{"id":95326,"date":"2017-01-17T15:29:45","date_gmt":"2017-01-17T17:29:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95326"},"modified":"2017-01-17T15:29:45","modified_gmt":"2017-01-17T17:29:45","slug":"familia-composta-domingos-pellegrini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/familia-composta-domingos-pellegrini","title":{"rendered":"Fam\u00edlia Composta &#8211; Domingos Pellegrini"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\" height=\"116\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Pref\u00e1cio<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Personagens<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A livros da mesma forma que a Constitui\u00e7\u00e3o Federal nos garante<br \/>\no direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Por isso, em 2003, o governo criou<br \/>\no Programa Brasil Alfabetizado, para garantir, aos jovens e adultos que nunca<br \/>\ntiveram esse direito, a oportunidade de aprender a ler, escrever e fazer as<br \/>\nopera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>Acima de tudo, o Minist\u00e9rio foi motivado por acreditar que o acesso<br \/>\nao livro e a cria\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito de leitura s\u00e3o<br \/>\nessenciais para fortalecer a nossa cidadania e tamb\u00e9m como alicerce<br \/>\npara outras aprendizagens. A leitura nos permite entender melhor o mundo a<br \/>\nnossa volta e conhecer melhor tamb\u00e9m quem somos n\u00f3s. Por meio<br \/>\nda leitura, ganhamos acesso a outras informa\u00e7\u00f5es e novos conhecimentos.<\/p>\n<p>A Cole\u00e7\u00e3o Literatura para Todos visa, assim, oferecer um conjunto<br \/>\nde livros, produzido com muito carinho e zelo, que proporcionar\u00e1 a<br \/>\nvoc\u00eas leitores um grande prazer \u2013 o prazer de ler, de viajar,<br \/>\nde criar e de fazer parte de uma nova comunidade: a de leitores. Pelo menos,<br \/>\n\u00e9 assim que esperamos. Brasil, pa\u00eds de todos \u2013 Brasil,<br \/>\ncomunidade de leitores! Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o Continuada, Alfabetiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne Diversidade Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Pref\u00e1cio<\/h2>\n<p>Fam\u00edlia composta \u00e9 um livro que fala um pouco da nossa vida<br \/>\ne a das pessoas que n\u00f3s conhecemos. Um texto que trata de afetividade,<br \/>\nproblemas de relacionamento, fam\u00edlia, amor, valores sociais, poesia,<br \/>\nmeios de comunica\u00e7\u00e3o, enfim, coisas do dia-a-dia dos brasileiros.<\/p>\n<p>Existem diferentes maneiras de escrever um texto. Este livro, Fam\u00edlia<br \/>\ncomposta, pertence ao que n\u00f3s chamamos de dramaturgia, ou seja, um<br \/>\ntexto que pode ser lido e ao mesmo tempo encenado no teatro ou transformado<br \/>\nem filme. O leitor vai observar desde o in\u00edcio que ningu\u00e9m conta<br \/>\nnada sobre as personagens, n\u00e3o h\u00e1 um narrador. Das cinco personagens,<br \/>\nquatro \u2013 pai, filha, poeta e m\u00e3e \u2013 dialogam entre si e<br \/>\nmostram o que s\u00e3o, sentem e querem diretamente ao leitor. J\u00e1<br \/>\na fala do homem da tev\u00ea est\u00e1 mais pr\u00f3xima do mon\u00f3logo,<br \/>\numa maneira cr\u00edtica que o autor encontrou para refletir sobre a vida<br \/>\nmoderna e suas transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse tipo de texto h\u00e1 um recurso que \u00e9 fundamental: o uso<br \/>\ndas rubricas, as indica\u00e7\u00f5es que aparecem entre par\u00eanteses<br \/>\ne definem o comportamento das personagens, estados de esp\u00edrito e dicas<br \/>\nde cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica de Fam\u00edlia composta \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde elementos da com\u00e9dia de costumes lado a lado com os da dramaturgia<br \/>\nde vanguarda, misturando o di\u00e1logo do cotidiano familiar com a linguagem<br \/>\nempregada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, em particular a televis\u00e3o.<\/p>\n<p>A trama deste livro \u00e9 muito bem costurada.<\/p>\n<p>O autor constr\u00f3i, a partir de duas situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas,<br \/>\na maternidade da filha e a separa\u00e7\u00e3o do pai, uma hist\u00f3ria<br \/>\ncotidiana e familiar com muita sensibilidade, cr\u00edtica e humor.<\/p>\n<p>Destaque para a entrada em cena do poeta e da m\u00e3e, personagens que<br \/>\nmudam o rumo dos fatos. Em rela\u00e7\u00e3o ao homem da tev\u00ea, bem,<br \/>\nfica para os coment\u00e1rios de voc\u00eas, leitores. Aproveitem! Boa<br \/>\nleitura porque o livro vale a pena.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Personagens<\/h2>\n<p class=\"imagem\">\n<p>Pai Filha Poeta Homem da tev\u00ea M\u00e3e Ratinho Sombra<\/p>\n<p>PAI EST\u00c1 NA SALA, EMBALANDO NEN\u00ca (BONECO ENROLADO EM PANOS<br \/>\nQUE N\u00c3O PRECISA APARECER PARA O P\u00daBLICO) NOS BRA\u00c7OS,<br \/>\nE FALA ALTO PARA FILHA QUE SE ARRUMA E SE MAQUIA EM OUTRO APOSENTO.<\/p>\n<p>PAI: Eu j\u00e1 te falei que se este nen\u00ea urinar em mim mais uma<br \/>\nvez, eu deixo ali no sof\u00e1 e n\u00e3o quero nem saber! E voc\u00ea<br \/>\nnem me apare\u00e7a arrumadinha e pintadinha, prontinha pra sair, que s\u00f3<br \/>\nse for levando o filho que voc\u00ea pariu; quem pariu que embale! (BAIXO,<br \/>\nEMBALANDO O NEN\u00ca E SORRINDO): Mas nem precisa embalar, que voc\u00ea<br \/>\ndorme t\u00e3o f\u00e1cil, n\u00e9, menin\u00e3o lindo, minha m\u00e3e<br \/>\ndizia que eu tamb\u00e9m era um nen\u00ea t\u00e3o dorminhoco que um<br \/>\ndia ela me levou na ro\u00e7a, pra ajudar meu pai a colher caf\u00e9,<br \/>\ne eu fiquei t\u00e3o quietinho no cesto que esqueceram de mim, voltaram<br \/>\npra casa e me deixaram l\u00e1! (GRITANDO PARA A FILHA): E o jogo vai come\u00e7ar,<br \/>\no jogo vai come\u00e7ar, fa\u00e7a-me o favor!!