{"id":95410,"date":"2017-01-18T09:38:57","date_gmt":"2017-01-18T11:38:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95410"},"modified":"2017-01-18T09:38:57","modified_gmt":"2017-01-18T11:38:57","slug":"civilizacao-eca-de-queiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/civilizacao-eca-de-queiros","title":{"rendered":"Civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; E\u00e7a de Queir\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"116\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong> <span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo\u00a0II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/h2>\n<p>EU possuo preciosamente um amigo (o seu nome \u00e9 Jacinto) que nasceu<br \/>\nnum pal\u00e1cio, com quarenta contos de renda em pingues terras de p\u00e3o,<br \/>\nazeite e gado.<\/p>\n<p>Desde o ber\u00e7o, onde sua m\u00e3e, senhora gorda e cr\u00e9dula<br \/>\nde Tr\u00e1s-os-Montes, espalhava, para reter as Fadas Ben\u00e9ficas,<br \/>\nfuncho e \u00e2mbar, Jacinto fora sempre mais resistente e s\u00e3o que<br \/>\num pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e transparente, com um leito<br \/>\nmuito liso de areia muito branca, refletindo apenas peda\u00e7os lustrosos<br \/>\nde um c\u00e9u de ver\u00e3o ou ramagens sempre verdes e de bom aroma,<br \/>\nn\u00e3o ofereceria, \u00e0quele que o descesse numa barca cheia de almofadas<br \/>\ne de champanhe gelado, mais do\u00e7ura e facilidades do que a vida oferecia<br \/>\nao meu camarada Jacinto. N\u00e3o teve sarampo e n\u00e3o teve lombrigas.<br \/>\nNunca padeceu, mesmo na idade em que se l\u00ea Balzac e Musset, os tormentos<br \/>\nda sensibilidade. Nas suas amizades foi sempre t\u00e3o feliz como o cl\u00e1ssico<br \/>\nOrestes. Do Amor s\u00f3 experimentara o mel &#8211; esse mel que o amor invari\u00e0velmente<br \/>\nconcede a quem o pratica, como as abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsentira somente a de compreender bem as id\u00e9ias gerais, e a \u201cponta<br \/>\ndo seu intelecto\u201d (como diz o velho cronista medieval) n\u00e3o estava<br \/>\nainda romba nem ferrugenta&#8230; E todavia, desde os vinte e oito anos, Jacinto<br \/>\nj\u00e1 se vinha repastando de Schopenhauer, do Ecclesiastes, de outros<br \/>\npessimistas menores, e tr\u00eas, quatro vezes por dia, bocejava, com um<br \/>\nbocejo cavo e lento, passando os dedos finos sobre as faces, como se nelas<br \/>\ns\u00f3 palpasse palidez e ru\u00edna. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Era ele, de todos os homens que conheci, o mais complexamente civilizado<br \/>\n&#8211; ou antes aquele que se munira da mais vasta soma de civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaterial, ornamental e intelectual. Nesse pal\u00e1cio (floridamente chamado<br \/>\no Jasmineiro) que seu pai, tamb\u00e9m Jacinto, constru\u00edra sobre<br \/>\numa honesta casa do s\u00e9culo XVII, assoalhada a pinho e branqueada a<br \/>\ncal &#8211; existia, creio eu, tudo quanto para bem do esp\u00edrito ou da mat\u00e9ria<br \/>\nos homens t\u00eam criado, atrav\u00e9s da incerteza e dor, desde que abandonaram<br \/>\no vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das \u00c1guas F\u00e1ceis, o doce<br \/>\npa\u00eds ariano. A biblioteca, que em duas salas, amplas e claras como<br \/>\npra\u00e7as, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Caram\u00e2nia<br \/>\nat\u00e9 ao teto de onde, alternadamente, atrav\u00e9s de cristais, o<br \/>\nsol e a electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma &#8211; continha vinte e<br \/>\ncinco mil volumes, instalados em \u00e9bano, magnificamente revestidos de<br \/>\nmarrroquim escarlate. S\u00f3 sistemas filos\u00f3ficos (e com justa prud\u00eancia,<br \/>\npara poupar espa\u00e7o, o bibliotec\u00e1rio apenas colecionara os que<br \/>\nirreconcili\u00e0velmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezessete!<\/p>\n<p>Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, buscando<br \/>\neste economista ao longo das estantes, oito metros de economia pol\u00edtica!<br \/>\nAssim se achava formid\u00e0velmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas<br \/>\nas obras essenciais da intelig\u00eancia &#8211; e mesmo da estupidez. E o \u00fanico<br \/>\ninconveniente desse monumental armaz\u00e9m do saber era que todo aquele<br \/>\nque l\u00e1 penetrava, inevit\u00e0velmente l\u00e1 adormecia, por causa<br \/>\ndas poltronas, que, providas de finas pranchas m\u00f3veis para sustentar<br \/>\no livro, o charuto, o l\u00e1pis das notas, a ta\u00e7a de caf\u00e9,<br \/>\nofereciam ainda uma combina\u00e7\u00e3o oscilante e fl\u00e1cida de<br \/>\nalmofadas, onde o corpo encontrava logo, para mal do esp\u00edrito, a do\u00e7ura,<br \/>\na profundidade e a paz estirada dum leito.<\/p>\n<p>Ao fundo, e como um altar-mor, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua<br \/>\ncadeira, grave e abacial, de couro, com bras\u00f5es, datava do s\u00e9culo<br \/>\nXIV, e em torno dela pendiam numerosos tubos ac\u00fasticos, que, sobre<br \/>\nos panejamentos de seda cor de musgo e cor de hera, pareciam serpentes adormecidas<br \/>\ne suspensas num velho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa,<br \/>\nrecoberta toda de sagazes e sutis instrumentos para cortar papel, numerar<br \/>\np\u00e1ginas, colar estampilhas, agu\u00e7ar l\u00e1pis, raspar emendas,<br \/>\nimprimir datas, derreter lacre, cintar documentos, carimbar contas! Uns de<br \/>\nn\u00edquel, outros de a\u00e7o, rebrilhantes e frios, todos eram de um<br \/>\nmanejo laborioso e lento: alguns, com as molas r\u00edgidas, as pontas vivas,<br \/>\ntrilhavam e feriam: e nas largas folhas de papel Whatman em que ele escrevia,<br \/>\ne que custavam 500 r\u00e9is, eu por vezes surpreendi gotas de sangue do<br \/>\nmeu amigo. Mas a todos ele considerava indispens\u00e1veis para compor as<br \/>\nsuas cartas (Jacinto n\u00e3o compunha obras), assim como os trinta e cinco<br \/>\ndicion\u00e1rios, e os manuais, e as enciclop\u00e9dias, e os guias, e<br \/>\nos diret\u00f3rios, atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de torre,<br \/>\nque silenciosamente girava sobre o seu pedestal, e que eu denominara o Farol.<br \/>\nO que, por\u00e9m, mais completamente imprimia \u00e0quele gabinete um<br \/>\nportentoso car\u00e1cter de civiliza\u00e7\u00e3o eram, sobre as suas<br \/>\npeanhas de carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento, &#8211;<br \/>\na m\u00e1quina de escrever, os autocopistas, o tel\u00e9grafo Morse, o<br \/>\nfon\u00f3grafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais<br \/>\nluzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam<br \/>\nno ar morno daquele santu\u00e1rio. Tique, tique, tique! Dlim, dlim, dlim!<br \/>\nCraque, craque, craque! Trrre, trrre, trrre!&#8230; Era o meu amigo comunicando.<br \/>\nTodos esses fios mergulhados em for\u00e7as universais transmitiam for\u00e7as<br \/>\nuniversais. E elas nem sempre, desgra\u00e7adamente, se conservavam domadas<br \/>\ne disciplinadas! Jacinto recolhera no fon\u00f3grafo a voz do conselheiro<br \/>\nPinto Porto, uma voz oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito,<br \/>\ncom autoridade:<\/p>\n<p>&#8211; \u201cMaravilhosa inven\u00e7\u00e3o! Quem n\u00e3o admirar\u00e1<br \/>\nos progressos deste s\u00e9culo?\u201d<\/p>\n<p>Pois, numa doce noite de S. Jo\u00e3o, o meu supercivilizado amigo, desejando<br \/>\nque umas senhoras parentas de Pinto Porto (as am\u00e1veis Gouveias) admirassem<br \/>\no fon\u00f3grafo, fez romper do bocarr\u00e3o do aparelho, que parece<br \/>\numa trompa, a conhecida voz rotunda e oracular:<\/p>\n<p>&#8211; Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste seculo?