{"id":95441,"date":"2017-01-18T11:10:45","date_gmt":"2017-01-18T13:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95441"},"modified":"2017-01-18T11:10:45","modified_gmt":"2017-01-18T13:10:45","slug":"singularidade-de-uma-rapariga-loura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/singularidade-de-uma-rapariga-loura","title":{"rendered":"Singularidade de uma Rapariga Loura"},"content":{"rendered":"<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">COME\u00c7OU por me dizer que o seu caso era simples &#8211; e que se chamava Mac\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eri\u00e7avam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e retid\u00e3o &#8211; por tr\u00e1s dos seus \u00f3culos redondos com ares de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por tr\u00e1s com uma fivela; um casaco comprido cor de pinh\u00e3o, com as mangas estreitas e justas e canh\u00f5es de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilh\u00e3o antigo, sa\u00edam as pregas moles duma camisa bordada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era isto em setembro: j\u00e1 as noites vinham mais cedo, com uma friagem fina e seca e uma escurid\u00e3o aparatosa. Eu tinha descido da dilig\u00eancia, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrej\u00e3o de listas escarlates.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os c\u00e9us estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar mon\u00f3tono da dilig\u00eancia, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influ\u00eancia da paisagem escarpada e \u00e1rida, sobre o c\u00f4ncavo sil\u00eancio noturno, ou a opress\u00e3o da eletricidade, que enchia as alturas &#8211; o fato \u00e9 que eu &#8211; que sou naturalmente positivo e realista &#8211; tinha vindo tiranizado pela imagina\u00e7\u00e3o e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de n\u00f3s, \u00e9 certo &#8211; t\u00e3o friamente educados que sejamos &#8211; um resto de misticismo; e basta \u00e0s vezes uma paisagem soturna, o velho muro dum cemit\u00e9rio, um ermo asc\u00e9tico, as emolientes brancuras dum luar, para que esse fundo m\u00edstico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensa\u00e7\u00e3o e a id\u00e9ia, e fique assim o mais matem\u00e1tico ou o mais cr\u00edtico &#8211; t\u00e3o triste, t\u00e3o vision\u00e1rio, t\u00e3o idealista &#8211; como um velho monge poeta. A mim, o que me lan\u00e7ara na quimera e no sonho fora o aspecto do mosteiro de Rastelo, que eu tinha visto, \u00e0 claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Ent\u00e3o, enquanto anoitecia, a dilig\u00eancia rolava continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gab\u00e3o enterrado na cabe\u00e7a, ruminava o seu cachimbo &#8211; eu pus-me eleg\u00ecacamente, rid\u00ecculamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranq\u00fcilo, entre arvoredos ou na murmurosa concavidade dum vale, e enquanto a \u00e1gua da cerca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a Imita\u00e7\u00e3o, e ouvindo os rouxin\u00f3is nos loureirais, ter saudades do c\u00e9u. &#8211; N\u00e3o se pode ser mais est\u00fapido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposi\u00e7\u00e3o vision\u00e1ria a falta de esp\u00edrito &#8211; e a sensa\u00e7\u00e3o &#8211; que me fez a hist\u00f3ria daquele homem dos canh\u00f5es de veludilho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha curiosidade come\u00e7ou \u00e0 ceia, quando eu desfazia o peito duma galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio &#8211; e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada. O homem estava defronte de mim, comendo tranquilamente a sua gel\u00e9ia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimar\u00e3es suspenso nos dedos &#8211; se ele era de Vila Real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vivo l\u00e1. H\u00e1 muitos anos &#8211; disse-me ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Terra de mulheres bonitas, segundo me consta &#8211; disse eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem calou-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Hem? &#8211; tornei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem contraiu-se num sil\u00eancio saliente. At\u00e9 a\u00ed estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas ent\u00e3o imobilizou o seu sorriso fino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembran\u00e7a. Havia decerto no destino daquele velho uma mulher. A\u00ed estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabeleci-me na id\u00e9ia de que o fato, o caso daquele homem, devia ser grotesco e exalar esc\u00e1rnio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De sorte que lhe disse:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A mim t\u00eam-me afirmado que as mulheres de Vila Real s\u00e3o as mais bonitas do Norte. Para olhos pretos Guimar\u00e3es, para corpos Santo Aleixo, para tran\u00e7as os Arcos: \u00e9 l\u00e1 que se v\u00eaem os cabelos claros, cor de trigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante &#8211; e para isto tudo Vila Real. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila. Talvez conhe\u00e7a. O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O Peixoto, sim &#8211; disse-me ele, olhando gravemente para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Veio casar a Vila Real como antigamente se ia casar \u00e0 Andaluzia &#8211; quest\u00e3o de arranjar a fina flor da perfei\u00e7\u00e3o. &#8211; \u00c0 sua sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi \u00e0 janela com um passo pesado, e reparei ent\u00e3o nos seus grossos sapatos de casimira, com sola forte e atilhos de couro. E saiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando pedi o meu casti\u00e7al, a criada trouxe-me um candeeiro de lat\u00e3o lustroso e antigo e disse:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O senhor est\u00e1 com outro. \u00c9 no n.\u00ba 3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas estalagens do Minho, \u00e0s vezes, cada quarto \u00e9 um dormit\u00f3rio impertinente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; V\u00e1 &#8211; disse eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O n.\u00ba 3 era no fundo do corredor. \u00c0s portas dos lados os h\u00f3spedes tinham posto o seu cal\u00e7ado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar, enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos dum ca\u00e7ador; botas de propriet\u00e1rio, de altos canos vermelhos; as botas dum padre, altas, com a sua borla de retr\u00f3s; os botins cambados, de bezerro, de um estudante, e a uma das portas, o n.\u00ba 15, havia umas botinas de mulher, de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas duma crian\u00e7a, todas co\u00e7adas e batidas, e os seus canos de pelica-mor ca\u00edam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam. Defronte do n.\u00ba 3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quanto abri a porta vi o homem dos canh\u00f5es de veludilho, que amarrava na cabe\u00e7a um len\u00e7o de seda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de l\u00e3, grossa e alta, e os p\u00e9s metidos nuns chinelos de ourelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O senhor n\u00e3o repare &#8211; disse ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c0 vontade &#8211; e para estabelecer intimidade tirei o casaco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o direi os motivos por que ele da\u00ed a pouco, j\u00e1 deitado, me disse a sua hist\u00f3ria. H\u00e1 um prov\u00e9rbio eslavo da Gal\u00edcia que diz: \u201cO que n\u00e3o contas \u00e0 tua mulher, conta-lo a um estranho, na estalagem\u201d. Mas ele teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida confid\u00eancia. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fora casar a Vila Real. Vi-o chorar, \u00e0quele velho de quase sessenta anos. Talvez a hist\u00f3ria seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sens\u00edvel, pareceu-me terr\u00edvel &#8211; mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7ou pois por me dizer que o seu caso era simples &#8211; e que se chamava Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntei-lhe ent\u00e3o se era duma fam\u00edlia que eu conhecera, que tinha o apelido de Mac\u00e1rio. E como ele me respondeu que era primo desses, eu tive logo do seu car\u00e1ter uma id\u00e9ia simp\u00e1tica, porque os Mac\u00e1rios eram uma antiga fam\u00edlia, quase uma dinastia de comerciantes, que mantinham com uma severidade religiosa a sua velha tradi\u00e7\u00e3o de honra e de escr\u00fapulo. Mac\u00e1rio disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armaz\u00e9m de panos, e ele era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrara-se de certos instintos inteligentes e do talento pr\u00e1tico e aritm\u00e9tico de Mac\u00e1rio, e deu-lhe a escritura\u00e7\u00e3o. Mac\u00e1rio tornou-se o seu guarda-livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disse-me ele que sendo naturalmente linf\u00e1tico e mesmo t\u00edmido, a sua vida tinha nesse tempo uma grande concentra\u00e7\u00e3o. Um trabalho escrupuloso e fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A exist\u00eancia, nesse tempo, era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os esp\u00edritos eram mais ing\u00eanuos, os sentimentos menos complicados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nJantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a \u00e1gua das regas &#8211; chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam \u00e0 burguesia cautelosa. Al\u00e9m disso, os tempos eram confusos e revolucion\u00e1rios: e nada torna o homem recolhido, conchegado \u00e0 lareira, simples e facilmente feliz &#8211; como a guerra. \u00c9 a paz que, dando os vagares da imagina\u00e7\u00e3o &#8211; causa as impaci\u00eancias do desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio, aos vinte e dois anos, ainda n\u00e3o tinha &#8211; como dizia uma velha tia, que fora querida do desembargador Curvo Semedo, da Arc\u00e1dia &#8211; sentido V\u00e9nus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas por esse tempo veio morar para defronte do armaz\u00e9m dos Mac\u00e1rios, para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e ba\u00e7a, o busto bem feito e redondo e um aspecto desej\u00e1vel. Mac\u00e1rio tinha a sua carteira no primeiro andar, por cima do armaz\u00e9m, ao p\u00e9 duma varanda, e dali viu uma manh\u00e3 aquela mulher com o cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e bra\u00e7os nus, chegar-se a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um vestido. Mac\u00e1rio afirmou-se e sem mais inten\u00e7\u00e3o dizia mentalmente que aquela mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de dom\u00ednio: porque os seus cabelos violentos e \u00e1speros, o sobrolho espesso, o l\u00e1bio forte, o perfil aquilino e firme revelavam um temperamento ativo e imagina\u00e7\u00f5es apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as suas cifras. Mas \u00e0 noite estava sentado fumando \u00e0 janela do seu quarto, que abria sobre o p\u00e1tio: era em Julho e a atmosfera estava el\u00e9ctrica e amorosa: a rabeca dum vizinho gemia uma x\u00e1cara mourisca, que ent\u00e3o sensibilizava, e era dum melodrama: o quarto estava numa penumbra doce e cheia de mist\u00e9rio &#8211; e Mac\u00e1rio, que estava em chinelas, come\u00e7ou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles bra\u00e7os que tinham a cor dos m\u00e1rmores p\u00e1lidos: espregui\u00e7ou-se, rolou m\u00f2rbidamente a cabe\u00e7a pelas costas da cadeira de vime, como os gatos sens\u00edveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era mon\u00f3tona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se \u00e0 sua carteira com a janela toda aberta, e olhando o pr\u00e9dio fronteiro, onde viviam aqueles cabelos grandes &#8211; come\u00e7ou a aparar vagarosamente a sua pena de rama. Mas ningu\u00e9m se chegou \u00e0 janela de peitoril, com caixilhos verdes. Mac\u00e1rio estava enfastiado, pesado &#8211; e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas madressilva! E, quando fechou a carteira, sentiu defronte correr-se a vidra\u00e7a; eram decerto os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos louros. Oh! E Mac\u00e1rio veio logo salientemente para a varanda aparar um l\u00e1pis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez &#8211; fina, fresca, loura como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da transpar\u00eancia das velhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha pura, como de uma medalha antiga, e os velhos poetas pitorescos ter-lhe-iam chamado &#8211; pomba, arminho, neve e ouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio disse consigo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 filha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A outra vestia de luto, mas esta, a loura, tinha um vestido de cassa com pintas azuis, um len\u00e7o de cambraia traspassado sobre o peito, as mangas perdidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, mo\u00e7o, fresco, flex\u00edvel e tenro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio, nesse tempo, era louro com a barba curta. O cabelo era anelado e a sua figura devia ter aquele ar seco e nervoso que depois do s\u00e9culo XVIII e da revolu\u00e7\u00e3o &#8211; foi t\u00e3o vulgar nas ra\u00e7as pleb\u00e9ias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rapariga loura reparou naturalmente em Mac\u00e1rio, e naturalmente desceu a vidra\u00e7a, correndo por tr\u00e1s uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas cortinas datam de Goethe e t\u00eam na vida amorosa um interessante destino: revelam. Levantar-lhe uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um fim; corr\u00ea-la, pregar nela uma flor, agit\u00e1-la, fazendo sentir que por tr\u00e1s um rosto atento se move e espera &#8211; s\u00e3o velhas maneiras com que, na realidade e na arte, come\u00e7a o romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto loiro espreitou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio n\u00e3o me contou por pulsa\u00e7\u00f5es &#8211; a hist\u00f3ria minuciosa do seu cora\u00e7\u00e3o. Disse singelamente que da\u00ed a cinco dias &#8211; estava doido por ela. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo cursivo ingl\u00eas, firme e largo, ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde estava todo o romance impaciente dos seus nervos. N\u00e3o a podia ver pela manh\u00e3: o sol mordente de julho batia e escaldava a pequena janela de peitoril. S\u00f3 pela tarde a cortina se franzia, se corria a vidra\u00e7a, e ela, estendendo uma almofadinha no rebordo do peitoril, vinha encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque que preocupou Mac\u00e1rio: era uma ventarola chinesa, redonda, de seda branca, com drag\u00f5es escarlates bordados \u00e0 pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e tr\u00eamula como uma penugem e o seu cabo de marfim, de onde pendiam duas borlas de fio de ouro, tinha incrusta\u00e7\u00f5es de n\u00e1car \u00e0 linda maneira persa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era um leque magn\u00edfico e naquele tempo inesperado nas m\u00e3os pleb\u00e9ias duma rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a m\u00e3e t\u00e3o meridional, Mac\u00e1rio, com esta intui\u00e7\u00e3o interpretativa dos namorados, disse \u00e0 sua curiosidade: ser\u00e1 a filha dum ingl\u00eas. O ingl\u00eas vai \u00e0 China, \u00e0 P\u00e9rsia, a Ormuz, \u00e0 Austr\u00e1lia e vem cheio daquelas j\u00f3ias dos luxos ex\u00f3ticos, e nem Mac\u00e1rio sabia porque \u00e9 que aquela