<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" title=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" src=\"imagens\/3.gif\" alt=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" width=\"200\" height=\"251\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>FILHA: Ai, pai, p\u00e1ra de fazer drama, de tudo voc\u00ea faz drama!<\/p>\n<p>PAI: Ah, \u00e9? Que nem quando voc\u00ea sa\u00eda pra festinha e eu<br \/>\nte avisava, \u201colha, cuidado com essa rapaziada, que homem \u00e9 tudo<br \/>\nsemvergonha, cuidado\u201d, e voc\u00ea dizia que eu fazia drama e que a<br \/>\nvida \u00e9 mais com\u00e9dia que drama, mas agora, olha s\u00f3 se<br \/>\neu n\u00e3o estava certo, eu aqui com o resultado da com\u00e9dia e n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 nada engra\u00e7ado, n\u00e3o, e at\u00e9 fede, de vez em quando<br \/>\nenche a fralda e eu tenho de trocar que a m\u00e3e t\u00e1 batendo perna<br \/>\natr\u00e1s de emprego! (BAIXINHO AO NEN\u00ca): N\u00e9, seu cag\u00e3o,<br \/>\nenche a fralda, n\u00e9, mas o v\u00f4 limpa legal, n\u00e9?<\/p>\n<p>FILHA: Ah, pai, voc\u00ea devia agradecer por ter um neto lindo, isso sim,<br \/>\nagradecer em vez de reclamar! Voc\u00ea n\u00e3o dizia que eu era uma avoada,<br \/>\nque s\u00f3 pensava em festa e divers\u00e3o, mas hoje, veja s\u00f3,<br \/>\neu amadureci com esse nen\u00ea, procuro emprego e ainda vou cuidar de voc\u00ea<br \/>\nna velhice! Vou comprar guardanapo de pacote pra limpar sua baba, pai, pode<br \/>\nconfiar! E, se um dia voc\u00ea ficar que n\u00e3o puder nem limpar depois<br \/>\nde fazer coc\u00f4, eu vou limpar voc\u00ea, te prometo, pode confiar, voc\u00ea<br \/>\nvai ter de troco tudo que est\u00e1 fazendo por meu filho, ou melhor, seu<br \/>\nneto, n\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>PAI: Muito engra\u00e7adinha&#8230; Mas v\u00ea se anda logo que eu quero<br \/>\nver o jogo, j\u00e1 falei, eu deixo esse guri no ch\u00e3o e vou ver meu<br \/>\njogo! (AO NEN\u00ca): Mentirinha, viu, menin\u00e3o?! (\u00c0 FILHA):<br \/>\nE n\u00e3o precisa se preocupar com minha velhice que eu n\u00e3o fumo<br \/>\nnem bebo, viu, que nem o pai do teu filho que te deixou na m\u00e3o com<br \/>\na barriga cheia, eu n\u00e3o bebo nem fumo, n\u00e3o vou ter derrame pra<br \/>\nficar babando, viu?! Muito menos vou ficar sem poder me limpar depois de fazer<br \/>\ncoc\u00f4!<\/p>\n<p>FILHA: N\u00e3o sei, foi voc\u00ea mesmo que me ensinou a nunca dizer<br \/>\n\u201cdesta \u00e1gua n\u00e3o beberei\u201d, ou melhor, \u201cdesta<br \/>\nsujeira n\u00e3o me sujarei\u201d, n\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>PAI: Para de brincadeirinha que eu n\u00e3o estou brincando, vem logo<br \/>\nque vai come\u00e7ar o jogo, e eu n\u00e3o consigo ver jogo com este nen\u00ea<br \/>\nno colo!<\/p>\n<p>FILHA (PASSANDO PARA A SALA): Voc\u00ea n\u00e3o consegue \u00e9 tomar<br \/>\ncerveja com o nen\u00ea no colo, n\u00e9 pai, porque precisa ir pra geladeira<br \/>\na cada cinco minutos! E depois diz que n\u00e3o bebe&#8230;<\/p>\n<p>PAI: Duas latinhas no primeiro tempo, mais duas no segundo tempo, isso n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 beber, \u00e9 hidratar!&#8230; E pera\u00ed, onde \u00e9 que voc\u00ea<br \/>\npensa que vai toda produzida assim?! Parece uma \u00e1rvore de natal de<br \/>\ntanto brilho! Eu j\u00e1 falei que&#8230;<\/p>\n<p>FILHA: Acalme-se, n\u00e3o vou sair n\u00e3o, pai, vamos receber uma<br \/>\nvisita.<\/p>\n<p>PAI: Na hora do jogo?! Ah, n\u00e3o, voc\u00ea me avisasse antes! Esse<br \/>\njogo \u00e9 decisivo e&#8230; Antes de tudo, toma teu filho! (PASSA O NEN\u00ca<br \/>\nPARA ELA, QUE O DEIXA NO BER\u00c7O) Quando \u00e9 pra me dar o nen\u00ea,<br \/>\nvoc\u00ea diz que ele detesta ficar no ber\u00e7o. Quando te dou, voc\u00ea<br \/>\nbota no ber\u00e7o! FILHA: Ele t\u00e1 dormindo, voc\u00ea j\u00e1<br \/>\npodia ter deixado no ber\u00e7o. Eu acho \u00e9 que voc\u00ea gosta de<br \/>\nembalar ele, pai&#8230; Embala, embala, a\u00ed ele dorme, depois fica acordando<br \/>\nde noite pra me infernizar.<\/p>\n<p>PAI: Ah, claro, eu sou o culpado de tudo.<\/p>\n<p>FILHA (DANDO-LHE UM BEIJO NA BOCHECHA): N\u00e3o, voc\u00ea \u00e9<br \/>\no melhor pai do mundo e o melhor av\u00f4 do mundo tamb\u00e9m, pelo menos<br \/>\npara mim e para o meu filho.<\/p>\n<p>PAI: N\u00e3o me venha com conversa doce, n\u00e3o, que alguma coisa<br \/>\nvoc\u00ea t\u00e1 armando, te conhe\u00e7o! Quem \u00e9 essa tal visita?!<\/p>\n<p>PAI LIGA A TEV\u00ca (O HOMEM DA TEV\u00ca APARECE EM V\u00cdDEO GRAVADO,<br \/>\nQUE CONGELAR\u00c1 E VOLTAR\u00c1 SEMPRE QUE O PAI ACIONAR O CONTROLE<br \/>\nREMOTO).<\/p>\n<p>HOMEM DA TEV\u00ca: Na Alemanha, um agricultor processou o governo porque<br \/>\no caminh\u00e3o do correio passa em frente a seu est\u00e1bulo, buzinando<br \/>\npara alertar os moradores da aldeia de que a correspond\u00eancia est\u00e1<br \/>\nchegando \u00e0 ag\u00eancia postal. O agricultor alega que a buzina afeta<br \/>\na produtividade de leite das vacas! E n\u00e3o perca no pr\u00f3ximo bloco:<br \/>\ncontinua aumentando o n\u00famero de m\u00e3es adolescentes, um novo fen\u00f4meno<br \/>\nsocial que desafia pais e educadores! Os \u00faltimos dados revelam que&#8230;<\/p>\n<p>PAI (AO HOMEM DA TEV\u00ca): \u00c9, eu sei, eu sei! (DESLIGA A TEV\u00ca)<br \/>\nAinda n\u00e3o acabou o notici\u00e1rio, mas j\u00e1 j\u00e1 come\u00e7a<br \/>\no jogo, ent\u00e3o voc\u00ea leva essa tua visita l\u00e1 pra cozinha<br \/>\ne&#8230;<\/p>\n<p>TOCA A CAMPAINHA. PAI OLHA PELA JANELA.