{"id":95417,"date":"2017-01-18T09:47:02","date_gmt":"2017-01-18T11:47:02","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95417"},"modified":"2017-01-18T09:47:02","modified_gmt":"2017-01-18T11:47:02","slug":"jose-matias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/jose-matias","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Matias"},"content":{"rendered":"<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">LINDA tarde, meu amigo!&#8230; Estou esperando o enterro do Jos\u00e9 Matias &#8211; do Jos\u00e9 Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde&#8230; O meu amigo certamente o conheceu &#8211; um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode crespo de paladino sobre uma boca indecisa de contemplativo, destro cavaleiro, duma eleg\u00e2ncia s\u00f3bria e fina. E esp\u00edrito curioso, muito afei\u00e7oado \u00e0s ideias gerais, t\u00e3o penetrante que compreendeu a minha Defesa da Filosofia Hegeliana! Esta imagem do Jos\u00e9 Matias data de 1865: porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da Rua de S. Bento, tiritava dentro duma quinzena cor de mel, ro\u00edda nos cotovelos, e cheirava abomin\u00e0velmente a aguardente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o meu amigo, numa ocasi\u00e3o que o Jos\u00e9 Matias parou em Coimbra, recolhendo do Porto, ceou com ele, no Pa\u00e7o do Conde! At\u00e9 o Craveiro, que preparava as Ironias e Dores de Sat\u00e3, para acirrar mais a briga entre a Escola Purista e a Escola Sat\u00e2nica, recitou aquele seu soneto, de t\u00e3o f\u00fanebre idealismo: Na jaula do meu peito, o cora\u00e7\u00e3o&#8230; E ainda lembro o Jos\u00e9 Matias, com uma grande gravata de cetim preto, tufada entre o colete de linho branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas, sorrindo p\u00e0lidamente \u00e0quele cora\u00e7\u00e3o que rugia na sua jaula&#8230; Era uma noite de Abril, de Lua-cheia. Passe\u00e1mos depois em bando, com guitarras, pela Ponte e pelo Choupal. O Janu\u00e1rio cantou ardentemente as endechas rom\u00e2nticas do nosso tempo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem de tarde, ao sol-posto,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contemplavas, silenciosa,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A torrente caudalosa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que refervia a teus p\u00e9s&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o Jos\u00e9 Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos perdidos na Lua! &#8211; Por que n\u00e3o acompanha o meu amigo este mo\u00e7o interessante ao Cemit\u00e9rio dos Prazeres? Eu tenho uma tip\u00f3ia, de pra\u00e7a e com n\u00famero, como conv\u00e9m a um Professor de Filosofia&#8230; O qu\u00ea? Por causa das cal\u00e7as claras! Oh! meu caro amigo! De todas as materializa\u00e7\u00f5es da simpatia, nenhuma mais grosseiramente material do que a casimira preta. E o homem que n\u00f3s vamos enterrar era um grande espiritualista!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vem o caix\u00e3o saindo da igreja&#8230; Apenas tr\u00eas carruagens para o acompanhar. Mas realmente, meu caro amigo, o Jos\u00e9 Matias morreu h\u00e1 seis anos, no seu puro brilho. Esse, que a\u00ed levamos, meio decomposto, dentro de t\u00e1buas agaloadas de amarelo, \u00e9 um resto de b\u00eabedo, sem historia e sem nome, que o frio de Fevereiro matou no v\u00e3o dum portal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito de \u00f3culos de ouro, dentro do cup\u00e9?&#8230; N\u00e3o o conhe\u00e7o, meu amigo. Talvez um parente rico, desses que aparecem nos enterros, com o parentesco correctamente coberto de fumo, quando o defunto j\u00e1 n\u00e3o importuna, nem compromete. O homem obeso de car\u00e3o amarelo, dentro da vit\u00f3ria, \u00e9 o Alves Cap\u00e3o, que tem um jornal onde desgra\u00e7adamente a Filosofia n\u00e3o abunda, e que se chama a Piada. Que rela\u00e7\u00f5es o prendiam ao Matias?&#8230; N\u00e3o sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez o Jos\u00e9 Matias \u00f9ltimamente colaborasse na Piada; talvez debaixo daquela gordura e daquela literatura, ambas t\u00e3o s\u00f3rdidas, se abrigue uma alma compassiva. Agora \u00e9 a nossa tip\u00f3ia&#8230; Quer que des\u00e7a a vidra\u00e7a? Um cigarro?&#8230; Eu trago f\u00f3sforos. Pois este Jos\u00e9 Matias foi um homem desconsolador para quem, como eu, na vida ama a evolu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e pretende que a espiga nas\u00e7a coerentemente do gr\u00e3o. Em Coimbra sempre o consider\u00e1mos como uma alma escandalosamente banal. Para este ju\u00edzo concorria talvez a sua horrenda correc\u00e7\u00e3o. Nunca um rasg\u00e3o brilhante na batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um p\u00ealo rebelde do cabelo ou do bigode fugido daquele r\u00edgido alinho que nos desolava! Al\u00e9m disso, na nossa ardente gera\u00e7\u00e3o, ele foi o \u00fanico intelectual que n\u00e3o rugiu com as mis\u00e9rias da Pol\u00f3nia; que leu sem palidez ou pranto as Contempla\u00e7\u00f5es; que permaneceu insens\u00edvel ante a ferida de Garib\u00e1ldi! E todavia, nesse Jos\u00e9 Matias, nenhuma secura ou dureza ou ego\u00edsmo ou desafabilidade! Pelo contr\u00e1rio! Um suave camarada, sempre cordial, e mansamente risonho. Toda a sua inabal\u00e1vel quieta\u00e7\u00e3o parecia provir duma imensa superficialidade sentimental. E, nesse tempo, n\u00e3o foi sem raz\u00e3o e propriedade que n\u00f3s alcunh\u00e1mos aquele mo\u00e7o t\u00e3o macio, t\u00e3o louro e t\u00e3o ligeiro, de Matias-Cora\u00e7\u00e3o-de-Esquilo. Quando se formou, como lhe morrera o pai, depois a m\u00e3e, delicada e linda senhora de quem herdara cinquenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solid\u00e3o dum tio que o adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu amigo sem d\u00favida se lembra dessa perfeita estampa de general cl\u00e1ssico, sempre de bigodes terr\u00ecficamente encerados, as cal\u00e7as cor de flor de alecrim desesperadamente esticadas pelas presilhas sobre as botas coruscantes, e o chicote debaixo do bra\u00e7o com a ponta a tremer, \u00e1vida de vergastar o Mundo! Guerreiro grotesco e deliciosamente bom&#8230; O Garmilde morava ent\u00e3o em Arroios, numa casa antiga de azulejos, com um jardim, onde ele cultivava apaixonadamente canteiros soberbos de d\u00e1lias. Esse jardim subia muito suavemente at\u00e9 ao muro coberto de hera que o separava de outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos Miranda, cuja casa, com um arejado terra\u00e7o entre dois torr\u00e3ozinhos amarelos, se erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da \u201cParreira\u201d. O meu amigo conhece (pelo menos de tradi\u00e7\u00e3o, como se conhece Helena de Tr\u00f3ia ou In\u00eas de Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da Parreira&#8230; Foi a sublime beleza rom\u00e2ntica de Lisboa, nos fins da Regenera\u00e7\u00e3o. Mas realmente Lisboa apenas a entrevia pelos vidros da sua grande caleche, ou nalguma noite de ilumina\u00e7\u00e3o do Passeio P\u00fablico entre a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembleia do Carmo, de que o Matos Miranda era um director venerado. Por gosto borralheiro de provinciana, ou por pertencer \u00e0quela burguesia s\u00e9ria que nesses tempos, em Lisboa, ainda conservava os antigos h\u00e1bitos severamente encerrados, ou por imposi\u00e7\u00e3o paternal do marido, j\u00e1 diab\u00e9tico e com sessenta anos &#8211; a Deusa raramente emergia de Arroios e se mostrava aos mortais. Mas quem a viu, e com facilidade constante, quase irremedi\u00e0velmente, logo que se instalou em Lisboa, foi o Jos\u00e9 Matias &#8211; porque, jazendo o palacete do general na falda da colina, aos p\u00e9s do jardim e da casa da Parreira, n\u00e3o podia a divina Elisa assomar a uma janela, atravessar o terra\u00e7o, colher uma rosa entre as ruas de buxo, sem ser deliciosamente vis\u00edvel, tanto mais que nos dois jardins assoalhados nenhuma \u00e1rvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu amigo decerto trauteou, como todos traute\u00e1mos, aqueles versos gastos, mas imortais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era no Outono, quando a imagem tua<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 luz da Lua&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nPois, como nessa estrofe, o pobre Jos\u00e9 Matias, ao regressar da praia da Ericeira em Outubro, no Outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no terra\u00e7o, \u00e0 luz da Lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo de encanto Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da compara\u00e7\u00e3o b\u00edblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em band\u00f3s ondeados. Uma carna\u00e7\u00e3o de cam\u00e9lia muito fresca. Olhos negros, l\u00edquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas&#8230; Ah! Meu amigo, at\u00e9 eu, que j\u00e1 ent\u00e3o laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar numa tarde de chuva esperando a carruagem \u00e0 porta do Seixas, a adorei durante tr\u00eas exaltados dias e lhe rimei um soneto! N\u00e3o sei se o Jos\u00e9 Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos n\u00f3s, seus amigos, percebemos logo o forte, profundo, absoluto amor que concebera, desde a noite de Outono, \u00e0 luz da Lua, aquele cora\u00e7\u00e3o, que em Coimbra consider\u00e1vamos de esquilo! Bem compreende que homem t\u00e3o comedido e quieto n\u00e3o se exalou em suspiros p\u00fablicos. J\u00e1, por\u00e9m, no tempo de Arist\u00f3teles, se afirmava que amor e fumo n\u00e3o se escondem; e do nosso cerrado Jos\u00e9 Matias o amor come\u00e7ou logo a escapar, como o fumo leve atrav\u00e9s das fendas invis\u00edveis duma casa fechada que arde terr\u00ecvelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei em Arroios, depois de voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. Ele ia jantar com uma tia-av\u00f3, uma D. Mafalda Noronha, que vivia em Benfica, na quinta dos Cedros, onde habitualmente jantavam tamb\u00e9m aos domingos o Matos Miranda e a divina Elisa. Creio mesmo que s\u00f3 nessa casa ela e o Jos\u00e9 Matias se encontravam, sobretudo com as facilidades que oferecem pensativas alamedas e retiros de sombra. As janelas do quarto do Jos\u00e9 Matias abriam sobre o seu jardim e sobre o jardim dos Mirandas: e, quando entrei, ele ainda se vestia, lentamente. Nunca admirei, meu amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! Sorria iluminadamente quando me abra\u00e7ou, com um sorriso que vinha das profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente enquanto eu lhe contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois ext\u00e0ticamente, aludindo ao calor e enrolando um cigarro distra\u00eddo; e sorriu sempre, enlevado, a escolher na gaveta da c\u00f3moda, com escr\u00fapulo religioso, uma gravata de seda branca. E a cada momento, irresist\u00ecvelmente, por um h\u00e1bito j\u00e1 t\u00e3o inconsciente como o pestanejar, os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam para as vidra\u00e7as fechadas&#8230; De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, logo descobri, no terra\u00e7o da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de claro, com um chap\u00e9u branco, passeando pregui\u00e7osamente, cal\u00e7ando pensativamente as luvas, e espreitando tamb\u00e9m as janelas do meu amigo, que um lampejo obl\u00edquo do Sol ofuscava de manchas de ouro. O Jos\u00e9 Matias no entanto conversava, antes murmurava, atrav\u00e9s do sorriso perene, coisas af\u00e1veis e dispersas. Toda a sua aten\u00e7\u00e3o se concentrara diante do espelho, no alfinete de coral e p\u00e9rola para prender a gravata, no colete branco que abotoava e ajustava com a devo\u00e7\u00e3o com que um padre novo, na exalta\u00e7\u00e3o c\u00e2ndida da primeira missa, se reveste da estola e do amicto, para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com t\u00e3o profundo \u00eaxtase, \u00e1gua-de-col\u00f3nia no len\u00e7o! E depois de enfiar a sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inef\u00e1vel emo\u00e7\u00e3o, sem reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as vidra\u00e7as! Introibo ad altarem De\u0153! Eu permaneci discretamente enterrado no sof\u00e1. E, meu caro amigo, acredite! Invejei aquele homem \u00e0 janela, im\u00f3vel, hirto na sua adora\u00e7\u00e3o sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no terra\u00e7o, na branca mulher cal\u00e7ando as luvas claras, e t\u00e3o indiferente ao Mundo como se o Mundo fosse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os p\u00e9s!