{"id":94932,"date":"2017-01-13T13:27:39","date_gmt":"2017-01-13T15:27:39","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=94932"},"modified":"2017-01-16T07:44:28","modified_gmt":"2017-01-16T09:44:28","slug":"o-povo-brasileiro-darcy-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-povo-brasileiro-darcy-ribeiro","title":{"rendered":"O Povo Brasileiro &#8211; Darcy Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"216\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Pref\u00e1cio<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#2\"><strong><span style=\"font-size: small;\"> Introdu\u00e7\u00e3o <\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"263\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">I- O Novo Mundo<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\"> II &#8211; Gest\u00e3o \u00c9tnica<\/a><\/strong><\/span><strong><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"5\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"184\">&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#5\">III &#8211; <\/a><\/strong><\/span><a href=\"#5\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>Processo<br \/>\nS\u00f3cio Cultural <\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#7\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>IV &#8211; O Destino Nacional<\/strong><\/span><\/a><span style=\"font-size: small;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>PREF\u00c1CIO<\/h2>\n<p>Escrever este livro foi o desafio maior que me propus. Ainda \u00e9. H\u00e1<br \/>\nmais de trinta anos eu o escrevo e reescrevo, incans\u00e1vel.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que me frustro quando n\u00e3o o fa\u00e7o, ocupando-me<br \/>\nde outras empresas.<\/p>\n<p>Nunca pus tanto de mim, jamais me esforcei tanto como nesse empenho, sempre<br \/>\npostergado, de conclu\u00ed-lo. Hoje o retomo pela terceira vez, isto se<br \/>\ns\u00f3 conto aquela primeira vez em que o escrevi e completei, e a segunda<br \/>\nem que o reescrevi todo, inteiro, esquecendo as inumer\u00e1veis retomadas<br \/>\nepis\u00f3dicas e inconseq\u00fcentes.<\/p>\n<p>Ultimamente essa ang\u00fastia se agu\u00e7ou porque me vi na imin\u00eancia<br \/>\nde morrer sem conclu\u00ed-lo. Fugi do hospital, aqui para Maric\u00e1,<br \/>\npara viver e tamb\u00e9m para escrev\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea, hoje, o tem em m\u00e3os para ler, em letras de f\u00f4rma,<br \/>\n\u00e9 porque afinal venci, fazendo-o existir. Tomara.<\/p>\n<p>Acabo de ler, meio por cima, a \u00faltima vers\u00e3o. Aquela que escrevi<br \/>\nno Peru e que at\u00e9 foi traduzida em castelhano, mas que eu vetei. Era<br \/>\num bom livro, acho agora. Bem podia ter sido publicado tal qual era. Ou ainda<br \/>\n\u00e9, uma vez que a\u00ed est\u00e1 tal e qual: desafiante. Mas eu<br \/>\nn\u00e3o quis larg\u00e1-lo. Pedia mais de mim, me prometia rev\u00ea-lo,<br \/>\nrefaz\u00ea- lo, at\u00e9 que alcan\u00e7asse aquela forma que devia<br \/>\nter. Qual?<\/p>\n<p>Creio que nenhum livro se completa. O autor sempre pode continuar, por um<br \/>\ntempo indefinido, como eu continuei com esse, ao alcance da m\u00e3o, sem<br \/>\nretom\u00e1-lo. O que ocorre \u00e9 que a gente se cansa do livro, apenas<br \/>\nisto, e nesse momento o d\u00e1 por conclu\u00eddo. N\u00e3o tenho muita<br \/>\ncerteza, mas suspeito que comigo \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Por que s\u00f3 agora o retomo, depois de tantos, tant\u00edssimos anos,<br \/>\nem que me ocupei das tarefas mais variadas, fugindo dele? N\u00e3o sei!<br \/>\nN\u00e3o foi para descansar, certamente. Foi para me dar a outras tarefas.<br \/>\nEntre elas, a de me fazer literato e publicar quatro romances, retomando uma<br \/>\nlinha de interesses que s\u00f3 me havia tentado aos vinte anos. Nessa longa<br \/>\ntravessia, tamb\u00e9m politiquei muito, com \u00eaxito e sem \u00eaxito,<br \/>\naqui e no ex\u00edlio, e me dei a fazimentos trabalhosos, diversos. Inclusive<br \/>\nvivi, quase morri.<\/p>\n<p>Nesses anos todos, o livro, este, ficou por a\u00ed, engavetado, amarelando,<br \/>\nesperando at\u00e9 hoje. Agora, estou aqui na praia de Maric\u00e1, para<br \/>\nonde trouxe as pastas com o papel\u00f3rio de suas v\u00e1rias vers\u00f5es.<\/p>\n<p>A primeira tentativa de escrev\u00ea-lo, que nem chegou a compaginar-se,<br \/>\nse deu em meados da d\u00e9cada de 50, quando eu dirigia um amplo programa<br \/>\nde pesquisas socio- antropol\u00f3gicas no \u00f3rg\u00e3o de pesquisas<br \/>\ndo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, o Centro Brasileiro de Pesquisas<br \/>\nEducacionais (CBPE). Eu o concebia, ent\u00e3o, como s\u00edntese daqueles<br \/>\nestudos, com todas as ambi\u00e7\u00f5es de ser um retrato de corpo inteiro<br \/>\ndo Brasil, em sua fei\u00e7\u00e3o rural e urbana, e nas vers\u00f5es<br \/>\narcaica e moderna, naquela inst\u00e2ncia que, a meu ver, era de v\u00e9speras<br \/>\nde uma revolu\u00e7\u00e3o social transformadora.<\/p>\n<p>Eu o abandonei, ent\u00e3o &#8211; l\u00e1 se v\u00e3o trinta anos -, para<br \/>\nocupar-me de planejar e implantar a Universidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Esta tarefa me levou a outras, tais como as de ministro da Educa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde chefe do Gabinete Civil do presidente Jo\u00e3o Goulart, com a miss\u00e3o<br \/>\nde concatenar o Movimento Nacional pelas Reformas de Base.<\/p>\n<p>Tudo isso resultou, sabe-se, no meu primeiro ex\u00edlio, no Uruguai.<br \/>\nL\u00e1, a primeira vers\u00e3o deste livro, umas quatrocentas p\u00e1ginas<br \/>\ndensas, tomou forma, depois de dois anos de trabalho intenso. N\u00e3o era<br \/>\nj\u00e1 a s\u00edntese que me propusera. Era, isto sim, a vers\u00e3o<br \/>\nresultante de minhas viv\u00eancias nos tr\u00e1gicos acontecimentos do<br \/>\nBrasil de que havia participado como protagonista. Esse era o nervo que pulsava<br \/>\ndebaixo do texto, a busca de uma resposta hist\u00f3rica, cient\u00edfica,<br \/>\nna organiza\u00e7\u00e3o que nos faz\u00edamos n\u00f3s, os derrotados<br \/>\npelo golpe militar. Por que, mais uma vez, a classe dominante nos vencia?<br \/>\nNa verdade, para escrev\u00ea-lo, mal compulsei os livros resultantes daquelas<br \/>\npesquisas, que chegaram a ser publicados. Ele foi feito da leitura de quanto<br \/>\ntexto me caiu nas m\u00e3os sobre o Brasil e a Am\u00e9rica Latina. Muit\u00edssimos,<br \/>\nlembro-me bem, gra\u00e7as \u00e0 magn\u00edfica Biblioteca Municipal<br \/>\nde Montevid\u00e9u.<\/p>\n<p>Uma vez completado o livro, a primeira leitura cr\u00edtica que consegui<br \/>\nfazer dele todo me assustou: n\u00e3o dizia nada, ou pouco dizia que n\u00e3o<br \/>\ntivesse sido dito antes. O pior \u00e9 que n\u00e3o respondia \u00e0s<br \/>\nquest\u00f5es que propunha, resum\u00edveis na frase que, desde ent\u00e3o,<br \/>\npassei a repetir: por que o Brasil ainda n\u00e3o deu certo? Meu sentimento<br \/>\nera de que nos faltava uma teoria geral, cuja luz nos tornasse explic\u00e1veis<br \/>\nem seus pr\u00f3prios termos, fundada em nossa experi\u00eancia hist\u00f3rica.<br \/>\nAs teoriza\u00e7\u00f5es oriundas de outros contextos eram todas elas<br \/>\neuroc\u00eantricas demais e, por isso mesmo, impotentes para nos fazer intelig\u00edveis.<br \/>\nNosso passado, n\u00e3o tendo sido o alheio, nosso presente n\u00e3o era<br \/>\nnecessariamente o passado deles, nem nosso futuro um futuro comum.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s de respostas a essas quest\u00f5es, mergulhei, nos anos seguintes,<br \/>\nem estudo e assombros. O que devia ser uma introdu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica,<br \/>\nno meu plano de revis\u00e3o do texto, foi virando livros. A necessidade<br \/>\nde uma teoria do Brasil, que nos situasse na hist\u00f3ria humana, me levou<br \/>\n\u00e0 ousadia de propor toda uma teoria da hist\u00f3ria. As alternativas<br \/>\nque se ofereciam eram impotentes.<\/p>\n<p>Serviriam, talvez, como uma vers\u00e3o te\u00f3rica do desempenho europeu,<br \/>\nmas n\u00e3o explicavam a hist\u00f3ria dos povos orientais, nem o mundo<br \/>\n\u00e1rabe e muito menos a n\u00f3s, latino-americanos. A melhor delas,<br \/>\nrepresentada pela nova vers\u00e3o compilada por Engels, nas Origens, e<br \/>\npor Marx, nas Forma\u00e7\u00f5es, opondo-se uma \u00e0 outra, deixavam<br \/>\no tema em aberto.<\/p>\n<p>O processo civilizat\u00f3rio \u00e9 minha voz nesse debate. Ouvida,<br \/>\nquero crer, porque foi traduzida para as l\u00ednguas de nosso circuito<br \/>\nocidental, editada e reeditada muitas vezes e \u00e9 objeto de debates internacionais<br \/>\nnos Estados Unidos e na Alemanha. A ousadia de escrever um livro t\u00e3o<br \/>\nambicioso me custou algum despeito dos enfermos de sentimentos de inferioridade,<br \/>\nque n\u00e3o admitem a um intelectual brasileiro o direito de entrar nesses<br \/>\ndebates, tratando de mat\u00e9rias t\u00e3o complexas. Sofreu restri\u00e7\u00f5es,<br \/>\ntamb\u00e9m, dos comunistas, porque n\u00e3o era um livro marxista, e<br \/>\ndos acad\u00eamicos da direita, porque era um livro marxista. Isso n\u00e3o<br \/>\nfez dano porque ele acabou sendo mais editado e mais lido do que qualquer<br \/>\noutro livro recente sobre o mesmo tema.<\/p>\n<p>Mas o Processo n\u00e3o bastava. A explica\u00e7\u00e3o que oferece<br \/>\npara 10 mil anos de hist\u00f3ria \u00e9 ampla demais. Suas respostas,<br \/>\nnecessariamente gen\u00e9ricas, apenas d\u00e3o t\u00eanues delineamentos<br \/>\ndo nosso desempenho hist\u00f3rico. Era o que podia dar como alternativa<br \/>\naos textos cl\u00e1ssicos, com que geralmente se trabalhava esse tema. Um<br \/>\nesquema conceitual mais veross\u00edmil e mais explicativo do que os dispon\u00edveis,<br \/>\natrav\u00e9s da proposi\u00e7\u00e3o de novas revolu\u00e7\u00f5es<br \/>\ntecnol\u00f3gicas como motores da hist\u00f3ria, de novos processos civilizat\u00f3rios<br \/>\ne de novas forma\u00e7\u00f5es socioculturais. Vista sob essa luz, a nossa<br \/>\nrealidade se retrata em seus tra\u00e7os mais gerais, resultando num discurso<br \/>\nexplicativo \u00fatil para fins te\u00f3ricos e comparativos, mas insuficiente<br \/>\npara dar conta da causalidade da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sa\u00ed, ent\u00e3o, em busca de explica\u00e7\u00f5es mais terra-a-terra,<br \/>\nem mais anos de trabalho. O tema que me propunha agora era reconstituir o<br \/>\nprocesso de forma\u00e7\u00e3o dos povos americanos, num esfor\u00e7o<br \/>\npara explicar as causas do seu desenvolvimento desigual. Salto, assim, da<br \/>\nescala de 10 mil anos de hist\u00f3ria geral para os quinhentos anos da<br \/>\nhist\u00f3ria americana com um novo livro: As Am\u00e9ricas e a civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nem que proponho uma tipologia dos povos americanos, na forma de uma ampla<br \/>\nexplana\u00e7\u00e3o explicativa.<\/p>\n<p>Esse meu livro anda a\u00ed, desde ent\u00e3o, sendo traduzido, reeditado<br \/>\ne discutido, mais por historiadores e fil\u00f3sofos do que por antrop\u00f3logos.<br \/>\nEsses meus colegas t\u00eam um irresist\u00edvel pendor barbarol\u00f3gico<br \/>\ne um apego a toda conduta desviante e bizarra.<\/p>\n<p>Dedicam seu parco talento a quanto tema bizarro lhes caia em m\u00e3os,<br \/>\nnegando-se sempre, aparvalhados, a usar suas for\u00e7as para entender a<br \/>\nn\u00f3s mesmos, fazendo antropologias da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ocorre, por\u00e9m, uma vez mais, que, completada a tarefa, vejo os limites<br \/>\ndaquilo que alcancei em rela\u00e7\u00e3o ao que buscava.<\/p>\n<p>Meu livro ajuda, \u00e9 certo, a nos fazer intelig\u00edveis, mas \u00e9<br \/>\nclaramente insuficiente para nossas ambi\u00e7\u00f5es. Mergulho outra<br \/>\nvez buscando, numa escala nova, sincr\u00f4nica, as teorias de que necessit\u00e1vamos<br \/>\npara nos compreender. Eram tr\u00eas as mais urgentemente requeridas para<br \/>\ntomar o lugar dos esquemas menos euroc\u00eantricos do que toscos com que<br \/>\nse contava.<\/p>\n<p>Uma teoria de base emp\u00edrica das classes sociais, tais como elas se<br \/>\napresentam no nosso mundo brasileiro e latino-americano. Visivelmente, o esquema<br \/>\nmarxista aceito, sem demasiados reparos, no mundo europeu e no anglo-sax\u00e3o<br \/>\nde ultramar, feito de povos transplantados, empalidece frente \u00e0 nossa<br \/>\nrealidade ibero-latina. Aqui, n\u00e3o havendo burguesias progressistas<br \/>\ndisputando com aristocracias feudais, nem proletariados ungidos por irresist\u00edveis<br \/>\npropens\u00f5es revolucion\u00e1rias, mas havendo lutas de classe, existiriam<br \/>\nblocos antagonistas embu\u00e7ados a identificar e caracterizar.<\/p>\n<p>Nos faltava, por igual, uma tipologia das formas de exerc\u00edcio do<br \/>\npoder e de milit\u00e2ncia pol\u00edtica, seja conservadora, seja reordenadora<br \/>\nou insurgente. Toda politicologia copios\u00edssima de que se disp\u00f5e<br \/>\n\u00e9 feita de an\u00e1lises irrelevantes ou de especula\u00e7\u00f5es<br \/>\nfilosofantes que nos deixam mais perplexos do que explicados.<\/p>\n<p>Efetivamente, falar de liberais, conservadores, radicais, ou de democracia<br \/>\ne liberalismo e at\u00e9 revolu\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica<br \/>\npode ter sentido de defini\u00e7\u00e3o concreta em outros contextos;<br \/>\nno nosso n\u00e3o significa nada, tal a ambig\u00fcidade com que essas express\u00f5es<br \/>\nse aplicam aos agentes mais diferentes e \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais desconexas.<\/p>\n<p>Faltava ainda uma teoria da cultura, capaz de dar conta da nossa realidade,<br \/>\nem que o saber erudito \u00e9 tantas vezes esp\u00fario e o n\u00e3o-saber<br \/>\npopular alcan\u00e7a, contrastantemente, atitudes cr\u00edticas, mobilizando<br \/>\nconsci\u00eancias para movimentos profundos de reordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial. Como estabelecer a forma e o papel da nossa cultura erudita, feita<br \/>\nde transplante, regida pelo modismo europeu, frente \u00e0 criatividade<br \/>\npopular, que mescla as tradi\u00e7\u00f5es mais d\u00edspares para compreender<br \/>\nessa nossa nova vers\u00e3o do mundo e de n\u00f3s mesmos? Para dar conta<br \/>\ndessa necessidade \u00e9 que escrevi O Dilema da Am\u00e9rica Latina.<br \/>\nAli, proponho novos esquemas das classes sociais, dos desempenhos pol\u00edticos,<br \/>\nsituando-os debaixo da press\u00e3o hegem\u00f4nica norte-americana em<br \/>\nque existimos, sem nos ser, para sermos o que lhes conv\u00e9m a eles.<\/p>\n<p>Num exerc\u00edcio puramente did\u00e1tico, resumi os corpos te\u00f3ricos<br \/>\ndesenvolvidos nesses tr\u00eas livros, para compor Os brasileiros: Teoria<br \/>\ndo Brasil. Ele s\u00f3 traz de novo a teoria da cultura a que aludi. N\u00e3o<br \/>\na situei no Dilema, para n\u00e3o ter que tratar tema t\u00e3o copioso<br \/>\ndentro da dimens\u00e3o latino-americana.<\/p>\n<p>Os \u00edndios e a civiliza\u00e7\u00e3o comp\u00f5e, com os quatro<br \/>\nlivros citados, meus Estudos de Antropologia da Civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nainda que resultasse de uma pesquisa realizada anteriormente. O certo, por\u00e9m,<br \/>\n\u00e9 que seu corpo te\u00f3rico \u00e9 o mesmo, fundado no conceito<br \/>\nde transfigura\u00e7\u00e3o \u00e9tnica. Vale dizer, o processo atrav\u00e9s<br \/>\ndo qual os povos surgem, se transformam ou morrem.<\/p>\n<p>Ocupado nessas escrituras &#8220;preliminares&#8221;, que resultaram em cinco<br \/>\nvolumes de quase 2 mil p\u00e1ginas, descuidei desse livro que agora retomo.<br \/>\nEfetivamente, todos eles s\u00e3o fruto da busca de fundamentos te\u00f3ricos<br \/>\nque, tornando o Brasil explic\u00e1vel, me permitissem escrever o livro<br \/>\nque tenho em m\u00e3os.<\/p>\n<p>Foi o que tentei v\u00e1rias vezes no Peru, conforme dizia, chegando a<br \/>\nredigi-lo inteiro, j\u00e1 com base nos meus estudos te\u00f3ricos. N\u00e3o<br \/>\nme satisfazendo a forma que alcancei anos atr\u00e1s, o pus de lado, cuidando<br \/>\nque, com uns meses a mais, o retomaria.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi assim. Desencadeou-se sobre mim o vendaval da vida. Um c\u00e2ncer<br \/>\nme comia um pulm\u00e3o inteiro e tive de retir\u00e1-lo. Para tanto,<br \/>\nretornei ao Brasil, reativando as candentes luzes pol\u00edticas que dormiam<br \/>\nem mim nos anos de ex\u00edlio. Tudo isso e, mais que tudo, uma compulsiva<br \/>\npuls\u00e3o romanesca que me deu, irresist\u00edvel, assim que me soube<br \/>\nmortal e que, desde ent\u00e3o, me escraviza, afastando-me da tarefa que<br \/>\nme propunha.<\/p>\n<p>Agora, uma nova puls\u00e3o, mortal, reaviva a necessidade de publicar<br \/>\neste livro que, al\u00e9m de um texto antropol\u00f3gico explicativo,<br \/>\n\u00e9, e quer ser, um gesto meu na nova luta por um Brasil decente.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00e3o se iluda comigo, leitor. Al\u00e9m de antrop\u00f3logo,<br \/>\nsou homem de f\u00e9 e de partido. Fa\u00e7o pol\u00edtica e fa\u00e7o<br \/>\nci\u00eancia movido por raz\u00f5es \u00e9ticas e por um fundo patriotismo.<br \/>\nN\u00e3o procure, aqui, an\u00e1lises isentas. Este \u00e9 um livro<br \/>\nque quer ser participante, que aspira a influir sobre as pessoas, que aspira<br \/>\na ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>O Brasil e os brasileiros, sua gesta\u00e7\u00e3o como povo, \u00e9<br \/>\no que trataremos de reconstituir e compreender nos cap\u00edtulos seguintes.<br \/>\nSurgimos da conflu\u00eancia, do entrechoque e do caldeamento do invasor<br \/>\nportugu\u00eas com \u00edndios silv\u00edcolas e campineiros e com negros<br \/>\nafricanos, uns e outros aliciados como escravos.<\/p>\n<p>Nessa conflu\u00eancia, que se d\u00e1 sob a reg\u00eancia dos portugueses,<br \/>\nmatrizes raciais d\u00edspares, tradi\u00e7\u00f5es culturais distintas,<br \/>\nforma\u00e7\u00f5es sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar<br \/>\nlugar a um povo novo (Ribeiro 1970), num novo modelo de estrutura\u00e7\u00e3o<br \/>\nsociet\u00e1ria. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada<br \/>\nculturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mesti\u00e7ada, dinamizada<br \/>\npor uma cultura sincr\u00e9tica e singularizada pela redefini\u00e7\u00e3o<br \/>\nde tra\u00e7os culturais delas oriundos. Tamb\u00e9m novo porque se v\u00ea<br \/>\na si mesmo e \u00e9 visto como uma gente nova, um novo g\u00eanero humano<br \/>\ndiferente de quantos existam. Povo novo, ainda, porque \u00e9 um novo modelo<br \/>\nde estrutura\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria, que inaugura uma forma singular<br \/>\nde organiza\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f4mica, fundada num tipo<br \/>\nrenovado de escravismo e numa servid\u00e3o continuada ao mercado mundial.<br \/>\nNovo, inclusive, pela inveross\u00edmil alegria e espantosa vontade de felicidade,<br \/>\nnum povo t\u00e3o sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros.<\/p>\n<p>Velho, por\u00e9m, porque se viabiliza como um proletariado externo. Quer<br \/>\ndizer, como um implante ultramarino da expans\u00e3o europ\u00e9ia que<br \/>\nn\u00e3o existe para si mesmo, mas para gerar lucros export\u00e1veis<br \/>\npelo exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o de provedor colonial de bens<br \/>\npara o mercado mundial, atrav\u00e9s do desgaste da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nque recruta no pa\u00eds ou importa.<\/p>\n<p>A sociedade e a cultura brasileiras s\u00e3o conformadas como variantes<br \/>\nda vers\u00e3o lusitana da tradi\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria europ\u00e9ia<br \/>\nocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos \u00edndios americanos<br \/>\ne dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado<br \/>\nde caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, mas atado genesicamente \u00e0<br \/>\nmatriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer<br \/>\ns\u00f3 aqui se realizariam plenamente.<\/p>\n<p>A conflu\u00eancia de tantas e t\u00e3o variadas matrizes formadoras<br \/>\npoderia ter resultado numa sociedade multi\u00e9tnica, dilacerada pela oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde componentes diferenciados e imisc\u00edveis. Ocorreu justamente o contr\u00e1rio,<br \/>\numa vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia som\u00e1tica e no esp\u00edrito<br \/>\ndos brasileiros os signos de sua m\u00faltipla ancestralidade, n\u00e3o<br \/>\nse diferenciaram em antag\u00f4nicas minorias raciais, culturais ou regionais,<br \/>\nvinculadas a lealdades \u00e9tnicas pr\u00f3prias e disputantes de autonomia<br \/>\nfrente \u00e0 na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As \u00fanicas exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o algumas microetnias tribais<br \/>\nque sobreviveram como ilhas, cercadas pela popula\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\nOu que, vivendo&#8217; para al\u00e9m das fronteiras da civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nconservam sua identidade \u00e9tnica. S\u00e3o t\u00e3o pequenas, por\u00e9m,<br \/>\nque qualquer que seja seu destino, j\u00e1 n\u00e3o podem afetar \u00e0<br \/>\nmacroetnia em que est\u00e3o contidas.<\/p>\n<p>O que tenham os brasileiros de singular em rela\u00e7\u00e3o aos portugueses<br \/>\ndecorre das qualidades diferenciadoras oriundas de suas matrizes ind\u00edgenas<br \/>\ne africanas; da propor\u00e7\u00e3o particular em que elas se congregaram<br \/>\nno Brasil; das condi\u00e7\u00f5es ambientais que enfrentaram aqui e,<br \/>\nainda, da natureza dos objetivos de produ\u00e7\u00e3o que as engajou<br \/>\ne reuniu.<\/p>\n<p>Essa unidade \u00e9tnica b\u00e1sica n\u00e3o significa, por\u00e9m,<br \/>\nnenhuma uniformidade, mesmo porque atuaram sobre ela tr\u00eas for\u00e7as<br \/>\ndiversificadoras. A ecol\u00f3gica, fazendo surgir paisagens humanas distintas<br \/>\nonde as condi\u00e7\u00f5es de meio ambiente obrigaram a adapta\u00e7\u00f5es<br \/>\nregionais. A econ\u00f4mica, criando formas diferenciadas de produ\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque conduziram a especializa\u00e7\u00f5es funcionais e aos seus correspondentes<br \/>\ng\u00eaneros de vida.<\/p>\n<p>E, por \u00faltimo, a imigra\u00e7\u00e3o, que introduziu, nesse magma,<br \/>\nnovos contingentes humanos, principalmente europeus, \u00e1rabes e japoneses.<br \/>\nMas j\u00e1 o encontrando formado e capaz de absorv\u00ea-los e abrasileir\u00e1-los,<br \/>\napenas estrangeirou alguns brasileiros ao gerar diferencia\u00e7\u00f5es<br \/>\nnas \u00e1reas ou nos estratos sociais onde os imigrantes mais se concentraram.<\/p>\n<p>Por essas vias se plasmaram historicamente diversos modos r\u00fasticos<br \/>\nde ser dos brasileiros, que permitem distingui-los, hoje, como sertanejos<br \/>\ndo Nordeste, caboclos da Amaz\u00f4nia, crioulos do litoral, caipiras do<br \/>\nSudeste e Centro do pa\u00eds, ga\u00fachos das campanhas sulinas, al\u00e9m<br \/>\nde \u00edtalo-brasileiros, teuto-brasileiros, nipo-brasileiros etc.<\/p>\n<p>Todos eles muito mais marcados pelo que t\u00eam de comum como brasileiros,<br \/>\ndo que pelas diferen\u00e7as devidas a adapta\u00e7\u00f5es regionais<br \/>\nou funcionais, ou de miscigena\u00e7\u00e3o e acultura\u00e7\u00e3o<br \/>\nque emprestam fisionomia pr\u00f3pria a uma ou outra parcela da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A urbaniza\u00e7\u00e3o, apesar de criar muitos modos citadinos de ser,<br \/>\ncontribuiu para ainda mais uniformizar os brasileiros no plano cultural, sem,<br \/>\ncontudo, borrar suas diferen\u00e7as. A industrializa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nenquanto g\u00eanero de vida que cria suas pr\u00f3prias paisagens humanas,<br \/>\nplasmou ilhas fabris em suas regi\u00f5es. As novas formas de comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde massa est\u00e3o funcionando ativamente como difusoras e uniformizadoras<br \/>\nde novas formas e estilos culturais.<\/p>\n<p>Conquanto diferenciados em suas matrizes raciais e culturais e em suas fun\u00e7\u00f5es<br \/>\necol\u00f3gico-regionais, bem como nos perfis de descendentes de velhos<br \/>\npovoadores ou de imigrantes recentes, os brasileiros se sabem, se sentem e<br \/>\nse comportam como uma s\u00f3 gente, pertencente a uma mesma etnia. Vale<br \/>\ndizer, uma entidade nacional distinta de quantas haja, que fala uma mesma<br \/>\nl\u00edngua, s\u00f3 diferenciada por sotaques regionais, menos remarcados<br \/>\nque os dialetos de Portugal. Participando de um corpo de tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\ncomuns mais significativo para todos que cada uma das variantes subculturais<br \/>\nque diferenciaram os habitantes de uma regi\u00e3o, os membros de uma classe<br \/>\nou descendentes de uma das matrizes formativas.<\/p>\n<p>Mais que uma simples etnia, por\u00e9m, o Brasil \u00e9 uma etnia nacional,<br \/>\num povo-na\u00e7\u00e3o, assentado num territ\u00f3rio pr\u00f3prio<br \/>\ne enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino. Ao contr\u00e1rio<br \/>\nda Espanha, na Europa, ou da Guatemala, na Am\u00e9rica, por exemplo, que<br \/>\ns\u00e3o sociedades multi\u00e9tnicas regidas por Estados unit\u00e1rios<br \/>\ne, por isso mesmo, dilaceradas por conflitos inter\u00e9tnicos, os brasileiros<br \/>\nse integram em uma \u00fanica etnia nacional, constituindo assim um s\u00f3<br \/>\npovo incorporado em uma na\u00e7\u00e3o unificada, num Estado uni-\u00e9tnico.<br \/>\nA \u00fanica exce\u00e7\u00e3o s\u00e3o as m\u00faltiplas microetnias<br \/>\ntribais, t\u00e3o imponder\u00e1veis que sua exist\u00eancia n\u00e3o<br \/>\nafeta o destino nacional.<\/p>\n<p>Aquela uniformidade cultural e esta unidade nacional &#8211; que s\u00e3o, sem<br \/>\nd\u00favida, a grande resultante do processo de forma\u00e7\u00e3o do<br \/>\npovo brasileiro &#8211; n\u00e3o devem cegar-nos, entretanto, para disparidades,<br \/>\ncontradi\u00e7\u00f5es e antagonismos que subsistem debaixo delas como<br \/>\nfatores din\u00e2micos da maior import\u00e2ncia. A unidade nacional, viabilizada<br \/>\npela integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sucessiva dos diversos implantes<br \/>\ncoloniais, foi consolidada, de fato, depois da independ\u00eancia, como um<br \/>\nobjetivo expresso, alcan\u00e7ado atrav\u00e9s de lutas cruentas e da<br \/>\nsabedoria pol\u00edtica de muitas gera\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9,<br \/>\nsem d\u00favida, o \u00fanico m\u00e9rito indiscut\u00edvel das velhas<br \/>\nclasses dirigentes brasileiras. Comparando o bloco unit\u00e1rio resultante<br \/>\nda Am\u00e9rica portuguesa com o mosaico de quadros nacionais diversos a<br \/>\nque deu lugar a Am\u00e9rica hisp\u00e2nica, pode se avaliar a extraordin\u00e1ria<br \/>\nimport\u00e2ncia desse feito.<\/p>\n<p>Essa unidade resultou de um processo continuado e violento de unifica\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica, logrado mediante um esfor\u00e7o deliberado de supress\u00e3o<br \/>\nde toda identidade \u00e9tnica discrepante e de repress\u00e3o e opress\u00e3o<br \/>\nde toda tend\u00eancia virtualmente separatista.<\/p>\n<p>Inclusive de movimentos sociais que aspiravam fundamentalmente edificar<br \/>\numa sociedade mais aberta e solid\u00e1ria. A luta pela unifica\u00e7\u00e3o<br \/>\npotencializa e refor\u00e7a, nessas condi\u00e7\u00f5es, a repress\u00e3o<br \/>\nsocial e classista, castigando como separatistas movimentos que eram meramente<br \/>\nrepublicanos ou antiolig\u00e1rquicos.<\/p>\n<p>Subjacente \u00e0 uniformidade cultural brasileira, esconde-se uma profunda<br \/>\ndist\u00e2ncia social, gerada pelo tipo de estratifica\u00e7\u00e3o que<br \/>\no pr\u00f3prio processo de forma\u00e7\u00e3o nacional produziu. O antagonismo<br \/>\nclassista que corresponde a toda estratifica\u00e7\u00e3o social aqui<br \/>\nse exacerba, para opor uma estreit\u00edssima camada privilegiada ao grosso<br \/>\nda popula\u00e7\u00e3o, fazendo as dist\u00e2ncias sociais mais intranspon\u00edveis<br \/>\nque as diferen\u00e7as raciais.<\/p>\n<p>O povo-na\u00e7\u00e3o n\u00e3o surge no Brasil da evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde formas anteriores de sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam<br \/>\nem classes opostas, mas se conjugam para atender \u00e0s suas necessidades<br \/>\nde sobreviv\u00eancia e progresso. Surge, isto sim, da concentra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma for\u00e7a de trabalho escrava, recrutada para servir a prop\u00f3sitos<br \/>\nmercantis alheios a ela, atrav\u00e9s de processos t\u00e3o violentos<br \/>\nde ordena\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o que constitu\u00edram, de<br \/>\nfato, um continuado genoc\u00eddio e um etnoc\u00eddio implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, exacerba-se o distanciamento social entre<br \/>\nas classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas, agravando<br \/>\nas oposi\u00e7\u00f5es para acumular, debaixo da uniformidade \u00e9tnico-cultural<br \/>\ne da unidade nacional, tens\u00f5es dissociativas de car\u00e1ter traum\u00e1tico.<br \/>\nEm conseq\u00fc\u00eancia, as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois<br \/>\nluso-brasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob<br \/>\no pavor p\u00e2nico do al\u00e7amento das classes oprimidas. Boa express\u00e3o<br \/>\ndesse pavor p\u00e2nico \u00e9 a brutalidade repressiva contra qualquer<br \/>\ninsurg\u00eancia e a predisposi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria do poder<br \/>\ncentral, que n\u00e3o admite qualquer altera\u00e7\u00e3o da ordem vigente.<br \/>\nA estratifica\u00e7\u00e3o social separa e op\u00f5e, assim, os brasileiros<br \/>\nricos e remediados dos pobres, e todos eles dos miser\u00e1veis, mais do<br \/>\nque corresponde habitualmente a esses antagonismos. Nesse plano, as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde classes chegam a ser t\u00e3o infranque\u00e1veis que obliteram toda<br \/>\ncomunica\u00e7\u00e3o propriamente humana entre a massa do povo e a minoria<br \/>\nprivilegiada, que a v\u00ea e a ignora, a trata e a maltrata, a explora e<br \/>\na deplora, como se esta fosse uma conduta natural. A fa\u00e7anha que representou<br \/>\no processo de fus\u00e3o racial e cultural \u00e9 negada, desse modo,<br \/>\nno n\u00edvel aparentemente mais fluido das rela\u00e7\u00f5es sociais,<br \/>\nopondo \u00e0 unidade de um denominador cultural comum, com que se identifica<br \/>\num povo de 160 milh\u00f5es de habitantes, a dilacera\u00e7\u00e3o desse<br \/>\nmesmo povo por uma estratifica\u00e7\u00e3o classista de n\u00edtido<br \/>\ncolorido racial e do tipo mais cruamente desigualit\u00e1rio que se possa<br \/>\nconceber.<\/p>\n<p>O espantoso \u00e9 que os brasileiros, orgulhosos de sua t\u00e3o proclamada,<br \/>\ncomo falsa, &#8220;democracia racial&#8221;, raramente percebem os profundos<br \/>\nabismos que aqui separam os estratos sociais.<\/p>\n<p>O mais grave \u00e9 que esse abismo n\u00e3o conduz a conflitos tendentes<br \/>\na transp\u00f4-lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os<br \/>\nricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente<br \/>\nse isolam numa barreira de indiferen\u00e7a para com a sina dos pobres,<br \/>\ncuja mis\u00e9ria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa esp\u00e9cie<br \/>\nde miopia social, que perpetua a alternidade. O povo-massa, sofrido e perplexo,<br \/>\nv\u00ea a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria<br \/>\ncontemplada por Deus, \u00e0 qual tudo \u00e9 consentido e concedido.<br \/>\nInclusive o dom de serem, \u00e0s vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos<br \/>\ne, invariavelmente, imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Essa alternidade s\u00f3 se potencializou dinamicamente nas lutas seculares<br \/>\ndos \u00edndios e dos negros contra a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois, somente nas raras inst\u00e2ncias em que o povo-massa de uma regi\u00e3o<br \/>\nse organiza na luta por um projeto pr\u00f3prio e alternativo de estrutura\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial, como ocorreu com os Cabanos, em Canudos, no Contestado e entre os<br \/>\nMucker.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es de distanciamento social, a amargura provocada<br \/>\npela exacerba\u00e7\u00e3o do preconceito classista e pela consci\u00eancia<br \/>\nemergente da injusti\u00e7a bem pode eclodir, amanh\u00e3, em convuls\u00f5es<br \/>\nan\u00e1rquicas que conflagrem toda a sociedade. Esse risco sempre presente<br \/>\n\u00e9 que explica a preocupa\u00e7\u00e3o obsessiva que tiveram as<br \/>\nclasses dominantes pela manuten\u00e7\u00e3o da ordem. Sintoma perempt\u00f3rio<br \/>\nde que elas sabem muito bem que isso pode suceder, caso se abram as v\u00e1lvulas<br \/>\nde conten\u00e7\u00e3o. Da\u00ed suas &#8220;revolu\u00e7\u00f5es<br \/>\npreventivas&#8221;, conducentes a ditaduras vistas como um mal menor que qualquer<br \/>\nremendo na ordem vigente.<\/p>\n<p>\u00c9 de assinalar que essa preocupa\u00e7\u00e3o se assentava, primeiro,<br \/>\nno medo da rebeldia dos escravos. Dada a colora\u00e7\u00e3o escura das<br \/>\ncamadas mais pobres, esse medo racial persiste, quando s\u00e3o os antagonismos<br \/>\nsociais que amea\u00e7am eclodir com viol\u00eancia assustadora. Efetivamente,<br \/>\npoder\u00e1 assumir a forma de convuls\u00e3o social terr\u00edvel,<br \/>\nporque, com uma explos\u00e3o emocional, acabaria provavelmente vencida<br \/>\ne esmagada por for\u00e7as repressoras, que restaurariam, sobre os escombros,<br \/>\na velha ordem desigualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O grande desafio que o Brasil enfrenta \u00e9 alcan\u00e7ar a necess\u00e1ria<br \/>\nlucidez para concatenar essas energias e orient\u00e1-las politicamente,<br \/>\ncom clara consci\u00eancia dos riscos de retrocessos e das possibilidades<br \/>\nde libera\u00e7\u00e3o que elas ensejam. O povo brasileiro pagou, historicamente,<br \/>\num pre\u00e7o terrivelmente alto em lutas das mais cruentas de que se tem<br \/>\nregistro na hist\u00f3ria, sem conseguir sair, atrav\u00e9s delas, da<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia e opress\u00e3o em que vive<br \/>\ne peleja. Nessas lutas, \u00edndios foram dizimados e negros foram chacinados<br \/>\naos milh\u00f5es, sempre vencidos e integrados nos plant\u00e9is de escravos.<br \/>\nO povo inteiro, de vastas regi\u00f5es, \u00e0s centenas de milhares,<br \/>\nfoi tamb\u00e9m sangrado em contra-revolu\u00e7\u00f5es sem conseguir<br \/>\njamais, sen\u00e3o episodicamente, conquistar o comando de seu destino para<br \/>\nreorientar o curso da hist\u00f3ria. Ao contr\u00e1rio do que alega a<br \/>\nhistoriografia oficial, nunca faltou aqui, at\u00e9 excedeu, o apelo \u00e0<br \/>\nviol\u00eancia pela classe dominante como arma fundamental da constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nda hist\u00f3ria. O que faltou, sempre, foi espa\u00e7o para movimentos<br \/>\nsociais capazes de promover sua revers\u00e3o. Faltou sempre, e falta ainda,<br \/>\nclamorosamente, uma clara compreens\u00e3o da hist\u00f3ria vivida, como<br \/>\nnecess\u00e1ria nas circunst\u00e2ncias em que ocorreu, e um claro projeto<br \/>\nalternativo de ordena\u00e7\u00e3o social, lucidamente formulado, que<br \/>\nseja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 impens\u00e1vel que a reordena\u00e7\u00e3o social<br \/>\nse fa\u00e7a sem convuls\u00e3o social, por via de um reformismo democr\u00e1tico.<br \/>\nMas ela \u00e9 muit\u00edssimo improv\u00e1vel neste pa\u00eds em<br \/>\nque uns poucos milhares de grandes propriet\u00e1rios podem a\u00e7ambarcar<br \/>\na maior parte de seu territ\u00f3rio, compelindo milh\u00f5es de trabalhadores<br \/>\na se urbanizarem para viver a vida fam\u00e9lica das favelas, por for\u00e7a<br \/>\nda manuten\u00e7\u00e3o de umas velhas leis. Cada vez que um pol\u00edtico<br \/>\nnacionalista ou populista se encaminha para a revis\u00e3o da institucionalidade,<br \/>\nas classes dominantes apelam para a repress\u00e3o e a for\u00e7a.<\/p>\n<p>Este livro \u00e9 um esfor\u00e7o para contribuir ao atendimento desse<br \/>\nreclamo de lucidez.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que tentei fazer a seguir. Primeiro, pela an\u00e1lise<br \/>\ndo processo de gesta\u00e7\u00e3o \u00e9tnica que deu nascimento aos<br \/>\nn\u00facleos originais que, multiplicados, vieram a formar o povo brasileiro.<br \/>\nDepois, pelo estudo das linhas de diversifica\u00e7\u00e3o que plasmaram<br \/>\nos nossos modos regionais de ser. E, finalmente, por via da cr\u00edtica<br \/>\ndo sistema institucional, notadamente a propriedade fundi\u00e1ria e o regime<br \/>\nde trabalho &#8211; no \u00e2mbito do qual o povo brasileiro surgiu e cresceu,<br \/>\nconstrangido e deformado.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a> I. O NOVO MUNDO<\/h2>\n<h5>1. MATRIZES \u00c9TNICAS A ILHA BRASIL<\/h5>\n<p>A costa atl\u00e2ntica, ao longo dos mil\u00eanios, foi percorrida e ocupada<br \/>\npor inumer\u00e1veis povos ind\u00edgenas. Disputando os melhores nichos<br \/>\necol\u00f3gicos, eles se alojavam, desalojavam e realojavam, incessantemente.<br \/>\nNos \u00faltimos s\u00e9culos, por\u00e9m, \u00edndios de fala tupi,<br \/>\nbons guerreiros, se instalaram, dominadores, na imensidade da \u00e1rea,<br \/>\ntanto \u00e0 beira-mar, ao longo de toda a costa atl\u00e2ntica e pelo<br \/>\nAmazonas acima, como subindo pelos rios principais, como o Paraguai, o Guapor\u00e9,<br \/>\no Tapaj\u00f3s, at\u00e9 suas nascentes.<\/p>\n<p>Configuraram, desse modo, a ilha Brasil, de que falava o velho Jaime Cortes\u00e3o<br \/>\n( 1958), prefigurando, no ch\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul, o que viria<br \/>\na ser nosso pa\u00eds. N\u00e3o era, obviamente, uma na\u00e7\u00e3o,<br \/>\nporque eles n\u00e3o se sabiam tantos nem t\u00e3o dominadores.<\/p>\n<p>Eram, t\u00e3o-s\u00f3, uma mir\u00edade de povos tribais, falando<br \/>\nl\u00ednguas do mesmo tronco, dialetos de uma mesma l\u00edngua, cada<br \/>\num dos quais, ao crescer, se bipartia, fazendo dois povos que come\u00e7avam<br \/>\na se diferenciar e logo se desconheciam e se hostilizavam.<\/p>\n<p>Se a hist\u00f3ria, acaso, desse a esses povos Tupi uns s\u00e9culos<br \/>\nmais de liberdade e autonomia, \u00e9 poss\u00edvel que alguns deles se<br \/>\nsobrepusessem aos outros, criando chefaturas sobre territ\u00f3rios cada<br \/>\nvez mais amplos e for\u00e7ando os povos que neles viviam a servi-los, os<br \/>\nuniformizando culturalmente e desencadeando, assim, um processo oposto ao<br \/>\nde expans\u00e3o por diferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada disso sucedeu. O que aconteceu, e mudou total e radicalmente seu destino,<br \/>\nfoi a introdu\u00e7\u00e3o no seu mundo de um protagonista novo, o europeu.<br \/>\nEmbora min\u00fasculo, o grupelho rec\u00e9m-chegado de al\u00e9m-mar<br \/>\nera superagressivo e capaz de atuar destrutivamente de m\u00faltiplas formas.<br \/>\nPrincipalmente como uma infec\u00e7\u00e3o mortal sobre a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\npreexistente, debilitando-a at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p>Esse conflito se d\u00e1 em todos os n\u00edveis, predominantemente<br \/>\nno bi\u00f3tico, como uma guerra bacteriol\u00f3gica travada pelas pestes<br \/>\nque o branco trazia no corpo e eram mortais para as popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nindenes. No ecol\u00f3gico, pela disputa do territ\u00f3rio, de suas matas<br \/>\ne riquezas para outros usos. No econ\u00f4mico e social, pela escraviza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo \u00edndio, pela mercantiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde produ\u00e7\u00e3o, que articulou os novos mundos ao velho mundo europeu<br \/>\ncomo provedores de g\u00eaneros ex\u00f3ticos, cativos e ouros.<\/p>\n<p>No plano \u00e9tnico-cultural, essa transfigura\u00e7\u00e3o se d\u00e1<br \/>\npela gesta\u00e7\u00e3o de uma etnia nova, que foi unificando, na l\u00edngua<br \/>\ne nos costumes, os \u00edndios desengajados de seu viver gent\u00edlico,<br \/>\nos negros trazidos de \u00c1frica, e os europeus aqui querenciados. Era<br \/>\no brasileiro que surgia, constru\u00eddo com os tijolos dessas matrizes<br \/>\n\u00e0 medida que elas iam sendo desfeitas.<\/p>\n<p>Reconstituir esse processo, entend\u00ea-lo em toda a sua complexidade,<br \/>\n\u00e9 meu objetivo neste livro. Parece imposs\u00edvel, reconhe\u00e7o.<br \/>\nImposs\u00edvel porque s\u00f3 temos o testemunho de um dos protagonistas,<br \/>\no invasor. Ele \u00e9 quem nos fala de suas fa\u00e7anhas. \u00c9 ele,<br \/>\ntamb\u00e9m, quem relata o que sucedeu aos \u00edndios e aos negros, raramente<br \/>\nlhes dando a palavra de registro de suas pr\u00f3prias falas. O que a documenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ncopios\u00edssima nos conta \u00e9 a vers\u00e3o do dominador. Lendo-a<br \/>\ncriticamente, \u00e9 que me esfor\u00e7arei para alcan\u00e7ar a necess\u00e1ria<br \/>\ncompreens\u00e3o dessa desventurada aventura.<\/p>\n<p>Tarefa relevant\u00edssima, em dois planos. No hist\u00f3rico, pela<br \/>\nreconstitui\u00e7\u00e3o da linha singular e \u00fanica de sucessos<br \/>\natrav\u00e9s dos quais chegamos a ser o que somos, n\u00f3s, os brasileiros.<br \/>\nNo antropol\u00f3gico, porque o processo geral de gesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde povos que nos fez, documentad\u00edssimo aqui, \u00e9 o mesmo que fez<br \/>\nsurgir em outras eras e circunst\u00e2ncias muitos outros povos, como a romaniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos portugueses e dos franceses, por exemplo, de cujo processo de fazimento<br \/>\ns\u00f3 temos not\u00edcias escassas e duvidosas.<\/p>\n<h2>A MATRIZ TUPI<\/h2>\n<p>Os grupos ind\u00edgenas encontrados no litoral pelo portugu\u00eas eram<br \/>\nprincipalmente tribos de tronco tupi que, havendo se instalado uns s\u00e9culos<br \/>\nantes, ainda estavam desalojando antigos ocupantes oriundos de outras matrizes<br \/>\nculturais. Somavam, talvez, 1 milh\u00e3o de \u00edndios, divididos em<br \/>\ndezenas de grupos tribais, cada um deles compreendendo um conglomerado de<br \/>\nv\u00e1rias aldeias de trezentos a 2 mil habitantes (Fernandes 1949 ). N\u00e3o<br \/>\nera pouca gente, porque Portugal \u00e0quela \u00e9poca teria a mesma<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o ou pouco mais.<\/p>\n<p>Na escala da evolu\u00e7\u00e3o cultural, os povos Tupi davam os primeiros<br \/>\npassos da revolu\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, superando assim a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\npaleol\u00edtica, tal como ocorrera pela primeira vez, h\u00e1 10 mil<br \/>\nanos, com os povos do velho mundo. \u00c9 de assinalar que eles o faziam<br \/>\npor um caminho pr\u00f3prio, juntamente com outros povos da floresta tropical<br \/>\nque haviam domesticado diversas plantas, retirando-as da condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nselvagem para a de mantimento de seus ro\u00e7ados. Entre elas, a mandioca,<br \/>\no que constituiu uma fa\u00e7anha extraordin\u00e1ria, porque se tratava<br \/>\nde uma planta venenosa a qual eles deviam, n\u00e3o apenas cultivar, mas<br \/>\ntamb\u00e9m tratar adequadamente para extrair-lhe o \u00e1cido cian\u00eddrico,<br \/>\ntornando-a comest\u00edvel. \u00c9 uma planta precios\u00edssima porque<br \/>\nn\u00e3o precisa ser colhida e estocada, mantendo-se viva na terra por meses.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da mandioca, cultivavam o milho, a batata-doce, o car\u00e1,<br \/>\no feij\u00e3o, o amendoim, o tabaco, a ab\u00f3bora, o urucu, o algod\u00e3o,<br \/>\no carau\u00e1, cuias e caba\u00e7as, as pimentas, o abacaxi, o mam\u00e3o,<br \/>\na erva-mate, o guaran\u00e1, entre muitas outras plantas. Inclusive dezenas<br \/>\nde \u00e1rvores frut\u00edferas, como o caju, o pequi etc. Faziam, para<br \/>\nisso, grandes ro\u00e7ados na mata, derrubando as \u00e1rvores com seus<br \/>\nmachados de pedra e limpando o terreno com queimadas.<\/p>\n<p>A agricultura lhes assegurava fartura alimentar durante todo o ano e uma<br \/>\ngrande variedade de mat\u00e9rias-primas, condimentos, venenos e estimulantes.<br \/>\nDesse modo, superavam a situa\u00e7\u00e3o de car\u00eancia alimentar<br \/>\na que est\u00e3o sujeitos os povos pr\u00e9- agr\u00edcolas, dependentes<br \/>\nda generosidade da natureza tropical, que prov\u00ea, com fartura, frutos,<br \/>\ncocos e tub\u00e9rculos durante uma parte do ano e, na outra, condena a<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o \u00e0 pen\u00faria. Permaneciam, por\u00e9m,<br \/>\ndependentes do acaso para obter outros alimentos atrav\u00e9s da ca\u00e7a<br \/>\ne da pesca, tamb\u00e9m sujeitos a uma estacionalidade marcada por meses<br \/>\nde enorme abund\u00e2ncia e meses de escassez (Ribeiro 1970; Meggers 1971<br \/>\n).<\/p>\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia dos s\u00edtios privilegiados, onde a ca\u00e7a<br \/>\ne a pesca abundantes garantiam com maior regularidade a sobreviv\u00eancia<br \/>\ndo grupo e permitiam manter aldeamentos maiores. Em certos locais especialmente<br \/>\nricos, tanto na costa mar\u00edtima quanto nos vales mais fecundos, esses<br \/>\naldeamentos excepcionais chegavam a alcan\u00e7ar 3 mil pessoas. Eram, todavia,<br \/>\nconglomerados pr\u00e9-urbanos (aldeias agr\u00edcolas indiferenciadas),<br \/>\nporque todos os moradores estavam compelidos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nde alimentos, s\u00f3 liberando dela, excepcionalmente, alguns l\u00edderes<br \/>\nreligiosos (paj\u00e9s e caraibas) e uns poucos chefes guerreiros (tux\u00e1uas).<\/p>\n<p>Apesar da unidade ling\u00fc\u00edstica e cultural que permite classific\u00e1-los<br \/>\nnuma s\u00f3 macroetnia, oposta globalmente aos outros povos designados<br \/>\npelos portugueses como tapuias (ou inimigos), os \u00edndios do tronco tupi<br \/>\nn\u00e3o puderam jamais unificar-se numa organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<br \/>\nque lhes permitisse atuar conjugadamente.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o mais negativa dos jesu\u00edtas, por\u00e9m,<br \/>\nse funda na pr\u00f3pria ambig\u00fcidade de sua dupla lealdade frente aos<br \/>\n\u00edndios e \u00e0 Coroa, mais predispostos, por\u00e9m, a servir<br \/>\na esta Coroa contra \u00edndios aguerridos que a defend\u00ea-los eficazmente<br \/>\ndiante dela. Isso sobretudo no primeiro s\u00e9culo, quando sua fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nprincipal foi minar as lealdades \u00e9tnicas dos \u00edndios, apelando<br \/>\nfortemente para o seu esp\u00edrito religioso, a fim de fazer com que se<br \/>\ndesgarrassem das tribos e se atrelassem \u00e0s miss\u00f5es. A efic\u00e1cia<br \/>\nque alcan\u00e7am nesse papel alienador \u00e9 t\u00e3o extraordin\u00e1ria<br \/>\nquanto grande a sua responsabilidade na dizima\u00e7\u00e3o que dela resultou.<\/p>\n<p>No segundo s\u00e9culo, j\u00e1 enriquecidos de seu triste papel e tamb\u00e9m<br \/>\nrepresentados por figuras mais capazes de indigna\u00e7\u00e3o moral,<br \/>\ncomo Ant\u00f4nio Vieira, os jesu\u00edtas assumiram grandes riscos no<br \/>\nresguardo e na defesa dos \u00edndios. Foram, por isso, expulsos, primeiro,<br \/>\nde S\u00e3o Paulo e, depois, do estado do Maranh\u00e3o e Gr\u00e3o-Par\u00e1<br \/>\npelos colonos. Afinal, a pr\u00f3pria Coroa, na pessoa do marqu\u00eas<br \/>\nde Pombal, decide acabar com aquela experi\u00eancia socialista precoce,<br \/>\nexpulsando-os do Brasil. Ent\u00e3o, ocorre o mais triste. Os padres entregam<br \/>\nobedientemente as miss\u00f5es aos colonos ricos, contemplados com a propriedade<br \/>\ndas terras e dos \u00edndios pela gente de Pombal, e s\u00e3o presos e<br \/>\nrecolhidos \u00e0 Europa, para amargar por d\u00e9cadas o triste papel<br \/>\nde sujigadores que tinham representado.<\/p>\n<h2>O SALVACIONISMO<\/h2>\n<p>Nas d\u00e9cadas do achamento, descoberta ou invas\u00e3o do Brasil,<br \/>\nsurgiram descri\u00e7\u00f5es cada vez mais minuciosas das novas terras.<br \/>\nAssim, elas iam sendo apropriadas pelo invasor tamb\u00e9m pelo conhecimento<br \/>\nde seus rios e matas, povos, bichos e duendes.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, pela absor\u00e7\u00e3o da copios\u00edssima<br \/>\nsabedoria ind\u00edgena, que nos mil\u00eanios anteriores se familiarizara<br \/>\ncom o que era a natureza circundante, classificando e dando nomes aos lugares<br \/>\ne \u00e0s coisas, definindo seus usos e utilidades. Depois, por sucessivas<br \/>\nredefini\u00e7\u00f5es, umas vezes retendo os antigos nomes, outras, rebatizando,<br \/>\nmas nos dois casos compondo um novo corpo de saber, voltado para valores e<br \/>\nprop\u00f3sitos diferentes.<\/p>\n<p>Foi a gente aqui encontrada que provocou maior curiosidade. Os \u00edndios,<br \/>\nvistos em princ\u00edpio como a boa gente bela, que recebeu dadivosa aos<br \/>\nprimeiros navegantes, passaram logo a ser vistos como canibais, comedores<br \/>\nde carne humana, totalmente detest\u00e1veis. Com o conv\u00edvio, tanto<br \/>\nos \u00edndios come\u00e7aram a distinguir nos europeus na\u00e7\u00f5es<br \/>\ne car\u00e1teres diferentes, como estes passaram a diferenci\u00e1-los<br \/>\nem grupos de aliados e inimigos, falando l\u00ednguas diferentes e tendo<br \/>\ncostumes discrepantes.<\/p>\n<p>Assim, foi surgindo uma etnologia rec\u00edproca, atrav\u00e9s da qual<br \/>\nuns iam figurando o outro. A ela correspondeu, na Europa, um comp\u00eandio<br \/>\nde interpreta\u00e7\u00f5es das novidades espantosas que vinham nas cartas<br \/>\ndos navegantes, depois nas cr\u00f4nicas e testemunhos e, afinal, nessa etnologia<br \/>\nincipiente. A curiosidade se acendeu, inteira, no reino dos te\u00f3logos,<br \/>\nque come\u00e7aram a se chocar com algumas novas, impens\u00e1veis at\u00e9<br \/>\nent\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqueles \u00edndios, t\u00e3o diferentes dos europeus, que os viam e<br \/>\nos descreviam, mas tamb\u00e9m t\u00e3o semelhantes, seriam eles tamb\u00e9m<br \/>\nmembros do g\u00eanero humano, feitos do mesmo barro pelas m\u00e3os de<br \/>\nDeus, \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a? Ca\u00edram na impiedade.<\/p>\n<p>Teriam salva\u00e7\u00e3o? Ficou logo evidente que eles careciam, mesmo,<br \/>\n\u00e9 de um rigoroso banho de lix\u00edvia em suas almas sujas de tanta<br \/>\nabomina\u00e7\u00e3o, como a antropofagia de comer seus inimigos em banquetes<br \/>\nselvagens; a ruindade com que eram manipulados pelo dem\u00f4nio atrav\u00e9s<br \/>\nde seus feiticeiros; a lux\u00faria com que se amavam com a naturalidade<br \/>\nde bichos; a pregui\u00e7a de sua vida farta e in\u00fatil, descuidada<br \/>\nde qualquer produ\u00e7\u00e3o mercantil.<\/p>\n<p>Essa curiosidade floresceu, logo, numa teologia b\u00e1rbara, em que os<br \/>\ntratados de frei Francisco de Vit\u00f3ria, N\u00f3brega e, depois, os<br \/>\nde Vieira e tantos outros, compunham eruditos discursos em que os \u00edndios<br \/>\ncontracenavam com raz\u00f5es teol\u00f3gicas, evang\u00e9licas, apost\u00f3licas,<br \/>\nprovidenciais, catacl\u00edsmicas e escatol\u00f3gicas. Assim \u00e9<br \/>\nque se foi compondo um discurso cada vez mais racional e cada vez mais insano,<br \/>\nfrente \u00e0 realidade do que sucedeu aos \u00edndios: esmagados e escravizados<br \/>\npelo colonizador, cego e surdo a raz\u00f5es que n\u00e3o fossem as do<br \/>\nhaver e do dever pecuni\u00e1rios.<\/p>\n<p>Apesar dessas cruas evid\u00eancias, uns santos homens, em sua aliena\u00e7\u00e3o<br \/>\niluminada, continuaram crendo que cumpriam uma destina\u00e7\u00e3o crist\u00e3<br \/>\nde construtores do reino de Deus no novo mundo, de soldados apost\u00f3licos<br \/>\nda cristandade universal. Logo compuseram uma teologia alucinada e messi\u00e2nica,<br \/>\nque via na expans\u00e3o ib\u00e9rica, com a sucessiva descoberta de dilatadas<br \/>\nterras ignotas e de incont\u00e1veis povos pag\u00e3os, uma miss\u00e3o<br \/>\ndivina que se cumpria passo a passo. Tordesilhas, nesse contexto, teria sido<br \/>\numa vis\u00e3o prof\u00e9tica sobre a destina\u00e7\u00e3o ib\u00e9rica<br \/>\nde evangeliza\u00e7\u00e3o para criar uma Igreja, por fim, efetivamente<br \/>\nuniversal.<\/p>\n<p>Esses discursos respondiam a uma necessidade igualmente imperativa. A de<br \/>\natribuir alguma dignidade formal \u00e0 guerra de exterm\u00ednio que<br \/>\nse levava adiante, \u00e0 brutalidade da conquista, \u00e0 perversidade<br \/>\nda elimina\u00e7\u00e3o de tantos povos. O imp\u00e9rio ib\u00e9rico,<br \/>\nsagrando-se sobre o novo mundo, se tingia com as tintas de Roma. Prometia<br \/>\nque, \u00e0 torpeza \u00edndia, faria suceder a prud\u00eancia e a piedade<br \/>\ncrist\u00e3s, at\u00e9 converter os infi\u00e9is servos do dem\u00f4nio<br \/>\nem crist\u00e3os, tementes do pecado e da perdi\u00e7\u00e3o, adoradores<br \/>\ndo verdadeiro Deus.<\/p>\n<p>O europeu que, for\u00e7ando a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica,<br \/>\nfizera do deus dos hebreus o rei dos homens, agora tinha de incluir aquela<br \/>\nindianidade pag\u00e3 na humanidade do passado, entre os filhos de Eva expulsos<br \/>\ndo Para\u00edso, e do futuro, entre os destinados \u00e0 reden\u00e7\u00e3o<br \/>\neterna.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica sobre esse tema se acendeu por toda a parte, discutindo<br \/>\nvivamente o que se podia debitar e creditar a eles da tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nvetusta. O dil\u00favio ocorreu tamb\u00e9m para o Novo Mundo, com No\u00e9<br \/>\ne seus bichos? Que pastores evang\u00e9licos tiveram a seu cargo levar para<br \/>\nl\u00e1 a palavra de Deus? Por que fracassaram em sua miss\u00e3o evang\u00e9lica<br \/>\nos companheiros de Cristo? Ou tamb\u00e9m os \u00edndios eram culpados<br \/>\ndo pecado original? O pr\u00f3ximo Messias ir\u00e1 salvar a eles tamb\u00e9m?<br \/>\nOs cataclismos apocal\u00edpticos e o Ju\u00edzo Final valer\u00e3o<br \/>\npara os \u00edndios, como para os brancos? Poderia, acaso, o anunciado Filho<br \/>\nde Deus, nascer \u00edndio entre eles? De todo o debate, s\u00f3 reluzia,<br \/>\nclara como o sol, para a c\u00fapula real e para a Igreja, a miss\u00e3o<br \/>\nsalvacionista que cumpria \u00e0 cristandade exercer, a ferro e fogo, se<br \/>\npreciso, para incorporar as novas gentes ao rebanho do rei e da Igreja. Esse<br \/>\nera um mandato imperativo no plano espiritual. Uma destina\u00e7\u00e3o<br \/>\nexpressa, uma miss\u00e3o a cargo da Coroa, cujo direito de avassalar os<br \/>\n\u00edndios, colonizar e fluir as riquezas da terra nova decorria do sagrado<br \/>\ndever de salv\u00e1-los pela evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na ordem secular, a legitimidade da hegemonia europ\u00e9ia se estabeleceu<br \/>\nsoberana.<\/p>\n<p>Na ordem divina, os jesu\u00edtas e os franciscanos pretenderam, por\u00e9m,<br \/>\nafian\u00e7ar que estavam destinados a criar rep\u00fablicas pias e ser\u00e1ficas<br \/>\nde santos homens com os \u00edndios rec\u00e9m-descobertos, a fim de que,<br \/>\ncomo prescrevia o Livro dos Atos, todos os que cr\u00eaem vivessem unidos,<br \/>\ntendo todos os bens em comum.<\/p>\n<p>Configuram-se, assim, duas destina\u00e7\u00f5es cruamente opostas,<br \/>\ndesfrutando, cada qual, o predom\u00ednio na domina\u00e7\u00e3o do<br \/>\nNovo Mundo. De um lado, a dos colonos, \u00e0 frente dos seus neg\u00f3cios.<br \/>\nDo outro lado, a dos religiosos, \u00e0 frente de suas miss\u00f5es. Em<br \/>\nprinc\u00edpio, em terra t\u00e3o vasta, trabalhando cada qual em sua<br \/>\nprov\u00edncia, puderam crescer paralelamente, mas logo o contraste se converteu<br \/>\nem conflito aberto. Os colonos, trabalhando para reproduzir aqui um sadio<br \/>\nmundo mercantil, movidos por suas cobi\u00e7as e usuras.<\/p>\n<p>Os frades, fazendo ressoar no Novo Mundo antigas heresias joaquinistas.<br \/>\nComo a do infante d. Henrique, com sua prega\u00e7\u00e3o de que, uma<br \/>\nvez que era passado o tempo do Pai &#8211; de que rege o Velho Testamento &#8211; e tamb\u00e9m<br \/>\no do Filho \u2013 de que trata o Novo Testamento -, era chegada a Era do<br \/>\nEsp\u00edrito Santo, que instalar\u00e1 o mil\u00eanio do amor e da alegria<br \/>\nneste mundo, com os \u00edndios conversos e convertidos em louvadores da<br \/>\ngl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria faria prevalecer o plano oposto, obrigando os pr\u00f3prios<br \/>\nevangelizadores a cumprir o projeto colonial atrav\u00e9s da guerra genocida<br \/>\ncontra todos os \u00edndios e da a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria,<br \/>\na seu pesar, etnocida.<\/p>\n<p>Nas tarefas da convers\u00e3o do gentio e sua integra\u00e7\u00e3o<br \/>\nna cristandade, foram soldados principais o jesu\u00edta, o franciscano<br \/>\ne o carmelita. Os inacianos, inspirando, apoiando, incentivando o bra\u00e7o<br \/>\nsecular para que, guerreando e avassalando, pusessem os \u00edndios, humilhados,<br \/>\na seus p\u00e9s dentro das miss\u00f5es. Ali, aparentemente, eles iam<br \/>\nviver vidas de \u00edndios humildes, contritamente. Na verdade, eles estavam<br \/>\ninventando para os \u00edndios uma vida nova, triste vida de catec\u00famenos,<br \/>\nsuport\u00e1vel apenas diante da alternativa que era ca\u00edrem cativos<br \/>\nnas m\u00e3os do colono. Assim, foram edificando, dia a dia, ano a ano,<br \/>\na Cidade Crist\u00e3, virtuosa e operativa, impens\u00e1vel no Velho Mundo,<br \/>\nmas fact\u00edvel aqui com o barro d\u00f3cil que eram os \u00edndios.<br \/>\nInocentes, simples e puros, sobretudo as crian\u00e7as, ainda com dentes<br \/>\nde leite, como dizia Gilberto Freyre. Acabou ficando claro, para eles, que<br \/>\nnada se podia esperar da Europa, corrompida e corrupta. A esperan\u00e7a<br \/>\n\u00fanica de salva\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para ela seria o Apocalipse.<br \/>\nNo Novo Mundo, ao contr\u00e1rio, eles viam confirmar, a cada dia, suas<br \/>\nesperan\u00e7as de concretizar as profecias b\u00edblicas.<\/p>\n<p>A tarefa a que os mission\u00e1rios se propunham n\u00e3o era transplantar<br \/>\nos modos europeus de ser e de viver para o Novo Mundo.<\/p>\n<p>Era, ao contr\u00e1rio, recriar aqui o humano, desenvolvendo suas melhores<br \/>\npotencialidades, para implantar, afinal, uma sociedade solid\u00e1ria, igualit\u00e1ria,<br \/>\norante e pia, nas bases sonhadas pelos profetas. Essa utopia socialista e<br \/>\nser\u00e1fica floresce nas Am\u00e9ricas, recorrendo \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo cristianismo primitivo e \u00e0s mais generosas profecias messi\u00e2nicas.<br \/>\nEla se funda, por igual, no pasmo dos mission\u00e1rios diante da inoc\u00eancia<br \/>\nad\u00e2mica e do solidarismo ed\u00eanico que se capacitaram a ver nos<br \/>\n\u00edndios, \u00e0 medida que com eles conviviam.<\/p>\n<p>Os m\u00edsticos franciscanos que se viam \u00e0 frente do sistema de<br \/>\ncastas de \u00edndios remanescentes das civiliza\u00e7\u00f5es pr\u00e9-colombianas<br \/>\navan\u00e7am, recrutando-os para converter pir\u00e2mides pag\u00e3s<br \/>\nem templos crist\u00e3os suntuosos, para maior gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p>Sonham ordenar a vida ind\u00edgena segundo as regras da Utopia, de Morus,<br \/>\ninspirados anacronicamente na indianidade original. Acreditaram, mesmo, que<br \/>\nera poss\u00edvel abrir essa alternativa para a conquista, fazendo da expans\u00e3o<br \/>\neurop\u00e9ia a universaliza\u00e7\u00e3o da cristandade. Encarnada<br \/>\nnos corpos ind\u00edgenas, a cristandade ingressaria no Mil\u00eanio Joaquinista,<br \/>\nem que a felicidade se alcan\u00e7aria neste mundo. No Brasil, os jesu\u00edtas<br \/>\nforam adiante no mesmo caminho, reinventando a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Essas utopias se opunham t\u00e3o cruamente ao projeto colonial que a<br \/>\nguerra se instalou prontamente entre colonos e sacerdotes. De um lado, o colono,<br \/>\nquerendo p\u00f4r os bra\u00e7os \u00edndios a produzir o que os enricasse,<br \/>\najudados por mundanos curas regulares dispostos a sacramentar a cidade terrena,<br \/>\ndando a Deus o que \u00e9 de Deus e ao rei o que ele reclamava. Foi um desastre,<br \/>\nmesmo onde as miss\u00f5es se implantaram produtivas e at\u00e9 rent\u00e1veis<br \/>\npara a pr\u00f3pria Coroa &#8211; como ocorreu com as dos Sete Povos, no sul,<br \/>\ne ao norte, na miss\u00e3o tardia da Amaz\u00f4nia &#8211; prevaleceu a vontade<br \/>\ndo colono, que via nos \u00edndios a for\u00e7a de trabalho de que necessitava<br \/>\npara prosperar.<\/p>\n<p>O espantoso para quem medita hoje esse drama \u00e9 o vigor da f\u00e9<br \/>\nmission\u00e1ria daqueles santos homens, que chegaram at\u00e9 \u00e0<br \/>\nsubvers\u00e3o na luta por seu ideal.<\/p>\n<p>Depois de transigir sem limites, interpretando em tom transcendental a conquista<br \/>\ncomo mal necess\u00e1rio, a porta da estrada que se abriria ao caminho da<br \/>\nf\u00e9 pelo flagelo, ca\u00edram em si e come\u00e7aram a ver seu pr\u00f3prio<br \/>\npapel conivente.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas n\u00e3o disseram nenhuma palavra de piedade pelos<br \/>\nmilhares de \u00edndios mortos, pelas aldeias incendiadas, pelas crian\u00e7as,<br \/>\npelas mulheres e homens escravizados, aos milh\u00f5es. Tudo isso eles viram<br \/>\nsilentes. Ou at\u00e9 mesmo, como Anchieta, cantando essas fa\u00e7anhas<br \/>\nem milhares de versos servis. Para eles, toda aquela dor era dor necess\u00e1ria<br \/>\npara colorir as faces da aurora, que eles viam amanhecendo. S\u00f3 tardiamente<br \/>\nca\u00edram em si, vendo-se vencidos primeiro na evangeliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndepois na reclus\u00e3o dos \u00edndios nas miss\u00f5es. Entretanto,<br \/>\nnenhum desastre hist\u00f3rico, nenhum projeto ut\u00f3pico anterior teve<br \/>\ntal altitude, porque nenhuma esperan\u00e7a at\u00e9 ent\u00e3o fora<br \/>\nt\u00e3o alentadora e pudera ser levada t\u00e3o adiante, a demonstrar<br \/>\na factibilidade de reconstruir intencionalmente a sociedade segundo um projeto.<\/p>\n<p>A utopia jesu\u00edtica esboroou e os inacianos foram expulsos das Am\u00e9ricas,<br \/>\nentregando, inermes, desvirilizados, os seus catec\u00famenos ao sacrif\u00edcio<br \/>\ne \u00e0 escravid\u00e3o na m\u00e3o possessa dos colonos. O mesmo aconteceu<br \/>\ncom o sonho mir\u00edfico dos franciscanos, reduzido \u00e0 vis\u00e3o<br \/>\ndo que era a bo\u00e7alidade do mundo colonial, \u00ednvio, \u00edmpio<br \/>\ne bruto.<\/p>\n<p>\u00c9 de perguntar, aqui, se n\u00e3o foi o pr\u00f3prio \u00eaxito<br \/>\nque levou os projetos ut\u00f3picos de jesu\u00edtas e de franciscanos<br \/>\nao fracasso. Vendo a incompatibilidade insan\u00e1vel entre eles e os colonos<br \/>\ne, por extens\u00e3o, entre o projeto mission\u00e1rio e o real, se afastaram<br \/>\npara criar sua pr\u00f3pria prov\u00edncia europ\u00e9ia. Queriam dar<br \/>\n\u00e0 expans\u00e3o ib\u00e9rica a alternativa freiral de restaura\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma indianidade cristianizada, que falaria as l\u00ednguas ind\u00edgenas<br \/>\ne s\u00f3 teria fidelidade a si mesma. Entre as duas proposi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nn\u00e3o havia d\u00favida poss\u00edvel.<\/p>\n<p>As Coroas optaram, ambas, pelo projeto colonial.<\/p>\n<p>Os m\u00edsticos haviam cumprido j\u00e1 a sua fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde dignificar \u00e1 a\u00e7\u00e3o conquistadora.<\/p>\n<p>Agora, deviam dar lugar aos homens pr\u00e1ticos, que assentariam e consolidariam<br \/>\nas bases do imp\u00e9rio maior que jamais se viu. Em lugar de sacros reinos<br \/>\npios, sob reis mission\u00e1rios a servi\u00e7o da Igreja e de Deus, os<br \/>\nreis de Espanha e de Portugal queriam \u00e9 o reino deste mundo.<\/p>\n<h3>2. O ENFRENTAMENTO DOS MUNDOS<\/h3>\n<h4><strong>AS OPOSTAS VIS\u00d5ES<\/strong><\/h4>\n<p>Os \u00edndios perceberam a chegada do europeu como um acontecimento espantoso,<br \/>\ns\u00f3 assimil\u00e1vel em sua vis\u00e3o m\u00edtica do mundo. Seriam<br \/>\ngente de seu deus sol, o criador &#8211; Ma\u00edra -, que vinha milagrosamente<br \/>\nsobre as ondas do mar grosso. N\u00e3o havia como interpretar seus des\u00edgnios,<br \/>\ntanto podiam ser ferozes como pac\u00edficos, espoliadores ou dadores.<\/p>\n<p>Provavelmente seriam pessoas generosas, achavam os \u00edndios. Mesmo porque,<br \/>\nno seu mundo, mais belo era dar que receber. Ali, ningu\u00e9m jamais espoliara<br \/>\nningu\u00e9m e a pessoa alguma se negava louvor por sua bravura e criatividade.<br \/>\nVisivelmente, os rec\u00e9m-chegados, sa\u00eddos do mar, eram feios, f\u00e9tidos e infectos.<br \/>\nN\u00e3o havia como neg\u00e1- lo. \u00c9 certo que, depois do banho e da comida, melhoraram<br \/>\nde aspecto e de modos. Maiores ter\u00e3o sido, provavelmente, as esperan\u00e7as do<br \/>\nque os temores daqueles primeiros \u00edndios. Tanto assim \u00e9 que muitos deles embarcaram<br \/>\nconfiantes nas primeiras naus, crendo que seriam levados a Terras sem Males,<br \/>\nmorada de Ma\u00edra (Newen Zeytung 1515). Tantos que o \u00edndio passou a ser, depois<br \/>\ndo pau-brasil, a principal mercadoria de exporta\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Pouco mais tarde, essa vis\u00e3o id\u00edlica se dissipa. Nos anos seguintes, se anula<br \/>\ne reverte-se no seu contr\u00e1rio: os \u00edndios come\u00e7am a ver a hecatombe que ca\u00edra<br \/>\nsobre eles. Ma\u00edra, seu deus, estaria morto? Como explicar que seu povo predileto<br \/>\nsofresse tamanhas prova\u00e7\u00f5es? T\u00e3o espantosas e terr\u00edveis eram elas, que para<br \/>\nmuitos \u00edndios melhor fora morrer do que viver.<\/p>\n<p>Mais tarde, com a destrui\u00e7\u00e3o das bases da vida social ind\u00edgena, a nega\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todos os seus valores, o despojo, o cativeiro, muit\u00edssimos \u00edndios deitavam<br \/>\nem suas redes e se deixavam morrer, como s\u00f3 eles t\u00eam o poder de fazer. Morriam<br \/>\nde tristeza, certos de que todo o futuro poss\u00edvel seria a nega\u00e7\u00e3o mais horr\u00edvel<br \/>\ndo passado, uma vida indigna de ser vivida por gente verdadeira.<\/p>\n<p>obre esses \u00edndios assombrados com o que lhes sucedia \u00e9 que caiu a prega\u00e7\u00e3o<br \/>\nmission\u00e1ria, como um flagelo. Com ela, os \u00edndios souberam que era por culpa<br \/>\nsua, de sua iniq\u00fcidade, de seus pecados, que o bom deus do c\u00e9u ca\u00edra sobre<br \/>\neles, como um c\u00e3o selvagem, amea\u00e7ando lan\u00e7\u00e1-los para sempre nos infernos.<br \/>\nO bem e o mal, a virtude e o pecado, o valor e a covardia, tudo se confundia,<br \/>\ntranstrocando o belo com o feio, o ruim com o bom. Nada valia, agora e doravante,<br \/>\no que para eles mais valia: a bravura gratuita, a vontade de beleza, a criatividade,<br \/>\na solidariedade. A cristandade surgia a seus olhos como o mundo do pecado,<br \/>\ndas enfermidades dolorosas e mortais, da covardia, que se adonava do mundo<br \/>\n\u00edndio, tudo conspurcando, tudo apodrecendo. Os povos que ainda o puderam fazer,<br \/>\nfugiram mata adentro, horrorizados com o destino que lhes era oferecido no<br \/>\nconv\u00edvio dos brancos, seja na cristandade mission\u00e1ria, seja na pecaminosidade<br \/>\ncolonial. Muitos deles levando nos corpos contaminados as enfermidades que<br \/>\nos iriam dizimando a eles e aos povos indenes de que se aproximassem.<\/p>\n<p>Mas a atra\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel das ferramentas, dos adornos, da aventura, os<br \/>\nfazia voltar. Cada nova gera\u00e7\u00e3o queria ver com seus pr\u00f3prios olhos o povo<br \/>\nestranho, implantado nas praias, recebendo navios cheios de bens precios\u00edssimos.<\/p>\n<p>Alguns se acercavam e aderiam, preferindo a aventura do conv\u00edvio com os novos<br \/>\nsenhores, como flecheiros de suas guerras contra os \u00edndios arredios, do que<br \/>\na rotina da vida tribal, que perdera o vi\u00e7o e o brilho.<\/p>\n<p>Esse foi o primeiro efeito do encontro fatal que aqui se dera. Ao longo das<br \/>\npraias brasileiras de 1500, se defrontaram, pasmos de se verem uns aos outros<br \/>\ntal qual eram, a selvageria e a civiliza\u00e7\u00e3o. Suas concep\u00e7\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 diferentes<br \/>\nmas opostas, do mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente.<br \/>\nOs navegantes, barbudos, hirsutos, fedentos de meses de navega\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica,<br \/>\nescalavrados de feridas do escorbuto, olhavam, em espanto, o que parecia ser<br \/>\na inoc\u00eancia e a beleza encarnadas. Os \u00edndios, vestidos da nudez emplumada,<br \/>\nespl\u00eandidos de vigor e de beleza, tapando as ventas contra a pestil\u00eancia,<br \/>\nviam, ainda mais pasmos, aqueles seres que sa\u00edam do mar.<\/p>\n<p>Para os que chegavam, o mundo em que entravam era a arena dos seus ganhos,<br \/>\nem ouros e gl\u00f3rias, ainda que estas fossem principalmente espirituais, ou<br \/>\nparecessem ser, como ocorria com os mission\u00e1rios. Para alcan\u00e7\u00e1-las, tudo lhes<br \/>\nera concedido, uma vez que sua a\u00e7\u00e3o de al\u00e9m-mar, por mais abjeta e brutal<br \/>\nque chegasse a ser, estava previamente sacramentada pelas bulas e falas do<br \/>\npapa e do rei. Eles eram, ou se viam, como novos cruzados destinados a assaltar<br \/>\ne saquear t\u00famulos e templos de hereges indianos. Mas aqui, o que viam, assombrados,<br \/>\nera o que parecia ser uma humanidade ed\u00eanica, anterior \u00e0 que havia sido expulsa<br \/>\ndo Para\u00edso. Abre-se com esse encontro um tempo novo, em que nenhuma inoc\u00eancia<br \/>\nabrandaria sequer a sanha com que os invasores se lan\u00e7avam sobre o gentio,<br \/>\nprontos a subjug\u00e1-los pela honra de Deus e pela prosperidade crist\u00e3. S\u00f3 hoje,<br \/>\nna esfera intelectual, repensando esse desencontro se pode alcan\u00e7ar seu real<br \/>\nsignificado.<\/p>\n<p>Para os \u00edndios que ali estavam, nus na praia, o mundo era um luxo de se viver,<br \/>\nt\u00e3o rico de aves, de peixes, de ra\u00edzes, de frutos, de flores, de sementes,<br \/>\nque podia dar as alegrias de ca\u00e7ar, de pescar, de plantar e colher a quanta<br \/>\ngente aqui viesse ter. Na sua concep\u00e7\u00e3o s\u00e1bia e singela, a vida era d\u00e1diva<br \/>\nde deuses bons, que lhes doaram espl\u00eandidos corpos, bons de andar, de correr,<br \/>\nde nadar, de dan\u00e7ar, de lutar. Olhos bons de ver todas as cores, suas luzes<br \/>\ne suas sombras. Ouvidos capazes da alegria de ouvir vozes estridentes ou mel\u00f3dicas,<br \/>\ncantos graves e agudos e toda a sorte de sons que h\u00e1. Narizes competent\u00edssimos<br \/>\npara fungar e cheirar catingas e odores. Bocas magn\u00edficas de degustar comidas<br \/>\ndoces e amargas, salgadas e azedas, tirando de cada qual o gozo que podia<br \/>\ndar. E, sobretudo, sexos opostos e complementares, feitos para as alegrias<br \/>\ndo amor.<\/p>\n<p>Os rec\u00e9m-chegados eram gente pr\u00e1tica, experimentada, sofrida, ciente de suas<br \/>\nculpas oriundas do pecado de Ad\u00e3o, predispostos \u00e0 virtude, com clara no\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos horrores do pecado e da perdi\u00e7\u00e3o eterna. Os \u00edndios nada sabiam disso.<br \/>\nEram, a seu modo, inocentes, confiantes, sem qualquer concep\u00e7\u00e3o vic\u00e1ria, mas<br \/>\ncom claro sentimento de honra, gl\u00f3ria e generosidade, e capacitados, como<br \/>\ngente alguma jamais o foi, para a conviv\u00eancia solid\u00e1ria. Aos olhos dos rec\u00e9m-chegados,<br \/>\naquela indiada lou\u00e7\u00e3, de encher os olhos s\u00f3 pelo prazer de v\u00ea-los, aos homens<br \/>\ne \u00e0s mulheres, com seus corpos em flor, tinha um defeito capital: eram vadios,<br \/>\nvivendo uma vida in\u00fatil e sem prestan\u00e7a. Que \u00e9 que produziam? Nada. Que \u00e9<br \/>\nque amealhavam? Nada. Viviam suas f\u00fateis vidas fartas, como se neste mundo<br \/>\ns\u00f3 lhes coubesse viver. Aos olhos dos \u00edndios, os oriundos do mar oceano pareciam<br \/>\naflitos demais. Por que se afanavam tanto em seus fazimentos? Por que acumulavam<br \/>\ntudo, gostando mais de tomar e reter do que de dar, intercambiar? Sua sofreguid\u00e3o<br \/>\nseria inveross\u00edmil se n\u00e3o fosse t\u00e3o vis\u00edvel no empenho de juntar toras de<br \/>\npau vermelho, como se estivessem condenados, para sobreviver, a alcan\u00e7\u00e1-las<br \/>\ne embarc\u00e1-las incansavelmente?<\/p>\n<p>Temeriam eles, acaso, que as florestas fossem acabar e, com elas, as aves<br \/>\ne as ca\u00e7as? Que os rios e o mar fossem secar, matando os peixes todos?<\/p>\n<p>&#8220;Os nossos tupinamb\u00e1s muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros<br \/>\nse darem ao trabalho de ir buscar os seus arabutan. Uma vez um velho perguntou-me:<br \/>\nPor que vindes v\u00f3s outros, ma\u00edrs e per\u00f4s (franceses e portugueses) buscar<br \/>\nlenha de t\u00e3o longe para vos aquecer? N\u00e3o tendes madeira em vossa terra? Respondi<br \/>\nque t\u00ednhamos muita, mas n\u00e3o daquela qualidade, e que n\u00e3o a queim\u00e1vamos, como<br \/>\nele o supunha, mas dela extra\u00edamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles<br \/>\ncom os seus cord\u00f5es de algod\u00e3o e suas plumas. Retrucou o velho imediatamente:<br \/>\ne porventura precisais de muito? &#8211; Sim, respondi- lhe, pois no nosso pa\u00eds<br \/>\nexistem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras<br \/>\nmercadorias do que podeis imaginar e um s\u00f3 deles compra todo o pau-brasil<br \/>\ncom que muitos navios voltam canegados. &#8211; Ah! retrucou o selvagem, tu me contas<br \/>\nmaravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera:<br \/>\nMas esse homem t\u00e3o rico de que me falas n\u00e3o morre? &#8211; Sim, disse eu, morre<br \/>\ncomo os outros. Mas os selvagens s\u00e3o grandes discursadores e costumam ir em<br \/>\nqualquer assunto at\u00e9 o fim, por isso perguntou-me de novo: e quando morrem<br \/>\npara quem fica o que deixam? &#8211; Para seus filhos se os t\u00eam, respondi; na falta<br \/>\ndestes para os irm\u00e3os ou parentes mais pr\u00f3ximos. &#8211; Na verdade, continuou o<br \/>\nvelho, que, como vereis, n\u00e3o era nenhum tolo, agora vejo que v\u00f3s outros ma\u00edrs<br \/>\nsois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes inc\u00f4modos, como<br \/>\ndizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para<br \/>\nvossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! N\u00e3o ser\u00e1 a terra que vos<br \/>\nnutriu suficiente para aliment\u00e1-los tamb\u00e9m? Temos pais, m\u00e3es e filhos a quem<br \/>\namamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu<br \/>\ntamb\u00e9m os nutrir\u00e1, por isso descansamos sem maiores cuidados (L\u00e9ry 1960:151-61<br \/>\n).&#8221;<\/p>\n<p>Aquele desencontro de gente \u00edndia que enchia as praias, encantada de ver<br \/>\nas velas enfunadas, e que era vista com fasc\u00ednio pelos barbudos navegantes<br \/>\nrec\u00e9m-chegados, era, tamb\u00e9m, o enfrentamento bi\u00f3tico mortal da higidez e da<br \/>\nmorbidade. A indiada n\u00e3o conhecia doen\u00e7as, al\u00e9m de coceiras e desvanecimentos<br \/>\npor perda moment\u00e2nea da alma.<\/p>\n<p>A branquitude trazia da c\u00e1rie dental \u00e0 bexiga, \u00e0 coqueluche, \u00e0 tuberculose<br \/>\ne o sarampo. Desencadeia-se, ali, desde a primeira hora, uma guerra biol\u00f3gica<br \/>\nimplac\u00e1vel. De um lado, povos peneirados, nos s\u00e9culos e mil\u00eanios, por pestes<br \/>\na que sobreviveram e para as quais desenvolveram resist\u00eancia. Do outro lado,<br \/>\npovos indenes, indefesos, que come\u00e7avam a morrer aos magotes. Assim \u00e9 que<br \/>\na civiliza\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e, primeiro, como uma epidemia de pestes mortais. Depois,<br \/>\npela dizima\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de guerras de exterm\u00ednio e da escraviza\u00e7\u00e3o. Entretanto,<br \/>\nesses eram t\u00e3o-s\u00f3 os passos iniciais de uma escalada do calv\u00e1rio das dores<br \/>\ninenarr\u00e1veis do exterm\u00ednio genocida e etnocida. Para os \u00edndios, a vida era<br \/>\numa tranq\u00fcila frui\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, num mundo dadivoso e numa sociedade solid\u00e1ria.<br \/>\nClaro que tinham suas lutas, suas guerras. Mas todas concatenadas, como pr\u00e9lios,<br \/>\nem que se exerciam, valentes. Um guerreiro lutava, bravo, para fazer prisioneiros,<br \/>\npela gl\u00f3ria de alcan\u00e7ar um novo nome e uma nova marca tatuada cativando inimigos.<br \/>\nTamb\u00e9m servia para ofert\u00e1-lo numa festan\u00e7a em que centenas de pessoas o comeriam<br \/>\nconvertido em pa\u00e7oca, num ato solene de comunh\u00e3o, para absorver sua valentia,<br \/>\nque nos seus corpos continuaria viva. Uma mulher tecia uma rede ou tran\u00e7ava<br \/>\num cesto com a perfei\u00e7\u00e3o de que era capaz, pelo gosto de expressar-se em sua<br \/>\nobra, como um fruto maduro de sua ingente vontade de beleza. Jovens, adornados<br \/>\nde plumas sobre seus corpos escarlates de urucu, ou verde-azulados de jenipapo,<br \/>\nengalfinhavam-se em lutas desportivas de corpo a corpo, em que punham a energia<br \/>\nde batalhas na guerra para viver seu vigor e sua alegria. Para os rec\u00e9m-chegados,<br \/>\nmuito ao contr\u00e1rio, a vida era uma tarefa, uma sofrida obriga\u00e7\u00e3o, que a todos<br \/>\ncondenava ao trabalho e tudo subordinava ao lucro. Envoltos em panos, cal\u00e7ados<br \/>\nde botas e enchapelados, punham nessas pe\u00e7as seu luxo e vaidade, apesar de<br \/>\nmais vezes as exibirem sujas e molambentas, do que pulcras e belas.<\/p>\n<p>Armados de chu\u00e7os de ferro e de arcabuzes tonitroantes, eles se sabiam e<br \/>\nse sentiam a flor da cria\u00e7\u00e3o. Seu desejo, obsessivo, era multiplicar-se nos<br \/>\nventres das \u00edndias e p\u00f4r suas pernas e bra\u00e7os a seu servi\u00e7o, para plantar<br \/>\ne colher suas ro\u00e7as, para ca\u00e7ar e pescar o que comiam. Os homens serviam principalmente<br \/>\npara tombar e juntar paus- de-tinta ou para produzir outra mercadoria para<br \/>\nseu lucro e bem-estar. Esses \u00edndios cativos, condenados \u00e0 tristeza mais vil,<br \/>\neram tamb\u00e9m os provedores de suas alegrias, sobretudo as mulheres, de sexo<br \/>\nbom de fornicar, de bra\u00e7o bom de trabalhar, de ventre fecundo para prenhar.<br \/>\nA vontade mais veemente daqueles her\u00f3i d&#8217;al\u00e9m-mar era exercer-se sobre aquela<br \/>\ngente vivente como seus duros senhores. Sua voca\u00e7\u00e3o era a de autoridades de<br \/>\nmando e cutelo sobre bichos e matos e gentes, nas imensidades de terras de<br \/>\nque iam se apropriando em nome de Deus e da Lei. O contraste n\u00e3o podia ser<br \/>\nmaior, nem mais infranque\u00e1vel, em incompreens\u00e3o rec\u00edproca. Nada que os \u00edndios<br \/>\ntinham ou faziam foi visto com qualquer apre\u00e7o, sen\u00e3o eles pr\u00f3prios, como<br \/>\nobjeto diverso de gozo e como fazedores do que n\u00e3o entendiam, produtores do<br \/>\nque n\u00e3o consumiam. O invasor, ao contr\u00e1rio, vinha com as m\u00e3os cheias e as<br \/>\nnaus abarrotadas de machados, facas, fac\u00f5es, canivetes, tesouras, espelhos<br \/>\ne, tamb\u00e9m, mi\u00e7angas cristalizadas em cores opalinas. Quanto \u00edndio se desembestou,<br \/>\nenlouquecido, contra outros \u00edndios e at\u00e9 contra seu pr\u00f3prio povo, por amor<br \/>\ndessas preciosidades! N\u00e3o podendo produzi-las, tiveram de encontrar e sofrer<br \/>\ntodos os modos de pagar seus pre\u00e7os, na medida em que elas se tornaram indispens\u00e1veis.<br \/>\nElas eram, em ess\u00eancia, a mercadoria que integrava o mundo \u00edndio com o mercado,<br \/>\ncom a pot\u00eancia prodigiosa de tudo subverter. Assim se desfez, uniformizado,<br \/>\no rec\u00e9m- descoberto Para\u00edso Perdido.<\/p>\n<p><strong>RAZ\u00d5ES DESENCONTRADAS<\/strong><\/p>\n<p>Frente \u00e0 invas\u00e3o europ\u00e9ia, os \u00edndios defenderam at\u00e9 o limite poss\u00edvel seu<br \/>\nmodo de ser e de viver. Sobretudo depois de perderem as ilus\u00f5es dos primeiros<br \/>\ncontatos pac\u00edficos, quando perceberam que a submiss\u00e3o ao invasor representava<br \/>\nsua desumaniza\u00e7\u00e3o como bestas de carga. Nesse conflito de vida ou morte, os<br \/>\n\u00edndios de um lado e os colonizadores do outro punham todas as suas energias,<br \/>\narmas e ast\u00facias. Entretanto, cada tribo, lutando por si, desajudada pelas<br \/>\ndemais &#8211; exceto em umas poucas ocasi\u00f5es em que se confederaram, ajudadas pelos<br \/>\neuropeus que viviam entre elas &#8211; p\u00f4de ser vencida por um inimigo pouco numeroso<br \/>\nmas superiormente organizado, tecnologicamente mais avan\u00e7ado e, em conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\nmais bem armado. As vit\u00f3rias europ\u00e9ias se deveram principalmente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nevolutiva mais alta das incipientes comunidades neobrasileiras, que lhes permitia<br \/>\naglutinar-se em uma \u00fanica entidade pol\u00edtica servida por uma cultura letrada<br \/>\ne ativada por uma religi\u00e3o mission\u00e1ria, que influenciou poderosamente as comunidades<br \/>\nind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, por\u00e9m, \u00e9 o pr\u00f3prio atraso dos \u00edndios que os fazia mais resistentes<br \/>\n\u00e0 subjuga\u00e7\u00e3o, condicionando uma guerra secular de exterm\u00ednio. Isso se verifica<br \/>\ncomparando a rapidez da conquista e da pacifica\u00e7\u00e3o onde o europeu se deparou<br \/>\ncom altas civiliza\u00e7\u00f5es &#8211; como no M\u00e9xico e no Peru &#8211; com a lentid\u00e3o da conquista<br \/>\ndo Brasil, que prossegue at\u00e9 hoje com tribos arredias resistindo armadas \u00e0<br \/>\ninvas\u00e3o de seus territ\u00f3rios para al\u00e9m das fronteiras da civiliza\u00e7\u00e3o. As cr\u00f4nicas<br \/>\ncoloniais registram copiosamente essa guerra sem quartel de europeus armados<br \/>\nde canh\u00f5es e arcabuzes contra ind\u00edgenas que contavam unicamente com tacapes,<br \/>\nzarabatanas, arcos e flechas. Ainda assim, os cronistas destacam com gosto<br \/>\ne orgulho o hero\u00edsmo lusitano. Esse \u00e9 o caso das loas do padre Anchieta a<br \/>\nMem de S\u00e1, subjugador das popula\u00e7\u00f5es abor\u00edgenes para escraviz\u00e1-las ou coloc\u00e1-las<br \/>\nem m\u00e3os dos mission\u00e1rios.<\/p>\n<p>Anchieta, descuidado da cordura que corresponderia \u00e0 sua futura santidade,<br \/>\nlouva assim o bravo governador: &#8220;Quem poder\u00e1 contar os gestos her\u00f3icos do<br \/>\nChefe \u00e0 frente dos soldados, na imensa mata: Cento e sessenta as aldeias incendiadas,<br \/>\nMil casas arruinadas pela chama devoradora, Assolados os campos, com suas<br \/>\nriquezas, Passado tudo ao fio da espada.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o alguns dos 2 mil versos de louva\u00e7\u00e3o escritos em latim por Jos\u00e9<br \/>\nde Anchieta ( 1958:129 ) no poema &#8220;De Gestis Mendi de Saa&#8221; (circa 1560 ).<br \/>\nO elogio \u00e9 tanto mais compreens\u00edvel quando se recorda que Mem de S\u00e1, com suas<br \/>\nguerras de sujiga\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio, estava executando rigorosamente o plano<br \/>\nde coloniza\u00e7\u00e3o proposto pelo padre N\u00f3brega em 1558. Esse plano inclemente<br \/>\n\u00e9 o documento mais expressivo da pol\u00edtica indigenista jesu\u00edtico-lusitana.<br \/>\nEm sua eloq\u00fc\u00eancia espantosa, um dos argumentos de que lan\u00e7a m\u00e3o \u00e9 a alega\u00e7\u00e3o<br \/>\nda necessidade de p\u00f4r tetmo \u00e0 antropofagia, que s\u00f3 cessar\u00e1, diz ele, pondo<br \/>\nfim &#8220;\u00e0 boca infernal de comer a tantos crist\u00e3os&#8221;. Outro argumento n\u00e3o menos<br \/>\nexpressivo \u00e9 a conveni\u00eancia de escravizar logo aos \u00edndios todos para que n\u00e3o<br \/>\nsejam escravizados ilegalmente. Sen\u00e3o vejamos:<\/p>\n<p>&#8220;[&#8230;] se S. A. os quer ver todos convertidos, mande-os sujeitar e deve fazer<br \/>\nestender aos crist\u00e3os por a terra dentro e repartir-lhes os servi\u00e7os dos \u00edndios<br \/>\n\u00e0queles que os ajudarem a conquistar e senhoriar como se faz em outras partes<br \/>\nde terras novas [&#8230;] Sujeitando-se o gentio, cessar\u00e3o muitas maneiras de<br \/>\nhaver escravos mal havidos e muitos escr\u00fapulos, porque ter\u00e3o os homens escravos<br \/>\nleg\u00edtimos, tomados em guerra justa e ter\u00e3o servi\u00e7os de avassalagem dos \u00edndios<br \/>\ne a terra se povoar\u00e1 e Nosso Senhor ganhar\u00e1 muitas almas e S. A. ter\u00e1 muita<br \/>\nrenda nesta terra porque haver\u00e1 muitas cria\u00e7\u00f5es e muitos engenhos, j\u00e1 que<br \/>\nn\u00e3o haja muito ouro e prata. [&#8230;]<\/p>\n<p>Esse parece tamb\u00e9m o melhor meio para a terra se povoar de crist\u00e3os e seria<br \/>\nmelhor que mandar povoadores pobres, como vieram alguns, e por n\u00e3o trazerem<br \/>\ncom que mercassem um escravo, com que come\u00e7assem sua vida, n\u00e3o se puderam<br \/>\nmanter, e assim foram for\u00e7ados a se tornar ou morrerem de bichos; e parece<br \/>\nmelhor mandar gente que senhoreie a terra e folgue de aceitar nela qualquer<br \/>\nboa maneira de viver, como fizeram alguns dos que vieram com Tom\u00e9 de Souza<br \/>\n[&#8230;] Devia de haver um protetor dos \u00edndios para os fazer castigar, quando<br \/>\no houvesse mister, e defender dos agravos que lhes fizessem. Este deveria<br \/>\nser bem salariado, escolhido pelos padres e aprovado pelo governador. Se o<br \/>\ngovernador fosse zeloso bastaria o presente. A 1ei que eles h\u00e3o de dar \u00e9 defender-lhes<br \/>\ncomer carne humana e guerrear sem licen\u00e7a do governador, fazer-lhes ter uma<br \/>\ns\u00f3 mulher, vestirem-se, pois tem muito algod\u00e3o, ao menos depois de crist\u00e3os,<br \/>\ntirar-lhes os feiticeiros, mant\u00ea-los em justi\u00e7a entre si e para com os crist\u00e3os;<br \/>\nfaz\u00ea-los viver quietos sem se mudarem para outra parte, se n\u00e3o for para entre<br \/>\ncrist\u00e3os, tendo terras repartidas que lhes bastem e com esses padres da Companhia<br \/>\npara os doutrinar (Apontamentos de coisas do Brasil, 8 de maio de 1558 in<br \/>\nLeite 1940:75-87 ).&#8221;<\/p>\n<p>Tal foi o alto plano jesu\u00edtico que regeu e ordenou a coloniza\u00e7\u00e3o. Um somat\u00f3rio<br \/>\nde viol\u00eancia mortal, de intoler\u00e2ncia, prepot\u00eancia e gan\u00e2ncia. Todas as qualidades<br \/>\nmais vis se conjugaram para compor o programa civilizador de N\u00f3brega. Aplicado<br \/>\na ferro e fogo por Mem de S\u00e1, esse programa levou o desespero e a destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\na cerca de trezentas aldeias ind\u00edgenas na costa brasileira do s\u00e9culo XVI.<br \/>\nO balan\u00e7o dessa hecatombe nos \u00e9 dado pelo pr\u00f3prio Anchieta nestas palavras.<\/p>\n<p>&#8220;A gente que de vinte anos a esta parte \u00e9 gastada nesta bahia, parece cousa<br \/>\nque n\u00e3o se pode crer, porque nunca ningu\u00e9m cuidou que tanta gente se gastasse<br \/>\nnunca. V\u00e3o ver agora os engenhos e fazendas da Bahia, ach\u00e1-los-\u00e3o cheios de<br \/>\nnegros da Guin\u00e9 e muito poucos da terra e se perguntarem por tanta gente,<br \/>\ndir\u00e3o que morreu (Informa\u00e7\u00e3o dos primeiros aldeamentos da Ba\u00eda, circa 1587<br \/>\nin Anchieta 1933:377-8 ).&#8221;<\/p>\n<p>Sem embargo, mais ainda que as espadas e os arcabuzes, as grandes armas da<br \/>\nconquista, respons\u00e1veis principais pela depopula\u00e7\u00e3o do Brasil, foram as enfermidades<br \/>\ndesconhecidas dos \u00edndios com que os invasores os contaminaram. A magnitude<br \/>\ndesse fator letal pode ser avaliada pelo registro dos efeitos da primeira<br \/>\nepidemia que atingiu a Bahia. Cerca de 40 mil \u00edndios reunidos insensatamente<br \/>\npelos jesu\u00edtas nas aldeias do Rec\u00f4ncavo, em meados do s\u00e9culo xvI, atacados<br \/>\nde var\u00edola, morreram quase todos, deixando os 3 mil sobreviventes t\u00e3o enfraquecidos<br \/>\nque foi imposs\u00edvel reconstituir a miss\u00e3o. Os pr\u00f3prios sacerdotes operavam<br \/>\nmuitas vezes como contaminadores involunt\u00e1rios, como testemunham suas pr\u00f3prias<br \/>\ncartas. Em algumas delas comentam o al\u00edvio que lhes trazia ao &#8220;mal do peito&#8221;<br \/>\nos bons ares da terra nova; em outras, relatam como os \u00edndios morriam feito<br \/>\nmoscas, escarrando sangue, podendo ser salvas apenas suas almas. Mais b\u00e1rbaro<br \/>\nainda era o projeto oposto, igualmente defendido no plano ideol\u00f3gico e muito<br \/>\nmais eficaz no campo pr\u00e1tico. A melhor express\u00e3o dele se deveu a Domingos<br \/>\nJorge Velho em carta a el-rei, datada de 1694, em que o grande capit\u00e3o dos<br \/>\nmamelucos paulistas declara, soberbo, de seus combatentes, que &#8220;n\u00e3o \u00e9 gente<br \/>\nmatriculada nos livros de Vossa Majestade, n\u00e3o recebem soldo, nem ajuda de<br \/>\npano, ou muni\u00e7\u00e3o. S\u00e3o umas agrega\u00e7\u00f5es que fazemos, alguns de n\u00f3s, entrando<br \/>\ncada um com seus servos de armas que t\u00eam&#8221;. Acrescenta que n\u00e3o v\u00e3o ao mato<br \/>\ncativar \u00edndios, como alguns &#8220;pretendem fazer crer a Vossa Majestade&#8221;, para<br \/>\ncivilizar selvagens. V\u00e3o, com suas pr\u00f3prias palavras, &#8220;adquirir o tapuia gentio-brabo<br \/>\ne comedor de carne humana, para o reduzir para o conhecimento da urbana humanidade<br \/>\ne humana sociedade&#8221;.<\/p>\n<p>Alega, ainda, que &#8220;em v\u00e3o trabalha quem os quer fazer anjos, antes de os<br \/>\nfazer homens&#8221; (Carta a el-rei do outeiro do Barriga, de 15 de julho de 1694<br \/>\nin Ennes 1938:204-7 ). Em poucas d\u00e9cadas desapareceram as povoa\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas<br \/>\nque as caravelas do descobrimento encontraram por toda a costa brasileira<br \/>\ne os primeiros cronistas contemplaram maravilhados. Em seu lugar haviam se<br \/>\ninstalado tr\u00eas tipos novos de povoa\u00e7\u00f5es. O primeiro e principal, formado pelas<br \/>\nconcentra\u00e7\u00f5es de escravos africanos dos engenhos e portos. Outro, disperso<br \/>\npelos vilarejos e s\u00edtios da costa ou pelos campos de cria\u00e7\u00e3o de gado, formado<br \/>\nprincipalmente por mamelucos e brancos pobres. O terceiro esteve constitu\u00eddo<br \/>\npelos \u00edndios incorporados \u00e0 empresa colonial como escravos de outros n\u00facleos<br \/>\nou concentrados nas aldeias, algumas das quais conservavam sua autonomia,<br \/>\nenquanto outras eram regidas por mission\u00e1rios.<\/p>\n<p>Apesar de o projeto jesu\u00edtico de coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil nascente ter sido<br \/>\nformulado sem qualquer escr\u00fapulo humanit\u00e1rio, tal foi a ferocidade da coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nleiga, que estalou, algumas d\u00e9cadas depois, um s\u00e9rio conflito entre os padres<br \/>\nda Companhia e os povoadores dos n\u00facleos agr\u00e1rio-mercantis. Para os primeiros,<br \/>\nos \u00edndios, ent\u00e3o em decl\u00ednio e amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o, passaram a ser criaturas<br \/>\nde Deus e donos originais da terra, com direito a sobreviver se abandonassem<br \/>\nsuas heresias para se incorporarem ao rebanho da Igreja, na qualidade de oper\u00e1rios<br \/>\nda empresa colonial recolhidos \u00e0s miss\u00f5es. Para os colonos, os \u00edndios eram<br \/>\num gado humano, cuja natureza, mais pr\u00f3xima de bicho que de gente, s\u00f3 os recomendava<br \/>\n\u00e0 escravid\u00e3o. A Coroa portuguesa apoiou nominalmente os mission\u00e1rios, embora<br \/>\njamais negasse autoriza\u00e7\u00e3o para as &#8220;guerras justas&#8221;, reclamadas pelo colono<br \/>\npara aprisionar e escravizar tanto os \u00edndios bravos e hostis como os simplesmente<br \/>\narredios. Quase sempre fez vista grossa \u00e0 escravid\u00e3o ind\u00edgena, que desse modo<br \/>\nse tornou inevit\u00e1vel, dado o car\u00e1ter da pr\u00f3pria empresa colonial, especialmente<br \/>\nnas \u00e1reas pobres.<\/p>\n<p>Impedidos de comprar escravos negros, porque eram caros demais, os colonos<br \/>\nde S\u00e3o Paulo e outras regi\u00f5es se viram na conting\u00eancia de se servir dos silv\u00edcolas,<br \/>\nou de ter como seu principal neg\u00f3cio a preia e venda de \u00edndios para quem requeresse<br \/>\nseu trabalho nas tarefas de subsist\u00eancia, que por longo tempo estiveram a<br \/>\ncargo deles. Em diversas regi\u00f5es &#8211; mas sobretudo em S\u00e3o Paulo, no Maranh\u00e3o<br \/>\ne no Amazonas &#8211; foram grandes os conflitos entre jesu\u00edtas e colonos, defendendo,<br \/>\ncada qual, sua solu\u00e7\u00e3o relativa aos abor\u00edgenes: a redu\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria ou a<br \/>\nescravid\u00e3o. A curto ou longo prazo, triunfaram os colonos, que usaram os \u00edndios<br \/>\ncomo guias, remadores, lenhadores, ca\u00e7adores e pescadores, criados dom\u00e9sticos,<br \/>\nartes\u00e3os; e sobretudo as \u00edndias, como os ventres nos quais engendraram uma<br \/>\nvasta prole mesti\u00e7a, que viria a ser, depois, o grosso da gente da terra:<br \/>\nos brasileiros. Quase todas as ordens religiosas aceitaram, sem resist\u00eancia,<br \/>\no papel de amansadoras de \u00edndios para a sua incorpora\u00e7\u00e3o na for\u00e7a de trabalho<br \/>\nou nas expedi\u00e7\u00f5es armadas da col\u00f4nia. Os jesu\u00edtas, por\u00e9m, arrependidos de<br \/>\nseu papel inicial de aliciadores de \u00edndios para os colonos, inspirados na<br \/>\nexperi\u00eancia dos seus companheiros paraguaios, quiseram p\u00f4r em pr\u00e1tica, tamb\u00e9m<br \/>\nno Brasil, um projeto ut\u00f3pico de reconstru\u00e7\u00e3o intencional da vida social dos<br \/>\n\u00edndios destribalizados. Tais foram suas miss\u00f5es, nas quais os \u00edndios eram<br \/>\nconcentrados &#8211; depois de atra\u00eddos pelos padres ou subjugados pelo bra\u00e7o secular<br \/>\n&#8211; em comunidades ferreamente organizadas como economias auto- suficientes,<br \/>\nainda que tamb\u00e9m tivessem alguma produ\u00e7\u00e3o mercantil. Isso se daria na segunda<br \/>\nonda de evangeliza\u00e7\u00e3o, realizada na Amaz\u00f4nia. O projeto jesu\u00edtico era t\u00e3o<br \/>\nclaramente oposto ao colonial que resulta espantoso haver sido tentado simultaneamente<br \/>\ne nas mesmas \u00e1reas e sob a domina\u00e7\u00e3o do mesmo reino. Os conflitos resultantes<br \/>\ndas disputas pelo dom\u00ednio dos \u00edndios n\u00e3o permitiram que as miss\u00f5es jesu\u00edticas<br \/>\nalcan\u00e7assem, em terras brasileiras, a dimens\u00e3o, quanto ao n\u00famero de ind\u00edgenas<br \/>\nreunidos, nem o n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o e prosperidade que a Companhia de Jesus<br \/>\nconquistou no Paraguai.<\/p>\n<p>Contribuem para esse fracasso duas ordens de fatores. Primeiro, a referida<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o frontal dos povoadores portugueses a um projeto que lhes disputava<br \/>\na m\u00e3o-de-obra ind\u00edgena, e que era realizado nas mesmas \u00e1reas que eles ocupavam.<br \/>\nSegundo, as enfermidades trazidas pelo branco que, ao propagarem-se nas grandes<br \/>\nconcentra\u00e7\u00f5es humanas das miss\u00f5es, provocavam enorme mortandade. Depois de<br \/>\nalgumas d\u00e9cadas, os jesu\u00edtas reconheceram que, al\u00e9m de n\u00e3o conseguirem salvar<br \/>\nas almas dos \u00edndios pelo evidente fracasso da convers\u00e3o &#8211; o que, de resto,<br \/>\nn\u00e3o era grave, porque &#8220;o despertar da f\u00e9 \u00e9 tarefa de Deus&#8221;, n\u00e3o do mission\u00e1rio<br \/>\n(N\u00f3brega, apud Dourado 1958:44 ) -, tamb\u00e9m n\u00e3o salvavam suas vidas. Ao contr\u00e1rio.<br \/>\nEra evidente o despovoamento de toda a costa e, vistos os fatos agora, n\u00e3o<br \/>\nse pode deixar de reconhecer, tamb\u00e9m, que os pr\u00f3prios jesu\u00edtas foram um dos<br \/>\nprincipais fatores de exterm\u00ednio. Esse foi, de fato, o papel que eles representaram,<br \/>\nenquanto diplomatas-pacificadores, postos em a\u00e7\u00e3o sempre que os \u00edndios pudessem<br \/>\nganhar uma batalha. Tal ocorreu em Peru\u00edbe, quando Anchieta, fazendo-se passar<br \/>\npor um milagroso pai, corria de um lado a outro tentando dissuadir os \u00edndios<br \/>\nde atacar os portugueses, que, atacados naquele momento, poderiam ter sido<br \/>\nvencidos. De fato, se atribui a ele, com toda raz\u00e3o &#8211; a ele e a N\u00f3brega -,<br \/>\nhaverem salvo, naquela ocasi\u00e3o, a S\u00e3o Paulo e \u00e0 pr\u00f3pria coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi evidentemente nefasto o papel dos jesu\u00edtas, retirando os \u00edndios<br \/>\nde suas aldeias dispersas para concentr\u00e1-los nas redu\u00e7\u00f5es, onde, al\u00e9m de servirem<br \/>\naos padres e n\u00e3o a si mesmos e de morrerem nas guerras dos portugueses contra<br \/>\nos \u00edndios hostis, eram facilmente vitimados pelas pragas de que eles pr\u00f3prios,<br \/>\nsem querer, os contaminavam. \u00c9 evidente que nos dois casos o prop\u00f3sito expl\u00edcito<br \/>\ndos jesu\u00edtas n\u00e3o era destruir os \u00edndios, mas o resultado de sua pol\u00edtica n\u00e3o<br \/>\npodia ser mais letal se tivesse sido programada para isso.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o mais negativa dos jesu\u00edtas, por\u00e9m, se funda na pr\u00f3pria ambig\u00fcidade<br \/>\nde sua dupla lealdade frente aos \u00edndios e \u00e0 Coroa, mais predispostos, por\u00e9m,<br \/>\na servir a esta Coroa contra \u00edndios aguerridos que a defend\u00ea-los eficazmente<br \/>\ndiante dela. Isso sobretudo no primeiro s\u00e9culo, quando sua fun\u00e7\u00e3o principal<br \/>\nfoi minar as lealdades \u00e9tnicas dos \u00edndios, apelando fortemente para o seu<br \/>\nesp\u00edrito religioso, a fim de fazer com que se desgarrassem das tribos e se<br \/>\natrelassem \u00e0s miss\u00f5es. A efic\u00e1cia que alcan\u00e7am nesse papel alienador \u00e9 t\u00e3o<br \/>\nextraordin\u00e1ria quanto grande a sua responsabilidade na dizima\u00e7\u00e3o que dela<br \/>\nresultou. No segundo s\u00e9culo, j\u00e1 enriquecidos de seu triste papel e tamb\u00e9m<br \/>\nrepresentados por figuras mais capazes de indigna\u00e7\u00e3o moral, como Ant\u00f4nio Vieira,<br \/>\nos jesu\u00edtas assumiram grandes riscos no resguardo e na defesa dos \u00edndios.<br \/>\nForam, por isso, expulsos, primeiro, de S\u00e3o Paulo e, depois, do estado do<br \/>\nMaranh\u00e3o e Gr\u00e3o-Par\u00e1 pelos colonos. Afinal, a pr\u00f3pria Coroa, na pessoa do<br \/>\nmarqu\u00eas de Pombal, decide acabar com aquela experi\u00eancia socialista precoce,<br \/>\nexpulsando-os do Brasil. Ent\u00e3o, ocorre o mais triste. Os padres entregam obedientemente<br \/>\nas miss\u00f5es aos colonos ricos, contemplados com a propriedade das terras e<br \/>\ndos \u00edndios pela gente de Pombal, e s\u00e3o presos e recolhidos \u00e0 Europa, para<br \/>\namargar por d\u00e9cadas o triste papel de sujigadores que tinham representado.<\/p>\n<p><strong>O SALVACIONISMO<\/strong><\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas do achamento, descoberta ou invas\u00e3o do Brasil, surgiram descri\u00e7\u00f5es<br \/>\ncada vez mais minuciosas das novas terras. Assim, elas iam sendo apropriadas<br \/>\npelo invasor tamb\u00e9m pelo conhecimento de seus rios e matas, povos, bichos<br \/>\ne duendes.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, pela absor\u00e7\u00e3o da copios\u00edssima sabedoria ind\u00edgena, que nos mil\u00eanios<br \/>\nanteriores se familiarizara com o que era a natureza circundante, classificando<br \/>\ne dando nomes aos lugares e \u00e0s coisas, definindo seus usos e utilidades. Depois,<br \/>\npor sucessivas redefini\u00e7\u00f5es, umas vezes retendo os antigos nomes, outras,<br \/>\nrebatizando, mas nos dois casos compondo um novo corpo de saber, voltado para<br \/>\nvalores e prop\u00f3sitos diferentes. Foi a gente aqui encontrada que provocou<br \/>\nmaior curiosidade. Os \u00edndios, vistos em princ\u00edpio como a boa gente bela, que<br \/>\nrecebeu dadivosa aos primeiros navegantes, passaram logo a ser vistos como<br \/>\ncanibais, comedores de carne humana, totalmente detest\u00e1veis. Com o conv\u00edvio,<br \/>\ntanto os \u00edndios come\u00e7aram a distinguir nos europeus na\u00e7\u00f5es e car\u00e1teres diferentes,<br \/>\ncomo estes passaram a diferenci\u00e1-los em grupos de aliados e inimigos, falando<br \/>\nl\u00ednguas diferentes e tendo costumes discrepantes. Assim, foi surgindo uma<br \/>\netnologia rec\u00edproca, atrav\u00e9s da qual uns iam figurando o outro. A ela correspondeu,<br \/>\nna Europa, um comp\u00eandio de interpreta\u00e7\u00f5es das novidades espantosas que vinham<br \/>\nnas cartas dos navegantes, depois nas cr\u00f4nicas e testemunhos e, afinal, nessa<br \/>\netnologia incipiente. A curiosidade se acendeu, inteira, no reino dos te\u00f3logos,<br \/>\nque come\u00e7aram a se chocar com algumas novas, impens\u00e1veis at\u00e9 ent\u00e3o. Aqueles<br \/>\n\u00edndios, t\u00e3o diferentes dos europeus, que os viam e os descreviam, mas tamb\u00e9m<br \/>\nt\u00e3o semelhantes, seriam eles tamb\u00e9m membros do g\u00eanero humano, feitos do mesmo<br \/>\nbarro pelas m\u00e3os de Deus, \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a? Ca\u00edram na impiedade.<br \/>\nTeriam salva\u00e7\u00e3o? Ficou logo evidente que eles careciam, mesmo, \u00e9 de um rigoroso<br \/>\nbanho de lix\u00edvia em suas almas sujas de tanta abomina\u00e7\u00e3o, como a antropofagia<br \/>\nde comer seus inimigos em banquetes selvagens; a ruindade com que eram manipulados<br \/>\npelo dem\u00f4nio atrav\u00e9s de seus feiticeiros; a lux\u00faria com que se amavam com<br \/>\na naturalidade de bichos; a pregui\u00e7a de sua vida farta e in\u00fatil, descuidada<br \/>\nde qualquer produ\u00e7\u00e3o mercantil.<\/p>\n<p>Essa curiosidade floresceu, logo, numa teologia b\u00e1rbara, em que os tratados<br \/>\nde frei Francisco de Vit\u00f3ria, N\u00f3brega e, depois, os de Vieira e tantos outros,<br \/>\ncompunham eruditos discursos em que os \u00edndios contracenavam com raz\u00f5es teol\u00f3gicas,<br \/>\nevang\u00e9licas, apost\u00f3licas, providenciais, catacl\u00edsmicas e escatol\u00f3gicas. Assim<br \/>\n\u00e9 que se foi compondo um discurso cada vez mais racional e cada vez mais insano,<br \/>\nfrente \u00e0 realidade do que sucedeu aos \u00edndios: esmagados e escravizados pelo<br \/>\ncolonizador, cego e surdo a raz\u00f5es que n\u00e3o fossem as do haver e do dever pecuni\u00e1rios.<br \/>\nApesar dessas cruas evid\u00eancias, uns santos homens, em sua aliena\u00e7\u00e3o iluminada,<br \/>\ncontinuaram crendo que cumpriam uma destina\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de construtores do reino<br \/>\nde Deus no novo mundo, de soldados apost\u00f3licos da cristandade universal. Logo<br \/>\ncompuseram uma teologia alucinada e messi\u00e2nica, que via na expans\u00e3o ib\u00e9rica,<br \/>\ncom a sucessiva descoberta de dilatadas terras ignotas e de incont\u00e1veis povos<br \/>\npag\u00e3os, uma miss\u00e3o divina que se cumpria passo a passo. Tordesilhas, nesse<br \/>\ncontexto, teria sido uma vis\u00e3o prof\u00e9tica sobre a destina\u00e7\u00e3o ib\u00e9rica de evangeliza\u00e7\u00e3o<br \/>\npara criar uma Igreja, por fim, efetivamente universal.<\/p>\n<p>Esses discursos respondiam a uma necessidade igualmente imperativa. A de<br \/>\natribuir alguma dignidade formal \u00e0 guerra de exterm\u00ednio que se levava adiante,<br \/>\n\u00e0 brutalidade da conquista, \u00e0 perversidade da elimina\u00e7\u00e3o de tantos povos.<br \/>\nO imp\u00e9rio ib\u00e9rico, sagrando-se sobre o novo mundo, se tingia com as tintas<br \/>\nde Roma. Prometia que, \u00e0 torpeza \u00edndia, faria suceder a prud\u00eancia e a piedade<br \/>\ncrist\u00e3s, at\u00e9 converter os infi\u00e9is servos do dem\u00f4nio em crist\u00e3os, tementes<br \/>\ndo pecado e da perdi\u00e7\u00e3o, adoradores do verdadeiro Deus. O europeu que, for\u00e7ando<br \/>\na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, fizera do deus dos hebreus o rei dos homens, agora tinha<br \/>\nde incluir aquela indianidade pag\u00e3 na humanidade do passado, entre os filhos<br \/>\nde Eva expulsos do Para\u00edso, e do futuro, entre os destinados \u00e0 reden\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica sobre esse tema se acendeu por toda a parte, discutindo vivamente<br \/>\no que se podia debitar e creditar a eles da tradi\u00e7\u00e3o vetusta. O dil\u00favio ocorreu<br \/>\ntamb\u00e9m para o Novo Mundo, com No\u00e9 e seus bichos? Que pastores evang\u00e9licos<br \/>\ntiveram a seu cargo levar para l\u00e1 a palavra de Deus? Por que fracassaram em<br \/>\nsua miss\u00e3o evang\u00e9lica os companheiros de Cristo? Ou tamb\u00e9m os \u00edndios eram<br \/>\nculpados do pecado original? O pr\u00f3ximo Messias ir\u00e1 salvar a eles tamb\u00e9m? Os<br \/>\ncataclismos apocal\u00edpticos e o Ju\u00edzo Final valer\u00e3o para os \u00edndios, como para<br \/>\nos brancos? Poderia, acaso, o anunciado Filho de Deus, nascer \u00edndio entre<br \/>\neles?<\/p>\n<p>De todo o debate, s\u00f3 reluzia, clara como o sol, para a c\u00fapula real e para<br \/>\na Igreja, a miss\u00e3o salvacionista que cumpria \u00e0 cristandade exercer, a ferro<br \/>\ne fogo, se preciso, para incorporar as novas gentes ao rebanho do rei e da<br \/>\nIgreja. Esse era um mandato imperativo no plano espiritual. Uma destina\u00e7\u00e3o<br \/>\nexpressa, uma miss\u00e3o a cargo da Coroa, cujo direito de avassalar os \u00edndios,<br \/>\ncolonizar e fluir as riquezas da terra nova decorria do sagrado dever de salv\u00e1-los<br \/>\npela evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na ordem secular, a legitimidade da hegemonia europ\u00e9ia se estabeleceu soberana.<br \/>\nNa ordem divina, os jesu\u00edtas e os franciscanos pretenderam, por\u00e9m, afian\u00e7ar<br \/>\nque estavam destinados a criar rep\u00fablicas pias e ser\u00e1ficas de santos homens<br \/>\ncom os \u00edndios rec\u00e9m-descobertos, a fim de que, como prescrevia o Livro dos<br \/>\nAtos, todos os que cr\u00eaem vivessem unidos, tendo todos os bens em comum. Configuram-se,<br \/>\nassim, duas destina\u00e7\u00f5es cruamente opostas, desfrutando, cada qual, o predom\u00ednio<br \/>\nna domina\u00e7\u00e3o do Novo Mundo. De um lado, a dos colonos, \u00e0 frente dos seus neg\u00f3cios.<br \/>\nDo outro lado, a dos religiosos, \u00e0 frente de suas miss\u00f5es. Em princ\u00edpio, em<br \/>\nterra t\u00e3o vasta, trabalhando cada qual em sua prov\u00edncia, puderam crescer paralelamente,<br \/>\nmas logo o contraste se converteu em conflito aberto. Os colonos, trabalhando<br \/>\npara reproduzir aqui um sadio mundo mercantil, movidos por suas cobi\u00e7as e<br \/>\nusuras.<\/p>\n<p>Os frades, fazendo ressoar no Novo Mundo antigas heresias joaquinistas. Como<br \/>\na do infante d. Henrique, com sua prega\u00e7\u00e3o de que, uma vez que era passado<br \/>\no tempo do Pai &#8211; de que rege o Velho Testamento &#8211; e tamb\u00e9m o do Filho \u2013 de<br \/>\nque trata o Novo Testamento -, era chegada a Era do Esp\u00edrito Santo, que instalar\u00e1<br \/>\no mil\u00eanio do amor e da alegria neste mundo, com os \u00edndios conversos e convertidos<br \/>\nem louvadores da gl\u00f3ria de Deus. A hist\u00f3ria faria prevalecer o plano oposto,<br \/>\nobrigando os pr\u00f3prios evangelizadores a cumprir o projeto colonial atrav\u00e9s<br \/>\nda guerra genocida contra todos os \u00edndios e da a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, a seu pesar,<br \/>\netnocida.<\/p>\n<p>Nas tarefas da convers\u00e3o do gentio e sua integra\u00e7\u00e3o na cristandade, foram<br \/>\nsoldados principais o jesu\u00edta, o franciscano e o carmelita. Os inacianos,<br \/>\ninspirando, apoiando, incentivando o bra\u00e7o secular para que, guerreando e<br \/>\navassalando, pusessem os \u00edndios, humilhados, a seus p\u00e9s dentro das miss\u00f5es.<br \/>\nAli, aparentemente, eles iam viver vidas de \u00edndios humildes, contritamente.<br \/>\nNa verdade, eles estavam inventando para os \u00edndios uma vida nova, triste vida<br \/>\nde catec\u00famenos, suport\u00e1vel apenas diante da alternativa que era ca\u00edrem cativos<br \/>\nnas m\u00e3os do colono. Assim, foram edificando, dia a dia, ano a ano, a Cidade<br \/>\nCrist\u00e3, virtuosa e operativa, impens\u00e1vel no Velho Mundo, mas fact\u00edvel aqui<br \/>\ncom o barro d\u00f3cil que eram os \u00edndios. Inocentes, simples e puros, sobretudo<br \/>\nas crian\u00e7as, ainda com dentes de leite, como dizia Gilberto Freyre. Acabou<br \/>\nficando claro, para eles, que nada se podia esperar da Europa, corrompida<br \/>\ne corrupta. A esperan\u00e7a \u00fanica de salva\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para ela seria o Apocalipse.<br \/>\nNo Novo Mundo, ao contr\u00e1rio, eles viam confirmar, a cada dia, suas esperan\u00e7as<br \/>\nde concretizar as profecias b\u00edblicas.<\/p>\n<p>A tarefa a que os mission\u00e1rios se propunham n\u00e3o era transplantar os modos<br \/>\neuropeus de ser e de viver para o Novo Mundo.<\/p>\n<p>Era, ao contr\u00e1rio, recriar aqui o humano, desenvolvendo suas melhores potencialidades,<br \/>\npara implantar, afinal, uma sociedade solid\u00e1ria, igualit\u00e1ria, orante e pia,<br \/>\nnas bases sonhadas pelos profetas. Essa utopia socialista e ser\u00e1fica floresce<br \/>\nnas Am\u00e9ricas, recorrendo \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es do cristianismo primitivo e \u00e0s mais<br \/>\ngenerosas profecias messi\u00e2nicas. Ela se funda, por igual, no pasmo dos mission\u00e1rios<br \/>\ndiante da inoc\u00eancia ad\u00e2mica e do solidarismo ed\u00eanico que se capacitaram a<br \/>\nver nos \u00edndios, \u00e0 medida que com eles conviviam.<\/p>\n<p>Os m\u00edsticos franciscanos que se viam \u00e0 frente do sistema de castas de \u00edndios<br \/>\nremanescentes das civiliza\u00e7\u00f5es pr\u00e9-colombianas avan\u00e7am, recrutando-os para<br \/>\nconverter pir\u00e2mides pag\u00e3s em templos crist\u00e3os suntuosos, para maior gl\u00f3ria<br \/>\nde Deus. Sonham ordenar a vida ind\u00edgena segundo as regras da Utopia, de Morus,<br \/>\ninspirados anacronicamente na indianidade original. Acreditaram, mesmo, que<br \/>\nera poss\u00edvel abrir essa alternativa para a conquista, fazendo da expans\u00e3o<br \/>\neurop\u00e9ia a universaliza\u00e7\u00e3o da cristandade. Encarnada nos corpos ind\u00edgenas,<br \/>\na cristandade ingressaria no Mil\u00eanio Joaquinista, em que a felicidade se alcan\u00e7aria<br \/>\nneste mundo. No Brasil, os jesu\u00edtas foram adiante no mesmo caminho, reinventando<br \/>\na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Essas utopias se opunham t\u00e3o cruamente ao projeto colonial que a guerra se<br \/>\ninstalou prontamente entre colonos e sacerdotes. De um lado, o colono, querendo<br \/>\np\u00f4r os bra\u00e7os \u00edndios a produzir o que os enricasse, ajudados por mundanos<br \/>\ncuras regulares dispostos a sacramentar a cidade terrena, dando a Deus o que<br \/>\n\u00e9 de Deus e ao rei o que ele reclamava. Foi um desastre, mesmo onde as miss\u00f5es<br \/>\nse implantaram produtivas e at\u00e9 rent\u00e1veis para a pr\u00f3pria Coroa &#8211; como ocorreu<br \/>\ncom as dos Sete Povos, no sul, e ao norte, na miss\u00e3o tardia da Amaz\u00f4nia &#8211;<br \/>\nprevaleceu a vontade do colono, que via nos \u00edndios a for\u00e7a de trabalho de<br \/>\nque necessitava para prosperar. O espantoso para quem medita hoje esse drama<br \/>\n\u00e9 o vigor da f\u00e9 mission\u00e1ria daqueles santos homens, que chegaram at\u00e9 \u00e0 subvers\u00e3o<br \/>\nna luta por seu ideal.<\/p>\n<p>Depois de transigir sem limites, interpretando em tom transcendental a conquista<br \/>\ncomo mal necess\u00e1rio, a porta da estrada que se abriria ao caminho da f\u00e9 pelo<br \/>\nflagelo, ca\u00edram em si e come\u00e7aram a ver seu pr\u00f3prio papel conivente.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas n\u00e3o disseram nenhuma palavra de piedade pelos milhares de<br \/>\n\u00edndios mortos, pelas aldeias incendiadas, pelas crian\u00e7as, pelas mulheres e<br \/>\nhomens escravizados, aos milh\u00f5es. Tudo isso eles viram silentes. Ou at\u00e9 mesmo,<br \/>\ncomo Anchieta, cantando essas fa\u00e7anhas em milhares de versos servis. Para<br \/>\neles, toda aquela dor era dor necess\u00e1ria para colorir as faces da aurora,<br \/>\nque eles viam amanhecendo. S\u00f3 tardiamente ca\u00edram em si, vendo-se vencidos<br \/>\nprimeiro na evangeliza\u00e7\u00e3o, depois na reclus\u00e3o dos \u00edndios nas miss\u00f5es. Entretanto,<br \/>\nnenhum desastre hist\u00f3rico, nenhum projeto ut\u00f3pico anterior teve tal altitude,<br \/>\nporque nenhuma esperan\u00e7a at\u00e9 ent\u00e3o fora t\u00e3o alentadora e pudera ser levada<br \/>\nt\u00e3o adiante, a demonstrar a factibilidade de reconstruir intencionalmente<br \/>\na sociedade segundo um projeto. A utopia jesu\u00edtica esboroou e os inacianos<br \/>\nforam expulsos das Am\u00e9ricas, entregando, inermes, desvirilizados, os seus<br \/>\ncatec\u00famenos ao sacrif\u00edcio e \u00e0 escravid\u00e3o na m\u00e3o possessa dos colonos. O mesmo<br \/>\naconteceu com o sonho mir\u00edfico dos franciscanos, reduzido \u00e0 vis\u00e3o do que era<br \/>\na bo\u00e7alidade do mundo colonial, \u00ednvio, \u00edmpio e bruto.<\/p>\n<p>\u00c9 de perguntar, aqui, se n\u00e3o foi o pr\u00f3prio \u00eaxito que levou os projetos ut\u00f3picos<br \/>\nde jesu\u00edtas e de franciscanos ao fracasso. Vendo a incompatibilidade insan\u00e1vel<br \/>\nentre eles e os colonos e, por extens\u00e3o, entre o projeto mission\u00e1rio e o real,<br \/>\nse afastaram para criar sua pr\u00f3pria prov\u00edncia europ\u00e9ia. Queriam dar \u00e0 expans\u00e3o<br \/>\nib\u00e9rica a alternativa freiral de restaura\u00e7\u00e3o de uma indianidade cristianizada,<br \/>\nque falaria as l\u00ednguas ind\u00edgenas e s\u00f3 teria fidelidade a si mesma. Entre as<br \/>\nduas proposi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o havia d\u00favida poss\u00edvel. As Coroas optaram, ambas, pelo<br \/>\nprojeto colonial.<\/p>\n<p>Os m\u00edsticos haviam cumprido j\u00e1 a sua fun\u00e7\u00e3o de dignificar \u00e1 a\u00e7\u00e3o conquistadora.<br \/>\nAgora, deviam dar lugar aos homens pr\u00e1ticos, que assentariam e consolidariam<br \/>\nas bases do imp\u00e9rio maior que jamais se viu. Em lugar de sacros reinos pios,<br \/>\nsob reis mission\u00e1rios a servi\u00e7o da Igreja e de Deus, os reis de Espanha e<br \/>\nde Portugal queriam \u00e9 o reino deste mundo.<\/p>\n<h3>3. O PROCESSO CIVILIZAT\u00d3RIO POVOS GERMINAIS<\/h3>\n<p>O processo civilizat\u00f3rio, acionado pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica<br \/>\nque possibilitou a navega\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica, transfigurou as<br \/>\nna\u00e7\u00f5es ib\u00e9ricas, estruturando-as como imp\u00e9rios<br \/>\nmercantis salvacionistas. Assim \u00e9 que se explica a vitaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nextraordin\u00e1ria dessas na\u00e7\u00f5es, que de repente ganharam<br \/>\numa energia expansiva inexplic\u00e1vel numa forma\u00e7\u00e3o meramente<br \/>\nfeudal e tamb\u00e9m numa forma\u00e7\u00e3o capitalista. Mesmo porque<br \/>\nessas \u00faltimas s\u00f3 surgiram mais tarde, na Inglaterra e na Holanda.<\/p>\n<p>De fato, as teorias explicativas da hist\u00f3ria mundial n\u00e3o oferecem<br \/>\ncategorias te\u00f3ricas capazes de explicar seja o poderio singular que<br \/>\nalcan\u00e7ou a civiliza\u00e7\u00e3o \u00c1rabe por mais de um mil\u00eanio<br \/>\nde esplendor, seja a expans\u00e3o ib\u00e9rica, que criou a primeira<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o universal. Essa car\u00eancia \u00e9 que nos<br \/>\nobrigou, em nosso estudo do processo civilizat\u00f3rio (Ribeiro 1968, 1972<br \/>\n), a propor, com respeito ao mundo \u00e1rabe, a categoria de imp\u00e9rio<br \/>\ndesp\u00f3tico salvacionista, enfatizando o car\u00e1ter at\u00edpico<br \/>\nde seu salvacionismo, que nunca quis converter ningu\u00e9m. Simplesmente<br \/>\nconquistavam a \u00e1rea, gritavam o Jihad e deixavam o povo viver.<\/p>\n<p>A certa altura, como aconteceu com todas as civiliza\u00e7\u00f5es,<br \/>\nentram em obsolesc\u00eancia e se feudalizam, abrindo espa\u00e7o para<br \/>\num novo g\u00eanero de salvacionismo. Ao mundo ib\u00e9rico propusemos<br \/>\na categoria de imp\u00e9rio mercantil salvacionista, gerado pela mesma revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ntecnol\u00f3gica, a mercantil, que deu acesso ao ultramar. Tecnologia gerada<br \/>\nno mundo \u00e1rabe e no mundo oriental, mas acolhida e concatenada primeiro<br \/>\npelos portugueses.<\/p>\n<p>Os iberos, num primeiro movimento, se livraram da secular ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e1rabe e expulsaram seu contingente judeu, assumindo inteiro comando<br \/>\nde seu territ\u00f3rio atrav\u00e9s de u m poder centralizado que n\u00e3o<br \/>\ndeixava espa\u00e7o para qualquer autonomia feudal ou qualquer monop\u00f3lio<br \/>\ncomercial.<\/p>\n<p>Num segundo movimento, se expandiram pelos mares, lan\u00e7ando-se em<br \/>\nguerras de conquista, de saqueio e de evangeliza\u00e7\u00e3o sobre os<br \/>\npovos da \u00c1frica, da \u00c1sia e, principalmente, das Am\u00e9ricas.<br \/>\nEstabeleceram, assim, os fundamentos do primeiro sistema econ\u00f4mico mundial,<br \/>\ninterrompendo o desenvolvimento aut\u00f4nomo das grandes civiliza\u00e7\u00f5es<br \/>\namericanas. Exterminaram, simultaneamente, milhares de povos que antes viviam<br \/>\nem prosperidade e alegria, espalhados por toda a terra com suas l\u00ednguas<br \/>\ne com suas culturas originais.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, se plasmam a si mesmas como novas forma\u00e7\u00f5es<br \/>\nsocioecon\u00f4micas e como novas configura\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-culturais,<br \/>\nque cobrem \u00e1reas e subjugam popula\u00e7\u00f5es infinitamente<br \/>\nmaiores que a europ\u00e9ia (Ribeiro 1970). \u00c9 no curso dessa autotransforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nque as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas das Am\u00e9ricas, do Brasil<br \/>\ninclusive, se v\u00eaem conscritas, a seu pesar, para as tarefas da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nnascente. Viabilizando-a na base dos saberes ind\u00edgenas, que permitiram<br \/>\na adapta\u00e7\u00e3o do europeu em outras latitudes, e provendo largamente<br \/>\na for\u00e7a de trabalho que as inseriu no mercado mundial em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00f5es germinais, como Roma no passado, foram os iberos, os<br \/>\ningleses e os russos no mundo moderno.<\/p>\n<p>Cada um deles deu origem a uma variante ponder\u00e1vel da humanidade<br \/>\n&#8211; a latino- americana, a neobrit\u00e2nica e a eslava -, criando gentes t\u00e3o<br \/>\nhomog\u00eaneas entre si, como diferenciadas de todas as demais. Estranhamente,<br \/>\na Alemanha, a Fran\u00e7a e a It\u00e1lia, t\u00e3o realizadas e plenas<br \/>\ncomo ramos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, n\u00e3o foram germinais.<\/p>\n<p>Fechadas em si, feudalizadas, ocupadas em dissens\u00f5es com suas variantes<br \/>\ninternas, elas n\u00e3o se organizaram como Estados nacionais nem exerceram<br \/>\npapel seminal.<\/p>\n<p>Os eslavos, simultaneamente, se expandiram pelas suas estepes e tundras<br \/>\ne foram ter no Alasca. Mas, contidos pelo esclerosamento de sua sociedade<br \/>\narcaica, rigidamente estratificada, refrearam seu el\u00e3 de conquistar<br \/>\nnovos mundos.<\/p>\n<p>Os ingleses se expandiram como operosos granjeiros puritanos ou como uma<br \/>\nburguesia industrial e negocista, que calculava bem cada um dos seus lances.<\/p>\n<p>Empenhados em outro g\u00eanero de coloniza\u00e7\u00e3o, sua tarefa<br \/>\nera a de transplantar sua paisagem mundo afora, recriando pequenas Inglaterras,<br \/>\ndesatentos ou indiferentes ao que havia aonde chegaram. Negando-se a ver e<br \/>\na entender as vetustas raz\u00f5es e justifica\u00e7\u00f5es do Vaticano,<br \/>\nprop\u00f5em-se simplesmente conquistar seu naco do bolo americano. Quando<br \/>\nmenos fosse para l\u00e1 derramar excedentes da humanidade fam\u00e9lica<br \/>\nde seus pr\u00f3prios reinos, dando-lhes novas p\u00e1trias por fazer.<br \/>\nAlcan\u00e7aram, tamb\u00e9m, primeiro pelas m\u00e3os de piratas, de<br \/>\ncors\u00e1rios, de contrabandistas, quanto puderam tomar do ouro que os<br \/>\nilh\u00e9us carreavam para o Velho Mundo. Depois, pelo mecanismo de interc\u00e2mbio<br \/>\nmercantil, se apossaram de parcelas ainda maiores dessas riquezas.