{"id":95408,"date":"2017-01-18T09:33:31","date_gmt":"2017-01-18T11:33:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95408"},"modified":"2017-01-18T09:33:31","modified_gmt":"2017-01-18T11:33:31","slug":"adao-e-eva-no-paraiso-eca-de-queiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/adao-e-eva-no-paraiso-eca-de-queiros","title":{"rendered":"Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso &#8211; E\u00e7a de Queir\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\" height=\"108\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <strong><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/strong><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/strong><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>AD\u00c3O, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, \u00e0s 2<br \/>\nhoras da tarde&#8230;<\/p>\n<p>Assim o afirma, com majestade, nos seus Annales Veteris et Novi Testamenti,<br \/>\no muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath, Arcebispo de Armagh<br \/>\ne chanceler-mor da S\u00e9 de S. Patr\u00edcio.<\/p>\n<p>A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manh\u00e3 de todas<br \/>\nas manh\u00e3s. Mas j\u00e1 n\u00e3o era essa Terra primordial, parda<br \/>\ne mole, ensopada em \u00e1guas barrentas, abafada numa n\u00e9voa densa,<br \/>\nerguendo, aqui e al\u00e9m, r\u00edgidos troncos duma s\u00f3 folha<br \/>\ne dum s\u00f3 rebento, muito solit\u00e1ria, muito silenciosa, com uma<br \/>\nvida toda escondida, apenas surdamente revelada pelo remexer de bichos obscuros,<br \/>\ngelatinosos, sem cor e quase sem forma, crescendo no fundo dos lodos. N\u00e3o!<br \/>\nagora, durante os dias genes\u00edacos de 26 e 27, toda ela se completara,<br \/>\nse abastecera e se enfeitara, para acolher condignamente o Predestinado que<br \/>\nvinha. No dia 28 j\u00e1 apareceu perfeita, perfecta, com as provis\u00f5es<br \/>\ne alfaias que a B\u00edblia enumera, as ervas verdes de espiga madura, as<br \/>\n\u00e1rvores providas do fruto entre a flor, todos os peixes nadando nos<br \/>\nmares resplandecentes, todas as aves voando pelos ares aclarados, todos os<br \/>\nanimais pastando sobre as colinas vi\u00e7osas, e os regatos regando, e<br \/>\no fogo armazenando no seio da pedra, e o cristal, e o \u00f4nix, e o ouro<br \/>\nmuito bom do pa\u00eds de Hevilath&#8230;<\/p>\n<p>Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em torno da Terra. Ela era<br \/>\nmo\u00e7a e formosa e preferida de Deus. Ele ainda se n\u00e3o submetera<br \/>\n\u00e0 imobilidade augusta que lhe imp\u00f4s mais tarde, entre amuados<br \/>\nsuspiros da Igreja, mestre Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar,<br \/>\nrente aos muros do Convento de S. Mateus de Floren\u00e7a. E o Sol, amorosamente,<br \/>\ncorria em volta da Terra, como o noivo dos Cantares, que, nos lascivos dias<br \/>\nda ilus\u00e3o, sobre o outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais levemente<br \/>\nque os gamos de Galaad, circundava a Bem-Amada, a cobria com o fulgor dos<br \/>\nseus olhos, coroado de sal-gema, a faiscar de fecunda impaci\u00eancia. Ora<br \/>\ndesde essa alvorada do dia 28, segundo o c\u00e1lculo majest\u00e1tico<br \/>\nde Usserius, o Sol, muito novo, sem sardas, sem rugas, sem falhas na sua cabeleira<br \/>\nflamante, envolvera a terra, durante oito horas, numa cont\u00ednua e insaciada<br \/>\ncaricia de calor e de luz. Quando a oitava hora cintilou e fugiu, uma emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nconfusa, feita de medo e feita de gl\u00f3ria, perpassou por toda a Cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\nagitando num fr\u00e9mito as relvas e as frondes, arrepiando o p\u00ealo<br \/>\ndas feras, empolando o dorso dos montes, apressando o borbulhar das nascentes,<br \/>\narrancando dos p\u00f3rfiros um brilho mais vivo&#8230; Ent\u00e3o, numa floresta<br \/>\nmuito cerrada e muito tenebrosa, certo Ser, desprendendo lentamente a garra<br \/>\ndo galho de \u00e1rvore onde se empoleirara toda essa manh\u00e3 de longos<br \/>\ns\u00e9culos, escorregou pelo tronco comido de hera, pousou as duas patas<br \/>\nno solo que o musgo afofava, sobre as duas patas se firmou com esfor\u00e7ada<br \/>\nenergia, e ficou ereto, e alargou os bra\u00e7os livres, e lan\u00e7ou<br \/>\num passo forte, e sentiu a sua dessemelhan\u00e7a da Animalidade, e concebeu<br \/>\no deslumbrado pensamento do que era, e verdadeiramente foi! Deus, que o amparara,<br \/>\nnesse instante o criou. E vivo, da vida superior, descido da inconsci\u00eancia<br \/>\nda \u00e1rvore, Ad\u00e3o caminhou para o Para\u00edso.<\/p>\n<p>Era medonho. Um p\u00ealo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maci\u00e7o<br \/>\ncorpo, rareando apenas em torno dos cotovelos, dos joelhos rudes, onde o couro<br \/>\naparecia curtido e da cor de cobre fosco. Do achatado, fugidio cr\u00e2nio,<br \/>\nvincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva, tufando sobre as orelhas<br \/>\nagudas. Entre as rombas queixadas, na fenda enorme dos bei\u00e7os trombudos,<br \/>\nestirados em focinho, as presas reluziam, afiadas rijamente para rasgar a<br \/>\nfebra e esmigalhar o osso. E sob as arcadas sombriamente fundas, que um felpo<br \/>\nhirsuto orlava como um silvado orla o arco duma caverna, os olhos redondos,<br \/>\ndum amarelo de \u00e2mbar, sem cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de espanto&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o era belo, nosso Pai vener\u00e1vel,<br \/>\nnessa tarde de Outono, quando Jeov\u00e1 o ajudou com carinho a descer da<br \/>\nsua \u00c1rvore! E todavia, nesses olhos redondos, de fino \u00e2mbar,<br \/>\nmesmo atrav\u00e9s do tremor e do espanto, rebrilhava uma superior beleza<br \/>\n&#8211; a Energia Inteligente que o ia tr\u00f4pegamente levando, sobre as pernas<br \/>\narqueadas, para fora da mata onde passara a sua manh\u00e3 de longos s\u00e9culos<br \/>\na pular e a guinchar por cima dos ramos altos.<\/p>\n<p>Mas (se os Comp\u00eandios de Antropologia nos n\u00e3o iludem) os primeiros<br \/>\npassos humanos de Ad\u00e3o n\u00e3o foram logo atirados, com alacridade<br \/>\ne confian\u00e7a, para o destino que o esperava entre os quatro rios do<br \/>\n\u00c9den. Entorpecido, envolvido pelas influ\u00eancias da Floresta, ainda<br \/>\ndespega com custo a pata de entre o folhoso ch\u00e3o de fetos e beg\u00f4nias,<br \/>\ne gostosamente se ro\u00e7a pelos pesados cachos de flores que lhe orvalham<br \/>\no p\u00ealo, e acaricia as longas barbas de l\u00edquen, onde gozara as<br \/>\ndo\u00e7uras da irresponsabilidade. Nas ramagens que t\u00e3o generosamente,<br \/>\natrav\u00e9s t\u00e3o longas idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe<br \/>\nas bagas sumarentas, os rebent\u00f5es mais tenros. Para transpor os regatos,<br \/>\nque por todo o bosque reluzem e sussurram depois da saz\u00e3o das chuvas,<br \/>\nainda se pendura duma rija liana, entrela\u00e7ada de orqu\u00eddeas,<br \/>\ne se balan\u00e7a, e arqueia o pulo, com pesada indol\u00eancia. E receio<br \/>\nbem que, quando a aragem restolhasse pela espessura, carregada com o cheiro<br \/>\nmorno e acre das f\u00eameas acocoradas nos cimos, o Pai dos Homens ainda<br \/>\ndilatasse as ventas chatas e soltasse do peito felpudo um grunhido rouco e<br \/>\ntriste.<\/p>\n<p>Mas caminha&#8230; As suas pupilas amarelas, onde fa\u00edsca o Querer, sondam,<br \/>\nesbugalhadas, atrav\u00e9s da ramaria, procuram para al\u00e9m o mundo<br \/>\nque deseja e receia, e a que sente j\u00e1 a zoada violenta como toda feita<br \/>\nde batalha e rancor. E, \u00e0 maneira que a penumbra das folhagens clareia,<br \/>\nvai surgindo, dentro do seu cr\u00e2nio bisonho, como uma alvorada que penetra<br \/>\nnuma toca, o sentimento das Formas diferentes e da Vida diferente que as anima.<br \/>\nEssa rudimentar compreens\u00e3o s\u00f3 trouxe a nosso Pai vener\u00e1vel<br \/>\nturba\u00e7\u00e3o e terror. Todas as tradi\u00e7\u00f5es, as mais<br \/>\norgulhosas, concordam em que Ad\u00e3o, na sua entrada inicial pelas plan\u00edcies<br \/>\ndo \u00c9den, tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial turbulento.<br \/>\nE bem podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava mais que<br \/>\na dessas mesmas \u00e1rvores onde vivera, agora que as reconhecia como seres<br \/>\nt\u00e3o dessemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa in\u00e9rcia t\u00e3o<br \/>\ncontr\u00e1ria \u00e0 sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho<br \/>\npara a Humaniza\u00e7\u00e3o, o arvoredo que lhe fora abrigo natural e<br \/>\ndoce s\u00f3 lhe pareceria agora um cativeiro de degradante tristeza. E<br \/>\nesses ramos tortuosos, empecendo a sua marcha, n\u00e3o seriam bra\u00e7os<br \/>\nfortes que se estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos cimos frondosos?<br \/>\nEsse ramalhado sussurro que o seguia, composto do desassossego irritado de<br \/>\ncada folha, n\u00e3o era a selva toda, num alvoro\u00e7o, reclamando o<br \/>\nseu secular morador? De t\u00e3o estranho medo nasceu, talvez, a primeira<br \/>\nluta do Homem com a Natureza. Quando um galho alongado o ro\u00e7asse, decerto<br \/>\nnosso Pai atiraria contra ele as garras desesperadas para o repelir e lhe<br \/>\nescapar. Nesses bruscos \u00edmpetos quantas vezes se desequilibrou, e as<br \/>\nsuas m\u00e3os se abateram desamparadamente sobre o solo de mato ou rocha,<br \/>\nde novo precipitado na postura bestial, retrogradando \u00e0 inconsci\u00eancia,<br \/>\nentre o clamor triunfal da Floresta! Que angustioso esfor\u00e7o ent\u00e3o<br \/>\npara se erguer, recuperar a atitude humana e correr, com os felpudos bra\u00e7os<br \/>\ndespegados da terra bruta, livres para a obra imensa da sua Humaniza\u00e7\u00e3o!