{"id":94917,"date":"2017-01-13T12:33:27","date_gmt":"2017-01-13T14:33:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=94917"},"modified":"2017-09-05T15:46:49","modified_gmt":"2017-09-05T17:46:49","slug":"a-divina-comedia-dante-alighieri","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-divina-comedia-dante-alighieri","title":{"rendered":"A Divina Com\u00e9dia &#8211; Dante Alighieri"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"216\">\n<div align=\"center\"><a href=\"#1\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Inferno<\/span><\/strong><\/a><span style=\"font-size: small;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"263\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\"><strong>Purgat\u00f3rio<\/strong><\/a><br \/>\n<\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"5\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"184\"><center><br \/>\n<span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\"><strong>Para\u00edso<\/strong><\/a><br \/>\n<\/strong><\/span><\/center><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Inferno<\/h2>\n<p>CANTO I<\/p>\n<p>Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer,<br \/>\ncome\u00e7a a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma<br \/>\npantera, um le\u00e3o e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe<br \/>\nent\u00e3o a imagem de Virg\u00edlio, que o reanima e se oferece a tir\u00e1-lo<br \/>\nde l\u00e1, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgat\u00f3rio. Beatriz,<br \/>\ndepois, o guiar\u00e1 ao Para\u00edso.<\/p>\n<p>Dante o segue.<\/p>\n<p>DA nossa vida, em meio da jornada, Achei-me numa selva tenebrosa, 3 Tendo<br \/>\nperdido a verdadeira estrada.<\/p>\n<p>Dizer qual era \u00e9 cousa t\u00e3o penosa, Desta brava espessura a<br \/>\nasperidade, 6 Que a mem\u00f3ria a relembra inda cuidosa.<\/p>\n<p>Na morte h\u00e1 pouco mais de acerbidade; Mas para o bem narrar l\u00e1<br \/>\ndeparado 9 De outras cousas que vi, direi verdade.<\/p>\n<p>Contar n\u00e3o posso como tinha entrado; Tanto o sono os sentidos me tomara,<br \/>\n12 Quando hei o bom caminho abandonado.<\/p>\n<p>Depois que a uma colina me cercara,<\/p>\n<p>Onde ia o vale escuro terminando, 15 Que pavor t\u00e3o profundo me causara.<\/p>\n<p>Ao alto olhei, e j\u00e1, de luz banhando, Vi-lhe estar \u00e0s espaldas<br \/>\no planeta, 18 Que, certo, em toda parte vai guiando.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o assombro um tanto se aquieta, Que do peito no lago perdurava,<br \/>\n21 Naquela noite atribulada, inquieta.<\/p>\n<p>E como quem o an\u00e9lito esgotava Sobre as ondas, j\u00e1 salvo, inda<br \/>\nmedroso 24 Olha o mar perigoso em que lutava, O meu \u00e2nimo assim, que<br \/>\ntreme ansioso, Volveu-se a remirar vencido o espa\u00e7o 27 Que homem vivo<br \/>\njamais passou ditoso.<\/p>\n<p>Tendo j\u00e1 repousado o corpo lasso, Segui pela deserta falda avante;<br \/>\n30 Mais baixo sendo o p\u00e9 firme no passo.<\/p>\n<p>Eis da subida quase ao mesmo instante Assoma \u00e1gil e r\u00e1pida<br \/>\npantera 33 Tendo a pele por malhas cambiante.<\/p>\n<p>N\u00e3o se afastava de ante mim a fera; E em modo tal meu caminhar tolhia,<br \/>\n36 Que atr\u00e1s por vezes eu tornar quisera.<\/p>\n<p>No c\u00e9u a aurora j\u00e1 resplandecia, Subia o sol, dos astros rodeado,<br \/>\n39 Seus s\u00f3cios, quando o Amor divino um dia A tais primores movimento<br \/>\nh\u00e1 dado.<\/p>\n<p>Me infundiam desta arte alma esperan\u00e7a 42 Da fera o dorso alegre e<br \/>\nmosqueado, A hora amena e a quadra doce e mansa.<\/p>\n<p>De um le\u00e3o de repente surge o aspecto, 45 Que ao meu peito o pavor<br \/>\nde novo lan\u00e7a.<\/p>\n<p>Que me investisse ent\u00e3o cuido inquieto; Com fome e raiva atroz fronte<br \/>\nlevanta; 48 Tremer parece o ar ao seu conspeto.<\/p>\n<p>Eis surge loba, que de magra espanta; De ambi\u00e7\u00f5es todas parecia<br \/>\ncheia; 51 Foi causa a muitos de mis\u00e9ria tanta! Com tanta intensa torva\u00e7\u00e3o<br \/>\nme enleia Pelo terror, que o cenho seu movia, 54 Que a mente \u00e0 altura<br \/>\nn\u00e3o subir receia.<\/p>\n<p>Como quem lucro anela noite e dia, Se acaso o tempo de perder lhe chega,<br \/>\n57 Rebenta em pranto e triste se excrucia, A fera assim me fez, que n\u00e3o<br \/>\nsossega;<\/p>\n<p>Pouco a pouco me investe at\u00e9 lan\u00e7ar-me 60 L\u00e1 onde o<br \/>\nsol se cala e a luz me nega.<\/p>\n<p>Quando ao vale eu j\u00e1 ia baquear-me Algu\u00e9m fraco de voz diviso<br \/>\nperto, 63 Que ap\u00f3s largo sil\u00eancio quer falar-me.<\/p>\n<p>Tanto que o vejo nesse gr\u00e3o deserto, \u2014 \u201cTem compaix\u00e3o<br \/>\nde mim\u201d \u2014 bradei transido \u2014 66 \u201cQuem quer que sejas,<br \/>\nsombra ou homem certo!\u201d \u201cHomem n\u00e3o sou\u201d tornou-me<br \/>\n\u2014 \u201cmas hei sido, Pais lombardos eu tive; sempre amada 69 M\u00e2ntua<br \/>\nlhes foi; haviam l\u00e1 nascido.<\/p>\n<p>\u201cNasci de J\u00falio em era retardada, Vivi em Roma sob o bom Augusto,<br \/>\n72 Quando em deuses havia a cren\u00e7a errada.<\/p>\n<p>\u201cPoeta, decantei feitos do justo Filho de Anqu\u00edses, que de Tr\u00f3ia<br \/>\nveio, 75 Depois que \u00cdlion soberbo foi combusto.<\/p>\n<p>\u201cMas por que tornas da tristeza ao meio? Por que n\u00e3o vais ao<br \/>\ndeleitoso monte, 78 Que o prazer todo encerra no seu seio?\u201d \u201c\u2014<br \/>\nOh! Virg\u00edlio, tu \u00e9s aquela fonte Donde em rio caudal brota a<br \/>\neloq\u00fc\u00eancia?\u201d<\/p>\n<p>81 Falei, curvando vergonhoso a fronte. \u2014 \u201c\u00d3 dos poetas<br \/>\nlustre, honra, emin\u00eancia! Valham-me o longo estudo, o amor profundo<br \/>\n84 Com que em teu livro procurei ci\u00eancia! \u201c\u00c9s meu mestre,<br \/>\no modelo sem segundo; Unicamente \u00e9s tu que h\u00e1s-me ensinado;<br \/>\n87 O belo estilo que honra-me no mundo.<\/p>\n<p>\u201cA fera v\u00eas que o passo me h\u00e1 vedado; S\u00e1bio famoso,<br \/>\nacude ao perseguido! 90 Tremo no pulso e veias, transtornado!\u201d Respondeu,<br \/>\ndo meu pranto condo\u00eddo; \u201cTe conv\u00e9m outra rota de ora avante<br \/>\n93 Para o lugar selvagem ser vencido.<\/p>\n<p>\u201cA fera, que te faz bradar tremante, Aqui passar n\u00e3o deixa impunemente;<br \/>\n96 Tanto se op\u00f5e, que mata o caminhante.<\/p>\n<p>\u201cTem t\u00e3o m\u00e1 natureza, \u00e9 t\u00e3o furente, Que<br \/>\nos apetites seus jamais sacia, 99 E fome, impando, mais que de antes sente.<\/p>\n<p>\u201cCom muitos animais se consorcia, H\u00e1-de a outros se unir t\u00e9<br \/>\nser chegado 102 Lebr\u00e9u, que a leve \u00e0 h\u00f3rrida agonia.<\/p>\n<p>\u201cPor ouro ou por poder nunca tentado Saber, virtude, amor ter\u00e1<br \/>\npor norte, 105 Sendo entre Feltro e Feltro potentado.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 da humilde It\u00e1lia amparo forte, Por quem Camila<br \/>\na virgem dera a vida, 108 Turno Eurialo, Niso acharam morte.<\/p>\n<p>\u201cPor ele, em toda parte, repelida Ir\u00e1 lan\u00e7ar-se no infernal<br \/>\nassento, 111 Donde foi pela Inveja conduzida.<\/p>\n<p>\u201cAgora, por teu prol, eu tenho o intento De levar-te comigo; ir-te-ei<br \/>\nguiando 114 Pela est\u00e2ncia do eterno sofrimento, \u201cOnde, estridentes<br \/>\ngritos escutando, Ver\u00e1s almas antigas em tortura 117 Segunda morte<br \/>\na brados suplicando.<\/p>\n<p>\u201cOutros ledos ver\u00e1s, que, em prova dura Das chamas, inda esperam<br \/>\nter o gozo 120 De Deus no pr\u00eamio da imortal ventura.<\/p>\n<p>\u201cSe l\u00e1 subir quiseres, um ditoso Esp\u00edrito, melhor te<br \/>\nser\u00e1 guia, 123 Quando eu deixar-te, ao reino glorioso.<\/p>\n<p>\u201cDo c\u00e9u o Imperador, a rebeldia Minha \u00e0 lei castigando,<br \/>\nn\u00e3o consente<\/p>\n<p>126 Que eu da cidade sua haja a alegria.<\/p>\n<p>\u201cEm toda parte impera onipotente, Mas tem no Emp\u00edreo sua augusta<br \/>\nsede: 129 Feliz, por ele, o eleito \u00e0 gl\u00f3ria ingente!\u201d<br \/>\n\u2014 \u201cVate, rogo-te\u201d \u2014 eu disse \u2014 \u201cme concede,<br \/>\nPor esse Deus, que nunca h\u00e1s conhecido, 132 Porque este e maior mal<br \/>\nde mim se arrede.<\/p>\n<p>\u201cQue, at\u00e9 onde disseste conduzido, \u00c0 porta de S\u00e3o<br \/>\nPedro eu v\u00e1 contigo E veja os maus que houveste referido\u201d.<\/p>\n<p>136 Move-se o Vate ent\u00e3o, ap\u00f3s o sigo.<\/p>\n<p>1. Em meio etc. Aos 35 anos. Dante tinha 35 anos no dia 25 de mar\u00e7o<br \/>\nde 1300, ano no qual o papa Bonif\u00e1cio VIII proclamou o primeiro Jubileu.<br \/>\n\u2014 2. Tenebrosa etc., simb\u00f3lica selva dos v\u00edcios humanos.<br \/>\n\u2014 32. Pantera, s\u00edmbolo da lux\u00faria e da fraude; politicamente,<br \/>\nde Floren\u00e7a. \u2014 44. Um le\u00e3o, s\u00edmbolo da soberba<br \/>\ne da viol\u00eancia; politicamente, da Fran\u00e7a. \u2014 40. Loba, s\u00edmbolo<br \/>\nda avareza e da incontin\u00eancia; politicamente da C\u00faria Romana.<br \/>\n\u2014 62. Algu\u00e9m etc., o poeta Virg\u00edlio Maro, s\u00edmbolo<br \/>\nda raz\u00e3o humana. \u2014 105. Entre Feltro e Feltro, entre Montefeltro<br \/>\ne Feltro.<\/p>\n<p>\u2014 122. Espirito melhor, Beatriz, a mulher que Dante amou.<\/p>\n<p>CANTO II<\/p>\n<p>Depois da invoca\u00e7\u00e3o \u00e0s Musas, Dante, considerando a<br \/>\nsua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, por\u00e9m,<br \/>\nVirg\u00edlio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava<br \/>\npela sua salva\u00e7\u00e3o, determina-se segui-lo e entra com o seu guia<br \/>\nno dif\u00edcil caminho.<\/p>\n<p>FORA-se o dia; e o ar, se enevoando, Aos animais, que vivem sobre a terra,<br \/>\n3 As fadigas tolhia; eu s\u00f3, velando, Me aparelhava a sustentar a guerra<br \/>\nDa jornada, assim como da piedade, 6 Que vai pintar mem\u00f3ria, que n\u00e3o<br \/>\nerra.<\/p>\n<p>\u00d3 Musas! \u00d3 do g\u00eanio potestade! Valei-me! Aqui, \u00f3<br \/>\nmente, que guardaste 9 Quanto vi, mostra a egr\u00e9gia qualidade.<\/p>\n<p>\u201cPoeta\u201d, \u2014 assim falei, \u2014 \u201cque come\u00e7aste<br \/>\nA guiar-me, v\u00ea bem se em mim persiste 12 Calor que, \u00e0 empresa<br \/>\nque me fias, baste.<\/p>\n<p>\u201cQue o pai do S\u00edlvio fora, referiste, Corrut\u00edvel ainda,<br \/>\nat\u00e9 o inferno 15 Sem perder o que em corpo humano existe.<\/p>\n<p>\u201cSe do mal assim quis o imigo eterno, Origem vendo nele do alto efeito,<br \/>\n18 O que e o qual, segundo o que discerno, \u201cPela raz\u00e3o bem pode<br \/>\nser aceito; Que para Roma e o imp\u00e9rio se fundarem 21 Fora no c\u00e9u<br \/>\npor genitor eleito; \u201c\u00c0 qual e ao qual cabia aparelharem, Dizendo-se<br \/>\na verdade, o lugar santo 24 Aos que do maior Pedro o s\u00f3lio herdaram.<\/p>\n<p>\u201cNessa empresa, em que o h\u00e1s louvado tanto, Cousas ouviu, de<br \/>\nque surgiu motivo 27 Ao seu triunfo e ao pontif\u00edcio manto.<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 foi o Vaso Eleito ainda vivo: Conforto ia buscar, \u00e0<br \/>\nf\u00e9, que \u00e0 estrada 30 Da salva\u00e7\u00e3o princ\u00edpio<br \/>\n\u00e9 decisivo.<\/p>\n<p>\u201cPor que irei? Quem permite esta jornada? En\u00e9ias, Paulo sou?<br \/>\nEssa ventura 33 Nem eu, nem outrem cr\u00ea ser-me adatada.<\/p>\n<p>\u201cReceio, pois seja ato de loucura, Se eu me resigno a cometer a empresa.<\/p>\n<p>36 Supre, \u00e9s s\u00e1bio, o que digo em frase escura\u201d.<\/p>\n<p>Como quem ora quer, ora despreza,<\/p>\n<p>Sua alma a id\u00e9ias novas tem disposta, 39 Mostrando aos seus des\u00edgnios<br \/>\nestranheza, Assim fiz eu na tenebrosa encosta, Porque, pensando, abandonava<br \/>\no intento, 42 Formado \u00e0 pressa, que ora me desgosta.<\/p>\n<p>\u201cDo teu dizer se atinjo o entendimento\u201d \u2014 Do magn\u00e2nimo<br \/>\na sombra me tornava, \u2014 45 \u201cEivado est\u00e1s de ign\u00f3bil<br \/>\nsentimento, \u201cQue do homem muita vez faz alma ignava, Das honrosas a\u00e7\u00f5es<br \/>\no desviando, 48 Qual sombra, que o corcel ao medo trava.<\/p>\n<p>\u201cDesse temor livrar-te desejando, Por que vim te direi e quanto ouvido<br \/>\n51 Hei logo ao ver-te m\u00edsero lutando.<\/p>\n<p>\u201cNo Limbo era suspenso: eis requerido Por Dama fui t\u00e3o bela,<br \/>\nt\u00e3o donosa, 54 Que as ordens suas presto lhe hei pedido.<\/p>\n<p>\u201cBrilhavam mais que a estrela radiosa Os seus olhos; suave assim dizia<br \/>\n57 De anjo com voz, falando-me piedosa: \u2014 \u201cDe M\u00e2ntua alma<br \/>\ncort\u00eas, que inda hoje em dia No mundo gozas fama t\u00e3o sonora,<br \/>\n60 Que, enquanto existir mundo, mais se amplia,<\/p>\n<p>\u201cAmigo meu, que a sorte desadora, Pela deserta falda indo, impedido<br \/>\n63 De medo, atr\u00e1s os passos volta agora.<\/p>\n<p>\u201cTemo que esteja tanto j\u00e1 perdido, Que tarde eu tenha vindo<br \/>\na socorr\u00ea-lo, 66 Pelo que l\u00e1 no c\u00e9u dele hei sabido.<\/p>\n<p>\u201cParte, pois, e com teu discurso belo E quanto o salvar possa do perigo<br \/>\n69 Lhe acode; e me console o teu desvelo.<\/p>\n<p>\u201cSou Beatriz, que envia-te ao que digo, De lugar venho a que voltar<br \/>\ndesejo: 72 Amor conduz-me e faz-me instar contigo.<\/p>\n<p>\u201cVoltando ao meu Senhor, em todo o ensejo Repetirei louvor, que h\u00e1s<br \/>\nmerecido\u201d. \u2014 75 \u201cTornei-lhe, quando j\u00e1 calar-se a<br \/>\nvejo: \u2014 \u201cSenhora da virtude, a quem tem sido Dado s\u00f3 que<br \/>\nproceda a esp\u00e9cie humana 78 Quanto \u00e9 no mundo sublunar contido,<br \/>\n\u201cTanto praz-me a ordem que de ti dimana, Que, j\u00e1 cumprida, houvera<br \/>\ninda demora: 81 Em me abrir teu querer n\u00e3o mais te afana.<\/p>\n<p>\u201cDiz-me, por\u00e9m, por que raz\u00e3o, Senhora,<\/p>\n<p>Baixar a este centro h\u00e1s resolvido 84 Do c\u00e9u, a que ardes por<br \/>\nvoltar agora\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe queres tanto ser esclarecido Eu te direi\u201d \u2014<br \/>\ntornou-me \u2014 \u201cfrase breve 87 Por que sem medo \u00e0s trevas<br \/>\nhei descido.<\/p>\n<p>\u201cSomente as cousas recear se deve Que a outrem podem ser causa de dano<br \/>\n90 N\u00e3o das mais: a temor a causa \u00e9 leve.<\/p>\n<p>\u201cDe Deus favor criou-me soberano Tal, que a vossa mis\u00e9ria n\u00e3o<br \/>\nme empece 93 Nem deste inc\u00eandio assalta o fogo insano.<\/p>\n<p>\u201cNobre Dama h\u00e1 no c\u00e9u, que compadece O mal, a que te<br \/>\nenvio; e tanto implora, 96 Que l\u00e1 decreto austero se enternece.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVolvendo-se a Luzia, assim a exora: \u201cO teu servo fiel<br \/>\ntanto periga, 99 Que ao teu amparo o recomendo agora\u201d. \u2014 \u201cLuzia,<br \/>\nsempre do que \u00e9 mau imiga Ergue-se e ao lugar foi, em que eu sentada<br \/>\n102 Ao lado estava de Raquel antiga.<\/p>\n<p>\u201cDe Deus vero louvor!\u201d \u2014 diz-me apressada \u2014 \u201cPor<br \/>\nque n\u00e3o socorrer quem te amou tanto, 105 Que s\u00f3 por ti deixou<br \/>\ndo vulgo a estrada?<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o lhe ouves, Beatriz, o amargo pranto? N\u00e3o v\u00eas<br \/>\nque junto ao rio \u00e9 combatido, 108 Que ao mar n\u00e3o corre, por<br \/>\nmortal espanto?\u201d \u2014 \u201cOs danos, t\u00e3o veloz, n\u00e3o<br \/>\ntem fugido Ningu\u00e9m, nem procurado o que deseja, 111 Como eu, em tendo<br \/>\nvozes tais ouvido; \u201cO trono meu deixei, por que te veja, Fiada em teus<br \/>\ndiscursos eloq\u00fcentes, 114 Honra tua e de quem te ouvindo esteja\u201d.<br \/>\n\u2014 \u201cAssim falava e os olhos fulgentes Com l\u00e1grimas a mim<br \/>\nela volvia, 117 Para apressar-me a vir assaz potentes.<\/p>\n<p>\u201cA ti vim, pois, como ela requeria; Da fera te livrei, que da colina<br \/>\n120 T\u00e3o perto j\u00e1, teus passos impedia.<\/p>\n<p>\u201cQue fazes, pois? Por que, por que domina Tanta fraqueza o peito espavorido?<br \/>\n123 Por que ao valor tua alma n\u00e3o se inclina, \u201cQuando \u00e9s<br \/>\npelas tr\u00eas santas protegido, Que na corte do c\u00e9u por ti se esmeram,<br \/>\n126 E gozar tanto bem lhe \u00e9 prometido?\u201d \u2014 Quais flores,<br \/>\nque, fechadas, se abateram<\/p>\n<p>Da noite ao frio, e, quando o sol aquece, 129 Erguem-se abertas na h\u00e1stea,<br \/>\ntais como eram, Tal meu valor renova e fortalece.<\/p>\n<p>Tanto ardimento o cora\u00e7\u00e3o me aviva, 132 Que exclamei, como<br \/>\nquem jamais temesse: \u201c\u00d3 Dama em socorrer-me compassiva! E tu,<br \/>\nque a voz lhe ouvindo, obedeceste, 135 Cort\u00eas ao rogo e com vontade<br \/>\nativa, \u201cPor teu dizer no peito me acendeste Desejo tal de vir, que sou<br \/>\ntornado 138 Ao prop\u00f3sito, a que antes me trouxeste.<\/p>\n<p>\u201cVai, pois nosso querer \u2019st\u00e1 combinado.<\/p>\n<p>Ser\u00e1s meu guia, meu senhor, meu mestre!\u201d Disse-lhe assim. Moveu-se<br \/>\nele; ao seu lado 142 Pelo caminho entrei alto e silvestre.<\/p>\n<p>13. O pai de S\u00edlvio, En\u00e9ias. \u2014 28. O Vaso \u2014 S\u00e3o<br \/>\nPaulo que nos Atos dos Ap\u00f3stolos \u00e9 chamado o Vaso de elei\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2014 76. Senhora da virtude, Beatriz simboliza a teologia. \u2014 94.<br \/>\nNobre Dama, Maria, m\u00e3e de Jesus, s\u00edmbolo da miseric\u00f3rdia<br \/>\ndivina. 97. \u2014 Luzia, m\u00e1rtir e santa, s\u00edmbolo da gra\u00e7a<br \/>\niluminante. \u2014 Raquel, filha de Lab\u00e3o e mulher do patriarca Jac\u00f3,<br \/>\nsimboliza a vida contemplativa.<br \/>\nCANTO III<\/p>\n<p>Chegam os Poetas \u00e0 porta do Inferno, na qual est\u00e3o escritas<br \/>\nterr\u00edveis palavras. Entram e no vestibulo encontram as almas dos ignavos,<br \/>\nque n\u00e3o foram fi\u00e9is a Deus, nem rebeldes. Seguindo o caminho,<br \/>\nchegam ao Aqueronte, onde est\u00e1 o barqueiro infernal, Caron, que passa<br \/>\nas almas dos danados \u00e0 outra margem, para o supl\u00edcio. Treme<br \/>\na terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.<\/p>\n<p>\u201cPOR mim se vai das dores \u00e0 morada, Por mim se vai ao padecer<br \/>\neterno, 3 Por mim se vai \u00e0 gente condenada.<\/p>\n<p>\u201cMoveu Justi\u00e7a o Autor meu sempiterno, Formado fui por divinal<br \/>\npossan\u00e7a, 6 Sabedoria suma e amor supremo.<\/p>\n<p>No existir, ser nenhum a mim se avan\u00e7a, N\u00e3o sendo eterno, e<br \/>\neu eternal perduro: 9 Deixai, \u00f3 v\u00f3s que entrais, toda a esperan\u00e7a!\u201d<br \/>\nEstas palavras, em letreiro escuro, Eu vi, por cima de uma porta escrito.<\/p>\n<p>12 \u201cSeu sentido\u201d \u2014 disse eu \u2014 \u201cMestre me \u00e9<br \/>\nduro\u201d Tornou Virg\u00edlio, no lugar perito:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAqui deixar conv\u00e9m toda suspeita; 15 Todo ign\u00f3bil<br \/>\nsentir seja proscrito.<\/p>\n<p>\u201cEis a est\u00e2ncia, que eu disse, \u00e0s dores feita, Onde h\u00e1s<br \/>\nde ver atormentada gente, 18 Que da raz\u00e3o \u00e0 perda est\u00e1<br \/>\nsujeita\u201d.<\/p>\n<p>Pela m\u00e3o me travando diligente, Com ledo gesto e cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nme erguia, 21 E aos mist\u00e9rios guiou-me incontin\u00eanti.<\/p>\n<p>Por esse ar sem estrelas irrompia Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:<br \/>\n24 Tamb\u00e9m meu pranto, de os ouvir, corria.<\/p>\n<p>L\u00ednguas v\u00e1rias, discursos insofridos, Lamentos, vozes roucas,<br \/>\nde ira os brados, 27 Rumor de m\u00e3os, de punhos estorcidos, Nesses ares,<br \/>\npra sempre enevoados, Retumbavam girando e semilhando 30 Areais por tuf\u00e3o<br \/>\natormentados.<\/p>\n<p>A mente aquele horror me perturbando, Disse a Virg\u00edlio: \u2014 \u201c\u00d3<br \/>\nMestre, que ou\u00e7o agora? 33 \u201cQuem s\u00e3o esses, que a dor<br \/>\nest\u00e1 prostrando?\u201d \u2014 \u201cDeste m\u00edsero modo\u201d<br \/>\n\u2014 tornou \u2014 \u201cchora Quem viveu sem jamais ter merecido<\/p>\n<p>36 Nem louvor, nem censura infamadora.<\/p>\n<p>\u201cDe anjos mesquinhos coro \u00e9-lhes unido, Que rebeldes a Deus<br \/>\nn\u00e3o se mostraram, 39 Nem fi\u00e9is, por si s\u00f3s havendo sido\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDesdouro aos c\u00e9us, os c\u00e9us os desterraram; Nem o profundo<br \/>\ninferno os recebera, 42 De os ter consigo os maus se gloriaram\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue dor t\u00e3o viva deles se apodera, Que aos carpidos<br \/>\nmotivo d\u00e1 t\u00e3o forte?\u201d \u2014 45 \u201cSerei breve em<br \/>\ndizer-to\u201d \u2014 me assevera. \u2014 \u201cN\u00e3o lhes \u00e9<br \/>\ndado nunca esperar morte; \u00c9 t\u00e3o vil seu viver nessa desgra\u00e7a,<br \/>\n48 Que invejam de outros toda e qualquer sorte.<\/p>\n<p>\u201cNo mundo o nome seu n\u00e3o deixou tra\u00e7a; A Clem\u00eancia,<br \/>\na Justi\u00e7a os desdenharam.<\/p>\n<p>51 Mais deles n\u00e3o falemos: olha e passa\u201d.<\/p>\n<p>Bandeira ent\u00e3o meus olhos divisaram, Que, a tremular, t\u00e3o r\u00e1pida<br \/>\ncorria, 54 Que avessa a toda pausa a imaginaram.<\/p>\n<p>E ap\u00f3s, t\u00e3o basta multid\u00e3o seguia, Que, destru\u00eddo<br \/>\nhouvesse tanta gente 57 A morte, acreditado eu n\u00e3o teria.<\/p>\n<p>Alguns j\u00e1 distinguira: eis, de repente, Olhando, a sombra conheci<br \/>\ndaquele 60 Que a gr\u00e3 ren\u00fancia fez ignobilmente.<\/p>\n<p>Soube logo, o que ao certo me revele, Que era a seita das almas aviltadas,<br \/>\n63 Que os maus odeiam e que Deus repele.<\/p>\n<p>Nunca tiveram vida as desgra\u00e7adas; Sempre, nuas estando, as torturavam<br \/>\n66 De vespas e tav\u00f5es as ferroadas.<\/p>\n<p>Os rostos seus as l\u00e1grimas regavam, Misturadas de sangue: aos p\u00e9s<br \/>\ncaindo, 69 A imundos vermes o repasto davam.<\/p>\n<p>De um largo rio \u00e0 margem dirigindo A vista, de almas divisei cardume.<\/p>\n<p>72 \u2014 \u201cMestre, declara, aos rogos me anuindo, \u201cQue turba<br \/>\n\u00e9 essa\u201d \u2014 eu disse \u2014 \u201ce qual costume Tanto<br \/>\na passar a torna pressurosa, 75 Se bem discirno ao duvidoso lume?\u201d \u2014<br \/>\nTornou-me: \u2014 \u201cExplica\u00e7\u00e3o minuciosa Darei, quando<br \/>\ntivermos atingido 78 Do Aqueronte a ribeira temerosa\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, baixos os olhos e corrido Fui, de importuno a culpa receando,<\/p>\n<p>81 T\u00e9 o rio, em sil\u00eancio recolhido.<\/p>\n<p>Eis vejo a n\u00f3s em barca se acercando, De c\u00e3s coberto um velho<br \/>\n\u2014 \u201c\u00d3 condenados, 84 Ai de v\u00f3s! \u2014 alta grita<br \/>\nlevantando.<\/p>\n<p>\u201cO c\u00e9u nunca vereis, desesperados: Por mim \u00e0 treva eterna,<br \/>\nna outra riva, 87 Sereis ao fogo, ao gelo transportados.<\/p>\n<p>\u201cE tu que est\u00e1s aqui, \u00f3 alma viva, De entre estes que<br \/>\ns\u00e3o mortos, j\u00e1 te ausenta!\u201d 90 Como n\u00e3o lhe obede\u00e7o<br \/>\n\u00e0 voz esquiva, \u201cPor outra via ir\u00e1s\u201d \u2014 ele<br \/>\nacrescenta \u2014 \u201cAo porto, onde achar\u00e1s f\u00e1cil transporte;<br \/>\n93 L\u00e1 p\u00e1ssaras sem barca menos lenta\u201d. \u2014 \u201cN\u00e3o<br \/>\nte agastes, Caronte! Desta sorte Se quer l\u00e1 onde\u201d \u2014 disse-lhe<br \/>\no meu Guia \u2014 96 \u201cQuem pode ordena. E nada mais te importe\u201d.<\/p>\n<p>Sereno, ouvido, o gesto se fazia Da l\u00edvida lagoa ao nauta idoso, 99<br \/>\nQuem em c\u00edrculos de fogo olhos volvia.<\/p>\n<p>As desnudadas almas doloroso O gesto descorou; dentes rangeram 102 Logo em<br \/>\nlhe ouvindo o vozear raivoso.<\/p>\n<p>Blasfemaram de Deus e maldisseram A esp\u00e9cie humana, a p\u00e1tria,<br \/>\no tempo, a origem 105 Da origem sua, os pais de quem nasceram.<\/p>\n<p>Todas no pranto acerbo, em que se afligem, Se acolhem juntas ao lugar tremendo,<br \/>\n108 Dos maus destinos, que se n\u00e3o corrigem.<\/p>\n<p>Caronte, os \u00edgneos olhos revolvendo, Lhes acenava e a todos recebia:<br \/>\n111 Remo em punho, as tardias vai batendo.<\/p>\n<p>Como no outono a rama principia As flores a perder t\u00e9 ser despida,<br \/>\n114 Dando \u00e0 terra o que \u00e0 terra pertencia, Assim de Adam a prole<br \/>\npervertida, Da praia um ap\u00f3s outro se enviavam, 117 Qual ave dos reclamos<br \/>\natra\u00edda.<\/p>\n<p>Sobre as t\u00farbidas \u00e1guas navegavam; E pojado n\u00e3o tinham<br \/>\nno outro lado, 120 Mais turbas j\u00e1 no oposto se apinhavam.<\/p>\n<p>\u201cAqui meu filho\u201d \u2014 disse o Mestre amado \u2014 \u201cconcorrem<br \/>\nquantos h\u00e1 colhido a morte, 123 De toda a terra, tendo a Deus irado.<\/p>\n<p>\u201cO rio prontos buscam desta sorte, De Deus tanto a justi\u00e7a os<br \/>\npunge e excita,<\/p>\n<p>126 Tornando-se o temor anelo forte! \u201cAlma inocente aqui jamais transita,<br \/>\nE, se Caronte contra ti se assanha, 129 Patente a causa est\u00e1, que tanto<br \/>\no irrita\u201d.<\/p>\n<p>Assim falava; a l\u00farida campanha Tremeu e foi t\u00e3o forte o movimento,<br \/>\n132 Que do medo o suor ainda me banha.<\/p>\n<p>Da terra lacrimosa rompeu vento, Que um clar\u00e3o respirou avermelhado;<br \/>\nTolhido ent\u00e3o de todo o sentimento, l36 Ca\u00ed, qual homem que<br \/>\n\u00e9 do sono entrado.<\/p>\n<p>37. De anjos etc., que n\u00e3o tomaram posi\u00e7\u00e3o na luta entre<br \/>\nos fi\u00e9is e os rebeldes a Deus. \u2014 59-60. Daquele etc., Celestino<br \/>\nV que renunciou ao papado, tendo por sucessor Bonif\u00e1cio VIII, inimigo<br \/>\nde Dante e do seu partido. \u2014 136. Ca\u00ed etc. Dante perdendo os<br \/>\nsentidos, atravessa o Aqueronte, sem saber de que modo.<br \/>\nCANTO IV<\/p>\n<p>Dante \u00e9 despertado por um trov\u00e3o e acha-se na orla do primeiro<br \/>\nc\u00edrculo. Entra depois no Limbo, onde est\u00e3o os que n\u00e3o<br \/>\nforam batizados, crian\u00e7as e adultos. Mais adiante, num recinto luminoso,<br \/>\nv\u00ea os s\u00e1bios da antig\u00fcidade, que, embora n\u00e3o crist\u00e3os,<br \/>\nviveram virtuosamente. Os dois poetas descem depois ao segundo c\u00edrculo.<\/p>\n<p>DESSE profundo sono fui tirado Por h\u00f3rrido estampido, estremecendo<br \/>\n3 Como quem \u00e9 por for\u00e7a despertado.<\/p>\n<p>Ergui-me, e, os olhos quietos j\u00e1 volvendo, Perscruto por saber onde<br \/>\nme achava, 6 E a tudo no lugar sinistro atendo.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que ent\u00e3o na borda estava Do vale desse abismo<br \/>\ndoloroso, 9 Donde brado de infindos ais troava.<\/p>\n<p>T\u00e3o escuro, profundo e nebuloso Era, que a vista lhe inquirindo o<br \/>\nfundo, 12 N\u00e3o distinguia no antro temeroso.<\/p>\n<p>\u201cEia! Baixemos, pois, da treva ao mundo!\u201d \u2014 O Poeta ent\u00e3o<br \/>\ndisse-me enfiando \u2014<\/p>\n<p>15 \u201cEu descerei primeiro, tu segundo\u201d. \u2014 Tornei-lhe, a<br \/>\npalidez sua notando: \u201cComo hei-de ir, se \u00e9s de espanto dominado,<br \/>\n18 Quando conforto estou de ti sperando?\u201d \u2014 \u201cDos que l\u00e1<br \/>\ns\u00e3o o angustioso estado Causa a que v\u00eas no rosto meu impressa,<br \/>\n21 Piedade, medo n\u00e3o, como h\u00e1s cuidado.<\/p>\n<p>\u201cVamos: longa a jornada exige pressa\u201d.<\/p>\n<p>Entrou, e eu logo, o c\u00edrculo primeiro 24 Em que o abismo a estreitar-se<br \/>\nj\u00e1 come\u00e7a, Escutei: n\u00e3o mais pranto lastimeiro Ouvi;<br \/>\nsuspiros s\u00f3, que murmuravam, 27 Vibrando do ar eterno o espa\u00e7o<br \/>\ninteiro.<\/p>\n<p>Pesares sem mart\u00edrio os motivavam De var\u00f5es e de infantes,<br \/>\nde mulheres 30 Nas multid\u00f5es, que ali se apinhoavam.<\/p>\n<p>\u201cConhecer\u201d \u2014 meu bom Mestre diz \u2014 \u201cn\u00e3o<br \/>\nqueres Quais s\u00e3o os que assim v\u00eas ora sofrendo? 33 Antes de avante<br \/>\nandar conv\u00e9m saberes \u201cQue n\u00e3o pecaram: boas obras tendo<br \/>\nAcham-se aqui; faltou-lhes o batismo, 36 Portal da f\u00e9, em que \u00e9s<br \/>\nditoso crendo.<\/p>\n<p>\u201cNa vida antecedendo o Cristianismo, Devido culto a Deus nunca prestaram:<br \/>\n39 Tamb\u00e9m sou dos que penam neste abismo.<\/p>\n<p>\u201cPor tal defeito \u2014 os mais nos n\u00e3o mancharam \u2014 Perdemo-nos:<br \/>\na pena \u00e9 desesp\u2019ran\u00e7a, 42 Desejos, que para sempre se<br \/>\nfrustaram\u201d.<\/p>\n<p>Ouvi-lo, em dor o cora\u00e7\u00e3o me lan\u00e7a, Pois muitos conheci<br \/>\nde alta valia, 45 A quem do Limbo a suspen\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 Mestre! \u00d3 meu Senhor! diz-me \u2014 inquiria, Para<br \/>\nter da certeza o firme esteio 48 \u00c0 f\u00e9, que os erros todos desafia,<br \/>\n\u201cPor seu merecimento ou pelo alheio Daqui algu\u00e9m ao c\u00e9u<br \/>\nj\u00e1 tem subido?\u201d 51 Da mente minha ao alvo o Mestre veio, E falou-me:<br \/>\n\u201cDes\u2019pouco aqui trazido, Descer s\u00fabito vi forte guerreiro;<br \/>\n54 De triunfal coroa era cingido.<\/p>\n<p>\u201cAlmas levou \u2014 do nosso pai primeiro, Abel, No\u00e9, Mois\u00e9s,<br \/>\nque legislara, 57 Abraam, na f\u00e9, na obedi\u00eancia inteiro, \u201cDavi,<br \/>\nque sobre o povo hebreu reinara, Israel com seu pai e a prole basta,<\/p>\n<p>60 E Raquel, por quem tanto se afanara.<\/p>\n<p>\u201cPara a gl\u00f3ria outros muitos mais afasta Do Limbo; e sabe tu<br \/>\nque antes n\u00e3o fora 63 Salvo quem pertencera \u00e0 humana casta\u201d.<\/p>\n<p>And\u00e1vamos, enquanto isto memora, Sem parar, pela selva penetrando,<br \/>\n66 Selva de almas, que aumenta de hora em hora, E da entrada n\u00e3o longe<br \/>\nainda estando, Eis um clar\u00e3o brilhante divisamos 69 Das trevas o hemisf\u00e9rio<br \/>\nalumiando.<\/p>\n<p>Dali distantes ainda nos achamos N\u00e3o tanto, que eu n\u00e3o discernisse<br \/>\nem parte 72 Que \u00e0 sede de almas nobres caminhamos.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 tu, que \u00e9s honra da ci\u00eancia e da arte, Quem<br \/>\ns\u00e3o\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cos que, aos outros preferidos,<br \/>\n75 Privil\u00e9gio tamanho assim disparte?\u201d Falou Virg\u00edlio:<br \/>\n\u201c\u2014 Assim s\u00e3o distinguidos Do c\u00e9u, que atende \u00e0<br \/>\nfama alta e preclara, 78 Com que foram na terra engrandecidos\u201d.<\/p>\n<p>Eis voz escuto sonorosa e clara: \u201cHonrai todos o alt\u00edssimo poeta!<br \/>\n81A sombra sua torna, que ausentara\u201d.<\/p>\n<p>Quatro sombras notei, quando aquieta O rumor, que a n\u00f3s vinham: nos<br \/>\nsemblantes 84 Nem prazer, nem tristeza se interpreta.<\/p>\n<p>E disse o Mestre, ap\u00f3s alguns instantes: \u201cAquele v\u00ea, que,<br \/>\nqual monarca ufano, 87 Empunha espada e os tr\u00eas deixa distantes.<\/p>\n<p>\u00c9 Homero, o poeta soberano; O sat\u00edrico Hor\u00e1cio \u00e9<br \/>\no outro, e ao lado 90 Ov\u00eddio, em lugar \u00faltimo Lucano.<\/p>\n<p>Como lhes cabe o nome assinalado Que soou nessa voz h\u00e1 pouco ouvida,<br \/>\n93 Me honrando, honrosa a\u00e7\u00e3o t\u00eam praticado\u201d.<\/p>\n<p>A bela escola assim vi reunida Do Mestre egr\u00e9gio do sublime canto,<br \/>\n96 \u00c1guia em seu v\u00f4o al\u00e9m dos mais erguida.<\/p>\n<p>Discursado entre si tendo algum tanto, A mim volveram gracioso o gesto: 99<br \/>\nSorriu Virg\u00edlio, dessa mostra ao encanto.<\/p>\n<p>Mais foi-me alto conceito manifesto, Quando acolher-me ao gr\u00eamio seu<br \/>\nquiseram, 102 Entre eles me cabendo o lugar sexto.<\/p>\n<p>T\u00e9 o clar\u00e3o comigo se moveram,<\/p>\n<p>Pr\u00e1tica havendo, que omitir \u00e9 belo, 105 Sublime no lugar, onde<br \/>\na teceram.<\/p>\n<p>Chegamos junto a um f\u00falgido castelo Sete vezes de muro alto cercado:<br \/>\n108 Cinge-o ribeiro lindo, mas singelo.<\/p>\n<p>Passei-o a p\u00e9 enxuto; acompanhado Entrei por sete portas, caminhando<br \/>\n111 De fresca relva at\u00e9 ameno prado.<\/p>\n<p>Graves, pausados olhos meneando Stavam sombras de aspecto majestoso, 114<br \/>\nCom voz suave rara vez falando.<\/p>\n<p>A um lado, sobre viso luminoso Subimo-nos: de l\u00e1 se divisava 117 Dessas<br \/>\nalmas o bando numeroso.<\/p>\n<p>No verde esmalte o Mestre me indicava Egr\u00e9gias sombras: inda me extasia<br \/>\n120 O prazer com que v\u00ea-los exultava.<\/p>\n<p>Eletra vi de her\u00f3is na companhia, En\u00e9ias com Heitor e guarnecido<br \/>\n123 Grifanhos olhos C\u00e9sar nos volvia.<\/p>\n<p>Pentesil\u00e9ia vi e o rosto ardido De Camila, e sentado o rei Latino<br \/>\n126 Junto a Lavinia estava enternecido.<\/p>\n<p>Notei M\u00e1rcia, Lucr\u00e9cia e o que Tarquino Lan\u00e7ou, Corn\u00e9lia<br \/>\ne J\u00falia; retirado 129 De todos demorava Saladino.<\/p>\n<p>Al\u00e7ando os olhos, de respeito entrado, O Mestre vejo dos que mais<br \/>\nse acimam 132 Em saber, de fil\u00f3sofos cercado.<\/p>\n<p>Todos com honra e acatamento o estimam.<\/p>\n<p>Aqui Plat\u00e3o e S\u00f3crates estavam, 135 Que na grandeza mais se<br \/>\nlhe aproximam.<\/p>\n<p>Dem\u00f3crito, o atomista, acompanhavam Tales, Zeno, Her\u00e1clito<br \/>\ne Anaxagora.<\/p>\n<p>138 Emp\u00e9docle e Di\u00f3genes falavam, Di\u00f3scoris, o que a<br \/>\nnatura outrora S\u00e1bio estudara, Orfeu, T\u00falio eloq\u00fcente,<br \/>\n141 S\u00eaneca, o douto, que a moral explora, L\u00edvio, Euclides, Hip\u00f3crates<br \/>\ningente, Ptolomeu, Galeno e o Avicena; 144 Averr\u00f3is, nos comentos sapiente.<\/p>\n<p>Resenha n\u00e3o me \u00e9 dado fazer plena De todos; longo o assunto<br \/>\nest\u00e1-me urgindo, 147 E a ser omisso muita vez condena.<\/p>\n<p>A companhia ent\u00e3o se dividindo,<\/p>\n<p>Comigo o Mestre outra vereda trilha, Do ar sereno ao ar, que treme, vindo:<br \/>\n151 Chegados somos onde luz n\u00e3o brilha.<\/p>\n<p>95. Mestre egr\u00e9gio etc., Homero, pr\u00edncipe da poesia \u00e9pica.<br \/>\n\u2014 121. Eletra, m\u00e3e de Dardano, fundador de Tr\u00f3ia. \u2014<br \/>\n122. En\u00e9ias, pr\u00edncipe troiano, filho de Anquise e de V\u00eanus.<br \/>\n\u2014 Heitor, filho de Pr\u00edamo, rei de Tr\u00f3ia. \u2014 124.<br \/>\nPentesil\u00e9ia, rainha das Amazonas, morta por Aquiles. 125. \u2014 Camila,<br \/>\nfilha de Metabo, rei latino. \u2014 O rei Latino, rei dos abor\u00edgenes,<br \/>\npai de Lav\u00ednia, que foi mulher de En\u00e9ias. \u2014 127. M\u00e1rcia,<br \/>\nmulher de Cat\u00e3o Uticense. \u2014 Lucr\u00e9cia, mulher de Colatino<br \/>\nque, ao ser violada por Sesto Tarqu\u00ednio, se matou. \u2014 128. \u2014<br \/>\nCorn\u00e9lia, m\u00e3e dos Gracos. \u2014 J\u00falia, filha de C\u00e9sar<br \/>\ne mulher de Pompeu. \u2014 129. Saladino, sult\u00e3o do Egito e da S\u00edria,<br \/>\nque conquistou Jerusal\u00e9m. \u2014 131. O mestre etc., Arist\u00f3teles.<br \/>\n\u2014 140. \u2014 Orfeu de Tr\u00e1cia, poeta e m\u00fasico. \u2014<br \/>\nT\u00falio, eloq\u00fcente, Marco T\u00falio C\u00edcero. \u2014 143.<\/p>\n<p>Ptolomeu, o autor do sistema do mundo que se chamou sistema ptolemaico. \u2014<br \/>\nGaleno e Avicena, famosos m\u00e9dicos, o primeiro de P\u00e9rgamo, no<br \/>\nPonto, o segundo \u00e1rabe.<\/p>\n<p>CANTO V<\/p>\n<p>No ingresso do segundo circulo est\u00e1 Minos, que julga as almas e designa-lhes<br \/>\na pena. No repleno desse c\u00edrculo est\u00e3o os luxuriosos, que s\u00e3o<br \/>\ncontinuamente arrebatados e atormentados por um horr\u00edvel turbilh\u00e3o.<br \/>\nAqui Dante encontra Francesca de Rimini, que lhe narra a hist\u00f3ria do<br \/>\nseu amor infeliz.<\/p>\n<p>DESCI desta arte ao c\u00edrculo segundo, Que o espa\u00e7o menos largo<br \/>\ncompreendia, 3 Onde o pungir da dor \u00e9 mais profundo.<\/p>\n<p>L\u00e1 stava Minos e feroz rangia: Examinava as culpas desde a entrada,<br \/>\n6 Dava a senten\u00e7a como ilhais cingia.<\/p>\n<p>Ante ele quando uma alma desditada Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando,<br \/>\n9 Com per\u00edcia em pecados consumada.<\/p>\n<p>Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando, Do abismo o c\u00edrc\u2019lo<br \/>\narbitra, a que perten\u00e7a, 12 Pelas voltas da cauda graduando.<\/p>\n<p>Sempre muitas se lhe acham na presen\u00e7a; Cada qual tem sua vez de ser<br \/>\njulgada, 15 Diz, ouve, cai, se some sem deten\u00e7a.<\/p>\n<p>Minos, logo me vendo, iroso brada, Do grave of\u00edcio no ato sobrestando:<br \/>\n18 \u2014 \u201c\u00d3 tu, que vens das dores \u00e0 morada; \u201cOlha<br \/>\ncomo entras e em quem st\u00e1s fiando: N\u00e3o te engane do entrar tanta<br \/>\nlargueza!\u201d 21 \u2014 \u201cPor que falar\u201d \u2014 meu guia diz<br \/>\n\u2014 \u201cgritando?\u201d \u201cVedar n\u00e3o tentes a fatal empresa:<br \/>\nAssim se quer l\u00e1 onde o que se ordena 24 Se cumpre. Assaz te seja esta<br \/>\ncerteza!\u201d Eis j\u00e1 come\u00e7o da infernal geena A ouvir os lamentos:<br \/>\nsou chegado 27 Onde intenso carpir me aviva a pena.<\/p>\n<p>Em lugar de luz mudo tenho entrado: Rugia, como faz mar combatido 30 Dos<br \/>\nventos, pelo \u00edmpeto encontrado.<\/p>\n<p>Da tormenta o furor, nunca abatido, Perpetuamente as almas torce, agita,<br \/>\n33 Molesta, em seus embates recrescido.<\/p>\n<p>Quando \u00e0 borda do abismo as precipita, Ais, solu\u00e7os, lamentos<br \/>\nv\u00e3o rompendo.<\/p>\n<p>36 Blasfema a Deus a multid\u00e3o maldita.<\/p>\n<p>Ouvi que est\u00e3o no padecer horrendo<\/p>\n<p>Os que aos v\u00edcios da carne se entregavam, 39 Raz\u00e3o aos apetites<br \/>\nsubmetendo.<\/p>\n<p>Quais estorninhos, que a voar se travam Em densos bandos na esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 fria, 42 Em rodopio as almas volteavam, Ao capricho do vento, que<br \/>\nas trazia.<\/p>\n<p>De pausa n\u00e3o, de menos dor a esp\u2019ran\u00e7a 45 Conforto lhes<br \/>\nn\u00e3o d\u00e1 nessa agonia.<\/p>\n<p>Como nos ares longa s\u00e9rie avan\u00e7a De grous, que v\u00e3o cantado<br \/>\no seu grasnido, 48 Assim no gemer seu, que n\u00e3o descansa, Traz o tuf\u00e3o<br \/>\nas sombras desabrido.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMestre\u201d \u2014 disse eu \u2014 \u201cquais almas<br \/>\ns\u00e3o aquelas 51 Que o vendaval fustiga denegrido?\u201d \u2014 \u201cA<br \/>\nprimeira\u201d \u2014 tornou Virg\u00edlio \u2014 \u201centre elas De<br \/>\nquem not\u00edcias ter desejarias, 54 Regeu na\u00e7\u00f5es, diversas<br \/>\nnas loquelas.<\/p>\n<p>\u201cDe lux\u00faria fez tantas demasias Que em lei disp\u00f4s ser<br \/>\nl\u00edcito e agrad\u00e1vel 57 Para desculpa \u00e0s torpes fantasias.<\/p>\n<p>\u201cSem\u00edramis chamou-se: o trono est\u00e1vel Herdou de Nino<br \/>\ne foi a sua esposa.<\/p>\n<p>60 Do Sold\u00e3o teve a terra memor\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cA morte deu-se a outra, de amorosa, \u00c0s cinzas de Siqueu traidora<br \/>\ne infida; 63 Cle\u00f3patra ap\u00f3s vem luxuriosa\u201d.<\/p>\n<p>Helena vi, a causa fementida De tanto mal, e Aquiles celebrado 66 Que teve<br \/>\npor amor a extrema lida.<\/p>\n<p>P\u00e1ris, Trist\u00e3o e um bando assinalado De sombras me indicou,<br \/>\nnomes dizendo, 69 Que \u00e0 sepultura amor tinha arrojado.<\/p>\n<p>A compaix\u00e3o me estava confrangendo, Dessas damas e antigos cavaleiros<br \/>\n72 Nomes ouvindo e m\u00e1goas conhecendo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o disse eu: \u2014 \u201cPoeta, aos companheiros Dois, que ali<br \/>\nv\u00eam, falar muito desejo: 75 Ao vento ser parecem t\u00e3o ligeiros!\u201d<br \/>\n\u201cH\u00e1s de ter\u201d \u2014 me tornou \u2014 \u201casado ensejo,<br \/>\nQuando forem mais perto; ent\u00e3o lhes pede 78 Pelo amor que os uniu:<br \/>\nvir\u00e3o sem pejo\u201d. \u2014 Quando acercar-se o vento lhes concede<br \/>\nA voz alcei: \u2014 \u201c\u00d3! vinde, almas aflitas, 81 Falar-nos,<br \/>\nse alta lei n\u00e3o vo-lo impede\u201d. \u2014<\/p>\n<p>Quais pombas, que saudosas de asas fitas, Ao doce ninho, em v\u00f4o despedido,<br \/>\n84 V\u00e3o pelo ar, aos desejos seus adstritas: Tais sa\u00edram da turba,<br \/>\nem que era Dido, A n\u00f3s as duas sombras se inclinando, 87 Tanto as moveu<br \/>\nda voz o tom sentido! \u2014 \u201cEntre beni\u2019no, compassivo e brando,<br \/>\nQue nos vem visitar por este ar perso, 90 Tendo n\u00f3s dado o sangue ao<br \/>\nmundo infando, \u201cSe amigo o Senhor fosse do universo, Da paz aos rogos<br \/>\nnossos, gozarias, 93 Pois te enternece o nosso mal perverso.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto o vento \u00e9 quedo, o que dirias Havemos n\u00f3s de<br \/>\nouvir atentamente; 96 Diremos quanto ouvir desejarias.<\/p>\n<p>\u201cOnde, a paz desejando, o Pado ingente Com seus vassalos para o mar<br \/>\ndescende, 99 A terra, em que hei nascido, est\u00e1 jacente.<\/p>\n<p>\u201cAmor, que os cora\u00e7\u00f5es s\u00fabito prende, Este inflamou<br \/>\npor minha formosura, 102 Que roubaram-me: o modo inda me ofende.<\/p>\n<p>\u201cAmor, em paga exige igual ternura, Tomou por ele em tal prazer meu<br \/>\npeito,<\/p>\n<p>105 Que, bem o v\u00eas, eterno me perdura.<\/p>\n<p>\u201cAmor nos igualou da morte o efeito: A quem no-la causou, Ca\u00edna,<br \/>\nesperas\u201d.<\/p>\n<p>108 Ap\u00f3s tais vozes foi sil\u00eancio feito.<\/p>\n<p>Daquelas almas as ang\u00fastias feras Em meditar amargo a fronte inclino<br \/>\n111 T\u00e9 que o Mestre exclamou: \u201cQue consideras?\u201d Quando<br \/>\npude, falei: \u201cCruel destino! Que doce cogitar! Que meigo encanto, 114<br \/>\nPrecederam do par o fim maligno!\u201d \u2014 Aos dois voltei-me e disse-lhes,<br \/>\nentanto: \u201cTeus mart\u00edrios, Francesca, me angustiam, 117 Movem-me<br \/>\no triste, compassivo pranto.<\/p>\n<p>\u201cQuando os doces suspiros s\u00f3 se ouviam, Como, em que Amor mostrar-vos<br \/>\nh\u00e1 querido 120 Os desejos, que ainda se escondiam?\u201d \u2014 \u2014<br \/>\n\u201cN\u00e3o h\u00e1\u201d \u2014 disse \u2014 \u201ctormento mais<br \/>\ndorido Que recordar o tempo venturoso 123 Na desgra\u00e7a. Teu Mestre o<br \/>\ntem sentido.<\/p>\n<p>\u201cMas porque de saber \u00e9s desejoso, Como nasceu a flor do nosso<br \/>\nafeto, 126 Direi chorando o lance lastimoso.<\/p>\n<p>\u201cPor passatempo eu lia e o meu dileto De Lanceloto extremos namorados;<br \/>\n129 \u00c9ramos s\u00f3s, de cora\u00e7\u00e3o quieto.<\/p>\n<p>\u201cNossos olhos, por vezes encontrados, Cessam de ler; ao gesto a cor<br \/>\nmudara.<\/p>\n<p>132 Um ponto s\u00f3 deu causa aos nossos fados.<\/p>\n<p>\u201cAo lermos que nos l\u00e1bios osculara O desejado riso, o her\u00f3ico<br \/>\namante, 135 Este, que mais de mim se n\u00e3o separa, \u201cA boca me beijou<br \/>\ntodo tremante, De Galeotto fez o autor e o escrito.<\/p>\n<p>138 Em ler n\u00e3o fomos nesse dia avante\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto a hist\u00f3ria triste um tinha dito, Tanto carpia o outro, que<br \/>\neu, absorto Em piedade, senti letal conflito, 142 E tombei, como tomba corpo<br \/>\nmorto.<\/p>\n<p>4. Minos, rei de Creta e que na mitologia pag\u00e3 era juiz do Inferno.<br \/>\n\u2014 58. Sem\u00edramis, rainha de Babil\u00f4nia, vi\u00fava do rei<br \/>\nNino. \u2014 61. Dido, rainha de Cartago, que amou a En\u00e9ias. \u2014<br \/>\n63.<\/p>\n<p>Cle\u00f3patra, rainha do Egito. \u2014 64. Helena, mulher de Menelau,<br \/>\nrei de Esparta que causou a guerra de Tr\u00f3ia. \u2014 67. P\u00e1ris<br \/>\ne Trist\u00e3o, cavaleiros dos romances medievais. \u2014 73.<\/p>\n<p>Companheiros dois, Francesca de Rimini e Paulo Malatesta, que foram mortos<br \/>\npor Gianciotto Malatesta, marido de Francesca e<\/p>\n<p>\u00c1tila, rei dos Hunos, chamado o flagelo de Deus. \u2014 Pirro, filho<br \/>\nde Aquiles que matou a Pr\u00edamo.<br \/>\nCANTO XIII<\/p>\n<p>Os dois Poetas entram no segundo compartimento, onde s\u00e3o punidos os<br \/>\nviolentos contra si mesmos e os dilapidadores dos pr\u00f3prios bens. Os<br \/>\nprimeiros s\u00e3o transformados em \u00e1rvores, cujas negras folhas<br \/>\nas H\u00e1rpias dilaceram; os outros s\u00e3o perseguidos por c\u00e3es<br \/>\nfamintos que os despeda\u00e7am. Dante encontra Pedro des Vignes, de quem<br \/>\nouve os motivos pelos quais se suicidou e as leis divinas em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\naos suicidas. V\u00ea depois o senense Lano e o paduano Jacob de Sant\u2019Andr\u00e9a.<br \/>\nOuve, enfim, de um suicida florentino, qual \u00e9 a causa dos males da<br \/>\nsua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>N\u00c3O stava ainda Nesso do outro lado, Quando n\u00f3s por um bosque<br \/>\npenetramos, 3 Dos vest\u00edgios de passos n\u00e3o marcado.<\/p>\n<p>N\u00e3o fronde verde, mas escura, ramos N\u00e3o lisos, mas travados<br \/>\ne nodosos, 6 N\u00e3o pomos, puas com veneno achamos.<\/p>\n<p>Por silvados mais densos, mais umbrosos, Do Cecina a Corneto, a besta brava,<br \/>\n9 N\u00e3o foge, agros deixando deleitosos.<\/p>\n<p>Das H\u00e1rpias o bando aqui pousava.<\/p>\n<p>Que expeliram de Str\u00f3fade os Troianos, 12 Vaticinando o mal, que os<br \/>\naguardava.<\/p>\n<p>Asas t\u00eam largas, colo e rosto humanos, Garras nos p\u00e9s, plumoso<br \/>\ne ventre enorme, 15 Soam na selva os uivos seus insanos.<\/p>\n<p>E disse o Mestre: \u201cConv\u00e9m j\u00e1 te informe Que o recinto<br \/>\nsegundo vais entrando, 18 Onde ver\u00e1s spet\u00e1culo disforme, \u201cAt\u00e9<br \/>\nque ao areal chegues infando.<\/p>\n<p>Atenta! E dar\u00e1s f\u00e9 \u00e0 narrativa, 21 Que fiz, ainda l\u00e1<br \/>\nno mundo estando\u201d.<\/p>\n<p>Em toda parte ouvi grita aflitiva: Como n\u00e3o via quem assim gemesse,<br \/>\n24 Parei e a torva\u00e7\u00e3o se fez mais viva.<\/p>\n<p>Creio que o Mestre cria ent\u00e3o que eu cresse Que esses lamentos enviava<br \/>\naos ares 27 Uma turba, que aos olhos se escondesse; Pois disse-me: \u201cDe<br \/>\num tronco se quebrares Um s\u00f3 raminho, ficar\u00e1s ciente 30 Desse<br \/>\nerro em que se enleiam teus pensares\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 O bra\u00e7o estendo ent\u00e3o e prontamente Verg\u00f4ntea<br \/>\nquebro. O tronco, assim ferido 33 \u201cPor que raz\u00e3o me arrancas?\u201d<br \/>\ndiz fremente.<\/p>\n<p>De sangue negro o ramo j\u00e1 tingido,<\/p>\n<p>\u201cPor que me rompes?\u201d \u2014 prosseguiu gemendo \u2014 36 Assomos<br \/>\nde piedade nunca h\u00e1s tido?\u201d \u2014 \u201cFui homem, hoje o<br \/>\nlenho, que est\u00e1s vendo! Mais compassiva a tua m\u00e3o seria 39 Se<br \/>\nalma aqui fosse de um drag\u00e3o tremendo\u201d.<\/p>\n<p>Como acha verde, quando se incendia Num extremo s\u2019estorce, no outro<br \/>\nestala, 42 Chiando e a umidade fora envia: Daquela arvora assim brotava a<br \/>\nfala, E o sangue; a minha m\u00e3o j\u00e1 desprendera 45 O ramo, e, entanto,<br \/>\no horror no peito cala.<\/p>\n<p>\u201cSe de antes ele acreditar pudera\u201d Lhe torna o s\u00e1bio Mestre<br \/>\n\u201calma agravada, 48 O que eu nos versos meus lhe descrevera, \u201cPor<br \/>\nte ferir sua m\u00e3o n\u00e3o fora al\u00e7ada.<\/p>\n<p>N\u00e3o crera eu mesmo, e tanto que o induzira 51 Ao feito, que me pesa<br \/>\ne desagrada.<\/p>\n<p>\u201cDiz-lhe quem foste e as d\u00favidas lhe tira.<\/p>\n<p>O mal te compensando, a fama tua 54 H\u00e1 de avivar no mundo, a que retira\u201d.<br \/>\n\u2014 E o tronco: \u201cAl\u00edvio tanto \u00e0 dor, que atua, Causais,<br \/>\nque de bom grado eu j\u00e1 explico: 57 Ao triste dai que a m\u00e1goa<br \/>\nexprima sua.<\/p>\n<p>Fui quem do cora\u00e7\u00e3o de Frederico As chaves tive e usei com<br \/>\ntanto jeito, 60 Fechando e desfechando que era rico \u201cDa f\u00e9 com<br \/>\nque a mim s\u00f3 rendeu seu peito No glorioso cargo fui constante, 63 For\u00e7a,<br \/>\nalento exauri por seu proveito.<\/p>\n<p>\u201cA torpe meretriz, que, a todo instante Ao r\u00e9gio pa\u00e7o<br \/>\nolhos venais volvendo, 66 Morte comum, das cortes mal flagrante, \u201cContra<br \/>\nmim \u00f3dio em todos acendendo, Por eles acendeu iras de Augusto, 69 Que<br \/>\nhonras ledas tornou-me em luto horrendo.<\/p>\n<p>\u201cRessentindo-me ent\u00e3o do mundo injusto, Por fugir seus desd\u00e9ns,<br \/>\nbuscando a morte, 72 Comigo in\u00edquo fui eu, que era justo.<\/p>\n<p>\u201cPelo tronco em que peno desta sorte, Que jamais infiel hei sido, juro,<br \/>\n75 Ao Rei meu, que houve a gl\u00f3ria por seu norte, \u201cDe v\u00f3s<br \/>\no que voltar \u00e0 luz adjuro Que a mem\u00f3ria me salve ao nome honrado,<br \/>\n78 Que vulnerou da inveja o golpe duro\u201d. \u2014 O vate inda esperou.<br \/>\n\u2014 \u201cPois se h\u00e1 calado\u201d. \u2014<\/p>\n<p>Disse-me \u201cfala, se tu mais desejas 81 E pede-lhe: do tempo \u00e9s<br \/>\napressado\u201d. \u2014 Tornei: \u201cTu mesmo inquires quanto vejas Mais<br \/>\nconvir-me; que eu sinto-me inibido 84 Por m\u00e1goas, que em minha alma<br \/>\ns\u00e3o sobejas\u201d.<\/p>\n<p>Ele ent\u00e3o: \u201c\u2014 Se o desejo teu cumprido For por este homem,<br \/>\nnobremente usando, 87 Te apraza, encarcerada alma, ao pedido \u201cNosso<br \/>\natender, e como nos mostrando Se liga ao tronco o esp\u2019rito e se \u00e9<br \/>\nfact\u00edvel 90 Soltar-se um dia, o v\u00ednculo quebrando\u201d. \u2014<br \/>\nSoprou de rijo o lenho; e percept\u00edvel Aquele som desta arte nos dizia:<br \/>\n93 \u2014 \u201cResposta breve dou quanto \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cQuando os la\u00e7os do corpo uma alma \u00edmpia Destr\u00f3i<br \/>\npor si, do seu furor no enleio 96 Ao c\u00edrc\u2019lo sete Minos logo<br \/>\na envia.<\/p>\n<p>\u201cNa selva tomba e aonde acaso veio, E como o seu destino lhe consente,<br \/>\n99 A\u00ed, qual gr\u00e3o germina de centeio, \u201cVai crescendo at\u00e9<br \/>\nser \u00e1rvore ingente: As H\u00e1rpias, que a fronde lhe devoram, 102<br \/>\nCausam-lhe dor, que rompe em voz plangente.<\/p>\n<p>\u201cHemos de ir onde os corpos nossos moram, Como as outras, mas sem que<br \/>\nos revistamos, 105 Mor pena aos que em perd\u00ea-los prestes foram.<\/p>\n<p>\u201cArrastados ser\u00e3o por n\u00f3s: aos ramos Pendentes ficar\u00e3o<br \/>\nnesta floresta 108 Nos troncos, em que, assim, vedes, penamos\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Ouv\u00edamos ainda a sombra mesta, De mais dizer cuidando houvesse<br \/>\no intento.<\/p>\n<p>111 Eis sentimos rumor, que nos molesta.<\/p>\n<p>Assim monteiro, \u00e0 ca\u00e7a pouco atento, Do javardo e dos c\u00e3es<br \/>\nouve o estrupido 114 E das ramadas o estalar violento.<\/p>\n<p>S\u00fabito vejo \u00e0 esquerda, espavorido, Fugindo esp\u2019ritos<br \/>\ndois nus, lacerados, 117 Ramos rompendo ao bosque denegrido.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 morte!\u201d um clama \u2014 \u201cacode aos desgra\u00e7ados!\u201d<br \/>\nO segundo, que tardo se julgava: 120 \u201cNingu\u00e9m, \u00f3 Lano,<br \/>\nos p\u00e9s tanto apressados \u201cDe Toppo nas refregas te observava!\u201d<br \/>\nPor\u00e9m, de todo j\u00e1 perdido o alento, 123 Numa sar\u00e7a acolheu-se<br \/>\nque ali stava.<\/p>\n<p>Corria, enchendo a selva, em seguimento De famintas cadelas negro bando,<br \/>\n126 Quais al\u00f5es da cadeia ao todo isento A sombra homiziada se enviando,<br \/>\nA fez peda\u00e7os a matilha brava, 129 E logo ap\u00f3s levou-os ululando.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o meu Guia pela m\u00e3o me trava, Conduz-me \u00e0 sar\u00e7a,<br \/>\nque se em v\u00e3o carpia 132 Pelas roturas, que o seu sangue lava.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 Jac\u00f3 Santo Andr\u00e9!\u201d triste dizia \u2014<br \/>\n\u201cPodia eu ser-te acaso amparo certo? 135 Em mim por crimes teus que<br \/>\nculpa havia?\u201d \u2014 Disse-lhe o Mestre, quando foi mais perto: \u201cQuem<br \/>\n\u00e9s tu, que o teu sangue e m\u00e1goas exalas 138 Por golpes tantos,<br \/>\nde que est\u00e1s coberto?\u201d \u2014 Tornou-lhe: \u201c\u00d3 alma<br \/>\nque dessa arte falas E tu que o dano v\u00eas, que me separa, 141 Da fronde<br \/>\nminha, agora amonto\u00e1-las \u201cDignai-vos junto \u00e0 rama, que<br \/>\nas brotara.<\/p>\n<p>Na cidade nasci que por Batista 144 Deixou prisco patr\u00e3o, que da arte<br \/>\namara \u201cSempre pelos efeitos a contrista.<\/p>\n<p>E se do Arno na ponte n\u00e3o restasse<\/p>\n<p>147 Um vest\u00edgio, que traz seu culto \u00e0 vista \u201cTalvez ela<br \/>\n\u00e0 exist\u00eancia n\u00e3o tornasse, E quem das cinzas, que \u00c1tila<br \/>\nh\u00e1 deixado, Levantou-a os esfor\u00e7os malograsse.