{"id":95429,"date":"2017-01-18T10:20:05","date_gmt":"2017-01-18T12:20:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95429"},"modified":"2017-01-18T10:20:05","modified_gmt":"2017-01-18T12:20:05","slug":"o-senhor-diabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-senhor-diabo","title":{"rendered":"O Senhor Diabo"},"content":{"rendered":"<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<p>Como est\u00e1 provado que sou redondamente inapto para escrever Revistas, dizer finamente das Modas, e falar da literatura contempor\u00e2nea herdeira honesta do defunto sr. Prudhomme, \u00e9 justo, ao menos, que de vez em quando conte uma hist\u00f3ria amorosa, uma daquelas historias femininas e macias, que nos seroes de Trieste faziam adormecer nas suas cadeiras douradas as senhoras arquiduquesas de \u00c1ustria.<\/p>\n<p>Conhecem o Diabo? N\u00e3o serei eu quem lhes conte a vida dele. E, todavia, sei de cor a sua legenda tr\u00e1gica, luminosa, celeste, grotesca e suave! O Diabo \u00e9 a figura mais dram\u00e1tica da Hist\u00f3ria da Alma. A sua vida \u00e9 a grande aventura do Mal. Foi ele que inventou os enfeites que enlanguescem a alma, e as armas que ensang\u00fcentam o corpo. E todavia, em certos momentos da hist\u00f3ria, o Diabo \u00e9 o representante imenso do direito humano. Quer a liberdade, a fecundidade, a for\u00e7a, a lei. \u00c9 ent\u00e3o uma esp\u00e9cie de P\u00e3 sinistro, onde rugem as fundas rebeli\u00f5es da Natureza. Combate o sacerd\u00f3cio e a virgindade; aconselha a Cristo que viva, e aos m\u00edsticos que entrem na humanidade jr.<\/p>\n<p>\u00c9 incompreens\u00edvel: tortura os santos e defende a Igreja. No s\u00e9culo 16 \u00e9 o maior zelador da colheita dos d\u00edzimos.<\/p>\n<p>\u00c9 envenenador e estrangulador. \u00c9 impostor, tirano, vaidoso e traidor. Todavia, conspira contra os imperadores da Alemanha; consulta Arist\u00f3teles e Santo Agostinho, e suplicia Judas que vendeu Cristo e Bruto que apunhalou C\u00e9sar.<\/p>\n<p>O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza imensa e doce. Tem talvez nostalgia do C\u00e9u! Ainda novo, quando os astros lhe chamavam L\u00facifer, o que leva a luz, revolta-se contra Jeov\u00e1 e comanda uma grande batalha entre as nuvens.<\/p>\n<p>Depois tenta Eva, engana o profeta Daniel, apupa J\u00f3, tortura Sara e em Babil\u00f4nia \u00e9 jogador, palha\u00e7o, difamador, libertino e carrasco. Quando os deuses foram exilados, ele acampa com eles nas florestas \u00famidas da G\u00e1lia e embarca expedi\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas nos navios do imperador Const\u00e2ncio. Cheio de medo diante dos olhos tristes de Jesus, vem torturar os monges do Ocidente.<\/p>\n<p>Escarnecia S. Mac\u00e1rio, cantava salmos na igreja de Alexandria, oferecia ramos de cravos a Santa Pel\u00e1gia, roubava as galinhas do abade de Cluny, espica\u00e7ava os olhos de S. Sulp\u00edcio e \u00e0 noite vinha, cansado e empoeirado, bater \u00e0 portaria do convento dos dominicanos em Floren\u00e7a e ia dormir na cela de Savonarola.<\/p>\n<p>Estudava o hebreu, discutia com Lutero, anotava glosas para Calvino, lia atentamente a B\u00edblia e vinha ao anoitecer para as encruzilhadas da Alemanha jogar, com os frades mendicantes, sentados na relva, sobre a sela do seu cavalo.<\/p>\n<p>Intentava processos contra a Virgem; e era o pont\u00edfice da missa negra, depois de ter inspirado os ju\u00edzes de S\u00f3crates. Nos seus velhos dias, ele que tinha discutido com \u00c1tila planos de batalha, deu-se ao pecado da gula.