<\/p>\n<p>Mas, in\u00e1bil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital &#8211;<br \/>\nporque de repente o fon\u00f3grafo come\u00e7a a redizer, sem descontinua\u00e7\u00e3o,<br \/>\nintermin\u00e0velmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a senten\u00e7a<br \/>\ndo conselheiro:<\/p>\n<p>&#8211; Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Debalde Jacinto, p\u00e1lido, com os dedos tr\u00eamulos, torturava o aparelho.<br \/>\nA exclama\u00e7\u00e3o recome\u00e7ava, rolava, oracular e majestosa:<\/p>\n<p>&#8211; Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Enervados, retiramos para uma sala distante, pesadamente revestida de panos<br \/>\nde Arr\u00e1s. Em v\u00e3o! A voz de Pinto Porto l\u00e1 estava, entre<br \/>\nos panos de Arras, implac\u00e1vel e rotunda:<\/p>\n<p>&#8211; Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Furiosos, enterramos uma almofada na boca do fon\u00f3grafo, atiramos por<br \/>\ncima mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abomin\u00e1vel. Em<br \/>\nv\u00e3o! sob a morda\u00e7a, sob as grossas l\u00e3s, a voz rouquejava,<br \/>\nsurda mas oracular:<\/p>\n<p>&#8211; Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>As am\u00e1veis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os<br \/>\nxales sobre a cabe\u00e7a. Mesmo \u00e0 cozinha, onde nos refugiamos,<br \/>\na voz descia, engasgada e gosmosa:<\/p>\n<p>&#8211; Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Fugimos espavoridos para a rua.<\/p>\n<p>Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes, passava<br \/>\ncantando com bra\u00e7ados de flores:<\/p>\n<p>Todas as ervas s\u00e3o bentas<\/p>\n<p>Em manh\u00e3 de S. Jo\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor. Recolhemos<br \/>\nao Jasmineiro, com o sol j\u00e1 alto, j\u00e1 quente. Muito de manso<br \/>\nabrimos as portas, como no receio de despertar algu\u00e9m. Horror! Logo<br \/>\nda antec\u00e2mara percebemos sons estrangulados, roufenhos: \u201cadmirar\u00e1&#8230;<br \/>\nprogressos&#8230; s\u00e9culo!&#8230;\u201d S\u00f3 de tarde um eletricista p\u00f4de<br \/>\nemudecer aquele fon\u00f3grafo horrendo.<\/p>\n<p>Bem mais apraz\u00edvel (para mim) do que esse gabinete temerosamente atulhado<br \/>\nde civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; era a sala de jantar, pelo seu arranjo compreens\u00edvel,<br \/>\nf\u00e1cil e \u00edntimo. \u00c0 mesa s\u00f3 cabiam seis amigos que<br \/>\nJacinto escolhia com crit\u00e9rio na literatura, na arte e na metaf\u00edsica,<br \/>\ne que, entre as tape\u00e7arias de Arras, representando colinas, pomares<br \/>\ne portos da \u00c1tica, cheias de classicismo e de luz, renovavam ali repetidamente<br \/>\nbanquetes que, pela sua intelectualidade, lembravam os de Plat\u00e3o. Cada<br \/>\ngarfada se cruzava com um pensamento ou com palavras destramente arranjadas<br \/>\nem forma de pensamento.<\/p>\n<p>E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios dessemelhantes<br \/>\ne astuciosos: &#8211; um para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes,<br \/>\noutro para os legumes, outro para a fruta, outro para o queijo. Os copos,<br \/>\npela diversidade dos contornos e das cores, faziam, sobre a toalha mais reluzente<br \/>\nque esmalte, como ramalhetes silvestres espalhados por cima de neve. Mas Jacinto<br \/>\ne os seus fil\u00f3sofos, lembrando o que o experiente Salom\u00e3o ensina<br \/>\nsobre as ru\u00ednas e amarguras do vinho, bebiam apenas em tr\u00eas gotas<br \/>\nde \u00e1gua uma gota de Bord\u00e9us (Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam<br \/>\n&#8211; Hes\u00edodo no seu Nereu, e D\u00edocles nas suas Abelhas. E de \u00e1guas<br \/>\nhavia sempre no Jasmineiro um luxo redundante &#8211; \u00e1guas geladas, \u00e1guas<br \/>\ncarbonatadas, \u00e1guas esterilizadas, \u00e1guas gasosas, \u00e1guas<br \/>\nde sais, \u00e1guas minerais, outras ainda, em garrafas s\u00e9rias, com<br \/>\ntratados terap\u00eauticos impressos no r\u00f3tulo&#8230; O cozinheiro, mestre<br \/>\nSard\u00e3o, era daqueles que Anax\u00e1goras equiparava aos Ret\u00f3ricos,<br \/>\naos Oradores, a todos os que sabem a arte divina de \u201ctemperar e servir<br \/>\na Id\u00e9ia\u201d: e em S\u00edbaris, cidade do Viver Excelente, os<br \/>\nmagistrados teriam votado a mestre Sard\u00e3o, pelas festas de Juno Lac\u00ednia,<br \/>\na coroa de folhas de ouro e a t\u00fanica mil\u00e9sia que se devia aos<br \/>\nbenfeitores c\u00edvicos. A sua sopa de alcachofras e ovas de carpa; os<br \/>\nseus filetes de veado macerados em velho Madeira com pur\u00ea de nozes;<br \/>\nas suas amoras geladas em \u00e9ter, outros acepipes ainda, numerosos e<br \/>\nprofundos (e os \u00fanicos que tolerava o meu Jacinto) eram obras de um<br \/>\nartista, superior pela abund\u00e2ncia das ideias novas &#8211; e juntavam sempre<br \/>\na raridade do sabor \u00e0 magnific\u00eancia da forma. Tal prato desse<br \/>\nmestre incompar\u00e1vel parecia, pela ornamenta\u00e7\u00e3o, pela<br \/>\ngra\u00e7a florida dos lavores, pelo arranjo dos coloridos frescos e cantantes,<br \/>\numa j\u00f3ia esmaltada do cinzel de Cellini ou Meurice. Quantas tardes<br \/>\neu desejei fotografar aquelas composi\u00e7\u00f5es de excelente fantasia,<br \/>\nantes que o trinchante as retalhasse! E essa superfinidade do comer condizia<br \/>\ndeliciosamente com a do servir. Por sobre um tapete, mais fofo e mole que<br \/>\no musgo da floresta da Brocelianda, deslizavam, como sombras fardadas de branco,<br \/>\ncinco criados e um pajem preto, \u00e0 maneira viscosa do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII. As travessas (de prata) subiam da cozinha e da copa por dois ascensores,<br \/>\num para as iguarias quentes, forrado de tubos onde a \u00e1gua fervia; outro,<br \/>\nmais lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, am\u00f4nia e sal,<br \/>\ne ambos escondidos por flores t\u00e3o densas e vi\u00e7osas, que era<br \/>\ncomo se at\u00e9 a sopa sa\u00edsse fumegando dos rom\u00e2nticos jardins<br \/>\nde Armida. E muito bem me lembro de um domingo de maio em que, jantando com<br \/>\nJacinto um bispo, o erudito bispo de Chorazin, o peixe emperrou no meio do<br \/>\nascensor, sendo necess\u00e1rio que acudissem, para o extrair, pedreiros<br \/>\ncom alavancas.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/h2>\n<p>NAS tardes em que havia \u201cbanquete de Plat\u00e3o\u201d (que assim<br \/>\ndenomin\u00e1vamos essas festas de trufas e id\u00e9ias gerais), eu, vizinho<br \/>\ne \u00edntimo, aparecia ao declinar do sol e subia familiarmente aos quartos<br \/>\ndo nosso Jacinto &#8211; onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas,<br \/>\nporque as usava alternadamente de seda, de pano, de flanelas Jaegher, e de<br \/>\nfoulard das \u00cdndias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim<br \/>\npor duas vastas janelas, providas magn\u00ecficamente (al\u00e9m das cortinas<br \/>\nde seda mole Lu\u00eds XV) de uma vidra\u00e7a exterior de cristal inteiro,<br \/>\nduma vidra\u00e7a interior de cristais mi\u00fados, dum toldo rolando<br \/>\nna cimalha, dum estore de sedinha frouxa, de gazes que franziam e se enrolavam<br \/>\ncomo nuvens e duma gelosia m\u00f3vel de gradaria mourisca. Todos estes<br \/>\nresguardos (s\u00e1bia inven\u00e7\u00e3o de Holland &amp; C.\u00aa,<br \/>\nde Londres) serviam a graduar a luz e o ar &#8211; segundo os avisos de term\u00f4metros,<br \/>\nbar\u00f4metros e higr\u00f4metros, montados em \u00e9bano, e a que um<br \/>\nmeteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as semanas, verificar a precis\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de toilette, uma mesa enorme<br \/>\nde vidro, toda de vidro, para a tornar impenetr\u00e1vel aos micr\u00f3bios,<br \/>\ne coberta de todos esses utens\u00edlios de asseio e alinho que o homem<br \/>\ndo s\u00e9culo XIX necessita numa capital, para n\u00e3o desfear o conjunto<br \/>\nsuntu\u00e1rio da civiliza\u00e7\u00e3o. Quando o nosso Jacinto, arrastando<br \/>\nas suas engenhosas chinelas de pelica e seda, se acercava desta ara &#8211; eu,<br \/>\nbem aconchegado num div\u00e3, abria com indol\u00eancia uma revista, ordinariamente<br \/>\na Revista Electrop\u00e1tica, ou a das Indaga\u00e7\u00f5es Ps\u00edquicas.