<\/p>\n<p>151 \u201cNa minha pr\u00f3pria casa hei-me enforcado\u201d. \u2014<\/p>\n<p>58. Fui quem do cora\u00e7\u00e3o de Frederico etc., Pedro des Vignes,<br \/>\nsecret\u00e1rio de Frederico II que se suicidou por ter sido acusado de<br \/>\ntrair o seu rei. \u2014 118. Um clama etc., Lano de Siena, que morreu em<br \/>\nPieve del Toppo, na batalha entre Senenses e Aretinos. \u2014 119. O segundo<br \/>\netc., Giacomo di S. Andrea, morto por Ezzelino de Romano. \u2014 143. Por<br \/>\nBatista etc., Floren\u00e7a, antes de tornar-se cidade protegida por S.<br \/>\nJo\u00e3o Batista, tinha como protetor Marte, do qual restava uma est\u00e1tua<br \/>\nsobre a ponte Vecchio.<br \/>\nCANTO XIV<\/p>\n<p>O terceiro compartimento no qual agora chegam os Poetas \u00e9 um campo<br \/>\nde areia ardente, devastado por grandes chamas de fogo.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e3o os violentos contra Deus, contra a natureza e contra<br \/>\na arte. Entre os primeiros est\u00e1 Capaneo, que desafia a Deus.<\/p>\n<p>Seguindo, Dante e Virg\u00edlio chegam a um regato sang\u00fc\u00edneo.<br \/>\nDeste e dos outros rios do Inferno Virg\u00edlio narra a origem misteriosa.<\/p>\n<p>DE amor do p\u00e1trio ninho comovido, Essas dispersas folhas reunindo,<br \/>\n3 \u00c0 sar\u00e7a as dei, que tinha a voz perdido.<\/p>\n<p>Ao limite, dali, fomos seguindo, Em que parte o recinto co\u2019 terceiro,<br \/>\n6 Onde a justi\u00e7a horr\u00edvel st\u00e1 punindo.<\/p>\n<p>Para expressar-lhe o aspecto verdadeiro, Eu digo que \u00e0 charneca ent\u00e3o<br \/>\nchegamos, 9 De plantas nua em seu espa\u00e7o inteiro.<\/p>\n<p>Da dor a selva a cerca dos seus ramos, Como o fosso a torneia sanguinoso:<br \/>\n12 Ali, rente co\u2019a borda, os p\u00e9s firmamos.<\/p>\n<p>O plaino era t\u00e3o \u00e1rido e arenoso, Como o que de Cat\u00e3o<br \/>\nos p\u00e9s outrora<\/p>\n<p>15 Na jornada calcaram fadigoso.<\/p>\n<p>\u00d3 vingan\u00e7a de Deus, quem n\u00e3o te adora Nos tremendos<br \/>\nefeitos meditando, 18 Que eu pr\u00f3prio olhei, que a minha voz memora!<br \/>\nDe almas nuas eu via infindo bando, Por modos diferentes torturadas, 21 Miser\u00e1veis,<br \/>\nmesquinhas pranteando.<\/p>\n<p>Jaziam sobre o dorso umas deitadas, Outras, dobrando os membros, se assentavam,<br \/>\n24 Muitas andavam sempre aceleradas.<\/p>\n<p>Maior a turba destas se mostrava, Menor a que, prostrada no tormento.<\/p>\n<p>27 Maior dor nos lamentos denotava.<\/p>\n<p>Largas flamas com tardo movimento Choviam do areal em todo o espa\u00e7o,<br \/>\n30 Qual neve em serra, quando \u00e9 mudo o vento.<\/p>\n<p>Na \u00cdndia sobre o ex\u00e9rcito, j\u00e1 lasso, Fogos cair viu<br \/>\nAlexandre outrora, 33 No ch\u00e3o ardendo livres de embara\u00e7o.<\/p>\n<p>Que aos p\u00e9s no solo os calquem sem demora Suas falanges avisado ordena:<br \/>\n36 Mat\u00e1-los um por um f\u00e1cil lhes fora.<\/p>\n<p>Assim baixava, para agravo \u00e0 pena, Lume eterno que \u00e0 areia<br \/>\nse prendia, 39 Como \u00e0 isca a fagulha mais pequena.<\/p>\n<p>Cada qual sem repouso se estorcia, A um lado e a outro os bra\u00e7os revolvendo<br \/>\n42 A cada chama, que do ar chovia.<\/p>\n<p>\u201cMestre\u201d \u2014 falei \u2014 \u201cque vais tudo vencendo,<br \/>\nSomente exceto a legi\u00e3o furente, 45 Que em Dite a entrada estava-nos<br \/>\ntolhendo, \u201cDiz quem seja a gr\u00e3 sombra, que n\u00e3o sente,<br \/>\nAo parecer, o inc\u00eandio, e n\u00e3o domado 48 Pela chuva, j\u00e1<br \/>\nr\u00e1pido, insolente?\u201d \u2014 Reconhecendo o pr\u00f3prio condenado<br \/>\nQue da minha pergunta fora objeto, 51 \u201cMorto sou qual fui vivo!\u201d<br \/>\nclama irado.<\/p>\n<p>\u201cQue Jove canse o armeiro seu dileto, De quem tomou fremente o agudo<br \/>\nraio 54 Para em mim saciar rancor abjeto; \u201cQue os seus c\u00edclopes<br \/>\nsintam j\u00e1 desmaio De Mongibello na oficina negra, 57 Aos gritos \u2014<br \/>\n\u201cBom Vulcano, acode ou caio!\u201d \u2014 \u201cComo fez na peleja<br \/>\nl\u00e1 de Flegra; Que me fulmine de \u00f3dio e sanha cheio:<\/p>\n<p>60 No gozo da vingan\u00e7a em v\u00e3o se alegra\u201d. \u2014 Virg\u00edlio<br \/>\nent\u00e3o, com voz, como n\u00e3o creio Lhe ter ouvido, sonorosa e forte,<br \/>\n63 Bradou-lhe: \u201cCapaneu, pois no teu seio \u201cN\u00e3o mitiga a<br \/>\nsoberda a pr\u00f3pria morte, Sofre mor pena; igual n\u00e3o h\u00e1<br \/>\ncastigo 66 Ao que a raiva te inflige desta sorte!\u201d \u2014 Para mim<br \/>\nse voltou; com gesto amigo Falou: \u2014 \u201cDos Reis que Tebas sitiaram<br \/>\n69 Foi um; de Deus se declarara imigo.<\/p>\n<p>\u201cOs crimes seus no inferno se agravaram; J\u00e1 disse-lhe, as blasf\u00eamias,<br \/>\nos furores 72 Digno pr\u00eamio em seu peito lhe deparam.<\/p>\n<p>\u201cVem agora ap\u00f3s mim; pelos fervores N\u00e3o caminhes da areia<br \/>\nincandescente; 75 Da selva ao longo evitas-lhe os ardores\u201d. \u2014<br \/>\nFomos andando, cada qual silente, At\u00e9 onde jorrar do bosque eu via<br \/>\n78 Rubro arroio, que lembro inda tremente.<\/p>\n<p>Do Bulicame qual o que sa\u00eda, Das pecadoras em servi\u00e7o usado:<br \/>\n81 Tal pela adusta areia este corria.<\/p>\n<p>As margens e orlas s\u00e3o de cada lado Feitas de pedra e assim tamb\u00e9m<br \/>\nseu leito: 84 Caminho ali notei ao passo azado.<\/p>\n<p>\u201cDe quanto aqui te conhecer hei feito, Depois que atr\u00e1s deixamos<br \/>\nessa porta, 87 A cujo ingresso todos t\u00eam direito, \u201cN\u00e3o<br \/>\nse h\u00e1 mostrado \u00e0 tua vista absorta Maravilha que iguale a desta<br \/>\nveia, 90 Em que a flama adurente fica morta\u201d. \u2014 O Mestre diz e<br \/>\nassim desejo ateia De rogar-lhe me preste esse alimento, 93 Que excitado,<br \/>\no apetite haver anseia.<\/p>\n<p>\u201cDo mar em meio jaz\u201d \u2014 ouvi-lhe atento \u2014 \u201cDestru\u00eddo<br \/>\npa\u00eds, Creta afamada.<\/p>\n<p>96 Com seu rei foi do mal o mundo isento.<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e7a-se ali montanha outrora ornada De fontes e verdor: chama-se<br \/>\nIda: 99 Erma est\u00e1, como cousa desprezada.<\/p>\n<p>\u201cFoi ao filho pra ber\u00e7o preferida De R\u00e9ia, que abafava<br \/>\no seu vagido 102 Fazer mandando grita desmedida.<\/p>\n<p>\u201cNas entranhas do monte um velho erguido Est\u00e1: voltando \u00e0<br \/>\nDamieta as costas,<\/p>\n<p>105 Como a espelho, olha Roma embevecido.<\/p>\n<p>\u201cDe ouro faces e fronte s\u00e3o compostas, De pura prata s\u00e3o<br \/>\nbra\u00e7os e peito, 108 En\u00e9ias do busto as partes bem dispostas.<\/p>\n<p>\u201cDe ferro estreme tudo o mais foi feito, O p\u00e9 direito exceto,<br \/>\nque \u00e9 de argila, 111 Mas o corpo sust\u00e9m, sendo imperfeito.<\/p>\n<p>\u201cSalvo do ouro, do mais sempre destila De l\u00e1grimas por fenda<br \/>\ncrebro fio, 114 Que fura a gruta e r\u00e1pido desfila.<\/p>\n<p>\u201cAos negros vales vem correndo em rio, Forma Stige, Aqueronte e Flegetonte,<br \/>\n117 Desce depois neste canal esguio \u201cAt\u00e9 do inferno o fundo,<br \/>\naonde \u00e9 fonte Do Cocito. O que o rio acaso seja 120 Ver\u00e1s: mister<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 que ora te conte\u201d. \u2014 \u2014 \u201cSe desde<br \/>\no nosso mundo ele serpeja, Dize, \u00f3 Mestre, a raz\u00e3o por que a<br \/>\ntorrente 123 S\u00f3 neste abismo l\u00f4brego se veja\u201d. \u2014<br \/>\n\u201c\u00c9 circular este lugar horrente, E posto haja vencido extenso<br \/>\ntrato, 126 Descendo tu \u00e0 esquerda, inteiramente<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1s feito inda ao c\u00edrc\u2019lo o giro exato.<\/p>\n<p>N\u00e3o revele o teu rosto maravilha.<\/p>\n<p>129 Novas cousas em vendo e estranho fato\u201d. \u2014 Ainda eu perguntei:<br \/>\n\u2014 \u201cPor onde trilha O Flegetonte e o Letes? De um te calas, 132<br \/>\nE do outro a veia \u00e9 dessa origem filha\u201d. \u2014 Tornou: \u2014<br \/>\n\u201cMuito me agrada quanto falas; Da \u00e1gua rubra o fervor, por\u00e9m,<br \/>\nsolvera 135 Uma dessas quest\u00f5es, que me assinalas.<\/p>\n<p>\u201cDo inferno fora o Letes ver espera: Na linfa sua as almas v\u00e3o<br \/>\nlavar-se 138 Depois que a penit\u00eancia o perd\u00e3o gera\u201d. \u2014<br \/>\nDisse depois: \u201c\u00c9 tempo de deixar-se A selva; os passos meus sempre<br \/>\nacompanha, Pela margem caminho h\u00e1 para andar-se.<\/p>\n<p>142 Do fogo ali se extingue toda sanha\u201d. \u2014<\/p>\n<p>32. Alexandre, alus\u00e3o a uma aventura de Alexandre Magno. \u2014 55.<br \/>\nC\u00edclopes, gigantes com um s\u00f3 olho no meio da testa, que fabricavam<br \/>\narmas para J\u00fapiter. \u2014 56. Mongibello, o vulc\u00e3o Etna, na<br \/>\nSic\u00edlia. \u2014 63. Capaneu, um dos sete reis que sitiaram Tebas.<br \/>\n\u2014 79. Bulicame, fonte de \u00e1gua quente perto de Roma. \u2014 101.<br \/>\nR\u00e9ia, mulher de Saturno e m\u00e3e de J\u00fapiter. \u2014 103-105.<\/p>\n<p>Velho de Creta, s\u00edmbolo da humanidade e, segundo outros, da monarquia,<br \/>\nque, em princ\u00edpio boa e reta, vai depois degenerando.<br \/>\nCANTO XV<\/p>\n<p>Prosseguindo os Poetas, encontram um grupo de violentos contra a natureza.<br \/>\nEntre estes est\u00e1 Brunetto Latini, que reconhece o disc\u00edpulo<br \/>\ne lhe pede para aproximar-se dele, a fim de conversarem. Falam de Floren\u00e7a<br \/>\ne das desventuras reservadas a Dante. Brunetto d\u00e1 ao Poeta ligeiras<br \/>\nnot\u00edcias a respeito das almas que est\u00e3o danadas com ele e foge<br \/>\npara reunir-se a elas.<\/p>\n<p>POR uma dessas margens empedradas Imos: vapor do rio resguardava 3 Das chamas<br \/>\no \u00e1lveo e as bordas elevadas.<\/p>\n<p>Como do mar temendo a for\u00e7a brava De Bruge a Cadsand, Flamengos fazem<br \/>\n6 Os diques, com que o mal se desagrava; Ou como o dano atalha, que lhe trazem<br \/>\nDo Brenta as invas\u00f5es de P\u00e1dua a gente, 9 Se em Quiarentana<br \/>\nos gelos se desfazem, Assim as bordas desse rio horrente, Posto altura e grossura<br \/>\nlhes n\u00e3o desse 12 Iguais, quem quer que fosse artista ingente.<\/p>\n<p>A selva j\u00e1 distante de n\u00f3s era Tanto, que eu divis\u00e1-la<br \/>\nn\u00e3o podia,<\/p>\n<p>15 Quando os olhos por v\u00ea-la atr\u00e1s volvera, Eis encontramos<br \/>\nmultid\u00e3o sombria, Que a margem costeava, nos olhando, 18 Como s\u00f3i<br \/>\ncaminhante, ao fim do dia, Que vai, por lua nova, outro encarando: Para nos<br \/>\nver os c\u00edlios contraindo, 21 Qual a agulha o artesano aparelhando.<\/p>\n<p>Assim, de mira \u00e0 turba n\u00f3s servindo, Conhecido fui de um que<br \/>\nme travava 24 Da roupa \u2014 \u201c\u00d3 maravilha!\u201d \u2014 repetindo.<\/p>\n<p>Quando o seu bra\u00e7o para mim se al\u00e7ava, Atentei-lhe no rosto<br \/>\nrequeimado; 27 Posto que demudado, n\u00e3o vedava Que de mim fosse nas<br \/>\nfei\u00e7\u00f5es lembrado.<\/p>\n<p>\u00c0 sua face inclinando a m\u00e3o, lhe digo, 30 \u2014 \u201cMesser<br \/>\nBrunetto! v\u00f3s aqui!\u201d \u2014 torvado.<\/p>\n<p>\u201cFilho meu! complacente s\u00ea comigo! Vir Brunetto Latini ora consente,<br \/>\n33 Deixando a turba, um pouco assim contigo!\u201d \u2014 Tornei: \u2014<br \/>\n\u201cmuito vos rogo; e que me assente Convosco se quereis, prazendo ao guia<br \/>\n36 Dos passos meus, assentirei contente\u201d. \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe um momento um de n\u00f3s\u201d \u2014 me respondia<br \/>\n\u2014 Aqui parasse, im\u00f3vel anos cento, 39 Pelo fogo ferido jazeria.<\/p>\n<p>\u201cCaminha: que eu te irei no seguimento.<\/p>\n<p>Depois hei de juntar-me \u00e0 companhia 42 Dos que pranteiam no eternal<br \/>\ntormento\u201d. \u2014 Eu da estrada a descer n\u00e3o me atrevia Por<br \/>\nir com ele; mas a fronte inclino 45 Reverente; e, falando prosseguia.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue fortuna\u201d \u2014 me disse \u2014 \u201cou que<br \/>\ndestino Antes da morte aqui te h\u00e1 conduzido? 48 De quem recebes na<br \/>\njornada ensino?\u201d \u2014 \u201cAntes de haver da idade o tempo enchido<br \/>\nSobre a terra na vida sossegada; 51 Num vale\u201d \u2014 respondi \u2014<br \/>\n\u201cfiquei perdido.<\/p>\n<p>\u201cOntem costas lhe dei por madrugada; Ele acudiu-me, quando atr\u00e1s<br \/>\nvoltava, 54 E me conduz assim por esta estrada\u201d. \u2014 \u2014 \u201cSe<br \/>\nbem vaticinei, quando gozava, Da vida bela, glorioso porto 57 Te h\u00e1<br \/>\nde o teu astro conduzir\u201d \u2014 tornava.<\/p>\n<p>\u201cSe antes do tempo eu n\u00e3o stivesse morto.<\/p>\n<p>Vendo que tanto o c\u00e9u te era benigno, 60 Te dera nos trabalhos o conforto.<\/p>\n<p>\u201cMas esse ingrato povo \u00e9 t\u00e3o maligno, Que outrora de<br \/>\nFiesole viera 63 E tem de penha o cora\u00e7\u00e3o ferino, \u201cEm<br \/>\nti, por seres bom, mal considera.<\/p>\n<p>\u00c9 justo: que entre acerbos sovereiros 66 Crescer doce figueira n\u00e3o<br \/>\nse espera.<\/p>\n<p>\u201cVelha fama os diz cegos, sempre useiros Na soberba, na inveja, na<br \/>\navareza.<\/p>\n<p>69 Deles te esquiva; em v\u00edcios s\u00e3o vezeiros.<\/p>\n<p>\u201cTe guarda a sorte de honras tal grandeza, Que h\u00e1s de ser dos<br \/>\npartidos cobi\u00e7ado; 72 Mas das garras lhes fica longe a presa.<\/p>\n<p>\u201cCeve em si pr\u00f3pria o fiesolano gado Os instintos brutais; n\u00e3o<br \/>\ntoque a planta, 75 Que inda haja em tal nateiro germinado, \u201cE em que<br \/>\na semente ressuscite santa Dos romanos, que ali restaram, quando 78 Teceu-se<br \/>\no ninho de mal\u00edcia tanta\u201d. \u2014 \u2014 \u201cSe o c\u00e9u\u201d<br \/>\n\u2014 tornei \u2014 \u201cmeus votos escutando, Deferisse, da vida o lume<br \/>\nagora 81 Ainda aos olhos vos raiara brando;<\/p>\n<p>\u201cQue a doce imagem vossa inda memora Saudosa a mente e o paternal desvelo<br \/>\n84 Com que me heis ensinado de hora em hora \u201cComo homem faz-se eternamente<br \/>\nbelo.<\/p>\n<p>Enquanto eu vivo for, agradecido 87 Ao mundo bem patente hei de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u201cO vatic\u00ednio vosso, reunido A outro, h\u00e1 de explicar-me<br \/>\ns\u00e1bia Dama, 90 Quando \u00e0 sua presen\u00e7a houver subido.<\/p>\n<p>\u201cE como a consci\u00eancia me n\u00e3o clama, Sabei que, quando<br \/>\na sorte avessa esteja, 93 A todo o mal sou prestes, que ela trama.<\/p>\n<p>\u201cO que ouvi n\u00e3o cuideis novo me seja: Volva-se a roda como a<br \/>\nsorte a lan\u00e7a, 96 Lavre a terra o vil\u00e3o como deseja\u201d.<br \/>\n\u2014 Ent\u00e3o meu douto Mestre, que se avan\u00e7a, Girando \u00e0<br \/>\ndestra e me encarando, disse: 99 \u201cBem compreende quem tem boa lembran\u00e7a!\u201d<br \/>\n\u2014 N\u00e3o me vedou, por\u00e9m, que eu prosseguisse Na pr\u00e1tica;<br \/>\ne a Brunetto os mais famosos 102 Pedi que dos seus s\u00f3cios referisse.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAlguns conv\u00e9m saber, mais numerosos Em sil\u00eancio<br \/>\ndeixar louv\u00e1vel sendo: 105 M\u00edngua o tempo aos discursos copiosos.<\/p>\n<p>\u201cSabe, em suma, que cl\u00e9rigos havendo Todos sido e letrados mui<br \/>\nfamosos.<\/p>\n<p>108 Se mancharam num s\u00f3 pecado horrendo.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e3o na turba daqueles desditosos Ac\u00fario e Prisciano;<br \/>\nalguns protervos 111 Se ver quiseres, por tal lepra ascosos.<\/p>\n<p>\u201cOlha o que, como quis servo dos servos, Pra Bacchiglione foi do Arno<br \/>\nmudado 114 E ali deixou seus deformados nervos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o mais dizer, nem ir posso ao teu lado, Pois do areal j\u00e1<br \/>\nvejo de repente 117 Vapor novo surgir afogueado.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o devo andar com bando diferente.<\/p>\n<p>O meu Tesouro eu muito te encomendo: 120 Nele inda vivo, e rogo isto somente\u201d.<br \/>\n\u2014 Voltou-se; e foi t\u00e3o r\u00e1pido correndo, Como os que correm<br \/>\npelo p\u00e1lio verde No campo de Verona, parecendo 124 Mais ser quem vence<br \/>\ndo que ser quem perde.<\/p>\n<p>30. Messer Brunetto, Brunetto Latino, autor do \u201cTesouro\u201d, e mestre<br \/>\nde Dante. \u2014 62 Fiesole, pequena cidade perto de Floren\u00e7a. \u2014<br \/>\n110. Ac\u00farcio, Francesco d\u2019Accursio, jurisconsulto bolonh\u00eas.<br \/>\nPrisciano, gram\u00e1tico de Cesar\u00e9ia \u2014 112. Olha o que, etc.<br \/>\nAndr\u00e9ia de Mozzi, bispo de Floren\u00e7a e, depois, de Vic\u00eancia.<br \/>\nCANTO XVI<\/p>\n<p>Perto do limite do terceiro compartimento do s\u00e9timo c\u00edrculo<br \/>\nos Poetas encontram outro bando de almas de sodomitas, no qual se destacam<br \/>\ntr\u00eas ilustres compatriotas de Dante. Reconhecendo-o, falam da decad\u00eancia<br \/>\ndas virtudes pol\u00edticas e civis de Floren\u00e7a.<\/p>\n<p>Chegam, depois \u00e0 orla de outro precip\u00edcio, onde a um sinal<br \/>\nde Virg\u00edlio, sobe, voando pelos ares, uma figura estranh\u00edssima.<\/p>\n<p>EM lugar stava j\u00e1 donde se ouvia Rumor, igual de abelhas ao zumbido,<br \/>\n3 De \u00e1gua, que noutro c\u00edrculo ca\u00eda: Eis tr\u00eas sombras<br \/>\npartir vi comovido, Correndo, de uma turba que passava 6 Debaixo do mart\u00edrio<br \/>\ndesmedido.<\/p>\n<p>Vinham a n\u00f3s, e cada qual gritava: \u201cDet\u00e9m-te; por teus<br \/>\ntrajos se afigura 9 Seres algu\u00e9m da nossa terra prava\u201d. \u2014<br \/>\nAh! que chagas nos membros, na figura O fogo lhes abria, novas e antigas!<br \/>\n12 S\u00f3 recordando, eu sinto m\u00e1goa pura.<\/p>\n<p>O mestre, que escutara \u2014 \u201cN\u00e3o prossigas! Cumpre-te\u201d<br \/>\n\u2014 disse, o rosto me voltando, \u2014<\/p>\n<p>15 \u201cAguardando, lhes dar mostras amigas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o estivesse o fogo dardejando, Como o lugar requer, te caberia<br \/>\n18 Mais pressa do que est\u00e3o manifestando\u201d. \u2014 Paramos. Renovando<br \/>\na vozeria Um c\u00edrc\u2019lo junto a n\u00f3s os tr\u00eas formaram,<br \/>\n21 Em que as m\u00e3os cada qual dos tr\u00eas unia.<\/p>\n<p>Como atletas, que, nus, de \u00f3leo se untaram, Mas, antes de lutar, dos<br \/>\nadvers\u00e1rios 24 No fraco atentam, no seu prol reparam: Eles, se revolvendo<br \/>\nem giros v\u00e1rios, Olhavam-me em tal modo colocados, 27 Que os colos<br \/>\naos seus p\u00e9s stavam contr\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u201cSe a mis\u00e9ria, em que somos trateados, Se o triste aspecto da<br \/>\ntostada face 30 Te move a desdenhar s\u00faplices brados, \u201cNossa fama<br \/>\no teu \u00e2nimo traspasse; E pois, dize quem \u00e9s que, ufano, o inferno<br \/>\n33 Calcas antes que a vida se finasse.<\/p>\n<p>\u201cEste, por quem os passos meus governo, Escoriado e nu, que ora est\u00e1s<br \/>\nvendo, 36 Mais do que o cr\u00eas no mundo foi superno.<\/p>\n<p>Da famosa Gualdrada o neto sendo, Chamou-se Guido Guerra, e foi na vida 39<br \/>\nPor esfor\u00e7o e prud\u00eancia reverendo.<\/p>\n<p>A Tegghiaio Aldobrandi, que em seguida Me vai, por sua voz, por seus bons<br \/>\nfeitos 42 Devera ser a p\u00e1tria agradecida.<\/p>\n<p>Eu que tamb\u00e9m da pena sofro efeitos Jacopo Rusticucci fui: da esposa<br \/>\n43 O maior mal causaram-me os defeitos\u201d. \u2014 Se houvesse amparo<br \/>\n\u00e0 chuva pavorosa (Virg\u00edlio o consentira), eu me lan\u00e7ara<br \/>\n48 Entre eles, da alma na expans\u00e3o piedosa; Por\u00e9m naqueles fogos<br \/>\nme abrasara, Sobrepujou temor vivo desejo, 51 Que de abra\u00e7\u00e1-los<br \/>\ns\u00fabito me entrara.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o desd\u00e9m, mas piedade neste ensejo, Que n\u00e3o<br \/>\nse extinguira, me tem movido\u201d 54 Lhes disse \u2014 \u201co padecer<br \/>\nem que vos vejo, \u201cTanto que o Senhor meu h\u00e1 proferido Palavras,<br \/>\nque a presen\u00e7a me indicaram 57 De almas quais sois neste lugar temido.<\/p>\n<p>\u201cDa vossa terra sou: sempre exaltaram Meu apre\u00e7o e o dos que<br \/>\nvos conheceram<\/p>\n<p>60 A\u00e7\u00f5es que os nomes vossos tanto honraram.<\/p>\n<p>\u201cPor meu Guia veraz esperan\u00e7ado, Deixo o fel por do\u00e7ura<br \/>\npermanente 63 Tendo primeiro o centro visitado\u201d. \u2014 \u201cQue<br \/>\nno teu corpo a vida longamente Persista!\u201d \u2014 a sombra disse. \u2014<br \/>\n\u201cDure a fama 66 Do nome teu com lume resplendente! \u201cNa p\u00e1tria<br \/>\nnossa inda revive a flama Da honra, do valor, que ali brilhara, 69 Ou de todo<br \/>\na expeliu \u00f3dio que infama? \u201cPois Guilherme Borsiere, que baixara,<br \/>\nH\u00e1 pouco, e vai chorando nesta ard\u00eancia, 72 Cruciou-nos contando<br \/>\no que notara\u201d. \u2014 \u201c\u00cdncolas novos, s\u00fabita opul\u00eancia,<br \/>\n\u2014 Floren\u00e7a, orgulho e v\u00edcios te acenderam, 75 De que tu<br \/>\npr\u00f3pria temes a influ\u00eancia!\u201d \u2014 Gritei al\u00e7ando<br \/>\na fronte: e os tr\u00eas, que me eram Atentos, \u00e0 resposta se encararam,<br \/>\n78 Como se essas verdades lhes prouveram.<\/p>\n<p>\u201cSe t\u00e3o pouco te custa\u201d \u2014 me tornaram \u2014 \u201cSempre<br \/>\naos outros expor teu pensamento, 81 Feliz tu! Vozes tais assaz te honraram.<\/p>\n<p>\u201cE, pois, voltando a luz do firmamento, Se alfim sa\u00edres desta<br \/>\nest\u00e2ncia horrente, 84 Quando \u2014 \u201cL\u00e1 fui!\u201d \u2014<br \/>\ndisseres, de contente, \u201cNos olvidar n\u00e3o deixa a humana gente\u201d.<br \/>\n\u2014 Ent\u00e3o, rompendo o c\u00edrculo, fugiram, 87 Como se asas<br \/>\ntiveram, velozmente.<\/p>\n<p>Em menos tempo aos olhos se esva\u00edram Do que proferir amen se gasta.<\/p>\n<p>90 Logo aos passos do Mestre os meus seguiram.<\/p>\n<p>Dali dist\u00e2ncia curta nos afasta, Eis da \u00e1gua os sons ouvimos,<br \/>\nt\u00e3o de perto, 93 Que a voz for\u00e7ar para se ouvir n\u00e3o basta.<\/p>\n<p>Como o rio que, no \u00e1lveo pr\u00f3prio aberto, Em Veso nasce e vai<br \/>\npara o oriente, 96 Ao lado esquerdo do Apenino, e ao certo Aquaqueta se chama,<br \/>\nda eminente Parte enquanto n\u00e3o desce, mas, tomando 99 Nome diverso<br \/>\nem Forli de repente, Rebomba e cai pela quebrada, quando Acerca-se a S. Bento,<br \/>\no gr\u00e3o mosteiro 102 Que dar a mil pudera asilo brando: Assim desde<br \/>\num penhasco sobranceiro Da \u00e1gua rubra troava alto estampido,<\/p>\n<p>105 Que fora de surdez risco certeiro.<\/p>\n<p>De uma corda eu me achava ent\u00e3o cingido Com que outrora prender quis<br \/>\na pantera, 108 De p\u00ealo em malhas v\u00e1rias repartido.<\/p>\n<p>Que a tirasse Virg\u00edlio me dissera: Eu descingi-me presto, lha entregando<br \/>\n111 Enrolada, como ele prescrevera.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele \u00e0 direita se voltando, A dist\u00e2ncia da borda<br \/>\nalcantilada 114 Lan\u00e7ou-a longe para o abismo infando.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c0quela a\u00e7\u00e3o n\u00e3o de antes praticada,\u201d<br \/>\n\u2014 Pensei \u2014 \u201ch\u00e1 de seguir-se estranho efeito, 117<br \/>\nQue do Mestre a aten\u00e7\u00e3o tem despertada\u201d. \u2014 Quanta<br \/>\ncautela deve haver e jeito, Tratando-se com quem v\u00ea n\u00e3o somente<br \/>\n120 Os atos, mas tamb\u00e9m o que h\u00e1 no peito! \u2014 \u201cSurgir\u00e1\u201d<br \/>\n\u2014 disse o Mestre \u2014 \u201cbrevemente O que espero: o que tens<br \/>\nno pensamento 123 Logo aos teus olhos ficar\u00e1 patente.\u201d Verdade,<br \/>\nque pare\u00e7a fingimento, Evita proferir homem discreto: 126 Sofre desar,<br \/>\nde culpa estando isento.<\/p>\n<p>Nada posso omitir, leitor dileto: Desta com\u00e9dia pelos cantos juro<br \/>\n129 (Sejam assim de longo aplauso objeto!) Que subir por aquele ar grosso,<br \/>\nescuro Nadando vi figura temerosa 129 Ao peito mais intr\u00e9pido e seguro:<br \/>\nTal quem desceu pela onda perigosa A desprender de ocultos embara\u00e7os,<br \/>\nL\u00e1 no fundo, a fateixa vagarosa, 136 Subindo, encolhe as pernas, tende<br \/>\nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>38. Guido Guerra, florentino, combateu em Montaperti. \u2014 40.<\/p>\n<p>Tegghiaio Atdobrandi, tamb\u00e9m patriota florentino. \u2014 44. Jacopo<br \/>\nRusticucci, valoroso cavaleiro florentino que combateu tamb\u00e9m na batalha<br \/>\nde Montaperti. \u2014 70. Guilherme Borsiere, gentil- homem florentino. \u2014<br \/>\n135. Fateixa, pequena \u00e2ncora.<br \/>\nCANTO XVII<\/p>\n<p>Enquanto Virg\u00edlio fala com Gerion, para convencer essa horr\u00edvel<br \/>\nfera a lev\u00e1-los ao fundo do abismo, Dante se aproxima das almas dos<br \/>\nviolentos contra a arte. Dante reconhece alguns deles. A cada um pende do<br \/>\npeito uma bolsa na qual s\u00e3o desenhadas as armas da sua fam\u00edlia.<br \/>\nVolta depois o Poeta para o lugar onde est\u00e1 Virg\u00edlio, que assentado<br \/>\nj\u00e1 sobre o dorso de Gerion, p\u00f5e-no diante de si, e assim descem<br \/>\nao oitavo c\u00edrculo.<\/p>\n<p>\u201cEIS a fera, que a horrenda cauda enresta, Que arneses, montes, muros<br \/>\natravessa 3 E com seu bafo impuro o mundo empesta!\u201d Assim Virg\u00edlio<br \/>\na me falar come\u00e7a.<\/p>\n<p>Para acercar-se logo lhe acenava 6 Ao marm\u00f3reo anteparo que ali cessa.<\/p>\n<p>Da fraude o vulto imundo aproximava! A cabe\u00e7a avan\u00e7ou e o torpe<br \/>\nbusto, 9 Por\u00e9m pendente a cauda lhe ficava A cara assomos tinha de<br \/>\nhomem justo, Tanto era o parecer beni\u2019no e brando! 12 No mais serpe,<br \/>\nmovia horror e susto.<\/p>\n<p>Grandes, hirsutos bra\u00e7os dilatando,<\/p>\n<p>Al\u00e7ava peito, ilhais, dorso malhados, 15 Mil rodelas e n\u00f3s<br \/>\nse entrela\u00e7ando.<\/p>\n<p>Mais cores nos estofos recamados T\u00e1rtaros, Turcos nunca misturaram,<br \/>\n18 Nem Aracne em tecidos variegados.<\/p>\n<p>Como os bat\u00e9is, que \u00e0 praia se amarram, No mar a popa t\u00eam,<br \/>\na proa em terra; 21 E, como em regi\u00f5es, que se deparam Sob o voraz<br \/>\nTudesco, a fazer guerra Embosca-se o castor: assim se via 24 O monstro \u00e0<br \/>\norla, que as areias cerra.<\/p>\n<p>No ar a extensa cauda revolvia; E a venenosa ponta bipartida, 27 Do escorpi\u00e3o<br \/>\nqual dardo, se erigia \u201cT\u00e9 onde a fera atroz jaz estendida.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m seja o caminho desviado 30 Da senda\u201d \u2014 disse o<br \/>\nVate \u2014 \u201cprosseguida\u201d \u2014 Descendo, pois, pelo direito<br \/>\nlado Para o fogo fugir e a areia ardente 33 Passos dez pela borda hemos andado.<\/p>\n<p>Chegados n\u00f3s de Geri\u00e3o em frente, Um tanto al\u00e9m sentado<br \/>\num bando achamos 36 Na areia, perto desse abismo ingente.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDo recinto por teres, em que estamos\u201d \u2014 Virg\u00edlio<br \/>\ndisse \u2014 \u201ca experi\u00eancia inteira 39 A sorte vai saber dos<br \/>\nque avistamos.<\/p>\n<p>\u201cOs discursos, por\u00e9m, filho aligeira.<\/p>\n<p>Entanto impetrarei da fera infanda 42 Que prestar-nos seus ombros fortes<br \/>\nqueira\u201d. \u2014 S\u00f3 pela borda, como o Vate manda, Vou do c\u00edrculo<br \/>\ns\u00e9timo seguindo, 45 Dos mestos pecadores em demanda.<\/p>\n<p>A dor, que brota em l\u00e1grimas, sentindo, Socorre-se das m\u00e3os<br \/>\na aflita gente 48 Contra o solo e o vapor, que est\u00e1 caindo.<\/p>\n<p>Assim lebr\u00e9us, durante a calma ardente Dos dentes e unhas valem-se,<br \/>\nmordidos 51 De tav\u00f5es por enxame impertinente.<\/p>\n<p>Quando encarei nos rostos doloridos De alguns, que os fogos tanto cruciavam,<br \/>\n54 Que eram todos achei desconhecidos.<\/p>\n<p>Bolsas pendentes dos seus colos stavam, Pelos sinais distintas, pelas cores:<br \/>\n57 Contemplando-as, seus olhos se enlevavam.<\/p>\n<p>E vi j\u00e1 me acercando aos pecadores<\/p>\n<p>Bolsa, na qual em campo de ouro havia 60 Azul, que era le\u00e3o nos seus<br \/>\nlavores, A vista, que j\u00e1 noutra se embebia, Em sang\u00fc\u00edneo<br \/>\nrubor ganso eu notava, 63 Que a brancura do leite escurecia.<\/p>\n<p>Gr\u00e1vida, azul jardava um, que ostentava, Broslada sobre c\u00e2ndida<br \/>\nescarcela, 66 \u2014 \u201cQue buscas neste abismo?\u201d perguntava.<\/p>\n<p>\u201cRetira-te! Se a vida gozas bela, Sabe que \u00e0 sestra m\u00e3o<br \/>\nVitaliano, 69 Vizinho meu ter\u00e1 condigna sela.<\/p>\n<p>\u201cEntre estes Florentinos sou Paduano; A todo instante aturdem-me os<br \/>\nouvidos, 72 Bradando: \u2014 O nobre venha, o soberano, \u201cQue os tr\u00eas<br \/>\nbicos na bolsa traz sculpidos\u201d. \u2014 Depois, torcendo a boca, a l\u00edngua<br \/>\ntira, 75 Qual boi, que os bei\u00e7os lambe, ressequidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o querendo mover desgosto ou ira Em quem mor brevidade me ordenara,<br \/>\n78 Os mesquinhos deixei: assaz ouvira.<\/p>\n<p>Disse-me o Guia ent\u00e3o, que cavalgara O dorso do animal fero e possante:<br \/>\n81 \u201cS\u00ea forte, a tudo o \u00e2nimo prepara!<\/p>\n<p>\u201cSe desce em tal escada de ora avante; Sobe-te ao colo; ao meio irei<br \/>\nsentado: 84 Que n\u00e3o te ofenda a cauda penetrante.\u201d De quart\u00e3<br \/>\nqual doente, que, chegado Supondo o acesso, l\u00edvido estremece 87 Somente<br \/>\nao ver lugar fresco, assombrado Tal quando ouvi, meu peito, desfalece.<\/p>\n<p>Ante o Mestre d\u00e1-me o pejo alento: 90 Bom amo o servo esfor\u00e7a<br \/>\nque esmorece.<\/p>\n<p>J\u00e1 sobre a espalda do animal cruento, Quero ao vate gritar: \u201cSenhor,<br \/>\nme abra\u00e7a!\u201d 93 A voz, por\u00e9m, n\u00e3o corresponde ao<br \/>\nintento.<\/p>\n<p>Ele, que a mente espavorida e lassa Em circuito mais alto me animara, 96<br \/>\nSustendo-me, nos bra\u00e7os seus me enla\u00e7a, E disse a Geri\u00e3o:<br \/>\n\u201cVai, mais n\u00e3o p\u00e1ra.<\/p>\n<p>Em circuitos largos sem ter pressa: 99 Na carga, que ora tens, nova repara!\u201d<br \/>\n\u2014 Bem como esquife, que voar come\u00e7a, Manso e manso recua: assim<br \/>\nmoveu-se.<\/p>\n<p>102 Quando ao largo sentiu-se, eis endere\u00e7a A cauda aonde o peito<br \/>\nseu tendeu-se.<\/p>\n<p>Meneando-a, a retesa como enguia; 105 Das patas agitado o ar fendeu-se.<\/p>\n<p>Feton, quando as r\u00e9deas j\u00e1 perdia, Ao ver do c\u00e9u o inc\u00eandio,<br \/>\nainda aparente; 108 \u00cdcaro, quando lhe cair sentia Da cera cada pluma<br \/>\nao sol ardente, Gritando o pai; \u2014 \u201cAi! filho! Erraste a strada!\u201d<br \/>\n111 De pavor n\u00e3o se entraram mais veemente, Do que eu nessa viagem<br \/>\ndesusada, No ar quando me vi, quando enxergava 114 S\u00f3 a cerviz da fera<br \/>\nmaculada: Com tardo movimento ela nadava, Que gira e baixa pelo vento eu sinto<br \/>\n117 Que em torno ao rosto e abaixo se agitava.<\/p>\n<p>J\u00e1 ouvia \u00e0 direita bem distinto, Troar da catadupa fragorosa:<br \/>\n120 Olhos inclino ao fundo do recinto.<\/p>\n<p>A mente estremeceu mais temerosa Ao chamejar de fogo, ao som de pranto: 123<br \/>\nEncolhi-me ante a cena pavorosa.<\/p>\n<p>De que descia ent\u00e3o, com mor espanto, Pelos males, que via, fiquei<br \/>\ncerto, 126 A mim se avizinhar a cada canto.<\/p>\n<p>Qual falc\u00e3o que no ar pairava incerto, Sem ver reclamo ou cobi\u00e7ada<br \/>\npresa 129 Perdida a esp\u2019ran\u00e7a ao ca\u00e7ador esperto, Descamba,<br \/>\nfatigado e sem presteza, Em voltas mil por onde se arrojara, 132 E longe pousa,<br \/>\nou de ira, ou de tristeza: Tal Geri\u00e3o, enfim, no fundo p\u00e1ra<br \/>\nAo p\u00e9 da penedia alcantilada, Livre do peso j\u00e1 que carregara,<br \/>\n136 Sumiu-se como seta disparada.<\/p>\n<p>18. Aracne, personagem da mitologia grega, transformada por Minerva em aranha.<br \/>\n\u2014 68. Vitaliano, usur\u00e1rio paduano, ainda vivente. \u2014 72.<br \/>\nO nobre venha, Giovanni Baiamonti, florentino, que tinha como bras\u00e3o<br \/>\ntr\u00eas bicos de p\u00e1ssaro. \u2014 106. Feton, filho de Apolo, que,<br \/>\nno guiar o carro do Sol, precipitou-se. \u2014 108. \u00cdcaro, filho de<br \/>\nD\u00e9dalo, que voando com as asas de cera fabricadas pelo pai, precipitou<br \/>\nao solo.<br \/>\nCANTO XVIII<\/p>\n<p>Encontram-se os Poetas no oitavo c\u00edrculo, chamado Malebolge, o qual<br \/>\n\u00e9 dividido em dez compartimentos conc\u00eantricos. Em cada um deles<br \/>\n\u00e9 punida uma esp\u00e9cie de pecadores, condenados por mal\u00edcia<br \/>\nou fraude. No primeiro compartimento s\u00e3o punidos com a\u00e7oites<br \/>\npela m\u00e3o de dem\u00f4nios os alcoviteiros; e entre eles Dante reconhece<br \/>\nVenedico Caccianemico e Jas\u00e3o. No segundo jazem em esterco os aduladores<br \/>\ne as mulheres lisonjeiras, entre outros, Alessio Interminelli, de Lucca e<br \/>\nTa\u00eds.<\/p>\n<p>TEM o inferno, de rocha constru\u00eddo, De f\u00e9rrea cor, de muro<br \/>\nigual cercado 3 Um lugar: Malebolge o nome havido.<\/p>\n<p>L\u00e1 no centro do plaino inficionado Se escancara gr\u00e3o po\u00e7o,<br \/>\namplo e profundo: 6 Direi a compostura em tempo asado.<\/p>\n<p>Espa\u00e7o em torno estende-se rotundo Entre o po\u00e7o e o penhasco<br \/>\npavoroso: 9 Reparte-se em dez cavas o seu fundo.<\/p>\n<p>Qual de fossos dobrados, cauteloso, Se apercebendo, o alc\u00e1\u00e7ar<br \/>\nse assegura 12 Dos assaltos de imigo poderoso:<\/p>\n<p>De abismos tais o aspecto se afigura.<\/p>\n<p>Como da levadi\u00e7a ponte entrada, 15 Aos de fora, do mundo na cintura,<br \/>\nAssim, do val no fundo come\u00e7ada, Cada cava uma rocha atravessava 18<br \/>\nEm arco, para o po\u00e7o concentrada.<\/p>\n<p>De n\u00f3s o monstro aqui se descargava: \u00c0 sestra m\u00e3o seguiu<br \/>\nlogo o poeta, 21 E eu de perto fiel o acompanhava.<\/p>\n<p>Novo tormento \u00e0 destra me inquieta, Novos algozes vejo, novas dores,<br \/>\n24 De que a primeira cava era repleta.<\/p>\n<p>St\u00e3o l\u00e1 no fundo nus os pecadores: Do meio contra n\u00f3s<br \/>\nmuitos caminham, 27 Outros conosco, em passos j\u00e1 maiores.<\/p>\n<p>Em Roma, assim, \u00e0s turbas, que se apinham Do jubileu no tempo, sobre<br \/>\na ponte 30 Se abriu aos que iam tr\u00e2nsito e aos que vinham: De um lado<br \/>\nandavam, os que tendo em fronte O castelo, a S. Pedro se endere\u00e7am,<br \/>\n33 E do outro lado os que iam para o monte.<\/p>\n<p>Daqui, dali nas bordas, os apressam<\/p>\n<p>Corn\u00edgeros dem\u00f4nios, a\u00e7oitando 36 Com grandes azorragues,<br \/>\nque n\u00e3o cessam, Como aos golpes primeiros cada bando Se apressa! Como<br \/>\ncada qual evita 39 Que se repita o est\u00edmulo execrando! Nesse andar<br \/>\nminha vista num se fita, Da parte oposta vindo, e logo eu disse: 42 \u2014<br \/>\n\u201cHei conhecido esta figura aflita\u201d. \u2014 Atentei mais, por<br \/>\nque melhor o visse; Deteve-se comigo o doce Guia 45 E deu que atr\u00e1s<br \/>\no passo eu dirigisse.<\/p>\n<p>Aos olhos esquivar-se-me queria, Os seus baixando; mas foi v\u00e3o o intento.<\/p>\n<p>48 \u2014\u201cTu, que te curvas, j\u00e1 te hei visto um dia.<\/p>\n<p>\u201cSe as fei\u00e7\u00f5es n\u00e3o mudou-te o passamento Venedico<br \/>\ntu \u00e9s Caccianemico.<\/p>\n<p>51 Por que trato padeces t\u00e3o cruento?\u201d \u2014 \u2014 \u201cDe<br \/>\nmau grado o que exiges significo; Mas cedo ao claro som dessa loquela, 54<br \/>\nQue \u00e0 mem\u00f3ria me traz o mundo inico.<\/p>\n<p>\u201cEu fui aquele, que Ghisola bela Do Marqu\u00eas entreguei ao vil<br \/>\ndesejo: 57 Ora a verdade a minha voz revela.<\/p>\n<p>\u201cComigo de Bolonha muitos vejo; Com tantos nesta cava choro e peno,<br \/>\n60 Que a menos l\u00e1 no mundo d\u00e1-se ensejo.<\/p>\n<p>\u201cDe dizer sipa entre o Savena e o Reno, Se a prova queres, lembra-te<br \/>\nsomente 63 De que em n\u00f3s da avareza influi veneno\u201d. \u2014 Mas<br \/>\num dem\u00f4nio o atalhou. Furente, Disse tangendo: \u2014 \u201c\u00d3<br \/>\nrufi\u00e3o, avante! 66 Mulher n\u00e3o h\u00e1 que vendas impudente!\u201d<br \/>\n\u2014 Ao Mestre me tornei; \u2014 pouco distante Era um rochedo, a que<br \/>\nnos acercamos; 69 Da riba se elevava pra diante.<\/p>\n<p>Assaz ligeiramente nos al\u00e7amos; Fomos pela fragura \u00e0 m\u00e3o<br \/>\ndireita 72 E o eterno recinto assim deixamos.<\/p>\n<p>Chegados onde a curva estava feita Para passagem dar aos fustigados, 75 O<br \/>\ns\u00e1bio Guia disse: \u2014 \u201cA face espreita \u201cAgora desses<br \/>\noutros malfadados, Em que ainda atender n\u00e3o conseguiste, 78 Porque<br \/>\nn\u00e3o stavam para n\u00f3s voltados\u201d. \u2014 Da antiga ponte<br \/>\ndivisamos triste,<\/p>\n<p>Longa fileira: contra n\u00f3s andava.<\/p>\n<p>81 Cruel a\u00e7oite em flagelar persiste.<\/p>\n<p>Virg\u00edlio, quando eu nada perguntava, \u2014 \u201cRepara bem\u201d<br \/>\n\u2014 me diz \u2014 \u201cna sombra altiva, 84 A quem pranto de dor faces<br \/>\nn\u00e3o lava.<\/p>\n<p>\u201cDe Rei conserva a majestade viva! \u00c9 Jas\u00e3o: conquistou<br \/>\npor for\u00e7a e manha 87 O velocino em Colcos fera e esquiva.<\/p>\n<p>\u201cA Lenos foi, depois que horrenda sanha Feminil aos var\u00f5es cortara<br \/>\na vida, 90 Nenhum poupando aquela f\u00faria estranha.<\/p>\n<p>\u201cAli, de amor no enlevo embevecida, Hips\u00edfile enganou, que j\u00e1<br \/>\niludira 93 Suas irm\u00e3s, de compaix\u00e3o movida.<\/p>\n<p>\u201cGr\u00e1vida e s\u00f3 deixou-a: atroz mentira Mereceu-lhe dos<br \/>\ntratos a amargura.<\/p>\n<p>96 Vingada est\u00e1 Med\u00e9ia, a quem tra\u00edra.<\/p>\n<p>\u201cQuem perjurou como ele, h\u00e1 pena dura.<\/p>\n<p>Do val primeiro baste o que sabemos 99 E de quantos aqui sofrem tortura\u201d.<br \/>\n\u2014 Numa estreita vereda j\u00e1 nos vemos, Que co\u2019a borda segunda<br \/>\nse cruzava, 102 Sustentando outra ponte, a que tendemos.<\/p>\n<p>Turba dali ouvimos, que chorava De outra cava no encerro e que, assoprando,<br \/>\n105 Com suas pr\u00f3prias m\u00e3os se arrepelava.<\/p>\n<p>Estava-lhe as paredes incrustando A exala\u00e7\u00e3o que sobe e ali<br \/>\nse prende.<\/p>\n<p>108 Ferindo o olfato e a vista horrorizando.<\/p>\n<p>E tanto pelo abismo a cava estende, Que s\u00f3 divisa quando est\u00e1<br \/>\nno fundo 111 Quem l\u00e1 do cimo, perscrutando, atende.<\/p>\n<p>Subimo-nos: ent\u00e3o no fosso imundo Vi gente em tal cloaca mergulhada,<br \/>\n114 Que a sentina figura ser do mundo.<\/p>\n<p>Enquanto olhava ali t\u00e3o conspurcada Cara notei, que distinguir n\u00e3o<br \/>\npude, 117 Se padre ou leigo fora a alma danada.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDizei por que tua vista n\u00e3o se mude De mim, a imundos<br \/>\ntantos desatenta!\u201d \u2014 120 Gritou-me. \u2014 E eu: \u2014 \u201cSe<br \/>\na mente n\u00e3o me ilude, \u201cTe vi sem cabeleira t\u00e3o nojenta.<\/p>\n<p>Alessio Interminei de Lucca h\u00e1s sido: 123 Em ti por isso a vista \u00e9<br \/>\nmais atenta\u201d. \u2014<\/p>\n<p>Ferindo a face, disse-me o descrido: \u2014 \u201cAqui lisonjas vis me<br \/>\nsubmergiram; 126 L\u00edngua indefessa em bajular hei tido\u201d. \u2014<br \/>\nLogo depois que vozes tais se ouviram, Meu Guia: \u2014 \u201cOlhos dirige<br \/>\num pouco avante, 129 E as fei\u00e7\u00f5es me declara se atingiram \u201cDe<br \/>\nmulher desgrenhada e petulante Que de unhas asquerosas se lacera, 132 Mudando<br \/>\nde postura a cada instante.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 Ta\u00eds, a meretriz, que respondera Ao namorado seu,<br \/>\nquando dizia: \u2014 \u201cTe devo gratid\u00e3o?\u201d \u2014 \u201cMuita<br \/>\ne sincera!\u201d \u2014 136 Mas vamos: temos visto em demasia\u201d. \u2014<\/p>\n<p>50. Venedico Caccianemico, bolonh\u00eas, que induziu sua irm\u00e3 Ghisola<br \/>\na entregar-se a Obizzo d\u2019Este, marqu\u00eas de Ferrara. \u2014 61.<br \/>\nDizer sipa etc., palavra do dialeto bolonh\u00eas que vale por sim ou seja.<br \/>\n\u2014 86. Jas\u00e3o, chefe dos argonautas, que, auxiliado por Med\u00e9ia,<br \/>\nque ele seduziu e depois enganou, conquistou em C\u00f3lquida o velocino<br \/>\nde ouro. \u2014 92. Hips\u00edfiles, enganada por Jas\u00e3o. \u2014<br \/>\n122. Al\u00e9ssio Interminei, patr\u00edcio de Lucca. \u2014 133.<\/p>\n<p>Ta\u00eds, meretriz, personagem de uma pe\u00e7a de Ter\u00eancio.<br \/>\nCANTO XIX<\/p>\n<p>No terceiro compartimento, onde os Poetas chegam, s\u00e3o punidos os simon\u00edacos.<br \/>\nEst\u00e3o eles, de cabe\u00e7a para dentro, metidos em furos feitos no<br \/>\nfundo e nas encostas do compartimento. As plantas dos p\u00e9s, que est\u00e3o<br \/>\nfora dos buracos, s\u00e3o queimadas por chamas. Dante quer saber quem era<br \/>\num danado que mais do que os outros agitava os p\u00e9s. \u00c9 o papa<br \/>\nNicolau III da Casa Orsini, o qual diz que estava \u00e0 espera de ser rendido<br \/>\npor outros papas simon\u00edacos. O Poeta, indignado, rompe numa veemente<br \/>\ninvectiva contra a avareza e os esc\u00e2ndalos dos papas romanos. Virg\u00edlio,<br \/>\ndepois, o leva novamente para a ponte.<\/p>\n<p>\u00d3 SIM\u00c3O MAGO, \u00f3 m\u00edseros sequazes Por quem de<br \/>\nDeus os dons s\u00f3 prometidos 3 A virtude, em rapina contumazes, Por ouro<br \/>\ne prata est\u00e3o prostitu\u00eddos! Por v\u00f3s tange ora a tuba<br \/>\nsonorosa: 6 Jazeis na t\u00e9rcia cava subvertidos.<\/p>\n<p>\u00c0 outra tumba chegamos temerosa, Da rocha nos subindo \u00e0quela<br \/>\nparte, 9 Que, a prumo ao centro, eleva-se alterosa.<\/p>\n<p>Saber supremo! Que inef\u00e1vel arte Mostras no c\u00e9u, na terra e<br \/>\ninfernal mundo! 12 Oh! teu poder qu\u00e3o justo se reparte!<\/p>\n<p>145<\/p>\n<p>Por toda a cava, aos lados e no fundo Furos na pedra l\u00edvida se abriam,<br \/>\n15 De igual largura e cada qual rotundo.<\/p>\n<p>Semelhar na grandeza pareciam Aos que em meu S. Jo\u00e3o belo e esplendente<br \/>\n18 Para batismo ministrar serviam.<\/p>\n<p>Quebrei um, n\u00e3o h\u00e1 muito, mas somente Para infante salvar,<br \/>\nque ali morria: 21 Fique a verdade a todos bem patente.<\/p>\n<p>De cada um orif\u00edcio eu sair via Os p\u00e9s, at\u00e9 das pernas<br \/>\na grossura, 24 De um pecador: o resto se sumia.<\/p>\n<p>Stavam ardendo as plantas na tortura, E tanto as juntas rijo se estorciam,<br \/>\n27 Que romperiam a pris\u00e3o mais dura.<\/p>\n<p>Do calcanhar aos dedos percorriam As chamas, como a superf\u00edcie inteira.<\/p>\n<p>30 Em corpo de \u00f3leo ungido morderiam.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuem padece\u201d \u2014 disse eu \u2014 \u201cpor tal<br \/>\nmaneira, Que mais que os s\u00f3cios estorcer-se vejo 33 Em mais r\u00fabida<br \/>\nflama e mais ligeira? \u2014 \u201cSe ao fundo eu te levar, por teu desejo,<\/p>\n<p>Por declive, que jaz mais inclinado, 36 De ouvir-lhe o nome e os crimes dou-te<br \/>\nensejo\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 \u2014 \u201cAceito o que te praz, muito a meu grado: Senhor do<br \/>\nmeu querer, \u00e9s quem conhece 39 Quanto hei mister e a mente h\u00e1<br \/>\nreservado\u201d. \u2014 Passando \u00e0 quarta borda, ali se desce Para<br \/>\na esquerda voltando, at\u00e9 chegar-se 42 L\u00e1 onde tanto furo se<br \/>\noferece.<\/p>\n<p>De mim n\u00e3o quis o Mestre aligeirar-se Sen\u00e3o quando daquele,<br \/>\nque gemia 45 Pelos p\u00e9s, conseguiu apropinquar-se.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTu, \u00e9s assim voltada\u201d \u2014 eu lhe dizia \u2014<br \/>\n\u201cComo estaca plantada, \u00f3 alma opressa, 48 Responder-me poss\u00edvel<br \/>\nte seria?\u201d \u2014 Eu stava a\u00ed, qual monge, que confessa Assassino,<br \/>\nque em cova j\u00e1 fincado 51 O chama, pois, em tanto, a pena cessa.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cJ\u00e1 tens\u201d \u2014 gritou: j\u00e1 tens aqui<br \/>\nchegado? J\u00e1, Bonif\u00e1cio, como tens descido? 54 Em anos muitos<br \/>\ntenho a conta errado.<\/p>\n<p>\u201cT\u00e3o depressa desse ouro te h\u00e1s enchido, Pelo qual bela<br \/>\nesposa atrai\u00e7oando,<\/p>\n<p>57 A tens por tantos crimes afligido?\u201d Eu fiquei como quem, n\u00e3o<br \/>\npenetrando No sentido do que outro respondera, 60 Enleado e corrido fica olhando.<\/p>\n<p>Mas Virg\u00edlio: \u2014 \u201cDepressa lhe assevera: Eu n\u00e3o<br \/>\nsou, eu n\u00e3o sou quem tu cogitas\u201d \u2014 63 Respondi como o Vate<br \/>\nprescrevera.<\/p>\n<p>Ouvindo, as plantas estorceu malditas; Depois a suspirar, com voz de pranto<br \/>\n66 \u2014 \u201cPor que\u201d \u2014 disse \u2014 \u201ca falar assim<br \/>\nme excitas? \u201cSe conhecer quem sou anelas tanto, Que assim baixaste ao<br \/>\nvale tenebroso, 69 De Papa sabe que hei vestido o manto.<\/p>\n<p>\u201cFilho de Ursa, deveras, cobi\u00e7oso Em bolsa tudo pus por meus<br \/>\nUrsinhos, 72 L\u00e1 ouro, aqui o esp\u2019rito criminoso.<\/p>\n<p>\u201cSob a cabe\u00e7a minha est\u00e3o vizinhos, Em simonia os que<br \/>\nme antecederam, 75 Sobrepondo-se um no outro esses mesquinhos.<\/p>\n<p>\u201cHei de ao fundo descer, como desceram, Logo em chegando aquele, que<br \/>\neu cuidara 78 Seres tu, quando as vozes me romperam.<\/p>\n<p>\u201cMas, ardendo-me os p\u00e9s se me depara Intervalo mais longo, assim<br \/>\nvoltado, 81 Do que em tormento igual se lhe prepara.<\/p>\n<p>\u201cVir\u00e1s de mores culpas outro in\u00e7ado, Pastor sem lei,<br \/>\ndas partes do ocidente 84 Que h\u00e1 de ser sobre n\u00f3s depositado.<\/p>\n<p>\u201cJas\u00e3o novo ser\u00e1: condescendente Teve o outro seu Rei,<br \/>\ndiz a Escritura, 87 Da Fran\u00e7a este o senhor ter\u00e1 potente\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se ousado fui e se foi dura A resposta, que dei ao condenado.<\/p>\n<p>90 \u2014 \u201cTesouros exigira porventura \u201cNosso Senhor de Pedro,<br \/>\nao seu cuidado E zelo quando as chaves cometia? 93 \u2014 Segue-me \u2014<br \/>\napenas lhe h\u00e1 recomendado.<\/p>\n<p>\u201cDinheiro n\u00e3o tomaram de Matia Pedro e os outros, por ser o<br \/>\npreferido 96 Ao lugar, que o traidor perdido havia.<\/p>\n<p>\u201cPena, pois: mereceste ser punido; E guarda a que extorquiste, vil<br \/>\nmoeda 99 Que te fez contra Carlos atrevido.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o fora a refer\u00eancia, que me veda,<\/p>\n<p>Das santas chaves, que empunhaste outrora, 102 No tempo, em que fru\u00edste<br \/>\na vida leda, \u201cVoz mais severa eu levantava agora Contra a avidez, que<br \/>\no mundo assaz contrista, 105 Que os bons oprime, o v\u00edcio exalta e adora.<\/p>\n<p>\u201cA v\u00f3s vos figurava o Evangelista, Quando a que \u00e9 sobre<br \/>\nas \u00e1guas assentada 108 Prostituir-se aos Reis foi dele vista: \u201cNascera<br \/>\nde cabe\u00e7as sete ornada, E o valor nos dez cornos possu\u00eda, 111<br \/>\nEnquanto ao esposo seu virtude agrada.<\/p>\n<p>\u201cDe ouro a vossa cobi\u00e7a um Deus fazia: Por um dos que os gentios<br \/>\nadoraram 114 Abrange cento a vossa idolatria.<\/p>\n<p>\u201cConstantino! Ah! que males derivaram, N\u00e3o do batismo teu, mas<br \/>\nda riqueza 117 Que deste a um Papa e a quem outras se juntaram!\u201d Sentindo<br \/>\ndestas notas a aspereza, Ele tomado de remorso ou de ira, 120 Agitava os dois<br \/>\np\u00e9s com mor braveza.<\/p>\n<p>Virg\u00edlio, creio, com prazer me ouvira: Aplaudir seu semblante revelava<\/p>\n<p>123 Verdades que eu, sincero, proferira.<\/p>\n<p>Jubiloso nos bra\u00e7os me levava, E, depois que apertara-me ao seu peito,<br \/>\n126 Por onde descendera, se tornava.<\/p>\n<p>Sempre cingido desse abra\u00e7o estreito, Do arco ao cimo transportou-me<br \/>\no Guia: 129 Caminho \u00e0 quinta cava era direito.<\/p>\n<p>Ali suavemente me descia Em rochedo t\u00e3o \u00edngreme e empinado,<br \/>\nQue \u00e0s cabras \u00ednvio ser me parecia, 133 De l\u00e1 foi-me<br \/>\noutro val descortinado.<\/p>\n<p>1. Sim\u00e3o Mago queria comprar dos Ap\u00f3stolos a virtude de chamar<br \/>\no Esp\u00edrito Santo. O mercado das coisas sagradas \u00e9, por isso,<br \/>\nchamado simonia. \u2014 17. S\u00e3o Jo\u00e3o, pia na qual Dante foi<br \/>\nbatizado. \u2014 53. Bonif\u00e1cio, Bonif\u00e1cio VIII, que o danado<br \/>\n(Nicolau III) pensa seja vindo para substitu\u00ed-lo. \u2014 83. Pastor<br \/>\nsem lei, Clemente V, ligado a Filipe, o Belo, rei de Fran\u00e7a e que mudou<br \/>\na sede do papado para Avinh\u00e3o. \u2014 85. Jas\u00e3o, que comprou<br \/>\no sumo sacerd\u00f3cio de Ant\u00edoco, rei da S\u00edria. \u2014 106.<br \/>\nO Evangelista, S. Jo\u00e3o. \u2014 115-117. Constantino, no tempo de Dante<br \/>\nse acreditava que Constantino, ao mudar-se para Biz\u00e2ncio, teria doado<br \/>\nao papa Roma e o dom\u00ednio temporal.<br \/>\nCANTO XX<\/p>\n<p>No quarto compartimento s\u00e3o punidos os impostores que se dedicaram<br \/>\n\u00e0 arte divinat\u00f3ria. Eles t\u00eam o rosto e o pesco\u00e7o<br \/>\nvoltados para as costas, pelo que s\u00e3o obrigados a caminhar ao reverso.<br \/>\nVirg\u00edlio mostra a Dante alguns entre os mais famosos, entre os quais<br \/>\na tebana Manto, da qual se origina M\u00e2ntua, cidade natal de Virg\u00edlio.<\/p>\n<p>NOVA pena conv\u00e9m dizer em versos E dar mat\u00e9ria ao meu vinteno<br \/>\ncanto, 3 Do c\u00e2ntico onde punem-se os perversos.<\/p>\n<p>Eu era j\u00e1 disposto tanto, quanto Fora preciso para ver o fundo 6 Da<br \/>\ncava, que banhava amargo pranto.<\/p>\n<p>De almas vi turba, pelo val rotundo, Que taciturna vinha e lacrimosa 9 Ao<br \/>\npasso usado em prociss\u00f5es no mundo.<\/p>\n<p>Mirei mais baixo e cada desditosa Notei que fora o mento retorcido 12 Do<br \/>\ncolo ao come\u00e7ar: cousa espantosa! Para o dorso era o rosto seu volvido:<br \/>\nS\u00f3 recuando caminhar podia;<\/p>\n<p>15 Que em frente olhar estava-lhe tolhido.<\/p>\n<p>Talvez por for\u00e7a j\u00e1 de par\u2019lisia De algu\u00e9m o corpo<br \/>\nao todo se torcesse; 18 N\u00e3o vi: cr\u00ea-lo dif\u00edcil me seria.<\/p>\n<p>Que te seja, Leitor, a Deus prouvesse Proveitosa a li\u00e7\u00e3o! Pensa,<br \/>\natilado, 21 Quanto em mim, vendo, a compaix\u00e3o crescesse, O parecer<br \/>\nhumano t\u00e3o mudado, Que o pranto, que dos olhos derivava 24 Banhava<br \/>\no tergo a cada condenado.<\/p>\n<p>Do rochedo eu a um \u00e2ngulo chorava Com tanta dor, que o Mestre de repente<br \/>\n27 \u2014 \u201cInsensato \u00e9s tamb\u00e9m?\u201d \u2014 me interrogava.<\/p>\n<p>\u201cAqui piedade \u00e9 morte em toda mente: Quando Deus condenou, quem<br \/>\nmais malvado 30 Do que esse, que ternura por maus sente? \u201cAl\u00e7a<br \/>\na fronte, al\u00e7a, atento ao condenado, Que ante os Tebanos se abismou<br \/>\nna terra.<\/p>\n<p>33 Gritavam-lhe: \u2014 Como andas apressado, \u201cAnfiarau? Como assim<br \/>\nfoges da guerra? \u2014 Ele tombava entanto, ao val descendo, 36 Onde Minos<br \/>\nos r\u00e9probos aferra.<\/p>\n<p>\u201cPelo futuro penetrar querendo, Tem o dorso adiante em vez do peito,<br \/>\n39 E a recuar caminha, atr\u00e1s s\u00f3 vendo.<\/p>\n<p>\u201cEis Tir\u00e9sias, o que mudara o aspeito, Fem\u00edneas formas<br \/>\ne fei\u00e7\u00f5es tomara, 42 Sendo-lhe o que era varonil desfeito.<\/p>\n<p>\u201cAo sexo seu tornou, quando encontrara, Inda uma vez, travadas serpes<br \/>\nduas 45 E outra vez com bord\u00e3o as separara.<\/p>\n<p>\u201cVolta-lhe Arons ao ventre as costas nuas: De Luni em monte, aos agros<br \/>\niminentes, 48 Onde o Carrara ergueu moradas suas, \u201cTeve em gruta marm\u00f3rea<br \/>\npermanente Est\u00e2ncia, donde contemplar podia 51 As estrelas, as ondas<br \/>\nlivremente.<\/p>\n<p>\u201cEssa mulher\u201d \u2014 continuou meu Guia \u2014 \u201cQue o<br \/>\nseio oculta em tra\u00e7a flutuante 54 E de velos a pele tem sombria, \u201cFoi<br \/>\nManto, que vagara incerta e errante At\u00e9 pousar na terra, em que hei<br \/>\nnascido.<\/p>\n<p>57 No que ora digo irei um pouco avante.<\/p>\n<p>\u201cVendo o pai j\u00e1 da vida despedido<\/p>\n<p>E a cidade de Baco em jugo triste, 60 O mundo largo tempo h\u00e1 percorrido.<\/p>\n<p>\u201cJunto ao Alpes na bela It\u00e1lia existe, Al\u00e9m Tirol, j\u00e1<br \/>\nperto da Alemanha, 63 Um lago, que chamar Benaco ouviste.<\/p>\n<p>\u201cVeia de fontes mil, que a plaga banha Entre Garda, Cam\u00f4nica<br \/>\ne Apenino, 66 De \u00e1guas conduz ao lago c\u00f3pia manha.