{"id":95461,"date":"2017-01-18T12:44:41","date_gmt":"2017-01-18T14:44:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95461"},"modified":"2017-01-18T12:44:41","modified_gmt":"2017-01-18T14:44:41","slug":"a-ilustre-casa-de-ramires","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-ilustre-casa-de-ramires","title":{"rendered":"A Ilustre Casa de Ramires"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"116\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong> <span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo\u00a0V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<h3><a name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/h3>\n<p>Desde as quatro horas da tarde, no calor e sil\u00eancio do domingo de junho,<br \/>\no Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre<br \/>\na camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava. Gon\u00e7alo Mendes Ramires (que<br \/>\nnaquela sua velha aldeia de Santa Iren\u00e9ia, e na vila vizinha, a asseada<br \/>\ne vistosa Vila-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos conheciam pelo<br \/>\n&#8220;Fidalgo da Torre&#8221;) trabalhava numa Novela Hist\u00f3rica, A Torre<br \/>\nde D. Ramires, destinada ao primeiro n\u00famero dos Anais de Literatura<br \/>\ne de Hist\u00f3ria, revista nova, fundada por Jos\u00e9 L\u00facio Castanheiro,<br \/>\nseu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cen\u00e1culo Patri\u00f3tico,<br \/>\nem casa das Severinas.<\/p>\n<p>A livraria, clara e larga, escaiolada de azul, com pesadas estantes de pau-preto<br \/>\nonde repousavam no p\u00f3 e na gravidade das lombadas de carneira, grossos<br \/>\nf\u00f3lios de convento e de foro, respirava para o pomar por duas janelas,<br \/>\numa de peitoril e poiais de pedra almofadados de veludo, outra mais rasgada,<br \/>\nde varanda, frescamente perfumada pela madressilva que se enroscava nas grades.<br \/>\nDiante dessa varanda, na claridade forte. pousava a mesa &#8211; mesa imensa de<br \/>\np\u00e9s torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho,<br \/>\ne atravancada nessa tarde pelos rijos volumes da Hist\u00f3ria geneal\u00f3gica<br \/>\ntodo o Vocabul\u00e1rio de Bluteau, tomos soltos do Panorama, e ao canto,<br \/>\nem pilha, as obras de Walter Scott sustentando um copo cheio de cravos amarelos.<br \/>\nE da\u00ed, da sua cadeira de couro, Gon\u00e7alo Mendes Ramires, pensativo<br \/>\ndiante das tiras de papel alma\u00e7o, ro\u00e7ando pela testa a rama<br \/>\nde pena de pato, avistava sempre a inspiradora da sua Novela &#8211; a Torre, a<br \/>\nantiqu\u00edssima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que<br \/>\nem redor crescera, com uma pouca de hera no cunhal rachado, as fundas frestas<br \/>\ngradeadas de ferro, as ameias e a miradoura bem cortadas no azul de junho,<br \/>\nrobusta sobreviv\u00eancia do Pa\u00e7o acastelado, da falada Honra de<br \/>\nSanta Iren\u00e9ia, solar dos Mendes Ramires desde os meados do s\u00e9culo<br \/>\nX.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista,<br \/>\no morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genu\u00edno e antigo Fidalgo<br \/>\nde Portugal. Raras fam\u00edlias, mesmo coevas, poderiam tra\u00e7ar a<br \/>\nsua ascend\u00eancia, por linha varonil e sempre pura, at\u00e9 aos vagos<br \/>\nSenhores que entre Douro e Minho mantinham castelo e terra murada quando os<br \/>\nbar\u00f5es francos desceram, com pend\u00e3o e caldeira, na hoste do<br \/>\nBorguinh\u00e3o. E os Ramires entroncavam limpidamente a sua casa, por linha<br \/>\npura e sempre varonil, no filho do Conde Nuno Mendes, aquele agigantado Ordonho<br \/>\nMendes, senhor de Treixedo e de Santa Iren\u00e9ia, que casou em 967 com<br \/>\nDona Elduara, Condessa de Carrion, filha de Bermudo, o Gotoso, Rei de Le\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais antigo na Espanha que o Condado Portucalense, rijamente, como ele, crescera<br \/>\ne se afamara o Solar de Santa Iren\u00e9ia &#8211; resistente como ele \u00e0s<br \/>\nfortunas e aos tempos. E depois, em cada lance forte da Hist\u00f3ria de<br \/>\nPortugal. sempre um Mendes Ramires avultou grandiosamente pelo hero\u00edsmo,<br \/>\npela lealdade, pelos nobres esp\u00edritos. Um dos mais esfor\u00e7ados<br \/>\nda linhagem, Louren\u00e7o, por alcunha o Cortador, cola\u00e7o d\u00ea<br \/>\nAfonso Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de Cavaleiro.<br \/>\nvelara as armas na S\u00e9 de Zamora), aparece logo na batalha de Ourique,<br \/>\nonde tamb\u00e9m avista Jesus Cristo sobre finas nuvens de ouro, pregado<br \/>\nnuma cruz de dez c\u00f4vados. No cerco de Tavira, Martim Ramires, freire<br \/>\nde Santiago, arromba a golpes de acha um postigo da Coura\u00e7a, rompe<br \/>\npor entre as cimitarras que lhe decepam as duas m\u00e3os. e surde na quadrela<br \/>\nda torre albarr\u00e3, com os dois pulsos a esguichar sangue, bradando alegremente<br \/>\nao Mestre: &#8211; &#8220;D. Payo Peres, Tavira \u00e9 nossa! Real, Real por Portugal!&#8221;<br \/>\nO velho Egas Ramires, fechado na sua Torre, com a levadi\u00e7a erguida,<br \/>\nas barbac\u00e3s eri\u00e7adas de frecheiros, nega acolhida a El-Rei D.<br \/>\nFernando e Leonor Teles que corriam o Norte em folgares e ca\u00e7adas &#8211;<br \/>\npara que a presen\u00e7a da ad\u00faltera n\u00e3o macule a pureza extrema<br \/>\ndo seu solar! Em Aljubarrota, Diogo Ramires o Trovador desbarata um tro\u00e7o<br \/>\nde besteiros, mata o adiantado-mor de Galiza, e por ele, n\u00e3o por outro,<br \/>\ncai derribado pend\u00e3o real de Castela, em que ao fim da lide seu irm\u00e3o<br \/>\nde armas, D. Ant\u00e3o de Almada, se embrulhou para o levar, dan\u00e7ando<br \/>\ne cantando, ao Mestre de Avis. Sob os muros de Arzila combatem magnificamente<br \/>\ndois Ramires, o idoso Soeiro e seu neto Fern\u00e3o, e diante do cad\u00e1ver<br \/>\ndo velho, trespassado por quatro virotes, estirado no p\u00e1tio da Alc\u00e1\u00e7ova<br \/>\nao lado do corpo do Conde de Marialva &#8211; Afonso V arma juntamente Cavaleiros<br \/>\no Pr\u00edncipe seu filho e Fern\u00e3o Ramires, murmurando entre l\u00e1grimas:<br \/>\n&#8220;Deus vos queira t\u00e3o bons como esses que a\u00ed jazem&#8230; &#8220;Mas<br \/>\neis que Portugal se faz aos mares! E raras s\u00e3o ent\u00e3o as armadas<br \/>\ne os combates de Oriente em que se n\u00e3o esforce um Ramires &#8211; ficando<br \/>\nna lenda tr\u00e1gico-mar\u00edtima aquele nobre capit\u00e3o do golfo<br \/>\nP\u00e9rsico, Baltasar Ramires, que, no naufr\u00e1gio da Santa B\u00e1rbara,<br \/>\nreveste a sua pesada armadura, e no castelo de proa, hirto, se afunda em sil\u00eancio<br \/>\ncom a nau que se afunda, encostado \u00e0 sua grande espada. Em Alc\u00e1cer-Quibir,<br \/>\nonde dois Ramires sempre ao lado de El-Rei encontram morte soberba, o mais<br \/>\nnovo, Paulo Ramires, pajem do Gui\u00e3o, nem leso nem ferido, mas n\u00e3o<br \/>\nquerendo mais vida pois que El-Rei n\u00e3o vivia, colhe um ginete solto,<br \/>\napanha uma acha de armas, e gritando; &#8211; &#8220;Vai-te, alma, que j\u00e1<br \/>\ntardas, servir a de teu senhor!&#8221; &#8211; entra na chusma mourisca e para sempre<br \/>\ndesaparece. Sob os Filipes, os Ramires, amuados, bebem e ca\u00e7am nas<br \/>\nsuas terras. Reaparecendo com os Bragan\u00e7as, um Ramires, Vicente, governador<br \/>\ndas Armas de Entre-Douro e Minho por D. Jo\u00e3o IV, mete a Castela, destro\u00e7a<br \/>\nos Espanh\u00f3is do Conde de Venavente, e toma Fuente Guinal, a cujo furioso<br \/>\nsaque preside da varanda de um convento de Franciscanos, em mangas de camisa,<br \/>\ncomendo talhadas de melancia. J\u00e1, por\u00e9m, como a na\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndegenera a nobre ra\u00e7a&#8230; \u00c1lvaro Ramires, valido de D. Pedro<br \/>\nII, brig\u00e3o fa\u00e7anhudo, atordoa Lisboa com arrua\u00e7as, furta<br \/>\na mulher de um Vedor da Fazenda que mandara matar a pauladas por pretos, incendeia<br \/>\nem Sevilha depois de perder cem dobr\u00f5es uma casa de tavolagem, e termina<br \/>\npor comandar uma urca de piratas na frota de Murad o Maltrapilho. No reinado<br \/>\ndo Sr. D. Jo\u00e3o V Nuno Ramires brilha na Corte, ferra as suas mulas<br \/>\nde prata, e arruina a casa celebrando suntuosas festas de Igreja, em que canta<br \/>\nno coro vestido com o h\u00e1bito de Irm\u00e3o Terceiro de S. Francisco.<br \/>\nOutro Ramires, Crist\u00f3v\u00e3o, presidente da Mesa de Consci\u00eancia<br \/>\ne Ordem, alcovita os amores de El-Rei D. Jos\u00e9 I com a filha do Prior<br \/>\nde Sacav\u00e9m. Pedro Ramires, Provedor e Feitor-Mor das Alf\u00e2ndegas,<br \/>\nganha fama em todo o Reino pela sua obesidade, a sua chala\u00e7a, as suas<br \/>\nproezas de glut\u00e3o no Pa\u00e7o da Bemposta com o Arcebispo de Tessal\u00f4nica.<br \/>\nIn\u00e1cio Ramires acompanha D. Jo\u00e3o VI ao Brasil como Reposteiro-Mor,<br \/>\nnegocia em negros, volta com um ba\u00fa carregado de pe\u00e7as de ouro<br \/>\nque lhe rouba um Administrador, antigo frade capuchinho, e morre no seu solar<br \/>\nda cornada de um boi. O av\u00f4 de Gon\u00e7alo, Dami\u00e3o, doutor<br \/>\nliberal dado \u00e0s Musas, desembarca com D. Pedro no Mindelo, comp\u00f5e<br \/>\nas empoladas proclama\u00e7\u00f5es do Partido, funda um jornal, o Anti-Frade,<br \/>\ne depois das Guerras Civis arrasta uma exist\u00eancia reum\u00e1tica em<br \/>\nSanta Iren\u00e9ia, embrulhado no seu capot\u00e3o de briche, traduzindo<br \/>\npara vern\u00e1culo, com um l\u00e9xicon e um pacote de simonte, as obras<br \/>\nde Valerius Flaccus. O pai de Gon\u00e7alo, ora Regenerador, ora Hist\u00f3rico,<br \/>\nvivia em Lisboa no Hotel Universal, gastando as solas pelas escadarias do<br \/>\nBanco Hipotec\u00e1rio e pelo lajedo da Arcada, at\u00e9 que um Ministro<br \/>\ndo Reino, cuja concubina, corista de S. Carlos, ele fascinara, o nomeou (para<br \/>\no afastar da Capital) Governador Civil de Oliveira. Gon\u00e7alo, esse,<br \/>\nera bacharel formado com um R no terceiro ano.<\/p>\n<p>E nesse ano justamente se estreou nas Letras Gon\u00e7alo Mendes Ramires.<br \/>\nUm seu companheiro de casa, Jos\u00e9 L\u00facio Castanheiro, algarvio<br \/>\nmuito magro, muito macilento, de enormes \u00f3culos azuis, a quem Sim\u00e3o<br \/>\nCraveiro chamava o &#8220;Castanheiro Patriotinheiro&#8221;, fundara um Seman\u00e1rio,<br \/>\na P\u00e1tria &#8211; &#8220;com o alevantado intento (afirmava sonoramente o Prospecto)<br \/>\nde despertar, n\u00e3o s\u00f3 na mocidade Acad\u00eamica. mas em todo<br \/>\no pa\u00eds, do cabo Sileiro ao cabo de Santa Maria, o amor t\u00e3o arrefecido<br \/>\ndas belezas, das grandezas e das gl\u00f3rias de Portugal!&#8221; Devorado<br \/>\npor essa Id\u00e9ia. &#8220;a sua id\u00e9ia&#8221;, sentindo nela uma carreira,<br \/>\nquase uma miss\u00e3o, Castanheiro incessantemente, com ardor teimoso de<br \/>\nAp\u00f3stolo, clamava pelos botequins da Sofia, pelos claustros da Universidade,<br \/>\npelos quartos dos amigos entre a fuma\u00e7a dos cigarros &#8211; &#8220;a necessidade,<br \/>\ncaramba, de reatar a tradi\u00e7\u00e3o! de desatulhar, caramba, Portugal<br \/>\nda aluvi\u00e3o do estrangeirismo!&#8221; &#8211; Como o Seman\u00e1rio apareceu<br \/>\nregularmente durante tr\u00eas domingos. e publicou realmente estudos recheados<br \/>\nde grifos e cita\u00e7\u00f5es sobre as Capelas das Batalha, a Tomada<br \/>\nde Ormuz, a Embaixada de Trist\u00e3o da Cunha, come\u00e7ou logo a ser<br \/>\nconsiderado uma aurora. ainda p\u00e1lida mas segura, de Renascimento Nacional.<br \/>\nE alguns bons esp\u00edritos da Academia, sobretudo os companheiros de casa<br \/>\ndo Castanheiro, os tr\u00eas que se ocupavam das coisas do saber e da intelig\u00eancia<br \/>\n(porque dos tr\u00eas restantes um era homem de cacete e for\u00e7as, o<br \/>\noutro guitarrista, e o outro &#8220;premiado&#8221;), passaram. aquecidos por<br \/>\naquela chama patri\u00f3tica, a esquadrinhar na Biblioteca, nos grossos<br \/>\ntomos nunca dantes visitados de Fern\u00e3o Lopes, de Rui de Pina, de Azurara,<br \/>\nproezas e lendas &#8211; &#8220;s\u00f3 portuguesas. S\u00f3 nossas; (como suplicava<br \/>\no Castanheiro), que refizessem \u00e0 na\u00e7\u00e3o abatida uma consci\u00eancia<br \/>\nda sua heroicidade!&#8221; Assim crescia o &#8220;Cen\u00e1culo Patri\u00f3tico<br \/>\nda casa das Severinas. E foi ent\u00e3o que Gon\u00e7alo Mendes Ramires,<br \/>\nmo\u00e7o muito af\u00e1vel, esbelto e loiro, duma brancura s\u00e3<br \/>\nde porcelana. com uns finos e risonhos olhos que facilmente se enterneciam,<br \/>\nsempre elegante e apurado na batina e no verniz dos sapatos &#8211; apresentou ao<br \/>\nCastanheiro, num domingo depois do almo\u00e7o, onze tiras de papel intituladas<br \/>\nD. Guiomar. Nelas se contava a velh\u00edssima hist\u00f3ria da castel\u00e3,<br \/>\nque, enquanto longe nas guerras do Ultramar o castel\u00e3o barbudo e cingido<br \/>\nde ferro atira a acha de armas \u00e0s portas de Jerusal\u00e9m, recebe<br \/>\nela na sua c\u00e2mara, com os bra\u00e7os nus, por noite de maio e de<br \/>\nlua, o pajem de anelados cabelos&#8230; Depois ruge o inverno, o castel\u00e3o<br \/>\nvolta, mais barbudo, com um bord\u00e3o de romeiro. Pelo v\u00edlico do<br \/>\nCastelo, homem espreitador e de amargos sorrisos, conhece a trai\u00e7\u00e3o,<br \/>\na m\u00e1cula no seu nome t\u00e3o puro, honrado em todas as Espanhas!<br \/>\nE ai do pajem! ai da dama! Logo os sinos tangem a finados. J\u00e1 no patim<br \/>\nda Alc\u00e1\u00e7ova o verdugo, de capuz escarlate, espera, encostado<br \/>\nao machado, entre dois cepos cobertos de panos de d\u00f3&#8230; E no final<br \/>\nchoroso da D. Guiomar; como em todas essas hist\u00f3rias do Romanceiro<br \/>\nde Amor, tamb\u00e9m brotavam rente \u00e0s duas sepulturas, escavadas<br \/>\nno ermo, duas roseiras brancas a que o vento enla\u00e7ava os aromas e as<br \/>\nrosas. De sorte que (como notou Jos\u00e9 L\u00facio Castanheiro, co\u00e7ando<br \/>\npensativarnente o queixo) n\u00e3o ressaltava nesta D. Guiomar nada que<br \/>\nfosse &#8220;s\u00f3 portugu\u00eas, s\u00f3 nosso, abrolhando do solo<br \/>\ne da ra\u00e7a!&#8221; Mas esses amores lamentosos passavam num solar de<br \/>\nRiba-Coa: os nomes dos Cavaleiros, Remarigues, Ordonho, Froil\u00e1s, Gutierres<br \/>\ntinham um delicioso sabor godo: em cada tira ressoavam bravamente os genu\u00ednos:<br \/>\n&#8220;Bof\u00e9&#8230; Mentes pela gorja!&#8230; Pajem, o meu murzelo! e atrav\u00e9s<br \/>\nde toda esta vernaculidade circulava uma suficiente turba de cavalari\u00e7os<br \/>\ncom saios alvadios, beguinos sumidos na sombra das cogulas, oven\u00e7ais<br \/>\nsopesando fartas bolsas de couro, uch\u00f5es espostejando n\u00e9dios<br \/>\nlombos de cerdo&#8230; A Novela portanto marcava um salutar retrocesso ao sentimento<br \/>\nnacional.<\/p>\n<p>&#8211; E depois &#8211; acrescentava o Castanheiro &#8211; este velhaco do Gon\u00e7alinho<br \/>\nsurde com um estilo terso, m\u00e1sculo, de boa cor arcaica&#8230; De \u00f3tima<br \/>\ncor arcaica! Lembra at\u00e9 o Bobo, o Monge de Cister!&#8230; A Guiomar, realmente,<br \/>\n\u00e9 uma castel\u00e3 vaga, da Bretanha ou da Aquit\u00e2nia. Mas no<br \/>\nv\u00edlico, mesmo no castel\u00e3o, j\u00e1 transparecem portugueses,<br \/>\nbons portugueses de fibra e de alma, de entre Douro e C\u00e1vado&#8230; Sim<br \/>\nsenhor! Quando o Gon\u00e7alinho se enfronhar dentro do nosso passado, das<br \/>\nnossas cr\u00f4nicas, temos enfim nas Letras um homem que sente bem o torr\u00e3o,<br \/>\nsente bem a ra\u00e7a!<\/p>\n<p>D. Guiomar encheu tr\u00eas p\u00e1ginas da P\u00e1tria. Nesse domingo,<br \/>\npara celebrar a sua entrada na Literatura, Gon\u00e7alo Mendes Ramires pagou<br \/>\naos camaradas do Cen\u00e1culo e a outros amigos uma ceia onde foi aclamado,<br \/>\nlogo depois do frango com ervilhas, quando os mo\u00e7os do Camolino, esbaforidos,<br \/>\nrenovavam as garrafas de Colares, como &#8220;o nosso Walter Scott!&#8221; Ele,<br \/>\nde resto, anunciara j\u00e1 com simplicidade um romance em dois volumes,<br \/>\nfundado nos anais da sua Casa, num rude feito de sublime orgulho de Tructesindo<br \/>\nMendes Ramires, o amigo e Alferes-Mor de D. Sancho I. Por temperamento, por<br \/>\naquele saber especial de trajes e alfaias que revelara na D. Guiomar, at\u00e9<br \/>\npela antig\u00fcidade da sua linhagem, Gon\u00e7alinho parecia gloriosamente<br \/>\nvotado a restaurar em Portugal o Romance Hist\u00f3rico. Possu\u00eda<br \/>\numa miss\u00e3o e come\u00e7ou logo a passear pela Cal\u00e7ada, pensativo,<br \/>\ncom o gorro sobre os olhos, como quem anda reconstruindo um mundo. No ato<br \/>\ndesse ano levou o R.<\/p>\n<p>Quando regressou das f\u00e9rias para o Quarto Ano j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nrefervia na rua da Matem\u00e1tica o Cen\u00e1culo ardente dos Patriotas.<br \/>\nO Castanheiro. formado, vegetava em Vila Real de Santo Ant\u00f4nio: com<br \/>\nele desaparecera a P\u00e1tria: e os mo\u00e7os zelosos que na Biblioteca<br \/>\nesquadrinhavam as Cr\u00f4nicas de Fern\u00e3o Lopes e de Azurara, desamparados<br \/>\npor aquele Ap\u00f3stolo que os levantava. reca\u00edram nos romances<br \/>\nde Georges Ohnet e retomaram \u00e0 noite o taco nos bilhares da Sofia.<br \/>\nGon\u00e7alo voltava tamb\u00e9m mudado, de luto pelo pai que morrera<br \/>\nem agosto, com a barba crescida, sempre af\u00e1vel e suave, por\u00e9m<br \/>\nmais grave, averso a ceias e a noites errantes. Tomou um quarto no Hotel Mondego,<br \/>\nonde o servia, de gravata branca, um velho criado de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\no Bento: &#8211; e os seus companheiros preferidos foram tr\u00eas ou quatro rapazes<br \/>\nque se preparavam para a Pol\u00edtica, folheavam atentamente o Di\u00e1rio<br \/>\ndas C\u00e2maras, conheciam alguns enredos da Corte, proclamavam a necessidade<br \/>\nduma &#8220;Orienta\u00e7\u00e3o positiva&#8221; e dum &#8220;largo fomento<br \/>\nrural&#8221;, consideravam como leviandade reles e jacobina a irrever\u00eancia<br \/>\nda Academia pelos Dogmas. e, mesmo passeando ao luar no Choupal ou no Penedo<br \/>\nda Saudade, discorriam com ardor sobre os dois chefes de Partido &#8211; o Braz<br \/>\nVictorino, o homem novo dos Regeneradores, e o velho Bar\u00e3o de S\u00e3o<br \/>\nFulg\u00eancio, chefe cl\u00e1ssico dos Hist\u00f3ricos. Inclinado para<br \/>\nos Regeneradores, porque a Regenera\u00e7\u00e3o lhe representava tradicionalmente<br \/>\nid\u00e9ias de conservantismo, de eleg\u00e2ncia culta e de generosidade.<br \/>\nGon\u00e7alo freq\u00fcentou ent\u00e3o o Centro Regenerador da Coura\u00e7a.<br \/>\nonde aconselhava \u00e0 noite, tomando ch\u00e1 preto, &#8220;o fortalecimento<br \/>\nda autoridade da Coroa&#8221;, e &#8220;uma forte expans\u00e3o colonial!&#8221;<br \/>\nDepois, logo na primavera, desmanchou alegremente esta gravidade pol\u00edtica:<br \/>\ne ainda tresnoitou, na taberna do Camolino, em bacalhoadas festivas, entre<br \/>\no estridor das guitarras. Mas n\u00e3o aludiu mais ao seu grande romance<br \/>\nem dois volumes: e ou recuara ou se esquecera da sua miss\u00e3o de Arte<br \/>\nHist\u00f3rica. Realmente s\u00f3 na P\u00e1scoa do Quinto Ano retomou<br \/>\na pena &#8211; para lan\u00e7ar, na Gazeta do Porto, contra um seu patr\u00edcio,<br \/>\no Dr. Andr\u00e9 Cavaleiro, que o Minist\u00e9rio do S. Fulg\u00eancio<br \/>\nnomeara Governador Civil de Oliveira, duas correspond\u00eancias muito acerbas,<br \/>\ndum rancor intenso e pessoal (a ponto de chasquear &#8220;a feroz bigodeira<br \/>\nnegra de S. Exa.&#8221;). Assinara JUVENAL, como outrora o pai, quando publicava<br \/>\ncomunicados pol\u00edticos de Oliveira nessa mesma Gazeta do Porto, jornal<br \/>\namigo, onde um Vilar Mendes, seu remoto parente, redigia a Revista Estrangeira.<br \/>\nMas lera aos amigos no Centro &#8211; &#8220;os dois botes decisivos que atirariam<br \/>\no Sr. Cavaleiro abaixo do seu Cavalo!&#8221; E um desses mo\u00e7os s\u00e9rios,<br \/>\nsobrinho do Bispo de Oliveira, n\u00e3o disfar\u00e7ou o seu assombro:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Gon\u00e7alo, eu sempre pensei que voc\u00ea e o Cavaleiro eram \u00edntimos!<br \/>\nSe bem me lembro quando voc\u00ea chegou a Coimbra, para os Preparat\u00f3rios,<br \/>\nviveu na casa do Cavaleiro, na rua de S. Jo\u00e3o&#8230; Pois n\u00e3o h\u00e1<br \/>\numa amizade tradicional, quase hist\u00f3rica, entre Ramires e Cavaleiros?&#8230;<br \/>\nEu pouco conhe\u00e7o Oliveira, nunca andei para os vossos s\u00edtios;<br \/>\nmas at\u00e9 creio que Corinde, a quinta do Cavaleiro, pega com Santa Iren\u00e9ia!<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo enrugou a face, a sua risonha e lisa face, para declarar<br \/>\nsecamente que Corinde n\u00e3o pegava com Santa Iren\u00e9ia: que entre<br \/>\nas duas terras corria muito justificadamente a ribeira do Coice: e que o Sr.<br \/>\nAndr\u00e9 Cavaleiro, e sobretudo Cavalo, era um animal detest\u00e1vel<br \/>\nque pastava na outra margem! &#8211; O sobrinho do Bispo saudou e exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, boa piada!<\/p>\n<p>Um ano depois da Formatura, Gon\u00e7alo foi a Lisboa por causa da hipoteca<br \/>\nda sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo foro anual de dez r\u00e9is<br \/>\ne meia galinha, devido ao abade de Praga, andava empecendo terrivelmente nos<br \/>\nConselhos do Banco Hipotec\u00e1rio; &#8211; e tamb\u00e9m para conhecer mais<br \/>\nestreitamente o seu chefe, o Braz Victorino, mostrar lealdade e submiss\u00e3o<br \/>\npartid\u00e1ria, colher algum fino conselho de conduta Pol\u00edtica.<br \/>\nOra uma noite, voltando de jantar em casa da velha Marquesa de Louredo, a<br \/>\n&#8220;tia Louredo&#8221;, que morava a Santa Clara, esbarrou no Rossio com<br \/>\nJos\u00e9 L\u00facio Castanheiro, ent\u00e3o empregado no Minist\u00e9rio<br \/>\nda Fazenda, na reparti\u00e7\u00e3o dos Pr\u00f3prios Nacionais. Mais<br \/>\ndefecado, mais macilento, com uns \u00f3culos mais largos e mais tenebrosos,<br \/>\no Castanheiro ardia todo, como em Coimbra, na chama da sua Id\u00e9ia -&#8220;a<br \/>\nressurrei\u00e7\u00e3o do sentimento portugu\u00eas!&#8221; E agora, alargando<br \/>\na propor\u00e7\u00f5es condignas da Capital o plano da P\u00e1tria,<br \/>\nlabutava devoradoramente na cria\u00e7\u00e3o duma revista quinzenal,<br \/>\nde setenta p\u00e1ginas, com capa azul, os Anais de Literatura e de Hist\u00f3ria.<br \/>\nEra uma noite de maio, macia e quente. E, passeando ambos em torno das fontes<br \/>\nsecas do Rossio, Castanheiro, que sobra\u00e7ava um rolo de papel e um gordo<br \/>\nf\u00f3lio encadernado em bezerro, depois de recordar as cavaqueiras geniais<br \/>\nda rua da Miseric\u00f3rdia, de maldizer a falta de intelectualidade de<br \/>\nVila Real de Santo Ant\u00f4nio &#8211; voltou sofregamente \u00e0 sua Id\u00e9ia,<br \/>\ne suplicou a Gon\u00e7alo Mendes Ramires que lhe cedesse para os Anais esse<br \/>\nRomance que ele anunciara em Coimbra, sobre o seu avoengo Tructesindo Ramires,<br \/>\nAlferes-Mor de Sancho I.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, rindo, confessou que ainda n\u00e3o come\u00e7ara essa<br \/>\ngrande obra!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! &#8211; murmurou o Castanheiro, estacando, com os negros \u00f3culos sobre<br \/>\nele, duros e desconsolados. &#8211; Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o persistiu?&#8230;<br \/>\nN\u00e3o permaneceu fiel \u00e0 Id\u00e9ia?&#8230;<\/p>\n<p>Encolheu os ombros, resignadamente, j\u00e1 acostumado, atrav\u00e9s<br \/>\nda sua miss\u00e3o, a estes desfalecimentos do Patriotismo. Nem consentiu<br \/>\nque Gon\u00e7alo, humilhado perante aquela F\u00e9 que se mantivera t\u00e3o<br \/>\npura e servidora &#8211; aludisse, como desculpa, ao invent\u00e1rio laborioso<br \/>\nda Casa, depois da morte do pap\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem! Acabou! Procrastinare lusitanum est. Trabalha agora no ver\u00e3o&#8230;<br \/>\nPara Portugueses, menino, o ver\u00e3o \u00e9 o tempo das belas fortunas<br \/>\ne dos rijos feitos. No ver\u00e3o nasce Nuno \u00c1lvares no Bonjardim!<br \/>\nNo ver\u00e3o se vence em Aljubarrota! No ver\u00e3o chega o Gama \u00e0<br \/>\n\u00edndia!&#8230; E no ver\u00e3o vai o nosso Gon\u00e7alo escrever uma<br \/>\nnovelazinha sublime!&#8230; De resto os Anais s\u00f3 aparecem em dezembro,<br \/>\ncaracteristicamente no primeiro de dezembro. E voc\u00ea em tr\u00eas meses<br \/>\nressuscita um mundo. S\u00e9rio, Gon\u00e7alo Mendes!&#8230; \u00c9 um dever,<br \/>\num santo dever, sobretudo para os novos, colaborar nos Anais. Portugal, menino,<br \/>\nmorre por falta de sentimento nacional! N\u00f3s estamos imundamente morrendo<br \/>\ndo mal de n\u00e3o ser Portugueses!<\/p>\n<p>Parou &#8211; ondeou o bra\u00e7o magro, como a correia dum l\u00e1tego, num<br \/>\ngesto que a\u00e7oitava o Rossio, a Cidade, toda a Na\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSabia o amigo Gon\u00e7alinho o segredo desta borracheira sinistra? \u00c9<br \/>\nque, dos Portugueses, os piores desprezavam a P\u00e1tria &#8211; e os melhores<br \/>\nignoravam a P\u00e1tria. O rem\u00e9dio?&#8230; Revelar Portugal, vulgarizar<br \/>\nPortugal. Sim, amiguinho! Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal,<br \/>\nde modo que todos o conhe\u00e7am &#8211; ao menos como se conhece o Xarope Peitoral<br \/>\nde James, hem? E que todos o adotem &#8211; ao menos como se adotou o sab\u00e3o<br \/>\ndo Congo, hem? E conhecido, adotado, que todos o amem enfim, nos seus her\u00f3is,<br \/>\nnos seus feitos, mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padr\u00f5es,<br \/>\ne at\u00e9 nas veras pedrinhas das suas cal\u00e7adas! Para esse fim,<br \/>\no maior a empreender neste apagado s\u00e9culo da nossa Hist\u00f3ria,<br \/>\nfundava ele os Anais. Para berrar! Para atroar Portugal, aos bramidos sobre<br \/>\nos telhados, com a noticia inesperada da sua grandeza! E aos descendentes<br \/>\ndos que outrora fizeram o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado piedoso<br \/>\nde o refazer&#8230; Como? Reatando a tradi\u00e7\u00e3o, caramba!<\/p>\n<p>Assim, voc\u00eas! Por essa hist\u00f3ria de Portugal fora, voc\u00eas<br \/>\ns\u00e3o uma enfiada de Ramires de toda a beleza. Mesmo o desembargador,<br \/>\no que comeu numa ceia de Natal dois leit\u00f5es!&#8230; E apenas uma barriga.<br \/>\nMas que barriga! H\u00e1 nela uma pujan\u00e7a her\u00f3ica que prova<br \/>\nra\u00e7a, a ra\u00e7a mais forte do que promete a for\u00e7a humana,<br \/>\ncomo diz Cam\u00f5es. Dois leit\u00f5es, caramba! At\u00e9 enternece!&#8230;<br \/>\nE os outros Ramires, o de Silves, o de Aljubarrota, os de Arsila, os da \u00cdndia!<br \/>\nE os cinco valentes, de quem voc\u00ea talvez nem saiba, que morreram no<br \/>\nSalado! Pois bem, ressuscitar estes var\u00f5es, e mostrar neles a alma<br \/>\nfa\u00e7anhuda, o querer sublime que nada verga, \u00e9 uma soberba li\u00e7\u00e3o<br \/>\naos novos&#8230; Tonifica, caramba! Pela consci\u00eancia que renova de termos<br \/>\nsido t\u00e3o grandes sacode este chocho consentimento nosso em permanecermos<br \/>\npequenos! \u00c9 o que eu chamo reatar a tradi\u00e7\u00e3o&#8230; E depois<br \/>\nfeito por voc\u00ea pr\u00f3prio, Ramires, que chic! Caramba, que chic!<br \/>\n\u00c9 um Fidalgo, o maior Fidalgo de Portugal, que, para mostrar a heroicidade<br \/>\nda P\u00e1tria, abre simplesmente, sem sair do seu solar, os arquivos da<br \/>\nsua Casa, velha de mais de mil anos. \u00c9 de rachar!&#8230; E voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\nprecisa fazer um grosso romance&#8230; Nem um romance muito desenvolvido est\u00e1<br \/>\nna \u00edndole militante da revista. Basta um conto, de vinte ou trinta<br \/>\np\u00e1ginas&#8230; Est\u00e1 claro, os Anais por ora n\u00e3o podem pagar.<br \/>\nTamb\u00e9m, voc\u00ea n\u00e3o precisa! E que diabo! n\u00e3o se trata<br \/>\nde pec\u00fania, mas duma grande renova\u00e7\u00e3o social&#8230; E depois,<br \/>\nmenino, a literatura leva a tudo em Portugal. Eu sei que o Gon\u00e7alo<br \/>\nem Coimbra, ultimamente, freq\u00fcentava o Centro Regenerador. Pois, amigo,<br \/>\nde folhetim em folhetim, se chega a S. Bento! A pena agora, como a espada<br \/>\noutrora, edifica reinos&#8230; Pense voc\u00ea nisto! E adeus! que ainda hoje<br \/>\ntenho de copiar, para letra crist\u00e3, este estudo do Henriques sobre<br \/>\nCeil\u00e3o&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o conhece o Henriques?&#8230; N\u00e3o<br \/>\nconhece. Ningu\u00e9m conhece. Pois quando na Europa, nessas grandes Academias<br \/>\nda Europa, h\u00e1 uma d\u00favida sobre a Hist\u00f3ria ou a Literatura<br \/>\ncingalesa, gritam para c\u00e1, para o Henriques!<\/p>\n<p>Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo &#8211; e Gon\u00e7alo ainda o avistou,<br \/>\nna porta e claridade da tabacaria Nunes, agitando o bra\u00e7o esguio de<br \/>\nAp\u00f3stolo diante dum sujeito obeso, de vasto colete branco, que recuava,<br \/>\ncom espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso charuto e da doce<br \/>\nnoite de maio.<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragan\u00e7a, impressionado, ruminando<br \/>\na id\u00e9ia do Patriota. Tudo nela o seduzia &#8211; e lhe convinha: a sua colabora\u00e7\u00e3o<br \/>\nnuma revista consider\u00e1vel, de setenta p\u00e1ginas, em companhia<br \/>\nde Escritores doutos, lentes das Escolas, antigos Ministros, at\u00e9 Conselheiros<br \/>\nde Estado: a antig\u00fcidade da sua ra\u00e7a, mais antiga que o Reino,<br \/>\npopularizada por uma hist\u00f3ria de her\u00f3ica beleza, em que com<br \/>\ntanto fulgor ressaltavam a bravura e a soberba de alma dos Ramires; e enfim<br \/>\na seriedade acad\u00eamica do seu esp\u00edrito, o seu nobre gosto pelas<br \/>\ninvestiga\u00e7\u00f5es eruditas, aparecendo no momento em que tentava<br \/>\na carreira do Parlamento e da Pol\u00edtica!&#8230; E o trabalho, a composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmoral dos vetustos Ramires, a ressurrei\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica<br \/>\ndo viver Afonsino, as cem tiras de alma\u00e7o a atulhar de prosa forte<br \/>\n&#8211; n\u00e3o o assustavam&#8230; N\u00e3o! porque felizmente j\u00e1 possu\u00eda<br \/>\na &#8220;sua obra&#8221; &#8211; e cortada em bom pano, alinhavada com linha h\u00e1bil.<br \/>\nSeu tio Duarte, irm\u00e3o de sua m\u00e3e (uma senhora de Guimar\u00e3es,<br \/>\nda Casa das Balsas), nos seus anos de ociosidade e imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde 1845 a 1850, entre a sua carta de Bacharel e o seu Alvar\u00e1 de Delegado,<br \/>\nfora poeta &#8211; e publicara no Bardo, seman\u00e1rio de Guimar\u00e3es, um<br \/>\nPoemeto em verso solto, o Castelo de Santa Iren\u00e9ia, que assinara com<br \/>\nduas iniciais D. B. Esse castelo era o seu, o Pa\u00e7o antiqu\u00edssimo<br \/>\nde que restava a negra torre entre os limoeiros da horta. E o Poemeto cantava,<br \/>\ncom rom\u00e2ntico garbo, um lance de altivez feudal em que se sublimara<br \/>\nTructesindo Ramires, Alferes-Mor de Sancho I, durante as contendas de Afonso<br \/>\nII e das senhoras Infantas. Esse volume do Bardo, encadernado em marroquim,<br \/>\ncom o bras\u00e3o dos Ramires, o a\u00e7or negro em campo escarlate, ficara<br \/>\nno Arquivo da Casa como um trecho da Cr\u00f4nica her\u00f3ica dos Ramires.<br \/>\nE muitas vezes em pequeno Gon\u00e7alo recitara, ensinados pela mam\u00e3,<br \/>\nos primeiros versos do Poema, d\u00ea t\u00e3o harmoniosa melancolia:<\/p>\n<p>Na palidez da tarde, entre a folhagem<br \/>\nQue o outono amarelece&#8230;<\/p>\n<p>Era com esse sombrio feito do seu vago avoengo que Gon\u00e7alo Mendes<br \/>\nRamires decidira em Coimbra, quando os camaradas da P\u00e1tria e das ceias<br \/>\no aclamavam &#8220;o nosso Walter Scott&#8221;, compor um Romance moderno, dum<br \/>\nrealismo \u00e9pico, em dois robustos volumes, formando um estudo ricamente<br \/>\ncolorido da Meia-Idade Portuguesa&#8230; E agora lhe servia, e com deliciosa facilidade,<br \/>\npara essa Novela curta e s\u00f3bria, de trinta p\u00e1ginas, que convinha<br \/>\naos Anais.<\/p>\n<p>No seu quarto do Bragan\u00e7a abriu a varanda. E debru\u00e7ado, acabando<br \/>\no charuto, na dormente suavidade da noite de maio, ante a majestade silenciosa<br \/>\ndo rio e da Lua, pensava regaladamente que nem teria a canseira de esmiu\u00e7ar<br \/>\nas cr\u00f4nicas e os f\u00f3lios ma\u00e7udos&#8230; Com efeito! toda a<br \/>\nreconstru\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica a realizara, e solidamente, com<br \/>\num saber destro, o tio Duarte. O Pa\u00e7o acastelado de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\ncom as fundas carcovas, a torre albarr\u00e3, a alc\u00e1\u00e7ova,<br \/>\na masmorra, o farol e o bals\u00e3o: o velho Tructesindo, enorme, e os seus<br \/>\nflocos de cabelos e barbas ancestrais derramados sobre a loriga de malha;<br \/>\nos servos mouriscos, de surr\u00f5es de couro, cavando os regueiros da horta;<br \/>\nos oblatos resmungando \u00e0 lareira as Vidas dos Santos; os pajens jogando<br \/>\nno campo do tavolado &#8211; tudo ressurgia, com ver\u00eddico realce, no Poemeto<br \/>\ndo tio Duarte! Ainda recordava mesmo certos lances: o tru\u00e3o a\u00e7oitado;<br \/>\no festim e os uch\u00f5es que arrombavam as cubas de cerveja; a jornada<br \/>\nde Violante Ramires para o Mosteiro de Lorv\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Junto \u00e0 fonte mourisca, entre os olmeiros,<br \/>\nA cavalgada p\u00e1ra&#8230;<\/p>\n<p>O enredo todo com a sua paix\u00e3o de grandeza b\u00e1rbara, os recontros<br \/>\nbravios em que se saciam a punhal os rancores de ra\u00e7a, o her\u00f3ico<br \/>\nfalar despedido de l\u00e1bios de ferro &#8211; l\u00e1 estavam nos versos do<br \/>\ntiti, sonoros e bem balan\u00e7ados&#8230;<\/p>\n<p>Monge, escuta! O solar de D. Ramires<br \/>\nPor si, e pedra a pedra se alu\u00edra,<br \/>\nSe jamais um bastardo lhe pisasse,<br \/>\nCom sapato aviltado, as lajes puras!<\/p>\n<p>Na realidade s\u00f3 lhe restava transpor as formas fluidas do Romantismo<br \/>\nde 1846 para a sua prosa tersa e<\/p>\n<p>m\u00e1scula (como confessava o Castanheiro), de \u00f3tima cor arcaica,<br \/>\nlembrando o Bobo. E era um pl\u00e1gio? N\u00e3o! A quem, com mais seguro<br \/>\ndireito do que a ele, Ramires, pertencia a mem\u00f3ria dos Ramires hist\u00f3ricos?<br \/>\nA ressurrei\u00e7\u00e3o do velho Portugal, t\u00e3o bela no Castelo<br \/>\nde Santa Iren\u00e9ia, n\u00e3o era obra individual do tio Duarte &#8211; mas<br \/>\ndos Herculanos, dos Rebelos, das Academias, da erudi\u00e7\u00e3o esparsa.<br \/>\nE, de resto, quem conhecia hoje esse Poemeto, e mesmo o Bardo, delgado seman\u00e1rio<br \/>\nque perpassara, durante cinco meses, h\u00e1 cinq\u00fcenta anos, numa vila<br \/>\nde Prov\u00edncia?&#8230;! N\u00e3o hesitou mais, seduzido. E enquanto se<br \/>\ndespia, depois de beber aos goles um copo d&#8217;\u00e1gua com bicarbonato de<br \/>\nsoda, j\u00e1 martelava a primeira linha do conto, \u00e0 maneira lapid\u00e1ria<br \/>\nda Sa\u00edamb\u00f4: &#8211; &#8220;Era nos Pa\u00e7os de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\npor uma noite de inverno, na sala alta da Alc\u00e1\u00e7ova&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ao outro dia, procurou Jos\u00e9 L\u00facio Castanheiro na reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Pr\u00f3prios Nacionais, \u00e0 pressa &#8211; porque, depois duma confer\u00eancia<br \/>\nno Banco Hipotec\u00e1rio, ainda prometera acompanhar as primas Cheias a<br \/>\numa Exposi\u00e7\u00e3o de Bordados na livraria Gomes. E anunciou ao Patriota<br \/>\nque, positivamente, lhe assegurava para o primeiro n\u00famero dos Anais<br \/>\na Novela, a que j\u00e1 decidira o t\u00edtulo &#8211; a Torre de D. Ramires:<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe parece?<\/p>\n<p>Deslumbrado, Jos\u00e9 Castanheiro atirou os magr\u00edssimos bra\u00e7os,<br \/>\nresguardados pelas mangas de alpaca, at\u00e9 a ab\u00f3bada do esguio<br \/>\ncorredor em que o recebera:<\/p>\n<p>&#8211; Sublime!&#8230; A Torre de D. Ramires!&#8230; O grande feito de Tructesindo Mendes<br \/>\nRamires contado por Gon\u00e7alo Mendes Ramires!&#8230; E tudo na mesma Torre!<br \/>\nNa Torre o velho Tructesindo pratica o feito; e setecentos anos depois, na<br \/>\nmesma Torre, o nosso Gon\u00e7alo conta o feito! Caramba, menino, caramb\u00edssima!<br \/>\nIsso \u00e9 que \u00e9 reatar a tradi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Duas semanas depois, de volta a Santa Iren\u00e9ia, Gon\u00e7alo mandou<br \/>\num criado da quinta, com uma carro\u00e7a, a Oliveira, \u00e1 casa de<br \/>\nseu cunhado Jos\u00e9 Barrolo, casado com Gracinha Ramires, para lhe trazer<br \/>\nda rica livraria cl\u00e1ssica que o Barrolo herdara do tio De\u00e2o da<br \/>\nS\u00e9 todos os volumes da Hist\u00f3ria geneal\u00f3gica &#8211; &#8220;e<br \/>\n(acrescentava numa carta) todos os cartap\u00e1cios que por l\u00e1 encontrares<br \/>\ncom o t\u00edtulo de Cr\u00f4nicas do Rei Fulano&#8217; &#8220;~. Depois, do p\u00f3<br \/>\ndas suas estantes. desenterrou as obras de Walter Scott. volumes desirmanados<br \/>\ndo Panorama, a Hist\u00f3ria de Herculano, o Bobo, o Monge de Cister. E<br \/>\nassim abastecido, com uma farta resma de tiras de alma\u00e7o sobre a banca,<br \/>\ncome\u00e7ou a repassar o Poemeto do tio Duarte, inclinado ainda a transpor<br \/>\npara a aspereza duma manh\u00e3 de dezembro, como mais cong\u00eanere com<br \/>\na rudeza feudal dos seus av\u00f3s, aquela luzida cavalgada de donas, monges<br \/>\ne homens de armas que o tio Duarte estendera, atrav\u00e9s duma suave melancolia<br \/>\noutonal, pelas veigas do Mondego&#8230;<\/p>\n<p>Na palidez da tarde. entre a folhagem<br \/>\nQue o outono amarelece&#8230;<\/p>\n<p>Mas. como era ent\u00e3o junho e a lua crescia. Gon\u00e7alo determinou<br \/>\npor fim aproveitar as sensa\u00e7\u00f5es de calor, luar e arvoredos,<br \/>\nque lhe fornecia a aldeia &#8211; para levantar, logo \u00e0 entrada da sua Novela.<br \/>\nnegro e imenso Pa\u00e7o de Santa Iren\u00e9ia, no sil\u00eancio duma<br \/>\nnoite de agosto, sob o resplendor da lua cheia.<\/p>\n<p>E j\u00e1 enchera desembara\u00e7adamente, ajudado pelo Bardo, duas tiras,<br \/>\nquando uma desaven\u00e7a com o seu caseiro. o Manuel Relho. que amanhava<br \/>\na quinta por oitocentos mil r\u00e9is de renda, veio perturbar. na fresca<br \/>\ne novi\u00e7a inspira\u00e7\u00e3o do seu trabalho, o Fidalgo da Torre.<br \/>\nDesde o Natal o Relho, que durante anos de compostura e ordem se emborrachava<br \/>\nsempre aos domingos com alegria e com pachorra, come\u00e7ara a tomar, tr\u00eas<br \/>\ne quatro vezes por semana, bebedeiras desabridas, escandalosas, em que espancava<br \/>\na mulher, atroava a quinta de berros, e saltava para a estrada, esguedelhado,<br \/>\nde varapau, desafiando a quieta aldeia. Por fim, uma noite em que Gon\u00e7alo,<br \/>\n\u00e0 banca, depois do ch\u00e1, laboriosamente escavava os fossos do<br \/>\nPa\u00e7o de Santa Iren\u00e9ia &#8211; de repente a Rosa cozinheira rompeu<br \/>\na gritar: &#8220;Aqui d&#8217;El-Rei contra o Relho!&#8221; E, atrav\u00e9s dos<br \/>\nseus brados e dos latidos dos c\u00e3es, uma pedra, depois outra, bateram<br \/>\nna varanda vener\u00e1vel da livraria! Enfiado, Gon\u00e7alo Mendes Ramires<br \/>\npensou no rev\u00f3lver&#8230; Mas justamente nessa tarde o criado, o Bento,<br \/>\ndescera aquela sua velha e \u00fanica arma \u00e0 cozinha para a desenferrujar<br \/>\ne arear! Ent\u00e3o, atarantado, correu ao quarto, que fechou \u00e0 chave,<br \/>\nempurrando contra a porta a c\u00f4moda com t\u00e3o desesperada ansiedade<br \/>\nque frascos de cristal, um cofre de tartaruga, at\u00e9 um crucifixo, tombaram<br \/>\ne se partiram. Depois gritos e latidos findaram no p\u00e1tio &#8211; mas Gon\u00e7alo<br \/>\nn\u00e3o se arredou nessa noite daquele ref\u00fagio bem defendido, fumando<br \/>\ncigarros, ruminando um furor sentimental contra o Relho, a quem tanto perdoara,<br \/>\nsempre t\u00e3o afavelmente tratara, e que apedrejava as vidra\u00e7as<br \/>\nda Torre! Cedo, de manh\u00e3 convocou o Regedor; a Rosa, ainda tr\u00eamula,<br \/>\nmostrou no bra\u00e7o as marcas roxas dos dedos do Relho; e o homem, cujo<br \/>\narrendamento findava em outubro, foi despedido da quinta com a mulher, a arca<br \/>\ne o catre. Imediatamente apareceu um lavrador dos Bravais, o Jos\u00e9 Casco,<br \/>\nrespeitado em toda a freguesia pela sua seriedade e for\u00e7a espantosa,<br \/>\npropondo ao Fidalgo arrendar a Torre. Gon\u00e7alo Mendes Ramires, por\u00e9m,<br \/>\nj\u00e1 desde a morte do pai, decidira elevar a renda a novecentos e cinq\u00fcenta<br \/>\nmil r\u00e9is: &#8211; e o Casco desceu as escadas, de cabe\u00e7a desca\u00edda.<br \/>\nVoltou logo ao outro dia, repercorreu miudamente toda a quinta, esfarelou<br \/>\na terra entre os dedos, esquadrinhou o curral e a adega, contou as oliveiras<br \/>\ne as cepas: e num esfor\u00e7o, em que lhe arfaram todas as costelas, ofereceu<br \/>\nnovecentos e dez mil r\u00e9is! Gon\u00e7alo n\u00e3o cedia, certo da<br \/>\nsua equidade. O Jos\u00e9 Casco voltou ainda com a mulher; depois, num domingo,<br \/>\ncom a mulher e um compadre &#8211; e era um co\u00e7ar lento do queixo rapado,<br \/>\numas voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas demoras sumidas<br \/>\ndentro da tulha, que tornavam aquela manh\u00e3 de junho intoleravelmente<br \/>\nlonga ao Fidalgo, sentado num banco de pedra do jardim, debaixo duma mimosa,<br \/>\ncom a Gazeta do Porto. Quando o Casco, p\u00e1lido, lhe veio oferecer novecentos<br \/>\ne trinta mil r\u00e9is &#8211; Gon\u00e7alo Mendes Ramires arremessou o jornal,<br \/>\ndeclarou que ia ele, por sua conta, amanhar a propriedade, mostrar o que era<br \/>\num torr\u00e3o rico, tratado pelo saber moderno, com fosfato, com m\u00e1quinas!<br \/>\nO homem de Bravais, ent\u00e3o, arrancou um fundo suspiro, aceitou os novecentos<br \/>\ne cinq\u00fcenta mil r\u00e9is. \u00c0 maneira antiga o Fidalgo apertou<br \/>\na m\u00e3o ao lavrador &#8211; que entrou na cozinha a enxugar um largo copo de<br \/>\nvinho, esponjando na testa, nas cordoveias rijas do pesco\u00e7o, o suor<br \/>\nansiado que o alagava.<\/p>\n<p>Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia abundante de Gon\u00e7alo<br \/>\nestancou &#8211; n\u00e3o foi mais que um fio arrastado e turvo. Quando nessa<br \/>\ntarde se acomodou \u00e0 banca, para contar a sala de armas do Pa\u00e7o<br \/>\nde Santa Iren\u00e9ia por uma noite de lua &#8211; s\u00f3 conseguiu converter<br \/>\nservilmente numa prosa aguada os versos lisos do tio Duarte, sem relevo que<br \/>\nos modernizasse, desse majestade senhorial ou beleza saudosa \u00e0queles<br \/>\nmaci\u00e7os muros, onde o luar, deslizando atrav\u00e9s das reixas, salpicava<br \/>\ncentelhas pelas pontas das lan\u00e7as altas, e pela cimeira dos morri\u00f5es&#8230;<br \/>\nE desde as quatro horas, no calor e sil\u00eancio do domingo de junho, labutava.<br \/>\nempurrando a pena como lento arado em ch\u00e3o pedregoso, riscando logo<br \/>\nrancorosamente a linha que sentia deselegante e mole, ora num rebuli\u00e7o,<br \/>\na sacudir e reenfiar sob a mesa os chinelos de marroquim, ora im\u00f3vel<br \/>\ne abandonado \u00e0 esterilidade que o travava, cornos olhos esquecidos<br \/>\nna Torre, na sua dific\u00edlima Torre, negra entre os limoeiros e o azul,<br \/>\ntoda envolta no piar e esvoa\u00e7ar das andorinhas.<\/p>\n<p>Por fim, descor\u00e7oado. arrojou a pena que t\u00e3o desastrosarnente<br \/>\nemperrara. E fechando na gaveta, com uma pancada, o volume precioso do Bordo:<\/p>\n<p>&#8211; Irra! Estou perfeitamente entupido! \u00c9 este calor! E depois aquele<br \/>\nanimal do Casco, toda a manh\u00e3!&#8230;<\/p>\n<p>Ainda releu, co\u00e7ando sombriamente a nuca. a derradeira linha rabiscada<br \/>\ne suja:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;&#8230; Na sala altaneira e larga, onde os largos e p\u00e1lidos raios<br \/>\nda lua&#8230;&#8221; Larga, largos!&#8230; E os p\u00e1lidos raios, os eternos p\u00e1lidos<br \/>\nraios!&#8230; Tamb\u00e9m este maldito castelo, t\u00e3o complicado!&#8230; E<br \/>\neste D. Tructesindo, que eu n\u00e3o apanho, t\u00e3o antigo!&#8230; Enfim,<br \/>\num horror!<\/p>\n<p>Atirou, num repel\u00e3o, a cadeira de couro; cravou. com furor, um charuto<br \/>\nnos dentes; e abalou da livraria, batendo desesperadamente a porta, num t\u00e9dio<br \/>\nimenso da sua obra, daqueles confusos e enredados Pa\u00e7os de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\ne dos seus av\u00f3s, enormes, ressoantes, chapeados de ferro, e mais vagos<br \/>\nque fumos.<\/p>\n<h3><a name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/h3>\n<p>Bocejando, apertando os cord\u00f5es das largas pantalonas de seda que<br \/>\nlhe escorregavam da cinta, Gon\u00e7alo, que durante todo o dia pregui\u00e7ara,<br \/>\nestirado no divan de damasco azul, com uma vaga dor nos rins, atravessou languidamente<br \/>\no quarto para espreitar, no corredor, o antigo rel\u00f3gio de char\u00e3o.<br \/>\nCinco horas e meia!&#8230; Para desanuviar, pensou numa caminhada pela fresca<br \/>\nestrada dos Bravais. Depois numa visita (devida j\u00e1 desde a P\u00e1scoa!)<br \/>\nao velho Sanches Lucena, eleito novamente deputado, nas Elei\u00e7\u00f5es<br \/>\nGerais de abril, pelo c\u00edrculo de Vila Clara. Mas a jornada \u00e0<br \/>\nFeitosa, \u00e0 quinta do Sanches Lucena, demandava uma hora a cavalo, desagrad\u00e1vel<br \/>\ncom aquela teimosa dor nos rins que o filara na v\u00e9spera \u00e0 noite,<br \/>\ndepois do ch\u00e1, na Assembl\u00e9ia da Vila. E, indeciso, arrastava<br \/>\nos passos no corredor, para gritar ao Bento ou \u00e0 Rosa que lhe subissem<br \/>\numa limonada, quando, atrav\u00e9s das varandas abertas, ressoou um vozeir\u00e3o<br \/>\nde grosso metal, que gracejando mais se engrossava, rolava pelo p\u00e1tio,<br \/>\nnuma cad\u00eancia cava de malho malhando:<\/p>\n<p>&#8211; Oh s\u00f4 Gon\u00e7alo! Oh s\u00f4 Gon\u00e7al\u00e3o! Oh s\u00f3<br \/>\nGon\u00e7al\u00edssimo Mendes Ramires!&#8230;<\/p>\n<p>Reconheceu logo o Tit\u00f3, o Ant\u00f4nio Vilalobos, seu vago parente,<br \/>\ne seu companheiro de Vila Clara, onde aquele homenzarr\u00e3o excelente,<br \/>\nde velha ra\u00e7a Alentejana, se estabelecera sem motivo, s\u00f3 por<br \/>\nafei\u00e7\u00e3o buc\u00f3lica \u00e0 vila. E havia onze anos que<br \/>\na atulhava com os seus possantes membros, o lento ribombo do seu vozeir\u00e3o,<br \/>\ne a sua ociosidade espalhada pelos bancos, pelas esquinas, pelas ombreiras<br \/>\ndas lojas, pelos balc\u00f5es das tabernas, pelas sacristias a caturrar<br \/>\ncom os padres, at\u00e9 pelo cemit\u00e9rio a filosofar com o coveiro.<br \/>\nEra um irm\u00e3o do velho morgado de Cidadelhe (o genealogista), que lhe<br \/>\nestabelecera urna mesada de oito moedas para o conservar longe de Cidadelhe<br \/>\n&#8211; e do seu sujo serralho de mo\u00e7as do campo, e da obra tenebrosa a que<br \/>\nagora se atrelara, a Ver\u00eddica Inquiri\u00e7\u00e3o, uma Inquiri\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre as bastardias, crimes e t\u00edtulos ileg\u00edtimos das fam\u00edlias<br \/>\nfidalgas de Portugal. E Gon\u00e7alo, desde estudante, amara sempre aquele<br \/>\nH\u00e9rcules bonacheir\u00e3o, que o seduzia pela prodigiosa for\u00e7a,<br \/>\na incompar\u00e1vel pot\u00eancia em beber todo um pipo e em comer todo<br \/>\num anho, e sobretudo pela independ\u00eancia, uma suprema independ\u00eancia,<br \/>\nque, apoiada ao bengal\u00e3o terr\u00edfico e com as suas oito moedas<br \/>\ndentro da algibeira, nada temia e nada desejava nem da Terra nem do C\u00e9u.<br \/>\n&#8211; Logo debru\u00e7ado na varanda, gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Tit\u00f3, sobe!&#8230; Sobe enquanto eu me visto. Tomas um c\u00e1lice<br \/>\nde genebra&#8230; Vamos depois passear at\u00e9 aos Bravais&#8230;<\/p>\n<p>Sentado no rebordo do tanque redondo e sem \u00e1gua que ornava o p\u00e1tio,<br \/>\nerguendo para o casar\u00e3o a sua franca e larga face requeimada, cheia<br \/>\nde barba ruiva, o Tit\u00f3 movia lentamente como um leque um velho chap\u00e9u<br \/>\nde palha:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso&#8230; Ouve l\u00e1! Tu queres hoje \u00e0 noite cear<br \/>\nno Gago, comigo e com o Jo\u00e3o Gouveia? Vai tamb\u00e9m o Videirinha<br \/>\ne o viol\u00e3o. Temos uma tainha assada, uma famosa. E enorme, que eu comprei<br \/>\nesta manh\u00e3 a uma mulher da Costa por cinco tost\u00f5es. Assada pelo<br \/>\nGago!&#8230; Entendido, hem? O Gago abre pipa nova de vinho, do abade de Chandim.<br \/>\nEu conhe\u00e7o o vinho. E daqui, da ponta fina.<\/p>\n<p>E Tit\u00f3, com dois dedos, delicadamente, sacudiu a ponta mole da orelha.<br \/>\nMas Gon\u00e7alo, repuxando as pantalonas, hesitava:<\/p>\n<p>&#8211; Homem, eu ando com o est\u00f4mago arrasado&#8230; E desde ontem \u00e0<br \/>\nnoite uma dor nos rins, ou no f\u00edgado, ou no ba\u00e7o, n\u00e3o<br \/>\nsei bem, numa dessas entranhas!&#8230; At\u00e9 hoje, para o jantar, s\u00f3<br \/>\ncaldo de galinha e galinha cozida&#8230; Enfim, v\u00e1! Mas, \u00e0 cautela,<br \/>\nrecomenda ao Gago que me prepare para mim um franguinho assado&#8230; Onde nos<br \/>\nencontramos? Na Assembl\u00e9ia?<\/p>\n<p>O Tit\u00f3 despegara logo do tanque, pousando na nuca o chap\u00e9u<br \/>\nde palha:<\/p>\n<p>&#8211; Hoje n\u00e3o me gasto pela Assembl\u00e9ia. Tenho senhora. Das dez<br \/>\npara as dez e meia, no Chafariz&#8230; Vai tamb\u00e9m o Videirinha com a viola.<br \/>\nViva!&#8230; Das dez para as dez e meia! Entendido&#8230; E franguinho assado para<br \/>\nS. Exa., que se queixa do rim!<\/p>\n<p>E atravessou o p\u00e1tio, com lentid\u00e3o bovina, parando a colher<br \/>\nnuma roseira, junto ao port\u00e3o, uma rosa com que floriu a quinzena de<br \/>\nveludilho cor de azeitona.<\/p>\n<p>Imediatamente Gon\u00e7alo decidira n\u00e3o jantar, certo dos benef\u00edcios<br \/>\ndaquele jejum at\u00e9 \u00e0s dez horas, depois de um passeio pelos Bravais<br \/>\ne pelo vale da Riosa. E, antes de entrar no quarto para se vestir, empurrou<br \/>\na porta envidra\u00e7ada sobre a escura escada da cozinha, gritou pela Rosa<br \/>\ncozinheira. Mas nem a boa velha, nem o Bento por quem tamb\u00e9m berrou<br \/>\nfuriosamente, responderam, no pesado sil\u00eancio em que jaziam, como abandonados,<br \/>\nesses sombrios fundos de grande laje e de grande ab\u00f3bada que restavam<br \/>\ndo antigo Pal\u00e1cio, restaurado por Vicente Ramires depois da sua campanha<br \/>\nem Castela, incendiado no tempo de El-Rei D. Jos\u00e9 I. Ent\u00e3o Gon\u00e7alo<br \/>\ndesceu dois degraus da gasta escadaria de pedra e atirou outro dos longos<br \/>\nbrados com que atroava a Torre &#8211; desde que as campainhas andavam desmanchadas.<br \/>\nE descia ainda para invadir a cozinha quando a Rosa acudiu. Sa\u00edra para<br \/>\no p\u00e1tio da horta com a filha da Cr\u00edspola! n\u00e3o sentira<br \/>\no Sr. Doutor!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois estou a berrar h\u00e1 uma hora! E nem voc\u00ea nem Bento!&#8230;<br \/>\nE porque n\u00e3o janto. Vou cear \u00e0 Vila Clara com os amigos.<\/p>\n<p>A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou, desolada. Pois o Sr. Doutor<br \/>\nficava assim em jejum at\u00e9 horas da noite? &#8211; Filha dum antigo hortel\u00e3o<br \/>\nda Torre, crescida na Torre, j\u00e1 cozinheira da Torre quando Gon\u00e7alo<br \/>\nnascera, sempre o tratara por menino, e mesmo por &#8220;seu riquinho&#8221;<br \/>\nat\u00e9 que ele partiu para Coimbra e come\u00e7ou a ser, para ela e<br \/>\npara o Bento, o &#8220;Sr. Doutor&#8221;. &#8211; E o Sr. Doutor, ao menos, devia<br \/>\ntornar o caldinho de galinha, que apurara desde o meio-dia, cheirava que nem<br \/>\nfeito no c\u00e9u!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, que nunca discordava da Rosa ou do Bento, consentiu &#8211; e j\u00e1<br \/>\nsubia, quando reclamou ainda a Rosa para se informar da Cr\u00edspola, uma<br \/>\ndesgra\u00e7ada vi\u00fava que, com um rancho faminto de crian\u00e7as,<br \/>\nadoecera pela P\u00e1scoa de febres perniciosas.<\/p>\n<p>&#8211; A Cr\u00edspola vai melhor, Sr. Doutor. J\u00e1 se levanta. Diz a pequena<br \/>\nque j\u00e1 se levanta&#8230; Mas muito derreadinha&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo desceu logo outro degrau, debru\u00e7ado na escada, para<br \/>\nmergulhar mais confidencialmente naquelas tristezas: &#8211; Olhe, oh Rosa, ent\u00e3o<br \/>\nse a pequena a\u00ed est\u00e1, coitada, que leve para casa \u00e0 m\u00e3e<br \/>\na galinha que eu tinha para jantar. E o caldo&#8230; Que leve a panela! Eu tomo<br \/>\numa ch\u00e1vena de ch\u00e1 com biscoitos. E olhe! Mande tamb\u00e9m<br \/>\ndez tost\u00f5es \u00e0 Cr\u00edspola&#8230; Mande dois mil r\u00e9is.<br \/>\nEscute! Mas n\u00e3o lhe mande a galinha e o dinheiro assim secamente&#8230;<br \/>\nDiga que estimo as melhoras, e que l\u00e1 passarei por casa para saber.<br \/>\nE esse animal do Bento que me suba \u00e1gua quente!<\/p>\n<p>No quarto, em mangas de camisa, diante do espelho, um imenso espelho rolando<br \/>\nentre colunas douradas, estudou a l\u00edngua que lhe parecia saburrosa,<br \/>\ndepois o branco dos olhos, receando a amarelid\u00e3o de b\u00edlis solta.<br \/>\nE terminou por se contemplar na sua fei\u00e7\u00e3o nova, agora que rapara<br \/>\na barba em Lisboa, conservando o bigodinho castanho, frisado e leve, e uma<br \/>\nmosca um pouco longa, que lhe alongava mais a face aquilina e fina, sempre<br \/>\nduma brancura de nata. O seu desconsolo era o cabelo, bem ondeado, mas t\u00eanue<br \/>\ne fraco, e, apesar de todas as \u00e1guas e pomadas, necessitando j\u00e1<br \/>\nrisca mais elevada, quase ao meio da testa clara.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 infernal! Aos trinta anos estou calvo&#8230;<\/p>\n<p>E todavia n\u00e3o se despegava do espelho, numa contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\nagradada, recordando mesmo a recomenda\u00e7\u00e3o da tia Louredo, em<br \/>\nLisboa: -&#8220;Oh sobrinho! o menino, assim galante e esperto, n\u00e3o<br \/>\nse enterre na prov\u00edncia! Lisboa est\u00e1 sem rapazes. Precisamos<br \/>\nc\u00e1 um bom Ramires!&#8221; &#8211; N\u00e3o! N\u00e3o se enterraria na<br \/>\nprov\u00edncia, im\u00f3vel sob a hera e a poeira melanc\u00f3lica das<br \/>\ncoisas im\u00f3veis, como a sua Torre!&#8230; Mas vida elegante em Lisboa, entre<br \/>\na sua parentela hist\u00f3rica, como a ag\u00fcentaria com o conto e oitocentos<br \/>\nmil r\u00e9is de renda que lhe restava, pagas as d\u00edvidas do pap\u00e1?<br \/>\nE depois realmente vida em Lisboa s\u00f3 a desejava com uma posi\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica &#8211; cadeira em S\u00e3o Bento, influ\u00eancia intelectual<br \/>\nno seu Partido, lentas e seguras avan\u00e7adas para o Poder. E essa, t\u00e3o<br \/>\ndocemente sonhada em Coimbra, nas f\u00e1ceis cavaqueiras do Hotel Mondego<br \/>\n&#8211; muito remota a entrevia! Quase inconquist\u00e1vel, para al\u00e9m de<br \/>\num muro alto e \u00e1spero, sem porta e sem fenda!&#8230; Deputado &#8211; como? Agora,<br \/>\ncom o horrendo S. Fulg\u00eancio e os Hist\u00f3ricos no Minist\u00e9rio<br \/>\ndurante tr\u00eas gordos anos, n\u00e3o voltariam Elei\u00e7\u00f5es<br \/>\nGerais. E mesmo nalguma Elei\u00e7\u00e3o Suplementar que possibilidade<br \/>\nlograria ele, que, desde Coimbra, bem levianamente, arrastado por uma eleg\u00e2ncia<br \/>\nde tradi\u00e7\u00f5es, se manifestara sempre Regenerador, no &#8220;Centro&#8221;<br \/>\nda Coura\u00e7a, nas Correspond\u00eancias para a Gazeta do Porto, nas<br \/>\nverrinas ardentes contra o chefe do Distrito, o Cavaleiro detest\u00e1vel?&#8230;<br \/>\nAgora s\u00f3 lhe restava esperar. Esperar, trabalhando; ganhando em consist\u00eancia<br \/>\nsocial; edificando com sagacidade, sobre a base do seu imenso nome hist\u00f3rico,<br \/>\numa pequenina nomeada pol\u00edtica; tecendo e estendendo a malha preciosa<br \/>\ndas amizades partid\u00e1rias desde Santa Iren\u00e9ia at\u00e9 ao Terreiro<br \/>\ndo Pa\u00e7o&#8230; Sim! eis a teoria espl\u00eandida: &#8211; mas consist\u00eancia,<br \/>\nnomeada, afei\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, como se conquistam? &#8220;Advogue,<br \/>\nescreva nos jornais!&#8221; fora o conselho distra\u00eddo e risonho do seu<br \/>\nchefe, o Braz Victorino. Advogar em Oliveira, mesmo em Lisboa? N\u00e3o<br \/>\npodia, com aquele seu horror ing\u00eanito, quase filos\u00f3fico, a autos<br \/>\ne papelada forense. Fundar um jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu<br \/>\ncompanheiro de Coimbra no Hotel Mondego? Era fa\u00e7anha f\u00e1cil para<br \/>\no neto adorado da Sra. D. Joaquina Rangel que armazenava dez mil pipas de<br \/>\nvinho nos barrac\u00f5es de Gaia. Batalhar num jornal de Lisboa? Nessas<br \/>\nsemanas de Capital, sempre pelo Banco Hipotec\u00e1rio, sempre com as primas.<br \/>\nnem formara rela\u00e7\u00f5es dur\u00e1veis e \u00fateis nos dois<br \/>\ngrandes Di\u00e1rios Regeneradores, a Manh\u00e3 e a Verdade&#8230; De sorte<br \/>\nque. realmente, nesse muro que o separava da fortuna s\u00f3 descobria um<br \/>\nburaquinho, bem apertado mas servi\u00e7al &#8211; os Anais de Literatura e de<br \/>\nHist\u00f3ria, com a sua colabora\u00e7\u00e3o de Professores, de Pol\u00edticos,<br \/>\nat\u00e9 de um Ministro, at\u00e9 de um Almirante, o Guerreiro Ara\u00fajo,<br \/>\nesse tocante ma\u00e7ador. Apareceria pois nos Anais com a sua Torre, revelando<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o e um saber rico. Depois. trepando da Inven\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o terreno mais respeit\u00e1vel da Erudi\u00e7\u00e3o, daria um<br \/>\nestudo (que at\u00e9 lhe lembrara no comboio, ao voltar de Lisboa!) sobre<br \/>\nas &#8220;Origens Visig\u00f3ticas do Direito P\u00fablico em Portugal&#8230;&#8221;<br \/>\nOh, nada conhecia, \u00e9 certo, dessas Origens, desses Visigodos. Mas,<br \/>\ncom a bela Hist\u00f3ria da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica em<br \/>\nPortugal que lhe emprestara o Castanheiro, comporia corrediamente um resumo<br \/>\nelegante&#8230; Depois, saltando da Erudi\u00e7\u00e3o \u00e0s Ci\u00eancias<br \/>\nSociais e Pedag\u00f3gicas &#8211; por que n\u00e3o amassaria urna boa &#8220;Reforma<br \/>\ndo Ensino Jur\u00eddico em Portugal&#8221; em dois artigos ma\u00e7udos,<br \/>\nde Homem de Estado?&#8230; Assim avan\u00e7ava, bem chegado aos Regeneradores,<br \/>\nconstruindo e cinzelando o seu pedestal liter\u00e1rio, at\u00e9 que os<br \/>\nRegeneradores voltassem ao Minist\u00e9rio, e no muro se escancarasse a<br \/>\ndesejada porta triunfal. &#8211; E no meio do quarto, em ceroulas, com as m\u00e3os<br \/>\nnas ilhargas, Gon\u00e7alo Mendes Ramires concluiu pela necessidade de apressar<br \/>\na sua Novela.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, quando acabarei eu essa Torre? Assim emperrado, sem veia, com o f\u00edgado<br \/>\ncombalido?&#8230;<\/p>\n<p>O Bento, velho de face rapada e morena, com um lindo cabelo branco todo encarapinhado,<br \/>\nmuito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga, entrara vagarosamente,<br \/>\nsegurando a infusa d&#8217;\u00e1gua quente.<\/p>\n<p>&#8211; Oh Bento, ouve l\u00e1! Tu n\u00e3o encontraste na mala que eu trouxe<br \/>\nde Lisboa, ou no caixote, um frasco de vidro com um p\u00f3 branco? E um<br \/>\nrem\u00e9dio ingl\u00eas que me deu o Sr. Dr. Matos&#8230; Tem um r\u00f3tulo<br \/>\nem ingl\u00eas, com um nome ingl\u00eas, n\u00e3o sei que, fruit salt&#8230;<br \/>\nQuer dizer sal de frutas&#8230;<\/p>\n<p>O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim, no<br \/>\nquarto de lavar, em cima do ba\u00fa vermelho, ficara um frasco com p\u00f3,<br \/>\nembrulhado num pergaminho antigo como os do Arquivo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 esse! &#8211; declarou Gon\u00e7alo. &#8211; Eu precisava em Lisboa uns<br \/>\ndocumentos por causa daquele malvado foro de Praga. E por engano, na balb\u00fardia,<br \/>\nlevo do Arquivo um pergaminho perfeitamente in\u00fatil! Vai buscar o rolo&#8230;<br \/>\nMas tem cuidado com o frasco!<\/p>\n<p>O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os bot\u00f5es de \u00e1gata<br \/>\nnos punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama, para ele vestir,<br \/>\na quinzena, as cal\u00e7as bem vincadas, de cheviote leve. E Gon\u00e7alo,<br \/>\nretomado pela id\u00e9ia de artigos para os Anais, folheava, rente \u00e0<br \/>\njanela, a Hist\u00f3ria da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica em<br \/>\nPortugal, quando Bento voltou com um rolo de pergaminho, donde pendia, por<br \/>\nfitas ro\u00eddas, um selo de chumbo.<\/p>\n<p>&#8211; Esse mesmo! &#8211; exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da janela.<br \/>\n&#8211; \u00c9 esse mesmo que eu enrolei no pergaminho para se n\u00e3o quebrar.<br \/>\nDesembrulha, deixa em cima da c\u00f4moda&#8230; O Sr. Dr. Matos aconselhou que<br \/>\no tomasse com \u00e1gua t\u00e9pida, em jejum. Parece que ferve. E limpa<br \/>\no sangue, desanuvia a cabe\u00e7a&#8230; Pois eu muito necessitado ando de desanuviar<br \/>\na cabe\u00e7a!&#8230; Toma tu tamb\u00e9m, Bento. E diz \u00e0 Rosa que<br \/>\ntorne. Todos tomam agora, at\u00e9 o Papa!<\/p>\n<p>Com cuidado, o Bento desenrolara o frasco, estendendo sobre o m\u00e1rmore<br \/>\nda c\u00f4moda o pergaminho duro, onde a letra do s\u00e9culo XVI se encarquilhava<br \/>\namarela e morta. E Gon\u00e7alo, abotoando o colarinho:<\/p>\n<p>&#8211; Ora a\u00ed est\u00e1 o que eu levo preciosamente para deslindar o<br \/>\nforo de Praga! Um pergaminho do tempo de D. Sebasti\u00e3o&#8230; E s\u00f3<br \/>\npercebo mesmo a data, mil quatrocentos&#8230; N\u00e3o, mil quinhentos e setenta<br \/>\ne sete. Nas v\u00e9speras da jornada da \u00c1frica&#8230; Enfim! serviu para<br \/>\nembrulhar o frasco.<\/p>\n<p>O Bento, que escolhera no gavet\u00e3o um colete branco, relanceou de lado<br \/>\no pergaminho vener\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente foi carta que El-Rei D. Sebasti\u00e3o escreveu a algum<br \/>\navozinho do Sr. Doutor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente &#8211; murmurava o Fidalgo, diante do espelho. &#8211; E para lhe dar<br \/>\nalguma coisa boa, alguma coisa gorda&#8230; Antigamente ter Rei era ter renda.<br \/>\nAgora&#8230; N\u00e3o apertes tanto essa fivela, homem! Trago h\u00e1 dias<br \/>\no est\u00f4mago inchado&#8230; Agora, com efeito, esta institui\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Rei anda muito safada, Bento!<\/p>\n<p>&#8211; Parece que anda &#8211; observou gravemente o Bento. &#8211; Tamb\u00e9m, o S\u00e9culo<br \/>\nafian\u00e7a que os Reis est\u00e3o a acabar, e por dias. Ainda ontem<br \/>\nafian\u00e7ava. E o S\u00e9culo \u00e9 jornal bem informado&#8230; No de<br \/>\nhoje, n\u00e3o sei se o Sr. Doutor leu, l\u00e1 vem a grande festa dos<br \/>\nanos do Sr. Sanches Lucena, e o fogo de vistas, e o br\u00f3dio que deram<br \/>\nna Feitosa&#8230;<\/p>\n<p>Enterrado no div\u00e3 de damasco, Gon\u00e7alo estendera os p\u00e9s<br \/>\nao Bento que lhe la\u00e7ava as botas brancas:<\/p>\n<p>&#8211; Esse Sanches Lucena \u00e9 um idiota! Ora que arranjo far\u00e1 a esse<br \/>\nhomem, aos sessenta anos, ser deputado, passar meses em Lisboa no Francfort,<br \/>\nabandonar as propriedades, deixar aquela linda quinta&#8230; E para qu\u00ea?<br \/>\nPara rosnar de vez em quando &#8220;apoiado&#8221;! Antes ele me cedesse a cadeira,<br \/>\na mim, que sou mais esperto, n\u00e3o possuo grandes terras, e gosto do<br \/>\nHotel Bragan\u00e7a. E por Sanches Lucena&#8230; O Joaquim amanh\u00e3 que<br \/>\nme tenha a \u00e9gua pronta. a esta hora, para eu ir \u00e0 Feitosa visitar<br \/>\nesse animal&#8230; E ponho ent\u00e3o o fato novo de montar que trouxe de Lisboa,<br \/>\ncom as polainas altas&#8230; H\u00e1 mais de dois anos que n\u00e3o vejo a<br \/>\nD. Ana Lucena. \u00c9 uma linda mulher!<\/p>\n<p>&#8211; Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa eles passaram a\u00ed, na caleche.<br \/>\nAt\u00e9 pararam, e o Sr. Sanches Lucena apontou para a Torre, a mostrar<br \/>\n\u00e0 senhora&#8230; Mulher muito perfeita! E traz uma grande luneta, com um<br \/>\ngrande cabo. e um grande grilh\u00e3o, tudo de ouro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bravo!&#8230; Encharca bem esse len\u00e7o com \u00e1gua-de-col\u00f4nia,<br \/>\nque tenho a cabe\u00e7a t\u00e3o pesada!&#8230; Essa D. Ana era uma jornaleira,<br \/>\nurna mo\u00e7a do campo, de Corinde?<\/p>\n<p>Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor! A Sra. D. Ana Lucena \u00e9 de gente muito baixa!<br \/>\nFilha dum carniceiro de Ovar&#8230; E o irm\u00e3o andou a monte por ter morto<br \/>\no ferrador de Ilhavo.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim &#8211; resumiu Gon\u00e7alo-, filha de carniceiro, irm\u00e3o a monte,<br \/>\nbela mulher, luneta de ouro&#8230; Merece fato novo!<\/p>\n<p>Em Vila-Clara, \u00e0s dez horas, sentado num dos bancos de pedra do Chafariz,<br \/>\nsob as olaias, o Tit\u00f3 esperava com o amigo Jo\u00e3o Gouveia &#8211; que<br \/>\nera o Administrador do Concelho da Vila. Ambos se abanavam com os chap\u00e9us,<br \/>\nem sil\u00eancio, gozando a frescura e o sussurro da \u00e1gua lenta na<br \/>\nsombra. E a &#8220;meia&#8221; batia no rel\u00f3gio da C\u00e2mara, quando<br \/>\nGon\u00e7alo, que se retardara na Assembl\u00e9ia num voltarete enremissado,<br \/>\napareceu anunciando uma fome terr\u00edvel, &#8220;a fome hist\u00f3rica<br \/>\ndos Ramires&#8221;, e apressando a marcha para o Gago &#8211; sem mesmo consentir<br \/>\nque o Tit\u00f3 descesse \u00e0 tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa<br \/>\nde aguardente de cana da Madeira, velha e &#8220;da ponta fina&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 tempo! Ao Gago! Ao Gago!&#8230; Sen\u00e3o devoro um<br \/>\nde voc\u00eas, com esta furiosa fome Ram\u00edrica!<\/p>\n<p>Mas, logo ao subirem a Cal\u00e7adinha, parou ele cruzando os bra\u00e7os,<br \/>\ninterpelando divertidamente o Sr. Administrador do Concelho pelo estupendo<br \/>\nfeito do seu Governo&#8230; ent\u00e3o o seu Governo, os seus amigos Hist\u00f3ricos,<br \/>\no seu honrad\u00edssimo S. Fulg\u00eancio &#8211; nomeavam, para Governador Civil<br \/>\nde Monforte, o Ant\u00f4nio Moreno! O Ant\u00f4nio Moreno, t\u00e3o justamente<br \/>\nchamado em Coimbra, Antoninha Morena! N\u00e3o, realmente, era a derradeira<br \/>\ndegrada\u00e7\u00e3o a que podia rolar um pa\u00eds! Depois desta, para<br \/>\nharmonia perfeita dos servi\u00e7os, s\u00f3 outra nomea\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne urgente &#8211; a da Joana Salgadeira, Procuradora-Geral da Coroa!<\/p>\n<p>E o Jo\u00e3o Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito seco, de bigode<br \/>\nmais duro que pia\u00e7ava, esticado numa sobrecasaca curta, com o chap\u00e9u-de-coco<br \/>\natirado para a orelha, n\u00e3o discordava. Empregado imparcial, servindo<br \/>\nos Hist\u00f3ricos corno servira os Regeneradores, sempre acolhia com imparcial<br \/>\nironia as nomea\u00e7\u00f5es de bachar\u00e9is novos, Hist\u00f3ricos<br \/>\nou Regeneradores, para os gordos lugares Administrativos. Mas, neste caso,<br \/>\nsinceramente, quase vomitara, rapazes! Governador Civil, e de Monforte, o<br \/>\nAnt\u00f4nio Moreno, que ele tantas vezes encontrara no quarto, em Coimbra,<br \/>\nvestido de mulher, de roup\u00e3o aberto, e a carinha bonita coberta de<br \/>\np\u00f3-de-arroz!&#8230; &#8211; E, travando do bra\u00e7o do Fidalgo, recordava<br \/>\na noite em que o Jos\u00e9 Gorj\u00e3o, muito b\u00eabedo, de cartola<br \/>\ne com um rev\u00f3lver, exigia furiosamente que o Padre Justino, tamb\u00e9m<br \/>\nb\u00eabedo, o casasse com o Antoninho diante de um nicho da Senhora da Boa<br \/>\nMorte! Mas o Tit\u00f3, que esperava, floreando o bengal\u00e3o, declarou<br \/>\n\u00e0queles senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua,<br \/>\na conversar de Pol\u00edtica e de indec\u00eancias &#8211; ent\u00e3o voltava<br \/>\nele ao Brito, buscar a aguardentezinha&#8230; Imediatamente o Fidalgo da Torre,<br \/>\nsempre brincalh\u00e3o, sacudiu o bra\u00e7o do Administrador, e galgou<br \/>\npela Cal\u00e7adinha, aos corcovos, com as m\u00e3os fortemente juntas,<br \/>\ncomo colhendo uma r\u00e9dea, contendo um cavalo que se desboca.<\/p>\n<p>E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e \u00edngreme que subia<br \/>\nda taberna, a um canto da comprida mesa alumiada por dois candeeiros de petr\u00f3leo,<br \/>\na ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gon\u00e7alo, que se declarava<br \/>\nmiraculosamente curado pelo passeio at\u00e9 os Bravais e pelas emo\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo voltarete em que ganhara dezenove tost\u00f5es ao Manuel Duarte &#8211; come\u00e7ou<br \/>\npor uma pratada de ovos com chouri\u00e7o, devorou metade da tainha, devastou<br \/>\no seu &#8220;frango de doente&#8221;, clareou o prato da salada de pepino, findou<br \/>\npor um mont\u00e3o de ladrilhos de marmelada; e atrav\u00e9s deste nobre<br \/>\ntrabalho, sem que a fina brancura da sua pele se afogueasse, esvaziou uma<br \/>\ncaneca vidrada de Alvaralh\u00e3o, porque logo ao primeiro trago, e com<br \/>\ndesgosto do Tit\u00f3, amaldi\u00e7oara o vinho novo do abade. \u00c0<br \/>\nsobremesa apareceu o Videirinha, &#8220;o Videirinha do viol\u00e3o&#8221;,<br \/>\ntocador afamado de Vila-Clara, ajudante de Farm\u00e1cia, e poeta com versos<br \/>\nde amor e de patriotismo j\u00e1 impressos no Independente de Oliveira.<br \/>\nJantara nessa tarde, com o viol\u00e3o, em casa do Comendador Barros, que<br \/>\ncelebrava o anivers\u00e1rio da sua comenda: e s\u00f3 aceitou um copo<br \/>\nde Alvaralh\u00e3o, em que esmagou um ladrilho de marmelada &#8220;para adocicar<br \/>\na goela&#8221;. Depois, \u00e0 meia-noite, Gon\u00e7alo obrigou o Gago<br \/>\na espertar o lume, ferver um caf\u00e9 &#8220;muito forte, um caf\u00e9<br \/>\nterr\u00edvel, Gago amigo! um caf\u00e9 capaz de abrir talento no Sr.<br \/>\nComendador Barros!&#8221; Era essa a hora divina do viol\u00e3o e do &#8220;fadinho&#8221;.<br \/>\nE j\u00e1 o Videirinha recuara para a sombra da sala, pigarreando, afinando<br \/>\nos bord\u00f5es, pousado com melancolia \u00e0 borda dum banco alto.<\/p>\n<p>&#8211; A Soledad, Videirinha! &#8211; pediu o bom Tit\u00f3, pensativo, enrolando<br \/>\num grosso cigarro.<\/p>\n<p>Videirinha gemeu deliciosamente a Soledad:<\/p>\n<p>Quando fores ao cemit\u00e9rio<br \/>\nAi Soledad, Soledad!&#8230;<\/p>\n<p>Depois, apenas ele findou, aclamado, e enquanto acertava as cravelhas, o<br \/>\nFidalgo da Torre e Jo\u00e3o Gouveia, com os cotovelos na mesa, os charutos<br \/>\nfumegando, conversaram sobre essa venda de Louren\u00e7o Marques aos Ingleses,<br \/>\npreparada sorrateirarnente (conforme clamavam, arrepiados de horror, os jornais<br \/>\nda Oposi\u00e7\u00e3o) pelo Governo do S. Fulg\u00eancio. E Gon\u00e7alo<br \/>\ntamb\u00e9m se arrepiava! N\u00e3o com a aliena\u00e7\u00e3o da Col\u00f4nia<br \/>\n&#8211; mas com a imprud\u00eancia do S. Fulg\u00eancio! Que aquele careca obeso,<br \/>\nfilho sacr\u00edlego dum frade que depois se fizera merceeiro em Cabecelhos,<br \/>\ntrocasse a libras, para se manter mais dois anos no poder, um peda\u00e7o<br \/>\nde Portugal, torr\u00e3o augusto, trilhado heroicamente pelos Gamas, os<br \/>\nAta\u00eddes, os Castros, os seus pr\u00f3prios av\u00f3s &#8211; era para<br \/>\nele uma abomina\u00e7\u00e3o que justificava todas as viol\u00eancias,<br \/>\nmesmo urna revolta, e a casa de Bragan\u00e7a enterrada no lodo do Tejo!<br \/>\nTrincando, sem parar, am\u00eandoas torradas, Jo\u00e3o Gouveia observou:<\/p>\n<p>&#8211; Sejamos justos, Gon\u00e7alo Mendes! Olhe que os Regeneradores..<\/p>\n<p>O Fidalgo sorriu superiormente. Ah! se os Regeneradores realizassem essa<br \/>\ngrandiosa opera\u00e7\u00e3o -bem! Esses, primeiramente, nunca cometeriam<br \/>\na indec\u00eancia de vender a Ingleses terra de Portugueses! Negociariam<br \/>\ncom Franceses, com Italianos, povos latinos, ra\u00e7as fraternas&#8230; E depois<br \/>\nos bons milh\u00f5es soantes seriam aplicados ao fomento do Pa\u00eds,<br \/>\ncom saber, com probidade, com experi\u00eancia. Mas esse horrendo careca<br \/>\ndo S. Fulg\u00eancio!&#8230; &#8211; E no seu furor, engasgado, gritou por genebra,<br \/>\nporque realmente aquele cognac do Gago era urna pe\u00e7onha torpe!<\/p>\n<p>O Tit\u00f3 encolheu os ombros, resignado:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me deixaste ir buscar a aguardentezinha, agora ag\u00fcenta&#8230;<br \/>\nE a genebra \u00e9 ainda mais pe\u00e7onhenta. Nem para os negros desse<br \/>\nLouren\u00e7o Marques que tu queres vender&#8230; Portugueses indecentes, a<br \/>\nvender Portugal! At\u00e9 o Sr. Administrador do Concelho devia proibir<br \/>\nestas conversas&#8230;<\/p>\n<p>Mas o Sr. Administrador do Concelho afirmou que as consentia, e rasgadamente&#8230;<br \/>\nPorque tamb\u00e9m ele, como Governo, venderia Louren\u00e7o Marques,<br \/>\ne Mo\u00e7ambique, e toda a Costa oriental! E \u00e0s talhadas! Em leil\u00e3o!<br \/>\nAli, toda a \u00c1frica, posta em pra\u00e7a, apregoada no Terreiro do<br \/>\nPa\u00e7o! E sabiam os amigos por qu\u00ea? Pelo s\u00e3o princ\u00edpio<br \/>\nde forte administra\u00e7\u00e3o (estendia o bra\u00e7o, meio al\u00e7ado<br \/>\ndo banco, como num Parlamento)&#8230; Pelo s\u00e3o princ\u00edpio de que<br \/>\ntodo o propriet\u00e1rio de terras distantes, que n\u00e3o pode valorizar<br \/>\npor falta de dinheiro ou gente, as deve vender para consertar o seu telhado,<br \/>\nestrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom torr\u00e3o<br \/>\nque pisa com os p\u00e9s&#8230; Ora a Portugal restava toda uma riqu\u00edssima<br \/>\nprov\u00edncia a amanhar, a regar, a lavrar, a semear &#8211; o Alentejo!<\/p>\n<p>O Tit\u00f3 lan\u00e7ou o vozeir\u00e3o, desdenhando o Alentejo como<br \/>\numa pel\u00edcula de terra de m\u00e1 qualidade, que, fora umas l\u00e9guas<br \/>\nde campos em torno de Beja e de Serpa, por um gr\u00e3o s\u00f3 dava dois,<br \/>\ne, apenas esgaravatada, logo mostrava o granito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O mano Jo\u00e3o tem l\u00e1 uma herdade imensa, imens\u00edssima,<br \/>\nque rende trezentos mil r\u00e9is!<\/p>\n<p>O Administrador, que advogara em M\u00e9rtola, protestou, encristado. O<br \/>\nAlentejo! Prov\u00edncia abandonada, sim! Abandonada miseravelmente, desde<br \/>\ns\u00e9culos, pela imbecilidade dos governos&#8230; Mas riqu\u00edssima, fertil\u00edssima!<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o os \u00c1rabes&#8230; E qual \u00c1rabes! Ainda h\u00e1<br \/>\ndias o Freitas Galv\u00e3o me contava&#8230;<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo Mendes, que cuspira tamb\u00e9m a genebra com uma carantonha,<br \/>\nacudiu. num resumo varredor, condenando todo o Alentejo como uma desgra\u00e7ada<br \/>\nilus\u00e3o!<\/p>\n<p>Estirado por sobre a mesa. o Administrador gritava:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea j\u00e1 esteve no Alentejo?<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m nunca estive na China, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o fale! S\u00f3 a vinha espantosa que plantou o<br \/>\nJo\u00e3o Maria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qu\u00ea! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, noutros s\u00edtios, l\u00e9guas<br \/>\ne l\u00e9guas sem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um celeiro!<\/p>\n<p>&#8211; Uma charneca!<\/p>\n<p>E atrav\u00e9s do tumulto o Videirinha, repenicando com solit\u00e1rio<br \/>\nardor, levado na torrente de ais do &#8220;fado&#8221; da Anosa, solu\u00e7ava<br \/>\ncontra uns olhos negros, donos do seu cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Ai! que dos teus negros olhos<br \/>\nMe vem hoje a perdi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O petr\u00f3leo dos candeeiros findava: e o Gago, reclamado para trazer<br \/>\ncasti\u00e7ais, surdiu em mangas de camisa, detr\u00e1s duma cortina de<br \/>\nchita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a Suas Excel\u00eancias<br \/>\nque passava da uma horazinha da noite&#8230; O Administrador, que detestava noitadas,<br \/>\nnocivas \u00e0 sua garganta (de am\u00edgdalas loucamente inflam\u00e1veis),<br \/>\npuxou o rel\u00f3gio com terror. E rapidamente reabotoado na sobrecasaca,<br \/>\nde chap\u00e9u-coco mais tombado \u00e0 banda, apressou o lento Tit\u00f3,<br \/>\nporque ambos moravam no alto da Vila-ele defronte do Correio, o outro na viela<br \/>\ndas Teresas, numa casa onde outrora habitara e aparecera apunhalado o antigo<br \/>\ncarrasco do Porto.<\/p>\n<p>O Tit\u00f3 por\u00e9m n\u00e3o se aviava. Com o bengal\u00e3o debaixo<br \/>\ndo bra\u00e7o, ainda chamou o Gago ao fundo sombrio da sala estreita, para<br \/>\ncochichar sobre o embrulhado neg\u00f3cio de urna compra de espingarda,<br \/>\nsoberba espingarda Winchester, empenhada ao Gago pelo filho do Tabeli\u00e3o<br \/>\nGuedes de Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou \u00e0 porta<br \/>\nda taberna, no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre<br \/>\ne o Jo\u00e3o Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda sobre<br \/>\no Governador Civil de Oliveira &#8211; o Andr\u00e9 Cavaleiro!<\/p>\n<p>Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gon\u00e7alo clamando<br \/>\nque n\u00e3o aludissem diante dele, pelas cinco chagas de Cristo, a esse<br \/>\nbandido, esse Sr. Cavaleiro e sobretudo Cavalo, mand\u00e3o burlesco que<br \/>\ndesorganizava o Distrito! E Jo\u00e3o Gouveia muito teso, muito seco, com<br \/>\no coco mais ca\u00eddo na orelha, assegurando a intelig\u00eancia superior<br \/>\ndo amigo Cavaleiro, que estabelecera limpeza e ordem, corno H\u00e9rcules,<br \/>\nnas cavalari\u00e7as de Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com o viol\u00e3o<br \/>\nresguardado atr\u00e1s das costas, suplicava aos amigos que recolhessem<br \/>\n\u00e0 taberna, para n\u00e3o alvorotar a rua&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Ven\u00e2ncio est\u00e1<br \/>\ndesde ontem com a pontada!<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o &#8211; berrou Gon\u00e7alo &#8211; n\u00e3o venham com disparates<br \/>\nque revoltam! Dizer voc\u00ea, Gouveia, que Oliveira nunca teve Governador<br \/>\nCivil como o Cavaleiro!&#8230; N\u00e3o \u00e9 por meu pai! O pap\u00e1<br \/>\nj\u00e1 l\u00e1 vai h\u00e1 tr\u00eas anos, infelizmente. Concordo<br \/>\nque n\u00e3o fosse boa autoridade. Era frouxo, andava doente&#8230; Mas depois<br \/>\ntivemos o Visconde de Freixomil. Tivemos o Bernardino. Voc\u00ea serviu com<br \/>\neles. Eram dois homens!&#8230; Mas este cavalo deste Cavaleiro! A primeira condi\u00e7\u00e3o<br \/>\npara a autoridade superior dum Distrito \u00e9 n\u00e3o ser burlesca.<br \/>\nE o Cavaleiro \u00e9 de entremez! Aquela guedelha de trovador, e a horrenda<br \/>\nbigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo empinado,<br \/>\ne o p\u00f3-p\u00f3-poh! E de entremez! E est\u00fapido, duma estupidez<br \/>\nfundamental, que lhe come\u00e7a nas patas, vem subindo, vem crescendo.<br \/>\nOh senhores, que animal!&#8230; Sem contar que \u00e9 malandro.<\/p>\n<p>Teso na sombra do imenso Tit\u00f3, como uma estaca junto duma torre, o<br \/>\nAdministrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com uma serenidade<br \/>\ncortante:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea acabou?&#8230; Pois, Gon\u00e7alinho, agora escute! Em todo o<br \/>\ndistrito de Oliveira, note bem, em todo ele! n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m,<br \/>\nabsolutamente ningu\u00e9m, que de longe, muito de longe, se compare ao<br \/>\nCavaleiro em intelig\u00eancia, car\u00e1ter, maneiras, saber, e finura<br \/>\npol\u00edtica!<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre emudeceu, varado. Por fim sacudindo o bra\u00e7o, num<br \/>\ndesabrido, arrogante desprezo:<\/p>\n<p>&#8211; Isso s\u00e3o as opini\u00f5es dum subalterno!<\/p>\n<p>&#8211; E isso s\u00e3o as express\u00f5es dum malcriado! &#8211; uivou o outro,<br \/>\ncrescendo todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.<\/p>\n<p>Imediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote, avan\u00e7ou o<br \/>\nbra\u00e7o do Tit\u00f3, estendendo uma sombra na cal\u00e7ada:<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1! Oh rapazes! Que desconchavo \u00e9 este? Voc\u00eas est\u00e3o<br \/>\nborrachos?&#8230; Pois tu, Gon\u00e7alo&#8230;<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 Gon\u00e7alo, num desses seus impulsos generosos e amor\u00e1veis<br \/>\nque t\u00e3o finamente seduziam, se humilhava, confessava a sua brutalidade,<br \/>\nsensibilizado:<\/p>\n<p>&#8211; Perdoe voc\u00ea, Jo\u00e3o Gouveia! Sei perfeitamente que voc\u00ea<br \/>\ndefende o Cavaleiro por amizade, n\u00e3o por depend\u00eancia&#8230; Mas que<br \/>\nquer, homem? Quando me falam nesse Cavalo&#8230; N\u00e3o sei, \u00e9 por<br \/>\ncont\u00e1gio da besta, orneio, atiro coice!<\/p>\n<p>O Gouveia. sem rancor, logo reconciliado (porque admirava carinhosamente<br \/>\no Fidalgo da Torre), deu um pux\u00e3o forte \u00e0 sobrecasaca e apenas<br \/>\nobservou &#8220;que o Gon\u00e7alinho era uma flor, mas picava&#8230;&#8221; Depois,<br \/>\naproveitando a emo\u00e7\u00e3o submissa de Gon\u00e7alo. recome\u00e7ou<br \/>\na glorifica\u00e7\u00e3o do Cavaleiro, mais s\u00f3bria. Reconhecia<br \/>\ncertas fraquezas: Sim, com efeito, aquele modo empertigado&#8230; Mas que cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\n&#8211; E o Gon\u00e7alinho devia considerar&#8230;<\/p>\n<p>O Fidalgo, de novo revoltado. recuou, espalmando as m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8211; Escute voc\u00ea. oh Jo\u00e3o Gouveia! Por que \u00e9 que voc\u00ea<br \/>\nl\u00e1 em cima. \u00e1 ceia, n\u00e3o comeu a salada de pepino? Estava<br \/>\ndivina. at\u00e9 o Videirinha a apeteceu! Eu repeti. acabei a travessa&#8230;<br \/>\nPor que foi? Porque voc\u00ea tem horror fisiol\u00f3gico, horror visceral<br \/>\nao pepino. A sua natureza e o pepino s\u00e3o incompat\u00edveis. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 racioc\u00ednios, n\u00e3o h\u00e1 sutilezas, que o persuadam<br \/>\na admitir l\u00e1 dentro o pepino. Voc\u00ea n\u00e3o duvida que ele<br \/>\nseja excelente. Desde que tanta gente de bem o adora: mas voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\npode&#8230; Pois eu estou para o Cavaleiro como voc\u00ea para o pepino. N\u00e3o<br \/>\nposso! N\u00e3o h\u00e1 molhos. nem raz\u00f5es, que mo disfarcem. Para<br \/>\nmim \u00e9 ascoroso. N\u00e3o vai! Vomito!&#8230; E agora ou\u00e7a.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Tit\u00f3. que bocejava, interveio, j\u00e1 farto:<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dose de Cavaleiro, e valente! Somos<br \/>\ntodos muito boas pessoas e s\u00f3 nos resta debandar. Eu tive senhora,<br \/>\ntive tainha&#8230; Estou derreado. E n\u00e3o tarda a madrugada. que vergonha!<\/p>\n<p>O Administrador pulou. Oh diabo! E ele. \u00e0s nove horas da manh\u00e3,<br \/>\ncom comiss\u00e3o de recenseamento!&#8230; Para esmagar bem o amuo, cingiu Gon\u00e7alo<br \/>\nnum rijo abra\u00e7o. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o Videirinha<br \/>\n(que nestas noites festivas de Vila-Clara o acompanhava sempre pela estrada<br \/>\nat\u00e9 o port\u00e3o da Torre), Jo\u00e3o Gouveia ainda se voltou,<br \/>\npendurado do bra\u00e7o do Tit\u00f3 no meio da Cal\u00e7adinha, para<br \/>\nlhe lembrar um preceito moral &#8220;de n\u00e3o sei que fil\u00f3sofo&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;N\u00e3o vale a pena estragar boa ceia por causa de m\u00e1 pol\u00edtica&#8230;&#8221;<br \/>\nCreio que \u00e9 de Arist\u00f3teles!<\/p>\n<p>E at\u00e9 Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um<br \/>\nsolto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados arpejos:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vale a pena, Sr. Doutor&#8230; Realmente n\u00e3o vale a pena,<br \/>\nporque em Pol\u00edtica hoje \u00e9 branco, amanh\u00e3 \u00e9 negro,<br \/>\ne depois, z\u00e1s, tudo \u00e9 nada!<\/p>\n<p>O Fidalgo encolhera os ombros. A Pol\u00edtica! Como se ele pensasse na<br \/>\nAutoridade, no Sr. Governador Civil de Oliveira &#8211; quando injuriava o Sr. Andr\u00e9<br \/>\nCavaleiro, de Corinde! N\u00e3o! O que detestava era o homem &#8211; o falso homem<br \/>\nde olho langoroso! Porque entre eles existia um desses fundos agravos que<br \/>\noutrora, no tempo dos Tructesindos, armavam um contra o outro, em dura arrancada<br \/>\nde lan\u00e7as, dois bandos senhoriais&#8230; &#8211; E pela estrada, com a lua no<br \/>\nalto dos outeiros de Valverde, enquanto no viol\u00e3o do Videirinha tremia<br \/>\no choro lento do fado do Vimioso, Gon\u00e7alo Mendes recordava, aos peda\u00e7os,<br \/>\naquela hist\u00f3ria que tanto enchera a sua alma desocupada. Ramires e<br \/>\nCavaleiros eram fam\u00edlias vizinhas, uma com a velha torre em Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\nmais velha que o Reino &#8211; a outra com quinta bem tratada e rendosa em Corinde.<br \/>\nE quando ele, rapaz de dezoito anos, enfiava enfastiadamente os preparat\u00f3rios<br \/>\ndo Liceu, Andr\u00e9 Cavaleiro, ent\u00e3o estudante do Terceiro Ano,<br \/>\nj\u00e1 o tratava como um amigo s\u00e9rio. Durante as f\u00e9rias,<br \/>\ncomo a m\u00e3e lhe dera um cavalo, aparecia todas as tardes na Torre; e<br \/>\nmuitas vezes, sob os arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravais<br \/>\ne Valverde, lhe confiava, como a um esp\u00edrito maduro, as suas ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\npol\u00edticas, as suas id\u00e9ias de vida que desejava grave e toda<br \/>\nvotada ao Estado. Gracinha Ramires desabrochava na flor dos seus dezesseis<br \/>\nanos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a &#8220;Flor da Torre&#8221;. Ainda<br \/>\nent\u00e3o vivia a governante inglesa de Gracinha, a boa Miss Rhodes &#8211; que,<br \/>\ncomo todos na Torre, admirava com entusiasmo Andr\u00e9 Cavaleiro pela sua<br \/>\namabilidade, a sua ondeada cabeleira rom\u00e2ntica, a do\u00e7ura quebrada<br \/>\ndos seus olhos largos, a maneira ardente de recitar Victor Hugo e Jo\u00e3o<br \/>\nde Deus. E, com essa fraqueza que lhe amolecia a alma e os princ\u00edpios<br \/>\nperante a soberania do Amor, favorecera demoradas conversas de Andr\u00e9<br \/>\ncom Maria da Gra\u00e7a sob as olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas<br \/>\nao escurecer por sobre o muro baixo da M\u00e3e-d&#8217;\u00c1gua. Todos os<br \/>\ndomingos o Cavaleiro jantava na Torre: e o velho procurador Rebelo j\u00e1<br \/>\npreparara, com esfor\u00e7o e resmungando, um conto de r\u00e9is para<br \/>\no enxoval da &#8220;menina&#8221;. O pai de Gon\u00e7alo, Governador Civil<br \/>\nde Oliveira, sempre atarefado, enredado em Pol\u00edtica e em d\u00edvidas,<br \/>\namanhecendo s\u00f3 na Torre aos domingos, aprovava esta coloca\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Gracinha, que, meiga e romanesca, sem m\u00e3e que a velasse, criava<br \/>\nna sua vida, j\u00e1 dif\u00edcil, um trope\u00e7o e um cuidado. Sem<br \/>\nrepresentar como ele uma fam\u00edlia de imensa Cr\u00f4nica, anterior<br \/>\nao Reino, do mais rico sangue de Reis godos, Andr\u00e9 Cavaleiro era um<br \/>\nmo\u00e7o bem-nascido, filho de general, neto de desembargador, com bras\u00e3o<br \/>\nleg\u00edtimo na sua casa apala\u00e7ada de Corinde, e terras fartas em<br \/>\nredor, de boa semeadura, limpas de hipotecas&#8230; Depois, sobrinho de Reis Gomes,<br \/>\num dos chefes hist\u00f3ricos, j\u00e1 filiado no Partido Hist\u00f3rico<br \/>\n(desde o Segundo Ano da Universidade), a sua carreira andava marcada com seguran\u00e7a<br \/>\ne brilho na Pol\u00edtica e na Administra\u00e7\u00e3o. E enfim Maria<br \/>\nda Gra\u00e7a amava enlevadamente aqueles reluzentes bigodes, os ombros<br \/>\nfortes de H\u00e9rcules bem-educado, o porte ufano que lhe encoura\u00e7ava<br \/>\no peitilho e que impressionava. Ela, em contraste, era pequenina e fr\u00e1gil,<br \/>\ncom uns olhos t\u00edmidos e esverdeados que o sorriso umedecia e enlanguescia,<br \/>\nurna transparente pele de porcelana fina, e cabelos magn\u00edficos, mais<br \/>\nlustrosos e negros que a cauda dum corcel de guerra, que lhe rolavam at\u00e9<br \/>\nos p\u00e9s, em que se podia embrulhar toda, assim macia e pequenina. Quando<br \/>\ndesciam ambos as alamedas da quinta, Miss Rhodes (que o pai, professor de<br \/>\nLiteratura Grega em Manchester, recheara de Mitologia) pensava sempre em &#8220;Marte<br \/>\ncheio de for\u00e7a amando Psique cheia de gra\u00e7a&#8221;. E mesmo os<br \/>\ncriados da Torre se maravilhavam do &#8220;lindo par&#8221;! S\u00f3 a Sra.<br \/>\nD. Joaquina Cavaleiro, a m\u00e3e de Andr\u00e9, senhora obesa e rabugenta,<br \/>\ndetestava aquela terna assiduidade do filho na Torre, sem motivo pesado, s\u00f3<br \/>\npor &#8220;desconfiar da pinta da menina e desejar nora mais comezinha&#8230;&#8221;<br \/>\nFelizmente, quando Andr\u00e9 Cavaleiro se matriculava no Quinto Ano, a<br \/>\ndesagrad\u00e1vel matrona morreu duma anasarca. O pai de Gon\u00e7alo<br \/>\nrecebeu a chave do caix\u00e3o: Gracinha tomou luto; e Gon\u00e7alo, companheiro<br \/>\nde casa do Cavaleiro na rua de S. Jo\u00e3o, em Coimbra, enrolou um fumo<br \/>\nna manga da batina. Logo em Santa Iren\u00e9ia se pensou que o espl\u00eandido<br \/>\nAndr\u00e9, libertado da peca oposi\u00e7\u00e3o da mam\u00e3, pediria<br \/>\na &#8220;Flor da Torre&#8221; depois do Ato de Formatura. Mas, findo esse desejado<br \/>\nAto, Cavaleiro abalou para Lisboa &#8211; porque se preparavam Elei\u00e7\u00f5es<br \/>\nem outubro, e ele recebera do tio Reis Gomes, ent\u00e3o Ministro da Justi\u00e7a,<br \/>\na promessa de &#8220;ser deputado&#8221; por Bragan\u00e7a.<\/p>\n<p>E todo esse ver\u00e3o o passou na Capital; depois em Sintra, onde o negro<br \/>\nlangor dos seus olhos \u00famidos amolecia cora\u00e7\u00f5es; depois<br \/>\nnuma jornada quase triunfal a Bragan\u00e7a com foguetes e &#8220;vivas ao<br \/>\nsobrinho do Sr. Conselheiro Reis Gomes&#8221;! Em outubro Bragan\u00e7a &#8220;confiou<br \/>\nao Dr. Andr\u00e9 Cavaleiro (como escreveu o Eco de Tr\u00e1s-os-Montes)<br \/>\no direito de a representar em Cortes com os seus brilhantes conhecimentos<br \/>\nliter\u00e1rios e a sua formos\u00edssima presen\u00e7a de orador&#8230;&#8221;<br \/>\nRecolheu ent\u00e3o a Corinde; mas nas suas visitas \u00e0 Torre, onde<br \/>\no pai de Gon\u00e7alo convalescia duma febre g\u00e1strica que exacerbara<br \/>\na sua antiga diabetes, Andr\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o arrastava sofregamente<br \/>\nGracinha, como outrora, para as silenciosas sombras da quinta, permanecendo<br \/>\nde prefer\u00eancia na sala azul, a conversar sobre Pol\u00edtica com Vicente<br \/>\nRamires, que se n\u00e3o movia da poltrona, embrulhado numa manta. E Gracinha,<br \/>\nnas suas cartas para Coimbra a Gon\u00e7alo, j\u00e1 se carpia de n\u00e3o<br \/>\ncorrerem t\u00e3o doces nem t\u00e3o \u00edntimas as visitas do Andr\u00e9<br \/>\n\u00e0 Torre, &#8220;ocupado, como andava sempre agora, a estudar para deputado&#8230;&#8221;<br \/>\nDepois do Natal o Cavaleiro voltou para Lisboa, para a abertura das Cortes,<br \/>\nmuito apetrechado, com o seu criado Mateus, uma linda \u00e9gua que comprara<br \/>\nem Vila-Clara ao Manuel Duarte, e dois caixotes de livros. E a boa Miss Rhodes<br \/>\nsustentava que Marte, como convinha a um her\u00f3i, s\u00f3 reclamaria<br \/>\nPsique depois dum nobre feito, uma estr\u00e9ia nas C\u00e2maras, &#8220;num<br \/>\ndiscurso lindo, todo flores&#8230;&#8221; Quando Gon\u00e7alo, nas f\u00e9rias<br \/>\nde P\u00e1scoa, apareceu na Torre, encontrou Gracinha inquieta e descorada.<br \/>\nAs cartas do seu Andr\u00e9, que se estreara &#8220;e num discurso lindo,<br \/>\ntodo flores&#8230;&#8221;, eram cada semana mais curtas, mais calmas. E a \u00faltima<br \/>\n(que ela lhe mostrou em segredo), datada da C\u00e2mara, contava em tr\u00eas<br \/>\nlinhas mal rabiscadas &#8220;que tivera muito que trabalhar em comiss\u00f5es,<br \/>\nque o tempo se pusera lindo, que nessa noite era o baile dos condes de Vilaverde,<br \/>\ne que ele continuava com muitas saudades o seu fiel Andr\u00e9&#8230;&#8221;<br \/>\nGon\u00e7alo Mendes Ramires, logo nessa tarde, desabafou com o pai, que<br \/>\ndefinhava na sua poltrona:<\/p>\n<p>&#8211; Eu acho que o Andr\u00e9 se est\u00e1 portando muito mal com a Gracinha&#8230;<br \/>\nO pap\u00e1 n\u00e3o lhe parece?<\/p>\n<p>Vicente Ramires apenas moveu, num gesto de vencida tristeza, a m\u00e3o<br \/>\ndescarnada donde a cada momento lhe escorregava o anel de armas.<\/p>\n<p>Por fim em maio a sess\u00e3o das C\u00e2maras terminou &#8211; essa sess\u00e3o<br \/>\nque tanto interessara Gracinha, ansiosa &#8220;que eles acabassem de discutir<br \/>\ne tivessem f\u00e9rias&#8221;. E quase imediatamente ela em Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\nGon\u00e7alo em Coimbra, souberam pelos jornais que &#8220;o talentoso Deputado<br \/>\nAndr\u00e9 Cavaleiro partira para It\u00e1lia e Fran\u00e7a numa longa<br \/>\nviagem de recreio e de estudo&#8221;. E nem uma carta \u00e0 sua escolhida,<br \/>\nquase sua noiva!&#8230; Era um ultraje, um bruto ultraje, que outrora, no s\u00e9culo<br \/>\nXII, lan\u00e7aria todos os Ramires, com homens de cavalo e peonagem, sobre<br \/>\no solar dos Cavaleiros, para deixar cada trave denegrida pela chama, cada<br \/>\nservo pendurado duma corda de canave. Agora Vicente Ramires, apagado e mortal,<br \/>\nmurmurou simplesmente: &#8220;Que traste&#8221;! Ele em Coimbra, rugindo, jurou<br \/>\nesbofetear um dia o infame! A boa Miss Rhodes, para se consolar, desembrulhou<br \/>\na sua velha harpa, encheu Santa Iren\u00e9ia de magoados arpejos. E tudo<br \/>\nfindou nas l\u00e1grimas que Gracinha, durante semanas, t\u00e3o desconsolada<br \/>\nda vida que nem se penteava, escondeu sob as olaias do Mirante.<\/p>\n<p>E, ainda depois desses anos, a esta lembran\u00e7a das l\u00e1grimas<br \/>\nda irm\u00e3, um rancor invadiu Gon\u00e7alo, t\u00e3o redivivo que<br \/>\natirou para o lado, para sobre as sebes da vala, uma bengalada, como se fossem<br \/>\nas costas do Cavaleiro! &#8211; Caminhavam ent&amp;atiatilde;o junto \u00e0 ponte da<br \/>\nPortela, onde os campos se alargam, e da estrada se avista Vila-Clara, que<br \/>\na lua branqueava toda, desde o convento de Santa Teresa, rente ao Chafariz,<br \/>\nat\u00e9 o muro novo do cemit\u00e9rio, no alto, com os seus finos ciprestes.<br \/>\nPara o fundo do vale, clara tamb\u00e9m no luar, era a igrejinha de Craquede,<br \/>\nSanta Maria de Craquede, resto do antigo Mosteiro em que ainda jaziam, nos<br \/>\nseus rudes t\u00famulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires Afonsinos.<br \/>\nSob o arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os seixos, sussurrava<br \/>\nna sombra. E Videirinha, enlevado naquele sil\u00eancio e suavidade saudosa,<br \/>\ncantava, num gemer surdo de bord\u00f5es:<\/p>\n<p>Baldadas s\u00e3o tuas queixas,<br \/>\nEscusados s\u00e3o teus ais,<br \/>\nQue \u00e9 corno se eu morto fora,<br \/>\nE n\u00e3o me ver\u00e1s nunca mais!&#8230;<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo retomara as suas recorda\u00e7\u00f5es, repassava tristezas<br \/>\nque depois ca\u00edram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera numa tarde<br \/>\nde agosto, sem sofrimento, estendido na sua poltrona \u00e0 varanda, com<br \/>\nos olhos cravados na velha Torre, murmurando para o Padre Soeiro: &#8211; &#8220;Quantos<br \/>\nRamires ver\u00e1 ela ainda, nesta casa, e \u00e0 sua sombra?&#8221; Todas<br \/>\nessas f\u00e9rias as consumiu Gon\u00e7alo no escuro cart\u00f3rio,<br \/>\ndesajudado (porque o procurador, o bom Rebelo, tamb\u00e9m Deus o chamara),<br \/>\nrevolvendo pap\u00e9is, apurando o estado da casa &#8211; reduzida aos dois contos<br \/>\ne trezentos mil r\u00e9is que rendiam os foros de Craquede, a herdade de<br \/>\nPraga, e as duas quintas hist\u00f3ricas, Treixedo e Santa Iren\u00e9ia.<br \/>\nQuando regressou a Coimbra deixou Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima,<br \/>\nD. Arminda Nunes Vilegas, senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava<br \/>\nno Terreiro da Lou\u00e7a um imenso casar\u00e3o cheio de retratos de<br \/>\navoengos e de \u00e1rvores de costado, onde ela, vestida de veludo preto,<br \/>\npousada num canap\u00e9 de damasco, entre aias que fiavam, perpetuamente<br \/>\nrelia os seus Livros de Cavalaria, o Amadis, Leandro o Belo, Trist\u00e3o<br \/>\ne Brancaflor; as Cr\u00f4nicas do Imperador Clarimundo&#8230; Foi a\u00ed que<br \/>\nJos\u00e9 Barrolo (senhor duma das mais ricas casas de Amarante) encontrou<br \/>\nGracinha Ramires, e a amou com uma paix\u00e3o profunda, quase religiosa<br \/>\n&#8211; estranha naquele mo\u00e7o indolente, gorducho, de bochechas coradas como<br \/>\numa ma\u00e7\u00e3, e t\u00e3o escasso de esp\u00edrito que os amigos<br \/>\nlhe chamavam &#8220;o Jos\u00e9 Bacoco&#8221;. O bom Barrolo residira sempre<br \/>\nem Amarante com a m\u00e3e, n\u00e3o conhecia o tra\u00eddo romance<br \/>\nda &#8220;Flor da Torre&#8221; &#8211; que nunca se espalhara para al\u00e9m dos<br \/>\ncerrados arvoredos da quinta. E, sob o enternecido e romanesco patroc\u00ednio<br \/>\nde D. Arminda, noivado e casamento docemente se apressaram, em tr\u00eas<br \/>\nmeses, depois duma carta de Barrolo a Gon\u00e7alo Mendes Ramires jurando<br \/>\n&#8211; &#8220;que a afei\u00e7\u00e3o pura que sentia pela prima Gra\u00e7a,<br \/>\npelas suas virtudes e outras qualidades respeit\u00e1veis, era t\u00e3o<br \/>\ngrande que nem achava no Dicion\u00e1rio termos para a explicar&#8230;&#8221;<br \/>\nHouve uma boda luxuosa: e os noivos (por desejo de Gracinha, para se n\u00e3o<br \/>\nafastar da querida Torre), depois duma jornada filial a Arnarante, armaram<br \/>\no seu ninho&#8221; em Oliveira, \u00e0 esquina do largo de El-Rei e da rua<br \/>\ndas Tecedeiras, num palacete que o Bacoco herdara, com largas terras, do seu<br \/>\ntio Melchior, De\u00e3o da S\u00e9. Dois anos correram, mansos e sem hist\u00f3ria.<br \/>\nE Gon\u00e7alo Mendes Ramires passava justamente em Oliveira as suas \u00faltimas<br \/>\nf\u00e9rias de P\u00e1scoa quando Andr\u00e9 Cavaleiro, nomeado Governador<br \/>\nCivil do Distrito, tomou posse, estrondosamente, com foguetes, filarm\u00f4nicas,<br \/>\no Governo Civil e o Pa\u00e7o do Bispo iluminados, as armas dos Cavaleiros<br \/>\nem transparentes no caf\u00e9 da Arcada e na Recebedoria!&#8230; Barrolo conhecia<br \/>\no Cavaleiro quase intimamente, admirava o seu talento, a sua eleg\u00e2ncia,<br \/>\no seu brilho Pol\u00edtico. Mas Gon\u00e7alo Mendes Ramires, que dominava<br \/>\nsoberanamente o bom Bacoco, logo o intimou a n\u00e3o visitar o Sr. Governador<br \/>\nCivil, a n\u00e3o o saudar sequer na rua, e a partilhar, por dever de alian\u00e7a,<br \/>\nos rancores que existiam entre Cavaleiros e Ramires! Jos\u00e9 Barrolo cedeu,<br \/>\nsubmisso, espantado, sem compreender. Depois uma noite, no quarto, enfiando<br \/>\nas chinelas, contou a Gracinha &#8220;a esquisitice de Gon\u00e7alo&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; E sem motivo, sem ofensa, s\u00f3 por causa da Pol\u00edtica!&#8230; Ora,<br \/>\nv\u00ea tu! Um belo rapaz como o Cavaleiro! Pod\u00edamos fazer um ranchinho<br \/>\nt\u00e3o agrad\u00e1vel!&#8230;<\/p>\n<p>Outro sereno ano passou&#8230; E nessa primavera, em Oliveira, onde se demorara<br \/>\npara a festa dos anos de Barrolo, eis que Gon\u00e7alo suspeita, fareja,<br \/>\ndescobre uma incompar\u00e1vel inf\u00e2mia! O empertigado homem da bigodeira<br \/>\nnegra, o Sr. Andr\u00e9 Cavaleiro, recome\u00e7ara com soberba impud\u00eancia<br \/>\na cortejar Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em olhadelas fundas, carregadas<br \/>\nde saudade e langor, procurando agora apanhar como amante aquela grande fidalga,<br \/>\naquela Ramires, que desdenhara como esposa!<\/p>\n<p>T\u00e3o levado ia Gon\u00e7alo pela branca estrada, no rolo amargo destes<br \/>\npensamentos, que n\u00e3o reparou no port\u00e3o da Torre, nem na portinha<br \/>\nverde, \u00e0 esquina da casa, sobre tr\u00eas degraus. E seguia, rente<br \/>\ndo muro da horta, quando Videirinha, que estacara com os dedos mudos nos bord\u00f5es<br \/>\ndo viol\u00e3o, o avisou, rindo:<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Sr. Doutor, ent\u00e3o larga assim a estas horas de corrida para<br \/>\nos Bravais?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo virou, bruscamente despertado, procurando na algibeira, entre<br \/>\no dinheiro solto, a chavinha do trinco:<\/p>\n<p>&#8211; Nem reparava&#8230; Que lindamente voc\u00ea tem tocado, Videirinha! Com lua,<br \/>\ndepois de ceia, n\u00e3o h\u00e1 companheiro mais po\u00e9tico.. Realmente<br \/>\nvoc\u00ea \u00e9 o derradeiro trovador portugu\u00eas!<\/p>\n<p>Para o ajudante de Farm\u00e1cia, filho de um padeiro de Oliveira, a familiaridade<br \/>\ndaquele tamanho Fidalgo, que lhe apertava a m\u00e3o na botica diante do<br \/>\nPires botic\u00e1rio e em Oliveira diante das Autoridades, constitu\u00eda<br \/>\numa gl\u00f3ria, quase uma coroa\u00e7\u00e3o, e sempre nova, sempre<br \/>\ndeliciosa. Logo sensibilizado, feriu os bord\u00f5es rijamente:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, para acabar, l\u00e1 vai a grande trova, Sr. Doutor!<\/p>\n<p>Era a sua famosa cantiga, o Fado dos Ramires, ros\u00e1rio de her\u00f3icas<br \/>\nQuadras celebrando as Lendas da Casa ilustre que ele desde meses apurava e<br \/>\ncompletava, ajudado na terna tarefa pelo saber do velho Padre Soeiro, capel\u00e3o<br \/>\ne arquivista da Torre.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava urna lamparina<br \/>\nmorti\u00e7a, j\u00e1 sem azeite, junto ao casti\u00e7al de prata. E<br \/>\nVideirinha, recuando ao meio da estrada, com um &#8220;dlindlon&#8221; ardente,<br \/>\nfitara a Torre, que, por cima dos telhados da vasta casa, mergulhava as ameias,<br \/>\no negro miradouro, no luminoso sil\u00eancio do c\u00e9u de ver\u00e3o.<br \/>\nDepois para ela e para a lua atirou as endechas glorificadoras, na dolente<br \/>\nmelodia dum fado de Coimbra, rico em ais:<\/p>\n<p>Quem te ver\u00e1 sem que estreme\u00e7a,<br \/>\nTorre de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\nAssim t\u00e3o negra e calada,<br \/>\nPor noites de lua cheia&#8230;<br \/>\nAi! Assim calada, t\u00e3o negra,<br \/>\nTorre de Santa Iren\u00e9ia!<\/p>\n<p>Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e enxugar<br \/>\num c\u00e1lice de genebra salvadora. Mas retornou logo o descante, ditoso<br \/>\nem descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos, pelo prest\u00edgio<br \/>\ndas Lendas, enquanto Gon\u00e7alo desaparecia &#8211; com folgaz\u00e3s desculpas<br \/>\nao trovador &#8220;por cerrar a portinha do Castelo&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>A\u00ed! A\u00ed est\u00e1s, forte e soberba,<br \/>\nCom uma hist\u00f3ria em cada ameia,<br \/>\nTorre mais velha que o reino,<br \/>\nTorre de Santa Iren\u00e9ia!&#8230;<\/p>\n<p>E come\u00e7ara a quadra a M\u00fancio Ramires, Dente de Lobo, quando<br \/>\nem cima uma sala, aberta \u00e0 frescura da noite, se alumiou &#8211; e o Fidalgo<br \/>\nda Torre, com o charuto aceso, se debru\u00e7ou da varanda para receber<br \/>\na serenada. Mais ardente, quase solu\u00e7ante, vibrou o cantar do v\u00eddeirinha.<br \/>\nAgora era a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina, sobre o monte das Oliveiras,<br \/>\n\u00e0 porta da sua tenda, diante dos Bar\u00f5es que o aclamavam com<br \/>\nas espadas nuas, recusando o Ducado de Galil\u00e9ia e o senhorio das Terras<br \/>\nde Al\u00e9m-Jord\u00e3o. &#8211; Que n\u00e3o podia, em verdade, aceitar<br \/>\nterra, mesmo Santa, mesmo de Galil\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 tinha em Portugal<br \/>\nTerras de Santa Iren\u00e9ia!<\/p>\n<p>&#8211; Boa piada! &#8211; murmurou Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>Videirinha, entusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada nessa semana<br \/>\n&#8211; a do saimento de Aldon\u00e7a Ramires, Santa Aldon\u00e7a, trazida do<br \/>\nmosteiro de Arouca ao solar de Treixedo, sobre o almadraque em que morrera,<br \/>\naos ombros de quatro Reis!