<\/p>\n<p>E Rabelais, quando o viu assim, fatigado, engelhado, calvo, gordo e sonolento, apupou-o. Ent\u00e3o o demon\u00f3grafo Wier escreve contra ele panfletos sanguinolentos e Voltaire criva-o de epigramas.<\/p>\n<p>O Diabo sorri, olha em roda de si para os calv\u00e1rios desertos, escreve suas mem\u00f3rias e num dia enevoado, depois de ter dito adeus aos seus velhos camaradas, os astros, morre enfastiado e silencioso. Ent\u00e3o Ceranger escreve-lhe o epit\u00e1fio.<\/p>\n<p>O Diabo foi celebrado, na sua morte, pelos s\u00e1bios e pelos poetas. Proclus ensinou a sua subst\u00e2ncia, Presul as suas aventuras da noite, S. Tom\u00e1s revelou seu destino. Torquemada disse a sua maldade, e Pedro de Lancre a sua inconst\u00e2ncia jovial. Jo\u00e3o Dique escreveu sobre sua eloqu\u00eancia e Jacques I de Inglaterra fez a corografia de seus estados. Milton disse a sua beleza e Dante a sua trag\u00e9dia. Os monges ergueram-lhe est\u00e1tuas. O seu sepulcro \u00e9 a Natureza.<\/p>\n<p>O Diabo amou muito.<\/p>\n<p>Foi namorado gentil, marido, pai de gera\u00e7\u00f5es sinistras. Foi querido, na Antig\u00fcidade, da m\u00e3e de C\u00e9sar e na Meia Idade foi amado da bela Ol\u00edmpia. Casou no Brabante com a filha de um mercador. Tinha entrevistas l\u00e2nguidas com Fredegonda, que assassinou duas gera\u00e7\u00f5es. Era o namorado das frescas serenatas das mulheres dos mercadores de Veneza.<\/p>\n<p>Escrevia melancolicamente \u00e0s monjas dos conventos da Alemanha.<\/p>\n<p>Feminae in illius amore delectantur, diz tragicamente o abade C\u00e9sar de Helenbach. No s\u00e9culo 12, tentava com olhares cheios de sol as m\u00e3es melodram\u00e1ticas dos Burgraves. Na Esc\u00f3cia havia grande mis\u00e9ria sobre os montes: o Diabo comprava por 15 shillings o amor das mulheres dos highlanders e pagava com o dinheiro falso que fabricava em companhia de Filipe I, de Lu\u00eds VI, de Lu\u00eds VII, de Filipe, o Belo, do rei Jo\u00e3o, de Lu\u00eds XI, de Henrique II, com o mesmo cobre de que se faziam as caldeiras onde eram cozidos vivos os moedeiros falsos.<\/p>\n<p>Mas eu quero s\u00f3 contar a hist\u00f3ria de um amor infeliz do Diabo, nas terras do Norte.<\/p>\n<p>\u00d3 mulheres! V\u00f3s todas que tendes dentro do peito o mal que nada cura, nem os simples, nem os b\u00e1lsamos, nem os orvalhos, nem as rezas, nem o pranto, nem o sol, nem a morte, vinde ouvir essa hist\u00f3ria florida! Era na Alemanha, onde nasce a flor do absinto.<\/p>\n<p>AA casa era de pau, bordada, rendilhada, cinzelada, como a sobrepeliz do senhor arcebispo de Ulm.<\/p>\n<p>Maria, clara e loura, fiava na varanda, cheia de vasos, de trepadeiras, de ramagens, de pombas e de sol. No fundo da varanda havia um Cristo de marfim. As plantas limpavam piedosamente com as suas m\u00e3os de folhas, o sangue das chagas, as pombas, com o calor do seu colo, aqueciam os p\u00e9s doloridos. No fundo da casa, o pai dela, o velho, bebia a cerveja de Heidelberg, os vinhos da It\u00e1lia, e as cidras da Dinamarca. Era vaidoso, gordo, sonolento e mau.<\/p>\n<p>E sempre a rapariga fiava. Preso \u00e0 roca por um fio branco, sempre o fuso saltava; preso ao seu cora\u00e7\u00e3o por uma tristeza, sempre pulava um desejo.<\/p>\n<p>E todo o dia fiava.<\/p>\n<p>Ora debaixo da varanda passava um lindo mo\u00e7o, delicado, melodioso e t\u00edmido. Vinha e encostava-se ao pilar fronteiro.<\/p>\n<p>Ela, sentada junto ao crucifixo, cobria os p\u00e9s de Jesus com os seus grandes cabelos louros.<\/p>\n<p>As plantas, as folhagens, em cima, cobriam de frescura e de sombra a cabe\u00e7a da imagem. Parecia que toda a alma de Cristo estava ali \u2014 consolando, em cima, sob a forma de planta, amando, em baixo, sob a forma de mulher.