{"id":95420,"date":"2017-01-18T10:07:10","date_gmt":"2017-01-18T12:07:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95420"},"modified":"2017-01-18T10:07:10","modified_gmt":"2017-01-18T12:07:10","slug":"no-moinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/no-moinho","title":{"rendered":"No Moinho"},"content":{"rendered":"<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">D. MARIA DA PIEDADE era considerada em toda a vila como \u201cuma senhora modelo\u201d. O velho Nunes, diretor do correio, sempre que se falava nela, dizia, acariciando com autoridade os quatro p\u00ealos da calva:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A vila tinha quase orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura, de perfil fino, a pele eb\u00farnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. Morava ao fim da estrada, numa casa azul de tr\u00eas sacadas; e era, para a gente que \u00e0s tardes ia fazer o giro at\u00e9 ao moinho, um encanto sempre novo v\u00ea-la por tr\u00e1s da vidra\u00e7a, entre as cortinas de cassa, curvada sobre a sua costura, vestida de preto, recolhida e s\u00e9ria. Poucas vezes sa\u00eda. O marido, mais velho que ela, era um inv\u00e1lido, sempre de cama, inutilizado por uma doen\u00e7a de espinha; havia anos que n\u00e3o descia \u00e0 rua; avistavam-no \u00e0s vezes tamb\u00e9m \u00e0 janela murcho e tr\u00f4pego, agarrado \u00e0 bengala, encolhido na robe-de-chambre, com uma face macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de seda enterrado melancolicamente at\u00e9 ao cacha\u00e7o. Os filhos, duas rapariguitas e um rapaz, eram tamb\u00e9m doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de tumores nas orelhas, chor\u00f5es e tristonhos. A casa, interiormente, parecia l\u00fagubre. Andava-se nas pontas dos p\u00e9s, porque o senhor, na excita\u00e7\u00e3o nervosa que lhe davam as ins\u00f4nias, irritava-se com o menor rumor; havia sobre as c\u00f4modas alguma garrafada da botica, alguma malga com papas de linha\u00e7a; as mesmas flores com que ela, no seu arranjo e no seu gosto de frescura, ornava as mesas, depressa murchavam naquele ar abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes de ar; e era uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sobre a orelha, ou a um canto do canap\u00e9, embrulhado em cobertores com uma amarelid\u00e3o de hospital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em casa dos pais, a sua exist\u00eancia fora triste. A m\u00e3e era uma criatura desagrad\u00e1vel e azeda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas batotas, j\u00e1 velho, sempre b\u00eabedo, os dias que aparecia em casa passava-os \u00e0 lareira, num sil\u00eancio sombrio, cachimbando e escarrando para as cinzas. Todas as semanas desancava a mulher. E quando Jo\u00e3o Coutinho pediu Maria em casamento, apesar de doente j\u00e1, ela aceitou, sem hesita\u00e7\u00e3o, quase com reconhecimento, para salvar o casebre da penhora, n\u00e3o ouvir mais os gritos da m\u00e3e, que a faziam tremer, rezar, em cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. N\u00e3o amava o marido, decerto; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fosse pertencer ao Jo\u00e3ozinho Coutinho, que desde rapaz fora sempre entrevado. O Coutinho, por morte do pai, ficara rico; e ela, acostumada por fim \u00e0quele marido rabugento, que passava o dia arrastando-se sombriamente da sala para a alcova, ter-se-ia resignado, na sua natureza de enfermeira e de consoladora, se os filhos ao menos tivessem nascido s\u00e3os e robustos. Mas aquela fam\u00edlia que lhe vinha com o sangue viciado, aquelas exist\u00eancias hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas m\u00e3os, apesar dos seus cuidados inquietos, acabrunhavam-na. \u00c0s vezes s\u00f3, picando a sua costura, corriam-lhe as l\u00e1grimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, como uma n\u00e9voa que lhe escurecia a alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se o marido de dentro chamava desesperado, ou um dos pequenos choramingava, l\u00e1 limpava os olhos, l\u00e1 aparecia com a sua bonita face