro a sangue!<br \/>\nS\u00e3o rios de sangue que v\u00e3o correr. Eu j\u00e1 os vejo, j\u00e1<br \/>\nos sinto. Toda a terra est\u00e1 vermelha, todo o c\u00e9u fica vermelho!<br \/>\nOs le\u00f5es lambem sangue por toda a parte! Os abutres batem as asas de<br \/>\nalegria! Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou<br \/>\num grito longo, como uma ulula\u00e7\u00e3o sepulcral.<\/p>\n<p>&#8211; Sou velha! Velha! Velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de ver<br \/>\ncorrer muito ainda, e dan\u00e7ar de gozo! Que idade pensais v\u00f3s<br \/>\nque eu tenho? Os vossos pais j\u00e1 me conheceram;<br \/>\n<!-- - 58 --><br \/>\ne os pais dos vossos pais; e os outros pais que geraram a esses. Tenho visto<br \/>\nmuitas cousas, aprendi muitas cousas. J\u00e1 vi o branco, e sei o desejo<br \/>\nque ele tem no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras<br \/>\nnas rochas? N\u00e3o sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que estava<br \/>\naqui antes de v\u00f3s virdes, que voltar\u00e1 e vos destruir\u00e1,<br \/>\ne ficar\u00e1 aqui quando v\u00f3s fordes como a nuvem de p\u00f3 que<br \/>\npassou! E de repente, deu um passo, com os dois bra\u00e7os, as duas garras<br \/>\nrecurvas estendidas para n\u00f3s: &#8211; Que vindes aqui fazer, gente branca?<br \/>\nVindes das estrelas? Das estrelas! Ah, ah! Vindes procurar um como v\u00f3s?<br \/>\nN\u00e3o est\u00e1 aqui. E o que veio, h\u00e1 muito, h\u00e1 muito,<br \/>\nveio s\u00f3 para morrer. S\u00e3o as pedras que brilham que v\u00f3s<br \/>\nprocurais? Eu conhe\u00e7o o vil desejo do cora\u00e7\u00e3o do branco.<br \/>\nProcurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue secar. Mas voltareis<br \/>\nv\u00f3s \u00e0s estrelas ou ficareis aqui comigo? Depois, com arremesso<br \/>\nterr\u00edvel, voltando-se para Umbopa, que as suas garras estendidas pareciam<br \/>\nquerer despeda\u00e7ar: &#8211; E tu, tu que tens a pele escura, quem \u00e9s,<br \/>\nque procuras aqui? N\u00e3o as pedras que brilham, nem o metal que reluz!<br \/>\nAh, parece-me bem que te conhe\u00e7o! Oh c\u00e9us! Oh montes! Ser\u00e1s<br \/>\ntu?&#8230; Eu conhe\u00e7o, eu conhe\u00e7o pelo cheiro o sangue que tens<br \/>\nnas veias! Desaperta essa cintura&#8230;<\/p>\n<p>Um momento, ficou como esgazeada em face de Umbopa. E subitamente, batendo<br \/>\nos bra\u00e7os no ar, caiu no ch\u00e3o, como morta.<\/p>\n<p>Um bando de raparigas surgiu da cubata, levou nos bra\u00e7os a feiticeira.<br \/>\nTuala erguera-se sombriamente. Todo ele tremia. Lan\u00e7ou um gesto; e<br \/>\nuns ap\u00f3s outros os regimentos come\u00e7aram a desfilar, at\u00e9<br \/>\nque todo o p\u00e1tio ficou vazio e rebrilhando ao sol.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Tuala voltou-se para n\u00f3s, com a face pavorosamente franzida:<br \/>\n&#8211; Gente branca! Gagula anunciou males estranhos! Est\u00e1-me a parecer<br \/>\nque vos devo matar.<\/p>\n<p>Eu sorri, com superioridade.<\/p>\n<p>&#8211; Oh rei, tu viste a vaca. Queres tu ser como a vaca? &#8211; Oh gentes, v\u00f3s<br \/>\namea\u00e7ais o rei! &#8211; volveu ele, cerrando os punhos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o amea\u00e7o. Digo s\u00f3 que t\u00e3o f\u00e1cil \u00e9<br \/>\n\u00e0s nossas artes matar uma vaca, como matar um rei. Pensa e treme, Tuala!<br \/>\nO enorme bruto levou os dedos \u00e0 testa, refletindo. &#8211; Ide em paz! &#8211;<br \/>\ndisse por fim. &#8211; Esta noite \u00e9 a Grande Dan\u00e7a. Vireis e vereis.<br \/>\nN\u00e3o tenhais medo que eu vos arme ciladas. E amanh\u00e3 decidirei.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem, Tuala &#8211; gritei eu, com um grande gesto. E acompanhados<br \/>\npor Infand\u00f3s, recolhemos \u00e0 nossa aringa. Quando chegamos \u00e0s<br \/>\ncubatas, depus num escabelo o rev\u00f3lver, e voltando-me para Infand\u00f3s,<br \/>\nque entrara conosco: &#8211; O teu rei Tuala \u00e9 um monstro, Infand\u00f3s!<br \/>\nO velho guerreiro teve um suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; Ai de mim! Toda a na\u00e7\u00e3o geme com as suas crueldades, meu<br \/>\nsenhor! Vereis esta noite. \u00c9 a grande ca\u00e7a aos feiti\u00e7os;<br \/>\nv\u00eam Gagula e as suas farejadoras farejar, adivinhar quem s\u00e3o,<br \/>\ndentre os guerreiros e o povo, os que meditam ou j\u00e1 cometeram feiti\u00e7os<br \/>\ne malef\u00edcios. Se o rei apetece o gado de um vizinho, ou o detesta,<br \/>\nou teme que ele se lhe torne infiel, Gagula ou uma das farejadoras aponta<br \/>\npara esse homem, e<br \/>\n<!-- - 59 --><br \/>\no homem \u00e9 logo morto&#8230; Quem sabe? Talvez hoje mesmo me chegue a minha<br \/>\nvez. At\u00e9 aqui Tuala tem-me poupado em respeito \u00e0 minha experi\u00eancia<br \/>\ndas armas, e porque os soldados me amam. Mas quem sabe? Tuala \u00e9 cruel,<br \/>\na terra toda sofre e est\u00e1 cansada dele! &#8211; Mas, pela luz das estrelas,<br \/>\npor que n\u00e3o depondes v\u00f3s ou matais essa fera? Infand\u00f3s<br \/>\nencolheu os ombros: &#8211; \u00c9 o rei!&#8230; E o filho que lhe sucederia, Escraga,<br \/>\ntem ainda o cora\u00e7\u00e3o mais negro; pesaria sobre n\u00f3s com<br \/>\nmais furor. Se Imotu n\u00e3o tivesse sido morto, e se Ignosi, o filhinho<br \/>\ndele, n\u00e3o tivesse acabado tamb\u00e9m no deserto com a m\u00e3e,<br \/>\nent\u00e3o havia uma esperan\u00e7a no reino! Mas assim&#8230;<\/p>\n<p>De repente (e ainda me parece incr\u00edvel que eu tivesse assistido a<br \/>\nlance t\u00e3o romanesco, t\u00e3o semelhante aos que se l\u00eaem nos<br \/>\ncontos de grande enredo) &#8211; de repente ergueu-se uma voz da sombra da cubata:<br \/>\n&#8211; E quem te diz a ti que Ignosi morreu? Todos nos voltamos, espantados. Era<br \/>\nUmbopa.<\/p>\n<p>&#8211; Que queres tu dizer? Que tens tu a falar, rapaz? \u2013 gritou Infand\u00f3s<br \/>\nque, como velho chefe de sangue real, detestava familiaridades.<\/p>\n<p>Umbopa deu para n\u00f3s um passo lento: &#8211; Escuta, Infand\u00f3s. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 verdade que o Rei Imotu foi morto, e que a mulher e o filho desapareceram?<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 verdade que correu ent\u00e3o voz de ambos se terem<br \/>\nperdido e morrido nas montanhas? Com um gesto, Infand\u00f3s concordou.<\/p>\n<p>&#8211; Escuta! Nem a m\u00e3e nem o filho morreram. Galgaram as montanhas,<br \/>\natravessaram as grandes areias guiados por uma turba errante, entraram de<br \/>\nnovo em terras de relva e \u00e1gua, viajaram durante muitas luas, e foram<br \/>\nter a um povo dos amazulus que \u00e9 da ra\u00e7a dos cacuanas. Escuta<br \/>\nainda! O filho cresceu, a m\u00e3e morreu. O filho cresceu, e serviu nas<br \/>\nguerras dos amazulus. Depois foi ao pa\u00eds dos brancos e aprendeu as<br \/>\nartes dos brancos; trabalhou com as suas m\u00e3os, meditou dentro do seu<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o; e sabendo que homens fortes vinham para o norte, tomou<br \/>\nservi\u00e7o com eles, atravessou outra vez as grandes areias, galgou de<br \/>\nnovo as serras de neve, pisou terra dos cacuanas &#8211; e est\u00e1 na tua presen\u00e7a,<br \/>\nInfand\u00f3s! E subitamente, arrancando a tanga que o cobria, ficou nu<br \/>\ndiante de n\u00f3s, com os bra\u00e7os abertos, gritando: &#8211; Sou Ignosi,<br \/>\nleg\u00edtimo rei dos cacuanas! Infand\u00f3s precipitara-se sobre ele,<br \/>\ncom os olhos fora das \u00f3rbitas, a examinar-lhe o ventre onde corria,<br \/>\nnuma tatuagem azul, o desenho de uma cobra que lhe dava volta \u00e0 cinta<br \/>\ne juntava a boca com o rabo, logo abaixo do umbigo. Esta tatuagem \u00e9<br \/>\na marca, o emblema real, que se grava a tinta azul, logo ao nascer, no leg\u00edtimo<br \/>\nherdeiro do reino. E a evid\u00eancia l\u00e1 estava, certamente irrecus\u00e1vel,<br \/>\nporque Infand\u00f3s caiu sobre os joelhos, bradando: &#8211; Krum! Krum! \u00c9<br \/>\no filho de Imotu! \u00c9 o rei! \u00c9 o rei! Umbopa acudiu: &#8211; Ergue-te,<br \/>\nmeu tio Infand\u00f3s, que ainda n\u00e3o sou rei! Mas com a tua ajuda,<br \/>\ne a destes homens fortes com quem vim, posso ser rei! Dize, pois. Queres p\u00f4r<br \/>\na tua m\u00e3o na minha e ser o meu homem? Queres correr comigo os perigos<br \/>\nque haja a correr<br \/>\n<!-- - 60 --><br \/>\npara derrubar Tuala o usurpador, o cora\u00e7\u00e3o de fera? Dize. O<br \/>\nvelho Infand\u00f3s pousou dois dedos na testa e pensou. Depois tornou a<br \/>\najoelhar diante de Ignosi, p\u00f4s a sua larga m\u00e3o na m\u00e3o<br \/>\ndele, e murmurou, lentamente, como na f\u00f3rmula de um cerimonial: &#8211; Ignosi,<br \/>\nleg\u00edtimo rei dos cacuanas, ponho a minha m\u00e3o na tua m\u00e3o,<br \/>\ne at\u00e9 morrer sou teu homem! N\u00f3s, de p\u00e9, em redor, fic\u00e1ramos<br \/>\nverdadeiramente at\u00f4nitos! O bar\u00e3o e o Capit\u00e3o John s\u00f3<br \/>\nmuito vagamente compreendiam o maravilhoso lance. Tive de lhes traduzir, desenrolar<br \/>\nos detalhes. E ambos exalavam o seu assombro em exclama\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncontemplando Umbopa &#8211; quando ele nos interpelou, com um gesto que come\u00e7ava<br \/>\na ser r\u00e9gio: &#8211; E v\u00f3s, homens brancos de quem comi o p\u00e3o?<br \/>\nQuereis v\u00f3s ajudar-me tamb\u00e9m? Nada tenho que vos oferecer em<br \/>\ntroco do vosso bra\u00e7o forte. Mas essas pedras brancas que reluzem, e<br \/>\nque v\u00f3s amais, se, como rei eu as vier a possuir, podereis lev\u00e1-las<br \/>\ntantas quantas quiserdes&#8230; Basta isto? Traduzi de novo aos meus amigos esta<br \/>\ndeslumbrante oferta. O bar\u00e3o franziu o sobrolho: &#8211; Quartelmar, diga-lhe<br \/>\nque um ingl\u00eas n\u00e3o se vende por diamantes. Mas de gra\u00e7a,<br \/>\nporque sempre o achei leal, porque gosto dele, e porque me apetece derrubar<br \/>\nesse monstro de Tuala, estou pronto a ajudar Umbopa com o pouco que posso,<br \/>\nque \u00e9 o meu bra\u00e7o. E tu, John? O capit\u00e3o encolheu os<br \/>\nombros: &#8211; Que lhe havemos n\u00f3s de fazer? Al\u00e9m disso, homem que<br \/>\nn\u00e3o briga enferruja. Em todo o caso ponho uma condi\u00e7\u00e3o:<br \/>\nquero as cal\u00e7as.<\/p>\n<p>Comuniquei estas ades\u00f5es a Umbopa &#8211; que apertou ardentemente as m\u00e3os<br \/>\ndos meus dois amigos.<\/p>\n<p>&#8211; E tu, Macumaz\u00e3, mestre da ca\u00e7a, olho vigilante, mais fino<br \/>\nque o b\u00fafalo, estar\u00e1s tu tamb\u00e9m por mim? Cocei a cabe\u00e7a,<br \/>\npensativamente: &#8211; Eu te digo, Umbopa, ou Ignosi, ou o que \u00e9s; eu n\u00e3o<br \/>\ngosto de revolu\u00e7\u00f5es&#8230; Sou um homem de ordem e demais a mais<br \/>\num covarde. Escusas de te rir; sei perfeitamente o que digo; sou um covarde.<br \/>\nPor outro lado, tenho por costume ser fiel a quem me foi fiel; e tu, nesta<br \/>\njornada, andaste sempre como um servo dedicado e bravo. Portanto, \u00e0s<br \/>\nordens! Mas h\u00e1 uma cousa. Eu sou um pobre ca\u00e7ador de elefantes<br \/>\ne tenho de ganhar a minha vida. Tu falaste a\u00ed nos diamantes. Eu aceito<br \/>\nos diamantes. Se lhe pudermos lan\u00e7ar m\u00e3o, aceito-os, e quantos<br \/>\nmais e mais gra\u00fados melhor! N\u00e3o \u00e9 que eu acredite muito<br \/>\nneles. Mas, se aparecerem, desde j\u00e1 te prometo que, com licen\u00e7a<br \/>\ntua, hei de abarrotar as algibeiras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tantos quantos puderes levar! &#8211; exclamou Umbopa radiante. E j\u00e1<br \/>\nse voltava para Infand\u00f3s, naquele triunfal entusiasmo de pretendente<br \/>\na quem as ades\u00f5es afluem &#8211; quando eu o interrompi vivamente: &#8211; Alto!<br \/>\nTemos ainda outra, Ignosi. N\u00f3s viemos, como tu sabes perfeitamente,<br \/>\n\u00e0 procura do irm\u00e3o do Incubu (era a alcunha do bar\u00e3o,<br \/>\nem zulu). Quero que me prometas que h\u00e1s de fazer tudo o que puderes,<br \/>\ncomo rei, para nos ajudar a encontr\u00e1-lo&#8230; Come\u00e7a por te informar<br \/>\nagora com teu tio Infand\u00f3s.<\/p>\n<p>Ignosi pousou os olhos em Infand\u00f3s, com singular majestade:<br \/>\n<!-- - 61 --><br \/>\n&#8211; Meu tio Infand\u00f3s, em nome do emblema sagrado que me envolve a cinta,<br \/>\ne como teu rei leg\u00edtimo, intimo-te a que me digas a verdade. Houve<br \/>\nj\u00e1 algum homem branco que, antes destes, tivesse vindo \u00e0 terra<br \/>\ndos cacuanas? &#8211; Nunca, meu senhor! &#8211; E poderia algum ter vindo, sem que tu<br \/>\no soubesses? &#8211; Nenhum poderia ter vindo sem que eu o soubesse.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o deu um longo suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Bem! &#8211; exclamei logo, para lhe n\u00e3o matar de todo a esperan\u00e7a,<br \/>\ne cortar os tristes pensamentos. &#8211; Quando Ignosi for rei, teremos ent\u00e3o<br \/>\nmais facilidade de procurar o irm\u00e3o do Incubu, at\u00e9 aos confins<br \/>\ndo reino, e nas terras que est\u00e3o al\u00e9m! Agora vamos ao que urge.<br \/>\nQue plano tens tu, Ignosi, para recuperar a coroa? Porque enfim, meu rapaz,<br \/>\n\u00e9 bom ser rei de direito divino, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho plano. E tu, meu tio, Infand\u00f3s? Infand\u00f3s<br \/>\npensou um instante, com a barba sobre o peito.<\/p>\n<p>&#8211; Esta noite &#8211; disse ele por fim &#8211; \u00e9 a ca\u00e7a aos feiti\u00e7os.<br \/>\nMuitos v\u00e3o morrer, e em muitos outros mais recrescer\u00e1 o \u00f3dio<br \/>\ncontra Tuala. Depois da dan\u00e7a, falarei a alguns dos grandes chefes<br \/>\nque podem dispor de regimentos. \u00c9 necess\u00e1rio que os chefes te<br \/>\nvenham ver, Ignosi, se conven\u00e7am com seus olhos que \u00e9s rei.<br \/>\nE se eles puserem as m\u00e3os nas tuas, amanh\u00e3 tens vinte mil lan\u00e7as<br \/>\npara combater por ti. Porque a guerra \u00e9 certa. Depois da dan\u00e7a,<br \/>\nse eu viver, se todos vivermos, virei aqui, para combinar na escurid\u00e3o.<br \/>\nMas a guerra \u00e9 certa! Neste momento houve fora do terreiro um brado,<br \/>\nanunciando que se avizinhavam mensageiros do rei. E tr\u00eas homens entraram,<br \/>\ncada um deles trazendo erguida nas m\u00e3os uma cota de malha, que rebrilhava<br \/>\ncomo prata, e uma magn\u00edfica acha de batalha.<\/p>\n<p>Um arauto que os precedia exclamou, batendo no ch\u00e3o com o conto da<br \/>\nlan\u00e7a: &#8211; Presente de Tuala, o rei, aos homens que v\u00eam das estrelas!<br \/>\n&#8211; Agradecemos ao rei &#8211; volvi eu secamente. &#8211; Ide! Apenas os homens partiram,<br \/>\nexaminamos as cotas com grande interesse. Eram maravilhosas, de uma malha<br \/>\nt\u00e3o fina, t\u00e3o cerrada, t\u00e3o el\u00e1stica e macia, que<br \/>\numa armadura toda podia caber no c\u00f4ncavo das duas m\u00e3os. Perguntei<br \/>\na Infand\u00f3s se eram fabricadas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu senhor, s\u00e3o cousas que existem h\u00e1 muito,<br \/>\ne que herdamos de pais para filhos. J\u00e1 muito poucas restam. S\u00f3<br \/>\nos de sangue real as podem usar. E o rei que as mandou, \u00e9 que est\u00e1<br \/>\nmuito contente ou que est\u00e1 muito assustado. Em todo o caso n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 ferro que as atravesse, e bom ser\u00e1, meus senhores, que as<br \/>\nuseis esta noite na dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando Infand\u00f3s saiu, ficamos conversando neste estranho incidente<br \/>\n&#8211; que transformava a nossa pac\u00edfica jornada numa aventura pol\u00edtica.<br \/>\nComo notou o bar\u00e3o, fora este, decerto, desde a nossa partida do Natal,<br \/>\num dos dias mais ricos de emo\u00e7\u00f5es e surpresas.<\/p>\n<p>&#8211; Extraordin\u00e1rio &#8211; disse o capit\u00e3o. &#8211; Tem de ser registrado<br \/>\nno Livro de Bordo.<\/p>\n<p>Chamava ele Livro de Bordo a um almanaque do ano, com folhas brancas intercaladas,<br \/>\nonde costumava assentar os epis\u00f3dios not\u00e1veis da nossa espantosa<br \/>\nempresa.<\/p>\n<p><!-- - 62 --><br \/>\n&#8211; Que dia \u00e9 hoje? &#8211; perguntou ele, sentando-se, com o almanaque sobre<br \/>\no joelho.<\/p>\n<p>&#8211; 3 de julho.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o e eu volt\u00e1ramos a examinar as d\u00e1divas de Tuala<br \/>\n&#8211; quando, da\u00ed a instantes, o capit\u00e3o exclamou com os olhos no<br \/>\nalmanaque: &#8211; \u00c9 curioso! Amanh\u00e3, 4 de julho, h\u00e1 um eclipse<br \/>\ntotal, vis\u00edvel em toda a \u00c1frica! Deve come\u00e7ar \u00e0s<br \/>\nduas e quarenta minutos&#8230;<\/p>\n<p>Bom terror v\u00e3o ter os pretos! Escassamente demos aten\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0quela not\u00edcia; e como o capit\u00e3o findara de escrever,<br \/>\npreparamo-nos para partir para a grande dan\u00e7a, porque o sol j\u00e1<br \/>\ndescia, e j\u00e1 ia fora um rumor de regimentos passando. Pelo prudente<br \/>\nconselho de Infand\u00f3s envergamos as cotas de malha, &#8211; que achamos confort\u00e1veis<br \/>\ne leves. A do bar\u00e3o, homem de forte estatura, vestia-o como uma pelica;<br \/>\na do capit\u00e3o e a minha dan\u00e7avam-nos sobre as costelas, com pregas<br \/>\npouco marciais.<\/p>\n<p>A lua surgia, magnificamente clara, quando Infand\u00f3s apareceu, com<br \/>\ntodas as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros,<br \/>\npara nos escoltar a pal\u00e1cio. Afivelamos os rev\u00f3lveres \u00e0<br \/>\ncinta, empunhamos as achas de guerra, e largamos &#8211; consideravelmente comovidos.<\/p>\n<p>No terreiro, onde estiv\u00e9ramos de manh\u00e3, encontramos a mesma<br \/>\nformid\u00e1vel parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens<br \/>\n&#8211; mas formados de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto<br \/>\n\u201cpara as farejadoras de feiticeiros\u201d (como nos foi explicando<br \/>\nInfand\u00f3s). N\u00e3o havia outra luz al\u00e9m da lua, cheia e lustrosa,<br \/>\nque punha longas fieiras de fa\u00edscas nos ferros altos das lan\u00e7as.<br \/>\nDaquela escura massa de homens, do luar, do sil\u00eancio, sa\u00eda uma<br \/>\nindefin\u00edvel impress\u00e3o de majestade e tristeza.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 aqui todo o ex\u00e9rcito &#8211; murmurei eu para Infand\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Um ter\u00e7o, n\u00e3o mais, meu senhor. Outro ter\u00e7o ficou<br \/>\nnas guarni\u00e7\u00f5es. E o outro est\u00e1 fora, em torno a pal\u00e1cio,<br \/>\npara o caso de sedi\u00e7\u00e3o, quando come\u00e7ar a matan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Escuta, Infand\u00f3s! Achas que corremos perigo? &#8211; N\u00e3o sei;<br \/>\nespero que n\u00e3o&#8230; Mas n\u00e3o mostreis medo! E se escaparmos com<br \/>\nvida esta noite &#8211; quem sabe? Talvez amanh\u00e3 Tuala seja como o raio que<br \/>\nferiu e se apagou.<\/p>\n<p>\u00cdamos no entanto caminhando, atrav\u00e9s dos regimentos mais im\u00f3veis<br \/>\nque bronzes, para o espa\u00e7o vazio diante da cubata real, onde havia,<br \/>\ncomo de manh\u00e3, uma fila de escabelos de honra. E ao mesmo tempo outro<br \/>\ngrupo, com um brilho e ru\u00eddo de armas, sa\u00eda da aringa real.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 Tuala &#8211; disse baixo Infand\u00f3s &#8211; e Escraga, e Gagula e os<br \/>\nhomens que matam.<\/p>\n<p>Os \u201chomens que matavam\u201d eram uns doze negros gigantescos, de<br \/>\nfaces hediondas, com plumagens vermelhas, armados de facalh\u00f5es e de<br \/>\nazagaias pesadas.<\/p>\n<p>&#8211; Bem-vindos, gentes das estrelas! &#8211; gritou logo Tuala, abatendo-se pesadamente<br \/>\nsobre um escabelo. &#8211; Sentai, sentai! E n\u00e3o percamos o tempo, que a<br \/>\nnoite \u00e9 curta para as grandes cousas que t\u00eam de ser feitas. Olhai<br \/>\nem roda, e dizei-me se nas estrelas tivestes jamais tantos valentes juntos&#8230;<br \/>\nMas vede tamb\u00e9m como eles j\u00e1 tremem, os que abrigam maldade<br \/>\nno seu cora\u00e7\u00e3o! &#8211; Come\u00e7ai! Come\u00e7ai! &#8211; ganiu na<br \/>\nsua silvante voz Gagula, que se agachara aos p\u00e9s do rei. &#8211; As hienas<br \/>\nt\u00eam fome de ossos, os abutres t\u00eam sede de sangue&#8230; Come\u00e7ai!<br \/>\nCome\u00e7ai! Houve durante momentos<br \/>\n<!-- - 63 --><br \/>\num sil\u00eancio l\u00fagubre, que pesava horrivelmente, como um pren\u00fancio<br \/>\nde matan\u00e7a e de horror. O rei ent\u00e3o agitou a lan\u00e7a. Imediatamente<br \/>\nvinte mil p\u00e9s se ergueram, e tr\u00eas vezes, em cad\u00eancia, bateram<br \/>\nno ch\u00e3o que tremia. Depois, l\u00e1 ao fundo, dentre as densas e<br \/>\nescuras filas de homens, subiu ao ar um canto solit\u00e1rio, arrastado,<br \/>\nplangente, infinitamente triste, findando neste estribilho: &#8211; Qual \u00e9<br \/>\na sorte, sobre a terra, De quem teve de nascer? E os regimentos todos volviam,<br \/>\nnuma \u00fanica, grande e rolante voz: &#8211; Morrer! Mas pouco a pouco, as companhias,<br \/>\numas ap\u00f3s outras, foram entoando uma estrofe da can\u00e7\u00e3o,<br \/>\nat\u00e9 que toda a vasta multid\u00e3o armada formava um coro &#8211; coro<br \/>\nb\u00e1rbaro, rude, informe, onde todavia, por vezes, distingu\u00edamos<br \/>\ncomo conscientes express\u00f5es de sentimentos &#8211; notas suaves e lentas<br \/>\nde amor, brados triunfais de guerra, c\u00e2nticos solenes de ora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDepois os cantos v\u00e1rios fundiam-se num lamento \u00fanico, cont\u00ednuo,<br \/>\nululado, como de um povo num funeral. De repente tudo estacava. E de novo<br \/>\no l\u00fagubre estribilho gemia no ar: &#8211; Qual \u00e9 a sorte, sobre a<br \/>\nterra, De quem teve de nascer? E de novo \u00e0 multid\u00e3o clamava,<br \/>\nnum un\u00edssimo desolado: &#8211; Morrer! O canto por fim findou, um sombrio<br \/>\nsil\u00eancio caiu, o rei levantou as m\u00e3os. Imediatamente, sentimos<br \/>\ncomo o trote ligeiro de p\u00e9s de gazelas; e, dentre os profundos renques<br \/>\ndos soldados, apareceram correndo para n\u00f3s estranhas e medonhas figuras.<br \/>\nPercebi que eram mulheres, quase todas velhas, pelos longos cabelos brancos<br \/>\ne soltos que lhes batiam \u00e0s costas. Traziam as faces pintadas \u00e0s<br \/>\nlistas brancas e vermelhas; dos ombros pendiam-lhes esvoa\u00e7ando, e misturadas<br \/>\n\u00e0s madeixas, longas peles de serpente; em torno \u00e0 cinta ca\u00edam-lhe<br \/>\ncomo berloques de ossos humanos, que chocalhavam sinistramente; e cada uma<br \/>\nbrandia na m\u00e3o uma curta forquilha.<\/p>\n<p>Ao chegarem em frente a Gagula pararam, ferindo o ch\u00e3o com as forquilhas.<br \/>\nE uma, a mais alta, alargou os bra\u00e7os, gritou: &#8211; M\u00e3e, aqui estamos!<br \/>\n&#8211; Bem, bem &#8211; ganiu o decr\u00e9pito monstro. &#8211; Tendes hoje os olhos bem<br \/>\nclaros, Isanusis? &#8211; Bem claros, oh m\u00e3e! &#8211; Tendes hoje os ouvidos bem<br \/>\nabertos, Isanusis? &#8211; Bem abertos, oh m\u00e3e! &#8211; Ide ent\u00e3o! Farejai,<br \/>\nfarejai! Entre esses todos descobri os que querem mal ao seu vizinho, os que<br \/>\npossuem o gado indevido, os que tramam contra o rei, os que devem morrer por<br \/>\nordem de \u201ccima\u201d! Farejai! Vede os pensamentos que se n\u00e3o<br \/>\nmostram, ouvi as palavras que se n\u00e3o dizem! Ide, meus lindos abutres!<br \/>\nOs homens das estrelas t\u00eam fome e sede de ver a grande Justi\u00e7a!<br \/>\nAgora! Com uivos horrendos, as sinistras criaturas dispersaram correndo, para<br \/>\ntodos os lados, atrav\u00e9s das fileiras armadas. N\u00e3o as pod\u00edamos<br \/>\nseguir a todas, na sua obra mortal. De sorte que, por mim, cravei a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nna que ficou junto de n\u00f3s, uma velha, esgalgado feixe de ossos, que<br \/>\ndeitava lume pelos olhos. Quando esta harpia chegou em frente aos soldados,<br \/>\nparou farejando. Depois rompeu a dan\u00e7ar, girando sobre si mesma, t\u00e3o<br \/>\nrapidamente, que as longas grenhas soltas pareciam uma estrela feita de estrigas<br \/>\nde linho a redemoinhar<br \/>\n<!-- - 64 --><br \/>\npelo ar. No entanto ia gritando por entre silvos de alegria: &#8211; \u201cJ\u00e1<br \/>\no farejo, o homem do mal! Ali est\u00e1 ele, o que envenenou a m\u00e3e!<br \/>\nAcol\u00e1 treme o que pensou mal do rei!\u201d E, cada vez mais vertiginosamente,<br \/>\nvinha girando, girando, at\u00e9 que a espuma lhe sa\u00eda aos flocos<br \/>\nda boca e os ossos lhe rangiam alto! De repente, estacou, hirta, tesa, como<br \/>\npetrificada. Depois, devagar, devagar, como uma fera que rasteja, avan\u00e7ou<br \/>\nde forquilha estendida para a fileira de soldados, que visivelmente se encolhiam<br \/>\nnum indomin\u00e1vel terror. Parou ainda, outra vez tesa e hirta. Por fim,<br \/>\ncom um brado estridente, arremeteu, e bateu com a forquilha no peito de um<br \/>\nrapaz soberbamente forte.<\/p>\n<p>Dois camaradas imediatamente o agarraram pelos bra\u00e7os, o empurraram<br \/>\npara defronte do rei. O desgra\u00e7ado caminhava sem resist\u00eancia,<br \/>\ninerte, j\u00e1 morto na alma. O bando dos executores avan\u00e7ara a<br \/>\npassos graves: &#8211; Mata! &#8211; disse o rei.<\/p>\n<p>&#8211; Mata! &#8211; ganiu Gagula.<\/p>\n<p>&#8211; Mata! &#8211; rugiu Escraga.<\/p>\n<p>E antes que as palavras se perdessem no ar, o miser\u00e1vel tombara morto,<br \/>\ncom uma azagaia cravada no peito, o cr\u00e2nio aberto por uma pancada de<br \/>\nclava.<\/p>\n<p>&#8211; Um &#8211; contou Tuala, sorrindo com satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mal findara o feito horr\u00edvel, j\u00e1 outro soldado era arrastado<br \/>\ncomo uma r\u00eas, &#8211; um chefe decerto, esse, porque lhe pendia dos ombros<br \/>\na capa de pele de leopardo. Dois golpes de facalh\u00e3o, vibrados com destreza,<br \/>\nbastaram para o acabar sem um suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; Dois ! &#8211; contou o rei.