{"id":95450,"date":"2017-01-18T11:50:33","date_gmt":"2017-01-18T13:50:33","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95450"},"modified":"2017-01-18T12:15:34","modified_gmt":"2017-01-18T14:15:34","slug":"a-cidade-e-as-serras-eca-de-queiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-cidade-e-as-serras-eca-de-queiros","title":{"rendered":"A Cidade e as Serras &#8211; E\u00e7a de Queir\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\" height=\"116\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Advert\u00eancia<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <strong><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/strong><a href=\"#6\">I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <strong><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/strong><a href=\"#7\">II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/strong><a href=\"#8\">III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/strong><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/strong><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#11\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/strong><a href=\"#11\">I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#12\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/strong><a href=\"#12\">II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/strong><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/strong><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><\/strong><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I &#8211; Advert\u00eancia<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a p\u00e1gina 126, at\u00e9 o final, as provas deste livro n\u00e3o<br \/>\nforam revistas pelo autor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta<br \/>\nparte da sua escrita aquela \u00faltima dem\u00e3o, em que habitualmente<br \/>\nele punha a dilig\u00eancia mais perseverante e mais admiravelmente l\u00facida.<br \/>\nAquele dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o trabalho<br \/>\ndelicado e piedoso de tocar no manuscrito p\u00f3stumo de E\u00e7a de<br \/>\nQueir\u00f3s, ao concluir o desempenho de tal miss\u00e3o, beija com o<br \/>\nmais enternecido e saudoso respeito a m\u00e3o, para todo o sempre imobilizada,<br \/>\nque tra\u00e7ou estas p\u00e1ginas encantadoras; e faz votos p\u00f4r<br \/>\nque a revis\u00e3o de que se incumbiu n\u00e3o deslustre muito grosseiramente<br \/>\na imortal aur\u00e9ola com que resplandecendo na literatura portuguesa este<br \/>\nlivro, em que o esp\u00edrito do grande escritor parece exalar-se da vida<br \/>\nnum terno suspiro de do\u00e7ura, de paz, e de puro amor \u00e0 terra<br \/>\nda sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>24 de abril de 1901.<\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p>O meu amigo Jacinto nasceu num pal\u00e1cio, com cento e nove contos de<br \/>\nrenda em terras de semeadura, de vinhedo, de corti\u00e7a e de olival.<\/p>\n<p>No Alentejo, pela Estremadura, atrav\u00e9s das duas Beiras, densas sebes<br \/>\nondulando p\u00f4r e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas,<br \/>\ndelimitavam os campos desta velha fam\u00edlia agr\u00edcola que j\u00e1<br \/>\nentulhava o gr\u00e3o e plantava cepa em tempos de el-rei d.Dinis. A sua<br \/>\nQuinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo douro, cobriam uma serra. Entre<br \/>\no Tua e o Tinhela, p\u00f4r cinco fartas l\u00e9guas, todo o torr\u00e3o<br \/>\nlhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga at\u00e9<br \/>\nao mar de \u00e2ncora. Mas o pal\u00e1cio onde Jacinto nascera, e onde<br \/>\nsempre habitara, era em Paris, nos Campos El\u00edsios, n\u00ba.202.<\/p>\n<p>Seu av\u00f4, aquele gord\u00edssimo e riqu\u00edssimo Jacinto a quem<br \/>\nchamavam em Lisboa o D.Gali\u00e3o, descendo uma tarde pela travessa da<br \/>\nTrabuqueta, rente dum muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou<br \/>\nnuma casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta sa\u00eda<br \/>\nnesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baet\u00e3o<br \/>\nverde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma for\u00e7a f\u00e1cil,<br \/>\nlevantou o enorme Jacinto &#8211; at\u00e9 lhe apanhou a bengala de cast\u00e3o<br \/>\nde ouro que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos<br \/>\ne pretos:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Jacinto Gali\u00e3o, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar<br \/>\npelas pedras?<\/p>\n<p>E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o sr. Infante D. Miguel!<\/p>\n<p>Desde essa tarde amou aquele bom Infante como nunca amara, apesar de t\u00e3o<br \/>\nguloso, o seu ventre, e apesar de t\u00e3o devoto o seu Deus! Na sala nobre<br \/>\nda sua casa (\u00e0 Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do \u201cseu<br \/>\nSalvador\u201d, enfeitado de palmitos como um ret\u00e1bulo e, p\u00f4r<br \/>\nbaixo a bengala que as magn\u00e2nimas m\u00e3os reais tinham erguido do<br \/>\nlixo. Enquanto o ador\u00e1vel, desejado Infante penou no desterro de Viena,<br \/>\no barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Z\u00e9<br \/>\nMaria em Bel\u00e9m \u00e0 botica do Pl\u00e1cido nos Algibebes, a gemer<br \/>\nas saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinho. No dia, entre todos<br \/>\nbenedito, em que a P\u00e9rola apareceu \u00e0 barra com o Messias, engrinaldou<br \/>\na Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papel\u00e3o e lona onde D.<br \/>\nMiguel, tornado S. Miguel, branco, de aur\u00e9ola e asas de Arcanjo, furava<br \/>\nde cima do seu corcel de Alter o Drag\u00e3o do Liberalismo, que se estorcia<br \/>\nvomitando a Carta. Durante a guerra com o \u201coutro, com o pedreiro-livre\u201d<br \/>\nmandava recoveiros a Santo Tirso, a S.Gens, levar ao Rei fiambres, caixas<br \/>\nde doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retr\u00f3s atochadas<br \/>\nde pe\u00e7as que ele ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando soube<br \/>\nque o sr. Miguel, com dois velhos ba\u00fas amarrados sobre um macho, tomara<br \/>\no caminho de Sines e do final desterro &#8211; Jacinto Gali\u00e3o correu pela<br \/>\ncasa, fechou todas as janelas como num luto, berrando furiosamente:<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m c\u00e1 n\u00e3o fico! Tamb\u00e9m c\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nfico!<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o queria ficar na terra perversa de onde partia, esbulhado<br \/>\ne escorra\u00e7ado, aquele Rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos!<br \/>\nEmbarcou para Fran\u00e7a com a mulher, a Sr\u00aa. D. Angelina Fafes (da<br \/>\nt\u00e3o falada casa dos Fafes da Avel\u00e3); com o filho, o Cintinho,<br \/>\nmenino amarelinho, molezinho, coberto de caro\u00e7os e leicen\u00e7os;<br \/>\ncom a aia e com o moleque. Nas costas da Cant\u00e1bria o paquete encontrou<br \/>\nt\u00e3o rijos mares que a Sr\u00aa. D. Angelina, esguedelhada, de joelhos<br \/>\nna enxerga do beliche, prometeu ao Senhor dos Passos de Alc\u00e2ntara uma<br \/>\ncoroa de espinhos, de ouro, com as gotas de sangue em rubis do Pegu. Em Baiona,<br \/>\nonde arribaram, Cintinho teve icter\u00edcia. Na estrada de Orle\u00e3es,<br \/>\nnuma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o n\u00e9dio<br \/>\nsenhor, a delicada senhora da casa da Avel\u00e3, o menino, marcharam tr\u00eas<br \/>\nhoras na chuva e na lama do ex\u00edlio at\u00e9 uma aldeia, onde, depois<br \/>\nde baterem como mendigos a portas mudas, dormiam nos bancos duma taberna.<br \/>\nNo \u201cHotel dos Santos Padres\u201d, em Paris, sofreram os terrores dum<br \/>\nfogo que rebentara na cavalari\u00e7a, sob o quarto de D.Gali\u00e3o,<br \/>\ne o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em camisa, at\u00e9 ao p\u00e1tio,<br \/>\nenterrou o p\u00e9 nu numa lasca de vidro. Ent\u00e3o ergueu amargamente<br \/>\nao C\u00e9u o punho cabeludo, e rugiu:<\/p>\n<p>&#8211; Irra! \u00c9 demais!<\/p>\n<p>Logo nessa semana, sem escolher, Jacinto Gali\u00e3o comprou a um pr\u00edncipe<br \/>\npolaco, que depois da tomada de Vars\u00f3via se metera frade cartuxo, aquele<br \/>\npalacete dos Campos El\u00edsios, n\u00ba.202. E sob o pesado ouro dos seus<br \/>\nestuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou, descansando de tantas<br \/>\nagita\u00e7\u00f5es, numa vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros<br \/>\nde emigra\u00e7\u00e3o (o desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena,<br \/>\noutros menores), at\u00e9 que morreu de indigest\u00e3o, duma lampreia<br \/>\nde escabeche que mandara o seu procurador em Montemor. Os amigos pensavam<br \/>\nque a Sr\u00aa. D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa senhora temia<br \/>\na jornada, os mares, as cale\u00e7as que racham. E n\u00e3o se queria<br \/>\nseparar do seu Confessor, nem do seu M\u00e9dico, que t\u00e3o bem lhe<br \/>\ncompreendiam os escr\u00fapulos e a asma.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, p\u00f4r mim, aqui fico no 202 (declarara ela), ainda que me faz falta<br \/>\na boa \u00e1gua de Alcolena&#8230;<\/p>\n<p>O Cintinho, esse, em crescendo, que decida.<\/p>\n<p>O Cintinho crescera. Era um mo\u00e7o mais esguio e l\u00edvido que um<br \/>\nc\u00edrio, de longos cabelos corredios, narigudo, silencioso, encafuado<br \/>\nem roupas pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, p\u00f4r causa<br \/>\nda tosse e de sufoca\u00e7\u00f5es, errava em camisa com uma lamparina<br \/>\natrav\u00e9s do 202; e os criados na copa sempre lhe chamavam a Sombra.<br \/>\nNessa sua mudez e indecis\u00e3o de sombra surdira, ao fim do luto do pap\u00e1,<br \/>\no gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno; depois, mais tarde, com a<br \/>\nmedida flor dos seus vinte anos, brotou nele outro sentimento, de desejo e<br \/>\nde pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma<br \/>\nrola, educada num convento de Paris, e t\u00e3o habilidosa que esmaltava,<br \/>\ndourava, consertava rel\u00f3gios e fabricava chap\u00e9us de feltro.<br \/>\nNo Outono de 1851, quando j\u00e1 se desfolhavam os castanheiros dos Campos<br \/>\nEl\u00edsios, o Cintinho cuspilhou sangue. O m\u00e9dico acarinhando o<br \/>\nqueixo e com uma ruga s\u00e9ria na testa imensa, aconselhou que o menino<br \/>\nabalasse para o golfo Juan ou para as t\u00e9pidas areias de Arcachon.<\/p>\n<p>Cintinho, por\u00e9m, no seu aferro de sombra, n\u00e3o se quis arredar<br \/>\nda Teresinha Velho, de quem se tornara, atrav\u00e9s de Paris, a muda, tardonha<br \/>\nsombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um<br \/>\nresto de sangue; e passou, como uma sombra.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses e tr\u00eas dias depois do seu enterro o meu Jacinto nasceu.<\/p>\n<p>Desde o ber\u00e7o, onde a av\u00f3 espalhava funcho e \u00e2mbar para<br \/>\nafugentar a Sorte-Ruim, Jacinto medrou com a seguran\u00e7a, a rijeza, a<br \/>\nseiva rica dum pinheiro das dunas.<\/p>\n<p>N\u00e3o teve sarampo e n\u00e3o teve lombrigas. As letras, a Tabuada,<br \/>\no Latim entraram p\u00f4r ele t\u00e3o facilmente como o sol p\u00f4r<br \/>\numa vidra\u00e7a. Entre os camaradas, nos p\u00e1tios dos col\u00e9gios,<br \/>\nerguendo a sua espada de lata e lan\u00e7ando um brado de comando, foi logo<br \/>\no vencedor, o Rei que se adula, e a quem se cede a fruta das merendas. Na<br \/>\nidade em que se l\u00ea Balzac e Musset nunca atravessou os tormentos da<br \/>\nsensibilidade; &#8211; nem crep\u00fasculos quentes o retiveram na solid\u00e3o<br \/>\nduma janela, padecendo dum desejo sem forma e sem nome. Todos os seus amigos<br \/>\n(\u00e9ramos tr\u00eas, contando o seu velho escudeiro preto, o Grilo)<br \/>\nlhe conservaram sempre amizades puras e certas &#8211; sem que jamais a participa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu luxo as avivasse ou fossem desanimadas pelas evid\u00eancias do seu<br \/>\nego\u00edsmo. Sem cora\u00e7\u00e3o bastante forte para conceber um<br \/>\namor forte, e contente com esta incapacidade que o libertava, do amor s\u00f3<br \/>\nexperimentou o mel &#8211; esse mel que o amor reserva aos que o recolhem, \u00e0<br \/>\nmaneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e cantando. Rijo, rico, indiferente<br \/>\nao Estado e ao Governo do Homens, nunca lhe conhecemos outra ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\nal\u00e9m de compreender bem as Id\u00e9ias Gerais; e a sua intelig\u00eancia,<br \/>\nnos anos alegres de escolas e controv\u00e9rsias, circulava dentro das Filosofias<br \/>\nmais densas como enguia lustrosa na \u00e1gua limpa dum tanque. O seu valor,<br \/>\ngenu\u00edno, de fino quilate, nunca foi desconhecido, nem desaparecido;<br \/>\ne toda a opini\u00e3o, ou mera fac\u00e9cia que lan\u00e7asse, logo<br \/>\nencontrava uma aragem de simpatia e concord\u00e2ncia que a erguia, a mantinha<br \/>\nembalada e rebrilhando nas alturas. Era servido pelas coisas com docilidade<br \/>\ne carinho; &#8211; e n\u00e3o recordo que jamais lhe estalasse um bot\u00e3o<br \/>\nda camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou<br \/>\nque ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta p\u00e9rfida emperrasse. Quando<br \/>\num dia, rindo com descrido riso da Fortuna e da sua roda, comprou a um sacrist\u00e3o<br \/>\nespanhol um D\u00e9cimo de Lotaria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre<br \/>\na sua roda, correu num fulgor, para lhe trazer quatrocentas mil pesetas. E<br \/>\nno c\u00e9u as Nuvens, pejadas e lentas se avistavam Jacinto sem guarda-chuva,<br \/>\nretinham com rever\u00eancia as suas \u00e1guas at\u00e9 que ele passasse&#8230;<br \/>\nAh! O \u00e2mbar e o funcho da Sr\u00aa.D. Angelina tinham escorra\u00e7ado<br \/>\ndo seu destino, bem triunfalmente e para sempre, a Sorte-Ruim! A amor\u00e1vel<br \/>\nav\u00f3 (que eu conheci obesa, com barba) costumava citar um soneto natal\u00edcio<br \/>\ndo desembargador Nunes Velho contendo um verso de boa li\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Sabei, senhora que esta vida \u00e9 um rio&#8230;.<\/p>\n<p>Pois um rio de Ver\u00e3o, manso, transl\u00facido, harmoniosamente estendido<br \/>\nsobre uma areia macia e alva, p\u00f4r entre arvoredos fragrantes e ditosas<br \/>\naldeias, n\u00e3o ofereceria \u00e0quele que o descesse num barco de cedro,<br \/>\nbem toldado e bem almofadado, com frutas e Champanhe a refrescar em gelo,<br \/>\num Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando \u00e0 sirga, mais seguran\u00e7a<br \/>\ne do\u00e7ura do que a Vida oferecia ao meu amigo Jacinto.<\/p>\n<p>P\u00f4r isso n\u00f3s lhe cham\u00e1vamos \u201co Pr\u00edncipe<br \/>\nda Gr\u00e3-Ventura\u201d!<\/p>\n<p>Jacinto e eu, Jos\u00e9 Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos<br \/>\nem Paris, nas Escolas do Bairro Latino &#8211; para onde me mandara meu bom tio<br \/>\nAfonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aqueles malvados me riscaram<br \/>\nda Universidade p\u00f4r eu ter esborrachado, numa tarde de prociss\u00e3o,<br \/>\nna Sofia, a cara s\u00f3rdida do dr. Pais Pita. Ora nesse tempo Jacinto<br \/>\nconcebera uma id\u00e9ia&#8230; Este Pr\u00edncipe concebera a id\u00e9ia<br \/>\nde que o \u201chomem s\u00f3 \u00e9 superiormente feliz quando \u00e9<br \/>\nsuperiormente civilizado\u201d. E p\u00f4r homem civilizado o meu camarada<br \/>\nentendia aquele que, robustecendo a sua for\u00e7a pensante com todas as<br \/>\nno\u00e7\u00f5es adquiridas desde Arist\u00f3teles, e multiplicando<br \/>\na pot\u00eancia corporal dos seus \u00f3rg\u00e3os com todos os mecanismos<br \/>\ninventados desde Ter\u00e2menes, criador da roda, se torna um magn\u00edfico<br \/>\nAd\u00e3o, quase onipotente, quase onisciente, e apto portanto a recolher<br \/>\ndentro duma sociedade, e nos limites do Progresso (tal) como ele se comportava<br \/>\nem 1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e Poder&#8230;<br \/>\nPelo menos assim Jacinto formulava copiosamente a sua id\u00e9ia, quando<br \/>\nconvers\u00e1vamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos,<br \/>\nsob o toldo das cervejarias filos\u00f3ficas, no Boulevard Saint-Michel.<\/p>\n<p>Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cen\u00e1culo,<br \/>\nque tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a batalha<br \/>\nde Sadova e a batalha de Sedan e ouvindo constantemente, desde ent\u00e3o,<br \/>\naos t\u00e9cnicos e aos fil\u00f3sofos, que fora a Espingarda-de-agulha<br \/>\nque vencera em Sadova e fora o Mestre-de-escola quem vencera em Sedan, estavam<br \/>\nlargamente preparados a acreditar que a felicidade dos indiv\u00edduos,<br \/>\ncomo a das na\u00e7\u00f5es, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento<br \/>\nda Mec\u00e2nica e da erudi\u00e7\u00e3o. Um desses mo\u00e7os mesmo,<br \/>\no nosso inventivo Jorge Carlande, reduzira a teoria de Jacinto, para lhe facilitar<br \/>\na circula\u00e7\u00e3o e lhe condensar o brilho, a uma forma alg\u00e9brica:<\/p>\n<p>Suma ci\u00eancia<\/p>\n<p>X = Suma felicidade<\/p>\n<p>Suma pot\u00eancia<\/p>\n<p>E durante dias, do Odeon \u00e0 Sorbona, foi louvada pela mocidade positiva<br \/>\na Equa\u00e7\u00e3o Metaf\u00edsica de Jacinto.<\/p>\n<p>Para Jacinto, por\u00e9m, o seu conceito n\u00e3o era meramente metaf\u00edsico<br \/>\ne lan\u00e7ado pelo gozo elegante de exercer a raz\u00e3o especulativa:<br \/>\n&#8211; mas constitu\u00eda uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando<br \/>\na conduta, modalizando a vida. E j\u00e1 a esse tempo, em concord\u00e2ncia<br \/>\ncom o seu preceito &#8211; ele se surtira da Pequena Enciclop\u00e9dia dos Conhecimentos<br \/>\nUniversais em setenta e cinco volumes e instalara, sobre os telhados do 202,<br \/>\nnum mirante envidra\u00e7ado, um telesc\u00f3pio. Justamente com esse<br \/>\ntelesc\u00f3pio me tornou ele palp\u00e1vel a sua id\u00e9ia, numa noite<br \/>\nde Agosto, de mole e dormente calor. Nos c\u00e9us remotos lampejavam rel\u00e2mpagos<br \/>\nl\u00e2nguidos. Pela Avenida dos Campos El\u00edsios, os fiacres rolavam<br \/>\npara as frescuras do Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de vestidos<br \/>\nclaros.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tens tu, Z\u00e9 Fernandes (come\u00e7ou Jacinto, encostado \u00e0<br \/>\njanela do mirante), a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos<br \/>\nque recebemos da Madre natureza, lestos e s\u00e3os, n\u00f3s podemos<br \/>\napenas distinguir al\u00e9m, atrav\u00e9s da Avenida, naquela loja, uma<br \/>\nvidra\u00e7a alumiada. Mais nada! Se eu por\u00e9m aos meus olhos juntar<br \/>\nos dois vidros simples dum bin\u00f3culo de corridas, percebo, p\u00f4r<br \/>\ntr\u00e1s da vidra\u00e7a, presuntos, queijos, boi\u00f5es de gel\u00e9ia<br \/>\ne caixas de ameixa seca. Concluo portanto que \u00e9 uma mercearia. Obtive<br \/>\numa no\u00e7\u00e3o: tenho sobre ti, que com os olhos desarmados v\u00eas<br \/>\ns\u00f3 o luzir da vidra\u00e7a, uma vantagem positiva. Se agora, em vez<br \/>\ndestes vidros simples, eu usasse os do meu telesc\u00f3pio, de composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais cient\u00edfica, poderia avistar al\u00e9m, no planeta Marte, os<br \/>\nmares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia dum astro<br \/>\nque circula a milhares de l\u00e9guas dos Campos El\u00edsios. \u00c9<br \/>\noutra no\u00e7\u00e3o, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o<br \/>\nda Natureza, elevado pela Civiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 sua m\u00e1xima<br \/>\npot\u00eancia de vis\u00e3o. E desde j\u00e1, pelo lado do olho portanto,<br \/>\neu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades<br \/>\ndo Universo que ele n\u00e3o suspeita e de que est\u00e1 privado. Aplica<br \/>\nesta prova a todos os \u00f3rg\u00e3os e compreender\u00e1s o meu princ\u00edpio.<br \/>\nEnquanto \u00e0 intelig\u00eancia, e \u00e0 felicidade que dela se tira<br \/>\npela incans\u00e1vel acumula\u00e7\u00e3o das no\u00e7\u00f5es,<br \/>\ns\u00f3 te pe\u00e7o que compares Renan e o Grilo&#8230; Claro \u00e9 portanto<br \/>\nque nos devemos cercar da Civiliza\u00e7\u00e3o na m\u00e1ximas propor\u00e7\u00f5es<br \/>\npara gozar nas m\u00e1ximas propor\u00e7\u00f5es a vantagem de viver.<br \/>\nAgora concordas, Z\u00e9 Fernandes?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz<br \/>\nque o Grilo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se colha<br \/>\nem distinguir atrav\u00e9s do espa\u00e7o manchas num astro, ou atrav\u00e9s<br \/>\nda Avenida dos Campos El\u00edsios presuntos numa vidra\u00e7a. Mas concordei,<br \/>\nporque sou bom, e nunca desalojarei um esp\u00edrito do conceito onde ele<br \/>\nencontra seguran\u00e7a, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o colete,<br \/>\ne lan\u00e7ando um gesto para o lado do caf\u00e9 e das luzes:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos ent\u00e3o beber, nas m\u00e1ximas propor\u00e7\u00f5es,<br \/>\nbrandy and soda, com gelo?<\/p>\n<p>P\u00f4r uma conclus\u00e3o bem natural, a id\u00e9ia de Civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\npara Jacinto, n\u00e3o se separava da imagem de Cidade, duma enorme Cidade,<br \/>\ncom todos os seus vastos \u00f3rg\u00e3os funcionando poderosamente. Nem<br \/>\neste meu supercivilizado amigo compreendia que longe de armaz\u00e9ns servidos<br \/>\np\u00f4r tr\u00eas mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os verg\u00e9is<br \/>\ne lez\u00edrias de trinta prov\u00edncias; e de Bancos em que retine o<br \/>\nouro universal; e de F\u00e1bricas fumegando com \u00e2nsia, inventando<br \/>\ncom \u00e2nsia; e de Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos<br \/>\ns\u00e9culos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, p\u00f4r baixo e p\u00f4r<br \/>\ncima, de fios de tel\u00e9grafos, de fios de telefones, de canos de gases,<br \/>\nde canos de fezes; e da fila atroante dos \u00f4nibus, tramas, carro\u00e7as,<br \/>\nveloc\u00edpedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milh\u00f5es<br \/>\nduma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, atrav\u00e9s da Pol\u00edcia,<br \/>\nna busca dura do p\u00e3o ou sob a ilus\u00e3o do gozo &#8211; o homem do s\u00e9culo<br \/>\nXIX pudesse saborear, plenamente, a del\u00edcia de viver!<\/p>\n<p>Quando Jacinto, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os lilases,<br \/>\nme desenrolava estas imagens, todo ele crescia, iluminado. Que cria\u00e7\u00e3o<br \/>\naugusta, a da Cidade! S\u00f3 p\u00f4r ela, Z\u00e9 Fernandes, s\u00f3<br \/>\np\u00f4r ela, pode o homem soberbamente afirmar a sua alma!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Jacinto, e a religi\u00e3o? Pois a religi\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nprova a alma?<\/p>\n<p>Ele encolhia os ombros. A religi\u00e3o! A religi\u00e3o \u00e9 o desenvolvimento<br \/>\nsuntuoso de um instinto rudimentar, comum a todos os brutos, o terror. Um<br \/>\nc\u00e3o lambendo a m\u00e3o do dono, de quem lhe vem o osso ou o chicote,<br \/>\nj\u00e1 constitui toscamente um devoto, o consciente devoto, prostrado em<br \/>\nrezas ante o Deus que distribui o C\u00e9u ou o Inferno!&#8230; Mas o telefone!<br \/>\nO fon\u00f3grafo!<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed tens tu, o fon\u00f3grafo, Z\u00e9 Fernandes, me faz verdadeiramente<br \/>\nsentir a minha superioridade de se pensante e me separa do bicho. Acredita,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o a Cidade, Z\u00e9 Fernandes, n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 sen\u00e3o a Cidade!<\/p>\n<p>E depois (acrescentava) s\u00f3 a Cidade lhe dava a sensa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nt\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 vida como o calor, da solidariedade<br \/>\nhumana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario<br \/>\nde Paris, dois milh\u00f5es de seres arquejando na obra da Civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\n(para manter na natureza o dom\u00ednio dos Jacintos!), sentia um sossego,<br \/>\num conchego, s\u00f3 compar\u00e1veis ao do peregrino, que, ao atravessar<br \/>\no deserto, se ergue no seu dromed\u00e1rio, e avista a longa fila da caravana<br \/>\nmarchando, cheia de lumes e de armas&#8230;<\/p>\n<p>Eu murmurava, impresionado:<\/p>\n<p>-Caramba!<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio no campo, entre a inconsci\u00eancia e a impassibilidade<br \/>\nda Natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solid\u00e3o.<br \/>\nEstava a\u00ed como perdido num mundo que lhe n\u00e3o fosse fraternal;<br \/>\nnenhum silvado encolheria os espinhos para que ele passasse; se gemesse com<br \/>\nfome nenhuma \u00e1rvore, p\u00f4r mais carregada, lhe estenderia o seu<br \/>\nfruto na ponta compassiva dum ramo. Depois, em meio da Natureza, ele assistia<br \/>\n\u00e0 s\u00fabita e humilhante inutiliza\u00e7\u00e3o de todas as<br \/>\nsuas faculdades superiores. De que servia, entre plantas e bichos &#8211; ser um<br \/>\nG\u00eanio ou ser um Santo? As searas n\u00e3o compreendem as Ge\u00f3rgicas,<br \/>\ne fora necess\u00e1rio o socorro ansioso de Deus, e a invers\u00e3o de<br \/>\ntodas as leis naturais, e um violento milagre para que o lobo de Agubio n\u00e3o<br \/>\ndevorasse S. Francisco de Assis, que lhe sorria e lhe estendia os bra\u00e7os<br \/>\ne lhe chamava \u201cmeu irm\u00e3o lobo!\u201d Toda a intelectualidade,<br \/>\nnos campos, se esteriliza, e s\u00f3 resta a bestialidade. Nesses reinos<br \/>\ncrassos do Vegetal e do animal duas \u00fanicas fun\u00e7\u00f5es se<br \/>\nmant\u00eam vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem ocupa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nentre focinhos e ra\u00edzes que n\u00e3o cessam de sugar e de pastar,<br \/>\nsufocando no c\u00e1lido bafo da universal fecunda\u00e7\u00e3o, a sua<br \/>\npobre alma toda se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha<br \/>\nespiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de mat\u00e9ria; e nessa<br \/>\nmat\u00e9ria dois instintos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar<br \/>\ne o de gerar. Ao cabo duma semana rural, de todo o seu ser t\u00e3o nobremente<br \/>\ncomposto s\u00f3 restava um est\u00f4mago e p\u00f4r baixo um falo! A<br \/>\nalma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade, mergulhar<br \/>\nnas ondas lustrais da Civiliza\u00e7\u00e3o, para largar nelas a crosta<br \/>\nvegetativa, e ressurgir reumanizado, de novo espiritual e Jac\u00edntico!<\/p>\n<p>E estas requintadas met\u00e1foras do meu amigo exprimiam sentimentos reais<br \/>\n&#8211; que eu testemunhei, que muito me divertiram, no \u00fanico passeio que<br \/>\nfizemos ao campo, \u00e0 bem am\u00e1vel e bem soci\u00e1vel floresta<br \/>\nde Montmorency. \u00d3 del\u00edcias de entremez, Jacinto entre a Natureza!<br \/>\nLogo que se afastava dos pavimentos de madeira, do macadame, qualquer ch\u00e3o<br \/>\nque os seus p\u00e9s calcassem o enchia de desconfian\u00e7a e terror.<br \/>\nToda a relva, p\u00f4r mais crestada, lhe parecia ressumar uma umidade mortal.<br \/>\nDe sob cada torr\u00e3o, da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus,<br \/>\nde v\u00edboras, de formas rastejantes e viscosas. No sil\u00eancio do<br \/>\nbosque sentia um l\u00fagubre despovoamento do Universo. N\u00e3o tolerava<br \/>\na familiaridade dos galhos que lhe ro\u00e7assem a manga ou a face. Saltar<br \/>\numa sebe era para ele um ato degradante que o retrogradava ao macaco inicial.<br \/>\nTodas as flores que n\u00e3o tivesse j\u00e1 encontrado em jardins, domesticadas<br \/>\np\u00f4r longos s\u00e9culos de servid\u00e3o ornamental, o inquietavam<br \/>\ncomo venenosas. E considerava duma melancolia funambulesca certos modos e<br \/>\nformas do Ser inanimado, a pressa espeta e v\u00e3 dos regatinhos, a careca<br \/>\ndos rochedos, todas as contor\u00e7\u00f5es do arvoredo e o seu resmungar<br \/>\nsolene e tonto.<\/p>\n<p>Depois duma hora, naquele honesto bosque de Montmorency, o meu pobre amigo<br \/>\nabafava, apavorado, experimentando j\u00e1 esse lento minguar e sumir de<br \/>\nalma que o tornava como um bicho entre bichos. S\u00f3 desanuviou quando<br \/>\npenetramos no lajedo e no g\u00e1s de Paris &#8211; e a nossa vit\u00f3ria quase<br \/>\nse despeda\u00e7ou contra um \u00f4nibus retumbante, atulhado de cidad\u00e3os.<br \/>\nMandou descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,<br \/>\naquela materializa\u00e7\u00e3o em que sentia a cabe\u00e7a pesada e<br \/>\nvaga como a dum boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao teatro das Variedades<br \/>\npara sacudir, com os estribilhos da Femme \u00e0 Papa, o rumor importuno<br \/>\nque lhe ficara dos melros cantando nos choupos altos.<\/p>\n<p>Este delicioso Jacinto fizera ent\u00e3o vinte e tr\u00eas anos, e era<br \/>\num soberbo mo\u00e7o em quem reaparecera a for\u00e7a dos velhos Jacintos<br \/>\nrurais. S\u00f3 pelo nariz, afilado, como narinas quase transparentes, duma<br \/>\nmobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia \u00e0s<br \/>\ndelicadezas do s\u00e9culo XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das<br \/>\neras rudes, crespo e quase lan\u00edgero; e o bigode, como o dum Celta,<br \/>\nca\u00eda em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. Todo o seu<br \/>\nfato, as espessas gravatas de cetim escuro que uma p\u00e9rola prendia,<br \/>\nas luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes<br \/>\nde cedro; e usava sempre ao peito uma flor, n\u00e3o natural, mas composta<br \/>\ndestramente pela sua ramalheira com p\u00e9tala de flores dessemelhantes,<br \/>\ncravo, az\u00e1lea, orqu\u00eddea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre<br \/>\numa leve folhagem de funcho.<\/p>\n<p>Em 1880, em Fevereiro, numa cinzenta e arrepiada manh\u00e3 de chuva, recebi<br \/>\numa carta de meu bom tio Afonso Fernandes, em que, depois de lamenta\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre os seus setenta anos, os seus males hemorroidais, e a pesada ger\u00eancia<br \/>\ndos seus bens \u201cque pedia homem mais novo, com pernas mais rijas\u201d<br \/>\n&#8211; me ordenava que recolhesse \u00e0 nossa casa de Gui\u00e3es, no Douro!<br \/>\nEncostado ao m\u00e1rmore partido do fog\u00e3o, onde na v\u00e9spera<br \/>\na minha Nini deixara um espartilho embrulhado no Jornal dos Debates, censurei<br \/>\nseveramente meu tio que assim cortava em bot\u00e3o, antes de desabrochar,<br \/>\na flor do meu Saber Jur\u00eddico. Depois num P\u00f3s-Escrito ele acrescentava:<br \/>\n&#8211; \u201c O tempo aqui est\u00e1 lindo, o que se pode chamar de rosas, e<br \/>\ntua santa tia muito se recomenda, que anda l\u00e1 pela cozinha, porque<br \/>\nvai hoje em trinta e seis anos que casamos, temos c\u00e1 o abade e o Quintais<br \/>\na jantar, e ela quis fazer uma sopa dourada\u201d.<\/p>\n<p>Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da<br \/>\ntia Vic\u00eancia. H\u00e1 quantos anos n\u00e3o a provava, nem o leit\u00e3o<br \/>\nassado, nem o arroz de forno da nossa casa! Com o tempo assim t\u00e3o lindo,<br \/>\nj\u00e1 as mimosas do nosso p\u00e1tio vergariam sob os seus grandes cachos<br \/>\namarelos. Um peda\u00e7o de c\u00e9u azul, do azul de Gui\u00e3es, que<br \/>\noutro n\u00e3o h\u00e1 t\u00e3o lustroso e macio, entrou pelo quarto,<br \/>\nalumiou, sobre a pu\u00edda tristeza do tapete, relvas, ribeirinhos, malmequeres<br \/>\ne flores de trevo de que meus olhos andavam aguados. E, p\u00f4r entre as<br \/>\nbambinelas de sarja, passou um ar fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral.<\/p>\n<p>Assobiando o fado meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e meti<br \/>\nsolicitamente entre cal\u00e7as e pe\u00fagas um Tratado de direito civil,<br \/>\npara aprender enfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as leis<br \/>\nque regem os homens. Depois, nessa tarde, anunciei a Jacinto que partia para<br \/>\nGui\u00e3es. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto e piedade:<\/p>\n<p>-Para Gui\u00e3es!&#8230;\u00d3 Z\u00e9 Fernandes, que horror!<\/p>\n<p>E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me deveria<br \/>\nprover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, t\u00e3o longe<br \/>\nda Cidade, uma pouca de alma dentro dum pouco de corpo. \u201cLeva uma poltrona!<br \/>\nLeva a Enciclop\u00e9dia Geral! Leva caixas de aspargos!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Mas para o meu Jacinto, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era<br \/>\narbusto desarraigado que n\u00e3o reviver\u00e1. A m\u00e1goa com que<br \/>\nme acompanhou ao comboio conviria excelentemente ao meu funeral. E quando<br \/>\nfechou sobre mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma<br \/>\ngrade de sepultura, eu quase solucei &#8211; com saudades minhas.<\/p>\n<p>Cheguei a Gui\u00e3es. Ainda restavam flores nas mimosas do nosso p\u00e1tio;<br \/>\ncomi com del\u00edcias a sopa dourada da tia Vic\u00eancia; de tamancos<br \/>\nnos p\u00e9s assisti \u00e0 ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras,<br \/>\ncrestando ao sol das eiras, ca\u00e7ando a perdiz nos matos geados, rachando<br \/>\na melancia fresca na poeira dos arraiais, arranchando a magustos, serandando\u00e0<br \/>\ncandeia, ati\u00e7ando fogueiras de S.Jo\u00e3o, enfeitando pres\u00e9pios<br \/>\nde Natal, p\u00f4r ali me passaram docemente sete anos, t\u00e3o atarefados<br \/>\nque nunca logrei abrir o Tratado de Direito Civil, e t\u00e3o singelos que<br \/>\napenas me recordo quando, em v\u00e9speras de S.Nicolau, o abade caiu da<br \/>\n\u00e9gua \u00e0 porta do Br\u00e1s das Cortes. De Jacinto s\u00f3<br \/>\nrecebia raramente algumas linhas, escrevinhadas \u00e0 pressa p\u00f4r<br \/>\nentre tumulto da Civiliza\u00e7\u00e3o. Depois, num Setembro muito quente,<br \/>\nao lidar da vindima, meu bom tio Afonso Fernandes, morreu, t\u00e3o quietamente,<br \/>\nDeus seja louvado p\u00f4r esta gra\u00e7a, como se cala um passarinho<br \/>\nao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia a roupa de luto.<br \/>\nA minha afilhada Joaninha casou na matan\u00e7a do porco. Andaram obras<br \/>\nno nosso telhado. Voltei a Paris.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Era de novo fevereiro, e um fim de tarde arrepiado e cinzento, quando eu<br \/>\ndesci os Campos El\u00edsios em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,<br \/>\nlevemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nabas recurvas do chap\u00e9u de onde fugiam an\u00e9is dum cabelo crespo,<br \/>\nressumava eleg\u00e2ncia e a familiaridade das coisas finas. Nas m\u00e3os,<br \/>\ncruzadas atr\u00e1s das costas, cal\u00e7adas de anta branca, sustentava<br \/>\numa bengala grossa com cast\u00e3o de cristal. E s\u00f3 quando ele parou<br \/>\nao port\u00e3o do 202 reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios<br \/>\ne sedosos.<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto!<\/p>\n<p>-\u00d3 Z\u00e9 Fernandes!<\/p>\n<p>O abra\u00e7o que nos enla\u00e7ou foi t\u00e3o alvoro\u00e7ado que<br \/>\no meu chap\u00e9u rolou na lama. E ambos murmur\u00e1vamos, comovidos,<br \/>\nentrando a grade:<\/p>\n<p>-H\u00e1 sete anos!&#8230;<\/p>\n<p>E, todavia, nada mudara durante esses sete anos no jardim do 202! Ainda entre<br \/>\nas duas \u00e1leas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e varrida<br \/>\nque a l\u00e3 dum tapete. No meio o vaso cor\u00edntico esperava Abril<br \/>\npara resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de margaridas.<br \/>\nE ao lado das escadas limiares, que uma vidra\u00e7aria toldava, as duas<br \/>\nmagras Deusas de pedra, do tempo de D. Gali\u00e3o, sustentavam as antigas<br \/>\nl\u00e2mpadas de globos foscos, onde j\u00e1 silvava o g\u00e1s.<\/p>\n<p>Mas dentro, no peristilo, logo me surpreendeu um elevador instalado p\u00f4r<br \/>\nJacinto &#8211; apesar do 202 ter somente dois andares, e ligados p\u00f4r uma<br \/>\nescadaria t\u00e3o doce que nunca ofendera a asma da Sr\u00aa. D. Angelina!<br \/>\nEspa\u00e7oso, tapetado, ele oferecia, para aquela jornada de sete segundos,<br \/>\nconfortos numerosos, um div\u00e3, uma pele de urso, um roteiro das ruas<br \/>\nde Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na antec\u00e2mera,<br \/>\nonde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e t\u00e9pida duma tarde<br \/>\nde Maio, em Gui\u00e3es. Um criado, mais atento ao term\u00f4metro que<br \/>\num piloto \u00e0 agulha, regulava destramente a boca dourada do calor\u00edfero.<br \/>\nE perfumadores entre palmeiras, como num terra\u00e7o santo de Benares,<br \/>\nesparziam um vapor, aromatizando e salutarmente umedecendo aquele ar delicado<br \/>\ne superfino.<\/p>\n<p>Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado ser:<\/p>\n<p>-Eis a Civiliza\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Jacinto empurrou uma porta, penetramos numa nave cheia de majestade e sombra,<br \/>\nonde reconheci a Biblioteca p\u00f4r trope\u00e7ar numa pilha monstruosa<br \/>\nde livros novos. O meu amigo ro\u00e7ou de leve o dedo na parede: e uma<br \/>\ncoroa de lumes el\u00e9tricos, refulgindo entre os lavores do teto, alumiou<br \/>\nas estantes monumentais, todas de \u00e9bano. Nelas repousavam mais de trinta<br \/>\nmil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com retoques<br \/>\nde ouro, hirtos na sua pompa e na sua autoridade como doutores num conc\u00edlio.<\/p>\n<p>N\u00e3o contive a minha admira\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto! Que dep\u00f3sito!<\/p>\n<p>Ele murmurou, num sorriso descorado:<\/p>\n<p>-H\u00e1 que ler, h\u00e1 que ler&#8230;<\/p>\n<p>Reparei ent\u00e3o que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se lhe afilara<br \/>\nmais entre duas rugas muito fundas, como as dum comediante cansado. Os an\u00e9is<br \/>\ndo seu cabelo lan\u00edgero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga<br \/>\nserenidade de m\u00e1rmore bem polido. N\u00e3o frisava agora o bigode,<br \/>\nmurcho, ca\u00eddo em fios pensativos. Tamb\u00e9m notei que corcovava.<\/p>\n<p>Ele erguera uma tape\u00e7aria &#8211; entramos no seu gabinete de trabalho,<br \/>\nque me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos<br \/>\nperderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os div\u00e3s,<br \/>\nas madeiras, eram verdes, dum verde profundo de folha de louro. Sedas verdes<br \/>\nenvolviam as luzes el\u00e9tricas, dispersas em l\u00e2mpadas t\u00e3o<br \/>\nbaixas que lembravam estrelas ca\u00eddas p\u00f4r cima das mesas, acabando<br \/>\nde arrefecer e morrer: s\u00f3 uma rebrilhava, nua e clara, no alto duma<br \/>\nestante quadrada, esguia, solit\u00e1ria como uma torre numa plan\u00edcie,<br \/>\ne de que o lume parecia ser o farol melanc\u00f3lico. Um biombo de laca<br \/>\nverde, fresco de verde de relva, resguardava a chamin\u00e9 de m\u00e1rmore<br \/>\nverde, verde de mar sombrio, onde esmoreciam as brasas duma lenha arom\u00e1tica.<br \/>\nE entre aqueles verdes reluzia, p\u00f4r sobre peanhas e pedestais, toda<br \/>\numa Mec\u00e2nica suntuosa, aparelhos, l\u00e2minas, rodas, tubos, engrenagens,<br \/>\nhastes, friezas, rigidezas de metais&#8230;.<\/p>\n<p>Mas Jacinto batia nas almofadas do div\u00e3, onde se enterrara com um<br \/>\nmodo cansado que eu n\u00e3o lhe conhecia:<\/p>\n<p>-Para aqui, Z\u00e9 Fernandes, para aqui! \u00c8 necess\u00e1rio reatarmos<br \/>\nestas nossas vidas, t\u00e3o apartadas h\u00e1 sete anos!&#8230; em Gui\u00e3es,<br \/>\nsete anos!<\/p>\n<p>-E tu, que tens feito, Jacinto?<\/p>\n<p>O meu amigo encolheu molemente os ombros. Vivera &#8211; cumprira com serenidade<br \/>\ntodas as fun\u00e7\u00f5es, as que pertencem \u00e0 mat\u00e9ria e<br \/>\nas que pertencem ao esp\u00edrito&#8230;<\/p>\n<p>-E acumulaste civiliza\u00e7\u00e3o, Jacinto! Santo Deus&#8230; Est\u00e1<br \/>\ntremendo, o 202!<\/p>\n<p>Ele espalhou em torno um olhar onde j\u00e1 n\u00e3o faiscava a antiga<br \/>\nvivacidade:<\/p>\n<p>-Sim, h\u00e1 confortos&#8230; Mas falta muito! A humanidade ainda est\u00e1<br \/>\nmal apetrechada, Z\u00e9 Fernandes&#8230; E a vida conserva resist\u00eancias.<\/p>\n<p>Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telefone. E enquanto o meu<br \/>\namigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente \u201cEst\u00e1 l\u00e1?<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 l\u00e1?\u201d, examinei curiosamente, sobre a sua imensa<br \/>\nmesa de trabalho, uma estranha e mi\u00fada legi\u00e3o de instrumentozinhos<br \/>\nde n\u00edquel, de a\u00e7o, de cobre, de ferro, com gumes, com argolas,<br \/>\ncom tenazes, com ganchos, com dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas.<br \/>\nTomei um que tentei manejar &#8211; e logo uma ponta mal\u00e9vola me picou um<br \/>\ndedo. Nesse instante rompeu de outro canto um tiquetique a\u00e7odado, quase<br \/>\nansioso. Jacinto acudiu, com a face no telefone:<\/p>\n<p>-V\u00ea a\u00ed o tel\u00e9grafo!&#8230; Ao p\u00e9 do div\u00e3. Uma<br \/>\ntira de papel que deve estar a correr.<\/p>\n<p>-E, com efeito, duma redoma de vidro posta numa coluna, e contendo um aparelho<br \/>\nesperto e diligente, escorria para o tapete como uma t\u00eania, a longa<br \/>\ntira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei,<br \/>\nmaravilhado. A linha, tra\u00e7ada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto<br \/>\nque a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria!<\/p>\n<p>J\u00e1 ele abandonara o telefone. Desejei saber, inquieto, se o prejudicava<br \/>\ndiretamente aquela avaria da Azoff.<\/p>\n<p>-Da Azoff?&#8230; A avaria? A mim?&#8230; N\u00e3o! \u00c9 uma not\u00edcia.<\/p>\n<p>Depois, consultando um rel\u00f3gio monumental que, ao fundo da Biblioteca,<br \/>\nmarcava a hora de todas as capitais e o curso de todos os Planetas:<\/p>\n<p>-Eu preciso escrever uma carta, seis linhas&#8230; Tu esperas, n\u00e3o, Z\u00e9<br \/>\nFernandes? Tens a\u00ed os jornais de Paris, da noite; e os de Londres,<br \/>\ndesta manh\u00e3. As ilustra\u00e7\u00f5es al\u00e9m, naquela pasta<br \/>\nde couro com ferragens.<\/p>\n<p>Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava \u00e0 minha profanidade<br \/>\nserrana todos os gostos duma inicia\u00e7\u00e3o. Aos lados da cadeira<br \/>\nde Jacinto pendiam gordos tubos ac\u00fasticos, p\u00f4r onde ele decerto<br \/>\nsoprava as suas ordens atrav\u00e9s do 202. Dos p\u00e9s da mesa cord\u00f5es<br \/>\nt\u00famidos e moles, coleando sobre o tapete, corriam para os recantos<br \/>\nde sombra \u00e0 maneira de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e refletida<br \/>\nno seu verniz como na \u00e1gua dum po\u00e7o, pousava uma M\u00e1quina<br \/>\nde escrever; e adiante era uma imensa M\u00e1quina de calcular, com fileiras<br \/>\nde buracos de onde espreitavam, esperando, n\u00fameros r\u00edgidos e<br \/>\nde ferro. Depois parei em frente da estante que me preocupava, assim solit\u00e1ria,<br \/>\n\u00e0 maneira duma torre numa plan\u00edcie, com o seu alto farol. Toda<br \/>\numa das suas faces estava repleta de Dicion\u00e1rios; a outra de Manuais;<br \/>\na outra de Atlas; a \u00faltima de Guias, e entre eles, abrindo um f\u00f3lio,<br \/>\nencontrei o Guia das ruas de Samarcanda. Que maci\u00e7a torre de informa\u00e7\u00e3o!<br \/>\nSobre prateleiras admirei aparelhos que n\u00e3o compreendia: &#8211; um composto<br \/>\nde l\u00e2minas de gelatina, onde desmaiavam, meio chupadas, as linhas duma<br \/>\ncarta, talvez amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como<br \/>\npara o decepar, um cutelo funesto; outro avan\u00e7ando a boca duma tuba<br \/>\ntoda aberta para as vozes do invis\u00edvel. Cingidos aos umbrais, liados<br \/>\n\u00e0s cimalhas, luziam arames, que fugiam atrav\u00e9s do teto, para<br \/>\no espa\u00e7o. Todos mergulhavam em for\u00e7as universais, todos transmitiam<br \/>\nfor\u00e7as universais. A Natureza convergia disciplinada ao servi\u00e7o<br \/>\ndo meu amigo e entrara na sua domesticidade!&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto atirou uma exclama\u00e7\u00e3o impaciente:<\/p>\n<p>-\u00d3, estas penas el\u00e9tricas!&#8230; Que seca!<\/p>\n<p>Amarrotara com c\u00f3lera a carta come\u00e7ada &#8211; eu escapei, respirando,<br \/>\npara a Biblioteca. Que majestoso armaz\u00e9m dos produtos do Racioc\u00ednio<br \/>\ne da Imagina\u00e7\u00e3o! Ali jaziam mais de trinta mil volumes, e todos<br \/>\ndecerto essenciais a uma cultura humana. Logo \u00e0 entrada notei, em ouro<br \/>\nnuma lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regi\u00e3o dos economistas.<br \/>\nAvancei &#8211; e percorri, espantado, oito metros de Economia Pol\u00edtica.<br \/>\nDepois avistei os Fil\u00f3sofos e os seus comentadores, que revestiam toda<br \/>\numa parede, desde as escolas Pr\u00e9-socr\u00e1ticas at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nescolas Neopessimistas. Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil<br \/>\nsistemas &#8211; e que todos se contradiziam. Pelas encaderna\u00e7\u00f5es<br \/>\nlogo se deduziam as doutrinas: Hobbes, embaixo, era pesado, de couro negro;<br \/>\nPlat\u00e3o, em cima, resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante<br \/>\ncome\u00e7avam as Hist\u00f3rias Universais. Mas a\u00ed uma imensa<br \/>\npilha de livros brochados, cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia<br \/>\ncontra a estante, como fresca terra de aluvi\u00e3o tapando uma riba secular.<br \/>\nContornei essa colina, mergulhei na se\u00e7\u00e3o das Ci\u00eancias<br \/>\nNaturais, peregrinando, num assombro crescente, da Ortografia para a Paleontologia,<br \/>\ne da Morfologia para a Cristalografia. Essa estante rematava junto duma janela<br \/>\nrasgada sobre os Campos El\u00edsios. Apartei as cortinas de veludo &#8211; e<br \/>\np\u00f4r tr\u00e1s descobri outra portentosa rima de volumes, todos de<br \/>\nHist\u00f3ria Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente<br \/>\nat\u00e9 aos \u00faltimos vidros, vedando, nas manh\u00e3s mais c\u00e2ndidas,<br \/>\no ar e a luz do Senhor.<\/p>\n<p>Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante am\u00e1vel dos<br \/>\nPoetas. Como um repouso para o esp\u00edrito esfalfado de todo aquele saber<br \/>\npositivo, Jacinto aconchegara a\u00ed um recanto, com um div\u00e3 e uma<br \/>\nmesa de ,limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos,<br \/>\nde cigarros do Oriente, de tabaqueiras do s\u00e9culo XVIII. Sobre um cofre<br \/>\nde madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos secos do Jap\u00e3o.<br \/>\nCedi \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o das almofadas; trinquei um damasco, abri<br \/>\num volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido como de um inseto de<br \/>\nasas harmoniosas. sorri \u00e0 id\u00e9ia que fossem abelhas, compondo<br \/>\no seu mel naquele maci\u00e7o de versos em flor. Depois percebi que o sussurro<br \/>\nremoto e dormente vinha do cofre de mogno, de parecer t\u00e3o discreto.<br \/>\nArredei uma Gazeta de Fran\u00e7a; e descortinei um cord\u00e3o que emergia<br \/>\nde um orif\u00edcio, escavado no cofre, e rematava num funil de marfim.<br \/>\nCom curiosidade, encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita \u00e0<br \/>\nsingeleza dos rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito decidida,<br \/>\naproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu entendimento,<br \/>\nsussurrou capciosamente:<\/p>\n<p>-&#8230;\u201dE assim, pela disposi\u00e7\u00e3o dos cubos diab\u00f3licos,<br \/>\neu chego a verificar os espa\u00e7os hiperm\u00e1gicos!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Pulei com um berro.<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto, aqui h\u00e1 um homem! Est\u00e1 aqui um homem a falar<br \/>\ndentro duma caixa!<\/p>\n<p>O meu camarada, habituado aos prod\u00edgios, n\u00e3o se alvoro\u00e7ou:<\/p>\n<p>-\u00c9 o Conferen\u00e7ofone&#8230;Exatamente como o Teatrofone; somente<br \/>\naplicado \u00e0s escolas e \u00e0s confer\u00eancias. Muito c\u00f4modo!&#8230;<br \/>\nQue diz o homem, Z\u00e9 Fernandes?<\/p>\n<p>Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:<\/p>\n<p>-Eu sei! Cubos diab\u00f3licos, espa\u00e7os m\u00e1gicos, toda a sorte<br \/>\nde horrores&#8230;<\/p>\n<p>Senti dentro o sorriso superior de Jacinto:<\/p>\n<p>-Ah, \u00e9 o coronel Dorcas&#8230; Li\u00e7\u00f5es de Metaf\u00edsica<br \/>\nPositiva sobre a Quarta Dimens\u00e3o&#8230; Conjecturas, uma ma\u00e7ada!<br \/>\nOuve l\u00e1, tu hoje jantas comigo e com uns amigos, Z\u00e9 Fernandes?<\/p>\n<p>-N\u00e3o, Jacinto&#8230; Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!<\/p>\n<p>E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquet\u00e3o de flanela<br \/>\ngrossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao Domingo, em Gui\u00e3es,<br \/>\nvisitava o Senhor. Mas Jacinto afirmou que esta simplicidade montesina interessaria<br \/>\nos seus convidados, que eram dois artistas&#8230; Quem? O autor do Cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nTriplo, um Psic\u00f3logo Feminista, de agudeza transcendente, Mestre muito<br \/>\nexperimentado e muito consultado em Ci\u00eancias Sentimentais; e Vorcan,<br \/>\num pintor m\u00edtico, que interpretara etereamente, havia um ano, a simbolia<br \/>\nraps\u00f3dica do cerco de Tr\u00f3ia, numa vasta composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nHelena Devastadora&#8230;<\/p>\n<p>Eu co\u00e7ava a barba:<\/p>\n<p>-N\u00e3o, Jacinto, n\u00e3o&#8230; Eu venho de Gui\u00e3es, das serras;<br \/>\npreciso entrar em toda esta civiliza\u00e7\u00e3o, lentamente, com cautela,<br \/>\nsen\u00e3o rebento. Logo na mesma tarde a eletricidade, e o Conferen\u00e7ofone,<br \/>\ne os espa\u00e7os hiperm\u00e1gicos e o feminista, e o et\u00e9reo,<br \/>\ne a simbolia devastadora, \u00e9 excessivo! Volto amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Jacinto dobrava vagarosamente a sua carta, onde metera sem rebu\u00e7o<br \/>\n(como convinha \u00e0 nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas<br \/>\ndo ramo que lhe floria o peito.<\/p>\n<p>-Amanh\u00e3, Z\u00e9 Fernandes, tu vens antes de almo\u00e7o, com<br \/>\nas tuas malas dentro dum fiacre, para te instalares no 202, no teu quarto.<br \/>\nNo Hotel s\u00e3o embara\u00e7os, priva\u00e7\u00f5es. Aqui tens o<br \/>\ntelefone, o teatrofone, livros&#8230;<\/p>\n<p>Aceitei logo, com simplicidade. E Jacinto, embocando um tubo ac\u00fastico,<br \/>\nmurmurou:<\/p>\n<p>-Grilo!<\/p>\n<p>Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu, surdiu<br \/>\no seu velho escudeiro ( aquele moleque que viera com D.Gali\u00e3o), que<br \/>\neu me alegrei de encontrar t\u00e3o rijo, mais negro, reluzente e vener\u00e1vel<br \/>\nna sua tesa gravata, no seu colete branco de bot\u00f5es de ouro. Ele tamb\u00e9m<br \/>\nestimou ver de novo \u201c o si\u00f4 Fernandes\u201d. E, quando soube<br \/>\nque eu ocuparia o quarto do av\u00f4 Jacinto, teve um claro sorriso de preto,<br \/>\nem que envolveu o seu senhor, no contentamento de o sentir enfim reprovido<br \/>\nduma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>-Grilo, dizia Jacinto, esta carta a Madame de Oriol&#8230; Escuta!Telefona para<br \/>\ncasa dos Tr\u00e8ves que os espiritistas s\u00f3 est\u00e3o livres no<br \/>\nDomingo&#8230; Escuta! Eu tomo uma ducha de jantar, t\u00e9pida, a 17. Fric\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom malva-rosa.<\/p>\n<p>E caindo pesadamente para cima do div\u00e3, com um bocejo arrastado e<br \/>\nvago:<\/p>\n<p>-Pois \u00e9 verdade, meu Z\u00e9 Fernandes, aqui estamos, como h\u00e1<br \/>\nsete anos, neste velho Paris&#8230;<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o me arredava da mesa, no desejo de completar a minha inicia\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve j\u00e1<br \/>\na\u00ed um desavergonhado que me picou. Parecem perversos&#8230; S\u00e3o<br \/>\n\u00fateis?<\/p>\n<p>Jacinto esbo\u00e7ou, com languidez, um gesto que os sublimava. -Providenciais,<br \/>\nmeu filho, absolutamente providenciais, pela simplifica\u00e7\u00e3o que<br \/>\nd\u00e3o ao trabalho! Assim&#8230; e apontou. Este arrancava as penas velhas,<br \/>\no outro numerava rapidamente as \u00b4p\u00e1ginas dum manuscrito; aqueloutro,<br \/>\nal\u00e9m, raspava emendas&#8230; E ainda os havia para colar estampilhas, imprimir<br \/>\ndatas, derreter lacres, cintar documentos&#8230;<\/p>\n<p>-Mas com efeito, acrescentou, \u00e9 uma seca&#8230; Com as molas, com os<br \/>\nbicos, \u00e0s vezes magoam, ferem&#8230; J\u00e1 me sucedeu inutilizar cartas<br \/>\np\u00f4r as Ter sujado com dedadas de sangue. \u00c9 uma ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como o meu amigo espreitara novamente o rel\u00f3gio monumental,<br \/>\nn\u00e3o lhe quis retardar a consola\u00e7\u00e3o da ducha e da malva-rosa.<\/p>\n<p>-Bem, Jacinto, j\u00e1 te revi, j\u00e1 me contentei&#8230; Agora at\u00e9<br \/>\namanh\u00e3, com as malas.<\/p>\n<p>-Que diabo, Z\u00e9 Fernandes, espera um momento&#8230; Vamos pela sala de<br \/>\njantar. Talvez te tentes!<\/p>\n<p>E, atrav\u00e9s da Biblioteca, penetramos na sala de jantar &#8211; que me encantou<br \/>\npelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, lacada, mais lustrosa e<br \/>\nmacia que cetim, revestia as paredes, encaixilhando medalh\u00f5es de damasco<br \/>\ncor de morango, de morango muito maduro e esmagado; os aparadores, discretamente<br \/>\ncom a mesma laca nevada; e damascos amorangados estofavam tamb\u00e9m as<br \/>\ncadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentid\u00e3o de gulas delicadas,<br \/>\nde gulas intelectuais.<\/p>\n<p>-Viva o meu Pr\u00edncipe! Sim senhor&#8230; eis aqui um comedouro muito compreens\u00edvel<br \/>\ne muito repousante, Jacinto!<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o janta, homem!<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 eu me come\u00e7ava a inquietar, reparando que a cada talher<br \/>\ncorrespondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me impressionei<br \/>\nquando Jacinto me desvendou que era um para as ostras, outro para o peixe,<br \/>\noutro para as carnes, outro para os legumes, outro para as frutas, outro para<br \/>\no queijo. Simultaneamente, com uma sobriedade que louvaria Salom\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3 dois copos, para dois vinhos: &#8211; um Bord\u00e9us rosado em infusas<br \/>\nde cristal, e Champanhe gelando dentro de baldes de prata. Todo um aparador<br \/>\npor\u00e9m vergava sob o luxo redundante, quase assustador de \u00e1guas<br \/>\n&#8211; \u00e1guas oxigenadas, \u00e1guas carbonatadas, \u00e1guas fosfatadas,<br \/>\n\u00e1guas esterilizadas, \u00e1guas de sais, outras ainda, em garrafas<br \/>\nbojudas, com tratados terap\u00eauticos impressos em r\u00f3tulos.<\/p>\n<p>-Sant\u00edssimo nome de Deus, Jacinto! Ent\u00e3o \u00e9s ainda o<br \/>\nmesmo tremendo bebedor de \u00e1gua, hem?&#8230; Un aquatico! Como dizia o nosso<br \/>\npoeta chileno, que andava a traduzir Klopstock.<\/p>\n<p>Ele derramou, p\u00f4r sobre toda aquela garrafaria encapu\u00e7ada em<br \/>\nmetal, um olhar desconhecido:<\/p>\n<p>-N\u00e3o&#8230; \u00c9 p\u00f4r causa das \u00e1guas da Cidade, contaminadas,<br \/>\natulhadas de micr\u00f3bios&#8230; Mas ainda n\u00e3o encontrei uma boa \u00e1gua<br \/>\nque me convenha, que me satisfa\u00e7a&#8230; At\u00e9 sofro sede.<\/p>\n<p>Desejei ent\u00e3o conhecer o jantar do Psic\u00f3logo e do Simbolista<br \/>\n&#8211; tra\u00e7ado, ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre l\u00e2minas<br \/>\nde marfim. Come\u00e7ava honradamente p\u00f4r ostras cl\u00e1ssicas,<br \/>\nde Marennes. Depois aparecia uma sopa de alcachofras e ovas de carpa&#8230;<\/p>\n<p>-\u00c9 bom?<\/p>\n<p>Jacinto encolheu desinteressadamente os ombros:<\/p>\n<p>-Sim&#8230; Eu n\u00e3o tenho nunca apetite, j\u00e1 h\u00e1 tempo&#8230; J\u00e1<br \/>\nh\u00e1 anos.<\/p>\n<p>Do outro prato s\u00f3 compreendi que continha frangos e t\u00fabaras.<br \/>\nDepois saboreariam aqueles senhores um filete de veado, macerado em Xer\u00eas,<br \/>\ncom gel\u00e9ia de noz. E p\u00f4r sobremesa simplesmente laranjas geladas<br \/>\ncom \u00e9ter.<\/p>\n<p>-Em \u00e9ter, Jacinto?<\/p>\n<p>O meu amigo hesitou, esbo\u00e7ou com os dedos a ondula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndum aroma que se evola.<\/p>\n<p>\u00c9 novo&#8230; Parece que o \u00e9ter desenvolve, faz aflorar a alma<br \/>\ndas frutas&#8230;<\/p>\n<p>Curvei a cabe\u00e7a ignara, murmurei nas minhas profundidades:<\/p>\n<p>-Eis a Civiliza\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>E descendo os Campos El\u00edsios, encolhendo no palet\u00f3, a cogitar<br \/>\nneste prato simb\u00f3lico, considerava a rudeza e atolado atraso da minha<br \/>\nGui\u00e3es, onde desde s\u00e9culos a alma das laranjas permanece ignorada<br \/>\ne desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, p\u00f4r todos aqueles pomares<br \/>\nque ensombram e perfumam o vale, da Roqueirinha a Sandofim! Agora por\u00e9m,<br \/>\nbenedito deus, na conviv\u00eancia de um t\u00e3o grande iniciado como<br \/>\nJacinto, eu compreenderia todas as finuras e todos os poderes da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade dum homem<br \/>\nque, concebendo uma id\u00e9ia da Vida, a realiza &#8211; e atrav\u00e9s dela<br \/>\ne p\u00f4r ela recolhe a felicidade perfeita.<\/p>\n<p>Bem se afirmara este Jacinto, na verdade, como Pr\u00edncipe da Gr\u00e3-Ventura!<\/p>\n<h3><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h3>\n<p>No 202, todas as manh\u00e3s, \u00e0s nove horas, depois do meu chocolate<br \/>\ne ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo<br \/>\nbanhado, barbeado, friccionado, envolto num roup\u00e3o branco de p\u00ealo<br \/>\nde cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda de cristal (p\u00f4r<br \/>\ncausa dos micr\u00f3bios) e atulhada com esses utens\u00edlios de tartaruga,<br \/>\nmarfim, prata, a\u00e7o e madrep\u00e9rola que o homem do s\u00e9culo<br \/>\nXIX necessita para n\u00e3o desfear o conjunto suntu\u00e1rio da Civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne manter nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu<br \/>\nregalo e o meu espanto &#8211; porque as havia largas como a roda maci\u00e7a<br \/>\ndum carro sabino; estreitas e mais recurvas que o alfanje dum mouro; c\u00f4ncavas,<br \/>\nem forma de telha alde\u00e3; pontiagudas, em feitio de folha de hera; rijas<br \/>\nque nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola! De todas, fielmente,<br \/>\ncomo amo que n\u00e3o desdenha nenhum servo, se utilizava o meu Jacinto.<br \/>\nE assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata, permanecia este<br \/>\nPr\u00edncipe passando p\u00ealos sobre o seu p\u00ealo durante catorze<br \/>\nminutos.<\/p>\n<p>No entanto o Grilo e outro escudeiro, p\u00f4r tr\u00e1s dos biombos de<br \/>\nQuioto, de sedas lavradas, manobravam, com per\u00edcia e vigor, os aparelhos<br \/>\ndp lavat\u00f3rio &#8211; que era apenas um resumo das m\u00e1quinas monumentais<br \/>\nda Sala de banho, a mais estremada maravilha do 202. Nestes m\u00e1rmores<br \/>\nsimplificados existiam unicamente dois jatos graduados desde zero at\u00e9<br \/>\ncem; as duas duchas, fina e grossa, para a cabe\u00e7a; e ainda bot\u00f5es<br \/>\ndiscretos, que, ro\u00e7ados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes,<br \/>\nou um leve orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham<br \/>\nem disciplina e servid\u00e3o tantas \u00e1guas ferventes, tantas \u00e1guas<br \/>\nviolentas, sa\u00eda enfim o meu Jacinto enxugando as m\u00e3os a uma<br \/>\ntoalha de felpo, a uma toalha de linho, a outra de corda entran\u00e7ada<br \/>\npara restabelecer a circula\u00e7\u00e3o, a outra de seda frouxa para<br \/>\nrepolir a pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro,<br \/>\nora um bocejo, Jacinto, estendido num div\u00e3, folheava uma agenda, onde<br \/>\nse arrolavam, inscritas pelo Grilo ou p\u00f4r ele, as ocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo seu dia, t\u00e3o numerosas p\u00f4r vezes que cobriam duas laudas.<\/p>\n<p>Todas elas se prendiam \u00e0 sua sociabilidade, \u00e0 sua civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito complexa, ou a interesses que o meu Pr\u00edncipe, nesses sete anos,<br \/>\ncriara para viver em mais consciente comunh\u00e3o com todas as fun\u00e7\u00f5es<br \/>\nda Cidade (Jacinto com efeito era presidente do Clube da Espada e Alvo; comandit\u00e1rio<br \/>\ndo jornal O Boulevard; diretor da Companhia dos Telefones de Constantinopla;<br \/>\ns\u00f3cio dos Bazares Unidos da Arte Espiritualista; membro do Comit\u00ea<br \/>\nde Inicia\u00e7\u00e3o das Religi\u00f5es Esot\u00e9ricas, etc. ).<br \/>\nNenhuma destas ocupa\u00e7\u00f5es parecia por\u00e9m apraz\u00edvel<br \/>\nao meu amigo &#8211; porque, apesar da mansid\u00e3o e harmonia dos seus modos,<br \/>\nfreq\u00fcentemente arremessava para o tapete numa rebeli\u00e3o de homem<br \/>\nlivre aquela agenda que o escravizava. E numa dessas manh\u00e3s (de vento<br \/>\ne neve), apanhando eu o livro opressivo, encadernado em pelica, de um carinhoso<br \/>\ntom de rosa murcha &#8211; descobr\u00ed que o meu Jacinto devia depois do almo\u00e7o<br \/>\nfazer uma visita na rua da Universidade, outra no Parque Monceau, outra entre<br \/>\nos arvoredos remotos da Muette; assistir p\u00f4r fidelidade a uma vota\u00e7\u00e3o<br \/>\nno clube; acompanhar Madame de Oriol a uma exposi\u00e7\u00e3o de leques;<br \/>\nescolher um presente de noivado para a sobrinha dos Tr\u00e8ves; comparecer<br \/>\nno funeral do velho conde de Malville; presidir um tribunal de honra numa<br \/>\nquest\u00e3o de roubalheira, entre cavalheiros, ao ecart\u00e9&#8230; E ainda<br \/>\nse acavalavam outras indica\u00e7\u00f5es, escrevinhadas p\u00f4r Jacinto<br \/>\na l\u00e1pis: &#8211; \u201cCarroceiro &#8211; Five-o\u2019clock dos Efrains &#8211; A pequena<br \/>\ndas Variedades &#8211; Levar a nota ao jornal&#8230;\u201d Considerei o meu Pr\u00edncipe.<br \/>\nEstirado no div\u00e3, de olhos miserrimamente cerrados, bocejava, num bocejo<br \/>\nimenso e mudo.<\/p>\n<p>Mas os afazeres de Jacinto come\u00e7avam logo no 202, cedo, depois do<br \/>\nbanho. Desde as oito horas a campainha do telefone repicava p\u00f4r ele,<br \/>\ncom impaci\u00eancia, quase com c\u00f3lera, como p\u00f4r um escravo<br \/>\ntardio. E mal enxugado, dentro do seu roup\u00e3o de p\u00ealo de cabra<br \/>\ndo Tibete ou de grossos pijamas de pel\u00facia cor de ouro velho, constantemente<br \/>\nsa\u00eda ao corredor a cochichar com sujeitos t\u00e3o apressados, que<br \/>\nconservavam na m\u00e3o o guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um desses,<br \/>\nsempre presente (e que pertencia decerto aos Telefones de Constantinopla),<br \/>\nera temeroso &#8211; todo ele chupado, tisnado, com maus dentes, sobra\u00e7ando<br \/>\numa enorme pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola duma peli\u00e7a<br \/>\npu\u00edda, como da abertura dum covil, dois olhinhos torvose de rapina.<br \/>\nSem cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa salva&#8230;<br \/>\ndepois eram fornecedores de Ind\u00fastria e de Arte; negociantes de cavalos,<br \/>\nrubicundos e de palet\u00f3 branco; inventores com grossos rolos de papel;<br \/>\nalfarrabistas trazendo na algibeira uma edi\u00e7\u00e3o \u201c\u00fanica\u201d,<br \/>\nquase inveross\u00edmil, de Ulrich Zell ou do Lapidanus. Jacinto circulava<br \/>\nestonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telefone, desatando<br \/>\nnervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum emboscado que surdia das sombras<br \/>\nda antec\u00e2mara, estendia como um trabuco o seu memorial ou o seu castigo!<\/p>\n<p>Ao meio-dia, um tant\u00e3 argentino e melanc\u00f3lico ressoava, chamando<br \/>\nao almo\u00e7o. Com o F\u00edgaro ou as Novidades abertas sobre o prato,<br \/>\neu esperava sempre meia hora pelo meu Pr\u00edncipe, que entrava numa rajada,<br \/>\nconsultando o rel\u00f3gio, exalando com a face mo\u00edda o seu queixume<br \/>\neterno:<\/p>\n<p>-Que ma\u00e7ada! E depois uma noite abomin\u00e1vel, enrodilhada em<br \/>\nsonhos&#8230; Tomei sulfonal, chamei o Grilo para me esfregar com terebintina&#8230;<br \/>\nUma seca!<\/p>\n<p>Espalhava pela mesa um olhar j\u00e1 farto. Nenhum prato, p\u00f4r mais<br \/>\nengenhoso, o seduzia; &#8211; e, como atrav\u00e9s do seu tumulto matinal fumava<br \/>\nincont\u00e1veis cigarrilhas que o ressequiam, come\u00e7ava p\u00f4r<br \/>\nse encharcar com um imenso copo de \u00e1gua oxigenada, ou carbonatada,<br \/>\nou gasosa, misturada dum conhaque raro, muito caro, horrendamente adocicado,<br \/>\nde moscatel de Siracusa. Depois, \u00e0 pressa, sem gosto, com a ponta incerta<br \/>\ndo garfo, picava aqui e al\u00e9m uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;<br \/>\n&#8211; e reclamava impacientemente o caf\u00e9, um caf\u00e9 de Moca, mandado<br \/>\ncada m\u00eas p\u00f4r um feitor do Dedjah, fervido \u00e0 turca, muito<br \/>\nespesso, que ele remexia com um pau de canela!<\/p>\n<p>-E tu, Z\u00e9 Fernandes, que vais tu fazer?<\/p>\n<p>-Eu?<\/p>\n<p>Recostado na cadeira, com del\u00edcias, os dedos metidos nas cavas do<br \/>\ncolete:<\/p>\n<p>-Vou vadiar, regaladamente, como um c\u00e3o natural!<\/p>\n<p>O meu sol\u00edcito amigo, remexendo o caf\u00e9 com o pau da canela,<br \/>\nrebuscava atrav\u00e9s da numerosa Civiliza\u00e7\u00e3o da cidade uma<br \/>\nocupa\u00e7\u00e3o que me encantasse. Mas apenas sugeria uma Exposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nou uma Confer\u00eancia, ou monumentos, ou passeios, logo encolhia os ombros<br \/>\ndesconsolado:<\/p>\n<p>-P\u00f4r fim nem vale a pena, \u00e9 uma seca!