{"id":95404,"date":"2017-01-18T09:28:51","date_gmt":"2017-01-18T11:28:51","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95404"},"modified":"2017-01-18T09:28:51","modified_gmt":"2017-01-18T11:28:51","slug":"a-perfeicao-eca-de-queiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-perfeicao-eca-de-queiros","title":{"rendered":"A Perfei\u00e7\u00e3o &#8211; E\u00e7a de Queir\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"116\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong> <span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo\u00a0II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/h2>\n<h2><a id=\"1\" name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/h2>\n<p>SENTADO numa rocha, na ilha de Og\u00edgia, com a barba enterrada entre<br \/>\nas m\u00e3os, de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas<br \/>\ne dos remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e<br \/>\npesada tristeza, o mar muito azul que, mansa e harmoniosamente, rolava sobre<br \/>\na areia muito branca. Uma t\u00fanica bordada de flores escarlates cobria,<br \/>\nem pregas moles, o seu corpo poderoso, que engordara. Nas correias das sand\u00e1lias,<br \/>\nque lhe cal\u00e7avam os p\u00e9s amaciados e perfumados de ess\u00eancias,<br \/>\nreluziam esmeraldas do Egipto. E o seu bast\u00e3o era um maravilhoso galho<br \/>\nde coral, rematado em pinha de p\u00e9rolas, como os que usam os Deuses<br \/>\nmarinhos.<\/p>\n<p>A divina Ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e<br \/>\ntuias odor\u00edferas, as messes eternas dourando os vales, a frescura das<br \/>\nroseiras revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na moleza<br \/>\nda sesta, toda envolta em mar resplandecente. Nem um sopro dos Z\u00e9firos<br \/>\ncuriosos, que brincam e correm por sobre o Arquip\u00e9lago, desmanchava<br \/>\na serenidade do luminoso ar, mais doce que o vinho mais doce, todo repassado<br \/>\npelo fino aroma dos prados de violetas. No sil\u00eancio, embebido de calor<br \/>\naf\u00e1vel, eram duma harmonia mais embaladora os murm\u00farios de arroios<br \/>\ne fontes, o arrulhar das pombas voando dos ciprestes aos pl\u00e1tanos e<br \/>\no lento rolar e quebrar da onda mansa sobre a areia macia. E nesta inef\u00e1vel<br \/>\npaz e beleza imortal, o subtil Ulisses, com os olhos perdidos nas \u00e1guas<br \/>\nlustrosas, amargamente gemia, revolvendo o queixume do seu cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de J\u00fapiter<br \/>\nfendera a sua nave de alta proa vermelha, e ele, agarrado ao mastro partido,<br \/>\ntrambolhara na braveza mujidora das espumas sombrias, durante nove dias, durante<br \/>\nnove noites, at\u00e9 que boiara em \u00e1guas mais calmas, e tocara as<br \/>\nareias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o recolhera e o amara!<br \/>\nE durante esses imensos anos, como se arrastara a sua vida, a sua grande e<br \/>\nforte vida, que, depois da partida para os muros fatais de Tr\u00f3ia, abandonando<br \/>\nentre l\u00e1grimas inumer\u00e1veis a sua Pen\u00e9lope de olhos claros,<br \/>\no seu pequenino Tel\u00e9maco enfaixado no colo da ama, andara sempre t\u00e3o<br \/>\nagitada por perigos, e guerras, e ast\u00facias, e tormentas, e rumos perdidos?&#8230;<br \/>\nAh! ditosos os Reis mortos, com formosas feridas no branco peito, diante das<br \/>\nportas de Tr\u00f3ia! Felizes os seus companheiros tragados pela onda amarga!<br \/>\nFeliz ele se as lan\u00e7as troianas o trespassassem nessa tarde de grande<br \/>\nvento e poeira, quando, junto \u00e0 Faia, defendia dos ultrajes, com a<br \/>\nespada sonora, o corpo morto de Aquiles! Mas n\u00e3o! vivera! &#8211; E agora,<br \/>\ncada manh\u00e3, ao sair sem alegria do trabalhoso leito de Calipso, as<br \/>\nNinfas, servas da Deusa, o banhavam numa \u00e1gua muito pura, o perfumavam<br \/>\nde l\u00e2nguidas ess\u00eancias, o cobriam com uma t\u00fanica sempre<br \/>\nnova, ora bordada a sedas finas, ora bordada de ouro p\u00e1lido! No entanto,<br \/>\nsobre a mesa lustrosa, erguida \u00e0 porta da gruta, na sombra das ramadas,<br \/>\njunto ao sussurro dormente dum arroio diamantino, os a\u00e7afates e as<br \/>\ntravessas lavradas transbordavam de bolos, de frutas, de tenras carnes fumegando,<br \/>\nde peixes cintilando como tramas de prata. A intendenta vener\u00e1vel gelava<br \/>\nos vinhos doces nas crateras de bronze, coroadas de rosas. E ele, sentado<br \/>\nnum escabelo, estendia as m\u00e3os para as iguarias perfeitas, enquanto<br \/>\nao lado, sobre um trono de marfim, Calipso, espargindo atrav\u00e9s da t\u00fanica<br \/>\nnevada a claridade e o aroma do seu corpo imortal, sublimemente serena, com<br \/>\num sorriso taciturno, sem tocar nas comidas humanas, debicava a ambr\u00f3sia,<br \/>\nbebia em goles delgados o n\u00e9ctar transparente e rubro. Depois, tomando<br \/>\naquele bast\u00e3o de Pr\u00edncipe de Povos com que Calipso o presenteara,<br \/>\nrepercorria sem curiosidade os sabidos caminhos da Ilha, t\u00e3o lisos<br \/>\ne tratados que nunca as suas sand\u00e1lias reluzentes se maculavam de p\u00f3,<br \/>\nt\u00e3o penetrados pela imortalidade da Deusa que jamais neles encontrara<br \/>\nfolha seca, nem flor menos fresca pendendo da haste. Sobre uma rocha se sentava<br \/>\nent\u00e3o, contemplando aquele mar que tamb\u00e9m banhava \u00cdtaca,<br \/>\nl\u00e1 t\u00e3o bravio, aqui t\u00e3o sereno, e pensava, e gemia, at\u00e9<br \/>\nque as \u00e1guas e os caminhos se cobriam de sombra, e ele recolhia \u00e0<br \/>\ngruta para dormir, sem desejo, com a Deusa que o desejava!&#8230; E durante estes<br \/>\nimensos anos, que destino envolvera a sua \u00cdtaca, a \u00e1spera ilha<br \/>\nde sombrias matas? Viviam eles ainda, os seres amados? Sobre a forte colina,<br \/>\ndominando a enseada de Reitros e os pinheirais de Neus, ainda se erguia o<br \/>\nseu pal\u00e1cio, com os belos p\u00f3rticos pintados de vermelho e roxo?