<\/p>\n<p>Mais tarde, se instalaram em \u00e1reas ao norte do continente como col\u00f4nias<br \/>\nde povoamento. Vizinhos das ilhas caribenhas e de suas ricas planta\u00e7\u00f5es<br \/>\nescravistas de cana, eles eram os pobres e atrasados. S\u00f3 floresceram,<br \/>\nlentamente, aurindo subst\u00e2ncia do com\u00e9rcio de alimentos e artefatos<br \/>\ncom os senhores de escravos das ilhas, produzindo as mercadorias dos pobres.<\/p>\n<p>Os iberos, ao contr\u00e1rio, se lan\u00e7aram \u00e0 aventura no<br \/>\nal\u00e9m-mar, abrindo novos mundos, ati\u00e7ados pelo fervor mais fan\u00e1tico,<br \/>\npela viol\u00eancia mais desenfreada, em busca de riquezas a saquear ou de<br \/>\nfazer produzir pela escravaria. Certos de que eram novos cruzados cumprindo<br \/>\numa miss\u00e3o salvacionista de colocar o mundo inteiro sob a reg\u00eancia<br \/>\ncat\u00f3lico-romana. Desembarcavam sempre desabusados, acesos e atentos<br \/>\naos mundos novos, querendo flu\u00ed-los, recri\u00e1-los, convert\u00ea-los<br \/>\ne mesclar-se racialmente com eles. Multiplicaram-se, em conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\nprodigiosamente, fecundando ventres nativos e criando novos g\u00eaneros<br \/>\nhumanos.<\/p>\n<p>Como se viu, a causa primeira da expans\u00e3o ultramarina, e portanto<br \/>\ndos descobrimentos, fora a precoce unifica\u00e7\u00e3o nacional de Portugal<br \/>\ne da Espanha, movidos por toda uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica<br \/>\nque lhes deu acesso ao mundo inteiro com suas naus armadas, gestando uma nova<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o. Libertos da ocupa\u00e7\u00e3o sarracena, descansados<br \/>\nda explora\u00e7\u00e3o judaica, dirimidos dos poderios locais da nobreza<br \/>\nfeudal, emergia em cada \u00e1rea um Estado nacional. Foram os primeiros<br \/>\ndo mundo moderno.<\/p>\n<p>Surgem, assim, entidades capazes de grandes empresas, como os descobrimentos<br \/>\ne o enriquecimento aurido no al\u00e9m-mar, bem como sua implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\nem imp\u00e9rio com hegemonia sobre a Am\u00e9rica, a \u00c1sia e a<br \/>\n\u00c1frica. Seu poderio cresce tanto que a certa altura a Espanha se prop\u00f5e<br \/>\nexercer sua soberania tamb\u00e9m sobre a Europa. Portugal se v\u00ea compelido<br \/>\na aliar-se \u00e0 Inglaterra, para manter sua independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Nesses conflitos de amplitude mundial, a Ib\u00e9ria se debilita tanto,<br \/>\nque acaba por sucumbir como cabe\u00e7a do Imp\u00e9rio mundial sonhado<br \/>\ntantas vezes. Sucumbe, por\u00e9m, \u00e9 l\u00e1 nos conflitos com<br \/>\nseus pares. C\u00e1, nos novos mundos, seus s\u00eamens continuam fecundando<br \/>\nprodigiosamente a mesti\u00e7agem americana; sua l\u00edngua e sua cultura<br \/>\nprosseguem expandindo-se. Nesse passo, se enriquecem para constituir, afinal,<br \/>\numa das prov\u00edncias mais amplas, mais ricas e a mais homog\u00eanea<br \/>\nda terra, a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A Inglaterra, que foi a terceira na\u00e7\u00e3o a estruturar-se, assentada<br \/>\nnos capitais e nos saberes judaicos que acolheu, acaba por apossar-se da outra<br \/>\nmetade das Am\u00e9ricas, sobre a qual se expandira como uma segunda macroetnia,<br \/>\nimensamente homog\u00eanea e neobrit\u00e2nica.<\/p>\n<p>As dimens\u00f5es desses dom\u00ednios eram as do orbe que acabavam<br \/>\nde ocupar. Sua heterogeneidade \u00e9tnica original, ao contr\u00e1rio,<br \/>\nera sem paralelo na hist\u00f3ria humana. S\u00f3 foi rompida e refundida<br \/>\natrav\u00e9s do esfor\u00e7o continuado de s\u00e9culos, anulando qualquer<br \/>\nveleidade \u00e9tnica ou qualquer direito de autodetermina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos povos avassalados.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que a Ib\u00e9ria e a. Gr\u00e3-Bretanha, t\u00e3o<br \/>\nrecheadas de duras resist\u00eancias dos povos que englobam em seus territ\u00f3rios,<br \/>\nque jamais conseguiram digerir, aqui deglutem e dissolvem quase tudo. Onde<br \/>\nse deparam com altas civiliza\u00e7\u00f5es, seus povos s\u00e3o sangrados,<br \/>\ncontaminados, decapitados de suas chefaturas, para serem convertidos em mera<br \/>\nenergia animal para o trabalho servil. Essa gente desfeita s\u00f3 consegue<br \/>\nguardar no peito o sentimento de si mesmos, como um povo em si, a l\u00edngua<br \/>\nde seus antepassados e reverbera\u00e7\u00f5es da antiga grandeza.<\/p>\n<p>No Brasil, de \u00edndios e negros, a obra colonial de Portugal foi tamb\u00e9m<br \/>\nradical. Seu produto verdadeiro n\u00e3o foram os ouros afanosamente buscados<br \/>\ne achados, nem as mercadorias produzidas e exportadas. Nem mesmo o que tantas<br \/>\nriquezas permitiram erguer no Velho Mundo. Seu produto real foi um povo-na\u00e7\u00e3o,<br \/>\naqui plasmado principalmente pela mesti\u00e7agem, que se multiplica prodigiosamente<br \/>\ncomo uma morena humanidade em flor, \u00e0 espera do seu destino. Claro<br \/>\ndestino, singelo, de simplesmente ser, entre os povos, e de existir para si<br \/>\nmesmos.<\/p>\n<p>Nada \u00e9 mais continuado, tampouco \u00e9 t\u00e3o permanente,<br \/>\nao longo desses cinco s\u00e9culos, do que essa classe dirigente ex\u00f3gena<br \/>\ne infiel a seu povo. No a \u00e1 de gastar gentes e matas, bichos e coisas<br \/>\npara lucrar, acabam com as florestas mais portentosas da terra.<\/p>\n<p>Desmontam morrarias incomensur\u00e1veis, na busca de minerais. Erodem<br \/>\ne arrasam terras sem conta. Gastam gente, aos milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Tudo, nos s\u00e9culos, transformou-se incessantemente. S\u00f3 ela,<br \/>\na classe dirigente, permaneceu igual a si mesma, exercendo sua intermin\u00e1vel<br \/>\nhegemonia. Senhorios velhos se sucedem em senhorios novos, super-homog\u00eaneos<br \/>\ne solid\u00e1rios entre si, numa f\u00e9rrea uni\u00e3o superarmada<br \/>\ne a tudo predisposta para manter o povo gemendo e produzindo. N\u00e3o o<br \/>\nque querem e precisam, mas o que lhes mandam produzir, na forma que imp\u00f5em,<br \/>\nindiferentes a seu destino.<\/p>\n<p>N\u00e3o alcan\u00e7am, aqui, nem mesmo a fa\u00e7anha menor de gerar<br \/>\numa prosperidade generaliz\u00e1vel \u00e0 massa trabalhadora, tal como<br \/>\nse conseguiu, sob os mesmos regimes, em outras \u00e1reas. Menos \u00eaxito<br \/>\nteve, ainda, em seus esfor\u00e7os por integrar-se na civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nindustrial. Hoje, seu des\u00edgnio \u00e9 for\u00e7ar-nos \u00e0<br \/>\nmarginalidade na civiliza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 emergindo.<\/p>\n<h2>O BARROCO E O G\u00d3TICO<\/h2>\n<p>Dois estilos de coloniza\u00e7\u00e3o se inauguram no norte e no sul<br \/>\ndo Novo Mundo. L\u00e1, o g\u00f3tico altivo de frias gentes n\u00f3rdicas,<br \/>\ntransladado em fam\u00edlias inteiras para compor a paisagem de que vinham<br \/>\nsendo exclu\u00eddos pela nova agricultura, como excedentes de m\u00e3o-de-obra.<br \/>\nPara eles, o \u00edndio era um detalhe, sujando a paisagem que, para se<br \/>\neuropeizar, devia ser livrada deles. Que fossem viver onde quisessem, livres<br \/>\nde ser diferentes, mas longe, se poss\u00edvel para outro al\u00e9m-mar,<br \/>\nPac\u00edfico adentro.<\/p>\n<p>C\u00e1, o barroco das gentes ib\u00e9ricas, mesti\u00e7adas, que<br \/>\nse mesclavam com os \u00edndios, n\u00e3o lhes reconhecendo direitos que<br \/>\nn\u00e3o fosse o de se multiplicarem em mais bra\u00e7os, postos a seu<br \/>\nservi\u00e7o. Ao apartheid dos n\u00f3rdicos, opunham o assimilacionismo<br \/>\ndos caldeadores.<\/p>\n<p>Um \u00e9 a toler\u00e2ncia soberba e orgulhosa dos que se sabem diferentes<br \/>\ne assim querem permanecer. Outro \u00e9 a toler\u00e2ncia opressiva, de<br \/>\nquem quer conviver reinando sobre os corpos e as almas dos cativos, \u00edndios<br \/>\ne pretos, que s\u00f3 podem conceber como os que dever\u00e3o ser, amanh\u00e3,<br \/>\nseus equivalentes, porque toda a diferen\u00e7a lhe \u00e9 intoler\u00e1vel.<\/p>\n<p>Atuando com a \u00e9tica do aventureiro, que improvisa a cada momento<br \/>\ndiante do desafio que tem de enfrentar, os iberos n\u00e3o produziram o<br \/>\nque quiseram, mas o que resultou de sua a\u00e7\u00e3o, muitas vezes desenfreada.<br \/>\n\u00c9 certo que a coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil se fez como esfor\u00e7o<br \/>\npersistente, teimoso, de implantar aqui uma europeidade adaptada nesses tr\u00f3picos<br \/>\ne encarnada nessas mesti\u00e7agens. Mas esbarrou, sempre, com a resist\u00eancia<br \/>\nbirrenta da natureza e com os caprichos da hist\u00f3ria, que nos fez a<br \/>\nn\u00f3s mesmos, apesar daqueles des\u00edgnios, tal qual somos, t\u00e3o<br \/>\nopostos a branquitudes e civilidades, t\u00e3o interiorizadamente deseuropeus<br \/>\ncomo des\u00edndios e desafros.<\/p>\n<p>Aqueles senhores g\u00f3ticos, de que suas novas p\u00e1trias n\u00e3o<br \/>\nesperavam riquezas, se deram terras para viverem probas exist\u00eancias<br \/>\ncamponesas. Como n\u00e3o havia que sujeit\u00e1-los ao mundo europeu,<br \/>\nporque de l\u00e1 sa\u00edram, nem era necess\u00e1rio sujeit\u00e1-los<br \/>\nao trabalho escravo, porque eram incapazes de produzir qualquer mercadoria<br \/>\nprestante, lhes deram terra e liberdade.<\/p>\n<p>Nada disso ocorre no mundo barroco. Aqui, a Europa se defronta com multid\u00f5es<br \/>\nde povos ex\u00f3ticos, selvagens uns, civilizados outros, que podiam ser<br \/>\nmobilizados como a m\u00e3o-de-obra indispens\u00e1vel para gerar riquezas<br \/>\nque ali estavam, \u00e0 vista, ou que facilmente se podiam produzir.<\/p>\n<p>Aqui, nenhuma terra se desperdi\u00e7a com o povo que se ia gerando. De<br \/>\ntoda ela se apropria a classe dominante, menos para uso, porque \u00e9 demasiada<br \/>\ndemais, mas a fim de obrigar os gentios subjugados a trabalhar em terra alheia.<br \/>\nNenhuma liberdade se consente, tamb\u00e9m, porque se trata com hereges<br \/>\na catequizar, livrando-os da perdi\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>Nada mais natural do que pensar assim para um ibero que acabava de expulsar<br \/>\nos hereges sarracenos e judeus, que os haviam dominado por s\u00e9culos.<br \/>\nAinda com o fervor das cruzadas gloriosas contra os mouros, eles se assanharam,<br \/>\naqui, contra o gentio americano. O pr\u00f3prio Estado assume fun\u00e7\u00f5es<br \/>\nsacerdotais, expressamente conferidas pelo papa, para cumprir seu destino<br \/>\nde Cidade de Deus contra a Reforma europ\u00e9ia e contra a impiedade americana.<br \/>\nPara tanto, chega a transferir \u00e0s coroas ib\u00e9ricas o mais importante<br \/>\nde seus privil\u00e9gios, que era o padroado papal, dando-lhes o direito<br \/>\nde nomear, transferir e revogar bispados e outras autoridades eclesi\u00e1sticas.<br \/>\nEm contraparte, pelo que Deus lhes dava em riqueza e em vassalos nas ant\u00edpodas,<br \/>\nRoma lhes sacramenta a possess\u00e3o dos novos mundos com a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que prossigam sobre eles a guerra dos mouros, na guerra e na convers\u00e3o<br \/>\ndos novos infi\u00e9is rec\u00e9m- descobertos. Quem sabe at\u00e9 para<br \/>\ntransform\u00e1-los, atrav\u00e9s de seus evangelizadores, na cristandade<br \/>\nterminal.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia, c\u00e1, em nosso universo cat\u00f3lico<br \/>\ne barroco, mais do que l\u00e1, no seu mundo reformista e g\u00f3tico,<br \/>\nas classes dirigentes tendem a definir-se como agentes da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nocidental e crist\u00e3, que se considerando mais perfeitos, prudentes e<br \/>\npios, se avantajavam tanto sobre a selvageria que seu destino era impor-se<br \/>\na ela como o dom\u00ednio natural dos bons sobre os maus, dos s\u00e1bios<br \/>\nsobre os ignaros. Essa domina\u00e7\u00e3o se alcan\u00e7a pela a\u00e7\u00e3o<br \/>\nda guerra, pela intelig\u00eancia nos neg\u00f3cios, pela conscri\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o trabalho e pelo ref\u00fagio na miss\u00e3o. A seu ver, estavam,<br \/>\nsimplesmente, for\u00e7ando aquela indianidade inativa a viver um destino<br \/>\nmais conforme com a vontade de Deus e a natureza dos homens. O colono se enriquecia<br \/>\ne os trabalhadores se salvavam para a vida eterna.<\/p>\n<p>Era a dial\u00e9tica do senhorio natural do crist\u00e3o contra a servid\u00e3o,<br \/>\nnatural tamb\u00e9m, do b\u00e1rbaro. Com o passar das eras, este acabaria<br \/>\npor sair da inf\u00e2ncia pag\u00e3, da indol\u00eancia inata, da lubricidade<br \/>\ne do pecado.<\/p>\n<p>Ideologia nenhuma, antes nem depois, foi t\u00e3o convincente para quem<br \/>\nexercia a hegemonia, nem t\u00e3o inelut\u00e1vel para quem a sofria,<br \/>\nescravo ou vassalo. Desapossados de suas terras, escravizados em seus corpos,<br \/>\nconvertidos em bens semoventes para os usos que o senhor lhes desse, eles<br \/>\neram tamb\u00e9m despojados de sua alma. Isso se alcan\u00e7ava atrav\u00e9s<br \/>\nda convers\u00e3o que invadia e avassalava sua pr\u00f3pria consci\u00eancia,<br \/>\nfazendo-os verem-se a si mesmos como a pobre humanidade gent\u00edlica e<br \/>\npecadora que, n\u00e3o podendo salvar-se neste vale de l\u00e1grimas,<br \/>\ns\u00f3 podia esperar, atrav\u00e9s da virtude, a compensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nvic\u00e1ria de uma eternidade de louvor \u00e0 gl\u00f3ria de Deus<br \/>\nno Para\u00edso.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 a for\u00e7a dessa ideologia que ainda hoje ela impera, sobranceira.<br \/>\nFaz a cabe\u00e7a do senhorio classista convencido de que orienta e civiliza<br \/>\nseus servi\u00e7ais, for\u00e7ando-os a superar sua pregui\u00e7a inata<br \/>\npara viverem vidas mais fecundas e mais lucrativas. Faz, tamb\u00e9m, a<br \/>\ncabe\u00e7a dos oprimidos, que aprendem a ver a ordem social como sagrada<br \/>\ne seu papel nela prescrito de criaturas de Deus em prova\u00e7\u00e3o,<br \/>\na caminho da vida eterna.<\/p>\n<p>Essas linhas de forma\u00e7\u00e3o correspondem, no lado n\u00f3rdico,<br \/>\n\u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um povo livre, dono do seu destino, que<br \/>\nengloba toda a cidadania branca. No nosso sul, o que se engendra \u00e9<br \/>\numa elite de senhores da terra e de mandantes civis e militares, montados<br \/>\nsobre a massa de uma subumanidade oprimida, a que n\u00e3o se reconhece<br \/>\nnenhum direito. A evolu\u00e7\u00e3o de uma e outra dessas forma\u00e7\u00f5es<br \/>\nd\u00e1 lugar, nas mesmas linhas, de um lado, ao amadurecimento de uma sociedade<br \/>\ndemocr\u00e1tica, fundada nos direitos de seus cidad\u00e3os, que acaba<br \/>\npor englobar tamb\u00e9m os negros. Do lado oposto, uma feitoria latifundi\u00e1ria,<br \/>\nhostil a seu povo condenado ao arb\u00edtrio, \u00e0 ignor\u00e2ncia<br \/>\ne \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p>No plano hist\u00f3rico-cultural, os n\u00f3rdicos realizam algumas<br \/>\ndas potencialidades da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, como extens\u00e3o<br \/>\nsensaborona e leg\u00edtima dela. N\u00f3s, ao contr\u00e1rio, somos<br \/>\na promessa de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o remarcada por singularidades,<br \/>\nprincipalmente africanidades.<\/p>\n<p>J\u00e1 por isso, aparecemos a olhos europeus como gentes bizarras, o<br \/>\nque, somado \u00e0 nossa tropicalidade \u00edndia, chega para aqueles<br \/>\nmesmos olhos a nos fazer ex\u00f3ticos.<\/p>\n<p>N\u00e3o somos e ningu\u00e9m nos toma como extens\u00f5es de branquitudes,<br \/>\ndessas que se acham a forma mais normal de se ser humano. N\u00f3s n\u00e3o.<br \/>\nTemos outras pautas e outros modos tomados de mais gentes. O que, \u00e9<br \/>\nbom lembrar, n\u00e3o nos faz mais pobres, mas mais ricos de humanidades,<br \/>\nquer dizer, mais humanos. Essa nossa singularidade bizarra esteve mil vezes<br \/>\namea\u00e7ada, mas afortunadamente conseguiu consolidar-se.<\/p>\n<p>Inclusive quando a Europa derramou multid\u00f5es de imigrantes que acolhemos<br \/>\ne at\u00e9 o grande n\u00famero de orientais advent\u00edcios que aqui<br \/>\nse instalaram. Todos eles, ou quase todos, foram assimilados e abrasileirados.<\/p>\n<h2>ATUALIZA\u00c7\u00c3O HIST\u00d3RICA<\/h2>\n<p>Em contraste com as etnias tribais que sobreviveram algum tempo a seu lado,<br \/>\na sociedade colonial nascente, bizarra e prec\u00e1ria, era e atuava como<br \/>\num rebento ultramarino da civiliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, em sua<br \/>\nvers\u00e3o portuguesa. Vale dizer, era j\u00e1 uma sociedade bipartida<br \/>\nem uma condi\u00e7\u00e3o rural e outra urbana, estratificada em classes,<br \/>\nservida por uma cultura erudita e letrada, e integrada na economia de \u00e2mbito<br \/>\ninternacional que a navega\u00e7\u00e3o possibilitara.<\/p>\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o evolutiva mais alta n\u00e3o representava,<br \/>\nobviamente, uma ascens\u00e3o das sociedades ind\u00edgenas originais<br \/>\nda sua condi\u00e7\u00e3o tribal \u00e0 de uma civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nurbana e estratificada. Era uma simples proje\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os<br \/>\ncivilizat\u00f3rios alcan\u00e7ados pelos europeus, ao sa\u00edrem da<br \/>\nIdade M\u00e9dia, sobre os remanescentes da forma\u00e7\u00e3o abor\u00edgene<br \/>\nprecedente e dos negros aliciados na \u00c1frica como for\u00e7a de trabalho<br \/>\nescravo.<\/p>\n<p>Estamos diante do resultado de um processo civilizat\u00f3rio que, interrompendo<br \/>\na linha evolutiva pr\u00e9via das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas<br \/>\nbrasileiras, depois de subjug\u00e1-las, recruta seus remanescentes como<br \/>\nm\u00e3o-de-obra servil de uma nova sociedade, que j\u00e1 nascia integrada<br \/>\nnuma etapa mais elevada da evolu\u00e7\u00e3o sociocultural. No caso,<br \/>\nesse passo se d\u00e1 por incorpora\u00e7\u00e3o ou atualiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rica &#8211; que sup\u00f5e a perda da autonomia \u00e9tnica dos<br \/>\nn\u00facleos engajados, sua domina\u00e7\u00e3o e transfigura\u00e7\u00e3o<br \/>\n-, estabelecendo as bases sobre as quais se edificaria da\u00ed em diante<br \/>\na sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Tais bases se definiriam com claridade com a implanta\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nprimeiros engenhos a\u00e7ucareiros que, vinculando os antigos n\u00facleos<br \/>\nextrativistas ao mercado mundial, viabilizava sua exist\u00eancia na condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocioecon\u00f4mica de um &#8220;proletariado externo&#8221;, estruturado como<br \/>\numa col\u00f4nia mercantil-escravista da metr\u00f3pole portuguesa.<\/p>\n<p>No plano adaptativo &#8211; isto \u00e9, o relativo \u00e0 tecnologia com<br \/>\nque se produzem e reproduzem as condi\u00e7\u00f5es materiais de exist\u00eancia<br \/>\n&#8211; os n\u00facleos coloniais brasileiros se estabeleceram nas seguintes bases:<br \/>\n&#8211; a incorpora\u00e7\u00e3o da tecnologia europ\u00e9ia aplicada \u00e0<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o, ao transporte, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o e<br \/>\n\u00e0 guerra, com uso de instrumentos de metal e de m\u00faltiplos dispositivos<br \/>\nmec\u00e2nicos; &#8211; a navega\u00e7\u00e3o transoce\u00e2nica que integrava<br \/>\nos novos mundos em uma economia mundial, como produtores de mercadorias de<br \/>\nexporta\u00e7\u00e3o e como importadores de negros escravos e bens de<br \/>\nconsumo; &#8211; o estabelecimento do engenho de cana, baseado na aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde complexos procedimentos agr\u00edcolas, qu\u00edmicos e mec\u00e2nicos<br \/>\npara a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar; e, depois, a minera\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ouro e diamantes que envolviam o dom\u00ednio de novas tecnologias; &#8211;<br \/>\na introdu\u00e7\u00e3o do gado, que forneceria carne e couro &#8211; al\u00e9m<br \/>\nde animais de transporte e tra\u00e7\u00e3o -, bem como a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde porcos, galinhas e outros animais dom\u00e9sticos que, associada \u00e0<br \/>\nlavoura tropical ind\u00edgena, proveria a subsist\u00eancia dos n\u00facleos<br \/>\ncoloniais; &#8211; a ado\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de novas esp\u00e9cies<br \/>\nde plantas cultiv\u00e1veis, tanto aliment\u00edcias quanto industriais,<br \/>\nque viriam a assumir, mais tarde, import\u00e2ncia decisiva na vida econ\u00f4mica<br \/>\nde diversas variantesda sociedade nacional; &#8211; a singela tecnologia portuguesa<br \/>\nde produ\u00e7\u00e3o de tijolos e telhas, sapatos e chap\u00e9us, sab\u00e3o,<br \/>\ncacha\u00e7a, rodas de carros, pontes e barcos etc.<\/p>\n<p>No plano associativo &#8211; quer dizer, no que concerne aos modos de organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nda vida social e econ\u00f4mica -, aqueles n\u00facleos se estruturaram<br \/>\ncomo implanta\u00e7\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o gra\u00e7as<br \/>\n\u00e0: &#8211; substitui\u00e7\u00e3o da solidariedade elementar fundada<br \/>\nno parentesco, caracter\u00edstica do mundo tribal igualit\u00e1rio, por<br \/>\noutras formas de estrutura\u00e7\u00e3o social, que bipartiu a sociedade<br \/>\nem componentes rurais e urbanos e a estratificou em classes antagonicamente<br \/>\nopostas umas \u00e0s outras, ainda que interdependentes pela complementaridade<br \/>\nde seus respectivos pap\u00e9is; &#8211; introdu\u00e7\u00e3o da escravatura<br \/>\nind\u00edgena, logo substitu\u00edda pelo tr\u00e1fico de escravos africanos,<br \/>\nque permitiu aos setores mais din\u00e2micos da economia prescindir da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\noriginal no recrutamento de m\u00e3o-de-obra; &#8211; integra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todos os n\u00facleos locais em uma estrutura s\u00f3cio-pol\u00edtica<br \/>\n\u00fanica, que teria como classe dominante um patronato de empresas e uma<br \/>\nelite patricial dirigente, cujas fun\u00e7\u00f5es principais eram tornar<br \/>\nvi\u00e1vel e lucrativa, do ponto de vista econ\u00f4mico, a empresa colonial<br \/>\ne defend\u00ea-la da insurg\u00eancia dos escravos, dos ataques ind\u00edgenas<br \/>\ne das invas\u00f5es externas; &#8211; disponibilidade de capitais financeiros<br \/>\npara custear a implanta\u00e7\u00e3o das empresas, prov\u00ea-las de<br \/>\nescravos e outros recursos produtivos e capacitados para arrecadar as rendas<br \/>\nque produzissem.<\/p>\n<p>No plano ideol\u00f3gico &#8211; ou seja, o relativo \u00e0s formas de comunica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nao saber, \u00e0s cren\u00e7as, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica<br \/>\ne \u00e0 auto-imagem \u00e9tnica -, a cultura das comunidades neobrasileiras<br \/>\nse plas- ma sobre os seguintes elementos: &#8211; a l\u00edngua portuguesa, que<br \/>\nse difunde lentamente, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo, at\u00e9<br \/>\nconverter- se no ve\u00edculo \u00fanico de comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas comunidades brasileiras entre si e delas com a metr\u00f3pole; &#8211; um<br \/>\nmin\u00fasculo estrato social de letrados que, atrav\u00e9s do dom\u00ednio<br \/>\ndo saber erudito e t\u00e9cnico europeu de ent\u00e3o, orienta as atividades<br \/>\nmais complexas e opera como centro difusor de conhecimentos, cren\u00e7as<br \/>\ne valores; &#8211; uma Igreja oficial, associada a um Estado salvacionista, que<br \/>\ndepois de intermediar a submiss\u00e3o dos n\u00facleos ind\u00edgenas<br \/>\natrav\u00e9s da catequese imp\u00f5e um catolicismo de corte messi\u00e2nico<br \/>\ne exerce um rigoroso controle sobre a vida intelectual da col\u00f4nia, para<br \/>\nimpedir a difus\u00e3o de qualquer outra ideologia e at\u00e9 mesmo do<br \/>\nsaber cient\u00edfico; &#8211; artistas que exercem suas atividades obedientes<br \/>\naos g\u00eaneros e estilos europeus, principalmente o barroco, dentro de<br \/>\ncujos c\u00e2nones a nova sociedade come\u00e7a a expressar-se onde e quando<br \/>\nexibe algum fausto.<\/p>\n<p>Aquelas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, somadas \u00e0s referidas<br \/>\nformas mais avan\u00e7adas de ordena\u00e7\u00e3o social e a esses instrumentos<br \/>\nideol\u00f3gicos de controle e express\u00e3o proporcionaram as bases<br \/>\nsobre as quais se edificou a sociedade e a cultura brasileira como uma implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\ncolonial europ\u00e9ia. Uma e outra, menos determinadas por suas singularidades<br \/>\ndecorrentes de incorpora\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos tra\u00e7os<br \/>\nde origem ind\u00edgena ou africana, do que pela reg\u00eancia colonial<br \/>\nportuguesa que as conformou como uma filial lusitana da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\neurop\u00e9ia.<\/p>\n<p>Isso explica a aus\u00eancia de uma classe dominante nativa. Os que cumprem<br \/>\nesse papel, seja na qualidade de agentes da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica,<br \/>\nseja na qualidade de gestores da hegemonia pol\u00edtica, s\u00e3o na<br \/>\nrealidade prepostos da domina\u00e7\u00e3o colonial. As pr\u00f3prias<br \/>\nclasses dominadas n\u00e3o comp\u00f5em um povo dedicado a produzir suas<br \/>\npr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia e nem sequer capacitado<br \/>\npara reproduzir-se vegetativamente.<\/p>\n<p>S\u00e3o um conglomerado d\u00edspar, composto por \u00edndios trazidos<br \/>\nde longe, que apenas podiam entender-se entre si; somados \u00e0 gente desgarrada<br \/>\nde suas matrizes originais africanas, uns e outros reunidos contra a sua vontade,<br \/>\npara se verem convertidos em mera for\u00e7a de trabalho escravo a ser consumida<br \/>\nno trabalho; gente cuja renova\u00e7\u00e3o mesma se fazia mais pela importa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde novos contingentes de escravos que por sua pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com base nessa comunidade at\u00edpica e em seu acervo sociocultural,<br \/>\nas novas entidades puderam enfrentar prontamente dois desafios cruciais. Um<br \/>\nfoi aniquilar os grupos ind\u00edgenas que, n\u00e3o havendo sido apresados<br \/>\ne obrigados a trabalhar como escravos, se afastaram do litoral e hostilizavam,<br \/>\ndesde o interior, os n\u00facleos neobrasileiros assentados na costa. Outro<br \/>\nfoi manter a reg\u00eancia colonial portuguesa sobre os n\u00facleos neobrasileiros,<br \/>\nque cresceram mantendo sua estratifica\u00e7\u00e3o social interna e sua<br \/>\ndepend\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 metr\u00f3pole.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>II &#8211; GESTA\u00c7\u00c3O \u00c9TNICA<\/h2>\n<h2>CRIAT\u00d3RIO DE GENTE O CUNHADISMO<\/h2>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o social que possibilitou a forma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo povo brasileiro foi o cunhadismo, velho uso ind\u00edgena de incorporar<br \/>\nestranhos \u00e0 sua comunidade. Consistia em lhes dar uma mo\u00e7a \u00edndia<br \/>\ncomo esposa. Assim que ele a assumisse, estabelecia, automaticamente, mil<br \/>\nla\u00e7os que o aparentavam com todos os membros do grupo.<\/p>\n<p>Isso se alcan\u00e7ava gra\u00e7as ao sistema de parentesco classificat\u00f3rio<br \/>\ndos \u00edndios, que relaciona, uns com os outros, todos os membros de um<br \/>\npovo. Assim \u00e9 que, aceitando a mo\u00e7a, o estranho passava a ter<br \/>\nnela sua temeric\u00f3 e, em todos os seus parentes da gera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos pais, outros tantos pais ou sogros. O mesmo ocorra em sua pr\u00f3pria<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o, em que todos passavam a ser seus irm\u00e3os ou cunhados.<br \/>\nNa gera\u00e7\u00e3o inferior eram todos seus filhos ou genros. Nesse<br \/>\ncaso, esses termos de consang\u00fcinidade ou de afinidade passavam a classificar<br \/>\ntodo o grupo como pessoas trans\u00e1veis ou incestuosas.<\/p>\n<p>Com os primeiros devia ter rela\u00e7\u00f5es evitativas, como conv\u00e9m<br \/>\nno trato com sogros, por exemplo. Rela\u00e7\u00f5es sexualmente abertas,<br \/>\ngozosas, no caso dos chamados cunhados; quanto \u00e0 gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nde genros e noras ocorria o mesmo.<\/p>\n<p>H\u00e1 amplo registro dessa pr\u00e1tica entre os cronistas e tamb\u00e9m<br \/>\navalia\u00e7\u00f5es de sua import\u00e2ncia devidas a Efraim Cardoso<br \/>\n(1959), do Paraguai, e Jaime Cortes\u00e3o ( 1964), para o Brasil. A documenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nespanhola, mais rica nisso, revela que em Assun\u00e7\u00e3o havia europeus<br \/>\ncom mais de oitenta temeric\u00f3. A import\u00e2ncia era enorme e decorna<br \/>\nde que aquele advent\u00edcio passava a contar com uma multid\u00e3o de<br \/>\nparentes, que podia p\u00f4r a seu servi\u00e7o, seja para seu conforto<br \/>\npessoal, seja para a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias.<\/p>\n<p>Como cada europeu posto na costa podia fazer muit\u00edssimos desses casamentos,<br \/>\na institui\u00e7\u00e3o funcionava como uma forma vasta e eficaz de recrutamento<br \/>\nde m\u00e3o-de- obra para os trabalhos pesados de cortar paus-de-tinta,<br \/>\ntransportar e carregar para os navios, de ca\u00e7ar e amestrar papagaios<br \/>\ne so\u00edns. Mais tarde, serviu tamb\u00e9m para fazer prisioneiros de<br \/>\nguerra que podiam ser resgatados a troco de mercadoria, em lugar do destino<br \/>\ntradicional, que era ser comido ritualmente num festival de antropofagia.<\/p>\n<p>Os \u00edndios n\u00e3o queriam outra coisa porque, encantados com as<br \/>\nriquezas que o europeu podia trazer nos navios, o usavam para se prover de<br \/>\nbens precios\u00edssimos que se tornaram logo indispens\u00e1veis, como<br \/>\nas ferramentas de metal, espelhos e adornos.<\/p>\n<p>Quando ficaram bem providos dessas mercadorias, outras lhes foram ofertadas.<br \/>\nE, por fim, se teve que passar do cunhadismo \u00e0s guerras de captura<br \/>\nde escravos, quando a necessidade de m\u00e3o-de-obra ind\u00edgena se<br \/>\ntornou grande demais.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o do cunhadismo na sua nova inser\u00e7\u00e3o<br \/>\ncivilizat\u00f3ria foi fazer surgir a numerosa camada de gente mesti\u00e7a<br \/>\nque efetivamente ocupou o Brasil. \u00c9 cr\u00edvel at\u00e9 que a<br \/>\ncoloniza\u00e7\u00e3o pudesse ser feita atrav\u00e9s do desenvolvimento<br \/>\ndessa pr\u00e1tica. Tinha o defeito, por\u00e9m, de ser acess\u00edvel<br \/>\na qualquer europeu desembarcado junto \u00e0s aldeias ind\u00edgenas.<br \/>\nIsso efetivamente ocorreu, pondo em movimento um n\u00famero crescente de<br \/>\nnavios e incorporando a indiada ao sistema mercantil de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Portugal \u00e9 que representou uma amea\u00e7a, j\u00e1 que<br \/>\nestava perdendo sua conquista para armadores franceses, holandeses, ingleses<br \/>\ne alem\u00e3es, cujos navios j\u00e1 sabiam onde buscar sua carga.<\/p>\n<p>Sem a pr\u00e1tica do cunhadismo, era impratic\u00e1vel a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Brasil. Os povoadores europeus que aqui vieram ter eram uns poucos n\u00e1ufragos<br \/>\ne degredados, deixados pelas naus da descoberta, ou marinheiros fugidos para<br \/>\naventurar vida nova entre os \u00edndios. Por si s\u00f3s, teriam sido<br \/>\numa erup\u00e7\u00e3o passageira na costa atl\u00e2ntica, toda povoada<br \/>\npor giupos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Com base no cunhadismo se estabelecem criat\u00f3rios de gente mesti\u00e7a<br \/>\nnos focos onde n\u00e1ufragos e degredados se assentaram. Primeiro, junto<br \/>\ncom os \u00edndios nas aldeias, quando adotam seus costumes, vivendo como<br \/>\neles, furando os bei\u00e7os e as orelhas e at\u00e9 participando dos<br \/>\ncerimoniais antropof\u00e1gicos, comendo gente. Ent\u00e3o aprendem a<br \/>\nl\u00edngua e se familiarizam com a cultura ind\u00edgena. Muitos gostaram<br \/>\ntanto, que deixaram-se ficar na boa vida de \u00edndios, amistosos e \u00fateis.<br \/>\nOutros formaram unidades apartadas das aldeias, compostas por eles, suas m\u00faltiplas<br \/>\nmulheres \u00edndias, seus numerosos filhos, sempre em contato com a incont\u00e1vel<br \/>\nparentela delas. A sobreviv\u00eancia era garantida pelos \u00edndios,<br \/>\nde forma quase id\u00eantica \u00e0 deles mesmos.<\/p>\n<p>Viabilizara-se, por\u00e9m, uma atividade altamente nociva, a economia<br \/>\nmercantil, capaz de operar como ag\u00eancia civilizat\u00f3ria pela intermedia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo escambo, trocando artigos europeus pelas mercadorias da terra.<\/p>\n<p>O primeiro e principal desses n\u00facleos \u00e9 o paulista, assentado<br \/>\nmuito precocemente na costa, talvez at\u00e9 antes da chegada de Cabral.<br \/>\nCentrava-se ao redor de Jo\u00e3o Ramalho e de seu companheiro Ant\u00f4nio<br \/>\nRodrigues. Parece especializar-se tanto no resgate de \u00edndios cativos<br \/>\npara vender \u00e0s naus que o ancoradouro dos navios com que eles traficavam<br \/>\npassou a ser conhecido como Porto dos Escravos.<\/p>\n<p>O povo do Ramalho, fundador da paulistanidade, teve v\u00e1rios visitantes<br \/>\nque o retrataram. O aventureiro alem\u00e3o Ulrich Schmidel, que visitou<br \/>\nSanto Andr\u00e9, povoa\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Ramalho em 1553,<br \/>\ndisse que se sentia mais seguro numa aldeia de \u00edndios do que ali, naquele<br \/>\ncovil de bandidos. Informa ainda que Ramalho era capaz de levantar 5 mil \u00edndios<br \/>\nde guerra, enquanto todo o governo portugu\u00eas n\u00e3o conseguir ia<br \/>\n2 mil.<\/p>\n<p>Sobre o pr\u00f3prio Jo\u00e3o Ramalho, o governador Tom\u00e9 de<br \/>\nSouza, cheio de admira\u00e7\u00e3o, diz em carta ao Rei, de 1553: &#8220;[&#8230;]<br \/>\ntem tantos filhos e netos, bisnetos e descendentes dele, que o n\u00e3o<br \/>\nouso de dizer a Vossa Alteza. N\u00e3o tem c\u00e3s na cabe\u00e7a nem<br \/>\nno rosto e anda nove l\u00e9guas a p\u00e9 antes de jantar&#8221; (&#8220;Carta<br \/>\nde Tom\u00e9 de Souza a el-rey com muitas not\u00edcias das terras do<br \/>\nBrasil&#8221;, 1 de junho de 1553 in Cortes\u00e3o 1956:271).<\/p>\n<p>N\u00f3brega, no mesmo ano, horrorizado com Ramalho, cuja vida considera<br \/>\numa pedra de esc\u00e2ndalo, acrescenta: &#8220;[&#8230;] \u00e9 principal estorvo<br \/>\npara com a gentilidade que temos, por ele ser muito conhecido e muito aparentado<br \/>\ncom os \u00edndios. Tem muitas mulheres. Ele e seus filhos andam com irm\u00e3s<br \/>\ne t\u00eam filhos delas, tanto o pai como os filhos. V\u00e3o \u00e0<br \/>\nguerra com os \u00edndios e as suas festas s\u00e3o de \u00edndios e<br \/>\nassim vivem andando nus como os mesmos \u00edndios. Por todas as maneiras<br \/>\no temos provado e nada aproveita, at\u00e9 o deixamos de todo (carta ao<br \/>\npe. Lu\u00eds Gon\u00e7alves da C\u00e2mara, 15 de junho de 1553 in N\u00f3brega<br \/>\n1955:173-4 ).&#8221; Os jesu\u00edtas usaram de todas as artimanhas, primeiro<br \/>\npara atrair Ramalho e sua gente para junto deles, depois para faz\u00ea-lo<br \/>\nsair, t\u00e3o vexat\u00f3ria era sua posi\u00e7\u00e3o de mando indiscut\u00edvel<br \/>\nsobre os \u00edndios e da expectativa de que tivesse uma atitude de submiss\u00e3o<br \/>\ndiante dos padres. Estes n\u00e3o podiam prescindir dele em face da amea\u00e7a<br \/>\nque representavam os Tamoio, confederados contra o n\u00facleo tupinamb\u00e1<br \/>\nde S\u00e3o Paulo, e ultimamente instigados pelos franceses estabelecidos<br \/>\nna ba\u00eda de Guanabara. S\u00f3 com o apoio de Ramalho e seus aliados,<br \/>\nos jesu\u00edtas puderam enfrentar o inimigo que lhes causava mais horror,<br \/>\nque era a presen\u00e7a da Reforma, encarnada pelos calvinistas, ali, onde<br \/>\neles, como a Contra-Reforma, tentavam criar um reino de homens pios.<\/p>\n<h2>Darcy Ribeiro<\/h2>\n<p>Outro n\u00facleo pioneiro, de import\u00e2ncia essencial, foi o de Diogo<br \/>\n\u00c1lvares, Caramuru, pai her\u00e1ldico dos baianos. Ele se fixou,<br \/>\nem 1510, na Bahia, tamb\u00e9m cercado de numerosa fam\u00edlia ind\u00edgena.<br \/>\nConseguiu manter certo equil\u00edbrio entre a indiada com que convivia<br \/>\ncunhadalmente e os lusitanos que foram chegando. Converteu-se, assim, na base<br \/>\nessencial da instala\u00e7\u00e3o lusitana na Bahia. Ajudou at\u00e9<br \/>\nmesmo os jesu\u00edtas e legou bens a eles em seu testamento.<\/p>\n<p>Um terceiro n\u00facleo de import\u00e2ncia relevante foi o de Pernambuco,<br \/>\nem que v\u00e1rios portugueses, associados com os \u00edndios Tabajara,<br \/>\nproduziram quantidade de mamelucos. Inclusive o c\u00e9lebre Jer\u00f4nimo<br \/>\nde Albuquerque, grande capit\u00e3o de guerra na luta da conquista do Maranh\u00e3o<br \/>\nocupado pelos franceses.<\/p>\n<p>No pr\u00f3prio Maranh\u00e3o, h\u00e1 not\u00edcia de um guerreiro<br \/>\nque sobreviveu de uma expedi\u00e7\u00e3o fracassada gra\u00e7as \u00e0s<br \/>\nsuas habilidades artesanais, de nome Per\u00f3, que teria gerado tamb\u00e9m<br \/>\nquantidade de mamelucos, que representaram papel muito ativo na coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquela \u00e1rea.<\/p>\n<p>Os franceses, por igual, fundaram seus criat\u00f3rios com base no cunhadismo.<br \/>\nTantos, que, no dizer de Capistrano de Abreu, por muito tempo n\u00e3o se<br \/>\nsoube se o Brasil seria portugu\u00eas ou franc\u00eas, tal a for\u00e7a<br \/>\nde sua presen\u00e7a e o poder de sua influ\u00eancia junto aos \u00edndios.<br \/>\nO principal deles foi o que se implantou na Guanabara, junto aos Tamoio do<br \/>\nRio de Janeiro, gerando mais de mil mamelucos que viviam ao longo dos rios<br \/>\nque des\u00e1guam na ba\u00eda. Inclusive na ilha do Governador, onde<br \/>\ndeveria se implantar a Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica.<\/p>\n<p>Outros mamelucos gerados pelos franceses foram com os Potiguara, na Paral&#8217;ba,<br \/>\ne com os Caet\u00e9, em Pernambuco. Alcan\u00e7aram certa prosperidade<br \/>\npelas mercadorias que eles induziram os \u00edndios a produzir e carrear<br \/>\npara numerosos navios.<\/p>\n<p>Sua mercadoria era, principalmente, o pau-de-tinta, mas tamb\u00e9m barganhavam<br \/>\na pimenta da terra, o algod\u00e3o, al\u00e9m de curiosidades como os<br \/>\nso\u00edns e papagaios.<\/p>\n<p>Os espanh\u00f3is tamb\u00e9m participaram da fase cunhad\u00edstica<br \/>\nda implanta\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia na costa brasileira. As cr\u00f4nicas<br \/>\nfalam de um Pero Galego, castelhano, int\u00e9rprete dos Potiguara, que<br \/>\nvivia com os bei\u00e7os furados como eles. Sua influ\u00eancia teria sido<br \/>\ngrande, como se v\u00ea pelo papel que representou na expuls\u00e3o dos<br \/>\nportugueses da Para\u00edba e, depois, nas lutas do Maranh\u00e3o, sempre<br \/>\nao lado dos franceses.<\/p>\n<h2>O GOVERNO GERAL<\/h2>\n<p>Para preservar seus interesses, amea\u00e7ados pelo cunhadismo generalizado,<br \/>\na Coroa portuguesa p\u00f4s em execu\u00e7\u00e3o, em 1532, o regime<br \/>\ndas donatarias. Quase todos os contemplados vieram tomar posse com a fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde povo\u00e1-las e faz\u00ea-las produzir, elevando a economia colonial<br \/>\na um novo patamar.<\/p>\n<p>O projeto real era enfrentar seus competidores povoando o Brasil atrav\u00e9s<br \/>\nda translada\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de degredados. Na carta de doa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne foral concedida a Duarte Coelho ( 1534), se l\u00ea que el-rei atendendo<br \/>\na muitos vassalos e \u00e0 conveni\u00eancia de povoar o Brasil, h\u00e1<br \/>\npor bem declarar couto e homizio para todos os criminosos que nele queiram<br \/>\nmorar, ainda que condenados por senten\u00e7a, at\u00e9 em pena de morte,<br \/>\nexcetuando-se somente os crimes de heresia, trai\u00e7\u00e3o, sodomia<br \/>\ne moeda falsa (in Malheiro Dias 1924:III, 309-12).<\/p>\n<p>As donatarias, distribu\u00eddas a grandes senhores, agregados ao trono<br \/>\ne com fortunas pr\u00f3prias para coloniz\u00e1-las, constitu\u00edram<br \/>\nverdadeiras prov\u00edncias. Eram imensos quinh\u00f5es com dezenas de<br \/>\nl\u00e9guas encrestadas sobre o mar e penetrando terra adentro at\u00e9<br \/>\nonde topassem com a linha das Tordesilhas.<\/p>\n<p>Algumas delas alcan\u00e7aram \u00eaxito, como as de Pernambuco e de<br \/>\nS\u00e3o Vicente. Outras fracassaram desastrosamente, por vezes da forma<br \/>\nmais tr\u00e1gica, como a de Pereira Coutinho, em Ilh\u00e9us, que acabou<br \/>\ndevorado pelos \u00edndios. Lopes de Souza desinteressou-se totalmente e<br \/>\nnem tomou posse da concess\u00e3o que recebeu. Quase todas deixaram novos<br \/>\npovoadores europeus, organizados em bases completamente novas, nas quais o<br \/>\n\u00edndio j\u00e1 n\u00e3o era um parente, mas m\u00e3o-de-obra recrut\u00e1vel<br \/>\ncomo escrava.<\/p>\n<p>O sistema de donatarias foi implantado mais vigorosamente por Martim Afonso,<br \/>\ntrazendo as primeiras cabe\u00e7as de gado e as primeiras mudas de cana.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 registro de que tenha trazido negros africanos e os deixado<br \/>\naqui. Mas, como os portugueses viviam cercados de escravos j\u00e1 em Lisboa,<br \/>\n\u00e9 at\u00e9 improv\u00e1vel que ele e seus capit\u00e3es n\u00e3o<br \/>\ntenham vindo acompanhados dos seus servi\u00e7ais.<\/p>\n<p>Pero Lopes registra nestas palavras a obra de Martim Afonso: &#8220;A todos<br \/>\nn\u00f3s pareceu tam bem esta terra, que o capitam Martim Afonso determinou<br \/>\nde a povoar, e deu a todolos hom\u00eas terras para fazerem fazendas: e fez<br \/>\nhua villa na ilha de Sam Vicente e outra 9 leguas dentro pelo sartam, \u00e1<br \/>\nborda d&#8217;hum rio que se chama Piratininga: e repartiu a gente nestas 2 villas<br \/>\ne fez nellas offciaes: e poz tudo em boa obra de justi\u00e7a, de que a<br \/>\ngente toda tomou muita consola\u00e7am, com verem povoar villas e ter leis<br \/>\ne sacreficios e celebrar matrimonios e viverem em comunica\u00e7am das artes;<br \/>\ne ser cada um senhor do seu: e vestir as enjurias particulares; e ter todolos<br \/>\noutros bens da vida sigura e conversavel (apud Marchant 1943:68).&#8221; O<br \/>\ndonat\u00e1rio era um gr\u00e3o-senhor investido de poderes feudais pelo<br \/>\nrei para goveroar sua gleba de trinta l\u00e9guas de cara. Com o poder pol\u00edtico<br \/>\nde fundar vilas, conceder sesmarias, licenciar artes\u00e3os e comerciantes,<br \/>\ne o poder econ\u00f4mico de explorar diretamente ou atrav\u00e9s de intermedi\u00e1rios<br \/>\nsuas terras e at\u00e9 com o direito de impor a pena capital.<\/p>\n<p>Martim Afonso, o principal deles, veio com quatrocentos povoadores. Trouxe,<br \/>\nainda, nove fidalgos cavaleiros, sete cavaleiros afidalgados, al\u00e9m<br \/>\nde dois mo\u00e7os da C\u00e2mara Real. Foi a maior inje\u00e7\u00e3o<br \/>\nde nobreza que o Brasil recebeu. De seus bagos veio a pretenciosa nobreza<br \/>\nnativa, quase toda fracassada.<\/p>\n<p>O trabalho ao longo da costa se fazia cada vez mais intenso. Numeros\u00edssimas<br \/>\neram as naus que aportavam, mandadas por armadores de diversos pa\u00edses<br \/>\neuropeus, principalmente da Holanda e Alemanha. A carga que levavam n\u00e3o<br \/>\nera pequena. Podia alcan\u00e7ar 3 mil toras de pau-brasil, 3 mil peles<br \/>\nde on\u00e7a, muita cera e at\u00e9 seiscentos papagaios falantes. O equivalente<br \/>\nem ferramentas e quinquilharias devia ser algo respeit\u00e1vel. Juntar<br \/>\ntudo isso ocuparia quantidade de \u00edndios, largo tempo cortando \u00e1rvores<br \/>\na l\u00e9guas de dist\u00e2ncia e transportando-as para a costa. Esfor\u00e7os<br \/>\nque contrastavam com o seu modo habitual de viver e produzir.<\/p>\n<p>Cargas t\u00e3o grandes como essas eram depositadas nas feitorias pelos<br \/>\nportugueses. Os franceses, n\u00e3o podendo mant\u00ea-las, usavam as pr\u00f3prias<br \/>\nnaus para isso, ancorando-as durante o tempo necess\u00e1rio para que os<br \/>\n\u00edndios coletassem ou colhessem tudo que queriam traficar. Esse trabalho<br \/>\nse fazia, naturalmente, sob a dire\u00e7\u00e3o imediata dos int\u00e9rpretes<br \/>\nou truchements, tamb\u00e9m chamados de caramelus pelos franceses, nome<br \/>\nmais tarde dado aos pr\u00f3prios mamelucos por eles gerados.<\/p>\n<p>M\u00faltiplas eram as dificuldades que iam surgindo com essa prosperidade<br \/>\ncrescente. O fracasso se deu em grande parte pela hostilidade dos \u00edndios,<br \/>\nprincipalmente pelos que se estabeleceram em \u00e1reas de aliados aos franceses,<br \/>\ncomo Itamarac\u00e1, e em Ilh\u00e9us, onde o pr\u00f3prio donat\u00e1rio<br \/>\nacabou devorado.<\/p>\n<p>A sorte corria variadamente em cada prov\u00edncia quando a Coroa, descontente<br \/>\ncom o que se alcan\u00e7ara, p\u00f5e sob controle as donatarias que sobreviveram.<br \/>\nImplanta para isso um Governo Geral, com Tom\u00e9 de Souza Agora, na forma<br \/>\nde vilas, com pelourinho, contingentes militares armados e fortificados, trazendo<br \/>\nao Brasil numerosos povoadores.<\/p>\n<p>O primeiro governador chega ao Brasil em 1549, em tr\u00eas naus, duas<br \/>\ncaravelas e um bergantim. Traziam funcion\u00e1rios civis e militares, soldados<br \/>\ne artes\u00e3os. Mais de mil pessoas ao todo, principalmente degredados.<br \/>\nCom ele vieram novos colonos, bem como os primeiros jesu\u00edtas. N\u00f3brega,<br \/>\nmais velho e experiente, \u00e0 frente, e mais tr\u00eas padres e dois<br \/>\nirm\u00e3os; Anchieta, um rapag\u00e3o de dezenove anos, veio na leva<br \/>\nseguinte.<\/p>\n<p>O governo instala-se na Bahia, construindo a cidade com a gente que trazia<br \/>\ne com o apoio dos \u00edndios e mamelucos de Caramuru. \u00c9 assinal\u00e1vel<br \/>\na quantidade e qualidade de profissionais que iam de cirurgi\u00f5es, barbeiros,<br \/>\nsangradores, a quantidade de pedreiros, serradores, tanoeiros, serralheiros,<br \/>\ncaldeireiros, cavaqueiros, carvoeiros, oureiros, calheiros, canoeiros, pescadores<br \/>\ne construtores de bergantins.<\/p>\n<p>N\u00e3o vieram mulheres solteiras, exceto, ao que se sabe, uma escrava<br \/>\nprovavelmente moura, que foi objeto de viva disputa. Conseq\u00fcentemente,<br \/>\nos rec\u00e9m-chegados acasalaram-se com as \u00edndias, tomando, como<br \/>\nera uso na terra, tantas quantas pudessem, entrando a produzir mais mamelucos.<br \/>\nOs jesu\u00edtas, preocupados com tamanha pouca-vergonha, deram para pedir<br \/>\nsocorro do reino. Queriam mulheres de toda a qualidade, at\u00e9 meretrizes,<br \/>\nporque &#8220;h\u00e1 aqui v\u00e1rias qualidades de homens [&#8230;] e deste<br \/>\nmodo se evitar\u00e3o pecados e aumentar\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nno servi\u00e7o de Deus&#8221; (carta de 1550 in N\u00f3brega 1955:79-80).<br \/>\nQueriam, sobretudo, as \u00f3rf\u00e3s del-rei, que se casariam, aqui,<br \/>\ncom os bons e os ricos. Poucas conseguiram. Em 1551, chegaram tr\u00eas irm\u00e3s;<br \/>\nem 1553, vieram mais nove; em 1559, mais sete. Essas pouqu\u00edssimas portuguesas<br \/>\npouco papel exerceram na constitui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia brasileira.<\/p>\n<p>\u00caxito discreto se alcan\u00e7ou na importa\u00e7\u00e3o de trombadinhas<br \/>\nde Lisboa para conviverem com os indiozinhos nos col\u00e9gios jesu\u00edticos.<\/p>\n<p>Em 1550, chegaram \u00e0 Bahia um bando descrito como feito de &#8220;mo\u00e7os<br \/>\nperdidos, ladr\u00f5es e maus, que aqui chamam patifes&#8221;. Para S\u00e3o<br \/>\nVicente, foram dez ou doze no mesmo ano. Com eles \u00e9 que os jesu\u00edtas<br \/>\nesperavam civilizar os curumins, e faz\u00ea-los, em aulas conjuntas, aprender<br \/>\ngram\u00e1tica latina. Tarefa dif\u00edcil, como se p\u00f4de ver em<br \/>\npouco tempo, quando esses pixotes, assediados pelas \u00edndias, n\u00e3o<br \/>\nresistiram \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, fugindo com elas. Os padres mudaram<br \/>\nlogo de t\u00e1tica, abandonando o ensino de latim a fim de dedicar suas<br \/>\nenergias \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de irm\u00e3os leigos e de padres,<br \/>\nque dominassem bem a l\u00edngua da terra, o tupi-guarani, para serem os<br \/>\naliciadores dos \u00edndios para suas miss\u00f5es de doutrina\u00e7\u00e3o<br \/>\nreligiosa.<\/p>\n<p>N\u00f3brega assinala que para Pernambuco n\u00e3o era necess\u00e1rio<br \/>\nmandar mulheres nem meninos, por haverem muitas filhas de homens brancos e<br \/>\nde \u00edndias da terra, &#8220;as quais todas agora casar\u00e3o, com<br \/>\na ajuda do Senhor&#8221; (carta de 1551 in N\u00f3brega 1955:102).<\/p>\n<p>Eram as mamelucas, ingressando na hist\u00f3ria do Brasil, como suas m\u00e3es<br \/>\nprim\u00e1rias. J\u00e1 n\u00e3o sendo \u00edndias, procuravam espa\u00e7o<br \/>\npara ser alguma categoria de gente digna. A \u00fanica que se lhes abria<br \/>\nera de fi\u00e9is contritas dos santos cat\u00f3licos, seguidoras entusiastas<br \/>\ndos cultos. Essa foi a \u00fanica convers\u00e3o que os padres alcan\u00e7aram.<br \/>\nElas foram, de fato, as implantadoras do catolicismo popular santeiro no Brasil,<br \/>\ncomo se documenta, pelo texto de N\u00f3brega que se segue: &#8220;As \u00edndias<br \/>\nforras, que h\u00e1 muito que andam com os crist\u00e3os em pecado, trabalhamos<br \/>\npor remediar por n\u00e3o se irem ao sert\u00e3o j\u00e1 que s\u00e3o<br \/>\ncrist\u00e3s, e lhes ordenamos uma casa \u00e0 custa dos que as tinham<br \/>\npara nela as recolher e dali casar\u00e3o com alguns homens trabalhadores<br \/>\npouco a pouco. Todas andam com grande fervor e querem emendar-se de seus pecados<br \/>\ne se confessam j\u00e1 as mais entendidas e sabem-se mui bem acusar.<\/p>\n<p>Com se ganharem estas se ganha muito, porque s\u00e3o mais de quarenta<br \/>\ns\u00f3 nesta povoa\u00e7\u00e3o, afora muitas outras que est\u00e3o<br \/>\npelas outras povoa\u00e7\u00f5es, e acarretam outras do sert\u00e3o<br \/>\nassim j\u00e1 crist\u00e3s como ainda gentias. Algumas destas mais antigas<br \/>\npregam \u00e0s outras. Temos feito uma delas meirinha, a qual \u00e9 t\u00e3o<br \/>\ndiligente em chamar \u00e0 doutrina, que \u00e9 para louvar a N. Senhor<br \/>\n(carta &#8220;Aos padres e irm\u00e3os de Coimbra, Pernambuco&#8221;, 13 de<br \/>\nsetembro de 1551 in N\u00f3brega 1955:92-3 ).&#8221; O osso mais duro de<br \/>\nroer para o novo governador, e principalmente para os jesu\u00edtas, foi<br \/>\no enfrentamento com a Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica, implantada quase simultaneamente<br \/>\nna ba\u00eda da Guanabara, com base nos numerosos n\u00facleos de franco-mamelucos<br \/>\nque l\u00e1 viviam. Vieram com Villegaignon uma dezena de calvinistas e<br \/>\numa massa maior de gente que ele descreve como r\u00fastica, sem honra nem<br \/>\ncivilidade, composta de marinheiros e l\u00ednguas normandos e bret\u00f5es.<br \/>\nSomariam seiscentos os que vieram com o pr\u00f3prio Villegaignon, militares<br \/>\ne artes\u00e3os principalmente. Com L\u00e9ry vieram trezentos mais, inclusive<br \/>\ncinco jovens noivas, que depois de muita disputa se casaram ali.<\/p>\n<p>No fracasso da Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica representou papel relevante<br \/>\no ardor religioso de Villegaignon, metade monge, metade soldado. Estalaram<br \/>\nlogo os conflitos entre huguenotes, calvinistas e cat\u00f3licos, e dilaceraram<br \/>\na comunidade nascente. A situa\u00e7\u00e3o se agravou com a revolta dos<br \/>\n\u00edndios que se negavam a aceitar o novo papel que lhe atribu\u00edam<br \/>\nna coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia cordial e igualit\u00e1ria do cunhadismo ia dando<br \/>\nlugar \u00e0 disciplina de uma comunidade pia, num clima insuport\u00e1vel<br \/>\nde tens\u00e3o. Os pastores, querendo acalmar os fervores mais er\u00f3ticos<br \/>\nque religiosos de seus fi\u00e9is, enforcaram uns quantos deles, castigando<br \/>\ntamb\u00e9m as \u00edndias com que transavam.<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica \u00e9 que os franceses tiveram<br \/>\nque fazer frente ao ataque das for\u00e7as \u00edndias dosjesu\u00edtas,<br \/>\nque nisso puseram todo o ardor. Eles, que haviam sido criados como soldados<br \/>\nda anti-Reforma, deparavam aqui na terra nova com a Reforma, pretendendo criar<br \/>\nsua pr\u00f3pria utopia com a indiada nativa.<\/p>\n<p>Uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica se d\u00e1 \u00e9<br \/>\ncom o salto da m\u00faltipla ro\u00e7a ind\u00edgena, que se cultivava,<br \/>\nmisturando dezenas de plantas, para a fazenda de mon\u00f3tonos canaviais<br \/>\na\u00e7ucareiros. Era o passo da fartura-fome para quem lavrava, porque<br \/>\niam deixando de cultivar o que se comia e usava, para produzir mercadoria.<\/p>\n<p>Por longo tempo foi f\u00e1cil aliciar \u00edndios para esses imensos<br \/>\nesfor\u00e7os, tal era a atra\u00e7\u00e3o das ferramentas e bugigangas.<br \/>\nCom os anos, surgiram dificuldades, porque os \u00edndios queriam melhor<br \/>\nretribui\u00e7\u00e3o por seus servi\u00e7os, seja porque os paus-de-tinta<br \/>\nficavam cada vez mais escassos e long\u00ednquos; seja porque as ro\u00e7as<br \/>\nque abriam para os brancos em troca do escambo tinham que ser cada vez maiores,<br \/>\ndado o aumento crescente do n\u00famero deles; seja porque os \u00edndios<br \/>\nestavam saciados dos artigos que os brancos lhes davam. Nessa altura, a escravid\u00e3o<br \/>\ncome\u00e7ou a impor-se, como forma de conscri\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra.<\/p>\n<p>Os registros mostram que, efetivamente, come\u00e7a a crescer o n\u00famero<br \/>\nde escravos \u00edndios trabalhando para os donat\u00e1rios. Em S\u00e3o<br \/>\nVicente, havia perto de 3 mil escravos \u00edndios trabalhando em seis engenhos<br \/>\nde a\u00e7\u00facar. Aumentam, tamb\u00e9m, os enfrentamentos de \u00edndios<br \/>\nvizinhos para o resgate como escravos e cresce, a partir da\u00ed, cada<br \/>\nvez mais, o n\u00famero de bandeiras de enfrentamentos para busc\u00e1-los<br \/>\ncada vez mais longe.<\/p>\n<p>Quando da chegada de Mem de S\u00e1 como governador, a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nera cr\u00edtica na Bahia, assolada pela epidemia e pela fome ( 1563-4 ).<br \/>\nOs \u00edndios, rebelados contra os colonos, se negavam a plantar, acossados<br \/>\nem terras mais para o interior. Era ainda mais grave a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Guanabara, onde se consolidava a ocupa\u00e7\u00e3o francesa, fortemente<br \/>\napoiada pelos \u00edndios.<\/p>\n<p>Mem de S\u00e1, aconselhado pelos jesu\u00edtas, apela simultaneamente<br \/>\npara as guerras mais cru\u00e9is contra os \u00edndios vizinhos e para<br \/>\na paz do vencedor, que foi sua entrega aos mission\u00e1rios. Cerca de 34<br \/>\nmil \u00edndios s\u00e3o agrupados em onze par\u00f3quias, sob a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos jesu\u00edtas, dando nascimento \u00e0s miss\u00f5es, ou redu\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne povoa\u00e7\u00f5es organizadas como vilas, com pelourinho.<\/p>\n<p>Ali, toda a vida ind\u00edgena \u00e9 regulada para grupos por sexo<br \/>\nou por idade, que tinham tarefas prescritas a cumprir, desde a madrugada at\u00e9<br \/>\no anoitecer, em hor\u00e1rios assinalados por sinos: hora de trabalhar na<br \/>\nro\u00e7a, na ca\u00e7a, na pesca, na fia\u00e7\u00e3o, na tecelagem<br \/>\netc. Hora de ler, hora de rezar, hora de fornicar, porque a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndiminu\u00eda visivelmente. Para atender ao reclame de bra\u00e7o dos<br \/>\ncolonos, o governador proclamou estado de guerra contra os Caet\u00e9. Desencadeou-se<br \/>\na diss\u00eddia, porque os colonos, em lugar de atacar aqueles \u00edndios<br \/>\nnas suas aldeias long\u00ednquas, foram ca\u00e7ar os j\u00e1 pacificados,<br \/>\nque viviam dentro das miss\u00f5es jesu\u00edticas. Essas se despovoaram<br \/>\nrapidamente.<\/p>\n<p>Miss\u00f5es com cerca de 12 mil almas viram-se, em pouco tempo, reduzidas<br \/>\na mil.<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o desesperadora \u00e9 que ocorrem as epidemias<br \/>\nde var\u00edola, de 1562 a 1563, que n\u00e3o atingem os portugueses,<br \/>\nmas em tr\u00eas meses matam mais de 30 mil \u00edndios e negros. Surge<br \/>\numa nova epidemia na qual morreu mais de um quarto da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nind\u00edgena sobrevivente. As aldeias, cheias de mortos insepultos, de<br \/>\ngente faminta e desesperada, foram abandonadas por muitos \u00edndios, que<br \/>\nse entregavam aos brancos como escravos, em troca de um punhado de farinha.<\/p>\n<p>Por todo o sert\u00e3o, o desespero grassa tamb\u00e9m, seja porque<br \/>\nas epidemias os atingiram, seja porque os colonos assaltam suas aldeias. Salvos<br \/>\nou induzidos, com toda forma de truques, a ir para a Bahia, onde os escravizam.<br \/>\nDados de Anchieta, em sua &#8220;Informa\u00e7\u00e3o dos primeiros aldeamentos&#8221;,<br \/>\nregistram que a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena dos arredores da Bahia,<br \/>\navaliada em 80 mil pessoas, se viu reduzida a menos de 10 mil. \u00c0s epidemias<br \/>\nde var\u00edola, se somou a de febres malignas, completando a destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antonio Blasquez assim a descreve: &#8220;Neste tempo n\u00e3o se viam<br \/>\nentre eles nem ouviam os bailes e regozijos acostumados, tudo era choro e<br \/>\ntristeza, vendo-se uns sem pais, outros sem filhos, e muitas vi\u00favas<br \/>\nsem maridos, de maneira que, quem os via neste seu desamparo, recordando-se<br \/>\ndo tempo passado, e qu\u00e3o muitos eram ent\u00e3o e qu\u00e3o poucos<br \/>\nagora, e como d&#8217;antes tinham o que comer e ao presente morriam de fome, e<br \/>\ncomo antes viviam com liberdade e se viam, al\u00e9m de sua mis\u00e9ria,<br \/>\na cada passo assaltados e cativos \u00e0 for\u00e7a pelos crist\u00e3os;<br \/>\nconsiderada e rumiada esta s\u00fabita mudan\u00e7a, n\u00e3o podiam<br \/>\ndeixar de lastimar-se e chorar muitas l\u00e1grimas de compaix\u00e3o<br \/>\n(Carta de 1564 in Blasquez 1931:405 ).&#8221; Ao tempo de Mem de S\u00e1<br \/>\nfoi que mais se assanharam as tr\u00eas pragas do homem branco, representadas<br \/>\npelas pestes, pela guerra e pela escraviza\u00e7\u00e3o, que se abateram<br \/>\nmortais sobre os Tupinamb\u00e1. Ao final, vencidos, seus remanescentes<br \/>\nforam compelidos at\u00e9 a pagar tributos na reconstru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde fortalezas ou de engenhos.<\/p>\n<p>Um novo inimigo surge a\u00ed: os Aimor\u00e9 e outros Tapuia que, at\u00e9<br \/>\nent\u00e3o contidos pelos Tupinamb\u00e1, come\u00e7am a atacar os colonos,<br \/>\ndespovoando \u00e1reas antes pr\u00f3speras, como Ilh\u00e9us. Vencidos<br \/>\nos \u00edndios, consolidam-se, da\u00ed por diante, a Bahia e suas proje\u00e7\u00f5es<br \/>\nno Esp\u00edrito Santo, em S\u00e3o Vicente e Piratininga e suas extens\u00f5es<br \/>\npara o sul. Tamb\u00e9m em Pernambuco que, depois de liquidar a resist\u00eancia<br \/>\ndos Caet\u00e9 e aliados, dos franceses na Para\u00edba e no Cear\u00e1,<br \/>\nse, imporia adentro, no Maranh\u00e3o. S\u00f3 a\u00ed, e com \u00edndios<br \/>\ndaqui para l\u00e1 transladados, fugidos dos brancos, \u00e9 que os jesu\u00edtas<br \/>\niriam encontrar mais \u00edndios para catequizar. Tamb\u00e9m eles, em<br \/>\ntoda a costa atl\u00e2ntica, estavam vencidos como alternativa para a coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Brasil.<\/p>\n<p>Em 1570, a domina\u00e7\u00e3o portuguesa estava assentada, solidamente,<br \/>\nem oito implanta\u00e7\u00f5es, com cerca de 4 mil vizinhos (oito a doze<br \/>\npessoas cada), que correspondiam a uma popula\u00e7\u00e3o de 30 ou 40<br \/>\nmil habitantes. E aqueles eram na maioria mamelucos, porque todos os portugueses<br \/>\nque se encontravam no Brasil n\u00e3o somam uma quarta parte. Destacam-se,<br \/>\nnesse conjunto, quatro implanta\u00e7\u00f5es: Bahia, Pernambuco, Esp\u00edrito<br \/>\nSanto e S\u00e3o Paulo com a prosperidade crescente.<\/p>\n<p>Tr\u00eas outras come\u00e7aram a decair e iriam desaparecer completamente:<br \/>\nItamarac\u00e1, que chegou a Ter prosperidade, foi abandonada pelos portugueses<br \/>\nem raz\u00e3o dos ataques de \u00edndios aliados dos franceses. O mesmo<br \/>\nsucedeu a Ilh\u00e9us e a Porto Seguro, que chegaram a ter, cada uma delas,<br \/>\nmais de duzentos vizinhos, mas tamb\u00e9m sucumbiram acossadas pelos Aimor\u00e9.<\/p>\n<p>Acossada pelos mesmos \u00edndios, Esp\u00edrito Santo conseguiu sobreviver,<br \/>\nmesmo porque, implantada numa ilha, n\u00e3o teve que destruir seus \u00edndios<br \/>\nvizinhos, contou indiretamente com eles.<\/p>\n<p>A capitania de S\u00e3o Paulo, composta por tr\u00eas vilas \u00e0<br \/>\nbeira-mar, S\u00e3o Vicente, Santos e Iperoig e, uma serra acima, pela ent\u00e3o<br \/>\nPiratininga, representava um implante med\u00edocre. Os engenhos de a\u00e7\u00facar<br \/>\nn\u00e3o prosperaram nem surgiram outras lavouras.<\/p>\n<p>Mesmo a produ\u00e7\u00e3o de pau-brasil foi sempre med\u00edocre<br \/>\ncomparada com a de outras prov\u00edncias. As miss\u00f5es jesu\u00edticas<br \/>\ntamb\u00e9m ali se desenvolveram pouco, reunindo apenas um bloco de \u00edndios.<br \/>\nForte em S\u00e3o Paulo foi a associa\u00e7\u00e3o dos mamelucos com<br \/>\n\u00edndios livres e escravos. Vivendo todos, conjuntamente, uma mesma forma<br \/>\nde vida, acabam se expandindo na tarefa de capturar \u00edndios para o uso<br \/>\nou para venda.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro portugu\u00eas, fundado depois da expuls\u00e3o dos<br \/>\nfranceses, 1565, vive em paz com os \u00edndios Tupinamb\u00e1, seus aliados,<br \/>\nporque contavam com quantidade de escravos entre os Tamoio vencidos. Os jesu\u00edtas<br \/>\ntinham, fora da cidade, duas miss\u00f5es com cerca de 3 mil \u00edndios.<\/p>\n<p>A Bahia era o maior n\u00facleo portugu\u00eas. Conseguia manter ao redor<br \/>\nda cidade, sob o controle dos jesu\u00edtas, diversas comunidades ind\u00edgenas<br \/>\nque ajudavam na defesa da cidade e a proviam de bra\u00e7os e de mantimentos.<br \/>\nHavia trinta e tantos engenhos, movidos por 3 ou 4 mil escravos negros e 8<br \/>\nmil \u00edndios. Nessa propor\u00e7\u00e3o, o componente negro-africano<br \/>\niria aumentar cada vez mais.<\/p>\n<p>O mesmo havia sucedido com Pernambuco, que tinha mais de mil vizinhos concentrados<br \/>\nnas ilhas de Olinda e Igara\u00e7u e comunidades vizinhas. Contava j\u00e1<br \/>\ncom dois engenhos altamente produtivos, movidos principalmente por m\u00e3o-de-obra<br \/>\nafricana.<\/p>\n<p>Sua popula\u00e7\u00e3o original havia sido praticamente exterminada<br \/>\npelas guerras, pela fome, pelas pestes e, tamb\u00e9m, pelas secas. Eram<br \/>\nt\u00e3o poucos que os jesu\u00edtas n\u00e3o puderam criar ali nenhuma<br \/>\nmiss\u00e3o. Os dois portos da ba\u00eda de Pernambuco come\u00e7avam<br \/>\na ser as bocas de entrada da m\u00e3o-de-obra que iria, da\u00ed em diante,<br \/>\nedificar quanto se edificou, produzir quanto se produziu no Brasil, que eram<br \/>\nos negros africanos.<\/p>\n<p>Os jesu\u00edtas, sob forte disciplina inaciana, conseguiam alcan\u00e7ar<br \/>\ncerta prosperidade, de tipo diferente da do colono, porque voltada fundamentalmente<br \/>\npara prover aos pr\u00f3prios \u00edndios, assegurando amplitude e alguma<br \/>\nsuntuosidade nas suas edifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cada miss\u00e3o tinha, tamb\u00e9m, homens e armas para acudir ao governador<br \/>\nsempre que solicitados, e foram muitas vezes contra outros \u00edndios,<br \/>\nassim como contra negros escravos al\u00e7ados. Disso proviam alimentos,<br \/>\nmantimentos. As cidades, mediante um sistema complexo de escambo de m\u00e3o-de-obra,<br \/>\ntanto para as vilas como para os engenhos, atrav\u00e9s de negocia\u00e7\u00f5es<br \/>\ncada vez mais dif\u00edceis, foram fazendo com que os colonos desistissem<br \/>\ndessa fonte de trabalho. A maioria dos \u00edndios desapareceu, uma parcela<br \/>\nmaior do que quantos foram incorporados, nos estabelecimentos portugueses,<br \/>\nporque havia bem perto o mato para reorganizar sua vida sert\u00e3o adentro.<\/p>\n<p>Simultaneamente, ia surgir no Nordeste a\u00e7ucareiro uma nova forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde brasileiros. Compostos originalmente de mamelucos ou brasil\u00edndios,<br \/>\ngerados pela mesti\u00e7agem de europeus com \u00edndios, logo se desdobrou<br \/>\npela presen\u00e7a precoce e cada vez mais maci\u00e7a de escravos africanos.<br \/>\nInclusive umas contadas mulheres que passaram a gerar mulatos e mulatas que<br \/>\nj\u00e1 nasciam protobrasileiros por car\u00eancia, uma vez que n\u00e3o<br \/>\neram assimil\u00e1veis aos \u00edndios, aos europeus e aos africanos e<br \/>\naos seus mesti\u00e7os. Em raz\u00e3o dessa presen\u00e7a negra e mulata,<br \/>\ne sobretudo pelo reconhecimento posteriormente alcan\u00e7ado, aquela matriz<br \/>\nlogo se singularizou profundamente.<\/p>\n<p>Surge, assim, a \u00e1rea cultural crioula, centrada na casa-grande e<br \/>\nna senzala, com sua fam\u00edlia patriarcal envolvente e uma vasta multid\u00e3o<br \/>\nde servi\u00e7ais. Estes, muito semelhantes aos brasil\u00edndios de S\u00e3o<br \/>\nPaulo, se diferenciavam tamb\u00e9m pela especializa\u00e7\u00e3o subalterna<br \/>\ncomo gente de servi\u00e7o, provedores de g\u00eaneros e pescadores.<\/p>\n<p>Uma fra\u00e7\u00e3o dessa matriz, assumindo a fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde criadores de gado, tamb\u00e9m se diferencia, afei\u00e7oando-se \u00e0s<br \/>\nlides pastoris. Diferencia-se, ainda, porque entra em contato sucessivamente<br \/>\ncom v\u00e1rios povos tapuias de cultura especializada \u00e0 aridez das<br \/>\ncaatingas, com as quais se cruza profundamente, o que d\u00e1 lugar a um<br \/>\nfen\u00f3tipo novo, o cabe\u00e7a-chata nordestino.<\/p>\n<p>No plano ling\u00fc\u00edstico, o tupi-guarani, como l\u00edngua-geral,<br \/>\npermaneceu sendo por s\u00e9culos a fala dos brasil\u00edndios paulistas.<br \/>\nE no Nordeste a\u00e7ucareiro foi prontamente suplantado pelo portugu\u00eas.<br \/>\nIsso porque sua popula\u00e7\u00e3o principal de escravos e mesti\u00e7os,<br \/>\nsendo compelida a adotar a fala do capataz para se comunicar com os outros<br \/>\nescravos, realizou o papel de consolidar a l\u00edngua portuguesa no Brasil.<br \/>\nMais tarde, a escravaria maci\u00e7a, conduzida para a regi\u00e3o mineira<br \/>\nno centro do pa\u00eds, cumpriria a mesma fun\u00e7\u00e3o de introdutora<br \/>\nda l\u00edngua portuguesa. A primeira onda de povoamento, constitu\u00edda<br \/>\npor paulistas, deu a quase todas as \u00e1guas, serras e acidentes assinal\u00e1veis<br \/>\nnomes em tupi, l\u00edngua jamais falada pelos \u00edndios nativos da<br \/>\nregi\u00e3o. O brasil\u00edndio do Nordeste seco, que foi quem ocupou<br \/>\nas maiores \u00e1reas do Brasil, tangendo gado, n\u00e3o adotou nenhuma<br \/>\nl\u00edngua das regi\u00f5es que habitou, mas foi outro difusor da l\u00edngua<br \/>\nportuguesa, porque seguramente j\u00e1 sa\u00edram do litoral lusitanizados.<\/p>\n<p>Desse modo \u00e9 que, ao longo de d\u00e9cadas e s\u00e9culos, v\u00e3o<br \/>\nsurgindo modos brasileiros t\u00e3o diferenciados uns dos outros, por suas<br \/>\nsingularidades, como homogeneizados pelo muito mais que t\u00eam em comum.<br \/>\nTais s\u00e3o, por exemplo, o baiano da Bahia gorda; o pernambucano do massap\u00ea;<br \/>\no s\u00e3o-franciscano da Bahia do bode; o sertanejo nordestino.<\/p>\n<p>Outras variantes iriam surgir nas mesmas linhas, entre elas o caboclo amazonense<br \/>\nadaptado \u00e0 vida nas florestas e aos aguais, que foi quem mais guardou<br \/>\na heran\u00e7a ind\u00edgena original. Onde suas comunidades originais<br \/>\nse mant\u00eam vivas e a se exercer sobre o mundo, atrav\u00e9s de m\u00faltiplas<br \/>\ne rigoros\u00edssimas formas de a\u00e7\u00e3o sobre o meio, que d\u00e3o<br \/>\n\u00e0 sua vida e \u00e0 sua cultura n\u00e3o s\u00f3 um sabor ind\u00edgena<br \/>\nmas sua extraordin\u00e1ria riqueza. Olhando todo o mundo s\u00f3 comparo<br \/>\nos caboclos aos campesinos franceses, pela riqueza extraordin\u00e1ria de<br \/>\nsua cultura de pequenos agricultores. Os queijos de cabra, os vinhos, os pat\u00eas<br \/>\ne tanta coisa mais s\u00e3o equivalentes europeus ao tacac\u00e1 no tucupi,<br \/>\nda mani\u00e7oba, da sopa de mu\u00e7uam. Lamentavelmente, essa riqueza<br \/>\nculin\u00e1ria nossa se est\u00e1 esvaindo com a decad\u00eancia da cultura<br \/>\ncabocla, enquanto a francesa floresce cada vez mais.<\/p>\n<p>Outra variante t\u00edpica do modo d\u00e9 ser brasileiro \u00e9 a<br \/>\ndos ga\u00fachos, especializados no pastoreio, mas com dois componentes<br \/>\ndiferenciadores, o da briosa gente de fronteira e de guerra e, sobretudo,<br \/>\no de ca\u00e7adores de gado, mais que de criadores, que cresce explorando<br \/>\nos rebanhos que multiplicavam nos campos do Sul, cujo valor principal como<br \/>\nmercadoria era o couro.<\/p>\n<h2>CATIVEIRO IND\u00cdGENA<\/h2>\n<p>A escravid\u00e3o ind\u00edgena predominou ao longo de todo o primeiro<br \/>\ns\u00e9culo. S\u00f3 no s\u00e9culo xvtl a escravid\u00e3o negra viria<br \/>\na sobrepuj\u00e1-la, conforme assinala Brand\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;[&#8230;] em algumas capitanias h\u00e1 mais deles que dos naturais<br \/>\nda terra, e todos os homens que nela vivem tem metida quase toda sua fazenda<br \/>\nem semelhante mercadoria (Brand\u00e3o 1968:115 ).&#8221; Ainda assim, subsistiu<br \/>\nnas \u00e1reas pioneiras como estoque de escravos baratos utiliz\u00e1veis<br \/>\npara fun\u00e7\u00f5es auxiliares.<\/p>\n<p>Nenhum colono p\u00f4s jamais em d\u00favida a utilidade da m\u00e3o-de-obra<br \/>\nind\u00edgena, embora preferisse a escravatura negra para a produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nmercantil de exporta\u00e7\u00e3o. O \u00edndio era tido, ao contr\u00e1rio,<br \/>\ncomo um trabalhador ideal para transportar cargas ou pessoas por terras e<br \/>\npor \u00e1guas, para o cultivo de g\u00eaneros e o preparo de alimento,<br \/>\npara a ca\u00e7a e a pesca. Seu papel foi tamb\u00e9m preponderante nas<br \/>\nguerras aos outros \u00edndios e aos negros quilombolas.<\/p>\n<p>A documenta\u00e7\u00e3o colonial destaca, por igual, as aptid\u00f5es<br \/>\ndos \u00edndios para of\u00edcios artesanais, como carpinteiros, marceneiros,<br \/>\nserralheiros, oleiros. Nas miss\u00f5es jesu\u00edticas tiveram oportunidade<br \/>\nde se fazerem tip\u00f3grafos, artistas pl\u00e1sticos, m\u00fasicos<br \/>\ne escritores.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da indiada cativa foi, por\u00e9m,<br \/>\na de m\u00e3o-de-obra na produ\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia. Para<br \/>\nisso eram ca\u00e7ados nos matos e engajados, na condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde escravos, \u00edndios legalmente livres, mas apropriados por seus senhores<br \/>\natrav\u00e9s de toda sorte de viv\u00eancias, licen\u00e7as e subterf\u00fagios.<\/p>\n<p>A partir da carta r\u00e9gia de 1570, em que d. Sebasti\u00e3o autorizava<br \/>\no apresamento de \u00edndios em guerras justas, a uma lei de alforria se<br \/>\nseguia outra, autorizando o cativeiro atrav\u00e9s de procedimentos paralegais<br \/>\ncomo os leil\u00f5es oficiais para venda de \u00edndios, as taxas cobradas<br \/>\npor \u00edndio vendido como escravo, as ordens reais para preia e venda<br \/>\nde lotes de \u00edndios para custear obras p\u00fablicas e at\u00e9<br \/>\npara construir igrejas, como ocorreu com a catedral de S\u00e3o Lu\u00eds<br \/>\ndo Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>A rigor, apesar da copios\u00edssima legisla\u00e7\u00e3o garantidora<br \/>\nda liberdade dos \u00edndios, se pode afirmar que o \u00fanico requisito<br \/>\nindispens\u00e1vel para que o \u00edndio fosse escravizado era ser, ainda,<br \/>\num \u00edndio livre. Mesmo os j\u00e1 incorporados \u00e0 vida colonial<br \/>\n&#8211; como ocorreu com os recolhidos \u00e0s miss\u00f5es &#8211; in\u00fameras<br \/>\nvezes foram assaltados e acossados.<\/p>\n<p>Isso foi o que sucedeu, por exemplo, quando Mem de S\u00e1 autorizou uma<br \/>\nguerra de vingan\u00e7a para escravizar os \u00edndios Caet\u00e9 por<br \/>\nhaverem comido o bispo Fernandes Sardinha.<\/p>\n<p>Os colonos, com base nessa ordem de vingan\u00e7a, ca\u00edram sobre<br \/>\nas miss\u00f5es jesu\u00edticas e dos 12 mil catec\u00famenos sobraram<br \/>\napenas mil, quando a ordem foi revogada.<\/p>\n<p>Milhares de \u00edndios foram incorporados por essa via \u00e0 sociedade<br \/>\ncolonial.<\/p>\n<p>Incorporados n\u00e3o para se integrarem nela na qualidade de membros,<br \/>\nmas para serem desgastados at\u00e9 a morte, servindo como bestas de carga<br \/>\na quem deles se apropriava.<\/p>\n<p>Assim foi ao longo dos s\u00e9culos, uma vez que cada frente de expans\u00e3o<br \/>\nque se abria sobre uma \u00e1rea nova, deparando l\u00e1 com tribos arredias,<br \/>\nfazia delas imediatamente um manancial de trabalhadores cativos e de mulheres<br \/>\ncapturadas para o trabalho agr\u00edcola, para a gesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde crian\u00e7as e para o cativeiro dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>Custando uma quinta parte do pre\u00e7o de um negro importado, o \u00edndio<br \/>\ncativo se converteu no escravo dos pobres, numa sociedade em que os europeus<br \/>\ndeixaram de fazer qualquer trabalho manual. Toda tarefa cansativa, fora do<br \/>\neito privilegiado da economia de exporta\u00e7\u00e3o, que cabia aos negros,<br \/>\nreca\u00eda sobre o \u00edndio.<\/p>\n<p>O apresamento sempre foi tido como pr\u00e1tica louv\u00e1vel e at\u00e9<br \/>\nmesmo como t\u00e9cnica de convers\u00e3o. O pr\u00f3prio N\u00f3brega,<br \/>\nnos seus planos de coloniza\u00e7\u00e3o, desaconselha a vinda de colonos<br \/>\nt\u00e3o pobres que n\u00e3o pudessem comprar logo \u00edndios cativos<br \/>\npara p\u00f4r a seu servi\u00e7o, sugerindo que s\u00f3 fossem mandados<br \/>\npara c\u00e1 os abonados que tivessem condi\u00e7\u00f5es de adquiri-los.<br \/>\n\u00c9 certo que ele, como os outros jesu\u00edtas, quiseram p\u00f4r<br \/>\ntermo \u00e0 gan\u00e2ncia dos colonos que degenerara em pr\u00e1ticas<br \/>\nque estavam esgotando a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena em preju\u00edzo<br \/>\npara a coloniza\u00e7\u00e3o. Ainda que fosse por sua posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde competidor, uma vez que tinha outra destina\u00e7\u00e3o a dar aos<br \/>\n\u00edndios, o certo \u00e9 que tinha a vis\u00e3o clara sobre a necessidade<br \/>\nde grande concentra\u00e7\u00e3o .de \u00edndios nas vilas mission\u00e1rias<br \/>\ne a servi\u00e7o dos fazendeiros, como o principal mecanismo consolidador<br \/>\nda empresa colonial.<\/p>\n<p>O apoio da Coroa aos jesu\u00edtas, aos seus esfor\u00e7os por regulamentar<br \/>\no cativeiro dos \u00edndios, n\u00e3o se fundava sempre nas raz\u00f5es<br \/>\nreligiosas e morais que alegava. Tinha base, de fato, no interesse da administra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCom efeito, as aldeias mission\u00e1rias eram concentra\u00e7\u00f5es<br \/>\nde gente recrut\u00e1vel e dispon\u00edvel a qualquer tempo, a custo nulo<br \/>\npara as guerras aos \u00edndios hostis, ao invasor estrangeiro e aos negros<br \/>\nal\u00e7ados. Era tamb\u00e9m uma importante fonte de provimento de g\u00eaneros<br \/>\na uma popula\u00e7\u00e3o fam\u00e9lica, porque se ocupava fundamentalmente<br \/>\nda produ\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros aliment\u00edcios. Os engenhos<br \/>\ns\u00f3 cuidavam das mercadorias de exporta\u00e7\u00e3o. A concentra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde \u00edndios nas miss\u00f5es coincidiu tamb\u00e9m, muitas vezes,<br \/>\ncom os interesses dos escravizadores que, num s\u00f3 ataque, faziam farta<br \/>\ncolheita de cativos.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o entre os prop\u00f3sitos pol\u00edticos<br \/>\nda Coroa e dos jesu\u00edtas, de um lado, e o imediatismo dos traficantes<br \/>\nde \u00edndios, do outro, n\u00e3o se resolveu nunca por uma decis\u00e3o<br \/>\nreal pela liberdade ou pelo cativeiro. A legisla\u00e7\u00e3o que regula<br \/>\na mat\u00e9ria \u00e9 a mais contradit\u00f3ria e hip\u00f3crita que<br \/>\nse possa encontrar. Decreta dezenas de vezes guerra justa contra \u00edndios<br \/>\ntidos como culpados de grandes agravos ou simplesmente hostis para, a seguir,<br \/>\ncoibi-las e, depois, tornar a autoriz\u00e1-las, num ciclo sem fim de iniq\u00fcidade<br \/>\ne falsidade.<\/p>\n<p>Os atos administrativos que regiam a escravid\u00e3o dos \u00edndios<br \/>\ns\u00e3o igualmente um vai-e- vem de engodos e chicanas que, proibindo o<br \/>\ncativeiro, de fato o institu\u00edam. O \u00edndio podia ser legalmente<br \/>\nescravizado porque aprisionado numa guerrajusta; ou porque obtido num justo<br \/>\nresgate; ou porque capturado num ataque autorizado; ou porque libertado do<br \/>\ncativeiro de alguma tribo que amea\u00e7ava com\u00ea-lo; ou ainda porque<br \/>\ncompunha um lote de que se pagara o Tquinto ao governo local.<\/p>\n<p>&#8220;Chegaram finalmente os mission\u00e1rios e, n\u00e3o podendo contrastar<br \/>\no sentimento geral [em favor da escraviza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena],<br \/>\npactuaram com ele. Por uma dessas capitula\u00e7\u00f5es de consci\u00eancia,<br \/>\nem que os jesu\u00edtas s\u00e3o ex\u00edmios, acharam meio de entender<br \/>\nque &#8220;quanto mais larga fosse a porta dos cativeiros l\u00edcitos, tanto<br \/>\nmais escravos entrariam na Igreja e se poriam a caminho da salva\u00e7\u00e3o&#8221;<br \/>\n(Vieira, Resposta aos Cap\u00edtulos, 25).&#8221; Assim, concordando com<br \/>\na pr\u00e1tica da escravid\u00e3o, acompanhavam as tropas e, como \u00e1rbitros,<br \/>\ndecidiam da justi\u00e7a das presas. Nessa concess\u00e3o estava a ru\u00edna<br \/>\nda sua obra e, o que mais foi, tamb\u00e9m da sua fama. Ningu\u00e9m jamais<br \/>\nos livrar\u00e1 da pecha de haverem diretamente concorrido para a destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\nda ra\u00e7a infeliz, que pretendiam salvar (Azevedo 1930:169).&#8221; Mas<br \/>\nisso n\u00e3o \u00e9 tudo. Instituiu-se tamb\u00e9m a escravid\u00e3o<br \/>\nvolunt\u00e1ria de \u00edndios maiores de 21 anos que, em caso de necessidade<br \/>\nextrema, estavam autorizados a se vender a si mesmos a quem tivesse a caridade<br \/>\nde compr\u00e1-los, depois de bem esclarec\u00ea-los sobre que coisa era<br \/>\nser escravo (Leite 1965:119,124). Era l\u00edcito, tamb\u00e9m, a compra<br \/>\nde meninos \u00edndios a seus pais para cri\u00e1-loslos e trein\u00e1-los<br \/>\npara o trabalho, o que representa o c\u00famulo da desfa\u00e7atez, uma<br \/>\nvez que n\u00e3o h\u00e1 gente mais extremosamente apegada aos filhos<br \/>\ndo que as sociedades fundadas no parentesco. Era tamb\u00e9m legal e at\u00e9<br \/>\nmerit\u00f3rio comprar meninos trazidos por bugreiros ou regat\u00f5es,<br \/>\npara instru\u00ed-los na f\u00e9 crist\u00e3, o que sucede at\u00e9<br \/>\nhoje nos cafund\u00f3s da Amaz\u00f4nia. Era igualmente l\u00edcito reter<br \/>\ncomo cativo o \u00edndio que se acasalava com uma escrava e ainda registrar<br \/>\ncomo escravo o filho gerado desse casamento.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil avaliar o n\u00famero de \u00edndios escravizados,<br \/>\ndesgarrados de suas tribos.<\/p>\n<p>Se contar\u00e1, certamente, por milh\u00f5es quando a avalia\u00e7\u00e3o<br \/>\nfor feita de forma criteriosa.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que indicam as poucas aproxima\u00e7\u00f5es com que<br \/>\ncontamos, como a de Simonsen, que avalia em 300 mil os \u00edndios capturados<br \/>\ne escravizados pelos bandeirantes paulistas, uma ter\u00e7a parte deles<br \/>\ndestinados ao tr\u00e1fico, exportado para outras prov\u00edncias. Ou<br \/>\nnos dados de Justo Mancilla e Simon Masseta (1951:I, 337), que sup\u00f4s<br \/>\nque sobre as miss\u00f5es jesu\u00edticas do Paraguai, no s\u00e9culo<br \/>\nXVII, os paulistas tinham arrancado 200 mil cativos. Os descimentos que anualmente<br \/>\nse faziam de \u00edndios dos altos rios da Amaz\u00f4nia, ao longo dos<br \/>\ns\u00e9culos, para as miss\u00f5es e, principalmente, para o cativeiro,<br \/>\nn\u00e3o ter\u00e3o recrutado quantidade menor.<\/p>\n<p>O Brasil central, a zona da mata de Minas, do Esp\u00edrito Santo e da<br \/>\nBahia, bem como as regi\u00f5es de arauc\u00e1ria do Sul do Brasil deram,<br \/>\ntamb\u00e9m, larga provis\u00e3o de bra\u00e7os cativos, \u00e0 medida<br \/>\nque foram sendo devassadas. Em todas essas \u00e1reas, o cativeiro a povos<br \/>\n\u00edndios que resistiam \u00e0 expans\u00e3o foi decretado pelo rei<br \/>\nde Portugal como legal, porque obtido em guerras justas. Como o \u00edndio<br \/>\ncapturado \u00e9 uma fra\u00e7\u00e3o da tribo avassalada, porque muit\u00edssimos<br \/>\ndeles morrem na luta pela pr\u00f3pria liberdade, outros fogem nos caminhos<br \/>\nou morrem de maus-tratos, de revolta e de raiva no cativeiro, o processo de<br \/>\napresamento como forma de recrutar a m\u00e3o-de-obra nativa para a coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nconstituiu um genoc\u00eddio de propor\u00e7\u00f5es gigantescas.<\/p>\n<p>A amplitude das diversas formas de legitima\u00e7\u00e3o do cativeiro<br \/>\nse expressa bem no caso dos paulistas que juntavam em casa tantos \u00edndios<br \/>\nescravizados de tantos tipos que tiveram de desenvolver toda uma nomenclatura<br \/>\npara escritur\u00e1-los como pe\u00e7a dos seus invent\u00e1rios. Assim<br \/>\n\u00e9 que falam de pe\u00e7as de servi\u00e7os, gente roja, servi\u00e7os<br \/>\nobrigat\u00f3rios, gente do Brasil, servidores (Machado 1943:31-6, 165-76).<br \/>\nTudo isso para que as mencionadas pe\u00e7as sucedessem de pai a filho como<br \/>\npropriedade privada, sem falar em escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria redu\u00e7\u00e3o jesu\u00edtica s\u00f3 pode ser<br \/>\ntida como uma forma de cativeiro. As miss\u00f5es eram aldeamentos permanentes<br \/>\nde \u00edndios apresados em guerras ou atra\u00eddos pelos mission\u00e1rios<br \/>\npara l\u00e1 viverem permanentemente, sob a dire\u00e7\u00e3o dos padres.<br \/>\nO \u00edndio, aqui, n\u00e3o tem o estatuto de escravo nem de servo. \u00c9<br \/>\num catec\u00fameno, quer dizer, um herege que est\u00e1 sendo cristianizado<br \/>\ne assim recuperado para si mesmo, em benef\u00edcio de sua salva\u00e7\u00e3o<br \/>\neterna. No plano jur\u00eddico, seria um homem livre, posto sob tutela em<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0 de um \u00f3rf\u00e3o entregue<br \/>\naos cuidados de um tutor.<\/p>\n<p>Para os padres, eles seriam almas racionais mas transviadas, postas em corpos<br \/>\nlivres, mas carentes de resguardo e vigil\u00e2ncia. Estando ali, por\u00e9m,<br \/>\ndeviam trabalhar para seu sustento e para fazer pr\u00f3spera a comunidade<br \/>\nde que passavam a fazer parte. Tamb\u00e9m podiam ser recrutados a qualquer<br \/>\nhora para a guerra contra qualquer for\u00e7a que amea\u00e7asse os interesses<br \/>\ncoloniais, porque esses passavam a ser os seus pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Podiam tamb\u00e9m ser mandados \u00e0s vilas para trabalho compuls\u00f3rio<br \/>\nde interesse p\u00fablico na edifica\u00e7\u00e3o de igrejas, fortalezas,<br \/>\nna urbaniza\u00e7\u00e3o de cidades, na abertura de estradas ou como remeiros<br \/>\ne cozinheiros, ou servi\u00e7ais nas grandes expedi\u00e7\u00f5es ou<br \/>\nno que mais lhe fosse indicado, sempre em benef\u00edcio da coletividade<br \/>\nque passara a integrar.<\/p>\n<p>Podiam, fmalmente, ser arrendados aos colonos mediante sal\u00e1rios de<br \/>\nduas varas de pano de algod\u00e3o, formando assim um pec\u00falio que,<br \/>\nse chegasse a ser recebido, eles aprenderiam com o padre a gastar criteriosamente,<br \/>\nquem sabe em alguma obra de caridade.<\/p>\n<p>Pior, ainda, que os jesu\u00edtas foram os outros mission\u00e1rios,<br \/>\numa vez que nenhum deles jamais entrou em qualquer conflito com quem quer<br \/>\nque fosse por manifestar indigna\u00e7\u00e3o contra o exterm\u00ednio<br \/>\nou cativeiro dos \u00edndios. Mais ainda que os jesu\u00edtas, os curas<br \/>\nregulares foram acusados reiteradamente de cobi\u00e7a vil, chegando alguns<br \/>\na serem disciplinados e punidos pelo governo colonial pelo abuso com que exploravam<br \/>\nos \u00edndios que ca\u00edam em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Expulsos os jesu\u00edtas, a situa\u00e7\u00e3o piorou muito, porque<br \/>\nas suas miss\u00f5es foram entregues, ao Norte, \u00e0s familias de contemplados<br \/>\nque passaram a explor\u00e1-las como fazendas privadas. Nas outras regi\u00f5es,<br \/>\nalgumas miss\u00f5es foram entregues a ordens religiosas consentidas nessa<br \/>\nfun\u00e7\u00e3o, porque eram ainda mais propensas a servir ao governo<br \/>\ne aos colonos do que seus escravos pela Companhia.<\/p>\n<p>Alguns foram postos sob a dire\u00e7\u00e3o de administradores civis<br \/>\nque, podendo cobrar porcentagem sobre os \u00edndios que arrendavam ou colocar<br \/>\nos \u00edndios a trabalhar em suas pr\u00f3prias fazendas, fizeram disso<br \/>\num alto neg\u00f3cio. T\u00e3o bom que alguns deles se esfor\u00e7aram<br \/>\ne lograram o supremo favor de se tornarem heredit\u00e1rios das antigas<br \/>\nmiss\u00f5es. A quantidade de \u00edndios explorados dessa forma ter\u00e1<br \/>\nsido muito grande, uma vez que documentos do fim do s\u00e9culo xv\u00fc<br \/>\nfalam de quatrocentas aldeias com administradores civis em S\u00e3o Paulo<br \/>\ne de 4 mil nas outras capitanias (Gorender 1978).<\/p>\n<p>A expuls\u00e3o pombalina que visava, nominalmente, liberar os \u00edndios<br \/>\ndas miss\u00f5es jesu\u00edticas, integrando-os como iguais e at\u00e9<br \/>\ncom certos privil\u00e9gios na comunidade colonial, representou enorme logro.<br \/>\nO regulamento que ent\u00e3o se baixou aboliu o trabalho compuls\u00f3rio<br \/>\nbem como os turnos semestrais alternados de trabalho na miss\u00e3o de fora<br \/>\nou de arrendamento para as diferentes col\u00f4nias.<\/p>\n<p>Na realidade, essa pr\u00e1tica somente se aprofunda da\u00ed em diante,<br \/>\nlan\u00e7ando os \u00edndios nominalmente livres numa condi\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeneralizada de cativeiro mais grave que o anterior. A situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesses \u00edndios arrendados era pior que a dos escravos tidos pelo senhor<br \/>\na t\u00edtulo pr\u00f3prio, uma vez que estes, sendo um capital humano<br \/>\nque se comprara com bom dinheiro, devia ser zelado, pelo menos para preservar<br \/>\nseu valor venal; enquanto o \u00edndio arrendado, n\u00e3o custando sen\u00e3o<br \/>\no pre\u00e7o de seu arrendamento, daria tanto mais lucro quanto menos comesse<br \/>\ne quanto mais rapidamente realizasse as tarefas para que era alugado. Esse<br \/>\ndesgaste humano do trabalhador cativo constitui uma outra forma terr\u00edvel<br \/>\nde genoc\u00eddio imposta a mais de um milh\u00e3o de \u00edndios.<\/p>\n<h2>2 MOINHOS DE GASTAR GENTE OS BRASIL\u00cdNDIOS<\/h2>\n<p>A expans\u00e3o do dom\u00ednio portugu\u00eas terra adentro, na constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Brasil, \u00e9 obra dos brasil\u00edndios ou mamelucos. Gerados por<br \/>\npais brancos, a maioria deles lusitanos, sobre mulheres \u00edndias, dilataram<br \/>\no dom\u00ednio portugu\u00eas exorbitando a da\u00e7\u00e3o de papel<br \/>\ndas Tordesilhas, excedendo a tudo que se podia esperar.<\/p>\n<p>Os portugueses de S\u00e3o Paulo foram os principais gestadores dos brasil\u00edndios<br \/>\nou mamelucos. O motor que movia aqueles velhos paulistas era, essencialmente,<br \/>\na pobreza da feitoria paulistana, mera vilazinha al\u00e7ada no planalto,<br \/>\na quatro dias de viagem do mar, que se alcan\u00e7ava dificultosamente atrav\u00e9s<br \/>\nda selva e de \u00e1guas tormentosas, subindo e descendo escarpadas morrarias.<br \/>\nNo dizer de S\u00e9rgio Buarque de Holanda, os impelia a &#8220;[&#8230;] exig\u00eancia<br \/>\nde um triste viver cotidiano e caseiro: teimosamente pelejaram contra a pobreza,<br \/>\ne para repar\u00e1-la n\u00e3o hesitaram em deslocar-se sobre espa\u00e7os<br \/>\ncada vez maiores, desafiando as ins\u00eddias de um mundo ignorado e talvez<br \/>\ninimigo (Holanda 1986:26).&#8221; O que buscavam no fundo dos matos a dist\u00e2ncias<br \/>\nabismais era a \u00fanica mercadoria que estava a seu alcance: \u00edndios<br \/>\npara uso pr\u00f3prio e para a venda; \u00edndios inumer\u00e1veis,<br \/>\nque suprissem as suas necessidades e se renovassem \u00e0 medida que fossem<br \/>\nsendo desgastados; \u00edndios que lhes abrissem ro\u00e7as, ca\u00e7assem,<br \/>\npescassem, cozinhassem, produzissem tudo o que comiam, usavam ou vendiam;<br \/>\n\u00edndios, pe\u00e7as de carga, que lhes carregassem toda a carga, ao<br \/>\nlongo dos mais longos e \u00e1speros caminhos.<\/p>\n<p>Desgastadas as tribos escraviz\u00e1veis que viviam por perto, os brasil\u00edndios<br \/>\npaulistas os foram buscar nos esconsos em que estivessem. Para isso, se organizavam<br \/>\nem bandos imensos de mamelucos e seus cativos que, por meses e at\u00e9<br \/>\nanos, se deslocavam a p\u00e9, descal\u00e7os, nas bandeiras ou remando<br \/>\nas canoas das mon\u00e7\u00f5es. Nas entradas mais profundas e pioneiras<br \/>\nque duravam anos, viajavam uns quantos meses e acampavam para plantar e colher<br \/>\nro\u00e7as com que se supriam de mantimentos para prosseguir viagem sert\u00e3o<br \/>\nadentro, atrav\u00e9s de matas e de campos naturais. Vanguardas avan\u00e7adas<br \/>\nsondavam o caminho, procurando aldeias ind\u00edgenas ou miss\u00f5es<br \/>\nde \u00edndios captur\u00e1veis, ou se precavendo contra assaltos de \u00edndios<br \/>\nhostis. Esse of\u00edcio de ca\u00e7adores de gente se converteu em g\u00eanero<br \/>\nde vida dos paulistas, em cujo desempenho se fizeram respeit\u00e1veis,<br \/>\ndestacando-se com altas honras, a seus pr\u00f3prios olhos, os mais valentes<br \/>\ne briosos.<\/p>\n<p>Os mais bem-sucedidos deles alcan\u00e7avam n\u00e3o s\u00f3 a prosperidade<br \/>\nque essa pobre economia podia dar, mas tamb\u00e9m o reconhecimento p\u00fablico<br \/>\nde suas fa\u00e7anhas e o mais alto contentamento consigo mesmos. Era um<br \/>\nmodo de vida raro, inusitado, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, mas contrastante<br \/>\ncom qualquer outro tal como g\u00eanero de vida campon\u00eas ou pastoril<br \/>\ne igualmente remarcado de singularidade.<\/p>\n<p>Os brasil\u00edndios foram chamados de mamelucos pelos jesu\u00edtas<br \/>\nespanh\u00f3is horrorizados com a bruteza e desumanidade essa gente castigadora<br \/>\nde seu gentio materno.<\/p>\n<p>Nenhuma designa\u00e7\u00e3o podia ser mais apropriada. O termo originalmente<br \/>\nse referia a uma casta de escravos que os \u00e1rabes tomavam de seus pais<br \/>\npara criar e adestrar em suas casas-criat\u00f3rios, onde desenvolviam o<br \/>\ntalento que acaso tivessem.<\/p>\n<p>Seriam janizaros, se prometessem fazer-se \u00e1geis cavaleiros de guerra,<br \/>\nou xipaios, se covardes e servissem melhor para policiais e espi\u00f5es.<br \/>\nCastrados, serviriam como eunucos nos har\u00e9ns, se n\u00e3o tivessem<br \/>\noutro m\u00e9rito. Mas podiam alcan\u00e7ar a alta condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mamelucos se revelassem talento para exercer o mando e a suserania isl\u00e2mica<br \/>\nsobre a gente de que foram tirados. \u00c9 evidente que o apelido aplicado<br \/>\naos paulistas expressa o ressentimento amargo de um jesu\u00edta &#8211; provavelmente<br \/>\no padre Ruiz de Montoya, autor da Conquista espiritual que relata o padecimento<br \/>\nterr\u00edvel das miss\u00f5es jesu\u00edticas paraguaias assaltadas<br \/>\npelos bandeirantes paulistas.<\/p>\n<p>Nossos mamelucos ou brasil\u00edndios foram, na verdade, a seu pesar,<br \/>\nher\u00f3is civilizadores, servi\u00e7ais del-rei, impositores da domina\u00e7\u00e3o<br \/>\nque os oprimia. Seu valor maior como agentes da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nadvinha de sua pr\u00f3pria rusticidade de meio-\u00edndios, incans\u00e1veis<br \/>\nnas marchas longu\u00edssimas e sobretudo no trabalho de remar, de sol a<br \/>\nsol, por meses e meses. Afeitos \u00e0 bruteza selvagem da selva tropical,<br \/>\nherdeiros do saber milenar acumulado pelos \u00edndios sobre terras, plantas<br \/>\ne bichos da Terra Nova para os europeus, mas que para eles era a morada ancestral.<\/p>\n<p>Outro valor assinal\u00e1vel era sua flexibilidade de gente rec\u00e9m-feita,<br \/>\nmold\u00e1vel a qualquer nova circunst\u00e2ncia, &#8220;com a consist\u00eancia<br \/>\ndo couro, n\u00e3o a do ferro e do bronze, cedendo, dobrando-se, amoldando-se<br \/>\n\u00e0s asperezas de um mundo rude&#8221;, como diz S\u00e9rgio Buarque<br \/>\nde Holanda ( 1986:29 ).<\/p>\n<p>Os brasil\u00edndios ou mamelucos paulistas foram v\u00edtimas de duas<br \/>\nrejei\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas. A dos pais, com quem queriam identificar-se,<br \/>\nmas que os viam como impuros filhos da terra, aproveitavam bem seu trabalho<br \/>\nenquanto meninos e rapazes e, depois, os integravam a suas bandeiras, onde<br \/>\nmuitos deles fizeram carreira. A segunda rejei\u00e7\u00e3o era a do gentio<br \/>\nmaterno. Na concep\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, a mulher \u00e9 um<br \/>\nsimples saco em que o macho deposita sua semente. Quem nasce \u00e9 o filho<br \/>\ndo pai, e n\u00e3o da m\u00e3e, assim visto pelos \u00edndios.<\/p>\n<p>N\u00e3o podendo identificar-se com uns nem com outros de seus ancestrais,<br \/>\nque o rejeitavam, o mameluco ca\u00eda numa terra de ningu\u00e9m, a partir<br \/>\nda qual constr\u00f3i sua identidade de brasileiro.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que, por via do cunhadismo, levado a extremo, se criou um<br \/>\ng\u00eanero humano novo, que n\u00e3o era, nem se reconhecia e nem era<br \/>\nvisto como tal pelos \u00edndios, pelos europeus e pelos negros. Esse g\u00eanero<br \/>\nde gente alcan\u00e7ou uma efici\u00eancia inexced\u00edvel, a seu pesar,<br \/>\ncomo agentes da civiliza\u00e7\u00e3o. Falavam sua pr\u00f3pria l\u00edngua,<br \/>\ntinham sua pr\u00f3pria vis\u00e3o do mundo, dominavam uma alta tecnologia<br \/>\nde adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 floresta tropical. Tudo isso aurido do<br \/>\nseu conv\u00edvio compuls\u00f3rio com os \u00edndios de matriz tupi.<\/p>\n<p>Sua vida venturosa devia ser mais atrativa para jovens \u00edndios do<br \/>\nque a pasmaceira de suas aldeias. Assim \u00e9 que h\u00e1 vasta documenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo aliciamento espont\u00e2neo de \u00edndios que preferiam viver o destino<br \/>\ndos brasil\u00edndios, produzindo eles pr\u00f3prios seus \u00edndios<br \/>\nde cativeiro.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do espanhol, que sempre que p\u00f4de comandou como<br \/>\num cavaleiro, o mameluco abriu seu mundo vasto andando de p\u00e9 descal\u00e7o,<br \/>\nem fila, por trilhas e estreitos sendeiros, carregando cargas no pr\u00f3prio<br \/>\nombro e no de \u00edndios e \u00edndias cativos.<\/p>\n<p>Estes eram os transportadores de tudo, de enfermos e at\u00e9 de mortos,<br \/>\nmas tamb\u00e9m de damas e muitos rein\u00f3is que se faziam carregar<br \/>\npor \u00edndios em redes e cadeirinhas.<\/p>\n<p>Friederici ( 1967 ), comparando-os com seus \u00eamulos do Canad\u00e1,<br \/>\nos coureurs de boi, que se multiplicaram nos primeiros s\u00e9culos, sup\u00f5e<br \/>\nque n\u00e3o se lhes abriria outro caminho hist\u00f3rico sen\u00e3o<br \/>\no exterm\u00ednio quando sociedades europ\u00e9ias mais estruturadas,<br \/>\nfundadas em fam\u00edlias regulares, colonizaram aquelas \u00e1reas.<\/p>\n<p>\u00c9 pelo menos curioso o contraste entre o desempenho hist\u00f3rico<br \/>\ndaqueles mateiros nortistas, vestindo roupas de couro, cal\u00e7ando mocassins<br \/>\ne s\u00f3 falando as l\u00ednguas ind\u00edgenas, em compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a energia pungente dos mamelucos ou brasil\u00edndios que vieram a fazer<br \/>\no Brasil.<\/p>\n<p>Esses mateiros do norte representaram papel capital. Foram eles que devassaram<br \/>\no Canad\u00e1 e o ocuparam at\u00e9 a venda do territ\u00f3rio aos ingleses.<br \/>\nCreio que s\u00e3o descendentes deles os Keveku\u00e1, que amargam uma<br \/>\nvizinhan\u00e7a hostil com os anglo- canadenses que ocuparam o territ\u00f3rio,<br \/>\nnuma coloniza\u00e7\u00e3o feita por fam\u00edlias regulares.<\/p>\n<p>Outros mamelucos foram os que abriram o que \u00e9 hoje o ternt\u00f3rio<br \/>\nargentino, uruguaio e paraguaio. Muitos deles podem ser vistos em Buenos Aires,<br \/>\nonde s\u00e3o tratados por cabecitas negras e malvistos pelos milh\u00f5es<br \/>\nde gringos que os sucederam. Todos ignoram, na Argentina, que o pa\u00eds<br \/>\nfoi realmente conquistado, organizado e conduzido \u00e0 independ\u00eancia<br \/>\npor cerca de 800 mil mamelucos.<\/p>\n<p>No Brasil seu \u00eaxito foi imensamente maior, porque passaram a constituir<br \/>\no cerne mesmo da na\u00e7\u00e3o e, somando uns 14 milh\u00f5es, juntamente<br \/>\ncom os negros abrasileirados, puderam suportar a invas\u00e3o gringa mantendo<br \/>\nsua cara e sua identidade.<\/p>\n<p>O brasil\u00edndio, como g\u00eanero novo de gente, chegou mesmo a definir<br \/>\numa ideologia pr\u00f3pria, oposta \u00e0 do cura e \u00e0 do neolusitano.<br \/>\nA melhor express\u00e3o dela se encontra na citada carta em que Domingos<br \/>\nJorge Velho, o principal dos paulistas, reclama ante o rei quanto \u00e0<br \/>\nin\u00e9pcia e hipocrisia dos que se opunham \u00e0 a\u00e7\u00e3o<br \/>\nmameluca.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi tarefa nada f\u00e1cil ao mameluco se fazer agente principal<br \/>\nda hist\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<p>Enfrentaram, de um lado, a odiosidade jesu\u00edtica e a m\u00e1 vontade<br \/>\ndos rein\u00f3is e, do outro, todas as dificuldades imensas de sua dura<br \/>\nvida de sertanistas. Inclusive a hostilidade dos \u00edndios arredios &#8211;<br \/>\ntais como os Aimor\u00e9 da Bahia; os Botocudo de Minas e do Esp\u00edrito<br \/>\nSanto; os Kaingang e Xokleng do Sul; os Xavante de Mato Grosso; e, sobretudo,<br \/>\nos Bororo e Kayap\u00f3, que se moviam por extensas \u00e1reas, atrav\u00e9s<br \/>\ndos cerrados, al\u00e9m dos rios Araguaia e Tocantins -, cientes do destino<br \/>\ntr\u00e1gico que teriam se capturados.<\/p>\n<p>Esses Tapuia eram, principalmente, povos de sistema adaptativo ajustado<br \/>\n\u00e0s condi\u00e7\u00f5es do cerrado, muito contrastante com o modo<br \/>\nde vida dos agricultores da floresta tropical. Sua pr\u00f3pria forma de<br \/>\nfazer a guerra era outra, preferindo desfechar golpes de tacape ou varar o<br \/>\ninimigo com lan\u00e7as. Como cativos, eram quase in\u00fateis por n\u00e3o<br \/>\nterem familiaridade nenhuma com os h\u00e1bitos agr\u00edcolas dos Tupi-Guarani<br \/>\nadotados pelos mamelucos, mas, sobretudo, por exigirem vigil\u00e2ncia permanente<br \/>\npara n\u00e3o fugirem, matando, se poss\u00edvel, seu captor.<\/p>\n<p>Habituados a percorrer imensas dist\u00e2ncias em seus deslocamentos, os<br \/>\nTapuia, principalmente os Kayap\u00f3, atacavam sempre inesperadamente nos<br \/>\nlugares mais distantes, fazendo prisioneiros sempre que podiam, sobretudo<br \/>\nmeninas e mulheres que incorporavam \u00e0 tribo. Essa caracter\u00edstica<br \/>\nos converteu no pavor dos bandeirantes e, depois, atrav\u00e9s de s\u00e9culos,<br \/>\ndas popula\u00e7\u00f5es sertanejas que estavam a seu alcance.<\/p>\n<p>Frente a esses \u00edndios, escolados no enfrentamento com agentes da<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o, mesmo as vantagens inicialmente indiscut\u00edveis<br \/>\ndas armas de fogo se anularam.<\/p>\n<p>Sagac\u00edssimos e manhosos, eles percorriam longas dist\u00e2ncias<br \/>\na partir de suas aldeias para atacar gente desprevenida com chuvas de suas<br \/>\nflechas silenciosas, por vezes ervadas. Enquanto um bandeirante levantava<br \/>\no clavinote, sustentado numa forquilha, e armava o complicado disparador,<br \/>\no \u00edndio mandava de tr\u00eas a cinco flechadas.<\/p>\n<p>Era indispens\u00e1vel, entretanto, passar sobre os territ\u00f3rios<br \/>\ndesses \u00edndios hostis para alcan\u00e7ar as tribos de plantadores<br \/>\nde mandioca e milho, mais d\u00f3ceis como escravos e mais \u00fateis,<br \/>\ndesde a primeira hora, nas tarefas corriqueiras. Isso porque a cultura adaptativa<br \/>\nb\u00e1sica daqueles \u00edndios era e permaneceu sendo, por s\u00e9culos<br \/>\nafora, a dos povos Tupi, cuja l\u00edngua foi a fala dos brasil\u00edndios<br \/>\ne cujos h\u00e1bitos e pr\u00e1ticas eram quase os mesmos.<\/p>\n<p>A vida do \u00edndio cativo n\u00e3o podia ser mais dura como cargueiro<br \/>\nou remador, que eram seus trabalhos principais. Pertencente a quem o apresasse,<br \/>\nele era um bem semovente, desgastado com a maior indiferen\u00e7a, como<br \/>\nse isso fosse o seu destino, mesmo porque havia um estoque aparentemente inesgot\u00e1vel<br \/>\nde \u00edndios para repor os que se gastavam.<\/p>\n<p>Alguns textos coloniais, concernentes a grupos ind\u00edgenas que facilitaram<br \/>\no assentamento do europeu e aceitaram colaborar com eles, exigem algumas pondera\u00e7\u00f5es,<br \/>\nprincipalmente as de que, acossados por outras tribos ind\u00edgenas, pudessem<br \/>\neles achar menos terr\u00edvel a dura vida e os sofrimentos debaixo dos<br \/>\ncrist\u00e3os que a perman\u00eancia na terra em guerra contra seus inimigos.<br \/>\n\u00c9 tamb\u00e9m de supor que um jovem \u00edndio, recrutado por um<br \/>\nbandeirante como guerreiro, se pudesse destacar, preando outros \u00edndios<br \/>\ne sendo premiado por isso ou louvado como extraordin\u00e1rio ca\u00e7ador,<br \/>\ncomo guia e mateiro, de olhos vivos e de grande sabedoria para atravessar<br \/>\nflorestas e cerrados.<\/p>\n<p>Alguns grupos tribais, ainda que conscritos \u00e0 economia colonial,<br \/>\nlograram manter certa autonomia na qualidade de aliados dos brancos para suas<br \/>\nguerras contra outros \u00edndios. O relevante nesse caso \u00e9 que,<br \/>\nem lugar de amadurecerem para a civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; passando progressivamente<br \/>\nda condi\u00e7\u00e3o tribal \u00e0 nacional, da aldeia \u00e0 vila,<br \/>\ncomo supuseram tantos historiadores -, esses n\u00facleos aut\u00f4nomos<br \/>\npermaneceram irredutivelmente ind\u00edgenas ou simplesmente se extir\u00ecg\u00fciram<br \/>\npela morte de seus integrantes. Onde quer que se tenha dados concretos, se<br \/>\npode observar que \u00e0 coexist\u00eancia da aldeia ind\u00edgena com<br \/>\no n\u00facleo colonizador segue-se o crescimento deste e a extin\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquela, cuja popula\u00e7\u00e3o vai diminuindo ano ap\u00f3s ano,<br \/>\nat\u00e9 desaparecer. Nos raros casos em que logram sobreviver uns tantos<br \/>\nind\u00edgenas, todos eles mant\u00eam sua identifica\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica.<\/p>\n<p>Pesquisas etnol\u00f3gicas empreendidas por mim mesmo revelaram o alto<br \/>\ngrau de resist\u00eancia destas etnias tribais, que continuam congregando<br \/>\nas lealdades dos seus membros e definindo-se como ind\u00edgenas, mesmo<br \/>\nquando submetidas durante d\u00e9cadas a press\u00f5es aculturadoras e<br \/>\nassimiladoras (Ribeiro 1970). Contra esta resist\u00eancia \u00e9tnica<br \/>\nnada puderam ontem nem hoje todos os que contra ela se lan\u00e7aram. T\u00e3o<br \/>\nin\u00fateis foram as amea\u00e7as de chacinamento como as press\u00f5es<br \/>\nintegradoras exercidas com total intoler\u00e2ncia pelos mission\u00e1rios<br \/>\ne, tamb\u00e9m, os m\u00e9todos ditos persuas\u00f3rios dos \u00f3rg\u00e3os<br \/>\noficiais de assist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00cdndios e brasileiros se op\u00f5em como alternos \u00e9tnicos<br \/>\nem um conflito irredut\u00edvel, que jamais d\u00e1 lugar a uma fus\u00e3o.<br \/>\nOnde quer que um grupo tribal tenha oportunidade de conservar a continuidade<br \/>\nda pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o pelo conv\u00edvio de pais e filhos,<br \/>\npreserva- se a identifica\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, qualquer que seja<br \/>\no grau de press\u00e3o assimiladora que experimente. Atrav\u00e9s desse<br \/>\nconv\u00edvio aculturativo, por\u00e9m, os \u00edndios se tornam cada<br \/>\nvez menos \u00edndios no plano cultural, acabando por ser quase id\u00eanticos<br \/>\naos brasileiros de sua regi\u00e3o na l\u00edngua que falam, nos modos<br \/>\nde trabalhar, de divertir-se e at\u00e9 nas tradi\u00e7\u00f5es que<br \/>\ncultuam. N\u00e3o obstante, permanecem identificando-se com sua etnia tribal<br \/>\ne sendo assim identificados pelos representantes da sociedade nacional com<br \/>\nquem mant\u00eam contato. O passo que se d\u00e1 nesse processo n\u00e3o<br \/>\n\u00e9, pois, como se sup\u00f4s, o tr\u00e2nsito da condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde \u00edndio a de brasileiro, mas da situa\u00e7\u00e3o de \u00edndios<br \/>\nespec\u00edficos, investidos de seus atributos e vivendo segundo seus costumes,<br \/>\n\u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u00edndios gen\u00e9ricos, cada vez<br \/>\nmais aculturados mas sempre \u00edndios em sua identifica\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica.<\/p>\n<h2>OS AFRO-BRASILEIROS<\/h2>\n<p>Os negros do Brasil foram trazidos principalmente da costa ocidental africana.<\/p>\n<p>Arthur Ramos ( 1940, 1942, 1946 ), prosseguindo os estudos de Nina Rodrigues<br \/>\n( 1939, 1945 ), distingue, quanto aos tipos culturais, tr\u00eas grandes<br \/>\ngrupos. O primeiro, das culturas sudanesas, \u00e9 representado, principalmente,<br \/>\npelos grupos Yoruba &#8211; chamados nag\u00f4 -, pelos Dahomey \u2013 designados<br \/>\ngeralmente como geg\u00ea &#8211; e pelos Fanti-Ashanti \u2013 conhecidos como<br \/>\nmircas -, al\u00e9m de muitos representantes de grupos menores da G\u00e2mbia,<br \/>\nSerra Leoa, Costa da Malagueta e Costa do Marfim. O segundo grupo trouxe ao<br \/>\nBrasil culturas africanas islamizadas, principalmente os Peuhl, os Mandinga<br \/>\ne os Haussa, do norte da Nig\u00e9ria, identificados na Bahia como negros<br \/>\nmal\u00e9 e no Rio de Janeiro como negros aluf\u00e1. O terceiro grupo<br \/>\ncultural africano era integrado por tribos Bantu, do grupo congo- angol\u00eas,<br \/>\nprovenientes da \u00e1rea hoje compreendida pela Angola e a &#8220;Contra<br \/>\nCosta&#8221;, que corresponde ao atual territ\u00f3rio de Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o cultural do negro foi pouco relevante na forma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquela protoc\u00e9lula original da cultura brasileira. Aliciado para incrementar<br \/>\na produ\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira, comporia o contingente fundamental<br \/>\nda m\u00e3o-de-obra. Apesar do seu papel como agente cultural ter sido mais<br \/>\npassivo que ativo, o negro teve uma import\u00e2ncia crucial, tanto por sua<br \/>\npresen\u00e7a como a massa trabalhadora que produziu quase tudo que aqui<br \/>\nse fez, como por sua introdu\u00e7\u00e3o sorrateira mas tenaz e continuada,<br \/>\nque remarcou o am\u00e1lgama racial e cultural brasileiro com suas cores<br \/>\nmais fortes.<\/p>\n<p>Tal como ocorreu aos brancos, vindos mais tarde a integrar-se na etnia brasileira,<br \/>\nos negros, encontrando j\u00e1 constitu\u00edda aquela protoc\u00e9lula<br \/>\nluso-tupi, tiveram de nela aprender a viver, plantando e cozinhando os alimentos<br \/>\nda terra, chamando as coisas e os esp\u00edritos pelos nomes tupis incorporados<br \/>\nao portugu\u00eas, fumando longos cigarros de tabaco e bebendo cauim.<\/p>\n<p>Os negros do Brasil, trazidos principalmente da costa ocidental da \u00c1frica,<br \/>\nforam capturados meio ao acaso nas centenas de povos tribais que falavam dialetos<br \/>\ne l\u00ednguas n\u00e3o intelig\u00edveis uns aos outros. A \u00c1frica<br \/>\nera, ent\u00e3o, como ainda hoje o \u00e9, em larga medida, uma imensa<br \/>\nBabel de l\u00ednguas. Embora mais homog\u00eaneos no plano da cultura,<br \/>\nos africanos variavam tamb\u00e9m largamente nessa esfera. Tudo isso fazia<br \/>\ncom que a uniformidade racial n\u00e3o correspondesse a uma unidade ling\u00fc\u00edstico-cultural,<br \/>\nque ensejasse uma unifica\u00e7\u00e3o, quando os negros se encontraram<br \/>\nsubmetidos todos \u00e0 escravid\u00e3o. A pr\u00f3pria religi\u00e3o,<br \/>\nque hoje, ap\u00f3s ser trabalhada por gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es,<br \/>\nconstituiu-se uma express\u00e3o da consci\u00eancia negra, em lugar de<br \/>\nunific\u00e1-los, ent\u00e3o, os desunia. Foi at\u00e9 utilizada como<br \/>\nfator de disc\u00f3rdia, segundo con, fessa o conde dos Arcos.<\/p>\n<p>A diversidade ling\u00fc\u00edstica e cultural dos contingentes negros<br \/>\nintroduzidos no Brasil, somada a essas hostilidades rec\u00edprocas que<br \/>\neles traziam da \u00c1frica e \u00e0 pol\u00edtica de evitar a concentra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde escravos oriundos de uma mesma etnia, nas mesmas propriedades, e at\u00e9<br \/>\nnos mesmos navios negreiros, impediu a forma\u00e7\u00e3o de n\u00facleos<br \/>\nsolid\u00e1rios que retivessem o patrim\u00f4nio cultural africano.<\/p>\n<p>Encontrando-se dispersos na terra nova, ao lado de outros escravos, seus<br \/>\niguais na cor e na condi\u00e7\u00e3o servil, mas diferentes na l\u00edngua,<br \/>\nna identifica\u00e7\u00e3o tribal e freq\u00fcentemente hostis pelos referidos<br \/>\nconflitos de origem, os negros foram compelidos a incorporar-se passivamente<br \/>\nno universo cultural da nova sociedade.<\/p>\n<p>D\u00e3o, apesar de circunst\u00e2ncias t\u00e3o adversas, um passo<br \/>\nadiante dos outros povoadores ao aprender o portugu\u00eas com que os capatazes<br \/>\nlhes gritavam e que, mais tarde, utilizariam para comunicar-se entre si. Acabaram<br \/>\nconseguindo aportuguesar o Brasil, al\u00e9m de influenciar de m\u00faltiplas<br \/>\nmaneiras as \u00e1reas culturais onde mais se concentraram, que foram o<br \/>\nnordeste a\u00e7ucareiro e as zonas de minera\u00e7\u00e3o do centro<br \/>\ndo pa\u00eds. Hoje, aquelas popula\u00e7\u00f5es guardam uma flagrante<br \/>\nfei\u00e7\u00e3o africana na cor da pele, nos grossos l\u00e1bios e<br \/>\nnos narig\u00f5es fornidos, bem como em cad\u00eancias e ritmos e nos sentimentos<br \/>\nespeciais de cor e de gosto.<\/p>\n<p>Nos dois casos, o engenho e a mina, os negros escravos se viram incorporados<br \/>\ncompulsoriamente a comunidades at\u00edpicas, porque n\u00e3o estavam<br \/>\ndestinados a atender \u00e0s necessidades de sua popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas sim aos des\u00edgnios venais do senhor. Nelas, \u00e0 medida que<br \/>\neram desgastados para produzir o que n\u00e3o consumiam, iam sendo radicalmente<br \/>\ndeculturados pela erradica\u00e7\u00e3o de sua cultura africana.<\/p>\n<p>Simultaneamente, v\u00e3o se aculturando nos mo dos brasileiros de ser<br \/>\ne de fazer, tal como eles eram representados no universo cultural simplificado<br \/>\ndos engenhos e das minas. T\u00eam acesso, desse modo, a um corpo de elementos<br \/>\nadaptativos, associativos e ideol\u00f3gicos oriundo daquela protoc\u00e9lula<br \/>\n\u00e9tnica tupi que se consentiu sobreviver nas empresas, para o exerc\u00edcio<br \/>\nde fun\u00e7\u00f5es extraprodutivas.<\/p>\n<p>S\u00f3 atrav\u00e9s de um esfor\u00e7o ingente e continuado, o negro<br \/>\nescravo iria reconstituindo suas virtualidades de ser cultural pelo conv\u00edvio<br \/>\nde africanos de diversas proced\u00eancias com a gente da terra, previamente<br \/>\nincorporada \u00e0 proto-etnia brasileira, que o iniciaria num corpo de<br \/>\nnovas compreens\u00f5es mais amplo e mais satisfat\u00f3rio. O negro transita,<br \/>\nassim, da condi\u00e7\u00e3o de bo\u00e7al \u2013 preso ainda \u00e0<br \/>\ncultura aut\u00f3ctone e s\u00f3 capaz de estabelecer uma comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\nprim\u00e1ria com os demais integrantes do novo contorno social &#8211; \u00e0<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o de ladino -j\u00e1 mais integrado na nova sociedade<br \/>\ne na nova cultura.<\/p>\n<p>Esse negro bo\u00e7al, que ainda n\u00e3o falava o portugu\u00eas ou<br \/>\ns\u00f3 falava um portugu\u00eas muito tr\u00f4pego, era entretanto perfeitamente<br \/>\ncapaz de desempenhar as tarefas mais pesadas e ordin\u00e1rias na divis\u00e3o<br \/>\nde trabalho do engenho ou da mina.<\/p>\n<p>Concentrando-se em grandes massas nas \u00e1reas de atividade mercantil<br \/>\nmais intensa, onde o \u00edndio escasseava cada vez mais, o negro exerceria<br \/>\num papel decisivo na forma\u00e7\u00e3o da sociedade local. Seria, por<br \/>\nexcel\u00eancia, o agente de europeiza\u00e7\u00e3o que difundiria a<br \/>\nl\u00edngua do colonizador e que ensinaria aos escravos rec\u00e9m-chegados<br \/>\nas t\u00e9cnicas de trabalho, as normas e valores pr\u00f3prios da subcultura<br \/>\na que se via incorporado. Consegue, ainda assim, exercer influ\u00eancia,<br \/>\nseja emprestando dengues ao falar lusitano, seja impregnando todo o seu contexto<br \/>\ncom o pouco que p\u00f4de preservar da heran\u00e7a cultural africana.<br \/>\nComo esta n\u00e3o podia expressar-se nas formas de adapta\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; por diferir, consideravelmente, no plano ecol\u00f3gico e tecnol\u00f3gico,<br \/>\ndos modos de prover a subsist\u00eancia na \u00c1frica -, nem tampouco<br \/>\nnos modos de associa\u00e7\u00e3o &#8211; por estarem rigidamente prescritos<br \/>\npela estrutura da col\u00f4nia como sociedade estratificada, a que se incorporava<br \/>\nna condi\u00e7\u00e3o de escravo -, sobreviveria principalmente no plano<br \/>\nideol\u00f3gico, porque ele era mais rec\u00f4ndito e pr\u00f3prio. Quer<br \/>\ndizer, nas cren\u00e7as religiosas e nas pr\u00e1ticas m\u00e1gicas,<br \/>\na que o negro se apegava no esfor\u00e7o ingente por consolar-se do seu<br \/>\ndestino e para controlar as amea\u00e7as do mundo azaroso em que submergira.<\/p>\n<p>Junto com esses valores espirituais, os negros ret\u00eam, no mais rec\u00f4ndito<br \/>\nde si,.tanto reminisc\u00eancias r\u00edtmicas e musicais, como saberes<br \/>\ne gostos culin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Essa parca heran\u00e7a africana &#8211; meio cultural e meio racial -, associada<br \/>\n\u00e0s cren\u00e7as ind\u00edgenas, emprestaria entretanto \u00e0<br \/>\ncultura brasileira, no plano ideol\u00f3gico, uma singular fisionomia cultural.<br \/>\nNessa esfera \u00e9 que se destaca, por exemplo, um catolicismo popular<br \/>\nmuito mais discrepante que qualquer das heresias crist\u00e3s t\u00e3o<br \/>\nperseguidas em Portugal.<\/p>\n<p>Conscritos nos guetos de escravid\u00e3o \u00e9 que os negros brasileiros<br \/>\nparticipam e fazem o Brasil participar da civiliza\u00e7\u00e3o de seu<br \/>\ntempo. N\u00e3o nas formas que a chamada civiliza\u00e7\u00e3o ocidental<br \/>\nassume nos n\u00facleos c\u00eantricos, mas com as deforma\u00e7\u00f5es<br \/>\nde uma cultura esp\u00faria, que servia a uma sociedade subalterna. Por<br \/>\nmais que se for\u00e7asse um modelo ideal de europeidade, jamais se alcan\u00e7ou,<br \/>\nnem mesmo se aproximou dele, porque pela natureza das coisas, ele \u00e9<br \/>\ninaplic\u00e1vel para feitorias ultramarinas destinadas a produzir g\u00eaneros<br \/>\nex\u00f3ticos de exporta\u00e7\u00e3o e de valores pecuni\u00e1rios<br \/>\naqui auridos. Seu ser normal era aquela anomalia de uma comunidade cativa,<br \/>\nque nem existia para si nem se regia por uma lei interna do desenvolvimento<br \/>\nde suas potencialidades, uma vez que s\u00f3 vivia para outros e era dirigida<br \/>\npor vontades e motiva\u00e7\u00f5es externas, que o queriam degradar moralmente<br \/>\ne desgastar fisicamente para usar seus membros homens como bestas de carga<br \/>\ne as mulheres como f\u00eameas animais. As diferen\u00e7as entre os dois<br \/>\nmodelos, n\u00e3o sendo degrada\u00e7\u00f5es nem enfermidades, n\u00e3o<br \/>\npodiam jamais ser reestruturadas ou curadas. De fato, era o Brasil que se<br \/>\nconstru\u00eda a si mesmo como corresponde \u00e0 sua base ecol\u00f3gica,<br \/>\no projeto colonial, a monocultura e o escravismo do que resulta uma sociedade<br \/>\ntotalmente nova.<\/p>\n<p>A empresa escravista, fundada na apropria\u00e7\u00e3o de seres humanos<br \/>\natrav\u00e9s da viol\u00eancia mais crua e da coer\u00e7\u00e3o permanente,<br \/>\nexercida atrav\u00e9s dos castigos mais atrozes, atua como uma m\u00f3<br \/>\ndesumanizadora e deculturadora de efic\u00e1cia incompar\u00e1vel. Submetido<br \/>\na essa compress\u00e3o, qualquer povo \u00e9 desapropriado de si, deixando<br \/>\nde ser ele pr\u00f3prio, primeiro, para ser ningu\u00e9m ao ver-se reduzido<br \/>\na uma condi\u00e7\u00e3o de bem semovente, como um animal de carga; depois,<br \/>\npara ser outro, quando transfigurado etnicamente na linha consentida pelo<br \/>\nsenhor, que \u00e9 a mais compat\u00edvel com a preserva\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos seus interesses.<\/p>\n<p>O espantoso \u00e9 que os \u00edndios como os pretos, postos nesse engenho<br \/>\ndeculturativo, consigam permanecer humanos. S\u00f3 o conseguem, por\u00e9m,<br \/>\nmediante um esfor\u00e7o inaudito de auto-reconstru\u00e7\u00e3o no<br \/>\nfluxo do seu processo de desfazimento. N\u00e3o t\u00eam outra sa\u00edda,<br \/>\nentretanto, uma vez que da condi\u00e7\u00e3o de escravo s\u00f3 se<br \/>\nsai pela porta da morte ou da fuga. Portas estreitas, pelas quais, entretanto,<br \/>\nmuitos \u00edndios e muitos negros sa\u00edram; seja pela fuga voluntarista<br \/>\ndo suic\u00eddio, que era muito freq\u00fcente, ou da fuga, mais freq\u00fcente<br \/>\nainda, que era t\u00e3o temer\u00e1ria porque quase sempre resultava mortal.<br \/>\nTodo negro alentava no peito uma ilus\u00e3o de fuga, era suficientemente<br \/>\naudaz para, tendo uma oportunidade, fugir, sendo por isso supervigiado durante<br \/>\nseus sete a dez anos de vida ativa no trabalho. Seu destino era morrer de<br \/>\nestafa, que era sua morte natural. Uma vez desgastado, podia at\u00e9 ser<br \/>\nalforriado por imprest\u00e1vel, para que o senhor n\u00e3o tivesse que<br \/>\nalimentar um negro in\u00fatil.<\/p>\n<p>Uma morte prematura numa tentativa de fuga era melhor, quem sabe, que a<br \/>\nvida do escravo trazido de t\u00e3o longe para cair no inferno da exist\u00eancia<br \/>\nmais penosa. Sentindo que \u00e9 violentado, sabendo que \u00e9 explorado,<br \/>\nele resiste como lhe \u00e9 poss\u00edvel. &#8220;Deixam de trabalhar bem<br \/>\nse n\u00e3o forem convenientemente espancados&#8221;, diz um observador alem\u00e3o,<br \/>\n&#8220;e se desprez\u00e1ssemos a primeira iniq\u00fcidade a que os sujeitou,<br \/>\nisto \u00e9, sua introdu\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o for\u00e7ada,<br \/>\ndev\u00edamos de considerar em grande parte os castigos que lhes imp\u00f5em<br \/>\nos seus senhores&#8221; (Davatz 1941:62-3 ). A\u00ed est\u00e1 a racionalidade<br \/>\ndo escravismo, t\u00e3o oposta \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana que<br \/>\numa vez institu\u00eddo s\u00f3 se mant\u00e9m atrav\u00e9s de uma<br \/>\nvigil\u00e2ncia perp\u00e9tua e da viol\u00eancia atroz da puni\u00e7\u00e3o<br \/>\npreventiva.<\/p>\n<p>Apresado aos quinze anos em sua terra, como se fosse uma ca\u00e7a apanhada<br \/>\nnuma armadilha, ele era arrastado pelo pombeiro &#8211; mercador africano de escravos<br \/>\n&#8211; para a praia, onde seria resgatado em troca de tabaco, aguardente e bugigangas.