ventarola de mandarina o preocupava assim: mas segundo ele me disse &#8211; aquilo deu-lhe no goto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha-se passado uma semana, quando um dia Mac\u00e1rio viu, da sua carteira, que ela, a loura, sa\u00eda com a m\u00e3e, porque se acostumara a considerar m\u00e3e dela aquela magn\u00edfica pessoa, magnificamente p\u00e1lida e vestida de luto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio veio \u00e0 janela e viu-as atravessar a rua e entrarem no armaz\u00e9m. No seu armaz\u00e9m! Desceu logo tr\u00eamulo, s\u00f4frego, apaixonado e com palpita\u00e7\u00f5es. Estavam elas j\u00e1 encostadas ao balc\u00e3o e um caixeiro desdobrava-lhes defronte casimiras pretas. Isto comoveu Mac\u00e1rio. Ele mesmo mo disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Porque enfim, meu caro, n\u00e3o era natural que elas viessem comprar, para si, casimiras pretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o: elas n\u00e3o usavam amazonas, n\u00e3o quereriam decerto estofar cadeiras com casimira preta, n\u00e3o havia homens em casa delas; portanto aquela vinda ao armaz\u00e9m era um meio delicado de o ver de perto, de lhe falar, e tinha o encanto penetrante duma mentira sentimental. Eu disse a Mac\u00e1rio que, sendo assim, ele devia estranhar aquele movimento amoroso, porque denotava na m\u00e3e uma cumplicidade equ\u00edvoca. Ele confessou-me que nem pensava em tal. O que fez foi chegar ao balc\u00e3o e dizer estupidamente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim senhor, v\u00e3o bem servidas, estas casimiras n\u00e3o encolhem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a loura ergueu para ele o seu olhar azul, e foi como se Mac\u00e1rio se sentisse envolvido na do\u00e7ura dum c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quando ele ia dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao fundo do armaz\u00e9m o tio Francisco, com o seu comprido casaco cor de pinh\u00e3o, de bot\u00f5es amarelos. Como era singular e desusado achar-se o sr. guarda-livros vendendo ao balc\u00e3o e o tio Francisco, com a sua cr\u00edtica estreita e celibat\u00e1ria, podia escandalizar-se, Mac\u00e1rio come\u00e7ou a subir vagarosamente a escada em caracol que levava ao escrit\u00f3rio, e ainda ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Agora queria ver len\u00e7os da \u00cdndia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles len\u00e7os, acamados e apertados numa tira de papel dourado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio, que tinha visto naquela visita uma revela\u00e7\u00e3o de amor, quase uma declara\u00e7\u00e3o, esteve todo o dia entregue \u00e0s impaci\u00eancias amargas da paix\u00e3o. Andava distra\u00eddo, abstrato, pueril, n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 escritura\u00e7\u00e3o, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as alm\u00f4ndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos \u00e0s tr\u00eas horas, e n\u00e3o entendeu bem as recomenda\u00e7\u00f5es do tio e a preocupa\u00e7\u00e3o dos caixeiros sobre o desaparecimento dum pacote de len\u00e7os da \u00cdndia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 o costume de deixar entrar pobres no armaz\u00e9m &#8211; tinha dito no seu laconismo majestoso o tio Francisco. &#8211; S\u00e3o 12$000 r\u00e9is de len\u00e7os. Lance \u00e0 minha conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao outro dia, estando ele \u00e0 varanda, a m\u00e3e, a de cabelos pretos, veio encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento passava na rua um rapaz amigo de Mac\u00e1rio, que, vendo aquela senhora, afirmou-se e tirou-lhe, com uma cortesia toda risonha, o seu chap\u00e9u de palha. Mac\u00e1rio ficou radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia-tinta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quem \u00e9 aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armaz\u00e9m?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 a Vila\u00e7a. Bela mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E a filha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A filha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim, uma loura, clara, com um leque chin\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ah! Sim. \u00c9 filha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 o que eu dizia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim, e ent\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 bonita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 bonita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 gente de bem, hem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim, gente de bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Est\u00e1 bom. Tu conhece-las muito?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Conhe\u00e7o-as. Muito n\u00e3o. Encontrava-as dantes em casa de D. Cl\u00e1udia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bem, ouve l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Mac\u00e1rio, contando a hist\u00f3ria do seu cora\u00e7\u00e3o acordado e exigente e falando do amor com as exalta\u00e7\u00f5es de ent\u00e3o, pediu-lhe, como a gl\u00f3ria da sua vida, que achasse um meio de o encaixar l\u00e1. N\u00e3o era dif\u00edcil. As Vila\u00e7as costumavam ir aos s\u00e1bados \u00e0 casa de um tabeli\u00e3o muito rico na rua dos Calafates: eram assembl\u00e9ias simples e pacatas, onde se cantavam motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora D. Maria I, e \u00e0s 9 horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no primeiro s\u00e1bado, Mac\u00e1rio, de casaca azul, cal\u00e7as de ganga com presilhas de trama de metal, gravata de cetim roxo, curvava-se diante da esposa do tabeli\u00e3o, a sr.\u00aa D. Maria da Gra\u00e7a, pessoa seca e agu\u00e7ada, com um vestido bordado, um nariz adunco, uma enorme luneta de tartaruga, a pluma de marabout nos seus cabelos grisalhos. A um canto da sala j\u00e1 l\u00e1 estava, entre um frufru de vestidos enormes, a menina Vila\u00e7a, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de gravura colorida. A m\u00e3e Vila\u00e7a, a soberba mulher p\u00e1lida, cochichava com um desembargador de figura apopl\u00e9ctica. O tabeli\u00e3o era um homem letrado, latinista e amigo das musas; escrevia num jornal de ent\u00e3o, a Alcofa das Damas: porque era sobretudo galante, e ele mesmo se intitulava, numa ode pitoresca, mo\u00e7o escudeiro de V\u00eanus. Assim, as suas reuni\u00f5es eram ocupadas pelas belas-artes &#8211; e nessa noite, um poeta do tempo devia vir ler um poemeto intitulado Elmira ou a vingan\u00e7a do veneziano!&#8230; Come\u00e7avam ent\u00e3o a aparecer as primeiras aud\u00e1cias rom\u00e2nticas. As revolu\u00e7\u00f5es da Gr\u00e9cia principiavam a atrair os esp\u00edritos romanescos e sa\u00eddos da mitologia para os pa\u00edses maravilhosos do Oriente. Por toda a parte se falava no pax\u00e1 de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente deste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas cor de \u00e2mbar, piratas do Arquip\u00e9lago, e salas rendilhadas, cheias de perfume do alo\u00e9s onde pax\u00e1s decr\u00e9pitos acariciam le\u00f5es. &#8211; De sorte que a curiosidade era grande &#8211; e, quando o poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pesco\u00e7o entalado na alta gola do seu fraque \u00e0 Restaura\u00e7\u00e3o e um canudo de lata na m\u00e3o &#8211; o sr. Mac\u00e1rio \u00e9 que n\u00e3o experimentou sensa\u00e7\u00e3o alguma, porque l\u00e1 estava todo absorvido, falando com a menina Vila\u00e7a. E dizia-lhe meigamente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ent\u00e3o, noutro dia, gostou das casimiras?