{"id":95435,"date":"2017-01-18T11:00:33","date_gmt":"2017-01-18T13:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95435"},"modified":"2017-01-18T11:01:47","modified_gmt":"2017-01-18T13:01:47","slug":"o-tesouro-eca-de-queiroz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-tesouro-eca-de-queiroz","title":{"rendered":"O Tesouro &#8211; E\u00e7a de Queiroz"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"116\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong> <span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo\u00a0II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<h2 align=\"justify\"><a id=\"1\" name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/h2>\n<p align=\"justify\">Os tr\u00eas irm\u00e3os de Medranhos, Rui, Guannes<br \/>\ne Rostabal, eram ent\u00e3o, em todo o Reino das Ast\u00farias, os fidalgos<br \/>\nmais famintos e os mais remendados.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nos pa\u00e7os de Medranhos, a que o vento da serra levara<br \/>\nvidra\u00e7a e telha, passavam eles as tardes desse inverno, engelhados<br \/>\nnos seus pelotes de camel\u00e3o, batendo as solas rotas sobre as lajes<br \/>\nda cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito n\u00e3o estalava<br \/>\nlume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma c\u00f4dea<br \/>\nde p\u00e3o negro, esfregada com alho. Depois, sem candeia, atrav\u00e9s<br \/>\ndo p\u00e1tio, fendendo a neve, iam dormir \u00e0 estrebaria, para aproveitar<br \/>\no calor das tr\u00eas \u00e9guas lazarentas que, esfaimadas como eles,<br \/>\nro\u00edam as traves da manjedoura. E a mis\u00e9ria tornara esses senhores<br \/>\nmais bravios que lobos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ora, na Primavera, por uma silenciosa manh\u00e3 de domingo,<br \/>\nandando todos os tr\u00eas na mata de Roquelanes a espiar pegadas de ca\u00e7a<br \/>\ne a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as tr\u00eas \u00e9guas<br \/>\npastavam a relva nova de abril, &#8211; os irm\u00e3os de Medranhos encontraram,<br \/>\npor tr\u00e1s de uma mouta de espinheiros, numa cova de rocha, um velho<br \/>\ncofre de ferro. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas<br \/>\ntr\u00eas chaves nas suas tr\u00eas fechaduras. Sobre a tampa, mal decifr\u00e1vel<br \/>\natrav\u00e9s da ferrugem, corria um d\u00edstico em letras \u00e1rabes.<br \/>\nE dentro, at\u00e9 \u00e0s bordas, estava cheio de dobr\u00f5es de<br \/>\nouro!<\/p>\n<p align=\"justify\">No terror e esplendor da emo\u00e7\u00e3o, os tr\u00eas<br \/>\nsenhores ficaram mais l\u00edvidos do que c\u00edrios. Depois, mergulhando<br \/>\nfuriosametne as m\u00e3os no ouro, estalaram a rir, num riso de t\u00e3o<br \/>\nlarga rajada, que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam&#8230; E de novo<br \/>\nrecuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfian\u00e7a<br \/>\nt\u00e3o desabrida que Guannes e Rostabal apalpavam nos cintos os cabos<br \/>\ndas grandes facas. Ent\u00e3o Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado,<br \/>\nergueu os bra\u00e7os, como um \u00e1rbitro, e come\u00e7ou por decidir<br \/>\nque o tesouro, ou viesse de Deus ou do dem\u00f4nio, pertencia aos tr\u00eas,<br \/>\ne entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balan\u00e7as.<br \/>\nMas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele<br \/>\ncofre t\u00e3o cheio? Nem convinha que sa\u00edssem da mata com o seu<br \/>\nbem, antes de cerrar a escurid\u00e3o. Por isso ele entendia que o mano<br \/>\nGuannes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho,<br \/>\nlevando j\u00e1 ouro na bolsinha, a comprar tr\u00eas alforges de couro,<br \/>\ntr\u00eas maquias de cevada, tr\u00eas empad\u00f5es de carne e tr\u00eas<br \/>\nbotelhas de vinho. Vinho e carne eram para eles, que n\u00e3o comiam desde<br \/>\na v\u00e9spera: a cevada era para as \u00e9guas. E assim refeitos, senhores<br \/>\ne cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforges e subiriam para Medranhos,<br \/>\nsob a seguran\u00e7a da noite sem Lua.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Bem tramado! &#8211; gritou Rostabal, homem mais alto que um<br \/>\npinheiro, de longa guedelha e com uma barba que lhe ca\u00eda desde os<br \/>\nolhos raiados de sangue at\u00e9 \u00e0 fivela do cintur\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas Guannes n\u00e3o se arredava do cofre, enrugado,<br \/>\ndesconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pesco\u00e7o de<br \/>\ngrou. Por fim, brutalmente:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Manos! O cofre tem tr\u00eas chaves&#8230; Eu quero fechar<br \/>\na minha fechadura e levar a minha chave!