<\/p>\n<p>Acendia outra das cigarrilhas russas, onde rebrilhava o seu nome, impresso<br \/>\na ouro na mortalha. Torcendo, numa pressa nervosa, os fios do bigode, ainda<br \/>\nescutava, \u00e0 porta da Biblioteca, o seu procurador, o n\u00e9dio e<br \/>\nmajestoso Laporte. E enfim, seguido dum criado, que sobra\u00e7ava um ma\u00e7o<br \/>\ntremendo de jornais para lhe abastecer o cup\u00e9, o Pr\u00edncipe-Ventura<br \/>\nmergulhava na Cidade.<\/p>\n<p>Quando o dia social de Jacinto se apresentava mais desafogado, e o c\u00e9u<br \/>\nde Mar\u00e7o nos concedia caridosamente um pouco de azul aguado, sa\u00edamos<br \/>\ndepois do almo\u00e7o, a p\u00e9, atrav\u00e9s de Paris. Estes lentos<br \/>\ne errantes passeios eram outrora, na nossa idade de Estudantes, um gozo muito<br \/>\nquerido de Jacinto &#8211; porque neles mais intensamente e mais minuciosamente<br \/>\nsaboreava a Cidade. Agora por\u00e9m, apesar da minha companhia, s\u00f3<br \/>\nlhe davam uma impaci\u00eancia e uma fadiga que desoladamente destoava do<br \/>\nantigo, iluminado \u00eaxtase. Com espanto (mesmo com dor, porque sou bom,<br \/>\ne sempre me entristece o desmoronar duma cren\u00e7a) descobri eu, na primeira<br \/>\ntarde em que descemos aos Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre<br \/>\no asfalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadame, afligiam meu amigo<br \/>\npela brutalidade da sua pressa, do seu ego\u00edsmo, e do seu estridor.<br \/>\nEncostado e como refugiado no meu bra\u00e7o, este Jacinto novo come\u00e7ou<br \/>\na lamentar que as ruas, na nossa Civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fossem<br \/>\ncal\u00e7adas de guta-percha! E a guta-percha claramente representava, para<br \/>\nmeu amigo, a subst\u00e2ncia discreta que amortece o choque e a rudeza das<br \/>\ncoisas! Oh maravilha! Jacinto querendo borracha, a borracha isoladora, entre<br \/>\na sua sensibilidade e as fun\u00e7\u00f5es da Cidade! Depois nem me permitiu<br \/>\npasmar diante daquelas dourejadas e espelhadas lojas que ele outrora considerava<br \/>\ncomo os !preciosos museus do s\u00e9culo XIX\u201d&#8230;<\/p>\n<p>-N\u00e3o vale a pena, Z\u00e9 Fernandes. H\u00e1 uma imensa pobreza<br \/>\ne secura de inven\u00e7\u00e3o! Sempre os mesmos flor\u00f5es Lu\u00eds<br \/>\nXV, sempre as mesmas pel\u00facias&#8230; N\u00e3o vale a pena!<\/p>\n<p>Eu arregalava os olhos para este transformado Jacinto. E sobretudo me impressionava<br \/>\no seu horror pela Multid\u00e3o &#8211; p\u00f4r certos efeitos da Multid\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3 para ele sens\u00edveis, e a que chamava os \u201csulcos\u201d.<\/p>\n<p>-Tu n\u00e3o sentes, Z\u00e9 Fernandes. Vens das serras&#8230; Pois constituem<br \/>\no rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! \u00c9 um perfume muito<br \/>\nagudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se instala no olfato,<br \/>\ne estraga para todo o dia o ar respir\u00e1vel. \u00c9 um dito que se<br \/>\nsurpreende num grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo,<br \/>\nou de estupidez, e que nos fica colado \u00e0 alma, como um salpico, lembrando<br \/>\na imensidade da lama a atravessar. Ou ent\u00e3o, meu filho, \u00e9 uma<br \/>\nfigura intoler\u00e1vel pela pretens\u00e3o, ou pelo mau gosto, ou pela<br \/>\nimpertin\u00eancia, ou pela relice, ou pela dureza, e de que se n\u00e3o<br \/>\npode sacudir mais a vis\u00e3o repulsiva&#8230; Um pavor, estes sulcos, Z\u00e9<br \/>\nFernandes! De resto, que diabo, s\u00e3o as pequeninas mis\u00e9rias duma<br \/>\nCiviliza\u00e7\u00e3o deliciosa!<\/p>\n<p>Tudo isto era especioso, talvez pueril &#8211; mas para mim revelava, naquele chamejante<br \/>\ndevoto da Cidade, o arrefecimento da devo\u00e7\u00e3o. Nessa mesma tarde,<br \/>\nse bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros de Paris,<br \/>\nnas ruas longas, nas milhas de casario, todo cali\u00e7a parda, eri\u00e7ado<br \/>\nde chamin\u00e9s de lata negra, com as janelas sempre fechadas, as cortininhas<br \/>\nsempre corridas, abafando, escondendo a vida. S\u00f3 tijolo, s\u00f3<br \/>\nferro, s\u00f3 argamassa, s\u00f3 estuque; linhas hirtas, \u00e2ngulos<br \/>\n\u00e1speros; tudo seco; tudo r\u00edgido. E dos ch\u00e3os aos telhados,<br \/>\np\u00f4r toda a fachada, tapando as varandas, comendo os muros, Tabuletas,<br \/>\nTabuletas&#8230;<\/p>\n<p>-\u00d3, este Paris, Jacinto, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro<br \/>\nbazar!<\/p>\n<p>E, mais para sondar o meu Pr\u00edncipe do que p\u00f4r persuas\u00e3o,<br \/>\ninsisti na felicidade e tristeza destes pr\u00e9dios, duros armaz\u00e9ns,<br \/>\ncujos andares s\u00e3o prateleiras onde se apinha humanidade! E uma humanidade<br \/>\nimpiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras<br \/>\nbaixas, bem envernizadas. A reles e de trabalho nos altos, nos desvios, sobre<br \/>\npranchas de pinho nu, entre o p\u00f3 e a tra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto murmurou, com a face arrepiada:<\/p>\n<p>-\u00c9 feio, \u00e9 muito feio!<\/p>\n<p>E acudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:<\/p>\n<p>-Mas que maravilhoso organismo, Z\u00e9 Fernandes! Que solidez! Que produ\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Onde Jacinto me parecia mais renegado era na sua antiga e quase religiosa<br \/>\nafei\u00e7\u00e3o pelo Bosque de Bolonha. Quando mo\u00e7o, ele constru\u00edra<br \/>\nsobre o bosque teorias complicadas e consider\u00e1veis. E sustentava, com<br \/>\nolhos rutilantes de fan\u00e1tico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia<br \/>\nretemperar salutarmente a sua for\u00e7a, recebendo, pela presen\u00e7a<br \/>\nde suas Duquesas, das suas Cortes\u00e3s, dos seus Pol\u00edticos, dos<br \/>\nseus Financeiros, dos seus Generais, dos seus Acad\u00eamicos, dos seus Artistas,<br \/>\ndos seus Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu<br \/>\npessoal se mantinha em n\u00famero, em vitalidade, em fun\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne que nenhum elemento da sua grandeza desaparecera ou deperecera! \u201cIr<br \/>\naos bois\u201d constitu\u00eda ent\u00e3o para o meu Pr\u00edncipe<br \/>\num ato de consci\u00eancia. E voltava sempre confirmando com orgulho que<br \/>\na Cidade possu\u00eda todos os seus astros, garantindo a eternidade da sua<br \/>\nluz!<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, era sem fervor, arrastadamente, que ele me elevava ao<br \/>\nBosque, onde eu, aproveitando a clem\u00eancia de Abril, tentava enganar<br \/>\na minha saudade de arvoredos. Enquanto sub\u00edamos, ao trote nobre das<br \/>\nsuas \u00e9guas lustrosas, a Avenida dos Campos El\u00edsios e a do Bosque,<br \/>\nrejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, Jacinto,<br \/>\nsoprando o fumo da cigarrilha pelas vidra\u00e7as abertas do cup\u00e9,<br \/>\npermanecia o bom camarada, de veia am\u00e1vel, com quem era doce filosofar<br \/>\natrav\u00e9s de Paris. Mas logo que pass\u00e1vamos as grades douradas<br \/>\ndo Bosque, e penetr\u00e1vamos na Avenida das Ac\u00e1cias, e enfi\u00e1vamos<br \/>\nna lenta fila dos trens de luxo de pra\u00e7a, sob o sil\u00eancio decoroso,<br \/>\napenas cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando<br \/>\na areia &#8211; o meu Pr\u00edncipe emudecia, molemente engelhado no fundo das<br \/>\nalmofadas, de onde s\u00f3 despegava a face para escancarar bocejos de fartura.<br \/>\nPelo antigo h\u00e1bito de verificar a presen\u00e7a confortadora do \u201cpessoal,<br \/>\ndos astros\u201d, ainda, p\u00f4r vezes, apontava para algum cup\u00e9<br \/>\nou vit\u00f3ria rodando com rodar rangente noutra arrastada fila &#8211; e murmurava<br \/>\num nome. E assim fui conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro<br \/>\nEfraim; e o longo nariz patr\u00edcio de Madame de Tr\u00e8ves abrigando<br \/>\num sorriso perene; e as bochechas fl\u00e1cidas do poeta neoplat\u00f4nico<br \/>\nDornan, sempre espapado no fundo de fiacres; e os longos band\u00f3s pr\u00e9-rafaelitas<br \/>\ne negros de Madame Verghane; e o mon\u00f3culo defumado do diretor do Boulevard,<br \/>\ne o bigodinho vencedor do duque Marizac, reinando de cima do seu f\u00e1eton<br \/>\nde guerra; e ainda outros sorrisos im\u00f3veis, e barbichas \u00e0 Renascen\u00e7a,<br \/>\ne p\u00e1lpebras amortecidas, e olhos farejantes, e peles empoadas de arroz,<br \/>\nque eram todas ilustres e da intimidade do meu Pr\u00edncipe. Mas, do topo<br \/>\nda Avenida das Ac\u00e1cias, recome\u00e7\u00e1vamos a descer, em passo<br \/>\nsopeado, esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque<br \/>\natr\u00e1s de landau, vit\u00f3ria atr\u00e1s de fiacre, fatalmente<br \/>\nrev\u00edamos o bin\u00f3culo sombrio do homem do Boulevard, e os band\u00f3s<br \/>\nfuriosamente negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neoplat\u00f4nico,<br \/>\ne a barba talm\u00fadica, e todas aquelas figuras, duma imobilidade de cera,<br \/>\nsuperconhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atrav\u00e9s de revividos<br \/>\nanos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p\u00f3 de arroz, na mesma<br \/>\nimobilidade de cera; ent\u00e3o Jacinto n\u00e3o se continha, gritava<br \/>\nao cocheiro:<\/p>\n<p>-Para casa, depressa!<\/p>\n<p>E era pela Avenida do bosque, pelos Campos El\u00edsios, uma fuga ardente<br \/>\ndas \u00e9guas a quem a lentid\u00e3o sopeada, num roer de freios, entre<br \/>\noutras \u00e9guas tamb\u00e9m delas superconhecidas, lan\u00e7ava numa<br \/>\nexaspera\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 de Jacinto.<\/p>\n<p>Para o sondar eu denegria o Bosque:<\/p>\n<p>-J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o divertido, perdeu o brilho!&#8230;<\/p>\n<p>Ele acudia, timidamente:<\/p>\n<p>-N\u00e3o, \u00e9 agrad\u00e1vel, n\u00e3o h\u00e1 nada mais agrad\u00e1vel;<br \/>\nmas&#8230;<\/p>\n<p>E acusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus afazeres. Recolh\u00edamos<br \/>\nent\u00e3o ao 202, onde, com efeito, em breve embrulhado no seu roup\u00e3o<br \/>\nbranco, diante da mesa de cristal, entre a legi\u00e3o das escovas, com<br \/>\ntoda a eletricidade refulgindo, o meu Pr\u00edncipe se come\u00e7ava a<br \/>\nadornar para o servi\u00e7o social da noite.<\/p>\n<p>E foi justamente numa dessas noites (um S\u00e1bado) que n\u00f3s passamos,<br \/>\nnaquele quarto t\u00e3o civilizado e protegido, p\u00f4r um desses brutos<br \/>\ne revoltos terrores como s\u00f3 os produz a ferocidade dos Elementos. J\u00e1<br \/>\ntarde, \u00e0 pressa (jant\u00e1vamos com Marizac no clube para o acompanhar<br \/>\ndepois ao Lobengrin na \u00d3pera) Jacinto arrochava o n\u00f3 da gravata<br \/>\nbranca &#8211; quando no lavat\u00f3rio, ou porque se rompesse o tubo, ou se dessoldasse<br \/>\na torneira, o jato de \u00e1gua a ferver rebentou furiosamente, fumegando<br \/>\ne silvando. Uma n\u00e9voa densa de vapor quente abafou as luzes &#8211; e, perdidos<br \/>\nnela, sent\u00edamos, p\u00f4r entre os grilos do escudeiro e do Grilo,<br \/>\no jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva que escaldava.<br \/>\nSob os p\u00e9s o tapete ensopado era uma lama ardente. E como se todas<br \/>\nas for\u00e7as da natureza, submetidas ao servi\u00e7o de Jacinto, se<br \/>\nagitassem, animadas p\u00f4r aquela rebeli\u00e3o da \u00e1gua &#8211; ouvimos<br \/>\nroncos surdos no interior das paredes, e pelos fios dos lumes el\u00e9tricos<br \/>\nsulcam fa\u00edscas amea\u00e7adoras! Eu fugira para o corredor, onde<br \/>\nse alargava a n\u00e9voa grossa. P\u00f4r todo o 202 ia um tumulto de desastre.<br \/>\nDiante do port\u00e3o, atra\u00eddas pela fumarada que se escapava das<br \/>\njanelas, estacionava pol\u00edcia, uma multid\u00e3o. E na escada esbarrei<br \/>\ncom um rep\u00f3rter, de chap\u00e9u para a nuca, a carteira aberta, gritando<br \/>\nsofregamente \u201cse havia mortos?\u201d<\/p>\n<p>Domada a \u00e1gua, clareada a bruma, vim encontrar Jacinto no meio do<br \/>\nquarto, em ceroulas, l\u00edvido:<\/p>\n<p>-\u00d3 Z\u00e9 Fernandes, esta nossa ind\u00fastria!&#8230; Que impot\u00eancia,<br \/>\nque impot\u00eancia! Pela Segunda vez, este desastre! E agora, aparelhos<br \/>\nperfeitos, um processo novo&#8230;<\/p>\n<p>-E eu encharcado p\u00f4r esse processo novo! E sem outra casaca!<\/p>\n<p>Em redor, as nobres sedas bordadas, os brocat\u00e9is Lu\u00eds XIII,<br \/>\ncobertos de manchas negras, fumegavam. O meu pr\u00edncipe, enfiado, enxugava<br \/>\numa fotografia de Madame de Oriol, de ombros decotados, que o jorro bruto<br \/>\nmaculara de empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Gui\u00e3es<br \/>\na \u00e1gua aquecia em seguras panelas &#8211; e subia ao meu lavat\u00f3rio,<br \/>\npela m\u00e3o forte da Catarina, em seguras infusas! N\u00e3o jantamos<br \/>\ncom o duque de Marizac, no Clube. E, na \u00d3pera, nem saboreei Lohengrin<br \/>\ne a sua branca alma e o seu branco cisne e as suas brancas armas &#8211; entalado,<br \/>\naperreado, cortado nos sovacos pela casaca que Jacinto me emprestara e que<br \/>\nrescendia estonteadoramente a flores de Nessari.<\/p>\n<p>No Domingo, muito cedo, o Grilo, que na v\u00e9spera escaldara as m\u00e3os<br \/>\ne as trazia embrulhadas em seda, penetrou no meu quarto, descerrou as cortinas,<br \/>\ne \u00e0 beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:<\/p>\n<p>-Vem no F\u00edgaro!<\/p>\n<p>Desdobrou triunfalmente o jornal. Eram, nos Ecos, doze linhas, onde as nossas<br \/>\n\u00e1guas rugiam e espadanavam, com tanta magnific\u00eancia e tanta publicidade,<br \/>\nque tamb\u00e9m sorri, deleitado.<\/p>\n<p>E toda a manh\u00e3, o telefone, si\u00f4 Fernandes! Exclamava o Grilo,<br \/>\nrebrilhando em \u00e9bano. A quererem saber, a quererem saber&#8230; \u201cEst\u00e1<br \/>\nl\u00e1? Est\u00e1 escaldado?\u201d Paris aflito, si\u00f4 Fernandes!<\/p>\n<p>O telefone, com efeito, repicava, insaci\u00e1vel. E quando desci para<br \/>\no almo\u00e7o, a toalha desaparecia sob uma camada de telegramas, que o<br \/>\nmeu Pr\u00edncipe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a \u201cma\u00e7ada\u201d.<br \/>\nS\u00f3 desanuviou, ao ler um desses pap\u00e9is azuis, que atirou para<br \/>\ncima do meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh\u00e3 sorr\u00edamos,<br \/>\no Grilo e eu:<\/p>\n<p>-\u00c9 do Gr\u00e3o-Duque Casimiro&#8230; Rat\u00e3o am\u00e1vel! Coitado!<\/p>\n<p>Saboreei, atrav\u00e9s dos ovos, o telegrama de S. Alteza. \u201cO qu\u00ea!<br \/>\no meu Jacinto inundado! Muito chique, nos Campos El\u00edsios! N\u00e3o<br \/>\nvolto ao 202 sem b\u00f3ia de salva\u00e7\u00e3o! Compassivo abra\u00e7o!<br \/>\nCasimiro&#8230;\u201d Murmurei tamb\u00e9m com defer\u00eancia: &#8211; \u201cAm\u00e1vel!<br \/>\nCoitado!\u201d Depois, revolvendo lentamente o mont\u00e3o de telegramas<br \/>\nque se alastrava at\u00e9 ao meu copo::<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto! Quem \u00e9 esta Diana que incessantemente te escreve,<br \/>\nte telefona, te telegrafa, te&#8230;?<\/p>\n<p>-Diana&#8230; Diana de Lorge. \u00c9 uma cocotte. \u00c9 uma grande cocotte!<\/p>\n<p>-Tua?<\/p>\n<p>-Minha, minha&#8230; N\u00e3o! tenho um bocado.<\/p>\n<p>E como eu lamentava que o meu Pr\u00edncipe, senhor t\u00e3o rico e de<br \/>\nt\u00e3o fino orgulho, p\u00f4r economia duma gamela pr\u00f3pria chafurdasse<br \/>\ncom outros numa gamela p\u00fablica &#8211; Jacinto levantou os ombros, com um<br \/>\ncamar\u00e3o espetado no garfo:<\/p>\n<p>-Tu vens das serras&#8230; Uma cidade como Paris, Z\u00e9 Fernandes, precisa<br \/>\nter cortes\u00e3s de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,<br \/>\nnesta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os seus<br \/>\ndiamantes, os seus cavalos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas,<br \/>\no seu palacete, a sua publicidade, a sua insol\u00eancia, \u00e9 necess\u00e1rio<br \/>\nque se agremiem umas poucas de fortunas, se forme um sindicato! Somos uns<br \/>\nsete, no Clube. Eu pago um bocado&#8230; Mas meramente p\u00f4r Civismo, para<br \/>\ndotar a Cidade com uma cocotte monumental. De resto n\u00e3o chafurdo. Pobre<br \/>\nDiana!&#8230; dos ombros para baixo nem sei se tem a pele cor de neve ou cor de<br \/>\nlim\u00e3o.<\/p>\n<p>Arregalei um olho divertido:<\/p>\n<p>-Dos ombros para baixo?&#8230; E para cima?<\/p>\n<p>-\u00d3! para cima tem p\u00f3 de arroz!&#8230; Mas \u00e9 uma seca! Sempre<br \/>\nbilhetes, sempre telefones, sempre telegramas. E tr\u00eas mil francos p\u00f4r<br \/>\nm\u00eas, al\u00e9m das flores&#8230; Uma ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>E as duas rugas do meu Pr\u00edncipe, aos lados do seu afilado nariz, curvado<br \/>\nsobre a salada, eram como dois vales muito tristes, ao entardecer.<\/p>\n<p>Acabamos o almo\u00e7o, quando um escudeiro, muito discretamente, num murm\u00fario,<br \/>\nanunciou Madame de Oriol, Jacinto pousou com tranq\u00fcilidade o charuto;<br \/>\neu quase me engasguei, num sorvo alvoro\u00e7ado de caf\u00e9. Entre os<br \/>\nreposteiros de damasco cor de morango ela apareceu, toda de negro, dum negro<br \/>\nliso e austero de Semana Santa, lan\u00e7ando com o regalo um lindo gesto<br \/>\npara nos sossegar. E imediatamente, numa volubilidade docemente chalrada:<\/p>\n<p>-\u00c9 um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Madalena, n\u00e3o<br \/>\nme contive, quis ver os estragos&#8230; Uma inunda\u00e7\u00e3o em Paris,<br \/>\nnos Campos El\u00edsios! N\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o este Jacinto.<br \/>\nE vem no F\u00edgaro! O que eu estava assustada, quando telefonei! Imaginem!<br \/>\n\u00c1gua a ferver como no Ves\u00favio&#8230; Mas \u00e9 duma novidade!<br \/>\nE os estofos perdidos, naturalmente, os tapetes&#8230; Estou morrendo p\u00f4r<br \/>\nadmirar as ru\u00ednas!<\/p>\n<p>Jacinto, que n\u00e3o me pareceu comovido, nem agradecido com aquele interesse,<br \/>\nretomara risonhamente o charuto:<\/p>\n<p>-Est\u00e1 tudo seco, minha querida senhora, tudo seco! A beleza foi ontem,<br \/>\nquando a \u00e1gua fumegava e rugia! Ora que pena n\u00e3o Ter ao menos<br \/>\nca\u00eddo uma parede!<\/p>\n<p>Mas ela insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destro\u00e7os<br \/>\nduma inunda\u00e7\u00e3o. O F\u00edgaro contara&#8230; E era uma aventura<br \/>\ndeliciosa, uma casa escaldada nos Campos El\u00edsios!<\/p>\n<p>Toda a sua pessoa, desde as plumazinhas que frisavam no chap\u00e9u at\u00e9<br \/>\n\u00e0 ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como<br \/>\num ramo tenro sob o boli\u00e7o do p\u00e1ssaro a chalrar. S\u00f3 o<br \/>\nsorriso, p\u00f4r tr\u00e1s do v\u00e9u espesso, conservava um brilho<br \/>\nim\u00f3vel. E j\u00e1 no ar se espalhara um aroma, uma do\u00e7ura,<br \/>\nemanada de toda a sua mobilidade e de toda a sua gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Jacinto no entanto cedera, alegremente; e pelo corredor Madame de Oriol ainda<br \/>\nlouvava o F\u00edgaro am\u00e1vel, e confessava quanto tremera&#8230; Eu voltei<br \/>\nao meu caf\u00e9, felicitando mentalmente o Pr\u00edncipe da Gr\u00e3-Ventura<br \/>\np\u00f4r aquela perfeita flor de Civiliza\u00e7\u00e3o que lhe perfumava<br \/>\na vida. Pensei ent\u00e3o na apurada harmonia em que se movia essa flor.<br \/>\nE corri vivamente \u00e0 antec\u00e2mara, verificar diante do espelho o<br \/>\nmeu penteado e o n\u00f3 da minha gravata. Depois recolhi \u00e0 sala<br \/>\nde jantar, e junto da janela, folheando languidamente a Revista do S\u00e9culo<br \/>\nXIX. Tomei uma atitude de eleg\u00e2ncia e de alta cultura Quase imediatamente<br \/>\neles reapareceram; e Madame de Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava<br \/>\nespoliada, nada encontrara que recordasse as \u00e1guas furiosas, ro\u00e7ou<br \/>\npela mesa, onde Jacinto procurava, para lhe oferecer, tangerinas de Malta,<br \/>\nou castanhas geladas, ou um biscoito molhado em vinho de Tokai.<\/p>\n<p>Ela recusava com as m\u00e3os guardadas no regalo. N\u00e3o era alta,<br \/>\nnem forte &#8211; mas cada prega do vestido, ou curva da capa, ca\u00eda e ondulava<br \/>\nharmoniosamente como perfei\u00e7\u00f5es recobrindo perfei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nSob o v\u00e9u cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurid\u00e3o<br \/>\ndos olhos largos. E com aquelas sedas e veludos negros, e um pouco do cabelo<br \/>\nlouro, dum louro quente, torcido fortemente sobre as peles negras que lhe<br \/>\norlavam o pesco\u00e7o , toda ela derramava uma sensa\u00e7\u00e3o de<br \/>\nmacio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flor de Civiliza\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8211; e pensava no secular trabalho e na cultura superior que necessitara o terreno<br \/>\nonde ela t\u00e3o delicadamente brotara, j\u00e1 desabrochada, em pleno<br \/>\nperfume, mais graciosa p\u00f4r ser flor de esfor\u00e7o e de estufa, e<br \/>\ntrazendo nas suas p\u00e9talas um n\u00e3o sei qu\u00ea de desbotado<br \/>\ne de antemurcho.<\/p>\n<p>No entanto, com a sua volubilidade de p\u00e1ssaro, chalrando para mim,<br \/>\nchalrando para Jacinto, ela mostrava o seu lindo espanto p\u00f4r aquele<br \/>\nmont\u00e3o de telegramas sobre a toalha.<\/p>\n<p>-Tudo esta manh\u00e3, p\u00f4r causa da inunda\u00e7\u00e3o!&#8230; Ah,<br \/>\nJacinto \u00e9 hoje o homem, o \u00fanico homem de Paris! Muitas mulheres<br \/>\nnesses telegramas?<\/p>\n<p>Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Pr\u00edncipe empurrou para<br \/>\na sua amiga o telegrama do Gr\u00e3o-Duque. Ent\u00e3o Madame de Oriol<br \/>\nteve um ah! muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S.A<br \/>\n. que os seus dedos acariciavam com uma rever\u00eancia gulosa. E sempre<br \/>\ngrave, sempre s\u00e9ria:<\/p>\n<p>-\u00c9 brilhante!<\/p>\n<p>\u00d3! certamente! naquele desastre tudo se passara com muito brilho,<br \/>\nnum tom muito Parisiense. E a deliciosa criatura n\u00e3o se podia demorar,<br \/>\nporque fizera marcar um lugar na igreja da Madalena para o serm\u00e3o!<\/p>\n<p>Jacinto exclamou com inoc\u00eancia:<\/p>\n<p>-Serm\u00e3o?&#8230; \u00c9 j\u00e1 a esta\u00e7\u00e3o dos serm\u00f5es?<\/p>\n<p>Madame de Oriol teve um movimento de carinhoso esc\u00e2ndalo e dor. O qu\u00ea!<br \/>\npois nem na austera casa dos Tr\u00e8ves dera pela entrada da Quaresma?<br \/>\nDe resto n\u00e3o se admirava &#8211; Jacinto era um turco! E, imediatamente celebrou<br \/>\no pregador, um frade dominicano, o P\u00e8re Granon! \u00d3! duma eloq\u00fc\u00eancia!<br \/>\nNo derradeiro serm\u00e3o pregara sobre o amor, a fragilidade dos amores<br \/>\nmundanos! E tivera coisas duma inspira\u00e7\u00e3o, duma brutalidade!<br \/>\nDepois que gesto, um gesto terr\u00edvel que esmagava, em que se lhe arrega\u00e7ava<br \/>\ntoda a manga, mostrando o bra\u00e7o nu, um bra\u00e7o soberbo, muito<br \/>\nbranco, muito forte!<\/p>\n<p>O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejara dentro do v\u00e9u<br \/>\nnegro. E Jacinto, rindo:<\/p>\n<p>-Um bom bra\u00e7o de diretor espiritual, hem? Para vergar, espancar almas&#8230;<\/p>\n<p>Ela acudiu:<\/p>\n<p>-N\u00e3o! infelizmente o P\u00e8re Granon confessa!<\/p>\n<p>E de repente reconsiderou &#8211; aceitava um biscoito, um c\u00e1lice de Tokai.<br \/>\nEra necess\u00e1rio um cordial para afrontar as emo\u00e7\u00f5es do<br \/>\nP\u00e8re Granon! Ambos nos precipit\u00e1ramos, um arrebatando a garrafa,<br \/>\noutro oferecendo o prato de bombons. Franziu o v\u00e9u para os olhos, chupou<br \/>\n\u00e0 pressa um bolo que ensopara no Tokai. E como Jacinto, reparando casualmente<br \/>\nno chap\u00e9u que ela trazia, se curvara com curiosidade, impressionado,<br \/>\nMadame Oriol apagou o sorriso, toda s\u00e9ria ante uma coisa s\u00e9ria:<\/p>\n<p>-Elegante, n\u00e3o \u00e9 verdade?&#8230; \u00c9 uma cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ninteiramente nova de Madame Vial. Muito respeitoso, e muito sugestivo, agora<br \/>\nna Quaresma.<\/p>\n<p>O seu olhar, que me envolvera, tamb\u00e9m me convidava a admirar. Aproximei<br \/>\no meu focinho de homem das serras para contemplar essa cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuprema do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o veludo, na sombra<br \/>\ndas plumas frisadas, aninhada entre rendas, fixada p\u00f4r um prego, pousava<br \/>\ndelicadamente, feita de azeviche, uma Coroa de Espinhos!<\/p>\n<p>Ambos nos extasiamos. E Madame de Oriol, num movimento e num sorriso que<br \/>\nderramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Madalena.<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e moles.<br \/>\nE bruscamente, levantando os ombros com uma determina\u00e7\u00e3o imensa,<br \/>\ncomo se deslocasse um mundo:<\/p>\n<p>-\u00d3 Z\u00e9 Fernandes, vamos passar este Domingo nalguma coisa simples<br \/>\ne natural&#8230;<\/p>\n<p>-Em qu\u00ea?<\/p>\n<p>Jacinto circungirou os olhares muito abertos, como se, atrav\u00e9s da<br \/>\nVida Universal, procurasse ansiosamente uma coisa natural e simples. Depois,<br \/>\ndescansando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito longe,<br \/>\ncansados e com pouca esperan\u00e7a:<\/p>\n<p>-Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Nessa fecunda semana, uma noite, recolh\u00edamos ambos da \u00d3pera,<br \/>\nquando Jacinto, bocejando, me anunciou uma festa no 202.<\/p>\n<p>-Uma festa?&#8230;<\/p>\n<p>-P\u00f4r causa da Gr\u00e3o-duque, coitado, que me vai mandar um peixe<br \/>\ndelicioso e muito raro que se pesca na Dalm\u00e1cia. Eu queria um almo\u00e7o<br \/>\ncurto. &#8211; O Gr\u00e3o-duque reclamou uma ceia. \u00c9 um b\u00e1rbaro,<br \/>\nbesuntado com literatura do s\u00e9culo XVIII, que ainda acredita em ceias,<br \/>\nem Paris! Re\u00fano no Domingo tr\u00eas ou quatro mulheres, e uns dez<br \/>\nhomens bem t\u00edpicos, para o divertir. Tamb\u00e9m aproveitas. Folheias<br \/>\nParis num resumo&#8230; Mas \u00e9 uma ma\u00e7ada amarga!<\/p>\n<p>Sem interesse pela sua festa, Jacinto n\u00e3o se afadigou em a compor<br \/>\ncom relevo ou brilho. Encomendou apenas uma orquestra de Tziganes (os Tziganes,<br \/>\nas suas jalecas escarlates, a melancolia \u00e1spera da Czardas ainda nesses<br \/>\ntempos remotos emocionavam Paris); e mandou, na Biblioteca, ligar o Teatrofone<br \/>\ncom a \u00d3pera, com a Com\u00e9dia Francesa, com a Alcazar e com os<br \/>\nBufos, prevendo todos os gostos desde o tr\u00e1gico at\u00e9 ao p\u00edcaro.<br \/>\nDepois no Domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa da ceia que resplandecia<br \/>\ncom as velhas baixelas de D.Gali\u00e3o. E a faustosa profus\u00e3o de<br \/>\norqu\u00eddeas, em longas silvas p\u00f4r sobre a toalha bordada a seda,<br \/>\nenroladas aos fruteiros de Saxe, transbordando de cristais lavrados e filigranados<br \/>\nde ouro, espalhava uma t\u00e3o fina sensa\u00e7\u00e3o de luxo e gosto,<br \/>\nque eu que eu murmurei: &#8211; \u201cCaramba, bendito seja o dinheiro!\u201d<br \/>\nPela primeira vez, tamb\u00e9m, admirei a copa e a sua instala\u00e7\u00e3o<br \/>\nabundante e minuciosa &#8211; sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades<br \/>\nda cozinha, um para os peixes e carmes aquecido p\u00f4r tubos de \u00e1gua<br \/>\nfervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas frigor\u00edficas.<br \/>\n\u00d3, este 202!<\/p>\n<p>\u00c0s nove horas, por\u00e9m, descendo eu ao gabinete de Jacinto para<br \/>\nescrever a minha boa tia Vic\u00eancia, enquanto ele ficara no toucador com<br \/>\no manicuro que lhe polia as unhas, passamos nesse delicioso pal\u00e1cio,<br \/>\nflorido e em gala, p\u00f4r bem corriqueiro susto! Todos os lumes el\u00e9tricos,<br \/>\nsubitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha imensa desconfian\u00e7a<br \/>\ndaquelas for\u00e7as universais, pulei logo para a porta, trope\u00e7ccedil;ando<br \/>\nnas trevas, ganindo um Aqui-d\u2019el-rei! que tresandava a Gui\u00e3es,<br \/>\nJacinto em cima berrava, com o manicuro agarrado aos pijamas. E de novo, como<br \/>\nserva ralassa que recolhe arrastando as chinelas, a luz ressurgiu com lentid\u00e3o.<br \/>\nMas o meu Pr\u00edncipe, que descera, enfiado, mandou buscar um engenheiro<br \/>\n\u00e0 Companhia Central da eletricidade dom\u00e9stica. P\u00f4r precau\u00e7\u00e3o<br \/>\noutro criado correu \u00e0 mercearia comprar pacotes de velas. E o Grilo<br \/>\ndesenterrava j\u00e1 dos arm\u00e1rios os candelabros abandonados, os<br \/>\npesados casti\u00e7ais arcaicos dos tempos incient\u00edficos de D. Gali\u00e3o:<br \/>\nera uma reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde,<br \/>\n\u00e0 ceia, falhassem perfidamente as for\u00e7as bisonhas da Civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Eletricista, que acudira esbaforido, afian\u00e7ou por\u00e9m que a<br \/>\nEletricidade se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei<br \/>\nna algibeira dois cotos de estearina.<\/p>\n<p>A Eletricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu quarto,<br \/>\ntarde (porque perdera o colete de baile e s\u00f3 depois duma busca furiosa<br \/>\ne praguejada o encontrei ca\u00eddo p\u00f4r tr\u00e1s da cama!), todo<br \/>\no 202 refulgia e os Tziganes, na antec\u00e2mara, sacudindo as guedelhas,<br \/>\natiravam as arcadas duma valsa t\u00e3o arrastadora que, pelas paredes,<br \/>\nos imensos Personagens da tape\u00e7arias, Pr\u00edamo, Nestor, o engenhoso<br \/>\nUlisses, arfavam, buliam com os p\u00e9s venerandos!<\/p>\n<p>Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de Jacinto.<br \/>\nE fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Tr\u00e8ves, que acompanhada<br \/>\npelo ilustre historiador Danjon (da Academia Francesa), percorria maravilhada<br \/>\nos Aparelhos, os Instrumentos, toda a suntuosa Mec\u00e2nica do meu supercivilizado<br \/>\nPr\u00edncipe. Nunca ela me parecera mais majestosa do que naquelas sedas<br \/>\ncor de a\u00e7afr\u00e3o, com rendas cruzadas no peito \u00e0 Maria<br \/>\nAntonieta, o cabelo crespo e ruivo levantado em rolo sobre a testa dominadora,<br \/>\ne o curvo nariz patr\u00edcio, abrigando o sorriso sempre luzidio, sempre<br \/>\ncorrente, como um arco abriga o correr e o luzir dum regato. Direita como<br \/>\nnum s\u00f3lio, a longa luneta de tartaruga acercada dos olhos mi\u00fados<br \/>\ne turvamente azulados, ela escutava diante do Grafofone, depois diante do<br \/>\nMicrofone, como melodias superiores, os coment\u00e1rios que o meu Jacinto<br \/>\nia atabalhoando com uma amabilidade penosa. E ante cada roda, cada mola, eram<br \/>\npasmos, louvores finamente torneados, em que atribu\u00eda a Jacinto, com<br \/>\nastuta candura, todas aquelas inven\u00e7\u00f5es do Saber! Os utens\u00edlios<br \/>\nmisteriosos que atulhavam a mesa de \u00e9bano foram para ela uma inicia\u00e7\u00e3o<br \/>\nque a enlevou. \u00d3, o \u201cnumerador de p\u00e1ginas\u201d! \u00d3,<br \/>\no \u201ccolador de estampilhas\u201d!<\/p>\n<p>A car\u00edcia demorada dos seus dedos secos aquecia os metais. E suplicava<br \/>\nos endere\u00e7os dos fabricantes para se prover de todas aquelas utilidades<br \/>\nador\u00e1veis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia<br \/>\ne f\u00e1cil! Mas era necess\u00e1rio o talento, o gosto de Jacinto, para<br \/>\nescolher, para \u201ccriar!\u201d E n\u00e3o s\u00f3 ao meu amigo (que<br \/>\no recebia com resigna\u00e7\u00e3o) ela ofertava o fino mel. Afagando<br \/>\ncom o cabo de luneta o Tel\u00e9grafo, achou a possibilidade de recordar<br \/>\na eloq\u00fc\u00eancia do Historiador. Mesmo para mim (de quem ignorava o<br \/>\nnome) arranjou junto do Fot\u00f3grafo, e acerca de \u201cvozes de amigos<br \/>\nque \u00e9 doce colecionar\u201d uma lisonjazinha redondinha e lustrosa,<br \/>\nque eu chupei como um rebu\u00e7ado celeste. Boa casaleira que vai atirando<br \/>\no gr\u00e3o aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ela nutria<br \/>\numa vaidade. S\u00f4frego de outro rebu\u00e7ado, acompanhei a sua cauda<br \/>\nsussurrante e cor de a\u00e7afr\u00e3o. Ela parara diante da M\u00e1quina<br \/>\nde contar, de que Jacinto J\u00e1 lhe fornecera pacientemente uma explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nsapiente. E de novo ro\u00e7ou os buracos de onde espreitam os n\u00fameros<br \/>\nnegros, e com o seu enlevado sorriso murmurou: &#8211; \u201cProdigiosa, esta prensa<br \/>\nel\u00e9trica!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Jacinto acudiu:<\/p>\n<p>-N\u00e3o! N\u00e3o! Esta \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Mas ela sorria, seguia&#8230; Madame de Tr\u00e8ves n\u00e3o compreendeu<br \/>\nnenhum aparelho do meu Pr\u00edncipe! Madame de Tr\u00e8ves n\u00e3o<br \/>\natendera a nenhuma disserta\u00e7\u00e3o do meu Pr\u00edncipe! Naquele<br \/>\ngabinete de suntuosa Mec\u00e2nica ela somente se ocupara em exercer, com<br \/>\nproveito e com perfei\u00e7\u00e3o, a Arte de Agradar. Toda ela era uma<br \/>\nsublime falsidade. N\u00e3o escondi a Danjon a admira\u00e7\u00e3o que<br \/>\nme penetrava.<\/p>\n<p>O facundo Acad\u00eamico revirou os olhos bugalhudos:<\/p>\n<p>-\u00d3! e um gosto, uma intelig\u00eancia, uma sedu\u00e7\u00e3o!&#8230;<br \/>\nE depois como se janta bem em casa dela! Que caf\u00e9!&#8230; Mulher superior,<br \/>\nmeu caro senhor, verdadeiramente superior!<\/p>\n<p>Deslizei para a biblioteca. Logo \u00e0 entrada da erudita nave, junto<br \/>\nda estante dos Padres da Igreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei<br \/>\na saudar o diretor do Boulevard e o Psic\u00f3logo-feminista, o autor do<br \/>\nCora\u00e7\u00e3o Triple, com quem na v\u00e9spera me familiarizara<br \/>\nao almo\u00e7o, no 202. O seu acolhimento foi paternal; e como se necessitasse<br \/>\na minha presen\u00e7a, reteve na sua m\u00e3o ilustre, rutilante de an\u00e9is,<br \/>\ncom for\u00e7a e com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aqueles senhores,<br \/>\ncom efeito, celebravam o seu Romance, a Coura\u00e7a, lan\u00e7ado nessa<br \/>\nsemana entre gritinhos de gozo e um quente rumor de saias alvoro\u00e7adas.<br \/>\nUm sobretudo, com uma vasta cabe\u00e7a arranjada \u00e0 Van-Dick e que<br \/>\nparecia posti\u00e7a, proclamava, al\u00e7ado na ponta das botas, que<br \/>\nnunca penetrara t\u00e3o fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psicologia<br \/>\nExperimental! Todos concordavam, se apertavam contra o Psic\u00f3logo, o<br \/>\ntratavam p\u00f4r \u201cmestre\u201d. Eu mesmo, que nem sequer entrevira<br \/>\na capa amarela da Coura\u00e7a, mas para quem ele voltava os olhos pedinch\u00f5es<br \/>\ne famintos de mais mel, murmurei com um leve assobio: &#8211; \u201cuma del\u00edcia!\u201d<\/p>\n<p>E o psic\u00f3logo, reluzindo, com o l\u00e1bio \u00famido, entalado<br \/>\nnum alto colarinho onde se enroscava uma gravata \u00e0 1830, confessava<br \/>\nmodestamente que dissecara todas aquelas almas da Coura\u00e7a com \u201calgum<br \/>\ncuidado\u201d, sobre documentos, sobre peda\u00e7os de vida ainda quentes,<br \/>\nainda a sangrar&#8230; E foi ent\u00e3o que Marizac, o duque de Marizac, notou,<br \/>\ncom um sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as m\u00e3os<br \/>\ndos bolsos:<\/p>\n<p>-No entanto, meu caro, nesse livro t\u00e3o profundamente estudado h\u00e1<br \/>\num erro bem estranho, bem curioso!&#8230;<\/p>\n<p>O Psic\u00f3logo, vivamente, atirara a cabe\u00e7a para tr\u00e1s:<\/p>\n<p>-Um erro?<\/p>\n<p>\u00d3, sim, um erro! E bem inesperado num mestre t\u00e3o experiente!&#8230;Era<br \/>\natribuir \u00e0 espl\u00eandida amorosa da Coura\u00e7a, uma duquesa,<br \/>\ne do gosto mais puro &#8211; um colete de cetim preto! Esse colete, assim preto,<br \/>\nde cetim, aparecia na bela p\u00e1gina de an\u00e1lise e paix\u00e3o<br \/>\nem que ela se despia no quarto de Rui de Alize. E Marizac, sempre com as m\u00e3os<br \/>\nnos bolsos, mais grave, apelava para aqueles senhores. Pois era veross\u00edmil,<br \/>\nnuma mulher como duquesa, est\u00e9tica, pr\u00e9-rafael\u00edtica,<br \/>\nque se vestia no Doucet, no Pasquim, nos costureiros intelectuais, um colete<br \/>\nde cetim preto?<\/p>\n<p>O Psic\u00f3logo emudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma t\u00e3o<br \/>\nsuprema autoridade sobre a roupa \u00edntima das duquesas, que \u00e0<br \/>\ntarde, em quartos de rapazes, p\u00f4r impulsos idealistas e anseios de alma<br \/>\ndolorida &#8211; se p\u00f5em em colete e saia branca!&#8230; De resto o diretor do<br \/>\nBoulevard condenara logo sem piedade, com uma experi\u00eancia firme, aquele<br \/>\ncolete, s\u00f3 poss\u00edvel nalguma mercearia atrasada que ainda procurasse<br \/>\nefeitos de carne n\u00e9dia sobre cetim negro. E eu, para que me n\u00e3o<br \/>\njulgassem alheio \u00e0s coisas dos adult\u00e9rios ducais e do luxo,<br \/>\nacudi, metendo os dedos pelo cabelo:<\/p>\n<p>-Realmente, preto, s\u00f3 se estivesse de luto pesado, pelo pai!<\/p>\n<p>O pobre mestre da Coura\u00e7a sucumbira. Era a sua gl\u00f3ria de Doutor<br \/>\nem Eleg\u00e2ncias Femininas desmantelada &#8211; e Paris supondo que ele nunca<br \/>\nvira uma duquesa desatacar o colete na sua alcova de Psic\u00f3logo! Ent\u00e3o,<br \/>\npassando o len\u00e7o sobre os l\u00e1bios que a ang\u00fastia ressequira,<br \/>\nconfessou o erro, e contritamente o atribuiu a uma improvisa\u00e7\u00e3o<br \/>\ntumultuosa:<\/p>\n<p>-Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!&#8230; Com efeito!<br \/>\n\u00c9 absurdo, um colete preto!&#8230; Mesmo p\u00f4r harmonia com o estado<br \/>\nda alma da duquesa devia ser lil\u00e1s, talvez cor de resed\u00e1 muito<br \/>\ndesmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines&#8230; \u00c9 prodigioso<br \/>\ncomo me escapou . Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem anotadas, bem<br \/>\ndocumentadas!&#8230;<\/p>\n<p>Na sua amargura, terminou p\u00f4r suplicar a Marizac que espalhasse p\u00f4r<br \/>\ntoda a parte, no Clube, nas salas, a sua confiss\u00e3o. Fora um engano<br \/>\nde artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas profundidades<br \/>\nnegras das almas! N\u00e3o reparara no colete, confundira os tons&#8230; Gritou,<br \/>\ncom os bra\u00e7os estendidos para o diretor do Boulevard:<\/p>\n<p>-Estou pronto a fazer uma retifica\u00e7\u00e3o, numa interview, meu<br \/>\ncaro mestre! Mande um dos seus redatores&#8230; Amanh\u00e3, \u00e0s dez horas!<br \/>\nFazemos uma interview, fixamos a cor. Evidentemente \u00e9 lil\u00e1s&#8230;<br \/>\nMande um de seus homens, meu caro mestre! \u00c9 tamb\u00e9m uma ocasi\u00e3o<br \/>\npara eu confessar, bem alto, os servi\u00e7os que o Boulevard em feito \u00e0s<br \/>\nci\u00eancias psicol\u00f3gicas e feministas!<\/p>\n<p>Assim ele suplicava, encostado \u00e0 estante, \u00e0s lombadas dos Santos<br \/>\nPadres. E eu abalei, vendo ao fundo da Biblioteca Jacinto que se debatia e<br \/>\nse recusava entre dois homens.<\/p>\n<p>Eram os dois homens de Madame de Tr\u00e8ves &#8211; o marido, conde de Tr\u00e8ves,<br \/>\ndescendente dos reis de C\u00e2ndia, e o amante, o terr\u00edvel banqueiro<br \/>\njudeu, David Efraim. E t\u00e3o enfronhadamente assaltavam o meu Pr\u00edncipe<br \/>\nque nem me reconheceram, ambos num aperto de m\u00e3o mole e vago me trataram<br \/>\np\u00f4r \u201ccaro conde\u201d! Num relance, rebuscando charutos sobre<br \/>\na mesa de limoeiro, compreendi que se tramava a Companhia das Esmeraldas da<br \/>\nBirm\u00e2nia, medonha empresa em que cintilavam milh\u00f5es, e para que<br \/>\nos dois confederados de bolsa e de alcova, desde o come\u00e7o do ano, pediam<br \/>\no nome, a inf\u00e2ncia, o dinheiro de Jacinto. Ele resistira, no enfado<br \/>\ndos neg\u00f3cios, desconfiado daquelas esmeraldas soterradas num vale da<br \/>\n\u00c1sia. E agora o conde de Tr\u00e8ves, um homem esgrouviado, de face<br \/>\nrechupada, eri\u00e7ada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarela<br \/>\ncomo um mel\u00e3o, assegurava ao meu pobre Pr\u00edncipe que no Prospecto<br \/>\nj\u00e1 preparado, demonstrando a grandeza do neg\u00f3cio, perpassava<br \/>\num fulgor das Mil e uma noites. Mas sobretudo aquela escava\u00e7\u00e3o<br \/>\nde esmeraldas convidava todo o esp\u00edrito culto pela sua a\u00e7\u00e3o<br \/>\ncivilizadora. Era uma corrente de id\u00e9ias ocidentais, invadindo, educando<br \/>\na Birm\u00e2nia. Ele aceitara a dire\u00e7\u00e3o p\u00f4r patriotismo&#8230;<\/p>\n<p>-De resto \u00e9 um neg\u00f3cio de j\u00f3ias, de arte, de progresso,<br \/>\nque deve ser feito, num mundo superior entre amigos&#8230;<\/p>\n<p>E do outro lado o terr\u00edvel Efraim, passando a m\u00e3o curta e grossa<br \/>\nsobre a sua bela barba, mais frisada e negra que a dum Rei Assirio, afian\u00e7ava<br \/>\no triunfo da empresa pelas grossas for\u00e7as que nela entravam, os Nagayers,<br \/>\nos Bolsans, os Saccart&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto franzia o nariz, enervado:<\/p>\n<p>-Mas, ao menos, est\u00e3o feitos os estudos? J\u00e1 se provou que h\u00e1<br \/>\nesmeraldas?<\/p>\n<p>Tanta ingenuidade exasperou Efraim:<\/p>\n<p>-Esmeraldas! Est\u00e1 claro que h\u00e1 esmeraldas!&#8230; H\u00e1 sempre<br \/>\nesmeraldas desde que haja acionistas!<\/p>\n<p>E eu admirava a grandeza daquela m\u00e1xima &#8211; quando apareceu, esbaforido,<br \/>\ndesdobrando o len\u00e7o muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle<br \/>\n(Antonio de Todelle), mo\u00e7o j\u00e1 calvo, de infinitas prendas, que<br \/>\nconduzia Cotillons, imitava cantores de Caf\u00e9-Concerto, temperava saladas<br \/>\nraras, conhecia todos os enredos de Paris.<\/p>\n<p>-J\u00e1 veio?&#8230; J\u00e1 c\u00e1 est\u00e1 o Gr\u00e3o-Duque?<\/p>\n<p>-N\u00e3o, S. Alteza ainda n\u00e3o chegara. E Madame de Todelle?<\/p>\n<p>-N\u00e3o p\u00f4de&#8230; No sof\u00e1&#8230; Esfolou uma perna.<\/p>\n<p>-\u00d3!<\/p>\n<p>-Quase nada&#8230; Caiu do veloc\u00edpede!<\/p>\n<p>Jacinto, logo interessado:<\/p>\n<p>-Ah! Madame de Todelle anda j\u00e1 de veloc\u00edpede?<\/p>\n<p>-Aprende. Nem tem veloc\u00edpede!&#8230; Agora, na quaresma, \u00e9 que<br \/>\nse aplicou mais, no veloc\u00edpede do padre Ernesto, do cura de S. Jos\u00e9!<br \/>\nMas ontem, no Bosque, z\u00e1s, terra!&#8230; Perna esfolada. Aqui.<\/p>\n<p>E na sua pr\u00f3pria coxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfol\u00e3o.<br \/>\nEfraim, brutal e s\u00e9rio, murmurou: &#8211; \u201cDiabo! \u00e9 no melhor<br \/>\ns\u00edtio!\u201d Mas Todelle nem o escutara, correndo para o diretor do<br \/>\nBoulevard, que se avan\u00e7ava, lento e barrigudo, com o seu mon\u00f3culo<br \/>\nnegro semelhante a um pacho. Ambos se colaram contra uma estante, num cochichar<br \/>\nprofundo.<\/p>\n<p>Jacinto e eu entramos ent\u00e3o no bilhar, forrado de velhos couros de<br \/>\nC\u00f3rdova, onde se fumava. Ao canto dum div\u00e3, o grande Dornan,<br \/>\no poeta neoplat\u00f4nico e m\u00edstico, o Mestre sutil de todos os ritmos,<br \/>\nespapado nas almofadas, com um dos p\u00e9s sob a coxa gorda, como um Deus<br \/>\n\u00edndio, dos bot\u00f5es do colete desabotoados, a papeira ca\u00edda<br \/>\nsobre o largo decote do colarinho, mamava majestosamente um imenso charuto.<br \/>\nAo p\u00e9 dele, tamb\u00e9m sentado, um velho que eu nunca encontrara<br \/>\nno 202, esbelto, de cabelos brancos em an\u00e9is passados p\u00f4r tr\u00e1s<br \/>\ndas orelhas, a face coberta de p\u00f3 de arroz, um bigodinho muito negro<br \/>\ne arrebitado, findara certamente alguma hist\u00f3ria de bom e grosso sal<br \/>\n&#8211; porque diante do div\u00e3, de p\u00e9, Jovan, o supremo Cr\u00edtico<br \/>\nde Teatro, ria com a calva escarlate de gozo, e um mo\u00e7o muito ruivo<br \/>\n(descendente de Coligny), de perfil de periquito, sacudia os bra\u00e7os<br \/>\ncurtos como asas, e gania: \u201cdelicioso! divino!\u201d S\u00f3 o poeta<br \/>\nidealista permanecera impass\u00edvel, na sua majestade obesa. Mas, quando<br \/>\nnos acercamos, esse Mestre do ritmo perfeito, depois de soprar uma farta fumarada<br \/>\ne me saudar com um pesado mover das p\u00e1lpebras, come\u00e7ou numa<br \/>\nvoz de rico e sonoro metal:<\/p>\n<p>-H\u00e1 melhor, h\u00e1 infinitamente melhor&#8230; Todos aqui conhecem<br \/>\nMadame Noredal. Madame Noredal tem umas imensas n\u00e1degas&#8230;<\/p>\n<p>Desgra\u00e7adamente para o meu regalo, Todelle invadiu o bilhar, reclamando<br \/>\nJacinto com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no fon\u00f3grafo<br \/>\numa \u00e1ria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os ombros, numa surda irrita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>-\u00c1ria da Patti&#8230;Eu sei l\u00e1! Todos esses rolos est\u00e3o<br \/>\nem confus\u00e3o. Al\u00e9m disso o Fon\u00f3grafo trabalha mal. Nem<br \/>\ntrabalha! Tenho tr\u00eas. Nenhuma trabalha!<\/p>\n<p>-Bem! &#8211; exclamou alegremente Todelle. &#8211; Canto eu a Pauvre fille&#8230; \u00c9<br \/>\nmais de ceia! Oh, la pauv\u2019, pauv\u2019, pauv\u2019&#8230;<\/p>\n<p>Travou do meu bra\u00e7o, e arrastou a minha timidez serrana para o sal\u00e3o<br \/>\ncor-de-rosa murcha, onde, como Deusas num c\u00edrculo escolhido do Olimpo,<br \/>\nresplandeciam Madame de Oriol, Madame Verghane, a princesa de Carman, e uma<br \/>\noutra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e de ombros t\u00e3o<br \/>\nnus, e bra\u00e7os t\u00e3o nus, e peitos t\u00e3o nus, que o seu vestido<br \/>\nbranco com bordados de ouro p\u00e1lido parecia uma camisa a escorregar.<br \/>\nImpressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho: &#8211; \u201cQuem \u00e9?\u201d<br \/>\nMas j\u00e1 o festivo homem correra para Madame de Oriol, com quem riam,<br \/>\nnuma familiaridade superior e f\u00e1cil, Marizac (o duque de Marizac) e<br \/>\num mo\u00e7o de barba cor de milho e mais leve que uma penugem, que se balou\u00e7ava<br \/>\ngracilmente sobre os p\u00e9s, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado<br \/>\ncontra o piano, esfregava lentamente as m\u00e3os amassando o meu embara\u00e7o,<br \/>\nquando Madame Verghane se ergueu do sof\u00e1 onde conversava com um velho<br \/>\n(que tinha a Gr\u00e3-Cruz de Santo Andr\u00e9), e avan\u00e7ou, deslizou<br \/>\nno tapete, pequena e n\u00e9dia, na sua copiosa cauda veludo verde-negro.<br \/>\nT\u00e3o fina era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastid\u00e3o<br \/>\ndo peito, todo nu e cor de n\u00e1car, que eu receava que ela partisse pelo<br \/>\nmeio, no seu lento ondular. Os seus famosos band\u00f3s negros, dum negro<br \/>\nfurioso, inteiramente lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro de ouro que<br \/>\nos circundava, reluzia uma estrela de brilhantes, como na fronte dos anjos<br \/>\nde Boticelli. Conhecendo sem d\u00favida a minha autoridade no 202, ela<br \/>\ndespediu sobre mim ao passar, com raio ben\u00e9fico, um sorriso que lhe<br \/>\nliquescia mais os olhos l\u00edquidos, e murmurou:<\/p>\n<p>-O G\u00e3o-Duque vem, com certeza\/<\/p>\n<p>-\u00d3 com certeza, minha senhora, para o peixe!<\/p>\n<p>-Para o peixe?&#8230;<\/p>\n<p>Mas justamente, na antec\u00e2mara, rompeu, em rufos e arcadas triunfais,<br \/>\na marcha de Rakoczy. Era ele! Na Biblioteca, o nosso retumbante mordomo anunciava:<\/p>\n<p>-S. Alteza o Gr\u00e3o-Duque Casimiro!<\/p>\n<p>Madame de Verghane, com um curto suspiro de emo\u00e7\u00e3o, alteou<br \/>\no peito, como para lhe expor melhor a magnific\u00eancia eb\u00farnea.<br \/>\nE o homem do Boulevard, o velho da Gr\u00e3-Cruz, Efraim, quase me empurraram,<br \/>\ninvestindo para a porta, na imensa sofreguid\u00e3o de Pessoa Real.<\/p>\n<p>Precedido p\u00f4r Jacinto, o Gr\u00e3o-duque surgiu. Era um possante<br \/>\nhomem, de barba em bico, j\u00e1 grisalha, um pouco calvo. Durante um momento<br \/>\nhesitou, com um balan\u00e7o lento sobre os \u00e9s pequeninos, cal\u00e7ados<br \/>\nde sapatos rasos, quase sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado<br \/>\ne risonho, veio apertar a m\u00e3o \u00e0s senhoras que mergulhavam nos<br \/>\nveludos e sedas, em mesuras de Corte. E imediatamente, batendo com carinhosa<br \/>\njovialidade no ombro de Jacinto:<\/p>\n<p>-E o peixe?&#8230; Preparado pela receita que mandei, hem?<\/p>\n<p>Um murm\u00fario de Jacinto tranq\u00fcilizou S. Alteza.<\/p>\n<p>-Ainda bem, ainda bem! &#8211; exclamou ele, no seu vozeir\u00e3o de comando.<br \/>\nQue eu n\u00e3o jantei, absolutamente n\u00e3o jantei! \u00c9 que se<br \/>\nest\u00e1 jantando deploravelmente em casa do Jos\u00e9. Mas p\u00f4r<br \/>\nque se vai jantar ainda ao Jos\u00e9? Sempre que chego a Paris, pergunto:<br \/>\n\u201cOnde \u00e9 que se janta agora?\u201d em casa do Jos\u00e9!&#8230;<br \/>\nQual! n\u00e3o se janta! Hoje, p\u00f4r exemplo, galinholas&#8230; Uma peste!<br \/>\nN\u00e3o tem, n\u00e3o tem a no\u00e7\u00e3o da galinhola!<\/p>\n<p>Os seus olhos azulados, dum azul sujo, rebrilhavam, alargados pela indigna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>-Paris est\u00e1 perdendo todas as suas superioridades. J\u00e1 se n\u00e3o<br \/>\njanta, em Paris!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em redor, aqueles senhores concordaram, desolados. O conde<br \/>\nde Tr\u00e8ves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradi\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE o diretor do Boulevard, que se empurrava todo para S. alteza, atribu\u00eda<br \/>\na decad\u00eancia da cozinha, em Fran\u00e7a, \u00e0 Rep\u00fablica,<br \/>\nao gosto democr\u00e1tico e torpe pelo barato.<\/p>\n<p>-No Paillard, todavia&#8230; &#8211; come\u00e7ou o Efraim.<\/p>\n<p>-No Paillard! &#8211; gritou logo o Gr\u00e3o-Duque. &#8211; Mas os Borgonhas s\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o maus! Os Borgonhas s\u00e3o t\u00e3o maus!&#8230;<\/p>\n<p>Deixara pender os bra\u00e7os, os ombros, descoro\u00e7oado. Depois,<br \/>\ncom o seu lento andar balan\u00e7ado como o dum velho piloto, atirando um<br \/>\npouco para tr\u00e1s as lapelas da casaca, foi saudar Madame de Oriol, que<br \/>\ntoda ela faiscou, no sorriso, nos olhos, nas j\u00f3ias, em cada prega das<br \/>\nsuas sedas cor de salm\u00e3o. Mas apenas a clara e macia criatura, batendo<br \/>\no leque como uma asa alegre, come\u00e7ara a chalrar, S.Alteza reparou no<br \/>\naparelho de Teatrofone, pousado sobre uma mesa entre flores, e chamou Jacinto:<\/p>\n<p>-Em comunica\u00e7\u00e3o com o Alcazar?&#8230; O Teatrofone?<\/p>\n<p>-Certamente, meu senhor.<\/p>\n<p>Excelente! Muito chique! Ele ficara com pena de n\u00e3o ouvir a Gilberte<br \/>\nnuma can\u00e7oneta nova, as Casquettes. Onze e meia! Era justamente a essa<br \/>\nhora que ela cantava, no \u00faltimo ato da Revista El\u00e9trica&#8230; &#8211;<br \/>\ncolou \u00e0s orelhas os dois \u201creceptores\u201d do Teatrofone, e<br \/>\nquedou embebido, com uma ruga s\u00e9ria na testa dura. De repente num comando<br \/>\nforte:<\/p>\n<p>-\u00c9 ela! Chuta! Venham ouvir!&#8230; \u00c9 ela! Venham todos! Princesa<br \/>\nde Carman, para aqui! Todos! \u00c9 ela! Chuta!&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como Jacinto instalara prodigamente dois Teatrofones, cada<br \/>\num provido de doze fios, as senhoras, todos aqueles cavalheiros, se apressaram<br \/>\na acercar submissamente um \u201creceptor\u201d do ouvido, e a permanecer<br \/>\nim\u00f3veis para saborear Les Casquettes. E no sal\u00e3o cor-de-rosa<br \/>\nmurcha, na nave da Biblioteca, onde se espalhara um sil\u00eancio augusto,<br \/>\ns\u00f3 eu fiquei desligado do Teatrofone, com as m\u00e3os nas algibeiras<br \/>\ne ocioso.<\/p>\n<p>No rel\u00f3gio monumental, que marcava a hora de todas as Capitais e o<br \/>\nmovimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a mudez<br \/>\ne a imobilidade pensativa daqueles dorsos, daqueles decotes, a Eletricidade<br \/>\nrefulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada orelha atenta, que a<br \/>\nm\u00e3o tapava, pendia um fio negro, como uma tripa. Dornan, esboroado<br \/>\nsobre a mesa, cerrara as p\u00e1lpebras, numa medita\u00e7\u00e3o de<br \/>\nmonge obeso. O historiador dos Duques de Anjou, com o \u201creceptor\u201d<br \/>\nna ponta delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria<br \/>\num dever palaciano. Madame de Oriol sorria, toda l\u00e2nguida, como se o<br \/>\nfio lhe murmurasse do\u00e7uras. Para desentorpecer arrisquei um passo t\u00edmido.<br \/>\nMas caiu logo sobre mim um chut severo do Gr\u00e3o-Duque! Recuei para entre<br \/>\nas cortinas da janela, a abrigar a minha ociosidade. O Psic\u00f3logo da<br \/>\nCoura\u00e7a, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia<br \/>\no bei\u00e7o, num esfor\u00e7o de penetra\u00e7\u00e3o. A beatitude<br \/>\nde S. Alteza, enterrado numa vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o colo<br \/>\nde Madame Verghane arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacinto, numa<br \/>\naplica\u00e7\u00e3o conscienciosa, pendia sobre o Teatrofone t\u00e3o<br \/>\ntristemente como sobre uma sepultura.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ante aqueles seres de superior civiliza\u00e7\u00e3o, sorvendo<br \/>\nnum sil\u00eancio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, p\u00f4r<br \/>\ndebaixo do solo de Paris, atrav\u00e9s de fios mergulhados nos esgotos,<br \/>\ncingidos aos canos das fezes &#8211; pensei na minha aldeia adormecida. O crescente<br \/>\nde lua, que, seguido duma estrelinha, corria entre nuvens sobre os telhados<br \/>\ne as chamin\u00e9s negras dos Campos El\u00edsios, tamb\u00e9m andava<br \/>\nl\u00e1 fugindo, mais lustrosa e mais doce, p\u00f4r cima dos pinheirais.<br \/>\nAs r\u00e3s coaxavam ao longe no Pego da dona. A ermidinha de S. Joaquim<br \/>\nbranquejava no cabe\u00e7o, nuazinha e c\u00e2ndida&#8230;<\/p>\n<p>Uma das senhoras murmurou:<\/p>\n<p>-Mas, n\u00e3o \u00e9 a Gilberte!&#8230;<\/p>\n<p>E um dos homens:<\/p>\n<p>-Parece um cornetim&#8230;<\/p>\n<p>-Agora s\u00e3o palmas&#8230;<\/p>\n<p>-N\u00e3o, \u00e9 o Paulim!<\/p>\n<p>O Gr\u00e3o-Duque lan\u00e7ou um chut feroz&#8230; No p\u00e1tio da nossa<br \/>\ncasa ladravam os c\u00e3es. De Al\u00e9m do ribeiro respondiam os c\u00e3es<br \/>\ndo Jo\u00e3o Saranda. Como me encontrei descendo p\u00f4r uma quelha, sob<br \/>\nas ramadas, com o meu varapau ao ombro? E sentia, entre a seda das cortinas,<br \/>\nnum fino ar macio, o cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos<br \/>\ncurrais atrav\u00e9s das sebes altas, e o sussurro dormente das levadas&#8230;<\/p>\n<p>Despertei a um brado que n\u00e3o sa\u00eda nem dos eidos, nem das sombras.<br \/>\nEra o Gr\u00e3o-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os ombros:<\/p>\n<p>-N\u00e3o se ouve nada!&#8230; S\u00f3 guinchos! E um zumbido! Que ma\u00e7ada!&#8230;<br \/>\nPois \u00e9 uma beleza, a can\u00e7oneta:<\/p>\n<p>Oh les casquettes,<\/p>\n<p>Oh les casquette-e-e-tes!&#8230;<\/p>\n<p>Todos largaram os fios &#8211; proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo benedito,<br \/>\nabrindo largamente os dois batentes, anunciou:<\/p>\n<p>-Monseigneur est servi!<\/p>\n<p>Na mesa, que pelo esplendor das orqu\u00eddeas mereceu os louvores ruidosos<br \/>\nde S. Alteza, fiquei entre o et\u00e9reo poeta Dornan e aquele mo\u00e7o<br \/>\nde penugem loura que balou\u00e7ava como uma espiga ao vento. Depois de<br \/>\ndesdobrar o guardanapo, de o acomodar regaladamente sobre os joelhos, Dornan<br \/>\ndesenvencilhou da corrente do rel\u00f3gio uma enorme luneta para percorrer<br \/>\no menu &#8211; que aprovou. E inclinando para mim a sua face de Ap\u00f3stolo<br \/>\nobeso.<\/p>\n<p>-Este Porto de 1834, aqui em casa de Jacinto, deve ser aut\u00eantico&#8230;<br \/>\nHem?<\/p>\n<p>Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o \u201cPorto\u201d envelhecera nas<br \/>\nadegas cl\u00e1ssicas do av\u00f4 Gali\u00e3o. Ele afastou, numa prepara\u00e7\u00e3o<br \/>\nmet\u00f3dica, os longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa.<br \/>\nOs escudeiros serviram um consomm\u00e9 frio com trufas. E o mo\u00e7o<br \/>\ncor de milho, que espalhara pela mesa o seu olhar azul e doce, murmurou, com<br \/>\numa desconsola\u00e7\u00e3o risonha:<\/p>\n<p>-Que pena!&#8230; S\u00f3 falta aqui um general e um bispo!<\/p>\n<p>Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as trufas do<br \/>\nmeu Jacinto&#8230; Mas defronte Madame de Oriol lan\u00e7ara um riso mais cantado<br \/>\nque um gorjeio. O Gr\u00e3o-Duque, numa silva de orqu\u00eddeas que orlava<br \/>\no seu talher, notara uma, sombriamente horrenda, semelhante a um lacrau esverdinhado,<br \/>\nde asas lustrosas, gordo e t\u00famido de veneno: e muito delicadamente<br \/>\nofertara a flor monstruosa a Madame de Oriol, que, com trinado riso, solenemente,<br \/>\na colocou no seio. Colado \u00e0quela carne macia, duma brancura de nata<br \/>\nfina, o lacrau inchara, mais verde, com as asas frementes. Todos os olhos<br \/>\nse acendiam, se cravam no lindo peito, a que a flor disforme, de cor venenosa,<br \/>\napimentava o sabor. Ela reluzia, triunfava. Para ajeitar melhor a orqu\u00eddea<br \/>\nos seus dedos alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades<br \/>\nflamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o prato vazio.<br \/>\nE o alto l\u00edrico do Crep\u00fasculo M\u00edstico, passando a m\u00e3o<br \/>\npelas barbas, rosnou com desd\u00e9m:<\/p>\n<p>-Bela mulher&#8230; Mas ancas secas, e aposto que n\u00e3o tem n\u00e1degas!<\/p>\n<p>No entanto o mo\u00e7o de loura penugem voltara \u00e0 sua estranha m\u00e1goa.<br \/>\nN\u00e3o possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu b\u00e1culo!&#8230;<\/p>\n<p>Ele atirou um gesto suave em que os seus an\u00e9is faiscaram:<\/p>\n<p>-Para uma bomba de dinamite&#8230; Temos aqui um espl\u00eandido ramalhete de<br \/>\nflores de civiliza\u00e7\u00e3o, com um Gr\u00e3o-Duque no meio. Imagine<br \/>\numa bomba de dinamite, atirada da porta!&#8230; Que belo fim de ceia, num fim<br \/>\nde s\u00e9culo!<\/p>\n<p>E como eu o considerava assombrado, ele bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou<br \/>\nque hoje a \u00fanica emo\u00e7\u00e3o, verdadeiramente fina, seria<br \/>\naniquilar a Civiliza\u00e7\u00e3o. Nem a ci\u00eancia, nem as artes,<br \/>\nnem o dinheiro, nem o amor, podiam j\u00e1 dar um gosto intenso e real \u00e0s<br \/>\nnossas almas saciadas. Todo o prazer que se extra\u00edra de criar estava<br \/>\nesgotado. S\u00f3 restava, agora, o divino prazer de destruir!<\/p>\n<p>Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.<br \/>\nMas eu n\u00e3o atendia o gentil pedante, colhido p\u00f4r outro cuidado<br \/>\n&#8211; reparando que em torno, subitamente, todo o servi\u00e7o estacara como<br \/>\nno conto do Pal\u00e1cio Petrificado. E o parto agora devido era o peixe<br \/>\nfamoso da Dalm\u00e1cia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!<br \/>\nJacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os escudeiros<br \/>\nsumidos!<\/p>\n<p>Felizmente o Gr\u00e3o-Duque contava a hist\u00f3ria duma ca\u00e7ada,<br \/>\nnas coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltara<br \/>\nbruscamente do cavalo, num descampado, sem \u00e1rvores. Ele e todos os<br \/>\nca\u00e7adores param &#8211; e a galante senhora, l\u00edvida, com a amazona<br \/>\narrega\u00e7ada, corre para tr\u00e1s duma pedra&#8230; Mas nunca soubemos<br \/>\nem que se ocupava a banqueira, nesse descampado, agachada atr\u00e1s da<br \/>\npedra &#8211; porque justamente o mordomo apareceu, reluzente de suor, e balbuciou<br \/>\numa confid\u00eancia a Jacinto, que mordeu o bei\u00e7o, trespassado. O<br \/>\nGr\u00e3o-duque emudecera. Todos se entreolhavam, numa ansiedade alegre.<br \/>\nEnt\u00e3o o meu Pr\u00edncipe, com paci\u00eancia, com heroicidade,<br \/>\nfor\u00e7ando palidamente o sorriso:<\/p>\n<p>-Meus amigos, h\u00e1 uma desgra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Dornan pulou na cadeira:<\/p>\n<p>-Fogo?<\/p>\n<p>-N\u00e3o, n\u00e3o era fogo. Fora o elevador dos pratos que inesperadamente,<br \/>\nao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e n\u00e3o se movia encalhado!<\/p>\n<p>O Gr\u00e3o duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava<br \/>\ncomo um esmalte mal posto:<\/p>\n<p>-Essa \u00e9 forte!&#8230; Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que<br \/>\nestamos n\u00f3s aqui ent\u00e3o a cear? Que estupidez! E p\u00f4r que<br \/>\no n\u00e3o trouxeram \u00e0 m\u00e3o, simplesmente? Encalhado&#8230; Quero<br \/>\nver! Onde \u00e9 a copa?<\/p>\n<p>E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que trope\u00e7ava,<br \/>\nvergava os ombros, ante esta esmagadora c\u00f3lera de Pr\u00edncipe.<br \/>\nJacinto seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu n\u00e3o<br \/>\nme contive, tamb\u00e9m me atirei para a copa, a contemplar o desastre,<br \/>\nenquanto Dornan, batendo na coxa, clamava que se ceasse sem peixe!<\/p>\n<p>O Gr\u00e3o-Duque l\u00e1 estava, debru\u00e7ado sobre o po\u00e7o<br \/>\nescuro do elevador, onde mergulhara uma vela que lhe avermelhava mais a face<br \/>\nesbraseada. Espreitei, p\u00f4r sobre o seu ombro real. Em baixo, na treva,<br \/>\nsobre uma larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda<br \/>\nfumegando, entre rodelas de lim\u00e3o. Jacinto, branco como a gravata,<br \/>\ntorturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o Gr\u00e3o-Duque<br \/>\nque, com os pulsos cabeludos, atirou um empux\u00e3o tremendo aos cabos<br \/>\nem que ele rolava. Debalde! O aparelho enrijara numa in\u00e9rcia de bronze<br \/>\neterno.<\/p>\n<p>Sedas ro\u00e7agaram \u00e0 entrada da copa. Era Madame de Oriol, e atr\u00e1s<br \/>\nMadame Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade daquele lance em que<br \/>\no Pr\u00edncipe soltara tanta paix\u00e3o. Marizac, nosso \u00edntimo,<br \/>\nsurgiu tamb\u00e9m, risonho, propondo uma descida ao po\u00e7o com escadas.<br \/>\nDepois foi o Psic\u00f3logo, que se abeirou, psicologou, atribuindo inten\u00e7\u00f5es<br \/>\nsagazes ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gr\u00e3o-Duque, escarlate,<br \/>\nmostrava com dedo tr\u00e1gico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos afundavam<br \/>\na face, murmuravam: \u201dl\u00e1 est\u00e1!\u201d Todelle, na sua precipita\u00e7\u00e3o,<br \/>\nquase se despenhou. O periquito descendente de Coligny batia as asas, granindo:<br \/>\n&#8211; \u201cQue cheiro ele deita, que del\u00edcia!\u201d Na copa atulhada<br \/>\nos decotes das senhoras ro\u00e7avam a farda dos lacaios. O velho caiado<br \/>\nde p\u00f3 de arroz meteu o p\u00e9 num balde de gelo, com um berro ferino.<br \/>\nE o Historiador dos duques de Anjou movia p\u00f4r cima de todos o seu nariz<br \/>\nbicudo e triste.<\/p>\n<p>De repente, Todelle teve uma id\u00e9ia!<\/p>\n<p>\u00c9 muito simples&#8230; \u00c9 pescar o peixe!<\/p>\n<p>O Gr\u00e3o-Duque bateu na coxa uma palmada triunfal. Est\u00e1 claro!<br \/>\nPescar o peixe! E no gozo daquela fac\u00e9cia, t\u00e3o rara e t\u00e3o<br \/>\nnova, toda a sua c\u00f3lera se sumira, de novo se tornara o Pr\u00edncipe<br \/>\nam\u00e1vel, de magn\u00edfica polidez, desejando que as senhoras se sentassem<br \/>\npara assistir \u00e0 pesca miraculosa! Ele mesmo seria o pescador! Nem se<br \/>\nnecessitava, para a divertida fa\u00e7anha, mais que uma bengala, uma guita<br \/>\ne um gancho. Imediatamente Madame de Oriol, excitada, ofereceu um dos seus<br \/>\nganchos. Apinhados em volta dela, sentindo o seu perfume, o calor da sua pele,<br \/>\ntodos exaltamos a amor\u00e1vel dedica\u00e7\u00e3o. E o Psic\u00f3logo<br \/>\nproclamou que nunca se pescara com t\u00e3o divino anzol!<\/p>\n<p>Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um cordel,<br \/>\nj\u00e1 o Gr\u00e3o-Duque, radiante, vergara o gancho em anzol. Jacinto,<br \/>\ncom uma paci\u00eancia l\u00edvida, erguia uma l\u00e2mpada sobre a escurid\u00e3o<br \/>\ndo po\u00e7o fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o diretor<br \/>\ndo Boulevard, o Conde de Tr\u00e8ves, o homem de cabe\u00e7a \u00e0<br \/>\nVan-Dyck, sorriam, amontoados \u00e0 porta, num interesse reverente pela<br \/>\nfantasia de S. Alteza. Madame de Tr\u00e8ves, essa examinava serenamente,<br \/>\ncom a sua nobre luneta, a instala\u00e7\u00e3o da copa. S\u00f3 Dornan<br \/>\nn\u00e3o se erguera da mesa, com os punhos cerrados sobre a toalha, o gordo<br \/>\npesco\u00e7o encovado, no t\u00e9dio sombrio de fera a quem arrancaram<br \/>\na posta.<\/p>\n<p>No entanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco agudo,<br \/>\nsem pressa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, n\u00e3o fisgava.<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto, erga essa luz! &#8211; gritava ele inchado e suado. &#8211; Mais!&#8230;<br \/>\nAgora! Agora! \u00c9 na guelra! S\u00f3 na guelra \u00e9 que o gancho<br \/>\no pode prender. Agora&#8230; Qual! que diabo! N\u00e3o vai!<\/p>\n<p>Tirou a face do po\u00e7o, resfolegando e afrontado. N\u00e3o era poss\u00edvel!<br \/>\nS\u00f3 carpinteiros, com alavancas!&#8230; E todos, ansiosamente, bradamos<br \/>\nque se abandonasse o peixe!<\/p>\n<p>O Pr\u00edncipe, risonho, sacudindo as m\u00e3os, concordava que p\u00f4r<br \/>\nfim \u201cfora mais divertido pesc\u00e1-lo do que com\u00ea-lo!\u201d<br \/>\nE o elegante bando refluiu sofregamente para a mesa, ao som duma valsa de<br \/>\nStrauss, que os Tziganes arremessaram em arcadas de l\u00e2nguido ardor.<br \/>\nS\u00f3 Madame de Tr\u00e8ves se demorou ainda, retendo o meu pobre Jacinto,<br \/>\npara lhe assegurar quanto admirava o arranjo da sua copa&#8230; \u00d3 perfeita!<br \/>\nQue compreens\u00e3o da vida, que fina intelig\u00eancia do conforto!