tranquila, com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um, indo animar a outro, feliz em ser boa. Toda a sua ambi\u00e7\u00e3o era ver o seu pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Nunca tivera desde casada uma curiosidade, um desejo, um capricho: nada a interessava na terra sen\u00e3o as horas dos rem\u00e9dios e o sono dos seus doentes. Todo o esfor\u00e7o lhe era f\u00e1cil quando era para os contentar: apesar de fraca, passeava horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais impertinente, com as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura: durante as ins\u00f4nias do marido n\u00e3o dormia tamb\u00e9m, sentada ao p\u00e9 da cama, conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia caindo em devo\u00e7\u00e3o. De manh\u00e3 estava um pouco mais p\u00e1lida, mas toda correta no seu vestido preto, fresca, com os band\u00f3s bem lustrosos, fazendo-se bonita para ir dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua \u00fanica distra\u00e7\u00e3o era \u00e0 tarde sentar-se \u00e0 janela com a sua costura, e a pequenada em roda aninhada no ch\u00e3o, brincando tristemente. A mesma paisagem que ela via da janela era t\u00e3o mon\u00f3tona como a sua vida: embaixo a estrada, depois uma ondula\u00e7\u00e3o de campos, uma terra magra plantada aqui e al\u00e9m de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma colina triste e nua, sem uma casa, uma \u00e1rvore, um fumo de casal que pusesse naquela solid\u00e3o de terreno pobre uma nota humana e viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vendo-a assim t\u00e3o resignada e t\u00e3o sujeita, algumas senhoras da vila afirmavam que ela era beata; todavia ningu\u00e9m a avistava na igreja, a n\u00e3o ser ao domingo, com o pequerrucho mais velho pela m\u00e3o, todo p\u00e1lido no seu vestido de veludo azul. Com efeito, a sua devo\u00e7\u00e3o limitava-se a esta missa todas as semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar invadir pelas preocupa\u00e7\u00f5es do C\u00e9u: naquele dever de boa m\u00e3e, cumprido com amor, encontrava uma satisfa\u00e7\u00e3o suficiente \u00e0 sua sensibilidade; n\u00e3o necessitava adorar santos ou enternecer-se com Jesus. Instintivamente mesmo pensava que toda a afei\u00e7\u00e3o excessiva dada ao Pai do C\u00e9u, todo o tempo gasto em se arrastar pelo confession\u00e1rio ou junto do orat\u00f3rio, seria uma diminui\u00e7\u00e3o cruel do seu cuidado de enfermeira: a sua maneira de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama, todo dependente dela, tendo-a s\u00f3 a ela, parecia-lhe ter mais direito ao seu fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para amar toda uma humanidade pronta. Al\u00e9m disso, nunca tivera estas sentimentalidades de alma triste que levam \u00e0 devo\u00e7\u00e3o. O seu longo h\u00e1bito de dirigir uma casa de doentes, de ser ela o centro, a for\u00e7a, o amparo daqueles inv\u00e1lidos, tornara-a terna, mas pr\u00e1tica: e assim era ela que administrava agora a casa do marido, com um bom senso que a afei\u00e7\u00e3o dirigira, uma solicitude de m\u00e3e pr\u00f3vida. Tais ocupa\u00e7\u00f5es bastavam para entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o aspecto de caras saud\u00e1veis, as comisera\u00e7\u00f5es de cerim\u00f4nia; e passavam-se meses sem que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha \u00e0 fam\u00edlia, a n\u00e3o ser a do dr. Ab\u00edlio &#8211; que a adorava, e que dizia dela com os olhos esgazeados:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 uma fada! \u00e9 uma fada!