{"id":95425,"date":"2017-01-18T10:13:54","date_gmt":"2017-01-18T12:13:54","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95425"},"modified":"2017-01-18T10:14:35","modified_gmt":"2017-01-18T12:14:35","slug":"o-defunto-eca-de-queiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-defunto-eca-de-queiros","title":{"rendered":"O Defunto &#8211; E\u00e7a de Queir\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"116\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong> <span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo\u00a0II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O Defunto &#8211; E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<h2><a id=\"1\" name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/h2>\n<p>NO ano de 1474, que foi por toda a Cristandade t\u00e3o abundante em merc\u00eas<br \/>\ndivinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de<br \/>\nSeg\u00f3via, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro mo\u00e7o,<br \/>\nde muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas.<\/p>\n<p>Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em c\u00e2nones, ficava<br \/>\nao lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em<br \/>\nfrente, para al\u00e9m do adro, onde cantavam as tr\u00eas bicas de um<br \/>\nchafariz antigo, era o escuro e gradeado pal\u00e1cio de D. Alonso de Lara,<br \/>\nfidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias, que j\u00e1 na madureza da<br \/>\nsua idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua<br \/>\nalvura, cabelos cor de sol-claro e colo de gar\u00e7a real. D. Rui tivera<br \/>\njustamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem sempre<br \/>\nse conservou devoto e fiel servidor; ainda que, sendo de sangue bravo e alegre,<br \/>\namava as armas, a ca\u00e7a, os saraus bem galanteados, e mesmo por vezes<br \/>\numa noite ruidosa de taverna com dados e pich\u00e9is de vinho. Por amor,<br \/>\ne pelas facilidades desta santa vizinhan\u00e7a, tomara ele o piedoso costume,<br \/>\ndesde a sua chegada a Seg\u00f3via, de visitar todas as manh\u00e3s, \u00e0<br \/>\nhora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em tr\u00eas Ave-Marias,<br \/>\na b\u00ean\u00e7\u00e3o e a gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com<br \/>\nlebr\u00e9us ou falc\u00e3o, ainda voltava para, \u00e0 sauda\u00e7\u00e3o<br \/>\nde V\u00e9speras, murmurar docemente uma Salve-Rainha.<\/p>\n<p>E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum<br \/>\nramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura<br \/>\ne cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.<\/p>\n<p>A esta venerada igreja do Pilar vinha tamb\u00e9m cada domingo D. Leonor,<br \/>\na t\u00e3o falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma<br \/>\naia carrancuda, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, e por<br \/>\ndois possantes lacaios que a ladeavam e guardavam como torres. T\u00e3o<br \/>\nciumento era o senhor D. Alonso que, s\u00f3 por lho haver severamente ordenado<br \/>\no seu confessor, e com medo de ofender a Senhora, sua vizinha, permitia esta<br \/>\nvisita fugitiva, a que ele ficava espreitando sofregamente, de entre as rexas<br \/>\nde uma gelosia, os passos e a demora. Todos os lentos dias da lenta semana<br \/>\nos passava a senhora D. Leonor no encerro do gradeado solar de granito negro,<br \/>\nn\u00e3o tendo para se recrear e respirar, mesmo nas calmas do Estio, mais<br \/>\nque um fundo de jardim verde-negro, cercado de t\u00e3o altos muros, que<br \/>\napenas se avistava, emergindo deles, aqui, al\u00e9m, alguma ponta de triste<br \/>\ncipreste. Mas essa curta visita a Nosa Senhora do Pilar bastou para que D.<br \/>\nRui se enamorasse dela tresloucadamente, na manh\u00e3 de Maio em que a<br \/>\nviu de joelhos ante o altar, numa r\u00e9stia de sol, aureolada pelos seus<br \/>\ncabelos de ouro, com as compridas pestanas pendidas sobre o livro de Horas,<br \/>\no ros\u00e1rio caindo de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e<br \/>\nbranca, de uma brancura de l\u00edrio aberto na sombra, mais branca entre<br \/>\nas rendas negras e os negros cetins que \u00e0 volta do seu corpo cheio<br \/>\nde gra\u00e7a se quebravam, em pregas duras, sobre as lajes da capela, velhas<br \/>\nlajes de sepulturas. Quando depois dum momento de enleio e de delicioso pasmo<br \/>\nse ajoelhou, foi menos para a Virgem do Pilar, sua divina Madrinha, do que<br \/>\npara aquela apari\u00e7\u00e3o mortal, de quem n\u00e3o sabia o nome<br \/>\nnem a vida, e s\u00f3 que por ela daria vida e nome, se ela se rendesse<br \/>\npor t\u00e3o incerto pre\u00e7o. Balbuciando, com uma prece ingrata, as<br \/>\ntr\u00eas Ave-Marias com que cada manh\u00e3 saudava Maria, apanhou o seu<br \/>\nsombreiro, desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou, esperando<br \/>\npor ela entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas, quando ao<br \/>\ncabo de um tempo, em que D. Rui sentiu no cora\u00e7\u00e3o um desusado<br \/>\nbater de ansiedade e medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando<br \/>\nos dedos na pia de m\u00e1rmore de \u00e1gua benta, os seus olhos, sob<br \/>\no v\u00e9u descido, n\u00e3o se ergueram para ele, ou t\u00edmidos ou<br \/>\ndesatentos. Com a aia de olhos muito abertos colada aos vestidos, entre os<br \/>\ndois lacaios, como entre duas torres, atravessou vagarosamente o adro, pedra<br \/>\npor pedra, gozando decerto, como encarcerada, o desafogado ar e o livre sol<br \/>\nque o inundavam. E foi um espanto para D. Rui quando ela penetrou na sombria<br \/>\narcada, de grossos pilares, sobre que assentava o pal\u00e1cio, e desapareceu<br \/>\npor uma esguia porta recoberta de ferragens. Era, pois, essa a t\u00e3o<br \/>\nfalada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7aram sete arrastados dias, que ele gastou sentado<br \/>\na um poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de ferragens<br \/>\ncomo se fosse a do Para\u00edso, e por ela devesse sair um anjo para lhe<br \/>\nanunciar a Bem-Aventuran\u00e7a. At\u00e9 que chegou o vagaroso domingo:<br \/>\ne passando ele no adro, \u00e0 hora de Prima, ao repicar dos sinos, com<br \/>\num molho de cravos amarelos para a sua divina Madrinha, cruzou D. Leonor,<br \/>\nque sa\u00eda de entre os pilares da escura arcada, branca, doce e pensativa,<br \/>\ncomo uma lua de entre as nuvens. Os cravos quase lhe ca\u00edram naquele<br \/>\ngostoso alvoro\u00e7o em que o peito lhe arfou mais que um mar, e a alma<br \/>\ntoda lhe fugiu em tumulto atrav\u00e9s do olhar com que a devorava. E ela<br \/>\nergueu tamb\u00e9m os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos<br \/>\nserenos, em que n\u00e3o luzia curiosidade, nem mesmo consci\u00eancia<br \/>\nde se estarem trocando com outros, t\u00e3o acesos e enegrecidos pelo desejo.<br \/>\nO mo\u00e7o cavaleiro n\u00e3o entrou na igreja, com piedoso receio de<br \/>\nn\u00e3o prestar \u00e0 sua Madrinha divina a aten\u00e7\u00e3o, que<br \/>\ndecerto lhe roubaria toda aquela que era s\u00f3 humana, mas dona j\u00e1<br \/>\ndo seu cora\u00e7\u00e3o, e nele divinizada.<\/p>\n<p>Esperou s\u00f4fregamente \u00e0 porta, entre os mendigos, secando os<br \/>\ncravos com o ardor das m\u00e3os tr\u00e9mulas, pensando quanto era demorado<br \/>\no ros\u00e1rio que ela rezava. Ainda D. Leonor descia a nave, j\u00e1<br \/>\nele sentia dentro de alma o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava<br \/>\nnas lajes. A branca senhora passou -e o mesmo distra\u00eddo olhar, desatento<br \/>\ne calmo, que espalhou pelos mendigos e pelo adro, o deixou escorregar sobre<br \/>\nele, ou porque n\u00e3o compreendesse aquele mo\u00e7o que de repente<br \/>\nse tornara t\u00e3o p\u00e1lido, ou porque n\u00e3o o diferenciava ainda<br \/>\ndas coisas e das formas indiferentes.<\/p>\n<p>D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, p\u00f4s devotamente<br \/>\nante a imagem da Virgem as flores que n\u00e3o oferecera, na igreja, ao<br \/>\nseu altar. Toda a sua vida se tornou ent\u00e3o um longo queixume por sentir<br \/>\nt\u00e3o fria e desumana aquela mulher, \u00fanica entre as mulheres,<br \/>\nque prendera e tornara s\u00e9rio o seu cora\u00e7\u00e3o ligeiro e<br \/>\nerrante. Numa esperan\u00e7a, a que antevia bem o desengano, come\u00e7ou<br \/>\na rondar os muros altos do jardim &#8211; ou embu\u00e7ado numa capa, com o ombro<br \/>\ncontra uma esquina, lentas horas se quedava contemplando as grades das gelosias,<br \/>\nnegras e grossas como as dum c\u00e1rcere. Os muros n\u00e3o se fendiam,<br \/>\ndas grades n\u00e3o sa\u00eda sequer um rasto de luz prometedora. Todo<br \/>\no solar era como um jazigo onde jazia uma insens\u00edvel, e por tr\u00e1s<br \/>\ndas frias pedras havia ainda um frio peito. Para se desafogar comp\u00f4s,<br \/>\ncom piedoso cuidado, em noites veladas sobre o pergaminho, trovas gementes<br \/>\nque o n\u00e3o desafogavam. Diante do altar da Senhora do Pilar, sobre as<br \/>\nmesmas lajes onde a vira ajoelhada, pousava ele os joelhos, e ficava, sem<br \/>\npalavras de ora\u00e7\u00e3o, num cismar amargo e doce, esperando que<br \/>\no seu cora\u00e7\u00e3o serenasse e se consolasse, sob a influ\u00eancia<br \/>\nd\u2019Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se erguia mais desditoso<br \/>\ne tendo apenas a sensa\u00e7\u00e3o de quanto eram frias e r\u00edgidas<br \/>\nas pedras sobre que ajoelhara. O mundo todo s\u00f3 lhe parecia conter rigidez<br \/>\ne frieza.