<\/p>\n<p>S. Alteza, encalmado pelo esfor\u00e7o, esvaziou poderosamente dois copos<br \/>\nde Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador genial. E os escudeiros<br \/>\nserviam o Bar\u00e3o de Pauillac, cordeiro das lez\u00edrias marinhas,<br \/>\nque, preparado com ritos quase sagrados, toma este grande nome sonoro e entra<br \/>\nno Nobili\u00e1rio de Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu comi com o apetite dum her\u00f3i de Homero. Sobre o meu copo e o de<br \/>\nDornan o Champanhe cintilou e jorrou ininterrompidamente como fonte de Inverno.<br \/>\nQuando se serviam ortolans1 gelados, que se derretiam na boca, o<\/p>\n<p>Ortolans: Hortulana, avezinha de arriba\u00e7\u00e3o, de carne muito<br \/>\napreciada; tamb\u00e9m chamada cencramo, cencr\u00e2mide, sombria ou verdelha.<br \/>\nDivino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime a \u201cSanta<br \/>\nClara\u201d. E como, do outro lado, o mo\u00e7o de penugem loura insistia<br \/>\npela destrui\u00e7\u00e3o do velho mundo, tamb\u00e9m concordei, e,<br \/>\nsorvendo Champanhe coalhado em sorvete, maldissemos o S\u00e9culo, a Civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntodos os orgulhos da Ci\u00eancia! Atrav\u00e9s das flores e das luzes,<br \/>\nno entanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,<br \/>\nque ria como uma bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a do\u00e7ura<br \/>\nde S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu mart\u00edrio e da sua<br \/>\nfesta. Ela findou. Ainda me recordo, \u00e0s tr\u00eas horas da noite,<br \/>\no Gr\u00e3o-Duque na antec\u00e2mara, muito vermelho, mal firme nos p\u00e9s<br \/>\npequeninos, sem acertar com as mangas de peli\u00e7a que Jacinto e eu lhe<br \/>\najudamos a enfiar &#8211; convidando o meu amigo, numa efus\u00e3o carinhosa,<br \/>\na ir ca\u00e7ar \u00e0s suas terras da Dalm\u00e1cia&#8230;<\/p>\n<p>-Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma bela ca\u00e7ada!<\/p>\n<p>E enquanto o acompanh\u00e1vamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta<br \/>\nescada onde o mordomo procedia erguendo um candelabro de tr\u00eas lumes,<br \/>\nS. Alteza repisava, pegajoso:<\/p>\n<p>-Uma bela ca\u00e7ada&#8230; E tamb\u00e9m vai Fernandes! Bom Fernandes,<br \/>\nZ\u00e9 Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O Bar\u00e3o de Pauillac,<br \/>\ndivino&#8230; Creio que o devemos nomear Duque&#8230; O Senhor duque de Pauillac!<br \/>\nMais um bocado da perna do senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!&#8230; N\u00e3o<br \/>\nvenham fora! N\u00e3o se constipem!<\/p>\n<p>E do fundo do cup\u00e9, ao rodar, ainda bradou:<\/p>\n<p>-O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao almo\u00e7o, frio,<br \/>\ncom um molho verde!<\/p>\n<p>Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono em que<br \/>\nos olhos se me cerravam, murmurei para o meu Pr\u00edncipe:<\/p>\n<p>-Foi divertido, Jacinto! Suntuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o elevador&#8230;<\/p>\n<p>E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:<\/p>\n<p>-Uma ma\u00e7ada! E tudo falha!<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois desta festa no 202 recebeu o meu Pr\u00edncipe inesperadamente,<br \/>\nde Portugal, uma nova consider\u00e1vel. Sobre a sua Quinta e solar de Tormes,<br \/>\np\u00f4r toda a serra, passara uma tormenta devastadora de vento, corisco<br \/>\ne \u00e1gua. Com as grossas chuvas, \u201cou p\u00f4r outras causas que<br \/>\nos peritos dir\u00e3o\u201d (como exclamava na sua carta angustiada o procurador<br \/>\nSilv\u00e9rio), um peda\u00e7o de monte, que se avan\u00e7ava em socalco<br \/>\nsobre o vale da Carri\u00e7a, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha<br \/>\nr\u00fastica do s\u00e9culo XVI, onde jaziam sepultados os av\u00f3s<br \/>\nde Jacinto desde os tempos de el-rei D. Manuel. Os ossos vener\u00e1veis<br \/>\ndesses Jacintos jaziam agora soterrados sob um mont\u00e3o informe de terra<br \/>\ne pedra. O Silv\u00e9rio j\u00e1 come\u00e7ara com os mo\u00e7os da<br \/>\nQuinta a desatulhar os \u201cpreciosos restos\u201d. Mas esperava ansiosamente<br \/>\nas ordens de sua Ex\u00aa&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, t\u00e3o<br \/>\nrijo e firme desde os Godos, que de repente ru\u00eda! Esses jazigos de<br \/>\npaz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro<br \/>\nfundo de vale! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, uma<br \/>\nhist\u00f3ria, confundidas num lixo de ru\u00edna!<\/p>\n<p>-Coisa estranha, coisa estranha!&#8230;<\/p>\n<p>E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu conhecia<br \/>\ndesde pequeno, porque o velho solar, com a sua nobre alameda de faias seculares,<br \/>\nse erguia a duas l\u00e9guas da nossa casa, no antigo caminho de Gui\u00e3es<br \/>\n\u00e0 esta\u00e7\u00e3o e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom Melchior,<br \/>\nera cunhado do nosso feitor da Roqueirinha: &#8211; e muitas vezes, depois da minha<br \/>\nintimidade com Jacinto, eu entrara no robusto casar\u00e3o de granito, e<br \/>\navaliara o gr\u00e3o espalhado pelas salas sonoras, e provara o vinho novo<br \/>\ndas adegas imensas&#8230;<\/p>\n<p>-E a igreja, Z\u00e9 Fernandes?&#8230; Entraste na igreja?<\/p>\n<p>-Nunca&#8230; Mas era pitoresca, com uma torrezinha quadrada, toda negra, onde<br \/>\nh\u00e1 muitos anos vivia uma fam\u00edlia de cegonhas&#8230; Terr\u00edvel<br \/>\ntranstorno para as cegonhas!<\/p>\n<p>-Coisa estranha! &#8211; murmurou ainda o meu Pr\u00edncipe, agourado.<\/p>\n<p>E telegrafou ao Silv\u00e9rio que desatulhasse o vale, recolhesse as ossadas,<br \/>\nreedificasse a Igreja, e para esta obra de piedade e rever\u00eancia, gastasse<br \/>\no dinheiro, sem contar, como a \u00e1gua dum rio largo.<\/p>\n<h3><a name=\"5\"><\/a>Cap\u00edtulo V<\/h3>\n<p>No entanto Jacinto, desesperado com tantos desastres humilhadores &#8211; as torneiras<br \/>\nque dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se encolhia, a<br \/>\nEletricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as resist\u00eancias<br \/>\nfinais da Mat\u00e9ria e da For\u00e7a p\u00f4r novas e mais poderosas<br \/>\nacumula\u00e7\u00f5es de Mecanismos. E nessas semanas de Abril, enquanto<br \/>\nas rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquelas quietas casas<br \/>\ndos Campos El\u00edsios que pregui\u00e7avam ao sol, incessantemente tremeu,<br \/>\nenvolta num p\u00f3 de cali\u00e7a e de empreitada, com o bruto picar<br \/>\nde pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde<br \/>\nme era doce fumar antes do almo\u00e7o um pensativo cigarro, circulavam<br \/>\nagora, desde madrugada, ranchos de oper\u00e1rios, de blusas brancas, assobiando<br \/>\no Petit-Bleu, e intimidando os meus passos, quando eu atravessava em fralda<br \/>\ne chinelas para o banho ou para ou para outros retiros. Apenas se varava com<br \/>\nper\u00edcia algum andaime obstruindo as portas &#8211; logo se esbarrava com<br \/>\numa pilha de t\u00e1buas, uma seira de ferramentas ou um balde enorme de<br \/>\nargamassa. E os peda\u00e7os de soalho levantado mostravam tristemente,<br \/>\ncomo num cad\u00e1ver aberto, todos interiores do 202, a ossatura, os sens\u00edveis<br \/>\nnervos de arame, os negros intestinos de ferro fundido.<\/p>\n<p>Cada dia estacava diante do port\u00e3o alguma lenta carro\u00e7a, de<br \/>\nonde os criados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos<br \/>\nde lona, que se despregavam e se descosiam numa sala asfaltada, ao fundo do<br \/>\njardim, p\u00f4r tr\u00e1s da sebe de lilases. E eu descia, reclamado pelo<br \/>\nmeu Pr\u00edncipe, para admirar uma nova M\u00e1quina que nos tornaria<br \/>\na vida mais f\u00e1cil, estabelecendo dum modo mais seguro o nosso dom\u00ednio<br \/>\nsobre a Subst\u00e2ncia. Durante os calores, que apertaram depois da Ascens\u00e3o,<br \/>\nensaiamos esperan\u00e7adamente, para refrescar as \u00e1guas minerais,<br \/>\na Soda-Water e os Medocs ligeiros, tr\u00eas geleiras, que se amontoaram<br \/>\nna copa sucessivamente desprestigiadas. Com os morangos novos apareceu um<br \/>\ninstrumentozinho astuto, para lhes arrancar os p\u00e9s, delicadamente.<br \/>\nDepois recebemos outro, prodigioso, de prata e cristal, para remexer freneticamente<br \/>\nas saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo o vinagre esparrilhou<br \/>\nsobre os olhos do meu Pr\u00edncipe, que fugiu aos uivos! Mas ele teimava&#8230;<br \/>\nNos atos mais elementares, para aliviar ou apressar o esfor\u00e7o, se socorria<br \/>\nJacinto da din\u00e2mica. E agora era p\u00f4r interven\u00e7\u00e3o<br \/>\nduma m\u00e1quina que abotoava as ceroulas.<\/p>\n<p>E simultaneamente, ou em obedi\u00eancia \u00e0 sua Id\u00e9ia, ou governado<br \/>\npelo despotismo do h\u00e1bito, n\u00e3o cessava, ao lado de Mec\u00e2nica<br \/>\nacumulada, de acumular Erudi\u00e7\u00e3o. \u00d3, a invas\u00e3o<br \/>\ndos livros no 202! Solit\u00e1rios, aos pares, em pacotes, dentro de caixas,<br \/>\nfranzinos, gordos e repletos de autoridade, envoltos em pleb\u00e9ia capa<br \/>\namarela ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente,<br \/>\ninvadiam p\u00f4r todas as largas portas a Biblioteca, onde se estiravam<br \/>\nsobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras macias, se entronizavam em cima<br \/>\ndas mesas robustas, e sobretudo trepavam contra as janelas, em s\u00f4fregas<br \/>\npilhas, como se, sufocados pela sua pr\u00f3pria multid\u00e3o, procurassem<br \/>\ncom \u00e2nsia espa\u00e7o e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns livros<br \/>\nmais altos restavam descobertos, sem tapume de livros, perenemente se adensava<br \/>\num pensativo crep\u00fasculo de Outono enquanto fora Junho refulgia. A Biblioteca<br \/>\ntransborda atrav\u00e9s de todo o 202! N\u00e3o se abria um arm\u00e1rio<br \/>\nsem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! N\u00e3o<br \/>\nse franzia uma cortina, sem que detr\u00e1s surgisse, hista, uma ruma de<br \/>\nlivros! E imensa foi a minha indigna\u00e7\u00e3o quando uma manh\u00e3,<br \/>\ncorrendo urgentemente, de m\u00e3os nas al\u00e7as, encontrei, vedada<br \/>\np\u00f4r uma tremenda cole\u00e7\u00e3o de Estudos Sociais, a porta do<br \/>\nWater-Closet!<\/p>\n<p>Mais amargamente por\u00e9m me lembro da noite hist\u00f3rica em que,<br \/>\nno meu quarto, mo\u00eddo e mole dum passeio a Versalhes, com as p\u00e1lpebras<br \/>\npoeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, praguejando,<br \/>\num pavoroso dicion\u00e1rio de Ind\u00fastria em trinta e sete volumes!<br \/>\nSenti ent\u00e3o a suprema fartura do livro. Ajeitando, com murros, os travesseiros,<br \/>\nmaldisse a Imprensa, a Fac\u00fandia humana&#8230; e j\u00e1 me estirara,<br \/>\nadormecia, quando topei, quase parti a preciosa r\u00f3tula do joelho, contra<br \/>\na lombada dum tomo que velhacamente se aninhara entre a parede e os colch\u00f5es.<br \/>\nCom furor e um berro empolguei, arremessei o tomo afrontoso &#8211; que entornou<br \/>\no jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E nem sei se depois adormeci<br \/>\n&#8211; porque os meus p\u00e9s, a que n\u00e3o sentia nem o pisar nem o rumor,<br \/>\ncomo se um vento brando me levasse, continuaram a trope\u00e7as em livros<br \/>\nno corredor apagado, depois na areia do jardim que o luar branquejava, depois<br \/>\nna Avenida dos Campos El\u00edsios, povoada e ruidosa como numa festa c\u00edvica.<br \/>\nE, \u00f3 portento! Todas as casas aos lados eram constru\u00eddas com<br \/>\nlivros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de livros. E os homens,<br \/>\nas finas damas, vestidos de papel impresso, com t\u00edtulos nos dorsos,<br \/>\nmostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente<br \/>\nas folhas. Ao fundo, na Pra\u00e7a da Conc\u00f3rdia, avistei uma escarpada<br \/>\nmontanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora enterrando a perna<br \/>\nem fl\u00e1cidas camadas de versos, ora batendo contra a lombada, dura como<br \/>\ncalhau, de tomos de Exegese e Cr\u00edtica. A t\u00e3o vastas alturas<br \/>\nsubi, para al\u00e9m da terra, para al\u00e9m das nuvens, que me encontrei,<br \/>\nmaravilhado, entre os astros. Eles rolavam serenamente, enormes e mudos, recobertos<br \/>\np\u00f4r espessas crostas de livros, de onde surdia, aqui e al\u00e9m,<br \/>\np\u00f4r alguma fenda, entre dois volumes mal juntos, um raiozinho de luz<br \/>\nsufocada e ansiada. E assim ascendi ao Para\u00edso. Decerto era o para\u00edso<br \/>\n&#8211; porque com meus olhos de mortal argila avistei o Anci\u00e3o da Eternidade,<br \/>\naquele que n\u00e3o tem Manh\u00e3 nem Tarde. Numa claridade que dele<br \/>\nirradiava mais clara que todas as claridades, entre fundas estantes de ouro<br \/>\nabarrotadas de c\u00f3dices, sentado em vetust\u00edssimos f\u00f3lios,<br \/>\ncom os flocos das infinitas barbas espalhados p\u00f4r sobre resmas de folhetos,<br \/>\nbrochuras, gazetas e cat\u00e1logos &#8211; o Alt\u00edssimo lia. A fronte super-divina<br \/>\nque concebera o Mundo pousava sobre a m\u00e3o superforte que o Mundo criara<br \/>\n&#8211; e o Criador lia e sorria. Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar<br \/>\np\u00f4r cima do seu ombro coruscante. O livro era brochado, de tr\u00eas<br \/>\nfrancos&#8230; O Eterno lia Voltaire, numa edi\u00e7\u00e3o barata, e sorria.<\/p>\n<p>Uma porta faiscou e rangeu, como se algu\u00e9m penetrasse no Para\u00edso.<br \/>\nPensei que um Santo novo chegara da Terra. Era Jacinto, com o charuto em brasa,<br \/>\num molho de cravos na lapela, sobra\u00e7ando tr\u00eas livros amarelos<br \/>\nque a Princesa de Carman lhe emprestara para ler!<\/p>\n<p>Numa dessas ativas semanas, por\u00e9m, a minha aten\u00e7\u00e3o subitamente<br \/>\nse despegou deste interessante Jacinto. H\u00f3spede do 202, conservava<br \/>\nno 202 a minha mala e a minha roupa; e, acostado \u00e0 bandeira do meu<br \/>\nPr\u00edncipe, ainda ocasionalmente comia do seu caldeir\u00e3o suntuoso.<br \/>\nMas a minha alma, a minha empobrecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido<br \/>\ncorpo, habitavam ent\u00e3o na rua do H\u00e9lder, n\u00ba. 16, quarto<br \/>\nandar, porta \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>Descia eu uma tarde, numa leda paz de id\u00e9ias e sensa\u00e7\u00f5es,<br \/>\no Boulevard da Madalena, quando avistei, diante da Esta\u00e7\u00e3o dos<br \/>\n\u00f4nibus, rondando no asfalto, num passo lento e felino, uma criatura<br \/>\nseca, muito morena, quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes,<br \/>\ne uma mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chap\u00e9u<br \/>\nvelho de plumas negras. Parei, como colhido p\u00f4r um repux\u00e3o nas<br \/>\nentranhas. A criatura passou &#8211; no seu magro rondar de gata negra, sob um beiral<br \/>\nde telhado, ao luar de Janeiro. Dois po\u00e7os fundos n\u00e3o luzem<br \/>\nmais negra e taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros.<br \/>\nN\u00e3o recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso<br \/>\ne ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma s\u00faplica p\u00f4r entre<br \/>\nos dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais silenciosos<br \/>\nque condenados, para um gabinete do Caf\u00e9 Durand, safado e morno. Diante<br \/>\ndo espelho, a criatura, com a lentid\u00e3o dum rito triste, tirou o chap\u00e9u<br \/>\ne a romeira salpicada de vidrilhos. A seda pu\u00edda do corpete esgar\u00e7ava<br \/>\nnos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram imensos, duma dureza e espessura<br \/>\nde juba brava, em dois tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados,<br \/>\ncomo a c\u00f4dea de uma torta ao sair quente do forno.<\/p>\n<p>Com um riso tr\u00eamulo, agarrei os seus dedos compridos e frios.<\/p>\n<p>-E o nomezinho, hem?<\/p>\n<p>Ela s\u00e9ria, quase grave:<\/p>\n<p>-Madame Colombe, 16, rua do H\u00e9lder, quarto andar, porta \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>E eu (miser\u00e1vel Z\u00e9 Fernandes!) tamb\u00e9m me senti muito<br \/>\ns\u00e9rio, trespassado p\u00f4r uma emo\u00e7\u00e3o grave, como se<br \/>\nnos envolvesse, naquela alcova de Caf\u00e9, a majestade dum Sacramento.<br \/>\n\u00c0 porta, empurrada levemente, o criado avan\u00e7ou a face n\u00e9dia.<br \/>\nOrdenei uma lagosta, pato com piment\u00f5es, e Borgonha. E foi somente<br \/>\nao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando convulsamente o guardanapo,<br \/>\ne a tremer lhe beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terr\u00edvel,<br \/>\nem que deixei a alma, entre saliva e gosto de piment\u00e3o! Depois, numa<br \/>\ntip\u00f3ia aberta, sob um bafo mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida<br \/>\ndos Campos El\u00edsios. Em frente \u00e0 grade do 202 murmurei, para<br \/>\na deslumbrar com o meu luxo: &#8211; \u201cMoro ali, todo o ano!&#8230;\u201d E como<br \/>\nao mirar o Palacete, debru\u00e7ada, ela ro\u00e7ara a mata fulva do p\u00ealo<br \/>\ncrespo pela minha barba &#8211; berrei desesperadamente ao cocheiro que galopasse,<br \/>\npara a rua do H\u00e9lder, n\u00ba.16, quarto andar, p\u00f4r \u00e0<br \/>\nesquerda!<\/p>\n<p>Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com Amor, com todos os Amores<br \/>\nque est\u00e3o no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, como<br \/>\nSanto Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama<br \/>\numa cabra. Era est\u00fapida, era triste. Eu deliciosamente apagava a minha<br \/>\nalegria na cinza da sua tristeza; e com inef\u00e1vel gosto afundava a minha<br \/>\nraz\u00e3o na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas<br \/>\nperdi a consci\u00eancia da minha personalidade de Z\u00e9 Fernandes &#8211;<br \/>\nFernandes de Noronha e Sande, de Gui\u00e3es! Ora se me afigurava ser um<br \/>\npeda\u00e7o de cera que se derretia, com horrenda del\u00edcia, num forno<br \/>\nrubro e rugidor; ora me parecia ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava<br \/>\ne se consumia um molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez s\u00f3<br \/>\nconservo a impress\u00e3o duma alcova forrada de cretones sujos, duma bata<br \/>\nde l\u00e3 cor de lil\u00e1s com sotaches negros, de vagas garrafas de<br \/>\ncerveja no m\u00e1rmore dum lavat\u00f3rio, e dum corpo tisnado que rangia<br \/>\ne tinha cabelos no peito. E tamb\u00e9m me resta a sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde incessantemente e com arroubado deleite me despojar, arremessar para um<br \/>\nrega\u00e7o, que se cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos,<br \/>\no meu rel\u00f3gio, os meus berloques, os meus an\u00e9is, os meus bot\u00f5es<br \/>\nde safira, e as cento e noventa e sete libras de ouro que eu trouxera de Gui\u00e3es<br \/>\nnuma cinta de camur\u00e7a. Do s\u00f3lido, decoroso, bem fornecido Z\u00e9<br \/>\nFernandes, s\u00f3 restava uma carca\u00e7a errando atrav\u00e9s dum<br \/>\nsonho, com g\u00e2mbias moles e a barba a escorrer.<\/p>\n<p>Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do H\u00e9lder,<br \/>\nencontrei a porta fechada &#8211; e arrancado da ombreira aquele cart\u00e3o de<br \/>\nMadame Colombe que eu lia sempre t\u00e3o devotamente e que era a sua tabuleta&#8230;<br \/>\nTudo no meu ser tremeu como se o ch\u00e3o de Paris tremesse! Aquela era<br \/>\na porta do Mundo que ante mim se fechara! Para al\u00e9m estavam as gentes,<br \/>\nas cidades, a vida, Deus e Ela. E eu ficara sozinho, naquele patamar do N\u00e3o-ser,<br \/>\nfora da porta que se fechara, \u00fanico ser fora do Mundo! Rolei pelos<br \/>\ndegraus, com o fragor e a incoer\u00eancia duma pedra, at\u00e9 ao cub\u00edculo<br \/>\nda porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, como<br \/>\nse t\u00e3o pavoroso abalo n\u00e3o tivesse desmantelado o Universo!<\/p>\n<p>-Madame Colombe?<\/p>\n<p>A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:<\/p>\n<p>-J\u00e1 n\u00e3o mora&#8230; Abalou esta manh\u00e3, para outra terra<br \/>\ncom outra porca!<\/p>\n<p>Para outra terra! Com outra porca!&#8230; Vazio, negramente vazio de todo o pensar,<br \/>\nde todo o sentir, de todo o querer &#8211; botei aos tombos, como um tonel vazio,<br \/>\nna corrente a\u00e7odada do Boulevard, at\u00e9 que encalhei num banco<br \/>\nda Pra\u00e7a da Madalena, onde tapei com as m\u00e3os, a que n\u00e3o<br \/>\nsentia a febre, os olhos a que n\u00e3o sentia o pranto! Tarde, muito tarde,<br \/>\nquando j\u00e1 se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas,<br \/>\nsurdiu, de entre todas estas confusas ru\u00ednas do meu ser, a eterna sobrevivente<br \/>\nde todas as ru\u00ednas &#8211; a id\u00e9ia de jantar. Penetrei no Durand,<br \/>\ncom os passos entorpecidos dum ressuscitado. E, numa recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\nque me escaldava a alma, encomendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao<br \/>\nalargar o colarinho, ensopado pelo ardor daquela tarde de Julho, entre a poeira<br \/>\nda Madalena, pensei com desconforto: &#8211; \u201cSant\u00edssimo Nome de Deus!<br \/>\nQue imensa sede me fez esta desgra\u00e7a!&#8230;\u201d De manso acenei ao<br \/>\nmo\u00e7o: &#8211; \u201cAntes do Borgonha, uma garrafa de Champanhe, com muito<br \/>\ngelo, e um grande copo!&#8230;\u201d Creio que aquele Champanhe se engarrafara<br \/>\nno C\u00e9u onde corre perenemente a fresca fonte da Consola\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne que na garrafa bendita que me coube penetrara, antes de arrolhada, um jorro<br \/>\nlargo dessa fonte inef\u00e1vel. Jesus! que transcendente regalo, o daquele<br \/>\nnobre copo, embaciado, nevado, a espumar, a picar, num brilho de ouro! E depois,<br \/>\ngarrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Conhaque! E depois Hortel\u00e3-Pimenta<br \/>\ngranitada em gelo! E depois um desejo arquejante de espancar, com o meu rijo<br \/>\nmarmeleiro de Gui\u00e3es, a porca que fugira com outra porca! Dentro da<br \/>\ntip\u00f3ia fechada, que me transportou num galope ao 202, n\u00e3o sufoquei<br \/>\neste santo impulso, e com os meus punhos serranos atirei murros retumbantes<br \/>\ncontra as almofadas, onde via, furiosamente via a mata imensa de p\u00ealo<br \/>\namarelo, em que a minha alma uma tarde se perdera, e tr\u00eas meses se debatera,<br \/>\ne para sempre se emporcalhara! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava<br \/>\nt\u00e3o desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do cocheiro,<br \/>\ndois mo\u00e7os acudiram e me sustiveram, recebendo pelos ombros, sobre<br \/>\nas nucas servis, os restos cansados da minha c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Em cima, repeli a solicitude do Grilo que tentava impor ao si\u00f4 Z\u00e9<br \/>\nFernandes, a Z\u00e9 Fernandes de Gui\u00e3es, a imensa indignidade dum<br \/>\nch\u00e1 de macela! E estirado no leito de D.Gali\u00e3o, com as botas<br \/>\nsobre o travesseiro, o chap\u00e9u alto sobre os olhos, ri, num doloroso<br \/>\nriso, deste Mundo burlesco e s\u00f3rdido de Jacintos e de Colombes! E de<br \/>\nrepente senti uma ang\u00fastia horrenda. Era ela! Era a Madame Colombe,<br \/>\nque esfuziara da chama da vela, e saltara sobre o meu leito, e desabotoara<br \/>\no meu colete, e arrombara as minhas costelas, e toda ela, com as saias sujas,<br \/>\nmergulhara dentro do meu peito e abocara o meu cora\u00e7\u00e3o, e chupava<br \/>\na sorvos lentos, como na rua do H\u00e9lder, o sangue do meu cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\nEnt\u00e3o, certo da Morte, ganindo pela tia Vic\u00eancia, pendi do leito<br \/>\npara mergulhar na minha sepultura, que, atrav\u00e9s da n\u00e9voa final,<br \/>\neu distinguia sobre o tapete &#8211; redondinha, vidrada, de porcelana e com asa.<br \/>\nE, sobre a minha sepultura, que t\u00e3o irreverentemente se assemelhava<br \/>\nao meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois,<br \/>\nnum esfor\u00e7o ultra-humano, com um rugido, sentindo que, n\u00e3o somente<br \/>\ntoda a entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei Madame Colombe! Reca\u00ed<br \/>\nsobre o leito de Gali\u00e3o&#8230;Recarreguei o chap\u00e9u sobre os olhos<br \/>\npara n\u00e3o sentir os raios do Sol&#8230; Era um sol novo, um sol espiritual,<br \/>\nque se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma criancinha docemente<br \/>\nembalada num ber\u00e7o de verga pelo Anjo da guarda.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, lavei a pele num banho profundo, perfumado com todos os<br \/>\naromas do 202, desde folhas de limonete da \u00cdndia at\u00e9 ess\u00eancia<br \/>\nde jasmim de Fran\u00e7a; e lavei a alma com uma rica carta da tia Vic\u00eancia,<br \/>\nem letra farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e<br \/>\nda compota de ginja que nunca lhe sa\u00edra t\u00e3o fina, e da alegre<br \/>\nfogueira do p\u00e1tio em noite de S. Jo\u00e3o, e da menininha muito<br \/>\ngorda e cabeluda que viera do C\u00e9u para a minha afilhada Joaninha. Depois,<br \/>\n\u00e0 janela, bem limpo de alma e de corpo, numa quinzena de sedinha branca,<br \/>\ntomando ch\u00e1 de Na\u00efp\u00f2, respirando os rosais do jardim revividos<br \/>\npela chuva da madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete<br \/>\nsemanas, me emporcalhara, na rua do H\u00e9lder, com um estardalho muito<br \/>\nmagro e muito tisnado! E conclu\u00ed que padecera duma longa sez\u00e3o,<br \/>\nsez\u00e3o da carne, sez\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o, apanhada<br \/>\nnum charco de Paris &#8211; nesses charcos que se formam atrav\u00e9s da Cidade<br \/>\ncom as \u00e1guas mortas, os limos, os lixos, os tortulhos e os vermes duma<br \/>\nCiviliza\u00e7\u00e3o que apodrece.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, curado, todo o meu esp\u00edrito, como uma agulha para o<br \/>\nNorte, se virou logo para o meu complicado Pr\u00edncipe, que, nas derradeiras<br \/>\nsemanas da minha infec\u00e7\u00e3o sentimental, eu entrevira sempre desca\u00eddo<br \/>\np\u00f4r cima de sof\u00e1s, ou vagueando atrav\u00e9s da biblioteca<br \/>\nentre os seus trinta mil volumes, com arrastados bocejos de in\u00e9rcia<br \/>\ne de vacuidade. Eu, na minha pressa indigna, s\u00f3 lhe lan\u00e7ava<br \/>\num distra\u00eddo &#8211; \u201cque \u00e9 isso?\u201d Ele, no seu moroso<br \/>\ndesalento, s\u00f3 murmurava um seco &#8211; \u201c\u00e9 calor!\u201d<\/p>\n<p>E, nessa manh\u00e3 da minha liberta\u00e7\u00e3o, ao penetrar antes<br \/>\nde almo\u00e7o no seu quarto, no sof\u00e1 o encontrei enterrado, com<br \/>\no F\u00edgaro aberto sobre a barriga, a Agenda ca\u00edda sobre o tapete,<br \/>\ntoda a face envolta em sombra, e os p\u00e9s abandonados, numa soberana<br \/>\ntristeza, ao pedicuro que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar realumiado<br \/>\ne repurificado, a brancura das minhas flanelas reproduzindo a quieta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas minhas sensa\u00e7\u00f5es, e a segura harmonia em que todo o meu<br \/>\nser visivelmente se movia, impressionaram o meu Pr\u00edncipe &#8211; a quem a<br \/>\nmelancolia nunca embotava a agudeza. Ergueu molemente um bra\u00e7o mole:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o esse capricho?<\/p>\n<p>Derramei sobre ele todo o fulgor dum riso vitorioso:<\/p>\n<p>-Morto! E, como o Sr. De Marlborought, \u201cmorto e bem enterrado\u201d.<br \/>\nJaz! Ou antes, rola! Com efeito deve andar agora rolando p\u00f4r dentro<br \/>\ndo cano do esgoto!<\/p>\n<p>Jacinto bocejou, murmurou:<\/p>\n<p>-Este Z\u00e9 Fernandes de Noronha e Sande!&#8230;<\/p>\n<p>E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado num bocejo com desprendida<br \/>\nironia, se resumiu todo o interesse daquele Pr\u00edncipe pela suja tormenta<br \/>\nem que se debatera o meu cora\u00e7\u00e3o! Mas n\u00e3o me melindrou<br \/>\nesse consumado ego\u00edsmo&#8230; Claramente percebia eu que o meu jacinto<br \/>\natravessava uma densa n\u00e9voa de t\u00e9dio, t\u00e3o densa, e ele<br \/>\nt\u00e3o afundado na sua mole densidade, que as gl\u00f3rias ou os tormentos<br \/>\ndum camarada n\u00e3o o comoviam, como muito remotas, intang\u00edveis,<br \/>\nseparadas da sua sensibilidade p\u00f4r imensas camadas de algod\u00e3o.<br \/>\nPobre Pr\u00edncipe da Gr\u00e3-Ventura, tombado para o sof\u00e1 de<br \/>\nin\u00e9rcia, com os p\u00e9s no rega\u00e7o do pedicuro! Em que lodoso<br \/>\nfastio ca\u00edra, depois de renovar t\u00e3o bravamente todo o recheio<br \/>\nmec\u00e2nico e erudito do 202, na sua luta contra a For\u00e7a e a Mat\u00e9ria!<br \/>\n&#8211; e esse fastio n\u00e3o o escondeu mais do seu velho Z\u00e9 Fernandes,<br \/>\nquando recome\u00e7ou entre n\u00f3s a comunh\u00e3o de vida e de alma<br \/>\na que eu t\u00e3o torpemente me arrancara, uma tarde, diante da Esta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos \u00f4nibus, no charco da Madalena!<\/p>\n<p>N\u00e3o eram certamente confiss\u00f5es enunciadas. O elegante e reservado<br \/>\nJacinto n\u00e3o torcia os bra\u00e7os, gemendo &#8211; \u201c\u00d3 vida<br \/>\nmaldita!\u201d eram apenas express\u00f5es saciadas; um gesto de repelir<br \/>\ncom rancor a importunidade das coisas; p\u00f4r vezes uma imobilidade determinada,<br \/>\nde protesto, no fundo dum div\u00e3, de onde se n\u00e3o desenterrava,<br \/>\ncomo para um repouso que desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos<br \/>\ncom que sublinhava cada passo, continuado p\u00f4r fraqueza ou p\u00f4r<br \/>\ndever inilud\u00edvel; e sobretudo aquele murmurar que se tornara perene<br \/>\ne natural &#8211; \u201cPara que?\u201d &#8211; \u201cN\u00e3o vale a pena!\u201d<br \/>\n&#8211; \u201cQue ma\u00e7ada!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Uma noite no meu quarto, descal\u00e7ando as botas, consultei o Grilo:<\/p>\n<p>-Jacinto anda t\u00e3o murcho, t\u00e3o corcunda&#8230; Que ser\u00e1,<br \/>\nGrilo?<\/p>\n<p>O venerando preto declarou com uma certeza imensa:<\/p>\n<p>-S. Ex\u00aa. sofre de fartura.<\/p>\n<p>Era fartura! O meu Pr\u00edncipe sentia abafadamente a fartura de Paris:<br \/>\n&#8211; e na Cidade, na simb\u00f3lica Cidade, fora de cuja vida culta e forte<br \/>\n(como ele outrora gritava, iluminado) o homem do s\u00e9culo XIX nunca poderia<br \/>\nsaborear plenamente a \u201cdel\u00edcia de viver\u201d, ele n\u00e3o<br \/>\nencontrava agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse,<br \/>\nlhe valesse o esfor\u00e7o duma corrida curta numa tip\u00f3ia f\u00e1cil.<br \/>\nPobre Jacinto! Um jornal velho, setenta vezes relido desde a Cr\u00f4nica<br \/>\nat\u00e9 aos An\u00fancios, com a tinta delida, as dobras ro\u00eddas,<br \/>\nn\u00e3o enfastiaria mais o Solit\u00e1rio, que s\u00f3 possu\u00edsse<br \/>\nna sua Solid\u00e3o esse alimento intelectual, do que o Parisianismo enfastiava<br \/>\no meu doce camarada! Se eu nesse Ver\u00e3o capciosamente o arrastava a<br \/>\num Caf\u00e9-Concerto, ou ao festivo Pavilh\u00e3o de Armenonville, o<br \/>\nmeu bom Jacinto, colado pesadamente \u00e0 cadeira, com um maravilhoso ramo<br \/>\nde orqu\u00eddeas na casaca, as finas m\u00e3os abatidas sobre o cast\u00e3o<br \/>\nda bengala, conservava toda a noite uma gravidade t\u00e3o estafada, que<br \/>\neu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em abalar, a<br \/>\nsua fuga de ave solta&#8230; Raramente (e ent\u00e3o com veemente arranque como<br \/>\nquem salta um fosso) descia a um dos seus clubes, ao fundo dos Campos El\u00edsios.<br \/>\nN\u00e3o se ocupara mais das suas Sociedades e Companhias, nem dos Telefones<br \/>\nde Constantinopla, nem das Religi\u00f5es Esot\u00e9ricas, nem do Bazar<br \/>\nEspiritualista, cujas cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa de \u00e9bano,<br \/>\nde onde o Grilo as varria tristemente como o lixo duma vida finda. Tamb\u00e9m<br \/>\nlentamente se despegava de todas as suas conviv\u00eancias. As p\u00e1ginas<br \/>\nda Agenda cor-de-rosa murcha andavam desafogadas e brancas. E se ainda cedia<br \/>\na um passeio de Mail-coach, ou a um convite para algum Castelo amigo dos arredores<br \/>\nde Paris, era t\u00e3o arrastadamente, com um esfor\u00e7o t\u00e3o<br \/>\nsaturado ao enfiar o palet\u00f3 leve, que me lembrava sempre um homem,<br \/>\ndepois de um gordo jantar de prov\u00edncia, a estalar, que, p\u00f4r polidez<br \/>\nou em obedi\u00eancia a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia de ovos!<\/p>\n<p>Jazer, jazer, em casa, na seguran\u00e7a das portas bem cerradas e bem<br \/>\ndefendidas contra toda a intrus\u00e3o do mundo, seria uma do\u00e7ura<br \/>\npara o meu Pr\u00edncipe se o seu pr\u00f3prio 202, com todo aquele tremendo<br \/>\nrecheio de Civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o lhe desse uma sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndolorosa de abafamento, de atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as<br \/>\nalcatifas, tantos m\u00f3veis roli\u00e7os e fofos, todos os seus metais<br \/>\ne todos os seus livros t\u00e3o espessamente o oprimiam, que escancarava<br \/>\nsem cessar as janelas para prolongar o espa\u00e7o, a claridade, a frescura.<br \/>\nMas era ent\u00e3o a poeira, suja e acre, rolada em bafos mornos, que o<br \/>\nenfurecia:<\/p>\n<p>-\u00d3, este p\u00f3 da Cidade!<\/p>\n<p>-Mas, \u00f3 Jacinto, p\u00f4r que n\u00e3o vamos para Fontainebleau,<br \/>\nou para Montmorency, ou&#8230;<\/p>\n<p>-Para o campo? O qu\u00ea! Para o campo?!<\/p>\n<p>E na sua face enrugada, atrav\u00e9s deste berro, lampejava sempre tanta<br \/>\nindigna\u00e7\u00e3o, que eu curvava os ombros, humilde, no arrependimento<br \/>\nde Ter afrontosamente ultrajado o Pr\u00edncipe que tanto amava. Desventurado<br \/>\nPr\u00edncipe! Com o seu dourado cigarro de Yaka a fumegar, errava ent\u00e3o<br \/>\npelas salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem afei\u00e7\u00f5es<br \/>\ne sem ocupa\u00e7\u00f5es. Esses desafei\u00e7oados e desocupados passos<br \/>\nmonotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, \u00e0 Biblioteca<br \/>\nde \u00e9bano, onde acumulara Civiliza\u00e7\u00e3o nas m\u00e1ximas<br \/>\npropor\u00e7\u00f5es, para gozar nas m\u00e1ximas propor\u00e7\u00f5es<br \/>\na del\u00edcia de viver. Espalhava em torno um olhar farto. Nenhuma curiosidade<br \/>\nou interesse lhe solicitavam as m\u00e3os, enterradas nas algibeiras das<br \/>\npantalonas de seda, numa in\u00e9rcia de derrota. Anulado, bocejava com<br \/>\ndescoro\u00e7oada moleza. E nada mais intrusivo e doloroso do que este supremo<br \/>\nhomem do s\u00e9culo XIX, no meio de todos os aparelhos refor\u00e7adores<br \/>\ndos seus \u00f3rg\u00e3os, e de todos os fios que disciplinavam ao seu<br \/>\nservi\u00e7o as for\u00e7as Universais, e dos seus trinta mil volumes<br \/>\nrepletos de saber dos s\u00e9culos &#8211; estacando, com as m\u00e3os derrotadas<br \/>\nno fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecis\u00e3o mole<br \/>\ndum bocejo, o embara\u00e7o de viver!<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>Todas as tardes, cultivando uma dessas intimidades que entre tudo o que<br \/>\ncansa jamais cansam, Jacinto, \u00e0s quatro horas, com regularidade devota,<br \/>\nvisitava Madame de Oriol: &#8211; porque essa flor de Parisianismo permanecera em<br \/>\nParis, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da Cidade.<br \/>\nNuma dessas tardes, por\u00e9m, o telefone, ansiosamente repicado, avisou<br \/>\nJacinto de que a sua doce amiga jantava em Enghien com os Tr\u00e8ves. (Esses<br \/>\nsenhores gozavam o seu Ver\u00e3o \u00e0 beira do lago, numa casa toda<br \/>\nbranca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Efraim.)<\/p>\n<p>Era um Domingo silencioso, enevoado e macio, convidando \u00e0s voluptuosidades<br \/>\nda melancolia. E eu (no interesse da minha alma) sugeri a Jacinto que sub\u00edssemos<br \/>\n\u00e0 Bas\u00edlica do Sacr\u00e9-Couer, em constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos altos de Montmartre.<\/p>\n<p>-\u00c9 uma seca, Z\u00e9 Fernandes&#8230;<\/p>\n<p>-Com mil dem\u00f4nios! Eu nunca vi a Basilica&#8230;<\/p>\n<p>-Bem, bem! Vamos \u00e0 Bas\u00edlica, homem fatal de Noronha e Sande!<\/p>\n<p>E p\u00f4r fim logo que come\u00e7amos a penetrar, para al\u00e9m de<br \/>\nS. Vicente de Paulo, em bairros estreitos e \u00edngremes, duma quieta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde prov\u00edncia, com muros velhos fechando quintalejos r\u00fasticos,<br \/>\nmulheres despenteadas cosendo \u00e0 soleira das portas, carriolas desatreladas<br \/>\ndescansando diante das tascas, galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados<br \/>\nsecando em canas &#8211; o meu fastidioso camarada soriu \u00e0quela liberdade<br \/>\ne singeleza das coisas.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria parou em frente \u00e0 larga rua de escadarias que trepa,<br \/>\ncortando vielazinhas campestres, at\u00e9 \u00e0 esplanada, onde, envolta<br \/>\nem andaimes, se ergue a Bas\u00edlica imensa. Em cada patamar barracas de<br \/>\narraial devoto, forradas de paninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,<br \/>\nCrucifixos, Cora\u00e7\u00f5es de Jesus bordados a retr\u00f3s, claros<br \/>\nmolhos de Ros\u00e1rios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Ave-Maria.<br \/>\nDois padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava<br \/>\nna do\u00e7ura da tarde. E Jacinto murmurou, com agrado:<\/p>\n<p>-\u00c9 curioso!<\/p>\n<p>Mas a Bas\u00edlica em cima n\u00e3o nos interessou, abafada em tapumes<br \/>\ne andaimes, toda branca e seca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacinto,<br \/>\np\u00f4r impulso bem Jac\u00edntico, caminhou gulosamente para a borda<br \/>\ndo terra\u00e7o, a contemplar Paris. Sob o c\u00e9u cinzento, na plan\u00edcie<br \/>\ncinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de<br \/>\ncali\u00e7a e telha. E na sua imobilidade e na sua mudez, algum rolo de<br \/>\nfumo, mais t\u00eanue e ralo que o fumear dum escombro mal apagado, era todo<br \/>\no vest\u00edgio vis\u00edvel da sua vida magn\u00edfica.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o chasqueei risonhamente o meu Pr\u00edncipe. A\u00ed estava<br \/>\npois a Cidade, augusta cria\u00e7\u00e3o da Humanidade. Ei-la a\u00ed,<br \/>\nbelo Jacinto! Sobre a crosta cinzenta da Terra &#8211; uma camada de cali\u00e7a,<br \/>\napenas mais cinzenta! No entanto ainda momentos antes a deix\u00e1ramos<br \/>\nprodigiosamente viva, cheia dum povo forte, com todos os seus poderosos \u00f3rg\u00e3os<br \/>\nfuncionando, abarrotada de riqueza, resplandecente de sapi\u00eancia, na<br \/>\ntriunfal plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Gra\u00e7a.<br \/>\nE agora eu e o belo Jacinto trep\u00e1vamos a uma colina, espreit\u00e1vamos,<br \/>\nescut\u00e1vamos &#8211; e de toda a estridente e radiante Civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nda cidade n\u00e3o perceb\u00edamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202,<br \/>\no soberbo 202, com os seus arames, os seus aparelhos, a pompa da sua Mec\u00e2nica,<br \/>\nos seus trinta mil livros? Sumido, esva\u00eddo na confus\u00e3o de telha<br \/>\ne cinza! Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ela se contempla<br \/>\nde cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em t\u00e3o angustioso<br \/>\nesfor\u00e7o? Hem, Jacinto?&#8230; Onde est\u00e3o os teus Armaz\u00e9ns<br \/>\nservidos p\u00f4r tr\u00eas mil caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro<br \/>\nuniversal? E as Bibliotecas atulhadas com o saber dos s\u00e9culos? Tudo<br \/>\nse fundiu numa n\u00f3doa parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um<br \/>\nZ\u00e9 Fernandes, logo que ele suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada<br \/>\ncolina &#8211; a sublime edifica\u00e7\u00e3o dos Tempos n\u00e3o \u00e9<br \/>\nmais que um silencioso monturo da espessura e da cor do p\u00f3 final. O<br \/>\nque ser\u00e1 ent\u00e3o aos olhos de Deus!<\/p>\n<p>E ante estes clamores, lan\u00e7ados com af\u00e1vel mal\u00edcia para<br \/>\nespica\u00e7ar o meu Pr\u00edncipe, ele murmurou, pensativo:<\/p>\n<p>-Sim, \u00e9 talvez tudo uma ilus\u00e3o&#8230; E a Cidade a maior ilus\u00e3o!<\/p>\n<p>T\u00e3o facilmente vitorioso redobrei de fac\u00fandia. Certamente,<br \/>\nmeu Pr\u00edncipe, uma Ilus\u00e3o! E a mais amarga, porque o Homem pensa<br \/>\nTer na Cidade a base de toda a sua grandeza e s\u00f3 nela tem a fonte de<br \/>\ntoda a sua mis\u00e9ria. V\u00ea, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a for\u00e7a<br \/>\ne beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado<br \/>\nou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos tr\u00eamulos<br \/>\ncomo arames, com cangalhas, com chin\u00f3s, com dentaduras de chumbo, sem<br \/>\nsangue, sem febra, sem vi\u00e7o, torto, corcunda &#8211; esse ser em que Deus,<br \/>\nespantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ad\u00e3o! Na<br \/>\nCidade findou a sua liberdade moral; cada manh\u00e3 ela lhe imp\u00f5e<br \/>\numa necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma depend\u00eancia;<br \/>\npobre e subalterno, a sua vida \u00e9 um constante solicitar, adular, vergar,<br \/>\nrastejar, aturar; e rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda<br \/>\nem tradi\u00e7\u00f5es, preceitos, etiquetas, cerim\u00f4nias, praxes,<br \/>\nritos, servi\u00e7os mais disciplinares que os dum c\u00e1rcere ou dum<br \/>\nquartel&#8230; A sua tranq\u00fcilidade (bem t\u00e3o alto que Deus com ele<br \/>\nrecompensa os Santos ) onde est\u00e1, meu Jacinto? Sumida para sempre,<br \/>\nnessa batalha desesperada pelo p\u00e3o, ou pela fama, ou pelo poder, ou<br \/>\npelo gozo, ou pela fugida rodela de ouro! Alegria como a haver\u00e1 na<br \/>\nCidade para esses milh\u00f5es de seres que tumultuam na arquejante ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde desejar &#8211; e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilus\u00e3o,<br \/>\ndesesperan\u00e7a ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo<br \/>\nna Cidade se desumanizam! V\u00ea, meu Jacinto! S\u00e3o como luzes que<br \/>\no \u00e1spero vento do viver social n\u00e3o deixa arder com serenidade<br \/>\ne limpidez; e aqui abala e faz tremer; e al\u00e9m brutamente apaga; e adiante<br \/>\nobriga a flamejar com desnaturada viol\u00eancia. As amizades nunca passam<br \/>\nde alian\u00e7as que o interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora<br \/>\ns\u00f4frega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que<br \/>\nestalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade,<br \/>\nmeu gentil Jacinto? Considera esses vastos armaz\u00e9ns com espelhos, onde<br \/>\na nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arr\u00e1tel, como a de vaca!<br \/>\nContempla esse velho Deus do Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante<br \/>\nfacho da Paix\u00e3o a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que<br \/>\nfoge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Ninfas na boa<br \/>\nlei natural, e busca tristemente os recantos l\u00f4bregos de Sodoma ou de<br \/>\nLesbos!&#8230; Mas o que a cidade mais deteriora no homem \u00e9 a Intelig\u00eancia,<br \/>\nporque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravag\u00e2ncia.<br \/>\nNesta densa e pairante camada de Id\u00e9ias e F\u00f3rmulas que constitui<br \/>\na atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, s\u00f3<br \/>\npensa todos os pensamentos j\u00e1 pensados, s\u00f3 exprime todas as<br \/>\nexpress\u00f5es j\u00e1 exprimidas: &#8211; ou ent\u00e3o, para se destacar<br \/>\nna pardacenta e chata Rotina e trepar ao fr\u00e1gil andaime da glor\u00edola,<br \/>\ninventa num gemente esfor\u00e7o, inchando o cr\u00e2nio, uma novidade<br \/>\ndisforme que espante e que detenha a multid\u00e3o como um monstrengo numa<br \/>\nfeira. Todos, intelectualmente, s\u00e3o carneiros, trilhando o mesmo trilho,<br \/>\nbalando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em<br \/>\nfila, as pegadas pisadas; &#8211; e alguns s\u00e3o macacos, saltando no topo<br \/>\nde mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade,<br \/>\nnesta cria\u00e7\u00e3o t\u00e3o antinatural onde o solo \u00e9 de<br \/>\npau e feltro e alcatr\u00e3o, e o carv\u00e3o tapa o c\u00e9u, e a gente<br \/>\nvive acamada nos pr\u00e9dios como o paninho nas lojas, e a claridade vem<br \/>\npelos canos, e as mentiras se murmuram atrav\u00e9s de arames &#8211; o homem<br \/>\naparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem for\u00e7a, sem liberdade,<br \/>\nsem riso, sem sentimento, e trazendo em si um esp\u00edrito que \u00e9<br \/>\npassivo como um escravo ou impudente como um Histri\u00e3o&#8230; E aqui tem<br \/>\no belo Jacinto o que \u00e9 a bela Cidade!<\/p>\n<p>E ante estas encanecidas e vener\u00e1veis invectivas, retumbadas pontualmente<br \/>\np\u00f4r todos os Moralistas buc\u00f3licos, desde Hes\u00edodo, atrav\u00e9s<br \/>\ndos s\u00e9culos &#8211; o meu Pr\u00edncipe vergou a nuca d\u00f3cil, como<br \/>\nse elas brotassem, inesperadas e frescas, duma Revela\u00e7\u00e3o superior,<br \/>\nnaqueles cimos de Montmartre:<\/p>\n<p>-Sim, com efeito, a Cidade&#8230; \u00c9 talvez uma ilus\u00e3o perversa!<\/p>\n<p>Insisti logo, com abund\u00e2ncia, puxando os punhos, saboreando o meu f\u00e1cil<br \/>\nfilosofar. E se ao menos essa ilus\u00e3o da Cidade tornasse feliz a totalidade<br \/>\ndos seres que a mant\u00e9m&#8230; Mas n\u00e3o ! S\u00f3 uma estreita e<br \/>\nreluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a<br \/>\nescura, imensa plebe, s\u00f3 nela sofre, e com sofrimentos especiais que<br \/>\ns\u00f3 nela existem! Deste terra\u00e7o, junto a esta rica Bas\u00edlica<br \/>\nconsagrada ao Cora\u00e7\u00e3o que amou o Pobre e p\u00f4r ele sangrou,<br \/>\nbem avistamos n\u00f3s o l\u00f4brego casario onde a plebe se curva sob<br \/>\nesse antigo opr\u00f3brio de que nem Religi\u00f5es, nem Filosofias, nem<br \/>\nMorais, nem a sua pr\u00f3pria for\u00e7a brutal a poder\u00e3o jamais<br \/>\nlibertar! A\u00ed jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda<br \/>\na cidade. Os s\u00e9culos rolam; e sempre imut\u00e1veis farrapos lhe<br \/>\ncobrem o corpo, e sempre debaixo deles, atrav\u00e9s do longo dia, os homens<br \/>\nlabutar\u00e3o e as mulheres chorar\u00e3o. E com este labor e este pranto<br \/>\ndos pobres, meu Pr\u00edncipe, se edifica a abund\u00e2ncia da Cidade!<br \/>\nEi-la agora coberta de moradas em que eles se n\u00e3o abrigam; armazenada<br \/>\nde estofos, com que eles se n\u00e3o agasalham; abarrotada de alimentos,<br \/>\ncom que eles se n\u00e3o saciam! Para eles s\u00f3 a neve, quando a neve<br \/>\ncai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos bancos das pra\u00e7as<br \/>\nou sob os arcos das pontes de Paris&#8230; A neve cai, muda e branca na treva;<br \/>\nas criancinhas gelam nos seus trapos; e a pol\u00edcia, em torno, ronda<br \/>\natenta para que n\u00e3o seja perturbado o t\u00e9pido sono daqueles que<br \/>\namam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com peli\u00e7as<br \/>\nde tr\u00eas mil francos. Mas qu\u00ea, meu Jacinto! a tua Civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nreclama insaciavelmente regalos e pompas, que s\u00f3 obter\u00e1, nesta<br \/>\namarga desarmonia social, se o Capital der Trabalho, p\u00f4r cada arquejante<br \/>\nesfor\u00e7o, uma migalha ratinhada. Irremedi\u00e1vel, \u00e9, pois,<br \/>\nque incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada mis\u00e9ria<br \/>\n\u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas<br \/>\ntigelas fumegasse a justa ra\u00e7\u00e3o de caldo &#8211; n\u00e3o poderia<br \/>\naparecer nas baixelas de prata a luxuosa por\u00e7\u00e3o de foie-gras<br \/>\ne t\u00fabaras que s\u00e3o o orgulho da Civiliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1<br \/>\nandrajos em trapeiras &#8211; para que as belas Madamas de Oriol, resplandecentes<br \/>\nde sedas e rendas, subam em doce ondula\u00e7\u00e3o, a escadaria da \u00d3pera.<br \/>\nH\u00e1 m\u00e3os regeladas que se estendem e bei\u00e7os sumidos que<br \/>\nagradecem o dom magn\u00e2nimo dum sou &#8211; para que os Efrains tenham dez milh\u00f5es<br \/>\nno Banco de Fran\u00e7a, se aque\u00e7am \u00e0 chama rica da lenha<br \/>\narom\u00e1tica, e surtam de colares de safiras as suas concubinas, netas<br \/>\ndos duques de Atenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos<br \/>\n&#8211; para que os Jacintos, em Janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe,<br \/>\nmorangos gelados em Champanhe e avivados dum fio de \u00e9ter!<\/p>\n<p>-E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miser\u00e1veis, tu e eu!<\/p>\n<p>Ele murmurou, desolado:<\/p>\n<p>-\u00c9 horr\u00edvel, comemos desses morangos&#8230; E talvez p\u00f4r<br \/>\numa ilus\u00e3o!<\/p>\n<p>Pensativamente deixou a borda do terra\u00e7o, como se a presen\u00e7a<br \/>\nda Cidade, estendida na plan\u00edcie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar,<br \/>\nsob a moleza cinzenta da tarde, filosofando &#8211; considerando que para esta iniq\u00fcidade<br \/>\nn\u00e3o havia cura humana, trazida pelo esfor\u00e7o humano. Ah, os Efrains,<br \/>\nos Tr\u00e8ves, os vorazes e sombrios tubar\u00f5es do mar humano, s\u00f3<br \/>\nabandonar\u00e3o ou afrouxar\u00e3o a explora\u00e7\u00e3o das Plebes,<br \/>\nse uma influ\u00eancia celeste, p\u00f4r milagre novo, mais alto que os<br \/>\nmilagres velhos, lhes converter as almas! O burgu\u00eas triunfa, muito forte,<br \/>\ntodo endurecido no pecado &#8211; e contra ele s\u00e3o impotentes os prantos<br \/>\ndos Humanit\u00e1rios, os racioc\u00ednios dos L\u00f3gicos, as bombas<br \/>\ndos Anarquistas. Para amolecer t\u00e3o duro granito s\u00f3 uma do\u00e7ura<br \/>\ndivina. Eis pois esperan\u00e7a da terra novamente posta num Messias!&#8230;<br \/>\nUm decerto desceu outrora dos grandes C\u00e9us; e, para mostrar bem que<br \/>\nmandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela porta dum curral. Mas a<br \/>\nsua passagem entre os homens foi t\u00e3o curta! Um meigo serm\u00e3o<br \/>\nnuma montanha, ao fim duma tarde meiga; uma repreens\u00e3o moderada aos<br \/>\nFariseus que ent\u00e3o redigiam o Boulevard; algumas vergastadas nos Efrains<br \/>\nvendilh\u00f5es; e logo, atrav\u00e9s da porta da morte, a fuga radiosa<br \/>\npara o Para\u00edso! Esse ador\u00e1vel filho de Deus teve demasiada pressa<br \/>\nem recolher a casa de seu Pai! E os homens a quem ele incumbira a continua\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua obra, envolvidos logo pelas influ\u00eancias dos Efrains, dos Tr\u00e8ves,<br \/>\nda gente do Boulevard, bem depressa esqueceram a li\u00e7\u00e3o da Montanha<br \/>\ne do lago de Tiber\u00edade &#8211; e eis que p\u00f4r seu turno revestem a p\u00farpura,<br \/>\ne s\u00e3o Bispos, e s\u00e3o Papas, e se aliam \u00e0 opress\u00e3o,<br \/>\ne reinam com ela, e edificam a dura\u00e7\u00e3o do seu Reino sobre a<br \/>\nmis\u00e9ria dos sem-p\u00e3o e dos sem lar! Assim tem de ser recome\u00e7ada<br \/>\na obra da Reden\u00e7\u00e3o. Jesus, ou Guatama, ou Cristna, ou outro<br \/>\ndesses filhos que Deus p\u00f4r vezes escolhe no seio duma Virgem, nos quietos<br \/>\nverg\u00e9is da \u00c1sia, dever\u00e1 novamente descer \u00e0 terra<br \/>\nde servid\u00e3o. Vir\u00e1 ele, o desejado? Porventura j\u00e1 algum<br \/>\ngrave rei do Oriente despertou, e olhou a estrela, e tomou a mirra nas suas<br \/>\nm\u00e3os reais, e montou pensativamente sobre o seu dromed\u00e1rio?<br \/>\nJ\u00e1 p\u00f4r esses arredores da dura Cidade, de noite, enquanto Caif\u00e1s<br \/>\ne Madalena ceiam lagosta no Paillard, andou um Anjo, atento, num v\u00f4o<br \/>\nlento, escolhendo um curral? J\u00e1 de longe, sem mo\u00e7o que os tanja,<br \/>\nna gostosa pressa dum divino encontro, vem trotando a vaca, trotando o burrinho?<\/p>\n<p>-Tu sabes, Jacinto?<\/p>\n<p>N\u00e3o, Jacinto n\u00e3o sabia &#8211; e queria acender o charuto. Forneci<br \/>\num f\u00f3sforo ao meu Pr\u00edncipe. Ainda rondamos no terra\u00e7o,<br \/>\nespalhando pelo ar outras id\u00e9ias s\u00f3lidas que no ar se desfaziam.<br \/>\nDepois penetr\u00e1vamos na Bas\u00edlica &#8211; quando um Sacrist\u00e3o<br \/>\nn\u00e9dio, de barrete de veludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre<br \/>\npassou, enterrando na algibeira, com um cansado gesto final e como para sempre,<br \/>\no seu velho Brevi\u00e1rio.<\/p>\n<p>-Estou com uma sede, Jacinto&#8230; Foi esta tremenda Filosofia!<\/p>\n<p>Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada<br \/>\ncomprou uma imagem da Bas\u00edlica. E salt\u00e1vamos para a vit\u00f3ria,<br \/>\nquando algu\u00e9m gritou rijamente, numa surpresa:<\/p>\n<p>-Eh Jacinto!<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe abriu os bra\u00e7os, tamb\u00e9m espantado:<\/p>\n<p>-Eh Maur\u00edcio!<\/p>\n<p>E, num alvoro\u00e7o, atravessou a rua, para um caf\u00e9, onde, sob<br \/>\no toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absinto,<br \/>\ncom o chap\u00e9u de palha desca\u00eddo na nuca, a quinzena solta sobre<br \/>\na camisa de seda, sem gravata, como se descansasse num banco, entre as sombras<br \/>\ndo seu jardim.<\/p>\n<p>E ambos, apertando as m\u00e3os, se admiravam daquele encontro, num Domingo<br \/>\nde Ver\u00e3o, sobre as alturas de Montmartre.<\/p>\n<p>-\u00d3! eu estou aqui no meu bairro! &#8211; exclamava alegremente Maur\u00edcio.<br \/>\nEm fam\u00ed\u00e7ia, em chinelos&#8230; H\u00e1 tr\u00eas meses que subi<br \/>\npara estes cimos da Verdade&#8230; Mas tu na Santa Colina, homem profano da plan\u00edcie<br \/>\ne das ruas de Israel!<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe mostrou o seu Z\u00e9 Fernandes:<\/p>\n<p>-Com este amigo, em peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 Bas\u00edlica&#8230;<br \/>\nO meu amigo Fernandes Lorena&#8230; Maur\u00edcio de Mayolle, velho camarada.<\/p>\n<p>Mr. De Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava<br \/>\nFrancisco de Valois, Rei de Fran\u00e7a) ergueu o seu chap\u00e9u de palha.<br \/>\nE empurrava uma cadeira, insistia que nos acomod\u00e1ssemos para um absinto<br \/>\nou para um bock.<\/p>\n<p>-Toma um bock, Z\u00e9 Fernandes! &#8211; lembrou Jacinto. &#8211; Tu estavas a ganir<br \/>\ncom sede!<\/p>\n<p>Corri lentamente a l\u00edngua sobre os bei\u00e7os mais secos que pergaminhos:<\/p>\n<p>Estou a guardar esta sedezinha para logo, para jantar, com um vinhozinho<br \/>\ngelado!<\/p>\n<p>Maur\u00edcio saudou, com silenciosa admira\u00e7\u00e3o, esta minha<br \/>\navisada mal\u00edcia. E imediatamente, para o meu Pr\u00edncipe:<\/p>\n<p>-H\u00e1 tr\u00eas anos que n\u00e3o te vejo, Jacinto&#8230; Como tem sido<br \/>\nposs\u00edvel, neste Paris que \u00e9 uma aldeola e que tu atravancas?<\/p>\n<p>-A vida, Maur\u00edcio, a espalhada vida&#8230; Com efeito! H\u00e1 tr\u00eas<br \/>\nanos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santu\u00e1rio?<\/p>\n<p>Maur\u00edcio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:<\/p>\n<p>-\u00d3! H\u00e1 mais dum ano que me separei dessa bicharia her\u00e9tica&#8230;<br \/>\nUma turba indisciplinada, meu Jacinto! Nenhuma fixidez, um diletantismo estonteado,<br \/>\ncar\u00eancia completa e c\u00f4mica de toda a base experimental&#8230; Quando<br \/>\ntu ias aos Lamotte-Orcel, e \u00e0 Parola do 37, e \u00e0 Cerveja ideal,<br \/>\no que reinava?&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto catou lentamente as suas recorda\u00e7\u00f5es p\u00f4r entre<br \/>\nos p\u00ealos do bigode:<\/p>\n<p>-Eu sei!&#8230; Reinava Wagner e a Mitologia Eddica, e o Raganarock, e as Normas&#8230;<br \/>\nMuito Pr\u00e9-Rafaelismo tamb\u00e9m, e Montagna, e Fra-Ang\u00e9lico&#8230;<br \/>\nEm moral, o Renanismo.<\/p>\n<p>Maur\u00edcio sacudia os ombros. \u00d3, tudo isso pertencia a um passado<br \/>\narcaico, quase lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobiliara a sala<br \/>\ncom veludos Morris, grossas alcachofras sobre tons de A\u00e7afr\u00e3o,<br \/>\nj\u00e1 o Renanismo passara, t\u00e3o esquecido como o Cartesianismo&#8230;<\/p>\n<p>-Tu ainda \u00e9s do tempo do culto do Eu?<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe suspirou risonhamente:<\/p>\n<p>-Ainda o cultivei.<\/p>\n<p>-Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o Nietzismo,<br \/>\no Feudalismo espiritual&#8230; Depois grassou o Tolsto\u00edsmo, um furor imenso<br \/>\nde renunciamento neocenob\u00edtico. Ainda me lembro dum jantar em que apareceu<br \/>\num mostrengo dum eslavo, de guedelha s\u00f3rdida, que atirava olhos medonhos<br \/>\npara o decote da pobre condessa de Arche, e que grunhia com o dedo espetado:<br \/>\n&#8211; \u201cBusquemos a luz, muito p\u00f4r baixo, no p\u00f3 da terra!\u201d<br \/>\n&#8211; e \u00e0 sobremesa bebemos \u00e0 del\u00edcia da humildade e do trabalho<br \/>\nservil, com aquele Champanhe Marceaux granitado que a Matilde dava nos grandes<br \/>\ndias em copos da forma do S\u00e3-Graal! Depois veio Emersonismo&#8230; Mas<br \/>\na praga cruel foi o Ibsenismo! Enfim, meu filho, uma Babel de \u00c9ticas<br \/>\ne Est\u00e9ticas. Paris parecia demente. J\u00e1 havia uns desgarrados<br \/>\nque tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, coitadas, iam descambando<br \/>\npara o Falismo, uma moxinifada m\u00edstico-brejeira, pregada p\u00f4r<br \/>\naquele pobre La Carte que depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto&#8230;<br \/>\nUm horror! E uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com \u00e2nsia<br \/>\npara o Ruskinismo!<\/p>\n<p>Eu, agarrado \u00e0 bengala, bem no ch\u00e3o, sentia como um vendaval<br \/>\nque redemoinhava, me torcia o cr\u00e2nio! E at\u00e9 Jacinto balbuciou,<br \/>\nesgazeado:<\/p>\n<p>-O Ruskinismo?<\/p>\n<p>-Sim, o velho Ruskin&#8230; John Ruskin!<\/p>\n<p>O meu ditoso Pr\u00edncipe compreendeu:<\/p>\n<p>-Ah, Ruskin!&#8230; As sete l\u00e2mpadas da Arquitetura, A Coroa de Oliveira<br \/>\nBrava&#8230; \u00c9 o culto da Beleza!<\/p>\n<p>-Sim! O culto da Beleza &#8211; confirmou Maur\u00edcio. Mas a esse tempo eu,<br \/>\nenjoado, j\u00e1 descera de todas nuvens v\u00e3s&#8230; Pisava um ch\u00e3o<br \/>\nmais seguro, mais f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>Deu um sorvo lento ao absinto, cerrando as p\u00e1lpebras. Jacinto esperava,<br \/>\ncom o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flor de Novidade que ia<br \/>\ndesabrochar:<\/p>\n<p>-E ent\u00e3o? ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>Mas o outro murmurou, dispersamente, p\u00f4r entre retic\u00eancias em<br \/>\nque se velava:<\/p>\n<p>-Vim para Montmartre&#8230; Tenho aqui um amigo, um homem de g\u00eanio, que<br \/>\npercorreu toda a \u00cdndia&#8230; Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros<br \/>\nde Grama-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gengen-Chutu no retiro santo<br \/>\nde Urga&#8230; Gengen-Chuty foi a d\u00e9cima Sexta encarna\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Guatama, e era portanto um Boddi-sattva&#8230; Trabalhamos, procuramos&#8230; N\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o vis\u00f5es. Mas fatos, experi\u00eancias bem antigas, que v\u00eam<br \/>\ntalvez desde os tempos de Cristna&#8230;<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s destes nomes, que exalavam um perfume triste de vetustos ritos,<br \/>\narredara a cadeira. E de p\u00e9, deixando cair sobre a mesa, distraidamente,<br \/>\npara pagar o absinto, moedas de prata e moedas de cobre, murmurava com os<br \/>\nolhos descansados em Jacinto, mas perdidos noutra vis\u00e3o:<\/p>\n<p>-P\u00f4r fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro<br \/>\nda suprema pureza da Vida. \u00c9 toda a ci\u00eancia e for\u00e7a dos<br \/>\ngrandes mestres Hindus&#8230; Mas a pureza absoluta da vida, eis a luta, eis o<br \/>\nobst\u00e1culo! N\u00e3o basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho<br \/>\ntemplo no alto Tibete&#8230; Ainda assim, meu Jacinto, j\u00e1 obtivemos resultados<br \/>\nbem estranhos. Sabes as experi\u00eancias de Tyndall, com as chamas sensitivas&#8230;<br \/>\nO pobre qu\u00edmico, para demonstrar as vibra\u00e7\u00f5es do som,<br \/>\ntocou quase \u00e0s portas da verdade esot\u00e9rica. Mas qu\u00ea! homem<br \/>\nde ci\u00eancia, portanto homem de estupidez, ficou aqu\u00e9m, entre as<br \/>\nsuas placas e suas retortas! N\u00f3s fomos al\u00e9m. Verificamos as<br \/>\nondula\u00e7\u00f5es da Vontade! Diante de n\u00f3s, pela expans\u00e3o<br \/>\nda energia do meu companheiro, e em cad\u00eancia com o seu mandado, uma<br \/>\nchama, a tr\u00eas metros, ondulou, rastejou, despediu l\u00ednguas ardentes,<br \/>\nlambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e silenciosa,<br \/>\ne bruscamente abatida em cinza morreu!<\/p>\n<p>E o estranho homem, com o chap\u00e9u para a nuca, ficou im\u00f3vel,<br \/>\nde bra\u00e7os abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro<br \/>\ne no transe daquele prod\u00edgio. Depois, recaindo no seu modo f\u00e1cil<br \/>\ne sereno, acendendo devagar um cigarro:<\/p>\n<p>-Uma destas manh\u00e3s, Jacinto , apare\u00e7o no 202, para almo\u00e7ar<br \/>\ncontigo, e levo o meu amigo. Ele s\u00f3 come arroz, um pouco de salada,<br \/>\ne fruta. E conversamos&#8230; Tu tinhas um exemplar do Sepber-Zerijab e outro<br \/>\ndo Targun d\u2019Onkelus. Preciso folhear esses livros.<\/p>\n<p>Apertou a m\u00e3o do meu Pr\u00edncipe, saudou este assombrado Z\u00e9<br \/>\nFernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o chap\u00e9u de palha<br \/>\npara a nuca, as m\u00e3os enterradas nas algibeiras, como um homem natural<br \/>\nentre coisas naturais.<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto! Quem \u00e9 este bruxo? Conta!&#8230; Quem \u00e9 ele,<br \/>\nsant\u00edssimo nome de Deus?<\/p>\n<p>Recostado na vit\u00f3ria, ajeitando o vinco das cal\u00e7as, o meu Pr\u00edncipe<br \/>\ncontou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito inteligente,<br \/>\nda antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques de Septimania&#8230;<br \/>\nE murmurou, atrav\u00e9s do costumado bocejo:<\/p>\n<p>-\u00d3 desenvolvimento supremo da vontade!&#8230; Teosofia, Budismo esot\u00e9rico&#8230;<br \/>\nAspira\u00e7\u00f5es, decep\u00e7\u00f5es&#8230; J\u00e1 experimentei&#8230;<br \/>\nUma ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>Atravessamos, calados, o rumor de Paris, sob a moleza abafada do crep\u00fasculo<br \/>\nde Ver\u00e3o, para jantar no Bosque, no Pavilh\u00e3o de Armenoville,<br \/>\nonde os Tziganes, avistando Jacinto, tocaram o Hino da Carta com paix\u00e3o,<br \/>\ncom langor, numa cad\u00eancia de czarda dolorosa e \u00e1spera.<\/p>\n<p>E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:<\/p>\n<p>-Pois venha agora para a minha rica sede esse vinhozinho gelado! E creio<br \/>\nque estabeleci definitivamente no esp\u00edrito do Sr. D. Jacinto o salutar<br \/>\nhorror da Cidade!<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe percorria, catando o bigode, a Lista dos Vinhos, enquanto<br \/>\no Copeiro esperava com pensativa rever\u00eancia:<\/p>\n<p>-Mande gelar duas garrafas de champanhe St. Marceaux&#8230; Mas antes, um Barsac<br \/>\nvelho, apenas refrescada&#8230; \u00c1gua de Evian&#8230; N\u00e3o, de Bussang!<br \/>\nBem, de Evian e de Bussang! E, para come\u00e7ar, um bock.<\/p>\n<p>Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:<\/p>\n<p>-Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, com<br \/>\num miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descansar de tarde e dominar<br \/>\na Cidade&#8230;<\/p>\n<h3><a name=\"7\"><\/a>Cap\u00edtulo VII<\/h3>\n<p>Julho findara com uma chuva refrescante e consoladora: &#8211; e eu pensava em<br \/>\nrealizar finalmente a minha romagem \u00e0s cidades da Europa, sempre retardada,<br \/>\natrav\u00e9s da Primavera, pelas surpresas do Mundo e da Carne. Mas, de<br \/>\nrepente, Jacinto come\u00e7ou a rogar e a reclamar que o seu Z\u00e9 Fernandes<br \/>\no acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame de Oriol! E eu compreendi<br \/>\nque o meu Pr\u00edncipe (\u00e0 maneira do divino Aquiles, que, sob a<br \/>\ntenda, e junto da branca, ins\u00edpida e d\u00f3cil Briseida, nunca dispensava<br \/>\nP\u00e1troclo) desejava Ter, no retiro do Amor, a presen\u00e7a, o conforto<br \/>\ne o socorro da amizade. Pobre Jacinto! Logo pela manh\u00e3 combinava pelo<br \/>\ntelefone com Madame de Oriol essa hora de quieta\u00e7\u00e3o e do\u00e7ura.<br \/>\nE assim encontr\u00e1vamos sempre superfina Dama prevenida e solit\u00e1ria<br \/>\nnaquela sala da rua de Lisbonne, onde Jacinto e eu mal cab\u00edamos, sufoc\u00e1vamos<br \/>\nna confus\u00e3o, entre os cestos de flores, e os outros rocalhados, e os<br \/>\nmonstros do Jap\u00e3o, e a galante fragilidade dos Saxes, e as peles de<br \/>\nferas estiradas aos p\u00e9s de sof\u00e1s adormecedores, e os biombos<br \/>\nde Aubusson formando alcovas favor\u00e1veis e l\u00e2nguidas&#8230; Aninhada<br \/>\nnuma cadeira de bambu lacada de branco, entre almofadas aromatizadas de verbena<br \/>\nda \u00cdndia, com um romance pousado no rega\u00e7o, ela esperava o seu<br \/>\namigo numa certa indol\u00eancia passiva e mansa que me lembrava sempre o<br \/>\nOriente e um Har\u00e9m. Mas, pelas frescas sedinhas Pompadour, parecia<br \/>\ntamb\u00e9m uma marquesinha de Versalhes cansada do grande s\u00e9culo;<br \/>\nou ent\u00e3o, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era como<br \/>\numa veneziana, preparada para um Doge. A minha intrus\u00e3o, na intimidade<br \/>\ndaquelas tardes, n\u00e3o a contrariava &#8211; antes lhe trazia um vassalo novo,<br \/>\ncom dois olhos novos para a contemplar. Eu era j\u00e1 o seu Cher Fernandez!