<br \/>\nDali partiam em comboios, pesco\u00e7o atado a pesco\u00e7o com outros<br \/>\nnegros, numa corda puxada at\u00e9 o porto e o tumbeiro. Metido no navio,<br \/>\nera deitado no meio de cem outros para ocupar, por meios e meio, o ex\u00edguo<br \/>\nespa\u00e7o do seu tamanho, mal comendo, mal cagando ali mesmo, no meio<br \/>\nda fedentina mais hedionda. Escapando vivo \u00e0 travessia, ca\u00eda<br \/>\nno outro mercado, no lado de c\u00e1, onde era examinado como um cavalo<br \/>\nmagro. Avaliado pelos dentes, pela grossura dos tornozelos e dos punhos, era<br \/>\narrematado. Outro comboio, agora de correntes, o levava \u00e0 terra adentro,<br \/>\nao senhor das minas ou dos a\u00e7\u00facares, para viver o destino que<br \/>\nlhe havia prescrito a civiliza\u00e7\u00e3o: trabalhar dezoito horas por<br \/>\ndia, todos os dias do ano. No domingo, podia cultivar uma rocinha, devorar<br \/>\nfaminto a parca e porca ra\u00e7\u00e3o de bicho com que restaurava sua<br \/>\ncapacidade de trabalhar no dia seguinte at\u00e9 a exaust\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem amor de ningu\u00e9m, sem familia, sem sexo que n\u00e3o fosse a<br \/>\nmasturba\u00e7\u00e3o, sem nenhuma identifica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel<br \/>\ncom ningu\u00e9m &#8211; seu capataz podia ser um negro, seus companheiros de<br \/>\ninfort\u00fanio, inimigos -, maltrapilho e sujo, feio e fedido, perebento<br \/>\ne enfermo, sem qualquer gozo ou orgulho do corpo, vivia a sua rotina. Esta<br \/>\nera sofrer todo o dia o castigo di\u00e1rio das chicotadas soltas, para<br \/>\ntrabalhar atento e tenso. Semanalmente vinha um castigo preventivo, pedag\u00f3gico,<br \/>\npara n\u00e3o pensar em fuga, e, quando chamava aten\u00e7\u00e3o, reca\u00eda<br \/>\nsobre ele um castigo exemplar, na forma de mutila\u00e7\u00f5es de dedos,<br \/>\ndo furo de seios, de queimaduras com ti\u00e7\u00e3o, de ter todos os<br \/>\ndentes quebrados criteriosamente, ou dos a\u00e7oites no pelourinho, sob<br \/>\ntrezentas chicotadas de uma vez, para matar, ou cinq\u00fcenta chicotadas<br \/>\ndi\u00e1rias, para sobreviver. Se fugia e era apanhado, podia ser marcado<br \/>\ncom ferro em brasa, tendo um tend\u00e3o cortado, viver peado com uma bola<br \/>\nde ferro, ser queimado vivo, em dias de agonia, na boca da fornalha ou, de<br \/>\numa vez s\u00f3, jogado nela para arder como um graveto oleoso.<\/p>\n<p>Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, atrav\u00e9s<br \/>\nde s\u00e9culos, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos n\u00f3s,<br \/>\nbrasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e \u00edndios supliciados.<br \/>\nTodos n\u00f3s brasileiros somos, por igual, a m\u00e3o possessa que os<br \/>\nsupliciou. A do\u00e7ura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram<br \/>\npara fazer de n\u00f3s a gente sentida e sofrida que somos e a gente insens\u00edvel<br \/>\ne brutal, que tamb\u00e9m somos. Descendentes de escravos e de senhores<br \/>\nde escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em<br \/>\nn\u00f3s, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer<br \/>\nmais, quanto pelo exerc\u00edcio da brutalidade sobre homens, sobre mulheres,<br \/>\nsobre crian\u00e7as convertidas em pasto de nossa f\u00faria.<\/p>\n<p>A mais terr\u00edvel de nossas heran\u00e7as \u00e9 esta de levar<br \/>\nsempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir<br \/>\nna brutalidade racista e classista. Ela \u00e9 que incandesce, ainda hoje,<br \/>\nem tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar<br \/>\nos pobres que lhes caem \u00e0s m\u00e3os. Ela, por\u00e9m, provocando<br \/>\ncrescente indigna\u00e7\u00e3o nos dar\u00e1 for\u00e7as, amanh\u00e3,<br \/>\npara conter os possessos e criar aqui uma sociedade solid\u00e1ria.<\/p>\n<h2>OS NEOBRASILEIROS<\/h2>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 auto-identifica\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e<br \/>\nnova que iam assumindo e, tamb\u00e9m, ao acesso a m\u00faltiplas inova\u00e7\u00f5es<br \/>\nsocioculturais e tecnol\u00f3gicas, as comunidades neobrasileiras nascentes<br \/>\nse capa citaram a dar dois passos evolutivos. Primeiro, o de abranger maior<br \/>\nn\u00famero de membros do que as aldeias ind\u00edgenas, liberando parcelas<br \/>\ncrescentes deles das tarefas de subsist\u00eancia para o exerc\u00edcio<br \/>\ndas fun\u00e7\u00f5es especializadas. Segundo, incorporar todos eles numa<br \/>\ns\u00f3 identidade \u00e9tnica, estruturada como um sistema socioecon\u00f4mico<br \/>\nintegrado na economia mundial.<\/p>\n<p>Apesar de terem um alto grau de auto-sufici\u00eancia, dependiam de certos<br \/>\nartigos importados, sobretudo de instrumentos de metal, sal, p\u00f3lvora<br \/>\ne outros mais, que n\u00e3o podiam produzir. J\u00e1 n\u00e3o viviam,<br \/>\nportanto, como ind\u00edgenas encerrados sobre si mesmos e voltados fundamentalmente<br \/>\nao provimento da subsist\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, mantinham v\u00ednculos<br \/>\nmercantis externos para prover-se dos referidos bens em troca do seu principal<br \/>\nartigo de exporta\u00e7\u00e3o, que fora, inicialmente, o pau-de-tinta,<br \/>\ndepois, o \u00edndio apresado como escravo e, afmal, a produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nde alguma mercadoria de exporta\u00e7\u00e3o. Produzir essa mercadoria<br \/>\npassou a ser sua raz\u00e3o de viver.<\/p>\n<p>Por longo tempo, contudo, a popula\u00e7\u00e3o b\u00e1sica desses<br \/>\nn\u00facleos coloniais neobrasileiros exibiria uma apar\u00eancia muito<br \/>\nmais ind\u00edgena que negra e europ\u00e9ia, pelo modo como moravam,<br \/>\npelo que comiam, por sua vis\u00e3o do mundo e pelo idioma que falavam.<br \/>\nTal indianidade era, sem d\u00favida, mais aparente que real, porque o apelo<br \/>\n\u00e0s formas ind\u00edgenas de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza,<br \/>\na sobreviv\u00eancia das antigas tradi\u00e7\u00f5es, o pr\u00f3prio<br \/>\nuso da l\u00edngua ind\u00edgena, estavam postos, agora, a servi\u00e7o<br \/>\nde uma entidade nova, muito mais capaz de crescer e expandir-se. Conforme<br \/>\nassinalamos, enquanto o aumento da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena<br \/>\ns\u00f3 conduzia \u00e0 parti\u00e7\u00e3o das tribos em microetnias<br \/>\ntendentes a diferenciar-se, independentizar-se e dispersar-se, as novas comunidades<br \/>\nconstitu\u00edam unidades operativas capazes de crescer conjugadamente na<br \/>\nforma de uma macroetnia.<\/p>\n<p>O idioma tupi foi a l\u00edngua materna de uso corrente desses neobrasileiros<br \/>\nat\u00e9 meados do s\u00e9culo XVIII. De fato, o tupi, inicialmente, se<br \/>\nexpandiu mais que o portugu\u00eas como a l\u00edngua da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\n(sobre a forma\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o da l\u00edngua geral<br \/>\nver Cortes\u00e3o 1958 e Holanda 1945 ). Com efeito, a l\u00edngua geral,<br \/>\no nheengatu, que surge no s\u00e9culo XVI do esfor\u00e7o de falar o tupi<br \/>\ncom boca de portugu\u00eas, se difunde rapidamente como a fala principal<br \/>\ntanto dos n\u00facleos neobrasileiros como dos n\u00facleos mission\u00e1rios.<\/p>\n<p>Cumpre, primeiro, a fun\u00e7\u00e3o de l\u00edngua de comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos europeus com os Tupinamb\u00e1 de toda a costa brasileira, logo ap\u00f3s<br \/>\no descobrimento. Depois, a de l\u00edngua e dispersar-se, as novas comunidades<br \/>\nconstitu\u00edam unidades operativas capazes de crescer conjugadamente na<br \/>\nforma de uma macroetnia.<\/p>\n<p>O idioma tupi foi a l\u00edngua materna de uso corrente desses neobrasileiros<br \/>\nat\u00e9 meados do s\u00e9culo XVIII. De fato, o tupi, inicialmente, se<br \/>\nexpandiu mais que o portugu\u00eas como a l\u00edngua da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\n(sobre a forma\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o da l\u00edngua geral<br \/>\nver Cortes\u00e3o 1958 e Holanda 1945 ). Com efeito, a l\u00edngua geral,<br \/>\no nheengatu, que surge no s\u00e9culo XVI do esfor\u00e7o de falar o tupi<br \/>\ncom boca de portugu\u00eas, se difunde rapidamente como a fala principal<br \/>\ntanto dos n\u00facleos neobrasileiros como dos n\u00facleos mission\u00e1rios.<\/p>\n<p>Cumpre, primeiro, a fun\u00e7\u00e3o de l\u00edngua de comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos europeus com os Tupinamb\u00e1 de toda a costa brasileira, logo ap\u00f3s<br \/>\no descobrimento. Depois, a de l\u00edngua materna dos mamelucos da Bahia,<br \/>\nPernambuco, Maranh\u00e3o e S\u00e3o Paulo. Mais tarde, se ex-pande juntamente<br \/>\ncom a popula\u00e7\u00e3o, como l\u00edngua corrente tanto das redu\u00e7\u00f5es<br \/>\ne vilas que os mission\u00e1rios e os colonos fundaram no vale amaz\u00f4nico,<br \/>\ncomo dos n\u00facleos ga\u00fachos que se fixaram no extremo sul, frente<br \/>\naos povoadores espanh\u00f3is. \u00c9 de notar que, sendo a l\u00edngua<br \/>\ngeral uma variante muito pouco diferenciada do guarani falado naqueles s\u00e9culos,<br \/>\ntanto em territ\u00f3rio paraguaio onde se converte em l\u00edngua materna<br \/>\ncomo no que viria a ser a Argentina e o Uruguai de hoje, estamos, como se<br \/>\nv\u00ea,, frente a uma enorme \u00e1rea ling\u00fc\u00edstica tupi-guarani.<br \/>\nSeguramente, a mais ampla das \u00e1reas ling\u00fc\u00edsticas americanas.<\/p>\n<p>Assim era j\u00e1 antes da chegada do europeu, uma vez que tribos do tronco<br \/>\ntupi ocupavam quase todo o litoral atl\u00e2ntico do Brasil atual e subiam,<br \/>\nterra adentro, pelo sistema fluvial do Prata, ocupando vastas regi\u00f5es<br \/>\ndo vale do Amazonas. Esta \u00e1rea ling\u00fc\u00edstica corresponde,<br \/>\ngrosso modo, aos territ\u00f3rios atuais do Brasil, do Paraguai e do Uruguai.<br \/>\nEssa \u00e9 a que os neobrasileiros fizeram sua, falando tupi para se comunicar<br \/>\ncom as tribos que ali viviam e a que eles sucederiam ecologicamente no mesmo<br \/>\nespa\u00e7o.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o da l\u00edngua geral pela portuguesa como<br \/>\nl\u00edngua materna dos brasileiros s\u00f3 se completaria no curso do<br \/>\ns\u00e9culo XVIII. Mas desde antes vinha se efetuando, de maneira mais r\u00e1pida<br \/>\ne radical onde a economia era mais din\u00e2mica e, em conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\nera maior a concentra\u00e7\u00e3o de escravos negros e de povoadores<br \/>\nportugueses; e, mais lentamente, nas \u00e1reas economicamente marginais,<br \/>\ncomo a Amaz\u00f4nia e o extremo sul.<\/p>\n<p>No rio Negro, at\u00e9 o s\u00e9culo xx, se falava a l\u00edngua geral,<br \/>\napesar de que os Tupi jamais tivessem chegado ao norte do Amazonas. Introduzido<br \/>\ncomo l\u00edngua civilizadora pelos jesu\u00edtas, o nheengatu permaneceu,<br \/>\ndepois da expuls\u00e3o deles, como a fala comum da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrasileira local e subsistiu como l\u00edngua predominante at\u00e9 1940<br \/>\n(Censo Nacional 1940 ).<\/p>\n<p>No Sul, a presen\u00e7a de uma vasta \u00e1rea guaran\u00edtica na<br \/>\nbacia do Prata se comprova, de um lado, pela topon\u00edmia predominantemente<br \/>\nguarani das zonas de antiga ocupa\u00e7\u00e3o do Uruguai e da Argentina,<br \/>\ne, de outro lado, pela presen\u00e7a atual do guarani como a l\u00edngua<br \/>\nvern\u00e1cula do Paraguai.<\/p>\n<p>O mesmo processo de sucess\u00e3o ocorre com a tecnologia produtiva. Inicialmente<br \/>\nquase s\u00f3 ind\u00edgena, ela vai sendo substitu\u00edda, com o passar<br \/>\ndos s\u00e9culos, por t\u00e9cnicas europ\u00e9ias, tanto mais rapidamente<br \/>\nquanto mais completamente se integra cada zona na economia mercantil e se<br \/>\nmoderniza. Ainda assim, ao longo dos s\u00e9culos, a tecnologia do Brasil<br \/>\nr\u00fastico foi e continua sendo basicamente ind\u00edgena, no que diz<br \/>\nrespeito \u00e0 subsist\u00eancia &#8211; baseada no cultivo e no preparo da<br \/>\nmandioca, do milho, da ab\u00f3bora e das batatas, e de muitas outras plantas<br \/>\n&#8211; bem como \u00e0s t\u00e9cnicas ind\u00edgenas de ca\u00e7a e de<br \/>\npesca.<\/p>\n<p>Essa base tecnol\u00f3gica ind\u00edgena, desde o primeiro momento,<br \/>\nvem sendo enriquecida por contribui\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias que,<br \/>\npouco a pouco, aumentaram a sua produtividade.<\/p>\n<p>Tal era o caso dos instrumentos de ferro &#8211; machados, facas, fac\u00f5es,<br \/>\nfoices, enxadas, anz\u00f3is -; das armas de fogo para a ca\u00e7a e para<br \/>\na guerra; de aparelhos mec\u00e2nicos, como a prensa, que \u00e0s vezes<br \/>\nsubstituiu o tipiti ind\u00edgena tran\u00e7ado de palha; do monjolo,<br \/>\ngrande morteiro de \u00e1gua com que se pila o milho; das moendas de espremer<br \/>\ncana; da roda hidr\u00e1ulica, do carro de boi, da roda do oleiro, do tear<br \/>\ncomposto, do descaro\u00e7ador de algod\u00e3o e, ainda, dos tachos e<br \/>\npanelas de metal, que substitu\u00edam o torrador de cer\u00e2mica para<br \/>\no tratamento da farinha de mandioca; e, por fim, dos animais do m\u00e9sticos<br \/>\n&#8211; galinhas, porcos, bois, cavalos -, utilizados para a alimenta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nca\u00e7a, transporte e tra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As casas dos novos n\u00facleos se reduzem enormemente de dimens\u00e3o<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o \u00e0s malocas ind\u00edgenas porque, em lugar<br \/>\nde acolherem fam\u00edlias extensas, abrigando centenas de pessoas, agora<br \/>\nacolhem fam\u00edlias menores ou a escravaria. Melhora, por\u00e9m, a<br \/>\nt\u00e9cnica de edifica\u00e7\u00e3o com o emprego da taipa e do adobe<br \/>\ncru na constru\u00e7\u00e3o das casas mais humildes, e de tijolos, pedras,<br \/>\ncal e telhas para as senhoriais.<\/p>\n<p>Simultaneamente, as resid\u00eancias da gente mais rica se engalanam com<br \/>\num mobili\u00e1rio mais elaborado, deslocando as redes de dormir para dar<br \/>\nlugar a catres; as cestas tran\u00e7adas, substitu\u00eddas por canastras<br \/>\nde couro ou arcas de madeira; a que, mais tarde, se somariam mesas, bancos,<br \/>\narm\u00e1rios e orat\u00f3rios. A tudo isso se acrescentam, logo, as t\u00e9cnicas<br \/>\nde preparo e de uso do sal e do sab\u00e3o, da aguardente, das l\u00e2mpadas<br \/>\nde azeite, dos couros curtidos, de novos rem\u00e9dios, de sand\u00e1lias<br \/>\ne de chap\u00e9us.<\/p>\n<p>Os principais elementos aglutinadores dos novos n\u00facleos s\u00e3o<br \/>\num comando administrativo e pol\u00edtico, representado localmente pelas<br \/>\nautoridades seculares e eclesi\u00e1sticas, e uma ger\u00eancia socioecon\u00f4mica<br \/>\na cargo do empresariado de produtores e comerciantes. A unidade de comando<br \/>\ndessa estrutura do poder permitiu \u00e0s comunidades nascentes crescerem<br \/>\ne se diferenciarem, cada vez mais, num componente rural e outro urbano. O<br \/>\nprimeiro assentado principalmente nas fazendas, sob o mando de seus propriet\u00e1rios,<br \/>\nmas trabalhadas por escravos negros ocupados na produ\u00e7\u00e3o mercantil<br \/>\ne por gente nascida na terra; estes \u00faltimos devotados a fun\u00e7\u00f5es<br \/>\nadministrativas e de defesa e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<br \/>\nO segundo era constitu\u00eddo pela parcela urbanizada da popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nregida por capit\u00e3es e prelados e ativado por trabalhadores bra\u00e7ais,<br \/>\nartes\u00e3os, comerciantes, funcion\u00e1rios e sacerdotes. Sua fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nera administrar o empreendimento colonial, conform\u00e1-lo como possess\u00e3o<br \/>\nportuguesa, plasm\u00e1-lo dentro dos c\u00e2nones da cultura lusitana<br \/>\ne totalmente fiel \u00e0 Igreja cat\u00f3lica apost\u00f3lica e romana.<\/p>\n<p>No conjunto dessa popula\u00e7\u00e3o colonial, destaca-se prontamente<br \/>\numa camada superior, desligada das tarefas produtivas, formada por tr\u00eas<br \/>\nsetores letrados, participantes de certos conte\u00fados eruditos da cultura<br \/>\nlusitana. Tais eram: uma burocracia colonial comandada por Lisboa, que exercia<br \/>\nas fun\u00e7\u00f5es de governo civil e militar; outra religiosa, que<br \/>\ncumpria o papel de aparato de indoutrina\u00e7\u00e3o e catequese dos<br \/>\n\u00edndios e de controle ideol\u00f3gico da popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsob a reg\u00eancia de Roma; e, finalmente, uma terceira, que viabilizava<br \/>\na economia de exporta\u00e7\u00e3o, representada por agentes de casas<br \/>\nfinanceiras e de armadores, atenta aos interesses e \u00e0s ordens dos portos<br \/>\neuropeus importadores de artigos tropicais. Esses tr\u00eas setores, mais<br \/>\nseus corpos de pessoal auxiliar, instalados nos portos, constitu\u00edram<br \/>\no comando da estrutura global. Compunha um componente urbano de montante t\u00e3o<br \/>\nponder\u00e1vel quanto o das sociedades europ\u00e9ias da \u00e9poca;<br \/>\nformadas, elas tamb\u00e9m, por popula\u00e7\u00f5es majoritariamente<br \/>\nrurais. Era, de fato, uma subestrutura da rede metropolitana europ\u00e9ia,<br \/>\nmenos independente que seus demais componentes, porque estava intermediada<br \/>\npor Lisboa.<\/p>\n<h2>OS BRASILEIROS<\/h2>\n<p>O processo de forma\u00e7\u00e3o dos povos americanos tem especificidades<br \/>\nque desafiam a explica\u00e7\u00e3o. Por que alguns deles, at\u00e9<br \/>\nmais pobres na etapa colonial, progrediram aceleradamente, integrando-se de<br \/>\nforma din\u00e2mica e eficaz na revolu\u00e7\u00e3o industrial, enquanto<br \/>\noutros se atrasaram e ainda se esfor\u00e7am por modernizar-se? Evidentemente,<br \/>\nos povos transplantados, cuja identidade \u00e9tnica j\u00e1 veio perfeitamente<br \/>\ndefinida da Europa, encontram em sua pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o<br \/>\nfacilidades de incorporar-se a uma nova civiliza\u00e7\u00e3o surgida<br \/>\nno seio de suas matrizes. Outro \u00e9 o caso de povos que estavam se fazendo<br \/>\ncomo uma configura\u00e7\u00e3o totalmente diferente de suas matrizes,<br \/>\nque enfrentava a tarefa de difundir os povos que reuniu, t\u00e3o diversos<br \/>\nuns dos outros.<\/p>\n<p>\u00c9 tarefa sua, inclusive, definir sua identidade \u00e9tnica, a<br \/>\nqual n\u00e3o pode ser a de meros europeus de ultramar.<\/p>\n<p>Outra arg\u00fci\u00e7\u00e3o posta pela hist\u00f3ria \u00e9 sobre<br \/>\na causa da uniformidade ling\u00fc\u00edstica dos povos americanos. Tanto<br \/>\nno norte como no sul, as l\u00ednguas que se falam em imensos territ\u00f3rios,<br \/>\npor milh\u00f5es de pessoas, s\u00e3o as mesmas &#8211; o ingl\u00eas, o espanhol,<br \/>\no portugu\u00eas -, que nem apresentam dialetos. Como nada disso ocorreu<br \/>\nem nenhum outro lugar da terra, cumpre indagar como se deu aqui.<\/p>\n<p>O nome Brazil geralmente identificado com o pau-de-tinta \u00e9 na verdade<br \/>\nmuito mais antigo. Velhas cartas e lendas do mar oceano traziam registros<br \/>\nde uma ilha Brasil referida provavelmente por pescadores ib\u00e9ricos que<br \/>\nandavam \u00e0 cata de bacalhau (cf.<\/p>\n<p>Gandia 1929 ). Mas ele foi quase imediatamente referido \u00e0 nova terra,<br \/>\nainda que o governo portugu\u00eas quisesse lhe dar no mes pios, que n\u00e3o<br \/>\npegaram. Os mapas mais antigos da costa j\u00e1 a registram como &#8220;brasileira&#8221;<br \/>\ne os filhos da terra foram, tamb\u00e9m, desde logo chamados &#8220;brasileiros&#8221;.<br \/>\nEntretanto, o uso do nome &#8212; P\u00e1gina 127 como gent\u00edlico, que<br \/>\num povo atribua a si mesmo, s\u00f3 surgiria muito depois.<\/p>\n<p>O gent\u00edlico se implanta quando se torna necess\u00e1rio denominar<br \/>\ndiferencialmente os primeiros n\u00facleos neobrasileiros, formados sobretudo<br \/>\nde brasil\u00edndios e afro- brasileiros, quando come\u00e7ou a plasmar-se<br \/>\na configura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural nova, que envolveu<br \/>\nseus componentes em um mundo n\u00e3o apenas diferente, mas oposto ao do<br \/>\n\u00edndio, ao do portugu\u00eas e ao do negro.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia plena dessa oposi\u00e7\u00e3o s\u00f3 seria alcan\u00e7ada<br \/>\nmuito mais tarde, mas a percep\u00e7\u00e3o dos antagonismos e diferen\u00e7as<br \/>\nse d\u00e1 desde as primeiras d\u00e9cadas. Revela-se na preven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo nativo com rela\u00e7\u00e3o ao metropolitano e, como contrapartida,<br \/>\nno desprezo deste pela gente da terra. Evidencia-se na perplexidade do mission\u00e1rio<br \/>\nque, em vez de fam\u00edlias compostas de acordo com o padr\u00e3o europeu,<br \/>\ndepara no Brasil com verdadeiros criat\u00f3rios de mesti\u00e7os, gerados<br \/>\npelo pai branco em suas m\u00faltiplas mulheres \u00edndias. Denota-se,<br \/>\nna inquieta\u00e7\u00e3o do funcion\u00e1rio real que, dois s\u00e9culos<br \/>\nap\u00f3s a descoberta do Brasil, se pergunta se um dia chegar\u00e1 aquela<br \/>\nmultid\u00e3o mesti\u00e7a, se entendendo em tupi-guarani, a falar portugu\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 bem prov\u00e1vel que o brasileiro comece a surgir e a reconhecer-se<br \/>\na si pr\u00f3prio mais pela percep\u00e7\u00e3o de estranheza que provocava<br \/>\nno lusitano, do que por sua identifica\u00e7\u00e3o como membro das comunidades<br \/>\nsocioculturais novas, porventura tamb\u00e9m porque desejoso de remarcar<br \/>\nsua diferen\u00e7a e superioridade frente aos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Naquela busca de sua pr\u00f3pria identidade, talvez at\u00e9 se desgostasse<br \/>\nda id\u00e9ia de n\u00e3o ser europeu, por considerar, ele tamb\u00e9m,<br \/>\ncomo subalterno tudo que era nativo ou negro. Mesmo o filho de pais brancos<br \/>\nnascido no Brasil, mazombo, ocupando em sua pr\u00f3pria sociedade uma posi\u00e7\u00e3o<br \/>\ninferior com respeito aos que vinham da metr\u00f3pole, se vexava muito<br \/>\nda sua condi\u00e7\u00e3o de filho da terra, recusando o tratamento de<br \/>\nnativo e discriminando o brasil\u00edndio mameluco ao consider\u00e1-lo<br \/>\ncomo \u00edndio.<\/p>\n<p>O primeiro brasileiro consciente de si foi, talvez, o mameluco, esse brasil\u00edndio<br \/>\nmesti\u00e7o na carne e no esp\u00edrito, que n\u00e3o podendo identificar-se<br \/>\ncom os que foram seus ancestrais americanos &#8211; que ele desprezava -, nem com<br \/>\nos europeus &#8211; que o desprezavam -, e sendo objeto de mofa dos rein\u00f3is<br \/>\ne dos luso-nativos, via-se condenado \u00e0 pretens\u00e3o de ser o que<br \/>\nn\u00e3o era nem existia: o brasileiro.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s dessas oposi\u00e7\u00f5es e de um persistente esfor\u00e7o<br \/>\nde elabora\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria imagem e consci\u00eancia<br \/>\ncomo correspondentes a uma entidade \u00e9tnico-cultural nova, \u00e9<br \/>\nque surge, pouco a pouco, e ganha corpo a brasilianidade.<\/p>\n<p>\u00c9 bem poss\u00edvel que ela s\u00f3 se tenha fixado quando a<br \/>\nsociedade local se enriqueceu, com contribui\u00e7\u00f5es maci\u00e7as<br \/>\nde descendentes dos contingentes africanos, j\u00e1 totalmente desafricanizados<br \/>\npela m\u00f3 aculturativa da escravid\u00e3o. Esses mulatos ou eram brasileiros<br \/>\nou n\u00e3o eram nada, j\u00e1 que a identifica\u00e7\u00e3o com o<br \/>\n\u00edndio, com o africano ou com o brasil\u00edndio era imposs\u00edvel.<br \/>\nAl\u00e9m de ajudar a propagar o portugu\u00eas como l\u00edngua corrente,<br \/>\nesses mulatos, somados aos mamelucos, formaram logo a maioria da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nque passaria, mesmo contra sua vontade, a ser vista e tida como a gente rasileira.<br \/>\nAinda que a especializa\u00e7\u00e3o produtiva ecol\u00f3gico-regional<br \/>\n&#8211; a\u00e7\u00facar, gado, ouro, borracha etc. &#8211; conduzisse a diferencia\u00e7\u00f5es<br \/>\nlocais remarcadas, aquela comunidade b\u00e1sica originalmente luso-tupi<br \/>\nse mant\u00e9m, sempre dando uma linha de continuidade, que tanto destaca<br \/>\nsua especificidade \u00e9tnica como op\u00f5e as matrizes das quais surgiu<br \/>\ne que matou ao constituir-se.<\/p>\n<p>Aquela protoc\u00e9lula cultural, plasmada nas primeiras d\u00e9cadas,<br \/>\nquando o elemento africano ainda estava ausente ou era raro, operou, da\u00ed<br \/>\nem diante, como o denominador comum do modo de vida popular dos futuros brasileiros<br \/>\nde todas as regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Seu patrim\u00f4nio b\u00e1sico estava constitu\u00eddo pelas t\u00e9cnicas<br \/>\nmilenares de adapta\u00e7\u00e3o dos povos Tupi \u00e0 floresta tropical,<br \/>\nque se integraram na heran\u00e7a cultural do mameluco.<\/p>\n<p>De fato, os novos n\u00facleos puderam brotar e crescer em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nt\u00e3o invi\u00e1veis, e em meio t\u00e3o diverso do europeu, porque<br \/>\naprenderam com o \u00edndio a identificar, a denominar e a classificar e<br \/>\nusar toda a natureza tropical, distinguindo as plantas \u00fateis das venenosas,<br \/>\nbem como as apropriadas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e as que serviam<br \/>\na outros fins. Aprenderam, igualmente, com eles, t\u00e9cnicas eficazmente<br \/>\najustadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es locais e \u00e0s diferentes<br \/>\nesta\u00e7\u00f5es do ano, relativas ao cultivo e prepara\u00e7\u00e3o<br \/>\nde variados produtos de suas lavouras, \u00e0 ca\u00e7a na mata e \u00e0<br \/>\npesca no mar, nas lagoas e nos rios. Com os \u00edndios aprenderam, ainda,<br \/>\na fabricar utens\u00edlios de cer\u00e2mica, a tran\u00e7ar esteiras<br \/>\ne cestos para compor a tralha dom\u00e9stica e de servi\u00e7o, a tecer<br \/>\nredes de dormir e tip\u00f3ias para carregar crian\u00e7as. Foi, com os<br \/>\n\u00edndios, tamb\u00e9m, que aprenderam a construir as casas mais simples,<br \/>\najustadas ao clima, como os mocambos, com os materiais da terra, nas quais<br \/>\nviveria a gente comum; a fabricar canoas com casca de \u00e1rvore ou cavadas<br \/>\na fogo em um s\u00f3 tronco. Sobre essa base \u00e9 que se acumulariam,<br \/>\ndepois, as heran\u00e7as tecnol\u00f3gicas europ\u00e9ias que, modernizando<br \/>\na sociedade brasileira nascente, permitiriam melhor integr\u00e1-la com<br \/>\nos povos de seu tempo.<\/p>\n<p>Enfim, a atuar produtivamente sobre uma natureza diversa da europ\u00e9ia<br \/>\ne da africana, em condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas tamb\u00e9m<br \/>\ndistintas, preenchendo os requisitos necess\u00e1rios \u00e0<\/p>\n<p>sobreviv\u00eancia nos tr\u00f3picos. Essa heran\u00e7a t\u00e9cnico-cultural<br \/>\nem que se assentava a adapta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica dos brasileiros<br \/>\nera essencialmente a mesma de todas as tribos agr\u00edcolas da floresta<br \/>\ntropical. Tinha, por\u00e9m, muitas peculiaridades que a faziam reconhec\u00edvel<br \/>\ncomo de origem tupi. Para tanto aqui se somam \u00e0 l\u00edngua falada<br \/>\npelos neobrasileiros, o nheengatu, que era uma variante do tronco tupi; a<br \/>\nf\u00f3rmula ecol\u00f3gica espec\u00edfica de sobreviv\u00eancia nos<br \/>\ntr\u00f3picos, com<\/p>\n<p>base na agricultura deles, que era tamb\u00e9m tupi; e a pr\u00f3pria<br \/>\nconstitui\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica dos n\u00facleos mamelucos gerados<br \/>\npor pais europeus principalmente nas \u00edndias da costa, que eram predominantemente<br \/>\ntupi; para, tudo somado, dar aos brasileiros originais uma flagrante fisionomia<br \/>\ntupi.<\/p>\n<p>Com efeito, enquanto neotupis \u00e9 que os n\u00facleos mamelucos brasileiros<br \/>\nopunham-se \u00e0s outras matrizes ind\u00edgenas &#8211; tratando-as genericamente<br \/>\ncomo tapuias -, desprezando-as etnocentricamente como gente inferior, porque<br \/>\nn\u00e3o falavam a mesma l\u00edngua, n\u00e3o comiam farinha de mandioca,<br \/>\nnem se comportavam como era cab\u00edvel a verdadeiros homens. Mesmo a etnologia<br \/>\nbrasileira, s\u00f3 no presente s\u00e9culo tornou-se capaz de distinguir<br \/>\na multiplicidade de povos, confundida sob aquela designa\u00e7\u00e3o<br \/>\ngen\u00e9rica, e de apreciar suas verdadeiras caracter\u00edsticas culturais.<br \/>\nAs pesquisas de Curt Nimuendaju demonstraram o car\u00e1ter especializado<br \/>\ne relativamente avan\u00e7ado das culturas J\u00ea.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Brasil \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o derradeira e<br \/>\npenosa dessas gentes tupis, chegadas \u00e0 costa atl\u00e2ntica um ou<br \/>\ndois s\u00e9culos antes dos portugueses, e que, desfeitas e transfiguradas,<br \/>\nvieram dar no que somos: uns latinos tardios de al\u00e9m-mar, amorenados<br \/>\nna fus\u00e3o com brancos e com pretos, deculturados das tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde suas matrizes ancestrais, mas carregando sobreviv\u00eancias delas que<br \/>\najudam a nos contrastar tanto com os lusitanos.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, estava constitu\u00edda j\u00e1 uma f\u00f3rmula<br \/>\nextraordinariamente feliz de adapta\u00e7\u00e3o do homem ao tr\u00f3pico<br \/>\ncomo uma civiliza\u00e7\u00e3o vinculada ao mundo portugu\u00eas mas<br \/>\nprofundamente diferenciada dele. Sobre essa massa de neobrasileiros feitos<br \/>\npela transfigura\u00e7\u00e3o de suas matrizes \u00e9 que pesaria a<br \/>\ntarefa de fazer Brasil.<\/p>\n<p>A assun\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria identidade pelos brasileiros,<br \/>\ncomo de resto por qualquer outro povo, \u00e9 um processo diversificado,<br \/>\nlongo e dram\u00e1tico. Nenhum \u00edndio criado na aldeia, creio eu,<br \/>\njamais virou um brasileiro, t\u00e3o irredut\u00edvel \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica J\u00e1 o filho da \u00edndia, gerado por um estranho, branco<br \/>\nou preto, se perguntaria quem era, se j\u00e1 n\u00e3o era \u00edndio,<br \/>\nnem tampouco branco ou preto. Seria ele o protobrasileiro, constru\u00eddo<br \/>\ncomo um negativo feito de sua aus\u00eancia de etnicidade? Buscando uma identidade<br \/>\ngrupal reconhec\u00edvel para deixar de ser ningu\u00e9m, ele se viu for\u00e7ado<br \/>\na gerar sua pr\u00f3pria identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O negro escravo, enculturado numa comunidade africana, permanece, ele mesmo,<br \/>\nna sua identidade original at\u00e9 a morte. Posto no Brasil, esteve sempre<br \/>\nem busca de algum irm\u00e3o da comunidade long\u00ednqua com quem confraternizar.<br \/>\nN\u00e3o um companheiro, escravo ou escrava, como ele pr\u00f3prio, mas<br \/>\nalgu\u00e9m vindo de sua gente africana, diferente de todos os que via aqui,<br \/>\nainda que eles fossem negros escravos.<\/p>\n<p>Sobrevivendo a todas as prova\u00e7\u00f5es, no tr\u00e2nsito de negro<br \/>\nbo\u00e7al a negro ladino, ao aprender a l\u00edngua nova, os novos of\u00edcios<br \/>\ne novos h\u00e1bitos, aquele negro se refazia profundamente. N\u00e3o<br \/>\nchegava, por\u00e9m, a ser algu\u00e9m, porque n\u00e3o reduzia jamais<br \/>\nseu pr\u00f3prio ser \u00e0 simples qualidade comum de negro na ra\u00e7a<br \/>\ne de escravizado. Seu filho, crioulo, nascido na terra nova, racialmente puro<br \/>\nou mesti\u00e7ado, este sim, sabendo-se n\u00e3o-africano como os negros<br \/>\nbo\u00e7ais que via chegando, nem branco, nem \u00edndio e seus mesti\u00e7os,<br \/>\nse sentia desafiado a sair da ninguendade, construindo sua identidade. Seria,<br \/>\nassim, ele tamb\u00e9m, um protobrasileiro por car\u00eancia.<\/p>\n<p>O brasil\u00edndio como o afro-brasileiro existiam numa terra de ningu\u00e9m,<br \/>\netnicamente falando, e \u00e9 a partir dessa car\u00eancia essencial, para<br \/>\nlivrar-se da ninguendade de n\u00e3o- \u00edndios, n\u00e3o-europeus<br \/>\ne n\u00e3o-negros, que eles se v\u00eaem for\u00e7ados a criar a sua<br \/>\npr\u00f3pria identidade \u00e9tnica: a brasileira.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas, por mais que se identificasse com a terra nova, gostava<br \/>\nde se ter como parte da gente metropolitana, era um reinol e esta era sua<br \/>\n\u00fanica superioridade ineg\u00e1vel. Seu filho, tamb\u00e9m, certamente,<br \/>\npreferiria ser portugu\u00eas. Ter\u00e1 sido assim, at\u00e9 que aqueles<br \/>\nmamelucos e \u00edndios e aqueles negros mesti\u00e7ados ganhassem entidade,<br \/>\ncomo identifica\u00e7\u00e3o coletiva para que o mazombo deixasse de permanecer<br \/>\nlusitano.<\/p>\n<p>Temos aqui duas inst\u00e2ncias. A do ser formado dentro de uma etnia,<br \/>\nsempre irredut\u00edvel por sua pr\u00f3pria natureza, que amarga o destino<br \/>\ndo exilado, do desterrado, for\u00e7ado a sobreviver no que sabia ser uma<br \/>\ncomunidade de estranhos, estrangeiro ele a ela, sozinho ele mesmo. A outra,<br \/>\ndo ser igualmente desgarrado, como cria da terra, que n\u00e3o cabia, por\u00e9m,<br \/>\nnas entidades \u00e9tnicas aqui constitu\u00eddas, repelido por elas como<br \/>\num estranho, vivendo \u00e0 procura de sua identidade. O que se abre para<br \/>\nele \u00e9 o espa\u00e7o da ambig\u00fcidade. Sabendo-se outro, tem dentro<br \/>\nde sua consci\u00eancia de se fazer de novo, acercando-se dos seus similares<br \/>\noutros, compor com eles um n\u00f3s coletivo vi\u00e1vel. Muito esfor\u00e7o<br \/>\ncustaria definir essa entidade nova como humana, se poss\u00edvel melhor<br \/>\nque todas as outras. S\u00f3 por esse tortuoso caminho deixariam de ser<br \/>\npessoas isoladas como ningu\u00e9ns aos olhos de todos.<\/p>\n<p>Trata-se, em ess\u00eancia, de construir uma representa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncoparticipada como uma nova entidade \u00e9tnica com suficiente consist\u00eancia<br \/>\ncultural e social para torn\u00e1-la vi\u00e1vel para seus membros e reconhec\u00edvel<br \/>\npor estranhos pela singularidade dialetal de sua fala e por outras singularidades.<br \/>\nPrecisava, por igual, ser tamb\u00e9m suficientemente coesa no plano emocional<br \/>\npara suportar a animosidade inevit\u00e1vel de todos os mais dela exclu\u00eddos<br \/>\ne para integrar seus membros numa entidade unit\u00e1ria, apesar da diversidade<br \/>\ninterna dos seus membros ser freq\u00fcentemente maior que suas diferen\u00e7as<br \/>\ncom respeito a outras etnias.<\/p>\n<p>Quando \u00e9 que, no Brasil, se pode falar de uma etnia nova, operativa?<br \/>\nQuando \u00e9 que surgem brasileiros, conscientes de si, sen\u00e3o orgulhosos<br \/>\nde seu pr\u00f3prio ser, ao menos resignados com ele? Isso se d\u00e1<br \/>\nquando milh\u00f5es de pessoas passam a se ver n\u00e3o como oriundas<br \/>\ndos \u00edndios de certa tribo, nem africanos tribais ou gen\u00e9ricos,<br \/>\nporque daquilo haviam sa\u00eddo, e muito menos como portugueses metropolitanos<br \/>\nou crioulos, e a se sentir soltas e desafiadas a construir- se, a partir das<br \/>\nrejei\u00e7\u00f5es que sofriam, com nova identidade \u00e9tnico-nacional,<br \/>\na de brasileiros.<\/p>\n<p>O fato, por\u00e9m, \u00e9 que uma representa\u00e7\u00e3o coletiva<br \/>\ndessa identifica\u00e7\u00e3o tem de existir fora dos indiv\u00edduos,<br \/>\npara que eles com ela se identifiquem e a assumam t\u00e3o plausivelmente,<br \/>\nque os mais os aceitem numa mesma qualidade co-participada. Numa primeira<br \/>\ninst\u00e2ncia, essa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 o reconhecimento de peculiaridades<br \/>\npr\u00f3prias que tanto diferencia e o op\u00f5e aos que a n\u00e3o<br \/>\npossuem, como o assemelha e associa aos que portam igual peculiaridade. Quando<br \/>\nse diz: nossos negros, a refer\u00eancia \u00e9 a cor da pele; quando se<br \/>\nfala de mesti\u00e7os, aponta-se secundariamente para isso. Mas o relevante<br \/>\n\u00e9 que uns e outros s\u00e3o brasileiros, qualidade geral que transcende<br \/>\nsuas peculiaridades.<\/p>\n<p>O surgimento de uma etnia brasileira, inclusiva, que possa envolver e acolher<br \/>\na gente variada que aqui se juntou, passa tanto pela anula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas identifica\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas de \u00edndios, africanos<br \/>\ne europeus, como pela indiferencia\u00e7\u00e3o entre as v\u00e1rias<br \/>\nformas de mesti\u00e7agem, como os mulatos (negros com brancos), caboclos<br \/>\n(brancos com \u00edndios), ou curibocas (negros com \u00edndios).<\/p>\n<p>S\u00f3 por esse caminho, todos eles chegam a ser uma gente s\u00f3,<br \/>\nque se reconhece como igual em alguma coisa t\u00e3o substancial que anula<br \/>\nsuas diferen\u00e7as e os op\u00f5e a todas as outras gentes. Dentro do<br \/>\nnovo agrupamento, cada membro, como pessoa, permanece inconfund\u00edvel,<br \/>\nmas passa a incluir sua perten\u00e7a a certa identidade coletiva.<\/p>\n<h2>O SER E A CONSCI\u00caNCIA<\/h2>\n<p>Lamentavelmente, o processo de constru\u00e7\u00e3o da etnia n\u00e3o<br \/>\ndeixa marcas reconhec\u00edveis sen\u00e3o nos registros de um grupo t\u00e3o<br \/>\nex\u00f3tico e amb\u00edguo como os letrados. Esses, por duas raz\u00f5es,<br \/>\nal\u00e9m de poucos e raros, s\u00e3o fanaticamente identificados seja<br \/>\ncom a etnia do colonizador portugu\u00eas, seja com sua variante luso-jesu\u00edtica.<\/p>\n<p>Preciosos, nesse sentido, s\u00e3o os coment\u00e1rios j\u00e1 referidos<br \/>\nde N\u00f3brega e Anchieta sobre Jo\u00e3o Ramalho. Mais expressivos ainda<br \/>\ns\u00e3o os textos de Greg\u00f3rio de Matos ( 1633-96 ), um dos primeiros<br \/>\nintelectuais brasileiros, que se p\u00f4s, na Bahia, a zombar gostosamente<br \/>\nde toda a gente daquela cidade nova e ex\u00f3tica ainda em ser. Sobre a<br \/>\nnobreza da Bahia, ele nos diz: &#8220;A cada canto um grande conselheiro, Que<br \/>\nnos quer governar a cabana, e vinha, N\u00e3o sabem governar sua cozinha,<br \/>\nE podem governar o mundo inteiro (Matos Guerra 1990:33 ).&#8221; Sobre os mesti\u00e7os:<br \/>\n&#8220;Que \u00e9 fidalgo nos ossos, cremos n\u00f3s, que nisto consistia<br \/>\no mor bras\u00e3o [&#8230;] daqueles que comiam seus av\u00f3s (Matos Guerra<br \/>\n1990:637 ).&#8221;<\/p>\n<p>Mostrando uma Bahia j\u00e1 cheia de negros e mulatos, Greg\u00f3rio<br \/>\ndeixa um registro precioso de como eles eram vistos pelos brancos: &#8220;N\u00e3o<br \/>\nsei, para que \u00e9 nascer neste Brasil empestado um homem branco, e honrado<br \/>\nsem outra ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Terra t\u00e3o grosseira, e crassa, que a ningu\u00e9m se tem respeito<br \/>\nsalvo quem mostra algum jeito de ser Mulato (Matos Guerra 1990:1164 ).&#8221;<br \/>\nO mundo multirracial da Bahia surge inteiro nessas estrofes de Greg\u00f3rio:<\/p>\n<p>&#8220;Xinga-te o negro, o branco te pragueja; E a ti nada te aleija: E por<br \/>\nteu sem sabor e pouca gra\u00e7a, \u00c9s f\u00e1bula do lar, rizo da<br \/>\npra\u00e7a.<\/p>\n<p>Ah! Que a balla, que o bra\u00e7o te lev\u00e1ra, Venha segunda vez<br \/>\nlevar-te a cara! (Matos Guerra 1946:79 ).&#8221; Devemos tamb\u00e9m a ele<br \/>\numa refer\u00eancia expressa aos mamelucos, ao retratar o governador da Bahia:<br \/>\n&#8220;Pariu a seu tempo um cuco, Um monstro, digo, inhumano, Que no bico era<br \/>\ntocano, E no sangue mamaluco [&#8230;] Lhe veio, sem ser rogado Um tro\u00e7o<br \/>\nde fidalguia, Pedestre cavallaria, Toda de bico furado. [&#8230;] Antes de se<br \/>\np\u00f4r em p\u00e9, E antes de estar de vez, N\u00e3o falava portuguez,<br \/>\nMas dizia o seu cob\u00e9. [&#8230;] Pag\u00e2mos, que \u00e9 homem branco,<br \/>\nRacional como um calh\u00e1o; Mamaluco em quarto gr\u00e1o E maligno desde<br \/>\no tronco. [&#8230;] (Matos Guerra 1946:80-3 ).&#8221; Sobre os fidalgos da Bahia,<br \/>\nGreg\u00f3rio de Matos se rola de rir, mas tamb\u00e9m sofre porque os<br \/>\nversos transcritos a seguir lhe custaram a deporta\u00e7\u00e3o para Angola.<\/p>\n<p>&#8220;Um cal\u00e7\u00e3o de pindoba a meia zorra; Camiza de urucu;<br \/>\nmat\u00e9o de arara, Em logar de cot\u00f3, arco e tacoara; Penacho de<br \/>\nguar\u00e1s, em vez de gorra; Furado o bei\u00e7o, sem temer que morra<br \/>\nO pai, que lhe envarou com uma tit\u00e1ra; Sendo a m\u00e3e a que a pedra<br \/>\nlhe aplic\u00e1ra Por reprimir-lhe o sangue, que n\u00e3o corra.<\/p>\n<p>Alarve sem raz\u00e3o, bruto sem f\u00e9: Sem mais lei que a do gosto;<br \/>\ne quando erra, De fauno se tornou em abaet\u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como acabou, nem em que guerra: S\u00f3 sei que deste Ad\u00e3o<br \/>\nde Ma\u00e7ap\u00e9, Uns fidalgos procedem desta terra (Matos Guerra 1946:148<br \/>\n).&#8221;<\/p>\n<p>O melhor testemunho daqueles tempos se deve a frei Vicente do Salvador,<br \/>\nnatural da Bahia. Foi o primeiro intelectual assumido como intelig\u00eancia<br \/>\ndo povo nascente, capaz de olhar nosso mundo e os mundos dos outros com olhos<br \/>\nnossos, solid\u00e1rio com nossa gente, sem d\u00favidas sobre nossa identidade,<br \/>\ne at\u00e9 com a ponta de orgulho que corresponde a uma consci\u00eancia<br \/>\ncr\u00edtica. A quase todos os escribas de depois, at\u00e9 hoje em dia,<br \/>\nfaltam essas qualidades de amor \u00e0 terra, que faz de n\u00f3s um povo<br \/>\ndescabe\u00e7ado por falta de intelectualidade pr\u00f3pria, nativista,<br \/>\nque iluminaria a vis\u00e3o do nosso povo entre os povos diante do nosso<br \/>\ndestino.<\/p>\n<p>Doutor em Coimbra, frade franciscano, frei Vicente ajudou a construir o<br \/>\nconvento de Santo Ant\u00f4nio, no Rio de Janeiro, e chegou a vig\u00e1rio-geral<br \/>\nde Salvador, numa carreira de grandes \u00eaxitos. Em 1627, deu por conclu\u00edda<br \/>\na sua Hist\u00f3ria do Brasil dizendo: &#8220;Sou de 63 anos e j\u00e1<br \/>\n\u00e9 tempo de tratar s\u00f3 de minha vida e n\u00e3o das alheias&#8221;.<\/p>\n<p>Vive dez anos mais na esperan\u00e7a de ver sua obra publicada, o que<br \/>\ns\u00f3 sucederia em 1888, numa primeira edi\u00e7\u00e3o parcial de<br \/>\nCapistrano de Abreu, de excelente qualidade.<\/p>\n<p>Nisso Portugal jamais falhou. Calava todas as vozes que falassem do Brasil,<br \/>\nprincipalmente as louvandeiras.<\/p>\n<p>O frei devia ser homem de boa comicidade, pelo menos escrevia com muito<br \/>\nbom humor. Conta que seu pai foi salvo de um naufr\u00e1gio quando vinha<br \/>\npara o Brasil fugindo da madrasta. Do governador Mem de S\u00e1, matador<br \/>\ne fustigador de \u00edndios, revela que &#8220;morreu gozoso&#8221;<\/p>\n<p>de suas vit\u00f3rias. De Duarte Coelho, fundador de Pernambuco, \u00fanico<br \/>\ndonat\u00e1rio eficiente, conta que, voltando \u00e0 metr\u00f3pole,<br \/>\n&#8220;l\u00e1 morreu, desgostoso por haver el-rei recebido com remoques<br \/>\ne pouca gra\u00e7a&#8221;. Acresce, ainda, \u00e0 cr\u00f4nica colonial,<br \/>\na not\u00edcia de que o poderoso Tom\u00e9 de Souza, que esperou anos,<br \/>\nimpaciente, a licen\u00e7a para voltar ao reino, ao receb\u00ea-la, teria<br \/>\ndito: &#8220;Verdade, \u00e9 que eu desejava muito e me crescia a \u00e1gua<br \/>\nna boca quando cuidava em ir para Portugal. Mas n\u00e3o sei que \u00e9<br \/>\nque agora me seca a boca de tal modo que quero cuspir e n\u00e3o posso&#8221;<br \/>\n(Salvador 1982:18 ).<\/p>\n<p>Mas frei Vicente tamb\u00e9m faz justi\u00e7a. Por exemplo: de A1buquerque,<br \/>\nal\u00e9m de louvar a valentia sem paralelo, acresce que foi &#8220;sempre<br \/>\nmuito limpo de m\u00e3os&#8221;, coisa rara, louv\u00e1vel at\u00e9 hoje,<br \/>\nentre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Seu ju\u00edzo sobre os colonos n\u00e3o \u00e9 lisonjeiro. Para o<br \/>\nfrei, os portugueses &#8220;n\u00e3o sabem povoar nem aproveitar as terras<br \/>\nque conquistaram&#8221;. E s\u00e3o muito ingratos &#8220;porque os servi\u00e7os<br \/>\nno Brasil raramente se pagam&#8221;.<\/p>\n<p>Em certos passos, nosso frei chega \u00e1 queixar-se. \u00c9 o que faz,<br \/>\npor exemplo, reclamando o descaso do rei por n\u00f3s. Tamanho, que preferiu<br \/>\nser senhor da Guin\u00e9 que do Brasil.<\/p>\n<p>Dos povoadores, ele nos diz ainda que, &#8220;por mais arraigados que na<br \/>\nterra estejam e mais ricos que sejam, tudo pretendem levar a Portugal e, se<br \/>\nas fazendas e bens que possuem souberam falar, tamb\u00e9m lhe houveram<br \/>\nde ensinar a dizer como aos papagaios, aos quais a primeira coisa que ensinam<br \/>\n\u00e9: `papagaio real para Portugal&#8217;, porque tudo querem para l\u00e1;<br \/>\nuns e outros usam da terra, n\u00e3o como senhores, mas como usufrutu\u00e1rios,<br \/>\ns\u00f3 para a desfrutarem e a deixarem destru\u00edda&#8221; (Salvador<br \/>\n1982:57-8 ). Sua hist\u00f3ria \u00e9 em grande parte uma cr\u00f4nica<br \/>\ntestemunhal. Al\u00e9m de viver meio s\u00e9culo com olhos de ver tudo<br \/>\no que sucedia a seu redor, ouviu numerosos velhos que podiam contar de experi\u00eancia<br \/>\npr\u00f3pria o que sucedeu em eras anteriores.<\/p>\n<p>Gaba nossos rios, suas matas de cedros, vinh\u00e1ticos e outros paus,<br \/>\ntant\u00edssimos, que d\u00e3o cip\u00f3s de atar cercas e casas, estopas<br \/>\nde calafetar, caibros de entelhar e imensos madeiros escavados pelos \u00edndios<br \/>\npara fazer canoas de dez palmos de boca que comportavam vinte remeiros de<br \/>\ncada lado.<\/p>\n<p>Ainda que sucinto, nosso frei se derrama tamb\u00e9m na apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas resinas milagrosas, dos b\u00e1lsamos medicinais, dos \u00f3leos cheirosos.<br \/>\nEncanta-se com o fruto de \u00e1rvores possantes, como a massaranduba, mais<br \/>\nainda com o jenipapo, cujo suco, t\u00e3o aguado, tingia os \u00edndios<br \/>\nde negro por semanas. Agrada-se imensamente dos cajus e dos ananases. Os feij\u00f5es<br \/>\ns\u00e3o incomparavelmente melhores que os do Reino. At\u00e9 da sensitiva<br \/>\nd\u00e1 not\u00edcia, com sua capacidade de encolher-se ao menor toque.<br \/>\nNo cap\u00edtulo dos mantimentos, gaba, principalmente, a mandioca e o aipim.<\/p>\n<p>Falando dos bichos, nos apresenta os porcos do mato, capivaras, antas, tamandu\u00e1s<br \/>\ncomedores de formigas, on\u00e7as capazes de derrubar e comer touros, raposas,<br \/>\nas variedades de macacos, e fala at\u00e9 de cobras. Relata inclusive o<br \/>\nmau h\u00e1bito de uma delas. \u00c9 o caso de uma dona de Pernambuco<br \/>\n&#8220;que estando parida, lhe viera algumas noites uma cobra mamar em os peitos,<br \/>\no que fazia com tanta brandura que ela cuidava ser a crian\u00e7a e, depois<br \/>\nque conheceu o engano, o disse ao marido, o qual a espreitou na noite seguinte<br \/>\ne a matou&#8221; (Salvador 1982:72 ).<\/p>\n<p>Saiu da\u00ed para os bichos-de-p\u00e9, piolhos e percevejos. \u00c0s<br \/>\nvezes exagera, quando fala por exemplo de homens marinhos que foram vistos<br \/>\nsair d&#8217;\u00e1gua atr\u00e1s de \u00edndios para comer seus olhos e narizes.<br \/>\nFala, copiosamente, dos peixes, mexilh\u00f5es, caranguejos, e sobretudo<br \/>\ndos goiamuns azuis que, \u00e0s primeiras chuvas, saem de suas tocas e v\u00e3o<br \/>\nmetendo-se nas casas.<\/p>\n<p>Sua descri\u00e7\u00e3o dos \u00edndios \u00e9 sum\u00e1ria, mas<br \/>\nchega a notar que &#8220;nem t\u00eam rei que lha d\u00ea e a quem obede\u00e7am,<br \/>\nsen\u00e3o \u00e9 um capit\u00e3o, mais para a guerra que pera paz&#8221;<br \/>\n(Salvador 1982:78 ). Comenta, tamb\u00e9m, a sauda\u00e7\u00e3o lacrimosa<br \/>\ncom que os \u00edndios Tupi recebiam visitantes queridos, inclusive os portugueses<br \/>\nque falavam sua l\u00edngua. Os recebiam chorando muito e lamentando &#8220;[&#8230;]<br \/>\na pouca ventura que seus av\u00f3s e os mais antepassados tiveram que n\u00e3o<br \/>\nalcan\u00e7aram gente t\u00e3o valerosa como s\u00e3o os portugueses,<br \/>\nque s\u00e3o senhores de todas as coisas boas que trazem \u00e0 terra,<br \/>\nde que eles dantes careciam e agora as t\u00eam com tanta abund\u00e2ncia,<br \/>\ncomo s\u00e3o machados, foices, anz\u00f3is, facas, tesouras, espelhos,<br \/>\npentes e roupas, porque antigamente ro\u00e7avam os matos com cunhas de<br \/>\npedra e gastavam muitos dias em cortar uma \u00e1rvore, pescavam com uns<br \/>\nespinhos, faziam o cabelo e as unhas com pedras agudas, e quando se queriam<br \/>\nenfeitar faziam de um alguidar de \u00e1gua espelho, e que desta maneira<br \/>\nviviam mui trabalhados, por\u00e9m agora fazem suas lavouras e todas as<br \/>\nmais coisas com muito descanso, pelo que os devem ter em muita estima (Salvador<br \/>\n1982:79 ).&#8221; Uma not\u00edcia importante \u00e9 a de que um prisioneiro<br \/>\nde guerra, destinado a ser comido, valia um machado ou uma foice de resgate<br \/>\ncom os portugueses. Como esses bens se tornaram rapidamente indispens\u00e1veis,<br \/>\n\u00e9 de se supor a enorme quantidade de \u00edndios que foram salvos<br \/>\nassim do moqu\u00e9m para se perderem no cativeiro.<\/p>\n<p>Malicioso, o frei se consente at\u00e9 em falar mal de Anchieta, relatando<br \/>\num epis\u00f3dio vexat\u00f3rio nojusti\u00e7amento de um calvinista<br \/>\nfranc\u00eas. Ele nos diz: &#8220;Vendo ser o algoz pouco destro em seu of\u00edcio,<br \/>\ne que se detinha em dar a morte ao r\u00e9u e com isso o angustiava e punha<br \/>\nem perigo de renegar a verdade que j\u00e1 tinha confessada, repreendeu<br \/>\no algoz e o industriou pera que fizesse com presteza o seu of\u00edcio&#8221;.<br \/>\nE acrescenta, judicioso: &#8220;Casos como este s\u00e3o mais pera admirar<br \/>\nque pera imitar&#8221; (Salvador 1982:167 ).<\/p>\n<p>Nosso frei antecipou de s\u00e9culos um sentimento de brasilidade que<br \/>\ns\u00f3 iria amadurecer expressamente com os companheiros de Tiradentes,<br \/>\nque falam de brasileiros como designa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do<br \/>\npovo que eles queriam al\u00e7ar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o movimento nativista do s\u00e9culo passado, identificado<br \/>\ncomo indianismo, foi uma assun\u00e7\u00e3o da qualidade de nativos n\u00e3o<br \/>\nportugueses que se achavam muito melhores do que os lusitanos. Muito se fala<br \/>\nde identidade em termos psicolog\u00edsticos e filos\u00f3ficos que pouco<br \/>\nacrescentam ao fato concreto e vis\u00edvel: \u00e9 o surgimento do brasileiro,<br \/>\nconstru\u00eddo por si mesmo, j\u00e1 plenamente ciente de que era uma<br \/>\ngente nova e \u00fanica, se n\u00e3o hostil pelo menos desconfiada de<br \/>\ntodas as outras.<\/p>\n<h2>3 BAGOS E VENTRES DESINDIANIZA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>N\u00e3o contando com s\u00e9ries estat\u00edsticas confi\u00e1veis<br \/>\npara o passado &#8211; se n\u00e3o as temos nem no presente -, faremos uso aqui,<br \/>\nvastamente, do que eu chamo demografia hipot\u00e9tica. Vale dizer, s\u00e9ries<br \/>\nhist\u00f3ricas compostas com base nos poucos dados concretos e completadas<br \/>\ncom o que parece veross\u00edmil.<\/p>\n<p>\u00c9 de todo prov\u00e1vel que alcan\u00e7asse, ou pouco excedesse,<br \/>\na cinco milh\u00f5es o total da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena<br \/>\nbrasileira quando da invas\u00e3o. Seria, em todo o caso, muito maior do<br \/>\nque sup\u00f5em as avalia\u00e7\u00f5es correntes, conforme demonstram<br \/>\nestudos de demografia hist\u00f3rica (Borah 1962,1964; Dobbyns e Thompson<br \/>\n1966 ). Baseados em an\u00e1lises da documenta\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel,<br \/>\nrealizadas \u00e0 luz de novos crit\u00e9rios, esses estudos multiplicaram<br \/>\nos antigos c\u00e1lculos da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena original<br \/>\ndas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Havia, tanto do lado portugu\u00eas como do espanhol, uma tend\u00eancia<br \/>\nevidente dos estudiosos para minimizar a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena<br \/>\noriginal. Seja por crer que houvesse exagero nas fontes prim\u00e1rias dos<br \/>\ncronistas, que efetivamente viram os \u00edndios com seu pr\u00f3prios<br \/>\nolhos, o que era um absurdo. Seja pela tend\u00eancia prevalecente por muito<br \/>\ntempo &#8211; e ainda hoje percept\u00edvel \u2013 de dignificar o papel dos<br \/>\nconquistadores e colonizadores, ocultando o peso do seu impacto genocida sobre<br \/>\nas popula\u00e7\u00f5es americanas, o que \u00e9 mais absurdo ainda.<br \/>\nN\u00e3o existem, ainda, estudos elaborados \u00e0 luz dessa nova perspectiva<br \/>\npara reavaliar a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena original do territ\u00f3rio<br \/>\nbrasileiro, paraguaio e do rio da Prata. Mas ela seria, certamente, superior<br \/>\naos c\u00e1lculos indiretos aparentemente mais bem fundamentados, como o<br \/>\nde Julian Steward ( 1949:666 ), que a estimou em 1 milh\u00e3o e pouco;<br \/>\nLugon ( 1968 ), que elevou este n\u00famero a 3 milh\u00f5es e Hemming<br \/>\n( 1978:487- 501 ), que o reduziu a 2,4 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>O n\u00famero de refer\u00eancia que utilizamos para toda a \u00e1rea<br \/>\n(5 milh\u00f5es) dever\u00e1, por conseguinte, ser visto com reserva at\u00e9<br \/>\nque contemos com estudos diretos sobre o tema, com base na documenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndispon\u00edvel, de acordo com a nova metodologia da demografia hist\u00f3rica.<br \/>\nTrata-se, sem d\u00favida, de um n\u00famero elevado, mesmo em compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a popula\u00e7\u00e3o portuguesa de 1500, que pouco excedia a 1 milh\u00e3o<br \/>\nde habitantes.<\/p>\n<p>Entretanto, nossa avalia\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena<br \/>\noriginal do Brasil n\u00e3o deve ser exagerada, porque ela \u00e9 coerente<br \/>\ncom as fontes prim\u00e1rias e, na hora de fix\u00e1-la, levamos em conta<br \/>\nas taxas da depopula\u00e7\u00e3o tribal que se segue ao primeiro s\u00e9culo<br \/>\nde contato. Com efeito, os numerosos casos concretos que conhecemos diretamente<br \/>\nde depopula\u00e7\u00e3o resultante dos primeiros contatos (Ribeiro 1970:261<br \/>\n) confirmam as taxas dos estudos demogr\u00e1ficos referidos, que \u00e9<br \/>\nda ordem de 25 por um. Esse c\u00e1lculo se baseia, fundamentalmente, no<br \/>\ndesmoronamento da popula\u00e7\u00e3o mexicana logo ap\u00f3s a conquista,<br \/>\nque caiu de 25,3 milh\u00f5es para 1 milh\u00e3o entre 1519 e 1605 (Cook<br \/>\ne Borah 1957 ). Isso significa que os 100 mil ind\u00edgenas brasileiros<br \/>\nque alcan\u00e7aram a primeira metade do presente s\u00e9culo seriam,<br \/>\noriginalmente, ao menos 2,5 milh\u00f5es. Como, entretanto, consideramos,<br \/>\npor um lado, uma \u00e1rea que inclui os territ\u00f3rios do Paraguai<br \/>\ne do Uruguai, muito populosos e, por outro lado, um per\u00edodo de quatro<br \/>\ns\u00e9culos, no curso do qual foram extintos muitos grupos ind\u00edgenas,<br \/>\n\u00e9 de se supor que a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena original<br \/>\ntenha sido, de fato, muito maior, provavelmente o dobro, o que nos leva \u00e0<br \/>\ncifra com que trabalhamos.<\/p>\n<p>Seguindo esse racioc\u00ednio, supomos que aqueles 5 milh\u00f5es de<br \/>\nind\u00edgenas de 1500 se teriam reduzido a 4 milh\u00f5es um s\u00e9culo<br \/>\ndepois, com a dizima\u00e7\u00e3o pelas epidemias das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo litoral atl\u00e2ntico, que sofreram o primeiro impacto da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\npela contamina\u00e7\u00e3o das tribos do interior com as pestes trazidas<br \/>\npelo europeu e pela guerra. No segundo s\u00e9culo, de 1600 a 1700, prossegue<br \/>\na depopula\u00e7\u00e3o provocada pelas epidemias e pelo desgaste no trabalho<br \/>\nescravo, bem como o exterm\u00ednio na guerra, reduzindo-se a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nind\u00edgena de 4 para 2 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim foi, ent\u00e3o, o desgaste das tribos isoladas qu\u00e9 viviam<br \/>\nnas \u00e1reas de coloniza\u00e7\u00e3o recente e, sobretudo, na regi\u00e3o<br \/>\nSul, onde os mamelucos paulistas liquidaram as enormes concentra\u00e7\u00f5es<br \/>\nde \u00edndios Guarani das miss\u00f5es jesu\u00edticas. \u00c9 prov\u00e1vel<br \/>\nque naquele s\u00e9culo se tenham escravizado mais de 300 mil \u00edndios,<br \/>\nlevados para S\u00e3o Paulo e vendidos na Bahia e em Pernambuco (Simonsen<br \/>\n1937 ). Essa captura de escravos se fazia, tamb\u00e9m, por interm\u00e9dio<br \/>\nde muit\u00edssimos \u00edndios cativos, aliciados nas bandeiras.<\/p>\n<p>A propor\u00e7\u00e3o de \u00edndios para &#8220;brancos&#8221; nas<br \/>\nbandeiras foi de setecentos para duzentos na de Crist\u00f3v\u00e3o de<br \/>\nBarros e de novecentos para 150 na de Ant\u00f4nio Dias Adorno, em 1574;<br \/>\ne de mil para duzentos na bandeira de Raposo Tavares \u00e0s redu\u00e7\u00f5es<br \/>\njesu\u00edticas em Itatins ( 1648 ). O pr\u00f3prio Nassau mandou contra<br \/>\nPalmares, em 1645, uma expedi\u00e7\u00e3o com setecentos \u00edndios<br \/>\ne cem mulatos para trezentos soldados holandeses, que ali\u00e1s fracassou.<br \/>\nOs Palmares foram destru\u00eddos meio s\u00e9culo depois por homens de<br \/>\nJorge Velho, que seguiu do Piau\u00ed para combater, primeiro, os \u00edndios<br \/>\nJandu\u00ed ( 1688 ) e, depois, Palmares ( 1694 ) com uma tropa de 1300<br \/>\n\u00edndios para 150 &#8220;brancos&#8221;. Foi tamb\u00e9m de \u00edndios<br \/>\no grosso das for\u00e7as com que os portugueses lutaram contra os franceses<br \/>\nna Guanabara e, mais tarde, no Maranh\u00e3o, assim como contra os holandeses,<br \/>\nna Para\u00edba.<\/p>\n<p>No terceiro s\u00e9culo, de 1700 a 1800, se teria gasto &#8211; conforme a bizarra<br \/>\nexpress\u00e3o dos cronistas coloniais &#8211; outro milh\u00e3o, principalmente<br \/>\nno Maranh\u00e3o, no Par\u00e1 e no Amazonas, reduzindo-se o montante<br \/>\nde \u00edndios isolados de 2 para 1 milh\u00e3o. Esse \u00faltimo milh\u00e3o<br \/>\nvem minguando, desde ent\u00e3o, com a ocupa\u00e7\u00e3o de vastas<br \/>\n\u00e1reas florestais, paulatinamente exploradas, em Minas Gerais, S\u00e3o<br \/>\nPaulo, Paran\u00e1 e Santa Catarina, e com a abertura de amplas frentes<br \/>\nde expans\u00e3o no Brasil central e na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Em cada s\u00e9culo e em cada regi\u00e3o, tribos ind\u00edgenas virgens<br \/>\nde contato e indenes de cont\u00e1gio foram experimentando, sucessivamente,<br \/>\nos impactos das principais compuls\u00f5es e pestes da civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne sofreram perdas em seu montante demogr\u00e1fico de quejamais se recuperaram.<br \/>\nO efeito dizimador das enfermidades desconhecidas, somado ao engajamento compuls\u00f3rio<br \/>\nda for\u00e7a de trabalho e ao da decultura\u00e7\u00e3o, conduziram<br \/>\na maior parte dos grupos ind\u00edgenas \u00e0 completa extin\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm muitos casos, por\u00e9m, sobrevive um remanescente que, via de regra,<br \/>\ncorresponde \u00e0quela propor\u00e7\u00e3o de um por 25 da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\noriginal. A partir desse m\u00ednirrro \u00e9 que voltou a crescer lentissimamente.<\/p>\n<p>Conforme se v\u00ea, a popula\u00e7\u00e3o original do Brasil foi drasticamente<br \/>\nreduzida por um genoc\u00eddio de proje\u00e7\u00f5es espantosas, que<br \/>\nse deu atrav\u00e9s da guerra de exterm\u00ednio, do desgaste no trabalho<br \/>\nescravo e da virul\u00eancia das novas enfermidades que os achacaram. A ele<br \/>\nse seguiu um etnoc\u00eddio igualmente dizimador, que atuou atrav\u00e9s<br \/>\nda esmoraliza\u00e7\u00e3o pela catequese; da press\u00e3o dos fazendeiros<br \/>\nque iam se apropriando de suas terras; do fracasso de suas pr\u00f3prias<br \/>\ntentativas de encontrar um lugar e um papel no mundo dos &#8220;brancos&#8221;.<br \/>\nAo genoc\u00eddio e ao etnoc\u00eddio se somam guerras de exterm\u00ednio,<br \/>\nautorizadas pela Coroa contra \u00edndios considerados hostis, como os do<br \/>\nvale do rio Doce e do Itaja\u00ed. Desalojaram e destru\u00edram grande<br \/>\nn\u00famero deles. Apesar de tudo, espantosamente, sobreviveram algumas<br \/>\ntribos ind\u00edgenas ilhadas na massa crescente da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\niural brasileira. Esses s\u00e3o os ind\u00edgenas que se integram \u00e0<br \/>\nsociedade nacional, como parcela remanescente da popula\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n<p>J\u00e1 assinalamos que essa integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o corresponde<br \/>\na uma assimila\u00e7\u00e3o que os converta em membros indiferenciados<br \/>\nda etnia brasileira. Significa, t\u00e3o-somente, a fixa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um modus vivendi precar\u00edssimo atrav\u00e9s do qual transitam da<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o de \u00edndios espec\u00edficos, com sua ra\u00e7a<br \/>\ne cultura peculiares, \u00e0 de \u00edndios gen\u00e9ricos. Esses, ainda<br \/>\nque crescentemente mesti\u00e7ados e aculturados, permanecem sempre &#8220;ind\u00edgenas&#8221;<br \/>\nna qualidade de alternos dos &#8220;brasileiros&#8221;, porque se v\u00eaem<br \/>\ne se sofrem como \u00edndios e assim tamb\u00e9m s\u00e3o vistos e tratados<br \/>\npela gente com que est\u00e3o em contato.<\/p>\n<p>Existe uma copios\u00edssima documenta\u00e7\u00e3o, que vem do primeiro<br \/>\ns\u00e9culo, sobre esses \u00edndios gen\u00e9ricos concentrados em<br \/>\nsuas aldeias, algumas aut\u00f4nomas, outras administradas por miss\u00f5es<br \/>\nreligiosas ou por servi\u00e7os oficiais de prote\u00e7\u00e3o. Neles<br \/>\nsobrevivem por d\u00e9cadas, ou por s\u00e9culos, sempre inassimilados,<br \/>\nos remanescentes da hecatombe que sofreram com o impacto da civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSempre irredutivelmente ind\u00edgenas frente aos brasileiros. N\u00e3o<br \/>\nencontra nenhuma base nos fatos, conforme se v\u00ea, a id\u00e9ia de que<br \/>\nos \u00edndios, atrav\u00e9s de processos de acultura\u00e7\u00e3o,<br \/>\namadure\u00e7am para a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A historieta cl\u00e1ssica, t\u00e3o querida dos historiadores, segundo<br \/>\na qual os \u00edndios foram amadurecendo para a civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde forma que cada aldeia foi se convertendo em vila, \u00e9 absolutamente<br \/>\ninaut\u00eantica. O estudo que realizamos para a unresco, esperan\u00e7osos<br \/>\nde apresentar o Brasil como um pa\u00eds por excel\u00eancia assimilacionista,<br \/>\ndemonstrou precisamente o contr\u00e1rio. O \u00edndio \u00e9 irredut\u00edvel<br \/>\nem sua identifica\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, tal como ocorre com o cigano<br \/>\nou com o judeu. Mais persegui\u00e7\u00e30 s\u00f3 os afunda mais convictamente<br \/>\ndentro de si mesmos. Tal n\u00e3o conseguem os servi\u00e7os oficiais<br \/>\nde prote\u00e7\u00e3o, geralmente entregues a mission\u00e1rios, e tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o conseguem esses \u00faltimos. Povos h\u00e1, como os Bororo,<br \/>\npor exemplo, com mais de s\u00e9culo e meio de vida catequ\u00e9tica,<br \/>\nque permanecem Bororo, pouco alterados pela a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria;<br \/>\nou os Guarani, com mais de quatro s\u00e9culos de contato e domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algum \u00eaxito alcan\u00e7am miss\u00f5es muito atrasadas, como os<br \/>\nsalesianos do rio Negro, que, empenhados em ocidentalizar e catequizar os<br \/>\n\u00edndios daquela \u00e1rea, juntaram as crian\u00e7as de tribos diferentes<br \/>\nnas mesmas escolas, preenchendo assim a condi\u00e7\u00e3o essencial para<br \/>\ndesindianizar os \u00edndios, que \u00e9 a ruptura das rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nda velha transmiss\u00e3o de pais a filhos. O que alcan\u00e7aram n\u00e3o<br \/>\nforam italianinhos, mas mo\u00e7as e rapazcs marginalizados, que n\u00e3o<br \/>\nsabiam ser \u00edndios nem civilizados, e l\u00e1 vivem em vil tristeza.<\/p>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrasileira s\u00f3 se faz no plano biol\u00f3gico e mediante o processo,tantas<br \/>\nvezes referido, de gesta\u00e7\u00e3o dos mamelucos, filhos do dominador<br \/>\ncom mulheres desgarradas de sua tribo, que se identificavam com o pai e se<br \/>\nsomavam ao grupo paterno. Por essa via, atrav\u00e9s dos s\u00e9culos,<br \/>\na mulher ind\u00edgena veio plasmando o povo brasileiro em seu papel de<br \/>\nprincipal geratriz \u00e9tnica. Numa sociedade com car\u00eancia principalmente<br \/>\nde mulheres, os \u00edndios e negros aliciados como escravos raramente conseguem<br \/>\numa companheira. Saint-Hilaire, falando da regi\u00e3o do Rio Grande do<br \/>\nSul, observa que os \u00edndios escravizados &#8220;se inutilizam para o<br \/>\npovoamento do solo, visto como longe de suas terras n\u00e3o encontram mulheres<br \/>\ncom quem pudessem casar&#8221; (Saint-Hilaire 1939 ).<\/p>\n<p>Na primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo, a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nind\u00edgena brasileira era altamente conflitiva. Mission\u00e1rios se<br \/>\napropriavam das terras dos \u00edndios que catequizavam e as estavam loteando,<br \/>\ncom grande revolta dos \u00edndios. Vastas \u00e1reas entregues \u00e0<br \/>\ncoloniza\u00e7\u00e3o estrangeira, principalmente alem\u00e3, viviam<br \/>\nconvulsionadas por bugreiros pagos pelos colonos para limpar suas terras do<br \/>\ninc\u00f4modo &#8220;invasor&#8221;. O pr\u00f3prio diretor do Museu Paulista<br \/>\ne eminente cientista pediu ao governo que optasse entre a selvageria e a civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe seu prop\u00f3sito era civilizar o pa\u00eds, cumpria abrir guerras<br \/>\nde exterm\u00ednio com tropas oficiais para resolver o problema.<\/p>\n<p>Nessa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que se levanta o principal dos humanistas<br \/>\nbrasileiros, C\u00e2ndido Rondon. Tendo muito mais experi\u00eancia de trato<br \/>\ncom os \u00edndios, porque havia estendido milhares de quil\u00f4metros<br \/>\nde linhas telegr\u00e1ficas em territ\u00f3rio ind\u00edgena sem entrar<br \/>\nem conflito com eles, Rondon exigia do pa\u00eds respeito \u00e0 sua popula\u00e7\u00e3o<br \/>\noriginal.<\/p>\n<p>Seu apelo foi atendido n\u00e3o s\u00f3 pelo governo mas por dezenas<br \/>\nde oficiais das for\u00e7as armadas e profissionais de toda a sorte, que<br \/>\ndecidiram dedicar suas vidas \u00e0 salva\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Fundado nos princ\u00edpios do positivismo de Augusto Comte, mas superando-os<br \/>\nlargamente, Rondon e seus companheiros estabeleceram um corpo de diretrizes<br \/>\nque por d\u00e9cadas orientaram uma pol\u00edtica indigenista oficial.<br \/>\nEles afirmavam que o objetivo n\u00e3o podia ser exterminar ou transformar<br \/>\no ind\u00edgena, mas fazer dele um \u00edndio melhor, dando-lhe acesso<br \/>\na ferramentas e a orienta\u00e7\u00e3o adequada. O que cumpria fazer em<br \/>\ness\u00eancia era assegurar aquele m\u00ednimo indispens\u00e1vel a cada<br \/>\npovo ind\u00edgena, que \u00e9 o direito de ser \u00edndio, mediante<br \/>\na garantia de um territ\u00f3rio onde possam viver sossegados, a salvo de<br \/>\nataques, e reconstituir sua vida e seus costumes. A necessidade de abrir novas<br \/>\nfrentes de coloniza\u00e7\u00e3o tinha que ser precedida de um cuidadoso<br \/>\ntrabalho junto aos \u00edndios.<\/p>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o principal de Rondon foi, por\u00e9m, o estabelecimento<br \/>\npioneiro do princ\u00edpio, s\u00f3 hoje reconhecido internacionalmente,<br \/>\ndo direito \u00e0 diferen\u00e7a. Em lugar da fofa proclama\u00e7\u00e3o<br \/>\nda igualdade de todos os cidad\u00e3os, os rondonianos diziam que, n\u00e3o<br \/>\nsendo iguais, essa igualdade s\u00f3 servia para entregar os \u00edndios<br \/>\na seus perseguidores. O que cumpria era fixar as normas de um direito compensat\u00f3rio,<br \/>\npelo qual os \u00edndios tinham os mesmos direitos que os brasileiros &#8211;<br \/>\nde ser eleitor, de fazer servi\u00e7o militar, por exemplo -, mas esses<br \/>\ndireitos n\u00e3o lhes podiam ser cobrados como deveres.<\/p>\n<p>Curt Nimuendaju, um dos maiores etn\u00f3logos e conhecedores dos \u00edndios<br \/>\ndo Brasil, tra\u00e7a o perfil do \u00edndio civilizado: &#8220;[&#8230;] mais<br \/>\ndo que em qualquer outra parte do Brasil por mim conhecida, achei no I\u00e7ana<br \/>\ne Uaup\u00e9s as rela\u00e7\u00f5es entre \u00edndios e civilizados<br \/>\n&#8211; os brancos como ali se diz &#8211; irremediavelmente estragadas: um abismo se<br \/>\nabriu entre os dois elementos, \u00e0 primeira vista, apenas percept\u00edvel,<br \/>\nencoberto pelo v\u00e9u de um modus vivendi arranjado pelas duas partes,<br \/>\nmas mostrando-se logo em toda sua profundidade intranspon\u00edvel, assim<br \/>\nque se trata de conquistar a confian\u00e7a dos \u00edndios e de penetrar<br \/>\nno \u00edntimo da psique deles. Claro est\u00e1 que a maioria dos civilizados,<br \/>\nn\u00e3o compreendendo nem precisando de nada disto, nunca chega ao conhecimento<br \/>\ndesse abismo, dando-se por muito satisfeita com o modus vivendi e o apresentando<br \/>\nmuitas vezes orgulhosamente como resultado dos seus processos civilizadores<br \/>\n(&#8220;Viagem ao rio Negro&#8221;, relat\u00f3rio apresentado \u00e0 Inspetoria<br \/>\ndo Amazonas do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios,<br \/>\ndatado de setembro de 1927 in Nimuendaju 1950:173 ).&#8221; Nos idos de 1954,<br \/>\ntrabalhando na Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) para<br \/>\nestabelecer os direitos dos povos ind\u00edgenas, o pensamento rondoniano<br \/>\nali apresentado impressionou tanto a dois intelectuais indianos, que eles<br \/>\npediram int\u00e9rprete e almo\u00e7aram comigo, querendo not\u00edcias<br \/>\ndesse grande brasileiro que desconheciam. Eu lhes mostrei que n\u00e3o havia<br \/>\nnenhuma rela\u00e7\u00e3o entre Rondon e Gandhi. Eram t\u00e3o-s\u00f3<br \/>\ndois humanismos paralelos. \u00c9 curioso recordar que eles quiseram saber<br \/>\nse eu era um juramentado. A custo entendi sua pergunta, quando disseram que<br \/>\neles pr\u00f3prios eram juramentados da causa dos povos minorit\u00e1rios<br \/>\ne oprimidos da \u00cdndia. Ou seja, prometeram que nos dez anos posteriores<br \/>\n\u00e0 sua formatura universit\u00e1ria s\u00f3 dedicariam seu pensamento<br \/>\ne suas m\u00e3os a essa causa.<\/p>\n<h2>O INCREMENTO PRODIGIOSO<\/h2>\n<p>As grandes fa\u00e7anhas hist\u00f3ricas brasileiras foram a conquista<br \/>\nde um territ\u00f3rio continental e a constru\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nque ultrapassa os 150 milh\u00f5es. Nenhum desses feitos foi gratuito. Portugal,<br \/>\nque viveu mil anos na obsess\u00e3o de fronteira, temeroso de ser engolido<br \/>\npela Espanha, aqui, desde a primeira hora, tratou de marcar e alargar as bases<br \/>\nde suas posses territoriais. Plantou fortalezas a mil l\u00e9guas de qualquer<br \/>\noutro povoador. Manteve pela guena, por s\u00e9culos, pontos de fixa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde suas lindes, como a Col\u00f4nia do Sacramento.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o se n\u00e3o se fez<br \/>\ncomo um prop\u00f3sito deliberado, foi resultante de uma pol\u00edtica<br \/>\ndemogr\u00e1fica espontane\u00edsta de que resultou tanto a depopula\u00e7\u00e3o<br \/>\nde milh\u00f5es de trabalhadores como o incremento de outros milh\u00f5es.<\/p>\n<p>No plano gen\u00e9sico, a popula\u00e7\u00e3o brasileira se constr\u00f3i<br \/>\nsimultaneamente pela dizima\u00e7\u00e3o mais atroz e pelo incremento<br \/>\nmais prodigioso. Utilizando largamente a imensa disponibilidade de ventres<br \/>\nde mulheres ind\u00edgenas escravizadas, o incremento da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nmesti\u00e7a foi nada menos que miraculoso.<\/p>\n<p>Em 1584, o padre Jos\u00e9 de Anchieta avaliava a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Brasil em 57 mil almas, sendo 25 mil brancos da terra quer dizer, principalmente<br \/>\nmesti\u00e7os de portugueses com \u00edndias -, 18 mil \u00edndios e<br \/>\n14 mil negros. O n\u00famero seria muito maior se a avalia\u00e7\u00e3o<br \/>\nse referisse \u00e0 \u00e1rea ocupada hoje pelo Brasil. E, sobretudo,<br \/>\nse inclu\u00edsse os \u00edndios que, embora vivendo autonomamente, j\u00e1<br \/>\nestavam em intera\u00e7\u00e3o permanente com a sociedade nascente, avali\u00e1veis<br \/>\nem pelo menos 200 mil. Anchieta, por\u00e9m, s\u00f3 se referia \u00e0<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o incorporada ao empreendimento colonial, que ocuparia,<br \/>\nnaquela \u00e9poca, n\u00e3o mais de 15 mil quil\u00f4metros quadrados.<\/p>\n<p>Essa popula\u00e7\u00e3o estava assentada, fundamentalmente, no Nordeste,<br \/>\nocupada na economia a\u00e7ucareira em embri\u00e3o e na explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pau-de-tinta. Haveria, ent\u00e3o, catorze vilas, sendo as principais<br \/>\ndelas Olinda, com setecentos habitantes; a Bahia e o Rio de Janeiro, com quinhentos;<br \/>\ne as restantes, com uma m\u00e9dia de quatrocentos, o que representava um<br \/>\nimportante componente urbano articulador do empreendimento colonial.<\/p>\n<p>Com base na avalia\u00e7\u00e3o de Anchieta e em dados de outros cronistas<br \/>\ncontempor\u00e2neos, se pode admitir que, em 1600, a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nneobrasileira fosse de 200 mil habitantes (Capistrano de Abreu 1929:123 ).<br \/>\nIsto \u00e9, a popula\u00e7\u00e3o diretamente incorporada ao empreendimento<br \/>\ncolonial, somada aos grupos ind\u00edgenas que estavam em intera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndireta e pac\u00edfica com os colonizadores e que representariam 120 mil.<br \/>\nQuanto aos contingentes n\u00e3o ind\u00edgenas, teriam atingido cerca<br \/>\nde 50 mil os brancos por defini\u00e7\u00e3o, quase todos mesti\u00e7ados;<br \/>\ne 30 mil os negros escravos. O contingente urbano chegaria de 6 a 8 mil habitantes,<br \/>\npelo crescimento das vilas, registrado por Anchieta, assim como a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde novos n\u00facleos que estruturariam a ocupa\u00e7\u00e3o de uma<br \/>\n\u00e1rea de 30 mil quil\u00f4metros quadrados.<\/p>\n<p>Celso Furtado ( 1959 ) calcula que funcionariam, ent\u00e3o,120 engenhos<br \/>\nde a\u00e7\u00facar, e que o rebanho bovino atingiria, j\u00e1, 680<br \/>\nmil cabe\u00e7as. A produ\u00e7\u00e3o anual de a\u00e7\u00facar<br \/>\nteria alcan\u00e7ado 2 milh\u00f5es de arrobas, cujo valor seria de 2,5<br \/>\nmilh\u00f5es de libras esterlinas daquele tempo. Como ele assinala, uma<br \/>\nrenda t\u00e3o extraordinariamente alta fazia do empreendimento colonial<br \/>\nportugu\u00eas a empresa mais pr\u00f3spera da \u00e9poca. E, por isso<br \/>\nmesmo, a mais cobi\u00e7ada por holandeses e franceses, que passariam, desde<br \/>\nent\u00e3o, a disputar sua posse.<\/p>\n<p>O balan\u00e7o demogr\u00e1flco deste primeiro s\u00e9culo de ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos d\u00e1, como principal resultado, a dizima\u00e7\u00e3o de 1 milh\u00e3o<br \/>\nde \u00edndios, mortos principalmente pelas epidemias que grassavam na costa,<br \/>\natingindo logo o interior; no cativeiro das miss\u00f5es e nas guerras.<br \/>\nSimultaneamente, o \u00edndio e suas crias mesti\u00e7as crescem como<br \/>\numa virul\u00eancia.<\/p>\n<p>Em 1700, a popula\u00e7\u00e3o neobrasileira teria atingido uns 500<br \/>\nmil habitantes, dos quais 200 mil representados por ind\u00edgenas integrados<br \/>\nao sistema colonial, e havia dobrado sua \u00e1rea de ocupa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs negros seriam, talvez, 150 mil, concentrados principalmente nos engenhos<br \/>\nde a\u00e7\u00facar, mas tamb\u00e9m nas zonas recentemente abertas<br \/>\n\u00e0 minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma parcela deles se refugiava em quilombos, para al\u00e9m das fronteiras<br \/>\nda civiliza\u00e7\u00e3o, mas Palmares, o principal n\u00facleo, que<br \/>\nchegara a reunir 30 mil negros, acabava de ser destru\u00eddo. A popula\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8220;branca&#8221;, que seria de 150 mil habitantes, formada majoritariamente<br \/>\npor mesti\u00e7os de pais europeus e m\u00e3es ind\u00edgenas, falava<br \/>\nprincipalmente o nheengatu como l\u00edngua materna. Contrasta cruamente<br \/>\ncom esta parcela de brasil\u00edndios um n\u00famero ponder\u00e1vel<br \/>\nde mulatos originados por diversos cruzamentos &#8211; o banda forra (branco com<br \/>\nnegro), o salta-atr\u00e1s (mameluco com negro), o terceir\u00e3o (recruzado<br \/>\ndo branco com o mulato) &#8211; que, sendo muito aculturados e falando portugu\u00eas,<br \/>\najudariam da\u00ed em diante o colonizador a impor-se culturalmente aos<br \/>\nmamelucos.<\/p>\n<h2>Tabela I BRASIL 1500 -1800<\/h2>\n<p>Crescimento da popula\u00e7\u00e3o integrada no empreendimento colonial<br \/>\ne diminui\u00e7\u00e3o dos contingentes abor\u00edgines aut\u00f4nomos:<br \/>\n1500 &#8211; &#8220;Brancos&#8221; do Brasil \u2013 0; Escravos \u2013 0; \u00cdndios<br \/>\n&#8220;integrados&#8221; \u2013 0; \u00cdndios isolados \u2013 5.000.000;<br \/>\nTotal \u2013 5.000.000 1600 &#8211; &#8220;Brancos&#8221; do Brasil \u2013 50.000;<br \/>\nEscravos \u2013 30.000; \u00cdndios &#8220;integrados&#8221; \u2013 120.000;<br \/>\n\u00cdndios isolados \u2013 4.000.000; Total \u2013 4.200.000 1700 &#8211; &#8220;Brancos&#8221;<br \/>\ndo Brasil \u2013 150.000; Escravos \u2013 150.000; \u00cdndios &#8220;integrados&#8221;<br \/>\n\u2013 200.000; \u00cdndios isolados \u2013 2.000.000; Total \u2013 2.500.000<br \/>\n1800 &#8211; &#8220;Brancos&#8221; do Brasil \u2013 2.000.000; Escravos \u2013 1.500.000;<br \/>\n\u00cdndios &#8220;integrados&#8221; \u2013 500.000; \u00cdndios isolados<br \/>\n\u2013 1.000.000; Total \u2013 5.000.000 A economia estava concentrada fundamentalmente<br \/>\nna produ\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira, que liderava as exporta\u00e7\u00f5es;<br \/>\nna cria\u00e7\u00e3o de gado, que teria alcan\u00e7ado um rebanho de<br \/>\n1,5 milh\u00e3o de cabe\u00e7as e assumira certa import\u00e2ncia como<br \/>\nfonte de exporta\u00e7\u00e3o de couros; nas lavouras de tabaco, que tamb\u00e9m<br \/>\nse converteriam em um importante artigo de exporta\u00e7\u00e3o, principalmente<br \/>\npara custear a importa\u00e7\u00e3o de escravos africanos. A produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ouro dos veios rec\u00e9m-descobertos surgia com extraordin\u00e1rio<br \/>\nvigor e estava destinada a constituir-se, nas d\u00e9cadas seguintes, no<br \/>\nsetor mais din\u00e2mico da economia. Como tal, atrairia para as zonas aur\u00edferas<br \/>\ndo centro do pa\u00eds grandes contingentes populacionais de brancos, vindos<br \/>\ndo reino e das \u00e1reas de antiga ocupa\u00e7\u00e3o, e, sobretudo,<br \/>\nde negros transladados dos engenhos ou diretamente importados da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Com efeito, a minera\u00e7\u00e3o de ouro ( 1701-80 ) e, depois, a de<br \/>\ndiamante ( 1740-1828 ) vieram alterar substancialmente o aspecto rural e desarticulado<br \/>\ndos primeiros n\u00facleos coloniais. Sua primeira conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\nfoi atrair rapidamente uma nova popula\u00e7\u00e3o &#8211; mais de 300 mil<br \/>\npessoas, nos sessenta primeiros anos &#8211; para uma \u00e1rea do interior, anteriormente<br \/>\ninexplorada, incorporando os territ\u00f3rios de Minas Gerais, Goi\u00e1s<br \/>\ne Mato Grosso \u00e0 vida e \u00e0 economia da col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Para avaliar a import\u00e2ncia da atividade mineradora, \u00e9 suficiente<br \/>\nconsiderar que teria produzido, em ouro, cerca de mil toneladas e, em diamante,<br \/>\n3 milh\u00f5es de quilates, cujo valor total corresponde a 200 milh\u00f5es<br \/>\nde libras esterlinas, o equivalente a mais da metade das exporta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde metais preciosos das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o aur\u00edfera foi objeto da maior disputa que se deu no<br \/>\nBrasil. De um lado, os paulistas, que haviam feito a descoberta e reivindicavam<br \/>\no privil\u00e9gio de sua explora\u00e7\u00e3o. De outro lado, os baianos,<br \/>\nque, havendo chegado antes \u00e0 regi\u00e3o com seus rebanhos de gado,<br \/>\ntinham tido o cuidado de registrar suas propriedades territoriais &#8211; um certo<br \/>\nGuedes, tabeli\u00e3o da Bahia, registrou para si mesmo um fazend\u00e3o<br \/>\nque ia da Bahia at\u00e9 o meio de Minas Gerais. A guerra entre os disputantes<br \/>\nagravou enormemente a viol\u00eancia, com trai\u00e7\u00f5es, assassinatos<br \/>\ne roubos. Um pai mandou enforcar seu filho; um filho largou seu pai dentro<br \/>\nde um esquife maci\u00e7o no rio das Velhas, rezando para que ele chegasse<br \/>\nao mar e a Portugal.<\/p>\n<p>Mas seu impacto foi muito maior. O Rio de Janeiro nasce e cresce como o<br \/>\nporto das minas. O Rio Grande do Sul e at\u00e9 a Argentina, provedores<br \/>\nde mulas, se atam a Minas, bem como o patronato e boa parte da escravaria<br \/>\ndo Nordeste. Tudo isso fez de Minas o n\u00f3 que atou o Brasil e fez dele<br \/>\numa coisa s\u00f3.<\/p>\n<p>As terras eram t\u00e3o ricas em ouro e tamanha era a sofreguid\u00e3o<br \/>\npor alcan\u00e7\u00e1-lo que os senhores venderam seus escravos a si mesmos<br \/>\nquando esses, al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, produziam<br \/>\nexcedentes. Assim \u00e9 que surgiram alguns bizarros nababos negros. Espantosa<br \/>\ntamb\u00e9m foi a fome de gente que comprava uma galinha por seu peso em<br \/>\nouro.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas de pol\u00edtica habilidosa de dela\u00e7\u00f5es e<br \/>\nsubornos tranq\u00fcilizaram, afinal, a \u00e1rea, aquietando o gentio mineiro.<br \/>\nN\u00e3o antes que quase tudo se perdesse para Portugal num compl\u00f4<br \/>\nentre os mineiros e o governo norte-americano, regido pelos mais inveross\u00edmeis<br \/>\nsubversivos, poetas, magistrados, militares, curas etc. O compl\u00f4 acabou<br \/>\nsendo abafado, enforcando e esquartejando o her\u00f3i maior para escarmentar<br \/>\no povo e deixando os outros conspiradores apodrecerem exilados na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Ali, em Ouro Preto e arredores, quando o ouro j\u00e1 n\u00e3o era tanto,<br \/>\nse viu florescer a mais alta express\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrasileira. Com figuras extraordin\u00e1rias de artistas, como Aleijadinho;<br \/>\nde poetas, como Gonzaga e Cl\u00e1udio Manoel da Costa. Releve, mas n\u00e3o<br \/>\nresisto \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de dar \u00e0 sua leitura o cap\u00edtulo<br \/>\n&#8220;Cal&#8221; de meu romance da mineiridade: Migo.<\/p>\n<p>Vendo estas Minas t\u00e3o mofinas, quem diria, desatinado, que escarmentado,<br \/>\nsomos o povo destinado? Somos o ti\u00f4io povo dos her\u00f3is assinalados.<br \/>\nEles a\u00ed est\u00e3o, h\u00e1 s\u00e9culos, a nos cobrar amor \u00e0<br \/>\nliberdade. Filipe grita, Joaquim Jos\u00e9 responde: &#8211; Libertas quae sera<br \/>\ntamen.<\/p>\n<p>&#8211; Liberdade, aqui e agora. J\u00e1! A Filipe, esquartejado, como \u00e9<br \/>\nque o acabaram? Os cavalos mais fortes dos brasis l\u00e1 estavam: mordendo<br \/>\nos freios, escumando, escoiceando na pra\u00e7a empedrada. Eram quatro.<br \/>\nUm cavalo foi atrelado no seu bra\u00e7o esquerdo. Outro cavalo, na perna<br \/>\ndireita.<\/p>\n<p>O terceiro cavalo, no bra\u00e7o direito. O \u00faltimo cavalo, na perna<br \/>\nesquerda. Cada cavalo, montado por um tropeiro encoura\u00e7ado.<\/p>\n<p>A\u00e7oitados, esporeados, os quatro cavalos dispararam, cada qual para<br \/>\nseu Iado. Mas l\u00e1 ficaram parados, tirando fa\u00edscas com as ferraduras<br \/>\nno pedral, atados que estavam na carne rija de Filipe. Chicoteados, esporeados<br \/>\nde sangrar, afinal, com Filipe estra\u00e7alhado, partiu libertado o cavalo<br \/>\ndo bra\u00e7o direito, levando com o bra\u00e7o um peda\u00e7o do peito.<br \/>\nR\u00e1pidos, instant\u00e2neos, os outros tr\u00eas cavalos dispararam,<br \/>\ndespeda\u00e7ando Filipe, cada qual com seu peda\u00e7o.<\/p>\n<p>O que fizeram quando os cavalos suados j\u00e1 longe, pararam, cumprida<br \/>\na ordem hedionda? L\u00e1 se foram, arrastando seus quartos pelas estradas,<br \/>\npara o monturo de um antigo cascalhal. L\u00e1 no buraco preto, j\u00e1<br \/>\npelo meio de cal, jogaram o que restava das carnes e ossos do her\u00f3i<br \/>\ne mais cal lan\u00e7aram por cima. Filipe ferveu nas carnes parcas sua morte<br \/>\nderradeira. Para todo o sempre, mataram Filipe. Mataram t\u00e3o matado<br \/>\nque para todo o sempre ser\u00e1 ele lembrado.<\/p>\n<p>Meio s\u00e9culo correu com o povo agachado at\u00e9 chegar a hora e<br \/>\na vez de outro assinalado. O destino caiu, coroou desta vez a cabe\u00e7a<br \/>\nde Joaquim Jos\u00e9, condenado pela Rainha Louca a morrer morte natural<br \/>\nna forca, ser esquartejado e exposto para escarmento do povo. Despeda\u00e7ado,<br \/>\nl\u00e1 ficaram suas partes apodrecendo, at\u00e9 que o tempo as consuma<br \/>\ncomo queria dona Maria. Os quatro quartos plantados fedendo, na Estrada Real.<br \/>\nA cabe\u00e7a com a cabeleira e a barba, bastas, al\u00e7ada num poste<br \/>\nalto, em Ouro Preto, guardada por famintos urubus asas de ferro, bicos agudos:<br \/>\ntenazes. Estes foram, s\u00f3 eles, seus coveiros. Acabado assim t\u00e3o<br \/>\nacabado, sem ao menos a caridade de cal virgem, Tiradentes n\u00e3o se acabou<br \/>\nnem se acaba. Prossegue em n\u00f3s, latejando.<\/p>\n<p>Pelos s\u00e9culos continuar\u00e1 clamando na carne dos netos de nossos<br \/>\nnetos, cobrando de cada qual sua dignidade, seu amor \u00e0 liberdade.<\/p>\n<p>As barba.s. As barbas. As barbas.<\/p>\n<p>Aqui permanecer\u00e3o \u00c0 espera doutra cara e doutra vergonha.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o nossos her\u00f3is assinalados, s\u00edmbolos de uma<br \/>\ngrandeza rec\u00f4ndita que havia.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1, eu quero crer, mais rara que os outros, por garimpar.<\/p>\n<p>Maior que eles dois, por\u00e9m, \u00e9 a multid\u00e3o que vou chamar.<br \/>\nVeja: &#8211; Venham, eu os convoco, venham todos. Venham aqui dizer da dor dos<br \/>\nnervos dilacerados, do cansa\u00e7o dos m\u00fasculos esgotados. Venham<br \/>\ntodos, com suas tristes caras, com suas murchas ilus\u00f5es, venham vestidos<br \/>\nou nus, tal como foram enterrados, se foram.<\/p>\n<p>Venham morrer aqui de novo suas mi\u00fadas mortes ingl\u00f3rias.<\/p>\n<p>Venha primeiro voc\u00ea, voc\u00ea mineiro an\u00f4nimo que furtou o<br \/>\ncr\u00e2nio de Tiradentes, rezou por sua alma e o sepultou. Mas venham todos!<br \/>\nVoc\u00ea os v\u00ea? Foram milh\u00f5es de almas vestidas de corpos mortais,<br \/>\ndo\u00eddos, os que aqui nessas Minas se gastaram. Olhe de novo pra eles,<br \/>\nolhe bem. Veja s\u00f3. No princ\u00edpio eram principalmente \u00edndios<br \/>\nnativos e uns poucos brancarr\u00f5es importados.<\/p>\n<p>Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, logo,<br \/>\nveja s\u00f3: eram j\u00e1 multid\u00f5es de mesti\u00e7os, crioulos,<br \/>\ndaqui mesmo.<\/p>\n<p>Esses milh\u00f5es de gentes tantas s\u00e3o as mulas desta gueena de<br \/>\nlavar cascalhais. V\u00ea voc\u00ea como eles todos nos olham, olhos baixos,<br \/>\ntemerosos, perguntando calados: &#8211; Quem somos n\u00f3s? Existimos, para qu\u00ea?<br \/>\nPor qu\u00ea? Para nada? Somos o povo dos her\u00f3is assinalados, mas<br \/>\nsomos mesmo \u00e9 o povo dessas multid\u00f5es medonhas de gentes, enganadas<br \/>\ne gastadas. O povo escarmentado na carne e na alma.<\/p>\n<p>Somos o povo que viu e que v\u00ea. O povo que vigia e espera.<\/p>\n<p>Minas estelar, p\u00e1ramo, m\u00e3e do ferro, m\u00e3e do ouro e<br \/>\ndo azougue. M\u00e3e mineral, fulgor sulf\u00farico. Minas sideral, lusa<br \/>\nquina de rocha viva enterrada al\u00e9m-mar.<\/p>\n<p>Minas antiga, cruel satr\u00e1pia do fel e da agonia, sou eu que te pe\u00e7o:<br \/>\nponha um final nesta agonia: relampeia. Relampeia agora, pe\u00e7a a morte.<br \/>\nMorra! Morra e renas\u00e7a.<\/p>\n<p>Rolem pedras saltadas do mar petrificado; rolem, arrombem o subterr\u00e2neo<br \/>\npared\u00e3o de granito que aprisiona o povo e o tempo, escravizando, sangrando,<br \/>\nesfomeando, assassinando.<\/p>\n<p>Minas, \u00e1rvore alta. Minas de sangue, de l\u00e1grima, de c\u00f3lera.<br \/>\nMinas, m\u00e3e dos homens.<\/p>\n<p>Minas do esperma, do milho, da p\u00e9tala, da p\u00e1, da dinamite.<br \/>\nMinas carnal da flor e da semente. Minas m\u00e3e da dor, m\u00e3e da<br \/>\nvergonha. Minas, minha m\u00e3e crepuscular.<\/p>\n<p>Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tintas da antemanh\u00e3<br \/>\n(Ribeiro 1988:376-8 ).<\/p>\n<p>Nossa gl\u00f3ria maior como povo \u00e9 eles terem existido e se expressado<br \/>\nde forma t\u00e3o alta. Eles s\u00e3o nossa gl\u00f3ria. Suas obras,<br \/>\nna forma de magn\u00edfica arquitetura e escultura, de m\u00fasica erudita<br \/>\nda mais alta qualidade, de poemas e livros, s\u00e3o nosso orgulho.<\/p>\n<p>Essa explos\u00e3o de prosperidade teria m\u00faltiplas conseq\u00fc\u00eancias.<br \/>\nEntre outras, a de interiorizar o esfor\u00e7o colonizador que, at\u00e9<br \/>\nent\u00e3o &#8211; antes das incurs\u00f5es dos bandeirantes -, havia se limitado<br \/>\n\u00e0s terras do litoral, &#8220;contentando-se em arrastar-se ao longo<br \/>\nda costa como caranguejos&#8221;, disse frei Vicente do Salvador. E, sobretudo,<br \/>\na de come\u00e7ar a articular os n\u00facleos brasileiros dispersos na<br \/>\nuniftca\u00e7\u00e3o do ternt\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, o Brasil era um arquip\u00e9lago de implantes<br \/>\ncoloniais, ilhados e isolados uns dos outros por dist\u00e2ncias de milhares<br \/>\nde quil\u00f4metros. Agora se criava uma rede de interc\u00e2mbio comercial<br \/>\nque teria enorme import\u00e2ncia no futuro, porque dava uma base econ\u00f4mica<br \/>\n\u00e0 unidade nacional.<\/p>\n<p>Outro efeito do auge aur\u00edfero foi reter no interior do pa\u00eds<br \/>\numa massa de recursos que permitiu edificar rapidamente a ampla rede urbana<br \/>\ndas zonas de minera\u00e7\u00e3o, criando cidades prodigiosamente ricas<br \/>\ne belas. Nela e nos antigos portos, floresce, ent\u00e3o, uma civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo ouro que se expressa em templos e pal\u00e1cios suntuosos, cuja edifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ne decora\u00e7\u00e3o ocuparam uma vasta m\u00e3o-de-obra especializada<br \/>\nde artes\u00e3os e de artistas.<\/p>\n<p>Os ricos brasileiros se tornaram mais ricos e mais ostentat\u00f3rios,<br \/>\nsaindo da rudeza paulistana e da mediocridade pernambucana e baiana dos dois<br \/>\nprimeiros s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Com o esgotamento das jazidas de ouro, veio a di\u00e1spora. Aquela civilizad\u00edssima<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o de negros, mulatos e mesti\u00e7os se dispersou<br \/>\npelas sesmarias de Minas, implantando ali modos de viver, de comer, de vestir,<br \/>\nde calar, de entristecer-se e at\u00e9 de se suicidar que s\u00e3o \u00fanicos<br \/>\nno Brasil. \u00c9 a mineiridade.<\/p>\n<p>Mais significativa ainda foi a influ\u00eancia da segunda invas\u00e3o<br \/>\nportuguesa. De um dia para outro, quase 20 mil portugueses, fugindo das tropas<br \/>\nde Napole\u00e3o, aportam \u00e0 Bahia e ao Rio.<\/p>\n<p>O s\u00e1bio rei sabia bem que seu reino prestante estava aqui. Assim<br \/>\n\u00e9 que, vendo Portugal invadido por Napole\u00e3o, veio ter aqui,<br \/>\ntangendo sua m\u00e3e louca. Trouxe consigo o melhor da burocracia portuguesa.<br \/>\nFoi um imenso empreendimento naval em que milhares de portugueses desembestaram<br \/>\npara o Brasil, disputando lugares a tapa nas naus inglesas convocadas para<br \/>\na opera\u00e7\u00e3o. Sua influ\u00eancia foi prodigiosa.<\/p>\n<p>O Brasil que nunca tivera universidades recebe de abrupto toda uma classe<br \/>\ndirigente competent\u00edssima que, naturalmente, se faz pagar apropriando-se<br \/>\ndo melhor que havia no pa\u00eds. Mas nos ensina a governar.<\/p>\n<p>Enquanto a Am\u00e9rica hisp\u00e2nica se esfacela e em cada porto se<br \/>\ninventa uma na\u00e7\u00e3o pouco vi\u00e1vel, aqui, apesar das imensas<br \/>\ndiferen\u00e7as regionais, se mant\u00e9m a unidade.<\/p>\n<p>Cada levante, mesmo os tisnados de republicanos, era enfrentado pelos generais<br \/>\ndo rei, levando numa m\u00e3o os canh\u00f5es e na outra dragonas e decretos<br \/>\nde anistia. \u00c9 claro que muitas dessas lutas foram t\u00e3o ferozes<br \/>\nque obrigaram el-rei a mandar fuzilar quantidades de curas, que eram os intelectuais<br \/>\nrebeldes de ent\u00e3o. Mas terminada a refrega, tudo se reconciliava.<\/p>\n<p>Em 1800, a popula\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio brasileiro recupera<br \/>\nseu montante original de 5 milh\u00f5es. Mas o faz com uma composi\u00e7\u00e3o<br \/>\ninvertida. A metade \u00e9 formada, agora, por &#8220;brancos&#8221; do Brasil,<br \/>\npredominantemente &#8220;pardos&#8221; &#8211; quer dizer, mesti\u00e7os e mulatos<br \/>\n-, falando principalmente o portugu\u00eas como l\u00edngua materna, e<br \/>\nj\u00e1 completamente integrados \u00e0 cultura neobrasileira. Os negros<br \/>\nescravos somam 1,5 milh\u00e3o, sendo uma ter\u00e7a parte deles constitu\u00edda<br \/>\npor &#8220;crioulos&#8221; &#8211; quer dizer, negros nascidos no Brasil e amplamente<br \/>\naculturados. Os remanescentes da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena original,<br \/>\nque haviam sido subjugados e estavam integrados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nneobrasileira como for\u00e7a de trabalho escrava, diretamente subjugada<br \/>\nou incorporada ao sistema atrav\u00e9s das miss\u00f5es ou das diretorias<br \/>\nde \u00edndios, somariam meio milh\u00e3o. Para al\u00e9m das fronteiras<br \/>\nda civiliza\u00e7\u00e3o, fugindo ou resistindo \u00e0 conscri\u00e7\u00e3o<br \/>\nna for\u00e7a de trabalho e ao avassalamento, viveria mais 1 milh\u00e3o<br \/>\nde \u00edndios arredios e hostis, concentrando-se principalmente na Amaz\u00f4nia,<br \/>\nmas disseminados por todo o pa\u00eds, onde quer que uma zona de matas indevassadas<br \/>\nlhes proporcionasse ref\u00fagio.<\/p>\n<p>O ano de 1800 representou uma virada na hist\u00f3ria brasileira. A economia<br \/>\nexportadora atravessava um per\u00edodo de decl\u00ednio, o que constitu\u00eda,<br \/>\ncertamente, um desafogo para a popula\u00e7\u00e3o. Com efeito, reduzido<br \/>\no ritmo da produ\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira e superada a \u00e9poca<br \/>\nde prosperidade das explora\u00e7\u00f5es de ouro e diamantes, que ocupavam<br \/>\nos principais contingentes de trabalhadores negros e brancos, estes se dispersaram<br \/>\nem busca de formas aut\u00e1rquicas de sobreviv\u00eancia. A produ\u00e7\u00e3o<br \/>\na\u00e7ucareira, que se debatia na crise desencadeada com a expans\u00e3o<br \/>\ndos novos centros produtores das Antilhas, passou a contribuir com metade<br \/>\ndo valor da exporta\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m havia diminu\u00eddo<br \/>\nbastante. A pecu\u00e1ria se estendeu prodigiosamente pelos sert\u00f5es<br \/>\ninteriores e pelas pastagens sulinas. O setor mais din\u00e2mico era, ent\u00e3o,<br \/>\no cultivo de arroz e, depois, de algod\u00e3o do Maranh\u00e3o, cujo principal<br \/>\ncomprador eram as manufaturas inglesas em conflito com os produtores norte-americanos.<\/p>\n<p>O resultado fundamental dos tr\u00eas s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne dos sucessivos projetos de viabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do<br \/>\nBrasil foi a constitui\u00e7\u00e3o dessa popula\u00e7\u00e3o &#8211; de<br \/>\n5 milh\u00f5es de habitantes, uma das mais numerosas das Am\u00e9ricas<br \/>\nde ent\u00e3o -, com a simult\u00e2nea decultura\u00e7\u00e3o e transfigura\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica das suas diversas matrizes constitutivas. At\u00e9 1850, s\u00f3<br \/>\no M\u00e9xico ( 7,7 milh\u00f5es) tinha maior popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o Brasil ( 7,2 milh\u00f5es).<\/p>\n<p>O produto real do processo de coloniza\u00e7\u00e3o j\u00e1 era, naquela<br \/>\naltura, a forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro e sua incorpora\u00e7\u00e3o<br \/>\na uma nacionalidade \u00e9tnica e economicamente integrada. Esse \u00faltimo<br \/>\nresultado parece haver sido alcan\u00e7ado umas d\u00e9cadas antes, quando<br \/>\nquase todos os n\u00facleos brasileiros j\u00e1 se integravam em uma rede<br \/>\ncomercial interna e esta passara a ser mais importante que o mercado externo.<br \/>\nOs revezes experimentados pelas diversas economias regionais de exporta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a conseq\u00fcente queda do poderio do empresariado latifundi\u00e1rio<br \/>\ne monocultor pareceram abrir aos brasileiros, naquele momento, a oportunidade<br \/>\nde se estruturarem como um povo que existisse para si mesmo. Isso talvez tivesse<br \/>\nocorrido se n\u00e3o surgisse um novo produto de exporta\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; o caf\u00e9 -, que viria rearticular toda a for\u00e7a de trabalho para<br \/>\num novo modo de integra\u00e7\u00e3o no mercado mundial e de reincorpora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos brasileiros na condi\u00e7\u00e3o de proletariado externo.<\/p>\n<p>Bem pode ser, por\u00e9m, que, mesmo sem o auge do caf\u00e9, aquela<br \/>\nrevers\u00e3o dos brasileiros sobre si mesmos n\u00e3o se cumprisse. O<br \/>\nBrasil, produto da expans\u00e3o da economia mundial, necessitaria profundas<br \/>\ntransforma\u00e7\u00f5es para subsistir fora dela. As decis\u00f5es<br \/>\nindispens\u00e1veis para isso &#8211; aboli\u00e7\u00e3o, reforma agr\u00e1ria,<br \/>\nindustrializa\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma &#8211; excediam \u00e0 capacidade<br \/>\ndaquele segmento social existente, uma vez que, para a classe dominante, permanecia<br \/>\nsendo lucrativa economicamente a importa\u00e7\u00e3o de bens manufaturados<br \/>\ndos centros europeus e a exporta\u00e7\u00e3o de produtos tropicais.<\/p>\n<p>Acresce, ainda, que, n\u00e3o existindo ent\u00e3o modelos de reconstru\u00e7\u00e3o<br \/>\nintencional da sociedade, uma revers\u00e3o puramente autonomista teria<br \/>\nresultado, no m\u00e1ximo, em uma autarquia feudal. Como em todos os casos<br \/>\nde feudaliza\u00e7\u00e3o, isso representaria uma ruptura do sistema mercantil,<br \/>\nque tornaria impratic\u00e1vel a escravid\u00e3o porque n\u00e3o haveria<br \/>\ncomo adquirir novos escravos e porque os tornaria in\u00fateis em sua fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nefetiva, que \u00e9 a de produtores de mercadorias. Mas condenaria a sociedade<br \/>\nnascente a um retrocesso hist\u00f3rico que a tornaria, provavelmente, incapaz<br \/>\nde defender para si mesma a posse do territ\u00f3rio que ocupava e de evitar<br \/>\nas amea\u00e7as de cair sob a reg\u00eancia de outra domina\u00e7\u00e3o<br \/>\ncolonial direta por parte de algumas das novas pot\u00eancias industriais<br \/>\nemergentes.<\/p>\n<p>Quisesse ou n\u00e3o, o Brasil era um componente marginal e dependente<br \/>\nda civiliza\u00e7\u00e3o agr\u00e1rio-mercantil em vias de se industrializar.<br \/>\nDentro de quaisquer desses tipos de civiliza\u00e7\u00e3o, o fracasso<br \/>\nde uma linha de produ\u00e7\u00e3o exportadora s\u00f3 incitava a descobrir<br \/>\noutra linha que, substituindo-a, revitalizasse a economia colonial, fortalecendo,<br \/>\nem conseq\u00fc\u00eancia, a depend\u00eancia externa e a ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nolig\u00e1rquica interna.<\/p>\n<h2>ESTOQUE NEGRO<\/h2>\n<p>O &#8220;branco&#8221; colonizador e seus descendentes aumentavam s\u00e9culo<br \/>\nap\u00f3s s\u00e9culo, n\u00e3o pelo ingresso de novos contingentes<br \/>\neuropeus, mas, principalmente, pela multiplica\u00e7\u00e3o de mesti\u00e7os<br \/>\ne mulatos. Os negros, por sua vez, cresceram passo a passo com os brancos,<br \/>\nmas, ao contr\u00e1rio destes, s\u00f3 o fizeram pela introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\nanual maci\u00e7a de enormes contingentes de escravos, destinados tanto<br \/>\na repor os desgastados no trabalho, como a aumentar o estoque dispon\u00edvel<br \/>\npara atender a novos projetos produtivos.<\/p>\n<p>Reconstituiremos a seguir esse processo bi\u00f3tico de consuma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos negros e de multiplica\u00e7\u00e3o discreta de mulatos, que te ve<br \/>\nlugar simultaneamente com sua decultura\u00e7\u00e3o e incorpora\u00e7\u00e3o<br \/>\nna sociedade e na cultura brasileiras.<\/p>\n<p>Os primeiros contingentes de negros foram introduzidos no Brasil nos \u00faltimos<br \/>\nanos da primeira metade do s\u00e9culo xvi, talvez em 1538. Eram pouco numerosos<br \/>\npor\u00e9m, como se deduz pelas dificuldades que t\u00eam os historiadores<br \/>\nem documentar esses primeiros ingressos. Logo a seguir, entretanto, com o<br \/>\ndesenvolvimento da economia a\u00e7ucareira, passam a chegar em grandes<br \/>\nlevas. A ca\u00e7ada de negros na \u00c1frica, sua travessia e a venda<br \/>\naqui passam a constituir o grande neg\u00f3cio dos europeus, em que imensos<br \/>\ncapitais foram investidos e que absorveria, no futuro, pelo menos metade do<br \/>\nvalor do a\u00e7\u00facar e, depois, do ouro.<\/p>\n<p>A Coroa permitia a cada senhor de engenho importar at\u00e9 120 &#8220;pe\u00e7as&#8221;,<br \/>\nmas nunca foi limitado seu direito de comprar negros trazidos aos mercados<br \/>\nde escravos. Com base nessa legalidade, os concession\u00e1rios reais do<br \/>\ntr\u00e1fico negreiro tiveram um dos neg\u00f3cios mais s\u00f3lidos<br \/>\nda col\u00f4nia, que duraria tr\u00eas s\u00e9culos, permitindo-lhes transladar<br \/>\nmilh\u00f5es de africanos ao Brasil e, deste modo, absorver a maior parcela<br \/>\nde rendimento das empresas a\u00e7ucareiras, aur\u00edferas, de algod\u00e3o,<br \/>\nde tabaco, de cacau e de caf\u00e9, que era o custo da m\u00e3o-de-obra<br \/>\nescrava. Se calcula em 160 milh\u00f5es de libras-ouro o custo pago pela<br \/>\neconomia brasileira para a aquisi\u00e7\u00e3o de escravos africanos nos<br \/>\ntrezentos anos de tr\u00e1flco.<\/p>\n<p>O imenso neg\u00f3cio escravista raramente foi objeto de reser-. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\nse considerava merit\u00f3rio realizar as ca\u00e7adas humanas, matando<br \/>\nos que resistissem, como um modo de livrar o negro do seu atraso e at\u00e9<br \/>\ncomo um ato pio de aproxim\u00e1-los do deus dos brancos.<\/p>\n<p>As primeiras estimativas relativas \u00e0 quantidade de negros introduzidos<br \/>\nno Brasil durante os tr\u00eas s\u00e9culos de tr\u00e1fico variam muito.<br \/>\nV\u00e3o desde n\u00fameros exageradamente altos, como 13,5 milh\u00f5es<br \/>\npara Cal\u00f3geras ( 1927 ) ou 15 milh\u00f5es para Rocha Pombo ( 1905<br \/>\n), at\u00e9 c\u00e1lculos muito ex\u00edguos, como 4,6 milh\u00f5es<br \/>\npara Taunay ( 1941 ) e 3,3 milh\u00f5es para Simonsen ( 1937 ).<\/p>\n<p>Lamentavelmente, n\u00e3o h\u00e1 estudos demogr\u00e1ficos criteriosamente<br \/>\nelaborados que permitam substituir avalia\u00e7\u00f5es t\u00e3o desencontradas<br \/>\npor um c\u00e1lculo bem fundado. Em um estudo de P Curtin ( 1969 ), feito<br \/>\ncom base nos registros oficiais arquivados na Bahia, foram consignados 959.600<br \/>\nescravos introduzidos de 1701 a 1760, 931.800 de 1761 a 1810 e, finalmente,<br \/>\n1.145.400 de 1811 a 1860. Quer dizer, um total de 3.036.800, que, somado aos<br \/>\n180 mil prov\u00e1veis ingressos anteriores, nos daria um total de 3.216.800.<br \/>\nA utiliza\u00e7\u00e3o de dados fiscais, como base dos c\u00f4mputos,<br \/>\nleva a supor que estes se situam muito abaixo da cifra verdadeira. Com efeito,<br \/>\nn\u00e3o se leva em conta, na devida propor\u00e7\u00e3o, o contrabando<br \/>\ne a oculta\u00e7\u00e3o de contingentes escravos para evitar o pagamento<br \/>\nde impostos, o que faz supor que o n\u00famero real bem possa se aproximar,<br \/>\nat\u00e9, do dobro do assinalado.<\/p>\n<p>Uma estimativa pr\u00f3xima deste n\u00famero, devida a M. Buescu (<br \/>\n1968 ), parece mais pr\u00f3xima do n\u00famero real de escravos introduzidos<br \/>\nno Brasil. Partindo do total de escravos geralmente admitido nas fontes prim\u00e1rias<br \/>\npara cada s\u00e9culo, Buescu aplica a taxa de reposi\u00e7\u00e3o que<br \/>\nsup\u00f5e ser necess\u00e1ria para manter o volume de popula\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; sabendo-se que seu crescimento vegetativo era negativo &#8211; e agrega taxas<br \/>\nadicionais para os per\u00edodos em que aumentou a massa escrava. Como resultado<br \/>\nde seus c\u00e1lculos, considerando uma taxa anual decrescente de reposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque vai de 5% no s\u00e9culo XVI a 2% no s\u00e9culo XIX, admite um ingresso<br \/>\nglobal de 75 mil negros para o s\u00e9culo XVI, 452.000 para o XVII, 3.621.000<br \/>\npara o XVIII e 2.204.000 para o s\u00e9culo XIX, o que soma um total de<br \/>\n6.352.000 escravos importados de 1540 a 1860. Esses n\u00fameros, de demografia<br \/>\nhipot\u00e9tica, n\u00e3o contam com a quantidade geralmente admitida<br \/>\nnas fontes prim\u00e1rias.<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o escrava por sexo e<br \/>\npor idade \u00e9 ainda mais dif\u00edcil de ser avaliada. S\u00f3 se<br \/>\nconta, por isso, com estimativas vagas e com algumas s\u00e9ries dispersas<br \/>\ndo n\u00famero de negros locais que se registraram sobretudo em Minas Gerais.<br \/>\nPara o total e para grandes per\u00edodos temos de extrapolar, nos contentando<br \/>\ncom vaguedades.<\/p>\n<p>A propor\u00e7\u00e3o geralmente admitida de homens por mulheres na<br \/>\nimporta\u00e7\u00e3o \u00e9 de quatro para um. Alguns autores, analisando<br \/>\nplant\u00e9is de escravos africanos, aceitam avalia\u00e7\u00f5es como<br \/>\n162% ou 138% de homens em \u00e1reas como Pernambuco, para meados do s\u00e9culo<br \/>\npassado. Dados colhidos em Vassouras, no estado do Rio de Janeiro, para o<br \/>\nmesmo per\u00edodo, admitem uma popula\u00e7\u00e3o equilibrada de homens<br \/>\ne mulheres.<\/p>\n<p>Como teriam chegado aqui tantas mulheres, que as estat\u00edsticas dos<br \/>\nportos n\u00e3o registram? Tratava-se de negrinhas roubadas que alcan\u00e7avam<br \/>\naltos pre\u00e7os, \u00e0s vezes o de dois mulat\u00f5es, se fossem<br \/>\ngraciosas. Eram luxos que se davam os senhores e capatazes. Produziram quantidades<br \/>\nde mulatas, que viveram melhores destinos nas casas-grandes. Algumas se converteram<br \/>\nem mucamas e at\u00e9 se incorporaram \u00e0s fam\u00edlias, como amas<br \/>\nde leite, tal como Gilberto Freyre descreve gostosamente.<\/p>\n<p>A negra-massa, depois de servir aos senhores, provocando \u00e0s vezes<br \/>\nci\u00fames em que as senhoras lhes mandavam arrancar todos os dentes, ca\u00edam<br \/>\nna vida de trabalho bra\u00e7al dos engenhos e das minas em igualdade com<br \/>\nos homens. S\u00f3 a esta negra, largada e envelhecida, o negro tinha acesso<br \/>\npara produzir crioulos.<\/p>\n<p>Foi tentador demais o desejo de montar fazendas de cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde negros para livrar os empres\u00e1rios das importa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO neg\u00f3cio nunca deu certo. Os negrinhos, espert\u00edssimos, que<br \/>\nali se criavam, encontravam modos de ganhar o mundo fazendo-se passar por<br \/>\nnegros forros, o que tornava o neg\u00f3cio muito oneroso. Acresce que,<br \/>\no moleque que n\u00e3o entrasse no duro trabalho do canavial muito novinho,<br \/>\ndoze anos presumivelmente, jamais se adaptaria \u00e0 dureza desse trabalho.<\/p>\n<p>Um parente meu guardou a carta de um capataz que calcula bem as vantagens<br \/>\nrelativas de usar negros cativos ou importados, optando francamente por estes<br \/>\n\u00faltimos como os mais rent\u00e1veis.<\/p>\n<p>Dispende-se mais com estes in\u00fateis escravos para seu vestu\u00e1rio,<br \/>\nuns pelos outros, dois covados de baeta, e seis varas de pano de algod\u00e3o<br \/>\nque n\u00e3o importa menos de 2$200 cada um, e todos, 290$400, perfazendo<br \/>\no sustento, e vestu\u00e1rio anual, 3:181$200 r\u00e9is, al\u00e9m dos<br \/>\ncurativos das suas doen\u00e7as, que sempre se gasta mais do que quando<br \/>\ngozam sa\u00fade.<\/p>\n<p>Esta despesa faz anualmente o engenho com a cria\u00e7\u00e3o dos meninos,<br \/>\ne com os inv\u00e1lidos, e decr\u00e9pitos por obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nda caridade para com uns, e outros, esperando que os meninos de quinze anos<br \/>\npara diante sejam trabalhadores, e supram a falta dos africanos. \u00c9<br \/>\nsem controv\u00e9rsia que a metade dos que nascem, morrem at\u00e9 a idade<br \/>\nde dez anos, e calculando a despesa de um escravo crioulo at\u00e9 dar servi\u00e7o,<br \/>\nmonta 24$600 por ano, que nos quinze anos de cria\u00e7\u00e3o vem a ficar<br \/>\npela quantia de 369$000 r\u00e9is, quando um africano desta mesma idade<br \/>\ncompra-se por 150$000 r\u00e9is, e eis aqui o crioulo em mais carestia,<br \/>\nexcedendo ao africano em 219$000 r\u00e9is.<\/p>\n<p>Outra observa\u00e7\u00e3o provada pela experi\u00eancia, que ao duro<br \/>\ntrabalho dos engenhos resiste mais o escravo africano, do que o crioulo, por<br \/>\nser de constitui\u00e7\u00e3o menos robusta, e de cinqilenta anos para<br \/>\ndiante n\u00e3o se pode contar em linha de servi\u00e7os, contando-se<br \/>\nali\u00e1s o africano at\u00e9 sessenta e cinco, uns mais, e outros menos,<br \/>\no que n\u00e3o sucede geralmente com os crioulos, mulatos e mesti\u00e7os<br \/>\n(T\u00f3pico de cartas do administrador na Bahia aos senhores da Casa da<br \/>\nPonte em Lisboa &#8211; &#8220;Engenho da Matta, janeiro de 1818. Desconto dos escravos<br \/>\nincapazes do agreste trabalho do engenho&#8221; in Ribeiro Pires 1979298 ).<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>III &#8211; PROCESSO SOCIOCULTURAL<\/h2>\n<h2>1 AVENTURA E ROTINA<\/h2>\n<h5>AS GUERRAS DO BRASIL<\/h5>\n<p>\u00c0s vezes se diz que nossa caracter\u00edstica essencial \u00e9<br \/>\na cordialidade, que faria de n\u00f3s um povo por excel\u00eancia gentil<br \/>\ne pac\u00edfico. Ser\u00e1 assim? A feia verdade \u00e9 que conflitos<br \/>\nde toda a ordem dilaceraram a hist\u00f3ria brasileira, \u00e9tnicos,<br \/>\nsociais, econ\u00f4micos, religiosos, raciais etc. O mais assinal\u00e1vel<br \/>\n\u00e9 que nunca s\u00e3o conflitos puros. Cada um se pinta com as cores<br \/>\ndos outros.<\/p>\n<p>O importante, aqui, \u00e9 a predomin\u00e2ncia que marca e caracteriza<br \/>\ncada conflito concreto. Assim, a luta dos Cabanos, contendo, embora, tens\u00f5es<br \/>\ninter-raciais (brancos versus caboclos), ou classistas (senhores versus servi\u00e7ais),<br \/>\nera, em ess\u00eancia, um conflito inter\u00e9tnico, porque ali uma etnia<br \/>\ndisputava a hegemonia, querendo dar sua imagem \u00e9tnica \u00e0 sociedade.<br \/>\nO mesmo ocorre em Palmares, tida freq\u00fcentemente como uma luta classista<br \/>\n(escravos versus senhores) que se fez, no entanto, no enfrentamento racial,<br \/>\nque por vezes se exibe como seu componente principal. Tamb\u00e9m os quilombolas<br \/>\nqueriam criar uma nova forma de vida social, oposta \u00e0quela de que eles<br \/>\nfugiam. N\u00e3o chegaram a amadurecer como uma alternativa vi\u00e1vel<br \/>\nao poder e \u00e0 reg\u00eancia da sociedade, mas suas lutas chegaram a<br \/>\namea\u00e7\u00e1-las.<\/p>\n<p>Um terceiro exemplo \u00e9 Canudos, que tamb\u00e9m mostra essas tr\u00eas<br \/>\nordens de tens\u00e3o. A classista prevalece porque os sertanejos, sublevados<br \/>\npelo Conselheiro, combatiam, de fato, a ordem fazendeira, que, condenando<br \/>\no povo a viver num mundo todo dividido em fazendas, os compelia a servir a<br \/>\num fazendeiro ou a outro, sem jamais ter seu p\u00e9- de-ch\u00e3o. Em<br \/>\nconseqii\u00eancia, n\u00e3o tinham qualquer possibilidade de orientar<br \/>\nseu pr\u00f3prio trabalho para o atendimento de suas necessidades. Mas l\u00e1<br \/>\nestavam pulsando os conflitos raciais e outros, inclusive o religioso.<\/p>\n<p>O processo de forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, que se fez pelo<br \/>\nentrechoque de seus contingentes \u00edndios, negros e brancos, foi, por<br \/>\nconseguinte, altamente conflitivo.<\/p>\n<p>Pode-se afirmar, mesmo, que vivemos praticamente em estado de guerra latente,<br \/>\nque, por vezes, e com freq\u00fc\u00eancia, se torna cruento, sangrento.<\/p>\n<p>Conflitos inter\u00e9tnicos existiram desde sempre, opondo as tribos ind\u00edgenas<br \/>\numas \u00e0s outras. Mas isto se dava sem maiores conseq\u00fc\u00eancias,<br \/>\nporque nenhuma delas tinha possibilidade de impor sua hegemonia \u00e0s<br \/>\ndemais. A situa\u00e7\u00e3o muda completamente quando entra nesse conflito<br \/>\num novo tipo de contendor, de car\u00e1ter irreconcili\u00e1vel, que \u00e9<br \/>\no dominador europeu e os novos grupos humanos que ele vai aglutinando, avassalando<br \/>\ne configurando como uma macroetnia expansionista.<\/p>\n<p>De 1500 at\u00e9 hoje, esses enfrentamentos se v\u00eam desencadeando<br \/>\natrav\u00e9s de lutas armadas contra cada tribo que se defronta com a sociedade<br \/>\nnacional, em sua expans\u00e3o inexor\u00e1vel pelo territ\u00f3rio<br \/>\nde que vai se apropriando como seu ch\u00e3o do mundo: a base f\u00edsica<br \/>\nde sua exist\u00eancia. Os Yanomami e as emo\u00e7\u00f5es desencontradas<br \/>\nque eles provocam entre os que os defendem e os que querem desaloj\u00e1-los<br \/>\ns\u00e3o apenas o \u00faltimo epis\u00f3dio dessa guerra secular.<\/p>\n<p>O conflito inter\u00e9tnico se processa no curso de um movimento secular<br \/>\nde sucess\u00e3o ecol\u00f3gica entre a popula\u00e7\u00e3o original<br \/>\ndo territ\u00f3rio e o invasor que a fustiga a fim de implantar um novo<br \/>\ntipo de economia e de sociedade. Trata-se, por conseguinte, de uma guerra<br \/>\nde exterm\u00ednio. Nela, nenhuma paz \u00e9 poss\u00edvel, sen\u00e3o<br \/>\ncom um armist\u00edcio provis\u00f3rio, porque os \u00edndios n\u00e3o<br \/>\npodem ceder no que se espera deles, que seria deixar de ser eles mesmos para<br \/>\ningressar individualmente na nova sociedade, onde viveriam outra forma de<br \/>\nexist\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 a sua. Os seus alternos, que s\u00e3o<br \/>\nos brasileiros, n\u00e3o abrem m\u00e3o, tamb\u00e9m, do sentimento<br \/>\nde que, neste ternt\u00f3rio, n\u00e3o cabe outra identifica\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica que a sua pr\u00f3pria, que tendo sido assumida por tantos<br \/>\neuropeus, negros e asi\u00e1ticos, deveria ser aceita tamb\u00e9m pelos<br \/>\n\u00edndios.<\/p>\n<p>Esse conflito n\u00e3o se d\u00e1, naturalmente, como um debate em que<br \/>\ncada parte apresenta seus argumentos. O brasileiro que captura um \u00edndio<br \/>\npara us\u00e1-lo como escravo, o faz achando que seria uma inutilidade deix\u00e1-los<br \/>\nvivendo \u00e0 toa. O \u00edndio, repelindo sua escraviza\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o coisificaria, prefere a morte \u00e0 submiss\u00e3o. N\u00e3o<br \/>\npor qualquer hero\u00edsmo, mas por um imperativo \u00e9tnico, j\u00e1<br \/>\nque as etnias s\u00e3o por natureza excludentes.<\/p>\n<p>As for\u00e7as que se defrontam nessas lutas n\u00e3o podiam ser mais<br \/>\ncruamente desiguais.<\/p>\n<p>De um lado, sociedades tribais, estruturadas com base no parentesco e outras<br \/>\nformas de sociabilidade, armadas de uma profunda identifica\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica, irmanadas por um modo de vida essencialmente solid\u00e1rio.<br \/>\nDo lado oposto, uma estrutura estatal, fundada na conquista e domina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um territ\u00f3rio, cujos habitantes, qualquer que seja a sua origem,<br \/>\ncomp\u00f5em uma sociedade articulada em classes, vale dizer, antagonicamente<br \/>\nopostas mas imperativamente unificadas para o cumprimento de metas econ\u00f4micas<br \/>\nsocialmente irrespons\u00e1veis. A primeira das quais \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo territ\u00f3rio. Onde quer que um contingente etnicamente estranho procure,<br \/>\ndentro desse territ\u00f3rio, manter seu pr\u00f3prio modo tradicional<br \/>\nde vida, ou queira criar para si um g\u00eanero aut\u00f4nomo de exist\u00eancia,<br \/>\nestala o conflito cruento.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1, tamb\u00e9m, conflitos virulentos entre os invasores. O<br \/>\nmais complexo deles, quanto a suas motiva\u00e7\u00f5es, ainda que tamb\u00e9m<br \/>\nremarcado por componentes classistas, racistas e \u00e9tnicos, foi a longa<br \/>\nguerra sem quartel de colonos contra os jesu\u00edtas. Muito cedo surgiram<br \/>\ndesentendimentos entre o projeto comunit\u00e1rio dos inacianos para a indiada<br \/>\nnativa e o processo colonial lusitano que lhes reservava o destino de m\u00e3o-de-<br \/>\nobra de suas empresas. Surgiram assim que os padres fugiram de sua fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nprevista de amansadores de \u00edndios para se arvorarem a seus protetores.<\/p>\n<p>Ao longo de dois s\u00e9culos e meio, os conflitos se sucederam no plano<br \/>\nadministrativo, chegando at\u00e9 \u00e0 deporta\u00e7\u00e3o dos<br \/>\njesu\u00edtas, primeiro, de S\u00e3o Paulo e, depois, do Maranh\u00e3o<br \/>\ne Gr\u00e3o-Par\u00e1 pelos colonos, seguida de seu retorno por ordem<br \/>\nda Coroa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m graves foram os enfrentamentos entre catec\u00famenos e<br \/>\ncolonos, dos quais os padres procuravam se .esquivar, dado o seu compromisso<br \/>\nde realizar uma conquista espiritual, sem jamais apelar para a for\u00e7a.<\/p>\n<p>Desde os primeiros dias de coloniza\u00e7\u00e3o o projeto jesu\u00edtico<br \/>\nse configurou como uma alternativa \u00e9tnica que teria dado lugar a um<br \/>\noutro tipo de sociedade, diferente daquela que surgia na \u00e1rea de coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nespanhola e portuguesa.<\/p>\n<p>Estrutura-se com base na tradi\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria dos grupos<br \/>\nind\u00edgenas e consolida-se com os experimentos mission\u00e1rios de<br \/>\norganiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, de car\u00e1ter proto-socialista.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por isso contrastava cnzamente com o modelo que o colono ia<br \/>\nimplantando.<\/p>\n<p>Essa diverg\u00eancia amadureceu completamente no caso das miss\u00f5es<br \/>\nparaguaias que alcan\u00e7aram um alto grau de prosperidade e autonomia.<br \/>\nMas a mesma oposi\u00e7\u00e3o ficou evidente tamb\u00e9m no Brasil,<br \/>\nprincipalmente nas regi\u00f5es onde as miss\u00f5es se implantaram com<br \/>\nmais \u00eaxito, sobretudo no baixo Amazonas. Nos dois casos, acrescia, de<br \/>\nforma mais amea\u00e7adora, o fato de que a l\u00edngua utilizada pelos<br \/>\nmission\u00e1rios jesu\u00edtas nas suas redu\u00e7\u00f5es para reordenar<br \/>\nos \u00edndios e civiliz\u00e1-los n\u00e3o era o portugu\u00eas nem<br \/>\no espanhol, mas o nheengatu.<\/p>\n<p>A motiva\u00e7\u00e3o de maior import\u00e2ncia, por\u00e9m, fof<br \/>\na cobi\u00e7a despertada nos colonos com o enriquecimento extraordin\u00e1rio<br \/>\nde algumas das Miss\u00f5es. Explorando as terras ind\u00edgenas e sua<br \/>\nfor\u00e7a de trabalho, os jesu\u00edtas come\u00e7aram a funcionar<br \/>\ncomo prov\u00edncias pr\u00f3speras que se proviam de quase tudo, gra\u00e7as<br \/>\nao grande n\u00famero de artes\u00e3os com que contavam, e ainda produziam<br \/>\nexcedentes, explorando drogas da mata que, juntamente com o produto de suas<br \/>\nlavouras e com outras produ\u00e7\u00f5es mercantis, faziam deles uma<br \/>\ndas for\u00e7as econ\u00f4micas principais do incipiente mercado colonial.<\/p>\n<p>Igualmente importantes como fontes de enriquecimento foram as ricas doa\u00e7\u00f5es<br \/>\nque receberam de colonos, que tudo davam, pedindo a salva\u00e7\u00e3o<br \/>\nde suas almas. V\u00e1rias doa\u00e7\u00f5es ficaram c\u00e9lebres,<br \/>\ncomo aquela em que a Companhia se compromete a rezar cinco missas di\u00e1rias<br \/>\ne mais uma missa cantada semanal, at\u00e9 o fim do mundo, pela salva\u00e7\u00e3o<br \/>\nda alma de Garcia D&#8217;\u00c1vila.