<br \/>\nEsfor\u00e7o sublime, em que ruge, morde as ra\u00edzes detestadas e,<br \/>\nquem sabe? levanta j\u00e1 os olhos de \u00e2mbar lustrosos para os c\u00e9us,<br \/>\nonde, confusamente, sente Algu\u00e9m que o vem amparando &#8211; e que na realidade<br \/>\no levanta.<\/p>\n<p>Mas, de cada um desses tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais humano,<br \/>\nmais nosso Pai. E h\u00e1 j\u00e1 consci\u00eancia, pressa da Racionalidade,<br \/>\nnos ressoantes passos com que se arranca ao seu limbo arboral, despeda\u00e7ando<br \/>\nas enredi\u00e7as, fendendo o bravio denso, despertando os tapires adormecidos<br \/>\nsob cogumelos monstruosos ou espantando algum urso mo\u00e7o e tresmalhado<br \/>\nque, de patas contra um olmo, chupa, meio borracho, as uvas desse farto Outono.<\/p>\n<p>Enfim, Ad\u00e3o emerge da Floresta obscura: &#8211; e os seus olhos de \u00e2mbar<br \/>\nvivamente se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o \u00c9den.<\/p>\n<p>Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as<br \/>\nTradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o exageram) com desordenada e sombria abund\u00e2ncia.<br \/>\nLentamente, atrav\u00e9s, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em<br \/>\nfecundos e espraiados remansos, as verduras onde j\u00e1 talvez cresce a<br \/>\nlentilha e se alastra o arrozal. Rochas de m\u00e1rmore rosado rebrilham<br \/>\ncom um rubor quente. De entre bosques de algodoeiros, brancos como crespa<br \/>\nespuma, sobem outeiros cobertos de magn\u00f3lias, dum esplendor ainda mais<br \/>\nbranco. Al\u00e9m a neve coroa uma serra com um radiante nimbo de santidade,<br \/>\ne escorre, por entre os flancos despeda\u00e7ados, em finas franjas que<br \/>\nrefulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de r\u00edgidas<br \/>\nescarpas, pendem perdidamente, sobre profundidades, palmeirais desgrenhados.<br \/>\nPelas lagoas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas rendas. E o mar, nos<br \/>\nconfins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um aro de ouro. &#8211; Nesse fecundo<br \/>\nespa\u00e7o toda a Cria\u00e7\u00e3o se espaneja, com a for\u00e7a,<br \/>\na gra\u00e7a, a braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda quente<br \/>\ndas m\u00e3os do seu Criador. Profusos rebanhos de auroques, de pelagem<br \/>\nruiva, pastam majestosamente, enterrados nas ervas t\u00e3o altas que nelas<br \/>\ndesaparece a ovelha e o seu anho. Temerosos e barbudos urus, brigando contra<br \/>\ngigantescos veados-elefas, entrechocam cornos e galhos com o seco fragor de<br \/>\nrobles que o vento racha. Um bando de girafas rodeia uma mimosa a que vai<br \/>\ntrincando, delicadamente, nos tr\u00eamulos cimos, as folhinhas mais tenras.<br \/>\n\u00c0 sombra dos tamarindos, repousam disformes rinocerontes, sob o voo<br \/>\napressado de p\u00e1ssaros que lhes catam servi\u00e7almente a v\u00e9rmina.<br \/>\nCada arremesso de tigre causa uma debandada furiosa de ancas, e chifres, e<br \/>\nclinas, onde, mais certo e mais leve, se arqueia o pulo gr\u00e1cil dos<br \/>\nant\u00edlopes. Uma rija palmeira verga toda ao peso da jib\u00f3ia que<br \/>\nnela se enrosca. Entre duas penedias, por vezes, aparece, numa profus\u00e3o<br \/>\nde juba, a face magn\u00edfica de um le\u00e3o que, serenamente, olha<br \/>\no Sol, a imensidade radiante. No remoto azul, enormes condores dormem im\u00f3veis,<br \/>\nde asas abertas, entre o sulco n\u00edveo e r\u00f3seo das gar\u00e7as<br \/>\ne dos flamingos. E em frente \u00e0 encosta, num alto, entre o matagal,<br \/>\npassa, lenta e montanhosa, uma r\u00e9cua de mastodontes, com a rude clina<br \/>\ndo dorso eri\u00e7ada ao vento, e a tromba a bambolear entre os dentes mais<br \/>\nrecurvos que foices.<\/p>\n<p>Assim vetust\u00edssimas cr\u00f4nicas contam o vetust\u00edssimo \u00c9den,<br \/>\nque era nas campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceil\u00e3o, ou entre<br \/>\nos quatro claro rios que hoje regam a Hungria, ou mesmo nestas terras benditas<br \/>\nonde a nossa Lisboa aquece a sua velhice ao soalheiro, cansada de proezas<br \/>\ne mares. Mas quem pode garantir estes bosques e estes bichos, pois que desde<br \/>\nesse dia 25 de outubro, que inundava o Para\u00edso de esplendor outonal,<br \/>\nj\u00e1 passaram, muito breves e muito cheios, sobre o gr\u00e3o de p\u00f3<br \/>\nque \u00e9 o nosso mundo, mais de sete vezes setecentos mil anos? S\u00f3<br \/>\nparece certo que, diante de Ad\u00e3o apavorado, um grande p\u00e1ssaro<br \/>\npassou. Um p\u00e1ssaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas esguedelhadas<br \/>\ncomo as p\u00e9talas de um cris\u00e2ntemo, que saltitava pesadamente sobre<br \/>\numa das patas, erguendo na outra, bem agarrado, um molho de ervas e ramos.<br \/>\nO nosso Pai vener\u00e1vel, com a fusca face franzida, no doloroso esfor\u00e7o<br \/>\nde compreender, pasmava para aquele p\u00e1ssaro que ao lado, sob o abrigo<br \/>\nde az\u00e1leas em flor, terminava muito gravemente a constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nduma cabana! Vistosa e s\u00f3lida cabana, com o seu ch\u00e3o de greda<br \/>\nbem alisado, galhos fortes de pinheiros e faia formando estacas e traves,<br \/>\num seguro tecto de relva seca, e na parede de enredi\u00e7as bem liadas<br \/>\no desafogo duma janela!&#8230; Mas o Pai dos Homens, nessa tarde, ainda n\u00e3o<br \/>\ncompreendeu.<\/p>\n<p>Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da ourela<br \/>\ndo bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos herb\u00edvoros<br \/>\nda plan\u00edcie, com os punhos rijamente cerrados contra o peito peludo,<br \/>\nAd\u00e3o vai arfando entre o apetite daquela resplandecente Natureza e<br \/>\no terror dos seres nunca avistados que a atulham e atroam com t\u00e3o fera<br \/>\nturbul\u00eancia. Mas dentro dele borbulha, n\u00e3o cessa, a nascente<br \/>\nsublime, a sublime nascente da Energia, que o impele a desentranhar da crassa<br \/>\nbruteza, e a ensaiar, com esfor\u00e7os que s\u00e3o semipenosos porque<br \/>\ns\u00e3o j\u00e1 semil\u00facidos, os Dons que estabelecer\u00e3o<br \/>\na sua supremacia sobre essa Natureza incompreendida e o libertar\u00e3o<br \/>\ndo seu terror. Assim, na surpresa de todas aquelas inesperadas apari\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo \u00c9den, reses, pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Ad\u00e3o<br \/>\nsolta roucas exclama\u00e7\u00f5es, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas,<br \/>\nem que por instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o reboli\u00e7o<br \/>\ndas criaturas, e mesmo o estrondo das \u00e1guas despenhadas&#8230; E esses<br \/>\nsons ficam j\u00e1 na escura mem\u00f3ria de nosso Pai ligados \u00e0s<br \/>\nsensa\u00e7\u00f5es que lhes arrancam: &#8211; de sorte que o guincho \u00e1spero<br \/>\nque lhe escapara ao topar um canguru com a sua ninhada embolsada no ventre,<br \/>\nde novo lhe ressoar\u00e1 nos l\u00e1bios trombudos, quando outros cangurus,<br \/>\nfugindo dele, adiante, se embrenhem na sombra negra das caneleiras. A B\u00edblia,<br \/>\ncom a sua exagera\u00e7\u00e3o oriental, c\u00e2ndida e simplista, conta<br \/>\nque Ad\u00e3o, logo na sua entrada pelo \u00c9den, distribuiu nomes a<br \/>\ntodos os animais, e a todas as plantas, muito definitivamente, muito eruditamente,<br \/>\ncomo se compusesse o L\u00e9xico da Cria\u00e7\u00e3o, entre Buffon,<br \/>\nj\u00e1 com os seus punhos, e Lineu, j\u00e1 com os seus \u00f3culos.<br \/>\nN\u00e3o! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente augustos porque<br \/>\ntodos eles se plantavam na sua consci\u00eancia nascente como as toscas ra\u00edzes<br \/>\ndessa Palavra pela qual verdadeiramente se humanou, e foi depois, sobre a<br \/>\nterra, t\u00e3o sublime e t\u00e3o burlesco.<\/p>\n<p>E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Ed\u00e9nico,<br \/>\nnosso Pai, compenetrado do que era, e quanto diverso dos outros seres! j\u00e1<br \/>\nse afirmava, se indivudalizava, e batia no peito sonoro, e rugia soberbamente:<br \/>\n&#8211; Eheu! Eheu! Depois, alongando os olhos reluzentes por aquela longa \u00e1gua<br \/>\nque corria vagarosamente para al\u00e9m, j\u00e1 tenta exteriorizar o<br \/>\nseu espantado sentimento dos espa\u00e7os, e rosna com pensativa cobi\u00e7a:<br \/>\n&#8211; Lhl\u00e2!Lhl\u00e2!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>CALMO, magnificamente fecundo, corria ele, o nobre rio do Para\u00edso,<br \/>\npor entre as ilhas, quase afundadas sob o peso do rijo arvoredo, todas flagrantes,<br \/>\ne atroadas pelo clamor das cacatuas. E Ad\u00e3o, trotando pesadamente pela<br \/>\nmargem baixa, j\u00e1 sente a atra\u00e7\u00e3o das \u00e1guas disciplinadas<br \/>\nque andam e vivem &#8211; essa atra\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 t\u00e3o<br \/>\nforte nos seus filhos, quando no rio descobrirem o bom servidor que desaltera,<br \/>\nestruma, rega, m\u00f3i e acarreta. Mas quantos terrores especiais ainda<br \/>\no arrepiam, o atiram com espavoridos pulos para o abrigo dos salgueiros e<br \/>\ndos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e rosada, pregui\u00e7am pedregosos<br \/>\ncrocodilos, achatados sobre o ventre, que arfam molemente, escancarando as<br \/>\nfundas goelas na t\u00e9pida pregui\u00e7a da tarde, embebendo todo o<br \/>\nar com um cheirinho de alm\u00edscar. Por entre os canaviais, coleiam e<br \/>\nrefulgem gordas cobras de \u00e1gua, de colo alteado, que fitam Ad\u00e3o<br \/>\ncom furor, dardejando e silvando. E, para nosso Pai que nunca os avistara,<br \/>\ncertamente seriam pavorosas as tartarugas imensas desse come\u00e7o do Mundo,<br \/>\npastando com arrastada mansid\u00e3o, atrav\u00e9s dos prados novos. Mas<br \/>\numa curiosidade o atrai, quase resvala na riba lodosa onde a franja de \u00e1gua<br \/>\nro\u00e7a e marulha. Na largueza do rio espraiado, uma longa e negra fila<br \/>\nde auroques, serenamente, com os cornos altos e a espessa barba a flutuar,<br \/>\nnada para a outra margem, campina coberta de louras messes onde talvez j\u00e1<br \/>\namaduram as espigas soci\u00e1veis do centeio e do milho. Nosso Pai vener\u00e1vel<br \/>\nolha a fila lenta, olha o rio lustroso, concebe o enevoado desejo de tamb\u00e9m<br \/>\natravessar para aqueles longes em que as ervas rebrilham, e arrisca a m\u00e3o<br \/>\nna corrente &#8211; na rija corrente que lha repuxa, como para o atrair e iniciar.