<\/p>\n<p>\u201cIlha h\u00e1 no meio, em que o Pastor trentino, E com ele os de<br \/>\nBr\u00e9scia e de Verona, 69 Possuem de benzer juro divino.<\/p>\n<p>\u201cOnde \u00e9 mais baixa do Benaco a zona, A B\u00e9rgamo fazendo<br \/>\ne a Br\u00e9scia frente, 72 Pesqueira, forte em basti\u00f5es, se entona.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dali que das \u00e1guas o excedente, Que ter em si n\u00e3o<br \/>\npode o lago, brota 75 Em rio e cobre os prados largamente.<\/p>\n<p>\u201cQuando prossegue, outro apelido adota, Chama-se M\u00edncio, perde<br \/>\no nome antigo: 78 No P\u00f3 junto a Governol, h\u00e1 fim sua rota.<\/p>\n<p>\u201cNo ver\u00e3o \u00e0 sa\u00fade traz perigo; Em vasto plaino<br \/>\no \u00e1lveo dilatando, 81 Forma paul, das infe\u00e7\u00f5es amigo.<\/p>\n<p>\u201cManto, a virgem selvage ali passando, Terreno viu desabitado, inculto<br \/>\n84 Naquele pantanal, que o est\u00e1 cercando \u201cEsquiva a humano trato<br \/>\ne estranho vulto, Fez ali de suas artes oficina 87 E viveu t\u00e9 sofrer<br \/>\nda morte o insulto.<\/p>\n<p>\u201cPovo, ao diante, para ali se inclina, Em torno esparso, e abrigo,<br \/>\no julga forte: 90 De \u00e1guas cercado com pauis confina.<\/p>\n<p>\u201cOnde aqui o elegeu colhera a morte, A cidade erigiram, que chamaram<br \/>\n93 M\u00e2ntua, do nome seu sem tirar sorte.<\/p>\n<p>\u201cOs habitantes l\u00e1 mais avultaram, Quando ainda os ardis de Pinamonte<br \/>\n96 De Casalodis a ins\u00e2nia n\u00e3o fraudaram.<\/p>\n<p>\u201cCiente fica, pois: se de outra fonte A p\u00e1tria minha originar<br \/>\nquiserem, 99 A mentira \u00e0 verdade nunca afronte\u201d. \u2014 \u2014<br \/>\n\u201cAs cousas, que tuas vozes me referem, T\u00e3o certas s\u00e3o\u201d<br \/>\n\u2014 disse eu \u2014 \u201cque me parece 102 Carv\u00e3o extinto o<br \/>\nque outros me disserem.<\/p>\n<p>\u201cMais dize, \u00f3 Mestre: acaso n\u00e3o merece<\/p>\n<p>Dos que avan\u00e7am nenhum reparo ou nota? 105 Na mente de o saber desejo<br \/>\ncresce\u201d. \u2014 \u2014 \u201cAquele, a quem do mento ao dorso brota<br \/>\nBarba esqu\u00e1lida, um \u00e1ugur se dizia, 108 Quando de homens a Gr\u00e9cia<br \/>\ntal derrota Teve, que infantes s\u00f3 no ber\u00e7o havia.<\/p>\n<p>Em \u00c1ulide com Calcas indicara 111 Tempo, em que a frota desferrar<br \/>\ndevia.<\/p>\n<p>\u201cEur\u00edpilo chamou-se: assim narrara Num dos seus cantos, a trag\u00e9dia<br \/>\nminha, 114 Bem sabes, pois tua mente a arrecadara.<\/p>\n<p>\u201cEsse, que, t\u00e3o delgado, se avizinha, Miguel Escotto foi, que,<br \/>\ncertamente, 117 Per\u00edcia em fraudes da magia tinha.<\/p>\n<p>\u201cOlha Guido Bonati, encara Asdente Que cuidar s\u00f3 devera da sovela:<br \/>\n120 Arrepende-se agora inutilmente.<\/p>\n<p>\u201cDas tristes ora a turba se revela, Que, desdenhando a agulha, a horr\u00edvel<br \/>\narte 123 De encantos infernais acharam bela.<\/p>\n<p>\u201cMas no limite, que hemisf\u00e9rios parte, \u00c9 Caim com seu<br \/>\nfardo, o mar tocando, 126 L\u00e1 de Sevilha al\u00e9m do baluarte.<\/p>\n<p>\u201cA lua, a face plena j\u00e1 mostrando (Te lembras?) ontem viste<br \/>\nna sombria Selva, em que te ajudou seu fulgor brando\u201d. \u2014 130 Assim<br \/>\nfalando, a passo igual seguia.<\/p>\n<p>34. Anfiarau, que morreu no s\u00edtio de Tebas, e prevendo a sua morte<br \/>\ntentara esquivar-se de tomar parte nesse s\u00edtio. \u2014 40.<\/p>\n<p>Tir\u00e9sias, adivinho tebano, que foi transformado em mulher e depois<br \/>\nretornou homem. \u2014 46. Arons, adivinho lembrado na \u201cFars\u00e1lia\u201d<br \/>\nde Lucano. \u2014 55. Manto, filha de Tir\u00e9sias, que a tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndiz ter fundado a cidade natal de Virg\u00edlio, M\u00e2ntua. \u2014 63.<br \/>\nBenaco, hoje lago de Garda. \u2014 95-96. Quando ainda etc.<\/p>\n<p>Pinamonte dei Bonacols\u00ed para apoderar-se de M\u00e2ntua induziu o<br \/>\ngovernador Alberto de Casalodi a praticar atos violentos que revoltaram o<br \/>\npovo contra ele. \u2014 110. Calcas, adivinho da antig\u00fcidade. \u2014<br \/>\n112. Eur\u00edpilo, outro c\u00e9lebre adivinho.\u2014 116.<\/p>\n<p>Miguel Escotto, c\u00e9lebre adivinho do tempo de Frederico II. \u2014<br \/>\n118. Guido Bonati, astr\u00f3logo do conde Guido de Montefeltro. \u2014<br \/>\nAsdente, sapateiro e adivinho de Parma.<br \/>\nCANTO XXI<\/p>\n<p>No quinto compartimento s\u00e3o punidos os trapaceiros que negociaram<br \/>\nos cargos p\u00fablicos ou roubaram aos seus amos. Eles est\u00e3o mergulhados<br \/>\nem piche fervendo. Os dois Poetas presenciam a tortura de um trapaceiro luquense<br \/>\npor obra de um dem\u00f4nio. Virg\u00edlio domina os dem\u00f4nios que<br \/>\nqueriam avan\u00e7ar contra eles. Virg\u00edlio e Dante, escoltados por<br \/>\num bando de dem\u00f4nios, tomam o caminho ao longo do aterro.<\/p>\n<p>ASSIM, de ponte em ponte, discursando Do que nesta com\u00e9dia se n\u00e3o<br \/>\ncura, 3 De outro arco acima nos subimos, quando Detemo-nos por ver a cava<br \/>\nescura, Por ouvir de outros prantos v\u00e3o sonido; 6 Com pasmo olhei a<br \/>\nh\u00f3rrida negrura.<\/p>\n<p>No arsenal de Veneza, derretido Como referve o pez na esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nfria 9 Para reparo ao lenho combalido, Incapaz de vogar: qual com mestria<br \/>\nBaixel novo constr\u00f3i; qual alcatroa 12 O que teve em viagens avaria;<br \/>\nQual pregos bate \u00e0 popa qual \u00e0 proa;<\/p>\n<p>Qual remos faz, qual linho torce ou parte; 15 Qual mezena e artem\u00e3o<br \/>\naperfei\u00e7oa: Assim, por fogo n\u00e3o, por divina arte Betume espesso,<br \/>\nao fundo refervia, 18 As bordas enviscando em toda parte.<\/p>\n<p>Mas no pez s\u00f3 na tona eu distinguia Borbulh\u00e3o, que a fervura<br \/>\nlevantava, 21 Que ora inchava, ora r\u00e1pido abatia.<\/p>\n<p>No fundo enquanto os olhos eu fitava, Exclamando Virg\u00edlio: \u2014<br \/>\nEia! Cuidado! \u2014 24 Para si donde eu era me tirava.<\/p>\n<p>Voltei-me ent\u00e3o como homem, que apressado \u00c9 por saber o que<br \/>\nfugir convenha, 27 De s\u00fabito pavor sendo atalhado, Olha sem que por<br \/>\nisso se detenha, E logo atr\u00e1s de n\u00f3s eu vi correndo 30 Negro<br \/>\ndem\u00f4nio sobre aquela penha.<\/p>\n<p>Ah! que aspecto feroz! Ah! quanto horrendo Nos meneios parece e temeroso,<br \/>\n33 Veloz nos p\u00e9s e as asas estendendo! No dorso agudo e enorme um criminoso,<br \/>\nEscarranchado, em peso, carregava: 36 Dos p\u00e9s prendia o nervo ao desditoso.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMalebranche!\u201d j\u00e1 perto ele bradava \u2014 \u2014<br \/>\n\u201cEis um dos anci\u00f5es de S. Zita! 39 Mergulhai-o, pois torna \u00e0<br \/>\ngente prava, \u201cQue nessa terra em grande soma habita.<\/p>\n<p>Venais todos l\u00e1 s\u00e3o menos Bonturo.<\/p>\n<p>42 O no, por ouro, l\u00e1 se muda em ita\u201c.<\/p>\n<p>Ao pez o arroja, e pelo escolho duro Se torna: ap\u00f3s ladr\u00e3o<br \/>\ntanto apressado 45 N\u00e3o vai mastim, que estava antes seguro: O maldito<br \/>\nafundou; surdiu curvado.<\/p>\n<p>Sob a ponte os dem\u00f4nios lhe gritaram: 48 \u2014 \u201cN\u00e3o<br \/>\nachar\u00e1s aqui Vulto Sagrado, \u201cNem banhos, quais no Serchio se<br \/>\ndeparam.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o queres no pez star imergido.<\/p>\n<p>51 A te espetar as fisgas se preparam\u201d. \u2014 Com croques cem mordendo<br \/>\nesse descrido \u2014 \u201cBailar\u201d \u2014 disseram \u2014 \u201cdeves<br \/>\nbem coberto; 54 Se puderes furtar, furta escondido\u201d. \u2014 Tal ordem<br \/>\nem cozinha o mestre esperto Aos ajudantes seus que na caldeira 57 Mergulhem<br \/>\nnaco \u00e0 tona descoberto.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor que\u201d \u2014 falou-me o Guia \u2014 \u201calgu\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o queira Molestar-te em te vendo, busca abrigo: 60 Num recanto o<br \/>\nachar\u00e1s desta pedreira.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o temas que me ofenda o bando imigo; Muito bem sei como o<br \/>\nfuror lhe afronte; 63 J\u00e1 venci de outra vez igual perigo\u201d. \u2014<br \/>\nAt\u00e9 o extremo ent\u00e3o passou da ponte; Mas, quando a sexta borda<br \/>\nj\u00e1 subia, 66 Mister lhe foi mostrar serena fronte.<\/p>\n<p>Qual fremente matilha, que se envia Ao pobre, quando p\u00e1ra esbaforido<br \/>\n69 E pede al\u00edvio \u00e0 fome que o crucia: De baixo arremeteu-lhe<br \/>\no bando infido, Aceso em ira, os croques seus brandindo.<\/p>\n<p>72 Mas gritou-lhes: \u2014 \u201cNenhum seja atrevido! \u201cOs croques<br \/>\nsuspendi: at\u00e9 mim vindo Me preste algum de v\u00f3s aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ntoda.<\/p>\n<p>75 Fere, se ousais por\u00e9m antes me ouvindo\u201d.<\/p>\n<p>Clamaram todos: \u2014 \u201cOu\u00e7a \u2014 o Malacoda!\u201d Enquanto<br \/>\nos mais ficavam no seu posto, 78 \u2014 \u201cQue queres?\u201d \u2014<br \/>\ndisse algu\u00e9m que sai da roda; E o Mestre: \u2014 \u201c\u00c9s,<br \/>\nMalacoda, a crer disposto<\/p>\n<p>Que as amea\u00e7as vossas superasse 81 Para aqui vir, se por celeste gosto<br \/>\nE supremo querer n\u00e3o caminhasse? Deixa-me ir; pois a lei divina ordena.<\/p>\n<p>84 Que eu nesta agra jornada outrem guiasse\u201d.<\/p>\n<p>De Malacoda o orgulho j\u00e1 serena; Aos p\u00e9s lhe cai o croque;<br \/>\naos ais voltado 87 Lhes disse: \u2014 \u201cEste n\u00e3o pode sofrer<br \/>\npena\u201d.<\/p>\n<p>E o Mestre me falou: \u2014 \u201cTu, que abrigado Est\u00e1s entre os<br \/>\npenedos cauteloso, 90 Volve a mim, do temor descativado\u201d.<\/p>\n<p>Corri para Virg\u00edlio pressuroso.<\/p>\n<p>Eis os dem\u00f4nios todos investiram: 93 Roto o concerto, pois, cria ansioso.<\/p>\n<p>De Caprona os soldados, que sa\u00edram A partido assim vi que estremeciam,<br \/>\n96 Quando envoltos de imigos se sentiram.<\/p>\n<p>Nos sevos gestos seus se me prendiam Os olhos, e a Virg\u00edlio vinculado<br \/>\n99 Os bra\u00e7os o meu corpo todo haviam.<\/p>\n<p>Os croques inclinados: \u2014 \u201cNo costado Fisguemo-lo\u201d \u2014<br \/>\nentre si dois prorromperam.<\/p>\n<p>102 E os outros: \u2014 \u201cOh! pois n\u00e3o! seja espetado!\u201d<\/p>\n<p>Ao que o Mestre falava desprouveram Palavra tais, e ent\u00e3o bradou depressa:<br \/>\n105 \u201cS\u00ea quedo, Scarmiglione!\u201d \u2014 Emudeceram.<\/p>\n<p>Depois assim nos disse: \u2014 \u201cAndar por essa Rocha n\u00e3o podereis;<br \/>\njaz destru\u00eddo 108 Todo arco sexto sem restar-lhe pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Se avante quereis ir, seja seguido Desta borda o caminho: n\u00e3o distante<br \/>\n111 Est\u00e1 rochedo ao passo apercebido.<\/p>\n<p>\u201cOntem, cinco horas mais do que este instante Mil e duzentos com sessenta<br \/>\ne seis 114 Anos houve: \u00e9 ent\u00e3o a rocha hiante.<\/p>\n<p>\u201cDos s\u00f3cios meus na companhia ireis; V\u00e3o ver se algu\u00e9m<br \/>\nao banho quer furtar-se.<\/p>\n<p>117 Ide em paz: molestados n\u00e3o sereis.<\/p>\n<p>\u201cCalcabrina, Alichino v\u00e3o juntar-se Com Cagnazzo, a dec\u00faria<br \/>\ncomandando 120 Barbariccia! E n\u00e3o podem separar-se \u201cDroghinaz,<br \/>\nLibicocco, deste bando! Graffiacane, o dentudo Ciriatto, 123 Farfarel, Rubicante<br \/>\nv\u00e3o marchando! \u201cNa ronda cada qual se mostre exato!<\/p>\n<p>Sejam a salvo os dois encaminhados 126 Da ponte ao arco at\u00e9 agora<br \/>\nintato!\u201d \u201cQue vejo, \u00f3 Mestre!\u201d \u2014 eu disse \u2014<br \/>\n\u201cAcompanhados!\u201d Se sabes ir s\u00f3, vamos prontamente; 129<br \/>\nDe guias tais dispensam-se os cuidados.<\/p>\n<p>\u201cSe tu \u00e9s, como s\u00f3is, Mestre, prudente, N\u00e3o v\u00eas<br \/>\nque os dentes seus est\u00e3o rangendo, 132 Que nos encaram com furor crescente?\u201d<br \/>\n\u201cN\u00e3o temas\u201d \u2014 disse o Mestre, respondendo \u2014<br \/>\n\u201cRanger os dentes deixa-os a seu gosto: 135 \u00c9 contra os que ardem<br \/>\nl\u00e1 no pez horrendo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 sestra os dez ent\u00e3o fizeram rosto; Nos dentes cada qual mostra<br \/>\nprimeiro, Por mofa a l\u00edngua ao cabo j\u00e1 disposto; 139 E ele trompa<br \/>\nfazia do traseiro.<\/p>\n<p>38. Anci\u00f5es de S. Zita, supremos magistrados de Lucca, cidade de que<br \/>\nS. Zita \u00e9 protetora. \u2014 41. Bonturo, Bonturo Dati, magistrado<br \/>\nmais venal do que os outros. \u2014 42. O no, por ouro etc., por dinheiro<br \/>\no n\u00e3o se transforma em sim. \u2014 112-114.<\/p>\n<p>Ontem, etc., o dem\u00f4nio falava cinco horas antes do meio-dia de 26 de<br \/>\nmar\u00e7o de 1300. Ao meio-dia teriam transcorrido 1266 anos da morte de<br \/>\nCristo.<br \/>\nCANTO XXII<\/p>\n<p>Andando os dois Poetas pelo aterro \u00e0 esquerda, v\u00eaem muitos trapaceiros,<br \/>\nque, por aliviar-se, boiam acima do piche fervendo.<\/p>\n<p>Sobrev\u00eaem os diabos e um deles \u00e9 lacerado. \u00c9 este Ciampolo,<br \/>\nde Navarra, que consegue, depois, livrar-se das garras dos diabos, o que d\u00e1<br \/>\nmotivo a uma briga entre os dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>MARCHAR vi cavaleiros \u00e0 peleja, Travar luta, enlear-se no combate<br \/>\n3 E at\u00e9 pedir \u00e0 fuga que os proteja; Em vossa terra esquadras<br \/>\ndar rebate Vi, Aretinos; vi as cavalgadas, 6 Torneios, justas no mav\u00f3rtico<br \/>\nembate, De tubas ao clangor, \u00e0s badaladas, Com sinais de castelos,<br \/>\nde tambores, 9 Com artes novas ou entre n\u00f3s usadas: N\u00e3o vi mover<br \/>\npe\u00f5es, nem corredores, Nem baix\u00e9is, que regula a terra ou estrela,<br \/>\n12 De igual clarim aos sons atroadores.<\/p>\n<p>Com dez dem\u00f4nios (que companha bela!) Partimo-nos, por\u00e9m rezar<br \/>\ncom santo, 15 Urrar com lobos discri\u00e7\u00e3o revela.<\/p>\n<p>Minha aten\u00e7\u00e3o no pez se engolfa, entanto, Por saber quanto<br \/>\nencerra a negra cava, 18 Ali quem pena, quem derrama pranto.<\/p>\n<p>Como o delfim, que da tormenta brava O nauta avisa, o dorso recurvando, 21<br \/>\nPress\u00e1gio do mau tempo, que se agrava.<\/p>\n<p>Um lenitivo \u00e0 pena, assim, buscando, Mostrava o tergo algum dos condenados,<br \/>\n24 Qual rel\u00e2mpago, logo se esquivando.<\/p>\n<p>Como \u00e0 borda de charcos enlodados A fronte deixa \u00e0 r\u00e3<br \/>\nver da \u00e1gua fora, 27 Pernas e corpo tendo resguardados: Assim no pez<br \/>\na gente pecadora.<\/p>\n<p>Mas, Barbariccia pr\u00f3ximo j\u00e1 sendo, 30 Na resina se esconde<br \/>\nabrasadora.<\/p>\n<p>Eu vi (e ainda agora estou tremendo!) Em cima retardar-se um desditoso 33<br \/>\nQual r\u00e3, que fica, as mais desparecendo.<\/p>\n<p>Perto ali stava Grafiacane iroso: Fisgou-o na enviscada cabeleira, 36 E al\u00e7ou,<br \/>\nqual lontra, ao ar o criminoso.<\/p>\n<p>Sabia os nomes da caterva inteira;<\/p>\n<p>Ouvindo-os, atentei nos escolhidos: 39 Distingui-los podia de carreira.<\/p>\n<p>\u201cEia! depressa os teus ferr\u00f5es compridos No costado lhe crava,<br \/>\n\u00f3 Rubicante!\u201d 42 Os dem\u00f4nios gritaram-lhe incendidos.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 Mestre\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cinquire insinuante<br \/>\nQuem seja aquele m\u00edsero e mesquinho 45 Que em m\u00e3os caiu da turba<br \/>\npetulante\u201d.<\/p>\n<p>Moveu-se o Mestre e, \u00e0 cava j\u00e1 vizinho, Perguntou-lhe em que<br \/>\nterra ele nascera.<\/p>\n<p>48 \u2014 \u201cEm Navarra\u201d \u2014 tornou-lhe \u2014 eu tive o<br \/>\nninho.<\/p>\n<p>\u201cDe um fidalgo ao servi\u00e7o me pusera Minha m\u00e3e, quando<br \/>\no pai meu devastara 51 Fazenda e a pr\u00f3pria vida com m\u00e3o fera.<\/p>\n<p>\u201cD\u2019El-rei Tebaldo eu na privan\u00e7a entrara: Vendia os seus<br \/>\nfavores fraudulento; 54 Sofro a pena do mal, que praticara\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os dentes lhe cravou cruento, De javardo quais presas, Ciriatto:<br \/>\n57 Armam-lhe a boca, servem de instrumento: Nas m\u00e3os de imigo seu ca\u00edra<br \/>\no rato: Barbariccia, entre os bra\u00e7os o estreitando,<\/p>\n<p>60 \u2014 \u201cAlto!\u201d \u2014 lhe diz \u2014 \u201cA mim cabe<br \/>\nseu trato\u201d.<\/p>\n<p>E o rosto para o Mestre meu voltando, Falou: \u2014 \u201cPergunta, se<br \/>\nainda mais desejas 63 Antes que o tenha lacerado o bando\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAlgum dos pecadores, com quem stejas\u201d Virg\u00edlo interrogou<br \/>\n\u2014 \u201cLatino h\u00e1 sido?\u201d 66 Tornou: \u2014 \u201cVou<br \/>\ncontentar-te no que almejas.<\/p>\n<p>\u201cNo pez deixei algu\u00e9m por tal havido&#8230;<\/p>\n<p>Ah! n\u00e3o temera, estando l\u00e1 coberto, 69 Ser de unhas e farp\u00f5es<br \/>\nora ferido\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c9 demais!\u201d \u2014 Libicocco diz, que perto Estava;<br \/>\ne um bra\u00e7o ao triste dilacera, 72 Do croque ao golpe, aquele algoz<br \/>\nesperto.<\/p>\n<p>\u00c0s pernas Draghignaz tamb\u00e9m quisera Do m\u00edsero investir;<br \/>\no cabo iroso 75 Acesos olhos volve e os dois modera.<\/p>\n<p>Cessa um pouco o rumor e pessuroso Pergunta o Mestre \u00e0quela sombra<br \/>\naflita, 78 Que do golpe olha o efeito doloroso: \u201cQuem foi essa alma,<br \/>\ncomo tu prescita, Que, por vires \u00e0 tona, h\u00e1s l\u00e1 deixado?\u201d<br \/>\n81 Responde o pecador: \u2014 \u201cFoi Frei Gomita<\/p>\n<p>De galura, nas fraudes consumado Que do seu amo a imigos poupou dano, 84<br \/>\nE, traidor, foi por eles premiado.<\/p>\n<p>\u201cPor ouro os deixou ir, como de plano Confessa; e em tudo o mais provou<br \/>\nter foro 87 Nas tretas, ser nos dolos soberano.<\/p>\n<p>\u201cMiguel Zanche, o Juiz de Logodoro, Com ele ostenta, em pr\u00e1ticas<br \/>\nfreq\u00fcentes 90 De crimes, em Sardenha, o seu tesouro.<\/p>\n<p>\u201cAi! vede como esse outro range os dentes! Iria por diante; mas receio<br \/>\n93 Na pele a f\u00faria dos ferr\u00f5es pungentes\u201d.<\/p>\n<p>Atenta o cabo de olhos no meneio Com que a ferir se apresta Farfarello.<\/p>\n<p>96 \u201cVai da\u00ed!\u201d \u2014 lhe gritou \u2014 \u201cp\u00e1ssaro<br \/>\nfeio!\u201d \u2014 \u201cSe Toscanos, Lombardos tens anelo De ver e ouvir\u201d<br \/>\n\u2014 o triste prosseguia \u2014 99 \u201cTra\u00e7a darei, com que<br \/>\nsatisfaz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Suspendam Malebranche essa porfia; N\u00e3o temam s\u00f3cios meus dura<br \/>\nvingan\u00e7a, 102 Que eu, sentado, um s\u00f3 n\u00e3o, muitos faria<br \/>\n\u201cDe l\u00e1 surdir, segundo a nossa usan\u00e7a, Ao sinal de assovio,<br \/>\nque de ausente<\/p>\n<p>105 Perigo ao vir \u00e0 tona d\u00e1 fian\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Cagnazzo al\u00e7a o focinho, de repente, E, abanando a cabe\u00e7a,<br \/>\ndiz \u2014 \u201cCuidado! 108 Ast\u00facia \u00e9 por lan\u00e7ar-se<br \/>\nao pez fervente\u201d.<\/p>\n<p>Ele, que em c\u00f3pia ardis tinha guardado, Tornou: \u2014 \u201cSutil<br \/>\nast\u00facia, na verdade, 111 Causar aos meus tormento redobrado!\u201d<br \/>\nDos outros contra o aviso, por vaidade, Alichino lhe disse: \u2014 \u201cSe<br \/>\nabalares, 114 N\u00e3o provarei de p\u00e9s agilidade, \u201cHei de,<br \/>\nvoando, te agarrar nos ares.<\/p>\n<p>Vamos do cimo e \u00e0 riba retiremos: 117 Maravilha, se a tantos enganares!\u201c<br \/>\nLeitor, logra\u00e7\u00e3o nova contemplemos.<\/p>\n<p>J\u00e1 todos volvem de outro lado a vista: 120 Quem mais avesso assim<br \/>\nprimeiro vemos.<\/p>\n<p>O Navarro estudara-o como invista; E arrancando, de s\u00fabito, ao betume<br \/>\n123 Se arroja e a liberdade ent\u00e3o conquista.<\/p>\n<p>Da afronta sentem todos o azedume, Inda mais quem motivo dera ao feito, 126<br \/>\nGritando: \u2014 \u201cPreso est\u00e1s!\u201d \u2014 salta do cume,<\/p>\n<p>Por\u00e9m do medo se avantaja o efeito Ao das asas: um baixa ao fundo<br \/>\npresto, 129 No ar sust\u00e9m-se o outro, al\u00e7ando o peito.<\/p>\n<p>Assim mergulha o pato na \u00e1gua lesto, Quando avista o falc\u00e3o:<br \/>\nperdida a presa, 132 Se torna o ca\u00e7ador cansado e mesto.<\/p>\n<p>Calcabrina, da raiva na braveza, Ap\u00f3s o s\u00f3cio voa, por ter<br \/>\nbriga, 135 Se a alma como deseja, vence empresa.<\/p>\n<p>Vendo que ao fundo o malfeitor se abriga, As garras volta contra o companheiro:<br \/>\n138 Furor \u00e0 luta sobre o lago o instiga.<\/p>\n<p>As unhas o outro, gavi\u00e3o ligeiro, Lhe crava e, entrela\u00e7ando-se<br \/>\nespantosos, 141 Tombam ambos no pez, de corpo inteiro.<\/p>\n<p>Separa o gr\u00e3o fervor os dois raivosos; Em v\u00e3o, por\u00e9m,<br \/>\nsubir-se pretenderam, 144 Que as asas prendem borbulh\u00f5es vi\u00e7osos.<\/p>\n<p>Os outros vendo o caso, se doeram: Envia quatro o cabo diligente; 147 E de<br \/>\ncroques armados acorreram.<\/p>\n<p>De um lado e de outro chegam velozmente.<\/p>\n<p>Tendem farp\u00f5es aos s\u00f3cios enviscados,<\/p>\n<p>Cozidos j\u00e1 naquela crusta ardente, 151 E desta arte os deixamos atalhados.<\/p>\n<p>48-54. Em Navarra etc., Ciampo de Navarra, o qual serviu na corte do rei<br \/>\nTebaldo II de Navarra. 81. Frei Gomita, vic\u00e1rio de Ugolino Visconti,<br \/>\npor dinheiro deu liberdade aos inimigos do seu senhor. \u2014 88. Miguel<br \/>\nZangue, vic\u00e1rio do rei Enzo em Logodoro.<br \/>\nCANTO XXIII<\/p>\n<p>Prosseguem os dois Poetas o seu caminho, descartando-se dos diabos. Vendo-os,<br \/>\npor\u00e9m, voltar novamente, Virg\u00edlio abra\u00e7a-se com Dante<br \/>\ne deixam-se resvalar pelo declive do precip\u00edcio.<\/p>\n<p>Encontram os hip\u00f3critas vestidos de pesadas capas de chumbo dourado.<br \/>\nFalam com dois frades, Catalano e Loderigo, bolonheses. Um dos frades, inquirido<br \/>\npor Vig\u00edlio, indica-lhe o modo de subir ao s\u00e9timo compartimento.<\/p>\n<p>EM sil\u00eancio, a companha m\u00e1 deixada, Segu\u00edamos, ap\u00f3s<br \/>\num do outro andando, 3 Como frades menores em jornada.<\/p>\n<p>Meu pensamento \u00e0 rixa se voltando, A f\u00e1bula de Esopo relembrava,<br \/>\n6 Em que ao rato arma a r\u00e3 la\u00e7o nefando.<\/p>\n<p>Se aqueles casos dois eu confrontava, Como issa e mo, iguais me pareciam,<br \/>\n9 Quando o princ\u00edpio e fim seus recordava.<\/p>\n<p>E, como os pensamentos se associam, Outros logo daquele me brotaram, 12 Que<br \/>\nem dobrado temor a alma envolviam.<\/p>\n<p>Pensava: \u2014 esses dem\u00f4nios que passaram,<\/p>\n<p>Por causa nossa, tal vergonha e dano, 15 Do fato certamente se enojaram.<\/p>\n<p>Se a maldade agravar rancor insano, Eles no encal\u00e7o nos vir\u00e3o<br \/>\nferozes, 18 Qual c\u00e3o, que a lebre aboca enfim no plano.<\/p>\n<p>Aguardando os horr\u00edficos algozes, Arrepiam-se as carnes e o cabelo.<\/p>\n<p>21 \u2014 \u201c\u00d3 Mestre meu, as garras temo atrozes!\u201d Exclamo:<br \/>\n\u2014 \u201cAche depressa o teu desvelo Para n\u00f3s contra o bando<br \/>\namparo e abrigo.<\/p>\n<p>24 Ap\u00f3s os passos nossos cuido v\u00ea-lo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSe espelho eu fora, a imagem tua, amigo, Tanto n\u00e3o refletira<br \/>\nclaramente, 27 Quanto \u00e0s id\u00e9ias na tua alma sigo.<\/p>\n<p>\u201cAgora iguais me est\u00e3o surgindo \u00e0 mente, Concordes tanto<br \/>\nnas fei\u00e7\u00f5es, em tudo, 30 Que um parecer entre ambos h\u00e1<br \/>\nsomente.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 destra inclina a encosta, ou eu me iludo: Por l\u00e1 baixando<br \/>\n\u00e0 mais vizinha cava, 33 Teremos contra assaltos seus escudo\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o acabava, quando a turba prava Assoma: de asas pandas se enviando<br \/>\n36 Contra n\u00f3s, n\u00e3o mui longe a divisava.<\/p>\n<p>De s\u00fabito nos bra\u00e7os me tomando, Qual m\u00e3e, que ao despertar<br \/>\nse v\u00ea cercada 39 De furiosas flamas, e, apertando Ao seio o filho, foge<br \/>\nacelerada, E ao pudor v\u00e9us esquece angustiosa, 42 S\u00f3 por salvar<br \/>\naquela prenda amada: L\u00e1 do cimo da riba alta e fragosa Resvala o Mestre<br \/>\npela penha dura, 45 Muralha de outra cava tenebrosa.<\/p>\n<p>\u00c1gua n\u00e3o corre mais veloz da altura Por canal a impulsar de<br \/>\nengenho a roda, 48 Quando, vizinha aos cubos, se apressura, Do que a descer<br \/>\no Guia meu se a\u00e7oda, Como a filho estreitando-me ao seu peito, 51 N\u00e3o<br \/>\ncomo a companheiro a quem se engoda.<\/p>\n<p>Da cava, apenas atingira o leito, Quando ao cimo os dem\u00f4nios se mostraram:<br \/>\n54 Mas de iras suas malogrou-se o efeito.<\/p>\n<p>Por lei da Provid\u00eancia terminaram Fun\u00e7\u00f5es, que exercem<br \/>\nna caverna quinta, 57 Toda vez que o recinto seu deixaram.<\/p>\n<p>Gente, que de brilhante cor se pinta<\/p>\n<p>Vemos, que a tardo passo em torno andava; 60 Chorava e em for\u00e7as parecia<br \/>\nextinta.<\/p>\n<p>Capa e capuz trazia, que ocultava Seus olhos, dessa forma de vestidos 63<br \/>\nDe Col\u00f4nia entre os monges mais se usava.<\/p>\n<p>De ouro por fora, dentro guarnecidos De chumbo: comparando a peso tanto,<br \/>\n66 De palha os de Fred\u2019rico eram tecidos.<\/p>\n<p>Por toda a eternidade, \u00f3 duro duro manto! Com tais almas, \u00e0<br \/>\nsestra, caminhamos, 69 Atentos escutando o triste pranto.<\/p>\n<p>Tanto as oprime o peso, que as passamos No lento caminhar; e a cada instante<br \/>\n72 De nova companhia ao lado estamos.<\/p>\n<p>\u201cMostra-me \u2014 eu disse ao Guia, suplicante \u2014 Algum por nome<br \/>\nou feitos afamado; 75 Busca, sem te deter, Mestre prestante!\u201d \u2014<br \/>\nTendo vozes toscanas escutado, Um atr\u00e1s nos gritou: \u2014 \u201cCessai<br \/>\nda pressa, 78 Com que ides a correr pelo ar cerrado! \u201cCousa talvez direi,<br \/>\nque te interessa\u201d.<\/p>\n<p>Volta-se o Mestre e diz-me: \u2014 \u201cAgora espera; 81 Para o passo<br \/>\nigualar-lhes n\u00e3o te apressa\u201d.<\/p>\n<p>Cessando, vejo um par que se acelera; Seus gestos dizem que acercar-se aspiram,<br \/>\n84 Malgrado a estrada e o peso, que os onera.<\/p>\n<p>Aqueles dois, j\u00e1 pr\u00f3ximos, remiram Com vesgos olhos, sem falar,<br \/>\nmeu rosto; 87 Depois entre eles vozes tais se ouviram: \u201cO que respira<br \/>\nainda em vida \u00e9 o posto? Se mortos ambos s\u00e3o, por que motivo<br \/>\n90 Da pl\u00fambea capa evadem-se ao desgosto?\u201d E disseram: \u2014<br \/>\n\u201cToscano, que, inda vivo, Vens de hip\u00f3critas ver o gr\u00eamio<br \/>\ntriste, 93 Dizer quem sejas, n\u00e3o recusa esquivo\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNasci na gr\u00e3 cidade, \u00e0 qual assiste Com suas<br \/>\nbelas margens o Arno ameno, 96 E o corpo, em que hei crescido, l\u00e1 persiste.<\/p>\n<p>\u201cQuem sois que da afli\u00e7\u00e3o tanto veneno Na face amargo<br \/>\npranto denuncia? 99 Qual penar tendes de esplendor t\u00e3o pleno?\u201d<br \/>\n\u201cTanto chumbo se encobre\u201d \u2014 um me dizia \u2014 Destas capas<br \/>\nsob o ouro, que oscilamos, 102 Qual balan\u00e7a, que ao peso hesitaria.<\/p>\n<p>\u201cDe Bolonha e Godente, nos chamamos<\/p>\n<p>Um Loderigo e o outro Catalano: 105 Juntos ambos Floren\u00e7a governamos,<br \/>\n\u201cPor que ficasse a paz livre de dano.<\/p>\n<p>Em vez de um regedor; do que hemos sido 108 O Gardingo d\u00e1 prova e<br \/>\ndesengano\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 irm\u00e3os\u201d \u2014 comecei \u2014 \u201co mal<br \/>\nnascido&#8230;\u201d Atalhei-me: jazendo um condenado 111 Com puas tr\u00eas<br \/>\nem cruz via estendido.<\/p>\n<p>Em vendo-me estorceu-se angustiado.<\/p>\n<p>Altos suspiros arrancou do peito.<\/p>\n<p>114 Catalano acercou-se apressurado.<\/p>\n<p>\u201cEste\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cque geme em duro leito, Que<br \/>\na um homem dessem morte, aconselhara 117 Aos Fariseus, do povo por proveito.<\/p>\n<p>\u201cAtrav\u00e9s do caminho \u00e9 nu, repara: De quem passa, desta<br \/>\narte, ele conhece 120 O peso, quando por calc\u00e1-lo p\u00e1ra.<\/p>\n<p>\u201cIgual mart\u00edrio o sogro seu padece, Assim como cada um desse<br \/>\nconcilio, 123 Semente pra os Judeus de horrenda messe\u201d.<\/p>\n<p>Maravilhar-se ent\u00e3o mostrou Virg\u00edlio, Posto em cruz o prescito<br \/>\ncontemplando 126 Com tanto opr\u00f3brio l\u00e1 no eterno ex\u00edlio,<\/p>\n<p>Voltou-se a Catalano assim falando: \u201cDizei, se assim vos apraz e \u00e9<br \/>\npermitido, 129 Se \u00e0 direita h\u00e1 vereda, onde, passando, Deste<br \/>\nrecinto vamo-nos temido, Sem que os anjos perversos obriguemos 132 Caminho<br \/>\na nos mostrar n\u00e3o conhecido\u201d.<\/p>\n<p>Tornou: \u2014 \u201cMais perto do que julgas temos Rochedo, que, do muro<br \/>\nse estendendo, 135 D\u00e1 ponte a cada val, em que gememos.<\/p>\n<p>\u201cEste n\u00e3o cobre, outrora se rompendo; Mas subir podereis pela<br \/>\nru\u00edna, 138 Que do declive ao fundo se est\u00e1 vendo\u201d.<\/p>\n<p>Ouvindo, o Guia um pouco a fronte inclina E diz: \u2014 \u201cBem m\u00e1s<br \/>\nexplica\u00e7\u00f5es nos dava 141 Quem tanto os pecadores amofina\u201d.<\/p>\n<p>Logo o frade: \u201cEm Bolonha me constava Que o dem\u00f4nio, entre os<br \/>\nv\u00edcios com que stenta, 144 De ser pai da mentira se ufanava\u201d.<\/p>\n<p>A passo largo o Mestre j\u00e1 se ausenta; Ira ressumbra o rosto carregado.<\/p>\n<p>Deixa a turba, que em capas se atormenta, 148 As pegadas seguindo-lhe apressado.<\/p>\n<p>8. \u201cMo\u201d e \u201cissa\u201d adv\u00e9rbios que, ambos, significam:<br \/>\nagora. \u2014 66.<\/p>\n<p>De Frederico etc., em compara\u00e7\u00e3o, as capas que Frederico II<br \/>\nmandara colocar nos presos eram lev\u00edssimas. \u2014 104. Loderigo e<br \/>\nCatalano, frades que foram chamados a governar Floren\u00e7a, depois da<br \/>\nderrota de Manfredo (1266) e que se aproveitaram da sua posi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncausando um motim no qual foi incendiada a casa dos Uberti, perto do Gardingo.<br \/>\n\u2014 115. Este etc., Caif\u00e1s, o sumo sacerdote de Israel, que aconselhou<br \/>\na morte de Jesus. \u2014 121. O sogro seu etc., Anah, sogro de Caif\u00e1s.<br \/>\nCANTO XXIV<\/p>\n<p>Encaminham-se os Poetas pelo rochedo e chegam ao s\u00e9timo compartimento<br \/>\nno qual est\u00e3o os ladr\u00f5es, os quais, picados por serpentes horr\u00edveis,<br \/>\ninflamam-se e, depois, ressurgem das cinzas. Entre eles Dante reconhece Vanni<br \/>\nFucci, o qual por desafogar o despeito de ser colhido em tal vergonha e mis\u00e9ria,<br \/>\nprediz-lhe a derrota dos Brancos.<\/p>\n<p>NAQUELA parte do ano incipiente, Em que as comas do sol se fortalecem 3 No<br \/>\nAqu\u00e1rio, e a noite iguala o dia ausente, Quando as geadas matinais<br \/>\nparecem Da alva irm\u00e3 figurar a imagem pura, 6 Mas tais fei\u00e7\u00f5es<br \/>\nem breve se esvaecem.<\/p>\n<p>Campino, que a indig\u00eancia j\u00e1 tortura, Ergue-se, e vendo o prado<br \/>\nembranquecido.<\/p>\n<p>9 No cora\u00e7\u00e3o calar sente a amargura.<\/p>\n<p>Torna ao tug\u00fario e carpe-se abatido, Como quem toda a esp\u2019ran\u00e7a<br \/>\nj\u00e1 perdera; 12 Mas vendo em breve o campo estar despido Do triste manto,<br \/>\no alento recupera.<\/p>\n<p>Revigorado ent\u00e3o, corre ao cajado<\/p>\n<p>15 E as ovelhas ao pascigo acelera.<\/p>\n<p>De temor me senti, dessa arte, entrado Do mestre merenc\u00f3reo ante o<br \/>\nsemblante; 18 Mas logo ao mal foi b\u00e1lsamo aplicado.<\/p>\n<p>\u00c0 ru\u00edna chegamos: nesse instante Virg\u00edlio volve \u00e0quele<br \/>\ndoce gesto, 21 Que eu da colina ao p\u00e9 vira ofegante.<\/p>\n<p>Reflete um pouco, o estado manifesto Da rocha examinando: eis-me, estendendo<br \/>\n24 Os bra\u00e7os, resoluto ergueu-me presto.<\/p>\n<p>Como aquele que uma obra entre m\u00e3os tendo.<\/p>\n<p>Logo noutra tarefa p\u00f5e o intento, 27 Num rochedo Virg\u00edlio me<br \/>\nsustendo, J\u00e1 de outro acima me avisava atento.<\/p>\n<p>\u201cMais alto agora sobe\u201d \u2014 me dizia \u2014 30 \u201cV\u00ea<br \/>\nse a rocha est\u00e1 firme! Toma tento!\u201d De capa ali ningu\u00e9m<br \/>\ntransitaria; Pois n\u00f3s, leves e eu sempre transportado, 33 Sub\u00edamos<br \/>\na custo a penedia.<\/p>\n<p>Se mais alto o declive do outro lado N\u00e3o fora do que esse outro, em<br \/>\nque ora estamos, 36 \u2014 Dele n\u00e3o sei \u2014 ficara eu l\u00e1<br \/>\nprostrado.<\/p>\n<p>Que Malebolge inclina-se notamos \u00c0 boca enorme do profundo po\u00e7o;<br \/>\n39 As encostas, s\u00e3o tais \u2014 expr\u2019imentamos \u2014 Que uma<br \/>\n\u00e9 baixa, outra excelsa em cada fosso.<\/p>\n<p>Vimos, enfim, do topo \u00e0 roca extrema, 42 Dessa ru\u00edna ao \u00faltimo<br \/>\ndestro\u00e7o.<\/p>\n<p>L\u00e1 chegado, af\u00e3 tanto o peito prema, Que avante um passo dar<br \/>\neu mais n\u00e3o pude; 45 Sentei-me ent\u00e3o na inani\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuprema.<\/p>\n<p>\u201cEia! toda a fraqueza em ti se mude! Em \u00f3cio\u201d \u2014<br \/>\ndisse o Mestre \u2014 \u201cou sobre a pluma 48 Pr\u00eamios ningu\u00e9m<br \/>\nconquista da virtude.<\/p>\n<p>\u201cAquele que a exist\u00eancia assim consuma, Tal vest\u00edgio de<br \/>\nsi deixa na terra, 51 Como o fumo no ar e na \u00e1gua a espuma.<\/p>\n<p>\u201cErgue-te, pois! Torpor de ti desterra! Recobra o esfor\u00e7o que<br \/>\nos perigos vence! 54 Impere alma no corpo em que se encerra! \u201cQue vais<br \/>\nsubir muito alto a mente pense; Desse abismo n\u00e3o basta haver sa\u00eddo.<\/p>\n<p>57 Ser\u00e1 teu prol, se a minha voz convence\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e7o-me ent\u00e3o, mostrando-me impelido De alento, que n\u00e3o<br \/>\ntinha; e ao Mestre digo:<\/p>\n<p>60 \u201cAvante! Forte j\u00e1 me sinto e ardido!\u201d Pela rocha asper\u00edssima<br \/>\nprossigo Mais estreita, inda menos acess\u00edvel 63 Que a outra: os passos<br \/>\nde Virg\u00edlio sigo.<\/p>\n<p>Por provar-me \u00e0s fadigas insens\u00edvel Falando andava. Eis ou\u00e7o<br \/>\nde outra cava 66 Ressoar voz bem pouco percept\u00edvel.<\/p>\n<p>O que disse n\u00e3o sei, posto me achava Da ponte sobre a parte culminante;<br \/>\n69 Mais parecia iroso quem falava.<\/p>\n<p>Curvei-me para ver no fosso hiante, Mas alcan\u00e7ar n\u00e3o pude o<br \/>\nfundo escuro.<\/p>\n<p>72 Ao Mestre disse ent\u00e3o. \u201cSe apraz-te, avante Passando, desceremos<br \/>\ndeste muro; Daqui ou\u00e7o uma voz, mas n\u00e3o a entendo; 75 Fito os<br \/>\nolhos, mas nada me afiguro\u201d.<\/p>\n<p>\u201cRespondo aos teus desejos, acedendo; Que o pedido discreto assim declaro<br \/>\n78 Se cumpre, n\u00e3o falando, mas fazendo\u201d.<\/p>\n<p>Fomos da ponte \u00e0 parte, donde \u00e9 claro Que se vai ter \u00e0<br \/>\nribanceira oitava: 81 Ficou patente a cava ao meu reparo.<\/p>\n<p>De serpes tal cardume se enroscava, Horr\u00edficas na infinda variedade,<br \/>\n84 Que ao sangue, inda ao lembrar, terror me trava.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenha a L\u00edbia de criar vaidade, De quersos, fares, cencris<br \/>\nno seu seio 87 E anfisbenas, tamanha quantidade.<\/p>\n<p>Nem do mar Roxo* em plagas, nem no meio Da Eti\u00f3pia, tropel t\u00e3o<br \/>\npavoroso 90 De flagelos jamais a lume veio: Por entre o enxame atroce e temeroso<br \/>\nAlmas corriam nuas e transidas, 93 Heliotr\u00f3pia n\u00e3o sperando<br \/>\nou pouso.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s as m\u00e3os por serpes s\u00e3o tolhidas, Que, transpassando<br \/>\nos rins, cauda e cabe\u00e7a, 96 Lhes tinham por diante em la\u00e7os<br \/>\nunidas.<\/p>\n<p>Eis uma de repente se arremessa Ao prescito, que perto nos demora: 99 Morde-lhe<br \/>\no colo aonde a esp\u00e1dua cessa.<\/p>\n<p>Um O tra\u00e7ar ou I mais custa agora Do que ser o mesquinho incendiado:<br \/>\n102 Em cinzas cai o pecador, que chora.<\/p>\n<p>Stando em terra desta arte derribado,<\/p>\n<p>Juntando-se a cinza e logo reformou-se, 105 Como de antes, o triste condenado.<\/p>\n<p>Dos s\u00e1bios na escritura j\u00e1 narrou-se Que a F\u00eanix morre<br \/>\ne logo ap\u00f3s renasce, 108 Quando aos anos quinhentos acercou-se.<\/p>\n<p>Viva, j\u00e1 nunca em cibo ela se pasce, Em l\u00e1grimas, por\u00e9m,<br \/>\nde incenso e amono; 111 De nardo e mirra em ninho extremo apraz-se.<\/p>\n<p>Como aquele que cai sem saber como, Do dem\u00f4nio ao poder, que \u00e0<br \/>\nterra o tira, 114 Ou de outra opila\u00e7\u00e3o sentindo o assomo; Levantando-se,<br \/>\nem torno a si remira, Da ang\u00fastia inda aturdido, que o mordera, 117<br \/>\nE, em seu so\u00e7obro, p\u00e1vido suspira: Assim parece o pecador, que<br \/>\nardera.<\/p>\n<p>Contra os pecados na final vingan\u00e7a, 120 \u00d3 Justi\u00e7a de<br \/>\nDeus, quanto \u00e9s severa! Quem fora inquire o Mestre, e dele alcan\u00e7a<br \/>\nEstas vozes: \u2014 \u201cH\u00e1 pouco, da Toscana 123 Chovi no abismo,<br \/>\nonde ningu\u00e9m descansa.<\/p>\n<p>\u201cVida brutal vivi, n\u00e3o vida humana.<\/p>\n<p>Chamei-me Vanni Fucci, h\u00edbrida besta; 126 Pist\u00f3ia, meu covil,<br \/>\nde mim se ufana\u201d.<\/p>\n<p>Ao Mestre eu disse: \u2014 \u201cReferir-nos resta O crime, que deu causa<br \/>\n\u00e0 morte sua: 129 Sei que em sangue banhara a m\u00e3o funesta\u201d.<\/p>\n<p>O pecador, que me ouve, n\u00e3o se amua: Volta-me presto a cara, em que<br \/>\na tristeza 132 Com sinais de vergonha se insinua E diz: \u2014 \u201cSinto<br \/>\nda dor mais a aspereza, Porque em mis\u00e9ria tanta me v\u00eas posto,<br \/>\n135 Do que quando da morte hei sido a presa.<\/p>\n<p>\u201cAo que exiges respondo com desgosto: Por ter roubado alfaias e ornamento<br \/>\n138 Da igreja, aqui estou, sendo meu gosto \u201cQue pelo crime houvesse<br \/>\noutro tormento.<\/p>\n<p>Se deste antro sa\u00edres algum dia, 141 Por que n\u00e3o sejas do meu<br \/>\nmal contento, \u201cOuve bem o que a voz minha anuncia: De si Pist\u00f3ia<br \/>\nos Negros expulsando, 144 Povo, modos, Floren\u00e7a ent\u00e3o cambia.<\/p>\n<p>\u201cVapor de Val de Magra Marte al\u00e7ando, O traz em torvas nuvens<br \/>\nenvolvido; 147 E, enquanto a tempestade est\u00e1 raivando, \u201cNo campo<br \/>\nde Picen ser\u00e1 ferido<\/p>\n<p>Combate; a n\u00e9voa logo se esvaece; Dos Brancos cada qual ser\u00e1<br \/>\nbatido.<\/p>\n<p>151 \u201cSabe-o, pois: certo, a nova te entristece\u201d.<\/p>\n<p>125. Vanni Fucci, ribaldo que roubou o tesouro de S. Jacopo em Pist\u00f3\u00eda.<br \/>\n\u2014 143-150. De si Pist\u00f3ia etc., Vanni Fucci sabendo que Dante<br \/>\nera do partido dos Brancos, lhe prediz que os Brancos ser\u00e3o exilados<br \/>\nde Floren\u00e7a e, depois, derrotados em Campopiano.<\/p>\n<p>\u2014* NE: Roxo na fonte digitalizada. No original italiano, Mar Rosso<br \/>\n[che sopra al Mar Rosso] (Mar Vermelho) \u2013 Traduzido por Roxo para efeito<br \/>\nde m\u00e9trica?<br \/>\nCANTO XXV<\/p>\n<p>Vanni Fucci depois das negras predi\u00e7\u00f5es desafia a Deus, pelo<br \/>\nque o centauro Caco, todo coberto de serpentes, lhe corre atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Dante reconhece entre os danados alguns florentinos que, em Floren\u00e7a,<br \/>\ndesempenharam fun\u00e7\u00f5es importantes, aproveitando-se dos dinheiros<br \/>\np\u00fablicos e descreve suas transforma\u00e7\u00f5es de homens em<br \/>\nserpentes e vice-versa.<\/p>\n<p>ASSIM dizia o roubador e, al\u00e7ando Ambas as m\u00e3os, que figuravam<br \/>\nfigas: 3 \u201cToma, \u00f3 Deus\u201d exclamou \u201co que eu te mando\u201d.<\/p>\n<p>Serpes me foram desde ent\u00e3o amigas: Porque logo uma ao colo se enroscava,<br \/>\n6 Como a dizer: \u2014 \u201cN\u00e3o quero que prossigas!\u201d Tolhendo-lhe<br \/>\noutra os bra\u00e7os, se enla\u00e7ava Diante sobre o peito, e o movimento<br \/>\n9 Com rebatido v\u00ednculo atalhava.<\/p>\n<p>Ah! Pist\u00f3ia! ah! Pist\u00f3ia! o incendimento Teu decreto, extinguido<br \/>\nnome impuro, 12 Pois d\u00e1s da extirpe tua ao v\u00edcio aumento! T\u00e3o<br \/>\nsoberbo n\u00e3o vi no abismo escuro, Contra Deus outro esp\u2019rito;<br \/>\nnem o ousado,<\/p>\n<p>15 Que de Tebas caiu morto do muro.<\/p>\n<p>Sem mais dizer fugira o condenado.<\/p>\n<p>Eis r\u00e1bido centauro vi correndo 18 A gritar: \u2014 \u201conde est\u00e1<br \/>\no celerado?\u201d Nem tem Marema de r\u00e9pteis horrendo Bando igual ao<br \/>\nque o dorso carregava 21 T\u00e9 onde a humana forma est\u00e1-se vendo.<\/p>\n<p>Na esp\u00e1dua, abaixo da cerviz pousava, As asas estendendo, atroce drago,<br \/>\n24 Que fogo a quanto encontra arrevessava.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 Caco\u201d \u2014 o Mestre diz \u2014 \u201cque a imane<br \/>\nestrago Afeito do Aventino se aprazia, 27 Sob as penhas, de sangue em fazer<br \/>\nlago.<\/p>\n<p>\u201cDos seus irm\u00e3os n\u00e3o segue a companhia, Por haver depredado,<br \/>\nfraudulento, 30 Armentio, que pr\u00f3ximo pascia.<\/p>\n<p>\u201cTiveram fim seus crimes: golpes cento Sobre ele desfechou de Alcide<br \/>\na clava: 33 Aos dez perdera j\u00e1 a vida o alento\u201d. \u2014 Foi-se<br \/>\no centauro enquanto assim falava.<\/p>\n<p>Abaixo eis tr\u00eas esp\u00edritos chegando, 36 Nos quais nenhum de n\u00f3s<br \/>\ninda atentava,<\/p>\n<p>\u201cQuem sois?\u201d \u2014 romperam s\u00fabito bradando.<\/p>\n<p>A Narra\u00e7\u00e3o ent\u00e3o suspende o Guia; 39 E s\u00f3 deles<br \/>\ncuramos, escutando.<\/p>\n<p>Nenhum dessa companha eu conhecia; Mas ent\u00e3o, como \u00e0s vezes<br \/>\nacontece, 42 Um, chamando por outro, assim dizia: \u201cOnde \u00e9 Cianfa,<br \/>\nque assim desaparece?\u201d Dedo nos l\u00e1bios fiz nesse momento 45 A<br \/>\nVirg\u00edlio sinal, por que atendesse.<\/p>\n<p>Em crer o que eu contar se fores lento, N\u00e3o h\u00e1 de ser, leitor,<br \/>\npara estranhado; 48 Quase o que eu vi descr\u00ea meu pensamento.<\/p>\n<p>Quando eu dos tr\u00eas a vista era engolfado, Sobre seis p\u00e9s se<br \/>\nvia uma serpente 51 Contra um deles e o tem todo enla\u00e7ado.<\/p>\n<p>Abra\u00e7am-lhe os do meio rijamente O ventre; aos bra\u00e7os aos de<br \/>\ncima rendem, 54 Ambas as faces morde-lhe furente.<\/p>\n<p>Os de baixo nas coxas j\u00e1 se estendem, Interpondo-se a cauda, que,<br \/>\nsubindo 57 Por detr\u00e1s, voltas d\u00e1 que os rins lhe prendem.<\/p>\n<p>Hera, de \u00e1rvores os ramos recingindo.<\/p>\n<p>N\u00e3o os enleia tanto, como a fera<\/p>\n<p>60 Alheios membros ao seu corpo unindo.<\/p>\n<p>Fundiram-se depois, de quente cera Com feitos; travando as suas cores, 63<br \/>\nUm nem outro parece o que antes era: Como em papel, do fogo ante os ardores<br \/>\nProcede escura cor; inda n\u00e3o sendo 66 Negro, v\u00e3o fenecendo os<br \/>\nseus albores.<\/p>\n<p>Os dois, a maravilha percebendo, Gritavam-lhe: \u2014 \u201cAi! Agnel,<br \/>\nquanto h\u00e1s mudado! 69 Um j\u00e1 n\u00e3o \u00e9s mas dois ser<br \/>\nn\u00e3o podendo!\u201d Numa cabe\u00e7a as duas se h\u00e3o tornado;<br \/>\nConfundidos estavam dois semblantes 72 Num rosto, em que se haviam misturado.<\/p>\n<p>S\u00e3o dois os bra\u00e7os, que eram quatro de antes, Foram coxas e<br \/>\npernas, ventre e peito 75 Membros, que nunca h\u00e3o tido semelhantes.<\/p>\n<p>Perdeu-se assim todo o primeiro aspeito; Seres dois e nenhum nessa figura<br \/>\n78 Se via; e o montro foi-se a passo estreito.<\/p>\n<p>Quando o fervor canicular se apura, Cruza o lagarto, como o raio, a estrada,<br \/>\n81 E uma mouta deixando, outra procura.<\/p>\n<p>Tal menor serpe, l\u00edvida, inflamada.<\/p>\n<p>Negrejando, qual bago de pimenta, 84 Aos outros dois se arroja acelerada.<\/p>\n<p>E na parte, por onde se alimenta Primeiro a vida nossa, um dos dois fere<br \/>\n87 E ante ele tomba em queda violenta.<\/p>\n<p>Olha o ferido, mas nem voz profere; E sobre os p\u00e9s im\u00f3vel bocejava,<br \/>\n90 Como quem sono prenda ou febre onere.<\/p>\n<p>Fitava olhos na serpe, e esta o encarava; A chaga de um eu via, do outro<br \/>\na boca 93 Fumegar; e o seu fumo se encontrava.<\/p>\n<p>Emude\u00e7a Lucano, quando toca Em Sabelo infeliz mais em Nasc\u00eddio.<\/p>\n<p>96 Escute: mor portento ora se evoca.<\/p>\n<p>De Cadmo e Aretusa cale Ov\u00eddio: Se fonte a esta, \u00e0quela fez<br \/>\nserpente, 99 N\u00e3o o invejo: aqui h\u00e1 pior exc\u00eddio, N\u00e3o<br \/>\nconverteu dois seres frente a frente, Tanto que permutasse formas duas 102<br \/>\nSua pr\u00f3pria mat\u00e9ria de repente.<\/p>\n<p>Desta sorte comp\u00f5em-se as partes suas: A cauda \u00e0 serpe fende-se<br \/>\nem forquilha,<\/p>\n<p>105 Cerra o ferido em uma as plantas nuas.<\/p>\n<p>Tal pris\u00e3o coxas, pernas envencilha Que em breve nem vest\u00edgio<br \/>\nh\u00e1 de juntura, 108 Sinal, ou numa ou noutra, de partilha.<\/p>\n<p>Fendida a cauda assume essa figura Que perde o homem; numa \u00e9 t\u00e3o<br \/>\nmacia 111 A pele, quanto noutro fez-se dura.<\/p>\n<p>Entrar os bra\u00e7os nas axilas via; Tanto estendia os curtos p\u00e9s<br \/>\na fera, 114 Quanto o outro os seus bra\u00e7os encolhia.<\/p>\n<p>Os p\u00e9s o drago extremos retorcera, Na parte, que se esconde, se mudando,<br \/>\n117 Que em duas no mesquinho se fendera.<\/p>\n<p>Enquanto o fumo os dois ia velando De nova cor e a serpe o p\u00ealo empresta,<br \/>\n120 Que em todo perde o pecador nefando, Ergue-se um, cai o outro e no ch\u00e3o<br \/>\nresta, Os \u00edmpios olhos sem torcer, que viram 123 Dos gestos seus a<br \/>\nconvers\u00e3o funesta.<\/p>\n<p>Ao que era em p\u00e9 \u00e0s frontes lhe subiram Do rosto as sobras:<br \/>\ncada face afeita 126 Uma orelha, de duas, que sa\u00edram.<\/p>\n<p>Quanto de mais ficara ent\u00e3o se ajeita, O nariz conformando-lhe na<br \/>\ncara 129 E de l\u00e1bios lhe ornando a boca estreita, A bei\u00e7a o<br \/>\nque jazia dilatara; Qual caramujo, que as antenas cerra, 132 \u00c0 cabe\u00e7a<br \/>\nas orelhas retirara.<\/p>\n<p>A l\u00edngua unida e no falar n\u00e3o perra Partiu-se, enquanto a do<br \/>\noutro, forquilhada, 135 Uniu-se; o fumo desde ent\u00e3o se encerra.<\/p>\n<p>Essa alma, que em r\u00e9ptil era mudada, Pelo vale arremete sibilando,<br \/>\n138 Falando, a outra escarra e a segue irada.<\/p>\n<p>Depois, seu novo dorso lhe voltando, Disse \u00e0 terceira sombra: \u201cCorra<br \/>\no Buoso, 141 Como eu, por esta senda rastejando\u201d.<\/p>\n<p>Assim vi no antro s\u00e9timo espantoso M\u00fatuas transforma\u00e7\u00f5es:<br \/>\ntanta estranheza 144 Desculpe o canto rude e descuidoso.<\/p>\n<p>Posto empanar dos olhos a clareza E entrar o assombro no \u00e2nimo eu sentisse,<br \/>\n147 N\u00e3o fugiram com tanta sutileza, Nem t\u00e3o prestes que eu bem<br \/>\nn\u00e3o discernisse Puccio Sciancato, que dos tr\u00eas somente<\/p>\n<p>Fora o que transmudado se n\u00e3o visse, 151 Deu-te o outro, Gavili, dor<br \/>\npungente.<\/p>\n<p>14. Nem o ousado etc., Capaneu, V. Inf. XIV. \u2014 25. Caco, ladr\u00e3o,<br \/>\nao roubar o rebanho de H\u00e9rcules, para despistar, puxou as ovelhas pela<br \/>\ncauda. \u2014 43. Cianfa dei Donati, ladr\u00e3o florentino que veremos<br \/>\ntransformado em serpente. \u2014 68. Agnel, Agnello Brunelleschi, ladr\u00e3o<br \/>\nflorentino. \u2014 95. Sabelo e Nascidio, personagens dos \u201cFars\u00e1lias\u201d<br \/>\nde Lucano que, mordidos por cobras, mudam de aspecto. \u2014 97. C\u00e1dmio<br \/>\ne Aretusa, personagens das \u201cMetamorfoses\u201d de Ov\u00eddio que<br \/>\nse transformam o primeiro em serpente e o segundo numa fonte. \u2014 149.<br \/>\nPuccio Scianeato, ladr\u00e3o florentino.<br \/>\nCANTO XXVI<\/p>\n<p>Chegando os Poetas ao oitavo compartimento, distinguem infinitas chamas,<br \/>\ndentro das quais s\u00e3o punidos os maus conselheiros. Numa chama bipartida<br \/>\nest\u00e3o Di\u00f4medes e Ulisses.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo, a pedido de Dante, narra a sua \u00faltima navega\u00e7\u00e3o,<br \/>\nna qual perdeu a vida com os seus companheiros.<\/p>\n<p>FOLGA, \u00f3 Floren\u00e7a! A fama tens t\u00e3o grande, Que asas<br \/>\nbates por terra e mar, vaidosa! 3 At\u00e9 no inferno o nome teu se expande!<br \/>\nEntre os ladr\u00f5es, \u00f3 cousa vergonhosa! Principais cinco achei,<br \/>\nque em ti nasceram: 6 Ser\u00e1s por honra tal, vangloriosa? Se os veros<br \/>\nsonhos por manh\u00e3 se geram, Em breve h\u00e1s de sentir o que os de<br \/>\nPrato, 9 Quanto mais outros, por teu dano esperam.<\/p>\n<p>Presto que venha, ser\u00e1 tarde o fato; Se o mal tem de ferir, fira apressado:<br \/>\n12 Mais velho me h\u00e1 de ser mais grave e ingrato.<\/p>\n<p>Partimos: do rochedo alcantilado Os degraus, em que hav\u00edamos descido,<br \/>\n15 Sobe o Mestre e por ele eu fui levado.<\/p>\n<p>Em nosso ermo caminho e desabrido Prosseguimos por entre agras fraguras,<br \/>\n18 Pelas m\u00e3os sendo o p\u00e9 favorecido.<\/p>\n<p>Inda nalma exacerbam-se amarguras, Do que hei visto lembran\u00e7as avivando;<br \/>\n21 E, quanto posso, o cora\u00e7\u00e3o nas puras Veredas da virtude vou<br \/>\nguiando, Por que o bem, por bom astro ou Deus doado, 24 Eu pr\u00f3prio<br \/>\nn\u00e3o converta em mal nefando.<\/p>\n<p>O r\u00fastico, no outeiro reclinado, Na esta\u00e7\u00e3o, em que<br \/>\no sol o mundo aclara, 27 Mais lhe mostrando o seu semblante amado, J\u00e1<br \/>\nquando a mosca o sucessor depara, Pririlampos n\u00e3o v\u00ea t\u00e3o<br \/>\nnumerosos 30 No vale, onde vindima, ou ceifa ou ara, Quando, no fosso oitavo,<br \/>\nos temerosos Fogos, que avisto, dos que, ao cimo al\u00e7ado, 33 Fito no<br \/>\nfundo os olhos curiosos.<\/p>\n<p>Como aquele que de ursos foi vingado, Quando voou de Elia o carro ardente,<br \/>\n36 Ao c\u00e9u por fris\u00f5es \u00edgneos transportado, Seguiu c\u2019a<br \/>\nvista o lume, que somente<\/p>\n<p>Dos ares na extens\u00e3o aparecia, 39 Qual nuvens se elevando velozmente;<br \/>\nAssim naquele abismo se agitando As flamas via; em cada qual estava 42 Uma<br \/>\nalma, em seus fulgores se ocultando.<\/p>\n<p>Para ver, l\u00e1 da ponte, me inclinava: Se amparado da rocha eu n\u00e3o<br \/>\nstivesse, 45 Tombara ao fundo dessa hiante cava.<\/p>\n<p>O Mestre, ao ver que a mente se embevece, \u201cEm cada fogo\u201d \u2014<br \/>\ndiz-me \u2014 \u201cum condenado, 48 Como em h\u00e1bito, envolto, arde<br \/>\ne padece\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSou, te ouvindo\u201d \u2014 tornei \u2014 \u201ccertificado Do<br \/>\nque era, h\u00e1 pouco, em mim simples suspeita.<\/p>\n<p>51 Pretendia inquirir, maravilhado, Que significa o fogo, que endireita A<br \/>\nn\u00f3s, e se partindo, iguala a pira, 54 Para imigos irm\u00e3os outrora<br \/>\nfeita\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEst\u00e3o l\u00e1 dentro dessa flama dira Di\u00f4medes<br \/>\ne Ulisses: em castigo 57 S\u00f3cios s\u00e3o, como outrora h\u00e3o<br \/>\nsido em ira.<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 dentro geme o p\u00e9rfido inimigo, Inventor do cavalo,<br \/>\nque foi porta, 60 Por onde a Roma veio o in\u00edcio antigo;<\/p>\n<p>\u201cChora-se a fraude, que Deidamia morta, Ainda exprobra a Aquiles, ressentida;<br \/>\n63 Pelo Pal\u00e1dio a pena se suporta\u201d. \u201cSe \u00e0 labareda,<br \/>\n\u00f3 Mestre, \u00e9 permitida A fala\u201d \u2014 eu disse \u2014<br \/>\n\u201cte suplico e rogo 66 Com inst\u00e2ncia, mil vezes repetida, \u201cAguardar<br \/>\nme concedas esse fogo, Que, bipartido para n\u00f3s caminha. 69 V\u00eas<br \/>\nmeu anelo: ah! d\u00e1-lhe o desafogo!\u201d \u201cMerece toda a complac\u00eancia<br \/>\nminha Teu rogo: eu de bom grado o atendo e aceito. 72 Mas cala-te; que h\u00e1s<br \/>\nde ser contente asinha. \u201cFalar me deixa; sei qual teu conceito, Talvez<br \/>\nque desses Gregos na alma esquiva 75 Produza o teu dizer ingrato efeito\u201d.<br \/>\nProp\u00ednqua estando a n\u00f3s a flama viva, E, asado ao Mestre, parecendo<br \/>\no ensejo, 78 Nesta linguagem disse persuasiva: \u201c\u00d3 v\u00f3s,<br \/>\nque nesse fogo eu juntos vejo, Se por servi\u00e7os meus, quando vivia,<br \/>\n81 Revelei de aprazer-vos o desejo, \u201cNos sonoros versos que escrevia,<\/p>\n<p>Detende-vos: ben\u00e9volo um nos diga 84 Onde viu fenecer o extremo dia\u201d.