<br \/>\nE Jacinto come\u00e7ava&#8230; Cada um desses utens\u00edlios de a\u00e7o,<br \/>\nde marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influ\u00eancia onipoderosa<br \/>\nque as coisas exercem sobre o dono (sunt tyranniae rerum), o dever de o utilizar<br \/>\ncom aptid\u00e3o e defer\u00eancia. E assim as opera\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo alindamento de Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprim\u00edvel,<br \/>\ndos ritos dum sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava pelo cabelo&#8230; Com uma escova chata, redonda e dura, acamava<br \/>\no cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escova estreita<br \/>\ne recurva, \u00e0 maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo sobre a<br \/>\norelha; com uma escova c\u00f4ncava, em forma de telha, empastava o cabelo,<br \/>\npor tr\u00e1s, sobre a nuca&#8230; Respirava e sorria. Depois, com uma escova<br \/>\nde longas cerdas, fixava o bigode; com uma escova leve e fl\u00e1cida acurvava<br \/>\nas sobrancelhas; com uma escova feita de penugem regularizava as pestanas.<br \/>\nE deste modo Jacinto ficava diante do espelho, passando p\u00ealos sobre<br \/>\no seu p\u00ealo, durante catorze minutos.<\/p>\n<p>Penteado e cansado, ia purificar as m\u00e3os. Dois criados, ao fundo,<br \/>\nmanobravam com per\u00edcia e vigor os aparelhos do lavat\u00f3rio &#8211; que<br \/>\nera apenas um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sobre<br \/>\no m\u00e1rmore verde e r\u00f3seo do lavat\u00f3rio, havia apenas duas<br \/>\nduches (quente e fria) para a cabe\u00e7a; quatro jatos, graduados desde<br \/>\nzero at\u00e9 cem graus; o vaporizador de perfumes; o repuxo para a barba;<br \/>\ne ainda torneiras que rebrilhavam e bot\u00f5es de \u00e9bano que, de<br \/>\nleve ro\u00e7ados, desencadeavam o marulho e o estridor de torrentes nos<br \/>\nAlpes&#8230; Nunca eu, para molhar os dedos, me cheguei \u00e0quele lavat\u00f3rio<br \/>\nsem terror &#8211; escarmentado da tarde amarga de janeiro em que bruscamente, dessoldada<br \/>\na torneira, o jato de \u00e1gua a cem graus rebentou, silvando e fumegando,<br \/>\nfurioso, devastador&#8230; Fugimos todos, espavoridos. Um clamor atroou o Jasmineiro.<br \/>\nO velho Grilo, escudeiro que fora do Jacinto pai, ficou coberto de ampolas<br \/>\nna face, nas m\u00e3os fi\u00e9is.<\/p>\n<p>Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de<br \/>\nlinho, de corda entran\u00e7ada (para restabelecer a circula\u00e7\u00e3o),<br \/>\nde seda frouxa (para lustrar a pele), bocejava, com um bocejo cavo e lento.<\/p>\n<p>E era este bocejo, perp\u00e9tuo e vago, que nos inquietava a n\u00f3s,<br \/>\nseus amigos e fil\u00f3sofos. Que faltava a este homem excelente? Ele tinha<br \/>\na sua inabal\u00e1vel sa\u00fade de pinheiro bravo, crescido nas dunas;<br \/>\numa luz da intelig\u00eancia, pr\u00f3pria a tudo alumiar, firme e clara,<br \/>\nsem tremor ou morr\u00e3o; quarenta magn\u00edficos contos de renda; todas<br \/>\nas simpatias duma cidade chasqueadora e c\u00e9ptica; uma vida varrida de<br \/>\nsombras, mais liberta e lisa do que um c\u00e9u de ver\u00e3o&#8230; E todavia<br \/>\nbocejava constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e<br \/>\nas rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E<br \/>\npela morosidade desconsolada de toda a sua a\u00e7\u00e3o parecia ligado,<br \/>\ndesde os dedos at\u00e9 \u00e0 vontade, pelas malhas apertadas duma rede<br \/>\nque se n\u00e3o via e que o travava. Era doloroso testemunhar o fastio com<br \/>\nque ele, para apontar um endere\u00e7o, tomava o seu l\u00e1pis pneum\u00e1tico,<br \/>\na sua pena el\u00e9trica &#8211; ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telef\u00f4nico!&#8230;<br \/>\nNeste mover lento do bra\u00e7o magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o<br \/>\nnariz, mesmo nos seus sil\u00eancios, longos e derreados, se sentia o brado<br \/>\nconstante que lhe ia na alma: &#8211; Que ma\u00e7ada! Que ma\u00e7ada! Claramente<br \/>\na vida era para Jacinto um cansa\u00e7o &#8211; ou por laboriosa e dif\u00edcil,<br \/>\nou por desinteressante e oca. Por isso o meu pobre amigo procurava constantemente<br \/>\njuntar \u00e0 sua vida novos interesses, novas facilidades. Dois inventores,<br \/>\nhomens de muito zelo e pesquisa, estavam encarregados, um em Inglaterra, outro<br \/>\nna Am\u00e9rica, de lhe noticiar e de lhe fornecer todas as inven\u00e7\u00f5es,<br \/>\nas mais mi\u00fadas, que concorressem a aperfei\u00e7oar a confortabilidade<br \/>\ndo Jasmineiro. De resto, ele pr\u00f3prio se correspondia com Edison. E,<br \/>\npelo lado do pensamento, Jacinto n\u00e3o cessava tamb\u00e9m de buscar<br \/>\ninteresses e emo\u00e7\u00f5es que o reconciliassem com a vida &#8211; penetrando<br \/>\n\u00e0 cata dessas emo\u00e7\u00f5es e desses interesses pelas veredas<br \/>\nmais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde janeiro a mar\u00e7o,<br \/>\nsetenta e sete volumes sobre a evolu\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias morais<br \/>\nentre as ra\u00e7as negr\u00f3ides. Ah! nunca homem deste s\u00e9culo<br \/>\nbatalhou mais esfor\u00e7adamente contra a seca de viver! Debalde! Mesmo<br \/>\nde explora\u00e7\u00f5es t\u00e3o cativantes como essa, atrav\u00e9s<br \/>\nda moral dos negr\u00f3ides, Jacinto regressava mais murcho, com bocejos<br \/>\nmais cavos!<\/p>\n<p>E era ent\u00e3o que ele se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer<br \/>\ne do Ecclesiastes. Por qu\u00ea? Sem d\u00favida porque ambos esses pessimistas<br \/>\no confirmavam nas conclus\u00f5es que ele tirava de uma experi\u00eancia<br \/>\npaciente e rigorosa: \u201cque tudo \u00e9 vaidade ou dor, que, quanto<br \/>\nmais se sabe, mais se pena e que ter sido rei de Jerusal\u00e9m e obtido<br \/>\nos gozos todos na vida s\u00f3 leva a maior amargura&#8230;\u201d Mas por que<br \/>\nrolara assim a t\u00e3o escura desilus\u00e3o? O velho escudeiro Grilo<br \/>\npretendia que \u201cSua Ex.\u00aa sofria de fartura!\u201d<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>CAP\u00cdTULO III<\/h2>\n<p>ORA justamente depois desse Inverno, em que ele se embrenhara na moral dos<br \/>\nnegr\u00f3ides e instalara a luz el\u00e9trica entre os arvoredos do jardim,<br \/>\nsucedeu que Jacinto teve a necessidade moral inilud\u00edvel de partir para<br \/>\no Norte, para o seu velho solar de Torges. Jacinto n\u00e3o conhecia Torges,<br \/>\ne foi com desusado t\u00e9dio que ele se preparou, durante sete semanas,<br \/>\npara essa jornada agreste. A quinta fica nas serras &#8211; e a rude casa solarenga,<br \/>\nonde ainda resta uma torre do s\u00e9culo XV, estava ocupada, havia trinta<br \/>\nanos, pelos caseiros, boa gente de trabalho, que comia o seu caldo entre a<br \/>\nfumara\u00e7a da lareira, e estendia o trigo a secar nas salas senhoriais.<\/p>\n<p>Jacinto, logo nos come\u00e7os de mar\u00e7o, escrevera cuidadosamente<br \/>\nao seu procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que<br \/>\ncompusesse os telhados, caiasse os muros, envidra\u00e7asse as janelas.<br \/>\nDepois mandou expedir, por comboios r\u00e1pidos, em caixotes que transpunham<br \/>\na custo os port\u00f5es do Jarmineiro, todos os confortos necess\u00e1rios<br \/>\na duas semanas de montanha &#8211; camas de penas, poltronas, div\u00e3s, l\u00e2mpadas<br \/>\nde Carcel, banheiras de n\u00edquel, tubos ac\u00fasticos para chamar<br \/>\nos escudeiros, tapetes persas para amaciar os soalhos. Um dos cocheiros partiu<br \/>\ncom um cup\u00ea, uma vit\u00f3ria, um breque, mulas e guizos.