<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Tamb\u00e9m eu quero a minha, mil raios! &#8211; rugiu logo<br \/>\nRostabal.<\/p>\n<p align=\"justify\">Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia<br \/>\numa das chaves que o guardavam. E cada um em sil\u00eancio, agachado ante<br \/>\no cofre, cerrou a sua fechadura com for\u00e7a. Imediatamente Guannes,<br \/>\ndesanuviado, saltou na \u00e9gua, meteu pela vereda de olmos, a caminho<br \/>\nde Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:<\/p>\n<p align=\"justify\">Ol\u00e9! Ol\u00e9!<\/p>\n<p align=\"justify\">Sale la cruz de la iglesia,<\/p>\n<p align=\"justify\">Vestida de negro luto&#8230;<\/p>\n<h2 align=\"justify\"><a id=\"2\" name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/h2>\n<p align=\"justify\">NA clareira, em frente \u00e0 mouta que encobria o tesouro<br \/>\n(e que os tr\u00eas tinham desbastado a cutiladas), um fio de \u00e1gua,<br \/>\nbrotando entre rochas, ca\u00eda sobre uma vasta laje encravada, onde<br \/>\nfazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas<br \/>\naltas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito,<br \/>\ntombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos<br \/>\nespad\u00f5es entre os joelhos. As duas \u00e9guas tosavam a boa erva<br \/>\npintalgada de papoilas e bot\u00f5es de ouro. Pela ramaria andava um melro<br \/>\na assobiar. Um cheiro errante de violetas ado\u00e7ava o ar luminoso.<br \/>\nE Rostabal, olhando o sol, bocejava com fome.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ent\u00e3o Rui, que tirara o sombrero e lhe cofiava as<br \/>\nvelhas plumas roxas, come\u00e7ou a considerar, na sua fala avisada e<br \/>\nmansa, que Guannes, nessa manh\u00e3, n\u00e3o quisera descer com eles<br \/>\n\u00e0 mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guannes<br \/>\ntivesse quedado em Medranhos, s\u00f3 eles dois teriam descoberto o cofre,<br \/>\ne s\u00f3 entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais<br \/>\nque a parte de Guannes seria em breve dissipada, com rufi\u00f5es, aos<br \/>\ndados, pelas tavernas.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui sozinho,<br \/>\ntivesse achado este ouro, n\u00e3o dividia conosco, Rostabal!<\/p>\n<p align=\"justify\">O outro rosnou surdamente e com furor, dando um pux\u00e3o<br \/>\n\u00e0s barbas negras:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; N\u00e3o, mil raios! Guannes \u00e9 s\u00f4frego&#8230;<br \/>\nQuando o ano passado, se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro<br \/>\nde Fresno, nem me quis emprestar tr\u00eas para eu comprar um gib\u00e3o<br \/>\nnovo!<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; V\u00eas tu! &#8211; gritou Rui, resplandecendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados<br \/>\npela mesma id\u00e9ia, que os deslumbrava. E, atrav\u00e9s das suas<br \/>\nlargas passadas, as ervas altas silvavam.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; E para qu\u00ea &#8211; prosseguia Rui. &#8211; Para que serve todo<br \/>\no ouro que nos leva! Tu n\u00e3o o ouves, de noite, como tosse! Ao redor<br \/>\nda palha em que dorme, todo o ch\u00e3o est\u00e1 negro do sangue que<br \/>\nescarra! N\u00e3o dura at\u00e9 \u00e0s outras neves, Rostabal! Mas<br \/>\nat\u00e9 l\u00e1 ter\u00e1 dissipado os bons dobr\u00f5es que deviam<br \/>\nser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas,<br \/>\ne trajes nobres, e o teu ter\u00e7o de solarengos, como compete a quem<br \/>\n\u00e9, como tu, o mais velho dos de Medranhos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Pois que morra, e morra hoje! &#8211; bradou Rostabal.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Queres!<\/p>\n<p align=\"justify\">Vivamente, Rui agarrara o bra\u00e7o do irm\u00e3o<br \/>\ne apontava para a vereda de olmos, por onde Guannes partira cantando:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Logo adiante, ao fim do trilho, h\u00e1 um s\u00edtio<br \/>\nbom, nos silvados. E h\u00e1s-de ser tu, Rostabal, que \u00e9s o mais<br \/>\nforte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E \u00e9 justi\u00e7a<br \/>\nde Deus que seja tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guannes<br \/>\nte tratava de cerdo e de torpe, por n\u00e3o saberes a letra nem os n\u00fameros.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Malvado!<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Vem!