<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! &#8211; gritou o Fidalgo pendurado da varanda. &#8211; Essa \u00e9 famosa,<br \/>\noh Videirinha! Mas a\u00ed h\u00e1 Reis demais&#8230; Quatro Reis!<\/p>\n<p>Enlevado, empinando o bra\u00e7o do viol\u00e3o, o ajudante da Farm\u00e1cia<br \/>\nlan\u00e7ou outra, j\u00e1 antiga &#8211; a daquele terr\u00edvel Lopo Ramires<br \/>\nque, morto, se erguera da sua campa no Mosteiro de Craquede, montara um ginete<br \/>\nmorto, e toda a noite galopara atrav\u00e9s da Espanha para se bater nas<br \/>\nNavas de Tolosa! Pigarreou &#8211; e, mais chorosamente, atacou a do Descabe\u00e7ado:<\/p>\n<p>L\u00e1 passa a negra figura&#8230;<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo, que abominava aquela lenda, a silenciosa figura degolada,<br \/>\nerrando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabe\u00e7a<br \/>\nnas m\u00e3os &#8211; despegou da varanda, deteve a Cr\u00f4nica imensa:<\/p>\n<p>&#8211; Toca a deitar, oh Videirinha, hem? Passa das tr\u00eas horas, \u00e9<br \/>\num horror. Olhe! O Tit\u00f3 e o Gouveia jantam c\u00e1 na Torre, no domingo.<br \/>\nApare\u00e7a tamb\u00e9m, com o viol\u00e3o e cantiga nova; mas menos<br \/>\nsinistra&#8230; Bona sera! Que linda noite!<\/p>\n<p>Atirou o charuto, fechou a vidra\u00e7a da sala &#8211; a &#8220;sala velha&#8221;,<br \/>\ntoda revestida desses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que ele<br \/>\ndesde pequeno chamava as carantonhas dos vov\u00f3s. E, atravessando o corredor,<br \/>\nainda sentia rolarem ao longe, no sil\u00eancio dos campos cobertos de luar,<br \/>\nfa\u00e7anhas rimadas dos seus:<\/p>\n<p>Ai! l\u00e1 na grande batalha&#8230;<br \/>\nEl-Rei Dom Sebasti\u00e3o&#8230;<br \/>\nO mais mo\u00e7o dos Ramires<br \/>\nque era pajem do gui\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Despido, soprada a vela, depois de um r\u00e1pido sinal-da-cruz, o Fidalgo<br \/>\nda Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de sombras, come\u00e7ou<br \/>\npara ele uma noite revolta e pavorosa. Andr\u00e9 Cavaleiro e Jo\u00e3o<br \/>\nGouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha, montados em horrendas<br \/>\ntainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau, arremessavam contra o<br \/>\nseu pobre est\u00f4mago pontoadas de lan\u00e7a, que o faziam gemer e estorcer<br \/>\nsobre o leito de pau-preto. Depois era, na Cal\u00e7adinha de Vila-Clara,<br \/>\no medonho Ramires morto, com a ossada a ranger dentro da armadura, e El-Rei<br \/>\nD~ Afonso II, arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente<br \/>\npara a batalha das Navas. Ele resistia, fincado nas lajes, gritando pela Rosa,<br \/>\npor Gracinha, pelo Tit\u00f3! Mas D. Afonso t\u00e3o rijo murro lhe despedia<br \/>\naos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago<br \/>\nat\u00e9 a Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pend\u00f5es<br \/>\ne de armas. E imediatamente seu primo de Espanha, Gomes Ramires, Mestre de<br \/>\nCalatrava, debru\u00e7ado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros<br \/>\ncabelos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos<br \/>\nda tia Louredo trazida como um andor aos ombros de quatro Reis!&#8230; Por fim,<br \/>\nmo\u00eddo, sem sossego, j\u00e1 com a madrugada clareando nas fendas<br \/>\ndas janelas e as andorinhas piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre<br \/>\natirou um derradeiro repel\u00e3o aos len\u00e7\u00f3is, saltou ao soalho,<br \/>\nabriu a vidra\u00e7a &#8211; e respirou deliciosamente o sil\u00eancio, a frescura,<br \/>\na verdura, o repouso da quinta. Mas que sede! uma sede desesperada que lhe<br \/>\nencorti\u00e7ava os l\u00e1bios! Recordou ent\u00e3o o famoso fruit<br \/>\nsalt que lhe recomendara o Dr. Matos, arrebatou o frasco, correu \u00e0<br \/>\nsala de jantar, em camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas colheradas num<br \/>\ncopo d&#8217;\u00e1gua da Bica-Velha, que esvaziou dum trago, na fervura picante.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! que consolo, que rico consolo!&#8230;<\/p>\n<p>Voltou derreadamente \u00e0 cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre<br \/>\nas relvas profundas dum prado da \u00c1frica, debaixo de coqueiros sussurrantes,<br \/>\nentre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam atrav\u00e9s de<br \/>\npedregulhos de ouro. Dessa perfeita beatitude o arrancou o Bento, ao meio-dia,<br \/>\ninquieto com &#8220;aquele tardar do Sr. Doutor&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos, pavores, bulhas,<br \/>\nesqueletos&#8230; Foram os malditos ovos com chouri\u00e7o; e o pepino&#8230; Sobretudo<br \/>\no pepino! Uma id\u00e9ia daquele animal do Tit\u00f3&#8230; Depois, de madrugada,<br \/>\ntomei o tal fruit salt, e estou \u00f3timo, homem!&#8230; Estou otim\u00edssimo!<br \/>\nAt\u00e9 me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma ch\u00e1vena<br \/>\nde ch\u00e1 verde, muito forte&#8230; Leva tamb\u00e9m torradas.<\/p>\n<p>E momentos depois, na livraria, com um roup\u00e3o de flanela sobre a camisa<br \/>\nde dormir, sorvendo lentos goles de ch\u00e1, Gon\u00e7alo relia junto<br \/>\nda varanda essa derradeira linha da Novela, t\u00e3o rabiscada e mole, em<br \/>\nque &#8220;os largos raios da lua se estiravam pela larga sala de armas&#8230;&#8221;<br \/>\nDe repente, numa rasgada impress\u00e3o de claridade, entreviu detalhes<br \/>\nexpressivos para aquela noite de Castelo e dever\u00e3o &#8211; as pontas das<br \/>\nlan\u00e7as dos esculcas faiscando silenciosamente pelos adarves da muralha,<br \/>\ne o coaxar triste das r\u00e3s nas bordas lodosas dos fossos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bons tra\u00e7os!<\/p>\n<p>Achegou devagar a cadeira, consultou ainda no volume do Bardo o Poemeto do<br \/>\ntio Duarte. E, desanuviado, sentindo as Imagens e os Dizeres surgirem como<br \/>\nbolhas duma \u00e1gua represa que rebenta, atacou esse lance do Cap\u00edtulo<br \/>\n1 em que o velho Tructesindo Ramires, na sala de armas de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\nconversava com seu filho Louren\u00e7o e seu primo D. Garcia Viegas, o Sabedor,;<br \/>\nde aprestos de guerra&#8230; Guerra! Por qu\u00ea? Acaso pelos cerros arraianos<br \/>\ncorriam, ligeiros entre o arvoredo, almog\u00e1vares mouros? N\u00e3o!<br \/>\nMas desgra\u00e7adamente, &#8220;naquela terra j\u00e1 remida e crist\u00e3,<br \/>\nem breve se cruzariam, umas contra outras, nobres lan\u00e7as portuguesas!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Louvado Deus! a pena desemperrara! E, atento \u00e0s p\u00e1ginas marcadas<br \/>\nnum tomo da Hist\u00f3ria de Herculano, esbo\u00e7ou com seguran\u00e7a<br \/>\na \u00c9poca da sua Novela &#8211; que abria entre as disc\u00f3rdias de Afonso<br \/>\nII e de seus irm\u00e3os por causa do testamento de El-Rei seu pai, D. Sancho<br \/>\nI. Nesse come\u00e7o do Cap\u00edtulo j\u00e1 os infantes D. Pedro e<br \/>\nD. Fernando, esbulhados, andavam por Fran\u00e7a e Le\u00e3o. J\u00e1<br \/>\ncom eles abandonara o Reino o forte primo dos Ramires, Gon\u00e7alo Mendes<br \/>\nde Sousa, chefe magn\u00edfico da casa dos Sousas. E agora, encerradas nos<br \/>\ncastelos de Montemor e de Esgueira, as senhoras infantas, D. Teresa e D. Sancha,<br \/>\nnegavam a D. Afonso o senhorio real sobre as vilas, fortalezas, herdades e<br \/>\nmosteiros, que t\u00e3o copiosamente lhes doara El-Rei seu pai. Ora, antes<br \/>\nde morrer no Alc\u00e1\u00e7ar de Coimbra, o Senhor D. Sancho suplicara<br \/>\na Tructesindo Mendes Ramires, seu cola\u00e7o e Alferes-Mor, por ele armado<br \/>\nCavaleiro em Lorv\u00e3o, que sempre lhe servisse e defendesse a filha amada<br \/>\nentre todas, a Infanta D. Sancha, senhora de Aveiras. Assim o jurara o leal<br \/>\nRico-Homem junto do leito onde, nos bra\u00e7os do Bispo de Coimbra e do<br \/>\nPrior do Hospital sustentando a candeia, agonizava, vestido de burel como<br \/>\num penitente, o vencedor de Silves&#8230; Mas eis que rompe a fera contenda entre<br \/>\nAfonso II, asperamente cioso da sua autoridade de Rei &#8211; e as Infantas, orgulhosas,<br \/>\nimpelidas \u00e0 resist\u00eancia pelos freires do Templo e pelos Prelados<br \/>\na quem D. Sancho legara t\u00e3o vastos peda\u00e7os do Reino! Imediatamente<br \/>\nAlenquere os arredores doutros castelos s\u00e3o devastados pela hoste real<br \/>\nque recolhia das Navas de Tolosa. Ent\u00e3o D. Sancha e D. Teresa apelam<br \/>\npara El-Rei de Le\u00e3o, que entra com seu filho D. Fernando por terras<br \/>\nde Portugal a socorrer as donas oprimidas&#8221;. &#8211; E neste lance o tio Duarte,<br \/>\nno seu Castelo de Santa Iren\u00e9ia, interpelava com soberbo garbo o Alferes-Mor<br \/>\nde Sancho I.<\/p>\n<p>Que far\u00e1s tu, mais velho dos Ramires?<br \/>\nSe ao pend\u00e3o leon\u00eas juntas o teu<br \/>\nTrais o preito que deves ao Rei vivo!<br \/>\nMas se as Infantas deixas indefesas<br \/>\nTrais ajura que destes ao Rei morto!&#8230;<\/p>\n<p>Esta d\u00favida, por\u00e9m, n\u00e3o angustiara a alma desse Tructesindo<br \/>\nrude e leal que o Fidalgo da Torre rija-mente modelava. Nessa noite, apenas<br \/>\nrecebera pelo irm\u00e3o do Alcaide de Aveiras, disfar\u00e7ado em beguino,<br \/>\num aflito recado da senhora D. Sancha &#8211; ordenava a seu filho Louren\u00e7o<br \/>\nque, ao primeiro arrebol, com quinze lan\u00e7as, cinq\u00fcenta homens<br \/>\nde p\u00e9 da sua merc\u00ea e quarenta besteiros, corresse sobre Montemor.<br \/>\nEle no entanto daria alarido &#8211; e em dois dias entraria a campo com os parentes<br \/>\nde solar, um tro\u00e7o mais rijo de Cavaleiros acontiados e de frecheiros,<br \/>\npara se juntar a seu primo, o Sous\u00e3o, que na vanguarda dos leoneses<br \/>\ndescia de Alva-do-Douro.<\/p>\n<p>Depois logo de madrugada o pend\u00e3o dos Ramires, o A\u00e7or negro<br \/>\nem campo escarlate, se plantara diante das barreiras gateadas; e ao lado,<br \/>\nno ch\u00e3o, amarrado \u00e0 haste por uma tira de couro, reluzia o velho<br \/>\nemblema senhorial, o sonoro e fundo caldeir\u00e3o polido. Por todo o Castelo<br \/>\nse apressavam os servi\u00e7ais, despendurando as cervilheiras, arrastando<br \/>\ncom fragor pelas lajes os pesados saios de malhas de ferro. Nos p\u00e1tios<br \/>\nos armeiros agu\u00e7avam ascumas, amaciavam a dureza das grevas e coxotes<br \/>\ncom camadas de estopa. J\u00e1 o adail, na ucharia, arrolara as ra\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vianda para os dois quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias<br \/>\nde Santa Iren\u00e9ia, na do\u00e7ura da tarde, os atambores mouriscos,<br \/>\nabafados no arvoredo, tarar\u00e3! tarar\u00e3! ou mais vivos nos cabe\u00e7os,<br \/>\nratat\u00e1! ratat\u00e3! convocavam os Cavaleiros de soldo e a peonagem<br \/>\nda mesnada dos Ramires.<\/p>\n<p>No entanto o irm\u00e3o do Alcaide, sempre disfar\u00e7ado em beguino,<br \/>\nde volta ao castelo de Aveiras com a boa nova de prestes socorros, transpunha<br \/>\nligeiramente a levadi\u00e7a da c\u00e1rcova&#8230; E aqui, para alegrar t\u00e3o<br \/>\nsombrias v\u00e9speras de guerra, o tio Duarte, no seu Poemeto, engastara<br \/>\numa sorte galante:<\/p>\n<p>\u00c0 mo\u00e7a, que na fonte enchia a bilha,<\/p>\n<p>O frade rouba um beijo e diz Am\u00e9m!<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo hesitava em desmanchar com um beijo de Cl\u00e9rigo<br \/>\na pompa daquela formosa sortida de armas&#8230; E mordia pensativamente a rama<br \/>\nda pena &#8211; quando a porta da livraria rangeu.<\/p>\n<p>&#8211; O correio&#8230;<\/p>\n<p>Era o Bento com os jornais e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma, lacrada<br \/>\ncom o enorme sinete de armas do Barrolo &#8211; repelindo a outra em que reconhecera<br \/>\na letra detestada do seu alfaiate de Lisboa. E imediatamente, com uma palmada<br \/>\nna mesa:<\/p>\n<p>&#8211; Oh diabo! quantos do m\u00eas, hoje? quatorze, hem?<\/p>\n<p>O Bento esperava com a m\u00e3o no fecho da porta.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que n\u00e3o tardam os anos da mana Gra\u00e7a! De todo esqueci,<br \/>\nesque\u00e7o sempre. E sem ter um presentinho engra\u00e7ado&#8230; Que seca,<br \/>\nhem?<\/p>\n<p>Mas na v\u00e9spera o Manuel Duarte, na Assembl\u00e9ia, \u00e0 mesa<br \/>\ndo voltarete, anunciara uma fuga a Lisboa por tr\u00eas dias, para tratar<br \/>\ndo emprego do sobrinho nas Obras P\u00fablicas. Pois corria a Vila -Clara<br \/>\npedir ao Sr. Manuel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito guarda-solinho<br \/>\nde seda branca com rendas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Manuel Duarte tem gosto; tem muito gosto! E ent\u00e3o o Joaquim<br \/>\nque n\u00e3o sele a \u00e9gua; j\u00e1 n\u00e3o vou ao Sanches Lucena.<br \/>\nOh, senhores, quando pagarei eu esta infame visita? H\u00e1 tr\u00eas meses!&#8230;<br \/>\nEnfim, por dois dias mais a bela D. Ana n\u00e3o envelhece; e o velho Lucena<br \/>\ntamb\u00e9m n\u00e3o morre.<\/p>\n<p>E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo folgaz\u00e3o, retomou<br \/>\na pena, arredondou o seu final com elegante harmonia:<\/p>\n<p>&#8220;A mo\u00e7a, furiosa, gritou: Fu! Fu! vil\u00e3o! E o beguino,<br \/>\nassobiando, aligeirou as sand\u00e1lias pelo c\u00f3rrego, na sombra das<br \/>\naltas faias, enquanto que por todo o fresco vale, at\u00e9 Santa Maria de<br \/>\nCraquede, os atambores mouriscos, tarar\u00e3! ratat\u00e3! convocavam<br \/>\na mesnada dos Ramires, na do\u00e7ura da tarde&#8230;&#8221;<\/p>\n<h3><a name=\"3\"><\/a>CAP\u00cdTULO III<\/h3>\n<p>Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre trabalhou<br \/>\ncom aferro e proveito. E nessa manh\u00e3, depois de repicar a sineta no<br \/>\ncorredor, duas vezes o Bento empurrara a porta da livraria, avisando o Sr.<br \/>\nDoutor &#8220;que o almocinho, assim \u00e0 espera, certamente se estragava&#8221;.<br \/>\nMas de sobre a tira de alma\u00e7o Gon\u00e7alo rosnava &#8220;j\u00e1<br \/>\nvou!&#8221; &#8211; sem despegar a pena, que corria como quilha leve em \u00e1gua<br \/>\nmansa, na pressa amorosa de terminar, antes do almo\u00e7o, o seu Cap\u00edtulo<br \/>\nI.<\/p>\n<p>Ah! e que canseira lhe custara, durante esses dias, esse copioso Cap\u00edtulo,<br \/>\nt\u00e3o dif\u00edcil, com o imenso Castelo de Santa Iren\u00e9ia a<br \/>\nerguer; e toda uma idade esfumada da Hist\u00f3ria de Portugal a condensar<br \/>\nem contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar, sem que faltasse<br \/>\numa ra\u00e7\u00e3o nos alforjes, ou uma garruncha nos caixotes, sobre<br \/>\no dorso das mulas! Mas felizmente, na v\u00e9spera, j\u00e1 movera para<br \/>\nfora do Castelo o tro\u00e7o de Louren\u00e7o Ramires, em socorro de Montemor,<br \/>\ncom um vistoso coriscar de capelos e lan\u00e7as em torno ao pend\u00e3o<br \/>\ntendido.<\/p>\n<p>E agora, nesse remate do Cap\u00edtulo, era noite, e o sino de recolher<br \/>\ntangera, e a almenara luzira na Torre \u00c1lbarr\u00e3, e Tructesindo<br \/>\nRamires descera \u00e0 sala t\u00e9rrea da alc\u00e1\u00e7ova para<br \/>\ncear &#8211; quando fora, diante da c\u00e1rcova, com tr\u00eas toques fortes<br \/>\nanunciando filho de algo, uma buzina apressada soou. E, sem que o v\u00edlico<br \/>\ntomasse permiss\u00e3o do senhor, o al\u00e7ap\u00e3o da levadi\u00e7a<br \/>\nrangeu nas correntes de ferro, ribombou cavamente nos apoios de pedra. Quem<br \/>\nassim chegava em dura pressa era Mendo Pais, amigo de Afonso II e mordomo<br \/>\nda sua C\u00faria, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D. Teresa<br \/>\n&#8211; aquela que, pelo ondeante e alvo pesco\u00e7o, pelo pisar mais leve que<br \/>\num v\u00f4o, os Ramires chamavam a Gar\u00e7a Real. O Senhor de Santa Iren\u00e9ia<br \/>\ncorrera ao patim para acolher, num abra\u00e7o, o genro amado &#8211; &#8220;membrudo<br \/>\nCavaleiro, com os cabelos ruivos, a alv\u00edssima pele da ra\u00e7a germ\u00e2nica<br \/>\ndos visigodos&#8230;&#8221; E, de m\u00e3os enla\u00e7adas, ambos penetraram<br \/>\nnessa sala de ab\u00f3bada, alumiada por tochas que toscos an\u00e9is<br \/>\nde ferro seguravam, chumbados aos muros.<\/p>\n<p>Ao meio pousava a maci\u00e7a mesa de carvalho, rodeada de escanhos at\u00e9<br \/>\no topo, onde se erguia, diante dum \u00e1spero mantel de linho coberto de<br \/>\npratos de estanho e de pich\u00e9is luzidios, a cadeira senhorial com o<br \/>\nA\u00e7or grossamente lavrado nas altas espaldas, e delas suspensa, pelo<br \/>\ncintur\u00e3o tauxiado de prata, a espada de Tructesindo. Por tr\u00e1s<br \/>\nnegrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de pinheiro, com<br \/>\na prateleira guarnecida de conchas, entre bocais de sanguessugas, sob dois<br \/>\nmolhos de palmas trazidas da Palestina por Gutierres Ramires, o de Ultramar<br \/>\nRente a um esteio da chamin\u00e9, um falc\u00e3o, ainda emplumado, dormitava<br \/>\nna sua alc\u00e2ndora; e ao lado, sobre as lajes, numa camada de juncos,<br \/>\ndois al\u00f5es enormes dormiam tamb\u00e9m, com o focinho nas patas,<br \/>\nas orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto um pipo de<br \/>\nvinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com a face sumida<br \/>\nno capuz, sentado na borda de uma arca, lia, \u00e0 claridade do candil<br \/>\nque por cima fumegava, um pergaminho desenrolado&#8230; Assim Gon\u00e7alo adornara<br \/>\na soturna sala Afonsina com alfaias tiradas do tio Duarte, de Walter Scott,<br \/>\nde narrativas do Panorama. Mas que esfor\u00e7o!&#8230; E mesmo, depois de colocar<br \/>\nsobre os joelhos do monge um f\u00f3lio impresso em Mog\u00fancia por<br \/>\nUlrick ZelI, desmanchara toda essa linha t\u00e3o erudita, ao recordar,<br \/>\ncom um murro na mesa, que ainda a Imprensa se n\u00e3o inventara em tempos<br \/>\nde seu av\u00f4 Tructesindo, e que ao monge letrado apenas competia &#8220;um<br \/>\npergaminho de amarelada escrita&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira at\u00e9 o arco da<br \/>\nporta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a branca barba espalhada<br \/>\nsobre os bra\u00e7os cruzados, escutava Mendo Pais, que, na confian\u00e7a<br \/>\nde parente e amigo, jornadeara sem homens da sua merc\u00ea, cingindo apenas<br \/>\npor cima do brial de l\u00e3 cinzenta uma espada curta e um punhal sarraceno.<br \/>\nA\u00e7odado e coberto de p\u00f3 correra Mendo Pais desde Coimbra para<br \/>\nsuplicar ao sogro em nome do Rei e dos preitos jurados, que se n\u00e3o<br \/>\nbandeasse com os de le\u00e3o e com as senhoras Infantas. E j\u00e1 desenrolara<br \/>\nante o velho todos os fundamentos invocados contra elas pelos doutos Not\u00e1rios<br \/>\nda C\u00faria &#8211; as resolu\u00e7\u00f5es do Concilio de Toledo! a bula<br \/>\ndo Ap\u00f3stolo de Roma, Alexandre! o velho foro dos Visigodos!&#8230; De resto,<br \/>\nque inj\u00faria fizera \u00e0s senhoras Infantas seu real irm\u00e3o,<br \/>\npara assim chamarem hostes Leonesas a terras de Portugal? Nenhuma! Nem Regedoria<br \/>\nnem renda dos castelos e vilas da doa\u00e7\u00e3o de D. Sancho lhes negava<br \/>\no senhor D. Afonso. O Rei de Portugal s\u00f3 queria que nenhum palmo de<br \/>\nch\u00e3o portugu\u00eas, baldio ou murado, jazesse fora de seu senhorio<br \/>\nreal. Escasso e \u00e1vido, El-Rei D. Monso?&#8230; Mas n\u00e3o entregara<br \/>\nele \u00e0 senhora D. Sancha oito mil morabitinos de ouro? E a gratid\u00e3o<br \/>\nda irm\u00e3 fora o Leon\u00eas passando a raia e logo ca\u00eddos os<br \/>\ncastelos formosos de Ulgoso, de Contrasta, de Urros e de Lanhoselo! O mais<br \/>\nvelho da casa dos Sousas, Gon\u00e7alo Mendes, n\u00e3o se encontrara<br \/>\nao lado dos Cavaleiros da Cruz na jornada das Navas, mas l\u00e1 andava<br \/>\nem recado das Infantas, como mouro, talando terra portuguesa desde Aguiar<br \/>\nat\u00e9 Miranda! E j\u00e1 pelos cerros de Al\u00e9m-Douro aparecera<br \/>\no pend\u00e3o renegado das treze arruelas &#8211; e por tr\u00e1s, farejando,<br \/>\na alcat\u00e9ia dos Castros! Carregada amea\u00e7a, e de armas crist\u00e3s,<br \/>\noprimindo o Reino &#8211; quando ainda Moabitas e Agarenos corriam \u00e0 r\u00e9dea<br \/>\nsolta pelos campos do Sul!&#8230; E o honrado Senhor de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\nque t\u00e3o rijamente ajudara a fazer o Reino, n\u00e3o o deveria decerto<br \/>\ndesfazer arrancando dele os peda\u00e7os melhores para monges e para donas<br \/>\nrebeldes! &#8211; Assim, com arremessados passos, exclamara Mendo Pais, t\u00e3o<br \/>\nacalorado do esfor\u00e7o e da emo\u00e7\u00e3o, que duas vezes encheu<br \/>\nde vinho uma conca de pau e de um trago a despejou. Depois, limpando a boca<br \/>\n\u00e0s costas da m\u00e3o tr\u00eamula:<\/p>\n<p>&#8211; Ide por certo a Montemor, senhor Tructesindo Ramires! Mas em recado de<br \/>\npaz e boa aven\u00e7a, persuadir vossa senhora D. Sancha e as Senhoras Infantas<br \/>\nque voltem honradamente a quem hoje contam por seu pai e seu Rei!<\/p>\n<p>O enorme senhor de Santa Iren\u00e9ia parara, pousando no genro os olhos<br \/>\nduros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como sar\u00e7as<br \/>\nem manh\u00e3 de geada:<\/p>\n<p>&#8211; Irei a Montemor, Mendo Pais, mas levar o meu sangue e o dos meus para que<br \/>\njusti\u00e7a logre quem justi\u00e7a tem.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Mendo Pais, amargurado, ante a her\u00f3ica teima:<\/p>\n<p>&#8211; Maior d\u00f3, maior d\u00f3! Ser\u00e1 bom sangue de Ricos-homens<br \/>\nvertido por m\u00e1s desforras&#8230; Senhor Tructesindo Ramires, sabei que<br \/>\nem Canta-Pedra vos espera Lopo de Bai\u00e3o, o Bastardo, para vos tolher<br \/>\na passagem com cem lan\u00e7as!<\/p>\n<p>Tructesindo ergueu a vasta face &#8211; com um riso t\u00e3o soberbo e claro<br \/>\nque os al\u00f5es rosnaram torvamente, e, acordando, o falc\u00e3o esticou<br \/>\na asa lenta:<\/p>\n<p>&#8211; Boa nova e de boa esperan\u00e7a! E, dizei, senhor Mordomo-Mor da C\u00faria,<br \/>\nt\u00e3o de fei\u00e7\u00e3o e certa assim ma trazeis para me intimidar?<\/p>\n<p>&#8211; Para vos intimidar?&#8230; Nem o Senhor Arcanjo S. Miguel vos intimidaria descendo<br \/>\ndo c\u00e9u com toda a sua hoste e a sua espada de lume! De sobra o Rei,<br \/>\nSenhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E j\u00e1 que nesta<br \/>\nlide n\u00e3o sereis por mim bem ajudado, quero, ao menos, que sejais bem<br \/>\navisado.<\/p>\n<p>O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem, a cear, pois! \u00c0 ceia, Frei M\u00fanio!&#8230; E v\u00f3s,<br \/>\nMendo Pais, deixai receios.<\/p>\n<p>&#8211; Se deixo! N\u00e3o vos pode vir dano que me anseie de cem lan\u00e7as,<br \/>\nde duzentas, que vos surjam a caminho.<\/p>\n<p>E, enquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da mesa &#8211; Mendo<br \/>\nPais ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o cintur\u00e3o da<br \/>\nespada:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 um cuidado me pesa. E \u00e9 que, nesta jornada, senhor meu<br \/>\nsogro, ides ficar de mal com o Reino e com o Rei.<\/p>\n<p>&#8211; Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e como Rei, mas de bem com a<br \/>\nhonra e comigo!<\/p>\n<p>Este grito de fidelidade, t\u00e3o altivo, n\u00e3o ressoava no poemeto<br \/>\ndo tio Duarte. E quando o achou, com inesperada inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\no Fidalgo da Torre, atirando a pena, esfregou as m\u00e3os, exclamou, enlevado:<\/p>\n<p>&#8211; Caramba! Aqui h\u00e1 talento!<\/p>\n<p>Rematou logo o Cap\u00edtulo. Estava esfalfado, \u00e0 banca do trabalho<br \/>\ndesde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as energias magn\u00edficas<br \/>\ndos seus fortes av\u00f3s! Numerou as tiras &#8211; fechou na gaveta \u00e0<br \/>\nchave o volume do Bardo. Depois \u00e0 janela, com o colete desabotoado,<br \/>\nainda lan\u00e7ou o brado genial num grave e rouco tom, como o lan\u00e7aria<br \/>\nTructesindo: -&#8230; &#8220;de mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra<br \/>\ne comigo E sentia nele realmente toda a alma de um Ramires, como eles eram<br \/>\nno s\u00e9culo XII, de sublime lealdade, mais presos \u00e0 sua palavra<br \/>\nque um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para a manter, bens,<br \/>\ncontentamento e vida!<\/p>\n<p>O Bento, que espalhara outro repique desesperado, escancarou a porta da livraria:<\/p>\n<p>&#8211; E o Pereira&#8230; Est\u00e1 l\u00e1 embaixo no p\u00e1tio o Pereira<br \/>\nque quer falar ao Sr. Doutor.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Mendes franziu a testa, com impaci\u00eancia, assim repuxado<br \/>\ndaquelas alturas onde respirava os nobres esp\u00edritos da sua ra\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Que ma\u00e7ada!&#8230; O Pereira&#8230; Que Pereira?<\/p>\n<p>&#8211; O Pereira; o Manuel Pereira, da Riosa; o Pereira Brasileiro.<\/p>\n<p>Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado Brasileiro por ter herdado vinte<br \/>\ncontos de um tio, regat\u00e3o no Par\u00e1. Comprara ent\u00e3o terras,<br \/>\ntrazia arrendada a Cortiga, a falada propriedade dos condes de Monte-Agra,<br \/>\nenvergava aos domingos uma sobrecasaca de pano fino, e dispunha de sessenta<br \/>\nvotos na Freguesia.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos enquanto almo\u00e7o&#8230;<br \/>\nE p\u00f5e outro talher.<\/p>\n<p>A sala de jantar da Torre, que abria por tr\u00eas portas envidra\u00e7adas<br \/>\npara uma funda varanda alpendrada, conservava, do tempo do av\u00f4 Dami\u00e3o<br \/>\n(o tradutor de Valerius Flaccus), dois formosos panos de Arras representando<br \/>\na Expedi\u00e7\u00e3o dos Argonautas. Lou\u00e7as da \u00cdndia e<br \/>\ndo Jap\u00e3o, desirmanadas e preciosas, recheavam um imenso arm\u00e1rio<br \/>\nde mogno. E sobre o m\u00e1rmore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda<br \/>\nricos, das pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e<br \/>\npolia com amor. Mas Gon\u00e7alo, sobretudo de ver\u00e3o, sempre almo\u00e7ava<br \/>\ne jantava na varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida at\u00e9<br \/>\nmeio muro por finos azulejos do s\u00e9culo XVIII, e oferecendo a um canto,<br \/>\npara as pregui\u00e7as do charuto, um profundo canap\u00e9 de palhinha<br \/>\ncom almofadas de damasco.<\/p>\n<p>Quando l\u00e1 entrou, com os jornais da manh\u00e3 que n\u00e3o abrira,<br \/>\no Pereira esperava, encostado a um grosso guarda-sol de paninho escarlate,<br \/>\nconsiderando pensativamente a quinta que, dali, se abrangia at\u00e9 os<br \/>\n\u00e1lamos da ribeira do Coice e aos outeiros suaves de Valverde. Era um<br \/>\nvelho esgalgado e rijo, todo ossos, com um car\u00e3o moreno, de olhos miudinhos<br \/>\ne azulados, e uma barbicha rala, j\u00e1 branca, entre dois enormes colarinhos<br \/>\npresos por bot\u00f5es de ouro. Homem de propriedade, acostumado \u00e0<br \/>\nCidade e ao trato das Autoridades, estendeu largamente a m\u00e3o ao Fidalgo<br \/>\nda Torre, e aceitou, sem embara\u00e7o, a cadeira que ele lhe empurrara<br \/>\npara a mesa &#8211; onde dominavam, com os seus ricos lavores, duas altas infusas<br \/>\nde cristal antigo, uma cheia de a\u00e7ucenas e a outra de vinho verde.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo? N\u00e3o<br \/>\no vejo desde abril!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, meu Fidalgo, desde o s\u00e1bado em que caiu a grande<br \/>\ntrovoada, na v\u00e9spera da elei\u00e7\u00e3o! &#8211; confirmou o Pereira<br \/>\nafagando o cabo do guarda-sol que conservara entre os joelhos.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, numa esfaimada pressa do almo\u00e7o, repicou a campainha<br \/>\nde prata. Depois rindo:<\/p>\n<p>&#8211; E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, l\u00e1 foram para<br \/>\no eterno Sanches Lucena, direitinhos, como os rios v\u00e3o para o mar!<\/p>\n<p>O Pereira tamb\u00e9m riu, com um riso agradado que lhe descobria os maus<br \/>\ndentes. Pois o c\u00edrculo era uma propriedade do Sr. Sanches Lucena! Cavalheiro<br \/>\nde fortuna, homem de bem, conhecedor, servi\u00e7al&#8230; E ent\u00e3o, quando<br \/>\nlhe calhava como em abril o apoio do Governo, nem Nosso Senhor Jesus Cristo<br \/>\nque voltasse \u00e0 Terra e se propusesse por Vila-Clara desalojava o patr\u00e3o<br \/>\nda Feitosa!<\/p>\n<p>O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental resplandecente,<br \/>\nentrava com um prato de ovos estrelados, quando o Fidalgo, que desdobrara<br \/>\no guardanapo, o amarrotou, arremessou com nojo:<\/p>\n<p>&#8211; Este guardanapo j\u00e1 serviu! Eu estou farto de gritar. N\u00e3o<br \/>\nme importa guardanapo roto, ou com passagens, ou com remendos&#8230; Mas branquinho,<br \/>\nfresquinho cada manh\u00e3, a cheirar a alfazema!<\/p>\n<p>E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea! Voc\u00ea n\u00e3o almo\u00e7a, Pereira?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, agradecia muito ao Fidalgo, mas nessa tarde comia as sopas com<br \/>\no genro nos Bravais, que era festa pelos anos do netinho.<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! Parab\u00e9ns, Pereira amigo! D\u00ea l\u00e1 um beijo meu<br \/>\nao netinho&#8230; Mas ent\u00e3o ao menos um copo de vinho verde.<\/p>\n<p>&#8211; Entre as comidas, meu Fidalgo, nem \u00e1gua nem vinho.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo farejara, arredara os ovos. E reclamou o &#8220;jantar da fam\u00edlia&#8221;,<br \/>\nsempre muito farto e saboroso na Torre, e come\u00e7ando por essas pesadas<br \/>\nsopas de p\u00e3o, presunto e legumes, que ele desde crian\u00e7a adorava<br \/>\ne chamava as palanganas. Depois, barrando de manteiga uma bolacha:<\/p>\n<p>&#8211; Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena n\u00e3o faz honra<br \/>\nao c\u00edrculo! Homem excelente, decerto, respeit\u00e1vel, obsequiador&#8230;<br \/>\nMas mudo, Pereira! Inteiramente mudo!<\/p>\n<p>O lavrador ro\u00e7ou vagarosamente pelas ventas cabeludas o len\u00e7o<br \/>\nvermelho, enrolado em bola:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe as coisas, pensa com acerto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim! mas pensamento e acerto n\u00e3o lhe saem de dentro do cr\u00e2nio!<br \/>\nDepois est\u00e1 muito velho, Pereira! Que idade ter\u00e1 ele? Sessenta?<\/p>\n<p>&#8211; Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O av\u00f4 durou<br \/>\nat\u00e9 os cem anos. E ainda o conheci na loja&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como, na loja?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Pereira, enrolando mais o len\u00e7o, estranhou que o Fidalgo<br \/>\nn\u00e3o soubesse a hist\u00f3ria do Sanches Lucena. Pois o av\u00f4,<br \/>\no Manuel Sanches, era um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado tamb\u00e9m<br \/>\ncom uma mo\u00e7a muito vistosa, muito farfalhuda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem! &#8211; atalhou o Fidalgo. &#8211; Isso \u00e9 honroso para o Sanches Lucena.<br \/>\nGente que engordou, que trepou&#8230; E eu concordo, Pereira, o c\u00edrculo<br \/>\ndeve mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha nele terra,<br \/>\nra\u00edzes, interesses, nome&#8230; Mas \u00e9 preciso que seja tamb\u00e9m<br \/>\nhomem com talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes quest\u00f5es,<br \/>\nnas crises, se erga, transporte a C\u00e2mara!&#8230; E depois, Pereira amigo,<br \/>\nem Pol\u00edtica quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa!<br \/>\nAinda em papel, a l\u00e1pis vermelho&#8230; E, se o Sanches Lucena fosse homem<br \/>\nde berrar em S. Bento, j\u00e1 o Pereira trazia por l\u00e1 os seus carros<br \/>\na chiar.<\/p>\n<p>O Pereira abanou a cabe\u00e7a, com tristeza:<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed talvez o Fidalgo acerte&#8230; Para essa estradinha da Riosa sempre<br \/>\nfaltou quem gritasse. A\u00ed talvez o Fidalgo acerte!<\/p>\n<p>Mas o Fidalgo emudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro duma ca\u00e7oila<br \/>\nnova, com raminhos de hortel\u00e3. E ent\u00e3o o Pereira, acercando<br \/>\nmais a cadeira, cruzou no rebordo da mesa as m\u00e3os, que meio s\u00e9culo<br \/>\nde trabalho na terra tornara negras e duras como ra\u00edzes &#8211; e declarou<br \/>\nque se atrevera a incomodar o Fidalgo, \u00e0quelas horas do almocinho,<br \/>\nporque nessa semana come\u00e7ava um corte de madeiras para os lados de<br \/>\nSandim, e desejava, antes que surgissem outros arranjos, conversar com S.<br \/>\nExa. sobre o arrendamento da Torre&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo reteve a colher, num pasmo risonho:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea queria arrendar a Torre, Pereira?<\/p>\n<p>&#8211; Queria conversar com V. Exa.. Como o Relho est\u00e1 despedido&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu j\u00e1 tratei como Casco, o Jos\u00e9 Casco dos Bravais! Ficamos<br \/>\nmeio apalavrados, h\u00e1 dias&#8230; H\u00e1 mais de uma semana.<\/p>\n<p>O Pereira co\u00e7ou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, grande<br \/>\npena&#8230; Ele s\u00f3 no s\u00e1bado se inteirara da desaven\u00e7a com<br \/>\no Relho. E, se o Fidalgo n\u00e3o ressalvava o segredo, por quanto ficara<br \/>\no arrendamento?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o ressalvo, n\u00e3o, homem! Novecentos e cinq\u00fcenta mil<br \/>\nr\u00e9is.<\/p>\n<p>O Pereira tirou da algibeira do colete a caixa de tartaruga, e sorveu detidamente<br \/>\numa pitada, com o car\u00e3o pendido para a esteira. Pois maior pena, mesmo<br \/>\npara o Fidalgo. Enfim! depois de palavra trocada&#8230; Mas era pena, porque ele<br \/>\ngostava da propriedade; j\u00e1 pelo S. Jo\u00e3o pensara em abeirar o<br \/>\nFidalgo; e apesar dos tempos correrem escassos, n\u00e3o andaria longe de<br \/>\noferecer um conto e cinq\u00fcenta, mesmo um conto cento e cinq\u00fcenta!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo esqueceu a sopa, numa emo\u00e7\u00e3o que lhe afogueou<br \/>\na face fina, ante um tal acr\u00e9scimo de renda &#8211; e a excel\u00eancia<br \/>\nde tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o mais fino amanhador<br \/>\nde terras de todas as cercanias!<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 s\u00e9rio, \u00f3 Pereira?<\/p>\n<p>O velho lavrador pousou a caixa de rap\u00e9 sobre a toalha, com decis\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Meu Fidalgo, eu n\u00e3o era homem que entrasse na Torre para ca\u00e7oar<br \/>\ncom V Exa.! Proposta a valer, escritura a fazer&#8230; Mas se o arrendamento est\u00e1<br \/>\ntratado&#8230;<\/p>\n<p>Recolheu a caixa, apoiava a m\u00e3o larga na mesa para se erguer, quando<br \/>\nGon\u00e7alo acudiu, nervoso, empurrando o prato:<\/p>\n<p>&#8211; Escute, homem!&#8230; Eu n\u00e3o contei por mi\u00fado o caso do Casco.<br \/>\nVoc\u00ea compreende, sabe como essas coisas passam&#8230; O Casco veio, conversamos;<br \/>\neu pedi novecentos e cinq\u00fcenta mil r\u00e9is e porco pelo Natal. Primeiramente<br \/>\nconcordou, que sim; logo adiante emendou, que n\u00e3o&#8230; Voltou com o compadre;<br \/>\ndepois, com a mulher e o compadre, e o afilhado, e o c\u00e3o! Depois s\u00f3.<br \/>\nAndou a\u00ed pela quinta, a medir, a cheirar a terra; acho at\u00e9 que<br \/>\na provou. Aquelas rabulices do Casco!&#8230; Por fim, uma tarde, l\u00e1 gemeu,<br \/>\nl\u00e1 aceitou os novecentos e cinq\u00fcenta mil r\u00e9is, sem porco.<br \/>\nCedi do porco. Aperto de m\u00e3o, copo de vinho. Ficou de aparecer para<br \/>\ncombinar, tratar da escritura. N\u00e3o o avistei mais, h\u00e1 quase<br \/>\nduas semanas! Naturalmente j\u00e1 virou, j\u00e1 se arrependeu&#8230; Para<br \/>\nresumir, n\u00e3o tenho com o Casco contrato firme. Foi uma conversa em<br \/>\nque apenas estabelecemos, como base, a renda de novecentos e cinq\u00fcenta.<br \/>\nE eu, que detesto coisas vagas, j\u00e1 andava pensando em encontrar melhor<br \/>\nhomem!<\/p>\n<p>Mas o Pereira co\u00e7ava o queixo, desconfiado. Ele, em neg\u00f3cios,<br \/>\ngostava de lisura. Sempre se entendera bem com o Casco. Nem por um condado<br \/>\nse atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento, assomado. De modo que<br \/>\ndesejava as coisas claras, para n\u00e3o surgir desgosto rijo. N\u00e3o<br \/>\nse lavrara escritura, bem! Mas ficara, ou n\u00e3o, palavra dada entre o<br \/>\nFidalgo e o Casco?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Mendes Ramires, que findara apressadamente a sopa e enchia<br \/>\num copo de vinho verde para se acalmar, fitou o lavrador, quase severamente:<\/p>\n<p>&#8211; Homem, essa pergunta!&#8230; Pois se eu tivesse confirmado ao Casco decisivamente<br \/>\na palavra de Gon\u00e7alo Ramires, estava agora aqui a tratar, ou sequer<br \/>\na conversar consigo, Pereira, sobre o arrendamento da Torre?<\/p>\n<p>O Pereira baixou a cabe\u00e7a. Tamb\u00e9m era verdade!&#8230; Pois, nesse<br \/>\ncaso, ele abria a sua ten\u00e7\u00e3o, claramente. E, como conhecia a<br \/>\npropriedade, e apurara o seu c\u00e1lculo &#8211; oferecia ao Fidalgo um conto<br \/>\ncento e cinq\u00fcenta mil r\u00e9is, sem porco. Mas n\u00e3o dava para<br \/>\na fam\u00edlia nem leite, nem hortali\u00e7a, nem fruta. O Fidalgo, homem<br \/>\ns\u00f3, pouco se aproveitava. A Torre, por\u00e9m, casa antiga, enxameava<br \/>\nde gentes e de aderentes. Todos apanhavam, todos abusavam&#8230; Enfim, esse era<br \/>\no seu princ\u00edpio. E de resto, para a mesa do Fidalgo e mesmo dos criados,<br \/>\nbastavam o pomar e a horta de regalo&#8230; Que horta e pomar necessitavam trato<br \/>\nmais jeitoso; mas ele, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por l\u00e1 passaria<br \/>\ne tudo luziria&#8230; E quanto \u00e0s outras condi\u00e7\u00f5es, aceitava<br \/>\nas do antigo arrendamento. E escritura assinada para a outra semana, no s\u00e1bado&#8230;<br \/>\nEstava feito?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, depois de um momento em que pestanejou nervosa e tremulamente,<br \/>\nestendeu a m\u00e3o aberta ao Pereira:<\/p>\n<p>&#8211; Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!<\/p>\n<p>&#8211; E Nosso Senhor lhe ponha virtude &#8211; concluiu o Pereira, firmado no imenso<br \/>\nguarda-sol para se erguer. &#8211; Ent\u00e3o no s\u00e1bado, em Oliveira, para<br \/>\na escritura&#8230; Assina V. Exa. ou o Sr. Padre Soeiro?<\/p>\n<p>Mas o Fidalgo calculava:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, homem, n\u00e3o pode ser! No s\u00e1bado, com efeito, estou<br \/>\nem Oliveira, mas s\u00e3o os anos da mana Maria da Gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>O Pereira destapou de novo os maus dentes, num riso de estima:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! e como vai a Sra. D. Maria da Gra\u00e7a? H\u00e1 que idades a<br \/>\nn\u00e3o vejo! Desde o ano passado, na prociss\u00e3o de Passos, em Oliveira&#8230;<br \/>\nMuito boa senhora! Muito dada! E o Sr. Jos\u00e9 Barrolo? Pessoa excelente<br \/>\ntamb\u00e9m, a valer, o Sr. Jos\u00e9 Barrolo&#8230; E que terra a dele, a<br \/>\nRibeirinha! A melhor propriedade destas vinte l\u00e9guas em redor. Linda<br \/>\npropriedade! A do Andr\u00e9 Cavaleiro que lhe est\u00e1 pegada, a Biscaia,<br \/>\nn\u00e3o se lhe compara &#8211; e como cardo ao p\u00e9 de couve.<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre descascava um p\u00eassego, sorrindo:<\/p>\n<p>&#8211; Do Andr\u00e9 Cavaleiro nada presta, Pereira! Nem tenra nem alma!<\/p>\n<p>O lavrador pareceu surpreendido. Ele imaginava que o Fidalgo e o Cavaleiro<br \/>\ncontinuavam chegados e amigos&#8230; N\u00e3o em Pol\u00edtica! Mas particularmente,<br \/>\ncomo cavalheiros&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? Eu e o Cavaleiro? Nem como cavalheiro nem como pol\u00edtico.<br \/>\nQue ele nem \u00e9 cavalheiro nem pol\u00edtico. \u00c9 apenas cavalo,<br \/>\ne ressabiado.<\/p>\n<p>O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o est\u00e1 entendido, no s\u00e1bado, na cidade. E, se<br \/>\nn\u00e3o faz transtorno ao Fidalgo, passamos pelo Tabeli\u00e3o Guedes,<br \/>\ne fica o feito arrumado. O Fidalgo, naturalmente, vai para casa da senhora<br \/>\nsua mana&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sempre. Apare\u00e7a voc\u00ea \u00e0s tr\u00eas horas. L\u00e1<br \/>\nconversamos com o Padre Soeiro!<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m h\u00e1 que idades n\u00e3o encontro o Sr. Padre Soeiro!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! esse ingrato, agora, raramente aparece na Torre. Sempre em Oliveira,<br \/>\ncom a mana Gra\u00e7a, que \u00e9 a menina dos seus encantos&#8230; Ent\u00e3o<br \/>\nnem um c\u00e1lice de vinho do Porto, Pereira?&#8230; Bem, at\u00e9 s\u00e1bado.<br \/>\nN\u00e3o esque\u00e7a o beijinho para o neto.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 me vai no cora\u00e7\u00e3o, meu Fidalgo&#8230; Ora essa! Pois<br \/>\nconsentia eu que V. Exa. se levantasse? Sei perfeitamente a escada, e ainda<br \/>\npasso pela cozinha para debicar com a tia Rosa. J\u00e1 desde o tempo do<br \/>\npaizinho de V. Exa., que Deus haja, conhe\u00e7o bem a Torre!&#8230; E sempre<br \/>\nme esperancei de trazer nesta quinta uma lavoura a meu gosto, de consolar!<\/p>\n<p>Durante o caf\u00e9, esquecido dos jornais, Gon\u00e7alo gozou a excel\u00eancia<br \/>\ndaquele neg\u00f3cio. Duzentos mil r\u00e9is mais de renda. E a Torre<br \/>\ntratada pelo Pereira, com aquele amor da terra e saber de lavra que transformara<br \/>\no chavascal do Monte-Agra numa maravilha de seara, vinha e horta!&#8230; Al\u00e9m<br \/>\ndisso, homem abastado, capaz de um adiantamento. E eis a\u00ed mais uma<br \/>\nevid\u00eancia do valor da Torre, esse afinco do Pereira em a arrendar, ele<br \/>\nt\u00e3o apertado, t\u00e3o seguro&#8230; Quase se arrependia de lhe n\u00e3o<br \/>\nter arrancado um conto e duzentos. Enfim, a manh\u00e3 fora fecunda! E,<br \/>\nrealmente, nenhum acordo firmado o colava ao Casco. Entre eles apenas se esbo\u00e7ara<br \/>\numa conversa, sobre um arrendamento poss\u00edvel da Torre, a debater depois<br \/>\nmiudamente, numa base nova de novecentos e cinq\u00fcenta mil r\u00e9is&#8230;<br \/>\nE que insensatez se ele, por escrupuloso respeito dessa conversa esbo\u00e7ada,<br \/>\nrecusasse o Pereira, retivesse o Casco, lavrador de rotina &#8211; dos que raspam<br \/>\na terra para comer, e a deixam cada ano deperecendo, mais cansada e chupada!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a \u00e9gua selada das cinco<br \/>\npara as cinco e meia. Sempre vou \u00e0 Feitosa&#8230; Hoje \u00e9 o dia!<\/p>\n<p>Acendeu um charuto, voltou \u00e0 livraria. E, imediatamente, releu o final<br \/>\nmagn\u00edfico: &#8220;De mal com o Reino e como Rei, mas de bem com a honra<br \/>\ne comigo!&#8221; &#8211; Ah! como ali gritava a alma inteira do velho portugu\u00eas,<br \/>\nno seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira de alma\u00e7o<br \/>\nentre os dedos, junto da varanda, considerou um momento a Torre, as poeirentas<br \/>\nfrestas engradadas de ferro, as resistentes ameias, ainda inteiras, onde agora<br \/>\nadejava um bando de pombas&#8230; Quantas manh\u00e3s, \u00e0s frescas horas<br \/>\nda alva, o velho Tructesindo se encostara \u00e0quelas ameias, ent\u00e3o<br \/>\nnovas e brancas! Toda a terra em redor, semeada ou bravia, decerto pertencia<br \/>\nao poderoso Rico-homem. E o Pereira, nesse tempo colono ou servo, s\u00f3<br \/>\nabordava a seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas n\u00e3o lhe pagava um<br \/>\nconto cento e cinq\u00fcenta mil r\u00e9is de sonora moeda do Reino. Tamb\u00e9m,<br \/>\nque diabo, o vov\u00f4 Tructesindo n\u00e3o precisava&#8230; Quando as sacos<br \/>\nrareavam nas arcas, e as acostados rosnavam por tardan\u00e7a de soldo,<br \/>\no leal Rico-homem, para se prover, tinha as tulhas e as adegas dos Concelhos<br \/>\nmal defendidos &#8211; ou ent\u00e3o, numa volta de estrada, o oven\u00e7al<br \/>\nvoltando de recolher as rendas reais, o bufarinheiro genov\u00eas com os<br \/>\nmachos ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe contara o pap\u00e1)<br \/>\nainda negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes<br \/>\nchumbadas aos pilares, e na ab\u00f3bada a argola de onde pendia a pol\u00e9,<br \/>\ne no lajedo os buracos em que se escorava o potro. E, nessa surda e \u00famida<br \/>\ncova, oven\u00e7al, bufarinheiro, Cl\u00e9rigos e mesmo burgueses de foro<br \/>\nuivavam sob o a\u00e7oite ou no torniquete, at\u00e9 largarem agonizando<br \/>\no derradeiro morabitino. Ah! a rom\u00e2ntica Torre, cantada t\u00e3o meigamente<br \/>\nao luar pelo Videirinha, quantos tormentos abafara!&#8230;<\/p>\n<p>E de repente, com um berro, Gon\u00e7alo agarrou de sobre a mesa um volume<br \/>\nde Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra, contra a tronco de<br \/>\numa faia. \u00c9 que descortinara a gato da Rosa cozinheira, trepado, de<br \/>\nunhas fincadas num ramo, arqueando a espinha, para assaltar um ninho de melros.<\/p>\n<p>Quando nessa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de montar,<br \/>\npolainas de couro polido, luvas de camur\u00e7a branca, parou a \u00e9gua<br \/>\nao port\u00e3o da Feitosa &#8211; um velho todo esfarrapado, com longos cabelos<br \/>\nca\u00eddos pelos ombros e imensas barbas espalhadas pelo peito, imediatamente<br \/>\nse ergueu do banco de pedra onde comia rodelas de chouri\u00e7o, bebendo<br \/>\nde uma caba\u00e7a, para o avisar que o Sr. Sanches Lucena e a Sra. D. Ana<br \/>\nandavam por fora, de carruagem. Gon\u00e7alo pediu ao velho que puxasse<br \/>\no ferro da sineta. E, entregando um cart\u00e3o ao mo\u00e7o, que entreabrira<br \/>\na rica grade dourada, com um S e um L entrela\u00e7ados sob uma coroa de<br \/>\nconde:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Sanches Lucena, bem?<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? Esteve doente?<\/p>\n<p>&#8211; Pois o Sr. Conselheiro, aqui h\u00e1 tr\u00eas ou quatro semanas, andou<br \/>\nmuito agoniado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Sinto muito&#8230; Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muit\u00edssimo!<\/p>\n<p>Chamou o velho que repicara a sineta para o recompensar com um tost\u00e3o.<br \/>\nE, interessado por aquelas barba\u00e7as e melenas de mendigo de Melodrama:<\/p>\n<p>&#8211; Vossemec\u00ea pede esmola por estes s\u00edtios?<\/p>\n<p>O homem ergueu para ele os olhos sujos, avermelhados da poeira e da sal,<br \/>\nmas risonhos, quase contentes:<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, gra\u00e7as a Deus,<br \/>\nl\u00e1 me fazem muito bem.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o quando l\u00e1 voltar diga ao Bento&#8230; Voc\u00ea conhece<br \/>\no Bento?<\/p>\n<p>Se conhecia! E a Sra. Rosa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois diga ao Bento que lhe d\u00ea umas cal\u00e7as, homem! Voc\u00ea<br \/>\nassim, com essas cal\u00e7as, n\u00e3o anda decente.<\/p>\n<p>O velho riu, num riso lento e desdentado, mirando com gosto os s\u00f3rdidos<br \/>\nfarrapos que lhe trapejavam nas canelas, mais denegridas e secas que galhos<br \/>\nde inverno:<\/p>\n<p>&#8211; Rotinhas, rotinhas&#8230; Mas o se Dr. J\u00falio diz que me ficam assim<br \/>\nbem. O Sr. Dr. J\u00falio, quando l\u00e1 passa, sempre me tira o retrato<br \/>\nna m\u00e1quina. Ainda na semana passada&#8230; At\u00e9 com uns peda\u00e7os<br \/>\nde grilh\u00f5es dependuradas do pulso, e uma espada erguida na m\u00e3o&#8230;<br \/>\nParece que para mostrar ao Governo.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, rindo, picou a \u00e9gua. Pensava agora em alongar por<br \/>\nValverde: depois recolheria por Vila-Clara, e tentaria o Gouveia a partilhar<br \/>\nna Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que ele na v\u00e9spera,<br \/>\nna Assembl\u00e9ia, convidara o Manuel Duarte e o Tit\u00f3. Mas ao atravessar<br \/>\na &#8220;Cruz das Almas&#8221;, onde a estrada de Corinde, t\u00e3o linda,<br \/>\ncom as suas filas de \u00e1lamos, cruza a ladeira de Valverde, parou &#8211; notando<br \/>\nao fundo, para o lado de Corinde, como o confuso esbarro de uma carrada de<br \/>\nlenha, e uma carriola de a\u00e7ougue, e uma mulher de len\u00e7o escarlate<br \/>\nbracejando sobre a albarda dum burro, e dois lavradores de enxada \u00e0s<br \/>\ncostas. E, de repente, todo o encalhe se despegou &#8211; a mulher trotando no seu<br \/>\nburrinho, logo sumida numa volta de arvoredo; a carriola solavancando num<br \/>\nrolo leve de poeira; o carro avan\u00e7ando para a &#8220;Cruz das Almas&#8221;<br \/>\na chiar tardamente; os cavadores descendo para uma ch\u00e3 atrav\u00e9s<br \/>\ndas leiras de feno&#8230; Na estrada s\u00f3 restou, como desamparado, um homem<br \/>\nde jaqueta ao ombro, que se arrastava penosamente, coxeando. Gon\u00e7alo<br \/>\ntrotou, com curiosidade:<\/p>\n<p>&#8211; Que foi?&#8230; Vossemec\u00ea que tem?<\/p>\n<p>O homem, com a perna encolhida, levantou para Gon\u00e7alo uma face arrepanhada,<br \/>\nquase desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de suor:<\/p>\n<p>&#8211; Nosso Senhor lhe d\u00ea muito boas-tardes, meu Fidalgo! Ora o que h\u00e1<br \/>\nde ser? Desgra\u00e7as desta vida!<\/p>\n<p>E, gemendo, contou a sua hist\u00f3ria. &#8211; Desde meses padecia duma chaga<br \/>\nnum tornozelo, que n\u00e3o secara, nem com emplastros, nem com p\u00f3<br \/>\nde murtinhos, nem com benzeduras&#8230; E agora andava arriba, na fazenda do Sr.<br \/>\nDr. J\u00falio, a consertar um socalco, para ajudar um compadre tamb\u00e9m<br \/>\ndoente com maleitas &#8211; e, z\u00e1s, desaba um pedregulho, que topa na ferida,<br \/>\nleva a carne, lasca o osso, o deixa naquela l\u00e1stima!&#8230; At\u00e9<br \/>\nrasgara a fralda para ensopar o sangue e amarrar por cima o len\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas assim n\u00e3o pode andar, homem! Donde \u00e9 vossemec\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; De Corinde, meu Fidalgo. Manuel Solha, do lugar da Finta. At\u00e9 l\u00e1,<br \/>\nsempre me hei-de arrastar.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, dessa gente toda, que a\u00ed estava h\u00e1 bocado,<br \/>\nningu\u00e9m o pode ajudar?&#8230; Uma carriola, dois latag\u00f5es..,.<\/p>\n<p>Uma rija guinada, no teimoso esfor\u00e7o de firmar a perna, arrancou um<br \/>\ngrito ao Solha. Mas sorriu, arquejando&#8230; Que queria o Fidalgo? Cada um, neste<br \/>\nmundo, tem a sua pressa&#8230; Enfim, a rapariga do burro prometera passar pela<br \/>\nFinta, para avisar. E talvez um dos seus rapazes aparecesse na estrada com<br \/>\numa eguazita que ele comprara pela P\u00e1scoa &#8211; e que, por desgra\u00e7a,<br \/>\ntamb\u00e9m mancava!&#8230;<\/p>\n<p>Imediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Ent\u00e3o, \u00e9gua por \u00e9gua, j\u00e1 vossemec\u00ea<br \/>\ntem aqui esta&#8230;<\/p>\n<p>O Solha embasbacou para Gon\u00e7alo:<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! Santo nome de Deus!&#8230; Pois eu havia de ir a cavalo, e V Exa.<br \/>\na p\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Gon\u00e7alo ria:<\/p>\n<p>&#8211; Homem, com essas discuss\u00f5es de &#8220;eu a p\u00e9&#8221; e &#8220;voc\u00ea&#8221;<br \/>\na cavalo&#8221;, e &#8220;faz favor&#8221; e &#8220;n\u00e3o senhor&#8221;, \u00e9<br \/>\nque perdemos um tempo precioso. Monte, esteja quieto, e trote para a Finta!<\/p>\n<p>O outro recuava para a valeta da estrada, sacudindo a cabe\u00e7a, esgazeado,<br \/>\ncomo no espanto de um sacril\u00e9gio;<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 que n\u00e3o, meu senhor, isso \u00e9 que n\u00e3o!<br \/>\nAntes eu acabasse aqui \u00e0 m\u00edngua, com a chaga em bolor!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo bateu o p\u00e9, com autoridade:<\/p>\n<p>&#8211; Monte, que mando eu! Vossemec\u00ea \u00e9 um lavrador de enxada, eu<br \/>\nsou um Doutor formado em Coimbra, sou. eu que sei, sou eu que mando!<\/p>\n<p>E o Solha, logo submisso ante aquela for\u00e7a deslumbrante do Saber superior,<br \/>\nagarrou em sil\u00eancio a crina da \u00e9gua, enfiou respeitosamente o<br \/>\nestribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar as luvas brancas, lhe amparava<br \/>\no p\u00e9 entrapado e manchado de sangue.<\/p>\n<p>Depois, quando ele repousou no selim com um ah! consolado:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que tal?<\/p>\n<p>O homem s\u00f3 murmurava o nome de Nosso Senhor, na gratid\u00e3o e<br \/>\nno assombro daquela caridade:<\/p>\n<p>&#8211; Mas isto \u00e9 a volta do mundo&#8230; Eu aqui, na \u00e9gua do Fidalgo!<br \/>\nE o Fidalgo, o Sr. Gon\u00e7alo Ramires, da Torre, a p\u00e9 pela estrada!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou pela quinta<br \/>\ndo Dr. J\u00falio, que agora se arrojara a obras e planta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vinha. Depois, como o Manuel Solha conhecia o Pereira Brasileiro (que pensara<br \/>\nem arrendar as terras do Dr. J\u00falio), conversaram sobre esse esperto<br \/>\nhomem, sobre as grandezas da Cortiga. J\u00e1 sem embara\u00e7o, direito<br \/>\nno selim, no gosto daquela intimidade com o Fidalgo da Torre, o Solha esquecia<br \/>\na chaga, a dor que adormentara. E \u00e0 estribeira do Solha, atento e sorrindo,<br \/>\no Fidalgo estugava o passo na poeira branca.<\/p>\n<p>Assim se avizinhavam da Bica-Santa, um dos s\u00edtios decantados daquelas<br \/>\ncercanias formosas. A\u00ed a estrada, cortada na encosta dum monte, alarga<br \/>\ne forma um arejado terra\u00e7o, donde se abrange todo o vale de Corinde,<br \/>\nt\u00e3o rico em casais, em arvoredos, em searas, em \u00e1guas. No pendor<br \/>\ndo monte, coberto de carvalhos e de fragas musgosas, brota a fonte nomeada,<br \/>\nque j\u00e1 em tempos de El-Rei D. Jo\u00e3o V curava males de entranhas<br \/>\ne que uma devota senhora de Corinde, D. Rosa Miranda Carneiro, mandou encanar<br \/>\ndesde o alto at\u00e9 a um tanque de m\u00e1rmore, onde agora corre beneficamente,<br \/>\npor uma bica de bronze, sob a imagem e patroc\u00ednio de Santa Rosa de<br \/>\nLima. De cada lado do tanque se encurvam dois compridos bancos de pedra, que<br \/>\na espalhada ramaria das carvalheiras tolda de sombra e frescura. E um suave<br \/>\nretiro onde se apanham violetas, se comem merendas, e senhoras dos arredores<br \/>\nse sentam em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando<br \/>\na povoada, luminosa e verdejante largueza do vale.<\/p>\n<p>Antes por\u00e9m de desembocar na Bica-Santa, e perto do lugar do Serdal,<br \/>\na estrada de Corinde quebra numa volta: &#8211; e, a\u00ed, de repente, a \u00e9gua<br \/>\npulou, num reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre, desconfiado da per\u00edcia<br \/>\ndo Solha, a deitar a m\u00e3o \u00e0 caimba do freio. Fora o encontro<br \/>\ninesperado duma carruagem &#8211; uma caleche forrada de azul, com a parelha coberta<br \/>\nde redes brancas contra a mosca, e na almofada, teso, um cocheiro de bigode,<br \/>\nfarda de gola escarlate e chap\u00e9u de tope amarelo. E Gon\u00e7alo<br \/>\nmantinha ainda a \u00e9gua pelo freio, como melro servi\u00e7al em trilho<br \/>\nperigoso &#8211; quando avistou, untado num dos bancos de pedra, junto da Bica,<br \/>\ncom um xale-manta por cima dos joelhos, o velho Sanches Lucena. Ao lado o<br \/>\ntrintan\u00e1rio, agachado, esfregava com um molho de erva a botina que<br \/>\na bela D. Ana lhe estendia, apanhando o vestido de linho cru, apoiando a outra<br \/>\nm\u00e3o, sem luva, na cinta vergada e fina.<\/p>\n<p>A desconcertada apari\u00e7\u00e3o do Fidalgo da Torre, puxando pela<br \/>\nr\u00e9dea a sua \u00e9gua onde se escarranchava regaladamente um cavador<br \/>\nem mangas de camisa, alvorotou aquele repousado e dormente recanto da Bica.<br \/>\nSanches Lucena esbugalhava os olhos, esbugalhava os \u00f3culos, num arremesso<br \/>\nde curiosidade que o levantara, com o pesco\u00e7o esticado, o xale-manta<br \/>\nescorregado para a relva. D. Ana recolheu bruscamente a botina, logo empertigada<br \/>\nna gravidade condigna da senhora da Feitosa, retomando como uma ins\u00edgnia<br \/>\no cabo de ouro da luneta de ouro, suspensa por um cord\u00e3o de ouro. E<br \/>\nat\u00e9 o trintan\u00e1rio ria pasmadamente para o Solha.<\/p>\n<p>Mas j\u00e1, como seu desembara\u00e7o elegante, Gon\u00e7alo, num<br \/>\nrelance, saudara D. Ana, apertava com fervor a m\u00e3o espantada do Sanches<br \/>\nLucena, e, alegremente, se congratulava por aquele encontro ditoso! Pois vinha<br \/>\njustamente da Feitosa! E a\u00ed soubera com desgosto, por um mo\u00e7o<br \/>\nda quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas \u00faltimas semanas<br \/>\nandara doente&#8230; E, ent\u00e3o como estava? como estava? Oh! a fisionomia<br \/>\nera excelente!<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o \u00e9 verdade, Sra. D. Ana? O aspecto \u00e9 excelente!<\/p>\n<p>Com um leve requebro da cabe\u00e7a, um fofo ondear do molho de plumas<br \/>\nbrancas sobre o chap\u00e9u de palha vermelha, ela volveu numa voz rolada,<br \/>\nlenta e gorda, que arrepiou Gon\u00e7alo:<\/p>\n<p>&#8211; O Sanches agora, gra\u00e7as a Deus, desfruta melhor sa\u00fade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um pouco melhor, sim, com efeito, muito agradecido a V. Exa., Sr. Gon\u00e7alo<br \/>\nRamires! &#8211; murmurou o descarnado e corcovado homem, repuxando para os joelhos<br \/>\no xale-manta.<\/p>\n<p>E, com os \u00f3culos a luzir, cravados em Gon\u00e7alo, na curiosidade<br \/>\nque o abrasava, quase lhe rosara a face afilada, mais amarela que um c\u00edrio:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, com perd\u00e3o de V. Exa.! como \u00e9 que V. Exa. anda por aqui,<br \/>\npela estrada de Corinde, neste estado, a p\u00e9, trazendo \u00e0 r\u00e9dea<br \/>\num lavrador de enxada?&#8230;<\/p>\n<p>Rindo, sobretudo para D. Ana, cujos olhos formosamente negros, duma funda<br \/>\nrefulg\u00eancia l\u00edquida, tamb\u00e9m esperavam, s\u00e9rios e<br \/>\nreservados, Gon\u00e7alo contou o desastre do bom homem, que encontrara<br \/>\nno caminho gemendo, arrastando a perna escalavrada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De sorte que lhe ofereci a minha \u00e9gua&#8230; E at\u00e9, se V Exa.<br \/>\nme permite, minha senhora, \u00e9 necess\u00e1rio que eu combine com ele<br \/>\no resto da jornada&#8230;<\/p>\n<p>Rapidamente, voltou ao Solha, que, de novo acanhado ante os Senhores da Feitosa,<br \/>\ncom o chap\u00e9u na m\u00e3o, encolhido sobre o selim, como atenuando<br \/>\na sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas j\u00e1 Gon\u00e7alo<br \/>\nlhe ordenava que trotasse para a Finta &#8211; e lhe mandasse a \u00e9gua por<br \/>\num dos seus rapazes, ali \u00e0 Bica-Santa, onde ele se demorava com o Sr.<br \/>\nConselheiro. E quando o Solha largou, saudando desabaladamente, torcido, como<br \/>\nimpelido a seu pesar pelos acenos risonhos com que o Fidalgo o despedia, o<br \/>\nassombro do Sanches Lucena recome\u00e7ou:<\/p>\n<p>&#8211; Ora uma coisa destas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr. Gon\u00e7alo<br \/>\nMendes Ramires a trazer \u00e0 r\u00e9dea, pela estrada de Corinde, um<br \/>\ncavador de enxada! E a repeti\u00e7\u00e3o do Bom Samaritano&#8230; Mas para<br \/>\nmelhor!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches Lucena. &#8211; Oh!<br \/>\no Bom Samaritano n\u00e3o merecera uma p\u00e1gina t\u00e3o am\u00e1vel<br \/>\nno Evangelho, somente por oferecer o burro a um Levita doente: decerto mostrara<br \/>\nvirtudes mais belas&#8230; &#8211; E sorrindo para D. Ana, que, do Outro lado de Sanches<br \/>\nLucena, espalhava a luneta, com lentid\u00e3o majestosa, pelas \u00e1rvores<br \/>\ne pela Fonte que t\u00e3o bem conhecia:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 dois anos, minha senhora, que eu n\u00e3o tenho a honra&#8230;<\/p>\n<p>Mas Sanches Lucena despediu um grito:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Sr. Gon\u00e7alo Ramires! V. Exa. traz sangue na m\u00e3o!<\/p>\n<p>O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camur\u00e7a branca ressaltavam<br \/>\nduas manchas arroxeadas:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 sangue meu! foi naturalmente quando o Solha montou,<br \/>\ne eu lhe segurei o p\u00e9 escalavrado&#8230;<\/p>\n<p>Arrancou a luva, que arremessou para as ervas bravas, por tr\u00e1s do<br \/>\nbanco de pedra. E continuando o sorriso:<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito, n\u00e3o tenho a honra de encontrar a V. Exa., minha senhora,<br \/>\ndesde o baile do Bar\u00e3o das Marges, em Oliveira, o famoso baile de Entrudo&#8230;<br \/>\nH\u00e1 mais de dois anos, era eu estudante. E ainda me recordo que V Exa.<br \/>\nestava vestida esplendidamente de Catarina da R\u00fassia&#8230;<\/p>\n<p>E, enquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos, pensava: &#8211; &#8220;Formosa<br \/>\ncriatura! mas ordin\u00e1ria! e que!&#8230;&#8221; D. Ana tamb\u00e9m se recordava<br \/>\ndo baile dos Marges:<\/p>\n<p>&#8211; O cavalheiro, por\u00e9m, est\u00e1 equivocado. Eu n\u00e3o fui de<br \/>\nRussa, fui de Imperatriz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, de Imperatriz da R\u00fassia, da Grande Catarina&#8230; E com um gosto!<br \/>\ncom um luxo!<\/p>\n<p>Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gon\u00e7alo os \u00f3culos<br \/>\nde ouro, apontou um dedo alongado e l\u00edvido:<\/p>\n<p>&#8211; Pois tamb\u00e9m eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sra. D.<br \/>\nGra\u00e7a, trazia um traje de lavradeira de Viana&#8230; Foi uma luzid\u00edssima<br \/>\nfesta; nem admira; o nosso Marges \u00e9 sempre primoroso&#8230; E desde essa<br \/>\nnoite n\u00e3o tornei a encontrar a mana de V. Exa. em intimidade. Apenas<br \/>\nde longe, na missa&#8230;<\/p>\n<p>De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa montada,<br \/>\ncriadagem e cocheira porque, ou culpa do ar ou culpa da \u00e1gua, n\u00e3o<br \/>\nse dava bem na Cidade.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo acalorou mais o seu interesse:<\/p>\n<p>&#8211; Mas ent\u00e3o, realmente, V. Exa. o que tem tido?<\/p>\n<p>Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os m\u00e9dicos, em Lisboa, n\u00e3o<br \/>\nse entendiam. Uns atribu\u00edam ao est\u00f4mago &#8211; outros atribu\u00edam<br \/>\nao cora\u00e7\u00e3o. Portanto, aqui ou ali, v\u00edscera essencial<br \/>\natacada. E sofria crises &#8211; m\u00e1s crises&#8230; Enfim, com a gra\u00e7a<br \/>\nde Deus, e regime, e leite, e descanso, ainda esperava arrastar uns anos.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! com certeza! &#8211; exclamou Gon\u00e7alo alegremente. &#8211; E V. Exa. n\u00e3o<br \/>\npensa que a estada em Lisboa, e as C\u00e2maras, e a Pol\u00edtica, a terr\u00edvel<br \/>\nPol\u00edtica, o fatiguem, o agitem?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, Sanches Lucena passava toleravelmente<br \/>\nem Lisboa. Melhor mesmo que na Feitosa! Depois, gostava daquela distra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas C\u00e2maras. E como conservava amigos na Capital, uma roda escolhida,<br \/>\numa roda fina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um desses nossos excelentes amigos, V. Exa. decerto conhece. Ele \u00e9<br \/>\nparente de V. Exa&#8230;. O D. Jo\u00e3o da Pedrosa.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou polidamente:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, o D. Jo\u00e3o, decerto&#8230;<\/p>\n<p>E Sanches Lucena, passando pelas su\u00ed\u00e7as brancas a m\u00e3o<br \/>\nmagr\u00edssima, quase transparente, onde reluzia um enorme anel de armas<br \/>\nde safira:<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o somente o D. Jo\u00e3o&#8230; Outro dos nossos amigos \u00e9<br \/>\nigualmente parente de V. Exa., e chegado. Muitas vezes temos falado de V.<br \/>\nExa., e da sua casa. Que ele pertence tamb\u00e9m \u00e0 primeira nobreza&#8230;<br \/>\n\u00c9 o Arronches Manrique.<\/p>\n<p>&#8211; Cavalheiro muito dado, muito divertido! &#8211; acrescentou D. Ana, com uma convic\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe alteou o peito, a que o corpete justo marcava a for\u00e7a vi\u00e7osa<br \/>\ne a perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Gon\u00e7alo tamb\u00e9m nunca chegara esse nome sonoro. Mas n\u00e3o<br \/>\nhesitou:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, perfeitamente, o Manrique&#8230; De resto, eu tenho tantos parentes em<br \/>\nLisboa, e vou t\u00e3o pouco a Lisboa!&#8230; E V. Exa., Sra. D. Ana&#8230;<\/p>\n<p>Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado naquela conversa de parentescos<br \/>\nfidalgos:<\/p>\n<p>&#8211; V. Exa., naturalmente, tem em Lisboa toda a sua parentela hist\u00f3rica.<br \/>\nAssim eu creio que V. Exa. \u00e9 primo do Duque de Louren\u00e7al&#8230;<br \/>\nO Duarte Louren\u00e7al! Ele n\u00e3o usa o t\u00edtulo, por Miguelismo,<br \/>\nou antes por h\u00e1bito; mas enfim \u00e9 o leg\u00edtimo Duque de<br \/>\nLouren\u00e7al. \u00c9 quem representa a casa de Louren\u00e7al.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, sorrindo atentamente, desabotoara o fraque, procurava a sua<br \/>\nvelha charuteira de couro.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, com efeito, o Duarte&#8230; Somos primos. Diz ele que somos primos. E<br \/>\neu acredito. Entendo t\u00e3o pouco de \u00e1rvores de costado!&#8230; De<br \/>\nfato as casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes, n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 pelo lado de Ad\u00e3o, mas pelos Godos&#8230; E V Exa., Sra. D. Ana,<br \/>\nprefere a estada em Lisboa?<\/p>\n<p>Mas, reparando que escolhera um charuto, distraidamente o trincara:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! perd\u00e3o minha senhora&#8230; Ia fumar sem saber se V. Exa&#8230;.<\/p>\n<p>Ela saudou, descendo as longas pestanas:<\/p>\n<p>&#8211; O cavalheiro pode fumar; o Sanches n\u00e3o fuma, mas eu at\u00e9 aprecio<br \/>\no cheiro.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo agradeceu, enjoado com aquela voz redonda e gorda, aqueles<br \/>\nhorrendos &#8220;cavalheiro, o cavalheiro!&#8230;&#8221; Mas pensava: &#8211; &#8220;que<br \/>\nlinda pele! que bela criatura!&#8230;&#8221; E Sanches Lucena, inexor\u00e1vel,<br \/>\nestendera o dedo agudo:<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu conhe\u00e7o muito, n\u00e3o o Sr. D. Duarte Louren\u00e7al,<br \/>\nn\u00e3o tenho essa subida honra por ora, mas seu irm\u00e3o, o Sr. D.<br \/>\nFilipe. Cavalheiro estimabil\u00edssimo, como V. Exa. decerto sabe&#8230; E<br \/>\ndepois, que talento&#8230; Que talento, no cornetim!<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea! V. Exa. n\u00e3o ouviu seu primo, o Sr. D. Filipe Louren\u00e7al,<br \/>\ntocar cornetim?<\/p>\n<p>E at\u00e9 a bela D. Ana se animou, com um sorriso l\u00e2nguido dos bei\u00e7os<br \/>\ncheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o fresco rebrilho dos dentes<br \/>\npequeninos:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! toca ricamente! O Sanches gosta muito de m\u00fasica; eu tamb\u00e9m&#8230;<br \/>\nMas, como V. Exa. compreende, aqui na aldeia, com a falta de recursos&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, arremessando o f\u00f3sforo, exclamara logo, num sincero<br \/>\ninteresse:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, queria que V. Exa. ouvisse um amigo meu, que \u00e9 verdadeiramente<br \/>\nsublime no viol\u00e3o, o Videirinha!&#8230;<\/p>\n<p>Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo, singelamente:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um rapaz muito meu amigo, de Vila-Clara&#8230; O Jos\u00e9 Videira,<br \/>\najudante da Farm\u00e1cia&#8230;<\/p>\n<p>Os \u00f3culos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:<\/p>\n<p>&#8211; Ajudante da Farm\u00e1cia e amigo do Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, desde estudante, dos exames do Liceu. At\u00e9 o Videirinha passava<br \/>\nas f\u00e9rias na Torre, com a m\u00e3e, antiga costureira da casa. T\u00e3o<br \/>\nbom rapaz, t\u00e3o simples&#8230; E na realidade, no viol\u00e3o, um g\u00eanio!<\/p>\n<p>&#8211; Agora tem ele uma cantiga admir\u00e1vel que chamou o Fado dos Ramires.<br \/>\nA m\u00fasica \u00e9 com efeito um fado de Coimbra, um fado conhecido.<br \/>\nMas os versos s\u00e3o dele, umas quadras engra\u00e7adas sobre coisas<br \/>\nda minha Casa, lendas, patranhas&#8230; Pois ficou sublime! Ainda h\u00e1 dias<br \/>\nna Torre, comigo e com o Tit\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro reparo:<\/p>\n<p>&#8211; O Tit\u00f3?<\/p>\n<p>O Fidalgo ria:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma velha alcunha de amizade que n\u00f3s damos ao Ant\u00f4nio<br \/>\nVilalobos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Sanches Lucena atirou ambos os bra\u00e7os, como se algu\u00e9m<br \/>\nmuito querido aparecesse na estrada:<\/p>\n<p>&#8211; O Ant\u00f4nio Vilalobos! Mas esse \u00e9 um dos nossos fi\u00e9is<br \/>\ne bons amigos! Cavalheiro estimabil\u00edssimo! Quase todas as semanas nos<br \/>\nfaz o favor de aparecer pela Feitosa&#8230;<\/p>\n<p>E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o Tit\u00f3<br \/>\naludira, quando no Gago, na Torre, na Assembl\u00e9ia, se berrava, politicando,<br \/>\no nome do Sanches Lucena!<\/p>\n<p>&#8211; Ah, V. Exa. conhece&#8230;<\/p>\n<p>Mas D. Ana, que se erguera bruscamente do banco, e, debru\u00e7ada, recolhia<br \/>\na luva e a sombrinha &#8211; lembrou ao marido o esfriar lento da tarde, a neblina<br \/>\nsubindo sempre \u00e0quela hora do vale aquecido:<\/p>\n<p>&#8211; Sabes que nunca te faz bem&#8230; E tamb\u00e9m n\u00e3o faz bem \u00e0<br \/>\nparelha, assim parada, h\u00e1 tanto tempo.<\/p>\n<p>Imediatamente Sanches Lucena, receoso, puxara da algibeira um espesso len\u00e7o<br \/>\nde seda branca para abafar o pesco\u00e7o. E, receoso tamb\u00e9m pela<br \/>\nparelha, logo se arrancou pesadamente do banco de pedra, com um aceno cansado<br \/>\nao trintan\u00e1rio para apanhar o xale, avisar o cocheiro. Mas ainda atravessou,<br \/>\nvergado e arrimado \u00e0 bengala, para o parapeito que resguarda a estrada<br \/>\nsobre o despenhado pendor do monte, dominando o vale. E confessava a Gon\u00e7alo<br \/>\nque aquele era, nos arredores da Feitosa, o seu passeio preferido. N\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 pela beleza do s\u00edtio, j\u00e1 cantado pelo &#8220;nosso<br \/>\nmavioso Cunha Torres&#8221;; mas porque do terra\u00e7o da Bica, sem esfor\u00e7o,<br \/>\nsentado no banco, avistava numa largueza terras suas:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe V. Exa&#8230;. Para al\u00e9m daquele souto, at\u00e9 a ch\u00e3<br \/>\ne ao c\u00f4moro onde est\u00e1 a casota amarela e por tr\u00e1s o pinhal,<br \/>\ntudo \u00e9 meu&#8230; O pinhal ainda \u00e9 meu&#8230; Acol\u00e1, do renque<br \/>\nde \u00e1lamos para diante, depois do lameiro, \u00e9 tamb\u00e9m meu&#8230;<br \/>\nAli, do lado da ermida, pertence ao Monte-Agra&#8230; Mas, mais para l\u00e1,<br \/>\npassado o azinhal, pelo monte acima, \u00e9 tudo meu!<\/p>\n<p>O l\u00edvido dedo, o bra\u00e7o escanifrado na manga de casimira preta,<br \/>\ncresciam por sobre o vale. &#8211; Al\u00e9m os pastos&#8230; Adiante os centeios&#8230;<br \/>\nDepois o bravio&#8230; &#8211; Tudo dele! E, por tr\u00e1s da magra figura alquebrada,<br \/>\nde chap\u00e9u enterrado na nuca, o abafo de seda subido at\u00e9 \u00e0s<br \/>\np\u00e1lidas orelhas quase despegadas, D. Ana, esbelta, clara e s\u00e3<br \/>\ncomo um m\u00e1rmore, com um sorriso esquecido nos l\u00e1bios gulosos,<br \/>\no formoso peito mais cheio, acompanhava a enumera\u00e7\u00e3o copiosa,<br \/>\nafincava a luneta sobre os pastos, e os pinhais, e os centeios, sentindo j\u00e1<br \/>\n&#8211; tudo dela!<\/p>\n<p>&#8211; E agora acol\u00e1, detr\u00e1s do olival &#8211; concluiu Sanches Lucena<br \/>\ncom respeito &#8211; \u00e9 s\u00edtio seu, Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu?<\/p>\n<p>&#8211; De V. Exa., quero dizer, ligado \u00e0 Casa de V Exa.. Pois n\u00e3o<br \/>\nreconhece?&#8230; Al\u00e9m, por tr\u00e1s do moinho, passa a estrada de Santa<br \/>\nMaria de Craquede. S\u00e3o os t\u00famulos dos seus antepassados&#8230; Passeio<br \/>\nque eu tamb\u00e9m \u00e0s vezes fa\u00e7o, e com gosto. Ainda h\u00e1<br \/>\num m\u00eas visitamos detidamente as ru\u00ednas. E acredite que fiquei<br \/>\nimpressionado! Aquele bocado de claustro t\u00e3o antigo, os grandes esquifes<br \/>\nde pedra, a espada chumbada \u00e0 ab\u00f3bada por cima do t\u00famulo<br \/>\ndo meio&#8230; \u00c9 de comover! E achei muito bonito, muito filial, da parte<br \/>\nde V. Exa., o ter sempre aquela l\u00e2mpada de bronze acesa de noite e de<br \/>\ndia&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo engrolou um murm\u00fario risonho &#8211; porque n\u00e3o se<br \/>\nrecordava da espada, nunca recomendara a l\u00e2mpada. Mas Sanches Lucena,<br \/>\nagora, suplicava um precioso favor ao Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires. E<br \/>\nera que V. Exa. lhe concedesse a honra de o conduzir na carruagem \u00e0<br \/>\nTorre&#8230; Alvoro\u00e7adamente Gon\u00e7alo recusou. Nem podia! combinara<br \/>\ncom o homem da perna dorida esperar ali, na Bica, pela sua \u00e9gua.<\/p>\n<p>&#8211; Mas fica aqui o meu trintan\u00e1rio, que leva a \u00e9gua de V. Exa.<br \/>\n\u00e0 Torre.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, se V. Exa. me permite, eu espero&#8230; Depois meto<br \/>\npelo atalho da Crassa, porque tenho \u00e0s oito horas na Torre, \u00e0<br \/>\nminha espera para jantar, o Tit\u00f3.<\/p>\n<p>D. Ana, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com a amea\u00e7a<br \/>\nrenovada da friagem, do relento&#8230; Mas, junto da caleche, Sanches Lucena ainda<br \/>\nemperrou para afirmar a Gon\u00e7alo, com a descarnada m\u00e3o sobre<br \/>\no encovado peito, que aquela tarde lhe ficava c\u00e9lebre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Porque vi uma coisa que poucas vezes se ter\u00e1 visto: o maior Fidalgo<br \/>\nde Portugal, a p\u00e9 pela estrada de Corinde, levando \u00e0 r\u00e9dea<br \/>\nno seu pr\u00f3prio cavalo um cavador de enxada!<\/p>\n<p>Ajudado por Gon\u00e7alo, trepou enfim pesadamente ao estribo. D. Ana j\u00e1<br \/>\nse enterrara nas almofadas, al\u00e7ando entre as m\u00e3os, como uma<br \/>\nins\u00edgnia, o cabo rebrilhante da luneta de ouro. O trintan\u00e1rio<br \/>\ntamb\u00e9m se entesou, cruzou os bra\u00e7os: e a caleche aparatosa,<br \/>\ncom as manchas brancas das redes dos cavalos, mergulhou no sil\u00eancio<br \/>\ne na penumbra da estrada, sob a espalhada ramaria das faias.<\/p>\n<p>&#8211; Que ma\u00e7ada! &#8211; exclamou Gon\u00e7alo. E n\u00e3o se consolava<br \/>\nde tarde t\u00e3o linda assim desperdi\u00e7ada&#8230; Intoler\u00e1vel,<br \/>\nesse Sanches Lucena, com o Sr. D. Fulano e o Sr. D. Sicrano, e a sua gula<br \/>\nde &#8220;roda fina&#8221;, e &#8220;tudo dele&#8221; por colina e vale! A mulher,<br \/>\nespl\u00eandida pe\u00e7a de carne, como filha de carniceiro &#8211; mas sem<br \/>\nmigalha de gra\u00e7a ou alma. E que voz, Jesus, que voz! Gente pedante<br \/>\ne sabuja&#8230; E agora s\u00f3 desejava recuperar a sua \u00e9gua, galopar<br \/>\npara a Torre, e desabafar com o Tit\u00f3, familiar da Feitosa!, o seu asco<br \/>\npor toda aquela Sancharia.<\/p>\n<p>A \u00e9gua n\u00e3o tardou, a trote largo, montada pelo filho do Solha,<br \/>\nque, ao avistar o Fidalgo, saltou \u00e0 estrada, de chap\u00e9u na m\u00e3o,<br \/>\nencouchado e encarnado, balbuciando que o pai chegara bem, pedia a Nosso Senhor<br \/>\nlhe pagasse a caridade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem! Recados a teu pai. Que estimo as melhoras. L\u00e1 mandarei<br \/>\nsaber.<\/p>\n<p>Num pulo montara &#8211; galopava pelo f\u00e1cil atalho da Crassa. Mas, diante<br \/>\ndo port\u00e3o da Torre, encontrou um mo\u00e7o do Gago, com um bilhete<br \/>\ndo Tit\u00f3, anunciando que n\u00e3o podia jantar na Torre porque partia<br \/>\nnessa semana para Oliveira!<\/p>\n<p>&#8211; Que disparate! Para Oliveira tamb\u00e9m eu parto; mas janto hoje! At\u00e9<br \/>\ncombin\u00e1vamos, o levava na carruagem&#8230; Ele que ficou a fazer, o Sr.<br \/>\nD. Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p>O rapaz co\u00e7ou pensativamente a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. D. Ant\u00f4nio passou l\u00e1 por casa para eu trazer o bilhete<br \/>\nao Fidalgo&#8230; Depois, creio que tem festa, porque entrou defronte no tio Cosme<br \/>\nfogueteiro, a comprar bichas de rabear&#8230;<\/p>\n<p>Aquelas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma imensa<br \/>\ninveja:<\/p>\n<p>&#8211; E onde \u00e9 a festa, sabes?<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o sei, meu Fidalgo&#8230; Mas parece que \u00e9 coisa rija, porque<br \/>\no Sr. Jo\u00e3o Gouveia encomendou l\u00e1 ao patr\u00e3o dois grandes<br \/>\npratos de bolos de bacalhau.<\/p>\n<p>Bolos de bacalhau! Gon\u00e7alo sentiu como a amargura de uma trai\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! que animais!<\/p>\n<p>E de repente ideou uma vingan\u00e7a alegre:<\/p>\n<p>&#8211; Pois se vires hoje o Sr. D. Ant\u00f4nio ou o Sr. Jo\u00e3o Gouveia<br \/>\nn\u00e3o te esque\u00e7as de lhes dizer que sinto muito&#8230; Que eu tamb\u00e9m<br \/>\nc\u00e1 tinha \u00e0 noite na Torre uma festa. E havia senhoras. Vinha<br \/>\na Sra. D. Ana Lucena&#8230; N\u00e3o te esque\u00e7as, hem?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo galgou as escadas rindo da sua inven\u00e7\u00e3o. Mas,<br \/>\nnessa noite, \u00e0s nove horas, depois do arrastado e atochado jantar com<br \/>\no Manuel Duarte, entrou na sala grande dos retratos, apenas alumiada pelo<br \/>\nlampi\u00e3o dourado do corredor, para buscar uma caixa de charutos. E casualmente,<br \/>\natrav\u00e9s da janela aberta, reparou num homem que, embaixo, rente da<br \/>\nsombra dos \u00e1lamos, rondava, espreitava&#8230; Mais atento, imaginou reconhecer<br \/>\nos poderosos ombros, o andar bovino do Tit\u00f3. Mas n\u00e3o, com certeza!<br \/>\no homem trazia jaqueta e carapu\u00e7o de l\u00e3. Curioso, abafando os<br \/>\npassos, ainda se abeirou da varanda. O vulto por\u00e9m descera da estrada,<br \/>\nlogo sumido sob as \u00e1rvores duma quelha que contorna o Casal do Miranda,<br \/>\ne desemboca adiante, na Portela, junto das primeiras casas de Vila-Clara.<\/p>\n<h3><a name=\"4\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV<\/h3>\n<p>O palacete dos Barrolos em Oliveira (conhecido desde o come\u00e7o do s\u00e9culo<br \/>\npela Casa dos Cunhais) erguia a sua fidalga fachada de doze varandas no largo<br \/>\nde El-Rei, entre uma solit\u00e1ria viela que conduz ao Quartel e \u00e0<br \/>\nrua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, ladeirenta, oprimida pelo comprido<br \/>\nterra\u00e7o do jardim, e pelo muro fronteiro da antiga cerca das M\u00f4nicas.<br \/>\nE nessa manh\u00e3, justamente quando Gon\u00e7alo, na caleche da Torre<br \/>\npuxada pela parelha do Torto, desembocava no largo de El-Rei, subia pela Tecedeiras,<br \/>\ndobrando a esquina dos Cunhais, num cavalo negro de fartas clinas, que feria<br \/>\nas lajes com soberba e garbo, o Governador Civil, o Andr\u00e9 Cavaleiro,<br \/>\nde colete branco e chap\u00e9u de palha. Num relance, do fundo da caleche,<br \/>\no Fidalgo ainda o surpreendeu levantando os pestanudos olhos negros para as<br \/>\nvarandas de ferro do palacete. E pulou, com um murro no joelho, rugindo surdamente<br \/>\n&#8211; &#8220;que biltre!&#8221; Ao apear no port\u00e3o (um port\u00e3o baixo,<br \/>\ncomo esmagado pelo imenso escudo de armas dos S\u00e1s) t\u00e3o sufocada<br \/>\nindigna\u00e7\u00e3o o impelia que n\u00e3o reparou nas efus\u00f5es<br \/>\ndo porteiro, o velho Joaquim da Porta, e esqueceu dentro da caleche os presentes<br \/>\npara Gracinha, a caixa com o guarda-solinho e um cesto de flores da Torre<br \/>\ncoberto de papel de seda. Depois em cima, na sala de espera, onde Jos\u00e9<br \/>\nBarrolo correra, ao sentir nas lajes do largo silencioso o estr\u00e9pito<br \/>\ndo calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente, atirando o guarda-p\u00f3<br \/>\npara uma cadeira de couro:<\/p>\n<p>&#8211; Oh senhores! Que eu n\u00e3o possa vir \u00e0 cidade sem encontrar<br \/>\nde cara este animal do Cavaleiro! E sempre no largo, defronte da casa! E sorte!&#8230;<br \/>\nEsse bigodeira n\u00e3o achar\u00e1 outro lugar para onde v\u00e1 caracolar<br \/>\ncom a pileca?<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Barrolo, um mo\u00e7o gordo, de cabelo ruivo e crespo, com<br \/>\num bu\u00e7o claro numa face mais redonda e corada que uma bela ma\u00e7\u00e3,<br \/>\nacudiu, ingenuamente:<\/p>\n<p>&#8211; Pileca?!.. Oh, menino, tem agora um cavalo lindo! Um cavalo lindo, que<br \/>\ncomprou ao Marges!<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem! \u00c9 um burro feio em cima dum cavalo bonito. Que fiquem<br \/>\nambos na cavalari\u00e7a. Ou que v\u00e3o ambos pastar para as Devesas!<\/p>\n<p>O Barrolo escancarou a boca larga e fresca, de soberbos dentes, num lento<br \/>\npasmo. E de repente, com uma patada no soalho, vergado pela cinta, rompeu<br \/>\nnuma risada que o sufocava, lhe inchava as veias:<\/p>\n<p>&#8211; Essa \u00e9 de arromba! N\u00e3o, essa \u00e9 para contar no Club&#8230;<br \/>\nUm burro feio em cima dum cavalo bonito! E ambos a pastarem!&#8230; Tu vens hoje<br \/>\nrico, menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os focinhos na erva, o<br \/>\nGovernador Civil e o cavalo&#8230; E de arromba!<\/p>\n<p>Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E Gon\u00e7alo,<br \/>\nado\u00e7ado por aquela ova\u00e7\u00e3o que celebrava a sua fac\u00e9cia:<\/p>\n<p>&#8211; Bem. D\u00e1 c\u00e1 esses ossos, ou antes esses untos. E como vai<br \/>\na fam\u00edlia? A Gracinha?&#8230; Oh! viva a linda flor!<\/p>\n<p>Era ela, com a sua ligeireza airosa e menineira, os magn\u00edficos cabelos<br \/>\nsoltos sobre um penteador de rendas, correndo alvoro\u00e7ada para o irm\u00e3o,<br \/>\nque a envolveu num abra\u00e7o e em dois beijos sonoros. E imediatamente,<br \/>\nrecuando, a declarou mais bonita, mais gorda:<\/p>\n<p>&#8211; Positivamente est\u00e1s mais gorda, at\u00e9 mais alta&#8230; \u00c9<br \/>\nsobrinho?&#8230; N\u00e3o? nada, por ora?<\/p>\n<p>Gracinha corou, com aquele seu l\u00e2nguido sorriso que mais lhe umedecia<br \/>\ne lhe enternecia a do\u00e7ura dos olhos esverdeados.<\/p>\n<p>&#8211; Se ela n\u00e3o quer, ela n\u00e3o quer! &#8211; gritava o Jos\u00e9 Barrolo,<br \/>\ngingando, com as m\u00e3os enterradas nos bolsos do jaquet\u00e3o que<br \/>\nlhe desenhava as ancas roli\u00e7as. &#8211; A culpa n\u00e3o \u00e9 c\u00e1<br \/>\ndo patr\u00e3o&#8230; Mas ela n\u00e3o se decide!<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre repreendeu a irm\u00e3:<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 necess\u00e1rio um menino. Eu por mim n\u00e3o caso,<br \/>\nn\u00e3o tenho jeito; e l\u00e1 se v\u00e3o desta feita Barrolos e Ramires!<br \/>\nA extin\u00e7\u00e3o dos Barrolos \u00e9 uma limpeza. Mas, acabados<br \/>\nos Ramires, acaba Portugal. Portanto, Sra. D. Gra\u00e7a Ramires, depressa,<br \/>\nem nome da na\u00e7\u00e3o, um morgado! Um morgado muito gordo, que eu<br \/>\npretendo que se chame Tructesindo!<\/p>\n<p>Barrolo protestou, aterrado:<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? Turtesinho? N\u00e3o! para tal sorte n\u00e3o o fabrico<br \/>\neu!<\/p>\n<p>Mas Gracinha deteve aqueles gracejos picantes, desejosa de saber da Torre,<br \/>\ne do Bento, e da Rosa cozinheira, e da horta, e dos pav\u00f5es&#8230; Conversando,<br \/>\npenetraram na outra sala, guarnecida de contadores da \u00edndia, de pesados<br \/>\ncadeir\u00f5es dourados de damasco azul, com tr\u00eas varandas sobre o<br \/>\nlargo de El-Rei. Barrolo enrolou um cigarro, reclamou a hist\u00f3ria do<br \/>\nRelho, da grande desordem. Tamb\u00e9m ele arranjara uma pega com o rendeiro<br \/>\nda Ribeirinha, por causa dum corte de pinhal. Essa do Relho, por\u00e9m,<br \/>\nfora tremenda&#8230;<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo, enterrado ao canto do fundo canap\u00e9 azul, desabotoando<br \/>\npregui\u00e7osamente o jaquet\u00e3o de chaviote claro:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! foi muito simples. J\u00e1 h\u00e1 meses esse Relho andava<br \/>\nb\u00eabado, sem despegar&#8230; Uma noite berrou, amea\u00e7ou a Rosa, agarrou<br \/>\nnuma espingarda. Eu desci, e num instante a Torre ficou desembara\u00e7ada<br \/>\nde Relhos e de barulhos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas veio o Regedor, com cabos! &#8211; acudiu o Barrolo.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo sacudiu os ombros, impaciente:<\/p>\n<p>&#8211; Veio o Regedor? Veio depois, para legalizar! J\u00e1 o homem abalara,<br \/>\ncorrido. E como resultado arrendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da Riosa&#8230;<\/p>\n<p>Contou esse neg\u00f3cio excelente, tratado na varanda, ao almo\u00e7o,<br \/>\nentre dois copos de vinho verde. Barrolo admirou a renda &#8211; gabou o rendeiro.<br \/>\nAssim Gon\u00e7alo descortinasse outro Pereira para a quinta de Treixedo,<br \/>\nterra t\u00e3o generosa, t\u00e3o mal amanhada!<\/p>\n<p>\u00c0 borda do canap\u00e9, coberta pelos belos cabelos que lavara nessa<br \/>\nmanh\u00e3 e que cheiravam a alecrim, Gracinha contemplava o irm\u00e3o<br \/>\ncom ternura:<\/p>\n<p>&#8211; E do est\u00f4mago, andas melhor? Continuam as ceias com o Tit\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! esse animal! &#8211; exclamou Gon\u00e7alo. &#8211; H\u00e1 dias prometeu jantar<br \/>\nna Torre, at\u00e9 a Rosa assou um cabrito no espeto, magn\u00edfico&#8230;<br \/>\nDepois falhou: creio que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Ele<br \/>\nvem esta semana a Oliveira&#8230; E \u00e9 verdade! voc\u00eas sabiam da intimidade<br \/>\ndo Tit\u00f3 com o Sanches Lucena?<\/p>\n<p>Historiou ent\u00e3o, com exagero alegre, o encontro da Bica-Santa, o horror<br \/>\nque lhe causara a bela D. Ana, a descoberta inesperada dessa familiaridade<br \/>\ndo Tit\u00f3 na Feitosa.<\/p>\n<p>Barrolo recordou que uma tarde, antes do S. Jo\u00e3o, avistara o Tit\u00f3,<br \/>\ndiante do port\u00e3o da Feitosa, a passear pela trela um c\u00e3ozinho<br \/>\nbranco de rega\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que eu n\u00e3o compreendo, menino, \u00e9 esse teu &#8220;horror&#8221;<br \/>\npela D.Ana&#8230; Caramba! Mulher soberba! Um quebrado de quadris, uns olh\u00f5es,<br \/>\num peitoril&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cale essa boca impura, devasso! &#8211; gritou Gon\u00e7alo. &#8211; Pois aqui ao<br \/>\nlado da sua mulher, que \u00e9 a flor das Gra\u00e7as, ousa louvar semelhante<br \/>\npe\u00e7a de carne!<\/p>\n<p>Gracinha rindo, sem ci\u00fames, compreendia &#8220;a admira\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Jos\u00e9&#8221;. Realmente, a Ana Lucena, que vistosa, que bela!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim &#8211; concedeu Gon\u00e7alo -, bela como uma bela \u00e9gua&#8230; Mas<br \/>\naquela voz gorda, papuda&#8230; E a luneta, os modos&#8230; E &#8220;o cavalheiro pode<br \/>\nfumar, o cavalheiro est\u00e1 enganado&#8230;&#8221; Oh! senhores, pavorosa!<\/p>\n<p>Barrolo gingava, diante do sof\u00e1, com as m\u00e3os nos bolsos da<br \/>\nrabona:<\/p>\n<p>&#8211; Uvas verdes, Sr. D. Gon\u00e7alo, uvas verdes!<\/p>\n<p>O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:<\/p>\n<p>&#8211; Nem que ela se me oferecesse, de joelhos, em camisa, com os duzentos contos<br \/>\ndo Sanches numa salva de ouro!<\/p>\n<p>Sorrindo, vermelha como uma pe\u00f4nia, com um &#8220;oh&#8221; escandalizado,<br \/>\nGracinha bateu no ombro de Gon\u00e7alo &#8211; que puxou por ela, galhofeiramente:<\/p>\n<p>&#8211; Venha l\u00e1 essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! Com efeito,<br \/>\ns\u00f3 pensar na D. Ana arrasta a gente \u00e0s imagens brutais&#8230; Dizias<br \/>\nent\u00e3o do est\u00f4mago&#8230; Sim, filha, combalido. E h\u00e1 dias<br \/>\nmais pesado, desde o tal cabrito no espeto e da companhia beberrona do Manuel<br \/>\nDuarte. Tu tens c\u00e1 \u00e1gua de Vidago?&#8230; Ent\u00e3o, Barrolinho,<br \/>\ns\u00ea ang\u00e9lico. Manda trazer j\u00e1 uma garrafinha bem fresca.<br \/>\nE olha! pergunta se subiram um a\u00e7afate e uma caixa de papel\u00e3o<br \/>\nque eu deixei na caleche? Que ponham no meu quarto. E n\u00e3o desembrulhes,<br \/>\nque \u00e9 surpresa&#8230; Escuta! Que me levem \u00e1gua bem quente. Preciso<br \/>\nmudar toda a roupa&#8230; Estava uma poeirada por esse caminho!<\/p>\n<p>E quando o Barrolo abalou, a rebolar e a assobiar, Gon\u00e7alo, esfregando<br \/>\nas m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8211; Pois voc\u00eas ambos est\u00e3o espl\u00eandidos! E na harmonia que<br \/>\nconv\u00e9m. Tu positivamente mais forte, mais cheia. At\u00e9 pensei<br \/>\nque fosse sobrinho. E o Barrolo mais delgado, mais leve&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, agora o Jos\u00e9 passeia, monta a cavalo, j\u00e1 n\u00e3o adormece<br \/>\ntanto depois de jantar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a outra fam\u00edlia? A tia Arminda, o rancho Mendon\u00e7a? Bem?&#8230;<br \/>\nPadre Soeiro, que \u00e9 feito desse santo?<\/p>\n<p>&#8211; Teve um ataquezito de reumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre no Pa\u00e7o<br \/>\ndo Bispo, na Biblioteca&#8230; Parece que se entret\u00e9m a fazer um livro<br \/>\nsobre os Bispos.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei, a Hist\u00f3ria da S\u00e9 de Oliveira&#8230; Pois eu tamb\u00e9m<br \/>\ntenho trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Um Romance pequeno, uma Novela, para os Anais de Literatura e de Hist\u00f3ria,<br \/>\numa Revista que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro&#8230; \u00c9 sobre<br \/>\num fato hist\u00f3rico da nossa gente&#8230; Sobre um av\u00f4 nosso, muito<br \/>\nantigo, Tructesindo.<\/p>\n<p>&#8211; Tem gra\u00e7a, que fez ele?<\/p>\n<p>&#8211; Horrores. Mas \u00e9 pitoresco&#8230; E depois o Pa\u00e7o de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\nno s\u00e9culo XII, em todo o seu esplendor! Enfim uma bela reconstru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo velho Portugal e sobretudo dos velhos Ramires. H\u00e1s de gostar&#8230;<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma<br \/>\ndas nossas antepassadas, uma D. Menda, que eu nem sei se realmente existiu.<br \/>\nTem seu chic, bem?&#8230; E tu compreendes, como eu desejo tentar a Pol\u00edtica,<br \/>\npreciso primeiramente aparecer, espalhar o meu nome&#8230;<\/p>\n<p>Gracinha sorria docemente para o irm\u00e3o, no costumado enlevo:<\/p>\n<p>&#8211; E agora tens alguma id\u00e9ia? A tia Arminda l\u00e1 continua sempre<br \/>\ncom a teima que devias entrar na Diplomacia. Ainda h\u00e1 dias&#8230; &#8220;Ai,<br \/>\no Gon\u00e7alinho, assim galante, e com aquele nome, s\u00f3 numa grande<br \/>\nembaixada!&#8221;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo despegara lentamente do vasto canap\u00e9, reabotoando o<br \/>\njaquet\u00e3o claro:<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito ando com uma id\u00e9ia, h\u00e1 dias&#8230; Talvez me viesse<br \/>\ndum romance ingl\u00eas, muito interessante, e que te recomendo, sobre as<br \/>\nantigas Minas de Ofir, King Solomon&#8217;s Mines&#8230; Ando com id\u00e9ias de ir<br \/>\npara a \u00c1frica.<\/p>\n<p>&#8211; Oh Gon\u00e7alo, credo! Para a \u00c1frica?<\/p>\n<p>O escudeiro entrara com duas garrafas de \u00e1gua de Vidago, ambas desarrolhadas,<br \/>\nnuma salva. Precipitadamente, para aproveitar o &#8220;piquezinho&#8221;, Gon\u00e7alo<br \/>\nencheu um copo enorme de cristal lavrado. Ah! que del\u00edcia de \u00e1gua!<br \/>\n&#8211; E como o Barrolo voltava, anunciando que cumprira as ordens de S. Exa.:<\/p>\n<p>&#8211; Bem! ent\u00e3o logo conversamos ao almo\u00e7o, Gracinha! Agora lavar,<br \/>\nmudar de roupa, que n\u00e3o paro com estas infames comich\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Barrolo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais espa\u00e7osos e alegres<br \/>\ndo Palacete, forrado de cretones cor de can\u00e1rio com uma varanda para<br \/>\no jardim, e duas janelas de peitoril sobre a rua das Tecedeiras e os velhos<br \/>\narvoredos do convento das M\u00f4nicas. Gon\u00e7alo impaciente despiu<br \/>\nlogo o casaco, sacudiu para longe o colete:<\/p>\n<p>&#8211; Pois tu est\u00e1s espl\u00eandido, Barrolo! Deves ter perdido tr\u00eas<br \/>\nou quatro quilos. S\u00e3o naturalmente os quilos que Gracinha ganhou&#8230;<br \/>\nVoc\u00eas, se assim se equilibram, ficam perfeitos.<\/p>\n<p>Diante do espelho Barrolo acariciava a cinta, com um risinho deleado:<\/p>\n<p>&#8211; Realmente, parece que adelgacei&#8230; At\u00e9 sinto nas cal\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo abrira o gavet\u00e3o da rica c\u00f4moda de ferragens<br \/>\ndouradas, onde conservava sempre roupa (at\u00e9 duas casacas), para evitar<br \/>\no transporte de malas entre os Cunhais e a Torre. E ria, aconselhava o bom<br \/>\nBarrolo a &#8220;adelga\u00e7ar&#8221; sem descanso, para beleza da futura<br \/>\nra\u00e7a Barr\u00f3lica &#8211; quando embaixo, na silenciosa rua das Tecedeiras,<br \/>\nas patas de um cavalo de luxo feriram as lajes em cad\u00eancia lenta.<\/p>\n<p>Logo desconfiado, Gon\u00e7alo correu \u00e0 janela, ainda com a camisa<br \/>\nque desdobrava. E era ele! Era o Andr\u00e9 Cavaleiro, que descia ladeando,<br \/>\nsopeando a r\u00e9dea, para escarvar com garbo e fragor a rampa mal empedrada.<br \/>\nGon\u00e7alo virou para o Barrolo a face chamejante de furor:<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o! Se este descarado deste Cavaleiro<br \/>\npassa outra vez na maldita pileca, por debaixo das janelas, apanha comum balde<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua suja!&#8230;<\/p>\n<p>Barrolo, inquieto, espreitou:<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente vai para casa das Lousadas&#8230; Anda agora muito \u00edntimo<br \/>\ndas Lousadas&#8230; Sempre por aqui o vejo&#8230; E \u00e9 para as Lousadas.<\/p>\n<p>&#8211; Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, n\u00e3o h\u00e1 outro<br \/>\ncaminho para casa das Lousadas? Duas vezes em meia hora! Grande insolente!<br \/>\nTem uma chapada d&#8217;\u00e1gua de sab\u00e3o, pela grenha e pela bigodeira,<br \/>\nt\u00e3o certo como eu ser Ramires, filho de meu pai Ramires!<\/p>\n<p>Barrolo beliscava a pele do pesco\u00e7o, constrangido ante aqueles rancores<br \/>\nruidosos que desmanchavam o seu sossego. J\u00e1, por imposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Gon\u00e7alo, rompera desconsoladamente com o Cavaleiro. E agora antevia<br \/>\nsempre uma bulha, um esc\u00e2ndalo que o indisporia com os amigos do Cavaleiro,<br \/>\nlhe vedaria o Club e as do\u00e7uras da Arcada, lhe tornaria Oliveira mais<br \/>\nenfadonha que a sua quinta da Ribeirinha ou da Murtosa, solid\u00f5es detestadas.<br \/>\nN\u00e3o se conteve, arriscou o costumado reparo:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Gon\u00e7alinho, olha que tamb\u00e9m todo esse espalhafato<br \/>\ns\u00f3 por causa da Pol\u00edtica&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo quase quebrou o jarro, na f\u00faria com que o pousou sobre<br \/>\no m\u00e1rmore do lavat\u00f3rio:<\/p>\n<p>&#8211; Pol\u00edtica! A\u00ed vens tu com a Pol\u00edtica! Por Pol\u00edtica<br \/>\nn\u00e3o se atira \u00e1gua suja aos Governadores Civis. Que ele n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 Pol\u00edtico, \u00e9 s\u00f3 malandro! Al\u00e9m disso&#8230;<\/p>\n<p>Mas terminou por encolher os ombros, emudecer, diante do pobre bacoco de<br \/>\nbochechas pasmadas, que, naquelas rondas do Cavaleiro pelos Cunhais, s\u00f3<br \/>\nnotava o &#8220;lindo cavalo&#8221; ou &#8220;o caminho mais curto para as Lousadas!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Bem! &#8211; resumiu. &#8211; Agora larga, que me quero vestir&#8230; Do bigodeira me encarrego<br \/>\neu.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, at\u00e9 logo&#8230; Mas se ele passar nada de asneiras, bem?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 justi\u00e7a, aos baldes!<\/p>\n<p>E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrolo, que, pelo corredor,<br \/>\nsuspirando, lamentava o assomado g\u00eanio do Gon\u00e7alinho, as c\u00f3leras<br \/>\ndesproporcionadas em que o lan\u00e7ava &#8220;a Pol\u00edtica&#8221;.<\/p>\n<p>Enquanto se ensaboava com veem\u00eancia, depois se vestia numa pressa irada,<br \/>\nGon\u00e7alo ruminou aquele intoler\u00e1vel esc\u00e2ndalo. Fatalmente,<br \/>\napenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande guedelha, caracolando<br \/>\npor sob as janelas do palacete, na pileca de grandes clinas! E o que o desolava<br \/>\nera perceber no cora\u00e7\u00e3o de Gracinha, pobre cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nmeigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo Cavaleiro, bem enterrada,<br \/>\nainda vivaz, f\u00e1cil de reflorir&#8230; E nenhum outro sentimento forte que<br \/>\na defendesse, naquela ociosidade de Oliveira nem superioridade do marido,<br \/>\nnem encanto dum filho no seu ber\u00e7o. S\u00f3 a amparava o orgulho,<br \/>\ncerto respeito religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira<br \/>\ne mexeriqueira. A sua salva\u00e7\u00e3o seria o abandono da cidade, o<br \/>\nencerrado retiro numa das quintas do Barrolo, a Ribeirinha, sobretudo a Murtosa,<br \/>\ncom a linda mata, os musgosos muros de convento, a aldeia em redor para ela<br \/>\nse ocupar como castel\u00e3 ben\u00e9fica. Mas qu\u00ea! Nunca o Barrolo<br \/>\nconsentiria em perder o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da tabacaria<br \/>\n&#8220;Elegante&#8221;, e as chala\u00e7as do major Ribas!<\/p>\n<p>Afogueado pelo calor, pela emo\u00e7\u00e3o, Gon\u00e7alo abriu a varanda.<br \/>\nEmbaixo, no curto terra\u00e7o ladrilhado, orlado de vasos de lou\u00e7a,<br \/>\nprecedendo o jardim, Gracinha, ainda soltos os cabelos por cima do penteador,<br \/>\nconversava com outra senhora, muito alta, muito magra, de chap\u00e9u marujo<br \/>\nenfeitado de papoulas, que segurava entre os bra\u00e7os um repolhudo molho<br \/>\nde rosas.<\/p>\n<p>Era a &#8220;prima&#8221; Maria Mendon\u00e7a, mulher de Jos\u00e9 Mendon\u00e7a,<br \/>\ncondisc\u00edpulo do Barrolo em Amarante, agora capit\u00e3o do Regimento<br \/>\nde Cavalaria estacionado em Oliveira. Filha dum certo D. Ant\u00f4nio, senhor<br \/>\n(hoje Visconde) dos Pa\u00e7os de Severim, devorada pela preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde parentescos fidalgos, de origens fidalgas, ligava sempre sorrateiramente<br \/>\no vago solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal &#8211; sobretudo, mais<br \/>\ngulosamente, \u00e0 grande Casa de Ramires; e, desde que o regimento se<br \/>\naquartelara em Oliveira, tratara logo Gracinha por &#8220;tu&#8221; e Gon\u00e7alo<br \/>\npor &#8220;primo&#8221;, com a intimidade especial, que conv\u00e9m a sangues<br \/>\nsuperiores. Todavia mantinha amizades muito seguidas e ativas com brasileiras<br \/>\nricas de Oliveira &#8211; at\u00e9 com a vi\u00fava Pinho, dona da loja de panos,<br \/>\nque (segundo se murmurava) lhe fornecia os dois filhos ainda pequenos de cal\u00e7\u00f5es<br \/>\ne de jalecas. Tamb\u00e9m convivia intimamente, j\u00e1 na cidade, j\u00e1<br \/>\nna Feitosa, com D. Ana Lucena. Gon\u00e7alo gostava da sua gra\u00e7a,<br \/>\nda sua agudeza, da vivacidade maliciosa que a agitava numa linda crepita\u00e7\u00e3o<br \/>\nde galho, ardendo com alegria. E quando, ao rumor da janela perra, ela levantou<br \/>\nos olhos luzidios e espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:<\/p>\n<p>&#8211; Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E para mim, primo Gon\u00e7alo, que o n\u00e3o via desde a sua volta<br \/>\nde Lisboa!&#8230; Pois est\u00e1 mais lindo, assim de bigode&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que estou lind\u00edssimo, absolutamente irresist\u00edvel! At\u00e9<br \/>\naconselho \u00e0 prima Maria que se n\u00e3o aproxime muito de mim, para<br \/>\nse n\u00e3o incendiar.<\/p>\n<p>Ela deixou pender desoladamente nos bra\u00e7os o seu pesado molho de rosas:<\/p>\n<p>&#8211; Ai Jesus, ent\u00e3o estou perdida, que ainda agora prometi \u00e0<br \/>\nprima Gra\u00e7a jantar c\u00e1 esta tarde!&#8230; Oh Gracinha, por quem \u00e9s,<br \/>\np\u00f5e um biombo entre os dois!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo gritou, pendurado da varanda, j\u00e1 deliciado com os chistes<br \/>\nda prima Maria:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! enfio eu um abat-jour pela cabe\u00e7a para atenuar o meu<br \/>\nbrilho!&#8230; E o maridinho, os pequenos? Como vai o nobre rancho?<\/p>\n<p>&#8211; Vivendo, com algum p\u00e3o e muita gra\u00e7a de Deus&#8230; Ent\u00e3o<br \/>\nat\u00e9 logo, primo Gon\u00e7alo! E seja misericordioso!<\/p>\n<p>E ainda ele ria, encantado &#8211; j\u00e1 a prima Maria, depois de cochichar<br \/>\ne de estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desaparecera pela<br \/>\nporta envidra\u00e7ada da sala com a sua eleg\u00e2ncia esgalgada. Gracinha,<br \/>\nlentamente, subiu os tr\u00eas degraus de m\u00e1rmore do jardim. Da varanda,<br \/>\nGon\u00e7alo ainda avistou atrav\u00e9s da ramaria leve, entre as sebes<br \/>\nde buxo, o penteador branco, os fartos cabelos ca\u00eddos, reluzindo no<br \/>\nsol como uma cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas,<br \/>\ndesapareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo n\u00e3o se arredou de entre as janelas, limando vagamente<br \/>\nas unhas, espreitando pelas cortinas, numa desconfian\u00e7a, quase num<br \/>\nterror que o Cavaleiro de novo surgisse na pileca &#8211; agora que Gracinha se<br \/>\nembrenhara para os lados desse c\u00f4modo Mirante, constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo s\u00e9culo XVIII, imitando um Templozinho do Amor, que rematava o longo<br \/>\nterra\u00e7o do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a cal\u00e7ada<br \/>\npermanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e<br \/>\ndo Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem &#8211; certo<br \/>\nque a irm\u00e3 n\u00e3o se mostraria ao Cavaleiro na varandinha do Mirante,<br \/>\nassim com os cabelos em desalinho, por cima dum penteador.<\/p>\n<p>E cerrava a porta, quando se encontrou diante dos bra\u00e7os do Padre<br \/>\nSoeiro, que o prenderam pela cinta com afago e respeito.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! meu ingrat\u00edssimo Padre Soeiro! &#8211; exclamava Gon\u00e7alo, batendo<br \/>\nternamente nas gordas costas do capel\u00e3o. &#8211; Ent\u00e3o que feia a\u00e7\u00e3o<br \/>\nfoi esta? Mais de um m\u00eas sem aparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre<br \/>\nSoeiro j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 Gon\u00e7alinho, h\u00e1 s\u00f3<br \/>\nGracinha&#8230;<\/p>\n<p>Enternecido, quase com uma l\u00e1grima a bailar nos mansos olhos mi\u00fados,<br \/>\nque mais negrejavam entre a frescura r\u00f3sea da face roli\u00e7a e<br \/>\na cabecinha branca como algod\u00e3o &#8211; Padre Soeiro sorria, fechando as<br \/>\nm\u00e3os sobre o peito da batina de alpaca, donde surgia a ponta de um<br \/>\nlen\u00e7o de quadrados vermelhos. E n\u00e3o lhe escasseara certamente<br \/>\no desejo de ir \u00e0 Torre. Mas aquele trabalhinho na Biblioteca do Pa\u00e7o<br \/>\ndo Bispo&#8230; Depois o seu reumatismozito&#8230; Enfim a Sra. D. Gra\u00e7a sempre<br \/>\nesperando S. Exa., um dia, outro dia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem! &#8211; acudiu alegremente Gon\u00e7alo, contanto que o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o se esquecesse da Torre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! esse! &#8211; murmurou Padre Soeiro com comovida gravidade.<\/p>\n<p>E pelo corredor de paredes azuis, adornadas com gravuras coloridas das batalhas<br \/>\nde Napole\u00e3o, Gon\u00e7alo resumiu as novidades da Torre:<\/p>\n<p>&#8211; Como o Padre Soeiro sabe, rebentou aquele esc\u00e2ndalo do Relho&#8230; E<br \/>\nainda bem, porque conclu\u00ed um neg\u00f3cio espl\u00eandido. Imagine!