<\/p>\n<p>E assim at\u00e9 cem! At\u00e9 cem! &#8211; E n\u00f3s ali, aterrados, im\u00f3veis,<br \/>\nimpotentes para suster a carnificina, maldizendo surdamente a nossa impot\u00eancia!<br \/>\nEu findara por fechar os olhos. \u00c0 meia noite, enfim, houve uma suspens\u00e3o.<br \/>\nAs farejadoras, esfalfadas, em grupo defronte do rei, limpavam lentamente<br \/>\no suor. Respirei, num infinito alivio, supondo que findara todo este incompar\u00e1vel<br \/>\nhorror. Mas de repente, com desagrad\u00e1vel surpresa, descobrimos Gagula,<br \/>\nerguida, apoiada num cajado, dando alguns passos que tremiam e lhe sacudiam<br \/>\no cr\u00e2nio calvo de abutre. Cousa pavorosa, ver o velh\u00edssimo monstro,<br \/>\nordinariamente vergado em dois pela decrepitude, ganhando alento, remo\u00e7ando<br \/>\nquase, j\u00e1 direito, j\u00e1 vibrante, \u00e0 medida que se acercava<br \/>\nda fileira dos homens, a recome\u00e7ar por gosto pr\u00f3prio a obra<br \/>\nsinistra das \u201cfarejadoras\u201d! Mas nela o estilo era diferente. N\u00e3o<br \/>\ndan\u00e7ava, n\u00e3o uivava. Dando umas corridinhas curtas, aqui e al\u00e9m,<br \/>\ncantava baixinho e tristemente, como para se embalar. Assim trotou, assim<br \/>\ncantarolou, at\u00e9 que, de repente, se precipitou sobre um magn\u00edfico<br \/>\nvelho, perfilado em frente a um regimento &#8211; e tocou-o silenciosamente com<br \/>\no cajado. Um murm\u00fario de dor, de contida indigna\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncorreu entre os soldados que ele evidentemente comandava. Todavia dois deles,<br \/>\nempolgando-lhe os pulsos, arrastaram-no como um boi para o a\u00e7ougue.<br \/>\nSoubemos depois que era um chefe de grande riqueza e de grande influ\u00eancia,<br \/>\nprimo do rei. Foi trucidado com azagaia, facalh\u00e3o e clava &#8211; e Tuala<br \/>\ncontou cento e um! Quase imediatamente Gagula, depois de alguns sapinhos curtos<br \/>\nde macaca, come\u00e7ou a avan\u00e7ar para n\u00f3s, num movimento<br \/>\nmuito lento de valsa, que era medonho na repulsiva bruxa.<\/p>\n<p>&#8211; Justos c\u00e9us! &#8211; murmurou o Capit\u00e3o John &#8211; querem ver que,<br \/>\nagora, \u00e9 conosco!<br \/>\n<!-- - 65 --><br \/>\n&#8211; Tolice! &#8211; acudiu o bar\u00e3o, p\u00e1lido todavia.<\/p>\n<p>Eu por mim senti um suor frio na espinha. E Gagula, cada vez mais perto,<br \/>\n&#8211; com os olhos a saltar-lhe do cr\u00e2nio, um fio de baba na boca.<\/p>\n<p>Por fim estacou, como um perdigueiro que avista a ca\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Qual ser\u00e1? &#8211; murmurou o bar\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se lhe respondesse, a velha deu um pulo, e tocou Umbopa (ou Ignosi)<br \/>\nsobre o ombro: &#8211; Morte! &#8211; gritava ela. &#8211; Morte! Cheiro-lhe o sangue! Est\u00e1<br \/>\ncheio de malef\u00edcio e de trai\u00e7\u00e3o. Mata-o depressa, oh<br \/>\nrei, mata-o depressa antes que por ele gema em desgra\u00e7a o reino!&#8230;<br \/>\nHouve um sil\u00eancio, um pasmo. E nem sei como (porque sou realmente um<br \/>\ncovarde), achei-me diante de Tuala, falando com soberana firmeza: &#8211; Este homem,<br \/>\noh rei, \u00e9 o servo dos teus h\u00f3spedes, e quem deseja o seu sangue<br \/>\n\u00e9 como se desejasse o nosso! Pela lei de hospitalidade, que cumpre<br \/>\naos reis manter, exijo a tua prote\u00e7\u00e3o para ele! Tuala franziu<br \/>\no sobrolho: &#8211; Gagula, m\u00e3e das Isanusis, sabedora das artes, cheiro-lhe<br \/>\na trai\u00e7\u00e3o dentro das veias. O homem tem de morrer, oh brancos!<br \/>\n&#8211; Quem lhe tocar &#8211; exclamei, batendo furiosamente com o p\u00e9 no ch\u00e3o<br \/>\n&#8211; \u00e9 que tem de morrer! &#8211; Agarrem-no! &#8211; bradou Tuala aos carrascos que<br \/>\nesperavam em roda, j\u00e1 todos manchados de sangue.<\/p>\n<p>Dois brutos romperam para n\u00f3s &#8211; mas hesitaram. Ignosi erguera a azagaia,<br \/>\ndecidido a morrer combatendo.<\/p>\n<p>&#8211; Pra tr\u00e1s, c\u00e3es! &#8211; berrei eu, num tom tremendo. &#8211; Tocai num<br \/>\ns\u00f3 cabelo do homem, e v\u00f3s mesmos, e a vossa feiticeira, e o<br \/>\nvosso rei, n\u00e3o vereis mais a luz do dia! E bruscamente apontei o rev\u00f3lver<br \/>\na Tuala. O bar\u00e3o tinha j\u00e1 o seu erguido contra um dos carrascos;<br \/>\ne John marchara sobre Gagula.<\/p>\n<p>Houve um instante de indiz\u00edvel assombro.<\/p>\n<p>&#8211; Decide depressa, Tuala! &#8211; gritei, tocando-lhe quase a testa com o cano<br \/>\ndo rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>O monstro, visivelmente enfurecido falou: &#8211; Tirai para l\u00e1 os vossos<br \/>\ncanos m\u00e1gicos! Invocastes as leis da hospitalidade, e s\u00f3 por<br \/>\namor delas, n\u00e3o por medo de v\u00f3s, poupo a vida a esse c\u00e3o&#8230;<br \/>\nIde em paz.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem, Tuala! E lembra-te sempre que contra os homens das estrelas,<br \/>\nnada podem os homens da terra! O rei, ainda tr\u00eamulo de furor impotente,<br \/>\nergueu a lan\u00e7a. Os regimentos come\u00e7aram logo a desfilar.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco est\u00e1vamos na nossa aringa &#8211; conversando \u00e1<br \/>\nluz de uma das curiosas l\u00e2mpadas que usam os cacuanas, em que o pavio<br \/>\n\u00e9 feito de fibra de palmeira, e o azeite de toucinho de hipop\u00f3tamo.<br \/>\nE o que afirm\u00e1vamos todos com convic\u00e7\u00e3o, com ardor, era<br \/>\na necessidade e a justi\u00e7a urgente de ajudar a conspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Umbopa contra um vil\u00e3o como Tuala!<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>Cap\u00edtulo VIII &#8211; A Grande Dan\u00e7a<\/h2>\n<p>J\u00e1 muito tarde, quase de madrugada, Infand\u00f3s apareceu, como<br \/>\nprometera, com os chefes seus amigos, todos homens de porte marcial e decididos.<br \/>\nA confer\u00eancia foi longa e curiosa. Ignosi, convidado a expor a sua rom\u00e2ntica<br \/>\nhist\u00f3ria e os seus direitos ao reino dos cacuanas, come\u00e7ou por<br \/>\ntirar a tanga em sil\u00eancio e mostrar o emblema sagrado, a grande serpente<br \/>\ntatuada na cinta. Cada chefe, um a um, tomava a l\u00e2mpada, e, agachado,<br \/>\nexaminava o sinal com respeito; depois, em sil\u00eancio, passava a l\u00e2mpada<br \/>\na outro.<\/p>\n<p>Em seguida Ignosi, reatando a tanga, contou a sua vida estranha, desde a<br \/>\nfuga com a m\u00e3e atrav\u00e9s do deserto. Os chefes permaneceram calados.<br \/>\nInfand\u00f3s, por seu turno, recordou os longos crimes de Tuala, retra\u00e7ou<br \/>\nas matan\u00e7as dessa noite de festa em que dois guerreiros valentes, de<br \/>\ncasas ilustres, tinham sido trucidados, s\u00f3 por possu\u00edrem grandes<br \/>\nrebanhos que Escraga apetecia. Por fim, fez um grande apelo \u00e0 raz\u00e3o<br \/>\ne ao cora\u00e7\u00e3o dos chefes, que s\u00f3 tinham a escolher entre<br \/>\no monstro que, por avidez e capricho, lhes arrancava a vida, ou o homem que<br \/>\nlhes garantia a exist\u00eancia feliz nas suas senzalas e a posse tranq\u00fcila<br \/>\ndos seus gados. Mas, com espanto nosso, os chefes pareciam hesitantes e desconfiados.<\/p>\n<p>Finalmente, um deles, homenzarr\u00e3o possante, de carapinha branca,<br \/>\ndeu um passo, e declarou que a terra na verdade gemia sob a crueldade de Tuala,<br \/>\ne que seu pr\u00f3prio irm\u00e3o nessa noite estava sendo pasto das hienas&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas aquele era um singular e confuso caso! E quem lhes afian\u00e7ava<br \/>\nque eles n\u00e3o ergueriam as suas lan\u00e7as por um impostor? A guerra<br \/>\nera certa. Muitos ficariam fi\u00e9is a Tuala, porque mais se adora o sol<br \/>\nque brilha, que o sol que ainda n\u00e3o nasceu. Necessitavam, pois, uma<br \/>\nevid\u00eancia. E quem melhor lha poderia dar que os homens das estrelas,<br \/>\nsenhores das grandes artes m\u00e1gicas, que tinham trazido Ignosi ao pa\u00eds,<br \/>\ne sabiam decerto os segredos? &#8211; Se ele \u00e9 o herdeiro leg\u00edtimo,<br \/>\nos homens que o trouxeram das estrelas, que o provem, fazendo um grande milagre.<br \/>\nS\u00f3 assim o povo acreditar\u00e1 e tomar\u00e1 armas por ele! &#8211;<br \/>\nMas a cobra, o emblema sagrado! &#8211; exclamei eu.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o basta. A cobra podia ser pintada no ventre j\u00e1 depois<br \/>\nde ele ser homem&#8230; Necessitamos de um milagre! O povo n\u00e3o se move,<br \/>\nnem n\u00f3s mesmos, sem um milagre! Um milagre! A situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nera terr\u00edvel e grotesca. Exigir-se um milagre a tr\u00eas honestos<br \/>\ne ing\u00eanuos mortais, que nem sequer sabiam, como qualquer prestidigitador<br \/>\nde feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os honestos mortais<br \/>\nde fazer o milagre &#8211; ou de perder a vida!&#8230; Voltei-me para os meus companheiros,<br \/>\na explicar rapidamente o ris\u00edvel e perigoso lance.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que se pode arranjar &#8211; disse John, depois de um curto sil\u00eancio.<br \/>\n&#8211; Pe\u00e7a a estes amigos que nos deixem s\u00f3s, Quartelmar.<\/p>\n<p>Abri a porta da cubata, os chefes sa\u00edram. E apenas os passos morreram<br \/>\nna sombra:<br \/>\n<!-- - 67 --><br \/>\n&#8211; Temos o eclipse! &#8211; exclamou o nosso admir\u00e1vel John. Era o eclipse<br \/>\nque ele descobrira na v\u00e9spera, folheando o almanaque (o Livro de Bordo),<br \/>\ne que nesse dia, \u00e0s duas e quarenta minutos, devia ser vis\u00edvel<br \/>\nem toda a \u00c1frica.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed est\u00e1 o milagre! &#8211; afirmava John. &#8211; \u00c9 anunciar<br \/>\naos chefes que, para lhes provar que Ignosi \u00e9 o rei, e que devem pegar<br \/>\nem armas por ele, n\u00f3s faremos desaparecer o sol! A id\u00e9ia era<br \/>\nespl\u00eandida. O \u00fanico receio \u00e9 que o almanaque estivesse<br \/>\nerrado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! \u00c9 um almanaque mar\u00edtimo; n\u00e3o pode estar<br \/>\nerrado. Os eclipses s\u00e3o calculados matematicamente. N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nnada mais pontual que um eclipse&#8230; Durante meia hora, tr\u00eas quartos<br \/>\nde hora talvez, esta regi\u00e3o toda ficar\u00e1 em treva.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, por mim &#8211; disse o bar\u00e3o &#8211; parece-me que devemos arriscar o<br \/>\neclipse.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 pelo eclipse! Mandamos Umbopa buscar os chefes. Quando voltaram,<br \/>\ncerrei a porta da cubata com um sombrio aparato de mist\u00e9rio, e comecei<br \/>\npor lhes declarar, majestosamente, que n\u00f3s, os homens das estrelas,<br \/>\nn\u00e3o gost\u00e1vamos de alterar o curso natural das cousas e mergulhar<br \/>\no mundo em terror e confus\u00e3o&#8230; Mas, como se tratava de uma grande<br \/>\ne santa causa, est\u00e1vamos decididos a fazer um milagre.<\/p>\n<p>&#8211; Escutai! Julgais v\u00f3s que um homem pode soprar sobre o sol, e apag\u00e1-lo?<br \/>\nOs chefes olharam para mim, recuando com assombro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o &#8211; murmurou um deles &#8211; n\u00e3o h\u00e1 homem que o possa<br \/>\nfazer! O sol \u00e9 mais forte que toda a terra! &#8211; Perfeitamente &#8211; conclu\u00ed<br \/>\neu. &#8211; Pois amanh\u00e3, depois do meio dia, n\u00f3s, homens das estrelas,<br \/>\napagaremos o sol durante uma hora, espalharemos trevas sobre a terra, e ser\u00e1<br \/>\no sinal de que Ignosi \u00e9 o verdadeiro rei dos cacuanas e que o povo<br \/>\ndeve tomar armas por ele. Ser\u00e1 bastante este milagre? O chefe da carapinha<br \/>\nbranca abriu os bra\u00e7os para n\u00f3s, esgazeado: &#8211; \u00d3 gentes<br \/>\ndas estrelas, senhores das grandes artes, esse milagre ser\u00e1 mais que<br \/>\nbastante! &#8211; Bem. Tereis o milagre. Agora Infand\u00f3s, que \u00e9 experiente,<br \/>\ndiga o momento em que mais conv\u00e9m que n\u00f3s apaguemos o sol.<\/p>\n<p>&#8211; Apagar o sol! &#8211; murmuravam os chefes entre si. &#8211; A grande l\u00e2mpada!<br \/>\nO pai de tudo, que brilha eternamente! &#8211; Fala, Infand\u00f3s! &#8211; Meu senhor,<br \/>\n\u00e9 na verdade um milagre espantoso que v\u00f3s prometeis! Mas enfim&#8230;<br \/>\nO melhor momento \u00e9 o da Dan\u00e7a das Flores, que h\u00e1 de logo<br \/>\ncome\u00e7ar ao meio-dia. As mais lindas raparigas de Lu est\u00e3o l\u00e1,<br \/>\npara dan\u00e7ar. E aquela que Tuala achar mais linda de todas \u00e9,<br \/>\nsegundo o costume, morta por Escraga em sacrif\u00edcio aos Silenciosos,<br \/>\nas figuras de pedra que est\u00e3o al\u00e9m na montanha vigiando. Que<br \/>\nos meus senhores nesse momento apaguem o sol, salvem a rapariga, e o povo<br \/>\nacreditar\u00e1! &#8211; O povo na verdade acreditar\u00e1! &#8211; exclamam todos<br \/>\nos chefes.<\/p>\n<p>&#8211; A duas milhas de Lu &#8211; continuou Infand\u00f3s &#8211; h\u00e1 uma colina<br \/>\nem forma de meia lua, que \u00e9 realmente uma fortaleza, onde est\u00e3o<br \/>\naquartelados o meu regimento e tr\u00eas outros que estes chefes comandam.<br \/>\nMas podemos arranjar de modo que, ainda esta manh\u00e3 cedo, marchem para<br \/>\nl\u00e1 tr\u00eas ou quatro regimentos dos mais fi\u00e9is \u00e0 minha<br \/>\nvontade. E se os meus senhores apagarem com efeito o sol, eu poderei, a favor<br \/>\nda<br \/>\n<!-- - 68 --><br \/>\nescurid\u00e3o, faz\u00ea-los sair do terreiro real e da cidade, e lev\u00e1-los<br \/>\npara essa fortaleza, onde ficar\u00e3o a salvo e de onde come\u00e7aremos<br \/>\na guerra contra o rei.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 entendido &#8211; resumi eu. &#8211; Agora ide, que queremos dormir e<br \/>\ndepois combinar com os esp\u00edritos! Com longas rever\u00eancias, Infand\u00f3s<br \/>\ne os chefes deixaram a nossa aringa. O sol ia nado.<\/p>\n<p>&#8211; Oh meus amigos &#8211; exclamou Ignosi, apenas eles partiram. \u2013 \u00c9<br \/>\ncerto que podeis fazer esse milagre, ou est\u00e1veis v\u00f3s ganhando<br \/>\ntempo e soltando no ar palavras v\u00e3s? &#8211; Parece que n\u00e3o nos h\u00e1<br \/>\nde ser dif\u00edcil, meu Umbopa, quero dizer, meu Ignosi &#8211; declarei eu sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 espantoso! Apagar o sol&#8230; E, todavia, sois ingleses e o ingl\u00eas<br \/>\ntudo pode! Mas ah, se v\u00f3s fizerdes isso por mim, o que n\u00e3o farei<br \/>\neu por v\u00f3s? &#8211; Uma cousa j\u00e1 tu nos podes prometer, Ignosi! \u2013<br \/>\nacudiu gravemente o bar\u00e3o. &#8211; \u00c9, se chegares a ser rei com o<br \/>\nnosso aux\u00edlio, acabar com as \u201cfarejadeiras de feiti\u00e7os\u201d,<br \/>\ncom matan\u00e7as como as desta noite, e n\u00e3o consentir que homem<br \/>\nalgum seja condenado sem provas de crime, e sem ter sido julgado pelos doze<br \/>\nmais velhos do lugar.<\/p>\n<p>Era o j\u00fari, sant\u00edssimo Deus! Era a nobre institui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo j\u00fari, que este digno bar\u00e3o queria implantar no centro selvagem<br \/>\nda \u00c1frica! N\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o um liberal ingl\u00eas,<br \/>\npara estas espl\u00eandidas imposi\u00e7\u00f5es de civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de ordem. Com raz\u00e3o hesitou o astuto Ignosi! Com raz\u00e3o conservou<br \/>\nlongo tempo dois dedos sobre a testa, calculando. Por fim, num rasgo de generosidade<br \/>\nou de condescend\u00eancia: &#8211; Os costumes dos pretos n\u00e3o se podem<br \/>\nmoldar pelos costumes dos brancos. Contudo, uma cousa te prometo, Incubu!<br \/>\n\u00c9 que n\u00e3o haver\u00e1 no meu reino, nem matan\u00e7as de<br \/>\nfesta, nem execu\u00e7\u00f5es sem julgamento. Est\u00e1 contente? O<br \/>\nbar\u00e3o apertou-lhe a m\u00e3o em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco est\u00e1vamos estendidos nos leitos de folhas secas,<br \/>\ne profundamente dormimos, at\u00e9 que Ignosi nos acordou \u00e0s onze<br \/>\nhoras. O nosso primeiro cuidado foi instintivamente correr fora da cubata,<br \/>\nolhar para o sol. Nunca esse divino astro me pareceu t\u00e3o brilhante<br \/>\ne t\u00e3o seguro da sua luz. Nem um sinal de eclipse! Uma radi\u00e2ncia<br \/>\nfirme, absoluta, que nenhum movimento dos corpos celestes parecia poder alterar!<br \/>\n&#8211; Pois, meu digno astro &#8211; murmurei eu, ousando interpelar diretamente a fonte<br \/>\nde toda a vida &#8211; se continuas assim, todo o dia, acabas, sem querer, com tr\u00eas<br \/>\nhonrados homens! Depois de almo\u00e7ar, um s\u00f3lido e valente almo\u00e7o<br \/>\nque nos amparasse na crise iminente, revestimos as cotas de malha, afivelamos<br \/>\nos cintur\u00f5es de cartuchame, e de outros modos nos apetrechamos para<br \/>\na grande dan\u00e7a. E ao meio-dia para l\u00e1 voltamos os passos &#8211; que<br \/>\na inquieta\u00e7\u00e3o interior e a certeza do perigo, n\u00e3o permitiam<br \/>\nque fossem nem bem alegres nem bem ligeiros! O terreiro real oferecia, nessa<br \/>\nmanh\u00e3, um aspecto bem diverso &#8211; e onde na v\u00e9spera reinara o<br \/>\nhorror, transbordava agora a gra\u00e7a. Em lugar de fuscos e duros guerreiros,<br \/>\ntodo o espa\u00e7o estava ocupado por longas filas de raparigas cacuanas,<br \/>\nescuras tamb\u00e9m, \u00e9 verdade, mas lindas, pelas formas, a express\u00e3o,<br \/>\na vi\u00e7osa mocidade. Toilette, n\u00e3o tinham nenhuma &#8211; nem mesmo<br \/>\no pano, a tanga da \u00c1frica civilizada; mas<br \/>\n<!-- - 69 --><br \/>\nsalvavam esta encantadora defici\u00eancia pelo franco luxo das flores. Todas<br \/>\ntraziam na cabe\u00e7a uma coroa de flores; grinaldas de flores, grandes<br \/>\ncomo fest\u00f5es, envolviam-lhes a cinta; e cada uma segurava nas m\u00e3os<br \/>\numa palma verde e um l\u00edrio branco. Nos escabelos de honra j\u00e1<br \/>\nestava o rei &#8211; acompanhado por Infand\u00f3s, Escraga, guardas emplumados<br \/>\ne a sinistra Gagula. Reconhecemos tamb\u00e9m, de p\u00e9, por tr\u00e1s<br \/>\ndele, alguns dos chefes que nessa noite tinham conosco conspirado.<\/p>\n<p>Tuala acolheu-nos com muita cordialidade ostensiva &#8211; dardejando ao mesmo<br \/>\ntempo sobre Umbopa um olhar sangrento e mau.<\/p>\n<p>&#8211; Bem-vindos, homens das estrelas, bem-vindos! Vedes hoje aqui cousas diversas;<br \/>\nmas n\u00e3o t\u00e3o belas, n\u00e3o t\u00e3o belas! Beijos e festas<br \/>\nde mulheres s\u00e3o doces; mas \u00e9 mais doce o brilho das lan\u00e7as<br \/>\ne o cheiro do sangue. Olhai em redor, gentes das estrelas; e se quiserdes<br \/>\ncasar nesta terra, escolhei, escolhei&#8230; Podeis levar destas raparigas as<br \/>\nmelhores, e tantas quantas pedirem os vossos desejos.<\/p>\n<p>O nosso John, extremamente sens\u00edvel e amoroso como todos os marinheiros,<br \/>\ndeu logo um passo, teve um sorriso, como se preparasse a aceitar e a recrutar<br \/>\nali, para ocupar o seu cora\u00e7\u00e3o na terra dos cacuanas, um serralhozinho<br \/>\nde donzelas escuras. Mas eu, homem idoso e experiente, receando as complica\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo eterno feminino, apressei-me a recusar: &#8211; N\u00e3o, Tuala, obrigado!<br \/>\nOs homens brancos, que v\u00eam das estrelas, s\u00f3 se ligam \u00e0s<br \/>\nmulheres brancas que est\u00e3o nas estrelas&#8230;<\/p>\n<p>Tuala riu: &#8211; Est\u00e1 bem, est\u00e1 bem&#8230; N\u00f3s temos um prov\u00e9rbio<br \/>\ncacuana que diz: \u201cAproveita a que est\u00e1 perto, porque com certeza<br \/>\na que est\u00e1 longe te engana!\u201d Mas talvez seja doutro modo nas<br \/>\nestrelas&#8230; Sede pois bem-vindos, e comece a dan\u00e7a! Um grande tant\u00e3<br \/>\nressoou, acompanhado por finas flautas decana em que tr\u00eas mocinhos sopravam<br \/>\nagachados no ch\u00e3o. As fileiras de raparigas avan\u00e7aram, cantando<br \/>\num canto muito lento e doce, &#8211; e fazendo ondular nas m\u00e3os as palmas<br \/>\ne os l\u00edrios. Era um grande bailado b\u00e1rbaro, infinitamente pitoresco.<br \/>\nAs raparigas ora saltavam brandamente sobre as pontas dos p\u00e9s, numa<br \/>\ngraciosa languidez de gestos; ora, enla\u00e7adas aos pares, redemoinhavam<br \/>\nvivamente; ora, fileira contra fileira, simulavam uma batalha, tendo por armas<br \/>\nos ramos de palma; ora, ajoelhando em rever\u00eancia, ofertavam os l\u00edrios<br \/>\nao rei. Depois eram grandes marchas bem ordenadas em que o canto tomava um<br \/>\ntom triunfal; e logo uma alegre confus\u00e3o, numa grulhada melodiosa,<br \/>\ncom um vivo saltar de corpos \u00e1geis &#8211; que espalhava pelo ar as p\u00e9talas<br \/>\ndas flores desfolhadas. Por fim o bailado parou; e uma espl\u00eandida rapariga,<br \/>\nde olhos radiantes, mais airosa que uma Diana ca\u00e7adora, avan\u00e7ou<br \/>\ndevagar, e rompeu numa dan\u00e7a estranha, cheia de gra\u00e7a e de brilho,<br \/>\nem que os movimentos tudo traduziam, desde os requebros fugidios da noiva<br \/>\nt\u00edmida, at\u00e9 os pulos bravos da cor\u00e7a ciosa&#8230; Assim dan\u00e7ou<br \/>\nlongamente; os seus olhos cada vez mais rebrilhavam; a grinalda que lhe envolvia<br \/>\na cinta desfizera-se flor a flor; e todo o corpo ador\u00e1vel lhe reluzia<br \/>\nao sol, como um bronze umedecido. Por fim, cansada, sorrindo, recuou at\u00e9<br \/>\nao grupo das bailadeiras onde ficou de olhos baixos, a refrescar-se com o<br \/>\nseu ramo de l\u00edrios. Veio ent\u00e3o outra, muito alta, dan\u00e7ar;<br \/>\ne outra depois, e muitas ainda, todas belas e h\u00e1beis; mas nenhuma como<br \/>\na Diana ca\u00e7adora tinha beleza, gra\u00e7a e consumada arte.<\/p>\n<p>O rei ergueu a m\u00e3o, e o tant\u00e3 cessou.<\/p>\n<p><!-- - 70 --><br \/>\n&#8211; Gentes das estrelas &#8211; disse ele &#8211; qual delas achais mais linda? &#8211; A primeira<br \/>\n&#8211; respondi eu irrefletidamente.<\/p>\n<p>E logo me arrependi, lembrando o que anunciara Infand\u00f3s &#8211; que a mais<br \/>\nlinda tinha de perecer, sacrificada aos \u00eddolos. Ao mesmo tempo deitei<br \/>\num olhar ao sol, que continuava a refulgir com uma teima desesperada.<\/p>\n<p>Tuala, no entanto, sorria: &#8211; Os vossos olhos, gentes das estrelas, v\u00eaem<br \/>\nent\u00e3o como os meus. A primeira \u00e9 a mais bonita. E mau \u00e9<br \/>\npara ela, que tem de morrer! &#8211; Tem de morrer! &#8211; ecoou Gagula que parecera<br \/>\ndormitar durante a festa, e acordava, j\u00e1 interessada, desde que pressentia<br \/>\nsangue e dor.<\/p>\n<p>&#8211; Morrer! &#8211; exclamei eu, sorrindo tamb\u00e9m, como se n\u00e3o acreditasse.<br \/>\n&#8211; Por que, oh rei? Ela dan\u00e7ou bem; a todos agradou. Al\u00e9m disso,<br \/>\n\u00e9 mo\u00e7a e linda. Seria cruel e estranho recompens\u00e1-la<br \/>\ncom a morte.<\/p>\n<p>A fera afetou uma simpatia, que, nele, arrepiava: &#8211; Tamb\u00e9m o lamento,<br \/>\nmas \u00e9 o costume do meu reinado. Os Silenciosos, que est\u00e3o al\u00e9m<br \/>\nna montanha vigiando, precisam receber o seu tributo. H\u00e1 uma profecia<br \/>\ndo nosso povo que diz: \u201cO rei, que no dia da grande dan\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nsacrificar aos Silenciosos a mais linda das donzelas, perecer\u00e1, e com<br \/>\nele a sua casa\u201d. Por n\u00e3o ter cumprido a ordem de \u201ccima\u201d<br \/>\ncaiu meu irm\u00e3o e em seu lugar reino eu&#8230; Ide (voltando-se para os<br \/>\nguardas), trazei a virgem! E tu, meu Escraga, agu\u00e7a a lan\u00e7a!<br \/>\nDois da guarda real marcharam para a pobre e doce rapariga, que desfolhava<br \/>\nnervosamente as p\u00e9talas do seu l\u00edrio branco. De repente, e s\u00f3<br \/>\nent\u00e3o, ela pareceu compreender a fatalidade que a perdia, por ser formosa<br \/>\ne pura. Deu um grito, tentou fugir. Duas m\u00e3os fortes agarraram-na e<br \/>\ntrouxeram-na, toda em l\u00e1grimas e debatendo-se, para diante de Tuala.<\/p>\n<p>&#8211; Que nome \u00e9 o teu, linda mo\u00e7a? &#8211; ganiu a horr\u00edvel<br \/>\nGagula. &#8211; N\u00e3o respondes? Queres que o filho do rei tenha de erguer<br \/>\na lan\u00e7a, sem saber quem tu sejas? A isto, Escraga deu um salto com<br \/>\nsofreguid\u00e3o, al\u00e7ando a sua imensa azagaia. Vendo o ferro luzir,<br \/>\na pobre rapariga cessou toda a luta entre as m\u00e3os fortes dos guardas.<br \/>\nE com grandes l\u00e1grimas que lhe ca\u00edam, ficou toda, toda a tremer.<br \/>\nO medonho Escraga teve uma risada bestial: &#8211; Como ela treme, como ela treme<br \/>\ndiante da minha for\u00e7a! &#8211; Ah canalha, se te apanho a jeito! &#8211; rosnou<br \/>\no capit\u00e3o, apertando na m\u00e3o o rev\u00f3lver. No entanto Gagula,<br \/>\ncom atroz zombaria, animava a desgra\u00e7ada: &#8211; Sossega! Dize o teu nome.<br \/>\nVem, filha! N\u00e3o temas! &#8211; Oh m\u00e3e! &#8211; balbuciou a pobre criatura<br \/>\nentre solu\u00e7os, numa voz que desfalecia. &#8211; Oh m\u00e3e! O meu nome<br \/>\n\u00e9 Fulata, e sou da casa de Suco. Mas por que hei de eu morrer, eu que<br \/>\nn\u00e3o fiz mal nenhum? &#8211; Tens de morrer &#8211; prosseguiu a hedionda velha<br \/>\n\u2013 para contentar os que vigiam al\u00e9m na montanha. Mais vale dormir<br \/>\nde noite que trabalhar de dia. Mais vale estar quieta e morta, que agitada<br \/>\ne viva. E tu, filha ditosa da casa de Suco, vais morrer \u00e0s m\u00e3os<br \/>\nreais do filho do nosso rei. Olhei ansiosamente para o sol. Nada! Um brilho<br \/>\nimpass\u00edvel, que achei quase cruel! No entanto a pobre Fulata, apertando<br \/>\ndesesperadamente as m\u00e3os, suplicava, com gritos de ang\u00fastia:<br \/>\n<!