<\/p>\n<p>E apenas descerrava os l\u00e1bios avivados de vermelho, semelhantes a<br \/>\numa ferida fresca, e come\u00e7ava a chalrar &#8211; logo nos envolvia o borborinho<br \/>\ne a murmura\u00e7\u00e3o de Paris. Ela s\u00f3 sabia chalrar sobre a<br \/>\nsua pessoa que era o resumo da sua Classe, e sobre a sua exist\u00eancia<br \/>\nque era o resumo do seu Paris: &#8211; e a sua exist\u00eancia, desde casada, consistira<br \/>\nem ornar com suprema ci\u00eancia o seu lindo corpo; entrar com perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nnuma sala e irradiar; remexer os estofos e conferenciar pensativamente com<br \/>\no grande costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vit\u00f3ria como uma<br \/>\nimagem de cera; decotar e branquear o colo; debicar uma perna de galinhola<br \/>\nem mesas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a<br \/>\nvaidade esfalfada; percorrer de manh\u00e3, tomando chocolate, os \u201cEcos\u201d<br \/>\ne as \u201cFestas\u201d do F\u00edgaro; e de vez em quando murmurar para<br \/>\no marido &#8211; \u201cAh, \u00e9s tu?&#8230;\u201d Al\u00e9m disso, ao lusco-fusco,<br \/>\nnum sof\u00e1, alguns curtos suspiros, entre os bra\u00e7os de algu\u00e9m<br \/>\na quem era constante. Ao meu Pr\u00edncipe, nesse ano, pertencia o sof\u00e1.<br \/>\nE todos estes deveres de Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorria,<br \/>\ndesde casada, que j\u00e1 duas pregas lhe vincavam os cantos dos bei\u00e7os,<br \/>\nindelevelmente. Mas nem na alma, nem na pele, mostrava outras m\u00e1culas<br \/>\nde fadiga. A sua Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos no<br \/>\nNobili\u00e1rio. Atrav\u00e9s, por\u00e9m, desta fulgurante sociabilidade<br \/>\narranjara no c\u00e9rebro (onde decerto penetrara o p\u00f3 de arroz que<br \/>\ndesde o col\u00e9gio acamava na testa) algumas Id\u00e9ias Gerais. Em<br \/>\nPol\u00edtica era pelos Pr\u00edncipes; e todos os outros \u201chorrores\u201d,<br \/>\na Rep\u00fablica, o Socialismo, a Democracia que se n\u00e3o lava, os<br \/>\nsacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa juntava \u00e0s<br \/>\nrendas do chap\u00e9u a Coroa amarga dos espinhos &#8211; p\u00f4r serem esses,<br \/>\npara gente bem-nascida, dias de penit\u00eancia e de dor. E, diante de todo<br \/>\no Livro ou de todo o Quadro, sentia a emo\u00e7\u00e3o e formulava finamente<br \/>\no ju\u00edzo, que no seu Mundo, e nessa Semana, fosse elegante formular<br \/>\ne sentir. Tinha trinta anos. Nunca se embara\u00e7ara nos tormentos duma<br \/>\npaix\u00e3o. Marcava, com r\u00edgida regularidade, todas as suas despesas<br \/>\nnum Livro de Contas encadernado em pel\u00facia verde-mar. A sua religi\u00e3o<br \/>\n\u00edntima (e mais genu\u00edna do que a outra, que a levava todos os<br \/>\ndomingos \u00e0 missa de S. Felipe du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo<br \/>\nque na am\u00e1vel cidade come\u00e7avam a morrer de frio, debaixo das<br \/>\npontes, criancinhas sem abrigo &#8211; ela preparava com comovido cuidado os seus<br \/>\nvestidos de patinagem. E preparava tamb\u00e9m os de Caridade &#8211; porque era<br \/>\nboa, e concorria para Bazares, Concertos e T\u00f4mbolas, quando fossem patrocinados<br \/>\npelas Duquesas do seu \u201crancho\u201d. Depois, na Primavera, muito metodicamente,<br \/>\nregateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de Inverno. Paris admirava<br \/>\nnela uma suprema flor de Parisianismo.<\/p>\n<p>Pois respirando esta macia e fina flor passamos n\u00f3s as tardes desse<br \/>\nJulho enquanto as outras flores pendiam e murchavam na calma e no p\u00f3.<br \/>\nMas, na intimidade do seu perfume, Jacinto n\u00e3o parecia encontrar esse<br \/>\ncontentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa. Era j\u00e1<br \/>\ncom a paciente lentid\u00e3o com que se sobem todos os Calv\u00e1rios,<br \/>\nos mais bem tapetados, que ele subia a escadaria de Madame de Oriol, t\u00e3o<br \/>\nsuave e orlada de t\u00e3o frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura,<br \/>\ncom dedica\u00e7\u00e3o, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade<br \/>\ncomo um pav\u00e3o desdobra a cauda, o meu pobre Pr\u00edncipe puxava<br \/>\nos p\u00ealos do bigode murcho, na murcha postura de quem, p\u00f4r uma<br \/>\nmanh\u00e3 de Maio, enquanto os melros cantam nas sebes, assiste, numa igreja<br \/>\nnegra, a um responso f\u00fanebre p\u00f4r um Pr\u00edncipe. E no beijo<br \/>\nque ele chuchurreava sobre a m\u00e3o da sua doce amiga, para despedir,<br \/>\nhavia sempre alacridade e al\u00edvio.<\/p>\n<p>Mas ao outro dia, ao come\u00e7ar da tarde, depois de errar atrav\u00e9s<br \/>\nda Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do tel\u00e9grafo,<br \/>\natirando algum recado mole pelo telefone, espalhando o olhar desalentado sobre<br \/>\no saber imenso dos trinta mil livros, remexendo a colina dos Jornais e Revistas,<br \/>\nterminava p\u00f4r me chamar, j\u00e1 com a pregui\u00e7a triste da fa\u00e7anha<br \/>\na que se impelia:<\/p>\n<p>-Vamos a casa de Madame de Oriol, Z\u00e9 Fernandes? Eu tinha marcadas<br \/>\npara hoje seis ou sete coisas, mas n\u00e3o posso, \u00e9 uma seca! Vamos<br \/>\na casa de Madame de Oriol&#8230; Ao menos l\u00e1, \u00e0s vezes, h\u00e1<br \/>\num bocado de frescura e paz.<\/p>\n<p>E foi uma dessas tardes, em que o meu Pr\u00edncipe assim procurava desesperadamente<br \/>\num \u201cbocado de frescura e paz\u201d, que encontramos, ao meio da escadaria<br \/>\nsuave, entre as palmeiras, o marido de Madame de Oriol. Eu j\u00e1 o conhecia<br \/>\n&#8211; porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand Caf\u00e9, ceando com dan\u00e7arinas<br \/>\ndo Moulin Rouge. Era um mo\u00e7o gordalhufo, indolente, de uma brancura<br \/>\ncrua de toucinho, com uma calv\u00edcie j\u00e1 s\u00e9ria e j\u00e1<br \/>\nlustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos carregados de<br \/>\nan\u00e9is. Nessa tarde, por\u00e9m, vinha vermelho, todo emocionado,<br \/>\ncal\u00e7ando as luvas com c\u00f3lera. Estacou diante de Jacinto &#8211; e<br \/>\nsem mesmo lhe apertar a m\u00e3o, atirando um gesto para o patamar:<\/p>\n<p>-Visita l\u00e1 acima? Vai achar a Joana em p\u00e9ssima disposi\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nTivemos uma cena, e tremenda.<\/p>\n<p>Deu outro pux\u00e3o desesperado \u00e0 luva cor de palha, j\u00e1<br \/>\nesga\u00e7ada:<\/p>\n<p>-Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, \u00e9 excelente! Mas<br \/>\nem tudo h\u00e1 medida e forma&#8230; Ela tem o meu nome, n\u00e3o posso consentir<br \/>\nque em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do trintan\u00e1rio.<br \/>\nAmantes da nossa roda, v\u00e1! Um lacaio, n\u00e3o!&#8230; Se quer dormir<br \/>\ncom os criados que emigre para o fundo da prov\u00edncia, para a sua casa<br \/>\nde Corbelle. E l\u00e1 at\u00e9 com os animais!&#8230; Foi o que lhe disse!<br \/>\nFicou como uma fera.<\/p>\n<p>Sacudiu ent\u00e3o a m\u00e3o de Jacinto que \u201cera da sua roda\u201d<br \/>\n&#8211; rebolou pela escadaria florida e nobre. O meu Pr\u00edncipe, im\u00f3vel<br \/>\nnos degraus, de face pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode.<br \/>\nDepois, olhando para mim, como um ser saturado de t\u00e9dio e em quem nenhum<br \/>\nt\u00e9dio novo pode caber:<\/p>\n<p>-J\u00e1 agora subamos, sim?<\/p>\n<p>Parti ent\u00e3o, com muita alegria, para a minha apetecida romagem \u00e0s<br \/>\nCidades da Europa.<\/p>\n<p>Ia viajar!&#8230; Viajei. Trinta e quatro vezes, \u00e0 pressa, bufando, com<br \/>\ntodo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num<br \/>\nvag\u00e3o, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer<br \/>\nde suor, saltando em cada esta\u00e7\u00e3o para sorver desesperadamente<br \/>\nlimonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Catorze vezes subi derreadamente,<br \/>\natr\u00e1s dum criado, a escadaria desconhecida dum Hotel,; e espalhei o<br \/>\nolhar incerto p\u00f4r um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida,<br \/>\nde onde me erguia, estremunhado, para pedir em l\u00ednguas desconhecidas<br \/>\num caf\u00e9 com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava<br \/>\na lodo. Oito vezes travei bulhas abomin\u00e1veis na rua com cocheiros que<br \/>\nme espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze len\u00e7os, tr\u00eas ceroulas,<br \/>\ne duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p\u00e9 direito. Em<br \/>\nmais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-\u00e0-la-mode,<br \/>\nj\u00e1 frio, com molho coalhado &#8211; e que o copeiro me trouxesse a garrafa<br \/>\nde Bord\u00e9us que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri,<br \/>\nna fresca penumbra dos granitos e dos m\u00e1rmores, com p\u00e9 respeitoso<br \/>\ne abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na<br \/>\nnuca, em catorze museus, cento e quarenta salas revestidas at\u00e9 aos<br \/>\ntetos de Cristos, her\u00f3is, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquiteturas,<br \/>\nverduras, nudezes, sombrias manchas de betume, tristezas das formas im\u00f3veis!&#8230;<br \/>\nE o dia mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei<br \/>\num velho ingl\u00eas de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera<br \/>\no Ricardo, o Jos\u00e9 Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da<br \/>\nBoa vista&#8230; Gastei seis mil francos. Tinha viajado.<\/p>\n<p>Enfim, numa bendita manh\u00e3 de Outubro, na primeira friagem e n\u00e9voa<br \/>\nde Outono, avistei com enternecido alvoro\u00e7o as cortinas de seda ainda<br \/>\nfechadas no meu 202! Afaguei o ombro do Porteiro. No patamar, onde encontrei<br \/>\no ar macio e t\u00e9pido que deixara em Floren\u00e7a, apertei os ossos<br \/>\ndo Grilo excelente:<\/p>\n<p>-E Jacinto?<\/p>\n<p>O digno negro murmurou, de entre os altos, reluzentes colarinhos:<\/p>\n<p>-S. Ex\u00aa. circula&#8230; Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da Duquesa<br \/>\nde Loches. Era o contrato de casamento de Mademoiselle de Loches&#8230; Ainda<br \/>\ntomou antes de se deitar um ch\u00e1 gelado&#8230; E disse a co\u00e7ar a<br \/>\ncabe\u00e7a: \u201cEh! Que ma\u00e7ada! Eh! Que ma\u00e7ada!\u201d<\/p>\n<p>Depois do banho e do chocolate, \u00e0s dez horas, consolado e quentinho<br \/>\ndentro do roup\u00e3o de veludo, rompi pelo quarto do meu Pr\u00edncipe,<br \/>\nde bra\u00e7os abertos e sedentos:<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto!<\/p>\n<p>-\u00d3 viajante!&#8230;<\/p>\n<p>Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a face<br \/>\n&#8211; e nela a alma. Encolhido numa quinzena de pano cor de malva orlada de peles<br \/>\nde marta, com os p\u00ealos do bigode murchos, as suas duas rugas mais cavadas,<br \/>\numa moleza nos ombros largos, o meu amigo parecia j\u00e1 vergado sob o<br \/>\npeso e a opress\u00e3o e o terror do seu dia. Eu sorri, para que ele sorrisse:<\/p>\n<p>-Valente Jacinto&#8230; Ent\u00e3o como tens vivido?<\/p>\n<p>Ele respondeu, muito serenamente:<\/p>\n<p>-Como um morto.<\/p>\n<p>Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:<\/p>\n<p>-Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fosse leve:<\/p>\n<p>-Aborrecidote, hem?<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe lan\u00e7ou, num gesto t\u00e3o vencido, um \u00f3<br \/>\nt\u00e3o cansado &#8211; que eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como<br \/>\npara lhe comunicar uma parte desta alegria s\u00f3lida e pura que recebi<br \/>\ndo meu Deus!<\/p>\n<p>Desde essa manh\u00e3, Jacinto come\u00e7ou a mostrar claramente, escancaradamente,<br \/>\nao seu Z\u00e9 Fernandes, o t\u00e9dio de que a exist\u00eancia o saturava.<br \/>\nO seu cuidado realmente e o seu esfor\u00e7o consistiram ent\u00e3o em<br \/>\nsondar e formular esse t\u00e9dio &#8211; na esperan\u00e7a de o vencer logo<br \/>\nque lhe conhecesse bem a origem e a pot\u00eancia. E o meu pobre Jacinto<br \/>\nreproduziu a com\u00e9dia pouco divertida dum Melanc\u00f3lico que perpetuamente<br \/>\nraciocina a sua Melancolia! Nesse racioc\u00ednio, ele partia sempre do<br \/>\nfato irrecus\u00e1vel e maci\u00e7o &#8211; que a sua vida especial de Jacinto<br \/>\ncontinha todos os interesses e todas as facilidades, poss\u00edveis no s\u00e9culo<br \/>\nXIX, numa vida de homem que n\u00e3o \u00e9 um G\u00eanio, nem um Santo.<br \/>\nCom efeito! Apesar do apetite embotado p\u00f4r doze anos de Champanhes e<br \/>\nmolhos ricos ele conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua<br \/>\nintelig\u00eancia n\u00e3o aparecera nem tremor nem morr\u00e3o; a boa<br \/>\nterra de Portugal, e algumas Companhias maci\u00e7as, pontualmente lhe forneciam<br \/>\na sua doce centena de contos; sempre ativas e sempre fi\u00e9is o cercavam<br \/>\nas simpatias duma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de confortos;<br \/>\nnenhuma amargura de cora\u00e7\u00e3o o atormentava; &#8211; e todavia era um<br \/>\nTriste. P\u00f4r que?&#8230; E daqui saltava, com certeza fulgurante, \u00e0<br \/>\nconclus\u00e3o de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma<br \/>\nandava amortalhada, n\u00e3o provinha da sua individualidade de Jacinto<br \/>\n&#8211; mas da Vida, do lament\u00e1vel, do desastroso fato de Viver! E assim<br \/>\no saud\u00e1vel, intelectual, riqu\u00edssimo, bem acolhido Jacinto tombara<br \/>\nno Pessimismo.<\/p>\n<p>E um Pessimismo irritado! Porque (segundo afirmava) ele nascera para ser<br \/>\nt\u00e3o naturalmente otimista como um pardal ou um gato. E, at\u00e9<br \/>\naos doze anos, enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua pele<br \/>\nsempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira fadiga, ou<br \/>\nmelancolia, ou contrariedade, ou pena &#8211; e as l\u00e1grimas eram para ele<br \/>\nt\u00e3o incompreens\u00edveis que lhe pareciam viciosas. S\u00f3 quando<br \/>\ncrescera, e da animalidade penetrara na humanidade, despontara nele esse fermento<br \/>\nde tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades,<br \/>\ne que depois alastrara, o invadira todo, se lhe tornara consubstancial e como<br \/>\no sangue das suas veias. Sofrer portanto era insepar\u00e1vel de Viver.<br \/>\nSofrimentos diferentes nos destinos diferentes da Vida. Na turba dos humanos<br \/>\n\u00e9 a angustiada luta pelo p\u00e3o, pelo teto, pelo lume; numa casta,<br \/>\nagitada p\u00f4r necessidades mais altas, \u00e9 a amargura das desilus\u00f5es,<br \/>\no mal da imagina\u00e7\u00e3o insatisfeita, o orgulho chocando contra<br \/>\no obst\u00e1culo; nele, que tinha os bens todos e desejos nenhuns, era o<br \/>\nt\u00e9dio. Mis\u00e9ria do Corpo, tormento da Vontade, fastio da Intelig\u00eancia<br \/>\n&#8211; eis a Vida! E agora aos trinta e tr\u00eas anos a sua ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nera bocejar, correr com os dedos desalentados a face pendida para nela palpar<br \/>\ne apetecer a caveira.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o meu Pr\u00edncipe come\u00e7ou a ler apaixonadamente,<br \/>\ndesde o Eclesiastes at\u00e9 Schopenhauer, todos os l\u00edricos e todos<br \/>\nos te\u00f3ricos do Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante<br \/>\ncomprova\u00e7\u00e3o de que o seu mal n\u00e3o era mesquinhamente \u201cJac\u00edntico\u201d<br \/>\n&#8211; mas grandiosamente resultante duma Lei Universal. J\u00e1 h\u00e1 quatro<br \/>\nmil anos, na remota Jerusal\u00e9m, a Vida, mesmo nas del\u00edcias mais<br \/>\ntriunfais, se resumia em Ilus\u00e3o. J\u00e1 o Rei incompar\u00e1vel,<br \/>\nde sapi\u00eancia divina, sumo Vencedor, sumo Edificador, se enfastiava,<br \/>\nbocejava, entre os despojos das suas conquistas, e os m\u00e1rmores novos<br \/>\ndos seus Templos, e as suas tr\u00eas mil concubinas, e as Rainhas que subiam<br \/>\ndo fundo da Eti\u00f3pia para que ele as fecundasse e no seu ventre depusesse<br \/>\num Deus! N\u00e3o h\u00e1 nada novo sob o Sol, e a eterna repeti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos males. Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos<br \/>\ndo p\u00f3, em p\u00f3 se tornam. Tudo tende ao p\u00f3 ef\u00eamero,<br \/>\nem Jerusal\u00e9m e em Paris! E ele, obscuro no 202, padecia p\u00f4r ser<br \/>\nhomem e p\u00f4r viver &#8211; como no seu trono de ouro, entre os seus quatro<br \/>\nle\u00f5es de ouro, o filho magn\u00edfico de David.<\/p>\n<p>N\u00e3o se separava ent\u00e3o do Eclesiastes. E circulava p\u00f4r<br \/>\nParis trazendo dentro do cup\u00e9 Salom\u00e3o, como irm\u00e3o de<br \/>\ndor, com quem repetia o grito desolado que \u00e9 a suma da verdade humana<br \/>\n&#8211; Vanitas Vanitatum! Tudo \u00e9 Vaidade! Outras vezes, logo de manh\u00e3<br \/>\no encontrava estendido no sof\u00e1, num roup\u00e3o de seda, absorvendo<br \/>\nSchopenhauer &#8211; enquanto o pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com<br \/>\nrespeito e per\u00edcia as unhas dos p\u00e9s. Ao lado pousava a ch\u00e1vena<br \/>\nde Saxe, cheia desse caf\u00e9 de Moca enviado p\u00f4r emires do Deserto,<br \/>\nque n\u00e3o o contentava nunca, nem pela for\u00e7a, nem pelo aroma.<br \/>\nA espa\u00e7os pousava o livro no peito, resvalava um olhar compassivo para<br \/>\no pedicuro, como a procurar que dor o torturaria &#8211; pois que a todo o viver<br \/>\ncorresponde um sofrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em p\u00e9s<br \/>\nalheios&#8230; E quando o pedicuro se erguia, Jacinto abria para ele um sorriso<br \/>\nde confraternidade &#8211; com um \u201cadeus, meu amigo\u201d que era um \u201cadeus,<br \/>\nmeu irm\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>Esse foi o per\u00edodo espl\u00eandido e soberbamente divertido do seu<br \/>\nt\u00e9dio. Jacinto encontrara enfim na vida uma ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ngrata &#8211; mal dizer da Vida! E para que pudesse maldizer em todas as suas formas,<br \/>\nas mais ricas, as mais intelectuais, as mais puras, sobrecarregou a sua vida<br \/>\npr\u00f3pria de novo luxo, de interesses novos de esp\u00edrito, e at\u00e9<br \/>\nde fervores humanit\u00e1rios, e at\u00e9 de curiosidades supernaturais.<\/p>\n<p>O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnific\u00eancia. Foi ent\u00e3o que<br \/>\nele iniciou em Paris, repetindo Heliog\u00e1balo, os Festins de Cor contados<br \/>\nna HIST\u00d3RIA AUGUSTA: e ofereceu \u00e0s suas amigas esse sublime<br \/>\njantar cor-de-rosa, em que tudo era r\u00f3seo, as paredes, os m\u00f3veis,<br \/>\nas luzes, as lou\u00e7as, os cristais, os gelados, os Champanhes, e at\u00e9<br \/>\n(p\u00f4r uma inven\u00e7\u00e3o da Alta Cozinha) os peixes, e as carnes,<br \/>\ne os legumes, que os escudeiros serviam, empoados de p\u00f3 rosado, com<br \/>\nlibr\u00e9s da cor de rosa, enquanto do teto, dum vel\u00e1rio de seda<br \/>\nrosada, ca\u00edam p\u00e9talas frescas de rosas&#8230; A Cidade, deslumbrada,<br \/>\nclamou: &#8211; \u201cBravo, Jacinto!\u201d E o meu Pr\u00edncipe, ao rematar<br \/>\na festa fulgurante, plantou diante de mim as m\u00e3os nas ilhargas e gritou<br \/>\ntriunfalmente: &#8211; \u201cHem? Que ma\u00e7ada!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hosp\u00edcio no campo, entre jardins,<br \/>\npara velhinhos desamparados, outro para crian\u00e7as d\u00e9beis \u00e0<br \/>\nbeira do Mediterr\u00e2neo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu<br \/>\nde Mayolle penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experi\u00eancias para<br \/>\nverificar a misteriosa exterioriza\u00e7\u00e3o da motilidade. Depois,<br \/>\ndesesperadamente, ligou o 202 com os fios telegr\u00e1ficos do Times, para<br \/>\nque no seu gabinete, como num cora\u00e7\u00e3o, palpitasse toda a Vida<br \/>\nSocial da Europa.<\/p>\n<p>E a cada um destes esfor\u00e7os da eleg\u00e2ncia, do humanitarismo,<br \/>\nda sociabilidade, e da intelig\u00eancia indagadora, voltara para mim, de<br \/>\nbra\u00e7os alegres, com um grito vitorioso: &#8211; \u201cV\u00eas tu, Z\u00e9<br \/>\nFernandes? Uma ma\u00e7ada!\u201d &#8211; Arrebatava ent\u00e3o o seu Eclesiastes,<br \/>\no seu Schopenhauer, e, estendido no sof\u00e1, saboreava voluptuosamente<br \/>\na concord\u00e2ncia da Doutrina e da Experi\u00eancia. Possu\u00eda uma<br \/>\nF\u00e9 &#8211; o Pessimismo; era um ap\u00f3stolo rico e esfor\u00e7ado;<br \/>\ne tudo tentava, com suntuosidade, para provar a verdade da sua F\u00e9!<br \/>\nMuito gozou nesse ano o meu desgra\u00e7ado Pr\u00edncipe!<\/p>\n<p>No come\u00e7o do Inverno, por\u00e9m, notei com inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\nque Jacinto j\u00e1 n\u00e3o folheava o Eclesiastes, desleixava Schopenhauer.<br \/>\nNem festas, nem Teosofismos, nem os seus Hosp\u00edcios, nem os fios do<br \/>\nTimes, pareciam interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstra\u00e7\u00f5es<br \/>\ngloriosas da sua Cren\u00e7a. E a sua abomin\u00e1vel fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde novo se limitou a bocejar, a passar os dedos moles sobre a face pendida,<br \/>\npalpando a caveira. Incessantemente aludia \u00e0 morte como a uma liberta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUma tarde mesmo, no melanc\u00f3lico crep\u00fasculo da Biblioteca, antes<br \/>\nde refulgirem as luzes, consideravelmente me aterrou, falando num regelado<br \/>\nde mortes r\u00e1pidas, sem dor, pelo choque duma vasta pilha el\u00e9trica<br \/>\nou pela viol\u00eancia compassiva do \u00e1cido cian\u00eddrico. Diabo!<br \/>\nO Pessimismo, que aparecera na Intelig\u00eancia do meu Pr\u00edncipe como<br \/>\num conceito elegante &#8211; atacara bruscamente a Vontade!<\/p>\n<p>Todo o seu movimento ent\u00e3o foi o dum boi inconsciente que marcha sob<br \/>\na canga e o aguilh\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o esperava da Vida contentamento<br \/>\n&#8211; nem mesmo se lastimava que ela lhe trouxesse t\u00e9dio ou pena. \u201cTudo<br \/>\n\u00e9 indiferente, Z\u00e9 Fernandes!\u201d E t\u00e3o indiferentemente<br \/>\nsairia \u00e0 sua janela para receber uma Coroa Imperial oferecida p\u00f4r<br \/>\num Povo &#8211; como se estenderia numa poltrona rota para emudecer e jazer. Sendo<br \/>\ntudo in\u00fatil, e n\u00e3o conduzindo sen\u00e3o a maior desilus\u00e3o,<br \/>\nque podia importar a mais rutilante atividade ou a mais desgostada in\u00e9rcia?<br \/>\nO seu gesto constante, que me irritava, era encolher os ombros. Perante duas<br \/>\nid\u00e9ias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os ombros! Que importava?&#8230;<br \/>\nE no m\u00ednimo ato, raspar um f\u00f3sforo ou desdobrar um Jornal, punha<br \/>\numa morosidade t\u00e3o desconsolada que todo ele parecia ligado, desde<br \/>\nos dedos at\u00e9 \u00e0 alma, pelas voltas apertadas duma corda que se<br \/>\nn\u00e3o via e que o travava.<\/p>\n<p>Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus anos, a 10 de Janeiro.<br \/>\nCedo, de manh\u00e3, recebera, com uma carta de Madame de Tr\u00e8ves,<br \/>\num a\u00e7afate de cam\u00e9lias, azal\u00e9as, orqu\u00eddeas e l\u00edrios-do-vale.<br \/>\nE foi este mimo que lhe recordou a data consider\u00e1vel. Soprou sobre<br \/>\nas p\u00e9talas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento esc\u00e1rnio:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o h\u00e1 trinta e quatro anos eu ando nesta ma\u00e7ada?<\/p>\n<p>E como eu propunha que telefon\u00e1ssemos aos amigos para beberem no 202<br \/>\no Champanhe do \u201cNatal\u00edcio\u201d &#8211; ele recusou, com o nariz enojado.<\/p>\n<p>-\u00d3! N\u00e3o! Que horr\u00edvel seca!&#8230; &#8211; E bradou mesmo para<br \/>\no Grilo: &#8211; Eu hoje n\u00e3o estou em Paris para ningu\u00e9m. Abalei para<br \/>\no campo, abalei para Marselha&#8230; Morri!<\/p>\n<p>E a sua ironia n\u00e3o cessou at\u00e9 ao almo\u00e7o perante os bilhetes,<br \/>\nos telegramas, as cartas, que subiam, se arredondavam em colina sobre a mesa<br \/>\nde \u00e9bano, como um preito da Cidade. Outras flores que vieram, em vistosos<br \/>\ncestos, com vistosos la\u00e7os, foram p\u00f4r ele comparadas \u00e0s<br \/>\nque se dep\u00f5em sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo<br \/>\npresente de Efraim, uma engenhosa mesa, que se abaixava at\u00e9 ao tapete<br \/>\nou se alteava at\u00e9 ao teto &#8211; para qu\u00ea, senhor Deus meu?<\/p>\n<p>Depois do almo\u00e7o, como chovia sombriamente, n\u00e3o arredamos do<br \/>\n202, com os p\u00e9s estendidos ao lume, em pregui\u00e7oso sil\u00eancio.<br \/>\nEu terminara p\u00f4r adormecer beatificamente. Acordei aos passos a\u00e7odados<br \/>\ndo Grilo&#8230; Jacinto, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um<br \/>\npapel! E nunca eu me compadeci daquele amigo, que cansara a mocidade a acumular<br \/>\ntodas as no\u00e7\u00f5es formuladas desde Arist\u00f3teles e a juntar<br \/>\nos inventos realizados desde Ter\u00e2menes, como nessa tarde de festa, em<br \/>\nque ele, cercado de Civiliza\u00e7\u00e3o nas m\u00e1ximas propor\u00e7\u00f5es,<br \/>\npara gozar nas m\u00e1ximas propor\u00e7\u00f5es a del\u00edcia de<br \/>\nviver, se encontrava reduzido, junto ao seu lar, a recortar pap\u00e9is<br \/>\ncom uma tesoura!<\/p>\n<p>O Grilo trazia um presente do Gr\u00e3o-Duque &#8211; uma caixa de prata, forrada<br \/>\nde cedro, e cheia dum ch\u00e1 precioso, colhido, flor a flor, nas veigas<br \/>\nde Kiang-Sou p\u00f4r m\u00e3os puras de virgens, e conduzido atrav\u00e9s<br \/>\nda \u00c1sia, em caravanas, com a venera\u00e7\u00e3o duma rel\u00edquia.<br \/>\nEnt\u00e3o, para despertar o nosso torpor, lembrei que tom\u00e1ssemos<br \/>\no divino ch\u00e1 &#8211; ocupa\u00e7\u00e3o bem harm\u00f4nica com a tarde<br \/>\ntriste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chama bailando no fog\u00e3o.<br \/>\nJacinto acendeu &#8211; e um escudeiro acercou logo a mesa de Efraim para que n\u00f3s<br \/>\nlhe estre\u00e1ssemos os servi\u00e7os destros. Mas o meu Pr\u00edncipe,<br \/>\ndepois de a altear, para o meu espanto, at\u00e9 aos cristais do lustre,<br \/>\nn\u00e3o conseguiu, apesar de uma suada e desesperada batalha com as molas,<br \/>\nque a mesa regressasse a uma altura humana e caseira. E o escudeiro de novo<br \/>\na levou, levantada como um andaime, quim\u00e9rica, unicamente aproveit\u00e1vel<br \/>\npara o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do ch\u00e1 entre chaleiras,<br \/>\nl\u00e2mpadas, coadores, filtros, todo um fausto de alfaias de prata, que<br \/>\ncomunicavam a essa ocupa\u00e7\u00e3o, t\u00e3o simples e doce em casa<br \/>\nde minha tia, fazer ch\u00e1, a majestade dum rito. Prevenido pelo meu camarada<br \/>\nda sublimidade daquele ch\u00e1 de Kiang-Sou, ergui a ch\u00e1vena aos<br \/>\nl\u00e1bios com rever\u00eancia. Era uma infus\u00e3o descorada que sabia<br \/>\na malva e a formiga. Jacinto provou, cuspiu, blasfemou. N\u00e3o tomamos<br \/>\nch\u00e1.<\/p>\n<p>Ao cabo de outro pensativo sil\u00eancio, murmurei, com os olhos perdidos<br \/>\nno lume:<\/p>\n<p>-E as obras de Tormes? A igreja&#8230; J\u00e1 haver\u00e1 igreja nova?<\/p>\n<p>Jacinto retomara o papel e a tesoura:<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei&#8230; n\u00e3o tornei a receber carta do Silv\u00e9rio&#8230;<br \/>\nNem imagino onde param os ossos&#8230; Que l\u00fagubre hist\u00f3ria!<\/p>\n<p>Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encomendara pelo Grilo ao<br \/>\nnosso magistral cozinheiro uma larga travessa de arroz-doce, com as iniciais<br \/>\nde Jacinto e a data ditosa em canela, \u00e0 moda am\u00e1vel da nossa<br \/>\nmeiga terra. E o meu Pr\u00edncipe \u00e0 mesa, percorrendo a l\u00e2mina<br \/>\nde marfim onde no 202 se escreviam os pratos a l\u00e1pis vermelho, louvou<br \/>\ncom fervor a id\u00e9ia patriarcal:<\/p>\n<p>-Arroz-doce! Est\u00e1 escrito com dois ss, mas n\u00e3o tem d\u00favida&#8230;<br \/>\nExcelente lembran\u00e7a! H\u00e1 que tempos n\u00e3o como arroz-doce!<br \/>\nDesde a morte da av\u00f3.<\/p>\n<p>Mas quando o arroz-doce apareceu triunfalmente, que vexame! Era um prato<br \/>\nmonumental, de grande arte! O arroz, maci\u00e7o, moldado em forma de pir\u00e2mide<br \/>\ndo Egito, emergia duma calda de cereja, e desaparecia sob os frutos secos<br \/>\nque o revestiam at\u00e9 ao cimo onde se equilibrava uma coroa de Conde<br \/>\nfeita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciais, a data, t\u00e3o<br \/>\nlindas e graves na canela ing\u00eanua, vinham tra\u00e7adas nas bordas<br \/>\nda travessa com violetas pralinadas! Repelimos, num mudo horror, o prato acanalhado.<br \/>\nE Jacinto, erguendo o copo de Champanhe, murmurou como num funeral pag\u00e3o:<\/p>\n<p>-Ad Manes, aos nossos mortos!<\/p>\n<p>Recolhemos \u00e0 Biblioteca, a tomar o caf\u00e9 no conchego e alegria<br \/>\ndo lume. Fora, o vento bramava como num ermo serrano; e as vidra\u00e7as<br \/>\ntremiam, alagadas, sob as b\u00e1tegas da chuva irada. Que dolorosa noite<br \/>\npara os dez mil pobres que em Paris erram sem p\u00e3o e sem lar! Na minha<br \/>\naldeia, entre cerro e vale, talvez assim rugisse a tormenta. Mas a\u00ed<br \/>\ncada pobre, sob o abrigo da sua telha v\u00e3, com a sua panela atestada<br \/>\nde couves, se agacha no seu mant\u00e9u ao calor da lareira. E para os que<br \/>\nn\u00e3o tenham lenha ou couve, l\u00e1 est\u00e1 o Jo\u00e3o das<br \/>\nQuint\u00e3s, ou a tia Vic\u00eancia, ou o abade, que conhecem todos os<br \/>\npobres pelos seus nomes, e com eles contam, como sendo dos seus, quando o<br \/>\ncarro vai ao mato e a fornada entra no forno. Ah Portugal pequenino, que ainda<br \/>\n\u00e9s doce aos pequeninos!<\/p>\n<p>Suspirei, Jacinto pregui\u00e7ava. E terminamos p\u00f4r remexer languidamente<br \/>\nos jornais que o mordomo trouxera, num monte facundo, sobre uma salva de prata<br \/>\n&#8211; jornais de Paris, jornais de Londres, Seman\u00e1rios, Magazines, Revistas,<br \/>\nIlustra\u00e7\u00f5es&#8230; Jacinto desdobrava, arremessava: das Revistas<br \/>\nespreitava o sum\u00e1rio, logo farto; \u00e0s ilustra\u00e7\u00f5es<br \/>\nrasgava as folhas com o dedo indiferente, bocejando p\u00f4r cima das gravuras.<br \/>\nDepois, mais estirado para o lume:<\/p>\n<p>-\u00c9 uma seca&#8230; N\u00e3o h\u00e1 que ler. E de repente, revoltado<br \/>\ncontra este fastio opressor que o escravizava, saltou da poltrona com um arranque<br \/>\nde quem despeda\u00e7a algemas, e ficou ereto, dardejando em torno um olhar<br \/>\nimperativo e duro, como se intimasse aquele seu 202, t\u00e3o abarrotado<br \/>\nde Civiliza\u00e7\u00e3o, a que p\u00f4r um momento sequer fornecesse<br \/>\n\u00e0 sua alma um interesse vivo, \u00e0 sua vida um fugitivo gosto!<br \/>\nMas o 202 permaneceu insens\u00edvel; nem uma luz, para o animar, avivou<br \/>\no seu brilho mudo: s\u00f3 as vidra\u00e7as tremeram sob o embate mais<br \/>\nrude de \u00e1gua e vento.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o meu Pr\u00edncipe, sucumbido, arrastou os passos at\u00e9<br \/>\nao seu gabinete, come\u00e7ou a percorrer todos os aparelhos completadores<br \/>\ne facilitadores da Vida &#8211; o seu Tel\u00e9grafo, o seu Telefone, o seu Fon\u00f3grafo,<br \/>\no seu Radi\u00f4metro, o seu Grafofone, o seu Microfone, a sua M\u00e1quina<br \/>\nde Escrever, a sua M\u00e1quina de Contar, a sua Imprensa El\u00e9trica,<br \/>\na outra Magn\u00e9tica, todos os seus utens\u00edlios, todos os seus tubos,<br \/>\ntodos os seus fios&#8230; Assim um Suplicante percorre altares de onde espera<br \/>\nsocorro. E toda a sua suntuosa Mec\u00e2nica se conservou r\u00edgida,<br \/>\nreluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse nem uma l\u00e2mina vibrasse,<br \/>\npara entreter o seu Senhor.<\/p>\n<p>S\u00f3 o rel\u00f3gio monumental, que marcava a hora de todas as capitais<br \/>\ne o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, anunciando<br \/>\nao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu peso &#8211; diminuindo esse<br \/>\nsombrio peso da Vida, sob que ele gemia, vergado. O Pr\u00edncipe da Gr\u00e3-Ventura,<br \/>\nent\u00e3o, decidiu recolher para a cama &#8211; com um livro&#8230; E durante um<br \/>\nmomento, estacou no meio da Biblioteca, considerando os seus setenta mil volumes<br \/>\nestabelecidos com pompa e majestade como doutores num Conc\u00edlio &#8211; depois<br \/>\nas pilhas tumultu\u00e1rias dos livros novos que esperavam pelos cantos,<br \/>\nsobre o tapete, o repouso e a consagra\u00e7\u00e3o das estantes de \u00e9bano.<br \/>\nTorcendo molemente o bigode caminhou p\u00f4r fim para a regi\u00e3o dos<br \/>\nHistoriadores: espreitou s\u00e9culos, farejou ra\u00e7as; pareceu atra\u00eddo<br \/>\npelo esplendor do Imp\u00e9rio Bizantino; penetrou na Revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nFrancesa de onde se arredou desencantado; e palpou com m\u00e3o indeliberada<br \/>\ntoda a vasta Gr\u00e9cia desde a cria\u00e7\u00e3o de Atenas at\u00e9<br \/>\n\u00e0 aniquila\u00e7\u00e3o de Corinto. Mas bruscamente virou para<br \/>\na fila dos Poetas, que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada,<br \/>\nem ouro, nos t\u00edtulos fortes ou l\u00e2nguidos, o interior das suas<br \/>\nalmas. N\u00e3o lhe apeteceu nenhuma dessas mil almas &#8211; e recuou, desconsolado,<br \/>\nat\u00e9 aos Bi\u00f3logos&#8230; T\u00e3o maci\u00e7a e cerrada era a<br \/>\nestante de Biologia, que o meu pobre Jacinto estarreceu, como ante uma cidadela<br \/>\ninacess\u00edvel! Rolou a escada &#8211; e, fugindo, trepou, at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nalturas da Astronomia: destacou astros, recolocou mundos; todo um Sistema<br \/>\nSolar desabou em fragor. Aturdido, desceu, come\u00e7ou a procurar p\u00f4r<br \/>\nsobre as rimas as obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.<br \/>\nApanhava, folheava, arremessava; para desentulhar um volume, demolia uma torre<br \/>\nde doutrinas; saltava p\u00f4r cima dos Problemas, pisava as Religi\u00f5es;<br \/>\ne relanceando uma linha, esgravatando al\u00e9m num \u00edndice, todos<br \/>\ninterrogava, de todos se desinteressava, rolando quase de rastos, nas grossas<br \/>\nvagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na \u00e2nsia de encontrar<br \/>\num Livro! Parou ent\u00e3o no meio da imensa nave, de c\u00f3coras, sem<br \/>\ncoragem, contemplando aqueles muros todos forrados, aquele ch\u00e3o todo<br \/>\nalastrado, os seus setenta mil volumes &#8211; e, sem lhe provar a subst\u00e2ncia,<br \/>\nj\u00e1 absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opress\u00e3o<br \/>\nda sua abund\u00e2ncia. Findou p\u00f4r voltar ao mont\u00e3o de jornais<br \/>\namarrotados, ergueu melancolicamente um velho Di\u00e1rio de Not\u00edcias,<br \/>\ne com ele debaixo do bra\u00e7o subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>Cap\u00edtulo VIII<\/h2>\n<p>Ao fim desse Inverno escuro e pessimista, uma manh\u00e3 que eu pregui\u00e7ava<br \/>\nna cama, sentindo atrav\u00e9s da vidra\u00e7a cheia de sol ainda p\u00e1lido<br \/>\num bafo de Primavera ainda t\u00edmido &#8211; Jacinto assomou \u00e0 porta<br \/>\ndo meu quarto, revestido de flanelas leves, duma alvura de a\u00e7ucena.<br \/>\nParou lentamente \u00e0 beira dos colch\u00f5es, e, com gravidade, como<br \/>\nse anunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta<br \/>\ndeclara\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel:<\/p>\n<p>-Z\u00e9 Fernandes, vou partir para Tormes.<\/p>\n<p>O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau-preto do velho D.Gali\u00e3o:<\/p>\n<p>-Para Tormes? \u00d3 Jacinto, quem assassinaste?&#8230;<\/p>\n<p>Deleitado com a minha emo\u00e7\u00e3o, o Pr\u00edncipe da Gr\u00e3-Ventura<br \/>\ntirou da algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j\u00e1 decerto relidas,<br \/>\nfundamente estudadas:<\/p>\n<p>-\u201cIlm\u00ba e Exm\u00ba sr. &#8211; Tenho grande satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nem comunicar a V.Ex\u00aa que toda esta semana devem ficar prontas as obras<br \/>\nda capela&#8230;\u201d<\/p>\n<p>-\u00c9 do Silv\u00e9rio? &#8211; exclamei.<\/p>\n<p>-\u00c9 do Silv\u00e9rio. \u201c&#8230; as obras da capela nova. Os venerandos<br \/>\nrestos dos excelsos av\u00f3s de V. Ex\u00aa, senhores de todo o meu respeito,<br \/>\npodem pois ser em breve trasladados da igreja de S Jos\u00e9, onde t\u00eam<br \/>\nestado depositados p\u00f4r bondade do nosso Abade, que muito se recomenda<br \/>\na V.Ex\u00aa&#8230; Submisso aguardo as prestantes ordens de V.Ex\u00aa a respeito<br \/>\ndesta majestosa e aflitiva cerim\u00f4nia&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Atirei os bra\u00e7os, compreendendo:<\/p>\n<p>-Ah! bem! Queres ir assistir \u00e0 traslada\u00e7\u00e3o&#8230;.<\/p>\n<p>Jacinto sumiu a carta no bolso.<\/p>\n<p>-Pois n\u00e3o te parece, Z\u00e9 Fernandes? N\u00e3o \u00e9 p\u00f4r<br \/>\ncausa dos outros av\u00f3s, que s\u00e3o vagos, e que eu n\u00e3o conheci.<br \/>\n\u00c9 p\u00f4r causa do av\u00f4 Gali\u00e3o&#8230; Tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\no conheci. Mas este 202 est\u00e1 cheio dele; tu est\u00e1s deitado na<br \/>\ncama dele; eu ainda uso o rel\u00f3gio dele. N\u00e3o posso abandonar<br \/>\nao Silv\u00e9rio e aos caseiros o cuidado de o instalarem no seu jazigo<br \/>\nnovo. H\u00e1 aqui um escr\u00fapulo de dec\u00eancia, de eleg\u00e2ncia<br \/>\nmoral&#8230; Enfim, decidi. Apertei os punhos na cabe\u00e7a, e gritei &#8211; vou<br \/>\na Tormes! E vou!&#8230; E tu vens!<\/p>\n<p>Eu enfiara as chinelas, apertava os cord\u00f5es do roup\u00e3o:<\/p>\n<p>-Mas tu sabes, meu bom Jacinto, que a casa de Tormes est\u00e1 inabit\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>Ele cravou em mim os olhos aterrados.<\/p>\n<p>-Medonha, hem?<\/p>\n<p>-Medonha, medonha, n\u00e3o&#8230; \u00c9 uma bela casa, de bela pedra. Mas<br \/>\nos caseiros, que l\u00e1 vivem h\u00e1 trinta anos, dormem em catres,<br \/>\ncomem o caldo \u00e0 lareira, e usam as salas para secar o milho. Creio<br \/>\nque os \u00fanicos m\u00f3veis de Tormes, se bem recordo, s\u00e3o um<br \/>\narm\u00e1rio e uma espineta de char\u00e3o, coxa, j\u00e1 sem teclas.<\/p>\n<p>O meu pobre Pr\u00edncipe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava<br \/>\nao Destino:<\/p>\n<p>-Acabou!&#8230; alea jacta est! E como s\u00f3 partimos para Abril, h\u00e1<br \/>\ntempo de pintar, de assoalhar, de envidra\u00e7ar&#8230; Mando aqui de Paris<br \/>\ntapetes e camas&#8230; Um estofador de Lisboa vai depois forrar e disfar\u00e7ar<br \/>\nalgum buraco&#8230; Levamos livros, uma m\u00e1quina para fabricar gelo&#8230; E<br \/>\n\u00e9 mesmo uma ocasi\u00e3o de p\u00f4r enfim numa das minhas casas<br \/>\nde Portugal alguma dec\u00eancia e ordem. Pois n\u00e3o achas? E ent\u00e3o<br \/>\nessa! Uma casa que data de 1410&#8230; Ainda existia o Imp\u00e9rio Bizantino!<\/p>\n<p>Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sab\u00e3o.<br \/>\nO meu Pr\u00edncipe acendeu muito pensativamente um cigarro; e n\u00e3o<br \/>\nse arredou do toucador, considerando o meu preparo com uma aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ntriste que me incomodava. P\u00f4r fim, como se remoesse uma senten\u00e7a<br \/>\nminha, para lhe reter bem a moral e o suco:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, definitivamente, Z\u00e9 Fernandes, entendes que \u00e9<br \/>\num dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes?<\/p>\n<p>Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar divertido espanto o meu<br \/>\nPr\u00edncipe:<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto! foi ti, s\u00f3 em ti que nasceu a id\u00e9ia desse<br \/>\ndever! E honra te seja, menino&#8230; N\u00e3o cedas a ningu\u00e9m essa honra!<\/p>\n<p>Ele atirou o cigarro &#8211; e, com as m\u00e3os enterradas nas algibeiras das<br \/>\npantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os postes<br \/>\ntorneados do velho leito de D.Gali\u00e3o, num balan\u00e7o vago, com<br \/>\nbarco j\u00e1 desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar incerto.<br \/>\nDepois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, p\u00f4r grada\u00e7\u00f5es<br \/>\nde sentimentos, desde o daguerre\u00f3tipo do pap\u00e1 at\u00e9 a fotografia<br \/>\ndo Corocho perdigueiro, a galeria da minha Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>E nunca o meu Pr\u00edncipe (que eu contemplava esticando os suspens\u00f3rios)<br \/>\nme pareceu t\u00e3o corcovado, t\u00e3o minguado, como gasto p\u00f4r<br \/>\numa lima que desde muito andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita<br \/>\nem Civiliza\u00e7\u00e3o, naquele super-requintado magricela sem m\u00fasculo<br \/>\ne sem energia, a ra\u00e7a fort\u00edssima dos Jacintos! Esses guedelhudos<br \/>\nJacint\u00f5es, que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o<br \/>\nmouro no Salado ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras<br \/>\npara lavar as suas c\u00e3s e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino<br \/>\ncom a lan\u00e7a e com a enxada, ambas t\u00e3o rudes e rijas! E agora<br \/>\nali estava aquele \u00faltimo Jacinto, um Jacint\u00edculo, com a macia<br \/>\npele embebida em aromas, a curta alma enrodilhada em Filosofias, travado e<br \/>\nsuspirando baixinho na mi\u00fada indecis\u00e3o de viver.<\/p>\n<p>-\u00d3 Z\u00e9 Fernandes, quem \u00e9 essa lavadeirona t\u00e3o<br \/>\nrechonchuda?<\/p>\n<p>Estendi o pesco\u00e7o para a fotografia que ele erguera de entre a minha<br \/>\ngaleria, no seu honroso caixilho de pel\u00facia escarlate:<\/p>\n<p>-Mais respeito, Sr. D. Jacinto&#8230; Um pouco mais de respeito, cavalheiro!&#8230;<br \/>\n\u00c9 minha prima Joaninha, de Sandofim, da Casa da Flor da Malva.<\/p>\n<p>-Flor da Malva &#8211; murmurou o meu Pr\u00edncipe. &#8211; \u00c9 a Casa do Condest\u00e1vel,<br \/>\nde Nun\u2019\u00c1lvares.<\/p>\n<p>-Flor da Rosa, homem! A Casa do Condest\u00e1vel era na Flor da Rosa, no<br \/>\nAlentejo&#8230; Essa tua ignor\u00e2ncia trapalhona das coisas de Portugal!<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe deixou escorregar molemente a fotografia da minha prima<br \/>\nde entre os dedos moles &#8211; que levou \u00e0 face, no seu gesto horrendo de<br \/>\npalpar atrav\u00e9s da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo<br \/>\nesfor\u00e7o, em que se endireitou e cresceu:<\/p>\n<p>-Bem! Alea jacta est! Partamos pois para as serras!&#8230;E agora nem reflex\u00e3o,<br \/>\nnem descanso!&#8230; \u00c1 obra! E a caminho!<\/p>\n<p>Atirou a m\u00e3o ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete<br \/>\nque abre os Destinos &#8211; e no corredor gritou pelo Grilo, com uma larga e a\u00e7odada<br \/>\nvoz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a dum Chefe ordenando, na alvorada,<br \/>\nque se levante o Acampamento, e que a Hoste marche, com pend\u00f5es e bagagens&#8230;<\/p>\n<p>Logo nessa manh\u00e3 (com uma atividade em que eu reconheci a pressa enjoada<br \/>\nde quem bebe \u00f3leo de r\u00edcino) escreveu ao Silv\u00e9rio mandando<br \/>\ncaiar, assoalhar, envidra\u00e7ar o casar\u00e3o. E depois do almo\u00e7o<br \/>\napareceu na Biblioteca, chamado violentamente pelo telefone, para combinar<br \/>\na remessa de mob\u00edlias e confortos, o diretor da Companhia Universal<br \/>\nde Transportes.<\/p>\n<p>Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num jaquet\u00e3o<br \/>\nde xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas brancas, uma multicor<br \/>\nresumindo as suas condecora\u00e7\u00f5es ex\u00f3ticas de Madag\u00e1scar,<br \/>\nde Nicar\u00e1gua, da P\u00e9rsia, outras ainda, que provavam a universalidade<br \/>\ndos seus servi\u00e7os. Apenas Jacinto mencionou \u201cTormes, no Douro&#8230;\u201d<br \/>\n&#8211; ele logo, atrav\u00e9s dum sorriso superior, estendeu o bra\u00e7o,<br \/>\ndetendo outros esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>-Tormes&#8230; Perfeitamente! Perfeitamente!<\/p>\n<p>Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota &#8211; enquanto eu considerava,<br \/>\nassombrado, a vastid\u00e3o do seu saber Corogr\u00e1fico, assim familiar<br \/>\ncom os recantos duma serra de Portugal e com todos os seus velhos solares.<br \/>\nJ\u00e1 ele atirara a carteira para o bolso&#8230; E \u201cn\u00f3s, seus<br \/>\ncaros senhores, n\u00e3o t\u00ednhamos sen\u00e3o a encaixotar as roupas,<br \/>\nas mob\u00edlias, as preciosidades! Ele mandaria as suas carro\u00e7as<br \/>\nbuscar os caixotes, a que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endere\u00e7o&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>-Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Espanha-Medina-Salamanca&#8230; Perfeitamente!<br \/>\nTormes&#8230; Muito pitoresco! E antigo, hist\u00f3rico! Perfeitamente, perfeitamente!<\/p>\n<p>Desengon\u00e7ou a cabe\u00e7a numa v\u00eania profund\u00edssima<br \/>\n&#8211; e saiu da Biblioteca, com passos que devoravam l\u00e9guas, anunciavam<br \/>\na presteza dos seus Transportes.<\/p>\n<p>-V\u00ea tu &#8211; murmurou Jacinto muito s\u00e9rio. &#8211; Que prontid\u00e3o,<br \/>\nque facilidade!&#8230; em Portugal era uma trag\u00e9dia. N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nsen\u00e3o Paris!<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o no 202 o colossal encaixotamento de todos os<br \/>\nconfortos necess\u00e1rios ao meu Pr\u00edncipe para um m\u00eas de serra<br \/>\n\u00e1spera &#8211; camas de pena, banheiras de n\u00edquel, l\u00e2mpadas<br \/>\nCarcel, div\u00e3s profundos, cortinas para vedar as gretas rudes, tapetes<br \/>\npara amaciar os soalhos broncos. Os s\u00f3t\u00e3os, onde se arrecadavam<br \/>\nos pesados trastes do av\u00f4 Gali\u00e3o, foram esvaziados &#8211; porque o<br \/>\ncasar\u00e3o medieval de 1410 comportava os trem\u00f3s rom\u00e2nticos<br \/>\nde 1830. De todos os armaz\u00e9ns de Paris chegavam cada manh\u00e3 fardos,<br \/>\ncaixas, temerosos embrulhos que os embaladores desfaziam, atulhando os corredores<br \/>\nde montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos a\u00e7odados<br \/>\nse enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, organizava a remessa de fornalhas,<br \/>\ngeleiras, bocais de trufas, latas de conservas, bojudas garrafas de \u00e1guas<br \/>\nminerais. Jacinto, lembrando as trovoadas da serra, comprou um imenso p\u00e1ra-raios.<br \/>\nDesde o amanhecer, nos p\u00e1tios, no jardim, se martelava, se pregava,<br \/>\ncom vasto fragor, como na constru\u00e7\u00e3o duma cidade. E o desfilar<br \/>\ndas bagagens, atrav\u00e9s do port\u00e3o, lembrava uma p\u00e1gina<br \/>\nde Her\u00f3doto contando a marcha dos Persas.<\/p>\n<p>Das janelas, Jacinto, com o bra\u00e7o estendido, saboreava aquela atividade<br \/>\ne aquela disciplina:<\/p>\n<p>-V\u00ea tu, Z\u00e9 Fernandes, que facilidade!&#8230; Sa\u00edmos do 202,<br \/>\nchegamos \u00e0 serra, encontramos o 202. N\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o<br \/>\nParis!<\/p>\n<p>Recome\u00e7ara a amar a Cidade, o meu Pr\u00edncipe, enquanto preparava<br \/>\no seu \u00eaxodo. Depois de Ter, toda a manh\u00e3, apressado os encaixotadores,<br \/>\ndescortinado confortos novos para o abandonado solar, telefonado gordas listas<br \/>\nde encomendas a cada loja de Paris &#8211; era com del\u00edcia que se vestia,<br \/>\nse perfumava, se floria, se enterrava na vit\u00f3ria ou saltava para a<br \/>\nalmofada do f\u00e1eton, e corria ao bosque, e saudava a barba talm\u00fadica<br \/>\ndo Efraim, e os band\u00f3s furiosamente negros de Vergame, e o Psic\u00f3logo<br \/>\nde fiacre, e a condessa de Tr\u00e8ves na sua nova caleche de oito molas<br \/>\nfornecida pelas opera\u00e7\u00f5es conjuntas da Bolsa e da alcova. Depois<br \/>\narrebanhava amigos para jantares de surpresa no Voisin ou no Bignon, onde<br \/>\ndesdobrava o guardanapo com a impaci\u00eancia duma fome alegre, vigiando<br \/>\nfervorosamente que os Bordpeus estivessem bem aquecidos e os Champanhes bem<br \/>\ngranitados. E no teatro das Nouveaut\u00e9s, no Palais Royal, nos Buffos,<br \/>\nria batendo na coxa, com encanecidas fac\u00e9cias de encanecidas farsas,<br \/>\nantiqu\u00edssimos atores, com que j\u00e1 rira na sua inf\u00e2ncia,<br \/>\nantes da guerra, sob o segundo Napole\u00e3o.<\/p>\n<p>De novo, em duas semanas, se abarrotaram as p\u00e1ginas da sua Agenda.<br \/>\nA magnific\u00eancia do seu traje, como imperador Frederico II de Su\u00e1bia,<br \/>\ndeslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tamb\u00e9m<br \/>\nfui, de \u201cmo\u00e7o de forcado\u201d). E na Associa\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o Desenvolvimento das Religi\u00f5es Esot\u00e9ricas discursou e<br \/>\nbatalhou bravamente pela constru\u00e7\u00e3o dum Templo Budista de Montmartre!<\/p>\n<p>Com espanto meu recome\u00e7ou tamb\u00e9m a conversar, como nos tempos<br \/>\nde Escola, da \u201cfamosa Civiliza\u00e7\u00e3o nas suas m\u00e1ximas<br \/>\npropor\u00e7\u00f5es\u201d. Mandou encaixotar o seu velho telesc\u00f3pio<br \/>\npara o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu esp\u00edrito germinasse<br \/>\na id\u00e9ia de criar, no cimo da serra, uma Cidade com todos os seus \u00f3rg\u00e3os.<br \/>\nPelo mesmo n\u00e3o consentia o meu Jacinto que essas semanas da silvestre<br \/>\nTormes interrompessem a ilimitada acumula\u00e7\u00e3o das no\u00e7\u00f5es<br \/>\n&#8211; porque uma manh\u00e3 rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que entre<br \/>\ntantos confortos e formas de Civiliza\u00e7\u00e3o esquec\u00earamos<br \/>\nos livros! Assim era &#8211; e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que<br \/>\nlivros escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu Pr\u00edncipe<br \/>\ndecidiu logo dedicar os seus serranos ao estudo da Hist\u00f3ria Natural<br \/>\n&#8211; e n\u00f3s mesmos, imediatamente, deitamos para o fundo dum vasto caixote<br \/>\nnovo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Pl\u00ednio. Despejamos depois<br \/>\npara dentro, \u00e0s bra\u00e7adas, Geologia, Mineralogia, Bot\u00e2nica&#8230;<br \/>\nEspalhamos p\u00f4r cima uma camada a\u00e9rea de Astronomia. E, para fixar<br \/>\nbem no caixote estas ci\u00eancias oscilantes, entalamos em redor cunhas<br \/>\nde Metaf\u00edsica.<\/p>\n<p>Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do port\u00e3o<br \/>\ndo 202 na derradeira carro\u00e7a da Companhia dos Transportes, toda esta<br \/>\nanima\u00e7\u00e3o de Jacinto se abateu como a efervesc\u00eancia num<br \/>\ncopo de Champanhe. Era em meados j\u00e1 t\u00e9pidos de Mar\u00e7o.<br \/>\nE de novo os seus desagrad\u00e1veis bocejos atroaram o 202 e todos os sof\u00e1s<br \/>\nrangeram sob o peso do corpo que lhe atirava para cima, mortalmente vencido<br \/>\npela fartura e pelo t\u00e9dio, num desejo de repouso eterno, bem envolto<br \/>\nde solid\u00e3o e sil\u00eancio. Desesperei. O qu\u00ea! Aturaria eu ainda<br \/>\naquele Pr\u00edncipe palpando amargamente a caveira, e, quando o crep\u00fasculo<br \/>\nentristecia a Biblioteca, aludindo, num tom rouco, \u00e0 do\u00e7ura<br \/>\ndas mortes r\u00e1pidas pela viol\u00eancia misericordiosa do \u00e1cido<br \/>\ncian\u00eddrico? Ah n\u00e3o, caramba! E uma tarde em que o encontrei<br \/>\nestirado sobre um div\u00e3, de bra\u00e7os em cruz, como se fosse a sua<br \/>\nest\u00e1tua de m\u00e1rmore sobre o seu jazigo de granito, positivamente<br \/>\no abanei com furor, berrando:<\/p>\n<p>-Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casar\u00e3o deve estar pronto, a<br \/>\nreluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus av\u00f3s pedem repouso<br \/>\nem cova sua!&#8230; A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos n\u00f3s,<br \/>\nos vivos!&#8230; Irra! S\u00e3o cinco de Abril!&#8230; \u00e9 o bom tempo da serra!<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe ressurgiu lentamente da in\u00e9rcia de pedra:<\/p>\n<p>-O Silv\u00e9rio n\u00e3o me escreveu, nunca me escreveu&#8230; Mas, com<br \/>\nefeito, deve estar tudo preparado&#8230; J\u00e1 l\u00e1 certamente criados,<br \/>\no cozinheiro de Lisboa&#8230; eu s\u00f3 levo o Grilo, e o Anatole que enverniza<br \/>\nbem o cal\u00e7ado, e tem jeito como pedicuro&#8230; Hoje \u00e9 Domingo.<\/p>\n<p>Atirou os p\u00e9s para o tapete, com hero\u00edsmo:<\/p>\n<p>-Bem, partimos no S\u00e1bado!&#8230; Avisa tu o Silv\u00e9rio!<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o o laborioso e pensativo estudo dos Hor\u00e1rios<br \/>\n&#8211; e o dedo magro de Jacinto, p\u00f4r sobre o mapa, avan\u00e7ando e recuando<br \/>\nentre Paris e Tormes. Para escolher o \u201csal\u00e3o\u201d que dev\u00edamos<br \/>\nhabitar durante a temida jornada, duas vezes percorremos o dep\u00f3sito<br \/>\nda Esta\u00e7\u00e3o de Orle\u00e3s atolados em lama, atr\u00e1s do<br \/>\nchefe do Tr\u00e1fico que entontecia. O meu Pr\u00edncipe recusava este<br \/>\nsal\u00e3o p\u00f4r causa da cor tristonha dos estofos; depois recusava<br \/>\naquele p\u00f4r causa da mesquinhez aflitiva do Water-Closet. Uma das suas<br \/>\ninquieta\u00e7\u00f5es era o banho, nas manh\u00e3s que passar\u00edamos<br \/>\nrolando. Sugeri uma banheira de borracha. Jacinto, indeciso, suspirava&#8230;<br \/>\nMas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas<br \/>\nda Velha Castela. Debalde a Companhia do Norte da Espanha e de Salamanca,<br \/>\np\u00f4r cartas, p\u00f4r telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando<br \/>\nque, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu sal\u00e3o, j\u00e1<br \/>\noutro sal\u00e3o ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido,<br \/>\nbem alumiado, com uma ceia que lhe ofertava um dos Diretores, D. Esteban Castilho,<br \/>\nruidoso e rubicundo conviva do 202! Jacinto corria os dedos ansioso pela face:<br \/>\n&#8211; \u201cE os sacos, as peles, os livros, quem os transportaria do sal\u00e3o<br \/>\nde Irun para o sal\u00e3o de Salamanca?\u201d Eu berrava, desesperado,<br \/>\nque os carregadores de Medina eram os mais r\u00e1pidos, os mais destros<br \/>\nde toda a Europa! Ele murmurava: &#8211; \u201cPois sim, mas em Espanha, de noite!&#8230;\u201d<br \/>\nA noite, longe da Cidade, sem telefone, sem luz el\u00e9trica, sem postos<br \/>\nde pol\u00edcia, parecia ao meu Pr\u00edncipe povoada de surpresas e assaltos.<br \/>\nS\u00f3 acalmou depois de verificar no Observat\u00f3rio Astron\u00f4mico,<br \/>\nsob a garantia do s\u00e1bio professor Bertrand, que a noite da nossa jornada<br \/>\nera de Lua-cheia!<\/p>\n<p>Enfim, na Sexta-feira, findou a tremenda organiza\u00e7\u00e3o daquela<br \/>\nviagem hist\u00f3rica! O S\u00e1bado predestinado amanheceu com generoso<br \/>\nsol, de afagadora do\u00e7ura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas<br \/>\nem papel pardo, as fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e<br \/>\nsete meses de Paris, me tinham chamado &#8220;mon petit chou! mont rat cheri!\u201d<br \/>\nquando Jacinto rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de orqu\u00eddeas<br \/>\nna sobrecasaca, p\u00e1lido e todo nervoso.<\/p>\n<p>-Vamos ao bosque, p\u00f4r despedida?<\/p>\n<p>Fomos &#8211; \u00e0 grande despedida! E que encanto! At\u00e9 nas almofadas<br \/>\ne molas da vit\u00f3ria senti logo uma elasticidade mais embaladora. Depois,<br \/>\npela Avenida do Bosque, quase me pesava n\u00e3o ficar sempiternamente rolando,<br \/>\nao trote rimado das \u00e9guas perfeitas, no rebrilho rico de metais e vernizes,<br \/>\nsobre aquele macadame mais alisado que m\u00e1rmore, entre t\u00e3o bem<br \/>\nregadas flores e relvas de t\u00e3o tentadora frescura, cruzando uma Humanidade<br \/>\nfina, de eleg\u00e2ncia bem acabada, que almo\u00e7ara o seu chocolate<br \/>\nem porcelanas de S\u00e8vres ou de Minton, sa\u00edra de entre sedas e<br \/>\ntapetes de tr\u00eas mil francos, e respirava a beleza de Abril com vagar,<br \/>\nrequinte e pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia numa harmonia de verde,<br \/>\nazul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas \u00e1leas<br \/>\nque a Arte tra\u00e7ou e enroscou na espessura &#8211; nenhum esgalho desgrenhado<br \/>\ndesmanchava as ondula\u00e7\u00f5es macias da folhagem que o Estado escova<br \/>\ne lava. O piar da aves apenas se elevava para espalhar uma gra\u00e7a leve<br \/>\nde vida alada &#8211; e mais natural parecia, entre o arvoredo soci\u00e1vel,<br \/>\no ranger das selas novas, onde pousavam, com balan\u00e7o esbelto, as amazonas<br \/>\nespartilhadas pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilh\u00e3o de Armenonville<br \/>\ncruzamos Madame de Tr\u00e8ves, que nos envolveu a ambos na car\u00edcia<br \/>\ndo seu sorriso, mais avivado \u00e0quela hora pelo vermelh\u00e3o ainda<br \/>\n\u00famido. Logo atr\u00e1s a barba talm\u00fadica de Efraim negrejou,<br \/>\nfresca tamb\u00e9m da brilhantina da manh\u00e3, no alto dum f\u00e1eton<br \/>\ntilintante. Outros amigos de Jacinto circulavam nas Ac\u00e1cias &#8211; e as<br \/>\nm\u00e3os que lhe acenavam, lentas e af\u00e1veis, cal\u00e7avam luvas<br \/>\nfrescas cor de palha, cor de p\u00e9rola, cor de lil\u00e1s. Todelle relampejou<br \/>\nrente de n\u00f3s sobre uma grande bicicleta. Dorman, alastrado numa cadeira<br \/>\nde ferro, sob um espinheiro em flor, mamava o seu imenso charuto, como perdido<br \/>\nna busca de rimas sensuais e n\u00e9dias. Adiante foi o Psic\u00f3logo,<br \/>\nque nos n\u00e3o avistou, conversando com um requebro melanc\u00f3lico<br \/>\npara dentro dum cup\u00e9 que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso<br \/>\nimprimia dignidade e dec\u00eancia. E rol\u00e1vamos ainda, quando o Duque<br \/>\nde Marizac, a cavalo, ergueu a bengala, estacou a nossa vit\u00f3ria para<br \/>\nperguntar a Jacinto se aparecia \u00e0 noite nos \u201cquadros vivos\u201d<br \/>\ndos Verghanes. O meu Pr\u00edncipe rosnou um &#8211; \u201cn\u00e3o, parto<br \/>\npara o sul&#8230;\u201d &#8211; que mal lhe passou de entre os bigodes murchos&#8230; e<br \/>\nMarizac lamentou &#8211; porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da Hist\u00f3ria<br \/>\nSagrada e da Hist\u00f3ria romana!&#8230; Madame Verghane, de Madalena, de bra\u00e7os<br \/>\nnus, peitos nus, pernas nuas, limpando com os cabelos os p\u00e9s do Cristo!<br \/>\n&#8211; O Cristo, um latag\u00e3o soberbo, parente dos Tr\u00e8ves, empregado<br \/>\nno Minist\u00e9rio da guerra, gemendo, derreado, sob uma cruz de papel\u00e3o!<br \/>\nHavia tamb\u00e9m Lucr\u00e9cia na cama, e Tarqu\u00ednio ao lado, de<br \/>\npunhal, a puxar os len\u00e7\u00f3is! E depois ceia, em mesas soltas,<br \/>\ntodos nos seus trajes hist\u00f3ricos. Ele j\u00e1 estava aparceirado<br \/>\ncom Madame de Malbe, que era Agripina! Quadro portentoso esse &#8211; Agripina morta,<br \/>\nquando Nero a vem contemplar e lhe estuda as formas, admirando umas, desdenhando<br \/>\noutras como imperfeitas. Mas, p\u00f4r polidez, ficara combinado que Nero<br \/>\nadmiraria sem reserva todas as formas de Madame de Malbe&#8230; Enfim colossal,<br \/>\ne estupendamente instrutivo!<\/p>\n<p>Acenamos um longo adeus \u00e0quele alegre Marizac. E recolhemos sem que<br \/>\nJacinto emergisse do sil\u00eancio enrugado em que se abismara, com os bra\u00e7os<br \/>\nrigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e forte. Depois,<br \/>\nem frente ao Arco do Triunfo, moveu a cabe\u00e7a, murmurou:<\/p>\n<p>-\u00c9 muito grave deixar a Europa!<\/p>\n<p>Enfim, partimos! Sob a do\u00e7ura do crep\u00fasculo que se enublara,<br \/>\ndeixamos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre atulhado de livros,<br \/>\nde estojos, de palet\u00f3s, de imperme\u00e1veis, de travesseiras, de<br \/>\n\u00e1guas minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas; e mais atr\u00e1s<br \/>\num \u00f4nibus rangia sob a carga de vinte e tr\u00eas rolos de mantas;<br \/>\ne mais atr\u00e1s um \u00f4nibus rangia sob a carga de vinte e tr\u00eas<br \/>\nmalas. Na Esta\u00e7\u00e3o, Jacinto ainda comprou todos os Jornais, todas<br \/>\nas Ilustra\u00e7\u00f5es, Hor\u00e1rios, mais livros, e um saca-rolhas<br \/>\nde forma complicada e hostil. Guiados pelo Chefe do Tr\u00e1fico, pelo Secret\u00e1rio<br \/>\nda Companhia, ocupamos copiosamente o nosso sal\u00e3o. Eu pus o meu bon\u00e9<br \/>\nde seda, calcei as minhas chinelas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou,<br \/>\nfulgiu num derradeiro clar\u00e3o de janelas&#8230; Para o sorver, Jacinto ainda<br \/>\nse arremessou \u00e0 portinhola. Mas rol\u00e1vamos j\u00e1 na treva<br \/>\nda Prov\u00edncia. O meu Pr\u00edncipe ent\u00e3o recaiu nas almofadas:<\/p>\n<p>-Que aventura, Z\u00e9 Fernandes!<\/p>\n<p>At\u00e9 Chartres, em sil\u00eancio. Folheamos as Ilustra\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEm Orle\u00e3es, o guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas.<br \/>\nDerreado com aqueles catorze meses de Civiliza\u00e7\u00e3o, adormeci<br \/>\n&#8211; e s\u00f3 acordei em Bord\u00e9us quando Grilo, zeloso, nos trouxe o<br \/>\nnosso chocolate. Fora, uma chuva miudinha pingava molemente dum espesso c\u00e9u<br \/>\nde algod\u00e3o sujo. Jacinto n\u00e3o se deitara, desconfiado da aspereza<br \/>\ne da umidade dos len\u00e7\u00f3is. E, metido num roup\u00e3o de flanela<br \/>\nbranco, com a face arrepiada e estremunhada, ensopando um bolo no chocolate,<br \/>\nrosnava sombriamente:<\/p>\n<p>-Este horror!&#8230; E agora com chuva!<\/p>\n<p>Em Biarriz.<\/p>\n<p>Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o lento<br \/>\ncaminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon. Era ele,<br \/>\no facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado duma dama roli\u00e7a que<br \/>\nlevava pela trela uma cadelinha felpuda. Jacinto baixou a vidra\u00e7a violentamente,<br \/>\nberrou pelo Historiador, na \u00e2nsia de comunicar ainda, atrav\u00e9s<br \/>\ndele, com a Cidade, com o 202!&#8230; Mas o comboio mergulhara na chuva e n\u00e9voa.<\/p>\n<p>Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida f\u00e1cil, os abrolhos<br \/>\nda Inciviliza\u00e7\u00e3o, Jacinto suspirou com desalento:<\/p>\n<p>-Agora adeus, come\u00e7a a Espanha!&#8230;<\/p>\n<p>Indignado, eu, que j\u00e1 saboreava o generoso ar da terra bendita, saltei<br \/>\npara diante do meu Pr\u00edncipe, e num saracoteio de tremendo salero, castanholando<br \/>\nos dedos, entoei uma \u201cpetenera\u201d condigna:<\/p>\n<p>A la puerta de mi casa<\/p>\n<p>Ay Soledad, Soleda&#8230;\u00e1&#8230;\u00e1&#8230;\u00e1.<\/p>\n<p>Ele estendeu os bra\u00e7os, suplicante:<\/p>\n<p>-Z\u00e9 Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!<\/p>\n<p>-Irun! Irun!&#8230;<\/p>\n<p>Nessa Irun almo\u00e7amos com sucul\u00eancia &#8211; porque sobre n\u00f3s<br \/>\nvelava, como deus onipresente, a Companhia do Norte. Depois \u201cel jefe<br \/>\nd\u2019Aduana, el jefe d\u2019Estaci\u00f3n\u201d, preciosamente nos<br \/>\ninstalaram noutro sal\u00e3o, novo, com cetins cor de azeitona, mas t\u00e3o<br \/>\npequeno que uma rica por\u00e7\u00e3o dos nossos confortos em mantas,<br \/>\nlivros, sacos e imperme\u00e1veis, passou para o compartimento do Sleeping<br \/>\nonde se repoltreavam o Grilo e o Anatole, ambos de bon\u00e9s escoceses,<br \/>\ne fumando gordos charutos &#8211; Buen viage! Gracias! Servidores! &#8211; e entramos<br \/>\nsilvando nos Pireneus.<\/p>\n<p>Sob a influ\u00eancia da chuva embaciadora, daquelas serras sempre iguais,<br \/>\nque se densenrolavam, arrepiadas, dilu\u00eddas na n\u00e9voa, resvalei<br \/>\na uma sonol\u00eancia doce; &#8211; e, quando descerrava as p\u00e1lpebras, encontrava<br \/>\nJacinto a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que cruzara<br \/>\nos magros dedos, considerando vales e montes com a melancolia de quem penetra<br \/>\nnas terras do seu desterro! Um momento veio em que, arremessando o livro,<br \/>\nenterrando mais o chap\u00e9u mole, se ergueu com tanta decis\u00e3o,<br \/>\nque receei detivesse o comboio para saltar \u00e0 estrada, correr atrav\u00e9s<br \/>\ndas Vascongadas e da Navarra, para tr\u00e1s, para o 202! Sacudi o meu torpor,<br \/>\nexclamei: &#8211; \u201c\u00f3 menino!&#8230;\u201d N\u00e3o! O pobre amigo ia<br \/>\napenas continuar o seu t\u00e9dio para outro canto, enterrado noutra almofada,<br \/>\ncom outro livro fechado. E \u00e0 maneira que a escurid\u00e3o da tarde<br \/>\ncrescia, e com ela a borrasca de vento e \u00e1gua, uma inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais aterrada se apoderava do meu Pr\u00edncipe, assim desgarrado da Civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\narrastado para a Natureza que j\u00e1 o cercava de brutalidade agreste.<br \/>\nN\u00e3o cessou ent\u00e3o de me interrogar sobre Tormes:<\/p>\n<p>-As noites s\u00e3o horr\u00edveis, hem, Z\u00e9 Fernandes? Tudo negro,<br \/>\nenorme solid\u00e3o&#8230; E o m\u00e9dico?&#8230; H\u00e1 m\u00e9dico?<\/p>\n<p>Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as<br \/>\nvidra\u00e7as. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um<br \/>\ngrande vento solto. A m\u00e1quina apitava, com ang\u00fastia. Uma lanterna<br \/>\nlampejou, correndo. Jacinto batia o p\u00e9: &#8211; \u00c9 medonho! \u00c9<br \/>\nmedonho!&#8230;\u201d Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidra\u00e7as<br \/>\nsurdiam cabe\u00e7as esticadas, assustadas. &#8211; \u201cQue hay? Que hay?\u201d<br \/>\n&#8211; A uma rajada, que me alagou, recuei:- e esperamos durante lentos, calados<br \/>\nminutos, esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a escurid\u00e3o.<br \/>\nDe repente o comboio recome\u00e7ou a rolar, muito sereno.<\/p>\n<p>Em breve apareceram as luzinhas mortas duma esta\u00e7\u00e3o abarracada.<br \/>\nUm condutor, com o casac\u00e3o de oleado todo a escorrer, trepou ao sal\u00e3o:<br \/>\n&#8211; e p\u00f4r ele soubemos, enquanto carimbava apressadamente os bilhetes,<br \/>\nque o trem, muito atrasado, talvez n\u00e3o alcan\u00e7asse em Medina<br \/>\no comboio de Salamanca!