<br \/>\nA parte superior da flama antiga A tremular come\u00e7a murmurando, 87 Como<br \/>\na que o vento lhe assoprando instiga. E a um lado e a outro o cimo meneando,<br \/>\nComo se l\u00edngua fora, que falasse, 90 Estas vozes profere, e diz-nos:<br \/>\n\u201cQuando \u201cDe Circe a encantos me esquivei fugace, Em que um ano<br \/>\npassei junto a Gaeta, 93 Antes que assim En\u00e9ias a chamasse, \u201cA<br \/>\nsaudade do filho, a mui dileta Velhice de meu pai, de alta consorte 96 Santo<br \/>\namor, em que ardia sempre inquieta, \u201cN\u00e3o dominaram esse anelo<br \/>\nforte Que me impulsava a ser do mundo esperto, 99 Das manhas das na\u00e7\u00f5es,<br \/>\nda humana sorte. \u201cLancei-me \u00e0s vagas do alto mar aberto; Sobre<br \/>\num s\u00f3 lenho me seguiu companha 102 De poucos, mas de afouto peito e<br \/>\ncerto. \u201cAs ondas perlustrando, hei visto a Espanha, Marrocos, logo a<br \/>\n\u00ednsula dos Sardos 105 E as outras que o cer\u00faleo pego banha.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 da velhice nos sentidos tardos, Alfim chegamos ao famoso<br \/>\nestreito, 108 Onde Alcides aos nautas p\u00f4s resguardos, \u201cQue devem<br \/>\nrespeitar por seu proveito. Deixei Septa, que jaz ao esquerdo lado, 111 E<br \/>\nSevilha, que ao lado est\u00e1 direito. \u201cPerigos mil vencendo e avesso<br \/>\nfado\u201d Lhes disse \u2014 \u201cirm\u00e3os, chegastes ao Ponente!<br \/>\n114 Da exist\u00eancia este resto, j\u00e1 minguado, \u201cRaz\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o seja, que vos tolha a mente De al\u00e9m do sol, tentar nobre<br \/>\naventura, 117 E o mundo ver, que jaz \u00f3rf\u00e3o de gente. \u201cDa<br \/>\nvossa ra\u00e7a refleti na altura! Viver quais brutos veda-o vossa origem!<br \/>\n120 De gl\u00f3ria vos impele ambi\u00e7\u00e3o pura! \u201cCom tanto<br \/>\nesfor\u00e7o os \u00e2nimos se erigem, Falar me ouvindo assim, que ir por<br \/>\ndiante 123 De entusiasmo s\u00f4fregos, exigem. \u201cJ\u00e1, com popa<br \/>\nao Nascente flamejante, Asas os remos s\u00e3o na empresa ousada, 126 E<br \/>\no lenho sempre \u00e0 esquerda voga avante. \u201cJ\u00e1 do outro polo<br \/>\na noite levantada,<\/p>\n<p>Via os astros brilhar: o nosso, entanto, 129 Na plan\u00edcie imergia-se<br \/>\nsalgada: \u201cCinco vezes a luz do et\u00e9reo manto A lua difundira e<br \/>\nap\u00f3s minguara, 132 Depois que arrosto do oceano o espanto, \u201cQuando<br \/>\nimensa montanha se depara: Envolta em cerra\u00e7\u00e3o, longe aparece;<br \/>\n135 Na altiveza outra igual nunca avistara. \u201cO prazer nosso em pranto<br \/>\nse esvaece: Da nova terra eis s\u00fabito irrompendo 138 Contra o lenho<br \/>\num tuf\u00e3o medonho cresce. \u201cVezes tr\u00eas em voragens o torcendo,<br \/>\nA quarta a popa levantou-lhe ao alto, E a proa, ao querer de outrem, foi descendo\u201d.<br \/>\n142 Cerrou-se o pego sobre n\u00f3s de salto.<\/p>\n<p>8. Prato, pequena cidade perto de Floren\u00e7a. \u2014 56. Di\u00f4medes<br \/>\ne Ulisses, her\u00f3is gregos que combateram juntos no ass\u00e9dio de<br \/>\nTr\u00f3ia. \u2014 58-63. O Poeta lembra tr\u00eas fa\u00e7anhas astuciosas<br \/>\nde Ulisses: o cavalo de madeira para enganar os troianos; a descoberta de<br \/>\nAquiles disfar\u00e7ado em mulher entre os companheiros de Deid\u00e2mia;<br \/>\ne o roubo de uma est\u00e1tua de Palas que tornava Tr\u00f3ia inexpugn\u00e1vel.<br \/>\n\u2014 92. Gaeta, En\u00e9ias ao fundar a cidade de Gaeta deu-lhe o nome<br \/>\nde sua nutriz. \u2014 107. Famoso estreito, Gibraltar, cujos montes (as colunas<br \/>\nde<\/p>\n<p>H\u00e9rcules) eram considerados como aviso para que n\u00e3o se passasse<br \/>\nal\u00e9m.<br \/>\nCANTO XXVII<\/p>\n<p>Outro danado, entra a falar com Dante. \u00c9 Guido de Montefeltro, o qual<br \/>\npede not\u00edcias da Romanha sua terra natal. Conta, depois, que foi condenado<br \/>\npor causa de um mau conselho que, fiado na pr\u00e9via absolvi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndera ao papa Bonif\u00e1cio VIII. A FLAMA j\u00e1 se erguia e estava quieta,<br \/>\nN\u00e3o mais falando, e j\u00e1 se retirava 3 Com permiss\u00e3o do<br \/>\nmeu gentil Poeta, Quando outra, que de perto caminhava, Pelos confusos sons,<br \/>\nque desprendia, 6 Olhar nos fez seu cimo, que oscilava. Como o s\u00edculo<br \/>\ntouro, que mugia A vez primeira, o pranto ressoando 9 Do inventor, que seu<br \/>\npr\u00eamio recebia; Berrava pela voz do miserando, Na br\u00f4nzea forma,<br \/>\nem dor tanto pungente, 12 Que parecia vivo estar penando: Assim se convertia<br \/>\no som plangente De flama no rumor, lhe falecendo 15 Caminho, em que irrompesse<br \/>\nprontamente.<\/p>\n<p>Mais se exalar pelo \u00e1pice em podendo Dar-lhe impulso por ter j\u00e1<br \/>\nconseguido 18 Desse mesquinho a l\u00edngua, se movendo, \u201cTu, a quem<br \/>\nme dirijo\u201d \u2014 hemos ouvido \u2014 \u201cQue, inda h\u00e1 pouco,<br \/>\ndizias em lombardo: 21 Podes ir, tens assaz j\u00e1 respondido. \u201cPosto<br \/>\nem chegar um tanto eu fosse tardo, De ouvir-me n\u00e3o despraza-te a demora;<br \/>\n24 Bem v\u00eas, me n\u00e3o despraz: entanto eu ardo. \u201cSe a este<br \/>\nabismo tenebroso agora Tombas saudoso dessa doce terra 27 Latina, onde hei<br \/>\npecado tanto outrora, \u201cSe os Romanh\u00f3is t\u00eam paz, dize-me,<br \/>\nse guerra, Pois eu fui l\u00e1 dos montes, entre Urbino 30 E essa, origem<br \/>\ndo Tibre, altiva serra\u201d. Para escutar atento a fronte inclino. Eis,<br \/>\ntocando-me a um lado, diz meu Guia: 33 \u201cPodes ora falar, que este \u00e9<br \/>\nLatino\u201d. Eu, que j\u00e1 prestes a resposta havia, Tornei ao pecador<br \/>\nincontinente: 36 \u201cAlma, que o fogo assim veste e crucia, \u201cTua<br \/>\nRomanha em guerra permanente Sempre \u00e9 no cora\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nseus tiranos.<\/p>\n<p>39 Por\u00e9m nenhuma agora tem patente. \u201cHoje \u00e9 Ravena o<br \/>\nque era, h\u00e1 longos anos, De Polenta a \u00e1guia forte ali se aninha;<br \/>\n42 Com largas asas cobre \u00e0 C\u00e9rvia os planos. \u201cA terra,<br \/>\nque no tardo ass\u00e9dio tinha Pelo sangue franc\u00eas sido inundada<br \/>\n45 Sob verde le\u00e3o, sofre mesquinha. \u201cDos Mastins de Verruchio<br \/>\na subjugada Gente os dentes cru\u00e9is inda sentia: 48 Morte a Montagna<br \/>\nderam desapiedada. \u201cEm Lamone, em Santerno inda regia Do alvo ninho<br \/>\no le\u00e3o, se convertendo 51 De um pra outro partido cada dia. \u201cA<br \/>\ncidade que o S\u00e1vio banha, sendo Entre o plaino e a montanha, em liberdade<br \/>\n54 Ou vive ou sob o jugo vai sofrendo. \u201cOra nos diz quem foste na verdade;<br \/>\nCondescendente s\u00ea, como hemos sido: 57 No mundo haja o teu nome longa<br \/>\nidade\u201d. O fogo rumoreja e comovido De um lado a outro a ponta aguda<br \/>\nagita; 60 Depois emite a voz neste sentido:<\/p>\n<p>\u201cSe esta resposta minha fosse dita A quem do mundo \u00e0 luz daqui<br \/>\nvoltasse, 63 Queda ficara a minha l\u00edngua aflita. \u201cMas como \u00e9<br \/>\ncerto que jamais tornasse Quem no inferno caiu, se n\u00e3o me engano, 66<br \/>\nDe falar n\u00e3o hei medo, que embarace, \u201cHomem de armas, depois<br \/>\nfui Franciscano, Crendo pelo cord\u00e3o ser emendado; 69 Por cr\u00ea-lo<br \/>\ncerto, me esquivara ao dano, \u201cSe o Papa (todo o mal seja-lhe dado!)<br \/>\nN\u00e3o me volvesse \u00e0 primitiva estrada. 72 Como e por que te fique<br \/>\ndeclarado. \u201cEnquanto a humana forma era habitada Por mim, n\u00e3o<br \/>\nprovei ser le\u00e3o por feitos, 75 Mas raposa, por ast\u00facia abalizada.<br \/>\n\u201cEstrat\u00e9gia sutil, ardis perfeitos Tantos soube, que os \u00e2mbitos<br \/>\nda terra 78 Eram \u00e0 fama de meu nome estreitos. \u201cDa exist\u00eancia<br \/>\nna quadra, em que muito erra Quem, de surgir no porto esperan\u00e7ado,<br \/>\n81 Nem colhe os cabos nem as velas ferra, \u201cOdiei quanto houvera mais<br \/>\namado E humilhei-me confesso e arrependido&#8230;<\/p>\n<p>84 E o perd\u00e3o, ai de mim! fora alcan\u00e7ado&#8230; \u201cDos novos<br \/>\nFariseus Pr\u00edncipe infido, Em Latr\u00e3o guerra crua declara: 87<br \/>\nN\u00e3o contra Mouro, nem Judeu descrido, \u201cContra crist\u00e3os<br \/>\nas iras ateara; Nenhum traidor contra Acre combatera 90 Ou do Sold\u00e3o<br \/>\nna terra traficara. \u201cSacras ordens em si n\u00e3o considera, Nem cargo<br \/>\nexcelso, em mim o da humildade 93 Cord\u00e3o, que os penitentes seus macera.<br \/>\n\u201cComo foi de Sirati \u00e0 soledade Constantino a Silvestre pedir<br \/>\ncura 96 Da lepra: assim tamb\u00e9m \u00e0 enfermidade \u201cDe seu febril<br \/>\norgulho este procura Rem\u00e9dio em meu conselho. Escrupuloso 99 Calei-me:<br \/>\nde \u00e9brio vi nele a loucura. \u201cFala \u2014 insistiu \u2014 n\u00e3o<br \/>\nsejas temeroso! Absolto \u00e9s desde j\u00e1, se Palestrino 102 A vencer<br \/>\nme ensinares ardiloso. \u201cEu abro e fecho o c\u00e9u: poder divino As<br \/>\nduas chaves t\u00eam, a que h\u00e1 negado 105 O meu antecessor pre\u00e7o<br \/>\ncondi\u2019no.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 destas raz\u00f5es graves abalado, Pior partido no sil\u00eancio<br \/>\nvendo, 108 Lhe tornei: \u2014 Padre Santo, se o pecado, \u201cEm que ora<br \/>\nvou cair, st\u00e1s-me absolvendo, Dar\u00e1s ao s\u00f3lio teu gl\u00f3ria<br \/>\ne conforto 111 Prometendo demais, pouco fazendo. \u201cFrancisco me acudiu,<br \/>\nquando fui morto; Mas clamou anjo negro apressurado: 114 \u2014 N\u00e3o<br \/>\nmo tomes; assim me causas torto! \u201cLugar foi-lhe entre os meus assinalado:<br \/>\nD\u00eas que h\u00e1 dado o conselho fementido, 117 Ficou pelos cabelos<br \/>\nagarrado. \u201cPerd\u00e3o s\u00f3 tem quem geme arrependido; Pecado<br \/>\n\u00e0 penit\u00eancia n\u00e3o se amanha, 120 N\u00e3o pode aquele<br \/>\nandar a esta unido. \u201cAi! qual foi meu pavor, quando, com sanha Empolgando-me,<br \/>\ndisse: \u2014 Creste acaso 123 Que me falta de l\u00f3gico arte e manha?<br \/>\n\u201cA Minos me arrastou, que sem mais prazo, Da cauda em voltas oito o<br \/>\ndorso enreda, 126 Raivoso morde-a e diz: \u2014 \u00c9 neste caso \u201cQue<br \/>\naos maus pris\u00e3o se d\u00e1 na labareda. Assim onde me v\u00eas,<br \/>\nfiquei perdido,<\/p>\n<p>129 Vou chorando, em tais vestes, minha queda\u201d. Tendo, pois, desta<br \/>\nsorte conclu\u00eddo, Aquela flama se partiu gemendo 132 E agitando o seu<br \/>\nv\u00f3rtice estorcido. Eu e Virg\u00edlio, ent\u00e3o, seguido havendo<br \/>\nPelo rochedo, ao arco n\u00f3s subimos, Que o nono fosso cobre, onde sofrendo<br \/>\n136 Os que ciz\u00e2nia semearam vimos.<\/p>\n<p>7. S\u00edculo touro, o touro de bronze de que Falarides, tirano de Agrigento,<br \/>\nse servia para queimar os seus inimigos. \u2014 29. Fui l\u00e1 dos montes<br \/>\netc., Guido de Montefeltro, que, depois de valoroso guerreiro, fez-se franciscano.<br \/>\n\u2014 41. De Polenta a \u00e1guia forte etc., a fam\u00edlia de Polenta,<br \/>\nque tinha uma \u00e1guia por emblema, dominou Ravena e C\u00e9rvia. \u2014<br \/>\n46. Mastinos de Verruchio, Malatesta e Malatestino de Verruchio, senhores<br \/>\nde R\u00edmini. \u2014 48. Montagna, prisioneiro guelfo que Malatestino<br \/>\nmandou matar. \u2014 49 Lamone e Santerno, as cidades de Faenza e Imola.<br \/>\n\u2014 52. A cidade etc. Cesena. \u2014 70. O papa, Bonif\u00e1cio VIII.<br \/>\n\u2014 86. Em Latr\u00e3o etc., os Colonenses moravam perto da igreja de<br \/>\nS. Jo\u00e3o em Latr\u00e3o. \u2014 89. Contra Acre, que os Sarracenos<br \/>\ntomaram aos crist\u00e3os em 1291. \u2014 94. Como foi de Sirati etc.,<br \/>\nconforme uma lenda Constantino foi curado da lepra por S\u00e3o Silvestre,<br \/>\nque morava numa gruta do monte Sirati. \u2014 102. Palestrina, onde os Colonenses<br \/>\nse tinham retirado. \u2014 105. O meu antecessor, Celestino V.<br \/>\nCANTO XXVIII<\/p>\n<p>No nono compartimento os Poetas encontram os semeadores de cismas e esc\u00e2ndalos<br \/>\ncivis e religiosos. Dante v\u00ea Maom\u00e9, que o encarrega de uma embaixada<br \/>\npara o herege rei Dolcino; fala tamb\u00e9m com outros danados. DIZER o<br \/>\nsangue e as chagas espantosas, Que eu vi neste lugar, quem poderia, 3 Em livre<br \/>\nprosa e em vezes numerosas? Nenhuma l\u00edngua, certo, bastaria; Fraca<br \/>\na palavra, in\u00e1bil nossa mente 6 Para horror tanto compreender seria.<br \/>\nQuando junta estivesse toda gente, Que l\u00e1 da Ap\u00falia na infelice<br \/>\nterra, 9 Perdera o sangue seu na luta ingente Dos romanos por m\u00e3os;<br \/>\ne em crua guerra A que tantos de an\u00e9is deixou vencida, 12 Como refere<br \/>\nL\u00edvio, que n\u00e3o erra; E a que fora por golpes abatida, Quando<br \/>\na Roberto Guiscardo resistia; 15 E a que tem sua ossada inda espargida<\/p>\n<p>De Ceperan no campo, onde tra\u00eda Cada Apulh\u00eas; e que no Tagliacozzo<br \/>\n18 O Velho Alard sem combater vencia: Das feridas o aspecto lastimoso N\u00e3o<br \/>\nfora, qual no fosso nono imundo 21 Apresentava o bando criminoso. Qual tonel,<br \/>\nque aduelas perde ao fundo, Estava um pecador, que roto eu via 24 Das fauces<br \/>\nao lugar que \u00e9 menos mundo. As entranhas pendiam-lhe; trazia Patentes<br \/>\nos pulm\u00f5es e o saco feio, 27 Onde o alimento de fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nvaria. A contempl\u00e1-lo estava de horror cheio, Eis me encara e me diz,<br \/>\nabrindo o peito: 30 \u201cV\u00ea como eu tenho lacerado o seio! \u201cMafoma<br \/>\nsou, quase peda\u00e7os feito; Antecede-me Ali, que se lamenta: 33 Do mento<br \/>\n\u00e0 testa o rosto lhe \u00e9 desfeito. \u201cTodos, que a dor aqui<br \/>\ntanto atormenta, De esc\u00e2ndalos, de cismas inventores, 36 Pendidos t\u00eam,<br \/>\nqual v\u00eas, pena cruenta. \u201cDem\u00f4nio deixo atr\u00e1s que<br \/>\nos pecadores Aos fios passa de cruel espada.<\/p>\n<p>39 Da multid\u00e3o nenhum aos seus furores \u201cNo giro escapa da afrontosa<br \/>\nestrada. Cerrar-se em todo cada golpe horrendo 42 Antes que torne a olhar-lhe<br \/>\na face irada. \u201cMas quem \u00e9s, que, na rocha te detendo, Est\u00e1s<br \/>\ndessa arte a dilatar a pena, 45 Que Minos te aplicou, teus crimes vendo?\u201d<br \/>\n\u2014 \u201cN\u00e3o \u00e9 morto; senten\u00e7a o n\u00e3o condena\u201d<br \/>\n\u2014 Torna o Mestre \u2014 \u201cn\u00e3o vem por seu castigo, 48 Mas,<br \/>\npara ter experi\u00eancia plena. \u201cDescendo ao mais profundo vai comigo,<br \/>\nQue morto sou, dos c\u00edrculos temidos: 51 T\u00e3o certo \u00e9 como<br \/>\nfalo ora contigo\u201d. Ouvindo mais de cento dos punidos, De espanto a me<br \/>\nencarar se demoraram, 54 Dos seus pr\u00f3prios tormentos esquecidos. \u2014<br \/>\n\u201cA Frei Dolcino diz, pois n\u00e3o findaram Teus dias e h\u00e1s<br \/>\nde ao sol tornar em breve, 57 Se desejos de ver-me o n\u00e3o tomaram, \u201cQue<br \/>\nse aperceba; pois, cercando-o, a neve Dar\u00e1 triunfo \u00e0 gente de<br \/>\nNovara, 60 A quem venc\u00ea-lo assim h\u00e1 de ser leve\u201d.<\/p>\n<p>Para partir um p\u00e9 Mafoma al\u00e7ara Ao tempo, em que palavras tais<br \/>\ndizia: 63 Baixou-o e foi-se, apenas rematara. De guela golpeada outro acorria;<br \/>\nT\u00e9 as celhas nariz tendo truncado, 66 Uma orelha somente possu\u00eda.<br \/>\nComo os mais, contemplando-me pasmado, Aos mais se antecipou e, escancarando<br \/>\n69 O canal, que de sangue era inundado, \u201c\u00d3 tu\u201d \u2014<br \/>\nfalou-me \u2014 \u201cque n\u00e3o st\u00e1s penando, Que outrora hei<br \/>\nvisto em regi\u00e3o latina, 72 Se eu n\u00e3o erro, apar\u00eancias<br \/>\naceitando, \u201cRecorda-te de Pier de Medicina Se tornar-te for dado ao<br \/>\nbelo plano, 75 Que de Vercello a Marcab\u00f3 se inclina. \u201cE aos dois<br \/>\nnobres var\u00f5es dize de Fano, Misser Angiolello e Misser Guido, 78 Se<br \/>\no futuro antevendo, eu n\u00e3o me engano, \u201cQue do baixel, que os<br \/>\nhaja conduzido, De Cat\u00f3lica ao p\u00e9, ao mar lan\u00e7ados 81<br \/>\nSer\u00e3o por ordem de um tirano infido. \u201cPor Gregos, por piratas<br \/>\nperpetrados, Entre Chipre e Maiorca ao infame feito<\/p>\n<p>84 N\u00e3o viu Netuno crimes igualados. \u201cO traidor, que de um olho<br \/>\ntem defeito, Dessa terra opressor, que um companheiro 87 Meu tivera em n\u00e3o<br \/>\nv\u00ea-la mor proveito, \u201cIr\u00e3o a seu convite prazenteiro Para<br \/>\nacordo; mas votos de Foscara 90 N\u00e3o far\u00e1 por temer vento ponteiro\u201d.<br \/>\n\u201cRevela-me\u201d tornei-lhe \u2014 \u201ce me declara, Desse favor,<br \/>\nque deprecaste, em troca, 93 Quem de ver essa terra se pesara\u201d. As m\u00e3os<br \/>\nde um pecador al\u00e7ando \u00e0 boca, Escancarou-a e disse-me gritando:<br \/>\n96 \u2014 \u201c\u00c9 este; a voz, por\u00e9m, se lhe sufoca. \u201cExulado,<br \/>\nele foi quem, dissipando Hesita\u00e7\u00f5es de C\u00e9sar, lhe afirmava<br \/>\n99 Que a ocasi\u00e3o perdia demorando\u201d. Oh! qu\u00e3o p\u00e1vido<br \/>\nC\u00fario se mostrava, Tendo cortada a l\u00edngua na garganta, 102 Que<br \/>\noutrora tanta aud\u00e1cia aconselhava! Dos decepados bra\u00e7os alevanta<br \/>\nOutro os cotos ao ar caliginoso: 105 Banha-lhe o sangue a face, que me espanta.<\/p>\n<p>Gritou: \u2014 \u201cMemora Mosca desditoso! Fui quem disse: \u2014 O<br \/>\nseu fim tem cousa feita! 108 Fatal dito, \u00e0 Toscana, ai! bem danoso!\u201d<br \/>\n\u201cE \u00e0 tua ra\u00e7a, que \u00e0 morte foi sujeita!\u201d<br \/>\nAtalhei. Sobre a dor, dor se acendendo 111 Em desesp\u2019ran\u00e7a se<br \/>\npartiu desfeita. Aquela multid\u00e3o stava atendendo, Cousa assombrosa<br \/>\neis vejo, que inda hesito 114 Em narrar, provas outras eu n\u00e3o tendo.<br \/>\nDa consci\u00eancia j\u00e1 me alenta o grito, S\u00f3cia fiel, que o<br \/>\nhomem torna forte, 117 Sob o arn\u00eas da verdade, sempre invicto. Eu via,<br \/>\ne cuido ver na mesma sorte Apropinquar-se um corpo sem cabe\u00e7a, 120<br \/>\nPor entre os outros da infeliz coorte, Caminha, al\u00e7ando-a pela coma<br \/>\nespessa, Da m\u00e3o pendente a modo de lanterna: 123 Gemendo, os olhos<br \/>\nseus nos endere\u00e7a. Servia ele a si pr\u00f3prio de luzerna, Eram<br \/>\nduas em um, era um em duas: 126 Como ser pode, sabe o que governa. Chegado<br \/>\nao p\u00e9 da ponte, das m\u00e3os suas Um ao alto a cabe\u00e7a levantava<\/p>\n<p>129 Para lhe ouvirmos as palavras cruas. \u201cV\u00ea meu duro castigo!\u201d<br \/>\n\u2014 assim falava \u2014 \u201cTu, que os mortos visitas, sendo em vida:<br \/>\n132 Outro j\u00e1 viste igual ao que me agrava? \u201cEu sou \u2014 faz<br \/>\nminha hist\u00f3ria conhecida, Voltando \u00e0 luz \u2014 Bertran de<br \/>\nBorn, que h\u00e1 dado 135 Ao jovem Rei consulta, em mal tecida. \u201cPai<br \/>\ne filho inimigos hei tornado: As iras de Absal\u00e3o mais n\u00e3o movera.<br \/>\n138 Contra Davi Aquitofel malvado. \u201cLa\u00e7os tais como eu, p\u00e9rfido,<br \/>\nrompera, Meu c\u00e9rebro assim levo desunido Desse princ\u00edpio, que<br \/>\nno corpo impera: 142 Por lei sou, pois, de tali\u00e3o punido\u201d.<\/p>\n<p>14. Roberto Guiscardo, combatendo contra os Sarracenos, conquistou o reino<br \/>\nde N\u00e1poles. \u2014 15. De Ceperan, onde Manfredo foi derrotado por<br \/>\nCarlos d\u2019Anjou. \u2014 17. Tagliacozzo, onde morreu Corradino. \u2014<br \/>\n31. Mafoma, Maom\u00e9, fundador do Islamismo. \u2014 32. Ali, parente<br \/>\nde Maom\u00e9. \u2014 55. Frei Dulcino, cism\u00e1tico, pertencente \u00e0<br \/>\nseita dos Irm\u00e3os Apost\u00f3licos. \u2014 73. Pier de Medicina,<br \/>\npor dinheiro fomentou a disc\u00f3rdia entre os senhores da Romanha. \u2014<br \/>\n76-90. E aos dois etc., Pier de Medicina prediz a morte violenta de Messer<br \/>\nGuido del Cassero e de Messer Angiolello de Carignano. \u2014 106. Mosca<br \/>\ndei Lamberti, induziu \u00e0 matan\u00e7a de Buondelmonte dei Buondelmonti,<br \/>\ndando inicio \u00e0 luta em Floren\u00e7a entre guelfos e gibelinos. \u2014<br \/>\n134.<\/p>\n<p>Bertran de Born, poeta e guerreiro franc\u00eas, infiltrou a disc\u00f3rdia<br \/>\nentre o rei Henrique II da Inglaterra e seu filho. \u2014 137-38. As iras<br \/>\nde Absal\u00e3o, Arquitofel induziu Absal\u00e3o a rebelar-se contra o<br \/>\nseu pai, o rei Davi.<br \/>\nCANTO XXIX<\/p>\n<p>Chegando ao d\u00e9cimo compartimento, os Poetas ouvem os lamenta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos fals\u00e1rios, que a\u00ed s\u00e3o punidos com \u00falceras<br \/>\nf\u00e9tidas e enfermidades nauseantes. Em primeiro lugar est\u00e3o os<br \/>\nalquimistas, entre os quais Griffolino e Capocchio. MEUS olhos tanto inebriado<br \/>\nhaviam A turba enorme e o seu cruel tormento, 3 Que al\u00edvio em pranto<br \/>\nprocurar queriam. \u201cPor que assim\u201d \u2014 diz Virg\u00edlio<br \/>\n\u2014 \u201cest\u00e1s atento? Por que a vista dos tristes mutilados<br \/>\n6 Prende-te ainda o duro sofrimento? \u201cTal n\u00e3o fizeste em antros<br \/>\nj\u00e1 passados. Est\u00e3o, se os resenhar \u00e9 ten\u00e7\u00e3o<br \/>\ntua, 9 Por milhas vinte e duas derramados. \u201cJ\u00e1 sob os nossos<br \/>\np\u00e9s evolve a lua; \u00c9-nos escasso o tempo concedido: 12 O que<br \/>\nainda h\u00e1s de ver deten\u00e7a exclua\u201d. \u201cTalvez se houveras\u201d<br \/>\n\u2014 torno \u2014 \u201cconseguido Ver o motivo, por que eu tanto olhava,<br \/>\n15 Mais demora tivesses permitido\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 se partia; e eu logo caminhava, Enquanto assim falava-lhe em resposta,<br \/>\n18 Acrescentando: \u201cL\u00e1, naquela cava, \u201cOnde a vista cuidosa<br \/>\nestava posta, Da stirpe minha um sp\u00edrito carpia 21 Por culpa, a que<br \/>\nmor pena est\u00e1 disposta\u201d. \u201cN\u00e3o te confranjas mais\u201d<br \/>\n\u2014 responde o Guia \u2014 \u201cNos males, que padece, cogitando. 24<br \/>\nDe a\u00ed cuida; estar nesse antro merecia. \u201cAo p\u00e9 da ponte<br \/>\no vi, que, te indicando, O dedo al\u00e7ava em cominante gesto: 27 Geri<br \/>\ndel Bello estavam-no chamando. \u201cEras absorto no semblante mesto Daquele<br \/>\nque senhor foi de Altaforte: 30 Quando atentaste, se ausentara presto\u201d.<br \/>\n\u201c\u00d3 Mestre\u201d \u2014 eu disse \u2014 \u201ca violenta morte<br \/>\nQue ainda n\u00e3o punia justa vingan\u00e7a 33 De quem naquela afronta<br \/>\nera consorte, \u201cDeu causa a usar, ao ver-me, essa esquivan\u00e7a Talvez<br \/>\ne ao seu sil\u00eancio: assim pensando 36 Maior piedade do seu mal me alcan\u00e7a\u201d.<br \/>\nAo rochedo chegamos praticando, Donde outro vai divisa-se: o seu fundo<\/p>\n<p>39 Todo se vira, a luz n\u00e3o lhe faltando. Subidos do final claustro<br \/>\nprofundo De Malebolge \u00e0 ponte, onde os conversos 42 J\u00e1 distinguia<br \/>\ndo recinto imundo. Lamentos e ais feriram-me diversos; De m\u00e1gua tanta<br \/>\no peito assetearam, 45 Que os ouvidos tapei aos sons adversos. T\u00e3o<br \/>\npenetrante dor denunciaram, Como se da Marena e da Sardenha 48 Enfermos no<br \/>\nver\u00e3o se incorporaram. De outros \u00e0 turba, que rem\u00e9dio<br \/>\nvenha Nos hospitais buscar de Valdichiana. 51 Odor surdia, igual ao que j\u00e1<br \/>\ntenha Corrupto corpo, e se gangrena o dana. Baixando \u00e0 sestra at\u00e9<br \/>\na riva extrema 54 Mais claramente da caverna insana Ent\u00e3o vimos o fundo,<br \/>\nonde a Suprema Infal\u00edvel Justi\u00e7a, a ra\u00e7a \u00edmpia<br \/>\n57 Dos fals\u00e1rios em pena infinda prema. \u201cDe Egina quando o povo<br \/>\nadoecia, E o ar maligno aos animais a morte 60 Trazendo, os pr\u00f3prios<br \/>\nvermes extinguia,<\/p>\n<p>Deserta sendo a terra de tal sorte Que \u00e0s formigas (poetas o afirmavam)<br \/>\n63 Deveu a antiga gente o alento forte: Cenas tais mais tristeza n\u00e3o<br \/>\ncausavam Do que almas ver, que essa pris\u00e3o sombria 66 Em rumas v\u00e1rias<br \/>\nl\u00e2nguidas juncavam. Qual sobre a espalda de outro se estendia, Qual<br \/>\nsobre o ventre seu, qual se arrastando 69 Na dolorosa estrada se estorcia.<br \/>\nSilentes, passo a passo caminhando, Vemos, ouvimos m\u00edseros prostrados,<br \/>\n72 Em v\u00e3o para se erguerem se esfor\u00e7ando. Sentados dois, um<br \/>\nno outro recostados, Quais torteiras que juntas se aquecessem, 75 Vi do alto<br \/>\naos p\u00e9s de p\u00fastulas manchados Os criados, que os amos seus apressem,<br \/>\nOu que estejam velando de mau grado 78 Almofa\u00e7a n\u00e3o vi que assim<br \/>\nmovessem, Como cada um se agita acelerado, Com implac\u00e1veis unhas se<br \/>\nmordendo, 81 De raivoso prurido atormentado. Iam da pele as crostas abatendo,<br \/>\nComo a faca do sargo arranca a escama<\/p>\n<p>84 Ou de peixe, na casca mais horrendo. \u201c\u00d3 tu\u201d contra<br \/>\num dos dois Virg\u00edlio exclama, Que os dedos teus convertes em tenazes<br \/>\n87 Por desmalhar do corpo a extrema trama, \u201cDiz-me se entre estas almas<br \/>\ncontumazes Existe algum Latino; eternamente 90 Sejam-te as unhas de servir<br \/>\ncapazes!\u201d \u201cLatinos somos\u201d \u2014 torna diligente Um dos<br \/>\ndois padecentes lacrimoso, 93 \u201cMas tu quem \u00e9s? Em declarar consente\u201d.<br \/>\n\u2014 \u201cEu sou que\u201d \u2014 diz Virg\u00edlio ao desditoso<br \/>\n\u201cDe c\u00edrc\u2019lo em c\u00edrc\u2019lo este homem vivo guia<br \/>\n96 Por lhe mostrar o abismo pavoroso\u201d. J\u00e1 cessa o m\u00fatuo<br \/>\narrimo, que os unia: A mim volveu-se cada qual tremendo; 99 Turba imitou-os,<br \/>\nque em redor ouvia. Acercou-se-me o Guia assim dizendo: \u201cQuanto quiseres<br \/>\ntu agora dize\u201d. 102 Eu logo comecei lhe obedecendo: \u201cNunca a mem\u00f3ria<br \/>\nvossa finalize! Na primeira mans\u00e3o da humana ra\u00e7a! 105 Mas por<br \/>\ns\u00f3is numerosos se abalize!<\/p>\n<p>\u201cQuem sois? E donde? De o dizer a gra\u00e7a Fazei: a vossa pena,<br \/>\nimunda \u00e9 certo, 108 De responder-nos pejo vos n\u00e3o fa\u00e7a.<br \/>\n\u201cDe Arezzo fui\u201d disse um \u201cde Siena Alberto Morte me deu<br \/>\nnas chamas, truculento, 111 Por feito a que n\u00e3o fora o inferno aberto.<br \/>\n\u201cDissera, em gracejar s\u00f3 pondo o intento. \u201cAl\u00e7ar-me<br \/>\naos ares posso velozmente\u201d. 114 Essa arte, por ter curto o entendimento,<br \/>\n\u201cHouve ele de saber desejo ardente. Como o n\u00e3o fiz um D\u00e9dalo,<br \/>\n\u00e0 fogueira 117 Mandou-me quem seu pai foi certamente. \u201cMas das<br \/>\ncavas ca\u00ed na derradeira Por senten\u00e7a de Minos rigorosa: 120<br \/>\nFoi meu crime a alquimia trai\u00e7oeira\u201d. E ao Vate eu disse: \u201cNunca<br \/>\nt\u00e3o vaidosa Gente, p\u00f4de algu\u00e9m ver como a de Siena? 123<br \/>\nNem a de Fran\u00e7a h\u00e1 sido t\u00e3o sestrosa!\u201d O segundo<br \/>\nleproso ent\u00e3o me acena Dizendo: \u201cSalvo Stricca, homem poupado,<br \/>\n126 Que todo o excesso em desprender condena! \u201cSalvo Nicol\u00f3,<br \/>\naquele que inventado Do cravo tinha a rica especiaria,<\/p>\n<p>129 O seu uso deixando enraizado! \u201cSalvo Caccia de Ascian e a companhia,<br \/>\nCom quem vinhas e bosques esbanjava 132 E o Abbagliato as chan\u00e7as esgrimia!<br \/>\n\u201cPara que saibas quem desta arte agrava Contra os de Siena o teu severo<br \/>\nasserto, 135 No meu triste semblante os olhos crava. \u201cDe que ora v\u00eas<br \/>\nCapocchio j\u00e1 est\u00e1s certo, Que alquimista, os metais falsificara,<br \/>\nSabes como eu, se em recordar acerto, 139 Natura, h\u00e1bil bugio, arremedara\u201d.<\/p>\n<p>27. Geri del Bello, primo do pai de Dante, morto a trai\u00e7\u00e3o<br \/>\npor um da fam\u00edlia Sachetti. \u2014 58. Egina etc. Segundo Ov\u00eddio,<br \/>\nEgina, despovoada por pestil\u00eancia, foi repovoada pelas formigas que<br \/>\nse transformaram em homens. \u2014 109. De Arezzo etc., Griffolino de Arezzo,<br \/>\nalquimista, que foi mandado queimar por Alberto de Siena. \u2014 125-32.<br \/>\nSalvo etc., por ironia \u2014 Strica, Nicol\u00f3 Salimbene, Caccio de<br \/>\nAsciano e Bartolomeu dei Folcacchieri, alcunhado o Abbagliato foram todos<br \/>\nde Siena e conhecidos como dissipadores de dinheiro. \u2014 136. Capocchio<br \/>\nde Siena, alquimista que foi queimado vivo.<br \/>\nCANTO XXX<\/p>\n<p>No d\u00e9cimo compartimento s\u00e3o punidos outras esp\u00e9cies<br \/>\nde fals\u00e1rios. Os falsificadores de moedas, tornados hidr\u00f3picos,<br \/>\ns\u00e3o constantemente atormentados por furiosa sede; entre eles est\u00e1<br \/>\nmestre Ad\u00e3o de Brescia, o qual narra que, \u00e0 instiga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos condes Guidi, falsificou o florim de Floren\u00e7a. Os que falaram falsamente<br \/>\ns\u00e3o perseguidos por febre ardent\u00edssima. O canto termina com<br \/>\numa alterca\u00e7\u00e3o entre mestre Ad\u00e3o e o grego Sinon. Virg\u00edlio<br \/>\nrepreende Dante pois este p\u00e1ra, escutando as inj\u00farias que os<br \/>\ndois trocam entre si. QUANDO Juno, de Semele ciosa, Contra o sangue tebano<br \/>\nse inflamava, 3 Como o provou por vezes impiedosa, Tanta ins\u00e2nia Atamante<br \/>\nperturbava, Que a esposa ao ver, ao colo seu trazendo 6 Os filhos dois, que<br \/>\na ele encaminhava, Gritou: \u201cRedes tendamos! J\u00e1 stou vendo Leoa<br \/>\ne le\u00f5zinhos da embosacada!\u201d 9 Disse e, raivoso, os bra\u00e7os<br \/>\nestendendo De um, Learco, travava e de pancada Rodou-o e o percutiu em penedia.<br \/>\n12 Ao mar lan\u00e7ou-se a m\u00e3e com outro abra\u00e7ada<\/p>\n<p>Quando a fortuna a cinzas reduzia A pujan\u00e7a de Tr\u00f3ia, em tudo<br \/>\naltiva, 15 E com seu reino o morto rei jazia, H\u00e9cuba triste, m\u00edsera,<br \/>\ncativa, Depois de morta Polixena vira, 18 Do Polidoro seu em plaga esquiva,<br \/>\nS\u00fabito quando o corpo descobrira Uivou qual c\u00e3o, de ang\u00fastia<br \/>\npossu\u00edda. 21 Tanto a pungente dor nalma a ferira! Mas em Tebas ou Tr\u00f3ia<br \/>\ndestru\u00edda Homens ou feras nunca revelaram 24 Raiva, em tantos extremos<br \/>\ndesmedida, Como almas duas l\u00edvidas, que entraram Nuas correndo, os<br \/>\ndentes amostrando, 27 Quais cerdos, que \u00e0 pocilga se esquivaram. Uma<br \/>\nalcan\u00e7ou Capocchio e, lhe cravando No colo as presas, r\u00e1bida,<br \/>\narrastava 30 Sobre o ventre na rocha o miserando. Mas o de Arezzo, que tremendo<br \/>\nestava \u201c\u00c9 Gianni Schicchi\u201d \u2014 disse \u2014 esse raivoso:<br \/>\n33 De outros a pena o seu furor agrava!\u201d \u201cPossas livrar-te do<br \/>\noutro esp\u2019rito iroso!\u201d Falei \u2014 \u201cSe n\u00e3o te causa<br \/>\nassim fadiga,<\/p>\n<p>36 Diz quem seja, antes de ir-se o furioso\u201d. \u201cAquele \u00e9\u201d<br \/>\n\u2014 respondeu \u2014 \u201cuma alma antiga; \u00c9 Mirra infame, que<br \/>\npaix\u00e3o impia 39 Instigou ser do pai a sua amiga. \u201cPara o seu<br \/>\ncrime consumar fingia De outra pessoa as formas e o semblante. 42 Igual ardil<br \/>\nusara Schicchi um dia: \u201cPara em pr\u00eamio alcan\u00e7ar \u00e9gua<br \/>\nfarfante: Contrafez Buoso morto e ao testamento 45 Falso a norma legal deu,<br \/>\nque \u00e9 prestante\u201d. Aos dois raivosos estivera atento At\u00e9<br \/>\nque de ante os olhos se apartaram; 48 De outros volvi-me ao cru padecimento.<br \/>\nNum do ala\u00fade as formas se notaram Se as pernas lhe tivessem cerceado<br \/>\n51 Na parte, em que do tronco se separam. Da grave hidropisia molestado, Que<br \/>\ntanto o humor vicia e tanto ofende, 54 Que o rosto estreita e faz o ventre<br \/>\ninchado, A boca ter cerrada em v\u00e3o pretende, Qual h\u00e9tico de<br \/>\nsede ressequido. 57 A quem um l\u00e1bio se al\u00e7a e o outro pende.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 v\u00f3s, que ao negro abismo haveis descido (N\u00e3o<br \/>\nsei por que raz\u00e3o) de pena isentos, 60 Olhai\u201d \u2014 disse \u2014<br \/>\n\u201cprestando atento ouvido, \u201cDe mestre Adam mis\u00e9ria e sofrimentos<br \/>\nTive abastan\u00e7a; agora, ai! desejando 63 De \u00e1gua uma gota, passo<br \/>\nmil tormentos, \u201cDos ribeiros, que ao Arno, murmurando Do Casentino l\u00e1<br \/>\nna verde encosta 66 Se v\u00e3o, por moles \u00e1lveos inclinando, \u201cNa<br \/>\nmente a imagem sempre tenho posta. N\u00e3o em v\u00e3o: mais me seca<br \/>\ne me fustiga 69 Que o mal, de que esta face \u00e9 descomposta. \u201cQuer<br \/>\nJusti\u00e7a, que austera me castiga, Que o teatro, onde hei crimes cometido,<br \/>\n72 Mais me acendendo anelos, me persiga. \u201cL\u00e1 demora Romena, onde<br \/>\nhei fingido Em falso cunho a imagem do Batista; 75 Assim meu corpo o fogo<br \/>\nh\u00e1 consumido. \u201cSe a sombra achasse aqui, se aqui j\u00e1 exista,<br \/>\nDe Guido ou de Alexandre ou seu germano! 78 Fonte-Branda esquecera ante essa<br \/>\nvista. \u201cMas um j\u00e1 veio, se induzir-me a engano Os raivosos, que<br \/>\ngiram, n\u00e3o quiseram.<\/p>\n<p>81 Que importa? Para andar em v\u00e3o me afano. \u201cSe os meus p\u00e9s<br \/>\ntransportar-me inda puderam, De um sec\u2019lo ao cabo, espa\u00e7o de<br \/>\numa linha, 84 J\u00e1 postos a caminho se moveram, \u201cA fim de o ver<br \/>\nna multid\u00e3o mesquinha Do val, que milhas onze em torno amplia, 87 Com<br \/>\nlargura, que de uma se avizinha. \u201cStar lhes devo em t\u00e3o triste<br \/>\ncompanhia: Florins cunhei, aos tr\u00eas obedecendo, 90 Nos quais quilates<br \/>\ntr\u00eas de liga havia\u201d. \u201cQuem s\u00e3o\u201d \u2014 lhe<br \/>\ndisse \u2014 os dois que ora estou vendo? Quais no inverno m\u00e3os \u00famidas<br \/>\nfumegam, 93 \u00c0 destra tua pr\u00f3ximos jazendo\u201d. \u201cJ\u00e1<br \/>\nstavam quando vim: eles se entregam, D\u00eas que desci, a quieta\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompleta; 96 E creio, assim a eternidade empregam. \u201cUma acusou Jos\u00e9,<br \/>\nfals\u00e1ria abjeta, Outro \u00e9 Sinon, de Tr\u00f3ia o Grego tredo:<br \/>\n99 Lan\u00e7am por febre essa fuma\u00e7a infecta\u201d. Anojado um do<br \/>\npar, que estava quedo, Por ver em vozes tais afronta e ofensa, 102 \u00c0<br \/>\npan\u00e7a o punho lhe vibrou sem medo:<\/p>\n<p>Soou, qual de zabumba a pele tensa. O bra\u00e7o Mestre Adam lhe envia<br \/>\n\u00e0 face 105 E assim lhe d\u00e1 condi\u2019na recompensa. \u201cInda<br \/>\nque\u201d \u2014 disse \u2014 os membros meus enlace Mol\u00e9stia, que<br \/>\nme tolhe o movimento, 108 Presteza a destra tem, com que rechace\u201d. \u201cFoste\u201d<br \/>\n\u2014 o outro tornava \u2014 \u201cmais que lento Quando for\u00e7ado<br \/>\nao fogo caminhavas. 111 S\u00f3 presto eras no of\u00edcio fraudulento\u201d.<br \/>\n\u201c\u00c9 certo; mas verdade n\u00e3o falavas\u201d O hidr\u00f3pico<br \/>\ndiz \u2014 \u201cquando exigiram 114 Em Tr\u00f3ia essa verdade, que ocultavas\u201d.<br \/>\n\u201cSe os l\u00e1bios meus perj\u00fario proferiram, Tu falsaste moeda:<br \/>\neu fiz um crime, 117 Aos teus nunca em dem\u00f4nio iguais se viram\u201d.<br \/>\n\u201cDo cavalo a fa\u00e7anha inda te oprime\u201d \u2014 Responde o<br \/>\nque a barriga tinha inchada \u2014 120 Sobre o teu nome inf\u00e2mia o mundo<br \/>\nimprime\u201d. \u201cArda em sede tua l\u00edngua j\u00e1 gretada!\u201d<br \/>\nGrita o Grego \u2014 \u201cHajas de \u00e1gua saniosa 123 O ventre impando,<br \/>\na vista embara\u00e7ada!\u201d \u201cEscancaras a boca venenosa\u201d<\/p>\n<p>O moedeiro diz \u2014 \u201cpor mal somente; 126 Se sede eu tenho e a pan\u00e7a<br \/>\nvolumosa \u201cArdes tu e a cabe\u00e7a tens fervente. Por lamberes o espelho<br \/>\nde Narciso 129 A um aceno correras de repente\u201d. Atento estava aos dois<br \/>\nmais do preciso, Eis Virg\u00edlio me fala: \u2014 \u201cOh! toma tento!<br \/>\n132 Quase que eu contra ti me encolerizo!\u201d Iroso assim falar neste momento<br \/>\nO Mestre ouvindo, voltei-me corrido: 135 Ainda sinto rubor em pensamento.<br \/>\nComo quem sonha danos ter sofrido, Que em sonho espera que sonhando esteja<br \/>\n138 E anela que o que \u00e9 j\u00e1 n\u00e3o tenha sido, A mente, sem<br \/>\ndizer, falar deseja. Desculpas aspirando \u00e0 falta sua; 141 St\u00e1<br \/>\ndesculpada e cuida que o n\u00e3o seja. \u201cMenos rubor lavara a culpa<br \/>\ntua\u201d Disse o Mestre \u2014 \u201cse houvera mor graveza: 144 Fique-te<br \/>\na mente da tristeza nua. \u201cE quando queira o acaso que \u00e0 torpeza<br \/>\nDe iguais debates se ofere\u00e7a ensejo. De que eu steja ao teu lado faz<br \/>\ncerteza,<\/p>\n<p>148 Que \u00e9 ter querendo ouvi-los, vil desejo\u201d.<\/p>\n<p>1-2. Juno etc., por ci\u00fame de Semele, tebana, m\u00e3e de Baco, vingou-se<br \/>\nde toda a sua estirpe, tornando louco a Atamante, rei de Tebas, o qual matou<br \/>\num dos filhos, e no entanto a mulher com outro filho se lan\u00e7ou ao mar.<br \/>\n\u2014 16. H\u00e9cuba, vi\u00fava de Pr\u00edamo, ao ver mortos todos<br \/>\nos seus filhos, pela dor foi transformada em cadela. \u2014 32. Gianni Schicchi,<br \/>\nflorentino, de acordo com o filho do morto, fingiu-se de Buoso Donati moribundo,<br \/>\nditando o testamento. \u2014 38. Mirra, filha de Cinira, rei de Chipre, apaixonou-se<br \/>\npelo pai. \u2014 61. Adam, de Brescia, falsificador de moedas. \u2014 77.<br \/>\nGuido etc., dos condes Guidi, induziu mestre Adam a falsificar o dinheiro<br \/>\nde Floren\u00e7a. \u2014 97. Fals\u00e1ria abjecta etc., mulher de Putifar,<br \/>\nque acusou injustamente a Jos\u00e9. \u2014 98. Sinon de Tr\u00f3ia,<br \/>\nque com as suas mentiras induziu os troianos a introduzirem na cidade o cavalo<br \/>\nde madeira.<br \/>\nCANTO XXXI<\/p>\n<p>Dando as costas ao oitavo c\u00edrculo, caminham os Poetas para o centro,<br \/>\nonde se abre o po\u00e7o pelo qual se desce ao nono. Em torno do po\u00e7o<br \/>\nest\u00e3o os gigantes rebeldes, cujas figuras horrendas Dante descreve.<br \/>\nUm deles, Anteu, a pedido de Virg\u00edlio, toma nos bra\u00e7os os dois<br \/>\npoetas e suavemente os dep\u00f5e sobre a orla do \u00faltimo reduto internal.<br \/>\nA L\u00cdNGUA, que me havia vulnerado E a vergonha nas faces me acendera,<br \/>\n3 O b\u00e1lsamo aplicava ao mal causado: Assim de Aquiles e seu pai fizera,<br \/>\nDizem, outrora a lan\u00e7a portentosa: 6 Sarava o corpo, que cruel rompera.<br \/>\nDamos costas \u00e0 est\u00e2ncia desditosa, Sem proferir palavra atravessando<br \/>\n9 Sobre a borda, que em torno jaz fragosa. Noite n\u00e3o sendo e dia n\u00e3o<br \/>\nreinando, Pouco distante eu divisar podia, 12 Eis som de trompa escuto, retumbando<br \/>\nT\u00e3o alto, que o trov\u00e3o transcenderia, Donde irrompera contra<br \/>\na parte andava<\/p>\n<p>15 E s\u00f4frego a um s\u00f3 ponto olhos prendia. A de Orlando t\u00e3o<br \/>\nforte n\u00e3o soava Na derrota fatal, que a santa empresa 18 De Carlos<br \/>\nMagno o desbarato dava. J\u00e1 assim por diante: eis a grandeza De muitas<br \/>\ne altas torres me aparece. 21 \u201cQual \u00e9\u201d \u2014 digo \u2014<br \/>\n\u201cessa vasta fortaleza?\u201d \u201cPois de t\u00e3o longe e em trevas<br \/>\nte apetece Julgar\u201d \u2014 Virg\u00edlio diz \u2014 \u201cum erro<br \/>\nagora 24 Imaginando estejas acontece. \u201cVer\u00e1s ali chegado, sem<br \/>\ndemora, Quanto a dist\u00e2ncia a vista nos engana: 27 O passo acelerar conv\u00e9m<br \/>\npor ora\u201d. Da m\u00e3o travou-me e em voz suave e lhana O Mestre prosseguiu:<br \/>\n\u201cAntes que avante 30 Passes, dessa ilus\u00e3o te desengana. \u201cO<br \/>\nque torre imaginas \u00e9 gigante. Da cinta aos p\u00e9s imergem-se no<br \/>\npo\u00e7o, 33 E al\u00e7am bustos em torno ao espa\u00e7o hiante\u201d.<br \/>\nQuando o sol gasta o nevoeiro grosso, Pouco a pouco se mostra e \u00e9 discernido<br \/>\n36 Quanto oculta o vapor ao olhar nosso:<\/p>\n<p>Vendo assim por esse ar escurecido, Da borda mais e mais me apropinquando,<br \/>\n39 Fugia o erro, o horror tinha crescido. Como torres em roda se elevando,<br \/>\nMontereggion guarnecem de coroa: 42 Assim do po\u00e7o a margem circundando,<br \/>\nTorreiam com metade da pessoa Os horr\u00edveis gigantes, que amea\u00e7a<br \/>\n45 Do c\u00e9u ainda Jove, quando troa. Distingo a cara de um (e me transpassa<br \/>\nO medo), logo os bra\u00e7os, peitos e parte 48 Do ventre, que da borda<br \/>\na altura passa. Bem fez a natureza, quando essa arte De tais monstros criar<br \/>\nh\u00e1 descurado, 51 De iguais agentes desarmando Marte. Se ainda a selva<br \/>\ne mar t\u00eam povoado Do elefante e baleia, sutilmente 54 Quem pensa justa<br \/>\ne s\u00e1bia a tem julgado. Mal seria aos humanos permanente, Se perspicaz<br \/>\nengenho encaminhasse 57 Maligno instinto em robustez ingente. Larga e comprida,<br \/>\npareceu-me a face, Qual de S. Pedro, em Roma, a br\u00f4nzea pinha:<\/p>\n<p>60 A propor\u00e7\u00e3o nas outras partes d\u00e1-se. O corpo, que<br \/>\nda borda acima vinha, Tanto ao ar elevava a gr\u00e3 figura, 63 Que tr\u00eas<br \/>\nFris\u00f5es, por lhe atingir a linha Da cerviz, n\u00e3o fariam tanta<br \/>\naltura, Porquanto eu esmava em trinta grande palmos 66 Do colo ao pesco\u00e7o<br \/>\na v\u00e1lida estatura. Rafael mai am\u00e8cch zabi almos A pavorosa boca<br \/>\nassim bradava; 69 N\u00e3o podia entoar mais doces salmos. Disse-lhe o Mestre:<br \/>\n\u201c\u00d3 alma bruta e brava! Tange a trompa, se queres lenitivo 72<br \/>\n\u00c0 paix\u00e3o, que te acende ardente lava. \u201cA roda busca do<br \/>\npesco\u00e7o altivo O loro, a que se prende alma confusa! 75 V\u00ea que<br \/>\nte cruza o vasto peito esquivo\u201d. Depois a mim: \u201cDe quanto fez<br \/>\nse acusa, \u00c9 Nemrod; por tomar estulta empresa 78 O mundo uma linguagem<br \/>\ns\u00f3 n\u00e3o usa. \u201cDeix\u00eamo-lo: falar-lhe \u00e9 v\u00e3<br \/>\ndespesa. Como idioma de outros n\u00e3o compreende, 81 A quem o escuta o<br \/>\nseu move estranheza\u201d.<\/p>\n<p>Vamos ent\u00e3o caminho, que se estende \u00c0 sestra. Outro, de besta<br \/>\nquase a tiro, 84 Est\u00e1 mais fero, o ar mais alto fende. Que m\u00e3o<br \/>\ncativa o monstro, que admiro Dizer n\u00e3o sei: o seu direito bra\u00e7o<br \/>\n87 Ao dorso preso vi, e ao peito diro O outro, de grilh\u00e3o no estreito<br \/>\nla\u00e7o, Que com c\u00edrculos cinco lhe cercava 90 Do enorme corpo<br \/>\no descoberto espa\u00e7o. \u201cEsse r\u00e9probo\u201d \u2014 diz<br \/>\nVirg\u00edlio \u2014 \u201cousava Medir for\u00e7as com Jove soberano:<br \/>\n93 Eis o fruto do orgulho, que o danava! \u201cEra Efialto: executou seu<br \/>\nplano, Quando aos Deuses gigantes aterraram. 96 Jamais os bra\u00e7os mover<br \/>\npode o insano\u201d. \u201cOs meus olhos, \u00f3 Mestre, assaz folgaram,<br \/>\nDe Briar\u00e9u se vissem desmarcado 99 As formas\u201d vozes minhas lhe<br \/>\ntornaram. \u201cAnteu ver\u00e1s\u201d, \u2014 me diz \u2014 muito afamado:<br \/>\nSt\u00e1 solto, fala e nos demora perto, 102 H\u00e1 de ao fundo levar-nos<br \/>\nde bom grado. \u201cRemoto esse outro fica, e tem por certo Que em grilh\u00f5es<br \/>\ne estatura \u00e0quele iguala:<\/p>\n<p>105 Mais fero em vulto, em mal \u00e9 mais esperto\u201d. Jamais um terremoto<br \/>\na torre abala Em convuls\u00f5es t\u00e3o r\u00e1pido, t\u00e3o forte,<br \/>\n108 Como Efialto a mover-se. Eu j\u00e1 sem fala, Assombrado, cuidei ter<br \/>\nperto a morte; E de pavor sem d\u00favida expirara, 111 Se ele preso n\u00e3o<br \/>\nfosse, e de tal sorte. Presto ao lugar seguimos, onde p\u00e1ra Anteu: fora<br \/>\na cabe\u00e7a, em cinco bra\u00e7as 114 \u00c0 borda sobreleva, o que<br \/>\nsepara. \u201cTu, que no val feliz, aonde as gra\u00e7as E as palmas de<br \/>\nCipi\u00e3o colheu da gl\u00f3ria, 117 Quando An\u00edbal vexavam s\u00f3<br \/>\ndesgra\u00e7as, \u201cMil le\u00f5es apresaste por mem\u00f3ria; Que,<br \/>\naos irm\u00e3os se ajudaras na alta guerra, 120 Se cr\u00ea triunfo registrasse<br \/>\na hist\u00f3ria \u201cDos fortes filhos da fecunda Terra! Ao fundo transportar-nos<br \/>\ns\u00ea servido, 123 Onde ao Cocito o frio as \u00e1guas cerra: \u201cTe<br \/>\nhemos a Tifo e a T\u00edcio preferido. Dar pode este var\u00e3o o que<br \/>\nmais se ama: 126 Curvando-te compraz ao seu pedido.<\/p>\n<p>\u201cNo mundo pode restaurar-te a fama, Pois vive e ainda longa vida espera,<br \/>\n129 Salvo se a Gra\u00e7a antes do tempo o chama\u201d. Falara o Mestre.<br \/>\nAnteu n\u00e3o considera: Toma-o logo nas m\u00e3os, que lesto of\u2019rece<br \/>\n132 E a que sentira Alcide a for\u00e7a fera. Quando entre os dedos seus<br \/>\nVirg\u00edlio v\u00ea-se, Diz-me: \u201cFaze-te prestes, que eu te abrace!\u201d<br \/>\n13S Ao Mestre o meu querer pronto obedece. Quem Carisenda, em seu pendor olhasse,<br \/>\nCuidara, ao passar nuvem, que iminente 138 Ru\u00edna ao lado oposto amea\u00e7asse:<br \/>\nTal Anteu parecia de repente Do corpo ao menear; quando o inclinava, 141 Estrada<br \/>\neu preferia diferente. Mas de leve no fundo nos pousava, De Judas e de L\u00facifer<br \/>\nassento. A postura deixando, que o dobrava, 145 Qual mastro empertigou-se<br \/>\nnum momento.<\/p>\n<p>4-6. Assim etc., a lan\u00e7a de Peleu e do seu filho Aquiles curava as<br \/>\nferidas que produzia. \u2014 16-18. A de Orlando etc., a trompa de Orlando,<br \/>\nferido em Roncisvalle foi ouvida a oito milhas de dist\u00e2ncia por Carlos<br \/>\nMagno. \u2014 41. Montereggion, castelo do val<\/p>\n<p>d\u2019Elsa. \u2014 63. Pris\u00f5es, habitantes da Fr\u00edsia, de<br \/>\nelevada estatura. \u2014 67. Rafael, etc., palavras cujo significado \u00e9<br \/>\nignorado [NE: No original: \u00abRaph\u00e8l mai am\u00e8cche zabi almi\u201d].<br \/>\n\u2014 77. Nemrod, que edificou a torre de Babel, da qual adveio a confus\u00e3o<br \/>\ndas l\u00ednguas. \u2014 94. Efialto, um dos gigantes que moveram guerra<br \/>\naos deuses. \u2014 98. Briareu, gigante com cem m\u00e3os. \u2014 100.<br \/>\nAnteu, gigante que lutou com H\u00e9rcules. \u2014 124. Tifo e T\u00edcio,<br \/>\noutros gigantes. \u2014 136. Carisenda, torre pendente de Bolonha.<br \/>\nCANTO XXXII<\/p>\n<p>Os dois Poetas se encontram no c\u00edrculo, em cujo pavimento de dur\u00edssimo<br \/>\ngelo est\u00e3o presos os traidores. O c\u00edrculo \u00e9 dividido<br \/>\nem quatro partes; na Caina, de Caim, que matou o irm\u00e3o, est\u00e3o<br \/>\nos traidores do pr\u00f3prio sangue; na Antenora, de Antenor, troiano que<br \/>\najudou os Gregos a conquistar Tr\u00f3ia, os traidores da p\u00e1tria<br \/>\ne do pr\u00f3prio partido; na Ptolom\u00e9ia, de Ptolomeu, que traiu Pompeu,<br \/>\nos traidores dos amigos; na Judeca, de Judas, traidor de Jesus, os traidores<br \/>\ndos benfeitores e dos seus senhores. Dante fala com v\u00e1rios danados,<br \/>\nenquanto atravessam o gelo procedendo para o centro. SE usasse rimas \u00e1speras,<br \/>\nrouquenhas, Pr\u00f3prias do po\u00e7o l\u00f4brego e tristonho, 3 Que<br \/>\ndo inferno sust\u00e9m as outras penhas, Melhor id\u00e9ia do lugar medonho<br \/>\nDera; mas tal vantagem me falece. 6 O meu conceito, pois, t\u00edmido exponho.<br \/>\n\u00c9 \u00e1rdua empresa, em que o \u00e2nimo esmorece O centro descrever<br \/>\ndo mundo inteiro: 9 Para empenho infantil ser n\u00e3o parece. Das Musas<br \/>\nse ajudar poder fagueiro, Como a Anfi\u00e3o em Tebas o mostraram, 12 Fiel<br \/>\nserei dizendo e verdadeiro.<\/p>\n<p>\u00d3 malfadada turba, a quem tocaram Deste abismo os castigos, bruto<br \/>\ngado 15 Sendo, fados melhores te aguardaram. Descidos n\u00f3s ao po\u00e7o<br \/>\nnegregado Das plantas muito abaixo do gigante, 18 O alto muro mirava-lhe espantado,<br \/>\nQuando ouvi: \u201cTem cuidado, \u00f3 caminhante! N\u00e3o calques de<br \/>\nirm\u00e3os teus desventurados 21 As frontes\u201d. Eu, voltando-me, adiante<br \/>\nE sob os p\u00e9s, de um lago vi gelados Os planos tanto, que os dizer podia,<br \/>\n24 N\u00e3o de \u00e1gua, de cristal, por\u00e9m, formados. Do Dan\u00fabio<br \/>\na corrente n\u00e3o seria Tanto em \u00c1ustria no inverno enrijecida,<br \/>\n27 Nem do Tanais, na zona sempre fria. Do lago sobre a face empedernida Ca\u00edsse<br \/>\nou Tambernich ou Pietrana: 30 N\u00e3o fora ao peso enorme combalida. Qual<br \/>\nr\u00e3, que no paul coaxando, ufana Um pouco emerge, enquanto a camponesa<br \/>\n33 Sonhando est\u00e1 que a respigar se afana: Tais gemiam as sombra na<br \/>\nfrieza<\/p>\n<p>T\u00e9 a cintura l\u00edvidas, batendo, 36 Como a cegonha, os queixos<br \/>\ncom presteza. Para o seio a cabe\u00e7a lhes pendendo, Do frio a boca ind\u00edcios<br \/>\nclaros dava, 39 Nos olhos a tristeza est\u00e1-se vendo. Quando atentei<br \/>\nno quanto em roda estava, Duas vi aos meus p\u00e9s, em tal abra\u00e7o,<br \/>\n42 Que, travado, o cabelo se enleava. \u201cQuem sois que os peitos nesse<br \/>\nestreito la\u00e7o Apertais?\u201d \u2014 perguntei. Ent\u00e3o, voltando<br \/>\n45 Os colos para tr\u00e1s, um curto espa\u00e7o Me encararam; por\u00e9m<br \/>\ndos olhos quando Lhes brotavam as l\u00e1grimas, a neve 48 Cerrou-os entre<br \/>\nos c\u00edlios as coalhando. Nunca dois lenhos tanto unidos teve Cavilha:<br \/>\neles, de irados, se investiram, 51 Quais capros, que a marrar o furor leve.<br \/>\nTerceiro, a quem, geladas lhe ca\u00edram As orelhas, com rosto baixo fala:<br \/>\n54 \u201cPor que teus olhos s\u00f4fregos nos miram? \u201cO par desejas<br \/>\nconhecer, que cala? Pr\u00f3prio lhes fora e ao genitor Alberto 57 O vale,<br \/>\nonde o Bis\u00eanzio faz escala.<\/p>\n<p>\u201cDe um s\u00f3 ventre nasceram; tu, por certo, N\u00e3o achar\u00e1s<br \/>\nmais di\u2019nos em Ca\u00edna, 60 De ter de gelo o vulto seu coberto,<br \/>\n\u201cNem esse, a quem de Artus destra assassina De um bote o peito e a sombra<br \/>\ntranspassara; 63 Nem Foc\u00e1cia e o que a fronte agora inclina, \u201cA<br \/>\nvista me tolhendo, e se chamara Mascheroni Sassol, bem conhecido: 66 Se \u00e9s<br \/>\nToscano, esse nome te bastara. \u201cFique, por vozes escusar, sabido Que<br \/>\nPazzi eu sou e que, em Carlin chegando, 69 Serei por menos criminoso havido\u201d.<br \/>\nMil outros via roxos tiritando: Desde ent\u00e3o de arrepios sou tomado<br \/>\n72 Ante g\u00e9lidos vaus, este lembrando, E o centro demandando, em que<br \/>\nfirmado Do universo gravita todo o peso, 75 Tr\u00eamulo havia a treva eterna<br \/>\nentrado, Eis, sem querer, da sorte ou por desprezo, Entre tantas cabe\u00e7as<br \/>\ncaminhando, 78 A face de um calquei no gelo preso. \u201cPor que me pisas?\u201d<br \/>\nreclamou chorando,<\/p>\n<p>\u201cDe Monte Aperti ao feito por vingan\u00e7a 81 Inda me est\u00e1s<br \/>\ndesta arte molestando? \u201cMestre, espera-me aqui\u201d \u2014 disse<br \/>\n\u2014 \u201cMe lan\u00e7a Em d\u00favida este mau: solv\u00ea-la quero.<br \/>\n84 Eu depois correrei, se houver tardan\u00e7a\u201d. Parou; e ao pecador<br \/>\nfalei, que fero, Duras blasf\u00eamias proferia agora: 87 \u201cQuem \u00e9s<br \/>\ntu, que me increpas t\u00e3o severo?\u201d \u201cE tu mesmo quem \u00e9s,<br \/>\nque na Antenora\u201d Tornou \u2014 \u201cdessa arte as faces me espezinhas?<br \/>\n90 Um vivo, certo, menos cru me fora\u201d. \u201cSou vivo e posso entre<br \/>\nas mem\u00f3rias minhas Do nome teu apregoar a fama\u201d 93 Respondi \u2014<br \/>\n\u201cse te aprazem louvaminhas\u201d. \u201cS\u00f3 quer o olvido quem<br \/>\nte fala\u201d \u2014 exclama \u201cVai-te! De sobra j\u00e1 me est\u00e1s<br \/>\nmolesto. 96 Aqui n\u00e3o cabe da lisonja a trama\u201d. Travei da nuca<br \/>\nao pecador infesto E disse: \u2014 \u201cOu perder\u00e1s todo o cabelo,<br \/>\n99 Ou quem tu foste me declara presto!\u201d \u201cMil vezes podes arrancar-me<br \/>\no p\u00ealo, De ver-me a face n\u00e3o ter\u00e1s o gosto 102 E de saber<br \/>\nqual foi meu nome e apelo\u201d.<\/p>\n<p>As m\u00e3os lhe havia no cabelo posto; Da guedelha uma parte arrepelara:<br \/>\n105 Ganindo ele abaixava sempre o rosto, Quando outro brada: \u201c\u00d3,<br \/>\nBoca, isso n\u00e3o p\u00e1ra? Pois os queixos bater n\u00e3o te \u00e9<br \/>\nbastante? 108 J\u00e1 lates! Que dem\u00f4nio em ti dispara?