<\/p>\n<p>Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais de<br \/>\ntrufas, caixas profundas de \u00e1guas minerais. Desde o amanhecer, nos<br \/>\np\u00e1tios largos do palacete, se pregava, se martelava, como na constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma cidade. E as bagagens, desfilando, lembravam uma p\u00e1gina de Her\u00f3doto<br \/>\nao narrar a invas\u00e3o persa. Jacinto emagrecera com os cuidados daquele<br \/>\n\u00caxodo. Por fim, largamos numa manh\u00e3 de junho, com o Grilo e trinta<br \/>\ne sete malas.<\/p>\n<p>Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guil\u00e3es, onde vive minha<br \/>\ntia, a uma l\u00e9gua farta de Torges: e \u00edamos num vag\u00e3o reservado,<br \/>\nentre vastas almofadas, com perdizes e champanhe num cesto. A meio da jornada<br \/>\ndev\u00edamos mudar de comboio &#8211; nessa esta\u00e7\u00e3o, que tem um<br \/>\nnome sonoro em ola e um t\u00e3o suave e c\u00e2ndido jardim de roseiras<br \/>\nbrancas. Era domingo de imensa poeira e sol &#8211; e encontramos a\u00ed, enchendo<br \/>\na plataforma estreita, todo um povar\u00e9u festivo que vinha da romaria<br \/>\nde S. Greg\u00f3rio da Serra.<\/p>\n<p>Para aquele trasbordo, em tarde de arraial, o hor\u00e1rio s\u00f3 nos<br \/>\nconcedia tr\u00eas minutos avaros. O outro comboio j\u00e1 esperava, rente<br \/>\naos alpendres, impaciente e silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem<br \/>\nmesmo atender \u00e0s lindas mo\u00e7as que ali saracoteavam, aos bandos,<br \/>\nafogueadas, de len\u00e7os flamejantes, o seio farto coberto de ouro, e<br \/>\na imagem do santo espetada no chap\u00e9u &#8211; corremos, empurramos, furamos,<br \/>\nsaltamos para o outro vag\u00e3o, j\u00e1 reservado, marcado por um cart\u00e3o<br \/>\ncom as iniciais de Jacinto. Imediatamente o trem rolou. Pensei ent\u00e3o<br \/>\nno nosso Grilo, nas trinta e sete malas! E debru\u00e7ado da portinhola<br \/>\navistei ainda junto ao cunhal da esta\u00e7\u00e3o, sob os eucaliptos,<br \/>\num monte de bagagens, e homens de bon\u00e9 agaloado que, diante delas,<br \/>\nbracejavam com desespero.<\/p>\n<p>Murmurei, recaindo nas almofadas:<\/p>\n<p>&#8211; Que servi\u00e7o!<\/p>\n<p>Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou:<\/p>\n<p>&#8211; Que ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>Toda uma hora deslizamos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o sol<br \/>\nbatia nas vidra\u00e7as, quente e poeirento, quando chegamos \u00e0 esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Gondim, onde o procurador de Jacinto, o excelente Sousa, nos devia esperar<br \/>\ncom cavalos para treparmos a serra at\u00e9 ao solar de Torges. Por tr\u00e1s<br \/>\ndo jardim da esta\u00e7\u00e3o, todo florido tamb\u00e9m de rosas e<br \/>\nmargaridas, Jacinto reconheceu logo as suas carruagens ainda empacotadas em<br \/>\nlona.<\/p>\n<p>Mas quando nos apeamos no pequeno cais branco e fresco &#8211; s\u00f3 houve<br \/>\nem torno de n\u00f3s solid\u00e3o e sil\u00eancio&#8230; Nem procurador,<br \/>\nnem cavalos! O chefe da esta\u00e7\u00e3o, a quem eu perguntara com ansiedade<br \/>\n\u201cse n\u00e3o aparecera ali o sr. Sousa, se n\u00e3o conhecia o sr.<br \/>\nSousa\u201d, tirou afavelmente o seu bon\u00e9 de gal\u00e3o. Era um<br \/>\nmo\u00e7o gordo e redondo, com cores de ma\u00e7\u00e3-camoesa, que<br \/>\ntrazia sob o bra\u00e7o um volume de versos. \u201cConhecia perfeitamente<br \/>\no sr. Sousa! Tr\u00eas semanas antes jogara ele a manilha com o sr. Sousa!<br \/>\nNessa tarde, por\u00e9m, infelizmente, n\u00e3o avistara o sr. Sousa!\u201d<br \/>\nO comboio desaparecera por detr\u00e1s das fragas altas que ali pendem sobre<br \/>\no rio. Um carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim,<br \/>\numa velha, toda de negro, dormitava agachada no ch\u00e3o, diante duma cesta<br \/>\nde ovos. E o nosso Grilo, e as nossas bagagens!&#8230; O chefe encolheu risonhamente<br \/>\nos ombros n\u00e9dios. Todos os nossos bens tinham encalhado, decerto, naquela<br \/>\nesta\u00e7\u00e3o de roseiras brancas que tem um nome sonoro em ola. E<br \/>\nn\u00f3s ali est\u00e1vamos, perdidos na serra agreste, sem procurador,<br \/>\nsem cavalos, sem Grilo, sem malas.<\/p>\n<p>Para que esfiar miudamente o lance lament\u00e1vel? Ao p\u00e9 da esta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnuma quebrada da serra, havia um casal foreiro \u00e0 quinta, onde alcan\u00e7amos<br \/>\npara nos levarem e nos guiarem a Torges, uma \u00e9gua lazarenta, um jumento<br \/>\nbranco, um rapaz e um podengo. E a\u00ed come\u00e7amos a trepar, enfastiadamente,<br \/>\nesses caminhos agrestes &#8211; os mesmos, decerto, por onde vinham e iam, de monte<br \/>\na rio, os Jacintos do s\u00e9culo XV. Mas, passada uma tr\u00e9mula ponte<br \/>\nde pau que galga um ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta<br \/>\nador\u00e1vel), os nossos males esqueceram, ante a inesperada, incompar\u00e1vel<br \/>\nbeleza daquela serra bendita. O divino artista que est\u00e1 nos C\u00e9us<br \/>\ncompusera, certamente, esse monte numa das suas manh\u00e3s de mais solene<br \/>\ne buc\u00f3lica inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A grandeza era tanta como a gra\u00e7a&#8230; Dizer os vales fofos de verdura,<br \/>\nos bosques quase sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das \u00e1guas<br \/>\ncantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de<br \/>\numa do\u00e7ura de para\u00edso, toda a majestade e toda a lindeza &#8211; n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 para mim, homem de pequena arte. Nem creio mesmo que fosse para mestre<br \/>\nHor\u00e1cio. Quem pode dizer a beleza das coisas, t\u00e3o simples e<br \/>\ninexprim\u00edvel? Jacinto adiante, na \u00e9gua tarda, murmurava:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! que beleza!<\/p>\n<p>Eu atr\u00e1s, no burro, com as pernas bambas, murmurava:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! que beleza!<\/p>\n<p>Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de arbustos<br \/>\nfloridos ro\u00e7avam as nossas faces, com familiaridade e carinho. Muito<br \/>\ntempo um melro nos seguiu, de choupo a castanheiro, assobiando os nossos louvores.<br \/>\nSerra bem acolhedora e am\u00e1vel&#8230; Ah! que beleza!<\/p>\n<p>Por entre ahs maravilhados chegamos a uma avenida de faias, que nos pareceu<br \/>\ncl\u00e1ssica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e \u00e0<br \/>\n\u00e9gua, o nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava:<\/p>\n<p>&#8211; Aqui \u00e9 que est\u00eamos!<\/p>\n<p>E ao fundo das faias havia, com efeito, um port\u00e3o de quinta, que um<br \/>\nescudo de armas de velha pedra, ro\u00edda de musgo, grandemente afidalgava.<br \/>\nDentro j\u00e1 os c\u00e3es ladravam com furor. E mal Jacinto, e eu atr\u00e1s<br \/>\ndele no burro de Sancho, transpusemos o limiar solarengo, correu para n\u00f3s,<br \/>\ndo alto da escadaria, um homem branco, rapado como um cl\u00e9rigo, sem<br \/>\ncolete, sem jaleca, que erguia para o ar, num assombro, os bra\u00e7os desolados.<br \/>\nEra o caseiro, o Z\u00e9 Br\u00e1s. E logo ali, nas pedras do p\u00e1tio,<br \/>\nentre o latir dos c\u00e3es, surdiu uma tumultuosa hist\u00f3ria, que<br \/>\no pobre Br\u00e1s balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto de<br \/>\nlividez e c\u00f3lera. O caseiro n\u00e3o esperava S. Ex.\u00aa. Ningu\u00e9m<br \/>\nesperava S. Ex.\u00aa. (Ele dizia sua insel\u00eancia).<\/p>\n<p>O procurador, o sr. Sousa, estava para a raia desde maio, a tratar a m\u00e3e<br \/>\nque levara um coice de mula. E decerto houvera engano, cartas perdidas&#8230;<br \/>\nPorque o sr. Sousa s\u00f3 contava com S. Ex.\u00aa em setembro, para a<br \/>\nvindima. Na casa nenhuma obra come\u00e7ara. E, infelizmente para S. Ex.