{"id":95446,"date":"2017-01-18T11:21:57","date_gmt":"2017-01-18T13:21:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95446"},"modified":"2017-01-18T11:21:57","modified_gmt":"2017-01-18T13:21:57","slug":"um-poeta-lirico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-poeta-lirico","title":{"rendered":"Um Poeta L\u00edrico"},"content":{"rendered":"<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">AQUI est\u00e1, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a hist\u00f3ria triste do poeta Korriscosso. De todos os poetas l\u00edricos de que tenho not\u00edcia, \u00e9 este, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross, uma madrugada regelada de Dezembro. Tinha eu chegado ao continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha&#8230; Ah! Que mar! E era s\u00f3 uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontr\u00f5es &#8211; parecia-me um tuf\u00e3o dos mares da China&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fog\u00e3o do peristilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate&#8230; E foi ent\u00e3o que vi aquela figura esguia e longa, j\u00e1 de casaca e gravata branca, que do outro lado da chamin\u00e9, de p\u00e9, com a taciturna tristeza duma cegonha que cisma, olhava tamb\u00e9m os carv\u00f5es ardentes, com um guardanapo no bra\u00e7o. Mas o porteiro tinha rolado a minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao bureau. A guarda-livros, tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu croch\u00ea ao lado da sua ch\u00e1vena de ch\u00e1, acariciou com um gosto doce os dois band\u00f3s louros, assentou corretamente o meu nome, de dedinho no ar, fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria, &#8211; quando a figura magra e fatal se dobrou num \u00e2ngulo, e murmurou-me num ingl\u00eas silabado:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; J\u00e1 est\u00e1 servido o almo\u00e7o das sete&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eu n\u00e3o queria o almo\u00e7o das sete. Fui dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais tarde, j\u00e1 repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante para o lunch, avistei logo, plantado melancolicamente ao p\u00e9 da larga janela, o indiv\u00edduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz parda: os fog\u00f5es flamejavam; e fora, no sil\u00eancio do domingo, nas ruas mudas, a neve ca\u00eda sem cessar dum c\u00e9u amarelento e ba\u00e7o. Eu via apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma express\u00e3o t\u00e3o evidente de desalento, que me interessei por aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, ca\u00eddo sobre a gola da casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na sensa\u00e7\u00e3o daquele sil\u00eancio l\u00edvido&#8230; Chamei-o. Quando ele se voltou, a sua fisionomia, que apenas entrevira na v\u00e9spera, impressionou-me: era um car\u00e3o longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e frisada de Cristo em estampa rom\u00e2ntica; a testa era destas que, em boa literatura, se chama, creio eu, fronte: era larga e era lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecis\u00e3o de sonho nadando num fluido enternecido&#8230; E que magreza! Quando andava, a cal\u00e7a curta torcia-se em torno da canela como pregas de bandeira em torno dum mastro: a casaca tinha dobras de t\u00fanica ampla; as duas abas compridas e agudas eram desgra\u00e7adamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almo\u00e7o, sem me olhar, num t\u00e9dio resignado: arrastou-se para o comptoir onde o ma\u00eetre d\u2019hotel lia a B\u00edblia, passou a m\u00e3o pela testa com um gesto errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00famero 307. Duas costeletas. Ch\u00e1&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ma\u00eetre d\u2019hotel afastou a B\u00edblia, inscreveu o menu &#8211; e eu acomodei-me \u00e0 mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para almo\u00e7ar comigo &#8211; porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem jornais e sem p\u00e3o fresco. Fora continuava a nevar sobre a cidade muda. A uma mesa distante, um velho cor de tijolo e todo branco de cabelo e de su\u00ed\u00e7as, que acabara de almo\u00e7ar, dormitava de m\u00e3os no ventre, boca aberta e luneta na ponta do nariz. E o \u00fanico som vinha da rua, uma voz gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que \u00e0 esquina defronte garganteava um salmo&#8230; Um domingo de