<br \/>\nArrendei h\u00e1 dias a quinta ao Pereira Brasileiro, ao Pereira da Riosa,<br \/>\npor um conto cento e cinq\u00fcenta mil r\u00e9is&#8230;<\/p>\n<p>O capel\u00e3o suspendeu a pitada, que colhera numa caixa de prata dourada,<br \/>\npasmado para o Fidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; Ora a\u00ed est\u00e1 como as coisas se inventam! Pois por c\u00e1<br \/>\nconstou que V Exa. tratara com o Jos\u00e9 Casco, o Jos\u00e9 Casco dos<br \/>\nBravais. At\u00e9 no domingo, ao almo\u00e7o, a Sra. D. Gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim &#8211; interrompeu o Fidalgo com uma fugidia cor na face fina.<\/p>\n<p>&#8211; Efetivamente o Casco veio \u00e0 Torre, conversamos. Primeiramente quis,<br \/>\ndepois n\u00e3o quis. Aquelas coisas do Casco! Enfim, uma ma\u00e7ada&#8230;<br \/>\nN\u00e3o ficou nada<\/p>\n<p>E ainda ele ria, encantado &#8211; j\u00e1 a prima Maria, depois de cochichar<br \/>\ne de estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desaparecera pela<br \/>\nporta envidra\u00e7ada da sala com a sua eleg\u00e2ncia esgalgada. Gracinha,<br \/>\nlentamente, subiu os tr\u00eas degraus de m\u00e1rmore do jardim. Da varanda,<br \/>\nGon\u00e7alo ainda avistou atrav\u00e9s da ramaria leve, entre as sebes<br \/>\nde buxo, o penteador branco, os fartos cabelos ca\u00eddos, reluzindo no<br \/>\nsol como uma cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas,<br \/>\ndesapareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo n\u00e3o se arredou de entre as janelas, limando vagamente<br \/>\nas unhas, espreitando pelas cortinas, numa desconfian\u00e7a, quase num<br \/>\nterror que o Cavaleiro de novo surgisse na pileca &#8211; agora que Gracinha se<br \/>\nembrenhara para os lados desse c\u00f4modo Mirante, constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo s\u00e9culo XVIII, imitando um Templozinho do Amor, que rematava o longo<br \/>\nterra\u00e7o do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a cal\u00e7ada<br \/>\npermanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e<br \/>\ndo Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem &#8211; certo<br \/>\nque a irm\u00e3 n\u00e3o se mostraria ao Cavaleiro na varandinha do Mirante,<br \/>\nassim com os cabelos em desalinho, por cima dum penteador.<\/p>\n<p>E cerrava a porta, quando se encontrou diante dos bra\u00e7os do Padre<br \/>\nSoeiro, que o prenderam pela cinta com afago e respeito.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! meu ingrat\u00edssimo Padre Soeiro! &#8211; exclamava Gon\u00e7alo, batendo<br \/>\nternamente nas gordas costas do capel\u00e3o. &#8211; Ent\u00e3o que feia a\u00e7\u00e3o<br \/>\nfoi esta? Mais de um m\u00eas sem aparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre<br \/>\nSoeiro j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 Gon\u00e7alinho, h\u00e1 s\u00f3<br \/>\nGracinha&#8230;<\/p>\n<p>Enternecido, quase com uma l\u00e1grima a bailar nos mansos olhos mi\u00fados,<br \/>\nque mais negrejavam entre a frescura r\u00f3sea da face roli\u00e7a e<br \/>\na cabecinha branca como algod\u00e3o &#8211; Padre Soeiro sorria, fechando as<br \/>\nm\u00e3os sobre o peito da batina de alpaca, donde surgia a ponta de um<br \/>\nlen\u00e7o de quadrados vermelhos. E n\u00e3o lhe escasseara certamente<br \/>\no desejo de ir \u00e0 Torre. Mas aquele trabalhinho na Biblioteca do Pa\u00e7o<br \/>\ndo Bispo&#8230; Depois o seu reumatismozito&#8230; Enfim a Sra. D. Gra\u00e7a sempre<br \/>\nesperando S. Exa., um dia, outro dia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem! &#8211; acudiu alegremente Gon\u00e7alo, contanto que o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o se esquecesse da Torre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! esse! &#8211; murmurou Padre Soeiro com comovida gravidade.<\/p>\n<p>E pelo corredor de paredes azuis, adornadas com gravuras coloridas das batalhas<br \/>\nde Napole\u00e3o, Gon\u00e7alo resumiu as novidades da Torre:<\/p>\n<p>&#8211; Como o Padre Soeiro sabe, rebentou aquele esc\u00e2ndalo do Relho&#8230; E<br \/>\nainda bem, porque conclu\u00ed um neg\u00f3cio espl\u00eandido. Imagine!<br \/>\nArrendei h\u00e1 dias a quinta ao Pereira Brasileiro, ao Pereira da Riosa,<br \/>\npor um conto cento e cinq\u00fcenta mil r\u00e9is&#8230;<\/p>\n<p>O capel\u00e3o suspendeu a pitada, que colhera numa caixa de prata dourada,<br \/>\npasmado para o Fidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; Ora a\u00ed est\u00e1 como as coisas se inventam! Pois por c\u00e1<br \/>\nconstou que V Exa. tratara com o Jos\u00e9 Casco, o Jos\u00e9 Casco dos<br \/>\nBravais. At\u00e9 no domingo, ao almo\u00e7o, a Sra. D. Gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim &#8211; interrompeu o Fidalgo com uma fugidia cor na face fina.<\/p>\n<p>&#8211; Efetivamente o Casco veio \u00e0 Torre, conversamos. Primeiramente quis,<br \/>\ndepois n\u00e3o quis. Aquelas coisas do Casco! Enfim, uma ma\u00e7ada&#8230;<br \/>\nN\u00e3o ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma bela manh\u00e3,<br \/>\nme apareceu com a proposta, eu, inteiramente desligado, aceitei, e com que<br \/>\nalvoro\u00e7o!&#8230; Imagine! Um aumento soberbo de renda, o Pereira como rendeiro&#8230;<br \/>\nO Padre Soeiro conhece bem o Pereira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Homem entendido &#8211; concordou o capel\u00e3o co\u00e7ando embara\u00e7adamente<br \/>\no queixo. &#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. E homem de bem&#8230; Depois n\u00e3o<br \/>\nhavendo palavra dada ao Cas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois o Pereira para a semana vem \u00e0 cidade &#8211; atalhou apressadamente<br \/>\nGon\u00e7alo. &#8211; O Padre Soeiro previne o Tabeli\u00e3o Guedes, e assinamos<br \/>\nessa bela escritura. S\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es costumadas. Creio<br \/>\nque h\u00e1 uma reserva a respeito da hortali\u00e7a e do porco&#8230; Enfim<br \/>\no Padre Soeiro deve receber carta do Pereira.<\/p>\n<p>E imediatamente, descendo a escada, passando o len\u00e7o perfumado pelo<br \/>\nbigode, gracejou com o capel\u00e3o sobre o famoso Fado dos Ramires em que<br \/>\nele colaborava com o Videirinha. Oh! Padre Soeiro fornecera lendas sublimes!<br \/>\nMas aquela de Santa Aldon\u00e7a, realmente, fora ataviada com exagera\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nQuatro Reis a levarem a Santa aos ombros!<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o Reis demais, Padre Soeiro!<\/p>\n<p>O bom capel\u00e3o protestou, logo interessado e s\u00e9rio, no amor<br \/>\ndaquela obra que glorificava a Casa:<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! Com perd\u00e3o de V. Exa&#8230;. Perfeitissimamente exato. L\u00e1<br \/>\no conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas Damas da Corte do C\u00e9u, livro<br \/>\nprecioso, livro rar\u00edssimo, que o Sr. Jos\u00e9 Barrolo tem na Livraria.<br \/>\nN\u00e3o especifica os Reis, mas diz quatro&#8230; &#8220;Aos ombros de quatro<br \/>\nReis e com acompanhamento de muitos Condes.&#8221; Mas o nosso Jos\u00e9<br \/>\nVideira declarou que n\u00e3o podia meter os condes por causa da rima.<\/p>\n<p>O Fidalgo ria, dependurando num cabide, ao fundo da escada, o chap\u00e9u<br \/>\nde palha com que descera:<\/p>\n<p>&#8211; Por causa da rima, pobres condes&#8230; Mas o fado est\u00e1 lindo. Eu trago<br \/>\numa c\u00f3pia para a Gracinha cantar ao piano&#8230; E agora outra coisa, Padre<br \/>\nSoeiro. O que se conta por a\u00ed do Governador Civil, desse Sr. Andr\u00e9<br \/>\nCavaleiro?&#8230;<\/p>\n<p>O capel\u00e3o encolheu os ombros, desdobrando cautelosamente o seu vasto<br \/>\nlen\u00e7o de quadrados vermelhos:<\/p>\n<p>&#8211; Eu, como V. Exa. sabe, n\u00e3o entendo de Pol\u00edtica. Depois tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o freq\u00fcento os caf\u00e9s, os s\u00edtios onde se questiona<br \/>\nPol\u00edtica&#8230; Mas parece que gostam.<\/p>\n<p>No corredor um escudeiro gordo, de opulentas su\u00ed\u00e7as ruivas,<br \/>\nque Gon\u00e7alo n\u00e3o conhecia, badalou a sineta do almo\u00e7o.<br \/>\nGon\u00e7alo reparou, avisou o homem que a Sra. D. Maria da Gra\u00e7a<br \/>\nandava para o fundo do jardim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Entrou agora, Sr. D. Gon\u00e7alo! &#8211; acudiu o escudeiro. &#8211; E at\u00e9<br \/>\nmanda perguntar se V. Exa. deseja para o almo\u00e7o vinho verde de Amarante,<br \/>\nde Vidainhos.<\/p>\n<p>Sim, com certeza, vinho de Vidainhos. Depois sorrindo:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Padre Soeiro, previna este escudeiro novo que eu n\u00e3o tenho Dom.<br \/>\nSou simplesmente Gon\u00e7alo, gra\u00e7as a Deus!<\/p>\n<p>O capel\u00e3o murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dinastia,<br \/>\napareciam Ramires com Dom. E, como Gon\u00e7alo parara diante do reposteiro<br \/>\ncorrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas escrupulosas, reverentes<br \/>\ncerim\u00f4nias, para o Fidalgo passar.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Padre Soeiro, por quem \u00e9!<\/p>\n<p>Mas ele, com apegado respeito:<\/p>\n<p>&#8211; Depois de V. Exa., meu senhor&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capel\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Padre Soeiro, j\u00e1 nos documentos da Primeira Dinastia se estabeleceu<br \/>\nque os Santos nunca andam atr\u00e1s dos Pecadores!<\/p>\n<p>&#8211; V. Exa. manda, e sempre com que gra\u00e7a!<\/p>\n<p>Depois dos anos de Gracinha, uma tarde, pelas tr\u00eas horas, Gon\u00e7alo,<br \/>\nrecolhendo com Padre Soeiro duma visita \u00e0 Biblioteca do Pa\u00e7o<br \/>\ndo Bispo, sentiu logo da antec\u00e2mara o vozeir\u00e3o do Tit\u00f3,<br \/>\nque rolava na sala azul em trov\u00e3o lento. Franziu vivamente o reposteiro<br \/>\n&#8211; e sacudiu o punho para o imenso homem que enchia um dos cadeir\u00f5es<br \/>\ndourados, estirando por sobre as flores do tapete umas botas novas de grossas<br \/>\ntachas reluzentes:<\/p>\n<p>&#8211; Oh infame!&#8230; Ent\u00e3o noutro dia assim me larga, sem escr\u00fapulo,<br \/>\ndepois de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado num espeto de cerejeira?<br \/>\nE para qu\u00ea?&#8230; Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau e bichinhas<br \/>\nde rabear!<\/p>\n<p>Tit\u00f3 n\u00e3o desmanchou a sua conchegada beatitude:<\/p>\n<p>&#8211; Impossibil\u00edssimo. De tarde encontrei o Jo\u00e3o Gouveia no Chafariz.<br \/>\nE s\u00f3 ent\u00e3o nos lembramos de que eram os anos da D. Casimira.<br \/>\nDia sagrado!<\/p>\n<p>Aquelas ceias de Vila-Clara, as tresnoitadas &#8220;p\u00e2ndegas&#8221; com<br \/>\nviol\u00e3o, impressionavam sempre Barrolo, que as apetecia. E com o olho<br \/>\nagu\u00e7ado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de<br \/>\ntabaco dentro de uma terrina do Jap\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 a D. Casimira? Voc\u00eas em Vila-Clara descobrem uns tipos&#8230;<br \/>\nConta l\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Um monstro! &#8211; declarou Gon\u00e7alo. Uma matrona\u00e7a bojuda como<br \/>\numa pipa, com um p\u00ealo nojento no queixo. Vive ao p\u00e9 do Cemit\u00e9rio,<br \/>\nnum cacifro que tresanda a petr\u00f3leo, onde este senhor e as autoridades<br \/>\nv\u00e3o jogar o quino, e derri\u00e7ar com umas sirigaitas de casabeque<br \/>\nvermelho e de farripas&#8230; Nem se pode decentemente contar diante do Sr. Padre<br \/>\nSoeiro!<\/p>\n<p>O capel\u00e3o, que sem rumor se esbatera numa sombra discreta, entre os<br \/>\nfranjados cetins duma cortina e um pesado contador da \u00cdndia, moveu<br \/>\nos ombros num consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades<br \/>\ndo Pecado. E, com pachorra, o Tit\u00f3 emendava o esbo\u00e7o burlesco<br \/>\ndo Fidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; A D. Casimira \u00e9 gorda, mas muito asseada. At\u00e9 me pediu para<br \/>\neu lhe comprar hoje, na cidade, uma bacia nova de assento. A casa n\u00e3o<br \/>\ncheira a petr\u00f3leo e fica por tr\u00e1s do convento de Santa Teresa.<br \/>\nAs sirigaitas s\u00e3o simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres<br \/>\nque gostam de rir e de tro\u00e7ar&#8230; E o Sr. Padre Soeiro podia, sem medo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem! &#8211; atalhou Gon\u00e7alo. &#8211; Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira,<br \/>\nque tem bacia nova para os seus semic\u00fapios&#8230; Vamos \u00e0 outra<br \/>\ninf\u00e2mia do Sr. Ant\u00f4nio Vilalobos!<\/p>\n<p>Mas Barrolo insistia, curioso:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, conta l\u00e1, Tit\u00f3&#8230; Noite de anos,<br \/>\npatuscada rija, hem?<\/p>\n<p>&#8211; Ceia pacata &#8211; contou o Tit\u00f3 com a seriedade que lhe merecia a festa<br \/>\ndas suas amigas. &#8211; A D. Casimira tinha uma bela frangalhada com ervilhas.<br \/>\nO Jo\u00e3o Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bolos de bacalhau que<br \/>\ncalharam&#8230; Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as pequenas<br \/>\ncantaram&#8230; N\u00e3o se passou mal.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo esperava &#8211; irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:<\/p>\n<p>&#8211; Acabou, bem?&#8230; Agora a outra inf\u00e2mia, mais grave! Ent\u00e3o o<br \/>\nSr. Ant\u00f4nio Vilalobos \u00e9 \u00edntimo do Sanches Lucena, freq\u00fcenta<br \/>\ntodas as semanas a Feitosa, toma ch\u00e1 e torradas com a bela D. Ana,<br \/>\ne esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privil\u00e9gios gloriosos?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sem contar &#8211; gritou o Barrolo deliciosamente divertido &#8211; que lhe passeia<br \/>\n\u00e0 trela os c\u00e3ezinhos felpudos!<\/p>\n<p>&#8211; Sem contar que lhe passeia \u00e0 trela os c\u00e3ezinhos felpudos!<br \/>\n&#8211; ecoou cavamente Gon\u00e7alo. &#8211; Responda, meu ilustre amigo!<\/p>\n<p>O Tit\u00f3 remexeu o vasto corpo dentro do cadeir\u00e3o, recolheu as<br \/>\nbotas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhid\u00e3o<br \/>\naquecera. E depois de encarar Gon\u00e7alo, intensamente, com um esfor\u00e7o<br \/>\nde sagacidade que mais o afogueou:<\/p>\n<p>&#8211; Tu j\u00e1 alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia<br \/>\no Sanches Lucena? Nunca me perguntaste&#8230;<\/p>\n<p>O Fidalgo protestou. N\u00e3o! Mas constantemente na Assembl\u00e9ia,<br \/>\nno Gago, na Torre, eles berravam, em quest\u00f5es de Pol\u00edtica, o<br \/>\nnome do Sanches Lucena! Nada mais natural, at\u00e9 mais prudente, do que<br \/>\naludir o Sr. Tit\u00f3 \u00e0 sua intimidade ilustre! Ao menos para evitar<br \/>\nque ele, ou os amigos, diante do Sr. Tit\u00f3 que comia as torradas da<br \/>\nFeitosa, tratassem o Sanches Lucena como um trapo!<\/p>\n<p>O Tit\u00f3 despegou do cadeir\u00e3o. E afundando as m\u00e3os nos<br \/>\nbolsos da quinzena de alpaca, sacudindo desinteressadamente os ombros:<\/p>\n<p>&#8211; Cada um tem sobre o Sanches a sua opini\u00e3o&#8230; Eu apenas o conhe\u00e7o<br \/>\nh\u00e1 quatro ou cinco meses, mas acho que \u00e9 s\u00e9rio, que sabe<br \/>\nas coisas&#8230; Agora, l\u00e1 nas C\u00e2maras&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, indignado, bradava que se n\u00e3o discutiam os m\u00e9ritos<br \/>\ndo Sr. Sanches Lucena &#8211; mas os segredos do Sr. Tit\u00f3 Vilalobos! E o<br \/>\nescudeiro novo, avan\u00e7ando as su\u00ed\u00e7as ruivas por uma fenda<br \/>\ndo reposteiro, anunciou que o Sr. Administrador de Vila-Clara procurava S.<br \/>\nExa&#8230;.<\/p>\n<p>Barrolo largou logo a terrina de tabaco:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Jo\u00e3o Gouveia! Que entre! Bravo! Temos c\u00e1 toda a rapaziada<br \/>\nde Vila-Clara!<\/p>\n<p>E Tit\u00f3, da janela onde se refugiara, lan\u00e7ou o vozeir\u00e3o,<br \/>\nmais troante, abafando a importuna conversa do Sanches e da Feitosa:<\/p>\n<p>&#8211; Viemos ambos! Por sinal numa traquitana infame&#8230; At\u00e9 se nos desferrou<br \/>\numa das pilecas e tivemos de parar na Vendinha. N\u00e3o se perdeu tempo,<br \/>\nque h\u00e1 agora l\u00e1 um vinhinho branco que \u00e9 daqui da ponta<br \/>\nfina!&#8230;<\/p>\n<p>Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrolo e Gon\u00e7alo a passarem<br \/>\nna Vendinha, para provar a pinga celeste.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui o Sr. Padre Soeiro lhe ati\u00e7ava uma caneca valente,<br \/>\napesar do Pecado!<\/p>\n<p>Mas Jo\u00e3o Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco vermelho<br \/>\nna testa, do chap\u00e9u e do calor &#8211; e abotoado na sobrecasaca preta, de<br \/>\ncal\u00e7as pretas, de luvas pretas. Sem f\u00f4lego, apertou silenciosamente<br \/>\npela sala as m\u00e3os amigas que o acolhiam. E desabou sobre o canap\u00e9,<br \/>\nimplorando ao amigo Barrolo a caridade duma bebidinha fresca!<\/p>\n<p>&#8211; Estive para entrar no caf\u00e9 M\u00f4naco. Mas refleti que nesta grandiosa<br \/>\ncasa dos Barrolos as bebidas s\u00e3o de mais confian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem! Voc\u00ea que quer? Orchata? Sangria? Limonada?<\/p>\n<p>&#8211; Sangria.<\/p>\n<p>E, limpando o pesco\u00e7o e a testa, amaldi\u00e7oou o indecente calor<br \/>\nde Oliveira:<\/p>\n<p>&#8211; Mas h\u00e1 gente que gosta! L\u00e1 o meu chefe, o Sr. Governador<br \/>\nCivil, escolhe sempre a hora do calor para passear a cavalo. Ainda hoje&#8230;<br \/>\nNa reparti\u00e7\u00e3o at\u00e9 o meio-dia; depois, cavalo \u00e0<br \/>\nporta; e larga at\u00e9 a estrada de Ramilde, que \u00e9 uma \u00c1frica&#8230;<br \/>\nN\u00e3o sei como lhe n\u00e3o fervem os miolos!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! &#8211; acudiu Gon\u00e7alo &#8211; \u00e9 muito simples. Se ele os n\u00e3o<br \/>\ntem!<\/p>\n<p>O Administrador saudou gravemente:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 c\u00e1 faltava com a sua ferroadazinha o Sr. Gon\u00e7alo<br \/>\nMendes Ramires! N\u00e3o comecemos, n\u00e3o comecemos&#8230; Este seu cunhado,<br \/>\nBarrolo, \u00e9 bicho indomestic\u00e1vel! Sempre reponta!<\/p>\n<p>O bom Barrolo gaguejou, constrangido, que Gon\u00e7alinho em Pol\u00edtica<br \/>\nn\u00e3o dispensava a piada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois olhe! &#8211; declarou o Administrador, sacudindo o dedo para Gon\u00e7alo.<br \/>\n&#8211; Esse Sr. Andr\u00e9 Cavaleiro, que n\u00e3o tem miolos, ainda esta manh\u00e3<br \/>\nna Reparti\u00e7\u00e3o gabou com imensa simpatia os miolos do Sr. Gon\u00e7alo<br \/>\nMendes Ramires!&#8230;<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo, muito s\u00e9rio:<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o faltava mais nada! Para esse Governador Civil<br \/>\nser perfeitamente absurdo s\u00f3 lhe restava que me considerasse um asno!<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o! &#8211; gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo<br \/>\na sobrecasaca, para comodidade da contenda.<\/p>\n<p>Barrolo acudiu, aflito, carregando nos ombros do Gouveia &#8211; para o sossegar<br \/>\ne o repor no canap\u00e9:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meninos, n\u00e3o! Pol\u00edtica, n\u00e3o! E ent\u00e3o<br \/>\nessa ma\u00e7ada do Cavaleiro&#8230; Vamos ao que importa. Voc\u00ea janta<br \/>\nconosco, Jo\u00e3o Gouveia?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, obrigado. J\u00e1 prometi jantar com o Cavaleiro. Temos l\u00e1<br \/>\no In\u00e1cio Vilhena. Vai ler um artigo que escreveu para o Boletim de<br \/>\nGuimar\u00e3es sobre umas f\u00f4rmas de fabricar ossos de m\u00e1rtires,<br \/>\ndescobertas nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade&#8230; E<br \/>\na Sra. D. Gra\u00e7a, bem? Quem eu n\u00e3o avistava havia meses era o<br \/>\nSr. Padre Soeiro. Nunca aparece agora pela Torre!&#8230; Mas sempre rijo, sempre<br \/>\nvi\u00e7oso. Oh, Sr. Padre Soeiro, qual \u00e9 o seu segredo para toda<br \/>\nessa meninice?<\/p>\n<p>Do seu canto, o capel\u00e3o sorriu timidamente. O segredo? Poupar a Vida<br \/>\n&#8211; n\u00e3o a consumindo nem com ambi\u00e7\u00f5es nem com decep\u00e7\u00f5es.<br \/>\nOra para ele, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina.<br \/>\nE fora o seu reumatismo&#8230;<\/p>\n<p>Depois, corando de acanhamento, atrav\u00e9s das senten\u00e7as evang\u00e9licas<br \/>\nque lhe escapavam:<\/p>\n<p>&#8211; Mas mesmo o reumatismo n\u00e3o \u00e9 mal perdido. Deus, que o manda,<br \/>\nsabe por que o manda&#8230; Sofrer edifica. Porque enfim o que n\u00f3s sofremos<br \/>\nnos leva a pensar no que os outros sofrem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois olhe &#8211; volveu com alegre incredulidade o Administrador -, eu, quando<br \/>\ntenho os meus ataques de garganta, n\u00e3o penso na garganta dos outros!<br \/>\nPenso s\u00f3 na minha que me d\u00e1 bastante cuidado. E agora a vou<br \/>\nregalar naquela bela sangria&#8230;<\/p>\n<p>O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos de<br \/>\nsangria onde boiavam rodelinhas de lim\u00e3o. E todos se tentaram, todos<br \/>\nbeberam, at\u00e9 Padre Soeiro, para mostrar ao Sr. Ant\u00f4nio Vilalobos<br \/>\nque n\u00e3o desdenhava o vinho, d\u00e1diva am\u00e1vel de Deus &#8211; pois<br \/>\ncomo ensina Tibulo com verdade, apesar de gent\u00edlico, vinus facit dites<br \/>\nanimos, mollia corda dat, enrija a alma e ado\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gouveia, depois dum suspiro consolado, pousou na bandeja o copo<br \/>\nque esvaziara dum trago e interpelou Gon\u00e7alo:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos a saber! Ent\u00e3o noutro dia que hist\u00f3ria fant\u00e1stica<br \/>\nfoi essa duma festa na Torre, com senhoras, com a D. Ana Lucena?&#8230; Eu n\u00e3o<br \/>\nacreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado. Depois&#8230;<\/p>\n<p>Mas dentre as cortinas da janela, onde acabava a sangria, Tit\u00f3 novamente<br \/>\nribombou, interpelando tamb\u00e9m o Fidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 s\u00f4 Gon\u00e7alo! E o que me contou h\u00e1 pouco o Barrolo?&#8230;<br \/>\nQue andavas com id\u00e9ias de abalar para a \u00c1frica?<\/p>\n<p>Ao espanto de Jo\u00e3o Gouveia quase se misturou terror. Para a \u00c1frica?&#8230;<br \/>\nO qu\u00ea? Com um emprego para a \u00c1frica?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! plantar cocos! plantar cacau! plantar caf\u00e9! &#8211; exclamava<br \/>\no Barrolo, com divertidas palmadas na coxa.<\/p>\n<p>Pois Tit\u00f3 aprovava a id\u00e9ia! Tamb\u00e9m ele, se arranjasse<br \/>\num capital, dez ou quinze contos, tentava a \u00c1frica, a traficar com<br \/>\no preto&#8230; E tamb\u00e9m se fosse mais pequeno, mais seco. Que homens do<br \/>\nseu corpanzil, necessitando muito comezaina e muita vinha\u00e7a, n\u00e3o<br \/>\nag\u00fcentam a \u00c1frica, rebentam!<\/p>\n<p>&#8211; O Gon\u00e7alo sim! \u00c9 chupado, \u00e9 rijo; n\u00e3o carrega<br \/>\nna aguardente; est\u00e1 na conta para Africanista&#8230; E sempre te digo!<br \/>\nCarreira bem mais decente que essa outra por que tens mania, de deputado!<br \/>\nPara qu\u00ea? Para palmilhar na Arcada, para bajular Conselheiros.<\/p>\n<p>Barrolo concordou, com alarido. Tamb\u00e9m n\u00e3o compreendia a teima<br \/>\nde Gon\u00e7alo em ser deputado! Que ma\u00e7ada! Eram logo as intrigas,<br \/>\ne as desandas nos jornais, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um t\u00edtulo<br \/>\ne uma gr\u00e3-cruz a tiracolo, como o Freixomil!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo escutara, num sil\u00eancio risonho e superior, enrolando<br \/>\nlaboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrolo:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o compreendem&#8230; Voc\u00eas n\u00e3o conhecem a<br \/>\norganiza\u00e7\u00e3o de Portugal. Perguntem a\u00ed ao Gouveia&#8230; Portugal<br \/>\n\u00e9 uma fazenda, uma bela fazenda, possu\u00edda por uma parceria.<br \/>\nComo voc\u00eas sabem h\u00e1 parcerias comerciais e parcerias rurais.<br \/>\nEsta de Lisboa \u00e9 uma parceria pol\u00edtica, que governa a herdade<br \/>\nchamada Portugal&#8230; N\u00f3s os Portugueses pertencemos todos a duas classes:<br \/>\nuns cinco a seis milh\u00f5es que trabalham na fazenda, ou vivem nela a<br \/>\nolhar, como o Barrolo, e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa,<br \/>\nque formam a parceria, que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por<br \/>\nnecessidade, por h\u00e1bito de fam\u00edlia, desejo mandar na fazenda.<br \/>\nMas, para entrar na parceria pol\u00edtica, o cidad\u00e3o portugu\u00eas<br \/>\nprecisa uma habilita\u00e7\u00e3o &#8211; ser deputado. Exatamente como, quando<br \/>\npretende entrar na Magistratura, necessita uma habilita\u00e7\u00e3o &#8211;<br \/>\nser bacharel. Por isso procuro come\u00e7ar como Deputado para acabar como<br \/>\nparceiro e governar&#8230; N\u00e3o \u00e9 verdade, Jo\u00e3o Gouveia?<\/p>\n<p>O Administrador voltara \u00e0 bandeja das sangrias, de que saboreava outro<br \/>\ncopo, agora lentamente, aos goles.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, com efeito, essa \u00e9 a carreira&#8230; Candidato, Deputado, Pol\u00edtico,<br \/>\nConselheiro, Ministro, Mandarim. \u00c9 a carreira&#8230; E melhor que a de<br \/>\n\u00c1frica. Por fim na Arcada, em Lisboa, tamb\u00e9m cresce cacau e<br \/>\nh\u00e1 mais sombra!<\/p>\n<p>Barrolo no entanto abra\u00e7ara o ombro possante do Tit\u00f3, com quem<br \/>\nmergulhou no v\u00e3o da janela, numa confraternidade de id\u00e9ias,<br \/>\ngracejando:<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu, sem ser dos tais parceiros, tamb\u00e9m mando nos bocados de<br \/>\nPortugal que mais me interessam porque me pertencem!&#8230; E sempre queria ver<br \/>\nque esse S. Fulg\u00eancio, ou o Braz Victorino, ou l\u00e1 os pol\u00edticos<br \/>\ndo Terreiro do Pa\u00e7o, se metessem a dispor nas minhas terras, na Ribeirinha<br \/>\nou na Murtosa&#8230; Era a tiro!<\/p>\n<p>Encostado \u00e0 vidra\u00e7a, Tit\u00f3 co\u00e7ava a barba, impressionado:<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, Barrolo! Mas voc\u00ea na Ribeirinha e na Murtosa tem de pagar<br \/>\nas contribui\u00e7\u00f5es que eles mandarem. E nesses concelhos tem de<br \/>\nag\u00fcentar as autoridades que eles nomearem. E goza para l\u00e1 de estradas<br \/>\nse eles lhas fizerem. E vende o carro de p\u00e3o e a pipa de vinho com<br \/>\nmais ou menos proveito, segundo as leis que eles votarem&#8230; E assim tudo.<br \/>\nO Gon\u00e7alo n\u00e3o deixa de acertar. \u00c9 o diabo! Quem manda<br \/>\n\u00e9 quem lucra&#8230; Olhe! o maroto do meu senhorio em Vila-Clara, agora<br \/>\npara o S. Miguel, aumenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que<br \/>\nningu\u00e9m quer, porque mataram l\u00e1 o carrasco, que ainda l\u00e1<br \/>\naparece&#8230; E o Cavaleiro, esse, como parceiro, vive de gra\u00e7a neste<br \/>\nbelo pal\u00e1cio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta&#8230;<\/p>\n<p>Barrolo atirou um chut, de m\u00e3o espalmada, abafando o vozeir\u00e3o<br \/>\ndo Tit\u00f3, com medo que as regalias do Cavaleiro, assim proclamadas,<br \/>\nrenovassem as f\u00farias de Gon\u00e7alo. Mas o Fidalgo n\u00e3o percebera,<br \/>\natento ao Jo\u00e3o Gouveia, que, enterrado no canap\u00e9 depois da sangria,<br \/>\nnovamente contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Vila-Clara,<br \/>\no rapazola do Gago com o recado da grande festa na Torre:<\/p>\n<p>&#8211; E cheguei a desconfiar que realmente voc\u00ea desse festa, quando bateram<br \/>\nas nove, depois as nove e meia, e o Tit\u00f3 sem chegar para a ceia da<br \/>\nD. Casimira!&#8230; Bem, pensei, tamb\u00e9m recebeu recado e abalou para a<br \/>\nTorre! Por fim, apenas ele apareceu, de carapu\u00e7o e de jaqueta, percebi<br \/>\nque fora tro\u00e7a do Sr. D. Gon\u00e7alo&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:<\/p>\n<p>&#8211; De carapu\u00e7o e jaqueta? O Tit\u00f3 andava nessa noite de carapu\u00e7o<br \/>\ne de jaqueta?&#8230;<\/p>\n<p>Mas bruscamente Barrolo, da funda janela, lan\u00e7ou para dentro, para<br \/>\na sala, um brado de pavor:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! rapazes! Santo Deus! A\u00ed v\u00eam as Lousadas! Jo\u00e3o Gouveia<br \/>\nsaltou do canap\u00e9, como num perigo, reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca;<br \/>\nGon\u00e7alo, atarantado, esbarrou com o Tit\u00f3 e o Barrolo que recuavam,<br \/>\nno terror de serem apercebidos atrav\u00e9s dos vidros largos; at\u00e9<br \/>\nPadre Soeiro, prudente, abandonou o seu recanto onde corria os \u00f3culos<br \/>\npela Gazeta do Porto. E todos, dentre a fenda das cortinas, como soldados<br \/>\nna fresta de uma cidadela, espreitavam o largo, que o sol das quatro horas<br \/>\ndourava por sobre os telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pegas,<br \/>\nas duas Lousadas, muito esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes<br \/>\ncurtos de seda preta e vidrilhos, ambas com guarda-s\u00f3is de xadrezinho<br \/>\ndesbotado, avan\u00e7avam, estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.<\/p>\n<p>As duas manas Lousadas! Secas, escuras e gariulas como cigarras, desde longos<br \/>\nanos, em Oliveira, eram elas as esquadrinhadoras de todas as vidas, as espalhadoras<br \/>\nde todas as maledic\u00eancias, as tecedeiras de todas as intrigas. E na<br \/>\ndesditosa Cidade n\u00e3o existia n\u00f3doa, pecha, bule rachado, cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndorido, algibeira arrasada, janela entreaberta, poeira a um canto, vulto a<br \/>\numa esquina, chap\u00e9u estreado na missa, bolo encomendado nas Matildes,<br \/>\nque os seus quatro olhinhos furantes de azeviche sujo n\u00e3o descortinassem<br \/>\n&#8211; e que a sua solta l\u00edngua, entre os dentes ralos, n\u00e3o comentasse<br \/>\ncom mal\u00edcia estridente! Delas surdiam todas as cartas an\u00f4nimas<br \/>\nque infestavam o Distrito; as pessoas devotas consideravam como penit\u00eancias<br \/>\nessas visitas em que elas durante horas galravam, abanando os bra\u00e7os<br \/>\nescanifrados; e sempre por onde elas passassem ficava latejando um sulco de<br \/>\ndesconfian\u00e7a e receio. Mas quem ousaria recha\u00e7ar as duas manas<br \/>\nLousadas? Eram filhas do decr\u00e9pito e venerando general Lousada; eram<br \/>\nparentas do Bispo; eram poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos<br \/>\nda Penha. E depois duma castidade t\u00e3o r\u00edgida, t\u00e3o antiga<br \/>\ne t\u00e3o ressequida, e por elas t\u00e3o espaventosamente alardeada<br \/>\n&#8211; que o Marcolino dO INDEPENDENTE as alcunhara de Duas Mil Virgens.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o v\u00eam para c\u00e1! &#8211; trovejou o Tit\u00f3, com imenso<br \/>\nal\u00edvio.<\/p>\n<p>Com efeito no meio do largo, rente \u00e0 grade que circunda o antigo rel\u00f3gio<br \/>\nde sol, as duas manas paradas erguiam o bico escuro, farejando e espiando<br \/>\na Igrejinha de S. Mateus onde o sino lan\u00e7ara um repique de batizado.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, com os diabos, que \u00e9 para c\u00e1!<\/p>\n<p>As Lousadas, decididas, investiam contra o port\u00e3o dos Cunhais! Ent\u00e3o<br \/>\nfoi um p\u00e2nico! As gordas pernas do Barrolo, fugindo, abalaram, quase<br \/>\nderrubaram sobre os contadores os potes bojudos da \u00cdndia. Gon\u00e7alo<br \/>\nbradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia rebuscava com<br \/>\ndesespero o seu chap\u00e9u-coco. S\u00f3 o Tit\u00f3, que as abominava<br \/>\ne a quem elas chamavam o Polifemo, retirou com serenidade, abrigando o Padre<br \/>\nSoeiro sob o seu bra\u00e7o forte. E j\u00e1 o bando espavorido se arremessara<br \/>\nsobre o reposteiro &#8211; quando Gracinha apareceu, com um fresco vestido de sedinha<br \/>\ncor de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:<\/p>\n<p>&#8211; Que foi? Que foi?&#8230;<\/p>\n<p>Um clamor abafado envolveu a doce senhora amea\u00e7ada:<\/p>\n<p>&#8211; As Lousadas!<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>Fugidiamente o Tit\u00f3 e Jo\u00e3o Gouveia apertaram a m\u00e3o que<br \/>\nela lhes abandonou, esmorecida. A sineta do port\u00e3o tilintara, temerosa!<br \/>\nE a fila acavalada, onde Padre Soeiro rebolava a reboque, enfiou para a Livraria<br \/>\nque o Barrolo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspira\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Esconde as sangrias!<\/p>\n<p>Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou ela<br \/>\npara uma banqueta do corredor, num esfor\u00e7o desesperado, a pesada salva<br \/>\n&#8211; com que as Lousadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a cidade,<br \/>\ne mais alta que a Torre de S. Mateus, uma hist\u00f3ria pavorosa de &#8220;vinha\u00e7a<br \/>\ne bebedeira&#8221;. Depois, ofegando, relanceou no espelho o penteado. E direita<br \/>\ncomo numa arena, com a temeridade simples e risonha dos antigos Ramires, esperou<br \/>\na arremetida das manas terr\u00edveis.<\/p>\n<p>No outro domingo, depois do almo\u00e7o, Gon\u00e7alo acompanhou a irm\u00e3<br \/>\n\u00e0 casa da tia Arminda Vilegas, que na v\u00e9spera, ao tomar (como<br \/>\ncostumava todos os s\u00e1bados) o seu banho aos p\u00e9s, se escaldara<br \/>\ne recolhera \u00e0 cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgi\u00f5es<br \/>\nde Oliveira. Depois acabou o charuto sob as ac\u00e1cias do Terreiro da<br \/>\nLou\u00e7a, pensando na sua Novela abandonada na Torre durante essas semanas,<br \/>\ne no lance famoso do Cap\u00edtulo II que o tentava e que o assustava-o<br \/>\nencontro de Louren\u00e7o Ramires com Lopo de Bai\u00e3o, o Bastardo,<br \/>\nno vale fatal de Canta-Pedra. E recolhia aos Cunhais (porque prometera ao<br \/>\nBarrolo uma trotada a cavalo, at\u00e9 o Pinhal de Estevinha, para aproveitar<br \/>\na do\u00e7ura do domingo enevoado) quando, na rua das Velas, avistou o Tabeli\u00e3o<br \/>\nGuedes, que saia da confeitaria das Matildes com um grosso embrulho de past\u00e9is.<br \/>\nLigeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua &#8211; enquanto o Guedes, da borda<br \/>\ndo passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos gaspeados de<br \/>\nverniz, descobria, numa cortesia imensa, a calva, emplumada ao meio pelo famoso<br \/>\ntufo de cabelo grisalho que lhe valera a alcunha de &#8220;Guedes Popa&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; Por quem \u00e9, meu caro Guedes, ponha o chap\u00e9u! Como est\u00e1?<br \/>\nSempre fero e mo\u00e7o. Ainda bem!&#8230; Falou com o meu Padre Soeiro? O Pereira<br \/>\nda Riosa, por fim, s\u00f3 vem \u00e0 cidade na quarta-feira&#8230;<\/p>\n<p>Sim! Sim! O Sr. Padre Soeiro passara pelo cart\u00f3rio, para avisar e<br \/>\nele apresentava os parab\u00e9ns a S. Exa. pelo seu novo rendeiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Homem muito competente, o Pereira! J\u00e1 h\u00e1 vinte anos que o<br \/>\nconhe\u00e7o&#8230; E olhe V. Exa. a propriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda<br \/>\nme lembro dela, um chavascal; hoje que primor! S\u00f3 a vinha que ele tem<br \/>\nplantado! Homem muito competente&#8230; E V. Exa. com demora?<\/p>\n<p>&#8211; Dois ou tr\u00eas dias&#8230; N\u00e3o se atura este calor de Oliveira.<br \/>\nHoje, felizmente, refrescou. E que h\u00e1 de novo? Como vai a pol\u00edtica?<br \/>\nO amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, bem?<\/p>\n<p>Subitamente o Tabeli\u00e3o, com o seu embrulho de doces conchegado ao<br \/>\ncolete de seda preta, agitou o bra\u00e7o gordo e curto, numa indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe esbraseou de sangue o pesco\u00e7o, as orelhas cabeludas, a face<br \/>\nrapada, toda a testa at\u00e9 as abas do chap\u00e9u branco orlado de<br \/>\nfumo negro:<\/p>\n<p>&#8211; E quem o n\u00e3o h\u00e1 de ser, Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires?<br \/>\nQuem o n\u00e3o h\u00e1 de ser?&#8230; Pois este \u00faltimo esc\u00e2ndalo!<\/p>\n<p>Os risonhos olhos de Gon\u00e7alo logo se alargaram, s\u00e9rios:<\/p>\n<p>&#8211; Que esc\u00e2ndalo?<\/p>\n<p>O Tabeli\u00e3o recuou. Pois S. Exa. n\u00e3o sabia da \u00faltima<br \/>\nprepot\u00eancia do Governador Civil, do Sr. Andr\u00e9 Cavaleiro?<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea, caro amigo?&#8230;<\/p>\n<p>O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e inchou,<br \/>\npara exclamar:<\/p>\n<p>&#8211; A transfer\u00eancia do Noronha!&#8230; A transfer\u00eancia do desgra\u00e7ado<br \/>\nNoronha!<\/p>\n<p>Mas uma senhora, tamb\u00e9m obesa, de bu\u00e7o carregado, toda a estalar<br \/>\nem ricas e rugidoras sedas de missa, arrastando severamente pela m\u00e3o<br \/>\num menino que rabujava, parou, fitou o Guedes porque o digno homem com o seu<br \/>\nventre, o seu embrulho, a sua indigna\u00e7\u00e3o, atravancava a entrada<br \/>\ndas Matildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ela entrar, o fecho<br \/>\nda porta envidra\u00e7ada. Depois, num alvoro\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; O amigo Guedes naturalmente vai para casa. \u00c9 o meu caminho. Andamos<br \/>\ne conversamos&#8230; Ora essa! Mas o Noronha&#8230; Que Noronha?<\/p>\n<p>&#8211; O Ricardo Noronha&#8230; V. Exa. conhece. O pagador das Obras P\u00fablicas!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! sim, sim&#8230; Ent\u00e3o transferido? Transferido arbitrariamente?<\/p>\n<p>Na rua das Brocas por onde desciam, no sil\u00eancio, e solid\u00e3o das<br \/>\nlojas cerradas, a c\u00f3lera do Guedes ressoou, mais solta:<\/p>\n<p>&#8211; Infamemente, Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires, infamissimamente! E para<br \/>\nAlmod\u00f4var, para os confins do Alentejo!&#8230; Para uma terra sem recursos,<br \/>\nsem distra\u00e7\u00f5es, sem fam\u00edlias!&#8230;<\/p>\n<p>Parara, com os doces contra o cora\u00e7\u00e3o, os olhinhos esbugalhados<br \/>\npara o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honrad\u00edssimo!<br \/>\nE sem Pol\u00edtica, absolutamente sem Pol\u00edtica. Nem dos Hist\u00f3ricos,<br \/>\nnem dos Regeneradores. S\u00f3 da fam\u00edlia, das tr\u00eas irm\u00e3s<br \/>\nque sustentava, tr\u00eas flores&#8230; E homem estimad\u00edssimo na cidade,<br \/>\ncheio de prendas! Um talento imenso para a m\u00fasica!&#8230; Ah! o Sr. Gon\u00e7alo<br \/>\nRamires n\u00e3o sabia? Pois compunha ao piano coisas lindas! Depois precioso<br \/>\npara reuni\u00f5es, para anos. Era ele quem organizava sempre em Oliveira<br \/>\nas representa\u00e7\u00f5es de curiosos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Porque, como ensaiador, creia V. Exa. que n\u00e3o h\u00e1 outro, mesmo<br \/>\nna capital&#8230; N\u00e3o h\u00e1 outro! E, z\u00e1s, de repente, para<br \/>\nAlmod\u00f4var, para o Inferno, com as irm\u00e3s, com os tarecos! S\u00f3<br \/>\no piano!&#8230; Veja V. Exa. s\u00f3 o transporte do piano!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo resplandecia:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um belo esc\u00e2ndalo. Ora, que felicidade esta de o ter encontrado,<br \/>\nmeu caro Guedes!&#8230; E n\u00e3o se sabe o motivo?<\/p>\n<p>De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o Tabeli\u00e3o<br \/>\nencolhia os ombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre nestas<br \/>\nprepot\u00eancias, o motivo era a conveni\u00eancia do servi\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o verdadeiro<br \/>\nmotivo&#8230; O \u00edntimo, o secreto, o medonho!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Guedes relanceou a rua, com prud\u00eancia. Uma velha atravessava, coxeando,<br \/>\nsegurando uma bilha. E o Tabeli\u00e3o segredou cavamente, junto \u00e0<br \/>\nface deslumbrada do Fidalgo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que o Sr. Andr\u00e9 Cavaleiro, esse infame, se encantara com<br \/>\na mais velha das irm\u00e3s Noronhas, a D. Adelina, formos\u00edssima<br \/>\nrapariga, alta e morena, uma est\u00e1tua!&#8230; E repelido (porque a menina,<br \/>\ncheia de ju\u00edzo, uma p\u00e9rola, percebera a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nvil\u00edssima), em quem se vinga, por despeito, o Sr. Governador Civil?<br \/>\nNo pagador! Para Almod\u00f4var com as meninas, com os tarecos!&#8230; Era o<br \/>\npagador quem pagava!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma bela maroteira! &#8211; murmurou Gon\u00e7alo, banhado de gosto<br \/>\ne riso.<\/p>\n<p>&#8211; E note V. Exa.! &#8211; exclamava o Guedes, com a m\u00e3o gorda a tremer por<br \/>\ncima do chap\u00e9u. &#8211; Note V. Exa. que o pobre Noronha, na sua inoc\u00eancia,<br \/>\nt\u00e3o bom homem, gostando sempre de agradar aos seus chefes, ainda h\u00e1<br \/>\nsemanas dedicara ao Cavaleiro uma valsa linda!&#8230; A Mariposa, uma valsa linda!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo n\u00e3o se conteve, esfregou as m\u00e3os num triunfo:<\/p>\n<p>&#8211; Mas que preciosa maroteira!&#8230; E n\u00e3o se tem falado? Esse jornal<br \/>\nde oposi\u00e7\u00e3o, o Clarim de Oliveira, nem uma den\u00fancia,<br \/>\nnem uma alus\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>O Guedes pendeu a cabe\u00e7a, descor\u00e7oado. O senhor Gon\u00e7alo<br \/>\nRamires conhecia bem essa gente do Clarim&#8230; Estilo &#8211; e estilo brincado, opulento&#8230;<br \/>\nMas para assoalhar, assim num caso grav\u00edssimo como o do Noronha, a<br \/>\nverdade bem nua &#8211; pouco nervo, nenhuma valentia. E depois o Biscainho, o redator<br \/>\nprincipal, andava a passar sorrateiramente para os Hist\u00f3ricos. Ah!<br \/>\nO Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires n\u00e3o se inteirara? Pois esse torp\u00edssimo<br \/>\nBiscainho bolinava. Decerto o Cavaleiro lhe acenara com posta&#8230; Al\u00e9m<br \/>\ndisso, como provar a inf\u00e2mia? Coisas \u00edntimas, coisas de fam\u00edlia.<br \/>\nN\u00e3o se podia apresentar a declara\u00e7\u00e3o da D. Adelina, menina<br \/>\nvirtuos\u00edssima &#8211; e com uns olhos!&#8230; Ah! se fosse no tempo do Manuel<br \/>\nJustino e da Aurora de Oliveira!&#8230; Esse era homem para estampar logo na primeira<br \/>\np\u00e1gina, em letra gra\u00fada: &#8220;Alerta! Que a Autoridade superior<br \/>\ndo Distrito tentou levar a desonra ao seio da fam\u00edlia Noronha!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Esse era um homem! Coitado, l\u00e1 est\u00e1 no cemit\u00e9rio de<br \/>\nS. Miguel&#8230; E agora, Sr. Gon\u00e7alo Ramires, o despotismo campeia, desenfreado!<\/p>\n<p>Bufava, arfava, esfalfado daquele fogoso desabafo. Dobraram calados a esquina<br \/>\ndas Brocas para a bela rua, novamente cal\u00e7ada, da Princesa D. Am\u00e9lia.<br \/>\nE logo na segunda porta, parando, tirando da algibeira o trinco, o Guedes,<br \/>\nque ainda resfolegava, ofereceu a S. Exa. para descansar.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, obrigado, meu caro amigo. Tive imenso, imenso prazer,<br \/>\nem o encontrar&#8230; Essa hist\u00f3ria do Noronha \u00e9 tremenda!&#8230; Mas<br \/>\nnada me espanta do Sr. Governador Civil. S\u00f3 me espanta que o n\u00e3o<br \/>\ntenham corrido de Oliveira, como ele merece, com pancada e assuada&#8230; Enfim,<br \/>\nnem toda a gente boa jaz no cemit\u00e9rio de S. Miguel&#8230; At\u00e9 amanh\u00e3,<br \/>\nmeu Guedes. E obrigado!<\/p>\n<p>Da rua da Princesa D. Am\u00e9lia at\u00e9 o largo de El-Rei, Gon\u00e7alo<br \/>\ncorreu com o deslumbramento de quem descobrisse um tesouro e o levasse debaixo<br \/>\nda capa! E a\u00ed levava com efeito &#8220;o esc\u00e2ndalo, o rico esc\u00e2ndalo&#8221;,<br \/>\nque tanto farejara, por que tanto almejara, para desmantelar o Sr. Governador<br \/>\nCivil na sua fiel cidade de Oliveira, que lhe levantava arcos de buxo! E,<br \/>\npor uma merc\u00ea de Deus, &#8220;o rico esc\u00e2ndalo&#8221; demoliria<br \/>\ntamb\u00e9m o homem no cora\u00e7\u00e3o de Gracinha, onde, apesar do<br \/>\nantigo ultraje, ele permanecia como um bicho num fruto, esfuracando e estragando&#8230;<br \/>\nE n\u00e3o duvidava da efic\u00e1cia do esc\u00e2ndalo! Toda a cidade<br \/>\nse revoltaria contra a Autoridade femeeira, que oprime, desterra um funcion\u00e1rio<br \/>\nadmir\u00e1vel &#8211; porque a irm\u00e3 do pobre senhor se recusou \u00e0<br \/>\nbaba dos seus beijos. E Gracinha?&#8230; Como resistiria Gracinha \u00e0quele<br \/>\ndesengano &#8211; o seu antigo Andr\u00e9 abrasado pela menina Noronha e por ela<br \/>\nrepelido com nojo e com mofa? Oh! o esc\u00e2ndalo era soberbo! S\u00f3<br \/>\nrestava que estalasse, bem ruidoso, sobre os telhados de Oliveira e sobre<br \/>\no peito de Gracinha como trov\u00e3o ben\u00e9fico que limpa ares corrompidos.<br \/>\nE desse trov\u00e3o, rolando por todo o Norte, se encarregava ele com del\u00edcia.<br \/>\nLibertava a cidade dum Governador detest\u00e1vel, Gracinha dum sonho errado.<br \/>\nE assim, com uma certeira penada, trabalhava pro patria et pro domo!<\/p>\n<p>Nos Cunhais correu ao quarto do Barrolo, que se vestia trauteando o Fado<br \/>\ndos Ramires, e gritou atrav\u00e9s da porta com uma decis\u00e3o flamejante:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te posso acompanhar \u00e0 Estevinha. Tenho que escrever urgentemente.<br \/>\nE n\u00e3o subas, n\u00e3o me perturbes. Necessito sossego!<\/p>\n<p>Nem atendeu aos protestos desolados com que o Barrolo acudira ao corredor,<br \/>\nem ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir rapidamente<br \/>\no casaco, de excitar a testa com um borrifo d&#8217;\u00e1gua-de-col\u00f4nia,<br \/>\nabancou \u00e0 mesa &#8211; onde Gracinha colocava sempre entre flores, para ele<br \/>\ntrabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao tio Melchior.<br \/>\nE sem emperrar, sem rascunhar, num desses soltos fluxos de Prosa que brotam<br \/>\nda paix\u00e3o, improvisou uma Correspond\u00eancia rancorosa para a Gazeta<br \/>\ndo Porto contra o Sr. Governador Civil. Logo o t\u00edtulo fulminava &#8211; Monstruoso<br \/>\natentado! Sem desvendar o nome da fam\u00edlia Noronha, contava miudamente,<br \/>\ncomo um ato certo e por ele testemunhado, &#8220;a tentativa viloa e baixa<br \/>\nda primeira Autoridade do Distrito contra a pudic\u00edcia, a paz de cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\na honra de uma doce rapariga de dezesseis primaveras!&#8221; Depois era a resist\u00eancia<br \/>\ndesdenhosa &#8211; &#8220;que a nobre crian\u00e7a opusera ao Don Juan administrativo,<br \/>\ncujos belos bigodes s\u00e3o o espanto dos povos!&#8221; Por fim vinha &#8211;<br \/>\n&#8220;a desforra torpe e sem nome que S. Exa. tomara sobre o zeloso empregado<br \/>\n(que \u00e9 tamb\u00e9m um talentoso artista), obtendo deste nefasto Governo<br \/>\nque fosse transferido, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a fam\u00edlia<br \/>\nde tr\u00eas delicadas senhoras, para os confins do Reino, para a mais \u00e1rida<br \/>\ne escassa das nossas Prov\u00edncias, por o n\u00e3o poder empacotar para<br \/>\na \u00c1frica no por\u00e3o s\u00f3rdido duma fragata!&#8221; Lan\u00e7ava<br \/>\nainda alguns rugidos sobre &#8220;a agonia pol\u00edtica de Portugal&#8221;.<br \/>\nCom pavor triste, recordava os piores tempos do Absolutismo, a inoc\u00eancia<br \/>\nsoterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Pr\u00edncipe sendo a express\u00e3o<br \/>\n\u00fanica da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria este seu<br \/>\nagente &#8211; &#8220;este grotesco Nero que, como outrora o outro, o grande, em<br \/>\nRoma, tentava levar a sedu\u00e7\u00e3o ao seio das fam\u00edlias melhores,<br \/>\ne cometia esses abusos de poder, motivados por lasc\u00edvias de temperamento,<br \/>\nque foram sempre, em todos os s\u00e9culos e todas as civiliza\u00e7\u00f5es,<br \/>\na execra\u00e7\u00e3o do justo!&#8221; &#8211; E assinava Juvenal.<\/p>\n<p>Eram quase seis horas quando desceu \u00e0 sala, ligeiro e resplandecente.<br \/>\nGracinha martelava o piano, estudando o Fado dos Ramires. E Barrolo (que n\u00e3o<br \/>\nse arriscara a um passeio solit\u00e1rio) folheava, estendido no canap\u00e9,<br \/>\numa famosa Hist\u00f3ria dos Crimes da Inquisi\u00e7\u00e3o que come\u00e7ara<br \/>\nainda em solteiro.<\/p>\n<p>&#8211; Estou a trabalhar desde as duas horas! &#8211; exclamou logo Gon\u00e7alo,<br \/>\nescancarando a janela. &#8211; Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz obra<br \/>\nde Justi\u00e7a&#8230; Desta vez o Sr. Andr\u00e9 Cavaleiro vai abaixo do<br \/>\nseu cavalo!<\/p>\n<p>Barrolo fechou imediatamente o livro, com o cotovelo nas almofadas, inquieto:<\/p>\n<p>&#8211; Houve alguma coisa?<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo, plantado diante dele, com um risinho suave, um risinho<br \/>\nferoz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! quase nada. Uma bagatela. Apenas uma inf\u00e2mia.. Mas para o nosso<br \/>\nGovernador Civil inf\u00e2mias s\u00e3o bagatelas.<\/p>\n<p>Sob os dedos de Gracinha o Fado dos Ramires esmoreceu, apenas ro\u00e7ado,<br \/>\nnum murm\u00fario incerto.<\/p>\n<p>O Barrolo esperava, esgazeado:<\/p>\n<p>&#8211; Desembucha!<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo desabafou, com estrondo:<\/p>\n<p>&#8211; Pois uma maroteira imensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha, perseguido,<br \/>\nespezinhado, expulso! Com a fam\u00edlia.. Para o inferno, para o Algarve!<\/p>\n<p>&#8211; O Noronha pagador?<\/p>\n<p>&#8211; O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!<\/p>\n<p>E, regaladamente, desenrolou a hist\u00f3ria lament\u00e1vel. O Sr. Andr\u00e9<br \/>\nCavaleiro namorad\u00edssimo, todo em chamas pela irm\u00e3 mais velha<br \/>\ndo Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estrupidos cada<br \/>\nmanh\u00e3 por diante da janela, a ladear na pileca! At\u00e9 lhe soltara,<br \/>\nao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira&#8230; E a rapariga, um anjo<br \/>\ncheio de dignidade, impass\u00edvel. Nem se revoltava, apenas se ria. Era<br \/>\numa tro\u00e7a em casa das Noronhas, ao ch\u00e1, com a leitura da versalhada<br \/>\nardente em que ele a tratava de &#8220;Ninfa, de estrela da tarde&#8230;&#8221;<br \/>\nEnfim, uma sordidez funambulesca!<\/p>\n<p>O pobre Fado dos Ramires debandou pelo teclado, num tumulto de gemidos desconcertados<br \/>\ne \u00e1speros.<\/p>\n<p>&#8211; E eu n\u00e3o ter ouvido nada! &#8211; murmurava o Barrolo, assombrado. &#8211; Nem<br \/>\nno Club, nem na Arcada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre Noronha.<br \/>\nArremessado para o fundo do Alentejo, para um sitio doentio, coalhado de p\u00e2ntanos.<br \/>\nE a morte&#8230; E uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte! A esta apari\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Morte, surgindo dos p\u00e2ntanos,<\/p>\n<p>Barrolo atirou uma palmada ao joelho, desconfiado:<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem diabo te contou tudo isso?<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desd\u00e9m, com piedade:<\/p>\n<p>&#8211; Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebasti\u00e3o morreu em Alc\u00e1cer-Quibir?&#8230;<br \/>\nS\u00e3o os fatos. \u00c9 a Hist\u00f3ria. Toda Oliveira sabe. Por acaso<br \/>\nainda esta manh\u00e3 o Guedes e eu conversamos sobre o caso. Mas eu j\u00e1<br \/>\nsabia!&#8230; E tenho tido pena. Que diabo! N\u00e3o h\u00e1 crime em se estar<br \/>\napaixonado como o pobre Andr\u00e9. Louco, perdido! At\u00e9 a chorar<br \/>\nna Reparti\u00e7\u00e3o, diante do Secret\u00e1rio-Geral. E a rapariga<br \/>\n\u00e0s gargalhadas!&#8230; Agora onde h\u00e1 crime, e horrendo, \u00e9<br \/>\nna persegui\u00e7\u00e3o ao irm\u00e3o, ao pagador, empregado excelente,<br \/>\nde um talento raro&#8230; E o dever de todo o homem de bem, que preze a dignidade<br \/>\nda Administra\u00e7\u00e3o e a dignidade dos costumes, \u00e9 denunciar<br \/>\na inf\u00e2mia&#8230; Eu, pela minha parte, cumpri esse bom dever. E com certo<br \/>\nbrilho, louvado Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Que fizeste?<\/p>\n<p>&#8211; Enterrei na ilharga do Sr. Governador Civil a minha boa pena de Toledo,<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 rama!<\/p>\n<p>O Barrolo, impressionado, beliscava a pele do pesco\u00e7o. O piano emudecera;<br \/>\nmas Gracinha n\u00e3o se movia do mocho, com os dedos entorpecidos nas teclas,<br \/>\ncomo esquecida diante da larga folha onde se enfileiravam, na letra apurada<br \/>\ndo Videirinha, as quadras triunfais dos Ramires. E subitamente Gon\u00e7alo<br \/>\nsentiu naquela imobilidade sufocada o despeito que a trespassava. Sensibilizado,<br \/>\npara a libertar, lhe poupar algum solu\u00e7o escapando irresistivelmente,<br \/>\ncorreu ao piano, bateu com carinho nos pobres ombros vergados que estremeceram:<\/p>\n<p>&#8211; Tu n\u00e3o d\u00e1s conta desse lindo fado, rapariga! Deixa, que eu<br \/>\nte cantarolo uma quadra, \u00e0 boa moda do Videirinha&#8230; Mas primeiramente<br \/>\ns\u00ea um anjo&#8230; Grita ai no corredor que me tragam um copo d&#8217;\u00e1gua<br \/>\nbem fresca do Po\u00e7o Velho.<\/p>\n<p>Ensaiou as teclas, entoou versos, ao acaso, num esfor\u00e7o esgani\u00e7ado:<\/p>\n<p>Ora na grande batalha,<br \/>\nQuatro Ramires valentes&#8230;<\/p>\n<p>Gracinha desaparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor. Ent\u00e3o<br \/>\no bom Barrolo, que diante da sua terrina da \u00cdndia enrolava um cigarro<br \/>\ncom pensativo cuidado, correu, desafogou, debru\u00e7ado sobre Gon\u00e7alo,<br \/>\nda certeza que lentamente o invadira:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, menino, sempre te digo&#8230; Essa irm\u00e3 do Noronha \u00e9 um<br \/>\nmulher\u00e3o soberbo! Mas o que eu n\u00e3o acredito \u00e9 que ela<br \/>\nse fizesse arisca. Com o Cavaleiro, bonito rapaz, Governador Civil?&#8230; N\u00e3o<br \/>\nacredito. O Cavaleiro saboreou!<\/p>\n<p>E com as bochechas luzidias de admira\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Aquele velhaco! Para cavalos e para mulheres n\u00e3o h\u00e1 outro,<br \/>\nem Oliveira!<\/p>\n<h3><a name=\"5\"><\/a>CAP\u00cdTULO V<\/h3>\n<p>A Gazeta do Porto, com a correspond\u00eancia vingadora, devia desabar sobre<br \/>\nOliveira na quarta-feira de manh\u00e3, dia dos anos da prima Maria Mendon\u00e7a.<br \/>\nMas Gon\u00e7alo, ainda que n\u00e3o temesse (ressalvado pelo seu pseud\u00f4nimo<br \/>\nde Juvenal) uma briga grosseira com o Cavaleiro nas ruas da Cidade, nem mesmo<br \/>\ncom algum dos seus partid\u00e1rios servis e fa\u00e7anhudos como o Marcolino<br \/>\ndo Independente &#8211; recolheu discretamente a Santa Iren\u00e9ia na ter\u00e7a-feira,<br \/>\na cavalo, acompanhado pelo Barrolo at\u00e9 a Vendinha, onde ambos provaram<br \/>\no vinho branco celebrado pelo Tit\u00f3. Depois, para recordar os lugares<br \/>\nmemor\u00e1veis em que na sua Novela se encontravam, com desastrado choque<br \/>\nde armas, Louren\u00e7o Ramires e o Bastardo de Bai\u00e3o, tomou o caminho<br \/>\nque, atravessando os pomares da espalhada aldeia de Canta-Pedra, entronca<br \/>\nna estrada dos Bravais.<\/p>\n<p>Num trote folgado passara a F\u00e1brica de Vidros, depois o Cruzeiro sempre<br \/>\ncoberto pelas pombas que esvoa\u00e7am do pombal da F\u00e1brica. E entrava<br \/>\nno lugar de Nacejas &#8211; quando, \u00e0 janela duma casinha muito limpa, rodeada<br \/>\nde parreiras, apareceu uma linda rapariga, morena e fina, com jaqu\u00e9<br \/>\nde pano azul e len\u00e7o de cambraieta bordada sobre fartos band\u00f3s<br \/>\nondeados. Gon\u00e7alo, sopeando a \u00e9gua, saudou, sorriu suavemente:<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, minha menina&#8230; Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?<\/p>\n<p>&#8211; Vai, sim senhor. Embaixo, \u00e0 ponte, mete para a direita, para os<br \/>\n\u00e1lamos. E \u00e9 sempre a seguir&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo suspirou, gracejando:<\/p>\n<p>&#8211; Antes desejava ficar!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para gozar a fina<br \/>\nface morena, entre os dois craveiros da janelinha, na casa t\u00e3o bem<br \/>\ncaiada.<\/p>\n<p>Nesse momento, ao lado, duma quelha enramada, desembocava um ca\u00e7ador<br \/>\ndo campo, de jaleca e barrete vermelho, com a espingarda atravessada nas costas,<br \/>\nseguido por dois perdigueiros. Era um latag\u00e3o airoso, que todo ele,<br \/>\nno bater dos sapat\u00f5es brancos, no menear da cinta enfaixada em seda,<br \/>\nno levantar da face clara de su\u00ed\u00e7as louras, transbordava de<br \/>\npresun\u00e7\u00e3o e pimponice. Num relance surpreendeu o sorriso, a<br \/>\naten\u00e7\u00e3o galante do Fidalgo. E estacou, pregando sobre ele, com<br \/>\nlenta arrog\u00e2ncia, os belos olhos pestanudos. Depois passou desdenhosamente,<br \/>\nsem se arredar da \u00e9gua na ladeira estreita, quase raspando pela perna<br \/>\ndo Fidalgo o cano da ca\u00e7adeira. Mas adiante ainda atirou uma tossidela<br \/>\nseca e de chasco com um bater mais petulante dos tac\u00f5es.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo picou a \u00e9gua, colhido logo por aquele desgra\u00e7ado<br \/>\ntemor, aquele desmaiado arrepio da carne, que sempre, ante qualquer risco,<br \/>\nqualquer amea\u00e7a, o for\u00e7ava irresistivelmente a encolher, a recuar,<br \/>\na abalar. Embaixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez, deteve o trote,<br \/>\nespreitou para tr\u00e1s, para a branca casa florida. O mocet\u00e3o parara,<br \/>\nencostado \u00e0 espingarda, sob a janela onde a rapariga morena se debru\u00e7ava<br \/>\nentre os dois vasos de cravos. E assim encostado, depois de rir para a mo\u00e7a,<br \/>\nacenou ao Fidalgo, num desafio largo, com a cabe\u00e7a alta, a borla do<br \/>\nbarrete toda espetada como uma crista flamante.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Mendes Ramires meteu a galope pelo copado caminho de \u00e1lamos<br \/>\nque acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se demorou a estudar<br \/>\n(como tencionava para proveito da sua Novela) o vale, a ribeira espraiada,<br \/>\nas ru\u00ednas do Mosteiro de Recad\u00e3es sobre a colina, e no cabe\u00e7o<br \/>\nfronteiro o moinho que assenta sobre as denegridas pedras da antiga e t\u00e3o<br \/>\nfalada Honra de Avel\u00e3s. De resto o c\u00e9u, cinzento e abafado desde<br \/>\nmanh\u00e3, entenebrecia para os lados de Craquede e de Vila-Clara. Um bafo<br \/>\nmorno remexeu a folhagem sedenta. E j\u00e1 gotas pesadas se esmagavam na<br \/>\npoeira &#8211; quando ele, sempre galopando, entrou na estrada dos Bravais.<\/p>\n<p>Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota ansiava por saber<br \/>\n&#8220;se essa Torre de D. Ramires se erguia enfim para honra das letras, como<br \/>\na outra, a genu\u00edna, se erguera outrora, em s\u00e9culos mais ditosos,<br \/>\npara orgulho das armas&#8221;. E acrescentava num Post Scriptum &#8211; &#8220;Planeio<br \/>\nimensos cartazes, pregados a cada esquina de cada cidade de Portugal, anunciando<br \/>\nem letras de c\u00f4vado a apari\u00e7\u00e3o salvadora dos Anais! E,<br \/>\ncomo tenciono prometer neles aos povos a sua preciosa Novelazinha, desejo<br \/>\nque o amigo Gon\u00e7alo me informe se ela tem, \u00e0 moda de 1830, um<br \/>\nsaboroso subt\u00edtulo, como Epis\u00f3dios do s\u00e9culo XII, ou<br \/>\nCr\u00f4nica do Reinado de Afonso II, ou Cenas da Meia-Idade Portuguesa&#8230;<br \/>\nEu voto pelo subt\u00edtulo. Como o subsolo num edif\u00edcio, o subt\u00edtulo<br \/>\nnum livro alteia e d\u00e1 solidez. \u00c0 obra, pois, meu Ramires, com<br \/>\nessa sua imagina\u00e7\u00e3o ferac\u00edssima!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Esta inven\u00e7\u00e3o de imensos cartazes, com o seu nome e o t\u00edtulo<br \/>\nda sua Novela em letras de cores estridentes, enchendo cada esquina de Portugal,<br \/>\ndeleitou o Fidalgo. E logo nessa noite, ao rumor da chuva densa que estalava<br \/>\nna folhagem dos limoeiros, retomou o seu manuscrito, parado nas primeiras<br \/>\nlinhas, amplas e sonoras, do Cap\u00edtulo II&#8230;<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s delas, e na frescura da madrugada, Louren\u00e7o Mendes<br \/>\nRamires, com o tro\u00e7o de Cavaleiros e peonagem da sua merc\u00ea, corria<br \/>\nsobre Montemor em socorro das senhoras Infantas. Mas, ao penetrar no vale<br \/>\nde Canta-Pedra, eis que o esfor\u00e7ado filho de Tructesindo avista a mesnada<br \/>\ndo Bastardo de Bai\u00e3o, esperando desde alva (como anunciara Mendo Pais)<br \/>\npara tolher a passagem. E ent\u00e3o, nesta sombria Novela de sangue e homizios,<br \/>\nbrotava inesperadamente, como uma rosa na fenda dum basti\u00e3o, um lance<br \/>\nde amor, que o tio Duarte cantara no Bardo com dolente eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Lopo de Bal\u00e3o, cuja beleza loura de Fidalgo godo era t\u00e3o celebrada<br \/>\npor toda a terra de Entre-Minho e Douro que lhe chamavam o Claro-Sol, amara<br \/>\narrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de Tructesindo Ramires. Em<br \/>\ndia de S. Jo\u00e3o, no solar de Lanhoso, onde se celebravam lides de touros<br \/>\ne jogos de tavolagem, conhecera ele a donzela espl\u00eandida, que o tio<br \/>\nDuarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado encanto:<\/p>\n<p>Que l\u00edquido fulgor dos negros olhos!<br \/>\nQue fartas tran\u00e7as de lustroso \u00e9bano!<\/p>\n<p>E ela, certamente, rendera tamb\u00e9m O cora\u00e7\u00e3o \u00e0quele<br \/>\nmo\u00e7o resplandecente e cor de ouro, que, nessa tarde de festa, arremessando<br \/>\no roj\u00e3o contra os touros, ganhara duas faixas bordadas pela nobre dona<br \/>\nde Lanhoso &#8211; e \u00e0 noite, no sarau, se requebrara com t\u00e3o repicado<br \/>\ngarbo na dan\u00e7a dos Marchatins&#8230; Mas Lopo era bastardo, dessa ra\u00e7a<br \/>\nde Bai\u00e3o, inimiga dos Ramires por velh\u00edssimas brigas de terras<br \/>\ne preced\u00eancias desde o Conde D. Henrique &#8211; ainda assanhadas depois,<br \/>\ndurante as contendas de D. Tareja e de Afonso Henriques, quando na c\u00faria<br \/>\ndos Bar\u00f5es, em Guimar\u00e3es, Mendo de Bai\u00e3o, bandeado com<br \/>\no Conde de Trava, e Ramires o Cortador cola\u00e7o do mo\u00e7o Infante,<br \/>\nse arrojaram \u00e0s faces os guantes ferrados. E, fiel ao \u00f3dio secular,<br \/>\nTructesindo Ramires recusara com \u00e1spera arrog\u00e2ncia a m\u00e3o<br \/>\nde Violante ao mais velho dos de Bai\u00e3o, um dos valentes de Silves,<br \/>\nque pelo Natal, na Alc\u00e1\u00e7ova de Sta Iren\u00e9ia, lha pedira<br \/>\npara Lopo, seu sobrinho, o Claro-Sol, oferecendo aven\u00e7as quase submissas<br \/>\nde alian\u00e7a e doce paz. Este ultraje revoltara o solar de Bai\u00e3o<br \/>\n&#8211; que se honrava em Lopo, apesar de bastardo, pelo lustre da sua bravura e<br \/>\ngra\u00e7a galante. E ent\u00e3o Lopo, ferido doridamente no seu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmais furiosamente no seu orgulho, para fartar o esfaimado desejo, para infamar<br \/>\no claro nome dos Ramires &#8211; tentou raptar D. Violante. Era na primavera, com<br \/>\ntodas as veigas do Mondego j\u00e1 verdes. A donosa senhora, entre alguns<br \/>\nescudeiros da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de Lorv\u00e3o,<br \/>\nonde sua tia D. Branca era abadessa&#8230; Languidamente, no Bardo, descantara<br \/>\no tio Duarte o rom\u00e2ntico lance:<\/p>\n<p>Junto \u00e0 fonte mourisca, entre os olmeiros,<br \/>\nA cavalgadura p\u00e1ra&#8230;<\/p>\n<p>E junto aos olmeiros da fonte surgira o Claro-Sol &#8211; que, com os seus, espreitava<br \/>\nde um cabe\u00e7o! Mas, logo no come\u00e7o da curta briga, um primo de<br \/>\nD. Violante, o agigantado senhor dos Pa\u00e7os de Avelim, o desarmou, o<br \/>\nmanteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua adaga. E com vida<br \/>\nperdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou entre os poucos solarengos<br \/>\nque o acompanhavam nesta afoita arremetida. Desde ent\u00e3o mais fero ardera<br \/>\no rancor entre os de Bai\u00e3o e os Ramires. E eis agora, nesse come\u00e7o<br \/>\nda Guerra das Infantas, os dois inimigos rosto a rosto no vale estreito de<br \/>\nCanta-Pedra! Lopo com um bando de trinta lan\u00e7as e mais de cem besteiros<br \/>\nda Hoste Real. Louren\u00e7o Mendes Ramires com quinze Cavaleiros e noventa<br \/>\nhomens de p\u00e9 do seu pend\u00e3o.<\/p>\n<p>Agosto findava: e o demorado estio amarelecera toda a relva, as pastagens<br \/>\nfamosas do vale, at\u00e9 a folhagem de amieiros e freixos pela beira do<br \/>\nriacho das Donas que se arrastava entre as pedras lustrosas, em fios escassos,<br \/>\ncom dormido murm\u00fario. Sobre um outeiro, dos lados de Ramilde, avultava,<br \/>\nentre possantes ru\u00ednas eri\u00e7adas de sar\u00e7as, a denegrida<br \/>\nTorre Redonda, resto da velha Honra de Avel\u00e3s, incendiada durante as<br \/>\ncruas rixas dos de Sa\u00edzedas e dos de Landim, e agora habitada pela<br \/>\nalma gemente de Guiomar de Landim, a Mal-casada. No cabe\u00e7o fronteiro<br \/>\ne mais alto, dominando o vale, o mosteiro de Recad\u00e2es estendia as suas<br \/>\ncantarias novas, com o forte torre\u00e3o, asseteado como o duma fortaleza<br \/>\n&#8211; donde os monges se debru\u00e7avam, espreitando, inquietos com aquele<br \/>\ncoriscar de armas que desde alva enchia o vale. E o mesmo temor acossara as<br \/>\naldeias chegadas &#8211; porque, sobre a crista das colinas, se apressavam para<br \/>\no santo e murado ref\u00fagio do convento gentes com trouxas, carros toldados,<br \/>\nmagras filas de gados.<\/p>\n<p>Ao avistar t\u00e3o rijo tro\u00e7o de Cavaleiros e pe\u00f5es, espalhado<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 beira do riacho por entre a sombra dos freixos, Louren\u00e7o<br \/>\nRamires sofreou, susteve a leva, junto dum mont\u00e3o de pedras onde apodrecia,<br \/>\nencravada, uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que largara r\u00e9deas<br \/>\nsoltas, estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada &#8211; logo voltou,<br \/>\nsem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o homens de Bai\u00e3o e da Hoste Real! &#8211;<\/p>\n<p>Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado Ramires<br \/>\nn\u00e3o duvidou avan\u00e7ar, travar peleja. Sozinho que assomasse ao<br \/>\nvale, com uma quebradi\u00e7a lan\u00e7a de monte, arremeteria contra<br \/>\ntodo o arraial do Bastardo&#8230; &#8211; No entanto j\u00e1 o Adail de Bai\u00e3o<br \/>\nse adiantara, curveteando no rosilho magro, com a espada atravessada por cima<br \/>\ndo morri\u00e3o que penas de gar\u00e7a emplumavam. E pregoava, atroava<br \/>\no vale com o rouco preg\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Deter, deter! que n\u00e3o h\u00e1 passagem! E o nobre senhor de Bai\u00e3o,<br \/>\nem recado de El-Rei e por merc\u00ea de Sua Senhoria, vos guarda vidas salvas<br \/>\nse volverdes costas sem rumor e tardan\u00e7a!<\/p>\n<p>Louren\u00e7o Ramires gritou:<\/p>\n<p>&#8211; A ele, besteiros!<\/p>\n<p>Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos Cavaleiros de Santa Iren\u00e9ia<br \/>\ntropeou para dentro do vale, de lan\u00e7as ristadas. E o filho de Tructesindo,<br \/>\nerguido nos estrib\u00f5es de ferro, debaixo do pano solto do seu pend\u00e3o<br \/>\nque apressadamente o Alferes sacara da funda, descerrou a viseira do casco<br \/>\npara que lhe mirassem bem a face destemida, e lan\u00e7ou ao Bastardo inj\u00farias<br \/>\nde furioso orgulho:<\/p>\n<p>&#8211; Chama outros tantos dos vil\u00f5es que te seguem que, por sobre eles<br \/>\ne por sobre ti, chegarei esta noite a Montemor!<\/p>\n<p>E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rede de malha cobria, toda acairelada<br \/>\nde ouro, atirava a m\u00e3o cal\u00e7ada de ferro, clamava:<\/p>\n<p>&#8211; Para tr\u00e1s, donde vieste, voltar\u00e1s, burl\u00e3o traidor,<br \/>\nse eu por merc\u00ea mandar a teu pai o teu corpo numas andas!<\/p>\n<p>Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no Poemeto<br \/>\ndo tio Duarte. E depois de os refor\u00e7ar, Gon\u00e7alo Mendes Ramires<br \/>\n(sentindo a alma enfunada pelo hero\u00edsmo da sua ra\u00e7a como por<br \/>\num vento que sopra de funda campina) arrojou um contra o outro os dois bandos<br \/>\nvalorosos. Grande briga, grande grita&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ala! Ala!<\/p>\n<p>&#8211; Rompe! Rompe!<\/p>\n<p>&#8211; Cerra por Bai\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Casca pelos Ramires!<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da grossa poeirada e do alevanto zunem os garruch\u00f5es,<br \/>\nas rudes balas de barro despedidas das fundas. Almograves de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\nalmograves da Hoste Real, em turmas ligeiras, carregam, topam, com baralhado<br \/>\narremesso de ascumas que se partem, de dardos que se cravam; e ambas logo<br \/>\nrefogem, refluem enquanto, no ch\u00e3o revolto, algum mal ferido estrebucha<br \/>\naos urros, e os atordoados cambaleando buscam, sob o abrigo do arvoredo, a<br \/>\nfresquid\u00e3o do riacho. Ao meio, no embate mais nobre da peleja, por<br \/>\ncima dos corc\u00e9is que se empinam, arfando ao peso das coberturas de<br \/>\nmalha, as lisas pranchas dos montantes lampejam, retinem, embebidas nas chapas<br \/>\ndos broqu\u00e9is; e j\u00e1, dos altos ar\u00e7\u00f5es de couro<br \/>\nvermelho, desaba algum hirto e chapeado senhor, com um baque de ferragens<br \/>\nsobre a terra mole. Cavaleiros e infan\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, como<br \/>\nnum torneio, apenas ter\u00e7am lan\u00e7as para se derribarem, abolados<br \/>\nos arneses, com clamores de excitada ufania; e sobre a vilanagem contr\u00e1ria,<br \/>\nem quem cevam o furor da matan\u00e7a, se abatem os seus espad\u00f5es,<br \/>\nse despenham as suas achas, esmigalhando os cascos de ferro como bilhas de<br \/>\ngreda.<\/p>\n<p>Por entre a peonagem de Bai\u00e3o e da Hoste Real Louren\u00e7o Ramires<br \/>\navan\u00e7a mais levemente que ceifeiro apressado entre erva tenra. A cada<br \/>\narranque do seu rijo murzelo, alagado de espuma, que sacode furiosamente a<br \/>\ntesteira rostrada &#8211; sempre, entre pragas ou gritos por Jesus!, um peito verga<br \/>\ntrespassado, bra\u00e7os se retorcem em agonia. Todo o seu af\u00e3 era<br \/>\nchocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, t\u00e3o arremessado e afrontador<br \/>\nem combate, n\u00e3o se arredara nessa manh\u00e3 da lomba do outeiro<br \/>\nonde uma fila de lan\u00e7as o guardava, como uma estacada; e com brados,<br \/>\nn\u00e3o com golpes, aquentava a lide! No ardor desesperado de romper a<br \/>\nviva cerca Louren\u00e7o gastava as for\u00e7as, berrando roucamente pelo<br \/>\nBastardo com os duros ultrajes de churdo! e marrano! J\u00e1 dentre a trama<br \/>\nfalseada do camalho lhe borbulhavam do ombro, pela loriga, fios lentos de<br \/>\nsangue. Um lan\u00e7o de virot\u00e3o, que lhe partira as charneiras da<br \/>\ngreva esquerda, fendera a perna donde mais sangue brotava, ensopando o forro<br \/>\nde estopa. Depois, varado por uma frecha na anca, o seu grande ginete abateu,<br \/>\nrolou, estalando no escoucear as cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos loros<br \/>\ncom um salto, Louren\u00e7o Ramires encontrou em roda uma sebe eri\u00e7ada<br \/>\nde espadas e chu\u00e7os, que o cerraram &#8211; enquanto do outeiro, debru\u00e7ado<br \/>\nna sela, o Bastardo bramava:<\/p>\n<p>&#8211; Tende! tende! para que o colhais \u00e0s m\u00e3os!<\/p>\n<p>Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de ferro,<br \/>\no valente mo\u00e7o arremete, a golpes arquejados, contra as pontas luzentes<br \/>\nque recuam, se furtam&#8230; E, triunfantes, redobram os gritos de Lopo de Bai\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Vivo, vivo! tomade-lo vivo!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, se me restar alma, vil\u00e3o! &#8211; rugia Louren\u00e7o.<\/p>\n<p>E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no bra\u00e7o<br \/>\n&#8211; que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando, presa ainda ao punho<br \/>\npelo grilh\u00e3o, mas sem mais servir que uma roca. Num relance ficou agarrado<br \/>\npor pe\u00f5es que lhe filavam a gorja, enquanto outros com varadas de ascuma<br \/>\nlhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim direito como um madeiro;<br \/>\ne nas cordas com que logo o amarraram, jazeu hirto, sem elmo, sem cervilheira,<br \/>\nos olhos duramente cerrados, os cabelos presos numa pasta de poeira e de sangue.<\/p>\n<p>Eis pois cativo Louren\u00e7o Ramires! E, diante das andas feitas de ramos<br \/>\ne fran\u00e7as de faias em que O estenderam, depois de o borrifarem \u00e0<br \/>\npressa com a \u00e1gua fresca do riacho &#8211; o Bastardo, limpando \u00e0s<br \/>\ncostas da m\u00e3o o suor que lhe escorria pela face formosa, pelas barbas<br \/>\ndouradas, murmurava, comovido:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Louren\u00e7o, Louren\u00e7o, grande dor, que bem pud\u00e9ramos<br \/>\nser irm\u00e3os e amigos!<\/p>\n<p>Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott, por not\u00edcias do<br \/>\nPanorama, compusera Gon\u00e7alo a mal-aventurada lide de Canta-Pedra. E<br \/>\ncom este desabafo de Lopo, onde perpassava a m\u00e1goa do amor vedado,<br \/>\nfechou o Cap. II, sobre que labutara tr\u00eas dias &#8211; t\u00e3o embrenhadamente<br \/>\nque em torno o Mundo como que se calara e se fundira em penumbra.<\/p>\n<p>Uma gir\u00e2ndola de foguetes estoirou ao longe, para o lado dos Bravais,<br \/>\nonde no domingo se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias. Depois<br \/>\nda chuva daqueles tr\u00eas dias, uma frescura descia do c\u00e9u amaciado<br \/>\ne lavado sobre as campos mais verdes. E como ainda restava meia hora farta<br \/>\nantes de jantar, o Fidalgo agarrou o chap\u00e9u, e mesmo na sua velha quinzena<br \/>\nde trabalho, com uma bengalinha de cana, desceu \u00e0 estrada, tomou pelo<br \/>\ncaminho que se estreita entre o muro da Torre e as terras de centeio onde<br \/>\nassentavam no s\u00e9culo XII as barbac\u00e3s da Honra de Santa Iren\u00e9ia.<\/p>\n<p>Pela silenciosa vereda, ainda \u00famida, Gon\u00e7alo pensava nos seus<br \/>\nav\u00f3s formid\u00e1veis. Como eles ressurgiam, na sua Novela, s\u00f3lidos<br \/>\ne ressoantes! E realmente uma compreens\u00e3o t\u00e3o segura daquelas<br \/>\nalmas Afonsinas mostrava que a sua alma conservava o mesmo quilate e sa\u00edra<br \/>\ndo mesmo rico bloco de ouro. Porque um cora\u00e7\u00e3o mole, ou degenerado,<br \/>\nn\u00e3o saberia narrar cora\u00e7\u00f5es t\u00e3o fortes, de eras<br \/>\nt\u00e3o fortes &#8211; e nunca o bom Manuel Duarte ou o Barrolo excelente entenderiam,<br \/>\nbastante para lhes reconstruir os altos esp\u00edritos, Martim de Freitas<br \/>\nou Afonso de Albuquerque&#8230; Nesta fina verdade desejaria ele que os cr\u00edticos<br \/>\ninsistissem ao estudar depois a Torre de D. Ramires &#8211; pois que o Castanheiro<br \/>\nlhe assegurara artigos consider\u00e1veis nas Novidades e na Manh\u00e3.<br \/>\nSim! eis o que convinha marcar com relevo (e ele o lembraria ao Castanheiro!)<br \/>\n&#8211; que os Ricos-homens de Santa Iren\u00e9ia reviviam no seu neto, se n\u00e3o<br \/>\npela continua\u00e7\u00e3o her\u00f3ica das mesmas fa\u00e7anhas,<br \/>\npela mesma alevantada compreens\u00e3o do hero\u00edsmo&#8230; Que diabo!<br \/>\nsob o reinado do horrendo S. Fulg\u00eancio ele n\u00e3o podia desmantelar<br \/>\no solar de Bai\u00e3o, desmantelado h\u00e1 seiscentos anos por seu av\u00f4<br \/>\nLeonel Ramires &#8211; nem retomar aos Mouros essa torreada Monforte onde o Antoninho<br \/>\nMoreno era o l\u00e2nguido Governador Civil! Mas sentia a grandeza e o pr\u00e9stimo<br \/>\nhist\u00f3rico desse arrojo que outrora impelia os seus a arrasar Solares<br \/>\nrivais, a escalar Vilas mouriscas; ressuscitava pelo Saber e pela Arte, arrojava<br \/>\npara a vida ambiente esses var\u00f5es temerosos, com os seus cora\u00e7\u00f5es,<br \/>\nos seus trajes, as suas imensas cutiladas, as suas bravatas sublimes; dentro<br \/>\ndo esp\u00edrito e das express\u00f5es do seu S\u00e9culo era pois um<br \/>\nbom Ramires &#8211; um Ramires de nobres energias, n\u00e3o fa\u00e7anhudas,<br \/>\nmas intelectuais, como competia numa Idade de intelectual descanso. E os jornais,<br \/>\nque tanto motejam a decad\u00eancia dos Fidalgos de Portugal, deveriam em<br \/>\njusti\u00e7a afirmar (e ele o lembraria ao Castanheiro!): -&#8220;Eis a\u00ed<br \/>\num, e o maior, que, com as formas e os modos do seu tempo, continua e honra<br \/>\na sua ra\u00e7a!&#8221;<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s destes pensamentos, que mais lhe enrijavam as passadas sobre<br \/>\nch\u00e3o t\u00e3o calcado pelos seus &#8211; o Fidalgo da Torre chegara \u00e0<br \/>\nesquina do muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide<br \/>\ndo pinheiral e da mata. Do port\u00e3o nobre, que outrora se erguera nesse<br \/>\nrecanto com lavores e bras\u00e3o de armas, restam apenas os dois umbrais<br \/>\nde granito, amarelados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancela de<br \/>\nt\u00e1buas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos anos. E nesse momento,<br \/>\nda azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregada de mato, um<br \/>\ncarro de bois, que uma linda boeirinha guiava<\/p>\n<p>&#8211; Nosso Senhor lhe d\u00ea muito boas-tardes!<\/p>\n<p>&#8211; Boas-tardes, florzinha!<\/p>\n<p>O carro lento passou. E logo atr\u00e1s surgiu um homem, esgrouviado e<br \/>\nescuro, trazendo ao ombro O cajado, donde pendia um molho de cordas.<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre reconheceu o Jos\u00e9 Casco dos Bravais. E seguia,<br \/>\ncomo desatento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha<br \/>\nas silvas floridas do valado. O outro por\u00e9m estugou o passo esgalgado,<br \/>\nlan\u00e7ou duramente, no sil\u00eancio do arvoredo e da tarde, o nome<br \/>\ndo Fidalgo. Ent\u00e3o, com um pulo do cora\u00e7\u00e3o, Gon\u00e7alo<br \/>\nMendes Ramires parou, for\u00e7ando um sorriso af\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1! \u00c9 voc\u00ea, Jos\u00e9! Ent\u00e3o que temos?<\/p>\n<p>O Casco engasgara, com as costelas a arfar sob a encardida camisa de trabalho.<br \/>\nPor fim, desenfiando das cordas o marmeleiro que cravou no ch\u00e3o pela<br \/>\nchoupa:<\/p>\n<p>&#8211; Temos que eu falei sempre claro com o Fidalgo, e n\u00e3o era para que<br \/>\ndepois me faltasse \u00e0 palavra!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Ramires levantou a cabe\u00e7a com uma dignidade lenta e<br \/>\ncustosa &#8211; como se levantasse uma ma\u00e7a de ferro:<\/p>\n<p>&#8211; Que est\u00e1 voc\u00ea a dizer, Casco? Faltar \u00e0 palavra! em<br \/>\nque lhe faltei eu \u00e0 palavra?&#8230; Por causa do arrendamento da Torre?<br \/>\nEssa \u00e9 nova! Ent\u00e3o houve por acaso escritura assinada entre<br \/>\nn\u00f3s? Voc\u00ea n\u00e3o voltou, n\u00e3o apareceu&#8230;<\/p>\n<p>O Casco emudecera, assombrado. Depois, com uma c\u00f3lera em que lhe tremiam<br \/>\nos bei\u00e7os brancos, lhe tremiam as secas m\u00e3os cabeludas, fincadas<br \/>\nao cabo do varapau:<\/p>\n<p>&#8211; Se houvesse papel assinado o Fidalgo n\u00e3o podia recuar!&#8230; Mas era<br \/>\ncomo se houvesse, para gente de bem!&#8230; At\u00e9 V. Sra. disse, quando eu<br \/>\naceitei: &#8220;viva! est\u00e1 tratado!&#8221; O Fidalgo deu a sua palavra!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, enfiado, aparentou a paci\u00eancia dum senhor ben\u00e9volo:<\/p>\n<p>&#8211; Escute, Jos\u00e9 Casco. Aqui n\u00e3o \u00e9 lugar, na estrada.<br \/>\nSe quer conversar comigo apare\u00e7a na Torre. Eu l\u00e1 estou sempre,<br \/>\ncomo voc\u00ea sabe, de manh\u00e3&#8230; V\u00e1 amanh\u00e3, n\u00e3o<br \/>\nme incomoda.<\/p>\n<p>E endireitava para O pinhal, com as pernas moles, um suor arrepiado na espinha<br \/>\n&#8211; quando o Casco, num rodeio, num salto leve, atrevidamente se lhe plantou<br \/>\ndiante, atravessando o cajado:<\/p>\n<p>&#8211; O Fidalgo h\u00e1-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!&#8230;<br \/>\nA mim n\u00e3o se me fazem dessas desfeitas&#8230; O Fidalgo deu a sua palavra!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo relanceou esgazeadamente em redor, na \u00e2nsia dum socorro.<br \/>\nS\u00f3 o cercava solid\u00e3o, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara<br \/>\nsob um resto de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas<br \/>\naltas dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos<br \/>\nj\u00e1 se adensava sombra e n\u00e9voa. Ent\u00e3o, estarrecido, Gon\u00e7alo<br \/>\ntentou um ref\u00fagio na id\u00e9ia de Justi\u00e7a e de Lei, que aterra<br \/>\nos homens do campo. E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os<br \/>\nbei\u00e7os ressequidos e tr\u00eamulos:<\/p>\n<p>&#8211; Escute, Casco, escute, homem! As coisas n\u00e3o se arranjam assim, a<br \/>\ngritar. Pode haver desgosto, aparecer o Regedor. Depois \u00e9 o tribunal,<br \/>\n\u00e9 a cadeia. E voc\u00ea tem mulher, tem filhos pequenos&#8230; Escute!<br \/>\nSe descobriu motivo para se queixar, v\u00e1 \u00e0 Torre, conversamos.<br \/>\nPacatamente tudo se esclarece, homem&#8230; Com berros, n\u00e3o! Vem o cabo,<br \/>\nvem a enxovia&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o de repente o Casco cresceu todo, no solit\u00e1rio caminho,<br \/>\nnegro e alto como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados,<br \/>\nquase sangrentos:<\/p>\n<p>&#8211; Pois o Fidalgo ainda me amea\u00e7a com a justi\u00e7a!&#8230; Pois ainda<br \/>\npor cima de me fazer a maroteira me amea\u00e7a com a cadeia!&#8230; Ent\u00e3o,<br \/>\ncom os diabos! primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses<br \/>\nossos!&#8230;<\/p>\n<p>Erguera o cajado&#8230; &#8211; Mas, num lampejo de raz\u00e3o e respeito, ainda<br \/>\ngritou, com a cabe\u00e7a a tremer para tr\u00e1s, atrav\u00e9s dos<br \/>\ndentes cerrados:<\/p>\n<p>&#8211; Fuja, Fidalgo, que me perco!&#8230; Fuja que o mato e me perco!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Mendes Ramires correu \u00e0 cancela entalada nos velhos<br \/>\numbrais de granito, pulou por sobre as t\u00e1buas mal pregadas, enfiou<br \/>\npela latada que orla o muro, numa carreira furiosa de lebre acossada! Ao fim<br \/>\nda vinha, junto aos milheirais, uma figueira brava, densa em folha, alastrara<br \/>\ndentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado. Nesse esconderijo<br \/>\nde rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando. O crep\u00fasculo<br \/>\ndescera sobre os campos &#8211; e com ele uma serenidade em que adormeciam frondes<br \/>\ne relvas. Afoutado pelo sil\u00eancio, pelo sossego, Gon\u00e7alo abandonou<br \/>\no cerrado abrigo, recome\u00e7ou a correr, num correr manso, na ponta das<br \/>\nbotas brancas, sobre o ch\u00e3o mole das chuvadas, at\u00e9 o muro da<br \/>\nM\u00e3e d&#8217;\u00c1gua. De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever,<br \/>\nlonge, \u00e0 orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas<br \/>\nde camisa, atirou um berro ansioso: &#8211; &#8220;Oh! Ricardo! Oh! Manuel! Eh l\u00e1!<br \/>\nalgu\u00e9m! Vai a\u00ed algu\u00e9m&#8230;? &#8211; A mancha indecisa fundira<br \/>\nna indecisa folhagem. Uma r\u00e3 pinchou num regueiro. Estremecendo, Gon\u00e7alo<br \/>\nretomou a carreira at\u00e9 o canto do pomar &#8211; onde encontrou fechada uma<br \/>\nporta, velha porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso,<br \/>\natirou contra ela os ombros que o terror enrijara como trancas. Duas t\u00e1buas<br \/>\ncederam, ele furou atrav\u00e9s, esgar\u00e7ando a quinzena num prego.<br \/>\n&#8211; E respirou enfim no agasalho do pomar murado, diante das varandas da casa<br \/>\nabertas \u00e0 frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra e<br \/>\nde mil anos, mais negra e como mais carregada de anos contra a macia claridade<br \/>\nda lua nova que subia.<\/p>\n<p>Com o chap\u00e9u na m\u00e3o, enxugando o suor, entrou na horta, costeou<br \/>\no feijoal. E agora subitamente sentia uma c\u00f3lera amarga pelo desamparo<br \/>\nem que se encontrara, numa quinta t\u00e3o povoada, enxameando de gentes<br \/>\ne dependentes! Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando ele gritara, t\u00e3o<br \/>\naflito, da borda da M\u00e3e d&#8217;\u00c1gua! De cinco criados nenhum acudira<br \/>\n&#8211; e ele perdido, ali, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois<br \/>\nhomens corressem com paus ou enxadas &#8211; e ainda colhiam o Casco na estrada,<br \/>\no malhavam como uma espiga.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 do galinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou<br \/>\no p\u00e1tio para a porta alumiada da cozinha. Dois mo\u00e7os da horta,<br \/>\na filha da Cr\u00edspola, a Rosa, tagarelavam, regaladamente sentados num<br \/>\nbanco de pedra, sob a fresca escurid\u00e3o da latada. Dentro o lume estralejava<br \/>\n&#8211; e a panela do caldo, fervendo, rescendia. Toda a c\u00f3lera do Fidalgo<br \/>\nrompeu:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, que sarau \u00e9 este? Voc\u00eas n\u00e3o me ouviram<br \/>\nchamar?&#8230; Pois encontrei l\u00e1 embaixo, ao p\u00e9 do pinheiral, um<br \/>\nb\u00eabedo, que me n\u00e3o conheceu, veio para mim com uma foice!&#8230;<br \/>\nFelizmente levava a bengala. E chamo, grito&#8230; Qual! Tudo aqui de palestra,<br \/>\ne a ceia a cozer! Que desaforo! Outra vez que suceda, todos para a rua&#8230;<br \/>\nE quem resmungar, a cacete!<\/p>\n<p>A sua face chamejava, alta e valente. A pequena da Cr\u00edspola logo se<br \/>\nescapulira, encolhida, para a recanto da cozinha, para tr\u00e1s da masseira.<br \/>\nOs dois mo\u00e7os, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento.<br \/>\nE enquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamenta\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre &#8220;desgra\u00e7as que assim se armam!&#8221; &#8211; Gon\u00e7alo, deleitado<br \/>\npela submiss\u00e3o dos dois homens, ambos t\u00e3o rijos, com t\u00e3o<br \/>\ngrossos varapaus encostados \u00e0 parede, amansava:<\/p>\n<p>&#8211; Realmente! sois todos surdos, nesta pobre casa!&#8230; Al\u00e9m disso a<br \/>\nporta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurr\u00e3o. Ficou em peda\u00e7os.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um dos mo\u00e7os, o mais alentado, ruivo, com um queixo de<br \/>\ncavalo, pensando que o Fidalgo censurava a frouxid\u00e3o da porta pouco<br \/>\ncuidada, co\u00e7ou a cabe\u00e7a, numa desculpa:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, com perd\u00e3o do Fidalgo!&#8230; Mas j\u00e1 depois da sa\u00edda<br \/>\ndo Relho se lhe p\u00f4s uma travessa e fechadura nova&#8230; E valente!<\/p>\n<p>&#8211; Qual fechadura! &#8211; gritou o Fidalgo soberbamente. &#8211; Despedacei a fechadura,<br \/>\ndespedacei a travessa&#8230; Tudo em estilhas!<\/p>\n<p>O outro mo\u00e7o, mais desembara\u00e7ado e esperto, riu, para agradar:<\/p>\n<p>&#8211; Santo nome de Deus!&#8230; Ent\u00e3o, \u00e9 que o Fidalgo lhe atirou<br \/>\ncom for\u00e7a!<\/p>\n<p>E o companheiro, convencido, espetando O queixo enorme:<\/p>\n<p>&#8211; Mas que for\u00e7a! a matar! Que a porta era rija&#8230; E fechadura nova,<br \/>\nj\u00e1 depois do Relho!<\/p>\n<p>A certeza da sua for\u00e7a, louvada por aqueles fortes, reconfortou inteiramente<br \/>\no Fidalgo da Torre, j\u00e1 brando, quase paternal:<\/p>\n<p>&#8211; Gra\u00e7as a Deus, para arrombar uma porta, mesma nova, n\u00e3o me<br \/>\nfalta for\u00e7a. O que eu n\u00e3o podia, por dec\u00eancia, era arrastar<br \/>\na\u00ed por essas estradas um b\u00eabedo com uma foice at\u00e9 casa<br \/>\ndo Regedor&#8230; Foi para isso que chamei, que gritei. Para que voc\u00eas o<br \/>\nagarrassem, o levassem ao Regedor!&#8230; Bem, acabou. Oh! Rosa, d\u00ea a estes<br \/>\nrapazes, para a ceia, mais uma caneca de vinho&#8230; A ver se para outra vez<br \/>\nse afoutam, se aparecem&#8230;<\/p>\n<p>Era agora como um antigo senhor, um Ramires de outros s\u00e9culos, justo<br \/>\ne avisado, que repreende uma fraqueza dos seus solarengos &#8211; e logo perdoa<br \/>\npor conta e amor das fa\u00e7anhas pr\u00f3ximas. Depois com a bengala<br \/>\nab ombro, como uma lan\u00e7a, subiu pela l\u00f4brega escada da cozinha.<br \/>\nE em cima no quarto, apenas o Bento entrara para o vestir, recome\u00e7ou<br \/>\na sua epop\u00e9ia, mais carregada, mais terrifica &#8211; assombrando o sens\u00edvel<br \/>\nhomem, estacado rente da c\u00f4moda, sem mesmo pousar a infusa d&#8217;\u00e1gua<br \/>\nquente, as botas envernizadas, a bra\u00e7ada de toalhas que o ajoujavam&#8230;<br \/>\nO Casco! O Jos\u00e9 Casco das Bravais, b\u00eabedo, rompendo para ele,<br \/>\nsem o conhecer, com uma foice enorme, a berrar &#8211; &#8220;Morra, que \u00e9<br \/>\nmarr\u00e3o!&#8230; E ele na estrada, diante do bruto, de bengalinha! Mas atira<br \/>\num salto, a foi\u00e7ada resvala sobre um tronco de pinheiro&#8230; Ent\u00e3o<br \/>\narremete desabaladamente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo<br \/>\nManuel como se ambos o escoltassem &#8211; e ataranta o Casco, que recua, se some<br \/>\npela azinhaga, a cambalear, a grunhir&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hem, que te parece? Se n\u00e3o \u00e9 a minha aud\u00e1cia, o homem<br \/>\npositivamente me ferra um tiro de espingarda!<\/p>\n<p>O Bento, que quase se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, pestanejou,<br \/>\nconfuso, mais at\u00f4nito:<\/p>\n<p>&#8211; Mas o Sr. Dr. disse que era uma foice!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo bateu o p\u00e9, impaciente:<\/p>\n<p>&#8211; Correu para mim com uma foice. Mas vinha atr\u00e1s do carro&#8230; E no<br \/>\ncarro trazia uma espingarda. O Casco \u00e9 ca\u00e7ador, anda sempre<br \/>\nde espingarda&#8230; Enfim estou aqui vivo, na Torre, por merc\u00ea de Deus.<br \/>\nE tamb\u00e9m porque felizmente, nestes casos, n\u00e3o me falta decis\u00e3o!<\/p>\n<p>E apressou o Bento &#8211; porque com o abalo, o esfor\u00e7o, positivamente<br \/>\nlhe tremiam as pernas de cansa\u00e7o e de fome&#8230; Al\u00e9m da sede!<\/p>\n<p>&#8211; Sobretudo sede! Esse vinho que venha bem fresco&#8230; Do Verde e do Alvaralh\u00e3o,<br \/>\npara misturar.<\/p>\n<p>O Bento, com um tr\u00eamulo suspiro da emo\u00e7\u00e3o atravessada,<br \/>\nenchera a bacia, estendia as toalhas. Depois, gravemente:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, Sr. Dr., temos esse anda\u00e7o nos s\u00edtios! Foi o mesmo<br \/>\nque sucedeu ao Sr. Sanches Lucena, na Feitosa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como, ao Sr. Sanches Lucena?<\/p>\n<p>O Bento desenrolou ent\u00e3o uma tremenda hist\u00f3ria trazida \u00e0<br \/>\nTorre, durante a estada do Sr Doutor em Oliveira, pelo cunhado da Cr\u00edspola,<br \/>\no Rui carpinteiro, que trabalhava nas obras da Feitosa. O Sr. Sanches Lucena<br \/>\ndescera uma tarde, ao lusco-fusco, \u00e0 porta do Mirante, quando passam<br \/>\nna estrada dois jornaleiros, b\u00eabedos ou fac\u00ednoras, que implicam<br \/>\ncom o excelente senhor. E chufas, risinhos, momices&#8230; O Sr. Sanches, com<br \/>\npaci\u00eancia, aconselhou os homens que seguissem, n\u00e3o se desmandassem.<br \/>\nDe repente um deles, um rapazola, sacode a jaqueta do ombro, ergue o cajado!<br \/>\nFelizmente o companheiro, que se afirmara, ainda gritou: &#8211; &#8220;Ai! rapaz,<br \/>\nque ele \u00e9 o nosso deputado!&#8221; O rapazola abalou, espavorido. O<br \/>\noutro at\u00e9 se atirou de joelhos diante do Sr. Sanches Lucena&#8230; Mas<br \/>\no pobre senhor, com o abalo, recolheu \u00e0 cama!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo acompanhara a hist\u00f3ria, secando vagarosamente as m\u00e3os<br \/>\n\u00e0 toalha, impressionado:<\/p>\n<p>&#8211; Quando foi isso?<\/p>\n<p>&#8211; Pois disse ao Sr. &#8230;&#8230; Quando o Sr. Dr. estava em Oliveira. Um dia antes<br \/>\nou um dia depois dos anos da Sra. D. Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>O Fidalgo arremessou a toalha, limpou pensativamente as unhas. Depois com<br \/>\num risinho incerto e leve:<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, sempre serviu de alguma coisa ao Sanches Lucena ser Deputado por<br \/>\nVila-Clara&#8230;<\/p>\n<p>E j\u00e1 vestido, abastecendo a charuteira (porque resolvera passar a<br \/>\nnoite na Vila, a desabafar com o Gouveia) &#8211; de novo se voltou para Bento,<br \/>\nque arrumava a roupa:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o b\u00eabedo, quando o outro lhe gritou &#8220;Ai, que \u00e9<br \/>\no nosso deputado&#8221;, caiu em si, fugiu, hem?&#8230; Ora v\u00ea tu! Ainda<br \/>\nvale ser deputado! Ainda inspira respeito, homem! Pela menos inspira mais<br \/>\nrespeito que descender dos Reis de Le\u00e3o!&#8230; Paci\u00eancia, toca a<br \/>\njantar.<\/p>\n<p>Durante o jantar, misturando copiosamente o Verde e o Alvaralh\u00e3o,<br \/>\nGon\u00e7alo n\u00e3o cessou de ruminar a ousadia do Casco. Pela vez primeira,<br \/>\nna hist\u00f3ria de Santa Iren\u00e9ia, um lavrador daquelas aldeias,<br \/>\ncrescidas \u00e0 sombra da Casa ilustre, por tantos s\u00e9culos senhora<br \/>\nem monte e vale, ultrajava um Ramires! E brutamente, al\u00e7ando o cajado,<br \/>\ndiante dos muros da quinta hist\u00f3rica!&#8230; Contava seu pai que, em vida<br \/>\ndo bisav\u00f4 In\u00e1cio, ainda desde Ramilde at\u00e9 Corinde, os<br \/>\nhomens dobravam o joelho nos caminhos quando passava o Senhor da Torre. E<br \/>\nagora levantavam a foice!&#8230; E por qu\u00ea? Porque ele n\u00e3o se desfalcara<br \/>\nsubmissamente das suas rendas em proveito dum fa\u00e7anhudo! &#8211; Em tempos<br \/>\ndo av\u00f4 Tructesindo, vil\u00e3o de tal atentada assaria, como porco<br \/>\nmont\u00eas, numa ruidosa fogueira, diante das barbac\u00e3s da Honra.<br \/>\nAinda em dias do bisav\u00f4 In\u00e1cio apodreceria numa masmorra. E o<br \/>\nCasco n\u00e3o podia escapar sem castigo. A impunidade s\u00f3 lhe incharia<br \/>\na aud\u00e1cia: e assomado, rancoroso, noutro encontro, sem mais falas,<br \/>\ndesfechava a ca\u00e7adeira. Oh! n\u00e3o lhe desejava um mal dur\u00e1vel,<br \/>\ncoitado, com dois filhas pequeninos &#8211; um que mamava. Mas que o arrastassem<br \/>\n\u00e0 Administra\u00e7\u00e3o, algemado, entre dois cabos de pol\u00edcia<br \/>\n&#8211; e que na triste saleta, donde se avistam as grades da cadeia, apanhasse<br \/>\numa repreens\u00e3o tremenda do Gouveia, do Gouveia muito seco, muito esticado<br \/>\nna sobrecasaca negra&#8230; Assim se devia resguardar, por meios tortuosos &#8211; pois<br \/>\nque n\u00e3o era deputado, e que, com o seu talento, o seu nome, essa espantosa<br \/>\nlinhagem de av\u00f3s que edificara o Reino, carecia o prest\u00edgio<br \/>\ndum Sanches Lucena, o precioso prest\u00edgio que suspende no ar os varapaus<br \/>\natrevidos!<\/p>\n<p>Apenas findou o caf\u00e9, mandou pelo Bento avisar os dois mo\u00e7os<br \/>\nda horta, o Ricardo e o outro de queixo de cavalo, que o esperassem no p\u00e1tio,<br \/>\narmados. Porque na Torre ainda sobrevivia uma &#8220;Sala de armas&#8221; &#8211;<br \/>\ncacifro tenebroso, junto ao Arquivo, onde se amontoavam pe\u00e7as aboladas<br \/>\nde armaduras, um lorig\u00e3o de malha, um broquel mourisco, alabardas,<br \/>\nespad\u00f5es, polvarinhos, bacamartes de 1820, e entre esta poeirenta ferralhagem<br \/>\nnegra tr\u00eas espingardas limpas com que os mo\u00e7os da quinta, na<br \/>\nromaria de S. Gon\u00e7alo, atiravam descargas em louvor do Santo.<\/p>\n<p>Depois, ele, encafuou o rev\u00f3lver na algibeira, desenterrou do arm\u00e1rio<br \/>\nda corredor um velho bengal\u00e3o de cabo de chumbo entran\u00e7ado,<br \/>\nagarrou um apito. E assim precavido, aquecido pelo Verde e pelo Alvaralh\u00e3o,<br \/>\ncom os dois criados de ca\u00e7adeira ao ombro, importantes e tesos, partiu<br \/>\npara Vila-Clara, procurar o Sr. Administrador do Concelho. A noite envolvia<br \/>\nos campos em sossego e frescura. A lua nova, que alimpara o tempo, ro\u00e7ava<br \/>\na crista das outeiros de Valverde como a roda lustrosa dum carro de ouro.<br \/>\nNo sil\u00eancio os rijos sapat\u00f5es pregueados dos dois jornaleiros<br \/>\nressoavam em cad\u00eancia. E Gon\u00e7alo adiante, de charuto flamante,<br \/>\ngozava aquela marcha, em que de novo um Ramires trilhava os caminhos de Santa<br \/>\nIren\u00e9ia com homens da sua merc\u00ea e solarengos armados.<\/p>\n<p>Ao come\u00e7o da vila, por\u00e9m, recolheu discretamente a escolta<br \/>\nna taverna da Serena: e ele cortou para o Mercado da Erva, para a Tabacaria<br \/>\ndo Sim\u00f5es, onde o Gouveia, \u00e0quela hora, antes da partida da<br \/>\nAssembl\u00e9ia, costumava pousar, comprar uma caixa de f\u00f3sforos,<br \/>\nconsiderar pensativamente na vidra\u00e7a as cautelas da Loteria. Mas nessa<br \/>\nnoite o Sr. Administrador faltara ao Sim\u00f5es costumado. Largou ent\u00e3o<br \/>\npara a Assembl\u00e9ia; e logo embaixo, no bilhar, um sujeito calvo, que<br \/>\ncontemplava as carambolas solit\u00e1rias do marcador, espapado na bancada,<br \/>\nde colete desabotoado, mascando um palito &#8211; informou o Fidalgo da doen\u00e7a<br \/>\ndo amigo Gouveia:<\/p>\n<p>&#8211; Coisa leve, inflama\u00e7\u00e3o de garganta&#8230; V. Exa. decerto o encontra<br \/>\nem casa. N\u00e3o arreda do quarto desde domingo.<\/p>\n<p>Outro cavalheiro, por\u00e9m, que remexia o seu caf\u00e9 \u00e0 esquina<br \/>\nduma mesa atulhada de garrafas de licor, afian\u00e7ou que o Sr. Administrador<br \/>\nj\u00e1 espairecera nessa tarde. Ainda pelas cinco horas ele o encontrara<br \/>\nna Amoreira, com o pesco\u00e7o atabafado numa manta de l\u00e3.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, impaciente, abalou para a Cal\u00e7adinha.. E atravessava<br \/>\no largo da Chafariz quando descortinou o desejado Gouveia, \u00e0 porta<br \/>\nmuita alumiada da loja de panos do Ramos, conversando com um homenzarr\u00e3o<br \/>\nde forte barba retinta e de guarda-p\u00f3 alvadio.<\/p>\n<p>E foi o Gouveia, que, de dedo espetado, investiu para Gon\u00e7alo:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, j\u00e1 sabe?<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o sabe, homem?&#8230; O Sanches Lucena!<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Morreu!<\/p>\n<p>O Fidalgo embasbacou para o Administrador, depois para o outro cavalheiro,<br \/>\nque repuxava na m\u00e3o enorme, com um esfor\u00e7o inchado, uma luva<br \/>\npreta apertada e curta.<\/p>\n<p>&#8211; Santo Deus!&#8230; Quando?<\/p>\n<p>&#8211; Esta madrugada. De repente. Angina pectoris, n\u00e3o sei qu\u00ea no<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o&#8230; De repente, na cama.<\/p>\n<p>E ambos se consideraram, em sil\u00eancio, no espanto renovado daquela morte<br \/>\nque impressionava Vila-Clara. Por fim Gon\u00e7alo:<\/p>\n<p>&#8211; E eu ainda h\u00e1 bocado, na Torre, a falar dele! E, coitado, como sempre,<br \/>\ncom pouca admira\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E eu! &#8211; exclamou o Gouveia. &#8211; Eu, que ainda ontem lhe escrevi!&#8230; E uma<br \/>\ncarta comprida, por causa dum empenho do Manuel Duarte&#8230; Foi o cad\u00e1ver<br \/>\nque recebeu a carta.<\/p>\n<p>&#8211; Boa piada! &#8211; rosnou o sujeito obeso, que se debatia ferrenhamente contra<br \/>\na luva. &#8211; O cad\u00e1ver recebeu a carta&#8230; Boa piada!<\/p>\n<p>O Fidalgo torcia a bigode, pensativo:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, ora&#8230; E que idade tinha ele?<\/p>\n<p>O Gouveia sempre o imaginara um completo velho, de setenta invernos. Pois<br \/>\nn\u00e3o! apenas sessenta, em dezembro. Mas consumido, arrasado. Casara<br \/>\ntarde, com f\u00eamea forte&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a\u00ed temos a bela D. Ana, vi\u00fava aos vinte e oito anos, sem<br \/>\nfilhos, naturalmente herdeira, com o seu mealheiro de duzentos contos&#8230; Talvez<br \/>\nmais!<\/p>\n<p>&#8211; Boa maquia! &#8211; roncou de novo o opado homem que enfiara a luva, e agora<br \/>\ngemia, com as veias t\u00famidas, para lhe apertar o colchete.<\/p>\n<p>Aquele cavalheiro constrangia o Fidalgo &#8211; ansioso por desafogar com o Gouveia<br \/>\nsobre &#8220;a vacatura pol\u00edtica&#8221;, assim inesperadamente aberta,<br \/>\nno c\u00edrculo de Vila-Clara, pela brusca desapari\u00e7\u00e3o do<br \/>\nchefe tradicional. E n\u00e3o se conteve, puxou o Administrador pela bot\u00e3o<br \/>\nda sobrecasaca para a sombra favor\u00e1vel da parede:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Gouveia! ent\u00e3o agora, bem?&#8230; Temos elei\u00e7\u00e3o suplementar&#8230;<br \/>\nQuem vir\u00e1 pelo c\u00edrculo?<\/p>\n<p>E o Administrador, muito simplesmente, sem se resguardar do homenzarr\u00e3o<br \/>\nde guarda-p\u00f3, que, enfim enluvado, acendera a charuto, se acercava<br \/>\ncom familiaridade &#8211; deduziu as fatos:<\/p>\n<p>&#8211; Agora, meu amigo, com a tio do Cavaleiro ministro da Justi\u00e7a e o<br \/>\nJos\u00e9 Ernesto ministro do Reino, vai Deputado pela c\u00edrculo quem<br \/>\no Andr\u00e9 Cavaleiro mandar. E claro&#8230; O Sanches Lucena manteve sempre<br \/>\no seu lugar em S. Bento por uma indica\u00e7\u00e3o natural do partido.<br \/>\nEra aqui o primeiro homem, o grande homem dos Hist\u00f3ricos&#8230; Bem! Hoje,<br \/>\npara decidir o Governo, como falta a indica\u00e7\u00e3o natural do partido,<br \/>\nque resta? O desejo pessoal do Cavaleiro. Voc\u00ea sabe como o Cavaleiro<br \/>\n\u00e9 regionalista. Pelo c\u00edrculo pois, logicamente, sai quem se<br \/>\napresente ao Cavaleiro como um bom continuador do Lucena, pela influ\u00eancia<br \/>\ne pela estabilidade territorial&#8230; Noutro circulo ainda se podia encaixar<br \/>\n\u00e0 pressa um Deputado fabricado em Lisboa, nas Secretarias. Aqui n\u00e3o!<br \/>\nO Deputado tem de ser local e Cavaleirista. E o pr\u00f3prio Cavaleiro,<br \/>\nacredite voc\u00ea, est\u00e1 a esta hora embara\u00e7ado.<\/p>\n<p>O gordalhufo murmurou com import\u00e2ncia, atrav\u00e9s do imenso charuto<br \/>\nque mamava:<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3 j\u00e1 estou com ele, j\u00e1 sei&#8230;<\/p>\n<p>Mas o Administrador emudecera, co\u00e7ava o queixo, cravando em Gon\u00e7alo<br \/>\nos olhos espertos, que rebrilhavam, como se uma ditosa id\u00e9ia, quase<br \/>\numa inspira\u00e7\u00e3o, o iluminasse. E de repente, para o outro, que<br \/>\ncofiava a barba retinta:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, meu caro senhor, at\u00e9 al\u00e9m de amanh\u00e3. Ficamos<br \/>\nentendidos. Eu remeto o cestinho dos queijos diretamente ao Sr. Conselheiro.<\/p>\n<p>Tomou o bra\u00e7o de Gon\u00e7alo, que apertou com impaci\u00eancia.<br \/>\nE sem atender mais ao homenzarr\u00e3o, que saudava rasgadamente, arrastou<br \/>\no Fidalgo para a Cal\u00e7adinha silenciosa:<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Gon\u00e7alo, ou\u00e7a l\u00e1&#8230; Voc\u00ea agora tinha uma<br \/>\nocasi\u00e3o soberba! Voc\u00ea, se quisesse, dentro de poucos dias, estava<br \/>\nDeputado por Vila-Clara!<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre estacara &#8211; como se uma estrela de repente se despenhasse<br \/>\nna rua mal alumiada.<\/p>\n<p>&#8211; Ora escute! &#8211; exclamou o Administrador, largando o bra\u00e7o de Gon\u00e7alo,<br \/>\npara desenrolar mais livremente a sua id\u00e9ia. &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\ntem compromissos s\u00e9rios com os Regeneradores. Voc\u00ea deixou Coimbra<br \/>\nh\u00e1 um ano, tenta agora a vida p\u00fablica, nunca fez ato definitivo<br \/>\nde partid\u00e1rio. L\u00e1 uma ou outra correspond\u00eancia para os<br \/>\njornais, hist\u00f3rias!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Escute, homem! Voc\u00ea quer entrar na Pol\u00edtica? Quer. Ent\u00e3o,<br \/>\npelos Hist\u00f3ricos ou pelos Regeneradores, pouca importa. Ambos s\u00e3o<br \/>\nconstitucionais, ambos s\u00e3o crist\u00e3os&#8230; A quest\u00e3o \u00e9<br \/>\nentrar, \u00e9 furar. Ora voc\u00ea, agora, inesperadamente, encontra uma<br \/>\nporta aberta. O que o pode embara\u00e7ar? As suas inimizades particulares<br \/>\ncom o Cavaleiro? Tolices!