<\/p>\n<p>Outras claras manh\u00e3s de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos<br \/>\ndela permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam com<br \/>\nos seus era t\u00e3o singelamente, t\u00e3o limpos de toda a emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque D. Rui os preferiria ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente desviados<br \/>\ncom soberbo desd\u00e9m. Decerto D. Leonor j\u00e1 o conhecia: &#8211; mas,<br \/>\nassim, conhecia tamb\u00e9m a ramalheteira mourisca agachada diantedo seu<br \/>\ncesto \u00e0 beira da fonte; ou os pobres que se catavam ao sol diante do<br \/>\nportal da Senhora. Nem D. Rui j\u00e1 podia pensar que ela fosse desumana<br \/>\ne fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrela que nas alturas<br \/>\ngira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela n\u00e3o distingue,<br \/>\nolhos que ela n\u00e3o suspeita a contemplam, a adoram e lhe entregam o<br \/>\ngoverno da sua ventura e sorte.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o D. Rui pensou:<\/p>\n<p>&#8211; Ela n\u00e3o quer, eu n\u00e3o posso: foi um sonho que findou, e Nossa<br \/>\nSenhora a ambos nos tenha na sua gra\u00e7a!<\/p>\n<p>E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim inabal\u00e1vel<br \/>\nna sua indiferen\u00e7a, n\u00e3o a procurou, nem sequer ergueu mais os<br \/>\nolhos para as grades das suas janelas, e at\u00e9 nem penetrava na igreja<br \/>\nde Nossa Senhora quando casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com<br \/>\na sua cabe\u00e7a t\u00e3o cheia de gra\u00e7a e de ouro, pendida sobre<br \/>\no Livro das Horas.<\/p>\n<h2><a id=\"2\" name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/h2>\n<p>A VELHA aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, n\u00e3o<br \/>\ntardara em contar ao senhor de Lara que um mo\u00e7o audaz, de gentil parecer,<br \/>\nnovo morador nas velhas casas do arcediago, constantemente se atravessava<br \/>\nno adro, se postava diante da igreja para atirar o cora\u00e7\u00e3o pelos<br \/>\nolhos \u00e0 senhora D. Leonor. Bem amargamente o sabia j\u00e1 o ciumento<br \/>\nfidalgo, porque quando da sua janela espreitava, como um falc\u00e3o, a<br \/>\nairosa senhora a caminho da igreja, observara os giros, as esperas, os olhares<br \/>\ndardejados daquele mo\u00e7o galante &#8211; e puxara as barbas de furor. Desde<br \/>\nent\u00e3o, na verdade, a sua mais intensa ocupa\u00e7\u00e3o era odiar<br \/>\nD. Rui, o impudente sobrinho do c\u00f4nego, que ousava erguer o seu baixo<br \/>\ndesejo at\u00e9 \u00e0 alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia<br \/>\nvigiado por um servi\u00e7al &#8211; e conhecia todos os seus passos e pousos,<br \/>\ne os amigos com quem ca\u00e7ava ou folgava, e at\u00e9 quem lhe talhava<br \/>\nos gib\u00f5es, e at\u00e9 quem lhe polia a espada, e cada hora do seu<br \/>\nviver. E mais ansiosamente ainda vigiava D. Leonor &#8211; cada um dos seus movimentos,<br \/>\nos mais fugitivos modos, os sil\u00eancios e o conversar com as aias, as<br \/>\ndistra\u00e7\u00f5es sobre o bordado, o jeito de cismar sob as \u00e1rvores<br \/>\ndo jardim, e o ar e a cor com que recolhia da igreja&#8230; Mas t\u00e3o inalteradamente<br \/>\nserena, no seu sossego de cora\u00e7\u00e3o, se mostrava a senhora D.<br \/>\nLeonor, que nem o ci\u00fame mais imaginador de culpas poderia achar manchas<br \/>\nnaquela pura neve. Redobradamente \u00e1spero ent\u00e3o se voltava o<br \/>\nrancor de D. Alonso contra o sobrinho do c\u00f4nego, por ter apetecido aquela<br \/>\npureza, e aqueles cabelos cor de sol-claro, e aquele colo de gar\u00e7a<br \/>\nreal, que eram s\u00f3 seus, para espl\u00eandido gosto da sua vida. E<br \/>\nquando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda de ab\u00f3bada,<br \/>\nembrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da barba grisalha espetado<br \/>\npara diante, a grenha crespa eri\u00e7ada para tr\u00e1s e os punhos cerrados,<br \/>\nera sempre remoendo o mesmo fel:<\/p>\n<p>&#8211; Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra&#8230; \u00c9 culpado<br \/>\npor duas culpas e merece duas mortes!<\/p>\n<p>Mas ao seu furor quase se misturou um terror, quando soube que D. Rui j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente<br \/>\nos muros do palacete, nem penetrava na igreja quando ela l\u00e1 rezava,<br \/>\naos domingos; e que t\u00e3o inteiramente se alheava dela que uma manh\u00e3,<br \/>\nestando rente da arcada, e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a<br \/>\nsenhora ia aparecer, permanecera de costas voltadas, sem se mover, rindo com<br \/>\num cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho. T\u00e3o bem afectada indiferen\u00e7a<br \/>\ns\u00f3 servia decerto (pensou D. Alonso) a esconder alguma bem danada ten\u00e7\u00e3o!<br \/>\nQue tramava ele, o destro enganador? Tudo no desabrido fidalgo se exacerbou<br \/>\n&#8211; ci\u00fame, rancor, vigil\u00e2ncia, pesar da sua idade grisalha e feia.<br \/>\nNo sossego de D. Leonor suspeitou manha e fingimento; &#8211; e imediatamente lhe<br \/>\nvedou as visitas \u00e0 Senhora do Pilar.<\/p>\n<p>Nas manh\u00e3s costumadas corria ele \u00e0 igreja para rezar o ros\u00e1rio,<br \/>\na levar as desculpas de D. Leonor &#8211; \u201cque no puede venir (murmurava curvado<br \/>\ndiante do altar) por lo que sabeis, virgem pur\u00edssima!\u201d Cuidadosamente<br \/>\nvisitou e refor\u00e7ou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar.<\/p>\n<p>De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.<\/p>\n<p>\u00c0 cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a l\u00e2mpada,<br \/>\num relic\u00e1rio e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar<br \/>\nas for\u00e7as &#8211; luzia sempre uma grande espada numa. Mas, com tantas seguran\u00e7as,<br \/>\nmal dormia &#8211; e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas<br \/>\nalmofadas, agarrando a senhora D. Leonor com m\u00e3o bruta e s\u00f4frega,<br \/>\nque lhe pisava o colo, para rugir muito baixo, numa \u00e2nsia: \u201cDiz<br \/>\nque me queres s\u00f3 a mim!&#8230;\u201d Depois, com a alvorada, l\u00e1<br \/>\nse empoleirava, a espreitar, como um falc\u00e3o, as janelas de D. Rui.<br \/>\nNunca o avistava, agora, nem \u00e0 porta da igreja \u00e0s horas de missa,<br \/>\nnem recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.<\/p>\n<p>E por o sentir assim sumido dos s\u00edtios e giros costumados &#8211; \u00e9<br \/>\nque mais o suspeitava dentro do cora\u00e7\u00e3o de D. Leonor.<\/p>\n<p>Enfim, uma noite, depois de muito trilhar o lajedo da galeria, remoendo surdamente<br \/>\ndesconfian\u00e7as e \u00f3dios, gritou pelo intendente e ordenou que<br \/>\nse preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com a<br \/>\nsenhora D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas l\u00e9guas de Seg\u00f3via!<br \/>\nA partida n\u00e3o foi de madrugada, como uma fuga de avarento que vai esconder<br \/>\nlonge o seu tesouro: &#8211; mas realizada com aparato e demora, ficando a liteira<br \/>\ndiante da arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, enquanto um<br \/>\ncavalari\u00e7o passeava pelo adro a mula branca do fidalgo, enxairelada<br \/>\n\u00e0 mourisca, e do lado do jardim a r\u00e9cua de machos, carregados<br \/>\nde ba\u00fas, presos \u00e0s argolas, sob o sol e a mosca, aturdiam a<br \/>\nviela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a jornada do senhor de<br \/>\nLara: &#8211; e assim a soube toda a cidade.<\/p>\n<p>Fora um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos seus<br \/>\nvi\u00e7osos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem<br \/>\ngrades, as janelas dos seus aposentos claros: a\u00ed ao menos tinha largo<br \/>\nar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de p\u00e1ssaros, e t\u00e3o<br \/>\ncompridas ruas de loureiro e teixo, que eram quase a liberdade. E depois esperava<br \/>\nque no campo se aligeirassem aqueles cuidados que traziam, nos derradeiros<br \/>\ntempos, t\u00e3o enrugado e taciturno seu marido e senhor. N\u00e3o logrou<br \/>\nesta esperan\u00e7a, porque ao cabo de uma semana ainda se n\u00e3o desanuviara<br \/>\na face de D. Alonso &#8211; nem decerto havia frescura de arvoredos, sussurros de<br \/>\n\u00e1guas correntes, ou aromas esparsos nos rosais em flor, que calmassem<br \/>\nagita\u00e7\u00e3o t\u00e3o amarga e funda. Como em Seg\u00f3via,<br \/>\nna galeria sonora de grande ab\u00f3bada, sem descanso passeava, enterrado<br \/>\nna sua samarra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha basta eri\u00e7ada<br \/>\npara tr\u00e1s, e um jeito de arreganhar silenciosamente o bei\u00e7o,<br \/>\ncomo se meditasse maldades a que gozava de antem\u00e3o o sabor acre. E<br \/>\ntodo o interesse da sua vida se concentrara num servi\u00e7al, que constantemente<br \/>\ngalopava entre Seg\u00f3via e Cabril, e que ele por vezes esperava no come\u00e7o<br \/>\nda aldeia, junto ao Cruzeiro, ficando a escutar o homem que desmontava, ofegante,<br \/>\ne logo lhe dava novas apressadas.