\u00aa,<br \/>\nos telhados ainda estavam sem telhas, e as janelas sem vidra\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Cruzei os bra\u00e7os, num justo espanto. Mas os caixotes &#8211; esses caixotes<br \/>\nremetidos para Torges, com tanta prud\u00eancia, em abril, repletos de colch\u00f5es,<br \/>\nde regalos, de civiliza\u00e7\u00e3o!&#8230; O caseiro, vago, sem compreender,<br \/>\narregalava os olhos mi\u00fados onde j\u00e1 bailavam l\u00e1grimas.<br \/>\nOs caixotes?! Nada chegara, nada aparecera. E na sua perturba\u00e7\u00e3o<br \/>\no Z\u00e9 Br\u00e1s procurava entre as arcadas do p\u00e1tio, nas algibeiras<br \/>\ndas pantalonas&#8230; Os caixotes? N\u00e3o, n\u00e3o tinha os caixotes?<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as<br \/>\ncarruagens) se acercou, gravemente. Esse era um civilizado &#8211; e acusou logo<br \/>\no governo. J\u00e1 quando ele servia o sr. Visconde de S. Francisco se tinham<br \/>\nassim perdido, por desleixo do governo, da cidade para a serra, dois caixotes<br \/>\ncom vinho velho da Madeira e roupa branca de senhora. Por isso ele, escarmentado,<br \/>\nsem confian\u00e7a na Na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o largara as carruagens<br \/>\n&#8211; e era tudo o que restava a S. Ex.\u00aa: o breque, a vit\u00f3ria, o cup\u00e9<br \/>\ne os guizos. Somente, naquela rude montanha, n\u00e3o havia estradas onde<br \/>\nelas rolassem. E como s\u00f3 podiam subir para a quinta em grandes carros<br \/>\nde bois &#8211; ele l\u00e1 as deixara embaixo, na esta\u00e7\u00e3o, quietas,<br \/>\nempacotadas na lona&#8230;<\/p>\n<p>Jacinto ficara plantado diante de mim, com as m\u00e3os nos bolsos:<\/p>\n<p>&#8211; E agora?<\/p>\n<p>Nada restava sen\u00e3o recolher, cear o caldo do tio Z\u00e9 Br\u00e1s<br \/>\ne dormir nas palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre<br \/>\nconduzia a uma varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada<br \/>\ndo casar\u00e3o e ornada, entre os seus grossos pilares de granito, por<br \/>\ncaixotes cheios de terra, em que floriam cravos. Colhi um cravo. Entramos.<br \/>\nE o meu pobre Jacinto contemplou, enfim, as salas do seu solar! Eram enormes,<br \/>\ncom as altas paredes rebocadas a cal que o tempo e o abandono tinham enegrecido,<br \/>\ne vazias, desoladamente nuas, oferecendo apenas como vest\u00edgio de habita\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de vida, pelos cantos, algum monte de cestos ou algum molho de enxadas.<br \/>\nNos tetos remotos de carvalho negro alvejavam manchas &#8211; que era o c\u00e9u<br \/>\nj\u00e1 p\u00e1lido do fim da tarde, surpreendido atrav\u00e9s dos buracos<br \/>\ndo telhado. N\u00e3o restava uma vidra\u00e7a. Por vezes, sob os nossos<br \/>\npassos, uma t\u00e1bua podre rangia e cedia.<\/p>\n<p>Paramos, enfim, na \u00faltima, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras<br \/>\npara guardar o gr\u00e3o; e a\u00ed depusemos, melanc\u00f2licamente,<br \/>\no que nos ficara de trinta e sete malas &#8211; os palet\u00f3s alvadios, uma<br \/>\nbengala e um Jornal da Tarde. Atrav\u00e9s das janelas desvidra\u00e7adas,<br \/>\npor onde se avistavam copas de arvoredos e as serras azuis de al\u00e9m-rio,<br \/>\no ar entrava, montesino e largo, circulando plenamente como em um eirado,<br \/>\ncom aromas de pinheiro bravo. E, l\u00e1 debaixo, dos vales, subia, desgarrada<br \/>\ne triste, uma voz de pegureira cantando. Jacinto balbuciou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 horroroso!<\/p>\n<p>Eu murmurei:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 campestre!<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV<\/h2>\n<p>O Z\u00c9 BR\u00c1S, no entanto, com as m\u00e3os na cabe\u00e7a,<br \/>\ndesaparecera a ordenar a ceia para suas insel\u00eancias. O pobre Jacinto,<br \/>\nesbarrondado pelo desastre, sem resist\u00eancia contra aquele brusco desaparecimento<br \/>\nde toda a civiliza\u00e7\u00e3o, ca\u00edra pesadamente sobre o poial<br \/>\nduma janela, e dali olhava os montes. E eu, a quem aqueles ares serranos e<br \/>\no jantar do pegureiro sabiam bem, terminei por descer \u00e0 cozinha, conduzido<br \/>\npelo cocheiro, atrav\u00e9s das escadas e becos, onde a escurid\u00e3o<br \/>\nvinha menos do crep\u00fasculo do que de densas teias de aranha.<\/p>\n<p>A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, cor de fuligem,<br \/>\nonde refulgia ao fundo, sobre o ch\u00e3o de terra, uma fogueira vermelha<br \/>\nque lambia grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade escassa<br \/>\nque no alto coava a luz. A\u00ed um bando alvoro\u00e7ado e palreiro de<br \/>\nmulheres depenava frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo fervor&#8230;<br \/>\nDo meio delas o bom caseiro, estonteado, investiu para mim jurando que \u201ca<br \/>\nceia de suas insel\u00eancias n\u00e3o demorava um credo\u201d. E como<br \/>\neu o interrogava a respeito de camas, o digno Br\u00e1s teve um murm\u00fario<br \/>\nvago e t\u00edmido sobre \u201cenxergazinhas no ch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que basta, sr. Z\u00e9 Br\u00e1s &#8211; acudi eu para o consolar.<\/p>\n<p>&#8211; Pois assim Deus seja servido! &#8211; suspirou o homem excelente, que atravessava,<br \/>\nnessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana.<\/p>\n<p>Voltando acima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei ainda<br \/>\no meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz crepuscular,<br \/>\nque lenta e caladamente se estabelecia sobre vela e monte. No alto j\u00e1<br \/>\ntremeluzia uma estrela, a V\u00e9sper diamantina, que \u00e9 tudo o que<br \/>\nneste c\u00e9u crist\u00e3o resta do esplendor corporal de V\u00e9nus!<br \/>\nJacinto nunca considerara bem aquela estrela &#8211; nem assistira a este majestoso<br \/>\ne doce adormecer das coisas. Esse enegrecimento de montes e arvoredos, casais<br \/>\nclaros fundindo-se na sombra, um toque dormente de sino que vinha pelas quebradas,<br \/>\no cochilar das \u00e1guas entre relvas baixas &#8211; eram para ele como inicia\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEu estava defronte, no outro poial. E senti-o suspirar como um homem que enfim<br \/>\ndescansa.<\/p>\n<p>Assim nos encontrou nesta contempla\u00e7\u00e3o o Z\u00e9 Br\u00e1s,<br \/>\ncom o doce aviso de que estava na mesa a ceiazinha. Era adiante, noutra sala<br \/>\nmais nua, mais negra. E a\u00ed, o meu supercivilizado Jacinto recuou com<br \/>\num pavor genu\u00edno. Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de m\u00e3os,<br \/>\nencostada \u00e0 parede s\u00f3rdida, uma vela de sebo meio derretida<br \/>\nnum casti\u00e7al de lat\u00e3o alumiava dois pratos de lou\u00e7a amarela,<br \/>\nladeados por colheres de pau e por garfos de ferro. Os copos, de vidro grosso<br \/>\ne ba\u00e7o, conservavam o tom roxo do vinho que neles passara em fartos<br \/>\nanos de fartas vindimas. O covilhete de barro com as azeitonas deleitaria,<br \/>\npela sua singeleza \u00e1tica, o cora\u00e7\u00e3o de Di\u00f3genes.<br \/>\nNa larga broa estava cravado um facalh\u00e3o&#8230; Pobre Jacinto!<\/p>\n<p>Mas l\u00e1 abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou<br \/>\ncom o seu len\u00e7o o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado,<br \/>\nprovou um gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e levantou<br \/>\npara mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam, surpreendidos.<br \/>\nTornou a sorver uma colherada de caldo, mais cheia, mais lenta&#8230; E sorriu,<br \/>\nmurmurando com espanto:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom!<\/p>\n<p>Estava realmente bom: tinha f\u00edgado e tinha moela: o seu perfume enternecia.