<\/p>\n<p>PAI: Mas&#8230; mas \u00e9 o filho duma \u00e9gua daquele poetinha de meia<br \/>\ntigela que te engravidou! Cad\u00ea o pau do pil\u00e3o?<\/p>\n<p>FILHA: Pai, escuta, pai! PAI (PEGA PAU DO PIL\u00c3O): Esse pil\u00e3o<br \/>\n\u00e9 tudo que tua av\u00f3 me deixou, e nunca usei, mas agora ao menos<br \/>\no pau do pil\u00e3o eu vou usar! Vamos ver se sai muita poesia ou o que<br \/>\nsai daquela cabe\u00e7a! (INDO PARA A PORTA, \u00c9 DETIDO PELA FILHA).<\/p>\n<p>FILHA: Pai, ele vai me pedir em casamento! PAI: O que?! FILHA: Ele vai me<br \/>\npedir em casamento pai, e reconhecer nosso filho! PAI: E vai morar aqui?!<br \/>\nE eu vou sustentar mais um?! Porque aquele traste n\u00e3o tem um gato pra<br \/>\npuxar pelo rabo e mora num quartinho da casa da m\u00e3e com mais sete irm\u00e3os!<br \/>\nSe voc\u00ea acha que eu vou sustentar mais um, pra viver aqui encostado<br \/>\nque nem cip\u00f3 em peroba, ah, n\u00e3o vou n\u00e3o! Eu jogo no meio<br \/>\nda rua e soco que nem minha m\u00e3e socava pa\u00e7oca no pil\u00e3o!<br \/>\nFILHA: Pai, pelo amor de Deus, se quer a minha felicidade, escuta ele, pai!<br \/>\nPAI: Escutar ele? Eu escutei bem quando fui falar pra ele que voc\u00ea estava<br \/>\ngr\u00e1vida dele e perguntar o que ele ia fazer, e ele me falou \u201cpois<br \/>\n\u00e9, eu acho que o que tinha de ser feito j\u00e1 t\u00e1 feito,<br \/>\nn\u00e9\u201d&#8230; Eu esgano o desgra\u00e7ado se abrir a boca pra dizer<br \/>\nque quer casar com voc\u00ea pra virar morar aqui! FILHA: Pai, alguma vez<br \/>\neu te menti?! PAI: N\u00e3o, s\u00f3 me escondeu a verdade! TOCA A CAMPAINHA.<\/p>\n<p>PAI (GRITANDO PARA FORA): J\u00e1 vai, filho duma \u00e9gua, t\u00e1<br \/>\ncom pressa por qu\u00ea? Muita poesia urgente pra fazer?! FILHA: Pai, nunca<br \/>\nte menti e garanto que ele n\u00e3o vem te pedir pra morar aqui! Ent\u00e3o<br \/>\nte pe\u00e7o que atenda, pai, com o mesmo respeito com que voc\u00ea atende<br \/>\nmendigo e catador de lata. Ser\u00e1 que o pai do teu neto n\u00e3o merece<br \/>\nao menos um m\u00ednimo de respeito? PAI: Ah, sim, eu tenho de respeitar<br \/>\nquem encheu o bucho da minha filha, me botou um neto no colo e n\u00e3o<br \/>\nquis nem saber de fazer nada porque tudo \u201cj\u00e1 estava feito\u201d,<br \/>\nque beleza, pra rei dos trouxas s\u00f3 me falta a coroa, n\u00e9? Ser\u00e1<br \/>\nque ele t\u00e1 me trazendo a coroa? Ser\u00e1 que \u00e9 de prata,<br \/>\nde lata ou de coc\u00f4 de barata?!<\/p>\n<p>PAI: Pai, pelo amor de Deus, pela mem\u00f3ria da mam\u00e3e&#8230;! TOCA<br \/>\nA CAMPAINHA. PAI RESPIRA FUNDO, LARGA O PAU DO PIL\u00c3O E VAI PARA A PORTA.<\/p>\n<p>PAI: Filho duma \u00e9gua sarnenta&#8230; (RESPIRA FUNDO, ABRE A PORTA SORRINDO<br \/>\nFOR\u00c7ADO) Boa noite&#8230;<\/p>\n<p>POETA: Boa noite, querido sogro! A vida imita a arte quando nos d\u00e1<br \/>\num malogro, mas tamb\u00e9m, por outra parte, \u00e9 como uma viagem com<br \/>\na gra\u00e7a inesperada de po\u00e9tica paisagem depois da curva da estrada!<br \/>\nPAI: Po\u00e9tica paisagem&#8230; Cad\u00ea o pau do pil\u00e3o?! FILHA:<br \/>\nPai! (AO POETA): Entra, entra, veja quem est\u00e1 ali no ber\u00e7o!<br \/>\nPOETA (ENTRA, OLHA O NEN\u00ca NO BER\u00c7O, DECLAMA ENQUANTO O PAI SE<br \/>\nEXPRESSA POR CARETAS E CONTORS\u00d5ES):<\/p>\n<p>Eis o sangue do meu sangue poema do meu desejo e fruto dos nossos beijos!<br \/>\nCaro sogro, n\u00e3o se zangue se eu disser que se parece com meu pai, cantor<br \/>\nfamoso de cabar\u00e9s e quermesses Ah, como fico orgulhoso&#8230;<\/p>\n<p>PAI: Deixa eu ficar aqui perto do pil\u00e3o&#8230; Cidad\u00e3o, depois<br \/>\ndo que o senhor fez com minha filha, espero que se explique logo e&#8230;<\/p>\n<p>POETA: Antes de tudo, deixemos bem claro que nada fiz: entre n\u00f3s<br \/>\ndois houve apenas o que sua filha quis! Primeiro fui seduzido por ela \u2013<br \/>\nN\u00e3o \u00e9, mainha? \u2013 e depois fui convencido a transar sem<br \/>\ncamisinha! FILHA: \u00c9 verdade, pai! PAI: Voc\u00ea&#8230; \u00c9 verdade?<br \/>\nVoc\u00ea \u00e9 que quis ter um filho com ele?!<\/p>\n<p>FILHA: \u00c9 verdade, pai. Eu vi ele declamando numa festa, eu me apresentei,<br \/>\neu procurei ele depois, v\u00e1rias vezes, eu trouxe ele aqui em casa quando<br \/>\nvoc\u00ea estava trabalhando&#8230;<\/p>\n<p>PAI: Voc\u00ea trouxe ele aqui em casa?! Voc\u00eas fizeram esse filho<br \/>\naqui? S\u00f3 falta dizer que foi no meu colch\u00e3o! POETA: Eu falei:<br \/>\nmeu bem, n\u00e3o vamos usar a cama do sogro pois vai que ele volta logo&#8230;<\/p>\n<p>e, al\u00e9m disso, quem ama ama em qualquer lugar ent\u00e3o que tal<br \/>\nnamorar ali no velho sof\u00e1? FILHA: N\u00e3o, pai, eu queria um filho!<br \/>\nDesde que a m\u00e3e morreu eu sinto que voc\u00ea sente a casa vazia,<br \/>\na vida vazia, eu via voc\u00ea morrendo dia a dia, pai, de tristeza, de desconsolo,<br \/>\ne ouvindo o meu amor falar poesia eu vi a luz, eu vi que um neto ia iluminar<br \/>\na sua vida! PAI: Voc\u00ea est\u00e1 brincando? S\u00f3 falta me dizer<br \/>\nque eu estou em d\u00edvida com voc\u00eas, que eu preciso pagar a voc\u00eas<br \/>\npor terem me dado um neto!<\/p>\n<p>POETA: Fique tranq\u00fcilo, a mim o senhor nada deve, mas reconhe\u00e7a<br \/>\no quanto traz de alegria um neto assim! PAI: Voc\u00ea n\u00e3o pensou<br \/>\nque podia ter um filho com algu\u00e9m que n\u00e3o fosse um saco de rimas?!