<\/p>\n<p align=\"justify\">Foram. Ambos se emboscaram por tr\u00e1s dum silvado,<br \/>\nque dominava o atalho, estreito e pedregoso, como um leito de torrente.<br \/>\nRostabal, assolapado na vala, tinha j\u00e1 a espada nua. Um vento leve<br \/>\narrepiou na encosta as folhas dos \u00e1lamos &#8211; e sentiram o repique leve<br \/>\ndos sinos de Retortilho. Rui, co\u00e7ando a barba, calculava as horas<br \/>\npelo sol, que j\u00e1 se inclinava para as serras. Um bando de corvos<br \/>\npassou sobre eles, grasnando. E Rostabal, que lhes seguira o voo, recome\u00e7ou<br \/>\na bocejar, com fome, pensando nos empad\u00f5es e no vinho que o outro<br \/>\ntrazia nos alforges.<\/p>\n<p align=\"justify\">Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca,<br \/>\natirada aos ramos:<\/p>\n<p align=\"justify\">Ol\u00e9! Ol\u00e9!<\/p>\n<p align=\"justify\">Sale la cruz de la iglesia<\/p>\n<p align=\"justify\">Toda vestida de negro&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">Rui murmurou: &#8211; \u201cNa ilharga! Mal que passe!\u201d<br \/>\nO chouto da \u00e9gua bateu o cascalho, uma pluma num sombrero vermelhejou<br \/>\npor sobre a ponta das silvas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Rostabal rompeu de entre a sar\u00e7a por uma brecha,<br \/>\natirou o bra\u00e7o, a longa espada; &#8211; e toda a l\u00e2mina se embebeu<br \/>\nmolemente na ilharga de Guannes, quando ao rumor, bruscamente, ele se virara<br \/>\nna sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. J\u00e1<br \/>\nRui se arremessava aos freios da \u00e9gua: &#8211; Rostabal, caindo sobre Guannes,<br \/>\nque arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como<br \/>\num punhal, no peito e na garganta.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; A chave! &#8211; gritou Rui.<\/p>\n<p align=\"justify\">E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram<br \/>\npela vereda &#8211; Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada<br \/>\ne torta, a espada ainda nua entalada sob o bra\u00e7o, todo encolhido,<br \/>\narrepiado com o sabor de sangue que lhe espirrara para a boca; Rui, atr\u00e1s,<br \/>\npuxando desesperadamente os freios da \u00e9gua, que, de patas fincadas<br \/>\nno ch\u00e3o pedregoso, arreganhando a longa dentu\u00e7a amarela, n\u00e3o<br \/>\nqueria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Teve de lhe espica\u00e7ar as ancas lazarentas com a<br \/>\nponta da espada: &#8211; e foi correndo sobre ela, de l\u00e2mina alta, como<br \/>\nse perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombrero<br \/>\ne a espada; e debru\u00e7ado sobre a laje escavada em tanque, de mangas<br \/>\narrega\u00e7adas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.<\/p>\n<p align=\"justify\">A \u00e9gua, quieta, recome\u00e7ou a pastar, carregada<br \/>\ncom os alforjes novos que Guannes comprara em Retortilho. Do mais largo,<br \/>\nabarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Ent\u00e3o Rui tirou, lentamente,<br \/>\ndo cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na selva espessa, deslizou at\u00e9<br \/>\nRostabal, que resfolgava, com as longas barbas pingando. E serenamente,<br \/>\ncomo se pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a folha toda no largo<br \/>\ndorso dobrado, certeira sobre o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face<br \/>\nna \u00e1gua, os longos cabelos flutuando na \u00e1gua. A sua velha<br \/>\nescarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira<br \/>\nchave do cofre, Rui solevou o corpo &#8211; e um sangue mais grosso jorrou, escorreu<br \/>\npela borda do tanque, fumegando.<\/p>\n<h2 align=\"justify\"><a id=\"3\" name=\"3\"><\/a>CAP\u00cdTULO III<\/h2>\n<p align=\"justify\">AGORA eram dele, s\u00f3 dele, as tr\u00eas chaves do<br \/>\ncofre!&#8230; e Rui, alargando os bra\u00e7os, respirou deliciosamente. Mal<br \/>\na noite descesse, com o ouro metido nos alforges, guiando a fila das \u00e9guas<br \/>\npelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu<br \/>\ntesouro! E quando ali na fonte, e al\u00e9m rente aos silvados, s\u00f3<br \/>\nrestassem, sob as neves de dezembro, alguns ossos sem nome, ele seria o<br \/>\nmagn\u00edfico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido<br \/>\nmandaria dizer missas ricas pelos seus dois irm\u00e3os mortos&#8230; Mortos,<br \/>\ncomo? Como devem morrer os Medranhos &#8211; a pelejar contra o Turco!<\/p>\n<p align=\"justify\">Abriu as tr\u00eas fechaduras, apanhou um punhado de dobr\u00f5es,<br \/>\nque fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o<br \/>\nseu ouro! Depois de examinar a capacidade dos alforges &#8211; e encontrando as<br \/>\nduas garrafas de vinho, e um gordo cap\u00e3o assado, sentiu uma imensa<br \/>\nfome. Desde a v\u00e9spera s\u00f3 comera uma lasca de peixe seco. E<br \/>\nh\u00e1 quanto tempo n\u00e3o provava cap\u00e3o!