<br \/>\nAo cabo de t\u00e3o lentos e vazios anos, sem novas, apagada toda a esperan\u00e7a<br \/>\ncomo uma l\u00e2mpada, despira a sua Pen\u00e9lope a t\u00fanica passageira<br \/>\nda viuvez, e passara para os bra\u00e7os de outro esposo forte que, agora,<br \/>\nmanejava as suas lan\u00e7as e vindimava as suas vinhas? E o doce filho<br \/>\nTel\u00e9maco? Reinaria ele em \u00cdtaca, sentado, com o branco ceptro,<br \/>\nsobre o m\u00e1rmore alto da Agor\u00e1? Ocioso e rondando pelos p\u00e1tios,<br \/>\nbaixaria os olhos sob o imp\u00e9rio duro dum padrasto? Erraria por cidades<br \/>\nalheias, mendigando um sal\u00e1rio?&#8230; Ah! se a sua exist\u00eancia, assim<br \/>\npara sempre arrancada da mulher, do filho, t\u00e3o doces ao seu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nandasse ao menos empregada em fa\u00e7anhas ilustres! Dez anos antes, tamb\u00e9m<br \/>\ndesconhecia a sorte de \u00cdtaca, e dos seres preciosos que l\u00e1 deixara<br \/>\nem solid\u00e3o e fragilidade; mas uma empresa her\u00f3ica o agitava;<br \/>\ne cada manh\u00e3 a sua fama crescia, como uma \u00e1rvore num promont\u00f3rio,<br \/>\nque enche o c\u00e9u e todos os homens contemplam. Ent\u00e3o era a plan\u00edcie<br \/>\nde Tr\u00f3ia &#8211; e as brancas tendas dos Gregos ao longo do mar sonoro! Sem<br \/>\ncessar, meditava ast\u00facias de guerra; com soberba fac\u00fandia discursava<br \/>\nna Assembl\u00e9ia dos Reis; rijamente jungia os cavalos empinados ao tim\u00e3o<br \/>\ndos carros; de lan\u00e7a alta corria, entre a grita e a pressa, contra<br \/>\nos Troianos de altos elmos, que surdiam, em rold\u00e3o ressoante, das portas<br \/>\nSkaias!&#8230; Oh! e quando ele, Pr\u00edncipe dos Povos, encolhido sob farrapos<br \/>\nde mendigo, com os bra\u00e7os maculados de chagas posti\u00e7as, coxeando<br \/>\ne gemendo, penetrara nos muros da orgulhosa Tr\u00f3ia, pelo lado da Faia,<br \/>\npara de noite, com incompar\u00e1vel ardil e bravura, roubar o Pal\u00e1dio<br \/>\ntutelar da cidade! E quanto, dentro do ventre do Cavalo de Pau, na escurid\u00e3o,<br \/>\nno aperto de todos aqueles guerreiros hirtos e cobertos de ferro, calmava<br \/>\na impaci\u00eancia dos que sufocavam, e tapava com a m\u00e3o a boca de<br \/>\nAnticlos bravejando furioso, ao escutar fora na plan\u00edcie os ultrajes<br \/>\ne os esc\u00e1rnios troianos, e a todos murmurava: \u201cCala, cala! que<br \/>\na noite desce e Tr\u00f3ia \u00e9 nossa&#8230;\u201d E depois as prodigiosas<br \/>\nviagens! O pavoroso Polifemo, ludibriado com uma ast\u00facia que para sempre<br \/>\nmaravilhar\u00e1 as gera\u00e7\u00f5es! As manobras sublimes entre Sila<br \/>\ne Car\u00edbdis! As Sereias, vogando e cantando em torno do mastro, de onde<br \/>\nele, amarrado, as recha\u00e7ava com o mudo dardejar dos olhos mais agudos<br \/>\nque dardos! A descida aos Infernos, jamais concedida a um mortal!&#8230; E agora<br \/>\nhomem de t\u00e3o rutilantes feitos jazia numa ilha mole, eternamente preso,<br \/>\nsem amor, pelo amor duma Deusa! Como poderia ele fugir, rodeado de mar indom\u00e1vel,<br \/>\nsem nave, nem companheiros para mover os remos longos? Os Deuses ditosos certamente<br \/>\nesqueciam quem tanto por eles combatera e sempre piedosamente lhes votara<br \/>\nas reses devidas, mesmo atrav\u00e9s do fragor e fumara\u00e7a das cidadelas<br \/>\nderrubadas, mesmo quando a sua proa encalhava em terra agreste!&#8230; E ao her\u00f3i,<br \/>\nque recebera dos Reis da Gr\u00e9cia as armas de Aquiles, cabia por destino<br \/>\namargo engordar na ociosidade duma ilha mais l\u00e2nguida que uma cesta<br \/>\nde rosas, e estender as m\u00e3os amolecidas para as iguarias abundantes,<br \/>\ne, quando \u00e1guas e caminhos se cobriam de sombra, dormir sem desejo<br \/>\ncom uma Deusa que, sem cessar, o desejava.<\/p>\n<p>Assim gemia o magn\u00e2nimo Ulisses, \u00e0 beira do mar lustroso&#8230;<br \/>\nE eis que, de repente, um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco<br \/>\nque o duma estrela caindo, riscou a rutil\u00e2ncia do c\u00e9u, desde<br \/>\nas alturas at\u00e9 \u00e0 cheirosa mata de tuias e cedros, que assombreava<br \/>\num golfo sereno, a oriente da Ilha. Com alvoro\u00e7o bateu o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo her\u00f3i. Rasto t\u00e3o refulgente, na refulg\u00eancia do dia,<br \/>\ns\u00f3 um Deus o podia tra\u00e7ar atrav\u00e9s do largo Ouranos. Um<br \/>\nDeus, pois, descera \u00e0 Ilha?<\/p>\n<h2><a id=\"2\" name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/h2>\n<p>UM Deus descera, um grande Deus&#8230; Era o Mensageiro dos Deuses, o leve,<br \/>\neloquente Merc\u00fario. Cal\u00e7ado com aquelas sand\u00e1lias que<br \/>\nt\u00eam duas asas brancas, os cabelos cor de vinho cobertos pelo casco onde<br \/>\nbatem tamb\u00e9m duas claras asas, erguendo na m\u00e3o o Caduceu, ele<br \/>\nfendera o \u00c9ter, ro\u00e7ara a lisura do mar sossegado, pisara a areia<br \/>\nda Ilha, onde as suas pegadas ficavam rebrilhando como palmilhas de ouro novo.<br \/>\nApesar de percorrer toda a terra, com os recados inumer\u00e1veis dos Deuses,<br \/>\no luminoso Mensageiro n\u00e3o conhecia aquela ilha de Og\u00edgia &#8211; e<br \/>\nadmirou, sorrindo, a beleza dos prados de violetas t\u00e3o doces para o<br \/>\ncorrer e brincar das Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre<br \/>\nos altos e l\u00e2nguidos l\u00edrios. Uma vinha, sobre esteios de jaspe,<br \/>\ncarregada de cachos maduros, conduzia, como fresco p\u00f3rtico salpicado<br \/>\nde sol, at\u00e9 \u00e0 entrada da gruta, toda de rochas polidas, de onde<br \/>\npendiam jasmineiros e madressilvas, envoltas no sussurrar das abelhas. E logo<br \/>\navistou Calipso, a Deusa ditosa, sentada num Trono, fiando em roca de ouro,<br \/>\ncom o fuso de ouro, a l\u00e3 formosa de p\u00farpura marinha. Um aro<br \/>\nde esmeraldas prendia os seus cabelos muito anelados e ardentemente louros.<br \/>\nSob a t\u00fanica di\u00e1fana a mocidade imortal do seu corpo rebrilhava,<br \/>\ncomo a neve, quando a aurora a tinge de rosas nas colinas eternas povoadas<br \/>\nde Deuses. E, enquanto torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, como<br \/>\ntr\u00e9mulo fio de cristal vibrando da Terra ao C\u00e9u. Merc\u00fario<br \/>\npensou: \u201cLinda ilha, e linda Ninfa!