<\/p>\n<p>O vulto do patrim\u00f4nio jesu\u00edtico, ao tempo do seu confisco (<br \/>\n1760 ), era enorm\u00edssimo. Estendia-se de norte a sul do pa\u00eds,<br \/>\nna forma de miss\u00f5es e concess\u00f5es territoriais concedidas pela<br \/>\nCoroa, onde instalavam suas cinq\u00fcenta miss\u00f5es de catequese, cuja<br \/>\nbase material eram engenhos de a\u00e7\u00facar (dezessete), dezenas de<br \/>\ncriat\u00f3rios de gado, com rebanho avaliado em 150 mil reses, al\u00e9m<br \/>\nde engenhos, serrarias e muitos outros bens.<\/p>\n<p>A Companhia seria tamb\u00e9m a maior propriet\u00e1ria urbana, pelo<br \/>\nn\u00famero de casas nas cidades que abrigavam os col\u00e9gios, os semin\u00e1rios,<br \/>\nos hospitais, os noviciados, os retiros, regidos por 649 padres e irm\u00e3os<br \/>\nleigos. S\u00f3 na Bahia, eles possu\u00edam 186 casas, no Rio setenta<br \/>\ne em S\u00e3o Paulo lhes restava ainda cerca de seis, e muitas mais no Maranh\u00e3o,<br \/>\nem Recife, em Bel\u00e9m e por toda a parte, das quais flu\u00edam altas<br \/>\nrendas de aluguel.<\/p>\n<p>A cobi\u00e7a que provocou tamanha riqueza era, pelo menos, proporcional<br \/>\na ela, fazendo crescer a cada dia os que exigiam sua desapropria\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom esperan\u00e7a de apropriar-se, eles pr\u00f3prios, de tantos bens.<br \/>\nA necessidade dessa desapropria\u00e7\u00e3o era defendida pela burocracia,<br \/>\nrevoltada contra o privil\u00e9gio fiscal de n\u00e3o pagar impostos nem<br \/>\nd\u00edzimos. O sonho dos burocratas e dos colonos acabou por alcan\u00e7ar-se<br \/>\ne alguns deles se locupletaram como &#8220;contemplados&#8221; com os bens dos<br \/>\npadres e dos pr\u00f3prios \u00edndios, declarados livres, mas, de fato,<br \/>\nsubmetidos ao cativeiro, t\u00e3o r\u00edgido como a escravid\u00e3o<br \/>\ndos negros.<\/p>\n<p>A sa\u00edda dos jesu\u00edtas das aldeias de \u00edndios, de cujo<br \/>\ndom\u00ednio haviam sido privados pouco antes da expuls\u00e3o final,<br \/>\nfoi marcada por um a\u00e7odamento mercantil descrito por L\u00facio de<br \/>\nAzevedo: &#8220;Alfaias, imagens e paramentos, tudo os sacerdotes carregavam<br \/>\nem barcos, muitas vezes oculto de maneira indecorosa, entre os g\u00eaneros<br \/>\nde com\u00e9rcio, resto das grangearias de que n\u00e3o queriam privar<br \/>\na comunidade. Onde havia gados e canoas, isso vendiam a tr\u00f4co de g\u00eaneros.<br \/>\nE, deslizando as embarca\u00e7\u00f5es, de tantas partes, rio abaixo,<br \/>\na chapinhar com o peso das cargas, mais pareciam voltar de predat\u00f3rias<br \/>\nincurs\u00f5es, que recolher ao cen\u00f3bio de catequistas, s\u00f3<br \/>\nocupados na prega\u00e7\u00e3o do Evangelho. [&#8230;] e n\u00e3o somente<br \/>\ndo terreno, com produtos da cultura, sen\u00e3o tamb\u00e9m dos \u00edndios<br \/>\nque o trabalhavam, escravos no dizer do jesu\u00edta, transmudado do antigo<br \/>\naltru\u00edsmo, e objurgando j\u00e1 agora as liberdades. Ao rei e \u00e0<br \/>\nrainha, em lacrimosas s\u00faplicas, recorriam os padres, por outra parte,<br \/>\ndas viol\u00eancias de Mendon\u00e7a, asseverando que tirar-lhes os escravos<br \/>\no mesmo era que priv\u00e1-los dos \u00faltimos meios de subsist\u00eancia<br \/>\n(Azevedo 1930:325-6 ).&#8221; A guerra dos Cabanos, que assumiu tantas vezes<br \/>\no car\u00e1ter de um genoc\u00eddio, com o objetivo de trucidar as popula\u00e7\u00f5es<br \/>\ncaboclas, \u00e9 o exemplo mais claro de enfrentamento inter\u00e9tnico.<br \/>\nAli se digladiam a popula\u00e7\u00e3o antiga da Amaz\u00f4nia, caracteriz\u00e1vel<br \/>\ncomo neobrasileira porque j\u00e1 n\u00e3o era ind\u00edgena mas aspirava<br \/>\nviver autonomamente para si mesma, e a estreita camada dominante, fundamentalmente<br \/>\nluso-brasileira, formando um projeto de exist\u00eancia que correspondia<br \/>\n\u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o das outras \u00e1reas do pa\u00eds. Esse<br \/>\ncontingente civilizat\u00f3rio \u00e9 que, ajudado por for\u00e7as vindas<br \/>\nde fora, enfrentou os cabanos, destruindo-os n\u00facleo a n\u00facleo.<br \/>\nOs cabanos ganharam muitas batalhas, chegaram mesmo a assumir o poder central<br \/>\nna regi\u00e3o, ocupando Bel\u00e9m, Manaus e outras cidades, mas viviam<br \/>\no antiprivil\u00e9gio dram\u00e1tico de n\u00e3o poder perder batalha<br \/>\nalguma.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que finalmente sucedeu e eles foram dizimados.<\/p>\n<p>Outra modalidade principal de conflito \u00e9 a dos enfrentamentos predominantemente<br \/>\nraciais. Aqui, vemos opondo-se umas \u00e0s outras todas as tr\u00eas matrizes<br \/>\nda sociedade, cada uma delas armada de preconceitos raciais contra as outras<br \/>\nduas. Esses antagonismos alcan\u00e7am car\u00e1ter mais cruento no enfrentamento<br \/>\ndos negros, trazidos da \u00c1frica para serem escravos, que se v\u00eaem<br \/>\ncondenados a lutar por sua liberdade e, mesmo depois de alcan\u00e7ada a<br \/>\naboli\u00e7\u00e3o, a continuar lutando contra as discrimina\u00e7\u00f5es<br \/>\nhumilhantes de que s\u00e3o v\u00edtimas, bem como contra as m\u00faltiplas<br \/>\nformas de preteri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As lutas s\u00e3o inevitavelmente sangrentas, porque s\u00f3 \u00e0<br \/>\nfor\u00e7a se pode impor e manter a condi\u00e7\u00e3o de escravo. Desde<br \/>\na chegada do primeiro negro, at\u00e9 hoje, eles est\u00e3o na luta para<br \/>\nfugir da inferioridade que lhes foi imposta originalmente, e que \u00e9<br \/>\nmantida atrav\u00e9s de toda a sorte de opress\u00f5es, dificultando extremamente<br \/>\nsua integra\u00e7\u00e3o na condi\u00e7\u00e3o de trabalhadores comuns,<br \/>\niguais aos outros, ou de cidad\u00e3os com os mesmos direitos.<\/p>\n<p>Palmares \u00e9 o caso exemplar do enfrentamento inter-racial. Ali, negros<br \/>\nfugidos dos engenhos de a\u00e7\u00facar ou das vilas organizam-se para<br \/>\nsi mesmos, na forma de uma economia solid\u00e1ria e de uma sociedade igualit\u00e1ria.<br \/>\nN\u00e3o retornam \u00e0s formas africanas de vida, inteiramente invi\u00e1veis.<br \/>\nVoltam-se a formas novas, arcaicamente igualit\u00e1rias e precocemente<br \/>\nsocialistas. Sua destrui\u00e7\u00e3o sendo requisito de sobreviv\u00eancia<br \/>\nda sociedade escravista, torna esses conflitos crescentes inevit\u00e1veis,<br \/>\nseja para reaver escravos fugidos, seja para precaver-se contra novas fugas.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m para acautelar-se contra o que poderia vir a ser uma amea\u00e7a<br \/>\npior do que as invas\u00f5es estrangeiras, que seria a subleva\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeral dos negros.<\/p>\n<p>Uma terceira modalidade de conflitos que envolvem as popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nbrasileiras \u00e9 de car\u00e1ter fundamentalmente classista.<\/p>\n<p>Aqui se enfrentam, de um lado, os privilegiados propriet\u00e1rios de<br \/>\nterras, de bens de produ\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o predominantemente<br \/>\nbrancos, e de outro lado, as grandes massas de trabalhadores, estas majoritariamente<br \/>\nmesti\u00e7as ou negras.<\/p>\n<p>Ainda que nas outras duas formas de conflito sempre se encontrem componentes<br \/>\nclassistas, mesmo porque em todas elas est\u00e1 presente a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom o recrutamento de m\u00e3o-de-obra para a produ\u00e7\u00e3o mercantil,<br \/>\nem certas circunst\u00e2ncias elas ganham especificidade como enfrentamentos<br \/>\ninterclassistas. Isso ocorre quando n\u00e3o s\u00e3o contingentes diferenciados<br \/>\nracialmente ou etnicamente que se op\u00f5em, mas conglomerados humanos<br \/>\nou estratos sociais multirraciais e multi\u00e9tnicos propensos a criar<br \/>\nnovas formas de ordena\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica, inconcili\u00e1veis<br \/>\ncom o projeto das classes dominantes.<\/p>\n<p>Canudos \u00e9 um bom exemplo dessa classe de enfrentamentos, como a grande<br \/>\nexplos\u00e3o dessa modalidade de lutas. Ali, sertanejos atados a um universo<br \/>\narcaico de compreens\u00f5es, mas cruamente subversivos porque pretendiam<br \/>\nenfrentar a ordem social vigente, segundo valores diferentes e at\u00e9<br \/>\nopostos aos dos seus antagonistas, enfrentavam uma sociedade fundada na propriedade<br \/>\nterritorial e no poderio do dono, sobre quem vivesse em suas terras. Desde<br \/>\no princ\u00edpio os fi\u00e9is do Conselheiro eram vistos como um grupo<br \/>\ncrescente de lavradores que sa\u00edam das fazendas e se organizavam em<br \/>\nsi e para si, sem patr\u00f5es nem mercadores, e parecia e era tido como<br \/>\no que h\u00e1 de mais perigoso.<\/p>\n<p>Quando a situa\u00e7\u00e3o amadureceu completamente, esse contingente<br \/>\nhumano foi capaz de enfrentar e vencer, primeiro, as autoridades locais e<br \/>\nos fazendeiros, aliciando jagun\u00e7os; depois, as tropas estaduais e,<br \/>\npor fim, diversos ex\u00e9rcitos armados pelo governo federal.<\/p>\n<p>Venceram sempre, at\u00e9 a derrota total, porque nenhuma paz era poss\u00edvel<br \/>\nentre quem lutava para refazer o mundo em nome dos valores mais sagrados e<br \/>\nas for\u00e7as armadas que cumpriam seu papel de manter esse mundo tal qual<br \/>\n\u00e9, ajudadas nesse empenho por todas as for\u00e7as da sociedade global.<\/p>\n<p>Euclides da Cunha nos d\u00e1 o retrato mais veemente daquele enfrentamento<br \/>\ninveross\u00edmil. J\u00e1 ao fim das lutas, registra, dos poucos sobreviventes,<br \/>\nque n\u00e3o se via &#8220;[&#8230;] nem um rosto viril, nem um bra\u00e7o<br \/>\ncapaz de suspender uma arma, nem um peito resfolegante de campeador domado:<br \/>\nmulheres, sem n\u00famero de mulheres, velhas espectraes, mo\u00e7as envelhecidas,<br \/>\nvelhas e mo\u00e7as indistinctas na mesma fealdade, escaveiradas e sujas,<br \/>\nfilhos escanchados [&#8230;] Canudos n\u00e3o se rendeu. Exemplo \u00fanico<br \/>\nem toda a hist\u00f3ria, resistiu at\u00e9 ao esgottamento completo. Expugnado<br \/>\npalmo a palmo, na precis\u00e3o integral do termo, cahiu no dia 5, ao entardecer,<br \/>\nquando cah\u00edram os seus \u00faltimos defensores, que todos morreram.<br \/>\nEram quatro apenas: um velho, dous homens feitos e uma crean\u00e7a, na<br \/>\nfrente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados (Cunha 1945:606, 611<br \/>\n).&#8221; Os exemplos de conflitos continuados se multiplicam ao longo desse<br \/>\ntexto. O que t\u00eam de comum e mais relevante \u00e9 a insist\u00eancia<br \/>\ndos oprimidos em abrir e reabrir as lutas para fugir do destino que lhes \u00e9<br \/>\nprescrito; e, de outro lado, a unanimidade da classe dominante que comp\u00f5e<br \/>\ne controla um parlamento servil, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 manter<br \/>\na institucionalidade em que se baseia o latif\u00fandio. Tudo isso garantido<br \/>\npela pronta a\u00e7\u00e3o repressora de um corpo nacional das for\u00e7as<br \/>\narmadas que se prestava, ontem, ao papel de perseguidor de escravos, como<br \/>\ncapit\u00e3es do mato, e se presta, hoje, \u00e0 fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde pau-mandado de uma minoria infecunda contra todos os brasileiros.<\/p>\n<h2>A EMPRESA BRASIL<\/h2>\n<p>No plano econ\u00f4mico, o Brasil \u00e9 produto da implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da intera\u00e7\u00e3o de quatro ordens de a\u00e7\u00e3o empresarial,<br \/>\ncom distintas fun\u00e7\u00f5es, variadas formas de recrutamento da m\u00e3o-de-obra<br \/>\ne diferentes graus de rentabilidade. A principal delas, por sua alta efic\u00e1cia<br \/>\noperativa, foi a empresa escravista, dedicada seja \u00e0 produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nde a\u00e7\u00facar, seja \u00e0 minera\u00e7\u00e3o de ouro, ambas<br \/>\nbaseadas na for\u00e7a de trabalho importada da \u00c1frica. A segunda,<br \/>\ntamb\u00e9m de grande \u00eaxito, foi a empresa comunit\u00e1ria jesu\u00edtica,<br \/>\nfundada na m\u00e3o-de-obra servil dos \u00edndios. Embora sucumbisse<br \/>\nna competi\u00e7\u00e3o com a primeira, e nos conflitos com o sistema<br \/>\ncolonial, tamb\u00e9m alcan\u00e7ou not\u00e1vel import\u00e2ncia e<br \/>\nprosperidade. A terceira, de rentabilidade muito menor, inexpressiva como<br \/>\nfonte de enriquecimento, mas de alcance social substancialmente maior, foi<br \/>\na multiplicidade de microempresas de produ\u00e7\u00e3o de g\u00eaneros<br \/>\nde subsist\u00eancia e de cria\u00e7\u00e3o de gado, baseada em diferentes<br \/>\nformas de aliciamento de m\u00e3o-de-obra, que iam de formas esp\u00farias<br \/>\nde parceria at\u00e9 a escraviza\u00e7\u00e3o do ind\u00edgena, cnza<br \/>\nou disfar\u00e7ada.<\/p>\n<p>A empresa escravista, latifundi\u00e1ria e monocultora, \u00e9 sempre<br \/>\naltamente especializada e essencialmente mercantil. A jesu\u00edtica, apropriando-se<br \/>\nembora de extensas \u00e1reas e produzindo mercadorias para o com\u00e9rcio<br \/>\nlocal e ultramarino, mais do que uma empresa propriamente era uma forma alternativa<br \/>\nde coloniza\u00e7\u00e3o dos tr\u00f3picos pela destribaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne integra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o original num tipo diferente<br \/>\nde sociedade, que se queria pura, pia e ser\u00e1fica. A microempresa de<br \/>\nsubsist\u00eancia funcionou, de fato, como um complemento da grande empresa<br \/>\nexportadora ou mineradora que, gra\u00e7as a ela, se desobrigava de produzir<br \/>\nalimentos para a popula\u00e7\u00e3o e para seu pr\u00f3prio uso nas<br \/>\nquadras de maior prosperidade econ\u00f4mica, quando tinha que concentrar<br \/>\ntoda a for\u00e7a de trabalho no seu objetivo essencial. Essas microempresas<br \/>\n\u00e9 que fundaram, de fato, o Brasil-povo, gestando precocemente as c\u00e9lulas<br \/>\nque, multiplicadas, deram no que somos. Isso porque as miss\u00f5es teriam<br \/>\ngerado uma sociedade teocr\u00e1tica e as planta\u00e7\u00f5es nem sequer<br \/>\nsobreviveriam sem a viabilidade que lhes dava uma popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nlocal de apoio e sustento.<\/p>\n<p>Na realidade, competindo embora, essas tr\u00eas formas de organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nempresarial se conjugavam para garantir, cada qual no desempenho de sua fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nespec\u00edfica, a sobreviv\u00eancia e o \u00eaxito do empreendimento<br \/>\ncolonial portugu\u00eas nos tr\u00f3picos. As empresas escravistas integram<br \/>\no Brasil nascente na economia mundial e asseguram a prosperidade secular dos<br \/>\nricos, fazendo do Brasil, para eles, um alto neg\u00f3cio. As miss\u00f5es<br \/>\njesu\u00edticas solaparam a resist\u00eancia dos \u00edndios, contribuindo<br \/>\ndecisivamente para a liquida\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pelos recolhidos<br \/>\n\u00e0s redu\u00e7\u00f5es, afinal entregues inermes a seus exploradores.<br \/>\nAs empresas de subsist\u00eancia viabilizaram a sobreviv\u00eancia de todos<br \/>\ne incorporaram os mesti\u00e7os de europeus com \u00edndios e com negros,<br \/>\nplasmando o que viria a ser o grosso do povo brasileiro. Foram, sobretudo,<br \/>\num criat\u00f3rio de gente.<\/p>\n<p>Com efeito, o corpo do Brasil r\u00fastico, seus tecidos constitutivos<br \/>\n&#8211; carne, sangue, ossos, peles -, se estrutura, nessas microempresas de subsist\u00eancia,<br \/>\nconfiguradas nas diversas variantes ecol\u00f3gico-regionais. \u00c9 sobre<br \/>\nesse corpo, como mecanismo de suc\u00e7\u00e3o de sua subst\u00e2ncia,<br \/>\nmas tamb\u00e9m de eje\u00e7\u00e3o sobre ele da mat\u00e9ria humana<br \/>\nemprest\u00e1vel para seus fins mercantis, que se instalam, como carcinomas,<br \/>\nas empresas agroexportadoras e mineradoras.<\/p>\n<p>Sobre essas tr\u00eas esferas empresariais produtivas pairava, dominadora,<br \/>\numa quarta, constitu\u00edda pelo n\u00facleo portu\u00e1rio de banqueiros,<br \/>\narmadores e comerciantes de importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEsse setor parasit\u00e1rio era, de fato, o componente predominante da economia<br \/>\ncolonial e o mais lucrativo dela. Ocupava-se das mil tarefas de intermedia\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre o Brasil, a Europa e a \u00c1frica no tr\u00e1fico mar\u00edtimo,<br \/>\nno c\u00e2mbio, na compra e venda, para o cumprimento de sua fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nessencial, que era trocar mais de metade do a\u00e7\u00facar e do ouro<br \/>\nque aqui se produzia por escravos ca\u00e7ados na \u00c1frica, a fim de<br \/>\nrenovar o sempre declinante estoque de m\u00e3o-de-obra necess\u00e1rio<br \/>\npara a sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa intermedia\u00e7\u00e3o alucinada foi, por s\u00e9culos, o motor<br \/>\nmais poderoso da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Aquele que mais afetou<br \/>\no destino do g\u00eanero humano pelo n\u00famero espantoso de povos e de<br \/>\nseres que mobilizou, desgastou e transfigurou. Foi exercido sempre eficazmente,<br \/>\nda forma mais impessoal e fria, por honrados dignat\u00e1rios, com o sentimento<br \/>\nde que se ocupavam de um neg\u00f3cio, muitas vezes, ali\u00e1s, dignificado<br \/>\ncomo a grande miss\u00e3o do homem branco como her\u00f3i civilizador<br \/>\ne cristianizador.<\/p>\n<p>Tratamos at\u00e9 agora das c\u00fapulas empresariais. Elas seriam inexplic\u00e1veis,<br \/>\npor\u00e9m, sem a sua contraparte, que era o patriciado burocr\u00e1tico.<br \/>\nToda a vida colonial era presidida e regida, de fato, pela burocracia civil<br \/>\nde funcion\u00e1rios governamentais e exatores, e pela militar dos corpos<br \/>\nde defesa e de repress\u00e3o. A seu lado, operando de forma solid\u00e1ria,<br \/>\nestava a burocracia eclesi\u00e1stica dos servidores de Deus, consagrando,<br \/>\ndignificando os que se ocupavam dos neg\u00f3cios terrenos, sobretudo captando<br \/>\na maior parte dos recursos que ficavam na terra, para com eles exaltar a grandeza<br \/>\nde Deus nas casas e templos de suas ordens. Essa c\u00fapula patricial,<br \/>\ncuja elite era quase toda oriunda da metr\u00f3pole, formava com a c\u00fapula<br \/>\nempresarial e, com a mercantil, a elite dominante da col\u00f4nia, essencialmente<br \/>\nsolid\u00e1ria frente aos outros corpos da sociedade, apesar de suas cruas<br \/>\noposi\u00e7\u00f5es de interesses.<\/p>\n<p>Esta classe dominante empresarial-burocr\u00e1tico-eclesi\u00e1stica,<br \/>\nembora exercendo-se como agente de sua pr\u00f3pria prosperidade, atuou<br \/>\ntamb\u00e9m, subsidiariamente, como reitora do processo de forma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo povo brasileiro. Somos, tal qual somos, pela f\u00f4rma que ela imprimiu<br \/>\nem n\u00f3s, ao nos configurar, segundo correspondia a sua cultura e a seus<br \/>\ninteresses. Inclusive reduzindo o que seria o povo brasileiro como entidade<br \/>\nc\u00edvica e pol\u00edtica a uma oferta de m\u00e3o-de- obra servil.<\/p>\n<p>Foi sempre nada menos que prodigiosa a capacidade dessa classe dominante<br \/>\npara recrutar, desfazer e reformar gentes, aos milh\u00f5es. Isso foi feito<br \/>\nno curso de um empreendimento econ\u00f4mico secular, o mais pr\u00f3spero<br \/>\nde seu tempo, em que o objetivo jamais foi criar um povo aut\u00f4nomo, mas<br \/>\ncujo resultado principal foi fazer surgir como entidade \u00e9tnica e configura\u00e7\u00e3o<br \/>\ncultural um povo novo, destribalizando \u00edndios, desafricanizando negros,<br \/>\ndeseuropeizando brancos.<\/p>\n<p>Ao desgarr\u00e1-los de suas matrizes, para cruz\u00e1-los racialmente<br \/>\ne transfigur\u00e1-los culturalmente, o que se estava fazendo era gestar<br \/>\na n\u00f3s brasileiros tal qual fomos e somos em ess\u00eancia. Uma classe<br \/>\ndominante de car\u00e1ter consular-gerencial, socialmente irrespons\u00e1vel,<br \/>\nfrente a um povo-massa tratado como escravaria, que produz o que n\u00e3o<br \/>\nconsome e s\u00f3 se exerce culturalmente como uma margin\u00e1lia, fora<br \/>\nda civiliza\u00e7\u00e3o letrada em que est\u00e1 imersa.<\/p>\n<p>Entre aquela estreita c\u00fapula e esta larga base, um contingente de<br \/>\nescapados da mis\u00e9ria e da ignor\u00e2ncia geral busca brechas institucionais<br \/>\nem que se possa meter para fazer o Brasil a seu jeito. No princ\u00edpio<br \/>\neram principalmente curas e militares subversivos, mesmo porque s\u00f3<br \/>\neles eram alfabetizados e minimamente informados naquele submundo da opress\u00e3o<br \/>\ncolonial.<\/p>\n<h2>AVALIA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>O padre Cardim, que foi reitor do Col\u00e9gio da Bahia, gostava muito<br \/>\nde descrever o mundo que via. Foi, para meu gosto, um dos primeiros e mais<br \/>\naltos intelectuais brasileiros. Identificado com nossas coisas e nossa gente,<br \/>\ndescreve encantado florestas, ro\u00e7as, pescarias, sempre com o mais v\u00edvido<br \/>\ninteresse (Cardim, Tratados da terra e gente do Brasil, 1584 ).<\/p>\n<p>N\u00e3o podia haver balan\u00e7o cr\u00edtico melhor que o dele sobre<br \/>\na obra da Companhia, por um lado, e a dos colonos, do lado oposto. Ele consegue<br \/>\nmanter uma extraordin\u00e1ria objetividade quando fala de uma e outro.<br \/>\nO contraste n\u00e3o podia ser mais cru. Os \u00edndios se acabando e<br \/>\na prosperidade chegando feroz. Visitando as v\u00e1rias miss\u00f5es entre<br \/>\nos anos de 1583 e 1590, em companhia do padre Crist\u00f3v\u00e3o de Gouveia,<br \/>\no bom Cardim nos conta os poucos \u00edndios que a\u00ed estavam em cada<br \/>\numa delas, todos vivendo na mais vil pobreza, simulando uma convers\u00e3o<br \/>\ninveross\u00edmil, mas cheios de un\u00e7\u00e3o e at\u00e9 de adula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndiante dos padres.<\/p>\n<p>Na sua hist\u00f3ria se inclui um balan\u00e7o geral dos povos ind\u00edgenas,<br \/>\nque viviam na costa do mar at\u00e9 o sert\u00e3o onde chegaram os portugueses<br \/>\ne que ele divide em tupis e tapuias. Os primeiros, repartidos em dez na\u00e7\u00f5es<br \/>\nprincipais, que viviam de Pernambuco a S\u00e3o Vicente. Falavam &#8220;uma<br \/>\ns\u00f3 l\u00edngua e esta \u00e9 a que entendem os portugueses. \u00c9<br \/>\nfacil e elegante, e suave; e copiosa. A dificuldade dela est\u00e1 em ter<br \/>\nmuitas composi\u00e7\u00f5es&#8221;. Acrescenta que os portugueses, quase<br \/>\ntodos que est\u00e3o no Brasil, &#8220;a sabem em breve tempo e seus filhos,<br \/>\nhomens e mulheres, a sabem melhor&#8221; (Cardim 1980:101 ).<\/p>\n<p>O que mais nos interessa no balan\u00e7o de Cardim \u00e9 o registro<br \/>\nda mortandade da popula\u00e7\u00e3o que vinha ocorrendo e diante da qual<br \/>\nele pr\u00f3prio se espanta: &#8220;Eram tantos os dessa casta que parecia<br \/>\nimposs\u00edvel poderem-se extinguir, por\u00e9m os portugueses lhes t\u00eam<br \/>\ndado tal pressa que quase todos s\u00e3o mortos e lhes t\u00eam tal medo,<br \/>\nque despovoam a costa e fogem pelo sert\u00e3o adentro at\u00e9 trezentas<br \/>\na quatrocentas l\u00e9guas&#8221; (Cardim 1980:101 ).<\/p>\n<p>A seguir, relacionando as na\u00e7\u00f5es de uma ou outra, assinala<br \/>\no progressivo exterm\u00ednio. Dos Viat\u00e3, da Para\u00edba, que<br \/>\neram muit\u00edssimos, diz que &#8220;j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nenhuns<br \/>\nporque sendo eles amigos dos Potiguara e parentes os portugueses os fizeram<br \/>\nentre si inimigos, dando-lhos a comer para que dessa maneira lhes pudesse<br \/>\nfazer guerra e t\u00ea- los por escravos e, finalmente, tendo uma grande<br \/>\nfome, os portugueses em vez de lhes acudir, os cativaram e mandaram barcos<br \/>\ncheios a vender a outras capitanias&#8221;. Acrescenta que &#8220;assim se acabou<br \/>\nessa na\u00e7\u00e3o e ficaram os portugueses sem vizinhos que os defendessem<br \/>\ndos Potiguaras&#8221; (Cardim 1980:102 ). Sobre os Tupinaquins, que habitavam<br \/>\ntoda a costa de Ilh\u00e9us, Porto Seguro at\u00e9 Esp\u00edrito Santo,<br \/>\ninforma que &#8220;procederam dos de Pernambuco e se espalharam por uma corda<br \/>\ndo sert\u00e3o, multiplicando grandemente mas j\u00e1 s\u00e3o poucos&#8221;<br \/>\n(Cardim 1980:102 ). Ainda sobre outra na\u00e7\u00e3o, parente desses<br \/>\nTupinaquins, que habitava o sert\u00e3o de S\u00e3o Vicente at\u00e9<br \/>\nPernambuco, os Tupiguae, Cardim diz que &#8220;s\u00e3o sem n\u00famero.<br \/>\nV\u00e3o se acabando porque os portugueses os v\u00e3o buscar para se<br \/>\nservirem deles e os que lhes escapam fogem para muito longe por n\u00e3o<br \/>\nserem escravos&#8221; (Cardim 1980:102 ). Outra na\u00e7\u00e3o, os Tememin\u00f3,<br \/>\n&#8220;j\u00e1 s\u00e3o poucos&#8221;. E, ainda, sobre os Tamuya do Rio<br \/>\nde Janeiro, acrescenta, &#8220;estes destru\u00edram os portugueses quando<br \/>\npovoaram o Rio e deles h\u00e1 muito poucos&#8221; (Cardim 1980:103 ).<\/p>\n<p>Nem ele, nem o visitador em nome de quem escreve se impressionam muito com<br \/>\nisso. Provavelmente se consolam com o que seria a vontade de Deus: um processo<br \/>\nde sucess\u00e3o ecol\u00f3gica pelo qual a popula\u00e7\u00e3o original<br \/>\nda costa do Brasil, que alcan\u00e7ara 1 milh\u00e3o de \u00edndios,<br \/>\nfora sucedida por umas poucas centenas que ali estavam se acabando.<\/p>\n<p>Depois de avaliar o exterm\u00ednio dos \u00edndios que primeiro tiveram<br \/>\ncontato com os invasores, Cardim abre os olhos de contentamento diante das<br \/>\nfuturas v\u00edtimas &#8211; os Carij\u00f3, que habitavam &#8220;al\u00e9m<br \/>\nde S\u00e3o Vicente, com 80 l\u00e9guas, contr\u00e1rios aos Tupinaquins.<br \/>\nDestes, h\u00e1 infinidades, e correm pela costa do mar e sert\u00e3o<br \/>\nat\u00e9 o Paraguai que habitam os Castelhanos&#8221; (Cardim 1980:103 ).<br \/>\nJ\u00e1 no seu tempo, esses Carij\u00f3 ou Guarani, come\u00e7avam a<br \/>\nser as principais v\u00edtimas das ca\u00e7adas de escravos dos paulistas,<br \/>\nprincipal objeto da convers\u00e3o destribalizadora dos jesu\u00edtas.<\/p>\n<p>Ainda mais expressivo \u00e9 o retrato que nos tra\u00e7a Cardim dos<br \/>\nresultados concretos de tr\u00eas d\u00e9cadas de prega\u00e7\u00e3ojesu\u00edtica<br \/>\nna selva brasileira. Acompanhando o visitador principal da Companhia, ele<br \/>\nvai relatando, piedoso, o que v\u00ea, aldeia por aldeia, nas aldeias que<br \/>\nsobraram das redu\u00e7\u00f5es. Este o fruto da sofrida seara.<\/p>\n<p>&#8220;A aldeia do Esp\u00edrito Santo, sete l\u00e9guas da Bahia, com<br \/>\nalguns trinta \u00edndios, que com seus arcos e flechas vieram para acompanhar<br \/>\no padre e revezados de dois em dois o levavam numa rede. [&#8230;] Chegamos \u00e0<br \/>\naldeia \u00e0 tarde; antes dela um bom quarto de l\u00e9gua, come\u00e7aram<br \/>\nas festas que os \u00edndios tinham aparelhadas, as quais fizeram em uma<br \/>\nrua de alt\u00edssimos e frescos arvoredos, dos quais sa\u00edam uns cantando<br \/>\ne tangendo a seu modo, outros em ciladas sa\u00edam com grande grita e urros,<br \/>\nque nos atroavam e faziam estremecer. Os cunumis meninos, com muitos molhos<br \/>\nde flechas levantadas para cima, faziam seu motim de guerra e davam sua grita,<br \/>\ne pintados de v\u00e1rias cores, nuzinhos, vinham com as m\u00e3os levantadas<br \/>\nreceber a ben\u00e7\u00e3o do padre, dizendo em portugu\u00eas, &#8220;louvado<br \/>\nseja Jesus Cristo&#8221;. Outros sa\u00edram com uma dan\u00e7a d&#8217;escudos<br \/>\n\u00e0 portuguesa, fazendo muitos trocados e dan\u00e7ando ao som da.viola,<br \/>\npandeiro e tamboril e flauta, ejuntamente representavam um breve di\u00e1logo,<br \/>\ncantando algumas cantigas pastoris. Tudo causava devo\u00e7\u00e3o debaixo<br \/>\nde tais bosques, em terras estranhas e muito mais por n\u00e3o se esperarem<br \/>\ntais festas de gente t\u00e3o b\u00e1rbara (Cardim 1980:145 ).&#8221; Como<br \/>\nse v\u00ea, dos selvagens sobreviveram alguns costumes, convertidos em palha\u00e7ada.<br \/>\nUm deles era o temor ao odiado Anhang\u00e1, que ressurgia agora, saindo<br \/>\ndo mato para assustar os \u00edndios, mas encarnado por um padre portugu\u00eas.<br \/>\nOutro foi o cerimonial do Ereiupe, ou sauda\u00e7\u00e3o lacrimosa, com<br \/>\nque os Tupi recebiam os visitantes queridos. No caso, ressurge na figura de<br \/>\nvelhos morubixabas que sa\u00fadam ao visitante com o &#8220;vieste? e beijando-lhe<br \/>\na m\u00e3o recebiam a ben\u00e7\u00e3o&#8221;. Enquanto isso, &#8220;as<br \/>\nmulheres nuas (cousa para n\u00f3s mui nova) com as m\u00e3os levantadas<br \/>\nao C\u00e9u, tamb\u00e9m davam seu Ereiupe, dizendo em portugu\u00eas,<br \/>\n&#8216;louvado seja Jesus Cristo&#8217; &#8221; (Cardim 1980,146 ).<\/p>\n<p>Sobrevive, tamb\u00e9m, o costume solen\u00edssimo do aconselhamento<br \/>\nTupinamb\u00e1, que era uma atribui\u00e7\u00e3o, talvez a principal,<br \/>\ndo morubixaba. Diz Cardim: &#8220;Aquela noite, os \u00edndios principais,<br \/>\ngrandes l\u00ednguas, pregavam da vida do padre a seu modo, que \u00e9<br \/>\nda maneira seguinte: come\u00e7avam a pregar de madrugada deitados na rede<br \/>\npor espa\u00e7o de meia hora, depois se levantam, e correm toda aldeia p\u00e9<br \/>\nante p\u00e9 muito devagar, e o pregar tamb\u00e9m \u00e9 pausado, freim\u00e1tico<br \/>\ne vagaroso; repetem muitas vezes as palavras por gravidade, contam nestas<br \/>\nprega\u00e7\u00f5es todos os trabalhos, tempestades, perigos de morte<br \/>\nque o padre padeceria, vindo de t\u00e3o longe para os visitar, e consolar,<br \/>\ne juntamente os incitam a louvar a Deus pela merc\u00ea recebida, e que tragam<br \/>\nseus presentes ao padre, em agradecimento (Cardim 1980:146 ).&#8221; Uma bela<br \/>\nsurpresa os aguarda na visita \u00e0 aldeia de S\u00e3o Mateus, em Porto<br \/>\nSeguro.<\/p>\n<p>Iam, o visitante e seus ac\u00f3litos, calmos, pela alegre praia, &#8220;eis<br \/>\nque desce de um alto monte uma \u00edndia vestida como elas costumam, com<br \/>\numa porcelana da \u00cdndia, cheia de queijadinhas d&#8217; a\u00e7\u00facar,<br \/>\ncom um grande p\u00facaro d&#8217; \u00e1gua fria; dizendo que aquilo mandava<br \/>\nseu senhor ao padre provincial Joseph&#8221; (Cardim 1980:148 ). Este Joseph<br \/>\nn\u00e3o era menos que o pr\u00f3prio Anchieta, que vinha atr\u00e1s<br \/>\ncom a soitaina arrega\u00e7ada, descal\u00e7o e bem cansado, com seus<br \/>\nmuit\u00edssimos anos de vida e tantos anos de prega\u00e7\u00e3o no<br \/>\nBrasil.<\/p>\n<p>Nessa aldeia e nas outras todas visitadas, viajando sempre de rede e carregado<br \/>\npelos \u00edndios, que se revezavam para que nenhum ficasse sem a gl\u00f3ria<br \/>\ndo carreto, s\u00e3o recebidos com a mesma alegria pelos poucos \u00edndios<br \/>\nque sobreviviam. Nosso c\u00e2ndido Cardim n\u00e3o se cansa de pasmar,<br \/>\nseja ao confessar \u00edndios e \u00edndias atrav\u00e9s de int\u00e9rpretes,<br \/>\nvendo que s\u00e3o &#8220;candid\u00edssimos e vivem com muito menos pecados<br \/>\nque os portugueses&#8221;, seja com o candor da crian\u00e7ada. &#8220;Iam<br \/>\nconosco alguns sessenta meninos, nuzinhos, como costumam. Pelo caminho fizeram<br \/>\ngrande festa ao padre, umas vezes o cercavam, outras o cativavam, outras arremedavam<br \/>\np\u00e1ssaros muito ao natural; no rio fizeram muitos jogos ainda mais graciosos,<br \/>\ne t\u00eam eles n&#8217;\u00e1gua muita gra\u00e7a em qualquer coisa que fazem&#8221;<br \/>\n(Cardim 1980:155 ).<\/p>\n<p>Longe dali, Cardim se encantaria ainda mais &#8220;com uma dan\u00e7a de<br \/>\nmeninos \u00edndios, o mais velho seria de oito anos, todos nuzinhos, pintados<br \/>\nde certas cores apraz\u00edveis, com seus cascav\u00e9is nos p\u00e9s,<br \/>\ne bra\u00e7os, pernas, cinta, e cabe\u00e7as com v\u00e1rias inven\u00e7\u00f5es<br \/>\nde diademas de penas, colares e braceletes&#8221; (Cardim 1980:169 ).<\/p>\n<p>Sobre a rotina na vida das velhas miss\u00f5es, Cardim conta que &#8220;[&#8230;]<br \/>\nnas aldeias, grandes e pequenos, ouvem missa muito cedo cada dia antes de<br \/>\nirem a seus servi\u00e7os, e antes ou depois da missa lhes ensinam as ora\u00e7\u00f5es<br \/>\nem portugu\u00eas e na l\u00edngua, e \u00e0 tarde s\u00e3o instru\u00eddos<br \/>\nno di\u00e1logo da f\u00e9, confiss\u00e3o e comunh\u00e3o. Alguns<br \/>\nassim homens como mulheres, mais ladinos, rezam o ros\u00e1rio de Nossa<br \/>\nSenhora; confessam-se a mi\u00fado; honram-se muito de chegarem a comungar,<br \/>\ne por isso fazem extremos, at\u00e9 deixar seus vinhos a que s\u00e3o<br \/>\nmuito dados, e \u00e9 a obra mais her\u00f3ica que podem fazer; quando<br \/>\nos incitam a fazer algum pecado de vingan\u00e7a ou desonestidade etc. respondem<br \/>\nque s\u00e3o de comunh\u00e3o, que n\u00e3o h\u00e3o de fazer a tal<br \/>\ncousa. Enxergam-se entre eles os que comungam no exemplo de boa vida, mod\u00e9stia<br \/>\ne continua\u00e7\u00e3o das doutrinas; t\u00eam extraordin\u00e1rio<br \/>\namor, cr\u00e9dito e respeito aos padres e nada fazem sem seu conselho,<br \/>\ne assim pedem licen\u00e7a para qualquer cousa por pequena que seja, como<br \/>\nse fossem novi\u00e7os (Cardim 1980:156 ).&#8221; Seu principal lazer, agora,<br \/>\ndiz Cardim, s\u00e3o as festas religiosas.<\/p>\n<p>A primeira, \u00e9 das fogueiras de S\u00e3o Jo\u00e3o, porque suas<br \/>\naldeias ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras n\u00e3o os estorva<br \/>\na roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro. A segunda festa \u00e9<br \/>\na de ramos, porque \u00e9 coisa para ver, as palavras, flores e boninas<br \/>\nque buscam, a festa com que os t\u00eam nas m\u00e3os ao of\u00edcio,<br \/>\ne procuram que lhes caia \u00e1gua benta nos ramos. A terceira, que mais<br \/>\nque todas festejam, dia de cinza, porque de ordin\u00e1rio nenhum falta,<br \/>\ne do cabo do mundo v\u00eam \u00e0 cinza, e folgam que lhes ponham grande<br \/>\ncruz na testa (Cardim 1980:156 ).<\/p>\n<p>No comum das aldeias, &#8220;[&#8230;] h\u00e1 escolas de ler e escrever, aonde<br \/>\nos padres ensinam os meninos \u00edndios; e alguns mais h\u00e1beis tamb\u00e9m<br \/>\nensinam a contar, cantar e tanger; tudo tomam bem, e h\u00e1 j\u00e1 muitos<br \/>\nque tangem flautas, violas, cravos e oficiam missas em canto d&#8217;\u00f3rg\u00e3o,<br \/>\ncoisas que os pais estimam muito. Estes meninos falam portugu\u00eas, cantam<br \/>\n\u00e0 noite a doutrina pelas ruas, e encomendam as almas do purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nas mesmas aldeias h\u00e1 confrarias do Sant\u00edssimo Sacramento,<br \/>\nde Nossa Senhora, e dos defuntos. Os mordomos s\u00e3o os principais e mais<br \/>\nvirtuosos; t\u00eam sua mesa na igreja com seu pano, e eles trazem suas opas<br \/>\nde baeta ou outro pano vermelho, branco e azul; servem de visitar os enfermos,<br \/>\najudar a enterrar os mortos, e \u00e0s missas (Cardim 1980: I 55-6 ).&#8221;<br \/>\nImpressionante mesmo \u00e9 o contraste entre esse panorama de pobreza e<br \/>\nhumilha\u00e7\u00e3o e a gl\u00f3ria e suntuosidade dos engenhos, que<br \/>\nalcan\u00e7avam plena prosperidade. Ele viu, talvez, o momento mais faustoso<br \/>\ndessa hist\u00f3ria. Aquele que antecede \u00e0s invas\u00f5es holandesas,<br \/>\nas lutas internas e a competi\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o Brasil havia encontrado um fil\u00e3o de riquezas<br \/>\nque parecia inesgot\u00e1vel e que lhe dava, naqueles anos, a posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde economia mais pr\u00f3spera e exibicionista do planeta. Acompanhemos<br \/>\nsua descri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Bahia ele encontra [&#8230;] uma terra farta de mantimentos, carnes de vaca,<br \/>\nporco, galinha, ovelhas, e outras cria\u00e7\u00f5es; tem 36 engenhos,<br \/>\nneles se faz o melhor a\u00e7\u00facar de toda a costa; tem muitas madeiras<br \/>\nde paus de cheiro, de v\u00e1rias cores, de grande pre\u00e7o; ter\u00e1<br \/>\na cidade com seu termo passante de 3 mil vizinhos portugueses, 8 mil \u00edndios<br \/>\ncrist\u00e3os, e 3 ou 4 mil escravos de Guin\u00e9; tem seu cabido de<br \/>\nc\u00f4negos, vig\u00e1rio geral provisor etc., com dez ou doze freguesias<br \/>\npor fora, n\u00e3o falando em muitas igrejas e capelas que alguns senhores<br \/>\nricos t\u00eam em suas fazendas (Cardim 1980:144 ).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a Companhia de Jesus enriquecera notavelmente, como se v\u00ea<br \/>\npela descri\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio da Bahia feita por Cardim.<\/p>\n<p>&#8220;Os padres t\u00eam aqui col\u00e9gio novo quase acabado; \u00e9<br \/>\numa quadra formosa com boa capela, livraria, e alguns trinta cub\u00edculos,<br \/>\nos mais deles t\u00eam as janelas para ao mar. O edif\u00edcio \u00e9<br \/>\ntodo de pedra e cal de ostra, que \u00e9 t\u00e3o boa como a pedra de<br \/>\nPortugal. Os cub\u00edculos s\u00e3o grandes, os portais de pedra, as<br \/>\nportas d&#8217;angelim, forradas de cedro; das janelas descobrimos grande parte<br \/>\nda Bahia, e vemos cardumes de peixes e baleias andar saltando n&#8217;\u00e1gua,<br \/>\nos navios estarem t\u00e3o perto que quase ficam \u00e0 fala. A igreja<br \/>\n\u00e9 capaz, bem cheia de ricos ornamentos de damasco branco e roxo, veludo<br \/>\nverde e carmesim, todos de tela d&#8217;ouro; tem uma cruz e turs\u00f4ulo de prata,<br \/>\numa boa cust\u00f3dia para as endoen\u00e7as, muitos e devotos pain\u00e9is<br \/>\nda vida de Cristo e todos os Ap\u00f3stolos.<\/p>\n<p>Todos os tr\u00eas altares t\u00eam doc\u00e9is, com suas cortinas de<br \/>\ntafet\u00e1 carmesim; tem uma cruz de prata dourada, de maravilhosa obra,<br \/>\ncom Santo Lenho, tr\u00eas cabe\u00e7as das onze mil virgens, com outras<br \/>\nmuitas e grandes rel\u00edquias de santos, e uma imagem de Nossa Senhora<br \/>\nde S. Lucas, mui formosa e devota (Cardim 1980:144 ).&#8221; Maior ainda era<br \/>\na pompa dos engenhos que maravilharam Cardim.<\/p>\n<p>&#8220;De uma coisa me maravilhei nesta jornada, e foi grande facilidadeque<br \/>\nt\u00eam em agasalhar os h\u00f3spedes, porque a qualquer hora da noite<br \/>\nou do dia que cheg\u00e1vamos em brev\u00edssimo espa\u00e7o nos davam<br \/>\nde co- mer a cinco da Companhia (afora os mo\u00e7os) todas as variedades<br \/>\nde carnes, galinhas, perus, patos, leit\u00f5es, cabritos, e outras castas<br \/>\ne tudo t\u00eam de sua cria\u00e7\u00e3o, com todo o g\u00eanero de<br \/>\npescado e mariscos de toda sorte, dos quais sempre t\u00eam a casa cheia,<br \/>\npor terem deputados certos escravos pescadores para isso, e de tudo t\u00eam<br \/>\na casa t\u00e3o cheia que na fartura parecem uns condes, e gastam muito<br \/>\n(Cardim 1980:157-8 ).&#8221; Era a Bahia gorda do rec\u00f4ncavo a\u00e7ucareiro,<br \/>\nt\u00e3o oposta \u00e0 Bahia de bode dos sert\u00f5es s\u00e3o-franciscanos,<br \/>\nonde sobreviviam os Tapuia e os Cariri, ent\u00e3o em plena guerra contra<br \/>\no invasor. Nela a civiliza\u00e7\u00e3o se implantara, opulenta e refinada,<br \/>\nsobre o trabalho de escravos negros e \u00edndios.<\/p>\n<p>&#8220;Grandes foram as honras e agasalhos, que todos fizeram ao padre visitador,<br \/>\nprocurando cada um de se esmerar n\u00e3o somente nas mostras d&#8217;amor, grande<br \/>\nrespeito e rever\u00eancia, que no tratamento e convers\u00e3o lhe mostravam,<br \/>\nmas muito mais nos grandes gastos das iguarias, da limpeza e conserto do servi\u00e7o,<br \/>\nnas ricas camas e leitos de seda (que o padre n\u00e3o aceitava, porque<br \/>\ntrazia uma rede que lhe serve de cama, e cousa costumada na terra) (Cardim<br \/>\n1980:157 ).&#8221; As recep\u00e7\u00f5es se sucedem: &#8220;[&#8230;] aquela<br \/>\nnoite, fomos ter \u00e0 casa de um homem rico que esperava o padre visitador:<br \/>\n\u00e9 nesta Bahia o segundo em riquezas por ter sete ou oito l\u00e9guas<br \/>\nde terra por costa, em a qual se acha o melhor \u00e2mbar que por c\u00e1<br \/>\nh\u00e1, e s\u00f3 em um ano colheu oito mil cruzados dele, sem lhe custar<br \/>\nnada. Tem tanto gado que lhe n\u00e3o sabe o n\u00famero, e s\u00f3<br \/>\ndo bravo e perdido sustentou as armadas d&#8217;el-rei. Agasalhou o padre em sua<br \/>\ncasa armada de guadamecins com uma rica cama, deu-nos sempre de comer aves,<br \/>\nperus, manjar branco etc. Ele mesmo, desbarretado, servia a mesa e nos ajudava<br \/>\n\u00e0 missa, em uma sua capela, a mais formosa que h\u00e1 no Brasil,<br \/>\nfeita toda de estuque e timtim de obra maravilhosa de molduras, la\u00e7arias,<br \/>\ne cornijas; \u00e9 de ab\u00f3bada sextavada com tr\u00eas portas, e<br \/>\ntem-na mui bem provida de ornamentos. Nesta e outras ermidas me lembrava de<br \/>\nVossa Rever\u00eancia, e de todos dessa prov\u00edncia (Cardim 1980:154<br \/>\n).&#8221; Em Pernambuco era maior ainda a suntuosidade e n\u00e3o foram menores<br \/>\nas galas, agrados e o encanto dos visitantes com a vila.<\/p>\n<p>&#8220;Foi o padre mui freq\u00fcentemente visitado do sr. bispo, ouvidor<br \/>\ngeral, e outros principais da terra, e lhe mandaram muitas vitelas, porcos,<br \/>\nperus, galinhas e outras coisas, como conservas etc.; e pessoa houve que da<br \/>\nprimeira vez mandou passante de cinq\u00fcenta cruzados em carnes, farinhas<br \/>\nde trigo de Portugal, um quarto de vinho etc.; e n\u00e3o contentes com<br \/>\nisto o levaram \u00e0s suas fazendas algumas vezes, que s\u00e3o maiores<br \/>\ne mais ricas que as da Bahia; e nelas lhe fizeram grandes honras e gasalhados,<br \/>\ncom t\u00e3o grandes gastos que n\u00e3o saberei contar, porque deixando<br \/>\n\u00e0 parte os grandes banquetes de extraordin\u00e1rias iguarias, o<br \/>\nagasalhavam em leitos de damasco carmesim, franjados de ouro, e ricas colchas<br \/>\nda \u00cdndia (mas o padre usava de sua rede como costumava) (Cardim 1980:161<br \/>\n).&#8221; O pr\u00f3prio Cardim disse missa solene na matriz de Olinda, &#8220;[&#8230;]<br \/>\n\u00e0 peti\u00e7\u00e3o dos mordomos, que s\u00e3o os principais<br \/>\nda terra, e alguns deles senhores d&#8217;engenhos de quarenta e mais mi1 cruzados<br \/>\nde seu. Seis deles todos vestidos de veludo e damasco de v\u00e1rias cores<br \/>\nme acompanharam at\u00e9 o p\u00falpito, e n\u00e3o \u00e9 muito achar-se<br \/>\nesta pol\u00edcia em Pernambuco (Cardim 1980:162 ).<\/p>\n<p>A gente da terra \u00e9 honrada: h\u00e1 homens muito grossos de 40,<br \/>\n50, e 80 mil cruzados de seu: alguns devem muito pelas grandes perdas que<br \/>\nt\u00eam com escravaria de Guin\u00e9, que lhes morrem muito, e pelas demasias<br \/>\ne gastos grandes que t\u00eam em seu tratamento. Vestem-se, e as mulheres<br \/>\ne filhos de toda a sorte de veludos, damascos e outras sedas, e nisto t\u00eam<br \/>\ngrandes excessos. As mulheres s\u00e3o muito senhoras, e n\u00e3o muito<br \/>\ndevotas, nem freq\u00fcentam as missas, prega\u00e7\u00f5es, confiss\u00f5es<br \/>\netc.: os homens s\u00e3o t\u00e3o briosos que compram ginetes de duzentos<br \/>\ne trezentos cruzados, e alguns t\u00eam tr\u00eas, quatro cavalos de pre\u00e7o.<br \/>\nS\u00e3o mui dados a festas. Casando uma mo\u00e7a honrada com um vian\u00eas,<br \/>\nque s\u00e3o os principais da terra, os parentes e amigos se vestiram uns<br \/>\nde veludo carmesim, outros de verde, e outros de damasco e outras sedas de<br \/>\nv\u00e1rias cores, e os gui\u00f5es e selas dos cavalos eram das mesmas<br \/>\nsedas que iam vestidos.<\/p>\n<p>Aquele dia correram touros, jogaram canas, pato, argolinha, e vieram dar<br \/>\nvista ao col\u00e9gio para os ver o padre visitador; e por esta festa se<br \/>\npode julgar o que far\u00e3o nas mais, que s\u00e3o comuns e ordin\u00e1rias.<br \/>\nS\u00e3o sobretudo dados a banquetes, em que de ordin\u00e1rio andam comendo<br \/>\num dia dez ou doze senhores de engenho juntos, e revezando-se desta maneira<br \/>\ngastam quanto t\u00eam, e de ordin\u00e1rio bebem cada ano 50 mil cruzados<br \/>\nde vinhos de Portugal; e alguns anos beberam 80 mi1 cruzados dados em rol.<br \/>\nEnfim em Pernambuco se acha mais vaidade que em Lisboa (Cardim 1980:164 ).&#8221;<br \/>\nChegam, afinal, ao Rio de Janeiro, onde o encantamento de Cardim com a terra<br \/>\nbras\u00edlica atinge o auge. Vejamos s\u00f3: &#8220;A cidade est\u00e1<br \/>\nsituada em um monte de boa vista para o mar, e dentro da barra tem uma ba\u00eda<br \/>\nque bem parece que a pintou o supremo pintor e arquiteto do mundo do Deus<br \/>\nNosso Senhor, e assim \u00e9 coisa formos\u00edssima e a mais apraz\u00edvel<br \/>\nque h\u00e1 em todo o Brasil, nem lhe chega a vista do Mondego e Tejo; \u00e9<br \/>\nt\u00e3o capaz que ter\u00e1 vinte l\u00e9guas em roda cheia pelo meio<br \/>\nde muitas ilhas frescas de grandes arvoredos, e n\u00e3o impedem a vista<br \/>\numas \u00e0s outras que \u00e9 o que lhe d\u00e1 gra\u00e7a. Tem a<br \/>\nbarra meia l\u00e9gua da cidade, e no meio dela uma l\u00e1jea de sessenta<br \/>\nbra\u00e7as em comprido, e bem larga que a divide pelo meio, e por ambas<br \/>\nas partes tem canal bastante para naus da \u00cdndia; nesta l\u00e1jea<br \/>\nmanda el-Rei fazer a fortaleza, e ficar\u00e1 a cousa inexpugn\u00e1vel,<br \/>\nnem se lhe poder\u00e1 esconder um barco; a cidade tem 150 vizinhos com<br \/>\nseu vig\u00e1rio, e muita escravaria da terra (Cardim 1980:170 ).&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 no Rio o \u00eaxito era enorme. Aqui, com uma peculiaridade.<br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o desindianizada, sobretudo o mulherio, procurando<br \/>\numa identidade nova para si mesma, se identifica fervorosamente com a figura<br \/>\nde d. Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Sebasti\u00e3o, o jovem rei perdido numa louca cruzada, em que levara<br \/>\n\u00e0 morte a nobreza de Portugal, do que resultou a perda da independ\u00eancia<br \/>\nnacional e a entrega de Lisboa ao dom\u00ednio de Madri. Mas, Sebasti\u00e3o<br \/>\nera tamb\u00e9m o santo romano, apresentado sempre como uma est\u00e1tua<br \/>\ndesnuda, sendo morto a pedradas.<\/p>\n<p>&#8220;Os padres t\u00eam aqui melhor s\u00edtio da cidade. T\u00eam<br \/>\ngrande vista com toda esta enseada defronte das janelas: t\u00eam come\u00e7ado<br \/>\no edif\u00edcio novo, t\u00eam j\u00e1 treze cub\u00edculos de pedra<br \/>\ne cal que n\u00e3o d\u00e3o vantagem aos de Coimbra, antes lhe levam na<br \/>\nboa vista. S\u00e3o forrados de cedro, a igreja \u00e9 pequena, de taipa<br \/>\nvelha. Agora se come\u00e7a a nova de pedra e cal, todavia t\u00eam bons<br \/>\nornamentos com uma cust\u00f3dia de prata dourada para as endoen\u00e7as,<br \/>\numa cabe\u00e7a das onze mil virgens, o bra\u00e7o de S. Sebasti\u00e3o<br \/>\ncom outras rel\u00edquias, uma imagem da Senhora de S. Lucas (Cardim 1980:171<br \/>\n).&#8221;<\/p>\n<p>Aquele rei or\u00e1culo, que portugueses e brasileiros de cultura r\u00fastica<br \/>\nainda esperam ver reencarnado, se funde com esse santo romano, provocando<br \/>\nefus\u00f5es de f\u00e9 religiosa. Ainda hoje, no Rio de Janeiro, a prociss\u00e3o<br \/>\nde S\u00e3o Sebasti\u00e3o mobiliza centenas de milhares de pessoas, que<br \/>\nn\u00e3o sabem nem no que cr\u00eaem. Mas isso n\u00e3o importa, porque<br \/>\no que querem \u00e9 ter uma identidade pr\u00f3pria, que por essa via<br \/>\nalcan\u00e7am plenamente.<\/p>\n<p>A referida rel\u00edquia de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, trazida, ali\u00e1s,<br \/>\npelo visitador, era uma bela pe\u00e7a engastada num bra\u00e7o de prata.<br \/>\nFoi recebida com grande festan\u00e7a por ser esta cidade do seu nome e<br \/>\nser ele o padroeiro e protetor.<\/p>\n<p>&#8220;O padre visitador com o mesmo governador e os principais da terra<br \/>\ne alguns padres nos embarcamos numa grande barca bem embandeirada e enramada:<br \/>\nnela se armou um altar e alcatifou a tolda com um p\u00e1lio por cima; acudiram<br \/>\nalgumas vinte canoas bem equipadas, algumas delas pintadas, outras empenadas,<br \/>\ne&#8217;os remos de v\u00e1rias cores.<\/p>\n<p>Entre elas vinha Martim Afonso, comendador de Cristo, \u00edndio antigo<br \/>\nabaet\u00ea e mo\u00e7ac\u00e1ra, grande cavaleiro e valente, que ajudou<br \/>\nmuito os portugueses na tomada deste Rio. Houve no mar grande festa de escaramu\u00e7a<br \/>\nnaval, tambores, p\u00edfaros e flautas, com grande grita e festa dos \u00edndios;<br \/>\ne os portugueses da terra com sua arcabuzaria e tamb\u00e9m os da fortaleza<br \/>\ndispararam algumas pe\u00e7as de artilharia grossa e com esta festa andamos<br \/>\nbarlaventeando um pouco \u00e0 vela, e a santa rel\u00edquia ia no altar<br \/>\ndentro de uma rica charola, com grande aparato de velas acesas, m\u00fasica<br \/>\nde canto d&#8217;\u00f3rg\u00e3o etc. Desembarcando viemos em prociss\u00e3o<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 Miseric\u00f3rdia, que est\u00e1junto da praia, com<br \/>\na rel\u00edquia debaixo do p\u00e1lio; as varas levaram os da c\u00e2mara,<br \/>\ncidad\u00e3os principais, antigos e conquistadores daquela terra. Estava<br \/>\num teatro \u00e0 porta da Miseric\u00f3rdia com uma tolda de uma vela,<br \/>\ne a santa rel\u00edquia se p\u00f4s sobre um rico altar enquanto se representou<br \/>\num devoto di\u00e1logo do mart\u00edrio do santo, com choros e v\u00e1rias<br \/>\nfiguras muito ricamente vestidas; e foi asseteado um mo\u00e7o atado a um<br \/>\npau: causou este espet\u00e1culo muitas l\u00e1grimas de devo\u00e7\u00e3o<br \/>\ne alegria a toda a cidade por representar ao vivo mart\u00edrio do santo,<br \/>\nnem faltou mulher que n\u00e3o viesse \u00e0 festa (Cardim 1980:169 ).&#8221;<br \/>\nDiferente \u00e9 o retrato que nos d\u00e1 de S\u00e3o Paulo e suas<br \/>\nquatro pobres vilas. S\u00e3o Vicente, &#8220;[&#8230;] situada em lugar baixo<br \/>\nmanencolisado e soturno, em uma ilha de duas l\u00e9guas de comprido. Esta<br \/>\nfoi a primeira vila e povoa\u00e7\u00e3o de portugueses que houve no Brasil;<br \/>\nfoi rica, agora \u00e9 pobre por se lhe fechar o porto de mar e barra antiga,<br \/>\npor onde entrou com sua frota Martim Afonso de Sousa; e tamb\u00e9m por<br \/>\nestarem as terras gastas e faltarem \u00edndios que as cultivem, se vai<br \/>\ndespovoando; ter\u00e1 oitenta vizinhos, com seu vig\u00e1rio. Aqui t\u00eam<br \/>\nos padres uma casa aonde residem de ordin\u00e1rio seis da Companhia: o<br \/>\ns\u00edtio \u00e9 mal-assombrado, sem vista, ainda que muito sadio (Cardim<br \/>\n1980:174 ).&#8221; Santos, &#8220;[&#8230;] oitenta vizinhos, com seu vig\u00e1rio.<br \/>\nItanha\u00e9m, que \u00e9 a terceira povoa\u00e7\u00e3o da costa,<br \/>\nque ter\u00e1 cinq\u00fcenta vizinhos, n\u00e3o tem vig\u00e1rio. Os<br \/>\npadres visitam, consolam e ajudam no que podem, ministrando-lhes os sacramentos<br \/>\npor sua caridade (Cardim 1980:174 ).<\/p>\n<p>Piratininga \u00e9 vila da invoca\u00e7\u00e3o da convers\u00e3o<br \/>\nde S\u00e3o Paulo; est\u00e1 do mar pelo sert\u00e3o dentro doze l\u00e9guas;<br \/>\n\u00e9 terra muito sadia, h\u00e1 nela grandes frios e geadas e boas calmas,<br \/>\n\u00e9 cheia de velhos mais que centen\u00e1rios, porque em quatro juntos<br \/>\ne vivos se acharam quinhentos anos. Vestem-se de burel, e pelotes pardos e<br \/>\nazuis, de pertinas compridas, como antigamente se vestiam. V\u00e3o aos<br \/>\ndomingos \u00e0 igreja com roup\u00f5es ou b\u00e9rnios de cacheira<br \/>\nsem capa. A vila est\u00e1 situada em bom s\u00edtio ao longo de um rio<br \/>\ncaudal. Ter\u00e1 cento e vinte vizinhos, com muita escravaria da terra,<br \/>\nn\u00e3o tem cura nem outros sacerdotes sen\u00e3o os da Companhia, aos<br \/>\nquais t\u00eam grande amor e respeito e por nenhum modo querem aceitar cura<br \/>\n(Cardim 1980:173 ).&#8221; Nenhum balan\u00e7o cr\u00edtico \u00e9 melhor<br \/>\nque o de Cardim sobre o resultado pr\u00e1tico das miss\u00f5es e da coloniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAquelas, tendo entregue seu sangue e sua energia para fazer a sociedade nova,<br \/>\ns\u00f3 sobreviviam nos corpos dos brasil\u00edndios como um patrim\u00f4nio<br \/>\ngen\u00e9tico que se repetir\u00e1 pelos s\u00e9culos afora, remarcando<br \/>\na fisionomia dos brasileiros.<\/p>\n<p>Esta, quero dizer, a solu\u00e7\u00e3o colonial, era o mais bem-sucedido<br \/>\nimplante europeu no al\u00e9m-mar. Chegou a ter igrejas e col\u00e9gios<br \/>\nsuntuosos como n\u00e3o ocorreu em lugar nenhum mais. Viveu assim e ainda<br \/>\nvive a vida de um proletariado externo, cuja sorte depende das oscila\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo mercado mundial.<\/p>\n<p>Podia-se dizer, talvez, que o fracasso maior foi do stalinismo jesu\u00edtico,<br \/>\nque tentou um socialismo precoce e invi\u00e1vel, e fracassou. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\no sucesso foi de seus opositores. Tamb\u00e9m fracassados, porque n\u00e3o<br \/>\nsendo um povo para si na busca de suas condi\u00e7\u00f5es de prosperidade,<br \/>\npermanece sendo um povo para os outros.<\/p>\n<h2>A URBANIZA\u00c7\u00c3O CA\u00d3TICA CIDADES E VILAS<\/h2>\n<p>Assinalamos que o Brasil, surgindo embora pela via evolutiva da atualiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rica, nasceu j\u00e1 como uma civiliza\u00e7\u00e3o urbana.<br \/>\nVale dizer, separada em conte\u00fados rurais e citadinos, com fun\u00e7\u00f5es<br \/>\ndiferentes mas complementares e comandada por grupos eruditos da cidade. A<br \/>\nprimeira \u00e9 Lisboa, que n\u00e3o conta. Nossa primeira cidade, de<br \/>\nfato, foi a Bahia, j\u00e1 no primeiro s\u00e9culo, quando surgiram, tamb\u00e9m,<br \/>\no Rio de Janeiro e Jo\u00e3o Pessoa. No segundo s\u00e9culo, surgem mais<br \/>\nquatro: S\u00e3o Lu\u00eds, Cabo Frio, Bel\u00e9m e Olinda. No terceiro<br \/>\ns\u00e9culo, interioriza-se a vida urbana, com S\u00e3o Paulo; Mariana,<br \/>\nem Minas; e Oeiras, no Piau\u00ed. No quinto s\u00e9culo, a rede explode,<br \/>\ncobrindo todo o territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>No curso desses s\u00e9culos as cidades cresceram e se ornaram como portentosos<br \/>\ncentros de vida urbana, s\u00f3 compar\u00e1veis aos do M\u00e9xico.<br \/>\nOs holandeses enriqueceram Recife. A riqueza das minas se exibiu em Ouro Preto<br \/>\ne outras cidades do ouro, engalanou a Bahia e, depois, o Rio. A valoriza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo a\u00e7\u00facar translada os senhores de engenho para Recife e para<br \/>\na Bahia, onde ergueram seus sobrados e viveram a vida t\u00e3o bem descrita<br \/>\npor Gilberto Freyre ( 1935 ). A independ\u00eancia derramou quantidades de<br \/>\nlusitanos Tabela 2 &#8220;BRASIL &#8211; REDE URBANA COLONIAL Fins do s\u00e9culo<br \/>\nXVI: n\u00famero de cidades &#8211; 3, n\u00famero de vilas &#8211; 14 Fins do s\u00e9culo<br \/>\nXVII: n\u00famero de cidades &#8211; 7, n\u00famero de vilas &#8211; 51 Fins do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII: n\u00famero de cidades &#8211; 10, n\u00famero de vilas \u2013 60 Popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas principais cidades e vilas Fins do s\u00e9culo XVI: Salvador &#8211; 15.000,<br \/>\nRecife\/Olinda &#8211; 5.000, S\u00e3o Paulo &#8211; 1.500, Rio de Janeiro &#8211; 1.000 Fins<br \/>\ndo s\u00e9culo XVII: Salvador &#8211; 30.000, Recife &#8211; 20.000, Rio de Janeiro<br \/>\n&#8211; 4.000, S\u00e3o Paulo &#8211; 3.000 Fins do s\u00e9culo XVIII: Salvador &#8211;<br \/>\n40.000, Recife &#8211; 25.000, Rio de Janeiro &#8211; 43.000, Ouro Preto &#8211; 30.000, S\u00e3o<br \/>\nLu\u00eds &#8211; 20.000, S\u00e3o Paulo &#8211; 15.000 Popula\u00e7\u00e3o do<br \/>\nBrasil: Fins do s\u00e9culo XVI: 60.000 Fins do s\u00e9culo XVII: 300.000<br \/>\nFins do s\u00e9culo XVIII: 3.000.000 Fonte: Estimativas baseadas em cronistas<br \/>\ncontempor\u00e2neos.&#8221; por toda a parte, todos muito voltados ao com\u00e9rcio,<br \/>\ncomo agentes de empresas inglesas. A Guerra de Secess\u00e3o nos Estados<br \/>\nUnidos fez crescer S\u00e3o Lu\u00eds, que no censo de 1872 comparece<br \/>\nmaior e mais rica que S\u00e3o Paulo. A aboli\u00e7\u00e3o, dando alguma<br \/>\noportunidade de ir e vir aos negros, encheu as cidades do Rio e da Bahia de<br \/>\nn\u00facleos chamados africanos, que se desdobraram nas favelas de agora.<\/p>\n<p>A crise de desemprego que ocorre na Europa na passagem do s\u00e9culo<br \/>\nnos manda 7 milh\u00f5es de europeus. Quatro e meio milh\u00f5es deles<br \/>\nse fixaram definitivamente no Brasil, principalmente em S\u00e3o Paulo,<br \/>\nonde renovaram toda a vida econ\u00f4mica local.<\/p>\n<p>Foram eles que promoveram o primeiro surto de industrializa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque mais tarde se expandiria com a industrializa\u00e7\u00e3o substitutiva<br \/>\nde importa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Decuplica-se, como se v\u00ea, o contingente urbanizado, quando a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ntotal do pa\u00eds crescera de duas vezes e meia, passando de 30,6 milh\u00f5es,<br \/>\nem 1920, para 70,9 milh\u00f5es, em 1960. No mesmo per\u00edodo, a rede<br \/>\nmetropolitana crescera de seis cidades maiores de 100 mil habitantes para<br \/>\n31. Maior, ainda, foi o incremento das cidades pequenas e m\u00e9dias, que<br \/>\nconstitu\u00edam, em 1960, uma rede de centenas de n\u00facleos urbanos<br \/>\ndistribu\u00eddos por todo o pa\u00eds na forma de constela\u00e7\u00f5es<br \/>\narticuladas aos centros metropolitanos nacionais e regionais.<\/p>\n<p>As cidades e vilas da rede colonial, correspondentes \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nagr\u00e1ria, eram, essencialmente, centros de domina\u00e7\u00e3o colonial<br \/>\ncriados, muitas vezes, por ato expresso da Coroa para defesa da costa, como<br \/>\nSalvador, Rio de Janeiro, S\u00e3o Lu\u00eds, Bel\u00e9m, Florian\u00f3polis<br \/>\ne outras. Exerciam, como fun\u00e7\u00e3o principal, o com\u00e9rcio,<br \/>\natrav\u00e9s de importa\u00e7\u00e3o e contrabando, e a presta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde servi\u00e7os aos setores produtivos, na qualidade de ag\u00eancias<br \/>\nreais de cobran\u00e7a de impostos e taxas, de concess\u00e3o de terras,<br \/>\nde legitima\u00e7\u00e3o de transmiss\u00f5es de bens por heran\u00e7a<br \/>\nou por venda e de julgamento nos casos de conflito. Al\u00e9m dessas fun\u00e7\u00f5es,<br \/>\nprestavam assist\u00eancia religiosa, associada quase sempre com atividades<br \/>\nescolares de n\u00edvel prim\u00e1rio e proped\u00eauticas do sacerd\u00f3cio.<br \/>\nProviam, tamb\u00e9m, assist\u00eancia m\u00e9dica para os casos desesperados,<br \/>\nresistentes \u00e0s mezinhas dom\u00e9sticas tradicionais. Sua vida girava<br \/>\nem torno dessas atividades e da segunda fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica,<br \/>\nque era a de emp\u00f3rios de importa\u00e7\u00e3o de escravos e manufaturas<br \/>\ne de exporta\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar, mais tarde do ouro,<br \/>\npedras preciosas e poucas outras mercadorias.<\/p>\n<p>Suas principais edifica\u00e7\u00f5es eram as igrejas, conventos e fortalezas,<br \/>\nque constitu\u00edam, tamb\u00e9m, seu principal atrativo. Por ocasi\u00e3o<br \/>\ndas festas religiosas, a aristocracia rural deixava as fazendas para viver<br \/>\nali um breve per\u00edodo de conv\u00edvio urbano festivo. Afora estas<br \/>\nocasi\u00f5es, atravessavam uma exist\u00eancia pacata; s\u00f3 animada<br \/>\npela feira semanal, pelas missas e novenas e pela chegada de algum veleiro<br \/>\nao porto. A n\u00e3o ser isso, s\u00f3 se movimentavam com o trinar dos<br \/>\ncincerros das tropas de mulas que vinham do interior, ou com o rugido de atrito<br \/>\ndos carros de boi que chegavam dos s\u00edtios carregados de mantimentos<br \/>\ne de lenha.<\/p>\n<p>A classe alta urbana era composta de funcion\u00e1rios, escriv\u00e3es<br \/>\ne meirinhos, militares e sacerdotes &#8211; que tamb\u00e9m eram os \u00fanicos<br \/>\neducadores &#8211; e negociantes. Exceto a alta hierarquia civil<\/p>\n<p>e eclesi\u00e1stica, toda essa gente era considerada &#8220;de segunda&#8221;<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o aos senhores rurais, orgulhosos de suas posses, do<br \/>\nseu isolamento e convictos de sua superioridade social. Uma camada intermedi\u00e1ria<br \/>\nde brancos e mesti\u00e7os livres, paup\u00e9rrimos, procurava sobreviver<br \/>\n\u00e0 sombra dos ricos ou remediados.<\/p>\n<p>Cada fazendeiro ou comerciante tinha e mantinha esses agregados que os serviam<br \/>\ndevotadamente sem qualquer sal\u00e1rio, em contrapartida dos obs\u00e9quios<br \/>\nque ocasionalmente recebiam e de que viviam. Essa gente enchia as casas, auxiliando<br \/>\nem todas as tarefas dom\u00e9sticas e no artesanato singelo de panos e redes,<br \/>\nde costura e bordado, do fabrico de sab\u00e3o ou de ling\u00fci\u00e7a<br \/>\ne doces. Alguns art\u00edfices aut\u00f4nomos trabalhavam por encomenda,<br \/>\nem selas e tralha de montaria, em sapatos de couro, como ferreiros e mec\u00e2nicos<br \/>\nou nos of\u00edcios ligados \u00e0s constru\u00e7\u00f5es. Abaixo<br \/>\nvinha a criadaria escrava destinada a abrilhantar a posi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos.ricos e remediados, carregando a eles pr\u00f3prios, a seus objetos<br \/>\ne dejetos,amamentando os rec\u00e9m-nascidos, servindo- lhes, enfim, de<br \/>\nm\u00e3os e de p\u00e9s.<\/p>\n<p>O crescimento dos centros urbanos d\u00e1 lugar a uma burocracia civil<br \/>\ne eclesi\u00e1stica da mais alta hierarquia e a um com\u00e9rcio aut\u00f4nomo<br \/>\ne rico, integrado quase exclusivamente por rein\u00f3is. Mesmo estes, por\u00e9m,<br \/>\ns\u00f3 alcan\u00e7avam categoria social respeit\u00e1vel e se integravam<br \/>\nna classe dominante, quando se faziam tamb\u00e9m propriet\u00e1rios de<br \/>\nterra e fazendeiros. S\u00f3 nas regi\u00f5es mineradoras, como vimos,<br \/>\nse implanta uma verdadeira rede urbana independente da produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nagr\u00edcola, contando com uma ponder\u00e1vel camada intermedi\u00e1ria<br \/>\nde modos de vida citadinos.<\/p>\n<p>Aglomerados menores surgiram no interior de cada \u00e1rea produtiva para<br \/>\nexercer fun\u00e7\u00f5es especiais, \u00e0 medida que a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\naumentava e se concentrava. Tais s\u00e3o os vilarejos estradeiros, que<br \/>\nserviam de pouso nas longas viagens entre os n\u00facleos ocupados do interior,<br \/>\nou que apareciam onde se impusesse a necessidade de baldear cargas de uma<br \/>\nestrada a um rio naveg\u00e1vel, ou para a travessia deste. \u00c9 o caso,<br \/>\ntamb\u00e9m, das feiras de gado de todo o mediterr\u00e2neo interior, algumas<br \/>\ndas quais alcan\u00e7ariam grande express\u00e3o, como a de Campina Grande,<br \/>\nSorocaba, Feira de Santana, Campo Grande e outras. Contam-se, tamb\u00e9m,<br \/>\nas feiras de algod\u00e3o, como a de Itapicuru-mirim, Caxias, Oeiras, Crato<br \/>\netc.<\/p>\n<p>A economia extrativista criou os portos de exporta\u00e7\u00e3o de borracha<br \/>\nda Amaz\u00f4nia e sua constela\u00e7\u00e3o de vilas e cidades auxiliares.<br \/>\nE, finalmente, a rede de cidades que nasceram acompanhando a marcha do caf\u00e9,<br \/>\na maioria das quais decairia depois, transformadas em cidades mortas, quando<br \/>\na fronteira se distanciava, dando lugar a outras &#8220;bocas do sert\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Essas cidades e vilas, grandes e pequenas, constitu\u00edam ag\u00eancias<br \/>\nde uma civiliza\u00e7\u00e3o agr\u00e1rio-mercantil, cujo papel fundamental<br \/>\nera gerir a ordena\u00e7\u00e3o colonial da sociedade brasileira, integrando-a<br \/>\nno corpo de tradi\u00e7\u00f5es religiosas e civis da Europa pr\u00e9-<br \/>\nindustrial e fazendo-a render proventos \u00e0 Coroa portuguesa. Como tal,<br \/>\neram centros de imposi\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias e das cren\u00e7as<br \/>\noficiais e de defesa do velho corpo de tradi\u00e7\u00f5es ocidentais,<br \/>\nmuito mais que n\u00facleos criadores de uma tradi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Assim, apesar das imensas diferen\u00e7as que mediavam entre as forma\u00e7\u00f5es<br \/>\nsocioculturais europ\u00e9ias e as brasileiras, ambas eram fruto de um mesmo<br \/>\nmovimento civilizat\u00f3rio. Com a industrializa\u00e7\u00e3o se altera<br \/>\nessa constela\u00e7\u00e3o urbana no que tinha de fundamental, que era<br \/>\nsua tecnologia produtiva, transformando todo o seu modo de ser, de pensar<br \/>\ne de agir. Provocaria uma seq\u00fc\u00eancia de altera\u00e7\u00f5es<br \/>\nreflexas nas sociedades dependentes, de natureza tanto t\u00e9cnica quanto<br \/>\nideol\u00f3gica que, aqui tamb\u00e9m, transfiguraram o car\u00e1ter<br \/>\nda pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>INDUSTRIALIZA\u00c7\u00c3O E URBANIZA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o e a urbaniza\u00e7\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nprocessos complementares que costumam marchar associados um ao outro. A industrializa\u00e7\u00e3o<br \/>\noferecendo empregos urbanos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o rural; esta entrando<br \/>\nem \u00eaxodo na busca dessas oportunidades de vida. Mas n\u00e3o \u00e9<br \/>\nbem assim. Geralmente, fatores externos afetam os dois processos, impedindo<br \/>\nque se lhes d\u00ea uma interpreta\u00e7\u00e3o linear. No s\u00e9culo<br \/>\nXVI, s\u00e3o os carneiros ingleses que expulsam a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo campo.<\/p>\n<p>No Brasil, v\u00e1rios processos j\u00e1 referidos, sobretudo o monop\u00f3lio<br \/>\nda terra e a monocultura, promovem a expuls\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo campo. No nosso caso, as dimens\u00f5es s\u00e3o espantosas, dada a<br \/>\nmagnitude da popula\u00e7\u00e3o e a quantidade imensa de gente que se<br \/>\nv\u00ea compelida a transladar-se. A popula\u00e7\u00e3o urbana salta<br \/>\nde 12,8 milh\u00f5es, em 1940, para 80,5 milh\u00f5es, em 1980. Agora<br \/>\n\u00e9 de 110,9 milh\u00f5es. A popula\u00e7\u00e3o rural perde subst\u00e2ncia<br \/>\nporque passa, no mesmo per\u00edodo, de 28,3 milh\u00f5es para 38,6 e<br \/>\n\u00e9, agora, 35,8 milh\u00f5es. Reduzindo-se, em n\u00fameros relativos,<br \/>\nde 68,7% para 32,4% e para 24,4% do total.<\/p>\n<p>Conforme se v\u00ea, vivemos um dos mais violentos \u00eaxodos rurais,<br \/>\ntanto mais grave porque nenhuma cidade brasileira estava em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde receber esse contingente espantoso de popula\u00e7\u00e3o. Sua conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\nfoi a miserabiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o urbana e uma<br \/>\npress\u00e3o enorme na competi\u00e7\u00e3o por empregos.<\/p>\n<p>Embora haja varia\u00e7\u00f5es regionais e S\u00e3o Paulo represente<br \/>\num grande percentual nesse translado, o fen\u00f4meno se deu em todo o pa\u00eds.<br \/>\nInchou as cidades, desabitou o campo sem preju\u00edzo para a produ\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomercial da agricultura, que, mecanizada, passou a produzir mais e melhor.<br \/>\nSe nosso programa fosse produzir s\u00f3 g\u00eaneros de exporta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nisso seria admiss\u00edvel. Como a quest\u00e3o que a hist\u00f3ria<br \/>\nnos p\u00f5e \u00e9 organizar toda a economia para que todos trabalhem<br \/>\ne comam, esse translado astron\u00f4mico, da ordem de 80%, gera enormes problemas.<\/p>\n<p>No presente s\u00e9culo, teve lugar uma urbaniza\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica<br \/>\nprovocada menos pela atratividade da cidade do que pela evas\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nrural. Chegamos, assim, \u00e0 loucura de ter algumas das maiores cidades<br \/>\ndo mundo, tais como S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, com o dobro da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Paris ou Roma, mas dez vezes menos dotadas de servi\u00e7os urbanos e<br \/>\nde oportunidades de trabalho. \u00c9 um mist\u00e9rio inexplicado at\u00e9<br \/>\nagora como vive o povar\u00e9u do Recife, da Bahia, com aquela tr\u00eafega<br \/>\nalegria, e, ultimamente, como sobrevivem sem trabalho milh\u00f5es de paulistas<br \/>\ne cariocas.<\/p>\n<h2>Tabela 3<\/h2>\n<h5>&#8220;2 BRASIL EVOLU\u00c7\u00c3O DA REDE DE CIDADES COM MAIS DE l00<br \/>\nMIL HABITANTES DE 1872 A 1991<\/h5>\n<p>Cidades com 100 a 500 mil habitantes: 1872: Recife &#8211; 117, Rio de Janeiro<br \/>\n&#8211; 275, Salvador &#8211; 129 1900: S\u00e3o Paulo &#8211; 240, Salvador &#8211; 206, Recife<br \/>\n&#8211; 113 1950: Natal &#8211; 103, Jo\u00e3o Pessoa &#8211; 119, S\u00e3o Lu\u00eds<br \/>\n&#8211; 120, Macei\u00f3 &#8211; 121, Manaus &#8211; 140, Curitiba &#8211; 181, Bel\u00e9m &#8211; 255,<br \/>\nFortaleza &#8211; 270, B.Horizonte &#8211; 353, Porto Alegre &#8211; 394, Salvador &#8211; 417 1991:<br \/>\nBoa Vista &#8211; 143, Macap\u00e1 &#8211; 179, Rio de Branco &#8211; 197, Florian\u00f3polis<br \/>\n&#8211; 255, Vit\u00f3ria &#8211; 258, Porto Velho &#8211; 286, Cuiab\u00e1 &#8211; 401, Aracaju<br \/>\n&#8211; 402, Jo\u00e3o Pessoa &#8211; 497 Cidades com 500 mil a 1milh\u00e3o de de<br \/>\nhabitantes: 1900: Rio de Janeiro &#8211; 811 1950: Recife &#8211; 525 1991: Campo Grande<br \/>\n&#8211; 525, Terezina &#8211; 598, Natal &#8211; 607, Macei\u00f3 &#8211; 629, S\u00e3o Lu\u00eds<br \/>\n&#8211; 695, Goi\u00e2nia &#8211; 921 Cidades com mais mais de 1 milh\u00e3o: 1950:<br \/>\nS\u00e3o Paulo &#8211; 2.198, Rio de Janeiro &#8211; 2.377 1991: Manaus &#8211; 1.011, Bel\u00e9m<br \/>\n&#8211; 1.245, Porto Alegre &#8211; 1.263, Recife &#8211; 1.297, Curitiba &#8211; 1.313, Bras\u00edlia<br \/>\n&#8211; l.598, Fortaleza &#8211; 1.766, Belo Horizonte &#8211; 2.017, Salvador &#8211; 2.072, Rio<br \/>\nde Janeiro &#8211; 5.474, S\u00e3o Paulo &#8211; 9.627 Popula\u00e7\u00e3o do Brasil:<br \/>\n1872: 9.930.478 1900: 17.438.434 1950: 51.944.397 1991: 146.917.459 Fonte:<br \/>\nAnu\u00e1rio Estat\u00edstico do Brasil 1993, IBGE (popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nresidente).&#8221; Entre essas cidades, muitas foram criadas por atos de vontade,<br \/>\ncomo ocorrera com a velha Bahia; Bel\u00e9m do Par\u00e1, para fechar<br \/>\na boca do Amazonas; e Sacramento, no sul, \u00e0 frente da nascente Buenos<br \/>\nAires, mantida em guerra pelos portugueses durante um s\u00e9culo, para<br \/>\nmarcar o limite sul do Brasil. E, ultimamente, Goi\u00e2nia; Belo Horizonte<br \/>\ne, afinal, Bras\u00edlia, criada no centro do Brasil, numa extraordin\u00e1ria<br \/>\nfa\u00e7anha da engenharia, para servir de p\u00f3lo central ordenador<br \/>\nda vida brasileira.<\/p>\n<p>Esse crescimento explosivo entra em crise em 1982, anunciando a impossibilidade<br \/>\nde seguir crescendo economicamente sob o peso das constri\u00e7\u00f5es<br \/>\nsociais que deformavam o desenvolvimento nacional. Primeiro, a estrutura agr\u00e1ria<br \/>\ndominada pelo latif\u00fandio que, incapaz de elevar a produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nagr\u00edcola ao n\u00edvel do crescimento da popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde ocupar e pagar as massas rurais, as expulsa em enormes contingentes do<br \/>\ncampo para as cidades, condenando a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 marginalidade. Segundo, a espolia\u00e7\u00e3o estrangeira, que<br \/>\namparada pela pol\u00edtica governamental fortalecera seu dom\u00ednio,<br \/>\nfazendo-se s\u00f3cia da expans\u00e3o industrial, jugulando a economia<br \/>\ndo pa\u00eds pela suc\u00e7\u00e3o de todas as riquezas produtivas.<\/p>\n<p>O Brasil alcan\u00e7a, desse modo, uma extraordin\u00e1ria vida urbana,<br \/>\ninaugurando, provavelmente, um novo modo de ser das metr\u00f3poles. Dentro<br \/>\ndelas geram-se press\u00f5es tremendas, porque a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeixada ao abandono mant\u00e9m sua cultura arcaica, mas muito integrada<br \/>\ne criativa. Dificulta, por\u00e9m, uma verdadeira moderniza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nporque nenhum governo se ocupa efetivamente da educa\u00e7\u00e3o popular<br \/>\ne da sanidade.<\/p>\n<p>Em nossos dias, o principal problema brasileiro \u00e9 atender essa imensa<br \/>\nmassa urbana que, n\u00e3o podendo ser exportada, como fez a Europa, deve<br \/>\nser reassentada aqui. Est\u00e1 se alcan\u00e7ando, afinal, a consci\u00eancia<br \/>\nde que n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel deixar a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nmorrendo de fome e se trucidando na viol\u00eancia, nem a inf\u00e2ncia<br \/>\nentregue ao v\u00edcio e \u00e0 delinq\u00fc\u00eancia e \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO sentimento generalizado \u00e9 de que precisamos tornar nossa sociedade<br \/>\nrespons\u00e1vel pelas crian\u00e7as e anci\u00e3os. Isso s\u00f3<br \/>\nse alcan\u00e7ar\u00e1 atrav\u00e9s da garantia de pleno emprego, que<br \/>\nsup\u00f5e uma reestrutura\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria, porque ali \u00e9<br \/>\nonde mais se pode multiplicar as oportunidades de trabalho produtivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhum ind\u00edcio, por\u00e9m, de que isso se<br \/>\nalcance. A ordem social brasileira, fundada no latif\u00fandio e no direito<br \/>\nimpl\u00edcito de ter e manter a terra improdutiva, \u00e9 t\u00e3o<br \/>\nfervorosamente defendida pela classe pol\u00edtica e pelas institui\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo governo que isso se torna impratic\u00e1vel. \u00c9 prov\u00e1vel<br \/>\nque a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista (UDR), que representa os latifundi\u00e1rios<br \/>\nno Congresso, seja o mais poderoso \u00f3rg\u00e3o do Parlamento.<\/p>\n<p>\u00c9 impens\u00e1vel faz\u00ea-la admitir o princ\u00edpio de que<br \/>\nningu\u00e9m pode manter a terra improdutiva por for\u00e7a do direito<br \/>\nde propriedade, a fim de devolver as terras desaproveitadas \u00e0 Uni\u00e3o<br \/>\npara programas de coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria, por sua vez, se orienta cada vez mais para sistemas<br \/>\nprodutivos poupadores de m\u00e3o-de-obra, nos quais cada novo emprego exige<br \/>\nalt\u00edssimos investimentos. Isso ocorre, ali\u00e1s, em todo o mundo,<br \/>\nmas de forma mais aguda no Brasil, em raz\u00e3o da massa de desocupados<br \/>\nque juntou e dos efeitos desastrosos do desemprego sobre a sociedade.<\/p>\n<p>A moderna industrializa\u00e7\u00e3o brasileira teve o seu impulso inicial<br \/>\natrav\u00e9s de dois atos de guerra. Get\u00falio Vargas imp\u00f4s aos<br \/>\naliados, como condi\u00e7\u00e3o de dar seu apoio em tropas e mat\u00e9riasprimas,<br \/>\na constru\u00e7\u00e3o da Companhia Sidenirgica Nacional em Volta Redonda<br \/>\ne a devolu\u00e7\u00e3o das jazidas de ferro de Minas Gerais. Surgiram,<br \/>\nassim, imediatamente ap\u00f3s a guerra, dois d\u00ednamos da moderniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nno Brasil. Volta Redonda foi a matriz da ind\u00fastria naval e automobil\u00edstica<br \/>\ne de toda a ind\u00fastria mec\u00e2nica. A Vale do Rio Doce p\u00f4s<br \/>\nnossas reservas minerais a servi\u00e7o do Brasil, provendo delas o mercado<br \/>\nmundial. Cresceu, assim, como uma das principais empresas de seu ramo. Al\u00e9m<br \/>\ndessas empresas, o Estado criou v\u00e1rias outras com \u00eaxito menor,<br \/>\ncomo a F\u00e1brica Nacional de Motores e a Companhia Nacional de Alcalis.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica de capitalismo de Estado e de industrializa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde base provocou sempre a maior rea\u00e7\u00e3o por parte dos privatistas<br \/>\ne dos porta-vozes dos interesses estrangeiros.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que, quando Get\u00falio Vargas se prepara para criar a<br \/>\nPetrobr\u00e1s e a Eletrobr\u00e1s, uma campanha un\u00edssona de toda<br \/>\na m\u00eddia levou seu governo a tal desmoraliza\u00e7\u00e3o que ele<br \/>\nse viu na imin\u00eancia de ser enxotado do Catete. Venceu pelo pr\u00f3prio<br \/>\nsuic\u00eddio, que acordou a na\u00e7\u00e3o para o car\u00e1ter daquela<br \/>\ncampanha e para os interesses que estavam atr\u00e1s dos inimigos do governo.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia, os l\u00edderes da direita n\u00e3o alcan\u00e7aram<br \/>\no poder e o candidato de centro-esquerda, Juscelino Kubitschek, foi eleito<br \/>\npresidente. Com ele, se desencadeia a industrializa\u00e7\u00e3o substitutiva.<br \/>\nNum mundo em que nem Dutra nem Get\u00falio conseguiam qualquer investimento,<br \/>\nJtc, abandonando a pol\u00edtica de capitalismo de Estado, atrai numerosas<br \/>\nempresas para implantar subsidi\u00e1rias no Brasil, no campo da ind\u00fastria<br \/>\nautomobil\u00edstica, naval, qu\u00edmica, mec\u00e2nica etc. Para tanto,<br \/>\nconcedeu toda a sorte de subs\u00eddios, tais como terrenos, isen\u00e7\u00e3o<br \/>\nde impostos, empr\u00e9stimos e avais a empr\u00e9stimos estrangeiros.<br \/>\nO fez com tanta largueza, que muita ind\u00fastria custou a seus donos menos<br \/>\nde 20% de investimento real do seu capital (Tavares 1964 ).<\/p>\n<p>O fundamento dessa pol\u00edtica, formulada pelo Centro de Estudos para<br \/>\na Am\u00e9rica Latina (CEPAL), era o de que, elevando as barreiras alfandeg\u00e1rias<br \/>\npara reservar o mercado interno \u00e0s ind\u00fastrias que aqui se instalassem,<br \/>\nse promoveria uma Revolu\u00e7\u00e3o Industrial equivalente \u00e0<br \/>\nque ocorreu originalmente em outros pa\u00edses. Os resultados foram, por<br \/>\num lado, altamente exitosos pela moderniza\u00e7\u00e3o que essas ind\u00fastrias<br \/>\nsubstitutivas das importa\u00e7\u00f5es promoveram, dinamizando toda a<br \/>\neconomia nacional.<\/p>\n<p>Por outro lado, concentrou-se tanto em S\u00e3o Paulo, que fez desse estado<br \/>\num p\u00f3lo de coloniza\u00e7\u00e3o interna, crescendo exorbitantemente<br \/>\ne coactando o desenvolvimento industrial de outros estados. Simultaneamente<br \/>\ncom esse processo, as metr\u00f3poles do Brasil absorveram imensas parcelas<br \/>\nda popula\u00e7\u00e3o rural que, n\u00e3o tendo lugar no seu sistema<br \/>\nde produ\u00e7\u00e3o, se avolumaram como massa desempregada, gerando<br \/>\numa crise sem paralelo de viol\u00eancia urbana.<\/p>\n<p>O Estado brasileiro n\u00e3o tem nenhum programa de reestrutura\u00e7\u00e3o<br \/>\necon\u00f4mica que permita garantir pleno emprego a essas massas dentro de<br \/>\nprazos previs\u00edveis. Que fazer? Prosseguir o genoc\u00eddio dos pioneiros,<br \/>\nque nas terras de ningu\u00e9m da Amaz\u00f4nia procuram seu p\u00e9-de-ch\u00e3o?<br \/>\nContinuar castrando as mulheres de Goi\u00e1s, por exemplo, para guardar<br \/>\nespa\u00e7o brasileiro n\u00e3o se sabe para quem? Insistir num liberalismo<br \/>\naloucado, que regeu a economia desde 64, enriquecendo os ricos e empobrecendo<br \/>\nos pobres? Continuar imbu\u00eddos da ilus\u00e3o de que o melhor para<br \/>\no Brasil \u00e9 o espontane\u00edsmo, regido pelo lucrismo dos banqueiros,<br \/>\nque acabar\u00e1 por resolver nossos problemas? At\u00e9 quando este pa\u00eds<br \/>\ncontinuar\u00e1 sem seu projeto pr\u00f3prio de desenvolvimento aut\u00f4nomo<br \/>\ne auto-sustent\u00e1vel? Os tecnocratas dos \u00faltimos governos s\u00f3<br \/>\nv\u00eaem sa\u00edda na venda a qualquer pre\u00e7o das ind\u00fastrias<br \/>\ncriadas no passado com t\u00e3o grandes sacrif\u00edcios, seguida do mergulho<br \/>\nda ind\u00fastria brasileira no mercado global, confiante em que ele nos<br \/>\ndar\u00e1 a prosperidade, se n\u00e3o para o povo trabalhador, ao menos<br \/>\npara os que est\u00e3o bem integrados no sistema econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Se f\u00f4ssemos uma pequena na\u00e7\u00e3o, seria uma fatalidade<br \/>\npara n\u00f3s a integra\u00e7\u00e3o no Colosso. Sendo o que somos,<br \/>\nn\u00e3o se pode adiar mais a formula\u00e7\u00e3o de um projeto pr\u00f3prio<br \/>\nque nos insira no contexto mundial, guardando nossa autonomia econ\u00f4mica<br \/>\npara um crescimento aut\u00f4nomo. O que nos falta hoje \u00e9 maior indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeneralizada em face de tanto desemprego, tanta fome e tanta viol\u00eancia<br \/>\ndesnecess\u00e1rias, porque perfeitamente san\u00e1veis com altera\u00e7\u00f5es<br \/>\nestrat\u00e9gicas na ordem econ\u00f4mica. Falta mais, ainda, compet\u00eancia<br \/>\npol\u00edtica para usar o poder na realiza\u00e7\u00e3o de nossas potencialidades.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria nos fez, pelo esfor\u00e7o de nossos antepassados, detentores<br \/>\nde um territ\u00f3rio prodigiosamente rico e de uma massa humana metida<br \/>\nno atraso mas sedenta de modernidade e de progresso, que n\u00e3o podemos<br \/>\nentregar ao espontane\u00edsmo do mercado mundial. A tarefa das novas gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nde brasileiros \u00e9 tomar este pa\u00eds em suas m\u00e3os para fazer<br \/>\ndele o que h\u00e1 de ser, uma das na\u00e7\u00f5es mais progressistas,<br \/>\njustas e pr\u00f3speras da terra.<\/p>\n<h2>DETERIORA\u00c7\u00c3O URBANA<\/h2>\n<p>A pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o urbana, largada a seu destino,<br \/>\nencontra solu\u00e7\u00f5es para seus maiores problemas. Solu\u00e7\u00f5es<br \/>\nesdr\u00faxulas \u00e9 verdade, mas s\u00e3o as \u00fanicas que est\u00e3o<br \/>\na seu alcance. Aprende a edificar favelas nas morrarias mais \u00edngremes<br \/>\nfora de todos os regulamentos urban\u00edsticos, mas que lhe permitem viver<br \/>\njunto aos seus locais de trabalho e conviver como comunidades humanas regulares,<br \/>\nestruturando uma vida social intensa e orgulhosa de si. Em S\u00e3o Paulo,<br \/>\nonde faltam morrarias, as favelas se assentam no ch\u00e3o liso de \u00e1reas<br \/>\nde propriedade contestada e organizam-se socialmente como favelas. Resistem<br \/>\nquanto podem a tentativas governamentais de desaloj\u00e1-las e extermin\u00e1-las.<br \/>\nQuem puder oferecer 1 milh\u00e3o de casas, ter\u00e1 direito de falar<br \/>\nem erradica\u00e7\u00e3o de favelas. Outra express\u00e3o da criatividade<br \/>\ndos favelados \u00e9 aproveitar a crise das drogas como fontes locais de<br \/>\nemprego. Essa &#8220;solu\u00e7\u00e3o&#8221;, ainda que t\u00e3o extravagante<br \/>\ne ilegal, reflete a crise da sociedade norte-americana que com seus milh\u00f5es<br \/>\nde drogados produz bilh\u00f5es de d\u00f3lares de drogas, cujo excesso<br \/>\nderrama aqui.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa base que se estrutura o crime organizado, oferecendo uma<br \/>\nmassa de empregos na pr\u00f3pria favela, bem como uma escala de heroicidade<br \/>\ndos que o capitaneiam e um padr\u00e3o de carreira altamente desej\u00e1vel<br \/>\npara a crian\u00e7ada. Antigamente, tratava-se apenas do jogo do bicho,<br \/>\nque empregava ex-presidi\u00e1rios e marginais, lhes dando condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde exist\u00eancia legal. Hoje em dia \u00e9 o crime organizado como grande<br \/>\nneg\u00f3cio que cumpre o encargo de viciar e satisfazer o v\u00edcio<br \/>\nde 1 milh\u00e3o de drogados. Quem quiser acabar com o crime organizado,<br \/>\ndeve conter o subs\u00eddio ao v\u00edcio dado pelos norte-americanos.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, o que temos s\u00e3o gestos v\u00e3os, de curta<br \/>\ndura\u00e7\u00e3o, incapazes de conter por si os problemas das cidades.<br \/>\n\u00c9 pens\u00e1vel uma reforma urbana. Hoje t\u00e3o urgente quanto<br \/>\na agr\u00e1ria. \u00c9 tamb\u00e9m pens\u00e1vel uma economia de pleno<br \/>\nemprego, mas ningu\u00e9m tem planos concretos, nesse sentido, que possam<br \/>\nser postos em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Outro processo dram\u00e1tico vivido por nossas popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nurbanas \u00e9 sua decultura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua gravidade \u00e9 quase equivalente \u00e0 primeira grande decultura\u00e7\u00e3o<br \/>\nque sofremos, no primeiro s\u00e9culo, ao desindianizar os \u00edndios,<br \/>\ndesafricanizar os negros e deseuropeizar o europeu para nos fazermos. Isso<br \/>\nresultou numa popula\u00e7\u00e3o de cultura arcaica, mas muito integrada,<br \/>\nem que um saber operativo se transmitia de pais a filhos e em que todos viviam<br \/>\num calend\u00e1rio civil regido pela Igreja, dentro de padr\u00f5es morais<br \/>\nbem prescritos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o hoje \u00e9 mais grave. A luta dentro dessa massa urbana<br \/>\n\u00e9 feroc\u00edssima. Se associam, eventualmente, nos festivais, como<br \/>\no Carnaval e cerim\u00f4nias de Candombl\u00e9, como paix\u00f5es esportivas<br \/>\nco-participadas e como os cultos de desesperados. Esses marginais n\u00e3o<br \/>\ndevem, por\u00e9m, ser confundidos com a secular popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nfavelada das grandes cidades, que de fato s\u00e3o suas principais v\u00edtimas.<\/p>\n<p>O normal na margin\u00e1lia \u00e9 uma agressividade em que cada um<br \/>\nprocura arrancar o seu, seja de quem for. N\u00e3o h\u00e1 famlia, mas<br \/>\nmeros acasalamentos eventuais. A vida se assenta numa unidade matric\u00eantrica<br \/>\nde mulheres que parem filhos de v\u00e1rios homens.<\/p>\n<p>Apesar de toda a mis\u00e9ria, essa her\u00f3ica m\u00e3e defende<br \/>\nseus filhos e, ainda que com fome, arranja alguma coisa para p\u00f4r em<br \/>\nsuas bocas. N\u00e3o tendo outro recurso, se junta a eles na explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo lixo e na mendic\u00e2ncia nas ruas das cidades. \u00c9 incr\u00edvel<br \/>\nque o Brasil, que gosta tanto de falar de sua fam\u00edlia crist\u00e3,<br \/>\nn\u00e3o tenha olhos para ver e admirar essa mulher extraordin\u00e1ria<br \/>\nem que se assenta toda a vida da gente pobre.<\/p>\n<p>A anomia freq\u00fcentemente se instala, prostrando multid\u00f5es no<br \/>\ndes\u00e2nimo e no alcoolismo. Muitas vezes se deteriora, tamb\u00e9m,<br \/>\nna anarquia, em gestos fugazes de revolta incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um corpo elementar de valores co-participados a todos afeta, oriundos principalmente<br \/>\ndos cultos afro-brasileiros, do futebol e do Carnaval, suas paix\u00f5es.<br \/>\nAs circunst\u00e2ncias fazem surgir, periodicamente, lideran\u00e7as ferozes<br \/>\nque a todos se imp\u00f5em na divis\u00e3o do despojo de saqueios. Essa<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o \u00e9 agravada por uma l\u00fampen-burguesia de<br \/>\nmicroempres\u00e1rios que vivem da explora\u00e7\u00e3o dessa gente<br \/>\npaup\u00e9rrima e os controla atrav\u00e9s de matadores profissionais,<br \/>\nrecrutados entre fugidos da pris\u00e3o e policiais expulsos de suas corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O doloroso \u00e9 que esses bandos se instalam no meio das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nfaveladas e das periferias, impondo a mais dura opress\u00e3o para impedir<br \/>\nque escapem do seu dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que desejam muitas fam\u00edlias pobres, geralmente desajustadas.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, confiam \u00e9 no crime organizado, que costuma limpar<br \/>\na favela dos pequenos delinq\u00fcentes mais irrespons\u00e1veis e violentos<br \/>\ne p\u00f5e cobro \u00e0 ca\u00e7ada de crian\u00e7as pelos matadores<br \/>\nprofissionais. Talvez, por isso, tanto se apeguem aos cultos evang\u00e9licos<br \/>\nque salvam os homens do alcoolismo, as mulheres da pancadaria dos maridos<br \/>\nb\u00eabados, as crian\u00e7as de toda sorte de viol\u00eancia e do incesto.<br \/>\nOs cultos cat\u00f3licos, regidos por sacerdotes bem formados, raramente<br \/>\naparecem ali. Quem compete mais com os evang\u00e9licos s\u00e3o os cultos<br \/>\nafro-brasileiros, que com sua hierarquia r\u00edgida e com sua liturgia<br \/>\napurad\u00edssima abrem perspectivas de carreira religiosa e de vidas devotadas<br \/>\nao culto.<\/p>\n<p>Ultimamente, a coisa se tornou mais complexa porque as institui\u00e7\u00f5es<br \/>\ntradicionais est\u00e3o perdendo todo o seu poder de controle e de doutrina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA escola n\u00e3o ensina, a igreja n\u00e3o catequiza, os partidos n\u00e3o<br \/>\npolitizam. O que opera \u00e9 um monstruoso sistema de comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde massa fazendo a cabe\u00e7a das pessoas. Impondo-lhes padr\u00f5es<br \/>\nde consumo inating\u00edveis, desejabilidades inalcan\u00e7\u00e1veis,<br \/>\naprofundando mais a marginalidade dessas popula\u00e7\u00f5es e seu pendor<br \/>\n\u00e0 viol\u00eancia. Algo tem que ver a viol\u00eancia desencadeada<br \/>\nnas ruas com o abandono dessa popula\u00e7\u00e3o entregue ao bombardeio<br \/>\nde um r\u00e1dio e de uma televis\u00e3o social e moralmente irrrespons\u00e1veis,<br \/>\npara as quais \u00e9 bom o que mais vende, refrigerantes ou sabonetes, sem<br \/>\nse preocupar com o desarranjo mental e moral que provocam.<\/p>\n<h2>3 CLASSE, COR E PRECONCEITO CLASSE E PODER<\/h2>\n<p>Nossa tipologia das classes sociais v\u00ea na c\u00fapula dois corpos<br \/>\nconflitantes, mas mutuamente complementares. O patronato de empres\u00e1rios,<br \/>\ncujo poder vem da riqueza atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica;<br \/>\ne o patriciado, cujo mando decorre do desempenho de cargos, tal como o general,<br \/>\no deputado, o bispo, o l\u00edder sindical e tant\u00edssimos outros.<br \/>\nNaturalmente, cada patr\u00edcio enriquecido quer ser patr\u00e3o e cada<br \/>\npatr\u00e3o aspira \u00e0s gl\u00f3rias de um mandato que lhe d\u00ea,<br \/>\nal\u00e9m de riqueza, o poder de determinar o destino alheio.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas surgiu e se expandiu um corpo estranho<br \/>\nnessa c\u00fapula. \u00c9 o estamento gerencial das empresas estrangeiras,<br \/>\nque passou a constituir o setor predominante das classes dominantes. Ele emprega<br \/>\nos tecnocratas mais competentes e controla a m\u00eddia, conformando a opini\u00e3o<br \/>\np\u00fablica. Ele elege parlamentares e governantes. Ele manda, enfim, com<br \/>\ndesfa\u00e7atez cada vez mais desabrida.<\/p>\n<p>Abaixo dessa c\u00fapula ficam as classes intermedi\u00e1rias, feitas<br \/>\nde pequenos oficiais, profissionais liberais, policiais, professores, o baixo-clero<br \/>\ne similares. Todos eles propensos a prestar homenagem \u00e0s classes dominantes,<br \/>\nprocurando tirar disso alguma vantagem. Dentro dessa classe, entre o clero<br \/>\ne os raros intelectuais, \u00e9 que surgiram mais subversivos em rebeldia<br \/>\ncontra a ordem. A insurg\u00eancia mesmo foi encarnada por gente de seus<br \/>\nestratos mais baixos. Por isso mesmo mais padres foram enforcados que qualquer<br \/>\noutra categoria de gente.<\/p>\n<p>Seguem-se as classes subalternas, formadas por um bols\u00e3o da aristocracia<br \/>\noper\u00e1ria, que t\u00eam empregos est\u00e1veis, sobretudo os trabalhadores<br \/>\nespecializados, e por outro bols\u00e3o que \u00e9 formado por pequenos<br \/>\npropriet\u00e1rios, arrendat\u00e1rios, gerentes de grandes propriedades<br \/>\nrurais etc.<\/p>\n<p>Abaixo desses bols\u00f5es, formando a linha mais ampla do losango das<br \/>\nclasses sociais brasileiras, fica a grande massa das classes oprimidas dos<br \/>\nchamados marginais, principalmente negros e mulatos, moradores das favelas<br \/>\ne periferias da cidade. S\u00e3o os enxadeiros, os b\u00f3ias-frias, os<br \/>\nempregados na limpeza, as empregadas dom\u00e9sticas, as pequenas prostitutas,<br \/>\nquase todos analfabetos e incapazes de organizar-se para reivindicar. Seu<br \/>\ndes\u00edgnio hist\u00f3rico \u00e9 entrar no sistema, o que sendo impratic\u00e1vel,<br \/>\nos situa na condi\u00e7\u00e3o da classe intrinsecamente oprimida, cuja<br \/>\nluta ter\u00e1 de ser a de romper com a estrutura de classes. Desfazer a<br \/>\nsociedade para refaz\u00ea-la.<\/p>\n<p>Essa estrutura de classes engloba e organiza todo o povo, operando como<br \/>\num sistema autoperpetuante da ordem social vigente. Seu comando natural s\u00e3o<br \/>\nas classes dominantes. Seus setores mais din\u00e2micos s\u00e3o as classes<br \/>\ninterm\u00e9dias. Seu n\u00facleo mais combativo, as classes subalternas.<br \/>\nE seu componente majorit\u00e1rio s\u00e3o as classes oprimidas, s\u00f3<br \/>\ncapazes de explos\u00f5es cat\u00e1rticas ou de express\u00e3o indireta<br \/>\nde sua revolta.<\/p>\n<p>Geralmente est\u00e3o resignadas com seu destino, apesar da miserabilidade<br \/>\nem que vivem, e por sua incapacidade de organizar-se e enfrentar os donos<br \/>\ndo poder.<\/p>\n<p>O diagrama abaixo retrata a estratifica\u00e7\u00e3o social brasileira<br \/>\ntal como a vemos, empiricamente. A\u00ed est\u00e3o seus quatro estratos<br \/>\nsuperpostos, correspondentes \u00e0s classes dominantes, aos setores interm\u00e9dios,<br \/>\n\u00e0s classes subalternas e \u00e0s classes oprimidas. Os primeiros,<br \/>\ncujo n\u00famero \u00e9 insignificante, det\u00eam, gra\u00e7as ao<br \/>\napoio das outras classes, o poder efetivo sobre toda a sociedade. Os setores<br \/>\ninterm\u00e9dios funcionam como um atenuador ou agravador das tens\u00f5es<br \/>\nsociais e s\u00e3o levados mais vezes a operar no papel de mantenedores<br \/>\nda ordem do que de ativistas de transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As classes subalternas s\u00e3o formadas pelos que est\u00e3o integrados<br \/>\nregularmente na vida social, no sistema produtivo e no corpo de consumidores,<br \/>\ngeralmente sindicalizados.<\/p>\n<p>Seu pendor \u00e9 mais para defender o que j\u00e1 t\u00eam e obter<br \/>\nmais, do que para transformar a sociedade. O quarto estrato, formado pelas<br \/>\nclasses oprimidas, \u00e9 o dos exclu\u00eddos da vida social, que lutam<br \/>\npor ingressar no sistema de produ\u00e7\u00e3o e pelo acesso ao mercado.<br \/>\nNa verdade, \u00e9 a este \u00faltimo corpo, apesar de sua natureza inorg\u00e2nica<br \/>\ne cheia de antagonismos, que cabe o papel de renovador da sociedade como combatente<br \/>\nda causa de todos os outros explorados e oprimidos. Isso porque s\u00f3<br \/>\ntem perspectivas de integrar a vida social rompendo toda estrutura de classes.<br \/>\nEssa configura\u00e7\u00e3o de classes antag\u00f4nicas mas interdependentes<br \/>\norganiza-se, de fato, para fazer oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s classes<br \/>\noprimidas &#8211; ontem escravos, hoje subassalariados &#8211; em raz\u00e3o do pavor-p\u00e2nico<br \/>\nque infunde a todos a amea\u00e7a de uma insurrei\u00e7\u00e3o social<br \/>\ngeneralizada.<\/p>\n<h2>DIST\u00c2NCIA SOCIAL<\/h2>\n<p>Com efeito, no Brasil, as classes ricas e as pobres se separam umas das<br \/>\noutras por dist\u00e2ncias sociais e culturais quase t\u00e3o grandes quanto<br \/>\nas que medeiam entre povos distintos. Ao vigor f\u00edsico, \u00e0 longevidade,<br \/>\n\u00e0 beleza dos poucos situados no \u00e1pice &#8211; como express\u00e3o<br \/>\ndo usufruto da riqueza social &#8211; se contrap\u00f5e a fraqueza, a enfermidade,<br \/>\no envelhecimento precoce, a fei\u00fara da imensa maioria &#8211; express\u00e3o<br \/>\nda pen\u00faria em que vivem. Ao tra\u00e7o refinado, \u00e0 intelig\u00eancia<br \/>\n&#8211; enquanto reflexo da instru\u00e7\u00e3o -, aos costumes patr\u00edcios<br \/>\ne cosmopolitas dos dominadores, corresponde o tra\u00e7o rude, o saber vulgar,<br \/>\na ignor\u00e2ncia e os h\u00e1bitos arcaicos dos dominados.<\/p>\n<h2>Diagrama 1 &#8220;ESTRATIFICA\u00c7\u00c3O SOCIAL BRASILEIRA<\/h2>\n<p>&#8211; Classes dominantes: PATRONATO: Olig\u00e1rquico &#8211; Senhorial Parasit\u00e1rio;<br \/>\nModerno &#8211; Empresarial Contratista (Estamento Gerencial Estrangeiro PATRICIADO:<br \/>\nEstatal &#8211; Pol\u00edtico Militar Tecnocr\u00e1tico; Civil &#8211; Emin\u00eancias<br \/>\nLideran\u00e7as Celebridades &#8211; Setores intermedi\u00e1rios: AUT\u00d4NOMOS:<br \/>\nProfissionais liberais; Pequenos empres\u00e1rios DEPENDENTES: Funcion\u00e1rios;<br \/>\nEmpregados &#8211; Classes subalternas: CAMPESINATO: Assalariados rurais; Parceiros;<br \/>\nMinifundistas OPERARIADO: Fabril; Servi\u00e7os &#8211; Classes oprimidas: MARGINAIS:<br \/>\nTrabalhadores estacionais; Recoletores \u2013 Volantes; Empregados dom\u00e9sticos;<br \/>\nBiscateiros \u2013 Delinq\u00fcentes; Prostitutas \u2013 Mendigos&#8221;<br \/>\nQuando um indiv\u00edduo consegue atravessar a barreira de classe para ingressar<br \/>\nno estrato superior e nele permanecer, se pode notar em uma ou duas gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nseus descendentes crescerem em estatura, se embelezarem, se refinarem, se<br \/>\neducarem, acabando por confundir-se com o patriciado tradicional.<\/p>\n<p>Observando a massa .popular de aglomerados brasileiros, onde predomina um<br \/>\nou outro estrato, se pode ver como se contrastaram gritantemente. A multid\u00e3o<br \/>\nde uma praia de Copacabana e os moradores de uma favela ou sub\u00farbio<br \/>\ncarioca, ou mesmo o p\u00fablico em um com\u00edcio de Natal ou em Campinas,<br \/>\ncomo representa\u00e7\u00f5es dessas camadas opostas, se configuram ao<br \/>\nobservador mais desavisado como humanidades distintas.<\/p>\n<p>A estratifica\u00e7\u00e3o social gerada historicamente tem tamb\u00e9m<br \/>\ncomo caracter\u00edstica a racionalidade resultante de sua montagem como<br \/>\nneg\u00f3cio que a uns privilegia e enobrece, fazendo-os donos da vida,<br \/>\ne aos demais subjuga e degrada, como objeto de enriquecimento alheio. Esse<br \/>\ncar\u00e1ter intencional do empreendimento faz do Brasil, ainda hoje, menos<br \/>\numa sociedade do que uma feitoria, porque n\u00e3o estrutura a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o preenchimento de suas condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia<br \/>\ne de progresso, mas para enriquecer uma camada senhorial voltada para atender<br \/>\n\u00e0s solicita\u00e7\u00f5es ex\u00f3genas.<\/p>\n<p>Essas duas caracter\u00edsticas complementares &#8211; as dist\u00e2ncias abismais<br \/>\nentre os diferentes estratos e o car\u00e1ter intencional do processo formativo<br \/>\n&#8211; condicionaram a camada senhorial para encarar o povo como mera for\u00e7a<br \/>\nde trabalho destinada a desgastar-se no esfor\u00e7o produtivo e sem outros<br \/>\ndireitos que o de comer enquanto trabalha, para refazer suas energias produtivas,<br \/>\ne o de reproduzir-se para repor a m\u00e3o- de-obra gasta.<\/p>\n<p>Nem podia ser de outro modo no caso de um patronato que se formou lidando<br \/>\ncom escravos, tidos como coisas e manipulados com objetivos puramente pecuni\u00e1rios,<br \/>\nprocurando tirar de cada pe\u00e7a o maior proveito poss\u00edvel. Quando<br \/>\nao escravo sucede o parceiro, depois o assalariado agr\u00edcola, as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncontinuam impregnadas dos mesmos valores, que se exprimem na desumaniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia, nas vilas pr\u00f3ximas \u00e0s fazendas,<br \/>\nse concentra uma popula\u00e7\u00e3o detrit\u00e1ria de velhos desgastados<br \/>\nno trabalho e de crian\u00e7as entregues a seus av\u00f3s. O grosso da<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o em idade ativa passa a vida fora, sobre os caminh\u00f5es<br \/>\nde b\u00f3ias-frias ou como empregadas dom\u00e9sticas, prostitutas etc.<\/p>\n<p>Nas metr\u00f3poles, essa situa\u00e7\u00e3o se agrava e, tamb\u00e9m,<br \/>\nse abranda. Nas camadas mais pobres se podem distinguir fam\u00edlias se<br \/>\nesfor\u00e7ando para ascender e outras tantas soterradas cada vez mais na<br \/>\npobreza, na delinq\u00fc\u00eancia e na marginalidade.<\/p>\n<p>As classes sociais brasileiras n\u00e3o podem ser representadas por um<br \/>\ntri\u00e2ngulo, com um n\u00edvel superior, um n\u00facleo e uma base.<br \/>\nElas configuram um losango, com um \u00e1pice fin\u00edssimo, de pouqu\u00edssimas<br \/>\npessoas, e um pesco\u00e7o, que se vai alargando daqueles que se integram<br \/>\nno sistema econ\u00f4mico como trabalhadores regulares e como consumidores.<br \/>\nTudo isso como um funil invertido, em que est\u00e1 a maior parte da popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmarginalizada da economia e da sociedade, que n\u00e3o consegue empregos<br \/>\nregulares nem ganhar o sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<h2>Diagrama 2 &#8220;REPRESENTA\u00c7\u00c3O DAS CLASSES SOCIAIS POR N\u00cdVEIS<br \/>\nDE RENDA gravura muito dif\u00edcil de ser explicada em palavras&#8221;<\/h2>\n<h2>Diagrama 3 &#8220;PERFIS DO \u00cdNDICE DE CONFORTO DOM\u00c9STICO RURAL<br \/>\nE URBANO DE SEIS MUNIC\u00cdPIOS gravura muito dif\u00edcil de ser explicada<br \/>\nem palavras&#8221;<\/h2>\n<p>Dada a diversidade de situa\u00e7\u00f5es regionais, de prosperidade<br \/>\ne de pobreza, o simples translado de um trabalhador, que v\u00e1 de uma<br \/>\nregi\u00e3o a outra, pode representar uma ascens\u00e3o substancial, se<br \/>\nele consegue incorporar-se a um n\u00facleo mais pr\u00f3spero.<\/p>\n<p>Uma pesquisa que fiz realizar sobre as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia<br \/>\ndas camadas urbanas e rurais das v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil nos<br \/>\nd\u00e1 n\u00edtido perfil das condi\u00e7\u00f5es de vida dessas<br \/>\npopula\u00e7\u00f5es. O crit\u00e9rio utilizado foi um \u00edndice<br \/>\nde conforto dom\u00e9stico medido objetivamente pelos bens que havia na<br \/>\nvivenda. Uma trempe para cozinhar, um pote, um prato e alguns talheres podiam<br \/>\nvaler quarenta pontos; enquanto uma casa cheia de todos os bens, com televis\u00e3o,<br \/>\ngeladeira, telefone e autom\u00f3veis, podia valer at\u00e9 2800 pontos.<br \/>\nAs amostras de casas rurais e urbanas de catorze cidades foram utilizadas<br \/>\npara compor o \u00edndice e represent\u00e1-lo graficamente (Ribeiro 1959;<br \/>\nAlbershime 1962).<\/p>\n<p>O perfil mais feio \u00e9 o de Santar\u00e9m, no Par\u00e1, regi\u00e3o<br \/>\nextrativista em que a massa da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 soterrada<br \/>\nno n\u00edvel mais baixo. Os gr\u00e1ficos seguintes mostram que a passagem<br \/>\nde Catal\u00e3o, em Goi\u00e1s &#8211; regi\u00e3o de latif\u00fandios pastoris<br \/>\n-, para J\u00falio de Castilhos, no Rio Grande do Sul &#8211; lugar de s\u00edtios<br \/>\ne fazendas -, pode representar um grande progresso na vida. O translado para<br \/>\nLeopoldina, em Minas, pioraria a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O perfil melhor \u00e9 o de Ibirama, em Santa Catarina, regi\u00e3o<br \/>\ngranjeira que praticamente integrou toda sua popula\u00e7\u00e3o, de descendentes<br \/>\nde imigrantes alem\u00e3es, ao sistema produtivo, dando-lhe melhores condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vida. Isso porque sucessivos governos, querendo atrair imigrantes europeus,<br \/>\ninclusive para melhorar a ra\u00e7a, a eles deu lotes de terra e ajuda econ\u00f4mica.<br \/>\nCoisa que nunca se fez, e at\u00e9 se proibiu fazer, para os brasileiros.<\/p>\n<p>A superposi\u00e7\u00e3o dos perfis de Ibirama, Mococa e Santar\u00e9m<br \/>\ndemonstra como a varia\u00e7\u00e3o espacial afeta as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vida da popula\u00e7\u00e3o e como essa \u00e9 uma das raz\u00f5es<br \/>\npor que o brasileiro n\u00e3o p\u00e1ra, est\u00e1 sempre se transladando<br \/>\nde uma \u00e1rea a outra.<\/p>\n<p>Essas diferen\u00e7as sociais s\u00e3o remarcadas pela atitude de fria<br \/>\nindiferen\u00e7a com que as classes dominantes olham para esse dep\u00f3sito<br \/>\nde miser\u00e1veis, de onde retiram a for\u00e7a de trabalho de que necessitam.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso viver num engenho, numa fazenda, num seringal, para sentir<br \/>\na profundidade da dist\u00e2ncia com que um patr\u00e3o ou seu capataz<br \/>\ntrata os servi\u00e7ais, no seu descaso pelo destino destes, como pessoas,<br \/>\nsua insci\u00eancia de que possam ter aspira\u00e7\u00f5es, seu desconhecimento<br \/>\nde que estejam, eles tamb\u00e9m, investidos de uma dignidade humana.<\/p>\n<p>A suscetibilidade patronal a qualquer gesto que possa ser tido como longinquamente<br \/>\ndesrespeitoso por parte de um empregado contrasta claramente com o tratamento<br \/>\nbo\u00e7al com que trata este. Exemplificativo disso \u00e9 a diferen\u00e7a<br \/>\nde crit\u00e9rios de um policial ou de um juiz quando se v\u00ea diante<br \/>\nde ofensas ou danos feitos a um membro da classe senhorial ou a um popular.<\/p>\n<h2>Diagrama 4 &#8220;IBIRAMA &#8211; MOCOCA &#8211; SANTAR\u00c9M<\/h2>\n<p>gravura muito dif\u00edcil de ser explicada em palavras&#8221; Isso e mil<br \/>\ns\u00edndromes mais &#8211; sobreviventes principalmente nas zonas rurais, mas<br \/>\ntamb\u00e9m presentes nas cidades &#8211; indicam como foi profundo o processo<br \/>\nde degrada\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter do homem brasileiro da classe<br \/>\ndominante. Ele est\u00e1 enfermo de desigualdade. Enquanto o escravo e o<br \/>\nex-escravo est\u00e3o condenados \u00e0 dignidade de lutadores pela liberdade,<br \/>\nos senhores e seus descendentes est\u00e3o condenados, ao contr\u00e1rio,<br \/>\nao opr\u00f3bio de lutadores pela manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade<br \/>\ne da opress\u00e3o.<\/p>\n<p>A classe dominante bifurcou sua conduta em dois estilos contrapostos. Um,<br \/>\npresidido pela mais viva cordialidade nas rela\u00e7\u00f5es com seus<br \/>\npares; outro, remarcado pelo descaso no trato com os que lhe s\u00e3o socialmente<br \/>\ninferiores. Assim \u00e9 que na mesma pessoa se pode observar a representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde dois pap\u00e9is, conforme encarne a etiqueta prescrita do anfitri\u00e3o<br \/>\nhospitaleiro, gentil e generoso diante de um visitante, ou o papel senhorial,<br \/>\nem face de um subordinado. Ambos vividos com uma espontaneidade que s\u00f3<br \/>\nse explica pela conforma\u00e7\u00e3o bipartida da personalidade.<\/p>\n<p>A essa corrup\u00e7\u00e3o senhorial corresponde uma deteriora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda dignidade pessoal das camadas mais humildes, condicionadas a um tratamento<br \/>\ngritantemente assim\u00e9trico, predispostas a assumir atitudes de subservi\u00eancia,<br \/>\ncompelidas a se deixarem explorar at\u00e9 a exaust\u00e3o. S\u00e3o<br \/>\nmais castas que classes, pela imutabilidade de sua condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial.<\/p>\n<p>A dignidade pessoal, nessas condi\u00e7\u00f5es, s\u00f3 se preserva<br \/>\natrav\u00e9s de atitudes evitativas, extremamente cautelosas na preven\u00e7\u00e3o<br \/>\nde qualquer desentendimento. Essa \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o da reserva<br \/>\ne da desconfian\u00e7a dos lavradores diante da classe patronal, fruto de<br \/>\nsua consci\u00eancia de que, uma vez toldadas as rela\u00e7\u00f5es,<br \/>\ns\u00f3 lhes resta a fuga, sem possibilidades de reclamar qualquer direito.<br \/>\nAqueles que n\u00e3o conseguem introjetar essas atitudes, prontamente se<br \/>\ndesajustam, saindo a perambular de fazenda a fazenda ou encaminhando-se \u00e0s<br \/>\ncidades, quando n\u00e3o caem na anomia ou no banditismo. Na maior parte<br \/>\ndas vezes, por\u00e9m, o contexto sociocultural \u00e9 suficientemente<br \/>\nhomog\u00eaneo para induzir os indiv\u00edduos \u00e0 acomoda\u00e7\u00e3o,<br \/>\ns\u00f3 escapando delas as personalidades mais vigorosas, que, por sua pr\u00f3pria<br \/>\nrebeldia, v\u00e3o sendo exclu\u00eddas das fazendas.<\/p>\n<p>Os subprodutos mais caracter\u00edsticos desse sistema foram o coronel<br \/>\nfazendeiro e o cabra, gerados socialmente como tipos humanos polarmente opostos,<br \/>\nsubstitu\u00eddos hoje pelo gerente e pelo b\u00f3ia-fria. O primeiro,<br \/>\nnas grandes cidades, comercia sua produ\u00e7\u00e3o, onde vive temporadas<br \/>\ne educa seus filhos. \u00c9 um homem em todo o valor da express\u00e3o,<br \/>\num cidad\u00e3o prestante de sua p\u00e1tria. O segundo, nascendo e vivendo<br \/>\ndentro do cercado da fazenda, numa casa feita com suas pr\u00f3prias m\u00e3os,<br \/>\ns\u00f3 possuindo de seu a tralha que ele mesmo fabrica, devotado de sol<br \/>\na sol a servi\u00e7o do patr\u00e3o, \u00e9 mantido no analfabetismo<br \/>\ne na ignor\u00e2ncia. Jamais alcan\u00e7a condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas<br \/>\npara o exerc\u00edcio da cidadania, mesmo porque a fazenda \u00e9 sua<br \/>\nverdadeira e \u00fanica p\u00e1tria. Escorra\u00e7ado ou fugido dela<br \/>\n\u00e9 um p\u00e1ria, que s\u00f3 aspira a ganhar o mato para escapar<br \/>\nao bra\u00e7o punitivo do patr\u00e3o, para se poss\u00edvel submeter-se<br \/>\nainda mais sol\u00edcito ao &#8220;amparo&#8221; de outro fazendeiro.<\/p>\n<p>Ambos representam os produtos humanos naturais e necess\u00e1rios de uma<br \/>\nordem que brilha no fazendeiro como a sua express\u00e3o mais nobre e se<br \/>\ndegrada no lavrador como o seu dejeto, produzido socialmente para trabalhar<br \/>\ncomo enxadeiro, apenas aspirando a ascender a capataz na usina, a pe\u00e3o<br \/>\nna est\u00e2ncia ou a cabra valente no sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentro desse contexto social jamais se puderam desenvolver institui\u00e7\u00f5es<br \/>\ndemocr\u00e1ticas com base em formas locais de autogoverno. As institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nrepublicanas, adotadas formalmente no Brasil para justificar novas formas<br \/>\nde exerc\u00edcio do poder pela classe dominante, tiveram sempre como seus<br \/>\nagentes junto ao povo a pr\u00f3pria camada propriet\u00e1ria. No mundo<br \/>\nrural, a mudan\u00e7a de regime jamais afetou o senhorio fazendeiro que,<br \/>\ndirigindo a seu talante as fun\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o policial,<br \/>\nas institui\u00e7\u00f5es da propriedade na Col\u00f4nia, no Imp\u00e9rio<br \/>\ne na Rep\u00fablica, exerceu desde sempre um poderio hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>A sociedade resultante tem incompatibilidades insan\u00e1veis.<\/p>\n<p>Dentre elas, a incapacidade de assegurar um padr\u00e3o de vida, mesmo<br \/>\nmodestamente satisfat\u00f3rio, para a maioria da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional; a inaptid\u00e3o para criar uma cidadania livre e, em conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\na inviabilidade de instituir-se uma vida democr\u00e1tica. Nessas condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\na elei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma grande farsa em que massas de eleitores<br \/>\nvendem seus votos \u00e0queles que seriam seus advers\u00e1rios naturais.<br \/>\nPor tudo isso \u00e9 que ela se caracteriza como uma ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nolig\u00e1rquica que s\u00f3 se pode manter artificiosa ou repressivamente<br \/>\npela compress\u00e3o das for\u00e7as majorit\u00e1rias \u00e0s quais<br \/>\ncondena ao atraso e \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso, pois, que o Brasil passa de col\u00f4nia<br \/>\na na\u00e7\u00e3o independente e de Monarquia a Rep\u00fablica, sem<br \/>\nque a ordem fazendeira seja afetada e sem que o povo perceba. Todas as nossas<br \/>\ninstitui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas constituem superfeta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde um poder efetivo que se mant\u00e9m intocado: o poderio do patronato<br \/>\nfazendeiro.<\/p>\n<p>A \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel para essa estrutura autoperpetuante<br \/>\nde opress\u00e3o \u00e9 o surgimento e a expans\u00e3o do movimento<br \/>\noper\u00e1rio. Nas cidades, ao contr\u00e1rio da ro\u00e7a, o oper\u00e1rio<br \/>\nsindicalizado j\u00e1 atua como um lutador livre diante do patr\u00e3o,<br \/>\nchegando a ser arrogante na apresenta\u00e7\u00e3o de suas reivindica\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u00c9 por esse caminho que as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<br \/>\npodem aperfei\u00e7oar-se, dando realidade funcional \u00e0 Rep\u00fablica.<\/p>\n<h2>CLASSE E RA\u00c7A<\/h2>\n<p>A dist\u00e2ncia social mais espantosa do Brasil \u00e9 a que separa<br \/>\ne op\u00f5e os pobres dos ricos. A ela se soma, por\u00e9m, a discrimina\u00e7\u00e3o<br \/>\nque pesa sobre negros, mulatos e \u00edndios, sobretudo os primeiros.<\/p>\n<p>Entretanto, a rebeldia negra \u00e9 muito menor e menos agressiva do que<br \/>\ndeveria ser.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi assim no passado. As lutas mais longas e mais cruentas que<br \/>\nse travaram no Brasil foram a resist\u00eancia ind\u00edgena secular e<br \/>\na luta dos negros contra a escravid\u00e3o, que duraram os s\u00e9culos<br \/>\ndo escravismo. Tendo in\u00edcio quando come\u00e7ou o tr\u00e1fico,<br \/>\ns\u00f3 se encerrou com a aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua forma era principalmente a da fuga, para a resist\u00eancia e para<br \/>\na reconstitui\u00e7\u00e3o de sua vida em liberdade nas comunidades solid\u00e1rias<br \/>\ndos quilombos, que se multiplicaram aos milhares.<\/p>\n<p>Eram forma\u00e7\u00f5es protobrasileiras, porque o quilombola era um<br \/>\nnegro j\u00e1 aculturado, sabendo sobreviver na natureza brasileira, e,<br \/>\ntamb\u00e9m, porque lhe seria imposs\u00edvel reconstituir as formas de<br \/>\nvida da \u00c1frica. Seu drama era a situa\u00e7\u00e3o paradoxal de<br \/>\nquem pode ganhar mil batalhas sem vencer a guerra, mas n\u00e3o pode perder<br \/>\nnenhuma. Isso foi o que sucedeu com todos os quilombos, inclusive com o principal<br \/>\ndeles, Palmares, que resistiu por mais de um s\u00e9culo, mas afinal caiu,<br \/>\narrasado, e teve o seu povo vendido, aos lotes, para o sul e para o Caribe.<\/p>\n<p>Entretanto, a luta mais \u00e1rdua do negro africano e de seus descendentes<br \/>\nbrasileiros foi, ainda \u00e9, a conquista de um lugar e de um papel de<br \/>\nparticipante leg\u00edtimo na sociedade nacional. Nela se viu incorporado<br \/>\n\u00e0 for\u00e7a. Ajudou a constru\u00ed-la e, nesse esfor\u00e7o,<br \/>\nse desfez, mas, ao fim, s\u00f3 nela sabia viver, em raz\u00e3o de sua<br \/>\ntotal desafricaniza\u00e7\u00e3o. A primeira tarefa cultural do negro<br \/>\nbrasileiro foi a de aprender a falar o portugu\u00eas que ouvia nos berros<br \/>\ndo capataz. Teve de faz\u00ea-lo para comunicar-se com seus companheiros<br \/>\nde desterro, oriundos de diferentes povos. Fazendo-o, se reumanizou, come\u00e7ando<br \/>\na sair da condi\u00e7\u00e3o de bem semovente, mero animal ou for\u00e7a<br \/>\nenerg\u00e9tica para o trabalho. Conseguindo miraculosamente dominar a nova<br \/>\nl\u00edngua, n\u00e3o s\u00f3 a refez, emprestando singularidade ao<br \/>\nportugu\u00eas do Brasil, mas tamb\u00e9m possibilitou sua difus\u00e3o<br \/>\npor todo o territ\u00f3rio, uma vez que nas outras \u00e1reas se falava<br \/>\nprincipalmente a l\u00edngua dos \u00edndios, o tupi-guarani.<\/p>\n<p>Calculo que o Brasil, no seu fazimento, gastou cerca de 12 milh\u00f5es<br \/>\nde negros, desgastados como a principal for\u00e7a de trabalho de tudo o<br \/>\nque se produziu aqui e de tudo que aqui se edificou. Ao fim do per\u00edodo<br \/>\ncolonial, constitu\u00eda uma das maiores massas negras do mundo moderno.<br \/>\nSua aboli\u00e7\u00e3o, a mais tardia da hist\u00f3ria, foi a causa<br \/>\nprincipal da queda do Imp\u00e9rio e da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica.<br \/>\nMas as classes dominantes reestruturaram eficazmente seu sistema de recrutamento<br \/>\nda for\u00e7a de trabalho, substituindo a m\u00e3o-de-obra escrava por<br \/>\nimigrantes importados da Europa, cuja popula\u00e7\u00e3o se tornara excedente<br \/>\ne export\u00e1vel a baixo pre\u00e7o.<\/p>\n<p>O negro, condicionado culturalmente a poupar sua for\u00e7a de trabalho<br \/>\npara n\u00e3o ser levado \u00e0 morte pelo chicote do capataz, contrastava<br \/>\nvivamente como for\u00e7a de trabalho com o colono vindo da Europa, j\u00e1<br \/>\nadaptado ao regime salarial e predisposto a esfor\u00e7ar-se ao m\u00e1ximo<br \/>\npara conquistar, ele pr\u00f3prio, um palmo de terra em que pudesse prosperar,<br \/>\nlivre da explora\u00e7\u00e3o dos fazendeiros.<\/p>\n<p>O negro, sentindo-se aliviado da brutalidade que o mantinha trabalhando<br \/>\nno eito, sob a mais dura repress\u00e3o \u2013 inclusive as puni\u00e7\u00f5es<br \/>\npreventivas, que n\u00e3o castigavam culpas ou pregui\u00e7as, mas s\u00f3<br \/>\nvisavam dissuadiar o negro de fugir -, s\u00f3 queria a liberdade. Em conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\nos ex-escravos abandonam as fazendas em que labutavam, ganham as estradas<br \/>\n\u00e0 procura de terrenos baldios em que pudessem acampar, para viverem<br \/>\nlivres como se estivessem nos quilombos, plantando milho e mandioca para comer.<br \/>\nCa\u00edram, ent\u00e3o, em tal condi\u00e7\u00e3o de miserabilidade<br \/>\nque a popula\u00e7\u00e3o negra reduziu-se substancialmente. Menos pela<br \/>\nsupress\u00e3o da importa\u00e7\u00e3o anual de novas massas de escravos<br \/>\npara repor o estoque, porque essas j\u00e1 vinham diminuindo h\u00e1 d\u00e9cadas.<br \/>\nMuito mais pela terr\u00edvel mis\u00e9ria a que foram atirados. N\u00e3o<br \/>\npodiam estar em lugar algum, porque cada vez que acampavam, os fazendeiros<br \/>\nvizinhos se organizavam e convocavam for\u00e7as policiais para expuls\u00e1-los,<br \/>\numa vez que toda a terra estava possu\u00edda e, saindo de uma fazenda,<br \/>\nse ca\u00eda fatalmente em outra.<\/p>\n<p>As atuais classes dominantes brasileiras, feitas de filhos e netos dos antigos<br \/>\nsenhores de escravos, guardam, diante do negro a mesma atitude de desprezo<br \/>\nvil. Para seus pais, o negro escravo, o forro, bem como o mulato, eram mera<br \/>\nfor\u00e7a energ\u00e9tica, como um saco de carv\u00e3o, que desgastado<br \/>\nera substitu\u00eddo facilmente por outro que se comprava. Para seus descendentes,<br \/>\no negro livre, o mulato e o branco pobre s\u00e3o tamb\u00e9m o que h\u00e1<br \/>\nde mais reles, pela pregui\u00e7a, pela ignor\u00e2ncia, pela criminalidade<br \/>\ninatas e inelut\u00e1veis. Todos eles s\u00e3o tidos consensualmente como<br \/>\nculpados de suas pr\u00f3prias desgra\u00e7as, explicadas como caracter\u00edsticas<br \/>\nda ra\u00e7a e n\u00e3o como resultado da escravid\u00e3o e da opress\u00e3o.<br \/>\nEssa vis\u00e3o deformada \u00e9 assimilada tamb\u00e9m pelos mulatos<br \/>\ne at\u00e9 pelos negros que conseguem ascender socialmente, os quais se<br \/>\nsomam ao contingente branco para discriminar o negro-massa.<\/p>\n<p>A na\u00e7\u00e3o brasileira, comandada por gente dessa mentalidade,<br \/>\nnunca fez nada pela massa negra que a constru\u00edra. Negou-lhe a posse<br \/>\nde qualquer peda\u00e7o de terra para viver e cultivar, de escolas em que<br \/>\npudesse educar seus filhos, e de qualquer ordem de assist\u00eancia. S\u00f3<br \/>\nlhes deu, sobejamente, discrimina\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o. Grande<br \/>\nparte desses negros dirigiu-se \u00e0s cidades, onde encontrava um ambiente<br \/>\nde conviv\u00eancia social menos hostil. Constitu\u00edram, originalmente,<br \/>\nos chamados bairros africanos, que deram lugar \u00e0s favelas. Desde ent\u00e3o,<br \/>\nelas v\u00eam se multiplicando, como a solu\u00e7\u00e3o que o pobre<br \/>\nencontra para morar e conviver. Sempre debaixo da permanente amea\u00e7a<br \/>\nde serem erradicados e expulsos.<\/p>\n<p>O negro rural, transladado \u00e0s favelas, tem de aprender os modos de<br \/>\nvida da cidade, onde n\u00e3o pode plantar. Afortunadamente, encontram negros<br \/>\nde antiga extra\u00e7\u00e3o nelas instalados, que j\u00e1 haviam constru\u00eddo<br \/>\numa cultura pr\u00f3pria, na qual se expressavam com alto grau de criatividade.<br \/>\nUma cultura feita de retalhos do que o africano guardara no peito nos longos<br \/>\nanos de escravid\u00e3o, como sentimentos musicais, ritmos, sabores e religiosidade.<\/p>\n<p>A partir dessas prec\u00e1rias bases, o negro urbano veio a ser o que<br \/>\nh\u00e1 de mais vigoroso e belo na cultura popular brasileira.<\/p>\n<p>Com base nela \u00e9 que se estrutura o nosso Carnaval, o culto de Iemanj\u00e1,<br \/>\na capoeira e inumer\u00e1veis manifesta\u00e7\u00f5es culturais. Mas<br \/>\no negro aproveita cada oportunidade que lhe \u00e9 dada para expressar o<br \/>\nseu valor. Isso ocorre em todos os campos em que n\u00e3o se exige escolaridade.<br \/>\n\u00c9 o caso da m\u00fasica popular, do futebol e de numerosas formas<br \/>\nmenos vis\u00edveis de competi\u00e7\u00e3o e de express\u00e3o. O<br \/>\nnegro vem a ser, por isso, apesar de todas as vicissitudes que enfrenta, o<br \/>\ncomponente mais criativo da cultura brasileira e aquele que, junto com os<br \/>\n\u00edndios, mais singulariza o nosso povo.