<br \/>\nVoc\u00ea nem parou pra pensar que ele n\u00e3o tem um gato pra puxar pelo<br \/>\nrabo e&#8230; N\u00e3o, eu n\u00e3o quero saber, voc\u00eas fa\u00e7am<br \/>\no que quiserem, eu vou ver meu jogo que deve estar come\u00e7ando! Eu n\u00e3o<br \/>\nentendo mais nada, eu sou do tempo do namoro, quando a gente come\u00e7ava<br \/>\npegando na m\u00e3o, demorava um m\u00eas pra beijar, casava virgem e tinha<br \/>\nfilhos s\u00f3 depois de nove meses no m\u00ednimo! Hoje, n\u00e3o,<br \/>\nningu\u00e9m namora mais, todo mundo s\u00f3 fica, n\u00e9. Fica um<br \/>\ndia com um, um dia com outro, ent\u00e3o voc\u00eas fiquem como quiserem,<br \/>\nque eu vou ver meu jogo, com licen\u00e7a! (LIGA A TEV\u00ca).<\/p>\n<p>HOMEM DA TEV\u00ca: O IBGE divulga pesquisa revelando que a fam\u00edlia<br \/>\ncomposta tornouse maioria no pa\u00eds, ou seja, aquela fam\u00edlia formada<br \/>\npor pais j\u00e1 descasados e casados novamente, o casal morando com filhos<br \/>\nde casamentos anteriores&#8230;<\/p>\n<p>FILHA (DESLIGA A TEV\u00ca): T\u00e1 vendo, pai? Tudo mudou! PAI: E voc\u00ea<br \/>\ntamb\u00e9m pode mudar na hora que quiser! \u00c9 s\u00f3 pegar seu<br \/>\nfilho&#8230;<\/p>\n<p>FILHA: Seu neto, pai! Seu sangue! POETA (AGACHADO AO LADO DO BER\u00c7O):<br \/>\nSangue seu, sim, de fato d\u00e1 para ver nas canelas t\u00e3o finas,<br \/>\ne p\u00e9s t\u00e3o chatos como os das suas chinelas! PAI (FALANDO PARA<br \/>\nO PIL\u00c3O): Minha m\u00e3e, que tanta pa\u00e7oca fez nesse pil\u00e3o,<br \/>\nme ilumina, me diga por que \u00e9 que n\u00e3o pego esse pau e&#8230;<\/p>\n<p>FILHA: Escuta, pai, a nossa proposta! PAI: Ah, eles t\u00eam uma proposta!<br \/>\nE proposta rima com que?!&#8230; Eles t\u00eam uma proposta!&#8230;<\/p>\n<p>FILHA: Escuta, pai, por favor, como a m\u00e3e dizia: escutar n\u00e3o<br \/>\ncusta nada, muito mais custa falar demais! PAI: T\u00f4 escutando, t\u00f4<br \/>\nescutando, pode falar, senhor poeta, s\u00f3 n\u00e3o me pe\u00e7a pra<br \/>\naplaudir depois, n\u00e9, como aplaudem o senhor a\u00ed nos botecos da<br \/>\nvila e lhe pagam cerveja, n\u00e3o me pe\u00e7a aplauso n\u00e3o, viu,<br \/>\ne se quiser tomar cerveja&#8230;<\/p>\n<p>FILHA (AJOELHANDO): Escuta, pai, quer que eu implore? Eu imploro, escuta<br \/>\nnossa proposta! PAI (LARGA O PAU DE PIL\u00c3O, SENTA): Vossa proposta&#8230;<\/p>\n<p>T\u00f4 escutando.<\/p>\n<p>POETA (PIGARREIA, OLHA O PAPEL QUE DEVOLVE AO BOLSO): Meu sogro, esta sociedade<br \/>\n\u00e0 poesia s\u00f3 d\u00e1 valor se o poeta for ator e tiver notoriedade!<br \/>\nMeus livros s\u00f3 venderei se for parado na rua por gente que diga \u201ca<br \/>\ntua cara j\u00e1 vi na tev\u00ea\u201d! FILHA: Fala logo, amor, a proposta!<br \/>\nPAI: E proposta rima com isso que o nen\u00ea faz toda hora&#8230;<\/p>\n<p>POETA: \u00c9 a era do espet\u00e1culo! E a telinha \u00e9 o or\u00e1culo<br \/>\ndas massas, o rei \u00e9 o J\u00f4 a Hebe \u00e9 sacerdotisa o S\u00edlvio<br \/>\n\u00e9 o santo maior e a poesia s\u00f3 d\u00e1 camisa a quem na tela<br \/>\nse expor! FILHA: Eu falo, pronto! Pai, a gente quer que voc\u00ea v\u00e1<br \/>\nao Programa do Ratinho junto com a gente! PAI: Eu?! No Programa do Ra-ti-nho?!<br \/>\nPra que?! FILHA: Pro teste de DNA, pai! PAI: Mas o filho n\u00e3o \u00e9<br \/>\nmeu, \u00e9 dele!! O p\u00e9 chato pode ser meu, mas o filho \u00e9<br \/>\ndele, n\u00e3o \u00e9?! POETA: N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o<br \/>\ngen\u00e9tica: \u00e9 o teatro da \u00e9tica da donzela e do vil\u00e3o<br \/>\nque pode virar mocinho se assumir o nenezinho ganhando a galera ent\u00e3o!<br \/>\nPAI: Pois boa sorte, podem ir! E j\u00e1 vai de mala e cuia, viu, filha?<br \/>\nLeva o nen\u00ea, v\u00e3o j\u00e1, pe\u00e7am l\u00e1 pro Ratinho<br \/>\nser padrinho, que o menino decerto vai ganhar o nome do pai, n\u00e9, ent\u00e3o<br \/>\nv\u00e3o registrar de novo, n\u00e9, podem fazer uma festa, com padrinhos<br \/>\ne tudo, que nem voc\u00ea queria que eu fizesse, ent\u00e3o agora fa\u00e7am,<br \/>\nfa\u00e7am o que quiserem, que eu vou \u00e9 ver meu jogo! (LIGA A TEV\u00ca)<br \/>\nHOMEM DA TEV\u00ca: A ONU divulga relat\u00f3rio sobre o trabalho infantil,<br \/>\nque vem diminuindo, mas ainda flagela centenas de milh\u00f5es de crian\u00e7as<br \/>\nem todo o mundo, al\u00e9m de outras formas de explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ninfantil! PAI (DESLIGANDO A TEV\u00ca E LEVANTANDO BRAVO): Ta\u00ed, \u00f3,<br \/>\nexplora\u00e7\u00e3o infantil! E querem saber duma coisa? Meu av\u00f4<br \/>\ndizia que se o coador n\u00e3o c\u00f4a, a dentadura tem que coar! Se os<br \/>\npais n\u00e3o cuidam, av\u00f4 tem que cuidar! \u00daltima forma! N\u00e3o<br \/>\nv\u00e3o levar o nen\u00ea coisa nenhuma, expor o meu neto ao vexame p\u00fablico,<br \/>\nainda mais no Programa do Ratinho, o coitadinho \u00e9 at\u00e9 capaz<br \/>\nde apanhar! FILHA: Pai, p\u00e1ra de prejulgar! Como dizia a m\u00e3e,<br \/>\nvoc\u00ea s\u00f3 prejulga e vive vendo tudo errado! PAI: E voc\u00ea<br \/>\npare de me jogar contra sua m\u00e3e que ela n\u00e3o est\u00e1 aqui<br \/>\npra te desmentir! Quem apela pros mortos t\u00e1 sem rumo na vida! Eu n\u00e3o<br \/>\nprejulgo nada, eu vejo com os olhos o que t\u00e1 batendo na vista! FILHA:<br \/>\nEnt\u00e3o saiba, pai, que ningu\u00e9m pensou em levar o nen\u00ea,<br \/>\nqueremos levar \u00e9 o senhor! PAI: Eu?! E-u?! No Programa do Ratinho?<br \/>\nNo quadro do DNA do Programa do Ratinho, eee-uuu?!!!? POETA (QUE ANDOU FAZENDO<br \/>\nCARETAS E CONTAS M\u00c9TRICAS NOS DEDOS A VERSEJAR): Sogro, creia no poeta:<br \/>\na pe\u00e7a s\u00f3 \u00e9 completa com todos os personagens! A donzela<br \/>\ncom seu filho o poeta com seu brilho o av\u00f4 chato e ranheta e a av\u00f3<br \/>\ncheia de coragem! PAI: Me belisca, pil\u00e3o, que deve ser um pesadelo!