<br \/>\nEle grunhe, arranca a m\u00e3o &#8211; e segue, com \u00e1speras patadas, esmagando,<br \/>\nsem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos morangos silvestres que ensanguentam<br \/>\na relva&#8230; Em breve p\u00e1ra, considerando um bando de aves alcandoradas<br \/>\nnuma penedia toda riscada de guanos, que espreitam, com o bico atento, para<br \/>\nbaixo, onde as \u00e1guas apertadas refervem. Que espreitam elas, as brancas<br \/>\ngar\u00e7as? Lindos peixes em cardume, que rompem contra a levada e pulam,<br \/>\nlampejando nas espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de asas<br \/>\nbrancas, uma gar\u00e7a, depois outra, fende o c\u00e9u alto, levanto,<br \/>\natravessado no bico, um peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai vener\u00e1vel<br \/>\nco\u00e7a a ilharga. A sua crassa gula, entre aquela abund\u00e2ncia do<br \/>\nrio, tamb\u00e9m apetece uma presa: e atira a garra, colhe, no seu voo soante,<br \/>\ncascudos insectos que farisca e trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro<br \/>\nHomem como um grosso tronco de \u00e1rvore meio apodrecido, que boiava,<br \/>\ndescia na corrente, levando sentados numa ponta, com seguran\u00e7a e gra\u00e7a,<br \/>\ndois bichos sedosos, louros, de focinho esperto e fofas caudas vaidosas. Para<br \/>\nos seguir, os observar, ansiosamente correu, enorme e desengon\u00e7ado.<br \/>\nE os seus olhos faiscavam, como se j\u00e1 compreendesse a mal\u00edcia<br \/>\ndaqueles dois bichos, embarcados num toro de arvore e viajando, sob a macia<br \/>\nfrescura da tarde, no rio do Para\u00edso.<\/p>\n<p>No entanto, a \u00e1gua que ele costeava era mais baixa, turva e tarda.<br \/>\nJ\u00e1 na sua larguesa n\u00e3o verdejam ilhas, nem nela se molha a orla<br \/>\ndas fartas pastagens. Para al\u00e9m, sem limite, fundidas nas neblinas,<br \/>\nfogem descampadas solid\u00f5es, de onde rola um vento lento e h\u00famido.<br \/>\nNosso Pai vener\u00e1vel enterrava as patas em ribas moles, atrav\u00e9s<br \/>\nde aluvi\u00f5es, de lixos silvestres, em que chapinavam, para seu intenso<br \/>\nhorror, enormes r\u00e3s coaxando furiosamente. E o rio em breve se perdeu<br \/>\nnuma vasta lagoa, escura e desolada, resto das grandes \u00e1guas sobre<br \/>\nque flutuara o Esp\u00edrito de Jeov\u00e1. Uma tristeza humana apertou<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o de nosso Pai. Do meio de grossas bolhas, que se empolavam<br \/>\nna estanhada lisura da \u00e1gua triste, constantemente surdiam horrendas<br \/>\ntrombas, a escorrer de limos verdes, que bufavam ruidosamente, logo se afundavam,<br \/>\ncomo repuxadas pelos lodos viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais,<br \/>\nmanchando a vermelhid\u00e3o da tarde, se elevou, se alargou sobre ele uma<br \/>\nnuvem estridente de moscardos vorazes, Ad\u00e3o foge, estonteado, trilha<br \/>\nsaibros pegajosos, rasga o p\u00ealo na aspereza dos cardos brancos que o<br \/>\nvento estorce, resvala por uma encosta de cascalho e seixo, e p\u00e1ra<br \/>\nem areia fina. Arqueja: as suas longas orelhas remexem, escutando, para al\u00e9m<br \/>\ndas dunas, um vasto rumor que rola e desaba e retumba&#8230; \u00c9 o mar. Nosso<br \/>\nPai transp\u00f5e as p\u00e1lidas dunas &#8211; e diante dele est\u00e1 o<br \/>\nMar!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o foi o pavor supremo. Com um pulo, batendo convulsamente os punhos<br \/>\nno peito, recua at\u00e9 onde tr\u00eas pinheiros, mortos e sem rama, lhe<br \/>\noferecem o ref\u00fagio heredit\u00e1rio. Por que avan\u00e7am assim<br \/>\npara ele, sem cessar, numa inchada amea\u00e7a, aqueles rolos verdes, com<br \/>\na sua clina de espuma, e se atiram, se esmigalham, refervem, babujam rudemente<br \/>\na areia? Mas toda a outra vasta \u00e1gua permanece im\u00f3vel, como<br \/>\nmorta, com uma grande mancha de sangue que lateja. Todo esse sangue caiu,<br \/>\ndecerto, da ferida do Sol, redonda e vermelha, sangrando em cima, num c\u00e9u<br \/>\ndilacerado por fundos golpes j\u00e1 roxos. Para al\u00e9m da n\u00e9voa<br \/>\nleitosa que cobre as lagoas, dos charcos salgados, onde a maresia ainda chega<br \/>\ne se espraia muito longe, um monte flameja e fumega. E sempre diante de Ad\u00e3o,<br \/>\ncontra Ad\u00e3o, os verdes rolos da verde vaga avan\u00e7am, e ribombam,<br \/>\ne alastram a praia de algas, de conchas, de gelatinas que alvejam l\u00ecvidamente.<\/p>\n<p>Mas eis que todo o mar se povoa! E, encolhido contra o pinheiro, nosso Pai<br \/>\nvener\u00e1vel dardeja os olhos inquietos e tr\u00eamulos, para aqui, para<br \/>\nal\u00e9m &#8211; para os rochedos cobertos de sarga\u00e7o onde gord\u00edssimas<br \/>\nfocas rebolam majestosamente; para os repuxos de \u00e1gua, que ao largo<br \/>\nesguicham at\u00e9 \u00e0s nuvens roxas e recaem numa chuva radiante;<br \/>\npara uma linda armada de b\u00fazios, imensos b\u00fazios alvos e nacarados,<br \/>\nvogando \u00e0 bolina, circundando as penedias, com manobra elegante&#8230;<br \/>\nAd\u00e3o pasma sem saber que estas s\u00e3o as Amonites, e que nenhum<br \/>\noutro homem, depois dele, ver\u00e1 a luzida e r\u00f3sea armada singrando<br \/>\nnos mares deste mundo. Ainda ele a admira, talvez com a impress\u00e3o inicial<br \/>\nda beleza das coisas, quando bruscamente, num tremor de sulcos brancos, toda<br \/>\na maravilhosa frota so\u00e7obra! Com o mesmo salto mole, as focas tombam,<br \/>\ntrambulham na vaga funda. E um terror passa, um terror levantado do mar, t\u00e3o<br \/>\nintenso que um bando de albatrozes, muito seguro sobre uma escarpa, bate,<br \/>\ncom azoados gritos, o voo espavorido.<\/p>\n<p>Nosso Pai vener\u00e1vel aferra a m\u00e3o a um galho de pinheiro, sondando,<br \/>\nnum arrepio, a imensid\u00e3o deserta. Ent\u00e3o, ao longe, sob o clar\u00e3o<br \/>\nenfiado do Sol que se esconde, um dorso imenso sai, lentamente, das \u00e1guas,<br \/>\ncomo uma comprida colina, toda espetada de negras, agudas lascas de rocha.<br \/>\nE avan\u00e7a! Adiante um tumulto de bolhas redemoinha e rebenta; e de entre<br \/>\nelas emerge, por fim, resfolegando cavamente, uma tromba disforme, de fauces<br \/>\nentreabertas, onde lampejam e se somem cardumes de peixes que os seus sorvos<br \/>\nv\u00eam tragando&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 um monstro, um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que<br \/>\nnosso Pai, esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente), trepou<br \/>\ndesesperadamente ao pinheiro at\u00e9 onde os galhos findavam. Mas mesmo<br \/>\nnesse abrigo os seus poderosos queixos batiam, num medo convulso, ante o horr\u00edfico<br \/>\nser surgido das profundidades. Com um baque raspante, esmigalhando conchas,<br \/>\nseixos e galhos de coral, o monstro esbarra na areia, que fundamente escava,<br \/>\ne sobre que retesa as duas patas, mais grossas que troncos de teca, com as<br \/>\nunhas todas enrodilhadas de silvas marinhas. Da caverna das suas fauces, atrav\u00e9s<br \/>\ndos dentes terr\u00edficos, que os limos e musgos esverdeiam, sopra um bafo<br \/>\nespesso de fadiga ou de furor, t\u00e3o forte que faz rodopiar as algas<br \/>\nsecas e os b\u00fazios ligeiros. Entre as crostas pedregosas, que lhe coura\u00e7am<br \/>\na fronte, negrejam dois cornos curtos e rombos. Os seus olhos, l\u00edvidos<br \/>\ne v\u00edtreos, s\u00e3o como duas enormes luas mortas. A imensa cauda<br \/>\ndentada arrasta pelo mar distante, e a cada rabeio lento levanta uma tempestade.<\/p>\n<p>Por essas fei\u00e7\u00f5es, pouco am\u00e1veis, j\u00e1 reconhecestes<br \/>\no Ictiossauro, o mais horrendo dos cet\u00e1ceos concebidos por Jeov\u00e1.<br \/>\nEra ele! &#8211; talvez o derradeiro, que durara nas trevas oce\u00e2nicas at\u00e9<br \/>\nesse dia memor\u00e1vel de 28 de outubro, para que nosso Pai entrevisse<br \/>\nas origens da Vida. E agora est\u00e1 em frente de Ad\u00e3o, ligando<br \/>\nos tempos velhos aos tempos novos &#8211; e, com as escamas do dorso assanhadas,<br \/>\nmuge devastadoramente. Nosso Pai vener\u00e1vel, enroscado ao tronco alto,<br \/>\nguincha de vivo horror&#8230; E eis que, do lado dos charcos enevoados, um silvo<br \/>\nfende os c\u00e9us, uivado e arremetido, como o de um \u00e1spero vento<br \/>\nnuma garganta de serrania. O qu\u00ea? outro monstro?&#8230; Sim, o Plesiossauro.<br \/>\n\u00c9 tamb\u00e9m o derradeiro Plesiossauro que corre do fundo dos p\u00e2ntanos.<br \/>\nE agora de novo se trava, para assombro do primeiro Homem (e gosto dos paleontologistas)<br \/>\no combate que foi a desola\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9-humanos dias da<br \/>\nTerra. L\u00e1 aparece a fabulosa cabe\u00e7a do Plesio, terminada em<br \/>\nbico-de-ave, bico de duas bra\u00e7as, mais agudo que o dardo mais agudo,<br \/>\nerguida sobre um longu\u00edssimo e esguio pesco\u00e7o que ondula, arqueia,<br \/>\nesfuzia, dardeja com pavorosa eleg\u00e2ncia! Duas barbatanas de incompar\u00e1vel<br \/>\nrijeza v\u00eam movendo o seu disforme corpo, mole, glutinoso, todo em rugas,<br \/>\nmanchado por uma lepra de fungos esverdinhados. E t\u00e3o imenso \u00e9<br \/>\nassim rojando, com o pesco\u00e7o empinado, que, diante da duna onde se<br \/>\nlevantam os pinheiros que acoitam Ad\u00e3o, ele parece uma outra duna negra<br \/>\nsustentando um pinheiro solit\u00e1rio. Furiosamente avan\u00e7a. &#8211; E<br \/>\nde repente \u00e9 um horroroso tumulto de mugidos, e sibilos, e choques<br \/>\nribombantes, e areias torvelinhando, e grossos mares espadanando. Nosso Pai<br \/>\nvener\u00e1vel salta dum pinheiro para outro pinheiro, tremendo tanto que,<br \/>\ncom ele, tremem os rijos troncos. E quando se arrisca a espreitar, ao recrescer<br \/>\ndos bramidos, s\u00f3 percebe, na enrolada massa dos dois monstros, atrav\u00e9s<br \/>\nde uma n\u00e9voa de espuma que os esguichos de sangue avermelham, o bico<br \/>\ndo Plesio todo enterrado no ventre mole do Ictio, cuja cauda, erguida, se<br \/>\nestorce furiosamente na palidez dos c\u00e9us espantados. De novo esconde<br \/>\nperdidamente a face, nosso Pai vener\u00e1vel! Um urro de monstruosa agonia<br \/>\nrola na praia. As p\u00e1lidas dunas estremecem, as cavernas soturnas ressoam.