-- - 71 --><br \/>\n&#8211; Oh m\u00e3e, oh rei, n\u00e3o me deixeis morrer!&#8230; E eu t\u00e3o<br \/>\nnova! Pois nunca mais hei de ver a aringa de meu pai? Nem embalar meus irm\u00e3os<br \/>\npequeninos? Nem cuidar dos cordeiros doentes? E por qu\u00ea? Mandaram-me<br \/>\naqui para dan\u00e7ar e eu dancei! O meu noivo est\u00e1 l\u00e1 fora<br \/>\n\u00e0 minha espera! Minha m\u00e3e ficou sentada debaixo das machabeles<br \/>\nat\u00e9 que eu volte para mungir as vacas&#8230; E por que herde eu morrer?<br \/>\nNunca fiz mal nenhum; e no terreiro da nossa casa deixava sempre cair gr\u00e3os<br \/>\nde aveia, para os p\u00e1ssaros levarem aos ninhos&#8230;<\/p>\n<p>Nas pr\u00f3prias faces dos guardas e dos chefes, perfilados junto a Tuala,<br \/>\nse espalhava um ar de piedade. Muitas raparigas solu\u00e7avam baixo. E<br \/>\nsubitamente, o Capit\u00e3o John, sem se poder conter mais, arrancou o rev\u00f3lver<br \/>\nda cinta e fez um movimento t\u00e3o saliente, de t\u00e3o clara interven\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; que a rapariga viu; num relance compreendeu&#8230; Desprendendo-se dos guardas,<br \/>\nque a seguravam frouxamente, veio arrojar-se aos p\u00e9s de John, abra\u00e7ando-lhe<br \/>\nas pernas nuas: &#8211; Oh pai branco, que vens das estrelas! &#8211; gritava ela. \u2013<br \/>\nDeixa acolher-me \u00e0 sombra da tua for\u00e7a&#8230; Salva-me destes homens,<br \/>\ne de Gagula, a m\u00e3e que \u00e9 t\u00e3o cruel&#8230; Torneia olhar para<br \/>\no sol&#8230; E com um alivio, uma alegria t\u00e3o intensa que ainda hoje o<br \/>\nrecord\u00e1-la me aquece o cora\u00e7\u00e3o, vi uma linha de sombra,<br \/>\nmuito fina ainda, surgindo \u00e0 orla do disco radiante! &#8211; O eclipse! &#8211;<br \/>\ngritei eu para os outros. &#8211; John, conserve a\u00ed a rapariga atr\u00e1s!<br \/>\nE armas na m\u00e3o, rapazes! Imediatamente, avancei para o rei: &#8211; Tuala<br \/>\n&#8211; exclamei com firmeza e arrog\u00e2ncia. &#8211; N\u00f3s, gentes das estrelas,<br \/>\nn\u00e3o podemos consentir nesta maldade! Tal n\u00e3o ser\u00e1! Deixa<br \/>\nque a rapariga volte para a sua morada! Tuala ergueu-se com um pulo brusco<br \/>\nde surpresa e de c\u00f3lera. E dos chefes, das agitadas filas de mulheres,<br \/>\nsubiu um murm\u00fario que era de assombro, e talvez de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o consentis! &#8211; bramiu o rei, com o olho sangrento dardejando<br \/>\nlume. &#8211; E quem \u00e9s tu, perro branco, para vir latir contra o le\u00e3o<br \/>\nna sua caverna? Tal n\u00e3o ser\u00e1! E como o podes tu impedir? Vai<br \/>\ntalvez a tua vontade prevalecer contra a minha for\u00e7a? Escraga, mata<br \/>\na criatura! E v\u00f3s guardas, ol\u00e1, agarrai esses homens! Uma multid\u00e3o<br \/>\nde soldados surgiu, correndo, detr\u00e1s da aringa real. O bar\u00e3o,<br \/>\nUmbopa e o capit\u00e3o (com Fulata agarrada a ele) vieram p\u00f4r-se<br \/>\nao meu lado, de carabinas apontadas. Outro olhar meu ao sol! A linha de sombra,<br \/>\nlenta e gradualmente, avan\u00e7ava sobre o globo rutilante. Com espl\u00eandida<br \/>\nconfian\u00e7a, ergui a m\u00e3o, bradei: &#8211; Parai! N\u00f3s, os filhos<br \/>\ndas estrelas, decidimos que a rapariga n\u00e3o morrer\u00e1! E se algu\u00e9m<br \/>\nousar ir contra a nossa vontade, ou avan\u00e7ar contra n\u00f3s um passo,<br \/>\nn\u00f3s, os m\u00e1gicos das grandes artes, apagaremos o sol e mergulharemos<br \/>\no mundo em trevas! O efeito foi tremendo. Os soldados estacaram. E Escraga<br \/>\nficou diante de n\u00f3s, com a lan\u00e7a erguida no ar, como uma figura<br \/>\nde pedra. Mas Gagula erguera-se, sacudindo os bra\u00e7os com furor: &#8211; Ouvi,<br \/>\nouvi o grande mentiroso, que diz que apaga o sol como um lume da terra! Pois<br \/>\nque o fa\u00e7a, e a rapariga ir\u00e1 livre para a sua morada! Mas se<br \/>\no n\u00e3o fizer, oh rei, que ele morra com ela, e com ele morram os c\u00e3es<br \/>\nmalditos que v\u00eam latir contra ti! Sem mais, ergui a m\u00e3o solenemente<br \/>\npara o sol (movimento que logo imitaram John e o bar\u00e3o) e rompi a bradar.<br \/>\nN\u00e3o me lembro j\u00e1 das cousas absurdas que<br \/>\n<!-- - 72 --><br \/>\ntumultuosamente atirei ao divino astro. Recitei-lhe versos de Shakespeare,<br \/>\npeda\u00e7os da B\u00edblia, prov\u00e9rbios, datas, nomes de firmas<br \/>\ncomerciais que me acudiram, as ruas da cidade do Cabo, &#8211; que sei eu? Tudo<br \/>\no que me aflu\u00eda aos l\u00e1bios, e que fosse em ingl\u00eas, na<br \/>\nl\u00edngua m\u00e1gica. Ousei mesmo espantosas familiaridades com o respeit\u00e1vel<br \/>\ncentro do sistema planet\u00e1rio. Gritava: \u201cAnda-me assim, sozinho<br \/>\nda minha alma! Pra diante, valente! Deixa avan\u00e7ar essa rica sombra!<br \/>\nAh que est\u00e1s um catita, meu astro! Mais, mais!&#8230;\u201d E o sol obedecia!<br \/>\nA mancha escura, n\u00edtida e convexa, avan\u00e7ava, comia a luz imortal.<br \/>\nUm grande sussurro de terror agitava a multid\u00e3o. Volvi ent\u00e3o<br \/>\na falar cacuana, livremente: &#8211; V\u00ea tu, oh rei! V\u00ea tu, Gagula! Vede<br \/>\nv\u00f3s, oh chefes! Mentem ent\u00e3o os homens das estrelas? Quisestes<br \/>\na treva eterna, ei-la que vos vem tragar!&#8230; Oh sol, pai de tudo, reluzente<br \/>\ne triunfante, retira a luz, some-te \u00e0 nossa ordem, mata o mundo com<br \/>\na escurid\u00e3o e frio, e que, sem ti, parem para sempre estes cora\u00e7\u00f5es<br \/>\ncru\u00e9is!&#8230; O sol vai morrer! Gritos de terror ressoavam j\u00e1 no<br \/>\nterreiro. As mulheres, ca\u00eddas de joelhos, choravam, implorando miseric\u00f3rdia.<br \/>\nE o rei, calado, tremia.<\/p>\n<p>S\u00f3 Gagula resistia ao pavor: &#8211; Vai passar, vai passar! &#8211; uivava ela.<br \/>\n&#8211; Eu j\u00e1 vi o sol assim. Ningu\u00e9m o pode apagar. Ficai quietos!<br \/>\nSossegai! A sombra vem e vai&#8230; Eu j\u00e1 vi, eu que sou a mais velha,<br \/>\ne conhe\u00e7o os segredos! Eu por mim animava os companheiros: &#8211; V\u00e1,<br \/>\nrapazes! J\u00e1 n\u00e3o sei que hei de dizer ao sol. Veja se se lembra<br \/>\nde alguns versos, bar\u00e3o. Tudo serve, at\u00e9 pragas! E John, admir\u00e1vel<br \/>\nmarinheiro, rompeu ent\u00e3o a praguejar. Foi sublime. Teve todas as pragas<br \/>\ncl\u00e1ssicas, &#8211; e teve-as in\u00e9ditas. Nem eu supunha mesmo que a<br \/>\nHumanidade possu\u00edsse, no seu vocabul\u00e1rio, uma tal riqueza de<br \/>\nblasf\u00eamias! O que o Rei do Dia ouviu! No entanto a mancha negra alastrava.<br \/>\nEstranhas, sinistras sombras flutuavam no ar. Uma triste quieta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndescia sobre a terra. Todos os p\u00e1ssaros se tinham calado. Ao longe<br \/>\nos c\u00e3es uivavam.<\/p>\n<p>E a mancha crescia, crescia&#8230; A atmosfera tornara-se espessa. J\u00e1<br \/>\nmal distingu\u00edamos as faces cru\u00e9is da gente real. Esmagadas de<br \/>\ntemor, as mulheres nem tugiam. Por fim John parou a torrente de invectivas.<br \/>\nE o que restava do sol parecia uma luz agonizante.<\/p>\n<p>&#8211; O sol morreu! &#8211; berrou de repente Escraga. &#8211; Os bruxos das estrelas mataram<br \/>\no sol! Tudo vai morrer nas trevas!&#8230; E fosse o del\u00edrio do medo ou<br \/>\nda raiva, ergueu a azagaia, arremessou-a a toda a for\u00e7a contra o peito<br \/>\ndo bar\u00e3o. Mas a cota de malha repeliu o ferro. E antes que ele pudesse<br \/>\nrevibrar o golpe, o bar\u00e3o arrancara-lhe a lan\u00e7a das m\u00e3os<br \/>\ne passou-lha atrav\u00e9s do cora\u00e7\u00e3o. Com um uivo hediondo,<br \/>\nEscraga tombou morto.<\/p>\n<p>Quase nada restava da luz. Era como se tudo acabasse conjuntamente, o sol,<br \/>\no mundo, e a descend\u00eancia do rei! Num terror indiz\u00edvel, a multid\u00e3o<br \/>\nde raparigas largou fugindo, em confus\u00e3o e gritos, para as portas da<br \/>\naringa. Foi um p\u00e2nico estonteado. Os guardas, arrojando as armas, galgavam<br \/>\nas estacadas. Os chefes, aos saltos por cima dos escabelos, desapareciam como<br \/>\nlebres. E por fim, o pr\u00f3prio e feroc\u00edssimo rei, com Gagula atr\u00e1s,<br \/>\narremeteram para as cubatas, ganindo num pavor vil. Uma debandada &#8211;<br \/>\n<!-- - 73 --><br \/>\nque nos deixou s\u00f3s, eu, os amigos, a pobre Fulata ainda agarrada a<br \/>\nJohn, Infand\u00f3s, os chefes que conspiravam, e o cad\u00e1ver de Escraga.<\/p>\n<p>&#8211; Chefes! &#8211; gritei eu. &#8211; Eis o milagre que t\u00ednhamos prometido. Sabei<br \/>\nagora que Ignosi \u00e9 o rei \u00fanico e forte. O feiti\u00e7o est\u00e1<br \/>\ntrabalhando. Corramos para a cidadela que dissestes, enquanto a treva dura!<br \/>\n&#8211; Vinde! &#8211; exclamou Infand\u00f3s, segurando-me pela m\u00e3o. &#8211; E v\u00f3s<br \/>\ntodos segui! O dia \u00e9 nosso! Ao chegarmos \u00e0 porta da aringa,<br \/>\na luz findou inteiramente. Agarrados uns aos outros pelas m\u00e3os, com<br \/>\nFulata no meio, fomos trope\u00e7ando atrav\u00e9s da escurid\u00e3o.<br \/>\nDentro das senzalas ouv\u00edamos gemidos de terror. E para o aumentar,<br \/>\nlan\u00e7\u00e1vamos a espa\u00e7os, atrav\u00e9s da treva, um l\u00fagubre<br \/>\nbrado de revolta e de guerra: &#8211; Morte a Tuala!<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>Cap\u00edtulo IX &#8211; Antes da batalha<\/h2>\n<p>Durante mais de uma hora caminhamos, atrav\u00e9s da escurid\u00e3o,<br \/>\nguiados por Infand\u00f3s e pelos chefes &#8211; at\u00e9 que de novo surgiu,<br \/>\ncomo um fino tra\u00e7o luminoso, a orla do sol. Da\u00ed a pouco havia<br \/>\nj\u00e1 luz suficiente; e achamo-nos ent\u00e3o longe de Lu, junto de<br \/>\numa larga colina, de duas fartas milhas de circunfer\u00eancia, em forma<br \/>\nde ferradura, e toda ela inteiramente plana no topo. Desde, tempos imemoriais,<br \/>\naquele planalto fora (segundo nos disse Infand\u00f3s) aproveitado como<br \/>\nacampamento permanente, e ordinariamente ocupado por uma guarni\u00e7\u00e3o<br \/>\nde tr\u00eas mil homens. Nessa manh\u00e3, por\u00e9m, \u00e0 maneira<br \/>\nque \u00edamos trepando os flancos da colina, \u00e0 luz j\u00e1 viva<br \/>\ne quente do sol, descobr\u00edamos sucessivos regimentos, formando uma divis\u00e3o<br \/>\nde dezoito ou vinte mil homens, quase todos veteranos. Estavam ainda sob o<br \/>\nespanto e terror da misteriosa treva, que de repente os envolvera. E foi em<br \/>\nsil\u00eancio que passamos atrav\u00e9s das suas filas cerradas, em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\na um grupo de cabanas, que se erguia a meio do planalto. Com surpresa e grande<br \/>\nalegria encontramos l\u00e1 dois servos, \u00e0 espera, carregados com<br \/>\ntodas as nossas bagagens, cantinas, e muni\u00e7\u00f5es que nessa manh\u00e3<br \/>\ndeix\u00e1ramos nas cubatas de Lu. Numa trouxa as cal\u00e7as de John.<br \/>\nCom que sofreguid\u00e3o ele as envergou, pudico homem! &#8211; Fui eu que mandei<br \/>\nvir tudo, \u00e0 cautela! &#8211; explicou o servi\u00e7al Infand\u00f3s.<br \/>\n&#8211; Quem sabe quantos dias estaremos neste deserto! Como n\u00e3o havia tempo<br \/>\na desperdi\u00e7ar, o velho e ativo guerreiro deu ordem para que se formassem<br \/>\nas tropas imediatamente. Era necess\u00e1rio antes de tudo (disse ele),<br \/>\naclarar aos regimentos os motivos da revolta j\u00e1 decidida pelos chefes,<br \/>\ne apresentar-lhes Ignosi, o leg\u00edtimo rei por quem iam combater.<\/p>\n<p>Meia hora depois os regimentos (a flor do ex\u00e9rcito dos cacuanas)<br \/>\nestavam em formatura nos tr\u00eas lados de um imenso quadrado. Do lado aberto<br \/>\nficamos n\u00f3s com Ignosi, o velho Infand\u00f3s e os chefes conjurados.<br \/>\nLogo que um arauto intimou sil\u00eancio &#8211; Infand\u00f3s avan\u00e7ou;<br \/>\ne com um calor, um entusiasmo, irresistivelmente persuasivos, narrou a hist\u00f3ria<br \/>\nde Ignosi, o seu nascimento real, a serpente tatuada na cinta, a tr\u00e1gica<br \/>\nmorte de seu pai \u00e0 m\u00e3o de Tuala, a sua fuga atrav\u00e9s dos<br \/>\nmontes, o seu ex\u00edlio entre estranhos. Depois retra\u00e7ou o reinado<br \/>\ncruento de Tuala, os seus crimes, as suas<br \/>\n<!-- - 74 --><br \/>\nespolia\u00e7\u00f5es, as frias e in\u00fateis crueldades. Em seguida<br \/>\ncontou como os homens brancos das estrelas, que de l\u00e1 de cima tudo<br \/>\nv\u00eaem, se tinham compadecido da grande afli\u00e7\u00e3o que ia no<br \/>\nreino dos cacuanas; como tinham ido ent\u00e3o buscar Ignosi, o rei leg\u00edtimo,<br \/>\n\u00e0s terras distantes onde ele definhava no ex\u00edlio, e o haviam<br \/>\ntrazido pela m\u00e3o, atrav\u00e9s dos areais e dos montes, ao pa\u00eds<br \/>\nde seus pais; como nessa manh\u00e3, para mostrar a Tuala e a todos o seu<br \/>\npoder m\u00e1gico, e provar aos chefes descontentes que Ignosi era rei,<br \/>\neles com as suas artes tinham apagado, e depois tornado a acender o sol; e<br \/>\ncomo, enfim, esses m\u00e1gicos que nenhuma for\u00e7a vencia, estavam<br \/>\ndispostos a derrubar Tuala, o falso rei &#8211; e p\u00f4r em seu lugar Ignosi,<br \/>\no rei verdadeiro! Apenas ele findara, entre um longo murm\u00fario de aprova\u00e7\u00e3o,<br \/>\nIgnosi deu dois passos, e, alteando a sua nobre estatura, apelou para as tropas.<br \/>\n-Elas tinham ouvido Infand\u00f3s, seu tio! Cada palavra dele luzia como<br \/>\na verdade. Os cacuanas agora s\u00f3 podiam escolher entre Tuala, o monstro<br \/>\nque os roubava, os trucidava, e cobria a terra de horror e desordem, &#8211; e ele,<br \/>\nrei leg\u00edtimo, que n\u00e3o permitiria mais no reino a ca\u00e7a<br \/>\naos feiticeiros, nem matan\u00e7as de festa, nem castigos sem julgamento,<br \/>\nnem a opress\u00e3o dos mais fortes&#8230; Pelo contr\u00e1rio, sob ele, s\u00f3<br \/>\nhaveria paz e abund\u00e2ncia! A todos os que ali estavam e o ajudassem daria<br \/>\ncubatas, mulheres e gados; e todos, ganha a vit\u00f3ria sobre Tuala, iriam<br \/>\nviver nas suas senzalas bem providas, em descanso e alegria para sempre. De<br \/>\nresto, os homens das estrelas estavam com ele, a seu lado, para manter os<br \/>\nseus direitos. E quem podia ir contra a for\u00e7a das suas artes m\u00e1gicas?<br \/>\nN\u00e3o tinham eles visto o sol apagado, depois outra vez brilhante, \u00e0<br \/>\nordem dos esp\u00edritos brancos? Um rumor de aquiesc\u00eancia, de ades\u00e3o,<br \/>\ncorria j\u00e1 entre as tropas. Ignosi ent\u00e3o recuou um passo, e erguendo<br \/>\nno ar o seu formid\u00e1vel machado de guerra: &#8211; Eu sou o rei! Na verdade<br \/>\nvos digo que sou o rei! E se a\u00ed h\u00e1 algu\u00e9m, dentre v\u00f3s,<br \/>\nque diz que eu n\u00e3o sou o rei, que saia a terreiro, se bata comigo,<br \/>\ne bem cedo o seu sangue, correndo no ch\u00e3o, provar\u00e1 que na verdade<br \/>\nsou rei. Escolhei pois entre mim e Tuala, oh chefes, soldados, v\u00f3s<br \/>\ntodos! Sou eu o rei! &#8211; \u00c9s o rei! &#8211; foi a universal, aclamadora resposta,<br \/>\nque atroou toda a colina.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Tuala est\u00e1 mandando j\u00e1 emiss\u00e1rios a reunir os<br \/>\nseus homens, para nos combater. Os meus olhos est\u00e3o abertos e ver\u00e3o<br \/>\naqueles que mais fi\u00e9is me s\u00e3o, e que merecer\u00e3o mais terra,<br \/>\nmais gado, mais riqueza. E agora ide, e preparai-vos para as batalhas, em<br \/>\ndefesa do vosso rei! Houve um sil\u00eancio. Um dos chefes ergueu a m\u00e3o;<br \/>\ne os vinte mil homens, ferindo o solo com as azagaias, soltaram a grande sauda\u00e7\u00e3o<br \/>\nreal &#8211; Krum! Krum! Krum! Ignosi estava aclamado rei. Os batalh\u00f5es imediatamente<br \/>\nrecolheram aos seus acampamentos. No planalto reinou sil\u00eancio e ordem.<br \/>\nLogo depois celebramos um conselho de guerra, com todos os capit\u00e3es.<br \/>\nEra evidente que em breve ser\u00edamos atacados pelas tropas fi\u00e9is<br \/>\na Tuala. J\u00e1 do alto da nossa colina n\u00f3s v\u00edamos regimentos<br \/>\nmarchando, a concentrar-se em Lu &#8211; e um incessante movimento de armas por<br \/>\ntoda a estrada de Salom\u00e3o. Do nosso lado cont\u00e1vamos com vinte<br \/>\nmil homens. Tuala, segundo o c\u00e1lculo dos chefes, poderia ter reunidos,<br \/>\nna manh\u00e3 seguinte, trinta e cinco a quarenta mil soldados. Mas desses,<br \/>\nmuitos eram recrutas; e a forte flor do ex\u00e9rcito, os veteranos endurecidos,<br \/>\nos capit\u00e3es de experi\u00eancia, estavam felizmente conosco, sobre<br \/>\na colina da Revolta.<\/p>\n<p><!-- - 75 --><br \/>\nO primeiro cuidado era fortificar a nossa posi\u00e7\u00e3o. Come\u00e7amos<br \/>\npor obstruir, com grossos rochedos, todos os carreiros que subiam da plan\u00edcie.<br \/>\nNos pontos mais acess\u00edveis erguemos estacadas e trincheiras. Acumulamos,<br \/>\n\u00e0 orla do planalto, montes de pedras para arremessar sobre os assaltantes.<br \/>\nAqui e al\u00e9m cavamos fossos. E, como todo o ex\u00e9rcito trabalhava,<br \/>\nao fim da tarde a colina fora convertida em cidadela.<\/p>\n<p>Justamente antes do p\u00f4r do sol, vimos um grupo de homens que, de uma<br \/>\ndas portas de Lu, avan\u00e7ava para n\u00f3s, fazendo soar um tant\u00e3.<br \/>\nUm deles trazia na m\u00e3o uma palma verde. Era um arauto.<\/p>\n<p>Ignosi, Infand\u00f3s, dois ou tr\u00eas chefes, eu e os amigos, descemos<br \/>\nao seu encontro. Vimos um soberbo homem, ainda mo\u00e7o, com a pele de<br \/>\nleopardo aos ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Sa\u00fade! &#8211; gritou ele, parando e agitando a palma. &#8211; O rei envia<br \/>\no seu saudar \u00e0queles que lhe fazem uma guerra infiel. O Le\u00e3o<br \/>\nenvia o seu saudar aos chacais.<\/p>\n<p>&#8211; Fala! &#8211; bradei.<\/p>\n<p>&#8211; Estas s\u00e3o as palavras do rei: &#8220;Entregai-vos \u00e0 minha<br \/>\nmerc\u00ea, antes que a minha forte m\u00e3o caia sobre v\u00f3s!&#8221;<br \/>\n&#8211; Assim disse o rei. J\u00e1 foi arrancada ao touro negro a esp\u00e1dua<br \/>\ndireita! J\u00e1 o rei o anda enxotando, ensang\u00fcentado, em volta ao<br \/>\nacampamento! (Este cruel costume \u00e9 comum a muitas tribos da \u00c1frica,<br \/>\npor ocasi\u00e3o de guerra.) &#8211; Quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Tuala? &#8211; perguntei com curiosidade.<\/p>\n<p>O arauto declarou que as condi\u00e7\u00f5es eram misericordiosas e<br \/>\ndignas de um grande rei. Muito pouco sangue o contentaria.<\/p>\n<p>De cada dez homens um seria morto, os outros perdoados; mas o branco Incubu<br \/>\nque matara Escraga, o servo Ignosi que pretendia o seu trono, e Infand\u00f3s<br \/>\nque preparara a rebeli\u00e3o, seriam postos a tormentos, em sacrif\u00edcio<br \/>\naos Silenciosos. Tais eram as misericordiosas condi\u00e7\u00f5es do rei.<br \/>\nConsultei um instante com os chefes, e repliquei, num tom estridente, para<br \/>\nque todos os soldados ouvissem, por sobre a colina: &#8211; Volta para Tuala que<br \/>\nte mandou, oh c\u00e3o, filho de c\u00e3o! E dize-lhe em nome de Ignosi,<br \/>\nleg\u00edtimo rei, e de Infand\u00f3s, seu tio, e dos homens das estrelas<br \/>\nque apagam o sol, e de todos os chefes e soldados aqui juntos, dize a Tuala<br \/>\n&#8211; que antes que o sol d\u00ea duas voltas, o cad\u00e1ver de Tuala jazer\u00e1<br \/>\nhirto e frio no terreiro de Tuala&#8230; Vai e treme, oh c\u00e3o, filho de<br \/>\nc\u00e3o! O oficial riu, com arrog\u00e2ncia: &#8211; N\u00e3o se assustam<br \/>\nhomens com palavras inchadas! Amanh\u00e3 se ver\u00e1 em que terreiro<br \/>\ne que corpos jazer\u00e3o hirtos e frios. Adeus, pois, homens das estrelas.<br \/>\nPara meu pr\u00f3prio regalo, espero que tenhais o bra\u00e7o t\u00e3o<br \/>\nforte, como tendes ousada a l\u00edngua.<\/p>\n<p>Com este sarcasmo o valente voltou costas. Quase imediatamente a noite desceu.<\/p>\n<p>\u00c0 luz da lua ainda continuaram os trabalhos da defesa.<\/p>\n<p>Depois, j\u00e1 por noite alta, quando tudo se completara, o bar\u00e3o,<br \/>\nIgnosi e eu, acompanhados por um dos chefes, descemos a colina a visitar os<br \/>\npostos avan\u00e7ados. \u00c0 maneira que caminh\u00e1vamos, v\u00edamos<br \/>\nde repente surgir dos s\u00edtios menos esperados, de uma cova na terra,<br \/>\nde uma moita de arbustos, de um mont\u00e3o de rochas, alguma enorme figura<br \/>\nemplumada, com a ponta da azagaia rebrilhando \u00e0 lua, que, trocada a<br \/>\n<!-- - 76 --><br \/>\npalavra de passe, logo se sumia, como dissolvida na sombra das cousas. A vigil\u00e2ncia<br \/>\nera realmente perfeita. Demos assim toda a volta \u00e0 colina, que tornamos<br \/>\na subir pela vertente norte, atrav\u00e9s das companhias de soldados adormecidos.<br \/>\nA lua batia nas lan\u00e7as ensarilhadas. Aqui e al\u00e9m uma sentinela<br \/>\ndestacava im\u00f3vel, com as suas altas plumas ondeando \u00e0 brisa<br \/>\nfria da noite. E os robustos homens escuros, estirados no ch\u00e3o, uns<br \/>\ncontra os outros, no confuso abandono da fadiga e do sono, formavam como um<br \/>\nvasto mont\u00e3o de humanidade j\u00e1 prostrada e preparada para a sepultura.<br \/>\nQuantos daqueles estariam ainda vivos, quando na outra noite de novo nascesse<br \/>\na lua? Estranha fatalidade e tristeza da vida! Muitos desses tinham alegria<br \/>\ne paz nas suas arrogas. Um pr\u00edncipe ambicioso passava. E eis que milhares,<br \/>\nque ali dormiam um sono tranq\u00fcilo, cairiam, varados por lan\u00e7as,<br \/>\nseriam frios cad\u00e1veres, desapareceriam em p\u00f3 impalp\u00e1vel,<br \/>\nsem de si deixar mais vest\u00edgio que folhas de \u00e1rvores que um<br \/>\nvento leva. E n\u00f3s mesmos &#8211; quem sabe? tornar\u00edamos n\u00f3s<br \/>\na ver a lua brilhar naquela colina? &#8211; Bar\u00e3o &#8211; disse eu de repente,<br \/>\ndando voz a estes pensamentos, &#8211; sinto-me num lament\u00e1vel estado de<br \/>\natrapalha\u00e7\u00e3o e de medo.<\/p>\n<p>&#8211; O amigo Quartelmar costuma sempre queixar-se&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! Desta vez \u00e9 s\u00e9rio. Nem sinto as<br \/>\npernas. N\u00f3s amanh\u00e3 somos atacados com for\u00e7as colossalmente<br \/>\nsuperiores e n\u00e3o escapa um de n\u00f3s. \u00c9 est\u00fapido!<br \/>\nE para qu\u00ea? N\u00e3o temos nada com as quest\u00f5es din\u00e1sticas<br \/>\ndos cacuanas! Somos estrangeiros; somos neutros! &#8211; \u00c9 verdade. Mas j\u00e1<br \/>\nagora, estamos envolvidos na aventura e \u00e9 necess\u00e1rio lev\u00e1-la<br \/>\na cabo airosamente. E depois, que diabo, Quartelmar! Mais vale morrer de repente,<br \/>\nnuma batalha, que durante meses na cama!&#8230;<\/p>\n<p>Eu pensei comigo (e bem estupidamente) que o melhor era n\u00e3o morrer<br \/>\nnem numa cama, nem numa batalha. E da\u00ed a instantes recolh\u00edamos<br \/>\n\u00e0 nossa estreita senzala, a dormir algumas horas antes da grande a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Infand\u00f3s veio-nos acordar ao romper da alvorada, dizendo que se observavam<br \/>\nj\u00e1 do lado da cidade movimentos de tropas, e que j\u00e1 ligeiras<br \/>\nescaramu\u00e7as tinham obrigado as nossas sentinelas avan\u00e7adas a<br \/>\nrecolher. Come\u00e7amos logo, febrilmente, os nossos preparativos. O bar\u00e3o,<br \/>\npelo princ\u00edpio de que na &#8220;Cacu\u00e2nia se deve ser cacuano&#8221;,<br \/>\narmou-se e enfeitou-se como um guerreiro selvagem &#8211; pele de leopardo aos ombros,<br \/>\nenorme pluma de avestruz presa \u00e0 testa, cintura de rabos de boi, escudo<br \/>\nde ferro coberto de couro branco, machado de combate, facalh\u00f5es de<br \/>\narremessar, azagaia, todo o complicado armamento de um chefe negro. E devo<br \/>\nconfessar que assim armado e emplumado, era uma espl\u00eandida e formid\u00e1vel<br \/>\nfigura! O Capit\u00e3o John n\u00e3o causava tanta impress\u00e3o. Em<br \/>\nprimeiro lugar insistira em conservar as cal\u00e7as que Infand\u00f3s<br \/>\nlhe obtivera; e um cavalheiro baixote e gordote, de mon\u00f3culo, su\u00ed\u00e7a<br \/>\nde um lado e a cara rapada do outro, com uma cota de malha de ferro metida<br \/>\npara dentro das pantalonas, grande lan\u00e7a e chap\u00e9u coco, oferece<br \/>\nna realidade um espet\u00e1culo mais estranho que imponente. Eu por mim,<br \/>\nao contr\u00e1rio, tinha tirado as cal\u00e7as para correr mais lesto,<br \/>\nse tiv\u00e9ssemos de retirar; mas a fralda da camisa aparecia-me por baixo<br \/>\nda cota de malha; um facalh\u00e3o que pendurara \u00e0 cinta, batia-me<br \/>\nlamentavelmente nas canelas; o escudo enfiado no bra\u00e7o entanguia-me<br \/>\nos movimentos; e sentia em geral que n\u00e3o apresentava para combate uma<br \/>\nfigura suficientemente her\u00f3ica. De sorte que<br \/>\n<!-- - 77 --><br \/>\nespetei uma imensa pluma no meu bon\u00e9 de ca\u00e7a &#8211; e procurei dar<br \/>\nao rosto uma express\u00e3o de ferocidade. Al\u00e9m do arsenal de armas<br \/>\nselvagens, t\u00ednhamos naturalmente as nossas carabinas, que tr\u00eas<br \/>\nsoldados atr\u00e1s conduziam com os sacos de muni\u00e7\u00e3o. Apenas<br \/>\narmados, engolimos \u00e0 pressa o almo\u00e7o, e abalamos. Numa das extremidades<br \/>\ndo planalto do monte havia uma esp\u00e9cie de casebre de pedra, que servia<br \/>\nao mesmo tempo de quartel-general e de torre de vigia. Encontramos a\u00ed<br \/>\nIgnosi, magnificamente emplumado e apetrechado. Com ele estava Infand\u00f3s;<br \/>\ne como guarda real o regimento de Infand\u00f3s, decerto o mais numeroso<br \/>\ne aguerrido de todo o ex\u00e9rcito. Este regimento tinha por nome os Pardos,<br \/>\nporque usava plumas pardas na cabe\u00e7a. Era composto de tr\u00eas mil<br \/>\npra\u00e7as; e estava colocado de reserva, deitado em ordem e por companhias<br \/>\nsobre o capim que ali crescia. Os chefes, num grupo, junto do casebre, com<br \/>\nas m\u00e3os em pala sobre os olhos, observavam o movimento das tropas de<br \/>\nTuala &#8211; que vinham nesse momento saindo de Lu em longas colunas semelhantes<br \/>\na formigueiros. Cada uma dessas colunas tinha de onze a doze mil homens. Logo<br \/>\nque sa\u00edram as portas de Lu e se acharam na plan\u00edcie, pararam;<br \/>\ndepois, formadas em batalha, marcharam uma para a direita, outra para a esquerda,<br \/>\na terceira em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa colina.