<\/p>\n<p>Ele, o branco mo\u00e7o, era o peregrino daquela santa. E o seu olhar procurava sempre o cora\u00e7\u00e3o da doce rapariga e o olhar dela, s\u00e9ria e branca, ia procurar a alma do caro bem-amado.<\/p>\n<p>Os olhos investigavam as almas. E vinham radiosos, como mensageiros de luz, contar o que tinham visto: era um encanto! \u2014 Se tu soubesses! \u2014 dizia um olhar. \u2014 A alma dela \u00e9 imaculada.<\/p>\n<p>\u2014 Se tu visses! \u2014 dizia o outro. \u2014 O cora\u00e7\u00e3o dele \u00e9 sereno, forte e vermelho.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 consolador, aquele peito onde h\u00e1 estrelas! \u2014 \u00c9 purificador, aquele seio onde h\u00e1 b\u00ean\u00e7\u00e3os! E olhavam ambos, silenciosos, ext\u00e1ticos, perfeitos. E a cidade vivia, as arvores rosnavam sob o balc\u00e3o dos eleitores, a trompa de ca\u00e7a soava nas torres, os cantos dos peregrinos nas estradas, os santos liam nos seus nichos, os diabos escarneciam na grimpa das igrejas, as amendoeiras tinham flor e o Reno cantigas de ceifeiras.<\/p>\n<p>E eles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Cristo aninhava as almas.<\/p>\n<p>Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou dos reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria na varanda fiava a sua estriga. Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no sil\u00eancio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck que os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar:<\/p>\n<p class=\"imagem\"><b>Os teus olhos, bem-amada,<br \/>\nS\u00e3o duas noites cerradas.<br \/>\nMas os l\u00e1bios s\u00e3o de luz<br \/>\nL\u00e1 se cantam alvoradas.<br \/>\nOs teus seios, minha gra\u00e7a,<br \/>\nS\u00e3o duas portas de cera,<br \/>\nFora a minha boca um sol<br \/>\nComo ele as derretera!<br \/>\nOs teus l\u00e1bios, flor de carne,<br \/>\nS\u00e3o portas do Para\u00edso:<br \/>\nE o banquinho de S. Pedro<br \/>\n\u00c9 no teu dente do siso.<br \/>\nQueria ter uma camisa<br \/>\nDe um tecido bem fiado<br \/>\nFeita de todos os ais<br \/>\nQue o teu peito j\u00e1 tem dado.<br \/>\nQuando nos formos casar<br \/>\nCanta missa o rouxinol<br \/>\nE o teu vestido de noiva<br \/>\nSer\u00e1 tecido de sol!<br \/>\nA b\u00ean\u00e7\u00e3o nos deitar\u00e1<br \/>\nAlgum antigo carvalho!<br \/>\nE por enfeites de boda<br \/>\nTeremos gotas de orvalhos!<\/b><\/p>\n<p>E ao cimo da rua apareceu um homem forte, de uma bela palidez de m\u00e1rmore. Tinha os olhos negros como dois s\u00f3is legend\u00e1rios do pa\u00eds do Mal. Negros eram os cabelos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao peito do corpete uma flor vermelha de cacto.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s vinha um pajem perfeito como uma das antigas est\u00e1tuas que fizeram da Gr\u00e9cia a lenda da beleza. Andava convulsivamente como se ferisse os p\u00e9s no lajedo. Tinha os olhos inertes e fixos dos Apolos de m\u00e1rmore. Dos seus vestidos sa\u00eda um cheiro de ambrosia. A testa era triste e serena como as dos que t\u00eam a saudade imortal de uma p\u00e1tria perdida. Trazia na m\u00e3o uma \u00e2nfora esculpida em Mileto, onde se sentia a suavidade dos n\u00e9ctares ol\u00edmpicos.<\/p>\n<p>O homem da palidez de m\u00e1rmore veio at\u00e9 junto a varanda e, entre as s\u00faplicas gemidas da guitarra, disse sonoramente: \u2014 A gentil mo\u00e7a, a linda Yseult da varanda, deixa que estes bei\u00e7os de homem v\u00e3o, como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria de amor, das suas m\u00e3os ao seu colo? E olhando para Jusel, que desfolhava uma margarida, cantou lentamente, com grandes risadas frias e met\u00e1licas:<\/p>\n<p class=\"imagem\"><b>Quem depena um rouxinol<br \/>\nE rasga uma triste flor,<br \/>\nMostra que dentro do peito<br \/>\nS\u00f3 tem farrapos de amor.