Londres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi o magro que me trouxe o almo\u00e7o &#8211; e apenas ele se aproximou, com o servi\u00e7o do ch\u00e1, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas m\u00e3os o tinha interessado e impressionado; foi um olhar r\u00e1pido, gulosamente fixado na p\u00e1gina aberta, um estremecimento quase impercept\u00edvel &#8211; emo\u00e7\u00e3o fugitiva, decerto, porque depois de ter pousado o servi\u00e7o, rodou sobre os calcanhares e foi plantar-se, melanc\u00f2licamente, \u00e0 janela, de olho triste e posto na neve triste. Eu atribu\u00ed aquele movimento curioso ao esplendor da encaderna\u00e7\u00e3o do volume, que eram os Id\u00edlios de El-Rei, em marroquim negro, com o escudo de armas de Lan\u00e7arote do Lago &#8211; o pelicano de ouro sobre um mar de sinopla.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa noite parti no expresso para a Esc\u00f3cia, e ainda n\u00e3o tinha passado Iorque, adormecida na sua gravidade episcopal, j\u00e1 me esquecera o criado romanesco do restaurante de Charing-Cross. Foi s\u00f3 da\u00ed a um m\u00eas, ao voltar a Londres, que entrando no restaurante, e revendo aquela figura lenta e fatal atravessar com um prato de rosbife numa das m\u00e3os e na outra um pudim de batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa noite mesmo tive a singular felicidade de saber o seu nome e de entrever um fragmento do seu passado. Era j\u00e1 tarde e eu voltava do Covent-Garden, quando no peristilo do hotel encontrei, majestoso e pr\u00f3spero, o meu amigo Bracolletti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o conhecem Bracolletti? A sua presen\u00e7a \u00e9 formid\u00e1vel; tem a amplid\u00e3o pan\u00e7uda, o negro cerrado da barba, a lentid\u00e3o, o cerimonial dum pax\u00e1 gordo. Mas esta ponderosa gravidade turca \u00e9 temperada, em Bracolletti, pelo sorriso e pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar o dos animais da S\u00edria: \u00e9 o mesmo enternecimento. Parece errar no seu fluido macio a religiosidade meiga das ra\u00e7as que d\u00e3o os Messias&#8230; Mas o sorriso! O sorriso de Bracolletti \u00e9 a mais completa, a mais perfeita, a mais rica das express\u00f5es humanas; h\u00e1 finura, inoc\u00eancia, bonomia, abandono, ironia doce, persuas\u00e3o, naqueles dois l\u00e1bios que se descerram e que deixam brilhar um esmalte de dentes de virgem!&#8230; Ah! Mas tamb\u00e9m este sorriso \u00e9 a fortuna de Bracolletti.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moralmente, Bracolletti \u00e9 um h\u00e1bil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; \u00e9 tudo o que ele revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu passado, o bom grego rola um momento a cabe\u00e7a de ombro a ombro, esconde sob as p\u00e1lpebras cerradas com bonomia o seu olho maometano, desabrocha o sorriso duma do\u00e7ura de tentar abelhas, e murmura, como afogado em bondade e em enternecimento:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nNada mais. Parece, por\u00e9m, que viajou &#8211; porque conhece o Peru, a Crim\u00e9ia, o Cabo da Boa Esperan\u00e7a, os pa\u00edses ex\u00f3ticos &#8211; t\u00e3o bem como Regent-Street: mas \u00e9 evidente para todos que a sua exist\u00eancia n\u00e3o foi tecida, como a dos vulgares aventureiros do Levante, de ouro e estopa, de esplendores e pelintrices: \u00e9 um gordo e, portanto, um prudente: o seu magn\u00edfico solit\u00e1rio nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jamais o surpreendeu sem uma peli\u00e7a de dois mil francos: e nunca deixa de ganhar, todas as semanas, no Fraternal Clube, de que \u00e9 um membro querido, dez libras ao whist. \u00c9 um forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tem uma debilidade. \u00c9 singularmente guloso de rapariguinhas de doze a catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o h\u00e1bito de praguejar. Coleciona-as pelos bairros pobres de Londres, com m\u00e9todo. Instala-as em casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola, metendo-lhes a papinha no bico, ouvindo-as palrar todo baboso, animando-as a que lhe roubem os xelins da algibeira, gozando o desenvolvimento dos v\u00edcios naquelas flores da lama de Londres, pondo-lhes ao alcance as garrafas de gin para que os anjinhos se embebedem; &#8211; e quando alguma, excitada de \u00e1lcool, de cabelo ao vento e face acesa, o injuria, o arrepela, baba obscenidades &#8211; o bom Bracolletti, encruzado no sof\u00e1, de m\u00e3os beatamente cruzadas na pan\u00e7a, o olhar afogado em \u00eaxtase, murmura no seu italiano da costa S\u00edria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Piccolina! Gentilletta!