<br \/>\nMinha filha, voc\u00ea est\u00e1 pensando em levar sua m\u00e3e no Programa<br \/>\ndo Ratinho?! FILHA: Pai, voc\u00ea diz que ela morreu, mas voc\u00ea sabe<br \/>\nque ela est\u00e1 muito viva! O Dalvo acha que assim vai funcionar melhor,<br \/>\npai, porque todo mundo vai l\u00e1 e briga e xinga, aquela pancadaria toda,<br \/>\ne n\u00f3s podemos fazer diferente, a m\u00e3e dando a maior for\u00e7a<br \/>\ne convencendo voc\u00ea de que&#8230;<\/p>\n<p>PAI: Pera\u00ed, \u201ca av\u00f3 cheia de coragem\u201d convencendo<br \/>\n\u201co av\u00f4 chato e ranheta\u201d de que a fam\u00edlia combosta,<br \/>\nou composta, \u00e9 melhor, certo? E a sua m\u00e3e vai posar de bondosa<br \/>\ne corajosa depois de ter me chifrado e me abandonado vergonhosamente enquanto<br \/>\neu viajava a trabalho!? POETA (CONSULTANDO ANOTA\u00c7\u00d5ES): Meu sogro,<br \/>\nesses adornos que a vida \u00e0s vezes nos d\u00e1 e que chamamos de cornos<br \/>\nna verdade s\u00e3o medalhas que s\u00f3 vem valorizar quem assim tanto<br \/>\ntrabalha pois \u00e9 trabalho chorar e sofrer por quem se ama! O p\u00fablico<br \/>\nsaber\u00e1 reconhecer vossa alma compreensiva, e dar\u00e1 aquele aplauso<br \/>\nque acalma a mais profunda amargura e ter\u00e1s enfim a cura que o teu<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o reclama!<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" title=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" src=\"imagens\/4.gif\" alt=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" width=\"200\" height=\"246\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>PAI: Escuta aqui, seu bostoeta, e voc\u00ea, sua irrespons\u00e1vel que<br \/>\neu tanto preveni, mas n\u00e3o me escutou, se quiserem ir ao Ratinho ou<br \/>\nse quiserem ir pro meio do inferno, v\u00e3o, mas n\u00e3o contem comigo!<br \/>\nNada nem ningu\u00e9m vai me convencer a participar daquela baixaria, nem<br \/>\nse for pro meu neto ter um pai, ningu\u00e9m vai me convencer!!! FILHA:<br \/>\nNem a m\u00e3e, pai? (PEGA O NEN\u00ca NO BER\u00c7O) TOCA A CAMPAINHA.<\/p>\n<p>PAI: Tua m\u00e3e?! N\u00e3o vai me dizer que voc\u00ea convidou tua<br \/>\nm\u00e3e para&#8230;<\/p>\n<p>FILHA SAI COM O NEN\u00ca.<\/p>\n<p>POETA: Meu sogro, a vida logra nos envolver em tais pe\u00e7as que o melhor<br \/>\n\u00e9 esquecer logo para esfriar a cabe\u00e7a aceitando as cicatrizes<br \/>\ne jogando enfim o jogo se quisermos ser felizes! TOCA A CAMPAINHA, POETA ABRE<br \/>\nA PORTA E SAI. ENTRA A M\u00c3E (MESMA ATRIZ QUE INTER34 PRETOU A FILHA,<br \/>\nCOM PERUCA GRISALHA E OUTRAS ROUPAS E POSTURAS).<\/p>\n<p>M\u00c3E: Boa noite. (OLHAM-SE LONGAMENTE.<\/p>\n<p>ELA VAI AO BER\u00c7O, AGACHA) Que lindo! \u00c9 a tua cara! PAI: N\u00e3o,<br \/>\ns\u00e3o s\u00f3 os meus p\u00e9s! E ser\u00e1 que eu estou ficando<br \/>\nlouco? Vou me beliscar pra ver se \u00e9 verdade! Quem sabe eu deva bater<br \/>\ncom o pau do pil\u00e3o na cabe\u00e7a pra acordar! M\u00c3E (RI): Voc\u00ea<br \/>\ncontinua engra\u00e7ado! Foi por isso que me apaixonei por voc\u00ea, sabia?<br \/>\nTanto mo\u00e7o mais bonito, mais forte, at\u00e9 mo\u00e7o rico tinha<br \/>\nafim de mim, mas eu me interessei por voc\u00ea porque voc\u00ea me fazia<br \/>\nrir, sabia? PAI: Ah, eu devo mesmo ser um palha\u00e7o, pra ficar aqui olhando<br \/>\npra tua cara enquanto voc\u00ea ri de mim! Como \u00e9 que voc\u00ea tem<br \/>\ncoragem de, depois de anos, chegar aqui de repente, dizendo boa noite como<br \/>\nse nada tivesse acontecido?! M\u00c3E (LEVANTANDO-SE E ENCARANDO): Mas nada<br \/>\naconteceu mesmo, meu ex-marido.<\/p>\n<p>Nada aconteceu quando eu te pedi para trabalhar menos e ficar mais comigo,<br \/>\nfalei que n\u00e3o era preciso a gente ganhar mais, mas viver mais. Nada<br \/>\naconteceu quando eu te procurava na cama e voc\u00ea se encolhia suspirando<br \/>\nde cansa\u00e7o. Nada aconteceu quando te falei que voc\u00ea podia usar<br \/>\nmelhor as tardes de domingo em vez de ficar vendo televis\u00e3o e se enchendo<br \/>\nde cerveja. Nada aconteceu quando eu te convidei pra passear de bicicleta,<br \/>\nfazer jardinagem, fazer gin\u00e1stica, fazer caminhada, ir dan\u00e7ar<br \/>\nno baile do bairro, nada aconteceu! Ou melhor, aconteceu que voc\u00ea foi<br \/>\nficando barrigudo e eu ficando cheia de voc\u00ea! E a\u00ed aconteceu<br \/>\nque te convidei pro curso de dan\u00e7a de sal\u00e3o e voc\u00ea falou<br \/>\nque j\u00e1 sabia dan\u00e7ar, e l\u00e1 fui eu parar nos bra\u00e7os<br \/>\nde algu\u00e9m que viu em mim a mulher que voc\u00ea n\u00e3o via mais.<br \/>\nA\u00ed, aconteceu!&#8230;<\/p>\n<p>PAI (HUMILDE): \u00c9, acho que eu at\u00e9 mere\u00e7o ouvir tudo<br \/>\nque voc\u00ea falou a\u00ed&#8230; (ELEVANDO A VOZ) O que n\u00e3o posso<br \/>\naceitar \u00e9 que, depois de tantos anos sem eu deixar faltar nada em casa,<br \/>\nvoc\u00ea foi embora sem falar nada&#8230;<\/p>\n<p>M\u00c3E: Mas queria que eu falasse o qu\u00ea? E voc\u00ea ia aceitar<br \/>\nalguma coisa que eu dissesse? Voc\u00ea sempre se achou cheio de raz\u00e3o,<br \/>\nnada do que eu dizia voc\u00ea ouvia, sempre dizendo que voc\u00ea \u00e9<br \/>\nque tinha raz\u00e3o, eu falando que a vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3<br \/>\ncomida na mesa e voc\u00ea dizendo que comida na mesa \u00e9 que \u00e9<br \/>\no mais importante, at\u00e9 que eu vi que voc\u00ea queria mais ter raz\u00e3o<br \/>\ndo que ser feliz&#8230;<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" title=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" src=\"imagens\/5.gif\" alt=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" width=\"200\" height=\"238\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>PAI (HUMILDE): Hoje posso at\u00e9 reconhecer que voc\u00ea tinha raz\u00e3o<br \/>\nem achar que eu queria ter raz\u00e3o demais, mas&#8230; (ELEVANDO A VOZ) agora<br \/>\no que n\u00e3o posso aceitar \u00e9 voc\u00ea voltando pra me convencer<br \/>\na ir pra televis\u00e3o participar de baixaria pro teu genro acontecer como<br \/>\npoeta, que maravilha! Eu devia era estar vendo meu jogo, com licen\u00e7a!