<\/b><\/p>\n<p>E ergueu para a varanda os seus olhos terr\u00edveis e desoladores, como blasf\u00eamias de luz. Maria tinha levantado a sua roca e s\u00f3 havia na varanda as aves, as flores e Jesus.<\/p>\n<p>\u2014 A toutinegra voou \u2014 disse jovialmente.<\/p>\n<p>E indo para Jusel: \u2014 \u00c9 que talvez sentisse a vizinhan\u00e7a do abutre. Que diz o Bacharel? Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida.<\/p>\n<p>\u2014 No meu tempo, senhor Suspiro \u2014 disse o homem dos olhos negros, cruzando lentamente os bra\u00e7os \u2014 j\u00e1 havia aqui duas espadas, a fazer rebentar na sombra flores de fa\u00edscas. Mas os her\u00f3is v\u00e3o-se, e os homens nascem cada vez mais da dor das mulheres. Vejam isso! \u00c9 um cora\u00e7\u00e3o com gib\u00e3o e gorra. Mas cora\u00e7\u00e3o branco, pardo, alvacento, de todas as cores, menos vermelho e s\u00f3lido. Pois bem! Aquela rapariga tem uns cabelos louros que dizem bem com os meus cabelos pretos. As cintas delgadas querem bra\u00e7os fortes. Os l\u00e1bios vermelhos de desejam gostam as armas vermelhas de sangue. \u00c9 minha a dama, senhor Bacharel! Justel tinha descido as suas grandes p\u00e1lpebras eleg\u00edacas e via as p\u00e9talas arrancadas da margarida ca\u00edrem como desejos assassinados, desprendidos do seu peito.<\/p>\n<p>O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rigidamente a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Bacharel Ternura \u2014 disse \u2014 h\u00e1 aqui perto um lugar onde os goivos nascem expressamente para os inocentes que morrem. Se tens alguns bens a deixar, recomendo-te este excelente Rabil. \u2014 Era o pajem. \u2014 \u00c9 necess\u00e1rio proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde que findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 bem-amada, \u00e0 moda dos trovadores, eu me encarrego de lho trazer, bem embalsamado, em lama, na ponta da espada. Tu \u00e9s formoso, amado, branco, delicado, perfeito. V\u00ea-me isto, Rabil. \u00c9 uma farsa bem feita ao Compadre l\u00e1 de cima dos s\u00f3is, dilacerar-lhe esta beleza! Se namoravas alguma estrela, eu lhe mandarei por bom portador os teus \u00faltimos adeuses. Enquanto aos sacramentos, s\u00e3o in\u00fateis; eu me encarrego de te purificar pelo fogo. Rabil, toca na guitarra o rondo\u00f3 de defuntos: anuncia no Inferno, o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas em duelo secreto, armas honradas! E batendo heroicamente nos copos da espada: \u2014 Eu tenho aqui esta debilidade, onde est\u00e1 a tua for\u00e7a? \u2014 Ali! \u2014 respondeu Jusel, mostrando Cristo na varanda, entre a folhagem, agonizante entre as palpita\u00e7\u00f5es das asas.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 disse cavamente o homem da flor de cacto. A mim, Rabil! Lembras-te de Act\u00e9on, de Apolo, de Derceto, de \u00cdaco e de Marte? \u2014 Eram os meus irm\u00e3os \u2014 disse lentamente o pajem, hirto como uma figura de pedra.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, Rabil, para a frente, atrav\u00e9s da noite. Cheira-me aqui \u00e0s terras de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>Na noite seguinte havia pela Alemanha um grande luar purificador. Maria estava debru\u00e7ada na varanda. Era a hora celeste em que os jasmins concebem. Em baixo, o olhar de Jusel, que estava encostado aopilar, suspirava para aquele corpo feminino e branco, como nos jardins a \u00e1gua que sobe em repuxo suspira para o azul.