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer que o abracei, nessa noite, em Charing-Cross: e como nos n\u00e3o v\u00edamos h\u00e1 muito, fomos cear juntos ao restaurante. O criado triste l\u00e1 estava no seu comptoir, curvado sobre o Journal des D\u00e9bats. E apenas Bracolletti apareceu, na sua majestade de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a m\u00e3o; foi um shake-hands solene, enternecido e sincero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguid\u00e3o. Quis primeiro o nome do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Chama-se Korriscosso &#8211; disse-me Bracolletti, grave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quis depois a sua hist\u00f3ria. Mas Bracolletti, como os deuses da \u00c1tica que, nos seus embara\u00e7os no mundo, se recolhiam \u00e0 sua nuvem, Bracolletti refugiou-se na sua vaga retic\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eh! mon Dieu!&#8230; Eh! mon Dieu!\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, Bracolletti. Vejamos. Quero-lhe a hist\u00f3ria&#8230; Aquela face fatal e byroniana deve ter uma hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bracolletti ent\u00e3o tomou todo o ar c\u00e2ndido que lhe permitem a sua pan\u00e7a e as suas barbas &#8211; e confessou-me, deixando cair as frases \u00e0s gotas, que tinham viajado ambos na Bulg\u00e1ria e no Montenegro&#8230; Korriscosso foi seu secret\u00e1rio&#8230; Boa letra&#8230; Tempos dif\u00edceis&#8230; Eh! mon Dieu!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; De onde \u00e9 ele?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz, com um gesto repassado de desconsidera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 um grego de Atenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu interesse sumiu-se como a \u00e1gua que a areia absorve. Quando se tem viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se f\u00e0cilmente o h\u00e1bito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se v\u00eaem, sobretudo tendo uma educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e cl\u00e1ssica, o entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcib\u00edades e em Plat\u00e3o, nas gl\u00f3rias duma ra\u00e7a est\u00e9tica e livre, e perfilam-se na imagina\u00e7\u00e3o as linhas augustas do P\u00e1rtenon. Mas, depois de os ter freq\u00fcentado, \u00e0s mesas redondas e nos tombadilhos das Messageries, e principalmente depois de ter escutado a lenda de velhacaria que eles t\u00eam deixado desde Esmirna at\u00e9 T\u00fanis, os outros que se v\u00eaem provocam, apenas, estes movimentos: abotoar rapidamente o casaco, cruzar fortemente os bra\u00e7os sobre a cadeia do rel\u00f3gio e agu\u00e7ar o intelecto para recha\u00e7ar a escroquerie. A causa desta reputa\u00e7\u00e3o funesta \u00e9 que a gente grega, que emigra para as escalas do Levante, \u00e9 uma plebe torpe, parte pirata e parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade \u00e9 que, apenas soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson, na minha \u00faltima estada em Charing-Cross, me desaparecera do quarto, e recordei o olhar de gula e de presa que cravara nele Korriskosso&#8230; Era um bandido!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E durante a ceia n\u00e3o falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro criado, rubro, honesto e s\u00e3o. O l\u00fagubre Korriscosso n\u00e3o se afastou do comptoir, abismado no Journal des D\u00e9bats.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi&#8230; O hotel estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de Charing-Cross, numa complica\u00e7\u00e3o de corredores, escadas, recantos, \u00e2ngulos, onde \u00e9 quase necess\u00e1rio roteiro e b\u00fassola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De casti\u00e7al na m\u00e3o, penetrei num passadi\u00e7o onde corria um bafo morno de viela mal arejada. As portas a\u00ed n\u00e3o tinham n\u00fameros, mas pequenos cart\u00f5es colados onde estavam inscritos nomes: John, Smith, Charlie, Willie&#8230; Enfim, eram evidentemente as habita\u00e7\u00f5es dos criados. De uma porta aberta sa\u00eda a claridade de um bico de g\u00e1s; adiantei-me, e vi logo Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de pap\u00e9is, de testa pendida sobre a m\u00e3o, escrevendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pode-me indicar o caminho para o n\u00famero 508?