<br \/>\nDepois \u00e9 uma paz muito larga, em que o ru\u00eddo do mar Oceano n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 mais que um consolado murm\u00fario de al\u00edvio. Ad\u00e3o<br \/>\nespia, debru\u00e7ado entre os galhos&#8230; O Plesio recuara ferido para a<br \/>\nt\u00e9pida lama dos seus p\u00e2ntanos. E sob a praia jaz o Ictio morto,<br \/>\ncomo uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nosso Pai vener\u00e1vel cautelosamente escorrega do seu<br \/>\npinheiro, e se abeira do monstro. A areia, em redor, est\u00e1 medonhamente<br \/>\nrevolta; &#8211; e por toda ela, em lentos regos, em po\u00e7as escuras, o sangue,<br \/>\nmal chupado, fumega. T\u00e3o montanhoso \u00e9 o Ictio, que Ad\u00e3o,<br \/>\nerguendo a face assombrada, nem avista as puas do monstro, eri\u00e7adas<br \/>\nao longo daquele alcantilado espinha\u00e7o, a que o bico do Plesio arrancou<br \/>\nescamas mais pesadas que lajes. Mas diante das m\u00e3os trementes do Homem<br \/>\nest\u00e3o os rasg\u00f5es do ventre mole, de onde o sangue pinga, e gorduras<br \/>\nbabam, e imensas tripas esfiadas escorrem, e pendem febras atassalhadas de<br \/>\ncarne rosada&#8230; E as chatas ventas do nosso Pai vener\u00e1vel estranhamente<br \/>\nse alargam e farejam.<\/p>\n<p>Toda essa tarde ele caminhara, desde a Floresta, atrav\u00e9s do Para\u00edso,<br \/>\nchupango bagas, rilhando ra\u00edzes, trincando os insectos de casca picante.<br \/>\nMas agora o sol penetrou no mar &#8211; e Ad\u00e3o tem fome, nesse areal marinho,<br \/>\nonde s\u00f3 alvejam cardos que o vento estorce. Oh! aquela carne rija,<br \/>\nsangrenta, ainda viva, que exala um cheiro t\u00e3o fresco e salino! As<br \/>\nsuas rombas mand\u00edbulas ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado<br \/>\ne fam\u00e9lico&#8230; O Oceano arfa, como adormecido&#8230; Ent\u00e3o, irresist\u00ecvelmente,<br \/>\nAd\u00e3o mergulha numa das feridas do s\u00e1urio os dedos que lambe<br \/>\ne rechupa, moles de sangue e gorduras. O espanto dum sabor novo imobiliza<br \/>\no homem frugal que vem das ervas e das frutas. Depois, com um salto, arremete<br \/>\ncontra a montanha de abund\u00e2ncia, e arranca uma febra que trinca e traga,<br \/>\na grunhir, num furor, numa pressa em que h\u00e1 o gozo e h\u00e1 o medo<br \/>\nda primeira carne comida.<\/p>\n<p>Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho, nosso Pai vener\u00e1vel<br \/>\nsente uma grande sede. S\u00e3o salgadas as po\u00e7as que na areia rebrilham.<br \/>\nPesado e triste, com os bei\u00e7os empastados de banha e de sangue, Ad\u00e3o,<br \/>\nsob o calado crep\u00fasculo, atravessa as dunas, repenetra nas terras,<br \/>\nrebuscando s\u00f4fregamente \u00e1gua doce. Por toda a relva, nesses tempos<br \/>\nde universal umidade, fugia e chalrava um regato. Em breve, estendido numa<br \/>\nriba lodosa, Ad\u00e3o bebeu consoladamente, em fundos sorvos, sob o voo<br \/>\nespantado de moscas fosforescentes que se lhe prendiam na guedelha.<\/p>\n<p>Era junto dum bosque de carvalhos e faias. A noite, que j\u00e1 se adensara,<br \/>\nenegrecia um ch\u00e3o todo de plantas, onde a malva se encostava \u00e0<br \/>\nhortel\u00e3, e a salsa ao fundo ligeiro. Nessa clareira fresca penetrou<br \/>\nnosso Pai vener\u00e1vel, estafado com a marcha e os espantos daquela tarde<br \/>\ndo Para\u00edso. E apenas se estendera na alfombra cheirosa, com a hirsuta<br \/>\nface pousada sobre as palmas unidas, os joelhos colhidos contra o ventre distendido<br \/>\ncomo um tambor, mergulhou num sono como ele nunca dormira &#8211; todo povoado de<br \/>\nsombras moventes, que eram aves construindo uma casa, patas de insectos tecendo<br \/>\numa teia, dois bichos vogando nas \u00e1guas rolantes.<\/p>\n<p>Ora conta a Lenda que ent\u00e3o, em torno do Primeiro Homem adormecido,<br \/>\ncome\u00e7aram a surdir, por entre o mato baixo, focinhos fariscantes, finas<br \/>\norelhas espetadas, olhinhos reluzindo como bot\u00f5es de azeviche e espinha\u00e7os<br \/>\ninquietos que a emo\u00e7\u00e3o arqueava &#8211; enquanto que, dos cimos dos<br \/>\ncarvalhos e faias, num abafado fr\u00e9mito de asas, se debru\u00e7avam<br \/>\nbicos recurvos, bicos retesos, bicos bravios, bicos pensativos, todos alvejando<br \/>\nna claridade delgada da lua, que subia por tr\u00e1s dos montes e banhava<br \/>\nas frondes altas. Depois, \u00e0 orla da clareira, uma hiena apareceu, coxeando,<br \/>\nmiando com l\u00e1stima. Atrav\u00e9s da campina trotaram dois lobos,<br \/>\nesgalgados, fam\u00e9licos, com os verdes olhos acesos. Os le\u00f5es<br \/>\nn\u00e3o tardaram, com as reais faces erguidas, soberanamente enrugadas,<br \/>\nnuma profus\u00e3o de jubas flamantes. Em confusa manada, que chegava bufando,<br \/>\nos cornos dos auroques entrechocavam com impaci\u00eancia os galhos palmares<br \/>\ndas renas. Todos os p\u00ealos se arrepiaram quando o tigre e a pantera negra,<br \/>\nondulando calada e aveludadamente, resvalaram, com as l\u00ednguas pendentes<br \/>\ne vermelhas como coalhos de sangue. Dos vales, das serranias, das fragas,<br \/>\noutros acudiam, numa pressa t\u00e3o ansiosa, que os horrendos cavalos primitivos<br \/>\nse empinavam por sobre os cangurus, e a tromba do hipop\u00f3tamo, a escorrer<br \/>\nde limos, empurrava as ancas lentas do dromed\u00e1rio. Entre as patas e<br \/>\nos cascos apinhados coleavam em alian\u00e7a o fur\u00e3o, a sardanisca,<br \/>\na doninha, a cobra fulgente que engole a doninha, e o alegre mangu\u00e7o<br \/>\nque assassina a cobra. Um bando de gazelas trope\u00e7ava, magoando as pernas<br \/>\nfinas contra a crosta dos crocodilos, que subiam em fila da borda das lagoas,<br \/>\nde goelas preparadas e a gemer. J\u00e1 toda a plan\u00edcie arfava, sob<br \/>\na Lua, no mole remexer dos dorsos apertados, de onde se erguia, ora o pesco\u00e7o<br \/>\nda girafa, ora o corpo da jib\u00f3ia, como mastros naufragados, balan\u00e7ados<br \/>\nentre vagas. E por fim, abalando o solo, enchendo o c\u00e9u, com a tromba<br \/>\nenrolada entre os dentes recurvos, assomou o rugoso mastodonte.<\/p>\n<p>Era toda a Animalidade do Para\u00edso que, sabendo o Primeiro Homem adormecido,<br \/>\nsem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperan\u00e7a de o destruir<br \/>\ne eliminar da terra a For\u00e7a Inteligente, destinada a submeter a For\u00e7a<br \/>\nBruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se atropelava \u00e0 borda<br \/>\nda clareira onde Ad\u00e3o dormia sobre a hortel\u00e3 e a malva, nenhuma<br \/>\nfera avan\u00e7ava. Os longos dentes reluziam, feramente arreganhados; todos<br \/>\nos cornos repontavam; cada guarra sa\u00edda dilacerava com \u00e2nsia<br \/>\na terra mole; e os bicos, de cima das ramas, ter\u00e7avam os fios da Lua<br \/>\ncom bicadas famintas&#8230; Mas nem ave descia, nem fera avan\u00e7ava &#8211; porque<br \/>\nao lado de Ad\u00e3o velava uma Figura s\u00e9ria e branca, de asas brancas<br \/>\nfechadas, os cabelos presos num aro de estrelas, o peito guardado numa coura\u00e7a<br \/>\nde diamante e as duas refulgentes m\u00e3os apoiadas ao punho duma espada<br \/>\nque era de lume &#8211; e vivia.<\/p>\n<p>A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando \u00e0 terra alegre,<br \/>\n\u00e0 terra braviamente alegre, \u00e0 terra ainda sem andrajos, \u00e0<br \/>\nterra ainda sem sepulturas, uma alegria superior, mais graves, religiosa e<br \/>\nnupcial. Ad\u00e3o acordou: e, batendo as fuscas p\u00e1lpebras, na surpresa<br \/>\ndo seu acordar humano, sentiu sobre a ilharga um peso macio e que era doce.<br \/>\nNesse terror que, desde as \u00e1rvores, n\u00e3o desamparava o seu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\npulou e com t\u00e3o ruidoso pulo que, pela selva, os melros, os rouxin\u00f3is,<br \/>\nas toutinegras, todos os passarinhos de festa e de amor, despertaram e romperam<br \/>\nnum canto de congratula\u00e7\u00f5es e de esperan\u00e7as. &#8211; E, oh<br \/>\nmaravilha! diante de Ad\u00e3o, e como despegado dele, estava outro Ser<br \/>\na ele semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum p\u00ealo mais<br \/>\nsedoso, que o contemplava com largos olhos lustrosos e l\u00edquidos. Uma<br \/>\ncoma ruiva, dum ruivo tostado, rolava, em espessas ondas, at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nsuas ancas arredondadas numa plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os bra\u00e7os<br \/>\npeludinhos, que cruzara, surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da cor<br \/>\ndo medronho, com uma penugem crespa orlando o bico, que se enristava, intumescido.<br \/>\nE ro\u00e7ando, num ro\u00e7ar lento, num ro\u00e7ar muito doce, os<br \/>\njoelhos pelados, todo aquele sedoso e tenro Ser se ofertava com uma submiss\u00e3o<br \/>\npasmada e lasciva. Era Eva&#8230; Eras tu, M\u00e3e Vener\u00e1vel!<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>ENT\u00c3O come\u00e7aram, para nossos Pais, os dias abomin\u00e1veis<br \/>\ndo Para\u00edso.