<\/p>\n<p>Maria disse suspiradamente: \u2014 Vem.<\/p>\n<p>Jusel subiu \u00e0 varanda, radioso. Sentaram-se ao p\u00e9 da imagem. O ar estava t\u00e3o sereno como na p\u00e1tria das armas. Os dois corpos dobraram-se, um para o outro, como se estivessem aproximando os bra\u00e7os de um Deus.<\/p>\n<p>As folhagens escuras que envolviam Cristo estendiam-se sobre as duas cabe\u00e7as louras com gestos de b\u00ean\u00e7\u00e3o. Havia na moleza das sombras um mist\u00e9rio nupcial. Jusel tinha as m\u00e3os dela presas como p\u00e1ssaros cativos e dizia: \u2014 Queria bem ver-te, assim, ao p\u00e9 de mim. Se soubesses! Tenho receios infinitos. \u00c9s t\u00e3o loura, t\u00e3o branca! Tive um sonho que me assustou. Era num campo. Tu estavas de p\u00e9, im\u00f3vel. Ouviu-se um coro que cantava dentro do teu cora\u00e7\u00e3o! Em redor andava uma dan\u00e7a nebulosa de esp\u00edritos. E diziam uns: \u201cAquele coro \u00e9 dos mortos: s\u00e3o os amantes infelizes que choram no cora\u00e7\u00e3o daquela mulheres.\u201d Outros diziam: \u201cSim, aquele coro \u00e9 de mortos: s\u00e3o os nossos deuses queridos que choram ali no ex\u00edlio.\u201d E ent\u00e3o adiantei-me e disse: \u201cSim, aquele coro \u00e9 dos mortos, s\u00e3o os desejos que ela teve por mim, que se lembram e que gemem.\u201d Que sonho t\u00e3o mau, t\u00e3o mau! \u2014 Por que est\u00e1s tu \u2014 dizia ela \u2014 todos os dias encostado ao pilar, com as m\u00e3os quase postas? \u2014 Estou a ler as cartas de luz que os teus olhos me escrevem.<\/p>\n<p>Calaram-se. Eles eram naquele momento alma florida da noite.<\/p>\n<p>\u2014 Quais s\u00e3o os meus olhos? Quais s\u00e3o os teus olhos? Dizia Jusel. \u2014 Nem eu sei! E ficaram calados. Ela sentia os desejos que se desprendiam dos olhos dele, virem, como p\u00e1ssaros feridos, que gemem, cair no fundo da sua alma, sonoramente.<\/p>\n<p>E inclinando o corpo: \u2014 Conheces meu pai? \u2014 disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Que importa? \u2014 Ai, se tu soubesses! \u2014 Que importa? Estou aqui. Se ele te quer bem, h\u00e1 de gostar deste meu amor, sempre aos teus p\u00e9s, como um c\u00e3o. \u00c9s uma santa. Os cabelos de Jesus nascem do teu cora\u00e7\u00e3o. O que quero eu? Ter a tua alma presa, bem presa, como um p\u00e1ssaro esquivo. Esta paix\u00e3o toda, deixa-te t\u00e3o imaculada, que se morresses podias ser enterrada na transpar\u00eancia do azul. Os desejos s\u00e3o uma hera: queres que os arranque? Tu \u00e9s o pretexto da minha alma. Se me n\u00e3o quisesses deixava-me andar esfarrapado. Tens l\u00e1 a f\u00e9 de Jesus e a saudade de tua m\u00e3e: deixa estar: damo-nos todos bem, l\u00e1 dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um c\u00e9u estrelado. Que quero de ti? As tuas penas. Quando chorares, vem a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu? Casemo-nos no cora\u00e7\u00e3o de Jesus. D\u00e1-me essa agulheta, que tu prende o cabelo. Ser\u00e1 a nossa estola.<\/p>\n<p>E com a ponta da agulheta, gravou sobre o peito de Cristo as letras dos dois nomes enla\u00e7adas \u2014 J. e M.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o nosso noivado \u2014 disse ele. O c\u00e9u atira-nos os astros, confeitos de luz. Cristo n\u00e3o se esquecer\u00e1 deste amor que chora aos seus p\u00e9s. As exala\u00e7\u00f5es divinas que sa\u00edrem do seu peito aparecer\u00e3o, l\u00e1 em cima, com a forma das nossas letras. Deus saber\u00e1 este segredo. Que importa? Eu j\u00e1 lho tinha dito, a ele, \u00e0s estrelas, \u00e0s plantas, aos p\u00e1ssaros, porque, v\u00eas tu? As flores, as constela\u00e7\u00f5es, a gra\u00e7a, as pombas, tudo isso, toda esta efus\u00e3o de bondade, de inoc\u00eancia, de gra\u00e7a, era simplesmente, \u00f3 adorada, um eterno bilhete de amor que eu te escrevia.