\u201d \u201cN\u00e3o<br \/>\nmais, \u00edmpio traidor\u201d \u2014 no mesmo instante Respondo \u2014<br \/>\n\u201cexijo; o que de ti stou vendo 111 Contarei por te ser mais infamante\u201d.<br \/>\n\u201cVai! Se sa\u00edres deste abismo horrendo, Quanto queiras refere,<br \/>\ndo apressado, 114 Que de l\u00edngua assim foi, n\u00e3o te esquecendo.<br \/>\n\u201cOuro chora, que a Fran\u00e7a lhe h\u00e1 doado. Eu vi \u2014<br \/>\npodes dizer \u2014 Boso Duera 117 De outros muitos no gelo acompanhado. \u201cSe<br \/>\nperguntarem quem aqui mais era, Olha e ter\u00e1s ao lado Beccaria, 120<br \/>\nA quem Floren\u00e7a degolar fizera. \u201cGian del Soldanier, h\u00e1<br \/>\npouco eu via Al\u00e9m com Ganellon e Tribaldello. 123 Que abriu Faenza,<br \/>\nenquanto se dormia\u201d. Deix\u00e2mo-lo; mas s\u00fabito de gelo<\/p>\n<p>Postos em furna vi dois condenados: 126 Cabe\u00e7a de uma a de outra era<br \/>\ncabelo. Como a p\u00e3o se agarrando os esfaimados, Por cima um no outro<br \/>\nos dentes aferrava 129 Onde a cerviz e o cr\u00e2nio est\u00e3o ligados.<br \/>\nQual Tideu, que a dentadas lacerava De Menalipo a fronte enraivecido, 132<br \/>\nEle o c\u00e9rebro e os ossos mastigava. \u201cTu, que, de \u00f3dio<br \/>\nt\u00e3o sevo possu\u00eddo, Te encarni\u00e7as feroce no inimigo, 135<br \/>\n\u201cDize \u2014 exclamo \u2014 por que foi produzido. \u201cSe eu souber<br \/>\nque a justi\u00e7a est\u00e1 contigo E houver da culpa e r\u00e9u conhecimento,<br \/>\nNo mundo a compensar-te ora me obrigo, 139 Se n\u00e3o perder a l\u00edngua<br \/>\no movimento\u201d.<\/p>\n<p>11. Anfi\u00e3o, foi auxiliado pelas Musas na edifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos muros de Tebas. \u2014 27. Tanais, o rio Don, na R\u00fassia. \u2014<br \/>\n55-60. O par etc, filhos de Alberto degli Alberti, os quais brigaram e se<br \/>\nmataram reciprocamente. \u2014 61. Nem esse Mordrec, filho do rei Artur,<br \/>\nmorto pelo pai. \u2014 63. Focaia, dei Cancellieri matou alguns parentes<br \/>\ndo partido inimigo. \u2014 65. Mascheroni Sassuol, florentino, assassinou<br \/>\ntrai\u00e7oeiramente um seu primo. \u2014 68. Pazzi, Comicion dei Pazzi<br \/>\nmatou o seu primo Ubertino. \u2014 Carlin, Carlino dei Pazzi traiu os seus<br \/>\ncompanheiros, entregando v\u00e1rias fortalezas aos florentinos Negros.<br \/>\n\u2014 88.<\/p>\n<p>250<\/p>\n<p>Antenora, onde s\u00e3o punidos os traidores da p\u00e1tria, de Antenor,<br \/>\ntroiano, que favoreceu os gregos que sitiavam Tr\u00f3ia. \u2014 106.<br \/>\nBoca, Bocca degli Abati, na batalha de Montaperti (1260)<br \/>\ncausou a derrota dos florentinos, passando ao inimigo. \u2014 116.<br \/>\nBoso Duera, traiu o rei Manfredo, por ter recebido dinheiro de<br \/>\nCarlos d\u2019Anjou. \u2014 119. Beccaria, de Pavia, legado pontif\u00edcio<br \/>\nna<br \/>\nToscana, foi decapitado pelos florentinos, na suposi\u00e7\u00e3o de ter<br \/>\nfavorecido os gibelinos. \u2014 121. Gian del Soldanier, gibelino, que<br \/>\nem 1266 chefiou uma rebeli\u00e3o em Floren\u00e7a. \u2014 122. Ganellon,<br \/>\nGano de Mogun\u00e7a, traidor de Carlos Magno. \u2014 Tribaldello,<br \/>\nfaentino, traiu a sua cidade natal Faenza.<\/p>\n<p>251<\/p>\n<p>CANTO XXXIII<\/p>\n<p>O conde Ugolino della Gherardesca conta a Dante a sua tr\u00e1gica<br \/>\nmorte na torre dos Gualandi. Na Ptolom\u00e9ia o Poeta encontra o<br \/>\nfrade Alberico de Manfredi, o qual lhe explica que a alma dos<br \/>\ntraidores cai no Inferno logo depois de consumada a trai\u00e7\u00e3o<br \/>\ne que<br \/>\num diabo toma conta do corpo at\u00e9 chegar o tempo do seu fim no<br \/>\nmundo.<\/p>\n<p>DO fero cevo os l\u00e1bios desprendendo,<br \/>\nNa coma o pecador os enxugava<br \/>\n3 Desse cr\u00e2nio, a que estava atr\u00e1s roendo.<\/p>\n<p>\u201cQueres de infanda m\u00e1goa\u201d \u2014 come\u00e7ava \u2014<br \/>\nRenove a dor, que, s\u00f3 pensando a mente,<br \/>\n6 Antes que falte, o cora\u00e7\u00e3o me agrava.<\/p>\n<p>\u201cMas se a voz minha deve ser semente,<br \/>\nQue ao traidor, que eu devoro a inf\u00e2mia brote.<br \/>\n9 Falar, chorar, ver\u00e1s conjuntamente.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sei quem sejas, n\u00e3o sei como note<br \/>\nTua presen\u00e7a aqui, por Florentino<br \/>\n12 Te ouvindo a l\u00edngua, \u00e9 for\u00e7a que te adote.<\/p>\n<p>\u201cSaber deves que fui Conde Ugolino,<br \/>\nQue Arcebispo Rog\u00e9rio aquele h\u00e1 sido:<\/p>\n<p>252<\/p>\n<p>15 Direi qual nos juntou cruel destino.<\/p>\n<p>\u201cContar n\u00e3o hei mister como iludido<br \/>\nPor minha confian\u00e7a, em c\u00e1rcer posto.<br \/>\n18 Fui morto por maldade deste infido.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o conheces, por\u00e9m, que atroz desgosto<br \/>\nO meu fim precedera: aten\u00e7\u00e3o presta,<br \/>\n21 Quanto ofendido fui ver\u00e1s exposto.<\/p>\n<p>\u201cPor vezes da pris\u00e3o por breve fresta,<br \/>\nTorre da fome \u2014 ap\u00f3s o meu tormento,<br \/>\n24 Que h\u00e1 de a outros ainda ser funesta<\/p>\n<p>\u201cBrilhava a lua em pleno crescimento,<br \/>\nQuando o v\u00e9u do futuro horr\u00edvel sonho<br \/>\n27 Rasgou, do ex\u00edcio meu pressentimento.<\/p>\n<p>\u201cEste, como senhor, ent\u00e3o suponho<br \/>\nAo monte, que ver Lucca a Pisa obstava<br \/>\n30 Lobo e pequenos seus correr medonho.<\/p>\n<p>\u201cMagros c\u00e3es, destros, feros a\u00e7ulava<br \/>\nDos Galandis, Sismondis e Lanfrancos<br \/>\n33 A companha, que \u00e0 frente cavalgava.<\/p>\n<p>\u201cEm breve o pai e os filhos, lassos, mancos,<br \/>\nJ\u00e1 dos famintos galgos mal feridos,<br \/>\n36 Dar pareciam \u00faltimos arrancos.<\/p>\n<p>253<\/p>\n<p>\u201cDesperto ao primo alvor; dos meus queridos<br \/>\nFilhos que eram comigo, choro soa:<br \/>\n39 Pedem p\u00e3o, stando ainda adormecidos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9s cruel, se a tua alma n\u00e3o magoa<br \/>\nO pren\u00fancio da dor, que me aguardava:<br \/>\n42 Se n\u00e3o choras, que pena h\u00e1 que te doa?<\/p>\n<p>\u201cDespertaram; e a hora j\u00e1 chegava<br \/>\nEm que alimento escasso nos traziam:<br \/>\n45 O sonho a cada qual nos aterrava.<\/p>\n<p>\u201cDa horr\u00edvel torre \u00e0 porta ent\u00e3o se ouviam<br \/>\nMartelos cravejar: eu mudo e quedo<br \/>\n48 Nos filhos encarei, que esmoreciam.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o chorava; era o peito qual penedo.<br \/>\nChoravam eles, e Anselmuccio disse:<br \/>\n51 Assim nos olhas, pai? Do que h\u00e1s tu medo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cNem l\u00e1grimas, nem voz dei, que se ouvisse,<br \/>\nNo dia e noite, que seguiu-se lenta,<br \/>\n54 At\u00e9 que ao mundo novo sol surgisse.<\/p>\n<p>\u201cQuando a luz inda escassa se apresenta<br \/>\nNo doloroso carcer, meu semblante<br \/>\n57 Nos quatro rostos seus se representa.<\/p>\n<p>\u201cMordi-me as m\u00e3os de ang\u00fastia delirante.<br \/>\nEles, cuidando ser a fome o efeito,<\/p>\n<p>254<\/p>\n<p>60 De s\u00fabito e com gesto suplicante,<\/p>\n<p>\u201cDisseram: \u201cMenos mal nos ser\u00e1 feito<br \/>\nNutrindo-te de n\u00f3s, pai; nos vestiste<br \/>\n63 Desta carne: ora sirva em teu proveito\u201d.<\/p>\n<p>\u201cContendo-me, evitei lance mais triste.<br \/>\nEm sil\u00eancio dois dias se passaram. ..<br \/>\n66 Ah! por que, terra esquiva, n\u00e3o te abriste?<\/p>\n<p>\u201cDo quarto dia os lumes clarearam:<br \/>\nGaddo caiu-me aos p\u00e9s desfalecido:<br \/>\n69 \u201cPai me acode!\u201d os seus l\u00e1bios murmuraram.<\/p>\n<p>\u201cMorreu; e, qual me v\u00eas, eu vi, perdido<br \/>\nO sizo, os tr\u00eas, ao quinto e ao sexto dia,<br \/>\n72 Um por um se extinguir exinanido.<\/p>\n<p>\u201cApalpando os busquei \u2014 cego os n\u00e3o via<br \/>\nDois dias, os seus nomes repetindo:<br \/>\n75 Da fome mais que a dor, p\u00f4de a agonia\u201d.<\/p>\n<p>Calou-se e os torvos olhos retorquindo,<br \/>\nComo de antes cravou no cr\u00e2nio os dentes<br \/>\n78 E os ossos, qual mastim, foi destruindo.<\/p>\n<p>Ah! Pisa, opr\u00f3brio aos povos residentes<br \/>\nNa bela terra, onde o si ressona!<br \/>\n81 Pois te n\u00e3o v\u00eam punir vizinhas gentes.<\/p>\n<p>255<\/p>\n<p>Presto a Capraia mova-se e a Gorgona<br \/>\nDo Arno \u00e0 foz, entupindo-lhe a sa\u00edda<br \/>\n84 Teu povo assim pere\u00e7a, que se entona.<\/p>\n<p>E se foi a Ugolino atribu\u00edda<br \/>\nDe entregar teus castelos \u00e0 maldade,<br \/>\n87 Por que \u00e0 prole em tal cruz tirar a vida?<\/p>\n<p>Tebas moderna! Pela tenra idade<br \/>\nUgoccione e Briga t\u00e1 insontes eram<br \/>\n90 E os irm\u00e3os, em que usaste a feridade.<\/p>\n<p>Seguindo al\u00e9m, os olhos se of\u2019receram<br \/>\nOutros, que em gelo t\u00eam duro tormento:<br \/>\n93 Destes os rostos para tr\u00e1s penderam.<\/p>\n<p>Lhes causa o pranto ao pranto impedimento;<br \/>\nE a dor, que desafogo em v\u00e3o procura,<br \/>\n96 Lhes cresce, recalcada, o sofrimento.<\/p>\n<p>As l\u00e1grimas coalhando em neve dura<br \/>\nFormam nos olhos seus v\u00edtrea viseira,<br \/>\n99 E todo o espa\u00e7o interior se obtura.<\/p>\n<p>Conquanto quase a faculdade inteira<br \/>\nDe sentir no meu rosto se embotasse<br \/>\n102 D\u00eas que era nessa perenal geleira,<\/p>\n<p>Cuidei que um sopro me tocara a face.<br \/>\n\u201cDo que este sopro\u201d \u2014 inquiro \u2014 \u201cse origina?<\/p>\n<p>256<\/p>\n<p>105 Se aqui n\u00e3o h\u00e1 vapor, donde ele nasce?\u201d<\/p>\n<p>E o Mestre: \u201cIr\u00e1s onde a resposta di\u2019na<br \/>\nOs teus olhos dar\u00e3o; e ali chegando<br \/>\n108 O que virem do sopro a causa ensina\u201d.<\/p>\n<p>Dos tristes padecentes um gritando,<br \/>\nNos disse: \u201cAlmas cru\u00e9is, almas danadas<br \/>\n111 (Pois que no extremo abismo estais penando)<\/p>\n<p>\u201cTirai-me aos olhos g\u00e9lidas camadas,<br \/>\nPor desafogo dar-me ao peito aflito,<br \/>\n114 Antes de eu ter as l\u00e1grimas coalhadas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSe o lenitivo queres, que tens dito,<br \/>\nTeu nome diz: se n\u00e3o me desobrigo,<br \/>\n117 Des\u00e7a eu do gelo ao pel\u00e1gio maldito\u201d.<\/p>\n<p>Respondeu logo: \u201cEu sou frei Alberigo,<br \/>\nPelos pomos famoso do mau horto:<br \/>\n120 Aqui recebo t\u00e2mara por figo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOh!\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cporventura tu st\u00e1s<br \/>\nmorto?\u201d<br \/>\n\u201cN\u00e3o sei como \u00e9 meu corpo l\u00e1 no mundo\u201d,<br \/>\n123 Tornou \u201ce se vivendo tem conforto.<\/p>\n<p>\u201cEste cond\u00e3o possui sem ter segundo<br \/>\nPtolom\u00e9ia: aqui star alma \u00e9 freq\u00fcente<br \/>\n126 Antes que a mande Atropos ao profundo.<\/p>\n<p>257<\/p>\n<p>\u201cE por que mais de grado e prontamente<br \/>\nEstas vidradas l\u00e1grimas romovas,<br \/>\n129 Sabe que apenas de trai\u00e7\u00e3o a mente<\/p>\n<p>\u201cInquina-se, como eu, por fun\u00e7\u00f5es novas<br \/>\nPassa o corpo a dem\u00f4nio, que o governa<br \/>\n132 T\u00e9 completar da vida \u00faltimas provas:<\/p>\n<p>\u201cRui a alma, entanto, \u00e0 l\u00f4brega cisterna,<br \/>\nTalvez na terra folgue o corpo ledo,<br \/>\n135 Cuja sombra ap\u00f3s mim tr\u00eamula inverna.<\/p>\n<p>\u201cSe \u00e9s rec\u00e9m-vindo, sabe que esse tredo<br \/>\n\u00c9 Branca d\u2019\u00d3ria: h\u00e1 prolongados anos<br \/>\n138 Jaz enleado no infernal enredo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEste \u00e9\u201d tornei \u201cmais um dos teus enganos:<br \/>\nDesfruta alegre Branca d\u2019\u00d3ria a vida<br \/>\n141 E come e bebe e dorme e veste panos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDos Malebranche em cava denegrida,<br \/>\nN\u00e3o era\u201c disse ainda \u201cem pez viscoso<br \/>\n144 Alma de Miguel Zanche submergida,<\/p>\n<p>\u201cE um dem\u00f4nio esse infame criminoso<br \/>\nDeixou no corpo; o mesmo um seu parente,<br \/>\n147 Que de trai\u00e7\u00e3o foi s\u00f3cio proveitoso.<\/p>\n<p>\u201cDas m\u00e3os aux\u00edlio presta ora clemente,<br \/>\nMe abrindo os olhos!\u201d Tal n\u00e3o fiz; que errara<\/p>\n<p>258<\/p>\n<p>150 Com tal vil\u00e3o me havendo cortesmente.<\/p>\n<p>Ah! Genoveses! ra\u00e7a impura e avara,<br \/>\nQue nos costumes tem mancha tamanha!<br \/>\n153 Quem da face da terra vos lan\u00e7ara!<\/p>\n<p>Junto ao pior esp\u2019rito da Romanha<br \/>\nDe entre v\u00f3s um traidor vi tanto imundo,<br \/>\nQue a alma sua em Cocito j\u00e1 se banha,<\/p>\n<p>157 Enquanto o corpo vida finge ao mundo.<\/p>\n<p>13. Conde Ugolino, della Gherardesca, de Pisa, foi acusado pelo<br \/>\narcebispo de Pisa, Ruggiero degli Ubaldini, de ter tra\u00eddo a sua<br \/>\ncidade natal. Preso com dois filhos e dois netos numa torre,<br \/>\nonde todos morreram de fome. \u2014 29. Monte, San Giuliano, entre<br \/>\nPisa e Luca. \u2014 32. Galandis etc., fam\u00edlias pisanas. \u2014 118.<br \/>\nFrei<br \/>\nAlberigo, Manfredi, de Faenza, convidou dois parentes seus a<br \/>\ncomerem na sua casa e, no fim do jantar, ao pedir que<br \/>\ntrouxessem a fruta, os criados penetraram na sala e mataram<br \/>\nos h\u00f3spedes. \u2014 137. Branca d\u2019\u00d3ria, genov\u00eas,<br \/>\nconvidou o sogro<br \/>\nMiguel Zanche a comer em sua casa e matou-o para usurpar o<br \/>\ncastelo de Logodoro.<\/p>\n<p>259<\/p>\n<p>CANTO XXXIV<\/p>\n<p>Na Judeca est\u00e3o os traidores dos seus senhores e benfeitores. No<br \/>\nmeio est\u00e1 L\u00facifer, que com tr\u00eas bocas dilacera tr\u00eas<br \/>\nentre os mais<br \/>\nhorrendos pecadores: de um lado Judas, do outro Bruto e C\u00e1ssio,<br \/>\nque mataram a J\u00falio C\u00e9sar. Virg\u00edlio, ao qual Dante se<br \/>\nagarra,<br \/>\ndesce pelas costas peludas de L\u00facifer at\u00e9 o centro da terra.<br \/>\nDai<br \/>\nseguindo o murm\u00fario de um regato, saem e avistam as estrelas<br \/>\nno outro hemisf\u00e9rio.<\/p>\n<p>VEXILIA regis prodeunt inferni<br \/>\nContra n\u00f3s; pra diante os olhos tende<br \/>\n3 Disse o Mestre, se a vista j\u00e1 discerne\u201d.<\/p>\n<p>Como quando no ar n\u00e9voa se estende,<br \/>\nOu ao nosso hemisf\u00e9rio a noite desce,<br \/>\n6 Um moinho distante a aten\u00e7\u00e3o prende.<\/p>\n<p>Um edif\u00edcio igual verme parece.<br \/>\nTanto era o vento, que eu busquei guarida<br \/>\n9 Atr\u00e1s do Mestre, que outra n\u00e3o se of\u2019rece.<\/p>\n<p>\u00c0 parte era chegado, onde imergida<br \/>\nCada alma em gelo est\u00e1 (tremo escrevendo),<br \/>\n12 Bem como aresta no cristal contida.<\/p>\n<p>Erguidas umas st\u00e3o, outras jazendo<\/p>\n<p>260<\/p>\n<p>Qual sobre a fronte ou sobre os p\u00e9s firmada<br \/>\n15 Qual com seus p\u00e9s o rosto arco fazendo.<\/p>\n<p>Quando dist\u00e2ncia tal foi superada,<br \/>\nQue aprouve ao Mestre me tornar patente<br \/>\n18 A criatura bela ao ser formada,<\/p>\n<p>Se afastando de mim, disse: \u201cDet\u00e9m-te!<br \/>\nEis Satan\u00e1s! Eis o lugar horrendo<br \/>\n21 Em que deves te armar de esfor\u00e7o ingente!<\/p>\n<p>Quanto assombrei-me aquele aspecto vendo<br \/>\nN\u00e3o inquiras leitor: n\u00e3o te expressara<br \/>\n24 Com verbo humano o que encarei tremendo.<\/p>\n<p>N\u00e3o morto, por\u00e9m vivo n\u00e3o ficara.<br \/>\nQual me achava te pinte a fantasia,<br \/>\n27 Se morte ou vida em mim se n\u00e3o depara!<\/p>\n<p>Do aflito reino o imperador eu via:<br \/>\nDo gelo acima o seio levantava.<br \/>\n30 A um gigante igualar eu poderia,<\/p>\n<p>Se um gigante a um seu bra\u00e7o eu comparava!<br \/>\nDo todo vede a propor\u00e7\u00e3o qual fora,<br \/>\n33 Quando t\u00e3o vasta a parte se ostentava!<\/p>\n<p>Quem foi t\u00e3o belo, quanto \u00e9 feio agora,<br \/>\nContra o seu criador a fronte al\u00e7ando<br \/>\n36 Vera causa \u00e9 do mal, que o mundo chora.<\/p>\n<p>261<\/p>\n<p>Qual meu espanto h\u00e1 sido em contemplando<br \/>\nTr\u00eas faces na estranh\u00edssima figura!<br \/>\n39 Rubra cor na da frente est\u00e1 mostrando;<\/p>\n<p>Das outras cada qual, da p\u00e1dua escura<br \/>\nSurdindo, \u00e0s mais ajunta-se e se ajeita<br \/>\n42 Sobre o cr\u00e2nio da infanda criatura.<\/p>\n<p>Entre amarela e branca era a direita;<br \/>\nA cor a esquerda tem que enluta a gente<br \/>\n45 Do Nilo \u00e0s margens a viver afeita.<\/p>\n<p>Via asas duas sob cada frente,<br \/>\nT\u00e3o vastas, quanto em ave tal convinham:<br \/>\n48 Velas iguais n\u00e3o abre nau potente.<\/p>\n<p>Plumas, como em morcego, elas n\u00e3o tinham;<br \/>\nDe cont\u00ednuo agitadas produziam<br \/>\n51 Os tr\u00eas g\u00e9lidos ventos, que mantinham<\/p>\n<p>Os frios, que o Cocito enrijeciam.<br \/>\nChorava por seis olhos, por tr\u00eas mentos<br \/>\n54 Pranto e sang\u00fc\u00ednea espuma se espargiam.<\/p>\n<p>Qual moinho, com dentes truculentos<br \/>\nCada boca um prexito lacerava:<br \/>\n57 Padecem tr\u00eas a um tempo assim tormentos.<\/p>\n<p>Mas ao da frente a pena se agravava,<\/p>\n<p>262<\/p>\n<p>Porque das garras o furor constante<br \/>\n60 Do dorso a pele ao pecador rasgava.<\/p>\n<p>\u201cO que esperneia em dor mais cruciante\u201d<br \/>\nO Mestre disse: \u201c\u00c9 Juda Iscariote:<br \/>\n63 Prende a cabe\u00e7a a boca devorante.<\/p>\n<p>\u201cDos dois, que est\u00e3o pendendo, coube em dote<br \/>\nA negra face Bruto: sem gemido<br \/>\n66 Se estorce da dentu\u00e7a a cada bote.<\/p>\n<p>\u201cO outro \u00e9 C\u00e1ssio, de membros bem fornido.<br \/>\nMas a partir a noite insta, assomando:<br \/>\n69 Aqui j\u00e1 tudo havemos conhecido\u201d.<\/p>\n<p>Do Mestre o colo enla\u00e7o por seu mando.<br \/>\nEle em lugar e tempo apropriado,<br \/>\n72 De L\u00facifer as asas se alargando,<\/p>\n<p>Ao peito hirsuto havia-se agarrado;<br \/>\nDepois de velo em velo descendia<br \/>\n75 Entre os ilhais e o lago congelado.<\/p>\n<p>Chegado \u00e0quela parte, em que se unia<br \/>\nDa coxa o extremo dos quadris \u00e0 altura,<br \/>\n78 Com grande ofego e mor abalo o Guia<\/p>\n<p>P\u00f4r a fronte onde os p\u00e9s firmou procura,<br \/>\nComo quem sobe \u00e0s crinas agarrado:<br \/>\n81 Assim tornar cuidei do inferno \u00e0 agrura.<\/p>\n<p>263<\/p>\n<p>\u201cSegura-te! Por tais degraus alado\u201d<br \/>\nLasso Virg\u00edlio j\u00e1 disse anelante,<br \/>\n84 \u201cDeste imp\u00e9rio do mal ser\u00e1s tirado\u201d.<\/p>\n<p>De uma rocha ent\u00e3o sai por fresta hiante;<br \/>\nSobre a borda me assenta cauteloso;<br \/>\n87 Depois a mim se acerca vigilante.<\/p>\n<p>Olhos alcei julgando curioso<br \/>\nVer L\u00facifer, qual de antes o deixara;<br \/>\n90 De pernas para o ar vi-o em seu pouso!<\/p>\n<p>De que enleio a minha alma se tomara,<br \/>\nDeixo ao vulgo pensar pouco instru\u00eddo,<br \/>\n93 Que o ponto n\u00e3o compreende, em que eu<br \/>\npassara.<\/p>\n<p>\u201cEia! Vamos!\u201d o Mestre diz querido,<br \/>\n\u201cLonga jornada e mau caminho temos;<br \/>\n96 E a meia ter\u00e7a o sol j\u00e1 tem corrido\u201d.<\/p>\n<p>De pa\u00e7o em salas n\u00f3s de andar n\u00e3o temos;<br \/>\nMas de antro natural em solo duro<br \/>\n99 Os passos nossos dirigir devemos.<\/p>\n<p>\u201cAntes que eu deixe em todo o abismo escuro<br \/>\nErro, em que estou, meu Mestre, desvanece\u201d<br \/>\n102 Disse erguendo-me um pouco mais seguro.<\/p>\n<p>264<\/p>\n<p>\u201cOnde o gelo? Por que nos aparece<br \/>\nAssim L\u00facifer posto? E j\u00e1 t\u00e3o presto,<br \/>\n105 Cessando a noite, o sol nos esclarece?\u201d<\/p>\n<p>\u201cTu cuidas ser, do que ou\u00e7o \u00e9 manifesto<br \/>\nL\u00e1 no centro, onde ao p\u00ealo me prendera<br \/>\n108 Do que atravessa o mundo, verme infesto.<\/p>\n<p>\u201cAli stiveste, enquanto descendera<br \/>\nAo voltar-me do ponto al\u00e9m tens sido,<br \/>\n111 Que o peso atrai na terreal esfera.<\/p>\n<p>\u201cFoste \u00e0quele hemisf\u00e9rio transferido,<br \/>\nQue se op\u00f5e ao que a terra est\u00e1 lan\u00e7ado,<br \/>\n114 Em cujo excelso cume h\u00e1 padecido;<\/p>\n<p>\u201cQuem nasceu, quem viveu sem ter pecado<br \/>\nSobre uma esfera estreita os p\u00e9s agora,<br \/>\n117 Da Judeca ao reverso, tens firmado.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 noite l\u00e1; n\u00f3s temos luz nesta hora;<br \/>\nE o que nos velos seus nos deu a escada<br \/>\n120 Na postura se firma, em que antes fora.<\/p>\n<p>\u201cCaiu aqui da altura sublimada,<br \/>\nE a terra, que se al\u00e7ava entumescente,<br \/>\n123 Do mar fez v\u00e9u e veio de enfiada<\/p>\n<p>\u201cPara o nosso hemisf\u00e9rio de repente.<br \/>\nTamb\u00e9m fugiu de medo, a que se avista;<\/p>\n<p>265<\/p>\n<p>126 V\u00e1cuo deixando aqui, fez monte ingente\u201d.<\/p>\n<p>L\u00e1 no profundo h\u00e1 um lugar, que dista<br \/>\nTanto de Belzeb\u00fa, quanto se estende<br \/>\n129 Seu sepulcro: ali n\u00e3o penetra a vista.<\/p>\n<p>Revela-o som de arroio, que descende<br \/>\nPor brecha do rochedo, que escavara,<br \/>\n131 Em torno serpeando, e pouco pende.<\/p>\n<p>Para voltar do mundo \u00e0 face clara<br \/>\nNessa vereda escusa penetramos:<br \/>\n135 De n\u00f3s nenhum de repousar cuidara.<\/p>\n<p>Virg\u00edlio e eu, logo ap\u00f3s, nos elevamos,<br \/>\nT\u00e9 que do ledo c\u00e9u as cousas belas<br \/>\nPor circular aberta divisamos:<\/p>\n<p>139 Saindo a ver tornamos as estrelas.<\/p>\n<p>1. Vexilas etc. \u2014 Aparecem os vexilos do rei do Inferno. \u00c9 o<br \/>\nprimeiro verso de um hino da Igreja. \u2014 38. Tr\u00eas faces etc.,<br \/>\nL\u00facifer tem tr\u00eas faces em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0<br \/>\nTrindade divina. \u2014<br \/>\n62. Juda Iscariote, que traiu Jesus. \u2014 65-67. Bruto e C\u00e1ssio,<br \/>\nque mataram J\u00falio C\u00e9sar. \u2014 80. Como quem sobe etc. Passado<br \/>\no centro da terra, Virg\u00edlio para encaminhar-se ao hemisf\u00e9rio<br \/>\noposto deve subir e n\u00e3o mais descer. \u2014 113-15. Que se op\u00f5e<br \/>\netc., ao hemisf\u00e9rio que cobre a terra em cujo cume (Jerusal\u00e9m)<br \/>\nfoi crucificado Jesus Cristo. \u2014 130. Arroio, o rio Lete que desce<br \/>\ndo Purgat\u00f3rio. \u2014 137. As cousas belas, as estrelas que Dante<br \/>\npercebia da pequena abertura a que chegaram.<\/p>\n<p>266<\/p>\n<h2><a id=\"2\" name=\"2\"><\/a>Purgat\u00f3rio<\/h2>\n<p>CANTO I<\/p>\n<p>Saindo do Inferno, Dante respira novamente o ar puro e v\u00ea fulgent\u00edssimas<br \/>\nestrelas. Encontra-se na ilha do Purgat\u00f3rio.O guardi\u00e3o da ilha, Cat\u00e3o Uticense,<br \/>\npergunta aos dois Poetas qual \u00e9 o motivo da sua jornada. Ele os instrui, depois,<br \/>\nrelativamente ao que devem fazer, antes de iniciar a subida do monte.<\/p>\n<p>DO engenho meu a barca as velas solta<br \/>\nPara correr agora em mar jucundo,<br \/>\n3 E ao despiedoso pego a popa volta.<\/p>\n<p>Aquele reino cantarei segundo,<br \/>\nOnde pela alma a dita \u00e9 merecida<br \/>\n6 De ir ao c\u00e9u livre do pecado imundo.<\/p>\n<p>Ressurja ora a poesia amortecida,<br \/>\n\u00d3 Santas Musas, a quem sou votado;<br \/>\n9 Unir ao canto meu seja servida<\/p>\n<p>Cal\u00edope o som alto e sublimado,<br \/>\nQue \u00e0s Pegas esperar n\u00e3o permitira<br \/>\n12 Lhes fosse o atrevimento perdoado.<\/p>\n<p>Suave cor de oriental safira,<br \/>\nQue se esparzia no sereno aspeito<br \/>\n15 Do ar at\u00e9 onde o c\u00e9u primeiro gira,<\/p>\n<p>268<\/p>\n<p>Recreia a vista; e eu ledo me deleito<br \/>\nEm surdindo da est\u00e2ncia tenebrosa,<br \/>\n18 Que tanto os olhos contristara e o peito.<\/p>\n<p>A bela estrela, a amor auspiciosa<br \/>\nSorrir alegre faz todo o Oriente,<br \/>\n21 Vela os Peixes, que a seguem, luminosa.<\/p>\n<p>Ao outro p\u00f3lo endere\u00e7ando a mente,<br \/>\nVolto-me \u00e0 destra, e os astros quatro vejo,<br \/>\n24 Que vira s\u00f3 a primitiva gente.<\/p>\n<p>Folgar o c\u00e9u parece ao seu lampejo.<br \/>\nDo Norte, \u00f3 regi\u00e3o, vi\u00fava h\u00e1s sido,<br \/>\n27 De os contemplar te n\u00e3o foi dado ensejo.<\/p>\n<p>Depois de os remirar, j\u00e1 dirigido<br \/>\nOlhos havia para o p\u00f3lo oposto,<br \/>\n30 Donde a Carro\u00e7a havia-se partido,<\/p>\n<p>Eis noto um velho, perto de mim posto,<br \/>\nQue rever\u00eancia tanta merecia,<br \/>\n33 Que mais do pai n\u00e3o deve o filho ao rosto.<\/p>\n<p>Nas longas barbas n\u00edvea cor sa\u00eda,<br \/>\nSendo na coma sua semelhante,<br \/>\n36 Que em dupla tran\u00e7a ao peito lhe ca\u00eda.<\/p>\n<p>A luz dos santos astros rutilante<\/p>\n<p>269<\/p>\n<p>De fulgor tanto lhe aclarava o gesto,<br \/>\n39 Que o vi, como se o sol lhe fosse adiante.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuem sois que em contra o rio escuro e mesto<br \/>\nDo eterno c\u00e1rcere heis fugido os la\u00e7os?\u201d \u2014<br \/>\n42 Movendo as nobres plumas, disse presto.<\/p>\n<p>\u201cQuem vos guiou alumiando os passos<br \/>\nPara a profunda noite haver deixado,<br \/>\n45 Que enluta sempre os infernais espa\u00e7os?<\/p>\n<p>\u201cAs leis do abismo acaso se h\u00e3o quebrado?<br \/>\nO c\u00e9u d\u00e1, seus decretos revogando,<br \/>\n48 Que dos maus seja o meu dom\u00ednio entrado?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Travou de mim Virg\u00edlio, me exortando<br \/>\nPor voz, aceno e m\u00e3os: como queria<br \/>\n51 Os joelhos curvei, olhos baixando.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDe motu meu n\u00e3o vim\u201d \u2014 lhe respondia \u2014<br \/>\nDe Dama aos rogos, que do c\u00e9u descera<br \/>\n54 Socorro este homem, sirvo-lhe de guia.<\/p>\n<p>Pois que \u00e9 desejo teu que a nossa vera<br \/>\nCondi\u00e7\u00e3o definida mais te seja,<br \/>\n57 Prestar me cumpro explica\u00e7\u00e3o sincera.<\/p>\n<p>\u201cAura da vida este home\u2019inda bafeja,<br \/>\nMas tanto, de imprudente, se arriscara,<br \/>\n60 Que \u00e9 maravilha vivo ainda esteja.<\/p>\n<p>270<\/p>\n<p>\u201cDisse como a salv\u00e1-lo me apressara:<br \/>\nPor onde os passos dirigir pudesse<br \/>\n63 Essa vereda s\u00f3 se deparara.<\/p>\n<p>\u201cMostrei-lhe a gente, que por m\u00e1 padece;<br \/>\nMostrar-lhe intento os que ora est\u00e3o purgando<br \/>\n66 Pecados no lugar, que te obedece.<\/p>\n<p>\u201cLongo seria como o vou guiando<br \/>\nDizer-te: \u00e9 for\u00e7a do alto a que me impele,<br \/>\n69 Para te ver e ouvir o encaminhando,<\/p>\n<p>Digna-te, pois, ben\u00ed\u2019no ser com ele:<br \/>\nA liberdade anela, que \u00e9 t\u00e3o cara:<br \/>\n72 Sabe-o bem quem por ela a vida expele.<\/p>\n<p>\u201cPor ela a morte n\u00e3o te h\u00e1 sido amara<br \/>\nEm \u00datica, onde a veste foi deixada,<br \/>\n75 Que em Ju\u00edzo h\u00e1 de ser de luz t\u00e3o clara.<\/p>\n<p>\u201cPor n\u00f3s eterna lei n\u00e3o \u00e9 violada:<br \/>\nEle inda vive; Minos n\u00e3o me empece;<br \/>\n78 No c\u00edrc\u2019lo estou, onde acha-se encerrada<\/p>\n<p>\u201cTua M\u00e1rcia, que em casto olhar parece<br \/>\nRogar-te ainda que por tua a tenhas:<br \/>\n81 Lembrando-a em favor nosso te enternece.<\/p>\n<p>\u201cIr deixa aos reinos teus, n\u00e3o nos retenhas;<\/p>\n<p>271<\/p>\n<p>Hei de a M\u00e1rcia diz\u00ea-lo agradecido,<br \/>\n84 Se l\u00e1 de ti falar-se n\u00e3o desdenhas.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cM\u00e1rcia, a meus olhos t\u00e3o jucunda h\u00e1 sido<br \/>\nQue \u2014 tornou-lhe Cat\u00e3o \u2014 eu de bom grado<br \/>\n87 No mundo quanto quis lhe hei concedido.<\/p>\n<p>\u201cEstando al\u00e9m do rio detestado,<br \/>\nMover-me ora n\u00e3o pode: este preceito<br \/>\n90 Me foi, deixando o Limbo, decretado.<\/p>\n<p>\u201cSe por dama celeste h\u00e1s sido eleito,<br \/>\nComo disseste, \u00e9 v\u00e3 lisonja agora;<br \/>\n93 O que requeres em seu nome aceito.<\/p>\n<p>\u201cVai, pois: cingindo este homem sem demora<br \/>\nDe liso junco, lava-lhe o semblante;<br \/>\n96 Toda a impureza seja posta fora.<\/p>\n<p>\u201cCumpre que, quando ele estiver perante<br \/>\nO anjo, que do c\u00e9u vier primeiro,<br \/>\n99 N\u00e9voa nenhuma os olhos lhe quebrante.<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 onde baixa o ponto derradeiro<br \/>\nDo mar batido, esta ilha tem vi\u00e7oso<br \/>\n102 Juncal que alastra todo o seu nateiro.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o pode vegetal rijo ou frondoso<br \/>\nTer vida ali; porque n\u00e3o dobraria<br \/>\n105 Ao embate das ondas caprichoso.<\/p>\n<p>272<\/p>\n<p>\u201cAqui tornar in\u00fatil vos seria.<br \/>\nVereis ao sol, que surge, o melhor passo<br \/>\n108 Para subir do monte \u00e0 penedia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Sumiu-se. Ergui-me, ent\u00e3o, sem mais espa\u00e7o,<br \/>\nE em sil\u00eancio; olhos fitos no semblante<br \/>\n111 De Virg\u00edlio, amparei-me com seu bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cComigo, \u00f3 filho\u201d \u2014 diz-me \u2014 \u201csegue<br \/>\navante.<br \/>\nAtr\u00e1s voltemos; pois daqui se inclina<br \/>\n114 O plano para o mar, que jaz distante.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Fugia ante a alva a sombra matutina;<br \/>\nJ\u00e1 nos ficava aos olhos descoberta,<br \/>\n117 Posto remota, a oscila\u00e7\u00e3o marina.<\/p>\n<p>Pela plan\u00edcie and\u00e1vamos deserta,<br \/>\nComo quem trilha a estrada, que perdera,<br \/>\n120 E teme n\u00e3o achar vereda certa.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 parte, onde n\u00e3o pudera<br \/>\nDo rocio triunfar o sol nascente,<br \/>\n123 Porque \u00e0 sombra o frescor pouco modera,<\/p>\n<p>Sobre a relva meu Mestre brandamente<br \/>\nAs m\u00e3os ambas abriu: o movimento<br \/>\n126 Lhe noto e, o compreendo, diligente,<\/p>\n<p>As lacrimosas faces lhe apresento.<\/p>\n<p>273<\/p>\n<p>Virg\u00edlio as cores restaurou-me ao gesto,<br \/>\n129 Que desbotara o inferno nevoento.<\/p>\n<p>Vimos \u00e0 erma praia a passo lesto:<br \/>\nNunca sobre \u00e1guas suas navegara<br \/>\n132 Homem que o mundo torne a ver molesto.<\/p>\n<p>Cingido fui, como Cat\u00e3o mandara.<br \/>\nPortento! A humilde planta renascida,<br \/>\nQual antes vi no solo, onde a arrancara,<\/p>\n<p>136 Sem diferen\u00e7a, de s\u00fabito crescida.<\/p>\n<p>10. Cal\u00edope \u2014 Musa da epop\u00e9ia. \u2014 11. Pegas, as<br \/>\nfilhas de<br \/>\nPierio, desafiaram as Musas para cantarem com elas e,<br \/>\nvencidas, foram transformadas em pegas. \u2014 19. A bela estrela,<br \/>\nV\u00eanus. \u2014 21. Os Peixes, a constela\u00e7\u00e3o dos Peixes.<br \/>\n\u2014 31. Um<br \/>\nvelho etc., Cat\u00e3o Uticense, que, para n\u00e3o entregar-se a J\u00falio<br \/>\nC\u00e9sar, suicidou-se em \u00datica. \u2014 40. Rio escuro e mesto,<br \/>\no<br \/>\nAqueronte. \u2014 79. M\u00e1rcia, esposa de Cat\u00e3o.<\/p>\n<p>274<\/p>\n<p>CANTO II<\/p>\n<p>Est\u00e3o os Poetas ainda na praia, incertos em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nao caminho,<br \/>\nquando chega uma barca, guiada por um Anjo, da qual saem<br \/>\nalmas destinadas ao Purgat\u00f3rio. Uma delas, o m\u00fasico Casella,<br \/>\namigo de Dante, a convite do Poeta, come\u00e7a a cantar uma sua<br \/>\ncan\u00e7\u00e3o. Os dois Poetas e as almas ficam a ouvir o canto<br \/>\nharmonioso. Sobrev\u00e9m. por\u00e9m, o severo Cat\u00e3o, que as repreende,<br \/>\ne as almas fogem para o monte.<\/p>\n<p>RESPLENDECIA o sol j\u00e1 no horizonte<br \/>\nQue tem meridiano, onde iminente<br \/>\n3 O z\u00eanite fica de Solima ao monte.<\/p>\n<p>Na parte oposta a noite diligente<br \/>\nDo Ganges co\u2019as Balan\u00e7as se elevava,<br \/>\n6 Que lhe caem da m\u00e3o, quando \u00e9 excedente.<\/p>\n<p>J\u00e1 nesse tempo a idade transformava<br \/>\nA branca e r\u00f3sea cor da bela Aurora<br \/>\n9 Noutra, que a de \u00e1ureos pomos simulava.<\/p>\n<p>Do mar ao longo inda \u00e9ramos nessa hora,<br \/>\nComo quem, na jornada embevecido,<br \/>\n12 Se apressa em mente, os p\u00e9s, por\u00e9m, demora:<\/p>\n<p>Eis, qual sobre manh\u00e3, enrubescido,<\/p>\n<p>275<\/p>\n<p>Das n\u00e9voas atrav\u00e9s, Marte chameja<br \/>\n15 No ponente das ondas refletido,<\/p>\n<p>Uma luz (praza a Deus de novo a veja!)<br \/>\nT\u00e3o veloz pelo mar vi deslizando,<br \/>\n18 Que n\u00e3o h\u00e1 v\u00f4o de ave, que igual seja.<\/p>\n<p>Maior mostrou-se e mais fulgente, quando,<br \/>\nDepois de ter-me ao Guia meu voltado,<br \/>\n21 De novo olhei o seu brilho contemplando.<\/p>\n<p>N\u00edvea forma tamb\u00e9m, a cada lado,<br \/>\nLhe divisei; abaixo aparecia<br \/>\n24 De igual cor outro vulto assinalado.<\/p>\n<p>T\u00e9 asas discernir permanecia<br \/>\nO s\u00e1bio Mestre meu silencioso.<br \/>\n27 Mas ent\u00e3o, como o nauta conhecia,<\/p>\n<p>Bradou: \u201cCurva os joelhos respeitoso,<br \/>\nJunta as m\u00e3os: eis de Deus um mensageiro!<br \/>\n30 De ora avante h\u00e1s de ver outros ditoso.<\/p>\n<p>\u201cV\u00ea que, aos humanos meios sobranceiro,<br \/>\nPara vir de t\u00e3o longe velas, remos<br \/>\n33 Possui das asas no volver ligeiro.<\/p>\n<p>\u201cComo ele as al\u00e7a para o c\u00e9u j\u00e1 vemos,<br \/>\nEternas plumas suas agitando;<br \/>\n36 N\u00e3o mudam como dos mortais sabemos.\u201d \u2014<\/p>\n<p>276<\/p>\n<p>Em tanto, mais e mais se apropinquando,<br \/>\nMais clara sobressai a ave divina:<br \/>\n39 Olhos abaixo \u00e0 luz me deslumbrando.<\/p>\n<p>O anjo logo \u00e0 riba a nave inclina,<br \/>\nT\u00e3o r\u00e1pida, t\u00e3o leve, que parece<br \/>\n42 Voar somente na amplid\u00e3o marina.<\/p>\n<p>Na popa erguido o nauta resplendece:<br \/>\nFeliz quanto \u00e9 lhe est\u00e1 na fronte escrito;<br \/>\n45 Das almas turba ao mando lhe obedece.<\/p>\n<p>In exitu Israel de Egypto<br \/>\nA uma voz cantavam juntamente<br \/>\n48 E o mais, que foi no santo salmo dito.<\/p>\n<p>Sinal da Cruz lhes fez devotamente:<br \/>\nTodos ent\u00e3o \u00e0 riba se lan\u00e7aram<br \/>\n51 E tornou, como veio, incontinente.<\/p>\n<p>Em volta remirando, os que ficaram<br \/>\nPareciam de espanto apoderados,<br \/>\n54 Como quem a estranheza se acercaram.<\/p>\n<p>O sol frechava os lumes seus dourados,<br \/>\nL\u00e1 do meio do c\u00e9u tendo expelido<br \/>\n57 O Capric\u00f3rnio a tiros reiterados,<\/p>\n<p>Quando as almas, que haviam descendido,<\/p>\n<p>277<\/p>\n<p>Perguntam-nos: \u2014 \u201cSabeis, para indicar-nos,<br \/>\n60 Por onde o monte pode ser subido?\u201d<\/p>\n<p>Tornou Virg\u00edlio: \u2014 \u201cVos apraz julgar-nos<br \/>\nDo lugar sabedores; mas viandantes,<br \/>\n63 Como sois v\u00f3s, deveis considerar-nos.<\/p>\n<p>Cheg\u00e1ramos aqui, de v\u00f3s, pouco antes,<br \/>\nPor estrada t\u00e3o \u00e1rdua e temerosa,<br \/>\n66 Que esta subida a par, jogo \u00e9 de infantes.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Notando aquela turba, curiosa,<br \/>\nQue eu, pelo respirar, era homem vivo,<br \/>\n69 Enfiou ante a vista portentosa.<\/p>\n<p>E como, a quem da paz ramo expressivo<br \/>\nPresenta, o povo acerca-se cuidoso<br \/>\n72 Em tropel de not\u00edcias por motivo:<\/p>\n<p>O bando assim das almas venturoso<br \/>\nEm meu rosto atentava alvoro\u00e7ado,<br \/>\n75 Quase esquecido de ir a ser formoso.<\/p>\n<p>Uma, tendo-se \u00e0s mais adiantado<br \/>\nA me abra\u00e7ar correu com tanto afeito,<br \/>\n78 Que fui de impulso igual arrebatado.<\/p>\n<p>Sombras v\u00e3s, verdadeiras s\u00f3 no aspeito!<br \/>\nTr\u00eas vezes quis nos bra\u00e7os estreit\u00e1-la,<br \/>\n81 S\u00f3 as tr\u00eas vezes estreitei ao peito.<\/p>\n<p>278<\/p>\n<p>Ante o espanto, que o gesto me assinala,<br \/>\nSorriu-se; e, como j\u00e1 se retirasse,<br \/>\n84 Avan\u00e7ando, eu tentei acompanh\u00e1-la.<\/p>\n<p>Suavemente disse que eu parasse,<br \/>\nPedi-lhe, com certeza a conhecendo,<br \/>\n87 Que um pouco a praticar se demorasse:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cComo te amei\u201d \u2014 me respondeu \u2014 \u201cvivendo<br \/>\nNo mortal corpo, assim eu te amo agora.<br \/>\n90 Por que vais? Dize: ao teu desejo atendo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u201cCaro Casella\u201d \u2014 disse-lhe \u2014 \u201chei de embora<br \/>\nTornar, ao fim desta jornada, \u00e0 vida.<br \/>\n93 Por que de vir h\u00e1s delongado a hora?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u201cSe a passagem negou-me requerida<br \/>\nAnjo, que as almas, quando apraz-lhe, guia,<br \/>\n96 Ofensa n\u00e3o me fez imerecida;<\/p>\n<p>\u201cPois a justo querer obedecia.<br \/>\nNa barca em paz, tr\u00eas meses h\u00e1 somente,<br \/>\n99 A todos d\u00e1 a entrada apetecida.<\/p>\n<p>\u201cEu, que na plaga ent\u00e3o era presente,<br \/>\nOnde no mar o Tibre as \u00e1guas deita<br \/>\n102 Por ele aceito fui benignamente,<\/p>\n<p>\u201cA essa foz seus v\u00f4os endireita;<\/p>\n<p>279<\/p>\n<p>Pois sempre ali a grei st\u00e1 reunida,<br \/>\n105 \u00c0s penas do Aqueronte n\u00e3o sujeita.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe n\u00e3o \u00e9 por lei nova proibida<br \/>\nMem\u00f3ria e usan\u00e7a do amoroso canto,<br \/>\n108 Que as m\u00e1goas todas me ado\u00e7ou da vida,<\/p>\n<p>\u201cPraza-te amigo, confortar um tanto<br \/>\nMinha alma, que molesta, que amofina<br \/>\n111 Star envolta no corp\u00f3reo manto.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAmor que em minha mente raciocina\u201d \u2014<br \/>\nEntoou ele ent\u00e3o com tal do\u00e7ura,<br \/>\n114 Que o som donoso inda alma me domina.<\/p>\n<p>Ao Mestre, a mim, a todos a brandura<br \/>\nDo saudoso cantar tanto elevava,<br \/>\n117 Que de ai a mente nossa ent\u00e3o n\u00e3o cura.<\/p>\n<p>Na toada, absorvida, se engolfava,<br \/>\nEis de repente o velho venerando:<br \/>\n120 \u2014 \u201cQue fazeis, descuidosos?\u201d \u2014 nos bradava.<\/p>\n<p>\u201cPois estais na indol\u00eancia assim ficando?<br \/>\nIde ao monte, a despir essa impureza,<br \/>\n123 Que a vista vos est\u00e1 de Deus vedando!\u201d \u2014<\/p>\n<p>Quais pombos, que dos agros na largueza,<br \/>\nEm desejado pascigo embebidos,<br \/>\n126 Como olvidada a natural braveza,<\/p>\n<p>280<\/p>\n<p>S\u00fabito arrancaram, de temor pungidos,<br \/>\nSe algum mal iminente lhes parece,<br \/>\n129 De cuidados maiores possu\u00eddos:<\/p>\n<p>Tal a recente grei o canto esquece,<br \/>\nE, como homem, que vai sem ter roteiro,<br \/>\nCorre \u00e0 costa, que aos olhos se oferece:<\/p>\n<p>133 N\u00e3o foi nosso partir menos ligeiro.<\/p>\n<p>1-3. Resplendecia etc., colocando o Purgat\u00f3rio num hemisf\u00e9rio<br \/>\nant\u00edpoda \u00e0quele da terra, o Poeta nota que onde ele estava o<br \/>\nsol<br \/>\ndespontava e na mesma hora em Jerusal\u00e9m (Solima) descia a<br \/>\nnoite. \u2014 46. In exitu, etc., primeiro verso do Salmo 114. \u2014 91.<br \/>\nCasella, m\u00fasico florentino amigo de Dante e que havia<br \/>\nmusicado algumas can\u00e7\u00f5es dele. \u2014 119. O Velho, Cat\u00e3o.<\/p>\n<p>281<\/p>\n<p>CANTO III<\/p>\n<p>Os dois Poetas se aprestam a subir o monte. Enquanto est\u00e3o<br \/>\nprocurando o lugar onde a subida seja mais f\u00e1cil, v\u00eaem um grupo<br \/>\nde almas que lhes v\u00eam ao encontro. Perguntam a elas onde seja<br \/>\na subida. Uma das almas se d\u00e1 a conhecer a Dante. \u00c9 Manfredo,<br \/>\nrei de N\u00e1poles e da Sic\u00edlia. Ele narra como morreu, pedindo<br \/>\na<br \/>\nDeus, na hora extrema. Est\u00e3o juntas com ele, as almas dos que<br \/>\nforam inimigos da Santa Igreja.<\/p>\n<p>ENQUANTO aquela fuga repentina<br \/>\nPela plan\u00edcie as sombras impelia<br \/>\n3 Ao monte, que a raz\u00e3o a amar ensina,<\/p>\n<p>Ao s\u00f3cio meu fiel eu me cingia:<br \/>\nComo sem ele houvera prosseguido?<br \/>\n6 Quem para al\u00e7ar-me esfor\u00e7o me daria?<\/p>\n<p>De remorsos parece possu\u00eddo.<br \/>\n\u00d3 consci\u00eancia pura e sublimada,<br \/>\n9 Leve falta pesar te d\u00e1 subido!<\/p>\n<p>Quando atalhava a pressa, que \u00e9 vedada<br \/>\nA quem dos atos no decoro atente,<br \/>\n12 Eu, que sentira a mente angustiada,<\/p>\n<p>Tornando ao meu intento afoutamente<\/p>\n<p>282<\/p>\n<p>Os olhos \u00e0 emin\u00eancia levantava,<br \/>\n15 Que para o c\u00e9u mais alto eleva a frente.<\/p>\n<p>Nas espaldas o sol nos dardejava<br \/>\nRubra luz, que o meu corpo interrompia,<br \/>\n18 Pois aos seus raios \u00f3bice formava.<\/p>\n<p>Escuro ante mim s\u00f3 aparecia<br \/>\nO solo: eu, de abandono receoso,<br \/>\n21 Voltei-me ao lado onde era o s\u00e1bio Guia.<\/p>\n<p>Virg\u00edlio ent\u00e3o me encara. \u2014 \u201cSuspeitoso<br \/>\nTe mostras?\u201d \u2014 diz \u2014 \u201cCuidavas, porventura,<br \/>\n24 Que eu n\u00e3o mais te acompanhe cuidadoso?<\/p>\n<p>\u201cSurge V\u00e9sper l\u00e1 onde a sepultura<br \/>\nGuarda o corpo em que sombra j\u00e1 fizera<br \/>\n27 Tomando-o a Brindes, N\u00e1pole o assegura.<\/p>\n<p>\u201cSe ante mim n\u00e3o a v\u00eas, n\u00e3o te devera<br \/>\nDar pasmo como l\u00e1 no firmamento<br \/>\n30 Se a luz a luz n\u00e3o tolhe e n\u00e3o movera.<\/p>\n<p>\u201cPara calma sentir, frio ou tormento<br \/>\nDisp\u00f4s-nos corpo a suma Potestade.<br \/>\n33 Como o fez? N\u00e3o nos deu conhecimento.<\/p>\n<p>\u201cF\u00e1tuo \u00e9 quem julga \u00e0 humana faculdade<br \/>\nFranco o infindo caminho e sempiterno,<br \/>\n36 Por onde segue o Ente Uno em Trindade.<\/p>\n<p>283<\/p>\n<p>\u201cHomem, vos baste o quia: se ao superno<br \/>\nSaber alevantar-vos fosse dado,<br \/>\n39 Da Virgem ao seio n\u00e3o baixara o Eterno.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 viste porfiar sem resultado<br \/>\nOs que, cevar podendo seu desejo,<br \/>\n42 Em perp\u00e9tua afli\u00e7\u00e3o o t\u00eam tornado.<\/p>\n<p>\u201cDe Arist\u00f3teles falo neste ensejo,<br \/>\nDe Plat\u00e3o, de outros mais.\u201d \u2014 Baixando a fronte,<br \/>\n45 Calou; mostrava torva\u00e7\u00e3o e pejo.<\/p>\n<p>Chegamos n\u00f3s em tanto ao p\u00e9 do monte<br \/>\nOnde era a rocha de tal modo erguida,<br \/>\n48 Que de subir capaz ningu\u00e9m se conte.<\/p>\n<p>A vereda mais erma e desabrida,<br \/>\nQue de L\u00e9ria a T\u00farbia se encaminha,<br \/>\n51 D\u00e1, confrontada, c\u00f4moda subida.<\/p>\n<p>E o Mestre, assim falando, os p\u00e9s detinha:<br \/>\n\u201cQuem sabe onde a este monte o passo ascende?<br \/>\n54 Como aqui sem ter asas se caminha?\u201d<\/p>\n<p>Enquanto, baixo o rosto, o Mestre entende<br \/>\nNa jornada, em sua mente interrogando,<br \/>\n57 E pela altura a vista se me estende,<\/p>\n<p>Divisei turba a n\u00f3s endireitando<\/p>\n<p>284<\/p>\n<p>Da m\u00e3o destra; o seu passo era t\u00e3o lento,<br \/>\n60 Que n\u00e3o me parecia estar andando.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAos que v\u00eam\u201d \u2014 disse ao Mestre \u2014 \u201cmira<br \/>\natento;<br \/>\nPor eles pode ser conselho dado,<br \/>\n63 Se o n\u00e3o te of\u2019rece o pr\u00f3prio pensamento&#8230;\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>Olhou-me, e com semblante asserenado<br \/>\n\u2014 \u201c\u00c0 turba vagarosa\u201d \u2014 tornou \u2014 \u201cvamos,<br \/>\n66 E a esperan\u00e7a te esforce, \u00f3 filho amado!\u201d \u2014<\/p>\n<p>Passos mil para a grei nos caminhamos<br \/>\nE de tiro de pedra inda \u00e0 dist\u00e2ncia,<br \/>\n69 Por m\u00e3o destra arrojada, nos chamamos<\/p>\n<p>Quando aqueles esp\u00edritos est\u00e2ncia<br \/>\nJunto aos penhascos vi fazer, cerrados,<br \/>\n72 Qual transviado da incerteza em \u00e2nsia.<\/p>\n<p>\u201cV\u00f3s, eleitos ao bem, no bem finados\u201d \u2014<br \/>\nDisse Virg\u00edlio \u2014 \u201cpela paz ditosa,<br \/>\n75 Em que sois todos, creio, esperan\u00e7ados,<\/p>\n<p>\u201cDizei-me onde a montanha alta e fragosa<br \/>\nSubir permite, um pouco se inclinando:<br \/>\n78 Do tempo a perda ao s\u00e1bio \u00e9 desgostosa.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Como as ovelhas o redil deixando<br \/>\nA uma, duas, tr\u00eas e a cerviz tendo<\/p>\n<p>285<\/p>\n<p>81 Baixa as outras v\u00e3o t\u00edmidas ficando;<\/p>\n<p>Todas como a primeira, se movendo,<br \/>\nConchegam-se-lhe ao dorso, se ela p\u00e1ra,<br \/>\n84 O porque, simples, quietas n\u00e3o sabendo:<\/p>\n<p>Assim a demandar-nos se apressara<br \/>\nA venturosa grei, que no meneio<br \/>\n87 Traz a mol\u00e9stia e o pudor na cara.<\/p>\n<p>Tomada foi, por\u00e9m, de tanto enleio,<br \/>\nPor minha sombra em vendo a luz cortada<br \/>\n90 A destra, em dire\u00e7\u00e3o da rocha ao seio,<\/p>\n<p>Que a vanguarda parou, como torvada:<br \/>\nPelos mais sem deten\u00e7a foi seguida,<br \/>\n93 Mas sem lhes star a causa revelada.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cA explica\u00e7\u00e3o previno apetecida:<br \/>\nQue um vivo corpo vedes confesso<br \/>\n96 E a luz do sol por este interrompida.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o haja em v\u00f3s de maravilha excesso;<br \/>\nDo c\u00e9u pela virtude socorrido,<br \/>\n99 Da montanha atingir quer o cabe\u00e7o.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Disse Virg\u00edlio. \u2014 E foi-lhe respondido:<br \/>\n\u2014 \u201cVoltai-vos; caminhai de n\u00f3s diante.\u201d \u2014<br \/>\n102 E o lugar indicavam referido.<\/p>\n<p>286<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSem que um momento deixes ir avante,<br \/>\nQuem quer que sejas, olha-me e declara\u201d, \u2014<br \/>\n105 Disse um deles, \u2014 \u201cse h\u00e1s visto o meu<br \/>\nsemblante.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Volvi-me, olhos fitando em quem falara.<br \/>\nFormoso e louro, tinha her\u00f3ico aspeito;<br \/>\n108 Um golpe o seu sobrolho separara.<\/p>\n<p>Tornei-lhe \u2014 \u201cn\u00e3o\u201d \u2014 tomado de respeito.<br \/>\n\u2014 \u201cOlha!\u201d \u2014 falou a sombra me indicando<br \/>\n111 Larga ferida no alto do seu peito.<\/p>\n<p>\u201cV\u00eas Manfredo \u2014 sorriu-se me falando \u2014<br \/>\nQue neto foi da Imperatriz Constan\u00e7a.<br \/>\n114 A minha bela filha diz, voltando,<\/p>\n<p>(M\u00e3e daqueles por quem tanta honra alcan\u00e7a<br \/>\nArag\u00e3o com Sic\u00edlia) o que h\u00e1s sabido,<br \/>\n117 Qual a verdade seja lhe afian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cDepois que foi o corpo meu ferido<br \/>\nDe golpes dois mortais, a Deus piedoso<br \/>\n120 Alma entreguei, chorando arrependido.<\/p>\n<p>\u201cFui de horrendos pecados criminoso,<br \/>\nMas a Bondade Infinda acolhe e abra\u00e7a<br \/>\n123 Quem perd\u00e3o lhe suplica pesaroso.<\/p>\n<p>\u201cSe o Bispo que enviou Clemente \u00e0 ca\u00e7a<\/p>\n<p>287<\/p>\n<p>Do meu cad\u00e1ver, respeitado houvesse<br \/>\n126 Esse preceito da Divina Gra\u00e7a,<\/p>\n<p>\u201cDo corpo meu os ossos me parece,<br \/>\nQue em frente \u00e0 ponte, ao p\u00e9 de Benevento,<br \/>\n129 Em guarda o grave acervo inda tivesse.<\/p>\n<p>\u201cAgora os banha a chuva e a\u00e7outa o vento,<br \/>\nDo reino meu distantes, junto ao Verde,<br \/>\n132 Onde os lan\u00e7ou sem luz, sem saimento.<\/p>\n<p>\u201cMas an\u00e1tema tanto alma n\u00e3o perde<br \/>\nQue, quando verde a esp\u2019ran\u00e7a lhe floresce,<br \/>\n135 Do eterno amor do Criador deserde.<\/p>\n<p>\u201cPor certo, em contum\u00e1cia o que fenece<br \/>\nContra a Igreja, ainda quando se arrependa<br \/>\n138 Na hora extrema sua, aqui padece<\/p>\n<p>\u201cTempo, que trinta vezes compreenda<br \/>\nDa impenit\u00eancia o espa\u00e7o, se ao decreto<br \/>\n141 Preces n\u00e3o trazem benfazeja emenda.<\/p>\n<p>\u201cV\u00eas, pois, que podes me tornar quieto:<br \/>\nRevelando \u00e0 piedade de Constan\u00e7a<br \/>\nQue interdito me h\u00e1s visto ainda exceto<\/p>\n<p>145 Pelas preces de l\u00e1 muito se alcan\u00e7a.\u201d \u2014<\/p>\n<p>288<\/p>\n<p>25. Surge V\u00e9sper etc., o cad\u00e1ver de Virg\u00edlio de Brindes<br \/>\nfoi<br \/>\ntransportado para N\u00e1poles, onde, neste momento, descia a<br \/>\nnoite. \u2014 37. Vos baste o guia, chega saber o que \u00e9, sem<br \/>\nprocurar a raz\u00e3o. \u2014 50. De L\u00e9ria a T\u00farbia, o caminho<br \/>\nentre<br \/>\nestas duas aldeias da Lig\u00faria. \u2014 112. Manfredo, filho do<br \/>\nimperador Frederico II e neto da imperatriz Constan\u00e7a. \u2014 114-<br \/>\n16. Minha bela filha, Constan\u00e7a, esposa de Pedro III de Arag\u00e3o<br \/>\nteve dois filhos: Jaime que sucedeu ao pai em Arag\u00e3o e<br \/>\nFrederico, rei de Sic\u00edlia. \u2014 124. Se o bispo etc., Bartolomeu<br \/>\nPignatelli, bispo de Cosenza, por ordem do papa Clemente IV,<br \/>\ndesenterrou o corpo de Manfredo, que era excomungado, e o<br \/>\nmandou jogar no Rio Verde. \u2014 133. An\u00e1tema, excomunh\u00e3o<br \/>\ndos<br \/>\npapas.<\/p>\n<p>289<\/p>\n<p>CANTO IV<\/p>\n<p>Seguindo os conselhos recebidos, os Poetas, atrav\u00e9s de um<br \/>\ncaminho apertado e dif\u00edcil, sobem ao primeiro salto. Virg\u00edlio<br \/>\nexplica a Dante que, encontrando-se em hemisf\u00e9rio ant\u00edpoda<br \/>\n\u00e0quela terra, o Sol gira em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria.<br \/>\nVendo muitas almas<br \/>\nrecolhidas \u00e0 sombra de um rochedo, e aproximando-se a elas,<br \/>\nDante reconhece o seu amigo Belacqua. Ai est\u00e3o os esp\u00edritos<br \/>\npregui\u00e7osos dos que esperaram para arrepender-se o termo da<br \/>\nvida.<\/p>\n<p>QUANDO ou pelo prazer ou por desgosto<br \/>\nDas faculdades uma \u00e9 possu\u00edda,<br \/>\n3 Concentrando-se, o esp\u00edrito indisposto<\/p>\n<p>Se mostra \u00e0 a\u00e7\u00e3o, de outra qualquer nascida;<br \/>\nVerdade, que refuta a cren\u00e7a errada<br \/>\n6 \u2014 Quem em n\u00f3s uma alma est\u00e1 noutra<br \/>\nacendida.<\/p>\n<p>E, pois, se vendo, ouvindo, alma engolfada,<br \/>\nLia-se \u00e0 cousa, que a aten\u00e7\u00e3o cativa,<br \/>\n9 Sem sentir vai-lhe o tempo \u00e0 desfilada.<\/p>\n<p>Pois faculdade s\u00f3 no ouvir ativa<br \/>\nDifere dessa, em que alma se domina:<br \/>\n12 Uma presa, outra a v\u00ednculos se esquiva.<\/p>\n<p>290<\/p>\n<p>Experi\u00eancia ao claro isto me ensina.<br \/>\nAquela sombra at\u00f4nito escutando,<br \/>\n15 J\u00e1 com cinq\u00fcenta graus o sol se empina,<\/p>\n<p>Sem que eu me apercebido houvesse, quando<br \/>\nAo ponto fomos, onde a turba, unida,<br \/>\n18 \u2014 \u201cHaveis o que anelais!\u201d \u2014 disse, bradando.<\/p>\n<p>Estando a vinha j\u00e1 madurecida,<br \/>\nPelo alde\u00e3o de espinhos com bra\u00e7ada<br \/>\n21 Da sebe a estreita aberta \u00e9 defendida.<\/p>\n<p>Mais larga \u00e9 que a vereda alcantilada<br \/>\nPor onde fui subindo ap\u00f3s meu Guia,<br \/>\n24 Quando a grei nos deixou aben\u00e7oada.<\/p>\n<p>A Noli e a San-Leo por \u00e1rdua via<br \/>\nCom p\u00e9s se vai, Bism\u00e2ntua assim se alcan\u00e7a;<br \/>\n27 Ter asas de ave aqui mister seria;<\/p>\n<p>Ou asas de um desejo, que n\u00e3o cansa,<br \/>\nPara o vate seguir que, desvelado,<br \/>\n30 Me servia de luz, me dava esp\u2019ran\u00e7a.<\/p>\n<p>Por carreiro entre penhas escavado,<br \/>\nSempre de agudas pontas empecido,<br \/>\n33 Pelas m\u00e3os cada passo era ajudado.<\/p>\n<p>Chegados da alta escarpa ao topo erguido<\/p>\n<p>291<\/p>\n<p>Da emin\u00eancia no dorso descoberto,<br \/>\n36 \u2014 \u201cPor onde ir\u201d\u2014 disse ent\u00e3o \u2014\u201cMestre<br \/>\nquerido?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEia!\u201d \u2014 tornou \u2014 \u201cn\u00e3o d\u00eas<br \/>\num passo incerto!<br \/>\nVai subindo ap\u00f3s mim pela montanha;<br \/>\n39 Guia acharemos no caminho esperto.\u201d \u2014<\/p>\n<p>N\u00e3o mede a vista eleva\u00e7\u00e3o tamanha:<br \/>\nLinha que o centro corte de um quadrante,<br \/>\n42 Por certo a ingrimidez n\u00e3o lhe acompanha.<\/p>\n<p>Sem for\u00e7as j\u00e1, falei-lhe titubante:<br \/>\n\u2014 \u201cVolve a face, pai meu: olha piedoso<br \/>\n45 Que s\u00f3 me deixas, indo por diante\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPara ali, filho\u201d \u2014 diz \u2014 \u201cte al\u00e7a<br \/>\nanimoso!\u201d \u2014<br \/>\nE o seu bra\u00e7o indicava uma planura,<br \/>\n48 Que torneia o declive temeroso.<\/p>\n<p>Dessas vozes esfor\u00e7a-me a do\u00e7ura<br \/>\nTanto, que a rastos lhe seguia o passo<br \/>\n51 At\u00e9 meus p\u00e9s tocarem nessa altura.<\/p>\n<p>Sentamo-nos a par, ent\u00e3o, de espa\u00e7o<br \/>\nAo nascente voltados, qual viageiro<br \/>\n54 A estrada olhando, que calcara lasso;<\/p>\n<p>Abaixo os olhos dirigi primeiro,<br \/>\nAo sol voltei depois; notei pasmado<\/p>\n<p>292<\/p>\n<p>57 Da esquerda o lume vir desse luzeiro.