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Muito &#8211; disse ela baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, desde esse momento, envolveu-os um destino nupcial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Mac\u00e1rio n\u00e3o p\u00f4de dar todos os pormenores hist\u00f3ricos e caracter\u00edsticos daquela assembl\u00e9ia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o Madrigal a L\u00eddia: lia-o de p\u00e9, com uma luneta redonda aplicada sobre o papel, a perna direita lan\u00e7ada para diante, a m\u00e3o na abertura do colete branco de gola alta. E em redor, formando c\u00edrculo, as damas, com vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas num fofo de rendas, mitenes de retr\u00f3s preto cheias da cintila\u00e7\u00e3o dos an\u00e9is, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmura\u00e7\u00f5es, risinhos, e um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas. &#8211; Muito bonito, diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo &#8211; e via-se-lhe um dente podre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, a preciosa D. Jer\u00f3nima da Piedade e Sande, sentando-se com maneiras comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga \u00e1ria de Sully:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oh Ricardo, oh meu rei,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo te abandona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que obrigou o terr\u00edvel Gaud\u00eancio, democrata de 20 e admirador de Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Mac\u00e1rio:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Reis!&#8230; v\u00edboras!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, o c\u00f4nego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no tempo do senhor D. Jo\u00e3o VI: lindas mo\u00e7as, lindas mo\u00e7as. E a noite ia assim correndo liter\u00e1ria, pachorrenta, erudita, requintada e toda cheia de musas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oito dias depois, Mac\u00e1rio era recebido em casa da Vila\u00e7a, num domingo. A m\u00e3e convidara-o, dizendo-lhe:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Espero que o vizinho honre aquela choupana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E at\u00e9 o desembargador apopl\u00e9ctico, que estava ao lado, exclamou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Choupana?! Diga alc\u00e1\u00e7ar, formosa dama!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estavam, nesta noite, o amigo do chap\u00e9u de palha, um velho cavaleiro de Malta, tr\u00f4pego, est\u00fapido e surdo, um beneficiado da S\u00e9, ilustre pela sua voz de tiple, e as manas Hil\u00e1rias, a mais velha das quais tendo assistido, como aia de uma senhora da casa da Mina, \u00e0 tourada de Salvaterra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixava de narrar os epis\u00f3dios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de cetim escarlate no rabicho; o soneto que um magro poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado \u00e0 espanhola, com um xairel onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento um frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da corte, que at\u00e9 a sr.\u00aa condessa de Pavolide apertava as m\u00e3os nas ilhargas: depois el-rei o sr. D. Jos\u00e9 I, vestido de veludo escarlate, recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, e fazendo girar entre dois dedos a sua caixa de rap\u00e9 cravejada, e por tr\u00e1s, im\u00f3veis, o f\u00edsico Louren\u00e7o e o frade, seu confessor; depois o rico aspecto da pra\u00e7a cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando D. Jos\u00e9 I entrou: &#8211; Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atr\u00e1s dele. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e at\u00e9 el-rei todo debru\u00e7ado, batendo com a m\u00e3o no parapeito, gritando na confus\u00e3o, e o capel\u00e3o da casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-un\u00e7\u00e3o. Ela, Hil\u00e1ria, ficara estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois, gritos agudos de mulheres, os ganidos dos flatos, e vira ent\u00e3o um velho, todo vestido de veludo preto, com a fina espada na m\u00e3o, debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se \u00e0 pra\u00e7a, bramindo de raiva! \u201c\u00c9 o pai do conde!\u201d, explicavam em volta. Ela ent\u00e3o desmaiara nos bra\u00e7os de um padre da Congrega\u00e7\u00e3o. Quando veio a si, achou-se junto da pra\u00e7a; a berlinda real estava \u00e0 porta, com os boleeiros emplumados, os machos cheios de guizos, e os batedores a cavalo, \u00e0 frente: via-se l\u00e1 dentro el-rei, escondido ao fundo, p\u00e1lido, sorvendo febrilmente rap\u00e9, todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das m\u00e3os apoiada \u00e0 alta bengala, forte, espada\u00fado, o aspecto carregado, o marqu\u00eas de Pombal falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas os batedores picaram, os estalos dos boleeiros retiniram, e a berlinda partiu a galope, enquanto o povo gritava: Viva el-rei!, nosso senhor! &#8211; e o sino da capela do pa\u00e7o tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia \u00e0 casa dos Arcos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando D. Hil\u00e1ria acabou de contar, suspirando, estas desgra\u00e7as passadas, come\u00e7ou-se a jogar. Era singular que Mac\u00e1rio n\u00e3o se lembrava o que tinha jogado nessa noite radiosa. S\u00f3 se recordava que tinha ficado ao lado da menina Vila\u00e7a (que se chamava Lu\u00edsa), que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua m\u00e3o, com uma unha mais polida que o marfim de Diepa. E lembrava-se tamb\u00e9m de um acidente exc\u00eantrico, que determinara nele, desde esse dia, uma grande hostilidade ao clero da S\u00e9. Mac\u00e1rio estava sentado \u00e0 mesa, e ao p\u00e9 dele Lu\u00edsa: Lu\u00edsa estava toda voltada para ele, com uma das m\u00e3os apoiando a sua fina cabe\u00e7a loura e amorosa, e a outra esquecida no rega\u00e7o. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus \u00f3culos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada e as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do cr\u00e2nio como dois postigos abertos. Ora, como era necess\u00e1rio no fim do jogo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Mac\u00e1rio tirou da algibeira uma pe\u00e7a e quando o cavaleiro, todo curvado e com um olho pisco, fazia a soma dos tentos nas costas dum \u00e1s, Mac\u00e1rio conversava com Lu\u00edsa, e fazia girar sobre o pano verde a sua pe\u00e7a de ouro, como um bilro ou um pi\u00e3o. Era uma pe\u00e7a nova que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola de n\u00e9voa dourada. Lu\u00edsa sorria vendo-o girar, girar, e parecia a Mac\u00e1rio que todo o c\u00e9u, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrelas estavam naquele claro sorriso distra\u00eddo, espiritual, arcang\u00e9lico, com que ela seguia o giro fulgurante da pe\u00e7a de ouro nova. Mas, de repente, a pe\u00e7a, correndo at\u00e9 \u00e0 borda da mesa, caiu para o lado do rega\u00e7o de Lu\u00edsa e desapareceu, sem se ouvir no soalho de t\u00e1buas o seu ru\u00eddo met\u00e1lico. O beneficiado abaixou-se logo cort\u00easmente: Mac\u00e1rio afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a m\u00e3e Vila\u00e7a alumiou com um casti\u00e7al, e Lu\u00edsa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa. A pe\u00e7a n\u00e3o apareceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 c\u00e9lebre! &#8211; disse o amigo de chap\u00e9u de palha &#8211; eu n\u00e3o ouvir tinir no ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Nem eu, nem eu &#8211; disseram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O beneficiado, curvado, buscava tenazmente, e a Hil\u00e1ria mais nova rosnava o responso de Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pois a casa n\u00e3o tem buracos &#8211; dizia a m\u00e3e Vila\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sumi\u00e7o assim! &#8211; resmungava o beneficiado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, Mac\u00e1rio exalava-se em exclama\u00e7\u00f5es desinteressadas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pelo amor de Deus! Ora que tem! Amanh\u00e3 aparecer\u00e1! Tenham a bondade! Por quem s\u00e3o! Ent\u00e3o, sr.