<\/p>\n<p>E ajoelhados, ext\u00e1ticos, calados, sentiam misturar-se ao seu cora\u00e7\u00e3o, \u00e0s suas confid\u00eancias, aos seus desejos, toda a vaga e imensa bondade da religi\u00e3o da gra\u00e7a.<\/p>\n<p>E as suas almas falavam cheias de mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00eas tu? \u2014 dizia a alma dela \u2014 Quando te vejo, parece que Deus diminui, e se contrai, e se vem aninhar todo no teu cora\u00e7\u00e3o; quando penso em ti, parece-me que o teu cora\u00e7\u00e3o se alarga, se estende, abrange o c\u00e9u, e os universos, e encerra por toda a parte Deus! \u2014 O meu cora\u00e7\u00e3o \u2014 suspirava a alma dele \u2014 \u00e9 uma concha. O teu amor \u00e9 o mar. Muito tempo esta concha viver\u00e1 afogada e perdida neste mar. Mas se tu expulsares de ti, como numa concha abandonada se ouve ainda o rumor do mar, no meu cora\u00e7\u00e3o abandonado se escutar\u00e1 sempre o sussurro do meu amor! \u2014 Olha \u2014 dizia a alma dela \u2014 eu sou com um campo. Tenho \u00e1rvores e relvas. O que h\u00e1 em mim de maternidade \u00e9 \u00e1rvore para te cobrir, o que h\u00e1 em mim de paix\u00e3o \u00e9 relva para tu pisares! \u2014 Sabes tu? \u2014 dizia a alma dele \u2014 No c\u00e9u h\u00e1 uma floresta invis\u00edvel de que apenas se v\u00eaem as pontas das ra\u00edzes que s\u00e3o as estrelas. Tu eras a toutinegra daqueles arvoredos. Os meus desejos feriram-te. Eu, h\u00e1 muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente, se o sol te alumia, triste, se a chuva te molha. H\u00e1 muito que te vejo descendo \u2014 quando cair\u00e1s tu nos meus bra\u00e7os? E a alma dela dizia: \u201cCala-te\u201d. N\u00e3o falavam.<\/p>\n<p>E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam, tinham o c\u00e9u por elemento, os seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua esperan\u00e7a a madrugada, o seu amor a vida, e sempre mais ternas e mais vastas envolviam tudo o que do mundo sobre de justo, perfeito, casto, as ora\u00e7\u00f5es, os prantos, os ideais, e estendiam-se por todo o c\u00e9u, unidas e imensas \u2014 para Deus passar por cima!<\/p>\n<p>E ent\u00e3o \u00e0 porta da varanda houve uma risada met\u00e1lica, imensa e sonora. Eles ergueram-se resplandecentes, puros, vestidos de gra\u00e7a. \u00c0 porta estava o pai de Maria, hirto, gordo, sinistro. Atr\u00e1s, o homem de palidez de m\u00e1rmore balan\u00e7ava vaidosamente a pluma escarlate da gorra. O pajem ria, fazendo uma claridade na sombra.<\/p>\n<p>O pai lentamente foi para Jusel e disse, com esc\u00e1rnio: \u2014 Onde queres ser enforcado, vil\u00e3o? \u2014 Pai, pai! \u2014 E Maria, aflita, com uma convuls\u00e3o de l\u00e1grimas, enla\u00e7ava o corpo do velho. \u2014 N\u00e3o. \u00c9 meu marido, casamos as almas. Olhe, ali est\u00e1. Veja! Ali, na imagem! \u2014 O qu\u00ea? \u2014 Ali, no peito, veja. Os nossos nomes enla\u00e7ados. \u00c9 meu marido. S\u00f3 me quer bem. Mas seja, sobre o peito de Jesus, no lugar do cora\u00e7\u00e3o. Mesmo sobre o cora\u00e7\u00e3o. E ele, o doce Jesus, deixou que lhe fizessem mais esta ferida! O velho olhava as letras como uns esponsais divinos que se tinham refugiado no seio de Cristo.<\/p>\n<p>\u2014 Raspa, meu velho, que isso \u00e9 marfim! \u2014 gritou o homem dos olhos negros.