<\/p>\n<p>O enorme contingente negro e mulato \u00e9, talvez, o mais brasileiro<br \/>\ndos componentes de nosso povo. O \u00e9 porque, desafricanizado na m\u00f3<br \/>\nda escravid\u00e3o, n\u00e3o sendo \u00edndio nativo nem branco reinol,<br \/>\ns\u00f3 podia encontrar sua identidade como brasileiro. Vale dizer, como<br \/>\num povo novo, feito de gentes vindas de toda parte, em pleno e alegre processo<br \/>\nde fus\u00e3o. Assim \u00e9 que os negros n\u00e3o se aglutinam como<br \/>\numa massa disputante de autonomia \u00e9tnica, mas como gente intrinsecamente<br \/>\nintegrada no mesmo povo, o brasileiro.<\/p>\n<p>O mulato, participando biol\u00f3gica e socialmente do mundo branco, pode<br \/>\nacercar-se melhor de sua cultura erudita e nos deu algumas das figuras mais<br \/>\ndignas e cultas que tivemos nas letras, nas artes e na pol\u00edtica. Entre<br \/>\neles, o artista Aleijadinho; o escritor Machado de Assis; o jurista Rui Barbosa;<br \/>\no compositor Jos\u00e9 Maur\u00edcio; o poeta Cruz e Sousa; o tribuno<br \/>\nLu\u00eds Gama; como pol\u00edticos, os irm\u00e3os Mangabeira e Nelson<br \/>\nCarneiro; e, como intelectuais, Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos. Teve,<br \/>\ntamb\u00e9m, por sua vivacidade e pela extraordin\u00e1ria beleza de muitos<br \/>\ndeles &#8211; sobretudo das mulatas -, resultantes do vigor h\u00edbrido, maiores<br \/>\nchances de ascens\u00e3o social, ainda que s\u00f3 progredisse na medida<br \/>\nem que negava sua negritude. Posto entre os dois mundos conflitantes &#8211; o do<br \/>\nnegro, que ele recha\u00e7a, e o do branco, que o rejeita -, o mulato se<br \/>\nhumaniza no drama de ser dois, que \u00e9 o de ser ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, por efeito do sucesso do negro americano, que foi<br \/>\ntido pelos brasileiros como uma vit\u00f3ria da ra\u00e7a, mas principalmente<br \/>\npela ascens\u00e3o de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o de cor, atrav\u00e9s<br \/>\nda educa\u00e7\u00e3o e da amplia\u00e7\u00e3o das oportunidades de<br \/>\nemprego, o negro brasileiro vem tomando coragem de assumir orgulhosamente<br \/>\nsua condi\u00e7\u00e3o de negro.<\/p>\n<p>O mesmo ocorreu a muitos mulatos que saltaram para o lado negro de sua dupla<br \/>\nnatureza. Essa passagem, de fato, era muito dif\u00edcil, em raz\u00e3o<br \/>\nda imensa massa negra, afundada na mis\u00e9ria mais atroz, com que n\u00e3o<br \/>\npodia se confundir. Massa que comp\u00f5e a imagem popular do negro, cuja<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente indesej\u00e1vel, porque sobre<br \/>\nela recai, com toda dureza, o pauperismo, as enfermidades, a criminalidade<br \/>\ne a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso ocorre numa sociedade doentia, de consci\u00eancia deformada, em que<br \/>\no negro \u00e9 considerado como culpado de sua pen\u00faria. Nessas circunst\u00e2ncias,<br \/>\nseu sofrimento n\u00e3o desperta nenhuma solidariedade e muito menos a indigna\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm conseq\u00fc\u00eancia, o destino dessa parcela majorit\u00e1ria da<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 objeto de nenhuma forma espec\u00edfica<br \/>\nde ajuda para que saia da mis\u00e9ria e da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Prevalece, em todo o Brasil, uma expectativa assimilacionista, que leva<br \/>\nos brasileiros a supor e desejar que os negros desapare\u00e7am pela branquiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nprogressiva. Ocorre, efetivamente, uma moreniza\u00e7\u00e3o dos brasileiros,<br \/>\nmas ela se faz tanto pela branquiza\u00e7\u00e3o dos pretos, como pela<br \/>\nnegriza\u00e7\u00e3o dos brancos. Desse modo, devemos configurar no futuro<br \/>\numa popula\u00e7\u00e3o morena em que cada fam\u00edlia, por imperativo<br \/>\ngen\u00e9tico, ter\u00e1 por vezes, ocasionalmente, uma negrinha retinta<br \/>\nou um branquinho desbotado.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que com os maiores \u00edndices de fertilidade dos pretos,<br \/>\nem raz\u00e3o de sua pobreza e da conduta que corresponde a ela, os negros<br \/>\niriam imprimir mais fortemente sua marca na popula\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que, l\u00e1 pelos meados do pr\u00f3ximo<br \/>\ns\u00e9culo, num Brasil de 300 milh\u00f5es, haja uma n\u00edtida preponder\u00e2ncia<br \/>\nde pretos e mulatos.<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica distintiva do racismo brasileiro \u00e9 que ele<br \/>\nn\u00e3o incide sobre a origem racial das pessoas, mas sobre a cor de sua<br \/>\npele. Nessa escala, negro \u00e9 o negro retinto, o mulato j\u00e1 \u00e9<br \/>\no pardo e como tal meio branco, e se a pele \u00e9 um pouco mais clara,<br \/>\nj\u00e1 passa a incorporar a comunidade branca. Acresce que aqui se registra,<br \/>\ntamb\u00e9m, uma branquiza\u00e7\u00e3o puramente social ou cultural.<br \/>\n\u00c9 o caso dos negros que, ascendendo socialmente, com \u00eaxito not\u00f3rio,<br \/>\npassam a integrar grupos de conviv\u00eancia dos brancos, a casar-se entre<br \/>\neles e, afinal, a serem tidos como brancos. A defini\u00e7\u00e3o brasileira<br \/>\nde negro n\u00e3o pode corresponder a um artista ou a um profissional exitoso.<br \/>\nExemplifica essa situa\u00e7\u00e3o o di\u00e1logo de um artista negro,<br \/>\no pintor Santa Rosa, com um jovem, tamb\u00e9m negro, que lutava para ascender<br \/>\nna carreira diplom\u00e1tica, queixando-se das imensas barreiras que dificultavam<br \/>\na ascens\u00e3o das pessoas de cor. O pintor disse, muito comovido: &#8220;Compreendo<br \/>\nperfeitamente o seu caso, meu caro. Eu tamb\u00e9m j\u00e1 fui negro&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 no s\u00e9culo passado, um estrangeiro, estranhando ver um mulato<br \/>\nno alto posto de capit\u00e3o-mor, ouviu a seguinte explica\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8220;Sim, ele foi mesti\u00e7o, mas como capit\u00e3o- mor n\u00e3o<br \/>\npode deixar de ser branco&#8221; (Koster 1942:480).<\/p>\n<p>A forma peculiar do racismo brasileiro decorre de uma situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que a mesti\u00e7agem n\u00e3o \u00e9 punida mas louvada. Com efeito,<br \/>\nas uni\u00f5es inter-raciais, aqui, nunca foram tidas como crime nem pecado.<br \/>\nProvavelmente porque o povoamento do Brasil n\u00e3o se deu por fam\u00edlias<br \/>\neurop\u00e9ias j\u00e1 formadas, cujas mulheres brancas combatessem todo<br \/>\no intercurso com mulheres de cor.<\/p>\n<p>N\u00f3s surgimos, efetivamente, do cruzamento de uns poucos brancos com<br \/>\nmultid\u00f5es de mulheres \u00edndias e negras.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega a configurar uma democracia<br \/>\nracial, como quis Gilberto Freyre e muita gente mais, tamanha \u00e9 a carga<br \/>\nde opress\u00e3o, preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o antinegro que<br \/>\nela encerra. N\u00e3o o \u00e9 tamb\u00e9m, obviamente, porque a pr\u00f3pria<br \/>\nexpectativa de que o negro desapare\u00e7a pela mesti\u00e7agem \u00e9<br \/>\num racismo. Mas o certo \u00e9 que contrasta muito, e contrasta para melhor,<br \/>\ncom as formas de preconceito propriamente racial que conduzem ao apartheid.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer, entretanto, que o apartheid tem conte\u00fados<br \/>\nde toler\u00e2ncia que aqui se ignoram. Quem afasta o alterno e o p\u00f5e<br \/>\n\u00e0 dist\u00e2ncia maior poss\u00edvel, admite que ele conserve, l\u00e1<br \/>\nlonge, sua identidade, continuando a ser ele mesmo. Em conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\ninduz \u00e0 profunda solidariedade interna do grupo discriminado, o que<br \/>\no capacita a lutar claramente por seus direitos sem admitir paternalismos.<br \/>\nNas conjunturas assimilacionistas, ao contr\u00e1rio, se dilui a negritude<br \/>\nnuma vasta escala de grada\u00e7\u00f5es, que quebra a solidariedade,<br \/>\nreduz a combatividade, insinuando a id\u00e9ia de que a ordem social \u00e9<br \/>\numa ordem natural, sen\u00e3o sagrada.<\/p>\n<p>O aspecto mais perverso do racismo assimilacionista \u00e9 que ele d\u00e1<br \/>\nde si uma imagem de maior sociabilidade, quando, de fato, desarma o negro<br \/>\npara lutar contra a pobreza que lhe \u00e9 imposta, e dissimula as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde terr\u00edvel viol\u00eancia a que \u00e9 submetido. \u00c9 de assinalar,<br \/>\npor\u00e9m, que a ideologia assimilacionista da chamada democracia racial<br \/>\nafeta principalmente os intelectuais negros. Conduzindo-os a campanhas de<br \/>\nconscientiza\u00e7\u00e3o do negro para a concilia\u00e7\u00e3o social<br \/>\ne para o combate ao \u00f3dio e ao ressentimento do negro. Seu objetivo<br \/>\nilus\u00f3rio \u00e9 criar condi\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia<br \/>\nem que o negro possa aproveitar as linhas de capilaridade social para ascender,<br \/>\natrav\u00e9s da ado\u00e7\u00e3o expl\u00edcita das formas de conduta<br \/>\ne de etiqueta dos brancos bem-sucedidos.<\/p>\n<p>Cada negro de talento extraordin\u00e1rio realiza sua pr\u00f3pria carreira,<br \/>\ncomo a de Pel\u00e9, a de Pixinguinha ou a de Grande Otelo e inumer\u00e1veis<br \/>\noutros esportistas e artistas, sem encontrar uma linguagem apropriada para<br \/>\na luta anti-racista. O assimilacionismo, como se v\u00ea, cria uma atmosfera<br \/>\nde fluidez nas rela\u00e7\u00f5es inter-raciais, mas dissuade o negro<br \/>\npara sua luta espec\u00edfica, sem compreender que a vit\u00f3ria s\u00f3<br \/>\n\u00e9 alcan\u00e7\u00e1vel pela revolu\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana veio demonstrar que os negros est\u00e3o<br \/>\nmuito mais preparados do que se pode supor para ascender socialmente. Com<br \/>\nefeito, alguns anos de escolaridade francamente aberta e de est\u00edmulo<br \/>\n\u00e0 auto-supera\u00e7\u00e3o aumentaram, rapidamente, o contingente<br \/>\nde negros que al\u00e7aram aos postos mais altos do governo, da sociedade<br \/>\ne da cultura cubanas. Simultaneamente, toda a parcela negra da popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nliberada da discrimina\u00e7\u00e3o e do racismo, confraternizou com os<br \/>\noutros componentes da sociedade, aprofundando assinalavelmente o grau de solidariedade.<\/p>\n<p>Tudo, isso demonstra, claramente, que a democracia racial \u00e9 poss\u00edvel,<br \/>\nmas s\u00f3 \u00e9 pratic\u00e1vel conjuntamente com a democracia social.<br \/>\nOu bem h\u00e1 democracia para todos, ou n\u00e3o h\u00e1 democracia<br \/>\npara ningu\u00e9m, porque \u00e0 opress\u00e3o do negro condenado \u00e0<br \/>\ndignidade de lutador da liberdade, corresponde o opr\u00f3bio do branco<br \/>\nposto no papel de opressor dentro de sua pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<h2>4 ASSIMILA\u00c7\u00c3O OU SEGREGA\u00c7\u00c3O RA\u00c7A E COR<\/h2>\n<p>A an\u00e1lise do crescimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira e<br \/>\nde sua composi\u00e7\u00e3o segundo a cor \u00e9 altamente expressiva<br \/>\ndas condi\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o que o branco dominador imp\u00f4s<br \/>\naos outros componentes. Avaliamos em 6 milh\u00f5es o n\u00famero de negros<br \/>\nintroduzidos no Brasil como escravos at\u00e9 1850, quando da aboli\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo tr\u00e1fico; em 5 milh\u00f5es o n\u00famero m\u00ednimo de \u00edndios<br \/>\ncom que as fronteiras da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira se foram defrontando,<br \/>\nsucessivamente, no mesmo per\u00edodo; e em 5 milh\u00f5es, no m\u00e1ximo,<br \/>\no n\u00famero de europeus vindos para o Brasil at\u00e9 1950. Destes 5<br \/>\nmilh\u00f5es, apenas 500 mil ingressaram no Brasil antes de 1850. De seus<br \/>\nbagos viemos. Considerada a composi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nem 1950 (os censos de 1960 e 1970 n\u00e3o trazem dados referentes \u00e0<br \/>\nra\u00e7a ou \u00e0 cor), verifica-se que os \u00edndios de vida tribal,<br \/>\nmais ou menos aut\u00f4nomos, estavam reduzidos a cerca de 100 mil (Ribeiro<br \/>\n1957 ); os negros ter\u00e3o alcan\u00e7ado um m\u00e1ximo de 5,6 milh\u00f5es;<br \/>\nenquanto os que se definem como pardos (mulatos) seriam 13,7 milh\u00f5es;<br \/>\ne os brancos (que s\u00e3o principalmente mesti\u00e7os) ascenderiam a<br \/>\n32 milh\u00f5es. Os \u00edndios inesperadamente se triplicaram de 1950<br \/>\na 1990, provavelmente por se terem adaptado \u00e0s mol\u00e9stias dos<br \/>\nbrancos e por efeito da prote\u00e7\u00e3o oficial, que diminuiu substancialmente<br \/>\nas chacinas.<\/p>\n<h2>Tabela 4<\/h2>\n<h2>&#8220;1 BRASIL CRESCIMENTO DA POPULA\u00c7\u00c3O BRASILEIRA SEGUNDO<br \/>\nA COR (em Milhares)<\/h2>\n<p>Brancos 1872: 3.854 ( 38%) 1890: 6.302 ( 44%0 1940: 26.206 ( 63%) 1950: 32.027<br \/>\n( 62%) 1990: 81.407 ( 55%) Pretos 1872: 1.976 ( 20%) 1890: 2.098 ( 15%0 1940:<br \/>\n6.644 ( 15%) 1950: 5.692 ( 11%) 1990: 7.264 ( 5%)<\/p>\n<p>Pardos (Englobamos nesta parcela (pardos) os contingentes designados como<br \/>\namarelos nos censos brasileiros, representados principalmente pelos nipo-brasileiros<br \/>\ne os \u00edndios, que n\u00e3o alcan\u00e7am 5% dos totais) 1872: 4.262<br \/>\n( 42%) 1890: 5.934 ( 41%0 1940: 8.760 ( 21%) 1950: 13.786 ( 26%) 1990: 57.822<br \/>\n( 39%) Totais: 1872: 9.930 1890: 14.333 1940: 41.236 1950: 51.922 1990: 147.306<br \/>\nFontes: IBGE: Conselho Nacional de Estat\u00edstica (Laborat\u00f3rio<br \/>\nde Estat\u00edstica),1961; e Anu\u00e1rio Estat\u00edstico do Brasil,<br \/>\n1993.&#8221; Apesar das deforma\u00e7\u00f5es que s\u00e3o impostas pela<br \/>\nconfus\u00e3o bem brasileira da condi\u00e7\u00e3o social com a cor,<br \/>\ndiscrep\u00e2ncias censit\u00e1rias t\u00e3o espantosas n\u00e3o se<br \/>\nexplicam simplesmente por isso, nem por taxas diferenciais de fecundidade,<br \/>\nmas por fatores ecol\u00f3gicos e sociais. A pr\u00f3pria miscigena\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeve ser analisada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 circunst\u00e2ncia de<br \/>\nque todos os contingentes alien\u00edgenas eram constitu\u00eddos principalmente<br \/>\npor homens que tinham de disputar as mulheres da terra, as \u00edndias.<br \/>\n\u00c9 sabido quanto foi insignificante a propor\u00e7\u00e3o de mulheres<br \/>\nbrancas vindas para o Brasil.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, recaiu sobre a mulher ind\u00edgena a<br \/>\nfun\u00e7\u00e3o de matriz fundamental, geralmente fecundada pelo branco.<\/p>\n<p>Assim se explica, em parte, a branquiza\u00e7\u00e3o dos brasileiros,<br \/>\nj\u00e1 que os mesti\u00e7os de europeu com \u00edndio configuram um<br \/>\ntipo moreno claro que, aos olhos e \u00e0 sensibilidade racial de qualquer<br \/>\nbrasileiro, s\u00e3o puros brancos.<\/p>\n<p>Os censos refletem, como se v\u00ea na tabela 4, um decr\u00e9scimo progressivo<br \/>\nda propor\u00e7\u00e3o de negros na popula\u00e7\u00e3o brasileira,<br \/>\nque passa de um quinto para um vig\u00e9simo da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nno \u00faltimo s\u00e9culo. Tamb\u00e9m em n\u00fameros absolutos<br \/>\nhouve queda, porque depois de um ascenso de 2 a 6,6 milh\u00f5es, nos cinq\u00fcenta<br \/>\nanos posteriores \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o, caiu para 5,6 milh\u00f5es<br \/>\nem 1950 e apenas alcan\u00e7a 7,2 milh\u00f5es em 1990. \u00c9 presum\u00edvel<br \/>\nque muito negro se tenha classificado como pardo, porque cada pessoa escolheu<br \/>\nsua cor ou a de seu grupo dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente, por\u00e9m, o contraste da progress\u00e3o do grupo<br \/>\nnegro com o grupo branco, que salta de 38%, em 1872, para 62%, em 1950, e<br \/>\npara 55%, em 1990.<\/p>\n<p>Numericamente, de 3,8 para 32 e para 81,4 milh\u00f5es no mesmo per\u00edodo.<br \/>\nO alto incremento do contingente branco n\u00e3o \u00e9 explic\u00e1vel<br \/>\npelo crescimento da migra&amp;ccedccedil;\u00e3o europ\u00e9ia, a partir de 1880.<br \/>\nO vulto desta nunca alcan\u00e7ou um n\u00edvel que permitisse influir<br \/>\ndecisivamente sobre a composi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\noriginal. A explos\u00e3o demogr\u00e1fica dos &#8220;brancos&#8221; brasileiros<br \/>\ns\u00f3 \u00e9 intelig\u00edvel, pois, em termos de um crescimento vegetativo<br \/>\nmuito intenso, em n\u00fameros absolutos. \u00c9 prodigiosamente grande<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras parcelas da popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\npropiciado pelas melhores condi\u00e7\u00f5es de vida que fru\u00edam<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o aos negros e aos pardos; aqui tamb\u00e9m atuou,<br \/>\nprovavelmente, a tend\u00eancia a classificar como brancos todos os bem-<br \/>\nsucedidos.<\/p>\n<p>Quanto ao contingente ind\u00edgena, contamos com estudos dos fatores<br \/>\nrespons\u00e1veis por seu exterm\u00ednio, entre os quais sobrelevam,<br \/>\nno n\u00edvel bi\u00f3tico, os efeitos das mol\u00e9stias introduzidas<br \/>\npelo europeu e, no n\u00edvel social, as condi\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o<br \/>\na que foi submetido (Ribeiro 1956 ). Pouco se sabe com respeito aos negros,<br \/>\nsendo, por\u00e9m, admiss\u00edvel uma a\u00e7\u00e3o igualmente delet\u00e9ria<br \/>\ndos mesmos fatores, preponderando, talvez, as condi\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o<br \/>\nsobre os efeitos letais das enfermidades. Isto porque, j\u00e1 na \u00c1frica,<br \/>\neles estavam expostos ao mesmo circuito de cont\u00e1gio de doen\u00e7as<br \/>\nque os europeus. Depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, continuaram<br \/>\natuando sobre o negro livre, como fatores de redu\u00e7\u00e3o de sua<br \/>\nexpans\u00e3o demogr\u00e1fica, as terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde pen\u00faria a que ficou sujeito. Basta considerar a miserabilidade das<br \/>\npopula\u00e7\u00f5es brasileiras das camadas mais pobres, dificilmente<br \/>\nsuport\u00e1vel por qualquer grupo humano, e que afeta ainda mais duramente<br \/>\nos negros, para se avaliar o pes\u00f3 desse fator.<\/p>\n<h2>BRANCOS VERSUS NEGROS<\/h2>\n<p>O censo de 1950 permite algumas compara\u00e7\u00f5es significativas<br \/>\nentre as condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho de negros e brancos<br \/>\nna popula\u00e7\u00e3o brasileira ativa. Considerando, por exemplo, o<br \/>\ngrupo patronal em conjunto, verifica-se que as possibilidades de um negro<br \/>\nchegar a integr\u00e1-lo s\u00e3o enormemente menores, j\u00e1 que de<br \/>\ncada mil brancos ativos maiores de dez anos, 23 s\u00e3o empregadores, contra<br \/>\napenas quatro pretos donos de empresas por cada mil empregados.<\/p>\n<p>Comparando a posi\u00e7\u00e3o ocupacional dos 4 milh\u00f5es de pretos<br \/>\nmaiores de dez anos de idade com o milh\u00e3o de estrangeiros registrados<br \/>\npelo mesmo censo, verifica-se que, enquanto os primeiros contribuem com apenas<br \/>\n20 mil empregadores, os \u00faltimos det\u00e9m 86 mil propriedades. \u00c9<br \/>\nvis\u00edvel que esses estrangeiros, vindos ao Brasil nas \u00faltimas<br \/>\nd\u00e9cadas como imigrantes, encontraram condi\u00e7\u00f5es de ascens\u00e3o<br \/>\nsocial muito mais r\u00e1pida que o conjunto da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nexistente, por\u00e9m enormemente mais intensa que o grupo negro.<\/p>\n<p>Segundo os dados do mesmo censo, no conjunto das ocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde alto padr\u00e3o havia um empregador preto para cada 25 n\u00e3o pretos;<br \/>\ne um preto para cada cinq\u00fcenta profissionais liberais. Coerentemente,<br \/>\nnas categorias profissionais mais humildes, se encontrava um preto para cada<br \/>\nsete oper\u00e1rios fabris de outras cores e, o que \u00e9 muito expressivo,<br \/>\num preto para cada quatro outros lavradores do eito.<\/p>\n<p>Examinando a carreira do negro no Brasil se verifica que, introduzido como<br \/>\nescravo, ele foi desde o primeiro momento chamado \u00e0 execu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas tarefas mais duras, como m\u00e3o-de-obra fundamental de todos os setores<br \/>\nprodutivos. Tratado como besta de carga exaurida no trabalho, na qualidade<br \/>\nde mero investimento destinado a produzir o m\u00e1ximo de lucros, enfrentava<br \/>\nprecar\u00edssimas condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia. Ascendendo<br \/>\n\u00e0 condi\u00e7\u00e3o de trabalhador livre, antes ou depois da aboli\u00e7\u00e3o,<br \/>\no negro se viajungido a novas formas de explora\u00e7\u00e3o que, embora<br \/>\nmelhores que a escravid\u00e3o, s\u00f3 lhe permitiam integrar-se na sociedade<br \/>\ne no mundo cultural, que se tornaram seus, na condi\u00e7\u00e3o de um<br \/>\nsubproletariado compelido ao exerc\u00edcio de seu antigo papel, que continuava<br \/>\nsendo principalmente o de animal de servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Enquanto escravo poderia algum propriet\u00e1rio previdente ponderar,<br \/>\ntalvez, que resultaria mais econ\u00f4mico manter suas &#8220;pe\u00e7as&#8221;<br \/>\nnutridas para tirar delas, a longo termo, maior proveito. Ocorreria, mesmo,<br \/>\nque um negro desgastado no eito tivesse oportunidade de envelhecer num canto<br \/>\nda propriedade, vivendo do produto de sua pr\u00f3pria ro\u00e7a, devotado<br \/>\na tarefas mais leves requeridas pela fazenda. Liberto, por\u00e9m, j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o sendo de ningu\u00e9m, se encontrava s\u00f3 e hostilizado,<br \/>\ncontando apenas com sua for\u00e7a de trabalho, num mundo em que a terra<br \/>\ne tudo o mais continuava apropriada. Tinha de sujeitar-se, assim, a uma explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nque n\u00e3o era maior que dantes, porque isso seria impratic\u00e1vel,<br \/>\nmas era agora absolutamente desinteressada do seu destino. Nessas condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\no negro forro, que alcan\u00e7ara de algum modo certo vigor f\u00edsico,<br \/>\npoderia, s\u00f3 por isso, sendo mais apreciado como trabalhador, fixar-se<br \/>\nnalguma fazenda, ali podendo viver e reproduzir. O d\u00e9bil, o enfermo,<br \/>\no precocemente envelhecido no trabalho, era simplesmente enxotado como coisa<br \/>\nimprest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Depois da primeira lei abolicionista &#8211; a Lei do Ventre Livre, que liberta<br \/>\no filho da negra escrava -, nas \u00e1reas de maior concentra\u00e7\u00e3o<br \/>\nda escravaria, os fazendeiros mandavam abandonar, nas estradas e nas vilas<br \/>\npr\u00f3ximas, as crias de suas negras que, j\u00e1 n\u00e3o sendo coisas<br \/>\nsuas, n\u00e3o se sentiam mais na obriga\u00e7\u00e3o de alimentar.<br \/>\nNos anos seguintes \u00e0 Lei do Ventre Livre ( 1871 ), fundaram-se nas<br \/>\nvilas e cidades do estado de S\u00e3o Paulo dezenas de asilos para acolher<br \/>\nessas crian\u00e7as, atiradas fora pelos fazendeiros. Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e0 sa\u00edda dos negros de trabalho que n\u00e3o mais queriam servir<br \/>\naos antigos senhores, seguiu-se a expuls\u00e3o dos negros velhos e enfermos<br \/>\ndas fazendas. Numerosos grupos de negros concentraram-se, ent\u00e3o, \u00e0<br \/>\nentrada das vilas e cidades, nas condi\u00e7\u00f5es mais prec\u00e1rias.<br \/>\nPara escapar a essa liberdade fam\u00e9lica \u00e9 que come\u00e7aram<br \/>\na se deixar aliciar para o trabalho sob as condi\u00e7\u00f5es ditadas<br \/>\npelo latif\u00fandio.<\/p>\n<p>Com o desenvolvimento posterior da economia agr\u00edcola de exporta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a supera\u00e7\u00e3o conseq\u00fcente da auto-sufici\u00eancia das<br \/>\nfazendas, que passaram a concentrar-se nas lavouras comerciais (sobretudo<br \/>\nno cultivo do caf\u00e9, do algod\u00e3o e, depois, no plantio de pastagens<br \/>\nartificiais), outros contingentes de trabalhadores e agregados foram expulsos<br \/>\npara engrossar a massa da popula\u00e7\u00e3o residual das vilas. Era<br \/>\nagora constitu\u00edda n\u00e3o apenas de negros, mas tamb\u00e9m de<br \/>\npardos e brancos pobres, confundidos todos como massa dos trabalhadores &#8220;livres&#8221;<br \/>\ndo eito, alici\u00e1veis para as fainas que requeressem m\u00e3o-de-obra.<br \/>\nEssa humanidade detrit\u00e1ria predominantemente negra e mulata pode ser<br \/>\nvista, ainda hoje, junto aos conglomerados urbanos, em todas as \u00e1reas<br \/>\ndo latif\u00fandio, formada por braceiros estacionais, mendigos, biscateiros,<br \/>\ndom\u00e9sticas, cegos, aleijados, enfermos, amontoados em casebres miser\u00e1veis.<br \/>\nOs mais velhos, j\u00e1 desgastados no trabalho agr\u00edcola e na vida<br \/>\nazarosa, cuidam das crian\u00e7as, ainda n\u00e3o amadurecidas para nele<br \/>\nengajar-se.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es \u00e9 que se deve procurar a explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda gritante discrep\u00e2ncia entre a expans\u00e3o do contingente branco<br \/>\ne do negro no desenvolvimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira, permitindo<br \/>\nao primeiro crescer, nos \u00faltimos s\u00e9culos, na propor\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um para nove e, ao outro, apenas de um para dois e meio, reduzindo seu<br \/>\nmontante tanto percentualmente como em n\u00fameros absolutos, porque ca\u00edram<br \/>\nde 6,6 milh\u00f5es, em 1940, para 5,7 milh\u00f5es, em 1950, voltando<br \/>\na aumentar para apenas 7,2 milh\u00f5es, em 1990.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nas cidades e mesmo nas \u00e1reas industriais que absorveram,<br \/>\nnas \u00faltimas d\u00e9cadas, enormes massas rurais, incorporando-as<br \/>\nao operariado, a integra\u00e7\u00e3o do contingente negro n\u00e3o<br \/>\nparece ter sido proporcional ao seu vulto na popula\u00e7\u00e3o total.<\/p>\n<p>Pesquisas sobre as rela\u00e7\u00f5es inter-raciais no Brasil revelam<br \/>\nque se somam, no caso, fatores de despreparo do negro para a integra\u00e7\u00e3o<br \/>\nna sociedade industrial e fatores de repuls\u00e3o, que tornam mais dif\u00edcil<br \/>\no caminho da ascens\u00e3o social para as pessoas de cor (Pierson 1945;<br \/>\nCosta Pinto 1953; Nogueira 1955; Ianni 1962; Cardoso 1962; Fernandes 1964<br \/>\n).<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de inferioridade dos pardos e negros com respeito<br \/>\naos brancos persiste em 1990. Os poucos dados dispon\u00edveis mostram que<br \/>\n12% dos brancos maiores de sete anos eram analfabetos, mas os negros eram<br \/>\n30% e os pardos 29%. Por outro lado, o rendimento anual m\u00e9dio (em Cr$<br \/>\n) de pessoas de mais de dez anos era de 32.212 para os brancos, de 13.295<br \/>\npara os pretos e de 15.308 para os pardos (Anu\u00e1rio Estat\u00edstico<br \/>\ndo Brasil, IBGE, 1993 ). Lamentavelmente, as informa\u00e7\u00f5es quanto<br \/>\n\u00e0 cor para 1990 s\u00e3o muito mais escassas que para 1950.<\/p>\n<p>Assim, o alargamento das bases da sociedade, auspiciado pela industrializa\u00e7\u00e3o,<br \/>\namea\u00e7a n\u00e3o romper com a superconcentra\u00e7\u00e3o da riqueza,<br \/>\ndo poder e do prest\u00edgio monopolizado pelo branco, em virtude da atua\u00e7\u00e3o<br \/>\nde pautas diferenciadoras s\u00f3 explic\u00e1veis historicamente, tais<br \/>\ncomo: a emerg\u00eancia recente do negro da condi\u00e7\u00e3o escrava<br \/>\n\u00e0 de trabalhador livre; uma efetiva condi\u00e7\u00e3o de inferioridade,<br \/>\nproduzida pelo tratamento opressivo que o negro suportou por s\u00e9culos<br \/>\nsem nenhuma satisfa\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria; a manuten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde crit\u00e9rios racialmente discriminat\u00f3rios que, obstaculizando<br \/>\nsua ascens\u00e3o \u00e0 simples condi\u00e7\u00e3o de gente comum,<br \/>\nigual a todos os demais, tornou mais dif\u00edcil para ele obter educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne incorporar-se na for\u00e7a de trabalho dos setores modernizados.<\/p>\n<p>As taxas de analfabetismo, de criminalidade e de mortalidade dos negros<br \/>\ns\u00e3o, por isso, as mais elevadas, refletindo o fracasso da sociedade<br \/>\nbrasileira em cumprir, na pr\u00e1tica, seu ideal professado de uma democracia<br \/>\nracial que integrasse o negro na condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o<br \/>\nindiferenciado dos demais.<\/p>\n<p>Florestan Fernandes assinala que &#8220;enquanto n\u00e3o alcan\u00e7armos<br \/>\nesse objetivo, n\u00e3o teremos uma democracia racial e tampouco uma democracia.<br \/>\nPor um paradoxo da hist\u00f3ria, o negro converteu-se, em nossa era, na<br \/>\npedra de toque da nossa capacidade de forjar nos tr\u00f3picos esse suporte<br \/>\nda civiliza\u00e7\u00e3o moderna&#8221; ( 1964:738 ).<\/p>\n<p>Apesar da associa\u00e7\u00e3o da pobreza com a negritude, as diferen\u00e7as<br \/>\nprofundas que separam e op\u00f5em os brasileiros em extratos flagrantemente<br \/>\ncontrastantes s\u00e3o de natureza social. S\u00e3o elas que distinguem<br \/>\nos c\u00edrculos privilegiados e camadas abonadas &#8211; que conseguiram, numa<br \/>\neconomia geral de pen\u00faria, alcan\u00e7ar padr\u00f5es razo\u00e1veis<br \/>\nde consumo &#8211; da enorme massa explorada no trabalho, ou at\u00e9 dele exclu\u00edda<br \/>\npor viver \u00e0 margem do processo produtivo e, em conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\nda vida cultural, social e pol\u00edtica da na\u00e7\u00e3o. A redu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndessas diferen\u00e7as constitui o mais antigo dos desafios que reptam a<br \/>\nsociedade brasileira a promover uma reordena\u00e7\u00e3o social que enseje<br \/>\na integra\u00e7\u00e3o de todo o povo no sistema produtivo e, por essa<br \/>\nvia, nas diversas esferas da vida social e cultural do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Assim, os brasileiros de mais n\u00edtida fisionomia racial negra, apesar<br \/>\nde concentrados nos estratos mais pobres, n\u00e3o atuam social e politicamente<br \/>\nmotivados pelas diferen\u00e7as raciais, mas pela conscientiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo car\u00e1ter hist\u00f3rico e social &#8211; portanto incidental e super\u00e1vel<br \/>\n&#8211; dos fatores que obstaculizam sua ascens\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 como<br \/>\nnegros que eles operam no quadro social, mas como integrantes das camadas<br \/>\npobres, mobiliz\u00e1veis todas por iguais aspira\u00e7\u00f5es de progresso<br \/>\necon\u00f4mico e social. O fato de ser negro ou mulato, entretanto, custa<br \/>\ntamb\u00e9m um pre\u00e7o adicional, porque, \u00e0 crueza do trato<br \/>\ndesigualit\u00e1rio que suportam todos os pobres, se acrescentam formas<br \/>\nsutis ou desabridas de hostilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 assinal\u00e1vel, por\u00e9m, que a natureza mesma do preconceito<br \/>\nracial prevalente no Brasil, sendo distinta da que se registra em outras sociedades,<br \/>\no faz atuar antes como for\u00e7a integradora do que como mecanismo de segrega\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO preconceito de ra\u00e7a, de padr\u00e3o anglo-sax\u00f4nico, incidindo<br \/>\nindiscriminadamente sobre cada pessoa de cor, qualquer que seja a propor\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sangue negro que detenha, conduz necessariamente ao apartamento, \u00e0<br \/>\nsegrega\u00e7\u00e3o e \u00e0 viol\u00eancia, pela hostilidade a qualquer<br \/>\nforma de conv\u00edvio. O preconceito de cor dos brasileiros, incidindo,<br \/>\ndiferencialmente, segundo o matiz da pele, tendendo a identificar como branco<br \/>\no mulato claro, conduz antes a uma expectativa de miscigena\u00e7\u00e3o.<br \/>\nExpectativa, na verdade, discriminat\u00f3ria, porquanto aspirante a que<br \/>\nos negros clareiem, em lugar de aceit\u00e1-los tal qual s\u00e3o, mas<br \/>\nimpulsora da integra\u00e7\u00e3o (Nogueira 1955 ).<\/p>\n<p>Acresce, ainda, que, conforme assinalamos repetidamente, mais do que preconceitos<br \/>\nde ra\u00e7a ou de cor, t\u00eam os brasileiros arraigado preconceito de<br \/>\nclasse. As enormes dist\u00e2ncias sociais que medeiam entre pobres e remediados,<br \/>\nn\u00e3o apenas em fun\u00e7\u00e3o de suas posses mas tamb\u00e9m<br \/>\npelo seu grau de integra\u00e7\u00e3o no estilo de vida dos grupos privilegiados<br \/>\n&#8211; como analfabetos ou letrados, como detentores de um saber vulgar transmitido<br \/>\noralmente ou de um saber moderno, como herdeiros da tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nfolcl\u00f3rica ou do patrim\u00f4nio cultural erudito, como descendentes<br \/>\nde fam\u00edlias bem situadas ou de origem humilde -, op\u00f5em pobres<br \/>\ne ricos muito mais do que negros e brancos.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que mais facilmente se admite o casamento e o conv\u00edvio<br \/>\ncom negros que ascendem socialmente e assumem as posturas, os maneirismos<br \/>\ne os h\u00e1bitos da classe dominante, do que com o pobre rude e grosseiro,<br \/>\nseja ele negro, branco ou mulato, por sua efetiva discrep\u00e2ncia social,<br \/>\ne sua evidente marginalidade cultural. Brancos e negros, vivendo juntos essas<br \/>\nmesmas condi\u00e7\u00f5es, tendem a lutar, juntos tamb\u00e9m, pela<br \/>\nsupress\u00e3o da pobreza, entrela\u00e7ando-se e se mesclando como um<br \/>\ncaudal socialmente uniforme que, for\u00e7ando conjuntamente sua ascens\u00e3o<br \/>\na melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, for\u00e7am, ao mesmo tempo,<br \/>\na reordena\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Gilberto Freyre ( 1954 ) se enlanguece, descrevendo a atra\u00e7\u00e3o<br \/>\nque exercia a mulher morena sobre o portugu\u00eas, inspirado nas lendas<br \/>\nda moira encantada e at\u00e9 nas reminisc\u00eancias de uma admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nlusitana \u00e0 superioridade cultural e t\u00e9cnica dos seus antigos<br \/>\namos \u00e1rabes. Essas observa\u00e7\u00f5es podem at\u00e9 ser verdadeiras<br \/>\ne s\u00e3o, seguramente, atrativas como bizarrices. Ocorre, por\u00e9m,<br \/>\nque s\u00e3o totalmente desnecess\u00e1rias para explicar um intercurso<br \/>\nsexual que sempre se deu no mundo inteiro, onde quer que o europeu deparasse<br \/>\ncom gente de cor em aus\u00eancia de mulheres brancas. Assim foi mesmo na<br \/>\n\u00c1frica do Sul, entre ingleses ou holandeses e mulheres hotentotes,<br \/>\npor exemplo, cujos tra\u00e7os f\u00edsicos discrepantes explicariam certa<br \/>\nreserva. Ainda assim, eles se mesclaram por longo tempo, gerando uma vasta<br \/>\ncamada mesti\u00e7a que continuou at\u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nbranca se homogeneizasse pela composi\u00e7\u00e3o equilibrada de homens<br \/>\ne mulheres, criando um ambiente cultural e moral capaz de operar como barreira<br \/>\nao intercurso.<\/p>\n<p>Assinale-se, tamb\u00e9m, que as rela\u00e7\u00f5es entre brancos<br \/>\ne escravas negras registram-se em todas as \u00e1reas e n\u00e3o apenas<br \/>\nnas de coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa. A\u00ed est\u00e3o, para<br \/>\ncomprov\u00e1-lo, os mesti\u00e7os norte-americanos, por exemplo, mais<br \/>\nnumerosos hoje do que os negros mesmo, gerados, evidentemente, pelo intercurso<br \/>\nsexual do puritanismo protestante e apesar da aus\u00eancia das lendas sobre<br \/>\nmoiras encantadas.<\/p>\n<p>O que os fatos parecem indicar \u00e9 a exist\u00eancia de graus de permeabilidade<br \/>\nda barreira racial, em lugar da oposi\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o<br \/>\nde abstin\u00eancia completa e um outro de intercurso generalizado Onde quer<br \/>\nque povos racialmente diferenciados entraram em contato, gerou-se uma camada<br \/>\nmesti\u00e7a maior ou menor. O que diferencia as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde conjun\u00e7\u00e3o interacial no Brasil das outras \u00e1reas \u00e9<br \/>\no desenvolvimento de expectativas reciprocamente ajustadas, mais incentivadoras<br \/>\nque condenat\u00f3rias do intercurso. O nascimento de um t\u00eclho mulato<br \/>\nnas condi\u00e7\u00f5es brasileiras n\u00e3o \u00e9 nenhuma trai\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 matriz negra ou \u00e0 branca, chegando mesmo a ser motivo de especial<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa ideologia integracionista encorajadora do caldeamento \u00e9, provavelmente,<br \/>\no valor mais positivo da conjun\u00e7\u00e3o inter-racial brasileira.<br \/>\nN\u00e3o conduzir\u00e1, por certo, a uma branquiza\u00e7\u00e3o de<br \/>\ntodos os negros brasileiros na linha das aspira\u00e7\u00f5es populares<br \/>\n&#8211; afinal racistas, porque esperam que os negros clareiem, que os alem\u00e3es<br \/>\namorenem, que os japoneses generalizem seus olhos amendoados -, mas tem o<br \/>\nvalor de reprimir antes a segrega\u00e7\u00e3o que o caldeamento.<\/p>\n<p>\u00c9 de se supor que, por esse caminho, a popula\u00e7\u00e3o brasileira<br \/>\nse homogeneizar\u00e1 cada vez mais, fazendo com que, no futuro, se torne<br \/>\nainda mais co-participado por todos um patrim\u00f4nio gen\u00e9tico multirracial<br \/>\ncomum. Ningu\u00e9m estranha, no Brasil, os matizes de cor dos filhos dos<br \/>\nmesmos pais, que v\u00e3o, freq\u00fcentemente, do moreno amulatado, em<br \/>\num deles, ao branco mais claro, no outro; ou combinam cabelos lisos e negros<br \/>\nde \u00edndio ou duros e encaracolados de negro, ou sedosos de branco, de<br \/>\ntodos os modos poss\u00edveis; com diferentes aberturas de olhos, formas<br \/>\nde boca, conforma\u00e7\u00f5es nasais ou propor\u00e7\u00f5es das<br \/>\nm\u00e3os e p\u00e9s.<\/p>\n<p>Na verdade, cada fam\u00edlia brasileira de antiga extra\u00e7\u00e3o<br \/>\nretrata no fen\u00f3tipo de seus membros caracter\u00edsticas isoladas<br \/>\nde ancestrais mais pr\u00f3ximos ou mais remotos dos tr\u00eas grandes<br \/>\ntroncos formadores. Conduzindo, em seu patrim\u00f4nio gen\u00e9tico, todas<br \/>\nessas matrizes, os brasileiros se tornam capazes de gerar filhos t\u00e3o<br \/>\nvariados como variadas s\u00e3o as faces do homem.<\/p>\n<p>O que caracteriza o portugu\u00eas de ontem e o brasileiro de classe dominante<br \/>\nde hoje \u00e9 a duplicidade de seus padr\u00f5es de rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nsexual: um, para as rela\u00e7\u00f5es dentro de seu c\u00edrculo social,<br \/>\ne outro, oposto, para com a gente de camadas mais pobres. Nesse caso, se particulariza,<br \/>\npela desenvoltura no estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es sexuais do<br \/>\nhomem com a mulher de condi\u00e7\u00e3o social inferior, movida pelo<br \/>\npuro interesse sexual, geralmente despido de qualquer v\u00ednculo rom\u00e2ntico.<br \/>\nSem corte pr\u00e9via, o homem de condi\u00e7\u00e3o social superior<br \/>\ntenta rela\u00e7\u00f5es com a negra, a \u00edndia, a mulata cativante,<br \/>\nsempre que se apresenta uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia. O apego, o amor<br \/>\nde car\u00e1ter l\u00edrico entre pessoas de n\u00edvel social d\u00edspar,<br \/>\n\u00e9 fato raro, excepcional.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es sexuais, nessas circunst\u00e2ncias desigualit\u00e1rias,<br \/>\nnem mesmo geram intimidade, permanecendo a mulher servil ou dependente, t\u00e3o<br \/>\nigualmente respeitosa antes como depois das rela\u00e7\u00f5es, dada sua<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o social assim\u00e9trica em rela\u00e7\u00e3o ao<br \/>\nhomem. Onde e quando permanece na condi\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia<br \/>\nservil, tem de aceitar o homem que lhe imp\u00f5em para gerar mais escravos,<br \/>\nou o branco que dela se queira servir. Uma vez livre, j\u00e1 pode aspirar<br \/>\na rela\u00e7\u00f5es mais igualit\u00e1rias. Nas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nprevalentes de pobreza, por\u00e9m, essas se conformam como rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nocasionais ou amasiamentos tempor\u00e1rios. Nessas circunst\u00e2ncias,<br \/>\na fam\u00edlia se estrutura centrada na mulher, que gera filhos de diferentes<br \/>\nhomens, a cujo cuidado se desvela, freq\u00fcentemente desajustada pelos diversos<br \/>\npais.<\/p>\n<p>Somente quando ascende da pobreza a certa sufici\u00eancia econ\u00f4mica<br \/>\n\u00e9 que a mulher alcan\u00e7a condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas<br \/>\npara aspirar a uma vida sentimental aut\u00f4noma, para impor dignidade \u00e0s<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es sexuais, conduzindo-as \u00e0 forma de um jogo co-participado<br \/>\ne, finalmente, \u00e0 oportunidade de estruturar uma vida familiar est\u00e1vel,<br \/>\nrevestida dos s\u00edmbolos religiosos e legais do reconhecimento social.<br \/>\nO novo padr\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es prevalece j\u00e1 para a<br \/>\nparcela da popula\u00e7\u00e3o negra, branca ou mesti\u00e7a integrada<br \/>\nna matriz moderna da sociedade nacional. Mas conforma um ideal ainda long\u00ednquo<br \/>\npara os enormes contingentes de brasileiros socialmente marginalizados.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, nos \u00faltimos anos, gra\u00e7as \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne \u00e0 difus\u00e3o de novas atitudes, inspiradas sobretudo no revivalismo<br \/>\ndo negro norte-americano, se observa uma veemente afirma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde negros e mulatos, afinal orgulhosos de si mesmos e \u00e0s vezes at\u00e9<br \/>\ncompensatoriamente racistas em sua negritude. A transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos padr\u00f5es de rela\u00e7\u00f5es inter-raciais parece tender,<br \/>\nn\u00e3o a uma simples generaliza\u00e7\u00e3o a todos os valores que<br \/>\npresidem as rela\u00e7\u00f5es entre a gente das classes dominantes, mas<br \/>\na abrandar a rigidez de expectativas destas quanto \u00e0 virgindade e a<br \/>\nlimitar a desenvoltura masculina para o intercurso sexual livre e irrespons\u00e1vel<br \/>\ncom mulheres de posi\u00e7\u00e3o social inferior.<\/p>\n<p>Nessas novas condi\u00e7\u00f5es, a mulher de cor, que sempre foi parceira<br \/>\ndesejada e at\u00e9 especialmente apreciada para rela\u00e7\u00f5es<br \/>\neventuais, passar\u00e1 a competir com todas as outras para conformar rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nest\u00e1veis e igualit\u00e1rias. Assim, se poder\u00e1 superar, um<br \/>\ndia, a estrntura prevalente da fam\u00edlia brasileira, que sempre foi matric\u00eantrica.<br \/>\nPara isso ser\u00e1 indispens\u00e1vel que se supere, antes, a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde marginalidade socioecon\u00f4mica da maioria da popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque \u00e9 o fundamento da paternidade irrespons\u00e1vel. \u00c9 prov\u00e1vel<br \/>\nque, ent\u00e3o, se atenuem os ideais de branquiza\u00e7\u00e3o do negro<br \/>\ncomo forma de preconceito, mas que prossiga a tend\u00eancia \u00e0s rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ninter-raciais, que continuariam a representar um importante papel no processo<br \/>\nintegrativo. Bem pode ocorrer, entretanto, que surjam novas e maiores tens\u00f5es<br \/>\npropensas a desacelerar o caldeamento, pela resist\u00eancia em todos os<br \/>\nn\u00edveis sociais \u00e0 ascens\u00e3o maci\u00e7a do contingente<br \/>\nmais negro, em competi\u00e7\u00e3o com o menos negro, e pela nova atitude,<br \/>\nmais exigente, da mulher de cor no estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A massa de brasileiros mulatos \u00e9, por\u00e9m, t\u00e3o grande<br \/>\ne t\u00e3o amplamente distribu\u00edda pelos estratos das classes m\u00e9dia<br \/>\ne baixa, que j\u00e1 ser\u00e1 capaz, certamente, de presidir o processo,<br \/>\noperando como geratriz de novos contingentes mais morenos que brancos, mantendo<br \/>\ne fomentando a tend\u00eancia caldeadora. Seu papel \u00e9 tanto mais importante<br \/>\nporque os grupos privilegiados &#8211; predominantemente branc\u00f3ides ou tendentes<br \/>\na identificar sua cor cobri\u00e7a por uma ancestralidade antes ind\u00edgena<br \/>\ndo que negra -, afetados pela ideologia segregacionista, j\u00e1 exibem<br \/>\nposturas intolerantes caracteristicamente racistas.<\/p>\n<p>Entretanto, o vigor da ideologia assimilacionista, assentada na cultura<br \/>\nvulgar e tamb\u00e9m ensinada nas escolas, e das atitudes que come\u00e7am<br \/>\na generalizar-se entre todos os brasileiros de orgulho por sua origem multirracial,<br \/>\ne dos negros por sua pr\u00f3pria ancestralidade, permitir\u00e3o, provavelmente,<br \/>\nenfrentar com \u00eaxito as tens\u00f5es sociais decorrentes de uma ascens\u00e3o<br \/>\ndo negro, que lhe augure uma participa\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria<br \/>\nna sociedade nacional. \u00c9 preciso que assim seja, porque somente assim<br \/>\nse h\u00e1 de superar um dos conflitos mais dram\u00e1ticos que desgarra<br \/>\na solidariedade dos brasileiros.<\/p>\n<h2>IMIGRANTES<\/h2>\n<p>O contingente imigrat\u00f3rio europeu integrado na popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrasileira \u00e9 avaliado em 5 milh\u00f5es de pessoas, quatro quintas<br \/>\npartes das quais entraram no pa\u00eds no \u00faltimo s\u00e9culo (sobre<br \/>\no papel da imigra\u00e7\u00e3o no Brasil, ver \u00c1vila 1956; Carneiro<br \/>\n1950; Martins 1955; Cortes 1954; Saito 1961; Waibel 1949; Willems 1946; Laytano<br \/>\n1952; Di\u00e9gues Jr.1964; Ianni 1966). \u00c9 composto, principalmente,<br \/>\npor 1,7 milh\u00e3o de imigrantes portugueses, que se vieram juntar aos<br \/>\npovoadores dos primeiros s\u00e9culos, tornados dominantes pela multiplica\u00e7\u00e3o<br \/>\noperada atrav\u00e9s do caldeamento com \u00edndios e negros.<\/p>\n<p>Seguem-se os italianos, com 1,6 milh\u00e3o; os espanh\u00f3is, com<br \/>\n700 mil; os alem\u00e3es, com mais de 250 mil; os japoneses, com cerca de<br \/>\n230 mil e outros contingentes menores, principalmente eslavos, introduzidos<br \/>\nno Brasil sobretudo entre 1886 e 1930. Os diversos censos nacionais registram<br \/>\nna popula\u00e7\u00e3o presente porcentagens de estrangeiros e brasileiros<br \/>\nnaturalizados que sobem de 2,45% em 1890 a 6,16% em 1900, caindo, depois,<br \/>\nsucessivamente, de 5,11 % em 1920, a 3,91 % em 1940, a 2,34% em 1950 e a 0,8%<br \/>\nem 1970.<\/p>\n<h2>Tabela 5 &#8220;2 BRASIL DISTRIBUI\u00c7\u00c3O DOS CONTINGENTES IMIGRAT\u00d3RIOS<br \/>\nPOR PER\u00cdODOS DE ENTRADA (em Milhares)<\/h2>\n<p>1851 &#8211; 1885: Portugueses &#8211; 237, Italianos &#8211; 128, Espanh\u00f3is &#8211; 17,<br \/>\nJaponeses &#8211; 0, Alem\u00e3es &#8211; 59, Totais &#8211; 441 1886 &#8211; 1900: Portugueses<br \/>\n&#8211; 278, Italianos &#8211; 911, Espanh\u00f3is &#8211; 187, Japoneses &#8211; 0, Alem\u00e3es<br \/>\n&#8211; 23, Totais &#8211; 1.398 1901 &#8211; 1915: Portugueses &#8211; 462, Italianos &#8211; 323, Espanh\u00f3is<br \/>\n&#8211; 258, Japoneses &#8211; 14, Alem\u00e3es &#8211; 39, Totais \u2013 1.096 1916 &#8211; 1930:<br \/>\nPortugueses &#8211; 365, Italianos &#8211; 128, Espanh\u00f3is &#8211; 118, Japoneses &#8211; 85,<br \/>\nAlem\u00e3es &#8211; 81, Totais &#8211; 777 1931 &#8211; 1945: Portugueses &#8211; 105, Italianos<br \/>\n&#8211; 19, Espanh\u00f3is &#8211; 10, Japoneses &#8211; 88, Alem\u00e3es &#8211; 25, Totais &#8211;<br \/>\n247 1946 &#8211; 1960: Portugueses &#8211; 285, Italianos &#8211; 110, Espanh\u00f3is &#8211; 104,<br \/>\nJaponeses &#8211; 42, Alem\u00e3es &#8211; 23, Totais \u2013 564 Totais: Portugueses:<br \/>\n1.732 Italianos: 16.19 Espanh\u00f3is: 694 Japoneses: 229 Alem\u00e3es:<br \/>\n250 Totais: 4.523&#8243; Apesar de numericamente pouco ponder\u00e1vel, o<br \/>\npapel do imigrante foi muito importante como formador de certos conglomerados<br \/>\nregionais nas \u00e1reas sulinas em que mais se concentrou, criando paisagens<br \/>\ncaracteristicamente europ\u00e9ias e popula\u00e7\u00f5es dominadoramente<br \/>\nbrancas. Conquanto relevante na constitui\u00e7\u00e3o racial e cultural<br \/>\ndessas \u00e1reas, n\u00e3o teve maior relev\u00e2ncia na fixa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas caracter\u00edsticas da popula\u00e7\u00e3o brasileira e da sua<br \/>\ncultura. Quando come\u00e7ou a chegar em maiores contingentes, a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional j\u00e1 era t\u00e3o maci\u00e7a numericamente e t\u00e3o<br \/>\ndefinida do ponto de vista \u00e9tnico, que p\u00f4de iniciar a absor\u00e7\u00e3o<br \/>\ncultural e racial do imigrante sem grandes altera\u00e7\u00f5es no conjunto.<\/p>\n<p>N\u00e3o ocorre no Brasil, por conseguinte, nada parecido com o que sucedeu<br \/>\nnos pa\u00edses rio-platenses, onde uma etnia original numericamente pequena<br \/>\nfoi submetida por massas de imigrantes que, representando quatro quintos do<br \/>\ntotal, imprimiram uma fisionomia nova, caracteristicamente europ\u00e9ia,<br \/>\n\u00e0 sociedade e \u00e0 cultura nacional, transfigurando-os de povos<br \/>\nnovos em povos transplantados. O Brasil nasce e cresce como povo novo, afirmando<br \/>\ncada vez mais essa caracter\u00edstica em sua configura\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rico-cultural. O assinal\u00e1vel no caso brasileiro \u00e9,<br \/>\npor um lado, a desigualdade social, expressa racialmente na estratifica\u00e7\u00e3o<br \/>\npela posi\u00e7\u00e3o inferiorizada do negro e do mulato. E, por outro<br \/>\nlado, a homogeneidade cultural b\u00e1sica, que transcende tanto as singularidades<br \/>\necol\u00f3gicas regionais, bem como as marcas decorrentes da variedade de<br \/>\nmatrizes raciais, como as diferen\u00e7as oriundas da proveni\u00eancia<br \/>\ncultural dos distintos contingentes.<\/p>\n<p>Apesar da despropor\u00e7\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es &#8211; negra,<br \/>\nem certas \u00e1reas; ind\u00edgena, alem\u00e3 ou japonesa, em outras<br \/>\n-, nenhuma delas se autodefiniu como centro de lealdades \u00e9tnicas extranacionais.<br \/>\nO conjunto, plasmado com tantas contribui\u00e7\u00f5es, \u00e9 essencialmente<br \/>\nuno enquanto etnia nacional, n\u00e3o deixando lugar a que tens\u00f5es<br \/>\neventuais se organizem em torno de unidades regionais, raciais ou culturais<br \/>\nopostas.<\/p>\n<p>Uma mesma cultura a todos engloba e uma vigorosa autodefini\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional, cada vez mais brasileira, a todos anima.<\/p>\n<p>Esse brasileirismo \u00e9 hoje t\u00e3o arraigado que resulta em xenofobia,<br \/>\npor um lado, e, por outro lado, em vangl\u00f3ria nacionalista. Os brasileiros<br \/>\ntodos torcem nas copas do mundo com um sentimento t\u00e3o profundo como<br \/>\nse se tratasse de guerra de nosso povo contra todos os outros povos do mundo.<br \/>\nAs vit\u00f3rias s\u00e3o festejadas em cada fam\u00edlia e as derrotas<br \/>\nsofridas como vergonhas pessoais.<\/p>\n<p>Pude sentir, no ex\u00edlio, como \u00e9 dif\u00edcil para um brasileiro<br \/>\nviver fora do Brasil. Nosso pa\u00eds tem tanta seiva de singularidade que<br \/>\ntorna extremadamente dif\u00edcil aceitar e desfrutar do conv\u00edvio<br \/>\ncom outros povos. O prefeito de Natal morreu em Montevid\u00e9u de pura<br \/>\ntristeza. Nunca quis aprender espanhol, nem o suficiente para comprar uma<br \/>\ncaixa de f\u00f3sforo. Alguns se suicidaram e todos sofreram demais. Basta<br \/>\nver uma reuni\u00e3o de brasileiros, do meio milh\u00e3o que estamos exportando<br \/>\ncomo trabalhadores, para sentir o fanatismo com que se apegam a sua identidade<br \/>\nde brasileiros e o recha\u00e7o a qualquer id\u00e9ia de deixar-se ficar<br \/>\nl\u00e1 fora.<\/p>\n<h2>5 ORDEM VERSUS PROGRESSO ANARQUIA ORIGINAL<\/h2>\n<p>A contraparte dial\u00e9tica da intencionalidade do projeto colonial \u00e9<br \/>\no car\u00e1ter an\u00e1rquico; selvagem e socialmente irrespons\u00e1vel<br \/>\nda expans\u00e3o dos n\u00facleos brasileiros. Atuando sobre uma realidade<br \/>\ndiferente, que obrigava a buscar solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias ajustadas<br \/>\n\u00e0 sua natureza e agindo longe das vontades oficiais, a a\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo colono exerceu-se quase sempre improvisadamente e ao sabor das circunst\u00e2ncias.<br \/>\nSendo imprevis\u00edvel, ela crescia desgarrada at\u00e9 que, por reitera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nconstitu\u00edsse uma pauta de a\u00e7\u00e3o suscet\u00edvel de ser<br \/>\ncopiada e regulada.<\/p>\n<p>Em muitos campos a regra jamais vingou. Um bom exemplo \u00e9 a fornica\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom as \u00edndias na gesta\u00e7\u00e3o prodigiosa de mesti\u00e7os<br \/>\nfora de qualquer regra canoniz\u00e1vel que se teve de admitir e generalizar.<br \/>\nOutro exemplo nos d\u00e1 a bandeira, como opera\u00e7\u00e3o guerreira<br \/>\nde preia de escravos \u00edndios para usar e para vender. O bandeirante,<br \/>\nagente de uma viol\u00eancia privada, passa a ser agente da Coroa. \u00c9<br \/>\nele quem viabiliza, por sua a\u00e7\u00e3o e com seus meios, a vida econ\u00f4mica<br \/>\nnas regi\u00f5es pobres e a apropria\u00e7\u00e3o f\u00edsica do Brasil.<br \/>\nEmbora a ilus\u00e3o oficial fosse dar aos \u00edndios o nobre destino<br \/>\ncopiosamente alegado nos documentos oficiais, a metr\u00f3pole jamais op\u00f4s<br \/>\nqualquer obst\u00e1culo s\u00e9rio ao cativeiro.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando os bandeirantes trope\u00e7am com ouro e, depois, com<br \/>\ndiamantes nos ermos onde andavam, \u00e9 que vem a Coroa legalizar a posse<br \/>\ndas catas, impondo formas de exa\u00e7\u00e3o cada vez mais escorchantes.<br \/>\nNo caso dos diamantes &#8211; tal como ocorrera antes com o tabaco e o sal &#8211; decreta<br \/>\no monop\u00f3lio real para que ningu\u00e9m mais lucrasse com a riqueza<br \/>\nnova, convertendo os garimpeiros em contrabandistas condenados pelo furor<br \/>\nfiscal ao exerc\u00edcio clandestino de suas atividades.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos resultantes do embate daquele racionalismo burocr\u00e1tico,<br \/>\nque queria executar na terra nova um projeto oficial, com esse espontane\u00edsmo<br \/>\nque a ia formando ao deus-dar\u00e1, debaixo do poderio e das limita\u00e7\u00f5es<br \/>\nda ecologia tropical e do despo- tismo do mercado mundial.<\/p>\n<p>Quem somos n\u00f3s, os brasileiros, feitos de tantos e t\u00e3o variados<br \/>\ncontingentes humanos? A fus\u00e3o deles todos em n\u00f3s j\u00e1 se<br \/>\ncompletou, est\u00e1 em curso, ou jamais se concluir\u00e1? Estaremos<br \/>\ncondenados a ser para sempre um povo multicolorido no plano racial e no cultural?<br \/>\nHaver\u00e1 alguma caracter\u00edstica distintiva dos brasileiros como<br \/>\npovo, feito que est\u00e1 por gente vinda de toda parte? Todas essas arg\u00fci\u00e7\u00f5es<br \/>\nseculares t\u00eam j\u00e1 resposta clara encontrada na a\u00e7\u00e3o<br \/>\nconcreta.<\/p>\n<p>Nesse campo de for\u00e7as \u00e9 que o Brasil se fez a si mesmo, t\u00e3o<br \/>\noposto ao projeto lusitano e t\u00e3o surpreendente para os pr\u00f3prios<br \/>\nbrasileiros. Hoje somos, apesar dos lusos e dos seus colonizadores, mas tamb\u00e9m<br \/>\ngra\u00e7as ao que eles aqui nos juntaram, tanto os tijolos biorraciais<br \/>\ncomo as argamassas socioculturais com que o Brasil vem se fazendo.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que, embora embarcados num projeto alheio, nos viabilizamos<br \/>\nao nos afirmar contra aquele projeto oficial e ao nos opor aos des\u00edgnios<br \/>\ndo colonizador e de seus sucessores. Pela vontade deles, os \u00edndios,<br \/>\nos negros e todos n\u00f3s, mesti\u00e7os deles, recrutados pela empresa<br \/>\ncolonial, prosseguir\u00edamos na fun\u00e7\u00e3o que nos foi prescrita<br \/>\nde proletariado de ultramar, destinado a produzir mercadoria export\u00e1vel,<br \/>\nsem jamais chegar a ser gente com destino pr\u00f3prio. \u00c0s vezes<br \/>\npenso que continuamos cumprindo esse des\u00edgnio mesmo sem os portugueses,<br \/>\ndebaixo do guante da velha classe dominante de descendentes dos senhores de<br \/>\nescravos que se seguiu a eles no exerc\u00edcio do poder e das novas elites<br \/>\ncujo setor predominante \u00e9, hoje, o corpo gerencial das multinacionais.<br \/>\nOs mesmos tecnocratas ainda meninos mas j\u00e1 aconselhando governos se<br \/>\nafundam ainda mais no espontane\u00edsmo do mercado e na irresponsabilidade<br \/>\nsocial do neoliberalismo.<\/p>\n<p>O maior susto que tiveram os portugueses, no passado, foi ver a for\u00e7a<br \/>\nde trabalho escrava, reunida com prop\u00f3sitos exclusivamente mercantis<br \/>\npara ser desgastada na produ\u00e7\u00e3o, insurgir-se, pretendendo ser<br \/>\ntida como gente com veleidades de autonomia e autogoverno. Do mesmo modo,<br \/>\na grande perplexidade das classes dominantes atuais \u00e9 que esses descendentes<br \/>\ndaqueles negros, \u00edndios e mesti\u00e7os ousem pensar que este pa\u00eds<br \/>\n\u00e9 uma rep\u00fablica que deve ser dirigida pela vontade deles como<br \/>\nseu povo que s\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil definir o car\u00e1ter at\u00edpico<br \/>\nde nosso processo hist\u00f3rico, que n\u00e3o se enquadra nos esquemas<br \/>\nconceituais elaborados para explicar outros contextos e outras seq\u00fc\u00eancias.<br \/>\nCom efeito, surgindo no leito do cunhadismo, estruturando-se com base numa<br \/>\nfor\u00e7a de trabalho africana, o Brasil se configura como uma coisa diferente<br \/>\nde quantas haja, s\u00f3 explic\u00e1vel em seus termos, historicamente.<\/p>\n<p>Velhas quest\u00f5es institucionais, n\u00e3o tendo sido resolvidas<br \/>\nnem superadas, continuam sendo os principais fatores de atraso e, ao mesmo<br \/>\ntempo, os principais motores de uma revolu\u00e7\u00e3o social. Com efeito,<br \/>\na grande heran\u00e7a hist\u00f3rica brasileira \u00e9 a fa\u00e7anha<br \/>\nde sua pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o como um povo \u00e9tnica,<br \/>\nnacional e culturalmente unificado. \u00c9, tamb\u00e9m, o malogro dos<br \/>\nnossos esfor\u00e7os de nos estruturarmos solidariamente, no plano socioecon\u00f4mico,<br \/>\ncomo um povo que exista para si mesmo. Na raiz desse fracasso das maiorias<br \/>\nest\u00e1 o \u00eaxito das minorias, que ainda est\u00e3o a\u00ed,<br \/>\nmandantes. Em seus des\u00edgnios de resguardar velhos privil\u00e9gios<br \/>\npor meio da perpetua\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio da terra, do primado<br \/>\ndo lucro sobre as necessidades e da imposi\u00e7\u00e3o de formas arcaicas<br \/>\ne renovadas de contingenciamento da popula\u00e7\u00e3o ao papel de for\u00e7a<br \/>\nde trabalho superexplorada.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia confi\u00e1vel de que a hist\u00f3ria<br \/>\nvenha a favorecer, amanh\u00e3, espontaneamente, os oprimidos; e h\u00e1,<br \/>\nao contr\u00e1rio, leg\u00edtimo temor de que, tamb\u00e9m no futuro,<br \/>\nessas minorias dirigentes conformem e deformem o Brasil segundo seus interesses;<br \/>\ntorna-se tanto mais imperativa a tarefa de alcan\u00e7ar o m\u00e1ximo<br \/>\nde lucidez para intervir eficazmente na hist\u00f3ria a fim de reverter<br \/>\nsua tend\u00eancia secular.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 nosso prop\u00f3sito.<\/p>\n<h2>O ARCAICO E O MODERNO<\/h2>\n<p>A passagem do padr\u00e3o tradicional, tornado arcaico, ao padr\u00e3o<br \/>\nmoderno opera a diferentes ritmos em todas as regi\u00f5es, mas mesmo as<br \/>\nmais progressistas se v\u00eaem tolhidas e reduzidas a uma moderniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nreflexa. Isso n\u00e3o se explica, contudo, por qualquer resist\u00eancia<br \/>\nde ordem cultural \u00e0 mudan\u00e7a, uma vez que um veemente desejo<br \/>\nde transforma\u00e7\u00e3o renovadora constitui, talvez, a caracter\u00edstica<br \/>\nmais remarc\u00e1vel dos povos novos e, entre eles, os brasileiros. Mesmo<br \/>\nas popula\u00e7\u00f5es rurais e as urbanas marginalizadas enfrentam resist\u00eancias,<br \/>\nantes sociais do que culturais, \u00e0 transfigura\u00e7\u00e3o, porque<br \/>\numas e outras est\u00e3o abertas ao novo. S\u00e3o, de fato, antes atrasadas<br \/>\ndo que conservadoras. Cada estrada que se abre, quebrando o isolamento de<br \/>\numa &#8220;ilha arcaica&#8221;, atrai novos contingentes ao circuito de comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\ninterna.<\/p>\n<p>Dada a homogeneidade cultural da sociedade brasileira, cada um dos seus<br \/>\nmembros tanto \u00e9 capaz de comunicar-se com os contingentes modernizados,<br \/>\ncomo se predisp\u00f5e a aceitar inova\u00e7\u00f5es. N\u00e3o estando<br \/>\natados a um conservadorismo campon\u00eas, nem a valores tradicionais de<br \/>\ncar\u00e1ter tribal ou folcl\u00f3rico, nada os apega \u00e0s formas<br \/>\narcaicas de vida, sen\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es sociais que os atam<br \/>\na elas, a seu pesar. Essa atitude receptiva \u00e0 mudan\u00e7a, em compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom o conservadorismo que se observa em outras configura\u00e7\u00f5es<br \/>\nhist\u00f3rico-culturais, n\u00e3o \u00e9 suficiente, por\u00e9m,<br \/>\npor si s\u00f3, para promover a renova\u00e7\u00e3o. A fam\u00edlia<br \/>\nmais humilde, do interior mais rec\u00f4ndito, v\u00ea no primeiro caminh\u00e3o<br \/>\nque chega uma oportunidade de liberta\u00e7\u00e3o. Seus membros mais<br \/>\njovens s\u00f3 aspirar\u00e3o a fazer-se motoristas e todos querer\u00e3o<br \/>\nantes partir do que ficar, prontos que est\u00e3o a se incorporar aos novos<br \/>\nmodos de vida.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o resultado fundamental do processo de decultura\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas matrizes formadoras do povo brasileiro. Empobrecido, embora, no plano<br \/>\ncultural com rela\u00e7\u00e3o a seus ancestrais europeus, africanos e<br \/>\nind\u00edgenas, o brasileiro comum se construiu como homem t\u00e1bua<br \/>\nrasa, mais receptivo \u00e0s inova\u00e7\u00f5es do progresso do que<br \/>\no campon\u00eas europeu tradicionalista, o \u00edndio comunit\u00e1rio<br \/>\nou o negro tribal.<\/p>\n<p>As formas futuras que dever\u00e1 assumir a cultura brasileira com o desenvolvimento<br \/>\nconduzir\u00e3o, seguramente, ao refor\u00e7o da unidade \u00e9tnico-nacional<br \/>\npela maior homogeneiza\u00e7\u00e3o dos modos de fazer, de interagir e<br \/>\nde pensar. Mas comportar\u00e3o, por muito tempo ainda, variedades locais,<br \/>\ncertamente menos diferenciadas do que as atuais porque os fatores especializantes<br \/>\ndo meio s\u00e3o menos poderosos que os uniformizantes da tecnologia produtiva<br \/>\ne de comunica\u00e7\u00e3o, apesar do processo transformador operar sobre<br \/>\ncontextos culturais previamente diferenciados. Assim, se preservar\u00e1,<br \/>\npossivelmente, algo do colorido mosaico que hoje enriquece o Brasil pela adi\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e0s diferen\u00e7as de paisagem, de varia\u00e7\u00f5es de usos<br \/>\ne costumes de uma regi\u00e3o a outra, atrav\u00e9s da vastid\u00e3o<br \/>\ndo territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia \u00e0s for\u00e7as inovadoras da Revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nIndustrial e a causa fundamental de sua lentid\u00e3o n\u00e3o se encontram,<br \/>\nportanto, no povo ou no car\u00e1ter arcaico de sua cultura, mas na resist\u00eancia<br \/>\ndas classes dominantes. Particularmente nos seus interesses e privil\u00e9gios,<br \/>\nfundados numa ordena\u00e7\u00e3o estrutural arcaica e num modo infeliz<br \/>\nde articula\u00e7\u00e3o com a economia mundial, que atuam como um fator<br \/>\nde atraso, mas s\u00e3o defendidos com todas as suas for\u00e7as contra<br \/>\nqualquer mudan\u00e7a. Esse \u00e9 o caso da propriedade fundi\u00e1ria,<br \/>\nincompat\u00edvel com a participa\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma das massas<br \/>\nrurais nas formas modernas de vida e incapaz de ampliar as oportunidades de<br \/>\ntrabalho adequadamente remuneradas oferecidas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 tamb\u00e9m o caso da industrializa\u00e7\u00e3o recolonizadora,<br \/>\npromovida por corpora\u00e7\u00f5es internacionais atuando diretamente<br \/>\nou em associa\u00e7\u00e3o com capitais nacionais. Embora modernize a<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o e permita a substitui\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es,<br \/>\napenas admite a forma\u00e7\u00e3o de um empresariado gerencial, sem compromissos<br \/>\noutros que n\u00e3o seja o lucro a remeter a seus patr\u00f5es. Estes<br \/>\nse fazem pagar pre\u00e7os extorsivos, onerando o produto do trabalho nacional<br \/>\ncom enormes contas de lucros e regalias. Seu efeito mais danoso \u00e9 remeter<br \/>\npara fora o excedente econ\u00f4mico que produzem, em lugar de aplic\u00e1-lo<br \/>\naqui. De fato, ele se multiplica \u00e9 no estrangeiro.<\/p>\n<p>A mais grave dessas continuidades reside na oposi\u00e7\u00e3o entre<br \/>\nos interesses do patronato empresarial, de ontem e de hoje, e os interesses<br \/>\ndo povo brasileiro. Ela se mant\u00e9m ao longo de s\u00e9culos pelo dom\u00ednio<br \/>\ndo poder institucional e do controle da m\u00e1quina do Estado nas m\u00e3os<br \/>\nda mesma classe dominante, que faz prevalecer uma ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial e legal resistente a qualquer progresso generaliz\u00e1vel a toda<br \/>\na popula\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 que regeu a economia colonial, altamente<br \/>\npr\u00f3spera para uma minoria, mas que condenava o povo \u00e0 pen\u00faria.<br \/>\nEla \u00e9 que deforma, agora, o pr\u00f3prio processo de industrializa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nimpedindo que desempenhe aqui o papel transformador que representou em outras<br \/>\nsociedades.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 ela que, na defesa de seus interesses antinacionais e antipopulares,<br \/>\npermite a implanta\u00e7\u00e3o das empresas multinacionais, atrav\u00e9s<br \/>\ndas quais a civiliza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-industrial se p\u00f5e<br \/>\nem marcha como um mero processo de atualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<br \/>\ndos povos fracassados na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Modernizada reflexamente, apesar de jungida nessa institucionalidade retr\u00f3grada,<br \/>\na sociedade brasileira n\u00e3o conforma um remanescente arcaico da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nocidental, cujos agentes lhe deram nascimento, mas um dos seus &#8220;proletariados<br \/>\nexternos&#8221;, conscritos para prover certas mat\u00e9rias-primas e para<br \/>\nproduzir lucros export\u00e1veis. Um proletariado externo at\u00edpico<br \/>\ncom respeito aos protagonistas hist\u00f3ricos, assim designados por A.<br \/>\nToynbee ( 1959 ), porque n\u00e3o possui uma cultura original e porque sua<br \/>\npr\u00f3pria classe dirigente \u00e9 o agente de sua domina\u00e7\u00e3o<br \/>\nexterna.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que ocorre nas sociedades aut\u00f4nomas, aqui o<br \/>\npovo n\u00e3o existe para si e sim para outros. Ontem, era uma for\u00e7a<br \/>\nde trabalho escrava de uma empresa agromercantil exportadora. Hoje, \u00e9<br \/>\numa oferta de m\u00e3o-de-obra que aspira a trabalhar e um mercado potencial<br \/>\nque aspira a consumir. Nos dois casos, foi sempre uma empresa pr\u00f3spera,<br \/>\nainda que s\u00f3 o fosse para minorias privilegiadas. Como tal, manteve<br \/>\no Estado e enriqueceu as classes dominantes ao longo de s\u00e9culos, beneficiando<br \/>\ntamb\u00e9m os mercadores associados ao neg\u00f3cio e a elite de propriet\u00e1rios<br \/>\ne burocratas locais. A m\u00e3o-de-obra engajada na produ\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo tra-livres, apenas pode sobreviver e procriar, reproduzindo seus modestos<br \/>\nmodos de exist\u00eancia. Os trabalhadores conscritos como escravos nem isso<br \/>\nalcan\u00e7avam, porque eram uma simples fonte energ\u00e9tica gasta para<br \/>\nmanter o sistema global e faz\u00ea-lo gerar prosperidade para outros.<\/p>\n<p>Entretanto, essa popula\u00e7\u00e3o constitu\u00edda pelos descendentes<br \/>\ndos contingentes aliciados para o projeto agromercantil exportador acaba por<br \/>\nassumir o car\u00e1ter de uma etnia nacional nova, aspirante \u00e0 autonomia,<br \/>\nque, por fim, se independentiza do v\u00ednculo colonial. Aos primeiros<br \/>\nintentos de ruptura, muitos senhores nativos e todos os lusitanos reagem com<br \/>\nperplexidade, indagando, espantados, como feitorias podiam confundir-se com<br \/>\nna\u00e7\u00f5es, reivindicantes de autonomia e at\u00e9 aspirantes<br \/>\na constituir cidadanias aut\u00eanticas.<\/p>\n<p>Quando \u00e9 declarada a independ\u00eancia, a classe dominante local<br \/>\nse nacionaliza alegremente, preparando-se para lucrar com o regime aut\u00f4nomo,<br \/>\ntal como lucrara com o colonial. Apropriada por essa classe, a independ\u00eancia<br \/>\nn\u00e3o representou nenhuma descoloniza\u00e7\u00e3o do sistema que<br \/>\npermitisse transformar o proletariado externo em um povo para si, voltado<br \/>\nao preenchimento de suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia<br \/>\ne de progresso. Representou o translado da reg\u00eancia pol\u00edtica,<br \/>\nencarnada por um rei portugu\u00eas, sediado em Lisboa, para seu filho, assentado<br \/>\nagora no Rio de Janeiro, de onde negociaria a independ\u00eancia nacional<br \/>\ncom a pot\u00eancia hegem\u00f4nica da \u00e9poca, que era a Inglaterra.<br \/>\nUma vez reconhecida externamente e imposta internamente a legitimidade de<br \/>\nseu poder, passa a reger daqui a sociedade brasileira, feita na\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncontra os interesses de seu pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p>Nessas circunst\u00e2ncias, o Estado apresenta tamb\u00e9m mais continuidades<br \/>\ndo que rupturas, estruturando-se como uma m\u00e1quina pol\u00edtico-administrativa<br \/>\nde repress\u00e3o, destinada a manter a antiga ordena\u00e7\u00e3o,<br \/>\noperando nas mesmas linhas a servi\u00e7o da velha elite, agora ampliada<br \/>\npelas fam\u00edlias fidalgas que vieram com o monarca e por novos- ricos<br \/>\nque surgem com a moderniza\u00e7\u00e3o. O povo reage ao longo de quase<br \/>\ntodo o pa\u00eds contra a estreiteza dessa independ\u00eancia, exigindo<br \/>\na expuls\u00e3o dos agentes mais vis\u00edveis da velha ordem, que eram<br \/>\nos comerciantes lusitanos. A repress\u00e3o mais cruenta o compele a submeter-se.<\/p>\n<p>O Estado mon\u00e1rquico se consolida, renova e amplia nas d\u00e9cadas<br \/>\nseguintes.<\/p>\n<p>Anteriormente, uns quantos cl\u00e9rigos e alguns administradores coloniais,<br \/>\nuns poucos militares profssionais e bachar\u00e9is com forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nuniversit\u00e1ria, graduados no Reino, podiam dar conta das necessidades.<br \/>\nAgora, torna-se indispens\u00e1vel criar escolas m\u00e9dias e superiores<br \/>\nque formem as novas gera\u00e7\u00f5es de letrados para a magistratura<br \/>\ne o Parlamento, de bachar\u00e9is nativos, de engenheiros militares para<br \/>\na defesa, e de m\u00e9dicos para cuidar da sa\u00fade dos ricos. A cultura<br \/>\nvulgar e, com ela, a maioria das t\u00e9cnicas produtivas, entregues a seus<br \/>\nprodutores imediatos, s\u00f3 muito lentamente come\u00e7aria a modernizar-<br \/>\nse. Como \u00e0 cria\u00e7\u00e3o das escolas para as elites n\u00e3o<br \/>\ncorrespondeu qualquer programa de educa\u00e7\u00e3o de massas, o povo<br \/>\nbrasileiro permaneceu analfabeto.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, as novas for\u00e7as unificadoras n\u00e3o conseguem<br \/>\nanular as diferen\u00e7as regionais da sociedade nacional, que s\u00e3o<br \/>\nformas de adapta\u00e7\u00e3o especializada da configura\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rico-cultural. Embora tenham mais de comum que de peculiar, nelas<br \/>\nse registram modos pr\u00f3prios de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza<br \/>\nno processo produtivo, formas particulares de regula\u00e7\u00e3o das<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, devidas ao atendimento<br \/>\ndos imperativos oriundos do g\u00eanero de produ\u00e7\u00e3o a que se<br \/>\ndedicam, bem como da sobreviv\u00eancia de representa\u00e7\u00f5es t\u00edpicas<br \/>\nde sua vis\u00e3o particular do mundo.<\/p>\n<p>O entendimento de cada uma dessas variantes importa na necessidade de analisar<br \/>\nsimultaneamente tanto o papel diferenciador do esfor\u00e7o adaptativo como<br \/>\na for\u00e7a unificadora da tecnologia produtiva, dos modos de associa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne das cria\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas que conferem um patrim\u00f4nio<br \/>\ncomum a todas as \u00e1reas (tentativas de classifica\u00e7\u00e3o das<br \/>\n\u00e1reas culturais do Brasil se encontram em Di\u00e9gues Jr. 1960 e<br \/>\nem Wagley e Harris 1955 ). Essa an\u00e1lise deve ser feita tanto sincronicamente<br \/>\n\u2013 mediante cortes do continuum hist\u00f3rico-cultural, para focalizar<br \/>\nas rela\u00e7\u00f5es que se apresentam num momento dado entre os modos<br \/>\nde adapta\u00e7\u00e3o, as formas de sociabilidade e o mundo das representa\u00e7\u00f5es<br \/>\nmentais -, como diacronicamente, aprofundando a pesquisa hist\u00f3rica<br \/>\npara alcan\u00e7ar uma perspectiva de tempo que permita verificar como surgiram<br \/>\ne se generalizaram as t\u00e9cnicas em uso, as rela\u00e7\u00f5es vigentes<br \/>\nde trabalho, a vis\u00e3o do mundo e os outros aspectos essenciais do modo<br \/>\nde ser dessas variantes da sociedade nacional.<\/p>\n<p>Composta como uma constela\u00e7\u00e3o de \u00e1reas culturais, a<br \/>\nconfigura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico- cultural brasileira conforma<br \/>\numa cultura nacional com alto grau de homogeneidade.<\/p>\n<p>Em cada uma delas, milh\u00f5es de brasileiros, atrav\u00e9s de gera\u00e7\u00f5es,<br \/>\nnascem e vivem toda a sua vida encontrando solu\u00e7\u00f5es para seus<br \/>\nproblemas vitais, motiva\u00e7\u00f5es e explica\u00e7\u00f5es que<br \/>\nse lhes afiguram como o modo natural e necess\u00e1rio de exprimir sua humanidade<br \/>\ne sua brasilidade. Constituem, essencialmente, partes integrantes de uma sociedade<br \/>\nmaior, dentro da qual interagem como subculturas, atuando entre si de modo<br \/>\ndiverso do que o fariam em rela\u00e7\u00e3o a estrangeiros. Sua unidade<br \/>\nfundamental decorre de serem todas elas produto do mesmo processo civilizat\u00f3rio<br \/>\nque as atingiu quase ao mesmo tempo; de terem se formado pela multiplica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma mesma protoc\u00e9lula \u00e9tnica e de haverem estado sempre debaixo<br \/>\ndo dom\u00ednio de um mesmo centro reitor, o que n\u00e3o enseja defini\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00e9tnicas conflitivas.<\/p>\n<p>Com efeito, essa reg\u00eancia comum englobava desde o princ\u00edpio<br \/>\na todos os componentes e, quando necess\u00e1rio, usava da repress\u00e3o<br \/>\npolicial-militar. Ainda assim, por for\u00e7a do isolamento, da especializa\u00e7\u00e3o<br \/>\nou da atua\u00e7\u00e3o de outros fatores, algumas unidades se diversificaram<br \/>\nsuficientemente para tenderem \u00e0 cissiparidade ou \u00e0 reordena\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo contexto global, segundo seus interesses imediatos. Via de regra, essas<br \/>\ntend\u00eancias autonomistas apenas se esbo\u00e7avam, voltando \u00e0<br \/>\nunidade e \u00e0 uniformidade tanto pela press\u00e3o das for\u00e7as<br \/>\nrepressivas como em virtude do papel integrador do sistema econ\u00f4mico<br \/>\ne, sobretudo, da homogeneidade cultural b\u00e1sica alcan\u00e7ada precocemente.<\/p>\n<p>O sistema econ\u00f4mico e pol\u00edtico, gerando o mesmo tipo de estratifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de ordena\u00e7\u00e3o c\u00edvica, criou em cada unidade a mesma<br \/>\nforma de hierarquiza\u00e7\u00e3o que qualificava, face \u00e0 sociedade<br \/>\ntotal, as camadas dirigentes de cada variante como componentes da mesma estrutura<br \/>\nde poder, e as fez essencialmente solid\u00e1rias frente \u00e0 amea\u00e7a<br \/>\ncomum representada pelo antagonismo das classes oprimidas. O patronato, na<br \/>\nfun\u00e7\u00e3o de coordenador das atividades produtivas, e o patriciado,<br \/>\nno exerc\u00edcio do papel de ordenador da vida social, puderam assim fazer<br \/>\nfrente a todas as tend\u00eancias dissociativas, preservando a unidade nacional.<\/p>\n<p>O senhor de engenho, ao contr\u00e1rio, j\u00e1 surge como o propriet\u00e1rio<br \/>\nde um neg\u00f3cio que inclu\u00eda as terras, as instala\u00e7\u00f5es<br \/>\ne as gentes de seu dom\u00ednio, exercendo seu comando para conduzi-las<\/p>\n<p>a uma atividade econ\u00f4mica ex\u00f3gena. Assumia, assim, uma atitude<br \/>\nmercantil face \u00e0s pessoas, sobretudo \u00e0 escravaria, menos gente,<br \/>\na seus olhos, do que instrumentos eficazes ou n\u00e3o, lucrativos ou dispendiosos<br \/>\nde neg\u00f3cio. Desenvolvia, desse modo, um agudo sentido pecuni\u00e1rio,<br \/>\npela conting\u00eancia de obter lucros para mais enriquecer ou perd\u00ea-los,<br \/>\nna competi\u00e7\u00e3o com outros produtores aut\u00f4nomos, na disputa<br \/>\ncom os participantes da comercializa\u00e7\u00e3o do produto e na depend\u00eancia<br \/>\nde complexos sistemas fmanceiros e fiscais que o exploravam.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a essencial dos dois sistemas est\u00e1, por\u00e9m,<br \/>\nno papel e na fun\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o envolvida: no<br \/>\nprimeiro caso, sobreviver de acordo com sua concep\u00e7\u00e3o de vida;<br \/>\nno segundo, produzir lucros, como se fora uma f\u00e1brica moderna, e integrar-se<br \/>\nna condi\u00e7\u00e3o de vida que lhe era imposta como camada subalterna<br \/>\nde uma sociedade colonial.<\/p>\n<p>Em seu desdobramento posterior, o sistema feudal e o sistema de planta\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeram complexos socioecon\u00f4micos inteiramente diferentes. O primeiro,<br \/>\ndesfazendo-se \u00e0 medida que crescia o setor comercial externo a ele,<br \/>\nd\u00e1 lugar a um campesinato livre co-participante, pela propriedade de<br \/>\nsua gleba, do sistema capitalista nascente. O segundo, evoluindo congruentemente<br \/>\ncom o sistema colonial-escravista, que o gerara, passa do escravismo, que<br \/>\nera seu conte\u00fado mais obsoleto, a formas capitalistas de contingenciamento<br \/>\nda for\u00e7a de trabalho, jamais colocando em causa a distribui\u00e7\u00e3o<br \/>\nda terra como quest\u00e3o crucial, mas, ao contr\u00e1rio, tendendo \u00e0<br \/>\nconcentra\u00e7\u00e3o da propriedade, \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo dom\u00ednio empresarial e ao fortalecimento, cada vez maior, do seu<br \/>\ncar\u00e1ter de entidade comercial e industrial.<\/p>\n<p>Pelo mesmo caminho, o sistema preserva, tamb\u00e9m, sua caracter\u00edstica<br \/>\nmais negativa: a ordena\u00e7\u00e3o da economia segundo solicita\u00e7\u00f5es<br \/>\nexternas, que o induz a servir n\u00e3o aos que nele est\u00e3o engajados<br \/>\ncomo for\u00e7a de trabalho, mas ao enriquecimento do propriet\u00e1rio<br \/>\ne ao abastecimento do mercado mundial. Mesmo ap\u00f3s a decad\u00eancia<br \/>\nem que descamba a produ\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira das velhas \u00e1reas,<br \/>\no engenho continuar\u00e1 representando um bom neg\u00f3cio para os situados<br \/>\nna posi\u00e7\u00e3o de donos. Seu fracasso essencial, como veremos, est\u00e1<br \/>\nna sua incapacidade de abrir perspectivas de integra\u00e7\u00e3o da sua<br \/>\nmassa trabalhadora numa economia de consumo, capaz de proporcionar-lhe um<br \/>\npadr\u00e3o de vida mais digno.<\/p>\n<p>Representa papel relevante na forma\u00e7\u00e3o desse n\u00facleo<br \/>\nb\u00e1sico da cultura crioula a circunst\u00e2ncia de o fazendeiro ou<br \/>\nsenhor de engenho residir na fazenda. Esse fato importaria em proporcionar<br \/>\nao mundo do engenho a\u00e7ucareiro uma outra dimens\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\napenas produtiva, que visava a prover a fam\u00edlia senhorial de confortos<br \/>\ne gozos que sua posi\u00e7\u00e3o e riqueza permitiam fruir. Essa dimens\u00e3o<br \/>\n\u00e9 que produziu no engenho a casa-grande, com seus amplos espa\u00e7os,<br \/>\nseu rico mobili\u00e1rio, sua tralha de conforto, sua &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>\nE diferenciou a escravaria do eito &#8211; atirada na senzala e desgastada como<br \/>\nbestas de carga &#8211; do c\u00edrculo das mucamas e criados dom\u00e9sticos,<br \/>\nescolhidos dentre os negros e negras de aspecto mais agrad\u00e1vel, nascidos<br \/>\nj\u00e1 no engenho, para servir \u00e0 fam\u00edlia senhorial.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter familiar da empresa a\u00e7ucareira daria continuidade<br \/>\na essa rela\u00e7\u00e3o, fazendo sucederem-se gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nde senhores e de escravos sob o mesmo dom\u00ednio, cada vez mais afeitos<br \/>\nuns aos outros e mais especializados devotados a suas respectivas tarefas<br \/>\ne tamb\u00e9m cada vez mais impregnados por aquele complexo cultural. Assim,<br \/>\num patrim\u00f4nio social de usos, de atitudes e de procedimentos comuns<br \/>\nse plasma e se transmite de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nemprestando sabor e congru\u00eancia aos destinos daqueles que nasciam e<br \/>\nmorriam naquele mundo original, voltado por inteiro a produzir a\u00e7\u00facar<br \/>\nque se exportava, e reproduzir modos de vida t\u00e3o extremamente opostos,<br \/>\nprimeiro de senhores e escravos, depois dos mesmos senhores e de uma for\u00e7a<br \/>\nde trabalho j\u00e1 n\u00e3o escrava, mas submetida quase \u00e0s mesmas<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Na orla dos engenhos, a sociedade da \u00e1rea cultural crioula cresce<br \/>\ntamb\u00e9m e se diferencia, produzindo brancos e mesti\u00e7os livres<br \/>\ndevotados a cultivos secund\u00e1rios e a tarefas mais humildes que raramente<br \/>\ncompensavam pagar o bra\u00e7o escravo, pelo menos o escravo africano. Essa<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o era constitu\u00edda, na zona rural, por fam\u00edlias<br \/>\nde granjeiros e de parceiros, dedicados a lavouras comerciais, como o tabaco,<br \/>\nou de subsist\u00eancia; os primeiros para consumo interno e exporta\u00e7\u00e3o;<br \/>\nos \u00faltimos para serem levados semanalmente \u00e0s feiras. Algumas<br \/>\ndessas produ\u00e7\u00f5es de tabaco cresceram tanto como cultivo quanto<br \/>\nna industrializa\u00e7\u00e3o, exigindo recrutamento de m\u00e3o-de-obra<br \/>\ne uma base de organiza\u00e7\u00e3o empresarial. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nera a produ\u00e7\u00e3o de tabaco para o consumo, mas para exporta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque constituiu, ali\u00e1s, a principal moeda de troca para compra de escravos<br \/>\nna \u00c1frica. E nas vilas e cidades, outros contingentes complementares<br \/>\ndesse sistema econ\u00f4mico eram constitu\u00eddos por funcion\u00e1rios,<br \/>\ncl\u00e9rigos, negociantes, arte s\u00e3os, servi\u00e7ais dos transportes<br \/>\ne carregadores do porto.<\/p>\n<p>Comunidades especializadas e aut\u00e1rquicas eram formadas por pescadores<br \/>\nque, combinando t\u00e9cnicas nativas e a t\u00e9cnica portuguesa, proviam<br \/>\nao mercado um produto mercarltil espec\u00edfico e acess\u00edvel. Elas<br \/>\nse distribu\u00edram em aldeias pelas praias, dando uma ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana permanente ao litoral. Constitu\u00eda uma outra economia da pobreza,<br \/>\nque possibilitaria maior fartura alimentar mas n\u00e3o ensejava riqueza.<\/p>\n<p>T\u00e3o opressivo se tornara, por\u00e9m, o dom\u00ednio da grande<br \/>\nfazenda como institui\u00e7\u00e3o central ordenadora, que toda essa orla<br \/>\nconduzia-se como for\u00e7a auxiliar na manuten\u00e7\u00e3o da ordem<br \/>\na\u00e7ucocr\u00e1tica. Cada comerciante, cada padre e cada oficial da<br \/>\nCoroa tinham como ideal supremo chegar, um dia, a fazer-se tamb\u00e9m senhores<br \/>\nde engenho; e enquanto n\u00e3o o alcan\u00e7assem, honr\u00e1-los com<br \/>\no seu apoio, sua admira\u00e7\u00e3o e respeito, como aos donos da vida.<br \/>\nEssa subservi\u00eancia elevava o senhor de engenho \u00e0 categoria de<br \/>\nsetor predominante da classe dominante cuja hegemonia se projetava sobre a<br \/>\nsociedade inteira, submetendo todos \u00e0 estrutura hier\u00e1rquica<br \/>\ndo engenho e a englobando, num sistema coeso e unificado.<\/p>\n<p>Sua hegemonia s\u00f3 n\u00e3o era completa porque eles dependiam, por<br \/>\nsua vez, dos dois outros corpos da classe dominante. Em primeiro lugar, do<br \/>\npatronato parasit\u00e1rio de armadores e negociantes de importa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne exporta\u00e7\u00e3o que relacionavam a economia a\u00e7ucareira com<br \/>\no mercado mundial. Tamb\u00e9m dependente da prosperidade da economia a\u00e7ucareira,<br \/>\nque era sua fonte de riqueza, esse patronato urbano se impunha aos senhores<br \/>\nde engenho, que mantinham atados atrav\u00e9s de um endividamento permanente,<br \/>\nmas atuavam sempre na defesa dos interesses comuns do neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Dependiam, em segundo lugar, do outro corpo da classe dominante formado<br \/>\npelo patriciado governamental que organizava, regia e defendia o empreendimento<br \/>\ncolonial, tudo fazendo tamb\u00e9m pela prosperidade da economia a\u00e7ucareira.<br \/>\nEntretanto, os burocratas; o eclesi\u00e1stico, querendo mais \u00f3bulos<br \/>\npara a gl\u00f3ria de Deus e a salva\u00e7\u00e3o das almas; o militar,<br \/>\npedindo ajuda nas obras de engenharia de defesa; o clero comum; e at\u00e9<br \/>\nalguns poetinhas, intrigando e falando mal da vida alheia, freq\u00fcentemente<br \/>\nse opunham aos interesses imediatos dos dois patronatos.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, encontramos no Brasil, desde os primeiros anos, uma classe<br \/>\ndominante partida em dois corpos: o patronal e o patricial, o primeiro deles<br \/>\ndividido, por sua vez, em empres\u00e1rios produtores e negociantes parasit\u00e1rios.<br \/>\nConforme assinalamos, essas diferen\u00e7as, sem d\u00favida importantes,<br \/>\nnunca chegaram, por\u00e9m, a constituir um antagonismo irredut\u00edvel,<br \/>\nporque todas elas formavam, em ess\u00eancia, a c\u00fapula homog\u00eanea<br \/>\ne coesa de um mesmo sistema de domina\u00e7\u00e3o externa e de explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ninterna.<\/p>\n<p>Algumas caracter\u00edsticas da nova sociedade assomariam claramente no<br \/>\nlimiar do s\u00e9culo xvll, quando os holandeses assaltam e se apoderam<br \/>\nda principal zona a\u00e7ucareira do Nordeste brasileiro.<\/p>\n<p>Esses invasores eram os antigos s\u00f3cios e financiadores dos portugueses<br \/>\nna implanta\u00e7\u00e3o dos engenhos de a\u00e7\u00facar, cuja distribui\u00e7\u00e3o<br \/>\nhaviam praticamente monopolizado. Expulsos do neg\u00f3cio pela absor\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Portugal pela Coroa espanhola, os holandeses procuravam recuperar, pela<br \/>\nconquista, o centro de produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar do seu<br \/>\nsistema comercial. Depois de alguma luta, a nova metr\u00f3pole colonial<br \/>\nimp\u00f5e tranq\u00fcilamente seu dom\u00ednio por cinco lustros, sem<br \/>\nque os senhores de engenho lhe opusessem grande resist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 que, ap\u00f3s um s\u00e9culo de esfor\u00e7os, os colonos<br \/>\nse haviam constitu\u00eddo numa sociedade rigidamente estratificada que,<br \/>\nao contr\u00e1rio dos ocupantes originais da costa brasileira, contava com<br \/>\ncamadas subalternas preparadas a prestar servi\u00e7os a qualquer senhorio<br \/>\ne com uma camada senhorial pronta a negociar e a se acomodar diante de qualquer<br \/>\nconquistador vitorioso. Aos olhos de muitos desses senhores deve ter parecido<br \/>\nmelhor uma sujei\u00e7\u00e3o comercial a uma Holanda pr\u00f3spera<br \/>\nque a um Portugal falido e submetido \u00e0 Espanha.<\/p>\n<p>Os holandeses, com seu maior desenvolvimento capitalista, sua posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde verdadeiros controladores do mercado europeu de.a\u00e7\u00facar &#8211;<br \/>\nque apenas passava pelos portos portugueses para onerar-se com taxas &#8211; e de<br \/>\ndetentores de um sistema fmanceiro mais provido de capitais, pareciam abrir<br \/>\naos senhores de engenho perspectivas mais alvissareiras de melhorar o neg\u00f3cio.<br \/>\nE, efetivamente, os neg\u00f3cios melhoraram prontamente. Os produtores<br \/>\nreceberam os financiamentos de que necessitavam para reequipar suas instala\u00e7\u00f5es,<br \/>\nrenovar sua escravaria e prover de comodidades industriais as suas casas-grandes<br \/>\nmediante o comprometimento de futuras safras. A ruptura s\u00f3 se d\u00e1<br \/>\nquando, mais congruentemente capitalista, a administra\u00e7\u00e3o holandesa<br \/>\npassa a exigir o pagamento pontual dos cr\u00e9ditos concedidos, executando<br \/>\nas d\u00edvidas pela expropria\u00e7\u00e3o dos engenhos dos devedores<br \/>\nremissos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, alguns dos mais afoitos em colaborar na primeira fase se fizeram<br \/>\nmais patriotas e mais pios na defesa da p\u00e1tria portuguesa e da religi\u00e3o<br \/>\ncat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Unidos os remissos &#8211; liderando a popula\u00e7\u00e3o combatente, engaj\u00e1vel<br \/>\nent\u00e3o como o fora antes &#8211; expulsaram o invasor. O epis\u00f3dio teve<br \/>\nv\u00e1rias conseq\u00fc\u00eancias, sendo a principal delas a transfer\u00eancia<br \/>\ndos capitais holandeses para a abertura de novas planta\u00e7\u00f5es<br \/>\na\u00e7ucareiras nas Antilhas, que, uma d\u00e9cada mais tarde, disputariam<br \/>\no mercado mundial, acabando por domin\u00e1-lo. No per\u00edodo de entendimentos<br \/>\namistosos, o holand\u00eas se assenhoreava das t\u00e9cnicas de plantio<br \/>\ne de fabrico, habilitando-se para abrir a nova frente produtora.<\/p>\n<p>A a\u00e7ucocracia s\u00f3 encontrou resist\u00eancia efetiva e enfrentou<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o ativa por parte do negro escravo, que lutou por sua<br \/>\nliberdade n\u00e3o apenas contra o amo mas contra toda a sociedade colonial,<br \/>\nunida e coerente na defesa do sistema. Foi uma luta longa e terr\u00edvel<br \/>\nque se exprimiu de mil modos. Diariamente, pela resist\u00eancia dentro do<br \/>\nengenho, cujo funcionamento exigiu o pulso e o a\u00e7oite do feitor para<br \/>\nimpor e manter o ritmo de trabalho. Episodicamente, pela fuga de negros j\u00e1<br \/>\nconhecedores da terra para territ\u00f3rios ermos onde se acoitavam, formando<br \/>\nquilombos.<\/p>\n<p>O mais c\u00e9lebre deles, Palmares, sobreviveu, combatendo sempre, por<br \/>\nquase um s\u00e9culo, reconstituindo-se depois de cada razzia. Ao fmal,<br \/>\nconcentrava cerca de 30 mil negros em diversas comunidades e dominava uma<br \/>\nenorme \u00e1rea encravada na regi\u00e3o mais rica da col\u00f4nia,<br \/>\nentre Pernambuco e a Bahia. Sua destrui\u00e7\u00e3o exigiu armar um ex\u00e9rcito<br \/>\nde 7 mil soldados, chefiado pelos mais experimentados homens de guerra de<br \/>\ntoda a col\u00f4nia, principalmente paulistas.<\/p>\n<p>Palmares, como dezenas de outros quilombos surgidos na \u00e1rea das diversas<br \/>\nregi\u00f5es onde se concentravam n\u00facleos escravos, estruturava-se<br \/>\ndentro dos moldes culturais neobrasileiros e n\u00e3o como restaura\u00e7\u00e3o<br \/>\nde culturas africanas. Suas casas, seus cultivos, a l\u00edngua que falavam,<br \/>\ntodo o seu modo sociocultural de ser era essencialmente o mesmo de toda a<br \/>\n\u00e1rea crioula. No Nordeste, como por todo o pa\u00eds, o negro fora<br \/>\ndeculturado de suas matrizes originais e aculturado \u00e0 etnia neobrasileira,<br \/>\nque alcan\u00e7ou prontamente a satura\u00e7\u00e3o dos tra\u00e7os<br \/>\nafricanos que podia absorver.<\/p>\n<p>Os cultos fundados em conte\u00fados religiosos africanos, ainda hoje<br \/>\nv\u00edvidos nas zonas que receberam maiores contingentes negros, se constitu\u00edram<br \/>\nem outro reduto da resist\u00eancia escrava. Estruturam-se principalmente<br \/>\nnas grandes cidades, onde o negro gozava de maior independ\u00eancia e onde<br \/>\nseu esfor\u00e7o por ascender socialmente encontrava, por um lado, chances<br \/>\nde alent\u00e1-lo e, por outro, resist\u00eancias que mais o apica\u00e7avam.<br \/>\nCom o aprofundamento dessas duas tend\u00eancias opostas e complementares<br \/>\ne gra\u00e7as \u00e0 liberdade que o negro p\u00f4de gozar ap\u00f3s<br \/>\na aboli\u00e7\u00e3o, os cultos afro-brasileiros foram alcan\u00e7ando<br \/>\nimport\u00e2ncia crescente.<\/p>\n<p>O negro, que no fim do per\u00edodo colonial se integrara nas organiza\u00e7\u00f5es<br \/>\nreligiosas cat\u00f3licas tradicionais &#8211; uma das poucas institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nque aceitavam sua participa\u00e7\u00e3o, definindo-lhe um lugar e um<br \/>\npapel -, as foi abandonando, progressivamente, sobretudo nos centros metropolitanos,<br \/>\nem favor dos cultos afrobrasileiros. Eles s\u00e3o, hoje, provavelmente<br \/>\nmais poderosos do que em qualquer tempo do passado.<\/p>\n<p>Contribuiu para isso, no campo religioso, o esfor\u00e7o da Igreja cat\u00f3lica<br \/>\npor imprimir uma maior ortodoxia ao culto e, no campo social, as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde pen\u00faria e inseguran\u00e7a que enfrentam os negros e as camadas<br \/>\nmais humildes que formam a massa principal desses cultos. Nas cidades da Bahia,<br \/>\ndo Recife, de S\u00e3o Lu\u00eds, do Rio de Janeiro, o candombl\u00e9,<br \/>\no xang\u00f4, a macumba constituem os centros de vida religiosa mais ativa<br \/>\ndas popula\u00e7\u00f5es pobres, tanto pretas e pardas como brancas.<\/p>\n<p>A economia a\u00e7ucareira do Nordeste colonial, fundada no sistema de<br \/>\nfazendas, foi a mais bem-sucedida das formas de coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas Am\u00e9ricas nos primeiros dois s\u00e9culos. Em meados do s\u00e9culo<br \/>\nxvii, a exporta\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar gerava uma renda<br \/>\ninterna l\u00edquida anual superior a 1 milh\u00e3o de libras-ouro, grande<br \/>\nparte da qual ficava em m\u00e3os dos senhores de engenho. Era aplicada<br \/>\nna amplia\u00e7\u00e3o sucessiva da capacidade produtora, no custeio dos<br \/>\nfatores de produ\u00e7\u00e3o que eram importados, sobretudo da escravaria,<br \/>\ne na manuten\u00e7\u00e3o do sistema externo de financiamento e comercializa\u00e7\u00e3o<br \/>\n(Furtado 1959:59-61 ). Criou-se, assim, uma enorme disponibilidade para gastos<br \/>\ngerais e suntu\u00e1rios, permitindo aos propriet\u00e1rios altos n\u00edveis<br \/>\nde consumo.<\/p>\n<p>Essa riqueza exprimiu-se principalmente na edifica\u00e7\u00e3o das<br \/>\ncidades do Recife, Olinda e da Bahia, que mais tarde, com o aporte da riqueza<br \/>\nproveniente da minera\u00e7\u00e3o, se ergueriam como os maiores e mais<br \/>\nricos centros urbanos das Am\u00e9ricas, excetuada a Cidade do M\u00e9xico.<br \/>\nAs enormes, numerosas e riqu\u00edssimas igrejas e conventos dessas cidades,<br \/>\nsobretudo da Bahia, sua vida urbana brilhante e ostent\u00f3ria, eram a<br \/>\nalta express\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o crioula que tinha sua contraparte<br \/>\nna vida e na morte in\u00edq\u00fca do escravo do eito, sobre cujas costas<br \/>\npesava aquela opul\u00eancia.<\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos seguintes, a competi\u00e7\u00e3o com a nova \u00e1rea<br \/>\nprodutiva das Antilhas desloca o Nordeste dos mercados mundiais e provoca<br \/>\numa deteriora\u00e7\u00e3o crescente dos pre\u00e7os, que geraria uma<br \/>\ncrise cr\u00f4nica na regi\u00e3o a\u00e7ucareira. O sistema implantado<br \/>\nse revelaria, entretanto, perfeitamente capaz de enfrentar essa crise e a<br \/>\nexacerba\u00e7\u00e3o da \u00fanica contradi\u00e7\u00e3o ativa,<br \/>\nque era a rebeldia escrava, cruamente subversiva e atentat\u00f3ria \u00e0<br \/>\nordem social, cuja repress\u00e3o estava a cargo do Estado. Assim sobrevive<br \/>\no sistema por s\u00e9culos, apesar da queda constante da rentabilidade.<br \/>\nPara isso, por\u00e9m, \u00e9 compelido a adotar formas cada vez mais<br \/>\naut\u00e1rquicas de produ\u00e7\u00e3o, utilizando o escravo dispon\u00edvel<br \/>\nnas \u00e9pocas de recess\u00e3o para prover n\u00e3o s\u00f3 a pr\u00f3pria<br \/>\nsubsist\u00eancia alimentar, mas os panos que vestia, os equipamentos desgastados<br \/>\nde engenho e at\u00e9 as alfaias. Em certos per\u00edodos de agravamento<br \/>\nda crise o engenho como patrim\u00f4nio familiar se salva pela venda de parte<br \/>\nda escravaria que ele pr\u00f3prio produzia aos empres\u00e1rios da regi\u00e3o<br \/>\nmineradora, para a qual se transferira o fulcro da economia colonial.<\/p>\n<p>O impacto das for\u00e7as transformadoras da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial<br \/>\ndesencadeia uma era de revolu\u00e7\u00f5es sociais em todo o mundo, antes<br \/>\nde cristalizar-se numa nova ordena\u00e7\u00e3o social est\u00e1vel.<br \/>\nEntre elas se contam as insurrei\u00e7\u00f5es, inconfid\u00eancias e<br \/>\nlevantes que antecedem a independ\u00eancia brasileira e que se seguem a<br \/>\nela. Todas buscavam os caminhos de uma reordena\u00e7\u00e3o da sociedade<br \/>\nque, rompendo com a trama constritiva da domina\u00e7\u00e3o colonial<br \/>\ne com a estreiteza da ordena\u00e7\u00e3o classista interna, abrissem<br \/>\nao povo melhores condi\u00e7\u00f5es de desempenho na civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nemergente. Essas for\u00e7as renovadoras, atuando sobre o contexto da \u00e1rea<br \/>\ncultural crioula abrem, pela primeira vez, \u00e0s suas popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nurbanas, oportunidades de rebelar-se contra a velha ordem.<\/p>\n<p>Estalam, em conseq\u00fc\u00eancia, m\u00faltiplas insurrei\u00e7\u00f5es<br \/>\nnas quais lideran\u00e7as encarnadas, principalmente, por padres libert\u00e1rios<br \/>\naliciam e p\u00f5em em a\u00e7\u00e3o massas irredentas, desde S\u00e3o<br \/>\nLu\u00eds do Maranh\u00e3o at\u00e9 o Recife e a Bahia. Nessas eclos\u00f5es,<br \/>\nm\u00faltiplas tens\u00f5es subjacentes e jamais manifestas se expressam<br \/>\nruidosamente. A ojeriza do povo ao negociante lusitano em que ele v\u00ea<br \/>\nseu explorador imediato. A animosidade do pobre ao rico. O antagonismo do<br \/>\nempres\u00e1rio nativo ao estrangeiro. O ressentimento do negro para com<br \/>\no mulato e o \u00f3dio de ambos ao branco. Entretanto, o grande antagonismo<br \/>\nque pulsava debaixo de todas essas tens\u00f5es e oposi\u00e7\u00f5es,<br \/>\no do escravo ao senhor, mal pode expressar-se, porque a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde homens livres dos brancos e mulatos os unificava mais que seu denominador<br \/>\ncomum de gente pobre e explorada. E porque os ideais libert\u00e1rios dos<br \/>\nl\u00edderes insurgentes tinham um limite no sacrossanto respeito \u00e0<br \/>\npropriedade, que in clu\u00eda a escravaria.<\/p>\n<p>Nas insurrei\u00e7\u00f5es levantava-se uma primeira lideran\u00e7a<br \/>\nnativa oposta tanto \u00e0 domina\u00e7\u00e3o colonial quanto \u00e0<br \/>\nvelha estratifica\u00e7\u00e3o social interna que, mesmo entre os homens<br \/>\nlivres, estabelecia dist\u00e2ncias abismais entre os pobres e os ricos.<br \/>\nEssas lideran\u00e7as, por\u00e9m, se apavoram diante dos riscos de generalizar-se<br \/>\na convuls\u00e3o social, ensejando \u00e0 massa escrava a oportunidade<br \/>\nde manifestar seus rancores seculares, que ensang\u00fcentariam toda a sociedade<br \/>\nnuma guerra de castas. A imagem da revolta do Haiti pairava sobre os insurgentes<br \/>\nbrasileiros, aterrorizando a quase todos eles. Com alguma raz\u00e3o, \u00e9<br \/>\ncerto, dada a carga enorme de ressentimento racial que, pulsando contida no<br \/>\npeito da maioria da popula\u00e7\u00e3o, podia explodir a qualquer momento.<br \/>\nJos\u00e9 Hon\u00f3rio Rodrigues ( 1965:38 ) cita uma quadra, cantada<br \/>\nem 1823 pelos insurgentes de Pernambuco, que opunha os marinheiros (rein\u00f3is)<br \/>\ne caiados (brancos) aos pardos e pretos: &#8220;Marinheiros e caiados Todos<br \/>\ndevem se acabar Porque os pardos e pretos O pa\u00eds h\u00e3o de habitar.&#8221;<br \/>\nO pa\u00eds j\u00e1 habitavam; sua aspira\u00e7\u00e3o era mandar.<br \/>\nEra refazer a ordena\u00e7\u00e3o social segundo seu pr\u00f3prio projeto.<br \/>\n\u00c9 f\u00e1cil imaginar e est\u00e1 bem documentado o pavor p\u00e2nico<br \/>\nprovocado por essas express\u00f5es de insurg\u00eancia dos pretos e dos<br \/>\npardos, ensejadas por sua participa\u00e7\u00e3o nas lutas pol\u00edticas.<br \/>\nAs classes dominantes viam nela a amea\u00e7a iminente de uma &#8220;guerra<br \/>\nde castas&#8221; violenta e terr\u00edvel pelo \u00f3dio secularmente contido<br \/>\nque faria explodir na forma de convuls\u00f5es sociais sangrentas. E, a<br \/>\nseus olhos, t\u00e3o mais terr\u00edvel porque qualquer debate ou redefmi\u00e7\u00e3o<br \/>\nda ordem vigente conduziria, fatalmente, a colocar em quest\u00e3o as duas<br \/>\nconstri\u00e7\u00f5es fundamentais: a propriedade fundi\u00e1ria e a<br \/>\nescravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessas circunst\u00e2ncias, \u00e9 compreens\u00edvel que os mais brancos<br \/>\ne os privilegiados terminassem por se convencer de que seus interesses eram<br \/>\ncoincidentes com uma independ\u00eancia formal, mon\u00e1rquica e lus\u00f3fila,<br \/>\nporque s\u00f3 esta estava armada com o velho aparato repressivo e era essencialmente<br \/>\nsolid\u00e1ria com o latif\u00fandio e a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfeixadas dentro desses limites, aquelas revoltas tumultu\u00e1rias de<br \/>\nbarbeiros, botic\u00e1rios, sangradores, ferradores, alfaiates, artes\u00e3os,<br \/>\nmuleiros, e toda a multid\u00e3o de gentes livres e pobres armadas de trabucos,<br \/>\nalbardas e chu\u00e7os, sempre puderam ser dominadas e reprimidas. Algumas<br \/>\nvezes com o simples concurso de gente submissa trazida dos engenhos para refor\u00e7ar<br \/>\nas tropas profissionais. Outras vezes, por\u00e9m, foi necess\u00e1rio<br \/>\ntravar verdadeiras batalhas e verter efus\u00f5es de sangue.<\/p>\n<p>A principal delas ocorreu em Pernambuco, em 1817, onde os insurgentes conquistaram<br \/>\no poder e s\u00f3 puderam ser desalojados dele depois de combates em que<br \/>\nlutavam milhares de soldados e que custaram centenas de vidas. A vit\u00f3ria<br \/>\nda ordem olig\u00e1rquica foi alcan\u00e7ada, afinal, sobre os corpos<br \/>\nde nove l\u00edderes enforcados em Pernambuco e quatro fuzilados na Bahia.<br \/>\nMas nem assim os pernambucanos se aquietaram, porque poucos anos depois novas<br \/>\nrevoltas, sob o mando de lideran\u00e7as ainda mais radicais, foram reprimidas<br \/>\ncom o fuzilamento de quinze patriotas. Cada crise surgida na estrutura do<br \/>\npoder enseja novas manifesta\u00e7\u00f5es populares que estouram em levantes.<br \/>\nAssim \u00e9 que, em 1831 e 1848, toda a \u00e1rea da cultura crioula<br \/>\nvolta a convulsionar-se v\u00e1rias vezes, travando-se lutas com milhares<br \/>\nde combatentes que custaram milhares de vidas, novas pris\u00f5es, execu\u00e7\u00f5es<br \/>\ne degredos.<\/p>\n<p>Estavam, ent\u00e3o, claramente postas em causa para as lide ran\u00e7as<br \/>\nurbanas nordestinas as bases mesmas da ordena\u00e7\u00e3o social vigente.<br \/>\nEntre essas a convic\u00e7\u00e3o da necessidade imperativa de abolir<br \/>\na escravid\u00e3o e a percep\u00e7\u00e3o da urg\u00eancia de uma reforma<br \/>\nagr\u00e1ria que ampliasse as bases econ\u00f4micas da sociedade. O deputado<br \/>\npernambucano Antonio Pedro de Figueiredo, em meados do s\u00e9culo passado,<br \/>\nadvogava para o Brasil a ado\u00e7\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o norte-americana<br \/>\npara o problema da terra: &#8220;[&#8230;] 200 ou 300 mil dos nossos concidad\u00e3os,<br \/>\nmais por ventura, vivem em terras de que podem ser despedidos dentro de poucas<br \/>\nhoras; humildes vassalos do propriet\u00e1rio, cujos \u00f3dios, partido<br \/>\npol\u00edtico etc. s\u00e3o obrigados a esposar. Nesse fato da grande<br \/>\npropriedade territorial, nesses novos latifundia, deparamos n\u00f3s a base<br \/>\ndesta feudalidade que mant\u00e9m diretamente sob jugo terr\u00edvel,<br \/>\nmetade da popula\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia, e oprime a outra metade<br \/>\npor meio de imenso poder que 1he d\u00e1 esta massa de vassalos obediente&#8221;<br \/>\n(apud Rodrigues 1965:61 ).&#8221; A vit\u00f3ria da velha ordem se imp\u00f4s,<br \/>\npor\u00e9m, a todos os revoltosos, consolidando a monarquia lusitana e,<br \/>\ncom ela, a escravid\u00e3o e o latif\u00fandio. A aboli\u00e7\u00e3o<br \/>\nda escravid\u00e3o s\u00f3 viria d\u00e9cadas depois. Embora tardia,<br \/>\nmergulha o sistema de fazendas numa s\u00e9ria crise estrutural. Entretanto,<br \/>\na circunst\u00e2ncia de que o ex-escravo n\u00e3o tinha para onde dirigir-se<br \/>\na fim de trabalhar para si mesmo, num mundo em que a terra fora monopolizada,<br \/>\no compeliria a permanecer no eito. Mudaria talvez de amo, para n\u00e3o<br \/>\nservir como homem livre \u00e0quele de quem fora escravo. A liberdade, todavia,<br \/>\nse reduziria \u00e0 assun\u00e7\u00e3o desse escravo \u00e0 posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde parceiro: receberia um trato de terra para lavrar, a fim de produzir a<br \/>\ncomida escassa que, agora, ningu\u00e9m lhe dava, com a obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde fazer os mesmos servi\u00e7os de outrora, mediante um pagamento que lhe<br \/>\npermitia comprar o sal, os panos e as pouqu\u00edssimas outras coisas indispens\u00e1veis<br \/>\npara cobrir a nudez e satisfazer \u00e0s necessidades elementares de sua<br \/>\nvida frugal.<\/p>\n<p>Assim, o mesmo modelo estrutural desenvolvido antes da aboli\u00e7\u00e3o<br \/>\npara incorporar ao trabalho a gente pobre e livre \u2013 o sistema de parceria<br \/>\npor mea\u00e7\u00e3o ou o regime de agregados que trabalham em terra alheia<br \/>\n&#8211; \u00e9 que se apresenta ao ex-escravo como seu horizonte de ascens\u00e3o<br \/>\nsocial e de integra\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Enquanto prevaleceu a escravid\u00e3o, os agregados dos engenhos e das<br \/>\nfazendas representavam um duplo papel. Eram os cooperadores menores do processo<br \/>\nprodutivo, encarregados de tarefas menos lucrativas, como o provimento da<br \/>\nsubsist\u00eancia das fazendas monocultoras e das vilas. E eram tamb\u00e9m<br \/>\nos aliados do propriet\u00e1rio na repress\u00e3o aos freq\u00fcentes<br \/>\nal\u00e7amentos da escravaria. Existe documenta\u00e7\u00e3o indicativa<br \/>\nde que muitos propriet\u00e1rios facilitavam a instala\u00e7\u00e3o<br \/>\nem suas terras de \u00edndios, mesti\u00e7os e brancos, localizando-os<br \/>\nna orla da explora\u00e7\u00e3o intensiva entregue ao bra\u00e7o escravo,<br \/>\ncomo auxiliares eventuais dos capatazes na sujiga\u00e7\u00e3o do negro<br \/>\n\u00e0 disciplina do trabalho no eito. Com a aboli\u00e7\u00e3o, os<br \/>\nnegros somaram-se a esses brancos e pardos pobres que, para enfatizar sua<br \/>\nsuperioridade de homens de tez mais clara, por vezes lhes agiam mais odientos<br \/>\nque os brancos ricos. A integra\u00e7\u00e3o de uns e outros na massa<br \/>\nmarginal da sociedade brasileira ainda se processa em nossos dias, dificultada<br \/>\npor hostilidades que disfar\u00e7am sua identidade fundamental de interesses,<br \/>\ncomo camada explorada.<\/p>\n<p>Esse novo homem livre, preto ou branco, formado no mundo do engenho a\u00e7ucareiro<br \/>\ncom sua hierarquia remarcada, enquanto nele permanece mergulhado \u00e9<br \/>\nquase t\u00e3o igualmente respeitoso e servil ao senhor e ao feitor quanto<br \/>\no antigo escravo, mesmo porque n\u00e3o conta com qualquer perspectiva de<br \/>\nsobreviver fora das fazendas.<\/p>\n<p>Essas condi\u00e7\u00f5es tornaram o negro mais resignado com seu destino,<br \/>\nagora melhorado pela assun\u00e7\u00e3o \u00e0 dignidade de ser humano<br \/>\ne ainda mais indoutrin\u00e1vel a uma concep\u00e7\u00e3o do mundo que<br \/>\nexplica a ordem social como sagrada, e a riqueza do rico e a pobreza do pobre<br \/>\ncomo destina\u00e7\u00f5es inapel\u00e1veis.<\/p>\n<p>A economia a\u00e7ucareira experimenta um segundo impacto inovador, a<br \/>\npartir de meados do s\u00e9culo XIX, quando a tecnologia da Revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nIndustrial invade seu dom\u00ednio. Tal se d\u00e1 com a substitui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo engenho de roda-d&#8217;\u00e1gua ou de tra\u00e7\u00e3o animal por instala\u00e7\u00f5es<br \/>\nmovidas a vapor, de efici\u00eancia e produtividade enormemente maiores.<br \/>\nCome\u00e7a com a implanta\u00e7\u00e3o de centrais de fabrico que adquirem<br \/>\na cana cultivada nas \u00e1reas vizinhas, transformando os antigos senhores<br \/>\nde engenho em meros fornecedores. Segue-se a concentra\u00e7\u00e3o da<br \/>\npropriedade das terras em m\u00e3os das centrais, que tomam a forma de grandes<br \/>\nusinas modernas, instaladas \u00e0 custa de empr\u00e9stimos a banqueiros<br \/>\nestrangeiros e estruturadas como sociedades an\u00f4nimas. Os senhores de<br \/>\nengenho, que sobrevivem no neg\u00f3cio como donos ou como cotistas das<br \/>\nnovas empresas, transferem-se para as cidades, entregando a casa-grande ao<br \/>\nadministrador e utilizando novos meios de transporte, como o trem e, mais<br \/>\ntarde, o autom\u00f3vel, para visitar periodicamente a propriedade.<\/p>\n<p>A essa crise se soma outra, decorrente da disputa do mercado interno com<br \/>\nnovas zonas produtoras de a\u00e7\u00facar instaladas no Sul, no Rio e<br \/>\nem S\u00e3o Paulo, pr\u00f3ximas aos centros consumidores. Nessa etapa,<br \/>\nassume papel decisivo a posi\u00e7\u00e3o social conquistada e, apesar<br \/>\nde tudo, mantida pela oligarquia patricial do a\u00e7\u00facar, que passaria<br \/>\na utiliz\u00e1-la cada vez mais para pleitear favores governamentais. A<br \/>\nind\u00fastria a\u00e7ucareira do Nordeste se mant\u00e9m, doravante,<br \/>\ngra\u00e7as \u00e0 ajuda oficial, na forma de empr\u00e9stimos de favor,<br \/>\nmorat\u00f3rias e privil\u00e9gios de mercado. Acaba, por\u00e9m, por<br \/>\nburocratizar-se pela interfer\u00eancia sempre mais impositiva de organiza\u00e7\u00f5es<br \/>\noficiais controladoras da produ\u00e7\u00e3o e da comercializa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNessas novas condi\u00e7\u00f5es, como propriet\u00e1rio de terras e<br \/>\nm\u00e1quinas hipotecadas &#8211; obtendo rendimentos garantidos pelo Estado -,<br \/>\no que possibilita a sobreviv\u00eancia da oligarquia a\u00e7ucareira \u00e9,<br \/>\nprincipalmente, sua capacidade de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, seu<br \/>\ncontrole do sistema partid\u00e1rio local e da vota\u00e7\u00e3o de<br \/>\nseus empregados. O velho senhor de engenho \u00e9 substitu\u00eddo por<br \/>\num patronato gerencial de empresas que ca\u00edram em m\u00e3os de firmas<br \/>\nbanc\u00e1rias.<\/p>\n<p>Os filhos bachar\u00e9is dos antigos senhores, todos eles citadinos, t\u00eam<br \/>\nagora como sua &#8220;fazenda&#8221; a cota de a\u00e7\u00f5es que restou<br \/>\nda propriedade familiar e, sobretudo, o er\u00e1rio p\u00fablico de que<br \/>\nse torna uma das principais clientelas.<\/p>\n<p>A \u00e1rea de cultura crioula assentada, embora, na economia a\u00e7ucareira<br \/>\nabrange v\u00e1rias atividades ancilares que complementam com outras formas<br \/>\nde produ\u00e7\u00e3o suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia<br \/>\ne d\u00e3o lugar a variantes rurais e urbanas de seu modo de vida.<\/p>\n<p>Dentre outras, se contam diversas especializa\u00e7\u00f5es produtivas<br \/>\nque diversificaram certas parcelas da popula\u00e7\u00e3o e certas zonas,<br \/>\nconfigurando intrus\u00f5es dentro da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Tais s\u00e3o, principalmente, os n\u00facleos litor\u00e2neos de pescadores<br \/>\n&#8211; os jangadeiros nordestinos -, de salineiros e as sub\u00e1reas de cultivo<br \/>\ndo cacau e do tabaco e as explora\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo do<br \/>\nrec\u00f4ncavo baiano. Apesar das diferen\u00e7as de seus modos de produ\u00e7\u00e3o,<br \/>\nessas intrus\u00f5es representam, pela composi\u00e7\u00e3o de seus<br \/>\ncontingentes populacionais, por seu patrim\u00f4nio de saber, de normas e<br \/>\nde valores, meras variantes da cultura crioula.<\/p>\n<p>Depois da independ\u00eancia, muito poucas altera\u00e7\u00f5es afetam<br \/>\na vida da massa assalariada que permanece atada \u00e0s planta\u00e7\u00f5es<br \/>\ne submetida ao mando imediato dos capatazes. S\u00f3 recentemente, com um<br \/>\nrompimento epis\u00f3dico da hegemonia pol\u00edtica do patronato a\u00e7ucareiro,<br \/>\nsurgiram novas fontes de poder influentes sobre o Estado, que amea\u00e7am<br \/>\nimpor uma reordena\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>De fato, entre 1960 e 1964, se come\u00e7ou a rever as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo trabalho rural, j\u00e1 n\u00e3o levando em conta exclusivamente os<br \/>\ninteresses olig\u00e1rquicos. Assim, se estabelece um sistema de comunica\u00e7\u00f5es<br \/>\nque defendia novos valores, representados politicamente por lideran\u00e7as<br \/>\nque falavam outra linguagem. Empenhavam-se, nessa luta, lado a lado, lideran\u00e7as<br \/>\nde esquerda e um novo clero que volta a despertar para suas responsabilidades<br \/>\nsociais e para o combate contra a velha ordem. Nesse movimento foram criadas<br \/>\ncentenas de ligas camponesas e de sindicatos rurais que abriram ao ativismo<br \/>\npol\u00edtico o quadro social nordestino como jamais ocorrera antes.<\/p>\n<p>Em 1963, se alcan\u00e7ou, por essa via, impor o pagamento em dinheiro<br \/>\ndo sal\u00e1rio m\u00ednimo regional, mediante uma eleva\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pre\u00e7o do a\u00e7\u00facar destinada a custear esses gastos,<br \/>\ntal como se fez, antes, em benef\u00edcio exclusivo dos usineiros. Como<br \/>\nseria de esperar, essas medidas subversivas provocaram a rea\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais indignada do patronato, que se uniu em protestos contra essa interven\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8220;abusiva&#8221; no seu mundo privativo, que lhe prev\u00ea as rendas<br \/>\nque usufrui e lhe proporciona os votos que negocia, permitindo manter os privil\u00e9gios<br \/>\nque desfruta por direito de heran\u00e7a e por for\u00e7a de sua hegemonia<br \/>\npol\u00edtica.<\/p>\n<p>Essas transforma\u00e7\u00f5es pareciam anunciar a morte do patronato<br \/>\na\u00e7ucareiro, de h\u00e1 muito ocorrida no plano econ\u00f4mico, mas<br \/>\nque conseguira manter a face e o prest\u00edgio pela preserva\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmediante processos pol\u00edticos, da antiga domina\u00e7\u00e3o. Anunciava,<br \/>\ntamb\u00e9m, no Nordeste a\u00e7ucareiro, a obsolesc\u00eancia de uma<br \/>\ncultura crioula tradicional, tornada arcaica, e a emerg\u00eancia de uma<br \/>\ncultura moderna, de base industrial, que parecia destinada a reordenar as<br \/>\nvelhas formas de vida social.<\/p>\n<p>Por esse caminho se ia gerando no trabalhador analfabeto e miser\u00e1vel<br \/>\numa nova consci\u00eancia do mundo e de si mesmo. Criavam-se condi\u00e7\u00f5es<br \/>\npara substituir a antiga resigna\u00e7\u00e3o e passividade em face do<br \/>\ngrande mundo dos poderosos e a concep\u00e7\u00e3o sagrada da ordem social<br \/>\npor uma atitude cada vez mais inconformada com a pobreza que se come\u00e7ava<br \/>\na explicar em termos seculares e din\u00e2micos. Desse modo, aos poucos se<br \/>\nia preenchendo as condi\u00e7\u00f5es para a integra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas popula\u00e7\u00f5es rurais nordestinas nas formas de vida de trabalhadores<br \/>\nlivres e para o exerc\u00edcio do papel de cidad\u00e3os de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Todas essas esperan\u00e7as se frustraram, por\u00e9m, com a derrubada<br \/>\ndo governo reformista, que propiciara essa mobiliza\u00e7\u00e3o, e o<br \/>\nretorno \u00e0 estrutura do poder, por m\u00e3os do regime militar, da<br \/>\nvelha oligarquia, para defender a perpetua\u00e7\u00e3o de seus interesses<br \/>\nminorit\u00e1rios.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem suponha que a repress\u00e3o \u00e0 rebeldia nordestina<br \/>\ntenha sido das piores que o Brasil sofreu e que, nela, milhares de camponeses<br \/>\ne seus companheiros de luta foram torturados, dizimados, mortos e dispersados.<\/p>\n<h2>3. O BRASIL CABOCLO<\/h2>\n<p>&#8220;[&#8230;] e toda aquela gente se acabou ou n\u00f3s a acabamos; em pouco<br \/>\nmais de trinta anos [&#8230;] eram mortos dos ditos \u00edndios mais de dois<br \/>\nmilh\u00f5es [&#8230;] Pe. Ant\u00f4nio Vieira, 1652&#8221; A \u00e1rea de<br \/>\nfloresta tropical da bacia amaz\u00f4nica cobre quase metade do territ\u00f3rio<br \/>\nbrasileiro, mas sua popula\u00e7\u00e3o mal comporta 10% da nacional.<br \/>\nSua incorpora\u00e7\u00e3o ao Brasil se fez por heran\u00e7a do patrim\u00f4nio<br \/>\ncolonial portugu\u00eas, pela unidade de forma\u00e7\u00e3o cultural<br \/>\nfundada nas mesmas matrizes b\u00e1sicas, e pela emigra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde cerca de meio milh\u00e3o de nordestinos conduzidos \u00e0 Amaz\u00f4nia<br \/>\nnas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado e nas primeiras<br \/>\ndeste, para a explora\u00e7\u00e3o, dos seringais nativos. Essa integra\u00e7\u00e3o<br \/>\nterritorial, cultural e humana se vem fazendo org\u00e2nica, nos \u00faltimos<br \/>\nanos, gra\u00e7as \u00e0s comunica\u00e7\u00f5es diretas estabelecidas<br \/>\natrav\u00e9s dos rios que correm do planalto central para o Amazonas e das<br \/>\nrodovias rec\u00e9m-abertas para ligar Bras\u00edlia ao Rio-Mar e, incipientemente,<br \/>\npara cortar transamazonicamente a floresta, de norte a sul, de leste a oeste.<\/p>\n<p>Hoje, a Amaz\u00f4nia se oferece ao Brasil como sua grande \u00e1rea<br \/>\nde expans\u00e3o, para a qual inevitavelmente milh\u00f5es de brasileiros<br \/>\nj\u00e1 est\u00e3o se transladando e continuar\u00e3o a se transladar<br \/>\nno futuro. A floresta vem sendo atacada em toda a sua orla e tamb\u00e9m<br \/>\ndesde dentro num movimento demogr\u00e1fico poderoso, movido por fatores<br \/>\necon\u00f4micos e ecol\u00f3gicos. Mais de metade da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\noriginal de caboclos da Amaz\u00f4nia j\u00e1 foi desalojada de seus assentos,<br \/>\njogada nas cidades de Bel\u00e9m e Manaus. Perde-se, assim, toda a sabedoria<br \/>\nadaptativa milenar que essa popula\u00e7\u00e3o havia aprendido dos \u00edndios<br \/>\npara viver na floresta.<\/p>\n<p>Os novos povoadores tudo ignoram; v\u00eaem a floresta como obst\u00e1culo.<br \/>\nSeu prop\u00f3sito \u00e9 tomb\u00e1-la para convert\u00ea-la em pastagens<br \/>\nou em grandes plantios comerciais. A efic\u00e1cia desse modo de ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 de todo duvidosa, mas sua capacidade de imporse \u00e9 inelut\u00e1vel,<br \/>\nmesmo porque conta com as gra\u00e7as do governo. A ditadura militar chegou<br \/>\nmesmo a subsidiar grandes empres\u00e1rios estrangeiros, atra\u00eddos<br \/>\npela doa\u00e7\u00e3o de imensas glebas de terra e com financiamentos<br \/>\na juros negativos dos empreendimentos que lan\u00e7assem. Devolvia, inclusive,<br \/>\no imposto de renda de grandes grupos empresariais do sul do pa\u00eds que<br \/>\nprometessem aplic\u00e1-lo na Amaz\u00f4nia. Esses programas levaram a<br \/>\num redondo fracasso. N\u00e3o assim a invas\u00e3o sorrateira de toda<br \/>\na floresta por gente desalojada dos latif\u00fandios e at\u00e9 dos minif\u00fandios<br \/>\nde todo o Brasil, que ali est\u00e1 aprendendo a viver na mata, criando<br \/>\num novo g\u00eanero de ocupa\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o se configurou.