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele ergueu para mim um olhar estremunhado e enevoado; parecia ressurgir de muito longe, de um outro universo; batia as p\u00e1lpebras, repetindo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; 508? 508?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi ent\u00e3o que eu avistei, sobre a mesa, entre pap\u00e9is, colarinhos sujos e um ros\u00e1rio &#8211; o meu volume de Tennyson! Ele viu o meu olhar, o bandido! e acusou-se todo numa vermelhid\u00e3o que lhe inundou a face chupada. O meu primeiro movimento foi n\u00e3o reconhecer o livro: como era um movimento bom, e obedecendo logo \u00e0 moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o; apontando o volume com um dedo severo, um dedo de Provid\u00eancia irritada, disse-lhe:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 o meu Tennyson&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nN\u00e3o sei que resposta ele tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado tamb\u00e9m pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego sentimental, acrescentei num tom repassado de perd\u00e3o e de justifica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Grande poeta, n\u00e3o \u00e9 verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se entusiasmou&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Korriscosso corou mais: mas n\u00e3o era o despeito humilhado do salteador surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua intelig\u00eancia, o seu gosto po\u00e9tico adivinhados &#8211; e de ter no corpo a casaca co\u00e7ada de criado de restaurante. N\u00e3o respondeu. Mas as p\u00e1ginas do volume, que eu abri, responderam por ele; a brancura das margens largas desaparecia sob uma rede de coment\u00e1rios a l\u00e1pis: Sublime! Grandioso! Divino! &#8211; palavras lan\u00e7adas numa letra convulsiva, num tremor de m\u00e3o, agitada por uma sensibilidade vibrante&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto Korriscosso permanecia de p\u00e9, respeitoso, culpado, de cabe\u00e7a baixa, com o la\u00e7o da gravata branca fugindo para o cacha\u00e7o. Pobre Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas tristezas de depend\u00eancia&#8230; Lembrei-me que nada impressiona o homem do Levante, como um gesto de drama e de palco; estendi-lhe ambas as m\u00e3os num movimento \u00e0 Talma, e disse-lhe:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu tamb\u00e9m sou poeta!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta frase extraordin\u00e1ria pareceria grotesca e impudente a um homem do Norte; o levantino viu logo nela a expans\u00e3o de uma alma irm\u00e3. Porque, n\u00e3o lhes disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel, eram estrofes: era uma ode.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua hist\u00f3ria &#8211; ou antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. \u00c9 t\u00e3o triste, que a condenso. De resto, havia na sua narra\u00e7\u00e3o lacunas de anos; &#8211; e eu n\u00e3o posso reconstituir com l\u00f3gica e seq\u00fc\u00eancia a hist\u00f3ria deste sentimental. Tudo \u00e9 vago e suspeito. Nasceu com efeito em Atenas; seu pai parece que era carregador no Pireu. Aos 18 anos, Korriscosso servia de criado a um m\u00e9dico, e nos intervalos do servi\u00e7o frequentava a Universidade de Atenas; estas coisas s\u00e3o frequentes l\u00e0-bas, como ele dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos dif\u00edceis, a ser um int\u00e9rprete de hotel. Desse tempo datam as suas primeiras elegias num seman\u00e1rio l\u00edrico, intitulado Ecos da \u00c1tica. A literatura levou-o diretamente \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es parlamentares. Uma paix\u00e3o, uma crise pat\u00e9tica, um marido brutal, amea\u00e7as de morte, for\u00e7am-no a expatriar-se. Viajou na Bulg\u00e1ria, foi em Salonica empregado numa sucursal do Banco Otomano, remeteu endechas dolorosas a um jornal da prov\u00edncia &#8211; a Trombeta da Arg\u00f3lida. Aqui h\u00e1 uma dessas lacunas, um buraco negro na sua hist\u00f3ria. Reaparece em Atenas, com fato novo, liberal e deputado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este per\u00edodo de sua gl\u00f3ria foi breve, mas suficiente para o p\u00f4r em evid\u00eancia; a sua palavra colorida, po\u00e9tica, recamada de imagens engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como