\u201d<\/p>\n<p>Dum lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado que<br \/>\nperfumava toda a Ilha. Em roda, sentada em esteiras, sobre o ch\u00e3o de<br \/>\n\u00e1gata, as Ninfas, servas da Deusa, dobavam as l\u00e3s, bordavam<br \/>\nna seda as flores ligeiras, teciam as puras teias em teares de prata. Todas<br \/>\ncoraram, com o seio a arfar, sentindo a presen\u00e7a do Deus. E sem deter<br \/>\no fuso faiscante, Calipso reconhecera logo o Mensageiro &#8211; pois que todos os<br \/>\nImortais sabem, uns dos outros, os nomes, os feitos e os rostos soberanos,<br \/>\nmesmo quando habitam retiros remotos que o \u00c9ter e o Mar separam.<\/p>\n<p>Merc\u00fario parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume<br \/>\ndo Olimpo. Ent\u00e3o a Deusa ergueu para ele, com composta serenidade,<br \/>\no esplendor largo dos seus olhos verdes:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Merc\u00fario! por que desceste \u00e0 minha Ilha humilde, tu, vener\u00e1vel<br \/>\ne querido, que eu nunca vi pisar a terra? Diz o que de mim esperas. J\u00e1<br \/>\no meu aberto cora\u00e7\u00e3o me ordena que te contente, se o teu desejo<br \/>\ncouber dentro do meu poder e do Fado&#8230; Mas entra, repousa, e que eu te sirva,<br \/>\ncomo doce irm\u00e3, \u00e0 mesa da hospitalidade.<\/p>\n<p>Tirou da cintura a roca, arredou os an\u00e9is soltos do cabelo radiante<br \/>\n&#8211; e com as suas nacaradas m\u00e3os colocou sobre a mesa, que as Ninfas<br \/>\nacercaram do lume arom\u00e1tico, o prato transbordando de Ambr\u00f3sia,<br \/>\ne as infusas de cristal onde cintilava o N\u00e9ctar.<\/p>\n<p>Merc\u00fario murmurou: &#8211; \u201cDoce \u00e9 a tua hospitalidade, \u00f3<br \/>\nDeusa!\u201d Pendurou o Caduceu do fresco ramo dum pl\u00e1tano, estendeu<br \/>\nos dedos reluzentes para a travessa de ouro, risonhamente louvou a excel\u00eancia<br \/>\ndaquele N\u00e9ctar da Ilha. E contentada a alma, encostando a cabe\u00e7a<br \/>\nao tronco liso do pl\u00e1tano que se cobriu de claridade, come\u00e7ou,<br \/>\ncom palavras perfeitas e aladas:<\/p>\n<p>&#8211; Perguntaste por que descia um Deus \u00e0 tua morada, oh Deusa! E certamente<br \/>\nnenhum Imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo at\u00e9 Og\u00edgia,<br \/>\nesta deserta imensidade do mar salgado em que se n\u00e3o encontram cidades<br \/>\nde homens, nem templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino santu\u00e1rio<br \/>\nde onde suba o aroma do incenso, ou o cheiro das carnes votivas, ou o murm\u00fario<br \/>\ngostoso das preces&#8230; Mas foi nosso Pai J\u00fapiter, o tempestuoso, que<br \/>\nme mandou neste recado. Tu recolheste, e ret\u00e9ns pela for\u00e7a incomensur\u00e1vel<br \/>\nda tua do\u00e7ura, o mais subtil e desgra\u00e7ado de todos os Pr\u00edncipes<br \/>\nque combateram durante dez anos a alta Tr\u00f3ia, e depois embarcaram nas<br \/>\nnaves fundas para voltar \u00e0 terra da P\u00e1tria. Muitos desses conseguiam<br \/>\nreentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de despojos e de hist\u00f3rias<br \/>\nexcelentes para contar. Ventos inimigos, por\u00e9m, e um fado mais inexor\u00e1vel,<br \/>\narremessaram a esta tua ilha, enrolado nas sujas espumas, o facundo e astuto<br \/>\nUlisses&#8230; Ora o destino deste her\u00f3i n\u00e3o \u00e9 ficar na ociosidade<br \/>\nimortal do teu leito, longe daqueles que o choram, e que carecem da sua for\u00e7a<br \/>\ne manhas divinas. Por isso J\u00fapiter, regulador da Ordem, te ordena,<br \/>\noh Deusa, que soltes o magn\u00e2nimo Ulisses dos teus bra\u00e7os claros,<br \/>\ne o restituas, com os presentes docemente devidos, \u00e0 sua \u00cdtaca<br \/>\namada, e \u00e0 sua Pen\u00e9lope, que tece e desfaz a teia ardilosa,<br \/>\ncercada dos Pretendentes arrogantes, devoradores dos seus gordos bois, sorvedores<br \/>\ndos seus frescos vinhos!<\/p>\n<p>A divina Calipso mordeu levemente o bei\u00e7o; e sobre a sua face luminosa<br \/>\ndesceu a sombra das densas pestanas cor de jacinto. Depois, com um harmonioso<br \/>\nsuspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante:<\/p>\n<p>&#8211; Ah Deuses grandes, Deuses ditosos! como sois \u00e0speramente ciumentos<br \/>\ndas Deusas, que, sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas<br \/>\nescuras dos montes, amam os homens eloquentes e fortes!&#8230; Este, que me invejais,<br \/>\nrolou \u00e0s areias da minha Ilha, nu, pisado, faminto, preso a uma quilha<br \/>\npartida, perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e todos os raios<br \/>\ndardejantes de que disp\u00f5e o Olimpo. Eu o recolhi, o lavei, o nutri,<br \/>\no amei, o guardei, para que ficasse eternamente ao abrigo das tormentas, da<br \/>\ndor e da velhice. E agora J\u00fapiter trovejador, ao cabo de oito anos<br \/>\nem que a minha doce vida se enroscou em torno desta afei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomo a vide ao olmo, determina que eu me separe do companheiro que escolhera<br \/>\npara a minha imortalidade! Realmente sois cru\u00e9is, oh Deuses, que constantemente<br \/>\naumentais a ra\u00e7a turbulenta dos Semideuses dormindo com as mulheres<br \/>\nmortais! E como queres que eu mande Ulisses \u00e0 sua p\u00e1tria, se<br \/>\nn\u00e3o possuo naves, nem remadores, nem piloto sabedor que o guie atrav\u00e9s<br \/>\ndas Ilhas? Mas quem pode resistir a J\u00fapiter, que ajunta as nuvens?<br \/>\nSeja! e que Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intr\u00e9pido Ulisses<br \/>\na construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso verde do mar&#8230;<\/p>\n<p>Imediatamente o Mensageiro Merc\u00fario se levantou do escabelo pregado<br \/>\ncom prego de ouro, retomou o seu Caduceu e, bebendo uma derradeira ta\u00e7a<br \/>\ndo N\u00e9ctar excelente da Ilha, louvou a obedi\u00eancia da Deusa:<\/p>\n<p>&#8211; Bem far\u00e1s, oh Calipso! Assim evitas a c\u00f3lera do Pai trovejante.