<\/p>\n<p>O sistema fluvial Solim\u00f5es-Amazonas percorre mais de 5 mil quil\u00f4metros<br \/>\nem territ\u00f3rio brasileiro, desde a fronteira peruana at\u00e9 o delta,<br \/>\nna ilha de Maraj\u00f3.<\/p>\n<p>Representa, para a navega\u00e7\u00e3o, uma extens\u00e3o do litoral<br \/>\natl\u00e2ntico, continente adentro, por onde podem entrar grandes navios.<br \/>\nSeus principais afluentes decuplicam a extens\u00e3o naveg\u00e1vel, formando<br \/>\na mais ampla das redes fluviais.<\/p>\n<p>Toda a \u00e1rea era ocupada, originalmente, por tribos ind\u00edgenas<br \/>\nde adapta\u00e7\u00e3o especializada \u00e0 floresta tropical. A maioria<br \/>\ndelas dominava as t\u00e9cnicas de lavoura praticadas pelos grupos Tupi<br \/>\ndo litoral atl\u00e2ntico, com que se depararam os descobridores. Em algumas<br \/>\nv\u00e1rzeas e manchas de terra de excepcional fertilidade e de f\u00e1cil<br \/>\nprovimento alimentar, atrav\u00e9s da ca\u00e7a e da pesca, floresceram<br \/>\nculturas ind\u00edgenas de mais alto n\u00edvel tecnol\u00f3gico, como<br \/>\nas de Maraj\u00f3 e de Tapaj\u00f3s, que podiam manter aldeamentos com<br \/>\nalguns milhares de habitantes.<\/p>\n<p>Eram, todavia, sociedades de n\u00edvel tribal, classific\u00e1veis<br \/>\ncomo aldeias agr\u00edcolas indiferenciadas, porque n\u00e3o chegaram<br \/>\na desenvolver n\u00facleos urbanos, nem se estratificaram em classes, j\u00e1<br \/>\nque todos estavam igualmente sujeitos \u00e0s tarefas de produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nalimentar, nem tinham corpos diferenciados de militares e de comerciantes.<\/p>\n<p>Ensejavam, por\u00e9m, condi\u00e7\u00f5es de conv\u00edvio social<br \/>\namplo e de dom\u00ednio de extensas \u00e1reas. Os cronistas, que documentaram<br \/>\naqueles aldeamentos ap\u00f3s os primeiros contatos com a civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nressaltaram o vulto das popula\u00e7\u00f5es, que se contavam por milhares<br \/>\nem cada aldeia, a fartura alimentar e a alegria de viver que gozavam. Estudos<br \/>\narqueol\u00f3gicos recentes est\u00e3o revelando a extraordin\u00e1ria<br \/>\nqualidade do seu artesanato, sobretudo da cer\u00e2mica modelada e colorida.<\/p>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o dificilmente poderia ser repetida, hoje, para<br \/>\nqualquer dos contingentes populacionais da Amaz\u00f4nia, todos engolfados<br \/>\nna mais vil pen\u00faria. Em nenhuma outra regi\u00e3o brasileira a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nenfrenta t\u00e3o duras condi\u00e7\u00f5es de miserabilidade quanto<br \/>\nos n\u00facleos caboclos dispersos pela floresta, devotados ao extrativismo<br \/>\nvegetal e, agora, tamb\u00e9m ao extrativismo mineral do ouro e do estanho.<\/p>\n<p>Os seus modos de vida constituem uma variante sociocultural t\u00edpica<br \/>\nda sociedade nacional que, embora comporte algumas diferencia\u00e7\u00f5es<br \/>\nfuncionais, segundo o tipo de produ\u00e7\u00e3o em que se engaje a popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\napresenta suficiente uniformidade para ser tratada em conjunto como uma \u00e1rea<br \/>\ncultural.<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica b\u00e1sica dessa variante \u00e9 o primitivismo<br \/>\nde sua tecnologia adaptativa, essencialmente ind\u00edgena, conservada e<br \/>\ntransmitida, atrav\u00e9s de s\u00e9culos, sem altera\u00e7\u00f5es<br \/>\nsubstanciais. E a inadequa\u00e7\u00e3o desse modo de a\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre a natureza para prever condi\u00e7\u00f5es de vida satisfat\u00f3rias<br \/>\ne um m\u00ednimo de integra\u00e7\u00e3o nas modernas sociedades de<br \/>\nconsumo. Na verdade, a civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se revelou capaz,<br \/>\nat\u00e9 agora, de desenvolver um sistema adaptativo ajustado \u00e0s<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es da floresta tropical, multiplic\u00e1vel atrav\u00e9s<br \/>\nde um modelo empresarial que lhe assegure viabilidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O correspondente amaz\u00f4nico do engenho a\u00e7ucareiro, da grande<br \/>\nlavoura comercial ou da fazenda de cria\u00e7\u00e3o de gado das \u00e1reas<br \/>\npastoris \u00e9 uma empresa extrativista florestal, incipientemente capitalista:<br \/>\no seringal. Ele s\u00f3 p\u00f4de operar economicamente enquanto manteve<br \/>\no monop\u00f3lio da produ\u00e7\u00e3o mundial da borracha, fazendo-se<br \/>\npagar pre\u00e7os dez vezes mais altos do que os atuais. Com o surgimento<br \/>\nde seringais cultivados no Oriente e da borracha sint\u00e9tica, a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda borracha nativa tornou- se economicamente invi\u00e1vel. Desde ent\u00e3o,<br \/>\no seringal s\u00f3 sobrevive gra\u00e7as a um protecionismo estatal que<br \/>\no mant\u00e9m artificialmente, subvencionando o patronato seringalista,<br \/>\nmas sem a preocupa\u00e7\u00e3o de amparar a massa de trabalhadores nele<br \/>\nengajada. Esta situa\u00e7\u00e3o permanece inalter\u00e1vel h\u00e1<br \/>\nmeio s\u00e9culo, submetendo as popula\u00e7\u00f5es da Amaz\u00f4nia<br \/>\n\u00e0 maior mis\u00e9ria, sem lhes ensejar uma alternativa de inserir-<br \/>\nse em outras formas de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o do modo de vida das popula\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas<br \/>\ne dos problemas com que se defrontam exige, por\u00e9m, um breve exame hist\u00f3rico<br \/>\nde como chegaram elas \u00e0 presente situa\u00e7\u00e3o e das principais<br \/>\nfor\u00e7as sociais que atuaram para conformar o seu destino. Esse exame<br \/>\nmostra que a penetra\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o do vale<br \/>\nse fizeram como grandes empreendimentos, seguidos sempre de largos per\u00edodos<br \/>\nlet\u00e1rgicos, at\u00e9 atingir o \u00faltimo, que j\u00e1 dura<br \/>\nquase um s\u00e9culo. Os protagonistas desses esfor\u00e7os foram alguns<br \/>\nlusitanos, muitos neobrasileiros mesti\u00e7os, sa\u00eddos daquelas primeiras<br \/>\nc\u00e9lulas- Brasil, e a indiada engajada como m\u00e3o-de-obra escrava<br \/>\npara todas as tarefas pesadas e gasta nesse duro trabalho.<\/p>\n<p>Com efeito, a ocupa\u00e7\u00e3o portuguesa do rio Amazonas se faz,<br \/>\ninicialmente, visando a expulsar os franceses, holandeses e ingleses, deserdados<br \/>\nno Tratado de Tordesilhas, que procuravam instalar-se nas vizinhan\u00e7as<br \/>\nde sua desembocadura. Para isso tiveram que travar lutas e construir fortifica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEstas come\u00e7aram a operar na regi\u00e3o como feitorias, traficando<br \/>\ncom os \u00edndios aliados as drogas da mata por bugigangas. Quando se aperceberam<br \/>\ndo valor comercial das especiarias assim obtidas, substitutivas das que Portugal<br \/>\ntrazia das \u00cdndias, um esfor\u00e7o deliberado se empreendeu para<br \/>\nracionalizar e ampliar o neg\u00f3cio. Como a \u00fanica forma fact\u00edvel<br \/>\nde obter maior produ\u00e7\u00e3o constitu\u00eda a escraviza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos \u00edndios para os compelir a um trabalho regular, isso foi feito.<br \/>\nA maior dificuldade, por\u00e9m, estava na conting\u00eancia inevit\u00e1vel<br \/>\nde deixar os \u00edndios soltos, para juntar as cobi\u00e7adas especiarias<br \/>\nque crescem, ao acaso, na mata infinita. A solu\u00e7\u00e3o consistiu<br \/>\nem escravizar aldeias inteiras, mantendo as mulheres e as crian\u00e7as<br \/>\npraticamente como ref\u00e9ns, enquanto os homens trabalhavam nas expedi\u00e7\u00f5es<br \/>\nque batiam a floresta.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o ind\u00edgena a esse tratamento desencadeou a guerra<br \/>\ne o afastamento das tribos antes aliadas para ref\u00fagios em que se punham<br \/>\na salvo da escravid\u00e3o. Impondo- se ir busc\u00e1-los onde se acoitassem,<br \/>\norganizaram-se grandes expedi\u00e7\u00f5es que subiam os rios na preia<br \/>\naos \u00edndios arredios. Essas foram as tropas de resgate, solu\u00e7\u00e3o<br \/>\ncara e prec\u00e1ria, porque sempre ocupava mais gente na guerra que no<br \/>\ntrabalho e matava mais \u00edndios do que escravizava, reduzindo-se, assim,<br \/>\no contingente humano que deveria aliciar.<\/p>\n<p>Uma solu\u00e7\u00e3o melhor seria encontrada com a instala\u00e7\u00e3o<br \/>\nde n\u00facleos mission\u00e1rios, principalmente jesu\u00edticos mas<br \/>\ntamb\u00e9m carmelitas e franciscanos. Mas estes tiveram que lutar muito<br \/>\ncom os pr\u00f3prios colonizadores para a impor como a mais racional e proveitosa.<br \/>\nO acordo se fez, afinal. Os catec\u00famenos de cada miss\u00e3o-aldeamento<br \/>\neram divididos em tr\u00eas grupos. Um ter\u00e7o para os servi\u00e7os<br \/>\ndos padres, incluindo de prefer\u00eancia os \u00edndios rec\u00e9m-preados,<br \/>\naos quais n\u00e3o se poderia impor, ainda, todo o peso do guante escravizador.<br \/>\nUm outro ter\u00e7o para a edifica\u00e7\u00e3o das obras p\u00fablicas<br \/>\ne o servi\u00e7o das autoridades da Coroa. E o ter\u00e7o restante para<br \/>\nser distribu\u00eddo entre os colonizadores nas quadras de coleta de drogas<br \/>\nda mata.<\/p>\n<p>Para os \u00edndios condenados a uma escravid\u00e3o ainda mais dura<br \/>\nem m\u00e3os dos colonizadores, o regime das miss\u00f5es, se n\u00e3o<br \/>\nrepresentava uma amenidade, era todavia mais suport\u00e1vel. Permitia-lhes<br \/>\nsobreviver, por vezes conservar certa vida familiar, quando suas mulheres<br \/>\nn\u00e3o eram cobi\u00e7adas por algum portugu\u00eas ou mesti\u00e7o,<br \/>\ne manter um conv\u00edvio comunit\u00e1rio que ensejava a transmiss\u00e3o<br \/>\nde suas tradi\u00e7\u00f5es. Mas, mesmo assim, a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nind\u00edgena se desgastava rapidamente, exigindo constantes reposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Come\u00e7a, ent\u00e3o, a etapa dos descimentos, promovida pelos mission\u00e1rios,<br \/>\npara fazer baixar, pela persuas\u00e3o ou pela for\u00e7a, malocas inteiras<br \/>\nrefugiadas nos altos cursos dos rios para os aldeamentos-redu\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEstes se fazem mistos, incorporando gente de diferentes tribos, de l\u00ednguas<br \/>\ne costumes diversos, submetidos todos \u00e0 m\u00f3 civilizadora do trabalho<br \/>\nextrativista, do servi\u00e7o obrigat\u00f3rio nas obras p\u00fablicas<br \/>\n&#8211; constru\u00e7\u00e3o de fortifica\u00e7\u00f5es, portos, edif\u00edcios<br \/>\nadministrativos, casas senhoriais -, bem como das lavouras de subsist\u00eancia<br \/>\ndos pr\u00f3prios aldeamentos e da edifica\u00e7\u00e3o de igrejas e<br \/>\nconventos.<\/p>\n<p>A disciplina imposta por esses trabalhos e as condi\u00e7\u00f5es de conv\u00edvio<br \/>\nentre \u00edndios de diferentes matrizes impuseram a homogeneiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nling\u00fc\u00edstica e o enquadramento cultural compuls\u00f3rio do ind\u00edgena<br \/>\nno corpo de cren\u00e7as e nos modos de vida dos seus cativadores. Sob essas<br \/>\ncompuls\u00f5es \u00e9 que se tupinizaram as popula\u00e7\u00f5es abor\u00edgenes<br \/>\nda Amaz\u00f4nia, em sua maioria pertencentes a outros troncos ling\u00fc\u00edsticos,<br \/>\nmas que passaram a falar a l\u00edngua geral, aprendida n\u00e3o como um<br \/>\nidioma ind\u00edgena, mas como a fala da civiliza\u00e7\u00e3o, como ocorria<br \/>\nent\u00e3o com quase toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o dos aldeamentos-redu\u00e7\u00f5es expandiu-se<br \/>\npor todo o vale, que se fazia brasileiro \u00e0 medida que recrutava a massa<br \/>\nde trabalhadores ind\u00edgenas indispens\u00e1vel para ampliar a produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nde drogas da mata, que Portugal negociava em toda a Europa. Tais eram o cacau,<br \/>\nainda selvagem, o cravo, a canela, o urucu e a baunilha, al\u00e9m do a\u00e7afr\u00e3o,<br \/>\nda salsaparrilha, da quina, do puxuri e grande n\u00famero de sementes,<br \/>\ncascas, tub\u00e9rculos, \u00f3leos e resinas.<\/p>\n<p>Os aldeamentos mission\u00e1rios, sobretudo jesu\u00edticos, concentrando<br \/>\ngrande n\u00famero de \u00edndios, exerceram uma a\u00e7\u00e3o aculturativa<br \/>\nintensa, que permitiu difundir algumas t\u00e9cnicas artesanais, como a<br \/>\ntecelagem e a edifica\u00e7\u00e3o com pedra e cal; novas esp\u00e9cies<br \/>\nde cultivo, como o arroz, a cana-de-a\u00e7\u00facar e o anil; introduzir<br \/>\na cria\u00e7\u00e3o de animais dom\u00e9sticos, como o porco e a galinha<br \/>\ne, em certas \u00e1reas, iniciar a cria\u00e7\u00e3o de gado maior.<br \/>\nTodavia, tiveram pouca relev\u00e2ncia na cria\u00e7\u00e3o de uma f\u00f3rmula<br \/>\nde adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 floresta tropical, que permaneceu presa<br \/>\n\u00e0s solu\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas originais, pela inadequa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas novas t\u00e9cnicas a um meio ecol\u00f3gico t\u00e3o diferente<br \/>\ndo europeu.<\/p>\n<p>Mesmo as t\u00e9cnicas artesanais representaram um papel social pouco<br \/>\nrelevante, porque os tecidos de qualidade, as casas de pedra e cal, as comidas<br \/>\neurop\u00e9ias sempre se destinaram \u00e0 estreita camada dominante,<br \/>\nn\u00e3o chegando jamais aos trabalhadores. Sua influ\u00eancia maior ter\u00e1<br \/>\nsido o desenvolvimento de uma religiosidade folcl\u00f3rica e pouco ortodoxa,<br \/>\nque resultou numa cren\u00e7a popular de colcha de retalhos, fundada no<br \/>\nsincretismo da pajelan\u00e7a ind\u00edgena com um vago culto de santos<br \/>\ne datas do calend\u00e1rio religioso cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>Vivendo nas comunidades que cresciam em torno dos centros de autoridade<br \/>\nreal e do com\u00e9rcio, contando, embora, com sua pr\u00f3pria indiada<br \/>\ncativa ou dependente, os colonizadores viam limitadas suas perspectivas de<br \/>\nriqueza pelo crescimento do sistema de redu\u00e7\u00f5es, que aglutinava<br \/>\na massa maior de \u00edndios. Conflitos semelhantes aos de outras \u00e1reas<br \/>\nirrompiam, periodicamente, entre essas duas faces da civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\napesar do modus vivendi que haviam alcan\u00e7ado. Por longo tempo cresceram,<br \/>\nlado a lado, as duas for\u00e7as como mecanismos diferentes de sujiga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos \u00edndios. Ambas reduzindo progressivamente as popula\u00e7\u00f5es<br \/>\ntribais aut\u00f4nomas, pela incorpora\u00e7\u00e3o no sistema de cont\u00e1gio<br \/>\nque as dizimava, vitimadas por enfermidades antes desconhecidas, pela guerra<br \/>\ne pelo engajamento e desgaste no trabalho.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s desse processo foi surgindo uma popula\u00e7\u00e3o nova,<br \/>\nherdeira da cultura tribal no que ela tinha de f\u00f3rmula adaptativa \u00e0<br \/>\nfloresta tropical. Falava uma l\u00edngua ind\u00edgena, muito embora<br \/>\nesta se difundisse como a l\u00edngua da civiliza\u00e7\u00e3o, aprendida<br \/>\nde brancos e mesti\u00e7os. Identificava as plantas e os bichos da mata,<br \/>\nas \u00e1guas e as formas de vida aqu\u00e1tica, os duendes e as visagens,<br \/>\nsegundo conceitos e termos das culturas originais.<\/p>\n<p>Provia sua subsist\u00eancia atrav\u00e9s de ro\u00e7ados de mandioca,<br \/>\nde milho e de algumas dezenas de outras culturas tropicais, tamb\u00e9m<br \/>\nherdadas dos \u00edndios. Do mesmo modo como os \u00edndios, ca\u00e7ava,<br \/>\npescava, coletava pequenos animais, frutos e tub\u00e9rculos.<\/p>\n<p>Navegava pelos rios com canoas e balsas ind\u00edgenas, constru\u00eda<br \/>\nsuas rancharias e as provia de utens\u00edlios segundo as velhas t\u00e9cnicas<br \/>\ntribais. Ainda como os \u00edndios comia, dormia, vivia, enfim, no mundo<br \/>\nde florestas e \u00e1guas em que se ia instalando. Como os \u00edndios,<br \/>\nfinalmente, localizava e coletava na mata as especiarias cujo valor comercial<br \/>\ntornava vi\u00e1vel a ocupa\u00e7\u00e3o neobrasileira da Amaz\u00f4nia<br \/>\ne a vinculara \u00e0 economia internacional.<\/p>\n<p>Mais do que transmissores de modos tradicionais de sobreviv\u00eancia na<br \/>\nfloresta \u00famida, desenvolvidos em mil\u00eanios de esfor\u00e7o adaptativo,<br \/>\nos \u00edndios foram o saber, o nervo e o m\u00fasculo dessa sociedade<br \/>\nparasit\u00e1ria. \u00cdndios \u00e9 que fixavam os rumos, remavam as<br \/>\ncanoas, abriam picadas na mata, descobriam e exploravam as concentra\u00e7\u00f5es<br \/>\nde especiarias, lavravam a terra e preparavam o alimento. Nenhum colonizador<br \/>\nsobreviveria na mata amaz\u00f4nica sem esses \u00edndios que eram seus<br \/>\nolhos, suas m\u00e3os e seus p\u00e9s.<\/p>\n<p>A Coroa portuguesa esfor\u00e7ou-se por estabilizar a sociedade nascente,<br \/>\nestimulando o cultivo de algumas plantas ind\u00edgenas, como o tabaco,<br \/>\no cacau e o algod\u00e3o. Para essas tarefas produtivas e tamb\u00e9m<br \/>\npara consolidar o seu dom\u00ednio da \u00e1rea disputada pelos espanh\u00f3is,<br \/>\nintroduziu na Amaz\u00f4nia colonos das ilhas atl\u00e2nticas, principalmente<br \/>\ndos A\u00e7ores. Esse foi o \u00fanico contingente colonizador trazido<br \/>\npara a Amaz\u00f4nia para transplantar um modo europeu de vida. Vinham estruturados<br \/>\nem fam\u00edlias, trazendo, cada homem, sua mulher, seus filhos e, por vezes,<br \/>\numas poucas cabe\u00e7as de gado.<\/p>\n<p>Formaram inicialmente alguns n\u00facleos agr\u00edcolas, mas esses<br \/>\nforam ganhos progressivamente para os modos de vida da regi\u00e3o, for\u00e7ados<br \/>\npelo maior valor adaptativo das f\u00f3rmulas ind\u00edgenas de trabalho<br \/>\ne de alimenta\u00e7\u00e3o e, sobretudo, pelo atrativo econ\u00f4mico<br \/>\nda explora\u00e7\u00e3o das drogas da mata. Assim \u00e9 que a maioria<br \/>\ndesses n\u00facleos acabou dispersando-se, engajados na economia extrativista.<br \/>\nContudo, a exist\u00eancia de mercados urbanos locais permitiu a alguns desses<br \/>\na\u00e7orianos e a umas poucas miss\u00f5es religiosas fundar estabelecimentos<br \/>\nagr\u00edcolas de gado, que enriqueceram a economia com novos tipos de produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nalimentar e artesanal nas manchas de pastagem nativa de Maraj\u00f3 e do<br \/>\nRio Branco. Surgiram, ali, esdr\u00faxulas formas pastoris de &#8220;ga\u00fachos&#8221;<br \/>\namaz\u00f4nicos que montavam, indiferentemente, cavalos, bois ou b\u00fafalos<br \/>\npara cuidar de seus rebanhos, meio metidos na \u00e1gua.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o neobrasileira da Amaz\u00f4nia formou-se tamb\u00e9m<br \/>\npela mesti\u00e7agem de brancos com \u00edndias, atrav\u00e9s de um<br \/>\nprocesso secular em que cada homem nascido na terra ou nela introduzido cruzava-se<br \/>\ncom \u00edndias e mesti\u00e7as, gerando um tipo racial mais ind\u00edgena<br \/>\nque branco. Incapaz de atender aos apelos da gente boa da terra, que pedia<br \/>\nmulheres portuguesas, a Coroa acabou por dignificar atrav\u00e9s da lei<br \/>\ne por estimular mediante regalias e pr\u00eamios o cruzamento com mulheres<br \/>\nda terra.<\/p>\n<p>Independentemente dessa pol\u00edtica oficial, por\u00e9m, a mesti\u00e7agem<br \/>\nse vinha fazendo desde os primeiros tempos da coloniza\u00e7\u00e3o. A<br \/>\nnovidade consistia, para o portugu\u00eas, em tomar uma das \u00edndias<br \/>\nsemicativas como esposa oficial, diferenciando os filhos desta como seus herdeiros<br \/>\nem detrimento do conjunto dos que gerava.<\/p>\n<p>Desse modo, ao lado da vida tribal que fenecia em todo o vale, al\u00e7ava-se<br \/>\numa sociedade nova de mesti\u00e7os que constituiria uma variante cultural<br \/>\ndiferenciada da sociedade brasileira: a dos caboclos da Amaz\u00f4nia. Seu<br \/>\nmodo de vida, essencialmente ind\u00edgena enquanto adapta\u00e7\u00e3o<br \/>\necol\u00f3gico-cultural, contrastava flagrantemente, no plano social, com<br \/>\no estilo de vida tribal. Em suas comunidades originais, voltadas exclusivamente<br \/>\npara o preenchimento das suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia,<br \/>\nos \u00edndios haviam conseguido, com as mesmas t\u00e9cnicas, uma grande<br \/>\nfartura alimentar e a manuten\u00e7\u00e3o de sua autonomia cultural.<br \/>\nTrasladada aos novos n\u00facleos, a adapta\u00e7\u00e3o ind\u00edgena<br \/>\napenas permitia n\u00e3o morrer de fome, porque as novas comunidades se<br \/>\nocupavam mais de tarefas produtivas de car\u00e1ter mercantil, requeridas<br \/>\npelo mercado externo, do que da pr\u00f3pria subsist\u00eancia. Uma e outra<br \/>\nse opunham tipologicamente como sociedades tribais aut\u00f4nomas de economia<br \/>\ncomunit\u00e1ria e como n\u00facleos locais de uma sociedade estratificada,<br \/>\nvoltada para a produ\u00e7\u00e3o mercantil e gerida por interesses ex\u00f3genos.<\/p>\n<p>O pleno amadurecimento da nova estrutura societ\u00e1ria s\u00f3 se<br \/>\ndeu com o rompimento da dualidade que a dividia em redu\u00e7\u00f5es<br \/>\nmissioneiras e n\u00facleos colonizadores. Tal se deu com a expuls\u00e3o<br \/>\ndos jesu\u00edtas, que teve dois efeitos cruciais. Primeiro, derrubou as<br \/>\nbarreiras opostas \u00e0 completa sujiga\u00e7\u00e3o do gentio e sua<br \/>\nintegra\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria na nova sociedade como trabalhadores<br \/>\nescravos. Segundo, fortaleceu a camada olig\u00e1rquica da sociedade cabocla<br \/>\nnascente pela distribui\u00e7\u00e3o, entre funcion\u00e1rios e comerciantes,<br \/>\ndas propriedades jesu\u00edticas, com suas casas, lavouras e rebanhos de<br \/>\ngado vacum, al\u00e9m da indiaria. Esses sucessores dos mission\u00e1rios,<br \/>\nque assim se apropriaram de suas fazendas &#8211; s\u00f3 na ilha de Maraj\u00f3<br \/>\nos padres tinham mais de 400 mil cabe\u00e7as de gado -, v\u00eam sendo<br \/>\ndesignados, desde ent\u00e3o, como os &#8220;contemplados&#8221;.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, a Coroa portuguesa, empenhada em consolidar a ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Amaz\u00f4nia, fez grandes investimentos na \u00e1rea, custeados pelo<br \/>\nouro de Minas Gerais, construindo uma rede de cidades urbanizadas e dotadas<br \/>\nde servi\u00e7os p\u00fablicos e igrejas que chegaram a ser suntuosos<br \/>\npara a regi\u00e3o. Alguns deles, constru\u00eddos em cantaria importada<br \/>\nde Portugal, ainda est\u00e3o de p\u00e9 e constituem as melhores edifica\u00e7\u00f5es<br \/>\nde certas \u00e1reas e o orgulho de sua civiliza\u00e7\u00e3o urbana.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter distributivo dessa pol\u00edtica atendeu inicialmente<br \/>\n\u00e0s aspira\u00e7\u00f5es dos colonos, mas criou problemas posteriores<br \/>\npela retra\u00e7\u00e3o das tribos ind\u00edgenas interioranas que os<br \/>\njesu\u00edtas vinham atraindo para as redu\u00e7\u00f5es e integrando<br \/>\nna sociedade cabocla atrav\u00e9s da destribaliza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria.<br \/>\nAs atividades extrativistas deca\u00edram e iniciou-se uma economia agr\u00edcola<br \/>\nde g\u00eaneros tropicais. Durante um breve per\u00edodo de crise no abastecimento<br \/>\nmundial de algod\u00e3o e de arroz, provocado pelas lutas de independ\u00eancia<br \/>\ndos norte-americanos e depois pelas guerras napole\u00f4nicas, essa economia<br \/>\nvicejou, criando alguns centros de riqueza.<\/p>\n<p>O principal deles implantou-se no Maranh\u00e3o, fora do vale amaz\u00f4nico<br \/>\nmas cont\u00edguo a ele, que se desenvolvera paralelamente, atrav\u00e9s<br \/>\ndo mesmo processo de integra\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, numa economia<br \/>\nextrativista florestal. O sucesso econ\u00f4mico do empreendimento foi possibilitado<br \/>\npela introdu\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra escrava africana, com<br \/>\nque se abria grandes lavouras comerciais, chegando a constituir, no fim do<br \/>\ns\u00e9culo XVIII, o principal centro econ\u00f4mico da col\u00f4nia.<br \/>\nTamb\u00e9m o Par\u00e1 beneficiou-se desse surto de prosperidade, recebendo<br \/>\numa parcela de negros escravos para suas lavouras de algod\u00e3o, arroz<br \/>\ne cacau. Restabelecidas, por\u00e9m, as lavouras norte-americanas, os dois<br \/>\ncentros entraram em decad\u00eancia, voltando a economia extrativista a dominar<br \/>\na exporta\u00e7\u00e3o. Essas condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nprovocaram o exterm\u00ednio das popula\u00e7\u00f5es abor\u00edgenes<br \/>\ne criaram um ambiente de extrema tens\u00e3o inter\u00e9tnica. Mas a ordem<br \/>\nsocial pode ser mantida gra\u00e7as \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o e<br \/>\natua\u00e7\u00e3o, ao longo de s\u00e9culos, do mais vasto aparelho<br \/>\nde destribaliza\u00e7\u00e3o e de conscri\u00e7\u00e3o violenta de<br \/>\n\u00edndios ao trabalho. O padre Ant\u00f4nio Vieira, que foi da Companhia<br \/>\nde Jesus, descrevendo no s\u00e9culo XVII rios que ele visitara uma d\u00e9cada<br \/>\nantes, se espanta com a quantidade de gente dizimada pelos colonos em nome<br \/>\nda civiliza\u00e7\u00e3o. Ele fala &#8211; certamente sem exagero &#8211; de 2 milh\u00f5es<br \/>\nde \u00edndios que se teriam gasto e se continuavam gastando.<\/p>\n<p>Mais do que a\u00e7\u00e3o repressiva, o que explica a manuten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndessa ordem hedionda \u00e9, por um lado, a uni\u00e3o do patronato ativo,<br \/>\nque vivia apavorado ante a possibilidade de uma rebeli\u00e3o geral dos<br \/>\nind\u00edgenas mas estava perfeitamente consciente de que sua \u00fanica<br \/>\nfonte de riqueza era o desgaste de levas e levas de \u00edndios em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde trabalho \u00e0s quais ningu\u00e9m poderia sobreviver. \u00c9, por<br \/>\noutro lado, a servilidade a seus senhores dos caboclos aculturados ao sistema<br \/>\ne sua contraface: a atitude de crueldade brutal para com os \u00edndios<br \/>\nde que eram oriundos. Essa postura s\u00f3 \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0<br \/>\nde seus cong\u00eaneres, os mamelucos paulistas, igualmente ferozes sujigadores<br \/>\nde \u00edndios. Representou, tamb\u00e9m, um papel da maior import\u00e2ncia<br \/>\na pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o indefesa dos &#8220;tapuias&#8221; desgarrados<br \/>\nde suas tribos, divididos em lotes de gente de v\u00e1rias proced\u00eancias,<br \/>\nque falavam l\u00ednguas diferentes, tinham costumes diversos e eram hostis<br \/>\nuns aos outros.<\/p>\n<p>Ao longo de cinco s\u00e9culos surgiu e se multiplicou uma vasta popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gentes destribalizadas, deculturadas e mesti\u00e7adas que \u00e9 o<br \/>\nfruto e a v\u00edtima principal da invas\u00e3o europ\u00e9ia. Somam<br \/>\nhoje mais de 3 milh\u00f5es aqueles que conservam sua cultura adaptativa<br \/>\noriginal de povos da floresta. Originaram-se principalmente das miss\u00f5es<br \/>\njesu\u00edticas, que, confinando \u00edndios tirados de diferentes tribos,<br \/>\ninviabilizavam as suas culturas de origem e lhes impunham uma l\u00edngua<br \/>\nfranca, o tupi, tomado dos primeiros grupos ind\u00edgenas que eles catequizaram<br \/>\num s\u00e9culo antes em regi\u00f5es long\u00ednquas.<\/p>\n<p>Assim, uma l\u00edngua ind\u00edgena foi convertida pelos padres na<br \/>\nl\u00edngua da civiliza\u00e7\u00e3o, que passou a ser a fala da massa<br \/>\nde catec\u00famenos. No curso de um processo de transfigura\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica, eles se converteram em \u00edndios gen\u00e9ricos, sem<br \/>\nl\u00edngua nem cultura pr\u00f3prias, e sem identidade cultural espec\u00edfica.<br \/>\nA eles se juntaram, mais tarde, grandes massas de mesti\u00e7os, gestados<br \/>\npor brancos em mulheres ind\u00edgenas, que tamb\u00e9m n\u00e3o sendo<br \/>\n\u00edndios nem chegando a serem europeus, e falando o tupi, se dissolveram<br \/>\nna condi\u00e7\u00e3o de caboclos.<\/p>\n<p>A dupla fun\u00e7\u00e3o dessa massa cabocla foi a de m\u00e3o-de-obra<br \/>\nda explora\u00e7\u00e3o extrativista de drogas da mata exportadas para<br \/>\na Europa, que viabilizavam a pobre economia da regi\u00e3o. Foi tamb\u00e9m<br \/>\ninstrumento de captura e de dizima\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nind\u00edgenas aut\u00f4nomas, contra as quais desenvolveram uma agressividade<br \/>\nigual ou pior que a dos europeus e dos mamelucos paulistas.<\/p>\n<p>Sobre os caboclos vencidos ca\u00edram duas ondas de viol\u00eancia.<br \/>\nA primeira veio com a extraordin\u00e1ria valoriza\u00e7\u00e3o da borracha<br \/>\nno mercado mundial, que os recrutou e avassalou, lan\u00e7ando simultaneamente<br \/>\nsobre eles gentes vindas de toda parte para explorar a nova riqueza.<\/p>\n<p>Nessa inst\u00e2ncia, perderam sua l\u00edngua pr\u00f3pria, adotando<br \/>\no portugu\u00eas, mas mantiveram a consci\u00eancia de sua identidade diferenciada<br \/>\ne o seu modo de vida de povo da floresta. A segunda onda ocorre em nossos<br \/>\ndias com a nova invas\u00e3o da Amaz\u00f4nia pela sociedade brasileira,<br \/>\nem sua expans\u00e3o sobre aquela fronteira florestal. Seu efeito maior<br \/>\ntem sido o desalojamento dos caboclos das terras que ocupavam, expulsando<br \/>\nmais de metade deles para a vida urbana fam\u00e9lica de Bel\u00e9m e<br \/>\nManaus. Os \u00edndios que sobreviveramj\u00e1 aprenderam a resistir ao<br \/>\navassalamento. Os caboclos, n\u00e3o.<\/p>\n<p>O processo hist\u00f3rico gerara na Amaz\u00f4nia tr\u00eas classes<br \/>\nde gente. Uma das quais majorit\u00e1ria e preparada para assumir o conjunto<br \/>\ndaquela complexa sociedade, mas sem capacidade sociopol\u00edtica de faz\u00ea-lo.<br \/>\nEssas tr\u00eas categorias eram formadas pelo \u00edndio tribal, refugiado<br \/>\nnas altas cabeceiras, lutando contra todos que quisessem invadir seus n\u00facleos<br \/>\nde sobreviv\u00eancia para roubar mulheres e crian\u00e7as e conden\u00e1-las<br \/>\nao trabalho extrativista. A segunda, pela popula\u00e7\u00e3o urbanizada,<br \/>\nmuito heterog\u00eanea, mas que tinha de comum j\u00e1 falar predominantemente<br \/>\no portugu\u00eas e a capacidade de operar como base de sustenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nda ordem colonial.<\/p>\n<p>O terceiro contingente era formado de \u00edndios gen\u00e9ricos, oriundos<br \/>\nprincipalmente das miss\u00f5es e da expans\u00e3o dos catec\u00famenos<br \/>\nsobre toda a \u00e1rea, na gesta\u00e7\u00e3o de outros tantos \u00edndios<br \/>\ngen\u00e9ricos. Tratava-se de um novo g\u00eanero humano, diferente dos<br \/>\ndemais, s\u00f3 compar\u00e1vel aos mamelucos paulistas. Como esses, eram<br \/>\nextremamente combativos e eram os mais competentes para comandar a economia<br \/>\nda floresta. Efetivamente, tomaram o poder v\u00e1rias vezes, mas incapazes<br \/>\nde ret\u00ea-lo se viram derrotados e reescravizados. Os mamelucos paulistas<br \/>\nencontraram uma fun\u00e7\u00e3o na ca\u00e7ada humana de car\u00e1ter<br \/>\nmercantil, destinada a capturar \u00edndios silv\u00edcolas para vender,<br \/>\ne na sua segunda fun\u00e7\u00e3o, que era liquidar com os quilombos que<br \/>\nse multiplicavam prodigiosamente.<\/p>\n<p>Tais eram tarefas da civiliza\u00e7\u00e3o que os mantiveram atados<br \/>\nao empreendimento colonial para, a partir da\u00ed, mais uma vez transfigurar-se.<\/p>\n<p>Essa ordem repressiva foi rompida no curso de dois movimentos insurrecionais<br \/>\nque, no s\u00e9culo XIX, convulsionaram toda a Amaz\u00f4nia, dando lugar,<br \/>\ncomo n\u00e3o podia deixar de ser, porque contestavam a pr\u00f3pria unidade<br \/>\nnacional, \u00e0 mais cruel e sanguin\u00e1ria das conflagra\u00e7\u00f5es<br \/>\nque registra a hist\u00f3ria brasileira, com um n\u00famero superior a<br \/>\n100 mil mortos. O primeiro foi a Cabanagem, do Par\u00e1 e do Amazonas (<br \/>\n1834-40 ), que sublevou as popula\u00e7\u00f5es rurais e urbanas. Primeiro,<br \/>\ncomo um movimento anticolonialista e, depois, como uma revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nrepublicana e separatista.<\/p>\n<p>A Cabanagem punha em causa uma forma alternativa de estrutura\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo povo brasileiro gestada entre os \u00edndios destribalizados da Amaz\u00f4nia.<br \/>\nFoi a \u00fanica luta que disputou, sem saber, a pr\u00f3pria etnia nacional,<br \/>\npropondo fazer-se uma outra na\u00e7\u00e3o, a dos cabanos, que j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o eram \u00edndios, nem eram negros, nem lusitanos e tampouco se<br \/>\nidentificavam como brasileiros.<\/p>\n<p>A Cabanagem chegou a tomar o poder, dominando toda a prov\u00edncia. Os<br \/>\nsublevados descem os rios, por onde antes subiam os escravizadores, destruindo<br \/>\ntudo com que deparam. Tomam, ocupam e saqueiam as capitais e as principais<br \/>\ncidades, e interrompem todo o com\u00e9rcio. As tropas que sa\u00edam<br \/>\nem busca dos revoltosos experimentam derrotas fragorosas. A luta durou v\u00e1rios<br \/>\nanos e prosseguiu outros tantos, em focos de resist\u00eancia isola-os, cuja<br \/>\nredu\u00e7\u00e3o foi extremamente dif\u00edcil. Mas acabou sendo lograda.<\/p>\n<p>Dois aspectos ressaltam na luta dos cabanos. Primeiro, o car\u00e1ter<br \/>\nde guerra de castas, conscientemente conduzida como tal pelo comandante das<br \/>\nfor\u00e7as repressivas, que escreveu: &#8220;Todos os homens de cor nascidos<br \/>\naqui est\u00e3o ligados em pacto secreto, a darem cabo de tudo quanto for<br \/>\nbranco [&#8230;] \u00c9, pois, indispens\u00e1vel p\u00f4r a arma nas m\u00e3os<br \/>\nde outros: e \u00e9 indispens\u00e1vel proteger por todos os modos a multiplica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos brancos (apud Moreira Neto 1971:15 ).&#8221;<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o que \u00edndios e caboclos tinham do inimigo<br \/>\ncomo seu opressor \u00e9tnico adquire aqui a crueza de uma oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nracista que engloba todos os &#8220;homens de cor&#8221; numa s\u00f3 categoria<br \/>\nde inimigos a serem exterminados.<\/p>\n<p>O segundo aspecto a ressaltar \u00e9 que essa insurrei\u00e7\u00e3o,<br \/>\npraticamente vitoriosa, foi afinal vencida n\u00e3o somente pelas armas,<br \/>\nmas, talvez, principalmente pela inviabilidade hist\u00f3rica da luta dos<br \/>\ncabanos. Sua revolta secularmente acumulada contra a opress\u00e3o e a discrimina\u00e7\u00e3o<br \/>\nera uma raz\u00e3o suficiente ara desencadear a guerra. Mas n\u00e3o era<br \/>\nsuficiente para propor e levar a cabo, depois de cada vit\u00f3ria, um projeto<br \/>\nalternativo de ordena\u00e7\u00e3o social para as gentes d\u00edspares<br \/>\nque engajavam na luta libert\u00e1ria. Tal como os negros dos quilombos,<br \/>\napesar de seu primitivismo, as popula\u00e7\u00f5es lideradas pelos cabanos<br \/>\nestavam j\u00e1 contaminadas de civiliza\u00e7\u00e3o. A mesma civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nque para eles representava pestes mort\u00edferas, escravid\u00e3o e opress\u00e3o<br \/>\nrepresentava tamb\u00e9m o \u00fanico modo pratic\u00e1vel de articular-se<br \/>\ncomercialmente com os provedores dos bens de que j\u00e1 n\u00e3o poderiam<br \/>\nprescindir, como as ferramentas, os anz\u00f3is, o sal, a p\u00f3lvora.<\/p>\n<p>Outro levante popular das povoa\u00e7\u00f5es do Norte foi a Balaiada.<br \/>\nOs balaios eram, em ess\u00eancia, rebeldes da massa negra concentrada no<br \/>\nMaranh\u00e3o para produzir algod\u00e3o, os quais, igualmente deculturados<br \/>\ne desafricanizados, lutavam, tal como o faziam os quilombos, por uma ruptura<br \/>\nda ordem social que os fazia escravos. Claro que entre os cabanos havia negros,<br \/>\nainda que esses mais vezes lutavam ao lado das tropas oficiais.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m evidente que entre os balaios haveria \u00edndios<br \/>\ne ex-\u00edndios e muitos mamelucos do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Demasiado civilizados para voltar \u00e0s velhas formas tribais de viv\u00eancia<br \/>\naut\u00e1rquica e demasiado primitivos para se propor uma reordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nintencional da sociedade em novas bases, os cabanos e os balaios se viram<br \/>\nparalisados, esperando a derrota que os destruiria. O privil\u00e9gio de<br \/>\nseus dominadores era o de poder experimentar muitas derrotas e sobreviver<br \/>\na elas para refazer a trama constritiva. Para os cabanos, uma s\u00f3 derrota<br \/>\nseria a perdi\u00e7\u00e3o, porque, uma vez submetidos, o inimigo voltaria<br \/>\na impor, revigorada, e ainda mais endurecida, a velha ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial opressora. De fato, a maior parte das dezenas de milhares de mortos<br \/>\ncabanos ocorreu depois que eles foram vencidos, no chacinamento de aldeias<br \/>\nind\u00edgenas inteiras, supostamente culpadas de haver combatido os opressores.<br \/>\nEssa dizima\u00e7\u00e3o premeditada s\u00f3 teve paralelo nas que tiveram<br \/>\nlugar nos s\u00e9culos XVI e XVII no Nordeste brasileiro e, como aquelas,<br \/>\ns\u00f3 pode ser classificada como guerra genocida de exterm\u00ednio<br \/>\nmaci\u00e7o de popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>S\u00f3 no \u00faltimo quartel do s\u00e9culo passado a regi\u00e3o<br \/>\namaz\u00f4nica volta a experimentar uma quadra de prosperidade, motivada<br \/>\nagora pela crescente valoriza\u00e7\u00e3o nos mercados mundiais de um<br \/>\ndos seus produtos tradicionais de coleta: a borracha. O desenvolvimento da<br \/>\nind\u00fastria europ\u00e9ia e norte-americana de automotores transforma<br \/>\na borracha dos seringais amazonenses em mat\u00e9ria prima industrial de<br \/>\nenorme procura, dobrando, triplicando e mais que decuplicando seu pre\u00e7o.<br \/>\nA Amaz\u00f4nia, na qualidade de \u00fanico, fornecedor, transforma toda<br \/>\na sua economia no esfor\u00e7o de atender \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaci\u00e7a. A popula\u00e7\u00e3o, concentrada nas margens dos rios<br \/>\nAmazonas e Solim\u00f5es, dispersa-se pelo vale inteiro, subindo os altos<br \/>\ncursos, at\u00e9 ent\u00e3o inatingidos, \u00e0 procura das concentra\u00e7\u00f5es<br \/>\nde seringueiras nativas e das outras plantas gom\u00edferas da floresta.<br \/>\nAs cidades crescem, enriquecem e se transformam. Bel\u00e9m, no delta, e<br \/>\nManaus, no curso m\u00e9dio do rio Amazonas, tornam-se grandes centros metropolitanos,<br \/>\nem cujos portos escalam centenas de navios que carregam borracha e descarregam<br \/>\ntoda a sorte de artigos industriais. Uma ferrovia \u00e9 constru\u00edda<br \/>\nem plena mata, \u00e0 custa de enormes sacrif\u00edcios humanos, a Madeira-Mamor\u00e9,<br \/>\nque ligaria concentra\u00e7\u00f5es de seringueiras de Porto Velho at\u00e9<br \/>\no rio Mamor\u00e9, na fronteira da Bol\u00edvia, regi\u00e3o long\u00ednqua<br \/>\ndesgarrada da Bol\u00edvia e incorporada ao Brasil.<\/p>\n<p>Para esse esfor\u00e7o produtivo fora necess\u00e1rio resolver um problema<br \/>\npreliminar: o recrutamento maci\u00e7o da m\u00e3o-de-obra de que carecia<br \/>\no vale para atender ao empreendimento e capaz de submeter-se \u00e0s duras<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es de trabalho dos seringais.<\/p>\n<p>Esse requisito foi preenchido com apelo \u00e0s enormes reservas de m\u00e3o-de-obra<br \/>\nacumuladas no Nordeste pastoril, assolado por uma seca prolongada, que ocasionara<br \/>\nmais de 100 mil mortes, e castigado por um sistema latifundi\u00e1rio primitivo<br \/>\ne terrivelmente espoliativo. Iniciou-se, assim, uma translada\u00e7\u00e3o<br \/>\nde popula\u00e7\u00f5es que conduziria cerca de meio milh\u00e3o de<br \/>\nnordestinos \u00e0 Amaz\u00f4nia. Desembarcados nos dois portos, Bel\u00e9m<br \/>\ne Manaus, os sertanejos eram repartidos entre os patr\u00f5es que j\u00e1<br \/>\nestavam \u00e0 sua espera. Cada lote, suprido de armas e muni\u00e7\u00e3o<br \/>\npara ca\u00e7a e defesa contra o \u00edndio, de roupas e de singelo instrumental<br \/>\ndo trabalho extrativo, era conduzido rio acima e floresta adentro, aos long\u00ednquos<br \/>\nseringais. Cada trabalhador ingressava no servi\u00e7o com sua feira e seu<br \/>\nd\u00e9bito, que aumentaria cada vez mais com os suprimentos de alimenta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde rem\u00e9dios, de roupas providas pelo barrac\u00e3o.<\/p>\n<p>Dificilmente um seringueiro consegue saldar essa conta que, habilmente manipulada,<br \/>\no mant\u00e9m em regime de servid\u00e3o virtual enquanto possa resistir<br \/>\n\u00e0s terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es de vida a que \u00e9<br \/>\nsubmetido.<\/p>\n<p>A borracha, como todos os produtos nativos da floresta tropical, se distribui<br \/>\nirregularmente e com baixa concentra\u00e7\u00e3o em meio a uma infinidade<br \/>\nde outras esp\u00e9cies. Mesmo nas zonas de maior densidade, os seringais<br \/>\ncobrem enormes extens\u00f5es, impedindo que a popula\u00e7\u00e3o se<br \/>\norganize em n\u00facleos consider\u00e1veis.<\/p>\n<p>Essas condi\u00e7\u00f5es determinaram a dispers\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\namazonense<\/p>\n<p>ao longo dos cursos d&#8217;\u00e1gua por todo o imenso vale, resultando uma<br \/>\ndensidade demogr\u00e1fica de quase deserto e impondo a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um sistema de comunica\u00e7\u00f5es baseado exclusivamente na navega\u00e7\u00e3o<br \/>\nfluvial, por meio de canoas e balsas.<\/p>\n<p>Nessa economia, a terra em si n\u00e3o tem qualquer valor e a mata exuberante<br \/>\nque a cobre s\u00f3 representa obst\u00e1culo para alcan\u00e7ar aquelas<br \/>\nraras esp\u00e9cies realmente \u00fateis.<\/p>\n<p>N\u00e3o se cogita, por isto, de assegurar a posse legal das terras, como<br \/>\n\u00e9 o caso das regi\u00f5es de economia agr\u00edcola e pastoril.<br \/>\nO que importa na Amaz\u00f4nia \u00e9 o dom\u00ednio da via de acesso<br \/>\nque leva aos seringais e a conscri\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho<br \/>\nnecess\u00e1ria para explor\u00e1-la. Esse dom\u00ednio n\u00e3o assume,<br \/>\nsen\u00e3o acidentalmente, a forma de propriedade fundi\u00e1ria, sendo<br \/>\nobtido por concess\u00e3o governamental, nos raros casos em que se torna<br \/>\nindispens\u00e1vel, e imposto efetivamente por quem disp\u00f5e dos meios<br \/>\nde transporte. A conscri\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra \u00e9 alcan\u00e7ada<br \/>\npelas formas mais insidiosas de aliciamento e mantida mediante o uso da for\u00e7a,<br \/>\ncombinado com um sistema de endividamento do qual nenhum conscrito pode escapar.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que o seringal se implanta como uma empresa desvinculada<br \/>\nda terra. Seu elemento \u00e9 o rio, no qual o homem n\u00e3o se fixa<br \/>\ncomo povoador, mas apenas se instala como explorador at\u00e9 o esgotamento<br \/>\ndos seringais. Ent\u00e3o, vai adiante com seus pr\u00f3prios meios: as<br \/>\ncanoas, o barrac\u00e3o de mercadorias e o livro de d\u00e9bito que mant\u00e9m<br \/>\npresos os seringueiros a seu patr\u00e3o. Em cada seringal, um grupo de<br \/>\ncaboclos amaz\u00f4nicos exerce as fun\u00e7\u00f5es de mestres que desasnam<br \/>\nos rec\u00e9m-chegados, os &#8220;brabos&#8221;. Ensinam a identificar a seringueira,<br \/>\na sangr\u00e1-la diariamente sem afetar-lhe a vida, a colher o l\u00e1tex<br \/>\ne a defum\u00e1-lo cuidadosamente para formar as bolas de borracha.<\/p>\n<p>Cada seringueiro assim instru\u00eddo recebe sua estrada, que \u00e9<br \/>\no caminho de \u00e1rvore a \u00e1rvore. Num percurso de dez a quinze quil\u00f4metros,<br \/>\nraramente se encontram duzentas delas, que, quando ligadas por uma picada,<br \/>\nconstituem a unidade de explora\u00e7\u00e3o. O seringal \u00e9 o conjunto<br \/>\ndessas estradas, comumente dispostas ao longo de um rio, distando horas e<br \/>\nmesmo dias de viagem umas das outras, conforme a regi\u00e3o. Na desembocadura,<br \/>\nem guarda contra qualquer deser\u00e7\u00e3o de trabalhadores ou extravio<br \/>\nde mercadoria, fica a resid\u00eancia do patr\u00e3o ou gerente. E o barrac\u00e3o,<br \/>\ncom seu porto, seu dep\u00f3sito de bolas de borracha, seu armaz\u00e9m<br \/>\nprovido de aguardente, tabaco, g\u00eaneros aliment\u00edcios, panos, muni\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e1gua-de-cheiro e toda quinquilharia que possa estimular o trabalhador<br \/>\na endividar-se.<\/p>\n<p>O seringueiro deve percorrer duas vezes por dia a sua estrada. A primeira,<br \/>\npara sangrar as \u00e1rvores e ajustar as tigelas ao tronco para receber<br \/>\no l\u00e1tex. A segunda, para vert\u00ea-las num gal\u00e3o que trar\u00e1<br \/>\nde volta ao rancho. Iniciando o trabalho pela madrugada, ao cair da noite<br \/>\npode dedicar-se \u00e0 tarefa de coagula\u00e7\u00e3o do l\u00e1tex.<br \/>\nAcresce, ainda, que al\u00e9m de coletor ele deve fazer-se tamb\u00e9m<br \/>\nca\u00e7ador e pescador para n\u00e3o depender da comida enlatada que,<br \/>\nal\u00e9m de envenen\u00e1-lo, o endivida. E deve estar sempre atento<br \/>\nao \u00edndio, que, tocaiado em qualquer ponto da estrada, pode abat\u00ea-lo<br \/>\ncom suas flechas. O conflito entre \u00edndio e seringueiro \u00e9 geralmente<br \/>\nt\u00e3o agudo que mata quem v\u00ea primeiro. A todas essas penas se soma,<br \/>\nainda, a incid\u00eancia de enfermidades carenciais, como o berib\u00e9ri,<br \/>\nque alcan\u00e7ou car\u00e1ter end\u00eamico em toda a Amaz\u00f4nia,<br \/>\ne das chamadas mol\u00e9stias tropicais, principalmente a mal\u00e1ria,<br \/>\nque cobram alto pre\u00e7o em vidas e em depaupera\u00e7\u00e3o f\u00edsica<br \/>\n\u00e0 popula\u00e7\u00e3o engajada nos seringais.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, a mis\u00e9ria do sert\u00e3o nordestino, somada aos<br \/>\naltos pre\u00e7os da borracha, que excediam a quinhentas libras esterlinas<br \/>\npor tonelada, estimulou esse fluxo humano, provendo a necess\u00e1ria m\u00e3o-de-obra<br \/>\n\u00e0 economia da borracha. Uns poucos que se fizeram bons ca\u00e7adores<br \/>\ne pescadores amaz\u00f4nicos e, al\u00e9m disso, negociantes ladinos para<br \/>\nescaparem \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7avam saldos que,<br \/>\nde volta ao Nordeste, permitiam dar not\u00edcias \u00e0 terra do seu<br \/>\nsucesso, provocando novas migra\u00e7\u00f5es. Os demais, que eram a imensa<br \/>\nmaioria, silenciavam seu fracasso. De fato, o que fazia os seringais atrativos<br \/>\nera a propaganda oficial e toda uma rede de recrutamento mantida no sert\u00e3o<br \/>\ne nos portos, assim como a pr\u00f3pria miserabilidade sertaneja, que n\u00e3o<br \/>\noferecia outra alternativa sen\u00e3o a aventura amaz\u00f4nica. Assim,<br \/>\ndepois de gastar a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena do vale, o extrativismo<br \/>\nvegetal desgastou tamb\u00e9m enormes contingentes nordestinos, sobretudo<br \/>\nsertanejos.<\/p>\n<p>A prosperidade da economia extrativista interrompeu-se, por\u00e9m, abruptamente<br \/>\ncom a Primeira Guerra Mundial. N\u00e3o se refaria jamais, por causa da<br \/>\nentrada no com\u00e9rcio mundial, logo depois do conflito, da produ\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos seringais plantados pelos ingleses no Oriente. Ao baixar o pre\u00e7o<br \/>\na cem libras, torna-se invi\u00e1vel a explora\u00e7\u00e3o dos seringais<br \/>\nnativos, desmoronando a economia amaz\u00f4nica da borracha, que j\u00e1<br \/>\nabarcava 40% do valor total das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras e ocupava<br \/>\ncerca de 1 milh\u00e3o de pessoas dispersas por toda a regi\u00e3o. No<br \/>\nauge da expans\u00e3o extrativista ( 1872 ), toda a rede urbana regional<br \/>\ncrescera a ponto de transformar Bel\u00e9m, o segundo porto da Amaz\u00f4nia,<br \/>\nem quarta cidade brasileira em popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A crise sobrevem como uma cat\u00e1strofe, pela incapacidade de colocar<br \/>\na produ\u00e7\u00e3o estocada durante a guerra e as novas safras que continuavam<br \/>\ndescendo os rios.<\/p>\n<p>Muitos seringais foram abandonados por patr\u00f5es levados \u00e0 fal\u00eancia,<br \/>\nsendo toda a gente aliciada entregue \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte nos<br \/>\nermos da floresta. Aos poucos, a popula\u00e7\u00e3o volta a concentrar-se<br \/>\n\u00e0 margem dos grandes rios naveg\u00e1veis, regredindo a uma economia<br \/>\nde subsist\u00eancia e a condi\u00e7\u00f5es de miserabilidade mais aguda<br \/>\ndo que a dos sert\u00f5es de onde havia fugido. E mais dif\u00edcil que<br \/>\na dos \u00edndios, em virtude de suas necessidades de gente &#8220;civilizada&#8221;,<br \/>\nque precisava vestir-se, curar as enfermidades com rem\u00e9dios comprados<br \/>\ne suprir-se de artigos comerciais.<\/p>\n<p>Economicamente marginalizados, esses sertanejos acaboclados se integram<br \/>\nnas formas de vida regional, aprendendo a ca\u00e7ar com arco e flecha para<br \/>\neconomizar muni\u00e7\u00e3o; a lavrar os campos com estacas de madeira,<br \/>\npor n\u00e3o terem enxadas; a pescar com arp\u00e3o e se alimentar com<br \/>\nas comidas da terra, incluindo a tartaruga e o jacar\u00e9 em sua dieta.<br \/>\nNas \u00e1reas mais arcaicas, como o rio Negro, onde ainda se falava a l\u00edngua<br \/>\ngeral como idioma b\u00e1sico de comunica\u00e7\u00e3o popular, passam,<br \/>\neles tamb\u00e9m, a falar esse dialeto tupi, empobrecido e estropiado. Integram-se,<br \/>\nigualmente, nas pr\u00e1ticas da pajelan\u00e7a e nos temores aos fantasmas<br \/>\nda mitologia ind\u00edgena. Tornam-se, por\u00e9m, arremedos de \u00edndios,<br \/>\nporque n\u00e3o contam com as motiva\u00e7\u00f5es destes nem com sua<br \/>\ncapacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 floresta tropical.<\/p>\n<p>Anos depois, algumas medidas de amparo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da<br \/>\nborracha, principalmente o monop\u00f3lio do suprimento do mercado nacional<br \/>\na pre\u00e7os subsidiados, foram estatu\u00eddas pelo governo federal.<br \/>\nEstruturou-se, ent\u00e3o, uma nova economia extrativista, aliciando a essa<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel para reconduzi-la a seringais, ainda<br \/>\nmais prec\u00e1rios que os do passado.<\/p>\n<p>A essa retomada dos seringais se somaria, durante a \u00faltima guerra,<br \/>\num novo surto de extrativismo que proporcionaria \u00e0 Amaz\u00f4nia um<br \/>\nbreve per\u00edodo de intensa atividade.<\/p>\n<p>Isso se deveu ao fornecimento de borracha aos aliados, que, em virtude dos<br \/>\nataques japoneses, se viram desprovidos da produ\u00e7\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es<br \/>\norientais. O governo federal promoveu, ent\u00e3o, como principal contribui\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrasileira ao esfor\u00e7o de guerra, uma outra translada\u00e7\u00e3o<br \/>\nde nordestinos \u00e0 Amaz\u00f4nia. Estima-se que essa nova migra\u00e7\u00e3o<br \/>\ntenha envolvido de 30 a 50 mil trabalhadores.<\/p>\n<p>Efetivamente, as perdas brasileiras na chamada &#8220;guerra da borracha&#8221;<br \/>\n&#8211; tanto pela mis\u00e9ria a que foram lan\u00e7ados os trabalhadores como<br \/>\npela morte conseq\u00fcente dela e do seu abandono nos seringais ap\u00f3s<br \/>\no conflito &#8211; foram muito superiores \u00e0s baixas sofridas pelas tropas<br \/>\nbrasileiras na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter oficialista das novas ondas de extrativismo permitia ao<br \/>\nseringalista sobreviver atrav\u00e9s de procedimentos banc\u00e1rios de<br \/>\nfavor, mas s\u00f3 aliciava seringueiros pela falta absoluta de outras oportunidades<br \/>\nde trabalho e os condenava \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o da pen\u00faria.<br \/>\nNesses seringais empobrecidos, o sertanejo acaboclado assim como o rec\u00e9m-conscrito<br \/>\nprocuram cultivar uma ro\u00e7a de subsist\u00eancia &#8211; embora a safra de<br \/>\nborracha coincida com a \u00e9poca de preparo da terra para o plantio -,<br \/>\nca\u00e7ar e pescar segundo as t\u00e9cnicas ind\u00edgenas tradicionais<br \/>\npara melhorar suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas est\u00e3o sujeitos a<br \/>\npatr\u00f5es, cuja pobreza os condiciona a tornar mais escorchante a explora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEssas condi\u00e7\u00f5es de miserabilidade e depend\u00eancia s\u00e3o<br \/>\nagravadas por um acordo t\u00e1cito, que vigorou desde sempre entre os donos<br \/>\ndos seringais, de n\u00e3o aceitar trabalhadores com d\u00edvidas n\u00e3o<br \/>\nsaldadas. Quem quer que tenha viajado pelos seringais da Amaz\u00f4nia conhece<br \/>\nesses trabalhadores que aguardam anos a fio o papelucho libertador, em que<br \/>\no patr\u00e3o se d\u00e1 por saldado de todos os fornecimentos.<\/p>\n<p>Ao lado dos patr\u00f5es dos seringais, os novos surtos de extrativismo<br \/>\nfazem reviver um outro personagem dessa economia primitiva. \u00c9 o regat\u00e3o.<br \/>\nEste vai onde n\u00e3o chega o seringalista. \u00c9 o traficante que conduz<br \/>\nsua mercadoria no barco em que vive e com o qual singra cada rio, cada igarap\u00e9<br \/>\nonde haja alguma coisa para trocar por aguardente, sal, f\u00f3sforos, panos,<br \/>\nanz\u00f3is, agulhas, linhas de coser, muni\u00e7\u00e3o e outros artigos<br \/>\ndessa ordem.<\/p>\n<p>Criador de necessidades e instrumentos para sua satisfa\u00e7\u00e3o,<br \/>\no regat\u00e3o \u00e9 o rei do igarap\u00e9. Grande parte de seu neg\u00f3cio<br \/>\n\u00e9 o desvio da produ\u00e7\u00e3o dos seringais, retirada a golpes<br \/>\nde aud\u00e1cia.<\/p>\n<p>Nenhuma condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 talvez mais miser\u00e1vel<br \/>\nque a desses seringueiros, isolados nas suas cabanas dispersas pela mata,<br \/>\ntrabalhando de estrela a estrela, maltrapilhos, subnutridos, enfermos e analfabetos<br \/>\ne, sobretudo, desenganados da vida, que n\u00e3o lhes oferece qualquer esperan\u00e7a<br \/>\nde liberta\u00e7\u00e3o. Comparados com os \u00edndios tribais que os<br \/>\nantecederam como ocupantes do mesmo territ\u00f3rio, ou que ainda sobrevivem<br \/>\nnas zonas mais ermas, a gente atrasada e miser\u00e1vel \u00e9 a &#8220;civilizada&#8221;,<br \/>\nlan\u00e7ada \u00e0 pobreza mais vil, brutalizada pelo pr\u00f3prio<br \/>\nprocesso de integra\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria a que foi submetida.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos seringueiros, a ind\u00fastria extrativista da Amaz\u00f4nia<br \/>\nmoderna inclui a outros coletores especializados em diversos produtos. Tais<br \/>\ns\u00e3o os balateiros, os castanheiros, os coletores de copa\u00edba,<br \/>\nde pau-rosa, de pia\u00e7ava, de murumuru, timb\u00f3, tucum e os ca\u00e7adores<br \/>\nde jacar\u00e9s, de pirarucu e de tartarugas. Todos t\u00e3o miser\u00e1veis<br \/>\nquanto os seringueiros.<\/p>\n<p>A grande novidade com respeito aos povos que sobreviveram aos s\u00e9culos<br \/>\nde exterm\u00ednio, at\u00e9 agora, \u00e9 que v\u00e3o sobreviver<br \/>\nno futuro. Ao contr\u00e1rio do que tem\u00edamos todos, estabilizaram-se<br \/>\nsuas popula\u00e7\u00f5es e alguns povos ind\u00edgenas est\u00e3o<br \/>\ncrescendo em n\u00famero. Jamais alcan\u00e7ar\u00e3o o montante que<br \/>\ntinham nos primeiros tempos da invas\u00e3o europ\u00e9ia, perto de 5<br \/>\nmilh\u00f5es. Metade deles na Amaz\u00f4nia, cujos rios colossais abrigavam<br \/>\nconcentra\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que pasmaram os primeiros navegantes.<br \/>\nFoi realmente espantosa, at\u00e9 agora, a queda abrupta e cont\u00ednua<br \/>\nde cada popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena que se deparava com a civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas veio a revers\u00e3o, os \u00edndios brasileiros j\u00e1 superaram<br \/>\nmuito os 150 mil a que chegaram nos piores dias. Hoje, ultrapassam os 300<br \/>\nmil e esse n\u00famero vai crescer substancialmente.<\/p>\n<p>Arrefeceu-se, como se v\u00ea, o \u00edmpeto destruidor da expans\u00e3o<br \/>\neurop\u00e9ia e as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, que decresciam<br \/>\nvisivelmente, parecendo tendentes ao exterm\u00ednio, entram agora num processo<br \/>\ndiscreto de crescimento demogr\u00e1fico. De fato, ningu\u00e9m esperava<br \/>\npor essa mudan\u00e7a afortunada. Toda a antropologia brasileira e mundial<br \/>\nrepetia dados inequ\u00edvocos que demonstravam como, a cada ano, diminu\u00eda<br \/>\no n\u00famero de membros de cada tribo conhecida.<\/p>\n<p>A morte parecia ser o destino fatal dos \u00edndios brasileiros e, de<br \/>\nresto, dos demais povos chamados primitivos. De repente, come\u00e7ou a<br \/>\nse ver a revers\u00e3o desse quadro.<\/p>\n<p>Os Nambiquara passaram a crescer altivos e determinados a permanecer em<br \/>\nsuas terras a qualquer custo. Os Urubu-Kaapor, que chegaram a quatrocentos<br \/>\nem 1980, hoje s\u00e3o setecentos. Os Mundurucu j\u00e1 alcan\u00e7am<br \/>\na casa dos 5 mil. Os Xavante, que eram 2500 em 1946, somam 8 mil hoje.<\/p>\n<p>Alguns povos ind\u00edgenas alcan\u00e7aram montantes suficientes para<br \/>\nse expandir e reorganizar suas institui\u00e7\u00f5es culturais. Os Tikuna,<br \/>\ndo alto Solim\u00f5es, no Brasil e no Peru, j\u00e1 ultrapassam os 20<br \/>\nmil; os Makuxi, dos campos de Roraima, alcan\u00e7am os 18 mil; os Guajajara,<br \/>\nque vivem nas franjas orientais da Amaz\u00f4nia, s\u00e3o hoje 9 mil;<br \/>\nos Kayap\u00f3, rec\u00e9m-atra\u00eddos \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\ns\u00e3o 6 mil. Os Sater\u00e9-Mau\u00e9, que vivem nos lagos e ilhas<br \/>\ndas margens do Amazonas, somam hoje perto de 15 mil.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que alguns povos ind\u00edgenas est\u00e3o diminuindo<br \/>\ne suas chances de sobreviv\u00eancia s\u00e3o min\u00fasculas. Os \u00faltimos<br \/>\ntreze \u00edndios da tribo Jabuti est\u00e3o buscando noivas, entre outros<br \/>\n\u00edndios de fala tupi-kawahib, para seus filhos se casarem. Disso, esperamos,<br \/>\nressurgir\u00e1 um novo povo ind\u00edgena. Os Av\u00e1-Canoeiros, que<br \/>\neram milhares de \u00edndios e dominavam o alto rio Tocantins, n\u00e3o<br \/>\nchegam a trinta pessoas. Vivendo em pequenos bandos, sem contato uns com os<br \/>\noutros, se especializaram em fugir da invas\u00e3o branca. Dois \u00edndios<br \/>\nforam encontrados recentemente falando um dialeto inintelig\u00edvel da<br \/>\nl\u00edngua tupi. Ningu\u00e9m sabe quem s\u00e3o, nem saber\u00e1<br \/>\njamais.<\/p>\n<p>Os Yanomami, que constituem hoje o maior povo pr\u00edstino da face da<br \/>\nterra, come\u00e7am a extinguir-se, vitimados pelas doen\u00e7as levadas<br \/>\npelos brancos, sob os olhos pasmados da opini\u00e3o p\u00fablica mundial.<br \/>\nS\u00e3o 16 mil no Brasil e na Venezuela.<\/p>\n<p>Falam quatro variantes de uma l\u00edngua pr\u00f3pria, sem qualquer<br \/>\nparentesco com outras l\u00ednguas, vivendo dispersos em centenas de aldeias<br \/>\nna mata, amea\u00e7ados por garimpeiros que, tendo descoberto ouro e outros<br \/>\nmetais em suas terras, reclamam dos governos dos dois pa\u00edses o direito<br \/>\nde continuarem minerando atrav\u00e9s de processos primitivos, baseados<br \/>\nno merc\u00fario, que polui as terras e envenena as \u00e1guas dos Yanomami.<\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia dos povos ind\u00edgenas se explica, em grande parte,<br \/>\npor uma adapta\u00e7\u00e3o bi\u00f3tica \u00e0s pestes do homem branco<br \/>\n&#8211; a var\u00edola, o sarampo, as doen\u00e7as pulmonares, as doen\u00e7as<br \/>\nven\u00e9reas e outras. Cada uma delas liquidava metade das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nlogo ao primeiro contato com as fronteiras da civiliza\u00e7\u00e3o. A<br \/>\nvar\u00edola desapareceu, mas v\u00e1rias outras enfermidades continuam<br \/>\nfazendo danos, ainda que muito menores que no passado, mesmo porque a pr\u00f3pria<br \/>\nmedicina progrediu bastante.<\/p>\n<p>Explica-se tamb\u00e9m por mudan\u00e7as ocorridas nas frentes de expans\u00e3o<br \/>\nda sociedade nacional que se lan\u00e7am sobre os povos ind\u00edgenas.<br \/>\nApesar de muito agressivas e destrutivas, elas j\u00e1 n\u00e3o podem<br \/>\nexterminar, impunemente, tribos inteiras, como sucedeu no passado. Ainda recentemente,<br \/>\no trucidamento de uma aldeia Yanomami converteu-se, de repente, num esc\u00e2ndalo<br \/>\nmundial que paralisou a onda assassina.<\/p>\n<p>As formas de contato e de coexist\u00eancia sofreram, tamb\u00e9m, importantes<br \/>\naltera\u00e7\u00f5es. A evangeliza\u00e7\u00e3o, cruamente cristianizadora<br \/>\ne imperialmente europeizadora, perdeu o furor etnocida. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 tantas miss\u00f5es religiosas roubando crian\u00e7as ind\u00edgenas<br \/>\nde diferentes tribos para junt\u00e1-las em suas escolas, que eram os mais<br \/>\nterr\u00edveis instrumentos de decultura\u00e7\u00e3o e de despersonaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMuitos dos poucos sobreviventes dessas escolas evang\u00e9licas, n\u00e3o<br \/>\ntendo lugar na sociedade tribal nem na sociedade nacional, ca\u00edam na<br \/>\nmarginalidade e na prostitui\u00e7\u00e3o. O paternalismo da prote\u00e7\u00e3o<br \/>\nofcial do Estado, brutalmente assimilacionista, por doutrina ou por ignor\u00e2ncia,<br \/>\ndeu lugar a uma atitude mais respeitosa diante dos \u00edndios.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a de maior espanto ocorreu com os pr\u00f3prios \u00edndios,<br \/>\ncuja atitude geral de submiss\u00e3o e humildade, que se seguia ao estabelecimento<br \/>\nde rela\u00e7\u00f5es pac\u00edficas, est\u00e1 dando lugar, muitas<br \/>\nvezes, a uma postura orgulhosa e afirmativa. Antigamente, quando os \u00edndios<br \/>\nrec\u00e9m-contatados se apercebiam da magnitude da sociedade nacional,<br \/>\ncom sua popula\u00e7\u00e3o inumer\u00e1vel dominando \u00e1reas imensas,<br \/>\npercebendo sua pr\u00f3pria insignific\u00e2ncia quantitativa, ca\u00edam<br \/>\nem depress\u00e3o, \u00e0s vezes fatal. Hoje, v\u00eaem os brancos como<br \/>\ngente que pode ser enfrentada.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es \u00e9 que come\u00e7a a surgir um novo<br \/>\ntipo de lideran\u00e7a ind\u00edgena, sem nenhuma submiss\u00e3o diante<br \/>\ndos mission\u00e1rios, de seus protetores oficiais ou de quaisquer agentes<br \/>\nda civiliza\u00e7\u00e3o. Sabem que a imensa maioria da sociedade nacional<br \/>\n\u00e9 composta de gente miser\u00e1vel que vive em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\npiores que a deles pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Percebem ou suspeitam que seu lugar na sociedade nacional, se nela quisessem<br \/>\nincorporar-se, seria mais miser\u00e1vel ainda. Tudo isso aprofunda seu<br \/>\npendor natural a permanecerem \u00edndios.<\/p>\n<p>Em certas circunst\u00e2ncias, a alternidade entre os \u00edndios e o<br \/>\ncontexto nacional com que eles convivem chega a ser t\u00e3o agressiva que<br \/>\nse torna assassina. \u00c9 ela que leva jovens \u00edndios ao suic\u00eddio,<br \/>\ncomo ocorre com os Guarani, por n\u00e3o suportarem o tratamento hostil<br \/>\nque lhes d\u00e3o os invasores de suas terras. Al\u00e9m de transformarem<br \/>\ntodo o meio ambiente, derrubando as matas, poluindo os rios, inviabilizando<br \/>\na ca\u00e7a e a pesca, esses vizinhos civilizados lan\u00e7am sobre os<br \/>\n\u00edndios toda a brutalidade de um consenso un\u00e2nime sobre sua inferioridade<br \/>\ninsan\u00e1vel, que acaba sendo interiorizada por eles, dando lugar \u00e0s<br \/>\nondas de suic\u00eddios.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, as pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nind\u00edgenas se redefinem, \u00e0s vezes, j\u00e1 n\u00e3o para<br \/>\nlhes dar sustenta\u00e7\u00e3o moral e confian\u00e7a em si mesmos,<br \/>\nmas para induzi-los ao desengano.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso dos mitos her\u00f3icos guaranis referentes \u00e0<br \/>\ncria\u00e7\u00e3o do mundo, que se converteram em mitos macabros, em que<br \/>\na pr\u00f3pria terra apela ao criador que ponha um fim \u00e0 vida porque<br \/>\nest\u00e1 cansada demais de comer cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>A decad\u00eancia da economia da borracha matou tamb\u00e9m as cidades<br \/>\nque floresciam pela Amaz\u00f4nia inteira, provocando o completo abandono<br \/>\nde algumas e a deteriora\u00e7\u00e3o das outras. As duas capitais regionais<br \/>\nperderam o luxo e o vi\u00e7o que as enchera de pal\u00e1cios suntuosos,<br \/>\nde teatros e obras urban\u00edsticas nos tempos pr\u00f3speros de borracha<br \/>\nalta. Sem produ\u00e7\u00e3o b\u00e1sica para exportar, o com\u00e9rcio<br \/>\ndeca\u00eda, sobrevivendo apenas com apelo \u00e0 especula\u00e7\u00e3o<br \/>\ne ao contrabando. A popula\u00e7\u00e3o urbana, por\u00e9m, continuou<br \/>\ncrescendo por incha\u00e7o com o afluxo dos contingentes extrativistas para<br \/>\nseus sub\u00farbios, ainda mais miser\u00e1veis que as mais pobres favelas<br \/>\nou mocambos do pa\u00eds. A\u00ed vegeta uma multid\u00e3o subempregada,<br \/>\nrefletindo condi\u00e7\u00f5es de vida t\u00e3o prec\u00e1rias que<br \/>\nseus \u00edndices de mortalidade geral e infantil, de morbidade e subnutri\u00e7\u00e3o<br \/>\nv\u00eam a ser mais graves que os mais baixos do mundo.<\/p>\n<p>Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, come\u00e7ou uma reordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nda economia amaz\u00f4nica que est\u00e1 permitindo engajar uma parcela<br \/>\nda popula\u00e7\u00e3o em novos tipos de produ\u00e7\u00e3o, como<br \/>\nos cultivos de juta e de pimenta-do-reino, introduzidos pelos japoneses, e<br \/>\nas lavouras de arroz das grandes v\u00e1rzeas. Nas cidades, um come\u00e7o<br \/>\nde industrializa\u00e7\u00e3o est\u00e1 provendo tamb\u00e9m algumas<br \/>\noportunidades de trabalho. E, em algumas \u00e1reas, atividades de extra\u00e7\u00e3o<br \/>\nmineral propiciam novos modos de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>As mais importantes delas aglutinam no territ\u00f3rio do Amap\u00e1<br \/>\nalgumas dezenas de milhares de pessoas na explora\u00e7\u00e3o do mangan\u00eas<br \/>\ne diversos grupos menores de mineradores de cassiterita em Rond\u00f4nia<br \/>\ne no Amazonas.<\/p>\n<p>Repete-se a\u00ed a aventura dos seringais pr\u00f3speros do princ\u00edpio<br \/>\ndo s\u00e9culo, porque se est\u00e3o transladando para a Am\u00e9rica<br \/>\ndo Norte, atrav\u00e9s de uma empresa monopol\u00edstica, a Bethlehem<br \/>\nSteel, essas imensas jazidas, ao custo de sua extra\u00e7\u00e3o e transporte.<br \/>\nFinda a explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o restar\u00e1 qualquer nova fonte<br \/>\nde trabalho capaz de ocupar a popula\u00e7\u00e3o nem qualquer riqueza<br \/>\nlocal. Sua conseq\u00fc\u00eancia prov\u00e1vel ser\u00e1, portanto,<br \/>\na de provocar uma crise id\u00eantica \u00e0 da borracha para que os Estados<br \/>\nUnidos cumpram seu des\u00edgnio de pot\u00eancia, que \u00e9 se fazerem<br \/>\nos detentores exclusivos de mangan\u00eas no hemisf\u00e9rio. Ent\u00e3o,<br \/>\no Brasil ter\u00e1 de importar o min\u00e9rio que agora cede ao pre\u00e7o<br \/>\nde sua extra\u00e7\u00e3o e ter\u00e1, ainda, de haver-se com uma vasta<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o desgastada e miserabilizada.<\/p>\n<p>O desequil\u00edbrio da economia regional, suas dificuldades de integra\u00e7\u00e3o<br \/>\nna vida do pa\u00eds e as prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia<br \/>\nde suas popula\u00e7\u00f5es levaram os constituintes de 1946 a destinar<br \/>\numa parcela de 3% das rendas federais a um programa de valoriza\u00e7\u00e3o<br \/>\necon\u00f4mica da Amaz\u00f4nia. Em 1950, uma comiss\u00e3o concluiu o<br \/>\nprimeiro plano q\u00fcinq\u00fcenal de desenvolvimento, que, desde ent\u00e3o,<br \/>\npercorre as comiss\u00f5es do Congresso sem alcan\u00e7ar aprova\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs verbas s\u00e3o aplicadas na regi\u00e3o e representam o principal<br \/>\nfator de equil\u00edbrio entre o valor de suas exporta\u00e7\u00f5es<br \/>\ne o vulto das importa\u00e7\u00f5es. O abandono da planifica\u00e7\u00e3o,<br \/>\npor\u00e9m, transformou essas dota\u00e7\u00f5es na principal fonte<br \/>\nde renda de que se valem as classes dominantes para enriquecer mediante fornecimentos<br \/>\ne financiamentos de favor, controlados pelos pol\u00edticos da regi\u00e3o<br \/>\ncom o mais desabusado clientelismo eleitoral. Tal como a pobreza do Nordeste<br \/>\n\u00e1rido fez do amparo federal uma &#8220;ind\u00fastria da seca&#8221;,<br \/>\na pen\u00faria dos caboclos da Amaz\u00f4nia fez do &#8220;desenvolvimento<br \/>\nregional&#8221; um rico neg\u00f3cio e um mecanismo de consolida\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica da oligarquia local.<\/p>\n<p>Entretanto, vitalizar a economia da Amaz\u00f4nia, promovendo o regresso<br \/>\nda regi\u00e3o e sua incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 vida nacional como<br \/>\numa popula\u00e7\u00e3o pr\u00f3spera, \u00e9, certamente, um dos<br \/>\nmais graves desafios com que se defronta o Brasil. Mais de uma vez a exist\u00eancia<br \/>\ndessa mancha florestal &#8211; a maior e a menos povoada do mundo &#8211; suscitou cobi\u00e7as<br \/>\ninternacionais. Foi recomendada, em certa ocasi\u00e3o, a Hitler como o<br \/>\nLebensraum adequado para a expans\u00e3o germ\u00e2nica. Mais tarde, foi<br \/>\nobjeto de um verdadeiro projeto de expropria\u00e7\u00e3o, camuflado como<br \/>\num instituto de pesquisas tropicais, no qual os norte-americanos envolveram<br \/>\nas Na\u00e7\u00f5es Unidas. Uma terceira tentativa de espolia\u00e7\u00e3o<br \/>\nassumiu a forma de uma proposta, apresentada \u00e0 ditadura pelo governo<br \/>\nnorte- americano, de arrendamento da \u00e1rea por 99 anos com o fim de<br \/>\n&#8220;estud\u00e1-la e comprovar experimentalmente as t\u00e9cnicas adequadas<br \/>\npara promover o seu desenvolvimento&#8221;. O governo brasileiro, engajado<br \/>\nnos princ\u00edpios de limita\u00e7\u00e3o da soberania para a integra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Brasil como sat\u00e9lite privilegiado do sistema hegem\u00f4nico norte-americano,<br \/>\nse permitiu discutir a mat\u00e9ria. Alertado, por\u00e9m, pela rea\u00e7\u00e3o<br \/>\nda opini\u00e3o p\u00fablica, uma parcela da oficialidade advertiu a ditadura<br \/>\nque n\u00e3o admitiria aluguel ou empr\u00e9stimo ou qualquer sorte de<br \/>\nnegocia\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Uma outra tentativa teve a linguagem de um plano mirabolante dos futur\u00f3logos<br \/>\ndo Instituto Hudson para represar o rio Amazonas, inundando milhares de quil\u00f4metros<br \/>\nquadrados de mata para constituir usinas hidrel\u00e9tricas que produziriam<br \/>\ndez vezes mais energia do que o Brasil consome. Atr\u00e1s desse plano estava<br \/>\no projeto mais realista de criar para os norte-americanos uma \u00e1rea<br \/>\nprop\u00edcia \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nindustrial para o caso de uma guerra nuclear.<\/p>\n<p>Mas a Amaz\u00f4nia \u00e9, de fato, o maior desafio que o Brasil j\u00e1<br \/>\nenfrentou. Sua ocupa\u00e7\u00e3o se vem fazendo com uma din\u00e2mica<br \/>\nde vigor incompar\u00e1vel. Estados maiores que a Fran\u00e7a, como Rond\u00f4nia,<br \/>\nsurgem abruptamente e se v\u00e3o povoando a ritmo acelera do.<\/p>\n<p>Projetos ambiciosos de estradas que atravessam toda a floresta s\u00e3o<br \/>\npostos em execu\u00e7\u00e3o de forma t\u00e3o inepta que depois de<br \/>\ninvestimentos astron\u00f4micos caem no abandono. Sonhos vi\u00e1veis de<br \/>\nnovas estradas que liguem a Amaz\u00f4nia ao Pac\u00edfico, para dar aos<br \/>\nchineses e japoneses n\u00e3o s\u00f3 as madeiras nativas que todo j\u00e1<br \/>\nconsome mas o que o grande vale venha a produzir, se esbo\u00e7am e v\u00eam<br \/>\nse viabilizando. Uma nova classe pol\u00edtica e at\u00e9 uma nova gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nde militares, empolgados com o que a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<br \/>\nda Amaz\u00f4nia pode render, se exacerbam contra os caboclos e contra os<br \/>\n\u00edndios, que ocupam parte \u00ednfima da floresta mas se afiguram,<br \/>\naos seus olhos, como obst\u00e1culos ao progresso.<\/p>\n<p>Foi poss\u00edvel no passado liquidar a mais pungente floresta brasileira,<br \/>\na do vale do rio Doce, convertida em ralas pastagens debaixo das quais a terra<br \/>\n\u00e9 uma ferida exposta \u00e0 eros\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel<br \/>\nque alguma coisa assim ocorra \u00e0 Amaz\u00f4nia, ainda que suas dimens\u00f5es<br \/>\ngigantescas e suas enormes varia\u00e7\u00f5es regionais apontem para<br \/>\num futuro mais din\u00e2mico. Por seus rios transita hoje meio milh\u00e3o<br \/>\nde garimpeiros miser\u00e1veis que explorando ouro, cassiterita ou o que<br \/>\nquer que seja n\u00e3o alcan\u00e7am uma renda equivalente a um sal\u00e1rio<br \/>\nm\u00ednimo. Sua \u00fanica efic\u00e1cia se deve ao merc\u00fario<br \/>\ncom que envenenam as \u00e1guas, os peixes e a popula\u00e7\u00e3o ribeirinha.<br \/>\nNo seu encal\u00e7o, grandes empresas se preparam para explorar as jazidas<br \/>\nminerais das regi\u00f5es, que s\u00e3o as maiores de que se tem not\u00edcia.<br \/>\nAbrir\u00e1 isso uma perspectiva de se criar uma nova Minas Gerais, onde<br \/>\nde uma grande explora\u00e7\u00e3o secular de min\u00e9rios s\u00f3<br \/>\nresultaram uma popula\u00e7\u00e3o pobre e buracos, expondo outra vez<br \/>\nos interiores da terra \u00e0 eros\u00e3o? As perspectivas de retomar<br \/>\nvelhos seringais e revitaliz\u00e1-los para abrir melhores condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vida aos trabalhadores da floresta resultaram em conflitos, como aquele<br \/>\nmundialmente escandaloso que vitimou Chico Mendes. Entretanto, ele e seus<br \/>\ncompanheiros foram os \u00fanicos que apontaram concretamente para como<br \/>\nfazer a Amaz\u00f4nia habit\u00e1vel e rendosa, o que \u00e9 perfeitamente<br \/>\nposs\u00edvel desde que se encontrem formas de manter assentamentos<\/p>\n<p>humanos que possam ser subsidiados at\u00e9 amadurecerem seus plantios<br \/>\nde seringueiras e tamb\u00e9m de bosques onde flores\u00e7am as fruteiras<br \/>\nda Amaz\u00f4nia, que se oferecer\u00e3o ao mundo como uma promessa de<br \/>\ngosto e do\u00e7ura. Isso \u00e9 totalmente impratic\u00e1vel atrav\u00e9s<br \/>\ndo sistema empresarial privado, dado seu inevit\u00e1vel imediatismo. \u00c9<br \/>\nimpratic\u00e1vel, tamb\u00e9m, atrav\u00e9s dos caboclos, que t\u00e3o<br \/>\nbem saberiam faz\u00ea-lo, porque estes trabalham da m\u00e3o para a boca,<br \/>\ntal \u00e9 a sua pen\u00faria.<\/p>\n<h2>4. O BRASIL SERTANEJO<\/h2>\n<p>&#8220;De couro era a porta das cabanas, o rude leito aplicado ao ch\u00e3o<br \/>\nduro, e mais tarde, a cama para os partos: de couro, todas as cordas, a borracha<br \/>\npara carregar \u00e1gua, o moc\u00f3 ou alforje para levar comida, a mala<br \/>\npara guardar roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prend\u00ea-lo<br \/>\nem viagem, as bainhas de faca, as broacas e surr\u00f5es, a roupa de entrar<br \/>\nno mato, os bangu\u00eas para curtume ou para apurar sal; para os a\u00e7udes,<br \/>\no material de aterro era levado em couros puxados por pontas de bois que calcavam<br \/>\na terra com seu peso; em couro pisava-se tabaco para o nariz.<\/p>\n<p>Capistrano de Abreu, 1954&#8221; Para al\u00e9m da faixa nordestina das<br \/>\nterras frescas e f\u00e9rteis do massap\u00e9, com rica cobertura florestal,<br \/>\nonde se implantaram os engenhos de a\u00e7\u00facar, desdobram-se as terras<br \/>\nde uma outra \u00e1rea ecol\u00f3gica. Come\u00e7am pela orla descont\u00ednua<br \/>\nainda \u00famida do agreste e prosseguem com as enormes extens\u00f5es<br \/>\nsemi-\u00e1ridas das caatingas. Mais al\u00e9m, penetrando j\u00e1 o<br \/>\nBrasil Central, se elevam em planalto como campos cerrados que se estendem<br \/>\npor milhares de l\u00e9guas quadradas.<\/p>\n<p>Toda essa \u00e1rea conforma um vast\u00edssimo mediterr\u00e2neo de<br \/>\nvegeta\u00e7\u00e3o rala, confinado, de um lado, pela floresta da costa<br \/>\natl\u00e2ntica, do outro pela floresta amaz\u00f4nica e fechado ao sul por<br \/>\nzonas de matas e campinas naturais. Faixas de florestas em galeria cortam<br \/>\nesse mediterr\u00e2neo, acompanhando o curso dos rios principais, adensando-se<br \/>\nem cap\u00f5es de mata ou palmeirais de carna\u00faba, buriti ou baba\u00e7u,<br \/>\nonde encontra terreno mais \u00famido. A vegeta\u00e7\u00e3o comum,<br \/>\npor\u00e9m, \u00e9 pobre, formada de pastos naturais ralos e secos e de<br \/>\narbustos enfezados que exprimem em seus troncos e ramos tortuosos, em seu<br \/>\nenfolhamento maci\u00e7o e duro, a pobreza das terras e a irregularidade<br \/>\ndo regime de chuvas. Nos cerrados e, sobretudo, nas caatingas, a vegeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nalcan\u00e7a j\u00e1 uma plena adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 secura<br \/>\ndo clima, predominando as cact\u00e1ceas, os espinhos e as xer\u00f3filas,<br \/>\norganizadas para condensar a umidade atmosf\u00e9rica das madrugadas frescas<br \/>\ne para conservar nas folhas fibrosas e nos tub\u00e9rculos as \u00e1guas<br \/>\nda esta\u00e7\u00e3o chuvosa.<\/p>\n<p>No agreste, depois nas caatingas e, por fm, nos cerrados, desenvolveu-se<br \/>\numa economia pastoril associada originalmente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o<br \/>\na\u00e7ucareira como fornecedora de carne, de couros e de bois de servi\u00e7o.<br \/>\nFoi sempre uma economia pobre e dependente. Contando, por\u00e9m, com a<br \/>\nseguran\u00e7a de um crescente mercado interno para sua produ\u00e7\u00e3o,<br \/>\nal\u00e9m da exporta\u00e7\u00e3o de couro, p\u00f4de expandir-se continuamente<br \/>\natrav\u00e9s de s\u00e9culos. Acabou incorporando ao pastoreio uma parcela<br \/>\nponder\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o nacional, cobrindo e ocupando<br \/>\n\u00e1reas territoriais mais extensas que qualquer outra atividade produtiva.<\/p>\n<p>Conformou, tamb\u00e9m, um tipo particular de popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom uma subcultura pr\u00f3pria, a sertaneja, marcada por sua especializa\u00e7\u00e3o<br \/>\nao pastoreio, por sua dispers\u00e3o espacial e por tra\u00e7os caracter\u00edsticos<br \/>\nidentific\u00e1veis no modo de vida, na organiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia,<br \/>\nna estrutura\u00e7\u00e3o do poder, na vestimenta t\u00edpica, nos folguedos<br \/>\nestacionais, na dieta, na culin\u00e1ria, na vis\u00e3o de mundo e numa<br \/>\nreligiosidade propensa ao messianismo.<\/p>\n<p>O gado trazido pelos portugueses das ilhas de Cabo Verde vinha j\u00e1,<br \/>\nprovavelmente, aclimatado para a cria\u00e7\u00e3o extensiva, sem estabula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nem que os pr\u00f3prios animais procuram suas aguadas e seu alimento. Os<br \/>\nprimeiros lotes instalaram-se no agreste pernambucano e na orla do rec\u00f4ncavo<br \/>\nbaiano, suficientemente distanciados dos engenhos para n\u00e3o estragar<br \/>\nos canaviais. Da\u00ed se multiplicaram e dispersaram em currais, ao longo<br \/>\ndos rios permanentes, formando as ribeiras pastoris. Ao fim do s\u00e9culo<br \/>\nXVI, os criadores baianos e pernambucanos se encontravam j\u00e1 nos sert\u00f5es<br \/>\ndo rio S\u00e3o Francisco, prosseguindo ao longo dele, rumo ao sul e para<br \/>\nal\u00e9m, rumo \u00e0s terras do Piau\u00ed e do Maranh\u00e3o. Seus<br \/>\nrebanhos somariam ent\u00e3o cerca de 700 mil cabe\u00e7as, que dobrariam<br \/>\nno s\u00e9culo seguinte.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o desse pastoreio se fazia pela multiplica\u00e7\u00e3o<br \/>\ne dispers\u00e3o dos currais, dependendo da posse do rebanho e do dom\u00ednio<br \/>\ndas terras de cria\u00e7\u00e3o. O gado devia ser comprado, mas as terras,<br \/>\npertencendo nominalmente \u00e0 Coroa, eram concedidas gratuitamente em<br \/>\nsesmarias aos que se fizessem merecedores do favor real. Nos primeiros tempos,<br \/>\nos pr\u00f3prios senhores de engenho da costa se faziam sesmeiros da orla<br \/>\ndo sert\u00e3o, criando ali o gado que consumiam. Depois, esta se tornou<br \/>\numa atividade especializada de criadores, que formaram os maiores detentores<br \/>\nde latif\u00fandios no Brasil. O mais c\u00e9lebre deles foi um baiano<br \/>\nt\u00e3o rico que deixou em testemunho, a favor dos jesu\u00edtas, recursos<br \/>\npara rezarem missas por sua alma at\u00e9 o fim do mundo.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s desse sistema, antes que o gado atingisse qualquer terra,<br \/>\nera ela acaparada legalmente pela apropria\u00e7\u00e3o em sesmaria. Como<br \/>\nos currais s\u00f3 se podiam instalar junto \u00e0s raras aguadas permanentes<br \/>\ne n\u00e3o muito longe dos barreiros naturais onde o gado satisfazia sua<br \/>\nfome de sal e em virtude da qualidade paup\u00e9rrima dos pastos naturais,<br \/>\nessas sesmarias se fizeram imensas. Cada uma delas com seus currais, por vezes<br \/>\ndistanciados dias de viagem uns dos outros, entregues aos vaqueiros.<\/p>\n<p>Estes davam conta do rebanho periodicamente, separando uma r\u00eas, como<br \/>\npagamento, para cada tr\u00eas marcadas para o dono. Assim, o vaqueiro ia<br \/>\njuntando as pe\u00e7as do seu pr\u00f3prio rebanho, que levaria para zonas<br \/>\nmais ermas, ainda n\u00e3o conhecidas nem alcan\u00e7adas pelas sesmarias.<br \/>\nO regime de trabalho do pastoreio n\u00e3o se funda, pois, na escravid\u00e3o,<br \/>\nmas num sistema peculiar em que o soldo se pagava em fornecimento de g\u00eaneros<br \/>\nde manuten\u00e7\u00e3o, sobretudo de sal, e em crias do rebanho.<\/p>\n<p>Em cada curral viviam as fam\u00edlias do vaqueiro e dos seus ajudantes,<br \/>\ngeralmente aprendizes, \u00e0 espera de um dia receberem tamb\u00e9m uma<br \/>\nponta do gado para criar e zelar. Periodicamente, passavam os boiadeiros que<br \/>\narrebanhavam o gado para conduzi-lo, sert\u00e3o afora, at\u00e9 a costa<br \/>\nonde seria vendido. Traziam o sal e poucas coisas mais do que necessitavam<br \/>\nos vaqueiros, afeitos \u00e0 vida no ermo, moldados pela atividade pastoril,<br \/>\ntirando do gado quase tudo do que careciam.<\/p>\n<p>Os n\u00facleos formados nos currais plantavam ro\u00e7ados e amansavam<br \/>\numas quantas vacas para terem leite, coalhada e queijos. Carneavam, por vezes,<br \/>\numa r\u00eas, garantindo-se assim uma subsist\u00eancia mais farta e segura<br \/>\ndo que a de qualquer outro n\u00facleo rural brasileiro. As rela\u00e7\u00f5es.<br \/>\ncom o dono das terras e do rebanho tendiam a assumir a forma de uma ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nmenos desigualit\u00e1ria que a do engenho, embora rigidamente hierarquizada.<br \/>\nO senhor, quando presente, se fazia compadre e padrinho, respeitado por seus<br \/>\nhomens, mas tamb\u00e9m respeitador das qualidades funcionais destes, ainda<br \/>\nque n\u00e3o de sua dignidade pessoal. Entretanto, tal como ocorre com os<br \/>\npovos pastoris, a pr\u00f3pria atividade especializada destacava o brio<br \/>\ne a qualifica\u00e7\u00e3o dos melhores vaqueiros na dura lida di\u00e1ria<br \/>\ndo campo. Ensejavam-se, assim, compara\u00e7\u00f5es de per\u00edcia<br \/>\ne valor pessoal, fazendo-os mais altivos que o lavrador ou o empregado servi\u00e7al.<br \/>\nO sistema resultante aproxima-se mais \u00e0 tipologia das rela\u00e7\u00f5es<br \/>\npastoris em todo o mundo que das rela\u00e7\u00f5es de trabalho de planta\u00e7\u00e3o<br \/>\nescravocrata, embora se aproximasse dela pelo car\u00e1ter mercantil do<br \/>\npastoreio e pela depend\u00eancia do regime latifundi\u00e1rio.<\/p>\n<p>O criador e seus vaqueiros se relacionavam como um amo e seus servidores.<\/p>\n<p>Enquanto dono e senhor, o propriet\u00e1rio tinha autoridade indiscutida<br \/>\nsobre os bens e, \u00e0s vezes, pretendia t\u00ea-la tamb\u00e9m sobre<br \/>\nas vidas e, freq\u00fcentemente, sobre as mulheres que lhe apetecessem. Assim,<br \/>\no conv\u00edvio mais intenso e at\u00e9 a aprecia\u00e7\u00e3o das<br \/>\nqualidades de seus servi\u00e7ais n\u00e3o aproximavam socialmente as<br \/>\nduas classes, prevalecendo um distanciamento hier\u00e1rquico e permitindo<br \/>\narbitrariedades, embora estas estivessem longe de assemelhar-se \u00e0 brutalidade<br \/>\ndas rela\u00e7\u00f5es prevalecentes nas \u00e1reas da cultura crioula.<\/p>\n<p>O contraste dessa condi\u00e7\u00e3o com a vida dos engenhos a\u00e7ucareiros<br \/>\ndevia fazer a cria\u00e7\u00e3o de gado mais atrativa para os brancos<br \/>\npobres e para os mesti\u00e7os dos n\u00facleos litor\u00e2neos. Acresce<br \/>\nque o neg\u00f3cio a\u00e7ucareiro, al\u00e9m de exigir capitais enormes,<br \/>\nque excediam \u00e0s possibilidades da gente comum, s\u00f3 admitia uns<br \/>\npoucos trabalhadores especializados entre a classe de senhores e a massa escrava.<br \/>\nA pr\u00f3pria rigidez da disciplina de trabalho no engenho devia torn\u00e1-lo<br \/>\ninsuport\u00e1vel para o trabalhador livre e, mais ainda, para gente afeita<br \/>\n\u00e0 vida aventurosa e vadia dos vilarejos litor\u00e2neos. Por tudo<br \/>\nisso, muitos mesti\u00e7os devem ter-se dirigido ao pastoreio, como vaqueiros<br \/>\ne ajudantes, na esperan\u00e7a de um dia se fazerem criadores. Desse modo<br \/>\nproviam uma oferta constante de m\u00e3o-de-obra, tornando dispens\u00e1vel<br \/>\na compra de escravos.<\/p>\n<p>S\u00f3 assim se explica, de resto, o pr\u00f3prio fen\u00f3tipo predominantemente<br \/>\nbranc\u00f3ide de base ind\u00edgena do vaqueiro nordestino, baiano e<br \/>\ngoiano. Tais caracter\u00edsticas t\u00eam sido interpretadas, por vezes,<br \/>\ncomo resultado de uma miscigena\u00e7\u00e3o continuada com os grupos<br \/>\nind\u00edgenas dos sert\u00f5es. A hip\u00f3tese parece historicamente<br \/>\ninsustent\u00e1vel em face da hostilidade que se desenvolveu sempre entre<br \/>\nvaqueiros e \u00edndios, onde quer que se defrontassem.<\/p>\n<p>Disputando o dom\u00ednio dos territ\u00f3rios tribais de ca\u00e7adas<br \/>\npara destin\u00e1-los ao pastoreio e lutando contra o \u00edndio para<br \/>\nimpedi-lo de substituir a ca\u00e7a que se tornara rara e arredia nos campos<br \/>\npovoados pela nova e enorme ca\u00e7a que era o gado, os conflitos se tornavam<br \/>\ninevit\u00e1veis. Acresce que a suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 desnecess\u00e1ria,<br \/>\nporque partindo de uns poucos mesti\u00e7os tirados das povoa\u00e7\u00f5es<br \/>\nda costa &#8211; e aos quais n\u00e3o se acrescentou nenhum contingente imigrat\u00f3rio<br \/>\nbranco ou negro &#8211; ter\u00edamos, natural e necessariamente, pelo imperativo<br \/>\ngen\u00e9tico da perman\u00eancia dos caracteres raciais, a perpetua\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo fen\u00f3tipo original. Tudo isso parece ser verdade. A antropologia,<br \/>\npor\u00e9m, nega a hist\u00f3ria, mostrando a cabe\u00e7a chata enterrada<br \/>\nnos ombros, que n\u00e3o pode vir do nada. \u00c9 inevit\u00e1vel admitir<br \/>\nque, roubando mulheres ou acolhendo \u00edndios nos criat\u00f3rios, o<br \/>\nfen\u00f3tipo t\u00edpico dos povos ind\u00edgenas originais daqueles<br \/>\nsert\u00f5es se imprimiram na vaquejada e nos nordestinos em geral.<\/p>\n<p>Apesar das enormes dist\u00e2ncias entre os n\u00facleos humanos desses<br \/>\ncurrais dispersos pelo sert\u00e3o deserto, certas formas de sociabilidade<br \/>\nse foram desenvolvendo entre os moradores dos currais da mesma ribeira. A<br \/>\nnecessidade de recuperar e apartar o gado al\u00e7ado nos campos ensejava<br \/>\nformas de coopera\u00e7\u00e3o como as vaquejadas, que se tornaram pr\u00e9lios<br \/>\nde habilidade entre os vaqueiros, acabando, \u00e0s vezes, por transformar-se<br \/>\nem festas regionais. O culto dos santos padroeiros e as festividades do calend\u00e1rio<br \/>\nreligioso &#8211; centralizado nas capelas com os respectivos cemit\u00e9rios,<br \/>\ndispersos pelo sert\u00e3o, cada qual com seu c\u00edrculo de devotos<br \/>\nrepresentados por todos os moradores das terras circundantes &#8211; proporcionavam<br \/>\nocasi\u00f5es regulares de conv\u00edvio entre as fam\u00edlias de vaqueiros<br \/>\nde que resultavam festas, bailes e casamentos.<\/p>\n<p>Afora essa conviv\u00eancia vicinal e que se circunscrevia aos vaqueiros<br \/>\nda mesma \u00e1rea, o que prevalecia era o isolamento dos n\u00facleos<br \/>\nsertanejos, cada qual estruturado autarquicamente e voltado sobre si mesmo,<br \/>\nna imensidade dos sert\u00f5es.<\/p>\n<p>As atividades pastoris, nas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas dos<br \/>\nsert\u00f5es cobertos de pastos pobres e com extensas \u00e1reas sujeitas<br \/>\na secas peri\u00f3dicas, conformaram n\u00e3o s\u00f3 a vida mas a pr\u00f3pria<br \/>\nfigura do homem e do gado. Um e outro diminu\u00edram de estatura, tornaram-se<br \/>\nossudos e secos de carnes. Assim associados, multiplicando-se juntos, o gado<br \/>\ne os homens foram penetrando terra adentro, at\u00e9 ocupar, ao fim de tr\u00eas<br \/>\ns\u00e9culos, quase todo o sert\u00e3o interior. Como uma mercadoria que<br \/>\nse conduz a si mesma, o gado, apesar de cada vez mais distanciado do mercado<br \/>\nconsumidor, ia sendo desbastado pelos abates.<\/p>\n<p>No curso desse movimento de expans\u00e3o, todo o sert\u00e3o foi sendo<br \/>\nocupado e cortado por estradas abertas pela batida das boiadas. Estas marchavam<br \/>\nde pouso em pouso, assentados todos eles nos locais de \u00e1gua permanente<br \/>\ne de boa pastagem, capaz de propiciar a recupera\u00e7\u00e3o do rebanho.<br \/>\nMuitos desses pousos se transformariam em vilas e cidades, c\u00e9lebres<br \/>\ncomo feiras de gado, vindo de imensas regi\u00f5es circundantes.<\/p>\n<p>Mais tarde, as terras mais pobres dos carrascais, onde o gado n\u00e3o<br \/>\npodia crescer, foram dedicadas \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de bodes, cujos<br \/>\ncouros encontraram amplo mercado. Esses bodes multiplicaram-se prodigiosamente<br \/>\npor todo o Nordeste. Crescendo junto ao gado, transformam-se mais tarde na<br \/>\n\u00fanica carne ao alcance do vaqueiro.<\/p>\n<p>Com o gado e com os bodes crescia a vaqueirada, multiplicando-se \u00e0<br \/>\ntoa pelas fazendas, incapaz de absorver lucrativamente a tanta gente nas lides<br \/>\npastoris, pouco exigente de m\u00e3o-de-obra. Assim \u00e9 que os currais<br \/>\nse fizeram criat\u00f3rios de gado, de bode e de gente: os bois para vender,<br \/>\nos bodes para consumir, os homens para emigrar.<\/p>\n<p>Contando com essa for\u00e7a de trabalho excedente, as fazendas deixaram,<br \/>\nprimeiro, de pagar aos vaqueiros em reses, estabelecendo sistemas de sal\u00e1rios<br \/>\nem dinheiro, que, computando o rancho e a alimenta\u00e7\u00e3o, pouco<br \/>\nsaldo asseguravam ao trabalhador. Depois, todo o Nordeste pastoril come\u00e7ou<br \/>\na dedicar-se a atividades ancilares. A mais importante delas foi o cultivo<br \/>\nde um algod\u00e3o arb\u00f3reo, nativo na regi\u00e3o, o moc\u00f3,<br \/>\ncujo car\u00e1ter xer\u00f3filo lhe permitia sobreviver e produzir, mesmo<br \/>\nnas \u00e1reas mais secas do sert\u00e3o, um casulo de fibras longas com<br \/>\nampla aceita\u00e7\u00e3o no mercado mundial. Esse cultivo associou-se<br \/>\nbem com o pastoreio pelo provimento ao gado de torta de sementes, que constitui<br \/>\numa ra\u00e7\u00e3o ideal, bem como pelo valor aliment\u00edcio da palha<br \/>\ndos ro\u00e7ados de subsist\u00eancia dos lavradores, nos quais o fazendeiro<br \/>\nsolta o gado depois da colheita.<\/p>\n<p>Cada criador procurou, ent\u00e3o, fazer-se tamb\u00e9m lavrador de<br \/>\nmoc\u00f3, ocupando nessa tarefa as fam\u00edlias de seus vaqueiros e,<br \/>\ndepois, gente especialmente atra\u00edda para os novos cultivos, povoando<br \/>\nainda mais os sert\u00f5es semi-\u00e1ridos. Os cultivadores de algod\u00e3o<br \/>\ningressam no latif\u00fandio pastoril como meeiros, vale dizer, recebendo<br \/>\numa quadra de terra para cultivar o alimento que comeriam e outras para produzir<br \/>\ncolheitas de moc\u00f3, de que deveriam entregar metade ao propriet\u00e1rio.<br \/>\nAssim, em cada fazenda, al\u00e9m da casa de telhas do criador, avarandada<br \/>\ne provida de portas e janelas, e das rancharias singelas de seus vaqueiros,<br \/>\nse acrescentavam as palho\u00e7as miser\u00e1veis que abrigavam os lavradores<br \/>\nde moc\u00f3.<\/p>\n<p>Em outras \u00e1reas do Nordeste interior, popula\u00e7\u00f5es excedentes<br \/>\ndo pastoreio dedicavam-se a atividades extrativistas, como a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos palmais de carna\u00faba, para a produ\u00e7\u00e3o de cera e de<br \/>\nartefatos de palha, sempre pelo mesmo regime de mea\u00e7\u00e3o com o<br \/>\npropriet\u00e1rio. Essas atividades s\u00f3 puderam aliciar centenas de<br \/>\nmilhares de trabalhadores em virtude da miserabilidade das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nnordestinas, porque, mesmo combinadas com lavouras de subsist\u00eancia,<br \/>\nprov\u00eam uma renda m\u00ednima que apenas permite sobreviver.<\/p>\n<p>Em algumas manchas de terras \u00famidas salpicadas pelo mediterr\u00e2neo<br \/>\nsertanejo &#8211; os brejos, as serras e as v\u00e1rzeas &#8211; desenvolveu-se, ao<br \/>\nlado da cria\u00e7\u00e3o, alguma lavoura comercial. \u00c9 o caso da<br \/>\nzona do agreste nordestino, mais fresca e mais pr\u00f3xima de centros urbanos<br \/>\nconsumidores, onde o pastoreio mesclou-se com uma lavoura de g\u00eaneros<br \/>\naliment\u00edcios, sem contudo se associarem. Onde prevalece a agricultura,<br \/>\nconfina-se o gado, onde prepondera o pastoreio, cercam-se os ro\u00e7ados.<br \/>\nEssa economia mais intensiva ensejou uma concentra\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica<br \/>\nmaior, aglutinando a popula\u00e7\u00e3o em vilas das quais sa\u00edam<br \/>\npara cultivar terras arrendadas pelo regime de mea\u00e7\u00e3o e para<br \/>\ntrabalhar nos engenhos, nas quadras de corte de cana.<\/p>\n<p>Mais tarde, com o aumento da popula\u00e7\u00e3o, as zonas de pastoreio<br \/>\ntransformaram-se, principalmente, em criat\u00f3rios de gente, dos quais<br \/>\nsaem os contingentes de m\u00e3o-de- obra requeridos pelas demais regi\u00f5es<br \/>\ndo pa\u00eds. Assim, formaram-se os grupos pioneiros que penetraram na floresta<br \/>\namaz\u00f4nica a fim de explorar a seringueira nativa e outras esp\u00e9cies<br \/>\ngom\u00edferas. Assim ocorreu para a abertura de novas frentes agr\u00edcolas<br \/>\nno Sul. Assim, tamb\u00e9m, para engrossar as popula\u00e7\u00f5es urbanas,<br \/>\nsempre que um surto de constru\u00e7\u00e3o civil ou de industrializa\u00e7\u00e3o<br \/>\nexigia massas de m\u00e3o-de-obra n\u00e3o qualificada.<\/p>\n<p>Os sert\u00f5es se fizeram, desse modo, um vasto reservat\u00f3rio de<br \/>\nfor\u00e7a de trabalho barata, passando a viver, em parte, das contribui\u00e7\u00f5es<br \/>\nremetidas pelos sertanejos emigrados para sustento de suas fam\u00edlias.<br \/>\nO grave, por\u00e9m, \u00e9 que emigram precisamente aqueles poucos sertanejos<br \/>\nque conseguem alcan\u00e7ar a idade madura, com maior vigor f\u00edsico,<br \/>\ntendendo a fixar-se nas zonas mais ricas do Sul aqueles nos quais a paup\u00e9rrima<br \/>\nsociedade de origem investiu o suficiente para alfabetizar e capacitar para<br \/>\no trabalho. Desse modo, o elemento humano mais vigoroso, mais eficiente e<br \/>\nmais combativo \u00e9 roubado \u00e0 regi\u00e3o, no momento preciso<br \/>\nem que deveria ressarcir o seu custo social.<\/p>\n<p>Apesar dessas sangrias em sua popula\u00e7\u00e3o, o sert\u00e3o regurgita<br \/>\nde gente em rela\u00e7\u00e3o ao baixo n\u00edvel da tecnologia compat\u00edvel<br \/>\ncom a explora\u00e7\u00e3o pastoril latifundi\u00e1ria; \u00e0 precariedade<br \/>\ndas lavouras de moc\u00f3, ali\u00e1s em plena decad\u00eancia; \u00e0s<br \/>\nmiser\u00e1veis atividades extrativas que enseja e, sobretudo, \u00e0s<br \/>\ndif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es de provimento da subsist\u00eancia.<br \/>\n\u00c9 de temer que essa imensa oferta de m\u00e3o-de-obra \u00e1vida<br \/>\npor empregos contribua para a compress\u00e3o dos sal\u00e1rios no Brasil,<br \/>\nque para trabalho n\u00e3o qualificado s\u00e3o dos menores do mundo.<br \/>\nA presen\u00e7a desses excedentes humanos revela-se de forma dram\u00e1tica<br \/>\npor ocasi\u00e3o das secas que assolam periodicamente a regi\u00e3o. Ent\u00e3o,<br \/>\nlevas de flagelados emergem do sert\u00e3o esturricado pela seca e pelo<br \/>\nsol causticante, enchendo, primeiro, as estradas, depois as vilas e cidades<br \/>\nsertanejas com a presen\u00e7a sombria de sua mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Desde a segunda metade do s\u00e9culo passado, as secas nordestinas transformaram-se<br \/>\nnum problema nacional a exigir do governo medidas de socorro e de amparo.<br \/>\nEntre o poder federal e a massa flagelada pela seca medeia, por\u00e9m,<br \/>\na poderosa cama da senhorial dos coron\u00e9is, que controla toda a vida<br \/>\ndo sert\u00e3o, monopolizando n\u00e3o s\u00f3 as terras e o gado, mas<br \/>\nas posi\u00e7\u00f5es de mando e as oportunidades de trabalho que enseja<br \/>\na m\u00e1quina governamental. S\u00e3o os grandes eleitores dos deputados,<br \/>\nsenadores e governadores; os manipuladores das autoridades municipais e estaduais,<br \/>\nsempre sol\u00edcitas em atend\u00ea-los e dispostas a tudo fazer para<br \/>\nemprestar congru\u00eancia e amplitude \u00e0 autoridade fazendeira, estendendo-a<br \/>\nsobre toda a regi\u00e3o. Esses donos da vida, das terras e dos rebanhos<br \/>\nagem sempre durante as secas, mais comovidos pela perda de seu gado do que<br \/>\npelo peso do flagelo que recai sobre seus trabalhadores sertanejos, e sempre<br \/>\npredispostos a se apropriarem das ajudas governamentais destinadas aos flagelados.<\/p>\n<p>Assim, a ordem olig\u00e1rquica, que monopolizara a terra pela outorga<br \/>\noficial das sesmarias durante a \u00e9poca colonial, continua conduzindo,<br \/>\nsegundo seus interesses, as rela\u00e7\u00f5es com o poder p\u00fablico,<br \/>\nconseguindo, por fim, colocar at\u00e9 mesmo as secas a seu servi\u00e7o<br \/>\ne fazer delas um neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Cada seca, e por vezes a simples amea\u00e7a de uma estiagem, transforma-se<br \/>\nnuma opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, em nome do socorro aos flagelados,<br \/>\ncarreia vultosas verbas para a abertura de estradas e, sobretudo, a constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde a\u00e7udes nos criat\u00f3rios. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas,<br \/>\nenormes somas federais concedidas para o atendimento das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nnordestinas atingidas pelas secas custearam a constru\u00e7\u00e3o de<br \/>\nmilhares de a\u00e7udes, grandes e pequenos, enriquecendo ainda mais os<br \/>\nlatifundi\u00e1rios, assegurando a seu gado a \u00e1gua salvadora nas<br \/>\nquadras de estiagem e amplas estradas para movimentar os rebanhos em busca<br \/>\nde pastos frescos. Esses mesmos mecanismos retiveram os sertanejos sob o guante<br \/>\ndos patr\u00f5es.<\/p>\n<p>Chegou-se mesmo a implantar uma &#8220;ind\u00fastria da seca&#8221;, facilmente<br \/>\nsimul\u00e1vel numa enorme \u00e1rea de baixa pluviosidade natural, quando<br \/>\npara isso se associam os pol\u00edticos, que, dessa forma, encontram modos<br \/>\nde servir sua clientela, os negociantes e empreiteiros de obras que passam<br \/>\na viver e a enriquecer da aplica\u00e7\u00e3o de fundos p\u00fablicos<br \/>\nde socorro e os grandes criadores pleiteantes de novos a\u00e7udes, valorizadores<br \/>\nde suas terras e que nada lhes custam. Apesar dos planos governamentais consignarem<br \/>\nsempre a destina\u00e7\u00e3o dos a\u00e7udes \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas terras para os cultivos de subsist\u00eancia, na forma de pequenas propriedades<br \/>\nfamiliais, jamais um palmo das terras beneficiadas foi desapropriada com esse<br \/>\nobjetivo, ficando as \u00e1reas irrig\u00e1veis sob o dom\u00ednio dos<br \/>\nfazendeiros, para os usos que mais lhes convinham. Assim, todos os programas<br \/>\nde socorro aos flagelados resultaram em iniciativas consolidadoras do latif\u00fandio<br \/>\npastoril, salvaguardando o gado bovino dos fazendeiros, mas mantendo o sertanejo<br \/>\nnas mesmas condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, cada vez mais indefesos<br \/>\nem face de uma explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mais danosa do que<br \/>\nas secas.<\/p>\n<p>Um primeiro \u00f3rg\u00e3o federal permanente &#8211; o Departamento Nacional<br \/>\nde Obras Contra Seca (DNOCS) &#8211; criado para atender ao problema das secas transformou-se<br \/>\nnuma ag\u00eancia de clientelismo descarado a servi\u00e7o dos grandes<br \/>\ncriadores e do patriciado pol\u00edtico da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais tarde, foi necess\u00e1rio criar um segundo \u00f3rg\u00e3o,<br \/>\na Superintend\u00eancia do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), planejado<br \/>\nem bases modernas, relativamente liberado do clientelismo (que continuaria<br \/>\nsendo provido pela primeira institui\u00e7\u00e3o), para devotar-se \u00e0<br \/>\nimplanta\u00e7\u00e3o de uma infra-estrutura mais capaz de dinamizar a<br \/>\neconomia regional. Como era previs\u00edvel, o programa encontrou a maior<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o das camadas senhoriais nordestinas e s\u00f3 p\u00f4de<br \/>\nser posto em execu\u00e7\u00e3o depois de demonstrar que n\u00e3o afetaria<br \/>\na estrutura social, especialmente o regime de propriedade.<\/p>\n<p>Desse modo, imensos recursos aplicados com alto padr\u00e3o t\u00e9cnico<br \/>\ne moral beneficiaram ao Nordeste, produzindo, por\u00e9m, efeitos sociais<br \/>\nmuito menores do que uma parcela dos mesmos investimentos permitiria alcan\u00e7ar,<br \/>\nse se pudesse reordenar o regime de propriedade da terra. Todos os fatores<br \/>\ninstitucionais decisivos permaneceram, assim, sob a guarda de poderosas for\u00e7as<br \/>\npol\u00edticas, cujos interesses s\u00e3o opostos aos da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nsertaneja, mas cujo dom\u00ednio sobre a estrutura do poder \u00e9 hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Sob essas condi\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio desp\u00f3tico, as<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es do sertanejo com seu patronato se revestem do maior<br \/>\nrespeito e defer\u00eancia, esfor\u00e7ando-se cada vaqueiro ou lavrador<br \/>\npor demonstrar sua prestimosidade de servidor e sua lealdade pessoal e pol\u00edtica.<br \/>\nTemerosos de que qualquer atitude os torne malvistos, submetem-se \u00e0<br \/>\nproibi\u00e7\u00e3o de receber visitantes de outras fazendas e, ainda<br \/>\nmais, de tratar com estranhos, al\u00e9m de toda uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00e0 sua conduta pessoal e familiar. Seu temor supremo \u00e9 verem-se<br \/>\ndesgarrados, sem patr\u00e3o e senhor que os proteja do arb\u00edtrio<br \/>\ndo policial, do juiz, do cobrador de impostos, do agente de recrutamento militar.<br \/>\nIlhados no mar do latif\u00fandio pastoril dominado por donos todo-poderosos,<br \/>\n\u00fanicos agentes do poder p\u00fablico, t\u00eam verdadeiro pavor<br \/>\nde se verem exclu\u00eddos do nicho em que vivem, porque isso equivaleria<br \/>\na mergulhar na terra de ningu\u00e9m, na condi\u00e7\u00e3o dos fora-da-lei.<\/p>\n<p>Paradoxalmente essa sa\u00edda desesperada \u00e9 a \u00fanica que<br \/>\nenseja ao sertanejo libertar-se da opress\u00e3o em que vive, seja emigrando<br \/>\npara outras terras, seja caindo no banditismo.<\/p>\n<p>Com efeito, uma parcela enorme de sertanejos \u00e9 compelida a engrossar<br \/>\nas frentes pioneiras lan\u00e7adas \u00e0 abertura de novas \u00e1reas<br \/>\nde explora\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m das fronteiras dos territ\u00f3rios<br \/>\nde antiga ocupa\u00e7\u00e3o. Por seus esfor\u00e7os \u00e9 que se<br \/>\ntornaram conhecidas as zonas ermas que eles penetram, cultivam e ligam por<br \/>\nestradas precar\u00edssimas ao mercado. Mas seu destino \u00e9 o de eternos<br \/>\nitinerantes, criadores de nichos que devem fatalmente abandonar quando chega<br \/>\no &#8220;dono leg\u00edtimo&#8221; das terras que desbravam. A amarga experi\u00eancia<br \/>\nde sucessivas expuls\u00f5es os impede de, mesmo nesses ermos, tentar qualquer<br \/>\ncultivo que n\u00e3o seja do ciclo anual, agravando assim, ainda mais, sua<br \/>\nmiserabilidade. Embora exista uma legisla\u00e7\u00e3o de amparo a esses<br \/>\ndesbravadores, que lhes assegura a posse da terra ap\u00f3s uma d\u00e9cada<br \/>\nde ocupa\u00e7\u00e3o continuada, sua execu\u00e7\u00e3o depende do<br \/>\nacesso a um aparato cartorial long\u00ednquo e inating\u00edvel ao sertanejo<br \/>\ncomum.<\/p>\n<p>O sistema prevalecente \u00e9, pois, essencialmente o mesmo das sesmarias<br \/>\nreais do per\u00edodo colonial, s\u00f3 que agora as concess\u00f5es<br \/>\nde glebas dependem da prodigalidade de pol\u00edticos estaduais. Em todos<br \/>\nos desv\u00e3os do Mato Grosso e Goi\u00e1s, do Maranh\u00e3o, do Par\u00e1<br \/>\ne do Amazonas, milh\u00f5es de hectares de terras virgens foram concedidos,<br \/>\nnas \u00faltimas d\u00e9cadas, a &#8220;donos&#8221; que nunca as viram,<br \/>\nmas um dia se apresentam para desalojar os pioneiros sertanejos como invasores<br \/>\nque, tangidos por um movimento secular de expans\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana dos desertos interiores, as alcan\u00e7aram, almejando nelas se instalarem<br \/>\npermanentemente.<\/p>\n<p>Na vastid\u00e3o do mediterr\u00e2neo interior configuram-se diversas<br \/>\nvariantes de modos de vida que s\u00e3o adapta\u00e7\u00f5es locais<br \/>\ne funcionais dessa expans\u00e3o sertaneja.<\/p>\n<p>Assim, na orla da mata amaz\u00f4nica, uma frente humana se defronta com<br \/>\na mata virgem, sem capacidade de penetr\u00e1-la por falta de modelos socioempresariais<br \/>\ne t\u00e9cnicas de fixa\u00e7\u00e3o. Desenvolve-se a\u00ed a coleta<br \/>\nde coco baba\u00e7u e de drogas da mata, abrindo-se pequenos ro\u00e7ados<br \/>\nde subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma frente pioneira ainda em fase formativa, acossada pelos<br \/>\nneopropriet\u00e1rios que, obtendo por outorga ou grilagem as terras rec\u00e9m-devassadas,<br \/>\nsaem no encal\u00e7o do sertanejo, expulsando-o sempre para mais longe.<\/p>\n<p>Mais para o sul, nas matas de Minas Gerais, de Mato Grosso e de Goi\u00e1s,<br \/>\no processo j\u00e1 se estabilizou. O fazendeiro contrata com fam\u00edlias<br \/>\npioneiras a derrubada de trechos da mata, sob a condi\u00e7\u00e3o de,<br \/>\nap\u00f3s a terceira colheita de g\u00eaneros, semear capim.<\/p>\n<p>Assim, cedendo gratuitamente a terra para lavrar umas poucas colheitas,<br \/>\no fazendeiro obt\u00e9m a execu\u00e7\u00e3o gratuita da tarefa mais<br \/>\nonerosa, que \u00e9 a derrubada da floresta para estender seus campos e<br \/>\ncria\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o brutal da massa<br \/>\ncamponesa, esse sistema importa numa limita\u00e7\u00e3o progressiva da<br \/>\n\u00e1rea cultiv\u00e1vel pelo confinamento das lavouras de g\u00eaneros<br \/>\nde consumo exclusivamente \u00e0s \u00e1reas novas ainda indevassadas.<\/p>\n<p>Desse modo, em lugar de ampliarem-se as \u00e1reas de cultivo de produtos<br \/>\naliment\u00edcios, recuperando para isso os campos naturais, estes \u00e9<br \/>\nque avassalam a mata, alargando o pastoreio. Aqui se manifesta outra a\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeformadora dos privilegiados do sistema, que, fruindo a propriedade da terra<br \/>\na , seu talante, chegam mesmo a neg\u00e1-la ao cumprimento de sua fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nprec\u00edpua, que \u00e9 dar de comer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrasileira.<\/p>\n<p>Nos campos do Centro-Oeste, onde o pastoreio encontra boas pastagens e um<br \/>\nregime pluvial regular, a vida sertaneja assume outra fei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs fazendas s\u00e3o cercadas por aramados, a explora\u00e7\u00e3o pastoril<br \/>\nse torna um neg\u00f3cio racionalizado, o vaqueiro se transforma num assalariado,<br \/>\nque deve comprar seus mantimentos, inclusive a carne.<\/p>\n<p>O gado, merc\u00ea da qualidade dos pastos e do cruzamento com estirpes<br \/>\nindianas, cresce mais precocemente, alcan\u00e7a uma ossatura mais ampla<br \/>\ne se prov\u00ea mais fartamente de carne. Nesse sistema pastoril mais avan\u00e7ado,<br \/>\ntorna-se mais vantajoso para os criadores excluir a carne vacum da dieta do<br \/>\nvaqueiro. O homem, por isso, n\u00e3o cresce nem ganha vigor como o gado,<br \/>\npermanecendo seco e mirrado como nas \u00e1reas mais pobres. Continua preterido<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o ao rebanho, como a esp\u00e9cie mais reles e menos<br \/>\nvaliosa. Isto se pode ver de mil modos, mais expressivamente, talvez, nos<br \/>\ncuidados sanit\u00e1rios onerosos que se difundem na defesa do gado contra<br \/>\nepizootias, num mundo em que nada se faz para combater as endemias que assolam<br \/>\na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Qualquer vaqueiro sabe, de experi\u00eancia pr\u00f3pria, quanto contrastam<br \/>\nas facilidades dispon\u00edveis para socorrer a um touro empestado com as<br \/>\ndificuldades que encontra para medicar um filho enfermo. Nas bacias leiteiras,<br \/>\nonde o gado \u00e9 estabulado, ressaltam escandalosamente a fartura da ra\u00e7\u00e3o<br \/>\nassegurada \u00e0s vacas e a sovinice de mantimentos com que conta o pe\u00e3o.<br \/>\nDessa forma, mesmo nas \u00e1reas pastoris mais ricas, a ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial degrada ao homem, confirmando o primado empresarial do gado-mercadoria<br \/>\nsobre a comunidade humana.<\/p>\n<p>Todavia, a situa\u00e7\u00e3o do pe\u00e3o assalariado a um patr\u00e3o<br \/>\nchega a ser de privil\u00e9gio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nda massa sertaneja sobrante, concentrada nos terrenos baldios ou vagante pelos<br \/>\ncampos, em busca de trabalho eventual ou de terra para lavrar em qualquer<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o. A pequena capacidade de absor\u00e7\u00e3o de<br \/>\nm\u00e3o-de-obra pelo pastoreio, combinada com a apropria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas terras pelos criadores e com o movimento cont\u00ednuo de expans\u00e3o<br \/>\ndo pastoreio sobre \u00e1reas florestais, conduz, assim, as popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nsertanejas a uma situa\u00e7\u00e3o de indiz\u00edvel pen\u00faria.<\/p>\n<p>Em vastas \u00e1reas do mediterr\u00e2neo interior, grandes contingentes<br \/>\nde sertanejos se dedicam ao garimpo de cristal-de-rocha, de pedras semipreciosas,<br \/>\nde ouro e de minerais raros.<\/p>\n<p>Juntam-se, para isso, em corrutelas sempre provis\u00f3rias e itinerantes,<br \/>\nque crescem e se desfazem segundo o ritmo de explora\u00e7\u00e3o de cada<br \/>\ngarimpo, s\u00f3 deixando para tr\u00e1s a buracaria das explora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O garimpeiro ostenta um corpo de caracter\u00edsticas peculiares decorrentes<br \/>\ntanto de sua proveni\u00eancia sertaneja como de sua especializa\u00e7\u00e3o<br \/>\nno extrativismo mineral, bem como das vicissitudes hist\u00f3ricas da explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nclandestina de diamantes, quando esta constitu\u00eda monop\u00f3lio da<br \/>\nCoroa portuguesa. Como resposta a esses condicionamentos, desenvolveram-se<br \/>\ndois tra\u00e7os peculiares: o trato austero que n\u00e3o admite quebra<br \/>\nde disciplina e que combate o roubo da forma mais dr\u00e1stica; e o esp\u00edrito<br \/>\naventureiro e n\u00f4made de quem trabalha ao sabor da sorte. Cada homem<br \/>\nse empenha duramente no servi\u00e7o, movido sempre pela esperan\u00e7a<br \/>\nde enriquecer rapidamente com o grande achado de sua vida. Os ganhos reais<br \/>\ns\u00e3o, por\u00e9m, apoucados e dispendidos prontamente em gastos suntu\u00e1rios,<br \/>\npara n\u00e3o estragar a sorte que o dever\u00e1 contemplar, amanh\u00e3,<br \/>\nainda mais generosamente.<\/p>\n<p>Para isso, em todas as corrutelas de garimpos est\u00e3o presentes os<br \/>\nmascates, com suas mercadorias chamativas de artigos sup\u00e9rfluos, e<br \/>\nos atravessadores, que \u00e0s vezes financiam o trabalho, mas s\u00e3o,<br \/>\nessencialmente, os compradores locais da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As popula\u00e7\u00f5es sertanejas, desenvolvendo-se isoladas da costa,<br \/>\ndispersas em pequenos n\u00facleos atrav\u00e9s do deserto humano que<br \/>\n\u00e9 o mediterr\u00e2neo pastoril, conservaram muitos tra\u00e7os arcaicos.<br \/>\nA eles acrescentaram diversas peculiaridades adaptativas ao meio e \u00e0<br \/>\nfun\u00e7\u00e3o produtiva que exercem, ou decorrentes dos tipos de sociedade<br \/>\nque desenvolveram. Contrastam flagrantemente em sua postura e em sua mentalidade<br \/>\nfatalista e conservadora com as popula\u00e7\u00f5es litor\u00e2neas,<br \/>\nque gozam de intenso conv\u00edvio social e se mant\u00eam em comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom o mundo. Em muitas ocasi\u00f5es, esse distanciamento cultural revelou-se<br \/>\nmais profundo que as diferen\u00e7as habituais entre os citadinos e os camponeses<br \/>\nde todas as sociedades, fazendo explodir as incompreens\u00f5es rec\u00edprocas<br \/>\nem conflitos sangrentos.<\/p>\n<p>Na verdade, a sociedade sertaneja do interior distanciou-se n\u00e3o s\u00f3<br \/>\nespacial mas tamb\u00e9m social e culturalmente da gente litor\u00e2nea,<br \/>\nestabelecendo-se uma defasagem que as op\u00f5e como se fossem povos distintos.<\/p>\n<p>O sertanejo arcaico caracteriza-se por sua religiosidade singela tendente<br \/>\nao messianismo fan\u00e1tico, por seu carrancismo de h\u00e1bitos, por<br \/>\nseu laconismo e rusticidade, por sua predisposi\u00e7\u00e3o ao sacrif\u00edcio<br \/>\ne \u00e0 viol\u00eancia. E, ainda, pelas qualidades morais caracter\u00edsticas<br \/>\ndas forma\u00e7\u00f5es pastoris do mundo inteiro, como o culto da honra<br \/>\npessoal, o brio e a fidelidade a suas chefaturas.<\/p>\n<p>Esses tra\u00e7os peculiares ensejaram muitas vezes o desenvolvimento<br \/>\nde formas an\u00f4micas de conduta que envolveram enormes multid\u00f5es,<br \/>\ncriando problemas sociais da maior gravidade. Suas duas formas principais<br \/>\nde express\u00e3o foram o canga\u00e7o e o fanatismo religioso, desencadeados<br \/>\nambos pelas condi\u00e7\u00f5es de pen\u00faria que suporta o sertanejo,<br \/>\nmas conformadas pelas singularidades do seu mundo cultural.<\/p>\n<p>At\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1930, quando se acelerou a constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde estradas atrav\u00e9s do mediterr\u00e2neo sertanejo, operava, como<br \/>\nforma de revolta t\u00edpica da regi\u00e3o, o canga\u00e7o. Foi uma<br \/>\nforma de banditismo t\u00edpica do sert\u00e3o pastoril, estruturando-se<br \/>\nem bandos de jagun\u00e7os vestidos como vaqueiros, bem-armados, que percorreram<br \/>\nas estradas do sert\u00e3o em cavalgadas, como ondas de viol\u00eancia<br \/>\njusticeira. Cada integrante do bando tinha sua pr\u00f3pria justificativa<br \/>\nmoral para aliciar-se no canga\u00e7o. Um, para vingar uma ofensa \u00e0<br \/>\nsua honra pessoal ou familiar; outro, para fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias<br \/>\nm\u00e3os, em raz\u00e3o de agravos sofridos de um potentado local; todos<br \/>\nfazendo do banditismo uma express\u00e3o de revolta sertaneja contra as<br \/>\ninjusti\u00e7as do mundo.<\/p>\n<p>Resultaram, por vezes, na eclos\u00e3o de um tipo particular de hero\u00edsmo<br \/>\nselvagem que conduziu a extremos de ferocidade.<\/p>\n<p>Tais foram os cangaceiros c\u00e9lebres que, se por um lado ressarciam<br \/>\naos pobres de sua pobreza com os bens que distribu\u00edam depois de cada<br \/>\nassalto, por outro, matavam, estropiavam, violentavam, em puras exibi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde f\u00faria. \u00c9 de assinalar que o canga\u00e7o surgiu, no enquadramento<br \/>\nsocial do sert\u00e3o, fruto do pr\u00f3prio sistema senhorial do latif\u00fandio<br \/>\npastoril, que incentivava o banditismo, pelo aliciamento de jagun\u00e7os<br \/>\npelos coron\u00e9is como seus capangas (guarda de corpo) e, tamb\u00e9m,<br \/>\ncomo seus vingadores.<\/p>\n<p>Freq\u00fcentemente, os fazendeiros aliciavam grandes bandos, concentrando-os<br \/>\nnas fazendas, quando duas parentelas de coron\u00e9is se afrontavam nas<br \/>\nfreq\u00fcentes disputas de terra. Esses capangas, estimados pela lealdade<br \/>\nque desenvolviam para com seus amos, pela coragem pessoal e at\u00e9 pela<br \/>\nferocidade que os tornava capazes de executar qualquer mandado, destacavam-se<br \/>\nda massa sertaneja, recebendo um tratamento privilegiado de seus senhores.<br \/>\nAcresce que cada bando de cangaceiros tinha seus coron\u00e9is coiteiros,<br \/>\nque os escondiam e protegiam em suas terras, em troca da seguran\u00e7a<br \/>\ncontra o pr\u00f3prio bando, mas tamb\u00e9m para servirem-se deles contra<br \/>\ninimigos. Nessas condi\u00e7\u00f5es, s\u00e3o condicionamentos sociais<br \/>\ndo pr\u00f3prio sistema que alentaram e incentivaram a viol\u00eancia cangaceira.<\/p>\n<p>Mais relevante, ainda, \u00e9 o fato de que toda a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nsertaneja, renegando embora os jagun\u00e7os pelo pavor que lhe infundiam,<br \/>\ntinha neles padr\u00f5es ideais de honorabilidade e de valor, cantados nos<br \/>\nversos populares, e via, nos seus feitos mais violentos, modelos de justi\u00e7a<br \/>\nreal\u00e7ados e louvados. Por tudo isso, o canga\u00e7o e seus jagun\u00e7os,<br \/>\nsanguin\u00e1rios mas pios e tementes a Deus e aos santos de sua devo\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntemidos mas admirados, condenados mas tamb\u00e9m louvados, constitu\u00edram<br \/>\num produto t\u00edpico na sociedade sertaneja.<\/p>\n<p>Uma outra express\u00e3o caracter\u00edstica do mundo sociocultural<br \/>\nsertanejo \u00e9 o fanatismo religioso, que tem muitas ra\u00edzes comuns<br \/>\ncom o canga\u00e7o. Ambos s\u00e3o express\u00f5es da pen\u00faria<br \/>\ne do atraso, que, incapaz de manifestar-se em formas mais altas de consci\u00eancia<br \/>\ne de luta, conduziram massas desesperadas ao descaminho da viol\u00eancia<br \/>\ninfrene e do misticismo militante.<\/p>\n<p>O fanatismo baseia-se em cren\u00e7as messi\u00e2nicas vividas no sert\u00e3o<br \/>\ninteiro, que espera ver surgir um dia o salvador da pobreza. Vir\u00e1 com<br \/>\nseu s\u00e9quito real para subverter a ordem no mundo, reintegrando os humildes<br \/>\nna sua dignidade ofendida e os pobres nos seus direitos espoliados: &#8220;[&#8230;]<br \/>\no sert\u00e3o vai virar mar, o mar vai virar sert\u00e3o [&#8230;]&#8221;.<\/p>\n<p>Trata-se da resson\u00e2ncia no sert\u00e3o brasileiro do messianismo<br \/>\nportugu\u00eas referente ao rei d. Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>Periodicamente surgem anunciadores da chegada do messias, conclamando o<br \/>\npovo a jejuar, a rezar e a flagelar-se a fim de, purificando-se, desimpedir<br \/>\nos caminhos da reencarna\u00e7\u00e3o de velhos her\u00f3is m\u00edticos.<\/p>\n<p>Um desses taumaturgos, em Pedra Bonita, Pernambuco, pedia sangue de crian\u00e7as<br \/>\ninocentes para verter numa pedreira e, assim, despertar ao rei d. Sebasti\u00e3o<br \/>\ne seus cavaleiros, que ali estariam encantados com seus ex\u00e9rcitos,<br \/>\ntombados nas cruzadas contra os mouros. Outro, Jos\u00e9 Louren\u00e7o<br \/>\ndo Caldeir\u00e3o, no Cear\u00e1, dirigia o culto a um boi milagreiro,<br \/>\ncuja urina era recolhida, com venera\u00e7\u00e3o, como medicina eficient\u00edssima<br \/>\ncontra qualquer enfermidade. Outros conduziam atr\u00e1s de si, em marchas<br \/>\ninfind\u00e1veis pelo sert\u00e3o afora, multid\u00f5es fam\u00e9licas<br \/>\nde peregrinos que se exorcizavam e se flagelavam na esperan\u00e7a de milagres.