<br \/>\n(LIGA A TEV\u00ca).<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" src=\"imagens\/6.gif\" alt=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" width=\"200\" height=\"250\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>HOMEM DA TEV\u00ca: Pesquisa da Unicef revela que, al\u00e9m da alimenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nincorreta e do estresse, uma das principais causas de enfarte s\u00e3o as<br \/>\nchamadas emo\u00e7\u00f5es reprimidas, como o remorso, o \u00f3dio,<br \/>\na inveja, a amargura ou rancor, que podem tamb\u00e9m levar \u00e0 depress\u00e3o!<br \/>\nA pesquisa&#8230;<\/p>\n<p>PAI (DESLIGA A TEV\u00ca): Pois saiba que eu n\u00e3o tenho rancor nenhum,<br \/>\ndepress\u00e3o muito menos, levo uma vida \u00f3tima e&#8230; Ai! (CURVASE<br \/>\nCOM A M\u00c3O NO PEITO) Ai!<\/p>\n<p>M\u00c3E: Que foi?! PAI: Nada, uma pontada, s\u00f3 uma pontada, ai!<br \/>\n(DEITA NO SOF\u00c1) M\u00c3E (GRITANDO): Dalvo, Dalvo! PAI: E, al\u00e9m<br \/>\nde poeta, se chama Dalvo! Eu mere\u00e7o, devo ter feito muito mal a algum<br \/>\npoeta em alguma outra vida&#8230; Ai! M\u00c3E: Fica quieto, n\u00e3o fale!<br \/>\nDaaaalvooooo! PAI: Lembra quando a gente casou e fazia amor neste sof\u00e1,<br \/>\nlembra? M\u00c3E: Lembro, antes de voc\u00ea ficar vendo tev\u00ea e tomando<br \/>\ncerveja at\u00e9 dormir aqui mesmo! PAI: Me perdoa! Ai, parece que est\u00e3o<br \/>\nme enfiando uma faca! M\u00c3E: Faca v\u00e3o te enfiar \u00e9 na mesa<br \/>\nde opera\u00e7\u00e3o se for o que estou pensando. Fica quieto! POETA<br \/>\nENTRA, DEPARANDO COM PAI DEITADO NO SOF\u00c1 E M\u00c3E SENTADA DEBRU\u00c7ADA<br \/>\nSOBRE ELE: Que cena linda, a vit\u00f3ria do amor e do perd\u00e3o mostrando<br \/>\nque o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 quem manda em nossa hist\u00f3ria!<\/p>\n<p>M\u00c3E: Manda vir o Siate, isto sim! Acho que ele t\u00e1 tendo um<br \/>\nenfarte! POETA: Meu celular \u00e9 pr\u00e9-pago e est\u00e1 momentaneamente<br \/>\nsem cr\u00e9dito, acredite! PAI: Me faz, meu bem, um afago&#8230;<\/p>\n<p>Lembra o tempo em que a gente se amava at\u00e9 no tapete?&#8230;<\/p>\n<p>POETA (DISCANDO TELEFONE FIXO): Rimou! Acredite com tapete, \u00e9 rima<br \/>\ntonante, mas \u00e9 rima! S\u00f3 pode ser sinal de Deus, ele vai se salvar!<br \/>\nE vai ao Ratinho com a gente, contar que o perd\u00e3o e a poesia lhe salvaram<br \/>\na vida! Al\u00f4? \u00c9 do Siate? Venham j\u00e1, por favor, \u00e0<br \/>\nRua dos Abacates esquina com Melancia! Meu sogro t\u00e1 com enfarte! DESLIGA<br \/>\nO TELEFONE.<\/p>\n<p>N\u00e3o morra, sogro, ainda! Te farei uma poesia Servi\u00e7o Integrado<br \/>\nde Atendimento ao Trauma e Emerg\u00eancia; servi\u00e7o de ambul\u00e2ncias<br \/>\ndo Governo do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Com toda a minha arte pra recitar muito linda no Programa do Ratinho! PAI:<br \/>\nEstou vendo s\u00f3 pontinhos girando na escurid\u00e3o&#8230;! POETA: S\u00e3o<br \/>\nos pontos da audi\u00eancia do nosso sucesso imenso, sogro, na televis\u00e3o!<br \/>\nM\u00c3E: Se ele morrer, vou sentir muito remorso! PAI: N\u00e3o estou<br \/>\nvendo mais nada!&#8230;<\/p>\n<p>POETA (ENQUANTO SE OUVE SIRENE DO SIATE): Mas ver\u00e1 seu genro al\u00e7ado<br \/>\nao c\u00e9u das celebridades e superadas as m\u00e1goas minha poesia afinal<br \/>\nvendendo mais do que \u00e1gua mineral ou p\u00e3o de sal! M\u00c3E:<br \/>\nEle t\u00e1 ficando roxo! POETA: Se morrer, fazer o qu\u00ea?<\/p>\n<p>A gente diz pro Ratinho que a felicidade \u00e9 um tortuoso caminho que<br \/>\nalguns n\u00e3o vencem n\u00e3o e outros conseguem vencer com perd\u00e3o<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o! PAI: Cad\u00ea o pau do pil\u00e3o?! Aaaaaaaaaaaai!!!<br \/>\nCORTE DE LUZ. NA ESCURID\u00c3O, FAM\u00cdLIA CANTA PARAB\u00c9NS PRA<br \/>\nVOC\u00ca. LUZ: EM CENA, DIANTE DE BOLO CUJA VELINHA A FILHA ACENDE, EST\u00c3O<br \/>\nELA, O PAI E O POETA.<\/p>\n<p>FILHA: Pena que o nen\u00ea est\u00e1 dormindo, sen\u00e3o ia ver seu<br \/>\nprimeiro bolo de anivers\u00e1rio! POETA: Primeiro ano de vida: a p\u00e1gina<br \/>\nde um caderno que depois de cada inverno tem primavera florida! PAI: E depois<br \/>\nde quase morto a gente enxerga tudo com outros olhos, e muda endireita o que<br \/>\nera torto ajeita o que era sem jeito aceita o inaceit\u00e1vel e s\u00f3<br \/>\ncom o preconceito se mant\u00e9m intoler\u00e1vel! FILHA: Ai, pai, quem<br \/>\nte viu e quem te v\u00ea! At\u00e9 agora n\u00e3o entendo como \u00e9<br \/>\nque voc\u00ea acordou da cirurgia s\u00f3 falando em forma de poesia! PAI:<br \/>\nJ\u00e1 te contei, minha filha quando eu era rapazote cantava l\u00e1<br \/>\nos meus motes fazia os meus estribilhos, mas por medo ou por vergonha engavetei<br \/>\no talento e a chave ent\u00e3o joguei fora at\u00e9 ver que cada sonho<br \/>\nfaz parte do esqueleto das carnes da nossa hist\u00f3ria! POETA: Meu sogro,<br \/>\nvoc\u00ea me orgulha e jamais me esquecerei dos versos que voc\u00ea fez<br \/>\ncalando at\u00e9 o barulho do Programa do Ratinho! Verso repetido no fi<br \/>\nm de cada estrofe de uma composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante do teu soneto eu me senti um poeta at\u00e9 bem pequenininho&#8230;<\/p>\n<p>Como era mesmo o soneto? PAI: Senhor Ratinho, n\u00e3o existe gato capaz<br \/>\nde amedrontar a decis\u00e3o de quem depois de ouvir o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 quer obedecer ao seu