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nFoi por isso grande a excita\u00e7\u00e3o na casa, quando Jo\u00e3o Coutinho recebeu uma carta de seu primo Adri\u00e3o, que lhe anunciava que em duas ou tr\u00eas semanas ia chegar \u00e0 vila. Adri\u00e3o era um homem c\u00e9lebre, e o marido da Maria da Piedade tinha naquele parente um orgulho enf\u00e1tico. Assinara mesmo um jornal de Lisboa, s\u00f3 para ver o seu nome nas locais e na cr\u00edtica. Adri\u00e3o era um romancista: e o seu \u00faltimo livro, Madalena, um estudo de mulher trabalhado a grande estilo, duma an\u00e1lise delicada e sutil, consagrara-o como um mestre. A sua fama, que chegara at\u00e9 \u00e0 vila, num vago de legenda, apresentava-o como uma personalidade interessante, um her\u00f3i de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e brilhante, destinado a uma alta situa\u00e7\u00e3o no Estado. Mas realmente na vila era sobretudo not\u00e1vel por ser primo do Jo\u00e3o Coutinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via j\u00e1 a sua casa em confus\u00e3o com a presen\u00e7a do h\u00f3spede extraordin\u00e1rio. Depois a necessidade de fazer mais toilette, de alterar a hora do jantar, de conversar com um literato, e tantos outros esfor\u00e7os cru\u00e9is!&#8230; E a brusca invas\u00e3o daquele mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria de s\u00e3o, na paz triste do seu hospital, dava-lhe a impress\u00e3o apavorada duma profana\u00e7\u00e3o. Foi por isso um al\u00edvio, quase um reconhecimento, quando Adri\u00e3o chegou e muito simplesmente se instalou na antiga estalagem do tio Andr\u00e9, \u00e0 outra extremidade da vila. Jo\u00e3o Coutinho escandalizou-se: tinha j\u00e1 o quarto do h\u00f3spede preparado, com len\u00e7\u00f3is de rendas, uma colcha de damasco, pratas sobre a c\u00f4moda, e queria-o todo para si, o primo, o homem c\u00e9lebre, o grande autor&#8230; Adri\u00e3o por\u00e9m recusou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu tenho os meus h\u00e1bitos, voc\u00eas t\u00eam os seus&#8230; N\u00e3o nos contrariemos, hem?&#8230; o que fa\u00e7o \u00e9 vir c\u00e1 jantar. De resto, n\u00e3o estou mal no tio Andr\u00e9&#8230; Vejo da janela um moinho e uma represa que s\u00e3o um quadrozinho delicioso&#8230; E ficamos amigos, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele her\u00f3i, aquele fascinador por quem choravam mulheres, aquele poeta que os jornais glorificavam, era um sujeito extremamente simples, &#8211; muito menos complicado, menos espetaculoso que o filho do recebedor! Nem formoso era: e com o seu chap\u00e9u desabado sobre uma face cheia e barbuda, a quinzena de flanela caindo \u00e0 larga num corpo robusto e pequeno, os seus sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos ca\u00e7adores de aldeia que \u00e0s vezes encontrava, quando de m\u00eas a m\u00eas ia visitar as fazendas do outro lado do rio. Al\u00e9m disso n\u00e3o fazia frases; e a primeira vez que veio jantar, falou apenas, com grande bonomia, dos seus neg\u00f3cios. Viera por eles. Da fortuna do pai, a \u00fanica terra que n\u00e3o estava devorada, ou abomin\u00e0velmente hipotecada, era a Curgossa, uma fazenda ao p\u00e9 da vila, que andava al\u00e9m disso mal arrendada&#8230; o que ele desejava era vend\u00ea-la. Mas isso parecia-lhe a ele t\u00e3o dif\u00edcil como fazer a Il\u00edada!&#8230; E lamentava sinceramente ver o primo ali, in\u00fatil sobre uma cama, sem o poder ajudar nesses passos a dar com os propriet\u00e1rios da vila. Foi por isso, com grande alegria, que ouviu Jo\u00e3o Coutinho declarar-lhe que a mulher era uma administradora de primeira ordem, e h\u00e1bil nestas quest\u00f5es como um antigo r\u00e1bula!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso tudo&#8230; E na quest\u00e3o de pre\u00e7o, deixa-a a ela!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas que superioridade, prima! &#8211; exclamou Adri\u00e3o maravilhado. &#8211; Um anjo que entende de cifras!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela primeira vez na sua exist\u00eancia Maria da Piedade corou com a palavra dum homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de mar\u00e7o fresco e claro, partiram a p\u00e9. Ao princ\u00edpio, Acanhada por aquela companhia de um le\u00e3o, a pobre senhora caminhava junto dele com o ar de um p\u00e1ssaro assustado: apesar de ele ser t\u00e3o simples, havia na sua figura en\u00e9rgica e musculosa, no timbre rico da sua voz, nos seus olhos, nos seus olhos pequenos e luzidios alguma coisa de forte, de dominante, que a enleava. Tinha-se-lhe prendido \u00e0 orla do seu vestido um galho de silvado, e como ele se abaixara para o