<br \/>\nEu, tr\u00eas vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi Jacinto que rapou<br \/>\na sopeira. Mas j\u00e1, arredando a broa, arredando a vela, o bom Z\u00e9<br \/>\nBr\u00e1s pousara na mesa uma travessa vidrada, que trasbordava de arroz<br \/>\ncom favas. Ora, apesar da fava (que os gregos chamaram ciboria) pertencer<br \/>\n\u00e0s \u00e9pocas superiores da civiliza\u00e7\u00e3o, e promover<br \/>\ntanto a sapi\u00eancia que havia em S\u00edcio, na Gal\u00e1cia, um templo<br \/>\ndedicado a Minerva Ciboriana &#8211; Jacinto sempre detestara favas. Tentou todavia<br \/>\numa garfada t\u00edmida. De novo os seus olhos, alargados pelo assombro,<br \/>\nprocuraram os meus. Outra garfada, outra concentra\u00e7\u00e3o.,. E eis<br \/>\nque o meu dific\u00edlimo amigo exclama:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 \u00f3ptimo!<\/p>\n<p>Eram os picantes ares da serra? Era a arte deliciosa daquelas mulheres que<br \/>\nembaixo remexiam as panelas, cantando o Vira, meu bem? N\u00e3o sei: &#8211; mas<br \/>\nos louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em amplid\u00e3o e<br \/>\nfirmeza. E diante do frango louro, assado no espeto de pau, terminou por bradar:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 divino!<\/p>\n<p>Nada por\u00e9m o entusiasmou como o vinho, o vinho caindo de alto, da<br \/>\ngrossa caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha<br \/>\nem si mais alma que muito poema ou livro santo! Mirando \u00e0 luz de sebo<br \/>\no copo rude que ele orlava de espuma, eu recordava o dia ge\u00f3rgico em<br \/>\nque Virg\u00edlio, em casa de Hor\u00e1cio, sob a ramada, cantava o fresco<br \/>\npalhete da R\u00e9tica. E Jacinto, com uma cor que eu nunca vira na sua<br \/>\npalidez schopenh\u00e1urica, sussurrou logo o doce verso:<\/p>\n<p>Rethica quo te carmina dicat.<\/p>\n<p>Quem dignamente te cantar\u00e1, vinho daquelas serras?!<\/p>\n<p>Assim jantamos deliciosamente, sob os ausp\u00edcios do Z\u00e9 Br\u00e1s.<br \/>\nE depois voltamos para as alegrias \u00fanicas da casa, para as janelas<br \/>\ndesvidra\u00e7adas, a contemplar silenciosamente um suntuoso c\u00e9u<br \/>\nde ver\u00e3o, t\u00e3o cheio de estrelas que todo ele parecia uma densa<br \/>\npoeirada de ouro vivo, suspensa, im\u00f3vel, por cima dos montes negros.<br \/>\nComo eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa<br \/>\ndos candeeiros &#8211; que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunh\u00e3o<br \/>\ncom o universo. O homem nas capitais pertence \u00e0 sua casa, ou se o impelem<br \/>\nfortes tend\u00eancias de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o<br \/>\nsepara da restante natureza &#8211; os pr\u00e9dios obstrutores de seis andares,<br \/>\na fuma\u00e7a das chamin\u00e9s, o rolar moroso e grosso dos \u00f4nibus,<br \/>\na trama encarceradora da vida urbana&#8230; Mas que diferen\u00e7a, num cimo<br \/>\nde monte, como Torges? A\u00ed todas essas belas estrelas olham para n\u00f3s<br \/>\nde perto, rebrilhando, \u00e0 maneira de olhos conscientes, umas fixamente,<br \/>\ncom sublime indiferen\u00e7a, outras ansiosamente, com uma luz que palpita,<br \/>\numa luz que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender<br \/>\nos nossos&#8230; E \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o sentir uma solidariedade<br \/>\nperfeita entre esses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos somos<br \/>\nobra da mesma vontade. Todos vivemos da a\u00e7\u00e3o dessa vontade imanente.<br \/>\nTodos, portanto, desde os \u00daranos at\u00e9 os Jacintos, constitu\u00edmos<br \/>\nmodos diversos de um ser \u00fanico, e atrav\u00e9s das suas transforma\u00e7\u00f5es<br \/>\nsomamos na mesma unidade. N\u00e3o h\u00e1 id\u00e9ia mais consoladora<br \/>\ndo que esta &#8211; que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que, agora, se esconde,<br \/>\nsomos mol\u00e9culas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para<br \/>\no mesmo Fim. Desde logo se somem as responsabilidades torturantes do individualismo.<br \/>\nQue somos n\u00f3s? Formas sem for\u00e7a, que uma For\u00e7a impele.<br \/>\nE h\u00e1 um descanso delicioso nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se<br \/>\n\u00e9 o gr\u00e3o de p\u00f3 irrespons\u00e1vel e passivo que vai<br \/>\nlevado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava,<br \/>\nsumido na sombra. Nem ele nem eu sab\u00edamos os nomes desses astros admir\u00e1veis.<br \/>\nEu, por causa da maci\u00e7a e indesbast\u00e1vel ignor\u00e2ncia de<br \/>\nbacharel, com que sa\u00ed do ventre de Coimbra, minha m\u00e3e espiritual.<br \/>\nJacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados<br \/>\nsobre astronomia! Mas que nos importava, de resto, que aquele astro al\u00e9m<br \/>\nse chamasse S\u00edrio e aquele outro Aldebar\u00e3? Que lhes importava<br \/>\na eles que um de n\u00f3s fosse Jos\u00e9 e o outro Jacinto? \u00c9ramos<br \/>\nformas transit\u00f3rias do mesmo ser eterno &#8211; e em n\u00f3s havia o mesmo<br \/>\nDeus. E se eles tamb\u00e9m assim o compreendiam, est\u00e1vamos ali,<br \/>\nn\u00f3s \u00e0 janela num casar\u00e3o serrano, eles no seu maravilhoso<br \/>\ninfinito, perfazendo um ato sacrossanto, um perfeito ato de Gra\u00e7a &#8211;<br \/>\nque era sentir conscientemente a nossa unidade e realizar, durante um instante,<br \/>\nna consci\u00eancia, a nossa diviniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim enevoadamente filosof\u00e1vamos &#8211; quando Z\u00e9 Br\u00e1s,<br \/>\ncom uma candeia na m\u00e3o, veio avisar que \u201cestavam preparadas as<br \/>\ncamas de suas insel\u00eancias&#8230;\u201d Da idealidade descemos gostosamente<br \/>\n\u00e0 realidade, e que vimos ent\u00e3o n\u00f3s, os irm\u00e3os<br \/>\ndos astros? Em duas salas tenebrosas e c\u00f4ncavas, duas enxergas, postas<br \/>\nno ch\u00e3o, a um canto, com duas cobertas de chita; \u00e0 cabeceira<br \/>\num casti\u00e7al de lat\u00e3o, pousando sobre um alqueire: e aos p\u00e9s,<br \/>\ncomo lavat\u00f3rio, um alguidar vidrado em cima de uma cadeira de pau!<\/p>\n<p>Em sil\u00eancio, o meu supercivilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu<br \/>\nnela a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face desca\u00edda os<br \/>\ndedos murchos, considerou que, perdidas as suas malas, n\u00e3o tinha nem<br \/>\nchinelas nem roup\u00e3o! E foi ainda o Z\u00e9 Br\u00e1s que providenciou,<br \/>\ntrazendo ao pobre Jacinto, para ele desafogar os p\u00e9s, uns tremendos<br \/>\ntamancos de pau, e para ele embrulhar o corpo, docemente educado em S\u00edbaris,<br \/>\numa camisa da caseira, enorme, de estopa mais \u00e1spera que estamenha<br \/>\nde penitente, e com folhos crespos e duros como lavores em madeira&#8230; Para<br \/>\no consolar, lembrei que Plat\u00e3o, quando compunha o Banquete, Xenofonte,<br \/>\nquando comandava os Dez Mil, dormiam em piores catres. As enxergas austeras<br \/>\nfazem as fortes almas &#8211; e \u00e9 s\u00f3 vestido de estamenha que se penetra<br \/>\nno Para\u00edso.<\/p>\n<p>&#8211; Tem voc\u00ea &#8211; murmurou o meu amigo, desatento e seco &#8211; alguma coisa<br \/>\nque eu leia?&#8230; Eu n\u00e3o posso adormecer sem ler!<\/p>\n<p>Eu possu\u00eda apenas o n\u00famero do Jornal da Tarde, que rasguei<br \/>\npelo meio e partilhei com ele fraternalmente. E quem n\u00e3o viu ent\u00e3o<br \/>\nJacinto, senhor de Torges, aca\u00e7apado \u00e0 borda da enxerga, junto<br \/>\nda vela que pingava sobre o alqueire, com os p\u00e9s nus encafuados nos<br \/>\ngrosssos socos, perdido dentro da camisa da patroa, toda em folhos, percorrendo<br \/>\nna metade do Jornal da Tarde, com os olhos turvos, os an\u00fancios dos<br \/>\npaquetes &#8211; n\u00e3o pode saber o que \u00e9 uma vigorosa e real imagem<br \/>\ndo desalento!