<\/p>\n<p>O velho foi para a imagem com a faca no cintur\u00e3o. Tremia. Ia arrancar as ra\u00edzes daquele amor, at\u00e9 ao peito imaculado de Jesus! E ent\u00e3o a imagem, sob o justo e incorrupt\u00edvel olhar da luz, despregou uma das suas m\u00e3os feridas, e cobriu sobre o peito as letras desposadas.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ele, Rabil! \u2014 gritou o homem da flor de cacto.<\/p>\n<p>O velho solu\u00e7ava.<\/p>\n<p>E entoa o homem p\u00e1lido, que tocava guitarra, veio tristemente junto da imagem, enla\u00e7ou os bra\u00e7os dos namorados, como se v\u00ea nas velhas estampas alem\u00e3s, e disse ao pai: \u2014 Aben\u00e7oa-os, velho! E saiu batendo rijamente nos copos da espada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas quem \u00e9? \u2014 disse o velho apavorado.<\/p>\n<p>\u2014 Mais baixo! \u2014 disse o pajem da \u00e2nfora de Mileto \u2014 \u00c9 o senhor Diabo&#8230; Mil desejos, meus noivos.<\/p>\n<p>Pelas horas da madrugada, na estrada, o homem dos cabelos negros dizia ao pajem: \u2014 Estou velho. Vai-se-me a vida. Sou o \u00faltimo dos que combateram nas estrelas. Os abutres j\u00e1 me apupam. \u00c9 estranho: sinto nascer c\u00e1 dentro, no peito, um rumor de perd\u00e3o. Gostava daquela rapariga. Lindos cabelos louros, quem vos dera no tempo do c\u00e9u. J\u00e1 n\u00e3o estou para aventuras de amor. A bela Imp\u00e9ria diz que me vendi a Deus.<\/p>\n<p>\u2014 A bela Imp\u00e9ria! \u2014 disse o pajem. \u2014 As mulheres! Vaidades, vaidades.! As mulheres belas foram-se com os deuses belos. Hoje os homens s\u00e3o m\u00edsticos, frades, santos, namorados, trovadores. As mulheres s\u00e3o feias, avaras, magras, burguesas, finadas de cil\u00edcios, com uma pouca de alma incomoda, e uma carne t\u00e3o di\u00e1fana que se v\u00ea atrav\u00e9s do lodo primitivo.<\/p>\n<p>\u2014 Vou achando ris\u00edvel a obra dos Seis Dias. As estrelas tremem de medo e de dor. A Lua \u00e9 um sol fulminado. Come\u00e7a a escassear o sangue pelo mundo. Eu tenho gasto o mal. Fui pr\u00f3digo. Se eu no fim da vinha tinha de me entreter perdoando e consolando \u2014 para noa morrer de t\u00e9dio. Fica-te em paz, mundo! S\u00ea infame, lamacento, podre, vil e imundo, e s\u00ea, todavia, um astro no c\u00e9u, impostor! E todavia o homem n\u00e3o mudou. \u00c9 o mesmo. N\u00e3o viste? Aquele, para amar, feriu com uma agulheta o peito da imagem. Como nos tempos antigos, o homem n\u00e3o come\u00e7a a gozar um bem, sem primeiro rasgar a carne a um Deus! \u00c9 esta minha \u00faltima aventura. Vou para o meio da Natureza, para junto do livre mar, p\u00f4r-me sossegadamente a morrer.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m os diabos se v\u00e3o. Adeus, Sat\u00e3! \u2014 Adeus, Gan\u00edmedes! E o homem e o pajem separaram-se na noite.<\/p>\n<p>A poucos passos, o homem encontrou um cruzeiro de pedra.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s tamb\u00e9m deserto \u2014 disse, olhando para a cruz. Os infames pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que eu. Sofreste calado.<\/p>\n<p>E sentando-se nos degraus do cruzeiro, enquanto vinha a madrugada, afinou a guitarra e cantou no sil\u00eancio:<\/p>\n<p class=\"imagem\"><b>Quem vos desfolhou estrelas,<br \/>\nDos arvoredos da luz?<br \/>\nE com uma risada melanc\u00f3lica:<br \/>\nChegar\u00e1 o Outono ao Diabo?<br \/>\nVir\u00e1 o Inverno a Jesus?<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E\u00e7a de Queir\u00f3s Como est\u00e1 provado que sou redondamente inapto para escrever Revistas, dizer finamente das Modas, e falar da literatura contempor\u00e2nea herdeira honesta do defunto sr. 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