<\/p>\n<p>Disse Virg\u00edlio ao ver quanto enleado<br \/>\nStava, o carro da luz considerando<br \/>\n60 Que era entre n\u00f3s e o Aquil\u00e3o entrado:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe um e outro hemisf\u00e9rio alumiando,<br \/>\nCastor e P\u00f3lux junto a si tivera<br \/>\n63 O vasto espelho, que ora est\u00e1 brilhando,<\/p>\n<p>\u201cDa Ursa ainda mais prop\u00ednqua \u00e0 esfera,<br \/>\nA roda do Zod\u00edaco observaras,<br \/>\n66 Se a costumada estrela n\u00e3o perdera.<\/p>\n<p>\u201cMeditando, a verdade logo acharas,<br \/>\nSe colocados de Si\u00e3o o monte,<br \/>\n69 E este outro na terra imaginaras,<\/p>\n<p>\u201cAmbos guardando id\u00eantico horizonte<br \/>\nE hemisf\u00e9rios diversos, onde passa<br \/>\n72 Estrada, em que t\u00e3o mal correu Fetonte,<\/p>\n<p>\u201cE se a raz\u00e3o em ti n\u00e3o for escassa,<br \/>\nVer\u00e1s que, enquanto a um vai por um lado,<br \/>\n75 Ao outro pelo oposto o sol perpassa.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTanto ao claro jamais, \u00f3 Mestre amado,<br \/>\nComo ora, o meu esp\u2019rito compreendera,<br \/>\n78 Quando estava por d\u00favida nublado.<\/p>\n<p>293<\/p>\n<p>\u201cQue o c\u00edrc\u2019lo m\u00e9dio da mais alta esfera,<br \/>\nQue sempre Equador chama-se em certa arte<br \/>\n81 Entre o inverno e o sol se considera,<\/p>\n<p>\u201cDeve (se pude a mente penetrar-te)<br \/>\nPara o norte volver-se, e, no entretanto,<br \/>\n84 Viam-no Hebreus de \u00c1ustro pela parte.<\/p>\n<p>\u201cAgora, se te apraz, dize-me quanto<br \/>\nHemos de andar; que os olhos, da emin\u00eancia<br \/>\n87 N\u00e3o atingindo o fim, se enchem de espanto.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDa montanha\u201d \u2014 responde \u2014 \u201c\u00e9<br \/>\na excel\u00eancia<br \/>\nFadiga no come\u00e7o causar grave;<br \/>\n90 Quem mais sobe acha menos resist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cAo tempo, em que te parecer suave<br \/>\nTanto, que a subas \u00e1gil e ligeiro,<br \/>\n93 Como descendo da \u00e1gua o curso a nave,<\/p>\n<p>\u201cNo termo te achar\u00e1s deste carreiro:<br \/>\nAp\u00f3s af\u00e3 desfrutar\u00e1s repouso:<br \/>\n96 Quanto digo h\u00e1s de ver que \u00e9 verdadeiro\u201d \u2014<\/p>\n<p>Mal acabando o Mestre carinhoso,<br \/>\nPerto soa uma voz: \u2014 \u201cTalvez te seja,<br \/>\n99 Antes de l\u00e1 chegar, preciso um pouso.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Volveu-se cada qual para que veja<br \/>\nQuem falara; alta penha deparamos;<\/p>\n<p>294<\/p>\n<p>102 Ent\u00e3o s\u00f3 vemos que \u00e0 m\u00e3o sestra esteja.<\/p>\n<p>Multid\u00e3o, cercando-nos, achamos<br \/>\nQue \u00e0 sombra demorava quietamente;<br \/>\n105 Por des\u00eddia detidos os julgamos.<\/p>\n<p>Mostra-se um mais que os outros negligente:<br \/>\nSentado abra\u00e7a as pernas, tendo o rosto<br \/>\n108 Recostado aos joelhos, qual dormente.<\/p>\n<p>Disse ent\u00e3o: \u2014 \u201cV\u00ea senhor, quanto disposto<br \/>\n\u00c9 \u00e0 in\u00e9rcia o que ali st\u00e1 parecendo:<br \/>\n111 Como irm\u00e3o da pregui\u00e7a fica posto.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Ele um pouco voltou-se olhos movendo<br \/>\nPara o meu lado, sem mudar postura,<br \/>\n114 \u2014 \u201cPois vai tu, que \u00e9s valente!\u201d \u2014 me dizendo.<\/p>\n<p>Reconheci quem era. Inda me dura<br \/>\nDa agra ascens\u00e3o em parte o grande of\u00eago;<br \/>\n117 Mas endere\u00e7o os passos \u00e0 figura.<\/p>\n<p>A fronte mal ergueu, quando me achego.<br \/>\n\u2014 \u201cComo conduz o sol carro \u00e0 esquerda<br \/>\n120 Tens reparado?\u201d \u2014 disse com sossego.<\/p>\n<p>Por meneio t\u00e3o lento e voz t\u00e3o lerda<br \/>\nFui algum tanto a riso provocado.<br \/>\n123 \u2014 \u201cBelacqua\u201d \u2014 disse eu \u2014 \u201cmas a tua<br \/>\nperda<\/p>\n<p>295<\/p>\n<p>N\u00e3o choro. Por que est\u00e1s aqui sentado?<br \/>\nEsperas guia? Acaso, como outrora,<br \/>\n126 Da pregui\u00e7a te sentes cativado?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Tornou-me: \u2014 \u201cIrm\u00e3o, subir que importa agora?<br \/>\nDe Deus o anjo, que defende a entrada,<br \/>\n129 Me deixaria dos mart\u00edrios fora.<\/p>\n<p>\u201cTanto a porta me tem de ser vedada,<br \/>\nQuanto no mundo me durara a vida:<br \/>\n132 Pesei-me s\u00f3 a morte ao ver chegada.<\/p>\n<p>\u201cMas antes ser me pode permitida<br \/>\nPela ora\u00e7\u00e3o de quem da Gra\u00e7a goza;<br \/>\n135 Que vai outra, do c\u00e9u desatendida?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Mas o Vate seguia na penosa<br \/>\nJornada. \u2014 \u201cVem!\u201d \u2014 dizia \u2014 \u201cResplandece<br \/>\nO sol no meio-dia; e tenebrosa<\/p>\n<p>139 Sobre Marrocos ora a Noite desce.\u201d \u2014<\/p>\n<p>5. A cren\u00e7a errada etc., de atribuir ao homem diversas almas,<br \/>\ncren\u00e7a dos plat\u00f4nicos e dos maniqueus. \u2014 15. J\u00e1<br \/>\ncom cinq\u00fcenta<br \/>\ngraus etc., o Sol percorre 15 graus por hora; portanto haviam<br \/>\npassado quase 3 horas e meia. \u2014 25-26. Noli, na Lig\u00faria; S\u00e3o<br \/>\nLeo, perto de Urbino; Bism\u00e2ntua, perto de Urbino. \u2014 57. Da<br \/>\nesquerda etc., o Purgat\u00f3rio se encontra num hemisf\u00e9rio<br \/>\nant\u00edpoda, e portanto o sol aparecia a Dante pela esquerda<br \/>\nquando no nosso hemisf\u00e9rio parece levantar-se \u00e0 direita e<br \/>\ncaminhar \u00e0 esquerda. \u2014 68. Si\u00e3o, Jerusal\u00e9m, que<br \/>\n\u00e9 o lugar<\/p>\n<p>296<\/p>\n<p>ant\u00edpoda ao Purgat\u00f3rio. \u2014 123. Belacqua, florentino,<br \/>\nfabricante<br \/>\nde instrumentos musicais, amigo de Dante. \u2014 139. Sobre<br \/>\nMarrocos, sendo meio-dia no Purgat\u00f3rio, em Jerusal\u00e9m, no<br \/>\nhemisf\u00e9rio oposto, era meia-noite, e a noite come\u00e7ava em<br \/>\nMarrocos.<\/p>\n<p>297<\/p>\n<p>CANTO V<\/p>\n<p>Prosseguindo os dois Poetas a sua viagem, encontram uma<br \/>\nmultid\u00e3o de almas que se aproximam deles, depois de ter<br \/>\npercebido que Dante \u00e9 vivo. S\u00e3o esp\u00edritos de pessoas<br \/>\nque sa\u00edram<br \/>\nda vida por morte violenta, mas no fim se arrependeram e<br \/>\nperdoaram a seus inimigos.<\/p>\n<p>OS passos do meu Guia acompanhando,<br \/>\nDessas almas um pouco era distante,<br \/>\n3 Quando uma, atr\u00e1s de n\u00f3s, o dedo al\u00e7ando,<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVede! A luz\u201d \u2014 exclamou \u2014 \u201cn\u00e3o<br \/>\n\u00e9 brilhante<br \/>\n\u00c0 sestra do que vai mais demorado;<br \/>\n6 Pelo meneio a um vivo \u00e9 semelhante.\u201d<\/p>\n<p>Olhos volvi daquela voz ao brado,<br \/>\nE as vi notar, de maravilha cheias,<br \/>\n9 Como eu, andando, a sombra tinha ao lado.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor que tanto, \u00f3 meu filho, assim te enleias?\u201d<br \/>\nDisse o Mestre. \u2014 \u201cPor que det\u00e9ns o passo?<br \/>\n12 Acaso o murmurar daqui receias?<\/p>\n<p>\u201cSegue-me: a vozes v\u00e3s ouvido escasso!<br \/>\nQual torre, inabal\u00e1vel s\u00ea, dos ventos<br \/>\n15 \u00c0 f\u00faria opondo v\u00e1lido embara\u00e7o;<\/p>\n<p>298<\/p>\n<p>\u201cQuem firmeza n\u00e3o tem nos pensamentos,<br \/>\nDo fim se aparta, a que alma se endere\u00e7a<br \/>\n18 E, assim, malogra, inst\u00e1vel, seus intentos.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSigo-te!\u201d \u2014 ao Mestre meu tornei depressa.<br \/>\nCumpria assim falar; meu voto incende<br \/>\n21 O rubor, que ao perd\u00e3o a falta apressa.<\/p>\n<p>Entanto por atalho a costa ascende<br \/>\nAdiante de n\u00f3s turba cantando<br \/>\n24 Devota Miserere, e ao cimo tende.<\/p>\n<p>Ao ver que estava o corpo meu vedando<br \/>\nDos luminosos raios a passagem<br \/>\n27 O canto suspendeu, rouco \u201coh!\u201d soltando<\/p>\n<p>E dois dos seus em forma de mensagem<br \/>\nCorrendo contra n\u00f3s assim falaram:<br \/>\n30 \u201cQuem sois, que assim fazeis esta viagem?\u201d<\/p>\n<p>Disse Virg\u00edlio: \u2014 \u201cAos que vos enviaram<br \/>\nTornai que ao corpo do homem que estais vendo<br \/>\n33 Vitais alentos inda n\u00e3o deixaram.<\/p>\n<p>\u201cSe os passos, como cuido, est\u00e3o detendo,<br \/>\nPor ver-lhe a sombra, a causa \u00e9 conhecida;<br \/>\n36 Ter\u00e3o proveito, as honras lhe fazendo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Mais prontos que os vapores \u00e0 descida<\/p>\n<p>299<\/p>\n<p>Da noite, o ar sereno aluminando,<br \/>\n39 Ou n\u00e9voa, ao p\u00f4r do sol, do c\u00e9u varrida,<\/p>\n<p>Partem, \u00e0 grei de novo se ajuntando;<br \/>\nComo esquadr\u00e3o, que corre \u00e0 desfilada,<br \/>\n42 Voltam todos, a n\u00f3s se arremessando.<\/p>\n<p>\u201cAo nosso encontro vem turba avultada;<br \/>\nPretens\u00f5es todos t\u00eam\u201d \u2014 disse-me o Guia<br \/>\n45 \u2014 \u201cAndando, os ouve; n\u00e3o conv\u00e9m parada.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 alma, que do c\u00e9u vais \u00e0 alegria<br \/>\nNo pr\u00f3prio corpo, em que feliz nasceste,<br \/>\n48 Demora o passo um pouco\u201d \u2014 a grei dizia,<\/p>\n<p>\u201cDe entre n\u00f3s v\u00ea se algu\u00e9m reconheceste<br \/>\nPara ao mundo levares a not\u00edcia;<br \/>\n51 Por que deter-te ainda n\u00e3o quiseste?<\/p>\n<p>\u201cMorte a todos causou cruel nequ\u00edcia;<br \/>\nPecamos sempre at\u00e9 que \u00e0 final hora<br \/>\n54 Do c\u00e9u a luz se nos mostrou prop\u00edcia.<\/p>\n<p>\u201cAssim, contritos, perdoando, fora<br \/>\nFomos da vida, a paz com Deus j\u00e1 feita;<br \/>\n57 De o ver desejo nos acende agora.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cA fei\u00e7\u00e3o vossa\u201d \u2014 eu disse \u2014<br \/>\n\u201c\u00e9 t\u00e3o desfeita,<br \/>\nQue nenhum reconhe\u00e7o; mas, se acaso<br \/>\n60 Ser \u00fatil posso no que a v\u00f3s respeita,<\/p>\n<p>300<\/p>\n<p>\u201cPela paz, a servir-vos j\u00e1 me emprazo,<br \/>\nQue busco, deste s\u00e1bio acompanhado,<br \/>\n63 De mundo em mundo, no mais breve prazo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cCada qual\u201d \u2014 me tornou \u2014 \u201cest\u00e1 confiado<br \/>\nEm ti, mister n\u00e3o h\u00e1 teu juramento,<br \/>\n66 Se n\u00e3o faltar poder ao teu bom grado.<\/p>\n<p>\u201cAos outros me antecipo: ao rogo atento,<br \/>\nTu se fores \u00e0 terra que demora<br \/>\n69 Entre a Romanha e a que \u00e9 de Carlo assento,<\/p>\n<p>\u201cAos meus em Fano compassivo exora<br \/>\nQue com preces sufraguem-me piedosos<br \/>\n72 Para o mal expurgar que fiz outrora.<\/p>\n<p>\u201cNasci l\u00e1, sofri golpes espantosos,<br \/>\nQue a exist\u00eancia cortaram-me t\u00e3o cara,<br \/>\n75 De Anten\u00f3rios nos planos pantanosos,<\/p>\n<p>\u201cOnde o funesto fim nunca esperara.<br \/>\nAssim o quis do Marqu\u00eas d\u2019Este a ira,<br \/>\n78 Que o ex\u00edcio meu injusto aparelhara.<\/p>\n<p>\u201cAh! se, fugindo, me acolhesse a Mira<br \/>\nQuando alcan\u00e7ou-me de Oriais perto,<br \/>\n81 Eu fora inda hoje aonde se respira.<\/p>\n<p>\u201cMas, correndo ao paul, sem rumo certo,<\/p>\n<p>301<\/p>\n<p>Ca\u00ed, no ceno e juncos enleado:<br \/>\n84 De sangue um lago fez meu peito aberto.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSe for\u201d \u2014 outro ent\u00e3o disse \u2014 \u201cexecutado<br \/>\nDesejo que te impele ao alto monte,<br \/>\n87 S\u00ea por mim de piedade impressionado.<\/p>\n<p>\u201cDe Montefeltro fui e fui Buonconte;<br \/>\nDe mim Joana, e ningu\u00e9m mais, n\u00e3o cura;<br \/>\n90 Entre todos por isso abaixo a fronte.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue for\u00e7a \u2014 que m\u00e1 ventura<br \/>\nT\u00e3o longe te arrastou de Campaldino,<br \/>\n93 Que se ignora onde tens a sepultura?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cOh!\u201d \u2014 replicou-me \u2014 \u201cAo p\u00e9<br \/>\nde Casentino<br \/>\nUm rio passa que se chama Arquiano,<br \/>\n96 Nascido l\u00e1 sobre o Ermo, no Apenino.<\/p>\n<p>\u201cDe dor l\u00e1 onde o perde o nome, insano,<br \/>\nCheguei: ao p\u00e9 fugia, e, traspassado,<br \/>\n99 O colo meu ensang\u00fcentava o plano.<\/p>\n<p>\u201cDa vista e fala ao ser desamparado,<br \/>\nNo suspiro final bradei \u2014 Maria! \u2014<br \/>\n102 E o corpo meu tombou, da alma deixado.<\/p>\n<p>\u201cDirei verdade: aos vivos o anuncia.<br \/>\nDe Deus anjo tomando-me, o do inferno<br \/>\n105 \u2014 \u201cServo do C\u00e9u, mo tomas?\u201d lhe bramia.<\/p>\n<p>302<\/p>\n<p>\u201cDele me usurpas o princ\u00edpio eterno<br \/>\nPor uma t\u00eanue l\u00e1grima fingida;<br \/>\n108 Mas do seu corpo cabe-me o governo.<\/p>\n<p>\u201cBem sabes que nos ares recolhida<br \/>\nVaporosa umidade em chuva desce,<br \/>\n111 Quando \u00e9 do frio \u00e0s regi\u00f5es subida<\/p>\n<p>\u201cComo quem com maldade o engenho tece,<br \/>\nN\u00e9voas e vento acumulava, usando<br \/>\n114 Da pujan\u00e7a infernal que lhe obedece.<\/p>\n<p>\u201cDepois, o dia terminado estando,<br \/>\nDo Pratomagno \u00e0 serra, o vale envolve<br \/>\n117 Em treva, ao c\u00e9u a ab\u00f3bada enlutando.<\/p>\n<p>\u201cT\u00famido o ar, em catadupas volve,<br \/>\nE a \u00e1gua que na terra n\u00e3o se entranha,<br \/>\n120 Espumosa em torrentes se revolve.<\/p>\n<p>\u201cVeloz os \u00e1lveos aos arroios ganha,<br \/>\nE para o r\u00e9gio rio se arrojando,<br \/>\n123 Os \u00f3bices abate, que se assanha.<\/p>\n<p>\u201cJunto \u00e0 foz meu cad\u00e1ver encontrando<br \/>\nLevanta-o Arquiano impetuoso<br \/>\n126 Ao Arno o impele, os bra\u00e7os desligando<\/p>\n<p>\u201cDa cruz que fiz no transe doloroso.<\/p>\n<p>303<\/p>\n<p>Por fundo e margens rola-o, sepultado<br \/>\n129 Na areia o deixa, que arrastara iroso.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAh! quando \u00e0 luz do mundo hajas tornado,<br \/>\nQuando repouses da jornada extensa\u201d \u2014<br \/>\n132 Foi por terceiro esp\u00edrito impetrado:<\/p>\n<p>\u201cDe Pia recordando-te, em mim pensa;<br \/>\nSiena fizera o que desfez Marema.<br \/>\nSabe-o quem me esposara e em recompensa<\/p>\n<p>136 No dedo p\u00f4s-me anel com rica gema.\u201d \u2014<\/p>\n<p>24. Miserere, o salmo que come\u00e7a com essa palavra. \u2014 68-69.<br \/>\nA<br \/>\nterra que demora etc., a Marca de Ancona. \u2014 73. Nasci l\u00e1 etc.<br \/>\nQuem fala \u00e9 Jacopo de Cassero, de Fano, que foi assassinado<br \/>\npelos sic\u00e1rios do Marqu\u00eas Azzo III d\u2019Este, quando se dirigia<br \/>\na<br \/>\nMil\u00e3o, em 1298. \u2014 75. De Anten\u00f3rios etc. no territ\u00f3rio<br \/>\nde P\u00e1dua<br \/>\n(cidade que se diz fundada por Antenor). \u2014 88. Buonconte de<br \/>\nMontefeltro, filho de Guido (Inf. XXVII), capit\u00e3o gibelino, morreu<br \/>\nna batalha de Campaldino. \u2014 89. Joana, sua esposa. \u2014 96.<br \/>\nErmo de Camaldoli. \u2014 122. Regio rio, o Arno. \u2014 133. Pia del<br \/>\nGuastelloni. Casada com um gentil-homem da fam\u00edlia Tolomei,<br \/>\nficou vi\u00fava e casou novamente com Nello Pannocchieschi, que a<br \/>\nfez matar, talvez desconfiado da sua fidelidade, num castelo da<br \/>\nMarema, em 1295.<\/p>\n<p>304<\/p>\n<p>CANTO VI<\/p>\n<p>Dante promete \u00e0s almas que a eles se recomendaram que n\u00e3o se<br \/>\nesquecer\u00e1 delas quando voltar ao mundo dos vivos. Os dois<br \/>\nPoetas encontram o poeta Sordello, o qual, ao ouvir o nome da<br \/>\nsua p\u00e1tria, M\u00e2ntua, abra\u00e7a o mantuano Virg\u00edlio.<br \/>\nEsse espis\u00f3dio<br \/>\nmove Dante a uma violenta invectiva contra as divis\u00f5es e as<br \/>\nguerras internas que devastam a It\u00e1lia.<\/p>\n<p>QUANDO o jogo da zara \u00e9 terminado,<br \/>\nNa amargura, o que perde, s\u00f3 ficando,<br \/>\n3 Os bons lances ensaia contristado.<\/p>\n<p>A turba o vencedor acompanhando,<br \/>\nQual vai diante qual por tr\u00e1s o prende,<br \/>\n6 Ao lado qual se est\u00e1 recomendando:<\/p>\n<p>A este e \u00e0quele sem deter-se atende;<br \/>\nO que lhe alcan\u00e7a a m\u00e3o parte se apressa;<br \/>\n9 De importunos desta arte se defende.<\/p>\n<p>Cerca-me assim a multid\u00e3o espessa,<br \/>\nOra a uns ora a outros me volvendo,<br \/>\n12 De cada qual me livro por promessa.<\/p>\n<p>O Aretino aqui stava: golpe horrendo,<br \/>\nDe Ghin Tacco por mau, cortou-lhe a vida,<\/p>\n<p>305<\/p>\n<p>15 E o que na fuga se afogou, horrendo.<\/p>\n<p>Aqui rogou-me em s\u00faplica sentida,<br \/>\nFrederico Novello e esse Pisano<br \/>\n18 Por quem Mazucco a\u00e7\u00e3o fez t\u00e3o subida.<\/p>\n<p>Vi o Conde Orso e aquele que o seu dano<br \/>\nMortal, pelo \u00f3dio e inveja, recebera,<br \/>\n21 Como dizia, n\u00e3o por feito insano.<\/p>\n<p>Aludo a Pedro Brosse. A que ora impera,<br \/>\nDo Brabante, se apressa a ter cautela,<br \/>\n24 Se n\u00e3o, da grei maldita a est\u00e2ncia a espera.<\/p>\n<p>Quando enfim, pude me esquivar \u00e0quela<br \/>\nTurba, que preces s\u00f4frega pedia<br \/>\n27 Para a entrada apressar na mans\u00e3o bela,<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEm texto expresso\u201d \u2014 eu disse \u2014 \u201c\u00f3<br \/>\ndouto<br \/>\nGuia,<br \/>\nDo teu livro afirmaste que a vontade<br \/>\n30 Do c\u00e9u por ora\u00e7\u00f5es n\u00e3o se movia.<\/p>\n<p>\u201cMas pede-as essa grei com ansiedade:<br \/>\nSeria acaso v\u00e3 sua esperan\u00e7a?<br \/>\n33 Ou compreender n\u00e3o pude essa verdade?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSeu sentido a tua mente\u201d \u2014 disse \u2014 \u201calcan\u00e7a;<br \/>\nPor v\u00e3 essa esperan\u00e7a n\u00e3o falece;<br \/>\n36 Quanto \u00e9 certa a raz\u00e3o n\u00f4-lo afian\u00e7a:<\/p>\n<p>306<\/p>\n<p>\u201cA Justi\u00e7a do c\u00e9u n\u00e3o desfalece,<br \/>\nPorque flama de amor num s\u00f3 momento<br \/>\n39 O devedor redime, que padece.<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 onde expus aquele pensamento<br \/>\nN\u00e3o podia ora\u00e7\u00e3o solver pecado,<br \/>\n42 Pois distante de Deus estava o intento.<\/p>\n<p>\u201cPor\u00e9m neste problema sublimado<br \/>\n\u00c0 mente por que h\u00e1 suma ci\u00eancia<br \/>\n45 Te ser\u00e1 puro lume revelado.<\/p>\n<p>\u201cPor quem? Por Beatriz. A contin\u00eancia<br \/>\nFeliz ridente lhe ver\u00e1s, ao viso<br \/>\n48 Quando houveres subido da emin\u00eancia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Tornei: \u2014 \u201cAndar mais presto ora \u00e9 preciso;<br \/>\nComo de antes, n\u00e3o sinto mor fadiga,<br \/>\n51 E da montanha a sombra j\u00e1 diviso.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cComo podemos, \u00e9 mister prossiga<br \/>\nO passo, enquanto o dia n\u00e3o se finda;<br \/>\n54 Mas te engana o desejo que te instiga.<\/p>\n<p>\u201cAntes do cimo aguardar\u00e1s a vinda<br \/>\nDesse astro oculto agora pela encosta;<br \/>\n57 N\u00e3o refranges os raios seus ainda.<\/p>\n<p>\u201cAquela sombra v\u00ea, de parte posta,<\/p>\n<p>307<\/p>\n<p>Que, em soledade, atenta nos esguarda:<br \/>\n60 A vereda dir\u00e1 melhor disposta.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Chegamo-nos. \u00d3 nobre alma lombarda,<br \/>\nComo estavas altiva e desdenhosa.<br \/>\n63 Dos olhos no meneio grave e tarda!<\/p>\n<p>Ela em n\u00f3s encarou silenciosa,<br \/>\nMas deixava-nos vir, nos observando,<br \/>\n66 Qual le\u00e3o no repouso, majestosa.<\/p>\n<p>Virg\u00edlio apropinquou-se, lhe rogando<br \/>\nNos mostrasse a mais c\u00f4moda subida:<br \/>\n69 Respondeu-lhe, somente perguntando<\/p>\n<p>Qual fora a p\u00e1tria nossa e a nossa vida.<br \/>\nA falar o meu Guia come\u00e7ava:<br \/>\n72 \u201cEm M\u00e2ntua&#8230;\u201d quando a sombra, comovida,<\/p>\n<p>A ele se enviou donde se achava,<br \/>\n\u201cSordello sou\u201d \u2014 dizendo \u2014 \u201cem M\u00e2ntua<br \/>\namada<br \/>\n75 Nasci tamb\u00e9m.\u201d \u2014 E amplexo os estreitava.<\/p>\n<p>Ah! serva It\u00e1lia, da afli\u00e7\u00e3o morada!<br \/>\nNau sem piloto em pego tormentoso!<br \/>\n78 Rainha outrora em lupanar tornada!<\/p>\n<p>Esse esp\u00edrito nobre e deleitoso<br \/>\nNome escutando s\u00f3 da doce terra,<br \/>\n81 Logo o patr\u00edcio acolhe carinhoso:<\/p>\n<p>308<\/p>\n<p>Os vivos raivam no teu solo em guerra;<br \/>\nSe encarni\u00e7a um no outro ferozmente<br \/>\n84 Os que um s\u00f3 muro, uma s\u00f3 cava encerra.<\/p>\n<p>Busca, \u00f3 m\u00edsera It\u00e1lia, diligente<br \/>\nNo mantimo teu, busca em teu seio:<br \/>\n87 Onde acha paz a tua infausta gente?<\/p>\n<p>Justiniano em v\u00e3o te ajeitar veio<br \/>\nA brida; a sela fica abandonada:<br \/>\n90 Maior vergonha te h\u00e1 causado o freio.<\/p>\n<p>Ah! C\u00faria! Aos teus deveres dedicada<br \/>\nDeixar-te cumpre a C\u00e9sar todo o mundo,<br \/>\n93 Como a lei quer por Cristo decretada!<\/p>\n<p>V\u00ea como, aos maus instintos se entregando<br \/>\nIra-se a fera por faltar-lhe espora,<br \/>\n96 Depois que in\u00e1bil m\u00e3o st\u00e1 governando.<\/p>\n<p>Alberto de Germ\u00e2nia! Atente agora<br \/>\nQue \u00e9 tornada ind\u00f4mita e bravia:<br \/>\n99 Cavalgado a deveras ter outrora!<\/p>\n<p>Do c\u00e9u justo castigo deveria<br \/>\nOs teus ferir \u2014 t\u00e3o novo e t\u00e3o sabido,<br \/>\n102 Que espante o sucessor da monarquia!<\/p>\n<p>Tu e o teu genitor heis consentido,<\/p>\n<p>309<\/p>\n<p>Distantes, por cobi\u00e7a, em terra estranha,<br \/>\n105 Que do Imp\u00e9rio o jardim steja esquecido.<\/p>\n<p>V\u00ea, descuidoso, na afli\u00e7\u00e3o tamanha,<br \/>\nCapelletti e Montecchi entristecidos.<br \/>\n108 Monaldi e Filippeschi, alvo de sanha.<\/p>\n<p>Vem, cruel, ver fi\u00e9is teus suprimidos:<br \/>\nDe tanto opr\u00f3brio seu toma vingan\u00e7a.<br \/>\n111 V\u00ea como em Santaflor est\u00e3o regidos!<\/p>\n<p>Vem ver tua Roma! De carpir n\u00e3o cansa!<br \/>\nVi\u00fava e s\u00f3 a todo o instante clama:<br \/>\n114 Vem, C\u00e9sar! Vem! N\u00e3o mates minha esp\u2019ran\u00e7a!<\/p>\n<p>Vem ver como a si pr\u00f3prio o povo se ama!<br \/>\nE se por n\u00f3s piedade n\u00e3o te move,<br \/>\n117 Mova-te o zelo pela tua fama!<\/p>\n<p>Se me \u00e9 dado dizer, Supremo Jove,<br \/>\nDos homens por amor sacrificado,<br \/>\n120 Mal tanto a nos olhar n\u00e3o te comove?<\/p>\n<p>Ou tens ao nosso mal aparelhado,<br \/>\nL\u00e1 dos conselhos teus no abismo imenso,<br \/>\n123 Algum bem, ao saber nosso vedado?<\/p>\n<p>As cidades de It\u00e1lia um tropel denso<br \/>\nDe tiranos subjuga e, qual Marcelo<br \/>\n126 Se aclama o faccioso, \u00e0 p\u00e1tria infenso.<\/p>\n<p>310<\/p>\n<p>H\u00e1s de, Floren\u00e7a minha, haver por belo<br \/>\nEste epis\u00f3dio a ti n\u00e3o referente,<br \/>\n129 Merc\u00ea do povo teu, de outros modelo.<\/p>\n<p>Muitos, justi\u00e7a tendo em peito e mente,<br \/>\nPor desfechar seu arco ensejo aguardam:<br \/>\n132 Teu povo a tem nos l\u00e1bios permanente.<\/p>\n<p>Muitos de encargos p\u00fablicos se guardam;<br \/>\nMas teu povo sol\u00edcito se of\u2019rece,<br \/>\n135 Gritando: \u2014 \u201dPronto estou! em darmos<br \/>\ntardam!\u201d \u2014<\/p>\n<p>Exulta! A causa o mundo bem conhece:<br \/>\nTens prud\u00eancia, tens paz, possuis riqueza.<br \/>\n138 Falo a verdade, e o efeito transparece.<\/p>\n<p>Atenas, Sparta, que a t\u00e3o suma alteza<br \/>\nPor leis e institui\u00e7\u00f5es se sublimaram,<br \/>\n141 Sem governo viveram na incerteza,<\/p>\n<p>Se, Floren\u00e7a, contigo se comparam,<br \/>\nQue em novembro tens visto revogadas<br \/>\n144 Leis sutis, que em outubro se forjaram.<\/p>\n<p>Quantas vezes h\u00e3o sido transformadas,<br \/>\nEm breve tempo, lei, moeda, usan\u00e7a?<br \/>\n147 Quantas \u00edndoles e forma renovadas?<\/p>\n<p>311<\/p>\n<p>Se v\u00eas ao claro e tens viva a lembran\u00e7a,<br \/>\nAo enfermo h\u00e1s de achar que \u00e9s semelhante,<br \/>\nQue, no leito jazendo, n\u00e3o descansa;<\/p>\n<p>151 Em v\u00e3o se agita, a dor vai por diante.<\/p>\n<p>1. Jogo da zara \u2014 jogo de dados. \u2014 13. O Aretino etc., o juiz<br \/>\nBenincasa de Laterina, que foi assassinado pelo famoso<br \/>\nbandoleiro Ghino del Tacco. \u2014 15. E o que etc., Guccio Tarlati,<br \/>\nde Pietramala, morreu afogado no Arno, perseguindo os<br \/>\ninimigos derrotados numa batalha. \u2014 17. Frederico Novello,<br \/>\nmorto ao socorrer os Tarlati de Pietramala. \u2014 Esse Pisano,<br \/>\nFarinata degli Scornegiani, morto a trai\u00e7\u00e3o. Seu pai Mazucco,<br \/>\nque se fizera frade, perdoou ao assassino do filho. \u2014 19. Conde<br \/>\nOrso degli Alberti, assassinado por um seu primo. \u2014 E aquele,<br \/>\nPedro Brosse, m\u00e9dico de Filipe III de Fran\u00e7a, enforcado sob<br \/>\nfalsas acusa\u00e7\u00f5es. \u2014 28-30. Em texto expresso etc. Virg\u00edlio<br \/>\nna<br \/>\n\u201cEneida\u201d (livro VI) negou que pudessem modificar-se os decretos<br \/>\ndo C\u00e9u. \u2014 42. Pois distante etc., a prece s\u00f3 foi aceita<br \/>\ndepois do<br \/>\nadvento do Cristianismo. \u2014 74. Sordello de\u2019 Visconti de M\u00e2ntua,<br \/>\npoeta, jurisconsulto e guerreiro do s\u00e9culo XIII. \u2014 88. Justiniano,<br \/>\nque consolidou a legisla\u00e7\u00e3o romana. \u2014 97. Alberto de Germ\u00e2nia,<br \/>\nAlberto I, filho do imperador Rodolfo, eleito em 1296. \u2014 107-8.<br \/>\nCappelletti e Montecchi, fam\u00edlias de Verona. Monaldi e<br \/>\nFilippeschi, fam\u00edlias de Orvieto. \u2014 111. Santaflor, feudo imperial<br \/>\nnas vizinhan\u00e7as de Siena. \u2014 118. Supremo Jove, Jesus Cristo.<br \/>\n\u2014 125. Qual Marcelo, Cl\u00e1udio Marcelo, advers\u00e1rio de J\u00falio<br \/>\nC\u00e9sar.<\/p>\n<p>312<\/p>\n<p>CANTO VII<\/p>\n<p>Sordello, ao saber que aquele que abra\u00e7ou \u00e9 Virg\u00edlio,<br \/>\nlhe faz<br \/>\nnovas e ainda maiores demonstra\u00e7\u00f5es de afeto. O Sol est\u00e1<br \/>\npr\u00f3ximo ao ocaso e ao Purgat\u00f3rio n\u00e3o se pode subir \u00e0<br \/>\nnoite.<br \/>\nGuiados por Sordello, os dois Poetas param num vale, onde<br \/>\nresidem os esp\u00edritos de personagens que no mundo desfrutaram<br \/>\nde grande considera\u00e7\u00e3o e que somente no fim da vida elevaram<br \/>\no<br \/>\nseu pensamento a Deus.<\/p>\n<p>DE doce afeto as m\u00fatuas mostras sendo<br \/>\nPor tr\u00eas ou quatro vezes reiterado<br \/>\n3 \u2014 \u201cQuem sois?\u201d \u2014 se retraiu Sordel dizendo.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTinha Ot\u00e1vio os meus ossos sepultado<br \/>\nJ\u00e1 quando a este monte se elevaram<br \/>\n6 Almas que ao bem havia Deus chamado.<\/p>\n<p>Virg\u00edlio sou: do c\u00e9u n\u00e3o me afastaram<br \/>\nPecados; me faltava a f\u00e9 somente.\u201d \u2014<br \/>\n9 Do meu Guia estas vozes lhe tornaram.<\/p>\n<p>Como quem ante si v\u00ea de repente<br \/>\nMaravilha: ora cr\u00ea, ora duvida,<br \/>\n12 E diz: \u2014 \u00c9 certo ou minha vista mente? \u2014<\/p>\n<p>Assim essa alma. Dobra a frente erguida<\/p>\n<p>313<\/p>\n<p>Humildemente, ao Vate se avizinha<br \/>\n15 E lhe abra\u00e7a os joelhos comovida.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 gl\u00f3ria dos Latinos!\u201d \u2014 disse asinha<br \/>\n\u2014<br \/>\nQue ergueste a l\u00edngua nossa a tanta altura!<br \/>\n18 Honra eterna da amada p\u00e1tria minha!<\/p>\n<p>\u201cDe ver-te o que me d\u00e1 gra\u00e7a e ventura?<br \/>\nDize, se di\u2019no de te ouvir hei sido,<br \/>\n21 De qual c\u00edrculo vens da est\u00e2ncia escura.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTenho aqui\u201d \u2014 Virg\u00edlio diz \u2014 \u201csubido,<br \/>\nDo triste reino os c\u00edrc\u2019los visitando,<br \/>\n24 Sou do c\u00e9u por virtude conduzido.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o por fazer, mas de fazer deixando,<br \/>\nVer o sol, que desejas, me \u00e9 vedado:<br \/>\n27 Conheci-o j\u00e1 tarde \u2014 ai miserando!<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 embaixo um lugar foi destinado<br \/>\nN\u00e3o a mart\u00edrio, \u00e0 treva onde h\u00e1 somente<br \/>\n30 Suspiros, n\u00e3o gemer de angustiado.<\/p>\n<p>\u201cAli stou eu, no meio da inocente<br \/>\nGrei, que a morte cruel mordeu, enquanto<br \/>\n33 Da culpa humana inda era dependente.<\/p>\n<p>\u201cCom aqueles stou eu, em quem seu manto<br \/>\nTr\u00eas celestes virtudes n\u00e3o lan\u00e7aram,<br \/>\n36 Lhes dando \u00e0 vista o mais suave encanto.<\/p>\n<p>314<\/p>\n<p>\u201cMas sabes se veredas se deparam<br \/>\nQue ao Purgat\u00f3rio a entrada facilitem?<br \/>\n39 Os ind\u00edcios nos diz, se te constaram.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Tornou: \u2014 \u201cLugar n\u00e3o h\u00e1, que almas habitem<br \/>\nAqui; na dire\u00e7\u00e3o vou, que me agrada;<br \/>\n42 Guiarei quanto os passos me permitem.<\/p>\n<p>\u201cMas v\u00ea: declina o dia; na jornada,<br \/>\nQue fazeis, caminhar a noite veda:<br \/>\n45 Busquemos s\u00edtio a c\u00f4moda pousada.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 destra e \u00e0 parte multid\u00e3o st\u00e1 queda:<br \/>\nIremos at\u00e9 l\u00e1, se acaso o queres,<br \/>\n48 Talvez te seja a sua vida leda.\u201d \u2014<\/p>\n<p>E o Mestre: \u2014 \u201cComo? Pelo que proferes,<br \/>\nImposs\u00edvel ser\u00e1 subir sem dia?<br \/>\n51 Ou a algu\u00e9m, que o pro\u00edba, te referes?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Com seu dedo Sordel linha fazia<br \/>\nNo ch\u00e3o e disse: \u2014 \u201cAl\u00e9m ningu\u00e9m passara<br \/>\n54 Se, ausente o sol, a noite principia.<\/p>\n<p>\u201cMas \u00f3bice qualquer n\u00e3o deparara<br \/>\nQuem caminhar, subindo, pretendesse:<br \/>\n57 Para tolh\u00ea-lo a noite j\u00e1 bastara.<\/p>\n<p>\u201cBem pudera baixar, se lhe aprouvesse,<\/p>\n<p>315<\/p>\n<p>Pelo declive em volta da montanha:<br \/>\n60 Enquanto o sol sob o horizonte desce.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Torna Virg\u00edlio, ent\u00e3o, que ouvindo estranha:<br \/>\n\u2014 \u201cAo lugar, que nos dizes, pois, nos guia,<br \/>\n63 Onde a demora o j\u00fabilo acompanha.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Pouco longe dali notei que havia<br \/>\nDepress\u00e3o na montanha, semelhante<br \/>\n66 \u00c0 que na terra um vale formaria.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cIremos\u201d \u2014 disse a sombra \u2014 \u201cum pouco<br \/>\navante<br \/>\nT\u00e9 onde a encosta encurva, se escavando:<br \/>\n69 De l\u00e1 voltar vereis a luz brilhante.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Entre a escarpa e o plano se inclinando<br \/>\nTrilha ao vale conduz obliquamente,<br \/>\n72 O pendor mais que ao meio, se ado\u00e7ando.<\/p>\n<p>Prata, alvaiade, gr\u00e3o, ouro fulgente,<br \/>\n\u00cdndico lenho l\u00edmpido e lustroso,<br \/>\n75 Pura esmeralda, ao lapidar, luzente,<\/p>\n<p>Por flores e ervas desse val formoso<br \/>\nSe achariam na cor escurecidos<br \/>\n78 Como cede o mais fraco ao mais for\u00e7oso.<\/p>\n<p>Aos donosos males espargidos<br \/>\nMil suaves aromas se ajuntavam,<\/p>\n<p>316<\/p>\n<p>81 Em peregrino muito reunidos.<\/p>\n<p>Sobre a relva entre as flores entoavam<br \/>\nSalve Regina, as almas, que da vista<br \/>\n84 Externa no recinto se ocultavam.<\/p>\n<p>\u201cDo sol enquanto a luz inda persista\u201d \u2014<br \/>\nO Mantuano disse, que nos guia,<br \/>\n87 \u201cIr n\u00e3o queiras \u00e0 grei que de n\u00f3s dista.<\/p>\n<p>\u201cGestos e vultos seus conheceria<br \/>\nQualquer de v\u00f3s daqui mais claramente<br \/>\n90 Do que, de perto os vendo, o poderia.<\/p>\n<p>\u201cO que parece, aos outros, eminente.<br \/>\nDa quebra em seus deveres pesaroso<br \/>\n93 E a geral melodia ouve silente,<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 Rodolfo que fora poderoso.<br \/>\nConta o mal que j\u00e1 tem a It\u00e1lia morta:<br \/>\n96 Quem lhe dar\u00e1 porvir esperan\u00e7oso?<\/p>\n<p>\u201cO que com seu semblante ora o conforta<br \/>\nGovernava esse reino onde a \u00e1gua brota,<br \/>\n99 Que o Molta ao \u00c1lbia, o \u00c1lbia ao mar<br \/>\ntransporta.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 Otocar: na inf\u00e2ncia melhor nota<br \/>\nTeve que o filho, Venceslau barbudo,<br \/>\n102 Na lux\u00faria e pregui\u00e7a a vida esgota.<\/p>\n<p>317<\/p>\n<p>\u201cMorrendo, o que n\u00e3o tem nariz agudo<br \/>\nE fala a esse outro de benino aspeito,<br \/>\n105 Deixou dos lizes deslustrado o escudo.<\/p>\n<p>\u201cAtentai: como bate ele no peito!<br \/>\nVede aquele que ao ar suspiros lan\u00e7a<br \/>\n108 Da m\u00e3o fazendo \u00e0 sua face um leito.<\/p>\n<p>\u201cSogro e pai do flagelo s\u00e3o da Fran\u00e7a;<br \/>\nCientes do viver seu vergonhoso,<br \/>\n111 Dor st\u00e3o sentindo, que ora n\u00e3o descansa.<\/p>\n<p>\u201cEsse membrudo, que o cantar piedoso<br \/>\nSegue do que nariz tem desmarcado,<br \/>\n114 Das virtudes no culto foi zeloso.<\/p>\n<p>\u201cSe o mancebo, ora atr\u00e1s dele assentado,<br \/>\nAo trono sucedera-lhe, subira<br \/>\n117 Valor de um Rei por outro fora herdado.<\/p>\n<p>\u201cDos maus herdeiros qual p\u00f4s nisso a mira?<br \/>\nJaime Fred\u2019rico havendo o reino tido,<br \/>\n120 Nenhum a melhor parte possu\u00edra.<\/p>\n<p>\u201cRara vez tem nas ramas ressurgido<br \/>\nPrimor alto da estirpe; assim o ordena<br \/>\n123 Aquele, a quem ser deve o bem pedido.<\/p>\n<p>\u201cAo narigudo aplica\u00e7\u00e3o tem plena<\/p>\n<p>318<\/p>\n<p>Meu dito e a Pedro, que ao seu lado canta:<br \/>\n126 Ap\u00falia com Proven\u00e7a, geme e pena.<\/p>\n<p>\u201cTanto ao seu fruto excede em pre\u00e7o a planta,<br \/>\nQuanto, mais que Beatriz e Margarida,<br \/>\n129 Constan\u00e7a a\u00e7\u00f5es do esposo seu decanta.<\/p>\n<p>\u201cAli vedes o Rei de simples vida<br \/>\nSentado \u00e0 parte, Henrique de Inglaterra:<br \/>\n132 Teve este em ramos seus melhor sa\u00edda.<\/p>\n<p>\u201cMais abaixo notai sentado em terra<br \/>\nMarqu\u00eas Guilherme e para o alto olhando,<br \/>\nPor quem, sofrendo Alexandria guerra,<\/p>\n<p>136 Montferrat, Canavese est\u00e3o chorando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>4. Ot\u00e1vio, o imperador Augusto. \u2014 94. Rodolfo, de Habsburgo,<br \/>\nimperador de 1273 a 1291. \u2014 96. Quem etc., o imperador<br \/>\nHenrique VII, que tentou p\u00f4r ordem na It\u00e1lia. \u2014 98. Esse<br \/>\nreino<br \/>\netc., a Bo\u00eamia, onde nasce o rio Moldava (Molta), que<br \/>\ndesemboca no Elba (Albia). \u2014 100. Otocar II, advers\u00e1rio de<br \/>\nRodolfo, foi de melhor \u00edndole que seu filho Venceslau. \u2014 103.<br \/>\nO<br \/>\nque n\u00e3o tem nariz agudo, Filipe III de Fran\u00e7a, pai de Filipe<br \/>\no<br \/>\nBelo e de Carlos de Valois. \u2014 104. Esse outro, Henrique I de<br \/>\nNavarra, sogro de Filipe o Belo e pai de Joana I. \u2014 109. Do<br \/>\nflagelo da Fran\u00e7a, Filipe o Belo. \u2014 112. Esse membrudo, Pedro<br \/>\nIII de Arag\u00e3o, que, depois da revolu\u00e7\u00e3o das V\u00e9speras,<br \/>\nconquistou a Sic\u00edlia. \u2014 113. Ao que nariz tem desmarcado,<br \/>\nCarlos I de \u00c0njou que, vencendo Manfredo, conquistou a Sic\u00edlia.<br \/>\n\u2014 115-20. Se o mancebo, Afonso III, primog\u00eanito de Pedro de<br \/>\nArag\u00e3o, que morreu mo\u00e7o, foi melhor pr\u00edncipe do que os<br \/>\nseus<br \/>\nsucessores, Jaime II no reino de Arag\u00e3o e Frederico na Sic\u00edlia.<\/p>\n<p>319<\/p>\n<p>\u2014 126. Ap\u00falia etc., os reinos de Proven\u00e7a e de N\u00e1poles<br \/>\nlamentam a morte de Carlos I, pois s\u00e3o mal governados pelo seu<br \/>\nsucessor Carlos II. \u2014 127-29. O fruto etc., t\u00e3o inferior \u00e9<br \/>\nCarlo II<br \/>\nde Anjou a Carlos I, quanto este foi inferior a Pedro III. \u2014 131.<br \/>\nHenrique III, da Inglaterra, o qual teve um bom sucessor na<br \/>\npessoa de Eduardo I. \u2014 134. Marqu\u00eas Guilherme, senhor de<br \/>\nMonferrato, cuja morte originou uma guerra desastrosa para os<br \/>\nseus s\u00faditos.<\/p>\n<p>320<\/p>\n<p>CANTO VIII<\/p>\n<p>No come\u00e7o da noite dois anjos descem do C\u00e9u para expelir a<br \/>\nserpe maligna que quer entrar no vale. Entre as sombras que se<br \/>\naproximam dos Poetas, Dante reconhece Nino Visconti, de Pisa.<br \/>\nConrado Malaspina pede a Dante not\u00edcias de Lunigiana, sua<br \/>\np\u00e1tria; Dante responde elogiando a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>ERA o tempo, em que mais saudade sente<br \/>\nDo navegante o cora\u00e7\u00e3o no dia<br \/>\n3 Do adeus a amigos, que relembra ausente;<\/p>\n<p>E ao novel peregrino amor crucia,<br \/>\nDistante a voz do campan\u00e1rio ouvindo,<br \/>\n6 Que ao dia a morte, fl\u00e9bil, denuncia.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais ouvia os olhos dirigindo<br \/>\nPerto um esp\u00edrito vi que levantado,<br \/>\n9 Acenava, que ouvissem-no pedindo.<\/p>\n<p>E, havendo as duas m\u00e3os juntas al\u00e7ado,<br \/>\nParecia, olhos fitos no Oriente,<br \/>\n12 A Deus dizer: \u00c9s todo o meu cuidado!<\/p>\n<p>Te lucis entoou devotamente<br \/>\nCom t\u00e3o suave, t\u00e3o piedoso canto,<br \/>\n15 Que me enlevava em \u00eaxtase a mente.<\/p>\n<p>321<\/p>\n<p>Com igual devo\u00e7\u00e3o e igual encanto,<br \/>\nNas supernas esferas engolfados,<br \/>\n18 Repetiram os outros o hino santo.<\/p>\n<p>Leitor, tem da alma os olhos afiados<br \/>\nPara os v\u00e9us da verdade penetrares:<br \/>\n21 F\u00e1cil \u00e9, t\u00e3o sutis s\u00e3o, t\u00e3o delgados.<\/p>\n<p>A nobre turba, ap\u00f3s os seus cantares,<br \/>\nCalou-se; ent\u00e3o notei que, como \u00e0 espera,<br \/>\n24 P\u00e1lida e humilde a vista erguia aos ares.<\/p>\n<p>E vi sair descendo, da alta esfera<br \/>\nAnjos dois, empunhando flamejantes<br \/>\n27 Gl\u00e1dios a que truncada a ponta era.<\/p>\n<p>Verdes quais folhas novas vicejantes<br \/>\nAs vestes suas s\u00e3o, as agitando<br \/>\n30 As plumas das suas asas viridantes.<\/p>\n<p>Um acima de n\u00f3s se colocando,<br \/>\nBaixara o outro sobre o lado oposto,<br \/>\n33 Desta arte as almas de permeio estando.<\/p>\n<p>A flava coma via-lhes: seu rosto<br \/>\nContemplar imposs\u00edvel me seria:<br \/>\n36 Confunde a vista o l\u00facido composto.<\/p>\n<p>\u201cDo s\u00f3lio ambos descendem de Maria\u201d<\/p>\n<p>322<\/p>\n<p>Sordelo diz \u2014 \u201ca do vale por amparo,<br \/>\n39 Onde a serpente vai chegar \u00edmpia.\u201d<\/p>\n<p>Por onde ela viesse estando ignaro<br \/>\nEm torno olhei e, do terror tomado,<br \/>\n42 Busquei ref\u00fagio ao p\u00e9 do amigo caro.<\/p>\n<p>Sordel prossegue: \u2014 \u201c\u00c9 de falar chegado<br \/>\n\u00c0queles grandes sp\u00edritos o instante:<br \/>\n45 Ledos ser\u00e3o de ver-vos ao seu lado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Para baixar ao val me foi bastante<br \/>\nTr\u00eas passos dar: um sp\u00edrito fitava<br \/>\n48 Perscrutadora vista em meu semblante.<\/p>\n<p>J\u00e1 de sombras o ar se carregava;<br \/>\nMas aos seus e aos meus olhos embara\u00e7o<br \/>\n51 N\u00e3o era para ver-se o que ali stava.<\/p>\n<p>A mim vem, eu para ele aperto o passo:<br \/>\n\u2014 \u201cNino ex\u00edmio juiz quanto me agrada<br \/>\n54 Ver-te liberto do infernal rega\u00e7o!\u201d<\/p>\n<p>De afeto ap\u00f3s a mostra reiterada,<br \/>\nInquiriu: \u2014 \u201cPor long\u00ednquas \u00e1guas quando<br \/>\n57 Chegaste ao p\u00e9 da altura alcantilada?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cOh!\u201d \u2014 lhe tornei \u2014 \u201cesta manh\u00e3,<br \/>\npassando<br \/>\nPela triste mans\u00e3o: ainda a vida<br \/>\n60 Primeiro gozo e a outra vou buscando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>323<\/p>\n<p>Mal fora esta resposta proferida,<br \/>\nNino e Sordel, de pasmo, recuaram;<br \/>\n63 Como se fora maravilha ouvida.<\/p>\n<p>Ao Vate este volveu-se; e se escutaram<br \/>\nVozes de Nino a outro: \u2014 \u201cVem, Conrado, \u2014<br \/>\n66 De Deus ver o que as leis determinaram!\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor essa gratid\u00e3o\u201d \u2014 a mim voltado<br \/>\nDisse \u2014 \u201cque ao Ente deves invis\u00edvel,<br \/>\n69 Cuja a\u00e7\u00e3o compreender nos \u00e9 vedado.<\/p>\n<p>\u201cTe imploro que, em passando o mar tem\u00edvel,<br \/>\nDigas \u00e0 filha minha que suplique<br \/>\n72 Por mim: Deus \u00e0 inoc\u00eancia \u00e9 t\u00e3o sens\u00edvel!<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o creio que em prol meu a m\u00e3e se aplique<br \/>\nDepois que os brancos v\u00e9us trocou demente:<br \/>\n75 Dor ter\u00e1 infeliz! \u2014 que mortifique.<\/p>\n<p>\u201cSe conhece, por ela, facilmente<br \/>\nQuanto em mulher de amor fogo perdura<br \/>\n78 Se o caminho falece e o olhar freq\u00fcente.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o lhe far\u00e1 t\u00e3o bela sepultura<br \/>\nA v\u00edbora com que Mil\u00e3o se ostenta,<br \/>\n81 Como a fizera o galo de Galura.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Assim dizia Nino. Ainda o alenta<\/p>\n<p>324<\/p>\n<p>O justo zelo, que traduz no rosto,<br \/>\n84 Que brando ardendo, o \u00e2nimo aviventa.<\/p>\n<p>\u00c1vido os olhos tinha eu no c\u00e9u posto,<br \/>\n\u00c0 parte em que os luzeiros s\u00e3o mais lentos,<br \/>\n87 Qual roda onde o seu eixo est\u00e1 disposto.<\/p>\n<p>E o Mestre: \u2014 \u201cOs olhos ao que tens atentos?\u201d \u2014<br \/>\nRespondi-lhe: \u2014 \u201cAos tr\u00eas astros luminosos,<br \/>\n90 Que o p\u00f3lo acendem, c\u00e9licos portentos.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAs quatro estrelas\u201d \u2014 me tornou \u2014 \u201cformosas,<br \/>\nQue por manh\u00e3 j\u00e1 vimos, se ocultaram.<br \/>\n93 A\u00ed mesmo estas surgem fulgurosas.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Sordel, quando estas vozes me voaram,<br \/>\nO tira a si dizendo: \u2014 \u201ceis o inimigo!\u201d \u2014<br \/>\n96 Os olhos o seu dedo acompanharam.<\/p>\n<p>Do val na parte exposta ver consigo<br \/>\nUma serpe, que a rastos coleava:<br \/>\n99 Talvez o pomo deu, de Eva perigo.<\/p>\n<p>Entre as ervas e flores avan\u00e7ava,<br \/>\nA um lado e a outro a fronte volteando;<br \/>\n102 Lambendo o dorso, a l\u00edngua dilatava.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude ver como ao r\u00e9ptil nefando<br \/>\nOs celestes a\u00e7ores se enviaram;<br \/>\n105 Mas at\u00f4nito os vi ambos pairando.<\/p>\n<p>325<\/p>\n<p>O sussurro que as asas no ar formaram,<br \/>\nEm sentido, fugiu presto a serpente:<br \/>\n108 Os anjos logo aos postos seus tornaram.<\/p>\n<p>A sombra, que viera incontin\u00eanti<br \/>\nDo juizo ao chamado enquanto o assalto<br \/>\n111 Durou, me estava olhando atentamente<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTenha o fanal, que te conduz ao alto<br \/>\nNo teu desejo v\u00e1lido alimento!<br \/>\n114 De luz para subir n\u00e3o sejas falto!<\/p>\n<p>\u201cMas se houveste\u201d \u2014 me diz \u2014 \u201cconhecimento<br \/>\nDe Valdimagra ou terra que confina,<br \/>\n117 Declara: eu de poder l\u00e1 tive aumento.<\/p>\n<p>\u201cChamado fui Conrado Malaspina;<br \/>\nN\u00e3o o antigo, por\u00e9m seu descendente:<br \/>\n120 Amor, que tive aos meus aqui se afina.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cL\u00e1 n\u00e3o fui\u201d \u2014 respondi-lhe reverente<br \/>\n\u2014<br \/>\n\u201cMas da Europa em que parte a excelsa fama<br \/>\n123 Dos feitos vossos n\u00e3o tem eco ingente?<\/p>\n<p>\u201cA gl\u00f3ria que o solar vosso proclama,<br \/>\nHonra o dom\u00ednio, honra os seus senhores<br \/>\n126 Quem nunca os viu louvores seus aclama.<\/p>\n<p>\u201cJuro, e t\u00e3o certo eu veja os esplendores<\/p>\n<p>326<\/p>\n<p>Do c\u00e9u, que a vossa ra\u00e7a guarda intatos<br \/>\n129 Da opul\u00eancia e bravura altos primores.<\/p>\n<p>\u201cPor sua \u00edndole egr\u00e9gia, por seus atos,<br \/>\nEnquanto ao mundo um chefe mau transvia,<br \/>\n132 S\u00f3 ela segue o bem e o prova em fatos.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVai!\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cAntes que o belo<br \/>\nastro do dia<br \/>\nSete vezes penetre nesse espa\u00e7o,<br \/>\n135 Que o \u00c1ries cobre na celeste via,<\/p>\n<p>\u201cT\u00e3o boa opini\u00e3o com fundo tra\u00e7o<br \/>\nMelhor ser\u00e1 na tua fronte impressa<br \/>\nDo que de outro por voz a cada passo,<\/p>\n<p>139 Se do Sumo Querer ordem n\u00e3o cessa.\u201d \u2014<\/p>\n<p>1. Era o tempo etc., come\u00e7ava a cair a noite. \u2014 13. Te lucis<br \/>\netc.,<br \/>\ncome\u00e7o de um hino da Igreja. \u2014 19-21. Leitor etc., o Poeta<br \/>\nadverte que al\u00e9m do sentido literal o que vai dizer tem um<br \/>\nsentido aleg\u00f3rico. \u2014 53. Nino ex\u00edmio juiz, Ugolino Visconti,<br \/>\njuiz<br \/>\nde Galura, na Sardenha. \u2014 65. Conrado, Conrado Malaspina,<br \/>\nmarqu\u00eas de Lunigiana. \u2014 71. \u00c0 filha minha, Joana, filha<br \/>\nde<br \/>\nNino. \u2014 73. A m\u00e3e, Beatriz d\u2019Este, vi\u00fava de Nino,<br \/>\ndesposara em<br \/>\nsegundas n\u00fapcias a Galeazzo Visconti. \u2014 80. A v\u00edbora,<br \/>\nbras\u00e3o<br \/>\nda fam\u00edlia Visconti. \u2014 119. O antigo, o av\u00f4 de Conrado<br \/>\nMalaspina, do mesmo nome. \u2014 136. T\u00e3o boa opini\u00e3o etc.,<br \/>\nem<br \/>\n1306 Dante teve boa acolhida nos Castelos dos Malaspina, em<br \/>\nLunigiana.<\/p>\n<p>327<\/p>\n<p>CANTO IX<\/p>\n<p>Ao despontar do novo dia Dante adormece e, no sono \u00e9<br \/>\ntransportado por Luzia at\u00e9 a Porta do Purgat\u00f3rio. Aproximam-se<br \/>\nda entrada e aqui um anjo abre-lhes a porta, depois de ter<br \/>\ngravado na testa de Dante sete PP.<\/p>\n<p>J\u00c1 clareava de Tit\u00e3o antigo<br \/>\nA concubina as f\u00edmbrias do oriente,<br \/>\n3 Deixando os bra\u00e7os do seu doce amigo;<\/p>\n<p>Era-lhe a fronte de astros refulgente,<br \/>\nFigura do animal frio formando,<br \/>\n6 Que vibra a cauda contra a humana gente.<\/p>\n<p>No lugar, em que est\u00e1vamos, se al\u00e7ando<br \/>\nDos passos seus havia a Noite andado,<br \/>\n9 E o terceiro ia as asas inclinando,<\/p>\n<p>Quando eu, tendo o que Adam nos h\u00e1 legado,<br \/>\nDe sono sobre a relva fui vencido,<br \/>\n12 L\u00e1 onde junto aos quatro era sentado.<\/p>\n<p>Ante-manh\u00e3, na hora, em que gemido<br \/>\nTriste a andorinha a solu\u00e7ar come\u00e7a,<br \/>\n15 Talvez na antiga dor pondo o sentido;<\/p>\n<p>328<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o stando da carne mais opressa<br \/>\nA mente e livre do pensar terreno,<br \/>\n18 Quase divina por vis\u00f5es pare\u00e7a,<\/p>\n<p>Pairar sonhei que via no ar sereno<br \/>\nDe \u00e1ureas plumas uma \u00e1guia, que mostrava<br \/>\n21 Querer baixar, das asas pelo aceno.<\/p>\n<p>Estar eu na montanha imaginava,<br \/>\nOnde os seus Ganimede abandonara<br \/>\n24 Alado \u00e0 corte excelsa, que o esperava.<\/p>\n<p>E eu pensava: talvez esta ave rara,<br \/>\nCa\u00e7ar aqui soindo, a n\u00e9dia preia<br \/>\n27 Fazer noutros lugares desdenhara;<\/p>\n<p>A tra\u00e7ar giros v\u00e1rios avistei-a:<br \/>\nEis, terr\u00edvel, qual raio, a mim se envia,<br \/>\n30 E l\u00e1 do fogo \u00e0 regi\u00e3o me alteia.<\/p>\n<p>Esta \u00e1guia, ent\u00e3o julguei, comigo ardia<br \/>\nTanto, que foi o sonho meu quebrado<br \/>\n33 Pelo fingido inc\u00eandio, que eu sentia.<\/p>\n<p>Como, acordando, Aquiles espantado<br \/>\nFicou por n\u00e3o saber onde se achava<br \/>\n36 No lugar aos seus olhos devassado,<\/p>\n<p>Quando a m\u00e3e que a Qu\u00edron o arrebatava,<br \/>\nO transportou a Sciro adormecido,<\/p>\n<p>329<\/p>\n<p>39 Donde ast\u00facia depois lho retirava:<\/p>\n<p>Assim fiquei ao ser desvanecido<br \/>\nDas p\u00e1lpebras o sono, semelhante<br \/>\n42 A quem desmaia em cor de horror transido.<\/p>\n<p>Junto a mim eu s\u00f3 vi naquele instante<br \/>\nVirg\u00edlio; o sol duas horas j\u00e1 media;<br \/>\n45 Ao mar tinha eu voltado inda o semblante.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o teme!\u201d \u2014 estas palavras proferia \u2014<br \/>\n\u201cS\u00ea tranq\u00fcilo, o bom porto n\u00e3o mais dista,<br \/>\n48 Alarga o cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o entibia;<\/p>\n<p>\u201cO Purgat\u00f3rio j\u00e1 daqui se avista.<br \/>\nOnde a rocha \u00e9 fendida est\u00e1 a entrada,<br \/>\n51 A rocha o cinge e tolhe o aspeto \u00e0 vista.<\/p>\n<p>\u201cAo romper da alva ao dia antecipada,<br \/>\nQuando no vale em sono eras jazendo<br \/>\n54 Sobre a ervinha de flores esmaltada,<\/p>\n<p>\u201cEis mostrou-se uma Dama nos dizendo:<br \/>\nSou Luzia; pois dorme, vou traz\u00ea-lo,<br \/>\n57 Leve assim a jornada lhe fazendo \u2014<\/p>\n<p>\u201cFicando as nobres almas com Sordelo,<br \/>\nTomou-te; e como j\u00e1 raiasse o dia<br \/>\n60 Subiu: seguiu seus passos, com desvelo<\/p>\n<p>330<\/p>\n<p>\u201cDep\u00f4s-te; e por seus olhos me dizia<br \/>\nQue pr\u00f3xima ali stava a entrada aberta.<br \/>\n63 Ela se foi e o sono te fugia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Como quem stando em d\u00favida, se acerta,<br \/>\nConverte o seu temor em confian\u00e7a,<br \/>\n66 Logo em sendo a verdade descoberta:<\/p>\n<p>Assim me achei mudado. Ele que alcan\u00e7a<br \/>\nQue esfor\u00e7ado j\u00e1 stou, vai por diante<br \/>\n69 Pela altura; o meu passo ap\u00f3s avan\u00e7a.<\/p>\n<p>V\u00eas, leitor, que assunto altissonante<br \/>\nSe faz; e n\u00e3o estranhes se mais arte<br \/>\n72 Mor lustre lhe acrescenta de ora avante.<\/p>\n<p>Acercamo-nos, pois, da rocha \u00e0 parte,<br \/>\nOnde eu antes rotura divisava<br \/>\n75 Como em muralha fenda que reparte;<\/p>\n<p>Ora uma porta e degraus tr\u00eas notava<br \/>\nPara entrar, cada qual de cor dif\u2019rente,<br \/>\n78 E um porteiro que t\u00e1cito ficava.<\/p>\n<p>E, de mais perto olhando, claramente<br \/>\nNo mais alto degrau o vi sentado:<br \/>\n81 Ofuscava-me a face refulgente.<\/p>\n<p>Na destra um gl\u00e1dio eu tinha empunhado,<br \/>\nque t\u00e3o vivos lampejos refletia,<\/p>\n<p>331<\/p>\n<p>84 Que em v\u00e3o fitava os olhos deslumbrado.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cParai e respondei-me\u201d \u2014 principia \u2014<br \/>\n\u201cQue intentais? Quem vos guia na jornada?<br \/>\n87 Efeitos n\u00e3o temeis dessa ousadia?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDama do c\u00e9u, de tudo isso inteirada\u201d<br \/>\n\u2014 Falou Virg\u00edlio \u2014 \u201cdisse-nos: \u2014 Avante!<br \/>\n90 N\u00e3o longe fica a porta desejada.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSeja ela aos vossos passos luz brilhante\u201d<br \/>\n\u2014 Logo beni\u2019no o anjo nos tornava \u2014<br \/>\n93 \u201cAos degraus nossos vinde por diante.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Chegamos: o degrau primeiro estava<br \/>\nDe alvo m\u00e1rmor t\u00e3o terso, t\u00e3o polido,<br \/>\n96 Que a minha imagem nele se espelhava.<\/p>\n<p>Era escuro o segundo e n\u00e3o brunido,<br \/>\nTosca pedra o formava e calcinada;<br \/>\n99 Ao longo a via e de trav\u00e9s fendido.<\/p>\n<p>De p\u00f3rfiro o terceiro e carregada<br \/>\nTinha a cor de vermelho flamejante,<br \/>\n102 Qual sangue, que da veia flui rasgada.<\/p>\n<p>Neste firmava o anjo rutilante<br \/>\nOs p\u00e9s, ao limiar sentado estando,<br \/>\n105 Que ser me pareceu de um s\u00f3 diamante.<\/p>\n<p>332<\/p>\n<p>Tirado por Virg\u00edlio vou-me al\u00e7ando<br \/>\nJubiloso. Ele disse \u2014 \u201cHumildemente<br \/>\n108 Requer, que te abra a porta deprecando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Aos sacros p\u00e9s dobrei devoto a frente;<br \/>\nMiseric\u00f3rdia, vezes tr\u00eas batendo<br \/>\n111 Nos peitos, para abrir pedi fervente.<\/p>\n<p>Da espada a ponta sete PP me havendo<br \/>\nNa testa aberto, disse o anjo: \u2014 \u201cLava<br \/>\n114 L\u00e1 dentro estes sinais te arrependendo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Chaves duas tomou quando acabava,<br \/>\nDe sob as vestes, onde a cor, atento<br \/>\n117 De terra seca eu cinzas observava.<\/p>\n<p>Uma era de ouro, a outra era de argento.<br \/>\nPrimeiro a branca, ap\u00f3s a flava aplica<br \/>\n120 \u00c0 porta: foi completo o meu contento.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe emperrada das duas uma fica<br \/>\nE n\u00e3o d\u00e1 volta\u201d \u2014 disse \u2014 \u201c\u00e0<br \/>\nfechadura,<br \/>\n123 Isto entrada defesa significa.