ele dizia, os terrenos mais \u00e1ridos; duma discuss\u00e3o de imposto ou de via\u00e7\u00e3o fazia saltar \u00e9clogas de Te\u00f3crito. Em Atenas este talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administra\u00e7\u00e3o do Estado: o minist\u00e9rio, por\u00e9m, e com ele a maioria de que Korriscosso era o tenor querido, ca\u00edram, sumiram-se, sem l\u00f3gica constitucional, num destes s\u00fabitos desabamentos pol\u00edticos t\u00e3o comuns na Gr\u00e9cia, em que os governos se aluem, como as casas em Atenas &#8211; sem motivo. Falta de base, decrepitude de materiais e de individualidades&#8230; Tudo tende para o p\u00f3 num solo de ru\u00ednas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nova lacuna, novo mergulho obscuro na hist\u00f3ria de Korriscosso\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Volta \u00e0 superf\u00edcie; membro de um clube republicano de Atenas, pede num jornal a emancipa\u00e7\u00e3o da Pol\u00f4nia, e a Gr\u00e9cia governada por um conc\u00edlio de g\u00eanios. Publica ent\u00e3o os seus Suspiros da Tr\u00e1cia. Tem outro romance de cora\u00e7\u00e3o&#8230; E enfim &#8211; e isto disse-mo, sem explica\u00e7\u00f5es, &#8211; \u00e9 obrigado a refugiar-se em Inglaterra. Depois de tentar em Londres v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es, coloca-se no restaurante de Charing-Cross.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 um porto de abrigo &#8211; disse-lhe eu, apertando-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele sorriu com amargura. Era decerto um porto de abrigo, e vantajoso. \u00c9 bem alimentado; as gorjetas s\u00e3o razo\u00e1veis; tem um velho colch\u00e3o de molas, &#8211; mas as delicadezas da sua alma s\u00e3o, a todo o momento, dolorosamente feridas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta l\u00edrico, for\u00e7ado a distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glut\u00f5es, costeletas e copos de cerveja! N\u00e3o \u00e9 a depend\u00eancia que o aflige; a sua alma de grego n\u00e3o \u00e9 particularmente \u00e1vida de liberdade, basta-lhe que o patr\u00e3o seja cort\u00eas. E, como ele me disse, \u00e9-lhe grato reconhecer que os fregueses de Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer if you please; e quando saem, ao passar por ele, levam dois dedos \u00e0 aba do chap\u00e9u: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que o tortura \u00e9 o contato constante com o alimento. Se ele fosse um guarda-livros dum banqueiro, primeiro caixeiro dum armaz\u00e9m de sedas&#8230; Nisso h\u00e1 uma sobra de poesia &#8211; os milh\u00f5es que se revolvem, as frotas mercantes, a brutal for\u00e7a do ouro, ou ent\u00e3o dispor ricamente os estofos, os cortes de seda, fazer correr a luz nas ondula\u00e7\u00f5es dos moir\u00e9s, dar ao veludo as molezas da linha e da prega&#8230; Mas num restaurante como se pode exercer o gosto, a originalidade art\u00edstica, o instinto da cor, do efeito, do drama &#8211; a partir nacos de rosbife ou de presunto de Iorque?!&#8230; Depois, como ele disse, dar a comer, fornecer alimento, \u00e9 servir exclusivamente a pan\u00e7a, a tripa, a baixa necessidade material: no restaurante, o ventre \u00e9 Deus: a alma fica fora, com o chap\u00e9u que se pendura no cabide ou com o rolo de jornais que se deixou no bolso do palet\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E as conviv\u00eancias, e a falta de conversa\u00e7\u00e3o! Nunca se voltarem para ele sen\u00e3o para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os seus l\u00e1bios, de onde pendia o parlamento de Atenas, sen\u00e3o para perguntar: &#8211; Mais p\u00e3o? Mais bife? &#8211; Esta priva\u00e7\u00e3o de eloqu\u00eancia \u00e9-lhe dolorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso o servi\u00e7o impede-lhe o trabalho. Korriscosso comp\u00f5e de mem\u00f3ria; quatro passeios pelo quarto, um repel\u00e3o ao cabelo, e a ode sai-lhe harmoniosa e doce&#8230; Mas a interrup\u00e7\u00e3o glutona da voz do fregu\u00eas, pedindo nutri\u00e7\u00e3o, \u00e9 fatal a esta maneira de trabalhar. \u00c0s vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no bra\u00e7o, Korriscosso est\u00e1 fazendo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\numa elegia; s\u00e3o tudo luares, roupagens alvas de virgens p\u00e1lidas, horizontes celestes, flores de alma dolorida&#8230; \u00c9 feliz; est\u00e1 remontando aos c\u00e9us po\u00e9ticos, nas plan\u00edcies azuladas onde os sonhos acampam, galopando de estrela em estrela&#8230; De repente, uma grossa voz faminta berra de um canto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bife e batatas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ai! As aladas fantasias batem o v\u00f4o como pombas espavoridas! E a\u00ed vem o infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e as abas da casaca baloi\u00e7ando, perguntar com o sorriso l\u00edvido:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Passado ou meio cru?