<\/p>\n<p>Atirou um gesto, largo e seco, como se varresse essas puerilidades:<\/p>\n<p>&#8211; Tolices! Entre voc\u00eas n\u00e3o h\u00e1 morte de homem. Nem voc\u00eas,<br \/>\nno fundo, s\u00e3o inimigos. O Cavaleiro \u00e9 rapaz de talento, rapaz<br \/>\nde gosto&#8230; N\u00e3o vejo outro, aqui no distrito, com quem voc\u00ea tenha<br \/>\nmais conformidade de esp\u00edrito, de educa\u00e7\u00e3o, de maneiras,<br \/>\nde tradi\u00e7\u00f5es&#8230; Numa terra pequena, mais dia menos dia, fatalmente,<br \/>\nse impunha a reconcilia\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o seja agora, quando<br \/>\na reconcilia\u00e7\u00e3o o leva \u00e0s C\u00e2maras!&#8230; E repito.<br \/>\nPela c\u00edrculo de Vila-Clara sai Deputado quem o Cavaleiro mandar!<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre respirou, com esfor\u00e7o, na emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o sufocava. E depois dum sil\u00eancio em que tirara o chap\u00e9u,<br \/>\nabanara com ele, pensativamente, a face desca\u00edda:<\/p>\n<p>&#8211; Mas o Cavaleiro, como voc\u00ea disse, \u00e9 todo local, todo regional&#8230;<br \/>\nN\u00e3o querer\u00e1 impor sen\u00e3o um homem como o Lucena, com fortuna,<br \/>\ncom influ\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>O outro parou, alargou os bra\u00e7os:<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, voc\u00ea?&#8230; Que diabo! Voc\u00ea tem aqui propriedade.<br \/>\nTem a Torre, tem Treixedo. Sua irm\u00e3 hoje \u00e9 rica, mais rica que<br \/>\no Lucena. E depois o nome, a fam\u00edlia&#8230; Voc\u00eas, os Ramires, est\u00e3o<br \/>\nestabelecidos, com solar em Santa Iren\u00e9ia, h\u00e1 mais de duzentos<br \/>\nanos.<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre ergueu com viveza a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Duzentos?&#8230; H\u00e1 mil, h\u00e1 quase mil!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, a\u00ed tem! H\u00e1 mil anos. Uma casa anterior \u00e0 monarquia.<br \/>\nPelo menos coeva! Voc\u00ea \u00e9 portanto mais Fidalgo que o Rei! E ent\u00e3o,<br \/>\nisso n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito superior \u00e0<br \/>\ndo Lucena? Sem contar a intelig\u00eancia&#8230; Oh! diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Que foi?<\/p>\n<p>&#8211; A garganta&#8230; Uma picadita na garganta. Ainda n\u00e3o estou consolidado.<\/p>\n<p>E decidiu logo recolher, gargarejar, porque o Dr. Macedo proibira as noitadas<br \/>\nfestivas. Mas Gon\u00e7alo acompanhava at\u00e9 a porta o amigo Gouveia.<br \/>\nE, conchegando o abafo de l\u00e1, a Administrador resumiu a sua id\u00e9ia:<\/p>\n<p>&#8211; Pelo c\u00edrculo de Vila-Clara, Gon\u00e7alinho, sai quem o Cavaleiro<br \/>\nmandar. Ora, o Cavaleiro, creia voc\u00ea, tem imenso empenho de o eleger,<br \/>\nde o lan\u00e7ar na Pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea portanto estender a m\u00e3o ao Cavaleiro, o c\u00edrculo<br \/>\n\u00e9 seu. O Cavaleiro tem o maior, o maior\u00edssimo empenho, Gon\u00e7alinha!<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 que eu n\u00e3o sei, Jo\u00e3o Gouveia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sei eu!<\/p>\n<p>E em confid\u00eancia, na solid\u00e3o da Cal\u00e7adinha, Jo\u00e3o<br \/>\nGouveia revelou ao Fidalgo que o Cavaleiro ansiava pela ocasi\u00e3o de<br \/>\nreatar a velha fraternidade com o seu velho Gon\u00e7alo! Ainda na semana<br \/>\npassada o Cavaleiro lhe afirmara (palavras textuais): &#8211; &#8220;Entre os rapazes<br \/>\ndesta gera\u00e7\u00e3o nenhum com mais seguro e mais largo futuro na<br \/>\nPol\u00edtica que o Gon\u00e7alo. Tem tudo! grande nome, grande talento,<br \/>\na sedu\u00e7\u00e3o, a eloq\u00fc\u00eancia&#8230; Tem tudo! E eu, que conservo<br \/>\npelo Gon\u00e7alo todo o carinho antigo, gastava ardentemente, ardentissimamente,<br \/>\nde o levar \u00e0s C\u00e2maras<\/p>\n<p>&#8211; Palavras textuais, meu amigo!&#8230; Ainda h\u00e1 seis ou sete dias, em<br \/>\nOliveira, depois do jantar, a tomarmos ambos caf\u00e9 no quintal.<\/p>\n<p>A face de Gon\u00e7alo ardia na sombra, devorando as revela\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Administrador. Depois, com lentid\u00e3o, como descobrindo candidamente<br \/>\ntodos os recantos da sua alma:<\/p>\n<p>&#8211; Eu, na realidade, tamb\u00e9m conservo a antiga simpatia pelo Cavaleiro.<br \/>\nE certas quest\u00f5es \u00edntimas, adeus!&#8230; Envelheceram, caducaram,<br \/>\nt\u00e3o obsoletas hoje como os agravos dos Hor\u00e1cios e dos Curi\u00e1cios&#8230;<br \/>\nComo voc\u00ea lembrou h\u00e1 pouco, com raz\u00e3o, nunca se ergueu<br \/>\nentre n\u00f3s morte de homem. Que diabo! Eu fui educado com o Cavaleiro,<br \/>\n\u00e9ramos como irm\u00e3os&#8230; E acredite voc\u00ea, Gouveia! Sempre<br \/>\nque o vejo, sinta um apetite doido, mas doido de correr para ele, de lhe gritar:<br \/>\n&#8220;Oh! Andr\u00e9! nuvens passadas n\u00e3o voltam, atira para c\u00e1<br \/>\nesses ossos!&#8221; Creia voc\u00ea, n\u00e3o o fa\u00e7o por timidez&#8230;<br \/>\nE timidez&#8230; Oh! n\u00e3o, l\u00e1 por mim, estou pronto \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntodo o cora\u00e7\u00e3o ma pede! Mas ele?&#8230; Porque, enfim, Gouveia,<br \/>\neu, nas minhas Correspond\u00eancias para a Gazeta do Porto, tenho sido feroz<br \/>\ncom o Cavaleiro!<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gouveia parou, de bengala ao ombro, considerando o Fidalgo com<br \/>\num sorriso divertido:<\/p>\n<p>&#8211; Nas Correspond\u00eancias? Que tem voc\u00ea dito nas Correspond\u00eancias?<br \/>\nQue o Sr. Governador Civil \u00e9 um d\u00e9spota e um D. Juan?&#8230; Meu<br \/>\ncaro amigo, todo o homem gosta que, por oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica,<br \/>\nlhe chamem d\u00e9spota e D. Juan. Voc\u00ea imagina que ele se afligiu?<br \/>\nFicou simplesmente babado!<\/p>\n<p>O Fidalgo murmurou, inquieto:<\/p>\n<p>&#8211; Sim! Mas as alus\u00f5es \u00e0 bigodeira, \u00e0 guedelha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Gon\u00e7alinho! Belos cabelos anelados, belos bigodes torcidos n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o defeitos de que um macho se envergonhe&#8230; Pelo contr\u00e1rio!<br \/>\nTodas as mulheres admiram. Voc\u00ea pensa que ridicularizou o Cavaleiro?<br \/>\nN\u00e3o! anunciou simplesmente \u00e0s madamas e meninas, que l\u00eaem<br \/>\na Gazeta do Porto, a exist\u00eancia de um mocet\u00e3o espl\u00eandido<br \/>\nque \u00e9 Governador Civil de Oliveira.<\/p>\n<p>E parando de novo (porque defronte, na esquina, luziam as duas janelas abertas<br \/>\nda sua casa), o Administrador estendeu o dedo firme para um conselho supremo:<\/p>\n<p>&#8211; Gon\u00e7alo Mendes Ramires, voc\u00ea amanh\u00e3 manda buscar a<br \/>\nparelha do Torto, salta para a sua caleche, corre \u00e0 cidade, entra pelo<br \/>\nGoverno Civil de bra\u00e7os abertos, e grita sem outro pr\u00f3logo:<br \/>\n&#8211; &#8220;Andr\u00e9, o que l\u00e1 vai, l\u00e1 vai, venham essas costelas!<br \/>\nE como o circulo est\u00e1 vago, venha tamb\u00e9m esse c\u00edrculo!&#8221;<br \/>\n&#8211; E voc\u00ea, dentro de cinco ou seis semanas, \u00e9 o Sr. Deputado por<br \/>\nVila-Clara, com todos os sinos a repicar&#8230; Quer tomar ch\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, obrigado.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, ent\u00e3o viva! Tip\u00f3ia amanh\u00e3 e Governo Civil. Est\u00e1<br \/>\nclaro, \u00e9 necess\u00e1rio arranjar um pretexto&#8230;<\/p>\n<p>O Fidalgo acudiu, com alvoro\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; Eu tenho um pretexto! N\u00e3o!&#8230; Quero dizer, tenho necessidade real,<br \/>\nabsoluta, de falar com o Cavaleiro ou com o Secret\u00e1rio-Geral. E uma<br \/>\nquest\u00e3o de caseiro&#8230; At\u00e9 por causa dessa infeliz trapalhada<br \/>\no procurava eu hoje a voc\u00ea, Gouveia!<\/p>\n<p>E aldravou a aventura do Casco, com tra\u00e7os mais pesados que o enegreciam.<br \/>\nDurante semanas, aferradamente, esse fatal Casco o torturara para lhe arrendar<br \/>\na Torre. Mas ele tratara com o Pereira, o Pereira Brasileiro, por uma renda<br \/>\nesplendidamente superior \u00e0 que o Casco oferecia a gemer. Desde ent\u00e3o<br \/>\no Casco rugia, amea\u00e7ava, por todas as tabernas da Freguesia. E, nessa<br \/>\ntarde, surde duma azinhaga, rompe para ele, de varapau erguido! Merc\u00ea<br \/>\nde Deus, l\u00e1 se defendera, l\u00e1 sacudira o bruto, com a bengala.<br \/>\nMas agora, sobre o seu sossego, sobre a sua vida, pairava a afronta daquele<br \/>\ncajado. E, se o assalto se renovasse, ele varava o Casco com uma bala, como<br \/>\num bicho mont\u00eas&#8230; Urgia pois que o amigo Gouveia chamasse o homem,<br \/>\no repreendesse rijamente, o entaipasse mesmo por algumas horas na cadeia&#8230;<\/p>\n<p>O Administrador, que escutara palpando a garganta, atalhou logo, com a m\u00e3o<br \/>\nespalmada:<\/p>\n<p>&#8211; Governo Civil, caro amigo, Governo Civil! Esses casos de pris\u00e3o<br \/>\npreventiva pertencem ao Governo Civil. Repreens\u00e3o n\u00e3o basta,<br \/>\ncom tal fera!&#8230; S\u00f3 cadeia, um dia de cadeia, a meia ra\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nO Governo Civil que me mande um of\u00edcio ou telegrama. Voc\u00ea realmente<br \/>\ncorre perigo. Nem um instante a perder!&#8230; Amanh\u00e3 tip\u00f3ia e Governo<br \/>\nCivil. Mesmo por amor da Ordem P\u00fablica!<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo, compenetrado, com os ombros vergados, cedeu ante esta soberana<br \/>\nraz\u00e3o da Ordem P\u00fablica:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, Jo\u00e3o Gouveia, bem!&#8230; Com efeito \u00e9 uma quest\u00e3o<br \/>\nde Ordem P\u00fablica. Vou amanh\u00e3 ao Governo Civil.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente &#8211; concluiu o Administrador puxando o cord\u00e3o da campainha.<br \/>\n&#8211; D\u00ea recados meus ao Cavaleiro. E s\u00f3 lhe digo que havemos de<br \/>\narranjar uma vota\u00e7\u00e3o tremenda, e foguet\u00f3rio, e vivas,<br \/>\ne ceia magna no Gago&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o quer tomar ch\u00e1, n\u00e3o?<br \/>\nEnt\u00e3o, boas-noites&#8230; E olhe! Daqui a dois anos, quando voc\u00ea<br \/>\nfor ministro, Gon\u00e7alo Mendes Ramires, recorde esta nossa conversa,<br \/>\n\u00e0 noite, na Cal\u00e7adinha de Vila-Clara!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo seguiu pensativamente por defronte do Correio; torneou a branca<br \/>\nescadaria da igreja de S. Bento; meteu, alheado e sem reparar, pela estrada<br \/>\nplantada de ac\u00e1cias que conduz ao Cemit\u00e9rio. E, naquele alto<br \/>\nda Vila, donde, ao desembocar da Cal\u00e7adinha, se abrange a largueza<br \/>\nrica dos campos desde Valverde a Craquede &#8211; sentiu que tamb\u00e9m na sua<br \/>\nvida, apertada e solit\u00e1ria como a Cal\u00e7adinha, se alargara um<br \/>\narejado espa\u00e7o cheio de interessante bul\u00edcio e de abund\u00e2ncia.<br \/>\nEra o muro, em que sempre se imaginara irreparavelmente cerrado, que de repente<br \/>\nrachava. Eis a fenda facilitadora! Para al\u00e9m reluziam todas as belas<br \/>\nrealidades que desde Coimbra apetecera! Mas&#8230; &#8211; Mas no atravessar da fenda<br \/>\nfragosa decerto se rasgaria a sua dignidade ou se rasgaria o seu orgulho.<br \/>\nQue fazer?&#8230;<\/p>\n<p>Sim! seguramente! Estendendo os bra\u00e7os ao animal do Cavaleiro conquistava<br \/>\na sua Elei\u00e7\u00e3o. O c\u00edrculo, enfeudado aos Hist\u00f3ricos,<br \/>\nelegeria submissamente o Deputado que \u00d3 chefe Hist\u00f3rico ordenasse<br \/>\ncom indolente aceno. Mas essa reconcilia\u00e7\u00e3o importava a entrada<br \/>\ntriunfal do Cavaleiro na quieta casa do Barrolo&#8230; Ele vendia pois o sossego<br \/>\nda irm\u00e3 por uma cadeira em S. Bento! N\u00e3o! n\u00e3o podia por<br \/>\namor de Gracinha! &#8211; E Gon\u00e7alo suspirou, com ruidoso suspiro, no luminoso<br \/>\nsil\u00eancio da estrada.<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, durante tr\u00eas. quatro anos, os Regeneradores n\u00e3o<br \/>\ntrepavam ao Governo. E ele, ali, atrav\u00e9s desses anos, no buraco rural,<br \/>\njogando voltaretes sonolentos na Assembl\u00e9ia da Vila, fumando cigarros<br \/>\ncalaceiros nas varandas dos Cunhais, sem carreira, parado e mudo na vida,<br \/>\na ganhar musgo, como a sua caduca, in\u00fatil Torre! Caramba! era faltar<br \/>\ncobardemente a deveres muito santos para consigo e para com o seu nome!&#8230;<br \/>\nEm breve os seus camaradas de Coimbra penetrariam nos altos Empregos, nas<br \/>\nricas Companhias; muitos nas C\u00e2maras por vacaturas aben\u00e7oadas<br \/>\ncomo a do Sanches; um ou outro mesmo, mais audaz ou servil, no Minist\u00e9rio.<br \/>\nS\u00f3 ele, com talentos superiores, um tal brilho hist\u00f3rico, jazeria<br \/>\nesquecido e resmungando como um coxo numa estrada, quando passa a romaria.<br \/>\nE por qu\u00ea? Pelo receio pueril de p\u00f4r a bigodeira atrevida do Cavaleiro<br \/>\nmuito perto dos fracos l\u00e1bios de Gracinha&#8230; E por fim esse receio<br \/>\nconstitu\u00eda uma inj\u00faria, uma nojenta inj\u00faria, \u00e0<br \/>\nseriedade da irm\u00e3. Porque Portugal n\u00e3o se honrava com mulher<br \/>\nmais rigidamente s\u00e9ria, de mais grave e puro pensar! Aquele corpinho<br \/>\nligeiro, que o vento levava, continha uma alma her\u00f3ica. O Cavaleiro?&#8230;<br \/>\nPodia S. Ex.&#8217; sacudir a guedelha com gra\u00e7a fatal, jorrar dos olhos<br \/>\npestanudos a languidez \u00e0s ondas &#8211; que Gracinha permaneceria t\u00e3o<br \/>\ninacess\u00edvel e s\u00f3lida na sua virtude como se fosse insexual e<br \/>\nde m\u00e1rmore. Oh, realmente por Gracinha, ele abriria ao Cavaleiro todas<br \/>\nas portas dos Cunhais &#8211; mesmo a porta do quarto dela, e bem larga, com uma<br \/>\nsolid\u00e3o bem preparada!&#8230; E depois n\u00e3o se cuidava de uma donzela,<br \/>\nnem duma vi\u00fava. Na casa do largo de El-Rei governava, merc\u00ea de<br \/>\nDeus, marido brioso, marido rijo. A esse, s\u00f3 a esse, competia escolher<br \/>\nas intimidades do seu lar &#8211; e nele manter quieta\u00e7\u00e3o e recato.<br \/>\nN\u00e3o! esse receio de uma imagin\u00e1vel fragilidade de Gracinha,<br \/>\nda sua honrada, altiva Gracinha &#8211; esse receio, perverso e louco, certamente<br \/>\no devia varrer, com o cora\u00e7\u00e3o desafogado e sorrindo. &#8211; E, na<br \/>\nclara solid\u00e3o da estrada, Gon\u00e7alo Mendes Ramires atirou um gesto<br \/>\ndecidido e terminante que varria.<\/p>\n<p>Restava por\u00e9m a sua pr\u00f3pria humilha\u00e7\u00e3o. Desde<br \/>\nanos, ruidosamente, conversando e escrevendo, em Coimbra, em Vila-Clara, em<br \/>\nOliveira, na Gazeta do Porto &#8211; ele demolira o Cavaleiro! E subiria agora,<br \/>\nde espinha\u00e7o vergado, as escadarias do Governo Civil, murmurando o<br \/>\nseu &#8211; peccavi, mea culpa, rnea maxima culpa?&#8230; Que esc\u00e2ndalo na cidade!<br \/>\n&#8211; &#8220;O Fidalgo da Torre l\u00e1 precisou e l\u00e1 veio&#8230;&#8221; Era<br \/>\no transbordante triunfo do Cavaleiro. O \u00fanico homem que no Distrito<br \/>\nse conservava erguido, pelejando, trovejando as verdades &#8211; desarmava, emudecia,<br \/>\ne encolhidamente se enfileirava no s\u00e9quito louvaminheiro de S. Exa.&#8221;<br \/>\nBem duro!&#8230; Mas, que diabo, havia superiormente o interesse do pa\u00eds!<br \/>\n&#8211; E, t\u00e3o admir\u00e1vel lhe apareceu esta raz\u00e3o, que a bradou<br \/>\ncom ardor na mudez da estrada: &#8211; &#8220;H\u00e1 o pa\u00eds!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Sim, o pa\u00eds! Quantas reformas a proclamar, a realizar! Em Coimbra,<br \/>\nno quinto ano, j\u00e1 se ocupara da Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica<br \/>\n&#8211; duma remodela\u00e7\u00e3o do Ensino, todo industrial, todo colonial,<br \/>\nsem latim, sem ociosas belas-letras, criando um povo formigueiro de Produtores<br \/>\ne de Exploradores&#8230; E os camaradas, nos sonhos ondeantes de Futuro, quando<br \/>\nrepartiam os Minist\u00e9rios, concordavam sempre: &#8211; &#8220;O Gon\u00e7alo<br \/>\npara a Instru\u00e7\u00e3o P\u00fablica!&#8221; Por essas id\u00e9ias<br \/>\npoderosas, pelo saber acumulado, todo ele se devia \u00e0 Na\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; como outrora, pela for\u00e7a, os grandes Ramires armados. E pela Na\u00e7\u00e3o<br \/>\ncumpria que o seu orgulho de homem cedesse ante a sua tarefa de cidad\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Depois, quem sabe? Entre o Cavaleiro e ele afogadamente se enroscava todo<br \/>\num passado de camaradagem, apenas entorpecido &#8211; que talvez revivesse nesse<br \/>\nencontro, os enla\u00e7asse logo num abra\u00e7o penetrante, onde os antigos<br \/>\nagravos se sumiriam como um p\u00f3 sacudido&#8230; Mas para que imaginar, remoer?<br \/>\nUma necessidade se sobrepunha, inilud\u00edvel &#8211; a de comparecer logo de<br \/>\nmanh\u00e3 em Oliveira, no Governo Civil, requerendo a supress\u00e3o<br \/>\ndo Casco. Dessa pressa dependia o seu sossego de vida e de intelig\u00eancia.<br \/>\nNunca ele lograria trabalhar na Novela, trilhar folgadamente a estrada de<br \/>\nVila-Clara, sabendo que em torno o outro, pelas quelhas e sombras, rondava<br \/>\ncom a espingarda. E para n\u00e3o regressar aos costumes bravios dos seus<br \/>\nav\u00f3s, circulando atrav\u00e9s do Concelho entre as carabinas dos<br \/>\ncriados, necessitava o Casco domado, imobilizado. Era pois inadi\u00e1vel<br \/>\ncorrer ao Governo Civil, para bem da Ordem. E depois, quando ele se encontrasse<br \/>\nno gabinete do Cavaleiro, diante da mesa do Cavaleiro &#8211; a Provid\u00eancia<br \/>\ndecidiria&#8230; &#8211; &#8220;A Provid\u00eancia decidir\u00e1!&#8221;<\/p>\n<p>E, ancorado nesta resolu\u00e7\u00e3o, o Fidalgo da Torre parou, olhou.<br \/>\nLevado pela quente rajada de pensamentos, chegara \u00e0 grade do Cemit\u00e9rio<br \/>\nda Vila que o luar branqueava como um len\u00e7ol estendido. Ao fundo da<br \/>\nalameda que o divide, clara na claridade triste, o escamado Cristo chagado<br \/>\ne l\u00edvido, sobre a sua alta cruz negra, pendia, mais dolorido e l\u00edvido<br \/>\nno sil\u00eancio e na solid\u00e3o, com uma tristissima l\u00e2mpada aos<br \/>\np\u00e9s esmorecendo. Em torno eram ciprestes, sombras de ciprestes, brancuras<br \/>\nde l\u00e1pides, as cruzes rasteiras das campas pobres, uma paz morta pesando<br \/>\nsobre os mortos; e no alto a lua amarela e parada. Ent\u00e3o o Fidalgo<br \/>\nsentiu um arrepiado medo do Cristo, das lousas, dos defuntos, da lua, da solid\u00e3o.<br \/>\nE despediu numa carreira at\u00e9 avistar as casas da Cal\u00e7adinha,<br \/>\npor onde descambou como uma pedra solta. Quando se deteve no largo do Chafariz,<br \/>\num mocho piava na torre da C\u00e2mara, melancolizando o repouso da Vila-Clara<br \/>\napagada e adormecida. Mais impressionado, Gon\u00e7alo correu \u00e0 taberna<br \/>\nda Serena, recolheu os criados que esperavam jogando a bisca lambida. E com<br \/>\neles atravessou de novo a Vila at\u00e9 a cocheira do Torto &#8211; para recomendar<br \/>\nque lhe mandassem \u00e0 Torre, \u00e0s nove horas da manh\u00e3, a<br \/>\nparelha ru\u00e7a.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do postigo, que se abrira com cautela no port\u00e3o chapeado,<br \/>\na mulher do Torto gemeu, indecisa:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, meu Deus, n\u00e3o sei se poder\u00e1&#8230; Ele \u00e0s nove tem<br \/>\num servi\u00e7o&#8230; Pois n\u00e3o faria mais conta ao Fidalgo a\u00ed<br \/>\npela volta das onze?<\/p>\n<p>&#8211; As nove! &#8211; berrou Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>Desejava apear cedo ao port\u00e3o do Governo Civil, para evitar a curiosidade<br \/>\ndaqueles cavalheiros de Oliveira &#8211; que, depois do meio-dia, se juntavam na<br \/>\npra\u00e7a, vadiando por debaixo da Arcada.<\/p>\n<p>Mas \u00e0s nove e meia Gon\u00e7alo, que at\u00e9 o luzir da madrugada<br \/>\nse agitara pelo quarto num tumulto de esperan\u00e7as e receios &#8211; ainda<br \/>\nse barbeava, em camisa, diante do vasto espelho de colunas douradas. Depois<br \/>\naproveitou a caleche para deixar na Feitosa os seus bilhetes de p\u00easames<br \/>\n\u00e0 bela vi\u00fava, \u00e0 D. Ana. Ao meio-dia, esfaimado, almo\u00e7ou<br \/>\nna Vendinha, enquanto a parelha resfolegava. E batia a meia depois das duas<br \/>\nquando enfim se apeou em Oliveira diante do port\u00e3o do antigo convento<br \/>\nde S. Domingos, ao fundo da pra\u00e7a, onde seu pai, quando chefe do Distrito,<br \/>\ninstalara faustosamente as reparti\u00e7\u00f5es do Governo Civil.<\/p>\n<p>\u00c0quela hora, j\u00e1 na frescura e sombra da Arcada, que orla um<br \/>\nlado da pra\u00e7a (outrora pra\u00e7a da Prataria, hoje pra\u00e7a<br \/>\nda Liberdade), os cavalheiros de Oliveira mais desocupados, &#8220;os rapazes&#8221;,<br \/>\npregui\u00e7avam, em cadeiras de verga \u00e0 porta da Tabacaria Elegante<br \/>\ne da loja do Le\u00e3o. Gon\u00e7alo, cautelosamente, baixara as cortinas<br \/>\nverdes da caleche. Mas no p\u00e1tio do Governo Civil, ainda guarnecido<br \/>\nde bancos monumentais do tempo dos frades, esbarrou com o primo Jos\u00e9<br \/>\nMendon\u00e7a, que descia a escadaria, fardado. Foi um assombro para o alegre<br \/>\ncapit\u00e3o, mo\u00e7o esbelto, de bigode curto, picado levemente de<br \/>\nbexigas.<\/p>\n<p>&#8211; Tu por aqui, Gon\u00e7alinho! E de chap\u00e9u alto! Caramba, deve<br \/>\nser coisa gorda!<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre confessou corajosamente. Chegava nesse instante de Santa<br \/>\nIren\u00e9ia para falar ao Andr\u00e9 Cavaleiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 ele c\u00e1, esse ilustre senhor?<\/p>\n<p>O outro recuou, quase aterrado:<\/p>\n<p>&#8211; Ao Cavaleiro?! \u00c9 ao Cavaleiro que vens falar?!&#8230; Sant\u00edssima<br \/>\nVirgem! Ent\u00e3o desabou Tr\u00f3ia!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo gracejou, corando. N\u00e3o! n\u00e3o se passara desgra\u00e7a<br \/>\n\u00e9pica como a de Tr\u00f3ia&#8230; De resto podia revelar ao amigo Mendon\u00e7a<br \/>\no caso que o arrastava \u00e0 presen\u00e7a augusta de Sua Exa. o Sr.<br \/>\nGovernador Civil. Era um homem dos Bravais, um Casco, que, furioso por n\u00e3o<br \/>\nconseguir o arrendamento da Torre, o amea\u00e7ara, rondava agora a estrada<br \/>\nde Vila-Clara, de noite, \u00e0 espreita, com uma espingarda. E ele, n\u00e3o<br \/>\nousando &#8220;fazer alta e boa justi\u00e7a&#8221; pelas m\u00e3os dos<br \/>\nseus criados, como os Ramires feudais &#8211; reclamava modestamente da Autoridade<br \/>\nSuperior uma ordem para que o Gouveia mantivesse dentro da legalidade e dos<br \/>\nMandamentos de Deus o fa\u00e7anhudo dos Bravais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 isto, uma pequenina quest\u00e3o de paz p\u00fablica&#8230; E<br \/>\nent\u00e3o o grande homem est\u00e1 l\u00e1 em cima? Bem, at\u00e9<br \/>\nlogo, Zezinho&#8230; A prima, de sa\u00fade? Eu naturalmente janto nos Cunhais.<br \/>\nAparece!<\/p>\n<p>Mas o capit\u00e3o n\u00e3o despegava do degrau de pedra, abrindo pachorrentamente<br \/>\na cigarreira de couro:<\/p>\n<p>&#8211; E que me dizes tu \u00e0 novidade? O pobre Sanches Lucena?&#8230;<\/p>\n<p>Sim, Gon\u00e7alo soubera na Assembl\u00e9ia. Um ataque, hem? &#8211; Mendon\u00e7a<br \/>\nacendeu, chupou o cigarro:<\/p>\n<p>&#8211; De repente, com um aneurisma, a ler o Not\u00edcias!&#8230; Pois ainda h\u00e1<br \/>\ntr\u00eas dias a Maricas e eu jantamos na Feitosa. At\u00e9 eu toquei a<br \/>\nduas m\u00e3os, com a D. Ana, o quarteto do Rigoletto. E ele bem, conversando,<br \/>\ntomando a sua aguardentezinha de cana&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo esbo\u00e7ou um gesto de piedade e tristeza:<\/p>\n<p>&#8211; Coitado&#8230; Tamb\u00e9m h\u00e1 semanas o encontrei na Bica-Santa. Bom<br \/>\nhomem, bem-educado&#8230; E a\u00ed temos agora a bela D. Ana vaga.<\/p>\n<p>&#8211; E o c\u00edrculo!<\/p>\n<p>&#8211; Oh, o c\u00edrculo! &#8211; murmurou o Fidalgo da Torre com risonho desd\u00e9m.<br \/>\n&#8211; A mim antes me convinha a vi\u00fava. \u00c9 V\u00eanus com duzentos<br \/>\ncontos! Infelizmente tem uma voz medonha&#8230;<\/p>\n<p>O primo Mendon\u00e7a acudiu, com interesse, uma convic\u00e7\u00e3o<br \/>\ndedicada:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! na intimidade, perde aquele tom empapado&#8230; N\u00e3o<br \/>\nimaginas! at\u00e9 um timbre natural, agrad\u00e1vel&#8230; E depois, menino,<br \/>\nque corpo! que pele!<\/p>\n<p>&#8211; Deve ficar espl\u00eandida agora com o luto! &#8211; concluiu Gon\u00e7alo.<br \/>\n&#8211; Bem, adeusinho! Aparece nos Cunhais&#8230; Eu corro ao Cavaleiro, para que Sua<br \/>\nExa. me salve com o seu bra\u00e7o forte!<\/p>\n<p>Sacudiu a m\u00e3o do Mendon\u00e7a, galgou a escadaria de pedra.<\/p>\n<p>Mas o capit\u00e3o, que metera para a travessa de S. Domingos, desconfiou<br \/>\ndaquela hist\u00f3ria de amea\u00e7as, de espingardas&#8230; &#8220;Qual! Aqui<br \/>\nanda Pol\u00edtica!&#8221; E quando, passada uma hora lenta, repenetrou na<br \/>\npra\u00e7a e avistou a caleche da Torre ainda encalhada \u00e0 porta do<br \/>\nGoverno Civil &#8211; correu \u00e0 Arcada, desabafou logo com os dois Vila-Velhas,<br \/>\nambos pensativamente encostados aos dois umbrais da Tabacaria Elegante:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas sabem quem est\u00e1 no Governo Civil?&#8230; O Gon\u00e7alo<br \/>\nRamires!&#8230; Com o Cavaleiro!<\/p>\n<p>Todos em roda se mexeram, como acordando, nas gastas cadeiras de verga &#8211;<br \/>\nonde os estenderam sonolentamente o sil\u00eancio e a ociosidade da arrastada<br \/>\ntarde de ver\u00e3o. E o Mendon\u00e7a, excitado, contou que desde as<br \/>\nduas horas e meia Gon\u00e7alo Mendes Ramires, &#8220;em carne e osso&#8221;,<br \/>\nse conservava fechado como Cavaleiro, no Governo Civil, numa confer\u00eancia<br \/>\nmagna! O espanto e a curiosidade foram t\u00e3o ardentes que todos se ergueram,<br \/>\nse arremessaram para fora dos Arcos, a espiar a bojuda varanda do convento,<br \/>\nsobre o port\u00e3o &#8211; que era a do gabinete de Sua Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>Precisamente. nesse momento, Jos\u00e9 Barrolo, a cavalo, de cal\u00e7a<br \/>\nbranca, de rosa branca na quinzena de alpaca, dobrava a esquina da rua das<br \/>\nVendas. E o interesse todo daqueles cavalheiros se precipitou para ele, na<br \/>\nesperan\u00e7a de uma revela\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Barrolo!<\/p>\n<p>&#8211; Oh Barrolinho, chega c\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Depressa, homem, que \u00e9 caso rijo!<\/p>\n<p>Barrolo, ladeando, abeirou da Arcada; e os amigos imediatamente lhe atiraram<br \/>\na nova formid\u00e1vel, apertados em volta da \u00e9gua. O Gon\u00e7alo<br \/>\ne o Cavaleiro cochichando secretamente, toda a manh\u00e3! A caleche da<br \/>\nTorre \u00e0 espera, com a parelha adormecida! E j\u00e1 come\u00e7avam<br \/>\na repicar os sinos da S\u00e9!<\/p>\n<p>Barrolo, num pulo, desmontou. E enquanto um garoto lhe passeava a \u00e9gua<br \/>\n&#8211; estacou entre os amigos, com o chicote detr\u00e1s das costas, pasmando<br \/>\ntamb\u00e9m para a varanda de pedra do Governo Civil.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu n\u00e3o sei nada! O Gon\u00e7alo a mim n\u00e3o me disse<br \/>\nnada! &#8211; afirmava ele, assombrado. &#8211; Tamb\u00e9m j\u00e1 h\u00e1 dias<br \/>\nn\u00e3o vem \u00e0 cidade&#8230; Mas n\u00e3o me disse nada! E da \u00faltima<br \/>\nvez que c\u00e1 esteve, nos anos da Gra\u00e7a, ainda destemperou contra<br \/>\no Cavaleiro!<\/p>\n<p>A todos o caso parecia &#8220;de estrondo&#8221;! E subitamente um sil\u00eancio<br \/>\nesmagou a Arcada, trespassada de emo\u00e7\u00e3o. Na varanda, entre as<br \/>\nvidra\u00e7as abertas vagarosamente, aparecera o Cavaleiro com o Fidalgo<br \/>\nda Torre, conversando, risonhos, de charutos acesos. Os largos olhos do Cavaleiro<br \/>\npousaram logo, com mal\u00edcia, sobre &#8220;os rapazes&#8221; apinhados<br \/>\nem pasmo \u00e0 borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de vis\u00e3o. S.<br \/>\nExa. remergulhara no gabinete &#8211; o Fidalgo tamb\u00e9m, depois de se debru\u00e7ar<br \/>\nna varanda, espreitar a caleche da Torre. Entre os amigos rompeu um clamor:<\/p>\n<p>&#8211; Viva! Reconcilia\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Acabou a guerra das Rosas!<\/p>\n<p>&#8211; E as correspond\u00eancias da Gazeta do Porto?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que houve perip\u00e9cia tremenda!<\/p>\n<p>&#8211; Temos o Gon\u00e7alinho Administrador de Oliveira!<\/p>\n<p>&#8211; Upa, Exmo Sr., upa!<\/p>\n<p>Mas de novo emudeceram. O Cavaleiro e o Fidalgo reapareciam, numa enfronhada<br \/>\nconversa, que os deteve um momento esquecidos, na evid\u00eancia da varanda<br \/>\nescancarada. Depois o Cavaleiro, com uma familiaridade carinhosa, bateu nas<br \/>\ncostas de Gon\u00e7alo &#8211; como se publicasse a sua reconcilia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndiante da pra\u00e7a maravilhada. E outra vez se sumiram, nesse passear<br \/>\nconversado e \u00edntimo, que os trazia da sombra do gabinete para a claridade<br \/>\nda janela, ro\u00e7ando as mangas, misturando o fumo leve dos charutos.<br \/>\nEmbaixo o bando crescia, mais excitado. Passara o Melo Alboim, o Bar\u00e3o<br \/>\ndas Marges, o Dr. Delegado; e, chamados com \u00e2nsia, cada um correra,<br \/>\ndevorara esgazeadamente a novidade, embasbacara para o velho balc\u00e3o<br \/>\nde pedra que o sol dourava. Os grossos ponteiros do rel\u00f3gio do Governo<br \/>\nCivil j\u00e1 se acercavam das quatro horas. Os dois Vila-Velhas, outros<br \/>\n&#8220;rapazes&#8221;, estafados, retrocederam \u00e0s cadeiras de verga da<br \/>\nTabacaria. O Dr. Delegado, que jantava \u00e0s quatro e sofria do est\u00f4mago,<br \/>\ndespegou desconsoladamente dos Arcos, suplicando ao Pestana seu vizinho &#8220;que<br \/>\naparecesse ao caf\u00e9 para contar o resto&#8230; &#8220;Melo Alboim, esse,<br \/>\nenfiara para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do largo; e da janela,<br \/>\ndisfar\u00e7ado por tr\u00e1s da mulher e da cunhada, ambas de chambres<br \/>\nbrancos e de papelotes, sondava o gabinete de S. Exa. com um bin\u00f3culo.<br \/>\nPor fim bateram, com estendida pancada, as quatro horas. Ent\u00e3o o Bar\u00e3o<br \/>\ndas Marges, na sua impaci\u00eancia borbulhante, decidiu subir ao Governo<br \/>\nCivil, &#8220;para farejar!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Mas nesse momento Andr\u00e9 Cavaleiro assomava de novo \u00e0 varanda<br \/>\n&#8211; sozinho, com as m\u00e3os enterradas no jaquet\u00e3o de flanela azul.<br \/>\nE quase imediatamente a caleche da Torre largou da porta do Governo Civil,<br \/>\natravessou a pra\u00e7a, com os estores verdes meio corridos, descobrindo<br \/>\napenas, \u00e0queles cavalheiros \u00e1vidos, as cal\u00e7as claras<br \/>\ndo Fidalgo.<\/p>\n<p>&#8211; Vai para os Cunhais!<\/p>\n<p>L\u00e1 o apanhava poiso Barrolo! E todos apressaram o bom Barrolo a que<br \/>\nmontasse, recolhesse, para ouvir do cunhado os motivos e os lances daquela<br \/>\npaz hist\u00f3rica! O Bar\u00e3o das Marges at\u00e9 lhe segurou o estribo.<br \/>\nBarrolo, alvoro\u00e7adamente, trotou para o largo de El-Rei.<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo Mendes Ramires, sem parar nos Cunhais, seguia para a Vendinha,<br \/>\nonde decidira jantar, dando um descanso \u00e0 parelha esfalfada. E logo<br \/>\ndepois das \u00faltimas casas da cidade subiu os estores, respirou deliciosamente,<br \/>\ncom o chap\u00e9u sobre os joelhos, a luminosa frescura da tarde &#8211; mais<br \/>\nfresca e de uma claridade mais consoladora que todas as tardes da sua vida&#8230;<br \/>\nVoltava de Oliveira vencedor! Furara enfim atrav\u00e9s da fenda, atrav\u00e9s<br \/>\ndo muro! E sem que a sua honra ou o seu orgulho se esga\u00e7assem nas asperezas<br \/>\nestreitas da fenda!&#8230; Aben\u00e7oado Gouveia, esperto Gouveia! E aben\u00e7oada<br \/>\na esperta conversa, na v\u00e9spera, pela Cal\u00e7adinha de Vila-Clara!&#8230;<\/p>\n<p>Sim, decerto, fora custoso aquele mudo momento em que se sentara secamente,<br \/>\nhirtamente, \u00e0 borda da poltrona, junto da pesada mesa administrativa<br \/>\nde S. Exa.. Mas mantivera muita dignidade e muita simplicidade&#8230;- &#8220;Sou<br \/>\nfor\u00e7ado (dissera) a dirigir-me ao Governador Civil, \u00e0 Autoridade,<br \/>\npor um motivo de Ordem P\u00fablica..; E a primeira aven\u00e7a partira<br \/>\nlogo do Cavaleiro, que torcia a bigodeira, p\u00e1lido: &#8211; &#8220;Sinto profundamente<br \/>\nque n\u00e3o seja ao homem, ao velho amigo, que Gon\u00e7alo Mendes Ramires<br \/>\nse dirija&#8230;&#8221; Ele ainda se conservava retra\u00eddo, resistente, murmurando<br \/>\ncom uma frieza triste: &#8211; &#8220;As culpas n\u00e3o s\u00e3o decerto minhas&#8230;&#8221;<br \/>\nE ent\u00e3o o Cavaleiro, depois de um sil\u00eancio em que lhe tremera<br \/>\no bei\u00e7o: &#8220;Ao cabo de tantos anos, Gon\u00e7alo, seria mais caridoso<br \/>\nn\u00e3o aludir a culpas, lembrar somente a antiga amizade, que, pelo menos,<br \/>\nem mim, se conservou a mesma, leal e s\u00e9ria&#8221;. A esta sensibilizada<br \/>\ninvoca\u00e7\u00e3o, ele volvera, com do\u00e7ura, com indulg\u00eancia:<br \/>\n&#8211; &#8220;Se o meu antigo amigo Andr\u00e9 recorda a nossa antiga amizade,<br \/>\neu n\u00e3o posso negar que em mim tamb\u00e9m ela nunca inteiramente<br \/>\nse apagou&#8230;&#8221; Ambos balbuciaram ainda alguns confusos lamentos sobre<br \/>\nos desacordos da vida. E quase insensivelmente se trataram por tu! Ele contou<br \/>\nao Cavaleiro a torpe ousadia do Casco. E o Cavaleiro, indignado como amigo,<br \/>\nmais como Autoridade, telegrafara logo ao Gouveia um mandado forte para inutilizar<br \/>\no valent\u00e3o dos Bravais&#8230; Depois conversaram da morte do Sanches Lucena,<br \/>\nque impressionava o Distrito. Ambos louvaram a beleza da vi\u00fava, os<br \/>\nseus duzentos contos. O Cavaleiro recordou a manh\u00e3, na Feitosa, em<br \/>\nque entrando pela porta pequena do jardim a surpreendera, dentro de um caramanch\u00e3o<br \/>\nde rosas, a apertar a liga. Uma perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a<br \/>\ncasar com a D. Ana, apesar dos duzentos contos e da divina perna&#8230; &#8211; J\u00e1<br \/>\nentre eles se restabelecera a antiga familiaridade de Coimbra. Era &#8220;tu<br \/>\nGon\u00e7alo, tu Andr\u00e9, oh menino, oh filho!&#8221;<\/p>\n<p>E fora Andr\u00e9, naturalmente, que aludira \u00e0 desapari\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Deputado do Governo, \u00e0 surpresa do circulo vago&#8230; Ele ent\u00e3o,<br \/>\ncom indiferen\u00e7a, estirado na poltrona, rufando com os dedos na borda<br \/>\nda mesa, murmurara:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, com efeito&#8230; Voc\u00eas agora devem estar embara\u00e7ados, assim<br \/>\nde repente&#8230;<\/p>\n<p>Mais nada! Apenas estas indolentes palavras, murmuradas atrav\u00e9s do<br \/>\nrufo. E o Cavaleiro, logo, sem prepara\u00e7\u00e3o, apressadamente, empenhadamente,<br \/>\nlhe oferecera o c\u00edrculo! &#8211; Pousara os olhos nele com lentid\u00e3o,<br \/>\ncomo para o penetrar, o escutar&#8230; Depois, insinuante e grave:<\/p>\n<p>&#8211; Se tu quisesses, Gon\u00e7alo, n\u00e3o est\u00e1vamos embara\u00e7ados&#8230;<\/p>\n<p>Ele ainda exclamara, com surpresa e riso:<\/p>\n<p>&#8211; Como, se eu quisesse?<\/p>\n<p>E o Andr\u00e9, sempre com os olhos nele cravados, os largos olhos lustrosos,<br \/>\nt\u00e3o persuasivos:<\/p>\n<p>&#8211; Se tu quisesses servir o Pa\u00eds, ser Deputado por Vila-Clara, j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1vamos embara\u00e7ados, Gon\u00e7alo!<\/p>\n<p>Se tu quisesses&#8230; E perante esta insist\u00eancia que rogava, t\u00e3o<br \/>\nsincera e comovida, em nome do Pa\u00eds, ele consentira, vergara os ombros:<\/p>\n<p>&#8211; Se te posso ser \u00fatil, e ao Pa\u00eds, estou \u00e0s vossas ordens.<\/p>\n<p>E eis a fenda transposta, a \u00e1spera fenda, sem rasg\u00e3o no seu<br \/>\norgulho ou na sua dignidade! Depois conversaram desafogadamente, passeando<br \/>\npelo gabinete, desde a estante carregada de pap\u00e9is at\u00e9 a varanda<br \/>\n&#8211; que Andr\u00e9 abrira, por causa dum cheiro persistente de petr\u00f3leo<br \/>\nentornado na v\u00e9spera. Andr\u00e9 tencionava partir nessa noite para<br \/>\nLisboa &#8211; para conferenciar com o Governo, depois daquela inesperada desapari\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Lucena. E, agora em Lisboa, imporia o querido Gon\u00e7alo como \u00fanico<br \/>\nDeputado, depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial &#8211; pelo nome, pelo<br \/>\ntalento, pela influ\u00eancia, pela lealdade. E eis a elei\u00e7\u00e3o<br \/>\nconsumada! De resto (declarara o Cavaleiro, rindo) aquele Circulo de Vila-Clara<br \/>\nconstitu\u00eda uma propriedade sua &#8211; t\u00e3o sua como Corinde. Livremente,<br \/>\npoderia eleger o servente da Reparti\u00e7\u00e3o que era gago e b\u00eabedo.<br \/>\nPrestava pois um servi\u00e7o espl\u00eandido ao Governo. \u00e0 Na\u00e7\u00e3o,<br \/>\napresentando um mo\u00e7o de t\u00e3o alta origem e de t\u00e3o tina<br \/>\nintelig\u00eancia&#8230; Depois acrescentara:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tens a pensar mais na elei\u00e7\u00e3o. Vais para a Torre.<br \/>\nN\u00e3o contas a ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser ao Gouveia. Esperas l\u00e1,<br \/>\nmuito quietinho, telegrama meu de Lisboa. E, recebido ele, est\u00e1s Deputado<br \/>\npor Vila-Clara, anuncias a teu cunhado, aos amigos&#8230; Depois, no domingo,<br \/>\nvens almo\u00e7ar comigo a Corinde, \u00e0s onze.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ambos se apertaram num abra\u00e7o que fundiu de novo, e para<br \/>\nsempre, as duas almas apartadas. Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde<br \/>\no acompanhara, Andr\u00e9, repenetrando timidamente no Passado. murmurou<br \/>\ncom um riso pensativo: &#8211; &#8220;Que tens tu feito ultimamente, nessa querida<br \/>\nTorre?&#8221; E, ao saber da Novela para os Anais, suspirou com saudade dos<br \/>\ntempos de Imagina\u00e7\u00e3o e de Arte em Coimbra, quando ele amorosamente<br \/>\nlapidava o primeiro canto dum poema her\u00f3ico, o Fronteiro de Ceuta.<br \/>\nEnfim outro abra\u00e7o &#8211; e ali voltava Deputado por Vila-Clara.<\/p>\n<p>Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da caleche,<br \/>\nera ele que os representava em Cortes, ele, Gon\u00e7alo Mendes Ramires&#8230;<br \/>\nE superiormente os representaria, merc\u00ea de Deus! Porque j\u00e1 as<br \/>\nid\u00e9ias o invadiam, vi\u00e7osas e f\u00e9rteis. Na Vendinha, enquanto<br \/>\nesperava que lhe frigissem um chouri\u00e7o com ovos e duas postas de s\u00e1vel,<br \/>\nmeditou, para a Resposta ao Discurso da Coroa, um esbo\u00e7o sombrio e<br \/>\n\u00e1spero da nossa Administra\u00e7\u00e3o na \u00c1frica. E lan\u00e7aria<br \/>\nent\u00e3o um brado \u00e0 Na\u00e7\u00e3o, que a despertasse, lhe<br \/>\narrastasse as energias para essa \u00c1frica portentosa, onde cumpria, como<br \/>\ngl\u00f3ria suprema e suprema riqueza, edificar de costa a costa um Portugal<br \/>\nmaior!&#8230; A noite cerrara, ainda outras id\u00e9ias o revolviam, vastas<br \/>\ne vagas &#8211; quando o trote esfalfado da parelha estacou no port\u00e3o da<br \/>\nTorre.<\/p>\n<p>Ao outro dia (ter\u00e7a-feira) \u00e0s dez horas, o Bento entrou no<br \/>\nquarto do Fidalgo com um telegrama, que chegara \u00e0 Vila de madrugada.<br \/>\nGon\u00e7alo pensou com um deslumbrado pulo do cora\u00e7\u00e3o: &#8211;<br \/>\n&#8216;~\u00c9 do Governo!&#8221; &#8211; Era do Pinheiro, gritando pela Novela. Gon\u00e7alo<br \/>\namarrotou o telegrama. A Novela! Como poderia labutar na Novela, agora, todo<br \/>\nna impaci\u00eancia e no esfor\u00e7o da sua Elei\u00e7\u00e3o?&#8230;<br \/>\nNem almo\u00e7ou sossegadamente &#8211; retendo, atrav\u00e9s dos pratos que<br \/>\narredava, um desejo desesperado de &#8220;contar ao Bento&#8221;. E, sorvido<br \/>\no caf\u00e9 num sorvo impaciente, atirou para Vila-Clara, a desafogar com<br \/>\no Gouveia. O pobre Administrador jazia de novo no canap\u00e9 de palhinha,<br \/>\ncom papas na garganta. E toda a tarde na estreita sala forrada de papel verde-gaio,<br \/>\nGon\u00e7alo exaltou os talentos do Andr\u00e9, &#8220;homem de governo<br \/>\ne de id\u00e9ias, Gouveia!&#8221; &#8211; celebrou o Minist\u00e9rio Hist\u00f3rico,<br \/>\no \u00fanico capaz de salvar esta choldra, Gouveia!&#8221; &#8211; desenrolou vistosos<br \/>\nProjetos de Lei que meditava sobre a \u00c1frica, &#8220;a nossa esperan\u00e7a<br \/>\nmagn\u00edfica, Gouveia!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Enquanto o Gouveia, estirado, s\u00f3 rompia a mudez e a imobilidade<br \/>\npara murmurar chochamente, apalpando o calor das papas:<\/p>\n<p>&#8211; E a quem deve voc\u00ea tudo isso, Gon\u00e7alinho? C\u00e1 ao meco!<\/p>\n<p>&#8211; Na quarta-feira, ao acordar, tarde, o seu pensamento saltou logo sofregamente<br \/>\npara o Andr\u00e9 Cavaleiro, que a essa hora, em Lisboa, almo\u00e7ava<br \/>\nno Hotel Central (sempre, desde rapaz, Andr\u00e9 se conservara fiel ao<br \/>\nHotel Central). E todo o dia, fumando cigarros insaciavelmente atrav\u00e9s<br \/>\ndo sil\u00eancio da casa e da quinta, seguiu o Cavaleiro nos seus giros de<br \/>\nchefe de Distrito, pela Baixa, pela Arcada, pelos Minist\u00e9rios&#8230; Naturalmente<br \/>\njantaria com o tio Reis Gomes, Ministro da Justi\u00e7a. Outro convidado<br \/>\ncertamente seria o Jos\u00e9 Ernesto, Ministro do Reino, condisc\u00edpulo<br \/>\ndo Cavaleiro, seu confidente pol\u00edtico&#8230; Nessa noite, pois, tudo se<br \/>\ndecidia!<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3, pelas dez horas, tenho c\u00e1 telegrama do Andr\u00e9.<\/p>\n<p>Nenhuma not\u00edcia chegou \u00e0 Torre: &#8211; e o Fidalgo passou a lenta<br \/>\nquinta-feira \u00e0 janela, vigiando a estrada poeirenta por onde surdiria<br \/>\no mo\u00e7o do tel\u00e9grafo, um rapaz gordo que ele conhecia pelo bon\u00e9<br \/>\nde oleado e pela perna manca. A noitinha, intoleravelmente inquieto, mandou<br \/>\num mo\u00e7o a Vila-Clara. Talvez o telegrama arrastasse, esquecido, pela<br \/>\nmesa daquela &#8220;besta do Nunes do Tel\u00e9grafo&#8221;! N\u00e3o havia<br \/>\ntelegrama para o Fidalgo. Ent\u00e3o ficou certo de surgirem em Lisboa dificuldades!<br \/>\nE toda a noite, sem sossego, numa indigna\u00e7\u00e3o que rolava e crescia,<br \/>\nimaginou o Cavaleiro cedendo molemente a outras exig\u00eancias do Ministro<br \/>\n&#8211; aceitando com servilismo para Vila-Clara a candidatura de algum imbecil<br \/>\nda Arcada, de algum chulo escrevinhador do Partido!<\/p>\n<p>Pela manh\u00e3 injuriou o Bento, por lhe trazer t\u00e3o tarde os jornais<br \/>\ne o ch\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o h\u00e1 telegrama, nem carta?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 nada.<\/p>\n<p>Bem, fora tra\u00eddo! Pois nunca, nunca, aquele infame Cavaleiro transporia<br \/>\na porta dos Cunhais! De resto, que lhe importava a burlesca Elei\u00e7\u00e3o?<br \/>\nMerc\u00ea de Deus que lhe sobravam outros meios de provar soberbamente o<br \/>\nseu valor &#8211; e bem superiores a uma ensebada cadeira em S. Bento! Que mis\u00e9ria,<br \/>\nna verdade, curvar o seu esp\u00edrito e o seu nome ao rasteiro servi\u00e7o<br \/>\ndo S. Fulg\u00eancio, o obeso e horrendo careca! E resolveu logo regressar<br \/>\naos cimos puros da Arte, ocupar altivamente todo o dia no nobre e elegante<br \/>\ntrabalho da sua Novela.<\/p>\n<p>Depois do almo\u00e7o ainda abancou, com esfor\u00e7o, remexeu nervosamente<br \/>\nas tiras de papel. E de repente agarrou o chap\u00e9u, abalou para Vila-Clara,<br \/>\npara o tel\u00e9grafo. O Nunes n\u00e3o recebera nada para S. Exa.! &#8211;<br \/>\nCorreu, coberto de suor e p\u00f3, \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Concelho. O Sr. Administrador partira para Oliveira!&#8230; Positivamente vencera<br \/>\noutra combina\u00e7\u00e3o &#8211; eis a sua confian\u00e7a burlada! E recolheu<br \/>\n\u00e0 Torre, decidido a tomar um desfor\u00e7o tremendo do Cavaleiro<br \/>\npor tanta inj\u00faria amontoada sobre o seu nome, sobre a sua dignidade!<br \/>\nToda a abafada e enevoada sexta-feira a consumiu amargamente meditando esta<br \/>\nvingan\u00e7a, que queria bem p\u00fablica e bem sangrenta. A mais saborosa,<br \/>\nmais simples, seria rasgar a bigodeira do infame com chicotadas, na escadaria<br \/>\nda S\u00e9, um domingo, \u00e0 sa\u00edda da missa! Ao escurecer, depois<br \/>\nd\u00f3 jantar que mal debicara, naquele despeito e humilha\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o pungiam, envergou o casaco para voltar a Vila-Clara. N\u00e3o entraria<br \/>\nno Tel\u00e9grafo &#8211; j\u00e1 com vergonha do Nunes. Mas gastaria a noite<br \/>\nna Assembl\u00e9ia, jogando o bilhar, tomando um alegre ch\u00e1, lendo<br \/>\nrisonhamente os Jornais Regeneradores, para que todos recordassem a sua indiferen\u00e7a<br \/>\n&#8211; se por acaso, mais tarde, conhecessem a trama em que resvalara.<\/p>\n<p>Desceu ao p\u00e1tio, onde as \u00e1rvores adensavam a sombra do crep\u00fasculo<br \/>\ncarregado de fuscas nuvens. E abria o port\u00e3o, quando esbarrou com um<br \/>\nrapaz que se esbaforia sobre a perna manca e gritava: &#8211; &#8220;\u00c9 um<br \/>\ntelegrama!&#8221; Com que voracidade lho arrancou das m\u00e3os! Correu \u00e0<br \/>\ncozinha, ralhou desabridamente \u00e0 Rosa pela falta da luz tardia! E,<br \/>\ncom um f\u00f3sforo a arder nos dedos, devorou, num lampejo, as linhas benditas:<br \/>\n&#8211; &#8220;Ministro aceita, tudo arranjado O resto era o Cavaleiro lembrando<br \/>\nque no domingo o esperava em Corinde, \u00e0s onze, para almo\u00e7arem<br \/>\ne conversarem&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Mendes Ramires deu cinco tost\u00f5es ao mo\u00e7o do<br \/>\ntel\u00e9grafo &#8211; galgou as escadas. Na livraria, \u00e0 claridade mais<br \/>\nsegura do candeeiro, releu o telegrama delicioso. Ministro aceita, tudo arranjado!&#8230;<br \/>\nNa sua transbordante gratid\u00e3o pelo Cavaleiro, ideou logo um jantar<br \/>\nsoberbo, oferecido nos Cunhais pelo Barrolo, cimentando para sempre a reconcilia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas duas Casas. E recomendaria a Gracinha que, para mais honrar a doce festa,<br \/>\nse decotasse, pusesse o seu colar magn\u00edfico de brilhantes, a derradeira<br \/>\nj\u00f3ia hist\u00f3rica dos Ramires.<\/p>\n<p>Aquele Andr\u00e9! que flor, que rapaz!<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio de char\u00e3o, no corredor, rouquejou as nove horas.<br \/>\nE s\u00f3 ent\u00e3o Gon\u00e7alo percebeu a densa chuva que alagava<br \/>\na quinta, e a que ele, embebido na sua gl\u00f3ria, passeando pela livraria<br \/>\nnum luminoso rolo de imagina\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sentira o rumor<br \/>\nsobre a pedra da varanda, nem sobre a folhagem dos limoeiros.<\/p>\n<p>Para se calmar, ocupar a noite encerrada, deliberou trabalhar na Novela.<br \/>\nE realmente agora convinha que terminasse essa Torre de D. Ramires antes do<br \/>\naf\u00e3 da Elei\u00e7\u00e3o &#8211; para que em janeiro, ao abrir das Cortes,<br \/>\nsurgisse na Pol\u00edtica com o seu velho nome aureolado pela Erudi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne pela Arte. Envergou o roup\u00e3o de flanela. E \u00e0 banca, com o<br \/>\ncostumado bule de ch\u00e1 inspirador, repassou lentamente o come\u00e7o<br \/>\ndo Capitulo II- que o n\u00e3o contentava.<\/p>\n<p>Era no castelo de Santa Iren\u00e9ia, naquele dia de agosto em que Louren\u00e7o<br \/>\nRamires ca\u00edra no vale de Canta-Pedra, malferido e cativo do Bastardo<br \/>\nde Bai\u00e3o. Pelo Almocad\u00e9m dos pe\u00f5es, que, com o bra\u00e7o<br \/>\nvarado por uma chu\u00e7ada, voltara em desesperada carreira ao Castelo,<br \/>\nj\u00e1 Tructesindo Ramires conhecia o desventuroso desfecho da lide. &#8211;<br \/>\nE neste lance o tio Duarte, no seu poemeto do BARDO, com um lirismo mole,<br \/>\nmostrava o enorme Rico-homem gemendo derramadamente atrav\u00e9s da sala<br \/>\nde armas, na saudade desse filho, flor dos Cavaleiros de Riba-Cavado, derrubado,<br \/>\namarrado numas andas, \u00e0 merc\u00ea da gente de Bai\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1grimas irrepresas lhe rebentam,<br \/>\nArfa o arn\u00eas c&#8217;o solu\u00e7ar ardente!&#8230;<\/p>\n<p>Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte, tamb\u00e9m ele, nas linhas<br \/>\nprimeiras do Cap\u00edtulo, esbo\u00e7ara o velho abatido sobre um escanho,<br \/>\ncom l\u00e1grimas reluzentes sobre as barbas brancas, as duras m\u00e3os<br \/>\ndesca\u00eddas como as de l\u00e2nguida dona &#8211; enquanto que nas lajes,<br \/>\nbatendo a cauda, os seus dois lebreus o contemplam numa simpatia ansiada e<br \/>\nquase humana. Mas, agora, este choroso desalento n\u00e3o lhe parecia coerente<br \/>\ncom a alma t\u00e3o indomavelmente violenta do av\u00f4 Tructesindo. O<br \/>\ntio Duarte, da casa das Balsas, n\u00e3o era um Ramires, n\u00e3o sentia<br \/>\nhereditariamente a fortaleza da ra\u00e7a: &#8211; e, rom\u00e2ntico plangente<br \/>\nde 1848, inundara logo de prantos rom\u00e2nticos a face f\u00e9rrea de<br \/>\num lidador do s\u00e9culo XII, dum companheiro de Sancho I! Ele por\u00e9m<br \/>\ndevia restabelecer os esp\u00edritos do Senhor de Santa Iren\u00e9ia dentro<br \/>\nda realidade \u00e9pica. E, riscando logo esse descorado e falso come\u00e7o<br \/>\nde Capitulo, retomou o lance mais vigorosamente, enchendo todo o castelo de<br \/>\nSanta Iren\u00e9ia duma irada e rija alarma. Na sua lealdade sublime e simples,<br \/>\nTructesindo n\u00e3o cuida do filho &#8211; adia a desforra do amargo ultraje.<br \/>\nE o seu esfor\u00e7o todo se comete a apressar os aprestos da mesnada, para<br \/>\ncorrer ele sobre Montemor, e levar \u00e0s Senhoras Infantas os socorros<br \/>\nde que as privara a emboscada de Canta-Pedra! Mas quando o impetuoso Rico<br \/>\nhomem com o Adail, na sala de armas, regia a ordem da arrancada &#8211; eis que<br \/>\nos esculcas, abrigados do calor de agosto nos miradouros, enxergam ao longe,<br \/>\npara al\u00e9m do arvoredo da Ribeira, coriscos de armas, uma cavalgada<br \/>\nsubindo para Santa Iren\u00e9ia. O V\u00edlico, o gordo e azafamado Ordonho,<br \/>\ngalga arquejando aos eirados da torre albarr\u00e3 &#8211; e reconhece o pend\u00e3o<br \/>\nde Lopo de Bai\u00e3o, o seu toque de trompas \u00e0 mourisca, arrastado<br \/>\ne triste no sil\u00eancio dos campos. Ent\u00e3o arqueia as cabeludas m\u00e3os<br \/>\nna boca, atira o alarido:<\/p>\n<p>&#8211; Armas, armas! que \u00e9 gente de Bai\u00e3o!&#8230; Besteiros, \u00e0s<br \/>\nquadrelas! Homens em chusma \u00e0s levadi\u00e7as da c\u00e1rcova!<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo, co\u00e7ando a testa com a rama da pena, rebuscava ainda<br \/>\noutros ver\u00eddicos brados, de bravo som Afonsino &#8211; quando a porta da<br \/>\nlivraria abriu cautelosamente, atrav\u00e9s daquele perro rangido que o<br \/>\ndesesperava. Era o Bento, em mangas de camisa:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Dr. n\u00e3o poderia descer c\u00e1 baixo \u00e0 cozinha?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo embasbacou para o Bento, pestanejando, sem compreender:<\/p>\n<p>&#8211; A cozinha?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E que est\u00e1 l\u00e1 a mulher do Casc\u00f4 a levantar uma celeuma.<br \/>\nParece que lhe prenderam o homem esta tarde&#8230; Apareceu a\u00ed por baixo<br \/>\nde \u00e1gua, com os pequenos, at\u00e9 um de mama. Quer por for\u00e7a<br \/>\nfalar com o Sr. Dr. E n\u00e3o se cala, lavada em l\u00e1grimas, de joelhos<br \/>\ncom os filhos, que \u00e9 mesmo uma In\u00eas de Castro!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo murmurou: &#8220;que ma\u00e7ada!&#8221; E que contrariedade!<br \/>\nA mulher, numa agonia, entre gritos, arrastando os filhos suplicantes at\u00e9<br \/>\no port\u00e3o da Torre! E ele, nas v\u00e9speras da sua Elei\u00e7\u00e3o,<br \/>\naparecendo a todas as freguesias enternecidas como um Fidalgo desumano!&#8230;<br \/>\nAtirou a pena furiosamente:<\/p>\n<p>&#8211; Que ma\u00e7ada! Dize \u00e0 criatura que me deixe, que se n\u00e3o<br \/>\naflija&#8230; O Sr. Administrador amanh\u00e3 manda soltar o Casco. Eu mesmo<br \/>\nvou a Vila-Clara, antes do almo\u00e7o, para pedir. Que se n\u00e3o aflija,<br \/>\nque n\u00e3o aterre os pequenos&#8230; Corre, dize, homem!<\/p>\n<p>Mas o Bento n\u00e3o despegava da porta:<\/p>\n<p>&#8211; Pois a Rosa e eu j\u00e1 lhe dissemos&#8230; Mas a mulherzinha n\u00e3o<br \/>\nacredita, quer pedir ao Sr. Dr.! Veio por baixo de \u00e1gua. At\u00e9<br \/>\num dos pequenitos est\u00e1 bem doentinho, ainda n\u00e3o fez sen\u00e3o<br \/>\ntremer&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Gon\u00e7alo, sensibilizado, atirou \u00e0 mesa um murro<br \/>\nque tresmalhou as tiras da Novela:<\/p>\n<p>&#8211; Ora se uma coisa destas se atura! Um homem que me quis matar! E agora,<br \/>\npor cima, \u00e9 sobre mim que desabam as l\u00e1grimas, e as cenas, e<br \/>\na crian\u00e7a doente! N\u00e3o se pode viver nesta terra! Um dia vendo<br \/>\ncasa e quinta, emigro para Mo\u00e7ambique, para o Transvaal, para onde<br \/>\nn\u00e3o haja ma\u00e7adas&#8230; Bem, dize \u00e0 mulher que j\u00e1<br \/>\ndes\u00e7o.<\/p>\n<p>O Bento aprovou, com efus\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Pois se o Sr. Dr. lhe n\u00e3o custa&#8230; E como \u00e9 para dar uma<br \/>\nboa nova&#8230; Sempre consola a pobre mulherzinha!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vou, homem, l\u00e1 vou! N\u00e3o me maces tamb\u00e9m&#8230;<br \/>\nImposs\u00edvel trabalhar nesta casa! Outra noite perdida!<\/p>\n<p>Enfiou violentamente para o quarto, atirando as portas &#8211; com a id\u00e9ia<br \/>\nde meter na algibeira do roup\u00e3o duas notas de dez tost\u00f5es que<br \/>\nconsolariam os pequenos. Mas, diante da gaveta, recuou, vexado. Que brutal<br \/>\nidade, compensar com dinheiro criancinhas &#8211; a quem ele arrancara o pai, algemado,<br \/>\npara o trancar numa enxovia! Agarrou simplesmente numa boceta de alperces<br \/>\nsecos &#8211; dos famosos alperces do Convento de Santa-Br\u00edgida, de Oliveira,<br \/>\nque na v\u00e9spera lhe mandara Gracinha. E, cerrando lentamente o quarto,<br \/>\nj\u00e1 se arrependia da sua severidade, t\u00e3o estouvada, que assim<br \/>\ndesmanchava a quieta\u00e7\u00e3o de um casal. Depois no corredor, ante<br \/>\na chuva clamorosa que dos telhados se despenhava nas lajes do p\u00e1tio,<br \/>\nainda mais doridamente se impressionou, com a imagem da pobre mulher, tresloucada<br \/>\npela negra estrada, puxando os filhinhos encharcados, mo\u00eddos, contra<br \/>\na tormenta solta. E ao penetrar no corredor da cozinha &#8211; tremia como um culpado.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da porta envidra\u00e7ada sentiu logo a Rosa e o Bento consolando<br \/>\na mulher, com palradora confian\u00e7a, quase risonhos. Mas os &#8216;ais&#8221;<br \/>\ndela, os ruidosos lamentos pelo &#8220;seu rico homem&#8221;, ressoavam, mais<br \/>\nagudos, como a rebater e a abafar toda a consola\u00e7\u00e3o. E apenas<br \/>\nGon\u00e7alo empurrou timidamente a porta &#8211; quase acuou no espanto e medo<br \/>\ndaquela afli\u00e7\u00e3o estridente que se arremessava para ele e para<br \/>\na sua miseric\u00f3rdia! De rojos nas lajes, torcendo as magras m\u00e3os<br \/>\nsobre a cabe\u00e7a, toda de negro, parecendo mais negra e dolorosa contra<br \/>\na vermelhid\u00e3o do len\u00e7ol estendido que secava ao lume forte da<br \/>\nlareira &#8211; a criatura estalara num tumulto de s\u00faplicas e gritos:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, meu rico Senhor, tenha compaix\u00e3o! Ai, que me prenderam o meu<br \/>\nhomem, que mo v\u00e3o mandar para a \u00c1frica degredado! Jesus, meus<br \/>\nfilhinhos da minha alma que ficam sem pai! Ai, pelas suas almas, meu senhor,<br \/>\ne por toda a sua felicidade!&#8230; Eu sei que ele teve culpa! Aquilo foi perdi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe deu! Mas tenha piedade destas criancinhas! Ai, o meu pobre homem que<br \/>\nest\u00e1 a ferros Ai, meu rico Senhor, por quem \u00e9!<\/p>\n<p>Com as p\u00e1lpebras umedecidas, agarrando, desesperadamente, a boceta<br \/>\nde alperces, Gon\u00e7alo balbuciava, atrav\u00e9s da emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o estrangulava:<\/p>\n<p>&#8211; Oh mulher, sossegue, j\u00e1 o v\u00e3o soltar! Sossegue! J\u00e1<br \/>\ndei ordem! J\u00e1 o v\u00e3o soltar!<\/p>\n<p>E de um lado a Rosa, debru&amp;cccedil;ada sobre a escura criatura que gemia,<br \/>\nrecome\u00e7ava docemente: &#8211; &#8220;Pois foi o que lhe dissemos, tia Maria!<br \/>\nLogo pela manh\u00e3, o v\u00e3o soltar!&#8221;- E do outro o Bento, batendo<br \/>\nna coxa, com impaci\u00eancia: -&#8220;Oh mulher, acabe com esse escarc\u00e9u!<br \/>\nPois se o Sr. Dr. prometeu! Logo pela manh\u00e3 o v\u00e3o soltar!&#8221;<\/p>\n<p>Mas ela n\u00e3o se calmava, com o len\u00e7o da cabe\u00e7a desmanchado,<br \/>\numa tran\u00e7a desprendida, solu\u00e7ando e clamando atrav\u00e9s<br \/>\ndos solu\u00e7os:<\/p>\n<p>&#8211; Ai que eu morro, se o n\u00e3o vejo solto! Ai, perd\u00e3o, meu rico<br \/>\nSenhor da minha alma!&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Gon\u00e7alo, que aquele infind\u00e1vel e obtuso queixume<br \/>\ntorturava, como um ferro cravado e recravado, bateu o chinelo nas lajes, berrou:<\/p>\n<p>&#8211; Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de p\u00e9, de p\u00e9!&#8230; E olhe<br \/>\nbem, olhe direita!<\/p>\n<p>Hirtamente erguida, atirando as m\u00e3os para as costas como a escapar<br \/>\nde algemas que tamb\u00e9m a amea\u00e7assem &#8211; ela arregalou para o Fidalgo<br \/>\nos olhos espavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras tristes, que<br \/>\nlhe enchiam a face rechupada e morena.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, perfeitamente! &#8211; exclamava Gon\u00e7alo. &#8211; E agora diga! Acha que<br \/>\ntenho bojo de lhe mentir, quando vossemec\u00ea est\u00e1 nessa afli\u00e7\u00e3o?<br \/>\nPois ent\u00e3o sossegue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra. amanh\u00e3<br \/>\ncedo, o seu homem est\u00e1 solto!<\/p>\n<p>E a Rosa e o Bento, ambos triunfando:<\/p>\n<p>&#8211; Pois que lhe dizia a gente, criatura de Deus? Se o Sr. Dr. tinha prometido&#8230;<br \/>\nAmanh\u00e3 l\u00e1 tem o homem! Lentamente ela limpava as l\u00e1grimas,<br \/>\nj\u00e1 silenciosa, \u00e0 ponta do avental negro. Mas ainda desconfiada,<br \/>\ncom os tenebrosos olhos mais arregalados, devorando Gon\u00e7alo. E o fidalgo<br \/>\nmandava com certeza a ordem, cedinho, de madrugada?&#8230; Foi o Bento que a convenceu,<br \/>\ncom viol\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Oh mulher, voc\u00ea at\u00e9 parece atrevida! Ora essa! Pois duvida<br \/>\nda palavra do Sr. Dr.?<\/p>\n<p>Ela soltou o avental, baixou a cabe\u00e7a, suspirou simplesmente:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, ent\u00e3o muito obrigada, seja pela felicidade de todos&#8230;<\/p>\n<p>E agora a curiosidade de Gon\u00e7alo procurava os pequenos que ela acarretara<br \/>\ndesde os Bravais atrav\u00e9s da chuva cerrada. A pequenina de mama dormia<br \/>\ncom beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a boa Rosa a aconchegara entre<br \/>\nmantas e fronhas. Mas o pequeno, de sete anos, encolhido numa cadeira diante<br \/>\ndo lume, rente ao len\u00e7ol que secava, secando tamb\u00e9m, com a carinha<br \/>\nafogueada de febre, tossia despeda\u00e7adamente, num cabecear de sono e<br \/>\ncansa\u00e7o, a arquejar, a gemer contra a tosse que o esfalfava. Gon\u00e7alo<br \/>\npousou a boceta de alperces na arca, palpou a m\u00e3o com que ele, sem<br \/>\ncessar, raspava pela abertura da camisa encardida o peito ainda mais encardido.<\/p>\n<p>&#8211; Mas esta crian\u00e7a tem febre!&#8230; E voc\u00ea, com uma noite destas,<br \/>\ntraz o pequeno assim desde os Bravais, mulher?<\/p>\n<p>Da cadeirinha baixa, onde se sentara prostrada, ela murmurou, sem erguer<br \/>\na magra face, torcendo a ponta do avental:<\/p>\n<p>&#8211; Ai! era para que eles tamb\u00e9m pedissem, que estavam sem pai, coitadinhos!<\/p>\n<p>&#8211; Vossemec\u00ea \u00e9 doida, mulher! E pretende talvez voltar para os<br \/>\nBravais, debaixo d&#8217;\u00e1gua, com as crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Ela suspirou:<\/p>\n<p>&#8211; Ai! volto, volto&#8230; N\u00e3o posso deixar sozinha a m\u00e3e do meu<br \/>\nhomem, que tem oitenta anos e est\u00e1 entrevada&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Fidalgo cruzou descor\u00e7oadamente os bra\u00e7os &#8211;<br \/>\nno embara\u00e7o daquela aventura, em que, por culpa da sua ferocidade,<br \/>\nse arriscavam duas crian\u00e7as. Mas a Rosa entendia que a pequenina, a<br \/>\nde mama, n\u00e3o sofreria com a caminhada, bem achegadinha ao colo da m\u00e3e,<br \/>\ndebaixo de uma manta grossa. Agora o outro, com a tosse, com a febre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esse fica c\u00e1! &#8211; exclamou logo Gon\u00e7alo, decidido. &#8211; Como se<br \/>\nchama ele? Manuel&#8230; Bem! O Manuel fica c\u00e1. E v\u00e1 descansada,<br \/>\nque a Sra. Rosa toma cuidado. Precisa uma boa gemada, depois um bom suadouro.<br \/>\nUm destes dias l\u00e1 lhe aparece nos Bravais, curado e mais gordo&#8230; V\u00e1<br \/>\nsossegada!<\/p>\n<p>De novo a mulher suspirou, no cansa\u00e7o imenso que a invadira, a amolecia.<br \/>\nE sem resistir, no seu longo e abatido h\u00e1bito de submiss\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, est\u00e1 muito bem&#8230;<\/p>\n<p>O Bento, entreabrindo a porta do p\u00e1tio, anunciava uma &#8220;aberta&#8221;,<br \/>\no negrume a levantar. Gon\u00e7alo imediatamente apressou a volta aos Bravais:<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o tenha medo, mulher. Vai um mo\u00e7o da quinta com uma lanterna,<br \/>\ne um guarda-chuva para abrigar a pequena.. Escute! Vossemec\u00ea at\u00e9<br \/>\npodia levar uma capa de borracha!&#8230; O Bento, corre, desce a minha capa de<br \/>\nborracha. A nova, a que comprei em Lisboa&#8230;<\/p>\n<p>E quando o Bento trouxe o &#8220;imperme\u00e1vel&#8221; de longa romeira,<br \/>\no lan\u00e7ou por sobre os ombros da mulher, que o estofo rico intimidava,<br \/>\ncom o seu ruge-ruge de seda &#8211; foi na cozinha uma divertida risada. O pranto<br \/>\npassara, como a chuva. Agora era uma visita amor\u00e1vel, findando num<br \/>\narranjo alegre de agasalhos. A Rosa apertava as m\u00e3os, banhada de gosto:<\/p>\n<p>&#8211; Assim \u00e9 que vossemec\u00ea fica uma bonita Madama, hem!&#8230; Se fosse<br \/>\nde dia, olhe que se juntava gente!<\/p>\n<p>A mulher sorria enfim, descoradamente, sem interesse:<\/p>\n<p>&#8211; Ai! nem sei que pare\u00e7o&#8230; Que avantesma!<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do p\u00e1tio, onde as ac\u00e1cias gotejavam docemente,<br \/>\nGon\u00e7alo acompanhou o rancho at\u00e9 a porta do pomar, gritando ainda<br \/>\n&#8211; &#8220;Agasalhem bem a pequena!&#8221; &#8211; quando j\u00e1 a lanterna do mo\u00e7o<br \/>\nse fundia na \u00famida espessura da noite acalmada. Depois, na cozinha,<br \/>\nbatendo contra as lajes as solas dos chinelos molhados, apalpou novamente<br \/>\no Manuelzinho, que adormecera num sono rouquejado, torcido sobre as costas<br \/>\nda cadeira.<\/p>\n<p>&#8211; Tem pouca febre&#8230; Mas precisa um suadouro forte. E, antes de o cobrirem<br \/>\nbem, um leite quente, quase a ferver, com cognac&#8230; O que ele precisava, tamb\u00e9m,<br \/>\nera esfregado a coco&#8230; Que porcaria de gente! Enfim fica para mais tarde,<br \/>\nquando se curar&#8230; E agora, \u00f3 Rosa, mande acima alguma coisa para eu<br \/>\ncear, coisa s\u00f3lida, que n\u00e3o jantei, e o sarau foi tremendo!<\/p>\n<p>Na livraria, depois de mudar os chinelos, descansar, Gon\u00e7alo escreveu<br \/>\nao Gouveia uma carta reclamando com comovida urg\u00eancia a liberdade do<br \/>\nCasco. E acrescentava: &#8211; &#8220;\u00c9 o primeiro pedido que lhe faz o Deputado<br \/>\npor Vila-Clara (cumprimente!), porque acabo de receber telegrama do nosso<br \/>\nAndr\u00e9, anunciando que &#8216;tudo feito, ministro concorda, etc.&#8217;. De sorte<br \/>\nque precisamos comunicar! Queira pois Vossa Merc\u00ea vir jantar amanh\u00e3<br \/>\na esta sua Torre, \u00e0 sombra do Tit\u00f3 e com acompanhamento de Videirinha.<br \/>\nEstes dois benem\u00e9ritos s\u00e3o indispens\u00e1veis para que haja<br \/>\napetite e harmonia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do festim, para me<br \/>\nevitar a remessa de circulares eloq\u00fcentes&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Lacrada a carta, retomou languidamente o manuscito da Novela. E, trincando<br \/>\na rama da pena, ainda procurou vozes, de bom sabor medieval, para aquele lance<br \/>\nem que o V\u00edlico e as roldas enxergavam a cavalgada do Bastardo, pela<br \/>\nencosta da Ribeira, com refulgidos de armas, sob o rijo sol de agosto&#8230;<\/p>\n<p>Mas a sua imagina\u00e7\u00e3o, desde a carta escrita ao Gouveia pelo<br \/>\n&#8220;Deputado de Vila-Clara&#8221;, escapava desassossegadamente da velha<br \/>\nHonra de Santa Iren\u00e9ia &#8211; esvoa\u00e7ava teimosamente para os lados<br \/>\nde Lisboa, da Lisboa do S. Fulg\u00eancio. E o eirado da torre albarr\u00e3,<br \/>\nonde o gordo Ordonho gritava esbaforido &#8211; incessantemente se desfazia como<br \/>\nn\u00e9voa mole, para sobre ele surgir, apetitoso e mais interessante, um<br \/>\nquarto do Hotel Bragan\u00e7a com varanda sobre o Tejo&#8230; Foi um alivio<br \/>\nquando o Bento o apressou para a ceia. E \u00e0 mesa espalhou livremente<br \/>\na imagina\u00e7\u00e3o por Lisboa, pelos corredores de S. Carlos, por<br \/>\nsob as \u00e1rvores da avenida, atrav\u00e9s dos antiquados pal\u00e1cios<br \/>\ndos seus parentes em S. Vicente e na Gra\u00e7a, atrav\u00e9s das salas<br \/>\nmais modernas de cultos e alegres amigos &#8211; parando \u00e0s vezes diante<br \/>\nde vis\u00f5es que considerava com um riso deleitado e mudo. Alugaria aos<br \/>\nmeses, certamente, uma carruagem da Companhia. E para as sess\u00f5es de<br \/>\nS. Bento sempre luvas cor de p\u00e9rola, uma flor no peito. Por comodidade<br \/>\nlevava o Bento, bem apurado, com casaca nova&#8230;<\/p>\n<p>O Bento entrou com a garrafa do cognac numa salva. Dera a carta ao Joaquim<br \/>\nda Horta, com a recomenda\u00e7\u00e3o de correr logo \u00e0s seis horas<br \/>\n\u00e0 casa do Sr. Administrador, de se demorar na Vila por diante da Cadeia<br \/>\nat\u00e9 soltarem o Casco.<\/p>\n<p>&#8211; E j\u00e1 deitamos o pequeno no quarto verde. Fica perto de mim, que<br \/>\ntenho o sono leve, se ele berrar&#8230; Mas j\u00e1 dorme regaladamente.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 sossegado, hem? &#8211; acudiu Gon\u00e7alo, sorvendo \u00e0<br \/>\npressa o c\u00e1lice de cognac. &#8211; Vamos ver esse cavalheiro!<\/p>\n<p>E tomou um casti\u00e7al, subiu ao quarto verde com o Bento, sorrindo,<br \/>\nabafando os passos pela estreita escada. No corredor, junto da porta, num<br \/>\ndesbotado canap\u00e9 de damasco verde, a Rosa dobrara carinhosamente a<br \/>\nroupa trapalhona do pequeno, o colete esgar\u00e7ado, as cal\u00e7as enormes,<br \/>\ns\u00f3 com um bot\u00e3o. Dentro o leito de pau-preto, vasto leito de<br \/>\ncerim\u00f4nia, atravancava a parede forrada dum velho papel aveludado de<br \/>\nramagens verdes. Ao lado dos dois postes torneados, \u00e0 cabeceira, pendiam<br \/>\ndois pain\u00e9is, retratos de antigos Ramires, um Bispo obeso folheando<br \/>\num f\u00f3lio, um formoso Cavaleiro de Malta, de barba ruiva, apoiado \u00e0<br \/>\nespada, com um la\u00e7arote de rendas sobre a coura\u00e7a polida. E<br \/>\nnos altos colch\u00f5es o Manuelzinho ressonava, sem tosse, quieto, abatido<br \/>\npela grossura dos cobertores, umedecido por um suor fresco e sereno.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, caminhando sempre de leve, repuxou cuidadosamente a dobra<br \/>\ndo len\u00e7ol. Desconfiado das janelas decr\u00e9pitas, experimentou<br \/>\nque n\u00e3o entrasse trai\u00e7oeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento<br \/>\nbuscar uma lamparina, que arranjou sobre o lavat\u00f3rio, com a luz esbatida<br \/>\npor tr\u00e1s duma vasilha. Ainda atentamente relanceou os olhos lentos<br \/>\npelo quarto, para se assegurar do sossego, do sil\u00eancio, da penumbra,<br \/>\ndo conforto. E saiu, sempre na ponta dos p\u00e9s, sorrindo, deixando o<br \/>\nfilho do Casco velado pelos dois nobres Ramires &#8211; o Bispo com o seu Tratado,<br \/>\no Cavaleiro de Malta com a sua pura espada.<\/p>\n<p>Recolhendo do Tanque-Velho, do fundo da quinta, onde passara a calma, depois<br \/>\ndo almo\u00e7o, na frescura do arvoredo, entre sussurros de \u00e1guas<br \/>\ncorrentes, a folhear um volume do Panorama &#8211; Gon\u00e7alo encontrou sobre<br \/>\na mesa da Livraria, com o correio de Oliveira, uma carta que o surpreendeu,<br \/>\nenorme, em papel alma\u00e7o, fechada por uma obr\u00e9ia. E dentro a<br \/>\nassinatura, desenhada a tinta azul, era um cora\u00e7\u00e3o chamejante.<\/p>\n<p>Num relance devorou as linhas, pautadas a l\u00e1pis, de uma letra gorda,<br \/>\narredondada com esmero: &#8211; &#8220;Caro e Exmo Sr. Gon\u00e7alo Ramires. O<br \/>\ngalante Governador Civil do Distrito, o nosso atiradi\u00e7o Andr\u00e9<br \/>\nCavaleiro, passeava agora constantemente por diante dos Cunhais, olhando com<br \/>\nternura para as janelas e para o honrado bras\u00e3o dos Barrolos. Como<br \/>\nn\u00e3o era natural que andasse a estudar a arquitetura do Palacete (que<br \/>\nnada tem de not\u00e1vel), concluiu a gente s\u00e9ria que o digno Chefe<br \/>\ndo Distrito esperava que V. Exa. aparecesse a alguma das janelas do largo,<br \/>\nou das que deitam para a rua das Tecedeiras, ou sobretudo no mirante do jardim,<br \/>\npara reatar com V. Exa. a antiga e quebrada amizade. Por isso muito acertadamente<br \/>\nprocedeu V Exa. em correr pessoalmente ao Governo Civil, e propor a reconcilia\u00e7\u00e3o<br \/>\ne abrir os bra\u00e7os generosos ao velho amigo, evitando assim que a primeira<br \/>\nAutoridade do Distrito continuasse a esbanjar um tempo precioso naqueles passeios,<br \/>\nde olhos pregados no Palacete dos fidalgu\u00edssimos Barrolos. Enviamos,<br \/>\nportanto, a V. Exa. os nossos sinceros parab\u00e9ns por esse acertado passo<br \/>\nque deve calmar as impaci\u00eancias do fogoso Cavaleiro e redondar em benef\u00edcio<br \/>\ndos servi\u00e7os p\u00fablicos!&#8221;<\/p>\n<p>Revirando o papel nas m\u00e3os, Gon\u00e7alo pensou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 das Lousadas!<\/p>\n<p>Ainda estudou a letra, as express\u00f5es, descortinando que redundar fora<br \/>\nescrito com um O, arquitectura sem C. E rasgou furiosamente a grossa folha,<br \/>\nrosnando o sil\u00eancio da Livraria:<\/p>\n<p>&#8211; Aquelas b\u00eabedas!<\/p>\n<p>Sim, era delas, das odiosas Lousadas! E essa origem mais o aterrava &#8211; porque<br \/>\nmaledic\u00eancia, lan\u00e7ada por t\u00e3o ardentes espalhadoras de<br \/>\nmaledic\u00eancias, j\u00e1 certamente penetrara em todas as casas de Oliveira,<br \/>\nmesmo na Cadeia, mesmo no Hospital! E agora a cidade divertida, lambendo o<br \/>\nesc\u00e2ndalo, relacionava perfidamente os rodeios do Andr\u00e9 pelos<br \/>\nCunhais com essa sua visita ao Governo Civil que assombrara a Arcada. Na id\u00e9ia<br \/>\npois de Oliveira, e sob a inspira\u00e7\u00e3o das Lousadas &#8211; fora ele,<br \/>\nele, Gon\u00e7alo Mendes Ramires, que arrancara o Cavaleiro \u00e0 sua<br \/>\nReparti\u00e7\u00e3o, o conduzira servi\u00e7almente ao largo de El-Rei,<br \/>\nlhe escancarara as portas do Palacete at\u00e9 a\u00ed rondadas e miradas<br \/>\nsem proveito, e com sereno descaro alcovitara os amores da irm\u00e3! Se<br \/>\ntais desavergonhadas n\u00e3o mereciam que lhes arrega\u00e7assem as sujas<br \/>\nsaias no meio da pra\u00e7a, em manh\u00e3 de Missa, e lhes fustigassem<br \/>\nas n\u00e1degas meladas, furiosamente, at\u00e9 que o sangue ensopasse<br \/>\nas lajes!&#8230;<\/p>\n<p>E, para maior dano, as apar\u00eancias todas se combinavam contra ele, traidoramente!<br \/>\nEssa insist\u00eancia de Andr\u00e9, cocando Gracinha, estrondeando a cal\u00e7ada<br \/>\nem torno do Palacete, crescera, impressionava, justamente agora, neste agosto,<br \/>\nnas v\u00e9speras dessa sua apari\u00e7\u00e3o \u00e0 janela do Governo<br \/>\nCivil, que Oliveira comentava com um mist\u00e9rio hist\u00f3rico. Que<br \/>\ninoportunamente morrera o animal do Sanches Lucena! Meses antes, nem mesmo<br \/>\na mal\u00edcia das Lousadas ligaria a sua reconcilia\u00e7\u00e3o com<br \/>\nAndr\u00e9 a um cerco amoroso que n\u00e3o come\u00e7ara, ou n\u00e3o<br \/>\nandava t\u00e3o murmurado. Tr\u00eas ou quatro meses depois, Andr\u00e9,<br \/>\nsem esperan\u00e7a ante o Palacete inacess\u00edvel, certamente findaria<br \/>\nos seus giros pelo largo, de rosa ao peito! Mas n\u00e3o! infelizmente quando<br \/>\nesse Andr\u00e9, com maior estr\u00e9pito, ronda a porta almejada &#8211; \u00e9<br \/>\nque ele acode, e abra\u00e7a o rondador, e lhe facilita a porta! E assim<br \/>\na maledic\u00eancia das Lousadas encontrava uma base, a que todos na cidade<br \/>\npodiam palpar a subst\u00e2ncia e a solidez, e sobre ela se erigia como Verdade<br \/>\nP\u00fablica! Infames Lousadas!<\/p>\n<p>Mas agora? O qu\u00ea? Manter rigidamente as suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom o Cavaleiro dentro da Pol\u00edtica, evitando escorregadias intimidades<br \/>\nque o tornassem logo nos Cunhais, como outrora na Torre, o conviva desejado?<br \/>\nComo poderia? Desde que ele se reconciliava com Andr\u00e9, logo e t\u00e3o<br \/>\nnaturalmente como a sombra segue a inclina\u00e7\u00e3o do ramo, se reconciliava<br \/>\ntamb\u00e9m o Barrolo, seu cunhado e sua sombra&#8230; Mas como impor ao Barrolo<br \/>\nque a sua renovada familiaridade com o Cavaleiro se realizasse unicamente<br \/>\ndentro da Pol\u00edtica como dentro de um Lazareto? &#8211; &#8220;Eu sou outra<br \/>\nvez o velho amigo do Andr\u00e9, tu, Barrolo, tamb\u00e9m &#8211; mas nunca<br \/>\no convides para a tua mesa, nem lhe abras a tua porta!&#8221; &#8211; Imposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesconcertada, de dura impertin\u00eancia &#8211; e que, na pequena Oliveira, logo<br \/>\nos f\u00e1ceis encontros, a simplicidade hospitaleira do Barrolo, quebrariam<br \/>\ncomo um barbante pu\u00eddo&#8230; E depois que grotesca atitude a sua, hirto<br \/>\ndiante do port\u00e3o do Palacete, como um Arcanjo S. Miguel, de bengala<br \/>\nde fogo na m\u00e3o, para sustar a intrus\u00e3o de Satan\u00e1s, chefe<br \/>\ndo Distrito! Mas tamb\u00e9m que toda a cidade largasse a cochichar pelos<br \/>\ncantos o nome de Gracinha embrulhado ao nome de Andr\u00e9, com o nome dele,<br \/>\nGon\u00e7alo, emaranhado atrav\u00e9s como o fio favor\u00e1vel que<br \/>\nos atara &#8211; era horr\u00edvel.<\/p>\n<p>E na impaci\u00eancia desta dificuldade, de malhas t\u00e3o \u00e1speras,<br \/>\nque tanto o feriam, terminou por esmurrar a mesa, revoltado:<\/p>\n<p>&#8211; Irra, que ma\u00e7ada! S\u00e3o tudo ma\u00e7adas, nestas terras<br \/>\npequenas e coscuvilheiras&#8230;<\/p>\n<p>Em Lisboa quem se importaria que o Sr. Governador Civil passeasse num certo<br \/>\nlargo &#8211; e que certo Fidalgo da Torre se reconciliasse com o Sr. Governador<br \/>\nCivil?&#8230; Pois acabou! Romperia soberbamente para diante, como se habitasse<br \/>\nLisboa, desafogado de mexericos e de malignos olhinhos a cocar. Era Gon\u00e7alo<br \/>\nMendes Ramires, da Casa de Ramires! Mil anos de nome e de solar! Dominava<br \/>\nbem acima de Oliveira, de todas as suas Lousadas. E n\u00e3o s\u00f3 pelo<br \/>\nnome, louvado Deus, mas pelo esp\u00edrito&#8230; O Andr\u00e9 era seu amigo,<br \/>\nentrava em casa de sua irm\u00e3 &#8211; e Oliveira que estourasse!<\/p>\n<p>E nem consentiu que a suja carta das Lousadas desmanchasse a quieta manh\u00e3<br \/>\nde trabalho para que se preparara desde o almo\u00e7o, relendo trechos do<br \/>\nPoemeto do tio Duarte, folheando artigos do Panorama sobre as guerras de muralhas<br \/>\nno s\u00e9culo XII. Com um esfor\u00e7o de aten\u00e7\u00e3o erudita<br \/>\nabancou, mergulhou a pena no tinteiro de lat\u00e3o que servira a tr\u00eas<br \/>\ngera\u00e7\u00f5es de Ramires. E enquanto repassava as tiras trabalhadas,<br \/>\nnunca o Castelo de Santa Iren\u00e9ia lhe parecera t\u00e3o her\u00f3ico,<br \/>\nde t\u00e3o soberana estatura, sobre tamanha colina de Hist\u00f3ria,<br \/>\nsobranceando o Reino, que em torno dele se alargava, se cobria de vilas e<br \/>\nmesses, pelo esfor\u00e7o dos seus castel\u00f5es!<\/p>\n<p>Temerosa, com efeito, se erguia a antiga Honra de Santa Iren\u00e9ia, nessa<br \/>\nAfonsina manh\u00e3 de agosto e rijo sol, em que o pend\u00e3o do Bastardo<br \/>\nsurgira, entre fulgidos de armas, para al\u00e9m dos arvoredos da Ribeira!<br \/>\nJ\u00e1 por todas as ameias se apinhavam os besteiros, espiando, encurvadas<br \/>\nas bestas. Das torres e adarves subia o fumo grosso do breu, fervendo nas<br \/>\ncubas, para despejar sobre os homens de Bai\u00e3o que tentassem a escalada.<br \/>\nO Adail corria pelas quadrelas, relembrando as tra\u00e7as de defesa, revistando<br \/>\nos feixes de virot\u00f5es, os pedreguIhos de arremesso. E no imenso terreiro,<br \/>\npor entre os alpendres colmados, surdiam velhos solarengos, servos do forno,<br \/>\nservos da abegoaria, que se benziam com terror, puxavam pelo sai\u00e3o<br \/>\nde algum apressado homem de rolda, para saberem da hoste que avan\u00e7ava.<br \/>\nNo entanto a cavalgada passara a Ribeira sobre a rude ponte de pau &#8211; j\u00e1,<br \/>\npor entre os \u00e1lamos, serenamente se acercava do Cruzeiro de granito,<br \/>\noutrora erguido nos confins da Honra por Gon\u00e7alo Ramires, o Cortador.<\/p>\n<p>E, no sossego da manh\u00e3 abrasada, mais fundamente ressoaram as buzinas<br \/>\ndo Bastardo, e o seu toque lento e triste \u00e0 mourisca&#8230;<\/p>\n<p>Mas quando Gon\u00e7alo, enlevado no trabalho, tentava reproduzir, com<br \/>\ntermos bem sonoros, avidamente rebuscados no Dicion\u00e1rio de Sin\u00f4nimos,<br \/>\no toar arrastado das buzinas de Bai\u00e3o &#8211; sentiu realmente, do lado da<br \/>\nTorre, um gemer de sons graves que crescia atrav\u00e9s dos limoeiros. Deteve<br \/>\na pena &#8211; e eis que o Fado dos Ramires se eleva ofertadamente da horta, em<br \/>\nserenata, para a varanda florida de madressilva:<\/p>\n<p>Ora, quem te v\u00ea solit\u00e1ria,<br \/>\nTorre de Santa Iren\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>O Videirinha! &#8211; Correu alvoro\u00e7adamente \u00e0 janela. Um chap\u00e9u-coco<br \/>\ntremulou entre os ramos, um brado estrugiu, aclamador:<\/p>\n<p>&#8211; Viva o Deputado por Vila-Clara! Viva o ilustre Deputado Gon\u00e7alo<br \/>\nRamires!<\/p>\n<p>No viol\u00e3o rompera triunfalmente o Hino da Carta. Videirinha, al\u00e7ado<br \/>\nna biqueira das botas gaspeadas de verniz, gritava &#8211; &#8220;Viva a ilustre<br \/>\nCasa de Ramires!&#8221; E por baixo do chap\u00e9u-coco, sacudido com del\u00edrio,<br \/>\nJo\u00e3o Gouveia, sem poupar a garganta, urrava &#8211; &#8216;Viva o ilustre Deputado<br \/>\npor Vila-Clara! Viva!&#8221;<\/p>\n<p>Majestosamente, Gon\u00e7alo, alagado de riso, estendeu da varanda o bra\u00e7o<br \/>\neloq\u00fcente:<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, meus queridos concidad\u00e3os! Obrigado!&#8230; A honra que me<br \/>\nfazeis, vindo assim, nesse formoso grupo, o chefe glorioso da Administra\u00e7\u00e3o,<br \/>\no inspirado Farmac\u00eautico, o&#8230;<\/p>\n<p>Mas reparou&#8230; E o Tit\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; O Tit\u00f3 n\u00e3o veio?&#8230; \u00d3 Jo\u00e3o Gouveia, voc\u00ea<br \/>\nn\u00e3o avisou o Tit\u00f3?<\/p>\n<p>Repondo sobre a orelha o chap\u00e9u-coco, o Administrador, que arvorara<br \/>\numa gravata de cetim escarlate, declarou o Tit\u00f3 &#8220;um animal&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; Estava combinado virmos todos tr\u00eas. At\u00e9 ele devia trazer uma<br \/>\nd\u00fazia de foguetes, para estalar aqui com o Hino&#8230; A reuni\u00e3o<br \/>\nera ao p\u00e9 da Ponte&#8230; Mas o animal n\u00e3o apareceu. Em todo o caso<br \/>\nficou avisado, avisad\u00edssimo&#8230; E se n\u00e3o vier, \u00e9 traidor.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, subam voc\u00eas! &#8211; gritou Gon\u00e7alo. &#8211; Eu num instante me visto.<br \/>\nE, para agu\u00e7ar o apetite, proponho um verniouth, depois uma volta pela<br \/>\nquinta at\u00e9 ao pinhal!&#8230;<\/p>\n<p>Imediatamente Videirinha, teso, empinando o viol\u00e3o, meteu pela rua<br \/>\nlarga da horta, recoberta de parreira; e atr\u00e1s Jo\u00e3o Gouveia<br \/>\natirava os passos em cad\u00eancia nobre, al\u00e7ando o guarda-sol como<br \/>\num pend\u00e3o. Quando Gon\u00e7alo entrou no quarto, berrando pelo Bento<br \/>\ne por \u00e1gua quente &#8211; o Fado dos Ramires soava, em trinados her\u00f3icos,<br \/>\natrav\u00e9s do feijoal, por sob a janela aberta onde secava o len\u00e7ol<br \/>\ndo banho. E eram as quadras preferidas do Fidalgo, as quadras em que o grande<br \/>\nav\u00f4 Rui Ramires, sulcando os mares de Mascate numa urca, encontra tr\u00eas<br \/>\nfortes naus inglesas, e, do alto do seu castelo de proa, vestido de gr\u00e3<br \/>\nvermelha, com a m\u00e3o no cinto de anta tauxiado de ouro e pedras, soberbamente<br \/>\nas intima a que se rendam&#8230;<\/p>\n<p>Todo alegre, a m\u00e3o no cinto,<\/p>\n<p>Junto da Signa Real,<\/p>\n<p>Gritando as naus &#8211; &#8220;Amainai<\/p>\n<p>Por El-Rei de Portugal&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo abotoava \u00e0 pressa os suspens\u00f3rios, retomara<br \/>\no canto glorificador &#8211; Todo alegre, a m\u00e3o no cinto&#8230; Junto da Signa<br \/>\nReal&#8230; &#8211; E, atrav\u00e9s do esfor\u00e7o esgani\u00e7ado, pensava que<br \/>\ncom tal linha de av\u00f3s, bem podia desprezar Oliveira e as suas Lousadas<br \/>\nhorrendas. Mas o trov\u00e3o lento de Tit\u00f3 retumbou no corredor:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o esse Deputado de Vila-Clara?&#8230; J\u00e1 est\u00e1 a vestir<br \/>\na farda?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo correu \u00e0 porta do quarto, radiante:<\/p>\n<p>&#8211; Entra, Tit\u00f3! Os deputados j\u00e1 n\u00e3o usam farda, homem!<br \/>\nMas se ativesse, com os diabos, ia hoje farda, e espadim e chap\u00e9u armado,<br \/>\npara honrar h\u00f3spedes t\u00e3o ilustres!<\/p>\n<p>O outro avan\u00e7ara vagarosamente, com as m\u00e3os nas algibeiras<br \/>\nda rabona de veludo cor de azeitona, o vasto chap\u00e9u bragu\u00eas atirado<br \/>\npara a nuca, desafogando a honesta face barbuda, vermelha de sa\u00fade<br \/>\ne sol:<\/p>\n<p>&#8211; Eu, por farda, queria dizer libr\u00e9&#8230; Libr\u00e9 de lacaio.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa!?<\/p>\n<p>E o outro, mais retumbante:<\/p>\n<p>&#8211; Pois o que vais tu ser, homem, sen\u00e3o um sujeito \u00e0s ordens<br \/>\ndo S. Fulg\u00eancio, do horrendo careca? N\u00e3o lhe serves o ch\u00e1,<br \/>\nquando ele te mandar; mas, quando ele te mandar votar, votas! Ali, direitinho,<br \/>\n\u00e0s ordens! &#8220;Oh Ramires, vote l\u00e1!&#8221; E Ramires, z\u00e1s,<br \/>\nvota&#8230; E de escudeiro, homem, \u00e9 de escudeiro de libr\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo sacudiu os ombros, impaciente:<\/p>\n<p>&#8211; Tu \u00e9s uma criatura das selvas, lacustre, quase pr\u00e9-hist\u00f3rica&#8230;<br \/>\nN\u00e3o entendes nada das realidades sociais!&#8230; Na sociedade n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 princ\u00edpios absolutos!&#8230;<\/p>\n<p>Mas o Tit\u00f3, imperturb\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8211; E esse Cavaleiro? Tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 rapaz de talento? Tamb\u00e9m<br \/>\nj\u00e1 governa bem o Distrito?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Gon\u00e7alo protestou, picado, com uma roseta forte na face.<br \/>\nE quando negara ele ao Andr\u00e9 talento ou jeito de governar? Nunca! S\u00f3<br \/>\nrira, gracejando, da sua pompa, da bigodeira lustrosa&#8230; E, de resto, o servi\u00e7o<br \/>\ndo Pa\u00eds exigia que por vezes se aliassem homens que nem partilhavam<br \/>\nos mesmos gostos, nem procuravam os mesmos interesses!<\/p>\n<p>&#8211; E enfim o Sr. Ant\u00f4nio Vilalobos, vem hoje um moralista muito terr\u00edvel,<br \/>\num Cat\u00e3o com quem se n\u00e3o pode jantar!&#8230; Ora foi sempre o costume<br \/>\ndos fil\u00f3sofos muito r\u00edspidos fugir da sala do banquete, onde<br \/>\ntriunfa o devasso, e protestar comendo na cozinha!<\/p>\n<p>Tit\u00f3, serenamente, virou as costas majestosas.<\/p>\n<p>&#8211; Onde vais, \u00f3 Tit\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; Para a cozinha!<\/p>\n<p>E, como Gon\u00e7alo ria, Tit\u00f3, junto da porta, girando como uma<br \/>\ntorre que gira, encarou o seu amigo:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rio, s\u00e9rio, Gon\u00e7alo! Elei\u00e7\u00e3o, reconcilia\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsubmiss\u00e3o, e tu em Lisboa \u00e0s cortesias ao S. Fulg\u00eancio,<br \/>\ne em Oliveira de bra\u00e7o dado com o Andr\u00e9, tudo isso me parece<br \/>\nque destoa&#8230; Mas enfim se a Rosa hoje se apurou, n\u00e3o aludamos mais<br \/>\na coisas tristes!<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo bracejava, de novo protestava &#8211; quando o viol\u00e3o ressoou<br \/>\nno corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o Fado recome\u00e7ou,<br \/>\nmais meigo, mais glorificador:<\/p>\n<p>&#8211; Velha Casa de Ramires,<br \/>\nHonra e flor de Portugal!<\/p>\n<h3><a name=\"6\"><\/a>CAP\u00cdTULO VI<\/h3>\n<p>A casa do Cavaleiro em Corinde era uma edifica\u00e7\u00e3o dos fins<br \/>\ndo s\u00e9culo XVIII, sem eleg\u00e2ncia e sem arte, pintada de amarelo,<br \/>\nlisa e vasta, com quatorze janelas de frente, quase ao meio duma quinta ch\u00e1,<br \/>\ntoda de terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada<br \/>\nnobreza, ao p\u00e1tio da frente, ornado por dois tanques de m\u00e1rmore.<br \/>\nOs jardins conservavam a abund\u00e2ncia espl\u00eandida de rosas que os<br \/>\ntornara famosos &#8211; e lhes merecera em tempos do av\u00f3 de Andr\u00e9,<br \/>\no Desembargador Martinho, uma visita da Sra. D. Maria II. E dentro todas as<br \/>\nsalas reluziam de asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma<br \/>\nparenta pobre do Cavaleiro, a Sra. D. Jesu\u00edna Rolim.<\/p>\n<p>Quando Gon\u00e7alo, que viera da Torre na \u00e9gua, atravessou a ante-sala,<br \/>\nainda reconheceu um dos pain\u00e9is da parede, fumarento combate de gale\u00f5es,<br \/>\nque ele uma tarde rasgara jogando o espad\u00e3o com Andr\u00e9. Sob esse<br \/>\npainel, \u00e0 borda do canap\u00e9 de palhinha, esperava melancolicamente<br \/>\num amanuense do Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos.<br \/>\nE de uma porta remota, ao fundo do corredor, Andr\u00e9, avisado pelo criado,<br \/>\no fiel Mateus, gritou alegremente:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Gon\u00e7alo, entra para c\u00e1, para o quarto! Sa\u00ed<br \/>\nda tina&#8230; Ainda estou em ceroulas!<\/p>\n<p>E em ceroulas o abra\u00e7ou, num generoso abra\u00e7o de parab\u00e9ns.<br \/>\nDepois, enquanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio<br \/>\ndas malas &#8211; gravatas, pe\u00fagas de seda, garrafas de perfumes &#8211; conversaram<br \/>\ndo calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um horror! &#8211; exclamava o Cavaleiro aquecendo um ferro de frisar \u00e0<br \/>\nl\u00e2mpada de \u00e1lcool. &#8211; Todas as ruas da Baixa em obras, cobertas<br \/>\nde cali\u00e7a, de poeirada. O Central infestado de mosquitos. Muito mulato.<br \/>\nUma T\u00fanis, Lisboa!&#8230; Mas enfim, l\u00e1 combatemos bravamente o<br \/>\nbom combate!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo sorria, do canto do divan onde se acomodara, entre uma pilha<br \/>\nde camisas de cor e outra de ceroulas com monograma flamante:<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, Andrezinho, tudo arranjado, hem?<\/p>\n<p>O Cavaleiro, diante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas grossas<br \/>\ndo bigode. E s\u00f3 depois de o ensopar em brilhantina, de acamar as ondas<br \/>\nda cabeleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a Gon\u00e7alo,<br \/>\nj\u00e1 inquieto, que a elei\u00e7\u00e3o ficara s\u00f3lida&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas imagina tu! Quando apareci em Lisboa, no Minist\u00e9rio do Reino,<br \/>\nencontrei o C\u00edrculo prometido ao Pita, ao Teot\u00f4nio Pita, o grande<br \/>\nhomem da Verdade&#8230;<\/p>\n<p>O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>E ent\u00e3o ele mostrara muito asperamente ao Jos\u00e9 Ernesto a inconveni\u00eancia<br \/>\nde dispor do C\u00edrculo como de um charuto, sem o consultar, a ele, Governador<br \/>\nCivil &#8211; e dono do C\u00edrculo&#8230; E como o Jos\u00e9 Ernesto se arrebitava,<br \/>\naludia \u00e0 conveni\u00eancia superior do Governo, ele logo, estendendo<br \/>\no dedo firme: &#8211; &#8220;Pois Zezinho, flor, ou trago o Ramires por Vila-Clara,<br \/>\nou me demito, e arde ~ Espantos, escarc\u00e9us, berreiros &#8211; mas o Jos\u00e9<br \/>\nErnesto cedera, e tudo findou jantando ambos em Alg\u00e9s com o tio Reis<br \/>\nGomes, onde \u00e0 noite, ao bluff as senhoras lhe arrancaram quatorze mil<br \/>\nreis.<\/p>\n<p>&#8211; Em resumo, Gon\u00e7alinho, precisamos conservar os olhos atentos. O<br \/>\nJos\u00e9 Ernesto \u00e9 rapaz leal, meu velho amigo. E depois conhece<br \/>\no meu g\u00eanio&#8230; Mas h\u00e1 os compromissos, as press\u00f5es&#8230;<br \/>\nE agora a novidade pitoresca. Sabes quem se prop\u00f5e contra ti, pelos<br \/>\nRegeneradores?&#8230; Adivinha&#8230; O Julinho!<\/p>\n<p>&#8211; Que Julinho?&#8230; O J\u00falio das fotografias?<\/p>\n<p>&#8211; O J\u00falio das fotografias.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo!<\/p>\n<p>O Cavaleiro encolheu os ombros, com piedade:<\/p>\n<p>&#8211; Arranja dez votos \u00e0 porta da quinta, tira o retrato a todos os taverneiros<br \/>\ndo C\u00edrculo em mangas de camisa, e continua a ser o Julinho&#8230; N\u00e3o!<br \/>\ns\u00f3 Lisboa me inquieta, a canalha pol\u00edtica de Lisboa!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo torcia o bigode desconsolado:<\/p>\n<p>&#8211; Imaginei tudo mais s\u00f3lido, mais inabal\u00e1vel&#8230; Assim com todas<br \/>\nessas intrigas, ainda surde trapalhada&#8230; Ainda l\u00e1 n\u00e3o vou!<\/p>\n<p>O Cavaleiro, ao espelho, esticava o fraque &#8211; que experimentara abotoado,<br \/>\ndepois repuxadamente aberto sobre o colete de fust\u00e3o cor de azeitona,<br \/>\nonde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida por<br \/>\numa safira. Por fim, encharcando o len\u00e7o com ess\u00eancia de feno:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s estamos bem aliados, bem consagrados, n\u00e3o \u00e9 verdade?<br \/>\nEnt\u00e3o meu caro Gon\u00e7alo, sossega, e almocemos regaladamente !&#8230;<br \/>\nCreio que este fraque do nosso Amieiro assenta com certa gra\u00e7a, hem?<\/p>\n<p>&#8211; Magn\u00edfico! &#8211; afirmou Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Ent\u00e3o agora descemos ao jardim, para tu reveres os velhos pousos<br \/>\ne te florires com uma rosa de Corinde.<\/p>\n<p>E logo no corredor, ornado de jarr\u00f5es da \u00cdndia, de arcas de<br \/>\nchar\u00e3o, enla\u00e7ando o bra\u00e7o de Gon\u00e7alo, do seu recuperado<br \/>\nGon\u00e7alo:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo os nobres soalhos de Corinde,<br \/>\ncomo h\u00e1 cinco anos&#8230; E nada mudou, nem um criado, nem uma cortina!<br \/>\nAgora, um destes dias, preciso visitar a Torre.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo acudiu ingenuamente:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! a Torre est\u00e1 muito mudada&#8230; Muito mudada!<\/p>\n<p>E um embara\u00e7ado sil\u00eancio pesou &#8211; como se entre eles surgisse<br \/>\na imagem entristecida da antiga quinta, no tempo dos amores e das esperan\u00e7as,<br \/>\nquando Andr\u00e9 e Gracinha procuravam as \u00faltimas violetas de abril,<br \/>\nsob o sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos \u00famidos muros da M\u00e3e<br \/>\nd&#8217;\u00c1gua. Ainda em sil\u00eancio desceram a escada de caracol &#8211; por<br \/>\nonde ambos outrora se despenhavam cavalgando o corrim\u00e3o. E embaixo,<br \/>\nnuma sala abobadada, rodeada de bancos de madeira com as armas dos Cavaleiros<br \/>\nnas espaldas, Andr\u00e9 quedou diante da porta envidra\u00e7ada do jardim,<br \/>\nondeou um gesto desconsolado e l\u00e2nguido:<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m, agora, pouco apare\u00e7o em Corinde. E compreendes<br \/>\nbem que n\u00e3o me ret\u00eam em Oliveira os cuidados da Administra\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nMas este casar\u00e3o arrefeceu, alargou, desde a morte da mam\u00e3.<br \/>\nAndo aqui como perdido. E acredita, quando c\u00e1 me demoro, s\u00e3o<br \/>\nuns passeios tristonhos por esses jardins, pela rua Grande&#8230; Ainda te lembras<br \/>\nda rua Grande?&#8230; Vou envelhecendo muito solitariamente, meu Gon\u00e7alo!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo murmurou, por concord\u00e2ncia, simpatia renovada:<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m me aborre\u00e7o na Torre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas tens outro g\u00eanio!&#8230; E eu realmente sou um eleg\u00edaco.<\/p>\n<p>Correu, com um esfor\u00e7o, o fecho perro da porta envidra\u00e7ada.<br \/>\nE limpando os dedos ao len\u00e7o perfumado:<\/p>\n<p>&#8211; Eu creio que Corinde, agora, s\u00f3 me encantava com grandes cerros<br \/>\nescalvados, grandes rochedos agrestes&#8230; As vezes, c\u00e1 dentro da alma,<br \/>\nnecessito o ermo de S. Bruno&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo sorria daquele apetite asc\u00e9tico, murmurando com preciosidade,<br \/>\natrav\u00e9s da bigodeira torcida a ferro, resplandecente de brilhantina.<br \/>\nE no terra\u00e7o, junto \u00e0 balaustrada de pedra enramada de hera,<br \/>\ngalhofou, louvando o areado alinho, o reluzente vi\u00e7o do jardim:<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito, para um disc\u00edpulo de S. Bruno, que esc\u00e2ndalo todo<br \/>\neste asseio! Mas para um pecador como eu, que del\u00edcia!&#8230; O jardim<br \/>\nda Torre anda um chavascal.<\/p>\n<p>&#8211; A prima Jesu\u00edna gosta de flores. Tu n\u00e3o conheces a prima<br \/>\nJesu\u00edna? Uma velha parenta da mam\u00e3, que governa agora a casa.<br \/>\nCoitada! e com um escr\u00fapulo, com um amor&#8230; Se n\u00e3o fosse a santa<br \/>\ncriatura, os porcos fossavam nos canteiros&#8230; Meu filho, onde n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nsaia, n\u00e3o h\u00e1 ordem!<\/p>\n<p>Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos de lou\u00e7a azul que<br \/>\ntransbordavam de ger\u00e2nios, de s\u00e9cias, de canas-da-\u00edndia.<br \/>\nGon\u00e7alo recordou a v\u00e9spera de S. Jo\u00e3o em que rolara por<br \/>\naqueles degraus, num trambolh\u00e3o tremendo, com os bra\u00e7os carregados<br \/>\nde foguetes. E lentamente, atrav\u00e9s do jardim, evocavam mem\u00f3rias<br \/>\nda camaradagem antiga. L\u00e1 se conservava o trap\u00e9zio, dos tempos<br \/>\nem que ambos cultivavam a religi\u00e3o her\u00f3ica da for\u00e7a,<br \/>\nda gin\u00e1stica, do banho frio&#8230; Naquele banco, sob a magn\u00f3lia,<br \/>\nlera uma tarde Andr\u00e9 o primeiro canto do seu Poema, o Fronteiro de<br \/>\nArzila. E o alvo? O alvo onde se exerciam \u00e0 pistola, para os futuros<br \/>\nduelos, inevit\u00e1veis na campanha que ambos meditavam contra o velho<br \/>\nSindicato Constitucional?&#8230; &#8211; Oh! toda essa parte do muro, que pegava com<br \/>\no lavadouro, fora derrubada depois da morte da mam\u00e3, para alargar a<br \/>\nestufa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De resto o alvo era in\u00fatil! &#8211; acrescentou o Cavaleiro. &#8211; Eu logo<br \/>\npor esse tempo entrei tamb\u00e9m no Sindicato&#8230; E agora entras tu, pela<br \/>\nporta que eu te abro!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Gon\u00e7alo, que colhera e esmagara entre os dedos, para<br \/>\nlhe sorver o perfume, folhas de l\u00facia-lima &#8211; acudiu com uma franqueza,<br \/>\nque aquele desenterrar de recorda\u00e7\u00f5es tornava mais penetrante<br \/>\ne sentida:<\/p>\n<p>&#8211; E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sabes. Mas tu afian\u00e7as a<br \/>\nelei\u00e7\u00e3o, com seguran\u00e7a? N\u00e3o surgir\u00e1 dificuldade,<br \/>\nAndrezinho?&#8230; Esse Pita \u00e9 um h\u00e1bil!<\/p>\n<p>O Cavaleiro murmurou apenas, mergulhando os dedos nas cavas do colete:<\/p>\n<p>&#8211; Da habilidade dos Pitas se ri a for\u00e7a dos Cavaleiros&#8230;<\/p>\n<p>Por tr\u00eas degraus de tijolo baixaram ao outro jardim, desafogado de<br \/>\narvoredo e sombra, onde desabrochava desde maio, com esplendor, o t\u00e3o<br \/>\ncelebrado bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde, que deleitara<br \/>\numa Rainha. Aquele f\u00e1cil desd\u00e9m pelo Pita confirmava a seguran\u00e7a<br \/>\nda Elei\u00e7\u00e3o. Gon\u00e7alo, caminhando respeitosamente como<br \/>\nnum Museu, regou de louvores deslumbrados as rosas do Cavaleiro:<\/p>\n<p>&#8211; Uma beleza, Andr\u00e9, uma maravilha! Tens aqui rosas sublimes&#8230; Aquelas<br \/>\nrepolhudas, al\u00e9m, que luxo! E estas amarelas? deliciosas!&#8230; Olha este<br \/>\nencanto! o ruborzinho a surdir, a raiar, do fundo das p\u00e9talas brancas&#8230;<br \/>\nOh, que escarlate! Oh, que divino escarlate!<\/p>\n<p>O Cavaleiro cruzara os bra\u00e7os, com gracejadora melancolia:<\/p>\n<p>&#8211; Pois v\u00ea tu! Tal \u00e9 a minha solid\u00e3o social e sentimental<br \/>\nque, com todas estas rosas abertas, n\u00e3o tenho a quem mandar um ramo!&#8230;<br \/>\nEstou reduzido a florir as Lousadas!<\/p>\n<p>Um escarlate, mais vivo do que as rosas que gabava, cobriu as faces do Fidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; As Lousadas! Oh que desavergonhadas!<\/p>\n<p>Andr\u00e9 atirou ao seu amigo os lustrosos olhos, num inquieto reparo<br \/>\nde curiosidade:<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?&#8230; Desavergonhadas, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? Porque o s\u00e3o! Pela sua natureza, e pela vontade de<br \/>\nDeus!&#8230; S\u00e3o desavergonhadas como estas rosas s\u00e3o vermelhas.<\/p>\n<p>E o Cavaleiro, tranq\u00fcilizado:<\/p>\n<p>&#8211; Ah, genericamente&#8230; Com efeito t\u00eam imensa pe\u00e7onha. Por isso<br \/>\neu as cubro de rosas. E em Oliveira, todas as semanas, meu filho, tomo com<br \/>\nelas um ch\u00e1 respeitoso!<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o as amansas &#8211; rosnou o Fidalgo.<\/p>\n<p>Mas o Mateus aparecera nos degraus de tijolo com o guardanapo na m\u00e3o,<br \/>\na calva rebrilhando ao sol. Era o almo\u00e7o. O Cavaleiro colheu para Gon\u00e7alo<br \/>\numa &#8220;rosa triunfal&#8221; &#8211; e para si um &#8220;bot\u00e3o inocente&#8221;.<br \/>\nE, enflorados, subiam para o terra\u00e7o entre o brilho e o perfume de<br \/>\noutras roseiras &#8211; quando o Cavaleiro parou com uma id\u00e9ia:<\/p>\n<p>&#8211; A que horas vais tu para Oliveira, Gon\u00e7alinho?<\/p>\n<p>O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?&#8230; N\u00e3o tencionava aparecer em Oliveira,<br \/>\ntoda essa semana&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? \u00c9 urgente que v\u00e1 a Oliveira?<\/p>\n<p>&#8211; Pois certamente, filho! Amanh\u00e3 mesmo precisamos conversar com o<br \/>\nBarrolo, combinarmos, por causa dos votos da Murtosa!&#8230; Meu querido Gon\u00e7alo,<br \/>\nn\u00e3o podemos adormecer. N\u00e3o \u00e9 pelo J\u00falio, \u00e9<br \/>\npelo Pita!<\/p>\n<p>&#8211; Bem! bem! &#8211; acudiu logo Gon\u00e7alo, assustado.<\/p>\n<p>&#8211; Parto para Oliveira.<\/p>\n<p>&#8211; Porque ent\u00e3o &#8211; continuava Andr\u00e9 &#8211; vamos ambos logo, a cavalo.<br \/>\n\u00c9 um bonito passeio pelos Freixos, sempre com sombra&#8230; Tens talvez<br \/>\nde mandar \u00e0 Torre, por causa de roupa&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o! Gon\u00e7alo, para evitar a importunidade de malas, conservava<br \/>\nnos Cunhais um bragal inteiro, desde a chinela at\u00e9 a casaca. E entrava<br \/>\nem Oliveira como o fil\u00f3sofo Bias em Atenas &#8211; com uma simples bengala<br \/>\ne paci\u00eancia infinita&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Delicioso! &#8211; declarou Andr\u00e9. &#8211; Fazemos ent\u00e3o logo a nossa<br \/>\nentrada oficial em Oliveira. \u00c9 o come\u00e7o da campanha.<\/p>\n<p>O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensando nos risinhos perversos das<br \/>\nLousadas, de toda a cidade, perante uma entrada t\u00e3o aparatosamente<br \/>\nfraternal. E, quando o Cavaleiro recomendou ao Mateus que mandasse aprontar<br \/>\no Rossilho e a \u00e9gua do Fidalgo para as quatro horas e meia, Gon\u00e7alo<br \/>\nexagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes partissem \u00e0s sete,<br \/>\npela fresca! (Assim esperava penetrar em Oliveira despercebidamente, esbatido<br \/>\nno crep\u00fasculo.) Mas Andr\u00e9 protestou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, \u00e9 uma seca, chegamos \u00e0 noite. Precisamos entrar<br \/>\ncom solenidade, \u00e0 hora da m\u00fasica no Terreiro&#8230; \u00c0s cinco,<br \/>\nhem?<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo, vergando os ombros sob a Fatalidade:<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, \u00e0s cinco.<\/p>\n<p>Na sala de jantar, esteirada, com denegridos pain\u00e9is de flores e frutas<br \/>\nsobre um papel vermelho imitando damasco, Andr\u00e9 ocupou a veneranda<br \/>\ncadeira de bra\u00e7os do av\u00f4 Martinho. O brilho das pratas, a frescura<br \/>\ndas rosas numa floreira de Saxe revelavam os desvelos da prima Jesu\u00edna<br \/>\n&#8211; que, com dor de entranhas nessa manh\u00e3, n\u00e3o se vestira, almo\u00e7ava<br \/>\nno quarto. Gon\u00e7alo louvou aquela elegante ordem, t\u00e3o rara numa<br \/>\ncasa de solteir\u00e3o, lamentando a falta de uma prima Jesu\u00edna na<br \/>\nTorre&#8230; E Andr\u00e9 sorria deliciadamente, desdobrando o guardanapo, com<br \/>\na esperan\u00e7a que Gon\u00e7alo contasse aos Barrolos o confort\u00e1vel<br \/>\nluxo de Corinde. Depois, picando com o garfo uma azeitona:<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 verdade, meu querido Gon\u00e7alo, l\u00e1 estive nessa<br \/>\ngrande Capital, depois um dia em Sintra&#8230;<\/p>\n<p>O Mateus entreabriu a porta para recordar a S. Exa. o amanuense do Governo<br \/>\nCivil, que esperava.<\/p>\n<p>&#8211; Pois que espere!- gritou S. Exa..<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo lembrou que talvez o digno homem se impacientasse, com fome&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois que almoce! &#8211; gritou S. Exa..<\/p>\n<p>Aquele seco desprezo de Andr\u00e9 pelo pobre empregado, esquecido no banco<br \/>\nde entrada, com a sua pasta sobre os joelhos &#8211; constrangia o Fidalgo. E espetando<br \/>\ntamb\u00e9m uma azeitona:<\/p>\n<p>&#8211; Dizias ent\u00e3o, Sintra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sem sabor &#8211; resumiu Andr\u00e9. &#8211; Poeirada horrenda, femea\u00e7o med\u00edocre&#8230;<br \/>\nE j\u00e1 me esquecia. Sabes quem<\/p>\n<p>l\u00e1 encontrei, na estrada de Colares? O Castanheiro, o nosso Castanheiro,<br \/>\no dos Anais, de chap\u00e9u alto. Ergueu logo os bra\u00e7os ao c\u00e9u,<br \/>\ndesolado: &#8211; &#8220;E ent\u00e3o esse Gon\u00e7alo Mendes Ramires n\u00e3o<br \/>\nme manda o romance?&#8221; Parece que o primeiro n\u00famero da Revista sai<br \/>\nem dezembro, e ele precisa o original em come\u00e7os de outubro&#8230; L\u00e1<br \/>\nme suplicou que te sacudisse, que te recordasse a gl\u00f3ria dos Ramires.<br \/>\nE tu devias acabar a Novela&#8230; At\u00e9 conv\u00e9m que, antes de entrares<br \/>\nna C\u00e2mara, apare\u00e7a um trabalho teu, um trabalho s\u00e9rio,<br \/>\nde erudi\u00e7\u00e3o forte, bem portugu\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois conv\u00e9m! &#8211; concordou vivamente Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>&#8211; E \u00e0 Novela s\u00f3 falta o Cap\u00edtulo quarto. Mas esse justamente<br \/>\ndemanda mais prepara\u00e7\u00e3o, mais pesquisas&#8230; Para o acabar precisava<br \/>\no esp\u00edrito bem sossegado, a certeza desta infernal elei\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 o animal do J\u00falio que me inquieta. Mas a canalha<br \/>\nintrigante de Lisboa&#8230; Que te parece?