<br \/>\nQuem lhe resistiria? A sua Omnisci\u00eancia dirige a sua Omnipot\u00eancia.<br \/>\nE ele sustenta como ceptro uma \u00e1rvore que tem por flor a Ordem&#8230; As<br \/>\nsuas decis\u00f5es, clementes ou cru\u00e9is, resultam sempre em harmonia.<br \/>\nPor isso o seu bra\u00e7o se torna terr\u00edfico aos peitos rebeldes.<br \/>\nPela tua pronta submiss\u00e3o ser\u00e1s filha estimada, e gozar\u00e1s<br \/>\numa imortalidade repassada de sossego, sem intrigas e sem surpresas&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 as asas impacientes das suas sand\u00e1lias palpitavam, e o seu<br \/>\ncorpo, com sublime gra\u00e7a, se balan\u00e7ava por sobre as relvas e<br \/>\nflores que alcatifavam a entrada da gruta.<\/p>\n<p>&#8211; De resto &#8211; acrescentou &#8211; a tua Ilha, oh Deusa, fica no caminho das naves<br \/>\nousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro her\u00f3i robusto, tendo<br \/>\nofendido os Imortais, aportar\u00e1 \u00e0 tua doce praia, abra\u00e7ado<br \/>\na uma quilha&#8230; Acende um facho claro, de noite, nas rochas altas!<\/p>\n<p>E, rindo, o Mensageiro Divino serenamente se elevou, riscando no \u00c9ter<br \/>\num sulco de elegante fulgor que as Ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, com<br \/>\nos frescos l\u00e1bios entreabertos e o seio levantado no desejo daquele<br \/>\nimortal formoso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Calipso, pensativa, lan\u00e7ando sobre os seus cabelos anelados<br \/>\num v\u00e9u da cor do a\u00e7afr\u00e3o, caminhou para a orla do mar,<br \/>\natrav\u00e9s dos prados, numa pressa que lhe enrodilhava a t\u00fanica,<br \/>\n\u00e0 maneira duma espuma leve, em torno das pernas redondas e r\u00f3seas.<br \/>\nT\u00e3o levemente pisou a areia, que o magn\u00e2nimo Ulisses n\u00e3o<br \/>\na sentiu deslizar, perdido na contempla\u00e7\u00e3o das \u00e1guas<br \/>\nlustrosas, com a negra barba entre as m\u00e3os, aliviando em gemidos o<br \/>\npeso do seu cora\u00e7\u00e3o. A Deusa sorriu, com fugitiva e soberana<br \/>\namargura. Depois, pousando no vasto ombro do Her\u00f3i os seus dedos t\u00e3o<br \/>\nclaros como os de \u00c9os, m\u00e3e do dia:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te lamentes mais, desgra\u00e7ado, nem te consumas, olhando<br \/>\no Mar! Os Deuses, que me s\u00e3o superiores pela intelig\u00eancia e pela<br \/>\nvontade, determinam que tu partas, afrontes a inconst\u00e2ncia dos ventos<br \/>\ne calques de novo a terra da P\u00e1tria.<\/p>\n<p>Bruscamente, como o condor fendendo sobre a presa, o divino Ulisses, com<br \/>\na face assombrada, saltou da rocha musgosa:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Deusa, tu dizes&#8230;<\/p>\n<p>Ela continuou sossegadamente, com os formosos bra\u00e7os pendidos, enrodilhados<br \/>\nno v\u00e9u cor de a\u00e7afr\u00e3o, enquanto a vaga rolava, mais doce<br \/>\ne cantante, no amoroso respeito da sua presen\u00e7a divina:<\/p>\n<p>&#8211; Bem sabes que n\u00e3o tenho naves de alta proa, nem remadores de rijo<br \/>\npeito, nem piloto amigo das estrelas, que te conduzam&#8230; Mas certamente te<br \/>\nconfiarei o machado de bronze que foi de meu pai, para tu abateres as \u00e1rvores<br \/>\nque eu te marcar e constru\u00edres uma jangada em que embarques&#8230; Depois<br \/>\neu a proverei de odres de vinho, de comidas perfeitas, e a impelirei com um<br \/>\nsopro amigo para o mar indomado&#8230;<\/p>\n<p>O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar que<br \/>\na desconfian\u00e7a enegrecia. E erguendo a m\u00e3o, que tremia toda,<br \/>\ncom a ansiedade do seu cora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terr\u00edvel, pois que assim me convidas<br \/>\na afrontar numa jangada as ondas dif\u00edceis, onde mal se mant\u00eam<br \/>\nfundas naves! N\u00e3o, Deusa perigosa, n\u00e3o! Eu combati na grande<br \/>\nguerra onde os Deuses tamb\u00e9m combateram, e conhe\u00e7o a mal\u00edcia<br \/>\ninfinita que cont\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o dos Imortais! Se resisti<br \/>\n\u00e0s sereias irresist\u00edveis, e me safei com sublimes manobras de<br \/>\nentre Sila e Car\u00edbdis, e venci Polifemo com um ardil que eternamente<br \/>\nme tornar\u00e1 ilustre entre os homens, n\u00e3o foi decerto, oh Deus,<br \/>\npara que, agora, na Ilha de Og\u00edgia, como passarinho de pouca penugem<br \/>\nno seu primeiro v\u00f4o do ninho,caia em armadilha ligeira arranjada com<br \/>\ndizeres de mel! N\u00e3o, Deusa, n\u00e3o! S\u00f3 embarcarei na tua<br \/>\nextraordin\u00e1ria jangada se tu jurares, pelo juramento terr\u00edfico<br \/>\ndos Deuses, que n\u00e3o preparas, com esses quietos olhos, a minha perda<br \/>\nirrepar\u00e1vel!<\/p>\n<p>Assim bradava, \u00e0 beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o<br \/>\nHer\u00f3i prudente&#8230; Ent\u00e3o a Deusa clemente riu, com um cantado<br \/>\ne refulgente riso. E caminhando para o Her\u00f3i, correndo os dedos celestes<br \/>\npelos seus espessos cabelos mais negros que o pez!<\/p>\n<p>&#8211; Oh maravilhoso Ulisses &#8211; disse &#8211; tu \u00e9s, bem na verdade, o mais refalsado<br \/>\ne manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista esp\u00edrito sem<br \/>\nmanha e sem falsidade! Meu pai ilustre n\u00e3o me gerou com um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ferro! Apesar de imortal, compreendo as desventuras mortais. S\u00f3<br \/>\nte aconselhei o que eu, Deusa, empreenderia, se o Fado me obrigasse a sair<br \/>\nde Og\u00edgia atrav\u00e9s do mar incerto!&#8230;<\/p>\n<p>O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabe\u00e7a da rosada caricia<br \/>\ndos dedos divinos:<\/p>\n<p>&#8211; Mas jura&#8230; Oh Deusa, jura, para que ao meu peito des\u00e7a, como onda<br \/>\nde leite, a saborosa confian\u00e7a!