<\/p>\n<p>&#8211; Bom &#8211; murmurou Infand\u00f3s &#8211; vamos ser atacados por tr\u00eas lados!<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>Cap\u00edtulo X &#8211; O ataque da Colina<\/h2>\n<p>Devagar, em perfeita ordem, as tr\u00eas colunas avan\u00e7aram. A da<br \/>\ndireita e a da esquerda, separadas, e obliquando como para envolver e cercar<br \/>\na nossa posi\u00e7\u00e3o: a do centro, direita sobre n\u00f3s, marchando<br \/>\npor aquela l\u00edngua da plan\u00edcie que entrava pela nossa colina<br \/>\ndentro &#8211; colina que, (como disse), tinha a forma de uma meia lua com as duas<br \/>\npontas voltadas para a cidade de Lu. A umas quinhentas jardas esta coluna<br \/>\nparou &#8211; dando tempo a que as outras circundassem a nossa posi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO plano das gentes de Tuala era evidentemente dar, por cada lado, \u00e0<br \/>\nnossa cidadela, um assalto simult\u00e2neo e brusco.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! -suspirou John, olhando aquelas multid\u00f5es espalhadas embaixo<br \/>\n&#8211; quem tivera aqui uma metralhadora! &#8211; Nem falemos nessa delicia! &#8211; exclamou<br \/>\no bar\u00e3o com igual pesar. -Em todo o caso, Quartelmar, veja se a sua<br \/>\ncarabina chega at\u00e9 \u00e0quele magan\u00e3o, de pele de leopardo,<br \/>\nque parece comandar a for\u00e7a.<\/p>\n<p>Carreguei tranq\u00fcilamente a carabina com bala, agachei-me por tr\u00e1s<br \/>\nde uma pedra e apontei. O pobre comandante de pele de leopardo avan\u00e7ava<br \/>\ndas fileiras uns trinta passos, seguido por uma ordenan\u00e7a, a examinar<br \/>\na nossa posi\u00e7\u00e3o; e erguia justamente o bra\u00e7o, quando<br \/>\neu lhe mandei uma bala. Tombou sem um movimento mais, com a face no ch\u00e3o.<br \/>\nOs nossos regimentos, espantados, aclamaram este milagre do homem das estrelas;<br \/>\ne eu (tanto a guerra nos endurece o cora\u00e7\u00e3o) gostei destes aplausos.<br \/>\nCreio mesmo que agradeci, como um ator! No entanto o bar\u00e3o apontara<br \/>\na um outro oficial, que correra a recolher o cad\u00e1ver do camarada &#8211;<br \/>\ne que, por seu turno, bateu com os bra\u00e7os no ar, caiu morto. A for\u00e7a<br \/>\ninimiga, aterrada, come\u00e7ou logo a recuar. Os nossos uivavam de deleite<br \/>\ne de furor. John juntara-se a n\u00f3s com a sua<br \/>\n<!-- - 78 --><br \/>\ncarabina; e antes que a divis\u00e3o se tivesse retirado para fora do nosso<br \/>\nfogo, abatemos uns dez ou doze homens. Como efeito moral parecia excelente.<\/p>\n<p>De repente, por\u00e9m, ouvimos um imenso clamor \u00e0 nossa direita,<br \/>\ne um clamor igual \u00e0 nossa esquerda. Eram as duas colunas circundantes<br \/>\nque nos atacavam. Imediatamente, a massa de homens em frente de n\u00f3s,<br \/>\nrompeu avan\u00e7ando por aquela l\u00edngua de plan\u00edcie que penetrava<br \/>\nem subida suave no interior da nossa meia lua. Vinham num passo vivo, certo,<br \/>\nel\u00e1stico, que cadenciavam entoando um canto rouco. Come\u00e7amos<br \/>\nde novo a fazer fogo. Muitos homens ca\u00edram. Mas era como se atir\u00e1ssemos<br \/>\npedras a uma grande vaga de equin\u00f3cio. A mar\u00e9 humana subia.<br \/>\nSubia com grandes brados, repelindo os nossos postos, colocados entre as rochas,<br \/>\n\u00e0 base da colina. A sua marcha, por\u00e9m, diminu\u00eda de \u00edmpeto,<br \/>\n\u00e0 maneira que a subida se convertia em ladeira, depois em \u00edngreme<br \/>\npendor de monte. A\u00ed onde come\u00e7ava o monte, estacionava a nossa<br \/>\nprimeira linha de defesa. J\u00e1 de lado a lado, entre as for\u00e7as,<br \/>\nse come\u00e7avam a atirar as tolas, grandes facas de arremesso que faiscavam<br \/>\nno ar. Os que avan\u00e7avam vinham bradando: Tuala, Tuala! Chiel\u00ea,<br \/>\nChiel\u00ea! (mata, mata!) Os nossos replicavam: Ignosi, Ignosi! Chiel\u00ea,<br \/>\nChiel\u00ea! As primeiras azagaias entrechocaram-se; e, com o encontro, peito<br \/>\na peito, das duas massas de homens, na vertente da colina, a batalha come\u00e7ou.<br \/>\nAs for\u00e7as que atacavam eram esmagadoras; e a nossa primeira linha,<br \/>\nonde os homens ca\u00edam como folhas no outono, cedeu, e reentrou na segunda<br \/>\nlinha de defesa. A luta aqui foi terr\u00edvel; mas os nossos recuaram,<br \/>\ne a terceira linha entrou em batalha \u00e0 orla j\u00e1 do planalto.<br \/>\nO bar\u00e3o, cujos olhos se acendiam, n\u00e3o se conteve mais. Brandindo<br \/>\na sua machada de guerra, arremessou-se para o meio do combate, seguido do<br \/>\nCapit\u00e3o John. Ao avistar a gigantesca figura do &#8220;homem das estrelas&#8221;<br \/>\nque vinha em seu socorro, os nossos soldados bradaram com entusiasmo: -Nanzi\u00ea<br \/>\nIncubu! (A\u00ed vem o elefante!) Chiel\u00ea, Chiel\u00ea! E, carregando<br \/>\ncom redobrado vigor, em poucos momentos repeliram a divis\u00e3o de Tuala,<br \/>\nque, j\u00e1 cansada, sem poder romper a sebe viva de lan\u00e7as que<br \/>\na continha, voltou a descer a colina em confus\u00e3o. Nesse instante tamb\u00e9m<br \/>\num mensageiro esbaforido veio anunciar a Ignosi (ao lado de quem eu ficara)<br \/>\nque o ataque na esquerda da serra fora recha\u00e7ado; e j\u00e1 eu e<br \/>\nIgnosi nos congratul\u00e1vamos, quando, com grande horror, vimos os nossos,<br \/>\nque estavam defendendo a direita, vir correndo pelo planalto, acossados por<br \/>\nmultid\u00f5es inimigas, que evidentemente naquele ponto tinham rompido<br \/>\nas nossas linhas.<\/p>\n<p>Ignosi bradou uma ordem. Imediatamente o regimento dos Pardos se desdobrou,<br \/>\npara reter a debandada dos nossos, recha\u00e7ar a invas\u00e3o. E, sem<br \/>\nque eu compreendesse bem como, instantes depois achei-me envolvido numa furiosa<br \/>\ncarnificina. Tudo o que me lembra \u00e9 o estridente ru\u00eddo dos escudos<br \/>\nde ferro entrechocando-se &#8211; e logo adiante a apari\u00e7\u00e3o de um<br \/>\nenorme bruto furioso, com os olhos sangrentos a saltarem-lhe das \u00f3rbitas,<br \/>\nque erguia sobre mim uma longa azagaia. O meu rev\u00f3lver findou-lhe os<br \/>\nfurores para todo o sempre. Mas, quase em seguida, senti uma pancada na cabe\u00e7a<br \/>\n&#8211; e quando tornei a abrir as p\u00e1lpebras, estava no casebre do quartel-general,<br \/>\ndeitado numa esteira, com o excelente John ao meu lado, velando.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! &#8211; exclamou ele ansiosamente, pondo no ch\u00e3o a caba\u00e7a<br \/>\nde \u00e1gua com que me borrifava.<\/p>\n<p><!-- - 79 --><br \/>\nAntes de responder, ergui-me muito devagar, apalpei com cuidado o meu precioso<br \/>\ncorpo.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, obrigado. Estou perfeitamente bem! &#8211; Gra\u00e7as a Deus! Quando<br \/>\no vi, trazido numa padiola, deu-me uma volta o cora\u00e7\u00e3o! &#8211; N\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o foi desta! Levei s\u00f3 uma bordoada, suponho eu. E a batalha?<br \/>\n&#8211; Por hoje repelimos a pretalhada do rei. Mas perdemos perto de dois mil homens.<br \/>\nVeja aquele horror, Quartelmar! E o bom John mostrava fora o terreiro, convertido<br \/>\nnum hospital de sangue. Para transportar os seus feridos, os cacuanas usam<br \/>\num longo e esguio tabuleiro com uma argola a cada canto. E destes tabuleiros,<br \/>\npostos no ch\u00e3o, cada um com o seu homem, havia longas filas &#8211; por entre<br \/>\nas quais caminhavam, curvados, os cirurgi\u00f5es cacuanas. O m\u00e9todo<br \/>\ndestes cl\u00ednicos \u00e9 simples e piedoso. Se a ferida se apresenta<br \/>\ncur\u00e1vel, o soldado \u00e9 besuntado com os ung\u00fcentos nativos,<br \/>\ne isolado nas senzalas. Se a ferida \u00e9 incur\u00e1vel ou muito grave,<br \/>\no cirurgi\u00e3o, com uma lanceta, corta sutilmente uma art\u00e9ria do<br \/>\nhomem, que expira em poucos instantes sem sofrer.<\/p>\n<p>Fugindo a estes espet\u00e1culos, John e eu seguimos para o outro lado<br \/>\ndo quartel-general, onde encontramos o bar\u00e3o (ainda de machado na m\u00e3o,<br \/>\ntodo tinto de sangue) reunido em conselho com Ignosi, Infand\u00f3s e dois<br \/>\nchefes idosos.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem que chega, Quartelmar! &#8211; gritou o bar\u00e3o. &#8211; Eu n\u00e3o<br \/>\nposso compreender o que quer esta gente&#8230; Parece que vamos ser cercados!<br \/>\nE assim era, segundo explicou lentamente Infand\u00f3s. Tuala, repelido,<br \/>\nreunira refor\u00e7os, e parecia tomar disposi\u00e7\u00f5es para p\u00f4r<br \/>\ns\u00edtio \u00e0 colina, e vencer-nos pela fome e pela sede. Os mantimentos<br \/>\nn\u00e3o durariam mais de dois dias. Mas o pior era que a nascente de \u00e1gua,<br \/>\nsorvida a cada instante por dezesseis mil bocas sedentas, estava prestes a<br \/>\nesgotar-se; e antes da manh\u00e3 seguinte o ex\u00e9rcito gemeria de<br \/>\nsede. Nestas conjunturas, Ignosi queria saber o que propunham os homens das<br \/>\nestrelas.<\/p>\n<p>&#8211; Dize tu, Macumaz\u00e3, velha raposa, que tens visto muito, e sabes<br \/>\ntodas as artes.<\/p>\n<p>Conversei um momento com os amigos, e declarei em seguida ao conselho, que,<br \/>\nsem p\u00e3o e sem \u00e1gua, nada nos restava sen\u00e3o fazer imediatamente<br \/>\numa tremenda sortida, contra Tuala. Todos aprovaram com ardor a minha id\u00e9ia.<br \/>\nMas sob que plano se tentaria esse ataque? Cabia a Ignosi, o rei, decidir;<br \/>\ne os olhos de cada um voltaram-se para o nosso antigo servo que, agora, nas<br \/>\nsuas armas e plumagens de guerra, tinha um magn\u00edfico ar de rei guerreiro.<\/p>\n<p>Depois de pousar dois dedos sobre a testa, \u00e0 maneira zulu, Ignosi<br \/>\nfalou e desenvolveu um plano excelente. Ao come\u00e7o da tarde (era ent\u00e3o<br \/>\nmeio-dia) os Pardos, comandados por Infand\u00f3s e o bar\u00e3o, desceriam<br \/>\naquela l\u00edngua da plan\u00edcie que penetrava na meia lua da colina,<br \/>\ne avan\u00e7ariam sobre Tuala, enquanto ele pr\u00f3prio, Ignosi (que<br \/>\neu devia acompanhar), ficaria de reserva por tr\u00e1s com tropas frescas.<br \/>\nDecerto Tuala, vendo os Pardos romper numa sortida, lan\u00e7aria sobre<br \/>\neles toda a sua for\u00e7a para os esmagar. Enquanto na l\u00edngua de<br \/>\nterra se estivesse dando desse primeiro reencontro, uma ter\u00e7a parte<br \/>\ndas nossas for\u00e7as desceria pela ponta direita da colina, levando consigo<br \/>\nJohn, o do olho rutilante; outra ter\u00e7a parte iria de manso pela ponta<br \/>\nesquerda; subitamente, ambas cairiam sobre os flancos de Tuala; e nesse instante<br \/>\nele,<br \/>\n<!-- - 80 --><br \/>\nIgnosi, desceria pela frente com as tropas frescas, e se a fortuna estivesse<br \/>\ncom ele, cear\u00edamos nessa noite, contentes, na cidade de Lu! O plano<br \/>\nfoi acolhido entre aplausos &#8211; e imediatamente entrou em prepara\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom uma presteza, um m\u00e9todo, que fez honra aos oficiais cacuanas. No<br \/>\nespa\u00e7o de duas horas foram servidas as ra\u00e7\u00f5es aos homens,<br \/>\nas tr\u00eas divis\u00f5es formadas, a ordem de ataque bem explicada aos<br \/>\nchefes, e toda a for\u00e7a (menos uma guarda que se deixou aos feridos)<br \/>\ncolocada nos seus postos.<\/p>\n<p>Era, pois, outra imensa carnificina que se preparava e em que me veria envolvido<br \/>\n&#8211; eu, homem de ordem, de gostos simples, que tanto detesto viol\u00eancias!<br \/>\nQuando John, ao partir com a ala direita, nos veio dizer adeus, um pouco comovido<br \/>\n&#8211; eu, com a voz abalada tamb\u00e9m, s\u00f3 tive estas palavras: &#8211; Se<br \/>\nescapar, amigo John, louve a Deus, e n\u00e3o se meta mais com pretendentes!<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>Cap\u00edtulo XI &#8211; A Batalha de Lu<\/h2>\n<p>N\u00e3o contarei os pormenores sangrentos deste grande combate, que se<br \/>\nficou chamando a &#8220;Batalha de Lu&#8221;. Todos estes medonhos conflitos<br \/>\nde selvagens, mesmo travados com a disciplina dos cacuanas, se assemelham.<br \/>\n\u00c9 sempre uma vasta confus\u00e3o de corpos escuros e emplumados,<br \/>\num estridente ru\u00eddo de escudos entrechocando-se, azagaias reluzindo<br \/>\nno ar, saltos, guinchos, uivos, clamores imensos, onde destaca uma nota assobiada,<br \/>\no sgghi! sgghi! que solta o selvagem, quando trespassa com o ferro o inimigo.<\/p>\n<p>O plano de Ignosi, de resto, foi triunfalmente realizado. Os Pardos avan\u00e7aram<br \/>\nnaquela l\u00edngua de terra que penetrava na nossa meia lua, e com admir\u00e1vel<br \/>\nheroicidade sustentaram os ataques de regimentos ap\u00f3s regimentos, arremessados<br \/>\nsobre eles por Tuala.<\/p>\n<p>Quando dos Pardos restava apenas metade, e a aten\u00e7\u00e3o de todo<br \/>\no ex\u00e9rcito inimigo estava concentrada nesta luta com o her\u00f3ico<br \/>\nregimento, as duas alas nossas, que tinham caminhado pelos dois cornos da<br \/>\nmeia lua, ca\u00edram sobre os flancos desprevenidos do inimigo, como um<br \/>\nc\u00edrculo de c\u00e3es de fila sobre lobos descuidados. Come\u00e7ou<br \/>\numa pavorosa matan\u00e7a. Ignosi carregou ent\u00e3o de frente com as<br \/>\nreservas frescas &#8211; e decidiu a batalha. Eu fiz parte dessa carga; e n\u00e3o<br \/>\nsei como, achei-me ao p\u00e9 do bar\u00e3o, que parecia o verdadeiro<br \/>\ndeus da guerra, com os longos cabelos de ouro a esvoa\u00e7ar ao vento,<br \/>\ntodo ele vermelho de sangue, e soltando a cada grande golpe de machado o velho<br \/>\ngrito sax\u00f4nio de ataque: O-hoy! O-hoy! Tamb\u00e9m me parece que avistei<br \/>\nTuala na confus\u00e3o, coberto com a sua cota de malha, arremessando as<br \/>\ntolas, as facas enormes dos cacuanas, que dois guerreiros atr\u00e1s dele<br \/>\ntraziam em sacos de couro. Lembro-me ainda tamb\u00e9m de um chefe que,<br \/>\nem vez de escudo, erguia, para se defender, o cad\u00e1ver de um Pardo,<br \/>\ne que combatia, cantando. De resto, tudo se me confunde na mem\u00f3ria<br \/>\n&#8211; o sangue correndo, os corpos tombando, um grande estridor de armas, um imenso<br \/>\nesvoa\u00e7ar de plumas.<\/p>\n<p>Com o embate das duas colunas nossas sobre os flancos do ex\u00e9rcito<br \/>\nde Tuala, a batalha ficou ganha &#8211; e dentro em breve a vasta plan\u00edcie<br \/>\nque se estendia entre a nossa colina e a cidade de Lu, estava cheia de soldados<br \/>\nfugindo em terr\u00edvel desordem.<\/p>\n<p><!-- - 81 --><br \/>\nO regimento dos Pardos, no entanto (ou o que dele restava), reunira numa pequena<br \/>\neleva\u00e7\u00e3o de terreno &#8211; onde tristemente verificamos que, dos<br \/>\ntr\u00eas mil valentes que o compunham, ainda de manh\u00e3, apenas acudiam<br \/>\n\u00e0 chamada cento e noventa e cinco homens. Entre eles estava Infand\u00f3s,<br \/>\nque combatera heroicamente, tendo somente um leve golpe no bra\u00e7o. Ignosi,<br \/>\ncom um grupo de chefes, entre os quais vinha John (ferido numa perna e manquejando),<br \/>\nem breve se veio juntar a esta gloriosa falange dos Pardos. E foi seguido<br \/>\ndela, como da sua guarda de honra, que o rei, e n\u00f3s com ele, marchamos<br \/>\nsobre a cidade de Lu.<\/p>\n<p>\u00c0s portas da cidade, ainda fechadas, estavam j\u00e1 postados grossos<br \/>\ndestacamentos dos nossos para as atacar. Mas dentro, os soldados de Tuala,<br \/>\ninteiramente desmoralizados pela derrota do seu rei, n\u00e3o pareciam dispostos<br \/>\n\u00e0 resist\u00eancia. Com efeito, \u00e0s primeiras intima\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos arautos, a ponte levadi\u00e7a da porta chamada Real foi descida; e,<br \/>\nseguindo Ignosi, penetramos enfim na cidade vencida. Nas ruas, \u00e0s portas<br \/>\ndas arrogas, nos terreiros, por toda a parte se apresentavam soldados, com<br \/>\na cabe\u00e7a baixa, os escudos e as lan\u00e7as pousadas aos p\u00e9s<br \/>\nem sinal de submiss\u00e3o, que saudavam Ignosi como rei. Assim chegamos<br \/>\n\u00e0 aringa real. No terreiro silencioso, \u00e0 porta da sua grande<br \/>\nsenzala, solit\u00e1rio, abandonado, sem um soldado, sem um cortes\u00e3o,<br \/>\nsem uma das suas mil mulheres, estava Tuala, sentado num escabelo, com o rosto<br \/>\nca\u00eddo sobre o peito, as m\u00e3os pousadas sobre os joelhos. Cheguei<br \/>\na sentir uma vaga piedade pelo pobre rei derrotado! Um \u00fanico ser lhe<br \/>\nficara fiel, Gagula &#8211; que, agachada aos seus p\u00e9s, rompeu num fluxo<br \/>\nde inj\u00farias, mal nos viu assomar ao terreiro, seguindo o triunfante<br \/>\nIgnosi.<\/p>\n<p>Tuala, esse, n\u00e3o parecia ver, nem sentir. S\u00f3 quando Ignosi<br \/>\nparou, e os soldados bateram em cad\u00eancia com os contos das azagaias<br \/>\nno ch\u00e3o, o velho tirano ergueu a cabe\u00e7a emplumada. Depois, atirando<br \/>\nsobre n\u00f3s um olhar mais reluzente que o grande diamante que lhe ornava<br \/>\na testa: &#8211; Salve, rei! &#8211; gritou ele a Ignosi, com amargo esc\u00e1rnio.<br \/>\n&#8211; Tu que, por feiti\u00e7os dos homens das estrelas, seduziste os meus regimentos,<br \/>\ndize, que sorte me destinas? &#8211; A sorte de meu pai, que tu mataste! &#8211; foi a<br \/>\nfria e dura resposta.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Saberei morrer, para que te fique como exemplo quando a tua vez chegar.<br \/>\nMas reclamo um privil\u00e9gio da fam\u00edlia real dos cacuanas. Quero<br \/>\nmorrer combatendo.<\/p>\n<p>&#8211; Concedo &#8211; respondeu Ignosi. &#8211; Escolhe o teu homem. Eu n\u00e3o posso,<br \/>\nporque o rei n\u00e3o se bate em combate singular. O sinistro olho de Tuala<br \/>\npercorreu-nos lentamente a todos. E, como durante um momento se fixou em mim,<br \/>\neu senti ali o mais atroz pavor da minha vida aventurosa! Justos c\u00e9us!<br \/>\nSe ele se quisesse bater comigo? Tamb\u00e9m, tomei logo a minha resolu&amp;cccedil;\u00e3o<br \/>\n&#8211; recusar, fugir, ainda que fosse apupado por toda a na\u00e7\u00e3o cacuana!<br \/>\nFelizmente o bruto escolheu: &#8211; Incubu! &#8211; exclamou, estendendo a m\u00e3o<br \/>\npara o bar\u00e3o. &#8211; Tu que mataste meu filho, querer\u00e1s tu lutar<br \/>\ncomigo, ou ser chamado um covarde? &#8211; N\u00e3o &#8211; gritou logo Ignosi, &#8211; Incubu<br \/>\nn\u00e3o se bater\u00e1 contigo! &#8211; Decerto n\u00e3o, se tem medo.<\/p>\n<p>Infelizmente o bar\u00e3o compreendera. Todo o sangue lhe subiu \u00e0s<br \/>\nfaces. E avan\u00e7ou logo, de machado erguido.<\/p>\n<p><!-- - 82 --><br \/>\nAcudimos, suplicando-lhe que n\u00e3o arriscasse a vida com aquela fera,<br \/>\ninteiramente desesperada, de antem\u00e3o condenada \u00e0 morte. Provas<br \/>\nde her\u00f3ico valor j\u00e1 ele as dera de sobra! Para que ir-nos despeda\u00e7ar<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o, se uma desgra\u00e7a lhe sucedesse? O bar\u00e3o,<br \/>\npor\u00e9m, permaneceu inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Nenhum homem vivo, civilizado ou selvagem, me chamar\u00e1 nunca covarde.<br \/>\nQuero bater-me com ele! Ignosi, bem a custo, cedeu.<\/p>\n<p>&#8211; Seja, pois!&#8230; Tuala, o grande Incubu, vai marchar para ti! Tuala riu,<br \/>\nferozmente; e os dois gigantescos homens ficaram frente a frente. O primeiro<br \/>\nataque foi o do bar\u00e3o, que lan\u00e7ou sobre Tuala o machado a toda<br \/>\na for\u00e7a. Com um salto, Tuala esquivou o corte, e arremessou outro,<br \/>\nem resposta, sobre o bar\u00e3o, que o aparou no escudo. E, durante um momento,<br \/>\nhouve assim uma viva e faiscante troca de machadadas, que ora bruscos saltos<br \/>\nevitavam, ora os broqu\u00e9is defendiam. N\u00f3s nem respir\u00e1vamos.<br \/>\nO regimento dos Pardos, esquecida a disciplina, fizera c\u00edrculo, e soltava<br \/>\ngritos, batia palmas a cada golpe vibrado. John, agarrado ao meu bra\u00e7o,<br \/>\nandava aos saltos sobre a perna s\u00e3, animando o bar\u00e3o com berros:<br \/>\n&#8211; Bravo! Anda-me a\u00ed! Esse foi bom! Atira-lho de ilharga!&#8230; Subitamente,<br \/>\num brado de horror ressoou. De uma pancada, Tuala cortara o cabo do machado<br \/>\ndo bar\u00e3o, que ficava assim desarmado &#8211; e, erguendo o seu pr\u00f3prio<br \/>\nmachado, ca\u00eda sobre ele com um uivo furioso de triunfo. Tudo acabara;<br \/>\neu fechei os olhos&#8230; Quando os abri, Tuala e o bar\u00e3o, agarrados um<br \/>\nao outro como dois gatos bravos, estavam rolando no ch\u00e3o &#8211; e o bar\u00e3o,<br \/>\ncom um desesperado esfor\u00e7o, procurava arrancar de Tuala o machado que<br \/>\nele tinha preso ao pulso por uma correia de b\u00fafalo. Pareceu-me uma<br \/>\neternidade o tempo que eles assim rolaram um sobre o outro, nesta furiosa<br \/>\nluta pela posse do machado. Finalmente a correia quebrou &#8211; e com um \u00faltimo,<br \/>\nmonstruoso arranque, o bar\u00e3o, desprendendo-se de Tuala, ergueu-se de<br \/>\nsalto, com o machado na m\u00e3o. Num instante Tuala estava tamb\u00e9m<br \/>\nde p\u00e9 &#8211; e ambos tinham as faces a escorrer sangue. Foi Tuala, que,<br \/>\nmais r\u00e1pido, arrancou do cinto o facalh\u00e3o e o vibrou contra<br \/>\no peito do bar\u00e3o. O valente homem cambaleou, mas a coura\u00e7a de<br \/>\nmalha repeliu a facada. De novo Tuala arremeteu com a l\u00e2mina &#8211; e ent\u00e3o<br \/>\no bar\u00e3o, retesando-se todo num esfor\u00e7o, al\u00e7ou o machado,<br \/>\nno momento mesmo em que Tuala se inclinava, e deixou-lhe cair uma machadada,<br \/>\ncom tremenda for\u00e7a, sobre o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Houve um grito enorme. &#8211; E, cousa pavorosa, vimos a cabe\u00e7a de Tuala<br \/>\nsaltar-lhe dos ombros, dar como uma peleia dois pulos pelo ch\u00e3o, e<br \/>\nrolar at\u00e9 aos p\u00e9s de Ignosi! Durante um segundo o corpo ficou<br \/>\nerecto, com o sangue saindo em grossos borbot\u00f5es e a fumegar. De repente<br \/>\ntombou, com um ru\u00eddo surdo. E do outro lado o bar\u00e3o caiu tamb\u00e9m,<br \/>\ndesmaiado. Erguemo-lo ansiosamente, encharcamos-lhe o rosto em \u00e1gua.<br \/>\nPouco a pouco, abriu os olhos. Estava salvo! O sol ia justamente descendo.<br \/>\nEu baixei-me para a cabe\u00e7a de Tuala que ali ficara numa po\u00e7a<br \/>\nde sangue, e, desapertando o grande diamante que lhe ornava a testa, entreguei-o<br \/>\nsolenemente a Ignosi e bradei: &#8211; Salve, rei dos cacuanas! Ele apertou o diamante<br \/>\nsobre a testa. Depois pousou um p\u00e9 sobre o peito de Tuala morto, e<br \/>\ncercado dos seus guerreiros, entoou um canto de vit\u00f3ria.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>Cap\u00edtulo XII &#8211; O Rei Ignosi<\/h2>\n<p>Tudo findara gloriosamente. Chegara a hora de repousar &#8211; ou, melhor, de convalescer.<br \/>\nO bar\u00e3o e o capit\u00e3o (cuja perna, de todo inchada, o fazia agora<br \/>\nsofrer muito), foram levados em bra\u00e7os para a arroga palacial de Tuala.<br \/>\nE eu para l\u00e1 me arrastei exausto de emo\u00e7\u00f5es, com a cabe\u00e7a<br \/>\nconsideravelmente dolorida da paulada dessa manh\u00e3 na defesa do planalto.<\/p>\n<p>O primeiro cuidado foi despir as cotas de malha, tarefa dif\u00edcil (pelo<br \/>\nnosso combalido estado), em que nos ajudou a linda Fulata, que se constitu\u00edra,<br \/>\ndesde o come\u00e7o da revolta, nossa vivandeira, nossa enfermeira, e nosso<br \/>\nanjo da guarda.<\/p>\n<p>Arrancadas as cotas, vimos que os nossos pobres corpos eram uma massa medonha<br \/>\nde pisaduras negras. No tumulto da batalha t\u00ednhamos apanhado decerto<br \/>\nmuita facada, muita lan\u00e7ada. As pontas dos ferros eram repelidas pela<br \/>\nmalha impenetr\u00e1vel; mas nem por isso cada um dos golpes arremessados<br \/>\ndeixava de constituir uma terr\u00edvel pontada, que nos amolgava corpo<br \/>\ne membros. Eu estava positivamente negro de pisaduras. Mas o pior era a ferida<br \/>\nde John na perna, e a do bar\u00e3o, a quem uma das machadadas de Tuala<br \/>\ncortara profundamente a face sobre a maxila. Fulata preparou-nos uns emplastros<br \/>\nde ervas arom\u00e1ticas, que nos aliviaram as dores. E como o Capit\u00e3o<br \/>\nJohn tinha no\u00e7\u00f5es e pr\u00e1tica de cirurgia (segundo contei),<br \/>\nfoi ele que fez o tratamento da ferida do bar\u00e3o e da sua pr\u00f3pria,<br \/>\nt\u00e3o bem quanto lho permitiam os poucos fios, o resto da pomada antiss\u00e9ptica<br \/>\nque encontrou na sua botica port\u00e1til, e a escassa luz da l\u00e2mpada<br \/>\ncacuana. Depois, Fulata arranjou-nos um caldo muito forte, e estendemo-nos<br \/>\nnas magn\u00edficas peles que juncavam o ch\u00e3o da aringa do rei. Mas<br \/>\nn\u00e3o pudemos dormir. De toda a cidade, em torno de n\u00f3s, subia<br \/>\na triste e ululada lamenta\u00e7\u00e3o das mulheres, chorando, \u00e0<br \/>\nmaneira dos zulus, os valentes mortos na batalha. Mesmo ao nosso lado, as<br \/>\ncarpideiras reais estavam carpindo a morte de Tuala, com estridente dor. A<br \/>\nnoite ia cheia de prantos &#8211; e al\u00e9m disso, a cada instante, sent\u00edamos<br \/>\nos gritos agudos das sentinelas, ou a ruidosa passagem de rondas. Foi s\u00f3<br \/>\nde madrugada que pude cerrar os olhos &#8211; os olhos que, apesar de cerrados,<br \/>\ncontinuavam a ver os lances da batalha, com tanta realidade que, por vezes,<br \/>\nestremecia em sobressalto e me erguia no cotovelo a procurar as minhas armas,<br \/>\nou a lan\u00e7ar uma ordem de ataque.