<\/p>\n<p>Cavaleiro riu, estendendo de novo o garfo para as azeitonas:<\/p>\n<p>&#8211; Que me parece, Gon\u00e7alinho? Que est\u00e1s como uma crian\u00e7a<br \/>\npequena, aflita, com medo que te n\u00e3o chegue o prato de arroz-doce.<br \/>\nSossega, menino, apanhas o teu arroz-doce!&#8230; Mas, com efeito, encontrei o<br \/>\nJos\u00e9 Ernesto muito teimoso. J\u00e1 existiam compromissos antigos<br \/>\ncom o Pita. A Verdade tem sido furiosamente ministerial&#8230; E esse Pita, agora<br \/>\nquando souber que lhe tapei Vila-Clara, arde em furor contra mim. O que me<br \/>\n\u00e9 soberanamente indiferente; colerazinhas ou piadinhas do Pita n\u00e3o<br \/>\nme tiram o apetite&#8230; Mas o Jos\u00e9 Ernesto admira o Pita, necessita do<br \/>\nPita, est\u00e1 empenhado em pagar ao Pita com um C\u00edrculo&#8230; Ainda<br \/>\nno \u00faltimo dia me disse na Secretaria, at\u00e9 lhe achei gra\u00e7a:<br \/>\n&#8211; &#8220;Eu vejo que os deputados por Vila-Clara morrem; ora se, por esse bom<br \/>\ncostume, o teu Ramires morrerem breve, ent\u00e3o entra o Pita&#8221;.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo recuou a cadeira:<\/p>\n<p>&#8211; Se eu morrer!&#8230; Que animal!<\/p>\n<p>&#8211; Oh, se morreres para o C\u00edrculo! &#8211; atalhou o Cavaleiro rindo. &#8211; Por<br \/>\nexemplo, se nos zang\u00e1ssemos, se amanh\u00e3 entre n\u00f3s surgisse<br \/>\numa dissid\u00eancia&#8230; Enfim, o imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>O Mateus entrava com a terrina do caldo de galinha, que rescendia.<\/p>\n<p>&#8211; A ele! &#8211; exclamou Andr\u00e9. &#8211; E n\u00e3o se fale mais de C\u00edrculos,<br \/>\nnem de Pitas, nem de J\u00falios, nem da negregada Pol\u00edtica!&#8230; Conta<br \/>\nantes o enredo da tua Novela&#8230; Hist\u00f3rica, hem?&#8230; Meia-idade? D. Jo\u00e3o<br \/>\nV?&#8230; Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma \u00e9poca deliciosa,<br \/>\nPortugal sob os Filipes&#8230;<\/p>\n<p>Os tr\u00eas quartos, depois das seis, batiam no rel\u00f3gio sempre adiantado<br \/>\nda igreja de S. Crist\u00f3v\u00e3o, em Oliveira, quando Andr\u00e9<br \/>\nCavaleiro e Gon\u00e7alo, descendo da rua Velha, penetraram no Terreiro<br \/>\nda Lou\u00e7a (agora largo do Conselheiro Costa Barroso).<\/p>\n<p>Todos os domingos, tocando num coreto que o Conselheiro, quando presidente<br \/>\nda C\u00e2mara, mandara construir sobre o velho Pelourinho demolido, a charanga<br \/>\ndo Regimento ou a filarm\u00f4nica Lealdade tornavam aquele largo o centro<br \/>\nmais soci\u00e1vel da quieta e caseira cidade. Nessa tarde por\u00e9m,<br \/>\ncomo come\u00e7ara no Convento de Santa Br\u00edgida o bazar patrocinado<br \/>\npelo Bispo, as senhoras rareavam nos bancos de pedra e nas cadeiras do Asilo<br \/>\nespalhadas por sob as ac\u00e1cias. As Lousadas faltavam no seu pouso reservado,<br \/>\nsuperiormente escolhido para espiarem todo o Ferreiro, as casas que o cerram<br \/>\ndo lado de S. Crist\u00f3v\u00e3o e do lado das Trinas, a rua Velha e<br \/>\na rua das Velas, a barraca da limonada, e at\u00e9 outro retiro pudicamente<br \/>\ndisfar\u00e7ado por uma cani\u00e7ada de heras. E o \u00fanico rancho<br \/>\nconhecido, D. Maria Mendon\u00e7a, a Baronesa das Marges, as duas Alboins,<br \/>\nconversavam com as costas para o Terreiro, junto da grade de ferro que o limita<br \/>\nsobre a antiga muralha &#8211; donde se dominam campos, a cerca do Semin\u00e1rio<br \/>\nNovo, todo o pinhal da Estevinha e as voltas lustrosas da ribeira de Crede.<\/p>\n<p>Mas entre os cavalheiros que trilhavam vagarosamente a al\u00e9ia do largo<br \/>\ndenominada o &#8220;Picadeiro&#8221;, gozando a Marcha do Profeta, o espanto<br \/>\nreviveu (apesar de todos conhecerem a reconcilia\u00e7\u00e3o famosa do<br \/>\nGoverno Civil) quando os dois amigos apareceram, ambos de chap\u00e9us de<br \/>\npalha, ambos de polainas altas, ao passo solene das duas \u00e9guas &#8211; a<br \/>\nde Gon\u00e7alo airosa e baia de cauda curta \u00e0 inglesa, a do Cavaleiro<br \/>\npesada e preta, de pesco\u00e7o arqueado, a cauda farta rojando as lajes.<br \/>\nMelo Alboim, o Bar\u00e3o das Marges, o Dr. Delegado, pararam numa fila<br \/>\npasmada, a que se juntou um dos Vila-Velhas, depois o morgado Pestana, depois<br \/>\no gordo major Ribas com a farda desabotoada, rebolando e galhofando sobre<br \/>\n&#8220;aquela amiga\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221; O Tabeli\u00e3o Guedes, o Guedes<br \/>\npopa, derrubou a cadeira no alvoro\u00e7o com que se ergueu, indignado mas<br \/>\nrespeitoso, descobrindo a calva numa cortesia imensa em que o chap\u00e9u<br \/>\nbranco lhe tremia. E o velho Cerqueira, o advogado, que sa\u00eda do retiro<br \/>\nencani\u00e7ado de hera e se abotoava, embasbacou, com os \u00f3culos<br \/>\nna ponta do nariz al\u00e7ado, os dedos esquecidos nos bot\u00f5es das<br \/>\ncal\u00e7as.<\/p>\n<p>No entanto os dois amigos, gravemente, seguiam pela correnteza de casas que<br \/>\no palacete de D. Arminda Vilegas domina, com o pesado bras\u00e3o dos Vilegas<br \/>\nna cimalha, as suas dez nobres varandas de ferro opulentadas por cortinas<br \/>\nde damasco amarelo. Na varanda de esquina, o Barrolo e Jos\u00e9 Mendon\u00e7a<br \/>\nfumavam, sentados em mochos de palhinha. E ao sentir as patas lentas das \u00e9guas,<br \/>\nao avistar t\u00e3o inesperadamente o cunhado &#8211; o bom Barrolo quase se despenhou<br \/>\nda varanda:<\/p>\n<p>-\u00d3 Gon\u00e7alo! \u00d3 Gon\u00e7alo!&#8230; Vais l\u00e1 para<br \/>\ncasa?<\/p>\n<p>E nem esperou uma certeza, berrou de novo, bracejando:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s j\u00e1 vamos! Jantamos c\u00e1 esta tarde&#8230; A Gracinha<br \/>\nest\u00e1 l\u00e1 em cima, com a tia Arminda. Vamos j\u00e1 tamb\u00e9m!<br \/>\n\u00c9 um momento!<\/p>\n<p>O Cavaleiro acenou risonhamente ao capit\u00e3o Mendon\u00e7a. J\u00e1<br \/>\nBarrolo mergulhara com entusiasmo para dentro dos damascos amarelos. E os<br \/>\ndois amigos, deixando pelo Terreiro aquele sulco de espanto, penetraram na<br \/>\nrua das Velas onde um pol\u00edcia se perfilou com a m\u00e3o no bonnet<br \/>\n&#8211; o que foi agrad\u00e1vel ao Fidalgo da Torre.<\/p>\n<p>O Cavaleiro acompanhou Gon\u00e7alo ao largo de El-Rei. Diante do Palacete<br \/>\num homem de boina vermelha remo\u00eda no seu realejo o coro nupcial da<br \/>\nLucia, espiando as janelas desertas. O Joaquim da Porta correu do p\u00e1tio<br \/>\na segurar a \u00e9gua do Fidalgo. Com um mudo sorriso o tocador estendera<br \/>\na boina. E depois de lhe atirar um punhado de cobre &#8211; Gon\u00e7alo hesitou,<br \/>\nmurmurou enfim, com embara\u00e7o e corando:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o queres entrar e descansar, Andr\u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, obrigado&#8230; Ent\u00e3o amanh\u00e3 \u00e0s duas, no Governo<br \/>\nCivil, com o Barrolo, para combinarmos sobre os votos da Murtosa&#8230; Adeus,<br \/>\nminha flor! Demos um belo passeio e espantamos os povos!<\/p>\n<p>E S. Exa., envolvendo o Palacete num demorado olhar, desceu pela rua das<br \/>\nTecedeiras.<\/p>\n<p>No seu quarto (sempre preparado, com a cama feita) Gon\u00e7alo acabava<br \/>\nde se lavar, de se escovar, quando Barrolo se precipitou pelo corredor, esbofado,<br \/>\ns\u00f4frego &#8211; e atr\u00e1s dele Gracinha, ofegante tamb\u00e9m, desapertando<br \/>\nnervosamente as fitas escarlates do chap\u00e9u. Desde a tarde em que Barrolo<br \/>\n&#8220;presenciara com os olhos bem acordados!&#8221; a palestra de Gon\u00e7alo<br \/>\ne de Andr\u00e9 na varanda do Governo Civil &#8211; fervera nele e em Gracinha<br \/>\numa impaci\u00eancia desesperada por penetrar os motivos, a encoberta hist\u00f3ria<br \/>\ndaquela reconcilia\u00e7\u00e3o surpreendente. Depois a fuga de Gon\u00e7alo<br \/>\nna caleche para a Torre, sem parar nos Cunhais; a repentina jornada do Cavaleiro<br \/>\na Lisboa; o sil\u00eancio que sobre aquele caso se abatera mais pesado que<br \/>\numa tampa de ferro &#8211; quase os aterrou. Gracinha \u00e0 noite, no Orat\u00f3rio,<br \/>\nmurmurava atrav\u00e9s das rezas distra\u00eddas: &#8211; &#8220;Oh, minha rica<br \/>\nNossa Senhora, que ser\u00e1?&#8221; &#8211; Barrolo n\u00e3o ousara correr \u00e0<br \/>\nTorre; mas at\u00e9 sonhava com a varanda do Governo Civil, que lhe aparecia<br \/>\nenorme, crescendo, atravancando Oliveira, ro\u00e7ando j\u00e1 as janelas<br \/>\ndos Cunhais de onde ele a repelia com o cabo de uma vassoura&#8230; E eis agora<br \/>\nGon\u00e7alo e Andr\u00e9 que entram na cidade a cavalo, muito serenamente,<br \/>\nambos de chap\u00e9u de palha, como companheiros constantes recolhendo dum<br \/>\npasseio!<\/p>\n<p>Logo \u00e0 porta do quarto, Barrolo atirou os bra\u00e7os, rompeu aos<br \/>\nbrados:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que tem sido tudo isto?&#8230; N\u00e3o se fala noutra coisa!&#8230;<br \/>\nTu com o Andr\u00e9!<\/p>\n<p>Gracinha, arfando, t\u00e3o vermelha como as fitas do chap\u00e9u, s\u00f3<br \/>\nbalbuciava:<\/p>\n<p>&#8211; E nem vens, nem escreves&#8230; N\u00f3s com tanto cuidado&#8230;<\/p>\n<p>E mesmo rente da porta aberta, sem se sentarem, o Fidalgo aclarou o &#8220;Mist\u00e9rio&#8221;<br \/>\n, com a toalha ainda nas m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8211; Uma coisa muito inesperada, mas muito natural. O Sanches Lucena morreu,<br \/>\ncomo voc\u00eas sabem. Ficou vago o c\u00edrculo de Vila-Clara. E um c\u00edrculo<br \/>\npor onde s\u00f3 pode sair um homem da terra, com propriedade, com influ\u00eancia.<br \/>\nO governo imediatamente me mandou perguntar, pelo tel\u00e9grafo, se eu<br \/>\nme desejava propor&#8230; Ora eu, no fundo, estou de bem com os Hist\u00f3ricos,<br \/>\nsou amigo do Jos\u00e9 Ernesto&#8230; Estimava entrar na C\u00e2mara&#8230; Aceitei.<\/p>\n<p>O Barrolo esmagou a coxa com uma palmada triunfal:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o era certo, caramba!<\/p>\n<p>O Fidalgo continuava, enxugando interminavelmente as m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8211; Aceitei, est\u00e1 claro, com condi\u00e7\u00f5es; e muito fortes.<br \/>\nMas aceitei&#8230; Neste caso, como voc\u00eas sabem, conv\u00e9m que o candidato<br \/>\nse entenda com o Governador Civil. Eu, ao princ\u00edpio, n\u00e3o queria<br \/>\nrenovar rela\u00e7\u00f5es. Instado por\u00e9m, muito instado de Lisboa,<br \/>\ne por considera\u00e7\u00f5es superiores de Pol\u00edtica, consenti<br \/>\nnesse sacrif\u00edcio. Nas dificuldades em que se encontra o pa\u00eds<br \/>\ntodos devem fazer sacrif\u00edcios. Eu fiz esse&#8230; O Andr\u00e9, de resto,<br \/>\nfoi muito am\u00e1vel, muito afetuoso. De sorte que estamos outra vez amigos.<br \/>\nAmigos pol\u00edticos: mas muito bem, muito lealmente&#8230; Almocei hoje com<br \/>\nele em Corinde, viemos juntos pelos Freixos. Uma tarde linda!&#8230; Enfim renasceu<br \/>\na antiga harmonia. E a elei\u00e7\u00e3o est\u00e1 segura.<\/p>\n<p>&#8211; Venham de l\u00e1 esses ossos! &#8211; berrou o Barrolo, transportado.<\/p>\n<p>Gracinha terminara por se sentar \u00e0 borda do leito, com o chap\u00e9u<br \/>\nno rega\u00e7o, enlevada para o irm\u00e3o, num silencioso enternecimento<br \/>\nem que os seus doces olhos se umedeciam e riam. O Fidalgo, que se desprendera<br \/>\ndo abra\u00e7o do Barrolo, dobrava a toalha com um vagar distra\u00eddo:<\/p>\n<p>&#8211; A elei\u00e7\u00e3o est\u00e1 segura, mas precisamos trabalhar. Tu,<br \/>\nBarrolo, tens de conversar tamb\u00e9m com o Cavaleiro. J\u00e1 combinei.<br \/>\nAmanh\u00e3 no Governo Civil, \u00e0s duas horas. \u00c9 necess\u00e1rio<br \/>\nque voc\u00eas se entendam por causa dos votos da Murtosa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pronto, menino! o que voc\u00eas quiserem! Votos, dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo, borrifando vagamente o jaquet\u00e3o com \u00e1gua-de-col\u00f4nia<br \/>\nque pingava no soalho:<\/p>\n<p>&#8211; Desde o momento em que eu me reconciliei com o Andr\u00e9, tudo acabou.<br \/>\nTu, Barrolo, imediatamente te reconcilias tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Barrolo quase pulou, no seu deslumbramento:<\/p>\n<p>&#8211; Pois est\u00e1 claro! E ainda bem, que eu gosto imensamente do Cavaleiro!<br \/>\nAt\u00e9 sempre teimava com Gracinha&#8230; &#8220;Oh senhores, esta tolice,<br \/>\npor causa da Pol\u00edtica!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Bem! &#8211; concluiu o Fidalgo. &#8211; A Pol\u00edtica nos separou, a Pol\u00edtica<br \/>\nnos re\u00fane&#8230; E o que se chama a inconst\u00e2ncia dos Tempos e dos<br \/>\nImp\u00e9rios.<\/p>\n<p>E agarrou Gracinha pelos ombros, com um beijo brincalh\u00e3o, estalado<br \/>\nem cada face:<\/p>\n<p>&#8211; A tia Arminda? Boa, da escaldadela? J\u00e1 voltou \u00e0s fa\u00e7anhas<br \/>\nde Leandro o Belo?<\/p>\n<p>Gracinha resplandecia, com o lento sorriso que se n\u00e3o desfizera, a<br \/>\nenvolvia toda em claridade e do\u00e7ura:<\/p>\n<p>&#8211; A tia Arminda est\u00e1 melhor, j\u00e1 anda. Perguntou por ti&#8230; Mas,<br \/>\n\u00f3 Gon\u00e7alo, tu decerto queres jantar!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, almocei tremendamente em Corinde&#8230; Voc\u00eas, como jantaram<br \/>\n\u00e0 hora antiga da tia Arminda, ceiam, hem? Ent\u00e3o logo ceio&#8230;<br \/>\nAgora apenas uma ch\u00e1vena de ch\u00e1, muito forte!<\/p>\n<p>Gracinha correu, no alvoro\u00e7o de servir o her\u00f3i querido. E pela<br \/>\nescada, descendo com Barrolo que o contemplava, o Fidalgo da Torre lamentou<br \/>\nos seus sacrif\u00edcios:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, menino, \u00e9 uma ma\u00e7ada&#8230; Mas que diabo!<br \/>\ntodos devemos concorrer para tirar o pa\u00eds do atoleiro!<\/p>\n<p>Barrolo, maravilhado, murmurava:<\/p>\n<p>&#8211; E sem dizeres nada&#8230; Assim \u00e0 capucha! Assim \u00e0 capucha!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E agora outra coisa, Barrolo. Amanh\u00e3, no Governo Civil, deves convidar<br \/>\no Andr\u00e9 a jantar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com certeza! &#8211; gritou o Barrolo. &#8211; Jantar de estrondo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, homem! Jantar muito quieto, muito \u00edntimo. Unicamente<br \/>\no Andr\u00e9 e o Jo\u00e3o Gouveia. Telegrafas ao Jo\u00e3o Gouveia.<br \/>\nTamb\u00e9m podes convidar os Mendon\u00e7as&#8230; Mas jantar muito discreto,<br \/>\ns\u00f3 para conversarmos, para firmar a reconcilia\u00e7\u00e3o dum<br \/>\nmodo mais soci\u00e1vel, mais elegante.<\/p>\n<p>Ao outro dia, no Governo Civil, Barrolo e o Cavaleiro apertaram as m\u00e3os<br \/>\ncom tanta singeleza, como se ambos, ainda na v\u00e9spera, andassem jogando<br \/>\no bilhar e caturrando no club da rua das Pegas. De resto conversaram sumariamente<br \/>\nsobre a Elei\u00e7\u00e3o. Apenas o Cavaleiro aludira com indol\u00eancia<br \/>\naos votos da Murtosa &#8211; o bom Barrolo quase se engasgou, na \u00e2nsia de<br \/>\nos oferecer:<\/p>\n<p>&#8211; E o que voc\u00eas quiserem&#8230; Votos, dinheiro, o que voc\u00eas quiserem!&#8230;<br \/>\nVoc\u00eas digam! Eu vou para a Murtosa, e \u00e9 comezaina, e pipa de<br \/>\nvinho aberta, e a freguesia inteira a votar no meio de foguet\u00f3rio&#8230;<\/p>\n<p>O Cavaleiro, rindo, amansou aquele fervor faustoso:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu caro Barrolo, n\u00e3o! N\u00f3s preparamos uma elei\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito s\u00f3bria, muito sossegada. Vila-Clara elege Gon\u00e7alo Mendes<br \/>\nRamires deputado, naturalmente, como o seu melhor homem. N\u00e3o h\u00e1<br \/>\ncombate, o Julinho \u00e9 uma sombra. Portanto&#8230;<\/p>\n<p>O Barrolo persistia, radiante, gingando:<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, Andr\u00e9, perd\u00e3o! L\u00e1 isso vinha\u00e7a,<br \/>\ne viv\u00f3rio, e foguet\u00f3rio, e festan\u00e7a magna&#8230;<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo, embara\u00e7ado, ansioso por suster a garrulice do<br \/>\nBarrolo, as palmadas carinhosas com que ele se atufava na intimidade do Cavaleiro,<br \/>\napontou para a mesa de S. Exa..<\/p>\n<p>&#8211; Tu tens que fazer, Andr\u00e9. Vejo a\u00ed uma papelada pavorosa&#8230;<br \/>\nN\u00e3o roubemos mais tempo ao chefe ilustre do Distrito! Ao trabalho!<\/p>\n<p>Trabalhar, meu irm\u00e3o, que o trabalho<br \/>\nE Andr\u00e9, \u00e9 virtude, \u00e9 valor!&#8230;<\/p>\n<p>Agarrara o chap\u00e9u, acenando ao cunhado. Ent\u00e3o Barrolo, com<br \/>\nas bochechas a estalar de gosto, balbuciou o convite que firmaria a reconcilia\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um modo soci\u00e1vel e elegante:<\/p>\n<p>&#8211; Cavaleiro, para conversarmos melhor, se voc\u00ea nos quiser dar o gosto<br \/>\nde vir jantar&#8230; Quinta-feira, \u00e0s seis e meia&#8230; N\u00f3s, quando<br \/>\nc\u00e1 est\u00e1 o Gon\u00e7alo, jantamos sempre mais tarde.<\/p>\n<p>O Cavaleiro, que corara, agradeceu com discreta cerim\u00f4nia:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 para mim um imenso prazer, uma imensa honra&#8230;<\/p>\n<p>E \u00e0 porta da ante-sala onde os acompanhara, segurando o pesado reposteiro<br \/>\nde baeta escarlate com as Armas Reais bordadas &#8211; suplicou ao Barrolo que pusesse<br \/>\nos seus respeitos aos p\u00e9s da Sra. D. Gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Barrolo, descendo a larga escadaria de pedra, limpava a testa, o pesco\u00e7o,<br \/>\numedecidos pela emo\u00e7\u00e3o. E no p\u00e1tio desabafou:<\/p>\n<p>&#8211; Muito simp\u00e1tico este Andr\u00e9! Rapaz franco, de quem sempre<br \/>\ngostei&#8230; Realmente estava morto que acabassem estas hist\u00f3rias&#8230; E<br \/>\nmesmo l\u00e1 para os Cunhais, para a companhia, para o cavaco, que bela<br \/>\naquisi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Quinta-feira de manh\u00e3 depois do almo\u00e7o, no terra\u00e7o do<br \/>\njardim onde tomavam caf\u00e9, Gon\u00e7alo recomendou ao Barrolo que<br \/>\n&#8220;para acentuar mais completamente a intimidade simples do jantar, n\u00e3o<br \/>\npusesse casaca&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; E tu, Gracinha, vestido afogado. Mas vestidinho claro, alegre&#8230;<\/p>\n<p>Gracinha sorriu, indecisamente, continuando a folhear um Almanach de lembran\u00e7as<br \/>\nestendida numa cadeira de verga, com um gatinho branco no rega\u00e7o.<\/p>\n<p>Depois do alvoro\u00e7o e pasmo de domingo, ela aparentava agora um desinteresse<br \/>\nsilencioso pela reconcilia\u00e7\u00e3o que ainda abalava Oliveira, pela<br \/>\nElei\u00e7\u00e3o, pelo jantar. Mas nesses dias n\u00e3o sossegara &#8211;<br \/>\nt\u00e3o impaciente e sens\u00edvel que o bom Barrolo incessantemente<br \/>\nlhe aconselhava o grande rem\u00e9dio da mam\u00e3 contra os nervos, &#8220;flores<br \/>\nde alecrim, cozidas em vinho branco&#8221;.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo percebia claramente a perturba\u00e7\u00e3o em que a lan\u00e7ava<br \/>\naquela entrada triunfal de Andr\u00e9, do antigo Andr\u00e9, na sua casa<br \/>\nde casada, nos Cunhais. E para se tranq\u00fcilizar evocava (como na estrada<br \/>\ndo cemit\u00e9rio em Vila-Clara) a seriedade de Gracinha, o seu r\u00edgido<br \/>\ne puro pensar, a altivez da sua almazinha her\u00f3ica. Nessa manh\u00e3<br \/>\nmesmo, todo no fresco e s\u00f4frego cuidado da sua Elei\u00e7\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3 receava que Gracinha, por embara\u00e7o ou cautela, acolhesse<br \/>\nsecamente o Cavaleiro, o esfriasse no seu renovado fervor pela Casa de Ramires,<br \/>\nno seu patrocinato Pol\u00edtico. E insistiu, gracejando:<\/p>\n<p>&#8211; Ouviste, Gracinha? Um vestido branco. Um vestidinho alegre, que sorria<br \/>\naos h\u00f3spedes&#8230;<\/p>\n<p>Ela murmurou, mergulhada no seu Almanach:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, realmente, com este calor&#8230;<\/p>\n<p>Mas Barrolo bateu uma palmada na coxa. Que pena! que pena n\u00e3o terem<br \/>\nOliveira, &#8220;para o brinde de reconcilia\u00e7\u00e3o&#8221;, um famoso<br \/>\nvinho do Porto, da garrafeira da mam\u00e3, precios\u00edssimo, velh\u00edssimo,<br \/>\ndo tempo de D. Jo\u00e3o II&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; D. Jo\u00e3o II? &#8211; rosnou Gon\u00e7alo. &#8211; Est\u00e1 estragado!<\/p>\n<p>Barrolo hesitou:<\/p>\n<p>&#8211; D. Jo\u00e3o II ou D. Jo\u00e3o VI&#8230; Um desses Reis. Enfim, um vinho<br \/>\n\u00fanico, do s\u00e9culo passado! S\u00f3 restam \u00e0 mam\u00e3<br \/>\noito ou dez garrafas&#8230; E hoje, era dia para uma, bem?<\/p>\n<p>O Fidalgo deu um sorvo lento ao caf\u00e9:<\/p>\n<p>&#8211; O Andr\u00e9, antigamente, tamb\u00e9m gostava muito de ovos queimados&#8230;<\/p>\n<p>Bruscamente Gracinha fechou o Almanach &#8211; e, com uma fuga e um sil\u00eancio<br \/>\nque emudeceram Gon\u00e7alo, sacudiu do colo o gato dorminhoco, atravessou<br \/>\no terra\u00e7o, desapareceu entre os teixos altos do jardim.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 tarde, quando o Fidalgo ocupou o seu lugar na mesa oval, junto<br \/>\nda prima Maria Mendon\u00e7a &#8211; logo notou, entre duas compoteiras, uma travessa<br \/>\nde ovos queimados. Apesar de jantar t\u00e3o \u00edntimo serviam, com<br \/>\na lou\u00e7a da China, os famosos talheres dourados da baixela do tio Melchior.<br \/>\nE duas jarras de Saxe transbordavam de cravos brancos e amarelos, cores her\u00e1ldicas<br \/>\ndos Ramires.<\/p>\n<p>D. Maria, que n\u00e3o encontrara o querido primo desde os anos de Gracinha,<br \/>\nmurmurou com um sorriso, uma grave cortesia, naquele cerimonioso sil\u00eancio<br \/>\nem que se desdobravam os guardanapos:<\/p>\n<p>&#8211; Ainda lhe n\u00e3o dei os parab\u00e9ns, primo Gon\u00e7alo&#8230;<\/p>\n<p>Ele acudiu, mexendo nervosamente nos copos:<\/p>\n<p>&#8211; Chut! prima, chut! Hoje aqui, j\u00e1 est\u00e1 decidido, n\u00e3o<br \/>\nse alude sequer \u00e0 Pol\u00edtica&#8230; Est\u00e1 muito calor para Pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Ela suspirou de leve, como desfalecida: Ai, o calor&#8230; Que horr\u00edvel<br \/>\ncalor! Desde que entrara nos Cunhais com aquele vestido preto que &#8220;era<br \/>\no seu p\u00e1lio rico &#8211; ainda n\u00e3o cessara de invejar a frescura do<br \/>\nvestido branco de Gracinha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que bem que lhe fica! Est\u00e1 hoje linda!<\/p>\n<p>Era um vestido liso de crepom branco, que aclarava, remo\u00e7ava a sua<br \/>\ngra\u00e7a quase virginal. E nunca realmente tanto prendera, assim clara<br \/>\ne fina, com os verdes olhos refulgindo como esmeraldas lavadas, uma ondula\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais lustrosa nos pesados cabelos, um macio rubor transparente, todo um fresco<br \/>\nbrilho de flor regada, de flor revivida, apesar do acanhamento que lhe imobilizava<br \/>\nos dedos ao erguer a colher de prata dourada. E ao lado, superiormente robusto<br \/>\ne largo, com o petilho arqueado como uma coura\u00e7a e cravejado de duas<br \/>\nsafiras, uma rosa branca desabrochada na lapela, Andr\u00e9 Cavaleiro, que<br \/>\nrecusara a sopa (oh, no ver\u00e3o nunca comia sopa!), dominava a mesa,<br \/>\nlevemente comovido tamb\u00e9m, passando sobre o reluzente bigode um len\u00e7o<br \/>\nt\u00e3o perfumado que afogava o perfume dos cravos. Mas foi ele que encadeou<br \/>\na anima\u00e7\u00e3o com risonhos queixumes sobre o calor &#8211; o escandaloso<br \/>\ncalor de Oliveira&#8230; Ah! que Purgat\u00f3rio abrasado &#8211; depois dos seus<br \/>\ndois dias de Para\u00edso, na frescura deliciosa de Sintra!<\/p>\n<p>D. Maria Mendon\u00e7a ado\u00e7ou os espertos olhos para o Sr. Governador<br \/>\nCivil. &#8211; E ent\u00e3o Sintra? Animada? Muitos ranchos \u00e0 tarde, em<br \/>\nSeteais? Encontrara a Condessa de Cheias &#8211; a prima Chelas?&#8230;<\/p>\n<p>Sim, na Pena, na sua visita \u00e0 Rainha, Cavaleiro conversara durante<br \/>\num momento com a Sra. Condessa de Chelas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! E a Rainha?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, sempre encantadora&#8230;<\/p>\n<p>A Sra. Condessa de Chelas, essa, um pouco magra. Mas t\u00e3o am\u00e1vel,<br \/>\nt\u00e3o inteligente, t\u00e3o verdadeiramente grande dame &#8211; n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 verdade? E, como se inclinara para Gracinha, com uma do\u00e7ura<br \/>\ninfinita no simples mover da cabe\u00e7a &#8211; ela, perturbada, mais vermelha,<br \/>\nbalbuciou que n\u00e3o conhecia a Condessa de Cheias&#8230; -D. Maria Mendon\u00e7a<br \/>\nacusou logo a in\u00e9rcia dos primos Barrolos, sempre encafurnados nos<br \/>\nCunhais, sem nunca se aventurarem a Lisboa no inverno, para conviver, para<br \/>\nconhecer os parentes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a culpa \u00e9 do primo Jos\u00e9, que detesta Lisboa&#8230; Oh, n\u00e3o!<br \/>\nBarrolo n\u00e3o detestava Lisboa! Se pudesse acarretar para Lisboa as suas<br \/>\ncomodidades, o seu quarto, a sua cocheira, a boa \u00e1gua do pomar, a rica<br \/>\nvaranda sobre o jardim &#8211; at\u00e9 se regalava!<\/p>\n<p>&#8211; Mas entalado naqueles quartinhos do Bragan\u00e7a&#8230; E depois a m\u00e1<br \/>\ncomida, o barulho&#8230; A Gracinha em Lisboa nunca dorme&#8230; E a ma\u00e7ada<br \/>\ndas manh\u00e3s?&#8230; N\u00e3o h\u00e1 nada que fazer em Lisboa, de manh\u00e3!<\/p>\n<p>O Cavaleiro sorria para o Barrolo, como enlevado na sua gra\u00e7a e raz\u00e3o.<br \/>\nDepois confessou que ele, apesar de habitar tamb\u00e9m (merc\u00ea do<br \/>\nEstado!) um palacete confort\u00e1vel, e gozar tamb\u00e9m uma \u00e1gua<br \/>\nexcelente, a fin\u00edssima \u00e1gua do Po\u00e7o de S. Domingos. lamentava<br \/>\nque os deveres de Pol\u00edtica, a disciplina de Partido o amarrassem a<br \/>\nOliveira. E toda a sua esperan\u00e7a era a queda do Minist\u00e9rio,<br \/>\npara se libertar, passar tr\u00eas meses divinos cm It\u00e1lia&#8230;<\/p>\n<p>Do outro lado de Gracinha, Jo\u00e3o Gouveia (sempre acanhado e mudo diante<br \/>\nde senhoras) exclamou, num impulso de amizade, de convic\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, Andrezinho, vai perdendo a esperan\u00e7a! O S. Fulg\u00eancio<br \/>\nn\u00e3o arreia! Ainda c\u00e1 te apanhamos uns tr\u00eas ou quatro anos!<\/p>\n<p>E insistiu, debru\u00e7ado sobre Gracinha, num esfor\u00e7o de amabilidade<br \/>\nque o esbraseava:<\/p>\n<p>&#8211; O S. Fulg\u00eancio n\u00e3o arreia. Ainda c\u00e1 temos o nosso Andr\u00e9<br \/>\nmais tr\u00eas ou quatro anos.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 protestava, com um requebro, as espessas pestanas quase cerradas:<\/p>\n<p>&#8211; Oh, meu Jo\u00e3o! n\u00e3o me queiras mal, n\u00e3o me queiras mal!&#8230;<\/p>\n<p>E teimava. Ah, com certeza! ainda que desertasse o seu partido (e que importa<br \/>\nem hoste poderosa uma lan\u00e7a ferrugenta?) esses meses de It\u00e1lia<br \/>\nno inverno j\u00e1 os sonhara, j\u00e1 os preparava&#8230; &#8211; E a Sra. D. Gra\u00e7a<br \/>\nn\u00e3o permitia que ele a servisse de um pouco de vinho branco?<\/p>\n<p>Barrolo estendeu o bra\u00e7o, com efus\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Cavaleiro! eu tenho empenho em que voc\u00ea prove esse vinho com cuidado&#8230;<br \/>\nE da minha propriedade do Corvelo&#8230; Fa\u00e7o muito gosto nele. Mas prove<br \/>\ncom aten\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>S. Exa. provou com devo\u00e7\u00e3o, como se comungasse. E com uma cortesia<br \/>\ncompenetrada para Barrolo que reluzia de gosto:<\/p>\n<p>&#8211; Uma del\u00edcia! uma verdadeira del\u00edcia!<\/p>\n<p>&#8211; Hem? N\u00e3o \u00e9 verdade? Eu, para mim, prefiro este vinho do Corvelo<br \/>\na todos os vinhos franceses, os mais finos&#8230; At\u00e9 ali o nosso amigo<br \/>\nPadre Soeiro, que \u00e9 um Santo, o aprecia!<\/p>\n<p>Silencioso, esbatido por tr\u00e1s duma das altas jarras de cravos, Padre<br \/>\nSoeiro corou, sorriu:<\/p>\n<p>&#8211; Com muita \u00e1gua, infelizmente, Sr. Jos\u00e9 Barrolo&#8230; O gosto<br \/>\npede, mas o reumatismo n\u00e3o consente.<\/p>\n<p>Pois Jos\u00e9 Mendon\u00e7a, que n\u00e3o temia reumatismos, atacava<br \/>\nsempre bravamente aquele bendito Corvelo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe parece a voc\u00ea, Jo\u00e3o Gouveia?<\/p>\n<p>Oh! Jo\u00e3o Gouveia j\u00e1 o conhecia, louvado Deus! E certamente<br \/>\nnunca encontrara em Portugal, como vinho branco, nenhum compar\u00e1vel<br \/>\npela frescura, pelo aroma, pela seiva&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E c\u00e1 lhe vou ati\u00e7ando com fervor, Barrolo amigo! Esta bela<br \/>\ngarrafa de cristal vai de vencida!<\/p>\n<p>Barrolo exultava. O seu desgosto era que Gon\u00e7alo nunca honrasse &#8220;aquele<br \/>\nn\u00e9ctar&#8221;. &#8211; N\u00e3o! Gon\u00e7alo n\u00e3o tolerava vinhos<br \/>\nbrancos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o hoje estou com uma destas sedes que s\u00f3 me satisfaz<br \/>\nvinho verde, assim um pouco espumante, e com gelo&#8230; Que este de Vidainhos<br \/>\ntamb\u00e9m \u00e9 do Barrolo. Oh, eu n\u00e3o desprezo os vinhos da<br \/>\nfam\u00edlia&#8230; Este Vidainhos sinceramente o considero sublime.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Cavaleiro desejou provar esse sublime vinho verde da quinta<br \/>\nde Vidainhos, em Amarante. O escudeiro, a um aceno entusiasmado do Barrolo,<br \/>\napresentou a S. Exa. um copo esguio, especial para aquele vinho que espumava.<br \/>\nMas o Cavaleiro, acariciando o fresco copo sem o erguer, repisou a id\u00e9ia<br \/>\nde f\u00e9rias, de viagens, como acentuando o seu cansa\u00e7o e fastio<br \/>\nde Oliveira. &#8211; E sabia a Sra. D. Gra\u00e7a para onde ele seguiria, depois<br \/>\nda It\u00e1lia, nesse inverno, se por caridade de Deus o Minist\u00e9rio<br \/>\nca\u00edsse?&#8230; Para a \u00c1sia Menor.<\/p>\n<p>&#8211; E era uma viagem para que eu, com certeza, tentava o nosso Gon\u00e7alo&#8230;<br \/>\nT\u00e3o f\u00e1cil, agora, com os caminhos de ferro!&#8230; De Veneza a Constantinopla<br \/>\num mero passeio. Depois, de Constantinopla a Esmirna, um dia, dois dias, num<br \/>\nvapor excelente. E da\u00ed numa boa caravana, por Tripoli, pela antiga<br \/>\nSid\u00f4nia, penetr\u00e1vamos em Galil\u00e9ia&#8230; Galil\u00e9ia!<br \/>\nHem, Gon\u00e7alo? Que beleza!<\/p>\n<p>Padre Soeiro, suspendendo o garfo, lembrou timidamente &#8211; que em Galil\u00e9ia<br \/>\no Sr. Gon\u00e7alo Ramires pisaria terra que outrora, por pouco, pertencera<br \/>\n\u00e0 sua Casa:<\/p>\n<p>&#8211; Um dos antepassados de V. Exa., Gutierres Ramires, companheiro de Tancredo<br \/>\nna primeira Cruzada, recusou o ducado de Galil\u00e9ia e de Al\u00e9m-Jord\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fez pessimamente! &#8211; gritou Gon\u00e7alo, rindo. &#8211; Oh, esse av\u00f4<br \/>\nGutierres andou pessimamente! Porque n\u00e3o existia agora, neste mundo,<br \/>\ndisparate mais divertido do que eu Duque de Galil\u00e9ia! O Sr. Gon\u00e7alo<br \/>\nMendes Ramires, Duque de Galil\u00e9ia e de Al\u00e9m-Jord\u00e3o!&#8230;<br \/>\nEra simplesmente de rebentar!<\/p>\n<p>Cavaleiro protestou, com simpatia:<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acredite! &#8211; acudiu, com os olhos coruscantes, D. Maria Mendon\u00e7a.<br \/>\n&#8211; O primo Gon\u00e7alo, com todas estas gra\u00e7as, no fundo, \u00e9<br \/>\nmuit\u00edssimo aristocrata&#8230; Mas terrivelmente aristocrata!<\/p>\n<p>O Fidalgo da Torre pousou o copo de Vidainhos, depois dum trago saboreado<br \/>\ne fundo:<\/p>\n<p>&#8211; Aristocrata&#8230; Est\u00e1 claro que sou aristocrata. Sentiria com efeito<br \/>\ncerto desgosto em ter nascido, como uma erva, de outras ervas vagas. Gosto<br \/>\nde saber que nasci de meu pai Vicente, que nasceu de seu pai Dami\u00e3o,<br \/>\nque nasceu de seu pai In\u00e1cio, e assim sempre at\u00e9 n\u00e3o<br \/>\nsei que Rei Suevo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Recesvinto! &#8211; informou respeitosamente Padre Soeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Pois at\u00e9 esse Recesvinto. O pior \u00e9 que o sangue de todos<br \/>\nesses pais n\u00e3o difere realmente do sangue dos pais do Joaquim da Porta.<br \/>\nE que depois do Recesvinto, para tr\u00e1s, at\u00e9 Ad\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\ntenho mais pais!<\/p>\n<p>E, enquanto todos riam, D. Maria Mendon\u00e7a, debru\u00e7ada para ele,<br \/>\npor tr\u00e1s do leque largamente aberto, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; O primo est\u00e1 com esses desprezos&#8230; Pois eu sei duma senhora que<br \/>\ntem a maior admira\u00e7\u00e3o pela Casa de Ramires e pelo seu representante.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo enchia de novo o copo, com amor, atento \u00e0 espuma;<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! &#8220;Mas conv\u00e9m distinguir&#8221;, como diz o Manuel Duarte.<br \/>\nPor quem tem ela a verdadeira admira\u00e7\u00e3o, por mim ou pelo Suevo,<br \/>\npelo Recesvinto?<\/p>\n<p>&#8211; Por ambos.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo!<\/p>\n<p>Depois, pousando a garrafa, mais s\u00e9rio:<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9?<\/p>\n<p>Oh! ela n\u00e3o podia confessar. N\u00e3o era ainda bastante velha para<br \/>\nandar com recadinhos de sentimento. Mas Gon\u00e7alo dispensava o nome &#8211;<br \/>\ns\u00f3 desejava as qualidades&#8230; Nova? Bonita?<\/p>\n<p>&#8211; Bonita? &#8211; exclamou D. Maria. &#8211; \u00c9 uma das mulheres mais formosas<br \/>\nde Portugal!<\/p>\n<p>Espantado, Gon\u00e7alo lan\u00e7ou o nome:<\/p>\n<p>&#8211; A D. Ana Lucena!<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Porque mulher assim t\u00e3o formosa, e vivendo nestes s\u00edtios,<br \/>\ne t\u00e3o conhecida da prima que lhe faz confid\u00eancias, s\u00f3<br \/>\na D. Ana.<\/p>\n<p>D. Maria, ajeitando as duas rosas que lhe alegravam o corpete de seda preta,<br \/>\nsorria:<\/p>\n<p>&#8211; Talvez seja, talvez seja&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois estou imensamente lisonjeado. Mas ainda distingo, como o Manuel Duarte.<br \/>\nSe, da parte dela, essa simpatia toda \u00e9 para o bom fim, n\u00e3o!<br \/>\nN\u00e3o, santo Deus, n\u00e3o!&#8230; Mas se \u00e9 para o mau fim, ent\u00e3o,<br \/>\nprima, cumprirei honradamente o meu dever, dentro das minhas for\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>D. Maria escondeu a face no leque, escandalizada. Depois, espreitando, com<br \/>\nos agudos olhos a faiscar:<\/p>\n<p>&#8211; Oh primo, mas o bom fim \u00e9 que convinha, porque a coisa \u00e9<br \/>\na mesma e s\u00e3o duzentos contos a mais!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo gritou de admira\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! esta prima Maria! N\u00e3o h\u00e1 em toda a Europa ningu\u00e9m<br \/>\nmais esperto!<\/p>\n<p>Todos curiosamente ansiaram por saber a nova gra\u00e7a da Sra. D. Maria.<br \/>\nMas Gon\u00e7alo deteve as curiosidades:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se pode contar. \u00c9 casamento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Jos\u00e9 Mendon\u00e7a recordou a novidade picante que<br \/>\ndesde a v\u00e9spera remexia Oliveira:<\/p>\n<p>&#8211; Por casamento!&#8230; Que me dizem ao casamento da D. Rosa Alcoforado?<\/p>\n<p>Barrolo, depois o Gouveia, at\u00e9 Gracinha, todos o proclamaram &#8220;um<br \/>\nhorror&#8221;. Aquela perfeita rapariga, de pele t\u00e3o cor-de-rosa, de<br \/>\ncabelo t\u00e3o cor de ouro, amarrada ao Teixeira de Carredes, um patriarca<br \/>\ncarregado de netos&#8230; Que desastre!<\/p>\n<p>Pois ao Cavaleiro o casamento n\u00e3o parecia assim &#8220;desastrado&#8221;.<br \/>\nO Teixeira de Carredes, al\u00e9m de muito fino, de muito inteligente, era<br \/>\num velho verdejante, quase sem rugas &#8211; at\u00e9 bonito com aquele contraste<br \/>\ndo bigode escuro e da grenha ri\u00e7ada e branca. E na Sra. D.Rosa, com<br \/>\ntodas as rosas de sua pele e todo o ouro dos seus cabelos, dominava &#8220;um<br \/>\nn\u00e3o sei qu\u00ea&#8221; de amolentado e de sorvado&#8230; Depois pouco<br \/>\nesperta. E pouco cuidadosa &#8211; sempre mal penteada, sempre mal pregada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, V. Exa. perdoem&#8230; Mas quem faz um casamento muito desenxabido \u00e9<br \/>\no pobre Teixeira de Carredes.<\/p>\n<p>D. Maria Mendon\u00e7a considerava o Governador Civil com um espanto am\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8211; Pois se o Sr. Cavaleiro n\u00e3o admira a Rosinha Alcoforado, n\u00e3o<br \/>\nsei ent\u00e3o que rapariga admire dentro do seu Distrito&#8230;<\/p>\n<p>Ele, logo, com galante rasgo:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, al\u00e9m de Exa., n\u00e3o admiro ningu\u00e9m! Realmente eu<br \/>\ngoverno, em Portugal, o Distrito mais desprovido de beleza&#8230;<\/p>\n<p>Todos protestaram. E a Maria Marges? E a pequena Reriz, da Riosa? E a Melozinho<br \/>\nAlboim, com aqueles olhos?&#8230; Mas o Cavaleiro n\u00e3o consentia, a todas<br \/>\ndemolia com um sarcasmo leve, ou pela pele sem frescura, ou pelo pisar desairoso,<br \/>\nou pelo provincianismo de gosto e modos, sempre pela car\u00eancia das belezas<br \/>\ne gra\u00e7as que ornavam Gracinha &#8211; lan\u00e7ando assim disfar\u00e7adamente,<br \/>\naos p\u00e9s de Gracinha, um rolo de senhoras vencidas e amarfanhadas. Ela<br \/>\npercebera a sutil adula\u00e7\u00e3o, os seus olhos alumiaram com um fulgor<br \/>\nmais enternecido o rubor que a afogueava. Desejou repartir incenso t\u00e3o<br \/>\nacumulado &#8211; lembrou timidamente outra beleza de que se orgulhava o Distrito:<\/p>\n<p>&#8211; A filha do Visconde de Rio-Manso, a Rosinha Rio-Manso&#8230; \u00c9 linda!<\/p>\n<p>O Cavaleiro triunfou com facilidade:<\/p>\n<p>&#8211; Mas tem doze anos, minha senhora! Nem \u00e9 rosinha, \u00e9 bot\u00e3ozinho<br \/>\nde rosa!&#8230;<\/p>\n<p>Quase humildemente, Gracinha recordou a Lu\u00edsa Moreira, filha dum lojista,<br \/>\nmuito admirada aos domingos na missa da S\u00e9 e no Terreiro da Lou\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma bela rapariga&#8230; Sobretudo a figura&#8230;<\/p>\n<p>Cavaleiro triunfou ainda, com requebrada seguran\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas os dentes tortos, Sra. D. Gra\u00e7a! Os dentes acavalados!<br \/>\nV. Exa. nunca reparou&#8230; Oh! uma boca muito desagrad\u00e1vel! E, al\u00e9m<br \/>\ndos dentes, o irm\u00e3o, o Evaristo, com aquela cara mais chata que a alma,<br \/>\ne a caspa, e a porcaria, e o jacobinismo&#8230; N\u00e3o h\u00e1 mulher bonita<br \/>\ncom irm\u00e3o t\u00e3o feio!<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a estendera o bra\u00e7o, com outra curiosidade que ocupava<br \/>\nOliveira:<\/p>\n<p>&#8211; E por Evaristo!&#8230; Ele sempre funda o novo jornal republicano, o Rebate?<\/p>\n<p>O Sr. Governador Civil encolheu os ombros com uma ignor\u00e2ncia superior<br \/>\ne risonha. Mas Jo\u00e3o Gouveia, vermelho e luzidio depois da sua garrafa<br \/>\nde Corvelo e da sua garrafa de Douro, afian\u00e7ou que o Rebate aparecia<br \/>\nem novembro. At\u00e9 ele conhecia o patriota que esportulava a &#8220;massa&#8221;<br \/>\n. E a campanha do Rebate come\u00e7ava com cinco artigos esmagadores sobre<br \/>\na Tomada da Bastilha.<\/p>\n<p>O espanto de Gon\u00e7alo era como o Republicanismo alastrara em Portugal<br \/>\n&#8211; at\u00e9 na velhota, na devota Oliveira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando eu andava em preparat\u00f3rios existiam simplesmente dois republicanos<br \/>\nem Oliveira, o velho Salema, lente de Ret\u00f3rica, e eu. Agora h\u00e1<br \/>\npartido, h\u00e1 comit\u00ea, h\u00e1 dois jornais&#8230; E h\u00e1 mesmo<br \/>\no Bar\u00e3o das Marges com a Voz P\u00fablica na m\u00e3o, debaixo<br \/>\nda Arcada&#8230;<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a n\u00e3o receava a Rep\u00fablica, gracejava:<\/p>\n<p>&#8211; Ainda vem longe, muito longe&#8230; Ainda nos d\u00e1 tempo de comermos estes<br \/>\nbelos ovos queimados.<\/p>\n<p>&#8211; Deliciosos &#8211; murmurou o Cavaleiro.<\/p>\n<p>&#8211; Sim &#8211; concordou Gon\u00e7alo &#8211; ainda temos tempo para os ovos&#8230; Mas<br \/>\nque rebente uma revolu\u00e7\u00e3o em Espanha, ou que morra o Reizinho<br \/>\nna sua menoridade, que naturalmente morre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Credo! Coitadinho! Pobre m\u00e3e! &#8211; murmurou Gracinha sensibilizada.<\/p>\n<p>Imediatamente o Cavaleiro a tranq\u00fcilizou. Por que morrer o Reizinho<br \/>\nde Espanha? Os republicanos espalhavam boatos sombrios sobre os males da excelente<br \/>\ncrian\u00e7a. Mas ele conhecia a realidade &#8211; assegurava \u00e0 Sra. D.<br \/>\nGra\u00e7a que, felizmente para a Espanha, ainda reinaria um Afonso XIII<br \/>\ne mesmo um Afonso XIV. Enquanto aos nossos republicanos, esses&#8230; Meu Deus!<br \/>\nmera quest\u00e3o de guarda municipal! Portugal, nas suas massas profundas,<br \/>\npermanecia mon\u00e1rquico, de raiz. Apenas ao de cima, na burguesia e nas<br \/>\nescolas, flutuava uma escuma ligeira, e bastante suja, que se limpava facilmente<br \/>\ncom um sabre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V. Exa., Sra. D. Gra\u00e7a, que \u00e9 uma dona de casa perfeita,<br \/>\nconhece esta opera\u00e7\u00e3o que se faz \u00e0 panela do caldo&#8230;<br \/>\nEscumar a panela. \u00c9 com uma colher. Aqui \u00e9 com um sabre. Pois<br \/>\nassim, com toda a simplicidade, se clarifica Portugal. E foi isto que ainda<br \/>\nultimamente eu declarei a El-Rei.<\/p>\n<p>Alteara a cabe\u00e7a &#8211; o seu peitilho resplandecia, mais largo, como coura\u00e7a<br \/>\nbastante rija para defender toda a Monarquia. E, no compenetrado sil\u00eancio<br \/>\nque se alargou, duas rolhas de champagne estalaram, por tr\u00e1s do biombo,<br \/>\nna copa.<\/p>\n<p>Apenas o escudeiro, apressado, enchera as ta\u00e7as &#8211; o Fidalgo da Torre<br \/>\ncom uma gravidade que o sorriso ado\u00e7ava:<\/p>\n<p>&#8211; Andr\u00e9, \u00e0 tua sa\u00fade. N\u00e3o \u00e9 ao Governador<br \/>\nCivil, \u00e9 ao amigo!<\/p>\n<p>Todos os copos se ergueram num sussurro acariciador. Jo\u00e3o Gouveia<br \/>\nagitou o seu, com especial efus\u00e3o, gritando: &#8211; &#8220;Andrezinho, meu<br \/>\nvelho!&#8221; S. Exa. apenas tocou de leve no c\u00e1lice de Gracinha. Padre<br \/>\nSoeiro murmurou as &#8220;gra\u00e7as&#8221;. E Barrolo, atirando o guardanapo:<\/p>\n<p>&#8211; Caf\u00e9 aqui ou na sala?&#8230; Na sala estamos mais frescos.<\/p>\n<p>Na sala grande, a sala dos veludos vermelhos, o lustre rebrilhava solitariamente;<br \/>\npelas tr\u00eas janelas abertas penetrava a serenidade da noite quente, o<br \/>\nrecolhido sil\u00eancio de Oliveira; e embaixo, no largo, alguns sujeitos,<br \/>\nmesmo duas senhoras de manta de l\u00e3 branca pela cabe\u00e7a, pasmavam<br \/>\npara aquela claridade de festa que jorrava dos Cunhais. O Cavaleiro e Gon\u00e7alo<br \/>\nacenderam os charutos na varanda, respirando a frescura escassa. E o Cavaleiro,<br \/>\ncom beatitude:<\/p>\n<p>&#8211; Pois sempre te digo, Gon\u00e7alinho, que se janta sublimemente em casa<br \/>\nde teu cunhado!&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo desejou que, no domingo, ele jantasse na Torre. Ainda restavam<br \/>\numas garrafas de Madeira do tempo do av\u00f4 Dami\u00e3o &#8211; a que se daria,<br \/>\ncom socorro do Gouveia e do Tit\u00f3, um assalto her\u00f3ico.<\/p>\n<p>O Cavaleiro prometeu, j\u00e1 deliciado &#8211; tomando da pesada bandeja de<br \/>\nprata, que derreava o escudeiro, a sua ch\u00e1vena de caf\u00e9, sem<br \/>\na\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>&#8211; E tu, com efeito, Gon\u00e7alo, agora n\u00e3o deves arredar da Torre.<br \/>\nO teu papel \u00e9 todo de presen\u00e7a na localidade. O Fidalgo da Torre<br \/>\nest\u00e1 no meio das suas terras, por onde vai ser eleito para as Cortes.<br \/>\n\u00c9 o teu papel&#8230;<\/p>\n<p>O Barrolo, com um riso enlevado, surdiu entre os dois amigos, que enla\u00e7ou<br \/>\nternamente pela cinta:<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00f3s c\u00e1 ficamos, ambos a trabalhar, o Cavaleiro e eu!&#8230;<\/p>\n<p>Mas D. Maria, do canap\u00e9 onde se enterrara, reclamou o primo Gon\u00e7alo<br \/>\n&#8220;para neg\u00f3cios&#8221;. Junto dum console, Jo\u00e3o Gouveia e<br \/>\nPadre Soeiro, remexendo o seu caf\u00e9, concordavam na necessidade dum<br \/>\nGoverno forte. E Gracinha, com o primo Mendon\u00e7a, revolvia as m\u00fasicas<br \/>\nsobre a tampa do piano, procurando o Fado dos Ramires. Mendon\u00e7a tocava<br \/>\ncom corredio brilho, compusera valsas, um hino ao coronel Trancoso, o her\u00f3i<br \/>\nde Machumba &#8211; e mesmo o primeiro ato duma \u00f3pera, A Pegureira. E como<br \/>\nn\u00e3o descortinavam o Fado com as quadras do Videirinha &#8211; foi justamente<br \/>\numa das suas valsas, a P\u00e9rola, duma cad\u00eancia amorosa e cansada<br \/>\nlembrando a valsa do Fausto, que ele atacou, sem largar o charuto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Andr\u00e9 Cavaleiro, que repenetrara vagarosamente na sala,<br \/>\nrepuxou o colete, afagou o bigode, e avan\u00e7ando para Gracinha, com um<br \/>\nmodo meio grave, meio folgaz\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Se V. Exa. me quer dar a grande honra?&#8230;<\/p>\n<p>Oferecia, abria os bra\u00e7os. E Gracinha, toda escarlate, cedeu, levada<br \/>\nlogo nos largos passos deslizados que o Cavaleiro lan\u00e7ou sobre o tapete.<br \/>\nBarrolo e Jo\u00e3o Gouveia correram a afastar as poltronas, clareando um<br \/>\nespa\u00e7o, onde a valsa se desenrolou com o suave sulco branco do vestido<br \/>\nde Gracinha. Pequenina e leve, toda ela se perdia, como se fundia, na for\u00e7a<br \/>\nm\u00e1scula do Cavaleiro, que a arrebatava em giros lentos, com a face<br \/>\npendida, respirando os seus cabelos magn\u00edficos.<\/p>\n<p>Da borda do canap\u00e9, com os finos olhos a fuzilar, D. Maria Mendon\u00e7a<br \/>\npasmava:<\/p>\n<p>&#8211; Mas que bem que valsa, que bem que valsa o Sr. Governador Civil!&#8230;<\/p>\n<p>Ao lado Gon\u00e7alo torcia nervosamente o bigode, na surpresa daquela<br \/>\nfamiliaridade, assim renovada pelo Cavaleiro com t\u00e3o serena confian\u00e7a,<br \/>\npor Gracinha com tanto abandono&#8230; Eles torneavam, enla\u00e7ados. Dos l\u00e1bios<br \/>\ndo Cavaleiro escorregava um sorriso, um murm\u00fario. Gracinha arfava,<br \/>\nos seus sapatos de verniz reluziam sob a saia que se enrolava nas cal\u00e7as<br \/>\ndo Cavaleiro. E Barrolo, em \u00eaxtase, quando eles o ro\u00e7avam, atirava<br \/>\npalmas carinhosas, bradava:<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! Bravo! Lindamente&#8230; Brav\u00edssimo!<\/p>\n<h3><a name=\"7\"><\/a>CAP\u00cdTULO VII<\/h3>\n<p>Gon\u00e7alo recolhia para o almo\u00e7o depois dum passeio no pomar<br \/>\npercorrendo a Gazeta do Porto, quando avistou no banco de pedra, rente \u00e0<br \/>\nporta da cozinha, onde a Rosa mudava o pain\u00e7o na gaiola do seu can\u00e1rio,<br \/>\no Casco, o Jos\u00e9 Casco dos Bravais, que esperava, pensativo e abatido,<br \/>\ncomo chap\u00e9u sobre os joelhos. Vivamente, para se esquivar, remergulhou<br \/>\nno jornal. Mas percebeu a esgalgada magreza do homem, que surdia da sombra<br \/>\nda latada, avan\u00e7ava na claridade faiscante do p\u00e1tio, hesitando,<br \/>\ncomo assustado&#8230; E, animado pela vizinhan\u00e7a da Rosa, parou, for\u00e7ando<br \/>\num sorriso &#8211; enquanto o Casco enrolava nas m\u00e3os tr\u00eamulas a aba<br \/>\ndura do chap\u00e9u, balbuciava:<\/p>\n<p>&#8211; Se o Fidalgo me fizesse a esmola de uma palavra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00e9 voc\u00ea, Casco! Homem, n\u00e3o o conheci&#8230; E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Dobrou o jornal, tranq\u00fcilizado &#8211; gozando mesmo a submiss\u00e3o daquele<br \/>\nvalente que tanto o apavorara, erguido e negro como um pinheiro, na solid\u00e3o<br \/>\ndo pinheiral. E o Casco, engasgado, repuxava, esticava o pesco\u00e7o de<br \/>\ndentro dos grossos colarinhos bordados &#8211; at\u00e9 que atirou toda a alma<br \/>\nnuma s\u00faplica solu\u00e7ada, retendo as l\u00e1grimas que marejavam:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, meu Fidalgo, perdoe por quem \u00e9! Perdoe, que eu nem lhe sei pedir<br \/>\nperd\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo atalhou o homem, com generosidade e do\u00e7ura. Ele bem<br \/>\no avisara! Nada se emenda, a gritar, com o pau al\u00e7ado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E olhe, Casco! Quando voc\u00ea me saiu ao pinhal eu levava um rev\u00f3lver<br \/>\nna algibeira&#8230; Trago sempre um rev\u00f3lver. Desde que uma noite em Coimbra,<br \/>\nno Choupal, dois b\u00eabados me assaltaram, ando sempre \u00e0 cautela<br \/>\ncom o rev\u00f3lver&#8230; Pense voc\u00ea agora que desgra\u00e7a se tiro<br \/>\no rev\u00f3lver, se desfecho!&#8230; Que desgra\u00e7a, hem?&#8230; Felizmente,<br \/>\nnum relance, pensei que me perdia, que o matava, e fugi. Foi por isso que<br \/>\nfugi, para n\u00e3o desfechar o rev\u00f3lver&#8230; Enfim tudo passou. E<br \/>\neu n\u00e3o sou homem de rancores, j\u00e1 esqueci. Contanto que voc\u00ea,<br \/>\nagora sossegado e no seu ju\u00edzo, esque\u00e7a tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O Casco amassava as abas do chap\u00e9u, com a cabe\u00e7a derrubada.<br \/>\nE sem a erguer, sem ousar, rouco dos solu\u00e7os que o entalavam:<\/p>\n<p>&#8211; Pois agora \u00e9 que eu me lembro, meu Fidalgo! Agora \u00e9 que me<br \/>\nralo por aquela doidice! Agora! depois do que o Fidalgo fez pela mulher e<br \/>\npelo pequeno!&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo sorriu, encolheu os ombros:<\/p>\n<p>&#8211; Que tolice, Casco!&#8230; Pois a sua mulher aparece a\u00ed numa noite d&#8217;\u00e1gua&#8230;<br \/>\nE o pequenito doente, coitadito, com febre&#8230; Como vai ele, o Manelzinho?<\/p>\n<p>O Casco murmurou do fundo da sua humildade:<\/p>\n<p>&#8211; Louvado seja Deus, meu senhor, muito s\u00e3ozinho, muito rijinho.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem&#8230; Ponha o chap\u00e9u. Ponha o chap\u00e9u, homem! E adeus!&#8230;<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o tem que agradecer, Casco&#8230; E olhe! Traga c\u00e1<br \/>\num dia o pequeno. Eu gostei do pequeno. \u00c9 espertinho.<\/p>\n<p>Mas o Casco n\u00e3o se arredava, pregado \u00e0s lajes. Por fim, num<br \/>\nsolu\u00e7o que rebentou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que eu n\u00e3o sei como hei-de dizer, meu Fidalgo&#8230; L\u00e1<br \/>\no dia de cadeia, acabou! Tenho g\u00eanio, fiz a asneira, com o corpo a paguei.<br \/>\nE pouco paguei, gra\u00e7as ao Fidalgo&#8230; Mas depois quando sa\u00ed,<br \/>\nquando soube que a mulher viera de noite \u00e0 Torre, e que o Fidalgo at\u00e9<br \/>\na embrulhara numa capa, e que n\u00e3o deixara sair o pequeno&#8230;<\/p>\n<p>Estacou, afogado pela emo\u00e7\u00e3o. E como Gon\u00e7alo, tamb\u00e9m<br \/>\ncomovido, lhe batia risonhamente no ombro, &#8220;para acabar, n\u00e3o se<br \/>\nfalar mais nessas bagatelas&#8230;&#8221; &#8211; o Casco rompeu, numa grande voz dolorosa<br \/>\ne quebrada:<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 que o Fidalgo n\u00e3o sabe o que \u00e9 para mim aquele<br \/>\npequeno!&#8230; Desde que Deus mo mandou tem sido uma paix\u00e3o c\u00e1<br \/>\npor dentro que at\u00e9 parece mentira!&#8230; Olhe que na noite que passei<br \/>\nna cadeia da vila n\u00e3o dormi&#8230; E Deus me perdoe, n\u00e3o pensei<br \/>\nna mulher, nem na pobre da velha, nem na pouquita terra que amanho, tudo ao<br \/>\ndesamparo. Toda a noite se foi a gemer: &#8211; &#8220;ai o meu querido filhinho!<br \/>\nai o meu querido filhinho&#8217; Depois quando a mulher, logo pela estrada, me diz<br \/>\nque o Fidalgo ficara com ele na Torre, e o deitara na melhor cama, e mandara<br \/>\nrecado ao m\u00e9dico&#8230; E depois quando soube pelo Sr. Bento que o Fidalgo<br \/>\nde noite subia a ver se ele estava bem coberto, e lhe entalava a roupa, coitadinho&#8230;<\/p>\n<p>E arrebatadamente, num choro solto, gritando: -&#8220;Ai meu Fidalgo! meu<br \/>\nFidalgo!&#8230;&#8221;- o Casco agarrou as m\u00e3os de Gon\u00e7alo, que beijava,<br \/>\nrebeijava, alagava de grossas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Casco! Que tolice!&#8230; Deixe homem!<\/p>\n<p>P\u00e1lido, Gon\u00e7alo sacudia aquela gratid\u00e3o furiosa &#8211; at\u00e9<br \/>\nque ambos se encararam, o Fidalgo com as pestanas molhadas e tr\u00eamulas,<br \/>\no lavrador dos Bravais solu\u00e7ando, numa confus\u00e3o. E foi ele por<br \/>\nfim que, recalcando um derradeiro solu\u00e7o, se recobrou, desafogou da<br \/>\nid\u00e9ia que o trouxera, que decerto fundamente o trabalhara, e que agora<br \/>\nlhe enrijava a face e o gesto numa determina\u00e7\u00e3o que nunca vergaria:<\/p>\n<p>&#8211; Meu Fidalgo, eu n\u00e3o sei falar, n\u00e3o sei dizer&#8230; Mas se de<br \/>\nhoje em diante, seja para que for, o Fidalgo necessitar da vida dum homem,<br \/>\ntem aqui a minha!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo estendeu a m\u00e3o ao lavrador, muito simplesmente como<br \/>\num Ramires de outrora recebendo a preitesia dum vassalo:<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, Jos\u00e9 Casco.<\/p>\n<p>&#8211; Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso Senhor o aben\u00e7oe!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, perturbado, galgou pela escadinha da varanda &#8211; enquanto o<br \/>\nCasco atravessava o p\u00e1tio vagarosamente, com a cabe\u00e7a bem erguida,<br \/>\ncomo homem que devera e que pagara.<\/p>\n<p>E em cima, na Livraria, Gon\u00e7alo pensava com espanto: &#8220;A\u00ed<br \/>\nest\u00e1 como neste mundo sentimental se ganham dedica\u00e7\u00f5es<br \/>\ngratuitamente1 Porque enfim! Quem n\u00e3o impediria que uma criancinha<br \/>\ncom febre afrontasse de noite uma estrada negra, sob a chuva e o vendaval?<br \/>\nQuem a n\u00e3o deitaria, n\u00e3o lhe ado\u00e7aria um grog, n\u00e3o<br \/>\nlhe entalaria os cobertores para a conservar bem abafada? E por esse grog<br \/>\ne por essa cama &#8211; corre o pai, tremendo e chorando, a oferecer a sua vida!<br \/>\nAh! como era f\u00e1cil ser Rei &#8211; e ser Rei popular!<\/p>\n<p>E esta certeza mais o animava a obedecer \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Cavaleiro &#8211; a come\u00e7ar imediatamente as suas visitas aos Influentes<br \/>\neleitorais, essas aduladoras visitas que assegurariam \u00e0 Elei\u00e7\u00e3o<br \/>\numa unanimidade arrogante. Logo ao fim do almo\u00e7o, mesmo sobre a toalha,<br \/>\narredando os pratos, copiou a lista desses Magnates &#8211; por um rascunho anotado<br \/>\nque lhe fornecera o Jo\u00e3o Gouveia. Era o Dr. Alexandrino; o velho Gramilde,<br \/>\nde Ramilde; o Padre Jos\u00e9 Vicente, da Finta; outros menores; e o Gouveia<br \/>\nmarcara com uma cruz, como o mais poderoso e mais dif\u00edcil, o Visconde<br \/>\nde Rio-Manso, que dispunha da imensa freguesia de Canta-Pedra. Gon\u00e7alo<br \/>\nconhecia esses senhores, homens de propriedade e de dinheiro (com todos outrora<br \/>\no pap\u00e1 andara endividado) &#8211; mas nunca encontrara o Visconde de Rio-Manso,<br \/>\num velho brasileiro, dono da quinta da Varandinha, onde vivia solitariamente<br \/>\ncom uma neta de onze anos, essa linda Rosinha que chamavam &#8220;O bot\u00e3o<br \/>\nde Rosa&#8221;, a herdeira mais rica de toda a Prov\u00edncia. E logo nessa<br \/>\ntarde, em Vila-Clara, reclamou ao Jo\u00e3o Gouveia uma carta de apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o Rio-Manso:<\/p>\n<p>O Administrador hesitou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o precisa carta&#8230; Que diabo! Voc\u00ea \u00e9 o<br \/>\nFidalgo da Torre! Chega, entra, conversa&#8230; Al\u00e9m disso na Elei\u00e7\u00e3o<br \/>\npassada o Rio-Manso ajudou os Regeneradores; de modo que estamos um pouco<br \/>\nsecos. O Rio-Manso \u00e9 um casmurro&#8230; Mas com efeito, Gon\u00e7alinho,<br \/>\nconv\u00e9m come\u00e7ar essa ca\u00e7a &amp;aagrave; popularidade!<\/p>\n<p>Nessa noite, na Assembl\u00e9ia, o Fidalgo, encetando a &#8220;ca\u00e7a<br \/>\n\u00e0 popularidade&#8221;, aceitou um convite do Comendador Rom\u00e3o<br \/>\nBarros (do ma\u00e7ador, do burlesco Barros) para o br\u00f3dio faustoso<br \/>\ncom que ele celebrava, na sua quinta da Roqueira, a festa de S. Rom\u00e3o.<br \/>\nE essa semana inteira, depois outra, as gastou assim por Vila-Clara, amimando<br \/>\neleitores &#8211; a ponto de comprar horrendas camisas de chita na loja do Ramos,<br \/>\nde encomendar um saco de caf\u00e9 na mercearia do Telo, de oferecer o bra\u00e7o<br \/>\nno largo do Chafariz \u00e0 nojenta mulher do bebed\u00edssimo Marques<br \/>\nRosendo, e de freq\u00fcentar, de chap\u00e9u para a nuca, o bilhar da rua<br \/>\ndas Pretas. Jo\u00e3o Gouveia n\u00e3o aprovava estes excessos &#8211; aconselhando<br \/>\nantes &#8220;boas visitas, com todo o chic, aos influentes s\u00e9rios&#8221;.<br \/>\nMas Gon\u00e7alo bocejava, adiava, na insuper\u00e1vel pregui\u00e7a<br \/>\nde afrontar a maledic\u00eancia rabugenta do velho Gramilde ou a solenidade<br \/>\nforense do Dr. Alexandrino.<\/p>\n<p>Agosto findava; e por vezes, na Livraria, Gon\u00e7alo, co\u00e7ando<br \/>\ndesconsoladamente a cabe\u00e7a, considerava as brancas tiras de alma\u00e7o,<br \/>\no Cap\u00edtulo III da Torre de D. Ramires encalhado&#8230; Mas qu\u00ea! n\u00e3o<br \/>\npodia, com aquele calor, com o af\u00e3 da Elei\u00e7\u00e3o, remergulhar<br \/>\nnas eras Afonsinas!<\/p>\n<p>Quando refrescavam as tardes lentas montava, alongava o passeio pelas freguesias,<br \/>\nn\u00e3o se descuidando das recomenda\u00e7\u00f5es do Cavaleiro &#8211; enchendo<br \/>\nsempre o bolso de rebu\u00e7ados de avenca para atirar \u00e0s crian\u00e7as.<br \/>\nMas, numa carta ao querido Andr\u00e9, j\u00e1 confessara que &#8220;a<br \/>\nsua popularidade n\u00e3o crescia, n\u00e3o enfunava&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;N\u00e3o! positivamente, velho amigo, n\u00e3o tenho o dom! Sei<br \/>\napenas palestrar familiarmente com os homens, cumprimentar pelo seu nome as<br \/>\nvelhas \u00e0s soleiras das portas, gracejar com a pequenada, e se encontro<br \/>\numa boeirinha de saiazita rota dar cinco tost\u00f5es \u00e0 boeirinha<br \/>\npara uma saiazita nova&#8230; Ora todas estas coisas t\u00e3o naturais sempre<br \/>\nas fiz naturalmente, desde rapaz, sem que me conquistassem influ\u00eancia<br \/>\nsens\u00edvel&#8230; Necessito portanto que essa querida Autoridade me empurre<br \/>\ncom o seu bra\u00e7o possante e destro&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Todavia j\u00e1 uma tarde, encontrando junto da Torre o velho Cosme de<br \/>\nNacejas, e depois, num domingo, cruzando \u00e0s Ave-Marias na Bica-Santa<br \/>\no Adri\u00e3o Pinto do lugar da Levada, ambos lavradores considerados e<br \/>\nremexedores de elei\u00e7\u00f5es &#8211; lhes pedira os votos, desprendidamente<br \/>\ne rindo. E quase se assombrara da prontid\u00e3o, do fervor, com que ambos<br \/>\nse ofereceram. &#8211; &#8220;Para o Fidalgo? Pois isso est\u00e1 entendido! Ainda<br \/>\nque se votasse contra o Governo, que \u00e9 pai!&#8221; &#8211; E em Vila-Clara,<br \/>\ncom o Gouveia, Gon\u00e7alo deduzia destas ofertas t\u00e3o acaloradas<br \/>\n&#8220;a intelig\u00eancia pol\u00edtica da gente do campo&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 claro que n\u00e3o \u00e9 pelos meus lindos olhos! Mas<br \/>\nsabem que eu sou homem para falar, para lutar pelos interesses da terra&#8230;<br \/>\nO Sanches Lucena n\u00e3o passava dum Conselheiro muito rico e muito mudo!<br \/>\nEsta gente quer Deputado que grite, que lide, que imponha&#8230; Votam por mim<br \/>\nporque sou uma intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>E o Gouveia volvia, contemplando pensativamente o Fidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; Homem! quem sabe? Voc\u00ea nunca experimentou, Gon\u00e7alo Mendes<br \/>\nRamires. Talvez seja realmente pelos seus lindos olhos!<\/p>\n<p>Num desses passeios, numa abrasada sexta-feira, com o sol ainda alto, Gon\u00e7alo<br \/>\natravessava o lugarejo da Veleda, no caminho de Canta-Pedra. Ao fim dos casebres<br \/>\nque se apertam \u00e0 orla da estrada alveja, muito caiada, num terreiro<br \/>\ndefronte da Igreja, a taverna famosa &#8220;do Pintainho&#8221;, onde os caramanch\u00f5es<br \/>\ndo quintal e a nomeada do coelho guisado atraem vasto povo nos dias da feira<br \/>\nda Veleda. Nessa manh\u00e3 o Tit\u00f3, depois duma madrugada \u00e0s<br \/>\nperdizes, em Valverde, aparecera na Torre para almo\u00e7ar, urrando, de<br \/>\nesfomeado. Era sexta-feira &#8211; a Rosa preparara uma pescada com tomates, depois<br \/>\num bacalhau assado, formid\u00e1veis. E Gon\u00e7alo, toda a tarde torturado<br \/>\ncom sede, mais ressequido pela poeira da estrada, parou avidamente diante<br \/>\ndo port\u00e3o da venda, gritou pelo Pintainho.<\/p>\n<p>&#8211; Oh meu Fidalgo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca, que<br \/>\nmorro&#8230;<\/p>\n<p>O Pintainho, velhote roli\u00e7o de cabelo amarelo, n\u00e3o tardou com<br \/>\no copo apetitoso e fundo onde boiava, na espumazinha do a\u00e7\u00facar,<br \/>\numa rodela de lim\u00e3o. E Gon\u00e7alo saboreava a sangria com inef\u00e1vel<br \/>\ndel\u00edcia &#8211; quando da janela t\u00e9rrea da venda partiu um assobio<br \/>\nlento, fino e trinado, como o dos arneiros que animam as bestas a beber nos<br \/>\nriachos. Gon\u00e7alo deteve o copo, varado. A janela assomara um latag\u00e3o<br \/>\nairoso, de face clara e su\u00ed\u00e7as louras, que, com os punhos sobre<br \/>\no peitoril e a cabe\u00e7a levantada, num descarado modo de pimponice e<br \/>\ndesafio, o fitava atrevidamente. E num lampejo o Fidalgo reconheceu aquele<br \/>\nca\u00e7ador que j\u00e1 uma tarde, no lugar de Nacejas, ao p\u00e9<br \/>\nda F\u00e1brica de vidros, o mirara com arrog\u00e2ncia, lhe raspara a<br \/>\nespingarda pela perna, e ainda depois, parado sob a varanda duma rapariga<br \/>\nde jaqu\u00e9 azul, lhe acenara chasqueando enquanto ele descia a ladeira&#8230;<br \/>\nEra esse! Como se n\u00e3o percebesse o ultraje &#8211; Gon\u00e7alo bebeu apressadamente<br \/>\na sangria, atirou uma placa ao pobre Pintainho enfiado, e picou a fina \u00e9gua.<br \/>\nMas ent\u00e3o da janela rolou uma risadinha, cacarejada e tro\u00e7ante,<br \/>\nque o colheu pelas costas como o estalo duma vergasta. Gon\u00e7alo soltou<br \/>\na galope. E adiante, sopeando a \u00e9gua no ref\u00fagio duma azinhaga,<br \/>\npensava, ainda tr\u00eamulo: &#8211; &#8220;Quem ser\u00e1 o desavergonhado?&#8230;<br \/>\nE que lhe fiz, eu, Santo Deus? que lhe fiz, eu?&#8230;&#8221; Ao mesmo tempo todo<br \/>\no seu ser se desesperava contra aquele desgra\u00e7ado medo, encolhimento<br \/>\nda carne, arrepio da pele, que sempre, ante um perigo, uma amea\u00e7a,<br \/>\num vulto surgindo duma sombra, o estonteava, o impelia furiosamente a abalar,<br \/>\na escapar! Porque \u00e0 sua alma, Deus louvado, n\u00e3o faltava arrojo!<br \/>\nMas era o corpo, o trai\u00e7oeiro corpo, que num arrepio, num espanto,<br \/>\nfugia, se safava, arrastando a alma &#8211; enquanto dentro a alma bravejava!<\/p>\n<p>Entrou na Torre, mortificado, invejando a afoiteza dos seus mo\u00e7os<br \/>\nda quinta, remoendo um rancor soturno contra aquele bruto de su\u00ed\u00e7as<br \/>\nlouras, que certamente denunciaria ao Cavaleiro e enterraria numa enxovia!<br \/>\n&#8211; Mas, logo no corredor, o Bento lhe debandou os pensamentos, aparecendo com<br \/>\numa carta que &#8220;trouxera um mo\u00e7o da Feitosa&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Da Feitosa?<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, da quinta do Sr. Sanches Lucena, que Deus haja. Diz que vinha<br \/>\nde mandado das senhoras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Das senhoras!&#8230; Que senhoras?<\/p>\n<p>Sem tarja de luto, a carta n\u00e3o era da bela D. Ana&#8230; Mas era de D.<br \/>\nMaria Mendon\u00e7a, que assinava &#8211; &#8220;prima muito amiga, Maria Severim&#8221;.<br \/>\nNum relance a leu, colhido logo por esta surpresa nova, distra\u00eddo da<br \/>\nvenda do Pintainho e da afronta: &#8211; &#8220;Meu querido Primo. Estou h\u00e1<br \/>\ntr\u00eas dias aqui com a minha amiga Anica, e como passou o m\u00eas inteiro<br \/>\ndo nojo e ela j\u00e1 pode sair (e at\u00e9 precisa porque tem andado<br \/>\nfraca) eu aproveito a ocasi\u00e3o para percorrer estes arredores que dizem<br \/>\nt\u00e3o bonitos, e pouco conhe\u00e7o. Tencionamos no domingo visitar<br \/>\nSanta Maria de Craquede, onde est\u00e3o os t\u00famulos dos antigos tios<br \/>\nRamires. Que impress\u00e3o me vai fazer!&#8230; Mas, ao que parece, al\u00e9m<br \/>\ndos t\u00famulos do claustro, h\u00e1 outros, ainda mais antigos, que<br \/>\nforam arrombados no tempo dos Franceses, e que ficam num subterr\u00e2neo,<br \/>\nonde se n\u00e3o pode entrar sem licen\u00e7a e sem que tragam a chave.<br \/>\nPe\u00e7o pois, querido Primo, que d\u00ea as suas ordens para que no domingo<br \/>\npossamos descer ao subterr\u00e2neo, que todos afian\u00e7am muito interessante,<br \/>\nporque ainda l\u00e1 restam ossos e armas. Se na Torre houvesse uma senhora,<br \/>\neu mesma iria, para lhe fazer este pedido&#8230; Mas n\u00e3o se pode visitar<br \/>\num solteir\u00e3o t\u00e3o perigoso. Case depressa!&#8230; De Oliveira boas<br \/>\nnot\u00edcias. Creia-me sempre, etc.&#8221;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo encarou o Bento &#8211; que esperava, interessado com aquele assombro<br \/>\ndo Sr. Doutor:<\/p>\n<p>&#8211; Tu sabes se em Santa Maria de Craquede h\u00e1 outros t\u00famulos,<br \/>\nnum subterr\u00e2neo?<\/p>\n<p>O assombro ent\u00e3o saltou para o Bento:<\/p>\n<p>&#8211; Num subterr\u00e2neo?&#8230; T\u00famulos?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, homem! Al\u00e9m dos que est\u00e3o no claustro parece que h\u00e1<br \/>\noutros, mais antigos, debaixo da terra&#8230; Eu nunca vi, n\u00e3o me lembro.<br \/>\nTamb\u00e9m h\u00e1 que anos n\u00e3o entro em Santa Maria de Craquede!<br \/>\nDesde pequeno!&#8230; Tu n\u00e3o sabes?<\/p>\n<p>O Bento encolheu os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; E a Rosa n\u00e3o saber\u00e1?<\/p>\n<p>O Bento abanou a cabe\u00e7a, duvidando.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m voc\u00eas nunca sabem nada! Bem! Amanh\u00e3 cedo corre<br \/>\na Santa Maria de Craquede e pergunta na Igreja, ao sacrist\u00e3o, se existe<br \/>\nesse subterr\u00e2neo. Se existir que o mostre no domingo a umas senhoras,<br \/>\n\u00e0 Sra. D. Ana Lucena, e \u00e0 Sra. D. Maria Mendon\u00e7a, minha<br \/>\nprima Maria&#8230; E que tenha tudo varrido, tudo decente!<\/p>\n<p>Mas, repassando a carta, reparou num Post-Scriptum em letra mais miudinha,<br \/>\nao canto da folha: &#8211; &#8220;No domingo, n\u00e3o se esque\u00e7a, a visita<br \/>\nser\u00e1 entre as cinco e cinco e meia da tarde!&#8221;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo pensou: &#8211; &#8216;Ser\u00e1 uma entrevista?&#8221; E na Livraria,<br \/>\natirando para uma cadeira o chap\u00e9u e o chicote, assentou que era uma<br \/>\nentrevista, bem clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterr\u00e2neo<br \/>\n&#8211; e Maria Mendon\u00e7a, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como<br \/>\nnatural motivo de lhe escrever, de lhe anunciar que no domingo, \u00e0s<br \/>\ncinco e meia, a bela D. Ana e os seus duzentos contos o esperavam em Santa<br \/>\nMaria de Craquede. Mas ent\u00e3o a prima Maria n\u00e3o gracejara, em<br \/>\nOliveira? Gostava dele, realmente, essa D. Ana?&#8230; E uma emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\numa curiosidade voluptuosa atravessaram Gon\u00e7alo \u00e0 id\u00e9ia<br \/>\nde que t\u00e3o formosa mulher o desejava. &#8211; Ah! mas certamente o desejava<br \/>\npara marido, porque se o apetecesse para amante n\u00e3o se socorria dos<br \/>\nservi\u00e7os da D. Maria Mendon\u00e7a &#8211; nem a prima Maria, apesar de<br \/>\nt\u00e3o sabuja com as amigas ricas, os prestaria assim descaradamente como<br \/>\numa alcoviteira de Com\u00e9dia! E caramba! casar com a D. Ana &#8211; n\u00e3o!<\/p>\n<p>E subitamente ansiou por conhecer a vida da D. Ana! Aturara ela tantos anos,<br \/>\nem severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na Feitosa, na solid\u00e3o<br \/>\ndos grandes muros da Feitosa &#8211; porque nunca sobre ela esvoa\u00e7ara um<br \/>\nrumor, em terr\u00edolas t\u00e3o gulosas de rumores malignos. Mas em<br \/>\nLisboa?&#8230; Esses &#8220;amigos estimabil\u00edssimos&#8221; de que se ufanava<br \/>\no pobre Sanches, o D. Jo\u00e3o n\u00e3o sei qu\u00ea, o pomposo Arronches<br \/>\nManrique, o Filipe Louren\u00e7al com o seu cornetim?&#8230; Algum decerto a<br \/>\natacara &#8211; talvez o D. Jo\u00e3o, por dever tradicional do nome. E ela?&#8230;<br \/>\nQuem o informaria sobre a hist\u00f3ria sentimental da D. Ana?<\/p>\n<p>Depois, ao jantar, de repente pensou no Gouveia. Uma irm\u00e3 do Gouveia,<br \/>\ncasada em Lisboa com certo Cerqueira (arranjador de M\u00e1gicas e empregado<br \/>\nna Miseric\u00f3rdia), costumava mandar ao mano Administrador relat\u00f3rios<br \/>\n\u00edntimos sobre todas as pessoas conhecidas de Oliveira, de Vila-Clara,<br \/>\nque se demoravam em Lisboa &#8211; e que interessavam o mano ou por Pol\u00edtica,<br \/>\nou por mexeriquice. E decerto, pela irm\u00e3 Cerqueira, o querido Gouveia<br \/>\nconhecia miudamente os anais da D. Ana, durante os seus invernos de Lisboa,<br \/>\nnas del\u00edcias da sua &#8220;roda fina&#8221;.<\/p>\n<p>Nessa noite, por\u00e9m, o Administrador n\u00e3o aparecera na Assembl\u00e9ia.<br \/>\nE Gon\u00e7alo, desconsolado, recolhia \u00e0 Torre &#8211; quando no largo<br \/>\ndo Chafariz o encontrou com o Videirinha, ambos sentados num banco, sob as<br \/>\nolaias escuras.<\/p>\n<p>&#8211; Chegou lindamente! &#8211; exclamou o Gouveia. &#8211; Est\u00e1vamos mesmo a marchar<br \/>\npara minha casa, tomar ch\u00e1. Quer voc\u00ea, tamb\u00e9m?.. Voc\u00ea<br \/>\ncostuma gostar das minhas torradinhas.<\/p>\n<p>O Fidalgo aceitou &#8211; apesar de cansado. E logo pela Cal\u00e7adinha, enla\u00e7ando<br \/>\no bra\u00e7o do Administrador, contou que recebera uma carta de Lisboa,<br \/>\ndum amigo, com uma nova estupenda&#8230; O qu\u00ea? &#8211; O casamento da D. Ana<br \/>\nLucena.<\/p>\n<p>O Gouveia parou, assombrado, atirando o coco para a nuca:<\/p>\n<p>&#8211; Com quem?!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, que inventara a carta &#8211; inventou o noivo:<\/p>\n<p>&#8211; Com um vago parente meu, ao que parece, um D. Jo\u00e3o Pedroso ou da<br \/>\nPedrosa. Muitas vezes o Sanches Lucena me falou nele&#8230; Conviviam muito em<br \/>\nLisboa&#8230;<\/p>\n<p>Gouveia bateu com a ponta da bengala nas pedras:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pode ser!&#8230; Que disparate! A D. Ana n\u00e3o ajustava casamento<br \/>\nsete semanas depois de lhe morrer o marido&#8230; Olhe que o Lucena morreu no<br \/>\nmeado de julho, homem! Ainda nem teve tempo de se acostumar \u00e0 sepultura!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, com efeito! &#8211; murmurou Gon\u00e7alo. E sorria, sob uma doce baforada<br \/>\nde vaidade &#8211; pensando que, sete semanas depois de vi\u00fava, ela, sem resistir,<br \/>\ncalcando dec\u00eancia e luto, oferecia a ele uma entrevista nas ru\u00ednas<br \/>\nde Craquede.<\/p>\n<p>A mentira de resto, apesar de disparatada, aproveitara &#8211; porque, depois de<br \/>\nsubirem \u00e0 saleta verde do Administrador, o espanto recome\u00e7ou.<br \/>\nVideirinha esfregava as m\u00e3os, divertido:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Sr. Dr., olhe que tinha gra\u00e7a!&#8230; Se a Sra. D. Ana, depois de<br \/>\napanhar os duzentos contos do velhote, logo passadas semanas, z\u00e1s,<br \/>\nse engancha com um rapazote novo&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o!&#8230; Gon\u00e7alo agora, reparando, tamb\u00e9m<br \/>\nconsiderava despropositada a not\u00edcia do casamento, assim com o pobre<br \/>\nSanches ainda morno&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente entre ela e esse D. Jo\u00e3o havia namorico, olhadela&#8230;<br \/>\nPor isso imaginaram. Com efeito, algu\u00e9m me contou, h\u00e1 tempos,<br \/>\nque o tal D. Jo\u00e3o se atirava valentemente, como cumpre a um D. Jo\u00e3o,<br \/>\ne que ela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mentira! &#8211; atalhou o Administrador, debru\u00e7ado sobre a chamin\u00e9<br \/>\ndo candeeiro, para acender o cigarro.<\/p>\n<p>&#8211; Mentira! Sei perfeitamente, e por excelente canal&#8230; Enfim, sei por minha<br \/>\nirm\u00e3! Nunca, em Lisboa, a D. Ana deu azo a que se rosnasse. Muito s\u00e9ria,<br \/>\nmuit\u00edssimo s\u00e9ria. Est\u00e1 claro, n\u00e3o faltou por l\u00e1<br \/>\nmagan\u00e3o que lhe arrastasse a asa l\u00e2nguida&#8230; Talvez esse D. Jo\u00e3o,<br \/>\nou outro amigo do marido, segundo a boa lei natural. Mas ela, nada! Nem olho<br \/>\nde lado! Esposa romana, meu amigo, e dos bons tempos romanos!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, enterrado no canap\u00e9, torcia lentamente o bigode, regalado,<br \/>\nrecolhendo as revela\u00e7\u00f5es. E o Gouveia, no meio da sala, com<br \/>\num gesto convencido e superior:<\/p>\n<p>&#8211; Nem admira! Estas mulheres muito formosas s\u00e3o insens\u00edveis.<br \/>\nBelos m\u00e1rmores, mas frios m\u00e1rmores&#8230; N\u00e3o, Gon\u00e7alinho,<br \/>\nl\u00e1 para o sentimento, e para a alma, e mesmo para o resto, venham as<br \/>\nmulheres pequeninas, magrinhas, escurinhas! Essas sim!&#8230; Mas os grandes mulher\u00f5es<br \/>\nbrancos, do g\u00eanero V\u00eanus, s\u00f3 para vista, s\u00f3 para<br \/>\nmuseu.<\/p>\n<p>Videirinha arriscou uma d\u00favida:<\/p>\n<p>&#8211; Uma senhora t\u00e3o bonita como a Sra. D. Ana, e com aquele sangue,<br \/>\nassim casada com um velhote&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 mulheres que gostam de velhotes porque elas mesmas t\u00eam<br \/>\nsentimentos velhotes! &#8211; declarou o Gouveia, de dedo erguido, com imensa autoridade<br \/>\ne imensa filosofia.<\/p>\n<p>Mas a curiosidade de Gon\u00e7alo n\u00e3o se contentava. E na Feitosa?<br \/>\nNunca se rosnara de alguma aventura escondida? Parece que com o Dr. J\u00falio&#8230;<\/p>\n<p>De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia repeliu a &#8220;mentira&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; Nem na Feitosa, nem em Oliveira, nem em Lisboa&#8230; De resto, \u00e9 o<br \/>\nque lhe digo, Gon\u00e7alo Mendes. Mulher de m\u00e1rmore!<\/p>\n<p>Depois, saudando, em submissa admira\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, como m\u00e1rmore&#8230; Voc\u00eas, meninos, n\u00e3o imaginam a<br \/>\nbeleza daquela mulher decotada!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo pasmou:<\/p>\n<p>&#8211; E onde a viu voc\u00ea decotada?<\/p>\n<p>&#8211; Onde a vi decotada? Em Lisboa, num baile do Pa\u00e7o&#8230; At\u00e9 foi<br \/>\njustamente o Lucena que me arranjou o convite para o Pa\u00e7o. L\u00e1<br \/>\nme espanejei, de cal\u00e7\u00e3o&#8230; Uma sensaboria. E mesmo uma vergonha,<br \/>\ntoda aquela turba acavalada por cima dos bufetes, aos berros, a agarrar furiosamente<br \/>\npeda\u00e7os de peru&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas ent\u00e3o, a D. Ana?<\/p>\n<p>&#8211; Pois a D. Ana, uma beleza! Voc\u00eas n\u00e3o imaginam!&#8230; Santo nome<br \/>\nde Deus! Que ombros! que bra\u00e7os! que peito! E a brancura, a perfei\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nDe endoidecer! Ao princ\u00edpio, como havia muita gente, e ela estava para<br \/>\num canto, acanhadota, n\u00e3o fez sensa\u00e7\u00e3o. Mas depois l\u00e1<br \/>\na descobriram. E eram correrias, magotes embasbacados&#8230; E &#8220;quem ser\u00e1?&#8221;<br \/>\nE &#8220;que encanto!&#8221; Todo o mundo perdidinho, at\u00e9 o Rei!<\/p>\n<p>E um momento os tr\u00eas homens emudeceram na impress\u00e3o do formoso<br \/>\ncorpo evocado, que entre eles surgia, quase despido, inundando com o esplendor<br \/>\nda sua brancura a modesta sala mal alumiada. Por fim Videirinha acercou a<br \/>\ncadeira, em confid\u00eancia, para fornecer tamb\u00e9m a sua informa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, por mim, o que posso afirmar \u00e9 que a Sra. D. Ana \u00e9<br \/>\numa mulher muito asseada, muito lavada&#8230;<\/p>\n<p>E como os outros se espantavam, rindo, de uma certeza t\u00e3o \u00edntima<br \/>\n&#8211; Videirinha contou que todas as semanas aparecia um mo\u00e7o da Feitosa,<br \/>\nna botica do Pires, a comprar tr\u00eas e quatro garrafas de \u00e1gua-de-col\u00f4nia<br \/>\nportuguesa, da receita do Pires.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 o Pires dizia sempre, a esfregar as m\u00e3os, que na Feitosa<br \/>\nregavam as terras com \u00e1gua-de-col\u00f4nia. Depois \u00e9 que soubemos<br \/>\npela criada&#8230; A Sra. D. Ana toma todos os dias um grande banho, que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 s\u00f3 para lavar, mas para prazer. Fica uma hora dentro da tina.<br \/>\nAt\u00e9 l\u00ea o jornal dentro da tina. E em cada banho, z\u00e1s,<br \/>\nmeia garrafa de \u00e1gua-de-col\u00f4nia&#8230; J\u00e1 \u00e9 luxo!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Gon\u00e7alo sentiu como um aborrecimento de todas aquelas<br \/>\nrevela\u00e7\u00f5es do Administrador, do ajudante da Farm\u00e1cia,<br \/>\nsobre os decotes e as lavagens da linda mulher que o esperava entre os t\u00famulos<br \/>\ndos Ramires seculares. Sacudiu o jornal com que se abanava, exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Bem! E passando a cantiga mais s\u00e9ria&#8230; Oh Gouveia, voc\u00ea que<br \/>\ntem sabido do Dr. J\u00falio? O homem trabalha na elei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A criada entrara com a bandeja do ch\u00e1. E em torno da mesa, trincando<br \/>\nas torradas famosas, conversaram sobre a Elei\u00e7\u00e3o, sobre os informes<br \/>\ndos Regedores, sobre a reserva do Rio-Manso &#8211; e sobre o Dr. J\u00falio,<br \/>\nque Videirinha encontrara nos Bravais pedinchando votos pelas portas, acompanhado<br \/>\npor um mo\u00e7o com a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica \u00e0s costas.<\/p>\n<p>Depois do ch\u00e1, Gon\u00e7alo, cansado e j\u00e1 provido de &#8220;revela\u00e7\u00f5es&#8221;,<br \/>\nacendeu o charuto para recolher \u00e0 Torre.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o acompanha, Videirinha?<\/p>\n<p>&#8211; Hoje, Sr. Dr., n\u00e3o posso. Parto de madrugada para Oliveira, na dilig\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo vai voc\u00ea fazer a Oliveira?<\/p>\n<p>&#8211; Por causa duns sapatos de praia e dum fato de banho l\u00e1 da minha<br \/>\npatroa, da D. Josefa Pires&#8230; Tenho de os trocar nos Em\u00edlios, levar<br \/>\nas medidas.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo ergueu os bra\u00e7os, desolado:<\/p>\n<p>&#8211; Ora vejam este pa\u00eds! Um grande artista, como o Videirinha, a carregar<br \/>\npara Oliveira com os sapatos de banho da patroa Pires!&#8230; Oh Gouveia! quando<br \/>\neu for Deputado precisamos arranjar um bom lugar para o Videirinha, no Governo<br \/>\nCivil. Um lugar f\u00e1cil e com vagares, para ele n\u00e3o esquecer o<br \/>\nviol\u00e3o!<\/p>\n<p>Videirinha corou de gosto e de esperan\u00e7a &#8211; correndo a despendurar<br \/>\ndo cabide o chap\u00e9u do Fidalgo.<\/p>\n<p>Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gon\u00e7alo esvoa\u00e7aram<br \/>\nlogo, com irresistida tenta\u00e7\u00e3o, para D. Ana &#8211; para os seus decotes,<br \/>\npara os l\u00e2nguidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim,<br \/>\nque diabo!&#8230; Essa D. Ana assim t\u00e3o honesta, t\u00e3o perfumada,<br \/>\nt\u00e3o esplendidamente bela, s\u00f3 apresentava, mesmo como esposa,<br \/>\num feio sen\u00e3o &#8211; o pap\u00e1 carniceiro. E a voz tamb\u00e9m &#8211; a<br \/>\nvoz que tanto o arrepiara na Bica-Santa&#8230; Mas o Mendon\u00e7a assegurava<br \/>\nque aquele timbre rolante e gordo, na intimidade, se abatia, liso e quase<br \/>\ndoce&#8230; Depois, meses de conviv\u00eancia habituam \u00e0s vozes mais desagrad\u00e1veis<br \/>\n&#8211; e ele mesmo, agora, nem percebia quanto o Manuel Duarte era fanhoso! N\u00e3o!<br \/>\nmancha teimosa, realmente, s\u00f3 o pai carniceiro. Mas nesta Humanidade<br \/>\nnascida toda dum s\u00f3 homem, quem, entre os seus milhares de av\u00f3s<br \/>\nat\u00e9 Ad\u00e3o, n\u00e3o tem algum av\u00f4 carniceiro? Ele, bom<br \/>\nFidalgo, de uma casa de Reis donde Dinastias irradiavam, certamente, escarafunchando<br \/>\no Passado, toparia com o Ramires carniceiro. E que o carniceiro avultasse<br \/>\nlogo na primeira gera\u00e7\u00e3o, num talho ainda afreguesado, ou que<br \/>\napenas se esfumasse, atrav\u00e9s de espessos s\u00e9culos, entre os trig\u00e9simos<br \/>\nav\u00f3s &#8211; l\u00e1 estava, com a faca, e o cepo, e as postas de carne,<br \/>\ne as n\u00f3doas de sangue no bra\u00e7o suado!&#8230;<\/p>\n<p>E este pensamento n\u00e3o o abandonou at\u00e9 a Torre &#8211; nem ainda depois,<br \/>\n\u00e0 janela do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos galos.<br \/>\nJ\u00e1 mesmo se deitara, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia que<br \/>\nos seus passos impacientes se embrenhavam para tr\u00e1s. para o escuro<br \/>\npassado da sua Casa, por entre a emaranhada Hist\u00f3ria, procurando o<br \/>\ncarniceiro&#8230; Era j\u00e1 para al\u00e9m dos confins do Imp\u00e9rio<br \/>\nVisigodo, onde reinava com um globo de ouro na m\u00e3o o seu barbudo av\u00f4<br \/>\nRecesvinto. Esfalfado, arquejando, transpusera as cidades ocultas, povoadas<br \/>\nde homens cultos &#8211; penetrara nas florestas que o mastodonte ainda sulcava.<br \/>\nEntre a \u00famida espessura j\u00e1 cruzara vagos Ramires, que carregavam,<br \/>\ngrunhindo, reses mortas, molhos de lenha. Outros surgiam de tocas fumarentas,<br \/>\narreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava. Depois<br \/>\npor tristes ermos, sob tristes sil\u00eancios, chegara a uma lagoa enevoada.<br \/>\nE \u00e0 beira da \u00e1gua limosa, entre os canaviais, um homem monstruoso,<br \/>\npeludo como uma fera, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com um machado<br \/>\nde pedra, postas de carne humana. Era um Ramires. No c\u00e9u cinzento voava<br \/>\no A\u00e7or negro. E logo, dentre a neblina da lagoa, ele acenava para Santa<br \/>\nMaria de Craquede, para a formosa e perfumada D. Ana, bradando por cima dos<br \/>\nImp\u00e9rios e dos Tempos: &#8211; &#8220;Achei o meu av\u00f4 carniceiro!&#8221;<\/p>\n<p>No Domingo, Gon\u00e7alo acordou com uma &#8220;esperta id\u00e9ia!&#8221;<br \/>\nN\u00e3o correria a Santa Maria de Craquede com uma pontualidade s\u00f4frega,<br \/>\n\u00e0s cinco horas (\u00e0s cinco horas marcadas no Post-Scriptum da<br \/>\nprima Maria) &#8211; mostrando o seu alvoro\u00e7o em encontrar a t\u00e3o bela<br \/>\ne t\u00e3o rica D. Ana Lucena! Mas \u00e0s seis horas, quando findasse<br \/>\na romaria das senhoras aos t\u00famulos, apareceria ele indolentemente,<br \/>\ncomo se, recolhendo dum passeio pelas frescas cercanias, se recordasse, parasse<br \/>\nnas ru\u00ednas para conversar com a prima Maria.<\/p>\n<p>Logo \u00e0s quatro horas por\u00e9m se come\u00e7ou a vestir com tantos<br \/>\nesmeros, que o Bento, cansado das gravatas que o Sr. Dr. experimentava e arremessava<br \/>\namarfanhadas para o divan, n\u00e3o se conteve:<\/p>\n<p>&#8211; Ponha a de sedinha branca, Sr. Dr.! Ponha a branca, que lhe fica melhor!<br \/>\nE refresca mais, com este calor.<\/p>\n<p>Na escolha dum ramo para o casaco ainda requintou, juntando as cores her\u00e1ldicas<br \/>\ndos Ramires, um cravo amarelo com um cravo branco. Ao port\u00e3o, apenas<br \/>\nmontara na \u00e9gua, temeu que as senhoras (n\u00e3o o encontrando no<br \/>\nClaustro) encurtassem a visita, estugou o trote pelo atalho da Portela. Depois<br \/>\nadiante, ao desembocar na antiga estrada real, soltou num galope impaciente<br \/>\nque o branqueou de poeira.<\/p>\n<p>S\u00f3 retomou um passo indiferente, ao acercar da linha do Caminho de<br \/>\nFerro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam diante da cancela, que<br \/>\nse fechara para a lenta passagem dum trem carregado de pipas. Um desses homens,<br \/>\nde alforje aos ombros, era o Mendigo &#8211; o vistoso Mendigo que passeava por<br \/>\naquelas aldeias a rendosa majestade das suas barba\u00e7as de Deus fluvial.<br \/>\nErguendo gravemente o chap\u00e9u de vastas abas, desejou ao Fidalgo a companhia<br \/>\nde Nosso Senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o hoje a ganhar a rica vida por Craquede?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 me arrasto \u00e0s vezes para a passagem do comboio de Oliveira,<br \/>\nmeu Fidalgo. Os passageiros gostam de me ver de p\u00e9 no talude, correm<br \/>\nsempre \u00e0s janelas&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, rindo, recordou que o encontro daquele anci\u00e3o precedia<br \/>\nsempre um encontro seu com a bela D. Ana. &#8211; &#8220;Quem sabe? pensou. \u00c9<br \/>\ntalvez o Destino! Os antigos pintavam assim o Destino, com longas barbas e<br \/>\nlongas guedelhas, e o alforje \u00e0s costas contendo as sortes humanas&#8230;&#8221;<br \/>\n&#8211; E com efeito ao cabo do pinheiral silencioso, que estiradas r\u00e9stias<br \/>\nde sol docemente douravam &#8211; avistou a caleche da Feitosa, parada sob uma carvalha,<br \/>\ncom o cocheiro fardado de negro dormitando na almofada. A estrada real de<br \/>\nOliveira costeia a\u00ed o antigo adro do mosteiro de Craquede, queimado<br \/>\npelo fogo do c\u00e9u, naquela irada tempestade que chamam de S. Sebasti\u00e3o,<br \/>\ne que aterrou Portugal em 1616. Uma erva agora alfombra o ch\u00e3o, crescida<br \/>\ne verde, entre os poderosos troncos dos castanheiros velh\u00edssimos. A<br \/>\nIgrejinha nova alveja, bem caiada, ao fundo da ramaria; e, ligada a ela por<br \/>\num muro esbrechado que densa hera veste, tomando todo o lado nascente do Terreiro<br \/>\n&#8211; sobe, enche ainda magnificamente o c\u00e9u lustroso a fachada da Igreja<br \/>\ndo vetusto Mosteiro, suavemente amarelecida e brunida pelos tempos, com o<br \/>\nseu imenso portal sem portas, a ros\u00e1cea desmantelada, e esvaziados<br \/>\nos nichos de enterramento onde outrora se estira\u00e7avam as imagens dos<br \/>\nfundadores, Fr\u00f3ilas Ramires e sua mulher Estevaninha, Condessa de Orgaz,<br \/>\npor alcunha a Queixa-perra. Duas casas t\u00e9rreas povoam o lado fronteiro<br \/>\ndo adro &#8211; uma limpa, com as ombreiras das janelas pintadas de azul estridente,<br \/>\na outra deserta, quase sem telhado, afogada na verdura dum quinteiro bravo,<br \/>\nonde girass\u00f3is resplandecem. Um pensativo sil\u00eancio envolvia o<br \/>\narvoredo, as altivas ru\u00ednas. E nem o quebrava, antes serenamente o<br \/>\nembalava, o sussurro duma fonte, que a estiagem adelga\u00e7ara em fio lento,<br \/>\ne mal enchia o seu tanque de pedra, toldado pela p\u00e1lida e rala folhagem<br \/>\nde um chor\u00e3o muito alto.<\/p>\n<p>O trintan\u00e1rio da Feitosa, ao enxergar o Fidalgo, saltou risonhamente<br \/>\nda borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a \u00e9gua. E Gon\u00e7alo,<br \/>\nque desde pequeno n\u00e3o penetrava nas ru\u00ednas de Craquede, seguia<br \/>\npor um carreirinho cortado na relva, atentamente, encantado com aquela rom\u00e2ntica<br \/>\nsolid\u00e3o de lenda e verso, quando, sob o arco do portal, apareceram<br \/>\nas duas senhoras voltando do velho claustro. D. Maria Mendon\u00e7a, com<br \/>\na sua sacudida vivacidade, agitou logo o guarda-sol de xadrezinho, semelhante<br \/>\nao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente nos ombros, lhe vincavam<br \/>\nmais a eleg\u00e2ncia esgalgada. E ao lado, na claridade, D. Ana era uma<br \/>\nsilenciosa e esbelta forma negra, de l\u00e3 negra e de escumilha negra,<br \/>\nonde apenas transparecia, suavizada sob o v\u00e9u negro, a brancura espl\u00eandida<br \/>\nda sua face sensual e s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo correra, erguendo o chap\u00e9u de palha, balbuciando o<br \/>\nseu &#8220;prazer por aquele encontro&#8230; &#8216;Mas j\u00e1 D. Maria o repreendia,<br \/>\nsem lhe consentir a f\u00e1bula do &#8220;encontro&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; O primo n\u00e3o \u00e9 nada am\u00e1vel, nada am\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, prima&#8217;&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sabia que v\u00ednhamos, pela minha carta! E nem est\u00e1 \u00e0<br \/>\nhora aprazada, para fazer as honras, como devia&#8230;<\/p>\n<p>Ele, rindo, com o seu desembara\u00e7o airoso, negou esse dever! Aquela<br \/>\ncasa n\u00e3o era sua, mas do Bom Deus! Ao Bom Deus competia &#8220;fazer<br \/>\nas honras&#8221; &#8211; acolher t\u00e3o doces romeiras com algum milagre am\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o gostaram? V. Exa., Sra. D. Ana, gostou das ru\u00ednas?&#8230;<br \/>\nMuito interessantes, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do v\u00e9u, com uma lentid\u00e3o que a espessa renda<br \/>\nnegra tornava mais grave, ela murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Eu j\u00e1 conhecia&#8230; Vim c\u00e1 uma tarde, com o pobre Sanches que<br \/>\nDeus haja.<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0quela evoca\u00e7\u00e3o do pobre morto, Gon\u00e7alo sumira<br \/>\ntodo o sorriso, com polida tristeza. Mas D. Maria Mendon\u00e7a acudiu,<br \/>\natirando um dos seus magros gestos, como para arredar a sombra importuna:<\/p>\n<p>&#8211; Ai! n\u00e3o imagina o que gostei, primo! \u00c9 de apetite todo o<br \/>\nclaustro&#8230; Logo aquela espada enferrujada, chumbada por cima do t\u00famulo..<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nada que impressione como estas coisas antigas&#8230; Oh,<br \/>\nprimo, e pensar que est\u00e3o ali antepassados nossos!<\/p>\n<p>O sorriso de Gon\u00e7alo de novo lampejou, alegre e acolhedor, como sempre<br \/>\nque D. Maria se empurrava com desesperada gula para dentro da Casa de Ramires.<br \/>\nE gracejou, afavelmente. Oh, antepassados&#8230; Simples punhados de cinza v\u00e3!<br \/>\n&#8211; Pois n\u00e3o era verdade, Sra. D. Ana?&#8230; Realmente! quem conceberia<br \/>\nque a prima Maria, t\u00e3o viva, t\u00e3o soci\u00e1vel, t\u00e3o<br \/>\nengra\u00e7ada, descendesse duma poeira tristonha guardada dentro duma pia<br \/>\nde pedra? N\u00e3o! n\u00e3o se podia ligar tanto ser a tanto n\u00e3o<br \/>\nser&#8230; &#8211; E como D. Ana sorria, numa vaga concord\u00e2ncia, encostando as<br \/>\nduas m\u00e3os fortes e muito apertadas na peli\u00e7a negra ao alto cabo<br \/>\nde alj\u00f4far da sombrinha, ele atalhou com interesse:<\/p>\n<p>&#8211; V. Exa. est\u00e1 talvez cansada, Sra. D. Ana?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o estou cansada&#8230; Ainda vamos mesmo entrar na capela,<br \/>\num bocadinho&#8230; Eu nunca me canso.<\/p>\n<p>E pareceu a Gon\u00e7alo que a voz da formosa criatura n\u00e3o rolava<br \/>\ndo papo, t\u00e3o grossa e gorda &#8211; mas que se afinara, ado\u00e7ada e<br \/>\nvelada pelo luto de escumilha e l\u00e3, como esses grossos e rolantes rumores<br \/>\nque a noite e o arvoredo adelga\u00e7am. Mas D. Maria confessou o seu imenso<br \/>\ncansa\u00e7o! Nada a esfalfava como visitar curiosidades&#8230; E al\u00e9m<br \/>\ndisso a emo\u00e7\u00e3o, a id\u00e9ia de her\u00f3is t\u00e3o antigos!<\/p>\n<p>&#8211; Se nos sent\u00e1ssemos naquele banco, hem? \u00c9 muito cedo para<br \/>\nrecolhermos, n\u00e3o \u00e9 verdade, Anica? E est\u00e1 t\u00e3o<br \/>\nagrad\u00e1vel neste sossego, nesta frescura&#8230;<\/p>\n<p>Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em torno<br \/>\na relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros malmequeres e<br \/>\nbot\u00f4es-de-ouro que o sol de agosto poupara. Um aromazinho fino, de algum<br \/>\njasmineiro emaranhado na hera, errava, adocicava a serena tarde. E na rama<br \/>\ndum \u00e1lamo, defronte do port\u00e3o da Capela duas vezes um melro<br \/>\ncantara. Gon\u00e7alo sacudiu todo o banco cuidadosamente com o len\u00e7o.<br \/>\nE sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou tamb\u00e9m a frescura, o<br \/>\nrecolhimento daquele cantinho de Craquede&#8230; E ele que nunca se aproveitara<br \/>\nde ref\u00fagio t\u00e3o santo, e quase seu, nem mesmo para um almo\u00e7o<br \/>\nbuc\u00f3lico! Pois agora certamente voltaria a fumar um charuto, revolver<br \/>\nid\u00e9ias de paz sob a paz das carvalheiras, na vizinhan\u00e7a dos<br \/>\nvov\u00f3s mortos&#8230; Depois, com uma curiosidade:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, prima! E o subterr\u00e2neo?<\/p>\n<p>Oh! n\u00e3o existia subterr\u00e2neo!&#8230; Sim, existia &#8211; mas entulhado,<br \/>\nsem sepulturas, sem antig\u00fcidades. E o sacrist\u00e3o logo lhes afian\u00e7ara<br \/>\nque &#8220;n\u00e3o valia a pena sujarem as saias&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, oh Anica, deste alguma coisa ao sacrist\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Oh filha, dei cinco tost\u00f5es&#8230; N\u00e3o sei se foi bastante.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo assegurou que se pagara suntuosamente ao sacrist\u00e3o.<br \/>\nE, se previsse tamanha generosidade da Sra. D. Ana, agarrava ele um molho<br \/>\nde chaves, at\u00e9 enfiava uma opa preta, para mostrar e para embolsar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 o que devia ter feito! &#8211; exclamou D. Maria, com um corisco<br \/>\nnos espertos olhos. &#8211; E decerto se lhe davam os cinco tost\u00f5es! Porque<br \/>\nsempre seria mais instrutivo que o homenzinho, que mascava, n\u00e3o sabia<br \/>\nnada!&#8230; Semelhante morc\u00e3o! E eu com tanta curiosidade por aquele t\u00famulo<br \/>\naberto, com a tampa rachada&#8230; O mono s\u00f3 soube resmungar que &#8220;eram<br \/>\nhist\u00f3rias muito antigas l\u00e1 do Fidalgo da Torre&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo ria:<\/p>\n<p>&#8211; Pois essa hist\u00f3ria por acaso sei eu, prima Maria! Sei agora pelo<br \/>\nFado dos Ramires, o fado do Videirinha.<\/p>\n<p>D. Maria Mendon\u00e7a levantou as compridas m\u00e3os aos c\u00e9us,<br \/>\nrevoltada com aquela indiferen\u00e7a pelas tradi\u00e7\u00f5es her\u00f3icas<br \/>\nda Casa. Conhecer somente os seus Anais desde que eles andavam repicados num<br \/>\nfado!&#8230; O primo Gon\u00e7alo n\u00e3o se envergonhava?<\/p>\n<p>&#8211; Mas porqu\u00ea, prima, por qu\u00ea? O fado do Videirinha est\u00e1<br \/>\nfundado em documentos aut\u00eanticos que o Padre Soeiro estudou. Todo o<br \/>\nrecheio hist\u00f3rico foi fornecido pelo Padre Soeiro. O Videirinha s\u00f3<br \/>\np\u00f4s as rimas. Al\u00e9m disso, antigamente, prima, a Hist\u00f3ria<br \/>\nera perpetuada em verso e cantada ao som da lira&#8230; Enfim quer saber esse<br \/>\ncaso do t\u00famulo aberto, segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre<br \/>\nconto! Mas s\u00f3 para a Sra. D. Ana, que n\u00e3o sofre desses escr\u00fapulos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! &#8211; acudiu D. Maria. &#8211; Se o Videirinha tem essa autoridade hist\u00f3rica<br \/>\nent\u00e3o conte tamb\u00e9m para mim, que sou da Casa!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, por gracejo, tossiu, passou o len\u00e7o pelos bei\u00e7os:<\/p>\n<p>&#8211; Pois eis o caso! Nesse t\u00famulo habitava, naturalmente morto, um dos<br \/>\nmeus av\u00f3s&#8230; N\u00e3o me lembro o nome, Gutierres ou Lopo. Creio<br \/>\nque Gutierres&#8230; Enfim, l\u00e1 jazia quando foi da batalha das Navas de<br \/>\nTolosa&#8230; A prima Maria conhece a batalha das Navas, os cinco Reis mouros,<br \/>\netc. Como o tal Gutierres soube da batalha n\u00e3o contam os versos do<br \/>\nVideirinha. Mas, apenas l\u00e1 dentro lhe cheirou a carnificina, arromba<br \/>\no t\u00famulo, sai por este p\u00e1tio como um desesperado, desenterra<br \/>\no seu cavalo que fora enterrado no adro onde agora crescem estes carvalhos,<br \/>\nmonta nele todo armado, e Cavaleiro morto sobre cavalo morto, larga a galope<br \/>\natrav\u00e9s da Espanha, chega \u00e0s Navas, arranca a espada, e destro\u00e7a<br \/>\nos mouros&#8230; Que lhe parece, Sra. D. Ana?<\/p>\n<p>Dedicara a hist\u00f3ria a D. Ana, procurando nos seus belos olhos a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o interesse. E ela, que a furto, atrav\u00e9s do decoro melanc\u00f3lico<br \/>\na que se esfor\u00e7ava, ado\u00e7ara o sorriso, atra\u00edda e levada,<br \/>\nmurmurou apenas: -&#8220;Tem gra\u00e7a!&#8221; &#8211; D. Maria, por\u00e9m,<br \/>\nquase esvoa\u00e7ou sobre o banco de pedra, num \u00eaxtase: &#8211; &#8220;Lindo!<br \/>\nLindo! Que poesia!&#8230; Oh! uma lenda de todo o apetite!&#8221; &#8211; E, para que<br \/>\nGon\u00e7alo desenrolasse ainda a gra\u00e7a do seu dizer, outras maravilhas<br \/>\nda sua Cr\u00f4nica:<\/p>\n<p>&#8211; Conte, primo, conte&#8230; E voltou para Craquede esse tio Ramires?<\/p>\n<p>&#8211; Quem, prima, o Gutierres?&#8230; Ou fosse ele tolo! Apenas se apanhou livre<br \/>\nda ma\u00e7ada da sepultura n\u00e3o apareceu mais em Santa Maria de Craquede.<br \/>\nO t\u00famulo vazio, como est\u00e1, e ele por Espanha numa p\u00e2ndega<br \/>\nher\u00f3ica!&#8230; Imagine! um defunto que por milagre se safa do seu jazigo,<br \/>\ndaquela postura eterna, t\u00e3o apertada, t\u00e3o esticada!&#8230;<\/p>\n<p>Subitamente emudeceu, lembrando o Sanches Lucena, tamb\u00e9m esticado<br \/>\nno seu caixote de chumbo, sob o seu vistoso jazigo de Oliveira&#8230; &#8211; D. Ana<br \/>\nbaixara a face, mais sumida no v\u00e9u, esfuracando a erva com a ponta<br \/>\nda sombrinha. E a esperta D. Maria, para desfazer a sombra impertinente que<br \/>\nde novo os ro\u00e7ara, rompeu noutra curiosidade, que ainda se encadeava<br \/>\nna nobreza dos Ramires:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade! Sempre me esquece de lhe perguntar. O primo ainda tem<br \/>\nmuitos parentes em Fran\u00e7a&#8230; Talvez tamb\u00e9m n\u00e3o saiba?<\/p>\n<p>Sim! Gon\u00e7alo, casualmente, conhecia essa hist\u00f3ria dos seus<br \/>\nparentes de Fran\u00e7a &#8211; apesar de que o Videirinha os n\u00e3o cantara<br \/>\nno fado!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o conte! Mas que seja hist\u00f3ria alegre!<\/p>\n<p>Oh, n\u00e3o era prodigiosamente divertida! Um av\u00f4 Ramires, Garcia<br \/>\nRamires, acompanhara nas suas famosas jornadas o Infante D. Pedro, o filho<br \/>\nde El-Rei D. Jo\u00e3o I&#8230; A prima Maria sabia &#8211; o Infante D. Pedro, o<br \/>\nque correu as Sete Partidas do mundo&#8230; Pois o Infante D. Pedro e os seus<br \/>\nFidalgos, de volta da Palestina, pousaram um ano inteiro na Flandres, com<br \/>\no Duque de Borgonha. At\u00e9 se celebraram ent\u00e3o festas maravilhosas,<br \/>\ncom um banquete que durou sete dias, e que anda nos comp\u00eandios da Hist\u00f3ria<br \/>\nde Fran\u00e7a. Onde h\u00e1 dan\u00e7as h\u00e1 amores. Ao av\u00f4<br \/>\nRamires sobejavam imagina\u00e7\u00e3o e arrojo&#8230; Fora ele que diante<br \/>\nde Jerusal\u00e9m, no Vale de Josaf\u00e1, lembrara que se erguesse um<br \/>\nsinal para que o Infante e os seus companheiros de romagem se reconhecessem<br \/>\nno grande Dia de Ju\u00edzo. Depois, naturalmente, belo mocet\u00e3o de<br \/>\nbarba negra e cerrada \u00e0 Portuguesa&#8230; Enfim casara com uma irm\u00e3<br \/>\ndo Duque de Cleves, uma tremenda Senhora, sobrinha do Duque de Borgonha e<br \/>\nBrabante. Mais tarde, atrav\u00e9s dessas liga\u00e7\u00f5es, uma av\u00f3<br \/>\nRamires, j\u00e1 vi\u00fava, casou tamb\u00e9m em Fran\u00e7a com<br \/>\no Conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Gr\u00e3o-Mestres de Fran\u00e7a,<br \/>\npossu\u00edam o mais formid\u00e1vel castelo da Europa, e&#8230;<\/p>\n<p>D. Maria bateu as palmas, rindo:<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! lindamente! Sim, senhor!&#8230; Ent\u00e3o oprimo que se gaba de n\u00e3o<br \/>\nsaber nada de fidalguias&#8230; Olhe como conhece pelo mi\u00fado a hist\u00f3ria<br \/>\ndesses grandes casamentos! Hem, Anica?&#8230; \u00c9 uma Cr\u00f4nica viva!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo vergou os ombros, confessou que se ocupara de toda essa her\u00e1ldica<br \/>\nhist\u00f3ria por um motivo bem rasteiro &#8211; por mis\u00e9ria!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por mis\u00e9ria?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, prima Maria, por pen\u00faria de moeda, de cobres.<\/p>\n<p>&#8211; Conte! conte! Olhe, a Anica est\u00e1 ansiosa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quer saber, Sra. D. Ana?&#8230; Pois foi em Coimbra, no meu segundo ano de<br \/>\nCoimbra. Os companheiros e eu chegamos a n\u00e3o juntar entre todos um<br \/>\nvint\u00e9m. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de carrasc\u00e3o<br \/>\ne as tr\u00eas azeitonas do dever&#8230; Um deles ent\u00e3o, rapaz muito engra\u00e7ado,<br \/>\nde Melga\u00e7o, surdiu com a id\u00e9ia estupenda de que eu escrevesse<br \/>\naos meus parentes de Fran\u00e7a, a esses Cleves, a esses Tancarvilles,<br \/>\nsenhores decerto imensamente ricos, e solicitasse, com desembara\u00e7o,<br \/>\num emprestimozinho de trezentos francos.<\/p>\n<p>D. Ana n\u00e3o conteve um riso, sinceramente divertido:<\/p>\n<p>&#8211; Ai! tem muita gra\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o teve resultado, minha senhora&#8230; J\u00e1 n\u00e3o existem<br \/>\nCleves, nem Tancarvilles! Todas essas grandes fam\u00edlias feudais findaram,<br \/>\nse fundiram noutras casas, at\u00e9 na Casa de Fran\u00e7a. E o meu Padre<br \/>\nSoeiro, apesar de todo o seu saber geneal\u00f3gico, nunca conseguiu descobrir<br \/>\nquem as representava com bastante afinidade para me emprestar, a mim parente<br \/>\npobre de Portugal, esses trezentos francos.<\/p>\n<p>Aquela pen\u00faria de Gon\u00e7alo, de tamanho Fidalgo, quase enternecera<br \/>\nD. Ana:<\/p>\n<p>&#8211; Ora estarem assim sem vint\u00e9m! Quem soubesse&#8230; Mas tem gra\u00e7a!<br \/>\nEssas hist\u00f3rias de Coimbra t\u00eam sempre muita gra\u00e7a. O D.<br \/>\nJo\u00e3o da Pedrosa, em Lisboa, tamb\u00e9m contava muitas&#8230;<\/p>\n<p>D. Maria Mendon\u00e7a, por\u00e9m, atrav\u00e9s dessa fac\u00e9cia<br \/>\nde estudantes, descortinara outra prova inesperada da grandeza dos Ramires.<br \/>\nE imediatamente a estendeu diante de D. Ana com habilidade:<\/p>\n<p>&#8211; Ora vejam!&#8230; Todas essas grandes casas de Fran\u00e7a, t\u00e3o ricas,<br \/>\nt\u00e3o poderosas, acabaram, desapareceram. E c\u00e1 no nosso Portugalzinho<br \/>\nainda dura a Casa de Ramires!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo acudiu:<\/p>\n<p>&#8211; Acaba agora, prima!&#8230; N\u00e3o olhe para mim assim espantada. Acaba<br \/>\nagora&#8230; Pois se eu n\u00e3o caso!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o D. Maria recuou o magro peito &#8211; como se esse casamento do primo<br \/>\ndependesse de doces influ\u00eancias, que convinha se trocassem bem chegadamente,<br \/>\nsem Marias Mendon\u00e7as de permeio no estreito banco com grandes mangas<br \/>\nbufantes tolhendo as correntes de efl\u00favio. E sorria, quase languidamente:<\/p>\n<p>&#8211; Ora n\u00e3o casa&#8230; Mas por qu\u00ea, primo, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o tenho jeito, prima. O casamento \u00e9 uma arte muito<br \/>\ndelicada que necessita voca\u00e7\u00e3o, g\u00eanio especial. As Fadas<br \/>\nn\u00e3o me concederam esse g\u00eanio. E se me dedicasse a semelhante<br \/>\nobra, ai de mim! com certeza a estragava.<\/p>\n<p>D. Ana, como se outra id\u00e9ia a ocupasse, puxara lentamente do cinto<br \/>\no rel\u00f3gio preso por uma fita de cabelo. E D. Maria insistia, recusava<br \/>\nos motivos do Fidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o tolices. O primo que gosta tanto de crian\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Gosto, gosto muito de crian\u00e7as, at\u00e9 de criancinhas de mama.