<\/p>\n<p>-Mas ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite, deixando<br \/>\num cheiro de umidade e azeite. E n\u00f3s encetamos um novo tormento&#8230;<br \/>\nSe o trem de Salamanca tivesse abalado? O sal\u00e3o, tomado at\u00e9<br \/>\nMedina, desengatava em Medina: &#8211; e eis os nossos preciosos corpos, com as<br \/>\nnossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre vinte<br \/>\ne tr\u00eas malas, numa rude confus\u00e3o espanhola, sob a tormenta de<br \/>\nventania e de \u00e1gua!<\/p>\n<p>-\u00d3 Z\u00e9 Fernandes, uma noite em Medina!<\/p>\n<p>Ao meu Pr\u00edncipe aparecia como desventura suprema essa noite em Medina,<br \/>\nnuma fonda2 s\u00f3rdida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos<br \/>\natrav\u00e9s dos len\u00e7\u00f3is de estopa encardida!&#8230; N\u00e3o<br \/>\ncessei ent\u00e3o de fitar, num desassossego, os ponteiros do rel\u00f3gio:<br \/>\n&#8211; enquanto Jacinto, pela vidra\u00e7a escancarada, todo fustigado da chuva<br \/>\nclamorosa, furava a negrura, na esperan\u00e7a de avistar as luzes de Medina<br \/>\ne um comboio paciente fumegando&#8230; Depois reca\u00eda no div\u00e3, limpava<br \/>\nos bigodes e os olhos, maldizia a Espanha. O trem arquejava, rompendo o vasto<br \/>\nda planura desolada. E a cada apito era um alvoro\u00e7o. Medina?&#8230; N\u00e3o!<br \/>\nalgum sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, enquanto<br \/>\ndormentes figuras encarapu\u00e7adas, embrulhadas em mantas, rondavam sob<br \/>\no telheiro do barrac\u00e3o, que as lanternas ba\u00e7as tornavam mais<br \/>\nsoturno. Jacinto esmurrava o joelho: &#8211; \u201cMas p\u00f4r que p\u00e1ra<br \/>\neste infame comboio? N\u00e3o h\u00e1 tr\u00e1fico, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\ngente! \u00d3 esta Espanha!&#8230;\u201d A sineta badalava, moribunda. De novo<br \/>\nfend\u00edamos a noite e a borrasca.<\/p>\n<p>Resignadamente comecei a percorrer um Jornal do Com\u00e9rcio, antigo,<br \/>\ntrazido de Paris. Jacinto esmagava o espesso tapete do sal\u00e3o com passadas<br \/>\nrancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim escoou, \u00e0s gotas,<br \/>\numa hora cheia de eternidade. &#8211; Um silvo, outro silvo!&#8230; Luzes mais fortes,<br \/>\nlonge, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos solavancos, os<br \/>\nencontros de carris. Enfim, Medina!&#8230; Um muro sujo de barrac\u00e3o alvejou<br \/>\n&#8211; e bruscamente, \u00e0 portinhola aberta com viol\u00eancia, aparece um<br \/>\ncavalheiro barbudo, de capa \u00e0 espanhola, gritando pelo sr. D. Jacinto!&#8230;<br \/>\nDepressa! Depressa! Que parte o comboio de Salamanca.<\/p>\n<p>-\u201cQue no hay um momento, caballeros! Que no hay un momento!\u201d<\/p>\n<p>Agarro estonteadamente o meu palet\u00f3, o Jornal do Com\u00e9rcio.<br \/>\nSaltamos com \u00e2nsia: &#8211; e, pela plataforma, p\u00f4r sobre os trilhos,<br \/>\natrav\u00e9s de charcos, trope\u00e7ando em fardos, empurrados pelo vento,<br \/>\npelo homem da capa \u00e0 espanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou<br \/>\ncom um estalo tremendo&#8230; Ambos arquej\u00e1vamos. Era um sal\u00e3o forrado<br \/>\ndum pano verde que comia a luz escassa. E eu estendia o bra\u00e7o, para<br \/>\nreceber dos carregadores a\u00e7odados as nossas malas, os nossos livros,<br \/>\nas nossas mantas &#8211; quando, em sil\u00eancio, sem um apito, o trem despegou<br \/>\ne rolou. Ambos nos atiramos \u00e0s vidra\u00e7as, em brados furiosos:<\/p>\n<p>-Pare! &#8211; As nossas malas, as nossas mantas!&#8230; P\u00e1ra aqui!&#8230; \u00d3<br \/>\nGrilo! \u00d3 Grilo!<\/p>\n<p>Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado tenebroso,<br \/>\nsob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos num furor que o engasgava:<\/p>\n<p>Fonda: Hospedaria, estalagem, pousada. \u00c9 termo espanhol.<\/p>\n<p>-\u00d3! Que servi\u00e7o! \u00d3 que canalhas!&#8230; S\u00f3 em Espanha!&#8230;<br \/>\nE agora? As malas perdidas!&#8230; Nem uma camisa, nem uma escova!<\/p>\n<p>Calmei o meu desgra\u00e7ado amigo:<\/p>\n<p>-Escuta! Eu entrevi dois carregadores arrebanhando as nossas coisas&#8230; Decerto<br \/>\no Grilo fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com tudo para o se<br \/>\ncompartimento&#8230; Foi um erro n\u00e3o trazer o Grilo conosco, no sal\u00e3o&#8230;<br \/>\nAt\u00e9 pod\u00edamos jogar a manilha!<\/p>\n<p>De resto a solicitude da Companhia, Deusa onipresente, velava sobre o nosso<br \/>\nconforto &#8211; pois que \u00e0 porta do lavat\u00f3rio branqueava o cesto<br \/>\nda nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces<br \/>\npalavras a l\u00e1pis &#8211; \u00e1 D. Jacinto y su egregio amigo, que les<br \/>\nd\u00ea gusto! Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranq\u00fcilidade nos<br \/>\npenetrou no cora\u00e7\u00e3o, sentindo tamb\u00e9m as nossas malas<br \/>\nsob a tutela da Deusa onipresente.<\/p>\n<p>-Tens fome, Jacinto?<\/p>\n<p>-N\u00e3o. Tenho horror, furor, rancor!&#8230; e tenho sono.<\/p>\n<p>Com efeito! depois de t\u00e3o desencontradas emo\u00e7\u00f5es s\u00f3<br \/>\napetec\u00edamos as camas que esperavam, macias e abertas. Quando ca\u00ed<br \/>\nsobre a travesseira, sem gravata, em ceroulas, j\u00e1 o meu Pr\u00edncipe,<br \/>\nque n\u00e3o se despira, apenas embrulhara os p\u00e9s no meu palet\u00f3,<br \/>\nnosso \u00fanico agasalho, ressonava com majestade.<\/p>\n<p>Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na cidadezinha<br \/>\nda manh\u00e3, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um bon\u00e9,<br \/>\nque murmuravam baixinho com imensa do\u00e7ura:<\/p>\n<p>-V. Exas n\u00e3o t\u00eam nada a declarar?&#8230; N\u00e3o h\u00e1 malinhas<br \/>\nde m\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:<\/p>\n<p>-N\u00e3o temos aqui nada&#8230; pergunte V.Ex.\u00aa pelo Grilo&#8230; A\u00ed<br \/>\natr\u00e1s, num compartimento&#8230; Ele tem as chaves, tem tudo&#8230; \u00c9<br \/>\no Grilo.<\/p>\n<p>A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra ben\u00e9fica. E eu readormeci<br \/>\ncom o pensamento em Gui\u00e3es, onde a tia Vic\u00eancia, atarefada, de<br \/>\nlen\u00e7o branco cruzado no peito, decerto j\u00e1 preparava o leit\u00e3o.<\/p>\n<p>Acordei envolto num largo e doce sil\u00eancio. Era uma Esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes<br \/>\n&#8211; e outras rosas em moutas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de limos<br \/>\ndormia sob mimosas em flor que recendiam. Um mo\u00e7o p\u00e1lido, de<br \/>\npalet\u00f3 cor de mel, vergando a bengalinha contra o ch\u00e3o, contemplava<br \/>\npensativamente o comboio. Agachada rente \u00e0 grade da horta, uma velha,<br \/>\ndiante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no rega\u00e7o. Sobre<br \/>\no telhado secavam ab\u00f3boras. P\u00f4r cima rebrilhava o profundo, rico<br \/>\ne macio azul de que meus olhos andavam aguados.<\/p>\n<p>Sacudi violentamente Jacinto:<\/p>\n<p>-Acorda, homem, que est\u00e1s na tua terra!<\/p>\n<p>Ele desembrulhou os p\u00e9s do meu palet\u00f3, cofiou o bigode, e veio<br \/>\nsem pressa, \u00e0 vidra\u00e7a que eu abrira, conhecer a sua terra.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o \u00e9 Portugal, hem?&#8230; Cheira bem.<\/p>\n<p>-Est\u00e1 claro que cheira bem, animal!<\/p>\n<p>A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com descanso, como<br \/>\nse passasse para seu regalo sobre as duas fitas de a\u00e7o, assobiando<br \/>\ne gozando a beleza da terra e do c\u00e9u.<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe alargava os bra\u00e7os, desolado:<\/p>\n<p>-E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gota de \u00e1gua-de-col\u00f4nia!&#8230;<br \/>\nentro em Portugal, imundo!<\/p>\n<p>-Na R\u00e9gua h\u00e1 uma demora, temos tempo de chamar o Grilo, reaver<br \/>\nos nossos confortos&#8230; Olha para o rio!<\/p>\n<p>Rol\u00e1vamos na vertente duma serra, sobre penhascos que desabavam at\u00e9<br \/>\nlargos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada, branquejava<br \/>\numa casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito caiada entre um<br \/>\nlaranjal maduro. Pelo rio, onde a \u00e1gua turva e tarda nem se quebrava<br \/>\ncontra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco carregado de pipas. Para<br \/>\nal\u00e9m, outros socalcos, dum verde p\u00e1lido de resed\u00e1, com<br \/>\noliveiras apoucadas pela amplid\u00e3o dos montes, subiam at\u00e9 outras<br \/>\npenedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina abund\u00e2ncia<br \/>\ndo azul. Jacinto acariciava os p\u00ealos corredios do bigode:<\/p>\n<p>-O Douro, hem?&#8230; \u00c9 interessante, tem grandeza. Mas agora \u00e9<br \/>\nque eu estou com uma fome, Z\u00e9 Fernandes!<\/p>\n<p>-Tamb\u00e9m eu! Destapamos o cesto de D. Esteban de onde surdiu um bodo<br \/>\ngrandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro de<br \/>\nduas nobres garrafas de Amontilado, al\u00e9m de duas garrafas de Rioja,<br \/>\naqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacinto lamentou<br \/>\ncontritamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar hist\u00f3rico, assim<br \/>\nabandonado e vazio! Que del\u00edcia, p\u00f4r aquela manh\u00e3 t\u00e3o<br \/>\nlustrosa e t\u00e9pida, subir \u00e0 serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,<br \/>\nbem civilizada&#8230; Para o animar, lembrei que com as obras do Silv\u00e9rio,<br \/>\ntantos caixotes de Civiliza\u00e7\u00e3o remetidos entendia um pal\u00e1cio<br \/>\nperfeito, um 202 no deserto!&#8230; E, assim discorrendo, atacamos as perdizes.<br \/>\nEu desarrolhava uma garrafa de Amontilado &#8211; quando o comboio, muito sorrateiramente,<br \/>\npenetrou numa esta\u00e7\u00e3o. Era a R\u00e9gua. E o meu Pr\u00edncipe<br \/>\npousou logo a faca para chamar o Grilo, reclamar as malas que traziam o asseio<br \/>\ndos nossos corpos.<\/p>\n<p>-Espera, Jacinto! Temos muito tempo. O comboio p\u00e1ra aqui uma hora&#8230;<br \/>\nCome com tranq\u00fcilidade. N\u00e3o escangalhemos este almocinho com arruma\u00e7\u00f5es<br \/>\nde maletas&#8230; O Grilo n\u00e3o tarda a aparecer.<\/p>\n<p>E corri mesmo a cortina, porque de fora um padre muito alto, com uma ponta<br \/>\nde cigarro colada ao bei\u00e7o, parara a espreitar indiscretamente o nosso<br \/>\nfestim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacinto confiadamente desembrulhava<br \/>\num queijo manchego, sem que Grilo ou Anatole comparecessem, eu, inquieto,<br \/>\ncorri \u00e0 portinhola para apressar esses servos tardios&#8230; E nesse instante<br \/>\no comboio, largando, deslizou com o mesmo sil\u00eancio sorrateiro. Para<br \/>\no meu Pr\u00edncipe foi um desgosto:<\/p>\n<p>-A\u00ed ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova&#8230; E eu que queria<br \/>\nmudar de camisa! P\u00f4r culpa tua, Z\u00e9 Fernandes!<\/p>\n<p>-\u00c9 espantoso!&#8230; Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!<br \/>\nPaci\u00eancia, Jacinto. Em duas horas estamos na Esta\u00e7\u00e3o de<br \/>\nTormes&#8230; Tamb\u00e9m n\u00e3o valia a pena mudar de camisa para subir<br \/>\n\u00e0 serra. Em casa tomamos um banho, antes de jantar&#8230; J\u00e1 deve<br \/>\nestar instalada a banheira.<\/p>\n<p>Ambos nos consolamos com copinhos duma divina aguardente Chinchon. Depois,<br \/>\nestendidos nos sof\u00e1s, saboreando os dois charutos que nos restavam,<br \/>\ncom as vidra\u00e7as abertas ao ar ador\u00e1vel, conversamos de Tormes.<br \/>\nNa esta\u00e7\u00e3o certamente estaria o Silv\u00e9rio, com os cavalos&#8230;<\/p>\n<p>-Que tempo leva a subir?<\/p>\n<p>Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas<br \/>\nserras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor de Tormes, solenemente,<br \/>\ntomasse posse do seu Senhorio. E \u00e0 noite o primeiro br\u00f3dio da<br \/>\nserra, com os pit\u00e9us vern\u00e1culos do velho Portugal!<\/p>\n<p>Jacinto sorria, seduzido:<\/p>\n<p>-Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silv\u00e9rio. Eu recomendei<br \/>\nque fosse um soberbo cozinheiro portugu\u00eas, cl\u00e1ssico. Mas que<br \/>\nsoubesse trufar um peru, afogar um bife em molho de moela, estas coisas simples<br \/>\nda cozinha de Fran\u00e7a!&#8230; O pior \u00e9 n\u00e3o te demorares, seguires<br \/>\nlogo para Gui\u00e3es&#8230;<\/p>\n<p>-Ah! menino, anos da tia Vic\u00eancia no S\u00e1bado&#8230; Dia sagrado!<br \/>\nMas volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga Buc\u00f3lica.<br \/>\nE, est\u00e1 claro, para assistir \u00e0 traslada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jacinto estendera o bra\u00e7o:<\/p>\n<p>-Que casar\u00e3o \u00e9 aquele, al\u00e9m no outeiro, com a torre?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia. Algum solar de fidalgote do Douro&#8230; Tormes era nesse<br \/>\nfeitio atarracado e maci\u00e7o. Casa de s\u00e9culos e para s\u00e9culos<br \/>\n&#8211; mas sem torre.<\/p>\n<p>-E logo se v\u00ea, da esta\u00e7\u00e3o, Tormes?&#8230;<\/p>\n<p>-N\u00e3o! Muito no alto, numa prega da serra, entre arvoredo.<\/p>\n<p>No meu Pr\u00edncipe j\u00e1 evidentemente nascera uma curiosidade ela<br \/>\nsua rude casa ancestral. Mirava o rel\u00f3gio, impaciente. Ainda trinta<br \/>\nminutos! Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de<br \/>\niniciado:<\/p>\n<p>-Que do\u00e7ura, que paz&#8230;<\/p>\n<p>-Tr\u00eas horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!<\/p>\n<p>Guardei o meu velho Jornal do Com\u00e9rcio dentro do bolso do palet\u00f3,<br \/>\nque deitei sobre o bra\u00e7o; &#8211; e ambos em p\u00e9, \u00e0s janelas,<br \/>\nesperamos com alvoro\u00e7o a pequenina Esta\u00e7\u00e3o de Tormes,<br \/>\ntermo ditoso das nossas prova\u00e7\u00f5es. Ela apareceu enfim, clara<br \/>\ne simples, \u00e0 beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girass\u00f3is<br \/>\nenchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombreando o p\u00e1tio,<br \/>\ne p\u00f4r tr\u00e1s a serra coberta de velho e denso arvoredo&#8230; Logo<br \/>\nna plataforma avistei com gosto a imensa barriga, as bochechas menineiras<br \/>\ndo chefe da Esta\u00e7\u00e3o, o louro Pimenta, meu condisc\u00edpulo<br \/>\nem Ret\u00f3rica, no Liceu de Braga. Os cavalos decerto esperavam, \u00e0<br \/>\nsombra, sob as figueiras.<\/p>\n<p>Mal o trem parou para mim com amizade:<\/p>\n<p>-Viva o amigo Z\u00e9 Fernandes!<\/p>\n<p>-\u00d3 belo Piment\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente:<\/p>\n<p>-Ouve l\u00e1, Pimentinha&#8230; N\u00e3o est\u00e1 a\u00ed o Silv\u00e9rio?<\/p>\n<p>-N\u00e3o&#8230; O Silv\u00e9rio h\u00e1 quase dois meses que partiu para<br \/>\nCastelo de Vide, ver a m\u00e3e que apanhou uma cornada dum boi!<\/p>\n<p>Atirei a Jacinto um olhar inquieto:<\/p>\n<p>Ora essa! E o Melchior, o caseiro?&#8230; Pois n\u00e3o est\u00e3o a\u00ed<br \/>\nos cavalos para subirmos \u00e0 Quinta?<\/p>\n<p>O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho:<\/p>\n<p>-N\u00e3o!&#8230; Nem Melchior, nem cavalos&#8230; O Melchior&#8230; H\u00e1 que<br \/>\ntempos eu n\u00e3o vejo o Melchior!<\/p>\n<p>O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ent\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o avistando em torno, na lisa e despovoada Esta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnem criados nem malas, o meu Pr\u00edncipe e eu lan\u00e7amos o mesmo<br \/>\ngrito de ang\u00fastia:<\/p>\n<p>-E o grilo? as bagagens?&#8230;<\/p>\n<p>Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:<\/p>\n<p>-Grilo!&#8230; \u00d3 Grilo!&#8230; Anatole!&#8230; \u00d3 Grilo!<\/p>\n<p>Na esperan\u00e7a que ele e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,<br \/>\ntrep\u00e1vamos aos estribos, atirando a cabe\u00e7a para dentro dos compartimentos,<br \/>\nespavorindo a gente quieta com o mesmo berro que retumbava: &#8211; \u201cGrilo,<br \/>\nest\u00e1s a\u00ed, Grilo?\u201d &#8211; J\u00e1 duma terceira classe, onde<br \/>\numa viola repenicava, um jocoso gania, tro\u00e7ando: &#8211; \u201cN\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 p\u00f4r a\u00ed um grilo? Andam p\u00f4r a\u00ed uns senhores<br \/>\na pedir um grilo!\u201d &#8211; E nem Anatole, nem Grilo!<\/p>\n<p>A sineta tilintou.<\/p>\n<p>-\u00d3 Pimentinha, espera, homem, n\u00e3o deixes largar o comboio!&#8230;<br \/>\nAs nossas bagagens, homem!<\/p>\n<p>E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furg\u00e3o de carga, a pesquisar,<br \/>\ndescortinar as nossas vinte e tr\u00eas malas! Apenas encontramos barris,<br \/>\ncestos de vime, latas de azeite, um ba\u00fa amarrado com cordas&#8230; Jacinto<br \/>\nmordia os bei\u00e7os, l\u00edvido. E o Pimentinha, esgazeado:<\/p>\n<p>-\u00d3 filhos, eu n\u00e3o posso atrasar o comboio!&#8230;<\/p>\n<p>A sineta repicou&#8230; E com um belo fumo claro o comboio desapareceu p\u00f4r<br \/>\ndetr\u00e1s das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.<br \/>\nAli fic\u00e1vamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grilo, sem procurador,<br \/>\nsem caseiro, sem cavalos, sem malas! Eu conservava o palet\u00f3 alvadio,<br \/>\nde onde surdia o Jornal do Com\u00e9rcio. Jacinto, uma bengala. Eram todos<br \/>\nos nossos bens!<\/p>\n<p>O Piment\u00e3o arregalava para n\u00f3s os olhinhos papudos e compadecidos.<br \/>\nContei ent\u00e3o \u00e0quele amigo o atarantado trasfego em Medina sob<br \/>\na borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado com as vinte e tr\u00eas malas,<br \/>\nou rolando talvez para Madri sem nos deixar um len\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>-Eu n\u00e3o tenho um len\u00e7o!&#8230; Tenho este Jornal do Com\u00e9rcio.<br \/>\n\u00c9 toda a minha roupa branca.<\/p>\n<p>Grande arrelia, caramba! &#8211; murmurava o Pimenta, impressionado. &#8211; E agora?<\/p>\n<p>-Agora &#8211; exclamei &#8211; \u00e9 trepar para a Quinta, \u00e0 pata&#8230; A n\u00e3o<br \/>\nser que se arranjassem a\u00ed uns burros.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda pertencente<br \/>\na Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa \u00e9gua e um jumento&#8230;<br \/>\nE o prestante homem enfiou numa carreira para a Giesta &#8211; enquanto o meu Pr\u00edncipe<br \/>\ne eu ca\u00edamos para cima dum banco, arquejantes e sucumbidos, como n\u00e1ufragos.<br \/>\nO vasto Pimentinha, com as m\u00e3os nas algibeiras, n\u00e3o cessava<br \/>\nde nos contemplar, de murmurar: &#8211; \u201c\u00c9 de arrelia\u201d. -O rio<br \/>\ndefronte descia, pregui\u00e7oso e como adormentado sob a calma j\u00e1<br \/>\npesada de Maio, abra\u00e7ando, sem um sussurro, uma larga ilhota de pedra<br \/>\nque rebrilhava. Para al\u00e9m a serra crescia em corcovas doces, com uma<br \/>\nfunda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma vilazinha<br \/>\nclara. O espa\u00e7o imenso repousava num imenso sil\u00eancio. Naquelas<br \/>\nsolid\u00f5es de monte e penedia os pardais, revoando no telhado, pareciam<br \/>\naves consider\u00e1veis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha dominava,<br \/>\natulhava a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>-Est\u00e1 tudo arranjado, meu senhor! V\u00eam a\u00ed os bichos!&#8230;<br \/>\nS\u00f3 o que n\u00e3o calhou foi um selinzinho para a jumenta!<\/p>\n<p>Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na m\u00e3o<br \/>\nduas esporas desirmanadas e ferrugentas. E n\u00e3o tardaram a aparecer<br \/>\nno c\u00f3rrego, para nos levarem a Tormes, uma \u00e9gua ru\u00e7a,<br \/>\num jumento com albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a m\u00e3o suada<br \/>\ne amiga do Pimentinha. Eu cedi a \u00e9gua ao senhor de Tormes. E come\u00e7amos<br \/>\na trepar o caminho, que n\u00e3o se alisara nem se desbravara desde os tempos<br \/>\nem que o trilhavam, com rudes sapat\u00f5es ferrados, cortando de rio a<br \/>\nmonte, os Jacintos de s\u00e9culo XIV! Logo depois de atravessarmos uma<br \/>\ntr\u00eamula ponte de pau, sobre um riacho quebrado p\u00f4r pedregulhos,<br \/>\no meu Pr\u00edncipe, com o olho de dono subitamente agu\u00e7ado, notou<br \/>\na robustez e a fartura das oliveiras&#8230; &#8211; E em breve os nossos males esqueceram<br \/>\nante a incompar\u00e1vel beleza daquela serra bendita!<\/p>\n<p>Com que brilho e inspira\u00e7\u00e3o copiosa a compusera o divino Artista<br \/>\nque faz as serras, e que tanto as cuidou, e t\u00e3o ricamente as dotou,<br \/>\nneste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a gra\u00e7a. Para os<br \/>\nvales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, t\u00e3o copados<br \/>\ne redondos, dum verde t\u00e3o mo\u00e7o, que eram como um musgo macio<br \/>\nonde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,<br \/>\nlargas ramarias estendiam o seu toldo am\u00e1vel, a que o esvoa\u00e7ar<br \/>\nleve dos p\u00e1ssaros sacudia a fragr\u00e2ncia. Atrav\u00e9s dos muros<br \/>\nseculares, que sust\u00eam as terras liados pelas heras, rompiam grossas<br \/>\nra\u00edzes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o torr\u00e3o,<br \/>\nde cada fenda, brotavam flores silvestres. Brancas rochas, pelas encostas,<br \/>\nalastravam a s\u00f3lida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol;<br \/>\noutras, vestidas de l\u00edquen e de silvados floridos, avan\u00e7avam<br \/>\ncomo proas de galeras enfeitadas; e, de entre as que se apinhavam nos cimos,<br \/>\nalgum casebere que para l\u00e1 galgara, todo amachucado e torto, espreitava<br \/>\npelos postigos negros, sobre as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento<br \/>\nlhe semeara nas telhas. P\u00f4r toda a parte a \u00e1gua sussurrante,<br \/>\na \u00e1gua fecundante&#8230; espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos,<br \/>\nde entre as patas da \u00e9gua e do burro; grossos ribeiros a\u00e7odados<br \/>\nsaltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas<br \/>\nde prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta<br \/>\n\u00e0 beira de veredas, jorrava p\u00f4r uma bica, beneficamente, \u00e0<br \/>\nespera dos homens e dos gados&#8230; Todo um cabe\u00e7o p\u00f4r vezes era<br \/>\numa seara, onde um vasto carvalho ancestral, solit\u00e1rio, dominava como<br \/>\nseu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos<br \/>\nde lajes soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas retou\u00e7ando:<br \/>\n&#8211; ou mais estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa,<br \/>\nnuma penumbra de repouso e frescura. Trep\u00e1vamos ent\u00e3o alguma<br \/>\nruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se<br \/>\nesga\u00e7ava, fugindo do lar pela telha v\u00e3, o fumo branco e cheiroso<br \/>\ndas pinhas. Nos cerros remotos, p\u00f4r cima da negrura pensativa dos pinheirais,<br \/>\nbranquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espelhava<br \/>\nalegria e for\u00e7a. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria<br \/>\npelas quebradas&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto adiante, na sua \u00e9gua ru\u00e7a, murmurava:<\/p>\n<p>-Que beleza!<\/p>\n<p>E eu atr\u00e1s, no burro de Sancho, murmurava:<\/p>\n<p>-Que beleza!<\/p>\n<p>Frescos ramos ro\u00e7avam os nossos ombros com familiaridade e carinho.<br \/>\nP\u00f4r tr\u00e1s das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas<br \/>\nofereciam as suas ma\u00e7\u00e3s verdes, porque as n\u00e3o tinham<br \/>\nmaduras. Todos os vidros duma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram<br \/>\nhospitaleiramente quando n\u00f3s passamos. Muito tempo um melro nos seguiu,<br \/>\nde azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irm\u00e3o<br \/>\nmelro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre contigo<br \/>\nfiquemos, serra t\u00e3o acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita<br \/>\nentre as serras!<\/p>\n<p>Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos \u00e0quela avenida de faias,<br \/>\nque sempre me encantara pela sua fidalga gravidade. Atirando uma vergastada<br \/>\nao burro e \u00e0 \u00e9gua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os<br \/>\ncalcanhares, gritou: &#8211; \u201cAqui \u00e9 que estamos, meus amos!\u201d<br \/>\nE ao fundo das faias, com efeito, aparecia o port\u00e3o da Quinta de Tormes,<br \/>\ncom o seu bras\u00e3o de armas, de secular granito, que o musgo retocava<br \/>\ne mais envelhecia. Dentro j\u00e1 os c\u00e3es ladravam com furor. E quando<br \/>\nJacinto, na sua suada \u00e9gua, e eu atr\u00e1s, no burro de furor. E<br \/>\nquando Jacinto, na sua suada \u00e9gua, e eu atr\u00e1s, no burro de Sancho,<br \/>\ntranspusemos o limiar solarengo, desceu para n\u00f3s, do alto do alpendre,<br \/>\npela escadaria de pedra gasta, um homem n\u00e9dio, rapado como um padre,<br \/>\nsem colete, sem jaleca, acalmando os c\u00e3es que se encarni\u00e7avam<br \/>\ncontra o meu Pr\u00edncipe. Era o Melchior, o caseiro&#8230;<\/p>\n<p>Apenas me reconheceu, toda a boca se lhe escancarou num riso hospitaleiro,<br \/>\na que faltavam dentes. Mas apenas eu lhe revelei, naquele cavalheiro de bigodes<br \/>\nlouros que descia da \u00e9gua esfregando os quadris, o senhor de Tormes<br \/>\n&#8211; o bom Melchior recuou, colhido de espanto e terror como diante duma avantesma.<\/p>\n<p>-Ora essa!&#8230; Sant\u00edssimo nome de Deus! Pois ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>E, entre o rosnar dos c\u00e3es, num bracejar desolado, balbuciou uma hist\u00f3ria<br \/>\nque p\u00f4r seu turno apavorava Jacinto, como se o negro muro do casar\u00e3o<br \/>\npendesse para desabar. O Melchior n\u00e3o esperava S. Ex\u00aa!&#8230; (Ele<br \/>\ndizia sua incel\u00eancia)&#8230; O sr. Silv\u00e9rio estava para Castelo de<br \/>\nVide desde Mar\u00e7o, com a m\u00e3e, que apanhara uma cornada na virilha.<br \/>\nE decerto houvera engano, cartas perdidas&#8230; Porque o sr. Silv\u00e9rio<br \/>\ns\u00f3 contava com S. Ex\u00aa em Setembro, para a vindima! Na casa as<br \/>\nobras seguiam devagarinho, devagarinho&#8230; O telhado, no sul, ainda continuava<br \/>\nsem telhas, muitas vidra\u00e7as esperavam, ainda sem vidros; e, para ficar,<br \/>\nVirgem Santa, nem uma cama arranjada!&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto cruzou os bra\u00e7os numa c\u00f3lera tumultuosa que sufocava.<br \/>\nP\u00f4r fim, com um berro:<\/p>\n<p>-Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em Fevereiro, h\u00e1<br \/>\nquatro meses?&#8230;<\/p>\n<p>O desgra\u00e7ado Melchior arregalava os olhos mi\u00fados, que se embaciavam<br \/>\nde l\u00e1grimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera!&#8230; E na sua<br \/>\nperturba\u00e7\u00e3o mirava pelas arcadas do p\u00e1tio, palpava na<br \/>\nalgibeira das pantalonas. Os caixotes?&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o tinha os<br \/>\ncaixotes!<\/p>\n<p>-E agora, Z\u00e9 Fernandes?<\/p>\n<p>Encolhi os ombros:<\/p>\n<p>-Agora, meu filho, s\u00f3 vires comigo para Gui\u00e3es&#8230; Mas s\u00e3o<br \/>\nduas horas a cavalo. E n\u00e3o temos cavalos! O melhor \u00e9 ver o casar\u00e3o,<br \/>\ncomer a boa galinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir<br \/>\nnuma enxerga, e amanh\u00e3 cedo, antes do calor, trotar para cima, para<br \/>\na tia Vic\u00eancia.<\/p>\n<p>Jacinto replicou, com uma decis\u00e3o furiosa:<\/p>\n<p>-Amanh\u00e3 troto, mas para baixo, para a esta\u00e7\u00e3o!&#8230; E<br \/>\ndepois, para Lisboa!<\/p>\n<p>E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima uma<br \/>\nlarga varanda acompanhava a fachada do casar\u00e3o, sob um alpendre de<br \/>\nnegras vigas, toda ornada, p\u00f4r entre os pilares de granito, com caixas<br \/>\nde pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarelo &#8211; e penetrei atr\u00e1s<br \/>\nde Jacinto nas salas nobres, que ele contemplava com um murm\u00fario de<br \/>\nhorror. Eram enormes, duma sonoridade de casa capitular, com os grossos muros<br \/>\ne enegrecidos pelo tempo e o abandono, e relegadas, desoladamente nuas, conservando<br \/>\napenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma enxada entre paus. Nos<br \/>\ntetos remotos, de carvalho apainelado, luziam atrav\u00e9s dos rasg\u00f5es<br \/>\nmanchas de c\u00e9u. As janelas, sem vidra\u00e7as, conservavam essas<br \/>\nmaci\u00e7as portadas, com fechos para as trancas, que, quando se cerram,<br \/>\nespalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e al\u00e9m, uma t\u00e1bua<br \/>\npodre rangia e cedia.<\/p>\n<p>-Inabit\u00e1vel! &#8211; rugiu Jacinto surdamente. &#8211; Um horror! Uma inf\u00e2mia!&#8230;<\/p>\n<p>Mas depois, noutras salas, o soalho alternava com remendos de t\u00e1buas<br \/>\nnovas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velh\u00edssimos tetos de<br \/>\nrico carvalho sombrio. As paredes repeliam pela alvura crua da cal fresca.<br \/>\nE o sol mal atravessava as vidra\u00e7as &#8211; embaciadas e gordurentas da massa<br \/>\ne das m\u00e3os dos vidraceiros.<\/p>\n<p>Penetramos enfim na \u00faltima, a mais vasta, rasgada p\u00f4r seis janelas,<br \/>\nmobiliada com um arm\u00e1rio e com uma enxerga parda e curta estirada a<br \/>\num canto; e junto dela paramos, e sobre ela depusemos tristemente o que nos<br \/>\nrestava de vinte e tr\u00eas malas &#8211; o meu palet\u00f3 alvadio, a bengala<br \/>\nde Jacinto, e o Jornal do Com\u00e9rcio que nos era comum. Atrav\u00e9s<br \/>\ndas janelas escancaradas, sem vidra\u00e7as, o grande ar da serra entrava<br \/>\ne circulava como num eirado, com um cheiro fresco de horta regada. Mas o que<br \/>\navist\u00e1vamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um cabe\u00e7o<br \/>\ne descendo pelo pendor suave, \u00e0 Maneira duma hoste em marcha, com pinheiros<br \/>\nna frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais longe as serras<br \/>\nde al\u00e9m rio, duma fina e macia cor de violeta; depois a brancura do<br \/>\nc\u00e9u, todo liso, sem uma nuvem, duma majestade divina. E l\u00e1 debaixo,<br \/>\ndos vales, subia, desgarrada e melanc\u00f3lica, uma voz de pegureiro cantando.<\/p>\n<p>Jacinto caminhou lentamente para o poial duma janela, onde caiu esbarrondado<br \/>\npelo desastre, sem resist\u00eancia ante aquele brusco desaparecimento de<br \/>\ntoda a Civiliza\u00e7\u00e3o! Eu palpava a enxerga, dura e regelada como<br \/>\num granito de Inverno. E pensando nos luxuosos colch\u00f5es de penas e<br \/>\nmolas, t\u00e3o prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tamb\u00e9m<br \/>\na minha indigna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>-Mas os caixotes, caramba?&#8230; Como se perdem assim trinta e tantos caixotes<br \/>\nenormes?&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto sacudiu amargamente os ombros:<\/p>\n<p>-Encalhados, p\u00f4r a\u00ed, algures, num barrac\u00e3o!&#8230; Em Medina,<br \/>\ntalvez, nessa horrenda Medina. Indiferen\u00e7a das Companhias, in\u00e9rcia<br \/>\ndo Silv\u00e9rio&#8230; enfim a Pen\u00ednsula, a barb\u00e1rie!<\/p>\n<p>Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados p\u00f4r<br \/>\nc\u00e9u e monte:<\/p>\n<p>-\u00c9 uma beleza!<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe, depois de um sil\u00eancio grave, murmurou, com a<br \/>\nface encostada \u00e0 m\u00e3o:<\/p>\n<p>-\u00c9 uma lindeza&#8230; E que paz!<\/p>\n<p>Sob a janela vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal, talh\u00f5es<br \/>\nde alface, gordas folhas de ab\u00f3bora rastejando. Uma eira, velha e mal<br \/>\nalisada, dominava o vale, de onde j\u00e1 subia tenuemente a n\u00e9voa<br \/>\nde algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casar\u00e3o desse lado se encravava<br \/>\nem laranjal. E duma fontinha r\u00fastica, meio afogada em rosas tremedeiras,<br \/>\ncorria um longo e rutilante fio de \u00e1gua.<\/p>\n<p>-Estou com apetite desesperado daquela \u00e1gua! &#8211; declarou Jacinto, muito<br \/>\ns\u00e9rio.<\/p>\n<p>-Tamb\u00e9m eu&#8230; Des\u00e7amos ao quintal, hem? E passamos pela cozinha,<br \/>\na saber do frango.<\/p>\n<p>Voltamos \u00e0 varanda. O meu Pr\u00edncipe, mais conciliado com o destino<br \/>\ninclemente, colheu um cravo amarelo. E p\u00f4r outra porta baixa, de rig\u00edssimas<br \/>\nombreiras, mergulhamos numa sala, alastrada de cali\u00e7a, sem teto, coberta<br \/>\napenas de grossas vigas, donde se ergueu uma revoada de pardais.<\/p>\n<p>-Olha para este horror! &#8211; murmurava Jacinto arrepiado.<\/p>\n<p>E descemos p\u00f4r uma l\u00f4brega escada de castelo, tenteando depois<br \/>\num corredor tenebroso de lajes \u00e1speras, atravancado p\u00f4r profundas<br \/>\narcas, capazes de guardar todo o gr\u00e3o duma prov\u00edncia. Ao fundo<br \/>\na cozinha, imensa, era uma massa de formas negras, madeira negra, pedra negra,<br \/>\ndensas negruras de felugem secular. E neste negrume refulgia a um canto, sobre<br \/>\no ch\u00e3o de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos e panelas<br \/>\nde ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta no muro, depois<br \/>\np\u00f4r entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira, onde se aqueciam<br \/>\ne assavam as suas grossas pe\u00e7as de porco e de boi os Jacintos medievais,<br \/>\nagora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros, negrejava um poeirento<br \/>\nmont\u00e3o de cestas e ferramentas; e a claridade toda entrava p\u00f4r<br \/>\numa porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo r\u00fastico em que<br \/>\nse misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em roda do lume um bando<br \/>\nalvoro\u00e7ado de mulheres depenava frangos, remexia as ca\u00e7arolas,<br \/>\npicava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas emudeceram quando<br \/>\naparecemos &#8211; e de entre elas o pobre Melchior, estonteado, com sangue a espirrar<br \/>\nna n\u00e9dia face de abade, correu para n\u00f3s, jurando \u201cque<br \/>\no jantarinho de suas Incel\u00eancias n\u00e3o demorava um credo\u201d&#8230;<\/p>\n<p>-E a respeito de camas, \u00f3 amigo Melchior?<\/p>\n<p>O digno homem ciciou uma desculpa encolhida \u201csobre enxergazinhas no<br \/>\nch\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>-\u00c9 o que basta! &#8211; acudi eu, para o consolar. &#8211; P\u00f4r uma noite<br \/>\ncom len\u00e7\u00f3is frescos&#8230;<\/p>\n<p>-Ah, l\u00e1 pelos len\u00e7oizinhos respondo eu!&#8230; Mas um desgosto<br \/>\nassim, meu senhor! A gente apanhada sem um colch\u00e3ozinho de l\u00e3,<br \/>\nsem um lombozinho de vaca&#8230; Que eu j\u00e1 pensei, at\u00e9 lembrei \u00e0<br \/>\nminha comadre, V. Incas podiam ir dormir aos Ninhos a casa do Silv\u00e9rio.<br \/>\nTinham l\u00e1 camas de ferro, lavat\u00f3rios&#8230; Ele sempre \u00e9<br \/>\numa leguazita e meu caminho&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto, bondoso, acudiu:<\/p>\n<p>-N\u00e3o, tudo se arranja, Melchior. P\u00f4r uma noite!&#8230; At\u00e9<br \/>\ngosto mais de dormir em Tormes, na minha casa da serra!<\/p>\n<p>Sa\u00edmos ao terreiro, retalho de horta fechado p\u00f4r grossas rochas<br \/>\nencabeladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde lourejava<br \/>\no centeio. O meu Pr\u00edncipe bebeu da \u00e1gua nevada e luzidia da<br \/>\nfonte, regaladamente, com os bei\u00e7os na bica; apeteceu a alface rechonchuda<br \/>\ne crespa; e atirou pulos aos ramos altos duma copada cerejeira, toda carregada<br \/>\nde cereja. Depois, costeando o velho lagar, a que um bando de pombas branqueava<br \/>\no telhado, deslizamos at\u00e9 ao carreiro, cortado no costado do monte.<br \/>\nE andando, pensativamente, o meu Pr\u00edncipe pasmava para os milheirais,<br \/>\npara vetustos carvalhos plantados p\u00f4r vetustos Jacintos, para os casebres<br \/>\nespalhados sobre os cabe\u00e7os \u00e0 orla negra dos pinheirais.<\/p>\n<p>De novo penetramos na avenida de faias e transpusemos o port\u00e3o senhorial<br \/>\nentre o latir dos c\u00e3es, mais mansos, farejando um dono. Jacinto reconheceu<br \/>\n\u201ccerta nobreza\u201d na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe agradava<br \/>\na longa alameda, assim direita e larga, como tra\u00e7ada para nela se desenrolar<br \/>\numa cavalgada de Senhores com plumas e pajens. Depois, de cima da varanda,<br \/>\nreparando na telha nova da capela, louvou o Silv\u00e9rio, \u201cesse ralasso\u201d,<br \/>\np\u00f4r cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.<\/p>\n<p>-E esta varanda tamb\u00e9m \u00e9 agrad\u00e1vel &#8211; murmurou ele mergulhando<br \/>\na face no aroma dos cravos. &#8211; Precisa grandes poltronas, grandes div\u00e3s<br \/>\nde verga&#8230;<\/p>\n<p>Dentro, na \u201cnossa sala\u201d, ambos nos sentamos nos poiais da janela,<br \/>\ncontemplando o doce sossego crepuscular que lentamente se estabelecia sobre<br \/>\nvale e monte. No alto tremeluzia uma estrelinha, a V\u00eanus diamantina,<br \/>\nl\u00e2nguida anunciadora da noite e dos seus contentamentos. Jacinto nunca<br \/>\nconsiderara demoradamente aquela estrela, de amorosa refulg\u00eancia, que<br \/>\nperpetua no nosso C\u00e9u cat\u00f3lico a mem\u00f3ria de Deusa incompar\u00e1vel:<br \/>\n&#8211; nem assistira jamais, com a alma atenta, ao majestoso adormecer da Natureza.<br \/>\nE este enegrecimento dos montes que se embu\u00e7am em sombra; os arvoredos<br \/>\nemudecendo; cansados de sussurrar; o rebrilho dos casais mansamente apagado;<br \/>\no cobertor de n\u00e9voa, sob que se acama e agasalha a frialdade dos vales;<br \/>\num toque sonolento de sino que rola pelas quebradas; o segregado cochichar<br \/>\ndas \u00e1guas e das relvas escuras &#8211; eram para ele como inicia\u00e7\u00f5es.<br \/>\nDaquela janela, aberta sobre as serras, entrevia uma outra vida, que n\u00e3o<br \/>\nanda somente cheia do Homem e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo<br \/>\nsuspirar como quem enfim descansa.<\/p>\n<p>Deste enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do \u201cjantarinho<br \/>\nde suas incel\u00eancias\u201d. Era noutra sala, mais nua, mais abandonada:<br \/>\n&#8211; e a\u00ed logo \u00e0 porta o meu supercivilizado Pr\u00edncipe estacou,<br \/>\nestarrecido pelo desconforto, e escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada<br \/>\nao muro denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,<br \/>\nduas velas de sebo em casti\u00e7ais de lata alumiavam grossos pratos de<br \/>\nlou\u00e7a amarela, ladeados p\u00f4r colheres de estanho e p\u00f4r garfos<br \/>\nde ferro. Os copos, dum vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho<br \/>\nque neles passara em fartos anos de fartas vindimas. A malga de barro, atestada<br \/>\nde azeitonas pretas, contentaria Di\u00f3genes. Espetado na c\u00f4dea<br \/>\ndum imenso p\u00e3o reluzia um imenso facalh\u00e3o. E na cadeira senhorial<br \/>\nreservada ao meu Pr\u00edncipe, derradeira alfaia dos velhos Jacintos, de<br \/>\nhirto espaldar de couro, com madeira ro\u00edda de caruncho, a clina fugia<br \/>\nem melenas pelos rasg\u00f5es do assento pu\u00eddo.<\/p>\n<p>Uma formid\u00e1vel mo\u00e7a, de enormes peitos que lhe tremiam dentro<br \/>\ndas ramagens do len\u00e7o cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da<br \/>\nlareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior,<br \/>\nque seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incel\u00eancias<br \/>\nlhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar&#8230; Jacinto ocupou<br \/>\na sede ancestral &#8211; e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro<br \/>\nexcelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a<br \/>\nfusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha<br \/>\ne recendia. Provou &#8211; e levantou para mim, seu camarada de mis\u00e9rias,<br \/>\nuns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais<br \/>\ncheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: &#8211; \u201cEst\u00e1 bom!\u201d<\/p>\n<p>Estava precioso: tinha f\u00edgado e tinha moela; o seu perfume enternecia;<br \/>\ntr\u00eas vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.<\/p>\n<p>-Tamb\u00e9m l\u00e1 volto! &#8211; exclamava Jacinto com uma convic\u00e7\u00e3o<br \/>\nimensa. &#8211; \u00c9 que estou com uma fome&#8230; Santo Deus! H\u00e1 anos que<br \/>\nn\u00e3o sinto esta fome.<\/p>\n<p>Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E j\u00e1 espreitava a porta, esperando<br \/>\na portadora dos pit\u00e9us, a rija mo\u00e7a de peitos trementes, que<br \/>\nenfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado &#8211; e pousou sobre a mesa<br \/>\numa travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em<br \/>\nParis, sempre abominava favas!&#8230; Tentou todavia uma garfada t\u00edmida<br \/>\n&#8211; e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando<br \/>\nos meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentid\u00e3o de frade<br \/>\nque se regala. Depois um brado:<\/p>\n<p>-\u00d3timo!&#8230; Ah, destas favas, sim! \u00d3 que fava! Que del\u00edcia!<\/p>\n<p>E p\u00f4r esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres<br \/>\npalreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao br\u00f3dio&#8230;<\/p>\n<p>-Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!<\/p>\n<p>O homem \u00f3timo sorria, inteiramente desanuviado:<\/p>\n<p>-Pois \u00e9 c\u00e1 a comidinha dos mo\u00e7os da Quinta! E cada pratada,<br \/>\nque at\u00e9 suas Incel\u00eancias se riam&#8230; Mas agora, aqui, o Sr. D.<br \/>\nJacinto, tamb\u00e9m vai engordar e enrijar!<\/p>\n<p>O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o Senhor<br \/>\nde Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e minguava&#8230; e o meu<br \/>\nPr\u00edncipe, na verdade, parecia saciar uma velh\u00edssima fome e uma<br \/>\nlonga saudade da abund\u00e2ncia, rompendo assim, a cada travessa, em louvores<br \/>\nmais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele<br \/>\napetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos l\u00e1bios<br \/>\nde Plat\u00e3o, terminou p\u00f4r bradar: &#8211; \u201c\u00c9 divino!\u201d<br \/>\nMas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda<br \/>\ninfusa verde &#8211; um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando<br \/>\nmais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, \u00e0 vela de sebo,<br \/>\no copo grosso que ele orlava de leve espuma r\u00f3sea, o meu Pr\u00edncipe,<br \/>\ncom um resplendor de otimismo na face, citou Virg\u00edlio:<\/p>\n<p>-Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantar\u00e1, vinho<br \/>\nam\u00e1vel destas serras? Quem dignamente te cantar\u00e1, vinho am\u00e1vel<br \/>\ndestas serras?<\/p>\n<p>Eu, que n\u00e3o gosto que me avantajem em saber cl\u00e1ssico, espanejei<br \/>\nlogo tamb\u00e9m o meu Virg\u00edlio, louvando as do\u00e7uras da vida<br \/>\nrural:<\/p>\n<p>-Hanc olim veteres vitam coluere Sabini&#8230; Assim viveram os velhos Sabinos.<br \/>\nAssim R\u00f4mulo e Remo&#8230; Assim cresceu a valente Etr\u00faria. Assim<br \/>\nRoma se tornou a maravilha do mundo!<\/p>\n<p>E im\u00f3vel, com a m\u00e3o agarrada \u00e0 infusa, o Melchior arregalava<br \/>\npara n\u00f3s os olhos em infinito assombro e religiosa rever\u00eancia.<\/p>\n<p>Ah! Jantamos deliciosamente, sob os ausp\u00edcios do Melchior &#8211; que ainda<br \/>\ndepois, pr\u00f3vido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante n\u00f3s<br \/>\nse alongava uma noite de monte, voltamos para as janelas desvidra\u00e7adas,<br \/>\nna sala imensa, a contemplar o suntuoso c\u00e9u de Ver\u00e3o. Filosofamos<br \/>\nent\u00e3o com a pachorra e fac\u00fandia.<\/p>\n<p>Na Cidade (como notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os astros &#8211; p\u00f4r<br \/>\ncausa dos candeeiros de g\u00e1s ou dos globos de eletricidade que os ofuscam.<br \/>\nP\u00f4r isso (como eu notei) nunca se entra nessa comunh\u00e3o com o<br \/>\nUniverso que \u00e9 a \u00fanica gl\u00f3ria e \u00fanica consola\u00e7\u00e3o<br \/>\nda vida. Mas na serra, sem pr\u00e9dios disformes de seis andares, sem a<br \/>\nfumara\u00e7a que tapa Deus, sem os cuidados que, como peda\u00e7os de<br \/>\nchumbo, puxam a alma para o p\u00f3 rasteiro &#8211; um Jacinto, um Z\u00e9<br \/>\nFernandes, livres, bem jantados, fumando nos poiais duma janela, olham para<br \/>\nos astros e os astros olham para eles. Uns, certamente, com olhos de sublime<br \/>\nimobilidade ou de sublime indiferen\u00e7a. Mas outros curiosamente, ansiosamente,<br \/>\ncom uma luz que acena, uma luz que chama, como se tentassem, de t\u00e3o<br \/>\nlonge, revelar os seus segredos, ou de t\u00e3o longe compreender os nossos&#8230;<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto, que estrela \u00e9 esta, aqui, t\u00e3o viva, sobre<br \/>\no beiral do telhado?<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei&#8230; e aquela, Z\u00e9 Fernandes, al\u00e9m, p\u00f4r<br \/>\ncima do pinheiral?<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>N\u00e3o sab\u00edamos. Eu p\u00f4r causa da espessa crosta de ignor\u00e2ncia<br \/>\ncom que sa\u00ed do ventre de Coimbra, minha M\u00e3e espiritual. Ele,<br \/>\nporque na sua Biblioteca possu\u00eda trezentos e oito tratados sobre Astronomia,<br \/>\ne o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transp\u00f5e nem<br \/>\nse desbasta. Mas que nos importava que aquele astro al\u00e9m se chamasse<br \/>\nS\u00edrio e aquele outro Aldebara? Que lhes importava a eles que um de<br \/>\nn\u00f3s fosse Jacinto, outro Z\u00e9? Eles t\u00e3o imensos, n\u00f3s<br \/>\nt\u00e3o pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas<br \/>\nde Noronha e Sande, constitu\u00edmos modos diversos dum Ser \u00fanico,<br \/>\ne as nossas diversidades esparsas somam na mesma compacta Unidade. Mol\u00e9culas<br \/>\ndo mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim&#8230; Do astro<br \/>\nao homem, do homem \u00e0 flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro<br \/>\n&#8211; tudo \u00e9 o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus.<br \/>\nE nenhum fr\u00eamito de vida, p\u00f4r menor, passa numa fibra desse sublime<br \/>\nCorpo, que se n\u00e3o repercuta em todas, at\u00e9 \u00e0s mais humildes,<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s que parecem inertes e invitais. Quando um Sol que n\u00e3o<br \/>\navisto, nunca avistarei, morre de inani\u00e7\u00e3o nas profundidades,<br \/>\nesse esguio galho de limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio<br \/>\nde morte: &#8211; e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, al\u00e9m<br \/>\no monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo!<br \/>\nJacinto abateu tijamente a m\u00e3o no rebordo da janela. Eu gritei:<\/p>\n<p>-Acredita!&#8230; O Sol tremeu.<\/p>\n<p>E depois (como eu notei) dev\u00edamos considerar que, sobre cada um desses<br \/>\ngr\u00e3os de p\u00f3 luminoso, existia uma cria\u00e7\u00e3o, que<br \/>\nincessantemente nasce, perece, renasce. Neste instante, outros Jacintos, outros<br \/>\nZ\u00e9s Fernandes, sentados \u00e0s janelas de outras Tormes contemplam<br \/>\no c\u00e9u noturno, e nele um pequenininho ponto de luz, que \u00e9 a<br \/>\nnossa possante Terra p\u00f4r n\u00f3s tanto sublimada. N\u00e3o ter\u00e3o<br \/>\ntodos esta nossa forma, bem fr\u00e1gil, bem desconfort\u00e1vel, e (a<br \/>\nn\u00e3o ser no Apolo do Vaticano, na V\u00eanus de Milo e talvez na Princesa<br \/>\nde Carman) singularmente feia e burlesca. Mas, horrendos ou de inef\u00e1vel<br \/>\nbeleza; colossais e duma carne mais dura que o granito, ou leves como gases<br \/>\ne ondulando na luz, todos eles s\u00e3o seres pensantes e t\u00eam consci\u00eancia<br \/>\nda Vida &#8211; porque decerto cada Mundo possui o seu Descartes, ou j\u00e1 o<br \/>\nnosso Descartes os percorreu a todos com o seu M\u00e9todo, a sua escura<br \/>\ncapa, a sua agudeza elegante, formulando a \u00fanica certeza talvez certa,<br \/>\no grande Penso, logo existo. Portanto todos n\u00f3s, Habitantes dos Mundos,<br \/>\n\u00e0s janelas dos nossos casar\u00f5es, al\u00e9m nos Saturnos, ou<br \/>\naqui na nossa Terr\u00edcula, constantemente perfazemos um ato sacrossanto<br \/>\nque nos penetra e nos funde &#8211; que \u00e9 sentirmos no Pensamento o n\u00facleo<br \/>\ncomum das nossas modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da<br \/>\nConsci\u00eancia, a Unidade do Universo!<\/p>\n<p>-Hem, Jacinto?<\/p>\n<p>O meu amigo rosnou:<\/p>\n<p>-Talvez&#8230; Estou a cair com sono.<\/p>\n<p>-Tamb\u00e9m eu. \u201cRemontamos muito, Ex.mo Sr.!\u201d como dizia<br \/>\no Pestaninha em Coimbra. Mas nada mais belo, e mais v\u00e3o, que uma cavaqueira,<br \/>\nno alto das serras, a olhar para as estrelas!&#8230; tu sempre vais amanh\u00e3?<\/p>\n<p>-Com certeza, Z\u00e9 Fernandes! Com a certeza de Descartes. \u201cPenso,<br \/>\nlogo fujo!\u201d Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem uma poltrona,<br \/>\nsem um livro?&#8230; Nem s\u00f3 de arroz com fava vive o Homem! Mas demoro<br \/>\nem Lisboa, para conversar com o Sesimbra, o meu Administrador. E tamb\u00e9m<br \/>\n\u00e0 espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa voltar<br \/>\ndecentemente, com roupa lavada, para a traslada\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>-\u00c9 verdade, os ossos&#8230;<\/p>\n<p>-Mas resta ainda o Grilo&#8230; Que animal! P\u00f4r onde andar\u00e1 esse<br \/>\nperdido?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sebo j\u00e1<br \/>\nderretida no casti\u00e7al de lata era como um lume de cigarro num descampado,<br \/>\nmeditamos na sorte do Grilo. O estimado negro ou fora despejado nas lamas<br \/>\nde Medina, com as vinte e sete malas, aos gritos &#8211; ou, regaladamente adormecido,<br \/>\nrolara com o Anatole no comboio para Madri. Mas ambos os casos apareciam ao<br \/>\nmeu Pr\u00edncipe como irremediavelmente destruidores do seu conforto&#8230;<\/p>\n<p>-N\u00e3o, escuta, Jacinto&#8230; Se o Grilo encalhou em Medina, dormiu na<br \/>\nFonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando amanh\u00e3<br \/>\ndesceres \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o, \u00e0s quatro horas, encontras<br \/>\no teu precioso homem, com as tuas preciosas malas, metido nesse comboio que<br \/>\nte leva ao Porto e \u00e0 Capital&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto sacudiu os bra\u00e7os como quem se debate nas malhas duma rede:<\/p>\n<p>-E se seguiu para Madri?<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, p\u00f4r esta semana, c\u00e1 aparece em Tormes, onde encontra<br \/>\nordem para regressar a Lisboa e reentrar no teu s\u00e9quito&#8230; Resta o<br \/>\ninteressante caso das minhas bagagens. Se amanh\u00e3 encontrares na esta\u00e7\u00e3o<br \/>\no Grilo, separa a minha mala negra, e o saco de lona, e a chaleira. O Grilo<br \/>\nconhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para Gui\u00e3es.<br \/>\nSe o Grilo aportar Tormes, esfogueteado de Madri, com toda essa malaria, deixa<br \/>\nas minhas coisas aqui, ao Melchior&#8230; Eu amanh\u00e3 falo ao Melchior.<\/p>\n<p>Jacinto sacudiu furiosamente o colarinho:<\/p>\n<p>-Mas como posso eu partir para Lisboa, amanh\u00e3, com esta camisa de<br \/>\ndois dias, que j\u00e1 me faz uma comich\u00e3o horrenda? E sem um len\u00e7o&#8230;<br \/>\nNem ao menos uma escova de dentes!<\/p>\n<p>F\u00e9rtil em id\u00e9ias, estendi as m\u00e3os, num belo gesto tutelar:<\/p>\n<p>-Tudo se arranja, meu Jacinto, tudo se arranja! Eu, largando daqui cedo,<br \/>\npelas seis horas, chego a Gui\u00e3es \u00e0s dez, ainda sem calor. E,<br \/>\nmesmo antes do almo\u00e7o e da cavaqueira com tia Vic\u00eancia, imediatamente<br \/>\nte mando p\u00f4r um mo\u00e7o um saco de roupa branca. As minhas camisas<br \/>\ne as minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu n\u00e3o<br \/>\ntem direito a eleg\u00e2ncias e a roupas bem cortadas. O mo\u00e7o, num<br \/>\nbom trote, entra aqui \u00e0s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres<br \/>\npara a Esta\u00e7\u00e3o&#8230; Posso meter na mala uma escova de dentes.<\/p>\n<p>-\u00d3 Z\u00e9 Fernandes! Ent\u00e3o mete tamb\u00e9m uma esponja&#8230;<br \/>\nE um frasco de \u00e1gua-de-col\u00f4nia!<\/p>\n<p>-\u00c1gua de alfazema, excelente, feita pela tia Vic\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe suspirou, impressionado com a sua mis\u00e9ria esqu\u00e1lida,<br \/>\ne esta d\u00e1diva de roupas:<\/p>\n<p>-Bem, ent\u00e3o vamos dormir, que estou esfalfado de emo\u00e7\u00f5es<br \/>\ne de astros&#8230;<\/p>\n<p>Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que<br \/>\n\u201cestavam preparadinhas as camas de suas Incel\u00eancias\u201d. E<br \/>\nseguindo o bom caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos n\u00f3s,<br \/>\no meu Pr\u00edncipe e eu, ainda h\u00e1 pouco irmanados com os astros?<br \/>\nEm duas saletas, que uma abertura em arco, l\u00f4brego arco de pedra, separava<br \/>\n&#8211; duas enxergas sobre o soalho. Junto \u00e0 cabeceira da mais larga, que<br \/>\npertencia ao senhor de Tormes, um casti\u00e7al de lat\u00e3o sobre um<br \/>\nalqueire; aos p\u00e9s, como lavat\u00f3rio, um alguidar vidrado em cima<br \/>\nduma tripe\u00e7a. Para mim, serrano daquelas serras, nem alguidar nem alqueire.<\/p>\n<p>Lentamente, com o p\u00e9, o meu supercivilizado amigo apalpou a enxerga.<br \/>\nE decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre<br \/>\nela, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.<\/p>\n<p>-E o pior n\u00e3o \u00e9 ainda a enxerga &#8211; murmurou enfim com um suspiro.<br \/>\n&#8211; \u00c9 que n\u00e3o tenho camisa de dormir, nem chinelas!&#8230; E n\u00e3o<br \/>\nme posso deitar de camisa engomada.<\/p>\n<p>P\u00f4r inspira\u00e7\u00e3o minha recorremos ao Melchior. De novo<br \/>\nesse benem\u00e9rito providenciou, trazendo a Jacinto, para ele desafogar<br \/>\nos p\u00e9s, uns tamancos &#8211; e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre,<br \/>\nenorme, de estopa, \u00e1spera como uma estamenha de penitente, com folhos<br \/>\nmais crespos e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Pr\u00edncipe<br \/>\nlembrei que Plat\u00e3o quando compunha o Banquete, Vasco da Gama quando<br \/>\ndobrava o Cabo, n\u00e3o dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem<br \/>\nas almas fortes, \u00f3 Jacinto!&#8230; E \u00e9 s\u00f3 vestido de estamenha<br \/>\nque se penetra no Para\u00edso.<\/p>\n<p>-Tens tu &#8211; volveu o meu amigo secamente &#8211; alguma coisa que eu leia? N\u00e3o<br \/>\nposso adormecer sem um livro..<\/p>\n<p>Eu? Um livro? Possu\u00eda apenas o velho n\u00famero do Jornal do Com\u00e9rcio,<br \/>\nque escapara \u00e0 dispers\u00e3o dos nossos bens. Rasguei a copiosa<br \/>\nfolha pelo meio, partilhei com Jacinto fraternalmente. Ele tomou a sua metade,<br \/>\nque era a dos an\u00fancios&#8230; E quem n\u00e3o viu ent\u00e3o Jacinto,<br \/>\nsenhor de Tormes, aca\u00e7apado \u00e0 borda da enxerga, rente da vela<br \/>\nde sebo que se derretia no alqueire, com os p\u00e9s encafuados nos socos,<br \/>\nperdido dentro das \u00e1speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana,<br \/>\npercorrendo num peda\u00e7o velho de Gazeta, pensativamente, as partidas<br \/>\ndos Paquetes &#8211; n\u00e3o pode saber o que \u00e9 uma intensa e ver\u00eddica<br \/>\nimagem do Desalento.<\/p>\n<p>Recolhido \u00e0 minha alcova espartana, desabotoava o colete, num delicioso<br \/>\ncansa\u00e7o, quando o meu Pr\u00edncipe ainda me reclamou:<\/p>\n<p>-Z\u00e9 Fernandes&#8230;<\/p>\n<p>-Diz.<\/p>\n<p>-Manda tamb\u00e9m no saco um abotoador de botas.<\/p>\n<p>Estirado comodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao penetrar<br \/>\nno Sono, que \u00e9 um primo da Morte: \u201dDeus seja louvado!\u201d<br \/>\nDepois tomei a metade do Jornal do Com\u00e9rcio que me pertencia.<\/p>\n<p>-Z\u00e9 Fernandes&#8230;<\/p>\n<p>-Que \u00e9?<\/p>\n<p>-Tamb\u00e9m podias meter no saco p\u00f3s dos dentes&#8230; E uma lima das<br \/>\nunhas&#8230; E um romance!<\/p>\n<p>J\u00e1 a meia Gazeta me escapava das m\u00e3os dormentes. Mas da sua<br \/>\nalcova, depois de soprar a vela, Jacinto murmurou entre um bocejo:<\/p>\n<p>-Z\u00e9 Fernandes&#8230;<\/p>\n<p>-Hem?<\/p>\n<p>-Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragan\u00e7a&#8230; Os len\u00e7\u00f3is<br \/>\nao menos s\u00e3o frescos, cheiram bem, a sadio!<\/p>\n<h3><a name=\"9\"><\/a>Cap\u00edtulo IX<\/h3>\n<p>Cedo, de madrugada, sem rumor, para n\u00e3o despertar o meu Jacinto, que,<br \/>\ncom as m\u00e3os cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga<br \/>\nde granito &#8211; parti para Gui\u00e3es.<\/p>\n<p>Ao cabo duma semana, recolhendo uma manh\u00e3 para o almo\u00e7o, encontrei<br \/>\nno corredor as minhas malas t\u00e3o desejadas, que um mo\u00e7o do casal<br \/>\nda Giesta trouxera num carro com \u201crecados do sr. Pimentinha\u201d.<br \/>\nO meu pensamento pulou para o meu Pr\u00edncipe. E lancei pelo tel\u00e9grafo,<br \/>\npara Lisboa, para o Hotel Bragan\u00e7a, este brado alegre: &#8211; \u201cEst\u00e1s<br \/>\nl\u00e1? Sei recuperaste Grilo e Civiliza\u00e7\u00e3o! Hurra, Abra\u00e7o!\u201d<br \/>\n&#8211; S\u00f3 depois de sete dias, ocupados numa delicada apanha de aspargos<br \/>\ncom que outrora civilizara a horta da tia Vic\u00eancia, notei o sil\u00eancio<br \/>\nde Jacinto. Num bilhete postal renovei, desenvolvi o grito amigo: &#8211; \u201cE<br \/>\ntornam desatento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas? Tempo<br \/>\ndelicioso! 23\u00ba \u00e0 sombra. E os ossos?\u201d &#8211; Veio depois a devota<br \/>\nromaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a Lua-nova andei num corte de mato,<br \/>\nna minha terra das Corcas. A tia Vic\u00eancia vomitou, com uma indigest\u00e3o<br \/>\nde morcelas. E o sil\u00eancio do meu Pr\u00edncipe era ingrato e ferrenho.<\/p>\n<p>Enfim, uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima Joaninha,<br \/>\nparei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de certo vinho branco<br \/>\nque a minha alma conhece &#8211; e sempre pede .<\/p>\n<p>Defronte, \u00e0 porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes<br \/>\ne o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado num banco. Mandei<br \/>\nencher outro quartinho: ele acariciou o pesco\u00e7o da minha \u00e9gua<br \/>\nque j\u00e1 salvara dum esfriamento; e como eu indagasse do nosso Melchior,<br \/>\no Severo contou que na v\u00e9spera jantara com ele em Tormes, e se abeirara<br \/>\ntamb\u00e9m do fidalgo&#8230;<\/p>\n<p>-Ora essa! Ent\u00e3o o sr, D.Jacinto est\u00e1 em Tormes?<\/p>\n<p>O meu espanto divertiu o Severo:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o V. Ex\u00aa&#8230; Pois em Tormes \u00e9 que ele est\u00e1,<br \/>\nh\u00e1 mais de cinco semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima,<br \/>\ne vai l\u00e1 uma grandeza!<\/p>\n<p>Sant\u00edssimo nome de Deus! Ao outro dia, Domingo, depois da missa e<br \/>\nsem me assustar com a calma que carregava, trotei alvoro\u00e7adamente para<br \/>\nTormes. Ao latir dos rafeiros, quando transpus o portal solarengo, a comadre<br \/>\ndo Melchior acudiu dos lados do curral, com um alguidar de lavagem encostado<br \/>\n\u00e0 cintura. &#8211; Ent\u00e3o o sr. D. Jacinto?&#8230; O sr. D. Jacinto andava<br \/>\nl\u00e1 para baixo, com o Silv\u00e9rio e com o Melchior, nos campos de<br \/>\nFreixomil&#8230;<\/p>\n<p>-E o sr. Grilo, o preto?<\/p>\n<p>-H\u00e1 bocadinho tamb\u00e9m o enxerguei no pomar, com o franc\u00eas,<br \/>\na apanhar lim\u00f5es doces&#8230;<\/p>\n<p>Todas as janelas do solar rebrilhavam, com vidra\u00e7as novas, bem polidas.<br \/>\nA um canto do p\u00e1tio notei baldes de cal e tigelas de tintas. Uma escada<br \/>\nde pedreiro descansara durante o dia Santo arrimada contra o telhado. E, rente<br \/>\nao muro da capela, dois gatos dormiam sobre mont\u00f5es de palha desempacotada<br \/>\nde caixotes consider\u00e1veis.<\/p>\n<p>-Bem &#8211; pensei eu. &#8211; eis a Civiliza\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Recolhi a \u00e9gua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,<br \/>\nreluzia num raio de Sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos os soalhos<br \/>\nremendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas, e nuas, refrigeravam<br \/>\ncomo as dum convento. Um quarto, a que me levaram tr\u00eas portas escancaradas<br \/>\ncom franqueza serrana, era certamente o de Jacinto: a roupa pendia de cabides<br \/>\nde pau; o leito de ferro, com coberta de fust\u00e3o, encolhia timidamente<br \/>\na sua rigidez virginal a um canto, entre o muro e a banquinha onde de um casti\u00e7al<br \/>\nde lat\u00e3o resplandecia sobre um volume do S. Quixote; no lavat\u00f3rio<br \/>\npintado de amarelo, imitando bambu, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco<br \/>\ngordo de sab\u00e3o; e uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova,<br \/>\nda tesoura, do pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de \u00e1gua<br \/>\nde alfazema que eu mandara de Gui\u00e3es. As tr\u00eas janelas, sem cortinas,<br \/>\ncontemplavam a beleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se<br \/>\nperfumava nas resinas dos pinheirais, depois nas roseiras da horta. Em frente,<br \/>\nno corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a previd\u00eancia<br \/>\ndo meu Pr\u00edncipe o destinara ao seu Z\u00e9 Fernandes. Pendurei logo<br \/>\ndentro, no cabide, o meu guarda-p\u00f3 de lustrina.<\/p>\n<p>Mas na sala imensa, onde tanto filosof\u00e1ramos considerando as estrelas,<br \/>\nJacinto arranjara um centro de repouso e de estudo &#8211; e desenrolara essa \u201cgrandeza\u201d<br \/>\nque impressionava o Severo. As cadeiras de verga da Madeira, amplas e de bra\u00e7os,<br \/>\nofereciam o conforto de almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau<br \/>\nbranco, carpinteirada em Tormes, admirei um candeeiro de metal de tr\u00eas<br \/>\nbicos, um tinteiro de frade armado de penas de pato, um vaso de capela transbordando<br \/>\nde cravos. Entre duas janelas uma c\u00f4moda antiga, embutida, com ferragens<br \/>\nlavradas, recebera sobre o seu m\u00e1rmore rosado o devoto peso dum Pres\u00e9pio,<br \/>\nonde Reis Magos, pastores de surr\u00f5es vistosos, cordeiros de esguedelhada<br \/>\nl\u00e3, se apressavam atrav\u00e9s de alcantis para o menino, que na<br \/>\nsua lapinha lhes abria os bra\u00e7os, coroado p\u00f4r uma enorme Coroa<br \/>\nReal. Uma estante de madeira enchia outro peda\u00e7o de parede, entre dois<br \/>\nretratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras repousavam<br \/>\nduas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os primeiros Doutores<br \/>\nnas bancadas dum conc\u00edlio, alguns nobres livros, um Plutarco, um Virg\u00edlio,<br \/>\na Odiss\u00e9ia, o Manual de Ep\u00edteto, as Cr\u00f4nicas de Froissart.<br \/>\nDepois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito envernizadas. E a um<br \/>\ncanto um molho de varapaus.<\/p>\n<p>Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janelas, cerradas, abrigavam<br \/>\ndo Sol que batia aquele lado de Tormes, escaldando os peitoris de pedra. Do<br \/>\nsoalho, borrifado de \u00e1gua, subia, na suavizada penumbra, uma frescura.<br \/>\nOs cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da casa, se elevava um rumor. Tormes<br \/>\ndormia no esplendor da manh\u00e3 santa. E, penetrado p\u00f4r aquela consoladora<br \/>\nquieta\u00e7\u00e3o de convento rural, terminei p\u00f4r me estender<br \/>\nnuma cadeira de verga junto da mesa, abrir languidamente um tomo de Virg\u00edlio,<br \/>\ne murmurar, apropriando o doce verso que encontrara:<\/p>\n<p>Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota<\/p>\n<p>Et fontes sacros, frigus captabis opacum&#8230;<\/p>\n<p>Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que s\u00e3o teus e<br \/>\n\u00e1guas que te s\u00e3o sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!<\/p>\n<p>Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de \u00e9gua e calor<br \/>\ndesde Gui\u00e3es, irreverentemente adormecia sobre o divino Bucolista &#8211;<br \/>\nquando me despertou um berro amigo! Era o meu Pr\u00edncipe. E muito decididamente,<br \/>\ndepois de me soltar do seu rijo abra\u00e7o, o comparei a uma planta estiolada,<br \/>\nemurchecida na escurid\u00e3o, entre tapetes e sedas, que, levada para o<br \/>\nvento e o sol, profusamente regada, reverdece, desabrocha e honra a Natureza!<br \/>\nJacinto j\u00e1 n\u00e3o corcovava. Sobre a sua arrefecida palidez de<br \/>\nsupercivilizado, o ar montesino, ou vida mais verdadeira, espalhara um rubor<br \/>\ntrigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava soberbamente. Dos olhos,<br \/>\nque na Cidade andavam sempre t\u00e3o crepusculares e desviados do Mundo,<br \/>\nsaltava agora um brilho de meio-dia, resoluto e largo, contente em se embeber<br \/>\nna beleza das coisas. At\u00e9 o bigode se lhe encrespara. E j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ndeslizava a m\u00e3o desencantada sobre a face &#8211; mas batia com ela triunfalmente<br \/>\nna coxa. Que sei? Era Jacinto nov\u00edssimo.<\/p>\n<p>E quase me assustava, p\u00f4r eu Ter de aprender e penetrar, neste novo<br \/>\nPr\u00edncipe, os modos e as id\u00e9ias novas.<\/p>\n<p>-Caramba, Jacinto, mas ent\u00e3o&#8230;?<\/p>\n<p>Ele encolheu jovialmente os ombros realargados. E s\u00f3 me soube contar,<br \/>\ntrilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p\u00f3 o soalho<br \/>\nremendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar numa dorna, e de<br \/>\nenfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como desanuviado, desenvencilhado!<br \/>\nAlmo\u00e7ara uma pratada de ovos com chouri\u00e7o, sublime. Passeara<br \/>\np\u00f4r toda aquela magnific\u00eancia da serra com pensamentos ligeiros<br \/>\nde liberdade e de paz. Mandara ao Porto comprar uma cama, uns cabides&#8230; E<br \/>\nali estava&#8230;<\/p>\n<p>-Para todo o ver\u00e3o?<\/p>\n<p>-N\u00e3o! Mas um m\u00eas&#8230; Dois meses! Enquanto houver chouri\u00e7os,<br \/>\ne a \u00e1gua da fonte, bebida pela telha ou numa folha de couve, me souber<br \/>\nt\u00e3o divinamente!