<\/p>\n<p>Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o ter\u00e7o com as aias,<br \/>\n\u00e0 luz duma tocha de cera, o senhor de Laras entrou muito vagarosamente,<br \/>\ntrazendo na m\u00e3o uma folha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu<br \/>\ntinteiro de osso. Com um rude aceno despediu as aias, que o temiam como a<br \/>\num lobo. E, empurrando um escabelo para junto da mesa, volvendo para D. Leonor<br \/>\na face a que impusera tranquilidade e agrado, como se apenas viesse por coisas<br \/>\nnaturais e f\u00e1ceis:<\/p>\n<p>&#8211; Senhora &#8211; disse &#8211; quero que me escrevais aqui uma carta que muito conv\u00e9m<br \/>\nescrever&#8230;<\/p>\n<p>T\u00e3o costumada era nela a submiss\u00e3o, que, sem outro reparo ou<br \/>\ncuriosidade, indo apenas pendurar na barra do leito o ros\u00e1rio em que<br \/>\nrezara, se acomodou sobre o escabelo, e os seus dedos finos, com muita aplica\u00e7\u00e3o,<br \/>\npara que a letra fosse esmerada e clara, tra\u00e7aram a primeira linha<br \/>\ncurta que o Senhor de Lara ditara e era: \u201cMeu cavaleiro&#8230;\u201d Mas<br \/>\nquando ele ditou a outra, mais longa, e dum modo amargo, D. Leonor arrojou<br \/>\na pena, como se a pena escaldasse, e, recuando da mesa, gritou, numa afli\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, para que conv\u00e9m que eu escreva tais coisas e t\u00e3o<br \/>\nfalsas?&#8230;<\/p>\n<p>Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe agitou<br \/>\njunto \u00e0 face, rugindo surdamente:<\/p>\n<p>&#8211; Ou escreveis o que vos mando e que a mim me conv\u00e9m, ou, por Deus,<br \/>\nque vos varo o cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada ante<br \/>\naquele ferro que luzia, num tremor supremo e que tudo aceitava, D. Leonor<br \/>\nmurmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Pela Virgem Maria, n\u00e3o me fa\u00e7ais mal!&#8230; Nem vos agasteis,<br \/>\nsenhor, que eu vivo para vos obedecer e servir&#8230; Agora, mandai, que eu escreverei.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal,<br \/>\nesmagando a fr\u00e1gil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava,<br \/>\no senhor de Lara ditou, atirou roucamente, aos peda\u00e7os, aos repel\u00f5es,<br \/>\numa carta que dizia, quando finda e tra\u00e7ada em letra bem incerta e<br \/>\ntr\u00e9mula: &#8211; \u201cMeu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou<br \/>\nmuito mal pagais o amor que vos tenho, e que n\u00e3o vos pude nunca, em<br \/>\nSeg\u00f3via, mostrar claramente&#8230; Agora aqui estou em Cabril, ardendo<br \/>\npor vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu, bem f\u00e0cilmente<br \/>\no podeis realizar, pois que meu marido se acha ausente noutra herdade, e esta<br \/>\nde Cabril \u00e9 toda f\u00e1cil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela<br \/>\nporta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, at\u00e9 ao terra\u00e7o.<br \/>\nA\u00ed avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que \u00e9<br \/>\na janela do meu quarto, onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente<br \/>\nvos espera&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo conv\u00e9m!<\/p>\n<p>D. Leonor tra\u00e7ou vagarosamente o seu nome, t\u00e3o vermelha como<br \/>\nse a despissem diante de uma multid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E agora &#8211; ordenou o marido mais surdamente, atrav\u00e9s dos dentes cerrados<br \/>\n&#8211; endere\u00e7ai a D. Rui de Cardenas!<\/p>\n<p>Ela ousou erguer os olhos, na surpresa daquele nome desconhecido.<\/p>\n<p>&#8211; Andai!&#8230; A D. Rui de Cardenas! &#8211; gritou o homem sombrio.<\/p>\n<p>E ela endere\u00e7ou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.<\/p>\n<p>D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e<br \/>\nsaiu em sil\u00eancio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas<br \/>\nlajes do corredor.<\/p>\n<p>Ela ficara sobre o escabelo, as m\u00e3os cansadas e ca\u00eddas no rega\u00e7o,<br \/>\nnum infinito espanto, o olhar perdido na escurid\u00e3o da noite silente.<br \/>\nMenos escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia<br \/>\nenvolvida e levada!. Quem era esse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira<br \/>\nfalar, que nunca atravessara a sua vida, t\u00e3o quieta, t\u00e3o pouco<br \/>\npovoada de mem\u00f3rias e de homens? E ele decerto a conhecia, a encontrara,<br \/>\na seguira, ao menos com os olhos, pois que era coisa natural e bem ligada<br \/>\nreceber dela carta de tanta paix\u00e3o e promessa&#8230;<\/p>\n<p>Assim, um homem, e mo\u00e7o decerto bem nascido, talvez gentil, penetrava<br \/>\nno seu destino bruscamente, trazido pela m\u00e3o de seu marido? T\u00e3o<br \/>\n\u00ecntimamente mesmo se entranhara esse homem na sua vida, sem que ela<br \/>\nse apercebesse, que j\u00e1 para ele se abria de noite a porta do seu jardim,<br \/>\ne contra a sua janela, para ele subir, se arrumava de noite uma escada!&#8230;<br \/>\nE era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito secretamente<br \/>\nlevantava a escada&#8230; Para qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa<br \/>\nverdade, que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma cilada!<br \/>\nO senhor de Lara atra\u00eda a Cabril esse D. Rui com uma promessa magn\u00edfica,<br \/>\npara dele se apoderar, e decerto o matar, indefeso e solit\u00e1rio! E ela,<br \/>\no seu amor, o seu corpo, eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os<br \/>\nolhos seduzidos do mo\u00e7o desventuroso. Assim seu marido usava a sua<br \/>\nbeleza, o seu leito, como a rede de ouro em que devia cair aquela presa estouvada!<br \/>\nOnde haveria maior ofensa? E tamb\u00e9m quanta imprud\u00eancia! Bem poderia<br \/>\nesse D. Rui de Cardenas desconfiar, n\u00e3o aceder ao convite t\u00e3o<br \/>\nabertamente amoroso, e depois mostrar por toda a Seg\u00f3via, rindo e triunfando,<br \/>\naquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e do seu corpo a mulher<br \/>\nde Alonso de Lara! Mas n\u00e3o! o desventurado correria a Cabril &#8211; e para<br \/>\nmorrer, miser\u00e0velmente morrer no negro sil\u00eancio da noite, sem<br \/>\npadre, nem sacramentos, com a alma encharcada em pecado de amor! Para morrer,<br \/>\ndecerto &#8211; porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o homem que<br \/>\nrecebera tal carta. Assim, aquele mo\u00e7o morria por amor dela, e por<br \/>\num amor que, sem lhe saber nunca um gosto, lhe valia logo a morte! Decerto<br \/>\npor amor dela &#8211; pois que tal \u00f3dio do senhor de Lara, \u00f3dio que,<br \/>\ncom tanta deslealdade e vilania, se cevava, s\u00f3 podia nascer de ci\u00fames,<br \/>\nque lhe escureciam todo o dever de cavaleiro e de crist\u00e3o. Sem d\u00favida<br \/>\nele surpreendera olhares, passos, ten\u00e7\u00f5es deste senhor D. Rui,<br \/>\nmal acautelado por bem namorado.<\/p>\n<p>Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um mo\u00e7o que um domingo<br \/>\na cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de cravos<br \/>\nna m\u00e3o&#8230; Seria esse? Era de nobre parecer, muito p\u00e1lido, com<br \/>\ngrandes olhos negros e quentes. Ela passara &#8211; indiferente&#8230; Os cravos que<br \/>\nsegurava na m\u00e3o eram vermelhos e amarelos&#8230; A quem os levava?&#8230; Ah!<br \/>\nse o pudesse avisar, bem cedo, de madrugada!<\/p>\n<p>Como, se n\u00e3o havia em Cabril servi\u00e7al ou aia de quem se fiasse?<br \/>\nMas deixar que uma bruta espada varasse trai\u00e7oeiramente aquele cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperan\u00e7a dela!.,.<\/p>\n<p>Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Seg\u00f3via a Cabril,<br \/>\ncom a promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a janela,<br \/>\nsob a mudez e prote\u00e7\u00e3o da noite! Mandaria realmente o senhor<br \/>\nde Lara encostar uma escada \u00e0 janela? Decerto, para com mais facilidade<br \/>\no poderem matar, ao pobre, e doce, e inocente mo\u00e7o, quando ele subisse,<br \/>\nmal seguro sobre um fr\u00e1gil degrau, as m\u00e3os embara\u00e7adas,<br \/>\na espada a dormir na bainha&#8230; E assim, na outra noite, em face ao seu leito,<br \/>\na sua janela estaria aberta, e uma escada estaria erguida contra a sua janela<br \/>\n\u00e0 espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto, seu marido seguramente<br \/>\nmataria esse homem&#8230;<\/p>\n<p>Mas se o senhor de Lara esperasse fora dos muros da quinta, assaltasse brutalmente,<br \/>\nnalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e, ou por menos destro, ou por<br \/>\nmenos forte, num ter\u00e7ar de armas, ca\u00edsse ele traspassado, sem<br \/>\nque o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem saber,<br \/>\ne todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem assomando \u00e0<br \/>\njanela na sombra macia da noite t\u00e9pida, e o marido que a devia defender<br \/>\nmorto no fundo duma azinhaga&#8230; Que faria ela, Virgem M\u00e3e? Oh! decerto<br \/>\nrepeliria, soberbamente, o mo\u00e7o temer\u00e1rio. Mas o espanto dele<br \/>\ne a c\u00f3lera do seu desejo enganado! \u201cPor V\u00f3s \u00e9 que<br \/>\neu vim chamado, senhora!