<\/p>\n<p>O seu constante e desesperado esfor\u00e7o foi sobreviver &#8211; no meio duma<br \/>\nNatureza que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE Ad\u00e3o e Eva passaram esses tempos, que os poemas sem\u00edticos<br \/>\ncelebram como Inef\u00e1veis &#8211; sempre a tremer, sempre a ganir, sempre a<br \/>\nfugir! A terra ainda n\u00e3o era uma obra perfeita: e a Divina Energia,<br \/>\nque a andava compondo, incessantemente a emendava, numa t\u00e3o m\u00f3bil<br \/>\ninspira\u00e7\u00e3o que, em s\u00edtio coberto ao alvorecer por uma<br \/>\nfloresta, \u00e0 noite se espelhava uma lagoa onde a Lua, j\u00e1 doente,<br \/>\nvinha estudar a sua palidez. Quantas vezes nossos Pais, repousando no pendor<br \/>\nde um outeiro inocente, entre o serpol e o rosmaninho (Ad\u00e3o com a face<br \/>\ndeitada sobre a coxa de Eva, Eva com os dedos \u00e1geis catando o p\u00ealo<br \/>\nde Ad\u00e3o), foram sacudidos pela encosta amena como por um dorso irritado<br \/>\ne rolaram, embrulhados, entre o ribombo, e a labareda, e a fumarada, e a cinza<br \/>\nquente do vulc\u00e3o que Jeov\u00e1 improvisara! Quantas noites escaparam,<br \/>\nuivando, de alguma abrigada caverna, quando j\u00e1 sobre ela corria um<br \/>\ngrande mar inchado que bramava, se desenrolava, ficava fervendo entre as rochas,<br \/>\ncom negras focas mortas a boiar. Ou ent\u00e3o era o ch\u00e3o, o ch\u00e3o<br \/>\nseguro, j\u00e1 social e fertilizado para as searas soci\u00e1veis, que<br \/>\nde repente rugia como uma fera, escancarava uma insond\u00e1vel goela e<br \/>\ntragava rebanhos, prados, nascentes, ben\u00e9ficos cedros com todas as<br \/>\nrolas que na sua rama arrulhavam.<\/p>\n<p>Depois eram as chuvas, as longas chuvas Ed\u00e9nicas, desabando em jorros<br \/>\nclamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites, t\u00e3o<br \/>\ndesabaladamente que do Para\u00edso, vasto charco barrento, apenas apareciam<br \/>\nas pontas do arvoredo afogado e os cimos dos montes atulhados de bichos transidos<br \/>\nque bramiam no terror das \u00e1guas soltas. E nossos Pais, refugiados nalguma<br \/>\nerguida fraga, gemiam lament\u00e0velmente, com regatos a escorrer dos ombros,<br \/>\ncom ribeiras a escorrer dos p\u00e9s, como se o barro novo de que Jeov\u00e1<br \/>\nos fizera se andasse j\u00e1 desfazendo.<\/p>\n<p>E mais terr\u00edficas eram as estiagens. Oh! o incompar\u00e1vel tormento<br \/>\ndas secas no Para\u00edso! Lentos dias tristes, ap\u00f3s lentos dias<br \/>\ntristes, a imensa brasa do Sol candente coriscava furiosamente num c\u00e9u<br \/>\ncor de cobre, em que o ar ba\u00e7o e grosso crepitava e arfava. Os montes<br \/>\nestalavam gretados: e as plan\u00edcies desapareciam sob uma denegrida camada<br \/>\nde fios retorcidos, enovelados, rijos como arames, que eram os restos das<br \/>\nverdes pastagens. Toda a tisnada folhagem rolava nos ventos abrasados, com<br \/>\nrugidora restolhada. O leito dos rios chupados tinha a rigidez de ferro fundido.<br \/>\nO musgo escorregava das rochas, como uma pele seca que se despeja, descobrindo<br \/>\nlargos ossos. Cada noite um bosque ardia, fogueira estralejante, de lenha<br \/>\nressequida, escaldando mais a ab\u00f3bada do forno inclementet. Todo o<br \/>\n\u00c9den andava coberto das revoadas de abutres e corvos, porque, com tanto<br \/>\nanimal morto de fome e de sede, abundava a carne podre. No rio, a \u00e1gua<br \/>\nque restava mal corria, empo\u00e7ada pela massa fervilhante de cobras,<br \/>\nr\u00e3s, lontras, tartarugas, refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso<br \/>\ne todo morno. E nossos Pais vener\u00e1veis, com as magras costelas a arquejar<br \/>\ncontra o p\u00ealo crestado, a l\u00edngua pendida e mais dura que corti\u00e7a,<br \/>\nerravam de fonte em fonte, a sorver desesperadamente alguma gota que ainda<br \/>\nbrotasse, gota rara, que assobiava, ao cair, sobre as lajes esbraseadas&#8230;<\/p>\n<p>E assim Ad\u00e3o e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da \u00c1gua, fugindo<br \/>\nda Terra, fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim das Del\u00edcias.<\/p>\n<p>E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necess\u00e1rio<br \/>\ncomer! Ah, Comer &#8211; que portentosa empresa para nossos Pais vener\u00e1veis!<br \/>\nSobretudo desde que Ad\u00e3o (e depois Eva, por Ad\u00e3o iniciada),<br \/>\ntendo j\u00e1 provado os deleites fatais da carne, j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nencontrava sabor, nem fartura, nem dec\u00eancia nos frutos, nas ra\u00edzes<br \/>\ne nos bagos do tempo da sua Animalidade. Certamente, as boas carnes n\u00e3o<br \/>\nfaltavam no Para\u00edso. Delicioso seria o salm\u00e3o primitivo &#8211; mas<br \/>\nnadava alegremente nas \u00e1guas r\u00e1pidas. Saborosa seria a galinhola,<br \/>\nou o fais\u00e3o rutilante, nutridos com os gr\u00e3os que o Criador considerara<br \/>\nbons &#8211; mas voavam nos c\u00e9us, em triunfal seguran\u00e7a. O coelho,<br \/>\na lebre &#8211; que fugas ligeiras no mato cheiroso!&#8230; E nosso Pai, nesses dias<br \/>\nc\u00e2ndidos, n\u00e3o possu\u00eda o anzol nem a seta. Por isso, sem<br \/>\ncessar rondava em torno das lagoas, nas ribas do mar, onde casualmente encalhava,<br \/>\nboiando, algum cet\u00e1ceo morto. Mas esses achados de abund\u00e2ncia<br \/>\neram raros &#8211; e o triste casal humano, nas suas marchas famintas pela borda<br \/>\ndas \u00e1guas, s\u00f3 conquistava, aqui e al\u00e9m, na rocha ou na<br \/>\nareia revolta, algum feio caranguejo em cuja dura casca os seus bei\u00e7os<br \/>\nse esga\u00e7avam. Essas solid\u00f5es marinhas andavam tamb\u00e9m<br \/>\ninfestadas por bandos de feras esperando, como Ad\u00e3o, que a vaga rolasse<br \/>\nos peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes nossos Pais, j\u00e1<br \/>\ncom a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam desconsoladamente,<br \/>\nsentindo o passo fofo do horrendo espeleu, ou o bafo dos ursos brancos, bamboleando<br \/>\npelo branco areal, sob a branca indiferen\u00e7a da Lua!<\/p>\n<p>Decerto, a sua ci\u00eancia heredit\u00e1ria de trepar \u00e0s arvores<br \/>\nsocorria nossos Pais nessa conquista da presa. Que, sob as ramarias da caneleira<br \/>\nde onde eles, assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito desgarrado,<br \/>\nou uma tartaruga mo\u00e7a e bisonha se arrastasse para a erva mi\u00fada<br \/>\n&#8211; e eis o repasto seguro! Num relance, o cabrito ficava atassalhado, todo<br \/>\no seu sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa M\u00e3e forte, guinchando<br \/>\nsombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a casca, as patas da tartaruga&#8230;<br \/>\nMas quantas noites, depois de jejuns angustiosos, se achavam os Eleitos da<br \/>\nTerra for\u00e7ados a afugentar a hiena, com rijos brados, atrav\u00e9s<br \/>\ndas clareiras, para lhe roubar um osso f\u00e8tidamente babujado, que era<br \/>\nj\u00e1 o sobejo de um le\u00e3o morto! E dias piores sucediam, em que<br \/>\na fome reduzia nossos Pais a retrogradar \u00e0 desgostosa frugalidade do<br \/>\ntempo da \u00c1rvore, \u00e0s ervas, aos rebentos, \u00e0s ra\u00edzes<br \/>\namargas &#8211; conhecendo assim, entre a abund\u00e2ncia do Para\u00edso, a<br \/>\nprimeira forma de Mis\u00e9ria!<\/p>\n<p>E, atrav\u00e9s desses trabalhos, n\u00e3o os desamparava o terror das<br \/>\nferas! Porque, se Ad\u00e3o e Eva comiam os bichos fracos e f\u00e1ceis,<br \/>\neram tamb\u00e9m uma presa apetecida por todos os brutos superiores. Comer<br \/>\nEva, t\u00e3o redonda e carnuda, foi decerto o sonho de muito tigre nos<br \/>\njuncais do Para\u00edso. Quanto urso, mesmo ocupado a roubar favos de mel<br \/>\nnum escavado tronco de roble, n\u00e3o se deteve, e se balan\u00e7ou,<br \/>\ne lambeu o focinho numa gula mais fina, ao avistar, atrav\u00e9s da ramaria,<br \/>\nnum rebrilho errante de Sol, o sombrio corpanz\u00e3o de nosso Pai vener\u00e1vel!<br \/>\nE nem s\u00f3 o perigo vinha das hordas esfaimadas dos carn\u00edvoros,<br \/>\nmas ainda dos lentos e fartos herb\u00edvoros, o auroque, o urus, o cervo<br \/>\nelefas, que alegremente escorneariam e espezinhariam nossos Pais, por estupidez,<br \/>\ndessemelhan\u00e7a de ra\u00e7a e cheiro, emprego da vida ociosa. E acresciam<br \/>\nainda os que matavam para n\u00e3o serem mortos &#8211; porque Medo, Fome e Furor<br \/>\nforam as leis da vida no Para\u00edso.<\/p>\n<p>Certamente nossos Pais eram tamb\u00e9m ferozes, de tremenda for\u00e7a<br \/>\ne perfeitos na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o leopardo<br \/>\npulava de ramo em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina e segura!<br \/>\nA jib\u00f3ia furava com a cabe\u00e7a at\u00e9 aos galhos extremos<br \/>\ndo mais levantado cedro para colher os macacos &#8211; e bem poderia abocar Ad\u00e3o,<br \/>\ncom aquela obtusa incapacidade que sempre as jib\u00f3ias tiveram de distinguir,<br \/>\nsob a similitude das formas, a diversidade dos m\u00e9ritos. E que valiam<br \/>\nas garras de Ad\u00e3o, mesmo aliadas \u00e0s garras de Eva, contra esses<br \/>\npavorosos le\u00f5es do Jardim de Del\u00edcias que a Zoologia, ainda<br \/>\nhoje arrepiada, chama o Leo Anticus? Ou contra a hiena-espel\u00e9ia t\u00e3o<br \/>\nousada, que, nos primeiros dias do G\u00eanesis, os Anjos, quando desciam<br \/>\nao Para\u00edso, caminhavam sempre com as asas arrega\u00e7adas, para<br \/>\nque ela, saltando de entre os bambus, lhes n\u00e3o arrancasse as penas<br \/>\nrefulgentes? Ou contra os c\u00e3es, os horrendos c\u00e3es do Para\u00edso,<br \/>\nque, atacando em cerradas e ululantes hostes, foram, nesses come\u00e7os<br \/>\ndo Homem, os piores inimigos do Homem!<\/p>\n<p>E entre toda essa bicharia adversa, Ad\u00e3o n\u00e3o contava um aliado.<br \/>\nOs seus pr\u00f3prios parentes, os Antrop\u00f3ides, invejosos e farsantes,<br \/>\no apedrejavam com enormes cocos. S\u00f3 um animal, e formid\u00e1vel,<br \/>\nconservava pelo Homem uma majestosa e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte.<br \/>\nMas a enevoada Intelig\u00eancia de nosso Pai ainda, nesses dias ed\u00eanicos,<br \/>\nn\u00e3o compreendia a bondade, a justi\u00e7a, o servi\u00e7al cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo paquiderme admir\u00e1vel. Por isso, certo da sua fraqueza e do seu isolamento,<br \/>\nele viveu, durante esses tr\u00e1gicos anos, num ansiado terror. T\u00e3o<br \/>\nansiado e longo, que o seu arrepio, como uma longa ondula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nse perpetuou por toda a sua descend\u00eancia &#8211; e \u00e9 o velho medo de<br \/>\nAd\u00e3o que nos torna inquietos quando atravessamos a mata mais segura<br \/>\nna solid\u00e3o crepuscular.<\/p>\n<p>E depois consideremos que ainda restavam pelo Para\u00edso, entre bichos<br \/>\nde formas racionais, polidas, j\u00e1 preparadas para a prosa nobre de Mr.<br \/>\nDe Buffon, alguns dos grotescos monstros que desonraram a Cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nantes da madrugada purificadora de 25 de outubro. Decerto Jeov\u00e1 poupou<br \/>\na Ad\u00e3o o degradante horror de viver no Para\u00edso em companhia<br \/>\ndessa escandalosa avantesma a que os paleongologistas, assombrados, deram<br \/>\no nome de Iguanod\u00e3o! Na v\u00e9spera do advento do Homem, Jeov\u00e1,<br \/>\nmuito caridosamente, afogou todos os Iguanod\u00f5es nos lodos de um p\u00e2ntano,<br \/>\na um canto escondido do Para\u00edso, onde hoje se estende a Flandres. Mas<br \/>\nAd\u00e3o e Eva ainda conheceram os Pterod\u00e1ctilos. Oh! esses Pterod\u00e1ctilos!&#8230;<br \/>\nCorpos de Jacar\u00e9, escamosos e penugentos; duas l\u00fagubres, negras,<br \/>\ncarnudas asas de morcego: um bico disparatado, mais grosso que o corpo, tristonhamente<br \/>\nca\u00eddo, eri\u00e7ado de centenas de dentes, finos como os duma serra.<br \/>\nE n\u00e3o voava! Descia, de asas moles e mudas, e nelas abafava a presa<br \/>\ncomo num pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados golpes<br \/>\ndas mand\u00edbulas f\u00e9tidas. E esse funambulesco avej\u00e3o enturvava<br \/>\no c\u00e9u do Para\u00edso com a mesma abund\u00e2ncia com que os melros<br \/>\nou as andorinhas cruzam os santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais<br \/>\nvener\u00e1veis foram por eles torturados &#8211; e nunca o seu pobre cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ntremia tanto como quando, de al\u00e9m dos montes, se vinha despenhando,<br \/>\ncom sinistro estridor de asas e bicos, a revoada dos Pterod\u00e1ctilos.<\/p>\n<p>Como sobreviveram nossos Pais, nesse Jardim de Del\u00edcias? Decerto muito<br \/>\nfaiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava!<\/p>\n<p>Pois bem, meus amigos! A todos esses furiosos seres deve o homem a sua carreira<br \/>\ntriunfal. Sem os S\u00e1urios, e os Pterod\u00e1ctilos, e a Hiena Espel\u00e9ia,<br \/>\ne o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o seu<br \/>\nataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional &#8211; a Terra permaneceria<br \/>\num temeroso Para\u00edso, onde errar\u00edamos todos, desgrenhados e nus,<br \/>\nchupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros naufragados. Ao<br \/>\nencolhido medo de Ad\u00e3o se deve a supremacia da sua descend\u00eancia.<br \/>\nFoi o bicho perseguidor que o for\u00e7ou a subir aos cimos da Humanidade.<br \/>\nE bem sabedores das Origens se mostraram os poetas mesopot\u00e2micos do<br \/>\nG\u00eanesis, nesses vers\u00edculos sutis em que um animal, e o mais perigoso,<br \/>\na Serpente, leva Ad\u00e3o, por amor de Eva, a colher o fruto do Saber!<br \/>\nSe n\u00e3o rugisse outrora o Le\u00e3o das cavernas, n\u00e3o trabalhava<br \/>\nhoje o Homem das cidades &#8211; pois que a Civiliza\u00e7\u00e3o nasceu do<br \/>\ndesesperado esfor\u00e7o defensivo contra o Inanimado e o Inconsciente.<br \/>\nA Sociedade \u00e9 realmente a obra da fera. Que a Hiena e o Tigre, no Para\u00edso,<br \/>\ncome\u00e7assem por acariciar l\u00e2nguidamente o ombro peludo de Ad\u00e3o<br \/>\ncom pata amiga &#8211; Ad\u00e3o ficaria irm\u00e3o do Tigre e da Hiena, partilhando<br \/>\nas suas tocas, as suas presas, os seus \u00f3cios, os seus gostos bravios.<br \/>\nE a Energia Inteligente que o descera da \u00c1rvore em breve se apagaria<br \/>\ndentro da sua bruteza inerte, como se apaga a fa\u00edsca, mesmo entre galhos<br \/>\nsecos, se um frio sopro, vindo de um buraco escuro, n\u00e3o a estimula<br \/>\na viver, para vencer a friagem e vencer a escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas uma tarde (como ensinaria o exato Usserius), saindo Ad\u00e3o e Eva<br \/>\nda espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante<br \/>\ndeles, ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta&#8230; Ent\u00e3o,<br \/>\nassim colhido, sem ref\u00fagio, na apertada \u00e2nsia de defender a sua<br \/>\nf\u00eamea, o Pai dos Homens arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a<br \/>\nque se arrimava, um forte galho de teca, arrancado na mata, que findava em<br \/>\nlasca aguda&#8230; E o pau atravessou o cora\u00e7\u00e3o da fera.<\/p>\n<p>Ah! Desde essa tarde bendita houve verdadeiramente, sobre a terra, um Homem.<\/p>\n<p>Era j\u00e1 um Homem, e superior, quando lan\u00e7ou um passo espantado<br \/>\ne arrancou o pau do seio do monstro estendido e lhe mirou a ponta gotejante<br \/>\nde sangue &#8211; com a testa toda franzida, no af\u00e3 de compreender. Os seus<br \/>\nolhos resplandeceram, num deslumbrado triunfo. Ad\u00e3o compreendera&#8230;<\/p>\n<p>Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta, e toda a tarde,<br \/>\nenquanto a luz se arrastou pelas frondes, arrancou ramos aos troncos, cautelosamente,<br \/>\ndestramente, para que as pontas quebrassem bem lascadas e agudas. Ah! que<br \/>\nsoberbo estalar de hastes, pelo fundo bosque, atrav\u00e9s da frescura e<br \/>\nda sombra, para a obra da primeira Reden\u00e7\u00e3o! Selva am\u00e1vel,<br \/>\nque foste a primeira oficina, quem soubera onde jazes, na tua secular sepultura,<br \/>\ntornada negro carv\u00e3o!&#8230; Quando da mata largaram, fumegando de suor,<br \/>\npara recolher \u00e0 toca distante, nossos Pais vener\u00e1veis vergavam<br \/>\nsob o peso glorioso de dois grossos molhos de armas.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o n\u00e3o cessam mais os feitos do Homem. Ainda os corvos<br \/>\ne os chacais n\u00e3o tinham esburgado a carca\u00e7a do Pai dos Ursos<br \/>\n&#8211; j\u00e1 nosso Pai racha uma ponta do seu cajado vitorioso; entala na fenda<br \/>\num desses seixos afiados e bicudos, em que por vezes se feriam as suas patas,<br \/>\ndescendo \u00e0 beira dos rios; e segura o fino estilha\u00e7o na racha<br \/>\ncom os lios, muito arrochados, de uma fibra de enredi\u00e7a seca. E eis<br \/>\na lan\u00e7a! Como essas pedras n\u00e3o abundam, Ad\u00e3o e Eva ensanguentam<br \/>\nas garras, tentando fender os pedreg\u00f5es redondos de s\u00edlex em<br \/>\nlascas curtas, que venham perfeitas, com ponta e com gume, para rasgar, cravar.<br \/>\nA pedra resiste, pouco desejosa de ajudar o Homem que, nos dias genes\u00edacos<br \/>\ndo grande Outubro, ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Cr\u00f4nicas<br \/>\nde Backum). &#8211; Mas de novo lampeja a face de Ad\u00e3o, numa id\u00e9ia<br \/>\nque o sulca, como fa\u00edsca emanada da Eterna Sabedoria. Apanha um pedregulho,<br \/>\nbate a rocha, arranca a lasca&#8230; E eis o martelo!<\/p>\n<p>Depois, noutra tarde bendita, costeando uma escura e bravia colina, descobre,<br \/>\ncom aqueles seus olhos que j\u00e1 rebuscam e comparam, um calhau negro,<br \/>\n\u00e1spero, facetado, sombriamente luzidio. Pasma do seu peso &#8211; e logo<br \/>\npressente nele um ma\u00e7o superior, de decisiva rijeza. Com que alvoro\u00e7o<br \/>\no leva, agarrado contra o peito, para martelar o s\u00edlex rebelde! Ao<br \/>\nlado de Eva, que o espera \u00e0 beira do rio, logo malha rijamente sobre<br \/>\na pederneira&#8230; E oh espanto! uma fagulha salta, refulge, morre! Ambos recuam,<br \/>\nse entreolham, num terror quase sagrado! \u00c9 um lume, um vivo lume, que<br \/>\nele assim arrancou com as suas m\u00e3os da rocha bruta &#8211; semelhante ao<br \/>\nlume vivo que dardeja de entre as nuvens. De novo bate, a tremer. A centelha<br \/>\nbrilha, a centelha passa, e Ad\u00e3o remira e fareja o escuro calhau. Mas<br \/>\nn\u00e3o compreende. E pensativos, nossos Pais vener\u00e1veis sobem,<br \/>\ncom os cabelos ao vento, para a sua caverna costumada, que \u00e9 no pendor<br \/>\ndum cerro, junto duma fonte borbulhando entre fetos.<\/p>\n<p>E a\u00ed, no seu retiro, Ad\u00e3o, com uma curiosidade onde lateja<br \/>\numa esperan\u00e7a, novamente entala o s\u00edlex, grosso como uma ab\u00f3bora,<br \/>\nentre os calosos p\u00e9s, e recome\u00e7a a martelar, sob o bafo de Eva,<br \/>\nque se debru\u00e7a e arfa. Sempre a fa\u00falha salta, rebrilha na sombra,<br \/>\nt\u00e3o refulgente como aqueles lumes que, agora, palpitam, olham, de al\u00e9m,<br \/>\ndas alturas. Mas esses lumes permanecem, atrav\u00e9s da negrura do c\u00e9u<br \/>\ne da noite, vivos, a espreitar, na sua radi\u00e2ncia. E aquelas estrelinhas<br \/>\nda pedra ainda n\u00e3o t\u00eam vivido e j\u00e1 t\u00eam morrido&#8230;<br \/>\nSer\u00e1 o vento que as leva, ele que tudo leva, vozes, nuvens e folhas?