<\/p>\n<p>Ca\u00ed sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quase esgazeado,<br \/>\no meu Pr\u00edncipe! Ele enrolava numa mortalha tabaco picado, tabaco grosso,<br \/>\nguardado numa malga vidrada. E exclamava:<\/p>\n<p>-Ando a\u00ed pelas terras desde o romper de alva! Pesquei j\u00e1 hoje<br \/>\nquatro trutas magn\u00edficas&#8230; L\u00e1 embaixo, no Naves, um riachote<br \/>\nque se atira pelo vale de Seranda&#8230; temos logo ao jantar essas trutas!<\/p>\n<p>Mas eu, \u00e1vido pela hist\u00f3ria daquela ressurrei\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, n\u00e3o estiveste em Lisboa?&#8230; Eu telegrafei&#8230;<\/p>\n<p>-Qual tel\u00e9grafo! Qual Lisboa! Estive l\u00e1 em cima, ao p\u00e9<br \/>\nda fonte da Lira, \u00e0 sombra duma grande \u00e1rvore, sub tegmine n\u00e3o<br \/>\nsei qu\u00ea, a ler esse ador\u00e1vel Virg\u00edlio&#8230; e tamb\u00e9m<br \/>\na arranjar o meu pal\u00e1cio! Que te parece, Z\u00e9 Fernandes? Em tr\u00eas<br \/>\nsemanas, tudo soalhado, envidra\u00e7ado, caiado, encadeirado!&#8230; Trabalhou<br \/>\na freguesia inteira! At\u00e9 eu pintei, com uma imensa brocha. Viste o<br \/>\ncomedouro?<\/p>\n<p>-N\u00e3o.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o vem admirar a beleza na simplicidade, b\u00e1rbaro!<\/p>\n<p>Era a mesma onde n\u00f3s tanto exalt\u00e1ramos o arroz com favas &#8211;<br \/>\nmas muito esfregada, muito caiada, com um rodap\u00e9 besuntado de azul<br \/>\nestridente, onde logo adivinhei a obra do meu Pr\u00edncipe. Uma toalha<br \/>\nde linho de Guimar\u00e3es cobria a mesa, com as franjas ro\u00e7ando<br \/>\no soalho. No fundo dos pratos de lou\u00e7a forte reluzia um galo amarelo.<br \/>\nEra o mesmo galo e a mesma lou\u00e7a em que na nossa casa, em Gui\u00e3es,<br \/>\nse servem os feij\u00f5es aos cavadores&#8230;<\/p>\n<p>Mas no p\u00e1tio os c\u00e3es latiram. E Jacinto correu \u00e0 varanda,<br \/>\ncom uma ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se esfrangalhara<br \/>\naquela rede de malha que se n\u00e3o percebia e que outrora o travava! &#8211;<br \/>\nNesse momento apareceu o Grilo, de quinzena de linho, segurando em cada m\u00e3o<br \/>\numa garrafa de vinho branco. Todo se alegrou \u201cem ver na Quinta o si\u00f4<br \/>\nFernandes\u201d. Mas a sua veneranda face j\u00e1 n\u00e3o resplandecia,<br \/>\ncomo em Paris, com um t\u00e3o sereno e ditoso brilho de \u00e9bano. At\u00e9<br \/>\nme pareceu que corcovava&#8230; Quando o interroguei sobre aquela mudan\u00e7a,<br \/>\nestendeu duvidosamente o bei\u00e7o grosso.<\/p>\n<p>-O menino gosta, eu ent\u00e3o tamb\u00e9m gosto&#8230; Que o ar aqui \u00e9<br \/>\nmuito bom, si\u00f4 Fernandes, o ar \u00e9 muito bom!<\/p>\n<p>Depois, mais baixo envolvendo num gesto desolado a lou\u00e7a de Barcelos,<br \/>\nas faces de cabo de osso, as prateleiras de pinho como num refeit\u00f3rio<br \/>\nde Franciscanos:<\/p>\n<p>-Mas muita magreza, si\u00f4 Fernandes, muita magreza!<\/p>\n<p>Jacinto voltara com um ma\u00e7o de jornais cintados:<\/p>\n<p>-Era o carteiro. J\u00e1 v\u00eas que n\u00e3o amuei inteiramente com<br \/>\na Civiliza\u00e7\u00e3o. Eis a imprensa!&#8230; Mas nada de F\u00edgaro,<br \/>\nou da horrenda Dois-Mundos! Jornais de Agricultura! Para aprender como se<br \/>\nproduzem as risonhas messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que<br \/>\ncuidados necessita a abelha provida&#8230;. Quid faciat laetas segetes&#8230; De resto<br \/>\npara esta nobre educa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 me bastavam as Ge\u00f3rgicas,<br \/>\nque tu ignoras!<\/p>\n<p>Eu ri:<\/p>\n<p>-Alto l\u00e1! Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus!<\/p>\n<p>Mas o meu nov\u00edssimo amigo, debru\u00e7ado da janela, batia as palmas<br \/>\n&#8211; como Cat\u00e3o para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:<\/p>\n<p>-Ana Vaqueira! Um copo de \u00e1gua, bem lavado, da fonte velha! Pulei,<br \/>\nimensamente divertido:<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto! E as \u00e1guas carbonatadas? E as fosfatadas? E as<br \/>\nesterilizadas? E as s\u00f3dicas?&#8230;<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe atirou os ombros com um desd\u00e9m soberbo. E aclamou<br \/>\na apari\u00e7\u00e3o de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada<br \/>\nda \u00e1gua refulgente, que uma bela mo\u00e7a trazia num prato. Eu admirei<br \/>\nsobretudo a mo\u00e7a&#8230; Que olhos, dum negro t\u00e3o l\u00edquido<br \/>\ne s\u00e9rio! No andar, no quebrar da cinta, que harmonia e que gra\u00e7a<br \/>\nde Ninfa latina!<\/p>\n<p>E apenas pela porta desaparecera a espl\u00eandida apari\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto, eu daqui a um instante tamb\u00e9m quero \u00e1gua!<br \/>\nE se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de cinco em cinco minutos,<br \/>\nquero uma coisa!&#8230; Que olhos, que corpo&#8230; Caramba, menino! Eis a poesia,<br \/>\ntoda viva, da serra&#8230;<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe sorria, com sinceridade:<\/p>\n<p>-N\u00e3o! n\u00e3o nos iludamos, Z\u00e9 Fernandes, nem fa\u00e7amos<br \/>\nArc\u00e1dia. \u00c9 uma bela mo\u00e7a, mas uma bruta&#8230; N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do<br \/>\nque numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem,<br \/>\ndigere bem, concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim s\u00e3 e rija;<br \/>\ne ela cumpre. O marido todavia n\u00e3o parece contente, porque a desanca.<br \/>\nTamb\u00e9m \u00e9 um belo bruto&#8230; N\u00e3o, meu filho, a serra \u00e9<br \/>\nmaravilhosa e muito grato lhe estou&#8230; Mas temos aqui a f\u00eamea em toda<br \/>\na sua animalidade e o macho em todo o seu ego\u00edsmo&#8230; s\u00e3o por\u00e9m<br \/>\nverdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z\u00e9 Fernandes,<br \/>\n\u00e9 para mim um repouso.<\/p>\n<p>Lentamente, gozando a frescura, o sil\u00eancio, a liberdade do vasto casar\u00e3o,<br \/>\nretrocedemos \u00e0 sala que Jacinto j\u00e1 denominara a Livraria. E,<br \/>\nde repente, ao avistar num canto uma caixa com a tampa meio despregada, quase<br \/>\nme engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:<\/p>\n<p>-E os caixotes? \u00d3 Jacinto?&#8230; Toda aquela imensa caixotaria que n\u00f3s<br \/>\nmandamos, abarrotada de Civiliza\u00e7\u00e3o? Soubeste? Apareceram?<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe parou, bateu alegremente na coxa:<\/p>\n<p>-Sublime! Tu ainda te lembras daquele homenzinho, de saco a tiracolo, que<br \/>\nn\u00f3s admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber geogr\u00e1fico?&#8230;<br \/>\nLembras? Apenas falei em Tormes, gritou que conhecia, rabiscou uma nota&#8230;<br \/>\nNem era necess\u00e1rio mais! \u201c\u00d3! Tormes, perfeitamente, muito<br \/>\nantigo, muito curioso!\u201d Pois mandou tudo para Alba de Tormes, em Espanha!<br \/>\nEst\u00e1 tudo em Espanha!<\/p>\n<p>Cocei o queixo, desconsolado:<\/p>\n<p>-Ora, ora&#8230; Um homem t\u00e3o esperto, t\u00e3o expedito, que fazia<br \/>\ntanta honra ao progresso! Tudo para Espanha!&#8230; E mandaste vir?<\/p>\n<p>-N\u00e3o! Talvez mais tarde&#8230; Agora, Z\u00e9 Fernandes, estou saboreando<br \/>\nesta del\u00edcia de me erguer pela manh\u00e3, e de Ter s\u00f3 uma<br \/>\nescova para alisar o cabelo.<\/p>\n<p>Considerei, cheio de recorda\u00e7\u00f5es, o meu amigo:<\/p>\n<p>-Tinhas umas nove.<\/p>\n<p>-Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalha\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o me bastavam!&#8230; Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os<br \/>\nmeus setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas<br \/>\nocupa\u00e7\u00f5es; tanto me sobrecarregavam, que nunca fui \u00fatil!<\/p>\n<p>-Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalha\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o me bastavam!&#8230; Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os<br \/>\nmeus setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as minhas<br \/>\nocupa\u00e7\u00f5es; tanto me sobrecarregavam, que nunca fui \u00fatil!<\/p>\n<p>De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos coleantes daquela<br \/>\nQuinta rica, que, atrav\u00e9s de duas l\u00e9guas, ondula p\u00f4r vale<br \/>\ne monte. N\u00e3o me encontrara mais com Jacinto em meio da Natureza, desde<br \/>\no remoto dia de entremez em que ele tanto sofrera no soci\u00e1vel e policiado<br \/>\nbosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que seguran\u00e7a e id\u00edlico<br \/>\namor se movia atrav\u00e9s dessa Natureza, de onde andara tantos anos desviado<br \/>\np\u00f4r teoria e p\u00f4r h\u00e1bito! J\u00e1 n\u00e3o receava a<br \/>\nhumildade mortal das relvas; nem repelia como impertinente o ro\u00e7ar<br \/>\ndas ramagens; nem o sil\u00eancio dos altos o inquietava como um despovoamento<br \/>\ndo Universo. Era com del\u00edcias, com um consolado sentimento de estabilidade<br \/>\nrecuperada, que enterrava os grossos sapatos nas terras moles, como no seu<br \/>\nelemento natural e paterno; sem raz\u00e3o, deixava os trilhos f\u00e1ceis,<br \/>\npara se embrenhar atrav\u00e9s de arbustos emaranhados, e receber na face<br \/>\na car\u00edcia das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, im\u00f3vel,<br \/>\nretendo os meus gestos e quase o meu h\u00e1lito, para se embeber de sil\u00eancio<br \/>\ne de paz; e duas vezes o surpreendi atento e sorrindo \u00e0 beira dum regatinho<br \/>\npalreiro, como se lhe escutasse a confid\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo dum convertido, \u00e1vido<br \/>\nde converter:<\/p>\n<p>-Como a intelig\u00eancia aqui se liberta, hem? E como tudo \u00e9 animado<br \/>\nduma vida forte e profunda!&#8230; dizes tu agora, Z\u00e9 Fernandes, que n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 aqui pensamento&#8230;<\/p>\n<p>-Eu?! Eu n\u00e3o digo nada, Jacinto&#8230;<\/p>\n<p>-Pois \u00e9 uma maneira de refletir muito estreira e muito grosseira&#8230;<\/p>\n<p>-Ora essa! Mas eu&#8230;<\/p>\n<p>-N\u00e3o, n\u00e3o percebes. A vida n\u00e3o se limita a pensar, meu<br \/>\ncaro doutor&#8230;<\/p>\n<p>-Que n\u00e3o sou!<\/p>\n<p>-A vida \u00e9 essencialmente Vontade e Movimento: e naquele peda\u00e7o<br \/>\nde terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos, de for\u00e7as<br \/>\nque se revelam, e que atingem a sua express\u00e3o suprema, que \u00e9<br \/>\na Forma. N\u00e3o, essa tua filosofia est\u00e1 ainda extremamente grosseira&#8230;<\/p>\n<p>-Irra! Mas eu n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>-E depois, menino, que inesgot\u00e1vel, que miraculosa diversidade de<br \/>\nformas&#8230; E todas belas!<\/p>\n<p>Agarrava o meu pobre bra\u00e7o, exigia que eu reparasse com rever\u00eancia.<br \/>\nNa Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas<br \/>\nfolhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, pelo<br \/>\ncontr\u00e1rio, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as faces<br \/>\nreproduzem a mesma indiferen\u00e7a ou a mesma inquieta\u00e7\u00e3o;<br \/>\nas id\u00e9ias t\u00eam todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma,<br \/>\ncomo as libras; e at\u00e9 o que h\u00e1 mais pessoal e \u00edntimo,<br \/>\na Ilus\u00e3o, \u00e9 em todos id\u00eantica, e todos a respiram, e todos<br \/>\nse perdem nela como no mesmo nevoeiro&#8230; a mesmice &#8211; eis o horror das Cidades!<\/p>\n<p>-Mas aqui! Olha para aquele castanheiro. H\u00e1 tr\u00eas semanas que<br \/>\ncada manh\u00e3 o vejo, e sempre me parece outro&#8230; A sombra, o sol, o vento,<br \/>\nas nuvens, a chuva incessantemente lhe comp\u00f5em uma express\u00e3o<br \/>\ndiversa e nova, sempre interessante. Nunca a sua freq\u00fcenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nme poderia fartar&#8230;<\/p>\n<p>Eu murmurei:<\/p>\n<p>-\u00c9 pena que n\u00e3o converse!<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe recuou, com olhares chamejantes, de Ap\u00f3stolo:<\/p>\n<p>-Como que n\u00e3o converse? Mas \u00e9 justamente um conversador sublime!<br \/>\nEst\u00e1 claro, n\u00e3o tem ditos, nem parola teorias, ore rotundo.<br \/>\nMas nunca eu passo junto dele que n\u00e3o me sugira um pensamento ou me<br \/>\nn\u00e3o desvende uma verdade&#8230; Ainda hoje quando eu voltava de pescar<br \/>\nas trutas&#8230; Parei: e logo ele me fez sentir como toda a sua vida de vegetal<br \/>\n\u00e9 isenta de trabalho, da ansiedade, do esfor\u00e7o que a vida humana<br \/>\nimp\u00f5e; n\u00e3o tem de se preocupar com o sustento, nem com o vestido,<br \/>\nnem com o abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que ele se mova<br \/>\nou se inquiete&#8230; E \u00e9 esta seguran\u00e7a que lhe d\u00e1 tanta<br \/>\ngra\u00e7a e tanta majestade. Pois n\u00e3o achas?<\/p>\n<p>Eu sorria, concordava. Tudo isto era decerto rebuscado e especioso.Mas que<br \/>\nimportavam as requintadas met\u00e1foras, e essa metaf\u00edsica mal madura,<br \/>\ncolhida \u00e0 pressa nos ramos dum castanheiro? Sob toda aquela ideologia<br \/>\ntransparecia uma excelente realidade &#8211; a reconcilia\u00e7\u00e3o do meu<br \/>\nPr\u00edncipe com a Vida. Segura estava a sua Ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndepois de tantos anos de cova, de cova mole em que jazera, enfaixado como<br \/>\numa m\u00famia nas faixas do Pessimismo!<\/p>\n<p>E o que esse Pr\u00edncipe, nesta tarde, me esfalfou! Farejava com uma<br \/>\ncuriosidade insaci\u00e1vel, todos os recantos da serra! Galgava os cabe\u00e7os<br \/>\ncorrendo, como na esperan\u00e7a de descobrir l\u00e1 do alto os esplendores<br \/>\nnunca contemplados dum Mundo in\u00e9dito. E o seu tormento era n\u00e3o<br \/>\nconhecer os nomes das \u00e1rvores, da mais rasteira planta brotando das<br \/>\nfendas dum socalco&#8230; Constantemente me folheava como a um Dicion\u00e1rio<br \/>\nBot\u00e2nico.<\/p>\n<p>-Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais ilustres da Europa,<br \/>\ntenho trinta mil volumes, e n\u00e3o sei se aquele senhor al\u00e9m \u00e9<br \/>\num amieiro ou um sobreiro.<\/p>\n<p>-\u00c9 um azinheiro, Jacinto.<\/p>\n<p>J\u00e1 a tarde ca\u00eda quando recolhemos muito lentamente. E toda<br \/>\nessa ador\u00e1vel paz do C\u00e9u, realmente celestial, e dos campos<br \/>\nonde cada folhinha conservava uma quieta\u00e7\u00e3o contemplativa, na<br \/>\nluz docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago,<br \/>\npenetrava t\u00e3o profundamente Jacinto, que eu o senti, no sil\u00eancio<br \/>\nem que ca\u00edramos, suspirar de puro al\u00edvio.<\/p>\n<p>Depois, muito gravemente:<\/p>\n<p>-Tu dizes que na natureza n\u00e3o h\u00e1 pensamento&#8230;<\/p>\n<p>-Outra vez! Olha que ma\u00e7ada! Eu&#8230;<\/p>\n<p>-Mas \u00e9 p\u00f4r estar nela suprimido o pensamento que lhe est\u00e1<br \/>\npoupado o sofrimento! N\u00f3s desgra\u00e7ados, n\u00e3o podemos suprimir<br \/>\no pensamento, mas certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie<br \/>\ne se esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam,<br \/>\naspirando a certezas que nunca se atingem!&#8230; E \u00e9 o que aconselham<br \/>\nestas colinas e estas \u00e1rvores \u00e0 nossa alma, que vela e se agita:<br \/>\n&#8211; que vive na paz dum sonho vago e nada apete\u00e7a, nada tema, contra<br \/>\nnada se insurja, e deixe o Mundo rolar, n\u00e3o esperando dele sen\u00e3o<br \/>\num rumor de harmonia, que a embale e lhe favore\u00e7a o dormir dentro da<br \/>\nm\u00e3o de Deus. Hem, n\u00e3o te parece, Z\u00e9 Fernandes?<\/p>\n<p>-Talvez. Mas \u00e9 necess\u00e1rio ent\u00e3o viver num mosteiro,<br \/>\ncom o temperamento de S Bruno, ou Ter cento e quarenta contos de renda e o<br \/>\ndesplante de certos Jacintos&#8230; E tamb\u00e9m me parece que andamos l\u00e9guas.<br \/>\nEstou derreado. E que fome!<\/p>\n<p>-Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos espera&#8230;<\/p>\n<p>Bravo! Quem te cozinha?<\/p>\n<p>-Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! H\u00e1s de ver a canja! H\u00e1s<br \/>\nde ver a cabidela! Ela \u00e9 horrenda, quase an\u00e3, com os olhos tortos,<br \/>\num verde e outro preto. Mas que paladar! Que g\u00eanio!<\/p>\n<p>Com efeito! Hor\u00e1cio dedicara uma ode \u00e0quele cabrito assado<br \/>\nnum espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho do Melchior, e a cabidela,<br \/>\nem que a sublime an\u00e3 de olhos tortos pusera inspira\u00e7\u00f5es<br \/>\nque n\u00e3o s\u00e3o da terra, e aquela do\u00e7ura da noite de Junho,<br \/>\nque pelas janelas abertas nos envolveu no seu veludo negro, t\u00e3o mole<br \/>\ne t\u00e3o consolado fiquei, que, na sala onde nos esperava o caf\u00e9,<br \/>\nca\u00ed numa cadeira de verga, na mais larga, e de melhores almofadas,<br \/>\ne atirei um berro de pura del\u00edcia.<\/p>\n<p>Depois, com uma recorda\u00e7\u00e3o, limpando o caf\u00e9 do p\u00ealo<br \/>\ndos bigodes:<\/p>\n<p>-\u00d3 Jacinto, e quando n\u00f3s and\u00e1vamos p\u00f4r Paris com<br \/>\no Pessimismo \u00e0s costas, a gemer que tudo era ilus\u00e3o e dor?<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe, que o cabrito tornara ainda mais alegre, trilhava<br \/>\na grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:<\/p>\n<p>-\u00d3! Que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E a maior besta eu, que<br \/>\no sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia &#8211; continuava ele, remexendo<br \/>\na ch\u00e1vena &#8211; o Pessimismo \u00e9 uma teoria bem consoladora para os<br \/>\nque sofrem, porque desindividualiza o sofrimento, alarga-o at\u00e9 o tornar<br \/>\numa lei universal, a lei pr\u00f3pria da Vida; portanto lhe tira o car\u00e1ter<br \/>\npungente duma injusti\u00e7a especial, cometida contra o sofredor p\u00f4r<br \/>\num Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal sobretudo nos amarga,<br \/>\nquando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso vizinho: &#8211; porque nos sentimos<br \/>\nescolhidos e destacados para a infelicidade, podendo, como ele, Ter nascido<br \/>\npara a Fortuna. Quem se queixaria de ser coxo &#8211; se toda a humanidade coxeasse?<br \/>\nE quais n\u00e3o seriam os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na<br \/>\nneve e friagem e borrasca dum Inverno especial, organizado nos C\u00e9us<br \/>\npara o envolver a ele unicamente &#8211; enquanto em redor, toda a Humanidade se<br \/>\nmovesse na luminosa benignidade duma Primavera?<\/p>\n<p>-Com efeito &#8211; murmurei eu &#8211; esse sujeito teria imensa raz\u00e3o para urrar&#8230;<\/p>\n<p>-E depois &#8211; clamava ainda o meu amigo &#8211; o Pessimismo \u00e9 excelente para<br \/>\nos Inertes, porque lhes atenua o desgracioso delito da In\u00e9rcia. Se<br \/>\ntoda a meta \u00e9 um monte de Dor, onde a alma vai esbarrar, para que marchar<br \/>\npara a meta, atrav\u00e9s dos embara\u00e7os do mundo? E de resto todos<br \/>\nos L\u00edricos e Te\u00f3ricos do Pessimismo, desde Salom\u00e3o at\u00e9<br \/>\no maligno Schopenhauer, lan\u00e7am o seu c\u00e2ntico ou a sua doutrina<br \/>\npara disfar\u00e7ar a humilha\u00e7\u00e3o das suas mis\u00e9rias,<br \/>\nsubordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei C\u00f3smica, e ornando<br \/>\nassim com a aur\u00e9ola de uma origem quase divina as suas mi\u00fadas<br \/>\ndesgra\u00e7azinhas de temperamento ou Sorte. O bom Schopenhauer formula<br \/>\ntodo o seu schopenhauerismo, quando \u00e9 um fil\u00f3sofo sem editor,<br \/>\ne um professor sem disc\u00edpulos; e sofre horrendamente de terrores e<br \/>\nmanias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige as suas contas<br \/>\nem grego nos perp\u00e9tuos lamentos da desconfian\u00e7a; e vive nas<br \/>\nadegas com o medo de inc\u00eandios; e viaja com um copo de lata na algibeira<br \/>\npara n\u00e3o beber em vidro que bei\u00e7os de leproso tivessem contaminado!&#8230;<br \/>\nEnt\u00e3o Schopenhauer \u00e9 sombriamente Schopenhauerista. Mas apenas<br \/>\npenetra na celebridade, e os seus miser\u00e1veis nervos se acalmam, e o<br \/>\ncerca uma paz am\u00e1vel, n\u00e3o h\u00e1 ent\u00e3o, em todo Francoforte,<br \/>\nburgu\u00eas mais otimista, de face mais jucunda, e o gozando mais regradamente<br \/>\nos bens da intelig\u00eancia e da Vida!&#8230; e outro, o Israelita, o muito<br \/>\npedantesco rei de Jerusal\u00e9m! Quando descobre esse sublime Ret\u00f3rico<br \/>\nque o mundo \u00e9 Ilus\u00e3o e Vaidade? Aos setenta e cinco anos, quando<br \/>\no Poder lhe escapa das m\u00e3os tr\u00eamulas, e o seu serralho de trezentas<br \/>\nconcubinas se lhe torna ridiculamente sup\u00e9rfluo. Ent\u00e3o rompem<br \/>\nos pomposos queixumes! Tudo \u00e9 verdade e afli\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito!<br \/>\nnada existe est\u00e1vel sob o Sol! Com efeito, meu bom Salom\u00e3o,<br \/>\ntudo passa &#8211; principalmente o poder de usar trezentas concubinas! Mas que<br \/>\nse restitua a esse velho sult\u00e3o asi\u00e1tico, besuntado de Literatura,<br \/>\na sua virilidade &#8211; e onde se sumir\u00e1 o lamento do Eclesiastes? Ent\u00e3o<br \/>\nvoltar\u00e1 em Segunda e triunfal edi\u00e7\u00e3o, o \u00eaxtase<br \/>\ndo Livro dos Cantares!&#8230;<\/p>\n<p>Assim discursava o meu amigo no noturno sil\u00eancio de Tormes. Creio que<br \/>\nainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviais, profundas ou elegantes<br \/>\n&#8211; mas eu adormecera, beatificamente envolto em Otimismo e do\u00e7ura.<\/p>\n<p>Em breve, por\u00e9m, me fez pular, escancarar a p\u00e1lpebras moles,<br \/>\numa rija, larga, sadia e genu\u00edna risada. Era Jacinto, estirado numa<br \/>\ncadeira, que lia o D.Quixote&#8230; \u00d3! bem-aventurado Pr\u00edncipe!<br \/>\nConservara ele o agudo poder de arrancar teorias a uma espiga de milho ainda<br \/>\nverde, e p\u00f4r uma clem\u00eancia de Deus, que fizera reflorir o tronco<br \/>\nseco, recuperara o Dom divino de rir, com as fac\u00e9cias de Sancho!<\/p>\n<p>Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de buc\u00f3lica ociosidade<br \/>\nque eu lhe concedera, o meu Jacinto preparou ent\u00e3o a cerim\u00f4nia<br \/>\nt\u00e3o falada, t\u00e3o meditada, a traslada\u00e7\u00e3o dos ossos<br \/>\ndos velhos Jacintos &#8211; dos \u201crespeit\u00e1veis ossos\u201d como murmurava,<br \/>\ncumprimentando, o bom Silv\u00e9rio, o procurador, nessa manh\u00e3 de<br \/>\nSexta-feira, em que almo\u00e7ava conosco, metido num espantoso jaquet\u00e3o<br \/>\nde veludinho amarelo debruado de seda azul! A cerim\u00f4nia, de resto, reclamava<br \/>\nmuita singeleza p\u00f4r serem t\u00e3o incertos, quase impessoais, aqueles<br \/>\nrestos, que n\u00f3s estabelecer\u00edamos na Capelinha do vale da Carri\u00e7a,<br \/>\nna Capelinha toda nova, toda nua e toda fria, ainda sem alma e sem calor de<br \/>\nDeus.<\/p>\n<p>-Porque enfim V. Ex\u00aa compreende &#8211; explicava o Silv\u00e9rio passando<br \/>\no guardanapo p\u00f4r sobre a larga face suada e p\u00f4r sobre as imensas<br \/>\nbarbas negras, como as dum turco -, naquela mix\u00f3rdia&#8230; \u00d3! pe\u00e7o<br \/>\ndesculpa a V. Ex\u00aa! Naquela confus\u00e3o, quando tudo desabou, n\u00e3o<br \/>\npudemos mais conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, falando verdade,<br \/>\nn\u00f3s sab\u00edamos bem que dignos av\u00f3s de V.Ex\u00aa jaziam<br \/>\nna capela velha, assim t\u00e3o antigos, com com os letreiros apagados,<br \/>\nsenhores de todo o nosso respeito, certamente, mas, se V.Ex\u00aa me permite,<br \/>\nsenhores j\u00e1 muito desfeitos&#8230; Depois veio o desastre, a mix\u00f3rdia.<br \/>\nE aqui est\u00e1 o que decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos<br \/>\ncaix\u00f5es de chumbo, quantas as caveiras que se apanharam l\u00e1 embaixo<br \/>\nna Carri\u00e7a, entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia.<br \/>\nQuero dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequenina. Metemos cada caveira<br \/>\nem seu caix\u00e3o. Depois: Que quer V.Ex\u00aa? N\u00e3o havia outro<br \/>\nmeio! E aqui o sr. Fernandes dir\u00e1 se n\u00e3o acha que procedemos<br \/>\ncom habilidade. A cada caveira juntamos uma certa por\u00e7\u00e3o de<br \/>\nossos, uma por\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel&#8230; N\u00e3o havia outro<br \/>\nmeio&#8230; Nem todos os ossos se acharam. Canelas, p\u00f4r exemplo, faltavam!<br \/>\nE \u00e9 bem poss\u00edvel que as costelas dum daqueles senhores ficassem<br \/>\ncom a cabe\u00e7a de outro&#8230; Mas quem podia saber? S\u00f3 Deus. Enfim<br \/>\nfizemos o que a prud\u00eancia mandava&#8230; Depois, no dia de Ju\u00edzo,<br \/>\ncada um destes fidalgos apresentar\u00e1 os ossos que lhe pertencerem.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ava estas coisas macabras e tremendas, penetrado de respeito,<br \/>\nquase com majestade, espetando, ora em mim, ora no meu Pr\u00edncipe, os<br \/>\nolhinhos agudos e reluzentes como vidrilhos.<\/p>\n<p>Eu aprovei o pitoresco homem:<\/p>\n<p>-Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silv\u00e9rio. S\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nvagos, t\u00e3o an\u00f4nimos, todos esses av\u00f3s! S\u00f3 faz pena,<br \/>\ngrande pena, que se tresmalhassem os restos do av\u00f4 Gali\u00e3o.<\/p>\n<p>-N\u00e3o estava c\u00e1! &#8211; acudiu Jacinto. &#8211; Vim a Tormes expressamente<br \/>\np\u00f4r causa do av\u00f4 Gali\u00e3o, e p\u00f4r fim o seu jazigo nunca<br \/>\nfoi aqui, na Capelinha da Carri\u00e7a&#8230; Felizmente!<\/p>\n<p>O Silv\u00e9rio sacudiu gravemente a calva trigueira:<\/p>\n<p>-Nunca tivemos o Exmo Sr. Gali\u00e3o. H\u00e1 cem anos, Sr. Fernandes,<br \/>\nh\u00e1 cem anos que se n\u00e3o depositava na capela velha corpo de cavalheiro<br \/>\nc\u00e1 da casa.<\/p>\n<p>-Onde estar\u00e3o ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe encolheu os ombros. P\u00f4r esse Reino&#8230; Na igrejinha,<br \/>\nno cemit\u00e9rio de alguma das freguesias numerosas, onde ele possu\u00eda<br \/>\nterras. Casa t\u00e3o espalhada!<\/p>\n<p>-Bem! &#8211; conclu\u00ed. &#8211; Ent\u00e3o, como se trata de ossadas vagas, sem<br \/>\nnome, sem data, conv\u00e9m uma cerimoniazinha muito simples, muito s\u00f3bria.<\/p>\n<p>-Quietinha, quietinha! &#8211; murmurou o Silv\u00e9rio, dando um forte sorvo<br \/>\nassobiado ao caf\u00e9.<\/p>\n<p>E foi quietinha, duma r\u00fastica e doce singeleza a cerim\u00f4nia daqueles<br \/>\naltos senhores. Cedo, p\u00f4r uma manh\u00e3, levemente enevoada, os oito<br \/>\ncaix\u00f5es pequeninos, cobertos dum veludo vermelho mais de festa que<br \/>\nde funeral, com molhos de rosas espalhados contendo cada um o seu montezinho<br \/>\nde ossos incertos, sa\u00edram aos ombros dos coveiros de Tormes e dos mo\u00e7os<br \/>\nda quinta, da Igreja de S. Jos\u00e9, cujo sino leve tangia, na enevoada<br \/>\ndo\u00e7ura da manh\u00e3 &#8211; quando fina e levemente! &#8211; como pia um passarinho<br \/>\ntriste, Adiantem um airoso mo\u00e7o de sobrepeliz erguia com zelo a velha<br \/>\ncruz prateada; abrigando o pesco\u00e7o sob um imenso len\u00e7o de rap\u00e9,<br \/>\nde quadrados azuis, o velho e corcovado sacrist\u00e3o segurava pensativamente<br \/>\na caldeirinha de \u00e1gua benta; e o bom abade de S. Jos\u00e9, com os<br \/>\ndedos entre o brevi\u00e1rio fechado, movia os l\u00e1bios, numa lenta,<br \/>\nmurmurosa reza, que ia pelo doce ar, espalhando mais do\u00e7ura. Logo atr\u00e1s<br \/>\ndo \u00faltimo cofre, o mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacinto<br \/>\ncaminhava; e eu, a estalar dentro dum fato preto de Jacinto, tirado \u00e0<br \/>\npressa duma das malas de Paris quando, de manh\u00e3, j\u00e1 tarde para<br \/>\nmandar a Gui\u00e3es, me lembrei que toda a minha roupa era de cores festivais<br \/>\ne pastoris.<\/p>\n<p>Depois marchava o Silv\u00e9rio, solen\u00edssimo, com um imenso peitilho,<br \/>\nonde as barbas imensas se alastravam negr\u00edssimas. De casaca, com o<br \/>\ngrosso bei\u00e7o desca\u00eddo, desca\u00eddo todo ele p\u00f4r aquela<br \/>\nmelancolia de enterro que se juntava \u00e0 melancolia da serra, o Grilo<br \/>\nenfiava no bra\u00e7o a sua coroa, enorme, de rosas e de heras. P\u00f4r<br \/>\nfim seguia o Melchior, entre um rancho de mulheres, que, sumidas na sombra<br \/>\ndos len\u00e7os pretos, desfiando longos ros\u00e1rios, rosnavam surdas<br \/>\nave-marias, atrav\u00e9s de espa\u00e7ados suspiros, t\u00e3o doridos<br \/>\ncomo se inconsoladamente lhes doesse a perda daqueles Jacintos. Assim, pelas<br \/>\nv\u00e1rzeas entrecorridas de regueiros, lenta nos recostos dos matos, escorregando<br \/>\nmais r\u00e1pida, pelos c\u00f3rregos pedregosos, seguia a prociss\u00e3o,<br \/>\nsempre com a cruz adiante, alta e prateada, rebrilhando p\u00f4r vezes num<br \/>\nbreve raiozinho de Sol que, vagarosamente, surdia da n\u00e9voa desfeita.<br \/>\nRamos baixos de l\u00f3d\u00e3o ou de salgueiro passavam uma derradeira<br \/>\ncar\u00edcia sobre o veludo dos caix\u00f5es.<\/p>\n<p>Um regato p\u00f4r vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as relvas,<br \/>\nsussurrando e como rezando tamb\u00e9m, alegremente; e nos quintalinhos<br \/>\numbrosos, \u00e0 nossa passagem, os galos, de cima das pilhas de mato, faziam<br \/>\nsoar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da Lira, como o caminho<br \/>\nse alongava, e desej\u00e1ssemos poupar o nosso velho abade, cortamos atrav\u00e9s<br \/>\nduma seara, j\u00e1 alta, quase madura, toda entremeada de papoulas. O Sol<br \/>\nradiou: sob a brisa larga, que levara a n\u00e9voa, toda a messe ondulou<br \/>\nnuma lenta vaga dourada, em que se balou\u00e7avam os esquifes; e, como<br \/>\nenorme papoula, a mais vermelha, rutilava o guarda-sol de paninho logo aberto<br \/>\npelo sacrist\u00e3o para abrigar o abade.<\/p>\n<p>Jacinto tocou no meu cotovelo:<\/p>\n<p>-Que lindos vamos! Ora v\u00ea tu a Natureza&#8230; Num simples enterrar de<br \/>\nossos, quanta gra\u00e7a e quanta beleza!<\/p>\n<p>Na Capelinha, nova, dominando o vale da Carri\u00e7a, solit\u00e1ria<br \/>\ne muito nua, no meio dum adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva,<br \/>\numa frescura de arbusto, dois mo\u00e7os seguravam \u00e0 porta molhos<br \/>\nde tochas, que o Silv\u00e9rio distribuiu, a passos graves, com cortesias,<br \/>\nsolen\u00edssimo. Dentro as curtas chamas mal luziam, mal derramavam a sua<br \/>\namarelid\u00e3o triste, esbatidas na reluzente brancura dos muros estucados,<br \/>\nna jovial claridade que ca\u00eda das altas vidra\u00e7as bem polidas.<br \/>\nEm torno dos esquifes, pousados sobre bancos, que pesados veludilhos recobriam,<br \/>\no abade murmurava um suave latim, enquanto ao fundo as mulheres, sumidas na<br \/>\nsombra dos seus negros len\u00e7os, gemiam am\u00e9ns agudos, abafavam<br \/>\num respeitoso solu\u00e7o. Depois, tomando levemente o hissope, ainda o<br \/>\nbom abade aspergiu, para uma derradeira purifica\u00e7\u00e3o, os incertos<br \/>\nossos dos incertos Jacintos. E todos desfilamos p\u00f4r diante do meu Pr\u00edncipe,<br \/>\ntimidamente encostado \u00e0 ombreira, com o Silv\u00e9rio ao lado esmagando<br \/>\ncontra o peitilho as barbas imensas, a face desca\u00edda, cerradas as p\u00e1lpebras<br \/>\ncomo contendo l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>No adro, o meu Pr\u00edncipe acendeu regaladamente um cigarro pedido ao<br \/>\nMelchior:<\/p>\n<p>-E ent\u00e3o, Z\u00e9 Fernandes, que te pareceu a cerimoniazinha?<\/p>\n<p>-Muito campestre, muito suave, muito risonha&#8230; Uma del\u00edcia.<\/p>\n<p>Mas o Abade, que se desvestira na Sacristia, apareceu, j\u00e1 com o seu<br \/>\ngrande casaco de lustrina, o seu velho chap\u00e9u desabado, trazidos pelo<br \/>\nmo\u00e7o da Resid\u00eancia, num saco de chita. Jacinto, imediatamente<br \/>\nlhe agradeceu tantos cuidados, a af\u00e1vel hospitalidade que oferecera<br \/>\naos ossos, durante a constru\u00e7\u00e3o da Capelinha nova. E o suave<br \/>\nvelho, todo branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro<br \/>\nsorriso de dentes sadios, louvava Jacinto, que assim viera de t\u00e3o longe,<br \/>\nem t\u00e3o longa jornada, para cumprir aquele dever de bom neto.<\/p>\n<p>-S\u00e3o av\u00f3s muito remotos, e agora t\u00e3o confusos! &#8211; murmurava<br \/>\nJacinto, sorrindo,<\/p>\n<p>-Pois mais m\u00e9rito ainda o de V.Ex\u00aa. Respeitar um av\u00f4 moto,<br \/>\nbem \u00e9 corrente&#8230; Mas respeitar os ossos dum quinto av\u00f4, dum<br \/>\ns\u00e9timo av\u00f4!<\/p>\n<p>-Sobretudo, sr. Abade, quando deles nada se sabe, e naturalmente nada fizeram.<\/p>\n<p>O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:<\/p>\n<p>-Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excelentes! E p\u00f4r fim, quem<br \/>\nmuito se demora no mundo, como eu, termina p\u00f4r se convencer que no mundo<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 coisa ou ser in\u00fatil. Ainda ontem eu lia num jornal<br \/>\ndo Porto, que p\u00f4r fim, segundo se descobriu, s\u00e3o as minhocas<br \/>\nque estrumam e lavram a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o<br \/>\narado. N\u00e3o h\u00e1 nada in\u00fatil&#8230; Eu tinha l\u00e1 na resid\u00eancia<br \/>\numa por\u00e7\u00e3o de cardos a um canto da horta, que me afligiam. Pois<br \/>\nrefleti e terminei p\u00f4r me regalar com eles em xarope. Os av\u00f3s<br \/>\nde V.Ex\u00aa p\u00f4r c\u00e1 andaram, p\u00f4r c\u00e1 trabalharam,<br \/>\np\u00f4r c\u00e1 padeceram. Quer dizer: p\u00f4r c\u00e1 serviram. E,<br \/>\nem todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso p\u00f4r alma, n\u00e3o<br \/>\nlhes pode fazer sen\u00e3o bem, a eles e a n\u00f3s.<\/p>\n<p>E assim, docemente filosofando, paramos num souto de carvalheiras, nose esperava<br \/>\na velh\u00edssima \u00e9gua do Abade, porque o santo homen agora depois<br \/>\ndo reumatismo do \u00faltimo Inverno, j\u00e1 n\u00e3o afrontava rijamente<br \/>\ncomo antes os trilhos duros da serra. Para ele montar, filialmente Jacinto<br \/>\nsegurou o estribo. E enquanto a \u00e9gua se empurrava pelo c\u00f3rrego<br \/>\nacima, quase tapada sob o imenso guarda-sol vermelho em que se abrigava o<br \/>\nvelho, n\u00f3s recolhemos a casa metendo pela serra da Lombinha, atrav\u00e9s<br \/>\ndos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa preta<br \/>\ndo meu Pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>-Est\u00e3o pois acomodados estes senhores, Z\u00e9 Fernandes! S\u00f3<br \/>\nresta rezar p\u00f4r eles o Padre Nosso, que recomenda o Abade. Somente,<br \/>\neu n\u00e3o sei, j\u00e1 n\u00e3o me lembro do Padre-Nosso.<\/p>\n<p>-N\u00e3o te aflijas, Jacinto, pe\u00e7o \u00e0 tia Vic\u00eancia<br \/>\nque reze p\u00f4r mim e p\u00f4r ti. \u00c9 sempre a tia Vic\u00eancia<br \/>\nque reza os meus Padre-Nossos.<\/p>\n<p>Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com enternecido<br \/>\ninteresse, a uma consider\u00e1vel evolu\u00e7\u00e3o de Jacinto nas<br \/>\nsuas rela\u00e7\u00f5es com a Natureza. Daquele per\u00edodo sentimental<br \/>\nde contempla\u00e7\u00e3o, em que colhia teorias nos ramos de qualquer<br \/>\ncerejeira, e edificava sistemas sobre o espumar das levadas, o meu Pr\u00edncipe<br \/>\nlentamente passava para o desejo da A\u00e7\u00e3o&#8230; E duma a\u00e7\u00e3o<br \/>\ndireta e material, em que a sua m\u00e3o, enfim restitu\u00edda a uma<br \/>\nfun\u00e7\u00e3o superior, revolvesse o torr\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de tanto comentar, o meu Pr\u00edncipe, evidentemente, aspirava<br \/>\na criar.<\/p>\n<p>Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, enquanto<br \/>\no Manuel hortel\u00e3o apanhava laranjas no alto duma escada arrimada a<br \/>\numa laranjeira, Jacinto observou, mais para si do que para mim:<\/p>\n<p>-\u00c9 curioso&#8230; Nunca plantei uma \u00e1rvore!<\/p>\n<p>-Pois \u00e9 um dos tr\u00eas grandes atos, sem os quais, segundo diz<br \/>\nn\u00e3o sei que Fil\u00f3sofo, nunca se foi um verdadeiro homem&#8230; Fazer<br \/>\num filho, plantar uma \u00e1rvore, escrever um livro. Tens de te apressar,<br \/>\npara ser um homem. \u00c9 poss\u00edvel que talvez nunca prestasses um<br \/>\nservi\u00e7o a uma \u00e1rvore, como se presta a um semelhante!<\/p>\n<p>-Sim&#8230; Em Paris, quando era pequeno, regava os lilases. E no Ver\u00e3o<br \/>\n\u00e9 um belo servi\u00e7o! Mas nunca semeei.<\/p>\n<p>E como o Manuel descia da escada, o meu Pr\u00edncipe, que nunca acreditara<br \/>\ninteiramente &#8211; pobre homem! &#8211; no meu saber agr\u00edcola, imediatamente<br \/>\nreclamou o parecer daquela autoridade:<\/p>\n<p>-\u00d3 Manuel, ou\u00e7a l\u00e1 o que se poderia agora semear?<\/p>\n<p>Com o cesto das laranjas enfiado no bra\u00e7o, o Manuel exclamou, atrav\u00e9s<br \/>\ndum lento riso, entre respeitoso e divertido:<\/p>\n<p>-Semear, patr\u00e3o? Agora \u00e9 antes colher&#8230; Olhe que j\u00e1<br \/>\nse anda a limpar a eirazinha para a debulha, meu patr\u00e3o.<\/p>\n<p>-Pois sim&#8230; Mas sem ser milho nem cevada&#8230; ent\u00e3o ali no pomar, rente<br \/>\ndo muro velho, n\u00e3o se podia plantar uma fila de pessegueiros?<\/p>\n<p>O riso do Manuel crescia.<\/p>\n<p>-Isso sim, meu senhor! Isso \u00e9 l\u00e1 para os Santos ou para o Natal.<br \/>\nAgora s\u00f3 a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feij\u00e3ozinho<br \/>\nem terra muito fresca&#8230;<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe sacudiu, com brando gesto, estes legumes rasteiros.<\/p>\n<p>-Bem, boa noite, Manuel. Essas laranjas s\u00e3o da tal laranjeira que<br \/>\ndiz o Melchior, muito doces, muito finas? Ent\u00e3o leve para os seus pequenos.<br \/>\nLeve muitas para os pequenos.<\/p>\n<p>N\u00e3o! o empenho era criar a \u00e1rvore contemplada na serra em<br \/>\nsua verdadeira majestade, na benefic\u00eancia da sua sombra, na frescura<br \/>\nembaladora do seu rumorejar, na gra\u00e7a e santidade dos ninhos que a<br \/>\npovoam, come\u00e7ara talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora<br \/>\nsonhava uma Tormes toda coberta de \u00e1rvores, cujos frutos e verduras,<br \/>\ne sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o cuidado<br \/>\ndas suas m\u00e3os paternais.<\/p>\n<p>No sil\u00eancio grave do crep\u00fasculo, que descia, murmurou ainda:<\/p>\n<p>-\u00d3 Z\u00e9 Fernandes quais s\u00e3o as \u00e1rvores que crescem<br \/>\nmais depressa?<\/p>\n<p>-Eh, meu Jacinto&#8230; A \u00e1rvore que cresce mais depressa \u00e9 o eucalipto,<br \/>\no fei\u00edssimo e rid\u00edculo eucalipto. Em seis anos tens a\u00ed<br \/>\ntormes coberta de eucaliptos&#8230;<\/p>\n<p>-Tudo t\u00e3o lento, Z\u00e9 Fernandes&#8230;<\/p>\n<p>Porque o seu sonho, que eu compreendia, seria plantar caro\u00e7os que<br \/>\nsubissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de ele<br \/>\nvoltar ao 202, no come\u00e7o do Inverno&#8230;<\/p>\n<p>-Um carvalho!&#8230; Trinta anos, antes que seja belo! Desanimo! \u00c9 bom<br \/>\npara deus, que pode esperar&#8230; Patiens quia oeternus. Trinta anos! Daqui a<br \/>\ntrinta anos, \u00e1rvores s\u00f3 para me cobrirem a sepultura!<\/p>\n<p>-J\u00e1 \u00e9 um ganho. E depois para teus filhos, Jacinto&#8230;<\/p>\n<p>-Filhos! Onde os tenho eu?<\/p>\n<p>-\u00c9 o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. N\u00e3o faltam p\u00f4r<br \/>\na\u00ed terras agrad\u00e1veis&#8230; Em nove meses tens uma planta feita.<br \/>\nE quanto mais tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.<\/p>\n<p>Ele murmurou, cruzando as m\u00e3os sobre os joelhos:<\/p>\n<p>-Tudo leva tanto tempo!&#8230;<\/p>\n<p>E \u00e0 borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca do\u00e7ura<br \/>\ndo anoitecer, entre o cheiro avivado das madressilvas do muro, olhando o crescente<br \/>\nda Lua, que surdia dos telhados de Tormes.<\/p>\n<p>E decerto esta pressa de se tornar a Natureza n\u00e3o mais um sonhador,<br \/>\nmas um criador, arremessou vivamente o seu interesse para os gados! Repetidamente,<br \/>\nnos nossos passeios atrav\u00e9s da Quinta, ele lhe notava a solid\u00e3o.<\/p>\n<p>-Faltam aqui animais, Z\u00e9 Fernandes!<\/p>\n<p>Imaginava eu que ele apetecia em Tormes o ornato elegante de veados e pav\u00f5es.<br \/>\nMas um Domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre escasso de \u00e1guas,<br \/>\nagora mais ressequido p\u00f4r Ver\u00e3o de tanta secura, o meu Pr\u00edncipe<br \/>\nparou a considerar os tr\u00eas carneiros do caseiro, que retou\u00e7avam<br \/>\ncom pen\u00faria uma relvagem pobre.<\/p>\n<p>E, de repente, como magoado:<\/p>\n<p>-Justamente! Aqui est\u00e1 o espa\u00e7o para um belo prado, um imenso<br \/>\nprado, muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos gord\u00edssimos<br \/>\ncomo bolas de algod\u00e3o pousadas na relva!&#8230; Era lindo, hem? \u00c9<br \/>\nf\u00e1cil, n\u00e3o \u00e9 verdade, Z\u00e9 Fernandes?<\/p>\n<p>-Sim&#8230; Trazes a \u00e1gua para o prado. \u00c1guas n\u00e3o faltam<br \/>\nna serra.<\/p>\n<p>E o meu Pr\u00edncipe, encadeando logo nesta inspirada id\u00e9ia outra,<br \/>\nmais rica e vasta, lembrou quanta beleza daria a Tormes encher esses prados,<br \/>\nesses verdes ferregiais, de manadas de vacas, formosas vacas inglesas, bem<br \/>\nn\u00e9dias e bem luzidias. Hem? Uma beleza. Para abrigar esses gados ricos,<br \/>\nconstruiria currais perfeitos, duma arquitetura leve e \u00fatil, toda em<br \/>\nferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados pela \u00e1gua&#8230;<br \/>\nHem? Que formosura! Depois, com todas essas vacas, e o leite jorrando, nada<br \/>\nmais f\u00e1cil e mais divertido, e at\u00e9 mais moral, que a instala\u00e7\u00e3o<br \/>\nduma queijeira, \u00e0 fresca moda holandesa, toda branca e reluzente, de<br \/>\nazulejos e de m\u00e1rmore, para fabricar os Camemberts, os Bries&#8230; os<br \/>\nCoulommiers&#8230; Para a casa, que conforto! E para toda a serra, que atividade!<\/p>\n<p>-Pois n\u00e3o te parece, Z\u00e9 Fernandes?<\/p>\n<p>-Com certeza. Tu tens, em abund\u00e2ncia, os quatro elementos: o ar, a<br \/>\n\u00e1gua, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente<br \/>\nse faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!<\/p>\n<p>-Pois n\u00e3o \u00e9 verdade? E at\u00e9 como neg\u00f3cio! Est\u00e1<br \/>\nclaro, para mim o lucro \u00e9 o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo<br \/>\ndo dia&#8230; Mas uma queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente.<br \/>\nE educa o paladar, incita a instala\u00e7\u00f5es iguais, implanta talvez<br \/>\nno pais uma ind\u00fastria nova e rica! Ora, com essa instala\u00e7\u00e3o<br \/>\nperfeita, quanto me poder\u00e1 custar cada queijo?<\/p>\n<p>Fechei um olho, calculando:<\/p>\n<p>-Eu te digo&#8230; Cada queijo, um desses queijinhos redondos, como o Camembert<br \/>\nou o Raba\u00e7al, pode vir a custar-te, a ti Jacinto queijeiro, entre duzentos<br \/>\ne cinq\u00fcenta e trezentos mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe recuou, com os olhos alegres espantados para mim.<\/p>\n<p>-Como trezentos mil-r\u00e9is?<\/p>\n<p>-Ponhamos duzentos&#8230; Tem certeza! Com todos esses prados, e os encantamentos<br \/>\nde \u00e1gua, e a configura\u00e7\u00e3o de serra alterada, e as vacas<br \/>\ninglesas, e os edif\u00edcios de porcelana e vidro, e as m\u00e1quinas,<br \/>\na extravag\u00e2ncia, e a patuscada buc\u00f3lica, cada queijo te custa,<br \/>\na ti produtor, duzentos mil-r\u00e9is. Mas com certeza o vendes no Porto<br \/>\np\u00f4r um tost\u00e3o. P\u00f5e cinq\u00fcenta r\u00e9is para a caixa,<br \/>\nr\u00f3tulos, transporte, comiss\u00e3o, etc. Tens apenas, em cada queijo,<br \/>\numa perda de cento e noventa e nove mil oitocentos e cinq\u00fcenta r\u00e9is!<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe n\u00e3o desanimou.<\/p>\n<p>-Perfeitamente! Fa\u00e7o um desses espantosos queijos p\u00f4r semana,<br \/>\nao S\u00e1bado, para o comermos n\u00f3s ambos ao Domingo!<\/p>\n<p>E tanta energia lhe comunicava o seu novo Otimismo, t\u00e3o ansiosamente<br \/>\naspirava a criar, que logo, arrastando o Silv\u00e9rio e o Melchior p\u00f4r<br \/>\ncabe\u00e7os e barrancos, largou a percorrer a Quinta toda, para determinar<br \/>\nonde cresciam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se ergueriam, rebrilhantes<br \/>\nno sol de Tormes, os currais elegantes. Com a espl\u00eandida seguran\u00e7a<br \/>\ndos seus cento e nove contos de renda, n\u00e3o surgia dificuldade, risonhamente<br \/>\nmurmurada pelo Melchior, ou exclamada, com respeitoso pasmo, pelo Silv\u00e9rio,<br \/>\nque ele n\u00e3o afastasse brandamente, com jeito leve, como um galho de<br \/>\nroseira brava atravessado numa vereda.<\/p>\n<p>Aquelas rochas, al\u00e9m, empecendo? Que se arrancassem! Um vale importuno<br \/>\ndividia dois campos? Que se atulhasse! O Silv\u00e9rio suspirava, enxugando<br \/>\nsobre a escura calva um suor quase de ang\u00fastia. Pobre Silv\u00e9rio!<br \/>\nRijamente sacudido na doce pachorra da sua administra\u00e7\u00e3o, calculando<br \/>\ndespesas que se afiguravam sobre-humanas \u00e0 sua parcim\u00f4nia serrana,<br \/>\nfor\u00e7ado a arquejar, sem descanso, sob soalheiras de Junho, o desgra\u00e7ado<br \/>\nretomara na Serra o jeito que Jacinto deixara em Paris &#8211; e era ele que corria<br \/>\npelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados&#8230; Enfim uma tarde desabafou<br \/>\ncomigo, a um canto da varanda, enquanto Jacinto, na livraria, escrevia a um<br \/>\nseu amigo de Holanda, o conde Rylant, Mordomo-Mor da Corte, pedindo desenhos,<br \/>\ne planos, e or\u00e7amentos duma queijeira perfeita.<\/p>\n<p>-Pois, Sr.Fernandes, se toda esta grandeza vai p\u00f4r diante, sempre lhe<br \/>\ndigo que o Sr. D. Jacinto enterra aqui na serra dezenas de contos, Dezenas<br \/>\nde contos!<\/p>\n<p>E como eu aludia \u00e0 fortuna do meu Pr\u00edncipe, a quem todas essas<br \/>\nobras t\u00e3o vastas, que alterariam o antiqu\u00edssimo rosto da serra,<br \/>\nn\u00e3o custavam mais que a outros o conserto dum socalco &#8211; o bom Silv\u00e9rio<br \/>\natirou os longos bra\u00e7os para as coxas, ainda mais desolado:<\/p>\n<p>-Pois p\u00f4r isso mesmo, Sr. Fernandes! Se o Sr. D. Jacinto n\u00e3o<br \/>\ntivesse a dinheirama, recuava. Assim, \u00e9 z\u00e1s, para diante; e<br \/>\neu n\u00e3o o censuro pela id\u00e9ia. Lograsse eu a renda de S. Ex\u00aa,<br \/>\nque me atirava tamb\u00e9m a uma lavoura de capricho. Mas n\u00e3o aqui,<br \/>\nSr. Fernandes, nestas serranias, entre alcantis. Pois um senhor que possui<br \/>\naquela linda propriedade de Montemor, nos campos de Mondego, onde at\u00e9<br \/>\npodia plantar jardins de desbancar os do Pal\u00e1cio de Cristal do Porto!<br \/>\nE a Veleira? Isso \u00e9 um condado! E uma terra ch\u00e3, boa terra,<br \/>\ntoda junta, ali em volta da casa, com uma torre. Um regalo, Sr. Fernandes.<br \/>\nMas sobretudo Montemor! L\u00e1 \u00e9 que eram prados e manadas de vacas<br \/>\ninglesas, e queijeira e horta rica, de fartar, e a\u00ed trinta perus na<br \/>\ncapoeira&#8230;<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o que quer, Silv\u00e9rio? O Jacinto gosta da serra. E depois<br \/>\neste \u00e9 o solar da fam\u00edlia, e aqui come\u00e7aram no s\u00e9culo<br \/>\nXIV os Jacintos&#8230;<\/p>\n<p>O pobre Silv\u00e9rio, no seu desespero, esquecia o respeito devido \u00e0<br \/>\nsecular nobreza da casa.<\/p>\n<p>-Ora! at\u00e9 ficam mal ao Sr. Fernandes essas id\u00e9ias, neste s\u00e9culo<br \/>\nda liberdade&#8230; Pois estamos l\u00e1 em tempos de se falar em fidalguias,<br \/>\nagora que p\u00f4r toda a parte tudo em Rep\u00fablica? Leia o S\u00e9culo,<br \/>\nSr. Fernandes! leia o S\u00e9culo, e ver\u00e1! E depois eu sempre quero<br \/>\nver o Sr.D. Jacinto, aqui no Inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela<br \/>\nmanh\u00e3, e a friagem a traspassar os ossos, e ventanias que atiram carvalheiras<br \/>\nde ra\u00edzes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a serra!&#8230; Olhe,<br \/>\nat\u00e9 mesmo p\u00f4r amor da sa\u00fade o Sr. D. Jacinto, que \u00e9<br \/>\nfraquinho e acostumado \u00e0 cidade, necessita sair da serra. Em Montemor,<br \/>\nem Montemor \u00e9 que Sua Ex\u00aa estava bem. e o Sr. Fernandes, t\u00e3o<br \/>\namigo dele e assim com tanta influ\u00eancia, devia teimar, e berrar, at\u00e9<br \/>\nque o levasse para Montemor.<\/p>\n<p>Mas, infelizmente para quieta\u00e7\u00e3o do Silv\u00e9rio, Jacinto<br \/>\nlan\u00e7ara ra\u00edzes, e rijas, e amorosas ra\u00edzes na sua rude<br \/>\nserra. Era realmente como se o tivessem plantado de estaca naquele antiqu\u00edssimo<br \/>\nch\u00e3o, de onde brotara a sua ra\u00e7a, e o antiqu\u00edssimo h\u00famus<br \/>\nreflu\u00edsse e o penetrasse todo, e o andasse transformando num Jacinto<br \/>\nrural, quase vegetal, t\u00e3o do ch\u00e3o, e preso ao ch\u00e3o, como<br \/>\nas \u00e1rvores que ele tanto amava.<\/p>\n<p>E depois o que o prendia \u00e0 serra era o Ter nela encontrado o que na<br \/>\nCidade, apesar da sua sociabilidade, n\u00e3o encontrara nunca &#8211; dias t\u00e3o<br \/>\ncheios, t\u00e3o deliciosamente ocupados, dum t\u00e3o saboroso interesse,<br \/>\nque sempre penetrava neles, como numa festa ou numa gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Logo de manh\u00e3, \u00e0s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda<br \/>\nregaladamente o meu corpo nos colch\u00f5es de fresco folhelho, sentia os<br \/>\nseus rijos sapat\u00f5es pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado,<br \/>\nmas ditoso como o dum metro. Em poucos instantes escancarava com fragor a<br \/>\nminha porta, j\u00e1 de chap\u00e9u desabado, j\u00e1 de bengal\u00e3o<br \/>\nde cerejeira, disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da<br \/>\nserra. E era sempre a mesma nova, quase orgulhosa:<\/p>\n<p>-Dormi hoje deliciosamente, Z\u00e9 Fernandes. T\u00e3o bem, com uma<br \/>\ntal serenidade, que come\u00e7o a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!<br \/>\nQuando abri a janela, \u00e0s cinco horas, quase gritei de puro gosto!<\/p>\n<p>Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando eu<br \/>\nrepetia a risca mal come\u00e7ada do cabelo, aquele antigo homem das trinta<br \/>\ne nove escovas protestava contra esse desbarato efeminado dum tempo devido<br \/>\naos fortes gozos da terra.<\/p>\n<p>Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no p\u00e1tio, desemboc\u00e1vamos<br \/>\nda alameda de pl\u00e1tanos, e adiante de n\u00f3s se dividiam matutinamente,<br \/>\nmais brancos entre o verde matutino, os caminhos coleantes da Quinta, toda<br \/>\na sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentid\u00e3o<br \/>\nde quem penetra num Templo. E repetidamente sustentava ser \u201ccontr\u00e1rio<br \/>\n\u00e0 Est\u00e9tica, \u00e0 Filosofia e \u00e0 Religi\u00e3o, andar<br \/>\ndepressa atrav\u00e9s dos campos\u201d. De resto, com aquela sutil sensibilidade<br \/>\nbuc\u00f3lica que nele se desenvolvera, e incessantemente se afirmava, qualquer<br \/>\nbreve beleza, do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente<br \/>\npoderia ele entreter toda uma manh\u00e3, caminhar p\u00f4r entre um pinheiral,<br \/>\nde tronco a tronco, calado, embebido no sil\u00eancio, na frescura, no resinoso<br \/>\naroma, empurrando com o p\u00e9 as agulhas e as pinhas secas. Qualquer \u00e1gua<br \/>\ncorrente o retinha, enternecido naquela servi\u00e7al atividade, que se<br \/>\napressa, cantando, para o torr\u00e3o que tem sede, e nele se some, e se<br \/>\nperde. E recordo ainda quando me reteve meio Domingo, depois da Missa, no<br \/>\ncabe\u00e7o, junto a um velho curral desmantelado, sob uma grande \u00e1rvore<br \/>\n&#8211; s\u00f3 porque em torno havia quieta\u00e7\u00e3o, doce aragem, um<br \/>\nfino piar de ave na ramaria, um murm\u00fario de regato entre as canas verdes,<br \/>\ne p\u00f4r sobre a sebe, ao lado, um perfume, muito fino e muito fresco,<br \/>\nde flores escondidas.<\/p>\n<p>Depois, quando eu, velho familiar das serras, me n\u00e3o abandonava aos<br \/>\nmesmos \u00eaxtases que a ele lhe enchiam a alma ainda novi\u00e7a &#8211; o<br \/>\nmeu Pr\u00edncipe rugia, com a indigna\u00e7\u00e3o dum poeta que descobre<br \/>\num merceeiro bocejando sobre Shakespeare ou Musset. Eu ria.<\/p>\n<p>-Meu filho, olha que eu n\u00e3o passo dum pequeno propriet\u00e1rio.<br \/>\nPara mim n\u00e3o se trata de saber se a terra \u00e9 linda, mas se a<br \/>\nterra \u00e9 boa. Olha o que diz a B\u00edblia! \u201cTrabalhar\u00e1s<br \/>\na Quinta com o suor do teu rosto!\u201d E n\u00e3o diz \u201ccontemplar\u00e1s<br \/>\na Quinta com o enlevo da tua imagina\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>-Pudera! &#8211; exclamava o meu Pr\u00edncipe. &#8211; Um velho livro escrito p\u00f4r<br \/>\nJudeus, p\u00f4r \u00e1speros semitas, sempre com o turvo olho posto no<br \/>\nlucro! Repara, homem, para aquele bocadinho de vale, e consegue n\u00e3o<br \/>\npensar, p\u00f4r um momento, nos trinta mil-r\u00e9is que ele rende! Ver\u00e1s<br \/>\nque pela sua beleza e gra\u00e7a ele te d\u00e1 mais contentamento \u00e0<br \/>\nalma que os trinta mil-r\u00e9is ao corpo. E na vida s\u00f3 a alma importa.<\/p>\n<p>Recolhendo ao casar\u00e3o, j\u00e1 o encontr\u00e1vamos com as janelas<br \/>\nmeio cerradas, os soalhos borrifados para aquelas quentes r\u00e9stias de<br \/>\nSol de Junho, que depois do almo\u00e7o docemente nos retinham na livraria,<br \/>\npregui\u00e7ando.<\/p>\n<p>Mas realmente a alegre atividade do meu Pr\u00edncipe n\u00e3o cessava,<br \/>\nnem amolecia, sob o peso da sesta. A essa hora, enquanto pelo arvoredo mudo<br \/>\nos mais agitados pardais dormiam, e o Sol mesmo parecia repousar, im\u00f3vel<br \/>\nna rutil\u00e2ncia da sua luz, Jacinto com o esp\u00edrito acordado &#8211; \u00e1vido<br \/>\nde sempre gozar, agora que reconquistara essa faculdade &#8211; tomava com del\u00edcia<br \/>\no seu livro. Porque o dono de trinta mil volumes era agora, na sua casa de<br \/>\nTormes, depois de ressuscitado, o homem que s\u00f3 tem um livro. Essa mesma<br \/>\nNatureza, que o desligara das ligaduras amortalhadoras do t\u00e9dio, e<br \/>\nlhe gritara o seu belo Ambula, caminha! &#8211; tamb\u00e9m certamente lhe gritara<br \/>\net lege, e l\u00ea. E libertado enfim do inv\u00f3lucro sufocante da sua<br \/>\nBiblioteca imensa, o meu ditoso amigo compreendia enfim a incompar\u00e1vel<br \/>\ndel\u00edcia de ler um livro. Quando eu correra a Tormes (depois das revela\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo severo na venda do Torto), ele findava o D.Quixote, e ainda eu lhe escutara<br \/>\nas derradeiras risadas com as coisas deliciosas, e decerto profundas, que<br \/>\no gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o meu<br \/>\nPr\u00edncipe mergulhara na Odiss\u00e9ia &#8211; e todo ele vivia no espanto<br \/>\ne no deslumbramento de assim Ter encontrado no meio do caminho da sua vida<br \/>\no velho errante, o velho Homero!<\/p>\n<p>-\u00d3 Z\u00e9 Fernandes, como sucedeu que eu chegasse a esta idade<br \/>\nsem Ter lido Homero?&#8230;<\/p>\n<p>-Outras leituras, mais urgentes&#8230; o F\u00edgaro, George Ohnet&#8230;<\/p>\n<p>-Tu leste a Il\u00edada?<\/p>\n<p>-Menino, sinceramente me gabo de nunca Ter lido a Il\u00edada.<\/p>\n<p>Os olhos do meu Pr\u00edncipe fuzilavam.<\/p>\n<p>-Tu sabes o que fez Alcib\u00edades, uma tarde, no P\u00f3rtico, a um<br \/>\nsofista, um desavergonhado dum sofista, que se gabava de n\u00e3o Ter lido<br \/>\na Il\u00edada?<\/p>\n<p>-N\u00e3o.<\/p>\n<p>-Ergueu a m\u00e3o e atirou-lhe uma bofetada tremida.<\/p>\n<p>-Para l\u00e1, Alcib\u00edades! Olha que eu li a Odiss\u00e9ia!<\/p>\n<p>\u00d3! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E insistia<br \/>\nem me iniciar, ele, e me conduzir, atrav\u00e9s do Livro sem igual. Eu ria.<br \/>\nE rindo, pesado do almo\u00e7o, terminava p\u00f4r consentir, e me estirava<br \/>\nno canap\u00e9 de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira, abria<br \/>\no livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e come\u00e7ava numa<br \/>\nlenta ode sentida. Aquele grande mar da Odiss\u00e9ia &#8211; resplandecente e<br \/>\nsonoro, sempre azul, sob o v\u00f4o branco das gaivotas, rolando, e mansamente<br \/>\nquebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de m\u00e1rmore das Ilhas<br \/>\ndivinas &#8211; exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela<br \/>\ncalma de Junho, em que a serra entorpecia. Depois as estupendas manhas do<br \/>\nsutil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos, tantas lam\u00farias sublimes<br \/>\ne um anseio t\u00e3o espalhado da P\u00e1tria perdida, e toda aquela intriga,<br \/>\nem que embrulhava os her\u00f3is, lograva as Deusas, iludia o Fado, tinham<br \/>\num delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de<br \/>\nsutileza ou de engenho, e a vida se desenrolava com a seguran\u00e7a imut\u00e1vel<br \/>\ncom que cada manh\u00e3 sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos,<br \/>\nregados p\u00f4r \u00e1guas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam&#8230;<br \/>\nEmbalado pela recita\u00e7\u00e3o grave e mon\u00f3tona do meu Pr\u00edncipe,<br \/>\neu cerrava as p\u00e1lpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, p\u00f4r<br \/>\nTerra e C\u00e9u, me alvoro\u00e7ava&#8230; E eram os rugidos de Polifemo,<br \/>\nou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo. Com os<br \/>\nolhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava: Sublime! E sempre nesse<br \/>\nmomento o engenhoso Ulisses, de carapu\u00e7o vermelho e o longo remo ao<br \/>\nombro, surpreendia com a sua fac\u00fandia a clem\u00eancia dos Pr\u00edncipes,<br \/>\nou reclamava presentes devidos ao H\u00f3spede, ou surripiava astutamente<br \/>\nalgum favor aos deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente,<br \/>\neu cerrava as p\u00e1lpebras consoladas, sob a car\u00edcia inef\u00e1vel<br \/>\ndo largo dizer hom\u00e9rico&#8230; E meio adormecido, encantado, incessantemente<br \/>\navistava, longe, na divina H\u00e9lade, entre o mar muito azul e o c\u00e9u<br \/>\nmuito azul, a branca vela, hesitante, procurando \u00cdtaca&#8230;<\/p>\n<p>Depois da sesta o meu Pr\u00edncipe de novo se soltava para os campos.<br \/>\nE a essa hora, sempre mais ativa, voltava com ardor aos \u201cseus planos\u201d,<br \/>\na essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de magnific\u00eancias<br \/>\nrurais. Agora andava todo no espl\u00eandido apetite duma horta que ele concebera,<br \/>\nimensa horta ajardinada, em que todos os legumes, cl\u00e1ssicos ou ex\u00f3ticos,<br \/>\ncresceriam, soberbamente, em vistosos talh\u00f5es, fechados p\u00f4r sebes<br \/>\nde rosas, de cravos, de alfazemas, de d\u00e1lias. A \u00e1gua das regas<br \/>\ndesceria p\u00f4r lindos c\u00f3rregos de lou\u00e7a esmaltada. Nas ruas,<br \/>\na sombra cairia de densas latadas de moscatel, pousando em esteios revestidos<br \/>\nde azulejo. E o meu Pr\u00edncipe desenhara o plano desta espantosa horta,<br \/>\na l\u00e1pis vermelho, num papel imenso, que o Melchior e o Silv\u00e9rio,<br \/>\nconsultados, longamente contemplaram &#8211; um co\u00e7ando risonhamente a nuca,<br \/>\no outro com os bra\u00e7os duramente cruzados, e o sobrolho tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, suntuoso, dum pombal<br \/>\nt\u00e3o povoado que todo o c\u00e9u de Tormes \u00e0s tardes se tornaria<br \/>\nbranco e todo fremente de asas &#8211; n\u00e3o sa\u00edam das nossas gostosas<br \/>\npalestras, ou dos pap\u00e9is em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam<br \/>\nsobre a mesa, plat\u00f4nicos, im\u00f3veis, entre o tinteiro de lat\u00e3o<br \/>\ne o vaso com flores.<\/p>\n<p>Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra serrara<br \/>\nmadeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resist\u00eancia reboluda<br \/>\ne escorregadia do Melchior, contra a respeitosa in\u00e9rcia do Silv\u00e9rio<br \/>\nse quedavam, encalhados, os planos do meu Pr\u00edncipe, como galeras vistosas<br \/>\nem rochas ou em lodo.<\/p>\n<p>N\u00e3o convinha bulir em nada (clamava o Silv\u00e9rio) antes das colheitas<br \/>\ne da vindima! E depois (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande promessa)<br \/>\n\u201cpara boas obras m\u00eas de Janeiro\u201d porque l\u00e1 ensina<br \/>\no ditado:<\/p>\n<p>Em Janeiro &#8211; mete obreiro<\/p>\n<p>M\u00eas meante &#8211; que n\u00e3o ante<\/p>\n<p>E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a<br \/>\nbengala p\u00f4r cima de vale e monte, os s\u00edtios privilegiados que<br \/>\nelas aformoseariam, bastava p\u00f4r ora ao meu Pr\u00edncipe, ainda mais<br \/>\nimaginativo que operante. E, enquanto meditava estas transforma\u00e7\u00f5es<br \/>\nda terra, muito progressivamente e com um am\u00e1vel esfor\u00e7o, se<br \/>\nia familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada<br \/>\na Tormes, o meu Pr\u00edncipe sofria duma estranha timidez diante dos caseiros,<br \/>\ndos jornaleiros, e at\u00e9 de qualquer rapazinho que passasse, tangendo<br \/>\numa vaca para o pasto. Nunca ele ent\u00e3o se demoraria a conversar com<br \/>\nos mo\u00e7os, quando \u00e0 borda dum caminho ou num campo em monda eles<br \/>\nse endireitavam de chap\u00e9u na m\u00e3o, num respeito de velha vassalagem.<br \/>\nDecerto o empecia a pregui\u00e7a, e talvez ainda o pudico recato de transpor<br \/>\ntoda a imensa dist\u00e2ncia que se alargava desde a sua complicada superciviliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nat\u00e9 a rude simplicidade daquelas almas naturais: &#8211; mas sobretudo o<br \/>\nretinha o medo de mostrar a sua ignor\u00e2ncia da lavoura e da terra, ou<br \/>\nde parecer talvez desdenhoso de ocupa\u00e7\u00f5es e de interesses, que<br \/>\npara os outros eram supremos e quase religiosos. Remia ent\u00e3o esta reserva<br \/>\ncom uma profus\u00e3o de sorrisos, de doces acenos, tirando tamb\u00e9m<br \/>\no chap\u00e9u em cortesias profundas, com uma tal \u00eanfase de polidez<br \/>\nque eu p\u00f4r vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros. \u201cTenha<br \/>\nV. Ex\u00aa muito boas-tardes&#8230; Criado de V. Ex\u00aa!\u201d<\/p>\n<p>Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de j\u00e1 saber (com um<br \/>\nsaber ainda fr\u00e1gil) a \u00e9poca das sementeiras e das ceifas, e<br \/>\nque as \u00e1rvores de fruta se semeiam no Inverno, j\u00e1 se aprazia<br \/>\nem parar junto dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer<br \/>\ncoisas af\u00e1veis e vagas.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, isso vai andando?&#8230; Ora ainda bem!&#8230; este bocado de terr\u00e3o<br \/>\naqui \u00e9 rico&#8230; O talude ali adiante est\u00e1 precisando conserto&#8230;<\/p>\n<p>E cada um destes t\u00e3o simples dizeres lhe era doce, como se p\u00f4r<br \/>\nmeio deles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e consolidasse<br \/>\na sua encarna\u00e7\u00e3o em \u201chomem do campo\u201d, deixando de<br \/>\nser uma mera sombra circulando entre realidades. J\u00e1 p\u00f4r isso<br \/>\nn\u00e3o cruzava no caminho o mocinho atr\u00e1s das vacas, que n\u00e3o<br \/>\no detivesse, o n\u00e3o interrogasse: \u201cPara onde vais tu? De quem<br \/>\n\u00e9 o gado? Como te chamas?\u201d E, contente consigo, sempre gabava<br \/>\ngratamente o desembara\u00e7o do rapaz, ou a esperteza dos seus olhos. Outra<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o do meu Pr\u00edncipe era conhecer os nomes de todos<br \/>\nos campos, as nascentes de \u00e1gua, e as delimita\u00e7\u00f5es da<br \/>\nsua Quinta.<\/p>\n<p>-V\u00eas acol\u00e1, para al\u00e9m do ribeiro, o pinheiral. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 meu, \u00e9 dos Albuquerques.<\/p>\n<p>E com perene alegria de Jacinto as noites da serra, no vasto casar\u00e3o,<br \/>\neram f\u00e1ceis e curtas. O meu Pr\u00edncipe era ent\u00e3o uma alma<br \/>\nque se simplificava: &#8211; e qualquer pequenino gozo lhe bastava, desde que nele<br \/>\nentrasse paz ou do\u00e7ura. Com verdadeira del\u00edcia ficava, depois<br \/>\ndo caf\u00e9, estendido numa cadeira, sentindo atrav\u00e9s das janelas<br \/>\nabertas a noturna tranq\u00fcilidade da serra, sob a mudez estrelada do c\u00e9u.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava,<br \/>\nde Gui\u00e3es, do abade, da tia Vic\u00eancia, dos nossos parentes da<br \/>\nFlor da Malva, t\u00e3o sinceramente o interessavam que eu encetara, para<br \/>\nseu regalo, a cr\u00f4nica completa de Gui\u00e3es, com todos os namoricos,<br \/>\ne as fa\u00e7anhas de for\u00e7as, e as desaven\u00e7as p\u00f4r causa<br \/>\nde servid\u00f5es ou de \u00e1guas. Tamb\u00e9m p\u00f4r vezes nos<br \/>\nenfronh\u00e1vamos com aferro numa partida de gam\u00e3o, sobre um belo<br \/>\ntabuleiro de pau-preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestara o Silv\u00e9rio.<br \/>\nMas nada decerto o encantava tanto como atravessar as casas, p\u00e9 ante<br \/>\np\u00e9, at\u00e9 uma saleta que dava para o pomar, e a\u00ed ficar<br \/>\nencostado \u00e0 janela, sem luz, num enlevado sossego, a escutar longamente,<br \/>\nlanguidamente, os rouxin\u00f3is que cantavam no laranjal.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>Cap\u00edtulo X<\/h2>\n<p>Numa dessa manh\u00e3s &#8211; justamente na v\u00e9spera do meu regresso a<br \/>\nGui\u00e3es &#8211; o tempo, que andara pela serra t\u00e3o alegre, num inalterado<br \/>\nriso de luz rutilante, todo vestido de azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos,<br \/>\ne alegrando toda a natureza, desde os p\u00e1ssaros at\u00e9 os regatos,<br \/>\nsubitamente, com uma daquelas mudan\u00e7as que tornam o seu temperamento<br \/>\nt\u00e3o semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo embrulhado<br \/>\nno seu manto cinzento, com uma tristeza t\u00e3o pesada e contagiosa que<br \/>\na serra entristeceu. E n\u00e3o houve mais p\u00e1ssaro que cantasse,<br \/>\ne os arroios fugiram para debaixo das ervas, com um lento murm\u00fario<br \/>\nde choro.