<br \/>\nOutros, ainda, atra\u00edam enormes romarias a seus paradeiros, onde rezavam,<br \/>\nconfessavam, aconselhavam e, sobretudo, curavam os enfermos incur\u00e1veis<br \/>\ne infundiam esperan\u00e7as aos desenganados.<\/p>\n<p>Por vezes, resulta dessas concentra\u00e7\u00f5es &#8211; como ocorreu no<br \/>\nJuazeiro do padre C\u00edcero &#8211; o aliciamento de sertanejos para trabalhar<br \/>\nanos a fio, gratuitamente, nas fazendas de parentes do milagreiro. Freq\u00fcentemente,<br \/>\npor\u00e9m, assumiam fei\u00e7\u00f5es mais tr\u00e1gicas, como nos<br \/>\nepis\u00f3dios provocados por Ant\u00f4nio Conselheiro em fins do s\u00e9culo<br \/>\npassado.<\/p>\n<p>Em torno desse taumaturgo, que combinava \u00e0 paix\u00e3o de profeta<br \/>\ntalentos de reformador social, concentrara-se em Canudos, no alto sert\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o-franciscano, uma vasta popula\u00e7\u00e3o sertaneja incandescida<br \/>\npelo seu misticismo. Os fazendeiros vizinhos viram imediatamente o car\u00e1ter<br \/>\nintrinsicamente subversivo daqueles rezadores. O que estava atr\u00e1s daquele<br \/>\nsurto de religiosidade b\u00edblica era o abandono das fazendas pela m\u00e3o-de-obra<br \/>\nque as servia e que resultaria, fatalmente, na divis\u00e3o das terras se<br \/>\no mal n\u00e3o fosse erradicado.<\/p>\n<p>Fracassaram, por\u00e9m, diante do poder de lideran\u00e7a de Ant\u00f4nio<br \/>\nConselheiro, fundado em sua capacidade de infundir esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de uma vida melhor na pr\u00f3pria terra, as massas sertanejas. Estas,<br \/>\numa vez ativadas, se transfiguram e saltam de sua resigna\u00e7\u00e3o<br \/>\ne humildade tradicional a uma combatividade extrema. Cada sertanejo que se<br \/>\nacerca do taumaturgo incandesce, transformando-se num justi\u00e7ador divino,<br \/>\ns\u00f3 disposto a devotar-se \u00e0s rezas e \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o<br \/>\nda ordem social em novas bases.<\/p>\n<p>Canudos, o centro do arraial sagrado, aliciando os homens das terras circunvizinhas,<br \/>\nj\u00e1 excedia de mil casas quando os fazendeiros reclamaram a interven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas tropas estaduais. Estas foram batidas. As autoridades do estado da Bahia<br \/>\napelam ent\u00e3o para o Ex\u00e9rcito, que envia dois grandes contingentes,<br \/>\ntamb\u00e9m vencidos pelos fan\u00e1ticos, que, assim, se armam e municiam<br \/>\npara uma resist\u00eancia maior. Surge, ent\u00e3o, nos centros urbanos,<br \/>\ndespertados para o problema pelo esc\u00e2ndalo das vit\u00f3rias militares<br \/>\ndaqueles sertanejos-jagun\u00e7os, a interpreta\u00e7\u00e3o de que<br \/>\nse tratava de um couto de monarquistas, em rebeli\u00e3o contra o regime<br \/>\nrepublicano, orientados, talvez, por agentes lusitanos.<\/p>\n<p>Arma-se, em 1897, um ex\u00e9rcito inteiro contra o arraial de Canudos,<br \/>\ndotado de todo apetrecho de guerra, inclusive artilharia pesada. Mesmo esse<br \/>\nex\u00e9rcito profissional moderno, s\u00f3 depois de lutar arduamente,<br \/>\nconsegue vencer a resist\u00eancia obstinada dos fan\u00e1ticos. Mas s\u00f3<br \/>\no pode fazer ao pre\u00e7o da dizima\u00e7\u00e3o de toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio celebrizou-se por seu pr\u00f3prio vulto sinistro e,<br \/>\ntamb\u00e9m, pelo retrato candente desse desencontro entre as duas faces<br \/>\nda sociedade brasileira, deixado em Os sert\u00f5es, de Euclides da Cunha,<br \/>\nescrito como um libelo terr\u00edvel contra o genoc\u00eddio que ali se<br \/>\ncometera.<\/p>\n<p>&#8220;Repugnava aquele triunfo. Envergonhava. Era, com efeito, contraproducente<br \/>\ncompensa\u00e7\u00e3o a t\u00e3o luxuosos gastos de combates, de revezes<br \/>\ne de milhares de vidas, o apresamento daquela caqueirada humana, do mesmo<br \/>\npasso angulhenta e sinistra, entre tr\u00e1gica e imunda, passando-lhes<br \/>\npelos olhos, num longo enxurro de carcassas e mulambos (Cunha 1945:606 ).&#8221;<br \/>\nA mem\u00f3ria de Canudos perpetuou-se, tamb\u00e9m, na tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\noral das popula\u00e7\u00f5es sertanejas, que recolheram os poucos sobreviventes<br \/>\ndo mortic\u00ednio e deles ouviram e guardaram os epis\u00f3dios her\u00f3icos<br \/>\nde resist\u00eancia e de luta. E, sobretudo, a li\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a<br \/>\ndos ensinamentos do Conselheiro sobre a possibilidade de criar uma ordem social<br \/>\nnova, sem fazendeiros, nem autoridades.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos vem se quebrando o isolamento dos sert\u00f5es,<br \/>\ncujos fazendeiros todo poderosos do passado foram desarmados pelo governo<br \/>\ncentral e cujas fazendas se viram cortadas por estradas percorridas por milhares<br \/>\nde caminh\u00f5es que conduzem gente, mercadorias e novas id\u00e9ias,<br \/>\nao mesmo tempo em que eram atingidos pela difus\u00e3o radiof\u00f4nica<br \/>\ne pelos cinemas das vilas, que v\u00e3o familiarizando o sertanejo com o<br \/>\ngrande mundo externo.<\/p>\n<p>Nesse sert\u00e3o devassado, onde uma autoridade pol\u00edtica central<br \/>\nj\u00e1 se torna capaz de impor as leis e a justi\u00e7a, embora s\u00f3<br \/>\no possa fazer ainda em cambalacho com o coronelato local, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nmais lugar para jagun\u00e7os e fan\u00e1ticos. As tens\u00f5es sociais<br \/>\ntendem a estruturar-se em novas formas. As pr\u00f3prias disputas pol\u00edticas<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o se configuram exclusivamente como lutas de fam\u00edlias<br \/>\nou contendas de prest\u00edgio entre coron\u00e9is a exigirem a lealdade<br \/>\nde seus homens; mas se afirmam como oposi\u00e7\u00f5es entre lideran\u00e7as<br \/>\nnacionais, que aliciam os afazendados e seus dependentes em partidos pol\u00edticos<br \/>\nopostos em tudo, exceto na sustenta\u00e7\u00e3o da ordem fazendeira de<br \/>\nque todos, afinal, tiram seus votos e a maioria de seus quadros dirigentes.<\/p>\n<p>Mais recentemente, se configurou uma nova polariza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as<br \/>\nque opunha, de um lado, os partidos tradicionais, sustentadores da velha ordem<br \/>\nolig\u00e1rquica, e, de outro, movimentos reformistas assentados no voto<br \/>\nindependente das massas urbanas.<\/p>\n<p>Enquanto prevaleceu essa polariza\u00e7\u00e3o, os sertanejos foram<br \/>\nchamados a uma alternativa por novas vozes pol\u00edticas que, saltando<br \/>\nos cercados das fazendas ou chegando at\u00e9 eles atrav\u00e9s da radiodifus\u00e3o,<br \/>\nos aliciava para lutar por sua pr\u00f3pria causa.<\/p>\n<p>Chamado a tomar posi\u00e7\u00e3o nessa nova polariza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde for\u00e7as, o sertanejo vai adquirindo, gradativamente, consci\u00eancia<br \/>\nsocial. Para isso contribuem tamb\u00e9m os imigrantes sertanejos que regressam<br \/>\n\u00e0 terra, trazendo do sul a imagem de regi\u00f5es progressistas,<br \/>\nonde prevalece um trato mais humano e mais justo, costumes mais livres e mais<br \/>\nabertos, sobretudo, um padr\u00e3o de vida mais alto. Todos esses ingredientes<br \/>\nest\u00e3o atuando ativamente como alargadores dos horizontes mentais dos<br \/>\nsertanejos e como aliciadores e reorientadores das energias antes voltadas<br \/>\npara o canga\u00e7o e o misticismo.<\/p>\n<p>\u00c9 de assinalar, por\u00e9m, que o despertar da consci\u00eancia<br \/>\nsertaneja para sua pr\u00f3pria causa n\u00e3o assume, ainda, uma atitude<br \/>\nde rebeldia generalizada. Mas alcan\u00e7a j\u00e1 uma postura de inconformismo<br \/>\nque contrasta com a resigna\u00e7\u00e3o tradicional. N\u00e3o chega<br \/>\na explicar a vida social em termos realistas de interesse em choque e, raramente,<br \/>\np\u00f5e em d\u00favida as representa\u00e7\u00f5es sagradas do mundo<br \/>\nque explicam pela sorte e pela ajuda divina a riqueza dos ricos e a pobreza<br \/>\ndos pobres. Sua inconformidade revela-se, principalmente, por atitudes de<br \/>\nfuga: a idealiza\u00e7\u00e3o do passado como uma idade mir\u00edfica<br \/>\nem que o vaqueiro era pago em reses e em que as terras eram livres para quem<br \/>\nas quisesse ocupar e trabalhar; a idealiza\u00e7\u00e3o da vida em outras<br \/>\nregi\u00f5es do pa\u00eds, onde a vida \u00e9 f\u00e1cil e um homem,<br \/>\ncom pouco esfor\u00e7o, pode comer fartamente e viver com dignidade.<\/p>\n<p>E a esperan\u00e7a de ver surgir um novo paternalismo governamental, que<br \/>\nseja mais sens\u00edvel \u00e0 sua causa do que aos interesses fazendeiros.<br \/>\nEssas atitudes, por\u00e9m, antes conduzem ao abandono do sert\u00e3o<br \/>\npor outras paisagens rurais e pelas cidades e a um redentorismo pol\u00edtico<br \/>\ndo que a uma press\u00e3o ativa pela reordena\u00e7\u00e3o da sociedade<br \/>\nsertaneja.<\/p>\n<p>Para o conjunto dos sert\u00f5es pastoris prevalece, ainda, esse inconformismo<br \/>\nprim\u00e1rio e inativo que se explica pelo monop\u00f3lio secular da<br \/>\nterra e pelo crescimento excessivo da popula\u00e7\u00e3o dentro de um<br \/>\nenquadramento socioecon\u00f4mico que n\u00e3o possibilita uma renova\u00e7\u00e3o<br \/>\ntecnol\u00f3gica capaz de promover a fartura e o progresso. Esses condicionamentos<br \/>\ngeram uma estreita depend\u00eancia do sertanejo em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nao latifundi\u00e1rio, operando como um mecanismo de consolida\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo sistema.<\/p>\n<p>Apesar da pen\u00faria em que vivem, tanto o sertanejo engajado como vaqueiro,<br \/>\nquanto o agregado ou o parceiro que cultiva terras alheias em regime de mea\u00e7\u00e3o<br \/>\nsentem-se permanentemente amea\u00e7ados de se verem enxotados com suas<br \/>\nfam\u00edlias e de ca\u00edrem na condi\u00e7\u00e3o ainda mais miser\u00e1vel<br \/>\ndos deslocados rurais. Abaixo de cada pessoa que consegue situar-se no sistema<br \/>\nprodutivo existe toda uma massa marginalizada, ainda mais miser\u00e1vel,<br \/>\nonde qualquer um pode mergulhar.<\/p>\n<p>Essas condi\u00e7\u00f5es dificultam ao extremo a organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica das popula\u00e7\u00f5es sertanejas, perdidas no deserto<br \/>\nde terras devolutas ou engolfadas no latif\u00fandio. Elas nascem, vivem<br \/>\ne morrem confinadas em terras alheias, cuidando do gado, de casas, de cercados<br \/>\ne de lavouras que t\u00eam donos ciosos. O pr\u00f3prio rancho miser\u00e1vel<br \/>\nem que vivem com suas fam\u00edlias, constru\u00eddo por eles pr\u00f3prios<br \/>\ncom barros e palhas do campo, n\u00e3o lhes pertence. Nada os estimula a<br \/>\nmelhor\u00e1-lo e o propriet\u00e1rio n\u00e3o os autoriza a enriquec\u00ea-lo<br \/>\ncom o plantio de fruteiras ou com a cria\u00e7\u00e3o de animais de terreiro,<br \/>\npara que n\u00e3o fa\u00e7a jus \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o no<br \/>\nmomento em que devam ser despedidos.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o contrasta o lavrador e o vaqueiro sertanejo<br \/>\ncom o campon\u00eas alde\u00e3o da Europa feudal que vivia numa comunidade<br \/>\nonde nasceram e morreram seus pais e av\u00f3s, lavrando sempre a mesma<br \/>\nterra, todos devotados a um esfor\u00e7o continuado para prover sua subsist\u00eancia,<br \/>\npagando os foros devidos ao senhorio, mas melhorando sempre as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vida e de trabalho no nicho em que se situavam, para torn\u00e1-lo cada<br \/>\nvez mais habit\u00e1vel. Por mais anos ou gera\u00e7\u00f5es que permane\u00e7a<br \/>\nnuma terra, o sertanejo \u00e9 sempre um agregado transit\u00f3rio, sujeito<br \/>\na ser desalojado a qualquer hora, sem explica\u00e7\u00f5es ou direitos.<br \/>\nPor isso, sua casa \u00e9 o rancho em que est\u00e1 apenas arranchado;<br \/>\nsua lavoura \u00e9 uma ro\u00e7a prec\u00e1ria, s\u00f3 capaz de assegurar-lhe<br \/>\num m\u00ednimo vital para n\u00e3o morrer de fome, e sua atitude \u00e9<br \/>\na de reserva e desconfian\u00e7a, que corresponde a quem vive num mundo<br \/>\nalheio, pedindo desculpas por existir. Quando, apesar de todos os seus cuidados<br \/>\npara viver desapercebido, torna-se objeto de aten\u00e7\u00e3o, \u00e9<br \/>\npara ver desencadearem-se sobre si novas iniq\u00fcidades, que s\u00f3 pode<br \/>\nenfrentar com a viol\u00eancia, agravando ainda mais suas desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>Assim, somente o lavrador livre, que trabalha como arrendat\u00e1rio de<br \/>\nterras alheias ou se instala em terrenos baldios ou em arraiais, alcan\u00e7a<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de intera\u00e7\u00e3o social que<br \/>\nlhe permitem desenvolver-se politicamente e assumir uma conduta cidad\u00e3.<\/p>\n<p>Somente esses manifestam sua revolta contra o sistema fundi\u00e1rio leiteando<br \/>\nclaramente a propriedade da terra. Exemplificam essa situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nos sertanejos das comunidades mais livres do agreste nordestino que mant\u00eam<br \/>\numa vida social mais intensa e um certo conv\u00edvio com popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nurbanas. Ali se multiplicaram as ligas camponesas de Francisco Juli\u00e3o,<br \/>\ncom sede p\u00fablica; primeiro, para impor aos senhores de terra condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nexpl\u00edcitas e menos espoliativas nos contratos anuais de arrendamento;<br \/>\ndepois, para pleitear a pr\u00f3pria posse das terras, atrav\u00e9s de<br \/>\numa reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse movimento experimentou uma r\u00e1pida expans\u00e3o, tanto atrav\u00e9s<br \/>\ndas ligas, como dos sindicatos rurais &#8211; estes principalmente nas usinas a\u00e7ucareiras,<br \/>\nonde se concentram grandes massas de assalariados agr\u00edcolas &#8211; organizados<br \/>\npor lideran\u00e7as urbanas de diversas orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<br \/>\nque inclu\u00edam desde sacerdotes cat\u00f3licos at\u00e9 militantes<br \/>\ncomunistas. Assentava-se, por\u00e9m, na prec\u00e1ria base de uma conjuntura<br \/>\npol\u00edtica transit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quando esta foi derrubada pelo golpe militar, voltou o sert\u00e3o a mergulhar<br \/>\nno despotismo latifundi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos trinta anos, uma descoberta tecnol\u00f3gica abriu<br \/>\nnovas perspectivas de vida econ\u00f4mica para os cerrados. Verificou-se<br \/>\nque aquelas imensidades de plan\u00edcies ofereceriam condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nperfeitas para o cultivo de soja ou do trigo, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que fosse corrigida sua acidez. Assim \u00e9 que os cerrados est\u00e3o<br \/>\nsendo invadidos por grupos de fazendeiros sulinos, \u00e0 frente de imensa<br \/>\nmaquin\u00e1ria, para o cultivo de cereais de exporta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAlguns poucos sertanejos est\u00e3o aprendendo a ser tratoristas ou trabalhadores<br \/>\nespecializados das grandes planta\u00e7\u00f5es. Para a massa humana do<br \/>\nsert\u00e3o \u00e9 que essa riqueza nova n\u00e3o oferece esperan\u00e7a<br \/>\nalguma.<\/p>\n<p>Tenho em mente a imagem de uma fieira de nordestinos, adultos e crian\u00e7as,<br \/>\nmaltrapilhos, cabe\u00e7a coberta com seus chap\u00e9us de palha e de<br \/>\ncouro, agachados, olhando pasmos as imensas m\u00e1quinas revolvendo a velha<br \/>\nterra do cerrado.<\/p>\n<h2>5. O BRASIL CAIPIRA<\/h2>\n<p>&#8220;[&#8230;] Metido pelos matos, \u00e0 ca\u00e7a de \u00edndios e<br \/>\n\u00edndias, estas para os exerc\u00edcios de suas torpezas e aqueles<br \/>\npara os granjeios de seus interesses [&#8230;] nem sabe falar [o portugu\u00eas]<br \/>\n[&#8230;] nem se diferencia do rnais b\u00e1rbaro tapuia mais do que em dizer<br \/>\nque \u00e9 crist\u00e3o e n\u00e3o obstante o haver se casado de pouco<br \/>\nlhe as- sistem sete \u00edndias concubinas [&#8230;] Bispo de Olinda sobre Domingos<br \/>\nJorge Velho, o capit\u00e3o bandeirante que liquidou o quilombo de Palmares,<br \/>\n1694&#8221; Enquanto os n\u00facleos a\u00e7ucareiros da costa nordestina<br \/>\ncresciam e enriqueciam, a popula\u00e7\u00e3o paulista revolvia-se numa<br \/>\neconomia de pobreza. N\u00e3o tendo grandes engenhos de a\u00e7\u00facar,<br \/>\nque eram a riqueza do tempo, tampouco tinham escravaria negra, e raramente<br \/>\num navio descia at\u00e9 o ancoradouro de S\u00e3o Vicente. Ao fim de<br \/>\num s\u00e9culo e meio de implanta\u00e7\u00e3o, os n\u00facleos paulistas<br \/>\nmais importantes eram arraiais de casebres de taipa ou adobe, cobertos de<br \/>\npalha.<\/p>\n<p>Os homens bons que integravam a C\u00e2mara e dirigiam as bandeiras de<br \/>\ndevassamento dos sert\u00f5es interiores viviam com suas fam\u00edlias<br \/>\nem s\u00edtios no interior, em condi\u00e7\u00f5es igualmente pobres.<br \/>\nCada um deles servido pela indiada cativa que cultivava mandioca, feij\u00e3o,<br \/>\nmilho, ab\u00f3bora e tub\u00e9rculos, para comer com carne de ca\u00e7a<br \/>\nou com pescado; al\u00e9m do tabaco para o pito, do urucu e da pimenta para<br \/>\ncondimento e algumas outras plantas ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Em fam\u00edlia e tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es entre paulistas,<br \/>\ns\u00f3 se falava a l\u00edngua geral, que era uma variante do idioma<br \/>\ndos \u00edndios Tupi de toda a costa. Tamb\u00e9m ind\u00edgenas eram<br \/>\nas t\u00e9cnicas da lavoura de coivara, bem como de ca\u00e7a, de pesca<br \/>\ne de coleta de frutos silvestres de que se sustentavam. A tralha dom\u00e9stica,<br \/>\nde redes de dormir, gamelas, porongos, peneiras etc., pouco diferia da dispon\u00edvel<br \/>\nnuma aldeia ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Seus luxos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida tribal estavam no uso<br \/>\nde roupas simples, do sal, do toucinho de porco e numa culin\u00e1ria mais<br \/>\nfina; na posse de alguns instrumentos de metal e de armas de fogo; na candeia<br \/>\nde \u00f3leo para alumiar, nalguma guloseima, como a rapadura, e na pinga<br \/>\nde cana que sempre se destilou; al\u00e9m da atitude sempre arrogante. Cada<br \/>\nfam\u00edlia fiava e tecia de algod\u00e3o grosseiro as redes de dormir<br \/>\ne as roupas de uso di\u00e1rio \u2013 amplas ceroulas cobertas de um camisol\u00e3o<br \/>\npara os homens, blusas metidas em saias largas e compridas, para as mulheres.<br \/>\nTodos andavam descal\u00e7os ou usando simples chinelas ou alpercatas. Apenas<br \/>\ncobriam o corpo que os \u00edndios antes deixavam \u00e0 mostra, sem pudor<br \/>\nmas com a faceirice das pinturas de urucum e jenipapo.<\/p>\n<p>Essa pobreza, que est\u00e1 na base tanto das motiva\u00e7\u00f5es<br \/>\nquanto dos h\u00e1bitos e do car\u00e1ter do paulista antigo, \u00e9<br \/>\nque fazia deles um bando de aventureiros sempre dispon\u00edvel para qualquer<br \/>\ntarefa desesperada, sempre mais predispostos ao saqueio que \u00e0 produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cada caudilho paulista de express\u00e3o podia levantar centenas e at\u00e9<br \/>\nmilhares de homens em armas; \u00e9 verdade que a imensa maioria deles formada<br \/>\npor \u00edndios flecheiros.<\/p>\n<p>N\u00e3o necessitavam mais, por\u00e9m, uma vez que os inimigos a enfrentar<br \/>\neram \u00edndios tribais arredios, \u00edndios missioneiros desvirilizados<br \/>\ne negros quilombolas quase desarmados. Sua economia de subsist\u00eancia<br \/>\nde base tribal e tupi prestava-se admiravelmente a manter esses centos de<br \/>\n\u00edndios combatentes, que s\u00f3 precisavam de um rancho que eles<br \/>\nmesmos faziam, de um peda\u00e7o de terra desmatada para ro\u00e7ados,<br \/>\nque eles pr\u00f3prios abriam, da ca\u00e7a e da pesca que tamb\u00e9m<br \/>\neles mesmos agenciavam.<\/p>\n<p>As contribui\u00e7\u00f5es fundamentais do paulista a esses n\u00facleos<br \/>\neram um disciplinamento militar superior ao tribal e as motiva\u00e7\u00f5es<br \/>\nmercantis tamb\u00e9m mais bem ajustadas \u00e0s circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que o \u00edndio aliciado nesses bandos, depois<br \/>\nde suficientemente afastado de sua tribo para dissuadi-lo de retornar, neles<br \/>\nse integrasse sem dificuldades em virtude de sua singeleza quase tribal. N\u00e3o<br \/>\nera submetido a uma disciplina r\u00edgida de trabalho, como no engenho,<br \/>\nmas \u00e0s altern\u00e2ncias de esfor\u00e7os e de lazer a que estava<br \/>\nhabituado.<\/p>\n<p>Sua condi\u00e7\u00e3o seria provavelmente muito pr\u00f3xima da que<br \/>\nenfrentaria, por exemplo, o \u00edndio cativo de tribos guerreiras como<br \/>\nos Guaikuru, para servir como servo de um cacicato. Nos dois casos, encontrava<br \/>\num papel social bem definido e uma possibilidade de integra\u00e7\u00e3o<br \/>\nnum novo mundo cultural, que, embora menos desej\u00e1vel que o tribal,<br \/>\nseria suport\u00e1vel. O inconveniente maior era a impossibilidade de ter<br \/>\nmulher (porque estas seriam muito disputadas) e tamb\u00e9m vida de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Esse modo de vida, rude e pobre, era o resultado das regress\u00f5es sociais<br \/>\ndo processo deculturativo. Do tronco portugu\u00eas, o paulista perdera a<br \/>\nvida comunit\u00e1ria da vila, a disciplina patriarcal das sociedades agr\u00e1rias<br \/>\ntradicionais, o arado e a dieta baseada no trigo, no azeite e no vinho. Do<br \/>\ntronco ind\u00edgena, perdera a autonomia da aldeia igualit\u00e1ria,<br \/>\ntoda voltada para o provimento da pr\u00f3pria subsist\u00eancia, a igualdade<br \/>\ndo trato social de sociedades n\u00e3o estratificadas em classes, a solidariedade<br \/>\nda fam\u00edlia extensa, o virtuosismo de artes\u00e3os, cujo objetivo<br \/>\nera viver ao ritmo em que os seus antepassados sempre viveram.<\/p>\n<p>Os n\u00facleos paulistas, vinculados a uma economia mercantil externa<br \/>\ne motivados por ambi\u00e7\u00f5es de enriquecimento, n\u00e3o queriam<br \/>\napenas existir como os \u00edndios com os quais quase se confundiam. Integrados<br \/>\nna estrutura estamental da col\u00f4nia, aspiravam a participar da camada<br \/>\ndominante, dar-se luxos de consumo e poder de influenciar e de mandar. Armados<br \/>\nde uma tecnologia rudimentar, mas muito superior \u00e0 tribal, amalgamada<br \/>\nde elementos europeus e ind\u00edgenas, seu destino era lan\u00e7ar-se<br \/>\nsobre as gentes e sobre as coisas da terra, apresando e saqueando o que estivesse<br \/>\na seu alcance, para assim afirmar-se socialmente.<\/p>\n<p>Por tudo isso \u00e9 que os mamelucos paulistas se tornaram &#8211; como mateiros<br \/>\ne sertanistas ainda melhores que os pr\u00f3prios \u00edndios &#8211; o terror<br \/>\ndos grupos tribais livres e dos \u00edndios catequisados pelos jesu\u00edtas,<br \/>\nnesse processo desestimulados para a luta, e,mais tarde, dos negros fugidos<br \/>\ne concentrados em quilombos. Durante um s\u00e9culo e meio, os paulistas<br \/>\nse fizeram cativadores de \u00edndios, primeiro, para serem os bra\u00e7os<br \/>\ne as pernas do trabalho de suas vilas e seus s\u00edtios; depois, como mercadoria<br \/>\npara venda aos engenhos de a\u00e7\u00facar. Desse modo despovoaram as<br \/>\naldeias dos grupos ind\u00edgenas lavradores em imensas \u00e1reas, indo<br \/>\nbusc\u00e1-los, por fim, a milhares de quil\u00f4metros terra adentro,<br \/>\nonde quer que se refugiassem.<\/p>\n<p>Adestrados nessas pr\u00e1ticas, os paulistas se lan\u00e7am, no come\u00e7o<br \/>\ndo s\u00e9culo XVII, contra as pr\u00f3speras miss\u00f5es jesu\u00edticas<br \/>\ndo Paraguai, onde dezenas de milhares de \u00edndios sedentarizados e disciplinados<br \/>\nno trabalho agr\u00edcola, pastoril e artesanal se ofereciam como o saque<br \/>\nmais tentador. Os catec\u00famenos eram, ent\u00e3o, especialmente valiosos<br \/>\npela car\u00eancia de negros escravos em que viviam os engenhos baianos,<br \/>\nem virtude do dom\u00ednio holand\u00eas sobre as fontes supridoras da<br \/>\n\u00c1frica. Mas, al\u00e9m de \u00edndios a cativar, os paulistas encontravam<br \/>\nnas miss\u00f5es jesu\u00edticas preciosos adornos de igrejas, ferramentas<br \/>\ne outras prendas de valor, ademais de muito gado.<\/p>\n<p>Miss\u00f5es inteiras, das mais ricas e populosas, como Gua\u00edra<br \/>\n(oeste paranaense), Itatim (sul do Mato Grosso) e Tapes (Rio Grande do Sul),<br \/>\nforam assim destru\u00eddas pelos bandeirantes paulistas, que saquearam<br \/>\nseus bens e escravizaram seus \u00edndios. \u00c9 de supor que paulistas<br \/>\ntenham vendido mais de 300 mil \u00edndios, principalmente missioneiros,<br \/>\naos senhores de engenho do Nordeste.<\/p>\n<p>Cada uma dessas empresas de assalto \u00e0s miss\u00f5es jesu\u00edticas<br \/>\ndo Paraguai exigia, por vezes, a mobiliza\u00e7\u00e3o de todos os paulistas<br \/>\nprestantes com sua indiada de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>As maiores delas compreendiam cerca de 2 a 3 mil pessoas, uma ter\u00e7a<br \/>\nparte das quais era constitu\u00edda de &#8220;brancos&#8221; que seriam quase<br \/>\ntodos mamelucos. Iam homens, mulheres, velhos que ainda podiam andar e combater<br \/>\ne crian\u00e7as, divididos por fam\u00edlias, como uma vasta cidade m\u00f3vel,<br \/>\narranchando-se pelo caminho, fazendo ro\u00e7a, ca\u00e7ando e pescando<br \/>\npara comer, mas seguindo sempre em frente para acossar aos missioneiros em<br \/>\nseus redutos, venc\u00ea-los e apres\u00e1-los. Al\u00e9m do n\u00facleo<br \/>\nguerreiro de combatentes, com sua hierarquia militar e seu incipiente aparato<br \/>\nlegal e religioso, a bandeira transitava pelo sert\u00e3o toda uma corte<br \/>\nde servi\u00e7ais que carregavam as cargas de mantimentos e utens\u00edlios,<br \/>\nde \u00edndios que ca\u00e7avam, pescavam e coletavam alimentos, de sertanistas<br \/>\nque abriam picadas e estabeleciam rumos.<\/p>\n<p>Assim, num tempo em que as na\u00e7\u00f5es deserdadas na divis\u00e3o<br \/>\ndo mundo apelavam para a pirataria mar\u00edtima dos cors\u00e1rios, os<br \/>\npaulistas, que eram os deserdados do Brasil, lan\u00e7avam-se, tamb\u00e9m,<br \/>\nao saque com igual viol\u00eancia e cobi\u00e7a. Marginalizados do processo<br \/>\necon\u00f4mico da col\u00f4nia, em que quase todos estavam voltados para<br \/>\nas lucrativas tarefas pac\u00edficas dos engenhos e dos currais de gado,<br \/>\nos paulistas acabaram por se especializar como homens de guerra. Cada vez<br \/>\nque na abertura de uma nova zona os \u00edndios apresentavam resist\u00eancia<br \/>\nmaior, requeria-se a m\u00e3o sujigadora dos paulistas.<\/p>\n<p>Igualmente, quando estalava uma rebeli\u00e3o escrava ou quando um grupo<br \/>\nnegro se al\u00e7ava implantando solidamente um quilombo resistente \u00e0s<br \/>\nfor\u00e7as locais, para os paulistas \u00e9 que se apelava.<\/p>\n<p>Desse modo, tro\u00e7os de guerra de chefes paulistas com sua indiada<br \/>\nde combate andaram al\u00e9m dos sert\u00f5es indevassados, que eram seu<br \/>\ncampo habitual de trabalho, por todas as regi\u00f5es pr\u00f3speras do<br \/>\npa\u00eds, empreitados para desalojar \u00edndios ou destruir quilombos.<br \/>\nAlguns desses sinistros bandeirantes de contrato traziam de volta dessas batalhas,<br \/>\ncomo prova de tarefa cumprida, milhares de pares de orelhas dos negros decapitados.<br \/>\nNessas andan\u00e7as, muitos paulistas acabaram por se fixar em regi\u00f5es<br \/>\ndistintas, fazendo-se criadores de gado ou lavradores. A maioria, por\u00e9m,<br \/>\nvoltava ao couto, reintegrando-se na vida penosa e rude de sua gente. Formavam<br \/>\numa sociedade que, por ser mais pobre, era tamb\u00e9m mais igualit\u00e1ria,<br \/>\nna qual senhores e \u00edndios cativos se entendiam antes como chefes e<br \/>\nseus soldados, do que como amos e seus escravos.<\/p>\n<p>A miscigena\u00e7\u00e3o era livre porque quase ningu\u00e9m haveria,<br \/>\ndentre os homens bons, que n\u00e3o fosse mesti\u00e7o. Nessas circunst\u00e2ncias,<br \/>\no filho da \u00edndia escrava com o senhor crescia livre em meio a seus<br \/>\niguais, que n\u00e3o eram a gente da identidade tribal de sua m\u00e3e,<br \/>\nnem muito menos os mazombos, mas os chamados mamelucos, frutos de cruzamentos<br \/>\nanteriores de portugueses com \u00edndias, orgulhosos de sua autonomia e<br \/>\nde seu valor de guerreiros.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia se estrutura patric\u00eantrica e polig\u00ednica, dominada<br \/>\npelo chefe como um grupo dom\u00e9stico com pessoas de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es;<br \/>\nessencialmente, o pai, suas mulheres com as respectivas proles e os parentes<br \/>\ndelas. As \u00edndias atreladas ao grupo como cativas eram combor\u00e7as<br \/>\ndo pai e dos filhos destes. S\u00f3 aos poucos o casamento religioso se<br \/>\nimp\u00f5e como sacraliza\u00e7\u00e3o da m\u00e3e dos filhos leg\u00edtimos,<br \/>\nentre as mulheres de cada homem. Muito paulista<\/p>\n<p>velho consignava em seu testamento a parcela dos parcos bens que caberia aos<br \/>\nfilhos leg\u00edtimos e o montante a distribuir entre os outros, esclarecendo<br \/>\nbizarramente que tinha, por filhos seus, todos aqueles que as m\u00e3es apontassem<br \/>\ncomo tais.<\/p>\n<p>O regime de trabalho, voltado para o sustento e n\u00e3o para o com\u00e9rcio,<br \/>\nera quase o mesmo da aldeia tribal. Atribu\u00eda \u00e0s mulheres as<br \/>\ncansativas tarefas rotineiras de limpeza da casa, do plantio, da colheita<br \/>\ne das ro\u00e7as, do preparo de alimentos, do cuidado das crian\u00e7as,<br \/>\nda lavagem das roupas e do transporte de cargas. E, aos homens, os trabalhos<br \/>\nespor\u00e1dicos que exigiam grandes disp\u00eandios de energia, como o<br \/>\nro\u00e7ado, a ca\u00e7a e a guerra, mas que permitiam depois de cada<br \/>\nfa\u00e7anha largos per\u00edodos de repouso e Essa posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rico-evolutiva \u00e9 que lhe impunha, por um lazer. Nas longas<br \/>\nquadras de espera inativa entre as entradas do sert\u00e3o, os homens ficavam<br \/>\nem casa, insofridos, como guerreiros em v\u00edgilia. Nesse ambiente estouravam,<br \/>\ncom freq\u00fc\u00eancia, conflitos sangrentos. Esses h\u00e1bitos deram<br \/>\naos antigos paulistas a reputa\u00e7\u00e3o de gente birrenta e pregui\u00e7osa.<\/p>\n<p>Apesar desse primitivismo, S\u00e3o Paulo quinhentista era tamb\u00e9m<br \/>\num implante da civiliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia ocidental, um entreposto<br \/>\nmercantil mundial, um enclave colonial- escravista da forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nmercantil-salvacionista ib\u00e9rica. Por todas essas qualidades, contrastava<br \/>\nflagrantemente com as organiza\u00e7\u00f5es tribais das aldeias agr\u00edcolas<br \/>\nindiferenciadas, com as quais interagia, sem com elas confundir-se. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\nlhes impunha sua domina\u00e7\u00e3o e as conduzia ao exterm\u00ednio<br \/>\nf\u00edsico para fazer surgir um outro povo no territ\u00f3rio at\u00e9<br \/>\nent\u00e3o ocupado por elas.<\/p>\n<p>Enquanto civiliza\u00e7\u00e3o, era um transplante tardio de uma romanidade<br \/>\nrefeita por sucessivas transfigura\u00e7\u00f5es na pen\u00ednsula Ib\u00e9rica,<br \/>\nque, a certa altura, adquire forma e vigor para expandir-se como uma macroetnia<br \/>\nconquistadora. Nesse sentido, repetiam- se em S\u00e3o Vicente &#8211; como de<br \/>\nresto em todo o Brasil \u2013 as situa\u00e7\u00f5es em que conquistadores<br \/>\ncartagineses e romanos impuseram sua l\u00edngua, religi\u00e3o e cultura<br \/>\naos povos celtiberos, transfigurando-os etnicamente em lusos.<\/p>\n<p>Nos dois casos estamos diante de uma mesma modalidade de tr\u00e2nsito<br \/>\nde uma etapa evolutiva a outra, aquela que se d\u00e1 pela incorpora\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rica de um povo numa macroetnia conquistadora com perda de sua<br \/>\npr\u00f3pria autonomia cultural.<\/p>\n<p>Isto significa que em S\u00e3o Paulo n\u00e3o se verificava um ascenso<br \/>\nda tribalidade \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, mas sim a edifica\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom gente desgarrada das tribos, de uma entidade \u00e9tnica emergente que<br \/>\nnasce umbilicalmente ligada a uma sociedade e a uma cultura ex\u00f3gena<br \/>\npor ela conformada e dela dependente. S\u00e3o Paulo surge, por isso, com<br \/>\numa configura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural de povo novo, plasmada<br \/>\npelo cruzamento de gente de matrizes raciais d\u00edspares e pela integra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde seus patrim\u00f4nios culturais sob a reg\u00eancia do dominador que,<br \/>\na longo termo, imporia a preponder\u00e2ncia de suas caracter\u00edsticas<br \/>\ngen\u00e9ticas e de sua cultura.<\/p>\n<p>Enquanto entreposto mercantil, S\u00e3o Paulo era um m\u00f3dulo da<br \/>\ntrama econ\u00f4mica transatl\u00e2ntica de produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio,<br \/>\ncomunicada atrav\u00e9s de naus oce\u00e2nicas. Sua principal mercadoria<br \/>\neram \u00edndios ca\u00e7ados para vender como escravos aos n\u00facleos<br \/>\na\u00e7ucareiros do Nordeste e tamb\u00e9m para outros lugares. Capistrano<br \/>\nde Abreu, referindo-se a S\u00e3o Paulo, dizia que o Brasil, antes de importador,<br \/>\nfora exportador de escravos. Mas, ainda que produzisse para o mercado interno,<br \/>\ninteragia em um circuito mercantil que lhe permitia prover-se de produtos<br \/>\nimportados, principalmente armas e ferramentas. O pr\u00f3prio neg\u00f3cio<br \/>\nde vender \u00edndios como escravos era parte do tr\u00e1fico mundial<br \/>\nescravista e tinha seu ritmo e \u00eaxito determinados pelos azares da preia<br \/>\ne exporta\u00e7\u00e3o de africanos.<\/p>\n<p>Enquanto forma\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo n\u00e3o era uma reencarna\u00e7\u00e3o<br \/>\nde etapas pregressas da evolu\u00e7\u00e3o humana. Era uma forma\u00e7\u00e3o<br \/>\ncolonial-escravista, estruturada como uma contraparte contempor\u00e2nea<br \/>\ne coet\u00e2nea da forma\u00e7\u00e3o mercantil-salvacionista ib\u00e9rica.<\/p>\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-evolutiva \u00e9 que lhe impunha,<br \/>\npor um lado, sua caracter\u00edstica b\u00e1sica de sociedade estratificada<br \/>\nem classes antag\u00f4nicas e bipartida em componentes rur\u00edcolas e<br \/>\ncitadinos, esses \u00faltimos liberados das tarefas de subsist\u00eancia<br \/>\npara ocupar-se de outras fun\u00e7\u00f5es, e, por outro lado, seu papel<br \/>\nde ag\u00eancia difusora da civiliza\u00e7\u00e3o ib\u00e9rica e impositora<br \/>\nde sua domina\u00e7\u00e3o sobre o territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>A grande esperan\u00e7a dos paulistas em suas entradas no sert\u00e3o<br \/>\nsempre foi deparar com minas de ouro, prata ou pedras preciosas. A tanto os<br \/>\napica\u00e7ava tamb\u00e9m a Coroa portuguesa, empenhada em que seu naco<br \/>\ndas Am\u00e9ricas produzisse as riquezas que os espanh\u00f3is arrancavam<br \/>\ndo M\u00e9xico e do Peru. Assim \u00e9 que puderam alcan\u00e7ar apoio<br \/>\ne at\u00e9 alguma ajuda oficial para as entradas que visavam a descoberta<br \/>\nde metais preciosos.<\/p>\n<p>O ouro acabou aparecendo nos sert\u00f5es de Taubat\u00e9, primeiro<br \/>\nem garimpos pobres, que s\u00f3 estimulavam as buscas; depois em aluvi\u00f5es<br \/>\nprodigiosamente ricos das morrarias de Minas Gerais, cuja explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ntransfiguraria toda a sociedade colonial brasileira e, levado para a Europa,<br \/>\nalteraria o padr\u00e3o monet\u00e1rio. Pandi\u00e1 Cal\u00f3geras<br \/>\navalia em 1400 toneladas de ouro e em 3 milh\u00f5es de quilates de diamantes<br \/>\na riqueza carreada do Brasil no per\u00edodo colonial (Cal\u00f3geras<br \/>\n1938:60-1 ).<\/p>\n<p>Tais foram as zonas de minera\u00e7\u00e3o descobertas pelos bandeirantes<br \/>\npaulistas nas serrarias do interior do pa\u00eds ao alvorecer do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII, em Minas Gerais ( 1698 ), depois em Mato Grosso ( 1719) e, mais tarde,<br \/>\nem Goi\u00e1s ( 1725 ). Desde as primeiras not\u00edcias dos descobrimentos<br \/>\naur\u00edferos, multid\u00f5es acorreram \u00e0s \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nvindas de todo o Brasil e, posteriormente, tamb\u00e9m de Portugal. Em poucos<br \/>\nanos, aquelas regi\u00f5es desertas transformaram-se na \u00e1rea mais<br \/>\ndensamente povoada das Am\u00e9ricas, concentrando cerca de 300 mil habitantes<br \/>\npor volta de 1750.<\/p>\n<p>Os ricos vinham com toda sua escravaria, pleiteando grandes lavras; os remediados,<br \/>\ncom o que tinham, e os pobres, com uns poucos negros, com apenas um, ou com<br \/>\nnenhum, mas tamb\u00e9m tentando a sorte. A translada\u00e7\u00e3o humana<br \/>\nalcan\u00e7ou tal vulto que a Coroa viu-se na conting\u00eancia de sofre\u00e1-la,<br \/>\nbaixando sucessivamente atos para evitar o \u00eaxodo dos engenhos e das<br \/>\nvilas das zonas de antiga ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o come\u00e7ou pelo ouro de aluvi\u00e3o, que<br \/>\nse apresentava misturado \u00e0s areias e ao cascalho do leito dos rios<br \/>\n(ouro de medra) e das sua margens (ouro de tabuleiro).<\/p>\n<p>A\u00ed tratava-se apenas de lavrar e batear as areias para catar as pepitas<br \/>\ne apurar o ouro em p\u00f3. Mais tarde, passou-se a explorar o ouro de grupiara,<br \/>\nque se encontrava nas serranias. Ent\u00e3o, fez-se necess\u00e1rio um<br \/>\nprocesso mais complicado, que envolvia a canaliza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua<br \/>\nde lavagem e o desmonte da pi\u00e7arra, e freq\u00fcentemente a tritura\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas pedras em que se engastava o ouro. Por fim, explorava-se tamb\u00e9m<br \/>\no ouro de minas, cujos fil\u00f5es tinham que ser seguidos terra adentro,<br \/>\nexigindo mais trabalho e t\u00e9cnicas mais aprimoradas.<\/p>\n<p>Inicialmente, por\u00e9m, era enorme a quantidade de ouro que se encontrava<br \/>\n\u00e0 flor da terra para ser simplesmente catado com bateias. Essa facilidade<br \/>\nde explora\u00e7\u00e3o conduziu ao pronto esgotamento dos aluvi\u00f5es,<br \/>\nobrigando os arraiais de mineradores a deslocar-se para novas \u00e1reas.<br \/>\nAlguns dos primeiros n\u00facleos de explora\u00e7\u00e3o eram t\u00e3o<br \/>\nricos que as rancharias assentavam sobre o pr\u00f3prio terreno aur\u00edfero,<br \/>\ntendo de ser derrubadas, mais tarde, para prosseguir na lavagem do cascalho.<br \/>\nAssim se formaram arraiais que se tornariam vilas e, depois, cidades assentadas<br \/>\nliteralmente sobre o ouro, como Vila Rica, Cuiab\u00e1, Vila Bela e Goi\u00e1s,<br \/>\nentre muitas outras. Constru\u00eddas com o barro rico, ainda hoje se pode<br \/>\nver, nessas cidades, gente bateando as terras de um velho muro de adobe em<br \/>\nru\u00ednas, \u00e0 procura de pepitas.<\/p>\n<p>O afluxo de gente para as \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o e a sofreguid\u00e3o<br \/>\ncom que todos se dedicavam \u00e0 cata de ouro geraram graves problemas<br \/>\nsociais, fome e conflitos. Toda uma copiosa documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<br \/>\nmostra como se podia morrer de fome ou apenas sobreviver comendo ra\u00edzes<br \/>\nsilvestres e os bichos mais imundos, com as m\u00e3os cheias de ouro. Registra,<br \/>\ntamb\u00e9m, as contendas entre mineradores, travadas principalmente entre<br \/>\nos paulistas e advent\u00edcios.<\/p>\n<p>Aqueles, considerando-se com maiores direitos, enquanto descobridores de<br \/>\ntoda a nova riqueza, lutavam contra a invas\u00e3o dos baianos, pernambucanos<br \/>\ne demais brasileiros, bem como contra os rein\u00f3is atra\u00eddos para<br \/>\nas minas. A chamada Guerra dos Emboabas ( 1710 ) foi o mais grave dos enfrentamentos<br \/>\ndesse tipo.<\/p>\n<p>Somente uma d\u00e9cada depois da descoberta, as autoridades coloniais<br \/>\nfixaram-se com um poder efetivo sobre as novas regi\u00f5es, tornando-se<br \/>\ncapazes de compelir o cultivo de g\u00eaneros para garantir a subsist\u00eancia,<br \/>\nde estancar os conflitos, de dirimir as lutas pelo dom\u00ednio das \u00e1guas<br \/>\nde lavagem e pela posse das matas mais ricas.<\/p>\n<p>Come\u00e7a, ent\u00e3o, uma luta feroz entre os empres\u00e1rios<br \/>\nda terra e o patriciado lusitano, esfor\u00e7ando-se os primeiros por reter<br \/>\ne aumentar seus bens contra a sanha taxadora da Coroa. O escamoteio de ouro<br \/>\ne dos diamantes e a sonega\u00e7\u00e3o dos impostos prevalecem, desde<br \/>\nent\u00e3o, como o sentimento mais profundo dos cora\u00e7\u00f5es mineiros<br \/>\ne como sua forma particular de rebeldia. A Coroa reage com as derramas, as<br \/>\nexa\u00e7\u00f5es punitivas, os confiscos e a repress\u00e3o, mas jamais<br \/>\nconsegue p\u00f4r cobro \u00e0 posse il\u00edcita e ao contrabando, que<br \/>\nera a defesa dos brasileiros contra a espolia\u00e7\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nrevida com motins, por vezes prontamente aplastados, mas exigindo outras vezes<br \/>\na mobiliza\u00e7\u00e3o de milhares de soldados para sufoc\u00e1-los.<br \/>\nO principal deles, eclodido em 1720, termina com o esquartejamento de Felipe<br \/>\ndos Santos e a queima das casas dos revoltosos.<\/p>\n<p>Ainda na primeira metade do s\u00e9culo XVIII, a descoberta de uma riqu\u00edssima<br \/>\nregi\u00e3o diamant\u00edfera promove nova translada\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana.<\/p>\n<p>Era, por\u00e9m, aos olhos da Coroa, uma riqueza demasiado grande para<br \/>\nficar em m\u00e3os de brasileiros. Sobre ela foi decretado o monop\u00f3lio<br \/>\nreal. Assim \u00e9 que os diamantes seriam explorados, primeiro, por contratantes<br \/>\nreais; depois, diretamente por agentes da metr\u00f3pole. O estanco (monop\u00f3lio<br \/>\nreal), apesar de decretado e imposto atrav\u00e9s do maior aparelho de repress\u00e3o<br \/>\nmontado no per\u00edodo colonial, n\u00e3o impediu a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nclandestina de diamantes. Esta continuou sendo feita, acabando por plasmar<br \/>\num tipo social caracter\u00edstico, o garimpeiro, que ainda hoje conserva<br \/>\ntra\u00e7os de independ\u00eancia, reserva e rebeldia, explic\u00e1veis<br \/>\npor essa origem clandestina.<\/p>\n<p>Os primeiros povoadores levantavam e abandonavam continuamente rancharias,<br \/>\n\u00e0 medida que as lavras eram descobertas e se esgotavam. Mas prontamente<br \/>\nse nuclearam, em princ\u00edpio nos pousos mais pr\u00f3ximos, onde se<br \/>\ninstalava uma venda que depois se tornava estalagem e armaz\u00e9m. Ali<br \/>\ntodos compravam ferramentas e utens\u00edlios, sal, p\u00f3lvora, panos,<br \/>\nmantimentos e pinga, pagando tudo em on\u00e7as de ouro em p\u00f3, que<br \/>\nera a moeda da terra. Essa riqueza atraiu negociantes importadores; comboieiros<br \/>\nque tangiam escravos desde a costa, acorrentados uns aos outros; tropeiros<br \/>\nque transportavam a lombo de burro, atrav\u00e9s de centenas de l\u00e9guas,<br \/>\ntoda a sorte de mercadoria. Alguns daqueles pousos se estabilizaram, tornando-se<br \/>\narraiais e vilas capazes de prover, al\u00e9m das mercadorias, tamb\u00e9m<br \/>\nas necessidades da religi\u00e3o e da justi\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAssim se constitui, com extraordin\u00e1ria rapidez, a base do que viria<br \/>\na ser uma vasta e pr\u00f3spera rede urbana.<\/p>\n<p>Os escravos das lavras viviam acumulados em cho\u00e7as levantadas nas<br \/>\nvizinhan\u00e7as, trabalhando sob estrita vigil\u00e2ncia de fiscais e<br \/>\nfeitores atentos contra o extravio e at\u00e9 a degluti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas pepitas maiores e, sobretudo, dos diamantes. Gozavam, por\u00e9m, de<br \/>\ncertas regalias em rela\u00e7\u00e3o ao eito a\u00e7ucareiro, tendo<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es de cultivar seus ro\u00e7ados e, por vezes, de comprar<br \/>\na pr\u00f3pria liberdade se alcan\u00e7assem uma produ\u00e7\u00e3o<br \/>\ninusitada. Nesse mundo que requeria as aptid\u00f5es t\u00e9cnicas mais<br \/>\nvariadas, muito negro habilidoso se fez art\u00edfice. A eles se devem as<br \/>\nprimeiras fundi\u00e7\u00f5es de ferro, indispens\u00e1veis nas minas<br \/>\npara o fabrico do instrumental de trabalho, para ferrar as mulas das tropas<br \/>\ne as rodas dos carros.<\/p>\n<p>Nas zonas de minera\u00e7\u00e3o, a sociedade brasileira adquire fei\u00e7\u00f5es<br \/>\npeculiares como um desdobramento do tronco paulista, por influ\u00eancia<br \/>\ndos brasileiros vindos de outras \u00e1reas e de novos contingentes europeus<br \/>\nnele incorporados, e da presen\u00e7a de uma grande massa de escravos, tanto<br \/>\nafricanos quanto nativos, trazidos das antigas zonas a\u00e7ucareiras. O<br \/>\nprincipal conformador dessa variante cultural foi a atividade econ\u00f4mica<br \/>\ninicial de minera\u00e7\u00e3o e a riqueza local que ela gerou, criando<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es para uma vida urbana mais complexa e ostentosa que<br \/>\nem qualquer outra regi\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A abertura das regi\u00f5es mineradoras teve algumas conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nexternas de import\u00e2ncia capital, al\u00e9m das translada\u00e7\u00f5es<br \/>\nde popula\u00e7\u00e3o. Ensejou a transfer\u00eancia da capital colonial<br \/>\nda Bahia para o porto do Rio de Janeiro &#8211; que era um arraial paup\u00e9rrimo,<br \/>\ncomo o velho S\u00e3o Vicente -, criando as bases para a implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde grande centro administrativo e comercial na costa sul, em cujas imedia\u00e7\u00f5es<br \/>\nse desenvolveria um novo n\u00facleo de economia agr\u00e1ria. Estimulou<br \/>\na expans\u00e3o do pastoreio nordestino pelos campos s\u00e3o-franciscanos<br \/>\ne do Centro-Oeste, assegurando- lhe um novo mercado consumidor, no momento<br \/>\nem que deca\u00eda o nordestino.<\/p>\n<p>Finalmente, possibilitou a ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o sulina,<br \/>\nconquistada pelos paulistas com a destrui\u00e7\u00e3o das miss\u00f5es<br \/>\njesu\u00edticas -, para o pastoreio de gado vacum, que se dispersara pelos<br \/>\ncampos, e, sobretudo, para a cria\u00e7\u00e3o dos muares que abasteceriam<br \/>\nos tropeiros, os quais faziam todo o transporte terrestre do Brasil colonial.<\/p>\n<p>Desse modo, a minera\u00e7\u00e3o, ademais de representar uma nova atividade<br \/>\nde maior rentabilidade econ\u00f4mica que as anteriores, ensejou a integra\u00e7\u00e3o<br \/>\nna sociedade colonial, assegurando, assim, o requisito fundamental da unidade<br \/>\nnacional brasileira sobre a vastid\u00e3o do territ\u00f3rio j\u00e1<br \/>\ndevassado.<\/p>\n<p>Meio s\u00e9culo depois da sua descoberta, a regi\u00e3o das Minas j\u00e1<br \/>\nera a mais populosa e a mais rica da col\u00f4nia, contando com uma ampla<br \/>\nrede urbana. Nas d\u00e9cadas seguintes, se ativaria com uma vida social<br \/>\nbrilhante, servida por majestosos edif\u00edcios p\u00fablicos, igrejas<br \/>\namplas de primorosa arquitetura barroca, casas senhoriais assobradadas e ruas<br \/>\npedradas engalanadas com pontes e chafarizes de pedra esculpida.<\/p>\n<p>Desenvolveu-se simultaneamente uma classe senhorial de autoridades reais<br \/>\ne eclesi\u00e1sticas, de ricos comerciantes e mineradores, tanto brasileiros<br \/>\ncomo rein\u00f3is, acolitada por um amplo c\u00edrculo de militares de<br \/>\nof\u00edcio, burocratas, ouvidores, contadores, fiscais e escriv\u00e3es.<br \/>\nDentro desse c\u00edrculo, todos se davam um trato cordial de &#8220;urbanidade<br \/>\nsem afeta\u00e7\u00e3o&#8221;, segundo um testemunho europeu. Os homens<br \/>\nlevavam jaquetas e cal\u00e7as de flanela preta de Manchester. As mulheres<br \/>\ndavam-se ao luxo de seguir modas francesas. Faziam arquitetura e pintura da<br \/>\nmais alta qualidade, criando uma variante brasileira do barroco; literatura<br \/>\nl\u00edrica e at\u00e9 pol\u00edtica libert\u00e1ria; liam pensadores<br \/>\nrevolucion\u00e1rios e compunham m\u00fasica erudita, primorosamente orquestrada.<\/p>\n<p>A atividade mineradora, que mantinha esse fausto urbano, propiciou tamb\u00e9m<br \/>\na cria\u00e7\u00e3o de uma ampla camada intermedi\u00e1ria entre cidad\u00e3os<br \/>\nricos e os pobres trabalhadores das lavras. Eram art\u00edfices e m\u00fasicos,<br \/>\nmuitos deles mulatos e mesmo pretos, que conseguiam alcan\u00e7ar um padr\u00e3o<br \/>\nde vida razo\u00e1vel e desligar-se das tarefas de subsist\u00eancia para<br \/>\ns\u00f3 se dedicarem a suas especialidades. Para atender a esse grupo, fundam-se<br \/>\nsuas pr\u00f3prias corpora\u00e7\u00f5es de of\u00edcio, de molde<br \/>\nportugu\u00eas, que se tornam poderosos n\u00facleos de defesa dos interesses<br \/>\nprofissionais, associando separadamente os ourives, os pedreiros, os carpinteiros,<br \/>\nos entalhadores, os ferreiros, os artistas, escultores, pintores e outros<br \/>\nart\u00edfices.<\/p>\n<p>A atividade religiosa regia o calend\u00e1rio da vida social, comandando<br \/>\ntoda a intera\u00e7\u00e3o entre os diversos estratos sociais. Isso se<br \/>\nfazia atrav\u00e9s de diversas irmandades organizadas por castas, que reuniam<br \/>\nos pretos forros, os mulatos, os brancos, separando-os em distintas agrupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nmas tamb\u00e9m integrando a todos na vida social da col\u00f4nia. Cada<br \/>\numa delas tinha igreja pr\u00f3pria, que era seu orgulho, cemit\u00e9rio<br \/>\nprivativo e direito a pompas funer\u00e1rias com a participa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde seus cl\u00e9rigos e de seus m\u00fasicos profissionalizados. Os pretos<br \/>\ntamb\u00e9m, inclusive os escravos, criaram suas pr\u00f3prias corpora\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndevotadas, como as outras, a algum santo. \u00c9 o caso do suntuoso Santu\u00e1rio<br \/>\ndo Ros\u00e1rio dos Pretos, de Ouro Preto.<\/p>\n<p>O sustento dessa popula\u00e7\u00e3o urbana criou condi\u00e7\u00f5es<br \/>\npara o surgimento de uma agricultura comercial diversificada, provedora de<br \/>\nmantimentos, de carne, de rapadura, de queijos, de toucinho e muitos outros<br \/>\nprodutos. Pequena parcela da escravaria foi destinada a esses misteres, dado<br \/>\no seu engajamento maci\u00e7o na minera\u00e7\u00e3o. Deles ocupavam-se,<br \/>\nprincipalmente, os negros e mulatos forros e os brancos mais pobres, incapazes<br \/>\nde entrar no neg\u00f3cio das lavras, que j\u00e1 n\u00e3o era de simples<br \/>\nbatea\u00e7\u00e3o, mas de minera\u00e7\u00e3o e desmonte de grupiaras,<br \/>\nexigindo, por isso, grandes capitais.<\/p>\n<p>Lavrando principalmente terra alheia, por for\u00e7a do monop\u00f3lio<br \/>\nque sobre ela exercia a gente fidalga, esses chacareiros trabalhavam, certamente,<br \/>\nsob algum regime de parceria, como os roceiros da regi\u00e3o a\u00e7ucareira<br \/>\ndedicados ao provimento alimentar das vilas e cidades nordestinas. Abaixo<br \/>\ndesses estratos intermedi\u00e1rios, estava a camada dos mulatos e negros<br \/>\nforros mais humildes, representados nas irmandades mais pobres mas, ao menos,<br \/>\na\u00ed integrados. Eram os servi\u00e7ais dom\u00e9sticos ou trabalhadores<br \/>\nbra\u00e7ais, sobre cujos ombros reca\u00edam as tarefas pesadas. Na base<br \/>\nda estratifica\u00e7\u00e3o, como a camada mais explorada, sem qualquer<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00e3o ou direito, ficava a grande massa escrava de trabalhadores<br \/>\ndas minas, das lavouras e dos transportes.<\/p>\n<p>Todo um aparato ostensivo de repress\u00e3o vigiava, em cada vila, a esses<br \/>\nmiser\u00e1veis, para prevenir as fugas de escravos, a vadiagem dos forros<br \/>\nque pudesse resultar em assaltos e, sobretudo, as rebeli\u00f5es.<\/p>\n<p>A sedi\u00e7\u00e3o surge, por\u00e9m, na pr\u00f3pria classe alta,<br \/>\nde que se destaca uma elite letrada que se prop\u00f5e formular e p\u00f4r<br \/>\nem execu\u00e7\u00e3o um projeto alternativo ao colonial de reordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sua sociedade. Trata-se do mais ousado dos projetos libert\u00e1rios<br \/>\nda hist\u00f3ria colonial brasileira, uma vez que previa estruturar uma<br \/>\nrep\u00fablica de molde norte-americano que aboliria a escravid\u00e3o,<br \/>\ndecretaria a liberdade de com\u00e9rcio e promoveria a industrializa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA eclos\u00e3o insurrecional deveria ter lugar em 1789, aproveitando a revolta<br \/>\ndos &#8220;mineiros&#8221; contra a espolia\u00e7\u00e3o colonial, aumentada<br \/>\npor novas taxa\u00e7\u00f5es j\u00e1 anunciadas sobre uma riqueza minguante.<br \/>\nFoi a malchamada Inconfid\u00eancia Mineira, que, apesar de fracassada por<br \/>\numa dela\u00e7\u00e3o, nos revela o vigor do sentimento nativista nascente<br \/>\ne tamb\u00e9m o amadurecimento de uma ideologia republicana capacitada para<br \/>\nreordenar a sociedade em novas bases.<\/p>\n<p>Tiradentes, a figura principal da conspira\u00e7\u00e3o, um militar<br \/>\nde of\u00edcio, tinha sempre em m\u00e3os um exemplar da constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nnorte-americana para mostrar como se devia e se podia reorganizar a vida social<br \/>\ne econ\u00f4mica depois da emancipa\u00e7\u00e3o do jugo portugu\u00eas.<br \/>\nPresos por den\u00fancia, todos os inconfidentes foram desterrados para<br \/>\na \u00c1frica, onde morreram. Exceto o pr\u00f3prio Tiradentes, enforcado<br \/>\nap\u00f3s tr\u00eas anos de c\u00e1rcere e, depois, esquartejado e exposto<br \/>\nnos lugares onde antes conspirara, para escarmento da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de algumas d\u00e9cadas de explora\u00e7\u00e3o intensiva e<br \/>\ndesordenada, come\u00e7am a esgotar-se os aluvi\u00f5es de Minas Gerais<br \/>\ne, mais tarde, os de Goi\u00e1s e de Mato Grosso. Os mineradores voltam<br \/>\n\u00e0s velhas paragens, relavando cascalho j\u00e1 trabalhado ou tentando<br \/>\nlavras abandonadas, por s\u00e1faras. Tudo em v\u00e3o; o ouro minguava<br \/>\ne com ele a sociedade fundada na dissipa\u00e7\u00e3o da riqueza f\u00e1cil.<br \/>\nOs mineradores insistiam, por\u00e9m, labutando com os escravos envelhecidos<br \/>\nque n\u00e3o podiam renovar e endividando-se, mas persistindo sempre pela<br \/>\nincapacidade de se voltarem para outra atividade. Seu problema era determinar<br \/>\nque mercadoria se podia produzir naqueles ermos montanhosos, como transport\u00e1-la<br \/>\nat\u00e9 a costa distante e a quem vend\u00ea-la, se o \u00fanico mercado<br \/>\nrico fora o das minas, agora empobrecidas.<\/p>\n<p>Ao fim do s\u00e9culo XVIII, a vida urbana ainda parecia ter vi\u00e7o<br \/>\npelo brilho art\u00edstico que alcan\u00e7ara, pelo requinte que adquirira,<br \/>\npelos h\u00e1bitos mundanos que cultivava.<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 eram express\u00f5es da decad\u00eancia, que pouco depois<br \/>\ndesapareceriam tamb\u00e9m, mergulhando a todos na pobreza envergonhada<br \/>\nem que ainda vegetam os mineiros das antigas cidades do ouro e do diamante.<\/p>\n<p>Nem Portugal conseguira reter a riqueza portentosa que carreara, criando<br \/>\ncom ela novas fontes de produ\u00e7\u00e3o. Um pacto de complementaridade<br \/>\necon\u00f4mica com a Inglaterra \u2013 Tratado de Methuen -, que assegurava<br \/>\ntaxas m\u00ednimas ao vinho do Porto e ao azeite portugu\u00eas em troca<br \/>\ndo livre com\u00e9rcio das manufaturas inglesas, transferia quase todo o<br \/>\nouro para os banqueiros londrinos. O \u00e2mbito dessa transfer\u00eancia<br \/>\npode ser avaliado em documenta\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, que indica<br \/>\nterem alcan\u00e7ado at\u00e9 50 mil libras semanais os pagamentos portugueses<br \/>\nem ouro pelas importa\u00e7\u00f5es que o reino e o Brasil faziam aos<br \/>\nindustriais ingleses. Esse ouro contribuiria para custear as guerras contra<br \/>\nNapole\u00e3o e, sobretudo, para financiar a expans\u00e3o da infra-estrutura<br \/>\nindustrial da Inglaterra.<\/p>\n<p>Com a decad\u00eancia da minera\u00e7\u00e3o, toda a \u00e1rea submerge<br \/>\nnuma economia de pobreza, com a regress\u00e3o cultural resultante. Os mineradores<br \/>\nse fazem sitiantes, escondendo na fazenda a sua pen\u00faria.<\/p>\n<p>O artesanato local de roupas r\u00fasticas e de utens\u00edlios volta<br \/>\na ganhar terreno, e com ele uma economia aut\u00e1rquica para subsist\u00eancia.<br \/>\nTodavia, a presen\u00e7a de contingentes europeus e africanos integrados<br \/>\nna sociedade mineira permite explorar algumas t\u00e9cnicas, como a fundi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ferro, a edifica\u00e7\u00e3o, a carpintaria fina, a ind\u00fastria<br \/>\nde panos, bem como certo grau de erudi\u00e7\u00e3o livresca que impediriam<br \/>\na sociedade mineira decadente de regredir \u00e0 rusticidade do tronco paulista.<\/p>\n<p>Sua voca\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica seria a industrializa\u00e7\u00e3o,<br \/>\npara a qual estava qui\u00e7\u00e1 t\u00e3o habilitada como a col\u00f4nia<br \/>\nnorte-americana. Com efeito, somente a industrializa\u00e7\u00e3o poderia<br \/>\nabrir novos horizontes de ocupa\u00e7\u00e3o produtiva aos capitais acumulados<br \/>\ne, sobretudo, \u00e0 massa antes engajada na minera\u00e7\u00e3o, que<br \/>\nestiolava agora nas cidades decadentes e nos campos paup\u00e9rrimos. \u00c9<br \/>\ncerto que a industrializa\u00e7\u00e3o que se processava, ent\u00e3o,<br \/>\nnos centros reitores da economia mundial envolvia conhecimentos t\u00e9cnicos<br \/>\nque nem Portugal dominara, al\u00e9m de exigir contatos internacionais e<br \/>\nrecursos financeiros que talvez excedessem as possibilidades de uma prov\u00edncia<br \/>\ncolonial encravada no cora\u00e7\u00e3o do continente. O obst\u00e1culo<br \/>\nfundamental \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o desse des\u00edgnio residia,<br \/>\npor\u00e9m, numa proibi\u00e7\u00e3o expressa. Efetivamente, as tentativas<br \/>\nmineiras de instalar f\u00e1bricas toscas pareceram \u00e0 Coroa t\u00e3o<br \/>\natentat\u00f3rias aos seus interesses que todas elas foram destru\u00eddas<br \/>\npelas tropas coloniais e se disp\u00f4s em 1785 que jamais se tornassem a<br \/>\nlevantar.<\/p>\n<p>Entrou, assim, em desagrega\u00e7\u00e3o progressiva a economia e a<br \/>\nsociedade que edificara nas regi\u00f5es mineiras seus arraiais e cidades,<br \/>\nformando o maior conglomerado demogr\u00e1fico e a maior rede urbana da<br \/>\ncol\u00f4nia. Antigos mineradores e negociantes se transformam em fazendeiros;<br \/>\nartes\u00e3os e empregados se fazem posseiros de glebas devolutas. Citadinos<br \/>\nruralizados espalham-se pelos matos, selecionando as terras j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\npela riqueza aur\u00edfera, mas por suas qualidades para moradia e cultivo.<br \/>\nFazem-se roceiros de lavouras de subsist\u00eancia, criadores de gado, de<br \/>\ncavalos, de burros e de porcos, espraiando-se pelas vastid\u00f5es dos vales<br \/>\nque descem e se abrem das serranias onde se explorava o ouro.<\/p>\n<p>Buscando manter sua proced\u00eancia social, muitas parentelas antes ricas,<br \/>\nmas de bens minguantes, emigraram com sua escravaria para sesmarias conseguidas<br \/>\nem territ\u00f3rios ermos. A\u00ed reconstituem n\u00facleos de vida<br \/>\naut\u00e1rquica, novamente orgulhosos de s\u00f3 depender do com\u00e9rcio<br \/>\npara o provimento do sal, mal escondendo, atr\u00e1s dessa vaidade, a sua<br \/>\npen\u00faria. O n\u00facleo fidalgo destas parentelas continuava cultuando<br \/>\ncerta erudi\u00e7\u00e3o. Os pais ensinavam a ler e a escrever aos seus<br \/>\nfilhos var\u00f5es, iniciando-os \u00e0s vezes em rudimentos de latim<br \/>\ne de literatura cl\u00e1ssica. Mesmo as camadas populares mant\u00eam,<br \/>\npor algumas d\u00e9cadas, nesses n\u00facleos de citadinos ruralizados,<br \/>\ncertos tra\u00e7os culturais de extra\u00e7\u00e3o urbana europ\u00e9ia,<br \/>\ncomo a m\u00fasica erudita. Ainda no s\u00e9culo XIX, m\u00fasicos afei\u00e7oados<br \/>\na quartetos de corda surpreendem o s\u00e1bio alem\u00e3o Karl von Martius,<br \/>\nque atravessava a regi\u00e3o, com convites para tert\u00falias de puro<br \/>\ngosto fidalgo, em pleno sert\u00e3o mineiro.<\/p>\n<p>A vida citadina se deteriora, conformando cidades mortas, cujas casas s\u00e3o<br \/>\nvendidas por pre\u00e7os muito inferiores ao que custaria edific\u00e1-las;<br \/>\ncujo com\u00e9rcio, instalado em lojas enormes, tem as prateleiras vazias;<br \/>\ncuja gente cada vez mais sovina vive de cr\u00e9ditos e calotes, s\u00f3<br \/>\nluzindo o antigo brilho nas prociss\u00f5es religiosas, organizadas ao gosto<br \/>\nantigo, em que todos trajam a \u00fanica surrada roupa domingueira. Esta<br \/>\n\u00e9 a Minas Gerais da decad\u00eancia: conservadora, reservada, desconfiada,<br \/>\ntaciturna e amarga. A atividade mais rendosa, porque a \u00fanica paga em<br \/>\ndinheiro, vir\u00e1 a ser a burocracia sobrevivente de uns poucos cargos<br \/>\np\u00fablicos, disputados pela melhor gente.<\/p>\n<p>Esgotado o impulso criador dos bandeirantes que se fizeram mineiros, toda<br \/>\na economia da vasta popula\u00e7\u00e3o do CentroSul entra em estagna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mergulha numa cultura de pobreza, reencarnando formas de vida arcaica dos<br \/>\nvelhos paulistas que se mantinham em lat\u00eancia, prontas a ressurgir com<br \/>\numa crise do sistema produtivo. A popula\u00e7\u00e3o se dispersa e se<br \/>\nsedentariza, esfor\u00e7ando-se por atingir n\u00edveis m\u00ednimos<br \/>\nde satisfa\u00e7\u00e3o de suas necessidades.<\/p>\n<p>O equil\u00edbrio \u00e9 alcan\u00e7ado numa variante da cultura brasileira<br \/>\nr\u00fastica, que se cristaliza como \u00e1rea cultural caipira. \u00c9<br \/>\num novo modo de vida que se difunde paulatinamente a partir das antigas \u00e1reas<br \/>\nde minera\u00e7\u00e3o e dos n\u00facleos ancilares de produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nartesanal e de mantimentos que a supriam de manufaturas, de animais de servi\u00e7o<br \/>\ne outros bens.<\/p>\n<p>Acaba por esparramar-se, falando afinal a l\u00edngua portuguesa, por<br \/>\ntoda a \u00e1rea florestal e campos naturais do Centro-Sul do pa\u00eds,<br \/>\ndesde S\u00e3o Paulo, Esp\u00edrito Santo e estado do Rio de Janeiro,<br \/>\nna costa, at\u00e9 Minas Gerais e Mato Grosso, estendendo-se ainda sobre<br \/>\n\u00e1reas vizinhas do Paran\u00e1. Desse modo, a antiga \u00e1rea de<br \/>\ncorrerias dos paulistas velhos na preia de \u00edndios e na busca de ouro<br \/>\nse transforma numa vasta regi\u00e3o de cultura caipira, ocupada por uma<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o extremamente dispersa e desarticulada. Em ess\u00eancia,<br \/>\nexaurido o surto minerador e rompida a trama mercantil que ele dinamizava,<br \/>\na paulist\u00e2nia se &#8220;feudaliza&#8221;, abandonada ao desleixo da exist\u00eancia<br \/>\ncaipira.<\/p>\n<p>O \u00fanico recurso com que conta essa economia decadente s\u00e3o<br \/>\nas enormes disponibilidades de m\u00e3o-de-obra desocupada e de terras virgens<br \/>\ndespovoadas e desprovidas de qualquer valor, que os mais abonados obt\u00eam<br \/>\npor concess\u00e3o em enormes sesmarias e os mais pobres e imprevidentes<br \/>\napenas ocupam como posseiros.<\/p>\n<p>Com essa base se instala uma economia natural de subsist\u00eancia, dado<br \/>\nque sua produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia ser comercializada sen\u00e3o<br \/>\nem limites m\u00ednimos. Difunde-se, desse modo, uma agricultura itinerante,<br \/>\na derrubar e queimar novas glebas de mata para cada ro\u00e7ado anual, combinada<br \/>\ncom uma explora\u00e7\u00e3o complementar das terras, das aguadas, das<br \/>\nmatas, atrav\u00e9s da ca\u00e7a, da pesca e da coleta de frutos e tub\u00e9rculos.<br \/>\nSem nada vender, nada podiam comprar, voltando \u00e0 vida aut\u00e1rquica<br \/>\nde economia artesanal dom\u00e9stica que satisfazia, nos n\u00edveis poss\u00edveis,<br \/>\n\u00e0s necessidades comprimidas a limites extremos.<\/p>\n<p>Essas novas formas de vida importaram numa dispers\u00e3o do povoamento<br \/>\npor grandes \u00e1reas, com o distanciamento dos n\u00facleos familiais.<br \/>\nN\u00e3o impuseram, por\u00e9m, uma segrega\u00e7\u00e3o, porque novas<br \/>\nformas de conv\u00edvio intermitente foram estruturando as vi- zinhas em<br \/>\nunidades solid\u00e1rias. Assim se formaram os bairros rurais, definidos<br \/>\npor um informante de Melo e Souza ( 1964 ) como na\u00e7\u00e3ozinhas<br \/>\nou grupos de conv\u00edvio unificados pela base territorial em que se assentarti,<br \/>\npelo sentimento de localidade que os identifica e os op\u00f5e a outros<br \/>\nbairros, e pela participa\u00e7\u00e3o em formas coletivas de trabalho<br \/>\ne de lazer.<\/p>\n<p>Para essas popula\u00e7\u00f5es rarefeitas, que, via de regra, s\u00f3<br \/>\ncontavam para o conv\u00edvio di\u00e1rio com os membros da fam\u00edlia,<br \/>\nassumem import\u00e2ncia crucial certas institui\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias<br \/>\nque permitem dar e obter a colabora\u00e7\u00e3o de outros n\u00facleos<br \/>\nnos empreendimentos que exigem maior concentra\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os.<br \/>\nA principal delas \u00e9 o mutir\u00e3o, que institucionaliza o aux\u00edlio<br \/>\nm\u00fatuo e a a\u00e7\u00e3o conjugada pela reuni\u00e3o dos moradores<br \/>\nde toda uma vizinhan\u00e7a para a execu\u00e7\u00e3o das tarefas mais<br \/>\npesadas, que excediam das possibilidades dos grupos familiares. Assim, os<br \/>\nmoradores de um bairro sucessivamente se juntam para ajudar a cada um deles<br \/>\nna derrubada da mata para o ro\u00e7ado, para o plantio e a limpeza dos<br \/>\ncultivos, bem como para a batea\u00e7\u00e3o das safras de arroz e de<br \/>\nfeij\u00e3o e, eventualmente, para construir ou consertar uma casa, refazer<br \/>\numa ponte ou manter uma estrada. Sempre que a tarefa interessava imediatamente<br \/>\na um dos moradores, cumpria a este prover alimenta\u00e7\u00e3o e, ao<br \/>\nfim dos trabalhos, oferecer uma festa com m\u00fasica e pinga. Assim, o<br \/>\nmutir\u00e3o se faz n\u00e3o s\u00f3 uma forma de associa\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o trabalho, mas tamb\u00e9m uma oportunidade de lazer festivo, ensejando<br \/>\numa conviv\u00eancia amena.<\/p>\n<p>As vizinhan\u00e7as mais solid\u00e1rias organizam-se, ainda, em formas<br \/>\nsuperiores de conv\u00edvio, como o culto a um santo poderoso, cuja capela<br \/>\npode ser orgulho local pela freq\u00fc\u00eancia com que promove missas,<br \/>\nfestas, leil\u00f5es, sempre seguidos de bailes. Cada n\u00facleo, al\u00e9m<br \/>\nda produ\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia, que absorve quase todo o<br \/>\ntrabalho, produz uns poucos artigos para o mercado incipiente, como queijos,<br \/>\nrequeij\u00f5es e rapaduras, farinha de mandioca, toucinho, ling\u00fci\u00e7a,<br \/>\ncereais, galinha e porcos. A eles se acrescentam os panos de algod\u00e3o<br \/>\ngrosseiro, de fabrico dom\u00e9stico, que chegam a servir como unidade de<br \/>\ntroca nessa economia n\u00e3o monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o caipira, integrada em bairros, preenche desse<br \/>\nmodo suas condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de sobreviv\u00eancia. Os<br \/>\nque se desgarram desse conv\u00edvio, penetrando s\u00f3s nos sert\u00f5es<br \/>\nmais ermos, est\u00e3o sempre amea\u00e7ados de cair em anomia, sendo<br \/>\nolhados por todos como gente rara, suspeita de incesto e de todas as formas<br \/>\nde aliena\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>A vida rural caipira, assim ordenada, equilibra satisfatoriamente quadras<br \/>\nde trabalho continuado e de lazer, permitindo atender \u00e0s car\u00eancias<br \/>\nfrugais e at\u00e9 manter os enfermos, d\u00e9beis, insanos e dependentes<br \/>\nimprodutivos. Condiciona, tamb\u00e9m, o caipira a um horizonte culturalmente<br \/>\nlimitado de aspira\u00e7\u00f5es, que o faz parecer desambicioso e imprevidente,<br \/>\nocioso e vadio. Na verdade, exprime sua integra\u00e7\u00e3o numa economia<br \/>\nmais aut\u00e1rquica do que mercantil que, al\u00e9m de garantir sua independ\u00eancia,<br \/>\natende \u00e0 sua mentalidade, que valoriza mais as altern\u00e2ncias de<br \/>\ntrabalho intenso e de lazer, na forma tradicional, do que um padr\u00e3o<br \/>\nde vida mais alto atrav\u00e9s do engajamento em sistemas de trabalho rigidamente<br \/>\ndisciplinado.<\/p>\n<p>S\u00f3 nessas condi\u00e7\u00f5es de recess\u00e3o econ\u00f4mica<br \/>\n\u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o branca e mesti\u00e7a pobre e os<br \/>\nmulatos livres t\u00eam acesso \u00e0 terra.<\/p>\n<p>N\u00e3o por uma renova\u00e7\u00e3o institucional que garanta a propriedade<br \/>\ndos posseiros, mas simplesmente porque, quebrados os v\u00ednculos mercantis<br \/>\npela inexist\u00eancia de um mercado comprador, deixaria temporariamente<br \/>\nde ter sentido o monop\u00f3lio da terra como mecanismo adicional de conscri\u00e7\u00e3o<br \/>\nda for\u00e7a de trabalho para as lavouras comerciais.<\/p>\n<p>A liberdade incidental dessa exist\u00eancia aut\u00e1rquica duraria<br \/>\npouco, porque logo surgiria outra forma de viabiliza\u00e7\u00e3o da economia<br \/>\nde exporta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da grande lavoura e, com ela, a<br \/>\nproscri\u00e7\u00e3o legal ( 1850 ) do acesso \u00e0 propriedade da<br \/>\nterra pela simples ocupa\u00e7\u00e3o e cultivo, atrav\u00e9s da obrigatoriedade<br \/>\nda compra ou de formas de legitima\u00e7\u00e3o cartorial da posse, que<br \/>\neram inacess\u00edveis ao caipira.<\/p>\n<p>Com efeito, passadas as d\u00e9cadas de maior recesso ( 1790 a 1840 ),<br \/>\nsurgem e se expandem novas formas de produ\u00e7\u00e3o agroexportadora,<br \/>\ndando in\u00edcio a um lento processo de reaglutina\u00e7\u00e3o das<br \/>\npopula\u00e7\u00f5es caipiras em bases econ\u00f4micas mercantis.<\/p>\n<p>Tal se d\u00e1 com o surgimento de novos cultivos comerciais de exporta\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo o algod\u00e3o e o tabaco e mais tarde o caf\u00e9, que reativariam<br \/>\nas regi\u00f5es caipiras. As estradas melhoram e se refazem os sistemas<br \/>\nde transporte por tropas.<\/p>\n<p>Simultaneamente, uma reordena\u00e7\u00e3o institucional se vai implantando<br \/>\nno n\u00edvel civil e no eclesi\u00e1stico: as vizinhan\u00e7as se transformam<br \/>\nem distritos, os arraiais em cidades, providas j\u00e1 de certo aparato<br \/>\nadministrativo que entra a examinar a legalidade das ocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde terras. A religiosidade espont\u00e2nea se institucionaliza com a ere\u00e7\u00e3o<br \/>\nde freguesias e, depois, de par\u00f3quias com vig\u00e1rios permanentes.<br \/>\nPor fim, um poder estatal se instala, com servi\u00e7os de pol\u00edcia,<br \/>\nque se capacitam a acabar com o banditismo espont\u00e2neo e a soldo, que<br \/>\nse generalizara, aliciando aventureiros e vadios.<\/p>\n<p>Essa penetra\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico n\u00e3o se faz,<br \/>\npor\u00e9m, como uma extens\u00e3o da justi\u00e7a ou como uma garantia<br \/>\nde bem comum.<\/p>\n<p>O Estado penetra o mundo caipira como agente da camada propriet\u00e1ria<br \/>\ne representa para ele, essencialmente, uma nova sujei\u00e7\u00e3o. Desde<br \/>\nent\u00e3o, torna-se imperativo para cada pessoa colocar-se sob o amparo<br \/>\nde um senhorio que tenha voz frente ao novo poder para escapar \u00e0s arbitrariedades<br \/>\nde que, doravante, est\u00e1 amea\u00e7ada. Para isso se far\u00e1 compadre,<br \/>\nou foreiro, ou sequaz, ou eleitor &#8211; geralmente tudo isto -, de quem lhe possa<br \/>\nassegurar a prote\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Assim, o dom\u00ednio olig\u00e1rquico que remonopolizava a terra e<br \/>\npromovia o desenraizamento do posseiro caipira, com a ajuda do aparelho legal<br \/>\nadministrativo e pol\u00edtico do governo, ganha for\u00e7a e congru\u00eancia,<br \/>\npassando a exigir tamb\u00e9m as lealdades do caipira. Tal como ocorre ao<br \/>\nsertanejo, seu pavor maior ser\u00e1 doravante ver-se desgarrado, sem um<br \/>\nsenhor poderoso que se interponha, se necess\u00e1rio, entre ele e essa<br \/>\nordem impessoal, antipopular, todo-poderosa, que avan\u00e7a sobre o seu<br \/>\nmundo.<\/p>\n<p>O fator b\u00e1sico dessa reordena\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica<br \/>\nera o restabelecimento do sistema mercantil e com ele a valoriza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas propriedades. Desencadeia-se a disputa pelas terras de melhor qualidade,<br \/>\npr\u00f3ximas das redes de transporte, utiliz\u00e1veis para as lavouras<br \/>\ncomerciais, cada vez mais amplas, de algod\u00e3o e de tabaco e para as<br \/>\nnovas lavouras de caf\u00e9, que come\u00e7am a difundir-se. Nesse processo<br \/>\nos cart\u00f3rios se ativam para avalizar t\u00edtulos de velhas sesmarias,<br \/>\nverdadeiros ou falsificados, promovendo o desalojamento de antigos posseiros.<\/p>\n<p>Todo um aparato jur\u00eddico citadino se coloca a servi\u00e7o dessa<br \/>\nconcentra\u00e7\u00e3o de propriedade. Propriedades pulverizadas por efeito<br \/>\nde heran\u00e7as sucessivas de fam\u00edlias extensas se reconstituem<br \/>\npor compra das parcelas de explora\u00e7\u00e3o invi\u00e1vel. Entram<br \/>\nem a\u00e7\u00e3o os demarcadores de glebas a se fazerem pagar em terras<br \/>\npelos que n\u00e3o t\u00eam dinheiro. Multiplicam-se os grileiros, subornando<br \/>\nju\u00edzes e recrutando as for\u00e7as policiais das vilas para desalojar<br \/>\nfam\u00edlias caipiras, declaradas invasoras de terras em que sempre viveram.<br \/>\nPostas fora da lei e submetidas \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o policial,<br \/>\nelas s\u00e3o, finalmente, escorra\u00e7adas das terras \u00e0 medida<br \/>\nque sua explora\u00e7\u00e3o comercial se torna vi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Com o crescimento prodigiosamente r\u00e1pido das culturas de caf\u00e9,<br \/>\nse acelera esse processo de reordena\u00e7\u00e3o social. O caipira \u00e9<br \/>\ncompelido a engajar-se no colonato, como assalariado rural, ou a refugiar-se<br \/>\nna condi\u00e7\u00e3o de parceiro, transferindo-se para as \u00e1reas<br \/>\nmais remotas ou para as terras cujos propriet\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam<br \/>\nrecursos para explorar os novos cultivos. O caipira apega-se a essa sa\u00edda<br \/>\ncom todas as suas for\u00e7as, procurando tornar-se parceiro, como meeiro,<br \/>\nfinanciado pelo propriet\u00e1rio a quem entrega metade da produ\u00e7\u00e3o;<br \/>\nou como terceiro, trabalhando por conta pr\u00f3pria, mas pagando pelo direito<br \/>\nao uso da terra um ter\u00e7o das colheitas.<\/p>\n<p>Essa condi\u00e7\u00e3o lhe permite preservar a autonomia na marca\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo ritmo de trabalho e lhe d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de manter suas<br \/>\nformas globais de adapta\u00e7\u00e3o e de vida. Assegura- lhe, ainda,<br \/>\num status de quase propriet\u00e1rio, assim tratado pelos vendeiros, mediante<br \/>\na garantia de cr\u00e9dito, de colheita a colheita, que n\u00e3o \u00e9<br \/>\ndado ao trabalhador assalariado.<\/p>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o do novo sistema produtivo se processa gradativamente,<br \/>\nadmitindo, por algum tempo, a coexist\u00eancia das lavouras comerciais com<br \/>\na parceria tradicional. Isto porque o car\u00e1ter mercantil da produ\u00e7\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 afetava inicialmente a atividade produtiva central do propriet\u00e1rio,<br \/>\nque n\u00e3o absorvia todas as terras, e at\u00e9 se conciliava bem com<br \/>\na presen\u00e7a de uma reserva de m\u00e3o-de-obra na pr\u00f3pria fazenda,<br \/>\nalici\u00e1vel para as tarefas que exigiam maior n\u00famero de trabalhadores.<\/p>\n<p>Aos poucos, por\u00e9m, o novo sistema ganha for\u00e7a e congru\u00eancia,<br \/>\nindo buscar e desalojar o caipira em qualquer ermo em que se embrenhe, pela<br \/>\nexpans\u00e3o cont\u00ednua das \u00e1reas ocupadas pela economia de<br \/>\nfazenda, obrigando-o a renovar sua op\u00e7\u00e3o entre o engajamento<br \/>\ncomo assalariado rural ou novos deslocamentos, \u00e0 procura de \u00e1reas<br \/>\nmais atrasadas, ainda compat\u00edveis com a parceria. A pr\u00f3pria<br \/>\nparceria se vai tornando menos satisfat\u00f3ria, confinada \u00e0s terras<br \/>\nmais pobres e mais distanciadas do mercado e onerada com novas exig\u00eancias.<br \/>\nDentre elas o camb\u00e3o, forma de corv\u00e9ia que obriga o caipira<br \/>\ne sua fam\u00edlia a dar dias de trabalho gratuito ao propriet\u00e1rio<br \/>\ne dias suplementares por cada animal de montaria que possua.<\/p>\n<p>Apesar de todos esses \u00f3bices, o caipira espoliado de suas propriedades<br \/>\ne sucessivamente expulsado de suas posses continua resistindo a submeter-se<br \/>\nao regime de fazenda. Toda a sua experi\u00eancia o faz identificar o trabalho<br \/>\nde ritmo dirigido como uma derroga\u00e7\u00e3o de sua liberdade pessoal,<br \/>\nque o confundiria com o escravo. Mesmo depois de abolida a escravid\u00e3o<br \/>\n( 1888), permanece esse crit\u00e9rio valorativo, que considera humilhante<br \/>\no trabalho com hor\u00e1rio marcado por toque de sino e dirigido por um<br \/>\ncapataz autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>O caipira se marginaliza, apegando-se a uma condi\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia<br \/>\ninvi\u00e1vel sem a posse da terra. Assim \u00e9 que, apesar da exist\u00eancia<br \/>\nde milh\u00f5es de caipiras subocupados, o sistema de fazendas teve de promover,<br \/>\nprimeiro, uma intensifica\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de negros escravos<br \/>\ne de apelar, depois, para a imigra\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia maci\u00e7a,<br \/>\nque coloca milh\u00f5es de trabalhadores \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nda grande lavoura comercial.<\/p>\n<p>Confinado nas terras mais s\u00e1faras, enterrado na sua pobreza, o caipira<br \/>\nv\u00ea, impass\u00edvel, chegarem e se instalarem, como colonos das fazendas,<br \/>\nmultid\u00f5es de italianos, de espanh\u00f3is, alem\u00e3es ou poloneses<br \/>\npara substitu\u00edrem o negro no eito, aceitando uma condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque ele rejeita. Essa nova massa vinha, por\u00e9m, de velhas sociedades,<br \/>\nrigidamente estratificadas, que a disciplinara para o trabalho assalariado,<br \/>\ne via na condi\u00e7\u00e3o de colono um caminho de ascens\u00e3o que<br \/>\nfaria dela talvez, um dia, pequenos propriet\u00e1rios. O caipira, despreparado<br \/>\npara o trabalho dirigido, culturalmente predisposto contra ele, desenganado,<br \/>\ndesde h\u00e1 muito, de tornar-se propriet\u00e1rio, resiste no seu reduto<br \/>\nde parceiro, que \u00e9 para ele a condi\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima<br \/>\ndo ideal inating\u00edvel de granjeiro em terra pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>As p\u00e1ginas de Monteiro Lobato que revelaram \u00e0s camadas cultas<br \/>\ndo pa\u00eds a figura do Jeca Tatu, apesar de sua riqueza de observa\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndivulgam uma imagem verdadeira do caipira dentro de uma interpreta\u00e7\u00e3o<br \/>\nfalsa. Nos primeiros retratos, Lobato o v\u00ea como um piolho da terra,<br \/>\nesp\u00e9cie de praga incendi\u00e1ria que ati\u00e7ava fogo \u00e0<br \/>\nmata, destruindo enormes riquezas florestais para plantar seus pobres ro\u00e7ados.<br \/>\nA caricatura s\u00f3 ressalta a pregui\u00e7a, a verminose e o desalento<br \/>\nque o faziam responder com um &#8220;n\u00e3o paga a pena&#8221; a qualquer<br \/>\nproposta de trabalho. Descreve-o em sua postura caracter\u00edstica, acocorado<br \/>\ndesajeitadamente sobre os calcanhares, a puxar fuma\u00e7a do pito, atirando<br \/>\ncusparadas para os lados. Quem assim descrevia o caipira era o intelectual-fazendeiro<br \/>\nda Buquira, que amargava sua pr\u00f3pria experi\u00eancia fracassada de<br \/>\nencaixar os caipiras em seus planos mirabolantes.<\/p>\n<p>O que Lobato n\u00e3o viu, ent\u00e3o, foi o traumatismo cultural em<br \/>\nque vivia o caipira, marginalizado pelo despojo de suas terras, resistente<br \/>\nao engajamento no colonato e ao abandono compuls\u00f3rio de seu modo tradicional<br \/>\nde vida. \u00c9 certo que, mais tarde, Lobato compreendeu que o caipira<br \/>\nera o produto residual natural e necess\u00e1rio do latif\u00fandio agroexportador.<br \/>\nJ\u00e1 ent\u00e3o propugnando, ele tamb\u00e9m, uma reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>O sistema de fazendas, que se foi implantando e expandindo inexoravelmente<br \/>\npara a produ\u00e7\u00e3o de artigos de exporta\u00e7\u00e3o, cria<br \/>\num novo mundo no qual n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para as formas de vida<br \/>\nn\u00e3o mercantis do caipira, nem para a manuten\u00e7\u00e3o de suas<br \/>\ncren\u00e7as tradicionais, de seus h\u00e1bitos arcaicos e de sua economia<br \/>\nfamiliar. Com a difus\u00e3o desse sistema novo, o caipira v\u00ea desaparecerem,<br \/>\npor invi\u00e1veis, as formas de solidariedade vicinal e de compadrio, substitu\u00eddas<br \/>\npor rela\u00e7\u00f5es comerciais. V\u00ea definhar as artes artesanais,<br \/>\npela substitui\u00e7\u00e3o dos panos caseiros por tecidos fabris, e,<br \/>\ncom elas, o sab\u00e3o, a p\u00f3lvora, os utens\u00edlios de metal,<br \/>\nque j\u00e1 ningu\u00e9m produz em casa e devem ser comprados.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola das terras, o cercamento dos latif\u00fandios<br \/>\ncom aramados, a expans\u00e3o dos pastos e a presen\u00e7a do gado, mudando<br \/>\nas condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, tornam impratic\u00e1veis<br \/>\na ca\u00e7a e a pesca. Assim, perde o caipira um complemento alimentar b\u00e1sico<br \/>\nque permitia melhorar sua dieta frugal e carente. Ao fim do processo de implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo sistema de fazendas, mesmo nos ermos onde se acoitara, fugindo ao engajamento<br \/>\ncompuls\u00f3rio, o caipira tenta manter uma condi\u00e7\u00e3o tornada<br \/>\nobsoleta e invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>O golpe derradeiro na vida do caipira tradicional, que acaba por marginaliz\u00e1-lo<br \/>\ndefinitivamente, se d\u00e1 com a amplia\u00e7\u00e3o do mercado urbano<br \/>\nde carne, que torna vi\u00e1vel a explora\u00e7\u00e3o das \u00e1reas<br \/>\nmais remotas e de terras pobres ou ricas para a cria\u00e7\u00e3o do gado.<br \/>\nA partir de ent\u00e3o, a cada ro\u00e7a de caipira ainda consentida para<br \/>\nderrubar a mata ou para desbastar capoeiras se segue o plantio de capim e<br \/>\na desincorpora\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica da \u00e1rea do sistema<br \/>\nantes prevalecente, para devot\u00e1-la ao pastoreio. As antigas propriedades<br \/>\nlatifundi\u00e1rias, que se faziam aut\u00e1rquicas com o concurso de<br \/>\naglomerados de caipiras estruturados em bairros, v\u00e3o sendo despovoadas<br \/>\nde gente para encher-se de gado. Nessas fazendas de cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\numa parcela \u00ednfima de trabalhadores substitui, como vaqueiros, a antiga<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o residente que se v\u00ea, assim, expulsa. O novo<br \/>\nprocedimento, estando ao alcance at\u00e9 mesmo dos latifundi\u00e1rios<br \/>\nmenos providos de recursos, porque utiliza o pr\u00f3prio caipira e at\u00e9<br \/>\na parceria para liquidar com ele, importa numa limita\u00e7\u00e3o progressiva<br \/>\ndas terras dispon\u00edveis para o trabalho agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Massas de caipiras s\u00e3o, assim, obrigadas a novas op\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAgora j\u00e1 n\u00e3o se oferece nem mesmo a oportunidade de engajar-se<br \/>\nno colonato. Trata-se de escolher entre permanecer na pr\u00f3pria parceria,<br \/>\ntornada precar\u00edssima, em que ainda subsiste; mergulhar no mundo dos<br \/>\nposseiros invasores de terras alheias; concentrar se nos terrenos baldios<br \/>\ncomo reserva de m\u00e3o-de-obra para servir \u00e0s fazendas despovoadas,<br \/>\nnas quadras de trabalho intenso; ou, finalmente, incorporar-se \u00e0s massas<br \/>\nmarginais urbanas como aspirante \u00e0 proletariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas da cultura caipira desintegraram-se<br \/>\nao impacto da onda renovadora representada pelas novas formas de produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nagr\u00edcola e pastoril de car\u00e1ter mercantil. Foram destru\u00eddas,<br \/>\npor\u00e9m, sem que se ensejasse aos agregados rurais formas compensat\u00f3rias<br \/>\nde acomoda\u00e7\u00e3o que lhes garantissem um lugar e um papel na nova<br \/>\nestrutura. Esse papel teria sido sua integra\u00e7\u00e3o na categoria<br \/>\nde pequenos propriet\u00e1rios que, talvez, lhes permitisse incorporar as<br \/>\ninova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, alargando as suas aspira\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00e0 medida que se integrassem na economia nacional. O monop\u00f3lio<br \/>\nda terra, fundado no dom\u00ednio do centro do poder pol\u00edtico pela<br \/>\noligarquia agr\u00edcola, obliterou esse caminho.<\/p>\n<p>Uma comunidade caipira que conserva as formas tradicionais de sociabilidade<br \/>\n\u00e9, hoje, uma sobreviv\u00eancia rara, confinada \u00e0s \u00e1reas<br \/>\nmais remotas e menos integradas no sistema produtivo. Todavia, o n\u00famero<br \/>\nde trabalhadores aut\u00f4nomos rurais, em sua enorme maioria parceiros e<br \/>\npequenos arrendat\u00e1rios, supera 5 milh\u00f5es. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o aqueles caipiras de modos de exist\u00eancia arcaica e pobre mas<br \/>\nsatisfat\u00f3ria, a seu pr\u00f3prio ju\u00edzo. Constituem uma vasta<br \/>\ncamada marginal \u00e0 estrutura e que suporta as mais penosas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vida, ainda inferiores aos m\u00ednimos quase incomprim\u00edveis da<br \/>\neconomia caipira. E muito piores, porque subsistem face a face com condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nsuperiores de vida, de que t\u00eam not\u00edcia ou que podem apreciar<br \/>\ne que atuam como ideais conformadores de suas aspira\u00e7\u00f5es. \u00c9-lhes<br \/>\nimposs\u00edvel, todavia, integrar-se nesses novos estilos de consumo, pela<br \/>\nestreiteza da pr\u00f3pria estrutura social em que est\u00e3o inseridos,<br \/>\nfundada na propriedade latifundi\u00e1ria, incapaz de melhorar as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vida da massa de parceiros e, tamb\u00e9m, de incorpor\u00e1-los no<br \/>\ntrabalho assalariado.<\/p>\n<p>Caem, assim, na condi\u00e7\u00e3o de trabalhadores eventuais, os b\u00f3ias-frias.<\/p>\n<p>A rapidez com que, em diversas regi\u00f5es, nos \u00faltimos anos,<br \/>\nos parceiros se interessaram pelo movimento de sindicaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nrural, antecipando-se aos n\u00facleos de assalariados agr\u00edcolas,<br \/>\nindica, de um lado, sua independ\u00eancia maior e sua capacidade de conduta<br \/>\naut\u00f4noma e, de outro, o grau de conscientiza\u00e7\u00e3o de sua<br \/>\npr\u00f3pria mis\u00e9ria e de revolta contra a ordem social que a sustenta.<br \/>\nEssa mole de milh\u00f5es de caipiras, que s\u00e3o os verdadeiros camponeses<br \/>\ndo Brasil, porque reivindicantes seculares da posse das terras que trabalham,<br \/>\nest\u00e1 como que \u00e0 espera do surgimento das formas de luta que,<br \/>\nexprimindo sua inconformidade, desencadeiem a rebeli\u00e3o rural.<\/p>\n<p>O sistema de fazendas alcan\u00e7ou, com a implanta\u00e7\u00e3o das<br \/>\ngrandes lavouras de caf\u00e9, um novo auge s\u00f3 compar\u00e1vel<br \/>\nao \u00eaxito dos engenhos a\u00e7ucareiros. Seu efeito crucial foi reviabilizar<br \/>\no Brasil como unidade agroexportadora do mercado mundial e como um pr\u00f3spero<br \/>\nmercado importador de bens industriais. Outro efeito da cafeicultura foi modelar<br \/>\numa nova forma de especializa\u00e7\u00e3o produtiva e configurar um outro<br \/>\nmodo de ser da sociedade brasileira. Culturalmente, a nova fei\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 basicamente caipira. Mas a essa matriz se acrescentam outras dimens\u00f5es<br \/>\npela incorpora\u00e7\u00e3o, na primeira fase, de uma grande massa escrava<br \/>\ne, mais tarde, da contribui\u00e7\u00e3o de imigrantes europeus, integrados<br \/>\nmaci\u00e7amente no colonato. A essas matrizes se somariam, ainda, elementos<br \/>\ntomados de outras variantes culturais brasileiras pela converg\u00eancia<br \/>\npara as fazendas de gente vinda das diversas regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O cultivo do caf\u00e9, que se praticava um pouco por todo o Brasil, como<br \/>\nraridade e para consumo local, ganha significa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<br \/>\ncom as primeiras grandes lavouras plantadas na zona montanhosa pr\u00f3xima<br \/>\nao porto do Rio de Janeiro. O sucesso das exporta\u00e7\u00f5es &#8211; que<br \/>\ncrescem de 3178 sacas, na d\u00e9cada de 1820, a 51631 sacas, na d\u00e9cada<br \/>\nde 1880 &#8211; promove rapidamente o novo cultivo \u00e0 lideran\u00e7a em<br \/>\nque se manter\u00e1, da\u00ed em diante, como a atividade econ\u00f4mica<br \/>\nfundamental do Brasil, passando de 18,4 por cento do valor das exporta\u00e7\u00f5es,<br \/>\nna primeira das citadas d\u00e9cadas, a 61,5 por cento, na \u00faltima.<\/p>\n<p>Para implantar o empreendimento cafeeiro contava-se com abundante disponibilidade<br \/>\nde terras apropriadas e de m\u00e3o-de-obra escrava subutilizada desde a<br \/>\ndecad\u00eancia da minera\u00e7\u00e3o e, ainda, com um sistema adequado<br \/>\nde transporte e de comercializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O modelo empresarial que primeiro se imp\u00f5e \u00e9 a fazenda escravocrata,<br \/>\nque tem de comum com o sistema de planta\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira<br \/>\na grande extens\u00e3o territorial, o alto grau de especializa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de racionaliza\u00e7\u00e3o das atividades produtivas, o car\u00e1ter<br \/>\nmercantil do produto que exporta e a necessidade de concentrar nas fazendas<br \/>\ngrandes contingentes de m\u00e3o-de-obra servil, rigidamente disciplinada.<br \/>\nExige tamb\u00e9m enormes investimentos financeiros, sobretudo para a aquisi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde terras que se valorizam rapidamente e para a compra da escravaria e sua<br \/>\nreposi\u00e7\u00e3o, uma vez que as singelas instala\u00e7\u00f5es<br \/>\nde beneficiamento s\u00e3o constru\u00eddas nas pr\u00f3prias fazendas.<br \/>\nO cafezal, como um plantio permanente, demanda grande concentra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde m\u00e3o-de-obra na etapa preparat\u00f3ria da derrubada das matas<br \/>\ne de cuidados especiais nos primeiros quatro anos. Da\u00ed em diante, s\u00f3<br \/>\nreclama grande quantidade de m\u00e3o-de-obra por ocasi\u00e3o da colheita.<\/p>\n<p>Nessas circunst\u00e2ncias, a fazenda escravocrata conta sempre com um<br \/>\nexcedente de trabalhadores utilizado nas tarefas de subsist\u00eancia e no<br \/>\nartesanato. Estrutura-se assim, como grande unidade aut\u00e1rquica, em<br \/>\nque a atividade agr\u00edcola-mercantil \u00e9 cercada por uma s\u00e9rie<br \/>\nde atividades ancilares, cujo pessoal se mobiliza todo para a colheita.<\/p>\n<p>As fazendas escravocratas de caf\u00e9 da \u00e1rea montanhosa fluminense<br \/>\nalcan\u00e7aram logo o vale do Para\u00edba e, da\u00ed, se irradiaram,<br \/>\nprogressivamente, para as matas de Minas Gerais, do Esp\u00edrito Santo<br \/>\ne de S\u00e3o Paulo, principalmente. As maiores delas eram comunidades de<br \/>\nquinhentas at\u00e9 2 mil pessoas, sobretudo escravos, que produziam quase<br \/>\ntudo que consumiam, desde a roupa da escravaria, as casas, os mantimentos,<br \/>\nat\u00e9 as instala\u00e7\u00f5es e o mobili\u00e1rio da pr\u00f3pria<br \/>\nfazenda. Mas tamb\u00e9m adquirem muitos bens industriais, tanto para o<br \/>\nconsumo dos fazendeiros como para o trabalho.<\/p>\n<p>O recrutamento da for\u00e7a de trabalho servil para a cafeicultura se<br \/>\nfez, primeiro, regionalmente, com a aquisi\u00e7\u00e3o dos negros excedentes<br \/>\ndas zonas de minera\u00e7\u00e3o. O sucesso do empreendimento permitiu,<br \/>\na seguir, a promo\u00e7\u00e3o de uma verdadeira drenagem de escravos<br \/>\nde outras \u00e1reas decadentes, como os algodoais maranhenses e os engenhos<br \/>\na\u00e7ucareiros. A tudo isso se acrescenta, depois, a importa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndireta de cerca de meio milh\u00e3o de africanos. Apesar desses suprimentos,<br \/>\nas fazendas de caf\u00e9 viviam em car\u00eancia permanente de m\u00e3o-de-obra,<br \/>\nem virtude de seu ritmo intenso de expans\u00e3o e de desgaste da escravaria<br \/>\nno eito, expressivo das condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis de vida<br \/>\ne de trabalho a que eram submetidos. Nos cinco anos imediatamente anteriores<br \/>\n\u00e0 proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico ( 1850 ), entram oficialmente<br \/>\nnos portos brasileiros cerca de 250 mil escravos africanos, cujo pre\u00e7o<br \/>\nseria aproximadamente de 15 milh\u00f5es de libras esterlinas, que equivaliam<br \/>\na mais de 36 por cento do valor das exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nessa fase, o propriet\u00e1rio reside na fazenda, compondo o mesmo quadro<br \/>\ncontrastante do Nordeste a\u00e7ucareiro, representado pela oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre a vivenda senhorial e a senzala. Faz-se servir, tamb\u00e9m, de numerosa<br \/>\ncriadagem dom\u00e9stica a que acrescenta, por vezes, preceptores europeus<br \/>\npara a educa\u00e7\u00e3o dos filhos na pr\u00f3pria fazenda e padres<br \/>\nresidentes para os servi\u00e7os religiosos.<\/p>\n<p>A partir da segunda metade do s\u00e9culo passado, quando o caf\u00e9<br \/>\nj\u00e1 domina a economia brasileira, os cafeicultores se constituem numa<br \/>\noligarquia nacional cada vez mais poderosa. Faz-se mais aut\u00eantica e<br \/>\nforte que a a\u00e7ucareira, porque domina todo o complexo econ\u00f4mico<br \/>\ndo caf\u00e9, desde o plantio \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, enquanto<br \/>\naquela sempre permaneceu submetida ao controle do patronato parasit\u00e1rio<br \/>\nde exportadores e, sobretudo, porque se capacita, prontamente, a utilizar<br \/>\no poder pol\u00edtico na defesa de seus interesses econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>A proximidade da Corte imperial facilitava, tamb\u00e9m, o exerc\u00edcio<br \/>\ndessa influ\u00eancia, que acaba se tornando hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>Nessa camada senhorial hegem\u00f4nica \u00e9 que o imp\u00e9rio brasileiro<br \/>\nprocurou fundar a nobreza que o sustentaria, distribuindo t\u00edtulos nobili\u00e1rquicos<br \/>\ne recrutando nela os chefes de gabinete e ministros de Estado. Os cafeicultores<br \/>\ntornam-se, assim, os bar\u00f5es, viscondes, condes e marqueses do Imp\u00e9rio,<br \/>\ncontraparte fidalga do sistema escravocrata, consciente de que n\u00e3o<br \/>\nsobreviveria \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o, como efetivamente ocorreu quando<br \/>\nesta se tornou inevit\u00e1vel pela press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica<br \/>\ncitadina.<\/p>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o, representando embora a simples devolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo escravo \u00e0 posse de si mesmo, importava em dois efeitos econ\u00f4micos<br \/>\ncruciais e nas mais profundas conseq\u00fc\u00eancias sociais. No plano econ\u00f4mico,<br \/>\nexpropria a parcela maior de capital da principal classe propriet\u00e1ria,<br \/>\narruinando-a, e a compele a uma mais ampla redistribui\u00e7\u00e3o da<br \/>\nrenda com a remunera\u00e7\u00e3o do trabalho atrav\u00e9s do sal\u00e1rio.<br \/>\nA ru\u00edna financeira dos bar\u00f5es do caf\u00e9 provoca uma abrupta<br \/>\nsubstitui\u00e7\u00e3o de propriet\u00e1rios dos cafezais com conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\npositivas para o sistema econ\u00f4mico global, dadas as caracter\u00edsticas<br \/>\nmodernas do novo empresariado e a vantagem que representaria para ele n\u00e3o<br \/>\nter que investir recursos na compra de escravos. O segundo efeito teve conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nsociais mais profundas, pela eleva\u00e7\u00e3o que propiciaria do n\u00edvel<br \/>\nde vida das popula\u00e7\u00f5es, principalmente nos setores em que havia<br \/>\ndisputa de m\u00e3o-de-obra, como era o caso da cafeicultura. Para o escravo,<br \/>\na aboli\u00e7\u00e3o representou a oportunidade de exercer op\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre o seu destino e de reconquistar a dignidade humana e o auto-respeito<br \/>\nde que fora despojado. Essa liberdade seria, por\u00e9m, limitada pelo monop\u00f3lio<br \/>\nda terra, que o obrigaria a engajar-se no servi\u00e7o de algum propriet\u00e1rio<br \/>\ne ater-se ao subconsumo a que sempre estivera submetido.<\/p>\n<p>Com efeito, o negro escravo fora condicionado, por toda a sua experi\u00eancia<br \/>\nanterior, a lutar contra o seu desgaste no trabalho, do qual procurou se poupar<br \/>\nde todos os modos, como medida elementar de autopreserva\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFora igualmente habituado a uma dieta frugal\u00edssima e a posses m\u00ednimas,<br \/>\nque se reduziam aos trapos que trazia sobre o corpo. E fora, ainda, reduzido<br \/>\na si mesmo, como indiv\u00edduo, pela impossibilidade de manter v\u00ednculos<br \/>\nfamiliares, j\u00e1 que suas mulheres eram tamb\u00e9m coisas alheias<br \/>\ne seus filhos igualmente propriedade do amo.<\/p>\n<p>Com as motiva\u00e7\u00f5es elementares decorrentes desse condicionamento<br \/>\no negro forro inicia sua integra\u00e7\u00e3o no papel de trabalhador<br \/>\nlivre. Sua rea\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel \u00e9 reduzir as obriga\u00e7\u00f5es<br \/>\nde trabalho disciplinado ao m\u00ednimo indispens\u00e1vel para prover<br \/>\nsuas elementar\u00edssimas necessidades. Nessas condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nnenhum est\u00edmulo representado pela eleva\u00e7\u00e3o do ganho o<br \/>\natingir\u00e1. O valor fundamental que cultua \u00e9 o \u00f3cio e a<br \/>\nrecrea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seu n\u00edvel de aspira\u00e7\u00f5es fora entorpecido pela inculca\u00e7\u00e3o<br \/>\nde valores que limitavam ao extremo o n\u00famero de coisas desej\u00e1veis<br \/>\ne apropriadas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana que ele se atribu\u00eda.<br \/>\nA constru\u00e7\u00e3o de uma outra auto-imagem s\u00f3 seria alcan\u00e7ada<br \/>\nnas gera\u00e7\u00f5es seguintes, que, crescendo livres, se fariam progressivamente<br \/>\nmais en\u00e9rgicas e ambiciosas. Assim, o negro retoma o trabalho no eito<br \/>\ncomo assalariado livre para exerc\u00ea-lo com efic\u00e1cia ainda menor<br \/>\ndo que a que alcan\u00e7ara como escravo. E quando se encontra pr\u00f3ximo<br \/>\na \u00e1reas de terras desocupadas prefere caipirizar-se, integrando um<br \/>\nn\u00facleo de economia de subsist\u00eancia, a engajar-se na condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde assalariado rural permanente.<\/p>\n<p>Alarga-se, por esse processo, com a aboli\u00e7\u00e3o, a camada marginal<br \/>\nabsente\u00edsta que refuga o trabalho nas fazendas. Aos caipiras originais,<br \/>\nbrancos e mulatos, por vezes ex-propriet\u00e1rios ou posseiros, pleiteantes<br \/>\neternamente insatisfeitos das terras em que trabalham, se soma essa nova camada<br \/>\nde marginalizados. Esses, em condi\u00e7\u00f5es ainda mais prec\u00e1rias<br \/>\nporque, em lugar de reivindicar a posse da terra e uma condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde dignidade superior \u00e0 do colono, o que desejam \u00e9 simplesmente<br \/>\nsobreviver, atendendo a seu horizonte limitad\u00edssimo de aspira\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNessas circunst\u00e2ncias, ao engrossarem a massa marginal, esses contingentes<br \/>\nnegros alforriados se constituem num subproletariado que, al\u00e9m de mais<br \/>\nmiser\u00e1vel, se veria segregado da primeira, predominantemente branca<br \/>\ne mesti\u00e7a, pelo preconceito racial que dificultar\u00e1 a tomada<br \/>\nde consci\u00eancia de todos eles sobre a explora\u00e7\u00e3o de que<br \/>\nuns e outros eram objeto.<\/p>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o, seguida do regime republicano que liquida com<br \/>\na escravid\u00e3o e com a fidalguia, n\u00e3o abala, por\u00e9m, o reinado<br \/>\ndo caf\u00e9, que se faz cada vez mais poderoso. \u00c9 regido, agora,<br \/>\npor cafeicultores que se fazem os grandes pr\u00f3ceres republicanos e por<br \/>\num novo sistema de trabalho que se ir\u00e1 aproximando paulatinamente do<br \/>\nassalariado. \u00c9 a cafeicultura do colonato que se encaminha para a monocultura<br \/>\ne se funda numa divis\u00e3o de trabalho na qual os cuidados agr\u00edcolas<br \/>\nna planta\u00e7\u00e3o s\u00e3o entregues principalmente a imigrantes.<br \/>\neuropeus e as outras tarefas a trabalhadores eventuais, de fora da fazenda.<br \/>\nA derrubada da mata para o plantio de novos cafezais fica a cargo de grupos<br \/>\nm\u00f3veis especializados que trabalham, geralmente, por empreitada com<br \/>\nm\u00e3o-de-obra ex-escrava ou de antigos parceiros. A colheita, exigindo<br \/>\nmaior concentra\u00e7\u00e3o de trabalhadores faz-se, tamb\u00e9m, com<br \/>\na ajuda de estranhos aliciados nas mesmas fontes, que acabam por estabelecer-se<br \/>\nnas vizinhan\u00e7as das fazendas como reservas de m\u00e3o-de-obra.<\/p>\n<p>As novas fazendas j\u00e1 se abrem na zona de matas do interior de S\u00e3o<br \/>\nPaulo, sendo por vezes antecipadas pelos trilhos das estradas de ferro que<br \/>\nlhes abrem caminho rumo a oeste. A introdu\u00e7\u00e3o do trabalhador<br \/>\neuropeu nas fazendas de caf\u00e9 foi um processo lento, alcan\u00e7ado<br \/>\npela pertin\u00e1cia de cafeicultores empenhados na solu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde seu maior problema: a falta de m\u00e3o-de-obra, agravada primeiro pela<br \/>\nproibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico e depois pela aboli\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs primeiras tentativas que procuravam sujigar o imigrante a um sistema renovado<br \/>\nda velha parceria provocaram reclama\u00e7\u00f5es consulares e esc\u00e2ndalos<br \/>\nna imprensa europ\u00e9ia, a que os brasileiros s\u00e3o especialmente<br \/>\nsens\u00edveis. Eram prematuras, porque, apesar das condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde pen\u00faria prevalecente na Europa, o imigrante n\u00e3o aceitava<br \/>\na coexist\u00eancia com o escravo. Somente ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o,<br \/>\nestabeleceu-se uma onda regular e ponder\u00e1vel de provimento de m\u00e3o-de-obra<br \/>\neurop\u00e9ia, que, em fins do s\u00e9culo passado, atingia a 803 mil<br \/>\ntrabalhadores, sendo 577 mil provenientes da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Essa disponibilidade de m\u00e3o-de-obra europ\u00e9ia correspondia<br \/>\n\u00e0 marcha do capitalismo-industrial que ia desenraizando dos campos<br \/>\ne lan\u00e7ando \u00e0s cidades mais gente do que as f\u00e1bricas podiam<br \/>\nocupar. Cada pa\u00eds europeu atingido pelo processo exportava milh\u00f5es<br \/>\nde pessoas. Primeiro emigram das Ilhas Brit\u00e2nicas; depois da Fran\u00e7a,<br \/>\nmais tarde da Alemanha, e da It\u00e1lia; por fim da Pol\u00f4nia, da R\u00fassia<br \/>\ne de pa\u00edses balc\u00e2nicos. D\u00e1-se, assim, uma oferta de trabalhadores<br \/>\neuropeus mais barata que os escravos africanos e tamb\u00e9m mais eficazes<br \/>\npor sua adapta\u00e7\u00e3o aos novos regimes produtivos.<\/p>\n<p>Seu ingresso no mercado de trabalho brasileiro al\u00e9m de representar<br \/>\na solu\u00e7\u00e3o salvadora dos problemas da cafeicultura teve v\u00e1rios<br \/>\noutros efeitos. Entre eles, o de fator dissuas\u00f3rio da luta silenciosa<br \/>\ne incruenta que caipiras e negros forros travavam pela conquista da condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde granjeiros. O de desvalorizar o trabalhador nacional, que, em face da disponibilidade<br \/>\ndessa for\u00e7a de trabalho mais qualificada, perde na competi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne se v\u00ea impedido de galgar aos poucos postos mais bem remunerados que<br \/>\no sistema criaria. Finalmente, o de orientar para os seringais da Amaz\u00f4nia<br \/>\no translado de sertanejos nordestinos, porque sua rota natural, que seria<br \/>\na marcha para o sul, se v\u00ea obstru\u00edda pela satura\u00e7\u00e3o<br \/>\npor imigrantes europeus da busca de bra\u00e7os para a grande lavoura. Outro<br \/>\nresultado dessa incorpora\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de trabalhadores<br \/>\nestrangeiros foi a de retardar a proletariza\u00e7\u00e3o e conseq\u00fcente<br \/>\npolitiza\u00e7\u00e3o como oper\u00e1rios fabris dos antigos caipiras<br \/>\ne dos ex-escravos, que s\u00f3 teriam oportunidade de ascender aos setores<br \/>\nmais din\u00e2micos da economia modernizada depois de esgotada a disponibilidade<br \/>\nde m\u00e3o-de-obra europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Os colonos eram contratados na Europa mediante o fornecimento de passagens<br \/>\npara a fam\u00edlia, a garantia de ajuda de manuten\u00e7\u00e3o n,o<br \/>\nprimeiro ano e o recebimento de um trato de terras para suas lavouras de subsist\u00eancia.<br \/>\nA essas condi\u00e7\u00f5es foi necess\u00e1rio acrescentar-se, mais<br \/>\ntarde, um sal\u00e1rio anual fixo e um ganho vari\u00e1vel segundo a produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nComo as despesas de passagem eram cobertas pelo governo, s\u00f3 as outras<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es pesavam diretamente sobre o fazendeiro. Essas regalias,<br \/>\nmuito superiores \u00e0s oferecidas ao caipira, explicam-se pela capacidade<br \/>\ndo colono &#8211; assistido pelos corpos consulares e apoiado pela imprensa de seus<br \/>\npa\u00edses &#8211; para exigir melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<br \/>\nEfetivamente, \u00e9 o colonato imigrante que, por esse sistema, implanta<br \/>\no regime assalariado na vida rural brasileira, aceitando uma rigorosa disciplina<br \/>\nde trabalho mas, em compensa\u00e7\u00e3o, fazendo-se pagar efetivamente<br \/>\ne pagar mais. Movido por um horizonte mais amplo de aspira\u00e7\u00f5es<br \/>\ne contando com um melhor ajustamento ao trabalho assalariado, o imigrante<br \/>\nproduzia mais e melhor. Alguns conseguiam depois de alguns anos, merc\u00ea<br \/>\nde sua capacidade de poupan\u00e7a, libertar-se da condi&amp;ccediccedil;\u00e3o<br \/>\nde Alguns conseguiam depois de alguns anos, merc\u00ea de sua capacidade<br \/>\nde poupan\u00e7a, libertar-se da condi\u00e7\u00e3o de colono para se<br \/>\nfazerem pequenos empres\u00e1rios. Seus filhos j\u00e1 brasileiros seriam<br \/>\noper\u00e1rios dos centros nacionais industriais nascentes.<\/p>\n<p>As novas fazendas estruturadas de acordo com o sistema de colonato se fazem<br \/>\nprogressivamente monocultoras e, simultaneamente, acrescentam \u00e0 planta\u00e7\u00e3o<br \/>\num elemento a mais, que \u00e9 o barrac\u00e3o. A\u00ed, o fazendeiro<br \/>\nse faz comerciante para prover aos colonos de tudo que necessitam, mas tamb\u00e9m<br \/>\npara recuperar o m\u00e1ximo dos sal\u00e1rios pagos. Assim, os contratos<br \/>\nmais vantajosos e j\u00e1 monet\u00e1rios passam a deteriorar-se para<br \/>\no trabalhador rural, sujeitos a duas redu\u00e7\u00f5es. Primeiro, a infla\u00e7\u00e3o<br \/>\nque diminui substancialmente o valor dos contratos de plantio de caf\u00e9,<br \/>\ngeralmente de quatro anos. Segundo, a explora\u00e7\u00e3o nos fornecimentos<br \/>\nfeitos pelo barrac\u00e3o. Nessas circunst\u00e2ncias, o colono s\u00f3<br \/>\nconseguiria poupar \u00e0 custa de uma compress\u00e3o violenta de seus<br \/>\ngastos, permanecendo a maioria deles jungida ao sistema por d\u00edvidas<br \/>\ninsald\u00e1veis e vendo esvair-se sempre a suspirada oportunidade de se<br \/>\nfazerem granjeiros.<\/p>\n<p>No sistema de colonato, o fazendeiro j\u00e1 \u00e9 um absente\u00edsta.<br \/>\nReside na cidade e dirige sua propriedade atrav\u00e9s de administradores.<br \/>\nMant\u00e9m, contudo, no regime republicano, a posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica<br \/>\nconquistada no Imp\u00e9rio, perpetuando-se no poder um patriciado olig\u00e1rquico,<br \/>\nque coloca a servi\u00e7o do patronato cafeicultor toda a m\u00e1quina<br \/>\ngovernamental. A pr\u00f3pria autonomia dos estados, de que a primeira Rep\u00fablica<br \/>\nse fez t\u00e3o zelosa, explica-se por esse esfor\u00e7o continuado do<br \/>\ncafeicultor de tudo submeter aos seus interesses. Entre eles, a transfer\u00eancia<br \/>\nao Estado dos controles e da faculdade de dispor das terras devolutas, que<br \/>\nassumiram enorme import\u00e2ncia nas \u00e1reas da cafeicultura.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do controle e do comando pol\u00edtico que faziam sair de<br \/>\nsuas hostes, quase todos os presidentes civis e a maioria dos ministros, os<br \/>\nfazendeiros de caf\u00e9 n\u00e3o s\u00f3 mantiveram mas aprimoraram<br \/>\nseus velhos mecanismos de defesa como classe.<\/p>\n<p>O principal deles era, talvez, o controle da taxa de c\u00e2mbio &#8211; que<br \/>\nvariava cada vez que ca\u00edam os pre\u00e7os internacionais do caf\u00e9<br \/>\n-, para continuar a pagar-lhes a mesma import\u00e2ncia em moeda local. A<br \/>\nessa degrada\u00e7\u00e3o da moeda, seguem-se empr\u00e9stimos externos,<br \/>\ndestinados a defend\u00ea-la, o que aumentava continuamente a d\u00edvi<br \/>\nda externa do pa\u00eds, mas permitia transferir os preju\u00edzos do<br \/>\nsetor exportador para a vasta camada importadora, constitu\u00edda por toda<br \/>\na popula\u00e7\u00e3o, num pa\u00eds sem ind\u00fastria, que dependia<br \/>\ndo com\u00e9rcio internacional para quase tudo.<\/p>\n<p>Mais tarde, esses procedimentos seriam levados a extremos com a pol\u00edtica<br \/>\nde &#8220;valoriza\u00e7\u00e3o&#8221;, que consistia na compra das safras<br \/>\npara estocar com recursos obtidos pelos governos estaduais, mediante empr\u00e9stimos<br \/>\nno exterior. Quando sobreveio a crise de 1929, novas medidas se impuseram<br \/>\nem face da impossibilidade de obter empr\u00e9stimos internacionais.<\/p>\n<p>O governo federal foi induzido, ent\u00e3o, a assumir o papel de comprador.<br \/>\nQuando os estoques alcan\u00e7avam quantidades fabulosas, notoriamente invend\u00e1veis,<br \/>\nera levado a comprar o caf\u00e9 para queim\u00e1-lo a fim de manter os<br \/>\npre\u00e7os internacionais. Os principais efeitos dessa pol\u00edtica<br \/>\n&#8211; al\u00e9m da socializa\u00e7\u00e3o dos preju\u00edzos pela transfer\u00eancia<br \/>\npara a coletividade das perdas decorrentes do subs\u00eddio \u00e0 cafeicultura<br \/>\n&#8211; foram a expans\u00e3o constante das planta\u00e7\u00f5es e, com elas,<br \/>\nda oferta, agravando-se cada vez mais o problema. Outra conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\nfoi seu efeito de subven\u00e7\u00e3o indireta \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\nda cafeicultura em outros pa\u00edses pela manuten\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os<br \/>\natrativos, com o que o Brasil acabou por perder sua posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nquase monopol\u00edstica.<\/p>\n<p>Esses mecanismos, conduzindo \u00e0 retra\u00e7\u00e3o das rendas<br \/>\np\u00fablicas e \u00e0s emiss\u00f5es para custear a compra das safras<br \/>\ne para dar cobertura aos d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios decorrentes,<br \/>\nprovocaram enorme press\u00e3o inflacion\u00e1ria, mantendo o pa\u00eds<br \/>\nem permanente crise financeira, de que s\u00f3 os exportadores conseguiam<br \/>\nsafar-se.<\/p>\n<p>Nenhuma for\u00e7a p\u00f4de, entretanto, opor-se a esses interesses<br \/>\nhegem\u00f4nicos, cujo desatendimento conduziria a crises ainda mais graves<br \/>\npela recess\u00e3o, que resultaria do abandono das planta\u00e7\u00f5es,<br \/>\nprincipal fonte de trabalho remunerado e quase \u00fanico setor de aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde capitais.<\/p>\n<p>A oligarquia cafeeira, como detentora dos maiores poderes pol\u00edticos<br \/>\nno per\u00edodo imperial e no republicano, \u00e9 respons\u00e1vel por<br \/>\nalgumas das deforma\u00e7\u00f5es mais profundas da sociedade brasileira.<br \/>\nA principal delas decorre de sua permanente disputa com o Estado pela apropria\u00e7\u00e3o<br \/>\nda renda nacional, da sua arraigada discrimina\u00e7\u00e3o contra os<br \/>\nnegros escravos ou forros e contra os n\u00facleos caipiras que lhe resistiam,<br \/>\nbem como contra as massas pobres que cresciam nas cidades. Nessa disputa e<br \/>\nnessa discrimina\u00e7\u00e3o senhorial \u00e9 que devem ser procuradas<br \/>\nas raz\u00f5es pelas quais o Brasil se atrasou t\u00e3o gritantemente<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o aos demais pa\u00edses latino-americanos e a qualquer<br \/>\noutro povo do mesmo n\u00edvel de desenvolvimento, tanto na aboli\u00e7\u00e3o<br \/>\nda escravatura como na imposi\u00e7\u00e3o ao Estado da obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde assegurar educa \u00e7\u00e3o prim\u00e1ria \u00e0 popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ne na extens\u00e3o aos trabalhadores rurais dos direitos de sindicaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de greve.<\/p>\n<p>A Independ\u00eancia e a Rep\u00fablica, que em quase toda a Am\u00e9rica<br \/>\nderam lugar a um profundo esfor\u00e7o nacional por elevar o n\u00edvel<br \/>\ncultural da popula\u00e7\u00e3o, capacitando-a para o exerc\u00edcio<br \/>\nda cidadania, n\u00e3o ensejaram um esfor\u00e7o equivalente no Brasil.<br \/>\nEsse descaso para com a educa\u00e7\u00e3o popular bem como o pouco interesse<br \/>\npelos problemas de bem-estar e de sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nexplicam-se pelo senhorialismo fazendeiro e pela sucess\u00e3o tranq\u00fcila,<br \/>\npresidida pela mesma classe dirigente, da Col\u00f4nia \u00e0 Independ\u00eancia<br \/>\ne do Imp\u00e9rio \u00e0 Rep\u00fablica. N\u00e3o ensejando uma renova\u00e7\u00e3o<br \/>\nde lideran\u00e7a, mas simples altern\u00e2ncia no mesmo grupo patricial<br \/>\nolig\u00e1rquico, se perpetua tamb\u00e9m a velha ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, toda participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica<br \/>\nna vida pol\u00edtica se reduz aos grupos de press\u00e3o olig\u00e1rquicos<br \/>\nem disputa pelo controle das mat\u00e9rias que afetavam seus interesses.<\/p>\n<p>Nessa rep\u00fablica de fazendeiros, os problemas do bem p\u00fablico,<br \/>\nda justi\u00e7a, do acesso \u00e0 terra, da educa\u00e7\u00e3o, dos<br \/>\ndireitos dos trabalhadores eram debatidos tal como a democracia, a liberdade<br \/>\ne a igualdade. Isto \u00e9, como meros temas de ret\u00f3rica parlamentar.<br \/>\nA m\u00e1quina s\u00f3 funcionava substancialmente para mais consolidar<br \/>\no poder e a riqueza dos ricos. Como o resultado social dessa pol\u00edtica<br \/>\nera um atraso vexat\u00f3rio com respeito aos Estados Unidos, por exemplo,<br \/>\nse desenvolve nas classes dominantes uma atitude de franco descontentamento<br \/>\npara com o pr\u00f3prio povo, cuja condi\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a<br \/>\nou negra explicaria o atraso nacional.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia, aos motivos econ\u00f4micos se somam incentivos<br \/>\nideol\u00f3gicos para a realiza\u00e7\u00e3o de enormes investimentos<br \/>\np\u00fablicos a fim de atrair ao pa\u00eds colonizadores brancos, na qualidade<br \/>\nde reprodutores destinados a &#8220;melhorar a ra\u00e7a&#8221;. E n\u00e3o<br \/>\nse queriam lusitanos porque tamb\u00e9m contra seus av\u00f3s portugueses<br \/>\nse rebelava a aliena\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica, convencida de sua<br \/>\npr\u00f3pria inferioridade racial e que explicava seus \u00eaxitos pessoais<br \/>\ncomo exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Examinando a expans\u00e3o da economia cafeeira verifica-se que espacialmente<br \/>\nela constituiu uma fronteira m\u00f3vel que, envolvendo milh\u00f5es de<br \/>\npessoas, progrediu da costa fluminense para o oeste. Nessa marcha atingiu,<br \/>\nprimeiro, as matas do estado do Rio de Janeiro, depois as do Esp\u00edrito<br \/>\nSanto, mais tarde as da zona da mata do sul de Minas Gerais, por fim, as de<br \/>\nS\u00e3o Paulo. Essa marcha prosseguiu pelo noroeste do Paran\u00e1, penetrando<br \/>\nem territ\u00f3rio paraguaio, e subiu, depois, pelo Mato Grosso do Sul e<br \/>\nRond\u00f4nia.<\/p>\n<p>Essa onda m\u00f3vel difundiu-se envolvendo bols\u00f5es ocupados por<br \/>\n\u00edndios hostis at\u00e9 ent\u00e3o inatingidos pela civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnas matas de Minas Gerais e do Esp\u00edrito Santo (1910) e de S\u00e3o<br \/>\nPaulo ( 1911 ), bem como formas antigas de ocupa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<br \/>\ncomo os n\u00facleos caipiras, a tudo levando de rold\u00e3o.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ou instrumentada por estradas de ferro e rodovias que a ligavam<br \/>\naos portos, conduzindo, floresta adentro, um sistema comercial articulado<br \/>\ninternacionalmente, semeando vilas e cidades onde se instalava. Representou,<br \/>\npor isso, um papel modernizador e integrador que acabou criando a \u00e1rea<br \/>\necon\u00f4mica mais ampla e de maior densidade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O caf\u00e9 n\u00e3o se alastra, por\u00e9m, sobre novas terras de<br \/>\nmata, mantendo as j\u00e1 conquistadas. Sua retaguarda \u00e9 sempre o<br \/>\ndeserto e neste fato se encontra o motor real do seu impulso itinerante.<\/p>\n<p>Sendo a terra o fator mais abundante e relativamente menos oneroso da produ\u00e7\u00e3o<br \/>\ncafeeira, sobre ela \u00e9 que recai, sempre que poss\u00edvel, a poupan\u00e7a<br \/>\nempresarial. Derruba- se a floresta virgem e plantam-se novos cafezais sem<br \/>\nquaisquer cuidados culturais que importassem em \u00f4nus para o empres\u00e1rio,<br \/>\nusando e desgastando a terra num primitivismo tecnol\u00f3gico que quase<br \/>\ntransformava a agricultura num extrativismo.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que s\u00f3 em zonas de excepcional fertilidade do solo,<br \/>\nos cafezais se fixam realmente como uma cultura permanente. O procedimento<br \/>\ncomum foi sempre abrir as lavouras esperando obter safras por uma d\u00e9cada<br \/>\nou menos, at\u00e9 que uma geada destru\u00edsse a planta\u00e7\u00e3o<br \/>\nou que o cafezal envelhecesse por desgaste do solo.<\/p>\n<p>Operando atrav\u00e9s desse processo extrativista, a cafeicultura se estruturava<br \/>\ncomo uma fronteira viva que se movia sempre \u00e0 frente, conduzindo consigo<br \/>\nos capitais, os trabalhadores e a riqueza; e deixando para tr\u00e1s enormes<br \/>\n\u00e1reas devastadas e erodidas.<\/p>\n<p>A\u00ed se instala o pastoreio, geralmente em m\u00e3os de outro propriet\u00e1rio,<br \/>\nque procura fazer vicejar capim onde outrora crescia o cafezal. A nova economia<br \/>\nn\u00e3o pode manter, por\u00e9m, o mesmo n\u00edvel de capta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde m\u00e3o-de-obra; nem de utiliza\u00e7\u00e3o da estrada de ferro<br \/>\nque atravessara a mata a duras penas e a custos sociais alt\u00edssimos;<br \/>\nnem a rede urbana que se implantara. Toda a regi\u00e3o entra, assim, em<br \/>\ndecad\u00eancia, configurando a paisagem t\u00edpica das cidades mortas<br \/>\ne estabelecendo outra sociedade e cultura da pobreza.