\u00aa D. Lu\u00edsa! Pelo amor de Deus! N\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtra\u00e7\u00e3o &#8211; e atribuiu-a ao beneficiado. A pe\u00e7a rolara, decerto, at\u00e9 junto dele, sem ru\u00eddo; ele pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesi\u00e1stico e tachado; depois, no movimento brusco e curto que tivera, empolgara-a vilmente. E, quando sa\u00edram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camel\u00e3o, dizia a Mac\u00e1rio pela escada:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ora o sumi\u00e7o da pe\u00e7a, hem? Que brincadeira!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Acha, sr. beneficiado?! &#8211; disse Mac\u00e1rio parando, pasmado da impud\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma pe\u00e7a de 7$000 r\u00e9is! S\u00f3 se o senhor as semeia&#8230; Safa! Eu dava em doido!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio teve t\u00e9dio daquela ast\u00facia fria. N\u00e3o lhe respondeu. O beneficiado \u00e9 que acrescentou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Amanh\u00e3 mande l\u00e1 pela manh\u00e3, homem. Que diabo!&#8230; Deus me perdoe! Que diabo! Uma pe\u00e7a n\u00e3o se perde assim. Que bolada, hem!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Mac\u00e1rio tinha vontade de lhe bater.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi neste ponto que Mac\u00e1rio me disse, com a sua voz singularmente sentida:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Enfim, meu amigo, para encurtarmos raz\u00f5es, resolvi-me casar com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas a pe\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o pensei mais nisso! Pensava eu l\u00e1 na pe\u00e7a! Resolvi-me casar com ela!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio contou-me o que o determinara mais precisamente \u00e0quela resolu\u00e7\u00e3o profunda e perp\u00e9tua. Foi um beijo. Mas esse caso, casto e simples, eu calo-o: &#8211; mesmo porque a \u00fanica testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau-preto, na saleta escura que abria para a escada&#8230; Um beijo fugitivo, superficial, ef\u00eamero. Mas isso bastou ao seu esp\u00edrito reto e severo para o obrigar a tom\u00e1-la como esposa, a dar-lhe uma f\u00e9 imut\u00e1vel e a posse de sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela simp\u00e1tica sombra das janelas vizinhas tornara-se para ele um destino, o fim moral da sua vida e toda a id\u00e9ia dominante do seu trabalho. E esta hist\u00f3ria toma, desde logo, um alto car\u00e1ter de santidade e de tristeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio falou-me muito do car\u00e1ter e da figura do tio Francisco: a sua possante estatura, os seus \u00f3culos de ouro, a sua barba grisalha, em colar, por baixo do queixo, um tique nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranquilidade, os seus princ\u00edpios antigos, autorit\u00e1rios e tir\u00e2nicos, e a brevidade telegr\u00e1fica das suas palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Mac\u00e1rio lhe disse, uma manh\u00e3, ao almo\u00e7o, abruptamente, sem transi\u00e7\u00f5es emolientes: \u201cPe\u00e7o-lhe licen\u00e7a para casar\u201d, o tio Francisco, que deitava o a\u00e7\u00facar no seu caf\u00e9, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e terr\u00edvel: e quando acabou de sorver pelo pires, com grande ru\u00eddo, tirou do pesco\u00e7o o guardanapo, dobrou-o, agu\u00e7ou com a faca o seu palito, meteu-o na boca e saiu: mas \u00e0 porta da sala parou, e voltando-se para Mac\u00e1rio, que estava de p\u00e9, junto da mesa, disse secamente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Perd\u00e3o, tio Francisco!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas oi\u00e7a, tio Francisco&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio sentiu uma grande c\u00f3lera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Nesse caso, fa\u00e7o-o sem licen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Despedido da casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sairei. N\u00e3o haja d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ol\u00e1! &#8211; disse ele a Mac\u00e1rio, que estava exasperado, apopl\u00e9ctico, raspando nos vidros da janela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio voltou-se com uma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; D\u00ea-me da\u00ed a caixa de rap\u00e9 &#8211; disse o tio Francisco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tio Francisco&#8230; &#8211; come\u00e7ou Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Basta. Estamos a 12. Receber\u00e1 o seu m\u00eas por inteiro. V\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nAs antigas educa\u00e7\u00f5es produziam estas situa\u00e7\u00f5es insensatas. Era brutal e idiota. Mac\u00e1rio afirmou-me que era assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa tarde Mac\u00e1rio achava-se no quarto duma hospedaria da Pra\u00e7a da Figueira com seis pe\u00e7as, o seu ba\u00fa de roupa branca e a sua paix\u00e3o. No entanto estava tranq\u00fcilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha rela\u00e7\u00f5es e amizades no com\u00e9rcio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da fam\u00edlia, o seu tato comercial, o seu belo cursivo ingl\u00eas, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escrit\u00f3rios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga rela\u00e7\u00e3o comercial da sua casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; De muito boa vontade, meu amigo &#8211; disse-me ele. &#8211; Quem mo dera c\u00e1! Mas, se o recebo, fico de mal com seu tio, meu velho amigo de vinte anos. Ele declarou-mo categ\u00f2ricamente. Bem v\u00ea. For\u00e7a maior. Eu sinto, mas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E todos, a quem Mac\u00e1rio se dirigiu, confiado em rela\u00e7\u00f5es s\u00f3lidas, receavam ficar de mal com o seu tio, velho amigo de vinte anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E todos sentiam, mas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio dirigiu-se ent\u00e3o a negociantes novos, estranhos \u00e0 sua casa e \u00e0 sua fam\u00edlia, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para esses, Mac\u00e1rio era desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu h\u00e1bil trabalho. Se tomavam informa\u00e7\u00f5es, sabiam que ele fora despedido da casa do tio repentinamente, por causa duma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunst\u00e2ncia tirava as simpatias a Mac\u00e1rio. O com\u00e9rcio evita o guarda-livros sentimental. De sorte que Mac\u00e1rio come\u00e7ou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis pe\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, como fora sempre de temperamento recolhido, n\u00e3o criara amigos. De modo que se encontrava desamparado e solit\u00e1rio &#8211; e a vida aparecia-lhe como um descampado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pe\u00e7as findaram. Mac\u00e1rio entrou, pouco a pouco, na tradi\u00e7\u00e3o antiga da mis\u00e9ria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: come\u00e7ou por empenhar &#8211; depois vendeu. Rel\u00f3gio, an\u00e9is, casaco azul, cadeia, palet\u00f3 de alamares, tudo foi levando pouco a pouco, embrulhado debaixo do xale, uma velha seca e cheia de asma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto via Lu\u00edsa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: uma lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra, todo sentado castamente, ao p\u00e9 de Lu\u00edsa, a um canto de um velho canap\u00e9 de palhinha. N\u00e3o a via de dia, porque trazia j\u00e1 a roupa usada, as botas cambadas, e n\u00e3o queria mostrar \u00e0 fresca Lu\u00edsa, toda mimosa nas suas cambraias asseadas, a sua mis\u00e9ria remendada: ali, \u00e0quela luz t\u00eanue e esbatida, ele exalava a sua paix\u00e3o crescente e escondia o seu fato decadente. Segundo me disse Mac\u00e1rio &#8211; era muito singular o temperamento de Lu\u00edsa. Tinha o car\u00e1ter louro como o cabelo &#8211; se \u00e9 certo que o louro \u00e9 uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo pois sim: era muito simples, quase indiferente, cheia de transig\u00eancias. Amava decerto Mac\u00e1rio, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza d\u00e9bil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e \u00e0s vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia, por\u00e9m, Mac\u00e1rio encontrou-a excitada: estava com pressa, o xale tra\u00e7ado \u00e0 toa, olhando sempre para a porta interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A mam\u00e3 percebeu &#8211; disse ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E contou-lhe que a m\u00e3e desconfiava, ainda rabugenta e \u00e1spera, e decerto farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Por que n\u00e3o me vens pedir \u00e0 mam\u00e3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas, filha, se eu n\u00e3o posso! N\u00e3o tenho arranjo nenhum. Espera. \u00c9 mais um m\u00eas talvez. Tenho agora a\u00ed um neg\u00f3cio em bom caminho. Morr\u00edamos de fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lu\u00edsa calou-se, torcendo a ponta do xale, com os olhos baixos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas ao menos &#8211; disse ela &#8211; enquanto eu te n\u00e3o fizer sinal da janela, n\u00e3o subas mais, sim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio rompeu a chorar, os solu\u00e7os sa\u00edam violentos e desesperados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Chuta! &#8211; dizia-lhe Lu\u00edsa. &#8211; N\u00e3o chores alto!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando febrilmente a sua dor, e lutando, sob a friagem de Janeiro, na sua quinzena curta. N\u00e3o dormiu, e logo pela manh\u00e3, ao outro dia, entrou como uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 tudo o que tenho &#8211; e mostrou-lhe tr\u00eas pintos. &#8211; Roupa, estou sem ela. Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tio Francisco, que fazia a barba \u00e0 janela, com o len\u00e7o da \u00cdndia amarrado na cabe\u00e7a, voltou-se e, pondo os \u00f3culos, fitou-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A sua carteira l\u00e1 est\u00e1. Fique &#8211; e acrescentou com um gesto decisivo &#8211; solteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tio Francisco, oi\u00e7a-me!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Solteiro, disse eu &#8211; continuou o tio Francisco, dando o fio \u00e0 navalha numa tira de sola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o posso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ent\u00e3o, rua!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio saiu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu. Quando saiu, \u00e0 noitinha, n\u00e3o tinha resolu\u00e7\u00e3o, nem id\u00e9ia. Estava como uma esponja saturada. Deixava-se ir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, uma voz disse de dentro de uma loja:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eh! pst! ol\u00e1!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o amigo do chap\u00e9u de palha: abriu grandes bra\u00e7os pasmados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que diacho! Desde manh\u00e3 que te procuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nE contou-lhe que tinha chegado da prov\u00edncia, tinha sabido a sua crise e trazia-lhe um desenlace.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Queres?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma casa comercial queria um homem h\u00e1bil, resoluto e duro, para ir numa comiss\u00e3o dif\u00edcil e de grande ganho a Cabo Verde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pronto! &#8211; disse Mac\u00e1rio. &#8211; Pronto! Amanh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi logo escrever a Lu\u00edsa, pedindo-lhe uma despedida, um \u00faltimo encontro, aquele em que os bra\u00e7os desolados e veementes tanto custam a desenla\u00e7ar-se. Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu xale, tiritando de frio. Mac\u00e1rio chorou. Ela, com a sua passiva e loura do\u00e7ura, disse-lhe:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fazes bem. Talvez ganhes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ao outro dia Mac\u00e1rio partiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheceu as viagens trabalhosas dos mares inimigos, o enj\u00f4o mon\u00f3tono num beliche abafado, os duros s\u00f3is das col\u00f4nias, a brutalidade tir\u00e2nica dos fazendeiros ricos, o peso dos fardos humilhantes, as dilacera\u00e7\u00f5es da aus\u00eancia, as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das caravanas que costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os rios tranq\u00fcilos, de onde se exala a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E logo nessa noite a viu a ela, Lu\u00edsa, clara, fresca, repousada, serena, encostada ao peitoril da janela, com sua ventarola chinesa. E ao outro dia, sofregamente, foi pedi-la \u00e0 m\u00e3e. Mac\u00e1rio tinha feito um ganho saliente &#8211; e a m\u00e3e Vila\u00e7a abriu-lhe uns grandes bra\u00e7os amigos, cheia de exclama\u00e7\u00f5es. O casamento decidiu-se para da\u00ed a um ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Por qu\u00ea? &#8211; disse eu a Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E ele explicou-me que os lucros de Cabo Verde n\u00e3o podiam constituir um capital definitivo: eram apenas um capital de habilita\u00e7\u00e3o. Trazia de Cabo Verde elementos de poderosos neg\u00f3cios: trabalharia, durante um ano, heroicamente, e ao fim poderia, sossegadamente, criar uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E trabalhou: p\u00f4s naquele trabalho a for\u00e7a criadora da sua paix\u00e3o. Erguia-se de madrugada, comia \u00e0 pressa, mal falava. \u00c0 tardinha ia visitar Lu\u00edsa. Depois voltava sofregamente para a fadiga, como um avaro para o seu cofre. Estava grosso, forte, duro, fero: servia-se com o mesmo \u00edmpeto das id\u00e9ias e dos m\u00fasculos: vivia numa tempestade de cifras. \u00c0s vezes Lu\u00edsa, de passagem, entrava no seu armaz\u00e9m: aquele pousar de ave fugitiva dava-lhe alegria, f\u00e9, reconforto para todo um m\u00eas cheiamente trabalhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por esse tempo o amigo do chap\u00e9u de palha veio pedir a Mac\u00e1rio que fosse seu fiador por uma grande quantia, que ele pedira para estabelecer uma loja de ferragens em grande. Mac\u00e1rio, que estava no vigor do seu cr\u00e9dito, cedeu com alegria. O amigo do chap\u00e9u de palha \u00e9 que lhe dera o neg\u00f3cio providencial de Cabo Verde. Faltavam ent\u00e3o dois meses para o casamento. Mac\u00e1rio j\u00e1 sentia, por vezes, subirem-lhe ao rosto as febris vermelhid\u00f5es da esperan\u00e7a. J\u00e1 come\u00e7ara a tratar dos banhos. Mas um dia o amigo do chap\u00e9u de palha desapareceu com a mulher de um alferes. O seu estabelecimento estava em come\u00e7o. Era uma confusa aventura. N\u00e3o se p\u00f4de nunca precisar nitidamente aquele embr\u00f3glio doloroso. O que era positivo \u00e9 que Mac\u00e1rio era fiador, Mac\u00e1rio devia reembolsar. Quando o soube, empalideceu e disse simplesmente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Liquido e pago!