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E este enlevo, meu amigo, durou dez anos, assim espl\u00eandido, puro, distante e imaterial! N\u00e3o ria&#8230; Decerto se encontravam na quinta de D. Mafalda: decerto se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, por cima das heras desse muro, procuraram a rara del\u00edcia duma conversa roubada ou a del\u00edcia ainda mais perfeita dum sil\u00eancio escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo&#8230; N\u00e3o duvide! Algum aperto de m\u00e3o fugidio e s\u00f4frego, sob os arvoredos de D. Mafalda, foi o limite exaltadamente extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo n\u00e3o compreende como se mantiveram assim dois fr\u00e1geis corpos, durante dez anos, em t\u00e3o terr\u00edvel e m\u00f3rbido renunciamento&#8230; Sim, decerto lhes faltou, para se perderem, uma hora de seguran\u00e7a ou uma portinha no muro. Depois a divina Elisa vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram formados pelos h\u00e1bitos r\u00ecgidamente reclusos de Matos Miranda, diab\u00e9tico e tristonho. Mas, na castidade deste amor, entrou muita nobreza moral e finura superior de sentimento. O amor espiritualiza o homem &#8211; e materializa a mulher. Essa espiritualiza\u00e7\u00e3o era f\u00e1cil ao Jos\u00e9 Matias, que (sem n\u00f3s desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista; mas a humana Elisa encontrou tamb\u00e9m um gozo delicado nessa ideal adora\u00e7\u00e3o de monge, que nem ousa ro\u00e7ar, com os dedos tr\u00eamulos e embrulhados no ros\u00e1rio, a t\u00fanica da Virgem sublimada. Ele, sim! ele gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobre-humano. E durante dez anos, como o Rui Blas do velho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado, dentro do seu sonho radiante, sonho em que Elisa habitou realmente dentro da sua alma, numa fus\u00e3o t\u00e3o absoluta que se tornou consubstancial com o seu ser! Acreditar\u00e1 o meu amigo que ele abandonou o charuto, mesmo passeando solit\u00e0riamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo que descobrira na quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava Elisa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esta presen\u00e7a real da divina criatura no seu ser criou no Jos\u00e9 Matias modos novos, estranhos, derivando da alucina\u00e7\u00e3o. Como o Visconde de Garmilde jantava cedo, \u00e0 hora vern\u00e1cula do Portugal antigo, Jos\u00e9 Matias ceava, depois de S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Caf\u00e9 Central, onde o linguado parecia frito no c\u00e9u, e o Colares no c\u00e9u engarrafado. Pois nunca ceava sem serpentinas profusamente acesas e a mesa juncada de flores. Porqu\u00ea? Porque Elisa tamb\u00e9m ali ceava, invis\u00edvel. Da\u00ed esses sil\u00eancios banhados num sorriso religiosamente atento&#8230; Porqu\u00ea? Porque a estava sempre escutando! Ainda me lembro dele arrancar do quarto tr\u00eas gravuras cl\u00e1ssicas de Faunos ousados e Ninfas rendidas&#8230; Elisa pairava idealmente naquele ambiente; e ele purificava as paredes, que mandou forrar de sedas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo amor de t\u00e3o elegante idealismo: e o Jos\u00e9 Matias prodigalizou com esplendor o luxo que ela partilhava. Decentemente n\u00e3o podia andar com a imagem de Elisa numa tip\u00f3ia de pra\u00e7a, nem consentir que a augusta imagem ro\u00e7asse pelas cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto, carruagens dum gosto s\u00f3brio e puro: e assinou um camarote na \u00d3pera, onde instalou, para ela, uma poltrona pontifical, de cetim branco, bordado a estrelas de ouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou cong\u00e9nere e sumptuosamente generoso: e ningu\u00e9m existiu ent\u00e3o em Lisboa que espalhasse, com facilidade mais risonha, notas de cem mil-r\u00e9is. Assim desbaratou, r\u00e0pidamente, sessenta contos com o amor daquela mulher a quem nunca dera uma flor!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, durante esse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda n\u00e3o desmanchava nem a perfei\u00e7\u00e3o, nem a quieta\u00e7\u00e3o desta felicidade! T\u00e3o absoluto seria o espiritualismo do Jos\u00e9 Matias, que apenas se interessasse pela alma de Elisa, indiferente \u00e0s submiss\u00f5es do seu corpo, inv\u00f3lucro inferior e mortal?&#8230; N\u00e3o sei. Verdade seja! aquele digno diab\u00e9tico, t\u00e3o grave, sempre de cachenez de l\u00e3 escura, com as suas su\u00ed\u00e7as grisalhas, os seus ponderosos \u00f3culos de ouro, n\u00e3o sugeria ideias inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e involunt\u00e0riamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi, eu, Fil\u00f3sofo, aquela considera\u00e7\u00e3o, quase carinhosa, do Jos\u00e9 Matias pelo homem que, mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!&#8230; Haveria ali reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Set\u00fabal (onde Jos\u00e9 Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher, e por a manter em conforto, s\u00f2lidamente nutrida, finamente vestida, transportada em caleches de macias molas? Ou recebera o Jos\u00e9 Matias aquela costumada confid\u00eancia &#8211; \u201cn\u00e3o sou tua, nem dele\u201d &#8211; que tanto consola do sacrif\u00edcio, porque tanto lisonjeia o ego\u00edsmo?&#8230; N\u00e3o sei. Mas, com certeza, este seu magn\u00e2nimo desd\u00e9m pela presen\u00e7a corporal do Miranda no templo, onde habitava a sua Deusa, dava \u00e0 felicidade de Jos\u00e9 Matias uma unidade perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha, igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu amigo, durou dez anos&#8230; Que escandaloso luxo para um mortal!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas um dia, a terra, para o Jos\u00e9 Matias, tremeu toda, num terramoto de incompar\u00e1vel espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, j\u00e1 debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas ruas, numa pachorrenta tip\u00f3ia de pra\u00e7a, acompanhei o seu enterro numeroso, rico, com Ministros, porque o Miranda pertencia \u00e0s Institui\u00e7\u00f5es. E depois, aproveitando a tip\u00f3ia, visitei o Jos\u00e9 Matias em Arroios, n\u00e3o por curiosidade perversa, nem para lhe levar felicita\u00e7\u00f5es indecentes, mas para que, naquele lance deslumbrador, ele sentisse ao lado a for\u00e7a moderadora da Filosofia&#8230; Encontrei por\u00e9m com ele um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que j\u00e1 conduzi tamb\u00e9m a este cemit\u00e9rio, onde agora jazem, debaixo de l\u00e1pides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens&#8230; O Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santar\u00e9m, de madrugada, reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado arranjava duas malas enormes. O Jos\u00e9 Matias abalava nessa noite para o Porto. J\u00e1 envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de couro amarelo: e depois de me sacudir a m\u00e3o, enquanto o Nicolau remexia um grogue, continuou vagando pelo quarto, calado, como emba\u00e7ado, com um modo que n\u00e3o era emo\u00e7\u00e3o, nem alegria pudicamente disfar\u00e7ada, nem surpresa do seu destino bruscamente sublimado. N\u00e3o! se o bom Darwin n\u00e3o nos ilude no seu livro da Express\u00e3o das Emo\u00e7\u00f5es, o Jos\u00e9 Matias, nessa tarde, s\u00f3 sentia e s\u00f3 exprimia embara\u00e7o! Em frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam fechadas sob a tristeza da tarde cinzenta. E, todavia, surpreendi o Jos\u00e9 Matias atirando para o terra\u00e7o, r\u00e0pidamente, um olhar em que transparecia inquieta\u00e7\u00e3o, ansiedade, quase terror! Como direi? Aquele \u00e9 o olhar que se resvala para a jaula mal segura onde se agita uma leoa! Num momento em que ele entrara na alcova, murmurei ao Nicolau, por cima do grogue: &#8211; \u201cO Matias faz perfeitamente em ir para o Porto&#8230;\u201d Nicolau encolheu os ombros: &#8211; \u201cSim, pensou que era mais delicado&#8230; Eu aprovei. Mas s\u00f3 durante os meses de luto pesado&#8230;\u201d \u00c0s sete horas acompanh\u00e1mos o nosso amigo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Santa Apol\u00f3nia. Na volta, dentro do cup\u00e9 que uma grande chuva batia, filosof\u00e1mos. Eu sorria contente: &#8211; \u201cUm ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos&#8230; \u00c9 um poema acabado!