<br \/>\nAs crian\u00e7as s\u00e3o os \u00fanicos seres divinos que a nossa pobre<br \/>\nhumanidade conhece. Os outros anjos, os de asas, nunca aparecem. Os santos,<br \/>\ndepois de santos, ficam na Bem-aventuran\u00e7a a pregui\u00e7ar, ningu\u00e9m<br \/>\nmais os enxerga. E, para concebermos uma id\u00e9ia das coisas do c\u00e9u,<br \/>\ns\u00f3 temos realmente as criancinhas&#8230; Sim, com efeito, prima, gosto<br \/>\nmuito de crian\u00e7as. Mas tamb\u00e9m gosto de flores, e n\u00e3o<br \/>\nsou jardineiro, nem tenho jeito para a jardinagem.<\/p>\n<p>E D. Maria com uma fa\u00edsca no olhar prometedor:<\/p>\n<p>&#8211; Sossegue, que ainda vem a aprender!<\/p>\n<p>Depois, para D. Ana, que se esquecera na contempla\u00e7\u00e3o do rel\u00f3gio:<\/p>\n<p>&#8211; Achas que v\u00e3o sendo horas? Ent\u00e3o, se queres, entramos na<br \/>\nCapela&#8230; Oh primo, veja se est\u00e1 aberta.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo correu, empurrou a porta da Capela. Depois acompanhou as duas<br \/>\nsenhoras pela pequenina nave soalhada, entre delgados pilares recobertos de<br \/>\numa cal \u00e1spera e crua &#8211; que recamava tamb\u00e9m as paredes lisas,<br \/>\napenas guarnecidas, na sua r\u00edgida nudez, por litografias de Santos<br \/>\ndentro de caixilhos de pinho. Diante do altar as senhoras ajoelharam &#8211; a prima<br \/>\nMaria enterrando a face nas m\u00e3os juntas como num vaso de Piedade. Gon\u00e7alo<br \/>\ndobrou o joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.<\/p>\n<p>Depois voltou para o adro, acendeu um cigarro. E, pisando lentamente a relva,<br \/>\nconsiderava quanto a viuvez melhorara D. Ana. Sob o negrume do luto, como<br \/>\nnuma penumbra que esfuma a grosseira deseleg\u00e2ncia das coisas, todos<br \/>\nos seus defeitos se fundiam &#8211; os defeitos que tanto o horripilavam na tarde<br \/>\nda Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito empinado, a ostenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde burguesa rica\u00e7a pinguemente repimpada na vida. At\u00e9 j\u00e1<br \/>\nnem dizia &#8211; &#8220;o cavalheiro!&#8221; E ali, no adro melanc\u00f3lico de<br \/>\nCraquede, certamente parecia interessante e desej\u00e1vel.<\/p>\n<p>As senhoras desciam os dois degraus da Capela. Um melro esvoa\u00e7ou na<br \/>\nramagem dos \u00e1lamos. E Gon\u00e7alo encontrou o lampejo dos olhos<br \/>\ns\u00e9rios de D. Ana, que o procuravam.<\/p>\n<p>&#8211; Pe\u00e7o perd\u00e3o de n\u00e3o lhes ter oferecido \u00e1gua<br \/>\nbenta \u00e0 sa\u00edda, mas a concha est\u00e1 seca&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Jesus, primo, que Igreja t\u00e3o feia!<\/p>\n<p>D. Ana arriscou, com timidez:<\/p>\n<p>&#8211; Depois das ru\u00ednas e dos t\u00famulos, at\u00e9 parece pouco<br \/>\nreligiosa.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o impressionou Gon\u00e7alo, como muito fina.<br \/>\nE junto dela, demorando os passos com agrado, sentia, esparzido pelos seus<br \/>\nmovimentos, pelo ro\u00e7ar do vestido, um aroma tamb\u00e9m fino, que<br \/>\nn\u00e3o era o da horrenda \u00e1gua-de-col\u00f4nia da botica do Pires.<br \/>\nEm sil\u00eancio, sob a ramagem das carvalhas, caminharam para a caleche,<br \/>\nonde o cocheiro se aprumara, bem estilado, tirando o chap\u00e9u. Gon\u00e7alo<br \/>\nnotou que ele rapara o bigode. E a parelha reluzia, atrelada com esmero.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, prima Maria, ainda se demora pelos nossos s\u00edtios?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, primo, mais uns quinze dias&#8230; A Anica \u00e9 t\u00e3o am\u00e1vel,<br \/>\nquis que eu trouxesse os pequenos. O que eles se t\u00eam divertido na quinta,<br \/>\nn\u00e3o imagina!<\/p>\n<p>D. Ana murmurou, sempre s\u00e9ria:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o muito engra\u00e7ados, fazem muita companhia&#8230; Eu tamb\u00e9m<br \/>\ngosto muito de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, a Anica adora crian\u00e7as! &#8211; acudiu D. Maria com fervor. &#8211; O que<br \/>\nela atura os pequenos! At\u00e9 joga com eles o mafarrico.<\/p>\n<p>Perto da caleche, Gon\u00e7alo pensou que outra volta pelo adro, mais lenta,<br \/>\ncom a D. Ana e o seu fino aroma, seria doce, naquele sossego da tarde que<br \/>\nfindava, tingida de t\u00e3o lindas cores de rosa sobre os pinheirais escurecidos.<br \/>\nMas j\u00e1 o trintan\u00e1rio se acercava segurando a sua \u00e9gua.<br \/>\nE D. Maria, depois de admirar e acariciar a \u00e9gua, chamou o primo discretamente<br \/>\n&#8211; para saber a dist\u00e2ncia da Feitosa a Treixedo, a outra quinta hist\u00f3rica<br \/>\ndos Ramires.<\/p>\n<p>&#8211; A Treixedo, prima?&#8230; Cinco l\u00e9guas fartas, com maus caminhos.<\/p>\n<p>E imediatamente se arrependeu, antevendo um passeio, um novo encontro:<\/p>\n<p>&#8211; Mas na estrada ultimamente andaram obras. E \u00e9 muito bonito sitio,<br \/>\nnum alto, com um resto de muralhas&#8230; Treixedo era um castelo enorme&#8230; Na<br \/>\nquinta h\u00e1 uma lagoa entre arvoredo antigo&#8230; Oh! s\u00edtio delicioso<br \/>\npara um pic-nic!<\/p>\n<p>D. Maria hesitou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um pouco longe, veremos, talvez.<\/p>\n<p>E como D. Ana esperava em sil\u00eancio &#8211; Gon\u00e7alo abriu a portinhola,<br \/>\ntomou ao trintan\u00e1rio as r\u00e9deas da \u00e9gua. D. Maria Mendon\u00e7a,<br \/>\nno seu contentamento por t\u00e3o proveitosa tarde, sacudiu ardentemente<br \/>\na m\u00e3o do primo jurando &#8220;que ia apaixonada por Craquede!&#8221;<br \/>\nD. Ana mal ro\u00e7ou os dedos de Gon\u00e7alo, acanhada e corando.<\/p>\n<p>Sozinho, com a r\u00e9dea da \u00e9gua enfiada no bra\u00e7o, Gon\u00e7alo<br \/>\nsorria. Na verdade, nessa tarde, D. Ana n\u00e3o lhe desagradara. Outros<br \/>\nmodos, outra singeleza grave, outra do\u00e7ura na sua possante beleza de<br \/>\nV\u00eanus rural&#8230;<\/p>\n<p>E aquela observa\u00e7\u00e3o sobre a Capela, &#8220;pouco religiosa&#8221;<br \/>\ndepois das ru\u00ednas seculares do claustro, era uma observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nfina. Quem sabe? Talvez sob carne t\u00e3o sensual se escondesse uma natureza<br \/>\ndelicada. Talvez a influ\u00eancia doutro homem, que n\u00e3o o estupid\u00edssimo<br \/>\nSanches, desenvolvesse na filha espl\u00eandida do carniceiro qualidades<br \/>\nde muito encanto&#8230; Oh, evidentemente, a observa\u00e7\u00e3o sobre os<br \/>\nt\u00famulos e a sua religiosidade emanando da Lenda e da Hist\u00f3ria<br \/>\n&#8211; era fina.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o tamb\u00e9m o tomou a curiosidade de visitar esse claustro<br \/>\nonde n\u00e3o entrara desde pequeno &#8211; quando ainda a Torre conservava as<br \/>\nsuas carruagens montadas e a rom\u00e2ntica Miss Rhodes escolhia sempre o<br \/>\npasseio de Craquede para as tardes pensativas de outono. Puxou a \u00e9gua,<br \/>\ntransp\u00f4s o portal, atravessou o espa\u00e7o descoberto que fora a<br \/>\nnave &#8211; atulhado de cali\u00e7a, de cacos, de pedras despegadas da ab\u00f3bada<br \/>\ne afogadas nas ervas bravas. E pela brecha dum muro a que ainda se amparava<br \/>\num peda\u00e7o de altar &#8211; penetrou na silenciosa crasta Afonsina. S\u00f3<br \/>\ndela restam duas arcadas em \u00e2ngulo, atarracadas sobre rudes pilares,<br \/>\nlajeadas de poderosas lajes pu\u00eddas que nessa manh\u00e3 o sacrist\u00e3o<br \/>\ncuidadosamente varrera. E contra o muro, onde rijas nervuras desenham outros<br \/>\narcos, avultam os sete imensos t\u00famulos dos antiq\u00fc\u00edssimos<br \/>\nRamires, denegridos, lisos, sem um lavor, como toscas arcas de granito, alguns<br \/>\npesadamente encravados no lajedo, outros pousando sobre bolas que os s\u00e9culos<br \/>\nlascaram. Gon\u00e7alo seguia um carreiro de tijolo, rente aos arcos, recordando<br \/>\nquando ele outrora e Gracinha pulavam ruidosamente por sobre essas campas,<br \/>\nenquanto no p\u00e1tio do claustro, entre as pilastras tombadas e a verdura<br \/>\ndas ru\u00ednas, a boa Miss Rhodes, agachada, procurava florinhas silvestres.<br \/>\nNa ab\u00f3bada, sobre o mais vasto t\u00famulo, l\u00e1 negrejava chumbada<br \/>\na espada, a famosa espada, com a sua corrente de ferro pendendo do punho,<br \/>\na folha ro\u00edda pela ferrugem das longas idades. Sobre outro l\u00e1<br \/>\nardia a l\u00e2mpada, a estranha l\u00e2mpada mourisca, que n\u00e3o se<br \/>\napagara desde a tarde remota em que algum monge, com uma tocha de saimento,<br \/>\nsilenciosamente a acendera&#8230; Quando se acendera ela, a eterna l\u00e2mpada?<br \/>\nQue Ramires jazeriam nesses cofres de granito, a que o tempo raspara as inscri\u00e7\u00f5es<br \/>\ne as datas, para que nelas toda a Hist\u00f3ria se sumisse, e mais escuramente<br \/>\nse volvessem em leve p\u00f3 sem nome aqueles homens de orgulho e de for\u00e7a?&#8230;<br \/>\nDepois na ponta do claustro era o t\u00famulo aberto, e ao lado, derrubada<br \/>\nem dois peda\u00e7os, a tampa que o esqueleto de Lopo Ramires arrombara<br \/>\npara correr \u00e0s Navas de Tolosa e bater os cinco Reis mouros. Gon\u00e7alo<br \/>\nespreitou para dentro, curiosamente. A um canto da funda arca alvejava um<br \/>\nmont\u00e3o de ossos, limpos e bem arrumados! Esquecera o velho Lopo, na<br \/>\nsua pressa her\u00f3ica, esses poucos ossos, j\u00e1 despegados do seu<br \/>\nesqueleto?&#8230; O crep\u00fasculo cerrara, e com ele uma melanc\u00f3lica<br \/>\nsombra que se adensava sobre as ab\u00f3badas da crasta, cobria de tristeza<br \/>\nmorta aquela jazida de mortos. Ent\u00e3o Gon\u00e7alo sentiu a desolada<br \/>\nsolid\u00e3o que o envolvia, o separava da vida, ali desgarrado, e sem socorro<br \/>\nentre a poeira e a alma errante dos seus av\u00f3s temerosos! E de repente<br \/>\nestremeceu, no arrepiado medo de que outra tampa estalasse com fragor e atrav\u00e9s<br \/>\nda fenda surgissem l\u00edvidos dedos sem carne! Repuxou desesperadamente<br \/>\na \u00e9gua pelo muro desmantelado, nas ru\u00ednas da nave pulou para<br \/>\no selim, e varou num trote o portal, galgou o adro com \u00e2nsia &#8211; s\u00f3<br \/>\nsossegou ao avistar, ao fim do pinhal, a cancela do Caminho de Ferro aberta,<br \/>\ne uma velha que a passava tangendo o seu burro carregado de erva.<\/p>\n<h3><a name=\"8\"><\/a>CAP\u00cdTULO VIII<\/h3>\n<p>Ao fim da semana Gon\u00e7alo, que desde a visita a Santa Maria de Craquede<br \/>\narrastava o remorso inc\u00f4modo da sua pregui\u00e7a, do t\u00e3o longo<br \/>\nabandono da Novela &#8211; recebeu de manh\u00e3, ao sair do banho, uma carta<br \/>\ndo Castanheiro. Era curta: &#8211; e declarava ao amigo Gon\u00e7alo que, se em<br \/>\nmeado de outubro n\u00e3o chegassem a Lisboa tr\u00eas Cap\u00edtulos<br \/>\ndo original, ele, com pesar seu e da Arte, publicaria no primeiro n\u00famero<br \/>\ndos Anais, em vez da Torre de D. Ramires, um drama do Nuno Carreira num ato,<br \/>\nintitulado Em Casa do Temer\u00e1rio&#8230; &#8220;Apesar de drama e de fantasia<br \/>\n(acrescentava), conv\u00e9m \u00e0 \u00edndole erudita dos Anais porque<br \/>\neste Temer\u00e1rio \u00e9 Carlos o Temer\u00e1rio, e a a\u00e7\u00e3o<br \/>\ntoda, fortemente tecida, se passa no Castelo de Peronne, onde se encontram<br \/>\nnada menos que Lu\u00eds XI de Fran\u00e7a, e o nosso pobre Afonso V,<br \/>\ne Pero de Covilh\u00e3 que o acompanhava, e outros figur\u00f5es de rija<br \/>\nestatura hist\u00f3rica. Imagine!&#8230; Est\u00e1 claro, o chic supremo seria<br \/>\nTructesindo Mendes Ramires contado pelo nosso Gon\u00e7alo Mendes Ramires!<br \/>\nMas, pelo que vejo, esse chic supremo est\u00e1 impedido por uma indol\u00eancia<br \/>\nsuprema. Sunt Lacrymae Revistarum!&#8221;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo atirou a carta, gritou pelo Bento:<\/p>\n<p>&#8211; Leva para a livraria ch\u00e1 verde, forte, com torradas. Hoje s\u00f3<br \/>\nalmo\u00e7o tarde, \u00e0s duas&#8230; Talvez nem almoce!<\/p>\n<p>E, enfiando o roup\u00e3o de trabalho, decidiu amarrar \u00e0 banca,<br \/>\ncomo um cativo ao remo, at\u00e9 que rematasse esse dif\u00edcil Cap\u00edtulo<br \/>\nIII, onde ressaltava o b\u00e1rbaro e sublime rasgo do av\u00f4 Tructesindo.<br \/>\nN\u00e3o, que diabo! n\u00e3o lhe convinha perder a apari\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Novela em t\u00e3o proveitoso momento, nas v\u00e9speras da sua chegada<br \/>\na Lisboa, quando para a influ\u00eancia pol\u00edtica e para o prestigio<br \/>\nsocial necessitava desse brilho que, segundo o velho Vigny, &#8220;uma pena<br \/>\nde a\u00e7o acrescenta a um elmo dourado de Fidalgo&#8230;&#8221; Felizmente,<br \/>\nnessa luminosa manh\u00e3 em que as \u00e1guas da horta fartamente cantavam,<br \/>\nele sentia tamb\u00e9m a veia borbulhando, contente em se soltar e correr.<br \/>\nDepois da visita \u00e0 crasta de Craquede a sua imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nconcebia menos enevoadamente os seus av\u00f3s Afonsinos: e como que os<br \/>\npalpava enfim no seu viver e pensar desde que contemplara os grandes t\u00famulos<br \/>\nonde se desfaziam as suas grandes ossadas.<\/p>\n<p>Na livraria retomou com apetite, depois de lhes sacudir a poeira, as tiras<br \/>\nda Novela sobre que emperrara, naquele atarantado lance de susto e alarme<br \/>\n&#8211; quando o V\u00edlico, o velho Ordonho, reconhecia o pend\u00e3o do Bastardo<br \/>\nsurgindo \u00e0 borda da ribeira do Coice entre o coriscar de lan\u00e7as<br \/>\nempinadas, passando a antiga ponte de madeira, e, um momento sumido na verdura<br \/>\ndos \u00e1lamos, de novo avan\u00e7ando, alto e tendido, at\u00e9 o<br \/>\nrude Cruzeiro de pedra de Gon\u00e7alo Ramires o Cortador.. O gordo Ordonho<br \/>\nent\u00e3o, atirando o brado de &#8211; &#8220;Prestes, prestes! que \u00e9 gente<br \/>\nde Bai\u00e3o!&#8221; -, descambava pelo escad\u00e3o da muralha como um<br \/>\nfardo que rola.<\/p>\n<p>No entanto Tructesindo Ramires, no empenho de aprestar a sua mesnada e abalar<br \/>\nsobre Montemor, regera j\u00e1 com o Adail a ordem da arrancada, mandando<br \/>\nque as buzinas soassem mal o sol batesse na margela do Po\u00e7o grande.<br \/>\nE agora, na sala alta da Alc\u00e1\u00e7ova, conversava como seu primo<br \/>\nde Riba-C\u00e1vado e costumado camarada de armas, D. Garcia Viegas &#8211; ambos<br \/>\nsentados nos poiais de pedra duma funda janela, onde uma bilha d&#8217;\u00e1gua<br \/>\ncom o seu p\u00facaro refrescava entre vasos de manjeric\u00e3o. D. Garcia<br \/>\nViegas era um velho esgalgado e \u00e1gil, de escuro car\u00e3o rapado,<br \/>\ncom uns mi\u00fados olhos coruscantes &#8211; que merecera a alcunha de Sabedor<br \/>\npela viveza e sucul\u00eancia do seu dizer, as suas infinitas manhas de guerra,<br \/>\ne a prenda de falar latim mais doutamente que um Cl\u00e9rigo da C\u00faria,<br \/>\nConvocado por Tructesindo, como os outros parentes de solar, para engrossar<br \/>\na mesnada dos Ramires em servi\u00e7o das Infantas, correra logo a Santa<br \/>\nIren\u00e9ia fielmente com o seu pequeno poder de dez lan\u00e7as &#8211; come\u00e7ando<br \/>\npor saquear no caminho a herdade de Palha-C\u00e1, dos de Severosa, que<br \/>\nandavam com pend\u00e3o alto na Hoste Real contra as Donas oprimidas. T\u00e3o<br \/>\nrijamente se apressara que, desde a madrugada, apenas comera sobre a sela,<br \/>\nem Palha-C\u00e1, duas rodelas dos chouri\u00e7os roubados. E com a sede<br \/>\nda afogueada correria, ainda na emo\u00e7\u00e3o de t\u00e3o amarga<br \/>\nnova, a derrota de Louren\u00e7o Ramires seu afilhado, novamente enchia<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua o p\u00facaro de barro &#8211; quando pela porta da sala de armas,<br \/>\nque tr\u00eas cabe\u00e7as de javali dominavam, rompeu o velho Ordonho<br \/>\nesbaforido:<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Tructesindo! Sr. Tructesindo Ramires! o Bastardo de Bai\u00e3o passou<br \/>\na Ribeira, vem sobre n\u00f3s com grande tro\u00e7o de lan\u00e7as!<\/p>\n<p>O velho Rico-homem saltou do poial. E arremessando a m\u00e3o cabeluda,<br \/>\ncerrada com sanha, como se j\u00e1 pela gorja empolgasse o Bastardo:<\/p>\n<p>&#8211; Pelo sangue de Cristo! em boa hora vem que nos poupa caminho! Hem, Garcia<br \/>\nViegas? A cavalo e sobre ele&#8230;?<\/p>\n<p>Mas, rente aos tr\u00f4pegos calcanhares de Ordonho, correra um Coudel de<br \/>\nBesteiros, que gritou dos umbrais, sacudindo o capelo de couro:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor! Senhor! A gente de Bai\u00e3o parou ao Cruzeiro! E um Cavaleiro<br \/>\nmo\u00e7o, com um ramo verde, est\u00e1 diante das barbac\u00e3s, como<br \/>\ntrazendo mensagem&#8230;<\/p>\n<p>Tructesindo bateu o sapato de ferro sobre as lajes, indignado com tal embaixada<br \/>\nmandada por tal vil\u00e3o&#8230; &#8211; Mas Garcia Viegas, que dum sorvo enxugara<br \/>\no p\u00facaro, recordou serenamente e lealmente os preceitos:<\/p>\n<p>&#8211; Tende, tende, primo e amigo! Que, por uso e lei de aqu\u00e9m e de al\u00e9m<br \/>\nserras, sempre mensageiro com ramo se deve escutar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Seja pois! &#8211; bradou Tructesindo. &#8211; Ide v\u00f3s fora \u00e0s barreiras<br \/>\ncom duas lan\u00e7as, Ordonho, e sabei do recado!<\/p>\n<p>O V\u00edlico rebolou pela denegrida escada de caracol at\u00e9 ao patim<br \/>\nda Alc\u00e1\u00e7ova. Dois acostados, de lan\u00e7a ao ombro, recolhendo<br \/>\nde alguma rolda, conversavam com o armeiro, que sarapintara de amarelo e escarlate<br \/>\ncabos de ascumas novas e as enfileirava contra o muro para secarem.<\/p>\n<p>&#8211; Por ordem do Senhor! &#8211; gritou Ordonho. &#8211; Lan\u00e7a direita, e comigo<br \/>\n\u00e0s barbac\u00e3s, a receber mensagem!&#8230;<\/p>\n<p>Ladeado pelos dois homens que se aprumaram, atravessou as barreiras; e pelo<br \/>\npostigo da barbac\u00e3, que uma quadrilha de besteiros guardava, saiu ao<br \/>\nterreiro da Honra, largueza de terra calcada, sem relva ou \u00e1rvore,<br \/>\nonde se erguiam ainda as traves carcomidas duma antiga forca, e se amontoavam<br \/>\nagora, para os consertos da Alc\u00e1\u00e7ova, ripas de madeira, e grossas<br \/>\ncantarias lavradas. Depois, sem arredar do umbral, empinando o ventre entre<br \/>\nos dois acostados, bradou ao mo\u00e7o Cavaleiro, que esperava sob o rijo<br \/>\nsol, sacudindo os moscardos com o seu ramo de amoreira:<\/p>\n<p>&#8211; Dizei de que gente sois! e a que vindes! e que cred\u00eancia trazeis!&#8230;<\/p>\n<p>E como arqueara logo a m\u00e3o inquieta sobre a orelha &#8211; o Cavaleiro,<br \/>\nserenamente, entalando o ramo entre o coxote e o ar\u00e7\u00e3o, arqueou<br \/>\ntamb\u00e9m os dois guantes reluzentes de escamas na abertura do casco,<br \/>\nbradou:<\/p>\n<p>&#8211; Cavaleiro do solar de Bai\u00e3o!&#8230; Cred\u00eancia n\u00e3o trago<br \/>\nque n\u00e3o trago embaixada&#8230; Mas o Sr. D. Lopo ficou al\u00e9m ao Cruzeiro,<br \/>\ne deseja que o nobre Sr. da Honra, o Sr. Tructesindo Ramires, o escute do<br \/>\neirado da barbac\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>O V\u00edlico saudou &#8211; recolheu pela poterna abobadada da torre albarr\u00e3,<br \/>\nmurmurando para os dois acostados:<\/p>\n<p>&#8211; O Bastardo vem a tratar o resgate do Sr. Louren\u00e7o Ramires&#8230;<\/p>\n<p>Ambos rosnaram:<\/p>\n<p>&#8211; Feio feito.<\/p>\n<p>Mas, quando Ordonho ofegante se apressava para a Alc\u00e1\u00e7ova,<br \/>\nencontrou no p\u00e1tio Tructesindo Ramires &#8211; que, na irada impaci\u00eancia<br \/>\ndaquelas delongas do Bastardo, descera, todo armado. Sobre o comprido brial<br \/>\nde l\u00e3 verde-negra, que recobria a vestidura de malha, as suas barbas<br \/>\nrebrilhavam, mais brancas, atadas num grosso n\u00f3 como a cauda dum corcel.<br \/>\nDo cintur\u00e3o tauxiado de prata pendia a um lado o punhal recurvo, a<br \/>\nbuzina de marfim &#8211; ao outro uma espada goda, de folha larga, com alto punho<br \/>\ndourado onde cintilava uma pedra rara trazida outrora da Palestina por Gutierres<br \/>\nRamires, o de Ultramar. Um sergente conduzia sobre uma almofada de couro os<br \/>\nseus guantes, o seu capelo redondo, de viseira gradada, como usara El-Rei<br \/>\nD. Sancho; outro carrecava o imenso broquel, da forma dum cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nrevestido de couro escarlate, com o A\u00e7or negro rudemente pintado, esgalhando<br \/>\nas garras furiosas. E o Alferes, Afonso Comes, seguia com o gui\u00e3o enrolado<br \/>\nna funda de lona.<\/p>\n<p>Com o velho Rico-homem descera D. Garcia Viegas, e os outros parentes do<br \/>\nSolar &#8211; o decr\u00e9pito Ramiro Ramires, um veterano da tomada de Santar\u00e9m,<br \/>\ntorcido pelos reumatismos como a raiz de um roble, e arrimando os passos tr\u00eamulos,<br \/>\nn\u00e3o a um bast\u00e3o, mas a um chu\u00e7o; o formoso Leonel, o<br \/>\nmais mo\u00e7o dos Samoras de Condufe, o que matara os dois ursos dos brejos<br \/>\nde Cachamuz e que t\u00e3o bem trovava; Mendo de Briteiros, o das barbas<br \/>\nvermelhas, grande queimador de bruxas, ledo arranjador de folgares e dan\u00e7as;<br \/>\ne o agigantado Senhor dos Pa\u00e7os de Avelim, todo coberto, como um peixe<br \/>\nfabuloso, de escamas que reluziam, Como o sol se acercava da margela do Po\u00e7o<br \/>\ngrande, marcando a hora da arrancada sobre Montemor &#8211; j\u00e1, dos fundos<br \/>\nalpendres que escondiam os campos do tavolado, os cavalari\u00e7os puxavam<br \/>\nos ginetes de guerra, com as suas altas selas pregueadas de prata, as ancas<br \/>\ne os peitos resguardados por coberturas de couro franjado que rojavam nas<br \/>\nlajes. Por todo o Castelo se espalhara que o Bastardo, depois da lide fatal<br \/>\naos Ramires, correra de Canta-Pedra, amea\u00e7ava a Honra; &#8211; e debru\u00e7ados<br \/>\ndos passadi\u00e7os que ligavam a muralha aos contrafortes da Alc\u00e1\u00e7ova,<br \/>\nou metidos por entre os engenhos de arremesso que atulhavam as corredouras,<br \/>\nos mo\u00e7os da ucharia, os servos das hortas, os vil\u00f5es acolhidos<br \/>\npara dentro das barbac\u00e3s, espreitavam o Senhor de Santa Iren\u00e9ia<br \/>\ne aqueles Cavaleiros fortes, com ansiedade, tremendo do assalto dos de Bai\u00e3o<br \/>\ne dessas horrendas bolas de ferro, cheias de fogo, que agora as mesnadas Crist\u00e3s<br \/>\narrajavam t\u00e3o destramente como as bordas Sarracenas. &#8211; No entanto com<br \/>\na sua gorra esmagada contra o peito, Ordonho, arfando, apresentava a Tructesindo<br \/>\no recado do Bastardo:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 Cavaleiro mo\u00e7o, n\u00e3o traz cred\u00eancia&#8230; O Sr.<br \/>\nBastardo espera ao Cruzeiro. &#8211; E pede que o atendais da quadrela das barbac\u00e3s&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que se acerque, pois! &#8211; gritou o velho. &#8211; E com quantos queira dos vil\u00f5es<br \/>\nque o seguem!<\/p>\n<p>Mas Garcia Viegas, o Sabedor, sempre avisado, com a sua esperta mansid\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Tende, primo e amigo, tende! N\u00e3o subais v\u00f3s \u00e0 tranqueira<br \/>\nantes que eu me assegure se Bai\u00e3o nos vem com arteirice ou falsura.<\/p>\n<p>E, entregando a sua pesada lan\u00e7a de faia a um donzel, enfiou pela<br \/>\nescada soturna da Torre albarr\u00e3. Em cima, no eirado, sussurrando um<br \/>\nchuta! chuta! \u00e0 fila de besteiros que guarnecia as ameias, atenta e<br \/>\ncom a besta encurvada &#8211; penetrou no miradouro, espiou pela seteira. O arauto<br \/>\nde Bai\u00e3o galopara para o Cruzeiro, que uma selva movedi\u00e7a de<br \/>\nlan\u00e7as rodeava coriscando. E curto recado lan\u00e7ou &#8211; porque logo,<br \/>\nno seu fouveiro acobertado por uma rede de malha acairelada de ouro, Lopo<br \/>\nde Bai\u00e3o despegou do denso tro\u00e7o de Cavaleiros com a viseira<br \/>\nerguida, sem lan\u00e7a ou ascuma de monte, e ociosas sobre o ar\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sela mourisca as m\u00e3os onde se enrodilhavam as bridas de couro escarlate.<br \/>\nDepois, a um toque arrastado de buzina, avan\u00e7ou para as barbac\u00e3s<br \/>\nda Honra, vagarosamente, como se acompanhasse um saimento. N\u00e3o movera<br \/>\no seu pend\u00e3o amarelo e negro. Apenas seis infan\u00e7\u00f5es o<br \/>\nescoltavam, tamb\u00e9m sem lan\u00e7a ou broquei, com sobrevestes de<br \/>\npano roxo sobre os saios de malha. Atr\u00e1s quatro alentados besteiros<br \/>\ncarregavam aos ombros umas andas, toscamente armadas com troncos de \u00e1rvores,<br \/>\nonde um homem jazia estirado, como morto, coberto, contra o calor e os moscardos,<br \/>\npor leves folhagens de ac\u00e1cia. E um monge seguia numa mula branca,<br \/>\nsegurando misturadamente com as r\u00e9deas um crucifixo de ferro, sobre<br \/>\nque pendia a orla do seu capuz e uma ponta de barba negra.<\/p>\n<p>Da seteira, mesmo sem descortinar por entre a camada de ramagens a face do<br \/>\nhomem estendido nas andas, o Sabedor adivinhou Louren\u00e7o Ramires, o<br \/>\ndoce afilhado que tanto amara, que t\u00e3o bem ensinara a ter\u00e7ar<br \/>\nlan\u00e7as e a treinar falc\u00f5es. E cerrando os punhos, gritando surdamente<br \/>\n&#8220;Bem prestos! Besteiros, bem prestos!&#8221; &#8211; desceu a escura escadaria,<br \/>\nt\u00e3o arremessado pela c\u00f3lera e pela m\u00e1goa que o seu elmo<br \/>\ncavamente bateu contra o arco da porta, onde o esperava Tructesindo com os<br \/>\nCavaleiros parentes.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor primo! &#8211; bradou. &#8211; Vosso filho Louren\u00e7o est\u00e1 diante<br \/>\ndas barreiras da Honra deitado sobre umas andas!<\/p>\n<p>Com um rosnar de espanto, um atropelo dos sapatos de ferro sobre as lajes<br \/>\nsonoras, todos seguiram pela poterna da albarr\u00e3 o Rico-homem &#8211; at\u00e9<br \/>\no escad\u00e3o de madeira que se empurrava contra a quadrela das barbac\u00e3s.<br \/>\nE, quando o enorme velho surgiu no eirado, um sil\u00eancio pesou, t\u00e3o<br \/>\nansioso, que se sentia para al\u00e9m do vergel o chiar triste e lento da<br \/>\nnora e o latir dos mastins.<\/p>\n<p>No terreiro, em frente \u00e0 cancela gateada, o Bastardo esperava, im\u00f3vel<br \/>\nsobre o seu ginete, com a formosa face bem levantada, a face de Choro-Sol,<br \/>\nonde as barbas aneladas, caindo nas solhas do arn\u00eas, rebrilhavam como<br \/>\nouro novo. Vergando o capelo de ouropel, saudou Tructesindo com gravidade<br \/>\ne preito. Depois al\u00e7ou a m\u00e3o, que descal\u00e7ara do guante.<br \/>\nE num considerado e sereno falar:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Tructesindo Ramires, nestas andas vos trago vosso filho Louren\u00e7o,<br \/>\nque em lide leal, no vale de Canta-Pedra, colhi prisioneiro e me pertence<br \/>\npelo foro dos Ricos-homens de Espanha. E de Canta-Pedra caminhei com ele para<br \/>\nvos pedir que entre n\u00f3s findem estes homizios e estas feias brigas<br \/>\nque malbaratam sangue de bons Crist\u00e3os&#8230; Senhor Tructesindo Ramires,<br \/>\ncomo v\u00f3s venho de Reis. De D. Afonso de Portugal recebi a pranchada<br \/>\nde Cavaleiro. Toda a nobre ra\u00e7a de Bai\u00e3o se honra em mim&#8230;<br \/>\nConsenti em me dar a m\u00e3o de vossa filha D. Violante, que eu quero e<br \/>\nque me quer, e mandai erguer a levadi\u00e7a para que Louren\u00e7o ferido<br \/>\nentre no seu solar e eu vos beije a m\u00e3o de pai.<\/p>\n<p>Das andas, que estremeceram sobre os ombros dos besteiros, um desesperado<br \/>\nbrado partiu:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu pai!<\/p>\n<p>E hirto na borda do eirado, sem descruzar os bra\u00e7os, o velho Tructesindo<br \/>\nretomou o brado &#8211; que por todo o terreiro da Honra rolou, mais arrogante e<br \/>\nmais cavo:<\/p>\n<p>&#8211; Meu filho, antes de mim, te respondeu, vil\u00e3o!<\/p>\n<p>Como se uma pontoada de lan\u00e7a lhe topasse o peito, o Bastardo vacilou<br \/>\nna alta sela; e, colhido pelo repux\u00e3o das r\u00e9deas, o seu fouveiro<br \/>\nrecuou alteando a testeira dourada. Mas, a um novo arremesso, repulou contra<br \/>\na cancela. E Lopo de Bai\u00e3o, erguido sobre os estribos, gritava com<br \/>\n\u00e2nsia, com furor:<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Tructesindo Ramires, n\u00e3o me tenteis!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Arreda, vil\u00e3o e filho de viloa, arreda! &#8211; clamou soberbamente o<br \/>\nvelho, sem desprender os bra\u00e7os de sobre o levantado peito, na sua<br \/>\nrija imobilidade e teima, como se todo o corpo e alma fossem de rijo ferro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Bastardo, arrojando o guante contra o muro da barbac\u00e3,<br \/>\nrugiu, chamejante e rouco:<\/p>\n<p>&#8211; Pois pelo sangue de Cristo e pela alma de todos os meus te juro, que se<br \/>\nme n\u00e3o d\u00e1s neste instante essa mulher que eu quero e que me<br \/>\nquer, sem filho ficas, que por minhas m\u00e3os, diante de ti e nem que<br \/>\ntodo o C\u00e9u acuda, lhe acabo o resto da vida!<\/p>\n<p>J\u00e1 na m\u00e3o lhe lampejava um punhal. Mas num \u00edmpeto de<br \/>\nsublime orgulho, um \u00edmpeto sobre-humano, em que cresceu como outra<br \/>\nescura torre entre as torres da Honra, Tructesindo arrancara a espada:<\/p>\n<p>&#8211; Com esta, covarde! com esta! Para que seja puro, n\u00e3o vil como o<br \/>\nteu, o ferro que atravessar o cora\u00e7\u00e3o de meu filho!<\/p>\n<p>Furiosamente, com as duas possantes m\u00e3os, arremessou a espada, que<br \/>\nrodopiou silvando e faiscando, se cravou no duro ch\u00e3o, onde tremia,<br \/>\nainda faiscava, como se uma c\u00f3lera her\u00f3ica tamb\u00e9m a animasse.<br \/>\nE no mesmo relance, com um urro, um salto do ginete, o Bastardo, debru\u00e7ado<br \/>\ndo ar\u00e7\u00e3o, enterrara o punhal na garganta de Louren\u00e7o<br \/>\n&#8211; em golpe t\u00e3o cravado que o esguicho do sangue lhe salpicou a clara<br \/>\nface, as barbas de ouro.<\/p>\n<p>Depois foi uma bruta abalada. Os quatro besteiros sacudiram para o ch\u00e3o<br \/>\nas andas, o corpo morto enrodilhado nos ramos &#8211; e atiraram pelo terreiro,<br \/>\ncomo lebres em clareira, atr\u00e1s do monge que se agachava agarrado \u00e0s<br \/>\ncrinas da mula. Numa curta desfilada o Bastardo, os seis Cavaleiros, gritando<br \/>\no alarme, mergulharam no arraial que estacara ao Cruzeiro. Um tumulto remoinhou<br \/>\nem torno ao devoto pilar. E em rodilhado tropel a mesnada desenfreou para<br \/>\na Ribeira, varou a velha ponte, logo enublada em p\u00f3 e sumida para al\u00e9m<br \/>\ndo arvoredo, num fugidio coriscar de capelinas e de lan\u00e7as apinhadas.<\/p>\n<p>Uma alta grita, no entanto, atroara as muralhas de Santa Iren\u00e9ia!<br \/>\nVirotes, flechas, balas de fundas assobiavam, despedidas no mesmo furioso<br \/>\nrepente, sobre o bando de Bai\u00e3o: &#8211; mas apenas um dos besteiros que<br \/>\ncarregara as andas tombou, estrebuchando, com uma flecha na ilharga. Pela<br \/>\ncancela das barreiras j\u00e1 Cavaleiros e donz\u00e9is de armas empurravam<br \/>\ndesesperadamente para recolher o corpo de Louren\u00e7o Ramires. E Garcia<br \/>\nViegas, os outros parentes, galgaram ao eirado da barbac\u00e3, donde Tructesindo<br \/>\nse n\u00e3o arredara, r\u00edgido e mudo, fitando as andas e seu filho<br \/>\nestatelado com elas sobre o terreiro da sua Honra. Quando, ao rumor, ele pesadamente<br \/>\nse voltou &#8211; todos emudeceram ante a serenidade da sua face, mais branca que<br \/>\nas brancas barbas, duma morta brancura de l\u00e1pide, com os olhos ressequidos<br \/>\ne cor de brasa, a latejar, a refulgir, como os dois buracos dum forno. Com<br \/>\na mesma sinistra serenidade, tocou no ombro do velho Ramiro, que tremia arrimado<br \/>\nao seu chu\u00e7o. E numa vagarosa e vasta voz:<\/p>\n<p>&#8211; Amigo! cuida tu do corpo de meu filho, que a alma ainda hoje, por Deus!<br \/>\nlha vou eu sossegar!&#8230;<\/p>\n<p>Afastou aqueles senhores emudecidos de assombro e de emo\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; e baixou pela gasta escada de madeira, que rangia sob o peso do enorme Rico-homem<br \/>\ncarregado de ira e dor.<\/p>\n<p>Nesse momento, entre besteiros e servi\u00e7ais que se atropelavam &#8211; o<br \/>\ncorpo de Louren\u00e7o Ramires transpunha o portelo das barbac\u00e3s,<br \/>\nsegurado pelo formoso Leonel e por Mendo de Briteiros, ambos afogueados de<br \/>\nl\u00e1grimas e rouquejando amea\u00e7as furiosas contra a ra\u00e7a<br \/>\nde Bai\u00e3o. Atr\u00e1s o tr\u00f4pego Ordonho gemia, abra\u00e7ado<br \/>\n\u00e0 espada de Tructesindo, que apanhara no ch\u00e3o do Terreiro e<br \/>\nque beijava como para a consolar. \u00c0 borda do fosso uma aveleira espalhava<br \/>\na sombra leve num bronco tabu\u00e3o pregado sobre toros &#8211; de onde, aos<br \/>\ndomingos, com o adanel dos besteiros, Louren\u00e7o dirigia os jogos de<br \/>\nbesta e frecha, distribuindo fartamente as recompensas de bolos de mel e de<br \/>\nvinho em pich\u00e9is. Sobre essas t\u00e1buas o estiraram &#8211; recuando<br \/>\ntodos depois, enquanto aterradamente se benziam. Um Cavaleiro de Briteiros,<br \/>\ntemendo por aquela alma desamparada e sem confiss\u00e3o, correra \u00e0<br \/>\ncapela da Alc\u00e1\u00e7ova procurar Frei M\u00fancio. Outros, rodeando<br \/>\ntoda a muralha at\u00e9 o Baluarte-Velho, gritavam, com desesperados acenos,<br \/>\npara o torre\u00e3o escalavrado, onde, como um mocho, habitava o F\u00edsico.<br \/>\nMas o certeiro punhal do Bastardo acabara o denodado Louren\u00e7o, flor<br \/>\ne regra de Cavaleiros por toda a terra de Riba-C\u00e1vado&#8230; E que lastimoso<br \/>\ne desfeito &#8211; com suja terra na face, a garganta empastada de sangue negro,<br \/>\nas malhas do saio rotas sobre os ombros e embebidas nas carnes retalhadas,<br \/>\ne nua, sem greva, toda inchada e roxa, a perna ferida em Canta-Pedra, onde<br \/>\nmais sangue e lama se empastavam!<\/p>\n<p>Tructesindo descia, lento e r\u00edgido. E as secas brasas dos seus olhos<br \/>\nmais se incendiam, enquanto, atrav\u00e9s do dorido sil\u00eancio, se acercava<br \/>\ndo corpo de seu filho. Diante do banco ajoelhou, agarrou a arrefecida m\u00e3o<br \/>\nque pendia; e, junto \u00e0 face manchada de sangue e terra, segredou, de<br \/>\nalma para alma, num abafado murm\u00fario, que n\u00e3o era de despedida<br \/>\nmas de alguma suprema promessa, e que findou num beijo demorado sobre a testa,<br \/>\nonde uma r\u00e9stia de sol rebrilhou, dardejada dentre as folhas da aveleira.<br \/>\nDepois erguido num arrebate, atirando o bra\u00e7o como para nele recolher<br \/>\ntoda a for\u00e7a da ra\u00e7a, gritou:<\/p>\n<p>&#8211; E agora, senhores, a cavalo, e vingan\u00e7a brava!<\/p>\n<p>J\u00e1 pelos p\u00e1tios, em torno da Alc\u00e1\u00e7ova, corria<br \/>\num precipitado fragor de armas. Aos \u00e1speros comandos dos almocad\u00e9ns<br \/>\nas filas de besteiros, de arqueiros, de fundibul\u00e1rios rolavam dos adarves<br \/>\ndos muros para cerrar as quadrilhas. Rapidamente, os cavalari\u00e7os da<br \/>\ncarga amarravam sobre o dorso das mulas os caixotes do almaz\u00e9m, os<br \/>\nalforjes da trebalha. Pelas portas baixas da cozinha, pe\u00f5es e sergentes,<br \/>\nantes de largar, bebiam \u00e0 pressa uma conca de cerveja. E no campo das<br \/>\nbarreiras os Cavaleiros, chapeados de ferro, carregadamente se i\u00e7avam,<br \/>\ncom a ajuda dos donz\u00e9is, para as altas selas dos ginetes &#8211; logo ladeados<br \/>\npelos seus infan\u00e7\u00f5es e acostados, que aprumavam a lan\u00e7a<br \/>\nsobre o coxote assobiando aos lebr\u00e9us.<\/p>\n<p>Enfim o Alferes, Afonso Gomes, sacou da funda e desfraldou o pend\u00e3o<br \/>\nnum embalan\u00e7o largo em que as asas do A\u00e7or negrejaram, abertas,<br \/>\ncomo soltando o v\u00f4o enfurecido. O grito agudo do Adail ressoara por<br \/>\ntoda a cerca &#8211; ala! ala! De cima de um marco de pedra, junto ao postigo da<br \/>\nbarbac\u00e3, Frei M\u00fancio estendia as magras m\u00e3os ainda tr\u00eamulas,<br \/>\naben\u00e7oava a hoste. Ent\u00e3o Tructesindo, sobre o seu murzelo, recebeu<br \/>\ndo velho Ordonho a espada, de que t\u00e3o terrivelmente se apartara. E,<br \/>\nestendendo a reluzente folha para as torres da sua Honra como para um altar,<br \/>\nbradou:<\/p>\n<p>&#8211; Muros de Santa Iren\u00e9ia, n\u00e3o vos torne eu a ver, se em tr\u00eas<br \/>\ndias, de sol a sol, ainda restar sangue maldito nas veias do traidor de Bai\u00e3o!<\/p>\n<p>E, escancaradas as barreiras, a cavalgada tropeou em torno ao pend\u00e3o<br \/>\nsolto &#8211; enquanto, na torre de Almenara, sob o parado esplendor da sesta de<br \/>\nagosto, o sino grande come\u00e7ava a tanger a finados.<\/p>\n<p>Quando Gon\u00e7alo \u00e0 tarde, enterrado na poltrona \u00e0 varanda,<br \/>\nreleu este Cap\u00edtulo de sangue e furor sobre que se esfalfara durante<br \/>\na semana, pensou &#8220;que o lance impressionaria&#8221;.<\/p>\n<p>Sentiu ent\u00e3o o apetite de recolher sem demora os louvores merecidos<br \/>\n&#8211; e de mostrar a Gracinha e ao Padre Soeiro os tr\u00eas Cap\u00edtulos<br \/>\ncompletos antes de remeter o manuscrito para os Anais. E mesmo lhe convinha<br \/>\n&#8211; porque a erudi\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica do Padre Soeiro forneceria<br \/>\ntalvez algum tra\u00e7o novo, bem Afonsino, que mais avivasse aquela ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Honra de Santa Iren\u00e9ia e dos seus senhores formid\u00e1veis. Imediatamente<br \/>\nresolveu partir de manh\u00e3 para Oliveira com o seu trabalho &#8211; que, depois<br \/>\nde esmiu\u00e7ado pelo Padre Soeiro, confiaria ao procurador de D. Arminda<br \/>\nVilegas para ele o copiar naquela sua formosa letra, t\u00e3o celebrada<br \/>\nem todo o Distrito e apenas igualada (nas mai\u00fasculas) pela do Escriv\u00e3o<br \/>\nda C\u00e2mara Eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>Sacudia j\u00e1 da poeira uma antiga pasta de marroquim para transportar<br \/>\na Obra amada &#8211; quando o Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de<br \/>\nvime que uma toalha de rendas cobria.<\/p>\n<p>&#8211; Um presente.<\/p>\n<p>&#8211; Um presente&#8230; De quem?<\/p>\n<p>&#8211; Da Feitosa, das senhoras.<\/p>\n<p>&#8211; Bravo!<\/p>\n<p>&#8211; E com uma carta, que vem pregada na toalha.<\/p>\n<p>Com que curiosidade Gon\u00e7alo despeda\u00e7ou o sobrescrito! Mas,<br \/>\napesar de lacrado com um pomposo selo de Armas, apenas continha linhas a l\u00e1pis<br \/>\nnum bilhete de visita da prima Maria Mendon\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Ontem ao jantar contei quanto o primo Gon\u00e7alo gosta de p\u00eassegos<br \/>\nsobretudo aboborados em vinho, e a Anica toma por isso a liberdade de lhe<br \/>\nmandar esse cestinho de p\u00eassegos da Feitosa, que como sabe s\u00e3o<br \/>\nfalados em todo o Portugal&#8230; Mil saudades&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Gon\u00e7alo imaginou logo no fundo da cesta, debaixo dos p\u00eassegos,<br \/>\ndocemente escondida, uma cartinha da D. Ana!<\/p>\n<p>&#8211; Bem! S\u00e3o p\u00eassegos&#8230; Deixa ai sobre uma cadeira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Era melhor que os levasse j\u00e1 para a copa, Sr. Dr., para os arrumar<br \/>\nna prateleira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixa sobre a cadeira!<\/p>\n<p>Apenas o Bento cerrara a porta, estendeu no ch\u00e3o a toalha, entornou<br \/>\ncuidadosamente por cima os p\u00eassegos formosos que perfumavam a Livraria.<br \/>\nNo fundo da cesta encontrou apenas folhas de palra. Levemente desconsolado,<br \/>\ncheirou um p\u00eassego. Depois considerou que os p\u00eassegos, arranjados<br \/>\npor ela, com parra que ela apanhara na latada, sob toalha que ela escolhera<br \/>\nno arm\u00e1rio, formavam na sua mudez cheirosa um recadinho sentimental.<br \/>\nAinda agachado na esteira, comeu o p\u00eassego: &#8211; e recolocou os outros<br \/>\nna cesta para os levar a Gracinha.<\/p>\n<p>Mas, ao outro dia, \u00e0s duas horas, j\u00e1 com a parelha do Torto<br \/>\nengatada \u00e0 caleche, j\u00e1 com as luvas cal\u00e7adas para a jornada<br \/>\nde Oliveira, recebeu uma inesperada visita a visita do Sr. Visconde de Rio-Manso.<br \/>\nDescal\u00e7ando as luvas o Fidalgo pensava: &#8211; &#8220;O Rio-Manso! Que me<br \/>\nquerer\u00e1 esse casmurro?&#8221; &#8211; Na sala, pousado \u00e0 beira do canap\u00e9<br \/>\nde veludo verde e esfregando os joelhos, o Visconde contou que de volta de<br \/>\nVila-Clara e diante do port\u00e3o da Torre vencera o seu teimoso acanhamento<br \/>\npara apresentar os seus respeitos ao Sr. Gon\u00e7alo Ramires. E n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 para esse gostoso dever &#8211; mas tamb\u00e9m (como soubera que S.<br \/>\nExa. se propunha Deputado pelo Circulo) para lhe oferecer na freguesia de<br \/>\nCanta-Pedra o seu pr\u00e9stimo e os seus votos&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, risonho e pasmado, saudava, torcia embara\u00e7adamente<br \/>\no bigode. E o Visconde de Rio-Manso n\u00e3o estranhava aquele pasmo porque<br \/>\ndecerto o Sr. Gon\u00e7alo Ramires o conhecera sempre como ferrenho Regenerador&#8230;<br \/>\nMas ent\u00e3o! Ele pertencia \u00e0 gera\u00e7\u00e3o, agora bem<br \/>\nrareada, que antepunha aos deveres da Pol\u00edtica os deveres da gratid\u00e3o:<br \/>\n&#8211; e al\u00e9m da simpatia que lhe merecia o Sr. Gon\u00e7alo Ramires (pelo<br \/>\nque constava em todo o Distrito do seu talento, da sua afabilidade, da sua<br \/>\ncaridade) tamb\u00e9m conservava para com S. Exa. uma divida de gratid\u00e3o,<br \/>\nainda aberta, n\u00e3o por indiferen\u00e7a, mas por timidez&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V. Exa. n\u00e3o adivinha, Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires?&#8230; N\u00e3o<br \/>\nse lembra?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, realmente, Sr. Visconde, n\u00e3o me&#8230;<\/p>\n<p>Pois uma tarde o Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires passava a cavalo pela<br \/>\nquinta da Varandinha, quando a sua neta, brincando no terra\u00e7o (aquele<br \/>\nterra\u00e7o gradeado donde se curva uma magn\u00f3lia), deixou escapar<br \/>\numa p\u00e9la para a estrada. O Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires, rindo,<br \/>\napeou imediatamente, apanhou a p\u00e9la, e, para a restituir \u00e0 menina<br \/>\ndebru\u00e7ada da grade, abeirou a \u00e9gua do muro depois de montar<br \/>\n&#8211; e com que ligeireza e garbo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V. Exa. n\u00e3o se lembrava?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim, agora&#8230;<\/p>\n<p>Pois no ladrilho do terra\u00e7o, rente da grade, pousava um jarro cheio<br \/>\nde cravos. O Sr. Gon\u00e7alo Mendes, depois de gracejar com a menina (que,<br \/>\nlouvado Deus, n\u00e3o era acanhada!) pediu um cravo, que ela escolheu &#8211;<br \/>\ne que lhe deu, toda s\u00e9ria, como uma senhora. E ele, que observara da<br \/>\njanela do seu quarto, pensava: &#8211; &#8220;Ora a\u00ed est\u00e1! Este Fidalgo<br \/>\nda Torre, um t\u00e3o grande Fidalgo, que am\u00e1vel!&#8221; &#8211; Oh S. Exa.<br \/>\nn\u00e3o tinha que rir e corar&#8230; A gentileza fora grande &#8211; e a ele, av\u00f4,<br \/>\nparecera imensa! Mas n\u00e3o ficara somente na p\u00e9la apanhada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires n\u00e3o se recorda?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, Sr. Visconde. com efeito, agora&#8230;<\/p>\n<p>Pois, logo no outro dia, o Sr. Gon\u00e7alo Mendes Ramires mandara da Torre<br \/>\num precioso cesto de rosas, com o seu bilhete, e numa linha este gracejo:<br \/>\n&#8211; &#8220;Em agradecimento dum cravo, rosas \u00e0 Sra. D. Rosa&#8221;.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo quase pulou na cadeira, divertido:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim, Sr. Visconde, perfeitamente!,,, Agora me recordo!<\/p>\n<p>Pois desde essa tarde ele sempre almejara por uma oportunidade de mostrar<br \/>\nao Sr, Gon\u00e7alo Mendes Ramires o seu reconhecimento, a sua simpatia,<br \/>\nMas qu\u00ea! era t\u00edmido, vivia muito retirado,,, Nessa manh\u00e3,<br \/>\npor\u00e9m, em Vila-Clara, soubera pelo Gouveia que S, Exa. se apresentava<br \/>\nDeputado pelo C\u00edrculo, Apesar de ser elei\u00e7\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nsegura, j\u00e1 pela influ\u00eancia do Sr, Ramires, j\u00e1 pela influ\u00eancia<br \/>\ndo Governo, logo pensara: &#8211; &#8220;Bem, a\u00ed est\u00e1 a ocasi\u00e3o!&#8221;<br \/>\nE agora oferecia a S. Exa., na freguesia de Canta-Pedra, o seu pr\u00e9stimo<br \/>\ne os seus votos.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo murmurou, enternecido:<\/p>\n<p>&#8211; Realmente, Sr. Visconde, nada me podia sensibilizar mais do que uma oferta<br \/>\nt\u00e3o espont\u00e2nea, t\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu que me sensibilizo por V. Exa. aceitar. E agora n\u00e3o falemos<br \/>\nmais nesse meu pobre pr\u00e9stimo e nesses meus pobres votos&#8230; Pois V.<br \/>\nEx. tem aqui uma vener\u00e1vel vivenda.<\/p>\n<p>E como o Visconde aludia ao desejo, j\u00e1 nele antigo, de admirar de<br \/>\nperto a famosa torre, mais velha que Portugal &#8211; ambos desceram ao pomar. O<br \/>\nVisconde, com o guarda-sol ao ombro, pasmou em sil\u00eancio para a torre:<br \/>\nreconheceu (apesar de liberal) o prestigio que resulta duma t\u00e3o alta<br \/>\nlinhagem como a dos Ramires; e gabou sinceramente o laranjal. Depois, sabendo<br \/>\nque o Pereira da Riosa arrendara a quinta, invejou ao Sr. Ramires t\u00e3o<br \/>\ncuidadoso e honrado rendeiro&#8230; &#8211; Diante do port\u00e3o, o char-\u00e0-bancs<br \/>\ndo Visconde esperava, atrelado de duas mulas lustrosas e n\u00e9dias. Gon\u00e7alo<br \/>\nadmirou as mulas. E, abrindo a portinhola, suplicou ao Sr. Visconde que beijasse<br \/>\npor ele a m\u00e3ozinha da Sra D. Rosa. Comovido, o Visconde confessou uma<br \/>\nousadia, uma esperan\u00e7a &#8211; e era que S. Exa. um dia, \u00e0 sua escolha,<br \/>\nparasse em Canta-Pedra, jantasse na quinta, para conhecer mais intimamente<br \/>\na menina da p\u00e9la e do cravo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas com imensa honra!.. E desde j\u00e1 me proponho a ensinar \u00e0<br \/>\nSra. D. Rosa. se ela o n\u00e3o sabe, o jogo da p\u00e9la \u00e0 antiga<br \/>\nportuguesa.<\/p>\n<p>O Sr. Visconde saudou, banhado de gosto e riso, com a m\u00e3o sobre o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, trepando as escadas, murmurava: &#8211; &#8220;Oh senhores, que<br \/>\nsimp\u00e1tico homem! E que generoso homem, que paga rosas com votos! Ora<br \/>\nvejam como as vezes, por uma pequenina aten\u00e7\u00e3o, se ganha um<br \/>\namigo! Com certeza, para a semana vou a Canta-Pedra jantar&#8221;&#8230; Homem<br \/>\nencantador!&#8217;<\/p>\n<p>E foi num ditoso estado de alma que acomodou na caleche a pasta de marroquim<br \/>\ncom o manuscrito, o cesto sentimental dos p\u00eassegos da D. Ana &#8211; e acendeu<br \/>\num charuto, e saltou \u00e1 almofada, e tomou as r\u00e9deas para lan\u00e7ar,<br \/>\nnum trote alegre at\u00e9 Oliveira, a parelha branca do Russo.<\/p>\n<p>No largo de El-Rei, antes de apear, perguntou logo ao Joaquim da Porta not\u00edcias<br \/>\ndos senhores. Os senhores todos muito bem, gra\u00e7as a Deus&#8230; O Sr. Jos\u00e9<br \/>\nBarrolo partira de manh\u00e3 a cavalo para a quinta do Sr Bar\u00e3o<br \/>\ndas Marges, s\u00f3 recolhia \u00e1 noite&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E o Sr Padre Soeiro?<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Padre Soeiro, creio que est\u00e1 para casa da Sra. D. Arminda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a Sra. D. Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; A Sra. D. Gra\u00e7a desceu h\u00e1 um bocadinho grande para o Mirante,<br \/>\nde chap\u00e9u&#8230; Naturalmente ia \u00e0 Igreja das M\u00f4nicas.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Leva esse cesto de p\u00eassegos e dize ao Joaquim da Copa que os<br \/>\nponha na mesa, assim mesmo no cesto, com as folhas&#8230; E que me subam ao quarto<br \/>\n\u00e1gua quente.<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio da parede, na sala de espera, gemia pregui\u00e7osamente<br \/>\nas cinco horas. O palacete repousava num claro sil\u00eancio. E, depois da<br \/>\npoeira e dos solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gon\u00e7alo a frescura<br \/>\ndo seu quarto com as quatro janelas abertas sobre o jardim regado e sobre<br \/>\na cerca das M\u00f4nicas. Cuidadosamente, guardou logo numa gaveta da c\u00f4moda<br \/>\na pasta preciosa de marroquim. Uma criada de olhos repolhudos entrara com<br \/>\no jarr\u00e3o d&#8217;\u00e1gua quente: &#8211; e o Fidalgo, como sempre, chasqueou<br \/>\na mo\u00e7a sobre os lindos sargentos de Cavalaria, cujo quartel tentador<br \/>\ndominava o lavadouro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensaboando<br \/>\ntodo o dia com paix\u00e3o. Depois ainda se demorou, mudando o fato empoeirado,<br \/>\nassobiando vagamente, encostado \u00e0 varanda sobre a calada rua das Tecedeiras.<br \/>\nO sino das M\u00f4nicas lan\u00e7ou um lindo repique&#8230; E Gon\u00e7alo,<br \/>\nenfastiado da sua solid\u00e3o, decidiu descer pelo terra\u00e7o do jardim,<br \/>\ne surpreender Gracinha nas suas devo\u00e7\u00f5es, na Igrejinha.<\/p>\n<p>Embaixo, no corredor, cruzou o Joaquim da Copa:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o Sr. Barrolo hoje n\u00e3o janta?<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Barrolo foi jantar com o Sr. Bar\u00e3o das Marges, na quinta&#8230;<br \/>\nS\u00e3o os anos da menina. Naturalmente s\u00f3 recolhe \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, no jardim, ainda tardou por entre os alegretes, compondo<br \/>\npara o casaco um ramo de flores ligeiras. Depois rodeou a estufa, sorrindo<br \/>\nda porta com que o Barrolo a enriquecera, uma porta envidra\u00e7ada, arqueada<br \/>\nem ferradura, com um monograma de cores rutilantes; e meteu pela rua que conduzia<br \/>\nao repuxo, coberta de sil\u00eancio e penumbra pela rama enla\u00e7ada<br \/>\ndos seus altos loureiros. Adiante, circundado de bancos de pedra, de \u00e1rvores<br \/>\nde aroma e flor, cantava dormentemente o fino repuxo num tanque redondo, de<br \/>\nborda larga, onde se espa\u00e7avam grossos vasos de lou\u00e7a branca<br \/>\ncom o bras\u00e3o ramalhudo dos S\u00e1s. Certamente na v\u00e9spera<br \/>\nou de manh\u00e3 se lavara o tanque, porque na \u00e1gua muito transparente,<br \/>\nsobre as lajes muito claras, nadavam com redobrada vivacidade, em lampejos<br \/>\nrosados, os peixes que Gon\u00e7alo assustou mergulhando e agitando a bengala.<br \/>\nE daquela borda do tanque j\u00e1 ele avistava ao fundo de outra rua, debruada<br \/>\nde d\u00e1lias abertas, o Mirante &#8211; uma constru\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII, simulando um Templozinho grego, cor de rosa desbotado, com um gordo<br \/>\nCupido sobre a c\u00fapula, e janelinhas de rocalha entre o meio-relevo<br \/>\ndas colunas caneladas por onde trepavam jasmineiros.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo arrancou, como costumava, folhas dum ramo de l\u00facia-lima<br \/>\npara esmagar e perfumar as m\u00e3os; e continuou para o Mirante, vagarosamente,<br \/>\npor entre as d\u00e1lias apinhadas. Na al\u00e9ia, novamente ensaibrada,<br \/>\nos sapatos finos de verniz que cal\u00e7ara pousavam sem rumor no saibro<br \/>\nmole. E assim, num sil\u00eancio de sombra indolente, se acercou do Mirante<br \/>\n&#8211; e duma das janelinhas que, mal cerrada, conservava corrida por dentro a<br \/>\npersiana de tabuinhas verdes. Rente dessa janela era a escada de pedra, que,<br \/>\ndo elevado e comprido terra\u00e7o sobre que se estendia o jardim, comunicava<br \/>\ncom a encovada rua das Tecedeiras, quase em frente \u00e0 Capela das M\u00f4nicas.<br \/>\nE Gon\u00e7alo, sem pressa, descia &#8211; quando, atrav\u00e9s da persiana<br \/>\nrala, sentiu dentro do Mirante um sussurro, um cochichar perturbado. Sorrindo,<br \/>\npensou que alguma das criadas da casa se refugiara nesse Templozinho de Amor<br \/>\ncom um dos sargentos terr\u00edveis de Cavalaria,,, Mas, n\u00e3o! imposs\u00edvel!<br \/>\nPois se, momentos antes, Gracinha ro\u00e7ara aquela janela e pisara aquela<br \/>\nescada, no seu caminho para as M\u00f4nicas! E ent\u00e3o outra id\u00e9ia<br \/>\no varou como uma espada &#8211; e t\u00e3o dolorosa que recuou com terror da beira<br \/>\ndo Mirante donde ela perversamente o assaltara. J\u00e1 por\u00e9m uma<br \/>\ndesesperada curiosidade o agarrara, o empurrava &#8211; e colou a face \u00e0<br \/>\npersiana com a cautela de um espi\u00e3o. O Mirante reca\u00edra em sil\u00eancio<br \/>\n&#8211; Gon\u00e7alo temia que o tra\u00edssem as pancadas do seu cora\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nSanto Deus! De novo o murm\u00fario recome\u00e7ara, mais apressado, mais<br \/>\nturbado. Algu\u00e9m suplicava, balbuciava: &#8211; &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o,<br \/>\nque loucura!&#8221; &#8211; Algu\u00e9m urgia, impaciente e ardente: &#8211; &#8220;Sim,<br \/>\nmeu amor! sim, meu amor!&#8221; E a ambos os reconheceu &#8211; t\u00e3o claramente<br \/>\ncomo se a persiana se erguesse e por ela entrasse toda a vasta claridade do<br \/>\njardim. Era Gracinha! Era o Cavaleiro!<\/p>\n<p>Colhido por uma imensa vergonha, no atarantado pavor de que o surpreendessem<br \/>\njunto do Mirante e da torpeza escondida &#8211; enfiou pela rua das d\u00e1lias,<br \/>\nencolhido, com os sapatos leves no saibro mole, costeou o repuxo por sob a<br \/>\nramaria dos arbustos, remergulhou na escurid\u00e3o dos loureiros, deslizou<br \/>\nsorrateiramente por tr\u00e1s da estufa &#8211; penetrou no sossego do Palacete.<br \/>\nMas o murm\u00fario do Mirante ainda o envolvia, mais desfalecido, mais<br \/>\nrendido &#8211; &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o, que loucura!&#8230; Sim, sim, meu amor!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Abalou atrav\u00e9s das salas desertas como uma sombra acossada; escorregou<br \/>\nabafadamente pela escadaria de pedra, varou o port\u00e3o numa carreira,<br \/>\nespreitando, com medo do Joaquim da Porta. No largo parou, diante da grade<br \/>\ndo rel\u00f3gio do sol. Mas o sussurro do Mirante errava por todo o largo<br \/>\ncomo um vento enroscado, raspando as lajes, batendo as barbas dos Santos sobre<br \/>\no portal da Igreja de S. Mateus, redemoinhando nos telhados musgosos da Cordoaria&#8230;-<br \/>\n&#8220;N\u00e3o, n\u00e3o, que loucura! Sim, sim! meu amor!&#8221; Ent\u00e3o<br \/>\nGon\u00e7alo sentiu a ansiedade desesperada de escapar para longe, para<br \/>\nimensamente longe do largo, do Palacete, da cidade, de toda aquela vergonha<br \/>\nque o trespassava. Mas uma carruagem?&#8230; Pensou na alquilaria do Maciel, a<br \/>\nmais retirada, para al\u00e9m das \u00faltimas casas, na estrada do Semin\u00e1rio.<br \/>\nE cosido com os muros baixos dessas ruas pobres, correu, mandou engatar uma<br \/>\ncaleche fechada.<\/p>\n<p>Enquanto esperava \u00e0 porta, num banco, passou pela estrada uma lenta<br \/>\ncarro\u00e7a com m\u00f3veis, panelas de cozinha, um grande colch\u00e3o<br \/>\nonde se alastrava uma n\u00f3doa. Bruscamente Gon\u00e7alo recordou o<br \/>\ndivan que guarnecia o Mirante. Era enorme, de mogno, todo coberto de riscadinho,<br \/>\ncom molas lassas que rangiam. E de repente o murm&amp;uacuacute;rio recome\u00e7ou,<br \/>\ncresceu, rolando com fragor de trov\u00e3o por sobre os casebres vizinhos,<br \/>\npor sobre a cerca do Semin\u00e1rio, por sobre Oliveira espantada: &#8211; &#8220;N\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o, que loucura! Sim, sim, meu amor!&#8221;<\/p>\n<p>Com um salto, Gon\u00e7alo gritou para dentro, para a cavalari\u00e7a<br \/>\nescura:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, que inferno! n\u00e3o acaba, essa carruagem?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 a largar, meu Fidalgo.<\/p>\n<p>No rel\u00f3gio da Piedade sete horas batiam &#8211; quando ele se atirou para<br \/>\na caleche, e fechou os stores perros, e se enterrou no fundo, bem sumido,<br \/>\nesmagado, com a sensa\u00e7\u00e3o que o Mundo tremera, e as mais fortes<br \/>\nalmas se abatiam, e a sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando dentro<br \/>\num mont\u00e3o ignorado de lixo e de saias sujas.<\/p>\n<h3><a name=\"9\"><\/a>CAP\u00cdTULO IX<\/h3>\n<p>\u00c0 porta da cozinha, sacudindo um sobrescrito j\u00e1 amarrotado,<br \/>\nGon\u00e7alo ralhava com a Rosa cozinheira:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Rosa! pois tanto lhe recomendei que n\u00e3o escrevesse \u00e0 mana<br \/>\nGra\u00e7a?&#8230; Que teimosa! Ent\u00e3o n\u00e3o arranj\u00e1vamos<br \/>\na pequena, sem essas lam\u00farias para Oliveira? Gra\u00e7as a Deus,<br \/>\na Torre \u00e9 larga bastante para mais uma criancinha!<\/p>\n<p>\u00c9 que morrera a Cr\u00edspola &#8211; a desgra\u00e7ada vi\u00fava,<br \/>\nvizinha da Torre, que com um rancho mi\u00fado de dois pequenos, tr\u00eas<br \/>\nraparigas, definhava no catre desde a P\u00e1scoa. E agora Gon\u00e7alo,<br \/>\nque mantivera o casebre em fartura, andava acomodando as pobres crian\u00e7as<br \/>\n&#8211; j\u00e1 por cuidado dele muito asseadamente vestidas de luto. A rapariga<br \/>\nmais velha (tamb\u00e9m Cr\u00edspola), sempre encafuada na cozinha da<br \/>\nTorre, passava regularmente a &#8220;ajudante da Rosa&#8221;, com soldada. Um<br \/>\ndos rapazes, de doze anos, espigado e esperto, tamb\u00e9m Gon\u00e7alo<br \/>\no empregava na Torre como andarilho, para os recados, com fardeta de bot\u00f5es<br \/>\namarelos. O outro, mole e ranhoso, mas com o jeito e o amor de carpinteirar,<br \/>\nj\u00e1 Gon\u00e7alo, sob o patroc\u00ednio da tia Louredo, o colocara<br \/>\nem Lisboa, na Oficina de S. Jos\u00e9. Duma das outras raparigas se encarregava<br \/>\na m\u00e3e de Manuel Duarte, amor\u00e1vel senhora que habitava uma quinta<br \/>\nformosa junto a Treixedo, e adorava Gon\u00e7alo de quem se considerava<br \/>\n&#8220;vassala&#8221;. Mas para a mais novinha e a mais fraquinha n\u00e3o<br \/>\nse arranjava amparo s\u00f3lido. A Rosa lembrara ent\u00e3o &#8211; &#8220;que<br \/>\ncertamente a Sra. D. Maria da Gra\u00e7a recolheria a criaturinha&#8230;&#8221;<br \/>\nGon\u00e7alo rosnara com secura: &#8211; &#8220;Oh! por uma c\u00f4dea mais de<br \/>\np\u00e3o n\u00e3o se necessita incomodar a cidade de Oliveira!&#8221; Rosa,<br \/>\npor\u00e9m, enlevada na obra, desejando para pequerrucha t\u00e3o franzina<br \/>\ne loira o agasalho duma senhora, escrevera a Gracinha, pela esmerada letra<br \/>\ndo Bento, uma verbosa carta com o pedido, e toda a hist\u00f3ria lamentosa<br \/>\nda Cr\u00edspola, e louvores devotos \u00e0 caridade do Sr. Doutor. E<br \/>\nera a resposta de Gracinha, demorada mas enternecida, com a recomenda\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8220;de lhe mandarem logo a pobre crian\u00e7a&#8221; &#8211; que impacientava<br \/>\no Fidalgo.<\/p>\n<p>Porque, desde a tarde abomin\u00e1vel do Mirante, estranhamente se apoderara<br \/>\ndele uma repugn\u00e2ncia quase pudica em comunicar com os Cunhais! Era como<br \/>\nse esse Mirante e a torpeza abrigada dentro das suas paredes cor-de-rosa empestassem<br \/>\no jardim, o Palacete, o largo d&#8217;El-Rei, toda a cidade de Oliveira, e ele agora,<br \/>\npor asseio moral, recuasse ante essa regi\u00e3o empestada onde o seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o seu orgulho sufocavam&#8230; Logo depois da sua fuga recebera do bom Barrolo<br \/>\numa carta espantada: &#8211; &#8220;Que telha foi essa? Por que n\u00e3o esperaste?<br \/>\nEu, quando voltei \u00e0 noite da quinta do Marges, at\u00e9 fiquei com<br \/>\ncuidado. E n\u00e3o imaginas como a Gracinha anda nervosa! Soubemos da partida,<br \/>\npor acaso, por um cocheiro do Maciel. J\u00e1 hoje comemos os p\u00eassegos,<br \/>\nmas n\u00e3o compreendemos!&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo respondeu secamente num bilhete: &#8220;Neg\u00f3cios&#8221;.<br \/>\nDepois recordou que deixara na gaveta do seu quarto o manuscrito da Novela;<br \/>\ne mandou um mo\u00e7o da quinta, de madrugada, com um recado quase secreto<br \/>\nao Padre Soeira, &#8220;para que entregasse a pasta ao portador, bem embrulhada,<br \/>\nsem contar aos senhores&#8230;&#8221; Entre a Torre e os Cunhais s\u00f3 desejava<br \/>\nsepara\u00e7\u00e3o e sil\u00eancio.<\/p>\n<p>E nos encerrados dias que passou na Torre (sem se arriscar a Vila-Clara,<br \/>\nno terror de que a vergonha do seu nome j\u00e1 andasse rosnada pelo estanco<br \/>\ndo Sim\u00f5es ou pelo armaz\u00e9m do Ramos) n\u00e3o cessou de vibrar<br \/>\nnuma c\u00f3lera espalhada que a todos varava&#8230; C\u00f3lera contra a<br \/>\nirm\u00e3 que, calcando pudor, altivez de ra\u00e7a, receio dos esc\u00e1rnios<br \/>\nde Oliveira, t\u00e3o f\u00e1cil e estouvadamente como se calcam as flores<br \/>\ndesbotadas de um tapete, correra ao Mirante, ao macho da bigodeira, apenas<br \/>\nele lhe acenara com o len\u00e7o almiscarado! C\u00f3lera contra o Barrolo,<br \/>\no bochechudo bacoco, que empregava os seus bacocos dias celebrando o Cavaleiro,<br \/>\narrastando o Cavaleiro para o largo d&#8217;El-Rei, escolhendo na adega os vinhos<br \/>\nmais finos para que o Cavaleiro aquecesse o sangue, ajeitando as almofadas<br \/>\nde todos os canap\u00e9s para que o Cavaleiro saboreasse estiradamente o<br \/>\nseu charuto e a gra\u00e7a presente de Gracinha! Enfim c\u00f3lera contra<br \/>\nsi, que, pela baixa cobi\u00e7a de uma cadeira em S. Bento, abatera a \u00fanica<br \/>\nmuralha segura entre a irm\u00e3 e o homem da marrafa luzente &#8211; que era<br \/>\na sua inimizade, aquela escarpada inimizade, sempre, desde Coimbra, t\u00e3o<br \/>\nrijamente refor\u00e7ada e recaiada!&#8230; Ah! todos tr\u00eas horrendamente<br \/>\nculpados!<\/p>\n<p>Depois, uma tarde, enfastiado da solid\u00e3o, ousou um passeio por Vila-Clara.<br \/>\nE reconheceu que na Assembl\u00e9ia, no estanco do Sim\u00f5es, na loja<br \/>\ndo Ramos, os amores de Gracinha eram certamente t\u00e3o ignorados como<br \/>\nse passassem nas profundidades da Tart\u00e1ria. Imediatamente a sua alma<br \/>\ndoce, agora sossegada, se abandonou \u00e0 do\u00e7ura de tecer desculpas<br \/>\nsutis para todos os culpados daquela queda triste&#8230; Gracinha, coitada, sem<br \/>\nfilhos, com t\u00e3o molengo e insosso marido, alheia a todos os interesses<br \/>\nda intelig\u00eancia, indolente mesmo para uma costura ou bordado cedera,<br \/>\nque mulher n\u00e3o cederia? \u00e0 cr\u00e9dula e primitiva paix\u00e3o<br \/>\nque lhe brotara na alma, nela se enraizara, lhe dera as suas \u00fanicas<br \/>\nalegrias do mundo e (influ\u00eancia ainda mais poderosa!) lhe arrancara<br \/>\nas suas \u00fanicas l\u00e1grimas! O Barrolo, coitado, era o Bacoco &#8211;<br \/>\ne como o &#8220;pilriteiro&#8221; da cantiga, incapaz de mais nobres frutos,<br \/>\ns\u00f3 produzia os &#8220;pilritos&#8221; da sua Bacoquice. E ele, coitado<br \/>\ndele, pobre, ignorado, irresistivelmente se rendera \u00e0 fatal Lei de<br \/>\nAcrescentamento, que o levara, como a todos leva na \u00e2nsia de fama e<br \/>\nfortuna, a furar precipitadamente pela porta casual que se abre, sem reparar<br \/>\nna estrumeira que atravanca os umbrais&#8230; Ah realmente todos bem pouco culpados<br \/>\ndiante de Deus que nos criou t\u00e3o vari\u00e1veis, t\u00e3o fr\u00e1geis,<br \/>\nt\u00e3o dependentes de for\u00e7as por n\u00f3s ainda menos governadas<br \/>\ndo que o Vento ou do que o Sol!<\/p>\n<p>N\u00e3o, irremissivelmente culpado &#8211; s\u00f3 o outro, o malandro da<br \/>\ngrenha ondeada! Esse, em toda a sua conduta com Gracinha, desde estudante,<br \/>\nmostrara sempre um ego\u00edsmo atrevido, s\u00f3 pun\u00edvel como<br \/>\npuniam os antigos Ramires, com a morte depois dos tormentos, e a carca\u00e7a<br \/>\nposta aos corvos. Enquanto lhe agradou, na ociosidade dos longos estios, um<br \/>\nnamoro buc\u00f3lico sob os arvoredos da Torre &#8211; namorara. Quando considerou<br \/>\nque uma mulher e filhos lhe atravancariam a vida ligeira &#8211; tra\u00edra.<br \/>\nLogo que a antiga bem-amada pertenceu a outro homem &#8211; recome\u00e7ara o<br \/>\ncerco l\u00e2nguido para colher, sem os encargos da paternidade, as emo\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo sentimento. E apenas esse marido lhe entreabre a sua porta &#8211; n\u00e3o<br \/>\nse demora, fende brutalmente sobre a presa! Ah como o av\u00f4 Tructesindo<br \/>\ntrataria vil\u00e3o de tal vilania! Certamente o assava numa rugidora fogueira<br \/>\ndiante das barbac\u00e3s &#8211; ou, nas masmorras da Alc\u00e1\u00e7ova,<br \/>\nlhe entupia as goelas falsas com bom chumbo derretido&#8230;<\/p>\n<p>Pois ele, neto de Tructesindo, nem sequer podia, quando encontrasse o Cavaleiro<br \/>\nnas ruas de Oliveira, carregar o chap\u00e9u sobre a testa e passar! A menor<br \/>\ndiminui\u00e7\u00e3o nessa intimidade t\u00e3o desastradamente reatada<br \/>\n&#8211; seria como a revela\u00e7\u00e3o da torpeza ainda abafada nas paredes<br \/>\ndo Mirante! Toda Oliveira cochicharia, riria. &#8211; &#8220;Olha o Fidalgo da Torre!<br \/>\nMete o Cavaleiro nos Cunhais com a irm\u00e3, e logo, passadas semanas,<br \/>\nrompe de novo com o Cavaleiro! Houve esc\u00e2ndalo, e gordo!&#8221; &#8211; Que<br \/>\ndel\u00edcia para as Lousadas! N\u00e3o, ao contr\u00e1rio! agora devia<br \/>\nostentar pelo Cavaleiro uma fraternidade t\u00e3o larga e t\u00e3o ruidosa<br \/>\n&#8211; que, pela sua largueza e o seu ru\u00eddo, inteiramente tapasse e abafasse<br \/>\no sujo enredo que por tr\u00e1s latejava. Fingimento torturante &#8211; e imposto<br \/>\npela honra do nome! O sujo enredo bem guardado entre os mais densos arvoredos<br \/>\ndo jardim, na mais cerrada penumbra do Mirante! &#8211; e por fora, ao sol, nas<br \/>\npra\u00e7as de Oliveira, ele sempre com o bra\u00e7o carinhosamente enla\u00e7ado<br \/>\nno bra\u00e7o do Cavaleiro!<\/p>\n<p>Os dias rolavam &#8211; e no esp\u00edrito de Gon\u00e7alo n\u00e3o se estabelecia<br \/>\nserenidade. E sobretudo o amargurava sentir que era for\u00e7ado a essa<br \/>\nintimidade vistosa com o Cavaleiro &#8211; tanto pelo cuidado do seu nome, como<br \/>\npela conveni\u00eancia da sua Elei\u00e7\u00e3o. Toda a sua altivez por<br \/>\nvezes se revoltava: &#8211; &#8220;Que me importa a Elei\u00e7\u00e3o! Que valor<br \/>\ntem uma encardida cadeira em S. Bento? Mas logo a seca Realidade o emudecia.<br \/>\nA Elei\u00e7\u00e3o era a \u00fanica fenda por onde ele lograria escapar<br \/>\ndo seu buraco rural; e, se rompesse com o Cavaleiro, esse vil\u00e3o, vezeiro<br \/>\na vilanias, imediatamente, com o apoio da horda intrigante de Lisboa, improvisaria<br \/>\noutro Candidato por Vila-Clara&#8230; Desgra\u00e7adamente ele era um desses<br \/>\nseres vergados que dependem. E a triste depend\u00eancia de onde provinha?<br \/>\nDa pobreza &#8211; dessa escassa renda de duas quintas, abastan\u00e7a para um<br \/>\nsimples, mas pobreza para ele, com a sua educa\u00e7\u00e3o, os seus gostos,<br \/>\nos seus deveres de fidalguia, o seu esp\u00edrito da sociabilidade.<\/p>\n<p>E estes pensamentos lenta e capciosamente o empurraram a outro pensamento<br \/>\n&#8211; \u00e0 D. Ana Lucena, aos seus duzentos contos&#8230; At\u00e9 que uma manh\u00e3<br \/>\nencarou corajosamente uma possibilidade perturbadora: &#8211; casar com a D. Ana!<br \/>\n&#8211; Por que n\u00e3o? Ela claramente lhe mostrara inclina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nquase consentimento&#8230; Por que n\u00e3o casaria com a D. Ana?<\/p>\n<p>Sim! o pai carniceiro, o irm\u00e3o assassino&#8230; Mas tamb\u00e9m ele,<br \/>\nentre tantos av\u00f3s at\u00e9 os Suevos ferozes, descortinaria algum<br \/>\nav\u00f4 carniceiro; e a ocupa\u00e7\u00e3o dos Ramires, atrav\u00e9s<br \/>\ndos s\u00e9culos her\u00f3icos, consistira realmente em assassinar. De<br \/>\nresto o carniceiro e o assassino, ambos mortos, sombras remotas, pertenciam<br \/>\na uma Lenda que se apagava. D. Ana, pelo casamento, subira da Popula\u00e7a<br \/>\npara a Burguesia. Ele n\u00e3o a encontrava no talho do pai, nem no valhacouto<br \/>\ndo irm\u00e3o &#8211; mas na quinta da Feitosa, j\u00e1 Rica-dona, com procurador,<br \/>\ncom capel\u00e3o, com lacaios, como uma antiga Ramires. Ah! sinceramente,<br \/>\ntoda a hesita\u00e7\u00e3o era pueril &#8211; desde que esses duzentos contos,<br \/>\nde dinheiro muito limpo, de bom dinheiro rural, os trazia com o seu corpo,<br \/>\nmulher t\u00e3o formosa e s\u00e9ria. Com esse puro ouro, e o seu nome,<br \/>\ne o seu talento, n\u00e3o necessitaria para dominar na Pol\u00edtica a<br \/>\nrefalsada m\u00e3o do Cavaleiro&#8230; E depois que vida nobre e completa! A<br \/>\nsua velha Torre restitu\u00edda ao esplendor s\u00f3brio doutras eras;<br \/>\numa lavoura de luxo no hist\u00f3rico torr\u00e3o de Treixedo; as viagens<br \/>\nfecundas \u00e0s terras que educam!&#8230; E a mulher que fornecia estes regalos<br \/>\nn\u00e3o lhes amargava o gozo, como em tantos casamentos ricos, com a sua<br \/>\nfealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pele relentada&#8230; N\u00e3o! Depois<br \/>\ndo brilho social do dia n\u00e3o o esperava na alcova um mostrengo &#8211; mas<br \/>\nV\u00eanus.<\/p>\n<p>E assim, lentamente trabalhado por estas tenta\u00e7\u00f5es, mandou<br \/>\numa tarde um bilhete \u00e0 prima Maria, \u00e0 Feitoso, pedindo &#8211; para<br \/>\nse encontrarem, s\u00f3s, nalgum passeio dos arredores, porque desejava<br \/>\nter com ela uma conversazinha s\u00e9ria e \u00edntima&#8230;&#8221; Mas tr\u00eas<br \/>\nimensos dias se arrastaram &#8211; e n\u00e3o apareceu a almejada carta da Feitoso.<br \/>\nGon\u00e7alo concluiu que a prima Maria, t\u00e3o esperta, farejando a<br \/>\nnatureza da conversazinha e sem uma certeza para o alegrar, retardava, se<br \/>\nrecusava. Atravessou ent\u00e3o uma desolada semana, remoendo a melancolia<br \/>\nduma vida que sentia oca e toda feita de incertezas. O orgulho, um pudor complicado,<br \/>\nn\u00e3o lhe consentiam voltar a Oliveira, ao quarto donde implacavelmente<br \/>\navistaria, por sobre o arvoredo, a c\u00fapula do Mirante com o seu gordo<br \/>\nCupido: &#8211; e quase o arrepiava a id\u00e9ia de beijar a irm\u00e3 na face<br \/>\nque o outro babujara! Sobre a Elei\u00e7\u00e3o descera um sil\u00eancio<br \/>\nde ab\u00f3bada &#8211; e outra repugn\u00e2ncia, mais acerba, lhe vedava escrever<br \/>\nao Cavaleiro. Jo\u00e3o Gouveia gozava as suas f\u00e9rias na costa, de<br \/>\nsapatos brancos, apanhando conchinhas na praia. E Vila-Clara n\u00e3o se<br \/>\ntolerava nesse meado ardente de setembro &#8211; com o Tit\u00f3 no Alentejo onde<br \/>\no levara uma doen\u00e7a do velho morgado de Cidadelhe, o Manuel Duarte<br \/>\nna quinta da m\u00e3e dirigindo as vindimas, e a Assembl\u00e9ia deserta<br \/>\ne adormecida sob o inumer\u00e1vel sussurro das moscas&#8230;<\/p>\n<p>Para se ocupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto de Arte, retomou<br \/>\na sua Novela. Mas sem fervor, sem veia \u00e1gil. Agora era a sanhuda arrancada<br \/>\nde Tructesindo e dos seus Cavaleiros, correndo sobre o Bastardo de Bai\u00e3o.<br \/>\nLance dificultoso &#8211; reclamando fragor, um rebrilhante colorido medieval. E<br \/>\nele t\u00e3o mole e t\u00e3o apagado!&#8230; Felizmente, no seu Poemeto, o<br \/>\ntio Duarte recheara esse violento trecho de bem apinceladas paisagens, de<br \/>\ninteressantes rasgos de guerra.<\/p>\n<p>Logo na ribeira do Coice, Tructesindo encontrava cortada a machado a decr\u00e9pita<br \/>\nponte cujos rotos barrotes e tabu\u00f5es carcomidos entulhavam no fundo<br \/>\na corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo acauteladamente a desmantelara<br \/>\npara deter a cavalgada vingadora. Ent\u00e3o a pesada hoste de Santa Iren\u00e9ia<br \/>\navan\u00e7ou pela esguia ourela, ladeando os renques de choupos em demanda<br \/>\ndo vau do Espigal&#8230; Mas que tardan\u00e7a! Quando as derradeiras mulas<br \/>\nde carga choutaram na terra de al\u00e9m-ribeira j\u00e1 a tarde se ado\u00e7ava,<br \/>\ne nas po\u00e7as d&#8217;\u00e1gua, entre as poldras, o brilho esmorecia, umas<br \/>\nainda de ouro p\u00e1lido, outras apenas rosadas. Imediatamente Dom Garcia<br \/>\nViegas, o Sobedor, aconselhou que a mesnada se dividisse: &#8211; a peonagem e a<br \/>\ncarga avan\u00e7ando para Montemor, esgueirada e calada, para esquivar recontros;<br \/>\nos senhores de lan\u00e7a e os besteiros de cavalo arrancando em dura carreira<br \/>\npara colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do Sabedor; e a cavalgada,<br \/>\naligeirada das filas tardas de arqueiros e fundibul\u00e1rios, largou, soltas<br \/>\nas r\u00e9deas, atrav\u00e9s de terras ermas, depois por entre barrocais,<br \/>\nat\u00e9 aos Tr\u00eas-Caminhos, desolada ch\u00e3 onde se ergue solitariamente<br \/>\naquele carvalho velh\u00edssimo que outrora, antes de exorcizado por S.<br \/>\nFroalengo, abrigava no s\u00e1bado mais negro de janeiro, ao clar\u00e3o<br \/>\nde archotes enxofrados a Grande Ronda de todas as bruxas de Portugal. Junto<br \/>\ndo carvalho Tructesindo sopeou a arrancada; e, al\u00e7ado nos estribos,<br \/>\nfarejava as tr\u00eas sendas que se trifurcam e se encovam entre \u00e1speros,<br \/>\nl\u00f4bregos cerros de bravio e de tojo. Passara a\u00ed o Bastardo malvado?&#8230;<br \/>\nAh! por certo passara e toda a sua maldade &#8211; porque no respaldo duma fraga,<br \/>\njunto a tr\u00eas cabras magras retou\u00e7ando o mato, jazia, com os bra\u00e7os<br \/>\nabertos, um pobre pastorinho morto, varado por uma frecha! Para que o triste<br \/>\ncabreiro n\u00e3o soprasse novas da gente de Bai\u00e3o &#8211; uma bruta seta<br \/>\nlhe atravessara o peito escamado de fome, mal coberto de trapos. Mas por qual<br \/>\ndas sendas se embrenhara o malvado? Na terra solta, raspada pelo vento su\u00e3o<br \/>\nque rolava de entremontes, n\u00e3o apareciam pegadas revoltas de tropel<br \/>\nfugindo. E, em tal solid\u00e3o, nem cho\u00e7a ou palho\u00e7a donde<br \/>\nvil\u00e3o ou velha alapada espreitassem \u00e0 levada do bando&#8230; Ent\u00e3o,<br \/>\nao mando do Alferes Afonso Gomes, tr\u00eas almograves despediram pelos tr\u00eas<br \/>\ncaminhos \u00e0 descoberta &#8211; enquanto os Cavaleiros, sem desmontar, desafivelavam<br \/>\nos morri\u00f5es para limpar nas faces barbudas o suor que os alagava, ou<br \/>\nabeiravam os ginetes dum sumido fio d&#8217;\u00e1gua que \u00e0 orla da ch\u00e3<br \/>\nse arrastava entre ralo cani\u00e7al. Tructesindo n\u00e3o se arredou<br \/>\nde sob a ramaria do carvalho de S. Froalengo, im\u00f3vel sobre o murzelo<br \/>\nim\u00f3vel, todo cerrado no ferro da sua negra armadura, as m\u00e3os<br \/>\njuntas sobre a sela e o elmo pesadamente inclinado como em m\u00e1goa e<br \/>\nora\u00e7\u00e3o. E ao lado, com as coleiras eri\u00e7adas de pregos,<br \/>\nas sangrentas l\u00ednguas penduradas, arquejavam, estirados, os seu dois<br \/>\nmastins.<\/p>\n<p>J\u00e1 no entanto a espera se alongava, inquieta, enfadonha quando o almograve<br \/>\nque metera pela senda de Nascente reapareceu num rolo de poeira, atirando<br \/>\nlogo o alarde de longe, com a escuma alta. A hora escassa de carreira avistara<br \/>\nnum cabe\u00e7o uma hoste acampada, em arraial seguro, rodeado de estaca<br \/>\ne vala!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que pend\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; As treze arruelas.<\/p>\n<p>&#8211; Deus louvado! &#8211; gritou Tructesindo, que estremeceu como acordando. &#8211; E<br \/>\nD. Pedro de Castro, o Castel\u00e3o, que entrou com os Leoneses e vem pelas<br \/>\nsenhoras Infantas!<\/p>\n<p>Por esse caminho pois n\u00e3o se atrevera o Bastardo!&#8230; Mas j\u00e1<br \/>\npela senda de Poente recolhia outro almograve contando que entre cerros, num<br \/>\npinhal, topara um bando de bufarinheiros genoveses, retardados desde alva,<br \/>\nporque um deles esmorecera com mal de febres. E ent\u00e3o?&#8230; &#8211; Ent\u00e3o,<br \/>\npela borda do pinheiral apenas passara em todo o dia (no jurar dos genoveses)<br \/>\numa companhia de tru\u00f5es voltando da feira de Grajelos. S\u00f3 restava<br \/>\npois o trilho do meio, pedregoso e esbarrancado como o leito enxuto de uma<br \/>\ntorrente. E por ele, a um brado de Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas j\u00e1<br \/>\no crep\u00fasculo trist\u00edssimo descia &#8211; e sempre o caminho se estirava,<br \/>\nagreste, soturno, infind\u00e1vel, entre os cerros de urze e rocha, sem<br \/>\numa cabana, um muro, uma sebe, rasto de r\u00eas ou homem. Ao longe, mais<br \/>\nao longe, enfim, enxergaram a campina \u00e1rida, coberta de solid\u00e3o<br \/>\ne penumbra, dilatada na sua mudez at\u00e9 a um c\u00e9u remoto, onde<br \/>\nj\u00e1 se apagava uma derradeira tira de poente cor de cobre e cor de sangue.<br \/>\nEnt\u00e3o Tructesindo deteve a abalada, rente de espinheiros que se torciam<br \/>\nnas lufadas mais rijas do su\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Por Deus, senhores, que corremos em pressa v\u00e3 e sem esperan\u00e7a!&#8230;<br \/>\nQue pensais, Garcia Viegas?<\/p>\n<p>Todo o bando se apinhara; e uma fumarada subia dos ginetes arquejantes sob<br \/>\nas coberturas de malha. O Sabedor estendeu o bra\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; Senhores! O Bastardo, antes de n\u00f3s, galgou de escapada essa campina<br \/>\nal\u00e9m, e meteu a Vale-Murtinho para pernoitar na Honra de Agredel, que<br \/>\n\u00e9 bem afortalezada e parenta de Bai\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00f3s, pois, D. Garcia?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s, senhores e amigos, s\u00f3 nos resta tamb\u00e9m pernoitar.<br \/>\nVoltemos aos Tr\u00eas-Caminhos. E de l\u00e1, em boa aven\u00e7a, ao<br \/>\narraial do Sr. D. Pedro de Castro, a pedir agasalho.. A par de tamanho senhor<br \/>\nencontraremos mais fartamente que nos nossos alforjes o que todos, crist\u00e3os<br \/>\ne brutos, vamos necessitando, cevada, um naco de vianda, e de vinhos tr\u00eas<br \/>\ngolpes rijos&#8230;<\/p>\n<p>Todos bradaram com alvoro\u00e7o: &#8211; &#8216;Bem tra\u00e7ado! bem tra\u00e7ado&#8221;&#8230;<br \/>\n&#8211; E de novo, pelo barranco pedregoso, a cavalgada trotou pesadamente para<br \/>\nos Tr\u00eas-Caminhos &#8211; onde j\u00e1 dois corvos se encarni\u00e7avam<br \/>\nsobre o corpo do pastorinho morto.<\/p>\n<p>Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no cabe\u00e7o alto, alvejaram<br \/>\nas tendas do arraial, ao clar\u00e3o das fogueiras que por todo ele fumegavam.<br \/>\nO Adail de Santa Iren\u00e9ia arrancou da buzina tr\u00eas sons lentos<br \/>\nanunciando Filho-de-Algo. Logo de dentro da estacada outras buzinas soaram,<br \/>\nclaras e acolhedoras. Ent\u00e3o o Adail galopou at\u00e9 o valado, a<br \/>\nanunciar \u00e0s atalaias postadas nas barreiras, entre luzentes fogos de<br \/>\nalmenara, a mesnada amiga dos Ramires. Tructesindo parara no c\u00f3rrego<br \/>\nescuro, que o pinheiral cerrado mais escurecia movendo e gemendo no vento.<br \/>\nDois Cavaleiros, de sobreveste negra e capuz, logo correram pelo pendor do<br \/>\nouteiro &#8211; bradando que o Sr. D. Pedro de Castro esperava o nobre senhor de<br \/>\nSanta Iren\u00e9ia e muito se prazia para todo seu regalo e servi\u00e7o!<br \/>\nSilenciosamente Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e Leonel de<br \/>\nSamora e Mendo de Briteiros e outros parentes do solar, todos sem lan\u00e7a<br \/>\nou broquel, descal\u00e7ados os guantes, galgaram o cabe\u00e7o at\u00e9<br \/>\na estacada, cujas cancelas se escancararam, mostrando, na claridade incerta<br \/>\ndos fogar\u00e9us sombrios, magotes de pe\u00f5es &#8211; onde, por entre os<br \/>\nbacinetes de ferro, surgiam toucas amarelas de mancebas e gorros enguizalhados<br \/>\nde jograis. Apenas o velho assomou aos barrotes dois infan\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsacudindo a espada, bradaram:<\/p>\n<p>&#8211; Honra! honra! aos Ricos-homens de Portugal!<\/p>\n<p>As trompas misturavam o clangor r\u00edspido aos rufos lassos dos tambores.<br \/>\nE por entre a turba, que caladamente recuara em alas lentas, avan\u00e7ou,<br \/>\nprecedido por quatro Cavaleiros que erguiam archotes acesos, o velho D. Pedro<br \/>\nde Castro, o Castel\u00e3o, o homem das longas guerras e dos vastos senhorios.<br \/>\nUm corselete de anta com lavores de prata cingia o seu peito j\u00e1 curvado,<br \/>\ncomo consumido por tamanhas fadigas de pelejar e tamanhas cobi\u00e7as de<br \/>\nreinar. Sem elmo, sem armas, apoiava a m\u00e3o cabeluda de rijas veias<br \/>\na um bast\u00e3o de marfim. E os olhos encovados faiscavam, com af\u00e1vel<br \/>\ncuriosidade, na requeimada magreza da face, de nariz mais recurvo que o bico<br \/>\nde um falc\u00e3o, repuxada a um lado por um fundo gilvaz que se sumia na<br \/>\nbarba crespa, aguda e quase branca.<\/p>\n<p>Diante do senhor de Santa Iren\u00e9ia alargou vagarosamente os bra\u00e7os.<br \/>\nE com um grave riso que mais lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz<br \/>\nde rapina:<\/p>\n<p>&#8211; Viva Deus! Grande \u00e9 a noite que vos traz, primo e amigo! Que n\u00e3o<br \/>\na esperava eu de tanta honra, nem sequer de tanto gosto!&#8230;<\/p>\n<p>Ao rematar este duro Cap\u00edtulo, depois de tr\u00eas manh\u00e3s de<br \/>\ntrabalho, Gon\u00e7alo arrojou a pena com um suspiro de cansa\u00e7o.<br \/>\nAh! j\u00e1 lhe entrava a fartura dessa intermin\u00e1vel Novela, desenrolada<br \/>\ncomo um novelo solto &#8211; sem que ele lhe pudesse encurtar os fios, t\u00e3o<br \/>\ncerradamente os emaranhara no seu denso Poema o tio Duarte que ele seguia<br \/>\ngemendo! E depois nem o consolava a certeza de construir obra forte. Esses<br \/>\nTructesindos, esses Bastardos, esses Castros, esses Sabedores eram realmente<br \/>\nvar\u00f5es Afonsinos, de s\u00f3lida subst\u00e2ncia hist\u00f3rica?&#8230;<br \/>\nTalvez apenas ocos t\u00edteres, mal engon\u00e7ados em erradas armaduras,<br \/>\npovoando inver\u00eddicos arraiais e castelos, sem um gesto ou dizer que<br \/>\ndatassem das velhas idades!<\/p>\n<p>E ao outro dia n\u00e3o reuniu em todo o seu ser coragem para retomar aquela<br \/>\ns\u00f4frega correria dos de Santa Iren\u00e9ia sobre o bando escapadi\u00e7o<br \/>\nde Bai\u00e3o. De resto j\u00e1 remetera tr\u00eas Cap\u00edtulos da<br \/>\nNovela &#8211; j\u00e1 calmara as \u00e2nsias do Castanheiro. Mas a ociosidade<br \/>\nmais lhe pesou nessa semana, arrastada pelos canap\u00e9s ou por entre os<br \/>\nbuxos do jardim, fumando e tristemente sentindo que a Vida lhe fugia em fumo.<br \/>\nPara o enervar acrescia um aborrecimento de dinheiro &#8211; uma letra de seiscentos<br \/>\nmil r\u00e9is, do derradeiro ano de Coimbra, sempre reformada, sempre avolumada,<br \/>\ne que agora o emprestador, um certo Leite, de Oliveira, reclamava com dureza.<br \/>\nO seu alfaiate de Lisboa tamb\u00e9m o importunava com uma conta pavorosa,<br \/>\natulhando duas laudas. Mas sobretudo o desolava a solid\u00e3o da Torre.<br \/>\nTodos os alegres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas. A Elei\u00e7\u00e3o<br \/>\nencalhada como uma barca no lodo. A irm\u00e3 decerto com o outro no Mirante.<br \/>\nAt\u00e9 a prima Maria, desatendendo ingratamente o seu t\u00edmido pedido<br \/>\nde uma &#8220;conversazinha&#8221;. E ele no seu quente casar\u00e3o, sem<br \/>\nenergia, imobilizado numa in\u00e9rcia crescente, como se cordas o travassem,<br \/>\ncada dia mais apertadas &#8211; e de homem se volvesse em fardo.<\/p>\n<p>Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio, sem mesmo parolar com o Bento,<br \/>\nacabava de se vestir para montar a cavalo, espairecer num galope pelos caminhos<br \/>\nde Valverde &#8211; quando o pequeno da Cr\u00edspola j\u00e1 estabelecido na<br \/>\nTorre como pajem, de fardeta de bot\u00f5es amarelos) bateu esbaforidamente<br \/>\n\u00e0 porta. &#8211; Era uma senhora que parara ao port\u00e3o, dentro duma<br \/>\ncarruagem, pedia ao Fidalgo para descer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o disse o nome&#8217;?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor. E uma senhora magra, puxada a dois cavalos, com redes&#8230;<\/p>\n<p>A prima Maria! Com que alvoro\u00e7o correu, agarrando no cabide do corredor<br \/>\num velho chap\u00e9u de palha! E embaixo foi como se contemplasse a Deusa<br \/>\nda Fortuna na sua roda ligeira.<\/p>\n<p>&#8211; Oh prima Maria, que surpresa!&#8230; Que felicidade!<\/p>\n<p>Debru\u00e7ada da portinhola da carruagem (a caleche azul da Feitosa),<br \/>\nD. Maria Mendon\u00e7a, com um chap\u00e9u novo enramalhetado de lilases,<br \/>\ndesculpou atrapalhadamente e rindo o seu sil\u00eancio. Recebera a carta<br \/>\ndo primo muito atrasada&#8230; Sempre o fatal carteiro, tr\u00f4pego e b\u00eabedo&#8230;<br \/>\nDepois uns dias muito atarefados em Oliveira com a Anica, que preparava para<br \/>\no inverno a casa da rua das Velas.<\/p>\n<p>&#8211; E finalmente, como devia uma visita em Vila-Clara \u00e0 pobre Ven\u00e2ncia<br \/>\nRios, que tem estado doente, achei mais simples e mais completo parar na Torre&#8230;<br \/>\nE ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo sorria, embara\u00e7ado:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, nada de grave, mas&#8230; \u00c9 que desejava conversar consigo&#8230;<br \/>\nPor que n\u00e3o entra?<\/p>\n<p>Abrira a portinhola. Ela preferia passear na estrada. E ambos se encaminharam<br \/>\npara o velho banco de pedra que os \u00e1lamos abrigavam em frente ao port\u00e3o<br \/>\nda Torre. Gon\u00e7alo sacudiu com o len\u00e7o a ponta do banco.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, prima Maria, eu desejava conversar&#8230; Mas \u00e9 dif\u00edcil,<br \/>\nt\u00e3o dif\u00edcil!&#8230; Talvez o melhor seja atacar a quest\u00e3o<br \/>\nbrutalmente.<\/p>\n<p>&#8211; Ataque.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o l\u00e1 vai!&#8230; A prima acha que eu perco o meu tempo se<br \/>\nme dedicar \u00e0 sua amiga D. Ana?<\/p>\n<p>Pousada de leve \u00e0 borda do banco, enrolando atentamente a seda preta<br \/>\ndo guarda-solinho, Maria Mendon\u00e7a tardou, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, acho que o primo n\u00e3o perde o seu tempo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! acha?<\/p>\n<p>Ela considerava Gon\u00e7alo, gozando a sua perturba\u00e7\u00e3o e<br \/>\nansiedade.<\/p>\n<p>&#8211; Jesus, prima!&#8230; Diga alguma coisa mais!<\/p>\n<p>&#8211; Mas que quer que lhe diga mais? J\u00e1 lhe declarei em Oliveira. Ainda<br \/>\nsou muito nova para andar com recadinhos de sentimento. Mas acho que a Anica<br \/>\n\u00e9 bonita, \u00e9 rica, \u00e9 vi\u00fava&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo arrancou do banco, erguendo os bra\u00e7os, em desola\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE, como D. Maria tamb\u00e9m se erguera, ambos seguiram pela tira de relva<br \/>\nque orla os \u00e1lamos. Ele quase gemia, desconsolado:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, bonita, vi\u00fava, rica&#8230; Para conhecer esses grandes segredos<br \/>\nn\u00e3o a incomodava eu, prima!&#8230; Que diabo! seja boa rapariga, seja franca!<br \/>\nA prima sabe, decerto j\u00e1 ambas conversaram&#8230; Seja franca. Ela tem<br \/>\npor mim alguma simpatia?<\/p>\n<p>D. Maria parou, murmurou, riscando com a ponta do guarda-solinho o trilho<br \/>\namarelado da relva:<\/p>\n<p>&#8211; Pois est\u00e1 claro que tem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! Ent\u00e3o, se daqui a um tempo, passados estes primeiros meses<br \/>\nde luto, eu me declarasse, me&#8230;<\/p>\n<p>Ela dardejou a Gon\u00e7alo os espertos olhos:<\/p>\n<p>&#8211; Santo Deus, como o primo por a\u00ed vai, a galope&#8230; Ent\u00e3o \u00e9<br \/>\numa paix\u00e3o?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo tirou o seu velho chap\u00e9u de palha, passou lentamente<br \/>\nos dedos pelos cabelos. E num imenso e triste desabafo:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, prima! \u00c9 sobretudo a necessidade de me acomodar na vida! Pois<br \/>\nn\u00e3o lhe parece?<\/p>\n<p>&#8211; Tanto me parece que lhe indiquei o bom pouso&#8230; E agora adeus, passa das<br \/>\ncinco horas. N\u00e3o me quero demorar por causa dos criados.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo protestou, suplicou:<\/p>\n<p>&#8211; Mais um bocadinho!&#8230; E t\u00e3o cedo! S\u00f3 outra coisa, com franqueza.<br \/>\nEla \u00e9 boa rapariga?<\/p>\n<p>D. Maria voltara, ao cabo do renque de \u00e1lamos, recolhendo \u00e0<br \/>\ncaleche:<\/p>\n<p>&#8211; Uma pontinha de g\u00eanio, para animar a exist\u00eancia. Mas muito<br \/>\nboa rapariga&#8230; E uma dona de casa admir\u00e1vel! O primo n\u00e3o imagina<br \/>\ncomo anda a Feitosa. A ordem, o asseio, a regularidade, a disciplina&#8230; Ela<br \/>\nolha por tudo, at\u00e9 pela adega, at\u00e9 pela cocheira!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo esfregou radiantemente as m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8211; Pois se daqui a um ano se realizar o grande acontecimento hei de gritar<br \/>\npor toda a parte que foi a prima Maria que salvou a Casa de Ramires!<\/p>\n<p>&#8211; Por isso eu trabalho, para servir o bras\u00e3o e o nome! &#8211; exclamou<br \/>\nela, saltando ligeiramente para a caleche, como se fugisse, arremessada aquela<br \/>\nclara confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O trintan\u00e1rio trepara \u00e0 almofada. E enquanto os cavalos folgados<br \/>\nlargavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe quem encontrei em Vila-Clara? O Tit\u00f3!<\/p>\n<p>&#8211; O Tit\u00f3?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Chegou do Alentejo, vem jantar consigo. Eu n\u00e3o o trouxe na carruagem<br \/>\npor dec\u00eancia, para o n\u00e3o comprometer&#8230;<\/p>\n<p>E a caleche rolou &#8211; entre os risos e os doces acenos com que ambos se alagavam,<br \/>\nnaquela nova concord\u00e2ncia mais calorosa duma conspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nsentimental.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo largou logo alegremente para Vila-Clara, ao encontro do Tit\u00f3.<br \/>\nE j\u00e1 o alvoro\u00e7ava a id\u00e9ia de colher do Tit\u00f3, \u00edntimo<br \/>\nda Feitosa, informa\u00e7\u00f5es sobre a D. Ana, o seu g\u00eanio, os<br \/>\nseus modos. A prima Maria, por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para<br \/>\nproveito dos Mendon\u00e7as!), idealizava a noiva. Mas o Tit\u00f3, o<br \/>\nhomem mais ver\u00eddico do Reino, amando a Verdade com a antiga devo\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Epaminondas, apresentaria D. Ana sem um enfeite nem um desenfeite. E o<br \/>\nTit\u00f3&#8230; Ah! sob o seu vozeir\u00e3o troante, a sua indol\u00eancia<br \/>\nbovina, o Tit\u00f3 possu\u00eda um esp\u00edrito muito atento, muito<br \/>\npenetrante.<\/p>\n<p>Logo \u00e0 Portela os dois amigos se encontraram. E, apesar de separa\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o curta, o abra\u00e7o foi estrondoso.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 s\u00f5 Gon\u00e7al\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Titozinho querido! tens feito c\u00e1 uma falta enorme!&#8230; E<br \/>\nteu irm\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; O mano melhor, mas arrasado. Muito cartap\u00e1cio e muita f\u00eamea<br \/>\npara velho de sessenta anos. E ele l\u00e1 o avisara: &#8211; &#8220;Mano Jo\u00e3o,<br \/>\nmano Jo\u00e3o! olhe que assim sempre agarrado aos pap\u00e9is velhos<br \/>\ne \u00e0s cachopas novas, o mano rebenta!&#8221; &#8211; E por c\u00e1? Essa<br \/>\nelei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; A elei\u00e7\u00e3o agora para outubro, nos come\u00e7os de outubro&#8230;<br \/>\nDe resto, sensaboria universal. Gouveia na costa, Manuel Duarte na vindima&#8230;<br \/>\nEu secadote, murchote, sem veia, at\u00e9 sem apetite.<\/p>\n<p>&#8211; Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei, j\u00e1 me disse a prima Maria, que parou um bocado na Torre&#8230;<br \/>\nEla est\u00e1 na Feitosa com a D. Ana.<\/p>\n<p>Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na Feitosa,<br \/>\ncom a tenta\u00e7\u00e3o de desabafar, logo ali na estrada, sobre o inesperado<br \/>\nromance que desabrochara. Mas n\u00e3o ousou! Era um angustiado acanhamento,<br \/>\ncomo a vergonha de cobi\u00e7ar assim todos os restos do pobre Lucena &#8211;<br \/>\no C\u00edrculo e a vi\u00fava.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, conversando do Alentejo e do mano Jo\u00e3o (que contara<br \/>\nmuitas antigualhas ma\u00e7adoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram<br \/>\nda Portela \u00e0 Torre, com ten\u00e7\u00e3o de estirar o passeio at\u00e9<br \/>\naos Bravais. Mas, na Torre, Gon\u00e7alo desejou avisar a Rosa dos dois<br \/>\nconvivas inesperados, senhores de t\u00e3o poderoso garfo. Entraram pela<br \/>\nporta do pomar onde um fio lento d&#8217;\u00e1gua se atardava nos regueiros.<br \/>\nAos brados galhofeiros do Fidalgo a Rosa acudiu, limpando as m\u00e3os ao<br \/>\navental. O qu\u00ea! dois convidados! Mesmo quatro, e mais valentes, que<br \/>\ngra\u00e7as a Deus nosso Senhor o jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprara<br \/>\na uma mulher da Costa um cesto de sardinhas, gra\u00fadas e gordas que regalavam!&#8230;<br \/>\nO Tit\u00f3 reclamou logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os<br \/>\ndois amigos atravessavam o p\u00e1tio &#8211; quando Gon\u00e7alo reparou no<br \/>\nBento, escarranchado no banco da latada, diante duma tigela, e areando com<br \/>\nentusiasmo um cast\u00e3o de prata lavrada, que emergia de dentro duma toalha<br \/>\nenrolada como duma bainha.<\/p>\n<p>&#8211; Que cast\u00e3o \u00e9 esse, Bento? assim embrulhado?<\/p>\n<p>O Bento lentamente sacou da toalha torcida um chicote, escuro e comprido,<br \/>\ncom tr\u00eas arestas afiadas como as dum florete.<\/p>\n<p>&#8211; Nem o Sr. Dr. sabia! Estava no s\u00f3t\u00e3o. Agora de tarde andava<br \/>\nl\u00e1 a escarafunchar por causa duma ninhada de gatos, e detr\u00e1s<br \/>\ndum ba\u00fa dou com umas esporas de prateleira e com este arrocho&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo estudou o maci\u00e7o cast\u00e3o de prata, sacudiu a<br \/>\nfina vara que zinia:<\/p>\n<p>&#8211; Espl\u00eandido chicote&#8230; \u00d3 Tit\u00f3, bem?&#8230; Afiado como um<br \/>\ncutelo. E antigo, muito antigo, com as minhas armas&#8230; De que diabo \u00e9<br \/>\nfeito? baleia?<\/p>\n<p>&#8211; De cavalo-marinho&#8230; Uma arma terr\u00edvel. Mata um homem&#8230; O mano<br \/>\nJo\u00e3o tem um, mas com cast\u00e3o de metal&#8230; Mata um homem!<\/p>\n<p>&#8211; Bem &#8211; rematou Gon\u00e7alo. &#8211; Limpa e p\u00f5e no meu quarto, Bento!<br \/>\nPassa a ser o meu chicote de guerra!<\/p>\n<p>\u00c1 porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de quinzena<br \/>\nde cotim deitada aos ombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira tomava<br \/>\nenfim a lavra da Torre. E Gon\u00e7alo gracejou, mostrando ao Tit\u00f3<br \/>\no lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a tornar<br \/>\na Torre uma falada maravilha de seara, vinha e horta! O Pereira co\u00e7ava<br \/>\na barba rala:<\/p>\n<p>&#8211; E tamb\u00e9m a enterrar bom dinheiro! Enfim um gosto sempre valeu mais<br \/>\nque um vint\u00e9m! E o Fidalgo, como patr\u00e3o, merece terra em que<br \/>\nos olhos se esque\u00e7am de regalados!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Sr. Pereira! &#8211; ribombou o Tit\u00f3. &#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o se<br \/>\nesque\u00e7a de cuidar dos mel\u00f5es. \u00c9 uma vergonha! Nunca na<br \/>\nTorre se comeu um bom mel\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Pois para o ano, assim Deus nos conserve, j\u00e1 V. Exa. comer\u00e1<br \/>\nna Torre um bom mel\u00e3o!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo abra\u00e7ou ainda o esperto lavrador &#8211; e apressou para<br \/>\na estrada, decidido a desenrolar toda a confid\u00eancia ao Tit\u00f3,<br \/>\nna solid\u00e3o favor\u00e1vel do arvoredo dos Bravais. Mas, apenas recome\u00e7aram<br \/>\na caminhada, o mesmo enleio o travou &#8211; quase temendo agora as informa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Tit\u00f3, homem t\u00e3o severo, de Moral t\u00e3o escarpada. E<br \/>\ntodo o demorado giro pelos Bravais o findaram, sem que Gon\u00e7alo desafogasse.<br \/>\nO crep\u00fasculo descera, mole e quente, quando recolheram &#8211; conversando<br \/>\nsobre a pesca do s\u00e1vel no Guadiana.<\/p>\n<p>Defronte do port\u00e3o da Torre Videirinha esperava, dedilhando o viol\u00e3o<br \/>\nna penumbra dos \u00e1lamos. Como a noite se conservava abafada, sem uma<br \/>\naragem, jantaram na varanda, com dois candeeiros acesos. Logo ao desdobrar<br \/>\no guardanapo o Tit\u00f5, vermelho e espraiado sobre a cadeira, declarou<br \/>\n&#8220;que gra\u00e7as ao Senhor da Sa\u00fade, a sede era boa!&#8221; Ele<br \/>\ne Gon\u00e7alo praticaram as usadas fa\u00e7anhas de garfo e de copo.<br \/>\nQuando o Bento serviu o caf\u00e9 uma imensa e lustrosa lua nova surgia,<br \/>\nao fundo da quinta escura, por tr\u00e1s dos outeiros de Valverde. Gon\u00e7alo,<br \/>\nenterrado numa cadeira de vime, acendeu o charuto com beatitude. Todos os<br \/>\nt\u00e9dios e incertezas dessas semanas se despegavam da sua alma como cinza<br \/>\napagada, brevemente varrida. E foi sentindo menos a do\u00e7ura da noite,<br \/>\nque um sabor melhor \u00e0 vida desanuviada, que exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, senhores, agora, est\u00e1 uma del\u00edcia!&#8230;<\/p>\n<p>Videirinha, depois dum curto cigarro, retomara o viol\u00e3o. Atrav\u00e9s<br \/>\nda quinta, peda\u00e7os de muros caiados, algum trilho de rua mais descoberto,<br \/>\na \u00e1gua do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resvalava dos cerros;<br \/>\ne a quieta\u00e7\u00e3o do arvoredo, da claridade, da noite penetravam<br \/>\nna alma com adormecedora car\u00edcia. Tit\u00f3 e Gon\u00e7alo saboreavam<br \/>\no famoso cognac de Moscatel, preciosa antigualha da Torre, silenciosamente<br \/>\nenlevados no Videirinha &#8211; que recuara para o fundo da varanda, se envolvera<br \/>\nem sombra. Nunca o bom cantador ferira as cordas com inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais enternecida. At\u00e9 os campos, o c\u00e9u inclinado, a lua cheia<br \/>\nsobre as colinas escutavam os queixumes do fado da Anosa. E no escuro, sob<br \/>\na varanda, o pigarro da Rosa, os passos abafados dos criados, algum sumido<br \/>\nriso de rapariga, o bater das orelhas dum perdigueiro &#8211; eram como a presen\u00e7a<br \/>\ndum povo suavemente atra\u00eddo pelo descante formoso.<\/p>\n<p>Assim a noite se alongou, a lua subiu com solit\u00e1rio fulgor. Tit\u00f3,<br \/>\npesado do br\u00f3dio, adormecera. E como sempre, para findar, Videirinha<br \/>\natacou ardentemente o Fado dos Ramires:<\/p>\n<p>Quem te ver\u00e1 sem que estreme\u00e7a,<br \/>\nTorre de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\nAssim t\u00e3o negra e calada,<br \/>\nPor noites de lua cheia&#8230;<\/p>\n<p>E lan\u00e7ou ent\u00e3o uma quadra nova, que trabalhara nessa semana<br \/>\ncom amor sobre uma erudita nota do bom Padre Soeiro. Era a gl\u00f3ria magn\u00edfica<br \/>\nde Paio Ramires, Mestre do Templo &#8211; a quem o Papa Inoc\u00eancio, e a Rainha<br \/>\nBranca de Castela, e todos os Pr\u00edncipes da Cristandade suplicam que<br \/>\nse arme, e corra em dura pressa, e liberte S. Lu\u00eds Rei de Fran\u00e7a,<br \/>\ncativo nas terras de Egito&#8230;<\/p>\n<p>Que s\u00f3 em Paio Ramires<br \/>\nP\u00f5e agora o mundo a esperan\u00e7a&#8230;<br \/>\nQue junte os seus Cavaleiros<br \/>\nE que salve o Rei de Fran\u00e7a!<\/p>\n<p>E por este av\u00f4 e tal fa\u00e7anha at\u00e9 Gon\u00e7alo se interessou<br \/>\n&#8211; acompanhando o canto, num tr\u00eamulo esgani\u00e7ado, de bra\u00e7o<br \/>\nerguido:<\/p>\n<p>Ai, que junte os seus Cavaleiros<br \/>\nE que salve o Rei de Fran\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>Ao rolar mais forte do coro Tit\u00f3 descerrou as p\u00e1lpebras, arrancou<br \/>\ndo canap\u00e9 o corpanzil imenso &#8211; e declarou que marchava para Vila-Clara:<\/p>\n<p>&#8211; Estou derreado! Sempre em jornada e sem dormir, desde ontem \u00e0s quatro<br \/>\nda manh\u00e3 que larguei de Cidadelhe&#8230; Caramba, dava agora, como aquele<br \/>\nRei grego, um cruzado por um burro!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Gon\u00e7alo, animado pelo cognac, tamb\u00e9m se ergueu<br \/>\ncom uma resolu\u00e7\u00e3o quase alegre:<\/p>\n<p>&#8211; O Tit\u00f3, antes de sa\u00edres anda c\u00e1 dentro que quero falar<br \/>\ncontigo a respeito dum caso!<\/p>\n<p>Agarrara um dos candeeiros, penetrou na sala de jantar onde errava o cheiro<br \/>\nde magn\u00f3lias morrendo num vaso. E a\u00ed, sem prepara\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom os olhos bem decididos, bem cravados no Tit\u00f3 &#8211; que o seguira arrastadamente,<br \/>\nainda se espregui\u00e7ava:<\/p>\n<p>&#8211; O Tit\u00f3, ouve l\u00e1 e s\u00ea franco. Tu ias muito \u00e0<br \/>\nFeitosa&#8230; Que te parece aquela D. Ana?<\/p>\n<p>Tit\u00f3, que despertara como ao rebentar dum morteiro, considerou Gon\u00e7alo<br \/>\ncom assombro:<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! Mas a que prop\u00f3sito?&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo atalhou, na pressa de colher rapidamente uma certeza:<\/p>\n<p>&#8211; Olha! Eu para ti n\u00e3o tenho segredos. Nestas \u00faltimas semanas<br \/>\nhouve ai umas conversas, uns encontros&#8230; Enfim, para resumir, se daqui a<br \/>\ntempos eu pensasse em casar com a D. Ana, creio que ela, por seu lado, n\u00e3o<br \/>\nrecusava. Tu ias \u00e0 Feitosa. Tu sabes&#8230; Que tal rapariga \u00e9 ela?<\/p>\n<p>Tit\u00f3 cruzara os bra\u00e7os violentamente:<\/p>\n<p>&#8211; Pois tu vais casar com a D. Ana?<\/p>\n<p>&#8211; Homem, n\u00e3o vou casar. N\u00e3o sigo esta noite para a Igreja.<br \/>\nPor ora quero s\u00f3 informa\u00e7\u00f5es&#8230; E de quem as posso ter,<br \/>\nmais francas e mais seguras, do que de ti, que \u00e9s meu amigo e que a<br \/>\nconheces?<\/p>\n<p>Tit\u00f3 n\u00e3o descruzara os bra\u00e7os levantando para o Fidalgo<br \/>\nda Torre a face honesta e severa:<\/p>\n<p>Pois tu pensas em casar com a D. Ana, tu, Gon\u00e7alo Mendes Ramires?&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo atirou um gesto de impaci\u00eancia e fartura:<\/p>\n<p>Oh! se me vens com a fidalguia e com o Paio Ramires&#8230;<\/p>\n<p>O Tit\u00f3 quase berrou, na sua indigna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Qual fidalguia! \u00c9 que um homem de bem, como tu, n\u00e3o pensa<br \/>\nem casar com uma criatura como ela!&#8230; Fidalguia?&#8230; Sim! Mas fidalguia de<br \/>\nalma e de cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo emudeceu, trespassado. Depois, com uma serenidade a que se<br \/>\nfor\u00e7ara, argumentou, deduziu:<\/p>\n<p>&#8211; Bem! tu ent\u00e3o sabes outras coisas&#8230; Eu por mim sei que ela \u00e9<br \/>\nbonita e rica; sei tamb\u00e9m que \u00e9 s\u00e9ria, porque nunca sobre<br \/>\nela se rosnou nem aqui nem em Lisboa; s\u00e3o qualidades para se casar<br \/>\ncom uma mulher&#8230; Tu agora afian\u00e7as que se n\u00e3o pode casar com<br \/>\nela. Portanto sabes outras coisas&#8230; Dize.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o o Tit\u00f3 que emudeceu, im\u00f3vel diante do Fidalgo<br \/>\ncomo se o la\u00e7o duma corda o colhesse e o travasse. Por fim, soprando,<br \/>\ncom um esfor\u00e7o enorme:<\/p>\n<p>&#8211; Tu n\u00e3o me chamaste para eu depor como testemunha&#8230; Em principio,<br \/>\nsem explica\u00e7\u00f5es, perguntas se podes casar com essa mulher. E<br \/>\neu, sem explica\u00e7\u00f5es, em principio, declaro que n\u00e3o&#8230;<br \/>\nQue diabo queres mais?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo exclamou, revoltado:<\/p>\n<p>&#8211; Que quero? Pelo amor de Deus, Tit\u00f3&#8230; Sup\u00f5e tu que estou<br \/>\ndoidamente apaixonado pela D. Ana, ou que tenho um interesse imenso em casar<br \/>\ncom ela&#8230; Que n\u00e3o estou, nem tenho; mas sup\u00f5e! Nesse caso n\u00e3o<br \/>\nse desvia um amigo dum ato em que ele est\u00e1 t\u00e3o fundamente empenhado,<br \/>\nsem lhe apresentar uma raz\u00e3o, uma prova&#8230;<\/p>\n<p>Assim apertado Tit\u00f3 baixou a cabe\u00e7a, que co\u00e7ou com desespero.<br \/>\nDepois acovardadamente, para escapar, adiou a contenda:<\/p>\n<p>&#8211; Olha, Gon\u00e7alo, eu estou muito estafado. Tu n\u00e3o vais a esta<br \/>\nhora para a Igreja; e ela menos, que o outro marido ainda n\u00e3o arrefeceu<br \/>\nna cova. Ent\u00e3o amanh\u00e3 conversamos.