\u201d E ali trazia, sobre o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\na carta dela, com seu nome, que a sua m\u00e3o tra\u00e7ara. Como lhe<br \/>\npoderia contar a emboscada e o dolo? Era t\u00e3o longo de contar, naquele<br \/>\nsil\u00eancio e solid\u00e3o da noite, enquanto os olhos dele, h\u00famidos<br \/>\ne negros, a estivessem suplicando e trespassando&#8230; Desgra\u00e7ada dela<br \/>\nse o senhor de Lara morresse, a deixasse solit\u00e1ria, sem defesa, naquela<br \/>\nvasta casa aberta! Mas quanto desgra\u00e7ada tamb\u00e9m se aquele mo\u00e7o,<br \/>\nchamado por ela, e que a amava, e que por esse amor vinha correndo deslumbrante,<br \/>\nencontrasse a morte no s\u00edtio da sua esperan\u00e7a, que era o s\u00edtio<br \/>\ndo seu pecado, e, morto em pleno pecado, rolasse para a eterna desesperan\u00e7a&#8230;<br \/>\nVinte e cinco anos, ele &#8211; se era o mesmo de quem se lembrava, p\u00e1lido,<br \/>\ne t\u00e3o airoso, com um gib\u00e3o de veludo roxo e um ramo de cravos<br \/>\nna m\u00e3o, \u00e0 porta da igreja, em Seg\u00f3via&#8230;<\/p>\n<p>Duas l\u00e1grimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando<br \/>\nos joelhos, levantando a alma toda para o c\u00e9u, onde a Lua se come\u00e7ava<br \/>\na levantar, murmurou, numa infinita magoa e f\u00e9:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por n\u00f3s ambos, vela<br \/>\npor todos n\u00f3s!&#8230;<\/p>\n<h2><a id=\"3\" name=\"3\"><\/a>CAP\u00cdTULO III<\/h2>\n<p>D. RUI entrava, pela hora da calma, no fresco p\u00e1tio da sua casa, quando<br \/>\nde um banco de pedra, na sombra, se ergueu um mo\u00e7o de campo, que tirou<br \/>\nde dentro do surr\u00e3o uma carta, lha entregou, murmurando:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, da\u00ed-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem<br \/>\nme mandou&#8230;<\/p>\n<p>D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com ele<br \/>\ncontra o peito, como para o enterrar no cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O mo\u00e7o do campo insistia, inquieto:<\/p>\n<p>&#8211; Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um sinal<br \/>\nde vos ter vindo o recado&#8230;<\/p>\n<p>Muito p\u00e1lido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retr\u00f3s,<br \/>\nque o mo\u00e7o enrolou e sumiu no surr\u00e3o. E j\u00e1 abalava na<br \/>\nponta das alpercatas leves, quando, com um aceno, D. Rui o deteve:<\/p>\n<p>&#8211; Escuta. Que caminho tomas tu para Cabril?<\/p>\n<p>&#8211; O mais curto e s\u00f2zinho para gente afoita, que \u00e9 pelo Cerro<br \/>\ndos Enforcados.<\/p>\n<p>&#8211; Bem.<\/p>\n<p>D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o sombreiro,<br \/>\nde novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que D. Leonor o<br \/>\nchamava de noite ao seu quarto, \u00e0 posse inteira do seu ser. E n\u00e3o<br \/>\no maravilhava esta oferta &#8211; depois de uma t\u00e3o constante, imperturbada<br \/>\nindiferen\u00e7a. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, por ser<br \/>\nmuito forte, que, com grande paci\u00eancia, se esconde ante os estorvos<br \/>\ne os perigos, e mudamente prepara a sua hora de contentamento, melhor e mais<br \/>\ndeliciosa por t\u00e3o preparada. Sempre ela o amara, pois, desde a manh\u00e3<br \/>\nbendita em que os seus olhos se tinham cruzado no portal de Nossa Senhora.<br \/>\nE enquanto ele rondava aqueles muros do jardim, maldizendo uma frieza que<br \/>\nlhe parecia mais fria que a dos frios muros, j\u00e1 ela lhe dera a sua<br \/>\nalma, e cheia de const\u00e2ncia, com amorosa sagacidade, recalcando o menor<br \/>\nsuspiro, adormecendo desconfian\u00e7as, preparava a noite radiante em que<br \/>\nlhe daria tamb\u00e9m o seu corpo.<\/p>\n<p>Tanta firmeza, t\u00e3o fino engenho nas coisas do amor, ainda lha tornavam<br \/>\nmais bela e mais apetecida!<\/p>\n<p>Com que impaci\u00eancia olhava ent\u00e3o o Sol, t\u00e3o desapressado<br \/>\nnessa tarde em descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias<br \/>\ncerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava amorosamente<br \/>\npara a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, um gib\u00e3o<br \/>\nde veludo negro e as ess\u00eancias perfumadas. Duas vezes desceu \u00e0<br \/>\ncavalari\u00e7a a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado.<br \/>\nSobre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da espada<br \/>\nque levaria \u00e0 cinta&#8230; Mas o seu maior cuidado era o caminho para Cabril,<br \/>\napesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em torno ao mosteiro franciscano,<br \/>\ne a velha ponte romana com o seu Calv\u00e1rio, e a azinhaga funda que levava<br \/>\n\u00e0 herdade do senhor de Lara. Ainda nessa Inverno por l\u00e1 passara,<br \/>\nindo montear com dois amigos de Astorga, e avistara a torre dos de Lara, e<br \/>\npensara: &#8211; \u201cEis a torre da minha ingrata!\u201d Como se enganava! As<br \/>\nnoites agora eram de Lua, e ele sairia de Seg\u00f3via caladamente, pela<br \/>\nporta de S. Mauros. Um galope curto o punha no Cerro dos Enforcados&#8230; Bem<br \/>\no conhecia tamb\u00e9m, esse s\u00edtio de tristeza e pavor, com os seus<br \/>\nquatro pilares de pedra, onde se enforcavam os criminosos, e onde os seus<br \/>\ncorpos ficavam, baloi\u00e7ados da ventania, ressequidos do sol, at\u00e9<br \/>\nque as cordas apodrecessem e as ossadas ca\u00edssem, brancas e limpas da<br \/>\ncarne pelo bico dos corvos. Por tr\u00e1s do cerro era a lagoa das Donas.<br \/>\nA derradeira vez que por l\u00e1 andara, fora em dia do ap\u00f3stolo<br \/>\nS. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz, em prociss\u00e3o,<br \/>\niam dar sepultura sagrada \u00e0s ossadas ca\u00eddas no ch\u00e3o negro,<br \/>\nesburgadas pelas aves. Da\u00ed o caminho, depois, corria liso e direito<br \/>\na Cabril.<\/p>\n<p>Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, enquanto a tarde ia caindo.<br \/>\nMas, quando escureceu, e em torno \u00e0s torres da igreja come\u00e7aram<br \/>\na girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas,<br \/>\no valente mo\u00e7o sentiu um medo estranho, o medo daquela felicidade que<br \/>\nse acercava e que lhe parecia sobrenatural. Era, pois, certo que essa mulher<br \/>\nde divina formosura, famosa em Castela, e mais inacess\u00edvel que um astro,<br \/>\nseria sua, toda sua, no sil\u00eancio e seguran\u00e7a duma alcova, dentro<br \/>\nem breves instantes, quando ainda se n\u00e3o tivessem apagado diante dos<br \/>\nret\u00e1bulos das Almas aqueles lumes devotos? E o que fizera ele para<br \/>\nlograr t\u00e3o grande bem? Pisara as lajes de um adro, esperara no portal<br \/>\nde uma igreja, procurando com os olhos outros dois olhos, que n\u00e3o se<br \/>\nerguiam, indiferentes ou desatentos. Ent\u00e3o, sem dor, abandonara a sua<br \/>\nesperan\u00e7a&#8230; E eis que de repente aqueles olhos distra\u00eddos o<br \/>\nprocuram, e aqueles bra\u00e7os fechados se lhe abrem, largos e nus, e com<br \/>\no corpo e com a alma aquela mulher lhe grita: &#8211; \u201cOh! mal-avisado, que<br \/>\nn\u00e3o me entendeste! Vem! Quem te desanimou j\u00e1 te pertence!\u201d<br \/>\nHouvera jamais igual ventura? T\u00e3o alta, t\u00e3o rara era, que decerto<br \/>\natr\u00e1s dela, se n\u00e3o erra a lei humana, j\u00e1 devia caminhar<br \/>\na desventura! J\u00e1 na verdade caminhava; &#8211; pois quanta desventura em<br \/>\nsaber que depois de tal ventura, quando de madrugada, saindo dos divinos bra\u00e7os,<br \/>\nele recolhesse a Seg\u00f3via, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida,<br \/>\nt\u00e3o inesperadamente adquirido por um instante, recairia logo sob o<br \/>\npoder de outro amo!<\/p>\n<p>Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era espl\u00eandidamente<br \/>\nsua, o mundo todo uma apar\u00eancia v\u00e3 e a \u00fanica realidade<br \/>\nesse quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os cabelos<br \/>\nsoltos! Foi com sofreguid\u00e3o que desceu a escada, se arremessou sobre<br \/>\no seu cavalo. Depois, por prud\u00eancia, atravessou o adro muito lentamente,<br \/>\ncom o sombreiro bem levantado da face, como num passeio natural, a procurar<br \/>\nfora dos muros a frescura da noite. Nenhum encontro o inquietou at\u00e9<br \/>\n\u00e0 porta de S. Mauros. A\u00ed, um mendigo, agachado na escurid\u00e3o<br \/>\ndum arco, e que tocava mon\u00f2tonamente a sua sanfona, pediu, em lam\u00faria,<br \/>\n\u00e0 Virgem e a todos os santos que levassem aquele gentil cavaleiro na<br \/>\nsua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma esmola, quando<br \/>\nse lembrou que nessa tarde n\u00e3o fora \u00e0 igreja, \u00e0 hora<br \/>\nde v\u00e9speras, rezar e pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e0 sua<br \/>\ndivina madrinha. Com um salto, desceu logo do cavalo, porque, justamente,<br \/>\nrente ao velho arco, tremeluzia uma l\u00e2mpada alumiando um ret\u00e1bulo.<br \/>\nEra uma imagem da Virgem com um peito traspassado por sete espadas. D. Rui<br \/>\najoelhou, pousou o sombreiro nas lajes com as m\u00e3os erguidas, muito<br \/>\nzelosamente, rezou uma Salve-Rainha. O clar\u00e3o amarelo da Luz envolvia<br \/>\no rosto da Senhora, que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como se eles<br \/>\ns\u00f3 dessem inef\u00e1veis gozos, sorria com os l\u00e1bios muito<br \/>\nvermelhos. Enquanto rezava, no convento de S\u00e3o Domingos, ao lado, a<br \/>\nsineta come\u00e7ou a tocar a agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando<br \/>\na sanfona, o mendigo murmurou: \u201cL\u00e1 est\u00e1 um frade a morrer!