<\/p>\n<p>Assim o deixei &#8211; e da\u00ed a pouco, estendido na minha enxerga tamb\u00e9m<br \/>\nespartana, subia, atrav\u00e9s dum sonho jovial e erudito, ao planeta V\u00e9nus,<br \/>\nonde encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Plat\u00e3o<br \/>\ne Z\u00e9 Br\u00e1s, em alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho<br \/>\nda R\u00e9tica pelos copos de Torges! Trav\u00e1mos todos tr\u00eas bruscamente<br \/>\numa controv\u00e9rsia sobre o s\u00e9culo XIX. Ao longe, por entre uma<br \/>\nfloresta de roseiras mais altas que carvalhos, alvejavam os m\u00e1rmores<br \/>\nduma cidade e ressoavam cantos sacros. N\u00e3o recordo o que Xenofonte<br \/>\nsustentou acerca da civiliza\u00e7\u00e3o e do fon\u00f3grafo. De repente<br \/>\ntudo foi turbado por fuscas nuvens, atrav\u00e9s das quais eu distinguia<br \/>\nJacinto, fugindo num burro que ele impelia furiosamente com os calcanhares,<br \/>\ncom uma vergasta, com berros, para os lados do Jasmineiro!<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>CAP\u00cdTULO V<\/h2>\n<p>CEDO, de madrugada, sem rumor, para n\u00e3o despertar Jacinto que, com<br \/>\nas m\u00e3os sobre o peito, dormia pl\u00e0cidamente no seu leito de granito<br \/>\n&#8211; parti para Gui\u00e3es. E durante tr\u00eas quietas semanas, naquela<br \/>\nvila onde se conservam os h\u00e1bitos e as id\u00e9ias do tempo de El-Rei<br \/>\nD. Dinis, n\u00e3o soube do meu desconsolado amigo, que decerto fugira dos<br \/>\nseus tetos esburacados e remergulhara na civiliza\u00e7\u00e3o. Depois,<br \/>\npor uma abrasada manh\u00e3 de agosto, descendo de Gui\u00e3es, de novo<br \/>\ntrilhei a avenida de faias e entrei o port\u00e3o solarengo de Torges, entre<br \/>\no furioso latir dos rafeiros. A mulher do Z\u00e9 Br\u00e1s apareceu alvoro\u00e7ada<br \/>\n\u00e0 porta da tulha. E a sua nova foi logo que o ser. D. Jacinto (em Torges,<br \/>\no meu amigo tinha dom) andava l\u00e1 embaixo com o Sousa nos campos de<br \/>\nFreixomil<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, ainda c\u00e1 est\u00e1 o sr. D. Jacinto?!<\/p>\n<p>Sua insel\u00eancia ainda estava em Torges &#8211; e sua insel\u00eancia ficava<br \/>\npara a vindima!&#8230; Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham vidra\u00e7as<br \/>\nnovas; e a um canto do p\u00e1tio pousavam baldes de cal; uma escada de<br \/>\npedreiro ficara arrimada contra a varanda; e num caixote aberto, ainda cheio<br \/>\nde palha de empacotar, dormiam dois gatos.<\/p>\n<p>&#8211; E o Grilo apareceu?<\/p>\n<p>&#8211; O sr. Grilo est\u00e1 no pomar, \u00e0 sombra.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! e as malas?<\/p>\n<p>&#8211; O sr. D. Jacinto j\u00e1 tem o seu saquinho de couro&#8230;<\/p>\n<p>Louvado Deus! O meu Jacinto estava, enfim, provido de civiliza\u00e7\u00e3o!<br \/>\nSubi contente. Na sala nobre, onde o soalho fora composto e esfregado, encontrei<br \/>\numa mesa recoberta de oleado, prateleiras de pinho com lou\u00e7a branca<br \/>\nde Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes muito caiadas que davam<br \/>\numa frescura de capela nova. Ao lado, noutra sala, tamb\u00e9m de faiscante<br \/>\nalvura, havia o conforto inesperado de tr\u00eas cadeiras de verga da Madeira,<br \/>\ncom bra\u00e7os largos e almofadas de chita: sobre a mesa de pinho, o papel<br \/>\nalma\u00e7o, o candeeiro de azeite, as penas de pato espetadas, num tinteiro<br \/>\nde frade, pareciam preparadas para um estudo calmo e ditoso de humanidades:<br \/>\ne na parede, suspensa de dois pregos, uma estantezinha continha quatro ou<br \/>\ncinco livros, folheados e usados, o D. Quixote, um Virg\u00edlio, uma Hist\u00f3ria<br \/>\nde Roma, as Cr\u00f4nicas de Froissart. Adiante era certamente o quarto de<br \/>\nD. Jacinto, um quarto claro e casto de estudante, com um catre de ferro, um<br \/>\nlavat\u00f3rio de ferro, a roupa pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia<br \/>\nde asseio e ordem. As janelas cerradas defendiam do sol de Agosto, que escaldava<br \/>\nfora os peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de \u00e1gua, subia uma<br \/>\nfresquid\u00e3o consoladora. Num velho vaso azul um molho de cravos alegrava<br \/>\ne perfumava. N\u00e3o havia um rumor. Torges dormia no esplendor da sesta.<br \/>\nE envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei por me estender numa<br \/>\ncadeira de verga junto \u00e0 mesa, abri languidamente o Virg\u00edlio,<br \/>\nmurmurando:<\/p>\n<p>Fortunate Jacinthe! tu inter arva nota<\/p>\n<p>Et fontes sacros frigus captabis opacum.<\/p>\n<p>J\u00e1 mesmo irreverentemente adormecera sobre o divino bucolista, quando<br \/>\nme despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o comparei<br \/>\na uma planta, meio murcha e estiolada, no escuro, que fora profusamente regada<br \/>\ne revivera em pleno sol. N\u00e3o corcovava. Sobre a sua palidez de supercivilizado,<br \/>\no ar da serra ou a reconcilia\u00e7\u00e3o com a vida tinha espalhado<br \/>\num tom trigueiro e forte que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na<br \/>\ncidade eu lhe conhecera sempre crepusculares, saltava agora um brilho de meio-dia,<br \/>\ndecidido e largo, que mergulhava francamente na beleza das coisas. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o passava as m\u00e3os murchas sobre a face &#8211; batia com elas rijamente<br \/>\nna coxa&#8230; Que sei eu?! Era uma reencarna\u00e7\u00e3o. E tudo o que me<br \/>\ncontou, pisando alegremente com os sapatos brancos o soalho, foi que se sentira,<br \/>\nao fim de tr\u00eas dias em Torges, como desanuviado, mandara comprar um<br \/>\ncolch\u00e3o macio, reunira cinco livros nunca lidos, e ali estava&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para todo o ver\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almo\u00e7ar umas<br \/>\ntrutas que eu pesquei, e compreende enfim o que \u00e9 o C\u00e9u.<\/p>\n<p>As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu tamb\u00e9m uma salada<br \/>\nfria de couve-flor e vagens, e um vinho branco de Az\u00e3es&#8230; Mas quem<br \/>\ncondignamente vos cantar\u00e1, comeres e beberes daquelas serras?<\/p>\n<p>De tarde, finda a calma, passeamos pelos caminhos, coleando a vasta quinta,<br \/>\nque vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com carinho os milhos<br \/>\naltos. Com a m\u00e3o espalmada e forte batia no tronco dos castanheiros,<br \/>\ncomo nas costas de amigos recuperados. Todo o fio de \u00e1gua, todo o tufo<br \/>\nde erva, todo o p\u00e9 de vinha o ocupava como vidas filiais que cantavam<br \/>\nem certos choupos. Exclamava enternecido:<\/p>\n<p>&#8211; Que encanto, a flor do trevo!<\/p>\n<p>\u00c0 noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Hor\u00e1cio<br \/>\nteria dedicado uma Ode (talvez mesmo um Carme Her\u00f3ico), conversamos<br \/>\nsobre o Destino e a Vida. Eu citei, com discreta mal\u00edcia, Schopenhauer<br \/>\ne o Ecclesiastes&#8230; Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desd\u00e9m.<br \/>\nA sua confian\u00e7a nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera,<br \/>\ne irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma n\u00e9voa que o Sol<br \/>\nespalha. Tremenda tolice! afirmar que a vida se comp\u00f5e, meramente,<br \/>\nduma longa ilus\u00e3o &#8211; \u00e9 erguer um aparatoso sistema sobre um ponto<br \/>\nespecial e estreito da vida, deixando fora do sistema toda a vida restante,<br \/>\ncomo uma contradi\u00e7\u00e3o permanente e soberba. Era como se ele,<br \/>\nJacinto, apontando para uma urtiga, crescida naquele p\u00e1tio, declarasse,<br \/>\ntriunfalmente: &#8211; \u201cAqui est\u00e1 uma urtiga! Toda a quinta de Torges,<br \/>\nportanto, \u00e9 uma massa de urtigas\u201d. &#8211; Mas bastaria que o h\u00f3spede<br \/>\nerguesse os olhos para ver as searas, os pomares e os vinhedos!