desprender delicadamente, o contato daquela m\u00e3o branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a singularmente. Apressava o passo para chegar bem depressa \u00e0 fazenda, aviar o neg\u00f3cio com o Teles e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento pr\u00f3prio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada estendia-se, branca e longa, sob o sol t\u00e9pido &#8211; e a conversa de Adri\u00e3o foi-a lentamente acostumando \u00e0 sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele parecia desolado daquela tristeza da casa. Deu-lhe alguns bons conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida diversa daquele abafamento de alcova&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela tamb\u00e9m assim o julgava: mas qu\u00ea! o pobre Jo\u00e3o, sempre que se lhe falava de ir passar algum tempo \u00e0 quinta, afligia-se terrivelmente: tinha horror aos grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte fazia-o quase desmaiar; tornara-se um ser artificial, encafuado entre os cortinados da cama&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele ent\u00e3o lamentou-a. decerto poderia haver alguma satisfa\u00e7\u00e3o num dever t\u00e3o santamente cumprido&#8230; Mas, enfim, ela devia ter momentos em que desejasse alguma outra coisa al\u00e9m daquelas quatro paredes, impregnadas do bafo de doen\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que hei-de eu desejar mais? &#8211; disse ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adri\u00e3o calou-se: pareceu-lhe absurdo supor que ela desejasse, realmente, o Chiado ou o Teatro da Trindade&#8230; No que ele pensava era noutros apetites, nas ambi\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o insatisfeito&#8230; Mas isto pareceu-lhe t\u00e3o delicado, t\u00e3o grave de dizer \u00e0quela criatura virginal e s\u00e9ria &#8211; que falou da paisagem&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; J\u00e1 viu o moinho? &#8211; perguntou-lhe ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Hoje \u00e9 tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Combinaram logo ir visitar esse recanto de verdura, que era o id\u00edlio da vila.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproxima\u00e7\u00e3o maior entre Adri\u00e3o e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma ast\u00facia de alde\u00e3 punha entre eles como que um interesse comum. Ela falou-lhe j\u00e1 com menos reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dele, dum respeito tocante, uma atra\u00e7\u00e3o que a seu pesar a levava a revelar-se, a dar-lhe a sua confian\u00e7a: nunca falara tanto a ningu\u00e9m: a ningu\u00e9m jamais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram sobre a mesma dor &#8211; a tristeza do seu interior, as doen\u00e7as, tantos cuidados graves&#8230; E vinha-lhe por ele uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter sempre presente, desde que ele se tornava assim deposit\u00e1rio das suas tristezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adri\u00e3o voltou para o seu quarto, na estalagem do Andr\u00e9, impressionado, interessado por aquela criatura t\u00e3o triste e t\u00e3o doce. Ela destacava sobre o mundo de mulheres que at\u00e9 ali conhecera, como um perfil suave de ano g\u00f3tico entre fisionomias da mesa redonda. Tudo nela concordava deliciosamente: o ouro do cabelo, a do\u00e7ura da voz, a mod\u00e9stia na melancolia, a linha casta, fazendo um ser delicado e tocante, a que mesmo o seu pequenino esp\u00edrito burgu\u00eas, certo fundo r\u00fastico de alde\u00e3 e uma leve vulgaridade de h\u00e1bitos davam um encanto: era um anjo que vivia h\u00e1 muito tempo numa vilota grosseira e estava por muitos lados preso \u00e0s trivialidades do s\u00edtio: mas bastaria um sopro para o fazer remontar ao c\u00e9u natural, aos cimos puros da sentimentalidade&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Achava absurdo e infame fazer a corte \u00e0 prima&#8230; Mas involunt\u00e0riamente pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o estava deformado pelo espartilho, e de p\u00f4r