\u201d<br \/>\nD. Rui disse uma Ave-Maria pelo frade que morria. A Virgem das sete espadas<br \/>\nsorria docemente &#8211; o toque de agonia n\u00e3o era, pois, de mau press\u00e1gio!.<br \/>\nD. Rui cavalgou alegremente e partiu.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros,<br \/>\no caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por tr\u00e1s das<br \/>\ncolinas, ao fundo da plan\u00edcie escura, subia o primeiro clar\u00e3o,<br \/>\namarelo e l\u00e2nguido, da Lua-cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava<br \/>\na passo, receando chegar a Cabril muito cedo, antes que as aias e os mo\u00e7os<br \/>\nfindassem o ser\u00e3o e o ros\u00e1rio. Por que n\u00e3o lhe marcara<br \/>\nD. Leonor a hora, naquela carta t\u00e3o clara e t\u00e3o pensada?&#8230;<br \/>\nEnt\u00e3o a sua imagina\u00e7\u00e3o corria adiante, rompia pelo jardim<br \/>\nde Cabril, galgava aladamente a escada prometida &#8211; e ele largava tamb\u00e9m<br \/>\natr\u00e1s, numa carreira s\u00f4frega, que arrancava as pedras do caminho<br \/>\nmal junto. Depois sofreava o cavalo ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava<br \/>\no passo penoso, sentindo o cora\u00e7\u00e3o contra o peito, como ave<br \/>\npresa que bate \u00e0s grades.<\/p>\n<p>Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada se fendia em duas, mais juntas que<br \/>\nas pontas de uma forquilha, ambas cortando atrav\u00e9s de pinheiral. Descoberto<br \/>\ndiante da imagem crucificada, D. Rui teve um instante de ang\u00fastia,<br \/>\npois n\u00e3o se recordava qual delas levava ao Cerro dos Enforcados. J\u00e1<br \/>\nse embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os pinheiros calados, uma<br \/>\nluz surgiu, dan\u00e7ando no escuro. Era uma velha em farrapos, com as longas<br \/>\nmelenas soltas, vergada sobre um bord\u00e3o e levando uma candeia.<\/p>\n<p>&#8211; Para onde vai este caminho? &#8211; gritou Rui.<\/p>\n<p>A velha balan\u00e7ou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.<\/p>\n<p>&#8211; Para Xarama.<\/p>\n<p>E luz e velha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali tivessem<br \/>\nsurgido s\u00f2mente para avisar o cavaleiro do seu caminho errado&#8230; J\u00e1<br \/>\nele virara arrebatadamente; e, rodeando o Calv\u00e1rio, galopou pela outra<br \/>\nestrada mais larga, at\u00e9 avistar, sobre a claridade do c\u00e9u, os<br \/>\npilares negros, os madeiros negros do Cerro dos Enforcados. Ent\u00e3o estacou,<br \/>\ndireito nos estribos. Num c\u00f4moro alto, seco, sem erva ou urze, ligados<br \/>\npor um muro baixo, todo esbrechado, l\u00e1 se erguiam, negros, enormes,<br \/>\nsobre a amarelid\u00e3o do luar, os quatro pilares de granito semelhantes<br \/>\naos quatro cunhais duma casa desfeita. Sobre os pilares pousavam quatro grossas<br \/>\ntraves. Das traves pendiam quatro enforcados negros e r\u00edgidos, no ar<br \/>\nparado e mudo. Tudo em torno parecia morto como eles.<\/p>\n<p>Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sobre os madeiros. Para al\u00e9m,<br \/>\nrebrilhava l\u00ecvidamente a \u00e1gua morta da lagoa das Donas. E, no<br \/>\nc\u00e9u, a Lua ia grande e cheia.<\/p>\n<p>D. Rui murmurou o Padre-Nosso devido por todo o crist\u00e3o \u00e0quelas<br \/>\nalmas culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava &#8211; quando, no imenso sil\u00eancio<br \/>\ne na imensa solid\u00e3o, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava,<br \/>\nsuplicante e lenta:<\/p>\n<p>&#8211; Cavaleiro, detende-vos, vinde c\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>D. Rui colheu bruscamente as r\u00e9deas e, erguido sobre os estribos,<br \/>\natirou os olhos espantados por todo o sinistro ermo. S\u00f3 avistou o cerro<br \/>\n\u00e1spero, a \u00e1gua rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou<br \/>\nque fora ilus\u00e3o da noite ou ousadia de algum dem\u00f3nio errante.<br \/>\nE, serenamente, picou o cavalo, sem sobressalto ou pressa, como numa rua de<br \/>\nSeg\u00f3via. Mas, por tr\u00e1s, a voz tornou, mais urgentemente o chamou,<br \/>\nansiosa, quase aflita:<\/p>\n<p>&#8211; Cavaleiro, esperai, n\u00e3o vos vades, voltai, chegai aqui!&#8230;<\/p>\n<p>De novo D. Rui estacou e, virado sobre a sela, encarou afoitamente os quatro<br \/>\ncorpos pendurados das traves. Do lado deles soava a voz, que, sendo humana,<br \/>\ns\u00f3 podia sair de forma humana! Um desses enforcados, pois, o chamara,<br \/>\ncom tanta pressa e \u00e2nsia.<\/p>\n<p>Restaria nalguns, por maravilhosa merc\u00ea de Deus, alento e vida? Ou<br \/>\nseria que, por maior maravilha, uma dessas carca\u00e7as meio apodrecidas<br \/>\no detinha para lhe transmitir avisos de Al\u00e9m-da-Campa?&#8230; Mas que a<br \/>\nvoz rompesse dum peito vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar,<br \/>\nespavoridamente, sem a atender e a ouvir.<\/p>\n<p>Atirou logo para dentro do cerro o cavalo, que tremia; e, parando, direito<br \/>\ne calmo, com a m\u00e3o na ilharga, depois de fitar, um por um, os quatro<br \/>\ncorpos suspensos, gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Qual de v\u00f3s, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o aquele que voltava as costas \u00e0 Lua-cheia respondeu, do<br \/>\nalto da corda, muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da<br \/>\nsua janela para a rua:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, fui eu.<\/p>\n<p>D. Rui fez avan\u00e7ar para diante dele o cavalo. N\u00e3o lhe distinguia<br \/>\na face, enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes.<br \/>\nS\u00f3 percebeu que tinha as m\u00e3os soltas e desamarradas, e tamb\u00e9m<br \/>\nsoltos os p\u00e9s nus, j\u00e1 ressequidos e da cor do betume.<\/p>\n<p>&#8211; Que me queres?<\/p>\n<p>O enforcado, suspirando, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, fazei-me a grande merc\u00ea de me cortar esta corda em que estou<br \/>\npendurado.<\/p>\n<p>D. Rui arrancou a espada, e de um golpe certo cortou a corda meio apodrecida.<br \/>\nCom um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caiu no ch\u00e3o, onde<br \/>\njazeu um momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou sobre os p\u00e9s<br \/>\nmal seguros e ainda dormentes &#8211; e ergueu para D. Rui uma face morta, que era<br \/>\numa caveira com a pele muito colada, e mais amarela que a Lua que nela batia.<br \/>\nOs olhos n\u00e3o tinham movimento nem brilho. Ambos os bei\u00e7os se<br \/>\nlhe arreganhavam num sorrido empedernido. De entre os dentes, muito brancos,<br \/>\nsurdia uma ponta de l\u00edngua muito negra.<\/p>\n<p>D. Rui n\u00e3o mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada:<\/p>\n<p>&#8211; Tu est\u00e1s morto ou vivo? &#8211; perguntou.<\/p>\n<p>O homem encolheu os ombros com lentid\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, n\u00e3o sei&#8230; Quem sabe o que \u00e9 a vida? Quem sabe o<br \/>\nque \u00e9 a morte?<\/p>\n<p>&#8211; Mas que queres de mim?<\/p>\n<p>O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o n\u00f3 da corda<br \/>\nque ainda lhe la\u00e7ava o pesco\u00e7o e declarou muito serena e firmemente:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde v\u00f3s ides.<\/p>\n<p>O cavaleiro estremeceu num t\u00e3o forte assombro, repuxando as r\u00e9deas,<br \/>\nque o seu bom cavalo se empinou como assombrado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Comigo a Cabril?!&#8230;<\/p>\n<p>O homem curvou o espinha\u00e7o, a que se viam os ossos todos, mais agudos<br \/>\nque os dentes de uma serra, atrav\u00e9s de um longo rasg\u00e3o da camisa<br \/>\nde estamenha:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor &#8211; suplicou &#8211; n\u00e3o mo negueis. Que eu tenho a receber grande<br \/>\nsal\u00e1rio se vos fizer grande servi\u00e7o!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma tra\u00e7a<br \/>\nformid\u00e1vel do Dem\u00f4nio. E, cravando os olhos muito brilhantes<br \/>\nna face morta que para ele se erguia, ansiosa, \u00e0 espera do seu consentimento<br \/>\n&#8211; fez um lento e largo Sinal-da-Cruz.<\/p>\n<p>O enforcado vergou os joelhos com assustada rever\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, para que me experimentais com esse sinal? S\u00f3 por ele alcan\u00e7amos<br \/>\nremiss\u00e3o, e eu s\u00f3 dele espero miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o D. Rui pensou que, se esse homem n\u00e3o era mandado pelo<br \/>\nDem\u00f3nio, bem podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um<br \/>\ngesto submisso em que tudo entregava ao C\u00e9u, consentiu, aceitou o pavoroso<br \/>\ncompanheiro:<\/p>\n<p>&#8211; Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus te manda! Mas eu nada te pergunto e<br \/>\ntu nada me perguntes.<\/p>\n<p>Desceu logo o cavalo \u00e0 estrada, toda alumiada da Lua. O enforcado<br \/>\nseguia ao seu lado, com passos t\u00e3o ligeiros, que mesmo quando D. Rui<br \/>\ngalopava ele se conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo.<br \/>\nPor vezes, para respirar mais livremente, repuxava o n\u00f3 da corda que<br \/>\nlhe enroscava o pesco\u00e7o. E, quando passavam entre sebes onde errasse<br \/>\no aroma de flores silvestres, o homem murmurava com infinito al\u00edvio<br \/>\ne del\u00edcia:<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 bom correr!