<\/p>\n<p>\u201cSe mais pre\u00e7o um tem, noutra se apura<br \/>\nMais arte para abrir e mais engenho,<br \/>\n126 Das molas cede-lhe a pris\u00e3o mais dura.<\/p>\n<p>\u201cMandou Pedro de quem as chaves tenho<br \/>\nQue em abri-la antes erre que em cerr\u00e1-la<\/p>\n<p>333<\/p>\n<p>129 Aos que a exoram com ardente empenho.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Tocando a santa entrada, ainda nos fala:<br \/>\n\u2014 \u201cPenetrai; mas, de agora, vos previno,<br \/>\n132 Quem olha para tr\u00e1s pra fora abala.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Os port\u00f5es j\u00e1 se movem do divino<br \/>\nRecinto, e os espig\u00f5es, rangendo, giram<br \/>\n135 Nos gonzos de metal sonoro e fino:<\/p>\n<p>Quando, v\u00e3os de Metelo os esfor\u00e7os, viram<br \/>\nRoubado o er\u00e1rio, com estrondo tanto<br \/>\n138 As portas de Tarp\u00e9ia n\u00e3o se abriram.<\/p>\n<p>Aos rumores atento, doce canto \u2014<br \/>\nTe Deum laudamus escutar julgava,<br \/>\n141 De conceitos unido ao meigo encanto.<\/p>\n<p>Ouvindo, em mim a sensa\u00e7\u00e3o calava,<br \/>\nQue a voz bem modulada nos motiva,<br \/>\nQuando com ternos sons de \u00f3rg\u00e3o se trava;<\/p>\n<p>145 Que uma voz emudece, outra se esquiva.<\/p>\n<p>1. De Tit\u00e3o antigo etc., a concubina do velho Tit\u00e3o \u00e9<br \/>\na aurora. \u2014<br \/>\n5-6. Animal frio etc., talvez a constela\u00e7\u00e3o dos Peixes ou do<br \/>\nEscorpi\u00e3o. \u2014 23. Onde os seus Ganimede abandonara, quando<br \/>\nJ\u00fapiter o fez raptar para servir de copeiro aos deuses, no<br \/>\nOlimpo. \u2014 34. Aquiles espantado etc., T\u00e9tis, m\u00e3e de Aquiles,<br \/>\no<br \/>\ntransportou para a ilha de Sciro, de onde os gregos Ulisses e<br \/>\nDi\u00f4medes o conduziram \u00e0 guerra de Tr\u00f3ia. \u2014 56. Luzia,<br \/>\nSanta<\/p>\n<p>334<\/p>\n<p>Luzia. \u2014 112. Sete PP, os sete pecados mortais. \u2014 136. Quando<br \/>\nv\u00e3os de Metelo os esfor\u00e7os etc., as portas do Purgat\u00f3rio<br \/>\nse<br \/>\nabriram com maior estrondo do que se abriram as portas da<br \/>\nrocha Tarp\u00e9ia, quando, apesar da resist\u00eancia de Cec\u00edlio<br \/>\nMetelo,<br \/>\nJ\u00falio C\u00e9sar as abriu para apossar-se do dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n<p>335<\/p>\n<p>CANTO X<\/p>\n<p>Os dois Poetas sobem ao primeiro compartimento do Purgat\u00f3rio,<br \/>\ncuja escarpa \u00e9 de m\u00e1rmore, no qual est\u00e3o esculpidos v\u00e1rios<br \/>\nespis\u00f3dios de humildade. Eles os observam e no entanto v\u00eaem<br \/>\nem sua dire\u00e7\u00e3o v\u00e1rias almas curvadas sob o peso de grandes<br \/>\npedras. S\u00e3o as almas dos que no mundo foram soberbos.<\/p>\n<p>PASSADO estando o limiar da porta,<br \/>\nDas paix\u00f5es pelo excesso desusada,<br \/>\n3 Que reta faz supor a estrada torta,<\/p>\n<p>Pelo estrondo senti que era cerrada.<br \/>\nSe atr\u00e1s volvesse os olhos, qual seria<br \/>\n6 A desculpa da falta perpetrada?<\/p>\n<p>Sub\u00edamos por fenda que se abria<br \/>\nNa rocha, a um lado e ao outro serpeando,<br \/>\n9 Qual onda, que ora acerca, ora desvia.<\/p>\n<p>\u201cAqui ser destro cumpre, acompanhando\u201d \u2014<br \/>\nDisse o Mestre \u2014 \u201co caminho \u00e1rduo, fragoso,<br \/>\n12 Que as sinuosas voltas vai formando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>A passo \u00edamos, pois, t\u00e3o vagaroso,<br \/>\nQue a lua o crescente reclinado<br \/>\n15 Era j\u00e1 no seu leito de repouso,<\/p>\n<p>336<\/p>\n<p>Quando aquela estreiteza hemos deixado<br \/>\nEspa\u00e7os livres alcan\u00e7ando e abertos,<br \/>\n18 Onde o monte pra tr\u00e1s era inclinado;<\/p>\n<p>Eu inanido e ambos n\u00f3s incertos<br \/>\nDa vereda, em planura enfim paramos,<br \/>\n21 Mais solit\u00e1ria que \u00e1ridos desertos.<\/p>\n<p>Do precip\u00edcio a borda calculamos<br \/>\nDistar da oposta, em que o rochedo alteia,<br \/>\n24 Comprimento que em homens tr\u00eas achamos.<\/p>\n<p>Na extens\u00e3o, que ante mim se patenteia,<br \/>\nDa direita ou da esquerda igual largura<br \/>\n27 Nessa cornija aos olhos se franqueia.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e9ramos um passo na planura,<br \/>\nQuando notei que a escarpa sobranceira,<br \/>\n30 Que ascender n\u00e3o permite a sua altura,<\/p>\n<p>Era alvo m\u00e1rmor, tendo a face inteira<br \/>\nTalhada com primor, que a Policleto<br \/>\n33 Tomara e \u00e0 natureza a dianteira.<\/p>\n<p>O anjo, que da paz trouxe o decreto,<br \/>\nTantos s\u00e9c\u2019los com l\u00e1grimas pedido,<br \/>\n36 Que o c\u00e9u abriu, donde o homem stava exceto,<\/p>\n<p>Ao vivo ali mostrava-se insculpido,<\/p>\n<p>337<\/p>\n<p>No gesto e no meneio t\u00e3o suave,<br \/>\n39 Que em pedra n\u00e3o parece estar fingido.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o jurara que profere o Ave,<br \/>\nPois juntamente figurada estava<br \/>\n42 Quem do supremo amor volvera a chave?<\/p>\n<p>Seu semblante estas vozes expressava<br \/>\nEcce ancilla t\u00e3o propriamente,<br \/>\n45 Como na cera imagem, que se grava.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNum ponto s\u00f3 n\u00e3o prendas tanto a mente\u201d<br \/>\n\u2014<br \/>\nVirg\u00edlio me falou, tendo-me ao lado,<br \/>\n48 Aonde o cora\u00e7\u00e3o bater se sente.<\/p>\n<p>Para mais longe olhei: maravilhado<br \/>\nAp\u00f3s Maria ent\u00e3o vi que disposta,<br \/>\n51 Da parte, em que era o Mestre colocado,<\/p>\n<p>Fora outra hist\u00f3ria em m\u00e1rmore composta.<br \/>\nAo s\u00e1bio adiantei-me: de mais perto<br \/>\n54 Aos meus olhos melhor ficara exposta.<\/p>\n<p>O carro com seus bois na rocha aberto<br \/>\nE a Arca santa que conduz, mirava:<br \/>\n57 Lembra aos profanos o castigo certo.<\/p>\n<p>Em coros sete o povo ali cantava:<br \/>\nDo olhar em mim o ouvido dissentia,<br \/>\n60 Pois se um dizia sim, outro negava;<\/p>\n<p>338<\/p>\n<p>De igual modo na pedra percebia<br \/>\nAo ar o fumo se elevar do incenso:<br \/>\n63 Da vista o asserto o olfato desmentia.<\/p>\n<p>Da Arca adiante, com fervor imenso,<br \/>\nDan\u00e7ando humilde via-se o salmista,<br \/>\n66 Mais e menos que um Rei no zelo intenso.<\/p>\n<p>M\u00edcol, do r\u00e9gio pa\u00e7o, em frente, a vista<br \/>\nNo Rei fitava, o ato lhe estranhando,<br \/>\n69 Que lhe move desgosto e que a contrista.<\/p>\n<p>Desse lugar depois eu me afastando,<br \/>\nDe perto contemplar fui outra hist\u00f3ria,<br \/>\n72 Que al\u00e9m um pouco, estava branquejando.<\/p>\n<p>Aqui brilhava a preminente gl\u00f3ria<br \/>\nDesse famoso Imperador romano,<br \/>\n75 Por quem Greg\u00f3rio obteve alta vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao natural tirado era Trajano:<br \/>\nDo freio do corcel mulher tratava;<br \/>\n78 Dizia o pranto sua dor, seu dano.<\/p>\n<p>De cavalheiros tropa se apinhava,<br \/>\nE nas bandeiras a \u00e1guia de ouro al\u00e7ada<br \/>\n81 Acima dele aos ventos tremulava.<\/p>\n<p>A infeliz, dos guerreiros rodeada,<\/p>\n<p>339<\/p>\n<p>Parecia dizer: \u2014 \u201cSenhor, vingan\u00e7a!<br \/>\n84 Morto \u00e9 meu filho e eu gemo atribulada.\u201d<\/p>\n<p>E Trajano tornar: \u2014 \u201cToma esperan\u00e7a<br \/>\nAt\u00e9 que eu volte.\u201d \u2014 E a m\u00edsera pungida<br \/>\n87 Da dor que, em m\u00e3e, a tudo se abalan\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSenhor, se n\u00e3o voltares?\u201d \u2014 \u201cDeferida<br \/>\nSer\u00e1s de herdeiro meu.\u201d \u2014 \u201cBem que outro fa\u00e7a<br \/>\n90 Que val\u2019, se a obriga\u00e7\u00e3o tens esquecida?\u201d \u2014<\/p>\n<p>E ele: \u2014 \u201c\u00c2nimo esfor\u00e7a na desgra\u00e7a.<br \/>\nMeu dever cumprirei sem mais espera,<br \/>\n93 Justi\u00e7a o exige, compaix\u00e3o me enla\u00e7a.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Quem novas cousas nunca v\u00ea, fizera<br \/>\nVis\u00edvel sobre a pedra esta linguagem:<br \/>\n96 Arte n\u00e3o sobe a t\u00e3o sublime esfera.<\/p>\n<p>Enquanto me enleava em cada imagem,<br \/>\nEm que h\u00e1 dado aos extremos da humildade<br \/>\n99 De oper\u00e1rio a per\u00edcia mor vantagem,<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEis almas lentamente em quantidade<br \/>\nAcercam-se; a mais alta\u201d \u2014 disse o Guia \u2014<br \/>\n102 \u201cNos pode encaminhar sua bondade.\u201d \u2014<\/p>\n<p>A vista, que em portentos se embebia,<br \/>\nDe olhar outros j\u00e1 s\u00f4frega, volvendo,<br \/>\n105 Atentei no que o Mestre me advertia.<\/p>\n<p>340<\/p>\n<p>Mas, leitor, que esmore\u00e7as n\u00e3o pretendo,<br \/>\nNem que os bons pensamentos te fale\u00e7am,<br \/>\n108 Como os pecados pune Deus sabendo.<\/p>\n<p>Nem os mart\u00edrios n\u00edmios te pare\u00e7am;<br \/>\nPensa bem no porvir; pois, em chegando,<br \/>\n111 O gr\u00e3o Ju\u00edzo, em caso extremo, cessam.<\/p>\n<p>E eu disse: \u2014 \u201cO que ora a n\u00f3s vem caminhando<br \/>\nN\u00e3o creio sombras ser: o que \u00e9 portanto?<br \/>\n114 N\u00e3o sei, a percep\u00e7\u00e3o turbada estando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDo seu tormento, que te movo espanto<br \/>\n\u00c9 condi\u00e7\u00e3o \u00e0 terra irem curvados:<br \/>\n117 Tamb\u00e9m a vista duvidou-me um tanto.<\/p>\n<p>\u201cOlhos fita; imagina levantados<br \/>\nOs que v\u00eam dessas pedras oprimidos:<br \/>\n120 J\u00e1 v\u00eas quanto eles s\u00e3o atormentados.\u201d<\/p>\n<p>Crist\u00e3os soberbos, m\u00edseros, perdidos,<br \/>\nCegos da alma, que haveis pra tr\u00e1s andado,<br \/>\n123 De tanta confian\u00e7a possu\u00eddos,<\/p>\n<p>Que vermes somos n\u00e3o vos st\u00e1 provado,<br \/>\nDe que surge a celeste borboleta,<br \/>\n126 Que incerta voa ao tribunal sagrado?<\/p>\n<p>Por que do orgulho assim passais a meta,<\/p>\n<p>341<\/p>\n<p>Se sois insetos no embri\u00e3o somente,<br \/>\n129 Vermes de forma\u00e7\u00e3o inda incompleta?<\/p>\n<p>A modo de pilar ver-se \u00e9 freq\u00fcente,<br \/>\nJoelhos, peito unindo, uma figura<br \/>\n132 Cornija ou teto a sustentar ingente.<\/p>\n<p>Da dor mera fic\u00e7\u00e3o move tristura<br \/>\nEm quem olha: senti ent\u00e3o notando<br \/>\n135 Das almas penitentes a postura.<\/p>\n<p>Mais umas, outras menos, se dobrando<br \/>\nIam, segundo o fardo, que traziam;<br \/>\nE as que eram mais sofridas, pranteando,<\/p>\n<p>139 N\u00e3o posso mais! \u2014 dizer me pareciam.<\/p>\n<p>32. Policleto, c\u00e9lebre escultor grego. \u2014 34. O anjo, Gabriel.<br \/>\n\u2014<br \/>\n42. Quem, etc., a virgem Maria. \u2014 57. Lembra aos profanos o<br \/>\ncastigo certo, Oza caiu fulminado por ter-se aproximado da<br \/>\nArca, que amea\u00e7ava cair (Samuel II-6). \u2014 65-66. Dan\u00e7ando<br \/>\nhumilde via-se o salmista, Davi dan\u00e7ava precedendo a Arca. \u2014<br \/>\n67. M\u00edcol, esposa de Davi manifestava censura pelo ato humilde<br \/>\ndo esposo. \u2014 74-75. Desse famoso imperador, Trajano, que,<br \/>\nsegundo uma lenda, o papa Greg\u00f3rio I conseguiu, com suas<br \/>\npreces, voltasse \u00e0 vida terrena e, batizado, fosse para o C\u00e9u.<br \/>\n\u2014<br \/>\n124-126. Que vermes somos etc., como do verme nasce a<br \/>\nborboleta, assim n\u00f3s homens outra coisa n\u00e3o somos sen\u00e3o<br \/>\nvermes dos quais devem surgir as borboletas dignas de subir ao<br \/>\nC\u00e9u.<\/p>\n<p>342<\/p>\n<p>CANTO XI<\/p>\n<p>Virg\u00edlio pergunta \u00e0s almas que purgam o pecado da soberbia<br \/>\nqual<br \/>\n\u00e9 o caminho para subir ao segundo compartimento, e uma delas<br \/>\nd\u00e1 a indica\u00e7\u00e3o requerida. Umberto Aldobrandeschi d\u00e1-se<br \/>\na<br \/>\nconhecer e fala com Dante, que, depois, reconhece Oderisi de<br \/>\nGubbio, pintor e gravador. Oderisi d\u00e1-lhe not\u00edcia de Provenzano<br \/>\nSalvani, que est\u00e1 junto com eles.<\/p>\n<p>V\u00d3S, que nos c\u00e9us estais, \u00f3 Padre nosso,<br \/>\nN\u00e3o circunscrito, mas porque haveis dado<br \/>\n3 Mais aos primeiros seres o amor vosso,<\/p>\n<p>\u201cVosso nome e poder seja louvado!<br \/>\nGra\u00e7as \u00e0 criatura jubilosa<br \/>\n6 Ao saber vosso renda sublimado!<\/p>\n<p>\u201cDo reino vosso a paz venha ditosa!<br \/>\nQue v\u00e3o de hav\u00ea-la o empenho nos seria,<br \/>\n9 Se n\u00e3o vier da vossa m\u00e3o piedosa.<\/p>\n<p>\u201cComo a v\u00f3s a vontade se humilia<br \/>\nDos vossos anjos, entoando hosana,<br \/>\n12 Fa\u00e7am assim os homens cada dia!<\/p>\n<p>\u201cA subst\u00e2ncia nos dai quotidiana<br \/>\nHoje: sem ela em \u00e1spero deserto<\/p>\n<p>343<\/p>\n<p>15 Se atrasa quem por ir al\u00e9m se afana!<\/p>\n<p>\u201cE como a quem nos faz mal descoberto<br \/>\nDamos perd\u00e3o, nos perdoai clemente,<br \/>\n18 Indi\u2019nos sendo n\u00f3s, Senhor, por certo.<\/p>\n<p>\u201cOh! n\u00e3o deixeis cair a defidente<br \/>\nVirtude nossa em tenta\u00e7\u00e3o do imigo!<br \/>\n21 Livrai-nos dele, em nos pungir ardente!<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o mais somos, Senhor, nesse perigo,<br \/>\nEm que precisa esta ora\u00e7\u00e3o nos seja;<br \/>\n24 Mas n\u00e3o os que h\u00e3o mister na terra abrigo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Ao c\u00e9u rogando que ao seu bem proveja<br \/>\nE ao nosso, as almas sob o peso andavam,<br \/>\n27 Como o que oprime a quem sonhando esteja.<\/p>\n<p>Com desigual gravame se arrastavam<br \/>\nOfegantes no c\u00edrculo primeiro,<br \/>\n30 E do pecado as n\u00e9voas expurgavam,<\/p>\n<p>Se em bem nosso com zelo verdadeiro,<br \/>\nOram, como em seu prol far\u00e1 no mundo<br \/>\n33 Quem tem no bem querer seu peito useiro?<\/p>\n<p>Ajudemo-las, pois, vest\u00edgio imundo<br \/>\nA lavar, por que leves, puras sejam,<br \/>\n36 Do c\u00e9u se alando ao brilho sem segundo.<\/p>\n<p>344<\/p>\n<p>\u201cAh! compaix\u00e3o, justi\u00e7a vos consigam<br \/>\nPresto al\u00edvio, e possais, o v\u00f4o erguendo,<br \/>\n39 Ir at\u00e9 onde os desejos vos instigam!<\/p>\n<p>\u201cValei-nos a vereda nos dizendo<br \/>\nMais curta ou a que \u00e9 menos escarpada,<br \/>\n42 Mais de um caminho a se ascender havendo.<\/p>\n<p>\u201cAo companheiro meu assaz pesada<br \/>\n\u00c9 a carne de Adam, que inda o reveste:<br \/>\n45 Por mais que esforce, o afana esta jornada.\u201d \u2014<\/p>\n<p>A voz, que respondeu ao Mestre a este<br \/>\nDizer, n\u00e3o sei a que alma pertencia<br \/>\n48 Por ind\u00edcio qualquer, que o manifeste:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVinde \u00e0 direita em nossa companhia<br \/>\nPela encosta, e vereis o passo estreito,<br \/>\n51 Que uma pessoa viva subiria.<\/p>\n<p>\u201cSe este penedo n\u00e3o tolhesse o jeito,<br \/>\nA cerviz orgulhosa me domando<br \/>\n54 E obrigando a juntar o rosto ao peito,<\/p>\n<p>\u201cDeste homem para a face, atento olhando,<br \/>\n(N\u00e3o sei quem \u00e9) talvez o conhecera,<br \/>\n57 E assim me fora compassivo e brando.<\/p>\n<p>\u201cToscano fui, ilustre pai tivera.<br \/>\nGuilherme Aldobrandeschi se chamava:<\/p>\n<p>345<\/p>\n<p>60 O nome seu algum de v\u00f3s soubera?<\/p>\n<p>\u201cTanta arrog\u00e2ncia a gl\u00f3ria me inspirava<br \/>\nDo meu solar e os feitos valorosos,<br \/>\n63 Que a nossa m\u00e3e comum n\u00e3o mais pensava,<\/p>\n<p>\u201cOlhos volvendo a todos desdenhosos.<br \/>\nPerdi-me assim; os atos meus em Siena<br \/>\n66 Foram em Campagnatico famosos.<\/p>\n<p>\u201cChamei-me Umberto; da soberba a pena<br \/>\nA mim n\u00e3o coube s\u00f3: de igual desgra\u00e7a<br \/>\n69 Vem a causa que aos meus todos condena.<\/p>\n<p>\u201cEste fardo, que os passos me embara\u00e7a<br \/>\nMere\u00e7o, por cumprir-se a lei divina:<br \/>\n72 Vivo o n\u00e3o fiz, \u00e9 justo que ora o fa\u00e7a.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Enquanto, ouvindo, a fronte se me inclina,<br \/>\nUma das almas (n\u00e3o a que falava)<br \/>\n75 Sob o peso se torce, que a amofina.<\/p>\n<p>E viu-me e, conhecendo-me, chamava,<br \/>\nOs olhos seus fitando esbaforida<br \/>\n78 Em mim, que, recurvado a acompanhava.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cOderisi n\u00e3o foste\u201d \u2014 eu disse \u2014 \u201cem<br \/>\nvida,<br \/>\nHonra de Agubbio, honra daquela arte<br \/>\n81 Que iluminar Paris ora apelida?\u201d \u2014<\/p>\n<p>346<\/p>\n<p>\u2014 Tornou-me: \u2014 \u201cHoje o pincel (cumpre<br \/>\ninformar-te)<br \/>\nDe Franco de Bolonha mais agrada:<br \/>\n84 A honra \u00e9 toda sua, minha em parte.<\/p>\n<p>\u201cPor mim n\u00e3o fora em vida proclamada<br \/>\nEsta verdade, quando esta alma ardia<br \/>\n87 Na ambi\u00e7\u00e3o de primar nessa arte amada.<\/p>\n<p>\u201cAqui de tal soberba o mal se expia;<br \/>\nStaria alhures; mas a Deus eu pude<br \/>\n90 Mostrar que de pecar me arrependia.<\/p>\n<p>\u201cQuanto a vaidade o peito humano ilude!<br \/>\nDessa flor como esvai-se a formosura,<br \/>\n93 Se n\u00e3o seguir-se um s\u00e9c\u2019lo inculto e rude!<\/p>\n<p>Cimabue cuidou ter na pintura<br \/>\nA li\u00e7a dominado: mas vencido<br \/>\n96 Ficou: a gl\u00f3ria Giotto fez-lhe escura.<\/p>\n<p>Assim de estilo na arte cede um Guido,<br \/>\nA palma a outro: agora \u00e9 bem prov\u00e1vel<br \/>\n99 Seja de ambos o mestre j\u00e1 nascido.<\/p>\n<p>\u201cRumor mundano \u00e9 como vento inst\u00e1vel<br \/>\nQue a dire\u00e7\u00e3o varia de repente:<br \/>\n102 Conforme o lado, o nome tem mud\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cDe ti que fama ficar\u00e1 manente,<\/p>\n<p>347<\/p>\n<p>Se da velhice cais no extremo passo,<br \/>\n105 Ou se findas na inf\u00e2ncia inconsciente,<\/p>\n<p>\u201cDe hoje a mil anos, tempo mais escasso,<br \/>\nDa eternidade em face, que um momento<br \/>\n108 Ante a esfera a mais tarda l\u00e1 no espa\u00e7o?<\/p>\n<p>\u201cQuem me precede e vai assim t\u00e3o lento<br \/>\nNa Toscana entre todos foi famoso:<br \/>\n111 Apenas salvo est\u00e1 do esquecimento.<\/p>\n<p>\u201cEm Siena, que h\u00e1 regido poderoso,<br \/>\nQuando perdeu-se a raiva florentina.<br \/>\n114 Soberba ent\u00e3o, objeto hoje asqueroso.<\/p>\n<p>\u201cA fama vossa iguala-se \u00e0 bonina,<br \/>\nQue flore e morre: o sol, por quem nascera<br \/>\n117 Na terra a prostra e a cor cresta \u00e0 mofina.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Respondi-lhe: \u2014 \u201cO dizer teu em mim gera<br \/>\nSaud\u00e1vel humildade e o orgulho mata.<br \/>\n120 Esse, que apontas, conta-me quem era.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u201cDe Provenzan Salvani\u201d \u2014 diz \u2014 \u201cse trata:<br \/>\nAqui st\u00e1, porque Siena ele cuidara<br \/>\n123 Ter nas m\u00e3os \u2014 presun\u00e7\u00e3o de alma insensata!<\/p>\n<p>\u201cCaminha assim curvado, e nunca p\u00e1ra<br \/>\nD\u00eas que a vida perdeu eis o castigo<br \/>\n126 De quem tanto \u00e0 soberba se entregara!\u201d \u2014<\/p>\n<p>348<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe o que demora at\u00e9 final perigo<br \/>\nA penit\u00eancia\u201d \u2014 eu disse \u2014 \u201ce errado corre,<br \/>\n129 Subir n\u00e3o pode e aqui n\u00e3o acha abrigo,<\/p>\n<p>\u201cSe uma ora\u00e7\u00e3o piedosa o n\u00e3o socorre,<br \/>\nDurante prazo igual ao da exist\u00eancia,<br \/>\n132 Como ao mart\u00edrio Provenzan concorre?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuando era\u201d \u2014 torna \u2014 \u201cno auge da<br \/>\ninflu\u00eancia,<br \/>\nSobre a pra\u00e7a de Siena, suplicando,<br \/>\n135 Ter ante o povo humilde contin\u00eancia,<\/p>\n<p>\u201cDe um amigo o resgate procurando,<br \/>\nQue era por Carlos em pris\u00e3o detido,<br \/>\n138 Tremeu angustiado e miserando.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o mais: n\u00e3o sou, de obscuro, compreendido,<br \/>\nMas te h\u00e1 de ser em breve isto explicado<br \/>\nPor filhos dessa terra em que h\u00e1s nascido. \u2014<\/p>\n<p>142 \u201cPor t\u00e3o bom feito o ingresso lhe foi dado.\u201d<\/p>\n<p>59. Guilherme Aldobrandeschi, senhor de Grosseto. Quem fala \u00e9<br \/>\no filho Umberto, que guerreou contra Pisa. \u2014 79. Oderisi de<br \/>\nGubbio, excelente pintor e miniaturista. \u2014 83. Franco de<br \/>\nBolonha, c\u00e9lebre miniaturista. \u2014 94-96. Giotto e Cimabue,<br \/>\nc\u00e9lebres pintores. Giotto, disc\u00edpulo de Cimabue, superou o<br \/>\nmestre na sua arte. \u2014 97-98. Um Guido e outro, Guido<br \/>\nCavalcanti superou a Guido Guinicelli na arte da poesia. \u2014 121.<\/p>\n<p>349<\/p>\n<p>Provenzano Salvani, de Siena, senhor muito poderoso, morto na<br \/>\nbatalha de Colle em 1269. \u2014 133-138. Quando era etc., para<br \/>\nobter a liberta\u00e7\u00e3o de um amigo prisioneiro de Carlos d\u2019Anjou,<br \/>\nele se humilhou a pedir a esmola aos seus concidad\u00e3os.<\/p>\n<p>350<\/p>\n<p>CANTO XII<\/p>\n<p>Os dois Poetas continuam a viagem. No pavimento do c\u00edrculo<br \/>\nest\u00e3o pintados v\u00e1rios exemplos de soberbia castigada. Um anjo<br \/>\nvem junto dos Poetas e os guia at\u00e9 a escada que sobe ao<br \/>\ncompartimento sucessivo. Com a asa, depois, apaga da testa de<br \/>\nDante um dos PP.<\/p>\n<p>A PAR, como dois bois, que o jugo unira,<br \/>\nEu com essa alma opressa e titubeante<br \/>\n3 Ia, enquanto Virg\u00edlio permitira.<\/p>\n<p>Eis disse-me: \u2014 \u201cDeixando-a, segue avante:<br \/>\nDeve fazer de vela e remos for\u00e7a<br \/>\n6 Quem quer \u00e0 parca impulso dar constante.\u201d \u2014<\/p>\n<p>A caminhar dispus-me \u00e0 voz, que esfor\u00e7a,<br \/>\nErguendo logo o corpo, inda que a mente<br \/>\n9 Na humildade a mod\u00e9stia acurve e estor\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 os p\u00e9s acelero e facilmente<br \/>\nA Virg\u00edlio acompanho: de porfia,<br \/>\n12 Se mostra cada qual mais diligente.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c0 terra olhos inclina\u201d \u2014 ent\u00e3o dizia<br \/>\n\u2014<br \/>\n\u201cPara a jornada aligeirar atenta<br \/>\n15 No solo, onde o meu passo aos teus \u00e9 guia.\u201d<\/p>\n<p>351<\/p>\n<p>Assim como na campa se aviventa<br \/>\nA mem\u00f3ria dos mortos, insculpindo<br \/>\n18 Imagem, que a exist\u00eancia representa,<\/p>\n<p>Que de saudade os cora\u00e7\u00f5es ferindo,<br \/>\n\u00c0 piedade propensos e \u00e0 ternura,<br \/>\n21 Os vai ao pranto muita vez pungindo:<\/p>\n<p>Assim, com perfei\u00e7\u00e3o sublime e pura,<br \/>\nFiguras via sobre aquela estrada,<br \/>\n24 Que sobe, serpeando, pela altura.<\/p>\n<p>Via, a um lado, dos c\u00e9us precipitada<br \/>\nDas criaturas a mais bela e nobre,<br \/>\n27 Qual raio, pelo espa\u00e7o arremessada.<\/p>\n<p>A vista, o outro, Briar\u00e9u descobre<br \/>\nDe proj\u00e9til celeste transpassado:<br \/>\n30 G\u00e9lido a terra desmedido cobre.<\/p>\n<p>Com Marte e Palas stava figurado<br \/>\nTimbreu, em torno ao pai de armas fornidos,<br \/>\n33 Vendo o campo de imigos alastrado.<\/p>\n<p>Nemrod olhos volvia espavoridos,<br \/>\nJunto \u00e0 feitura imensa, aos companheiros,<br \/>\n36 Que a Sanaar seguiram-no, descridos.<\/p>\n<p>\u00d3 N\u00edobe, com bra\u00e7os verdadeiros<\/p>\n<p>352<\/p>\n<p>Que dor nos olhos teus aparecia,<br \/>\n39 Os filhos mortos vendo, quais cordeiros!<\/p>\n<p>Saul, a pr\u00f3pria espada te extinguia<br \/>\nSobre a montanha Gelbo\u00e9 \u2014 maldita,<br \/>\n42 Orvalho ou chuva ali n\u00e3o mais ca\u00eda.<\/p>\n<p>\u00d3 louca Aracne, tua face aflita,<br \/>\nDe aranha parte entre os destro\u00e7os stava<br \/>\n45 Da teia, origem da fatal desdita.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais a tua imagem cominava;<br \/>\nNum carro foges, Roboam cruento,<br \/>\n48 \u00c0 f\u00faria popular, que te assombrava.<\/p>\n<p>Amostrava ainda o duro pavimento<br \/>\nComo fez Alcmeon pagar t\u00e3o caro<br \/>\n51 \u00c0 m\u00e3e o funest\u00edssimo ornamento.<\/p>\n<p>Mostrava mais como flag\u00edcio raro<br \/>\nSenaqueribe no templo assassinado<br \/>\n54 Por filhos, que deveram ser-lhe amparo.<\/p>\n<p>Mostrava tamb\u00e9m Ciro degolado<br \/>\nE Tam\u00edris dizendo acesa em ira<br \/>\n57 \u2014 Sede tinhas de sangue, s\u00ea saciado! \u2014<\/p>\n<p>A multid\u00e3o de Ass\u00edrios que fugira,<br \/>\nMostrava ao verem de Holoferne a morte,<br \/>\n60 E o castigo que os passos lhes seguira.<\/p>\n<p>353<\/p>\n<p>Via no p\u00f3, nas cinzas Tr\u00f3ia forte:<br \/>\n\u00d3 soberba \u00cdlion, a pedra dura<br \/>\n63 Mostrava a tua lament\u00e1vel sorte!<\/p>\n<p>Que mestre no pincel ou na escultura<br \/>\nPosturas, sombras tais tra\u00e7ar pudera,<br \/>\n66 Pasmo ao g\u00eanio, que atinja a suma altura?<\/p>\n<p>Real ou morte ou vida aos olhos era:<br \/>\nA verdade n\u00e3o viu na pr\u00f3pria cena<br \/>\n69 Melhor que eu quando a ef\u00edgie a olhar stivera.<\/p>\n<p>A fronte entonai, pois, de orgulho plena,<br \/>\n\u00d3 filhos de Eva, os olhos n\u00e3o baixando<br \/>\n72 Ao caminho, onde achais devida pena!<\/p>\n<p>Mais \u00edamos no monte caminhando<br \/>\nE no seu giro o Sol mais avan\u00e7ara<br \/>\n75 Do que eu cuidava, absorto contemplando,<\/p>\n<p>Quando aquele, que sempre me guiara<br \/>\nDesvelado, me disse: \u2014 \u201cAl\u00e7a a cabe\u00e7a!<br \/>\n78 N\u00e3o te engolfes! atento s\u00ea! repara!<\/p>\n<p>\u201cOlha aquele anjo que caminha \u00e0 pressa<br \/>\nAo nosso encontro: acaba a terra sexta<br \/>\n81 Do dia o lavor certo e outra come\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cRever\u00eancia em teu gesto manifesta<\/p>\n<p>354<\/p>\n<p>Para o anjo \u00e0 viagem ser prop\u00edcio,<br \/>\n84 N\u00e3o volta o dia de que pouco resta.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Aproveitar do tempo o benef\u00edcio<br \/>\nEra do Mestre a regra; e, pois, naquela<br \/>\n87 Mat\u00e9ria n\u00e3o lhe achei de obscuro o ind\u00edcio.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos demanda a criatura bela:<br \/>\nTrajava branco, a face resplendia,<br \/>\n90 Qual, tremulando, matutina estrela.<\/p>\n<p>Bra\u00e7os abria e asas estendia,<br \/>\nDizendo: \u2014 \u201cVinde! que os degraus st\u00e3o perto:<br \/>\n93 A jornada j\u00e1 f\u00e1cil se anuncia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Raros escutam essa voz, por certo:<br \/>\n\u00d3 gente humana, para o c\u00e9u nascida,<br \/>\n96 Por que deca\u00eds do vento a um sopro incerto?<\/p>\n<p>Imos \u00e0 rocha, por degraus partida:<br \/>\nDe uma das asas me ro\u00e7ou na fronte,<br \/>\n99 Prometendo-me pr\u00f3spera subida.<\/p>\n<p>Como \u00e0 direita quem se erguer ao monte,<br \/>\nDonde se avista a igreja que domina<br \/>\n102 A bem regida ao p\u00e9 de Rubaconte,<\/p>\n<p>Sente que aos p\u00e9s a ingremidade inclina<br \/>\nPela escada talhada antes que houvesse<br \/>\n105 Em livros e medidas a rapina:<\/p>\n<p>355<\/p>\n<p>Ado\u00e7a-se o pendor assim; pois desce<br \/>\nDe um c\u00edrc\u2019lo a outro a rocha que alterosa<br \/>\n108 A um lado e ao outro augusto passo of\u2019rece.<\/p>\n<p>Subindo em melodia t\u00e3o donosa<br \/>\nBeati pauperes spiritu escutamos,<br \/>\n111 Que a voz, que o diga \u00e9 pouco vigorosa<\/p>\n<p>Qu\u00e3o dif\u2019rentes os \u00e1ditos que entramos,<br \/>\nDos infernais! Aqui suave canto,<br \/>\n114 L\u00e1 gritos de ira ouvindo caminhamos.<\/p>\n<p>Vencendo esses degraus do monte santo<br \/>\nMais \u00e1gil me sentia: l\u00e1 no plano<br \/>\n117 F\u00e1cil nunca a jornada fora tanto.<\/p>\n<p>Eu disse: \u2014 \u201c\u00d3 Mestre, de que peso insano<br \/>\nSinto-me livre, pois no estreito passo,<br \/>\n120 Como de antes agora n\u00e3o afano!\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuando os PP que inda tens em vivo tra\u00e7o<br \/>\nSobre a fronte\u201d \u2014 tornou-me \u2014 \u201cse apagarem,<br \/>\n123 Como n\u00e3o h\u00e1s de ter mais embara\u00e7o,<\/p>\n<p>\u201cSegundo o teu desejo os p\u00e9s andarem<br \/>\nSentir\u00e1s sem fadiga, e at\u00e9 gozando<br \/>\n126 Deleite, para a altura ao caminharem.\u201d<\/p>\n<p>Como o que traz, na pra\u00e7a passeando,<\/p>\n<p>356<\/p>\n<p>Cousa, que ignora, na cabe\u00e7a posta,<br \/>\n129 E, por ver sinais de outrem, suspeitando,<\/p>\n<p>\u00c0 m\u00e3o pede socorro; ela, em resposta,<br \/>\nProcura, acha, um servi\u00e7o assim rendendo,<br \/>\n132 A que a vista n\u00e3o pode ser disposta:<\/p>\n<p>Assim, da destra os dedos estendendo,<br \/>\nConheci que das letras, que o anjo abrira,<br \/>\nStavam somente seis remanescendo.<\/p>\n<p>136 Sorriu-se o Mestre, que o meu gesto vira.<\/p>\n<p>25-27. Via, a um lado etc., L\u00facifer, o anjo que se rebelou contra<br \/>\nDeus. \u2014 28. Briareu, gigante que se rebelou contra J\u00fapiter e<br \/>\nfoi<br \/>\nfulminado. \u2014 31. Marte, Palas e Timbreu (Apolo), que<br \/>\ndominaram os gigantes rebeldes. \u2014 34-35. Nemrod etc., que na<br \/>\nplan\u00edcie de Senaar, come\u00e7ou a constru\u00e7\u00e3o da torre<br \/>\nde Babel. \u2014<br \/>\n37. N\u00edobe, desprezando Latona por ter esta somente dois filhos,<br \/>\nquando ela tinha doze, por castigo foram todos mortos por<br \/>\nApolo e Diana. \u2014 40-41. Saul, rei de Israel, derrotado em<br \/>\nGelbo\u00e9, suicidou-se. \u2014 43-45. Aracne, tendo desafiado Minerva<br \/>\npara saber quem melhor tecia, foi por esta transformada em<br \/>\naranha. \u2014 47. Roboam, filho de Salom\u00e3o, oprimiu o povo de<br \/>\nIsrael no seu reinado e foi obrigado a fugir em conseq\u00fc\u00eancia de<br \/>\nrevolta popular. \u2014 50. Alcmeon, matou a pr\u00f3pria m\u00e3e Erifiles,<br \/>\npois esta, para ganhar um colar de ouro, havia revelado o<br \/>\nesconderijo do seu marido Anfiarau aos inimigos. \u2014 53.<br \/>\nSenaqueribe, rei dos Ass\u00edrios, foi morto pelos filhos. \u2014 55-57.<br \/>\nTam\u00edris, rainha dos Massagetas, tendo vencido Ciro, o mandou<br \/>\nmatar num odre cheio de sangue, dizendo: Sacia-te de sangue,<br \/>\nmonstro. \u2014 59-60. Holofernes, general ass\u00edrio, morto por Judite<br \/>\ndurante o s\u00edtio da cidade de Bet\u00falia. \u2014 61-63. Tr\u00f3ia<br \/>\nou \u00cdlion,<\/p>\n<p>357<\/p>\n<p>destru\u00edda pelos gregos. \u2014 80. A terra sexta, a hora sexta, meio-<br \/>\ndia. \u2014 102. Rubaconte, ponte de Floren\u00e7a.<\/p>\n<p>358<\/p>\n<p>CANTO XIII<\/p>\n<p>Chegam os Poetas ao segundo compartimento, no qual est\u00e3o os<br \/>\npecadores que expiam o pecado da inveja. Os invejosos t\u00eam os<br \/>\nolhos cosidos com fio de arame. Entre eles est\u00e1 S\u00e1pia, senhora<br \/>\nde Siena, com a qual Dante fala.<\/p>\n<p>DA escada ao topo hav\u00edamos chegado,<br \/>\nOnde, outra vez cortado, o monte estreita,<br \/>\n3 Que alma sobe, expiando o seu pecado.<\/p>\n<p>Como a primeira, outra cornija feita<br \/>\nCircundava a colina, s\u00f3 dif\u2019rente<br \/>\n6 Em que a um arco menor ela se ajeita.<\/p>\n<p>Relevo, formas, como a precedente,<br \/>\nN\u00e3o mostra: e, lisa sobre a escarpa a entrada,<br \/>\n9 L\u00edvida cor a pedra tem somente.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe a presen\u00e7a de algu\u00e9m fosse esperada,<br \/>\nQue nos preste conselho\u201d \u2014 diz meu Guia \u2014<br \/>\n12 \u201cTemo que fique a escolha retardada.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Os olhos para o sol depois erguia,<br \/>\nE, sobre o p\u00e9 direito se firmando,<br \/>\n15 Para a esquerda girava e se volvia.<\/p>\n<p>359<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTu, de quem tudo fio, \u00f3 lume brando<br \/>\nNo caminho conduz-nos que se of\u2019rece<br \/>\n18 Como o exige o lugar\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cguiando!<\/p>\n<p>\u201cRaiando, o teu calor o mundo aquece:<br \/>\nSe motivo n\u00e3o surge de embara\u00e7o,<br \/>\n21 De conduzir-nos teu fulgor n\u00e3o cesse!\u201d<\/p>\n<p>Vencido em breve t\u00ednhamos espa\u00e7o,<br \/>\nQue por milha na terra calculamos,<br \/>\n24 Porque o desejo estimulava o passo:<\/p>\n<p>Em direitura a n\u00f3s voar julgamos<br \/>\nInvis\u00edveis esp\u00edritos, chamando<br \/>\n27 De amor \u00e0 mesa em l\u00e9pidos reclamos.<\/p>\n<p>A voz primeira que passou voando,<br \/>\nVinum non habent proferiu sonora<br \/>\n30 E ainda muito al\u00e9m foi reiterando.<\/p>\n<p>Mas antes de perder-se pelo ar fora,<br \/>\nOutra acercou-se. \u2014 \u201cOrestes sou!\u201d \u2014 dizia;<br \/>\n33 E apartou-se igualmente sem demora.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue vozes estas s\u00e3o, Mestre?\u201d \u2014 inquiria.<br \/>\nMas, apenas falara, eis vem terceira.<br \/>\n36 \u2014 \u201cAmai imigos vossos!\u201d \u2014 eu lhe ouvia.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPune este c\u00edrc\u2019lo a culpa trai\u00e7oeira\u201d<br \/>\n\u2014<br \/>\nO Mestre diz \u2014 \u201cda inveja; o a\u00e7oite aplica<\/p>\n<p>360<\/p>\n<p>39 O amor, que os rigores lhe aligeira.<\/p>\n<p>\u201cContr\u00e1rio som, por\u00e9m, o freio indica.<br \/>\nAntes que atinjas do perd\u00e3o a entrada,<br \/>\n42 Ter\u00e1s de ouvi-lo; e disto certo fica.<\/p>\n<p>\u201cTem ora a vista para al\u00e9m fitada;<br \/>\nDe esp\u00edritos, ao longo do alto muro,<br \/>\n45 Assentados ver\u00e1s soma avultada.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Mais que de antes ent\u00e3o a vista apuro;<br \/>\nAlmas distingo, que envolviam mantos,<br \/>\n48 Que a cor imitam do penhasco duro.<\/p>\n<p>Um pouco avante ouvi de esp\u2019ritos tantos<br \/>\nA voz bradar: \u2014 \u201cPor n\u00f3s orai, Maria,<br \/>\n51 Pedro, Miguel e todos os mais Santos!\u201d<\/p>\n<p>Na terra homem t\u00e3o fero n\u00e3o seria,<br \/>\nQue n\u00e3o sentisse o cora\u00e7\u00e3o pungido<br \/>\n54 Em vendo o que aos meus olhos se of\u2019recia.<\/p>\n<p>Acerquei-me por ser mais distinguido<br \/>\nDe cada sombra o menear e o gesto:<br \/>\n57 Pelos olhos \u00e0 dor al\u00edvio hei tido.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o foi claramente manifesto<br \/>\nQue entre si, uns aos outros se arrimavam,<br \/>\n60 Todos \u00e0 pedra, em seu cil\u00edcio mesto.<\/p>\n<p>361<\/p>\n<p>Assim os pobres cegos mendigavam<br \/>\nNos dias de Perd\u00e3o da igreja \u00e0 porta,<br \/>\n63 Mutuamente as cabe\u00e7as encostavam;<\/p>\n<p>Pois a piedade o cora\u00e7\u00e3o nos corta,<br \/>\nQuando ao som das palavras se acrescenta<br \/>\n66 Da vista a a\u00e7\u00e3o que o peito desconforta<\/p>\n<p>E como o sol aos cegos n\u00e3o se ostenta,<br \/>\nAssim tamb\u00e9m \u00e0s sombras que alivia,<br \/>\n69 N\u00e3o mais do c\u00e9u a luz olhos alenta.<\/p>\n<p>Fio de ferro as p\u00e1lpebras prendia<br \/>\nA todas, como ao gavi\u00e3o selvage<br \/>\n72 Para domar-lhe a condi\u00e7\u00e3o bravia.<\/p>\n<p>Cuidei, se andasse, lhes fazer ultraje,<br \/>\nLhes vendo as faces e ocultando a minha:<br \/>\n75 E o Mestre olhei em t\u00e1cita linguage.<\/p>\n<p>E o Mestre, bem sabendo o que convinha,<br \/>\nAntecipou-se logo ao meu desejo<br \/>\n78 E disse: \u2014 \u201cArguto s\u00ea, e fala asinha.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Virg\u00edlio caminhava neste ensejo<br \/>\nDo lado, onde \u00e0 cornija falta amparo;<br \/>\n81 Dali cair se pode e o risco eu vejo.<\/p>\n<p>As almas do outro lado eram; reparo<br \/>\nQue dos olhos a h\u00f3rrida costura<\/p>\n<p>362<\/p>\n<p>84 Provoca pranto copioso e amaro.<\/p>\n<p>Voltei-me e disse: \u2014 \u201c\u00d3 almas, que a ventura<br \/>\nDe ver tereis ao certo o excelso Lume;<br \/>\n87 De que somente o vosso anelo cura,<\/p>\n<p>\u201cDissolva a Gra\u00e7a em v\u00f3s todo o negrume<br \/>\nDa consci\u00eancia e nela manar fa\u00e7a<br \/>\n90 Da mente o rio em l\u00edmpido corrume!<\/p>\n<p>\u201cConcedei-me o que mais me satisfa\u00e7a:<br \/>\nDizei-me qual de v\u00f3s latina h\u00e1 sido;<br \/>\n93 De eu sab\u00ea-lo algum bem talvez lhe nas\u00e7a.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor p\u00e1tria, irm\u00e3o, s\u00f3 hemos conhecido<br \/>\nA cidade de Deus: dizer quiseste<br \/>\n96 Peregrina na It\u00e1lia haja vivido.\u201d \u2014<\/p>\n<p>De mim remota a voz parece deste,<br \/>\nQue assim disse; e portanto, passo avante<br \/>\n99 Por saber certo a quem aten\u00e7\u00e3o preste.<\/p>\n<p>E uma senhora entre as mais vi, que, distante,<br \/>\nAguardava-me. E como eu a distinguia?<br \/>\n102 Qual cego, al\u00e7ava o mento pra diante.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTu, que para subir penas\u201d \u2014 dizia \u2014<br \/>\n\u201cQuem foste, onde nasceste diz: te imploro,<br \/>\n105 Se \u00e9 tua voz que, h\u00e1 pouco, respondia.\u201d<\/p>\n<p>363<\/p>\n<p>\u2014 \u201cFui de Siena\u201d \u2014 tornou \u2014 \u201ccom este<br \/>\nchoro<br \/>\nOs graves erros de perversa vida,<br \/>\n108 E a Deus que se nos d\u00ea, clemente, exoro.<\/p>\n<p>\u201cChamei-me S\u00e1pia, mas n\u00e3o fui sabida.<br \/>\nMais deleite me deu o alheio dano<br \/>\n111 Do que a dita a mim pr\u00f3pria concedida.<\/p>\n<p>\u201cE por que n\u00e3o presumas que te engano,<br \/>\nSe fui louca ver\u00e1s pelo que digo.<br \/>\n114 J\u00e1 no decl\u00ednio do viver humano<\/p>\n<p>\u201cEu era, quando a rebater o inimigo<br \/>\nEm Colle os meus patr\u00edcios campearam;<br \/>\n117 A Deus roguei que lhes n\u00e3o fosse amigo.<\/p>\n<p>\u201cDestro\u00e7ados, \u00e0 fuga se lan\u00e7aram,<br \/>\nE a mim, que estava aquele transe vendo,<br \/>\n120 Indiz\u00edveis prazeres me tornaram,<\/p>\n<p>\u201cEm modo, que atrevida, olhos erguendo,<br \/>\n\u2014 \u201cN\u00e3o mais Deus tenho!\u201d \u2014 contra o c\u00e9u<br \/>\ngritava<br \/>\n123 Qual melro, instantes de bonan\u00e7a tendo.<\/p>\n<p>\u201cCom Deus quis paz, mas quando j\u00e1 tocava<br \/>\nDa vida o termo; e ainda n\u00e3o pudera<br \/>\n126 A d\u00edvida solver, que me onerava,<\/p>\n<p>\u201cSe Pedro Pettinanho n\u00e3o se houvera,<br \/>\nNas santas opera\u00e7\u00f5es de mim lembrado:<\/p>\n<p>364<\/p>\n<p>129 Em prol meu, caridade o comovera.<\/p>\n<p>\u201cMas quem \u00e9s, que nos tens interrogado,<br \/>\nQue estando, creio, de olhos n\u00e3o tolhidos<br \/>\n132 E respirando indagas nosso estado?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cOlhos\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cterei tamb\u00e9m<br \/>\ncerzidos,<br \/>\nPor\u00e9m por pouco tempo; que da inveja<br \/>\n135 No mundo h\u00e3o sido rara vez torcidos,<\/p>\n<p>\u201cMaior receio o peito me dardeja<br \/>\nDe outro tormento; e tanto me angustia,<br \/>\n138 Que o seu fardo a sentir cuido j\u00e1 steja.\u0336#8221; \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMas quem ao monte\u201d \u2014 me tornou \u2014 \u201cte<br \/>\nguia,<br \/>\nPois de voltar ao mundo tens certeza?\u201d \u2014<br \/>\n141 \u2014 \u201cQuem tenho ao lado e voz n\u00e3o pronuncia.<\/p>\n<p>\u201cInda vivo; e, pois fala com franqueza,<br \/>\nAlma eleita, se queres que os p\u00e9s mova<br \/>\n144 Em prol teu l\u00e1 na terra com presteza.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO que dizendo est\u00e1s, cousa \u00e9 t\u00e3o nova<br \/>\nQue por mim rogues fervorosa pe\u00e7o,<br \/>\n147 Pois da divina dile\u00e7\u00e3o d\u00e1s prova.<\/p>\n<p>\u201cE pelo que te merecer mais pre\u00e7o<br \/>\nSuplico-te: ao pisar terra toscana<br \/>\n150 Ao meu nome entre os meus aviva o apre\u00e7o.<\/p>\n<p>365<\/p>\n<p>\u201cTer\u00e1s de v\u00ea-los entre a gente insana,<br \/>\nQue espera em Talamone, mas como antes,<br \/>\nQuando buscava as \u00e1guas do Diana:<\/p>\n<p>154 Mor engano h\u00e1 de ser dos almirantes.\u201d \u2014<\/p>\n<p>29. Vinum non habent, \u00e9 a frase que Maria disse a Jesus para<br \/>\nincit\u00e1-lo a fazer o milagre da transforma\u00e7\u00e3o da \u00e1gua<br \/>\nem vinho.<br \/>\n\u2014 32. Orestes sou, Orestes para salvar P\u00edlades, condenado \u00e0<br \/>\nmorte, apresentou-se em seu lugar. \u2014 36. Amai imigos vossos,<br \/>\nv. Evang. S. Mateus V. \u2014 44-51. Por n\u00f3s orais etc., prece. \u2014<br \/>\n109. S\u00e1pia, senense, casada com Ghinigaldo Saraceni. \u2014 116.<br \/>\nEm Colle, onde os senenses foram derrotados pelo florentinos.<br \/>\nS\u00e1pia rejubilou-se disso, pois era inimiga do senhor de Siena,<br \/>\nProvenzano Salvani. \u2014 127. Pedro Pettinanho, morto em fama<br \/>\nde santidade. \u2014 151-154. A gente insana, os senenses. Tendo<br \/>\neles comprado Telamone, queriam transformar essa cidade em<br \/>\nporto de mar, mas n\u00e3o foi poss\u00edvel devido \u00e0 insalubridade<br \/>\ndo<br \/>\nclima. N\u00e3o tiveram \u00eaxito tamb\u00e9m na descoberta de um rio<br \/>\nsubterr\u00e2neo que devia passar debaixo de Siena e que chamaram<br \/>\nDiana. Mais do que outros ser\u00e3o enganados os almirantes.<\/p>\n<p>366<\/p>\n<p>CANTO XIV<\/p>\n<p>Dante conversa com outras almas de invejosos. Respondendo o<br \/>\nPoeta a uma pergunta de Rinieri de Calboli, interv\u00e9m Guido del<br \/>\nDuca, imprecando contra as cidades de Toscana e lamentando,<br \/>\ndepois, a degenera\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias nobres de Romanha.<br \/>\nOs<br \/>\nPoetas ouvem vozes que lembram epis\u00f3dios nos quais o pecado<br \/>\nda inveja foi castigado.<\/p>\n<p>\u201cESTE quem \u00e9 ao nosso monte vindo,<br \/>\nSem ter-lhe a morte as asas desatado,<br \/>\n3 Os olhos, quando quer, fechando e abrindo?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cIgnoro; mas vem de outro acompanhado.<br \/>\nTu, que \u00e9s mais perto, a perguntar come\u00e7a,<br \/>\n6 E, para nos falar, mostra-lhe agrado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>De dois esp\u2019ritos junto se endere\u00e7a<br \/>\nA mim desta arte a voz: st\u00e3o-me a direita,<br \/>\n9 Cada um para tr\u00e1s al\u00e7a a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 alma\u201d \u2014 disse-me uma \u2014 \u201cque,<br \/>\nna estreita<br \/>\nPris\u00e3o corp\u00f3rea ainda, aos c\u00e9us ascende,<br \/>\n12 D\u00e1-nos consolo, \u00e0 caridade afeita.<\/p>\n<p>\u201cQuem \u00e9s e donde vens? Porque nos prende<br \/>\nPasmo notando a Gra\u00e7a, que te ampara,<\/p>\n<p>367<\/p>\n<p>15 Portento que ningu\u00e9m viu, nem compreende.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>Tornei-lhe: \u2014 \u201cNa Toscana se depara<br \/>\nRio, que brota em Falterona escasso<br \/>\n18 E nunca, milhas cem correndo, p\u00e1ra:<\/p>\n<p>\u201cEste corpo dali conduzo lasso.<br \/>\nDizer quem sou discurso v\u00e3o seria:<br \/>\n21 Meu nome inda n\u00e3o soa em largo espa\u00e7o.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe bem te entendo\u201d \u2014 assim me respondia<br \/>\nA sombra, que antes de outra eu tinha ouvido \u2014<br \/>\n24 \u201cAo Arno o dizer teu se referia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor que\u201d \u2014 lhe atalha a outra \u2014 \u201cele<br \/>\nescondido<br \/>\nNos tem do rio o nome verdadeiro?<br \/>\n27 Cousa horr\u00edvel se encerra em seu sentido?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Disse-lhe a sombra, que falou primeiro:<br \/>\n\u2014 \u201cN\u00e3o sei; mas fora bem feliz o instante,<br \/>\n30 Em que o nome pere\u00e7a ao vale inteiro:<\/p>\n<p>\u201cD\u00eas que nasce l\u00e1 onde \u00e9 redundante<br \/>\nDe \u00e1guas a serra que o Peloro unira,<br \/>\n33 Noutras partes, por\u00e9m, pouco abundante,<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 que o mar do seu tributo aufira<br \/>\nReparo ao que no seio o c\u00e9u lhe suga,<\/p>\n<p>368<\/p>\n<p>36 E vida assim pra novos rios tira,<\/p>\n<p>\u201cTodos ali virtude h\u00e3o posto em fuga,<br \/>\nQual v\u00edbora inimiga, ou por efeito<br \/>\n39 Do clima, ou por moral, que o bem refuga.<\/p>\n<p>\u201cNatureza por v\u00edcios se h\u00e1 desfeito<br \/>\nNa gente desse vale impuro,<br \/>\n42 Como de Circe apascentada a jeito.<\/p>\n<p>\u201cCava o rio primeiro o leito escuro<br \/>\nEntre porcos mais di\u2019nos de bolota<br \/>\n45 Do que de cibo, em que haja humano apuro.<\/p>\n<p>\u201cBaixando, acha de gozos m\u00f3 abjeta,<br \/>\nEm que o furor \u00e0 for\u00e7a n\u00e3o se iguala,<br \/>\n48 E, como por desd\u00e9m, busca outra meta.<\/p>\n<p>\u201cEssa maldita e desgra\u00e7ada vala<br \/>\nTantos mais c\u00e3es em lobos v\u00ea tornados<br \/>\n51 Quanto mais corre e mais caudal resvala.<\/p>\n<p>\u201cImerge em princ\u00edpios mais rasgados,<br \/>\nOnde encontra raposas t\u00e3o manhosas,<br \/>\n54 Que os la\u00e7os mais sutis ficam frustrados.<\/p>\n<p>\u201cDo porvir direi cousas espantosas,<br \/>\nE quem me ouvir conserve na lembran\u00e7a<br \/>\n57 Verdades que h\u00e1 de ver bem dolorosas.<\/p>\n<p>369<\/p>\n<p>\u201cTeu neto os lobos a ca\u00e7ar se lan\u00e7a<br \/>\nDesse rio maldito sobre a riva:<br \/>\n60 Enquanto os n\u00e3o destro\u00e7a n\u00e3o descansa.<\/p>\n<p>\u201cA carne sua vende, estando viva,<br \/>\nComo reses depois mata-os cruento;<br \/>\n63 Muitos da vida e a si da gl\u00f3ria priva.<\/p>\n<p>\u201cDa triste selva sai sanguinolento<br \/>\nE a deixa, tal que ainda ap\u00f3s mil anos<br \/>\n66 Tornar n\u00e3o h\u00e1 de ao primitivo assento.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Como, ao press\u00e1gio de futuros danos,<br \/>\nMerenc\u00f3rio se mostra o interessado,<br \/>\n69 Onde quer que a fortuna urda os enganos;<\/p>\n<p>Assim o outro esp\u00edrito: voltado<br \/>\nPara escutar se havendo, se entristece,<br \/>\n72 Depois que teve o s\u00f3cio terminado.<\/p>\n<p>Como saber seus nomes eu quisesse,<br \/>\nOuvindo aquele, ao outro o gesto vendo,<br \/>\n75 A pergunta entre rogos se oferece.<\/p>\n<p>O que falara respondeu dizendo:<br \/>\n\u201cPedes que eu, pronto, quanto anelas fa\u00e7a,<br \/>\n78 A inst\u00e2ncia minha em pouco apre\u00e7o tendo.<\/p>\n<p>\u201cMas como em ti de Deus transluz a Gra\u00e7a,<br \/>\nN\u00e3o te h\u00e1 de ser Guido del Duca esquivo<\/p>\n<p>370<\/p>\n<p>81 Tanto, que o teu querer n\u00e3o satisfa\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cDa inveja o fogo ardeu em mim t\u00e3o vivo,<br \/>\nQue ao ver sorriso de outrem no semblante,<br \/>\n84 Em meu rosto o libor era expressivo.<\/p>\n<p>\u201cSemeei: colho o fruto repugnante.<br \/>\nOh! por que, ra\u00e7a humana, o que repele<br \/>\n87 Qualquer partilha almejas ofegante?<\/p>\n<p>\u201cEste foi Rinieri: estava nele<br \/>\nDos Calboli o primor: ao nome honrado<br \/>\n90 Herdeiro n\u00e3o deixou que a gl\u00f3ria zele.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o s\u00f3 \u00e0 prole sua tem faltado,<br \/>\nEntre o P\u00f3 e a montanha, o mar e o Reno<br \/>\n93 O bem para a verdade e o prazer dado;<\/p>\n<p>\u201cPela extensa amplid\u00e3o desse terreno<br \/>\nAlastram tudo abrolhos perigosos:<br \/>\n96 Quando extirpar se pode um tal veneno?<\/p>\n<p>\u201cOnde Mainardi e Lizio est\u00e3o famosos?<br \/>\nQual de Carpigna e Traversaro o fado?<br \/>\n99 \u00d3 Romanh\u00f3is bastardos desbriosos!<\/p>\n<p>\u201cQuando um Fabro se tem nobilitado,<br \/>\nComo em Faenza um Fosco Bernardino,<br \/>\n102 Varas gentis de tronco definhado!<\/p>\n<p>371<\/p>\n<p>\u201cO pranto meu n\u00e3o julgues pouco di\u2019no,<br \/>\nSe com Guido de Prata rememoro<br \/>\n105 O companheiro nosso, Azzo Ugolino;<\/p>\n<p>\u201cSe Fred\u2019rico Tignoso e a prole choro;<br \/>\nSolares de Anastagi e Traversara,<br \/>\n108 Sem herdeiros extintos, se eu deploro,<\/p>\n<p>\u201cCavaleiros e damas, gl\u00f3ria rara,<br \/>\nQue inspiravam amor e cortesia<br \/>\n111 Na terra, que a virtude desampara!<\/p>\n<p>\u201cCai em ru\u00ednas, Brettinoro \u00edmpia!<br \/>\nEm ti viver tua gente n\u00e3o quisera;<br \/>\n114 Com mais outras, temendo o mal, fugia.<\/p>\n<p>\u201cBem faz Bagnacaval: prole n\u00e3o gera,<br \/>\nCastrocaro faz mal e pior C\u00f4nio<br \/>\n117 Que a tais condes da vida o lume dera.<\/p>\n<p>\u201cOs Pagani ir\u00e3o bem, quando o Dem\u00f4nio<br \/>\nDeix\u00e1-los; mais n\u00e3o podem nome puro<br \/>\n120 J\u00e1 nunca possuir no solo aus\u00f4nio.\u201d<\/p>\n<p>Ugolin Fantolin, ficou seguro<br \/>\nDa fama tua o lustre; pois j\u00e1 agora<br \/>\n123 N\u00e3o ter\u00e1s filhos pra torn\u00e1-lo escuro.<\/p>\n<p>\u201cPodes, Toscano, prosseguir embora:<br \/>\nPranto, mais que discursos, me deleita;<\/p>\n<p>372<\/p>\n<p>126 Lembrando a p\u00e1tria, o cora\u00e7\u00e3o me chora.\u201d \u2014<\/p>\n<p>O passo as almas na vereda estreita<br \/>\nOuviam-nos, sil\u00eancio elas guardando.<br \/>\n129 Era a jornada com certeza feita.<\/p>\n<p>J\u00e1 ficar\u00edamos s\u00f3s, avante andando,<br \/>\nEis brada voz nos ares de repente;<br \/>\n132 Veloz, qual raio, vinha a n\u00f3s chamando:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuem me encontrar me mate incontin\u00eanti\u201d \u2014<br \/>\nE fugiu qual trov\u00e3o que distancia<br \/>\n135 Se o vento a nuvem rasga de repente.<\/p>\n<p>O terr\u00edvel clamor cessado havia,<br \/>\nCom medonho fracasso eis outra brada,<br \/>\n138 Como um trov\u00e3o que a outro sucedia:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAglauro sou, em rocha transformada\u201d \u2014<br \/>\nE a Virg\u00edlio acercar-me ent\u00e3o querendo,<br \/>\n141 Dei, n\u00e3o avante, um passo atr\u00e1s na estrada.<\/p>\n<p>Tranq\u00fcilo o ar por toda parte vendo,<br \/>\n\u2014 \u201cEste \u00e9\u201d \u2014 falou-me o Mestre \u2014 \u201co<br \/>\nduro freio,<br \/>\n144 Que os homens deve estar sempre contendo:<\/p>\n<p>\u201cMas v\u00f3s mordeis a isca em triste enleio<br \/>\nE o pr\u00edstino inimigo do anzol tira:<br \/>\n147 De conter ou pungir que vale o meio?<\/p>\n<p>373<\/p>\n<p>\u201cO c\u00e9u vos chama, em torno de v\u00f3s gira,<br \/>\nEsplendores eternos vos mostrando;<br \/>\nMas a vista, enlevada, a terra mira,<\/p>\n<p>151 \u201cE quem v\u00ea tudo ent\u00e3o vai castigando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>17. Rio que brota em Falterona, o Arno. \u2014 32. Peloro,<br \/>\npromont\u00f3rio siciliano. \u2014 42. Circe, sereia que transformava os<br \/>\nhomens em animais. \u2014 58. Teu neto, Fulcieri de Calboli, neto de<br \/>\nRinieri, que foi \u201cpodest\u00e0\u201d de Floren\u00e7a perseguiu<br \/>\no partido dos<br \/>\nBancos, ao qual Dante pertencia. \u2014 80. Guido del Duca, senhor<br \/>\nde Bertinoro, na Romanha. \u2014 88. Rinieri dei Paolucci, senhor de<br \/>\nCalboli. \u2014 97 e seg. Mainardi e Lizio, Carpigna e Troversaro,<br \/>\nFabbro, Fosco Bernardino, Guido de Prata, Azzo Ugolino,<br \/>\nFrederico Tignoso, Anastagi e Traversara, senhores e fam\u00edlias da<br \/>\nRomanha not\u00e1veis por cortesia e generosidade. \u2014 115-117.<br \/>\nBagnacaval, Castrocaro, C\u00f4nio, cidades da Romanha cujos<br \/>\nsenhores eram maus. \u2014 118. Pagani, nobre fam\u00edlia de Faenza,<br \/>\nda qual fazia parte Mainardo (Inf. XXVI, 49-51) alcunhado o<br \/>\ndem\u00f4nio pelas suas crueldades. \u2014 121. Ugolin Fantolin, gentil-<br \/>\nhomem de Faenza. \u2014 133. Quem me encontrar me mate<br \/>\nincontin\u00eanti, palavras pronunciadas por Caim depois de ter<br \/>\nassassinado o irm\u00e3o Abel. \u2014 139. Aglauro, filha de Eretero rei<br \/>\nde Atenas, foi transformada em pedra por Merc\u00fario, por ter<br \/>\ninveja da irm\u00e3 Erse que era amada pelo deus.<\/p>\n<p>374<\/p>\n<p>CANTO XV<\/p>\n<p>Caindo a noite, os dois Poetas chegam ao terceiro compartimento.<br \/>\nA\u00ed Dante, em \u00eaxtase, v\u00ea exemplos de mansuetude e miseric\u00f3rdia.<br \/>\nVoltando a si, encontra-se imerso num fumo que obscurece o ar e<br \/>\nimpede a vis\u00e3o.<\/p>\n<p>QUANTO caminho faz da t\u00e9rcia hora,<br \/>\nNo giro seu, a luminosa esfera,<br \/>\n3 \u2014 Sempre a mover-se qual crian\u00e7a \u2014 \u00e0 aurora,<\/p>\n<p>Tanto, para acabar o curso, espera<br \/>\nO sol, e para dar \u00e0 tarde entrada:<br \/>\n6 L\u00e1 v\u00e9speras, aqui meia-noite era.<\/p>\n<p>De luz me estava a face ent\u00e3o banhada;<br \/>\nPorque, em torno \u00e0 montanha prosseguindo,<br \/>\n9 Do ocaso em dire\u00e7\u00e3o ia a jornada,<\/p>\n<p>Quando, mais vivo resplendor fulgindo,<br \/>\nOfuscado fiquei mais do que dantes:<br \/>\n12 Desse portento a a\u00e7\u00e3o pasmei sentindo.<\/p>\n<p>Acima de meus olhos, por instantes,<br \/>\nAs m\u00e3os alcei \u2014 sombreiro, que antepara<br \/>\n15 O mor excesso aos raios deslumbrantes.