<\/p>\n<p>Quando, enfim, acordei, com o sol j\u00e1 alto, soube que os meus dois<br \/>\namigos tamb\u00e9m n\u00e3o tinham dormido. De fato, o Capit\u00e3o<br \/>\nJohn estava com uma intensa febre e come\u00e7ava a delirar. Al\u00e9m<br \/>\ndisso, sintoma assustador, toda a noite cuspira sangue. O bar\u00e3o, esse,<br \/>\nmal podia ainda mexer o corpo; e a ferida da face n\u00e3o lhe permitia<br \/>\ncomer, escassamente falar. Eu era, ainda assim, o mais restabelecido. Tomei<br \/>\no delicioso caldo de Fulata, e sa\u00ed um instante ao terreiro a respirar.<br \/>\nEncontrei justamente Infand\u00f3s que chegava, t\u00e3o fresco e \u00e1gil<br \/>\ncomo se na v\u00e9spera, em lugar de uma batalha, tivesse celebrado uma<br \/>\nfesta. Ficou desolado ao saber da doen\u00e7a de John. Entrou um momento<br \/>\nna cubata para o ver e o bar\u00e3o, que n\u00e3o se podia ainda levantar<br \/>\ne apenas mover os membros sobre o seu fofo leito de peles. Em voz baixa, por<br \/>\ncausa de John, Infand\u00f3s contou-nos que todos os regimentos se tinham<br \/>\nsubmetido a Ignosi; que das<br \/>\n<!-- - 84 --><br \/>\noutras cidades chegavam ferventes ades\u00f5es, e que o novo reinado se<br \/>\nfirmava para longas eras de prosperidade e de paz.<\/p>\n<p>Quando ele se retirava, apareceu Ignosi, seguido de uma guarda real. N\u00e3o<br \/>\npude deixar, ao v\u00ea-lo, de pensar nas estranhas revolu\u00e7\u00f5es<br \/>\nda sorte! Aquele mo\u00e7o, que havia meses, na minha casa em Durban, me<br \/>\npedia para entrar ao meu servi\u00e7o &#8211; ei-lo agora rei, grande potentado<br \/>\nda \u00c1frica, comandando cinq\u00fcenta mil guerreiros, senhor de povos,<br \/>\nde rebanhos e de terras sem conta! &#8211; Salve, rei! &#8211; exclamei eu, erguendo-me<br \/>\ncom respeito.<\/p>\n<p>&#8211; Gra\u00e7as a ti, Macumaz\u00e3, e aos teus amigos! &#8211; exclamou ele,<br \/>\napertando-me as m\u00e3os com carinho.<\/p>\n<p>Entrou tamb\u00e9m, como Infand\u00f3s, na cubata para ver o bar\u00e3o<br \/>\ne o pobre John, que dormia um sono de febre, horrivelmente agitado, sob os<br \/>\nolhos compassivos e vigilantes da boa Fulata. Depois, quando sa\u00edmos<br \/>\nde novo ao terreiro, conversando, perguntei-lhe o que contava ele fazer de<br \/>\nGagula.<\/p>\n<p>Gagula \u00e9 o g\u00eanio mau desta terra &#8211; disse ele. &#8211; Conto mand\u00e1-la<br \/>\nmatar para findar com ela, que j\u00e1 \u00e9 velha demais! &#8211; Mas tem<br \/>\nsegredos! Mas sabe muito! &#8211; repliquei eu.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe sobretudo o segredo dos Silenciosos &#8211; volveu o rei pousando os olhos<br \/>\nem mim com amizade &#8211; e o da caverna onde os reis est\u00e3o enterrados,<br \/>\ne o do lugar dos diamantes. Ora eu n\u00e3o esque\u00e7o a promessa que<br \/>\nte fiz, Macumaz\u00e3. Tu e os teus amigos ireis aos diamantes, guiados<br \/>\npor Gagula; e s\u00f3 por isso a poupo.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem, Ignosi, registro as tuas palavras. Mas n\u00e3o foi<br \/>\nposs\u00edvel, durante essa semana, pensar nos diamantes, porque atrav\u00e9s<br \/>\nde toda ela a vida do nosso pobre John esteve em risco e os nossos cora\u00e7\u00f5es<br \/>\nem ansiedade. Realmente creio que teria morrido, se n\u00e3o fossem os desvelos,<br \/>\na ador\u00e1vel dedica\u00e7\u00e3o de Fulata. Dias amargos esses para<br \/>\nn\u00f3s! O bar\u00e3o, j\u00e1 ent\u00e3o restabelecido, e eu, nada<br \/>\nmais fizemos durante essa crise atroz, do que entrar, sair, rondar em pontas<br \/>\nde p\u00e9s a senzala onde ele delirava.<\/p>\n<p>Rem\u00e9dios n\u00e3o t\u00ednhamos para lhe dar, al\u00e9m de<br \/>\numa bebida refrescante feita por Fulata com leite e o suco extra\u00eddo<br \/>\nda raiz de uma esp\u00e9cie de tulipa. S\u00f3 pod\u00edamos contar<br \/>\ncom a forte natureza dele e a boa merc\u00ea de Deus.<\/p>\n<p>Em toda a aringa real havia um grande sil\u00eancio, porque Ignosi, para<br \/>\nmanter perfeito sossego em torno ao doente, ordenara que todos os que l\u00e1<br \/>\nviviam passassem a outras cubatas remotas. Fulata estava permanentemente ao<br \/>\nlado dele, sentada no ch\u00e3o, dando-lhe a bebida refrescante, arranjando-lhe<br \/>\nas travesseiras feitas das folhas secas de uma planta que faz dormir, enxotando-lhe<br \/>\nas moscas do rosto.<\/p>\n<p>No nono dia da doen\u00e7a, \u00e0 noite, antes de recolher, o bar\u00e3o<br \/>\ne eu entramos, segundo o costume, na senzala. A l\u00e2mpada colocada no<br \/>\nescabelo dava uma luz f\u00fanebre. N\u00e3o havia um rumor. E o meu pobre<br \/>\namigo jazia perfeitamente im\u00f3vel. Pensei que chegara o seu fim; tive<br \/>\num solu\u00e7o que me sufocou. Mas uma voz, na sombra, murmurou chuta! E,<br \/>\nmais de perto, descobrimos que o nosso amigo n\u00e3o estava morto, mas<br \/>\ntranq\u00fcilamente adormecido, sob a car\u00edcia das m\u00e3os de Fulata,<br \/>\nque lhe cobriam a testa, onde um suor fresco come\u00e7ava. Era a crise<br \/>\ndo nono dia, o sono reparador. O nosso John estava salvo! Dormiu assim dezoito<br \/>\nhoras. E (mal me atrevo a cont\u00e1-lo, porque n\u00e3o serei acreditado)<br \/>\nFulata, a admir\u00e1vel, a santa rapariga, dezoito horas se conservou<br \/>\n<!-- - 85 --><br \/>\ntamb\u00e9m assim, com as m\u00e3os pousadas sobre a testa dele, sem comer,<br \/>\nsem se erguer, sem se mexer, com o receio de que o menor movimento acordasse<br \/>\no seu doente. Quando ele afinal despertou &#8211; tivemos de a erguer em bra\u00e7os,<br \/>\nporque a her\u00f3ica enfermeira estava quase desmaiada de debilidade e<br \/>\nfadiga.<\/p>\n<p>A convalescen\u00e7a de John foi r\u00e1pida. Ao fim de outra semana,<br \/>\nj\u00e1 passeava pelos arredores da cidade, entre os pomares, \u00e0 beira<br \/>\ndo rio, acompanhado por Fulata, que o salvara, e a quem ele votara (segundo<br \/>\ndizia) um &#8220;reconhecimento eterno&#8221;. Mas eu n\u00e3o agourava bem<br \/>\ndaquele &#8220;reconhecimento&#8221;, daqueles passeios buc\u00f3licos&#8230;<br \/>\nNos olhos de Fulata havia muita meiguice, muita languidez. E John, como marinheiro,<br \/>\nera indiscretamente ardente. Depois de uma aventura de guerra, \u00edamos<br \/>\nter, mais perigosa ainda, alguma aventura de amor! Apenas John se considerou<br \/>\na si pr\u00f3prio escorreito e &#8220;pronto para outra&#8221; &#8211; Ignosi come\u00e7ou<br \/>\nas festas da sua proclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos os indunas (chefes supremos) das prov\u00edncias do reino, vieram<br \/>\na Lu prestar vassalagem. Houve revistas de tropas, dan\u00e7as, formid\u00e1veis<br \/>\nbanquetes. Os homens que restavam do regimento dos Pardos, foram todos doados<br \/>\ncom terras e rebanhos, e promovidos a oficiais. Ignosi promulgou na Grande<br \/>\nAssembl\u00e9ia que, de ora em diante, n\u00e3o haveria mais ca\u00e7a<br \/>\naos feiticeiros, nem morte sem julgamento. Depois ordenou que, enquanto n\u00f3s<br \/>\nresid\u00edssemos no seu reino, goz\u00e1ssemos de honras reais, e receb\u00eassemos<br \/>\nsempre, como ele, a sauda\u00e7\u00e3o de Krum! No \u00faltimo dia deste<br \/>\ngrande festival, eu e os amigos dirigimo-nos ao rei, em grupo, e declaramos-lhe<br \/>\nque o momento chegara, de realizar a sua promessa, e de nos mandar conduzir<br \/>\nao lugar onde deviam estar as pedras brancas que reluzem.<\/p>\n<p>Ignosi abra\u00e7ou-nos com grande afeto.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me esqueci, amigos! J\u00e1 indaguei a verdade, e eis o que<br \/>\nsei. Aquela estrada branca que trilhamos, acaba al\u00e9m junto das montanhas<br \/>\nchamadas as Tr\u00eas Feiticeiras, onde est\u00e3o as figuras de pedra,<br \/>\nos Silenciosos. Jaz a\u00ed uma grande cova, de onde se diz que homens muito<br \/>\nantigos, em outras idades, tiravam as pedras que reluzem. Para al\u00e9m<br \/>\ndessa cova h\u00e1 uma funda caverna na rocha, terr\u00edvel, maravilhosa,<br \/>\nonde vive a Morte, onde jazem os nossos reis mortos, e para onde Tuala j\u00e1<br \/>\nfoi conduzido. E por tr\u00e1s dessa caverna fica uma c\u00e2mara secreta,<br \/>\nde que s\u00f3 Gagula conhece o segredo. Corre tamb\u00e9m a hist\u00f3ria<br \/>\nde que, h\u00e1 muitas gera\u00e7\u00f5es, um branco veio aqui, e foi<br \/>\nconduzido por uma mulher a essa c\u00e2mara secreta, onde viu riquezas sem<br \/>\nconta, mas dessas que para os cacuanas nada valem; o branco, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o teve tempo de arrecadar essas riquezas, porque a mulher o traiu,<br \/>\ne o rei desses tempos o escorra\u00e7ou outra vez para al\u00e9m das montanhas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A hist\u00f3ria \u00e9 verdadeira &#8211; acudi eu. &#8211; N\u00e3o te lembras,<br \/>\nIgnosi, que nas montanhas, na caverna de gelo, encontramos n\u00f3s, petrificado,<br \/>\nesse homem branco? &#8211; Muito bem me lembro. Por isso vou mandar chamar Gagula,<br \/>\ne ordenar-lhe, sob pena de morrer, que vos leve \u00e0 c\u00e2mara secreta,<br \/>\nmeus amigos&#8230; e as riquezas que encontrardes, oh meus amigos, s\u00e3o<br \/>\nvossas! Nesse instante dois guardas apareceram, trazendo agarrada pelos bra\u00e7os<br \/>\na hedionda Gagula, que gania e os amaldi\u00e7oava. Mal a largaram, toda<br \/>\nela se abateu e achatou sobre o ch\u00e3o &#8211; como um mont\u00e3o de trapos,<br \/>\nonde dois olhos ferozes viviam e refulgiam.<br \/>\n<!-- - 86 --><br \/>\n&#8211; Que me queres tu, Ignosi? &#8211; uivou ela. &#8211; N\u00e3o me toques, que te destruo.<br \/>\nTreme das minhas artes! O rei encolheu os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; As tuas artes n\u00e3o salvaram Tuala. Que me importam as tuas artes?<br \/>\nAqui est\u00e1 o que de ti quero: que mostres aos meus amigos a c\u00e2mara<br \/>\nsecreta onde est\u00e3o as pedras que reluzem.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 eu o sei, e nunca o direi! &#8211; bradou ela. &#8211; Os brancos malditos<br \/>\nvoltar\u00e3o, levando vazias as m\u00e3os malditas! &#8211; Bem &#8211; volveu tranq\u00fcilamente<br \/>\no rei. &#8211; Ent\u00e3o, Gagula, vais morrer lentamente.<\/p>\n<p>&#8211; Morrer! &#8211; gritou ela, cheia de terror e de f\u00faria. &#8211; Tu n\u00e3o<br \/>\nte atrever\u00e1s, Ignosi! Ningu\u00e9m me pode matar. Que idade pensas<br \/>\ntu que eu tenho? O teu pai conheceu-me; e o pai do teu pai; e o pai que gerou<br \/>\na esse. Ningu\u00e9m ousar\u00e1 tocar-me, porque sobre esse cair\u00e3o<br \/>\nas desgra\u00e7as sem fim.<\/p>\n<p>Em sil\u00eancio, tranq\u00fcilamente, Ignosi baixou sobre ela a ponta<br \/>\nda sua azagaia: &#8211; Dizes? &#8211; N\u00e3o! Ignosi baixou mais o ferro, picou de<br \/>\nleve o mont\u00e3o de trapos onde reluziam os dois olhos ferozes.<\/p>\n<p>Com um uivo dilacerante, a horrenda bruxa p\u00f4s-se em p\u00e9, de<br \/>\nsalto. Depois tornou a cair, e rolou no ch\u00e3o esperneando.<\/p>\n<p>De novo a lan\u00e7a de Ignosi a procurava: &#8211; Dizes? &#8211; Digo, digo, oh<br \/>\nrei! &#8211; ganiu ela. &#8211; Mas deixa-me viver, e sentar-me ao sol, e respirar o ar<br \/>\ndoce, e ter um osso para chupar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem; amanh\u00e3 ir\u00e1s com meu tio Infand\u00f3s e com meus<br \/>\nirm\u00e3os brancos a esse lugar, mostrar\u00e1s a c\u00e2mara secreta<br \/>\ne o esconderijo das pedras que reluzem. Mas tem cautela! Que se em ti houver<br \/>\ntrai\u00e7\u00e3o, morrer\u00e1s devagar, e em tormentos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, Ignosi! Irei com eles, e tudo mostrarei. Mas a desgra\u00e7a<br \/>\nvem a quem penetra nesse lugar. Outrora veio um homem, encheu um saco dessas<br \/>\npedras brilhantes, e uma grande desgra\u00e7a caiu sobre ele! E foi uma<br \/>\nmulher que o levou, e que se chamava Gagula. Talvez fosse eu! Talvez fosse<br \/>\nminha m\u00e3e! Ou a m\u00e3e de minha m\u00e3e! Quem sabe? Ser\u00e1<br \/>\numa alegre jornada&#8230; Eu hei de ir, e hei de rir! Vinde, homens brancos, vinde!<br \/>\nVereis, ao passar, os que morreram na batalha, com os olhos vazios, as costelas<br \/>\nocas. A morte vive l\u00e1, e est\u00e1 \u00e0 espera. Ser\u00e1 uma<br \/>\nalegre jornada!<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>Cap\u00edtulo XIII &#8211; A Grande Caverna<\/h2>\n<p>Tr\u00eas dias depois, ao escurecer, est\u00e1vamos acampados num casebre<br \/>\ndesmantelado, em frente das Tr\u00eas Feiticeiras, as tr\u00eas montanhas<br \/>\nque tantas vezes de longe avist\u00e1ramos, desde a nossa chegada a Lu,<br \/>\ne onde deviam jazer, segundo a tradi\u00e7\u00e3o dos cacuanas e o roteiro<br \/>\ndo velho D. Jos\u00e9 da Silveira, as minas das pedras que reluzem &#8211; as<br \/>\nMinas de Salom\u00e3o! T\u00ednhamos partido de Lu doze dias antes, acompanhados<br \/>\npor Infand\u00f3s, por Fulata (que n\u00e3o deixara mais o &#8220;seu doente&#8221;,<br \/>\no bom John), por Gagula, que vinha numa liteira, e por uma forte escolta de<br \/>\nservi\u00e7ais e<br \/>\n<!-- - 87 --><br \/>\nsoldados. E foi s\u00f3 no dia seguinte, ao amanhecer, que examinamos aquele<br \/>\nestranho s\u00edtio, t\u00e3o cheio de terror para os cacuanas e para<br \/>\nn\u00f3s de maravilhosas promessas.<\/p>\n<p>Nunca eu esquecerei o momento em que, saindo \u00e0 porta das cubatas,<br \/>\nna primeira e fresca luz da manh\u00e3, vimos os tr\u00eas montes isolados,<br \/>\nem tri\u00e2ngulo, um \u00e0 nossa direita, outro \u00e0 nossa esquerda,<br \/>\no terceiro ao fundo, em face de n\u00f3s, erguendo magnificamente ao c\u00e9u<br \/>\nos seus cimos resplandecentes de neve. Um tojo em flor, de um escarlate ardente,<br \/>\ncobria as poderosas fraldas dos tr\u00eas montes &#8211; e seguia ainda, como um<br \/>\ntapete igual e cont\u00ednuo, pelos grandes descampados que os cercavam.<br \/>\nA fita branca da estrada de Salom\u00e3o cortava a direito at\u00e9 \u00e0<br \/>\nFeiticeira central, a que formava a ponta do tri\u00e2ngulo, onde findava<br \/>\nbrusca e misteriosamente. A\u00ed, junto desse monte, estavam as fabulosas<br \/>\nminas, que tinham sido o fim de tantos m\u00edseros destinos &#8211; o do velho<br \/>\nfidalgo portugu\u00eas, o do seu descendente, e decerto o daquele que n\u00f3s<br \/>\nv\u00ednhamos procurando desde o sul e por quem corr\u00earamos tanto perigo<br \/>\ne tanta aventura. Todo o que buscar essas minas fabulosas (dizia Gagula),<br \/>\nencontrar\u00e1 desilus\u00e3o e desastre. Seria essa a nossa sorte? N\u00f3s<br \/>\ncheg\u00e1vamos sob a prote\u00e7\u00e3o do rei, cercados de servi\u00e7ais<br \/>\ne de guardas&#8230; E apesar disso sent\u00edamos pesar-nos sobre o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntristemente, a profecia da horrenda mulher. No entanto, quando nos pusemos<br \/>\na caminho, era t\u00e3o viva a ansiedade de chegar e de ver, que os carregadores<br \/>\nda liteira de Gagula mal podiam acompanhar a nossa carreira. A cada instante<br \/>\na velha bruxa gritava, estendendo para n\u00f3s, por entre os panos da liteira,<br \/>\nos bra\u00e7os descarnados, as m\u00e3os em garra: &#8211; N\u00e3o vos apresseis,<br \/>\nhomens brancos! A morte est\u00e1 \u00e0 vossa espera e n\u00e3o foge!<br \/>\nPara que vos esfalfar, correndo para ela? Certa e segura a tendes! Dava ent\u00e3o<br \/>\numa risadinha que nos arrepiava. Insensivelmente abrand\u00e1vamos o passo&#8230;<br \/>\nDepois bem cedo o estug\u00e1vamos de novo, sob o impulso irresist\u00edvel<br \/>\nda curiosidade e da esperan\u00e7a! Gast\u00e1ramos assim hora e meia,<br \/>\ntrilhando a estrada de Salom\u00e3o, e tendo j\u00e1 deixado \u00e0<br \/>\nnossa direita e \u00e0 nossa esquerda as duas Feiticeiras que formam a base<br \/>\ndo tri\u00e2ngulo &#8211; quando chegamos junto de uma imensa cova circular, em<br \/>\nfunil, oferecendo talvez trezentos p\u00e9s de profundidade e meia milha<br \/>\nde circunfer\u00eancia. Entre a erva e tojo, que interiormente a forravam,<br \/>\nsurgiam grandes peda\u00e7os de greda azulada; quase ao fundo corria um<br \/>\ncanal para \u00e1gua, talhado na rocha viva; e abaixo do n\u00edvel dessa<br \/>\nobra estavam alinhadas umas poucas de mesas de pedra, polidas e gastas pelo<br \/>\ntempo. A cova, as mesas, a disposi\u00e7\u00e3o do canal, a natureza da<br \/>\ngreda azulada, tudo era semelhante ao que eu muitas vezes vira no sul, nas<br \/>\nminas de diamantes de Kimberley. Assim o disse aos amigos: &#8211; e para mim ficou<br \/>\ncerto que ali houvera, em tempos, fossem nos de Salom\u00e3o, fossem noutros<br \/>\nmais recentes, uma mina de diamantes.<\/p>\n<p>A estrada, ao abeirar-se da cova, dividia-se em dois ramos que a circundavam;<br \/>\ne a espa\u00e7os, esta via circular era feita de enormes lajes de pedra,<br \/>\ncom o fim certamente de solidificar as bordas da mina, e impedir que se esboroassem.<br \/>\nMas o que mais nos surpreendia era, do outro lado da vasta cova, um grupo<br \/>\nde tr\u00eas objetos, que se destacavam como tr\u00eas pequenas torres ou<br \/>\ntr\u00eas marcos colossais. A curiosidade quase nos fez correr, deixando<br \/>\natr\u00e1s Gagula e Infand\u00f3s; e bem depressa percebemos que o grupo<br \/>\nera formado por tr\u00eas imensas est\u00e1tuas. Conjeturamos logo que<br \/>\ndeviam<br \/>\n<!-- - 88 --><br \/>\nser os Silenciosos, esses \u00eddolos, t\u00e3o temidos pelos cacuanas,<br \/>\ne a quem ofereciam os sacrif\u00edcios sangrentos. Mas s\u00f3 ao chegar<br \/>\njunto deles pudemos apreciar a estranha e terr\u00edvel majestade dessas<br \/>\nvetustas figuras.<\/p>\n<p>Separadas por uma dist\u00e2ncia de vinte passos, erguidas sobre imensos<br \/>\npedestais de pedra negra, onde corriam caracteres desconhecidos, e olhando<br \/>\na direito puxa a estrada de Salom\u00e3o, que atrav\u00e9s de sessenta<br \/>\nmilhas de plan\u00edcie seguia at\u00e9 Lu &#8211; enchiam um grande espa\u00e7o<br \/>\nas tr\u00eas gigantescas formas, duas de homem, uma de mulher, todas tr\u00eas<br \/>\nsentadas, medindo talvez cada uma a altura de vinte p\u00e9s.<\/p>\n<p>A figura de mulher, toda nua, com dois cornos, como os de um crescente de<br \/>\nlua, sobre a testa, era de uma maravilhosa beleza &#8211; infelizmente estragada<br \/>\npelas inj\u00farias do tempo durante longos s\u00e9culos. As duas figuras<br \/>\nde homem, talvez por estarem vestidas em longas roupagens, pareciam mais bem<br \/>\nconservadas. Um deles tinha uma face medonha, feita para inspirar terror,<br \/>\ncomo a de um dem\u00f4nio mal\u00e9fico; mas a do outro parecia talvez<br \/>\nmais assustadora ainda, na sua fria express\u00e3o de dura indiferen\u00e7a,<br \/>\nde uma indiferen\u00e7a de rocha, que nenhuma prece pode abrandar, ou nenhum<br \/>\nsofrimento apiedar. Todos tr\u00eas juntos formavam na realidade uma Trindade<br \/>\npavorosa, assim sentados, im\u00f3veis, com os olhos vaga e perpetuamente<br \/>\nestendidos para a plan\u00edcie sem fim. Que imagens seriam estas? Deuses?<br \/>\nDem\u00f4nios? Reis de povos cujo nome esqueceu? Eu por mim, das minhas reminisc\u00eancias<br \/>\nda B\u00edblia, coligia que deviam ser talvez os falsos deuses que adorou<br \/>\nSalom\u00e3o &#8211; &#8220;Astarote, deusa dos sid\u00f4nios, Chemosh, deus dos<br \/>\nmoabitas, e Milcom, deus dos filhos de Amom&#8221;. Assim diz o Livro Santo.<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe parece, bar\u00e3o? &#8211; Talvez &#8211; concordou o nosso amigo que recebera<br \/>\ngrau em literaturas cl\u00e1ssicas. &#8211; A Astarote, de que falam os hebreus,<br \/>\n\u00e9 a Astarte dos fen\u00edcios, os grandes comerciantes do tempo de<br \/>\nSalom\u00e3o. De Astarte fizeram os gregos a sua Afrodite, que se representava<br \/>\ncom o crescente da meia lua na cabe\u00e7a&#8230; Se Salom\u00e3o tinha aqui<br \/>\nas suas minas, era natural que fossem dirigidas por engenheiros fen\u00edcios.<br \/>\nDe sorte que provavelmente esses homens ergueram, como padroeira da mina,<br \/>\na est\u00e1tua da sua deusa. Quem pode saber? Quando est\u00e1vamos assim<br \/>\ncontemplando estas extraordin\u00e1rias rel\u00edquias de uma remota antiguidade,<br \/>\nInfand\u00f3s, que caminhara sem se apressar, chegou junto de n\u00f3s,<br \/>\ne saudou reverentemente com a lan\u00e7a os Silenciosos. Vinha saber se<br \/>\nquer\u00edamos penetrar imediatamente na caverna, ou tomar primeiro a refei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda manh\u00e3. Como n\u00e3o eram ainda onze horas, e a nossa curiosidade<br \/>\nflamejava, decidimos desvendar logo os mist\u00e9rios, levando conosco provis\u00f5es,<br \/>\npara se l\u00e1 dentro a fome, excitada pelas emo\u00e7\u00f5es, nos<br \/>\nassaltasse. Infand\u00f3s fez ent\u00e3o sinal aos carregadores para que<br \/>\nse acercassem com a liteira de Gagula; e Fulata preparou dentro de um cesto,<br \/>\npara levarmos, uma por\u00e7\u00e3o de ca\u00e7a fria e duas caba\u00e7as<br \/>\nde \u00e1gua. N\u00f3s, entretanto, d\u00e9ramos uma volta em torno<br \/>\n\u00e0s tr\u00eas figuras de pedras. Por tr\u00e1s delas, a uns cinq\u00fcenta<br \/>\npassos, erguia-se aquela das Feiticeiras que formava o bico do tri\u00e2ngulo;<br \/>\nna sua base, como incrustada nela, corria uma muralha de pedra; e a\u00ed,<br \/>\nao centro, pod\u00edamos distinguir um arco escuro, como a entrada de uma<br \/>\ngaleria subterr\u00e2nea. Esperamos que os carregadores tirassem Gagula da<br \/>\nliteira. Apenas no ch\u00e3o, a horrenda criatura agarrou o cajado, e dobrada<br \/>\nem duas, com passos tr\u00eamulos e vivos, largou em sil\u00eancio para<br \/>\no<br \/>\n<!-- - 89 --><br \/>\narco escuro. N\u00f3s seguimos, calados, tamb\u00e9m. \u00c0 entrada,<br \/>\no monstro parou, voltado para n\u00f3s, com um riso l\u00edvido na caveira.<\/p>\n<p>&#8211; Homens das estrelas, estais decididos? Quereis realmente penetrar na cova<br \/>\nonde as pedras reluzem? &#8211; Estamos prontos, Gagula &#8211; disse eu, alegremente.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem! Entrai! E pedi for\u00e7a aos cora\u00e7\u00f5es para<br \/>\nafrontar as cousas que ides ver! E tu, Infand\u00f3s, que tra\u00edste<br \/>\nteu amo, vens tu tamb\u00e9m? O velho guerreiro franziu terrivelmente o<br \/>\nsobrolho: &#8211; N\u00e3o me compete a mim entrar nos s\u00edtios sagrados.<br \/>\nMas tu, Gagula, tem cautela, e treme! Os homens que v\u00e3o contigo s\u00e3o<br \/>\nos amigos do rei! Por eles me respondes tu. E se tanto como a perda de um<br \/>\ns\u00f3 cabelo lhes suceder em mal, nem todos os teus feiti\u00e7os te<br \/>\nlivrar\u00e3o de morrer em tormentos. Compreendeste? &#8211; Compreendi, compreendi,<br \/>\nInfand\u00f3s! &#8211; ganiu ela, com um risinho gelado e lento. &#8211; N\u00e3o<br \/>\nreceies! Eu vivo s\u00f3 para fazer a vontade do rei. Tenho feito a vontade<br \/>\nde muitos reis, em muitas gera\u00e7\u00f5es! E os reis findaram sempre<br \/>\npor cumprir a minha vontade! Todos passaram, todos morreram&#8230; E eu aqui estou,<br \/>\npara os ir visitar agora no pal\u00e1cio da morte, e para lhes falar dos<br \/>\ntempos que foram! Vinde, vinde! A l\u00e2mpada est\u00e1 acesa! Tinha tirado,<br \/>\ndebaixo do manto de peles que a cobria, uma caba\u00e7a cheia de \u00f3leo<br \/>\ncom uma grossa torcida de vime e a luz que ela aproximou do arco negro pareceu<br \/>\ndesmaiar e tremer.<\/p>\n<p>&#8211; Vens tu tamb\u00e9m, Fulata? &#8211; exclamou John, volvendo os olhos em redor,<br \/>\ninquieto.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho medo, meu senhor &#8211; murmurou a rapariga.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Ent\u00e3o d\u00e1 c\u00e1 o cesto! &#8211; N\u00e3o, meu senhor,<br \/>\npara onde fordes, vou eu tamb\u00e9m! &#8211; Bem! &#8211; pensei eu comigo &#8211; a\u00ed<br \/>\nlevamos tamb\u00e9m o trambolho da rapariga para dentro da mina! No entanto<br \/>\nGagula mergulhara na galeria, que dava apenas lugar para dois caminharem de<br \/>\nfrente. As trevas eram absolutas. Asas de morcegos batiam-nos nas faces. E<br \/>\nsegu\u00edamos menos a luz bruxuleante da l\u00e2mpada, que a voz de Gagula,<br \/>\nque repetia num tom l\u00fagubre: &#8211; Avan\u00e7ai, avan\u00e7ai! A morte<br \/>\nest\u00e1 perto! De repente, distinguimos uma vaga claridade. E, momentos<br \/>\ndepois, par\u00e1vamos no mais maravilhoso s\u00edtio que olhos humanos<br \/>\nt\u00eam contemplado.<\/p>\n<p>A nada o posso comparar melhor do que ao interior de uma imensa catedral,<br \/>\numa catedral de sonho ou de lenda, sem janelas, alumiada por uma luz difusa<br \/>\ne misteriosa, que parecia cair das alturas da ab\u00f3bada. Ao comprido<br \/>\ndesta vasta nave, como na nave de um verdadeiro templo, corriam renques de<br \/>\ngigantescas colunas, de uma cor \u00e1lgida de gelo e de magn\u00edfica<br \/>\nbeleza. Alguns destes nobres pilares estavam, por assim dizer, interrompidos<br \/>\nno meio &#8211; um peda\u00e7o erguendo-se do solo, como a coluna quebrada de<br \/>\numa ru\u00edna grega; outro peda\u00e7o pendente da remota ab\u00f3bada.<br \/>\nAo lado da nave abriam-se, com dimens\u00f5es diversas, cavernas \u00e0<br \/>\nsemelhan\u00e7a de capelas, tendo tamb\u00e9m as suas filas de colunas,<br \/>\nalgumas t\u00e3o pequeninas e finas como feitas para um brinquedo e crian\u00e7a.<br \/>\nAqui e al\u00e9m havia constru\u00e7\u00f5es estranhas, da mesma subst\u00e2ncia<br \/>\n\u00e1lgida que parecia gelo &#8211; uma da forma de uma vasta ta\u00e7a, outra<br \/>\n<!-- - 90 --><br \/>\noferecendo a vaga apar\u00eancia de um p\u00falpito com lavores pendentes.<br \/>\nUm ar de indescrit\u00edvel frescura circulava dentro da vasta nave; e por<br \/>\ntoda a parte sent\u00edamos, na penumbra, o ru\u00eddo lento de gotas<br \/>\nde \u00e1gua caindo.