<\/p>\n<p>Atirou duas passadas enormes, empurrou a porta da varanda, berrando pelo<br \/>\nVideirinha:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o que horas, Videira! Toca a abalar, que n\u00e3o dormi desde<br \/>\nCidadelhe.<\/p>\n<p>Videirinha, que preparava com esmero um grog frio, esvaziou atabalhoadamente<br \/>\no copo, recolheu o viol\u00e3o precioso. E Gon\u00e7alo n\u00e3o os<br \/>\ndeteve, esfregando silenciosamente as m\u00e3os, amuado com aquela recusa<br \/>\ndo Tit\u00f3 t\u00e3o desamiga e teimosa. Como sombras atravessaram uma<br \/>\nsala onde dormia, esquecida desde os Ramires do s\u00e9culo XVIII, uma espineta<br \/>\nde char\u00e3o. No patamar da escada que conduzia \u00e0 portinha verde,<br \/>\nGon\u00e7alo, para os alumiar, erguera um casti\u00e7al. Tit\u00f3 acendeu<br \/>\num cigarro \u00e0 vela. A sua m\u00e3o cabeluda tremia.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o entendido&#8230; Apare\u00e7o amanh\u00e3, Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>&#8211; Quando quiseres, Tit\u00f3.<\/p>\n<p>E no seco assentimento do Fidalgo transparecia tanto despeito &#8211; que Tit\u00f3<br \/>\nhesitou nos estreitos degraus que atulhava. Por fim desceu pesadamente.<\/p>\n<p>Videirinha, j\u00e1 na estrada, considerava o c\u00e9u, a luminosa serenidade:<\/p>\n<p>&#8211; Que linda noite, Sr. Doutor!<\/p>\n<p>&#8211; Linda, Videirinha&#8230; E obrigado. Voc\u00ea hoje tocou divinamente!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo entrara na sala dos retratos, pousara apenas o casti\u00e7al<br \/>\n&#8211; quando, por baixo da varanda aberta, o vozeir\u00e3o do Tit\u00f3 retumbou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Gon\u00e7alo, desce c\u00e1 abaixo.<\/p>\n<p>O Fidalgo rolou pelos degraus com sofreguid\u00e3o. Para al\u00e9m dos<br \/>\n\u00e1lamos, no luar da estrada, Videirinha afinava o viol\u00e3o. E apenas<br \/>\na face do Fidalgo surdiu na claridade da porta, o Tit\u00f3, que esperava<br \/>\ncom o chap\u00e9u para a nuca, desabafou:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Gon\u00e7alo, tu ficaste amuado&#8230; \u00c9 tolice! E entre n\u00f3s<br \/>\nn\u00e3o quero sombras. Ent\u00e3o l\u00e1 vai! Tu n\u00e3o podes<br \/>\ncasar com essa mulher porque ela teve um amante. N\u00e3o sei se antes ou<br \/>\ndepois desse teve outro. N\u00e3o h\u00e1 criatura mais manhosa, nem mais<br \/>\ndisfar\u00e7ada. N\u00e3o me venhas agora com perguntas. Mas fica certo<br \/>\nque ela teve um amante. Sou eu que to afirmo: e tu sabes que eu nunca minto!<\/p>\n<p>Bruscamente meteu \u00e0 estrada, com os possantes ombros vergados. Gon\u00e7alo<br \/>\nn\u00e3o se movera de sobre os degraus de pedra, diante dos mudos \u00e1lamos,<br \/>\ncomo ele im\u00f3veis. Uma palavra passara, irrepar\u00e1vel, no macio<br \/>\nsil\u00eancio da noite e da lua &#8211; e eis o alto sonho que ele constru\u00edra<br \/>\nsobre a D. Ana e a sua beleza e os seus duzentos contos despenhado no lodo!<br \/>\nLentamente subiu, repenetrou na sala. Por cima da chama alta da vela, num<br \/>\npainel fusco, uma face acordara, uma seca, amarelada face, de altivos bigodes<br \/>\nnegros, que se inclinava, atenta como reparando. E longe, Videirinha espalhava<br \/>\npelos campos adormecidos os ing\u00eanuos versos celebrando a gl\u00f3ria<br \/>\ntamanha da Casa ilustre:<\/p>\n<p>Que s\u00f3 em Paio Ramires<br \/>\nP\u00f5e agora o mundo esperan\u00e7a&#8230;<br \/>\nQue junte os seus Cavaleiros<br \/>\nE que salve o Rei de Fran\u00e7a!<\/p>\n<h3><a name=\"10\"><\/a>CAP\u00cdTULO X<\/h3>\n<p>At\u00e9 noite alta Gon\u00e7alo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga<br \/>\ncerteza de que sempre, atrav\u00e9s de toda a sua vida (quase desde o col\u00e9gio<br \/>\nde S. Fiel!), n\u00e3o cessara de padecer humilha\u00e7\u00f5es. E todas<br \/>\nlhe resultavam de intentos muito simples, t\u00e3o seguros para qualquer<br \/>\nhomem como o v\u00f4o para qualquer ave &#8211; s\u00f3 para ele constantemente<br \/>\nrematados por dor, vergonha ou perda! A entrada da vida escolhe com entusiasmo<br \/>\num confidente, um irm\u00e3o, que traz para a quieta intimidade da Torre<br \/>\n&#8211; e logo esse homem se apodera ligeiramente do cora\u00e7\u00e3o de Gracinha<br \/>\ne ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo t\u00e3o corrente de<br \/>\npenetrar na Vida Pol\u00edtica &#8211; e logo o Acaso o for\u00e7a a que se<br \/>\nrenda e se acolha \u00e0 influ\u00eancia desse mesmo homem, agora Autoridade<br \/>\npoderosa, por ele durante todos esses anos de despeito t\u00e3o detestada<br \/>\ne chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua conviv\u00eancia,<br \/>\na porta dos Cunhais, confiado na seriedade, no r\u00edgido orgulho da irm\u00e3<br \/>\n&#8211; e logo a irm\u00e3 se abandona ao antigo enganador, sem luta, na primeira<br \/>\ntarde em que se encontra com ele na sombra favor\u00e1vel dum caramanch\u00e3o!<br \/>\nAgora pensa em casar com uma mulher que lhe oferecia com uma grande beleza<br \/>\numa grande fortuna &#8211; e imediatamente um companheiro de Vila-Clara passa e<br \/>\nsegreda: &#8211; &#8220;A mulher que escolheste, Gon\u00e7alinho, \u00e9 uma<br \/>\nmarafona cheia de amantes!&#8221; Decerto essa mulher n\u00e3o a amava com<br \/>\num amor nobre e forte! Mas decidira acomodar nos formosos bra\u00e7os dela,<br \/>\nmuito confortavelmente, a sua sorte insegura &#8211; e eis que logo desaba, com<br \/>\nesmagadora pontualidade, a humilha\u00e7\u00e3o costumada. Realmente o<br \/>\nDestino malhava sobre ele com rancor desmedido!<\/p>\n<p>&#8211; E por qu\u00ea? &#8211; murmurava Gon\u00e7alo, despindo melancolicamente<br \/>\no casaco. &#8211; Em vida t\u00e3o curta, tanta decep\u00e7\u00e3o&#8230; Por<br \/>\nqu\u00ea? Pobre de mim!<\/p>\n<p>Caiu no vasto leito como numa sepultura &#8211; enterrou a face no travesseiro<br \/>\ncom um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquela sua sorte t\u00e3o<br \/>\ncontrariada, t\u00e3o sem socorro. E recordava o presun\u00e7oso verso<br \/>\ndo Videirinha, ainda nessa noite proclamado ao viol\u00e3o:<\/p>\n<p>Velha Casa de Ramires<br \/>\nHonra e flor de Portugal!<\/p>\n<p>Como a flor murchara! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro<br \/>\nGon\u00e7alo, encolhido no seu buraco de Santa Iren\u00e9ia, com esses<br \/>\ngrandes av\u00f3s Ramires cantados pelo Videirinha &#8211; todos eles, se Hist\u00f3ria<br \/>\ne Lenda n\u00e3o mentiam, de vidas t\u00e3o triunfais e sonoras! N\u00e3o!<br \/>\nnem sequer deles herdara a qualidade por todos herdada atrav\u00e9s dos<br \/>\ntempos &#8211; a valentia f\u00e1cil. Seu pai ainda fora o bom Ramires destemido<br \/>\n&#8211; que na falada desordem da romaria da Riosa avan\u00e7ava com um guarda-sol<br \/>\ncontra tr\u00eas clavinas engatilhadas. Mas ele&#8230; Ali, no segredo do quarto<br \/>\napagado, bem o podia livremente gemer &#8211; ele nascera com a falha, a falha de<br \/>\npior desdouro, essa irremedi\u00e1vel fraqueza da carne que, irremediavelmente,<br \/>\ndiante de um perigo, uma amea\u00e7a, uma sombra, o for\u00e7ava a recuar,<br \/>\na fugir&#8230; A fugir de um Casco. A fugir dum malandro de su\u00ed\u00e7as<br \/>\nlouras que, numa estrada e depois numa venda, o insulta sem motivo, para meramente<br \/>\nostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa carne, t\u00e3o espantadi\u00e7a!<\/p>\n<p>E a Alma&#8230; Nessa calada treva do quarto bem o podia reconhecer tamb\u00e9m,<br \/>\ngemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava<br \/>\na qualquer influ\u00eancia, logo por ela levado como folha seca por qualquer<br \/>\nsopro. Porque a prima Maria uma tarde ado\u00e7a os espertos olhos e lhe<br \/>\naconselha por tr\u00e1s do leque que se interesse pela D. Ana &#8211; logo ele,<br \/>\nfumegando de esperan\u00e7a, ergue sobre o dinheiro e a beleza de D. Ana<br \/>\numa presun\u00e7osa torre de ventura e luxo. E a Elei\u00e7\u00e3o?<br \/>\nessa desgra\u00e7ada Elei\u00e7\u00e3o? Quem o empurrara para a Elei\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne para a reconcilia\u00e7\u00e3o indecente com o Cavaleiro, e para os<br \/>\ndesgostos da\u00ed emanados? O Gouveia, s\u00f3 com leves arg\u00facias,<br \/>\nmurmuradas por cima do cache-nez desde a loja do Ramos at\u00e9 a esquina<br \/>\ndo Correio! Mas qu\u00ea! mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento,<br \/>\nque superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opini\u00f5es<br \/>\ne gravatas! &#8211; Homem de tal natureza, por mais bem dotado na Intelig\u00eancia,<br \/>\n\u00e9 massa inerte a que o Mundo constantemente imprime formas v\u00e1rias<br \/>\ne contr\u00e1rias. O Jo\u00e3o Gouveia fizera dele um candidato servil.<br \/>\nO Manuel Duarte poderia fazer dele um beberr\u00e3o imundo. O Bento facilmente<br \/>\no levaria a atar ao pesco\u00e7o, em vez duma gravata de seda, uma coleira<br \/>\nde couro! Que mis\u00e9ria! E todavia o Homem s\u00f3 vale pela Vontade<br \/>\n&#8211; s\u00f3 no exerc\u00edcio da Vontade reside o gozo da Vida. Porque se<br \/>\na Vontade bem exercida encontra em torno submiss\u00e3o &#8211; ent\u00e3o \u00e9<br \/>\na del\u00edcia do dom\u00ednio sereno; se encontra em torno resist\u00eanciam<br \/>\n&#8211; ent\u00e3o \u00e9 a del\u00edcia maior da luta interessante. S\u00f3<br \/>\nn\u00e3o sai gozo forte e viril da in\u00e9rcia que se deixa arrastar<br \/>\nmudamente, num sil\u00eancio e macieza de cera&#8230; Mas ele, ele, descendendo<br \/>\nde tantos var\u00f5es famosos pelo Querer &#8211; n\u00e3o conservaria, escondida<br \/>\nalgures no seu Ser, dormente e quente como uma brasa sob cinza, uma parcela<br \/>\ndessa energia heredit\u00e1ria?&#8230; Talvez! nunca por\u00e9m nesse peco<br \/>\ne encafuado viver de Santa Iren\u00e9ia a fagulha despertaria, ressaltaria<br \/>\nem chama intensa e \u00fatil. N\u00e3o! pobre dele! Mesmo nos movimentos<br \/>\nda Alma onde todo o homem realiza a liberdade pura &#8211; ele sofreria sempre a<br \/>\nopress\u00e3o da Sorte inimiga!<\/p>\n<p>Com outro suspiro mais se enterrou, se escondeu sob a roupa. N\u00e3o adormecia,<br \/>\na noite findava &#8211; j\u00e1 o rel\u00f3gio de char\u00e3o, no corredor,<br \/>\nbatera cavamente as quatro horas. E ent\u00e3o, atrav\u00e9s das p\u00e1lpebras<br \/>\ncerradas, no confuso cansa\u00e7o de tantas tristezas revolvidas, Gon\u00e7alo<br \/>\npercebeu, atrav\u00e9s da treva do quarto, destacando palidamente da treva,<br \/>\nfaces lentas que passavam&#8230;<\/p>\n<p>Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestrais, com cicatrizes<br \/>\nde ferozes ferros, umas ainda flamejando como no fragor de uma batalha, outras<br \/>\nsorrindo majestosamente como na pompa duma gala &#8211; todas dilatadas pelo uso<br \/>\nsoberbo de mandar e vencer. E Gon\u00e7alo, espreitando por sobre a borda<br \/>\ndo len\u00e7ol, reconhecia nessas faces as ver\u00eddicas fei\u00e7\u00f5es<br \/>\nde velhos Ramires, ou j\u00e1 assim contempladas em denegridos retratos,<br \/>\nou por ele assim concebidas, como concebera as de Tructesindo, em concord\u00e2ncia<br \/>\ncom a rijeza e esplendor dos seus feitos.<\/p>\n<p>Vagarosas, mais vivas, elas cresciam dentre a sombra que latejava espessa<br \/>\ne como povoada. E agora os corpos emergiam tamb\u00e9m, robust\u00edssimos<br \/>\ncorpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arneses de a\u00e7o<br \/>\nlampejante, embu\u00e7ados e fuscos mantos de revoltas pregas, cingidos<br \/>\npor faustosos gib\u00f5es de brocado onde cintilavam as pedrarias de colares<br \/>\ne cintos &#8211; e armados todos, com as armas todas da Hist\u00f3ria, desde a<br \/>\ndava goda de raiz de roble eri\u00e7ada de puas at\u00e9 o espadim de<br \/>\nsarau enla\u00e7arotado de seda e ouro.<\/p>\n<p>Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gon\u00e7alo n\u00e3o duvidava<br \/>\nda realidade maravilhosa! Sim! eram os seus av\u00f3s Ramires, os seus formid\u00e1veis<br \/>\nav\u00f3s hist\u00f3ricos, que, das suas tumbas dispersas corriam, se<br \/>\njuntavam na velha casa de Santa Iren\u00e9ia nove vezes secular &#8211; e formavam<br \/>\nem torno do seu leito, do leito em que ele nascera, como a Assembl\u00e9ia<br \/>\nmajestosa da sua ra\u00e7a ressurgida. E at\u00e9 mesmo reconhecia alguns<br \/>\ndos mais esfor\u00e7ados, que agora, com o repassar constante do Poemeto<br \/>\ndo tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu &#8220;fado&#8221;, lhe<br \/>\nandavam sempre na imagina\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Aquele al\u00e9m, com o brial branco a que a cruz vermelha enchia o peitoral,<br \/>\nera certamente Gutierres Ramires, o d&#8217;Ultramar como quando corria da sua tenda<br \/>\npara a escalada de Jerusal\u00e9m. No outro, t\u00e3o velho e formoso,<br \/>\nque estendia o bra\u00e7o, ele adivinhava Egas Ramires, negando acolhida<br \/>\nno seu puro solar a El-Rei D. Fernando e \u00e0 ad\u00faltera Leonor!<br \/>\nEsse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pend\u00e3o real de<br \/>\nCastela, quem, sen\u00e3o Diogo Ramires, o Trovador ainda na alegria da<br \/>\nradiosa manh\u00e3 de Aljubarrota? Diante da incerta claridade do espelho<br \/>\ntremiam as fofas plumas escarlates do mon\u00e3o de Paio Ramires, que se<br \/>\narmava para salvar S. Lu\u00eds Rei de Fran\u00e7a. Levemente balan\u00e7ado,<br \/>\ncomo pelas ondas humildes dum mar vencido, Rui Ramires sorria \u00e0s naus<br \/>\ninglesas que ante aproa da sua Capit\u00e2nia submissamente amainavam por<br \/>\nPortugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pajem do Gui\u00e3o<br \/>\nde El-Rei nos campos fatais de Alc\u00e1cer, sem elmo, rota a coura\u00e7a,<br \/>\ninclinava para ele a sua face de donzel, com a do\u00e7ura grave dum av\u00f4<br \/>\nenternecido&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por aquela ternura atenta do mais po\u00e9tico dos Ramires,<br \/>\nGon\u00e7alo sentiu que a sua Ascend\u00eancia toda o amava &#8211; e da escurid\u00e3o<br \/>\ndas tumbas dispersas acudira para o velar e socorrer na sua fraqueza. Com<br \/>\num longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos seus<br \/>\nav\u00f3s ressurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que sobre a sua<br \/>\nvida, sem descanso, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que subitamente<br \/>\num ferro faiscou na treva, com um abafado brado: &#8211; &#8220;Neto, doce neto,<br \/>\ntoma a minha lan\u00e7a nunca partida!&#8221; E logo o punho duma clara espada<br \/>\nlhe ro\u00e7ou o peito, com outra grave voz que o animava: -&#8220;Neto,<br \/>\ndoce neto, toma a espada pura que lidou em Ourique1 E depois uma acha de coriscante<br \/>\ngume bateu no travesseiro, ofertada com altiva certeza: &#8211; &#8220;Que n\u00e3o<br \/>\nderribar\u00e1 essa acha, que derribou as portas de Arzila9<\/p>\n<p>Como sombras levadas num vento transcendente todos os av\u00f3s formid\u00e1veis<br \/>\nperpassavam &#8211; e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e provadas<br \/>\narmas, todas, atrav\u00e9s de toda a Hist\u00f3ria, enobrecidas nas arrancadas<br \/>\ncontra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castelos e Vilas, nas batalhas<br \/>\nformosas com o Castelhano soberbo&#8230; Era, em torno do leito, um her\u00f3ico<br \/>\nreluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente gritavam: &#8211; &#8220;Oh neto,<br \/>\ntoma as nossas armas e vence a Sorte inimiga! Mas Gon\u00e7alo, espalhando<br \/>\nos olhos tristes pelas sombras ondeantes, volveu: &#8211; &#8220;Oh av\u00f3s,<br \/>\nde que me servem as vossas armas &#8211; se me falta a vossa alma?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Acordou muito cedo, com a enredada lembran\u00e7a dum pesadelo em que falara<br \/>\na mortos &#8211; e, sem a pregui\u00e7a que sempre o amolecia nos colch\u00f5es,<br \/>\nenfiou um roup\u00e3o, escancarou as vidra\u00e7as. Que formosa manh\u00e3!<br \/>\numa manh\u00e3 dos fins de setembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem<br \/>\nlhe desmanchava o vasto, o imaculado azul; e o sol j\u00e1 pousava nos arvoredos,<br \/>\nnos outeiros distantes, com uma do\u00e7ura outonal. Mas, apesar de lhe<br \/>\nrespirar alentadamente o brilho e a pureza, Gon\u00e7alo permaneceu toldado<br \/>\nde sombras, das sombras da v\u00e9spera, retardadas no seu esp\u00edrito<br \/>\noprimido, como n\u00e9voas em vale muito fundo. E foi ainda com um suspiro,<br \/>\narrastando tristonhamente as chinelas, que puxou o cord\u00e3o da campainha.<br \/>\nO Bento n\u00e3o tardou com a infusa da \u00e1gua quente para a barba.<br \/>\nE acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquele silencioso<br \/>\ne enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Sr. Doutor passara mal<br \/>\na noite&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pessimamente!<\/p>\n<p>Bento declarou logo, com vivacidade e reprova\u00e7\u00e3o &#8211; que certamente<br \/>\nfizera mal ao Sr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado,<br \/>\nmuito excitante&#8230; Bom para o Sr. D. Ant\u00f4nio, homenzarr\u00e3o pesado.<br \/>\nMas o Sr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar naquele cognac. Ou ent\u00e3o,<br \/>\nmeio c\u00e1lice escasso.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo ergueu a cabe\u00e7a, na surpresa de encontrar logo ao come\u00e7o<br \/>\ndo seu dia e t\u00e3o flagrante aquele dom\u00ednio que todos sobre ele<br \/>\nse arrogavam &#8211; e de que tanto se lastimava, atrav\u00e9s de toda a amarga<br \/>\nnoite! Eis ai o Bento mandando &#8211; marcando a sua ra\u00e7\u00e3o de cognac!<br \/>\nE justamente o Bento insistia:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Doutor bebeu mais de tr\u00eas c\u00e1lices. Assim n\u00e3o<br \/>\nconv\u00e9m&#8230; Eu tamb\u00e9m tive culpa em n\u00e3o tirar a garrafa&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, perante despotismo t\u00e3o declarado, o Fidalgo da Torre<br \/>\nteve uma brusca revolta:<\/p>\n<p>&#8211; Homem, n\u00e3o d\u00eas tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que<br \/>\nquero!<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a \u00e1gua na infusa:<\/p>\n<p>&#8211; Esta \u00e1gua est\u00e1 morna! &#8211; exclamou logo. &#8211; J\u00e1 me tenho<br \/>\nfartado de dizer! Para a barba, preciso sempre \u00e1gua a ferver.<\/p>\n<p>O Bento, gravemente, mergulhou tamb\u00e9m o dedo na \u00e1gua:<\/p>\n<p>&#8211; Pois esta \u00e1gua est\u00e1 quase a ferver&#8230; Nem para a barba se<br \/>\nnecessita \u00e1gua mais quente.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo encarou o Bento com furor. O qu\u00ea! mais obje\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmais leis!<\/p>\n<p>&#8211; Pois v\u00e1 imediatamente buscar outra \u00e1gua! Quando eu pe\u00e7o<br \/>\n\u00e1gua quente, pretendo que venha em cach\u00e3o. Irra! tanta senten\u00e7a!&#8230;<br \/>\nEu n\u00e3o quero moral, quero obedi\u00eancia!<\/p>\n<p>O Bento considerou Gon\u00e7alo atrav\u00e9s dum espanto que lhe inchara<br \/>\na face. Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando<br \/>\na infusa. E j\u00e1 Gon\u00e7alo se arrependia da sua viol\u00eancia.<br \/>\nCoitado, n\u00e3o era culpa do Bento se a vida lhe andava a ele t\u00e3o<br \/>\nestragada e sacudida! Depois, em casa t\u00e3o antiga, n\u00e3o destoava<br \/>\na tradi\u00e7\u00e3o dos antigos aios. E o Bento com perfeito rigor lhes<br \/>\nreproduzia a rabugice e a lealdade! Mas ascend\u00eancia, e livre falar bem<br \/>\nlhe cabiam &#8211; bem os merecia por t\u00e3o longa, t\u00e3o provada dedica\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E Gon\u00e7alo<br \/>\nlogo docemente, para o ado\u00e7ar:<\/p>\n<p>&#8211; Dia muito bonito, bem, Bento?<\/p>\n<p>O velho rosnou, ainda amuado:<\/p>\n<p>&#8211; Muito bonito.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo ensaboava a face, rapidamente, na impaci\u00eancia de reatar<br \/>\ncom o Bento, de lhe restabelecer a supremacia amor\u00e1vel. E por fim mais<br \/>\ndoce, quase humilde:<\/p>\n<p>&#8211; Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavalo antes do almo\u00e7o.<br \/>\nQue te parece? Talvez me fa\u00e7a bem aos nervos&#8230; Com efeito, aquele<br \/>\ncognac n\u00e3o me conv\u00e9m&#8230; Ent\u00e3o, Bento, faze o favor, grita<br \/>\na\u00ed ao Joaquim que me tenha a \u00e9gua pronta imediatamente. Com<br \/>\ncerteza me acalma uma galopada&#8230; E no banho agora a \u00e1gua bem esperta,<br \/>\nbem quente. Tamb\u00e9m me acalma a \u00e1gua quente. Por isso necessito<br \/>\nsempre \u00e1gua bem quente, a ferver. Mas tu, com essas tuas velhas id\u00e9ias&#8230;<br \/>\nPois todos os m\u00e9dicos o declaram. Para a sa\u00fade \u00e1gua quente,<br \/>\nbem quente, a sessenta graus!<\/p>\n<p>E depois do r\u00e1pido banho, enquanto se vestia, abriu mais familiarmente<br \/>\nao velho aio a intimidade das suas tristezas:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar, n\u00e3o<br \/>\nera um passeio, era uma jornada&#8230; Trago a alma muito carregada, homem! Depois<br \/>\nestou farto desta eterna Vila-Clara, da eterna Oliveira. Muito mexerico, muita<br \/>\ndeslealdade. Precisava terra grande, distra\u00e7\u00e3o grande.<\/p>\n<p>O Bento, j\u00e1 reconciliado, enternecido, lembrou que o Sr. Doutor brevemente,<br \/>\nem Lisboa, encontraria uma linda distra\u00e7\u00e3o, nas Cortes.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei l\u00e1 se vou \u00e0s Cortes, homem! N\u00e3o sei nada, tudo<br \/>\nfalha&#8230; Qual Lisboa!&#8230; O que eu necessito \u00e9 uma viagem imensa, \u00e0<br \/>\nHungria, \u00e0 R\u00fassia, a terras onde haja aventuras.<\/p>\n<p>O Bento sorriu superiormente daquela imagina\u00e7\u00e3o. E apresentando<br \/>\nao Fidalgo o jaquet\u00e3o de velvetina cinzenta:<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito, na R\u00fassia parece que n\u00e3o faltam aventuras. Anda<br \/>\ntudo a Chicote, diz o S\u00e9culo&#8230; Mas aventuras, Sr. Doutor, at\u00e9<br \/>\na gente as encontra na estrada&#8230; Olhe! o paizinho de V. Exa., que Deus haja,<br \/>\nfoi l\u00e1 embaixo diante do port\u00e3o que teve a bulha com o Dr. Avelino<br \/>\nda Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no bra\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo cal\u00e7ava as luvas de anta, mirando o espelho:<\/p>\n<p>&#8211; Pobre pap\u00e1, coitado, tamb\u00e9m teve pouca sorte&#8230; E por chicote.<br \/>\n\u00f3 Bento, d\u00e1 c\u00e1 \u00e0quele chicote de cavalo-marinho<br \/>\nque tu ontem areaste. Parece que \u00e9 uma boa arma.<\/p>\n<p>Ao sair o port\u00e3o, o Fidalgo da Torre meteu a \u00e9gua, sem destino,<br \/>\nnum passo indolente, pela estrada costumada dos Bravais. Mas no Casal Novo,<br \/>\nonde dois pequenos jogavam a bola debaixo das carvalheiras, pensou em visitar<br \/>\no Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe consertaria os nervos a companhia<br \/>\nde t\u00e3o sereno e generoso velho. E, se ele o convidasse a almo\u00e7ar,<br \/>\ngastaria os seus cuidados visitando essa falada quinta da Varandinha e cortejando<br \/>\n&#8220;o bot\u00e3o de Rosa&#8221;.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo recordava apenas confusamente que o terra\u00e7o da Varandinha<br \/>\ndominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o lugar da Cerda<br \/>\ne a espalhada aldeia de Canta-Pedra. E tomou o caminho velho que desce das<br \/>\ncarvalheiras do Casal Novo, e penetra no vale, entre o cabe\u00e7o de Avel\u00e3<br \/>\ne as ru\u00ednas do Mosteiro de Ribadais, no solo hist\u00f3rico onde<br \/>\nLopo de Bai\u00e3o derrotara a mesnada de Louren\u00e7o Ramires&#8230; Ora<br \/>\nenterrada entre valados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia<br \/>\nsem beleza, e cansativa; mas as madressilvas nas sebes, por entre as amoras<br \/>\nmaduras, rescendiam; o fresco sil\u00eancio recebia mais frescura e gra\u00e7a<br \/>\ndos fr\u00eamitos de asa que o ro\u00e7avam; e tanto era o radiante azul<br \/>\nnos c\u00e9us serenos que um pouco elo seu rebrilho e serenidade se instilava<br \/>\nna alma. Gon\u00e7alo, mais desanuviado, n\u00e3o se apressava; na Igreja<br \/>\ndos Bravais, quando ele passara ao Casal Novo, batiam apenas as nove horas;<br \/>\ne depois de costear um lameiro de erva magra parou a acender pachorrentamente<br \/>\num charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o riacho das Donas. Quase<br \/>\nseca pela estiagem, a \u00e1gua escura mal corria, sob as folhas largas<br \/>\ndos nen\u00fafares, por entre os juncais que a atulhavam. Adiante, \u00e0<br \/>\norla dum erva\u00e7al, no abrigo duma moita de \u00e1lamos, reluziam as<br \/>\npedras dum lavadouro. Na outra margem, dentro dum velho bote encalhado, um<br \/>\nrapazito, uma rapariguinha conversavam profundamente, com dois molhos de alfazema<br \/>\nesquecidos nos rega\u00e7os. Gon\u00e7alo sorriu do id\u00edlio &#8211; depois<br \/>\nteve uma surpresa descobrindo, no cunhal da ponte, rudemente entalhado, o<br \/>\nseu Bras\u00e3o de Armas, um A\u00e7or enorme, que alargava as garras<br \/>\nferozes. Talvez aquelas terras outrora pertencessem \u00e0 Casa &#8211; ou alguns<br \/>\ndo seus av\u00f3s ben\u00e9ficos constru\u00edra a ponte, sobre torrente<br \/>\nent\u00e3o mais funda, para seguran\u00e7a dos homens e dos gados. Quem<br \/>\nsabe se o av\u00f4 Tructesindo, em mem\u00f3ria piedosa de Louren\u00e7o<br \/>\nRamires, vencido e cativo nas margens daquela ribeira!<\/p>\n<p>O caminho, para al\u00e9m da ponte, alteava entre campos ceifados. As medas<br \/>\nlourejavam, pesadas e cheias, por aquele ano de fartura. Ao longe, dos telhados<br \/>\nbaixos dum lugarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos no radiante c\u00e9u.<br \/>\nE lentamente, como aqueles fumos distantes, Gon\u00e7alo sentia que todas<br \/>\nas suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam tamb\u00e9m no azul<br \/>\nlustroso&#8230; Uma revoada de perdizes ergueu o v\u00f4o dentre o restolho.<br \/>\nGon\u00e7alo galopou sobre elas, gritando, sacudindo o seu forte chicote<br \/>\nde cavalo-marinho, que zinia como uma fina l\u00e2mina.<\/p>\n<p>Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois cavado<br \/>\nentre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira &#8211; e ao fundo o sol<br \/>\nfaiscava sobre a cal fresca duma parede. Era uma casa t\u00e9rrea, com porta<br \/>\nbaixa entre duas janelas envidra\u00e7adas, remendos novos no telhado e<br \/>\num quinteiro que uma escura e intensa figueira assombreava. Numa esquina pegava<br \/>\num muro baixo de pedra solta, continuado por uma sebe, onde adiante uma velha<br \/>\ncancela abria para a sombra duma ramada. Defronte, no vasto terreiro que se<br \/>\nalargava, jaziam cantarias, uma pilha de traves; passava uma estrada, lisa<br \/>\ne cuidada, que pareceu a Gon\u00e7alo a de Ramilde. Para al\u00e9m, at\u00e9<br \/>\na um distante pinheiral, desciam ch\u00e1s e lameiros.<\/p>\n<p>Sentado num banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao muro,<br \/>\num rapaz grosso, de barrete de l\u00e1 verde, acariciava pensativamente<br \/>\no focinho dum perdigueiro. Gon\u00e7alo parou:<\/p>\n<p>&#8211; Tem a bondade&#8230; Sabe por acaso qual \u00e9 o bom caminho para a quinta<br \/>\ndo Sr. Visconde de Rio-Manso, a Varandinha?<\/p>\n<p>O rapazote ergueu a face morena, de bu\u00e7o leve, remexendo vagamente<br \/>\nno carapu\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Para a quinta do Rio-Manso&#8230; Siga pela estrada at\u00e9 a pedreira,<br \/>\ndepois \u00e0 esquerda a seguir, sempre rente da v\u00e1rzea&#8230;<\/p>\n<p>Mas nesse instante assomava \u00e0 porta um latag\u00e3o de su\u00ed\u00e7as<br \/>\nlouras em mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gon\u00e7alo, com<br \/>\num sobressalto, reconheceu logo o ca\u00e7ador que o injuriara na estrada<br \/>\nde Nacejas, o assobiara na venda do Pintainho. O homem relanceou superiormente<br \/>\no Fidalgo. Depois, com a m\u00e3o encostada \u00e0 ombreira, chasqueou<br \/>\no rapazote:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Manuel, que est\u00e1s tu a\u00ed a ensinar o caminho, homem! Este<br \/>\ncaminho por aqui n\u00e3o \u00e9 para asnos!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo sentiu a palidez que o cobriu &#8211; e todo o sangue do cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnum tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultraje, do mesmo<br \/>\nhomem, sem provoca\u00e7\u00e3o! Apertou os joelhos no selim para galopar.<br \/>\nE a tremer, num esfor\u00e7o que o engasgava:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 muito atrevido! E j\u00e1 pela terceira vez! Eu n\u00e3o<br \/>\nsou homem para levantar desordens numa escada&#8230; Mas fique certo que o conhe\u00e7o,<br \/>\ne que n\u00e3o escapa sem li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou \u00e0 estrada,<br \/>\nafrontando a \u00e9gua, com as su\u00ed\u00e7as erguidas, um riso de<br \/>\nimenso desafio:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o c\u00e1 estou! Venha agora a li\u00e7\u00e3o&#8230; E para<br \/>\ndiante \u00e9 que voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o passa, seu Ramires de<br \/>\nmerd&#8230;<\/p>\n<p>Uma n\u00e9voa turvou os olhos esgazeados do Fidalgo. E de repente, num<br \/>\ninconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e for\u00e7a,<br \/>\nque se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, atirou a fina \u00e9gua<br \/>\nnum gal\u00e3o terr\u00edvel! E nem compreendeu! O cajado sarilhara! A<br \/>\n\u00e9gua empinava, numa cabe\u00e7ada furiosa! E Gon\u00e7alo entreviu<br \/>\na m\u00e3o do homem, escura, imensa, que empolgava a camba do freio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, erguido nos estribos, por sobre a imensa m\u00e3o, despediu<br \/>\numa vergastada do chicote silvante de cavalo-marinho, colhendo o latag\u00e3o<br \/>\nna face, de lado, num golpe t\u00e3o vivo da aresta aguda que a orelha pendeu,<br \/>\ndespegada, num borbotar de sangue. Com um berro o homem recuou, cambaleando.<br \/>\nGon\u00e7alo galgou sobre ele, noutro arremesso, com outra fulgurante chicotada,<br \/>\nque o apanhou pela boca, lhe rasgou a boca, decerto lhe espeda\u00e7ou dentes,<br \/>\no atirou, urrando, para o ch\u00e3o. As patas da \u00e9gua machucavam<br \/>\nas grossas coxas estendidas &#8211; e, debru\u00e7ado, Gon\u00e7alo ainda vergastou,<br \/>\ncortou desesperadamente face, pesco\u00e7o, at\u00e9 que o corpo jazeu<br \/>\nmole e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a camisa.<\/p>\n<p>Um tiro atroou o terreiro! E Gon\u00e7alo, com um salto no selim, avistou<br \/>\no rapazote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas j\u00e1<br \/>\nhesitando aterrado.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, c\u00e3o!<\/p>\n<p>Lan\u00e7ou a \u00e9gua, com o chicote alto &#8211; o rapaz, espavorido, corria<br \/>\nlentamente atrav\u00e9s do terreiro, para saltar o valado, escapar para<br \/>\nas v\u00e1rzeas ceifadas!<\/p>\n<p>&#8211; Ah c\u00e3o, ah c\u00e3o! &#8211; berrava Gon\u00e7alo. Estonteado, o rapaz<br \/>\ntrope\u00e7ara numa viga solta. Mas j\u00e1 se endireitava, largava, quando<br \/>\no Fidalgo o alcan\u00e7ou com uma cutilada do chicote no pesco\u00e7o,<br \/>\nlogo alagado de sangue. Estendendo as m\u00e3os incertas, ainda cambaleou,<br \/>\nabateu, estalou contra a aresta dum pilar, a cabe\u00e7a mais sangue jorrou.<br \/>\nEnt\u00e3o Gon\u00e7alo, a arquejar, deteve a \u00e9gua. Ambos os homens<br \/>\njaziam im\u00f3veis! Santo Deus! Mortos? De ambos corria o sangue sobre<br \/>\na terra seca. O Fidalgo da Torre sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado<br \/>\nsoou do lado do quinteiro.<\/p>\n<p>&#8211; Ai que mataram o meu rapaz!<\/p>\n<p>Era um velho que corria da cancela, numa carreira agachada, rente com a sebe,<br \/>\npara a porta da casa. T\u00e3o certeiramente o Fidalgo arremessou a \u00e9gua,<br \/>\npara o deter &#8211; que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava coberto de<br \/>\nsuor e de espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e Gon\u00e7alo al\u00e7ado<br \/>\nnos estribos, com a face chamejante, o chicote a descer &#8211; o velho, num terror,<br \/>\ndesabou sobre os joelhos, gritou ansiadamente:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, n\u00e3o me fa\u00e7a mal, meu Fidalgo, por alma de seu pai Ramires.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo ainda o manteve assim um momento, suplicante, a tremer, sob<br \/>\no justiceiro faiscar dos seus alhos &#8211; e gozava soberbamente aquelas calosas<br \/>\nm\u00e3os que se erguiam para a sua miseric\u00f3rdia, invocavam o nome<br \/>\nde Ramires, de novo temido, repossu\u00eddo do seu prest\u00edgio her\u00f3ico.<br \/>\nDepois, recuando a \u00e9gua:<\/p>\n<p>&#8211; Esse malandro do rapazola desfechou a ca\u00e7adeira!&#8230; Voc\u00ea tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o tem boa cara! Que ia voc\u00ea correndo para casa? Buscar outra<br \/>\nespingarda?<\/p>\n<p>O velho alargou desesperadamente os bra\u00e7os, oferecia o peito, em testemunho<br \/>\nda sua verdade:<\/p>\n<p>&#8211; Oh meu Fidalgo, n\u00e3o tenho em casa nem um cajado!&#8230; Assim Deus me<br \/>\najude e me salve o rapaz!<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada de Ramilde,<br \/>\nbem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra ca\u00e7adeira, desfechar<br \/>\ntrai\u00e7oeiramente. E ent\u00e3o com a presteza de esp\u00edrito que<br \/>\na luta afiara concebeu contra qualquer emboscada um ardil seguro E at\u00e9<br \/>\nnum relance sorriu recordando &#8220;tra\u00e7as de guerra&#8221;, de D. Garcia<br \/>\nViegas, o Sabedor.<\/p>\n<p>&#8211; Marche l\u00e1 diante de mim, sempre a direito, pela estrada!<\/p>\n<p>O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas m\u00e3os<br \/>\nnas coxas, numa \u00e2nsia que o engasgava:<\/p>\n<p>&#8211; Oh meu Fidalgo, oh meu Fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem acordo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O rapaz est\u00e1 s\u00f3 atordoado, j\u00e1 se mexeu&#8230; E o outro<br \/>\nmalandro tamb\u00e9m&#8230; Marche voc\u00ea!<\/p>\n<p>E ao irresist\u00edvel mando de Gon\u00e7alo, o velho, depois de sacudir<br \/>\ndemoradamente as joelheiras, come\u00e7ou a avan\u00e7ar pela estrada,<br \/>\nvergado diante da \u00e9gua, como um cativo, com os longos bra\u00e7os<br \/>\na bambolear, rosnando, num rouco assombro: &#8211; Ai como elas se armam! Ai Santo<br \/>\nnome de Deus, que desgra\u00e7a! &#8211; A espa\u00e7os estacava, esgazeando<br \/>\npara Gon\u00e7alo um olhar torvo onde negrejava medo e \u00f3dio&#8230; Mas<br \/>\nlogo o comando forte o empurrava: &#8220;Marche!&#8230;&#8221; E marchava. Adiante,<br \/>\nonde se erguia um cruzeiro em mem\u00f3ria do abade Paguim, assassinado,<br \/>\nGon\u00e7alo reconheceu um largo atalho para a estrada dos Bravais que chamavam<br \/>\no Caminho da Moleira. E para ai enfiou o velho, que no pavor daquela azinhaga<br \/>\nsolit\u00e1ria, pensando que Gon\u00e7alo o afastava de caminhos trilhados<br \/>\npara o matar comodamente, rompeu a gemer: Ai que isto \u00e9 o fim da minha<br \/>\nvida! Ai Nossa Senhora, que \u00e9 o fim da minha vida!&#8221; E n\u00e3o<br \/>\ncessou de gemer, emaranhando os passos tr\u00f4pegos, at\u00e9 que desembocaram<br \/>\nna estrada alta entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Ent\u00e3o<br \/>\nde repente, com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as m\u00e3os<br \/>\nao barrete:<\/p>\n<p>&#8211; Oh meu senhor, o Fidalgo n\u00e3o me leva preso?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Marche! Corra! Que agora a \u00e9gua trota!<\/p>\n<p>A \u00e9gua trotou &#8211; o velho correu, desengon\u00e7ado, arquejando como<br \/>\num fole de forja. Uma milha galgada, Gon\u00e7alo parou, farto do cativo,<br \/>\nda lenta marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse<br \/>\numa arma, e virasse para o alcan\u00e7ar, se desforrar &#8211; entraria ele, num<br \/>\ngalope solto, o port\u00e3o da Torre! Ent\u00e3o bradou, com o sobrolho<br \/>\nduro:<\/p>\n<p>&#8211; Alto! Agora pode voltar para tr\u00e1s&#8230; Mas, antes: como se chama aquele<br \/>\nseu lugar?<\/p>\n<p>&#8211; A Grainha, meu Fidalgo.<\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00ea como se chama, e o rapaz?<\/p>\n<p>O velho, com a boca aberta, esperou, hesitou:<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou Jo\u00e3o, o meu rapaz Manuel&#8230; Manuel Domingues, meu Fidalgo.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea naturalmente mente. E o outro malandro, de su\u00ed\u00e7as<br \/>\nlouras?<\/p>\n<p>Dum f\u00f4lego, o velho gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Esse \u00e9 o Ernesto de Nacejas, o valent\u00e3o de Nacejas, que chamam<br \/>\no Ca\u00e7a-abra\u00e7os, e que tanto me desencaminhou o rapaz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Pois diga l\u00e1 a esses dois marotos que me atacaram a pau e a<br \/>\ntiro, que n\u00e3o ficam quites somente com a sova, e que agora t\u00eam<br \/>\nde se entender com a Justi\u00e7a&#8230; Ela l\u00e1 ir\u00e1! Largue!<\/p>\n<p>Do meio da estrada, Gon\u00e7alo ainda vigiou o velho que abalara, for\u00e7ando<br \/>\nas passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela conhecida<br \/>\nestrada, galopou para a Torre.<\/p>\n<p>E ia levado, galopando numa alegria t\u00e3o fumegante, que o lan\u00e7ava<br \/>\nem sonho e devaneio. Era como a sensa\u00e7\u00e3o sublime de galopar<br \/>\npelas alturas, num corcel de lenda, crescido magnificamente, ro\u00e7ando<br \/>\nas nuvens lustrosas&#8230; E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam nele<br \/>\num verdadeiro Ramires, dos antigos na Hist\u00f3ria, dos que derrubavam<br \/>\ntorres, dos que mudavam a configura\u00e7\u00e3o dos Remos &#8211; e erguiam<br \/>\nesse maravilhoso murm\u00fario que \u00e9 o sulco dos fortes passando!<br \/>\nCom raz\u00e3o! com raz\u00e3o! Que ainda de manh\u00e3, ao sair da<br \/>\nTorre, n\u00e3o ousaria marchar para um rapazola decidido que brandisse<br \/>\num varapau&#8230; E depois, de repente, na solid\u00e3o daquela casa t\u00e9rrea,<br \/>\nquando o bruto das su\u00ed\u00e7as louras lhe atira a sua inj\u00faria<br \/>\neis um n\u00e3o sei qu\u00ea que se desprende dentro do seu ser, e transborda,<br \/>\ne lhe enche cada veia de sangue ardido, e lhe enrija cada nervo de for\u00e7a<br \/>\ndestra, e lhe espalha na pele o desprezo e a dor, e lhe repassa fundamente<br \/>\na alma de fortaleza indom\u00e1vel&#8230; E agora ali voltava, como um var\u00e3o<br \/>\nnovo, soberbamente virilizado, liberto enfim da sombra que t\u00e3o dolorosamente<br \/>\nassombreara a sua vida, a sombra mole e torpe do seu medo! Porque sentia que<br \/>\nagora, se todos os valent\u00f5es de Nacejas o afrontassem num rijo erguer<br \/>\nde cajados &#8211; esse n\u00e3o sei qu\u00ea, l\u00e1 dentro, no seu ser,<br \/>\nde novo se soltaria, e o arremessaria, com cada veia inchada, cada nervo retesado,<br \/>\npara o delicioso fragor da briga! Enfim era um homem! Quando em Vila-Clara<br \/>\no Manuel Duarte, o Tit\u00f3 com o peito alto, contassem fa\u00e7anhas,<br \/>\nj\u00e1 ele n\u00e3o enrolaria encolhidamente o cigarro encolhido, mudo<br \/>\nn\u00e3o somente pela aus\u00eancia desconsoladora das valentias, mas sobretudo<br \/>\npela humilhante recorda\u00e7\u00e3o das fraquezas. E galopava, galopava<br \/>\napertando furiosamente o cabo do chicote, como para investidas mais belas.<br \/>\nPara al\u00e9m dos Bravais, mais galopou, ao avistar a Torre. E singularmente<br \/>\nlhe pareceu, de repente, que a sua Torre, agora mais sua, e que uma afinidade<br \/>\nnova fundada em gl\u00f3ria e for\u00e7a o tornava mais senhor da sua<br \/>\nTorre!<\/p>\n<p>Como para acolher Gon\u00e7alo mais dignamente, o port\u00e3o grande,<br \/>\nsempre cerrado, oferecia uma entrada triunfal com os dois pesados batentes<br \/>\nescancarados. Ele atirou a \u00e9gua para o meio do p\u00e1tio, bradando:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Joaquim! Oh Manuel! Eh l\u00e1! um de voc\u00eas!<\/p>\n<p>O Joaquim surgiu da calavari\u00e7a, de mangas arrega\u00e7adas, com<br \/>\numa esponja na m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Oh Joaquim, depressa! Aparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada de<br \/>\nRamilde, a que chamam a Grainha&#8230; Tive agora l\u00e1 uma grande desordem!<br \/>\nCreio que dei cabo de dois homens&#8230; Ficaram numa po\u00e7a de sangue! N\u00e3o<br \/>\ndigas que vais da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que sucedeu, se est\u00e3o<br \/>\nmortos!&#8230; Depressa, depressa!<\/p>\n<p>O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavalari\u00e7a escura. E de cima<br \/>\nduma das varandas do corredor, partiram exclama\u00e7\u00f5es assombradas:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Gon\u00e7alo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!<\/p>\n<p>Era o Barrolo. Sem desmontar, sem surpresa ante a apari\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Barrolo, Gon\u00e7alo atirou logo para a varanda a hist\u00f3ria da<br \/>\nbulha, tumultuosamente. Um malandro que o insultara&#8230; Depois outro, que desfechou<br \/>\na ca\u00e7adeira&#8230; E ambos derribados sob as patas da \u00e9gua, numa<br \/>\npo\u00e7a de sangue&#8230;<\/p>\n<p>O Barrolo despegou da varanda &#8211; e noutro relance, investia pelo p\u00e1tio,<br \/>\ncom os curtos bra\u00e7os a boiar, enfiado. Mas ent\u00e3o? mas ent\u00e3o?&#8230;<br \/>\nE Gon\u00e7alo, desmontando, tr\u00eamulo agora do cansa\u00e7o e da<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o, esmiu\u00e7ou mais lances&#8230; Na estrada de Ramilde!<br \/>\nUm valent\u00e3o que o injuriou! A esse rasgara a boca, decepara a orelha&#8230;<br \/>\nDepois o outro, um rapazola, desfecha uma carabina&#8230; Ele corre, t\u00e3o<br \/>\nvivamente o colhe com uma cutilada que o estira, para cima duma pedra, como<br \/>\nmorto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uma cutilada?<\/p>\n<p>&#8211; Com este chicote, Barrolo! Arma terr\u00edvel!&#8230; Bem dizia o Tit\u00f3!&#8230;<br \/>\nEstou perdido se n\u00e3o levo este chicote.<\/p>\n<p>Esgazeado, Barrolo remirava o chicote. Sim, com efeito ainda manchado de<br \/>\nsangue. &#8211; Ent\u00e3o Gon\u00e7alo atentou no chicote, no sangue&#8230; Sangue<br \/>\nde gente! Sangue fresco, que ele arrancara&#8230;. E por entre o seu orgulho,<br \/>\numa piedade passou que o empalideceu:<\/p>\n<p>&#8211; Que desgra\u00e7a, vejam que desgra\u00e7a!<\/p>\n<p>Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de n\u00f3doas de sangue,<br \/>\nque o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!&#8230; E imediatamente<br \/>\nansiou por se despir, se lavar &#8211; galgou a escada, com o Barrolo que enxugava<br \/>\no suor, balbuciava: &#8211; &#8220;Ora uma dessas! E de repente! Assim na estrada&#8217;<br \/>\nMas no corredor, subindo numa carreira da cozinha, apareceu Gracinha, p\u00e1lida,<br \/>\ncom a Rosa atr\u00e1s, que enterrava os dedos entre o len\u00e7o e o cabelo<br \/>\nnum pavor mudo.<\/p>\n<p>&#8211; Que foi, Gon\u00e7alo? Jesus, que foi?!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, encontrando Gracinha junto dele, na Torre, nesse momento magn\u00edfico<br \/>\ndo seu orgulho, depois de t\u00e3o rijo perigo vencido, Gon\u00e7alo esqueceu<br \/>\no Andr\u00e9, o Mirante, as sombrias humilha\u00e7\u00f5es, e no abra\u00e7o<br \/>\nem que a colheu, nos fortes beijos que atirou \u00e0 face querida, todo<br \/>\no seu amuo se fundiu em ternura. Com ela ainda chegada ao cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsuspirou de leve, como uma crian\u00e7a cansada. Depois apertando as duas<br \/>\npobres m\u00e3os tr\u00eamulas, com um lento, enternecido sorriso, enquanto<br \/>\nos olhos se lhe umedeciam de confusa emo\u00e7\u00e3o, de confusa alegria:<\/p>\n<p>&#8211; Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horr\u00edvel, eu que sou t\u00e3o<br \/>\npacato! imagina tu&#8230;<\/p>\n<p>E pelo corredor recome\u00e7ou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa,<br \/>\nestarrecida, a hist\u00f3ria do encontro, e o sujo ultraje, o tiro que falhara<br \/>\ne os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um cativo, a<br \/>\ngemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, num desmaio, Gracinha murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, Gon\u00e7alo! E se um dos homens estivesse morto!<\/p>\n<p>O Barrolo, mais vermelho que uma pe\u00f4nia, berrou logo que tais malandros<br \/>\nmereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo tremendo<br \/>\nde \u00c1frica! O Gouveia! era necess\u00e1rio mandar a Vila-Clara, avisar<br \/>\no Gouveia!&#8230; Mas largas passadas \u00e1vidas abalaram o soalho &#8211; e foi<br \/>\no Bento, que se ergueu diante de Gon\u00e7alo, bracejando numa \u00e2nsia:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Sr. Doutor?&#8230; Diz que uma grande desordem!<\/p>\n<p>E \u00e0 porta do escrit\u00f3rio, onde todos pararam, novamente atentos,<br \/>\na hist\u00f3ria recome\u00e7ou, especialmente para o Bento, que a bebia,<br \/>\nnum lento riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos \u00famidos<br \/>\na reluzir, como se tamb\u00e9m triunfasse. Por fim, triunfou, com estrondo:<\/p>\n<p>&#8211; Foi o chicote, Sr. Doutor! O que serviu ao Sr. Doutor foi o chicote que<br \/>\neu lhe dei!<\/p>\n<p>Era verdade. E Gon\u00e7alo, comovido, abra\u00e7ou o velho aio, que<br \/>\nnuma excita\u00e7\u00e3o, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barrolo:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Doutor deu cabo deles!&#8230; Aquele chicote mata um homem!&#8230; Os malvados<br \/>\nest\u00e3o mortos!&#8230; E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei ao Sr. Doutor!<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo reclamava \u00e1gua quente para se lavar da poeira,<br \/>\ndo suor, do sangue&#8230; E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois<br \/>\npelas escadas da cozinha &#8211; &#8220;que fora o chicote! o chicote, que ele dera<br \/>\nao Sr. Doutor!&#8221; Gon\u00e7alo entrara no quarto, acompanhado pelo Barrolo.<br \/>\nE pousou o chap\u00e9u sobre o m\u00e1rmore da c\u00f4moda, com um imenso<br \/>\nah consolado! Era o consolo imenso de se encontrar, depois de t\u00e3o violenta<br \/>\nmanh\u00e3, entre as doces coisas costumadas, pisando o seu velho tapete<br \/>\nazul, ro\u00e7ando o leito de pau-preto em que nascera, respirando pelas<br \/>\nvidra\u00e7as abertas, onde as ramagens familiares das faias se empurravam<br \/>\nna aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de colunas douradas,<br \/>\nse mirou e se remirou, como a um Gon\u00e7alo novo e t\u00e3o melhorado,<br \/>\nque nos ombros reconhecia mais largueza, e at\u00e9 no bigode um arquear<br \/>\nmais crespo.<\/p>\n<p>E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrolo, que subitamente despertou<br \/>\nnuma curiosidade imensa:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, \u00f3 Barrolo, como \u00e9 que vos encontro esta manh\u00e3<br \/>\nna Torre?<\/p>\n<p>Resolu\u00e7\u00e3o da v\u00e9spera, ao ch\u00e1. Gon\u00e7alo<br \/>\nn\u00e3o aparecia, n\u00e3o escrevia&#8230; Gracinha a matutar, inquieta.<br \/>\nEle tamb\u00e9m espantado daquele sumi\u00e7o depois do cesto dos p\u00eassegos.<br \/>\nDe modo que ao ch\u00e3, pensando tamb\u00e9m que a parelha necessitava<br \/>\numa trotada, lembrara a Gracinha: &#8211; &#8220;Vamos n\u00f3s amanh\u00e3 \u00e0<br \/>\nTorre? no pha\u00e9ton?&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00e9m disso precisava falar contigo, Gon\u00e7alo&#8230; Tenho andado<br \/>\naborrecido.<\/p>\n<p>O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:<\/p>\n<p>&#8211; Como aborrecido?&#8230; Aborrecido por qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>Barrolo, com as m\u00e3os nos bolsos da rabona de flanela, que lhe cingia<br \/>\nas ancas gordas, considerou as flores do tapete, melancolicamente:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma grande seca! A gente n\u00e3o pode confiar em ningu\u00e9m&#8230;<br \/>\nNem ter familiaridades!&#8230;<\/p>\n<p>Num lampejo Gon\u00e7alo imaginou o Cavaleiro e Gracinha mostrando estouvadamente<br \/>\nnos Cunhais, como outrora entre os arvoredos da Torre, o sentimento que os<br \/>\ndominava. E pressentiu um desabafo, alguma queixa triste do pobre Barrolo,<br \/>\namargurado por suspeitas, talvez por intimidades que espreitara. Mas a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuprema da sua batalha sumira para uma sombra inferior os cuidados que, ainda<br \/>\nna v\u00e9spera, o oprimiam; todas as dificuldades da vida lhe apareciam<br \/>\nagora, de repente, naquele frescor da sua coragem nova, t\u00e3o f\u00e1ceis<br \/>\nde abater como os desafios dos valent\u00f5es; e n\u00e3o se assustou<br \/>\ncom as confid\u00eancias do cunhado, bem seguro de impor \u00e0quela alma<br \/>\nsubmissa de bacoco a confian\u00e7a e a quieta\u00e7\u00e3o. At\u00e9<br \/>\nsorriu, com indol\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Barrolinho? Sucedeu alguma perip\u00e9cia?<\/p>\n<p>&#8211; Recebi uma carta.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>Gravemente Barrolo desabotoou o jaquet\u00e3o, puxou do bolso interior<br \/>\numa larga carteira, de couro verde e lustroso, com monograma de ouro. E foi<br \/>\na carteira que ele mostrou a Gon\u00e7alo, com satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Bonita, hem? Presente do Andr\u00e9, coitado&#8230; Creio que at\u00e9<br \/>\na mandou vir de Paris. O monograma tem muito chic.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo esperava, espantado. Enfim o bom Barrolo tirou da carteira<br \/>\numa carta &#8211; j\u00e1 amarrotada, depois alisada. Era, num papel pautado,<br \/>\numa letra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com seguran\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 das Lousadas.<\/p>\n<p>E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovelo enterrado na almofada:<br \/>\nEx.mo Sr. Jos\u00e9 Barrolo. &#8211; V Exa., apesar de todos os seus amigos o<br \/>\nalcunharem de Z\u00ea Bacoco, mostrou agora muita esperteza, chamando de<br \/>\nnovo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil Andr\u00e9 Cavaleiro,<br \/>\nnosso Governador Civil. Com efeito a esposa de V Exa., a linda Gracinha, que<br \/>\nneste \u00faltimos tempos andava t\u00e3o murcha e at\u00e9 desbotada<br \/>\n(o que a todos nos inquietava), imediatamente refloriu, e ganhou cores, desde<br \/>\nque possui a valiosa companhia da primeira autoridade do distrito. Portou-se<br \/>\npois V. Exa. como marido zeloso, e desejoso da felicidade e boa sa\u00fade<br \/>\nde sua interessante esposa. Nem parece rasgo daquele que toda a Oliveira considera<br \/>\ncomo o seu mais ilustre pateta! Os nossos sinceros parab\u00e9ns!&#8221;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo guardou muito sossegadamente na algibeira aquela carta que,<br \/>\ndias antes, o lan\u00e7aria em infinita amargura e f\u00faria:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 das Lousadas&#8230; E tu deste import\u00e2ncia a semelhante baboseira?<\/p>\n<p>O Barrolo repontou, com as bochechas abrasadas:<\/p>\n<p>&#8211; Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos an\u00f4nimos&#8230; E depois<br \/>\nessa insol\u00eancia a respeito de os amigos me chamarem Bacoco&#8230; Grande<br \/>\ninf\u00e2mia, hem? Tu acreditas?&#8230; Eu n\u00e3o acredito! mas lan\u00e7a<br \/>\nciz\u00e2nia entre mim e os rapazes&#8230; Nem voltei ao Club&#8230; Bacoco! Por<br \/>\nqu\u00ea? Porque eu sou simples, sempre franco, disposto a arranchar&#8230; N\u00e3o!<br \/>\nSe os rapazes no Club me chamam bacoco pelas costas, caramba, mostram ingratid\u00e3o!<br \/>\nMas eu n\u00e3o acredito! &#8211; Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as m\u00e3os<br \/>\ncruzadas sobre as gordas n\u00e1degas. Depois, estacando diante do divan,<br \/>\ndonde Gon\u00e7alo o considerava, com piedade:<\/p>\n<p>&#8211; Enquanto ao resto da carta \u00e9 t\u00e3o est\u00fapido, t\u00e3o<br \/>\natrapalhado que ao princ\u00edpio nem compreendi. Agora percebo&#8230; Querem<br \/>\ndizer que a Gracinha e o Cavaleiro t\u00eam namoro&#8230; E o que me parece que<br \/>\nquerem dizer! Ora v\u00ea tu que disparate! At\u00e9 a intimidade do Cavaleiro<br \/>\n\u00e9 mentira. O pobre rapaz, desde que l\u00e1 jantou, s\u00f3 apareceu<br \/>\ntr\u00eas ou quatro vezes, \u00e0 noite, para a manilha, com o Mendon\u00e7a&#8230;<br \/>\nE agora abalou para Lisboa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Fidalgo pulou, de surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea! o Cavaleiro foi para Lisboa?<\/p>\n<p>&#8211; Pois partiu h\u00e1 tr\u00eas dias!<\/p>\n<p>&#8211; Com demora?<\/p>\n<p>&#8211; Com demora, com grande demora&#8230; S\u00f3 volta no meado de outubro para<br \/>\na Elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d&#8217;\u00e1gua quente, duas toalhas<br \/>\nde rendas, ainda numa excita\u00e7\u00e3o que o azafamava. Diante do espelho,<br \/>\nlentamente Barrolo reabotoava o jaquet\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, at\u00e9 logo, Gon\u00e7alinho. Eu des\u00e7o \u00e0 cavalari\u00e7a,<br \/>\nvisitar a parelha. N\u00e3o imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma<br \/>\ntrotada espl\u00eandida. E nem um p\u00ealo suado! Tu guardas a carta?<\/p>\n<p>&#8211; Guardo, para estudar a letra.<\/p>\n<p>Apenas Barrolo correra a porta &#8211; o Fidalgo recome\u00e7ou com o Bento a<br \/>\ndeliciosa hist\u00f3ria da briga, revivendo as surpresas e os rasgos, simulando<br \/>\nos arremessos da \u00e9gua, arrebatando o chicote para representar as cutiladas<br \/>\nsilvantes, que arrancavam febra e sangue&#8230; E de repente, em ceroulas:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Bento, traze o meu chap\u00e9u&#8230; Estou desconfiado que a bala ro\u00e7ou<br \/>\npelo chap\u00e9u.<\/p>\n<p>Ambos remiraram, esquadrinharam o chap\u00e9u. O Bento, no seu encarecimento<br \/>\nda fa\u00e7anha, achava a copa amolgada &#8211; at\u00e9 chamuscada.<\/p>\n<p>&#8211; A bala passou de rasp\u00e3o, Sr. Doutor!<\/p>\n<p>O Fidalgo negou, com a mod\u00e9stia grave dum forte:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Nem de rasp\u00e3o!&#8230; Quando o malandro desfechou j\u00e1<br \/>\no bra\u00e7o lhe tremia&#8230; Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente<br \/>\nn\u00e3o corri grande perigo!<\/p>\n<p>Depois de vestido, Gon\u00e7alo, passeando no quarto, releu a carta. Sim,<br \/>\ncertamente das Lousadas. Mas agora essa maledic\u00eancia, soprada com t\u00e3o<br \/>\ns\u00f3rdida maldade sobre as pobres bochechas do Barrolo, n\u00e3o causava<br \/>\ndano &#8211; antes servia, quase beneficamente, como a brasa dum ferro, para sarar<br \/>\num dano. O pobre Barrolo apenas se impressionara com a revela\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em galhofas<br \/>\ningratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinua\u00e7\u00e3o terr\u00edvel,<br \/>\nGracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavaleiro, essa mal a compreendera,<br \/>\nescassamente a atendera num desd\u00e9m distra\u00eddo e c\u00e2ndido.<br \/>\nMas a carta que assim silvava por sobre o bom Barrolo como flecha errada &#8211;<br \/>\nacertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no seu impression\u00e1vel<br \/>\npudor, mostrando \u00e0 pobre tonta como o seu nome e mesmo o seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 arrastavam enxovalhadamente, pela rasteira, mexeriquice das Lousadas!&#8230;<br \/>\nCerteza t\u00e3o humilhadora n\u00e3o apagaria um sentimento &#8211; que se<br \/>\nn\u00e3o apagava com humilha\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas, tanto<br \/>\nmais dolorosas. Mas estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato:<br \/>\n&#8211; e agora que Andr\u00e9 se afastara para Lisboa, operaria nela, surdamente,<br \/>\nsolitariamente, sem que a presen\u00e7a tentadora lhe desmanchasse a influ\u00eancia<br \/>\nsossegadora e salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um<br \/>\naviso temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas f\u00eameas<br \/>\npara desencadear nos Cunhais esc\u00e2ndalo e dor &#8211; talvez restabelecesse,<br \/>\nna amea\u00e7ada casa, quieta\u00e7\u00e3o e gravidade. &#8211; Gon\u00e7alo<br \/>\nesfregou as m\u00e3os pensando &#8211; que em t\u00e3o ditosa manh\u00e3 talvez<br \/>\nesse mal redundasse em bem!<\/p>\n<p>&#8211; Oh Bento, onde est\u00e1 a Sra. D. Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; A menina subiu agora h\u00e1 pouco para o seu quarto, Sr. Doutor.<\/p>\n<p>Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda se<br \/>\nconservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador ilustre que<br \/>\npertencera \u00e0 Rainha D. Maria Francisca de Sab\u00f3ia, e o sof\u00e1,<br \/>\nas cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordara, num arrastado labor<br \/>\nde anos, o A\u00e7or negro dos Ramires. E sempre que voltava \u00e0 Torre<br \/>\nGracinha gostava de reviver, no seu quarto, as horas de solteira, remexendo<br \/>\nas gavetas, folheando velhos romances ingleses na estantezinha envidra\u00e7ada,<br \/>\nou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta estendida at\u00e9<br \/>\naos outeiros de Valverde, a verde quinta, t\u00e3o misturada \u00e0 sua<br \/>\nvida que cada \u00e1rvore lhe sussurrava, cada recanto de verdura era como<br \/>\num recanto do seu pensamento.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo subiu bateu \u00e0 porta cerrada com o antigo aviso: &#8211; &#8220;Licen\u00e7a<br \/>\npara o mano!&#8221; Ela correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos<br \/>\nvidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E desabafando<br \/>\nlogo do pensamento que a enchia:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Gon\u00e7alo! mas que felicidade n\u00f3s virmos \u00e0 Torre,<br \/>\njustamente hoje, que te sucedeu coisa tamanha!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, Gracinha, grande sorte! E n\u00e3o me admirei nada<br \/>\nde te ver&#8230; Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor&#8230;<br \/>\nQuem estranhei foi o Barrolo! E no primeiro momento depois de desmontar, pensava<br \/>\nassim, vagamente: &#8220;mas que diabo faz aqui o Barrolo? Como diabo se acha<br \/>\naqui o Barrolo?&#8230;&#8221; Curioso, hem? Foi talvez que, depois da desordem,<br \/>\nme senti remo\u00e7ado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que<br \/>\ndesej\u00e1vamos uma guerra em Portugal, e n\u00f3s cercados na Torre,<br \/>\nsob o nosso pend\u00e3o, o nosso ter\u00e7o atirando bombardas aos espanh\u00f3is&#8230;<\/p>\n<p>Ela ria, lembrada dessas imagina\u00e7\u00f5es her\u00f3icas. E com<br \/>\no vestido entalado entre os joelhos recome\u00e7ou a lenta rega dos seus<br \/>\nvasos &#8211; enquanto Gon\u00e7alo, encostado \u00e0 varanda, considerando<br \/>\na Torre, retomado pela id\u00e9ia duma concord\u00e2ncia mais \u00edntima,<br \/>\nque desde essa manh\u00e3 se estabelecera entre ele e aquele her\u00f3ico<br \/>\nresto da Honra de Santa Iren\u00e9ia, como se a sua for\u00e7a, tanto<br \/>\ntempo quebrada, se soldasse enfim firmemente \u00e0 for\u00e7a secular<br \/>\nda sua ra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Oh Gon\u00e7alo! tu deves estar muito cansado! Depois dessa verdadeira<br \/>\nbatalha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, cansado n\u00e3o&#8230; Mas com fome. Com fome, e com uma sede<br \/>\nespl\u00eandida!<\/p>\n<p>Ela pousou logo o regador, sacudindo as m\u00e3os alegremente:<\/p>\n<p>&#8211; Pois o almo\u00e7o n\u00e3o tarda!&#8230; J\u00e1 andei a trabalhar na<br \/>\ncozinha, com a Rosa, numa pescada \u00e0 espanhola&#8230; \u00c9 uma receita<br \/>\nnova do Bar\u00e3o das Marges.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o insossa, como ele.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! at\u00e9 picante: foi o Sr. Vig\u00e1rio-Geral que lha<br \/>\nensinou.<\/p>\n<p>E como diante do toucador da Rainha Maria Francisca, ela arranjava \u00e0<br \/>\npressa os ganchos do cabelo, para aproveitar a solid\u00e3o favor\u00e1vel,<br \/>\napressou com um esfor\u00e7o a confid\u00eancia que o comovia:<\/p>\n<p>&#8211; E em Oliveira? L\u00e1 por Oliveira?<\/p>\n<p>&#8211; Em Oliveira, nada&#8230; Muito calor!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino entrela\u00e7amento<br \/>\nde a\u00e7ucenas e louros, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em plena<br \/>\natividade&#8230;<\/p>\n<p>Gracinha negou candidamente:<\/p>\n<p>&#8211; As Lousadas? N\u00e3o! Nem t\u00eam aparecido.<\/p>\n<p>&#8211; Mas t\u00eam tecido!<\/p>\n<p>E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem compreender, Gon\u00e7alo<br \/>\narrancou vivamente da algibeira a carta que guardara, que agora lhe pesava,<br \/>\ncomo uma chapa de ferro:<\/p>\n<p>&#8211; Olha, Gracinha. Mais vale desabafarmos! A\u00ed tens o que elas h\u00e1<br \/>\ndias escreveram a teu marido&#8230;<\/p>\n<p>Num relance Gracinha devorou as linhas terr\u00edveis. E com ondas de sangue<br \/>\nnas faces apertando as m\u00e3os numa afli\u00e7\u00e3o, um desespero,<br \/>\nem que o papel amarfanhou:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Gon\u00e7alo! pois&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo acudiu:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! o Barrolo n\u00e3o se importou! at\u00e9 se riu! E eu tamb\u00e9m,<br \/>\nquando ele me entregou esse papelucho&#8230; E a prova de que ambos o consideramos<br \/>\numa mexeriquice insensata \u00e9 que eu to mostro t\u00e3o francamente.<\/p>\n<p>Ela esmagava a carta nas m\u00e3os juntas e tr\u00eamulas, p\u00e1lida<br \/>\nagora e emudecida pelo espanto, retendo grandes l\u00e1grimas que rebrilhavam.<br \/>\nE Gon\u00e7alo comovido, com gravidade, com ternura:<\/p>\n<p>&#8211; Mas tu, Gracinha, sabes o que s\u00e3o terras pequenas. Sobretudo Oliveira!<br \/>\nPrecisas muito cuidado, muita reserva&#8230; Ai de mim! De mim vem a culpa. Reatei<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es que nunca se deviam reatar&#8230; Bem me tenho arrependido!<br \/>\nE acredita! por causa dessa situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o falsa e t\u00e3o<br \/>\nperigosa, que eu criei, levianamente, por ambi\u00e7\u00e3o tola, passei<br \/>\naqui na Torre dias amargurados&#8230; At\u00e9 nem me atrevia voltar a Oliveira.<br \/>\nHoje, n\u00e3o sei por qu\u00ea, depois desta aventura, parece que tudo<br \/>\nse esbateu, se afundou para uma grande sombra&#8230; Enfim j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nme arde t\u00e3o em brasa no cora\u00e7\u00e3o&#8230; Por isso desabafo<br \/>\nassim, serenamente.<\/p>\n<p>Ela desatou num solto, doloroso, choro em que a sua fraca alma se desfazia.<br \/>\nCom redobrada ternura Gon\u00e7alo abra\u00e7ou os pobres ombros vergados<br \/>\nque os solu\u00e7os espeda\u00e7avam. E foi com ela toda refugiada no<br \/>\nseu peito, que ainda a aconselhou, docemente:<\/p>\n<p>&#8211; Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos, que<br \/>\ncontinue morto. Pelo menos que por fora, em cada gesto teu, pare\u00e7a<br \/>\nbem morto! Sou eu que to pe\u00e7o, pelo nosso nome!&#8230;<\/p>\n<p>Dentre os bra\u00e7os do irm\u00e3o, ela gemeu com infinita humildade:<\/p>\n<p>&#8211; Mas ele at\u00e9 foi embora!&#8230; Nem quis estar mais em Oliveira!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo acariciou a acabrunhada cabe\u00e7a que de novo se escondera<br \/>\ncontra o seu peito, contra ele se apertava, como procurando a fresca misericordiosa<br \/>\nque dentro sentia brotar:<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei. E isso me mostra que tens sido for-te&#8230; Mas precisas muita reserva,<br \/>\nmuita vigil\u00e2ncia, Gracinha!&#8230; E agora sossega. N\u00e3o falemos mais,<br \/>\nnunca mais, neste incidente&#8230; Porque foi apenas um acidente. E que eu provoquei,<br \/>\nai de mim, por leviandade, por ilus\u00e3o. Passou, est\u00e1 esquecido!<br \/>\nSossega, descansa. E quando desceres traze os olhos bem secos.<\/p>\n<p>Lentamente a desprendera dos bra\u00e7os, onde ela se arraigava como ao<br \/>\nabrigo mais certo e \u00e0 consola\u00e7\u00e3o mais desejada. E saia,<br \/>\nengasgado pela emo\u00e7\u00e3o, recalcando tamb\u00e9m as l\u00e1grimas&#8230;<br \/>\nUm gemido t\u00edmido, suplicante, ainda o reteve:<\/p>\n<p>&#8211; Gon\u00e7alo! mas tu pensas&#8230;<\/p>\n<p>Ele voltou, de novo a abra\u00e7ou, a beijou na testa lentamente:<\/p>\n<p>&#8211; Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vais mostrar muita<br \/>\ndignidade, muita firmeza.<\/p>\n<p>Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente alumiada<br \/>\npor uma clarab\u00f3ia ba\u00e7a, limpava as p\u00e1lpebras, quando<br \/>\nesbarrou com o Barrolo, que procurava Gracinha, para apressar o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; A Gracinha j\u00e1 desce! &#8211; atabalhoou o Fidalgo. &#8211; Est\u00e1 a lavar<br \/>\nas m\u00e3os! J\u00e1 desce!&#8230; Mas antes do almo\u00e7o vamos \u00e0<br \/>\ncavalari\u00e7a. Devemos uma visita \u00e0 \u00e9gua, a essa querida<br \/>\n\u00e9gua que me salvou!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, caramba! &#8211; concordou logo Barrolo revirando nos degraus,<br \/>\ncom entusiasmo. &#8211; Precisamos visitar a \u00e9gua&#8230; Grande, briosa, hem!<br \/>\nMas aposto que ficou mais suada que as minhas&#8230; Imagina! uma trotada daquelas,<br \/>\ndesde Oliveira, e nem um p\u00ealo molhado! Grandes \u00e9guas! Tamb\u00e9m,<br \/>\no que eu as olho, o que as trato!<\/p>\n<p>Na cavalari\u00e7a, ambos afagaram a \u00e9gua. Barrolo lembrou que se<br \/>\nmimoseasse com uma ra\u00e7\u00e3o larga de cenoura. Depois &#8211; para que<br \/>\nGracinha, com vagar, se calmasse &#8211; o Fidalgo arrastou o Barrolo ao pomar e<br \/>\n\u00e0 horta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tu n\u00e3o vens \u00e0 Torre h\u00e1 perto de seis meses, Barrolinho!<br \/>\nPrecisas ver, admirar progressos. Anda agora por aqui a m\u00e3o forte do<br \/>\nPereira da Riosa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, Gon\u00e7alinho!<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m eu!<\/p>\n<p>Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida e<br \/>\nem festa &#8211; e Gracinha, \u00e0 beira do divan, percorria pensativamente a<br \/>\nvelha Gazeta do Porto. Apesar de muito banhados, os seus belos olhos conservavam<br \/>\num ardor; e para o justificar, e o seu modo abatido, logo se lastimou, corando,<br \/>\nduma enxaqueca. Eram as emo\u00e7\u00f5es, o perigo de Gon\u00e7alo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m eu tenho dor de cabe\u00e7a! &#8211; declarou o Barrolo, rondando<br \/>\na mesa. &#8211; Mas a minha vem da fome&#8230; Oh, filhos, \u00e9 que estou desde<br \/>\nas sete da manh\u00e3 com uma ch\u00e1vena de caf\u00e9 e um ovo quente!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta envidra\u00e7ada,<br \/>\nesbaforido, escancarando a boca num riso imenso, foi o Joaquim, o mo\u00e7o<br \/>\nda cavalari\u00e7a que voltava da Grainha.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo atirou os bra\u00e7os, s\u00f4frego:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?! ent\u00e3o?!<\/p>\n<p>&#8211; Pois l\u00e1 estive, meu Fidalgo! &#8211; exclamou o Joaquim com o peito a<br \/>\nestalar de import\u00e2ncia. &#8211; E vai por l\u00e1 um povol\u00e9u, todos<br \/>\nj\u00e1 sabem! Uma rapariga dos Bravais espreitou tudo, de dentro do quinteiro&#8230;<br \/>\nDepois correu, badalou&#8230; Mas o velho, o tal Domingues que mora. na casa,<br \/>\ne o filho, abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se caiu,<br \/>\nsem sentidos, foi com o susto. O Ernesto de Nacejas, esse sim, santo nome<br \/>\nde Deus, apanhou. L\u00e1 o levaram em bra\u00e7os para casa dum compadre<br \/>\nali ao p\u00e9, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem<br \/>\nboca!&#8230; Pois por todos aqueles s\u00edtios era o ai-jesus das mo\u00e7as!&#8230;<br \/>\nE logo l\u00e1 o carregaram para o hospital de Vila-Clara, que na casa do<br \/>\ncompadre n\u00e3o pode sarar. Um povol\u00e9u, e todos d\u00e3o a raz\u00e3o<br \/>\nao Fidalgo. O tal Domingues era malandro. E o Ernesto, esse ningu\u00e9m<br \/>\no podia enxergar! Mas todos lhe tinham medo&#8230; O Fidalgo fez uma limpeza!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo resplandecia. Ah! Ainda bem! que n\u00e3o passara dano mais<br \/>\nforte, que beleza perdida do D. Juan de Nacejas!<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o o povo por l\u00e1, a falar, a olhar para o s\u00edtio?<\/p>\n<p>&#8211; Pois o povo n\u00e3o se arreda! E a mostrar o sangue, no ch\u00e3o,<br \/>\ne as pedras por onde se atirou a \u00e9gua do Fidalgo&#8230; E agora at\u00e9<br \/>\ncontam que foi uma espera, e que desfecharam tr\u00eas tiros ao Fidalgo,<br \/>\ne que depois adiante no pinhal ainda saltaram tr\u00eas homens mascarados<br \/>\nque o Fidalgo escangalhou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eis a lenda que se forma! &#8211; declarou Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>O Bento aparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo afagou risonhamente<br \/>\no ombro do Joaquim. E embaixo a Rosa que abrisse, para o almo\u00e7o da<br \/>\nfam\u00edlia, duas garrafas de vinho do Porto, velho. Depois com a m\u00e3o<br \/>\nnas costas da cadeira murmurou gravemente: &#8211; Pensemos um momento em Deus,<br \/>\nque me tirou hoje dum grande perigo!<\/p>\n<p>Barrolo pendeu a cabe\u00e7a, reverente. Gracinha, atrav\u00e9s dum leve<br \/>\nsuspiro, pensou uma leve ora\u00e7\u00e3o. E desdobravam os guardanapos;<br \/>\nGon\u00e7alo aclamava a travessa de pescada \u00e0 espanhola &#8211; quando<br \/>\no pequeno da Cr\u00edspola empurrou ainda a porta envidra\u00e7ada &#8220;com<br \/>\num telegrama, que viera da Vila!&#8221; Uma inquieta\u00e7\u00e3o deteve<br \/>\nos garfos. A manh\u00e3 correra com tantas agita\u00e7\u00f5es e espantos!<br \/>\nMas j\u00e1 um sorriso de gosto, de triunfo, se espalhara na fina face de<br \/>\nGon\u00e7alo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada&#8230; \u00c9 do Castanheiro, por causa dos cap\u00edtulos<br \/>\ndo Romance que eu lhe mandei&#8230; Coitado! Bom rapaz!<\/p>\n<p>E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegrama, que os seus olhos<br \/>\nafagavam: &#8211; &#8220;Cap\u00edtulos romance recebidos. Leitura feita amigos.<br \/>\nEntusiasmo! Verdadeira obra-prima! Abra\u00e7o!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Barrolo, com a boca cheia, bateu as palmas. E Gon\u00e7alo, sem reparar<br \/>\nna travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de vinho<br \/>\nverde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que n\u00e3o se dissipava:<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, boa manh\u00e3&#8230; Grande manh\u00e3!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, apesar das insist\u00eancias de Gracinha e do Barrolo, n\u00e3o<br \/>\nos acompanhou para Oliveira no desejo de acabar, durante essa semana, o derradeiro<br \/>\nCap\u00edtulo da Novela, e depois cerrar o pregui\u00e7oso giro de visitas<br \/>\naos influentes Eleitorais do C\u00edrculo. Assim rematava a Obra de Arte<br \/>\ne a obra de Pol\u00edtica, e cumpria, Deus louvado, a tarefa desse ver\u00e3o<br \/>\nfecundo!<\/p>\n<p>Logo nessa noite retomou o manuscrito da Novela e na margem larga lan\u00e7ou<br \/>\n\u00e0 data uma nota: &#8220;Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma briga<br \/>\nterr\u00edvel com dois homens que me assaltaram a pau e tiro, e que castiguei<br \/>\nseveramente&#8230;&#8221; Depois, com facilidade atacou o lance de tanto sabor<br \/>\nmedieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do Bastardo, penetrava,<br \/>\nao espalhado e fumarento clar\u00e3o dos archotes, no arraial de D. Pedro<br \/>\nde Castro.<\/p>\n<p>Com grave amizade acolhia o velho homem de guerra aquele seu primo de Portugal,<br \/>\nque lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Iren\u00e9ia, quando os Castros<br \/>\ncombateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornim. Depois, na vasta<br \/>\ntenda, reluzente de armas, tapizada de peles de le\u00e3o e de urso, Tructesindo<br \/>\ncontava, ainda a arfar de dor represa, a morte de seu filho Louren\u00e7o,<br \/>\nferido na lide de Canta-Pedra, acabado a punhalada pelo Bastardo de Bai\u00e3o,<br \/>\ndiante das muralhas de Santa Iren\u00e9ia, com o sol no c\u00e9u alto<br \/>\na olhar a trai\u00e7\u00e3o! Indignado, o velho Castro esmurra\u00e7ou<br \/>\na mesa, onde um ros\u00e1rio de ouro se misturava a grossas pe\u00e7as<br \/>\nde xadrez; jurou pela vida de Cristo que, em sessenta anos de armas e surpresas,<br \/>\nnunca soubera de feito mais vil! E, agarrando a m\u00e3o do senhor de Santa<br \/>\nIren\u00e9ia, ardentemente lhe ofereceu, para a empresa da santa vingan\u00e7a,<br \/>\na sua hoste inteira &#8211; trezentas e trinta lan\u00e7as, vasta e rija peonagem.<\/p>\n<p>&#8211; Por Santa Maria! Formosa arrancada! &#8211; bradou Mendo de Briteiros com as<br \/>\nvermelhas barbas a flamejar de gosto.<\/p>\n<p>Mas D. Garcia Viegas, o Sabedor entendia que para colherem o Bastardo vivo,<br \/>\ncomo convinha a uma vingan\u00e7a vagarosa e bem gozada, mais utilmente<br \/>\nserviria uma calada e curta fila de Cavaleiros, com alguns homens de p\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea, D. Garcia?<\/p>\n<p>&#8211; Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da peonada<br \/>\ne carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher \u00e0 for\u00e7a<br \/>\nda Hoste Real. Nessa noite, com o seu esfalfado bando de lan\u00e7as, pernoitara<br \/>\ncertamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para encurtar, certamente<br \/>\nretomava a galopada pelo velho caminho de Mirad\u00e1es, que trepa e foge<br \/>\natrav\u00e9s das lombas do Caramulo. Ora ele, Garcia Viegas, conhecia para<br \/>\ndiante do Po\u00e7o da Esquecida, certo passo, onde poucos Cavaleiros, e<br \/>\nalguns besteiros, bem postados por entre o bravio, apanhariam Lopo de Bai\u00e3o<br \/>\ncomo lobo em fojo&#8230;<\/p>\n<p>Tructesindo, incerto e pensativo, metia os dedos lentos pelos fios da barba.<br \/>\nO velho Castro duvidava, preferindo que se pusesse batalha ao Bastardo em<br \/>\ncampo bem liso onde se avantajassem tantas lan\u00e7as j\u00e1 aprestadas,<br \/>\nque depois correriam em alegre levada a assolar as terras de Bai\u00e3o.<br \/>\nEnt\u00e3o Garcia Viegas rogou aos seus primos de Espanha e de Portugal<br \/>\nque sa\u00edssem ao terreiro, diante da tenda, com fartura de tochas para<br \/>\nbem se alumiarem. E a\u00ed, no meio dos Cavaleiros curiosos, \u00e0 claridade<br \/>\ndos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou sobre a terra, com<br \/>\na ponta duma adaga, o roteiro da sua ca\u00e7ada para lhe comprovar a beleza&#8230;<br \/>\nDal\u00e9m castelo Landim, largaria com a alva o Bastardo. Por aqui, quando<br \/>\na lua nascesse, abalariam eles, com vinte Cavaleiros dos Ramires e dos Castros,<br \/>\npara que lidadores de ambas as mesnadas gozassem a lide. Al\u00e9m, se postariam,<br \/>\nalapados no matagal, besteiros e pe\u00f5es de frecha. Por tr\u00e1s,<br \/>\ndeste lado, para entaipar o Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com<br \/>\nt\u00e3o gostosa ajuda ele honrasse o Senhor de Santa Iren\u00e9ia. Adiante,<br \/>\nacol\u00e1, para colher pela gorja o vil\u00e3o, o senhor D. Tructesindo<br \/>\nque era o pai e Deus mandava fosse o vingador. E ali, na estreitura o derrubariam<br \/>\ne o sangrariam como um porco &#8211; e como o sangue era vil, a um tiro de besta<br \/>\nencontrariam \u00e1gua farta para lavar as m\u00e3os, a \u00e1gua do<br \/>\npego das Bichas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Famosa tra\u00e7a! &#8211; murmurou Tructesindo convencido.<\/p>\n<p>E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavaleiros de<br \/>\nEspanha:<\/p>\n<p>&#8211; Vida de Cristo, que se meu tio-av\u00f4 Gutierres tivera por Coudel aqui<br \/>\no Sr. D. Garcia, n\u00e3o lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei-menino,<br \/>\nna grande carreira, para Santo Est\u00eav\u00e3o de Gurivaz!&#8230; Entendido,<br \/>\npois, primo e amigo! E a cavalo, para a monteria, mal reponte a lua!<\/p>\n<p>E recolheram as tendas &#8211; que j\u00e1 nas fogueiras lourejavam os cabritos<br \/>\nda ceia, e os uch\u00f5es acarretavam, dentre os carros da sarga, os pesados<br \/>\nodres de vinho de Tordesilhas.<\/p>\n<p>Com a ceia no arraial (grave e sem ru\u00eddo, porque um luto velava o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o dos h\u00f3spedes) Gon\u00e7alo terminou, nessa<br \/>\nnoite, o seu cap\u00edtulo IV, lan\u00e7ando \u00e0 margem outra nota:<br \/>\n&#8211; &#8220;Meia-noite&#8230; Dia cheio. Batalhei, trabalhei .&#8221; &#8211; Depois no seu<br \/>\nquarto, enquanto se despia, tra\u00e7ou todo o alvoroto da briga curta em<br \/>\nque o Bastardo como lobo em fojo quedaria cativo, \u00e0 merc\u00ea vingadora<br \/>\ndos de Santa Iren\u00e9ia&#8230; Mas de manh\u00e3, antes do almo\u00e7o,<br \/>\nao abancar com gosto para o trabalho &#8211; recebeu dois telegramas, que o desviaram<br \/>\ndeliciosamente da ardente correria contra o Bastardo de Bai\u00e3o.<\/p>\n<p>Eram dois telegramas de Oliveira, um do Bar\u00e3o das Marges, outro do<br \/>\ncapit\u00e3o Mendon\u00e7a &#8211; ambos com parab\u00e9ns ao Fidalgo &#8220;por<br \/>\nassim escapar de t\u00e3o terr\u00edvel espera, destro\u00e7ando os<br \/>\nvalent\u00f5es de Nacejas&#8221;. O Bar\u00e3o das Marges acrescentava:<br \/>\n&#8211; &#8220;Brav\u00edssimo! \u00c9 de her\u00f3i!&#8221;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, enternecido, mostrou os telegramas ao Bento. A nova da sua<br \/>\nfa\u00e7anha, pois, j\u00e1 se espalhara, impressionara Oliveira.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o Sr. Jos\u00e9 Barrolo que contou! &#8211; acudiu o Bento. &#8211; E o Sr. Dr.<br \/>\nver\u00e1! o Sr. Dr. ver\u00e1&#8230; At\u00e9 no Porto se v\u00e3o assombrar!<\/p>\n<p>Ao bater meio-dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o imenso Tit\u00f3,<br \/>\nacompanhado pelo Jo\u00e3o Gouveia que chegara na v\u00e9spera \u00e0<br \/>\ntarde da Costa, soubera da aventura na Assembl\u00e9ia, corria \u00e0<br \/>\nTorre, como amigo para o abra\u00e7o, antes de comparecer, como Autoridade,<br \/>\npara o auto. Ent\u00e3o Gon\u00e7alo, ainda nos bra\u00e7os do Gouveia,<br \/>\npediu generosamente &#8220;que se n\u00e3o procedesse contra os bandidos&#8230;&#8221;<br \/>\nO Administrador recusou, decidido e seco, proclamando o princ\u00edpio da<br \/>\nOrdem, e necessidade dum escarmento rijo, para que Portugal n\u00e3o recuasse<br \/>\naos tempos b\u00e1rbaros do Jo\u00e3o Brand\u00e3o de Mid\u00f5es.<br \/>\nEle e Tit\u00f3 almo\u00e7aram na Torre &#8211; e Tit\u00f3, \u00e0 sobremesa,<br \/>\nlembrou galhofeiramente a conveni\u00eancia dum brinde, e bramou ele o brinde,<br \/>\ncomparando Gon\u00e7alo ao elefante, &#8220;sempre bom, que tanto ag\u00fcenta,<br \/>\ne de repente, z\u00e1s, esmaga o mundo!&#8221;<\/p>\n<p>Depois Jo\u00e3o Gouveia acendendo um grande charuto reclamou a representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nver\u00eddica da desordem, com os pulos, os gritos, para ele se compenetrar<br \/>\ncomo autoridade. Ent\u00e3o atrav\u00e9s da varanda, reviveu a hist\u00f3ria<br \/>\nher\u00f3ica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou por esga\u00e7ar)<br \/>\nos golpes que arremessara imitando os tombos meio desmaiados do valent\u00e3o<br \/>\nde Nacejas, quando j\u00e1 o sangue o alagava. O Administrador e o Tit\u00f3<br \/>\nvisitaram na cavalari\u00e7a a \u00e9gua hist\u00f3rica; e no p\u00e1tio,<br \/>\nGon\u00e7alo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro secando ao sol,<br \/>\nlavadas do sangue que as salpicara.<\/p>\n<p>Diante do port\u00e3o Jo\u00e3o Gouveia bateu gravemente no ombro do<br \/>\nFidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; Gon\u00e7alo, voc\u00ea deve aparecer esta noite na Assembl\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>Apareceu &#8211; e foi acolhido como o vencedor de uma batalha ilustre. No bilhar,<br \/>\npor proposta do velho Ribas, flamejou um grande punch &#8211; e o Comendador Barros,<br \/>\nafogueado, teimava que no domingo se celebrasse em S. Francisco um Te-Deum<br \/>\nde gra\u00e7as, de que ele custearia as despesas, com orgulho, caramba!<br \/>\n\u00c0 sa\u00edda, acompanhado pelo Tit\u00f3, pelo Gouveia, pelo Manuel<br \/>\nDuarte, por outros s\u00f3cios, encontraram o Videirinha &#8211; que n\u00e3o<br \/>\npertencia \u00e0 Assembl\u00e9ia, mas rondava, esperando o Fidalgo para<br \/>\nlhe lan\u00e7ar duas trovas do Fado, improvisadas nessa tarde, em que o<br \/>\nexaltava acima dos outros Ramires, da Hist\u00f3ria e da Lenda!<\/p>\n<p>O rancho quedou no chafariz. O viol\u00e3o gemeu, com amor. E o cantar<br \/>\ndo Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:<\/p>\n<p>Os Ramires doutras eras<br \/>\nVenciam com grandes lan\u00e7as,<br \/>\nEste vence com um chicote,<br \/>\nVede que estranhas mudan\u00e7as!<\/p>\n<p>\u00c9 que os Ramires famosos,<br \/>\nDa passada gera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nTinham a for\u00e7a nas armas<br \/>\nE este a tem no cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>A t\u00e3o requebrado conceito &#8211; os amigos romperam em vivas a Gon\u00e7alo,<br \/>\n\u00e0 Casa de Ramires. E o Fidalgo recolhendo \u00e0 Torre, comovido,<br \/>\npensava:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!&#8230;<\/p>\n<p>Mas que emo\u00e7\u00e3o quando, de manh\u00e3 cedo, o Bento o acordou<br \/>\ncom um telegrama de Lisboa! Era do Cavaleiro &#8211; que &#8220;soubera pelos jornais<br \/>\natentado, lhe mandava entusi\u00e1stico abra\u00e7o pela felicidade e<br \/>\npela valentia!&#8221; Gon\u00e7alo berrou, sentado na cama:<\/p>\n<p>&#8211; Caramba! ent\u00e3o os jornais em Lisboa j\u00e1 falam, Bento! o caso<br \/>\nanda celebrado!<\/p>\n<p>Certamente celebrado! &#8211; porque durante o delicioso dia, o mo\u00e7o do<br \/>\nTel\u00e9grafo, esbaforido sobre a perna manca, n\u00e3o cessou de empurrar<br \/>\no port\u00e3o da Torre, com outros telegramas, todos de Lisboa, da Condessa<br \/>\nde Chelas; de Duarte Louren\u00e7al; dos Marqueses de Coja felicitando;<br \/>\nda tia Louredo com &#8220;parab\u00e9ns ao destemido sobrinho&#8221;; da Marquesa<br \/>\nde Esposende &#8220;esperando que o caro primo tivesse agradecido a Deus!&#8221;&#8230;<br \/>\nE o \u00faltimo do Castanheiro, com exclama\u00e7\u00f5es: &#8211; Magnifico!<br \/>\nDigno de Tructesindo! &#8211; Gon\u00e7alo, pela Livraria, erguia os bra\u00e7os,<br \/>\nestonteado:<\/p>\n<p>&#8211; Santo nome de Deus! mas que ter\u00e3o dito os jornais?<\/p>\n<p>E, por entre os Telegramas, acudiam os cavalheiros dos arredores, os influentes<br \/>\n&#8211; o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao Cabralismo; o velho<br \/>\nPacheco Valadares de S\u00e1, que n\u00e3o se espantara do seu nobre primo,<br \/>\nporque sangue de Ramires, como sangue de S\u00e1s, sempre ferve; o Padre<br \/>\nVicente da Finta, que, com os seus parab\u00e9ns, ofereceu um cestinho de<br \/>\ncachos do seu famoso moscatel tinto; e por fim o Visconde de Rio-Manso, que<br \/>\nagarrado a Gon\u00e7alo, solu\u00e7ou, no enternecimento quase ufano de<br \/>\nque a briga assim rompesse, na estrada, quando &#8220;o querido amigo, o amigo<br \/>\nda sua Rosa&#8221; se encaminhava para a Varandinha. Gon\u00e7alo, afogueado,<br \/>\nbanhado de riso, abra\u00e7ava, recontava pacientemente a fa\u00e7anha,<br \/>\nacompanhava at\u00e9 o port\u00e3o aqueles cavalheiros, que, ao montar<br \/>\nas \u00e9guas, ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura<br \/>\ne r\u00edgida, na doce claridade da tarde de setembro, como saudando, depois<br \/>\ndo her\u00f3i, o secular fundamento do seu hero\u00edsmo.<\/p>\n<p>E o Fidalgo, galgando as escadas para a Livraria, de novo murmurava, estonteado:<\/p>\n<p>&#8211; Que ter\u00e3o dito os jornais de Lisboa?<\/p>\n<p>Nem dormiu, na ansiedade de os devorar. Quando o Bento, em alvoro\u00e7o,<br \/>\nrompeu pelo quarto com o correio &#8211; Gon\u00e7alo saltou, arrojou o len\u00e7ol,<br \/>\ncomo se abafasse. E logo no S\u00e9culo, sofregamente percorrido, encontrou<br \/>\no telegrama de Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a imensa<br \/>\ncoragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote&#8230; O Bento quase arrebatou<br \/>\no S\u00e9culo das m\u00e3os tr\u00eamulas do Fidalgo, para correr \u00e0<br \/>\ncozinha, bramar \u00e0 Rosa a not\u00edcia gloriosa!<\/p>\n<p>De tarde, Gon\u00e7alo correu \u00e0 Vila-Clara, \u00e0 Assembl\u00e9ia,<br \/>\npara devorar os outros jornais de Lisboa, os do Porto. Todos contavam, todos<br \/>\ncelebravam! A Gazeta do Porto, atribuindo o atentado a Pol\u00edtica, ultrajava<br \/>\nfuriosamente o Governo. O Liberal Portuense, por\u00e9m, relacionava &#8220;com<br \/>\ncertas vingan\u00e7as dos republicanos de Oliveira o pavoroso atentado que<br \/>\nquase causara a morte dum dos maiores Fidalgos de Portugal e de Espanha e<br \/>\ndum dos mais pujantes talentos da nova gera\u00e7\u00e3o!&#8221; Os jornais<br \/>\nde Lisboa glorificavam sobretudo &#8220;a coragem espl\u00eandida do Sr. Gon\u00e7alo<br \/>\nRamires&#8221;. E o mais ardente era a Manh\u00e3, num verboso artigo (decerto<br \/>\nescrito pelo Castanheiro), recordando as her\u00f3icas tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nda Casa ilustre, esbo\u00e7ando as belezas do Castelo de Santa Iren\u00e9ia<br \/>\ne terminando por afirmar que, &#8220;agora, se esperava com redobrada ansiedade<br \/>\na apari\u00e7\u00e3o da novela de Gon\u00e7alo Ramires, fundada sobre<br \/>\num feito de seu av\u00f4 Tructesindo no s\u00e9culo XII, e prometida para<br \/>\no primeiro n\u00famero dos Anais de Literatura e de Hist\u00f3ria, a nova<br \/>\nRevista do nosso querido amigo L\u00facio Castanheiro, esse benem\u00e9rito<br \/>\nrestaurador da Consci\u00eancia her\u00f3ica de Portugal!&#8221; &#8211; As m\u00e3os<br \/>\nde Gon\u00e7alo, ao desdobrar os jornais, tremiam. E o Jo\u00e3o Gouveia,<br \/>\ntamb\u00e9m s\u00f4frego, devorando tamb\u00e9m os artigos, por sobre<br \/>\no ombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea, Gon\u00e7alinho, vai ter uma vota\u00e7\u00e3o tremenda!<br \/>\nDepois nessa noite, recolhendo \u00e0 Torre, Gon\u00e7alo encontrou uma<br \/>\ncarta que o perturbou. Era de Maria Mendon\u00e7a, num papel perfumado,<br \/>\ncom o mesmo perfume que t\u00e3o docemente espalhava D. Ana pelo adro de<br \/>\nSanta Maria de Craquede: &#8211; &#8220;S\u00f3 esta manh\u00e3 soubemos o grande<br \/>\nperigo que passou, e ficamos ambas muito comovidas. Mas ao mesmo tempo eu<br \/>\n(e n\u00e3o s\u00f3 eu) muito vaidosa da magn\u00edfica coragem do primo.<br \/>\n\u00c9 dum verdadeiro Ramires! Eu n\u00e3o vou a\u00ed abra\u00e7\u00e1-lo<br \/>\n(com risco de me comprometer e fazer invejas) porque um dos meus pequenos,<br \/>\no Neco, anda muito constipado. Felizmente n\u00e3o \u00e9 coisa de cuidado&#8230;<br \/>\nMas aqui todos, at\u00e9 os pequenos, ansiamos por ver o her\u00f3i, e<br \/>\nn\u00e3o creio que houvesse nada de extraordin\u00e1rio, nem dum lado<br \/>\nnem de outro, em que o primo por aqui aparecesse al\u00e9m de amanh\u00e3<br \/>\n(quinta-feira) pelas tr\u00eas horas. D\u00e1vamos um passeio na quinta,<br \/>\ne at\u00e9 se merendava, \u00e0 boa e velha moda dos nossos av\u00f3s.<br \/>\nEst\u00e1 dito? Muitos cumprimentos, muitos, da Anica, e o primo creia-me,<br \/>\netc.&#8221; &#8211; Gon\u00e7alo sorriu, pensativamente, considerando a carta,<br \/>\nrecebendo o aroma. Nunca a prima Maria lhe empurrara, t\u00e3o claramente,<br \/>\na D. Ana para os bra\u00e7os&#8230; E como D. Ana se deixava empurrar, pronta,<br \/>\ne de olhos cerrados&#8230; Ah, se fosse somente para a alcova! Mas ai! era tamb\u00e9m<br \/>\npara a Igreja. E de novo sentia aquele vozeir\u00e3o de Tit\u00f3, nos<br \/>\ndegraus da portinha verde com a lua cheia por cima dos olmos negros: &#8216;Essa<br \/>\ncriatura teve um amante, e tu sabes que eu nunca minto!&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o tomou lentamente a pena, respondeu a D. Maria Mendon\u00e7a:<br \/>\n&#8211; &#8220;Querida prima &#8211; Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus<br \/>\nentusiasmos. N\u00e3o exageremos! Eu n\u00e3o fiz mais que correr a chicote<br \/>\nuns valent\u00f5es que me assaltaram a tiro. \u00c9 fa\u00e7anha f\u00e1cil<br \/>\npara quem tenha, como eu, um chicote excelente. Enquanto \u00e0 visita \u00e0<br \/>\nFeitosa, que me seria t\u00e3o agrad\u00e1vel, n\u00e3o a posso realizar<br \/>\ncom fundo pesar meu, nem na quinta-feira, nem mesmo por todo este m\u00eas&#8230;<br \/>\nAndo ocupad\u00edssimo com o meu livro, a minha Elei\u00e7\u00e3o, a<br \/>\nminha mudan\u00e7a para Lisboa. A era dos cuidados s\u00e9rios soou severamente<br \/>\npara mim &#8211; cerrando a doce era dos passeios e dos sonhos. Pe\u00e7o que<br \/>\napresente \u00e0 Sra. D. Ana os meus profundos respeitos. E com muitas amizades<br \/>\npara si, e bons desejos pelo restabelecimento desse querido Neco, espero me<br \/>\ncreia sempre seu dedicado e grato primo, etc.&#8221;<\/p>\n<p>Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete de armas sobre o lacre<br \/>\nverde, pensava:<\/p>\n<p>&#8211; Assim aquele maroto do Tit\u00f3 me rouba duzentos contos!&#8230;<\/p>\n<p>Durante toda essa macia semana dos fins de setembro, Gon\u00e7alo trabalhou<br \/>\nno Cap\u00edtulo final da sua Novela.<\/p>\n<p>Era enfim a madrugada vingadora em que os Cavaleiros de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\nrefor\u00e7ados pelas mais nobres lan\u00e7as da mesnada dos Castros,<br \/>\nsurpreendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o Sabedor,<br \/>\no bando de Bai\u00e3o, na sua a\u00e7odada corrida sobre Coimbra&#8230; Briga<br \/>\ncurta e falsa, sem destro e brioso ter\u00e7ar de armas, mais semelhante<br \/>\na montaria contra um lobo do que a arremetida contra um Filho-de-Algo. E assim<br \/>\na desejara Tructesindo, com ruidosa aprova\u00e7\u00e3o de D. Pedro de<br \/>\nCastro, porque n\u00e3o se cuidava de combater um inimigo, mas de colher<br \/>\num matador.<\/p>\n<p>Antes do luzir da alva, o Bastardo abalara do castelo de Landim, em dura<br \/>\npressa e com t\u00e3o descuidada seguran\u00e7a, que nem almog\u00e1var<br \/>\nnem coudel lhe atalaiavam os trilhos. As cotovias cantavam quando ele, em<br \/>\n\u00e1spero trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de<br \/>\npenedia e urze, que chamam a Racha do Mouro, desde que Mafoma a fendeu para<br \/>\nque escapassem \u00e0s adagas crist\u00e3s de El-Rei Fernando, o Magno,<br \/>\no Alcaide mouro de Coimbra e a monja que ele arrebatara \u00e0 garupa. E<br \/>\napenas pela esguia greta enfiara a derradeira lan\u00e7a da fila &#8211; eis que<br \/>\nda outra embocadura do vale surge o cerrado tro\u00e7o dos Cavaleiros de<br \/>\nSanta Iren\u00e9ia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel,<br \/>\nsacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em ca\u00e7ada.<br \/>\nDa selva arredada que os encobria, rompem por tr\u00e1s as lan\u00e7as<br \/>\ndos Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas duma<br \/>\nlevadi\u00e7a. Do recosto dos cerros rola, como represa solta, uma rude<br \/>\ne escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terr\u00edvel! Ainda arranca<br \/>\nfuriosamente a espada, que redemoinhando o coroa de coriscos. Ainda com um<br \/>\nfero grito arremete contra Tructesindo&#8230; Mas bruscamente, dentre um es curo<br \/>\nmagote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de c\u00e2nave, que<br \/>\no la\u00e7a pela gargalheira, o arranca num brusco sac\u00e3o da sela<br \/>\nmourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se entala<br \/>\ne se parte rente ao punho dourado. E enquanto os Cavaleiros de Bai\u00e3o<br \/>\nag\u00fcentam assombradamente o denso cerco de lan\u00e7as, que os envolvera<br \/>\n&#8211; um rolo de pe\u00f5es, em dura grita, como mastins sobre um cerdo, arrastarn<br \/>\no Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e adaga, lhe<br \/>\ndespeda\u00e7am o brial de l\u00e3 roxa, lhe quebram os fechos do elmo,<br \/>\npara lhe cuspirem na face, nas barbas cor de ouro, t\u00e3o belas e de tanto<br \/>\norgulho!<\/p>\n<p>Depois a mesma bruta matula o i\u00e7a, amarrado, para sobre o dorso duma<br \/>\npossante mula de carga, o estende entre dois esguios caixotes de virot\u00f5es,<br \/>\ncomo r\u00eas apanhada ao recolher da montaria. E servos da carriagem ficam<br \/>\nguardando o Cavaleiro soberbo, o Claro-Sol que alumiava a casa de Bai\u00e3o,<br \/>\nagora entaipado entre dois caixotes de pau, com cordas nos p\u00e9s, e cordas<br \/>\nnas m\u00e3os, e nelas espetado um triste ramo de cardo &#8211; emblema da sua<br \/>\ntrai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto os seus quinze Cavaleiros juncavam o ch\u00e3o, esmagados sob<br \/>\no furioso cerco de lan\u00e7as que os investira &#8211; uns hirtos, como adormecidos,<br \/>\ndentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes retalhadas,<br \/>\npendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigais. Os escudeiros, colhidos,<br \/>\nempurrados a pontoada de chu\u00e7o para a boca duma barroca, sem resgate<br \/>\nou merc\u00ea, como alcat\u00e9ia imunda de roubadores de gado, acabaram,<br \/>\ndecepados a macheta pelos barbudos estafeiros leoneses. Todo o vale cheirava<br \/>\na sangue como um p\u00e1tio de magarefes. Para reconhecer os companheiros<br \/>\ndo Bastardo, uma turma de Cavaleiros desafivelava os gorjais, as viseiras,<br \/>\narrancando furtivamente as medalhas de prata, os bentos, saquinhos de rel\u00edquias,<br \/>\nque todos traziam como bem-tementes. Numa face, de fina barba negra, que uma<br \/>\nespuma sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Soeiro<br \/>\nde Lugilde com quem, pela fogueira de S. Jo\u00e3o, folgara t\u00e3o docemente<br \/>\ne bailara no castelo de Unhelo &#8211; e vergado sobre a alta sela rezou, pela pobre<br \/>\nalma sem confiss\u00e3o, uma devota Ave-Maria. Fuscas, tristonhas nuvens,<br \/>\nabafavam a manh\u00e3 de agosto. E afastados \u00e0 entrada do vale, sob<br \/>\na ramagem dum velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia Viegas,<br \/>\no Sabedor, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa, se daria ao Bastardo,<br \/>\nvil\u00e3o de t\u00e3o negra vilta.<\/p>\n<p>Contando assim a sombria emboscada com o gemente esfor\u00e7o de quem empurra<br \/>\num arado por terra pedreira &#8211; gastara Gon\u00e7alo essa doce semana de setembro.<br \/>\nE no s\u00e1bado, cedo, na Livraria, com os cabelos ainda molhados do banho<br \/>\nde chuva, esfregava as m\u00e3os diante da banca &#8211; porque certamente com<br \/>\nduas horas de atento trabalho findaria antes do almo\u00e7o a sua Novela,<br \/>\na sua Obra! E todavia esse final quase o repelia, com o seu sujo horror. O<br \/>\ntio Duarte no seu Poemeto apenas o esbo\u00e7ara, com esquiva indecis\u00e3o,<br \/>\ncomo nobre L\u00edrico que ante uma vis\u00e3o de bruta ferocidade solta<br \/>\num lamento, resguarda a Lira, e desvia para sendas mais doces. E, ao tomar<br \/>\na pena, Gon\u00e7alo, tamb\u00e9m, realmente lamentava que seu av\u00f4<br \/>\nTructesindo n\u00e3o matasse outrora o Bastardo, no fragor da briga, com<br \/>\numa dessas cutiladas maravilhosas, e t\u00e3o doces de celebrar, que racham<br \/>\no Cavaleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o! Sob a folhagem do azinheiro, os tr\u00eas Cavaleiros combinavam<br \/>\ncom lentid\u00e3o uma vingan\u00e7a terrifica. Tructesindo desejara logo<br \/>\nrecolher a Santa Iren\u00e9ia, al\u00e7ar uma forca diante das barbac\u00e3s,<br \/>\nno ch\u00e3o em que seu filho rolara morto, e nela enforcar, depois de bem<br \/>\na\u00e7oitado, como vil\u00e3o, o vil\u00e3o que o matara. O velho D.<br \/>\nPedro de Castro, por\u00e9m, aconselhava despacho mais curto, e tamb\u00e9m<br \/>\ngostoso. Para que rodear por Santa Iren\u00e9ia, desbaratar esse dia de<br \/>\nagosto na arrancada que os levava a Montemor, a socorro das Infantas de Portugal?<br \/>\nQue se estendesse o Bastardo amarrado sobre uma trave, aos p\u00e9s de D.<br \/>\nTructesindo, como porco pelo Natal, e que um cavalari\u00e7o lhe chamuscasse<br \/>\nas barbas, e depois outro, com facalh\u00e3o de ucharia, o sangrasse no<br \/>\npesco\u00e7o, pachorrentamente.<\/p>\n<p>&#8211; Que vos parece, Sr. D. Garcia?<\/p>\n<p>O Sabedor desafivelara o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a poeira<br \/>\nda lide:<\/p>\n<p>&#8211; Senhores e amigos! Temos melhor, e perto tamb\u00e9m, sem delongas de<br \/>\ncavalgada, logo adiante destes cerros, no Pego das Bichas&#8230; E nem torcemos<br \/>\ncaminho, que de l\u00e1, por Tordezelo e Santa Maria da Varge, endireitamos<br \/>\na Montemor, t\u00e3o direitos como voa o corvo&#8230; Confiai em mim, Tructesindo!<br \/>\nConfiai em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal morte e t\u00e3o vil,<br \/>\nque doutra igual se n\u00e3o possa contar desde que Portugal foi condado.<\/p>\n<p>&#8211; Mais vil que forca, para Cavaleiro, meu velho Garcia?<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vereis, senhores e amigos, l\u00e1 vereis!<\/p>\n<p>&#8211; Seja! Mandai dar \u00e0s buzinas.<\/p>\n<p>Ao comando de Afonso Gomes, o Alferes, as buzinas soaram. Um tro\u00e7o<br \/>\nde besteiros e de estafeiros leoneses rodearam a mula que carregava o Bastardo<br \/>\namarrado e entalado entre dois caixotes. E, acaudilhada por D. Garcia, a curta<br \/>\nhoste meteu para o Pego das Bichas, em desbando com os senhores de lan\u00e7a<br \/>\nespalhados, como em marcha de folgan\u00e7a e paz (?), e todos numa rija<br \/>\nfalada recordando, entre gabos e risos, as proezas da lide.<\/p>\n<p>As duas l\u00e9guas de Tordezelo e do seu castelo formoso, se escondia<br \/>\nentre os cerros o Pego das Bichas. Era um lugar de eterno sil\u00eancio e<br \/>\nde eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcara o tio Duarte a desolada<br \/>\nasperid\u00e3o:<\/p>\n<p>Nem trilo de ave em balan\u00e7ado ramo!<\/p>\n<p>Nem fresca flor junto de fresco arroio!<\/p>\n<p>S\u00f3 rocha, matagal, ribas soturnas,<\/p>\n<p>E em meio o Pego, tenebroso e morto!&#8230;<\/p>\n<p>E quando os primeiros Cavaleiros, galgada a lomba dum cerro, o avistaram,<br \/>\nna melancolia da manh\u00e3 nevoenta, emudeceram da larga falada, repuxaram<br \/>\nos freios, assustados ante t\u00e3o \u00e1spero ermo, t\u00e3o prop\u00edcio<br \/>\na Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Diante do escalavrado barranco,<br \/>\npor onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira, aberta com charcos<br \/>\nlamacentos, quase chupados pela estiagem, luzindo pardamente, por entre grossos<br \/>\npedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a meio tiro de besta, negrejava o<br \/>\nPego, lagoa estreita, lisa, sem uma ruga n&#8217;\u00e1gua, duramente negra, com<br \/>\nmanchas mais negras, como l\u00e2mina de estanho onde alastrasse a ferrugem<br \/>\ndo tempo e do abandono. Em torno subiam os cerros, eri\u00e7ados de mato<br \/>\nbravio e alto, sulcados por trilhos de saibro vermelho como por fios de sangue<br \/>\nque escorresse, e rasgado no alto por penedias lustrosas, mais brancas que<br \/>\nossadas. T\u00e3o pesado era o sil\u00eancio, t\u00e3o pesada a soledade,<br \/>\nque o velho D. Pedro de Castro, homem de tanta jornada, se espantou:<\/p>\n<p>&#8211; Feia paragem! E voto a Cristo, a Santa Maria, que nunca antes de n\u00f3s,<br \/>\nnela entrou homem remido pelo batismo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, Sr. D. Pedro de Castro! &#8211; acudiu o Sabedor j\u00e1 por aqui se<br \/>\nmoveu muita lan\u00e7a, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Soeiro,<br \/>\ne de vosso Rei D. Fernando, se erguia naquela beira d&#8217;\u00e1gua, uma castelania<br \/>\nfamosa! Vede al\u00e9m! &#8211; E mostrava na ponta do Pego, fronteira ao barranco,<br \/>\ndois rijos pilares de pedra, que emergiam da \u00e1gua negra, e que chuva<br \/>\ne vento poliram como m\u00e1rmores finos. Um passadi\u00e7o de traves,<br \/>\nsobre estacas limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos<br \/>\npilares. E a meio desse rude esteio pendia uma argola de ferro.<\/p>\n<p>No entanto j\u00e1 o tropel da peonagem se espalhara pela ribanceira. D.<br \/>\nGarcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos besteiros<br \/>\nde Santa Iren\u00e9ia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho e gozando<br \/>\na surpresa, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens descessem o Bastardo<br \/>\nda mula, o estirassem no ch\u00e3o, o despissem, todo nu, como sua m\u00e3e<br \/>\nbarreg\u00e3 o soltara \u00e0 negra vida&#8230;<\/p>\n<p>Tructesindo encarou o Sabedor, franzindo as sobrancelhas hirsutas:<\/p>\n<p>&#8211; Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o vil\u00e3o, e<br \/>\nsujar essa \u00e1gua inocente!&#8230;<\/p>\n<p>E alguns Cavaleiros, em redor, murmuraram tamb\u00e9m contra morte t\u00e3o<br \/>\nquieta e sem mal\u00edcia. Mas os mi\u00fados olhos de D. Garcia giravam,<br \/>\nlampejavam de triunfo e gosto:<\/p>\n<p>&#8211; Sossegai, sossegai! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me<br \/>\nconsente algumas tra\u00e7as. N\u00e3o! Nem enforcado, nem degolado, nem<br \/>\nafogado&#8230; Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e devagar, pelas grandes<br \/>\nsanguessugas que enchem toda essa \u00e1gua negra!<\/p>\n<p>D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas do coxote:<\/p>\n<p>&#8211; Vida de Cristo! Que ter numa hoste o Sr. D. Garcia, \u00e9 ter juntamente,<br \/>\npara marchas e conselho, enrolados num s\u00f3, Anibal e Arist\u00f3teles!<\/p>\n<p>Um rumor de admira\u00e7\u00e3o correu pela hoste:<\/p>\n<p>&#8211; Boa tra\u00e7a, boa tra\u00e7a!<\/p>\n<p>E Tructesindo, radiante, bradava:<\/p>\n<p>&#8211; Andar, andar, besteiros! E v\u00f3s, senhores, recuai para a lomba do<br \/>\ncerro, como para palanque, que vai ser grande a vista! J\u00e1 seis besteiros<br \/>\ndescarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com molhos de<br \/>\ncordas. E, como magarefes para esfolar uma r\u00eas, toda a rude turma se<br \/>\nabateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a cervilheira,<br \/>\no saio, as grevas, os sapat\u00f5es de ferro, depois a grossa roupa de linho<br \/>\nencardido. Agarrado pelos compridos cabelos, filado pelos p\u00e9s, onde<br \/>\nse cravavam agudas unhas no furor de o manter, com os bra\u00e7os esmagados<br \/>\nsob outros grossos bra\u00e7os retesos, o possante Bastardo ainda se estorcia,<br \/>\nurrando, cuspindo contra as faces confusas da matulagem um cuspo avermelhado,<br \/>\nque espumava!<\/p>\n<p>Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido, branquejava,<br \/>\natado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso urrar esmorecia, arquejado<br \/>\ne rouquenho. E um ap\u00f3s outro se erguiam os besteiros, esfalfados, bufando,<br \/>\nlimpando o suor do esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>No entanto os Cavaleiros de Espanha, de Santa Iren\u00e9ia, desmontavam<br \/>\ncravando o couto das lan\u00e7as entre o tojo e as pedras. Todos os recostos<br \/>\ndos outeiros se cobriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde de justa.<br \/>\nSobre uma rocha mais lisa, que dois magros espinheiros toldavam de folha rala,<br \/>\num pajem estendera peles de ovelha para o Sr. D. Pedro de Castro, para o senhor<br \/>\nde Santa Iren\u00e9ia. Mas s\u00f3 o velho Castel\u00e3o se acomodou,<br \/>\npara uma repousada delonga desafivelando o seu corselete de ferro tauxiado<br \/>\nde ouro.<\/p>\n<p>Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes apoiados ao punho da<br \/>\nsua alta espada, os olhos fundos avidamente cravados na tenebrosa lagoa que,<br \/>\ncom morte t\u00e3o fera e t\u00e3o suja, vingaria seu filho&#8230; E pela<br \/>\nborda do Pego, pe\u00f5es, e alguns Cavaleiros de Espanha, remexiam com<br \/>\nvirot\u00f4es, com os coutos das ascumas, a \u00e1gua lodosa, na curiosidade<br \/>\ndas negras bichas escondidas, que o povoam.