<\/p>\n<p>Quando Jacinto entrou no meu quarto, n\u00e3o resisti \u00e0 mal\u00edcia<br \/>\nde o aterrar:<\/p>\n<p>-Sudoeste! Gralhas a grasnar p\u00f4r todos esses soutos&#8230; Temos muita<br \/>\n\u00e1gua, Sr.D.Jacinto! Talvez duas semanas de \u00e1gua! E agora \u00e9<br \/>\nque se vai saber quem \u00e9 aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva<br \/>\npegada, com vendaval, com a serra toda a escorrer!<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe caminhou para a janela com as m\u00e3os nas algibeiras:<\/p>\n<p>-Com efeito! Est\u00e1 carregado. J\u00e1 mandei abrir uma das malas<br \/>\nde Paris e tirar um casac\u00e3o imperme\u00e1vel&#8230; N\u00e3o importa!<br \/>\nFica o arvoredo mais verde. E \u00e9 bom que eu conhe\u00e7a Tormes nos<br \/>\nseus h\u00e1bitos de Inverno.<\/p>\n<p>Mas como o Melchior lhe afian\u00e7ara que a \u201cchuvinha s\u00f3<br \/>\nviria para a tarde\u201d, Jacinto decidiu ir antes de almo\u00e7o \u00e0<br \/>\nCorujeira, onde o Silv\u00e9rio o esperava para decidirem da sorte de uns<br \/>\ncastanheiros, muito velhos, muito pitorescos, inteiramente interessantes,<br \/>\nmas j\u00e1 ro\u00eddos, e amea\u00e7ando desabar. E, confiando nas<br \/>\nprevis\u00f5es do Melchior, partimos sem que Jacinto se vestisse \u00e0<br \/>\nprova de \u00e1gua. N\u00e3o and\u00e1ramos por\u00e9m meio caminho,<br \/>\nquando, depois dum arrepio nas \u00e1rvores, um negrume carregou e, bruscamente,<br \/>\ndesabou sobre n\u00f3s uma grossa chuva obl\u00edqua, vergastada pelo<br \/>\nvento, que nos deixou estonteados, agarrando os chap\u00e9us, enrodilhados<br \/>\nna borrasca. Chamados p\u00f4r uma grande voz, que se esgani\u00e7ava no<br \/>\nvento, avistamos num campo mais alto, \u00e0 beira dum alpendre, o Silv\u00e9rio,<br \/>\ndebaixo dum guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava o trilho mais<br \/>\ncurto para aquele abrigo. E para l\u00e1 rompemos, com a chuva a escorrer<br \/>\nna cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval,<br \/>\nque num instante alargara os campos, inchara os ribeiros, esboroava a terra<br \/>\ndos socalcos, lan\u00e7ara num desespero todo o arvoredo, tornara a serra<br \/>\nnegra, bravamente agreste, hostil, inabit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando enfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que Silv\u00e9rio nos esperava<br \/>\n\u00e0 beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos naquele<br \/>\nabrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Pr\u00edncipe, enxugando<br \/>\na face, enxugando o pesco\u00e7o, murmurou, desfalecido:<\/p>\n<p>-Apre! que ferocidade!<\/p>\n<p>Parecia espantado daquela brusca, violenta c\u00f3lera duma serra t\u00e3o<br \/>\nam\u00e1vel e acolhedora, que em dois meses, inalteradamente, s\u00f3<br \/>\nlhe oferecera do\u00e7ura e sombra, e suaves c\u00e9us, e quietas ramagens,<br \/>\ne murm\u00farios discretos de ribeirinhos mansos.<\/p>\n<p>-Santo Deus! V\u00eam muitas vezes assim, estas borrascas?<\/p>\n<p>Imediatamente o Silv\u00e9rio aterrou o meu Pr\u00edncipe:<\/p>\n<p>-Isto agora s\u00e3o brincadeiras de Ver\u00e3o, meu senhor! Mas h\u00e1<br \/>\nde V. Ex\u00aa. ver no Inverno, se V.Ex\u00aa se ag\u00fcentar p\u00f4r c\u00e1!<br \/>\nEnt\u00e3o \u00e9 cada temporal, que at\u00e9 parece que os montes estremecem!<\/p>\n<p>E contou como fora tamb\u00e9m apanhado, quando ia para a Corujeira. Felizmente,<br \/>\nlogo de manh\u00e3, quando sentiu o ar carrancudo e as folhinhas dos choupos<br \/>\na tremer, se acautelara com o chap\u00e9u de chuva e cal\u00e7ara as suas<br \/>\ngrandes botas.<\/p>\n<p>-Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que \u00e9 um caseiro<br \/>\nde c\u00e1. Aquela casa, ali abaixo, onde est\u00e1 a figueira&#8230; Mas<br \/>\na mulher tem estado doente, j\u00e1 h\u00e1 dias&#8230; e como pode ser obra<br \/>\nque se pegue, bexigas ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro<br \/>\nmorreu de velho! Meti para o alpendre&#8230; E o senhor D. Jacinto \u00e9 voltar<br \/>\npara casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Mas, justamente, a chuva come\u00e7ara a cair perpendicular, dum c\u00e9u<br \/>\nainda negro, onde o vento se calara; e para al\u00e9m do rio e dos montes<br \/>\nhavia uma claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.<\/p>\n<p>Jacinto repousava. Eu n\u00e3o cessara de me sacudir, de bater os p\u00e9s<br \/>\nencharcados, que me arrefeciam. E o bom Silv\u00e9rio, passando a m\u00e3o<br \/>\npensativa sobre o negrume das suas barbas, refletia, emendava os seus progn\u00f3sticos:<\/p>\n<p>-Pois, n\u00e3o senhor&#8230; Ainda estia! Nunca pensei. \u00c9 que tornejou<br \/>\no vento.<\/p>\n<p>O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em \u00e2ngulo, de<br \/>\npedra solta, restos de algum casebre desmantelado, e sobre um esteio fazendo<br \/>\ncunhal. Nesse momento s\u00f3 abrigava madeira, um cuculo de cestos vazios,<br \/>\ne um carro de bois, onde o meu Pr\u00edncipe se sentara, enrolando um cigarro,<br \/>\nconfortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos<br \/>\ntr\u00eas nos cal\u00e1vamos, naquela contempla\u00e7\u00e3o inerte<br \/>\ne sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre imobiliza e ret\u00e9m<br \/>\nolhos e almas.<\/p>\n<p>-\u00d3 Sr. Silv\u00e9rio &#8211; murmurou lentamente o meu Pr\u00edncipe<br \/>\n-, que \u00e9 que o senhor esteve a\u00ed a dizer de bexigas?<\/p>\n<p>O procurador voltou a face surpreendido:<\/p>\n<p>-Eu, Exmo Sr?&#8230; Ah sim! A mulher do Esgueira! \u00c9 que pode ser, pode<br \/>\nser&#8230; N\u00e3o imagine V. Ex\u00aa que faltam p\u00f4r c\u00e1 doen\u00e7as.<br \/>\nO ar \u00e9 bom. N\u00e3o digo que n\u00e3o! Arzinho s\u00e3o, aguazinha<br \/>\nleve, mas \u00e0s vezes, se V.Ex\u00aa me d\u00e1 licen\u00e7a, vai<br \/>\np\u00f4r a\u00ed muita maleita..<\/p>\n<p>-Mas n\u00e3o h\u00e1 m\u00e9dico, n\u00e3o h\u00e1 botica?<\/p>\n<p>O Silv\u00e9rio teve o riso superior de quem habita regi\u00f5es civilizadas<br \/>\ne bem providas&#8230;<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o n\u00e3o havia de haver? Pois h\u00e1 um botic\u00e1rio,<br \/>\nem Gui\u00e3es, l\u00e1 quase ao p\u00e9 da casa aqui do nosso amigo.<br \/>\nE homem entendido&#8230; o Firmino, hem, Sr. Fernandes? Homem capaz. M\u00e9dico<br \/>\n\u00e9 o Dr. Avelino, daqui a l\u00e9gua e meia, nas Bolsas. Mas j\u00e1<br \/>\nV. Ex\u00aa v\u00ea, esta gentinha \u00e9 pobre!&#8230; Tomaram eles para p\u00e3o,<br \/>\nquanto mais para rem\u00e9dios!<\/p>\n<p>E de novo se estabeleceu um sil\u00eancio, sob o alpendre, onde penetrava<br \/>\na friagem crescente da serra encharcada. Para al\u00e9m do rio, a prometedora<br \/>\nclaridade n\u00e3o se alargara entre as duas espessas cortinas pardacentas.<br \/>\nNo campo, em declive diante de n\u00f3s, ia um longo correr de ribeiros<br \/>\nbarrentos. Eu terminara p\u00f4r me sentar na ponta dum madeiro, enervado,<br \/>\nj\u00e1 com a fome agu\u00e7ada pela manh\u00e3 agreste. E Jacinto,<br \/>\nna borda do carro, com os p\u00e9s no ar, cofiava os bigodes \u00famidos,<br \/>\npalpava a face, onde, com espanto meu, reaparecera a sombra, a sombra triste<br \/>\ndos dias passados, a sombra do 202!<\/p>\n<p>E, ent\u00e3o, surdiu p\u00f4r tr\u00e1s da parede do alpendre um rapazito,<br \/>\nmuito rotinho, muito magrinho, com uma careta mi\u00fada, toda amarela sob<br \/>\na porcaria, e onde dois grandes olhos pretos se arregalavam para n\u00f3s,<br \/>\ncom vago pasmo e vago medo. Silv\u00e9rio imediatamente o conheceu.<\/p>\n<p>-Como vai a tua m\u00e3e? Escusas de te chegar para c\u00e1, deixa-te<br \/>\nestar a\u00ed. Eu ou\u00e7o bem. Como vai a tua m\u00e3e?<\/p>\n<p>N\u00e3o percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto,<br \/>\ninteressado:<\/p>\n<p>-Que diz ele? Deixe vir o rapaz! Quem \u00e9 a tua m\u00e3e?<\/p>\n<p>Foi o Silv\u00e9rio que informou respeitosamente:<\/p>\n<p>-\u00c9 a tal mulher que est\u00e1 doente, a mulher do Esgueira, ali<br \/>\ndo casal da figueira. E ainda tem outro abaixo deste&#8230; Filharada n\u00e3o<br \/>\nlhe falta.<\/p>\n<p>-Mas este pequeno tamb\u00e9m parece doente! &#8211; exclamou Jacinto. &#8211; Coitado,<br \/>\nt\u00e3o amarelo!&#8230; Tu tamb\u00e9m est\u00e1s doente?<\/p>\n<p>O rapazito emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o<br \/>\nSilv\u00e9rio sorria, com bondade:<\/p>\n<p>-Nada! este \u00e9 s\u00e3ozinho&#8230; Coitado, \u00e9 assim amarelado<br \/>\ne enfezadito porque&#8230; Que quer V.Ex\u00aa? Mal comido! muita mis\u00e9ria&#8230;.<\/p>\n<p>Quando h\u00e1 o bocadito de p\u00e3o \u00e9 para todo o rancho. Fomezinha,<br \/>\nfomezinha!<\/p>\n<p>Jacinto pulou bruscamente da borda do carro.<\/p>\n<p>-Fome? Ent\u00e3o ele tem fome? H\u00e1 aqui gente com fome?<\/p>\n<p>Os seus olhos rebrilhavam, num espanto comovido, em que pediam, ora a mim,<br \/>\nora ao Silv\u00e9rio, a confirma\u00e7\u00e3o desta mis\u00e9ria insuspeitada.<br \/>\nE fui eu que esclareci o meu Pr\u00edncipe:<\/p>\n<p>-Homem! Est\u00e1 claro que h\u00e1 fome! Tu imaginavas talvez que o<br \/>\nPara\u00edso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem mis\u00e9ria&#8230;<br \/>\nEm toda a parte h\u00e1 pobres, at\u00e9 na Austr\u00e1lia, nas minas<br \/>\nde ouro. Onde h\u00e1 trabalho h\u00e1 proletariado, seja em Paris, seja<br \/>\nno Douro&#8230;<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe teve um gesto de aflita impaci\u00eancia:<\/p>\n<p>-Eu n\u00e3o quero saber o que h\u00e1 no Douro. O que eu pergunto \u00e9<br \/>\nse aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro destes campos que s\u00e3o<br \/>\nmeus, h\u00e1 gente que trabalhe para mim, e que tenha fome&#8230; Se h\u00e1<br \/>\ncriancinhas, como esta, esfomeadas? \u00c9 o que eu quero saber.<\/p>\n<p>O Silv\u00e9rio sorria, respeitosamente, ante aquela c\u00e2ndida ignor\u00e2ncia<br \/>\ndas realidades da serra:<\/p>\n<p>-Pois est\u00e1 bem de ver, meu senhor, que h\u00e1 para a\u00ed caseiros<br \/>\nque s\u00e3o muito pobres. Quase todos&#8230; \u00c9 uma mis\u00e9ria, que<br \/>\nse n\u00e3o fosse algum socorro que se lhes d\u00e1, nem eu sei!&#8230; Este<br \/>\nEsgueira, com o rancho de filhos que tem, \u00e9 uma desgra\u00e7a&#8230;<br \/>\nHavia V. Ex\u00aa de ver as casitas em que eles vivem&#8230; S\u00e3o chiqueiros.<br \/>\nA do Esgueira, acol\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>-Vamos v\u00ea-la! &#8211; atulhou Jacinto com uma decis\u00e3o exaltada.<\/p>\n<p>E saiu logo do alpendre, sem atender \u00e0 chuva, que ainda caia, mais<br \/>\nleve e mais rala. Mas ent\u00e3o Silv\u00e9rio alargou os bra\u00e7os<br \/>\ndiante dele, com ansiedade, como para o salvar dum precip\u00edcio.<\/p>\n<p>-N\u00e3o! V. Ex\u00aa l\u00e1 na casa do Esgueira \u00e9 que n\u00e3o<br \/>\nentra! N\u00e3o se sabe o que a mulher tem, e cautela e caldo de galinha&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto n\u00e3o se alterou na sua polidez paciente:<\/p>\n<p>-Obrigado pelo seu cuidado, Silv\u00e9rio&#8230; Abra o seu chap\u00e9u de<br \/>\nchuva, e avante!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Procurador vergou os ombros, e, como sua Ex\u00aa mandava,<br \/>\nabriu com estrondo o imenso p\u00e1ra-\u00e1guas, abrigou respeitosamente<br \/>\nJacinto, atrav\u00e9s do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola<br \/>\nsuntuosa que o bom Deus mandava \u00e0quele pobre casal p\u00f4r um remoto<br \/>\nsenhor das Cidades! Atr\u00e1s vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.<\/p>\n<p>Como todos os casebres da serra, o Esgueira era de grossa pedra solta, sem<br \/>\nreboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto,<br \/>\ne a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a gente.<br \/>\nE em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, atrav\u00e9s de anos, acumulado<br \/>\nali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas,<br \/>\ne velhos bancos ro\u00eddos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa,<br \/>\ne regueiros cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos<br \/>\nespelhados, que tornavam deliciosa, para uma \u00c9cloga, aquela morada<br \/>\nda Fonte, da doen\u00e7a e da Tristeza.<\/p>\n<p>Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silv\u00e9rio empurrou<br \/>\na porta, chamando:<\/p>\n<p>-Eh! tia Maria&#8230; Ol\u00e1, rapariga!<\/p>\n<p>E na fenda entreaberta apareceu uma mo\u00e7a, muito alta, escura e suja,<br \/>\ncom uns tristes olhos pisados, que se espantaram para n\u00f3s, serenamente.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o como vai tua m\u00e3e? Abre l\u00e1 a porta, que est\u00e3o<br \/>\naqui estes senhores&#8230;<\/p>\n<p>Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada mas sem<br \/>\nqueixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:<\/p>\n<p>-Ora, coitada! como h\u00e1 de ir? Malzinha&#8230; malzinha.<\/p>\n<p>E dentro, num gemido que subia como do ch\u00e3o, de entre abafos, amodorrado<br \/>\ne lento, a m\u00e3e repetiu a desconsolada queixa:<\/p>\n<p>-Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!&#8230;<\/p>\n<p>O Silv\u00e9rio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio<br \/>\naberto, como um escudo contra a infec\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ou uma<br \/>\nconsola\u00e7\u00e3o vaga:<\/p>\n<p>-N\u00e3o h\u00e1 de ser nada, tia Maria!&#8230; Isso foi friagem! N\u00e3o<br \/>\nfoi sen\u00e3o friagem!<\/p>\n<p>E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:<\/p>\n<p>-J\u00e1 V. Ex\u00aa v\u00ea&#8230; Muita mis\u00e9ria! At\u00e9 lhe chove<br \/>\nl\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>E, no peda\u00e7o de ch\u00e3o que viam, ch\u00e3o de terra batida,<br \/>\numa mancha \u00famida reluzia, da chuva pingada de uma telha rota. A parede,<br \/>\ncoberta de fuligem, das longas fumara\u00e7as da lareira, era t\u00e3o<br \/>\nnegra como o ch\u00e3o. E aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem<br \/>\nescura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s\u00f3 mostravam<br \/>\nforma compreens\u00edvel uma arca de pau negro, e p\u00f4r cima, pendurado<br \/>\ndum prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Jacinto, muito embara\u00e7ado, murmurou abstraidamente:<\/p>\n<p>-Est\u00e1 bem, est\u00e1 bem&#8230;<\/p>\n<p>E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto Silv\u00e9rio<br \/>\ndecerto revelava \u00e0 rapariga, a presen\u00e7a augusta do \u201cfidalgo\u201d,<br \/>\nporque a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:<\/p>\n<p>-Ai! Nosso Senhor lhe d\u00ea muita boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!<\/p>\n<p>Quando o Silv\u00e9rio, com as grandes passadas das suas grandes botas,<br \/>\nnos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos<br \/>\ntr\u00eamulos a torturar o bigode, e murmurava:<\/p>\n<p>-\u00c9 horr\u00edvel, Z\u00e9 Fernandes, \u00e9 horr\u00edvel!<\/p>\n<p>Ao lado, o vozeir\u00e3o do Silv\u00e9rio trovejou:<\/p>\n<p>-Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua m\u00e3e, criatura!<\/p>\n<p>Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a n\u00f3s, num imenso<br \/>\npasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperan\u00e7a, talvez, que delas,<br \/>\ncomo de Deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto,<br \/>\npara quem ele mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela<br \/>\nmis\u00e9ria, e a sua muda humildade, embara\u00e7avam, acanhavam horrivelmente,<br \/>\ns\u00f3 soube sorrir, murmurar o seu vago: \u201cEst\u00e1 bem, est\u00e1<br \/>\nbem&#8230;\u201d Fui eu que dei ao pequenito um tost\u00e3o, para o fartar,<br \/>\no despegar dos nossos passos. Mas como ele, com o seu tost\u00e3o bem agarrado,<br \/>\nnos seguia ainda, como no sulco da nossa magnific\u00eancia, o Silv\u00e9rio<br \/>\nteve de o espantar, como a um p\u00e1ssaro, batendo as m\u00e3os, e de<br \/>\nlhe gritar:<\/p>\n<p>-J\u00e1 para casa! E leve esse dinheiro \u00e0 m\u00e3e. Roda, roda!&#8230;<\/p>\n<p>-E n\u00f3s vamos almo\u00e7ar &#8211; lembrei eu olhando o rel\u00f3gio.<br \/>\n&#8211; O dia ainda vai estar lindo.<\/p>\n<p>Sobre o rio, com efeito, reluzia um peda\u00e7o de azul lavado e lustroso,<br \/>\ne a grossa camada de nuvens j\u00e1 se ia enrolando sob a lenta varredela<br \/>\ndo vento, que as levava, despejadas e rotas, para um canto escuso do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o recolhemos lentamente para casa, p\u00f4r uma vereda \u00edngreme,<br \/>\nque ensinara o Silv\u00e9rio, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando<br \/>\ne chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura,<br \/>\nque bebera largamente, reluzia consolada.<\/p>\n<p>Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre um socalco<br \/>\ne um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a cigarreira:<\/p>\n<p>-Pois, Silv\u00e9rio, eu n\u00e3o quero mais estas horr\u00edveis mis\u00e9rias<br \/>\nna Quinta.<\/p>\n<p>O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago eh! eh! de obedi\u00eancia<br \/>\ne d\u00favida.<\/p>\n<p>-Antes de tudo &#8211; continuava Jacinto &#8211; mande j\u00e1 hoje chamar esse Dr.<br \/>\nAvelino para aquela pobre mulher&#8230; E os rem\u00e9dios que os v\u00e3o<br \/>\nbuscar logo a Gui\u00e3es. E recomenda\u00e7\u00e3o ao m\u00e9dico<br \/>\npara voltar amanh\u00e3, e em cada dia; at\u00e9 que ela melhore&#8230; Escute!<br \/>\nE quero, Silv\u00e9rio, que lhe leve dinheiro, para os caldos, para a dieta,<br \/>\nuns dez ou quinze mil-r\u00e9is&#8230; Bastar\u00e1?<\/p>\n<p>O Procurador n\u00e3o conteve um riso respeitoso. Quinze mil-r\u00e9is!<br \/>\nUns tost\u00f5es bastavam&#8230;. Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza,<br \/>\naquela gente. Depois todos queriam, todos pechinchavam&#8230;<\/p>\n<p>-Mas \u00e9 que todos h\u00e3o de Ter &#8211; disse Jacinto simplesmente.<\/p>\n<p>-V. Ex\u00aa manda! &#8211; murmurou o Silv\u00e9rio.<\/p>\n<p>Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas extravag\u00e2ncias.<br \/>\nEu tive de o apressar, impaciente:<\/p>\n<p>-Vamos conversando e andando! \u00c9 meio-dia! Estou com uma fome de lobo!<\/p>\n<p>Caminhamos, com o Silv\u00e9rio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob<br \/>\na vasta aba do chap\u00e9u, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca<br \/>\nexorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do bra\u00e7o. E Jacinto,<br \/>\npuxando nervosamente o bigode, arriscava outras id\u00e9ias benfazejas,<br \/>\ncautelosamente, no seu indom\u00e1vel medo do Silv\u00e9rio:<\/p>\n<p>-E as casas tamb\u00e9m&#8230; Aquela casa \u00e9 um covil!&#8230; Gostava de<br \/>\nabrigar melhor aquela pobre gente&#8230; E naturalmente, as dos outros caseiros<br \/>\ns\u00e3o pocilgas iguais&#8230; era necess\u00e1rio uma reforma! Construir<br \/>\ncasas novas a todos os rendeiros da Quinta&#8230;<\/p>\n<p>-A todos?&#8230; &#8211; O Silv\u00e9rio gaguejava &#8211; emudeceu.<\/p>\n<p>E Jacinto balbuciava aterrado:<\/p>\n<p>-A todos&#8230; Enfim, quero dizer&#8230; Quantos ser\u00e3o eles?<\/p>\n<p>Silv\u00e9rio atirou um gesto enorme:<\/p>\n<p>-S\u00e3o vinte e coisas&#8230; vinte e tr\u00eas! Se bem lembro. Upa! Upa!<br \/>\nVinte e sete&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Jacinto emudeceu tamb\u00e9m, como reconhecendo a vastid\u00e3o<br \/>\ndo n\u00famero. Mas desejou saber p\u00f4r quanto ficaria cada casa!&#8230;<br \/>\n\u00d3! uma casa simples, mas limpa, confort\u00e1vel, como a que tinha<br \/>\na irm\u00e3 do Melchior, ao p\u00e9 do lagar. Silv\u00e9rio estacou<br \/>\nde novo. Uma casa como a da Ermelinda? Queria Sua Ex\u00aa saber? E alijou<br \/>\na cifra, muito de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:<\/p>\n<p>-Duzentos mil-r\u00e9is, Exmo Senhor! E \u00e9 para mais que n\u00e3o<br \/>\npara menos!<\/p>\n<p>Eu ria da tr\u00e1gica amea\u00e7a do excelente homem. E Jacinto, muito<br \/>\ndocemente, para conciliar o Silv\u00e9rio:<\/p>\n<p>-Bem, meu amigo&#8230; eram uns seis contos de r\u00e9is! Digamos dez, porque<br \/>\neu queria dar a todos alguma mob\u00edlia e alguma roupa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Silv\u00e9rio teve um brado de terror:<\/p>\n<p>-Mas ent\u00e3o, Exmo Senhor, \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>E como n\u00f3s, irresistivelmente, r\u00edamos dos seus olhos esgazeados<br \/>\nde horror, dos seus imensos bra\u00e7os abertos para tr\u00e1s, como se<br \/>\nvisse o mundo desabar &#8211; o bom Silv\u00e9rio encavacou:<\/p>\n<p>-Ah! V. Exas riem? Casas para todos, mob\u00edlias, pratas bragal, dez<br \/>\ncontos de r\u00e9is! Ent\u00e3o tamb\u00e9m eu rio! Ah! ah! ah! Ora<br \/>\nviva a bela chala\u00e7a!&#8230; Est\u00e1 boa a risota!<\/p>\n<p>E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a responsabilidade<br \/>\nnaquele disparate magn\u00edfico:<\/p>\n<p>-Enfim, V. Ex\u00aa \u00e9 quem manda!<\/p>\n<p>-Est\u00e1 mandado, Silv\u00e9rio. E tamb\u00e9m quero saber as rendas<br \/>\nque paga essa gente, os contratos que existem, para os melhorar. H\u00e1<br \/>\nmuito que melhorar. Venha voc\u00ea almo\u00e7ar conosco. E conversamos,<\/p>\n<p>T\u00e3o saturado de espanto estava o Silv\u00e9rio, que nem recebeu<br \/>\nmais espanto com essa \u201cmelhoria de rendas\u201d. Agradeceu o convite,<br \/>\npenhorado. Mas pedia licen\u00e7a a S. Ex\u00aa para passar primeiramente<br \/>\npelo lagar, para ver os carpinteiros que andavam a consertar a trave do rio.<br \/>\nEra um instante, e estava em seguida \u00e0s ordens de S. Ex\u00aa.<\/p>\n<p>Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. E n\u00f3s seguimos, com passos<br \/>\nque eram ligeiros, pela hora do almo\u00e7o que se retardara, pelo azul<br \/>\nalegre que reaparecia, e p\u00f4r toda aquela justi\u00e7a feita \u00e0<br \/>\npobreza da serra.<\/p>\n<p>-N\u00e3o perdeste hoje o teu dia, Jacinto &#8211; disse eu, batendo, com uma<br \/>\nternura que n\u00e3o disfarcei, no ombro do meu amigo.<\/p>\n<p>-Que mis\u00e9ria, Z\u00e9 Fernandes! eu nem sonhava&#8230; Haver p\u00f4r<br \/>\na\u00ed, \u00e0 vista da minha casa, outras casas, onde crian\u00e7as<br \/>\nt\u00eam fome! \u00c9 horr\u00edvel&#8230;.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo de entre duas<br \/>\ngrossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casar\u00e3o, ao<br \/>\nfundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos soava claro e alto. E um<br \/>\ndoce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um fr\u00eamito<br \/>\nalegre e doce.<\/p>\n<p>-Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?&#8230; Que te aconteceu aquela lenda<br \/>\nde Santo Ambr\u00f3sio&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o era Santo Ambr\u00f3sio&#8230;<br \/>\nNem me lembro o santo&#8230; Nem era ainda santo&#8230; apenas um cavaleiro pecador,<br \/>\nque se enamorara duma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, s\u00f3<br \/>\np\u00f4r a avistar a dist\u00e2ncia na rua. Depois, uma tarde que a seguia,<br \/>\nenlevado, ela entrou num portal de igreja, e a\u00ed, de repente, ergueu<br \/>\no v\u00e9u, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio ro\u00eddo<br \/>\np\u00f4r uma chaga! Tu tamb\u00e9m andavas namorado da serra, sem a conhecer,<br \/>\ns\u00f3 pela sua beleza de Ver\u00e3o. E a serra, hoje, z\u00e1s! De<br \/>\nrepente, descobre a sua grande \u00falcera&#8230; \u00c9 talvez a tua prepara\u00e7\u00e3o<br \/>\npara S. Jacinto.<\/p>\n<p>Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:<\/p>\n<p>-\u00c9 verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus,\u00e9<br \/>\ndas que eu posso curar!<\/p>\n<p>N\u00e3o desiludi o meu Pr\u00edncipe. E ambos subimos alegremente a<br \/>\nescadaria do casar\u00e3o.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>Cap\u00edtulo XI<\/h2>\n<p>No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Gui\u00e3es. E, desde<br \/>\nent\u00e3o, tantas vezes trotei p\u00f4r aquelas tr\u00eas l\u00e9guas<br \/>\nentre a nossa e a velha alameda dos Jacintos, que a minha \u00e9gua, quando<br \/>\na desviava dessa estrada familiar, conduzindo-a a uma cavalari\u00e7a familiar<br \/>\n(onde ela privava com o garrano do Melchior), relinchava de pura saudade.<br \/>\nAt\u00e9 a tia Vic\u00eancia se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes,<br \/>\npara onde eu sempre corria, daquele Pr\u00edncipe de quem incessantemente<br \/>\ncelebrava o rejuvenescimento, a caridade, os pit\u00e9us, e as quimeras<br \/>\nagr\u00edcolas. J\u00e1 um dia com um gr\u00e3o de sal e ironia &#8211; o<br \/>\n\u00fanico que cabia num cora\u00e7\u00e3o todo cheio de inoc\u00eancia<br \/>\n-, ela me dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:<\/p>\n<p>-Olha que te podes gabar! At\u00e9 me tens feito curiosidade de conhecer<br \/>\nesse Jacinto&#8230; Traz c\u00e1 essa maravilha, menino!<\/p>\n<p>Eu rira:<\/p>\n<p>-Sossegue, tia Vic\u00eancia, que a trarei agora, para o dia dos meus anos,<br \/>\na jantar&#8230; Damos uma festa, haver\u00e1 um bailarico no p\u00e1tio, e<br \/>\nvem a\u00ed toda essa senhorama dos arredores. Talvez at\u00e9 se arranje<br \/>\numa noiva para o Jacinto.<\/p>\n<p>Eu, com efeito, j\u00e1 convidara meu Pr\u00edncipe para este \u201cnatal\u00edcio\u201d.<br \/>\nE de resto, convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aqueles senhores<br \/>\ndas boas casas da serra&#8230; Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que<br \/>\nele conhecesse algumas mulheres, algumas daquelas fortes raparigas dos solares<br \/>\nserranos, porque Tormes tinha uma solid\u00e3o muito mon\u00e1stica; e<br \/>\no homem, sem um pouco do eterno Feminino, facilmente se endurece e ganha uma<br \/>\ncasca \u00e1spera como a das \u00e1rvores, na solid\u00e3o.<\/p>\n<p>-E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconcilia\u00e7\u00e3o com a Natureza,<br \/>\ne o renunciamento \u00e0s mentiras da Civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\numa linda hist\u00f3ria&#8230; Mas, caramba, faltam mulheres!<\/p>\n<p>Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:<\/p>\n<p>-Com efeito, h\u00e1 aqui falta de mulher, com M grande. Mas essas senhoras<br \/>\na\u00ed das casas dos arredores&#8230; N\u00e3o sei, mas estou pensando que<br \/>\nse devem parecer com legumes. S\u00e3s, nutritivas, excelentes para a panela<br \/>\n&#8211; mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam \u00e0s flores<br \/>\ns\u00e3o sempre as mulheres das cortes, das Capitais, \u00e0s quais, invariavelmente,<br \/>\ndesde Hes\u00edodo e Hor\u00e1cio, se rendem os poetas&#8230; e evidentemente<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 perfume, nem gra\u00e7a, nem eleg\u00e2ncia, nem requinte,<br \/>\nnuma cenoura ou numa couve&#8230; N\u00e3o devem ser interessantes as senhoras<br \/>\nda minha serra.<\/p>\n<p>-Eu te digo&#8230; A tua vizinha mais chegada, a filha do d. Teot\u00f4nio,<br \/>\ncom efeito, salvo o respeito que se deve \u00e0 casa ilustre dos Barbedos,<br \/>\n\u00e9 um mostrengo! A irm\u00e3 dos Albergarias, da Quinta da Loja, tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o tentaria nem mesmo o precisado santo Ant\u00e3o. Sobretudo se<br \/>\nse despisse, porque \u00e9 um espinafre infernal! Essa realmente \u00e9<br \/>\nlegume, e n\u00e3o dos nutritivos.<\/p>\n<p>-Tu o disseste: espinafre!<\/p>\n<p>-Temos tamb\u00e9m a D. Beatriz Veloso&#8230; Essa \u00e9 bonita&#8230; Mas,<br \/>\nmenino, que horrivelmente bem falante! Fala como as hero\u00ednas do Camilo.<br \/>\nTu nunca leste o Camilo&#8230; e depois, um tom de voz que te n\u00e3o sei descrever,<br \/>\no tom com que se fala em D. Maria&#8230; Enfim, um horror! E perguntas pavorosas.<br \/>\n\u201cV. Ex\u00aa, Sr. Doutor, n\u00e3o se delicia com Lamartine?\u201d<br \/>\nJ\u00e1 me disse esta, a indecente!<\/p>\n<p>-E tu?<\/p>\n<p>-Eu! Arregalei os olhos&#8230; \u201c\u00d3 Lamartine!\u201d Mas, coitada,<br \/>\n\u00e9 uma excelente rapariga! Agora, p\u00f4r outro lado, temos as Roj\u00f5es,<br \/>\nas filhas do Jo\u00e3o Roj\u00e3o, duas flores, muito frescas, muito alegres,<br \/>\ncom um cheiro e um brilho a sadio, e muito simples&#8230; A tia Vic\u00eancia<br \/>\nmorre p\u00f4r elas. Depois h\u00e1 a mulher do Dr. Al\u00edpio, que<br \/>\n\u00e9 uma beleza. \u00d3! uma criatura espl\u00eandida! Mas, enfim,<br \/>\n\u00e9 a mulher do Dr. Al\u00edpio, e tu renunciaste aos deveres da Civiliza\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nAl\u00e9m disso, mulher muito s\u00e9ria, toda absorvida nos seus dois<br \/>\npequenos, que parecem dois anjinhos de Murillo&#8230; E quem mais? J\u00e1 agora,<br \/>\nquero completar a lista do pessoal feminino. Temos a Melo Rebelo, de Sandofim,<br \/>\nmuito engra\u00e7ada, com cabelo lindo&#8230; Borda na perfei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfaz doces como uma freira do antigo regime&#8230; Havia tamb\u00e9m uma J\u00falia<br \/>\nLobo, muito linda, mas morreu&#8230; Agora n\u00e3o me lembro de mais. Mas falta<br \/>\na flor da Serra, que \u00e9 a minha prima Joaninha, da Flor da Malva! Essa<br \/>\n\u00e9 uma perfei\u00e7\u00e3o de rapariga.<\/p>\n<p>-E tu, primo Z\u00e9, como tens tu resistido?<\/p>\n<p>-Somos como irm\u00e3os, criados de pequeninos, mais acostumados e familiares<br \/>\nque tu e eu&#8230; A familiaridade esbate os sexos. A m\u00e3e dela era a \u00fanica<br \/>\nirm\u00e3 da tia Vic\u00eancia, e morreu muito nova. A Joaninha, quase<br \/>\ndesde o ber\u00e7o que se criou em nossa casa, em Gui\u00e3es. O pai \u00e9<br \/>\nbom homem, o tio Adri\u00e3o. Erudito, antiqu\u00e1rio, colecionador&#8230;<br \/>\nColeciona toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas, sinetes,<br \/>\nfivelas&#8230; Tem uma cole\u00e7\u00e3o curiosa. Ele h\u00e1 muito que<br \/>\ndeseja vir a Tormes, para te visitar&#8230; Mas, coitado, sofre da bexiga, n\u00e3o<br \/>\npode montar a cavalo. E a estrada da flor da Malva aqui \u00e9 imposs\u00edvel<br \/>\npara carruagens&#8230;<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe espregui\u00e7ara longamente os bra\u00e7os:<\/p>\n<p>-N\u00e3o, est\u00e1 claro! eu \u00e9 que hei de visitar teu tio, e<br \/>\na tia Vic\u00eancia&#8230; desejo conhecer os meus vizinhos. Mas mais tarde,<br \/>\nquando sossegar. Agora ando todo ocupado com o meu povo.<\/p>\n<p>E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador dum Reino, e grande<br \/>\nedificador. P\u00f4r todo o seu dom\u00ednio de Tormes andavam obras, para<br \/>\no renovamento das casas dos rendeiros, umas que se consertavam, outras mais<br \/>\nvelhas, que se derrubavam para se reconstru\u00edrem com uma largueza c\u00f4moda.<br \/>\nPelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de pedra, ou de madeiras<br \/>\ncortadas nos pinheirais.<\/p>\n<p>Na taberna do Pedro, \u00e0 entrada da freguesia, ia um desusado movimento,<br \/>\nde pedreiros e carpinteiros contratados para as obras; e o Pedro, com as mangas<br \/>\narrega\u00e7adas, p\u00f4r tr\u00e1s do balc\u00e3o, n\u00e3o cessava<br \/>\nde encher os decilitros com uma vasta infusa.<\/p>\n<p>Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manh\u00e3s cedo percorria<br \/>\nas obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez latejar e irromper no meu<br \/>\nPr\u00edncipe o seu velho, man\u00edaco furor de acumular Civiliza\u00e7\u00e3o!<br \/>\nO plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfei\u00e7oado.<br \/>\nNas janelas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume da<br \/>\nserra, decidira p\u00f4r vidra\u00e7as, apesar do mestre-de-obras lhe dizer<br \/>\nhonradamente que depois de habitadas um m\u00eas n\u00e3o haveria casa<br \/>\ncom um s\u00f3 vidro. Para substituir as traves cl\u00e1ssicas queria<br \/>\nestucar os tetos; e eu via bem claramente que ele se continha, se retesava<br \/>\ndentro do bom senso, para n\u00e3o dotar cada casa com campainhas el\u00e9tricas.<br \/>\nnem sequer me espantei, quando ele uma manh\u00e3 me declarou que a porcaria<br \/>\nda gente do campo provinha deles n\u00e3o terem onde comodamente se lavar,<br \/>\npelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desc\u00edamos<br \/>\nnesse momento, com os cavalos \u00e0 r\u00e9dea, p\u00f4r uma azinhaga<br \/>\nprecipitada e escabrosa, um vento leve ramalhava nas \u00e1rvores, um regato<br \/>\nsaltava ruidosamente entre as pedras. Eu n\u00e3o me espantei &#8211; mas realmente<br \/>\nme pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam alegremente<br \/>\ndo meu Pr\u00edncipe. E al\u00e9m destes confortos a que o Jo\u00e3o,<br \/>\nmestre-de-obras, com os olhos loucamente arregalados chamava \u201cas grandezas\u201d,<br \/>\nJacinto meditava o bem das almas. J\u00e1 encomendara ao seu arquiteto,<br \/>\nnaquele campo da Carri\u00e7a, junto \u00e0 capelinha que abrigava \u201cos<br \/>\nossos\u201d. Pouco a pouco, a\u00ed criaria tamb\u00e9m uma biblioteca,<br \/>\ncom livros de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o era poss\u00edvel ensinar a ler. Eu vergava os ombros, pensando:<br \/>\n&#8211; \u201cA\u00ed vem a terr\u00edvel acumula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es!<br \/>\nEis o livro invadindo a Serra!\u201d Mas outras id\u00e9ias de Jacinto<br \/>\neram tocantes &#8211; e eu mesmo me entusiasmei, e excitei o entusiasmo da tia Vic\u00eancia<br \/>\ncom o seu plano duma Creche, onde ele esperava ter manh\u00e3s muito divertidas<br \/>\nvendo as criancinhas a gatinhar, a correr tropegamente atr\u00e1s duma bola.<br \/>\nDe resto, o nosso botic\u00e1rio de Gui\u00e3es estava j\u00e1 apalavrado<br \/>\npara estabelecer uma pequena farm\u00e1cia em Tormes, sob a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu praticante, um afilhado da tia Vic\u00eancia, que tinha publicado<br \/>\num artigo sobre as festas populares do Douro no Almanaque de Lembran\u00e7as.<br \/>\nE j\u00e1 fora oferecido o partido m\u00e9dico de Tormes, com ordenado<br \/>\nde 600$000 r\u00e9is.<\/p>\n<p>-N\u00e3o te falta sen\u00e3o um Teatro! &#8211; dizia eu, rindo.<\/p>\n<p>-Um teatro, n\u00e3o. Mas tenho a id\u00e9ia duma sala, com proje\u00e7\u00f5es<br \/>\nde lanterna m\u00e1gica, para ensinar a esta pobre gente as cidades desse<br \/>\nmundo, e as coisas de \u00c1frica, e um bocado de Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m me ensoberbeci com esta inova\u00e7\u00e3o! &#8211; e quando<br \/>\na contei ao tio Adri\u00e3o, o digno antiqu\u00e1rio bateu, apesar do<br \/>\nseu reumatismo, uma palmada tremenda na coxa. \u201cSim, senhor! Bela id\u00e9ia!<br \/>\nAssim se podia ensinar \u00e0quela gente iletrada, vivamente, p\u00f4r<br \/>\nimagens, a Hist\u00f3ria Romana, at\u00e9 a Hist\u00f3ria de Portugal!&#8230;\u201d<br \/>\nE voltado para a prima Joaninha, o tio Adri\u00e3o declarou um \u201chomem<br \/>\nde cora\u00e7\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Pr\u00edncipe. Naquele,<br \/>\n\u201cguarde-o Deus, meu senhor!\u201d com que as mulheres ao passar o saudavam,<br \/>\nse voltavam para o ver ainda, havia uma seriedade de ora\u00e7\u00e3o,<br \/>\no bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As crian\u00e7as a<br \/>\nquem ele distribu\u00eda tost\u00f5es farejavam de longe a sua passagem<br \/>\n&#8211; e era em torno dele um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas,<br \/>\ncom grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntinham medo. Como o cavalo de Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar<br \/>\nda alameda, numas grossas pedras que a\u00ed deformavam a estrada, logo<br \/>\nao outro dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio p\u00f4r<br \/>\ndedica\u00e7\u00e3o ensaibrar e alisar aquele peda\u00e7o perigoso de<br \/>\ncaminho, aterrados com o risco que correra o bom senhor. J\u00e1 pela serra<br \/>\nse espalhava esse nome de \u201cbom senhor\u201d. Os mais idosos da freguesia<br \/>\nn\u00e3o o encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes<br \/>\nrisos desdentados:<\/p>\n<p>-Este \u00e9 o nosso benfeitor! P\u00f4r vezes, alguma velha corria do<br \/>\nfundo do eido, ou vinha \u00e0 porta do casebre, ao avist\u00e1-lo no<br \/>\ncaminho, para gritar, com grandes gestos dos bra\u00e7os magros: \u201cAi<br \/>\nque Deus o cubra de b\u00ean\u00e7\u00e3os! Que Deus o cubra de b\u00ean\u00e7\u00e3os!\u201d<\/p>\n<p>Aos domingos, o padre Jos\u00e9 Maria (bom amigo meu e grande ca\u00e7ador)<br \/>\nvinha de Sandofim, na sua \u00e9gua ru\u00e7a, a Tormes, para celebrar<br \/>\na missa na Capelinha. Jacinto assistia ao of\u00edcio na sua tribuna, como<br \/>\nos Jacintos de outras eras, para que aqueles simples o n\u00e3o supusessem<br \/>\nestranho a Deus. Quase sempre ent\u00e3o ele recebia presentes, que as filhas<br \/>\ndos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe \u00e0 varanda,<br \/>\ne eram vasos de manjeric\u00e3o, ou um grosso ramalhete de cravos, e p\u00f4r<br \/>\nvezes um gordo pato. Havia ent\u00e3o uma distribui\u00e7\u00e3o de<br \/>\ncavacas e merengues de Gui\u00e3es, \u00e0s raparigas e \u00e0s crian\u00e7as<br \/>\n&#8211; e, no p\u00e1tio, para os homens circulavam as infusas de vinho branco.<br \/>\nO Silv\u00e9rio j\u00e1 sustentava com espanto, e redobrado respeito,<br \/>\nque o Sr. D. Jacinto em breve disporia de mais votos nas elei\u00e7\u00f5es<br \/>\nque o Dr. Al\u00edpio. E eu pr\u00f3prio me impressionei, quando o Melchior<br \/>\nme contou que o Jo\u00e3o Torrado, um velho singular daqueles s\u00edtios,<br \/>\nde grandes barbas brancas, ervan\u00e1rio, vagamente alveitar, um pouco<br \/>\nadivinho, morador misterioso duma cova no alto da serra, a todos afirmava<br \/>\nque aquele senhor era El-Rei D. Sebasti\u00e3o, que voltara!<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>Cap\u00edtulo XII<\/h2>\n<p>Assim chegou Setembro, e com ele o meu natal\u00edcio, que era a 3 e num<br \/>\nDomingo. Toda essa semana a passara eu em Gui\u00e3es, nos preparos da vindima<br \/>\n&#8211; e de manh\u00e3 cedo, nesse Domingo ilustre, me fui debru\u00e7ar da<br \/>\nvaranda do quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, p\u00f4r onde<br \/>\ndevia aparecer meu Pr\u00edncipe, que enfim visitava a casa do seu Z\u00e9<br \/>\nFernandes. A tia Vic\u00eancia, desde a madrugada, andava atarefada pela<br \/>\ncozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Pr\u00edncipe \u201co<br \/>\npessoal\u201d da serra, convidar para jantar algumas fam\u00edlias amigas,<br \/>\ndos arredores, as que tinham carruagens ou carro\u00e7\u00f5es, e podiam,<br \/>\npelas estradas mal seguras, recolher tarde, depois dum bailarico campestre,<br \/>\nno p\u00e1tio, j\u00e1 enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas.<br \/>\nMas logo \u00e0s dez horas me desesperei, ao receber, p\u00f4r um mo\u00e7o<br \/>\nda Flor da Malva, uma carta da prima Joaninha, em que dizia \u201ca pena<br \/>\nde n\u00e3o poder vir porque o Pap\u00e1 estava desde a v\u00e9spera<br \/>\ncom um leicen\u00e7o, e ela n\u00e3o o queria abandonar\u201d. Corri<br \/>\nindignado \u00e0 cozinha, onde a tia Vic\u00eancia presidia a um violento<br \/>\nbater de gemas de ovos dentro duma imensa terrina.<\/p>\n<p>-A Joaninha n\u00e3o vem ! Sempre assim! Diz que o pai tem um incen\u00e7o&#8230;<br \/>\nAquele tio Adri\u00e3o escolhe sempre os grandes dias para Ter leicen\u00e7os,<br \/>\nou para Ter a pontada&#8230;<\/p>\n<p>A boa face redondinha e corada da tia Vic\u00eancia enterneceu-se.<\/p>\n<p>-Coitado! Ser\u00e1 em s\u00edtio que n\u00e3o se pudesse sentar na<br \/>\ncarruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que ponha um emplastrozinho<br \/>\nde folhas de alecrim. Era com que teu tio se dava bem.<\/p>\n<p>Eu gritei simplesmente para o mo\u00e7o, que dava de beber ao burro no<br \/>\np\u00e1tio:<\/p>\n<p>-Diz \u00e0 Sr\u00aa D. Joaninha que sentimos muito&#8230; Que talvez eu l\u00e1<br \/>\napare\u00e7a amanh\u00e3.<\/p>\n<p>E voltei \u00e0 janela, impaciente, porque o rel\u00f3gio do corredor,<br \/>\nmuito atrasado, j\u00e1 cantara a meia hora depois das dez e o Pr\u00edncipe<br \/>\ntardava para o almo\u00e7o. Mas , mal eu me chegara \u00e0 varanda, apareceu<br \/>\njustamente na volta da estrada Jacinto, de grande chap\u00e9u de palha,<br \/>\nno seu cavalo, seguido do Grilo que, tamb\u00e9m de chap\u00e9u de palha,<br \/>\ne abrigado sob um imenso guarda-sol verde, se escarranchava no albard\u00e3o<br \/>\nda velha \u00e9gua de Melchior. Atr\u00e1s, um mo\u00e7o com uma maleta<br \/>\n\u00e0 cabe\u00e7a. E eu, na alegria de avistar enfim meu Pr\u00edncipe<br \/>\ntrotando para a minha casa de aldeia, no dia dos meus trinta e seis anos,<br \/>\npensava noutro natal\u00edcio, no dele, em Paris, no 202, quando, entre<br \/>\ntodos os esplendores da Civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00f3s bebemos tristemente<br \/>\nad manes, aos nossos mortos!<\/p>\n<p>-Salve! &#8211; gritei da varanda. &#8211; Salve, domine Jacinthi!<\/p>\n<p>E entoei, para o acolher, um alegre \u201ctarantantan\u201d, o hino da<br \/>\ncarta!<\/p>\n<p>-Isto p\u00f4r aqui tamb\u00e9m \u00e9 lindo! &#8211; gritou ele de baixo.<br \/>\n&#8211; E o teu pal\u00e1cio tem um soberbo ar&#8230; P\u00f4r onde \u00e9 a porta?<\/p>\n<p>Mas eu j\u00e1 me precipitava para o p\u00e1tio &#8211; onde Jacinto, apeando,<br \/>\ncontou alegremente os tormentos do Grilo, que nunca montara a cavalo, e n\u00e3o<br \/>\ncessara de berrar ante os perigos daquela ventura.<\/p>\n<p>E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e l\u00edvido sob o esplendor<br \/>\nda sua negrura, exclamava, apontando com a m\u00e3o tr\u00eamula para a<br \/>\npobre \u00e9gua, que solta, de cabe\u00e7a pensativa, parecia de pedra,<br \/>\nsobre as patas mais im\u00f3veis que marcos:<\/p>\n<p>-Pois se o si\u00f4 Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio quieta. Sempre<br \/>\npara a esquerda, sempre para a direita, p\u00e9 aqui, p\u00e9 al\u00e9m!<br \/>\nS\u00f3 para me sacudir! S\u00f3 para me sacudir!<\/p>\n<p>E n\u00e3o resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa<br \/>\ncontra a \u00e9gua sobre o albard\u00e3o.<\/p>\n<p>Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua janela<br \/>\nao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacinto louvava grandemente a nossa casa,<br \/>\nque o repousava das rijas muralhas, das grossas portas feudais de Tormes.<br \/>\nE no seu quarto agradeceu os cuidados maternais da tia Vic\u00eancia, que<br \/>\nenchera de flores os dois vasos da china sobre a c\u00f4moda, e adornara<br \/>\na cama com uma das nossas colchas da \u00cdndia mais ricas, cor de can\u00e1rio<br \/>\ncom grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido. Ent\u00e3o estreitamos<br \/>\nos ossos num grande abra\u00e7o, pelo natal\u00edcio&#8230; \u201cTrinta<br \/>\ne oito, hem Z\u00e9 Fernandes?\u201d &#8211; \u201cTrinta e quatro, animal!\u201d<br \/>\nE o meu Pr\u00edncipe abrindo a mala, s\u00f3bria maleta de fil\u00f3sofo,<br \/>\nofereceu os \u201cnobres presentes, que s\u00e3o devidos\u201d, como diz<br \/>\nsempre o astuto Ulisses na Odiss\u00e9ia. Era um alfinete de gravata, com<br \/>\numa safira, uma cigarreira de aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira<br \/>\nem delicado esmalte, e uma faca para livros de velho lavor chin\u00eas. Eu<br \/>\nprotestava contra a prodigalidade.<\/p>\n<p>-\u00c9 tudo das malas de Paris&#8230; Mandei-as abrir ontem \u00e0 noite.<\/p>\n<p>E tomei a liberdade de trazer esta lembran\u00e7a \u00e0 tua tia Vic\u00eancia.<br \/>\nN\u00e3o vale nada&#8230; \u00c9 s\u00f3 p\u00f4r Ter pertencido \u00e0<br \/>\nprincesa de Lamballe. Era uma caldeirinha de \u00e1gua benta, em prata lavrada,<br \/>\ndum gosto florido e quase galante.<\/p>\n<p>-A tia Vic\u00eancia n\u00e3o sabe quem \u00e9 a princesa de Lamballe,<br \/>\nmas ficar\u00e1 encantada! E \u00e9 uma garantia, porque ela suspeita<br \/>\nda tua religi\u00e3o, como homem de Paris, da terra das impiedades&#8230; E<br \/>\nagora, lavar, escovar, e ao almo\u00e7o!<\/p>\n<p>A tia Vic\u00eancia pareceu toda surpreendida, e logo encantada com o meu<br \/>\ncamarada, que ela supusera realmente um Pr\u00edncipe, arrogante, escarpado<br \/>\ne dif\u00edcil. Quando ele lhe ofereceu a caldeirinha, com um delicado pedido<br \/>\n\u201cpara se lembrar dele nas suas ora\u00e7\u00f5es\u201d, duas largas<br \/>\nrosas, mais r\u00f3seas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriam<br \/>\nas faces redondas da boa senhora, que nunca recebera t\u00e3o piedoso presente,<br \/>\ncom t\u00e3o linda palavra. Mas o que sobretudo a cativou foi o tremendo<br \/>\napetite de Jacinto, a entusiasmada convic\u00e7\u00e3o com que ele, acumulando<br \/>\nno prato montes de cabidela, depois altas serras de arroz de forno, depois<br \/>\nbifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cozinha, jurava nunca Ter provado<br \/>\nnada t\u00e3o sublime. Ela resplandecia:<\/p>\n<p>-At\u00e9 faz gosto, at\u00e9 faz gosto!&#8230; Ora mais uma destas batatinhas<br \/>\nrecheadas&#8230;<\/p>\n<p>-Com certeza, minha senhora! At\u00e9 duas! As minhas ra\u00e7\u00f5es,<br \/>\nem mesas destas, t\u00e3o perfeitas, s\u00e3o sempre as de Garg\u00e2ntua.<\/p>\n<p>-N\u00e3o cites Rabelais, que a tia Vic\u00eancia n\u00e3o conhece os<br \/>\nautores profanos! &#8211; exclamava eu, tamb\u00e9m radiante. &#8211; E prova esse vinho<br \/>\nbranco c\u00e1 da nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.<\/p>\n<p>E o almo\u00e7o foi muito alegre, muito \u00edntimo, muito conversado,<br \/>\nsobre as obras de Jacinto em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia Vic\u00eancia,<br \/>\nea as esperan\u00e7as da vindima, e a minha prima Joaninha, que tinha o<br \/>\npap\u00e1 doente, e o p\u00e9ssimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento<br \/>\nmaior foi quando, ao servir o caf\u00e9, o criado p\u00f4s ao lado de Jacinto<br \/>\num pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado pau de canela.<\/p>\n<p>N\u00e3o o esquecera a tia Vic\u00eancia! Ali tinha o seu pauzinho de<br \/>\ncanela! &#8211; Queria que ele, em Gui\u00e3es, continuasse os seus h\u00e1bitos<br \/>\ncomo em Tormes&#8230; E aquele pau de canela foi o s\u00edmbolo de ado\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo meu Pr\u00edncipe como novo sobrinho da tia Vic\u00eancia.<\/p>\n<p>Ela em breve recolheu \u00e0 cozinha, aos preparativos do banquete. N\u00f3s<br \/>\nfumamos um pregui\u00e7oso charuto no jardim, ao p\u00e9 do repuxo, sob<br \/>\na recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como propriet\u00e1rio,<br \/>\nmostrei ao meu Pr\u00edncipe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade,<br \/>\nsem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma \u00e1rvore, um p\u00e9 de<br \/>\nvinha. S\u00f3 quando a sua face come\u00e7ou a opar e a empalidecer,<br \/>\nde cansa\u00e7o, e que do entendimento totalmente atordoado s\u00f3 lhe<br \/>\nescorria um vago &#8211; \u201cmuito bonito! Bela terra!\u201d \u00e9 que voltei<br \/>\nos passos para casa, tornejando ainda numa volta larga para lhe mostrar o<br \/>\nlagar, uma planta\u00e7\u00e3o de espargos, e o s\u00edtio onde existira<br \/>\na ru\u00edna dum velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim,<br \/>\nna fresca sala, ainda o empurrei, como uma r\u00eas, para a livraria do meu<br \/>\nbom tio Afonso, para lhe mostrar as preciosidades, uma magn\u00edfica cr\u00f4nica<br \/>\nde D. Jo\u00e3o I p\u00f4r Fern\u00e3o Lopes, a primeira edi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Imperador Clarimundo, uma Henriada, com a assinatura de Voltaire, forais<br \/>\nde El-Rei D. Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro<br \/>\npergaminho, quando eu o arrastei \u00e0 adega, para que admirasse a famosa<br \/>\npipa, que tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos<br \/>\nSandes. Eram quatro horas. O meu Pr\u00edncipe tinha o ar esgazeado e l\u00edvido.<br \/>\nCravando nele os olhos inexor\u00e1veis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir<br \/>\na ferocidade, declarei \u201cque ir\u00edamos agora ver a tulha\u201d.<br \/>\nMas ent\u00e3o, com as m\u00e3os nos rins, ele murmurou, humildemente,<br \/>\nnum murm\u00fario de crian\u00e7a:<\/p>\n<p>-N\u00e3o se me dava de me sentar um poucochinho!<\/p>\n<p>Tive ent\u00e3o piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse,<br \/>\natr\u00e1s de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descal\u00e7ou<br \/>\nas botas, se atirou para um fresco canap\u00e9 forrado de ganga, murmurando<br \/>\nnum abatimento profundo: &#8211; \u201cBela propriedade!\u201d<\/p>\n<p>Consenti generosamente que ele adormecesse &#8211; e eu mesmo desci a verificar<br \/>\nse a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, no quarto onde<br \/>\nos convidados, em breve, ao chegar, lavariam as m\u00e3os, escovariam a<br \/>\npoeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no p\u00e1tio, a velha<br \/>\ncaleche do D. Teot\u00f4nio, com a parelha ru\u00e7a. Espreitando da janela<br \/>\ndescobri, com prazer, que chegava s\u00f3, de gravata branca, sob o guarda-p\u00f3,<br \/>\nsem a horrend\u00edssima filha. Corri alegremente ao quarto da tia Vic\u00eancia,<br \/>\nque, ajudada pela Catarina, abrochava \u00e0 pressa as suas pulseiras ricas<br \/>\nde top\u00e1zios.<\/p>\n<p>-Tia Vic\u00eancia! chegou o D. Teot\u00f4nio! Felizmente vem sem a filha&#8230;N\u00e3o<br \/>\nse demore, os outros n\u00e3o tardam. O Manuel que esteja bem penteado,<br \/>\nde gravata bem tesa!&#8230; Vamos a ver como corre a festa!<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>Cap\u00edtulo XIII<\/h2>\n<p>Ai de mim! a festa do meu anivers\u00e1rio n\u00e3o se passou com brilho,<br \/>\nnem com alegria!<\/p>\n<p>Quando o meu Pr\u00edncipe entrou na sala, com uma eleg\u00e2ncia (onde<br \/>\neu senti as malas de Paris, abertas na v\u00e9spera) &#8211; uma rosa branca no<br \/>\njaquet\u00e3o preto, colete branco lavrado e traspassado, copiosa gravata<br \/>\nde seda branca, tufando, e presa p\u00f4r uma p\u00e9rola negra &#8211; j\u00e1<br \/>\ntodos os convidados estavam na sala -, o D.Teot\u00f4nio, o Ricardo Veloso,<br \/>\no Dr. Al\u00edpio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias,<br \/>\nda Quinta da Loja &#8211; todos de p\u00e9, num pelot\u00e3o cerrado. Em torno<br \/>\ndo sof\u00e1 onde a tia Vic\u00eancia se instalara, um magotezinho de cadeiras<br \/>\nreunira as senhoras &#8211; a Beatriz Veloso, de cassa branca sobre seda, que a<br \/>\ntornava mais a\u00e9rea e magra, com a sua trunfa imensa de cabelo ri\u00e7ado;<br \/>\nas duas Roj\u00f5es (com a tia Adelaide Roj\u00e3o) vermelhinhas como<br \/>\ncamoesas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Al\u00edpio, de preto, espl\u00eandida<br \/>\ncomo uma V\u00eanus R\u00fastica&#8230; E foi na sala, como se realmente entrasse<br \/>\num Pr\u00edncipe, desses pa\u00edses do Norte onde os Pr\u00edncipes<br \/>\ns\u00e3o magn\u00edficos, muito distantes dos homens, e aterram as gentes.<br \/>\nUm sil\u00eancio, como se o teto de carvalho descesse, nos esmagava: e todos<br \/>\nos olhos se enristaram contra o meu desgra\u00e7ado Jacinto, como numa ca\u00e7ada<br \/>\nhindu, quando orla da floresta surge o Tigre Real. Debalde &#8211; nas confusas,<br \/>\napressadas apresenta\u00e7\u00f5es, com que eu o levava atrav\u00e9s<br \/>\nda sala -, os seus apertos de m\u00e3o, os sorrisos, o vago murm\u00fario,<br \/>\n\u201cda sua honra, do seus apertos de m\u00e3o, os sorrisos, o vago murm\u00fario,<br \/>\n\u201cda sua honra, do seu prazer\u201d, foram repassados de simpatia, de<br \/>\nsimplicidade. Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Pr\u00edncipe,<br \/>\nque subira \u00e0 serra; e as senhoras mais se aconchegavam \u00e0 sombra<br \/>\nda tia Vic\u00eancia, como ovelhas \u00e0 volta do pastor, quando na altura<br \/>\nassoma o lobo. Eu, j\u00e1 inquieto, lancei o D.Teot\u00f4nio, o mais ornamental<br \/>\ndaqueles cavalheiros.<\/p>\n<p>-O Sr. Teot\u00f4nio foi muito am\u00e1vel em vir, Jacinto. Raras vezes<br \/>\nsai da sua linda casa da Abrujeira.<\/p>\n<p>O digno D.Teot\u00f4nio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de<br \/>\nvelho brigadeiro:<\/p>\n<p>-V.Ex\u00aa chegou diretamente de Viena?<\/p>\n<p>-N\u00e3o! &#8211; Jacinto viera diretamente de Paris, com o amigo Z\u00e9<br \/>\nFernandes. D Teot\u00f4nio insistiu:<\/p>\n<p>-Mas certamente visita muitas vezes Viena&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto sorriu surpreendido:<\/p>\n<p>-Viena, p\u00f4r que?&#8230; N\u00e3o. H\u00e1 mais de quinze anos que n\u00e3o<br \/>\nvou a Viena.<\/p>\n<p>O fidalgo murmurou um lento ah! e ficou calado, de p\u00e1lpebras baixas,<br \/>\ncomo revolvendo an\u00e1lises profundas, com as m\u00e3os cruzadas sob<br \/>\nas abas da longa sobrecasaca azul.<\/p>\n<p>Eu ent\u00e3o, vigilante, lancei o Dr. Al\u00edpio:<\/p>\n<p>-O nosso Doutor, meu caro Jacinto, \u00e9 o mais poderoso influente de<br \/>\ntodo o distrito.<\/p>\n<p>O Doutor curvou a cabe\u00e7a bem feita, com um belo cabelo preto, admiravelmente<br \/>\nalisado e lustroso. Mas a tia Vic\u00eancia, que se erguera do sof\u00e1.,<br \/>\nchamava o meu Pr\u00edncipe, porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente,<br \/>\nmostrando apenas, \u00e0 porta da sala, a sua corpulenta pessoa &#8211;inteiri\u00e7ado<br \/>\ne vermelho.<\/p>\n<p>\u00c0 mesa, onde os pudins, as travessas de doce de ovos, os antigos vinhos<br \/>\nda Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado, fundiam<br \/>\ncom felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacinto ficou entre a tia Vic\u00eancia<br \/>\ne uma das Roj\u00f5es, a Luisinha, sua afilhada, que, p\u00f4r costume<br \/>\nvelho, quando jantava em Gui\u00e3es, sempre se colocava \u00e0 sombra<br \/>\nda sua boa madrinha. E a sopa, que era de galinha com macarr\u00e3o, foi<br \/>\ncomida num t\u00e3o largo e pesado sil\u00eancio que eu, na \u00e2nsia<br \/>\nde o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Gui\u00e3es<br \/>\ndepois de tanto tempo e em minha pr\u00f3pria casa:<\/p>\n<p>-Deliciosa, esta sopa!<\/p>\n<p>Jacinto ecoou:<\/p>\n<p>-Divina!!<\/p>\n<p>Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a excessiva<br \/>\nadmira\u00e7\u00e3o de Jacinto, o sil\u00eancio, carregado de cerim\u00f4nia,<br \/>\nmais se carregou de embara\u00e7o. Felizmente a tia Vic\u00eancia, com<br \/>\naquele seu bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar da comida portuguesa&#8230;<br \/>\ne eu, sempre no intuito de animar a conversa, nem deixei que o meu Pr\u00edncipe<br \/>\nconfirmasse o seu amor da cozinha vern\u00e1cula, e gritei:<\/p>\n<p>-Como gostar! Mas \u00e9 que delira!&#8230; Pudera! Tanto tempo em Paris, privado<br \/>\ndos pit\u00e9us lusitanos&#8230;<\/p>\n<p>E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz-doce preparado na ocasi\u00e3o<br \/>\ndo natal\u00edcio de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei a hist\u00f3ria,<br \/>\nprofusamente, exagerando, afirmando que esse arroz continha foie-gras, e que<br \/>\nsobre a sua ornamentada pir\u00e2mide flutuava a bandeira tricolor, p\u00f4r<br \/>\ncima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz-doce de Paris, assim estragado<br \/>\nt\u00e3o longe da Serra, n\u00e3o interessara ningu\u00e9m. Puxou apenas<br \/>\nalguns sorrisos de polida condescend\u00eancia, quando eu, alternadamente,<br \/>\nme voltava para um cavalheiro, para uma senhora, insistindo, exclamando: &#8211;<br \/>\nExtraordin\u00e1rio, hem?<\/p>\n<p>D. Teot\u00f4nio observou, misteriosamente, que o \u201ccozinheiro sabia<br \/>\npara quem cozinhava\u201d. E a bela mulher do Dr. Al\u00edpio ousou murmurar,<br \/>\ncorando:<\/p>\n<p>-Havia de ser bonito prato, e talvez n\u00e3o fosse mau!<\/p>\n<p>Eu, sempre na \u00e2nsia de espiritualizar o banquete, de produzir conversa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nataquei com desabrida alegria a Sr\u00aa D. Lu\u00edsa, p\u00f4r ela assim<br \/>\ndefender a profana\u00e7\u00e3o do nosso grande acepipe nacional! Mas,<br \/>\npobre de mim! t\u00e3o excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora,<br \/>\nque ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro<br \/>\nsil\u00eancio se abatia sobre a mesa, como uma n\u00e9voa, quando a tia<br \/>\nVic\u00eancia, providencial, se desculpou para com Jacinto de n\u00e3o<br \/>\nter peixe! Mas qu\u00ea! ali na Serra era imposs\u00edvel, ainda a peso<br \/>\nde ouro, ter peixe, a n\u00e3o ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente<br \/>\nRoj\u00e3o, com aquele seu modo, t\u00e3o suave que cada s\u00edlaba<br \/>\npara correr mais docemente parecia lubrificada com \u00f3leos santos, lembrou<br \/>\nque o Sr.D. Jacinto possu\u00eda uma larga faixa do rio douro com privil\u00e9gio<br \/>\npara a pesca do s\u00e1vel. Jacinto n\u00e3o sabia, nem imaginava que<br \/>\nhouvesse s\u00e1veis&#8230; O Dr. Al\u00edpio n\u00e3o se admirava porque<br \/>\nessas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, h\u00e1 vinte anos,<br \/>\nna mocidade do Sr. D. Jacinto. E hoje, segundo D. Teot\u00f4nio, n\u00e3o<br \/>\nvaliam dois mil-r\u00e9is. Se j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 s\u00e1veis!&#8230;<br \/>\nE a prop\u00f3sito das antigas pescas do Douro se iam formando, em torno<br \/>\nda mesa, entre os homens mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais, que<br \/>\nas senhoras aproveitavam para cochilar, no desabafo daquele sil\u00eancio<br \/>\ncerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sopa at\u00e9 aos frangos<br \/>\nguisados. Receoso de que essa orla de murm\u00farios lentos, sem brilho<br \/>\ne sem alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar) a interpelar<br \/>\nJacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalm\u00e1cia encalhado<br \/>\nno ascensor.<\/p>\n<p>-Isso foi uma das melhores hist\u00f3rias que nos sucederam em Paris! O<br \/>\nJacinto, p\u00f4r causa dum peixe muito raro, lhe mandara o que&#8230; O Gr\u00e3o-Duque<br \/>\nCasimiro, o irm\u00e3o do Imperador&#8230;<\/p>\n<p>Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas:<br \/>\n&#8211; e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado ao copo, para contemplar<br \/>\nno meu amigo algum reflexo do Gr\u00e3o-Duque. E eu contei, com profus\u00e3o,<br \/>\no peixe encalhado, o Gr\u00e3o-Duque pescando, o anzol feito com um gancho<br \/>\nda Princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no po\u00e7o do<br \/>\nelevador&#8230; Mas n\u00e3o se produziu um \u00fanico riso, e a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nmesmo era dada com esfor\u00e7o, p\u00f4r cortesia. Debalde eu arremessava<br \/>\naqueles nomes magn\u00edficos de pr\u00edncipes e princesas, misturados<br \/>\na coisas picarescas&#8230; Nenhum dos meus convidados compreendia o maquinismo<br \/>\ndo elevador, um prato encalhado num po\u00e7o negro&#8230; Perante o gancho<br \/>\nda Princesa, as Albergarias baixaram os olhos. E a minha deliciosa hist\u00f3ria<br \/>\nmorreu numa retic\u00eancia, ainda mais regelada pela exclama\u00e7\u00e3o<br \/>\ninocente da tia Vic\u00eancia:<\/p>\n<p>-\u00d3! filho, que coisas!<\/p>\n<p>Mas, como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a Luisinha<br \/>\nRoj\u00e3o, que ria, toda luminosa e palradora &#8211; todos, como libertados<br \/>\ndo peso cerimonioso da sua presen\u00e7a augusta, se lan\u00e7aram nas<br \/>\nconversinhas discretas, a que o champanhe, agora, depois do assado, dava mais<br \/>\nviveza. Eram os soturnos murm\u00farios, em torno da mesa, que definitivamente<br \/>\nse perpetuavam. Foi ent\u00e3o que desisti de animar o jantar. Mergulhei<br \/>\ncom a bela mulher do Dr. Al\u00edpio na grande quest\u00e3o social desse<br \/>\ntempo em Gui\u00e3es, o casamento da D. Am\u00e9lia Noronha com o feitor!<br \/>\nE eu defendia a D. Am\u00e9lia, os direitos do amor, quando se alargou um<br \/>\nsil\u00eancio &#8211; e era Jacinto, que se debru\u00e7ava, de copo na m\u00e3o.<\/p>\n<p>-Velho amigo Z\u00e9 Fernandes, \u00e0 tua! Muitos e bons, e sempre em<br \/>\ncompanhia de tua tia e minha senhora, a quem pe\u00e7o para saudar.<\/p>\n<p>Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se ergueram<br \/>\nnum largo rumor de amizade, e boa vizinhan\u00e7a. Eu acenei ao Manuel,<br \/>\nvivamente, para encher os copos; e logo, tamb\u00e9m de p\u00e9, atirando<br \/>\npara tr\u00e1s a sobrecasaca:<\/p>\n<p>-Meus senhores, pe\u00e7o uma grande sa\u00fade para o meu velho amigo<br \/>\nJacinto, que pela primeira vez honra esta casa fraternal&#8230; Que digo eu? que<br \/>\npela primeira vez honra com a sua presen\u00e7a a sua querida p\u00e1tria!<br \/>\nE que p\u00f4r c\u00e1 fique, pelas serras, muitos anos, todos bons. \u00c0<br \/>\ntua, meu velho!<\/p>\n<p>Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A nossa orat\u00f3ria,<br \/>\npositivamente, n\u00e3o incendiara as imagina\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>A tia Vic\u00eancia fez tilintar o seu copo, quase vazio, com o de Jacinto,<br \/>\nque tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Roj\u00e3o, toda resplandecente,<br \/>\ne mais vermelha que uma pe\u00f4nia. Depois foi o encadeamento de sa\u00fades,<br \/>\ncom os copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adri\u00e3o,<br \/>\ne o Abade, ambos ausentes, ambos com fur\u00fanculos. E a tia Vic\u00eancia<br \/>\nespalhava aquele olhar, que prepara o erguer, o arrastar de cadeiras &#8211; quando<br \/>\nd. Teot\u00f4nio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, com a outra m\u00e3o<br \/>\napoiada \u00e0 mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa,<br \/>\nquase cava:<\/p>\n<p>-Esta \u00e9 toda particular, e entre n\u00f3s&#8230; Brindo o ausente!<\/p>\n<p>Esvaziou o copo, como em religi\u00e3o, pontificando. Jacinto bebeu assombrado,<br \/>\nsem compreender. As cadeiras arrastavam &#8211; eu dei o bra\u00e7o \u00e0 tia<br \/>\nAlbergada.<\/p>\n<p>E s\u00f3 compreendi, na sala, quando o Dr. Al\u00edpio, com a sua ch\u00e1vena<br \/>\nde caf\u00e9 e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares<br \/>\nfinos, que lhe valiam a alcunha de Dr. Agudo: &#8211; \u201cEspero que ao menos,<br \/>\nc\u00e1 p\u00f4r Gui\u00e3es, n\u00e3o se erga de novo a forca!&#8230;\u201d<br \/>\nE o mesmo fino olhar me indicava o D. Teot\u00f4nio, que arrastara Jacinto<br \/>\npara entre as cortinas duma janela, e discorria, com um ar de f\u00e9 e<br \/>\nde mist\u00e9rio. Era o miguelismo, p\u00f4r Deus! O bom D. Teot\u00f4nio<br \/>\nconsiderava Jacinto como um heredit\u00e1rio, ferrenho miguelista &#8211; e, na<br \/>\nsua inesperada vinda ao seu solar de Tormes, entrevia uma miss\u00e3o pol\u00edtica,<br \/>\no come\u00e7o duma propaganda en\u00e9rgica, e o primeiro passo para uma<br \/>\ntentativa de Restaura\u00e7\u00e3o. E na reserva daqueles cavalheiros,<br \/>\nante o meu Pr\u00edncipe, eu senti ent\u00e3o a suspeita liberal, o receio<br \/>\nduma influ\u00eancia rica, nova, nas Elei\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas,<br \/>\ne a nascente, e a nascente irrita\u00e7\u00e3o contra as velhas id\u00e9ias,<br \/>\nrepresentadas naquele mo\u00e7o, t\u00e3o rico, de civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o superior. Quase entornei o caf\u00e9, na alegre surpresa daquela<br \/>\nsandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a ch\u00e1vena vazia na bandeja,<br \/>\nfitei, com um pouco de riso, o Dr.Agudo.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes<br \/>\ntrabalhar no miguelismo?<\/p>\n<p>Muito s\u00e9rio, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode \u00e0 minha<br \/>\norelha:<\/p>\n<p>-At\u00e9 corre, como certo, que o Pr\u00edncipe d. Miguel est\u00e1<br \/>\ncom ele em Tormes!<\/p>\n<p>E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Al\u00edpio &#8211; t\u00e3o agudo!<br \/>\n&#8211; confirmou:<\/p>\n<p>-\u00c9 o que corre&#8230; disfar\u00e7ado em criado!<\/p>\n<p>Em criado? \u00d3! Santo Deus! Era o Batista! Justamente, Ricardo Veloso<br \/>\nveio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom Rebelo<br \/>\nlogo invocou o seu testemunho. &#8211; Pois n\u00e3o corria, que o filho de D.<br \/>\nMiguel estava em Tormes, escondido?&#8230;<\/p>\n<p>-Disfar\u00e7ado em lacaio &#8211; confirmou logo o digno Rebelo.<\/p>\n<p>Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas meditativas:<\/p>\n<p>-Se assim \u00e9, l\u00e1 me parece desplante&#8230; Que eu n\u00e3o desgostava<br \/>\nde o ver. Dizem que \u00e9 bonito mo\u00e7o, bem apessoado. Mas enfim,<br \/>\nmeu tio Jo\u00e3o Vaz Rebelo foi partido \u00e0s postas, a machado, nas<br \/>\npris\u00f5es de Almeida&#8230; E se recome\u00e7am essas quest\u00f5es,<br \/>\nmau, mau! Ora o seu amigo&#8230;<\/p>\n<p>Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho d. Teot\u00f4nio, e ainda conservava<br \/>\num resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim, desabafar.<\/p>\n<p>-Extraordin\u00e1rio! Vejo que aqui, na serra, ainda se conservam, sem<br \/>\numa ruga, as velhas e boas id\u00e9ias&#8230;<\/p>\n<p>Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu:<\/p>\n<p>-\u00c9 conforme o que V. Ex\u00aa chama boas id\u00e9ias.<\/p>\n<p>E eu agora, furioso com aquela disparada inven\u00e7\u00e3o, que cercava<br \/>\nde hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela am\u00e1vel noite de<br \/>\nanos, intervim, vivamente:<\/p>\n<p>-Tu jogas o voltarete, Jacinto? N\u00e3o jogas&#8230; ent\u00e3o vamos arranjar<br \/>\nduas mesas&#8230; O D. Teot\u00f4nio h\u00e1 de querer cartas.