enfim os seus l\u00e1bios numa face onde n\u00e3o houvesse p\u00f3s de arroz&#8230; E o que o tentava sobretudo era pensar que poderia percorrer toda a prov\u00edncia em Portugal, sem encontrar nem aquela linha de corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida&#8230; Era uma ocasi\u00e3o que n\u00e3o voltava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de Corot, sobretudo \u00e0 hora do meio-dia em que eles l\u00e1 foram, com a frescura da verdura, a sombra recolhida das grandes \u00e1rvores, e toda a sorte de murm\u00farios de \u00e1gua corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as pedras, levando e espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por onde corriam cantando. O moinho era dum alto pitoresco, com a sua vclha edifica\u00e7\u00e3o de pedra secular, a sua roda enorme, quase podre, coberta de ervas, im\u00f3vel sobre a gelada limpidez da \u00e1gua escura. Adri\u00e3o achou-o digno duma cena de romance, ou, melhor, da morada duma fada. Maria da Piedade n\u00e3o dizia nada, achando extraordin\u00e1ria aquela admira\u00e7\u00e3o pelo moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco cansada, sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na \u00e1gua da represa os \u00faltimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no encanto daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas. Adri\u00e3o via-a de perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim, t\u00e3o branca, t\u00e3o loura, duma linha t\u00e3o pura, sobre o fundo azul do ar: o seu chap\u00e9u era de mau gosto, o seu mantelete antiquado, mas ele achava nisso mesmo uma ingenuidade picante. O sil\u00eancio dos campos em redor isolava-os &#8211; e, insensivelmente, ele come\u00e7ou a falar-lhe baixo. Era ainda a mesma compaix\u00e3o pela melancolia da sua exist\u00eancia naquela triste vila, pelo seu destino de enfermeira&#8230; Ela escutava-o de olhos baixos, pasmada de se achar ali t\u00e3o s\u00f3 com aquele homem t\u00e3o robusto, toda receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio&#8230; Houve um momento em que ele falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ficar aqui? Para qu\u00ea? &#8211; perguntou ela, sorrindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Para qu\u00ea? para isto, para estar sempre ao p\u00e9 de si&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das m\u00e3os. Adri\u00e3o receou t\u00ea-la ofendido, e acrescentou logo rindo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pois n\u00e3o era delicioso?&#8230; Eu podia alugar este moinho, fazer-me moleiro&#8230; A prima havia de me dar a sua freguesia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto f\u00ea-la rir; era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os dentes, a pele, a cor do cabelo. Ele continuou gracejando, com o seu plano de se fazer moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro, carregado de sacas de farinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E eu venho ajud\u00e1-lo, primo! &#8211; disse ela, animada pelo seu pr\u00f3prio riso, pela alegria daquele homem a seu lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vem? &#8211; exclamou ele. &#8211; Juro-lhe que me fa\u00e7o moleiro! Que para\u00edso, n\u00f3s aqui ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, e ouvindo cantar esses melros!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se ele fosse j\u00e1 arrebat\u00e1-la para o moinho. Mas Adri\u00e3o agora, inflamado \u00e0quela id\u00e9ia, pintava-lhe na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma felicidade id\u00edlica, naquele esconderijo de verdura: de manh\u00e3, a p\u00e9 cedo, para o trabalho; depois o jantar na relva \u00e0 beira da \u00e1gua; e \u00e0 noite as boas palestras ali sentados, \u00e0 claridade das estrelas ou sob a sombra c\u00e1lida dos c\u00e9us negros de ver\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos bra\u00e7os, e beijou-a sobre os l\u00e1bios, dum s\u00f3 beijo profundo e intermin\u00e1vel. Ela tinha ficado contra o seu peito, branca, como morta: e duas l\u00e1grimas corriam-lhe