mandato! POETA: Nem \u00e9 preciso comparar<br \/>\nretratos ou apelar para a ci\u00eancia, n\u00e3o: basta olhar nos olhos<br \/>\nou ent\u00e3o reconhecer os nossos p\u00e9s de pato! PAI: \u00c9 neto<br \/>\nmeu, \u00e9 sangue de poeta que sangue de poeta procurou usando o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde minha filha! POETA: Teste de DNA s\u00f3 nos atesta que \u00e9 o perd\u00e3o<br \/>\na poesia do amor e a maior arte \u00e9 fazer fam\u00edlia! PAI: Retificando,<br \/>\nretificando: fazer fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 nada comparado com manter<br \/>\nfam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>POETA: Me lembrou, meu sogro amado que a cerveja e o guaran\u00e1 foram<br \/>\ncomprados fiado na sua conta no bar onde fui at\u00e9 cobrado de forma impertinente,<br \/>\nmas deixei adiantado que pagar\u00e1s brevemente PAI: Mas eu n\u00e3o<br \/>\nautorizei fiado em bar algum! POETA: Meu sogro, a vida \u00e9 repleta de<br \/>\nsurpresas e imprevistos, mas relaxe: haja visto teu pr\u00f3prio neto, que<br \/>\nfoi uma surpresa e agora \u00e9 a alegria do av\u00f4! E veja a\u00ed,<br \/>\nnoves fora, a conta do m\u00eas que passou! (ENTREGA PAPEL AO PAI) PAI (LENDO<br \/>\nPAPEL): Mas&#8230; mas&#8230; Ai meu cora\u00e7\u00e3o! \u00c9 uma pequena fortuna!<br \/>\nPOETA: Calma que tudo se arruma!<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" src=\"imagens\/7.gif\" alt=\"Fam\u00edlia Composta, Domingos Pellegrini\" width=\"200\" height=\"180\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>FILHA: Pai, t\u00e1 fixando roxo, n\u00e3o! POETA: \u00c9 s\u00f3<br \/>\ndar tr\u00eas pr\u00e9-datados, meu sogro, n\u00e3o tem problema! N\u00e3o<br \/>\nv\u00e1 ficar estressado por coisinha t\u00e3o pequena! PAI: Coisinha?!<br \/>\n\u00c9 o que eu levo quinze dias pra ganhar dando duro no trabalho, seu&#8230;!<br \/>\nCAI NO SOF\u00c1, SOCORRIDO PELA FILHA E PELO POETA, ENQUANTO A TEV\u00ca<br \/>\nLIGA.<\/p>\n<p>HOMEM DA TEV\u00ca: Estudo da Federa\u00e7\u00e3o dos Bancos indica<br \/>\nque o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que criou um sistema \u00fanico de cr\u00e9dito<br \/>\ninformal, por meio dos cheques pr\u00e9-datados. (ENQUANTO A FILHA E O POETA<br \/>\nFALAM A SEGUIR): Esse tipo de microcr\u00e9dito cresce muito mais que o<br \/>\nsistema de cr\u00e9dito formal! FILHA: Desliga isso! POETA: N\u00e3o fui<br \/>\neu que liguei, acho que ele caiu em cima do controle remoto! HOMEM DA TEV\u00ca:<br \/>\nCalcula-se que 70% da popula\u00e7\u00e3o usam sempre ou regularmente<br \/>\nos cheques pr\u00e9-datados para, como dizem os economistas, \u201cir vivendo<br \/>\nna frente\u201d e driblando assim os juros altos nos cr\u00e9ditos convencionais.<br \/>\nE, por falar em driblar, em seguida vem a\u00ed o grande cl\u00e1ssico<br \/>\ndo nosso futebol&#8230;<\/p>\n<p>FILHA DESLIGA A TEV\u00ca, EM SINCRONIA COM CORTE DE LUZ. NA ESCURID\u00c3O,<br \/>\nOUVE-SE CHORO DE NEN\u00ca E PREFIXO MUSICAL DO PROGRAMA DO RATINHO, SEGUIDO<br \/>\nDE SIRENE DO SIATE, QUE CESSA PARA SE OUVIR A VOZ DE RATINHO: RATINHO: Fala,<br \/>\nSombra! SOMBRA: Pois n\u00e3o, Ratinho! Livro de poesia de poeta que esteve<br \/>\naqui no seu programa est\u00e1 vendendo mais que \u00e1gua mineral ou<br \/>\np\u00e3o de sal! Os poemas tratam de amor familiar, Ratinho! RATINHO: Ent\u00e3o<br \/>\nvamos para os nossos comerciais com produtos de grande valia para toda a fam\u00edlia!<br \/>\nACENDEM-SE AS LUZES. PAI EST\u00c1 DEITADO EM CAMA COM PEDESTAL DE SORO<br \/>\nINJETANDO NA VEIA. POETA ENTRA P\u00c9 ANTE P\u00c9 COM A M\u00c3E.<\/p>\n<p>POETA: Ah, coitado do meu sogro! O que n\u00e3o faz o estresse quando<br \/>\na pessoa n\u00e3o v\u00ea que mais vale viver bem que se matar trabalhando<br \/>\npra ganhar o que n\u00e3o tem! A vida \u00e9 pra ir levando&#8230;<\/p>\n<p>M\u00c3E: \u00c9, voc\u00ea leva a vida, e a minha filha leva dinheiro<br \/>\npra casa, trabalhando fora e levando o filho pra creche enquanto voc\u00ea<br \/>\nfica fazendo poesia, que beleza!&#8230;<\/p>\n<p>POETA: \u00c9, minha sogra, a beleza \u00e9 a raz\u00e3o da minha<br \/>\nvida! Vejo a beleza at\u00e9 mesmo numa formiga ou lesma no arroz servido<br \/>\nna mesa erva daninha florida tudo \u00e9 belo nesta vida! M\u00c3E: Coitada<br \/>\nda minha filha, agora com o pai assim, largado numa cama sem saber quando<br \/>\nvai ou mesmo se vai melhorar&#8230;! E ela chega em casa, ainda tem de cozinhar<br \/>\npra botar a comida na mesa, pra quem s\u00f3 come \u00e9 uma beleza mesmo!&#8230;<\/p>\n<p>POETA: Beleza \u00e9 a minha sogra mesmo quando assim zangada&#8230;<\/p>\n<p>Parece fruta madura cheirosa e bem encarnada uma dessas criaturas que o<br \/>\ntempo s\u00f3 embeleza e que parece mistura de pecado e de nobreza&#8230;<\/p>\n<p>M\u00c3E: Mas o que \u00e9 isso agora?! T\u00e1 querendo me cantar,<br \/>\n\u00e9? E na beira da cama do meu ex-marido agonizante?! PAI: Eu n\u00e3o<br \/>\nt\u00f4 agonizante! M\u00c3E: Ele falou! Saiu do estado de coma! POETA:<br \/>\nA poesia tem o dom de fazer ressuscitar reviver tudo que \u00e9 bom a beleza<br \/>\neternizar! Eu sabia que provocando meu sogro muito querido teria de dar ouvidos<br \/>\na quem est\u00e1 esperando que levante enfim da cama para viver com quem<br \/>\nama! PAI: Cad\u00ea o pau do pil\u00e3o?!&#8230;<\/p>\n<p>M\u00c3E: Que \u00e9 que ele est\u00e1 dizendo? POETA: Est\u00e1<br \/>\npedindo o pil\u00e3o! Querendo fazer pa\u00e7oca pra festejar a vit\u00f3ria<br \/>\ndesse grande cora\u00e7\u00e3o! Meu Deus, que coisa mais louca! PAI: Eu<br \/>\nquero \u00e9 dar uma co\u00e7a nesse pilantra, querida! E come\u00e7ar<br \/>\nnova vida caminhando todo dia dan\u00e7ando bolero e tango samba, bai\u00e3o<br \/>\ne at\u00e9 mambo e fazendo academia! M\u00c3E: Bem dizem que a pessoa<br \/>\nmuda muito depois do coma, ganha outra vis\u00e3o da vida&#8230;<\/p>\n<p>POETA: E por falar em vis\u00e3o que tal ver televis\u00e3o? LIGA A<br \/>\nTEV\u00ca.