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardamos em perceber que est\u00e1vamos simplesmente numa caverna<br \/>\nde estalactites, de inigual\u00e1vel beleza. Cada uma daquelas gotas de<br \/>\n\u00e1gua, que ca\u00eda, com um som \u00famido e triste, era mais uma<br \/>\ncoluna que se estava formando. H\u00e1 quantos s\u00e9culos andava a natureza<br \/>\ntrabalhando naquela obra maravilhosa? Sobre uma das colunas incompletas, notei<br \/>\neu uma rude inscri\u00e7\u00e3o entalhada, decerto, por algum obreiro<br \/>\nfen\u00edcio das minas, que ali escrevera o seu nome, ou talvez alguma fac\u00e9cia<br \/>\nfen\u00edcia. Pois, desde esse dia, em tr\u00eas mil anos pelo menos, a<br \/>\ncoluna apenas crescera para cima da inscri\u00e7\u00e3o uns tr\u00eas<br \/>\np\u00e9s e meio. E ainda estava em via de forma\u00e7\u00e3o, porque<br \/>\neu distintamente senti, enquanto a examinava, cair sobre ela, das profundidades<br \/>\nda ab\u00f3bada, uma lenta gota de \u00e1gua! Quantos centos de milhares<br \/>\nde anos levaram pois a crescer, a formar-se, assim largas, maci\u00e7as,<br \/>\naltas como torres, as colunas inumer\u00e1veis que se enfileiravam na nave?<br \/>\nNunca, como ali, eu compreendi a espantosa velhice da Terra. Gagula, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o nos deixou muito tempo nesta curiosa contempla\u00e7\u00e3o.<br \/>\nInquieta, batendo o ch\u00e3o com o cajado, a l\u00e2mpada erguida sobre<br \/>\na cabe\u00e7a, a cada instante nos apressava, com ganidos sinistros.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, vamos, que a Morte est\u00e1 \u00e0 nossa espera! O Capit\u00e3o<br \/>\nJohn ainda tentava gracejar com a atroz criatura. Mas quando ela nos conduzia<br \/>\nao fundo da nave, diante de uma pequena porta semelhante \u00e0s dos templos<br \/>\neg\u00edpcios, e nos perguntou se est\u00e1vamos bem preparados a entrar<br \/>\na morada da Morte &#8211; todos estacamos, inquietos, mudos, sem ousar o primeiro<br \/>\npasso.<\/p>\n<p>&#8211; Isto est\u00e1-se tornando sinistro &#8211; murmurou o bar\u00e3o. &#8211; Os<br \/>\nmais velhos adiante. Passe l\u00e1, Quartelmar! Entrei a porta eg\u00edpcia<br \/>\ne achei-me num corredor inclinado, todo de ab\u00f3bada, horrivelmente negro.<br \/>\nA l\u00e2mpada de Gagula esmorecia. O bater do seu cajado dava um eco l\u00fagubre.<br \/>\nE a meu pesar parei, dominado por um pressentimento de desastre e de morte.<\/p>\n<p>&#8211; Para diante! &#8211; murmurou John, que trazia Fulata agarrada pela m\u00e3o.<\/p>\n<p>Com um esfor\u00e7o desesperado venci o receio, alarguei o passo. E, quase<br \/>\ncolados uns aos outros, desembocamos numa sala subterr\u00e2nea, evidentemente<br \/>\nescavada outrora por poderosos obreiros no interior da montanha.<\/p>\n<p>Esta sala n\u00e3o tinha uma luz t\u00e3o clara como a catedral de estalactites;<br \/>\ne tudo o que eu pude descobrir, a princ\u00edpio, foi uma enorme e maci\u00e7a<br \/>\nmesa de pedra, tendo no topo uma colossal figura, que parecia presidir outras<br \/>\nfiguras abancadas em torno. Depois, sobre a mesa, no centro, distingui uma<br \/>\nforma encruzada. E quando enfim, acostumado \u00e0 penumbra, percebi o que<br \/>\neram aquelas formas, voltei costas, e largaria a fugir como uma lebre-se o<br \/>\nbar\u00e3o n\u00e3o me agarrasse pelo bra\u00e7o fortemente. Cedi, tremendo<br \/>\ntodo. Mas a esse tempo o bar\u00e3o tamb\u00e9m se habituara \u00e0<br \/>\nluz difusa, compreendera tamb\u00e9m; e largando-me o bra\u00e7o, com<br \/>\numa exclama\u00e7\u00e3o, ficou a meu lado, quedo, arrepiado, limpando<br \/>\no suor que lhe cobrira a testa. A pobre Fulata, essa, dava gritos, agarrada<br \/>\nao pesco\u00e7o de John. E Gagula triunfava, com sinistra zombaria.<\/p>\n<p>O que t\u00ednhamos, com efeito, ante os olhos apavorados, era terr\u00edvel.<br \/>\nAli, no topo da longa mesa de pedra, estava a Morte &#8211; a pr\u00f3pria Morte,<br \/>\num medonho e gigantesco<br \/>\n<!-- - 91 --><br \/>\nesqueleto, de p\u00e9, todo debru\u00e7ado para diante, com um dos bra\u00e7os<br \/>\napoiado ao rebordo da pedra como se acabasse de se erguer do seu assento,<br \/>\ne com o outro levantando no ar uma enorme lan\u00e7a, que parecia arremessar<br \/>\nsobre n\u00f3s; o cr\u00e2nio da caveira alvejava lugubremente; das covas<br \/>\ndas \u00f3rbitas sa\u00eda um fulgor negro; e as maxilas estavam entreabertas,<br \/>\ncomo se fosse falar, e desvendar o seu segredo.<\/p>\n<p>&#8211; Santo Deus! &#8211; murmurei eu, transido. &#8211; Que pode isto ser? &#8211; E estas figuras,<br \/>\nem redor? &#8211; balbuciava John.<\/p>\n<p>&#8211; E al\u00e9m, aquela cousa, no meio? &#8211; exclamou o bar\u00e3o, apontando<br \/>\npara a inexplic\u00e1vel figura encruzada sobre a mesa. Ent\u00e3o Gagula<br \/>\npousou a l\u00e2mpada e agarrando o bra\u00e7o do bar\u00e3o, com o dedo<br \/>\nestendido para a forma encruzada: &#8211; Avan\u00e7a, Incubu, homem forte na<br \/>\nguerra! Avan\u00e7a, e contempla aquele que tu mataste e que est\u00e1<br \/>\nagora junto aos seus av\u00f3s! O bar\u00e3o deu um passo, e recuou abafando<br \/>\num grito. Sobre a mesa, inteiramente nu, com as pernas encruzadas, e a cabe\u00e7a<br \/>\nque o bar\u00e3o cortara pousada em cima dos joelhos, estava Tuala, \u00faltimo<br \/>\nrei dos cacuanas!&#8230; Sim, Tuala, sustentando solenemente sobre os joelhos<br \/>\na sua hedionda cabe\u00e7a decepada, e com as v\u00e9rtebras a sa\u00edrem-lhe<br \/>\npara fora do pesco\u00e7o encolhido e como ressequido! Sobre todo o corpo<br \/>\nnegro tinha j\u00e1 uma esp\u00e9cie de pel\u00edcula gelatinosa e vidrada,<br \/>\nque o tornava mais pavoroso, e cuja natureza eu n\u00e3o podia compreender<br \/>\n&#8211; at\u00e9 que senti tique, tique, tique, um fio de gotas de \u00e1gua,<br \/>\nque, caindo da ab\u00f3bada, lhe escorria pelo pesco\u00e7o, e dali pelo<br \/>\ncorpo, para se escoar depois por um buraco cavado na mesa. Ent\u00e3o percebi<br \/>\ntudo &#8211; o corpo de Tuala estava sendo convertido numa estalactite! E as outras<br \/>\nfiguras sentadas em torno da mesa eram igualmente reis dos cacuanas, j\u00e1<br \/>\ntransformados em estalactites! Havia trinta e sete &#8211; sendo o \u00faltimo<br \/>\no pai de Ignosi. \u00c9 esta, desde tempos imemor\u00e1veis, a maneira<br \/>\npor que os cacuanas conservam os seus reis mortos. Petrificam-nos, expondo-os,<br \/>\ndurante um longo per\u00edodo de anos, a uma queda de \u00e1gua silenciosa<br \/>\nque, lentamente e gota a gota, os transforma em est\u00e1tuas geladas. Est\u00e1vamos<br \/>\nassim diante do mais maravilhoso e ex\u00f3tico pante\u00e3o real, que<br \/>\nexiste decerto na terra. E nada pode igualar \u00e0 terr\u00edfica impress\u00e3o<br \/>\nque causava aquela s\u00e9rie de reis, pertencendo a muitas dinastias, amortalhados<br \/>\nnuma camada de gelo que mal lhes deixava j\u00e1 distinguir as fei\u00e7\u00f5es,<br \/>\nali sentados, \u00e0 volta da imensa mesa, em espectral e pavoroso conc\u00edlio,<br \/>\npresididos pela Morte! E a Morte, o maravilhoso esqueleto, quem o esculpira?<br \/>\nN\u00e3o decerto os cacuanas. A sua composi\u00e7\u00e3o, o seu trabalho<br \/>\nrevelavam uma arte perfeita. Era obra dos artistas fen\u00edcios? Fora colocada<br \/>\nali em tempo de Salom\u00e3o, para guardar, pelo terror da sua lan\u00e7a,<br \/>\na entrada dos tesouros? N\u00e3o sei. Nem sei mesmo contar, com verdade,<br \/>\nas estranhas sensa\u00e7\u00f5es por que passei naquela c\u00e2mara sinistra.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>Cap\u00edtulo XIV &#8211; O Tesouro de Salom\u00e3o<\/h2>\n<p>No entanto Gagula (que era por vezes extremamente leve e \u00e1gil) trepara<br \/>\npara cima da mesa e acercara-se do cad\u00e1ver de Tuala, a quem pareceu<br \/>\nfalar misteriosamente; depois seguiu por entre as filas dos reis, dirigindo,<br \/>\nora a um, ora a<br \/>\n<!-- - 92 --><br \/>\noutro, como a velhos amigos, palavras lentas e graves que n\u00e3o compreend\u00edamos.<br \/>\nPor fim, tendo chegado em frente da Morte, caiu de bru\u00e7os, com os bra\u00e7os<br \/>\nestendidos, e ficou mergulhada em ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um espet\u00e1culo t\u00e3o arrepiador, naquela penumbra de sepulcro,<br \/>\na hedionda criatura, mais velha que todas as criaturas, fazendo s\u00faplicas<br \/>\nao enorme esqueleto &#8211; que eu, j\u00e1 enervado, lhe gritei que viesse, nos<br \/>\nlevasse ao lugar dos tesouros.<\/p>\n<p>Imediatamente, a horr\u00edvel bruxa saltou da mesa, como um gato, e passando<br \/>\npor tr\u00e1s das costas da Morte, ergueu a l\u00e2mpada, mostrou a parede<br \/>\nda rocha: &#8211; Entrai, homens brancos, entrai, se n\u00e3o tendes medo! Olhamos,<br \/>\nprocurando a entrada. S\u00f3 vimos a rocha s\u00f3lida e negra.<\/p>\n<p>&#8211; Gagula &#8211; disse eu com os dentes cerrados &#8211; n\u00e3o zombes de n\u00f3s,<br \/>\nque te mato! &#8211; Mas a porta \u00e9 aqui, homens brancos, a porta \u00e9<br \/>\naqui! &#8211; gania ela, com as costas apoiadas \u00e0 muralha, onde ro\u00e7ava<br \/>\nde leve uma das m\u00e3os descarnadas.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, \u00e0 luz bruxuleante da l\u00e2mpada, vimos que um<br \/>\nbocado da muralha, do feitio e tamanho de uma porta, se ia erguendo lentamente<br \/>\ndo solo, e desaparecendo em cima na rocha, onde devia existir uma cavidade<br \/>\npara a receber. N\u00e3o pesava menos, aquela massa de pedra, de vinte a<br \/>\ntrinta toneladas &#8211; e era certamente movida por algum maquinismo, fundado num<br \/>\nequil\u00edbrio de peso, que uma mola, colocada num lugar secreto da muralha,<br \/>\npunha em movimento. Nem nos lembrou, nesse momento, arrancar a Gagula o segredo<br \/>\nda mola, que erguia a pedra! Pasmados, v\u00edamos a imensa massa subir,<br \/>\ndevagar, muito devagar at\u00e9 que desapareceu, deixando diante de n\u00f3s<br \/>\num grande buraco negro.<\/p>\n<p>Estava enfim aberto, para n\u00f3s nele penetrarmos, o caminho que levava<br \/>\naos tesouros de Salom\u00e3o. A emo\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o intensa,<br \/>\nque eu, por mim, comecei a tremer. Era pois verdade o que dizia, no seu peda\u00e7o<br \/>\nde papel, o velho D. Jos\u00e9 da Silveira? Estavam pois ao nosso alcance,<br \/>\ndestinadas a n\u00f3s, as maiores riquezas que jamais um rei acumulou na<br \/>\nterra? Poder\u00edamos n\u00f3s ver, tocar, agarrar e levar em sacos,<br \/>\no tesouro que fora de Salom\u00e3o, maravilha dos livros santos? Assim parecia<br \/>\n&#8211; e para isso bastava dar um passo.<\/p>\n<p>Dei esse passo &#8211; e com explic\u00e1vel sofreguid\u00e3o. Mas Gagula<br \/>\ndefendia ainda com os bra\u00e7os o buraco negro: &#8211; Escutai, homens das<br \/>\nestrelas! Escutai o que \u00e9 necess\u00e1rio saber! As pedras que brilham,<br \/>\nque v\u00f3s ides ver, foram tiradas da cova circular n\u00e3o sei por<br \/>\nquem, e guardadas aqui n\u00e3o sei por quem. A gente que, de gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nem gera\u00e7\u00e3o, tem vivido nesta terra, sabia da exist\u00eancia<br \/>\ndo tesouro, mas ningu\u00e9m conhecia o segredo para abrir a porta de pedra!<br \/>\nPor fim aconteceu vir aqui um homem branco, talvez tamb\u00e9m das estrelas,<br \/>\nque foi bem recebido e bem agasalhado pelo rei de ent\u00e3o, que era o<br \/>\nquinto, al\u00e9m, sentado \u00e0 mesa de pedra. Com ele vinha uma rapariga<br \/>\ncacuana; ambos percorreram estas cavernas; e sucedeu que, por acaso, essa<br \/>\nmulher, que talvez fosse eu ou que talvez fosse outra como eu, descobriu o<br \/>\nsegredo da porta. O homem e a mulher entraram, e encheram de pedras um saco<br \/>\npequeno de couro, onde ela levava de comer. Ao sa\u00edrem, o homem agarrou<br \/>\nna m\u00e3o outra pedra, maior que todas&#8230;<\/p>\n<p>E aqui a bruxa parou, com os olhos coruscantes cravados em n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Continua! &#8211; exclamei eu, que escutara sem respirar. &#8211; O homem era D. Jos\u00e9<br \/>\nda Silveira. Que se passou mais?&#8230;<\/p>\n<p><!-- - 93 --><br \/>\nA velha feiticeira recuou espantada.<\/p>\n<p>&#8211; Como lhe sabeis o nome? Ah! sabes-lhe o nome!&#8230; Pois bem, ningu\u00e9m<br \/>\npode dizer o que sucedeu. Mas o homem teve medo de repente, atirou para o<br \/>\nch\u00e3o o saco cheio de pedras, e fugiu, levando s\u00f3 agarrada a<br \/>\npedra maior que tinha na m\u00e3o. \u00c9 a que Tuala trazia no diadema.<br \/>\n\u00c9 a que tu deste a Ignosi! &#8211; E ningu\u00e9m mais entrou aqui? &#8211; Ningu\u00e9m.<br \/>\nMas os reis ficaram sabendo o segredo da porta&#8230; Nenhum, por\u00e9m, entrou,<br \/>\nporque dizem profecias, j\u00e1 muito antigas, que aquele que aqui entrar<br \/>\nmorrer\u00e1 antes de uma lua nova. Esta \u00e9 a verdade, homens das<br \/>\nestrelas. Entrai agora! Se eu n\u00e3o menti a respeito do homem que se<br \/>\nchamava Silveira, v\u00f3s encontrareis no ch\u00e3o, \u00e0 entrada<br \/>\nda porta, ca\u00eddo, o saco de couro cheio de pedras&#8230; E se as profecias<br \/>\nmentem ou n\u00e3o, sobre a morte que espera a quem aqui penetrar, v\u00f3s<br \/>\nmais tarde o sabereis&#8230;<\/p>\n<p>E sem mais, a hedionda criatura mergulhou no corredor tenebroso, erguendo<br \/>\nao alto a p\u00e1lida l\u00e2mpada. N\u00f3s no entanto, olh\u00e1vamos<br \/>\nuns para os outros com hesita\u00e7\u00e3o, quase com medo &#8211; bem natural,<br \/>\nde resto, em nervos abalados por tantas emo\u00e7\u00f5es estranhas. Foi<br \/>\nJohn o mais corajoso: &#8211; Acabou-se! C\u00e1 vou! Era rid\u00edculo ficarmos<br \/>\napavorados com as tonteiras de uma velha macaca! Adiante! E avan\u00e7ou<br \/>\nseguido por Fulata e por n\u00f3s dois, em sil\u00eancio. Mas, dados alguns<br \/>\npassos, ouvimos uma medonha praga. Era John que trope\u00e7ara, quase ca\u00edra<br \/>\npor sobre um bloco de cantaria atravessado no corredor. Gagula erguera mais<br \/>\na l\u00e2mpada: &#8211; N\u00e3o receeis!&#8230; S\u00e3o pedras que a gente outrora<br \/>\ntinha a\u00ed acumulado para tapar o corredor para sempre&#8230; Mas fugiram,<br \/>\nao que parece; n\u00e3o tiveram tempo! E, com efeito, havia ali como umas<br \/>\nobras interrompidas &#8211; pedras serradas e esquadradas, um monte de cimento,<br \/>\ne uma picareta e uma trolha, semelhantes \u00e0s que ainda hoje usam os<br \/>\npedreiros. Contemplei com rever\u00eancia estas antiqu\u00edssimas ferramentas.<br \/>\nNo entanto Fulata, que desde a nossa entrada na caverna n\u00e3o cessara<br \/>\nde tremer de medo, sentou-se sobre uma pedra, e declarou que desmaiava; n\u00e3o<br \/>\npodia mais caminhar&#8230; Ali a deixamos, com o cesto de provis\u00f5es ao<br \/>\nlado, at\u00e9 que ela ganhasse alento. E seguimos. Uns quinze passos adiante,<br \/>\ndemos de repente com uma porta de pau, curiosamente pintada a cores, e toda<br \/>\naberta para tr\u00e1s. E no limiar da porta, l\u00e1 estava, ca\u00eddo<br \/>\nno ch\u00e3o &#8211; um pequeno saco de couro que parecia cheio de seixos! &#8211; Ent\u00e3o,<br \/>\nbrancos, que vos disse eu? &#8211; ganiu Gagula em triunfo, brandindo a l\u00e2mpada.<br \/>\n&#8211; Olhai bem! A\u00ed tendes o saco que o homem deixou cair! A\u00ed est\u00e1<br \/>\nainda, desde gera\u00e7\u00f5es! Que vos disse eu? John ergueu o saco.<br \/>\nEra pesado e tinha: &#8211; Santo Deus! Est\u00e1 cheio de brilhantes! &#8211; balbuciou<br \/>\nele quase com medo.<\/p>\n<p>E com efeito, meus amigos! A id\u00e9ia de um saco de couro repleto de<br \/>\ndiamantes &#8211; \u00e9 de causar medo! &#8211; Para diante, para diante! &#8211; exclamou<br \/>\no bar\u00e3o, com s\u00fabita impaci\u00eancia. &#8211; D\u00e1 c\u00e1<br \/>\ntu a l\u00e2mpada, bruxa! Arrancou a luz das m\u00e3os de Gagula. E de<br \/>\ntropel com ele, sem sequer pensar mais no saco que John atirara outra vez<br \/>\npara o ch\u00e3o, transpusemos a porta. Est\u00e1vamos dentro do tesouro<br \/>\nde Salom\u00e3o.<\/p>\n<p><!-- - 94 --><br \/>\nDurante um momento, olhamos vagamente em redor, num sil\u00eancio apavorado.<br \/>\n\u00c0 luz d\u00e9bil e morti\u00e7a da l\u00e2mpada s\u00f3 percebemos,<br \/>\nao princ\u00edpio, que o quarto ou c\u00e2mara era escavado na rocha viva.<br \/>\nDepois, a um dos lados, vimos distintamente alvejar, sobrepostos em camadas<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 ab\u00f3bada, uma por\u00e7\u00e3o imensa de dentes<br \/>\nde elefante, de inigual\u00e1vel riqueza. Haveria talvez uns quinhentos<br \/>\nou seiscentos dentes. S\u00f3 aquele marfim nos poderia tornar a todos ricos<br \/>\npara sempre. Era desse espantoso dep\u00f3sito que Salom\u00e3o fizera<br \/>\ntalvez o &#8220;grande trono de marfim&#8221;, de que falam os livros santos!<br \/>\nToquei um dente de leve, depois outro, com venera\u00e7\u00e3o, como rel\u00edquias<br \/>\nsagradas! E o suor ca\u00eda-me em bagas.<\/p>\n<p>&#8211; Ali est\u00e3o os diamantes &#8211; gritou John. &#8211; Trazei a luz! Corremos<br \/>\npara o recanto que ele indicava. E a l\u00e2mpada que o bar\u00e3o baixara<br \/>\nmostrou umas dez ou doze caixas de madeira, estreitas e muito compridas, pintadas<br \/>\nde escarlate. A tampa de uma, t\u00e3o antiga que mesmo naquele ar seco<br \/>\nde caverna tinha apodrecido, apresentava vest\u00edgios de arrombamento.<br \/>\nPelo menos, no meio havia um buraco. Enterrei a m\u00e3o atrav\u00e9s,<br \/>\ne tirei-a cheia, n\u00e3o de diamantes, mas de moedas de ouro, como n\u00f3s<br \/>\nnunca v\u00edramos, com letras hebraicas (ou que julgamos hebraicas) e palmeiras<br \/>\ne torres em relevo no cunho.<\/p>\n<p>&#8211; Justos c\u00e9us! &#8211; murmurei sufocado. &#8211; Aqui devem estar milh\u00f5es!<br \/>\nIsto nem se acredita!&#8230; Naturalmente era o dinheiro para pagar as f\u00e9rias<br \/>\naos mineiros&#8230; Estaremos n\u00f3s a sonhar? &#8211; Mas os diamantes &#8211; exclamava<br \/>\nJohn, percorrendo sofregamente o quarto. &#8211; Onde est\u00e3o, por fim, os<br \/>\ndiamantes? S\u00f3 se o portugu\u00eas os meteu todos no saco! Gagula,<br \/>\ndecerto, compreendeu os nossos olhares, que buscavam avidamente: &#8211; Al\u00e9m,<br \/>\nal\u00e9m, onde \u00e9 mais escuro! L\u00e1 est\u00e3o os tr\u00eas<br \/>\ncofres de pedra; dois selados, um aberto! A sua aguda voz tomara um som cavo<br \/>\ne sinistro. Mas qu\u00ea! Onde ia agora, diante de t\u00e3o inveross\u00edmeis<br \/>\nriquezas, o medo das profecias mortais? Era al\u00e9m, no recanto escuro?<br \/>\nPara l\u00e1 corremos, sondando com a l\u00e2mpada.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui, rapazes! &#8211; gritou John, na maior excita\u00e7\u00e3o. &#8211; Aqui.<br \/>\nOh meu Deus! S\u00e3o tr\u00eas arcas de pedra! E eram! Eram tr\u00eas<br \/>\narcas de pedra que nos davam pela cintura, ocupando os tr\u00eas lados de<br \/>\numa esp\u00e9cie de alcova tenebrosa. Duas estavam fechadas com imensas<br \/>\ntampas de pedra. A tampa da terceira estava encostada \u00e0 muralha. Baixamos<br \/>\na l\u00e2mpada para dentro. N\u00e3o pudemos distinguir nada ao princ\u00edpio,<br \/>\ndeslumbrados por uma vaga refra\u00e7\u00e3o prateada que faiscava e tremia.<br \/>\nQuando os olhos se habituaram \u00e0quele brilho estranho, vimos que a arca<br \/>\nimensa estava cheia at\u00e9 ao meio de diamantes brutos! Mergulhei as m\u00e3os<br \/>\nneles. Com efeito! Eram diamantes. Uma arca cheia de diamantes! N\u00e3o<br \/>\nhavia d\u00favida! Bem lhes sentia eu entre os dedos aquele macio especial<br \/>\nque em Kimberley, nas minas, chamam sabon\u00e1ceo! Era uma arca cheia de<br \/>\ndiamantes! Ficamos, mudos, olhando uns para os outros. \u00c0 frouxa luz<br \/>\nda l\u00e2mpada eu via as faces dos meus amigos perfeitamente l\u00edvidas.<br \/>\nE n\u00e3o havia em n\u00f3s nenhuma alegria. Era um torpor, como se a<br \/>\nalma nos ficasse bruscamente esmagada, sob a fabulosa infinidade daquela riqueza.<\/p>\n<p>Eu murmurei, com um suspiro de crian\u00e7a:<br \/>\n<!-- - 95 --><br \/>\n&#8211; Somos os homens mais ricos deste mundo! John passava os dedos pelo queixo,<br \/>\nnuma distra\u00e7\u00e3o quase melanc\u00f3lica: &#8211; Eu sei l\u00e1!&#8230;<br \/>\nOs diamantes agora perdem de valor; ficam como vidro! &#8211; E transport\u00e1-los?<br \/>\nE transport\u00e1-los? &#8211; dizia o bar\u00e3o, abanando a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>De repente sentimos por tr\u00e1s uma risada que nos estarreceu. Era Gagula.<br \/>\nGagula que ia, vinha, \u00e0s voltas, na sala escura, como um morcego, de<br \/>\nbra\u00e7o estendido para n\u00f3s: &#8211; Hi! Hi! Hi! A\u00ed est\u00e1<br \/>\nsatisfeito o desejo vil dos vossos cora\u00e7\u00f5es, homens das estrelas!<br \/>\nHi! Hi! Hi! Quantas pedras brancas! Milhares delas! E todas vossas! Agarrai<br \/>\nnelas! Rolai por cima delas! Hi! Hi! Hi! Comei as pedras! Hi! Hi! Hi! Bebei<br \/>\nas pedras! Havia alguma cousa de t\u00e3o grotesco naquela id\u00e9ia<br \/>\nde beber diamantes e comer diamantes, que larguei a rir estridentemente, descaradamente.<br \/>\nE por cont\u00e1gio, os meus companheiros desataram tamb\u00e9m a rir,<br \/>\na rir, \u00e0s gargalhadas. E ali ficamos todos, de m\u00e3os nas ilhargas,<br \/>\nperdidos a rir, a rir, a rir! R\u00edamos de qu\u00ea? Nem sei. R\u00edamos<br \/>\ndos diamantes &#8211; daqueles diamantes que, milhares de anos antes, os mineiros<br \/>\nde Salom\u00e3o tinham escavado para n\u00f3s; que os agentes de Salom\u00e3o<br \/>\ntinham armazenado para n\u00f3s&#8230; Pertenciam a Salom\u00e3o&#8230; Mas onde<br \/>\nia Salom\u00e3o? Eram nossos, agora, os seus diamantes! N\u00e3o tinham<br \/>\nsido para Salom\u00e3o, nem para Davi, seu pai, nem para nenhum rei de Jud\u00e1!<br \/>\nN\u00e3o tinham sido para o atrevido e velho fidalgo portugu\u00eas, nem<br \/>\npara nenhum dos portugueses que vinham singrando de leste em caravelas armadas!<br \/>\nTinham sido para n\u00f3s! S\u00f3 para n\u00f3s! Para n\u00f3s aqueles<br \/>\nmilh\u00f5es e milh\u00f5es de libras, que, neste s\u00e9culo, em que<br \/>\no dinheiro tudo domina, nos tornavam t\u00e3o poderosos como outrora Salom\u00e3o.<br \/>\nDe fato \u00e9ramos Salom\u00f5es! De repente o acesso de riso findou.<br \/>\nE ficamos a olhar uns para os outros, estupidamente.<\/p>\n<p>&#8211; Abri as outras arcas! &#8211; gania no entanto Gagula. &#8211; Est\u00e3o tamb\u00e9m<br \/>\ncheias! Todas as pedras s\u00e3o vossas! Fartai-vos, fartai-vos! Em sil\u00eancio,<br \/>\ncom uma sofreguid\u00e3o brutal, arremessamo-nos sobre as outras arcas,<br \/>\nquebrando os selos, empuxando as tampas, num desesperado esfor\u00e7o! Hurra!<br \/>\nCheias tamb\u00e9m! Cheias at\u00e9 cima!&#8230; N\u00e3o, a terceira estava<br \/>\nquase vazia. Mas todas as pedras que continha eram escolhidas, de um peso,<br \/>\nde um tamanho inacredit\u00e1veis. Havia-as como ovos pequenos. As maiores,<br \/>\ntodavia, postas contra a luz, apresentavam um vago tom amarelo. Eram &#8220;diamantes<br \/>\nde cor&#8221;, como eles dizem em Kimberley, nas minas. Tinha eu um destes<br \/>\nna m\u00e3o, enorme, quando, de repente, ouvimos gritos aflitos do lado<br \/>\ndo corredor. Era a voz de Fulata: &#8211; Acudam! Acudam! Que a porta de pedra est\u00e1<br \/>\na cair! Uma outra voz, desesperada, a de Gagula, rugia sinistramente: &#8211; Larga-me,<br \/>\nrapariga, larga-me! &#8211; Acudam! Acudam! Ai Gagula que me matou! Como contar<br \/>\no brusco, pavoroso lance? Corremos. \u00c0 luz frouxa da l\u00e2mpada vimos<br \/>\na porta de pedra descendo, e, junto dela, Gagula e Fulata enla\u00e7adas<br \/>\nnuma luta furiosa. De repente Fulata cai, coberta de sangue. Gagula atira-se<br \/>\nao ch\u00e3o, para fugir como uma cobra atrav\u00e9s da fenda que havia<br \/>\nainda entre o ch\u00e3o e a porta. Mete a cabe\u00e7a e o ombros!&#8230; Justos<br \/>\nc\u00e9us! Era tarde. A pedra imensa apanha-a, e a criatura<br \/>\n<!-- - 96 --><br \/>\nuiva de agonia! A pedra desce, desce, com as suas trinta toneladas sobre o<br \/>\ncorpo j\u00e1 preso. V\u00eam dele gritos e gritos, como eu jamais ouvira<br \/>\n&#8211; at\u00e9 e h\u00e1 um som horr\u00edvel de cousa esborrachada, e a<br \/>\nporta imensa fica im\u00f3vel justamente fechada, quando n\u00f3s, correndo<br \/>\nsempre, esbarramos de rold\u00e3o contra ela! Isto durara quatro segundos<br \/>\n&#8211; quatro s\u00e9culos. Voltamos ent\u00e3o para Fulata. A pobre rapariga<br \/>\ntinha uma grande facada e estava a morrer.<\/p>\n<p>&#8211; Ah Bogu\u00e3! (era assim que os cacuanas chamavam a John). Ah Bogu\u00e3!<br \/>\n&#8211; exclamou, sufocada, a bela criatura. &#8211; Gagula saiu fora. Eu n\u00e3o a<br \/>\nvi, estava meio desmaiada. Ent\u00e3o a porta come\u00e7ou a descer&#8230;<br \/>\nEla ainda entrou, foi olhar para v\u00f3s&#8230; Depois tornava a sair, quando<br \/>\neu a agarrei, e ela me deu uma facada, e agora morro! &#8211; Pobre rapariga! Minha<br \/>\npobre rapariga! &#8211; gritava John. E como n\u00e3o podia fazer outra cousa,<br \/>\ncome\u00e7ou a dar-lhe beijos, longos beijos.<\/p>\n<p>Ela sorria, arfando, com as p\u00e1lpebras cerradas. Depois: &#8211; Macumaz\u00e3,<br \/>\nest\u00e1s a\u00ed?&#8230; J\u00e1 mal vejo&#8230; Est\u00e1s a\u00ed?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou, Fulata. Que queres? &#8211; Fala por mim, Macumaz\u00e3. Dize a Bogu\u00e3<br \/>\nque n\u00e3o me compreende bem. Dize-lhe que o amei sempre, desde o primeiro<br \/>\ndia; que o amo&#8230; Mas que morro contente, porque ele n\u00e3o se podia prender<br \/>\na uma rapariga como eu&#8230; O sol n\u00e3o se casa com a noite.<\/p>\n<p>Teve um suspiro. A sua m\u00e3o errante procurava em redor.<\/p>\n<p>&#8211; Macumaz\u00e3, est\u00e1s a\u00ed? Dize-lhe que me aperte mais contra<br \/>\no peito, para eu sentir os seus bra\u00e7os. Assim, assim&#8230; Dize-lhe que<br \/>\num dia hei de tornar a v\u00ea-lo nas estrelas&#8230; Que hei de ir de estrela<br \/>\nem estrela, \u00e0 procura dele. Macumaz\u00e3, dize-lhe ainda que o amo,<br \/>\ndize-lhe ainda&#8230;Os l\u00e1bios sorriam, sem falar. Estava morta. As l\u00e1grimas<br \/>\nca\u00edam, quatro a quatro, pela face do meu pobre John.