ao comprido da face. Era assim t\u00e3o dolorosa e fraca, que ele soltou-a; ela ergueu-se, apanhou o guarda-solinho e ficou diante dele, com o beicinho a tremer, murmurando:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 malfeito&#8230; \u00c9 malfeito&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele mesmo estava t\u00e3o perturbado &#8211; que a deixou descer para o caminho: e da\u00ed a um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi s\u00f3 na estalagem que ele pensou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fui um tolo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas no fundo estava contente da sua generosidade. \u00c0 noite foi \u00e0 casa dela: encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em \u00e1gua de malva as feridas que ele tinha na perna. E ent\u00e3o, pareceu-lhe odioso distrair aquela mulher dos seus doentes. De resto um momento como aquele no moinho n\u00e3o voltaria. Seria absurdo ficar ali, naquele canto odioso da prov\u00edncia, desmoralizando, a frio, uma boa m\u00e3e&#8230; A venda da fazenda estava conclu\u00edda. Por isso, no dia seguinte, apareceu de tarde, a dizer-lhe adeus: partia \u00e0 noitinha na dilig\u00eancia: encontrou-a na sala, \u00e0 janela costumada, com a pequenada doente aninhada contra as suas saias&#8230; Ouviu que ele partia, sem lhe mudar a cor, sem lhe arfar o peito. Mas Adri\u00e3o achou-lhe a palma da m\u00e3o t\u00e3o fria como um m\u00e1rmore: e quando ele saiu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela escondendo a face dos pequenos, olhando abstratamente a paisagem que escurecia, com as l\u00e1grimas, quatro a quatro, caindo-lhe na costura&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado da imagina\u00e7\u00e3o. O que a encantava nele n\u00e3o era o seu talento, nem a sua celebridade em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela aparecia-lhe vago e pouco compreens\u00edvel: o que a fascinava era aquela seriedade, aquele ar honesto e s\u00e3o, aquela robustez de vida, aquela voz t\u00e3o grave e t\u00e3o rica; e antevia, para al\u00e9m da sua exist\u00eancia ligada a um inv\u00e1lido, outras exist\u00eancias poss\u00edveis, em que se n\u00e3o v\u00ea sempre diante dos olhos uma face fraca e moribunda, em que as noites se n\u00e3o passam a esperar as horas dos rem\u00e9dios. Era como uma rajada de ar impregnado de todas as for\u00e7as vivas da natureza que atravessava, s\u00f9bitamente, a sua alcova abafada: e ela respirava-a deliciosamente&#8230; Depois, tinha ouvido aquelas conversas em que ele se mostrava t\u00e3o bom, t\u00e3o s\u00e9rio, t\u00e3o delicado: e \u00e0 for\u00e7a do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um cora\u00e7\u00e3o terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar&#8230; Esse amor latente invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta id\u00e9ia, esta vis\u00e3o: &#8211; Se ele fosse meu marido! Toda ela estremeceu, apertou desesperadamente os bra\u00e7os contra o peito, como confundindo-se com a sua imagem evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua for\u00e7a&#8230; Depois ele deu-lhe aquele beijo no moinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E partira!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o come\u00e7ou para Maria da Piedade uma exist\u00eancia de abandonada. Tudo de repente em volta dela &#8211; a doen\u00e7a do marido, achaques dos filhos, tristezas do seu dia, a sua costura &#8211; lhe pareceu l\u00fagubre. Os seus deveres, agora que n\u00e3o punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgra\u00e7a excepcional: n\u00e3o se revoltava ainda: mas tinha desses abatimentos, dessas s\u00fabitas fadigas de todo o seu ser, em que ca\u00eda sobre a cadeira, com os bra\u00e7os pendentes, murmurando:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quando se acabar\u00e1 isto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refugiava-se ent\u00e3o naquele amor como uma compensa\u00e7\u00e3o deliciosa. Julgando-o todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dele e da sua lenta influ\u00eancia. Adri\u00e3o