<\/p>\n<p>HOMEM DA TEV\u00ca (FALA ENQUANTO PAI VAI SENTANDO NA CAMA): A m\u00e9dia<br \/>\nde vida dos brasileiros continua a aumentar, passando agora dos 70 anos, quando<br \/>\nera de apenas 45 anos no come\u00e7o do s\u00e9culo passado! Al\u00e9m<br \/>\nde melhorar a alimenta\u00e7\u00e3o, as pessoas de terceira idade dedicam-se<br \/>\nmais a atividades saud\u00e1veis, como por exemplo&#8230;<\/p>\n<p>PAI (PEGANDO O CONTROLE REMOTO, DESLIGA A TEV\u00ca): Andar de bicicleta,<br \/>\nquerida, ir at\u00e9 a zona rural fazer piquenique! (BOTA AS PERNAS PARA<br \/>\nFORA DA CAMA, FICA EM P\u00c9) Levar meu neto pra passear! Ir pescar! N\u00e3o<br \/>\nquer ir junto? S\u00f3 pescamos uma vez na vida!&#8230;<\/p>\n<p>M\u00c3E: &#8230;e voc\u00ea ficou reclamando do sol, do calor, dos mosquitos!<br \/>\nPAI: Aquele homem reclam\u00e3o morreu, querida.<\/p>\n<p>Por falar em homem, como vai seu atual marido? M\u00c3E: N\u00e3o sei.<br \/>\nAcabamos.<\/p>\n<p>POETA: Isso merece um poema! A vida \u00e9 caleidosc\u00f3pio&#8230;<\/p>\n<p>PAI: Cale a boca! Se rimar caleidosc\u00f3pio com copo, eu te esgano,<br \/>\nseu sacana! Vai cuidar do teu filho enquanto tua mulher trabalha pra sustentar<br \/>\na casa, vai! Vai!! (POETA SAI) Fam\u00edlia composta&#8230;! M\u00c3E: Calma,<br \/>\nmeu bem, n\u00e3o se exalte, lembre que o seu cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>PAI: O que voc\u00ea disse? M\u00c3E: Que o seu cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>PAI: N\u00e3o, antes. Me chamou de meu bem? M\u00c3E: \u00c9, afinal<br \/>\nfomos casados quantos anos? PAI: Fomos n\u00e3o, somos! Eu n\u00e3o pedi<br \/>\ndiv\u00f3rcio, nem voc\u00ea! Talvez a gente j\u00e1 pressentisse que,<br \/>\ncom o tempo&#8230; (D\u00c3O-SE AS M\u00c3OS) M\u00c3E: Pois \u00e9, o<br \/>\ntempo&#8230; Ser\u00e1 que ainda temos tempo? PAI: Meu bem, como dizem os Stones&#8230;<\/p>\n<p>M\u00c3E: Quem? PAI: Os Rolling Stones, meu bem, dizem que o tempo est\u00e1<br \/>\ndo nosso lado e \u00e9 nosso amigo quando a gente sabe viver a vida! M\u00c3E:<br \/>\nMas quem s\u00e3o esses Rolestones a\u00ed? PAI: Um conjunto de rock,<br \/>\nquerida, vou te mostrar. Eu n\u00e3o andei morto enquanto voc\u00ea Os<br \/>\nRolling Stones \u00e9 um grupo de rock em atividade desde 1962. A m\u00fasica<br \/>\nTime is on my side \u00e9 uma das mais antigas grava\u00e7\u00f5es da<br \/>\nbanda.<\/p>\n<p>Esteve fora, ouvi coisas novas, li novas coisas, pensei em me renovar! Vamos<br \/>\nnamorar? M\u00c3E: O que?! PAI: Namorar. Como outrora se namorava pra ver<br \/>\nse voc\u00ea gosta de mim e eu tamb\u00e9m de voc\u00ea! Talvez come\u00e7ar<br \/>\nagora uma nova vida enfim! M\u00c3E: Eu&#8230; eu nem sei o que dizer! PAI:<br \/>\nQuerida, n\u00e3o diga nada \u00e9 at\u00e9 melhor que assim seja porque<br \/>\na boca que beija j\u00e1 est\u00e1 demais ocupada&#8230;<\/p>\n<p>BEIJAM-SE ENQUANTO ESCURECE EM RESIST\u00caNCIA E OUVE-SE A VOZ DE RATINHO:<br \/>\nRATINHO: Fala, Sombra! SOMBRA: Pois n\u00e3o, Ratinho! Sogro de poeta monta<br \/>\nsite na internet chamado Velho Namoro, pregando a volta ao velho costume de<br \/>\nnamorar firme, em vez de ficar f\u00e1cil! E recomenda o namoro especialmente<br \/>\npara as pessoas da terceira idade! E para os jovens recomenda namorar mais<br \/>\ne ficar menos! RATINHO: E n\u00f3s ficamos com nossos comerciais, Sombra!<br \/>\nACENDEM-SE AS LUZES E A TEV\u00ca.<\/p>\n<p>HOMEM DA TEV\u00ca: Isto foi uma pe\u00e7a de teatro.<\/p>\n<p>Qualquer semelhan\u00e7a com pessoas vivas ou mortas \u00e9 para nos<br \/>\nfazer pensar que tamb\u00e9m podemos mudar a nossa vida.<\/p>\n<p>Tudo est\u00e1 em mudan\u00e7a r\u00e1pida. H\u00e1 apenas um s\u00e9culo,<br \/>\nmulheres n\u00e3o podiam votar.<\/p>\n<p>Meio s\u00e9culo atr\u00e1s, a maioria da popula\u00e7\u00e3o morava<br \/>\nno campo, hoje 90% moram na cidade.<\/p>\n<p>Eram raras as mulheres que trabalhavam fora de casa, ao contr\u00e1rio<br \/>\nde hoje.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o superior era para poucos. Os servi\u00e7os de<br \/>\nsa\u00fade eram muito pouco usados, at\u00e9 porque existiam poucos servi\u00e7os<br \/>\np\u00fablicos de sa\u00fade. A popula\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o<br \/>\nsabia que paga impostos embutidos no pre\u00e7o de tudo que compra. De l\u00e1<br \/>\npara c\u00e1, tudo mudou muito, a fam\u00edlia tamb\u00e9m. As fam\u00edlias<br \/>\ncompostas hoje s\u00e3o maioria na popula\u00e7\u00e3o brasileira. Quem<br \/>\nn\u00e3o muda, fica per dido. Eu mesmo n\u00e3o sei mais o que dizer diante<br \/>\ndisso. Podem se retirar, por favor.<\/p>\n<p>Isto foi uma pe\u00e7a de teatro. N\u00e3o sei mais o que dizer. V\u00e3o<br \/>\nviver. Podem se retirar, por favor. Isto foi uma pe\u00e7a de teatro e isto<br \/>\n\u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o. Qualquer semelhan\u00e7a com pessoas<br \/>\nvivas ou mortas \u00e9 apenas para nos fazer pensar que tamb\u00e9m podemos<br \/>\nmudar a nossa vida. Tudo est\u00e1 em mudan\u00e7a r\u00e1pida.<\/p>\n<p>H\u00e1 apenas um s\u00e9culo&#8230; (CONTINUA REPETINDO A MENSAGEM AT\u00c9<br \/>\nO P\u00daBLICO SE RETIRAR).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Pref\u00e1cio Personagens &nbsp; &nbsp; A livros da mesma forma que a Constitui\u00e7\u00e3o Federal nos garante o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. 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