<\/p>\n<p>D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora que<br \/>\nera aquele um cad\u00e1ver reanimado por Deus, para um estranho e encoberto<br \/>\nservi\u00e7o. Mas para que lhe dava Deus t\u00e3o medonho companheiro?<br \/>\nPara o proteger? Para impedir que D. Leonor, amada do C\u00e9u pela sua<br \/>\npiedade, ca\u00edsse em culpa mortal? E, para t\u00e3o divina incumb\u00eancia<br \/>\nde t\u00e3o alta merc\u00ea, j\u00e1 n\u00e3o tinha o Senhor anjos<br \/>\ndo C\u00e9u, que necessitasse empregar um supliciado?&#8230; Ah! como ele voltaria<br \/>\nalegremente a r\u00e9dea para Seg\u00f3via, se n\u00e3o fora a galante<br \/>\nlealdade de cavaleiro, o orgulho de nunca recuar e a submiss\u00e3o \u00e0s<br \/>\nordens de Deus, que sentia sobre si pesarem&#8230;<\/p>\n<p>Dum alto da estrada, de repente, avistaram Cabril, as torres do convento<br \/>\nfranciscano alvejando ao luar, os casais adormecidos entre as hortas. Muito<br \/>\nsilenciosamente, sem que um c\u00e3o ladrasse detr\u00e1s das cancelas<br \/>\nou de cima dos muros, desceram a velha ponte romana. Diante do Calv\u00e1rio,<br \/>\no enforcado caiu de joelhos nas lajes, ergueu os l\u00edvidos ossos das<br \/>\nm\u00e3os, ficou longamente rezando,entre longos suspiros. Depois ao entrar<br \/>\nna azinhaga, bebeu muito tempo, e consoladamente, de uma fonte que corria<br \/>\ne cantava sob as frondes de um salgueiro. Como a azinhaga era muito estreita,<br \/>\nele caminhava adiante do cavaleiro, todo curvado, os bra\u00e7os cruzados<br \/>\nfortemente sobre o peito, sem um rumor.<\/p>\n<p>A Lua ia alta no c\u00e9u. D. Rui considerava com amargura aquele disco,<br \/>\ncheio e lustroso, que espargia tanta claridade, e t\u00e3o indiscreta, sobre<br \/>\no seu segredo. Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma enorme<br \/>\nLua surdia de entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado descia da forca<br \/>\npara o seguir e tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas que tristeza chegar<br \/>\n\u00e0 doce porta, docemente prometida, com tal intruso ao seu lado, sob<br \/>\naquele c\u00e9u todo claro!<\/p>\n<p>Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o bra\u00e7o, de onde a manga<br \/>\npendia em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho mais<br \/>\nlargo e mais batido: &#8211; e diante deles alvejava o comprido muro da quinta do<br \/>\nsenhor de Lara, tendo a\u00ed um mirante, com varandins de pedra e todo<br \/>\nrevestido de hera.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor &#8211; murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D. Rui<br \/>\n&#8211; logo a poucos passos deste mirante \u00e9 a porta por onde deveis penetrar<br \/>\nno jardim. Conv\u00e9m que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma \u00e1rvore,<br \/>\nse o tendes por seguro e fiel. Que na empresa em que vamos, j\u00e1 \u00e9<br \/>\nde mais o rumor dos nossos p\u00e9s!&#8230;<\/p>\n<p>Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro,<br \/>\nao tronco dum \u00e1lamo seco.<\/p>\n<p>E t\u00e3o submisso se tornara \u00e0quele companheiro imposto por Deus,<br \/>\nque sem outro reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia.<\/p>\n<p>Com vagarosa cautela, e na ponta dos p\u00e9s nus, avan\u00e7ava agora<br \/>\no enforcado, vigiando do alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando<br \/>\na escutar rumores que s\u00f3 para ele eram perceb\u00edveis &#8211; porque<br \/>\nnunca D. Rui conhecera noite mais fundamente adormecida e muda.<\/p>\n<p>E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi lentamente<br \/>\nenchendo tamb\u00e9m o valoroso cavaleiro de t\u00e3o viva desconfian\u00e7a,<br \/>\nque tirava o punhal da bainha, enrodilhava a capa no bra\u00e7o e marchava<br \/>\nem defesa, com o olhar faiscando, como num caminho de emboscada e briga. Assim<br \/>\nchegaram a uma porta baixa, que o enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer<br \/>\nnos gonzos. Penetraram numa rua ladeada de espessos teixos at\u00e9 a um<br \/>\ntanque cheio de \u00e1gua, onde boiavam folhas de nen\u00fafares, e que<br \/>\ntoscos bancos de pedra circundavam, cobertos pela rama de arbustos em flor.<\/p>\n<p>&#8211; Por ali! &#8211; murmurou o enforcado, estendendo o bra\u00e7o mirrado.<\/p>\n<p>Era, al\u00e9m do tanque, uma avenida que densas e velhas \u00e1rvores<br \/>\nabobadavam e escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado<br \/>\nadiante, D. Rui seguindo muito subtilmente, sem ro\u00e7ar um ramo, mal<br \/>\npisando a areia. Um leve fio de \u00e1gua sussurrava entre relvas. Pelos<br \/>\ntroncos subiam rosas trepadeiras, que cheiravam docemente. O cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde D. Rui recome\u00e7ou a bater numa esperan\u00e7a de amor.<\/p>\n<p>&#8211; Chuta! &#8211; fez o enforcado.<\/p>\n<p>E D. Rui quase trope\u00e7ou no sinistro homem que estacava, com os bra\u00e7os<br \/>\nabertos como as traves de uma cancela. Diante deles quatro degraus de pedra<br \/>\nsubiam a um terra\u00e7o, onde a claridade era larga e livre. Agachados,<br \/>\ntreparam os degraus &#8211; e ao fundo dum jardim sem \u00e1rvores, todo em canteiros<br \/>\nde flores bem recortados, orlados de buxo curto, avistaram um lado da casa<br \/>\nbatido pela Lua-cheia. Ao meio, entre as janelas de peitoril fechadas, um<br \/>\nbalc\u00e3o de pedra, com manjeric\u00f5es aos cantos, conservava as vidra\u00e7as<br \/>\nabertas, largamente. O quarto, dentro, apagado, era como um buraco de treva<br \/>\nna claridade da fachada que o luar banhava. E, arrimada contra o balc\u00e3o,<br \/>\nestava uma escada com degraus de corda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escurid\u00e3o<br \/>\nda avenida. E a\u00ed, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor! Conv\u00e9m agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! V\u00f3s<br \/>\nquedais aqui na escurid\u00e3o destas \u00e1rvores. Eu vou trepar \u00e0quela<br \/>\nescada e espreitar para aquele quarto&#8230; E se for como desejais, aqui voltarei,<br \/>\ne com Deus sede feliz&#8230;<\/p>\n<p>D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!<\/p>\n<p>E bateu o p\u00e9, gritou surdamente:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, por deus!<\/p>\n<p>Mas a m\u00e3o do enforcado, l\u00edvida na escurid\u00e3o, bruscamente<br \/>\nlhe arrancou o sombreiro da cabe\u00e7a, lhe puxou a capa do bra\u00e7o.<br \/>\nE j\u00e1 se cobria, j\u00e1 se embu\u00e7ava, murmurando agora, numa<br \/>\ns\u00faplica ansiosa:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o mo negueis, senhor, que se vos fizer grande servi\u00e7o,<br \/>\nganharei grande merc\u00ea!<\/p>\n<p>E galgou os degraus! &#8211; estava no alumiado e largo terra\u00e7o.<\/p>\n<p>D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E &#8211; oh maravilha! &#8211; era ele, D. Rui,<br \/>\ntodo ele, na figura e no modo, aquele homem que, por entre os canteiros e<br \/>\no buxo curto, avan\u00e7ava, airoso e leve, com a m\u00e3o na cintura,<br \/>\na face erguida risonhamente para a janela, a longa pluma escarlate do chap\u00e9u<br \/>\nbalan\u00e7ando em triunfo. O homem avan\u00e7ava no luar espl\u00eandido.<br \/>\nO quarto amoroso l\u00e1 estava esperando, aberto e negro. E D. Rui olhava,<br \/>\ncom olhos que faiscavam, tremendo de pasmo e c\u00f3lera. O homem chegara<br \/>\n\u00e0 escada: destra\u00e7ou a capa, assentou o p\u00e9 no degrau de<br \/>\ncorda! &#8211; \u201cOh! l\u00e1 sobe, o maldito!\u201d &#8211; rugiu D. Rui. O enforcado<br \/>\nsubia. J\u00e1 a alta figura, que era dele, D. Rui, estava a meio da escada,<br \/>\ntoda negra contra a parede branca. Parou!&#8230; N\u00e3o! n\u00e3o parara:<br \/>\nsubia, chegava, &#8211; j\u00e1 sobre o rebordo da varanda pousara o joelho cauteloso.<br \/>\nD. Rui olhava, desesperadamente, com os olhos, com a alma, com todo o seu<br \/>\nser&#8230; E eis que, de repente, do quarto negro surge um negro vulto, uma furiosa<br \/>\nvoz brada: &#8211; \u201cvil\u00e3o, vil\u00e3o!\u201d &#8211; e uma l\u00e2mina<br \/>\nde adaga fa\u00edsca, e cai, e outra vez se ergue, e rebrilha, e se abate,<br \/>\ne ainda refulge, e ainda se embebe!&#8230; Como um fardo, do alto da escada, pesadamente,<br \/>\no enforcado cai sobre a terra mole. Vidra\u00e7as, portadas do balc\u00e3o<br \/>\nlogo se fecham com fragor. E n\u00e3o houve mais sen\u00e3o o sil\u00eancio,<br \/>\na serenidade macia, a Lua muito alta e redonda no c\u00e9u de Ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Num relance D. Rui compreendera a trai\u00e7\u00e3o, arrancara a espada,<br \/>\nrecuando para a escurid\u00e3o da avenida &#8211; quando, oh milagre! correndo<br \/>\natrav\u00e9s do terra\u00e7o, aparece o enforcado, que lhe agarra a manga<br \/>\ne grita:<\/p>\n<p>&#8211; A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro n\u00e3o era de amor, mas<br \/>\nde morte!&#8230;<\/p>\n<p>Ambos descem arrebatadamente a avenida, costeiam o tanque sob o ref\u00fagio<br \/>\ndos arbustos em flor, metem pela rua estreita orlada de teixos, varam a porta<br \/>\n&#8211; e um momento param, ofegantes, na estrada, onde a Lua, mais refulgente,<br \/>\nmais cheia, fazia como um puro dia.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o, D. Rui descobriu que o enforcado<br \/>\nconservava cravada no peito, at\u00e9 aos copos, a adaga, cuja ponta lhe<br \/>\nsa\u00eda pelas costas, luzidia e limpa!