<\/p>\n<p>Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de pe\u00f5es<br \/>\namontoada em torno ao Bastardo se arredou: e o forte corpo apareceu, nu e<br \/>\nbranco, sobre a terra negra, com um denso p\u00ealo ruivo nos peitos, a sua<br \/>\nvirilidade afogada noutra mata de p\u00ealo ruivo, e todo ligado por cordas<br \/>\nde c\u00e2nave que o inteiri\u00e7avam. Naquela rigidez de fardo, nem as<br \/>\ncostelas arfavam &#8211; apenas os olhos refulgiam, ensang\u00fcentados, horrendamente<br \/>\nesbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns Cavaleiros correram a mirar<br \/>\na aviltada nudez do homem famoso de Bai\u00e3o. O senhor dos Pa\u00e7os<br \/>\nde Argelim mofou, com estrondo:<\/p>\n<p>&#8211; Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!&#8230;<\/p>\n<p>Leonel de Samora raspou o sapato de ferro pelo ombro do malfadado:<\/p>\n<p>&#8211; Vede este Claro-Sol, t\u00e3o claro, que se apaga agora, em \u00e1gua<br \/>\nt\u00e3o negra!<\/p>\n<p>O Bastardo cerrava duramente as p\u00e1lpebras &#8211; donde duas grossas l\u00e1grimas<br \/>\nescaparam, lentamente rolaram&#8230; Mas um agudo preg\u00e3o ressoou pela ribanceira:<\/p>\n<p>&#8211; Justi\u00e7a! Justi\u00e7a!<\/p>\n<p>Era o Adail de Santa Iren\u00e9ia, que marchava, sacudia uma lan\u00e7a,<br \/>\natroava os cerros:<\/p>\n<p>&#8211; Justi\u00e7a! justi\u00e7a que manda fazer o senhor de Treixedo e de<br \/>\nSanta Iren\u00e9ia, num perro matador!&#8230; Justi\u00e7a num perro, filho<br \/>\nde perra, que matou vilmente, e assim morra vilmente por ela!&#8230;<\/p>\n<p>Tr\u00eas vezes pregoou por diante da hoste apinhada nos cerros. Depois<br \/>\nquedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro, como ajulgadores<br \/>\nno seu Estrado de julgamento.<\/p>\n<p>&#8211; Aviai, aviai! &#8211; bradava o Senhor de Santa Iren\u00e9ia.<\/p>\n<p>Imediatamente, a um comando do Sabedor, seis besteiros, com as pernas embrulhadas<br \/>\nem mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como se ergue um morto enrolado<br \/>\nno seu len\u00e7ol, e com ele entraram na \u00e1gua, at\u00e9 o mais<br \/>\nalto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram pelo<br \/>\nlimoso passadi\u00e7o de traves. Com um alarido de ag\u00fcenta! endireita!<br \/>\nal\u00e7a! num desesperado esfor\u00e7o o robusto corpo branco foi mergulhado<br \/>\nn&#8217;\u00e1gua at\u00e9 as virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois<br \/>\nnele atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o suspendia,<br \/>\nsem escorregar, t\u00e3o seguro e colado como um rolo de vela que se amarra<br \/>\nao mastro. Rapidamente os besteiros fugiram d&#8217;\u00e1gua, desentrapando logo<br \/>\nas pernas, que palpavam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os outros<br \/>\nrecolheram pelo passadi\u00e7o, numa fila que se empurrava. No Pego ficava<br \/>\nLopo de Bai\u00e3o bem arranjado para a vistosa morte lenta, com a \u00e1gua<br \/>\nque j\u00e1 o afogava at\u00e9 as pernas, com cordas que o enroscavam<br \/>\nat\u00e9 o pesco\u00e7o, como a um escravo no poste; e uma espessa mecha<br \/>\ndos cabelos louros la\u00e7ada na argola de ferro, repuxando a face clara,<br \/>\npara que todos nela gozassem largamente a humilhada agonia do Claro-Sol.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o atento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros,<br \/>\nmais entristeceu o enevoado sil\u00eancio do ermo. A \u00e1gua jazia sem<br \/>\num arrepio, com as suas manchas, negras como uma l\u00e2mina de estanho enferrujado.<br \/>\nEntre as cristas das rochas, arqueiros postados pelo Sabedor atalaiavam, para<br \/>\nal\u00e9m, os descampados. Um alto v\u00f4o de gralha atravessou grasnando.<br \/>\nDepois um bafo lento agitou as fl\u00e2mulas das lan\u00e7as cravadas no<br \/>\ntojo denso.<\/p>\n<p>Para despertar, aviar a lentid\u00e3o das bichas, alguns pe\u00f5es atiravam<br \/>\npedras \u00e0 \u00e1gua lodosa. J\u00e1 alguns Cavaleiros espanh\u00f3is<br \/>\nrosnavam impacientes com a delonga, naquela cova abafada. Outros, descendo<br \/>\nagachados \u00e0 borda da lagoa, para mostrar que as faladas bichas nunca<br \/>\nacudiriam, mergulhavam lentamente, n&#8217;\u00e1gua negra, as m\u00e3os descal\u00e7adas,<br \/>\nque depois sacudiam, rindo e mofando do Sabedor&#8230; Mas de repente um estreme\u00e7\u00e3o<br \/>\nsacudiu o corpo do Bastardo; os seus rijos m\u00fasculos, no furioso esfor\u00e7o<br \/>\nde se desprenderem, inchavam entre as cordas, como cobras que se arqueiam;<br \/>\ndos bei\u00e7os arreganhados romperam, em rugidos, em grunhidos, ultrajes<br \/>\ne amea\u00e7as contra Tructesindo covarde, e contra toda a ra\u00e7a de<br \/>\nRamires, que ele emprazava, dentro do ano, para as labaredas do Inferno! Indignado,<br \/>\num Cavaleiro de Santa Iren\u00e9ia agarrou uma besta de garrunche, a que<br \/>\nretesou a corda.<\/p>\n<p>Mas D. Garcia deteve o arremesso:<\/p>\n<p>&#8211; Por Deus, amigo! N\u00e3o roubeis \u00e0s sanguessugas nem uma pinga<br \/>\ndaquele sangue fresco!&#8230; Vede como v\u00eam! vede como v\u00eam!<\/p>\n<p>Na \u00e1gua espessa, em torno \u00e0s coxas mergulhadas do Bastardo,<br \/>\num fr\u00eamito corria, grossas bolhas empolavam &#8211; e delas, molemente, uma<br \/>\nbicha surdiu, depois outra e outra, luzidias e negras, que ondulavam, se colavam<br \/>\n\u00e0 branca pele do ventre, donde pendiam, chupando, logo engrossadas,<br \/>\nmais lustrosas como lento sangue que j\u00e1 escorria. O Bastardo emudecera<br \/>\n&#8211; e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados, at\u00e9 rudes pe\u00f5es<br \/>\ndesviaram a face cuspindo para as urzes. Outros, por\u00e9m, chasqueavam,<br \/>\nassuavam as bichas, gritando: &#8211; a ele, donzelas! a ele! E o gentil \u00c7amora<br \/>\nde Cendufe clamava rindo contra t\u00e3o insossa morte! Por Deus! Uma apostura<br \/>\nde bichas, como a enfermo de almorreimas. Nem era senten\u00e7a de Rico-homem<br \/>\n&#8211; mas receita de herbanista mouro!<\/p>\n<p>&#8211; Pois que mais quereis, meu Leonel? &#8211; acudiu alegremente o Sabedor, resplandecendo.<br \/>\n&#8211; Morte \u00e9 esta para se contar em livros! E n\u00e3o tereis este inverno<br \/>\nser\u00e3o \u00e0 lareira, por todos os solares de Minho a Douro, em que<br \/>\nn\u00e3o volte a hist\u00f3ria deste Pego, e deste feito! Olhai nosso<br \/>\nprimo Tructesindo Ramires! Formosos tratos presenciou decerto em t\u00e3o<br \/>\nlongo lidar de armas!&#8230; E como goza! t\u00e3o atento! t\u00e3o maravilhado!<\/p>\n<p>Na encosta do outeiro, junto do seu bals\u00e3o, que o Alferes cravara<br \/>\nentre duas pedras, e como ele t\u00e3o quedo, o velho Ramires n\u00e3o<br \/>\ndespregava os olhos do corpo do Bastardo, com deleite bravio, num fulgor sombrio.<br \/>\nNunca ele esperara vingan\u00e7a t\u00e3o magn\u00edfica! O homem que<br \/>\natara seu filho com cordas, o arrastara numas andas, o retalhara a punhal<br \/>\ndiante das barbac\u00e3s da sua Honra &#8211; agora, vilmente nu, amarrado tamb\u00e9m<br \/>\ncomo cerdo, pendurado dum pilar, emergido numa \u00e1gua suja, e chupado<br \/>\npor sanguessugas, diante de duas mesnadas, das melhores de Espanha, que miravam,<br \/>\nque mofavam! Aquele sangue, o sangue da ra\u00e7a detestada, n\u00e3o<br \/>\no bebia a terra revolta numa tarde de batalha, escorrendo de ferida honrada,<br \/>\natrav\u00e9s de rija armadura &#8211; mas, gota a gota, escuramente e molemente<br \/>\nse sumia, sorvido por nojentas bichas, que surdiam famintas do lodo e no lodo<br \/>\nreca\u00edam fartas, para sobre o lodo bol\u00e7ar o orgulhoso sangue<br \/>\nque as enfartara. Num charco, onde ele o mergulhara, viscosas bichas bebiam<br \/>\nsossegadamente o Cavaleiro de Bai\u00e3o! Onde houvera homizio de solares<br \/>\nfundado em desforra mais doce?<\/p>\n<p>E a fera alma do velho acompanhava, com inexor\u00e1vel gozo, as sanguessugas<br \/>\nsubindo, espalhadamente alastrando por aquele corpo bem amarrado, como seguro<br \/>\nrebanho pela encosta da colina onde pasta. O ventre j\u00e1 desaparecia<br \/>\nsob uma camada viscosa e negra, que latejava, reluzia na umidade morna do<br \/>\nsangue. Uma fila sugava a cinta, encovada pela \u00e2nsia, donde sangue se<br \/>\nesfiava, numa franja lenta. O denso p\u00ealo ruivo do peito, como a espessura<br \/>\nduma selva, detivera muitas, que ondulavam, com um rasto de lodo. Um mont\u00e3o<br \/>\nenovelado sangrava um bra\u00e7o. As mais fartas, j\u00e1 inchadas, mais<br \/>\nreluzentes, despegavam, tombavam molemente; mas logo outras, famintas, se<br \/>\naferravam. Das chagas abandonadas o sangue escorria delgado, represo nas cordas,<br \/>\ndonde pingava como uma chuva rala. Na escura \u00e1gua boiavam gordas postemas<br \/>\nde sangue esperdi\u00e7ado. E assim sorvido, ressumando sangue, o malfadado<br \/>\nainda rugia, atrav\u00e9s ultrajes imundos, amea\u00e7as de mortes, de<br \/>\ninc\u00eandios, contra a ra\u00e7a dos Ramires! Depois, com um arquejar<br \/>\nem que as cordas quase estalavam, a boca horrendamente escancarada e \u00e1vida,<br \/>\nrompia aos roucos urros, implorando \u00e1gua, \u00e1gua! No seu furor<br \/>\nas unhas, que uma volta de amarras lhe colara contra as fortes coxas, esfarrapavam<br \/>\na carne, cravavam-se na fenda esfarrapada, ensopadas de sangue.<\/p>\n<p>E o furioso tumulto esmorecia num longo gemer cansado &#8211; at\u00e9 que parecia<br \/>\nadormecido nos grossos n\u00f3s das cordas, as barbas reluzindo sob o suor<br \/>\nque as alagara como sob um grosso orvalho, e entre elas a espantada lividez<br \/>\ndum sorriso delirado.<\/p>\n<p>No entanto j\u00e1 na hoste derramada pelos cerros, como por um palanque,<br \/>\nse embotara a curiosidade bravia daquele supl\u00edcio novo. E se acercava<br \/>\na hora da ra\u00e7\u00e3o de meridiana. O Adail de Santa Iren\u00e9ia,<br \/>\ndepois o Almocad\u00e9m Espanhol, mandaram soar os anafins. Ent\u00e3o<br \/>\ntodo o \u00e1spero ermo se animou com uma faina de arraial. O almaz\u00e9m<br \/>\ndas duas mesnadas parara por detr\u00e1s dos morros, numa curta almargem<br \/>\nde erva, onde um regato claro se arrastava nos seixos, por entre as ra\u00edzes<br \/>\nde amieiros chor\u00f5es. Numa pressa esfaimada, saltando sobre as pedras,<br \/>\nos pe\u00f5es corriam para a fila dos machos de carga, recebiam dos uch\u00f5es<br \/>\ne estafeiros a fatia de carne, a grossa metade dum p\u00e3o escuro; e, espalhados<br \/>\npela sombra do arvoredo, comiam com silenciosa lentid\u00e3o, bebendo da<br \/>\n\u00e1gua do regato pelas concas de pau. Depois pregui\u00e7avam, estirados<br \/>\nna relva &#8211; ou trepavam em bando pela outra encosta dos morros, atrav\u00e9s<br \/>\ndo mato, na esperan\u00e7a de atravessar com um virote alguma ca\u00e7a<br \/>\nerradia. Na ribanceira, diante da lagoa, os Cavaleiros, sentados sobre grossas<br \/>\nmantas, comiam tamb\u00e9m, em roda dos alforjes abertos, cortando com os<br \/>\npunhais nacos de gordura nas grossas viandas de porco, empinando, em longos<br \/>\ntragos, as bojudas caba\u00e7as de vinho.<\/p>\n<p>Convidado por D. Pedro de Castro, o velho Sabedor descansava, partilhando<br \/>\nduma larga escudela de barro, cheia de bolo papal, dum bolo de mel e flor<br \/>\nde farinha, onde ambos enterravam lentamente os dedos, que depois limpavam<br \/>\nao forro dos morri\u00f5es. S\u00f3 o velho Tructesindo n\u00e3o comia,<br \/>\nn\u00e3o repousava, hirto e mudo diante do seu pend\u00e3o, entre os seus<br \/>\ndois mastins, naquele fero dever de acompanhar, sem que lhe escapasse um arrepio,<br \/>\num gemido, um fio de sangue, a agonia do Bastardo. Debalde o Castel\u00e3o,<br \/>\nestendendo para ele um pichel de prata, gabava o seu vinho de Tordesilhas,<br \/>\nfresco como nenhum de Aquilat ou de Provins, para a sede de t\u00e3o rija<br \/>\narrancada. O velho Rico-homem nem atendera: &#8211; e D. Pedro de Castro, depois<br \/>\nde atirar dois p\u00e3es aos al\u00f5es fi\u00e9is, recome\u00e7ou<br \/>\ndiscorrendo com Garcia Viegas sobre aquele teimoso amor do Bastardo por Violante<br \/>\nRamires que arrastara a tantos homizios e furores.<\/p>\n<p>&#8211; Ditosos n\u00f3s, Sr. D. Garcia! N\u00f3s a quem a idade e o quebranto<br \/>\ne a fartura j\u00e1 arredam dessas tenta\u00e7\u00f5es&#8230; Que a mulher,<br \/>\ncomo me ensinava certo f\u00edsico quando eu andava com os Mouros, \u00e9<br \/>\nvento que consola e cheira bem, mas tudo enrodilha e esbandalha. Vede como<br \/>\nos meus por elas penaram! S\u00f3 meu pai, com aquela desvairan\u00e7a<br \/>\nde zelos, em que matou a cutelo minha doce madre Estevaninha. E ela t\u00e3o<br \/>\nsanta, e filha do Imperador! A tudo, tudo leva, a tonta ard\u00eancia! At\u00e9<br \/>\na morrer, como este, sugado por bichas, diante duma hoste que merenda e mofa.<br \/>\nE por Deus, quanto tarda em morrer, Sr. D. Garcia!<\/p>\n<p>&#8211; Morrendo est\u00e1, Sr. D. Pedro de Castro. E j\u00e1 com o demo ao<br \/>\nlado para o levar!<\/p>\n<p>O Bastardo morria. Entre os n\u00f3s das cordas ensang\u00fcentadas todo<br \/>\nele era uma ascorosa avantesma escarlate e negra com as viscosas pastas de<br \/>\nbichas que o cobriam, latejando com os lentos fios de sangue que de cada ferida<br \/>\nescorriam, mais copiosos que os regos de umidade por um muro denegrido.<\/p>\n<p>O desesperado arquejar cessara, e a \u00e2nsia contra as cordas, e todo<br \/>\no furor. Mole e inerte como um fardo, apenas a espa\u00e7os esbugalhava<br \/>\nhorrendamente os olhos vagarosos, que revolvia em torno com enevoado pavor.<br \/>\nDepois a face abatia, l\u00edvida e fl\u00e1cida, com o bei\u00e7o pendurado,<br \/>\nescancarando a boca em cova negra, de onde se escoava uma baba ensang\u00fcentada.<br \/>\nE das p\u00e1lpebras novamente cerradas, intumescidas, um muco gotejava,<br \/>\ntamb\u00e9m como de l\u00e1grimas engrossadas com sangue.<\/p>\n<p>A peonagem, no entanto, voltando da ra\u00e7\u00e3o, reatulhava a ribanceira,<br \/>\npasmava, com rudes chufas para o corpo pavoroso que as bichas ainda sugavam.<br \/>\nJ\u00e1 os pajens recolhiam mant\u00e9is e alforjes. D. Pedro de Castro<br \/>\ndescera do cabe\u00e7o com o Sabedor at\u00e9 a borda da \u00e1gua lodosa,<br \/>\nonde quase mergulhava os sapatos de ferro, para contemplar, mais de cerca,<br \/>\no agonizante de t\u00e3o rara agonia! E alguns senhores, estafados com a<br \/>\ndelonga, afivelando os gibanetes, murmuravam: &#8211; &#8220;Est\u00e1 morto! Est\u00e1<br \/>\nacabado!&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Garcia Viegas gritou ao Coudel dos Besteiros:<\/p>\n<p>&#8211; Ermigues, ide ver se ainda resta alento naquela postema.<\/p>\n<p>O Coudel correu pelo passadi\u00e7o de traves, e arrepiado de nojo palpou<br \/>\na l\u00edvida carne, acercou da boca, toda aberta, a l\u00e2mina clara<br \/>\nda adaga que desembainhara.<\/p>\n<p>&#8211; Morto! morto! &#8211; gritou.<\/p>\n<p>Estava morto. Dentro das cordas que o arroxeavam o corpo escorregava, engelhado,<br \/>\nchupado, esvaziado. O sangue j\u00e1 n\u00e3o manava, havia coalhado em<br \/>\npostas escuras, onde algumas bichas teimavam latejando, reluzindo. E outras<br \/>\nainda subiam, tardias. Duas, enormes, remexiam na orelha. Outra tapava um<br \/>\nolho. O Claro-Sol n\u00e3o era mais que uma imund\u00edcie que se decompunha.<br \/>\nS\u00f3 a madeixa dos cabelos louros, repuxada, presa na argola, reluzia<br \/>\ncom um lampejo de chama, como rastro deixado pela ardente alma que fugira.<\/p>\n<p>Com a adaga ainda desembainhada, e que sacudia, o Coudel avan\u00e7ou para<br \/>\no senhor de Santa Iren\u00e9ia, bradou:<\/p>\n<p>&#8211; Justi\u00e7a est\u00e1 feita, que mandastes fazer no perro matador<br \/>\nque morreu!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o velho Rico-homem, atirando o bra\u00e7o, o cabeludo punho,<br \/>\ncom possante amea\u00e7a, bradou, num rouco brado que rolou por penhascos<br \/>\ne cerros:<\/p>\n<p>&#8211; Morto est\u00e1! E assim morra de morte infame quem traidoramente me<br \/>\nafronte a mim e aos da minha ra\u00e7a!<\/p>\n<p>Depois, cortando rigidamente pela encosta do cerro, atrav\u00e9s do mato,<br \/>\ne com um largo aceno ao Alferes do Pend\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Afonso Gomes, mandai dar \u00e0s buzinas. E a cavalo, se vos praz, Sr.<br \/>\nD. Pedro de Castro, primo e amigo, que leal e bom me fostes!&#8230;<\/p>\n<p>O Castel\u00e3o ondeou risonhamente o guante:<\/p>\n<p>&#8211; Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto e honra os recebi de v\u00f3s.<br \/>\nA cavalo pois se vos praz! Que nos promete aqui o Sr. D. Garcia vermos ainda,<br \/>\ncom sol muito alto, os muros de Montemor.<\/p>\n<p>J\u00e1 a peonagem cerrava as quadrilhas, os donz\u00e9is de armas puxavam<br \/>\npara a ribanceira os ginetes folgados que a vasta \u00e1gua escura assustava.<br \/>\nE, com os dois bals\u00f5es tendidos, o A\u00e7or negro, as Treze Arruelas,<br \/>\na fila da cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, donde as pedras<br \/>\nsoltas rolavam. No alto, alguns Cavaleiros ainda se torciam nas selas para<br \/>\nsilenciosamente remirarem o homem de Bai\u00e3o, que l\u00e1 ficava, amarrado<br \/>\nao pilar, na solid\u00e3o do Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos besteiros<br \/>\ne fundibul\u00e1rios de Santa Iren\u00e9ia desfilou, uma rija grita rompeu,<br \/>\ncom chufas, sujas inj\u00farias ao &#8220;perro matador&#8221;. A meio da<br \/>\nescarpa, um besteiro, virando, retesou furiosamente a besta. A comprida garruncha<br \/>\napenas varou a \u00e1gua. Outra logo ziniu, e uma bala de funda, e uma seta<br \/>\nbarbada &#8211; que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novelo de<br \/>\nbichas. O Coudel berrou: &#8220;cerra! anda!&#8221; A r\u00e9cua das az\u00eamolas<br \/>\nde carga avan\u00e7ava, sob o estalar dos l\u00e1tegos; os mo\u00e7os<br \/>\nda carriagem apanhavam grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os<br \/>\nservos carreteiros marcharam, nos seus curtos saios de couro cru, balan\u00e7ando<br \/>\num chu\u00e7o curto: &#8211; e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas,<br \/>\nque chapou na face do Bastardo sobre as finas barbas de ouro.<\/p>\n<h3><a name=\"11\"><\/a>CAP\u00cdTULO XI<\/h3>\n<p>Quando Gon\u00e7alo, estafado e j\u00e1 todo o ardor bruxuleando, retocou<br \/>\neste derradeiro tra\u00e7o da afronta &#8211; a sineta no corredor repicava para<br \/>\no almo\u00e7o. Enfim! Deus louvado! eis finda essa eterna Torre de Ramires!<br \/>\nQuatro meses, quatro penosos meses desde junho, trabalhara na sombria ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos seus av\u00f3s b\u00e1rbaros. Com uma grossa e carregada letra, tra\u00e7ou<br \/>\nno fundo da tira Finis. E datou, com a hora, que era de meio-dia e quatorze<br \/>\nminutos.<\/p>\n<p>Mas agora, abandonada a banca onde tanto labutara, n\u00e3o sentia o contentamento<br \/>\nesperado. At\u00e9 esse supl\u00edcio do Bastardo lhe deixara uma avers\u00e3o<br \/>\npor aquele remoto mundo Afonsino, t\u00e3o bestial, t\u00e3o desumano!<br \/>\nSe ao menos o consolasse a certeza de que reconstitu\u00edra, com luminosa<br \/>\nverdade, o ser moral desses av\u00f3s bravios&#8230; Mas qu\u00ea! bem receava<br \/>\nque sob desconcertadas armaduras, de pouca exatid\u00e3o arqueol\u00f3gica,<br \/>\napenas se esfumassem incertas almas de nenhuma realidade hist\u00f3rica!&#8230;<br \/>\nAt\u00e9 duvidava que sanguessugas recobrissem, trepando dum charco, o corpo<br \/>\ndum homem, e o sugassem das coxas \u00e0s barbas, enquanto uma hoste mastiga<br \/>\na ra\u00e7\u00e3o!&#8230; Enfim, o Castanheiro louvara os primeiros Cap\u00edtulos.<br \/>\nA Multid\u00e3o ama, nas Novelas, os grandes furores, o sangue pingando;<br \/>\ne em breve os Anais espalhariam, por todo o Portugal, a fama daquela Casa<br \/>\nilustre, que armara mesnadas, arrasara castelos, saqueara comarcas por orgulho<br \/>\nde pend\u00e3o, e afrontara arrogantemente os Reis na c\u00faria e nos<br \/>\ncampos de lide. O seu ver\u00e3o, pois, fora fecundo. E para o coroar, eis<br \/>\nagora a Elei\u00e7\u00e3o, que o libertava das melancolias do seu buraco<br \/>\nrural&#8230;<\/p>\n<p>Para n\u00e3o retardar as visitas ainda devidas aos influentes, e tamb\u00e9m<br \/>\npara espairecer, logo depois do almo\u00e7o montou a cavalo &#8211; apesar do<br \/>\ncalor, que desde a v\u00e9spera, e naquele meado de outubro, esmagava a<br \/>\naldeia com o refulgente peso duma can\u00edcula de agosto. Na volta da estrada<br \/>\ndos Bravais um homem gordo, de cal\u00e7a branca enxovalhada, que se apressava,<br \/>\nbufando, sob o seu guarda-sol de paninho vermelho, deteve o Fidalgo com uma<br \/>\ncortesia imensa. Era o Godinho, amanuense da Administra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nLevava um of\u00edcio urgente ao Regedor dos Bravais, e agora corria \u00e0<br \/>\nTorre de mandado do Sr. Administrador&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo recuou a \u00e9gua para a sombra duma carvalha:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que temos, amigo Godinho?<\/p>\n<p>O Sr. Administrador anunciava a S. Exa. que o maroto do Ernesto, o valent\u00e3o<br \/>\nde Nacejas, em tratamento no Hospital de Oliveira, melhorara consideravelmente.<br \/>\nJ\u00e1 lhe repegara a orelha, a boca soldava&#8230; E, como se procedeu \u00e0<br \/>\nquerela, o patife passava da enfermaria para a cadeia&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo protestou logo, com uma palmada no selim:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor! Fa\u00e7a o obs\u00e9quio de dizer ao Sr. Jo\u00e3o<br \/>\nGouveia que n\u00e3o quero que se prenda o homem! Foi atrevido, apanhou<br \/>\numa dose tremenda, estamos quites.<\/p>\n<p>&#8211; Mas Sr. Gon\u00e7alo Mendes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pelo amor de Deus, amigo Godinho! N\u00e3o quero, e n\u00e3o quero&#8230;<br \/>\nExplique bem ao Sr. Jo\u00e3o Gouveia&#8230; Detesto vingan\u00e7as. N\u00e3o<br \/>\nest\u00e3o nos meus h\u00e1bitos, nem nos h\u00e1bitos da minha fam\u00edlia.<br \/>\nNunca houve um Ramires que se vingasse&#8230; Quero dizer, sim, houve, mas&#8230;<br \/>\nEnfim explique bem ao Sr. Jo\u00e3o Gouveia. De resto eu logo o encontro,<br \/>\nna Assembl\u00e9ia&#8230; Bem basta ao homem ficar desfeado. N\u00e3o consinto<br \/>\nque o apoquentem mais!&#8230; Detesto ferocidades.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esta \u00e9 a minha decis\u00e3o, Godinho!<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 darei o recado de V. Exa..<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado. E adeus!&#8230; Que calor, bem!<\/p>\n<p>&#8211; De rachar, Sr. Gon\u00e7alo Mendes; de rachar!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo seguiu, revoltado pela id\u00e9ia de que o pobre valent\u00e3o<br \/>\nde Nacejas, ainda mo\u00eddo, com a orelha mal soldada, baixasse \u00e0<br \/>\ns\u00f3rdida enxovia de Vila-Clara, para dormir sobre uma t\u00e1bua.<br \/>\nPensou mesmo em galopar para Vila-Clara, reter o zelo legal do Jo\u00e3o<br \/>\nGouveia. Mas perto, adiante do lavadouro, era a casa de um Influente, o Jo\u00e3o<br \/>\nFirmino, carpinteiro e seu compadre. E para l\u00e1 trotou, apeando ao portal<br \/>\ndo quinteiro. O compadre Firmino largara cedo para a Arribada, onde trabalhava<br \/>\nnas obras do lagar do Sr. Esteves. E foi a comadre Firmina que correu da cozinha,<br \/>\nobesa e luzidia, com dois pequenos dependurados das saias e mais sujos que<br \/>\nesfreg\u00f5es. O Fidalgo beijou ternamente as duas faces ramelosas:<\/p>\n<p>&#8211; E que rico cheiro a p\u00e3o fresco, \u00f3 comadre! Foi a fornada,<br \/>\nbem? Pois ent\u00e3o grande abra\u00e7o ao Firmino. E que se n\u00e3o<br \/>\nesque\u00e7a! A Elei\u00e7\u00e3o vem para o outro domingo. L\u00e1<br \/>\nconto como voto dele. E olhe que n\u00e3o \u00e9 pelo voto, \u00e9 pela<br \/>\namizade.<\/p>\n<p>A comadre arreganhava os dentes magn\u00edficos num regalado e gordo riso:<br \/>\n&#8211; &#8220;Ai o Fidalgo podia ficar seguro! Que o Firmino j\u00e1 jurara, at\u00e9<br \/>\nao Sr. Regedor, que para o Fidalgo era todo o s\u00edtio a votar, e quem<br \/>\nn\u00e3o fosse a amor ia a pau&#8221;. O Fidalgo apertou a m\u00e3o da<br \/>\ncomadre &#8211; que do degrau do quinteiro, com os dois pequenos enrodilhados nas<br \/>\nsaias, e o gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da \u00e9gua como<br \/>\no sulco dum Rei ben\u00e9fico.<\/p>\n<p>E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ventura da Chiche, encontrou<br \/>\no mesmo fervor, os mesmos sorrisos luzindo de gosto. &#8220;O qu\u00ea! para<br \/>\no Fidalgo! Isso tudo! E nem que fosse contra o Governo!&#8221; &#8211; Na tasca do<br \/>\nManuel da Adega, um rancho de trabalhadores bebia, j\u00e1 ruidoso, com<br \/>\nas jaquetas atiradas para cima dos bancos; o Fidalgo bebeu com eles, galhofando,<br \/>\ngozando sinceramente a pinga verde e o barulho. O mais velho, um avej\u00e3o<br \/>\nescuro, sem dentes, e a face mais engelhada que uma ameixa seca, esmurrou<br \/>\ncom entusiasmo o balc\u00e3o: &#8211; &#8220;Isto, rapazes, \u00e9 Fidalgo que,<br \/>\nquando um pobre de Cristo escalavra a perna, lhe empresta a \u00e9gua, e<br \/>\nvai ele ao lado mais duma l\u00e9gua a p\u00e9, como foi como Solha! Rapazes!<br \/>\nisto \u00e9 Fidalgo para a gente ter gosto!&#8221; As sa\u00fades atroaram<br \/>\na venda. E quando Gon\u00e7alo montou, todos o cercavam como vassalos ardentes,<br \/>\nque a um aceno correriam a votar &#8211; ou a matar!<\/p>\n<p>Em casa do Tom\u00e1s Pedra, a av\u00f3 Ana Preta, uma velha entrevada,<br \/>\nmuito velha e tr\u00eamula, rompeu a choramingar por o seu Tom\u00e1s andar<br \/>\npara o Olival quando o Fidalgo o visitava. &#8220;Que aquilo era como visita<br \/>\nde santo!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa, tia Pedra! Pecador, grande pecador!<\/p>\n<p>Dobrada na cadeirinha baixa, com as farripas brancas descendo do len\u00e7o,<br \/>\npela face toda chupada de grelhas e peluda, a tia Ana bateu no joelho agudo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor! n\u00e3o senhor! que quem mostrou aquela caridade<br \/>\npelo filho do Casco merece estar em altar!<\/p>\n<p>O Fidalgo ria, beijocava pequenadas encardidas, apertava m\u00e3os \u00e1speras<br \/>\ne rugosas como ra\u00edzes, acendia o cigarro \u00e0 brasa das lareiras,<br \/>\nconversando, com intimidade, das mol\u00e9stias e dos derri\u00e7os. Depois,<br \/>\nno calor e p\u00f3 da estrada, pensava: &#8211; &#8220;\u00c9 curioso! parece<br \/>\nhaver amizade, nesta gente!&#8221;<\/p>\n<p>\u00c0s quatro horas, derreado, decidiu cessar o giro, recolher \u00e0<br \/>\nTorre pela estrada mais fresca da Bica Santa. E passara o lugarejo do Cerdal,<br \/>\nquando na volta aguda do Caminho, rente ao souto de azinheiros, quase esbarrou<br \/>\ncom o Dr. J\u00falio, tamb\u00e9m a cavalo, tamb\u00e9m no seu giro,<br \/>\nde quinzena de alpaca, alagado em suor, debaixo dum guarda-sol de seda verde.<br \/>\nAmbos detiveram as \u00e9guas, se saudaram amavelmente.<\/p>\n<p>&#8211; Muito gosto em o ver, Sr. Dr. J\u00falio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Igualmente, com muita honra, Sr. Gon\u00e7alo Ramires&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o tamb\u00e9m na tarefa?&#8230;<\/p>\n<p>O Dr. J\u00falio encolheu os ombros:<\/p>\n<p>&#8211; Que quer V. Exa.? Se me meteram nesta! E sabe V. Exa. como isto acaba?&#8230;<br \/>\nAcaba em eu mesmo, no outro domingo, votar em V. Exa..<\/p>\n<p>O Fidalgo riu. Ambos se debru\u00e7aram, para se apertarem as m\u00e3os<br \/>\ncom alegria, com estima.<\/p>\n<p>&#8211; Que calor este, Sr. Dr. J\u00falio!<\/p>\n<p>&#8211; Horroroso, Sr. Gon\u00e7alo Ramires&#8230; E que ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>Assim o Fidalgo empregou essa semana nas visitas aos Eleitores &#8211; &#8220;os<br \/>\ngrandes e os mi\u00fados&#8221;. E dois dias antes da Elei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnuma sexta-feira \u00e0 tarde, com um tempo j\u00e1 macio e fresco, partiu<br \/>\npara Oliveira &#8211; onde chegara, na v\u00e9spera, o Andr\u00e9 Cavaleiro,<br \/>\ndepois da sua t\u00e3o longa, t\u00e3o falada demora em Lisboa.<\/p>\n<p>Nos Cunhais, apenas saltara da caleche, logo se enfureceu ao saber, pelo<br \/>\nbom Jo\u00e3o da Porta &#8211; &#8220;que as Sras. Lousadas estavam em cima, de<br \/>\nvisita, com a Sra. D. Gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 muito?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o pegadas h\u00e1 meia hora boa, meu senhor.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo enfiou sorrateiramente para o seu quarto, pensando: &#8211; &#8220;Que<br \/>\ndesavergonhadas! Chegou o Andr\u00e9, v\u00eam logo cocar!&#8221; E j\u00e1<br \/>\nse lavara, mudara o fato cinzento &#8211; quando o Barrolo apareceu, esbaforido,<br \/>\ndesusadamente radiante, de sobrecasaca, de chap\u00e9u alto, com as bochechas<br \/>\nacesas, alvoro\u00e7adamente radiantes:<\/p>\n<p>&#8211; Eh, seu Barrolo, que janota!<\/p>\n<p>&#8211; Parece bruxedo! &#8211; gritou o Barrolo, depois dum abra\u00e7o, que repetiu,<br \/>\ncom desacostumado fervor. &#8211; Estava agora mesmo para te mandar um telegrama,<br \/>\nque viesses&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>O Barrolo gaguejou, com um riso reprimido que o iluminava, o inchava:<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea? Para nada&#8230; Quero dizer, para a Elei\u00e7\u00e3o!<br \/>\nPois a Elei\u00e7\u00e3o \u00e9 al\u00e9m de amanh\u00e3, menino!<br \/>\nO Cavaleiro chegou ontem. Agora volto eu do Governo Civil. Estive no Pa\u00e7o<br \/>\ncom o Sr. Bispo, depois passei pelo Governo Civil&#8230; \u00d3timo, o Andr\u00e9!<br \/>\nAparou o bigode, parece mais mo\u00e7o. E traz novidades&#8230; Traz grandes<br \/>\nnovidades!<\/p>\n<p>E o Barrolo esfregava as m\u00e3os, num t\u00e3o faiscante alvoro\u00e7o,<br \/>\ncom tanto riso escapando dos olhos e da face reluzente, que o Fidalgo o encarou<br \/>\ncurioso, impressionado:<\/p>\n<p>&#8211; Ouve l\u00e1, Barrolinho! Tu tens alguma coisa boa para me anunciar?<\/p>\n<p>Barrolo recuou, negou com estrondo, como quem bruscamente fecha uma porta.<br \/>\nEle? N\u00e3o! N\u00e3o sabia nada! S\u00f3 a Elei\u00e7\u00e3o!<br \/>\nNa Murtosa vota\u00e7\u00e3o tremenda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! pensei &#8211; murmurou Gon\u00e7alo. &#8211; E a Gracinha?<\/p>\n<p>&#8211; A Gracinha tamb\u00e9m n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o qu\u00ea, homem? Como est\u00e1? Simplesmente<br \/>\ncomo est\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! est\u00e1 com as Lousadas. H\u00e1 mais de meia hora, aquelas b\u00eabedas!&#8230;<br \/>\nNaturalmente por causa do Bazar do Asilo Novo&#8230; Esta ma\u00e7ada dos Bazares&#8230;<br \/>\nE ouve l\u00e1, Gon\u00e7alinho! Tu ficas at\u00e9 domingo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, volto amanh\u00e3 para a Torre.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois dia de Elei\u00e7\u00e3o, homem! devo estar em casa, no meu centro,<br \/>\nno meio das minhas freguesias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 pena &#8211; murmurou o Barrolo. &#8211; Logo se sabia juntamente com a Elei\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nEu dava um jantar tremendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Logo se sabia, o qu\u00ea?<\/p>\n<p>O Barrolo emudeceu, com outro riso nas bochechas, que eram duas brasas gloriosas.<br \/>\nDepois novamente gaguejou, gingando:<\/p>\n<p>&#8211; Logo se sabia&#8230; Nada! O resultado, o apuramento. E grande br\u00f3dio,<br \/>\ngrande foguet\u00f3rio. Eu, na Murtosa, abro pipa de vinho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Gon\u00e7alo risonhamente prendeu o Barrolo pelos ombros:<\/p>\n<p>&#8211; Dize l\u00e1, Barrolinho. Dize l\u00e1. Tu tens uma coisa boa para<br \/>\ncontar ao teu cunhado.<\/p>\n<p>O outro escapou, protestando com alarido: Que teima, que tolice. Ele n\u00e3o<br \/>\nsabia nada. O Andr\u00e9 n\u00e3o lhe contara nada!<\/p>\n<p>&#8211; Bem &#8211; concluiu o Fidalgo, certo de um am\u00e1vel mist\u00e9rio, que<br \/>\npairava. &#8211; Ent\u00e3o descemos. E se essas carra\u00e7as das Lousadas<br \/>\nainda estiverem l\u00e1 pegadas, manda dizer pelo escudeiro \u00e0 sala,<br \/>\nbem alto, \u00e0 Gracinha, que cheguei, que lhe desejo falar imediatamente<br \/>\nno meu quarto; com esses monstros n\u00e3o h\u00e1 considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Barrolo balbuciou, hesitando:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Bispo gosta delas&#8230; Muito am\u00e1vel comigo, ainda h\u00e1<br \/>\npouco, o Sr. Bispo.<\/p>\n<p>Mas, logo nas escadas, sentiram o piano, Gracinha cantarolando. J\u00e1<br \/>\nse libertara das Lousadas. Era uma antiga can\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica<br \/>\nda Vend\u00e9ia, que outrora, na Torre, ela e Gon\u00e7alo entoavam com<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o, quando os inflamava o amor Fidalgo e rom\u00e2ntico<br \/>\ndos Bourbons e dos Stuarts:<\/p>\n<p>Monsieur de Charette a dit \u00e0 ceux d&#8217;Ancenes<\/p>\n<p>&#8220;Mes amis!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Monsieur de Charette a dit&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo franziu vagarosamente o reposteiro da sala, rematando a estrofe,<br \/>\ncom o bra\u00e7o erguido como uma bandeira:<\/p>\n<p>&#8220;Mes amis!<\/p>\n<p>Le Rai va rammener les Fleurs de Lys!<\/p>\n<p>Gracinha saltou do mocho, numa surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te esper\u00e1vamos! Imaginei que passavas a Elei\u00e7\u00e3o<br \/>\nna Torre&#8230; E por l\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Na Torre, tudo bem, com a ajuda de Deus&#8230; Mas eu com trabalho imenso.<br \/>\nAcabei o meu romance; depois visitas aos Eleitores.<\/p>\n<p>Barrolo, que n\u00e3o sossegava pela sala, rompeu para eles, com o mesmo<br \/>\nriso sufocado:<\/p>\n<p>&#8211; Queres tu saber, Gracinha? Tem estado este homem, desde que chegou, numa<br \/>\ncuriosidade, a ferver. Imagina que eu tenho uma boa nova, uma grande nova<br \/>\npara lhe contar&#8230; Eu n\u00e3o sei nada, a n\u00e3o ser a Elei\u00e7\u00e3o!<br \/>\nPois n\u00e3o \u00e9 verdade, Gracinha?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, muito s\u00e9rio, prendeu o queixo da irm\u00e3:<\/p>\n<p>&#8211; Sabes tu, dize l\u00e1.<\/p>\n<p>Ela sorriu, corada&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o sabia nada, s\u00f3 a Elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Dize l\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei&#8230; S\u00e3o tolices do Jos\u00e9.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o, ante aquele sorriso fraco, rendido, que confessava &#8211; o<br \/>\nBarrolo n\u00e3o se conteve, desafogou como um morteiro estoura: &#8211; Pois<br \/>\nbem! sim! com efeito! &#8211; Grande novidade! Mas o Andr\u00e9, que a trouxera<br \/>\nde Lisboa, fresquinha a saltar, queria ele, s\u00f3 ele, causar a surpresa<br \/>\na Gon\u00e7alo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De modo que eu n\u00e3o posso! Jurei ao Andr\u00e9. A Gracinha sabe,<br \/>\nque eu j\u00e1 lhe contei ontem&#8230; Mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode, tamb\u00e9m<br \/>\njurou. S\u00f3 o Andr\u00e9. Ele vem logo tomar ch\u00e1, e rebenta<br \/>\na bomba&#8230; Que \u00e9 uma bomba! e gra\u00fada!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, ro\u00eddo de curiosidade, murmurou simplesmente, encolhendo<br \/>\nos ombros:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, j\u00e1 sei, \u00e9 uma heran\u00e7a! Tens quinze tost\u00f5es<br \/>\nde alv\u00edssaras, Barrolo.<\/p>\n<p>Mas durante o jantar e depois na sala tomando caf\u00e9, enquanto Gracinha<br \/>\nrecome\u00e7ara as velhas can\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas, agora<br \/>\nas jacobitas, em louvor dos Stuarts &#8211; Gon\u00e7alo ansiou pela apari\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Cavaleiro. Nem receava que a esse encontro se misturasse amargura, despeito<br \/>\nsufocado. Todo o seu furor contra o Cavaleiro, aceso na dolorosa tarde do<br \/>\nMirante, revolvido na Torre durante torturados dias, logo se dissipara lentamente<br \/>\ndepois da sua tocante conversa com a irm\u00e3, na manh\u00e3 hist\u00f3rica<br \/>\nda briga da Grainha. Gracinha ent\u00e3o, com grandes l\u00e1grimas de<br \/>\npureza e de verdade, jurara reserva, retraimento. Gon\u00e7alo, abandonando<br \/>\nOliveira, mostrava tamb\u00e9m uma resist\u00eancia louv\u00e1vel contra<br \/>\no sentimento ou a vaidade que o transviara. Demais ele n\u00e3o podia romper<br \/>\nnovamente com o Cavaleiro, andando ainda nos mexericos e espantos de Oliveira<br \/>\naquela reconcilia\u00e7\u00e3o ruidosa que chamara o Cavaleiro \u00e0<br \/>\nintimidade dos Cunhais. E por fim de que valiam furores ou m\u00e1goas?<br \/>\nNenhum rugir ou gemer seu anulariam o mal que se consumara no Mirante &#8211; se<br \/>\nporventura se consumara. E assim toda a c\u00f3lera contra o Andr\u00e9<br \/>\nse dissipara naquela sua leve e doce alma, onde os sentimentos, sobretudo<br \/>\nos mais escuros, os mais carregados, sempre facilmente se desfaziam como nuvens<br \/>\nem c\u00e9u de estio&#8230;<\/p>\n<p>Mas quando, perto das nove horas, o Cavaleiro penetrou na sala, vagaroso<br \/>\ne magn\u00edfico, com o bigode encurtado mas mais retorcido, uma gravata<br \/>\nvermelha entufando estridentemente no largo peito que entufava, Gon\u00e7alo<br \/>\nsentiu uma renovada avers\u00e3o por toda aquela petul\u00e2ncia recheada<br \/>\nde falsidade &#8211; e apenas p\u00f4de bater molemente, desenxabidamente, nas<br \/>\ncostas do velho amigo, que o apertava num abra\u00e7o de aparatosa ternura.<br \/>\nE enquanto Andr\u00e9, torcendo as luvas claras, languidamente enterrado<br \/>\nna poltrona que o Barrolo lhe achegou com carinho, contava de Lisboa e de<br \/>\nCascais, t\u00e3o alegre, e partidas de bridge e da Parada e d&#8217;El-Rei &#8211;<br \/>\nGon\u00e7alo revivia a tarde do Mirante, o seu pobre cora\u00e7\u00e3o<br \/>\na bater contra a persiana mal fechada, a bruta s\u00faplica murmurada atrav\u00e9s<br \/>\ndaqueles bigodes atrevidos, e emudecera, como empedernido, esmigalhando nervosamente<br \/>\nentre os dentes o charuto apagado. Mas Gracinha conservava uma serenidade<br \/>\natenta, sem nenhum dos seus chamejantes rubores, dos seus desgra\u00e7ados<br \/>\nenleios de modo e gesto, apenas levemente seca, duma secura preparada e posta.<br \/>\nDepois Andr\u00e9 aludira muito desprendidamente ao seu regresso a Lisboa,<br \/>\ndepois da Elei\u00e7\u00e3o, &#8220;porque o tio Reis Gomes, o Jos\u00e9<br \/>\nErnesto, esses cru\u00e9is amigos, lhe andavam atirando para os ombros todo<br \/>\no trabalho da Nova Reforma Administrativa&#8221;.<\/p>\n<p>Entre ele e Gracinha, separados por um curto tapete, parecia cavada uma funda<br \/>\nl\u00e9gua de fosso, onde rolara, se afundara todo aquele romance do ver\u00e3o,<br \/>\nsem que na face de ambos restasse um afogueado vest\u00edgio do seu ardor.<br \/>\nE Gon\u00e7alo, insensivelmente contente pela apar\u00eancia, terminou<br \/>\npor abandonar a cadeira onde se empedernira, acendeu o charuto na vela do<br \/>\npiano, perguntou pelos amigos de Lisboa. Todos (segundo o Cavaleiro) ansiavam<br \/>\npela chegada de Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>L\u00e1 encontrei tamb\u00e9m o Castanheiro&#8230; Entusiasmado com o teu<br \/>\nRomance. Parece que nem no Herculano, nem no Rebelo existe nada t\u00e3o<br \/>\nforte, como reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. O Castanheiro prefere<br \/>\nmesmo o teu realismo \u00e9pico ao do Flaubert, na Salanimb\u00f4. Enfim,<br \/>\nentusiasmado! E n\u00f3s, est\u00e1 claro, ardendo por que apare\u00e7a<br \/>\na sublime obra.<\/p>\n<p>O Fidalgo corou profundamente, murmurando: &#8211; &#8220;Que tolice!&#8221; Depois<br \/>\nro\u00e7ou pela poltrona em que se enterrava o Andr\u00e9, afagou suavemente<br \/>\no largo ombro do Andr\u00e9:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, tens feito c\u00e1 muita falta, meu velho! H\u00e1 dias passei<br \/>\nem Corinde, tive saudades&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Barrolo, que n\u00e3o sossegava, vermelho, a estourar rebolando<br \/>\npela sala, espiando ora o Cavaleiro, ora o Gon\u00e7alo, com um riso mudo<br \/>\ne \u00e1vido, n\u00e3o se conteve mais, gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, basta de pr\u00f3logos&#8230; Vamos l\u00e1 agora \u00e0 grande<br \/>\nsurpresa, Andr\u00e9! Eu tenho estado toda a tarde a rebentar&#8230; Mas enfim,<br \/>\njurei e calei! Agora n\u00e3o posso&#8230; Vamos l\u00e1. E tu, Gon\u00e7alinho,<br \/>\nvai preparando os quinze tost\u00f5es.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, com a curiosidade de novo refervendo, apenas sorria, desprendidamente:<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito! Parece que tens uma bela novidade.<\/p>\n<p>O Cavaleiro alargou lentamente os bra\u00e7os, sempre enterrado na vasta<br \/>\npoltrona, sem pressa:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! \u00e9 a coisa mais simples, mais natural&#8230; A Sra. D. Gra\u00e7a<br \/>\nj\u00e1 sabe, n\u00e3o \u00e9 verdade?&#8230; N\u00e3o h\u00e1 motivo<br \/>\npara surpresa&#8230; T\u00e3o legitima, t\u00e3o natural!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo exclamou, j\u00e1 impaciente:<\/p>\n<p>&#8211; Mas enfim, venha l\u00e1, dize.<\/p>\n<p>O Cavaleiro insistia, indolente. Todo o espanto era que s\u00f3 agora se<br \/>\npensasse em a realizar, coisa t\u00e3o devida, t\u00e3o adequada. Pois<br \/>\nn\u00e3o lhe parecia \u00e0 Sra. D. Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, numa brasa, berrou:<\/p>\n<p>&#8211; Mas qu\u00ea? que diabo?<\/p>\n<p>O Cavaleiro, que se despegara vagarosamente da poltrona, puxou os punhos,<br \/>\ne diante de Gon\u00e7alo, no sil\u00eancio atento, alteando o peito, grave,<br \/>\nquase oficial, come\u00e7ou:<\/p>\n<p>&#8211; Meu tio Reis Gomes, e o Jos\u00e9 Ernesto, tiveram uma id\u00e9ia muito<br \/>\nnatural, que comunicaram a El-Rei, e que El-Rei aprovou&#8230; Que aprovou mesmo<br \/>\nao ponto de a apetecer, de se assenhorear dela, de desejar que fosse s\u00f3<br \/>\nsua. E hoje \u00e9 s\u00f3 de El-Rei. El-Rei pois pensou, como n\u00f3s<br \/>\npensamos, que um dos primeiros Fidalgos de Portugal, decerto mesmo o primeiro,<br \/>\ndevia ter um t\u00edtulo que consagrasse bem a antig\u00fcidade ilustre<br \/>\nda Casa, e consagrasse tamb\u00e9m o m\u00e9rito superior de quem hoje<br \/>\na representa&#8230; Por isso, meu querido Gon\u00e7alo, j\u00e1 te posso anunciar,<br \/>\ne quase em nome de El-Rei, que vais ser Marqu\u00eas de Treixedo.<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! bravo! &#8211; bramou o Barrolo, com palmas delirantes. &#8211; Saltem para<br \/>\nc\u00e1 os quinze tost\u00f5es, Sr. Marqu\u00eas de Treixedo!<\/p>\n<p>Uma onda de sangue cobria a fina face de Gon\u00e7alo. Num relance sentiu<br \/>\nque o T\u00edtulo era um dom do Cavaleiro, n\u00e3o ao chefe da Casa de<br \/>\nRamires, mas ao irm\u00e3o complacente de Gracinha Ramires&#8230; E sobretudo<br \/>\nsentia a incoer\u00eancia de que, ao chefe duma Casa dez vezes secular, m\u00e3e<br \/>\nde Dinastias, edificadora do Reino, com mais de trinta dos seus var\u00f5es<br \/>\nmortos sob a armadura, se atirasse agora um oco t\u00edtulo, atrav\u00e9s<br \/>\ndo Di\u00e1rio do Governo, como a um tendeiro enriquecido que subsidiou<br \/>\nelei\u00e7\u00f5es. Todavia saudou o Cavaleiro, que esperava a efus\u00e3o,<br \/>\nos abra\u00e7os: &#8211; Oh! Marqu\u00eas de Treixedo! certamente muito elegante,<br \/>\nmuito am\u00e1vel&#8230; Depois, esfregando as m\u00e3os, com um sorriso de<br \/>\ngra\u00e7a e de espanto&#8230; Mas, meu caro Andr\u00e9, com que autoridade<br \/>\nme faz El-Rei Marqu\u00eas de Treixedo?<\/p>\n<p>O Cavaleiro levantou vivamente a cabe\u00e7a numa ofendida surpresa:<\/p>\n<p>&#8211; Com que autoridade? Simplesmente com a autoridade que tem sobre n\u00f3s<br \/>\ntodos, como Rei de Portugal que ainda \u00e9, Deus louvado!<\/p>\n<p>E Gon\u00e7alo, muito simplesmente, sem fuma\u00e7a ou pompa, com o mesmo<br \/>\nsorriso de suave gracejo:<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, Andrezinho. Ainda n\u00e3o havia Reis de Portugal, nem<br \/>\nsequer Portugal, e j\u00e1 meus av\u00f3s Ramires tinham solar em Treixedo!<br \/>\nEu aprovo os grandes dons entre os grandes Fidalgos; mas cumpre aos mais antigos<br \/>\ncome\u00e7arem. El-Rei tem uma quinta ao p\u00e9 de Beja, creio eu, o<br \/>\nRonc\u00e3o. Pois dize tu a El-Rei, que eu tenho imenso gosto em o fazer,<br \/>\na ele, Marqu\u00eas do Ronc\u00e3o.<\/p>\n<p>O Barrolo embasbacara, sem compreender, com as bochechas desca\u00eddas<br \/>\ne murchas. Da beira do canap\u00e9, Gracinha, toda corada, faiscava de gosto,<br \/>\npor aquele lindo orgulho que t\u00e3o bem condizia com o seu, mais lhe fundia<br \/>\na alma com a alma do irm\u00e3o amado. E Andr\u00e9 Cavaleiro, furioso,<br \/>\nmas vergando os ombros com ir\u00f4nica submiss\u00e3o, apenas murmurou:<br \/>\n&#8211; &#8220;Bem, perfeitamente!&#8230; Cada um se entende a seu modo&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>O escudeiro entrava com a bandeja do ch\u00e1.<\/p>\n<p>E no domingo foi a Elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda com uma desconfian\u00e7a, uma reserva supersticiosa, o Fidalgo desejou<br \/>\natravessar esse dia muito solitariamente, quase escondido, e no s\u00e1bado,<br \/>\nenquanto todos os amigos de Vila-Clara, mesmo os de Oliveira, o consideravam<br \/>\nestabelecido nos Cunhais, e em comunica\u00e7\u00e3o azafamada com o Governo<br \/>\nCivil, montou a cavalo ao escurecer, e trotou sorrateiramente para Santa Iren\u00e9ia.<\/p>\n<p>Mas o Barrolo (ainda abalado com &#8220;aquele despaut\u00e9rio do Gon\u00e7alo,<br \/>\nque era uma ofensa para o Cavaleiro! at\u00e9 para El-Rei!&#8221;) ficara<br \/>\ncom a miss\u00e3o de telegrafar para a Torre as not\u00edcias sucessivas<br \/>\ndas assembl\u00e9ias, \u00e0 maneira que elas acudissem ao Governo Civil.<br \/>\nE, com ruidoso zelo, logo depois da missa, estabeleceu entre os Cunhais e<br \/>\no velho Convento de S. Domingos um servi\u00e7o de criados formigando sem<br \/>\nrepouso. Gracinha, na sala de jantar, ajudada por Padre Soeiro, copiava com<br \/>\namor, numa letra muito redonda, os telegramas mandados pelo Cavaleiro, que<br \/>\najuntava a l\u00e1pis alguma nota am\u00e1vel &#8211; &#8220;Tudo Otimamente!<br \/>\n&#8211; Vit\u00f3ria cresce. &#8211; Parab\u00e9ns a V Exa.s.&#8221;<\/p>\n<p>Pela estrada de Vila-Clara \u00e0 Torre, incessantemente, o mo\u00e7o<br \/>\ndo Tel\u00e9grafo se esbaforia sobre a perna manca. O Bento rompia pela<br \/>\nLivraria, berrando: &#8220;outro telegrama, Sr. Doutor&#8221;. Gon\u00e7alo,<br \/>\nnervoso, com um imenso bule de ch\u00e1 sobre a banca, a bandeja j\u00e1<br \/>\nalastrada de cigarros meio fumados, lia o telegrama ao Bento. O Bento, com<br \/>\nvivas pelo corredor, corria a bramar o telegrama \u00e0 Rosa.<\/p>\n<p>E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo consentiu em jantar &#8211; j\u00e1<br \/>\nconhecia o seu triunfo espl\u00eandido. E o que o impressionava, relendo<br \/>\nos telegramas, era o entusiasmo carinhoso daqueles influentes, povos que ele<br \/>\nmal rogava, e que convertiam o ato da Elei\u00e7\u00e3o quase num ato<br \/>\nde Amor. Toda a freguesia dos Bravais marchara para a Igreja, cerrada como<br \/>\numa hoste, como Jos\u00e9 Casco na frente erguendo uma enorme bandeira,<br \/>\nentre dois tambores que estouravam. O Visconde de Rio-Manso entrara no adro<br \/>\nda Igreja de Ramilde na sua vit\u00f3ria, com a neta toda vestida de branco,<br \/>\nseguido por uma vistosa fila de char-\u00e0-bancs, onde se apinhavam eleitores<br \/>\nsob toldos de verdura. Na Finta todos os casais se esvaziavam, as mulheres<br \/>\ncarregadas de ouro, os rapazes de flor na orelha, correndo \u00e0 Elei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Fidalgo entre o repenicar das violas, como \u00e0 romaria dum Santo.<br \/>\nE diante da taberna do Pintainho, em face \u00e0 Igreja, a gente da Veleda,<br \/>\nda Riosa, do Cercal erguera um arco de buxo, com d\u00edstico vermelho,<br \/>\nsobre paninho: -&#8220;Viva o nosso Ramires, flor dos homens!&#8221;<\/p>\n<p>Depois, enquanto jantava, um mo\u00e7o da quinta voltou de Vila-Clara,<br \/>\nalvoro\u00e7ado, contando o del\u00edrio, as filarm\u00f4nicas pelas<br \/>\nruas, a Assembl\u00e9ia toda embandeirada, e na casa da C\u00e2mara, sobre<br \/>\na porta, um transparente com o retrato de Gon\u00e7alo, que uma multid\u00e3o<br \/>\naclamava.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo apressou o caf\u00e9. Por timidez, receoso dos viv\u00f3rios,<br \/>\nn\u00e3o ousava correr a Vila-Clara &#8211; a espreitar. Mas acendeu o charuto,<br \/>\npassou \u00e0 varanda, para respirar a doce noite de festa, que andava t\u00e3o<br \/>\ncheia de clar\u00f5es e rumores em seu louvor. E ao abrir a porta envidra\u00e7ada<br \/>\nquase recuou, com outro espanto. A Torre iluminara! Das suas fundas frestas,<br \/>\natrav\u00e9s das negras reixas de ferro, sa\u00eda um clar\u00e3o; e<br \/>\nmuito alta, sobre as velhas ameias, refulgia uma serena coroa de lumes! Era<br \/>\numa surpresa, preparada, com delicioso mist\u00e9rio, pelo Bento, pela Rosa,<br \/>\npelos mo\u00e7os da quinta que agora, todos, no escuro, por baixo da varanda,<br \/>\ncontemplavam a sua obra, alumiando o c\u00e9u sereno. Gon\u00e7alo percebeu<br \/>\nos passos abafados, o pigarro da Rosa. Gritou alegremente da borda da varanda:<\/p>\n<p>&#8211; O, Bento! \u00d3, Rosa!&#8230; Est\u00e1 a\u00ed algu\u00e9m?<\/p>\n<p>Um risinho esfuziou. A jaqueta branca do Bento surdiu da sombra.<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Dr. queria alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, homem! Queria agradecer&#8230; Foram voc\u00eas, hem? Est\u00e1<br \/>\nlinda a ilumina\u00e7\u00e3o! Mas linda. Obrigado, Bento. Obrigado, Rosa!<br \/>\nObrigado, rapazes! De longe deve fazer um efeito soberbo.<\/p>\n<p>Mas o Bento ainda se n\u00e3o contentava com aquelas lamparinas frouxas.<br \/>\nA Torre, para sobressair, necessitava chamas fortes de g\u00e1s. O Sr. Dr.<br \/>\nnem imaginava a altura, depois em cima, a imensid\u00e3o do eirado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o. de repente, Gon\u00e7alo sentiu um desejo de subir a esse<br \/>\nimenso eirado da Torre. N\u00e3o entrara na Torre desde estudante &#8211; e sempre<br \/>\nela lhe desagradara por dentro, t\u00e3o escura, de t\u00e3o duro granito,<br \/>\ncom a sua nudez, sil\u00eancio e frialdade de jazigo, e logo no pavimento<br \/>\nt\u00e9rreo os negros al\u00e7ap\u00f5es chapeados de ferro que levavam<br \/>\nas masmorras. Mas agora as luzes nas frestas aqueciam, reviviam aquela derradeira<br \/>\nossada. Honra de Ordonho Mendes. E de entre as suas ameias, mais alto que<br \/>\nda varanda, lhe parecia interessante respirar aquela rumorosa simpatia esparsa,<br \/>\nque em torno, pelas freguesias rolava, subindo para ele, atrav\u00e9s da<br \/>\nnoite, como um incenso. Enfiou um paletot. desceu \u00e0 cozinha. O Bento.<br \/>\no Joaquim da Horta, divertidos, agarraram grandes lanternas. E com eles atravessou<br \/>\no pomar, penetrou pela atarracada poterna, de funda ombreira, come\u00e7ou<br \/>\na trepar a esguia escadaria de pedra, que tanta sola de ferro polira e pu\u00edra.<\/p>\n<p>J\u00e1 desde s\u00e9culos se perdera a mem\u00f3ria do lugar que ocupava<br \/>\naquela torre nas complicadas fortifica\u00e7\u00f5es da Honra e Senhorio<br \/>\nde Santa Iren\u00e9ia. N\u00e3o era decerto (segundo Padre Soeiro) a nobre<br \/>\ntorre albarr\u00e3, nem a de Alc\u00e1\u00e7ova, onde se guardava o<br \/>\ntesouro, o cart\u00f3rio, os sacos t\u00e3o preciosos das especiarias<br \/>\ndo Oriente &#8211; e talvez, obscura e sem nome, apenas defendesse algum \u00e2ngulo<br \/>\nde muralha, para os lados em que o Castelo enfrontava com as terras semeadas<br \/>\ne os olmedos da Ribeira. Mas, sobrevivente \u00e0s outras mais altivas,<br \/>\ncompreendida nas constru\u00e7\u00f5es do Pa\u00e7o formoso que se erguera<br \/>\ndentre o sombrio Castelo Afonsino, e que dominava Santa Iren\u00e9ia durante<br \/>\na dinastia de Avis, ligada ainda por claras arcarias dum terra\u00e7o ao<br \/>\nPal\u00e1cio de gosto italiano, em que Vicente Ramires converteu o Pa\u00e7o<br \/>\nmanuelino depois da sua campanha de Castela; isolada no pomar, mas sobranceando<br \/>\no casar\u00e3o que lentamente se edificara depois do inc\u00eandio do Pal\u00e1cio<br \/>\nem tempo de El-Rei D. Jos\u00e9, e a derradeira certamente onde retiniram<br \/>\narmas e circularam os homens do Ter\u00e7o dos Ramires &#8211; ela ligava as idades<br \/>\ne como que mantinha, nas suas pedras eternas, a unidade da longa linhagem.<br \/>\nPor isso o povo lhe chamara vagamente a &#8220;Torre de D. Ramires&#8221;. E<br \/>\nGon\u00e7alo, ainda sob a impress\u00e3o dos av\u00f3s e dos tempos<br \/>\nque ressuscitara na sua Novela, admirou com um respeito novo a sua vastid\u00e3o,<br \/>\na sua for\u00e7a, os seus empinados escal\u00f5es, os seus muros t\u00e3o<br \/>\nespessos. que as frestas esguias na espessura se alongavam como corredores,<br \/>\nescassamente alumiadas pelas tigelinhas de azeite, com que o Bento as despertara.<br \/>\nEm cada um dos tr\u00eas sobrados parou, penetrando curiosamente. quase com<br \/>\numa intimidade, nas salas nuas e sonoras, de vasto lajedo, de tenebrosa ab\u00f3bada,<br \/>\ncom os assentos de pedra, estranho buraco ao meio, redondo como o dum po\u00e7o<br \/>\ne ainda pelas paredes riscadas de sulcos de fumos, os an\u00e9is dos tocheiros.<br \/>\nDepois em cima, no imenso eirado que a fieira de lamparinas, cingindo as ameias,<br \/>\nenchia de claridade, Gon\u00e7alo, erguendo a gola do paletot na aragem<br \/>\nmais fina, teve a dilatada sensa\u00e7\u00e3o de dominar toda a Prov\u00edncia,<br \/>\ne de possuir sobre ela uma supremacia paternal, s\u00f3 pela soberana altura<br \/>\ne velhice da sua torre, mais que a Prov\u00edncia e que o Reino. Lentamente<br \/>\ncaminhou em roda das ameias, at\u00e9 o miradouro. a que um candeeiro de<br \/>\npetr\u00f3leo, sobre uma cadeira de palhinha posta em frente \u00e0 fresta,<br \/>\nestragava o entono feudal. No c\u00e9u macio, mas levemente enevoado, raras<br \/>\nestrelas luziam, sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos,<br \/>\na espessura dos arvoredos se fundiam em escurid\u00e3o. Mas na sombra e<br \/>\nsil\u00eancio, por vezes al\u00e9m, para o lado dos Bravais, lampejavam<br \/>\nfoguetes remotos. Um clar\u00e3o amarelado e fumarento, caminhando mais<br \/>\nlonge, entestando para a Finta, era decerto um rancho com archotes festivos.<br \/>\nNa alta Igreja da Veleda tremeluzia uma ilumina\u00e7\u00e3o vaga, rala.<br \/>\nOutras luzes, incertas atrav\u00e9s do arvoredo, riscavam o velho arco do<br \/>\nMosteiro, em Santa Maria de Craquede. Da terra escura subia, por vezes, um<br \/>\nerrante som de tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguesias<br \/>\ncelebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e o preito<br \/>\nno eirado da sua torre, envolto em sil\u00eancio e sombra.<\/p>\n<p>O Bento descera, com o Joaquim, para refor\u00e7ar as lamparinas nas frestas<br \/>\ndos muros, onde elas esmoreciam na espessura. E Gon\u00e7alo sozinho, acabando<br \/>\no charuto, recome\u00e7ou a rolda, lento, em torno \u00e0s ameias, perdido<br \/>\nnum pensamento que j\u00e1 o agitara estranhamente, atrav\u00e9s daquele<br \/>\nsobressaltado domingo&#8230; Era pois popular! Por todas essas aldeias, estendidas<br \/>\n\u00e0 sombra longa da Torre, o Fidalgo da Torre era pois popular! E esta<br \/>\ncerteza n\u00e3o o penetrava de alegria, nem de orgulho &#8211; antes o enchia<br \/>\nagora, naquela serenidade da noite, de confus\u00e3o, de arrependimento!<br \/>\nAh! se adivinhasse &#8211; se ele adivinhasse!&#8230; Como caminharia, com a cabe\u00e7a<br \/>\nbem levantada, com os bra\u00e7os bem estendidos, sozinho, em confian\u00e7a<br \/>\nrisonha para todas essas simpatias que o esperavam, t\u00e3o certas, t\u00e3o<br \/>\ndadas. Mas n\u00e3o! Sempre se julgara cercado da indiferen\u00e7a daquelas<br \/>\naldeias, onde ele, apesar do antiqu\u00edssimo nome, era o costumado mo\u00e7o,<br \/>\nque volta de Coimbra e vive silenciosamente da sua renda, passeando na sua<br \/>\n\u00e9gua. A essas indiferen\u00e7as t\u00e3o naturais nunca ele imaginara<br \/>\narrancar o punhado de votos, o punhado de papelinhos que necessitava para<br \/>\nentrar na Pol\u00edtica, onde ele conquistaria pela destreza o que os velhos<br \/>\nRamires recebiam por heran\u00e7a &#8211; fortuna e poder. Por isso se agarrara<br \/>\nt\u00e3o avidamente \u00e0 m\u00e3o do Cavaleiro, \u00e0 m\u00e3o<br \/>\ndo Sr. Governador Civil &#8211; para que S. Exa., o bom amigo, o mostrasse, o impusesse<br \/>\ncomo o homem necess\u00e1rio, o querido do Governo, o melhor entre os bons,<br \/>\na quem as freguesias deviam oferecer num domingo o punhado de votos.<\/p>\n<p>E na impaci\u00eancia desse favor abafara a mem\u00f3ria de amargos agravos;<br \/>\ndiante de Oliveira pasmada abra\u00e7ara o homem detestado desde anos, que<br \/>\nandava chasqueando e demolindo, por pra\u00e7as e jornais facilitara a ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sentimentos que para sempre deviam jazer enterrados; e envolvera o ser<br \/>\nque mais amava, a sua pobre e fraca irm\u00e3zinha, em confus\u00e3o e<br \/>\nmis\u00e9ria moral&#8230; Torpezas e danos &#8211; e para qu\u00ea? Para surripiar<br \/>\num punhado de votos que dez freguesias lhe trariam correndo, gratuitamente,<br \/>\nefusivamente, entre vivas e foguetes, se ele acenasse e lhos pedisse&#8230;<\/p>\n<p>Ah! eis a\u00ed&#8230; Fora a desconfian\u00e7a, essa encolhida desconfian\u00e7a<br \/>\nde si mesmo &#8211; que desde o col\u00e9gio, atrav\u00e9s da vida, lhe estragara<br \/>\na vida. Era a mesma desgra\u00e7ada desconfian\u00e7a, que ainda semanas<br \/>\nantes, diante de uma sombra, um pau erguido, uma risada numa taberna, o for\u00e7ava<br \/>\na abalar, a fugir, arrepiado e praguejando contra a sua fraqueza. Por fim,<br \/>\num dia, numa volta de estrada, avan\u00e7a, ergue o chicote &#8211; e descobre<br \/>\na sua for\u00e7a! E agora, penetra por entre o povo, agarrado timidamente<br \/>\n\u00e0 m\u00e3o poderosa, por se imaginar impopular &#8211; e descobre a sua<br \/>\npopularidade imensa. Que vida enganada, e tanto a sujara &#8211; por n\u00e3o<br \/>\nsaber!<\/p>\n<p>O Bento n\u00e3o aparecia, ainda azafamado em iluminar condignamente as<br \/>\nreixas da Torre. Gon\u00e7alo atirou a ponta do charuto, e com as m\u00e3os<br \/>\nnas algibeiras do paletot, parou junto do miradouro, olhou vagamente para<br \/>\nas estrelas. A n\u00e9voa adelga\u00e7ara quase sumida &#8211; lumes mais vivos<br \/>\npalpitavam no c\u00e9u mais profundo. De lumes e c\u00e9us descia essa<br \/>\nsensa\u00e7\u00e3o de infinidade, de eternidade, que penetra, como uma<br \/>\nsurpresa, nas almas desacostumadas da sua contempla\u00e7\u00e3o. Na alma<br \/>\nde Gon\u00e7alo passou, muito fugidiamente, o espanto dessas eternas imensidades<br \/>\nsob que se agita, t\u00e3o vaidosa da sua agita\u00e7\u00e3o, a rasteira,<br \/>\na sombria poeira humana. Longe, algum derradeiro foguete ainda lampejava,<br \/>\nlogo apagado na escurid\u00e3o serena. As luzinhas sobre a capela de Veleda,<br \/>\nsobre o arco de Santa Maria de Craquede, esmoreciam, j\u00e1 ralas. Todo<br \/>\no remoto rumor de musicatas se perdera, na mudez mais funda dos campos adormecidos.<br \/>\nO dia de triunfo findava, breve como os luminares e os foguetes. &#8211; E Gon\u00e7alo,<br \/>\nparado, rente do miradouro, considerava agora o valor desse triunfo por que<br \/>\ntanto almejara, por que tanto sabujara. Deputado! Deputado por Vila-Clara,<br \/>\ncomo o Sanches Lucena. E ante esse resultado, t\u00e3o mi\u00fado, t\u00e3o<br \/>\ntrivial &#8211; todo o seu esfor\u00e7o t\u00e3o desesperado, t\u00e3o sem<br \/>\nescr\u00fapulos, lhe parecia ainda menos imoral que ris\u00edvel. Deputado!<br \/>\nPara qu\u00ea? Para almo\u00e7ar no Bragan\u00e7a, galgar de tip\u00f3ia<br \/>\na ladeira de S. .Bento, e dentro do sujo convento escrevinhar na carteira<br \/>\ndo Estado alguma carta ao seu alfaiate, bocejar com a inanidade ambiente dos<br \/>\nhomens e das id\u00e9ias, e distraidamente acompanhar, em sil\u00eancio<br \/>\nou balando, o rebanho do S. Fulg\u00eancio, por ter desertado o rebanho id\u00eantico<br \/>\ndo Braz Victorino. Sim, talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices<br \/>\na um chefe e \u00e0 senhora do chefe, e promessas e risos atrav\u00e9s<br \/>\nde Reda\u00e7\u00f5es, e algum Discurso esbraseadamente berrado &#8211; lograsse<br \/>\nser Ministro. E ent\u00e3o? Seria ainda a tip\u00f3ia pela cal\u00e7ada<br \/>\nde S. Bento, com o correio atr\u00e1s na pileca branca, e a farda malfeita,<br \/>\nnas tardes de assinatura, e os recurvados sorrisos de amanuenses pelos escuros<br \/>\ncorredores da Secretaria, e a lama escorrendo sobre ele de cada gazeta de<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o&#8230; Ah! que peca, desinteressante vida, em compara\u00e7\u00e3o<br \/>\nde outras cheias e soberbas vidas, que t\u00e3o magnificamente palpitavam<br \/>\nsob o tremeluzir dessas mesmas estrelas! Enquanto ele se encolhia no seu paletot,<br \/>\nDeputado por Vila-Clara, e no triunfo dessa mis\u00e9ria &#8211; Pensadores completavam<br \/>\na explica\u00e7\u00e3o do Universo; Artistas realizavam obras de beleza<br \/>\neterna; Reformadores aperfei\u00e7oavam a harmonia social; Santos melhoravam<br \/>\nsantamente as almas; Fisiologistas diminu\u00edam o velho sofrer humano;<br \/>\nInventores alargavam a riqueza das ra\u00e7as; Aventureiros magn\u00edficos<br \/>\narrancavam mundos de sua esterilidade e mudez&#8230; Ah! esses eram os verdadeiramente<br \/>\nhomens, os que viviam deliciosas plenitudes de vida, modelando com as suas<br \/>\nm\u00e3os incansadas formas sempre mais belas ou mais justas da humanidade.<br \/>\nQuem fora como eles, que s\u00e3o os sobre-humanos! E tal a\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o suprema requeria o G\u00eanio, o dom que, como a antiga chama,<br \/>\ndesce de Deus sobre um eleito? N\u00e3o! Apenas o claro entendimento das<br \/>\nrealidades humanas &#8211; e depois o forte querer.<\/p>\n<p>E o Fidalgo da Torre, im\u00f3vel no eirado da Torre, entre o c\u00e9u<br \/>\ntodo estrelado, e a terra toda escura, longamente revolveu pensamentos de<br \/>\nVida superior &#8211; at\u00e9 que enlevado, e como se a energia da longa ra\u00e7a,<br \/>\nque pela Torre passara, reflu\u00edsse ao seu cora\u00e7\u00e3o, imaginou<br \/>\na sua pr\u00f3pria encaminhada enfim para uma a\u00e7\u00e3o vasta e<br \/>\nfecunda, em que soberbamente gozasse o gozo de verdadeiro viver, e em torno<br \/>\nde si criasse vida, e acrescentasse um lustre novo ao velho lustre de seu<br \/>\nnome, e riquezas puras o dourassem, e a sua terra inteira o bem-louvasse porque<br \/>\nele inteiro e num esfor\u00e7o pleno bem servira a sua terra&#8230;<\/p>\n<p>O Bento surdiu da portinha baixa do eirado, com a lanterna:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Doutor ainda se demora?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. A festa acabou, Bento.<\/p>\n<p>Nos come\u00e7os de dezembro, com o primeiro n\u00famero dos Anais,<br \/>\napareceu a Torre de D. Ramires. E todos os jornais, mesmo os da oposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nlouvaram &#8220;esse estudo magistral (como afirmou a Tarde) que, revelando<br \/>\num erudito e um artista, continuava, com uma arte mais moderna e colorida,<br \/>\na obra de Herculano e de Rebelo, a reconstitui\u00e7\u00e3o moral e social<br \/>\ndo velho Portugal her\u00f3ico&#8221;. Depois das festas de Natal, que ele<br \/>\npassou alegremente nos Cunhais, ajudando Gracinha a cozinhar bolos de bacalhau<br \/>\npor uma receita sublime do Padre Jos\u00e9 Vicente, da Finta, os amigos<br \/>\nde Oliveira, os rapazes do Club da Arcada ofereceram ao Deputado por Vila-Clara,<br \/>\nna sala da C\u00e2mara, adornada de buxos e bandeiras, um banquete, a que<br \/>\nassistia o Cavaleiro, de gr\u00e3-cruz, e em que o Bar\u00e3o das Marges<br \/>\n(que presidia) saudou &#8220;o prestigioso mo\u00e7o que, talvez em breve,<br \/>\nnas cadeiras do Poder, levantasse do marasmo este brioso pa\u00eds, com<br \/>\na pujan\u00e7a, a valentia, que s\u00e3o pr\u00f3prias da sua ra\u00e7a<br \/>\nnobil\u00edssima!&#8221;<\/p>\n<p>No meado de janeiro, por uma agreste noite de chuva, Gon\u00e7alo partiu<br \/>\npara Lisboa; e atrav\u00e9s do inverno, em Lisboa, andou sempre nos Carnet-Mondain<br \/>\ne High-Life dos jornais, nas noticias de jantares, do raouts, de tiros aos<br \/>\npombos, de Ca\u00e7adas de El-Rei, t\u00e3o notado nos movimentos mais<br \/>\nsimples da sua eleg\u00e2ncia, que os Barrolos assinaram o Di\u00e1rio<br \/>\nIlustrado para saber quando ele passeava na avenida. Em Vila-Clara, na Assembl\u00e9ia,<br \/>\no Jo\u00e3o Gouveia j\u00e1 encolhia os ombros, rosnando: &#8211; &#8220;Desandou<br \/>\nem janota!&#8221; &#8211; Mas nos fins de abril uma not\u00edcia de repente alvoro\u00e7ou<br \/>\nVila-Clara, espantou na quieta Oliveira os rapazes do Club e da Arcada, perturbou<br \/>\nt\u00e3o inesperadamente Gracinha, ent\u00e3o em Amarante com o Barrolo,<br \/>\nque nessa noite ambos abalaram para Lisboa &#8211; e na Torre atirou a Rosa para<br \/>\num banco de pedra da cozinha, lavada em l\u00e1grimas, sem compreender,<br \/>\ngemendo:<\/p>\n<p>&#8211; Ai o meu rico menino, o meu rico menino, que o n\u00e3o torno mais a<br \/>\nver!<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Mendes Ramires, silenciosamente, quase misteriosamente, arranjara<br \/>\na concess\u00e3o dum vasto prazo de Macheque, na Zamb\u00e9zia, hipotecara<br \/>\na sua quinta hist\u00f3rica de Treixedo, e embarcava em come\u00e7os de<br \/>\njunho no paquete Portugal, com o Bento, para a \u00c1frica.<\/p>\n<h3><a name=\"12\"><\/a>CAP\u00cdTULO XII<\/h3>\n<p>Quatro anos passaram ligeiros e leves sobre a velha Torre, como v\u00f4os<br \/>\nde ave.<\/p>\n<p>Numa doce tarde dos fins de setembro, Gracinha, que chegara na v\u00e9spera<br \/>\nde Oliveira acompanhada pelo bom Padre Soeiro, descansava na varanda da sala<br \/>\nde jantar, estendida sobre o canap\u00e9 de palhinha, ainda com um grande<br \/>\navental branco, tapando o vestido at\u00e9 ao pesco\u00e7o, um velho avental<br \/>\ndo Bento. Todo o dia, de avental, atrav\u00e9s do casar\u00e3o, ajudada<br \/>\npela Rosa e pela filha da Cr\u00edspola, se esfalfara, arrumando e limpando,<br \/>\ncom tanto gosto e fervor no trabalho, que ela mesma sacudira o p\u00f3 a<br \/>\ntodos os livros da Livraria, o seu sossegado p\u00f3 de quatro anos. O Barrolo<br \/>\ntamb\u00e9m se ocupara, dando senten\u00e7as nas obras da cavalari\u00e7a,<br \/>\nque a valente \u00e9gua da briga da Grainha em breve partilharia com uma<br \/>\n\u00e9gua inglesa, de meio sangue, comprada em Londres. Tamb\u00e9m Padre<br \/>\nSoeiro remexera, pelo Arquivo, zelosamente, com um espanejador. E at\u00e9<br \/>\no Pereira da Riosa, o bom rendeiro, apressava desde madrugada dois mo\u00e7os<br \/>\nna final limpeza da horta, agora muito cuidada, j\u00e1 com meloal, j\u00e1<br \/>\ncom morangal, e duas novas ruas, ambas bordadas de roseiras e recobertas de<br \/>\nlatada que a parra densa j\u00e1 recobria.<\/p>\n<p>Com efeito a Torre, entre a alvoro\u00e7ada alegria de todos, enfeitava<br \/>\na sua velhice &#8211; porque no domingo, depois dos seus quatro anos de \u00c1frica,<br \/>\nGon\u00e7alo regressava \u00e0 Torre.<\/p>\n<p>E Gracinha, estendida no canap\u00e9 com o seu velho avental branco, sorrindo<br \/>\npensativamente para a quinta silenciosa, para o c\u00e9u todo corado sobre<br \/>\nValverde, recordava esses quatros anos, desde a manh\u00e3 em que abra\u00e7ara<br \/>\nGon\u00e7alo, sufocada e a tremer, no beliche do Portugal&#8230; Quatro anos!<br \/>\nAssim passados, e nada mudara no mundo, no seu curto mundo dentre os Cunhais<br \/>\ne a Torre, e a vida rolara, e t\u00e3o sem hist\u00f3ria como rola um<br \/>\nrio lento numa solid\u00e3o; Gon\u00e7alo na \u00c1frica, na vaga \u00c1frica,<br \/>\nmandando raras cartas, mas alegres, e com um entusiasmo de fundador de Imp\u00e9rio;<br \/>\nela nos Cunhais, e o seu Barrolo, num t\u00e3o quieto e costumado viver,<br \/>\nque eram quase de agita\u00e7\u00e3o os jantares em que reuniam os Mendon\u00e7as,<br \/>\nos Marges, o coronel do 7, outros amigos, e \u00e0 noite na sala se abriam<br \/>\nduas mesas de pano verde para o voltarete e para o boston.<\/p>\n<p>E neste manso correr de vida se desfizera mansamente, quase insensivelmente,<br \/>\na sombria tormenta do seu cora\u00e7\u00e3o. Nem ela agora compreendia<br \/>\ncomo um sentimento, que atrav\u00e9s das suas ansiedades ela justificava,<br \/>\nquase secretamente santificava por o saber \u00fanico, e o desejar eterno,<br \/>\nassim se sumira, insensivelmente, sem dilacera\u00e7\u00f5es, deixara<br \/>\napenas um leve arrependimento, alguma esfumada saudade, tamb\u00e9m estranheza<br \/>\ne confus\u00e3o, restos de tanto que ardera, formando uma cinza fina&#8230;<br \/>\nA sucess\u00e3o das coisas rolara, como o vento \u00e0s lufadas num campo,<br \/>\ne ela rolara, levada com a in\u00e9rcia duma folha seca.<\/p>\n<p>Logo depois do derradeiro Natal passado com Gon\u00e7alo, Andr\u00e9,<br \/>\nque ainda os acompanhara \u00e0 Missa do Galo e consoara nos Cunhais, voltou<br \/>\npara Lisboa, para essa &#8220;Reforma&#8221;, de que se lastimava&#8230; No sil\u00eancio<br \/>\nque entre ambos ent\u00e3o se alargou, corria j\u00e1 uma frialdade de<br \/>\nabandono&#8230; E quando Andr\u00e9 recolheu a Oliveira, ao seu Governo Civil,<br \/>\npartia ela para Amarante, onde a santa m\u00e3e do Barrolo adoecera, com<br \/>\numa vagarosa doen\u00e7a de anemia e velhice, que em maio a levou para o<br \/>\nSenhor.<\/p>\n<p>Em junho fora o comovido embarque de Gon\u00e7alo para a \u00c1frica<br \/>\n&#8211; e no tombadilho do paquete, entre o barulho e as bagagens, um encontro com<br \/>\nAndr\u00e9, que chegara de Oliveira, dias antes, e contou muito alegremente<br \/>\ndo casamento da Mariquinhas Marges. Todo esse ver\u00e3o, como o Barrolo<br \/>\ndecidira fazer obras consider\u00e1veis no velho palacete do largo de El-Rei,<br \/>\no passaram na quinta da Murtosa, que ela escolhera por causa da linda mata,<br \/>\ndos altos muros de convento. A essa solid\u00e3o atribuiu logo o Barrolo<br \/>\na sua melancolia, a sua magreza, aquele cansado cismar a que se abandonava,<br \/>\npelos bancos musgosos da mata, com um romance esquecido no rega\u00e7o.<br \/>\nPara que ela se distra\u00edsse, se fortificasse com banhos do mar, alugou<br \/>\nem setembro, na Costa, o vistoso chal\u00e9 do Comendador Barros. Ela n\u00e3o<br \/>\ntomou banhos, nem aparecia na praia, \u00e0 fresca hora das barracas, entre<br \/>\nas senhoras sentadas em cadeirinhas baixas; &#8211; e s\u00f3 \u00e0 tarde passeava<br \/>\npelo comprido areal, rente \u00e0 vaga, acompanhada por dois enormes galgos<br \/>\nque lhe dera Manuel Duarte. Uma manh\u00e3, ao almo\u00e7o, ao abrir as<br \/>\nNovidades, Barrolo pulou, com um berro, um espanto. Era a queda inesperada<br \/>\ndo Minist\u00e9rio do S. Fulg\u00eancio! Andr\u00e9 Cavaleiro apresentava<br \/>\nlogo a sua demiss\u00e3o pelo tel\u00e9grafo. E ainda pelas Novidades<br \/>\nsouberam na Costa que S. Exa. partira para uma &#8216;longa e pitoresca viagem&#8221;,<br \/>\na viagem a Constantinopla, \u00e0 \u00c1sia Menor, que ele anunciara ao<br \/>\njantar nos Cunhais. Ela abrira um Atlas: com o dedo lento caminhou desde Oliveira<br \/>\nat\u00e9 a S\u00edria, por sobre fronteiras e montes; j\u00e1 Andr\u00e9<br \/>\nlhe parecia desvanecido, nesses horizontes mais luminosos; fechou o Atlas,<br \/>\npensando simplesmente &#8220;como a gente muda!&#8221;<\/p>\n<p>Em novembro voltaram a Oliveira, num s\u00e1bado de chuva, e ela na carruagem<br \/>\nsentia toda a melancolia e a frialdade do c\u00e9u penetrar no seu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas no domingo acordou com um lindo sol nas vidra\u00e7as. Para a missa<br \/>\ndas onze na S\u00e9, ela estreou um chap\u00e9u novo; depois, no caminho<br \/>\npara casa da tia Arminda, levantou os olhos para o casar\u00e3o do Governo<br \/>\nCivil; agora habitava l\u00e1 outro Governador Civil, o Sr. Santos Maldonado,<br \/>\num mo\u00e7o louro que tocava piano.<\/p>\n<p>Na outra primavera o Barrolo, agora escravizado pela paix\u00e3o de obras,<br \/>\nimaginou demolir o Mirante para construir outra estufa, mais vasta, com um<br \/>\nrepuxo entre palmeiras, que formaria &#8220;um jardim de inverno catita&#8221;.<\/p>\n<p>Os trabalhadores come\u00e7aram por esvaziar o Mirante da velha mob\u00edlia<br \/>\nque o guarnecia desde o tempo do tio Melchior; o imenso divan jazeu dois dias<br \/>\nno jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o Barrolo, impaciente, com<br \/>\naquele desusado traste, de molas quebradas, nem o consentiu nas arrecada\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo s\u00f3t\u00e3o, mandou que o queimassem com outras cadeiras, partidas,<br \/>\nnuma fogueira de festa, na noite dos anos de Gracinha. E ela andou em torno<br \/>\nda fogueira. O estofo pu\u00eddo flamejou, depois o mogno pesado mais lentamente,<br \/>\ncom um leve fumo, at\u00e9 que uma brasa ficou latejando, e a brasa escureceu<br \/>\nem cinza.<\/p>\n<p>Logo nessa semana as Lousadas, mais agudas, mais escuras, invadiram uma tarde<br \/>\nos Cunhais &#8211; e apenas espetadas no sof\u00e1, logo lhe contaram, com um<br \/>\nriso feroz nos olhinhos furantes, do grande esc\u00e2ndalo, o Cavaleiro!<br \/>\nem Lisboa! sem rebu\u00e7o! com a mulher do Conde de S. Rom\u00e3o! um<br \/>\nfazendeiro de Cabo Verde!<\/p>\n<p>Nessa noite, ela escreveu a Gon\u00e7alo uma carta muito longa que come\u00e7ava:<br \/>\n&#8211; &#8220;Por c\u00e1 estamos todos bem, e neste ramerrame costumado&#8230;&#8221;<br \/>\nE com efeito a vida recome\u00e7ara, no seu ramerrame, simples, cont\u00ednua,<br \/>\ne sem hist\u00f3ria, como corre um rio claro numa solid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 porta envidra\u00e7ada da varanda o filho da Cr\u00edspola espreitou<br \/>\n&#8211; o filho da Cr\u00edspola, que ficara sempre na Torre, como &#8220;andarilho&#8221;,<br \/>\nmas crescera muito para fora da sua antiga jaqueta de bot\u00f5es amarelos,<br \/>\nusava agora jaquet\u00f5es velhos do Sr. Doutor, e j\u00e1 repuxava o<br \/>\nbu\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; E que est\u00e1 l\u00e1 embaixo o Sr. Ant\u00f4nio Vilalobos, com<br \/>\no Sr. Gouveia e outro senhor, o Videirinha, e perguntam se podem falar \u00e0<br \/>\nsenhora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Vilalobos! Sim! que subam, que entrem para aqui, para a varanda!<\/p>\n<p>Ao atravessar a sala, onde dois esteireiros de Oliveira pregavam uma esteira<br \/>\nnova, o vozeir\u00e3o do Tit\u00f3 j\u00e1 ribombava, notando os &#8220;preparativos<br \/>\nda festa&#8230;&#8221; E quando entrou na varanda a sua face mais barbuda, mais<br \/>\nrequeimada, rebrilhava com a alegria de encontrar enfim a Torre despertando<br \/>\ndaquela modorra, em que tudo dentro parecia tristemente apagado, at\u00e9<br \/>\no lume das ca\u00e7arolas:<\/p>\n<p>&#8211; Pe\u00e7o desculpa da invas\u00e3o, prima Gra\u00e7a. Mas passamos,<br \/>\nde volta dum passeio dos Bravais, soubemos que a prima viera com o Barrolo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! gosto imenso, primo Ant\u00f4nio. Eu \u00e9 que pe\u00e7o desculpa<br \/>\ndesta figura, assim despenteada, de grande avental&#8230; Mas todo o dia em arranjos,<br \/>\na preparar a casa&#8230; E o Sr. Gouveia, como tem passado? N\u00e3o o vejo<br \/>\ndesde a P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>O Administrador, que n\u00e3o mudara nesses quatro anos, escuro, seco,<br \/>\ncomo feito de madeira, sempre esticado na sobrecasaca preta, apenas com o<br \/>\nbigode mais amarelado do cigarro, agradeceu \u00e0 Sra. D. Gra\u00e7a&#8230;<br \/>\nE passara menos mal, desde a P\u00e1scoa. A n\u00e3o ser a desavergonhada<br \/>\nda garganta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o o nosso grande homem? quando chega? quando chega?<\/p>\n<p>&#8211; No domingo. Estamos todos em alvoro\u00e7o&#8230; Ent\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nse senta, Sr. Videira? Olhe, puxe aquela cadeira de vime. A varanda por ora<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 arranjada.<\/p>\n<p>Videirinha, logo depois da Elei\u00e7\u00e3o, recebera de Gon\u00e7alo<br \/>\no lugar prometido, f\u00e1cil e com vagares. para n\u00e3o esquecer o<br \/>\nviol\u00e3o. Era amanuense na Administra\u00e7\u00e3o do Concelho de<br \/>\nVila-Clara. Mas convivia ainda na intimidade do seu chefe, que o utilizava<br \/>\npara todos os servi\u00e7os, mesmo de enfermeiro, e o mandava sempre com<br \/>\numa autoridade seca, mesmo ceando ambos no Gago.<\/p>\n<p>Timidamente arrastou a cadeira de vime, que colocou, com respeito, atr\u00e1s<br \/>\nda cadeira do seu chefe. E depois de tirar as luvas pretas, que agora sempre<br \/>\ntrazia para real\u00e7ar a sua posi\u00e7\u00e3o, lembrou que o comboio<br \/>\nchegava ao apeadeiro de Craquede \u00e0s dez e quarenta, n\u00e3o trazendo<br \/>\natraso. Mas talvez o Sr. Doutor apeasse em Corinde, por causa das bagagens&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Duvido &#8211; murmurou Gracinha. &#8211; Em todo ocaso o Jos\u00e9 est\u00e1 com<br \/>\nten\u00e7\u00e3o de partir de madrugada, para o encontrar na bifurca\u00e7\u00e3o,<br \/>\nem Lamelo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s, n\u00e3o! &#8211; acudiu o Tit\u00f3, que se sentara familiarmente<br \/>\nno rebordo da varanda. &#8211; C\u00e1 o nosso rancho vai simplesmente a Craquede.<br \/>\nJ\u00e1 \u00e9 terra da fam\u00edlia, e s\u00edtio mais sossegado<br \/>\npara o viv\u00f3rio&#8230; Mas ent\u00e3o esse homem n\u00e3o se demorou<br \/>\nem Lisboa, prima Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; Desde domingo, primo Ant\u00f4nio. Checou no domingo, de Paris, pelo Sud-Express.<br \/>\nE teve uma chegada brilhante&#8230; Oh! muito brilhante! Ontem recebi eu uma carta<br \/>\nda Maria Mendon\u00e7a, uma grande carta em que conta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? A prima Maria Mendon\u00e7a est\u00e1 em Lisboa?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, desde os fins de agosto, numa visita a D. Ana Lucena&#8230;<\/p>\n<p>Vivamente, Jo\u00e3o Gouveia puxou a cadeira, numa curiosidade que decerto<br \/>\no remoera:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, Sra. D. Gra\u00e7a! Ent\u00e3o parece que a D. Ana<br \/>\nLucena comprou uma casa em Lisboa, anda em arranjos de mob\u00edlia?&#8230;<br \/>\nV Exa. ouviu, Sra. D. Gra\u00e7a?<\/p>\n<p>N\u00e3o, Gracinha n\u00e3o sabia. Mas era natural, agora que tanto se<br \/>\ndemorava em Lisboa, pouco se aproveitava da Feitosa, t\u00e3o linda quinta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o casa! &#8211; exclamou o Gouveia, com imensa convic\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Se anda em arranjos de mob\u00edlia, ent\u00e3o casa. \u00c9 natural,<br \/>\nquer posi\u00e7\u00e3o. Depois, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o quatro<br \/>\nanos de viuvez, e&#8230;<\/p>\n<p>Gracinha sorriu. Mas o Tit\u00f3, que co\u00e7ava lentamente a barba,<br \/>\nvoltou \u00e0 carta da prima Maria Mendon\u00e7a, contando a chegada.<\/p>\n<p>&#8211; Sim! &#8211; acudiu Gracinha &#8211; conta, esteve na Esta\u00e7\u00e3o, no Rossio.<br \/>\nParece que o Gon\u00e7alo \u00f3timo, mais forte&#8230; Olhe, primo Ant\u00f4nio,<br \/>\nleia a carta. Leia alto! N\u00e3o tem segredos. \u00c9 toda sobre o Gon\u00e7alo&#8230;<\/p>\n<p>Tirara do bolso um pesado envelope, com sinete de armas no lacre. Mas a prima<br \/>\nMaria escrevia sempre depressa, numa letra atabalhoada, com as linhas cruzadas.<br \/>\nTalvez o primo Ant\u00f4nio n\u00e3o compreendesse&#8230; &#8211; E com efeito, diante<br \/>\ndas quatro folhas de papel eri\u00e7adas de negras linhas, parecendo uma<br \/>\nsebe espinhosa, o Tit\u00f3 recuou, aterrado. Mas o Jo\u00e3o Gouveia<br \/>\nimediatamente se ofereceu, com a sua per\u00edcia em decifrar of\u00edcios<br \/>\nde Regedores&#8230; N\u00e3o havendo segredos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 segredos &#8211; afian\u00e7ou Gracinha, rindo.<br \/>\n&#8211; \u00c9 unicamente sobre o Gon\u00e7alo, como num jornal.<\/p>\n<p>O Administrador folheou a imensa carta, passou os dedos sobre o bigode, com<br \/>\ncerta solenidade:<\/p>\n<p>&#8216;Minha querida Gra\u00e7a&#8230; A costureira do Silva diz que o vestido&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! &#8211; acudiu Gracinha. &#8211; \u00c9 na outra p\u00e1gina, no alto.<br \/>\nVolte a p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Mas o Administrador gracejou, ruidosamente. Oh! est\u00e1 claro, carta<br \/>\nde senhora, logo os trapos&#8230; E a Sra. D. Gra\u00e7a a assegurar que era<br \/>\ntoda sobre Gon\u00e7alo. Pois j\u00e1 veriam se pelo meio se n\u00e3o<br \/>\nfalava ainda em vestidos&#8230; Ah! estas senhoras, com os trapos!&#8230; &#8211; Depois<br \/>\nrecome\u00e7ou, na outra p\u00e1gina, com lentid\u00e3o e gravidade:<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; Deves agora estar ansiosa por saber da grande chegada do primo<br \/>\nGon\u00e7alo. Foi realmente brilhante, e parecia uma recep\u00e7\u00e3o<br \/>\nde pessoa real. \u00c9ramos mais de trinta amigos. Est\u00e1 claro, apareceu<br \/>\ntoda a roda da nossa parentela; e se rebentasse de repente nessa manh\u00e3<br \/>\numa revolu\u00e7\u00e3o, os Republicanos apanhavam ali junta, na esta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Rossio, toda a flor da nobreza de Portugal, da velha, da boa. De senhoras,<br \/>\nera a prima Chelas, a tia Louredo, as duas Esposendes (com o tio Esposende,<br \/>\nque, apesar do reumatismo e da vindima, veio expressamente da quinta de Torres),<br \/>\ne eu. Homens, todos. E como estava o Conde de Arega, que \u00e9 secret\u00e1rio<br \/>\nde El-Rei, e o primo Olhalvo, que \u00e9 o seu Mordomo-Mor, e o Ministro<br \/>\nda Marinha e o Ministro das Obras P\u00fablicas, ambos condisc\u00edpulos<br \/>\ne \u00edntimos de Gon\u00e7alo, as pessoas na esta\u00e7\u00e3o deviam<br \/>\nimaginar que chegava El-Rei. O Sud-Express trouxe quarenta minutos de demora.<br \/>\nDe modo que parecia um sal\u00e3o, com toda aquela gente de sociedade, muito<br \/>\nalegre, e o primo Arega, sempre t\u00e3o am\u00e1vel e engra\u00e7ado,<br \/>\ne fazendo j\u00e1 convites para um jantar (que depois deu) ao primo Gon\u00e7alo.<br \/>\nL\u00e1 fui a esse jantar com o meu vestido verde, novo, que ficou bem&#8230;<\/p>\n<p>Gouveia gritou triunfando:<\/p>\n<p>&#8211; Hem? Que disse eu?! c\u00e1 est\u00e1 vestido. Vestido verde!<\/p>\n<p>&#8211; L\u00ea para diante, homem! &#8211; bramou o Tit\u00f3.<\/p>\n<p>E o Administrador, realmente interessado, recome\u00e7ou, com entono:<\/p>\n<p>&#8220;&#8230;com o meu vestido verde novo, exceto a saia, um pouco pesadota.<br \/>\nCreio que fui eu a primeira que avistou o primo Gon\u00e7alo, na plataforma<br \/>\ndo Sud-Express. N\u00e3o imaginas como vem&#8230; \u00f3timo! At\u00e9 mais<br \/>\nbonito, e sobretudo mais homem. A \u00c1frica nem de leve lhe tostou a pele.<br \/>\nSempre a mesma brancura. E duma eleg\u00e2ncia, dum apuro! Prova de como<br \/>\nse adianta a civiliza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica! dizia o primo Arega,<br \/>\neste \u00e9 estilo novo de tangas em Macheque!&#8230; Como imaginas, muito abra\u00e7o,<br \/>\nmuita beijoca. A tia Louredo choramingou. Ah, j\u00e1 esquecia! Estava tamb\u00e9m<br \/>\no Visconde de Rio-Manso, com a filha, a Rosinha. Muita linda ela, com um vestido<br \/>\ndo Redfern, fez sensa\u00e7\u00e3o. Todos me perguntavam quem era, e o<br \/>\nConde de Arega, est\u00e1 claro, logo com apetite de ser apresentado. O<br \/>\nRio-Manso tamb\u00e9m choramingou ao abra\u00e7ar o primo Gon\u00e7alo.<br \/>\nE ali viemos todos, em nobre s\u00e9quito, pela esta\u00e7\u00e3o fora,<br \/>\nentre o pasmo dos povos. Mas imediatamente uma cena. De repente, no meio de<br \/>\ntoda aquela nata de bras\u00f5es, o primo Gon\u00e7alo rompe e cai nos<br \/>\nbra\u00e7os do homenzinho de bonnet agaloado que recebia \u00e0 porta<br \/>\nos bilhetes. Sempre o mesmo Gon\u00e7alo! Parece que o conheceu ao chegar<br \/>\na Louren\u00e7o Marques, onde o homem tratava de se estabelecer como fot\u00f3grafo.<br \/>\nMas j\u00e1 esquecia o melhor &#8211; o Bento! N\u00e3o imaginas o Bento&#8230;<br \/>\nMagn\u00edfico! Deixou crescer um bocado de su\u00ed\u00e7a. \u00c9<br \/>\num modelo, vestido em Londres, de grande casaco de viagem de pano claro, at\u00e9<br \/>\naos p\u00e9s, luvas amareladas, gravidade imensa. Gostou de me ver na esta\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; perguntou logo, com o olho mi\u00fado, pela Sra. D. Gra\u00e7a, e pela<br \/>\nRosa. A noite, o Jos\u00e9 e eu jantamos em fam\u00edlia, com o primo<br \/>\nGon\u00e7alo, no Bragan\u00e7a, para conversar da Torre e dos Cunhais.<br \/>\nEle contou muitas coisas interessantes da \u00c1frica. Traz notas para um<br \/>\nlivro, e parece que o prazo prospera. Nestes poucos anos plantou dois mil<br \/>\ncoqueiros. Tem tamb\u00e9m muito cacau, muita borracha. Galinhas s\u00e3o<br \/>\naos milhares. \u00c9 verdade que uma galinha gorda em Macheque vale um pataco.<br \/>\nQue inveja! Aqui em Lisboa custa seis tost\u00f5es, s\u00f3 com ossos<br \/>\n&#8211; porque tendo tamb\u00e9m alguma carne no peito, salta para c\u00e1 dez<br \/>\ntost\u00f5es, e agradece! No prazo j\u00e1 se construiu uma grande casa,<br \/>\npr\u00f3ximo do rio, com vinte janelas e pintada de azul. E o primo Gon\u00e7alo<br \/>\ndeclara que j\u00e1 n\u00e3o vende o prazo nem por oitenta contos. Para<br \/>\nfelicidade completa at\u00e9 achou um excelente Administrador. Eu todavia<br \/>\nduvido que ele volte para a \u00c1frica. Tenho agora c\u00e1 a minha linda<br \/>\nid\u00e9ia sobre o futuro do primo Gon\u00e7alo. Talvez at\u00e9 rias.<br \/>\nE n\u00e3o adivinhas&#8230; com efeito, eu mesma s\u00f3 nessa noite em que<br \/>\njantamos no Bragan\u00e7a, recebi de repente a inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Rio-Manso est\u00e1 tamb\u00e9m no Bragan\u00e7a. Quando desc\u00edamos<br \/>\npara o jantar, para um gabinete, encontramos no corredor o velho com a pequena.<br \/>\nO homem tornou logo a abra\u00e7ar Gon\u00e7alo, com uma ternura de pai.<br \/>\nE a Rosinha t\u00e3o vermelha se fez, que at\u00e9 Gon\u00e7alo, apesar<br \/>\nde excitado e distra\u00eddo, notou e corou de leve. Parece que j\u00e1<br \/>\nh\u00e1 entre eles um conhecimento antigo, por causa dum cesto de rosas,<br \/>\ne que, desde anos, o Destino os anda sorrateiramente chegando. Ela \u00e9<br \/>\nrealmente uma beleza. E t\u00e3o simp\u00e1tica, t\u00e3o bem-educada!&#8230;<br \/>\nDiferen\u00e7a de idade, apenas onze anos; e o dote tremendo. Falam em quinhentos<br \/>\ncontos. Ha: apenas a quest\u00e3o de sangue, e o dela, coitadinha&#8230; Enfim,<br \/>\ncomo se diz em her\u00e1ldica &#8211; &#8220;o Rei faz a pastora Rainha&#8221;.<br \/>\nE os Ramires n\u00e3o s\u00f3 v\u00eam dos Reis, mas os Reis v\u00eam<br \/>\ndos Ramires. &#8211; E agora passando a assunto menos interessante&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Discretamente Jo\u00e3o Gouveia dobrou a carta, que entregou a Gracinha,<br \/>\nlouvando a Sra. D. Maria Mendon\u00e7a como um rep\u00f3rter precioso.<br \/>\nDepois, com um cumprimento:<\/p>\n<p>&#8211; E; minha senhora, se as previs\u00f5es dela se realizam&#8230;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o! Gracinha n\u00e3o acreditava! Ora! imagina\u00e7\u00f5es<br \/>\nda Maria Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; O primo Ant\u00f4nio bem a conhece, sabe como ela \u00e9 casamenteira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois se at\u00e9 a mim me quis casar &#8211; ribombou o Tit\u00f3 saltando<br \/>\ndo rebordo da varanda. &#8211; Imagine a prima&#8230; At\u00e9 a mim! Com a vi\u00fava<br \/>\nPinho, da loja de panos.<\/p>\n<p>&#8211; Credo!<\/p>\n<p>Mas o Gouveia insistia, com superioridade, um sentimento verdadeiro da vida<br \/>\npositiva:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, Sra. D. Gra\u00e7a, acredite V. Exa., sempre era melhor arranjo<br \/>\npara o Gon\u00e7alo que a \u00c1frica&#8230; Eu n\u00e3o acredito nesses<br \/>\nprazos&#8230; Nem na \u00c1frica. Tenho horror \u00e0 \u00c1frica. S\u00f3<br \/>\nserve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A \u00c1frica<br \/>\n\u00e9 como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda duma tia<br \/>\nvelha, numa terra muito bruta, muito distante, onde n\u00e3o se conhece<br \/>\nningu\u00e9m, onde n\u00e3o se encontra sequer um estanco; s\u00f3 habitada<br \/>\npor cabreiros, e com sez\u00f5es todo o ano. Boa para vender.<\/p>\n<p>Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea! vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no<br \/>\nmar, tanta perda de vida e fazenda?!<\/p>\n<p>O Administrador protestou logo, com calor, j\u00e1 enristado para a controv\u00e9rsia:<\/p>\n<p>&#8211; Quais trabalhos, minha senhora? Era desembarcar ali na areia, plantar umas<br \/>\ncruzes de pau, atirar uns safan\u00f5es aos pretos&#8230; Essas gl\u00f3rias<br \/>\nde \u00c1frica s\u00e3o balelas. Est\u00e1 claro, V. Exa. fala como<br \/>\nfidalga, neta de Fidalgos. Mas eu como economista. E digo mais&#8230;<\/p>\n<p>O seu dedo agudo amea\u00e7ava argumentos agudos.<\/p>\n<p>Tit\u00f3 acudiu, salvou Gracinha:<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Gouveia, n\u00f3s estamos a tirar o tempo \u00e0 prima Gra\u00e7a,<br \/>\nque anda nos seus arranjos. Essas quest\u00f5es da \u00c1frica s\u00e3o<br \/>\npara depois, com o Gon\u00e7alo, \u00e0 sobremesa&#8230; E ent\u00e3o, minha<br \/>\nquerida prima, at\u00e9 domingo, em Craquede. L\u00e1 comparece o rancho<br \/>\ntodo. E quem atira os foguetes sou eu!<\/p>\n<p>Mas Gouveia, cofiando o coco com a manga, ainda esperava converter a Sra.<br \/>\nD. Gra\u00e7a \u00e0s id\u00e9ias s\u00e3s, sobre Pol\u00edtica<br \/>\nColonial.<\/p>\n<p>&#8211; Era vender, minha senhora, era vender! &#8211; Ela sorria, j\u00e1 consentia<br \/>\n&#8211; tomando a m\u00e3o de Videirinha, que hesitava, com os dedos espetados:<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, Sr. Videira, tem agora algumas quadras novas para o Fado?<\/p>\n<p>Corando, Videirinha balbuciou que &#8220;arranjara uma coisita, tamb\u00e9m<br \/>\nnum fado, para a volta do Sr. Doutor&#8221;. Gracinha prometeu decorar, para<br \/>\ncantar ao piano.<\/p>\n<p>&#8211; Muito agradecido a V. Exa&#8230;. Criado de V. Exa&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o at\u00e9 domingo, primo Ant\u00f4nio&#8230; Est\u00e1 uma<br \/>\ntarde linda.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 domingo, em Craquede, prima.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 porta envidra\u00e7ada, Jo\u00e3o Gouveia parou mais teso,<br \/>\nbateu na testa:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 me esquecia, desculpe V. Exa.! Recebi uma carta do Andr\u00e9<br \/>\nCavaleiro, da Figueira da Foz. Manda muitas saudades ao Barrolo. E quer saber<br \/>\nse o Barrolo lhe poderia ceder daquele vinho verde de Vidainhos. E tamb\u00e9m<br \/>\npara um africanista, para o Conde de S. Rom\u00e3o&#8230; Parece que a Sra.<br \/>\nCondessa se p\u00e9la por vinho verde!<\/p>\n<p>E os tr\u00eas amigos, em fila, atravessaram a sala de jantar, onde o vozeir\u00e3o<br \/>\ndo Tit\u00f3 ainda ribombou, louvando a esteira nova de cores. No corredor,<br \/>\nVideirinha espreitou para a Livraria, notou o molho de penas de pato espetado<br \/>\nno velho tinteiro de lat\u00e3o, que esperava, rebrilhando solitariamente<br \/>\nsobre a mesa nua sem pap\u00e9is nem livros. Depois a Rosa apareceu \u00e0<br \/>\nporta do quarto de Gon\u00e7alo, ajoujada de roupa, com um riso em cada<br \/>\nruga da sua face redonda e cor de tijolo, que o farto len\u00e7o de cambraia,<br \/>\nmuito branco, circundava como um nimbo. O Tit\u00f3 afagou carinhosamente<br \/>\no ombro da boa cozinheira:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, tia Rosa, agora recome\u00e7am essas grandes petisqueiras,<br \/>\nhem?<\/p>\n<p>&#8211; Louvado seja Deus, Sr. D. Ant\u00f4nio! Que imaginei que n\u00e3o tornava<br \/>\na ver o meu rico senhor. Tamb\u00e9m j\u00e1 tinha decidido&#8230; Se me enterrassem<br \/>\no corpo aqui em Santa Iren\u00e9ia, antes de eu ver o menino, a alma com<br \/>\ncerteza ia \u00e0 \u00c1frica para lhe fazer uma visita.<\/p>\n<p>Os seus mi\u00fados olhos piscaram, lacrimejando de gosto &#8211; e seguiu pelo<br \/>\ncorredor, tesa e decidida, com a sua trouxa que rescendia a ma\u00e7\u00e3<br \/>\ncamoesa. O Gouveia murmurara com uma careta: &#8211; &#8220;Safa!&#8221; E os tr\u00eas<br \/>\namigos desceram ao p\u00e1tio onde, por curiosidade do Tit\u00f3, visitaram<br \/>\nas obras da cavalari\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Veja voc\u00ea! &#8211; exclamou ele para o Gouveia, que acendia o charuto.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea a negar!&#8230; Mob\u00edlias, obras, \u00e9gua inglesa&#8230; Tudo<br \/>\nj\u00e1 dinheiro de \u00c1frica.<\/p>\n<p>O Administrador encolheu os ombros:<\/p>\n<p>&#8211; Veremos depois como ele traz o f\u00edgado&#8230;<\/p>\n<p>Diante do port\u00e3o o Tit\u00f3 ainda parou a colher, na roseira costumada,<br \/>\numa rosinha para florir o jaquet\u00e3o de veludilho. E juntamente entrava<br \/>\no Padre Soeiro, recolhendo duma volta pelos Bravais, com o seu grande guarda-sol<br \/>\nde paninho e o seu brevi\u00e1rio. Todos acolheram com carinho o santo e<br \/>\ndouto velho, t\u00e3o raro agora na Torre.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, no domingo, c\u00e1 temos o nosso homem, Padre Soeiro!<\/p>\n<p>O capel\u00e3o achatou sobre o peito a m\u00e3o gorda, com rever\u00eancia,<br \/>\ncom gratid\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deus ainda me quis conceder, na minha velhice, mais esse grande favor&#8230;<br \/>\nPois mal o esperava. Terras t\u00e3o \u00e1speras, e ele t\u00e3o delicado&#8230;<\/p>\n<p>E para conversar de Gon\u00e7alo, da espera em Craquede, acompanhou aqueles<br \/>\nsenhores at\u00e9 a ponte da Portela. Jo\u00e3o Gouveia manquejava, aperreado<br \/>\npor umas infames botas novas que nessa manh\u00e3 estreara. E descansaram<br \/>\num momento no belo banco de pedra que o pai de Gon\u00e7alo mandara colocar,<br \/>\nquando Governador Civil de Oliveira. Era esse o doce s\u00edtio donde se<br \/>\navista Vila-Clara, t\u00e3o asseada, sempre t\u00e3o branca, \u00e0quela<br \/>\nhora toda rosada, desde o vasto convento de Santa Teresa at\u00e9 o muro<br \/>\nnovo do cemit\u00e9rio no alto, com os seus finos ciprestes.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos outeiros de Valverde, longe, sobre a Costa, o sol descia,<br \/>\nvermelho como um metal candente que arrefece, entre nuvens vermelhas, acendendo<br \/>\nainda, em ouro coruscante, as janelas da Vila.<\/p>\n<p>Ao fundo do vale, uma claridade nimbava as altas ru\u00ednas de Santa Maria<br \/>\nde Craquede, entre o seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio cheio corria sem<br \/>\num rumor, j\u00e1 dormente na sombra dos choupos finos, onde ainda p\u00e1ssaros<br \/>\ncantavam. E na volta da estrada, por cima dos \u00e1lamos que escondiam<br \/>\no casar\u00e3o, a velha Torre, mais velha que a Vila e que as ru\u00ednas<br \/>\ndo Mosteiro, e que todos os casais espalhados, erguia o seu esguio miradoiro,<br \/>\nenvolto no v\u00f4o escuro dos morcegos, espreitando silenciosamente a plan\u00edcie<br \/>\ne o sol sobre o mar, como em cada tarde desses mil anos, desde o Conde Ordonho<br \/>\nMendes.<\/p>\n<p>Um pequeno com uma alta aguilhada passou, recolhendo duas vacas lentas. Do<br \/>\nlado da Vila, o Padre Jos\u00e9 Vicente da Finta trotou na sua \u00e9gua<br \/>\nbranca, saudou o Sr. Administrador, o amigo Soeiro, aben\u00e7oando tamb\u00e9m<br \/>\na chegada do Fidalgo para quem j\u00e1 preparara uma bela cesta da sua uva<br \/>\nmoscatel. Tr\u00eas ca\u00e7adores, com uma matilha de coelheiros, atravessaram<br \/>\na estrada, descendo pelo portelo \u00e0 quelha que contorna o casal do Miranda.<\/p>\n<p>Um sil\u00eancio ainda claro, de imenso repouso, t\u00e3o doce como se<br \/>\ndescesse do c\u00e9u, cobria a largueza povoada dos campos, onde n\u00e3o<br \/>\nse movia uma folha, na macia transpar\u00eancia do ar de setembro. Os fumos<br \/>\ndas lareiras acesas j\u00e1 se escapavam, lentos e leves, dentre a telha<br \/>\nrala. Na loja do Jo\u00e3o ferreiro, adiante da Portela, o clar\u00e3o<br \/>\nda forja avivou, mais vermelho. Um bum-bum de tambor bateu festivamente para<br \/>\no lado dos Bravais, cresceu apressado, marchando &#8211; nalgum cabe\u00e7o, depois<br \/>\nlentamente se afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou no vale mais<br \/>\nfundo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gouveia, que se recostara no canto do largo assento de pedra,<br \/>\ncomo seu coco sobre os joelhos, acenou para o lado dos Bravais:<\/p>\n<p>&#8211; Estou a lembrar aquela passagem do romance do Gon\u00e7alo, quando os<br \/>\nRamires se preparam para socorrer as Infantas, andam a reunir a mesnada. \u00c9<br \/>\nassim, a estas horas da tarde, com tambores; e por s\u00edtios&#8230; &#8220;Na<br \/>\nfrescura do vale&#8230;&#8221; N\u00e3o! &#8220;Pelo vale de Craquede&#8230;&#8221;<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o! Esperem voc\u00eas, que eu tenho boa mem\u00f3ria&#8230;<br \/>\nAh! &#8220;E por todo o fresco vale at\u00e9 Santa Maria de Craquede, os<br \/>\natambores mouriscos abafados no arvoredo, tarar\u00e1! tarar\u00e1! ou<br \/>\nmais vivos nos cerros, ratat\u00e1! ratat\u00e1! convocavam a mesnada<br \/>\ndos Ramires, na do\u00e7ura da tarde&#8230;&#8221; \u00c9 lindo!<\/p>\n<p>Por sobre as costas do Tit\u00f3 que, debru\u00e7ado, riscava pensativamente<br \/>\ncom o bengal\u00e3o a poeira da estrada, Videirinha adiantou para o seu<br \/>\nchefe a face estendida, com um sorriso de finura:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Sr. Administrador, olhe que talvez seja ainda mais bonito, quando os<br \/>\nRamires largam a perseguir o Bastardo! C\u00e1 para mim, tem mais poesia.<br \/>\nQuando o velho faz aquela jura com a espada e depois l\u00e1 na Torre, muito<br \/>\ndevagar, come\u00e7a a tocar a finados&#8230; \u00c9 de apetite!<\/p>\n<p>\u00c0 borda do assento, encolhido contra o Tit\u00f3, para que o Sr.<br \/>\nAdministrador se alastrasse confortavelmente, Padre Soeiro, com as m\u00e3os<br \/>\nno cabo do seu guarda-sol, concordou:<\/p>\n<p>&#8211; Com certeza! s\u00e3o lances interessantes&#8230; Com certeza! Naquela Novela<br \/>\nh\u00e1 imagina\u00e7\u00e3o rica, muito rica; e h\u00e1 saber, h\u00e1<br \/>\nverdade.<\/p>\n<p>O Tit\u00f3, que depois de Sim\u00e3o de N\u00e2ntua, em pequeno, n\u00e3o<br \/>\nabrira mais as folhas dum livro, e n\u00e3o lera a Torre de D. Ramires,<br \/>\nmurmurou, com um risco mais largo na poeira:<\/p>\n<p>&#8211; Extraordin\u00e1rio, aquele Gon\u00e7alo!<\/p>\n<p>O Videirinha n\u00e3o findara o seu enlevado sorriso:<\/p>\n<p>&#8211; Tem muito talento&#8230; Ah! o Sr. Doutor tem muito talento.<\/p>\n<p>&#8211; Tem muita ra\u00e7a! &#8211; exclamou o Tit\u00f3, levantando a cabe\u00e7a.<br \/>\n&#8211; E \u00e9 o que o salva dos defeitos&#8230; Eu sou amigo de Gon\u00e7alo,<br \/>\ne dos firmes. Mas n\u00e3o o escondo, nem a ele&#8230; Sobretudo a ele. Muito<br \/>\nleviano, muito incoerente&#8230; Mas tem a ra\u00e7a que o salva.<\/p>\n<p>&#8211; E a bondade, Sr. Ant\u00f4nio Vilalobos! &#8211; atalhou docemente Padre Soeiro.<br \/>\n&#8211; A bondade, sobretudo como a do Sr. Gon\u00e7alo, tamb\u00e9m salva&#8230;<br \/>\nOlhe, \u00e0s vezes h\u00e1 um homem muito s\u00e9rio, muito puro, muito<br \/>\naustero, um Cat\u00e3o que nunca cumpriu sen\u00e3o o dever e a lei&#8230;<br \/>\nE todavia ningu\u00e9m gosta dele, nem o procura. Por qu\u00ea? Porque<br \/>\nnunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano,<br \/>\ndescuidado, que tem defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever,<br \/>\nque ofendeu mesmo a lei&#8230; Mas qu\u00ea? \u00c9 amor\u00e1vel, generoso,<br \/>\ndedicado, servi\u00e7al, sempre com uma palavra doce, sempre com um rasgo<br \/>\ncarinhoso&#8230; E por isso todos o amam, e n\u00e3o sei mesmo, Deus me perdoe,<br \/>\nse Deus tamb\u00e9m o n\u00e3o prefere&#8230;<\/p>\n<p>A curta m\u00e3o que acenara para o c\u00e9u recaiu sobre o cabo de osso<br \/>\ndo guarda-sol. Depois, e corado com a temeridade de pensamento t\u00e3o<br \/>\nespiritual, acudiu cautelosamente:<\/p>\n<p>&#8211; Que esta n\u00e3o \u00e9 propriamente doutrina da Igreja!&#8230; Mas anda<br \/>\nnas almas; anda j\u00e1 em muitas almas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Jo\u00e3o Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e<br \/>\nteso na estrada, com o coco \u00e0 banda, reabotoando a sobrecasaca, como<br \/>\nsempre que estabelecia um resumo:<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gon\u00e7alo Mendes. E sabem<br \/>\nvoc\u00eas, sabe o Sr. Padre Soeiro quem ele me lembra?<\/p>\n<p>&#8211; Quem?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhan\u00e7a. Aquele todo de Gon\u00e7alo,<br \/>\na franqueza, a do\u00e7ura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr.<br \/>\nPadre Soeiro&#8230; Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente<br \/>\nmuita persist\u00eancia, muito aferro quando se fila \u00e0 sua id\u00e9ia&#8230;<br \/>\nA generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos neg\u00f3cios, e<br \/>\nsentimentos de muita honra, uns escr\u00fapulos, quase pueris, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 verdade?&#8230; A imagina\u00e7\u00e3o que o leva sempre a exagerar<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 mentira, e ao mesmo tempo um esp\u00edrito pr\u00e1tico,<br \/>\nsempre atento \u00e0 realidade \u00fatil. A viveza, a facilidade em compreender,<br \/>\nem apanhar&#8230; A esperan\u00e7a constante nalgum milagre, no velho milagre<br \/>\nde Ourique, que sanar\u00e1 todas as dificuldades&#8230; A vaidade, o gosto<br \/>\nde se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade t\u00e3o grande, que d\u00e1<br \/>\nna rua o bra\u00e7o a um mendigo&#8230; Um fundo de melancolia, apesar de t\u00e3o<br \/>\npalrador, t\u00e3o soci\u00e1vel. A desconfian\u00e7a terr\u00edvel<br \/>\nde si mesmo, que o acovarda, o encolhe, at\u00e9 que um dia se decide, e<br \/>\naparece um her\u00f3i, que tudo arrasa&#8230; At\u00e9 aquela antig\u00fcidade<br \/>\nde ra\u00e7a, aqui pegada \u00e0 sua velha Torre, h\u00e1 mil anos&#8230;<br \/>\nAt\u00e9 agora aquele arranque para a \u00c1frica&#8230; Assim todo completo,<br \/>\ncom o bem, com o mal, sabem voc\u00eas quem ele me lembra?<\/p>\n<p>&#8211; Quem?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Portugal.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas amigos retomaram o caminho de Vila-Clara. No c\u00e9u branco<br \/>\numa estrelinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquede. E Padre Soeiro, com<br \/>\no seu guarda-sol sob o bra\u00e7o, recolheu \u00e0 Torre vagarosamente,<br \/>\nno sil\u00eancio e do\u00e7ura da tarde, rezando as suas Ave-Marias, e<br \/>\npedindo a paz de Deus para Gon\u00e7alo, para todos os homens, para campos<br \/>\ne casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, t\u00e3o cheia<br \/>\nde gra\u00e7a amor\u00e1vel, que sempre bendita fosse entre as terras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV &nbsp; Cap\u00edtulo\u00a0V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII &nbsp; E\u00e7a de Queir\u00f3s CAP\u00cdTULO I Desde as quatro horas da tarde, no calor e sil\u00eancio do domingo de junho, o Fidalgo 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