<\/p>\n<p align=\"justify\">Com que del\u00edcia se sentou na relva, com as penas<br \/>\nabertas, e entre elas a ave loura, que rescendia, e o vinho cor de \u00e2mbar!<br \/>\nAh! Guannes fora bom mordomo &#8211; nem esquecera azeitonas. Mas por que trouxera<br \/>\nele, para tr\u00eas convivas, s\u00f3 duas garrafas? Rasgou uma asa do<br \/>\ncap\u00e3o: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce,<br \/>\ncom nuvenzinhas cor-de-rosa. Para al\u00e9m, na vereda, um bando de corvos<br \/>\ngrasnava. As \u00e9guas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a<br \/>\nfonte cantava, lavando o morto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Rui ergueu \u00e0 luz a garrafa de vinho. Com aquela<br \/>\ncor velha e quente, n\u00e3o teria custado menos de tr\u00eas maravedis.<br \/>\nE pondo o gargalo \u00e0 boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam<br \/>\nondular o pesco\u00e7o peludo. Oh vinho bendito, que t\u00e3o prontamente<br \/>\naquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia &#8211; destapou outra. Mas, como era<br \/>\navisado, n\u00e3o bebeu porque a jornada para a serra, com o tesouro,<br \/>\nrequeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava<br \/>\nem Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites<br \/>\nde neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.<\/p>\n<p align=\"justify\">De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar<br \/>\nos alforges. J\u00e1 entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma<br \/>\ndas \u00e9guas para junto do cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de<br \/>\nouro&#8230; mas oscilou, largando os dobr\u00f5es que retilintaram no ch\u00e3o,<br \/>\ne levou as duas m\u00e3os aflitas ao peito. Que \u00e9, D. Rui! Raios<br \/>\nde Deus! era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s goelas. J\u00e1 rasgara o gib\u00e3o, atirava os<br \/>\npassos incertos e, a arquejar, com a l\u00edngua pendente, limpava as<br \/>\ngrossas bagas dum suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem M\u00e3e!<br \/>\nOutra vez o lume, mais forte, que alastrava, o ro\u00eda! Gritou:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Socorro! Al\u00e9m! Guannes! Rostabal!<\/p>\n<p align=\"justify\">Os seus bra\u00e7os torcidos batiam o ar desesperadamente.<br \/>\nE a chama dentro galgava &#8211; sentia os ossos a estalarem como as traves duma<br \/>\ncasa em fogo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cambaleou at\u00e9 \u00e0 fonte para apagar aquela<br \/>\nlabareda, trope\u00e7ou sobre Rostabal; e foi com o joelho fincado no<br \/>\nmorto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de \u00e1gua,<br \/>\nque recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a \u00e1gua mais o queimava,<br \/>\ncomo se fosse um metal derretido. Recuou, caiu para cima da relva que arrancava<br \/>\naos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura.<br \/>\nAinda se ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente,<br \/>\nesbugalhando pavorosamente os olhos, berrou como se compreendesse enfim<br \/>\na trai\u00e7\u00e3o, todo o horror:<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; \u00c9 veneno!<\/p>\n<p align=\"justify\">Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas<br \/>\nchegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando<br \/>\na uma viela, por detr\u00e1s da catedral, a comprar ao velho droguista<br \/>\njudeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente,<br \/>\ndono de todo o tesouro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, al\u00e9m<br \/>\nnos silvados, j\u00e1 tinham pousado sobre o corpo de Guannes. A fonte,<br \/>\ncantando, lavava o outro morto. Meio enterrada na erva, toda a face de Rui<br \/>\nse tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no c\u00e9u.<\/p>\n<p align=\"justify\">O tesouro ainda l\u00e1 est\u00e1, na mata de Roquelanes.<\/p>\n<h2 align=\"justify\">FIM<\/h2>\n<p align=\"justify\"><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span>www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo\u00a0II Cap\u00edtulo III &nbsp; E\u00e7a de Queir\u00f3s CAP\u00cdTULO I Os tr\u00eas irm\u00e3os de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram ent\u00e3o, em todo o Reino das Ast\u00farias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados. 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