&#8230; Mas j\u00e1 o pavoroso homem<br \/>\no empurrava, o apressava:<\/p>\n<p>&#8211; A cavalo, senhor, e abalar, que ainda est\u00e1 sobre n\u00f3s a trai\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Arrepiado, numa \u00e2nsia de findar aventura t\u00e3o cheia de milagre<br \/>\ne de horror, D. Rui colheu as r\u00e9deas, cavalgou s\u00f4fregamente.<br \/>\nE logo, em grande pressa, o enforcado saltou tamb\u00e9m para a garupa do<br \/>\ncavalo fiel. Todo se arrepiou o bom cavaleiro, ao sentir nas suas costas o<br \/>\nro\u00e7ar daquele corpo morto, dependurado de uma forca, atravessado por<br \/>\numa adaga. Com que desespero galopou ent\u00e3o pela estrada infind\u00e1vel!<br \/>\nEm carreira t\u00e3o violenta o enforcado nem oscilava, r\u00edgido sobre<br \/>\na garupa, como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada momento sentia um frio<br \/>\nmais regelado que lhe regelava os ombros, como se levasse sobre eles um saco<br \/>\ncheio de gelo. Ao passar no cruzeiro murmurou: &#8211; \u201cSenhor, valei-me!\u201d<br \/>\n&#8211; Para al\u00e9m do cruzeiro, de repente, estremeceu com o quim\u00e9rico<br \/>\nmedo de que t\u00e3o f\u00fanebre companheiro, para sempre, o ficasse<br \/>\nacompanhando, e se tornasse seu destino galopar atrav\u00e9s do mundo, numa<br \/>\nnoite eterna, levando um morto \u00e0 garupa&#8230; E n\u00e3o se conteve,<br \/>\ngritou para tr\u00e1s, no vento da carreira que os vergastava:<\/p>\n<p>&#8211; Para onde quereis que vos leve?<\/p>\n<p>O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos<br \/>\nda adaga, segredou:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, conv\u00e9m que me deixeis no Cerro!<\/p>\n<p>Doce e infinito al\u00edvio para o bom cavaleiro &#8211; pois o Cerro estava<br \/>\nperto, e j\u00e1 lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves<br \/>\nnegras&#8230; Em breve estacou o cavalo, que tremia, branqueado de espuma.<\/p>\n<p>Logo o enforcado, sem rumor, escorregou da garupa, segurou, como bom servi\u00e7al,<br \/>\no estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a l\u00edngua negra mais sa\u00edda<br \/>\nde entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa s\u00faplica:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, fazei-me agora a grande merc\u00ea de me pendurar outra vez da<br \/>\nminha trave.<\/p>\n<p>D. Rui estremeceu de horror:<\/p>\n<p>&#8211; Por Deus! Que vos enforque, eu?&#8230;<\/p>\n<p>O homem suspirou, abrindo os bra\u00e7os compridos:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, por vontade de Deus \u00e9, e por vontade d\u2019Aquela que<br \/>\n\u00e9 mais cara a Deus!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou &#8211; e<br \/>\ncome\u00e7ou a seguir o homem, que subia para o Cerro pensativamente, vergando<br \/>\no dorso, de onde sa\u00eda, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam<br \/>\nambos sob a trave vazia. Em torno das outras traves pendiam as outras carca\u00e7as.<br \/>\nO sil\u00eancio era mais triste e fundo que os outros sil\u00eancios da<br \/>\nterra. A \u00e1gua da lagoa enegrecera. A Lua descia e desfalecia.<\/p>\n<p>D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o peda\u00e7o de corda<br \/>\nque ele cortara com a espada.<\/p>\n<p>&#8211; Como quereis que vos pendure? &#8211; exclamou. &#8211; \u00c0quele peda\u00e7o<br \/>\nde corda n\u00e3o posso chegar com a m\u00e3o: nem eu s\u00f3 basto<br \/>\npara l\u00e1 vos i\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor &#8211; respondeu o homem &#8211; a\u00ed a um canto deve haver um longo rolo<br \/>\nde corda. Uma ponta dela ma atareis a este n\u00f3 que trago no pesco\u00e7o<br \/>\na outra ponta a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como<br \/>\nsois, bem me podereis reenforcar.<\/p>\n<p>Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rolo de corda. E foi o enforcado<br \/>\nque o encontrou, o desenrolou&#8230; Ent\u00e3o D. Rui descal\u00e7ou as luvas.<br \/>\nE ensinado por ele (que t\u00e3o bem o aprendera do carrasco) atou uma ponta<br \/>\nda corda ao la\u00e7o que o homem conservava no pesco\u00e7o, e arremessou<br \/>\nfortemente a outra ponta, que ondeou no ar, passou sobre a trave, ficou pendurada<br \/>\nrente ao ch\u00e3o. E o rijo cavaleiro, fincando os p\u00e9s, retesando<br \/>\nos bra\u00e7os, puxou, i\u00e7ou o homem, at\u00e9 ele se quedar, suspenso,<br \/>\nnegro no ar, como um enforcado natural entre os outros enforcados.<\/p>\n<p>&#8211; Estais bem assim?<\/p>\n<p>Lenta e sumida, veio a voz do morto:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, estou como devo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar<br \/>\nde pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da m\u00e3o o suor<br \/>\nque o alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro. Estava<br \/>\nj\u00e1 r\u00edgido como antes, com a face pendida sob as melenas ca\u00eddas,<br \/>\nos p\u00e9s inteiri\u00e7ados, todo pu\u00eddo e carcomido como uma<br \/>\nvelha carca\u00e7a. No peito conservava a adaga cravada. Por cima, dois<br \/>\ncorvos dormiam quietos.<\/p>\n<p>&#8211; E agora que mais quereis? &#8211; perguntou D. Rui, come\u00e7ando a cal\u00e7ar<br \/>\nas luvas.<\/p>\n<p>Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Seg\u00f3via, tudo conteis<br \/>\nfielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero grande<br \/>\nmerc\u00ea para a minha alma, por este servi\u00e7o que, a seu mandado,<br \/>\nvos fez o meu corpo!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu &#8211; e, ajoelhando devotamente<br \/>\nsobre o ch\u00e3o de dor e morte, rezou uma longa ora\u00e7\u00e3o por<br \/>\naquele bom enforcado.<\/p>\n<p>Depois galopou para Seg\u00f3via. A manh\u00e3 clareava, quando ele transp\u00f4s<br \/>\na porta de S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E entrando<br \/>\nna igreja de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua terr\u00edvel<br \/>\njornada, D. Rui, de rojo ante o altar, narrou \u00e0 sua Divina Madrinha<br \/>\na ruim ten\u00e7\u00e3o que o levara a Cabril, o socorro que do C\u00e9u<br \/>\nrecebera, e, com quentes lagrimas de arrependimento e gratid\u00e3o, lhe<br \/>\njurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado, nem no seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do Mal.<\/p>\n<h2><a id=\"4\" name=\"4\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV<\/h2>\n<p>A ESSA hora, em Cabril, D. Alonso de Lara, com olhos esbugalhados de pasmo<br \/>\ne terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu jardim.<\/p>\n<p>Quando ao alvorecer, depois de escutar \u00e0 porta da c\u00e2mara onde<br \/>\nnessa noite encerrara D. Leonor, ele descera subtilmente ao jardim e n\u00e3o<br \/>\nencontrara, debaixo do balc\u00e3o, rente \u00e0 escada, como deliciosamente<br \/>\nesperava, o corpo de D. Rui de Cardenas, teve por certo que o homem odioso,<br \/>\nao tombar, ainda com um resto d\u00e9bil de vida, se arrastara sangrando<br \/>\ne arquejando, na tentativa de alcan\u00e7ar o cavalo e abalar de Cabril&#8230;<br \/>\nMas, com aquela rija adaga que ele tr\u00eas vezes lhe enterrara no peito,<br \/>\ne que no peito lhe deixara, n\u00e3o se arrastaria o vil\u00e3o por muitas<br \/>\njardas, e nalgum canto devia jazer frio e inteiri\u00e7ado. Rebuscou ent\u00e3o<br \/>\ncada rua, cada sombra, cada maci\u00e7o de arbustos. E &#8211; maravilhoso caso!<br \/>\n&#8211; n\u00e3o descobria o corpo, nem pegadas, nem terra que houvesse sido remexida,<br \/>\nnem sequer rasto de sangue sobre a terra! E todavia, com m\u00e3o certeira<br \/>\ne faminta de vingan\u00e7a, tr\u00eas vezes ele lhe embebera a adaga no<br \/>\npeito, e no peito lha deixara!<\/p>\n<p>E era Rui de Cardenas o homem que ele matara &#8211; que muito bem o conhecera<br \/>\nlogo, do fundo apagado do quarto de onde espreitava, quando ele, \u00e0<br \/>\nclaridade da Lua, veio atrav\u00e9s do terra\u00e7o, confiado, ligeiro,<br \/>\ncom a m\u00e3o na cintura, a face risonhamente erguida e a pluma do sombreiro<br \/>\nmeneando em triunfo! Como podia ser coisa t\u00e3o rara &#8211; um corpo mortal<br \/>\nsobrevivendo a um ferro, que tr\u00eas vezes lhe vara o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne no cora\u00e7\u00e3o lhe fica cravado? E a maior raridade era que nem<br \/>\nno ch\u00e3o, debaixo da varanda, onde corria ao longo do muro uma tira<br \/>\nde goivos e cec\u00e9ns, deixar um vest\u00edgio aquele corpo forte, caindo<br \/>\nde t\u00e3o alto pesadamente, inertemente, como um fardo! Nem uma flor machucada<br \/>\n&#8211; todas direitas, vi\u00e7osas, como novas, com gotas leves de orvalho!<br \/>\nIm\u00f3vel de espanto, quase de terror, D. Alonso de Lara ali parava, considerando<br \/>\no balc\u00e3o, medindo a altura da escada, olhando esgazeadamente os goivos<br \/>\ndireitos, frescos, sem uma haste ou folha vergada. Depois recome\u00e7ava<br \/>\na correr loucamente o terra\u00e7o, a avenida, a rua de teixos, na esperan\u00e7a<br \/>\nainda duma pegada, dum galho partido, de uma n\u00f3doa de sangue na areia<br \/>\nfina.<\/p>\n<p>Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova, como se<br \/>\nsobre ele nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o sol que murcha.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao entardecer, devorado pela incerteza e mist\u00e9rio, tomou<br \/>\num cavalo, e sem escudeiro ou cavalari\u00e7o, partiu para Seg\u00f3via.