<\/p>\n<p>E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam \u00e0 sombra<br \/>\nda tia Vic\u00eancia, estabelecida no seu canto do sof\u00e1. Todos se<br \/>\ncalavam, parecia encolherem-se ante a apari\u00e7\u00e3o do meu Pr\u00edncipe,<br \/>\ncomo pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando \u00e0<br \/>\nmulher do Dr. Al\u00edpio (um pouco desgarrada do banho das aves t\u00edmidas)<br \/>\nque lhe dera grande prazer aquela ocasi\u00e3o de conhecer as suas vizinhas<br \/>\nde Tormes&#8230; ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca decerto Jacinto<br \/>\nadmirara na Cidade uma boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas<br \/>\ndepois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir<br \/>\no Manuel Albergaria, que era disp\u00e9ptico, se declarara \u201cafrontado\u201d,<br \/>\ne desejava respirar um momento na varanda. Todos aqueles cavalheiros, de resto,<br \/>\nse queixavam de calor. Mandei abrir as janelas que davam sobre as mimosas<br \/>\ndo p\u00e1tio. O Veloso, ao baralhar, parava, bufando, como oprimido:<\/p>\n<p>-Est\u00e1 abafado&#8230; Ainda temos trovoada!<\/p>\n<p>E o Dr. Al\u00edpio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada at\u00e9<br \/>\ncasa, e uma das \u00e9guas da caleche era escabreada, correu \u00e0 janela,<br \/>\nespreitar o c\u00e9u, que enegrecera, morno e pesado.<\/p>\n<p>-Com efeito, vai cair \u00e1gua.<\/p>\n<p>As hastes das mimosas ramalhavam, arrepiadas; e o ar que agitava as cortinas<br \/>\nera intermitente, estonteado. Decerto na sala, entre as senhoras, surgira<br \/>\na mesma inquieta\u00e7\u00e3o, porque a tia Albergaria apareceu, avisando<br \/>\no mano Jorge.<\/p>\n<p>Era prudente pensar em partir, a noite amea\u00e7ava&#8230; E o Dr. Al\u00edpio,<br \/>\npuxando o rel\u00f3gio, prop\u00f4s que levantada aquela remissa, se preparasse<br \/>\na marcha. Justamente o albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado<br \/>\ncom um c\u00e1lice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando tamb\u00e9m<br \/>\nque vinha a\u00ed uma trovoada valente.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras,<br \/>\nque se familiarizaram, escutando, cheias de riso e gosto, a hist\u00f3ria<br \/>\nda sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados, t\u00e3o desprovido que<br \/>\ndormira com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava,<br \/>\ndesorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada com<br \/>\na volta \u00e0 Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Cal\u00e7ando<br \/>\nlentamente as luvas, a bela mulher do Dr. Al\u00edpio perguntava se ainda<br \/>\nhavia a remissa. E a tia Vic\u00eancia apressara o ch\u00e1, que o Manuel,<br \/>\nseguido pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j\u00e1 come\u00e7ava<br \/>\na servir \u00e0s senhoras. Jacinto, de p\u00e9, oferecendo ch\u00e1venas,<br \/>\ngracejava:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o tanta pressa, tanto medo, p\u00f4r causa duma trovoadinha?<\/p>\n<p>Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu Pr\u00edncipe:<\/p>\n<p>-Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas&#8230;<\/p>\n<p>-Sempre o quer\u00edamos ver&#8230; se fosse agora para Tormes, com esta noite<br \/>\ncerrada!<\/p>\n<p>O volante findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das janelas, gritavam<br \/>\nordens para o p\u00e1tio negro, onde as carruagens esperavam atreladas:<\/p>\n<p>-Desce a cabe\u00e7a da vit\u00f3ria, \u00f3 Diogo!<\/p>\n<p>-Acende o lampi\u00e3o, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.<\/p>\n<p>A criada Quit\u00e9ria chagava \u00e0 porta com os bra\u00e7os carregados<br \/>\nde xales, de mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de<br \/>\ndiante, na vit\u00f3ria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para<br \/>\nela se abrigar, se a chuva viesse. E s\u00f3 o D. Teot\u00f4nio, que tinha<br \/>\nat\u00e9 casa apenas meia l\u00e9gua de estrada boa, se n\u00e3o apressava,<br \/>\nfiliado outra vez no meu Pr\u00edncipe, que levava para os cantos mais solit\u00e1rios,<br \/>\nem conversas profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente.<br \/>\nMas a tia Albergaria gritou que j\u00e1 chovia &#8211; e ent\u00e3o foi uma<br \/>\npressa das senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vic\u00eancia, enquanto<br \/>\nos homens, na antec\u00e2mara, enfiavam a\u00e7odadamente os palet\u00f3s.<\/p>\n<p>Jacinto e eu descemos ao p\u00e1tio para acompanhar aquela debandada &#8211;<br \/>\ne uma a uma, a traquitana do Dr. Al\u00edpio, a vit\u00f3ria das Albergarias<br \/>\na velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos<br \/>\ndesejos de boa jornada. P\u00f4r fim D. Teot\u00f4nio cal\u00e7ou as luvas<br \/>\npretas e entrou para sua caleche, dizendo a Jacinto:<\/p>\n<p>-Pois, primo e amigo, Deus permita que, do nosso encontro, e do mais que<br \/>\nse passar, algum bem resulte a esta terra!<\/p>\n<p>Subindo a escada, o meu Pr\u00edncipe desabafou:<\/p>\n<p>-Este Teot\u00f4nio \u00e9 extraordin\u00e1rio! Sabes o que descobri<br \/>\np\u00f4r fim?&#8230; Que me toma p\u00f4r um miguelista, e imagina que eu vim<br \/>\npara Tormes preparar a rstaura\u00e7\u00e3o de D. Miguel?!<\/p>\n<p>-E tu?<\/p>\n<p>-Eu fiquei t\u00e3o espantado, que nem o desiludi!<\/p>\n<p>-Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, est\u00e3o desconfiados,<br \/>\ne receiam ver de novo erguidas as forcas em Gui\u00e3es! E corre que tu<br \/>\ntens o Pr\u00edncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfar\u00e7ado em<br \/>\ncriado. E sabes quem ele \u00e9? o Batista!<\/p>\n<p>-Isso \u00e9 sublime! &#8211; murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos.<\/p>\n<p>Na sala, a tia Vic\u00eancia esperava-nos desconsolada, entre todas as luzes,<br \/>\nque ardiam ainda no sil\u00eancio e paz do ser\u00e3o debandado:<\/p>\n<p>-Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de gel\u00e9ia,<br \/>\num c\u00e1lice de vinho do Porto!<\/p>\n<p>-Esteve tudo muito desanimado, tia Vic\u00eancia! &#8211; exclamei desafogando<br \/>\no meu t\u00e9dio. &#8211; Todo esse mulherio emudeceu; os amigos com um ar desconfiado&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero:<\/p>\n<p>-N\u00e3o! pelo contr\u00e1rio. Gostei menso. Excelente gente! E t\u00e3o<br \/>\nsimples&#8230; todas estas raparigas me pareceram \u00f3timas. E t\u00e3o<br \/>\nfrescas t\u00e3o alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que<br \/>\nn\u00e3o sou miguelista.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o contamos \u00e0 tia Vic\u00eancia a prodigiosa hist\u00f3ria<br \/>\nde D. Miguel escondido em Tormes&#8230; Ela ria! Que coisa! E mau seria&#8230;<\/p>\n<p>-Mas o Sr. Jacinto, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>-Eu, minha senhora, sou socialista&#8230;<\/p>\n<p>Acudi explicando \u00e0 tia Vic\u00eancia que socialista era ser pelos<br \/>\npobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:<\/p>\n<p>-O meu Afonso, que Deus haja, era liberal&#8230; Meu pai tamb\u00e9m, e at\u00e9<br \/>\namigo do Duque da Terceira&#8230;<\/p>\n<p>Mas um rude trov\u00e3o rolou, atroou a noite negra: &#8211; e uma b\u00e1tega<br \/>\nde \u00e1gua cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.<\/p>\n<p>-Santa B\u00e1rbara! &#8211; gritou a tia Vic\u00eancia. &#8211; Ai aquela pobre gente!&#8230;<br \/>\nAt\u00e9 estou com cuidado&#8230; As Roj\u00f5es, que v\u00e3o na vit\u00f3ria!<\/p>\n<p>E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas costumadas<br \/>\nno orat\u00f3rio, ainda antes de ir guardar as pratas, e rezar o ter\u00e7o<br \/>\ncom a Gertrudes.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>Cap\u00edtulo XIV<\/h2>\n<p>Ao outro dia, depois do almo\u00e7o, eu e Jacinto montamos a cavalo para<br \/>\num grande passeio at\u00e9 a Flor da Malva, a saber de meu tio Adri\u00e3o,<br \/>\ne do seu fur\u00fanculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at\u00e9<br \/>\ninquieta, de testemunhar a impress\u00e3o que daria ao meu Pr\u00edncipe<br \/>\naquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. J\u00e1 nessa<br \/>\nmanh\u00e3, andando todos no jardim a escolher uma bela rosa-ch\u00e1<br \/>\npara a botoeira do meu Pr\u00edncipe, a tia Vic\u00eancia celebrara com<br \/>\ntanto fervor a beleza, a gra\u00e7a, a caridade, e a do\u00e7ura da sua<br \/>\nsobrinha toda-amada, que eu protestei:<\/p>\n<p>-\u00d3! tia Vic\u00eancia, olhe que esses elogios todos competem apenas<br \/>\n\u00e0 virgem Maria! A tia Vic\u00eancia est\u00e1 a cair em pecado de<br \/>\nidolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem<br \/>\num desapontamento tremendo!<\/p>\n<p>E agora, trotando pela f\u00e1cil estrada de Sandofim, lembrava-me aquela<br \/>\nmanh\u00e3, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela no meu quarto,<br \/>\ne lhe chamara uma lavradeirona. Com efeito, era grande e forte a Joaninha.<br \/>\nMas a fotografia datada do seu tempo de vi\u00e7o r\u00fastico, quando<br \/>\nela era apenas uma bela, forte e s\u00e3 planta da serra. Agora entrava<br \/>\nnos vinte e cinco, e j\u00e1 pensava, e sentia &#8211; e a alma que nela se formara,<br \/>\nafinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo.<\/p>\n<p>A manh\u00e3, com o c\u00e9u todo purificado pela trovoada da v\u00e9spera,<br \/>\ne as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma<br \/>\ndo\u00e7ura luminosa, fina, fresca que tornava doce, como diz o velho Eur\u00edpedes<br \/>\nou o velho S\u00f3focles, mover o corpo, e deixar a alma pregui\u00e7ar,<br \/>\nsem pressa nem cuidados. A estrada n\u00e3o tinha sombra, mas o sol batia<br \/>\nmuito de leve, e ro\u00e7ava-nos com uma car\u00edcia quase alada. O vale<br \/>\nparecia a Jacinto, que nunca ali passara, uma pintura da Escola Francesa do<br \/>\ns\u00e9culo XVIII, t\u00e3o graciosamente nele ondulavam as terras verdes,<br \/>\ne com tanta paz e frescura corria o risonho Serp\u00e3o, e t\u00e3o af\u00e1veis<br \/>\ne prometedores de fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras<br \/>\ntenras! Os nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando tamb\u00e9m<br \/>\na paz da manh\u00e3 ador\u00e1vel. E n\u00e3o sei, nunca soube, que<br \/>\nplantazinhas silvestres e escondidas espalhavam um delicado aroma, que tantas<br \/>\nvezes sentira, naquele caminho, ao come\u00e7ar o Outono.<\/p>\n<p>-Que delicioso dia! &#8211; murmurou Jacinto. &#8211; Este caminho para a Flor da Malva<br \/>\n\u00e9 o caminho do C\u00e9u&#8230; \u00d3 Z\u00e9 Fernandes, de que \u00e9<br \/>\neste cheirinho t\u00e3o doce, t\u00e3o bom?<\/p>\n<p>Eu sorri, com certo pensamento:<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei&#8230; \u00c9 talvez j\u00e1 o cheiro do C\u00e9u!<\/p>\n<p>Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale:<\/p>\n<p>-Olha, acol\u00e1, onde est\u00e1 aquela fila de olmos, e h\u00e1 o<br \/>\nriacho, j\u00e1 s\u00e3o terras do tio Adri\u00e3o. Tem ali um pomar,<br \/>\nque d\u00e1 os p\u00eassegos mais deliciosos de Portugal&#8230; Hei de pedir<br \/>\n\u00e0 prima Joaninha que te mande um cesto deles. E o doce que ela faz<br \/>\ncom esses p\u00eassegos, menino, \u00e9 alguma coisa de celeste. Tamb\u00e9m<br \/>\nlhe hei de pedir que te mande o doce.<\/p>\n<p>Ele ria:<\/p>\n<p>-Ser\u00e1 explorar demais a prima Joaninha.<\/p>\n<p>E eu (p\u00f4r qu\u00ea?) recordei e atirei ao meu Pr\u00edncipe estes<br \/>\ndois versos duma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu pobre<br \/>\namigo Proc\u00f3pio:<\/p>\n<p>-Manda-lhe um servo querido,<\/p>\n<p>Bem hajas dona formosa!<\/p>\n<p>E que lhe entregue um anel<\/p>\n<p>E com um anel uma rosa.<\/p>\n<p>Jacinto riu alegremente:<\/p>\n<p>-Z\u00e9 Fernandes, seria excessivo, s\u00f3 p\u00f4r causa de meia<br \/>\nd\u00fazia de p\u00eassegos, e dum boi\u00e3o de doce.<\/p>\n<p>Assim r\u00edamos, quando apareceu, \u00e0 volta da estrada, o longo<br \/>\nmuro da Quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. Jos\u00e9 de Sandofim.<br \/>\nE imediatamente piquei para o largo, para a taberna do Torto, p\u00f4r causa<br \/>\ndaquele vinhinho branco, que sempre, quando p\u00f4r ali a levo, a minha<br \/>\nalma me pede. O meu Pr\u00edncipe reprovou, indignado:<\/p>\n<p>-\u00d3! Z\u00e9 Fernandes, pois tu, a esta hora, depois de almo\u00e7o,<br \/>\nvais beber vinho branco?<\/p>\n<p>-\u00c9 um costumezinho antigo&#8230; Aqui \u00e0 taberninha do Torto&#8230;Um<br \/>\ndecilitrozinho&#8230; A almazinha assim, mo pede.<\/p>\n<p>E paramos; eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando a sua grossa pan\u00e7a,<br \/>\nsobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.<\/p>\n<p>-Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro tamb\u00e9m aprecia.<\/p>\n<p>Depois dum p\u00e1lido protesto, o meu Pr\u00edncipe tamb\u00e9m quis,<br \/>\nmirou o l\u00edmpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o copo,<br \/>\ncom del\u00edcia, e um estalinho de alto apre\u00e7o.<\/p>\n<p>-Delicioso vinho!&#8230; Hei de querer deste vinho em Tormes&#8230;\u00c9 perfeito.<\/p>\n<p>-Hem? Fresquinho, leve, arom\u00e1tico, alegrador, todo alma!&#8230;Encha l\u00e1<br \/>\noutra vez os copos, amigo Torto. Este cavalheiro aqui \u00e9 o Sr. D. Jacinto,<br \/>\no fidalgo de Tormes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, de tr\u00e1s da ombreira da taberna, uma grande voz bradou,<br \/>\ncavamente, solenemente:<\/p>\n<p>-Bendito seja o Pai dos Pobres!<\/p>\n<p>E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam<br \/>\na face cor de tijolo, assomou no v\u00e3o da porta, apoiado a um bord\u00e3o,<br \/>\ncom uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos dum negro,<br \/>\nque faiscavam. Era o tio Jo\u00e3o Torrado, o profeta da Serra&#8230; Logo lhe<br \/>\nestendi a m\u00e3o, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os olhos, que<br \/>\nse dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara,<br \/>\nembara\u00e7ado.<\/p>\n<p>-Pois aqui o tem, o senhor Jacinto, que corara, embara\u00e7ado.<\/p>\n<p>-Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez p\u00f4r a\u00ed todo esse<br \/>\nbem \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p>O velho atirou para ele bruscamente o bra\u00e7o, que sa\u00eda cabeludo<br \/>\ne quase negro duma manga muito curta.<\/p>\n<p>-A m\u00e3o!<\/p>\n<p>E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, Jo\u00e3o<br \/>\nTorrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando:<\/p>\n<p>-M\u00e3o real, m\u00e3o de dar, m\u00e3o que vem de cima, m\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 rara!<\/p>\n<p>Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa lentid\u00e3o,<br \/>\nlimpou as barbas, deu um jeito \u00e0 correia que lhe prendia a caixa de<br \/>\nlata, e batendo com a ponta do cajado no ch\u00e3o:<\/p>\n<p>-Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo, que p\u00f4r aqui me trouxe,<br \/>\nque n\u00e3o perdi o meu dia, e vi um homem!<\/p>\n<p>Eu ent\u00e3o debrucei-me para ele, mais em confid\u00eancia:<\/p>\n<p>-Mas, \u00f3 tio Jo\u00e3o, ou\u00e7a c\u00e1! Sempre \u00e9 certo<br \/>\nvoc\u00ea dizer p\u00f4r a\u00ed, pelos s\u00edtios, que El-Rei D. Sebasti\u00e3o<br \/>\nvoltara?<\/p>\n<p>O pitoresco velho apoiou as duas m\u00e3os sobre o cajado, o queixo de<br \/>\nespalhada barba sobre as m\u00e3os, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo<br \/>\na percuss\u00e3o dos seus pensamentos:<\/p>\n<p>-Talvez voltasse, talvez n\u00e3o voltasse&#8230; N\u00e3o se sabe quem vai,<br \/>\nnem quem vem. A gente v\u00ea os corpos, mas n\u00e3o v\u00ea as almas<br \/>\nque est\u00e3o dentro. H\u00e1 corpos de agora com almas de outrora. Corpo<br \/>\n\u00e9 vestido, alma \u00e9 pessoa&#8230;Na feira da Roqueirinha quem sabe<br \/>\ncom quantos reis antigos se topa, quando se anda aos encontr\u00f5es entre<br \/>\nos vaqueiros&#8230; Em ruim corpo se esconde bom senhor!<\/p>\n<p>E como ele findara num murm\u00fario, eu, atirando um olhar a Jacinto,<br \/>\npara gozarmos aqueles estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti:<\/p>\n<p>-Mas, \u00f3 tio Jo\u00e3o, voc\u00ea realmente, em sua consci\u00eancia,<br \/>\npensa que El-Rei D. Sebasti\u00e3o n\u00e3o morreu na batalha?<\/p>\n<p>O velho ergueu para mim a face, que enrugara numa desconfian\u00e7a:<\/p>\n<p>-Essas coisas s\u00e3o muito antigas. E n\u00e3o calham bem aqui \u00e0<br \/>\nporta do Torto. O vinho era bom, e V. Sr\u00aa tem pressa, meu menino! A flor<br \/>\nda Flor da Malva l\u00e1 tem o paizinho doente&#8230; Mas o mal j\u00e1 vai<br \/>\npela serra abaixo com a incha\u00e7\u00e3o \u00e0s costas. D\u00e1<br \/>\ngosto ver quem d\u00e1 gosto aos tristes. P\u00f4r cima de Tormes h\u00e1<br \/>\numa estrela clara. E \u00e9 trotar, trotar, que o dia est\u00e1 lindo!<\/p>\n<p>Com a magra m\u00e3o lan\u00e7ou um gesto para que segu\u00edssemos.<br \/>\nE j\u00e1 pass\u00e1vamos o cruzeiro, quando o seu brado ardente de novo<br \/>\nreboou, com solenidade cava:<\/p>\n<p>-Bendito seja o Pai dos Pobres!<\/p>\n<p>Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as aclama\u00e7\u00f5es<br \/>\ndum povo. E Jacinto pasmava de que ainda houvesse no reino um Sebastianista.<\/p>\n<p>-Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra ou na cidade cada um<br \/>\nespera o seu D. Sebasti\u00e3o. At\u00e9 a lotaria da Miseric\u00f3rdia<br \/>\n\u00e9 uma forma de Sebastianismo. Eu todas as manh\u00e3s, mesmo sem<br \/>\nser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu.. Ou antes a minha, porque<br \/>\neu espero uma D. Sebastiana&#8230; E tu, felizardo?<\/p>\n<p>-Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z\u00e9 Fernandes&#8230; Sou o \u00faltimo<br \/>\nJacinto; Jacinto ponto final&#8230; Que casa \u00e9 aquela com os dois torre\u00f5es?<\/p>\n<p>-A Flor da Malva.<\/p>\n<p>Jacinto tirou o rel\u00f3gio:<\/p>\n<p>-S\u00e3o tr\u00eas horas. Gastamos hora e meia&#8230; Mas foi um belo passeio,<br \/>\ne instrutivo. \u00c9 lindo este s\u00edtio.<\/p>\n<p>Sobre um outeirinho, afastada da estrada p\u00f4r arvoredo, que um muro<br \/>\ncerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para o Oriente e para o Sol<br \/>\na sua longa fachada com os dois torre\u00f5es quadrados, onde as janelas,<br \/>\nde varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande port\u00e3o de ferro,<br \/>\nladeado p\u00f4r dois bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde<br \/>\num imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes<br \/>\nra\u00edzes descarnadas da grande \u00e1rvore, um pequeno esperava segurando<br \/>\num burro pela arreata,<\/p>\n<p>-Est\u00e1 p\u00f4r a\u00ed o Manuel da Porta?<\/p>\n<p>-Ainda agora subiu pela alameda.<\/p>\n<p>-Bem: empurra l\u00e1 o port\u00e3o.<\/p>\n<p>E subimos, p\u00f4r uma curta avenida de velhas \u00e1rvores, at\u00e9<br \/>\noutro terreiro, com um alpendre, uma casa de mo\u00e7os, toda coberta de<br \/>\nheras, e uma casota de c\u00e3o, de onde saltou, com um rumor de corrente<br \/>\narrastada, um molosso, o Trit\u00e3o, que eu logo sosseguei fazendo-lhe<br \/>\nreconhecer o seu velho amigo Z\u00e9 Fernandes. E o Manuel da Porta correu<br \/>\nda fonte, onde enchia um grande balde, para nos segurar os cavalos.<\/p>\n<p>-Como est\u00e1 o tio Adri\u00e3o?<\/p>\n<p>Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado:<\/p>\n<p>-E ent\u00e3o vossa excel\u00eancia, bem? A Sr\u00aa D. Joaninha ainda<br \/>\nagora andava no laranjal com o pequeno da Josefa.<\/p>\n<p>Seguimos p\u00f4r ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto,<br \/>\nenquanto eu contava ao meu Pr\u00edncipe que aquele pequenito da Josefa<br \/>\nera um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado todo.<\/p>\n<p>-Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem a\u00ed pela freguesia<br \/>\numa verdadeira filharada. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dar-lhes roupas<br \/>\ne presentes, e ajudar as m\u00e3es. Mas at\u00e9 os lava, e os penteia,<br \/>\ne lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem alguma criancita ao colo&#8230; Agora<br \/>\nanda na paix\u00e3o deste Josezinho.<\/p>\n<p>Mas quando chegamos ao laranjal, \u00e0 beira da larga rua da Quinta que<br \/>\nlevava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at\u00e9 gritei: &#8211;<br \/>\nEh, prima Joaninha!&#8230;<\/p>\n<p>-Talvez esteja l\u00e1 para baixo, para o tanque&#8230;<\/p>\n<p>Descemos a rua, entre \u00e1rvores, que a cobriam com as densas ramas encruzadas.<br \/>\nUma fresca, l\u00edmpida \u00e1gua de regra corria e luzia num caneiro<br \/>\nde pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de<br \/>\nVer\u00e3o. E o pequeno campo, que se avistava para al\u00e9m, rebrilhava<br \/>\ncom do\u00e7ura, todo amarelo e branco, dos malmequeres e bot\u00f5es<br \/>\nde ouro.<\/p>\n<p>O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o repuxo<br \/>\no ia enchendo duma \u00e1gua muito clara, ainda baixa, onde os peixes vermelhos<br \/>\nse agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos<br \/>\nde pedra que circundavam o tanque, pousava um cesto cheio de d\u00e1lias<br \/>\ncortadas. E um mo\u00e7o, que sobre uma escada podava as cam\u00e9lias,<br \/>\nvira a Sr\u00aa D. Joana seguir para o lado da parreira. Marchamos para a<br \/>\nparreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam<br \/>\nnum lavadouro, na sombra de grandes nogueiras. Gritei: &#8211; Eh l\u00e1? Voc\u00eas<br \/>\nviram p\u00f4r a\u00ed a Sr\u00aa D. Joana? Uma das mo\u00e7as esgani\u00e7ou<br \/>\na voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.<\/p>\n<p>-Bem vamos a casa! N\u00e3o podemos farejar assim, toda a tarde.<\/p>\n<p>-\u00c9 uma bela Quinta &#8211; murmurava o meu Pr\u00edncipe, encantado.<\/p>\n<p>-Magn\u00edfica! E bem tratada&#8230; O tio Adri\u00e3o teve um feitor excelente&#8230;<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele<br \/>\ncebolinho!<\/p>\n<p>Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como sonhara o meu Pr\u00edncipe,<br \/>\ncom os seus talh\u00f5es debruados de alfazema, e madressilva enroscada<br \/>\nnos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de parra densa.<br \/>\nE demos volta \u00e0 capela, onde crescia aos dois lados da porta uma roseira-ch\u00e1,<br \/>\ncom uma rosa \u00fanica, muito aberta, e uma moita de baunilha, onde Jacinto<br \/>\napanhou um raminho para cheirar. Depois entramos no terra\u00e7o em frente<br \/>\nda casa, com a sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos.<br \/>\nA porta envidra\u00e7ada estava aberta e subimos pela escadaria de pedra,<br \/>\nno imenso sil\u00eancio em que toda a Flor da Malva repousava, at\u00e9<br \/>\na antec\u00e2mara, de altos tetos apainelados, com longos bancos de pau,<br \/>\nonde desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras.<br \/>\nEmpurrei a porta duma outra sala, que tinha as janelas da varanda abertas,<br \/>\ncada uma com a gaiola dum can\u00e1rio.<\/p>\n<p>-\u00c9 curioso! &#8211; exclamou Jacinto. &#8211; Parece o meu Pres\u00e9pio&#8230;<br \/>\nE as minhas cadeiras.<\/p>\n<p>E com efeito. Sobre uma c\u00f4moda antiga, com bronzes antigos, pousava<br \/>\num pres\u00e9pio, semelhante ao da livraria de Jacinto. E as cadeiras de<br \/>\ncouro lavrado tinham, como as que ele descobrira no s\u00f3t\u00e3o, umas<br \/>\narmas sob um chap\u00e9u de Cardeal.<\/p>\n<p>-\u00d3 senhores! &#8211; exclamei. &#8211; N\u00e3o haver\u00e1 um criado?<\/p>\n<p>Bati as m\u00e3os, fortemente. E o mesmo doce sil\u00eancio permaneceu,<br \/>\nmuito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da Quinta, apenas cortado<br \/>\npelo saltitar dos can\u00e1rios nos poleiros das gaiolas.<\/p>\n<p>-\u00c9 o pal\u00e1cio da Bela adormecida no bosque! &#8211; murmurou Jacinto,<br \/>\nquase indignado. &#8211; D\u00e1 um berro!<\/p>\n<p>-N\u00e3o, caramba! Vou l\u00e1 dentro!<\/p>\n<p>Mas, \u00e0 porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha,<br \/>\ncorada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pesco\u00e7o,<br \/>\nque fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua<br \/>\npele, e o louro ondeado dos seus cabelos &#8211; lindamente risonha, na surpresa<br \/>\nque alargava os seus largos, luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma<br \/>\ncriancinha, gorda e cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes<br \/>\nla\u00e7os azuis.<\/p>\n<p>E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva, viu aquela<br \/>\ncom quem casou em Maio, na capelinha de azulejos, quando o grande p\u00e9<br \/>\nde roseira se cobrira todo de rosas.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>Cap\u00edtulo XV<\/h2>\n<p>E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j\u00e1<br \/>\ncinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Pr\u00edncipe j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo Jacinto, Jacinto ponto final &#8211; porque<br \/>\nnaquele solar que deca\u00edra, correm agora, com soberba vida, uma gorda<br \/>\ne vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha<br \/>\namizade. E, pai de fam\u00edlia, principiara a fazer-se mon\u00f3tono,<br \/>\npela perfei\u00e7\u00e3o da beleza moral, aquele homem t\u00e3o pitoresco<br \/>\npela inquieta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, e pelos variados tormentos<br \/>\nda fantasia insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura,<br \/>\npercorria comigo a Quinta, em s\u00f3lidas palestras agr\u00edcolas, prudentes<br \/>\ne sem quimeras &#8211; eu quase lamentava esse outro Jacinto que colhia uma teoria<br \/>\nem cada ramo de \u00e1rvore, e riscando o ar com a bengala, planejava queijeiras<br \/>\nde cristal e porcelana, para fabricar queijinhos que custariam duzentos mil-r\u00e9is<br \/>\ncada um!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possu\u00eda<br \/>\nagora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscando a l\u00e1pis, com<br \/>\nfalhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as suas<br \/>\nrendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas.<\/p>\n<p>Visitara j\u00e1 as suas propriedades de Montemor, da Beira; e consertava,<br \/>\nmobiliava as velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais<br \/>\ntarde, crescidos, encontrassem \u201cninhos feitos\u201d. Mas onde eu reconheci<br \/>\nque definitivamente um perfeito e ditoso equil\u00edbrio se estabelecera<br \/>\nna alma do meu Pr\u00edncipe, foi quando ele, j\u00e1 sa\u00eddo daquele<br \/>\nprimeiro e ardente fanatismo da Simplicidade &#8211; entreabriu a porta de Tormes<br \/>\n\u00e0 Civiliza\u00e7\u00e3o. Dois meses antes de nascer a Teresinha,<br \/>\numa tarde, entrou pela avenida de pl\u00e1tanos uma chiante e longa fila<br \/>\nde carros, requisitados p\u00f4r toda a freguesia, e acuculados de caixotes.<br \/>\nEram os famosos caixotes, p\u00f4r tanto tempo encalhados em Alba de Tormes,<br \/>\ne que chegavam, para despejar a Cidade sobre a Serra. Eu pensei: &#8211; Mau! o<br \/>\nmeu pobre Jacinto teve uma reca\u00edda! Mas os confortos mais complicados,<br \/>\nque continha aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados<br \/>\npara os s\u00f3t\u00e3os imensos, para o p\u00f3 da inutilidade; e o<br \/>\nvelho solar apenas se regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas<br \/>\npelas janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sof\u00e1s, para<br \/>\nque os repousos, p\u00f4r que ele suspirara, fossem mais lentos e suaves.<br \/>\nAtribu\u00ed esta modera\u00e7\u00e3o a minha prima Joaninha, que amava<br \/>\nTormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas,<br \/>\ndecorridas semanas, tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com<br \/>\noper\u00e1rios, e mais caixotes, para instalar um telefone!<\/p>\n<p>-Um telefone, em Tormes, Jacinto?<\/p>\n<p>O meu Pr\u00edncipe explicou, com humildade:<\/p>\n<p>-Para casa de meu sogro!&#8230; bem v\u00eas.<\/p>\n<p>Era razo\u00e1vel e carinhoso. O telefone por\u00e9m, sutilmente, mudamente,<br \/>\nestendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os bra\u00e7os,<br \/>\nquase suplicante:<\/p>\n<p>-Para casa do m\u00e9dico. Compreendes&#8230;<\/p>\n<p>Era prudente. Mas, certa manh\u00e3, em Gui\u00e3es, acordei aos berros<br \/>\nda tia Vic\u00eancia! Um homem chegara, misterioso, com outros homens, trazendo<br \/>\narame, para instalar na nossa casa o novo invento. Sosseguei a tia Vic\u00eancia,<br \/>\njurando que essa m\u00e1quina nem fazia barulho, nem trazia doen\u00e7as,<br \/>\nnem atra\u00eda as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo<br \/>\nos ombros:<\/p>\n<p>-Que queres? Em Gui\u00e3es est\u00e1 o botic\u00e1rio, est\u00e1<br \/>\no carniceiro&#8230; E, depois, est\u00e1s tu!<\/p>\n<p>Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro dum m\u00eas temos<br \/>\na pobre Joana a apertar o vestido p\u00f4r meio duma m\u00e1quina! Pois<br \/>\nn\u00e3o! o Progresso, que, \u00e0 intima\u00e7\u00e3o de Jacinto,<br \/>\nsubira a Tormes a estabelecer aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara<br \/>\nmais um reino para desfear, desceu, silenciosamente, desiludido, e n\u00e3o<br \/>\navistamos mais sobre a serra a sua hirta sombra cor de ferro e de fuligem.<br \/>\nEnt\u00e3o compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera<br \/>\no equil\u00edbrio da vida, e com ele a Gr\u00e3-Ventura, de que tanto<br \/>\ntempo ele fora o Pr\u00edncipe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando<br \/>\no nosso velho Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe<br \/>\ndera meninos para trazer \u00e0s cavaleiras, observei ao digno preto, que<br \/>\nlia o seu F\u00edgaro, armado de imensos \u00f3culos redondos:<\/p>\n<p>-Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o Sr. D. Jacinto est\u00e1<br \/>\nfirme.<\/p>\n<p>O Grilo arredou os \u00f3culos para a testa, e levantando para o ar os<br \/>\ncinco dedos em curva como p\u00e9talas duma tulipa:<\/p>\n<p>-Sua Ex\u00aa brotou!<\/p>\n<p>Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho da Cidade, plantado<br \/>\nna serra, pregara, chupara o humo do torr\u00e3o herdado, criara seiva,<br \/>\nafundara ra\u00edzes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em<br \/>\nflores, forte, sereno, ditoso, ben\u00e9fico, nobre, dando frutos, derramando<br \/>\nsombra. E abrigados pela grande \u00e1rvore, e p\u00f4r ela nutridos, cem<br \/>\ncasais em redor a bendiziam.<\/p>\n<p>XVI<\/p>\n<p>Muitas vezes Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso<br \/>\nde dois, tr\u00eas meses, ao 202, para mostrar Paris \u00e0 prima Joaninha.<br \/>\nE eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana<br \/>\nante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacintinho completasse dois<br \/>\nanos, para poder jornadear sem desconforto, e apontando j\u00e1 com o seu<br \/>\ndedo para as coisas da civiliza\u00e7\u00e3o. Mas quando ele, em Outubro,<br \/>\nfez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma pregui\u00e7a<br \/>\nimensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus<br \/>\nesplendores. \u201cEstamos aqui t\u00e3o bem! est\u00e1 um tempo t\u00e3o<br \/>\nlindo!\u201d murmurava, deitando os bra\u00e7os, sempre deslumbrada, ao<br \/>\nrijo pesco\u00e7o do seu Jacinto. Ele desistia logo de Paris, encantado.<br \/>\n\u201cVamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos El\u00edsios<br \/>\nestiverem em flor!\u201d Mas em Abril vieram aqueles cansa\u00e7os que<br \/>\nimobilizavam a prima Joaninha no div\u00e3, ditosa, risonha, com umas pintas<br \/>\nna pele, e o roup\u00e3o mais solto. P\u00f4r todo um longo ano estava<br \/>\ndesfeita a alegre aventura. Eu andava ent\u00e3o sofrendo de desocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs chuvas de Mar\u00e7o prometiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira,<br \/>\ncorada e bem feita, vi\u00fava, que sortia as necessidades do meu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\npartira com o irm\u00e3o par ao Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde<br \/>\no Inverno, sentia tamb\u00e9m no corpo como um come\u00e7o de ferrugem,<br \/>\nque o emperrava, e certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha<br \/>\nde bolor. Depois a minha \u00e9gua morreu&#8230; Parti eu para paris.<\/p>\n<p>Logo em Hendaia, apenas pisei a doce terra de fran\u00e7a, o meu pensamento,<br \/>\ncomo pombo a um velho pombal, voou ao 202 &#8211; talvez p\u00f4r eu ver um enorme<br \/>\ncartaz em que uma mulher nua, com flores bac\u00e2nticas nas tran\u00e7as,<br \/>\nse estorcia, segurando numa das m\u00e3os uma garrafa, espumante, e brandindo<br \/>\nna outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh surpresa!<br \/>\nEis que, logo adiante, na esta\u00e7\u00e3o quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz,<br \/>\num mo\u00e7o esbelto, de perfeita eleg\u00e2ncia, entra vivamente no meu<br \/>\ncompartimento, e, depois de me encarar, grita:<\/p>\n<p>-Eh, Fernandes!<\/p>\n<p>Marizac! O duque de Marizac! Era j\u00e1 o 202&#8230; Com que reconhecimento<br \/>\nlhe sacudi a m\u00e3o fina, p\u00f4r ele me Ter reconhecido! E atirando<br \/>\npara o canto do vag\u00e3o um palet\u00f3, um ma\u00e7o de jornais,<br \/>\nque o escudeiro lhe passara, o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre:<\/p>\n<p>-E Jacinto?<\/p>\n<p>Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande<br \/>\namor p\u00f4r minha prima, e os dois filhos, que ele trazia escarranchados<br \/>\nno pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>-Ah que canalha! &#8211; exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. &#8211; \u00c9<br \/>\ncapaz de ser feliz!<\/p>\n<p>-Espantosamente, loucamente&#8230; Qual! N\u00e3o h\u00e1 adv\u00e9rbios&#8230;<\/p>\n<p>-Indecentemente &#8211; murmurou Marizac muito s\u00e9rio. &#8211; Que canalha!<\/p>\n<p>Eu ent\u00e3o desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu<br \/>\nos ombros, acendendo a cigarrilha:<\/p>\n<p>-Todo esse mundo circula&#8230;<\/p>\n<p>-Madame de Oriol?<\/p>\n<p>-Continua.<\/p>\n<p>-Os Tr\u00e8ves? o Efraim?<\/p>\n<p>-Continuam, todos tr\u00eas.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ou um gesto l\u00e2nguido.<\/p>\n<p>-Durante cinco anos, em Paris, tudo continua&#8230; As mulheres com um pouco<br \/>\nmais de p\u00f3-de-arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens<br \/>\ncom um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A princesa<br \/>\nde Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno&#8230; e &#8211; e voil\u00e1!<\/p>\n<p>-Dornan?<\/p>\n<p>-Continua&#8230; N\u00e3o o encontrei mais desde o 202&#8230; Mas vejo \u00e0s<br \/>\nvezes o nome dele, no Boulevard, com versos preciosos, obscenidades muito<br \/>\napuradas, muito sutis.<\/p>\n<p>-E o Psic\u00f3logo?&#8230; Ora, como se chamava ele?&#8230;<\/p>\n<p>-Continua tamb\u00e9m. Sempre com as feminices a tr\u00eas francos e cinq\u00fcenta&#8230;<br \/>\nDuquesas em camisa, almas nuas&#8230; coisas que se vendem bem!<\/p>\n<p>Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gr\u00e3o-Duque, o<br \/>\ncomboio entrou na esta\u00e7\u00e3o de Biarritz: &#8211; e rapidamente, apanhando<br \/>\no palet\u00f3 e os jornais, depois de me apertar a m\u00e3o, o delicioso<br \/>\nMarizac saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando:<\/p>\n<p>-At\u00e9 Paris!&#8230; Sempre rue Cambori.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no compartimento solit\u00e1rio, bocejei, com uma estranha<br \/>\nsensa\u00e7\u00e3o de monotonia, de saciedade, como cercado j\u00e1<br \/>\nde gentes muito vistas, murmurando hist\u00f3rias muito sabidas, e coisas<br \/>\nmuito ditas, atrav\u00e9s dos sorrisos estafados. Dos dois lados do comboio<br \/>\nera a longa plan\u00edcie mon\u00f3tona, sem variedade, muito miudamente<br \/>\ncultivada, muito miudamente retalhada, dum verde de resed\u00e1, verde-cinzento<br \/>\ne apagado, onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flor, nem acidente do solo,<br \/>\ndesmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. P\u00e1lidos choupos, em<br \/>\nrenques pautados e finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os<br \/>\ncasais, todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam<br \/>\nda verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o c\u00e9u,<br \/>\np\u00f4r cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descorado, parecia um vasto<br \/>\nespelho muito lavado a grande \u00e1gua, at\u00e9 que de todo se lhe safasse<br \/>\no esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez.<\/p>\n<p>Com que linda manh\u00e3 de Maio entrei em Paris! T\u00e3o fresca e fina,<br \/>\ne j\u00e1 macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugn\u00e2ncia<br \/>\nno profundo, sombrio leito do Grande-Hotel, todo fechado de espessos veludos,<br \/>\ngrossos cord\u00f5es, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda<br \/>\ncova de penas sonhei que em Tormes se constru\u00edra uma torre Eiffel,<br \/>\ne que em volta dela as senhoras da Serra, as mais respeit\u00e1veis, a pr\u00f3pria<br \/>\ntia Albergaria, dan\u00e7avam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos.<br \/>\nCom as como\u00e7\u00f5es deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar<br \/>\nda mala, j\u00e1 se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande<br \/>\nport\u00e3o, pisei, ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente<br \/>\nme pareceu que todos esses cinco anos eu ali permanecera \u00e0 porta do<br \/>\nGrand-Hotel, t\u00e3o estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar<br \/>\nda cidade, e as magras \u00e1rvores, e as grossas tabuletas, e os imensos<br \/>\nchap\u00e9us emplumados sobre tran\u00e7as pintadas de amarelo, e as empertigadas<br \/>\nsobrecasacas com grossas rosetas da legi\u00e3o de honra, e os garotos,<br \/>\nem voz rouca e baixa, oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de f\u00f3sforos<br \/>\nobscenas&#8230; Santo Deus! Pensei, h\u00e1 que anos eu estou em Paris! Comprei,<br \/>\nent\u00e3o, num quiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que ele me contasse,<br \/>\ndurante o almo\u00e7o, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia,<br \/>\ndurante o almo\u00e7o, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia,<br \/>\nalastrada de jornais ilustrados: &#8211; e em todos se repetia a mesma mulher, sempre<br \/>\nnua, ou meio despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta, ora<br \/>\nvoltando para o Leitor duas tremendas n\u00e1degas&#8230; Eu outra vez murmurei:<br \/>\n&#8211; Santo Deus! No caf\u00e9 da Paz, o criado l\u00edvido, e com um resto<br \/>\nde p\u00f3-de-arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao meu apetite, p\u00f4r<br \/>\nser t\u00e3o tarde, um linguado frito e uma costeleta.<\/p>\n<p>-E que vinho, Sr.Conde?<\/p>\n<p>-Chablis, Sr. Duque!<\/p>\n<p>Ele sorriu \u00e0 minha deliciosa coluna, atrav\u00e9s duma prosa muito<br \/>\nretorcida, toda em brilhos de j\u00f3ia barata, entrevi uma Princesa nua,<br \/>\ne um Capit\u00e3o de Drag\u00f5es, que solu\u00e7ava. Saltei a outras<br \/>\ncolunas, onde se contavam feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra p\u00e1gina<br \/>\nescritores eloq\u00fcentes celebravam vinhos digestivos e t\u00f4nicos. Depois<br \/>\neram os crimes do costume. &#8211; N\u00e3o h\u00e1 nada de novo! Pus de parte<br \/>\na Voz de Paris &#8211; e ent\u00e3o foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa.<br \/>\nO miser\u00e1vel, que se frigira rancorosamente contra mim, n\u00e3o consentia<br \/>\nque eu descolasse da sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira<br \/>\nnuma sola impenetr\u00e1vel e tostada, onde a faca vergava, impotente e<br \/>\ntr\u00eamula. Gritei pelo mo\u00e7o l\u00edvido, o qual, com faca mais<br \/>\nrija, fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim \u00e0quele<br \/>\nmalvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me<br \/>\nesfomearam. Duma garfada findei a costela. E paguei quinze francos com um<br \/>\nbom lu\u00eds de ouro. No troco, que o mo\u00e7o me deu, com a polidez<br \/>\nrequintada duma civiliza\u00e7\u00e3o muito difundida, havia dois francos<br \/>\nfalsos. E p\u00f4r aquela doce tarde de Maio sa\u00ed para tomar no terra\u00e7o<br \/>\num caf\u00e9 cor de chap\u00e9u-coco, que sabia a fava.<\/p>\n<p>Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, \u00e0quela hora em toda a<br \/>\npressa e estritor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos \u00f4nibus,<br \/>\ncalhambeques, carro\u00e7as, parelhas de luxo, rolava vivamente, como toda<br \/>\numa escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta.<br \/>\nAquele movimento continuado e rude bem depressa entonteceu este esp\u00edrito,<br \/>\np\u00f4r cinco anos afeito \u00e0 quieta\u00e7\u00e3o das serras imut\u00e1veis.<br \/>\nTentava ent\u00e3o, puerilmente, repousar nalguma forma im\u00f3vel, \u00f4nibus<br \/>\nparado, fiacre que estacara num brusco escorregar da pileca; mas logo algum<br \/>\ndorso apressado se encafuava pela portinhola da tip\u00f3ia, ou um cacho<br \/>\nde figuras escuras trepava sofregamente para o \u00f4nibus: &#8211; e, recome\u00e7ava<br \/>\no rolar retumbante . Im\u00f3veis, decerto, estavam os altos pr\u00e9dios<br \/>\nhirtos, ribas de pedra e cal, que continham, disciplinavam, aquela torrente<br \/>\nofegante. Mas da rua aos telhados, em cada varanda, p\u00f4r toda a fachada,<br \/>\neram tabuletas encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam: &#8211; e mais<br \/>\nme cansava o perceber a tenaz incess\u00e2ncia do trabalho latente, a devorante<br \/>\ncanseira do lucro, arquejante p\u00f4r tr\u00e1s das frontarias decorosas<br \/>\ne mudas. Ent\u00e3o, enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram<br \/>\nde mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentara no meio da Natureza,<br \/>\ne que tanto me divertiam. Ali, \u00e0 porta do caf\u00e9, entre a indiferen\u00e7a<br \/>\ne a pressa da Cidade, tamb\u00e9m eu senti, como no Campo, a vaga tristeza<br \/>\nda minha fragilidade e da minha solid\u00e3o Bem certamente estava ali como<br \/>\nperdido num mundo, que n\u00e3o era fraternal. Quem me conhecia? Quem se<br \/>\ninteressaria p\u00f4r Z\u00e9 Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,<br \/>\nningu\u00e9m me daria metade do seu p\u00e3o. P\u00f4r mais aflitamente<br \/>\nque a minha face revelasse uma ang\u00fastia, ningu\u00e9m na sua pressa<br \/>\npararia para me consolar. De que me serviriam tamb\u00e9m as excel\u00eancias<br \/>\nda alma, que s\u00f3 na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba<br \/>\nn\u00e3o se importaria com a minha santidade; e se eu abrisse os bra\u00e7os<br \/>\ne gritasse, ali no Boulevard &#8211; \u201c oh homens, mais ferozes que o lobo<br \/>\nante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois impulsos<br \/>\n\u00fanicos, correspondendo a duas fun\u00e7\u00f5es \u00fanicas,<br \/>\nparecia estarem vivos naquela multid\u00e3o &#8211; o lucro e o gozo. Isolada<br \/>\nentre eles, e ao cont\u00e1gio ambiente da sua influ\u00eancia, em breve<br \/>\na minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de Ego\u00edsmo.<br \/>\nDo ser que eu trouxera da Serra s\u00f3 restaria em pouco tempo esse calhau,<br \/>\ne nele, vivos, os dois apetites da cidade &#8211; encher a bolsa, saciar a carne!<br \/>\nE pouco a pouco as mesmas exagera\u00e7\u00f5es de Jacinto perante a Natureza<br \/>\nme invadiam perante a cidade. Aquele Boulevard re\u00e7umava para mim um<br \/>\nbafo mortal, extra\u00eddo dos seus milh\u00f5es de micr\u00f3bios.<br \/>\nDe cada porta me parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face avistada<br \/>\n\u00e0 portinhola dum fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as<br \/>\nmulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo s\u00f3 podrid\u00e3o<br \/>\np\u00f4r dentro. E considerava duma melancolia funambulesca as formas de<br \/>\ntoda aquela Multid\u00e3o, a sua pressa \u00e1spera e v\u00e3, a afeta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas atitudes, as imensas plumas das chapeletas, as express\u00f5es posti\u00e7as<br \/>\ne falsas, a pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando<br \/>\nas imagens obscenas da vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, quase c\u00f4mico<br \/>\nda minha parte, mas \u00e9 o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade<br \/>\nde mergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta da<br \/>\nCidade, e eu ressurgisse humano, e Z\u00e9 Fernandico!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para dissipar aquele pesadume de solid\u00e3o, paguei o caf\u00e9<br \/>\ne parti, lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da esta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos \u00f4nibus, pensei: &#8211; Que ser\u00e1 feito de Madame Colombe? E, oh<br \/>\nmis\u00e9ria! Pelo meu miser\u00e1vel ser subiu uma curta e quente baforada<br \/>\nde desejo bruto p\u00f4r aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu<br \/>\nme envenenara, e que me envolvia nas emana\u00e7\u00f5es sutis do seu<br \/>\nveneno. Depois, ao dobrar da rue Royale para a pra\u00e7a da Conc\u00f3rdia,<br \/>\ntopei com um robusto e possante homem, que estacou, ergueu o bra\u00e7o,<br \/>\nergueu o vozeir\u00e3o, num modo de comando:<\/p>\n<p>-Eh, Fernandes!<\/p>\n<p>O Gr\u00e3o-Duque! O belo Gr\u00e3o-Duque, de jaquet\u00e3o alvadio<br \/>\ne chap\u00e9u tirol\u00eas cor de mel! Apertei com gratid\u00e3o reverente<br \/>\na m\u00e3o do Pr\u00edncipe, que me reconhecera.<\/p>\n<p>-E Jacinto? Em Paris?&#8230;<\/p>\n<p>Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a Natureza,<br \/>\na minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia \u00e0s cavaleiras.<br \/>\nO Gr\u00e3o-Duque encolheu os ombros, desolado:<\/p>\n<p>-\u00d3 l\u00e1, l\u00e1, l\u00e1!&#8230; Peuh! Casado, na aldeia, com<br \/>\nfilharada&#8230; Homem perdido! Ora n\u00e3o h\u00e1!&#8230; E um rapaz \u00fatil!<br \/>\nQue nos divertia, e tinha gosto! Aquele Jantar cor-de-rosa foi uma festa linda&#8230;<br \/>\nN\u00e3o se fez, n\u00e3o se tornou a fazer nada t\u00e3o brilhante<br \/>\nem Paris&#8230; E Madame de Oriol&#8230; Ainda h\u00e1 dias a vi no Pal\u00e1cio<br \/>\nde Gelo&#8230; Pot\u00e1vel, mulher ainda muito pot\u00e1vel&#8230; N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 todavia o meu g\u00eanero&#8230; adocicada, leitosa, pomadada, neve<br \/>\n\u00e0 la vanile&#8230; Ora esse Jacinto!&#8230;<\/p>\n<p>-E vossa Alteza, em Paris, com demora?<\/p>\n<p>O formid\u00e1vel homem baixou a face, franzida e confidencial:<\/p>\n<p>-Nenhuma. Paris n\u00e3o se ag\u00fcenta&#8230; est\u00e1, estragado, positivamente<br \/>\nestragado&#8230;Nem se come! Agora \u00e9 o Ernest, da Pra\u00e7a Gailon,<br \/>\no Ernest, que era ma\u00eetre-d\u2019hotel do Maire&#8230; J\u00e1 l\u00e1<br \/>\ncomeu? Um horror. Tudo \u00e9 o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest.<br \/>\nQual! Ainda esta manh\u00e3 l\u00e1 almocei&#8230; Um horror! Uma salada Chambord&#8230;<br \/>\npalhada! N\u00e3o tem a no\u00e7\u00e3o da salada! Paris foi! Teatros,<br \/>\numa estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. N\u00e3o h\u00e1 nada! Ainda<br \/>\nassim, num dos teatritos de Montmartre, na Roulotte, est\u00e1 uma revista,<br \/>\nque se v\u00ea: Para c\u00e1 as mulheres! &#8211; engra\u00e7ada, bem despida&#8230;<br \/>\nA Celestine tem uma cantiga, meio sentimental, meio porca, o Amor no Water-Closet,<br \/>\nque diverte, tem topete&#8230; Onde est\u00e1, Fernandes?<\/p>\n<p>-No Grand-Hotel, meu senhor.<\/p>\n<p>-Que barraca!&#8230; E o seu Rei sempre bom?<\/p>\n<p>Curvei a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>-Sua Majestade, bem.<\/p>\n<p>-Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer&#8230; Esse Jacinto \u00e9 que me desola!<br \/>\nV\u00e1 ver a Revista&#8230; Boas pernas, a Celestine&#8230; E tem gra\u00e7a<br \/>\no tal Amor no Water-Closet.<\/p>\n<p>Um rij\u00edssimo aperto de m\u00e3o &#8211; e S. Alteza subiu pesadamente<br \/>\npara a vit\u00f3ria, ainda com um aceno am\u00e1vel, que me penhorou&#8230;<br \/>\nExcelente homem, este Gr\u00e3o-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei<br \/>\npara os Campos El\u00edsios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda<br \/>\nverde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, veloc\u00edpedes.<br \/>\nParei a contemplar aquela fealdade nova, estes inumer\u00e1veis espinha\u00e7os<br \/>\narqueados, e g\u00e2mbias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas<br \/>\nrodas. Velhos gordos, de cacha\u00e7o escarlate, pedalavam, gordamente.<br \/>\nGalfarros, esguios, de t\u00edbias descarnadas, fugiam numa linha esfuziada.<br \/>\nE as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cal\u00e7\u00f5es bufantes,<br \/>\ngiravam, mais rapidamente ainda, no prazer equ\u00edvoco da carreira, escarranchadas<br \/>\nem hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas m\u00e1quinas passavam,<br \/>\nvit\u00f3rias e faetontes a vapor, com uma complica\u00e7\u00e3o de<br \/>\ntubos e caldeiras, torneiras e chamin\u00e9s, rolando numa trepida\u00e7\u00e3o<br \/>\nestridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petr\u00f3leo. Segui<br \/>\npara o 202, pensando no que diria um grego do tempo de F\u00eddias, se visse<br \/>\nesta nova beleza e gra\u00e7a do caminhar humano!&#8230;<\/p>\n<p>No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma alegria<br \/>\nenternecedora. N\u00e3o se fartou de saber do casamento de Jacinto, e daqueles<br \/>\nqueridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu aparecesse, justamente<br \/>\nquando tudo se andara limpando para a entrada da Primavera. Quando penetrei<br \/>\nna amada casa senti vivamente a minha solid\u00e3o. N\u00e3o restava em<br \/>\ntoda ela nem um dos costumados aspectos que fizessem reviver a velha camaradagem<br \/>\ncom o meu Pr\u00edncipe. Logo na antec\u00e2mara grandes lonas cobriam<br \/>\nas tape\u00e7arias her\u00f3icas, e igual lona escondia os estofos das<br \/>\ncadeiras e dos muros, e as largas estantes de \u00e9bano da Biblioteca,<br \/>\nonde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados como doutores num Conc\u00edlio,<br \/>\npareciam separados do mundo p\u00f4r aquele pano que sobre eles descera depois<br \/>\nde finda a com\u00e9dia da sua for\u00e7a e da sua autoridade. No gabinete<br \/>\nde Jacinto, de sobre a mesa de escrita, desaparecera aquela confus\u00e3o<br \/>\nde instrumentozinhos, de que eu perdera j\u00e1 a mem\u00f3ria; e s\u00f3<br \/>\na Mec\u00e2nica suntuosa, p\u00f4r sobre peanhas e pedestais, recentemente<br \/>\nespanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezes de metais,<br \/>\nnuma frieza inerte, na inatividade definitiva das coisas desusadas, como j\u00e1<br \/>\ndispostas num Museu, para exemplificar a instrumenta\u00e7\u00e3o caduca<br \/>\ndum mundo passado. Tentei mover o telefone, que se n\u00e3o moveu; a mola<br \/>\nda eletricidade n\u00e3o acendeu nenhum lume: todas as for\u00e7as universais<br \/>\ntinham abandonado o servi\u00e7o do 202, como servos despedidos. E ent\u00e3o,<br \/>\npasseando atrav\u00e9s das salas, realmente me pareceu que percorria um<br \/>\nmuseu de antig\u00fcidades; e que mais tarde outros homens, com uma compreens\u00e3o<br \/>\nmais pura e exata da vida e da Felicidade, percorreriam, como eu, longas salas,<br \/>\natulhadas com os instrumentos da superciviliza\u00e7\u00e3o, e, como eu,<br \/>\nencolheriam desdenhosamente os ombros ante a grande Ilus\u00e3o que findara,<br \/>\nagora para sempre in\u00fatil, arrumada como um lixo hist\u00f3rico, guardado<br \/>\ndebaixo da lona.<\/p>\n<p>Quando sa\u00ed do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas<br \/>\nrolara momentos pela Avenida das Ac\u00e1cias, no sil\u00eancio decoroso,<br \/>\nunicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando<br \/>\na areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso,<br \/>\no mesmo p\u00f3-de-arroz, as mesmas p\u00e1lpebras amortecidas, os mesmos<br \/>\nolhos farejantes, a mesma imobilidade de cera! O romancista da Coura\u00e7a<br \/>\npassou numa vit\u00f3ria, fixou em mim o mon\u00f3culo defumado, mas permaneceu<br \/>\nindiferente. Os band\u00f3s negros de Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas,<br \/>\npareciam ainda mais furiosamente negros entre a harmonia de todo o branco<br \/>\nque a vestia, chap\u00e9u, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu<br \/>\npeito imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as Ac\u00e1cias,<br \/>\nespapado em duas cadeiras, o diretor do Boulevard mamava o resto de seu charuto.<br \/>\nE num landau, Madame de Tr\u00e8ves continuava o seu sorriso de h\u00e1<br \/>\ncinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos dos l\u00e1bios secos.<\/p>\n<p>Abalei para o Grand-Hotel, bocejando &#8211; como outrora Jacinto. E findei o meu<br \/>\ndia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma com\u00e9dia<br \/>\nmuito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo parisianismo, em que<br \/>\ntodo o enredo se enrodilhava \u00e0 volta duma Cama, onde alternadamente<br \/>\nse espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com<br \/>\npapas de linha\u00e7a nas n\u00e1degas, cozinheiras de meias de seda bordadas,<br \/>\ne ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a esfuziar de cio e de pilh\u00e9ria.<br \/>\nTomei um ch\u00e1 melanc\u00f3lico no Julien, no meio de um \u00e1spero<br \/>\ne l\u00fagubre namoro de prostitutas, fariscando a presa. Em duas delas,<br \/>\nde pele oleosa e cobreada, olhos obl\u00edquos, cabelos duros e negros como<br \/>\ncrinas, senti o Oriente, a sua provoca\u00e7\u00e3o felina&#8230; Interroguei<br \/>\no criado, um medonho ser, duma obesidade balofa e l\u00edvida, de eunuco.<br \/>\nO monstro explicou numa voz roufenha e surda:<\/p>\n<p>-Mulheres de Madag\u00e1scar&#8230; Foram importadas quando a Fran\u00e7a<br \/>\nocupou a ilha!<\/p>\n<p>Arrastei ent\u00e3o p\u00f4r Paris dias de imenso t\u00e9dio. Ao longo<br \/>\ndo Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que j\u00e1 me enfartara havia<br \/>\ncinco anos, sem uma gra\u00e7a nova, uma curta frescura de inven\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos,<br \/>\nonde, de cada p\u00e1gina que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno<br \/>\nde alcova, e de p\u00f3s-de-arroz, entre linhas trabalhadas com efeminado<br \/>\narrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava,<br \/>\nornando e disfar\u00e7ando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores<br \/>\ne sabores de pomada, que j\u00e1 de manh\u00e3, noutro restaurante, espelhado<br \/>\ne dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei p\u00f4r grossos pre\u00e7os<br \/>\ngarrafas do nosso adstringente e r\u00fastico vinho de Torres, enobrecido<br \/>\ncom o t\u00edtulo de Ch\u00e2teau isto, Ch\u00e2teau aquilo, e p\u00f3<br \/>\nposti\u00e7o no gargalo. \u00c0 noite, nos teatros, encontrava a Cama,<br \/>\na costumada cama, como centro e \u00fanico fim da vida, atraindo, mais fortemente<br \/>\nque o monturo atrai os moscardos, todo um enxame de gentes estonteadas, frementes<br \/>\nde erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Plan\u00edcie me<br \/>\nlevou a procurar melhor aragem de esp\u00edrito nas alturas da Colina, em<br \/>\nMontmartre; e a\u00ed, no meio duma multid\u00e3o elegante de Senhoras,<br \/>\nde Duquesas, de Generais, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do<br \/>\nalto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo<br \/>\nas orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com del\u00edcia os corpetes<br \/>\nde Worms e de Doucet, sobre os peitos posti\u00e7os das nobres damas. E<br \/>\nrecolhia enjoado com tanto relento de alcova, vagamente disp\u00e9ptico<br \/>\ncom os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, p\u00f4r<br \/>\nme n\u00e3o divertir, n\u00e3o compreender a Cidade, e errar atrav\u00e9s<br \/>\ndela e da sua Civiliza\u00e7\u00e3o Superior, com a reserva rid\u00edcula<br \/>\ndum Censor, dum Cat\u00e3o austero. \u00d3 senhores! &#8211; pensava &#8211; pois<br \/>\neu n\u00e3o me divertirei nesta deliciosa cidade? Entrar\u00e1 comigo<br \/>\no bolor da velhice?<\/p>\n<p>Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei<br \/>\nno meu doce bairro Latino, evoquei, diante de certos caf\u00e9s, a mem\u00f3ria<br \/>\nda minha Nini; e, como outrora, pregui\u00e7osamente, subi as escadas da<br \/>\nSorbona. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, um homem magro,<br \/>\ncom uma testa muito branca e larga, como talhada para alojar pensamentos altos<br \/>\ne puros, ensinava, falando das institui\u00e7\u00f5es da Cidade Antiga.<br \/>\nMas, mal eu entrara, o seu dizer elegante e l\u00edmpido foi sufocado p\u00f4r<br \/>\ngritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de tro\u00e7a bestial, que<br \/>\nsa\u00eda da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera<br \/>\nsagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor parou, espalhando em redor<br \/>\num olhar frio, e remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou<br \/>\nem sussurro desconfiado, ele recome\u00e7ou com alta serenidade. Todas as<br \/>\nsuas id\u00e9ias eram frias e substanciais, expressas numa l\u00edngua<br \/>\npura e forte, mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos,<br \/>\nrelinchos, cacarejos de galo, p\u00f4r entre magras m\u00e3os, que se estendiam<br \/>\nlevantadas para estrangular as id\u00e9ias. Ao meu lado um velho, encolhido<br \/>\nna alta gola dum macfarlane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia,<br \/>\npingando endefluxado. Perguntei ao velho:<\/p>\n<p>-Que querem eles? \u00c9 embirra\u00e7\u00e3o com o professor&#8230; \u00e9<br \/>\npol\u00edtica?<\/p>\n<p>O velho abanou a cabe\u00e7a, espirrando:<\/p>\n<p>-N\u00e3o&#8230; \u00c9 sempre assim, agora, em todos os cursos&#8230; N\u00e3o<br \/>\nquerem id\u00e9ias&#8230; Creio que queriam can\u00e7onetas. \u00c9 o amor<br \/>\nda porcaria e da tro\u00e7a.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, indignado, berrei:<\/p>\n<p>-Sil\u00eancio, brutos!<\/p>\n<p>E eis que um abortozinho de rapaz, amarelado e sebento, de longas melenas,<br \/>\numas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me berra:<\/p>\n<p>-Sale Maure!3<\/p>\n<p>Ergui o meu grosso punho serrano &#8211; e o desgra\u00e7ado, numa confus\u00e3o<br \/>\nde melenas, com sangue p\u00f4r toda a face, aluiu, como um mont\u00e3o<br \/>\nde trapos moles, ganindo desesperadamente, enquanto o furac\u00e3o de uivos<br \/>\ne cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os bra\u00e7os,<br \/>\nesperando, com uma serenidade simples.<\/p>\n<p>Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o \u00fanico<br \/>\ndia alegre e divertido que nela passei foi o derradeiro, comprando para os<br \/>\nmeus queridinhos de Tormes brinquedos consider\u00e1veis, tremendamente<br \/>\ncomplicados pela Civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; vapores de a\u00e7o e cobre,<br \/>\nprovidos de caldeiras para viajar em tanques; le\u00f5es de pele ver\u00eddica<br \/>\nrugindo pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferri\u00e8re, com fon\u00f3grafo<br \/>\nno ventre&#8230;<\/p>\n<p>Finalmente abalei uma tarde, depois de lan\u00e7ar da minha janela, sobre<br \/>\no Boulevard, as minhas despedidas \u00e0 Cidade:<\/p>\n<p>-Pois adeuzinho, at\u00e9 nunca mais! Na lama do teu v\u00edcio e na<br \/>\npoeira da tua vaidade, outra vez, n\u00e3o me pilhas! O que tens de bom,<br \/>\nque \u00e9 o teu g\u00eanio, elegante e claro, l\u00e1 o receberei na<br \/>\nSerra pelo correio. Adeuzinho!<\/p>\n<p>Na tarde do seguinte Domingo, debru\u00e7ado da janela do comboio, que<br \/>\nvagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num sil\u00eancio todo feito<br \/>\nde azul e sol, avistei, na plataforma da quieta esta\u00e7\u00e3o da minha<br \/>\naldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha,<br \/>\narregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava uma<br \/>\nbandeira branca. O alvoro\u00e7o ditoso com que abracei e beijei aquela<br \/>\ntribo bem-amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo duma guerra distante,<br \/>\nna Tart\u00e1ria. Na alegria de recuperar a Serra, at\u00e9 beijoquei<br \/>\no chefe Pimentinha, que a estalar de obesidade se a\u00e7odava gritando<br \/>\nao carregador todo o cuidado com as minhas malas.<\/p>\n<p>Jacinto, magn\u00edfico, de grande chap\u00e9u serrano e jaqueta, de<br \/>\nnovo me abra\u00e7ou:<\/p>\n<p>-E esse Paris?<\/p>\n<p>-Medonho!<\/p>\n<p>Abri depois os bra\u00e7os para o bravo Jacintinho.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o para que \u00e9 essa bandeira, meu cavaleiro?<\/p>\n<p>-\u00c9 a bandeira do Castelo! &#8211; declarou ele com uma bela seriedade nos<br \/>\nseus grandes olhos.<\/p>\n<p>A m\u00e3e ria. Desde essa manh\u00e3, logo que soubera da chegada do<br \/>\nTi-Z\u00e9, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e n\u00e3o a largara<br \/>\nmais; com ela almo\u00e7ara, com ela descera de Tormes!<\/p>\n<p>Bravo! E, prima Joaninha, olhe que est\u00e1 magn\u00edfica! Eu, tamb\u00e9m,<br \/>\nvenho daquelas peles meladas de Paris&#8230; Mas acho-a triunfal! E o tio Adri\u00e3o,<br \/>\ne a tia Vic\u00eancia?<\/p>\n<p>-Tudo \u00f3timo! &#8211; gritou Jacinto. &#8211; A serra, Deus louvado, prospera.<br \/>\nE agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No largo p\u00f4r tr\u00e1s da esta\u00e7\u00e3o, debaixo dos eucaliptos,<br \/>\nque revi com gosto, esperavam os tr\u00eas cavalos, e dois belos burros brancos,<br \/>\num com cadeirinha para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter dentro<br \/>\no her\u00f3ico Jacintinho, um e outro servidos \u00e0 estribeira, p\u00f4r<br \/>\num criado. Eu ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu<br \/>\ncom um ma\u00e7o de jornais e pap\u00e9is, que eu esquecera na carruagem.<br \/>\nEra uma papelada, de que me sortira na Esta\u00e7\u00e3o de Orle\u00e3es<br \/>\ntoda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de<br \/>\nerotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo:<\/p>\n<p>-Deita isso fora!<\/p>\n<p>E eu atirei, para um mont\u00e3o de lixo, ao canto do p\u00e1tio, aquele<br \/>\np\u00fatrido rebotalho da Civiliza\u00e7\u00e3o. E montei. Mas ao dobrar<br \/>\npara o caminho empinado da Serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta,<br \/>\nde quem me esquecera. O digno chefe, debru\u00e7ado sobre o monturo, apanhava,<br \/>\nsacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de Paris,<br \/>\ncontavam as del\u00edcias de Paris, derramavam atrav\u00e9s do mundo a<br \/>\nsedu\u00e7\u00e3o de Paris.<\/p>\n<p>Em fila come\u00e7amos a subir para a Serra. A tarde ado\u00e7ava o seu<br \/>\nesplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores<br \/>\nsilvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas<br \/>\nfolhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoro\u00e7o<br \/>\nde alegria e de louvor. As \u00e1guas correntes, saltantes, luzidias, despediam<br \/>\num brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidra\u00e7as distantes de<br \/>\ncasas am\u00e1veis flamejavam com um fulgor de ouro. A Serra toda se ofertava,<br \/>\nna sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, p\u00f4r<br \/>\nentre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho n\u00e3o<br \/>\nlargava, de dentro do seu cesto, com a haste bem segura na m\u00e3o. Era<br \/>\na bandeira do Castelo, afirmara ele.<\/p>\n<p>E na verdade me parecia que, p\u00f4r aqueles caminhos, atrav\u00e9s<br \/>\nda natureza campestre e mansa &#8211; o meu Pr\u00edncipe, atrigueirado nas soalheiras<br \/>\ne nos ventos da Serra, a minha prima Joaninha, t\u00e3o doce e risonha Sale<br \/>\nMaure! : Mouro imundo! M\u00e3e, os dois primeiros representantes da sua<br \/>\naben\u00e7oada tribo, e eu &#8211; t\u00e3o longe de amarguradas ilus\u00f5es<br \/>\ne de falsas del\u00edcias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez,<br \/>\ncom a alma contente, e Deus contente de n\u00f3s, serenamente e seguramente<br \/>\nsub\u00edamos &#8211; para o Castelo do Gr\u00e3-Ventura!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Advert\u00eancia Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV &nbsp; I &#8211; Advert\u00eancia Desde a p\u00e1gina 126, at\u00e9 o final, as provas deste livro n\u00e3o foram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95450","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Cidade e as Serras - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro A Cidade e as Serras - E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Cidade e as Serras - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro, Obra Liter\u00e1ria, Bucolismo, Jacinto Gali\u00e3o, Jos\u00e9 Fernandes, A Cidade e as Serras - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Cidade e as Serras - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro A Cidade e as Serras - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A Cidade e as Serras - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro, Obra Liter\u00e1ria, Bucolismo, Jacinto Gali\u00e3o, Jos\u00e9 Fernandes, A Cidade e as Serras - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-cidade-e-as-serras-eca-de-queiros\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-18T13:50:33+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2017-01-18T14:15:34+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"374 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-cidade-e-as-serras-eca-de-queiros#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-cidade-e-as-serras-eca-de-queiros\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"A Cidade e as Serras &#8211; 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