\u201d &#8211; O Nicolau acudiu, s\u00e9rio: &#8211; \u201cE acabado numa deliciosa e suculenta prosa. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a fortuna do Miranda, uns dez ou doze contos de renda&#8230; Pela primeira vez na nossa vida contemplamos, tu e eu, a virtude recompensada!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e Jos\u00e9 Matias n\u00e3o se arredou do Porto. Nesse Agosto o encontrei eu instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo romances de J\u00falio Verne e bebendo cerveja gelada at\u00e9 que a tarde refrescava e ele se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E apesar de se acercar o bendito remate do luto e da desesperada espera, n\u00e3o notei no Jos\u00e9 Matias nem alvoro\u00e7o elegantemente reprimido, nem revolta contra a lentid\u00e3o do tempo, velho por vezes t\u00e3o moroso e tr\u00f4pego&#8230; Pelo contr\u00e1rio! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses anos o iluminara com um nimbo de beatitude, sucedera a seriedade carregada, toda em sombra e rugas, de quem se debate numa d\u00favida irresol\u00favel, sempre presente, roedora e dolorosa. Quer que lhe diga? Nesse Ver\u00e3o, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o Jos\u00e9 Matias, a cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca cerveja, mesmo cal\u00e7ando as luvas ao entrar para a caleche que o levava \u00e0 Foz, angustiadamente perguntava \u00e0 sua consci\u00eancia: &#8211; \u201cQue hei-de fazer? Que hei-de fazer?\u201d &#8211; E depois, uma manh\u00e3, ao almo\u00e7o, realmente me assombrou, exclamando ao abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: \u201cO qu\u00ea? J\u00e1 s\u00e3o 29 de Agosto? Santo Deus&#8230; J\u00e1 o fim de Agosto!&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltei a Lisboa, meu amigo. O Inverno passou, muito seco e muito azul. Eu trabalhei nas minhas Origens do Utilitarismo. Um domingo, no Rossio, quando j\u00e1 se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum cup\u00e9 a divina Elisa, com plumas roxas no chap\u00e9u. E nessa semana encontrei no meu Di\u00e1rio Ilustrado a not\u00edcia curta, quase t\u00edmida, do casamento da sr.\u00aa D. Elisa Miranda&#8230; Com quem, meu amigo? &#8211; Com o conhecido propriet\u00e1rio, o sr. Francisco Torres Nogueira!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nO meu amigo cerrou a\u00ed o punho, e bateu na coxa, espantado. Eu tamb\u00e9m cerrei os punhos ambos, mas agora para os levantar ao C\u00e9u onde se julgam os feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconst\u00e2ncia ondeante e p\u00e9rfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia de inf\u00e2mia entre as mulheres! Atrai\u00e7oar \u00e0 pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E depois de apontar os punhos para o C\u00e9u ainda os apertava na cabe\u00e7a, gritando: &#8211; \u201cMas porqu\u00ea? porqu\u00ea?\u201d &#8211; Por amor? Durante anos ela amara enlevadamente este mo\u00e7o, e dum amor que se n\u00e3o desiludira nem se fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambi\u00e7\u00e3o? Torres Nogueira era um ocioso am\u00e1vel como Jos\u00e9 Matias, e possu\u00eda em vinhas hipotecadas os mesmos cinquenta ou sessenta contos que o Jos\u00e9 Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Ent\u00e3o porqu\u00ea? certamente porque os grossos bigodes negros do Torres Nogueira apeteciam mais \u00e0 sua carne do que o bu\u00e7o louro e pensativo do Jos\u00e9 Matias! Ah! bem ensinara S. Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo que a mulher \u00e9 um monturo de impureza, erguido \u00e0 porta do Inferno!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do Alecrim o nosso Nicolau da Barca, que salta da tip\u00f3ia, me empurra para um portal, agarra excitadamente no meu pobre bra\u00e7o e exclama engasgado: &#8211; \u201cJ\u00e1 sabes? Foi o Jos\u00e9 Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Porto, chorou&#8230; Ele nem consentiu em a ver! N\u00e3o quis casar, n\u00e3o quer casar!\u201d Fiquei trespassado. &#8211; \u201cE ent\u00e3o ela&#8230;\u201d &#8211; \u201cDespeitada, fortemente cercada pelo Torres, cansada da viuvice, com aqueles belos trinta anos em bot\u00e3o, que diabo! Cotada, casou!\u201d Eu ergui os bra\u00e7os at\u00e9 \u00e0 ab\u00f3bada do p\u00e1tio: &#8211; \u201cMas ent\u00e3o esse sublime amor do Jos\u00e9 Matias?\u201d O Nicolau, seu \u00edntimo e confidente, jurou com irrecus\u00e1vel seguran\u00e7a: &#8211; \u201c\u00c9 o mesmo sempre! Infinito, absoluto&#8230; Mas n\u00e3o quer casar!\u201d &#8211; Ambos nos olh\u00e1mos, e depois ambos nos separ\u00e1mos, encolhendo os ombros, com aquele assombro resignado que conv\u00e9m a esp\u00edritos prudentes perante o Incognosc\u00edvel. Mas eu, Fil\u00f3sofo, e portanto esp\u00edrito imprudente, toda essa noite esfuraquei o acto do Jos\u00e9 Matias com a ponta duma Psicologia que expressamente agu\u00e7ara: &#8211; e j\u00e1 de madrugada, estafado, conclu\u00ed, como se conclui sempre em Filosofia, que me encontrava diante duma Causa Primaria, portanto impenetr\u00e1vel, onde se quebraria, sem vantagem para ele, para mim ou para o Mundo, a ponta do meu Instrumento!