<\/p>\n<p>Ela ergueu o claro bra\u00e7o ao azul onde os Deuses moram:<\/p>\n<p>&#8211; Por Gaia e pelo C\u00e9u superior, e pelas \u00e1guas subterr\u00e2neas<br \/>\ndo Est\u00edgio, que \u00e9 a maior invoca\u00e7\u00e3o que podem<br \/>\nlan\u00e7ar os imortais, juro, oh homem, Pr\u00edncipe dos homens, que<br \/>\nn\u00e3o preparo a tua perda, nem mis\u00e9rias maiores&#8230;<\/p>\n<p>O valente Ulisses respirou largamente. E arrega\u00e7ando logo as mangas<br \/>\nda t\u00fanica, esfregando as palmas das m\u00e3os robustas:<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e1 o machado de teu pai magn\u00edfico? Mostra as \u00e1rvores,<br \/>\noh Deusa!&#8230; O dia baixa e o trabalho \u00e9 longo!<\/p>\n<p>&#8211; Sossega, oh homem s\u00f4frego de males humanos! Os Deuses superiores<br \/>\nem sapi\u00eancia j\u00e1 determinaram o teu destino&#8230; Recolhe comigo<br \/>\n\u00e0 doce gruta, a refor\u00e7ar a tua for\u00e7a&#8230; Quando \u00c9os<br \/>\nvermelha aparecer, amanh\u00e3, eu te conduzirei \u00e0 floresta.<\/p>\n<h2><a id=\"3\" name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>ERA, com efeito, a hora em que homens mortais e Deuses imortais se acercam<br \/>\ndas mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abund\u00e2ncia, o repouso,<br \/>\no esquecimento dos cuidados e as amor\u00e1veis conversas que contentam<br \/>\na alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava<br \/>\no aroma do corpo de Merc\u00fario, e diante dele as Ninfas, servas da Deusa,<br \/>\ncolocaram os bolos, as frutas, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes<br \/>\ncomo tramas de prata. Pousada num Trono de ouro puro, a Deusa recebeu da Intendenta<br \/>\nvener\u00e1vel o prato de Ambr\u00f3sia e a ta\u00e7a de N\u00e9ctar.<br \/>\nAmbos estenderam as m\u00e3os para as comidas perfeitas da Terra e do C\u00e9u.<br \/>\nE logo que deram a oferenda abundante \u00e0 Fome e \u00e0 Sede, a ilustre<br \/>\nCalipso, encostando a face aos dedos r\u00f3seos, e considerando pensativamente<br \/>\no Her\u00f3i, soltou estas palavras aladas:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Ulisses muito subtil, tu queres voltar \u00e0 tua morada mortal e<br \/>\n\u00e0 terra da P\u00e1tria&#8230; Ah! se conhecesses, como eu, quantos duros<br \/>\nmales tens de sofrer antes de avistar as rochas de \u00cdtaca, ficarias<br \/>\nentre os meus bra\u00e7os, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos<br \/>\nfinos, sem nunca perder a querida for\u00e7a, nem a agudeza do entendimento,<br \/>\nnem o calor da fac\u00fandia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!&#8230;<br \/>\nMas desejas voltar \u00e0 esposa mortal, que habita na ilha \u00e1spera<br \/>\nonde as matas s\u00e3o tenebrosas. E todavia eu n\u00e3o lhe sou inferior,<br \/>\nnem pela beleza, nem pela intelig\u00eancia, porque as mortais brilham ante<br \/>\nas Imortais como l\u00e2mpadas fumarentas diante de estrelas puras.<\/p>\n<p>O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o bra\u00e7o,<br \/>\ncomo costumava na Assembleia dos Reis, \u00e0 sombra das altas popas, diante<br \/>\ndos muros de Tr\u00f3ia, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Deusa vener\u00e1vel, n\u00e3o te escandalizes! Perfeitamente sei<br \/>\nque Pen\u00e9lope te est\u00e1 muito inferior em formosura, sapi\u00eancia<br \/>\ne majestade. Tu ser\u00e1s eternamente bela e mo\u00e7a, enquanto os Deuses<br \/>\ndurarem: e ela, em poucos anos, conhecer\u00e1 a melancolia das rugas, dos<br \/>\ncabelos brancos, das dores da decrepitude e dos passos que tremem apoiados<br \/>\na um pau que treme. O seu esp\u00edrito mortal erra atrav\u00e9s da escurid\u00e3o<br \/>\ne da d\u00favida; tu, sob essa fronte luminosa, possuis as luminosas certezas.<br \/>\nMas, oh Deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, de fr\u00e1gil,<br \/>\nde grosseiro e de mortal, eu a amo, e apete\u00e7o a sua companhia cong\u00e9nere!<br \/>\nConsidera como \u00e9 penoso que, nesta mesa, cada dia, eu coma vorazmente<br \/>\no anho das pastagens e a fruta dos verg\u00e9is, enquanto tu ao meu lado,<br \/>\npela inef\u00e1vel superioridade da tua natureza, levas aos l\u00e1bios,<br \/>\ncom lentid\u00e3o soberana, a Ambr\u00f3sia divina! Em oito anos, oh Deusa,<br \/>\nnunca a tua face rebrilhou com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou<br \/>\numa l\u00e1grima; nem bateste o p\u00e9, com irada impaci\u00eancia;<br \/>\nnem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito macio&#8230; E assim trazes inutilizadas<br \/>\ntodas as virtudes do meu cora\u00e7\u00e3o, pois que a tua divindade n\u00e3o<br \/>\npermite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue<br \/>\no corpo dorido com o suco das ervas ben\u00e9ficas. Considera ainda que<br \/>\na tua intelig\u00eancia de Deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade:<br \/>\ne, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te<br \/>\nemendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a for\u00e7a<br \/>\ndo meu entendimento! Oh Deusa, tu \u00e9s aquele ser terr\u00edfico que<br \/>\ntem sempre raz\u00e3o! Considera ainda que, como Deusa, conheces todo o<br \/>\npassado e todo o futuro dos homens: e eu n\u00e3o pude saborear a incompar\u00e1vel<br \/>\ndel\u00edcia de te contar \u00e0 noite, bebendo o vinho fresco, as minhas<br \/>\nilustres fa\u00e7anhas e as minhas viagens sublimes! Oh Deusa, tu \u00e9s<br \/>\nimpec\u00e1vel: e quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale<br \/>\numa correia da sand\u00e1lia, n\u00e3o te posso gritar, como os homens<br \/>\nmortais gritam \u00e0s esposas mortais: &#8211; \u201cFoi culpa tua, mulher!\u201d<br \/>\n&#8211; erguendo, em frente \u00e0 lareira, um alarido cruel! Por isso sofrerei,<br \/>\nnum esp\u00edrito paciente, todos os males com que os Deuses me assaltem<br \/>\nno sombrio mar, para voltar a uma humana Pen\u00e9lope que eu mande, e console,<br \/>\ne repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por<br \/>\nisso ame dum amor que constantemente se alimenta destes modos ondeantes, como<br \/>\no lume se nutre dos ventos contr\u00e1rios!