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah! \u00c9 um amargo destino!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas &#8211; perguntei-lhe eu &#8211; por que n\u00e3o deixa este covil, este templo do ventre?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele deixou pender a sua bela cabe\u00e7a de poeta. E disse-me a raz\u00e3o que o prende: disse-me, quase chorando nos meus bra\u00e7os, com o n\u00f3 da gravata branca no cacha\u00e7o: Korriscosso ama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ama uma Fanny, criada de todo o servi\u00e7o em Charing-Cross. Ama-a desde o primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu lavando as escadas de pedra, com os bra\u00e7os roli\u00e7os nus, e os cabelos louros, os fatais cabelos louros, deste louro que entontece os meridionais, cabelos ricos, de um tom de cobre, dum tom de ouro-mate, torcendo-se numa tran\u00e7a de deusa. E depois a carna\u00e7\u00e3o, uma carna\u00e7\u00e3o de inglesa de Yorkshire &#8211; leite e rosas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes &#8211; que passa a limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu vi quanto a paix\u00e3o pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de linguagem, que lances de desespero, que gritos de alma dilacerada arremessados dali, daqueles altos de Charing-Cross, para a mudez do c\u00e9u frio! \u00c9 que Korriscosso tem ci\u00fames. A desgra\u00e7ada Fanny ignora aquele poeta a seu lado, aquele delicado, aquele sentimental, e ama um policeman. Ama um policeman, um colosso, um alcides, uma montanha de carne eri\u00e7ada duma floresta de barbas, com o peito como o flanco de um coura\u00e7ado, com pernas como fortalezas normandas. Este Polifemo, como diz Korriscosso, tem, ordinariamente, servi\u00e7o no Strand; e a pobre Fanny passa o seu dia a espreit\u00e1-lo de um postigo, dos altos do hotel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as suas economias as gasta em quartilhos de gin, de brandy, de genebra, que \u00e0 noite lhe leva em copinhos debaixo do avental; mant\u00e9m-no fiel pelo \u00e1lcool; o monstro, plantado enormemente a uma esquina, recebe em sil\u00eancio o copo, atira-o de um golpe \u00e0s fauces tenebrosas, arrota cavamente, passa a m\u00e3o cabeluda pela barba de h\u00e9rcules e segue taciturnamente, sem um obrigado, sem um amo-te, batendo o lajedo com a vastid\u00e3o das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o babosa&#8230; E talvez nesse momento, \u00e0 outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo no nevoeiro um esguio relevo de poste telegr\u00e1fico, soluce com a face magra entre as m\u00e3os transparentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pobre Korriscosso! Se ele ao menos a pudesse comover&#8230; Mas qu\u00ea! Ela despreza-lhe o corpo de t\u00edsico triste; e a alma n\u00e3o lha compreende&#8230; N\u00e3o que Fanny seja inacess\u00edvel a sentimentos ardentes, expressos em linguagem melodiosa. Mas Korriscosso s\u00f3 pode escrever as suas elegias na sua l\u00edngua materna&#8230; E Fanny n\u00e3o compreende grego&#8230; E Korriscosso \u00e9 s\u00f3 um grande homem &#8211; em grego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando desci ao meu quarto, deixei-o solu\u00e7ando sobre o catre. Tenho-o visto depois, outras vezes, ao passar em Londres. Est\u00e1 mais magro, mais fatal, mais mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo restaurante com a travessa do rosbife, mais exaltado no seu lirismo&#8230; Sempre que ele me serve dou-lhe um xelim de gorjeta: e depois, ao retirar, aperto-lhe sinceramente a m\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E\u00e7a de Queir\u00f3s AQUI est\u00e1, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a hist\u00f3ria triste do poeta Korriscosso. De todos os poetas l\u00edricos de que tenho not\u00edcia, \u00e9 este, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross, uma madrugada regelada de Dezembro. 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