<\/p>\n<p>&#8211; Morta! &#8211; murmurava ele, agarrando ainda as m\u00e3os de Fulata. &#8211; J\u00e1<br \/>\nme n\u00e3o ouve! E n\u00e3o a tornar a ver, n\u00e3o a tornar a ver!<br \/>\nO bar\u00e3o disse ent\u00e3o, devagar, e numa estranha voz: &#8211; N\u00e3o<br \/>\ntardar\u00e1, amigo, que a tornes a ver.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? &#8211; Oh homens, pois n\u00e3o percebestes ainda que estamos<br \/>\nenterrados vivos? Foi ent\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o, que, pela primeira<br \/>\nvez, compreendi o indiz\u00edvel horror do que nos sucedia! Sim, com efeito!<br \/>\nA enorme massa de pedra estava fechada. O \u00fanico ser que lhe conhecia<br \/>\no segredo jazia esborrachado por ela, sob ela. For\u00e7\u00e1-la, s\u00f3<br \/>\nse tiv\u00e9ssemos ali massas de dinamite! Estava fechada para sempre! E<br \/>\nn\u00f3s ali fechados, detr\u00e1s dela! Durante momentos ficamos mudos,<br \/>\ncom os cabelos em p\u00e9, junto do cad\u00e1ver de Fulata. Toda a for\u00e7a<br \/>\nde homens, a coragem de homens, fugia de n\u00f3s bruscamente. \u00c9ramos<br \/>\nseres inertes. E compreend\u00edamos agora todo o plano monstruoso de Gagula<br \/>\n&#8211; as suas amea\u00e7as, as suas ironias, o seu sinistro convite para bebermos<br \/>\ne comermos diamantes. Sim, era o que t\u00ednhamos para beber e comer! Desde<br \/>\nLu, decerto, ela viera planejando a trai\u00e7\u00e3o &#8211; e s\u00f3 nos<br \/>\ntrouxera \u00e0 caverna, para nos deixar l\u00e1 dentro, morrendo junto<br \/>\ndos tesouros que apetec\u00earamos!<br \/>\n<!-- - 97 --><br \/>\n&#8211; \u00c9 necess\u00e1rio fazer alguma cousa &#8211; exclamou o bar\u00e3o,<br \/>\nnuma voz rouca. &#8211; \u00c2nimo, rapazes! A l\u00e2mpada vai findar. Vejamos<br \/>\nse, por um acaso, podemos achar o segredo, a mola que move a rocha.<\/p>\n<p>Recobramos um momento de energia, e, escorregando no sangue da pobre Fulata,<br \/>\nrompemos a apalpar ansiosamente a porta e as paredes do corredor. N\u00e3o<br \/>\nachamos nada; em mais de uma hora de desesperada busca, que nos esfolou as<br \/>\nm\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; A mola, se tal mola h\u00e1, est\u00e1 do lado de fora &#8211; disse eu.<br \/>\n&#8211; Foi por isso que Gagula saiu, como disse Fulata. Depois, se voltou, \u00e9<br \/>\nporque se queria certificar que est\u00e1vamos bem entretidos com os diamantes&#8230;<br \/>\nMalditos sejam eles, e maldita seja ela! &#8211; De resto &#8211; lembrou o bar\u00e3o<br \/>\n&#8211; se a infame bruxa tentou fugir pela fenda, \u00e9 que sabia bem que, pelo<br \/>\nlado de dentro, n\u00e3o podia levantar a rocha. N\u00e3o h\u00e1 nada<br \/>\na fazer com a porta. Vamos ver outra vez, na c\u00e2mara.<\/p>\n<p>Levantamos ent\u00e3o, com respeito e cuidado, o corpo de Fulata, fomo-lo<br \/>\ncolocar dentro, no ch\u00e3o, com os bra\u00e7os em cruz, junto das arcas<br \/>\nde dinheiro. Depois vim buscar o cesto de provis\u00f5es. E sentados junto<br \/>\ndos cofres de pedra, atulhados de riquezas que nos n\u00e3o podiam salvar,<br \/>\ndividimos as provis\u00f5es em doze pequenos lotes, que, a dois repastos<br \/>\npor dia, nos poderiam sustentar a vida por dois dias. Al\u00e9m da ca\u00e7a<br \/>\nfria e das carnes-secas, t\u00ednhamos duas caba\u00e7as de \u00e1gua.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, jantemos &#8211; disse o bar\u00e3o &#8211; que \u00e9 talvez o nosso pen\u00faltimo<br \/>\njantar neste mundo.<\/p>\n<p>Pouco era o apetite, naturalmente. Mas havia horas que est\u00e1vamos<br \/>\nem jejum, e aquela parca comida, molhada com avaros goles de \u00e1gua,<br \/>\nreconfortou-nos e deu-nos um vago alento de esperan\u00e7a. Come\u00e7amos<br \/>\nent\u00e3o a examinar sistematicamente as paredes da nossa pris\u00e3o,<br \/>\ncontando com a remota possibilidade de que existisse, al\u00e9m da porta<br \/>\nda rocha, outra sa\u00edda. Esquadrinhamos todos os recantos, arredamos<br \/>\ntodas as arcas, batemos as muralhas, sondamos o solo, exploramos a ab\u00f3bada.<br \/>\nFicamos exaustos sem achar nada. A l\u00e2mpada espirrava e amortecia. Quase<br \/>\ntodo o \u00f3leo estava chupado.<\/p>\n<p>&#8211; Que horas s\u00e3o, Quartelmar? &#8211; perguntou o bar\u00e3o.<\/p>\n<p>Tirei o rel\u00f3gio. Eram seis horas. T\u00ednhamos entrado \u00e0s<br \/>\nonze na caverna.<\/p>\n<p>&#8211; Infand\u00f3s h\u00e1 de dar pela nossa falta &#8211; lembrei eu. &#8211; Se nos<br \/>\nn\u00e3o vir voltar esta noite, decerto nos vem procurar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o? &#8211; exclamou o bar\u00e3o. &#8211; De que serve? Infand\u00f3s<br \/>\nn\u00e3o conhece o segredo da porta; ningu\u00e9m o conhecia sen\u00e3o<br \/>\nGagula. Ainda que conhecesse a porta, n\u00e3o a podia arrombar. Nem todo<br \/>\no ex\u00e9rcito dos cacuanas, com as suas azagaias, pode furar cinco p\u00e9s<br \/>\nde rocha viva. Ningu\u00e9m nos pode salvar sen\u00e3o Deus! Houve entre<br \/>\nn\u00f3s um longo, grave sil\u00eancio. De repente a luz flamejou, mostrando,<br \/>\nnum relevo forte, todo o interior da c\u00e2mara, o grande monte dos marfins<br \/>\nbrancos, as arcas de dinheiro pintadas de vermelho, o corpo da pobre Fulata<br \/>\nestirado diante delas, o saco de couro cheio de diamantes, a vaga refra\u00e7\u00e3o<br \/>\nque sa\u00eda dos cofres de pedras abertos, e as l\u00edvidas faces de<br \/>\nn\u00f3s tr\u00eas, ali sentados a um canto, \u00e0 espera da morte.<br \/>\nDepois a luz bruxuleou e morreu.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>Cap\u00edtulo XV &#8211; Nas Entranhas da Terra<\/h2>\n<p>N\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel descrever, com exatid\u00e3o, as<br \/>\nagonias daquela noite. E ainda assim a divina miseric\u00f3rdia permitiu<br \/>\nque dorm\u00edssemos a espa\u00e7os. Mas o brusco acordar, a cada instante,<br \/>\nera pungente. Por mim, o que mais me torturava era o sil\u00eancio. Um sil\u00eancio<br \/>\ntenebroso, tang\u00edvel, absoluto, &#8211; o sil\u00eancio de uma sepultura<br \/>\ncavada nas profundidades rochosas do globo, e onde todas as artilharias troando,<br \/>\ne as trovoadas do c\u00e9u estalando, n\u00e3o poderiam fazer chegar a<br \/>\nmenor vibra\u00e7\u00e3o de som, fosse ele ao menos t\u00e3o leve como<br \/>\num leve zumbir de mosca&#8230; E ent\u00e3o, acordado, a monstruosa ironia da<br \/>\nnossa situa\u00e7\u00e3o ainda mais me acabrunhava. Em torno de n\u00f3s<br \/>\nfaziam riquezas incont\u00e1veis, bastantes para pagar as d\u00edvidas<br \/>\nde muitos Estados, construir frotas de coura\u00e7ados, erguer pal\u00e1cios<br \/>\ntodos feitos de ouro, saciar todas as forres, satisfazer todas as imagina\u00e7\u00f5es&#8230;<br \/>\nE de que nos serviam? Uma pouca de pedra bruta sem valor, mas que n\u00f3s<br \/>\nn\u00e3o pod\u00edamos quebrar com as nossas m\u00e3os, tornavam-nas<br \/>\nin\u00fateis, t\u00e3o sem valor como a pr\u00f3pria pedra! Uma arca<br \/>\ninteira de diamantes dar\u00edamos n\u00f3s com infinito prazer por um<br \/>\npouco de p\u00e3o, ou por outra caba\u00e7a de \u00e1gua. Mais! Dar\u00edamos<br \/>\ntodas as arcas de diamantes pelo privil\u00e9gio de morrer de repente, sem<br \/>\nsentir, sem sofrer! Na verdade, o que \u00e9 a riqueza? Sonho, est\u00fapida<br \/>\nilus\u00e3o! &#8211; John &#8211; disse o bar\u00e3o, do seu canto, num dos momentos<br \/>\nem que eu assim pensava &#8211; quantos f\u00f3sforos te restam? &#8211; Oito.<\/p>\n<p>&#8211; Acende um, v\u00ea as horas.<\/p>\n<p>A chama quase nos deslumbrou depois da intensa treva. Eram cinco horas no<br \/>\nmeu rel\u00f3gio. A alvorada estaria agora clareando as alturas da serra!<br \/>\nA brisa espalharia o aroma do rosmaninho em flor! Os soldados de Infand\u00f3s<br \/>\ncome\u00e7ariam agora a mexer-se nas suas mantas, junto das fogueiras apagadas<br \/>\n&#8211; e as nascentes de \u00e1gua, junto deles, cantariam de rocha em rocha.<br \/>\nDe assim pensar, as l\u00e1grimas umedeceram-me os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Era melhor comermos alguma cousa &#8211; sugeriu o bar\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea? &#8211; exclamou John. &#8211; Quanto mais depressa acabarmos com<br \/>\nisto, melhor! &#8211; Enquanto Deus permite a vida, \u00e9 que permite a esperan\u00e7a!<br \/>\n&#8211; respondeu o bar\u00e3o gravemente.<\/p>\n<p>Repartimos uma pouca de carne-seca e de \u00e1gua. Enquanto com\u00edamos,<br \/>\num de n\u00f3s lembrou que nos avizinh\u00e1ssemos da porta, e grit\u00e1ssemos<br \/>\ncom toda a for\u00e7a, porque talvez Infand\u00f3s, andando j\u00e1<br \/>\nna caverna \u00e0 nossa procura, ouvisse o remoto som das nossas vozes.<br \/>\nJohn, que, como marinheiro, tinha o h\u00e1bito de gritar, desceu o corredor<br \/>\n\u00e0s apalpadelas, e come\u00e7ou a berrar furiosamente. Nunca, decerto,<br \/>\nouvi uivos iguais; mas foram t\u00e3o ineficazes como um murm\u00fario<br \/>\nde inseto. O resultado \u00fanico foi que John voltou com a garganta ressequida,<br \/>\ne teve de chupar um trago da pouca \u00e1gua que restava. Gritar s\u00f3<br \/>\nnos fazia sede. Desistimos desse esfor\u00e7o in\u00fatil.<\/p>\n<p>De sorte que nos agachamos de novo junto dos cofres cheios de diamantes,<br \/>\nnaquela horr\u00edvel ina\u00e7\u00e3o que era um dos nossos maiores<br \/>\ntormentos. E eu, ent\u00e3o, cedi ao desespero. Deixei cair a cabe\u00e7a<br \/>\nno ombro do bar\u00e3o, e desatei a chorar. Do outro lado o pobre John solu\u00e7ava<br \/>\ntamb\u00e9m.<\/p>\n<p><!-- - 99 --><br \/>\nGrande alma, e corajosa, e doce, era a do bar\u00e3o. Se n\u00f3s f\u00f4ssemos<br \/>\nduas criancinhas assustadas, e ele a nossa m\u00e3e, n\u00e3o nos teria<br \/>\nanimado e consolado com maior carinho. Esquecendo a sua pr\u00f3pria sorte,<br \/>\nfez tudo para nos serenar, contando casos de homens que se tinham encontrado<br \/>\nem lances terrivelmente iguais, e que milagrosamente tinham escapado. Depois<br \/>\nlevava-nos a considerar que, no fim de tudo, n\u00f3s est\u00e1vamos simplesmente<br \/>\nchegando \u00e0quele fim a que todos t\u00eam de chegar; que tudo em breve<br \/>\nacabaria, e que a morte por inani\u00e7\u00e3o \u00e9 suave (o que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 verdade). E enfim, com um modo diferente, pedia-nos que nos abandon\u00e1ssemos<br \/>\n\u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus, e lhe rog\u00e1ssemos, na nossa mis\u00e9ria,<br \/>\num olhar dos seus olhos piedosos. Natureza ador\u00e1vel, a deste homem!<br \/>\nQuanta serenidade, e quanta for\u00e7a! Eu, por mim, acolhia-me a ele como<br \/>\na um grande ref\u00fagio. E, por sua exorta\u00e7\u00e3o, rezei e serenei.<\/p>\n<p>Assim passou o dia (se tal treva se pode chamar dia), at\u00e9 que acendi<br \/>\noutro f\u00f3sforo, olhei o rel\u00f3gio. Eram sete horas! Pensamos ent\u00e3o<br \/>\nem comer.<\/p>\n<p>E quando est\u00e1vamos dividindo a carne-seca, ocorreu-me, de repente,<br \/>\numa id\u00e9ia estranha: &#8211; Por que \u00e9 &#8211; disse eu &#8211; que o ar aqui se<br \/>\nconserva t\u00e3o fresco? \u00c9 um pouco espesso, mas \u00e9 fresco.<\/p>\n<p>&#8211; Santo Deus! &#8211; exclamou John erguendo-se com um pulo. &#8211; Nunca pensei nisso!<br \/>\nCom efeito, \u00e9 fresco&#8230; N\u00e3o pode vir de fora pela porta de pedra,<br \/>\nporque reparei perfeitamente que ela gira dentro de quelhas&#8230; Tem de vir<br \/>\nde outro s\u00edtio. Se n\u00e3o houvesse uma corrente de ar, dev\u00edamos<br \/>\nficar sufocados, quando aqui entramos ontem&#8230; Agora mesmo dev\u00edamo-nos<br \/>\nsentir abafados. Evidentemente, o ar \u00e9 renovado. Vamos a ver! Ainda<br \/>\nele n\u00e3o findara, j\u00e1 n\u00f3s and\u00e1vamos de gatas, \u00e0s<br \/>\napalpadelas, na escurid\u00e3o, procurando sofregamente qualquer indica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde buraco ou fenda, por onde entrasse ar. Houve um momento em que pousei a<br \/>\nm\u00e3o no quer que fosse de gelado. Era a face da pobre Fulata, j\u00e1<br \/>\nr\u00edgida. Durante uma hora, ou mais, passamos assim apalpando todos os<br \/>\ncantos, at\u00e9 que o bar\u00e3o e eu desistimos, esfalfados, e todos<br \/>\npisados de ter constantemente batido com a cabe\u00e7a os muros, nos dentes<br \/>\nde elefante, e nas esquinas das arcas.<\/p>\n<p>Mas John continuou, sem perder a esperan\u00e7a, declarando que &#8220;era<br \/>\nmelhor aquilo que pensar na morte, de bra\u00e7os cruzados&#8221;. De repente,<br \/>\nteve uma exclama\u00e7\u00e3o: &#8211; Oh rapazes! Aqui! Vinde c\u00e1.<\/p>\n<p>Com que precipita\u00e7\u00e3o corremos para o canto de onde ele falara!<br \/>\n&#8211; Quartelmar, ponha aqui a m\u00e3o, onde est\u00e1 a minha. A\u00ed.<br \/>\nQue sente? &#8211; Parece-me que sinto um fio de ar.<\/p>\n<p>&#8211; Agora ou\u00e7a! Ergueu-se, e bateu com o p\u00e9 no ch\u00e3o.<br \/>\nUma imensa esperan\u00e7a relampejou-nos na alma. A laje soava oco. Com<br \/>\nas m\u00e3os a tremer acendi um f\u00f3sforo. Est\u00e1vamos num recanto<br \/>\nde que ainda n\u00e3o suspeit\u00e1ramos &#8211; e aos nossos p\u00e9s, na<br \/>\nlaje que pis\u00e1vamos, e como encrustada nela, havia uma grossa argola<br \/>\nde pedra. N\u00e3o tivemos uma palavra, na imensa excita\u00e7\u00e3o<br \/>\nque de n\u00f3s se apoderou. John tinha uma navalha, com um desses ganchos<br \/>\nque servem para extrair pedras pequenas das ferraduras dos cavalos.<\/p>\n<p><!-- - 100 --><br \/>\nAjoelhou-se e come\u00e7ou a raspar com o gancho, em torno da argola. Raspou,<br \/>\nraspou &#8211; at\u00e9 que conseguiu introduzir a ponta do gancho sob a argola,<br \/>\nlevant\u00e1-la pouco a pouco, p\u00f4-la a prumo. Depois deitou-lhe as<br \/>\nm\u00e3os, e puxou desesperadamente. Nada se moveu.<\/p>\n<p>&#8211; Deixai-me ver a mim! &#8211; exclamei com impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>Agarrei, pondo toda a minha for\u00e7a no pux\u00e3o cont\u00ednuo<br \/>\ne intenso. Escalavrei as m\u00e3os. A pedra n\u00e3o se moveu. Depois<br \/>\nfoi o bar\u00e3o. Sent\u00edamo-lo gemer. A pedra n\u00e3o se moveu.<\/p>\n<p>De novo John se atirou de joelhos, e com o gancho da navalha raspou em redor<br \/>\nda frincha por onde n\u00f3s sent\u00edamos como um d\u00e9bil h\u00e1lito<br \/>\nde ar. Em seguida tirou um grosso len\u00e7o de seda que lhe envolvia o<br \/>\npesco\u00e7o, e passou-o na argola.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, bar\u00e3o! M\u00e3os ao len\u00e7o, e puxar at\u00e9 rebentar!<br \/>\nQuartelmar, agarre o bar\u00e3o pela cinta, e puxem ambos quando eu disser&#8230;<br \/>\nUm, dois, v\u00e1! Em sil\u00eancio, com os dentes rilhados, puxamos, puxamos<br \/>\n&#8211; at\u00e9 que eu sentia rangerem os ossos do bar\u00e3o. Era ele que<br \/>\nfazia o esfor\u00e7o maior, com os seus enormes bra\u00e7os de ferro.<br \/>\nE foi ele que sentiu a pedra mexer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Agora! Agora! Est\u00e1 cedendo! Mais! Ala, ala! H\u00e9h! Um estalo,<br \/>\numa rajada brusca de ar, e rolamos estatelados no ch\u00e3o, com a pedra<br \/>\npor cima de n\u00f3s. Fora a imensa for\u00e7a do bar\u00e3o que fizera<br \/>\no prod\u00edgio. Que grande cousa, a for\u00e7a! &#8211; Um f\u00f3sforo,<br \/>\nQuartelmar! &#8211; exclamou ele, erguendo-se, ainda arquejante.<\/p>\n<p>Acendi o f\u00f3sforo. E, louvado Deus! Vimos diante de n\u00f3s os<br \/>\nprimeiros degraus de uma escada de pedra! &#8211; E agora? &#8211; perguntou John.<\/p>\n<p>&#8211; Descer! E confiar em Deus! &#8211; Esperai! &#8211; gritou o bar\u00e3o. &#8211; Quartelmar,<br \/>\nveja se apalpa e acha o resto da comida e da \u00e1gua. Quem sabe onde iremos<br \/>\nparar? Achei logo as provis\u00f5es, que estavam junto da arca de pedra,<br \/>\ncheia de diamantes. E j\u00e1 enfiara o cesto no bra\u00e7o, quando pensei<br \/>\nnos diamantes&#8230; Por que n\u00e3o? Quem sabe? Talvez por merc\u00ea divina,<br \/>\nach\u00e1ssemos uma sa\u00edda! N\u00e3o fazia mal nenhum, \u00e0<br \/>\ncautela, meter um punhado de diamantes na algibeira!&#8230; Se cheg\u00e1ssemos<br \/>\na sair daquela horr\u00edvel cova, n\u00e3o teriam sido ao menos in\u00fateis<br \/>\ntodas as nossas ang\u00fastias. Um punhado de diamantes nada pesava! E,<br \/>\nao acaso, mergulhei a m\u00e3o na arca e comecei a encher todos os bolsos<br \/>\nda minha rabona. Depois atulhei as algibeiras das pantalonas. J\u00e1 abalava,<br \/>\nquando voltei ainda, com uma id\u00e9ia, \u00e0 arca onde estavam as pedras<br \/>\nmais gra\u00fadas. E encafuei uma enorme m\u00e3o cheia delas para dentro<br \/>\nda algibeira do peito. O contato vivo daquelas riquezas fez-me pensar nos<br \/>\noutros.<\/p>\n<p>&#8211; Oh rapazes! N\u00e3o quereis levar uns poucos de diamantes? Eu enchi<br \/>\nas algibeiras.<\/p>\n<p>&#8211; Diabos levem os diamantes &#8211; disse do canto o bar\u00e3o, impaciente.<br \/>\n&#8211; At\u00e9 me faz n\u00e1useas a id\u00e9ia de diamantes! &#8211; \u00c9<br \/>\nmarchar, \u00e9 marchar! Enquanto ao amigo John, esse nem respondeu. Creio<br \/>\nque estava de joelhos, junto do corpo de Fulata, dando o \u00faltimo adeus<br \/>\n\u00e0quela que por ele morrera! Quando nos achamos junto do al\u00e7ap\u00e3o,<br \/>\nj\u00e1 o bar\u00e3o descera o primeiro degrau.<\/p>\n<p>&#8211; Eu vou adiante; segui devagar.<\/p>\n<p><!-- - 101 --><br \/>\n&#8211; Cuidado! &#8211; gritei eu. &#8211; Pode haver por baixo algum medonho buraco. V\u00e1<br \/>\ntenteando&#8230; M\u00e3o encostada sempre \u00e0 parede&#8230; O bar\u00e3o<br \/>\ndesceu, contando os degraus. Quando chegara a quinze, parou.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um corredor &#8211; gritou ele de baixo.<\/p>\n<p>&#8211; Descei! Quando chegamos ao fundo, acendi um dos dois f\u00f3sforos que<br \/>\nnos restavam. \u00c0 luz que ele deu, vimos um pequeno espa\u00e7o, onde<br \/>\nse encontravam, em \u00e2ngulo reto, dois t\u00faneis muito estreitos.<br \/>\nO f\u00f3sforo morreu, queimando-me os dedos. E ficamos numa horr\u00edvel<br \/>\nhesita\u00e7\u00e3o! Qual dos t\u00faneis seguir? John, ent\u00e3o,<br \/>\nlembrou-se que a chama do f\u00f3sforo se inclinara para a banda do t\u00fanel<br \/>\nda esquerda. Portanto o ar vinha pelo t\u00fanel da direita. Era por esse<br \/>\nque dev\u00edamos caminhar, demandando o lado do ar.<\/p>\n<p>Aceitamos a id\u00e9ia. E apalpando sempre a parede, n\u00e3o arriscando<br \/>\num passo sem tentear o solo, seguimos nesta nova e incerta aventura. Ao fim<br \/>\nde um quarto de hora de marcha lenta, esbarramos num muro. Era outro t\u00fanel<br \/>\ntransversal, por onde continuamos cosidos com o muro. Depois desse topamos<br \/>\noutro, que o cruzava em \u00e2ngulo agudo. Depois havia outro, mais largo.<br \/>\nE assim durante horas. Est\u00e1vamos num labirinto de rocha viva. Para<br \/>\nque tivessem servido outrora estas inumer\u00e1veis passagens subterr\u00e2neas,<br \/>\nn\u00e3o sei dizer &#8211; mas tinham a apar\u00eancia de galerias de mina.<\/p>\n<p>Finalmente paramos, esfalfados, com a esperan\u00e7a meio perdida. Comemos<br \/>\nos restos das provis\u00f5es, bebemos os derradeiros goles de \u00e1gua.<br \/>\nT\u00ednhamos escapado de morrer nas trevas de uma cova de diamantes &#8211; para<br \/>\nvir talvez morrer nas trevas de uma mina vazia&#8230;<\/p>\n<p>Quando assim est\u00e1vamos sentados no ch\u00e3o, encostados ao muro,<br \/>\nnum infinito desalento &#8211; eu julguei ouvir um som, d\u00e9bil e vago, como<br \/>\na dist\u00e2ncia. Avisei os outros; escutamos sem respirar. E todos muito<br \/>\nclaramente distinguimos um som. Era muito t\u00eanue, muito remoto, &#8211; mas<br \/>\nera um som, um som murmurante e cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>&#8211; Santo Deus! &#8211; exclamou John. &#8211; \u00c9 \u00e1gua a correr! Tenho a<br \/>\ncerteza que \u00e9 \u00e1gua a correr.<\/p>\n<p>Num instante est\u00e1vamos de p\u00e9, caminhando para o som. A cada<br \/>\npasso o sent\u00edamos mais distinto, mais claro, na imensa mudez do t\u00fanel.<br \/>\nSempre para diante, sempre para diante! O som ia crescendo. Por fim era um<br \/>\nru\u00eddo forte, o ru\u00eddo de uma corrente de \u00e1gua. Mas como<br \/>\npodia haver \u00e1gua corrente nestas entranhas da terra?&#8230; E todavia,<br \/>\ncom certeza, ali perto corria \u00e1gua com for\u00e7a. John, marchando<br \/>\nadiante, jurava que lhe percebia j\u00e1 a umidade e o cheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Devagar, John, devagar! &#8211; gritou o bar\u00e3o. &#8211; Devemos estar perto&#8230;<\/p>\n<p>De repente um baque na \u00e1gua, um grito de John! Tinha ca\u00eddo.<\/p>\n<p>&#8211; John! John! Onde est\u00e1s? &#8211; berramos, perdidos de terror. &#8211; Fala!<br \/>\nFala! Que alivio, quando a voz dele nos veio de longe, sufocada.<\/p>\n<p>&#8211; Salvo. Agarrei-me a uma pedra! Acendei um f\u00f3sforo para eu ver onde<br \/>\nestais! Raspei o meu \u00faltimo f\u00f3sforo. \u00c0 sua luz tr\u00eamula<br \/>\nvimos aos nossos p\u00e9s uma imensa massa de \u00e1gua, correndo com<br \/>\ngrande for\u00e7a. Que largura tinha n\u00e3o percebemos&#8230; Mas, \u00e0<br \/>\ndist\u00e2ncia, distinguimos a forma vaga do nosso companheiro, pendurado<br \/>\nde um penedo agudo.<\/p>\n<p>&#8211; Preparai-vos para me agarrar &#8211; gritou ele de l\u00e1. &#8211; Vou nadar para<br \/>\na\u00ed!<br \/>\n<!-- - 102 --><br \/>\nOutro baque, uma grande luta de bra\u00e7os batendo a \u00e1gua. Depois,<br \/>\njunto de n\u00f3s, num resfolegar ansioso. E, por fim, uma exclama\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo bar\u00e3o, que agarrara o nosso amigo pelas m\u00e3os, o puxava para<br \/>\ndentro do t\u00fanel, a escorrer.<\/p>\n<p>&#8211; Irra! &#8211; balbuciava John, ofegando. &#8211; Estive por um fio. \u00c9 uma corrente<br \/>\nfuriosa e parece-me que n\u00e3o tem fundo. Evidentemente, deste lado nada<br \/>\nconsegu\u00edamos. De sorte que, depois de John descansar, de bebermos \u00e0<br \/>\nfarta daquela \u00e1gua que era deliciosa, e de lavarmos a cara, deixamos<br \/>\nas margens daquele tenebroso rio, e retrocedemos ao comprido do t\u00fanel,<br \/>\ncom John adiante, tiritando e pingando. Depois de andarmos um quarto de hora<br \/>\n&#8211; chegamos a outro t\u00fanel que se inclinava para a direita e parecia<br \/>\nmais largo.<\/p>\n<p>&#8211; Seguimos este &#8211; disse o bar\u00e3o inteiramente desalentado. &#8211; Todos<br \/>\neles s\u00e3o iguais. O melhor \u00e9 andarmos, andarmos, at\u00e9 cair<br \/>\na\u00ed para um canto, sem poder mais, \u00e0 espera da morte. Durante<br \/>\nmuito, muito tempo, mudos, em fila, arrastamos os passos na treva, atr\u00e1s<br \/>\ndo bar\u00e3o, cifas fortes pernas j\u00e1 frouxeavam.<\/p>\n<p>De repente esbarramos com ele &#8211; que estacara, como at\u00f4nito.<\/p>\n<p>&#8211; Quartelmar! &#8211; exclamou ele, agarrando-me convulsivamente o bra\u00e7o.<br \/>\n&#8211; Eu estou a delirar ou aquilo al\u00e9m \u00e9 luz? Arregalamos desesperadamente<br \/>\nos olhos. E com efeito, l\u00e1 ao longe, ao fundo do t\u00fanel, vimos<br \/>\numa p\u00e1lida, vaga mancha de claridade, pouco maior do que um vidro de<br \/>\njanela! Com outro alento de esperan\u00e7a, estugamos o passo. Momentos<br \/>\ndepois toda a d\u00favida cessara, deliciosamente. Era luz &#8211; uma desmaiada<br \/>\nmancha de luz! Trope\u00e7\u00e1vamos uns contra os outros na nossa ansiedade.<br \/>\nMais viva, cada vez mais viva a luz! Por fim, um ar fresco bateu-nos a face!&#8230;<br \/>\nMas, de repente, o t\u00fanel estreitou. Caminhamos curvados. Depois estreitou<br \/>\nmais. Gatinhamos, de m\u00e3os no ch\u00e3o. E estreitou ainda, como uma<br \/>\ntoca de raposa. Fomos de rastos. Mas a rocha findara.<\/p>\n<p>Era terra, terra fri\u00e1vel, que se esboroava&#8230; Um empux\u00e3o,<br \/>\num gemido, e o bar\u00e3o furou, e John furou, e eu furei &#8211; e sobre as nossas<br \/>\ncabe\u00e7as luziam as benditas estrelas, e na nossa face batia uma aragem<br \/>\ndoce! De repente faltou-nos o ch\u00e3o, e todos tr\u00eas, \u00e0 uma,<br \/>\nrolamos, de escantilh\u00e3o, por um declive abaixo, de terra mole e \u00famida,<br \/>\nentre capim e tojo&#8230; Agarrei uma cousa e parei. Estonteado, coberto de lodo,<br \/>\nberrei pelos outros, desesperadamente. Um brado em resposta veio de baixo,<br \/>\nde uma terra onde o bar\u00e3o fora parar. Resvalei at\u00e9 l\u00e1,<br \/>\ne fui encontrar o nosso amigo atordoado, sem f\u00f4lego, mas intacto. Gritamos<br \/>\nent\u00e3o por John. E uns ol\u00e1s arquejantes guiaram-nos ao s\u00edtio<br \/>\nonde uma raiz de \u00e1rvore, em que ainda estava acavalado, o detivera<br \/>\nno desesperado tombo.<\/p>\n<p>Sentamo-nos ent\u00e3o todos tr\u00eas na relva &#8211; e vendo-nos fora da<br \/>\nf\u00fanebre caverna, salvos, s\u00e3os, a respirar outra vez o ar da<br \/>\nterra, a emo\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o forte que come\u00e7amos a<br \/>\nchorar de alegria. Seguramente fora Deus misericordioso que nos guiara por<br \/>\naquele t\u00fanel, para aquele buraco, que era a porta da Vida! E agora,<br \/>\na manh\u00e3 que julg\u00e1vamos nunca mais ver, estava roseando o topo<br \/>\ndos montes.<\/p>\n<p>\u00c0 sua luz bendita vimos, ent\u00e3o, que nos ach\u00e1vamos no<br \/>\nfundo, ou quase no fundo, daquela imensa cova circular que fora outrora a<br \/>\nmina de Diamantes. L\u00e1 no alto, j\u00e1 pod\u00edamos distinguir<br \/>\nas confusas formas dos tr\u00eas colossos. Sem d\u00favida aqueles corredores<br \/>\npor onde t\u00ednhamos vagueado, t\u00e3o angustiosamente, comunicavam<br \/>\noutrora<br \/>\n<!