<\/p>\n<p>Eventualmente, em algumas \u00e1reas se reativa uma nova produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nagr\u00edcola, como ocorre em algumas \u00e1reas que se tornam principais<br \/>\nprodutoras de a\u00e7\u00facar e \u00e1lcool. No Paran\u00e1, a op\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo trigo e pela soja foi a solu\u00e7\u00e3o, porque as melhores terras<br \/>\nestavam sujeitas a geadas. O pre\u00e7o dessa revers\u00e3o foi a decad\u00eancia<br \/>\nde uma zona rural de prosperidade generalizada, para uma outra paisagem monocultora,<br \/>\nque atirou mais de um milh\u00e3o de lavradores \u00e0 procura de novas<br \/>\n\u00e1reas t\u00e3o distantes como Rond\u00f4nia.<\/p>\n<p>Para avaliar o pre\u00e7o social desse desgate de terras basta comparar<br \/>\no n\u00famero de trabalhadores que podem ser empregados numa mesma \u00e1rea<br \/>\npara as tarefas de derrubada da mata e do plantio dos cafezais; sua posterior<br \/>\nredu\u00e7\u00e3o, quando cumpre apenas cuidar da planta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne fazer as colheitas anuais; e, finalmente, quando desgastada \u00e9 entregue<br \/>\n\u00e0 cria\u00e7\u00e3o de gado. A propor\u00e7\u00e3o &#8211; que \u00e9<br \/>\nde cem trabalhadores na primeira etapa para trinta na segunda e um, apenas,<br \/>\nna \u00faltima &#8211; explica como e por que a fronteira m\u00f3vel do caf\u00e9,<br \/>\nintegrada por milh\u00f5es de trabalhadores, segue sempre \u00e0 frente,<br \/>\ndeixando atr\u00e1s de si um quase deserto humano. E, como conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\na morte das cidades, os d\u00e9ficits das ferrovias, a fal\u00eancia do<br \/>\ncom\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Em certas \u00e1reas de terras mais pobres, como o nordeste de S\u00e3o<br \/>\nPaulo e algumas zonas paranaenses, as cidades nascentes da \u00e9poca da<br \/>\nderrubada e do plantio mal chegam a amadurecer pela rapidez com que o surto<br \/>\nas atravessa. Morrem antes de crescer, com suas igrejas incompletas, com o<br \/>\ncasario que jamais se conclui, o com\u00e9rcio decadente, e todos os que<br \/>\nse agarram a esses bens lan\u00e7ados \u00e0 mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>No Paran\u00e1, o caf\u00e9 encontrou uma terra de promiss\u00e3o<br \/>\nna regi\u00e3o de Londrina, pela qualidade extraordin\u00e1ria dos solos<br \/>\ne, sobretudo, porque ali a ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fez atrav\u00e9s<br \/>\ndo latif\u00fandio.<\/p>\n<p>A zona foi colonizada por uma companhia inglesa na forma de pequenas propriedades,<br \/>\nensejando a instala\u00e7\u00e3o, como propriet\u00e1ria, de milhares<br \/>\nde fam\u00edlias empenhadas em defender um solo que \u00e9 seu.<\/p>\n<p>A sociedade resultante contrasta vivamente com as zonas cafeeiras do latif\u00fandio,<br \/>\nrevelando suas singularidades no n\u00edvel de vida do povo, na prosperidade<br \/>\ncrescente das cidades e do seu com\u00e9rcio, e na conduta pol\u00edtica<br \/>\naut\u00f4noma, oposta \u00e0s velhas oligarquias paranaenses e paulistas.<br \/>\nPara al\u00e9m da zona de Londrina, todavia, a fronteira m\u00f3vel do<br \/>\ncaf\u00e9 prosseguiu por terras j\u00e1 impratic\u00e1veis e, geralmente,<br \/>\npela expans\u00e3o dos latif\u00fandios. Nos \u00faltimos anos, essa<br \/>\nonda, que s\u00f3 tem diante de si o rio Paran\u00e1, come\u00e7ou a<br \/>\npenetrar no Paraguai.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o aconteceu com o Brasil aconteceu em S\u00e3o Paulo, que<br \/>\nse viu avassalado pela massa desproporcional de gringos que caiu sobre os<br \/>\npaulistanos. Em 1950, os estrangeiros, principalmente italianos e seus descendentes,<br \/>\neram mais numerosos do que os paulistas antigos. A esse soterramento demogr\u00e1fico<br \/>\ncorresponde uma europeiza\u00e7\u00e3o da mentalidade e dos h\u00e1bitos.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Semana de Arte Moderna, que foi uma rea\u00e7\u00e3o<br \/>\na esse avassalamento, foi tamb\u00e9m por seu estilo a forma mais expressiva<br \/>\ndesse eurocentrismo. Tudo bem, porque essa gente quase toda acabou se abrasileirando<br \/>\nbelamente. Restam, por\u00e9m, aqui e ali, alguns alunados ap\u00e1tridas<br \/>\nque ainda n\u00e3o sa\u00edram do fundo do navio em que seus av\u00f3s<br \/>\nvieram. Perderam sua p\u00e1tria de origem e est\u00e3o soltos \u00e0<br \/>\nbusca de um pouso.<\/p>\n<p>Seu \u00fanico compromisso \u00e9 consigo mesmos e com as vantagens<br \/>\nque possam ganhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00eam nenhuma no\u00e7\u00e3o e muito menos orgulho da<br \/>\nfa\u00e7anha que representou construir e levar \u00e0 independ\u00eancia<br \/>\nesse pa\u00eds\u00e3o que j\u00e1 acharam feito. Em conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\ntal como os argentinos fazem com seus cabecitas negras, chegam a olhar os<br \/>\ntrabalhadores nordestinos e inclusive os caipiras paulistas, a que chamam<br \/>\nbaianos, com desprezo.<\/p>\n<p>Ouvi um politic\u00e3o paulista dizer que o que S\u00e3o Paulo tem de<br \/>\nanalfabetismo e atraso \u00e9 culpa dessa presen\u00e7a baiana, e propor<br \/>\nque se pagasse a viagem de volta deles para suas terras. Afortunadamente essa<br \/>\n\u00e9 uma minoria.<\/p>\n<h2>6 BRASIS SULINOS: GA\u00daCHOS, MATUTOS E GRINGOS<\/h2>\n<p>&#8220;Essa indiada \u00e9 toda ga\u00facha.<\/p>\n<p>Dito gauchesco&#8221; A expans\u00e3o dos antigos paulistas atingiu e ocupou<br \/>\ntamb\u00e9m a regi\u00e3o sulina de pr\u00e9via domina\u00e7\u00e3o<br \/>\nespanhola e a incorporou ao Brasil. Em intera\u00e7\u00e3o com outras<br \/>\ninflu\u00eancias, por\u00e9m, deu lugar ali a uma \u00e1rea cultural<br \/>\nt\u00e3o complexa e singular que n\u00e3o pode ser tida como um componente<br \/>\nda paulist\u00e2nia. Ao contr\u00e1rio das outras \u00e1reas conformadas<br \/>\npelos paulistas, como a de minera\u00e7\u00e3o, a de economia natural<br \/>\ncaipira e a de expans\u00e3o da cafeicultura, que, apesar de suas diferencia\u00e7\u00f5es<br \/>\necon\u00f4mico-sociais, apresentam uma base cultural comum, na regi\u00e3o<br \/>\nsulina surgiram modos de vida t\u00e3o diferenciados e divergentes que n\u00e3o<br \/>\nse pode inclu\u00ed-los naquela configura\u00e7\u00e3o e nem mesmo trat\u00e1-los<br \/>\ncomo uma \u00e1rea cultural homog\u00eanea.<\/p>\n<p>A caracter\u00edstica b\u00e1sica do Brasil sulino, em compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom as outras \u00e1reas culturais brasileiras, \u00e9 sua heterogeneidade<br \/>\ncultural. Os modos de exist\u00eancia e de participa\u00e7\u00e3o na<br \/>\nvida nacional dos seus tr\u00eas componentes principais n\u00e3o s\u00f3<br \/>\ndivergem largamente entre si como tamb\u00e9m com respeito \u00e0s outras<br \/>\n\u00e1reas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tais s\u00e3o os lavradores matutos de origem principalmente a\u00e7oriana,<br \/>\nque ocupam a faixa litor\u00e2nea do Paran\u00e1 para o sul; os representantes<br \/>\natuais dos antigos ga\u00fachos da zona de campos da fronteira rio-platense<br \/>\ne dos bols\u00f5es pastoris de Santa Catarina e do Paran\u00e1, e, finalmente,<br \/>\na forma\u00e7\u00e3o gringo-brasileira dos descendentes de imigrantes<br \/>\neuropeus, que formam uma ilha na zona central, avan\u00e7ando sobre as duas<br \/>\noutras \u00e1reas.<\/p>\n<p>A coexist\u00eancia e a intera\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas complexos<br \/>\nopera ativamente no sentido de homogeneiz\u00e1-los, difundindo tra\u00e7os<br \/>\ne costumes de um ao outro. A dist\u00e2ncia que medeia entre os respectivos<br \/>\npatrim\u00f4nios culturais e, sobretudo, entre seus sistemas de produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nagr\u00edcola &#8211; a lavoura de modelo arcaico dos matutos, o pastoreio ga\u00facho<br \/>\ne a pequena propriedade explorada intensivamente dos colonos gringos &#8211; funciona,<br \/>\npor\u00e9m, como fixadora de suas diferen\u00e7as. Mesmo em face dos efeitos<br \/>\nhomogeneizadores da moderniza\u00e7\u00e3o decorrentes da industrializa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da urbaniza\u00e7\u00e3o, cada um desses complexos tende a reagir de<br \/>\nmodo pr\u00f3prio, integrando-se com ritmos e modos diferenciados nas novas<br \/>\nformas de produ\u00e7\u00e3o e de vida, dando lugar a estilos distintos<br \/>\nde participa\u00e7\u00e3o na comunidade nacional.<\/p>\n<p>O Brasil sulino surge \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o pela m\u00e3o<br \/>\ndos jesu\u00edtas espanh\u00f3is, que fazem florescer no atual territ\u00f3rio<br \/>\nga\u00facho de miss\u00f5es a principal express\u00e3o de sua rep\u00fablica<br \/>\ncrist\u00e3-guaran\u00edtica. \u00c9 certo que eles visavam objetivos<br \/>\npr\u00f3prios, claramente alternativos \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nportuguesa e \u00e0 espanhola. Mas, atuando a seu pesar como agentes da<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o, por seu \u00eaxito e por seu malogro, contribu\u00edram<br \/>\npara que aquelas alternativas se consolidassem.<\/p>\n<p>Os jesu\u00edtas criaram um desses raros modelos ut\u00f3picos de reorganiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nintencional da vida social que efetivamente viabilizaram novas formas de exist\u00eancia<br \/>\nhumana.<\/p>\n<p>Apesar de sua inspira\u00e7\u00e3o antigent\u00edlica, o modelo de<br \/>\nestrutura social que criaram se caracterizava pelo alto sentido de responsabilidade<br \/>\nsocial diante das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que aliciavam.<br \/>\nAo contr\u00e1rio da forma\u00e7\u00e3o colonial-escravista, que tratava<br \/>\no \u00edndio como um fator energ\u00e9tico para ser desgastado na produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nmercantil, o modelo jesu\u00edtico buscava assegurar-lhe uma exist\u00eancia<br \/>\npr\u00f3pria dentro de uma comunidade que existia para si, isto \u00e9,<br \/>\nque se ocupava fundamentalmente de sua pr\u00f3pria subsist\u00eancia e<br \/>\ndesenvolvimento.<\/p>\n<p>Duas outras caracter\u00edsticas distintivas teriam, por\u00e9m, efeitos<br \/>\ninesperados. Por um lado, sua efic\u00e1cia destribalizadora, que permitia<br \/>\natrair rapidamente para os n\u00facleos missioneiros milhares de \u00edndios.<br \/>\nPelo outro, sua efic\u00e1cia econ\u00f4mica na produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nde artigos para os mercados regionais e externos, que permitia \u00e0s miss\u00f5es<br \/>\nmanter um ativo interc\u00e2mbio comercial, mediante o qual se proviam de<br \/>\ntudo que n\u00e3o podiam produzir.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o de grandes massas de ind\u00edgenas deculturados,<br \/>\nuniformizados culturalmente e motivados para o trabalho disciplinado teve<br \/>\no efeito de desencadear sobre as miss\u00f5es toda a f\u00faria dos mamelucos<br \/>\npaulistas que as viam como enorme dep\u00f3sito de \u00edndios facilmente<br \/>\npre\u00e1veis. Assim se liquidaram as primeiras miss\u00f5es pela escraviza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos catec\u00famenos e sua venda aos engenhos a\u00e7ucareiros do Nordeste.<\/p>\n<p>Por outro lado, o \u00eaxito mercantil das novas miss\u00f5es, seu car\u00e1ter<br \/>\nde modelo alternativo \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o em curso provocou<br \/>\ninvejas e cobi\u00e7as locais e tamb\u00e9m na pr\u00f3pria metr\u00f3pole,<br \/>\nacabando por provocar a expuls\u00e3o da Companhia de Jesus. A conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\nfoi verem-se os ex-catec\u00famenos avassalados pelos fazendeiros que se<br \/>\napropriaram das antigas miss\u00f5es. Nas duas inst\u00e2ncias, as miss\u00f5es<br \/>\ncontribuem para a forma\u00e7\u00e3o do Brasil sulino. Na primeira, como<br \/>\ndep\u00f3sito de escravos export\u00e1veis ou subjug\u00e1veis, com<br \/>\nos quais se constituiu uma popula\u00e7\u00e3o subalterna local &#8211; os primeiros<br \/>\nga\u00fachos &#8211; que serviria de m\u00e3o-de-obra \u00e0 explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nmercantil das vacarias.<\/p>\n<p>Na segunda, pela apropria\u00e7\u00e3o por brasileiros das terras e<br \/>\ngado do territ\u00f3rio das Miss\u00f5es e pela assimila\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompuls\u00f3ria de grande parte da gente que nelas vivia.<\/p>\n<p>O motor fundamental da forma\u00e7\u00e3o do Brasil sulino foi, por\u00e9m,<br \/>\na empresa colonial portuguesa conduzida desde muito cedo com o prop\u00f3sito<br \/>\nexpl\u00edcito de levar sua hegemonia at\u00e9 o rio da Prata. Esse prop\u00f3sito<br \/>\nbuscado inicialmente pela opera\u00e7\u00e3o bandeirante de convers\u00e3o<br \/>\ndos \u00edndios em mercadoria escrava, que estabeleceu o primeiro circuito<br \/>\nmercantil transbrasileiro, corporificou-se, a seguir, com a instala\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Col\u00f4nia do Sacramento no rio da Prata.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo seguinte, o projeto portugu\u00eas esteve seriamente amea\u00e7ado<br \/>\nde fracasso por falta de viabilidade econ\u00f4mica, j\u00e1 que a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo gado selvagem para exporta\u00e7\u00e3o de couro e de sebo, fazendo-se<br \/>\nprincipalmente sob controle dos colonos das \u00e1reas de domina\u00e7\u00e3o<br \/>\nespanhola, atra\u00eda os n\u00facleos sulinos para sua \u00f3rbita<br \/>\nde influ\u00eancia. A amea\u00e7a foi, contudo, superada por uma nova viabiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\necon\u00f4mica. Esta surge com a constitui\u00e7\u00e3o do novo e rico<br \/>\nmercado da regi\u00e3o mineira para o gado em p\u00e9, para bois de carro,<br \/>\npara cavalos de montaria e para muares de tra\u00e7\u00e3o e carga.<\/p>\n<p>Os \u00edndios escravos do s\u00e9culo XVII e o gado do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII, sendo ambos mercadorias que podiam transportar-se a si pr\u00f3prias<br \/>\nao mercado, por mais long\u00ednquo que fosse e atrav\u00e9s de qualquer<br \/>\ncaminho ou vereda, dariam ao extremo sul condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas<br \/>\nde vincular-se com o norte e com o centro do Brasil.<\/p>\n<p>O esgotamento das minas representou um novo repto para o Brasil sulino,<br \/>\nque se veria condenado a uma regress\u00e3o pr\u00e9-mercantil ou a buscar<br \/>\nformas extrabrasileiras de viabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica se n\u00e3o<br \/>\naparecessem novos modos de vincula\u00e7\u00e3o com outras regi\u00f5es<br \/>\ndo Brasil. Estas surgem com a introdu\u00e7\u00e3o pelos cearenses da<br \/>\nt\u00e9cnica de fabrico do charque, que n\u00e3o apenas valoriza os rebanhos<br \/>\nga\u00fachos como tamb\u00e9m os vincula ao mercado nordestino e ao amazonense<br \/>\ne, mais tarde, ao antilhano.<\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da regi\u00e3o Sul do Brasil<br \/>\nse alcan\u00e7ou, como se v\u00ea, atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sucessivos v\u00ednculos mercantis que a ataram mais ao restante do pa\u00eds<br \/>\ndo que \u00e0s prov\u00edncias hispano-americanas vizinhas. Todos esses<br \/>\nv\u00ednculos n\u00e3o seriam, por\u00e9m, suficientes para garantir<br \/>\numa verdadeira incorpora\u00e7\u00e3o, se al\u00e9m deles n\u00e3o<br \/>\noperassem outras for\u00e7as de unifica\u00e7\u00e3o. Entre elas se<br \/>\ndestaca, como vimos, a pol\u00edtica portuguesa de pot\u00eancia, deliberada<br \/>\na levar sua hegemonia ao rio da Prata, tanto atrav\u00e9s da manuten\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Col\u00f4nia do Sacramento, quanto pela realiza\u00e7\u00e3o do enorme<br \/>\nesfor\u00e7o representado pela coloniza\u00e7\u00e3o da \u00e1rea<br \/>\ncom imigrantes a\u00e7orianos; e por d\u00e9cadas de negocia\u00e7\u00f5es<br \/>\ndiplom\u00e1ticas para a fixa\u00e7\u00e3o das fronteiras.<\/p>\n<p>Contribuiu, al\u00e9m disso, a postura &#8220;portuguesa&#8221; dos luso-brasileiros<br \/>\ndo extremo sul frente \u00e0 postura &#8220;castelhana&#8221; dos hispano-americanos<br \/>\nenm que se defrontavam, fixando uma identifca\u00e7\u00e3o \u00e9tnica<br \/>\ntanto mais profunda porque permanentemente posta \u00e0 prova. Esta auto<br \/>\nidentifica\u00e7\u00e3o se v\u00ea refor\u00e7ada mais ainda porque,<br \/>\nestando associada \u00e0s disputas hegem\u00f4nicas das suas metr\u00f3poles,<br \/>\ncompelia cada estancieiro n\u00e3o s\u00f3 a definir-se claramente por<br \/>\numa ou outra como tamb\u00e9m, definida sua identidade, defender a bandeira<br \/>\nrespectiva, fazendo da est\u00e2ncia sua trincheira.<\/p>\n<p>Apesar dessas for\u00e7as integrativas, mais de uma vez se teve de apelar<br \/>\nao uso das armas para manter o Brasil sulino atado ao Brasil. Sendo o \u00fanico<br \/>\nn\u00facleo populacional ponder\u00e1vel na imensa fronteira desabitada,<br \/>\nportugueses e castelhanos ali se defrontaram ao longo de s\u00e9culos, sob<br \/>\nfortes tens\u00f5es conflitivas que periodicamente explodiam em correrias.<br \/>\nEm fun\u00e7\u00e3o dessas tens\u00f5es e das disputas que elas geravam,<br \/>\no Brasil se viu diversas vezes envolvido nas guerras platinas. Em certas ocasi\u00f5es,<br \/>\nmovidas por ambi\u00e7\u00f5es expansionistas pr\u00f3prias; em outras,<br \/>\ncomo partes que eram de um conjunto de nacionalidades em confronto no processo<br \/>\nde autodiferencia\u00e7\u00e3o, unifica\u00e7\u00e3o e fixa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde suas fronteiras.<\/p>\n<p>O poder central teve tamb\u00e9m de fazer frente e submeter pelas armas<br \/>\nmovimentos aspirantes \u00e0 autonomia da regi\u00e3o, muito mais vigorosos<br \/>\ne instrumentados que os de outras \u00e1reas. Diversos fatores se conjugaram<br \/>\npara ativar essas tend\u00eancias separatistas.<\/p>\n<p>Entre eles, o fato de ser uma vasta e long\u00ednqua regi\u00e3o com<br \/>\ninteresses pr\u00f3prios irrenunci\u00e1veis e que, n\u00e3o sendo adequadamente<br \/>\natendidos, ensejavam tens\u00f5es disruptivas &#8211; conducentes \u00e0 ruptura<br \/>\ncom o poder central. Soma-se a isso a circunst\u00e2ncia de viver apartada<br \/>\ndo resto do Brasil e submetida a influ\u00eancias intelectuais e pol\u00edticas<br \/>\nde centros urbanos culturalmente avan\u00e7ados, como Montevid\u00e9u<br \/>\ne Buenos Aires. Nessas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o podiam deixar de<br \/>\nsurgir aspira\u00e7\u00f5es de independ\u00eancia, inspiradas \u00e0s<br \/>\nvezes na concep\u00e7\u00e3o de que o Sul melhor realizaria suas potencialidades<br \/>\ncomo um pa\u00eds aut\u00f4nomo do que como um estado federado; motivadas<br \/>\noutras vezes por ide\u00e1rios pol\u00edticos arrojados, como as lutas<br \/>\nanti- escravistas e a campanha republicana dos farrapos.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o de fronteira do Brasil sulino, fazendo concentrar<br \/>\nali a maior parte das tropas do pa\u00eds, por uma parte deu continuidade<br \/>\ne fun\u00e7\u00e3o ao antigo \u00edmpeto combativo do ga\u00facho<br \/>\ndas correrias; por outra, conferiu um poderio maior ao Rio Grande do Sul,<br \/>\nno conjunto da na\u00e7\u00e3o, do que corresponderia \u00e0 sua import\u00e2ncia<br \/>\necon\u00f4mica, tornando inevit\u00e1vel a imposi\u00e7\u00e3o de candidatos<br \/>\nga\u00fachos ao poder central quando a escolha exorbitava dos meios institucionais<br \/>\npara ser decidida por considera\u00e7\u00f5es militares.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, tamb\u00e9m ter\u00e1 exercido um papel no abrasileiramento<br \/>\ndo extremo sul o ingresso maci\u00e7o de imigrantes centro-europeus promovido<br \/>\ndepois da Independ\u00eancia. Situados nas zonas desabitadas entre as fronteiras<br \/>\nsulinas e os principais n\u00facleos do pa\u00eds, eles ativaram economicamente<br \/>\naquelas \u00e1reas, contribuindo para viabilizar e modernizar a economia<br \/>\nsulina e capacit\u00e1-la para melhores formas de interc\u00e2mbio com<br \/>\no restante do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Sem essa presen\u00e7a estrangeira, mas compelida a identificar-se como<br \/>\nbrasileira, sem sua postura de gente mais pac\u00edfica e trabalhadora que<br \/>\ndesordeira e predisposta a gauchadas, teria sido mais dif\u00edcil incorporar<br \/>\nao conjunto do Brasil os brasis sulinos.<\/p>\n<p>Incorpor\u00e1-los, sobretudo, tal como se logrou: como componente igual<br \/>\naos outros e preparado como os demais a viver um destino comum dentro do mesmo<br \/>\nquadro nacional.<\/p>\n<p>Os ga\u00fachos brasileiros t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<br \/>\ncomum \u00e0 dos demais ga\u00fachos platinos. Surgem da transfigura\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica das popula\u00e7\u00f5es mesti\u00e7as de var\u00f5es<br \/>\nespanh\u00f3is e lusitanos com mulheres Guarani. Especializam-se na explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo gado, al\u00e7ado e selvagem, que se multiplicava prodigiosamente nas<br \/>\npradarias naturais das duas margens do rio da Prata. O principal contingente<br \/>\nfoi formado na pr\u00f3pria regi\u00e3o de Tapes por \u00edndios missioneiros<br \/>\nGuarani ou guaranizados pelos jesu\u00edtas e, posteriormente, mesti\u00e7ados<br \/>\ncom espanh\u00f3is e portugueses. Outra fonte foi o n\u00facleo neoguarani<br \/>\nde paraguaios de Assun\u00e7\u00e3o, que se expandiu sobre os campos argentinos<br \/>\njuntamente com o gado que ocuparia o pampa. Uma terceira fonte foi a prole<br \/>\ndos portugueses instalados na Col\u00f4nia do Sacramento ( 1680 ) no rio<br \/>\nda Prata.<\/p>\n<p>Os primeiros, ap\u00f3s os ataques arrasadores dos bandeirantes paulistas<br \/>\ndo s\u00e9culo XVII e, sobretudo, da expuls\u00e3o da Companhia de Jesus<br \/>\n( 1759 ), entraram em di\u00e1spora, procurando escapar aos espanh\u00f3is<br \/>\ne portugueses que os queriam avassalar, mas acabando por incorporar-se \u00e0s<br \/>\nprotoc\u00e9lulas das sociedades nacionais nascentes atrav\u00e9s do engajamento<br \/>\ncompuls\u00f3rio em sua for\u00e7a de trabalho. Os \u00faltimos foram<br \/>\nagentes da reaglutina\u00e7\u00e3o dos remanescentes dos antigos catec\u00famenos<br \/>\ne de sua posterior integra\u00e7\u00e3o nos quatro quadros \u00e9tnico-nacionais<br \/>\nda bacia do Prata.<\/p>\n<p>O gado que se multiplicara na banda oriental fora trazido principalmente<br \/>\npelos jesu\u00edtas.<\/p>\n<p>Era criado com o maior zelo por constituir um dos principais procedimentos<br \/>\nde sedentariza\u00e7\u00e3o dos \u00edndigenas que, contando com uma<br \/>\nprovis\u00e3o regular de carne, podiam dedicar-se \u00e0s lavouras e ao<br \/>\nartesanato, independizando-se da ca\u00e7a e da pesca.<\/p>\n<p>Juntamente com o gado de outras origens, esse rebanho jesu\u00edtico,<br \/>\nexpandindo-se enormemente, viria a constituir o manancial aparentemente inesgot\u00e1vel<br \/>\ndas vacarias del Mar em que tanto \u00edndios missioneiros quanto gente<br \/>\nda outra ribeira do Prata, a Argentina, e mais tarde paulistas e portugueses<br \/>\nviriam recolher gado.<\/p>\n<p>Os rebanhos prodigiosos passaram a ser acossados por uma popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nque vivia deles, tal como os \u00edndios da pradaria norte-americana viveram<br \/>\nde seus b\u00fafalos.<\/p>\n<p>Inicialmente, todos tratavam o gado como uma ca\u00e7a maior e menos arisca.<br \/>\nMas, aos poucos, foram-se especializando \u00e0 vida pastoril. Assim os<br \/>\n\u00edndios da regi\u00e3o acabaram por se fazerem cavaleiros e comedores<br \/>\nde carne de r\u00eas. Mas continuavam hostilizando-se uns aos outros e fustigando<br \/>\ntamb\u00e9m os missioneiros Guarani, os brancos e seus mesti\u00e7os.<br \/>\nEsses \u00faltimos constitu\u00edram o primeiro n\u00facleo ga\u00facho<br \/>\nao passarem de ca\u00e7adores de gado para alimento a traficantes de couro,<br \/>\ndevotando-se a partir da\u00ed a dizimar os rebanhos para aproveitar o courame.<\/p>\n<p>Somam-se, assim, tr\u00eas fatores na forma\u00e7\u00e3o da matriz<br \/>\nga\u00facha. Primeiro, a exist\u00eancia do rebanho de ningu\u00e9m sobre<br \/>\nterra de ningu\u00e9m; segundo, a especializa\u00e7\u00e3o mercantil<br \/>\nna sua explora\u00e7\u00e3o; terceiro, o grau de europeiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma parcela mesti\u00e7a desse contingente que a fazia carente de artigos<br \/>\nde importa\u00e7\u00e3o e capaz de estabelecer um sistema de interc\u00e2mbio<br \/>\npara trocar couros por manufaturas (Ribeiro 1970 ).<\/p>\n<p>A topon\u00edmia guarani de todo o territ\u00f3rio das Vacarias del<br \/>\nMar (o Uruguai de hoje) e a documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica &#8211;<br \/>\nsuperficialmente examinada &#8211; indicam que esses ga\u00fachos falavam melhor<br \/>\no guarani do que o espanhol, sendo, desse modo, culturalmente pr\u00f3ximos<br \/>\ndos paulistas dos s\u00e9culos XVI e XVII (Holanda 1956:108-18 ) e dos paraguaios<br \/>\nmodernos em sua linguagem, em seu modo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0<br \/>\nnatureza para o provimento da subsist\u00eancia, em suas formas de associa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne em sua vis\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Essa matriz guarani \u00e9 que forjaria a proto-etnia ga\u00facha, que,<br \/>\nmultiplicando-se vegetativamente e &#8220;guaranizando&#8221; outros contingentes,<br \/>\npovoou a campanha e veio a ser, depois, a matriz \u00e9tnica b\u00e1sica<br \/>\ndas popula\u00e7\u00f5es sulinas. Posteriormente, sob a influ\u00eancia<br \/>\nde for\u00e7as conformadas ex\u00f3genas, essa matriz se dividiu para<br \/>\natrelar-se \u00e0s entidades nacionais emergentes, como argentinos, uruguaios,<br \/>\nparaguaios e brasileiros.<\/p>\n<p>Originalmente, esses ga\u00fachos n\u00e3o se identificavam como espanh\u00f3is<br \/>\nnem como portugueses, do mesmo modo como j\u00e1 n\u00e3o se consideravam<br \/>\nind\u00edgenas, constituindo uma etnia nascente, aberta \u00e0 agrega\u00e7\u00e3o<br \/>\nde contingentes de \u00edndios destribalizados pela a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria<br \/>\nou pela escravid\u00e3o, de novos mesti\u00e7os de brancos e \u00edndios<br \/>\ndesgarrados pela marginalidade, e de brancos pobres segregados de suas matrizes.<\/p>\n<p>Esses eram os ga\u00fachos originais, uniformizados culturalmente pelas<br \/>\natividades pastoris, bem como pela unidade de l\u00edngua, costumes e usos<br \/>\ncomuns. Tais eram: o chimarr\u00e3o, o tabaco, a rede de dormir, a vestimenta<br \/>\npeculiar caracterizada pelo xirip\u00e1 e pelo poncho; as boleadeiras e<br \/>\nla\u00e7os de ca\u00e7a e de rodeio; as candeias de sebo para alumiar<br \/>\ne toda a tralha de montaria e pastoreio feita de couro cru; a que se acrescentaram<br \/>\nas carretas puxadas por bois, os h\u00e1bitos de consumo do sal como tempero,<br \/>\nda aguardente e do sab\u00e3o e a utiliza\u00e7\u00e3o de artefatos<br \/>\nde metal principalmente a faca de carnear, as pontas das lan\u00e7as, as<br \/>\nesporas e freios e uns poucos utens\u00edlios para ferver e para cozinhar.<\/p>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o de uma parcela desses ga\u00fachos \u00e0<br \/>\netnia brasileira \u00e9 um processo posterior, decorrente da disputa dos<br \/>\npaulistas por participar da explora\u00e7\u00e3o do gado sulino, da competi\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre portugueses e espanh\u00f3is pelo dom\u00ednio da regi\u00e3o<br \/>\ncisplatina e, sobretudo, da integra\u00e7\u00e3o do Sul ao mercado provedor<br \/>\nde bestas de carga para as minas de ouro.<\/p>\n<p>As primeiras penetra\u00e7\u00f5es brasileiras na \u00e1rea ocorreram<br \/>\nna primeira metade do s\u00e9culo XVII atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o<br \/>\npreadora dos \u00edndios pelos paulistas contra o Tape e outros n\u00facleos<br \/>\njesu\u00edticos.<\/p>\n<p>Elas n\u00e3o ensejavam, por\u00e9m, qualquer ocupa\u00e7\u00e3o,<br \/>\napenas permitiam conhecer a regi\u00e3o, arrebanhar \u00edndios para o<br \/>\ntr\u00e1fico de escravos e dispersar os que lhe escapavam.<\/p>\n<p>Entram, a seguir, os portugueses &#8211; num esfor\u00e7o oficial de coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; fundando, primeiro, S\u00e3o Francisco ( 1660 ) e Laguna ( 1676 ) para<br \/>\ndominar os campos curitibanos onde crescia gado deixado pelos jesu\u00edtas<br \/>\ne, depois, a Col\u00f4nia do Sacramento ( 1680 ), j\u00e1 nas margens do<br \/>\nrio da Prata. Esse estabelecimento militar long\u00ednquo, destinado a ampliar<br \/>\no dom\u00ednio colonial portugu\u00eas, manteve-se em territ\u00f3rio<br \/>\ninimigo, principalmente atrav\u00e9s da viabilidade econ\u00f4mica que<br \/>\nlhe conferiu a participa\u00e7\u00e3o no neg\u00f3cio de couros de gado<br \/>\nselvagem das Vacarias del Mar.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do s\u00e9culo XVIII voltam os paulistas junto aos curitibanos<br \/>\npara se instalarem na regi\u00e3o como criadores. Visavam, ent\u00e3o,<br \/>\narrebanhar e aquerenciar gado e, mais tarde, criar cavalos e muares para vender<br \/>\naos novos mercados surgidos nas zonas de minera\u00e7\u00e3o de ouro.<br \/>\nA produ\u00e7\u00e3o de muares \u00e9 t\u00e3o especializada e t\u00e3o<br \/>\noposta \u00e0 explora\u00e7\u00e3o extrativista de gado al\u00e7ado<br \/>\nque n\u00e3o se pode conceber que surgira espontaneamente na regi\u00e3o.<br \/>\nO mais prov\u00e1vel \u00e9 que aqueles antigos provedores ga\u00fachos<br \/>\ndas minas fossem meros intermedi\u00e1rios dos verdadeiros criadores. Estes<br \/>\nseriam estancieiros de Corrientes e Santa F\u00e9, na Argentina, que se<br \/>\ntinham especializado na produ\u00e7\u00e3o de animais de tropa para as<br \/>\nminas de prata de Potosi. A decad\u00eancia da minera\u00e7\u00e3o espanhola,<br \/>\nantecedendo ao surto da brasileira, criaria uma oferta de muares de exporta\u00e7\u00e3o<br \/>\nque encontraria um novo mercado em Minas Gerais.<\/p>\n<p>S\u00f3 muito mais tarde podem ter surgido no Rio Grande do Sul cria\u00e7\u00f5es<br \/>\nde mulas de servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Recrutam por toda a \u00e1rea gente afeita ao trato daquele gado al\u00e7ado,<br \/>\nou seja, ga\u00facho, falando um guarani que os mamelucos paulistas podiam<br \/>\nentender, fazendo ro\u00e7ados de mandioca, de milho e de ab\u00f3boras,<br \/>\ne fabricando farinha, como todos os povos do tronco tupi. Esses ga\u00fachos,<br \/>\nincorporados aos n\u00facleos neobrasileiros que se come\u00e7avam a fundar<br \/>\nna campanha, serviram como campeiros e aquerenciadores do gado, amansadores<br \/>\nde bois de servi\u00e7o e como criadores de cavalos e de muares.<\/p>\n<p>O novo tipo de explora\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o visava<br \/>\nsomente o couro mas os animais inteiros e uma produ\u00e7\u00e3o mais<br \/>\ntrabalhosa, como os bois de carro e os muares de montaria e carga, que eram<br \/>\nlevados junto com as boiadas para as minas, foi que fixou as popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nneobrasileiras na campanha sulina, incorporando, progressivamente, um contingente<br \/>\nga\u00facho \u00e0 sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Bem sabemos o quanto est\u00e3o pouco documentadas as hip\u00f3teses<br \/>\naqui levantadas.<\/p>\n<p>Todavia, elas nos parecem v\u00e1lidas como pistas de investiga\u00e7\u00e3o<br \/>\ne necess\u00e1rias para explicar a forma\u00e7\u00e3o do ga\u00facho<br \/>\nbrasileiro. Esta n\u00e3o pode ser atribu\u00edda ao simplismo de uma<br \/>\nmera translada\u00e7\u00e3o de paulistas e seus \u00edndios para o Sul<br \/>\ncom a agrega\u00e7\u00e3o de alguns espanh\u00f3is. E, menos ainda,<br \/>\na um amadurecimento progressivo para a civiliza\u00e7\u00e3o das tribos<br \/>\nCharrua e Minuano, antigos ocupantes das campinas. Esses \u00edndios, de<br \/>\ncultura pr\u00e9-agr\u00edcola, foram minguando, vitimados por enfermidades<br \/>\ne ca\u00e7ados em grandes batidas pelo branco que ocupou seu territ\u00f3rio,<br \/>\nat\u00e9 desaparecerem. Algumas de suas mulheres ter\u00e3o, eventualmente,<br \/>\ngerado filhos mesti\u00e7os que se integraram \u00e0 popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nga\u00facha. Raros homens, escravizados, ter\u00e3o seguido o mesmo destino.<br \/>\nEram culturalmente por demais diferentes dos n\u00facleos guaranizados de<br \/>\nmissioneiros, paraguaios, proto-rio-platenses e protobrasileiros, para com<br \/>\neles conviver e se fundir.<\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o prosseguiu por um esfor\u00e7o l\u00facido<br \/>\ne persistente da Coroa portuguesa &#8211; nisso apica\u00e7ada pelos paulistas<br \/>\n&#8211; para a ocupa\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Esta se faz atrav\u00e9s de dois procedimentos: a implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\nna faixa costeira de fam\u00edlias transladadas das ilhas portuguesas, principalmente<br \/>\ndos A\u00e7ores, para constituir um n\u00facleo permanente de presen\u00e7a<br \/>\nportuguesa, e a concess\u00e3o de sesmarias nas zonas de campo onde se instalavam<br \/>\nas invernadas, que se procedeu com desusada profus\u00e3o. A esses a\u00e7orianos<br \/>\nse somaram militares portugueses &#8211; recrutados principalmente no Rio de Janeiro,<br \/>\nS\u00e3o Paulo e Minas \u2013 mandados para a Col\u00f4nia do Sacramento<br \/>\ne para o antigo territ\u00f3rio dos Sete Povos das Miss\u00f5es.<\/p>\n<p>A apropria\u00e7\u00e3o legal das terras come\u00e7aria a transformar<br \/>\nas invernadas em est\u00e2ncias, nelas fixando o propriet\u00e1rio e sua<br \/>\ngauchada. A distribui\u00e7\u00e3o das sesmarias, que come\u00e7a nas<br \/>\nregi\u00f5es de Viam\u00e3o e rio Grande, estende-se depois aos campos<br \/>\ndo rio Pelotas, atinge mais tarde, por um lado, a zona de Laguna e, por outro,<br \/>\na \u00e1rea das antigas miss\u00f5es jesu\u00edticas. Prosseguindo a<br \/>\nmarcha apropriativa, integra, depois, ao sistema de propriedades a campanha<br \/>\ndo Ibicu\u00ed, ao sul, e a Coxilha Grande, a oeste.<\/p>\n<p>Por longo tempo, a atividade desses estancieiros fora aquerenciar o gado<br \/>\nselvagem arrebanhado nos pr\u00f3prios campos ou transladado das antigas<br \/>\nvacarias e, depois, criar cavalos e muares. Trabalhavam, sempre, com os olhos<br \/>\npostos no horizonte, de atalaia contra ataques castelhanos. A larga faixa<br \/>\nde fronteira indiferenciada, movendo- se conforme a press\u00e3o de um lado<br \/>\nou do outro, amea\u00e7ava mais \u00e0 est\u00e2ncia e a seu gado do<br \/>\nque \u00e0 p\u00e1tria mesmo. Assim, cada estancieiro de um e outro lado<br \/>\nda fronteira se faz um caudilho, entrincheirado em seu rancho com seus ga\u00fachos,<br \/>\nsempre pronto a engajar-se nas correrias que punham a salvo o seu rebanho<br \/>\ne \u00e0s vezes permitiam acresc\u00ea-lo com o que arrebatasse da outra<br \/>\nbanda.<\/p>\n<p>O manancial de gado que parecia inesgot\u00e1vel, submetido \u00e0 explora\u00e7\u00e3o<br \/>\npredat\u00f3ria dos couros para exporta\u00e7\u00e3o e \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\nda cachorrada selvagem que tamb\u00e9m se multiplicara nos campos, alimentando-se<br \/>\nde bezerros e de novilhas, reduzia-se cada vez mais.<\/p>\n<p>Os estancieiros come\u00e7aram, ent\u00e3o, a disput\u00e1-lo dos<br \/>\ndois lados da fronteira indefinida para fix\u00e1-lo em seus campos. Primeiro,<br \/>\nos paulistas que encontravam mercado para gado em-p\u00e9 nas minas, centenas<br \/>\nde l\u00e9guas terra adentro. Depois por todos, quando, ao fim do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII, se inicia o fabrico do charque. No lado espanhol, o novo produto torna-se<br \/>\no principal artigo de exporta\u00e7\u00e3o como alimento da escravaria<br \/>\ndas Antilhas. No lado brasileiro, valoriza-se cada vez mais como carne para<br \/>\nas popula\u00e7\u00f5es mineiras e, mais tarde, para as lavouras comerciais<br \/>\nque as sucederam e para os engenhos do Nordeste.<\/p>\n<p>O aquerenciamento do gado nas est\u00e2ncias aquerencia tamb\u00e9m o<br \/>\nga\u00facho como campeiro e como combatente do seu patr\u00e3o, que era<br \/>\nseu caudilho. Nas d\u00e9cadas seguintes, com os entendimentos diplom\u00e1ticos<br \/>\npara a fixa\u00e7\u00e3o da fronteira, processa-se a pacifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nprogressiva das \u00e1reas mais pr\u00f3ximas da linde, dando nascimento<br \/>\nao Uruguai como um vasto territ\u00f3rito colocado entre os contendores<br \/>\nbrasileiros e argentinos. Depois do per\u00edodo convulso de guerras externas<br \/>\ne de lutas de unifica\u00e7\u00e3o nacional que conflagram os campos rio-platenses,<br \/>\nas est\u00e2ncias brasileiras entraram numa fase de relativa tranq\u00fcilidade.<\/p>\n<p>A esse tempo, o crescimento das charqueadas valoriza o gado e industrializa<br \/>\nsua explora\u00e7\u00e3o, fazendo do pastoreio cada vez menos uma aventura<br \/>\ne cada vez mais um neg\u00f3cio racional. Entretanto a charqueada introduz<br \/>\nna paisagem pastoril uma atividade nova, caracterizada pelo trabalho de ritmo<br \/>\nintenso e regulado por hor\u00e1rio e obriga\u00e7\u00f5es r\u00edgidas,<br \/>\na que n\u00e3o se ajusta o antigo ga\u00facho campeiro. Introduz-se, ent\u00e3o,<br \/>\no negro escravo, que era a m\u00e3o-de-obra do tempo para todo trabalho<br \/>\nde gastar gente.<\/p>\n<p>Essas comunidades de saladeiros, com seus empregados e sua escravaria, contrastando<br \/>\nflagrantemente com a estrutura social da campanha, constitu\u00edram um<br \/>\nenclave pr\u00e9-industrial que se ampliaria, no futuro, atrav\u00e9s<br \/>\nde matadouros e frigorificos, como o novo centro reitor da atividade pastoril.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o caudilho-estancieiro<br \/>\nquem comanda a vida regional, mas um sistema mercantil-industrial mais complexo,<br \/>\nsuscet\u00edvel de ser regulamentado oficialmente, defendido contra o contrabando<br \/>\ne capacitado a introduzir inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas na campanha,<br \/>\ncomo os aramados.<\/p>\n<p>Nesse processo, o estancieiro vai deixando de ser o caudilho para se tornar<br \/>\no patr\u00e3o de seus ga\u00fachos. As regalias destes diminuem e, com<br \/>\nelas, a ra\u00e7\u00e3o da carne para o churrasco e de mate para o chimarr\u00e3o.<br \/>\nO distanciamento entre os pap\u00e9is sociais do ga\u00facho antigo &#8211;<br \/>\ncampeiro do gado de ningu\u00e9m em terra sem dono &#8211; e do ga\u00facho<br \/>\nnovo &#8211; o pe\u00e3o empregado da est\u00e2ncia a cuidar do gado do patr\u00e3o<br \/>\n&#8211; se vai alargando progressivamente. \u00c9 atenuado, por\u00e9m, estendendo<br \/>\natrav\u00e9s de d\u00e9cadas o padr\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncaudilho-ga\u00facho, devido ao estado de convuls\u00e3o em que vive a<br \/>\nzona pastoril, conflagrada pelas lutas de unifica\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Os caudilhos sulinos, brasileiros porque espacialmente n\u00e3o castelhanos<br \/>\ne opostos a estes por suas antigas disputas, mas opostos tamb\u00e9m ao<br \/>\nImp\u00e9rio long\u00ednquo &#8211; sem olhos e sensibilidade para seus problemas<br \/>\n-, configuram uma etnia ainda n\u00e3o inteiramente identificada com uma<br \/>\nbrasilidade remota que apenas desabrochava. Seus conflitos fronteiri\u00e7os<br \/>\ne sua independ\u00eancia frente ao Imp\u00e9rio mant\u00eam toda a campanha<br \/>\nem p\u00e9 de guerra, ao longo de d\u00e9cadas. \u00c9 conflagrada pelas<br \/>\nlutas entre os caudilhos, nas c\u00e9lebres calif\u00f3rnias, em que disputavam<br \/>\ncampos e rebanhos; dos caudilhos com os lavradores e comerciantes de origem<br \/>\na\u00e7oriana, assentados no litoral, apegados \u00e0 autoridade central<br \/>\ne almejando impor ordem \u00e0 campanha; e de parcelas de uns e outros contra<br \/>\no dom\u00ednio imperial, pela rep\u00fablica ou por qualquer forma de<br \/>\ngoverno que atendesse melhor \u00e0s suas aspira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Enquanto permaneceu esse ambiente de guerra, com a campanha dividida em<br \/>\ncomand\u00e2ncias e mil\u00edcias, chefiados por estancieiros caudilhos<br \/>\nsempre prontos a sair ao combate, o ga\u00facho &#8211; porque menos pe\u00e3o<br \/>\ndo que soldado &#8211; manteve certos privil\u00e9gios de alimenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de trato.<\/p>\n<p>Consolidada a posse de terras e rebanhos, pacificada a campanha e, depois,<br \/>\ncercadas as est\u00e2ncias com aramados, o novo ga\u00facho sedentarizado<br \/>\n\u00e9 compelido a assumir seu novo papel de simples pe\u00e3o. Ainda<br \/>\ncavaleiro campeia, garboso, o gado do patr\u00e3o, com orgulho de seu of\u00edcio<br \/>\ne do seu dom\u00ednio da montaria e do rebanho. Por\u00e9m, cada vez mais<br \/>\npobre e mais mal pago, come menos e vive mais maltrapilho. Os imensos campos<br \/>\nlivres de outrora s\u00e3o, agora, ret\u00e2ngulos divididos em est\u00e2ncias<br \/>\ne subdivididos em potreiros. Entre as est\u00e2ncias se estende, como terra<br \/>\nsem dono, t\u00e3o-somente o corredor entre os aramados divis\u00f3rios,<br \/>\nsubindo e descendo pelas ondula\u00e7\u00f5es das coxilhas, para comunicar<br \/>\ne para apartar os mundos privados das est\u00e2ncias.<\/p>\n<p>O ga\u00facho montado em cavalo brioso, da bombacha e botas, de sombreiro<br \/>\ncom barbicacho, de pala vistosa, rev\u00f3lver, adaga e o dinheiro metido<br \/>\nna guaiaca, de boleadeiras enroladas na cintura, len\u00e7o ao pesco\u00e7o,<br \/>\nfaixa na cintura em cima dos rins, esporas chilenas etc. ou \u00e9 o patr\u00e3o<br \/>\nfantasiado de campeiro ou \u00e9 integrante de algum clube urbano de folcloristas.<br \/>\nO rancho do estancieiro se faz casa confort\u00e1vel; o galp\u00e3o mesmo,<br \/>\ncomo orgulho da est\u00e2ncia, cobre-se de telhas e se enriquece de ganchos<br \/>\npara pendurar arreios. S\u00f3 a palho\u00e7a do ga\u00facho permanece<br \/>\ntal qual era e, dentro dela, a vida cada vez mais miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o de reprodutores de ra\u00e7a, de cuidados zoot\u00e9cnicos<br \/>\ne de melhoria das pastagens promove a renova\u00e7\u00e3o do gado, que<br \/>\nganha peso, torna-se mais d\u00f3cil e se faz leiteiro. Os rebanhos aumentam;<br \/>\nao vacum se acrescenta o lanar. Novas \u00e1reas s\u00e3o conquistadas<br \/>\npara a expans\u00e3o do pastoreio intensivo, com o gado semi-estabulado,<br \/>\ncujo crescimento \u00e9 controlado pelas cabanhas de aprimoramento gen\u00e9tico.<br \/>\nA diferen\u00e7a entre os bois e a vaqueirada vai se modulando como oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre o gado do seu dono e um gado de ningu\u00e9m, cuja eugenia, cuja sa\u00fade,<br \/>\ncuja ra\u00e7\u00e3o constituem objeto das preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais d\u00edspares: o maior zelo para com a gadaria vacum e o maior descaso<br \/>\ncom respeito ao contingente humano.<\/p>\n<p>Permanecem, por\u00e9m, como sobreviv\u00eancias culturais, certas formas<br \/>\nde trato pessoal entre estancieiro e ga\u00facho que lembram as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo caudilho com seu combatente.<\/p>\n<p>Unidos, ocasionalmente, nas cavalgadas do rodeio, entrando em emula\u00e7\u00e3o<br \/>\nde maestria como boleadores ou la\u00e7adores de reses bravias, apostando<br \/>\ncarreiras &#8211; como ocorre, de resto, nas outras zonas pastoris &#8211; mant\u00eam<br \/>\num conv\u00edvio cordial, por\u00e9m, remarcadamente respeitoso e assim\u00e9trico,<br \/>\ncomo \u00e9 devido nas rela\u00e7\u00f5es entre patr\u00f5es e empregados.<br \/>\nA roda de chimarr\u00e3o se faz como sempre e \u00e9 o c\u00edrculo<br \/>\nde conv\u00edvio social do ga\u00facho, freq\u00fcentado \u00e0s vezes<br \/>\npelo patr\u00e3o para ali controlar a execu\u00e7\u00e3o de suas ordens<br \/>\ne distribuir novos encargos. Alguns h\u00e1bitos permanecem, como o gosto<br \/>\ndo patronato ga\u00facho pelo conv\u00edvio masculino e servil que faz<br \/>\ncada estancieiro viver cercado de pe\u00f5es-carrapatos. S\u00e3o os que<br \/>\nlhe misturam a erva, esquentam a \u00e1gua e provam o chimarr\u00e3o;<br \/>\nos que lhe assam, cortam e servem o churrasco; os que lhe conchavam os encontros<br \/>\ncom as chinas da vizinhan\u00e7a. O ga\u00facho-pe\u00e3o-de-servi\u00e7o<br \/>\nv\u00ea de longe e olha mal essa \u00fanica verdadeira intimidade, intrigante<br \/>\ne bajuladora.<\/p>\n<p>Todavia, o pe\u00e3o de est\u00e2ncia, ainda assim, \u00e9 um privilegiado<br \/>\nna paisagem humana da campanha. Com o gado cresceu a popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque, sobrante das singelas necessidades de m\u00e3o-de-obra das lides pastoris,<br \/>\nfoi sendo desalojada das est\u00e2ncias. Amontoase pelos terrenos baldios,<br \/>\nou onde os corredores se alargam em rancharias, que s\u00e3o malocas campestres.<br \/>\nTransformam-se assim os ga\u00fachos em reservas de m\u00e3o-de-obra em<br \/>\nque o estancieiro recruta os homens de que necessita quando vai bater os campos,<br \/>\nesticar um aramado, ou nas \u00e9pocas de tosquia. S\u00e3o trabalhadores<br \/>\nde changa, biscateiros subocupados mas prol\u00edficos, cujas fam\u00edlias<br \/>\ncrescem na pen\u00faria, vitimadas por mol\u00e9stias carenciais, por<br \/>\ninfec\u00e7\u00f5es, enfim, por todos os achaques da pobreza, como mais<br \/>\num subproduto do latif\u00fandio pastoril.<\/p>\n<p>A maior parte dessa popula\u00e7\u00e3o de ga\u00fachos-a-p\u00e9<br \/>\nse faz lavradora de terrenos alheios, ainda n\u00e3o engolidos pelo pastoreio,<br \/>\natrav\u00e9s do regime da parceria. S\u00e3o os aut\u00f4nomos rurais<br \/>\ndo sul, contrapostos \u00e0 peonagem das est\u00e2ncias, como o caipira<br \/>\ndo centro se op\u00f5e ao assalariado rural das grandes culturas comerciais.<br \/>\nIgualmente dependentes do propriet\u00e1rio que Ihes cede as terras de cultivo,<br \/>\ncobrando por elas a meia ou a ter\u00e7a das colheitas, al\u00e9m de sua<br \/>\nlealdade pessoal e pol\u00edtica. Tamb\u00e9m esses neoga\u00fachos<br \/>\nv\u00eaem o Estado e o governo como um ente todo-poderoso e arbitr\u00e1rio<br \/>\ncom que se entende o patronato e que se coloca efetivamente a seu servi\u00e7o<br \/>\ncomo um sistema de mil\u00edcias, de delegacias e de inspe\u00e7\u00f5es<br \/>\ndestinado a manter a ordem do mundo tal qual \u00e9.<\/p>\n<p>Onde a rede de apropria\u00e7\u00e3o das terras se esgar\u00e7a pelo<br \/>\nabandono ocasional de uma fazenda, essa popula\u00e7\u00e3o desgarrada<br \/>\nousa a invas\u00e3o da terra baldia, contando durar no trato conquistado<br \/>\nat\u00e9 que venham os policiais e os doutores cerzir aquela ruptura da<br \/>\nteia incons\u00fatil. Nessas circunst\u00e2ncias, tanto o ga\u00facho<br \/>\nde est\u00e2ncia quanto o ga\u00facho parceiro, imersos ambos no latif\u00fandio<br \/>\npastoril, n\u00e3o alcan\u00e7am as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas<br \/>\npara uma conduta aut\u00f4noma de cidad\u00e3os. S\u00e3o homens de seus<br \/>\npatr\u00f5es, temerosos de perder um v\u00ednculo que lhes parece um amparo<br \/>\nem face da amea\u00e7a de se verem lan\u00e7ados em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nainda mais dif\u00edceis. Nos bolichos dispersos pelos corredores, ouvindo<br \/>\nos r\u00e1dios sempre ligados e comentando as novidades, entre voltas de<br \/>\nchimarr\u00e3o e de pinga, vive sua vida c\u00edvica essa subumanidade<br \/>\nmarginal dos arranchamentos. Discutem pol\u00edtica e pol\u00edticos.<br \/>\nFalam de reforma agr\u00e1ria. Sempre s\u00f3brios e severos. A\u00ed<br \/>\nn\u00e3o se v\u00ea a alacridade folgaz\u00e3 das festas de est\u00e2ncia,<br \/>\nonde mais bailam, riem e se regalam os estancieiros e seus convidados que<br \/>\na gauchada posta a servir o churrasco, a cantar toadas antigas ao som de gaita,<br \/>\nde sanfona e viola.<\/p>\n<p>Naqueles redutos estradeiros \u00e9 que se vai forjando a consci\u00eancia<br \/>\ndo novo ga\u00facho sobre seu destino e fermentando um esp\u00edrito de<br \/>\nrebeli\u00e3o ainda difuso e inconsistente.<\/p>\n<p>Tal como ocorre nos sert\u00f5es pastoris do Nordeste, a est\u00e2ncia<br \/>\ndo Sul \u00e9 um criat\u00f3rio de gado como seus arraiais s\u00e3o<br \/>\ncriat\u00f3rios de gente. A popula\u00e7\u00e3o dessas rancharias se<br \/>\nconstitui principalmente de velhos desgastados nas lides pastoris ou na parceria<br \/>\ne de crian\u00e7as que se iniciam nas mesmas labutas, todos subnutridos,<br \/>\nmaltrapilhos e descal\u00e7os. A maior parte da gente jovem e sadia emigra<br \/>\npara outras \u00e1reas rurais ou para as cidades em busca de um destino<br \/>\nmelhor. Assim \u00e9 que o Rio Grande do Sul experimentou um profundo processo<br \/>\nde urbaniza\u00e7\u00e3o sem industrializa\u00e7\u00e3o, vendo multiplicar-se<br \/>\nnas grandes e pequenas cidades uma massa enorme de subocupados, de mendigos<br \/>\ne prostitutas. Pela mesma raz\u00e3o se fez tamb\u00e9m povoador das zonas<br \/>\nrurais dos estados vizinhos e dos campos do sul de Mato Grosso. A influ\u00eancia<br \/>\nga\u00facha em toda essa imensa \u00e1rea \u00e9 vis\u00edvel no uso<br \/>\ndo chimarr\u00e3o, no gosto pelo churrasco de costelas e no linguajar entreverado<br \/>\nda fronteira.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, com o surgimento de um amplo mercado nacional,<br \/>\na regi\u00e3o sulina foi se especializando numa produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola<br \/>\nn\u00e3o tropical, facilitada por suas condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas<br \/>\ne clim\u00e1ticas. Surge, assim, a triticultura, substitutiva de importa\u00e7\u00f5es,<br \/>\na rizicultura e o cultivo da soja para exporta\u00e7\u00e3o, exploradas<br \/>\ntodas, em larga escala, com t\u00e9cnicas modernas e certo grau de mecaniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nnas coxilhas antes devotadas ao pastoreio. Raramente esse desdobramento de<br \/>\natividades \u00e9 processado pelo pr\u00f3prio latifundi\u00e1rio pastoril.<br \/>\nVia de regra, ele apenas arrenda parcelas de suas terras agricultur\u00e1veis,<br \/>\nreservando-se as demais para a explora\u00e7\u00e3o pastoril tradicional<br \/>\nque continua fazendo diretamente.<\/p>\n<p>Para os novos cultivos, em lugar das formas tradicionais de parceria (a<br \/>\nmeia e a ter\u00e7a) introduziu-se um sistema de arrenda mento pag\u00e1vel<br \/>\nem dinheiro pelo empres\u00e1rio.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 freq\u00fcentemente um citadino com maior descort\u00ednio<br \/>\nmercantil que opera com base em financiamentos banc\u00e1rios ofciais e<br \/>\nprivados. O car\u00e1ter pioneiro dessa atividade e a extra\u00e7\u00e3o<br \/>\nurbana dos arrendat\u00e1rios ensejam certo aventureirismo respons\u00e1vel<br \/>\npor graves deforma\u00e7\u00f5es. Sobretudo pela incapacidade dessa camada<br \/>\nde contribuir para uma revis\u00e3o do sistema fundi\u00e1rio, ou pelo<br \/>\nmenos para modernizar as rela\u00e7\u00f5es de trabalho de modo a integrar<br \/>\norganicamente a popula\u00e7\u00e3o rural numa economia mais pr\u00f3spera.<br \/>\nUtilizando maquinaria e t\u00e9cnicas agr\u00edcolas mais modernas, eles<br \/>\ncontribu\u00edram mais para a marginaliza\u00e7\u00e3o do ga\u00facho<br \/>\nque para sua melhor integra\u00e7\u00e3o no setor mais produtivo da economia<br \/>\nagr\u00e1ria.<\/p>\n<p>O alto pre\u00e7o dos arrendamentos &#8211; que parece constituir um dos principais<br \/>\nfatores do encarecimento da produ\u00e7\u00e3o &#8211; de-corre do monop\u00f3lio<br \/>\nda terra pela velha classe latifundi\u00e1ria. Fazendo-se pagar onerosamente,<br \/>\nesses propriet\u00e1rios acompanham a moderniza\u00e7\u00e3o da paisagem<br \/>\nrural, edificando casas confort\u00e1veis e fazendo melhorias nas est\u00e2ncias,<br \/>\nn\u00e3o como empres\u00e1rios ativos sen\u00e3o como um percal\u00e7o<br \/>\nque retarda a moderniza\u00e7\u00e3o. Por outro lado, as enormes despesas<br \/>\nde implanta\u00e7\u00e3o dos grandes cultivos, em maquinaria, assist\u00eancia,<br \/>\nirriga\u00e7\u00e3o, fertilizantes, tendo de ser enfrentadas por simples<br \/>\nempres\u00e1rios que operam em terra alheia, constituem um dos principais<br \/>\n\u00f3bices \u00e0 expans\u00e3o ordenada dos trigais e arrozais sulinos.<br \/>\nAcresce, ainda, que a associa\u00e7\u00e3o recomend\u00e1vel desses<br \/>\ncultivos com outros, ou a sucess\u00e3o de cultivos segundo as t\u00e9cnicas<br \/>\nde rota\u00e7\u00e3o de culturas, s\u00e3o tamb\u00e9m obstaculizadas,<br \/>\nonerando o custo da produ\u00e7\u00e3o e sacrificando as terras.<\/p>\n<p>\u00c9 de assinalar, por\u00e9m, que mesmo em tais condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nessas atividades ensejam novas oportunidades de trabalho e melhores condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde remunera\u00e7\u00e3o a uma parcela das massas rurais, principalmente<br \/>\nna etapa da colheita, em geral menos mecanizada.<\/p>\n<p>Seu efeito social mais importante \u00e9, talvez, a diversi ica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sociedade agr\u00e1ria sulina com a amplia\u00e7\u00e3o de um setor<br \/>\nintermemento pag\u00e1vel em dinheiro pelo empres\u00e1rio.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 freq\u00fcentemente um citadino com maior descort&amp;iaciacute;nio<br \/>\nmercantil que opera com base em fnanciamentos banc\u00e1rios oficiais e<br \/>\nprivados. O car\u00e1ter pioneiro dessa atividade e a extra\u00e7\u00e3o<br \/>\nurbana dos arrendat\u00e1rios ensejam certo aventureirismo respons\u00e1vel<br \/>\npor graves deforma\u00e7\u00f5es. Sobretudo pela incapacidade dessa camada<br \/>\nde contribuir para uma revis\u00e3o do sistema fundi\u00e1rio, ou pelo<br \/>\nmenos para modernizar as rela\u00e7\u00f5es de trabalho de modo a integrar<br \/>\norganicamente a popula\u00e7\u00e3o rural numa economia mais pr\u00f3spera.<br \/>\nUtilizando maquinaria e t\u00e9cnicas agr\u00edcolas mais modernas, eles<br \/>\ncontribu\u00edram mais para a marginaliza\u00e7\u00e3o do ga\u00facho<br \/>\nque para sua melhor integra\u00e7\u00e3o no setor mais produtivo da economia<br \/>\nagr\u00e1ria.<\/p>\n<p>O alto pre\u00e7o dos arrendamentos &#8211; que parece constituir um dos principais<br \/>\nfatores do encarecimento da produ\u00e7\u00e3o &#8211; de &#8211; corre do monop\u00f3lio<br \/>\nda terra pela velha classe latifundi\u00e1ria. Fazendo-se pagar onerosamente,<br \/>\nesses propriet\u00e1rios acompanham a moderniza\u00e7\u00e3o da paisagem<br \/>\nrural, edificando casas confort\u00e1veis e fazendo melhorias nas est\u00e2ncias,<br \/>\nn\u00e3o como empres\u00e1rios ativos sen\u00e3o como um percal\u00e7o<br \/>\nque retarda a moderniza\u00e7\u00e3o. Por outro lado, as enormes despesas<br \/>\nde implanta\u00e7\u00e3o dos grandes cultivos, em maquinaria, assist\u00eancia,<br \/>\nirriga\u00e7\u00e3o, fertilizantes, tendo de ser enfrentadas por simples<br \/>\nempres\u00e1rios que operam em terra alheia, constituem um dos principais<br \/>\n\u00f3bices \u00e0 expans\u00e3o ordenada dos trigais e arrozais sulinos.<br \/>\nAcresce, ainda, que a associa\u00e7\u00e3o recomend\u00e1vel desses<br \/>\ncultivos com outros, ou a sucess\u00e3o de cultivos segundo as t\u00e9cnicas<br \/>\nde rota\u00e7\u00e3o de culturas, s\u00e3o tamb\u00e9m obstaculizadas,<br \/>\nonerando o custo da produ\u00e7\u00e3o e sacrificando as terras.<\/p>\n<p>\u00c9 de assinalar, por\u00e9m, que mesmo em tais condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nessas atividades ensejam novas oportunidades de trabalho e melhores condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde remunera\u00e7\u00e3o a uma parcela das massas rurais, principalmente<br \/>\nna etapa da colheita, em geral menos mecanizada. Seu efeito social mais importante<br \/>\n\u00e9, talvez, a diversifica\u00e7\u00e3o da sociedade agr\u00e1ria<br \/>\nsulina com a amplia\u00e7\u00e3o de um setor intermedi\u00e1rio entre<br \/>\nos propriet\u00e1rios e seus ga\u00fachos, at\u00e9 agora extremamente<br \/>\nreduzido. Tais s\u00e3o os trabalhadores semi-especializados recrutados<br \/>\npara as tarefas da mecaniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, do beneficiamento<br \/>\ndas safras e de sua comercializa\u00e7\u00e3o. Todavia, o pr\u00f3prio<br \/>\ngrau de mecaniza\u00e7\u00e3o desses cultivos opera como um redutor das<br \/>\npossibilidades de emprego, que, em associa\u00e7\u00e3o com o monop\u00f3lio<br \/>\nda terra, contribui para manter marginalizada a maior parte da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nrural que continua sobrante das atividades pastoris e tamb\u00e9m excedente<br \/>\ndas necessidades de m\u00e3o-de-obra da nova economia agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Uma outra configura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural constitui-se<br \/>\nno Brasil sulino formada por popula\u00e7\u00f5es transladadas dos A\u00e7ores,<br \/>\nno s\u00e9culo XVIII, pelo governo portugu\u00eas. O objetivo dessa coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nera implantar um n\u00facleo de ocupa\u00e7\u00e3o lusitana permanente<br \/>\npara justificar a apropria\u00e7\u00e3o da \u00e1rea em face do governo<br \/>\nespanhol e tamb\u00e9m para operar como uma retaguarda fiel das lutas que<br \/>\nse travavam nas fronteiras. Esses a\u00e7orianos vieram com suas fam\u00edlias<br \/>\npara reconstituir no Sul do Brasil o modo de vida das ilhas, atra\u00eddos<br \/>\npor regalias especial\u00edssimas para a \u00e9poca. Prometiam-lhes a<br \/>\nconcess\u00e3o de glebas de terra demarcadas como propriedade de cada casal.<br \/>\nAo instalar-se, deveriam receber mantimentos, espingarda e muni\u00e7\u00e3o,<br \/>\ninstrumentos de trabalho, sementes para cultivo, duas vacas e uma \u00e9gua,<br \/>\nbem como sustento alimentar no primeiro ano. Para a gente paup\u00e9rrima<br \/>\ndas ilhas, essa dadivosidade parecia assegurar a riqueza. Alguns grupos estabeleceram-se<br \/>\nna faixa litor\u00e2nea, nas terras marginais do rio Gua\u00edba, outros<br \/>\nno litoral de Santa Catarina.<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o a\u00e7oriana foi um fracasso no plano econ\u00f4mico,<br \/>\ncomo seria inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ilhados em pequenos nichos no litoral deserto, despreparados, eles pr\u00f3prios,<br \/>\npara o trabalho agr\u00edcola em terras desconhecidas, estavam condenados<br \/>\na uma lavoura de subsist\u00eancia, porque n\u00e3o tinham mercado consumidor<br \/>\npara suas colheitas.<\/p>\n<p>Depois de comer o suprimento de manuten\u00e7\u00e3o, deviam olhar-se,<br \/>\nperguntando o que fazer. Eram chamados a se tornarem granjeiros numa terra<br \/>\nem que o branco s\u00f3 admitia o status de senhor para dirigir a escravaria.<br \/>\nEntregues, por\u00e9m, a seu pr\u00f3prio destino, acabaram aprendendo<br \/>\nos usos da terra que estavam a seu alcance, atrav\u00e9s do conv\u00edvio<br \/>\ncom os grupos j\u00e1 conformados pelas protoc\u00e9lulas brasileiras<br \/>\nque se vinham expandindo ao longo do litoral catarinense.<\/p>\n<p>Fizeram-se matutos, ajustando-se a um modo de vida mais ind\u00edgena<br \/>\nque a\u00e7oriano, lavrando a terra pelo sistema de coivara, plantando e<br \/>\ncomendo mandioca, milho, feij\u00f5es e ab\u00f3boras. Mesmo no artesanato<br \/>\npraticado hoje nos n\u00facleos de seus descendentes, n\u00e3o se pode<br \/>\ndistinguir peculiaridades a\u00e7orianas. \u00c9 essencialmente o mesmo<br \/>\ndas popula\u00e7\u00f5es caipiras e assim deve ter sido no passado, para<br \/>\nsuprir suas necessidades de panos, de tralha dom\u00e9stica feita de tran\u00e7ados<br \/>\ne de cer\u00e2mica e de instrumentos de trabalho.<\/p>\n<p>Alguns a\u00e7orianos empreendedores escaparam, por\u00e9m, \u00e0<br \/>\ncaipiriza\u00e7\u00e3o, seja levando adiante cultivos pr\u00f3prios<br \/>\nde cereais, principalmente de trigo, seja fazendo-se comerciantes dedicados<br \/>\na traficar mantimentos com a gente da \u00e1rea pastoril. Nasceu, assim,<br \/>\num movimento mercantil que deu alguma viabilidade aos vilarejos que surgiam<br \/>\ne come\u00e7ou a integr\u00e1-los dentro do sistema econ\u00f4mico incipiente<br \/>\nda regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura neobrasileira foi nula porque<br \/>\nesta se havia saturado dos tra\u00e7os do patrim\u00f4nio portugu\u00eas<br \/>\nque podia absorver. Sua influ\u00eancia na cultura regional e seu papel social<br \/>\nforam, todavia, decisivos no aportuguesamento ling\u00fc\u00edstico e no<br \/>\nabrasileiramento cultural da campanha e, sobretudo, na constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo n\u00facleo leal ao poderio portugu\u00eas e, mais tarde, imperial,<br \/>\nque se requeria naquelas fronteiras, por um lado t\u00e3o remarcadamente<br \/>\ncastelhanas e, pelo outro, t\u00e3o independentes em sua lealdade a caudilhos<br \/>\naut\u00f4nomos.<\/p>\n<p>Quando a regi\u00e3o se convulsionou nos entreveros dos caudilhos que<br \/>\ndisputavam terras e gados nas lutas de fronteira e, sobretudo, nas lutas autonomistas<br \/>\nde inspira\u00e7\u00e3o republicana contra o centralismo imperial, a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nmatuta representou um papel capital. Opondo-se, naturalmente, ao ga\u00facho<br \/>\n\u00e1rdego da campanha pastoril por seu modo de vida agr\u00edcola, sedent\u00e1rio<br \/>\ne pac\u00edf co, sua aspira\u00e7\u00e3o era impor ordem \u00e0 fronteira.<br \/>\nFuncionaram, assim, como a base de onde as for\u00e7as imperiais partiam<br \/>\npara subjugar os caudilhos, onde se recolhiam quando acossados para se reabastecerem<br \/>\ne onde recrutavam parte de suas tropas.<\/p>\n<p>As terras doadas aos a\u00e7orianos, espoliadas nas \u00e1reas em que<br \/>\nalcan\u00e7aram maior valoriza\u00e7\u00e3o com o surgimento de mercados<br \/>\nregionais ou fracionadas pela sucess\u00e3o das heran\u00e7as nas demais<br \/>\n\u00e1reas, configuram, hoje, zonas de latif\u00fandios e minif\u00fandios.<\/p>\n<p>Os primeiros, estruturados numa economia de fazenda e, os \u00faltimos,<br \/>\nnuma economia de subsist\u00eancia. Com esssa progress\u00e3o, o matuto<br \/>\ndas fazendas tornou-se principalmente um parceiro rural, de caracter\u00edsticas<br \/>\nmuito pr\u00f3ximas \u00e0s dos caipiras, passando a constituir mais uma<br \/>\nreserva nacional de m\u00e3o-de-obra, depreciada na regi\u00e3o por seus<br \/>\nh\u00e1bitos rudes e por seu apego \u00e0s formas n\u00e3o salariais<br \/>\nde rela\u00e7\u00e3o de trabalho. Os que n\u00e3o se engajaram no sistema<br \/>\nde fazendas, nem retiveram pequenas parcelas, foram obrigados a emigrar para<br \/>\nas rancharias dos corredores e para as cidades, engrossando a massa das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nsulinas marginalizadas.<\/p>\n<p>Alguns contingentes desses matutos especializaram-se em atividades produtivas<br \/>\nnovas, surgidas com a amplia\u00e7\u00e3o do mercado nacional. Tais s\u00e3o<br \/>\nos n\u00facleos de pescadores da costa e de mineiros de carv\u00e3o do<br \/>\ninterior. Uns e outros vivem nas mais prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nconstituindo, provavelmente, um dos contingentes brasileiros mais vitimados<br \/>\npela tuberculose e pela mortalidade infantil.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m as massas matutas e ga\u00fachas marginalizadas ca\u00edram<br \/>\nnuma cultura da pobreza que acabou por uniformiz\u00e1-las pela singeleza<br \/>\ndo seu equipamento de vida e de trabalho. Vivem em ranchos que constr\u00f3em<br \/>\ncom suas pr\u00f3prias m\u00e3os, com os materiais mais humildes, que<br \/>\ntanto podem ser o barro, a palma ou o capim, nas zonas rurais, como t\u00e1buas<br \/>\nde embalagens, papel\u00e3o e restos de chapas met\u00e1licas, nas zonas<br \/>\nsuburbanas. Em lugar dos artefatos de cer\u00e2mica, de vimes, de fibras<br \/>\ne de couro, que antes fabricavam, usam, agora, como vasilhames e utens\u00edlios<br \/>\npara guardar, usar, comer e beber, a lataria dos monturos.<\/p>\n<p>Analfabetos, numa sociedade j\u00e1 integrada por metade nos sistemas<br \/>\nletrados de comunica\u00e7\u00e3o, essas popula\u00e7\u00f5es marginalizadas<br \/>\nperdem at\u00e9 mesmo suas seculares tradi\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas,<br \/>\nesquecidas e substitu\u00eddas por novos corpos elementares de compreens\u00f5es<br \/>\ne de valores auridos atrav\u00e9s do r\u00e1dio e da transmiss\u00e3o<br \/>\noral. Nessas condi\u00e7\u00f5es, uma homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural<br \/>\nprocessada pela pobreza &#8211; tal como uma decultura\u00e7\u00e3o uniformizadora<br \/>\nse processou, no passado, pela escravid\u00e3o &#8211; unifica os brasileiros<br \/>\nmais d\u00edspares pelo denominador comum da pen\u00faria, pela comunidade<br \/>\nde h\u00e1bitos e de costumes reduzidos \u00e0 sua express\u00e3o mais<br \/>\nsingela e pela difus\u00e3o dos modernos meios de comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\nque as atingem com m\u00fasicas acess\u00edveis e com apelos a um consumo<br \/>\ninacess\u00edvel.<\/p>\n<p>Essa homogeneiza\u00e7\u00e3o os est\u00e1 congregando, tamb\u00e9m,<br \/>\nface ao futuro, pela sua comunh\u00e3o de destino, que \u00e9 o enfrentamento<br \/>\nda ordem social respons\u00e1vel por sua proscri\u00e7\u00e3o do sistema<br \/>\nocupacional e dos padr\u00f5es de vida da parcela integrada nos setores<br \/>\nmodernizados da sociedade nacional. As formas de express\u00e3o dessa destina\u00e7\u00e3o<br \/>\ninsurrecional s\u00e3o ainda elementares, mas tendem a acentuar-se.<\/p>\n<p>Tal como o campesinato europeu &#8211; nas primeiras fases de sua marginaliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\npela reordena\u00e7\u00e3o mercantil-capitalista &#8211; a rebeldia virtual<br \/>\ndessas massas marginais brasileiras, tanto as do Sul como as das demais \u00e1reas,<br \/>\ns\u00f3 encontra em seu patrim\u00f4nio cultural formas arcaicas de express\u00e3o,<br \/>\nrevestidas quase sempre de uma fei\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica.<\/p>\n<p>A principal delas eclodiu de 1910 a 1914, na zona fronteiri\u00e7a entre<br \/>\nos estados do Paran\u00e1 e de Santa Catarina, em virtude de uma suspens\u00e3o<br \/>\neventual da legitimidade das respectivas autoridades reguladoras da apropria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas terras devolutas. Ao estabelecer-se a disputa entre os dois estados pelo<br \/>\ndom\u00ednio da \u00e1rea contestada, esta ficou juridicamente em suspenso,<br \/>\nensejando movimentos populares de ocupa\u00e7\u00e3o das terras de ningu\u00e9m<br \/>\npela popula\u00e7\u00e3o matuta e de alargamento de suas posses, pelos<br \/>\nafazendados.<\/p>\n<p>Dada a fome de terra das massas rurais circunvizinhas, a regi\u00e3o povoou-se<br \/>\nrapidamente atrav\u00e9s da abertura de in\u00fameras clareiras na mata,<br \/>\nonde famlias de posseiros procuravam conquistar um nicho e organizar uma economia<br \/>\nindependente de granjeiros. A violenta rea\u00e7\u00e3o dos dois estados<br \/>\nem disputa diante dessa invas\u00e3o e, depois, a interven\u00e7\u00e3o<br \/>\narmada do governo federal lan\u00e7aram aquelas popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nna ilegalidade, criando condi\u00e7\u00f5es para o desencadeamento de<br \/>\numa irrup\u00e7\u00e3o subversiva de tipo semelhante \u00e0s que se<br \/>\nsucederam em outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Estudos desse surto de<br \/>\nmessianismo se encontram em Maria Isaura Pereira de Queiroz ( 1957 e 1965<br \/>\n) e Maur\u00edcio Vinhas de Queiroz ( 1966 ).<\/p>\n<p>Tal como aquelas, esse movimento se definia como monarquista, porque era<br \/>\nchamada republicana a ordem latifundi\u00e1ria que lhes queria impor a ferro<br \/>\ne fogo. Tal como aquelas, era tamb\u00e9m messi\u00e2nico, porque em seu<br \/>\nhorizonte cultural uma reforma da sociedade fundada na propriedade latifundi\u00e1ria<br \/>\ns\u00f3 podia ser concebida como uma reordena\u00e7\u00e3o do mundo<br \/>\nlegitimada em termos sagrados. O messianismo surge, aqui, como express\u00e3o<br \/>\ncultural de uma reordena\u00e7\u00e3o social em curso, atrav\u00e9s<br \/>\nda invas\u00e3o das terras.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o concreta devolve significa\u00e7\u00e3o e destino<br \/>\na velhas cren\u00e7as da religiosidade popular praticada desde sempre na<br \/>\nregi\u00e3o, mas que s\u00e3o chamadas agora a inspirar lideran\u00e7as<br \/>\nnovas para uma guerra santa destinada a promover uma reestrutura\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sociedade.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter subversivo do movimento \u00e9 imediatamente identificado<br \/>\npelos fazendeiros locais. \u00c9, em seguida, definido como tal pelos dois<br \/>\ncorpos de autoridades regionais, que, embora impedidos de exercer sua fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde legitimadores da apropria\u00e7\u00e3o de terras devolutas, viam como<br \/>\num abuso inadmiss\u00edvel os posseiros ocuparem as matas e nelas abrirem<br \/>\nseus ro\u00e7ados e organizarem suas formas de conv\u00edvio. Por fim,<br \/>\na invas\u00e3o de terras \u00e9 interpretada pela autoridade federal como<br \/>\nrevolucion\u00e1ria, porque convulsionava uma \u00e1rea enorme; porque<br \/>\ndefrontava posseiros com tropas estaduais em conflitos nos quais estas vinham<br \/>\nsendo derrotadas; porque se definia como movimento restaurador da monarquia<br \/>\ne, sobretudo, porque punha em causa a legitimidade da forma constitucional<br \/>\nde apropria\u00e7\u00e3o da terra.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es \u00e9 que se transfiguram e ganham sentido<br \/>\nrevolucion\u00e1rio os antigos cultos oficiados pelos &#8220;monges&#8221;<br \/>\ncaminheiros. Eram rezadores profissionais, n\u00e3o pertencentes a qualquer<br \/>\ncongrega\u00e7\u00e3o religiosa, que reuniam por onde passavam a gente<br \/>\nsimples para rezar ter\u00e7os e novenas e para difundir vers\u00f5es<br \/>\npopulares das cren\u00e7as cat\u00f3licas e das ti-adi\u00e7\u00f5es<br \/>\nb\u00edblicas mais dram\u00e1ticas. Especialmente as referentes a amea\u00e7as<br \/>\nde castigo e de cataclismos, ou \u00e0s esperan\u00e7as de salva\u00e7\u00e3o<br \/>\ncoletiva e de restaura\u00e7\u00e3o da idade do ouro.<\/p>\n<p>Uma vez povoadas as matas por posseiros matutos e por gringos acaboclados,<br \/>\ncriou-se um ambiente mais prop\u00edcio a essas andan\u00e7as de &#8220;monges&#8221;.<br \/>\nEm toda parte eles eram recebidos e ouvidos com devo\u00e7\u00e3o por<br \/>\numa popula\u00e7\u00e3o cujas cren\u00e7as exaltavam e que os via como<br \/>\nmilagreiros aptos a curar doentes incur\u00e1veis; sacerdotes habilitados<br \/>\na casar e a encomendar almas, a perdoar pecados e a prescrever os caminhos<br \/>\nda salva\u00e7\u00e3o; e como videntes capazes de prever o futuro.<\/p>\n<p>Esses &#8220;monges&#8221;, tornados conselheiros e guias dos posseiros, tanto<br \/>\nem assuntos religiosos como em qualquer outra mat\u00e9ria, foram seus l\u00edderes<br \/>\nquando os conflitos come\u00e7aram a eclodir. Sob sua lideran\u00e7a,<br \/>\na luta pela manuten\u00e7\u00e3o da posse contra uma ordem legal que os<br \/>\nqueria expropriar se transforma numa guerra santa que se desenvolve, simultaneamente,<br \/>\nem duas esferas. Primeiro, a dos combates contra as tropas estaduais e, mais<br \/>\ntarde, contra o Ex\u00e9rcito nacional. Segundo, o esfor\u00e7o de reordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sociedade segundo valores hauridos em profundos estratos da tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\npopular, respeitosa da propriedade dos fi\u00e9is que a possu\u00edam<br \/>\nanteriormente, mas afirmat\u00f3ria do direito de cada um aos frutos de<br \/>\nseu trabalho, tendente a uma economia comunit\u00e1ria regulada por uma<br \/>\norganiza\u00e7\u00e3o de trabalho que prescrevia as atribui\u00e7\u00f5es<br \/>\nde cada pessoa e por um sistema redistributivo que a todos assegurava os bens<br \/>\nessenciais.<\/p>\n<p>Sob a tens\u00e3o da luta, os matutos liderados pelos &#8220;monges&#8221;<br \/>\norganizam dentro dessas linhas toda a vida social, desde a guerra ao trabalho<br \/>\ne ao culto, autodisciplinando-se atrav\u00e9s de uma r\u00edgida hierarquia<br \/>\nguerreiro-sacerdotal e impregnando todas as atividades de um redentorismo<br \/>\nque tudo submete ao ju\u00edzo do &#8220;monge&#8221;, \u00fanica autoridade<br \/>\ncapaz de estabelecer os caminhos da salva\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Diversas pessoas puderam encarnar o papel de &#8220;monges&#8221; antes e<br \/>\ndurante a revolta messi\u00e2nica do Contestado, porque eles eram, na verdade,<br \/>\nexpress\u00f5es das velhas tradi\u00e7\u00f5es populares do &#8220;esperado&#8221;,<br \/>\nque viria para reordenar o mundo, acabando com a injusti\u00e7a, com a pobreza,<br \/>\ncom a enfermidade e com a tristeza. No curso da luta, os n\u00facleos conflagrados<br \/>\norganizaram-se em &#8220;quadros santos&#8221; que procuravam ser reprodu\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo para\u00edso perdido e antecipa\u00e7\u00f5es do para\u00edso esperado.<\/p>\n<p>Nesses n\u00facleos, que aglutinavam a popula\u00e7\u00e3o antes dispersa<br \/>\npelos latif\u00fandios ou aglomerada nas rancharias miser\u00e1veis, desenvolveu-se<br \/>\num conv\u00edvio social intenso, remarcadamente igualit\u00e1rio, e implantou-se<br \/>\numa economia natural em que o com\u00e9rcio estava proscrito, exceto para<br \/>\na aquisi\u00e7\u00e3o de bens fora dos n\u00facleos sublevados. Neles<br \/>\nsejuntaram milhares de combatentes (entre 5 e 12 mil), armados de fac\u00f5es,<br \/>\nde espingardas de ca\u00e7a e, mais tarde, de fuzis que conseguiam tomar<br \/>\nem combate.<\/p>\n<p>Lutavam e trabalhavam com o el\u00e3 de quem cuida, a um tem o, de defender<br \/>\numa vida terrena que se lhes afigura como o para\u00edso terrestre e de<br \/>\nzelar por sua salva\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>Efetivamente, os matutos tinham o que defender; j\u00e1 n\u00e3o apenas<br \/>\na terra de que se apossaram, mas o modo de vida que haviam criado &#8211; apesar<br \/>\nda guerra e em raz\u00e3o dela &#8211; que lhes assegurava oportunidades para<br \/>\no lazer, para os cultos regidos por comandos de reza e para festas religiosas<br \/>\nde gosto popular, como as prociss\u00f5es, os casamentos e os batizados<br \/>\nque se sucediam quase diariamente. Apesar de proibidos os bailes e o consumo<br \/>\nde \u00e1lcool, e perseguidos o adult\u00e9rio e a prostitui\u00e7\u00e3o,<br \/>\na vida nesses &#8220;quadros sagrados&#8221; era alegre e festiva como jamais<br \/>\nfora para essa popula\u00e7\u00e3o emergente do latif\u00fandio, onde<br \/>\nvivia isolada, ou das rancharias miser\u00e1veis superdependentes dos latif\u00fandios<br \/>\ncircundantes. Seu encanto maior estava, talvez, nas oportunidades de conv\u00edvio<br \/>\nsocial intenso, presidido por ideais igualit\u00e1rios e na sua estrutura\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o mercantil, que permitia a cada n\u00facleo devotar-se coletivamente<br \/>\nao preenchimento de suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Em contraste com a sua situa\u00e7\u00e3o anterior, de camada subalterna<br \/>\nsubmetida ao regime de trabalho nas fazendas, que apenas lhe possibilitava<br \/>\nperpetuar suas condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis de exist\u00eancia,<br \/>\na nova estrutura, assegurando a todos o acesso \u00e0 terra, incentivando<br \/>\na organiza\u00e7\u00e3o coletiva do trabalho e regulando-se por crit\u00e9rios<br \/>\ndistributivos igualitaristas, lhes garantia uma fartura alimentar e uma alegria<br \/>\nde viver at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas.<\/p>\n<p>Por tudo isso, a erradica\u00e7\u00e3o dos &#8220;quadros santos&#8221;<br \/>\nintegrados principalmente por matutos e por alguns imigrantes alem\u00e3es,<br \/>\npoloneses, italianos e seus descendentes mais empobrecidos foi uma das campanhas<br \/>\nmais dif\u00edceis do ex\u00e9rcito brasileiro, que teve de mobilizar<br \/>\nmilhares de homens, arm\u00e1-los com artilharia pesada para fazer frente<br \/>\n\u00e0 guerrilha dos &#8220;fan\u00e1ticos&#8221;. Estes s\u00f3 foram<br \/>\nvencidos depois de tr\u00eas anos de combate em que cerca de 3500 pessoas<br \/>\nforam mortas. A esse custo se restaurou a ordem fazendeira, compelindo os<br \/>\nmatutos a aceitar o lugar e o papel que lhes s\u00e3o prescritos dentro<br \/>\ndela.<\/p>\n<p>Ainda hoje, por\u00e9m, sobrevive nas camadas mais humildes da \u00e1rea<br \/>\nmatuta a cren\u00e7a da volta do &#8220;monge&#8221;, que reimplantar\u00e1<br \/>\na fartura e a alegria, far\u00e1 os velhos, jovens; os feios, bonitos; e<br \/>\ntornar\u00e1 Deus vis\u00edvel a todos. Em 1954, um embri\u00e3o messi\u00e2nico<br \/>\nativou-se na regi\u00e3o, reunindo diversas fam\u00edlias matutas em cultos<br \/>\npela volta do &#8220;monge&#8221; e obrigando as autoridades a intervir mais<br \/>\numa vez, para faz\u00ea-los aceitar seu destino.<\/p>\n<p>Levantes semelhantes se deram onde, outra vez, a terra latifundi\u00e1ria<br \/>\nse esgar\u00e7ou, criando uma rede contest\u00e1vel entre Minas e Esp\u00edrito<br \/>\nSanto. Ali, tamb\u00e9m, os sem-terra acorreram, reivindicando seu p\u00e9-de-ch\u00e3o,<br \/>\nmas antes que crescesse como novo Contestado, se viram dispersados. Epis\u00f3dio<br \/>\nsemelhante se d\u00e1 com os Mucker no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>A luta desses matutos, como a de Canudos, a Cabanagem, a dos Muckers, e<br \/>\ncentenas de outras, t\u00eam um tra\u00e7o comum que cumpre assinalar.<br \/>\nTodas reivindicam a terra em que vivem e de que tiram sua subsist\u00eancia.<br \/>\nMas todos demonstram que s\u00e3o perfeitamente capazes de, sobre essa mesma<br \/>\nbase, criar, sen\u00e3o a prosperidade, a fartura e uma vida social alegre<br \/>\ne satisfat\u00f3ria. O outro tra\u00e7o a ressaltar \u00e9 a capacidade<br \/>\nda ordem vigente, armada de pol\u00edcias e ex\u00e9rcitos, de calar todos<br \/>\nesses clamores para reimplantar a tristeza da ordem latifundi\u00e1ria fam\u00e9lica<br \/>\ne degradante.<\/p>\n<p>A terceira configura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cultural da regi\u00e3o<br \/>\nsulina \u00e9 constitu\u00edda pelos brasileiros de origem germ\u00e2nica,<br \/>\nitaliana, polonesa, japonesa, libanesa e v\u00e1rias outras, introduzidos<br \/>\ncomo imigrantes do s\u00e9culo passado, principalmente nas suas \u00faltimas<br \/>\nd\u00e9cadas. Embora brasileiros como os demais, porque n\u00e3o saberiam<br \/>\nviver nas p\u00e1trias de seus pais e av\u00f3s e porque s\u00e3o brasileiras<br \/>\nas suas lealdades fundamentais, configuram uma parcela diferenciada da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\npor sua forma de participa\u00e7\u00e3o na sociedade nacional. Distingue-os<br \/>\no biling\u00fcismo, com o emprego de um idioma estrangeiro como l\u00edngua<br \/>\ndom\u00e9stica, alguns h\u00e1bitos que ainda os vinculam a suas matrizes<br \/>\neurop\u00e9ias e, sobretudo, um modo de vida rural fundado na pequena propriedade<br \/>\npolicultora, intensivamente explorada, e um n\u00edvel educacional mais<br \/>\nalto do que o da popula\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, iniciada no per\u00edodo<br \/>\nimperial, respondia a uma atitude comum da oligarquia das na\u00e7\u00f5es<br \/>\nlatinoamericanas, al\u00e7ada ao poder com a independ\u00eancia: sua aliena\u00e7\u00e3o<br \/>\ncultural que a fazia ver a sua pr\u00f3pria gente com olhos europeus. Como<br \/>\nestes, olhavam suspeitosos os negros e mesti\u00e7os que formavam a maior<br \/>\nparte da popula\u00e7\u00e3o e explicavam o atraso prevalecente no pa\u00eds<br \/>\npela inferioridade racial dos povos de cor. Sob a press\u00e3o desse complexo<br \/>\nde alta identifica\u00e7\u00e3o &#8220;denigrante&#8221; puseram-se a campo<br \/>\npara substituir aos seus pr\u00f3prios povos, radicalmente se pratic\u00e1vel,<br \/>\npor gente eugenicamente melhor. E essa seria a popula\u00e7\u00e3o alva<br \/>\nda Europa Central, que se transladava, ent\u00e3o, em grandes contingentes<br \/>\npara a Am\u00e9rica do Norte, assegurando o seu progresso. O empreendimento<br \/>\ncolonizador foi um dos objetivos mais persistentemente perseguido pelo governo<br \/>\nimperial, que nele investiu enormes recursos, assegurando aos colonos o pagamento<br \/>\nde transporte, facilidades de instala\u00e7\u00e3o e de manuten\u00e7\u00e3o<br \/>\ne concess\u00f5es de terras.<\/p>\n<p>Condi\u00e7\u00f5es semelhantes jamais foram oferecidas a popula\u00e7\u00f5es<br \/>\ncaipiras brasileiras, que, ent\u00e3o, formavam grandes massas marginalizadas<br \/>\npelo latif\u00fandio.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o gringa resultante do empreendimento da coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\nbranqueadora ocupa, hoje, uma vasta ilha nos centros dos estados do Paran\u00e1,<br \/>\nSanta Catarina e Rio Grande do Sul, que se vai alastrando pelas terras vizinhas,<br \/>\nal\u00e9m de pequenos enclaves enquistados em outras regi\u00f5es, como<br \/>\nn\u00facleos do Esp\u00edrito Santo e de S\u00e3o Paulo. Na faixa leste,<br \/>\nse defrontam com as velhas \u00e1reas litor\u00e2neas de coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\na\u00e7oriana. A oeste e ao sul, com as zonas de pastoreio ga\u00facho.<br \/>\nInfluenciam e s\u00e3o influenciados pelas duas \u00e1reas cont\u00edguas,<br \/>\ndando e recebendo contribui\u00e7\u00f5es culturais adaptativas, mas raramente<br \/>\nseus descendentes se fazem matutos ou ga\u00fachos. Exceto aqueles que,<br \/>\nvendo-se marginalizados, participam, como vimos, de uma cultura de pobreza<br \/>\ncomum a toda a regi\u00e3o &#8211; e quase ao Brasil inteiro &#8211; pela uniformidade<br \/>\nmesma da sua regress\u00e3o \u00e0s formas mais primitivas e singelas<br \/>\nde subsist\u00eancia e de vida.<\/p>\n<p>O bols\u00e3o cultural gringo, formado por imigrantes oriundos de diferentes<br \/>\netnias europ\u00e9ias e asi\u00e1ticas, exibe uma grande uniformidade<br \/>\nsocial no seu modo de vida, na paisagem humana que criou. Colorido, embora,<br \/>\npor diferencia\u00e7\u00f5es que permitem distinguir as sub\u00e1reas<br \/>\nalem\u00e3s das italianas, ou as polonesas das russas, e todas das japonesas.<br \/>\nAs uniformidades sociais decorrem essencialmente da forma de constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas col\u00f4nias, pela concess\u00e3o de terras em pequenas propriedades<br \/>\nde explora\u00e7\u00e3o familiar e pela habilita\u00e7\u00e3o prof<br \/>\nssional que trouxeram os imigrantes para a pr\u00e1tica de uma agricultura<br \/>\nintensiva de granjeiros. As culturais prov\u00eam da segrega\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que viveram nas primeiras d\u00e9cadas, como quistos implantados numa<br \/>\nsociedade profundamente diferente, com a qual n\u00e3o mantinham conv\u00edvio.<br \/>\nRepresentou, tamb\u00e9m, um papel saliente na forma\u00e7\u00e3o da<br \/>\nilha gringa a circunst\u00e2ncia de que as col\u00f4nias sulinas n\u00e3o<br \/>\nconfinavam com \u00e1reas de latif\u00fandio pastoril ou agr\u00e1rio,<br \/>\nescapando, assim, do poderio e da arbitrariedade dos senhores de terra.<\/p>\n<p>Cada grupo pode, por isso, organizar autonomamente sua pr\u00f3pria vida,<br \/>\ninstalar suas escolas e igrejas, constituir suas autoridades, formando as<br \/>\nprimeiras gera\u00e7\u00f5es ainda no esp\u00edrito e segundo as tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos pais e av\u00f3s imigrados. Vivendo ilhados, o pr\u00f3prio dom\u00ednio<br \/>\nda l\u00edngua portuguesa s\u00f3 seria alcan\u00e7ado muito mais tarde,<br \/>\ncomo meio de comunica\u00e7\u00e3o com os brasileiros e entre os pr\u00f3prios<br \/>\ncolonos de diferentes idiomas.<\/p>\n<p>Tens\u00f5es herdadas do mundo europeu tamb\u00e9m opunham essas etnias<br \/>\numas \u00e0s outras, por discrimina\u00e7\u00f5es que contribu\u00edam<br \/>\npara segreg\u00e1-las ainda mais. Os n\u00facleos coloniais japoneses,<br \/>\ninstalados fora da \u00e1rea sulina, concentrando-se muitas vezes nas proximidades<br \/>\nde grandes centros urbanos como produtores de legumes, tiveram envolvimento<br \/>\nparalelo, por\u00e9m ainda mais marcado pela auto-segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira gera\u00e7\u00e3o de imigrantes enfrentou a dura tarefa de<br \/>\nsubsistir enquanto abriam clareiras na mata selvagem, enfrentando, por vezes,<br \/>\n\u00edndios hostis, de construir suas casas e estradas, vivendo uma exist\u00eancia<br \/>\ntrabalhosa e severa. Sua luta foi ainda mais dificultada pela inexist\u00eancia<br \/>\nde um mercado regular para a sua produ\u00e7\u00e3o. A grande tarefa inicial<br \/>\nque cumpriram foi definir as atividades produtivas com que melhor poderiam<br \/>\nintegrar-se na economia nacional. Somente a pen\u00faria que enfrentava<br \/>\no campesinato de seus pa\u00edses de origem, desarraigados do campo pelos<br \/>\nefeitos reflexos da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial ou envolvidos nas crises<br \/>\ndo per\u00edodo de consolida\u00e7\u00e3o das nacionalidades europ\u00e9ias,<br \/>\nexplica a persist\u00eancia com que enfrentaram t\u00e3o dif\u00edceis<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es. Aqui, por\u00e9m, eram propriet\u00e1rios, \u00e9<br \/>\nverdade que de terras virgens e de quase nenhum valor, mas terras f\u00e9rteis<br \/>\nque eles confiavam valorizar pelo pr\u00f3prio esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>As gera\u00e7\u00f5es seguintes, benefici\u00e1rias dos resultados<br \/>\ndesses sacrif\u00edcios pioneiros, encontraram condi\u00e7\u00f5es mais<br \/>\nprop\u00edcias.<\/p>\n<p>J\u00e1 eram filhos da terra, afeitos \u00e0s tarefas que tinham que<br \/>\nexercer. Seu problema come\u00e7a a ser o da disponibilidade de terras para<br \/>\nabrir novas clareiras para as fam\u00edlias que se multiplicavam. Em princ\u00edpio,<br \/>\npor\u00e9m, toda a \u00e1rea circundante das col\u00f4nias, constitu\u00eddas<br \/>\nde terras devolutas ou acess\u00edveis a baixo pre\u00e7o, operava com<br \/>\numa fronteira aberta \u00e0 sua expans\u00e3o.<\/p>\n<p>No per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o entre a fase pioneira e a quadra<br \/>\nde prosperidade, algumas popula\u00e7\u00f5es gringas mais isoladas entraram<br \/>\ntamb\u00e9m em processo de anomia de car\u00e1ter messi\u00e2nico, mas<br \/>\ndiferente dos movimentos similares ocorridos no pa\u00eds por sua inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nb\u00edblico-protestante e por seus conte\u00fados culturais oriundos<br \/>\nde tradi\u00e7\u00f5es populares alem\u00e3s. Tal foi o que sucedeu<br \/>\nem 1872 com a erup\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica dos Mucker (santarr\u00f5es)<br \/>\ndo rio dos Sinos, a 35 quil\u00f4metros de Porto Alegre, a capital provincial<br \/>\ndo Rio Grande do Sul, liderada principalmente por uma mulher-profeta que tamb\u00e9m<br \/>\norganizou uma comunidade igualit\u00e1ria e fan\u00e1tica. Em seu per\u00edodo<br \/>\ncr\u00edtico, esse movimento revivalista ocasionou uma sucess\u00e3o de<br \/>\ncrimes e assassinatos e s\u00f3 foi erradi- cado atrav\u00e9s da chacina<br \/>\nda maioria dos crentes.<\/p>\n<p>Apesar do isolamento, sabiam bem que aqui teriam de viver, tanto mudara<br \/>\no seu pa\u00eds de origem e tanto haviam mudado eles pr\u00f3prios, afastando-se<br \/>\ndos padr\u00f5es europeus, nos h\u00e1bitos, na linguagem e nas aspira\u00e7\u00f5es.<br \/>\nOs novos contingentes rec\u00e9m-chegados serviam para contrastar o seu<br \/>\nsotaque e a sua ignor\u00e2ncia do mundo cultural long\u00ednq\u00fco de<br \/>\nque se desgarraram suas fam\u00edlias. Mas o conv\u00edvio simult\u00e2neo<br \/>\ncom \u00edndios, matutos e ga\u00fachos recordava-lhes, tamb\u00e9m,<br \/>\nquanto se diferenciavam dos antigos ocupantes da terra, por cujos modos de<br \/>\nvida miser\u00e1veis n\u00e3o podiam sentir qualquer atra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEsses eram, de um lado, seus patr\u00edcios e, de outro, os brasileiros<br \/>\nque conheciam. Eles mesmos sentiam constituir uma terceira entidade, irredut\u00edvel<br \/>\na qualquer daquelas formas.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o de marginalidade \u00e9tnica dos n\u00facleos<br \/>\nde coloniza\u00e7\u00e3o, principalmente dos alem\u00e3es, japoneses<br \/>\ne italianos, foi explorada antes e durante a \u00faltima guerra mundial<br \/>\npelos governos dos seus pa\u00edses de origem, criando graves conflitos<br \/>\nde lealdade \u00e9tnico-social. Com esse objetivo, os movimentos nazista<br \/>\ne fascista bem como o governo japon\u00eas montaram aparatosos servi\u00e7os<br \/>\nde propaganda e estimularam o surgimento de organiza\u00e7\u00f5es terroristas<br \/>\ndedicadas a uma intensa doutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, nacionalista<br \/>\ne racista.<\/p>\n<p>Criou-se, assim, uma situa\u00e7\u00e3o de trauma que gerou s\u00e9rios<br \/>\natritos entre os luso- brasileiros, de um lado, e os gringo-brasileiros ou<br \/>\nnipo-brasileiros, de outro. As condi\u00e7\u00f5es de relativa segrega\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que se desenvolveram esses n\u00facleos, seu conservadorismo cultural<br \/>\ne ling\u00fc\u00edstico facilitavam essa a\u00e7\u00e3o dissociativa.<\/p>\n<p>Para fazer-Ihes frente foi necess\u00e1ria uma maci\u00e7a a\u00e7\u00e3o<br \/>\noficial nacionalizadora que &#8211; como sempre ocorre nesses casos \u2013 agiu<br \/>\nmuitas vezes desastradamente, agravando ainda mais os conflitos de lealdade.<br \/>\nCumpriu, por\u00e9m, uma fun\u00e7\u00e3o assimiladora decisiva, compelindo<br \/>\no ensino da l\u00edngua vern\u00e1cula nas escolas, quebrando o isolamento<br \/>\ndas comunidades e recrutando os jovens gringos e nipo-brasileiros para servir<br \/>\nnas for\u00e7as armadas. Afastada para grandes centros urbanos, essa juventude<br \/>\nalargou seu horizonte cultural e sua vis\u00e3o do pr\u00f3prio Brasil,<br \/>\ncontribuindo, no seu regresso, para facilitar uma identifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional que j\u00e1 se tornava imperativa.<\/p>\n<p>As diversas \u00e1reas de coloniza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia formam,<br \/>\nhoje, uma regi\u00e3o com f sionomia pr\u00f3pria aglutinada em vilas<br \/>\npela concentra\u00e7\u00e3o de moradores em torno do com\u00e9rcio,<br \/>\nda igreja e da escola. Delas partem estradas inteiramente novas nas paisagens<br \/>\nbrasileiras, correndo entre as cabe\u00e7as dos lotes, densamente habitadas<br \/>\nde um e de outro lado e, por isso mesmo, cuidadosamente mantidas. Essas vilas<br \/>\nrurais formam redes encabe\u00e7adas por cidades cuja produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nse diversificou e se ajustou \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do mercado,<br \/>\nsomando atividades industriais de base artesanal \u00e0s agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Implantou-se, assim, uma economia regional pr\u00f3spera, numa paisagem<br \/>\ncultural europeizada dentro da relativa uniformidade luso-brasileira do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os n\u00facleos gringo-brasileiros tornaram-se importantes centros de<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o de vinho, mel, trigo, batatas, cevada, l\u00fapulo,<br \/>\nlegumes e frutas europ\u00e9ias, al\u00e9m do milho para a engorda de<br \/>\nporcos, e da mandioca para a produ\u00e7\u00e3o de f\u00e9cula. Acrescentaram-<br \/>\nse, assim, \u00e0 economia nacional os cultivos das zonas temperadas, aprimoraram<br \/>\nvelhas lavouras e, sobretudo, demonstraram o alto padr\u00e3o de vida que<br \/>\npodem fruir n\u00facleos de pequenos propriet\u00e1rios quando habilitados<br \/>\na cultivar intensamente a terra e a beneficiar sua produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nantes de comercializ\u00e1-la. Consideradas as \u00e1reas ocupadas, essa<br \/>\neconomia granjeira permite manter uma popula\u00e7\u00e3o muitas vezes<br \/>\nmaior que a das zonas pastoris e mesmo das zonas agr\u00edcolas fundadas<br \/>\nno latif\u00fandio e assegurar-lhe um padr\u00e3o de vida tamb\u00e9m<br \/>\nmuito alto.<\/p>\n<p>Todavia, as col\u00f4nias, em sua expans\u00e3o, acabaram esbarrando<br \/>\ncom o mundo do latif\u00fandio, vendo esgotar-se, desse modo, sua fronteira<br \/>\nm\u00f3vel. N\u00e3o tendo como intensificar a produ\u00e7\u00e3o,<br \/>\nentraram a subdividir antieconomicamente os lotes, abrigando duas e depois<br \/>\nquatro familias em \u00e1reas originalmente reservadas para uma apenas.<br \/>\n\u00c9 o minif\u00fandio que hoje persegue a popula\u00e7\u00e3o gringo-brasileira<br \/>\ntanto como o latif\u00fandio que mant\u00e9m o cerco \u00e0 sua expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Em virtude desse entrave latifundi\u00e1rio, nos pr\u00f3prios n\u00facleos<br \/>\ncoloniais que eram a regi\u00e3o agroecon\u00f4mica mais pr\u00f3spera<br \/>\ndo pa\u00eds, surgiu tamb\u00e9m uma popula\u00e7\u00e3o marginal.<br \/>\nS\u00e3o os chamados &#8220;caboclos&#8221; da regi\u00e3o colonial sulina.<br \/>\nGringos acaboclados que, n\u00e3o possuindo terras, regridem tamb\u00e9m<br \/>\na uma cultura da pobreza, confundindo- se com os matutos de origem a\u00e7oriana<br \/>\ne com os ga\u00fachos das rancharias, na disputa da terra para trabalhar<br \/>\nem parceria.<\/p>\n<p>Seus h\u00e1bitos de trabalho e de lazer, sua dieta, as palho\u00e7as<br \/>\nque lhes servem de moradia, a pen\u00faria em que vivem confundidos, os<br \/>\ntornam uma camada s\u00f3: os marginais da regi\u00e3o sulina.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o se faz, hoje, t\u00e3o evidente que colono,<br \/>\nna regi\u00e3o gringa, \u00e9 pequeno propriet\u00e1rio e caboclo \u00e9<br \/>\no sem-terra. Em cada categoria confundem-se brasileiros de extra\u00e7\u00e3o<br \/>\nga\u00facha ou a\u00e7oriana e brasileiros de extra\u00e7\u00e3o gringa,<br \/>\ndisting\u00fc\u00edveis essencialmente por sua posi\u00e7\u00e3o com<br \/>\nrespeito \u00e0 propriedade das terras que cultiva.<\/p>\n<p>Essa camada de gringos acaboclados, assim como os demais contingentes marginais<br \/>\ndo pa\u00eds, constitui uma reserva de m\u00e3o-de-obra que opera como<br \/>\numa classe infrabaixa, posta no campo abaixo dos assalariados agr\u00edcolas<br \/>\ne, nas cidades, abaixo dos integrados na for\u00e7a de trabalho com empregos<br \/>\npermanentes. A exist\u00eancia desse estrato social, em que todos est\u00e3o<br \/>\namea\u00e7ados de mergulhar se perderem sua posi\u00e7\u00e3o ocupacional,<br \/>\ntem dois efeitos sociais grav\u00edssimos. Funciona como redutor da combatividade<br \/>\ndos camponeses e oper\u00e1rios pela melhoria de suas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vida e como um indutor do conformismo, pela verifica\u00e7\u00e3o de<br \/>\nque mesmo o trabalhador humilde tem ainda o que perder, porque pode cair numa<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o ainda mais degradada. Constituindo, por outro lado,<br \/>\npara os marginalizados, o patamar inferior da mis\u00e9ria, j\u00e1 incomprim\u00edvel,<br \/>\nopera como uma incita\u00e7\u00e3o \u00e0 rebeldia revolucion\u00e1ria,<br \/>\nj\u00e1 que somente uma reordena\u00e7\u00e3o social profunda pode abrir-Ihes<br \/>\nmelhores perspectivas de vida.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, surgiu na zona colonial um desenvolvimento industrial<br \/>\nintensivo, originado no artesanato familiar, que j\u00e1 alcan\u00e7ou<br \/>\na estatura de uma rede de instala\u00e7\u00f5es fabris de n\u00edvel<br \/>\nm\u00e9dio, dedicada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o metal\u00fargica,<br \/>\n\u00e0 tecelagem e \u00e0 ind\u00fastria qu\u00edmica, de couros,<br \/>\ncer\u00e2mica e vidreira. Algumas das antigas vilas coloniais gringas transformaram-se,<br \/>\nnesse processo, em importantes centros industriais regionais, como Caxias,<br \/>\nS\u00e3o Leopoldo, Novo Hamburgo, Blumenau, Joinville e Itaja\u00ed. Os<br \/>\nantigos colonos, transformados em empres\u00e1rios, n\u00e3o se circunscrevem,<br \/>\npor\u00e9m, \u00e0 sua \u00e1rea original.<\/p>\n<p>Instalam suas ind\u00fastrias tamb\u00e9m nas capitais regionais, fazendo-se<br \/>\nos principais empres\u00e1rios modernos do sul do pa\u00eds. Esse desenvolvimento<br \/>\nindustrial ensejou a integra\u00e7\u00e3o na for\u00e7a de trabalho,<br \/>\ncomo oper\u00e1rios, de ponder\u00e1veis contingentes das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nmarginalizadas, tanto gringas quanto ga\u00fachas e matutas.<\/p>\n<p>Esse salto da agricultura granjeira \u00e0 ind\u00fastria artesanal<br \/>\ne, depois, \u00e0 fabril, foi possibilitado pelo conhecimento por parte<br \/>\ndos colonos de t\u00e9cnicas produtivas europ\u00e9ias singelas por\u00e9m<br \/>\nmais complexas que as dominadas pelos outros n\u00facleos brasileiros. Mas<br \/>\nele se explica, principalmente, pelo biling\u00fcismo, que lhes dava acesso<br \/>\na melhores fontes de informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e possibilitava<br \/>\ncontatos europeus que permitiram importar equipamentos e pessoal qualificado,<br \/>\nquando necess\u00e1rio, e obter assist\u00eancia na implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne expans\u00e3o de suas ind\u00fastrias. \u00c9 de assinalar que esse<br \/>\nsurto industrial ocorreu no mesmo per\u00edodo em que um grande parque t\u00eaxtil<br \/>\nimportado para regi\u00f5es mais atrasadas do pa\u00eds (Minas Gerais)<br \/>\nobsolescia \u00e0 m\u00edngua de capacidade de renova\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e9cnica e de falta de esp\u00edrito empresarial moderno.<\/p>\n<p>O progresso social e econ\u00f4mico das \u00e1reas de coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ngringa e nipo-brasileira, bem como sua simult\u00e2nea integra\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos mercados nacionais como produtores e consumidores, ensejou novos horizontes<br \/>\nde rela\u00e7\u00f5es humanas e melhores condi\u00e7\u00f5es de integra\u00e7\u00e3o<br \/>\ncultural. J\u00e1, agora, a imagem do brasileiro, figurada pelo gringo ou<br \/>\npelo nissei, n\u00e3o se confunde com as popula\u00e7\u00f5es iziarginalizadas,<br \/>\nnem com a oligarquia latifundi\u00e1ria, mas com as popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nurbanas de vida moderna e progressista, em que eles se confundem como trabalhadores.<br \/>\nSimultaneamente, persuadiram-se de que j\u00e1 n\u00e3o pertencem ao mundo<br \/>\ncultural de seus antepassados, porquanto este tamb\u00e9m mudou, tornando<br \/>\nirreal qualquer identifica\u00e7\u00e3o \u00e9tnica n\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Nessas novas situa\u00e7\u00f5es de contato e \u00e0 luz dessa nova<br \/>\ncompreens\u00e3o, progrediu a auto-identifica\u00e7\u00e3o dos descendentes<br \/>\nde colonos como brasileiros, diferenciados em seu modo de participa\u00e7\u00e3o<br \/>\nna vida nacional, por sua origem e por sua experi\u00eancia, mas brasileiros<br \/>\nt\u00e3o-somente. Apenas os japoneses, por conduzirem uma marca racial diferenciadora,<br \/>\ntendiam a n\u00e3o ver reconhecida sua assimila\u00e7\u00e3o, mesmo<br \/>\nquando completada, como ocorre com aqueles que se urbanizaram. Essa caracter\u00edstica,<br \/>\nque foi penosa enquanto os brasileiros identificaram os japoneses como gente<br \/>\nmesti\u00e7a e atrasada, foi perdendo esse conte\u00fado em face ao prest\u00edgio<br \/>\ncrescente do Jap\u00e3o e do \u00eaxito cultural e econ\u00f4mico dos<br \/>\nnisseis brasileiros. Com efeito, eles constituem, provavelmente, o grupo imigrante<br \/>\nque mais rapidamente ascendeu e se modernizou.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro que o neto do campon\u00eas nip\u00f4nico seja<br \/>\nengenheiro, industrial ou executivo das grandes empresas japonesas instaladas<br \/>\nultimamente no pa\u00eds, e que sua neta seja professora ou doutora.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>IV &#8211; O DESTINO NACIONAL<\/h2>\n<h2>AS DORES DO PARTO<\/h2>\n<p>O Brasil foi regido primeiro como uma feitoria escravista, exoticamente<br \/>\ntropical, habitada por \u00edndios nativos e negros importados. Depois,<br \/>\ncomo um consulado, em que um povo sublusitano, mesti\u00e7ado de sangues<br \/>\nafros e \u00edndios, vivia o destino de um proletariado externo dentro de<br \/>\numa possess\u00e3o estrangeira. Os interesses e as aspira\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo seu povo jamais foram levados em conta, porque s\u00f3 se tinha aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ne zelo no atendimento dos requisitos de prosperidade da feitoria exportadora.<br \/>\nO que se estimulava era o aliciamento de mais \u00edndios trazidos dos matos<br \/>\nou a importa\u00e7\u00e3o de mais negros trazidos da \u00c1frica, para<br \/>\naumentar a for\u00e7a de trabalho, que era a fonte de produ\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos lucros da metr\u00f3pole. Nunca houve aqui um conceito de povo, englobando<br \/>\ntodos os trabalhadores e atribuindo-lhes direitos. Nem mesmo o direito elementar<br \/>\nde trabalhar para nutrir-se, vestir-se e morar.<\/p>\n<p>Essa primazia do lucro sobre a necessidade gera um sistema econ\u00f4mico<br \/>\nacionado por um ritmo acelerado de produ\u00e7\u00e3o do que o mercado<br \/>\nexterno dela exigia, com base numa for\u00e7a de trabalho afundada no atraso,<br \/>\nfam\u00e9lica, porque nenhuma aten\u00e7\u00e3o se dava \u00e0 produ\u00e7\u00e3o<br \/>\ne reprodu\u00e7\u00e3o das suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia, coexistiram sempre uma prosperidade empresarial,<br \/>\nque \u00e0s vezes chegava a ser a maior do mundo, e uma pen\u00faria generalizada<br \/>\nda popula\u00e7\u00e3o local. A sociedade era, de fato, um mero conglomerado<br \/>\nde gentes multi\u00e9tnicas, oriundas da Europa, da \u00c1frica ou nativos<br \/>\ndaqui mesmo, ativadas pela mais intensa mesti\u00e7agem, pelo genoc\u00eddio<br \/>\nmais brutal na dizima\u00e7\u00e3o dos povos tribais e pelo etnoc\u00eddio<br \/>\nradical na descaracteriza\u00e7\u00e3o cultural dos contingentes ind\u00edgenas<br \/>\ne africanos.<\/p>\n<p>Alcan\u00e7am-se, assim, paradoxalmente, condi\u00e7\u00f5es ideais<br \/>\npara a trans igura\u00e7\u00e3o \u00e9tnica pela desindianiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nfor\u00e7ada dos \u00edndios e pela desafricaniza\u00e7\u00e3o do<br \/>\nnegro, que, despojados de sua identidade, se v\u00eaem condenados a inventar<br \/>\numa nova etnicidade englobadora de todos eles. Assim \u00e9 que se foi fundindo<br \/>\numa crescente massa humana que perdera a cara: eram ex-\u00edndios desindianizados,<br \/>\ne sobretudo mesti\u00e7os, mulheres negras e \u00edndias, muit\u00edssimas,<br \/>\ncom uns pouqu\u00edssimos brancos europeus que nelas se multiplicaram prodigiosamente.<\/p>\n<p>O n\u00facleo luso, formado por muito poucos portugueses que aqui entraram<br \/>\nno primeiro s\u00e9culo, e por mulheres mais raras ainda, que aqui vieram<br \/>\nter, olhando a todos os mais desde a altura do seu preconceito de rein\u00f3is,<br \/>\nda for\u00e7a das suas armas, operacionava sua espolia\u00e7\u00e3o<br \/>\necon\u00f4mica, querendo impor a todos sua f\u00f4rma \u00e9tnica e sua<br \/>\ncara civilizat\u00f3ria. Ocorre, surpreendentemente, que esse povo nascente,<br \/>\nem lugar de uma Lusit\u00e2nia de ultramar, se configura como um povo em<br \/>\nsi, que luta desde ent\u00e3o para tomar consci\u00eancia de si mesmo e<br \/>\nrealizar suas potencialidades.<\/p>\n<p>Essa massa de mulatos e caboclos, lusitanizados pela l\u00edngua portuguesa<br \/>\nque falavam, pela vis\u00e3o do mundo, foram plasmando a etnia brasileira<br \/>\ne promovendo, simultaneamente, sua integra\u00e7\u00e3o, na forma de um<br \/>\nEstado-Na\u00e7\u00e3o. Estava j\u00e1 maduro quando recebe grandes<br \/>\ncontingentes de imigrantes europeus e japoneses, o que possibilitou ir assimilando<br \/>\ntodos eles na condi\u00e7\u00e3o de brasileiros gen\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Alguns, sobretudo japoneses, guardando marcas f\u00edsicas indisfar\u00e7\u00e1veis<br \/>\nde suas origens, t\u00eam, em conseq\u00fc\u00eancia, certa resist\u00eancia<br \/>\n\u00e0 plena assimila\u00e7\u00e3o ou ao reconhecimento dela quando<br \/>\nj\u00e1 est\u00e1 plenamente cumprida. N\u00e3o deixam nunca de ser<br \/>\nnisseis, porque trazem isso na cara. Outros imigrantes, como os italianos,<br \/>\nos alem\u00e3es, os espanh\u00f3is, apesar de brancarr\u00f5es e de<br \/>\nportarem nomes enrolados, foram mais facilmente assimilados, sendo sua condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde brasileiros plenamente aceita. Alguns at\u00e9 exacerbam, como o caso<br \/>\ndo general Geisel, brasileiro de primeira gera\u00e7\u00e3o, que nunca<br \/>\nentendeu por que os \u00edndios, aqui h\u00e1 tantos s\u00e9culos, teimam<br \/>\nem n\u00e3o ser brasileiros.<\/p>\n<p>Os \u00e1rabes s\u00e3o os imigrantes mais exitosos, integrando-se rapidamente<br \/>\nna vida brasileira, participando das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<br \/>\ne alcan\u00e7ando posi\u00e7\u00f5es de governo.<\/p>\n<p>At\u00e9 esquecem de onde vieram e de sua vida miser\u00e1vel em seus<br \/>\npa\u00edses de origem.<\/p>\n<p>Cegos para o fato de que seu \u00eaxito se explica, em grande parte, pelo<br \/>\ndesgarramento que faz com que eles vejam e atuem sobre a sociedade local armados<br \/>\nde preconceitos e incapazes de qualquer solidariedade, desligados de qualquer<br \/>\nlealdade, de obriga\u00e7\u00f5es familiares e sociais, para s\u00f3<br \/>\nse concentrarem no esfor\u00e7o de enricar.<\/p>\n<p>A atitude desses imigrantes \u00e9 freq\u00fcentemente de desprezo e incompreens\u00e3o.<br \/>\nSua tend\u00eancia \u00e9 considerar que os brasileiros pobres s\u00e3o<br \/>\nrespons\u00e1veis por sua pobreza e de que o fator racial \u00e9 que afunda<br \/>\nna mis\u00e9ria os descendentes dos \u00edndios e dos negros.<\/p>\n<p>Afirmam at\u00e9 que a religi\u00e3o cat\u00f3lica e a l\u00edngua<br \/>\nportuguesa contribu\u00edram para o subdesenvolvimento brasileiro. Ignoram<br \/>\nque aqui chegaram a partir de crises que os tornaram excedentes, descart\u00e1veis,<br \/>\nda m\u00e3o-de-obra de suas p\u00e1trias, e que aqui encontraram um imenso<br \/>\npa\u00eds j\u00e1 aberto, de fronteiras fixadas, regendo autonomamente<br \/>\nseu destino.<\/p>\n<p>Afortunadamente nenhum desses contingentes tem consist\u00eancia suficiente<br \/>\npara se apresentar como uma etnia disputante ao dom\u00ednio da sociedade<br \/>\nglobal, ou pretendentes a uma autonomia de destino.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que sucede com outros pa\u00edses, que guardam<br \/>\ndentro do seu corpo contingentes claramente opostos \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a macroetnia nacional, no Brasil, apesar da multiplicidade de origens<br \/>\nraciais e \u00e9tnicas da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se encontram<br \/>\ntais contingentes esquivos e separatistas dispostos a se organizar em quistos.<\/p>\n<p>O que desgarra e separa os brasileiros em componentes opostos \u00e9 a<br \/>\nestratifica\u00e7\u00e3o de classes. Mas \u00e9 ela que, do lado de<br \/>\nbaixo, unifica e articula, como brasileiros, as imensas massas predominantemente<br \/>\nescuras, muito mais solidariamente cimentadas como tal, que enquanto negro<br \/>\nretinto ou branco de cal, porque nenhum desses defeitos \u00e9 insan\u00e1vel.<br \/>\nO porta-voz mais brilhante dessa vis\u00e3o deformada de certos descendentes<br \/>\nde imigrantes foi o s\u00e1bio Hermann von Ihering. Na sua paix\u00e3o<br \/>\npor defender seus conterr\u00e2neos alem\u00e3es, que estavam em guerra<br \/>\ncontra os \u00edndios que viveram desde sempre nos ternt\u00f3rios doados<br \/>\npara colonizar, emprestou seu prest\u00edgio cient\u00edfico para duas<br \/>\ncampanhas. A de pedir ao governo o exterm\u00ednio dos \u00edndios como<br \/>\nrequisito do progresso e da civiliza\u00e7\u00e3o, e a de acusar a gente<br \/>\nbrasileira, que tinha feito esse pa\u00eds que o abrigava, como incapaz<br \/>\nde qualquer empreendimento.<\/p>\n<p>&#8220;Os actuaes \u00edndios do Estado de S. Paulo n\u00e3o representam<br \/>\num elemento de trabalho e de progresso. Como tambem nos outros Estados do<br \/>\nBrazil, n\u00e3o se p\u00f3de esperar trabalho s\u00e9rio e continuado<br \/>\ndos \u00edndios civilizados e como os Caingangs selvagens s\u00e3o um<br \/>\nimpecilio para a coloniza\u00e7\u00e3o das regi\u00f5es do sert\u00e3o<br \/>\nque habitam, parece que n\u00e3o ha outro meio, de que se possa lan\u00e7ar<br \/>\nm\u00e3o, sen\u00e3o o seu exterminio.<\/p>\n<p>A convers\u00e3o dos indios n\u00e3o tem dado resultado satisfactorio;<br \/>\naquelles indios que se uniram aos portuguezes immigrados, s\u00f3 deixaram<br \/>\numa influencia malefica nos habitos da popula\u00e7\u00e3o rural. \u00c9<br \/>\nminha convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 devido essencialmente a essas<br \/>\ncircunst\u00e2ncias, que o Estado de S. Paulo \u00e9 obrigado a introduzir<br \/>\nmilhares de immigrantes, pois que n\u00e3o se p\u00f3de contar, de modo<br \/>\nefficaz e seguro, com os servi\u00e7os dessa popula\u00e7\u00e3o indigena,<br \/>\npara os trabalhos que a lavoura exige (Ihering 1907:215).&#8221; Outros int\u00e9rpretes<br \/>\nde nossas caracter\u00edsticas nacionais v\u00eaem os mais variados defeitos<br \/>\ne qualidades aos quais atribuem valor causal. Um exemplo nos basta. Para S\u00e9rgio<br \/>\nBuarque de Holanda seriam caracter\u00edsticas nossas, herdadas dos iberos,<br \/>\na sobranceria hisp\u00e2nica, o desleixo e a plasticidade lusitanas, bem<br \/>\ncomo o esp\u00edrito aventureiro e o apre\u00e7o \u00e0 lealdade de<br \/>\nuns e outros e, ainda, seu gosto maior pelo \u00f3cio do que pelo neg\u00f3cio.<br \/>\nDa mistura de todos esses ingredientes, resultaria uma certa frouxid\u00e3o<br \/>\ne anarquismo, a falta de coes\u00e3o, a desordem, a indisciplina e a indol\u00eancia.<br \/>\nMas derivariam delas, tamb\u00e9m, certo pendor para o mandonismo, para<br \/>\no autoritarismo e para a tirania.<\/p>\n<p>Como quase tudo isso s\u00e3o defeitos, devemos convir que somos um caso<br \/>\nfeio, tamanhas seriam as car\u00eancias de que padecemos. Seria assim? Temo<br \/>\nmuito que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Muito pior para n\u00f3s teria sido, talvez, e S\u00e9rgio o reconhece,<br \/>\no contr\u00e1rio de nossos defeitos, tais como, o servilismo, a humildade,<br \/>\na rigidez, o esp\u00edrito de ordem, o sentido de dever, o gosto pela rotina,<br \/>\na gravidade, a sisudez. Elas bem poderiam nos ser ainda mais nefastas porque<br \/>\nnos teriam tirado a criatividade do aventureiro, a adaptabilidade de quem<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 r\u00edgido mas flex\u00edvel, a vitalidade de quem<br \/>\nenfrenta, ousado, azares e fortunas, a originalidade dos indisciplinados.<\/p>\n<p>Fala-se muito, tamb\u00e9m, da pregui\u00e7a brasileira, atribu\u00edda<br \/>\ntanto ao \u00edndio indolente, como ao negro fuj\u00e3o e at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nclasses dominantes viciosas. Tudo isto \u00e9 duvidoso demais frente ao<br \/>\nfato do que aqui se fez. E se fez muito, como a constru\u00e7\u00e3o de<br \/>\ntoda uma civiliza\u00e7\u00e3o urbana nos s\u00e9culos de vida colonial,<br \/>\nincomparavelmente mais pujante e mais brilhante do que aquilo que se verificou<br \/>\nna Am\u00e9rica do Norte, por exemplo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que se p\u00f5e \u00e9 entender por que eles, t\u00e3o<br \/>\npobres e atrasados, rezando em suas igrejas de t\u00e1bua, sem destaque<br \/>\nem qualquer \u00e1rea de criatividade cultural, ascenderam plenamente \u00e0<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o industrial, enquanto n\u00f3s mergulh\u00e1vamos<br \/>\nno atraso.<\/p>\n<p>As causas desse descompasso devem ser buscadas em outras \u00e1reas. O<br \/>\nruim aqui, e efetivo fator causal do atraso, \u00e9 o modo de ordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sociedade, estruturada contra os interesses da popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndesde sempre sangrada para servir a des\u00edgnios alheios e opostos aos<br \/>\nseus. N\u00e3o h\u00e1, nunca houve, aqui um povo livre, regendo seu destino<br \/>\nna busca de sua pr\u00f3pria prosperidade.<\/p>\n<p>O que houve e o que h\u00e1 \u00e9 uma massa de trabalhadores explorada,<br \/>\nhumilhada e ofendida por uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formula\u00e7\u00e3o<br \/>\ne manuten\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio projeto de prosperidade,<br \/>\nsempre pronta a esmagar qualquer amea\u00e7a de reforma da ordem social<br \/>\nvigente.<\/p>\n<h2>CONFRONTOS<\/h2>\n<p>Que \u00e9 o Brasil entre os povos contempor\u00e2neos? Que s\u00e3o<br \/>\nos brasileiros? Enquanto povo das Am\u00e9ricas contrasta com os povos testemunhos,<br \/>\ncomo o M\u00e9xico e o altiplano andino, com seus povos oriundos de altas<br \/>\nciviliza\u00e7\u00f5es que vivem o drama de sua dualidade cultural e o<br \/>\ndesafio de sua fus\u00e3o numa nova civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro bloco contrastante \u00e9 o dos povos transplantados, que representa<br \/>\nnas Am\u00e9ricas t\u00e3o-s\u00f3 a reprodu\u00e7\u00e3o de humanidades<br \/>\ne de paisagens europ\u00e9ias. Os Estados Unidos da Am\u00e9rica e o Canad\u00e1<br \/>\ns\u00e3o de fato mais parecidos e mais aparentados com a \u00c1frica do<br \/>\nSul branca e com a Austr\u00e1lia do que conosco. A Argentina e o Uruguai,<br \/>\ninvadidos por uma onda gringa que lan\u00e7ou 4 milh\u00f5es de europeus<br \/>\nsobre um mero milh\u00e3o que havia devassado o pa\u00eds e feito a independ\u00eancia,<br \/>\nsoterrando a velha forma\u00e7\u00e3o hispano-\u00edndia, s\u00e3o<br \/>\noutros transplantados. S\u00f3 \u00e9 de perguntar por que, com a economia<br \/>\nigual e at\u00e9 mais rica de produ\u00e7\u00e3o de cereais, de carnes<br \/>\ne de l\u00e3s, n\u00e3o conseguem a prosperidade da Austr\u00e1lia e<br \/>\ndo Canad\u00e1, que se enriqueceram com muito menos? Ser\u00e1 o velho<br \/>\nCromwell e a institucionalidade por ele criada, que ainda regem o norte, que<br \/>\nfazem a diferen\u00e7a? Os outros latino-americanos s\u00e3o, como n\u00f3s<br \/>\nmesmos, povos novos, em fazimento.<\/p>\n<p>Tarefa infinitamente mais complexa, porque uma coisa \u00e9 reproduzir<br \/>\nno al\u00e9m-mar o mundo insosso europeu, outra \u00e9 o drama de refundir<br \/>\naltas civiliza\u00e7\u00f5es, um terceiro desafio, muito diferente, \u00e9<br \/>\no nosso, de reinventar o humano, criando um novo g\u00eanero de gentes, diferentes<br \/>\nde quantas haja.<\/p>\n<p>Se olhamos l\u00e1 para fora, a \u00c1frica contrasta conosco porque<br \/>\nvive ainda o drama de sua europeiza\u00e7\u00e3o, prosseguida por sua<br \/>\npr\u00f3pria lideran\u00e7a libert\u00e1ria, que tem mais horror \u00e0<br \/>\ntribalidade que sobrevive e amea\u00e7a explodir do que \u00e0 recoloniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nS\u00e3o ilus\u00f5es! Se os \u00edndios sobreviventes do Brasil resistiram<br \/>\na toda a brutalidade durante quinhentos anos e continuam sendo eles mesmos,<br \/>\nseus equivalentes da \u00c1frica resistir\u00e3o tamb\u00e9m para rir<br \/>\nna cara de seus l\u00edderes neoeuropeizadores. Mundos mais long\u00ednquos,<br \/>\ncomo os orientais, mais maduros que a pr\u00f3pria Europa, se estruturam<br \/>\nna nova civiliza\u00e7\u00e3o, mantendo seu ser, sua cara.<\/p>\n<p>N\u00f3s, brasileiros, nesse quadro, somos um povo em ser, impedido de<br \/>\ns\u00ea-lo. Um povo mesti\u00e7o na carne e no esp\u00edrito, j\u00e1<br \/>\nque aqui a mesti\u00e7agem jamais foi crime ou pecado.<\/p>\n<p>Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos<br \/>\noriundos da mesti\u00e7agem viveu por s\u00e9culos sem consci\u00eancia<br \/>\nde si, afundada na r\u00fcnguendade.<\/p>\n<p>Assim foi at\u00e9 se definir como uma nova identidade \u00e9tnico-nacional,<br \/>\na de brasileiros.<\/p>\n<p>Um povo, at\u00e9 hoje, em ser, na dura busca de seu destino. Olhando-os,<br \/>\nouvindo-os, \u00e9 f\u00e1cil perceber que s\u00e3o, de fato, uma nova<br \/>\nromanidade, uma romanidade tardia mas melhor, porque lavada em sangue \u00edndio<br \/>\ne sangue negro.<\/p>\n<p>Com efeito, alguns soldados romanos, acampados na pen\u00ednsula Ib\u00e9rica,<br \/>\nali latinizaram os povos pr\u00e9-lusitanos. O fizeram t\u00e3o firmemente<br \/>\nque seus filhos mantiveram a latinidade e a cara, resistindo a s\u00e9culos<br \/>\nde opress\u00e3o de invasores n\u00f3rdicos e sarracenos.<\/p>\n<p>Depois de 2 mil anos nesse esfor\u00e7o, saltaram o mar-oceano e vieram<br \/>\nter no Brasil para plasmar a neo-romanidade que n\u00f3s somos.<\/p>\n<p>\u00c9 de assinalar que, apesar de feitos pela fus\u00e3o de matrizes<br \/>\nt\u00e3o diferenciadas, os brasileiros s\u00e3o, hoje, um dos povos mais<br \/>\nhomog\u00eaneos ling\u00fc\u00edstica e culturalmente e tamb\u00e9m um<br \/>\ndos mais integrados socialmente da Terra. Falam uma mesma l\u00edngua, sem<br \/>\ndialetos. N\u00e3o abrigam nenhum contingente reivindicativo de autonomia,<br \/>\nnem se apegam a nenhum passado. Estamos abertos \u00e9 para o futuro.<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00f5es h\u00e1 no Novo Mundo &#8211; Estados Unidos, Canad\u00e1,<br \/>\nAustr\u00e1lia &#8211; que s\u00e3o meros transplantes da Europa para amplos<br \/>\nespa\u00e7os de al\u00e9m-mar. N\u00e3o apresentam novidade alguma neste<br \/>\nmundo. S\u00e3o excedentes que n\u00e3o cabiam mais no Velho Mundo e aqui<br \/>\nvieram repetir a Europa, reconstituindo suas paisagens natais para viverem<br \/>\ncom mais folga e liberdade, sentindo-se em casa. \u00c9 certo que \u00e0s<br \/>\nvezes se fazem criativos, reinventando a rep\u00fablica e a elei\u00e7\u00e3o<br \/>\ngrega. Raramente. S\u00e3o, a rigor, o oposto de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Nosso destino \u00e9 nos unificarmos com todos os latino-americanos por<br \/>\nnossa oposi\u00e7\u00e3o comum ao mesmo antagonista, que \u00e9 a Am\u00e9rica<br \/>\nanglo-sax\u00f4nica, para fundarmos, tal como ocorre na comunidade europ\u00e9ia,<br \/>\na Na\u00e7\u00e3o Latino-Americana sonhada por Bol\u00edvar. Hoje, somos<br \/>\n500 milh\u00f5es, amanh\u00e3 seremos 1 bilh\u00e3o. Vale dizer, um<br \/>\ncontingente humano com magnitude suficiente para encarnar a latinidade em<br \/>\nface dos blocos chineses, eslavos, \u00e1rabes e ngobrit\u00e2nicos na<br \/>\nhumanidade futura.<\/p>\n<p>Somos povos novos ainda na luta para nos fazermos a n\u00f3s mesmos como<br \/>\num g\u00eanero humano novo que nunca existiu antes. Tarefa muito mais dif\u00edcil<br \/>\ne penosa, mas tamb\u00e9m muito mais bela e desafiante.<\/p>\n<p>Na verdade das coisas, o que somos \u00e9 a nova Roma. Uma Roma tardia<br \/>\ne tropical. O Brasil \u00e9 j\u00e1 a maior das na\u00e7\u00f5es neolatinas,<br \/>\npela magnitude populacional, e come\u00e7a a s\u00ea- lo tamb\u00e9m<br \/>\npor sua criatividade art\u00edstica e cultural.<\/p>\n<p>Precisa agora s\u00ea-lo no dom\u00ednio da tecnologia da futura civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\npara se fazer uma pot\u00eancia econ\u00f4mica, de progresso auto-sustentado.<br \/>\nEstamos nos construindo na luta para florescer amanh\u00e3 como uma nova<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o, mesti\u00e7a e tropical, orgulhosa de si mesma.<br \/>\nMais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades.<br \/>\nMais generosa, porque aberta \u00e0 conviv\u00eancia com todas as ra\u00e7as<br \/>\ne todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa prov\u00edncia<br \/>\nda Terra.<\/p>\n<h2>BIBLIOGRAFIA<\/h2>\n<p>Albersheim, Ursula. 1962. Uma comunidade teuto-brasileira &#8211; Ibirama, Santa<br \/>\nCatarina. 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