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu Torres Nogueira, no conforto e sossego que j\u00e1 gozara com o seu Matos Miranda. No meado do Ver\u00e3o Jos\u00e9 Matias recolheu do porto a Arroios, ao casar\u00e3o do tio Garmilde, onde recuperou os seus antigos quartos, com as varandas para o jardim, j\u00e1 florido de d\u00e1lias que ningu\u00e9m tratava. Veio Agosto, como sempre em Lisboa silencioso e quente. Aos domingos Jos\u00e9 Matias jantava com D. Mafalda de Noronha, em Benfica, solit\u00e0riamente &#8211; porque o Torres Nogueira n\u00e3o conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros. A divina Elisa, com vestidos caros, passeava \u00e0 tarde no jardim entre as roseiras. De sorte que a \u00fanica mudan\u00e7a, naquele doce canto de Arroios, parecia ser o Matos Miranda no seu belo jazigo dos Prazeres, todo de m\u00e1rmore &#8211; e o Torres Nogueira no leito excelente de Elisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia, por\u00e9m, uma tremenda e dolorosa mudan\u00e7a &#8211; a do Jos\u00e9 Matias! Adivinha o meu amigo como esse desgra\u00e7ado consumia os seus est\u00e9reis dias? Com os olhos, e a mem\u00f3ria, e a alma, e todo o ser cravados no terra\u00e7o, nas janelas, nos jardins da Parreira! Mas agora n\u00e3o era de vidra\u00e7as largamente abertas, em aberto \u00eaxtase, com o sorriso de segura beatitude: era por tr\u00e1s das cortinas fechadas, atrav\u00e9s duma escassa fenda, escondido, surrupiando furtivamente os brancos sulcos do vestido branco, com a face toda devastada pela ang\u00fastia e pela derrota. E compreende porque sofria assim, esse pobre cora\u00e7\u00e3o? Certamente porque Elisa, desdenhada pelos seus bra\u00e7os fechados, correra logo, sem luta, sem escr\u00fapulos, para outros bra\u00e7os, mais acess\u00edveis e prontos&#8230; N\u00e3o, meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paix\u00e3o. O Jos\u00e9 Matias permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde n\u00e3o entram as imposi\u00e7\u00f5es das conveni\u00eancias, nem as decis\u00f5es da raz\u00e3o pura, nem os \u00edmpetos do orgulho, nem as emo\u00e7\u00f5es da carne &#8211; o amava, a ele, \u00f9nicamente a ele, e com um amor que n\u00e3o deperecera, n\u00e3o se alterara, floria em todo o seu vi\u00e7o, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa M\u00edstica! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cravara longas rugas em curtos meses, era que um homem, um marcho, um bruto, se tivesse apoderado daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais socialmente puro, sob o patroc\u00ednio enternecido da Igreja e do Estado, lambuzasse com os rijos bigodes negros, \u00e0 farta, os divinos l\u00e1bios que ele nunca ousara ro\u00e7ar, na supersticiosa rever\u00eancia e quase no terror da sua divindade! Como lhe direi?&#8230; O sentimento deste extraordin\u00e1rio Matias era o de um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlevo &#8211; quando de repente um bestial sacr\u00edlego trepa ao altar, e ergue obscenamente a t\u00fanica da Imagem. O meu amigo sorri&#8230; E ent\u00e3o o Matos Miranda? Ah! meu amigo! esse era diab\u00e9tico, e grave, e obeso, e j\u00e1 existia instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes, quando ele conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e cora\u00e7\u00e3o. E o Torres Nogueira, esse, rompera brutalmente atrav\u00e9s do seu pur\u00edssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos bra\u00e7os, e o rijo arranque dum antigo pegador de touros, e empolgara aquela mulher &#8211; a quem revelara talvez o que \u00e9 um homem!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, com os dem\u00f3nios! essa mulher ele a recusara, quando ela se lhe oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desd\u00e9m ainda ressequira ou abatera. Que quer?&#8230; \u00c9 a espantosa tortuosidade espiritual deste Matias! Ao cabo de uns meses ele esquecera, positivamente esquecera essa recusa afrontosa, como se fora um leve desencontro de interesses materiais ou sociais, passado h\u00e1 meses, no Norte, e a que a dist\u00e2ncia e o tempo dissipavam a realidade e a amargura leve! E agora, aqui em Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas janelas e as rosas dos dois jardins unidos rescendendo na sombra, a dor presente, a dor real, era que ele amara sublimemente uma mulher, e que a colocara entre as estrelas para mais pura adora\u00e7\u00e3o, e que um bruto moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher de entre as estrelas e a arremessara para a cama!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nEnredado caso, hem, meu amigo? Ah! muito filosofei sobre ele, por dever de fil\u00f3sofo! E conclu\u00ed que o Matias era um doente, atacado de hiperespiritualismo, duma inflama\u00e7\u00e3o violenta e p\u00fatrida do espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos berrando no ber\u00e7o molhado&#8230; E agora rugia de furor e tormento, porque certo material\u00e3o, ao lado, se prontificara a aceitar Elisa em camisola de l\u00e3. Um imbecil?&#8230; N\u00e3o, meu amigo! um ultra-rom\u00e2ntico, loucamente alheio \u00e0s realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos s\u00e3o coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, este tormento? \u00c9 que a pobre Elisa mostrava por ele o antigo amor! Que lhe parece? Infernal, hem?&#8230; Pelo menos se n\u00e3o sentia o antigo amor intacto na sua ess\u00eancia, forte como outrora e \u00fanico, conservava pelo pobre Matias uma irresist\u00edvel curiosidade e repetia os gestos desse amor&#8230; Talvez fosse apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! N\u00e3o sei. Mas logo desde Setembro, quando o Torres Nogueira partiu para as suas vinhas de Carcavelos, a assistir \u00e0 vindima, ela recome\u00e7ou, da borda do terra\u00e7o, por sobre as rosas e as d\u00e1lias abertas, aquela doce remessa de doces olhares com que durante dez anos extasiara o cora\u00e7\u00e3o do Jos\u00e9 Matias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o regime paternal do Matos Miranda&#8230; O novo senhor, o homem robusto da bigodeira negra, impunha \u00e0 divina Elisa, mesmo de longe, de entre as vinhas de Carcavelos, retraimento e prud\u00eancia. E acalmada por aquele marido, mo\u00e7o e forte, menos sentiria agora a necessidade de algum encontro discreto na sombra t\u00e9pida da noite, mesmo quando a sua eleg\u00e2ncia moral e o r\u00edgido idealismo do Jos\u00e9 Matias consentissem em aproveitar uma escada contra o muro&#8230; De resto, Elisa era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por o sentir t\u00e3o belo e cuidadosamente feito por Deus &#8211; mais do que da sua alma. E quem sabe?&#8230; Talvez a ador\u00e1vel mulher pertencesse \u00e0 bela ra\u00e7a daquela marquesa italiana, a Marquesa Julia de Malfieri, que conservava dois amorosos ao seu doce servi\u00e7o, um poeta para as delicadezas rom\u00e2nticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, meu amigo, n\u00e3o psicologuemos mais sobre esta viva, atr\u00e1s do morto que morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insens\u00ecvelmente reca\u00edram na velha uni\u00e3o ideal, atrav\u00e9s dos jardins em flor. E em Outubro, como o Torres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o Jos\u00e9 Matias, para contemplar o terra\u00e7o da Parreira, j\u00e1 abria de novo as vidra\u00e7as, larga e ext\u00e0ticamente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece que um t\u00e3o extreme espiritualista, reconquistando a idealidade do antigo amor, devia reentrar tamb\u00e9m na antiga felicidade perfeita. Ele reinava na alma imortal de Elisa: &#8211; que importava que outro se ocupasse do seu corpo mortal? Mas n\u00e3o! o pobre mo\u00e7o sofria, angustiadamente. E, para sacudir a pung\u00eancia destes tormentos, findou, ele t\u00e3o sereno, duma t\u00e3o doce harmonia de modos, por se tornar um agitado. Ah! meu amigo, que redemoinho e estr\u00e9pito de vida! Desesperadamente, durante um ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! S\u00e3o desse tempo algumas das suas extravag\u00e2ncias lend\u00e1rias&#8230; Conhece a da ceia? Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melanc\u00f2licamente, posto na frente, sobre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Gra\u00e7a, para saudar a apari\u00e7\u00e3o do Sol!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas todo este alarido n\u00e3o lhe dissipou a dor &#8211; e foi ent\u00e3o que, nesse Inverno, come\u00e7ou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente por tr\u00e1s das vidra\u00e7as, agora que Torres Nogueira regressara das vinhas), com olhos e alma cravados no terra\u00e7o fatal; depois, \u00e0 noite, quando as janelas de Elisa se apagavam, sa\u00eda numa tip\u00f3ia, sempre a mesma, a tip\u00f3ia do Gago, corria \u00e0 roleta do Bravo, depois ao clube do \u201cCavalheiro\u201d, onde jogava fren\u00e8ticamente at\u00e9 \u00e0 tardia hora de cear, num gabinete de restaurante, com molhos de velas acesas, e o colares, e o champanhe, e o conhaque correndo em jorros desesperados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esta vida, espica\u00e7ada pelas F\u00farias, durou anos, sete anos! Todas as terras que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e bebidas: e s\u00f3 lhe restava o casar\u00e3o de Arroios e o dinheiro apressado, porque o hipotecara. Mas, s\u00f9bitamente, desapareceu de todos os antros de vinho e de jogo. E soubemos que o Torres Nogueira estava morrendo com uma anasarca!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por esse tempo, e por causa dum neg\u00f3cio do Nicolau da Barca, que me telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santar\u00e9m (neg\u00f3cio embrulhado, duma letra), procurei o Jos\u00e9 Matias em Arroios, \u00e0s dez horas, numa noite quente de Abril. O criado, enquanto me conduzia pelo corredor mal alumiado, j\u00e1 desadornado das ricas arcas e talhas da \u00cdndia do velho Garmilde, confessou que S. Ex.\u00aa n\u00e3o acabara de jantar&#8230; E ainda me lembro, com um arrepio, da impress\u00e3o desolada que me deu o desgra\u00e7ado! Era no quarto que abria sobre os dois jardins. Diante duma janela, que as cortinas de damasco cerravam, a mesa resplandecia, com duas serpentinas, um cesto de rosas brancas e algumas das nobres pratas do Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o colete branco desabotoado, a face l\u00edvida desca\u00edda sobre o peito, um copo vazio na m\u00e3o inerte, o Jos\u00e9 Matias parecia adormecido ou morto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabe\u00e7a, toda despenteada: &#8211; \u201cQue horas s\u00e3o?\u201d &#8211; Apenas lhe gritei, num gesto alegre, para o despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o copo, da garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com a m\u00e3o a tremer, a tremer&#8230; Depois, arredando os cabelos da testa h\u00famida: &#8211; \u201cEnt\u00e3o que h\u00e1 de novo?\u201d &#8211; Esgazeado, sem compreender, escutou, como num sonho, o recado que lhe mandava o Nicolau. Por fim, com um suspiro, remexeu uma garrafa de champanhe dentro do balde em que ela gelava, encheu outro copo, murmurando: &#8211; \u201cUm calor&#8230; Uma sede!&#8230;\u201d Mas n\u00e3o bebeu: arrancou o corpo pesado \u00e0 poltrona de verga, e for\u00e7ou os passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas, depois a vidra\u00e7a&#8230; E ficou hirto, como colhido pelo sil\u00eancio e escuro sossego da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas \u00e0 macia aragem. E essa claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roup\u00e3o branco, parada \u00e0 beira do terra\u00e7o, como esquecida numa contempla\u00e7\u00e3o. Era Elisa, meu amigo! Por tr\u00e1s, no fundo do quarto claro, o marido certamente arquejava, na opress\u00e3o da anasarca. Ela, im\u00f3vel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miser\u00e1vel, fascinado, sem respirar, sorvia o encanto daquela vis\u00e3o benfazeja. E entre eles rescendiam, na moleza da noite, todas as flores dos dois jardins&#8230; S\u00f9bitamente Elisa recolheu, \u00e0 pressa, chamada por algum gemido ou impaci\u00eancia do pobre Torres. E as janelas logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o Jos\u00e9 Matias, com um solu\u00e7o despeda\u00e7ado, de transbordante tormento, cambaleou, t\u00e3o ansiadamente se agarrou \u00e0 cortina que a rasgou, e tombou desamparado nos bra\u00e7os que lhe estendi, e em que o arrastei para a cadeira, pesadamente, como a um morto ou a um b\u00eabedo. Mas, volvido um momento, com espanto meu, o extraordin\u00e1rio homem descerra os olhos, sorri num lento e inerte sorriso, murmura quase serenamente: &#8211; \u201c\u00c9 o calor&#8230; Est\u00e1 um calor! Voc\u00ea n\u00e3o quer tomar ch\u00e1?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recusei e abalei &#8211; enquanto ele, indiferente \u00e0 minha fuga, estendido na poltrona, acendia tr\u00e8mulamente um imenso charuto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Deus! j\u00e1 estamos em Santa Isabel! Como estes lag\u00f3ias v\u00e3o arrastando depressa o pobre Jos\u00e9 Matias para o p\u00f3 e para o verme final! Pois, meu amigo, depois dessa curiosa noite, o Torres Nogueira morreu. A divina Elisa, durante o novo luto, recolheu \u00e0 quinta duma cunhada tamb\u00e9m vi\u00fava, \u00e0 \u201cCorte Moreira\u201d, ao p\u00e9 de Beja. E o Jos\u00e9 Matias inteiramente se sumiu, se evaporou, sem que me revoassem novas dele, mesmo incertas &#8211; tanto mais que o \u00edntimo por quem as conheceria, o nosso brilhante Nicolau da Barca, partira para a Ilha da Madeira, com o seu derradeiro peda\u00e7o de pulm\u00e3o, sem esperan\u00e7a, por dever cl\u00e1ssico, quase dever social, de t\u00edsico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo esse ano, tamb\u00e9m, andei enfronhado no meu Ensaio dos fen\u00f3menos afectivos. Depois, um dia, no come\u00e7o do Ver\u00e3o, descendo pela rua de S. Bento, com os olhos levantados, a procurar o n.