-- - 103 --><br \/>\ncom as Diamanteiras. E enquanto ao tenebroso rio&#8230; Mas que nos importava<br \/>\nagora o rio? A luz do dia clareava. Est\u00e1vamos envolvidos na luz do<br \/>\ndia! S\u00f3 isto era essencial e doce de saber! N\u00e3o pod\u00edamos<br \/>\ndeixar, todavia, de pasmar para as nossas figuras. Escaveirados, esgazeados,<br \/>\nrotos, cheios de pisaduras, com camadas de p\u00f3 e de lama, sangue nas<br \/>\nm\u00e3os e sangue nas faces &#8211; \u00e9ramos, na verdade, tr\u00eas espantalhos<br \/>\nmedonhos. Mas n\u00e3o havia a pensar em nos sacudirmos ou nos ajeitarmos.<br \/>\nAquele fundo da cova, \u00famido e regelado, era perigoso para corpos como<br \/>\nos nossos t\u00e3o exaustos. De sorte que come\u00e7amos, com lentos e<br \/>\ncustosos passos, a trepar as ladeiras \u00edngremes, atrav\u00e9s da greda<br \/>\nazulada, agarrando-nos \u00e0s ra\u00edzes, e agarrando-nos ao tojo, num<br \/>\nesfor\u00e7o \u00faltimo que nos esva\u00eda. Ao fim de uma hora estava<br \/>\nterminada a fa\u00e7anha -e os nossos p\u00e9s, tr\u00eamulos, pisavam<br \/>\noutra vez a estrada de Salom\u00e3o. A umas cem jardas adiante brilhava<br \/>\numa fogueira junto de cabanas, e em volta dela estavam homens. Para l\u00e1<br \/>\ncaminhamos, amparando-nos uns aos outros, e parando, meio desmaiados, a cada<br \/>\npasso incerto. De repente um dos homens que se aquecia ao lume ergueu-se,<br \/>\navistou-nos &#8211; e atirou-se de bru\u00e7os ao ch\u00e3o, tremendo, gritando<br \/>\nde medo.<\/p>\n<p>&#8211; Infand\u00f3s, Infand\u00f3s, somos n\u00f3s teus amigos! Ele levantou<br \/>\na cabe\u00e7a, depois o corpo. Por fim correu para n\u00f3s, com os olhos<br \/>\nesbugalhados, e ainda tremendo todo: &#8211; Oh meus senhores! Sois v\u00f3s!<br \/>\nSois v\u00f3s! Voltais do fundo dos mortos!&#8230; Voltais do fundo dos mortos!&#8230;<\/p>\n<p>E o velho guerreiro, abra\u00e7ando-se ao bar\u00e3o pelos joelhos,<br \/>\nrompeu a solu\u00e7ar de alegria.<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a>Cap\u00edtulo XVI &#8211; A Partida de Lu<\/h2>\n<p>Dez dias depois est\u00e1vamos de novo em Lu &#8211; nas nossas confort\u00e1veis<br \/>\ncubatas de Lu, \u00e0 sombra dos machabeles. E poucos vest\u00edgios nos<br \/>\nrestavam daquela atroz aventura, al\u00e9m dos muitos cabelos brancos que<br \/>\neu trazia, e da melancolia em que ca\u00edra o nosso pobre John, com o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nainda cheio de Fulata.<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil acrescentar que n\u00e3o tornamos a penetrar no<br \/>\ntesouro de Salom\u00e3o &#8211; apesar de sagazes e met\u00f3dicas tentativas.<br \/>\nNaquele dia em que Infand\u00f3s nos acolheu como a ressuscitados, nada<br \/>\nfizemos sen\u00e3o comer, dormir, descansar, gozar o sol. Logo no dia seguinte,<br \/>\npor\u00e9m, descemos com uma escolta \u00e0 grande cova, na esperan\u00e7a<br \/>\nde encontrar o buraco por onde t\u00ednhamos furado para a luz e para a<br \/>\nvida. Foi debalde. Em primeiro lugar, chovera copiosamente de noite, e todas<br \/>\nas nossas pegadas tinham desaparecido; mas, al\u00e9m disso, os declives<br \/>\nem funil da enorme cova estavam por todos os lados cheios de buracos, uns<br \/>\nnaturais, outros feitos por bichos. Qual deles nos salvara, entre tantos milhares?<br \/>\nImposs\u00edvel descobrir! Depois disso voltamos \u00e0 caverna de estalactites,<br \/>\nafrontamos outra vez os horrores da c\u00e2mara dos reis mortos; e durante<br \/>\nmuito tempo rondamos diante da muralha de pedra, para al\u00e9m da qual<br \/>\njaziam, inacess\u00edveis para sempre, os maiores tesouros da terra, para<br \/>\nsempre guardados funebremente pelo esqueleto da pobre Fulata. Mas, apesar<br \/>\nde examinarmos a muralha durante horas, de a apalpar, de martelar, sobre ela,<br \/>\nn\u00e3o nos foi poss\u00edvel achar o segredo da porta, &#8211; sob a qual<br \/>\njaziam . &#8211;<br \/>\n<!-- 104 --><br \/>\npulverizados os fragmentos da hedionda bruxa, que, com a sua trai\u00e7\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3 ganhara a sua perda. Em quanto a for\u00e7ar aqueles cinco p\u00e9s<br \/>\nde rocha viva, quem podia pensar em tal feito? Nem todo o ex\u00e9rcito<br \/>\ndos cacuanas, trabalhando anos, lograria passar atrav\u00e9s. S\u00f3<br \/>\ncom dinamite, &#8211; ou trazendo pelo deserto poderosas m\u00e1quinas. E assim,<br \/>\nl\u00e1 est\u00e3o ainda, nesse remoto canto de \u00c1frica, os tesouros,<br \/>\nque desde os tempos b\u00edblicos tanto t\u00eam fascinado a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos homens. Um dia talvez, quando a \u00c1frica toda estiver civilizada,<br \/>\ncortada de estradas, coberta de cidades, algu\u00e9m mais feliz que n\u00f3s,<br \/>\ne com os incalcul\u00e1veis recursos da ci\u00eancia de ent\u00e3o, penetrar\u00e1<br \/>\nno vedado tesouro, e ser\u00e1 rico al\u00e9m de toda a fantasia! Esse,<br \/>\nse jamais existir, encontrar\u00e1 l\u00e1, como vest\u00edgio da nossa<br \/>\npassagem, as arcas abertas e os ossos da pobre Fulata, e uma l\u00e2mpada<br \/>\napagada. A esse tempo j\u00e1 estar\u00e1 perdida a mem\u00f3ria deste<br \/>\nlivro, contando a estranha aventura. E esse explorador futuro mal suspeitar\u00e1<br \/>\nent\u00e3o, ao dar com o p\u00e9 nesses ossos, ao remexer essas riquezas,<br \/>\nque tr\u00eas homens do s\u00e9culo XIX passaram ali um dos mais tr\u00e1gicos<br \/>\nlances que jamais foi dado a homem passar&#8230;<\/p>\n<p>Devo, todavia, acrescentar que, materialmente, a nossa estada na caverna<br \/>\nn\u00e3o foi de todo in\u00fatil. Como contei, ao abandonarmos o tesouro,<br \/>\neu tive a espl\u00eandida precau\u00e7\u00e3o de atulhar as algibeiras<br \/>\nde diamantes. Muitos destes, e sobretudo os maiores, ca\u00edram, ficaram<br \/>\nperdidos, quando eu rolei pelos declives da cova. Mas ainda me restou nos<br \/>\nbolsos uma enorme quantidade. N\u00e3o lhe posso calcular o valor. Deve<br \/>\nser imenso! Suponho que trouxemos ainda diamantes bastantes para sermos todos<br \/>\ntr\u00eas milion\u00e1rios, e possuirmos os tr\u00eas mais ricos adere\u00e7os<br \/>\nde j\u00f3ias que existam no mundo. Em resumo, no ponto de vista econ\u00f4mico,<br \/>\na aventura n\u00e3o gorou.<\/p>\n<p>Em Lu, fomos acolhidos pelo Rei Ignosi com grande amizade e regozijo. Apesar<br \/>\nde fundamente absorvido nos cuidados de um reinado que come\u00e7a (e sobretudo<br \/>\nna reorganiza\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito), estivera em grande inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndurante a nossa longa demora nas minas. E foi com ardente curiosidade que<br \/>\nescutou a nossa maravilhosa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A not\u00edcia da morte de Gagula foi para ele um alivio imenso. &#8211; Quem<br \/>\nsabe &#8211; murmurou ele &#8211; se depois de vos deixar morrer no s\u00edtio escuro,<br \/>\nn\u00e3o acharia ainda artes de me matar a mim tamb\u00e9m! Para comemorar<br \/>\na nossa volta, Ignosi deu um banquete e uma dan\u00e7a. E foi nessa noite,<br \/>\nao fim da festa, no terreiro real, onde brilhava o luar, que n\u00f3s anunciamos<br \/>\nao rei o nosso desejo de deixar enfim o seu reino, e regressar \u00e0 nossa<br \/>\np\u00e1tria. Ignosi, primeiramente, pareceu espantado. Depois cobriu a face<br \/>\ncom as m\u00e3os: &#8211; O que v\u00f3s anunciais &#8211; exclamou ele por fim &#8211;<br \/>\nretalha o meu cora\u00e7\u00e3o! Sempre pensei que de todo ficar\u00edeis<br \/>\ncomigo. Para que foi ent\u00e3o, oh valentes, que me ajudastes a ser rei?<br \/>\nO que quereis? O que vos falta? Mulheres? Campos? Gados? Toda a terra que<br \/>\n\u00e9 minha \u00e9 vossa. Escolhei! \u00c9 uma casa como as que os<br \/>\nbrancos habitam no Natal que vos falta? Os meus homens, ensinados por v\u00f3s,<br \/>\nedificar\u00e3o uma entre jardins&#8230;<\/p>\n<p>Dizei! E cada um dos vossos desejos tem j\u00e1 a minha promessa de rei.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, Ignosi, n\u00e3o! &#8211; acudi eu. &#8211; O que n\u00f3s simplesmente<br \/>\ndesejamos \u00e9 voltar para as nossas terras.<\/p>\n<p>Ele, ent\u00e3o, sorriu com amargura. Sim, bem percebia! Nos nossos cora\u00e7\u00f5es<br \/>\nnunca houvera amor por ele, mas s\u00f3 cobi\u00e7a das pedras que brilham.<br \/>\nAgora t\u00ednhamos as pedras para vender, para recolher dinheiro&#8230; Estava<br \/>\nsatisfeito o vil desejo do . &#8211;<br \/>\n<!-- 105 --><br \/>\nbranco. Que importava pois o amigo que ficava chorando? Malditas fossem as<br \/>\npedras, e idos f\u00f4ssemos n\u00f3s bem cedo! Eu pousei-lhe a m\u00e3o<br \/>\nno bra\u00e7o: &#8211; Escuta, Ignosi! As tuas palavras n\u00e3o v\u00eam do<br \/>\nteu cora\u00e7\u00e3o. Escuta. Quando tu andavas exilado na Zulul\u00e2ndia,<br \/>\ne depois entre os homens brancos do Natal, n\u00e3o sentias tu o desejo<br \/>\nda terra de onde vieras, e de que tua m\u00e3e te falava? N\u00e3o se<br \/>\nte voltavam os olhos para o Norte, para onde estavam os campos e as senzalas<br \/>\nonde tu nasceras, onde brincaras com as ovelhas, onde os velhos que passavam<br \/>\nno caminho tinham conhecido teu pai?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assim era, Macumaz\u00e3, assim era! &#8211; exclamou o rei comovido.<\/p>\n<p>&#8211; Pois do mesmo modo o nosso cora\u00e7\u00e3o deseja a terra em que<br \/>\nnascemos.<\/p>\n<p>Ignosi baixou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; As tuas palavras, como sempre, Macumaz\u00e3, v\u00eam cheias de verdade<br \/>\ne raz\u00e3o. Sim, tendes de partir. E eu ficarei triste, porque n\u00e3o<br \/>\nmais me chegar\u00e3o not\u00edcias vossas, e v\u00f3s sereis para mim<br \/>\ncomo mortos! Esteve um momento pensando, com o dedo pousado na testa. Depois<br \/>\nchamou os chefes mais idosos, anunciou a nossa partida, ordenou que f\u00f4ssemos<br \/>\nacompanhados pelo regimento dos Pardos at\u00e9 \u00e0s montanhas, e da\u00ed<br \/>\ncom uma escolta e com guias, levados pelo caminho do O\u00e1sis (de que<br \/>\nele s\u00f3 recentemente tivera not\u00edcia), e que nos pouparia todos<br \/>\nos trabalhos da passagem das serras. Em seguida, erguendo a m\u00e3o, jurou<br \/>\nante os chefes que n\u00e3o permitiria jamais que nenhum branco entrasse<br \/>\nno seu reino a procurar as pedras que brilham; mas que n\u00f3s poder\u00edamos<br \/>\nvoltar sempre, porque \u00e9ramos os irm\u00e3os do seu cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\nE, por fim, decretou que os nossos nomes fossem considerados sagrados como<br \/>\nos nomes dos reis mortos e que assim se proclamasse por todo o reino, de montanha<br \/>\nem montanha.<\/p>\n<p>&#8211; E agora ide! Ide antes que os meus olhos vertam l\u00e1grimas como os<br \/>\nde uma mulher. Quando estiverdes longe, nas vossas casas, junto das vossas<br \/>\nlareiras, pensai por vezes em mim&#8230;<\/p>\n<p>Adeus! Adeus para sempre, Incubu, Macumaz\u00e3, Bogu\u00e3, grandes<br \/>\nhomens e meus amigos! Ergueu-se; esteve um momento olhando fixamente para<br \/>\nn\u00f3s um por um; depois escondeu a cabe\u00e7a no seu manto de pele<br \/>\nde leopardo, e fugiu para dentro da senzala real. N\u00f3s afastamo-nos<br \/>\nem sil\u00eancio, e com o cora\u00e7\u00e3o pesado. Na madrugada seguinte<br \/>\npartimos de Lu, acompanhados por Infand\u00f3s e pelo regimento dos Pardos.<br \/>\nApesar de t\u00e3o cedo, as ruas estavam apinhadas de gente que nos lan\u00e7ava<br \/>\na sauda\u00e7\u00e3o Krum, e nos desejava boa jornada! As mulheres atiravam-nos<br \/>\nflores ao passar. Todos os tant\u00e3s ressoavam. Era como uma grande cerim\u00f4nia<br \/>\nreal.<\/p>\n<p>Pelo caminho Infand\u00f3s foi-nos explicando que havia, com efeito, uma<br \/>\npassagem nas montanhas mais f\u00e1cil do que aquela por onde vi\u00e9ramos<br \/>\n&#8211; ou antes, que era poss\u00edvel descer por aquela alta escarpa, que separa<br \/>\nos dois &#8220;Seios de Sab\u00e1&#8221; como um muro separa duas torres.<br \/>\nHavia um ano, um bando de ca\u00e7adores cacuanas, indo ao deserto, \u00e0<br \/>\nprocura do avestruz, tinham achado e seguido este caminho. Ao fim dele encontraram<br \/>\no deserto; e ao fundo, no horizonte, avistaram maci\u00e7os de \u00e1rvores.<br \/>\nLevados pela sede caminharam para l\u00e1, e acharam um largo e f\u00e9rtil<br \/>\no\u00e1sis, cheio de fruta, de ca\u00e7a e de \u00e1gua. E da\u00ed,<br \/>\ndiziam os ca\u00e7adores, podiam-se distinguir no . &#8211;<br \/>\n<!-- 106 --><br \/>\nhorizonte outros lugares f\u00e9rteis, formando como uma continua\u00e7\u00e3o<br \/>\nde o\u00e1sis. Deste modo era talvez poss\u00edvel diminuir os horrores<br \/>\nde uma nova travessia no deserto.<\/p>\n<p>Ao fim de quatro dias de marcha chegamos, com efeito, ao alto da escarpa<br \/>\n&#8211; de onde avist\u00e1vamos, por l\u00e9guas e l\u00e9guas, outra vez,<br \/>\no medonho deserto amarelo em que tanto sofr\u00earamos. Foi de madrugada<br \/>\nque come\u00e7amos a descida &#8211; e foi ent\u00e3o que nos separamos do nosso<br \/>\namigo Infand\u00f3s.<\/p>\n<p>O excelente homem quase chorou de m\u00e1goa.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca os meus olhos &#8211; exclamava ele &#8211; ver\u00e3o homens como v\u00f3s.<br \/>\nAquele golpe de machado, Incubu! Que beleza! Sois os fortes dos fortes! E<br \/>\no meu cora\u00e7\u00e3o fica cheio da vossa lembran\u00e7a. Adeus! Tivemos<br \/>\nrealmente saudade do velho Infand\u00f3s; e John, como lembran\u00e7a,<br \/>\ndeu-lhe &#8211; adivinhem o qu\u00ea? &#8211; um mon\u00f3culo! Tinha um de sobressalente,<br \/>\ne presenteou com ele o her\u00f3ico e leal selvagem! Infand\u00f3s, entusiasmado,<br \/>\nprocurou logo ental\u00e1-lo no olho, certo de que essa pupila resplandecente<br \/>\naumentaria o seu prest\u00edgio entre as tropas. E foi esta derradeira impress\u00e3o<br \/>\nque me ficou dos nossos amigos da Cacu\u00e2nia &#8211; um velho guerreiro, nu,<br \/>\ncom uma pele de leopardo ao ombro, grandes plumas negras na cabe\u00e7a,<br \/>\nfranzindo a face, de mon\u00f3culo no olho! Da\u00ed a pouco, tendo apertado<br \/>\nafetuosamente a m\u00e3o a esse honrado Infand\u00f3s, come\u00e7\u00e1vamos<br \/>\na nossa descida pela escarpa que liga os &#8220;Seios de Sab\u00e1&#8221;,<br \/>\nentre as trovejantes aclama\u00e7\u00f5es do regimento dos Pardos.<\/p>\n<p>Fizemos essa descida em doze horas. \u00c0 noite est\u00e1vamos acampados<br \/>\n\u00e0 orla do deserto, conversando em torno das fogueiras acerca desses<br \/>\ndois estranhos meses que pass\u00e1ramos entre os cacuanas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 s\u00edtios piores para se viver &#8211; dizia o bar\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Quase desejava ter l\u00e1 ficado &#8211; acrescentava John, com saudade.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o dizia nada. T\u00ednhamos l\u00e1 passado temerosos momentos.<br \/>\nMas, por vezes, a vida fora doce. E no alforje traz\u00edamos um saco de<br \/>\ndiamantes! Na madrugada seguinte encetamos a marcha para esse o\u00e1sis<br \/>\nque os nossos guias conheciam. Trilhamos tr\u00eas dias o deserto &#8211; mas sem<br \/>\ndesconsolo, gra\u00e7as ao bando de carregadores que nos dera Ignosi, e<br \/>\nque nos permitia levar provis\u00f5es fartas e \u00e1gua fria. Pelo come\u00e7o<br \/>\nda tarde do terceiro dia avistamos um bosque &#8211; e o nosso jantar j\u00e1<br \/>\nfoi regaladamente servido debaixo de copadas \u00e1rvores, e junto de frescas<br \/>\n\u00e1guas correntes.<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a>Cap\u00edtulo XVII &#8211; Enfim!<\/h2>\n<p>Agora resta-me contar a maior maravilha desta maravilhosa jornada. T\u00e3o<br \/>\nestranha, quase inveross\u00edmil \u00e9, que, para n\u00e3o lhe aumentar<br \/>\no ar de romance que ela j\u00e1 de por si tem, preciso narr\u00e1-la com<br \/>\na m\u00e1xima brevidade e m\u00e1xima simplicidade.<\/p>\n<p>Foi isto. Na manh\u00e3 seguinte, no o\u00e1sis, andava eu passeando<br \/>\nao comprido de uma fresca ribeira que o banha, quando de repente, num frondoso<br \/>\nouteiro \u00e0 sombra de figueiras, com a fachada voltada para a corrente<br \/>\n&#8211; vejo uma confort\u00e1vel cabana constru\u00edda \u00e0 maneira cafre,<br \/>\nmas com uma porta, uma porta de madeira, em vez do costumado buraco redondo.<br \/>\nE quando eu estava pasmado para esta casota humana . &#8211;<br \/>\n<!-- 107 --><br \/>\nperdida num o\u00e1sis do deserto, eis que a porta se abre, e aparece, coxeando,<br \/>\nencostado a um pau, todo vestido de peles e com uma imensa barba at\u00e9<br \/>\n\u00e0 cintura, um homem branco! Ficamos a olhar esgazeadamente um para<br \/>\no outro.<\/p>\n<p>Justamente nesse momento o bar\u00e3o e John apareceram. O homem crava<br \/>\nos olhos em n\u00f3s, com um ar quase aflito. De repente larga a correr,<br \/>\ncomo um coxo pode correr, aos trope\u00e7\u00f5es. Esbarra, rola no ch\u00e3o.<br \/>\nO bar\u00e3o acode. Ergue o homem. E grita: &#8211; Santo Deus! \u00c9 meu irm\u00e3o<br \/>\nJorge! Quase tenho vergonha de narrar este lance. Parece banalmente inventado<br \/>\npelos moldes do teatro antigo. Mas foi assim.<\/p>\n<p>E ainda mais! Ao alvoro\u00e7o do bar\u00e3o, \u00e0s exclama\u00e7\u00f5es<br \/>\nque seguiram, outro homem saiu da cabana, tamb\u00e9m vestido de peles,<br \/>\ncom uma espingarda na m\u00e3o. Ao dar com os olhos em mim, larga a arma,<br \/>\nleva as m\u00e3os \u00e0 carapinha: &#8211; Oh Macumaz\u00e3! Oh Macumaz\u00e3!&#8230;<br \/>\nN\u00e3o me conheces? Sou Jim! Sou Jim! Aquele papel que tu me deste para<br \/>\no patr\u00e3o, perdi-o&#8230; Estamos aqui h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p>E o pobre Jim rojava-se no ch\u00e3o diante de mim, chorando e rindo,<br \/>\nnuma alegria furiosa.<\/p>\n<p>Com efeito, havia dois anos que o irm\u00e3o do bar\u00e3o e o seu servo<br \/>\nJim viviam naquele o\u00e1sis. Foi no nosso acampamento, nessa tarde, que<br \/>\nJorge C\u00fartis nos contou, lentamente, toda a sua hist\u00f3ria. Dois<br \/>\nanos antes partira da aringa de Sitanda, como n\u00f3s, para atravessar<br \/>\no deserto, e procurar as minas de diamantes para al\u00e9m das montanhas.<br \/>\nPor informa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, que lhe deram uns ca\u00e7adores<br \/>\nde avestruzes que felizmente encontrara, tomou um caminho diverso, e bem melhor<br \/>\ndo que aquele que seguira outrora o velho D. Jos\u00e9 da Silveira, e que<br \/>\nn\u00f3s seguir\u00edamos guiados pelo seu roteiro. Esse era caminho atrav\u00e9s<br \/>\ndo deserto, mas entremeado de o\u00e1sis. Assim tinham chegado a este, o<br \/>\nmaior de todos, e estava junto das Montanhas de Salom\u00e3o, quando lhe<br \/>\naconteceu uma grande desgra\u00e7a. No dia mesmo em que aqui parara, estava<br \/>\nsentado junto do rio, por baixo de umas penedias, onde Jim, o servo, andava<br \/>\nprocurando o mel de abelhas mansas. De repente, a um esfor\u00e7o qualquer<br \/>\nque Jim fez em cima, um dos penedos rola e vem cair sobre uma perna do pobre<br \/>\nJorge, esmigalhando-lha horrivelmente! Desde esse dia n\u00e3o p\u00f4de<br \/>\nmais andar. E, muito naturalmente, preferiu ficar ali no o\u00e1sis, onde<br \/>\ntinha \u00e1gua, ca\u00e7a e fruta &#8211; do que tentar atravessar de novo<br \/>\no deserto, onde inevitavelmente morreria.<\/p>\n<p>E ali ficou dois anos, como um Robinson Cruso\u00e9. Havia justamente<br \/>\ndias que decidira mandar Jim para tr\u00e1s, \u00e0 aringa de Sitanda,<br \/>\na buscar socorro. Mas quase tinha certeza que Jim n\u00e3o voltaria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E sois v\u00f3s agora, que apareceis de repente. Justamente tu, irm\u00e3o!<br \/>\nE tu, meu bom John!&#8230; E o Senhor Quartelmar, muito bem me lembro de o ter<br \/>\nencontrado em Bamanguato! \u00c9 extraordin\u00e1rio! E foi tudo a miseric\u00f3rdia<br \/>\nde Deus! Nessa noite tamb\u00e9m lhe contamos as nossas aventuras. Quando<br \/>\neu lhe mostrei um punhado de diamantes, o homem empalideceu de espanto: &#8211;<br \/>\nSanto Deus! Ao menos o que sofrestes n\u00e3o foi em v\u00e3o! Enquanto<br \/>\nque eu!&#8230;<\/p>\n<p>Esta triste exclama\u00e7\u00e3o tornou-me pensativo. E desde logo decidi<br \/>\npartilhar com ele um lote daquelas pedras, que a ele tinham trazido uma t\u00e3o<br \/>\nlonga desgra\u00e7a. E aqui acaba esta hist\u00f3ria. A nossa travessia<br \/>\ndo deserto foi extremamente trabalhosa. N\u00e3o sofremos tanto da sede,<br \/>\nporque, segundo o novo roteiro indicado pelos ca\u00e7adores de . &#8211;<br \/>\n<!-- 108 --><br \/>\navestruzes, encontramos a espa\u00e7os, pequenos e frescos o\u00e1sis.<br \/>\nMas o pobre Jorge C\u00fartis, que mal podia ainda usar a perna, necessitava<br \/>\nconstante amparo &#8211; e, por assim dizer, tivemos de o transportar atrav\u00e9s<br \/>\ndo deserto. Enfim, atingimos a arroga de Sitanda, onde o velho sacripante,<br \/>\na quem deix\u00e1ramos as nossas armas e bagagens, ficou indignado de nos<br \/>\nver voltar, vivos e s\u00e3os, para as reclamar. E seis meses depois est\u00e1vamos<br \/>\njantando confortavelmente aqui, na minha casa em Durban, \u00e0 sombra das<br \/>\nlaranjeiras.<\/p>\n<p>Quando eu acabava justamente de escrever esta \u00faltima p\u00e1gina<br \/>\ndas nossas aventuras, vejo um cafre entrar pelo meu jardim, com cartas e jornais<br \/>\nna m\u00e3o. \u00c9 o correio da Inglaterra. E eis aqui uma carta do bar\u00e3o,<br \/>\nque eu transcrevo, porque d\u00e1 exatamente a conclus\u00e3o da minha<br \/>\nhist\u00f3ria:<\/p>\n<p>&#8220;Solar de Braley &#8211; Yorkshire Meu caro Quartelmar.<\/p>\n<p>S\u00f3 algumas breves linhas para lhe dizer que meu irm\u00e3o Jorge,<br \/>\nJohn e eu, chegamos \u00e0 Inglaterra todos tr\u00eas perfeitamente. Apenas<br \/>\ndeixamos o paquete, em South-hampton, partimos logo para Londres pelo primeiro<br \/>\ntrem. N\u00e3o imagina o Quartelmar que elegante nos apareceu logo na manh\u00e3<br \/>\nseguinte o nosso John! Mas parece-me que ainda pensa muito, coitado, na pobre<br \/>\nFulata.<\/p>\n<p>E agora, em quanto a neg\u00f3cios. Levamos os diamantes aos melhores<br \/>\njoalheiros de Londres, aos Streeter. Quase tenho vergonha de dizer em quanto<br \/>\neles os avaliaram. \u00c9 uma soma descomunal. Est\u00e1 claro que eles<br \/>\nn\u00e3o podem dizer com exatid\u00e3o, porque nunca apareceram no mercado<br \/>\npedras deste tamanho em tal quantidade. Em quanto a compr\u00e1-los eles,<br \/>\nest\u00e1 fora de quest\u00e3o. Apesar de ser uma forte casa, n\u00e3o<br \/>\npoderia nunca reunir semelhantes somas. Aconselharam-me que os vendesse em<br \/>\npequenos lotes, a diferentes joalheiros, e devagar, para n\u00e3o inundar<br \/>\no mercado. Um desses lotes, o que o Quartelmar t\u00e3o generosamente reservou<br \/>\npara meu irm\u00e3o, est\u00e3o eles todavia resolvidos a comprar por<br \/>\ncento e oitenta mil libras.<\/p>\n<p>O que o Quartelmar deve fazer, agora que est\u00e1 t\u00e3o rico, \u00e9<br \/>\nvir para Inglaterra, e comprar uma propriedade ao p\u00e9 da minha. O melhor<br \/>\nseria vir imediatamente para passar comigo este Natal. Tenho c\u00e1 por<br \/>\nessa ocasi\u00e3o o nosso John. A respeito de seu filho Henrique, posso<br \/>\ndizer que est\u00e1 bom. Esteve aqui uns dias comigo a ca\u00e7ar. Gosto<br \/>\ndele. Pregou-me uma carga de chumbo numa perna; extraiu ele pr\u00f3prio<br \/>\nos chumbos, e provou-me depois a vantagem de haver sempre, em todas as partidas<br \/>\nde ca\u00e7a, um estudante de Medicina.<\/p>\n<p>Venha pois, velho amigo, e creia-me sempre seu<\/p>\n<p align=\"right\"><b>HENRIQUE C\u00daRTIS&#8221;.<\/b><\/p>\n<p>Hoje \u00e9 s\u00e1bado. H\u00e1 um paquete para Inglaterra al\u00e9m<br \/>\nde amanh\u00e3. Creio, na realidade, que vou partir nele&#8230; J\u00e1 tenho<br \/>\nsaudades do meu rapaz. E, depois, quero vigiar eu pr\u00f3prio a publica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndestas mem\u00f3rias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I &#8211; Encontro com os Meus Camaradas Cap\u00edtulo II &#8211; Primeira Not\u00edcia das Minas de Salom\u00e3o Cap\u00edtulo III &#8211; O Homem Chamado Umbopa Cap\u00edtulo IV &#8211; Os Elefantes Cap\u00edtulo V &#8211; A Nossa Entrada no Deserto Cap\u00edtulo VI &#8211; Penetramos no Reino dos Cacuanas Cap\u00edtulo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95505","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>As Minas do Rei Salom\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Obra As Minas do Rei Salom\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"As Minas do Rei Salom\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Obra, Livro, Literatura, As Minas do Rei Salom\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"As Minas do Rei Salom\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Obra As Minas do Rei Salom\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"As Minas do Rei Salom\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Obra, Livro, Literatura, As Minas do Rei Salom\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-minas-do-rei-salomao-eca-de-queiros\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-19T11:01:59+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2017-01-19T11:03:46+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"320 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/as-minas-do-rei-salomao-eca-de-queiros#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/as-minas-do-rei-salomao-eca-de-queiros\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"As Minas do Rei Salom\u00e3o &#8211; 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