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada na opini\u00e3o, a casa Peres &amp; C.\u00aa, que o mandara a Cabo Verde, veio propor-lhe uma outra viagem e outros ganhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Voltar a Cabo Verde outra vez!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Faz outra vez fortuna, homem. O senhor \u00e9 o diabo! &#8211; disse o sr. Eleut\u00e9rio Peres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se viu assim, s\u00f3 e pobre, Mac\u00e1rio desatou a chorar. Tudo estava perdido, findo, extinto; era necess\u00e1rio recome\u00e7ar pacientemente a vida, voltar \u00e0s longas mis\u00e9rias de Cabo Verde, tornar a tremer os passados desesperos, suar os antigos suores! E Lu\u00edsa? Mac\u00e1rio escreveu-lhe. Depois rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu at\u00e9 ao primeiro andar, mas a\u00ed tomou-o uma m\u00e1goa, uma cobardia de revelar o desastre, o pavor tr\u00eamulo de uma separa\u00e7\u00e3o, o terror de ela se recusar, negar-se, hesitar! E quereria ela esperar mais? N\u00e3o se atreveu a falar, explicar, pedir; desceu, p\u00e9 ante p\u00e9. Era noite. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a x\u00e1cara mourisca. Lembrou-se do tempo em que conhecera Lu\u00edsa, do bom sol claro que havia ent\u00e3o, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava na rua onde eram os armaz\u00e9ns do tio. Foi caminhando. P\u00f4s-se a olhar para a sua antiga casa. A janela do escrit\u00f3rio estava fechada. Quantas vezes dali vira Lu\u00edsa, e o brando movimento do seu leque chin\u00eas! Mas uma janela, no segundo andar, tinha luz: era o quarto do tio. Mac\u00e1rio foi observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, \u00e0 vidra\u00e7a: era o tio Francisco. Veio-lhe uma saudade de todo o seu passado simples, retirado, pl\u00e1cido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a velha carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua m\u00e3e, que estava por cima da barra do leito; a sala de jantar e o seu velho aparador de pau-preto, e a grande caneca da \u00e1gua, cuja asa era uma serpente irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu \u00e0 porta. Bateu outra vez. Sentiu abrir a vidra\u00e7a, e a voz do tio perguntar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quem \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vidra\u00e7a fechou-se, e da\u00ed a pouco a porta abriu-se com um grande ru\u00eddo de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candeeiro de azeite na m\u00e3o. Mac\u00e1rio achou-o magro, mais velho. Beijou-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Suba &#8211; disse o tio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nMac\u00e1rio ia calado, cosido com o corrim\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando chegou ao quarto, o tio Francisco pousou o candeeiro sobre uma larga mesa de pau-santo, e de p\u00e9, com as m\u00e3os nos bolsos, esperou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio estava calado, anediando a barba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que quer? &#8211; gritou-lhe o tio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo Verde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Boa viagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio ficou im\u00f3vel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Onde vai, seu est\u00fapido? &#8211; gritou-lhe o tio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vou-me.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sente-se ali!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O seu amigo \u00e9 um canalha! Loja de ferragens! N\u00e3o est\u00e1 m\u00e1! O senhor \u00e9 um homem de bem. Est\u00fapido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo \u00e9 um canalha! O senhor \u00e9 um homem de bem! Foi a Cabo Verde! Bem sei! Pagou tudo. Est\u00e1 claro! Tamb\u00e9m sei! Amanh\u00e3 faz o favor de ir para a sua carteira, l\u00e1 para baixo. Mandei p\u00f4r palhinha nova na cadeira. Faz favor de p\u00f4r na fatura Mac\u00e1rio &amp; Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. E meta na minha conta. A cama l\u00e1 est\u00e1 feita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio, estonteado, radioso, com as l\u00e1grimas nos olhos, queria abra\u00e7\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bem, bem. Adeus!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio ia sair.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Oh! Burro, pois quer-se ir desta sua casa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, indo a um pequeno arm\u00e1rio, trouxe gel\u00e9ia, um covilhete de doce, uma garrafa antiga do Porto e biscoitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Coma!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sentando-se ao p\u00e9 dele, e tornando a chamar-lhe de est\u00fapido, tinha uma l\u00e1grima a correr-lhe pelo engelhado da pele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De sorte que o casamento foi decidido para dali a um m\u00eas. E Lu\u00edsa come\u00e7ou a tratar do seu enxoval.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio estava ent\u00e3o na plenitude do amor e da alegria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava quase sempre em casa da noiva, e um dia andando a acompanh\u00e1-la, em compras, pelas lojas, ele mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A m\u00e3e tinha ficado numa modista, num primeiro andar da Rua do Ouro, e eles tinham descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia embaixo, no mesmo pr\u00e9dio, na loja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dia estava de Inverno, claro, fino, frio, com um grande c\u00e9u azul-ferrete, profundo, luminoso, consolador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que bonito dia! &#8211; disse Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E com a noiva pelo bra\u00e7o, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Est\u00e1! &#8211; disse ela. &#8211; Mas podem reparar; n\u00f3s s\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Deixa, est\u00e1 t\u00e3o bom&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Lu\u00edsa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio disse-lhe:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Queria ver an\u00e9is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Com pedras &#8211; disse Lu\u00edsa &#8211; e o mais bonito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim, com pedras &#8211; disse Mac\u00e1rio. &#8211; Ametista, granada. Enfim, o melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, no entanto, Lu\u00edsa ia examinando as montras forradas de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilh\u00f5es, os colares de camafeus, os an\u00e9is, as finas alian\u00e7as fr\u00e1geis como o amor, e toda a cintila\u00e7\u00e3o da pesada ourivesaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; V\u00ea, Lu\u00edsa &#8211; disse Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balc\u00e3o, em cima do vidro da montra, um reluzente espalhado de an\u00e9is de ouro, de pedras, lavrados, esmaltados; e Lu\u00edsa, tomando-os e deixando-os com as pontas dos dedos, ia-os correndo e dizendo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 feio&#8230; \u00c9 pesado&#8230; \u00c9 largo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; V\u00ea este &#8211; disse-lhe Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era um anel de pequenas p\u00e9rolas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 bonito &#8211; respondeu ela. &#8211; \u00c9 lindo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Deixa ver se serve &#8211; tornou Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E tomando-lhe a m\u00e3o, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 muito largo &#8211; disse Mac\u00e1rio. &#8211; Que pena!