<\/p>\n<p>Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a ta\u00e7a de ouro vazia: e serenamente<br \/>\na Deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as m\u00e3os im\u00f3veis<br \/>\nsobre o rega\u00e7o, enrodilhadas na ponta do v\u00e9u.<\/p>\n<p>No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e j\u00e1 das ancas dos seus<br \/>\nquatro cavalos suados subia e se espalhava por sobre o Mar um vapor r\u00fabido<br \/>\ne dourado. Em breve os caminhos da Ilha se cobriram de sombras. E sobre os<br \/>\nvelos preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses, sem desejo, e a Deusa,<br \/>\nque o desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.<\/p>\n<p>Cedo, apenas \u00c9os entreabria as portas do largo Ouranos, a divina Calipso,<br \/>\nque revestira uma t\u00fanica mais branca que a neve do Pindo, e pregara<br \/>\nnos cabelos um v\u00e9u transparente e azul como o \u00c9ter ligeiro,<br \/>\nsaiu da gruta, trazendo ao magn\u00e2nimo Ulisses, j\u00e1 sentado \u00e0<br \/>\nporta, sob a ramada, diante duma ta\u00e7a de vinho claro, o machado poderoso<br \/>\nde seu pai ilustre, todo de bronze, com dois fios e um rijo cabo de oliveira<br \/>\ncortado nas faldas do Olimpo. Limpando r\u00e0pidamente a dura barba com<br \/>\nas costas da m\u00e3o, o Her\u00f3i arrebatou o machado vener\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Deusa, h\u00e1 quantos anos n\u00e3o palpo uma arma ou uma ferramenta,<br \/>\neu, devastador de cidadelas e construtor de naves!<\/p>\n<p>A Deusa sorriu. E, iluminada a lisa face, em palavras aladas:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Ulisses, vencedor de homens, se tu ficasses nesta ilha, eu encomendaria<br \/>\npara ti, a Vulcano e \u00e0s suas forjas do Etna, armas maravilhosas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que valem armas sem combates, ou homens que as admirem? De resto, oh Deusa,<br \/>\nj\u00e1 muito batalhei, e a minha gl\u00f3ria entre as gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nest\u00e1 soberbamente segura. S\u00f3 aspiro ao macio repouso, vigiando<br \/>\nos meus gados, concebendo s\u00e1bias leis para os meus povos&#8230; S\u00ea<br \/>\nben\u00e9vola, oh Deusa, e mostra as \u00e1rvores fortes que me conv\u00e9m<br \/>\ncortar!<\/p>\n<p>Em sil\u00eancio ela caminhou por um atalho, florido de altas e radiosas<br \/>\na\u00e7ucenas, que conduzia \u00e0 ponta da Ilha mais cerrada de matas,<br \/>\ndo lado do Oriente: e atr\u00e1s seguia o intr\u00e9pido Ulisses, com<br \/>\no luzidio machado ao ombro. As pombas deixavam os ramos dos cedros, ou as<br \/>\nconcavidades das rochas onde bebiam, para esvoa\u00e7arem em torno da Deusa<br \/>\nnum tumulto amoroso. Um aroma mais delicado, quando ela passava, subia das<br \/>\nflores abertas, como de incensadores. As relvas que a orla da sua t\u00fanica<br \/>\nro\u00e7ava reverdejavam num vi\u00e7o mais fresco. E Ulisses, indiferente<br \/>\naos prest\u00edgios da Deusa, impaciente com a serenidade divina do seu<br \/>\nandar harmonioso, meditava a jangada, almejava pelo bosque.<\/p>\n<p>Denso e escuro o avistou, enfim, povoado de carvalhos, de velh\u00edssimas<br \/>\ntecas, de pinheiros que ramalhavam no alto \u00c9ter. Da sua orla descia<br \/>\num areal a que nem concha, nem galho quebrado de coral, nem p\u00e1lida<br \/>\nflor de cardo marinho desmanchava a do\u00e7ura perfeita. E o Mar refulgia<br \/>\ncom um brilho saf\u00edrico, na quieta\u00e7\u00e3o da manh\u00e3<br \/>\nbranca e corada. Caminhando dos carvalhos \u00e0s tecas, a Deusa marcou<br \/>\nao atento Ulisses os troncos secos, robustecidos por s\u00f3is inumer\u00e1veis,<br \/>\nque flutuariam, com ligeireza mais segura, sobre as \u00e1guas traidoras.<br \/>\nDepois, acariciando o ombro do Her\u00f3i, como outra \u00e1rvore robusta<br \/>\ntamb\u00e9m votada \u00e0s \u00e1guas cru\u00e9is, recolheu \u00e0<br \/>\nsua gruta, onde tomou a roca de ouro, e todo o dia fiou, e todo o dia cantou&#8230;<\/p>\n<p>Com alvoro\u00e7ada e soberba alegria, Ulisses atirou o machado contra<br \/>\num vasto carvalho que gemeu. E em breve toda a Ilha retumbava, no fragor da<br \/>\nobra sobre-humana. As gaivotas, adormecidas no sil\u00eancio eterno daquelas<br \/>\nribas, bateram o voo em largos bandos, espantadas e gritando. As fluidas divindades<br \/>\ndos ribeiros indolentes, estremecendo num fulgente arrepio, fugiam para entre<br \/>\nos canaviais e as ra\u00edzes dos amieiros. Nesse curto dia o valente Ulisses<br \/>\nabateu vinte \u00e1rvores, robles, pinheiros, tecas e choupos &#8211; e todas<br \/>\ndecotou, esquadrou e alinhou sobre a areia. O seu pesco\u00e7o e arcado<br \/>\npeito fumegavam de suor, quando recolheu pesadamente \u00e0 gruta, para<br \/>\nsaciar a rude fome e beber a cerveja gelada. E nunca ele parecera t\u00e3o<br \/>\nbelo \u00e0 Deusa imortal, que, sobre o leito de peles preciosas, apenas<br \/>\nos caminhos se cobriram de sombra, encontrou, incansada e pronta, a for\u00e7a<br \/>\ndaqueles bra\u00e7os que tinham abatido vinte troncos.<\/p>\n<p>Assim, durante tr\u00eas dias, trabalhou o Her\u00f3i.<\/p>\n<p>E, como arrebatada nessa actividade magn\u00edfica que abalava a Ilha,<br \/>\na Deusa ajudava Ulisses, conduzindo da gruta para a praia, nas suas m\u00e3os<br \/>\ndelicadas, as cordas e os pregos de bronze. As Ninfas, por seu mandado, abandonando<br \/>\nas tarefas suaves, teciam uma tela forte, para a vela que empurrariam com<br \/>\namor os ventos am\u00e1veis. E a Intendenta vener\u00e1vel j\u00e1 enchia<br \/>\nos odres de vinhos robustos, e preparava com generosidade os v\u00edveres<br \/>\nnumerosos para a travessia incerta. No entanto a ganjaga crescia, com os troncos<br \/>\nbem ligados, e um banco erguido ao meio, de onde se empinava o mastro, desbastado<br \/>\nnum pinheiro, mais redondo e liso que uma vara de marfim. Cada tarde a Deusa,<br \/>\nsentada numa rocha \u00e0 sombra do bosque, contemplava o calafate admir\u00e1vel<br \/>\nmartelando furiosamente, e cantando, com rija alegria, um canto de remador.