<br \/>\nNosso Pai vener\u00e1vel, fugindo do vento mal\u00e9volo que ronda no<br \/>\nmonte, recua at\u00e9 ao fundo mais abrigado da caverna, onde se afofam<br \/>\nas camadas de feno muito seco, que s\u00e3o o seu leito. E de novo fere<br \/>\na pedra, despedindo centelha ap\u00f3s centelha, enquanto Eva, agachada,<br \/>\nabriga com as m\u00e3os aqueles refulgentes e fugitivos seres. E eis que<br \/>\ndos fenos um fumozinho se eleva, e se engrossa, e se enrola, e atrav\u00e9s<br \/>\ndele, vermelha, uma chama ressalta&#8230; \u00c9 o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente<br \/>\nda caverna, obscurecida por uma fumara\u00e7a cheirosa, onde flamejam alegres,<br \/>\nrutilantes l\u00ednguas, que lambem a rocha. Acocorados \u00e0 porta da<br \/>\ntoca, ambos arquejam, no pasmo e terror da sua obra, com os olhos a chorar<br \/>\ndo fumo acre. E, mesmo atrav\u00e9s do susto e do espanto, sentem uma do\u00e7ura<br \/>\nmuito nova que os penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor&#8230; Mas<br \/>\nj\u00e1 o fumo se escapou da caverna, o vento roubador o levou. As chamas<br \/>\nrastejam, incertas e azuladas: em breve s\u00f3 resta um borralho que descora,<br \/>\nse acinzenta, se abate em cisco: e a derradeira fa\u00falha corre, tremeluz,<br \/>\npassa. O fogo morreu! Ent\u00e3o, na alma nascente de Ad\u00e3o, entra<br \/>\na dor duma ru\u00edna. Desesperadamente puxa os grossos bei\u00e7os e<br \/>\ngeme. Saber\u00e1 ele jamais recome\u00e7ar o feito maravilhoso?&#8230; E<br \/>\n\u00e9 nossa M\u00e3e, j\u00e1 consoladora, que o consola. Com as suas<br \/>\nrudes m\u00e3os comovidas, porque realiza sobre a terra a sua primeira obra,<br \/>\njunta outro mont\u00e3o de fenos secos, pousa entre eles o s\u00edlex<br \/>\nredondo, toma o escuro calhau, bate rijamente, num faulhar de estrelinhas.<br \/>\nE de novo o fumo rola, e de novo a chama refulge. Oh triunfo! eis a fogueira,<br \/>\na fogueira inicial do Para\u00edso, e n\u00e3o casualmente rebentada,<br \/>\nmas acendida por uma clara Vontade que, agora, para todo sempre, cada noite<br \/>\ne cada manh\u00e3, poder\u00e1 repetir com seguran\u00e7a a fa\u00e7anha<br \/>\nsuprema.<\/p>\n<p>\u00c0 nossa M\u00e3e Vener\u00e1vel pertence ent\u00e3o, na caverna,<br \/>\na doce e augusta tarefa do Lume. Ela o cria, ela o nutre, ela o defende, ela<br \/>\no perpetua. E, como m\u00e3e deslumbrada, descobre cada dia, nesse resplandecente<br \/>\nfilho dos seus cuidados, uma virtude ou gra\u00e7a nova. Agora j\u00e1<br \/>\nAd\u00e3o sabe que o seu fogo espanta todas as feras e que no Para\u00edso<br \/>\nexiste enfim um buraco seguro, que \u00e9 o seu buraco! N\u00e3o s\u00f3<br \/>\nseguro, mas am\u00e1vel &#8211; porque o lume o alumia, o aquece, o alegra, o<br \/>\npurifica. E quando Ad\u00e3o, com um molho de lan\u00e7as, desce \u00e0<br \/>\nplan\u00edcie ou se embrenha na selva a ca\u00e7ar a presa, j\u00e1<br \/>\nmata com redobrada \u00e2nsia, para recolher depressa \u00e0quela boa seguran\u00e7a<br \/>\ne consola\u00e7\u00e3o do lume. Ah! que docemente ele o penetra, e lhe<br \/>\nseca no p\u00ealo a friagem dos matos, e doura como um sol a penedia da sua<br \/>\ntoca! E depois ainda lhe prende os olhos, e os enleva, e o guia num cismar<br \/>\nfecundo, em que inspiradamente lhe aparecem formas de flechas, malhos com<br \/>\ncabos, ossos recurvos que fisgam os peixes, lascas dentadas que correm o pau!&#8230;<br \/>\n\u00c0 sua f\u00eamea forte deve Ad\u00e3o esta hora criadora!<\/p>\n<p>E quanto lhe n\u00e3o deve a Humanidade! Recordemos, meus irm\u00e3os,<br \/>\nque nossa M\u00e3e, com aquela adivinha\u00e7\u00e3o superior que mais<br \/>\ntarde a tornou Profetisa e Sibila, n\u00e3o hesitou, quando a Serpente lhe<br \/>\ndisse, coleando entre as Rosas: &#8211; \u201cCome do fruto do Saber, que os teus<br \/>\nolhos se abrir\u00e3o e ser\u00e1s como os Deuses sabedores!\u201d Ad\u00e3o<br \/>\nteria comido a serpente, bocado mais suculento. Nem acreditaria em frutos<br \/>\nque comunicam a Divindade e Sapi\u00eancia, ele que tanta fruta comera nas<br \/>\n\u00e1rvores e se conservava insciente e bestial como o urso e o auroque.<br \/>\nEva, por\u00e9m, com a credulidade sublime que sempre no mundo opera as<br \/>\ntransforma\u00e7\u00f5es sublimes, comeu logo a ma\u00e7\u00e3, e<br \/>\na casca, e a pevide. E persuadindo Ad\u00e3o a que partilhasse do transcendente<br \/>\npomo, muito doce e enredosamente o convenceu do proveito, da felicidade, da<br \/>\ngl\u00f3ria e da for\u00e7a que d\u00e1 o Saber! Esta alegoria dos poetas<br \/>\ndo G\u00eanesis, com espl\u00eandida subtileza, nos revela a imensa obra<br \/>\nde Eva nos anos dolorosos do Para\u00edso. Por ela Deus continua a Cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuperior, a do Reino espiritual, a que desenrola sobre a terra o lar, a fam\u00edlia,<br \/>\na tribo, a cidade. \u00c9 Eva que cimenta e bate as grandes pedras angulares<br \/>\nna constru\u00e7\u00e3o da Humanidade.<\/p>\n<p>Sen\u00e3o, vede! Quando o bravio ca\u00e7ador recolhe \u00e0 caverna,<br \/>\nderreado sob o peso da ca\u00e7a morta, cheirando todo a relva, e a sangue,<br \/>\ne a fera, \u00e9 ele, decerto, que esfola a r\u00eas com a faca de pedra,<br \/>\ne retalha as postas, e esburga os ossos (que s\u00f4fregamente guarda sob<br \/>\na coxa e reserva para a sua ra\u00e7\u00e3o, porque cont\u00eam a moela<br \/>\npreciosa). Mas Eva junta essa pele, cuidadosamente, \u00e0s outras peles<br \/>\narmazenadas; esconde os ossos partidos, porque as suas lascas agudas pregam<br \/>\ne furam; e numa cavidade da rocha fresca guarda a carne que sobejou. Ora em<br \/>\nbreve uma dessas fartas postas esquece, ca\u00edda junto \u00e0 fogueira<br \/>\nperp\u00e9tua. O lume alastra, lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo,<br \/>\nat\u00e9 que um cheiro, desconhecido e saboroso, afaga e alarga as rudes<br \/>\nnarinas de nossa M\u00e3e vener\u00e1vel. De onde vem ele, o gostoso aroma?<br \/>\nDo fogo, onde a posta de veado ou de lebre grelha e rechina. Ent\u00e3o<br \/>\nEva, inspirada e grave, empurra a carne para a brasa viva; e espera, ajoelhada,<br \/>\nat\u00e9 que a espeta com uma ponta de osso, e a retira da chama ruidosa,<br \/>\ne a trinca, em sombrio sil\u00eancio. Os seus olhos rebrilhantes anunciam<br \/>\noutra conquista. E, com a pressa amorosa com que oferece a Ma\u00e7\u00e3<br \/>\na Ad\u00e3o, lhe apresenta agora aquela carne t\u00e3o nova, que ele cheira<br \/>\ndesconfiado, e depois devora a rijas dentadas, roncando de gozo! E eis que,<br \/>\npor esse peda\u00e7o de gamo assado, nossos Pais sobem vitoriosamente outro<br \/>\nescal\u00e3o da Humanidade!<\/p>\n<p>A \u00e1gua ainda a bebem na nascente vizinha, entre os fetos, com a face<br \/>\nmergulhada no veio claro. Depois de beber, Ad\u00e3o, arrimado \u00e0<br \/>\nsua grossa lan\u00e7a, olha ao longe o rolar do rio lento, os montes coroados<br \/>\nde neve ou de lume, o Sol sobre o mar &#8211; pensando, com arrastado pensar, se<br \/>\na presa ser\u00e1 mais certa e as selvas menos cerradas. Mas Eva recolhe<br \/>\nlogo \u00e0 caverna, para se entregar, sem descanso, a uma tarefa que a<br \/>\nencanta. Encruzada no ch\u00e3o, toda atenta sob a coma crespa, nossa M\u00e3e<br \/>\nfura, com um ossinho agudo, buracos finos na orla duma pele, e depois na orla<br \/>\nde outra pele. E, t\u00e3o embebida que nem sente Ad\u00e3o entrar e remexer<br \/>\nnas suas armas, une as duas peles sobrepostas, passando atrav\u00e9s dos<br \/>\nburacos uma delgada fibra das algas que secam diante do lume. Ad\u00e3o<br \/>\nconsidera com desd\u00e9m esse trabalho mi\u00fado que n\u00e3o acrescenta<br \/>\nfor\u00e7a \u00e0 sua for\u00e7a. N\u00e3o pressente ainda, o bruto<br \/>\nPai, que aquelas peles cosidas ser\u00e3o o resguardo do seu corpo, a arma\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua tenda, o saco do seu farnel, o odre da sua \u00e1gua, e o tambor<br \/>\nem que bata quando for um Guerreiro, e a p\u00e1gina em que escreva quando<br \/>\nfor um Profeta!<\/p>\n<p>Outros gostos e modos de Eva o irritam tamb\u00e9m: e por vezes, com uma<br \/>\ndesumanidade que \u00e9 j\u00e1 toda humana, nosso Pai arrebata pelos<br \/>\ncabelos a sua f\u00eamea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim<br \/>\num furor o tomou, uma tarde, avistando, no rega\u00e7o de Eva, sentada diante<br \/>\nda fogueira, um cachorrinho mole e tr\u00f4pego, que ela, com carinho e paci\u00eancia,<br \/>\nensinava a sugar numa febra de carne fresca. \u00c0 beira da fonte descobrira<br \/>\no cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o recolhera, o aquecera,<br \/>\no alimentara, com uma sensa\u00e7\u00e3o que lhe era doce, e lhe abria<br \/>\nna espessa boca, ainda mal sabedora de sorrir, um sorriso de maternidade.<br \/>\nNosso Pai vener\u00e1vel, com as pupilas a reluzir, atira a garra, quer<br \/>\ndevorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva defende o animal pequenino,<br \/>\nque treme e que a lambe. O primeiro sentimento de Caridade, informe como a<br \/>\nprimeira flor que brotou dos limos, aparece na terra! E, com as curtas e roucas<br \/>\nvozes que eram o falar dos nossos Pais, Eva tenta talvez afian\u00e7ar que<br \/>\nser\u00e1 \u00fatil, na caverna do homem, a amizade dum bicho&#8230; Ad\u00e3o<br \/>\npuxa o bei\u00e7o trombudo. Depois, em sil\u00eancio, mansamente, corre<br \/>\nos dedos pelo lombo macio do cachorrinho encolhido. E este \u00e9, na Hist\u00f3ria,<br \/>\num momento espantoso! Eis que o Homem domestica o Animal! Desse cachorro agasalhado<br \/>\nno Para\u00edso nascer\u00e1 o c\u00e3o amigo, por ele a alian\u00e7a<br \/>\ncom o cavalo, depois o dom\u00ednio sobre a ovelha. O rebanho crescer\u00e1;<br \/>\no pastor o levar\u00e1; o c\u00e3o fiel o guardar\u00e1. Eva, da beira<br \/>\ndo seu lume, prepara os povos errantes que pastoreiam os gados.