\u00ba 214, onde se catalogava a livraria do Morgado de azemel, quem avisto eu \u00e0 varanda duma casa nova e de esquina? A divina Elisa, metendo folhas de alface na gaiola de um can\u00e1rio! E bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda madura, e suculenta, e desej\u00e1vel, apesar de ter festejado em Beja os seus quarenta e dois anos! Mas aquela mulher era da grande ra\u00e7a de Helena, que quarenta anos tamb\u00e9m depois do cerco de Tr\u00f3ia ainda deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E, curioso acaso! logo nessa tarde, pelo Seco, o Jo\u00e3o Seco da Biblioteca, que catalogava a livraria do Morgado, conheci a nova hist\u00f3ria desta Helena admir\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A divina Elisa tinha agora um amante&#8230; E \u00f9nicamente por n\u00e3o poder, com a sua costumada honestidade, possuir um leg\u00edtimo e terceiro marido. O ditoso mo\u00e7o que ela adorava era com efeito casado&#8230; Casado em Beja com uma espanhola que, ao cabo dum ano desse casamento e de outros requebros, partira para Sevilha, passar devotamente a Semana Santa, e l\u00e1 adormecera nos bra\u00e7os dum riqu\u00edssimo criador de gado. O marido, pacato apontador de Obras P\u00fablicas, continuara em Beja, onde tamb\u00e9m vagamente ensinara um vago desenho&#8230; Ora uma das suas disc\u00edpulas era a filha da senhora da \u201cCorte Moreira\u201d: e a\u00ed na quinta, enquanto ele guiava o esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paix\u00e3o t\u00e3o urgente que o arrancou precipitamente \u00e0s Obras P\u00fablicas, e o arrastou a Lisboa, cidade mais prop\u00edcia do que Beja a uma felicidade escandalosa, e que se esconde. O Jo\u00e3o Seco \u00e9 de Beja, onde passara o Natal; conhecia perfeitamente o apontador, as senhoras da \u201cCorte Moreira\u201d; e compreendeu o romance quando das janelas desse n.\u00ba 214, onde catalogava a Livraria do Azemel, reconheceu Elisa na varanda da esquina, e o apontador enfiando regaladamente o port\u00e3o, bem vestido, bem cal\u00e7ado, de luvas claras, com apar\u00eancia de ser infinitamente mais ditoso naquelas obras particulares do que nas P\u00fablicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E dessa mesma janela do 214 o conheci eu tamb\u00e9m, o apontador! Belo mo\u00e7o, s\u00f3lido, branco, de barba escura, em excelentes condi\u00e7\u00f5es de quantidade (e talvez mesmo de qualidade) para encher um cora\u00e7\u00e3o vi\u00favo, e portanto \u201cvazio\u201d, como diz a B\u00edblia. Eu frequentava esse n.\u00ba 214, interessado no catalogo da Livraria, porque o Morgado de Azemel possu\u00eda, pelo ir\u00f3nico acaso das heran\u00e7as, uma colec\u00e7\u00e3o incompar\u00e1vel dos Fil\u00f3sofos do s\u00e9culo XVIII. E passadas semanas, saindo desses livros uma noite (o Jo\u00e3o Seco trabalhava de noite) e parando adiante, \u00e0 beira dum portal aberto, para acender o charuto, enxergo \u00e0 luz tremente do f\u00f3sforo, metido na sombra, o Jos\u00e9 Matias! Mas que Jos\u00e9 Matias, meu caro amigo! Para o considerar mais detidamente, raspei outro f\u00f3sforo. Pobre Jos\u00e9 Matias! Deixara crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como cot\u00e3o amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas secas de sob um velho chap\u00e9u-coco: mas todo ele, no resto, parecia diminu\u00eddo, minguado, dentro duma quinzena de mescla enxovalhada e dumas cal\u00e7as pretas, de grandes bolsos, onde escondia as m\u00e3os com o gesto tradicional, t\u00e3o infinitamente triste, da mis\u00e9ria ociosa. Na espantada l\u00e1stima que me tomou, apenas balbuciei: &#8211; \u201cOra esta! Voc\u00ea! Ent\u00e3o que \u00e9 feito?\u201d &#8211; E ele, com a sua mansid\u00e3o polida, mas secamente, para se desembara\u00e7ar, e numa voz que a aguardente enrouquecera: \u201cPor aqui, \u00e0 espera de um sujeito\u201d. &#8211; N\u00e3o insisti, segui. Depois, adiante, parando, verifiquei o que num relance adivinhara &#8211; que o portal negro ficava em frente ao pr\u00e9dio novo e \u00e0s varandas de Elisa!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois, meu amigo, tr\u00eas anos viveu o Jos\u00e9 Matias encafuado naquele portal!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era um desses p\u00e1tios de Lisboa antiga, sem porteiro, sempre escancarados, sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ningu\u00e9m escorra\u00e7a os escondidos da mis\u00e9ria ou da dor. Ao lado havia uma taverna. Infal\u00ecvelmente, ao anoitecer, o Jos\u00e9 Matias descia a rua de S. Bento, colado aos muros, e,como uma sombra, mergulhava na sombra do portal. A essa hora j\u00e1 as janelas de Elisa luziam, de Inverno embaciadas pela n\u00e9voa fina, de Ver\u00e3o ainda abertas e arejando no repouso e na calma. E para elas, im\u00f3vel, com as m\u00e3os nas algibeiras, o Jos\u00e9 Matias se quedava em contempla\u00e7\u00e3o. Cada meia hora, subtilmente, enfiava para a taverna. Copo de vinho, copo de aguardente; &#8211; e, de mansinho, recolhia \u00e0 negrura do portal, ao seu \u00eaxtase. Quando as janelas de Elisa se apagavam, ainda atrav\u00e9s da longa noite, mesmo das negras noites de Inverno &#8211; encolhido, transido, a bater as solas rotas do lajedo, ou sentado ao fundo, nos degraus da escada &#8211; ficava esmagando os olhos turvos na fachada negra daquela casa, onde a sabia dormindo com o outro!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao princ\u00edpio, para fumar um cigarro apressado, trepava at\u00e9 ao patamar deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas depois, meu amigo, fumava incessantemente, colado \u00e0 ombreira, puxando o cigarro com \u00e2nsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! E percebe porqu\u00ea, meu amigo?&#8230; Porque Elisa j\u00e1 descobrira que, dentro daquele portal, a adorar submissamente as suas janelas, com a alma de outrora, estava o seu pobre Jos\u00e9 Matias!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E acreditar\u00e1 o meu amigo que ent\u00e3o, todas as noites, ou por tr\u00e1s da vidra\u00e7a ou encostada \u00e0 varanda (com o apontador dentro, estirado no sof\u00e1, j\u00e1 de chinelas, lendo o Jornal da Noite), ela se demorava a fitar o portal, muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do terra\u00e7o por sobre as rosas e as d\u00e1lias? O Jos\u00e9 Matias percebera, deslumbrado. E agora avivava desesperadamente o lume, como um farol, para guiar na escurid\u00e3o os amados olhos dela, e lhe mostrar que ali estava, transido, todo seu, e fiel!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De dia nunca ele passava na rua de S. Bento. Como ousaria, com o jaquet\u00e3o roto nos cotovelos e as botas cambadas? Por que aquele mo\u00e7o de eleg\u00e2ncia s\u00f3bria e fina tombara na mis\u00e9ria do andrajo? Onde arranjava mesmo, cada dia, os tr\u00eas patacos para o vinho e para a posta de bacalhau nas tavernas? N\u00e3o sei&#8230; Mas louvemos a divina Elisa, meu amigo! muito delicadamente, por caminhos arredados e astutos, ela, rica, procurara estabelecer uma pens\u00e3o ao Jos\u00e9 Matias, mendigo. Situa\u00e7\u00e3o picante, hem? a grata senhora dando duas mesadas aos seus dois homens &#8211; o amante do corpo e o amante da alma! Ele, por\u00e9m, adivinhou de onde procedia a pavorosa esmola &#8211; e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, at\u00e9 com enternecimento, at\u00e9 com uma l\u00e1grima nas p\u00e1lpebras que a aguardente inflamara!