<br \/>\nE, ligeiras, na ponta dos p\u00e9s luzidios, por entre o arvoredo, as Ninfas,<br \/>\nescapando \u00e0 tarefa, acudiam a espreitar, com desejosos olhos fulgurantes,<br \/>\naquela for\u00e7a solit\u00e1ria, que soberbamente, no areal solit\u00e1rio,<br \/>\nia erguendo uma nave.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>ENFIM no quarto dia, de manh\u00e3, Ulisses findou de esquadrar o leme,<br \/>\nque refor\u00e7ou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das<br \/>\nondas. Depois ajuntou um lastro copioso, com a terra da Ilha imortal e as<br \/>\nsuas pedras polidas. Sem descanso, numa \u00e2nsia risonha, amarrou \u00e0<br \/>\nverga alta a vela cortada pelas Ninfas. Sobre pesados rolos, manobrando a<br \/>\nalavanca, rolou a jangada imensa at\u00e9 \u00e0 espuma da vaga, num esfor\u00e7o<br \/>\nsublime, com m\u00fasculos t\u00e3o retesos e veias t\u00e3o inchadas,<br \/>\nque ele mesmo parecia feito de troncos e cordas. Uma ponta da jangada arfou,<br \/>\nlevantada com cad\u00eancia pela onda harmoniosa. E o Her\u00f3i, erguendo<br \/>\nos bra\u00e7os lustrosos de suor, louvou os Deuses Imortais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como a obra findara e a tarde rebrilhava, prop\u00edcia \u00e0<br \/>\npartida, a generosa Calipso trouxe Ulisses, atrav\u00e9s das violetas e<br \/>\ndas an\u00e9monas, \u00e0 fresca gruta. Pelas suas divinas m\u00e3os<br \/>\no banhou numa concha de n\u00e1car, e o perfumou com ess\u00eancias sobrenaturais,<br \/>\ne o vestiu com uma t\u00fanica formosa de l\u00e3 bordada, e lan\u00e7ou<br \/>\nsobre os seus ombros um manto impenetr\u00e1vel \u00e0s neblinas do mar,<br \/>\ne lhe estendeu sobre a mesa, para ele saciar a fome rude, as comidas mais<br \/>\ns\u00e3s e mais finas da Terra. O Her\u00f3i aceitava os amorosos cuidados,<br \/>\ncom paciente magnanimidade. A Deusa, de gestos serenos, sorria taciturnamente.<\/p>\n<p>Depois ela tomou a m\u00e3o cabeluda de Ulisses, palpando com gosto os<br \/>\ncalos que lhe deixara o machado; e pela borda do Mar o conduziu \u00e0 praia,<br \/>\nonde a vaga mansamente lambia os troncos da jangada forte. Ambos descansaram<br \/>\nsobre uma rocha musgosa. Nunca a Ilha resplandecera com uma beleza t\u00e3o<br \/>\nserena, entre um mar t\u00e3o azul, sob um c\u00e9u t\u00e3o macio.<br \/>\nNem a \u00e1gua frescas do Pindo bebida em marcha abrasada, nem o vinho<br \/>\ndourado que produzem as colinas de Quios, eram mais doces de sorver do que<br \/>\naquele ar repassado de aromas, composto pelos Deuses para o respirar duma<br \/>\nDeusa. A frescura imorredoira das \u00e1rvores entrava no cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nquase pedia a car\u00edcia dos dedos. Todos os rumores, o dos regatos na<br \/>\nrelva, o das ondas no areal, o das aves nas sombras frondosas, subiam, suave<br \/>\ne finamente fundidos, como as harmonias sagradas de um Templo distante. O<br \/>\nesplendor e a gra\u00e7a das flores retinham os raios pasmados do Sol. Tantos<br \/>\neram os frutos nos verg\u00e9is, e as espigas nas messes, que a Ilha parecia<br \/>\nceder, afundada no Mar, sob o peso da sua abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a Deusa, ao lado do Her\u00f3i, levemente suspirou, e murmurou<br \/>\nnum sorriso alado:<\/p>\n<p>&#8211; Oh, magn\u00e2nimo Ulisses, tu certamente partes! O desejo te leva de<br \/>\nrever a mortal Pen\u00e9lope, e o teu doce Tel\u00e9maco, que deixaste<br \/>\nno colo da ama quando a Europa correu contra a \u00c1sia, e agora j\u00e1<br \/>\nsustenta na m\u00e3o uma lan\u00e7a temida. Sempre dum amor antigo, com<br \/>\nra\u00edzes fundas, brotar\u00e1 mais tarde uma flor, mesmo triste. Mas<br \/>\ndiz! Se em \u00cdtaca n\u00e3o te esperasse a esposa tecendo e destecendo<br \/>\na teia, e o filho ansioso que alonga os olhos incansados para o mar, deixarias<br \/>\ntu, oh homem prudente, esta do\u00e7uara, esta paz, esta abund\u00e2ncia<br \/>\ne beleza imortal?<\/p>\n<p>O Her\u00f3i, ao lado da Deusa, estendeu o bra\u00e7o poderoso, como<br \/>\nna Assembleia dos Reis, diante dos muros de Tr\u00f3ia, quando plantava<br \/>\nnas almas a verdade persuasiva:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Deusa, n\u00e3o te escandalizes! Mas ainda que n\u00e3o existissem,<br \/>\npara me levar, nem filho, nem esposa, nem reino, eu afrontaria alegremente<br \/>\nos mares e a ira dos Deuses! Porque, na verdade, oh Deusa muito ilustre, o<br \/>\nmeu cora\u00e7\u00e3o saciado j\u00e1 n\u00e3o suporta esta paz, esta<br \/>\ndo\u00e7ura e esta beleza imortal. Considera, oh Deusa, que em oito anos<br \/>\nnunca vi a folhagem destas \u00e1rvores amarelecer e cair. Nunca este c\u00e9u<br \/>\nrutilante se carregar de nuvens escuras; nem tive o contentamento de estender,<br \/>\nbem abrigado, as m\u00e3os ao doce lume, enquanto a borrasca grossa batesse<br \/>\nnos montes. Todas essas flores que brilham nas hastes airosas s\u00e3o as<br \/>\nmesmas, oh Deusa, que admirei e respirei, na primeira manh\u00e3 que me<br \/>\nmostrastes estes prados perp\u00e9tuos: &#8211; e h\u00e1 l\u00edrios que<br \/>\nodeio, com um \u00f3dio amargo, pela impassilidade da sua alvura eterna!<br \/>\nEstas gaivotas repetem t\u00e3o incessantemente, t\u00e3o implac\u00e0velmente,<br \/>\no seu voo harmonioso e branco, que eu escondo delas a face, como outros a<br \/>\nescondem das negras Harpias! E quantas vezes me refugio no fundo da gruta,<br \/>\npara n\u00e3o escutar o murm\u00fario sempre l\u00e2nguido destes arroios<br \/>\nsempre transparentes! Considera, oh Deusa, que na tua Ilha nunca encontrei<br \/>\num charco; um tronco apodrecido; a carca\u00e7a dum bicho morto e coberto<br \/>\nde moscas zumbidoras. Oh Deusa, h\u00e1 oito anos, oito anos terr\u00edveis,<br \/>\nestou privado de ver o trabalho, o esfor\u00e7o, a luta e o sofrimento&#8230;<br \/>\nOh Deusa, n\u00e3o te escandalizes! Ando esfaimado por encontrar um corpo<br \/>\narquejando sob um fardo; dois bois fumegantes puxando um arado; homens que<br \/>\nse injuriem na passagem duma ponte; os bra\u00e7os suplicantes duma m\u00e3e<br \/>\nque chora; um coxo, sobre sua muleta, mendigando \u00e0 porta das vilas&#8230;<br \/>\nDeusa, h\u00e1 oito anos que n\u00e3o olho para uma sepultura&#8230; N\u00e3o<br \/>\nposso mais com esta serenidade sublime! Toda a minha alma arde no desejo do<br \/>\nque se deforma, e se suja, e se espeda\u00e7a, e se corrompe&#8230; Oh Deusa<br \/>\nimortal, eu morro com saudades da morte!