<br \/>\nCurvado e escondidamente, como um foragido, penetrou no seu pal\u00e1cio<br \/>\npela porta do pomar: e o seu primeiro cuidado foi correr \u00e0 galeria<br \/>\nde ab\u00f3bada, destrancar as portadas da janela e espreitar \u00e0vidamente<br \/>\na casa de D. Rui de Cardenas. Todas as gelosias da valha morada do arcediago<br \/>\nestavam escuras, abertas, respirando a fresquid\u00e3o da noite: &#8211; e \u00e0<br \/>\nporta, sentado num banco de pedra, um mo\u00e7o de cavalari\u00e7a afinava<br \/>\npregui\u00e7osamente a bandurra.<\/p>\n<p>D. Alonso de Lara desceu \u00e0 sua c\u00e2mara, l\u00edvido, pensando<br \/>\nque n\u00e3o houvera certamente desgra\u00e7a em casa onde todas as janelas<br \/>\nse abrem para refrescar, e no port\u00e3o da rua os mo\u00e7os folgam.<br \/>\nEnt\u00e3o bateu as palmas, pediu furiosamente a ceia. E, apenas sentado,<br \/>\nao topo da mesa, na sua alta sede de couro lavrado, mandou chamar o intendente,<br \/>\na quem ofereceu logo, com estranha familiaridade, um copo de vinho velho.<br \/>\nEnquanto o homem, de p\u00e9, bebia respeitosamente, D. Alonso, metendo<br \/>\nos dedos pelas barbas e for\u00e7ando a sua sombria face a sorrir, perguntava<br \/>\npelas novas e rumores de Seg\u00f3via. Nesses dias da sua estada em Cabril,<br \/>\nnenhum caso criara pela cidade espanto e murmura\u00e7\u00e3o?&#8230; O intendente<br \/>\nlimpou os bei\u00e7os, para afirmar que nada ocorrera em Seg\u00f3via<br \/>\nde que andasse murmura\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser que a filha do senhor<br \/>\nD. Gutierres, t\u00e3o mo\u00e7a e t\u00e3o rica herdeira, tomara o<br \/>\nv\u00e9u do convento das Carmelitas Descal\u00e7as. D. Alonso insistia,<br \/>\nfitando vorazmente o intendente. E n\u00e3o se travara uma grande briga?&#8230;<br \/>\nn\u00e3o se encontrara ferido, na estrada de Cabril, um cavaleiro mo\u00e7o,<br \/>\nmuito falado?&#8230; O intendente encolhia os ombros: nada ouvira, pela cidade,<br \/>\nde brigas ou de cavaleiros feridos. Com um aceno desabrido D. Alonso despediu<br \/>\no intendente.<\/p>\n<p>Apenas ceara, parcamente, logo voltou \u00e0 galeria a espreitar as janelas<br \/>\nde D. Rui. Estavam agora cerradas; na \u00faltima, da esquina, tremeluzia<br \/>\numa claridade. Toda a noite D. Alonso velou, remoendo incans\u00e0velmente<br \/>\no mesmo espanto. Como pudera escapar aquele homem, com uma adaga atravessada<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o? Como pudera?&#8230; Ao luzir da manh\u00e3, tomou<br \/>\numa capa, um largo sombreiro, desceu ao adro, todo embu\u00e7ado e encoberto,<br \/>\ne ficou rondando por diante da casa de D. Rui. Os sinos tocaram a matinas.<br \/>\nOs mercadores, com os gib\u00f5es mal abotoados, sa\u00edam a erguer as<br \/>\nportadas das lojas, a pendurar as tabuletas. J\u00e1 os hortel\u00f5es,<br \/>\npicando os burros carregados de seiras, atiravam os preg\u00f5es da hortali\u00e7a<br \/>\nfresca, e frades descal\u00e7os, com o alforge aos ombros, pediam esmola,<br \/>\nbenziam as mo\u00e7as.<\/p>\n<p>Beatas embiocadas, com grossos ros\u00e1rios negros, enfiavam gulosamente<br \/>\npara a igreja. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro, tocou<br \/>\numa buzina, e numa voz tremenda come\u00e7ou a ler um edital.<\/p>\n<p>O senhor de Lara parara junto do chafariz, pasmado, como embebido no cantar<br \/>\ndas tr\u00eas bicas de \u00e1gua. De repente pensou que aquele edital,<br \/>\nlido pelo pregoeiro da cidade, se referia talvez a D. Rui, ao seu desaparecimento&#8230;<br \/>\nCorreu \u00e0 esquina do adro &#8211; mas j\u00e1 o homem enrolara o papel,<br \/>\nse afastava majestosamente, batendo nas lajes com a sua vara branca. E, quando<br \/>\nse voltava para espiar de novo a casa, eis que os seus olhos at\u00f3nitos<br \/>\nencontram D. Rui, D. Rui que ele matara &#8211; e que vinha caminhando para a igreja<br \/>\nde Nossa Senhora, ligeiro, airoso, a face risonha e erguida no fresco ar da<br \/>\nmanh\u00e3, de gib\u00e3o claro, de plumas claras, com uma das m\u00e3os<br \/>\npousando na cinta, a outra meneando distra\u00ecdamente um bast\u00e3o<br \/>\ncom borlas de tor\u00e7al de ouro!<\/p>\n<p>D. Alonso recolheu ent\u00e3o a casa com passos arrastados e envelhecidos.<br \/>\nNo alto da escadaria de pedra, achou o seu velho capel\u00e3o, que o viera<br \/>\nsaudar, e que, penetrando com ele na antec\u00e2mara, depois de pedir, com<br \/>\nrever\u00eancia, novas da senhora D. Leonor, lhe contou logo dum prodigioso<br \/>\ncaso, que causava pela cidade grave murmura\u00e7\u00e3o e espanto. Na<br \/>\nv\u00e9spera, de tarde, indo o corregedor visitar o cerro das forcas, pois<br \/>\nse acercava a festa dos Santos Ap\u00f3stolos, descobrira, com muito pasmo<br \/>\ne muito esc\u00e2ndalo, que um dos enforcados tinha uma adaga cravada no<br \/>\npeito! Fora gracejo de um p\u00edcaro sinistro? Vingan\u00e7a que nem<br \/>\na morte saciara?&#8230; E para maior prod\u00edgio ainda, o corpo fora despendurado<br \/>\nda forca, arrastado em horta ou jardim (pois que presas aos velhos farrapos<br \/>\nse encontraram folhas tenras) e depois novamente enforcado e com corda nova!&#8230;<br \/>\nE assim ia a turbul\u00eancia dos tempos, que nem os mortos se furtavam a<br \/>\nultrajes!<\/p>\n<p>D. Alonso escutava com as m\u00e3os a tremer, os p\u00ealos arrepiados.<br \/>\nE imediatamente, numa ansiosa agita\u00e7\u00e3o, bradando, trope\u00e7ando<br \/>\ncontra as portas, quis partir, e por seus olhos verificar a f\u00fanebre<br \/>\nprofana\u00e7\u00e3o. Em duas mulas ajaezadas \u00e0 pressa, ambos abalaram<br \/>\npara o Cerro dos Enforcados, ele e o capel\u00e3o arrastado e aturdido.<br \/>\nNumeroso povo de Seg\u00f3via se juntara j\u00e1 no Cerro, pasmando para<br \/>\no maravilhoso horror &#8211; o morto que fora morto!&#8230; Todos se arredaram ante<br \/>\no nobre senhor de Lara, que arremessando-se pelo cabe\u00e7o acima, estacara<br \/>\na olhar, esgazeado e l\u00edvido, para o enforcado e para a adaga que lhe<br \/>\nvarava o peito. Era a sua adaga: &#8211; fora ele que matara o morto!<\/p>\n<p>Galopou espavoridamente para Cabril. E a\u00ed se encerrou com o seu segredo,<br \/>\ncome\u00e7ando logo a amarelecer, a definhar, sempre arredado da senhora<br \/>\nD. Leonor, escondido pelas ruas sombrias do jardim, murmurando palavras ao<br \/>\nvento, at\u00e9 que na madrugada de S. Jo\u00e3o uma serva, que voltava<br \/>\nda fonte com a sua bilha, o encontrou morto, por baixo do balc\u00e3o de<br \/>\npedra, todo estirado no ch\u00e3o, com os dedos encravados no canteiro de<br \/>\ngoivos, onde parecia ter longamente esgaravatado a terra, a procurar&#8230;<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>PARA fugir a t\u00e3o lament\u00e1veis mem\u00f3rias, a senhora D.<br \/>\nLeonor, herdeira de todos os bens da casa de Lara, recolheu ao seu pal\u00e1cio<br \/>\nde Seg\u00f3via. Mas como agora sabia que o senhor D. Rui de Cardenas escapara<br \/>\nmiraculosamente \u00e0 emboscada de Cabril, e como cada manh\u00e3, espreitando<br \/>\nde entre as gelosias, meio cerradas, o seguia, com olhos que se n\u00e3o<br \/>\nfartavam e se humedeciam, quando ele cruzava o adro para entrar na igreja,<br \/>\nn\u00e3o quis ela, com receio das pressas e impaci\u00eancias do seu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nvisitar a Senhora do Pilar enquanto durasse o seu luto. Depois, uma manh\u00e3<br \/>\nde domingo, quando, em vez de crepes negros, se p\u00f4de cobrir de sedas<br \/>\nroxas, desceu a escadaria do seu pal\u00e1cio, p\u00e1lida de uma emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nnova e divina, pisou as lajes do adro, transp\u00f4s as portas da igreja.<br \/>\nD. Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar, onde depusera o seu ramo<br \/>\nvotivo de cravos amarelos e brancos. Ao rumor das sedas finas, ergueu os olhos<br \/>\ncom uma esperan\u00e7a muito pura e toda feita de gra\u00e7a celeste,<br \/>\ncomo se um anjo o chamasse. D. Leonor ajoelhou, com o peito a arfar, t\u00e3o<br \/>\np\u00e1lida e t\u00e3o feliz que a cera das tochas n\u00e3o era mais<br \/>\np\u00e1lida, nem mais felizes as andorinhas que batiam as asas livres pelas<br \/>\nogivas da velha igreja.<\/p>\n<p>Ante esse altar, e de joelhos nessas lajes, foram eles casados pelo bispo<br \/>\nde Seg\u00f3via, D. Martinho, no Outono do ano da Gra\u00e7a de 1475,<br \/>\nsendo j\u00e1 reis de Castela Isabel e Fernando, muito fortes e muito cat\u00f3licos,<br \/>\npor quem Deus operou grandes feitos sobre a terra e sobre o mar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo\u00a0II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV &nbsp; O Defunto &#8211; E\u00e7a de Queir\u00f3s CAP\u00cdTULO I NO ano de 1474, que foi por toda a Cristandade t\u00e3o abundante em merc\u00eas divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Seg\u00f3via, onde herdara moradias [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95425","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Defunto - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto O Defunto - E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Defunto - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto, Obra Liter\u00e1ria, Seg\u00f3via, D. 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