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas s\u00f3 com noite muito cerrada ousava descer \u00e0 rua de S. Bento, e enfiar para o seu portal. E adivinha o meu amigo como ele gastava o dia? A espreitar, a seguir, a farejar o apontador de Obras P\u00fablicas! Sim, meu amigo! uma curiosidade insaciada, fren\u00e9tica, atroz, por aquele homem, que Elisa escolhera!&#8230; Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa, p\u00f9blicamente, pela porta da Igreja, e para outros fins humanos al\u00e9m do amor &#8211; para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quieta\u00e7\u00e3o na vida. Mas este era meramente o amante, que ela nomeara e mantinha s\u00f3 para ser amada: e nessa uni\u00e3o n\u00e3o aparecia outro motivo racional sen\u00e3o que os dois corpos se unissem. N\u00e3o se fartava, portanto, de o estudar, na figura, na roupa, nos modos, ansioso por saber como era esse homem, que, para se completar, a sua Elisa preferia entre a turba dos homens. Por dec\u00eancia, o apontador morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E essa parte da rua, onde o n\u00e3o surpreenderiam, na sua pelintrice, os olhos de Elisa, era o paradeiro do Jos\u00e9 Matias, logo de manh\u00e3, para mirar, farejar o homem, quando ele recolhia da casa de Elisa, ainda quente do calor da sua alcova. Depois n\u00e3o o largava, cautelosamente, como um lar\u00e1pio, rastejando de longe no seu rasto. E eu suspeito que o seguia assim menos por curiosidade perversa do que para verificar se, atrav\u00e9s das tenta\u00e7\u00f5es de Lisboa, terr\u00edveis para um apontador de Beja, o homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em servi\u00e7o da felicidade dela &#8211; fiscalizava o amante da mulher que amava!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Requinte furioso de espiritualismo e devo\u00e7\u00e3o, meu amigo! A alma de Elisa era sua e recebia perenemente a adora\u00e7\u00e3o perene: e agora queria que o corpo de Elisa n\u00e3o fosse menos adorado, nem menos lealmente, por aquele homem a quem ela entregara o corpo! Mas o apontador era f\u00e0cilmente fiel a uma mulher t\u00e3o formosa, t\u00e3o rica, de meias de seda, de brilhantes nas orelhas, que o deslumbrava. E quem sabe, meu amigo? talvez esta fidelidade, preito carnal \u00e0 divindade de Elisa, fosse para o Jos\u00e9 Matias a derradeira felicidade que lhe concedeu a vida. Assim me persuado, porque, no Inverno passado, encontrei o apontador, numa manh\u00e3 de chuva, comprando cam\u00e9lias a um florista da Rua do Ouro; e defronte, a uma esquina, o Jos\u00e9 Matias, escaveirado, esfrangalhado, cocava o homem, com carinho, quase com gratid\u00e3o! E talvez nessa noite, no portal, tiritando, batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas escuras vidra\u00e7as, pensasse: &#8211; \u201cCoitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente por ele lhe trazer as flores!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto durou tr\u00eas anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, meu amigo, anteontem, o Jo\u00e3o Seco apareceu em minha casa, de tarde, esbaforido: &#8211; \u201cL\u00e1 levaram o Jos\u00e9 Matias, numa maca, para o hospital, com uma congest\u00e3o nos pulm\u00f5es!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo encolhido no jaquet\u00e3o delgado, arquejando, com a face coberta de morte, voltada para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera&#8230; Subi, com o m\u00e9dico de servi\u00e7o, \u00e0 enfermaria. Levantei o len\u00e7ol que o cobria. Na abertura da camisa suja e rota, preso ao pesco\u00e7o por um cord\u00e3o, conservava um saquinho de seda, pu\u00eddo e sujo tamb\u00e9m. Decerto continha flor, ou cabelos, ou peda\u00e7o de renda de Elisa, do tempo do primeiro encanto e das tardes de Benfica&#8230; Perguntei ao m\u00e9dico, que o conhecia e o lastimava, se ele sofrera. &#8211; \u201cN\u00e3o! Teve um momento comatoso, depois arregalou os olhos, exclamou Oh! com grande espanto, e finou.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer tamb\u00e9m? Ou era a alma triunfando por se reconhecer enfim imortal e livre? O meu amigo n\u00e3o sabe; nem o soube o divino Plat\u00e3o; nem o saber\u00e1 o derradeiro fil\u00f3sofo na derradeira tarde do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheg\u00e1mos ao cemit\u00e9rio. Creio que devemos pegar \u00e0s borlas do caix\u00e3o&#8230; Na verdade, \u00e9 bem singular este Alves Cap\u00e3o, seguindo t\u00e3o sentidamente o nosso pobre espiritualista&#8230; Mas, Santo Deus, olhe! Al\u00e9m, \u00e0 espera, \u00e0 porta da Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com palet\u00f3 alvadio&#8230; \u00c9 o apontador de Obras P\u00fablicas! E traz um grosso ramo de violetas&#8230; Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar \u00e0 cova e cobrir de flores o seu amante espiritual! Mas, oh meu amigo, pensemos que, certamente, nunca ela pediria ao Jos\u00e9 Matias para espalhar violetas sobre o cad\u00e1ver do apontador! \u00c9 que sempre a Mat\u00e9ria, mesmo sem o compreender, sem dele tirar a sua felicidade, adorar\u00e1 o Esp\u00edrito, e sempre a si pr\u00f3pria, atrav\u00e9s dos gozos que de si recebe, se tratar\u00e1 com brutalidade e desd\u00e9m! Grande consolo, meu amigo, este apontador com o seu ramo, para um Metaf\u00edsico que, como eu, comentou Espinosa e Malebranche, reabilitou Fichte e provou suficientemente a ilus\u00e3o da sensa\u00e7\u00e3o! S\u00f3 por isto valeu a pena trazer \u00e0 sua cova este inexplicado Jos\u00e9 Matias, que era talvez muito mais que um homem &#8211; ou talvez ainda menos que um homem&#8230; &#8211; Com efeito, est\u00e1 frio&#8230; Mas que linda tarde!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E\u00e7a de Queir\u00f3s LINDA tarde, meu amigo!&#8230; Estou esperando o enterro do Jos\u00e9 Matias &#8211; do Jos\u00e9 Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde&#8230; O meu amigo certamente o conheceu &#8211; um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode crespo de paladino sobre uma boca indecisa de contemplativo, destro cavaleiro, duma eleg\u00e2ncia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95417","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Jos\u00e9 Matias, Conto, E\u00e7a de Queir\u00f3s Jos\u00e9 Matias<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Jos\u00e9 Matias, Conto, E\u00e7a de Queir\u00f3s, Obra Liter\u00e1ria, Visconde de Garmilde, D. 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