<\/p>\n<p>Im\u00f3vel, com as m\u00e3os im\u00f3veis no rega\u00e7o, enrodilhadas<br \/>\nnas pontas do v\u00e9u amarelo, a Deusa escutara, com um sorriso serenamente<br \/>\ndivino, o furioso queixume do Her\u00f3i cativo&#8230; No entanto j\u00e1<br \/>\npela colina as Ninfas, servas da Deusa, desciam, trazendo \u00e0 cabe\u00e7a,<br \/>\ne amparando-os com o bra\u00e7o redondo, os jarros de vinho, os sacos de<br \/>\ncouro, que a Intendenta vener\u00e1vel mandava para abastecer a jangada.<br \/>\nSilenciosamente, o Her\u00f3i lan\u00e7ou uma t\u00e1bua desde a areia<br \/>\nat\u00e9 ao bordo de altos toros. E enquanto sobre ela as Ninfas passavam,<br \/>\nligeiras, com as manilhas de ouro tilintando nos p\u00e9s luzidios, Ulisses,<br \/>\natento, contando os sacos e os odres, gozava no seu nobre cora\u00e7\u00e3o<br \/>\na abund\u00e2ncia generosa. Mas, amarrados com cordas \u00e0s cavilhas<br \/>\naqueles fardos excelentes, todas as Ninfas, lentamente, se sentaram sobre<br \/>\no areal em torno da Deusa, para contemplarem a despedida, o embarque, as manobras<br \/>\ndo Her\u00f3i sobre o dorso das \u00e1guas&#8230; Ent\u00e3o uma c\u00f3lera<br \/>\nlampejou nos largos olhos de Ulisses. E, diante de Calipso, cruzando furiosamente<br \/>\nos valentes bra\u00e7os:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Deusa, pensas tu na verdade que nada falte para que eu largue a vela<br \/>\ne navegue? Onde est\u00e3o os ricos presentes que me deves? Oito anos, oito<br \/>\nduros anos, fui o h\u00f3spede magn\u00edfico da tua Ilha, da tua gruta,<br \/>\ndo teu leito&#8230; Sempre os Deuses imortais determinaram que os h\u00f3spedes,<br \/>\nno momento amigo da partida, se ofertem consider\u00e1veis presentes! Onde<br \/>\nest\u00e3o elas, oh Deusa, essas riquezas abundantes que me deves por costume<br \/>\nda Terra e lei do C\u00e9u?<\/p>\n<p>A Deusa sorriu, com sublime paci\u00eancia. E com palavras aladas, que fugiam<br \/>\nna aragem:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Ulisses, tu \u00e9s claramente o mais interesseiro dos homens. E tamb\u00e9m<br \/>\no mais desconfiado, pois que sup\u00f5es que uma Deusa negaria os presentes<br \/>\ndevidos \u00e0quele que amou&#8230; Sossega, oh subtil Her\u00f3i&#8230; Os ricos<br \/>\npresentes n\u00e3o tardam, largos e rebrilhantes.<\/p>\n<p>E, certamente, pela colina suave, outras Ninfas desciam, ligeiras, com os<br \/>\nv\u00e9us a ondular, trazendo nos bra\u00e7os alfaias lustrosas, que ao<br \/>\nsol rutilavam! O magn\u00e2nimo Ulisses estendeu as m\u00e3os, os olhos<br \/>\ndevoradores&#8230; E, enquanto elas passavam sobre a tabua rangente, o Her\u00f3i<br \/>\nastuto contava, avaliava no seu nobre esp\u00edrito os escabelos de marfim,<br \/>\nos rolos de telas bordadas, os c\u00e2ntaros de bronze lavrado, os escudos<br \/>\ncravejados de pedras&#8230;<\/p>\n<p>T\u00e3o rico e belo era o vaso de ouro que a derradeira Ninfa sustentava<br \/>\nno ombro, que Ulisses deteve a Ninfa, arrebatou o vaso, o sopesou, o mirou,<br \/>\ne gritou, com soberbo riso estridente:<\/p>\n<p>&#8211; Na verdade, este ouro \u00e9 bom!<\/p>\n<p>Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o impaciente<br \/>\nHer\u00f3i, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a jangada<br \/>\nao tronco dum roble, e saltou para o alto bordo que a espuma envolvia. Mas<br \/>\nent\u00e3o recordou que nem beijara a generosa e ilustre Calipso! R\u00e1pido,<br \/>\narremessando o manto, pulou atrav\u00e9s da espuma, correu pela areia e<br \/>\npousou um beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. Ela segurou de leve o<br \/>\nseu ombro robusto:<\/p>\n<p>&#8211; Quantos males te esperam, oh desgra\u00e7ado! Antes ficasses, para toda<br \/>\na imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus bra\u00e7os perfeitos&#8230;<\/p>\n<p>Ulisses recuou, com um brado magn\u00edfico:<\/p>\n<p>&#8211; Oh Deusa, o irrepar\u00e1vel e supremo mal est\u00e1 na tua perfei\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>E, atrav\u00e9s da vaga, fugiu, trepou s\u00f4fregamente \u00e0 jangada,<br \/>\nsoltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas,<br \/>\npara as mis\u00e9rias &#8211; para a del\u00edcia das coisas imperfeitas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo\u00a0II Cap\u00edtulo III &nbsp; E\u00e7a de Queir\u00f3s CAP\u00cdTULO I SENTADO numa rocha, na ilha de Og\u00edgia, com a barba enterrada entre as m\u00e3os, de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95404","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Perfei\u00e7\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto A Perfei\u00e7\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Perfei\u00e7\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto, Obra Liter\u00e1ria, Ulisses, Calipso, Literatura, A Perfei\u00e7\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Perfei\u00e7\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto A Perfei\u00e7\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A Perfei\u00e7\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Conto, Obra Liter\u00e1ria, Ulisses, Calipso, Literatura, A Perfei\u00e7\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-perfeicao-eca-de-queiros\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-18T11:28:51+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"34 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-perfeicao-eca-de-queiros#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-perfeicao-eca-de-queiros\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"A Perfei\u00e7\u00e3o &#8211; 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