<\/p>\n<p>De resto, desses dois ilustres pessimistas, um o alem\u00e3o, que conhecia<br \/>\nele da vida &#8211; dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma teoria<br \/>\ndefinitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como este genial farsante,<br \/>\nviveu cinq\u00fcenta anos numa soturna hospedaria de prov\u00edncia, levantando<br \/>\napenas os \u00f3culos dos livros para conversar, \u00e0 mesa redonda,<br \/>\ncom os alferes da guarni\u00e7\u00e3o! E o outro, o israelita, o homem<br \/>\ndos Cantares, o muito pedantesco rei de Jerusal\u00e9m, s\u00f3 descobre<br \/>\nque a vida \u00e9 uma ilus\u00e3o aos setenta e cinco anos, quando o poder<br \/>\nlhe escapa das m\u00e3os tr\u00eamulas e o seu serralho de trezentas concubinas<br \/>\nse torna ridiculamente sup\u00e9rfluo \u00e0 sua carca\u00e7a fr\u00edgida.<br \/>\nUm dogmatiza funebremente sobre o que n\u00e3o sabe &#8211; e o outro sobre o<br \/>\nque n\u00e3o pode. Mas que se d\u00ea a esse bom Schopenhauer uma vida<br \/>\nt\u00e3o completa e cheia como a de C\u00e9sar, e onde estar\u00e1 o<br \/>\nseu schopenhauerismo? Que se restitua a esse sult\u00e3o, besuntado de literatura,<br \/>\nque tanto edificou e professorou em Jerusal\u00e9m, a sua virilidade &#8211; e<br \/>\nonde estar\u00e1 o Ecclesiastes? De resto, que importa bendizer ou maldizer<br \/>\na vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou v\u00e3, ela tem de ser vida.<br \/>\nLoucos aqueles que, para a atravessar, se embrulham desde logo em pesados<br \/>\nv\u00e9us de tristeza e desilus\u00e3o, de sorte que na sua estrada tudo<br \/>\nlhe seja negrume, n\u00e3o s\u00f3 as l\u00e9guas realmente escuras,<br \/>\nmas mesmo aquelas em que cintila um sol am\u00e1vel. Na terra tudo vive<br \/>\n&#8211; e s\u00f3 o homem sente a dor e a desilus\u00e3o da vida. E tanto mais<br \/>\nas sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa intelig\u00eancia que<br \/>\no torna homem, e que o separa da restante natureza, impensante e inerte. \u00c9<br \/>\nno m\u00e1ximo de civiliza\u00e7\u00e3o que ele experimenta o m\u00e1ximo<br \/>\nde t\u00e9dio. A sapi\u00eancia, portanto, est\u00e1 em recuar at\u00e9<br \/>\nesse honesto m\u00ednimo de civiliza\u00e7\u00e3o, que consiste em ter<br \/>\num teto de colmo, uma leira de terra e o gr\u00e3o para nela semear. Em<br \/>\nresumo, para reaver a felicidade, \u00e9 necess\u00e1rio regressar ao<br \/>\nPara\u00edso &#8211; e ficar l\u00e1, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente<br \/>\ndesguarnecido de civiliza\u00e7\u00e3o, contemplando o anho aos saltos<br \/>\nentre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a \u00e1rvore funesta<br \/>\nda Ci\u00eancia! Dixi!<\/p>\n<p>Eu escutava, assombrado, este Jacinto nov\u00edssimo. Era verdadeiramente<br \/>\numa ressurrei\u00e7\u00e3o no magn\u00edfico estilo de L\u00e1zaro.<br \/>\nAo surge et ambula que lhe tinham sussurado as \u00e1guas e os bosques de<br \/>\nTorges, ele erguia-se do fundo da cova do Pessimismo, desembara\u00e7ava-se<br \/>\ndas suas casacas de Poole, et ambulabat, e come\u00e7ava a ser ditoso. Quando<br \/>\nrecolhi ao meu quarto, \u00e0quelas horas honestas que conv\u00e9m ao<br \/>\ncampo e ao Optimismo, tomei entre as minhas a m\u00e3o j\u00e1 firme do<br \/>\nmeu amigo e, pensando que ele enfim alcan\u00e7ara a verdadeira realeza,<br \/>\nporque possu\u00eda a verdadeira liberdade, gritei-lhe os meus parab\u00e9ns<br \/>\n\u00e0 maneira do moralista de T\u00edbure:<\/p>\n<p>Vive et regna, fortunate Jacinthe!<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco, atrav\u00e9s da porta aberta que nos separava, senti<br \/>\numa risada fresca, mo\u00e7a, genu\u00edna e consolada. Era Jacinto que<br \/>\nlia o D. Quixote. Oh bem-aventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar,<br \/>\ne recuperara o dom divino de rir!<\/p>\n<p>Quatro anos v\u00e3o passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes<br \/>\ndo seu solar continuam bem caiadas, mas nuas.<\/p>\n<p>De Inverno enverga um gab\u00e3o de briche e acende um braseiro. Para chamar<br \/>\no Grilo ou a mo\u00e7a, bate as m\u00e3os, como fazia Cat\u00e3o. Com<br \/>\nos seus deliciosos vagares, j\u00e1 leu a Il\u00edada. N\u00e3o faz<br \/>\na barba. Nos caminhos silvestres, p\u00e1ra e fala com as crian\u00e7as.<br \/>\nTodos os casais da serra o bendizem. Oi\u00e7o que vai casar com uma forte,<br \/>\ns\u00e3 e bela rapariga de Gui\u00e3es. Decerto crescer\u00e1 ali uma<br \/>\ntribo, que ser\u00e1 grata ao Senhor!<\/p>\n<p>Como ele, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma Vida<br \/>\nde Buda, uma Hist\u00f3ria da Gr\u00e9cia e as obras de S. Francisco de<br \/>\nSales), fui, depois destes quatro anos, ao Jasmineiro deserto. Cada passo<br \/>\nmeu sobre os fofos tapetes de Caram\u00e2nia soou triste como num ch\u00e3o<br \/>\nde mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esga\u00e7ados. Pelas paredes<br \/>\npendiam, como olhos fora de \u00f3rbitas, os bot\u00f5es el\u00e9tricos<br \/>\ndas campainhas e das luzes: &#8211; e havia vagos fios de arame, soltos, enroscados,<br \/>\nonde a aranha regalada e reinando tecera teias espessas. Na livraria, todo<br \/>\no vasto saber dos s\u00e9culos jazia numa imensa mudez, debaixo duma imensa<br \/>\npoeira. Sobre as lombadas dos sistemas filos\u00f3ficos alvejava o bolor:<br \/>\nvorazmente a tra\u00e7a devastara as Hist\u00f3rias Universais: errava<br \/>\nali um cheiro mole de literatura apodrecida: &#8211; e eu abalei, com o len\u00e7o<br \/>\nno nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes n\u00e3o restava uma verdade<br \/>\nviva! Quis lavar as m\u00e3os, maculadas pelo contato com estes detritos<br \/>\nde conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do lavat\u00f3rio,<br \/>\nda sala de banho, enferrujados, perros, dessoldados, n\u00e3o largaram uma<br \/>\ngota de \u00e1gua; e, como chovia nessa tarde de abril, tive de sair \u00e0<br \/>\nvaranda, pedir ao C\u00e9u que me lavasse.<\/p>\n<p>Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num mont\u00e3o<br \/>\nnegro de ferragens, rodas, l\u00e2minas, campainhas, parafusos&#8230; Entreabri<br \/>\na janela e reconheci o telefone, o teatrofone, o fon\u00f3grafo, outros<br \/>\naparelhos, tombados das suas peanhas, s\u00f3rdidos, desfeitos, sob a poeira<br \/>\ndos anos. Empurrei com o p\u00e9 esse lixo do engenho humano. A m\u00e1quina<br \/>\nde escrever, escancarada, com os buracos negros marcando as letras desarraigadas,<br \/>\nera como uma boca alvar e desdentada. O telefone parecia esborrachado, enrodilhado<br \/>\nnas suas tripas de arame. Na trompa do fon\u00f3grafo, torta, esbei\u00e7ada,<br \/>\npara sempre muda, fervilhavam carochas. E ali jaziam, t\u00e3o lament\u00e1veis<br \/>\ne grotescas, aquelas geniais inven\u00e7\u00f5es, que eu sa\u00ed rindo,<br \/>\ncomo duma enorme fac\u00e9cia, daquele supercivilizado pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>A chuva de abril secara: os telhados remotos da cidade negrejavam sobre um<br \/>\npoente de carmesim e ouro. E, atrav\u00e9s das ruas mais frescas, eu ia<br \/>\npensando que este nosso magn\u00edfico s\u00e9culo XIX se assemelharia,<br \/>\num dia, \u00e0quele Jasmineiro abandonado e que outros homens, com uma certeza<br \/>\nmais pura do que \u00e9 a Vida e a Felicidade, dariam, como eu, com o p\u00e9<br \/>\nno lixo da superciviliza\u00e7\u00e3o e, como eu, ririam alegremente da<br \/>\ngrande ilus\u00e3o que findara, in\u00fatil e coberta de ferrugem.<\/p>\n<p>\u00c0quela hora, decerto, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fon\u00f3grafo<br \/>\ne sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde,<br \/>\nao tremeluzir da primeira estrela, a boiada recolher entre o canto dos boieiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo\u00a0II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V &nbsp; E\u00e7a de Queir\u00f3s CAP\u00cdTULO I EU possuo preciosamente um amigo (o seu nome \u00e9 Jacinto) que nasceu num pal\u00e1cio, com quarenta contos de renda em pingues terras de p\u00e3o, azeite e gado. 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