<\/p>\n<p>Depois, naquelas longas manh\u00e3s em que Ad\u00e3o bravio ca\u00e7ava,<br \/>\nEva, errando de vale a monte, apanhava conchas, ovos de aves, curiosas ra\u00edzes,<br \/>\nsementes, com o gosto de acumular, de abastecer a sua toca de riquezas novas,<br \/>\nque escondia nas fendas da rocha. Ora um punhado dessas sementes ca\u00edra,<br \/>\natrav\u00e9s dos seus dedos, sobre a terra \u00famida e negra, quando<br \/>\nrecolhia pela beira da fonte. Uma ponta verde brotou; depois uma haste cresceu;<br \/>\ndepois uma espiga amadurou. Os seus gr\u00e3os s\u00e3o gostosos. Eva,<br \/>\npensativa, enterra outras sementes, na esperan\u00e7a de criar em torno<br \/>\ndo seu lar, num bocado do seu torr\u00e3o, altas ervas que espiguem, e lhe<br \/>\ntragam o gr\u00e3o adocidado e tenro&#8230; E eis a seara! E assim nossa M\u00e3e<br \/>\ntorna poss\u00edveis, do fundo do Para\u00edso, os povos est\u00e1veis<br \/>\nque lavram a terra.<\/p>\n<p>No entanto, bem podemos supor que Abel nasceu &#8211; e, uns ap\u00f3s outros,<br \/>\nos dias deslizam no Para\u00edso, mais seguros e f\u00e1ceis. J\u00e1<br \/>\nos vulc\u00f5es lentamente se v\u00e3o apagando. As rochas n\u00e3o<br \/>\nse despenham j\u00e1 com fragor sobre a abund\u00e2ncia inocente dos vales.<br \/>\nT\u00e3o amansadas andam as \u00e1guas, que na sua transpar\u00eancia<br \/>\nse miram, com demora e cuidado, as nuvens e os ramos dos olmos. Raramente<br \/>\num Pterod\u00e1ctilo macula, com o esc\u00e2ndalo do seu bico e das suas<br \/>\nasas, os c\u00e9us, onde o sol alterna com a bruma, e os estios se franjam<br \/>\nde chuvas ligeiras. E nessa tranq\u00fcilidade que se estabelece, h\u00e1<br \/>\ncomo uma submiss\u00e3o consciente. O Mundo pressente e aceita a supremacia<br \/>\ndo Homem. A floresta j\u00e1 n\u00e3o arde com a leviandade do restolho,<br \/>\nsabendo que em breve o Homem lhe pedir\u00e1 a estaca, a trave, o remo,<br \/>\no mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se disciplina, e ensaia<br \/>\nos sopros regulares com que trabalhar\u00e1 a m\u00f3 do moinho. O mar<br \/>\nafogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o cortar da quilha.<br \/>\nA terra torna est\u00e1vel a sua gleba, e molemente se umedece, para quando<br \/>\nchegar o arado e a semente. E todos os metais se alinham em fil\u00e3o,<br \/>\ne alegremente se disp\u00f5em para o fogo que lhes dar\u00e1 forma e beleza.<\/p>\n<p>E pela tarde Ad\u00e3o recolhe contente, com ca\u00e7a abundante. A lareira<br \/>\nflameja: e alumia a face de nosso Pai, que o esfor\u00e7o da Vida embelezou,<br \/>\nonde j\u00e1 os bei\u00e7os se adelga\u00e7am, e a testa se encheu com<br \/>\no lento pensar, e os olhos sossegaram num brilho mais certo. O anho, espetado<br \/>\nnum pau, assa e pinga nas brasas. No ch\u00e3o pousam cascas de coco, cheias<br \/>\nde clara \u00e1gua da fonte. Uma pele de urso tornou macio o leito de fetos.<br \/>\nOutra pele, pendurada, abriga a boca da caverna. A um canto, que \u00e9<br \/>\na oficina, est\u00e3o os mont\u00f5es de s\u00edlex e o malho; a outro<br \/>\ncanto, que \u00e9 o arsenal, est\u00e3o as lan\u00e7as e as clavas.<br \/>\nEva torce os fios duma l\u00e3 de cabra. Ao bom calor, sobre folhelho, dorme<br \/>\nAbel, muito gordo, todo nu, com um p\u00ealo mais ralo na carninha mais branca.<br \/>\nPartilhando do folhelho e do mesmo calor, vela o c\u00e3o, j\u00e1 crescido,<br \/>\ncom o olho amor\u00e1vel, o focinho entre as patas. E Ad\u00e3o (oh, a<br \/>\nestranha tarefa!), muito absorto, tenta gravar, com uma ponta de pedra, sobre<br \/>\num osso largo, os galhos, o dorso, as pernas estiradas de um veado a correr!&#8230;<br \/>\nA lenha estala. Todas as estrelas do c\u00e9u est\u00e3o presentes. Deus,<br \/>\npensativo, contempla o crescer da Humanidade.<\/p>\n<p>E agora que acendi, na noite estrelada do Para\u00edso, com galhos bem<br \/>\nsecos da \u00c1rvore da Ci\u00eancia, este ver\u00eddico lar, consenti<br \/>\nque vos deixe, oh Pais vener\u00e1veis!<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o receio que a Terra inst\u00e1vel vos esmague; ou que<br \/>\nas feras superiores vos devorem; ou que, apagada, \u00e0 maneira duma l\u00e2mpada<br \/>\nimperfeita, a Energia que vos trouxe da Floresta, v\u00f3s retrogradeis<br \/>\n\u00e0 vossa \u00c1rvore. Sois j\u00e1 irremediavelmente humanos &#8211; e<br \/>\ncada manh\u00e3 progredireis, com t\u00e3o poderoso arremesso para a perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Corpo e esplendor da Raz\u00e3o, que em breve, dentro dumas centenas<br \/>\nde milhares de curtos anos, Eva ser\u00e1 Helena e Ad\u00e3o ser\u00e1<br \/>\no imenso Arist\u00f3teles.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o sei se vos felicite, oh Pais vener\u00e1veis! Outros irm\u00e3os<br \/>\nvossos ficaram na espessura das arvores &#8211; e a sua vida \u00e9 doce. Todas<br \/>\nas manh\u00e3s o Orangotango acorda entre os seus len\u00e7\u00f3is<br \/>\nde folhas de pendenia, sobre o fofo colch\u00e3o de musgos que ele, com<br \/>\ncuidado, acamou por cima dum catre de ramos cheirosos. L\u00e2nguidamente,<br \/>\nsem cuidados, pregui\u00e7a na moleza dos musgos, escutando as l\u00edmpidas<br \/>\n\u00e1rias dos p\u00e1ssaros, gozando os fios do sol que se emaranham<br \/>\npor entre a renda das folhas e lambendo no p\u00ealo dos seus bra\u00e7os<br \/>\no orvalho a\u00e7ucarado. Depois de bem se co\u00e7ar e bem se esfregar,<br \/>\nsobe com pachorra \u00e0 arvore dileta, que elegeu em todo o bosque pela<br \/>\nsua frescura, pela elasticidade embaladora das suas ramagens. Da\u00ed,<br \/>\ntendo respirado as brisas carregadas de aromas, salta, com lestos pulos, atrav\u00e9s<br \/>\ndas sempre f\u00e1ceis, sempre fartas ucharias do bosque, onde almo\u00e7a<br \/>\na banana, a manga, a goiaba, todos os finos frutos que o tornam t\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o e alheio a males como as \u00e1rvores onde os colheu. Percorre<br \/>\nent\u00e3o, soci\u00e0velmente, as ruas e as vielas palreiras da espessura;<br \/>\ncabriola com destros amigos, em jogos am\u00e1veis de ligeireza e for\u00e7a;<br \/>\ngalanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com ele, duma liana<br \/>\nflorida, balan\u00e7am chalrando; trota, entre alegres ranchos, pela borda<br \/>\ndas \u00e1guas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum velho<br \/>\ne facundo chimpanz\u00e9 contando divertidas hist\u00f3rias de ca\u00e7a,<br \/>\nde viagens, de amores e de tro\u00e7as \u00e0s feras pesadas, que circulam<br \/>\nnas relvas e n\u00e3o podem trepar. Cedo recolhe \u00e0 sua \u00e1rvore<br \/>\ne, estendido na folhosa rede, brandamente se abandona \u00e0 del\u00edcia<br \/>\nde sonhar, num sonho acordado, semelhante \u00e0s nossas Metaf\u00edsicas<br \/>\ne \u00e0s nossas Epopeias, mas que, rolando todo sobre sensa\u00e7\u00f5es<br \/>\nreais, \u00e9, ao contr\u00e1rio dos nossos incertos sonhos, um sonho<br \/>\ntodo feito de certeza. Por fim a Floresta lentamente se cala, a sombra escorrega<br \/>\nentre os troncos: &#8211; e o Orango ditoso desce ao seu catre de pendenias e musgos,<br \/>\ne adormece na imensa paz de Deus &#8211; de Deus que ele nunca se cansou em comentar,<br \/>\nnem sequer em negar, e que todavia sobre ele derrama, com imparcial carinho,<br \/>\nos bens inteiros da sua Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Assim ocupou o seu dia o Orango, nas \u00c1rvores. E no entanto, como gastou,<br \/>\nnas Cidades, o seu dia o Homem, primo do Orango? Sofrendo &#8211; por ter os dons<br \/>\nsuperiores que faltam ao Orango! Sofrendo &#8211; por arrastar consigo, irresgat\u00e0velmente,<br \/>\nesse mal incur\u00e1vel que \u00e9 a sua Alma! Sofrendo &#8211; porque nosso<br \/>\nPai Ad\u00e3o, no terr\u00edvel dia 28 de outubro, depois espreitar e<br \/>\nfarejar o Para\u00edso, n\u00e3o ousou declarar reverentemente ao Senhor:<br \/>\n&#8211; \u201cObrigado, oh meu doce Criador; d\u00e1 o governo da Terra a quem<br \/>\nmelhor escolheres, ao Elefante ou ao Canguru, que eu por mim, bem mais avisado,<br \/>\nvolto j\u00e1 para a minha \u00e1rvore!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Mas, enfim, desde que nosso Pai vener\u00e1vel n\u00e3o teve a previd\u00eancia<br \/>\nou a abnega\u00e7\u00e3o de declinar a grande Supremacia &#8211; continuemos<br \/>\na reinar sobre a Cria\u00e7\u00e3o e a ser sublimes&#8230; Sobretudo continuemos<br \/>\na usar, insaci\u00e0velmente, do dom melhor que Deus nos concedeu entre<br \/>\ntodos os dons, o mais puro, o \u00fanico genu\u00ecnamente grande, o dom<br \/>\nde o amar &#8211; pois que n\u00e3o nos concedeu tamb\u00e9m o dom de o compreender.<br \/>\nE n\u00e3o esque\u00e7amos que Ele j\u00e1 nos ensinou, atrav\u00e9s<br \/>\nde vozes levantadas em Galileia, e sob as mangueiras de Veluvana, e nos vales<br \/>\nseveros de Yen-Chou, que a melhor maneira de o amar \u00e9 que uns aos outros<br \/>\nnos amemos, e que amemos toda a sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e<br \/>\na raiz venenosa, e at\u00e9 esses vastos seres que n\u00e3o parecem necessitar<br \/>\no nosso amor, esses S\u00f3is, esses Mundos, essas esparsas Nebulosas, que,<br \/>\ninicialmente fechadas, como n\u00f3s, na m\u00e3o de Deus, e feitas da<br \/>\nnossa subst\u00e2ncia, nem decerto nos amam &#8211; nem talvez nos conhecem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III &nbsp; Cap\u00edtulo I AD\u00c3O, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, \u00e0s 2 horas da tarde&#8230; Assim o afirma, com majestade, nos seus Annales Veteris et Novi Testamenti, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95408","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso - E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto, Obra Liter\u00e1ria, Literatura, Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/adao-e-eva-no-paraiso-eca-de-queiros\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-18T11:33:31+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"58 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/adao-e-eva-no-paraiso-eca-de-queiros#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/adao-e-eva-no-paraiso-eca-de-queiros\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Ad\u00e3o e Eva no Para\u00edso &#8211; 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