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto amanh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Boa id\u00e9ia &#8211; disse Mac\u00e1rio &#8211; sim senhor. Porque \u00e9 muito bonito. N\u00e3o \u00e9 verdade? As p\u00e9rolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E estes brincos? &#8211; acrescentou, indo ao fim do balc\u00e3o, a outra montra. &#8211; Estes brincos com uma concha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Dez moedas &#8211; disse o caixeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, no entanto, Lu\u00edsa continuava examinando os an\u00e9is, experimentando-os em todos os dedos, revolvendo aquela delicada montra, cintilante e preciosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito p\u00e1lido, e afirmou-se em Lu\u00edsa, passando vagarosamente a m\u00e3o pela cara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bem &#8211; disse Mac\u00e1rio, aproximando-se &#8211; ent\u00e3o amanh\u00e3 temos o anel pronto. A que horas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caixeiro n\u00e3o respondeu e come\u00e7ou a olhar fixamente para Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A que horas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ao meio-dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bem, adeus &#8211; disse Mac\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E iam sair. Lu\u00edsa trazia um vestido de l\u00e3 azul, que arrastava um pouco, dando uma ondula\u00e7\u00e3o melodiosa ao seu passo, e as suas m\u00e3os pequeninas estavam escondidas num regalo branco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Perd\u00e3o! &#8211; disse de repente o caixeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio voltou-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O senhor n\u00e3o pagou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio olhou para ele gravemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Est\u00e1 claro que n\u00e3o. Amanh\u00e3 venho buscar o anel, pago amanh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Perd\u00e3o! &#8211; insistiu o caixeiro, mas o outro&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Qual outro? &#8211; exclamou Mac\u00e1rio com uma voz surpreendida, adiantando-se para o balc\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Essa senhora sabe &#8211; afirmou o caixeiro. &#8211; Essa senhora sabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio tirou a carteira lentamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Perd\u00e3o, se h\u00e1 uma conta antiga&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caixeiro abriu o balc\u00e3o, e com um aspecto resoluto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Nada, meu caro senhor, \u00e9 de agora. \u00c9 um anel com dois brilhantes que aquela senhora leva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu! &#8211; disse Lu\u00edsa, com a voz baixa, toda escarlate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que \u00e9? Que est\u00e1 a dizer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E Mac\u00e1rio, p\u00e1lido, com os dentes cerrados, contra\u00eddo, fitava o caixeiro col\u00e8ricamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caixeiro disse ent\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Essa senhora tirou dali um anel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio ficou im\u00f3vel, encarando-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Um anel com dois brilhantes &#8211; continuou o rapaz. &#8211; Vi perfeitamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caixeiro estava t\u00e3o excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se espessamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Essa senhora n\u00e3o sei quem \u00e9. Mas tirou o anel. Tirou-o dali&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio, maquinalmente, agarrou-lhe o bra\u00e7o, e voltando-se para Lu\u00edsa, com a palavra abafada, gotas de suor na testa, l\u00edvido:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Lu\u00edsa, diz&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a voz cortou-se-lhe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu&#8230; &#8211; balbuciou ela, tr\u00eamula, assombrada, enfiada, decomposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E deixou cair o regalo ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio veio para ela, agarrou-lhe no pulso, fitando-a: e o seu aspecto era t\u00e3o resoluto e t\u00e3o imperioso, que ela meteu a m\u00e3o no bolso, bruscamente, apavorada, e mostrando o anel:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o me fa\u00e7a mal! &#8211; suplicou, encolhendo-se toda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio ficou com os bra\u00e7os ca\u00eddos, o ar abstrato, os bei\u00e7os brancos; mas de repente, dando um pux\u00e3o ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tem raz\u00e3o. Era distra\u00e7\u00e3o&#8230; Est\u00e1 claro! Esta senhora tinha-se esquecido. \u00c9 o anel. Sim, senhor, evidentemente. Tem a bondade. Toma, filha, toma. Deixa estar, este senhor embrulha-o. Quanto custa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abriu a carteira e pagou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os bei\u00e7os com o len\u00e7o, deu o bra\u00e7o a Lu\u00edsa, e dizendo ao caixeiro: desculpe, desculpe, levou-a, inerte, passiva, aterrada, semimorta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deram alguns passos na rua, que um largo sol iluminava intensamente; as seges cruzavam-se, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas passavam, conversando; os preg\u00f5es subiam em gritos alegres; um cavaleiro de cal\u00e7\u00e3o de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mac\u00e1rio ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina. Tinha o bra\u00e7o de Lu\u00edsa passado no seu; e via-lhe a m\u00e3o pendente, a sua linda m\u00e3o de cera, com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a m\u00e3o direita, e aquela m\u00e3o era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciara, para esta noite, Palafoz em Sarago\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, soltando o bra\u00e7o de Lu\u00edsa, disse-lhe baixo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vai-te.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ouve!&#8230; rogou ela, com a cabe\u00e7a toda inclinada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vai-te. &#8211; E com a voz abafada e terr\u00edvel: &#8211; Vai-te. Olha que chamo. Mando-te para o Aljube. Vai-te.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas ouve, Jesus!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vai-te! &#8211; E fez um gesto, com o punho cerrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pelo amor de Deus, n\u00e3o me batas aqui! &#8211; disse ela, sufocada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vai-te! Podem reparar. N\u00e3o chores. Olha que v\u00eaem. Vai-te!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E chegando-se para ela, disse baixo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9s uma ladra!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o ch\u00e3o com a bengala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dist\u00e2ncia, voltou-se: ainda viu, atrav\u00e9s dos vultos, o seu vestido azul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como partiu nessa tarde para a prov\u00edncia, n\u00e3o soube mais daquela rapariga loura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E\u00e7a de Queir\u00f3s COME\u00c7OU por me dizer que o seu caso era simples &#8211; e que se chamava Mac\u00e1rio&#8230; Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. 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