tornara-se, na sua imagina\u00e7\u00e3o, como um ser de propor\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, tudo o que \u00e9 forte, e que \u00e9 belo, e que d\u00e1 raz\u00e3o \u00e0 vida. N\u00e3o quis que nada do que era dele ou vinha dele lhe fosse alheio. Leu todos os seus livros, sobretudo aquela Madalena que tamb\u00e9m amara, e morrera dum abandono. Essas leituras calmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfa\u00e7\u00e3o ao desejo. Chorando as dores das hero\u00ednas de romance, parecia sentir al\u00edvio \u00e0s suas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lentamente, essa necessidade de encher a imagina\u00e7\u00e3o desses lances de amor, de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um devorar constante de romances. Ia-se assim criando no seu esp\u00edrito um mundo artificial e idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre agarrado \u00e0s saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas. Tornou-se impaciente e \u00e1spera. N\u00e3o suportava ser arrancada aos epis\u00f3dios sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe o h\u00e1lito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das feridas dos pequenos a lavar. Come\u00e7ou a ler versos. Passava horas s\u00f3, num mutismo, \u00e0 janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebeli\u00e3o duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balc\u00f5es, entre o canto dos rouxin\u00f3is: e queria ser amada assim, possu\u00edda num mist\u00e9rio de noite rom\u00e2ntica&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adri\u00e3o e alargou-se, estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos her\u00f3is de novela; era um ente meio pr\u00edncipe e meio fac\u00ednora, que tinha, sobretudo, a for\u00e7a. Porque era isto que admirava, que queria, por que ansiava nas noites c\u00e1lidas em que n\u00e3o podia dormir &#8211; dois bra\u00e7os fortes como a\u00e7o, que a apertassem num abra\u00e7o mortal, dois l\u00e1bios de fogo que, num beijo, lhe chupassem a alma. Estava uma hist\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, ao p\u00e9 do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de t\u00edsico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um \u00f3dio torpe, um desejo de lhe apressar a morte&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E no meio desta excita\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida do temperamento irritado, eram fraquezas s\u00fabitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma porta, uma palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas&#8230; \u00c0 noite abafava; abria a janela; mas o c\u00e1lido ar, o bafo morno da terra aquecida do sol, enchiam-na dum desejo intenso, duma \u00e2nsia voluptuosa, cortada de crises de choro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Santa tornava-se V\u00eanus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o romanticismo m\u00f3rbido tinha penetrado naquele ser, e desmoralizara-o t\u00e3o profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe tocasse, para ela lhe cair nos bra\u00e7os: &#8211; e foi o que sucedeu enfim, com o primeiro que a namorou, da\u00ed a dois anos. Era o praticante da botica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por causa dele escandalizou toda a vila. E agora, deixa a casa numa desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer at\u00e9 altas horas, o marido a gemer abandonado na sua alcova, toda a trapagem dos emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe &#8211; para andar atr\u00e1s do homem, um magan\u00e3o odioso e sebento, de cara balofa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atr\u00e1s da orelha e bonezinho de seda posto \u00e0 catita. Vem de noite \u00e0s entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar uma Joana, criatura obesa, a quem chamam na vila a bola de unto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E\u00e7a de Queir\u00f3s D. MARIA DA PIEDADE era considerada em toda a vila como \u201cuma senhora modelo\u201d. 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