<\/p>\n<p>375<\/p>\n<p>Assim como de espelho ou linfa clara<br \/>\nRessalta a luz de encontro \u00e0 oposta parte,<br \/>\n18 Subindo logo ap\u00f3s, como baixara;<\/p>\n<p>Da linha vertical n\u00e3o se disparte,<br \/>\nUma dist\u00e2ncia igual sempre mantendo,<br \/>\n21 Como nos mostra experi\u00eancia e arte:<\/p>\n<p>Em frente \u00e0 luz, assim, se refrangendo,<br \/>\nT\u00e3o penetrante a vista me feria,<br \/>\n24 Que a dirigi a um lado, olhos volvendo.<\/p>\n<p>\u201cQual \u00e9\u201d \u2014 ao Mestre amado ent\u00e3o dizia \u2014<br \/>\nAquele objeto, que me ofusca tanto<br \/>\n27 E ao nosso encontro, ao parecer, se envia?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue inda te ofusque n\u00e3o te mova espanto<br \/>\nA celeste fam\u00edlia\u201d \u2014 me h\u00e1 tornado: \u2014<br \/>\n30 \u201cFalar-te vem um mensageiro santo.<\/p>\n<p>\u201cA veres com del\u00edcia aparelhado<br \/>\nSer\u00e1s em breve um lume refulgente,<br \/>\n33 Quanto ser pode ao ente humano dado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Acercados ao anjo, alegremente<br \/>\nNos disse: \u2014 \u201cAqui passai, menos penosa<br \/>\n36 Subida nesta escada est\u00e1 patente.\u201d<\/p>\n<p>Andando, atr\u00e1s cantar em voz donosa<br \/>\nBeati Misericordes n\u00f3s ouvimos<\/p>\n<p>376<\/p>\n<p>39 E \u201cExulta na vit\u00f3ria gloriosa\u201d,<\/p>\n<p>Para cima, portanto, n\u00f3s subimos;<br \/>\nE eu das vozes do Vate cogitava<br \/>\n42 Colher proveito, enquanto s\u00f3s nos imos.<\/p>\n<p>E, me voltando, assim lhe perguntava:<br \/>\n\u201cO que Guido del Duca nos dizia,<br \/>\n45 Quando em bens n\u00e3o part\u00edveis nos falava?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDo seu v\u00edcio pior\u201d \u2014 tornou \u2014 \u201csabia<br \/>\nOs danos; n\u00e3o se estranhe, se o acusando,<br \/>\n48 Do mal que fazer possa prevenia;<\/p>\n<p>\u201cPorque, do mundo os bens v\u00f3s desejando,<br \/>\nA que partilha todo o apre\u00e7o tira,<br \/>\n51 Arde a inveja, suspiros provocando.<\/p>\n<p>Mas, se a esfera imortal vossa alma aspira,<br \/>\nLevantando-se o anelo \u00e0quela altura,<br \/>\n54 Esse temor no peito voz expira.<\/p>\n<p>\u201cTanto mais l\u00e1 cad\u2019um goza ventura,<br \/>\nQuanto por muitos ela mais se estende,<br \/>\n57 Quanto mais caridade l\u00e1 se apura.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO entendimento\u201d \u2014 eu digo \u2014 \u201cora<br \/>\ncompreende<br \/>\nMenos do que antes de eu te haver falado;<br \/>\n60 \u00c0 mente ora mor d\u00favida descende.<\/p>\n<p>377<\/p>\n<p>\u201cComo um bem, que \u00e9 de muitos partilhado,<br \/>\nA cada possessor d\u00e1 mais riqueza<br \/>\n63 Do que se a posse fora apropriado?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTeu sp\u00edrito\u201d \u2014 replica \u2014 \u201cna<br \/>\nrudeza<br \/>\nDas cousas terreais stando imergido,<br \/>\n66 V\u00ea trevas onde a luz tem mais clareza,<\/p>\n<p>\u201cEsse inef\u00e1vel bem, no c\u00e9u fru\u00eddo,<br \/>\nInfindo, para o amor, correndo desce,<br \/>\n69 Qual raio a corpo l\u00facido e polido.<\/p>\n<p>\u201cSe ardor acha mais vivo, mais se of\u2019rece;<br \/>\nQuanto mais caridade est\u00e1 fulgindo,<br \/>\n72 Virtude eterna mais sobre ela cresce.<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais vai a multid\u00e3o subindo,<br \/>\nMais amar podem, mais a amor se aplicam,<br \/>\n75 Bem como espelho, um no outro refletindo.<\/p>\n<p>\u201cSe persistindo as d\u00favidas te ficam,<br \/>\nH\u00e1s de ver Beatriz: da s\u00e1bia mente<br \/>\n78 Raz\u00e3o escutar\u00e1s, que tudo explicam.<\/p>\n<p>\u201cPara apagares, pois, s\u00ea diligente.<br \/>\nAs chagas cinco, que inda em ti stou vendo:<br \/>\n81 H\u00e1 de cerr\u00e1-las contri\u00e7\u00e3o pungente.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>Quando eu ia dizer \u2014 Mestre, compreendo \u2014<\/p>\n<p>378<\/p>\n<p>No c\u00edrculo eis penetro imediato:<br \/>\n84 Calei-me, a vista alucinada tendo.<\/p>\n<p>Julgava ent\u00e3o, de uma vis\u00e3o no rapto,<br \/>\nExt\u00e1tico, que em templo se mostrava<br \/>\n87 Multid\u00e3o grande, de ora\u00e7\u00e3o no ato.<\/p>\n<p>Com piedoso semblante, \u00e0 entrada estava<br \/>\nMeiga matrona. \u2014 \u201c\u00d3 filho meu querido,<br \/>\n90 Por que assim procedeste?\u201d \u2014 interrogava.<\/p>\n<p>\u201cEu e teu pai, com \u00e2nimo dorido,<br \/>\nTe buscamos.\u201d \u2014 E como se calara,<br \/>\n93 Logo a vis\u00e3o fugiu-me do sentido.<\/p>\n<p>Depois de outra no rosto se depara<br \/>\nPranto acerbo, que m\u00e1goas anuncia<br \/>\n96 De quem de ira no inc\u00eandio se inflamara.<\/p>\n<p>\u201cSe mandas na cidade\u201d \u2014 assim dizia \u2014<br \/>\n\u201cPor cujo nome os deuses contenderam<br \/>\n99 E onde a luz da ci\u00eancia se irradia,<\/p>\n<p>\u201cPune os bra\u00e7os, que \u00edmpios, se atreveram,<br \/>\nPis\u00edstrato, a estreitar a filha tua!\u201d \u2014<br \/>\n102 Ele, a quem vozes tais n\u00e3o comoveram,<\/p>\n<p>Tranq\u00fcilo respondia \u00e0 esposa sua:<br \/>\n\u201cO que faremos a quem mal nos queira,<br \/>\n105 Se ira ao amor corresponder t\u00e3o crua?\u201d<\/p>\n<p>379<\/p>\n<p>Vi depois multid\u00e3o, que a raiva aceira:<br \/>\nA pedradas mancebo assassinava,<br \/>\n108 Bradando \u2014 morra! morra! \u2014 carniceira.<\/p>\n<p>A dolorida fronte debru\u00e7ava,<br \/>\nJ\u00e1 mal ferido, o m\u00e1rtir para a terra:<br \/>\n111 Portas ao c\u00e9u os olhos seus tornava,<\/p>\n<p>Pedindo a Deus, naquela horr\u00edvel guerra,<br \/>\nQue aos seus perseguidores perdoasse:<br \/>\n114 Riso piedoso os olhos lhe descerra.<\/p>\n<p>Quando em minha alma o \u00eaxtase desfaz-se,<br \/>\nConheci que no sonho aparecia,<br \/>\n117 N\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o mas da verdade a face.<\/p>\n<p>Virg\u00edlio, a quem talvez eu parecia<br \/>\nHomem, que o sono deixa de repente,<br \/>\n120 \u2014 \u201cPor que est\u00e1s vacilante?\u201d \u2014 me inquiria.<\/p>\n<p>\u201cTens meia l\u00e9gua andado certamente<br \/>\nCom titubante p\u00e9, de olhos ca\u00eddos,<br \/>\n123 Como quem desse ao vinho ou sono a mente.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVou expor, meu bom mestre, aos teus<br \/>\nouvidos\u201d \u2014<br \/>\nTornei \u2014 \u201cquanto os meus olhos contemplaram,<br \/>\n126 Quando os joelhos tinha enfraquecidos.\u201d<\/p>\n<p>380<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe m\u00e1sc\u2019ras cento a face te ocultaram\u201d \u2014<br \/>\nDisse Virg\u00edlio \u2014 \u201cocultos n\u00e3o seriam<br \/>\n129 Pensamentos, que, h\u00e1 pouco, te enlevaram.<\/p>\n<p>\u201cAs imagens, que h\u00e1s visto, te induziam<br \/>\n\u00c1guas da paz a receber no peito,<br \/>\n132 Que as fontes perenais dos c\u00e9us enviam.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o perguntara, como quem de feito<br \/>\nSomente v\u00ea por olhos, obcecados<br \/>\n135 Quando o corpo da morte jaz no leito;<\/p>\n<p>\u201cMas por serem teus p\u00e9s mais apressados:<br \/>\nExcitar assim cumpre os pregui\u00e7osos,<br \/>\n138 Que se esquivam \u00e0 a\u00e7\u00e3o stando acordados.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Nas horas vespertinas pressurosos<br \/>\nAnd\u00e1vamos, os olhos alongando,<br \/>\n141 Do sol cadente aos raios luminosos,<\/p>\n<p>Eis pouco a pouco, um fumo se elevando.<br \/>\nSe condensa ante n\u00f3s, qual noite, escuro;<br \/>\nAbrigo ali de todo nos faltando,<\/p>\n<p>145 A vista nos tolheu, tolhendo o ar puro.<\/p>\n<p>1-5. Quanto caminho etc., faltavam tr\u00eas horas para o ocaso, pois<br \/>\no Poeta nota que deveria transcorrer tanto tempo para o p\u00f4r do<br \/>\nsol quanto transcorre entre o princ\u00edpio do dia at\u00e9 a hora ter\u00e7a.<\/p>\n<p>381<\/p>\n<p>\u2014 6. L\u00e1 v\u00e9speras etc., no Purgat\u00f3rio faltavam<br \/>\ntr\u00eas horas para o<br \/>\nocaso, eram v\u00e9speras; na It\u00e1lia era meia-noite. \u2014 16-21.<br \/>\nAssim<br \/>\ncomo etc., o poeta descreve o refletir-se da luz que bate sobre<br \/>\num espelho ou na \u00e1gua, no qual o \u00e2ngulo de refra\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 igual ao<br \/>\n\u00e2ngulo de incid\u00eancia. \u2014 38. Beati misericordes, Evang. S.<br \/>\nMateus V, 7. \u2014 80. As chagas cinco, os cinco PP, que ainda<br \/>\nDante tem na testa. \u2014 89. Meiga matrona, Maria Virgem, a qual<br \/>\ntendo perdido o seu filho, encontrando-o depois de tr\u00eas dias, o<br \/>\nrepreende com mansuetude. \u2014 94. De outra etc., a mulher de<br \/>\nPis\u00edstrato, pr\u00edncipe de Atenas, pediu ao marido vingan\u00e7a<br \/>\ncontra<br \/>\num jovem que beijara publicamente a sua filha. \u2014 107. A<br \/>\npedrada mancebo assassinava, Santo Estev\u00e3o que foi<br \/>\napedrejado pela multid\u00e3o.<\/p>\n<p>382<\/p>\n<p>CANTO XVI<\/p>\n<p>Sempre ao lado de Virg\u00edlio, Dante continua a viagem. Denso fumo<br \/>\nenvolve os iracundos. Entre eles est\u00e1 Marco Lombardo, o qual<br \/>\nlamenta os tempos, que eram bons e agora ficaram maus. Dante<br \/>\npergunta de que depende essa muta\u00e7\u00e3o, e Marco responde que a<br \/>\ncorrup\u00e7\u00e3o dos tempos novos procede do mau governo do mundo e<br \/>\nespecialmente da confus\u00e3o entre o poder espiritual e o poder<br \/>\ntemporal.<\/p>\n<p>SOMBRA de inferno e noite carregada,<br \/>\nEm que o c\u00e9u de um s\u00f3 astro n\u00e3o se aclara,<br \/>\n3 De nuvens, quanto o pode ser, toldada,<\/p>\n<p>V\u00e9u t\u00e3o grosso ao meu rosto n\u00e3o lan\u00e7ara,<br \/>\nNem, ao contacto, fora t\u00e3o pungente,<br \/>\n6 Como o fumo, que ali nos rodeara.<\/p>\n<p>Fechados tinha os olhos totalmente:<br \/>\nFiel o s\u00e1bio s\u00f3cio, me acudindo,<br \/>\n9 Deu-me em seu ombro arrimo diligente.<\/p>\n<p>Qual cego, que ao seu guia vai seguindo<br \/>\nPor se n\u00e3o transviar, correr perigo,<br \/>\n12 Ou sofrer morte, de encontr\u00e3o caindo,<\/p>\n<p>Tal eu por aquele ar escuro sigo,<\/p>\n<p>383<\/p>\n<p>Atento ao Mestre meu, que repetia:<br \/>\n15 \u2014 \u201cCuidado! N\u00e3o te afastes! Vem comigo!\u201d \u2014<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vozes ouvi; me parecia,<br \/>\nQue paz, miseric\u00f3rdia suplicavam<br \/>\n18 Ao Cordeiro, que as culpas alivia.<\/p>\n<p>Por Agnus Dei suaves come\u00e7avam,<br \/>\nA letra era uma s\u00f3 como a toada,<br \/>\n21 Conson\u00e2ncia entre si todas as guardavam.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor quem esta ora\u00e7\u00e3o, que ou\u00e7o, \u00e9<br \/>\ncantada?\u201d<br \/>\n\u2014<br \/>\nPerguntei. Disse o Mestre: \u2014 \u201c\u00c9 bom que o<br \/>\naprendas:<br \/>\n24 Assim da ira a culpa \u00e9 mitigada.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuem \u00e9s para que a n\u00e9voa nossa fendas<br \/>\nE assim fales, qual viva criatura,<br \/>\n27 Que inda o tempo calcula por calendas?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Disse uma voz do fundo na negrura.<br \/>\nE Virg\u00edlio falou: \u2014 \u201cResponde e exora<br \/>\n30 Se por aqui se sobe para a altura.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 alma, que\u201d \u2014 disse eu \u2014 \u201ca<br \/>\ngra\u00e7a implora<br \/>\nDe ir a Quem te criou mais pura e bela,<br \/>\n33 Maravilha ouvir\u00e1s, segue-me embora.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAt\u00e9 onde for dado\u201d \u2014 tornou-me ela \u2014<\/p>\n<p>384<\/p>\n<p>\u201cIrei, e, se te ver n\u00e3o deixa o fumo,<br \/>\n36 Nos tornar\u00e1 prop\u00ednquos a loquela.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNas mantilhas, que a morte acaba, ao sumo<br \/>\nAssento\u201d \u2014 comecei \u2014 \u201cora me alteio,<br \/>\n39 Do inferno tendo vindo pelo rumo.<\/p>\n<p>\u201cSe Deus permite, de bondade cheio,<br \/>\nQue a dita eu goze de lhe ver a corte<br \/>\n42 Por este, hoje de todo estranho, meio,<\/p>\n<p>\u201cRevela-me quem foste antes da morte<br \/>\nE qual nos deva ser a melhor via:<br \/>\n45 Guiar\u00e1s nossos passos desta sorte.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cFui Lombardo e de Marco o nome havia;<br \/>\nO mundo exp\u2019rimentei, feitos amando,<br \/>\n48 Pelos quais ningu\u00e9m mais hoje porfia.<\/p>\n<p>A subir bom caminho vais trilhando.\u201d \u2014<br \/>\nFalou-me assim e acrescentou: \u2014 \u201cE rogo<br \/>\n51 Intercedas por mim, ao c\u00e9u chegando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuanto me pedes\u201d \u2014 lhe replico logo \u2014<br \/>\n\u201cJuro fazer, mas acho-me oprimido<br \/>\n54 Por d\u00favida a que anelo desafogo.<\/p>\n<p>\u201cEra simples; te ouvindo, tem subido<br \/>\nA duplo grau, e assim me torna certo<br \/>\n57 Do que hei aqui e noutra parte ouvido.<\/p>\n<p>385<\/p>\n<p>\u201cO mundo de virtude est\u00e1 deserto;<br \/>\nTens sobeja raz\u00e3o, quando o lamentas,<br \/>\n60 Impa de mal, de v\u00edcios \u00e9 coberto.<\/p>\n<p>Dize-me a causa, se na causa atentas?<br \/>\nSabendo-a, aos outros revel\u00e1-la quero;<br \/>\n63 Vir\u00e1 do c\u00e9u ou l\u00e1 na terra a assentas?\u201d<\/p>\n<p>Suspiro em que se exprime d\u00f3 sincero<br \/>\nCom hui, do peito exala. \u2014 \u201cIrm\u00e3o \u2014 prossegue<br \/>\n\u2014<br \/>\n66 Que o mundo \u00e9 cego em ti bem considero.<\/p>\n<p>\u201cV\u00f3s, os vivos, julgais o c\u00e9u entregue<br \/>\nDe toda causa, a tudo assim movendo<br \/>\n69 Por necess\u00e1ria lei, que o mundo segue.<\/p>\n<p>\u201cDesta arte o livre arb\u00edtrio fenecendo,<br \/>\nAo homem n\u00e3o coubera o que merece,<br \/>\n72 No bem prazer, no mal dor recebendo.<\/p>\n<p>\u201cPrimeira inspira\u00e7\u00e3o aos atos desce<br \/>\nDo alto; a todos n\u00e3o; mas quando o diga,<br \/>\n75 No mal, no bem a luz n\u00e3o vos falece.<\/p>\n<p>\u201cLivre sendo o querer, quem se afadiga<br \/>\nE a primeira vit\u00f3ria do c\u00e9u goza,<br \/>\n78 Vencer\u00e1 tudo, se em querer prossiga.<\/p>\n<p>386<\/p>\n<p>\u201cNatureza melhor, mais poderosa<br \/>\nVos sujeita \u2014 a que cria e vos concede<br \/>\n81 Mente, que ao c\u00e9u n\u00e3o prende-se humildosa.<\/p>\n<p>\u201cSe a causa, que do bom caminho arrede<br \/>\nO mundo em v\u00f3s a tendes persistente;<br \/>\n84 Explorarei, fiel, o que sucede.<\/p>\n<p>\u201cAlma surge das m\u00e3os do Onipotente<br \/>\nQue, inda antes de nascida, lhe sorria<br \/>\n87 Qual menina, que ri, chora, inocente.<\/p>\n<p>\u201cIng\u00eanua e simples, ela s\u00f3 sabia<br \/>\nDe um Deus beni\u2019no ser meiga feitura,<br \/>\n90 E a tudo, que a deleita, se volvia.<\/p>\n<p>\u201cDos mais fr\u00edvolos bens prende-a a do\u00e7ura,<br \/>\nE, deles namorada, ap\u00f3s lhes corre,<br \/>\n93 Se guia ou freio o amor lhe n\u00e3o segura.<\/p>\n<p>\u201cNas leis consiste o freio, que a socorre;<br \/>\nRei foi mister, que, ao menos, acertasse<br \/>\n96 Da cidade de Deus em ver a torre.<\/p>\n<p>\u201cLeis h\u00e1, mas n\u00e3o quem leis executasse;<br \/>\nRumina esse pastor que os mais precede,<br \/>\n99 Mas a unha fendida n\u00e3o lhe nasce.<\/p>\n<p>\u201cE vendo a grei que o pr\u00f3prio guia a excede<br \/>\nEm almejar os bens que mais deseja,<\/p>\n<p>387<\/p>\n<p>102 Nestes se engolfa e mais nem quer nem pede.<\/p>\n<p>\u201cPortanto, porque mau governo veja,<br \/>\nFica o mundo de culpas inquinado,<br \/>\n105 N\u00e3o porque em v\u00f3s a corrup\u00e7\u00e3o esteja.<\/p>\n<p>\u201cBens sobre o mundo havendo derramado,<br \/>\nTinha Roma dois s\u00f3is, que alumiaram<br \/>\n108 O caminho de Deus e o do Estado.<\/p>\n<p>\u201cUm ao outro apagou, e se ajuntaram<br \/>\nDo Bispo o bago e do guerreiro a espada:<br \/>\n111 Por viva for\u00e7a unidos, mal andaram.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o mais se temem na jun\u00e7\u00e3o for\u00e7ada:<br \/>\nV\u00ea a espiga que prova estes efeitos;<br \/>\n114 Pela semente \u00e9 a planta avaliada.<\/p>\n<p>\u201cValor e cortesia altos proveitos<br \/>\nDeram na terra que \u00c1dige e P\u00f3 lavam,<br \/>\n117 Antes que visse de Fred\u2019rico os feitos.<\/p>\n<p>\u201cPor ali os que outrora se pejavam<br \/>\nDe entrar dos bons na pr\u00e1tica e na liga,<br \/>\n120 Livres passam do quanto receavam.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 tr\u00eas velhos op\u00f5e a idade antiga,<br \/>\nComo censura, \u00e0 nova: \u00e9-lhe j\u00e1 tardo<br \/>\n123 Que Deus os chame dessa terra imiga:<\/p>\n<p>388<\/p>\n<p>\u201cConrado de Palazzo, o bom Gherardo<br \/>\nE Guido de Castel, que foi chamado,<br \/>\n126 Ao estilo franc\u00eas simples Lombardo.<\/p>\n<p>\u201cDe Roma a Igreja fique proclamado,<br \/>\nCai no ceno os poderes confundido,<br \/>\n129 Se enloda a si e o fardo seu pesado.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTuas s\u00e1bias raz\u00f5es, Marcos, ouvindo,<br \/>\nVejo\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cpor que a Lei da heran\u00e7a<br \/>\n132 Partiu, de Levi os filhos excluindo.<\/p>\n<p>\u201cMas qual Gherardo trazes \u00e0 lembran\u00e7a,<br \/>\nComo gl\u00f3ria e bras\u00e3o da antiga gente,<br \/>\n135 Que censura a este s\u00e9c\u2019lo impuro lan\u00e7a?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQueres\u201d \u2014 tornou \u2014 \u201ctentar-me ou<br \/>\ncertamente<br \/>\nIludir-me? Em toscano me falando<br \/>\n138 Do bom Gherardo dizes-te insciente?<\/p>\n<p>\u201cSobrenome de todo lhe ignorando,<br \/>\nDou-lhe o de Gaia, sua filha cara.<br \/>\n141 Guarde-vos Deus, que eu vou-me, vos<br \/>\ndeixando.<\/p>\n<p>\u201cDo fumo a densid\u00e3o se torna rara,<br \/>\nBranqueja o dia: devo j\u00e1 partir-me,<br \/>\nQue a apresentar-se o anjo se prepara.\u201d \u2014<\/p>\n<p>389<\/p>\n<p>145 Assim falando, mais n\u00e3o quis ouvir-me.<\/p>\n<p>19. Agnus dei, Jesus s\u00edmbolo de mansuetude, virtude contr\u00e1ria<br \/>\nao v\u00edcio da ira. \u2014 27. Calendas, uma das tr\u00eas partes em<br \/>\nque o<br \/>\nm\u00eas era dividido pelos romanos. \u2014 46. Fui Lombardo e de Marco<br \/>\no nome havia, Marco de Veneza, chamado o Lombardo, homem<br \/>\ns\u00e1bio e prudente. \u2014 98. Rumina esse pastor etc. A imagem<br \/>\nderiva da lei mosaica pela qual se proibia se comessem os<br \/>\nanimais n\u00e3o ruminantes e que n\u00e3o tivessem a unha partida. O<br \/>\nruminar exprime a sabedoria, a unha partida a a\u00e7\u00e3o. \u2014<br \/>\n116. Na<br \/>\nterra etc., a Lombardia e o Marca Trevisana. \u2014 117. De<br \/>\nFrederico os feitos, as guerras entre os papas e Frederico II da<br \/>\nSu\u00e1bia. \u2014 124-25. Conrado de Palazzo, da Brescia; Gherardo de<br \/>\nCamino; e Guido de Castello, de Reggio \u2014 131-132. Lei da<br \/>\nheran\u00e7a etc., segundo a lei mosaica os descendentes de Levi,<br \/>\nisto \u00e9, os levitas (os sacerdotes) n\u00e3o podiam possuir bens<br \/>\ntemporais.<\/p>\n<p>390<\/p>\n<p>CANTO XVII<\/p>\n<p>Saindo do denso fumo, Dante, novamente em \u00eaxtase, v\u00ea exemplos<br \/>\nde ira punida. Tornando a si, v\u00ea um anjo que est\u00e1 perto da<br \/>\nescada do quarto compartimento. Os dois Poetas continuam a<br \/>\nsubir. Sobrevindo, por\u00e9m, a noite, param e Virg\u00edlio explica<br \/>\nao<br \/>\ndisc\u00edpulo que o amor \u00e9 o princ\u00edpio de todas as virtudes<br \/>\ne de todos<br \/>\nos v\u00edcios.<\/p>\n<p>LEITOR, se l\u00e1 na alpina cordilheira<br \/>\nTe colheu n\u00e9voa, que de ver tolhia,<br \/>\n3 Como se olhos tivemos de toupeira,<\/p>\n<p>Lembra que, quando a \u00famida e sombria<br \/>\nCortina a delga\u00e7ar come\u00e7a, a esfera<br \/>\n6 Do sol escassa luz ao ar envia.<\/p>\n<p>E mal tua mente imaginar pudera<br \/>\nComo de novo \u00e0 vista se mostrava<br \/>\n9 O sol, que ao seu poente descendera.<\/p>\n<p>Ao lume, que nos planos se finava,<br \/>\nDo Mestre os passos fido acompanhando<br \/>\n12 Sa\u00ed da cerra\u00e7\u00e3o, que me cercava.<\/p>\n<p>Fantasia que, o esp\u00edrito enlevando,<br \/>\nTanto o homem dominas, que n\u00e3o sente<\/p>\n<p>391<\/p>\n<p>15 Clangor de tubas mil, juntas soando,<\/p>\n<p>O que te move, estando o siso ausente?<br \/>\nLuz que desce por si, no c\u00e9u formada,<br \/>\n18 Ou por querer do c\u00e9u onipotente.<\/p>\n<p>Cuidei s\u00fabito ver a que mudada,<br \/>\nDos crimes seus em pena, foi nessa ave,<br \/>\n21 Que em trinar mais se mostra deleitada.<\/p>\n<p>Tanto minha alma, na vis\u00e3o suave,<br \/>\nExt\u00e1tica ficou, que n\u00e3o sentia<br \/>\n24 Outra impress\u00e3o qualquer que a prenda e<br \/>\ntrave.<\/p>\n<p>Naquele \u00eaxtase logo ap\u00f3s eu via<br \/>\nEm cruz um homem de feroz semblante:<br \/>\n27 Nem a morte a arrog\u00e2ncia lhe abatia:<\/p>\n<p>Stava o grande Assuero n\u00e3o distante,<br \/>\nEster, a esposa e Mardoqueu prudente,<br \/>\n30 Justo nos feitos, no dizer prestante.<\/p>\n<p>E fugiu-me esta imagem prontamente,<br \/>\nComo a bolha, que de \u00e1gua se formara<br \/>\n33 E \u00e0 falta de \u00e1gua esvai-se de repente.<\/p>\n<p>Donzela eis na vis\u00e3o se me depara<br \/>\nQue em prantos exclamava: \u2014 \u201c\u00d3 m\u00e3e querida<br \/>\n36 Por que tomaste irosa a morte amara?<\/p>\n<p>392<\/p>\n<p>\u201cPerdes, por n\u00e3o perder Lav\u00ednia, a vida<br \/>\nE perdida me tens: teu fim deplora,<br \/>\n39 Mas n\u00e3o o de outro, a filha dolorida.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Como se rompe o sono, se de fora<br \/>\nLuz repentina \u00e0s p\u00e1lpebras nos desce;<br \/>\n42 N\u00e3o morre logo, em luta se demora:<\/p>\n<p>Minha vis\u00e3o assim se desvanece,<br \/>\nQuando as faces clar\u00e3o t\u00e3o vivo lava,<br \/>\n45 Que na terra outro igual nunca esclarece.<\/p>\n<p>Volvi-me para ver onde me achava;<br \/>\nMas, ouvindo uma voz \u2014 \u201cSobe esta escada\u201d \u2014<br \/>\n48 De qualquer outro intento me apartava.<\/p>\n<p>Por saber quem falara foi tomada<br \/>\nMinha alma de um desejo t\u00e3o veemente,<br \/>\n51 Que fora, se o n\u00e3o viesse, conturbada.<\/p>\n<p>Como ao sol, que deslumbra em dia ardente,<br \/>\nSendo-lhe v\u00e9u seu lume flamejante,<br \/>\n54 Senti perdida a for\u00e7a incontin\u00eanti.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEsp\u00edrito \u00e9 celeste: vigilante<br \/>\nSem rogos, o caminho nos indica:<br \/>\n57 O pr\u00f3prio brilho esconde-o fulgurante.<\/p>\n<p>\u201cComo o homem consigo, assim pratica;<\/p>\n<p>393<\/p>\n<p>Quem, mal extremo vendo, s\u00f3 rogado<br \/>\n60 Acode, esquivo ser j\u00e1 significa.<\/p>\n<p>\u201cA tal convite o p\u00e9 seja apressado!<br \/>\nAntes da noite r\u00e1pidos subamos;<br \/>\n63 Depois somente quando o sol for nado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Disse o meu Guia; e logo encaminhamos<br \/>\nOs passos, de uma escada em direitura.<br \/>\n66 Ao primeiro degrau quando chegamos<\/p>\n<p>Mover de asas ao perto se afigura,<br \/>\nBafejo sinto; e ou\u00e7o: \u2014 \u201c\u00c9 venturoso<br \/>\n69 Quem ama a paz, isento de ira impura!\u201d \u2014<\/p>\n<p>No alto j\u00e1 do c\u00e9u o luminoso<br \/>\nRasto, da noite precursor, surgira,<br \/>\n72 De astros assoma o ex\u00e9rcito formoso.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAi de mim! Por que a for\u00e7a minha expira?\u201d<br \/>\nDisse, entre mim, sentindo que, esgotada,<br \/>\n75 S\u00fabito \u00e0s pernas o vigor fugira.<\/p>\n<p>Tendo alcan\u00e7ado o topo j\u00e1 da escada,<br \/>\nIm\u00f3veis nos quedamos, imitando<br \/>\n78 A nau, que aferra a praia desejada.<\/p>\n<p>A escutar stive um pouco, interrogando<br \/>\nDaquele novo c\u00edrc\u2019lo algum sonido;<br \/>\n81 Depois ao Mestre me voltei falando:<\/p>\n<p>394<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNo lugar em que estamos, pai querido,<br \/>\nQue pecado recebe a pena sua?<br \/>\n84 Parando os p\u00e9s, teu verbo seja ouvido.\u201d<\/p>\n<p>Tornou-me: \u2014 \u201cSe do bem o amor recua<br \/>\nNo seu dever, aqui se retempera;<br \/>\n87 Sobre o remisso a expia\u00e7\u00e3o atua.<\/p>\n<p>\u201cPor melhor compreenderes, considera<br \/>\nNo que digo: a deten\u00e7a, porventura,<br \/>\n90 Dar\u00e1 o fruto, que tua mente espera.<\/p>\n<p>\u201cAo Criador, meu filho, e \u00e0 criatura<br \/>\nNunca falece amor \u2014 tens j\u00e1 sabido \u2014<br \/>\n93 Ou venha da alma ou venha da natura.<\/p>\n<p>\u201cO amor natural de erro \u00e9 despido;<br \/>\nPode pecar o outro pelo objeto,<br \/>\n96 Por n\u00edmio ardor, por star arrefecido.<\/p>\n<p>\u201cQuando aos bens principais ele \u00e9 direto<br \/>\nE nos bens secund\u00e1rios moderado,<br \/>\n99 Causar n\u00e3o pode criminoso afeto.<\/p>\n<p>\u201cSe ao mal, por\u00e9m, se torce ou, desregrado,<br \/>\nDe menos ou de mais ao bem se move,<br \/>\n102 Ofende ao Criador quem foi criado.<\/p>\n<p>\u201cTens, pois, o necess\u00e1rio, que te prove<\/p>\n<p>395<\/p>\n<p>Que amor em v\u00f3s semente \u00e9 de virtude,<br \/>\n105 Como \u00e9 dos feitos, que o c\u00e9u mais reprove.<\/p>\n<p>\u201cE como o amor o bem somente estude<br \/>\nDo seu sujeito, quando o amor domina,<br \/>\n108 N\u00e3o pode ser que em \u00f3dio a si se mude.<\/p>\n<p>\u201cE porque nenhum ente se imagina<br \/>\nSem ter no que criou a causa sua,<br \/>\n111 \u00d3dio em nenhum contra este se origina:<\/p>\n<p>\u201cContra o pr\u00f3ximo \u00e9, pois, que se insinua<br \/>\nDo mal o amor, pecaminoso.<br \/>\n114 No humano limo em modos tr\u00eas atua.<\/p>\n<p>\u201cQual, da grandeza, e gl\u00f3ria cobi\u00e7oso,<br \/>\nAs espera em ru\u00edna de outro, e anela<br \/>\n117 V\u00ea-lo em terra prostrado e desditoso;<\/p>\n<p>\u201cQual, temor de perder, triste, revela<br \/>\nValia, honra e poder, se outro os partilha<br \/>\n120 E em querer-lhe o contr\u00e1rio se desvela;<\/p>\n<p>\u201cM\u00e1goa sentindo de uma inj\u00faria filha,<br \/>\nQual porfia em vingar-se, e, de ira ardendo,<br \/>\n123 De mal fazer os meios esmerilha.<\/p>\n<p>\u201cDo mal este amor tr\u00edplice nascendo,<br \/>\nL\u00e1 embaixo se expia; mas atende<br \/>\n126 Ao que vai desregrado, ao bem correndo.<\/p>\n<p>396<\/p>\n<p>\u201cConfusamente cada qual se acende<br \/>\nPor certo bem e s\u00f4frego o deseja:<br \/>\n129 Por ter-lhe a posse, afana-se e contende.<\/p>\n<p>\u201cO que do bem no amor inerte seja<br \/>\nDepois que do pesar sofrer\u00e1 agrura,<br \/>\n132 \u00c9 justo que em mart\u00edrio aqui se veja.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 outro bem; n\u00e3o d\u00e1, por\u00e9m, ventura.<br \/>\nFelicidade n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia<br \/>\n135 De todo o bem, o fruto, a raiz pura.<\/p>\n<p>\u201cO amor, que a tal bem vota a exist\u00eancia,<br \/>\nAcima em c\u00edrc\u2019los tr\u00eas h\u00e1 seu tormento:<br \/>\nPor que assim se divide, a intelig\u00eancia,<\/p>\n<p>139 Sem te eu dizer, dar-te-\u00e1 conhecimento.\u201d \u2014<\/p>\n<p>20. Nessa ave etc., Filomena, por vingar-se de ter sido ultrajada<br \/>\npor Teseu, deu-lhe de comer os pr\u00f3prios filhos e foi por isso<br \/>\ntransformada pelos deuses em rouxinol. \u2014 26. Em cruz um<br \/>\nhomem etc. Aman, ministro do rei Assuero, foi crucificado na<br \/>\ncruz que ele havia mandado levantar para o inocente<br \/>\nMardoqueu (Ester II, 5). \u2014 34. Donzela, Lav\u00ednia, filha do rei<br \/>\nLatino e da rainha Amata. \u2014 37-39. Perdes etc., A rainha<br \/>\nAmata supondo que Turno, noivo de Lav\u00ednia, tivesse sido morto<br \/>\npor En\u00e9ias, suicidou-se.<\/p>\n<p>397<\/p>\n<p>CANTO XVIII<\/p>\n<p>Virg\u00edlio continua a falar sobre o amor. No entanto as almas dos<br \/>\npregui\u00e7osos v\u00e3o passando diante dos Poetas, lembrando<br \/>\nexemplos da virtude contr\u00e1ria \u00e0 pregui\u00e7a, e, depois,<br \/>\nde puni\u00e7\u00e3o<br \/>\nda pregui\u00e7a. Uma das almas d\u00e1-se a conhecer a Dante. \u00c9<br \/>\no<br \/>\nabade de S. Zeno, em Verona. Dante cai em profundo sono.<\/p>\n<p>PALAVRAS tais j\u00e1 proferido havia<br \/>\nO Vate excelso e, atento, me observava<br \/>\n3 Por ver se eu satisfeito parecia;<\/p>\n<p>E eu, em maior sede me inflamava,<br \/>\nCalando-me, entre mim dizia: \u201cO excesso,<br \/>\n6 Que nas perguntas h\u00e1, talvez o agrava.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Mas o sincero pai, sempre indefeso,<br \/>\nMeu sil\u00eancio notando e o que o motiva<br \/>\n9 Logo animou-me a lho fazer expresso.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMinha vista\u201d \u2014 falei \u2014 \u201ctanto se aviva<br \/>\n\u00c0 luz do verbo teu, Mestre, que ao claro<br \/>\n12 Vejo o que da raz\u00e3o tua deriva.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cRogo-te, pois, \u00f3 pai beni\u2019no e caro,<br \/>\nMe ensines esse amor, de que descende<br \/>\n15 Todo o mal, todo o bem ao mundo ignaro.\u201d \u2014<\/p>\n<p>398<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVolve a mim\u201d \u2014 disse \u2014 \u201ca luz, que<br \/>\nmais se<br \/>\nacende<br \/>\nNo esp\u00edrito e h\u00e1 de ser-te bem patente<br \/>\n18 Quanto erra o cego que guiar pretende.<\/p>\n<p>\u201cAlma criada para amar ardente,<br \/>\nA tudo corre, que lhe d\u00e1 contento,<br \/>\n21 Se despertada do prazer se sente.<\/p>\n<p>\u201cDo que \u00e9 real o vosso entendimento<br \/>\nColhe imagens que em modo tal desprega,<br \/>\n24 Que alma pra elas sente atraimento.<\/p>\n<p>\u201cSe alma, enlevada, ao seu pendor se entrega,<br \/>\nEsse efeito \u00e9 amor, pr\u00f3pria natura,<br \/>\n27 Em que o prazer novo liame emprega.<\/p>\n<p>\u201cE, como o fogo se ala para a altura<br \/>\nPor sua forma, que a elevar-se tende<br \/>\n30 Ao foco, onde o elemento seu mais dura,<\/p>\n<p>Assim pelo desejo a alma se acende,<br \/>\nA\u00e7\u00e3o esp\u2019ritual que n\u00e3o se aquieta,<br \/>\n33 Se n\u00e3o consegue a posse, que pretende.<\/p>\n<p>\u201cV\u00ea, pois, que da verdade excede a meta<br \/>\nQuem acredita e aos outros assevera<br \/>\n36 Que todo o amor de si \u00e9 cousa reta.<\/p>\n<p>399<\/p>\n<p>\u201cEm g\u00eanero talvez se considera<br \/>\nO amor sempre bom; mas todo selo<br \/>\n39 \u00c9 bom, inda que seja boa a cera?<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe, te ouvindo\u201d \u2014 tornei \u2014 \u201ccom mor<br \/>\ndesvelo<br \/>\nDo que ser pode o amor fico inteirado,<br \/>\n42 D\u00favidas hei, que esclarecer anelo.<\/p>\n<p>\u201cPois que amor \u00e9 de fora derivado,<br \/>\nPois que a alma de outra sorte n\u00e3o procede,<br \/>\n45 No bem, no mal o m\u00e9rito \u00e9 frustrado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDizer-te posso o que a raz\u00e3o concede\u201d \u2014<br \/>\nTornou \u2014 \u201cdo mais a Beatriz somente,<br \/>\n48 Por ser ato de f\u00e9, solu\u00e7\u00e3o pede.<\/p>\n<p>\u201cForma substancial, n\u00e3o depende<br \/>\nDa mat\u00e9ria, por\u00e9m com ela unida,<br \/>\n51 Spec\u00edfica virtude tem latente.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3, quando atua, pode ser sentida;<br \/>\nDen\u00fancia do que seja d\u00e1 no efeito,<br \/>\n54 Como em planta a verdura indica a vida.<\/p>\n<p>\u201cDas primeiras no\u00e7\u00f5es onde o conceito<br \/>\nNasceu? Donde apetites v\u00eam primeiros,<br \/>\n57 A que o homem no mundo est\u00e1 sujeito?<\/p>\n<p>\u201cComo o instinto do mel na abelha, inteiros<br \/>\nEm v\u00f3s est\u00e3o, louvor n\u00e3o merecendo,<\/p>\n<p>400<\/p>\n<p>60 Nem censura tamb\u00e9m, \u00ednscios obreiros.<\/p>\n<p>\u201cTudo desses pendores dependendo,<br \/>\nInata a faculdade \u00e9 que aconselha,<br \/>\n63 A porta do consenso em guarda tendo.<\/p>\n<p>\u201cEm tal princ\u00edpio a causa se aparelha,<br \/>\nDe que procede em v\u00f3s merecimento:<br \/>\n66 Repele o mau amor, no bom se espelha.<\/p>\n<p>\u201cOs s\u00e1bios, estudando o fundamento<br \/>\nDas cousas, vendo inata a liberdade,<br \/>\n69 Da moral vos tem dado o ensinamento.<\/p>\n<p>\u201cE, supondo que por necessidade<br \/>\nNascesse todo o amor, que vos incende,<br \/>\n72 Tendes para cont\u00ea-lo potestade.<\/p>\n<p>\u201cNobre virtude ser Beatriz entende<br \/>\nO livre arb\u00edtrio; e, quando lhe falares,<br \/>\n75 A isto mesma a mem\u00f3ria atento prende.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Como alcanzia a flamejar nos ares,<br \/>\nA lua \u00e0 meia-noite, j\u00e1 tardia,<br \/>\n78 Escurecia os outros luminares;<\/p>\n<p>E, contra o c\u00e9u, caminho percorria,<br \/>\nPor onde o sol vai p\u00f4r-se, quando a Roma,<br \/>\n81 Entre Sardenha e C\u00f3rsega, alumia.<\/p>\n<p>401<\/p>\n<p>Havia a sombra ilustre, por quem toma<br \/>\nA fama Ande \u00e0 cidade mantuana,<br \/>\n84 Do peso meu aliviado a soma:<\/p>\n<p>Quando eu, que explica\u00e7\u00e3o l\u00facida e plana<br \/>\nSobre as minhas quest\u00f5es tinha alcan\u00e7ado,<br \/>\n87 Sinto que a mente sonol\u00eancia empana.<\/p>\n<p>Desse quebranto s\u00fabito arrancado<br \/>\nPor turba fui, que, ap\u00f3s se encaminhando,<br \/>\n90 A n\u00f3s vinha com passo acelerado.<\/p>\n<p>E como o Ismeno e Asopo, outrora, em bando,<br \/>\nCorrer viam Tebanos ofegantes,<br \/>\n93 Por noite Baco em alta voz cantando,<\/p>\n<p>A multid\u00e3o, assim, dos caminhantes,<br \/>\nDe bom querer e justo amor tocados<br \/>\n96 Pelo c\u00edrc\u2019lo apressavam-se anelantes.<\/p>\n<p>E, pois, tinham-se em breve apropinquado;<br \/>\nNa carreira chorando afadigosa,<br \/>\n99 Assim gritavam dois mais avan\u00e7ados:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMaria corre ao monte pressurosa;<br \/>\nC\u00e9sar rende Marselha, e contra Ilerda<br \/>\n102 R\u00e1pido voa \u00e0 Espanha revoltosa. \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPressa; pressa! De tempo j\u00e1 sem perda!<br \/>\nPouco zelo n\u00e3o haja!\u201d \u2014 outros clamaram \u2014<\/p>\n<p>402<\/p>\n<p>105 \u201cN\u00e3o refloresce a Gra\u00e7a nalma lerda!\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cV\u00f3s, em que tais fervores se deparam,<br \/>\nQue talvez neglig\u00eancia ides remindo<br \/>\n108 Dos tempos, que no bem n\u00e3o se empregaram,<\/p>\n<p>\u201cDizei a um vivo (estais verdade ouvindo),<br \/>\nQue partir-se pretende \u00e0 nova aurora.<br \/>\n111 Se \u00e9 perto a entrada, donde v\u00e1 subindo.\u201d<\/p>\n<p>A voz do Mestre meu desta arte exora.<br \/>\nDos esp\u00edritos um lhe respondia:<br \/>\n114 \u2014 \u201cVem conosco: n\u00e3o longe ela demora.<\/p>\n<p>\u201cAnelo de ir avante nos desvia<br \/>\nDe deten\u00e7a: perdoa, por bondade,<br \/>\n117 Se h\u00e1, cumprindo um dever, descortesia.<\/p>\n<p>\u201cDe S. Zeno em Verona fui abade<br \/>\nDe Barba-roxa, o bom, sob o reinado<br \/>\n120 De quem Mil\u00e3o se lembra sem saudade.<\/p>\n<p>\u201cAlgu\u00e9m que \u00e0 sepultura est\u00e1 curvado<br \/>\nH\u00e1 de em breve chorar esse mosteiro<br \/>\n123 E o poder, com que o tinha dominado;<\/p>\n<p>\u201cPois, em dano ao pastor seu verdadeiro,<br \/>\nAo filho mal nascido, o cometera,<br \/>\n126 No corpo horrendo, na maldade useiro.\u201d<\/p>\n<p>403<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se inda falou, se emudecera,<br \/>\nDe n\u00f3s j\u00e1 velozmente se alongara,<br \/>\n129 Mas ouvi-lo e not\u00e1-lo me aprazara.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o disse-me quem me guia e ampara:<br \/>\n\u2014 \u201cVolve-te, atenta nestes dois: correndo<br \/>\n132 Nos lentos mordem com censura amara.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAvante!\u201d \u2014 os dois no couce v\u00eam dizendo<br \/>\n\u2014<br \/>\nOs que se abrir o mar viram, morreram,<br \/>\n135 A heran\u00e7a do Jord\u00e3o n\u00e3o recebendo,<\/p>\n<p>\u201cE os que o filho de Anquises n\u00e3o quiseram<br \/>\nSeguir at\u00e9 seu fim nas \u00e1rdua jornada<br \/>\n138 Fama e gl\u00f3ria por gosto seu perderam.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Depois, daquela grei stando afastada<br \/>\nTanto, que eu divis\u00e1-la n\u00e3o podia,<br \/>\n141 De nova id\u00e9ia a mente foi tomada,<\/p>\n<p>Outras surgindo ap\u00f3s de romaria;<br \/>\nE tanto de uma em outra vagueava.<br \/>\nQue pouco a pouco o sono me invadia,<\/p>\n<p>145 E o pensamento em sonho se mudava.<\/p>\n<p>76. Alcanzia, bola de barro. \u2014 77. A lua a meia noite, etc., a lua<br \/>\nque demorava a surgir at\u00e9 quase meia-noite, com o seu fulgor<br \/>\nescurecia as outras estrelas. \u2014 79. E contra o c\u00e9u etc., corria<br \/>\nde<br \/>\nponente para o levante por aquele caminho do Zod\u00edaco no qual<\/p>\n<p>404<\/p>\n<p>est\u00e1 o sol quando o habitante de Roma o v\u00ea descer entre a<br \/>\nSardenha e a C\u00f3rsega. \u2014 83. Ande (depois Pietola) aldeia perto<br \/>\nde M\u00e2ntua, na qual Virg\u00edlio nasceu. \u2014 91. Ismeno e Asopo,<br \/>\nrios<br \/>\nda Be\u00f3cia. \u2014 100. Maria corre ao monte etc., a Virgem Maria,<br \/>\nlogo depois do an\u00fancio do nascimento de Jesus, correu a visitar<br \/>\na sua prima Isabel (Evang. S. Lucas I, 39). \u2014 101. C\u00e9sar rende<br \/>\netc., J\u00falio C\u00e9sar, com grande celeridade, deixando parte do<br \/>\nseu<br \/>\nex\u00e9rcito no ass\u00e9dio de Marselha, com a outra parte dirige-se<br \/>\npara Ilerda. \u2014 118. De S. Zeno em Verona etc., Geraldo, abade<br \/>\nde S. Zeno. \u2014 119. Barba-roxa o imperador Frederico I, que em<br \/>\n1162 destruiu a cidade de Mil\u00e3o. \u2014 121. Algu\u00e9m que \u00e0<br \/>\nsepultura est\u00e1 curvado etc., o velho Alberto della Scala, que<br \/>\ndestituiu Geraldo do seu cargo de abade, substituindo-o por um<br \/>\nseu filho bastardo que, al\u00e9m de coxo, era malvado. \u2014 134-135.<br \/>\nOs que se abrir o mar viram etc., os filhos de Israel que, pela sua<br \/>\npregui\u00e7a, morreram no deserto, n\u00e3o alcan\u00e7ando a Terra<br \/>\nPrometida. \u2014 136. E os que o filho de Anquise etc., os Troianos<br \/>\nque n\u00e3o tiveram a coragem de seguir a En\u00e9ias (Eneida V, 604).<\/p>\n<p>405<\/p>\n<p>CANTO XIX<\/p>\n<p>No sono, Dante tem uma vis\u00e3o misteriosa. Acordando, conta-a a<br \/>\nVirg\u00edlio, o qual a explica. Sobem, depois, os Poetas ao quinto<br \/>\ncompartimento, no qual se purificam os avarentos, debru\u00e7ados no<br \/>\nch\u00e3o. Entre eles est\u00e1 o papa Adriano V, Ottobuono de Fieschi,<br \/>\nque lhe pede que a recomende \u00e0 sua sobrinha Alagia.<\/p>\n<p>CHEGADA essa hora, em que o calor diurno<br \/>\nN\u00e3o mais da lua a frigidez aquece,<br \/>\n3 Pela terra vencido ou por Saturno,<\/p>\n<p>Quando ao geomante f\u00falgida aparece<br \/>\nA Fortuna Maior l\u00e1 no Oriente,<br \/>\n6 Donde r\u00e1pida a noite se esvaece,<\/p>\n<p>Sonhando vi mulher balbuciente,<br \/>\nQue vesga era nos olhos, nos p\u00e9s torta,<br \/>\n9 De m\u00e3os truncadas e de tez palente.<\/p>\n<p>Eu a encarava; e como o sol conforta<br \/>\nOs membros a que a noite o frio agrava,<br \/>\n12 Ao meu olhar assim a quase morta<\/p>\n<p>L\u00edngua movia; o corpo j\u00e1 se al\u00e7ava,<br \/>\nE no terreno e l\u00edvido semblante<br \/>\n15 A cor, que amor estima, se mostrava.<\/p>\n<p>406<\/p>\n<p>Soltando a voz, h\u00e1 pouco titubante,<br \/>\nDoce canto entoava t\u00e3o donosa,<br \/>\n18 Que me absorvia o enlevo inebriante.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSereia sou\u201d \u2014 cantava \u2014 \u201cdeleitosa,<br \/>\nQue da rota desvia os mareantes,<br \/>\n21 Tanto prazer lhes movo poderosa.<\/p>\n<p>\u201cDetiveram meus cantos fascinantes<br \/>\nUlisses vago; e raros me deixaram,<br \/>\n24 A todos prende o som dos meus descantes.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Junto a mim, mal seus l\u00e1bios se fecharam,<br \/>\nEis se mostrava dama santa e presta:<br \/>\n27 A sereia os seus olhos conturbaram.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDize, \u00f3 Virg\u00edlio: que mulher \u00e9 esta?\u201d<br \/>\n\u2014<br \/>\nBradava irosa; e o Vate lhe acorria.<br \/>\n30 Respeitoso ante aquela face honesta.<\/p>\n<p>Dela a dama travava e prosseguia,<br \/>\nSeus v\u00e9us rasgava, o ventre desnudando:<br \/>\n33 Desperto ao cheiro infando que sa\u00eda.<\/p>\n<p>Olhos abri. Virg\u00edlio, me falando:<br \/>\n\u2014 \u201cTr\u00eas vezes te chamei\u201d \u2014 disse \u2014 \u201ceia!<br \/>\nasinha<br \/>\n36 Vamos, o passo onde entres, procurando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Ergui-me logo. Alumiados tinha<\/p>\n<p>407<\/p>\n<p>O dia os c\u00edrculos todos do alto monte;<br \/>\n39 Pelas costas surgindo o sol nos vinha.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o Mestre se me inclina a fronte,<br \/>\nComo a quem, de cuidados oprimido,<br \/>\n42 Curva a cerviz, semelha arco de ponte,<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAqui se passa: vinde!\u201d \u2014 proferido<br \/>\nFoi por voz t\u00e3o suave, t\u00e3o beni\u2019na,<br \/>\n45 Que n\u00e3o fora igual som na terra ouvido.<\/p>\n<p>Da rocha entre os dois muros nos desi\u2019na<br \/>\nQuem falara, o caminho, asas abrindo,<br \/>\n48 Que tem do cisne a alvura purpurina.<\/p>\n<p>Depois as n\u00edveas plumas sacudindo,<br \/>\n\u2014 \u201cOs que choram\u201d \u2014 bradou \u2014 \u201cs\u00e3o<br \/>\nventurosos<br \/>\n51 De consolo a esperan\u00e7a possuindo!\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor que os olhos no ch\u00e3o fitas cuidosos?\u201d \u2014<br \/>\nO Mestre perguntou, depois que al\u00e7ou-se<br \/>\n54 Voando o anjo aos ares luminosos.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEm recente vis\u00e3o, Senhor, mostrou-se<br \/>\nImagem\u201d \u2014 respondi \u2014 \u201cque tanto instiga<br \/>\n57 Que inda a sua impress\u00e3o n\u00e3o mitigou-se.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cA m\u00e1gica\u201d \u2014 me disse \u2014 \u201cviste<br \/>\nantiga,<br \/>\nQue l\u00e1 mais alto tanta dor motiva?<br \/>\n60 Como o homem viste dela se desliga?<\/p>\n<p>408<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o mais! Avante segue, o alento aviva!<br \/>\nOlhos volve ao reclamo, com que gira<br \/>\n63 Do Rei Eterno cada esfera altiva.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Como faz o falc\u00e3o, que os p\u00e9s remira,<br \/>\nDepois ao grito acode e, acelerado,<br \/>\n66 Contra a ral\u00e9, que avista, ao ar se atira:<\/p>\n<p>Assim eu; e por onde era cortado,<br \/>\nPara tr\u00e2nsito dar ao monte erguido,<br \/>\n69 Corri t\u00e9 outro c\u00edrculo, apressado.<\/p>\n<p>Tendo ao c\u00edrculo quinto j\u00e1 subido,<br \/>\nJazer vi turba in\u00famera em lamento:<br \/>\n72 Para baixo era o rosto seu volvido.<\/p>\n<p>\u201cAdhaesit anima mea pavimento\u201d \u2014<br \/>\nCom tanta dor diziam suspirando,<br \/>\n75 Que da voz mal ca\u00ed no entendimento.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDizei, de Deus eleitos, que, penando,<br \/>\nColheis al\u00edvio na justi\u00e7a e esp\u2019ran\u00e7a,<br \/>\n78 Por onde ao cimo iremos caminhando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe a nossa puni\u00e7\u00e3o n\u00e3o vos alcan\u00e7a<br \/>\nE mais pronta quereis ter a subida,<br \/>\n81 \u00c0 direita e por fora que se avan\u00e7a.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Do meu Guia a pergunta respondida<\/p>\n<p>409<\/p>\n<p>Foi por uma alma, que adiante estava:<br \/>\n84 Ser outra id\u00e9ia eu cri nisso escondida.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, olhos voltando, interrogava<br \/>\nVirg\u00edlio, que aprovou com ledo gesto<br \/>\n87 O desejo, que o rosto denotava.<\/p>\n<p>Da permiss\u00e3o do Mestre usando presto,<br \/>\nDaquele ente acerquei-me doloroso,<br \/>\n90 Que se fez por palavras manifesto.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTu, que, expiando as culpas lacrimoso,<br \/>\nApressas de te erguer \u00e0 gl\u00f3ria o dia,<br \/>\n93 Por mim p\u00e1ra em teu pranto fervoroso.<\/p>\n<p>\u201cQuem foste? Por que assim jazeis?\u201d \u2014 dizia<br \/>\n\u201cNo mundo, donde venho vivo, impetre<br \/>\n96 Por teu bem querer cousa da valia?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cConv\u00e9m que o teu esp\u00edrito penetre<br \/>\nDesta pena a raz\u00e3o; por\u00e9m primeiro<br \/>\n99 Scias quod ego fui sucessor Petri.<\/p>\n<p>\u201cDo meu solar o t\u00edtulo altaneiro<br \/>\nOrigem teve nesse rio belo,<br \/>\n102 Que entre Chiaveri e Siestre flui ligeiro<\/p>\n<p>\u201cEm pouco mais de um m\u00eas vi que desvelo<br \/>\nCusta guardar o grande manto puro:<br \/>\n105 Todo outro fardo \u00e9 pluma em paralelo.<\/p>\n<p>410<\/p>\n<p>\u201cQuanto \u2014 ai de mim! \u2014 de converter fui duro!<br \/>\nMas, apenas Pastor em Roma eleito,<br \/>\n108 Eu soube quanto mente o mundo impuro.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o gozou paz, nem quieta\u00e7\u00e3o meu peito;<br \/>\nMais alto j\u00e1 subir se n\u00e3o pudera:<br \/>\n111 Ent\u00e3o da vida eterna ardi no afeito.<\/p>\n<p>\u201cMinha alma, triste e m\u00edsera, perdera<br \/>\nDe Deus o amor em s\u00f3rdida avareza:<br \/>\n114 Esta pena, que v\u00eas, bem merecera<\/p>\n<p>\u201cDe tal pecado mostra-se a graveza<br \/>\nAqui pelo castigo, em que se expia:<br \/>\n117 No monte outro n\u00e3o h\u00e1 de mor asp\u2019reza.<\/p>\n<p>\u201cComo ao c\u00e9u nossa vista n\u00e3o se erguia,<br \/>\nNas cousas terreais embevecida,<br \/>\n120 Assim justi\u00e7a \u00e0 terra a prende e lia.<\/p>\n<p>\u201cComo a avareza em n\u00f3s tinha extinguida<br \/>\nA propens\u00e3o ao bem, aos santos feitos,<br \/>\n123 Assim nos tem justi\u00e7a a a\u00e7\u00e3o tolhida.<\/p>\n<p>\u201cP\u00e9s e m\u00e3os ata em v\u00ednculos estreitos:<br \/>\nEnquanto a Deus prouver, n\u00f3s, estendidos,<br \/>\n126 Im\u00f3veis estaremos nesses leitos.\u201d \u2014<\/p>\n<p>De joelhos e de olhos abatidos<\/p>\n<p>411<\/p>\n<p>Quis falar-lhe; mas ele, conhecendo<br \/>\n129 Esse meu ato s\u00f3 pelos ouvidos,<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor que te curvas?\u201d \u2014 me atalhou dizendo.<br \/>\n\u2014 \u201cEm rever\u00eancia \u00e0 vossa dignidade:<br \/>\n132 Cumpro um dever dessa arte procedendo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cErgue-te, irm\u00e3o! N\u00e3o erres! Em verdade,<br \/>\nEu como tu, e o universo inteiro<br \/>\n135 A lei seguimos de uma s\u00f3 vontade.<\/p>\n<p>\u201cDo Evangelho o sentido verdadeiro<br \/>\nQue disse \u2014 neque nubente \u2014 se entendeste,<br \/>\n138 Ver\u00e1s o meu pensar quanto \u00e9 certeiro.<\/p>\n<p>\u201cVai-te agora, demais te detiveste.<br \/>\nSaud\u00e1vel pranto empece a tua estada:<br \/>\n141 Perd\u00e3o apressam l\u00e1grimas, disseste.<\/p>\n<p>\u201cSobrinha tenho, Alagia foi chamada:<br \/>\n\u00c9 boa, se da ra\u00e7a t\u00e3o funesta<br \/>\nN\u00e3o pervert\u00ea-la a tradi\u00e7\u00e3o danada.<\/p>\n<p>145 Somente esta no mundo ora me resta.\u201d \u2014<\/p>\n<p>1. Essa hora etc., a manh\u00e3, pouco antes do alvorecer. \u2014 5. A<br \/>\nFortuna maior, uma das combina\u00e7\u00f5es que os geomantes<br \/>\ndesenhavam para adivinhar a sorte e que se parecia \u00e0<br \/>\nconstela\u00e7\u00e3o do Aqu\u00e1rio e, em parte, \u00e0 dos Peixes.<br \/>\n\u2014 7. Mulher<br \/>\nbalbuciente etc., s\u00edmbolo dos v\u00edcios. \u2014 19-26. Dama Santa,<\/p>\n<p>412<\/p>\n<p>s\u00edmbolo da prud\u00eancia e das virtudes \u2014 Sereia \u2014 metade<br \/>\nmulher<br \/>\ne metade peixe. \u2014 62. Reclamo, instrumento com o qual o<br \/>\nca\u00e7ador atrai as aves. \u2014 73. Adhaesit anima mea pavimento, a<br \/>\nminha alma esteve pregada ao ch\u00e3o (\u00e0s coisas materiais), Salmo<br \/>\nC XIX, 25. \u2014 99. Scias quod ego fui sucessor Petri, saibas que<br \/>\nfui sucessor de Pedro. \u00c9 o esp\u00edrito do papa Adriano V,<br \/>\nOttobuono dei Fieschi, conde de Lavagna. \u2014 137. Neque nubent,<br \/>\npalavras de Jesus aos saduceus; no C\u00e9u n\u00e3o h\u00e1 n\u00fapcias.<br \/>\nCom<br \/>\nessa express\u00e3o Adriano V quer que Dante entenda que ele n\u00e3o<br \/>\ndeve mais consider\u00e1-lo esposo ou chefe da Igreja. \u2014 142. Alagia<br \/>\ndei Fieschi, casada com Moroello Malasp\u00edna.<\/p>\n<p>413<\/p>\n<p>CANTO XX<\/p>\n<p>Os dois poetas ouvem uma alma recordar exemplos de pobreza<br \/>\nhonesta e da generosidade benfazeja. \u00c9 Hugo Capeto, fundador<br \/>\nda casa dos reis da Fran\u00e7a, o qual censura asperamente os seus<br \/>\ndescendentes. Ouve-se, no entanto, tremer o monte e cantar<br \/>\n\u201cGloria in excelsis Deo.\u201d<\/p>\n<p>EM luta, o bem querer ao mau se alteia.<br \/>\nPor contentar essa alma, eu, descontente,<br \/>\n3 Da \u00e1gua tirei a esponja, inda cheia.<\/p>\n<p>Sigo os passos do guia diligente,<br \/>\nDo monte \u00e0 extrema borda caminhando,<br \/>\n6 Como em muro entre ameias, cautamente.<\/p>\n<p>O espa\u00e7o mais largo enchia o bando,<br \/>\nQue a avareza, do mundo atroz imiga,<br \/>\n9 Expurga, pranto em fio derramando.<\/p>\n<p>Maldita sempre seja, Loba antiga,<br \/>\nMais do que as outras feras cobi\u00e7osas!<br \/>\n12 Jamais a fome tua se mitiga!<\/p>\n<p>\u00d3 c\u00e9u, cuja carreira portentosa<br \/>\nAs condi\u00e7\u00f5es se cr\u00ea reger da vida,<br \/>\n15 Quando vir\u00e1 quem lance a besta ascosa?<\/p>\n<p>414<\/p>\n<p>A passo lento e escasso era a subida,<br \/>\nAtento eu indo \u00e0 turba, que exprimia<br \/>\n18 Por carpir lamentoso a dor sentida.<\/p>\n<p>Eis ante n\u00f3s dizer: \u2014 \u201cDoce Maria!\u201d \u2014<br \/>\nUma voz escutei no amargo pranto,<br \/>\n21 Qual mulher que no parto a dor crucia.<\/p>\n<p>Acrescentou: \u2014 \u201cBem pobre foste e tanto,<br \/>\nQue \u00e0 luz trouxeste l\u00e1 no humilde hosp\u00edcio<br \/>\n24 Do seio virginal o fruto santo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>E logo ap\u00f3s ainda: \u2014 \u201c\u00d3 bom Fabr\u00edcio,<br \/>\nCom virtude antes pobre ser quiseste<br \/>\n27 Do que a opul\u00eancia possuir com v\u00edcio.\u201d \u2014<\/p>\n<p>De tal prazer meu cora\u00e7\u00e3o se veste<br \/>\nOuvindo, que avan\u00e7ava pressuroso<br \/>\n30 Por que ao perto, maior aten\u00e7\u00e3o preste.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m contava esse ato generoso,<br \/>\nQue em prol das virgens Nicolau fizera<br \/>\n33 Para guardar-lhes puro o estado honroso.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAlma, que t\u00e3o bem falas, diz sincera,<br \/>\nQuem foste?\u201d \u2014 lhe disse eu \u2014 \u201cPor que somente<br \/>\n36 A tua voz a virtude aqui venera?<\/p>\n<p>\u201cSe eu \u00e0 vida tornar, que brevemente<\/p>\n<p>415<\/p>\n<p>Levar-me deve ao suspirado porto,<br \/>\n39 Em te ser grato ficarei contente.\u201d \u2014<\/p>\n<p>E ele: \u2014 \u201cFalarei, n\u00e3o por conforto<br \/>\nL\u00e1 do mundo esperar, mas porque tanta<br \/>\n42 Gra\u00e7a refulge em ti antes de morto.<\/p>\n<p>\u201cEstirpe fui dessa maligna planta<br \/>\nQue o solo esteriliza \u00e0 cristandade:<br \/>\n45 Se frutos bons produz, fato \u00e9 que espanta.<\/p>\n<p>\u201cA vingan\u00e7a, se houvessem faculdade,<br \/>\nLilla, Bruges, Conai, Grandja tomaram;<br \/>\n48 F\u00e9rvido a pe\u00e7o \u00e0 Suma Potestade.<\/p>\n<p>\u201cNa terra Hugo Capeto me chamaram:<br \/>\nDos Filipes fui tronco e dos Lu\u00edses,<br \/>\n51 Que novamente a Fran\u00e7a dominaram.<\/p>\n<p>\u201cFoi meu pai carniceiro. Os infelizes<br \/>\nAntigos Reis prog\u00eanie n\u00e3o deixando,<br \/>\n54 Exceto um monge, \u00e0s minhas m\u00e3os felizes,<\/p>\n<p>\u201cParar daquele reino veio o mando.<br \/>\nTanto prest\u00edgio tinha, tal pujan\u00e7a<br \/>\n57 Dos povos na vontade fui ganhando,<\/p>\n<p>\u201cQue a c\u2019roa o meu querer cingir alcan\u00e7a<br \/>\nDo filho meu \u00e0 fronte, em que come\u00e7a<br \/>\n60 A prole ungida desses Reis de Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>416<\/p>\n<p>\u201cO proven\u00e7al gr\u00e3 dote havendo, cessa<br \/>\nNa ra\u00e7a minha a pr\u00edstina vergonha:<br \/>\n63 Somenos, mas aos bons n\u00e3o fora avessa.<\/p>\n<p>\u201cRapinas pela for\u00e7a e ardis, que sonha<br \/>\nCome\u00e7ando, invadiu por penit\u00eancia<br \/>\n66 Pontois, Normandia com Gasconha.<\/p>\n<p>\u201cCarlos, It\u00e1lia entrando, em penit\u00eancia<br \/>\nVitimou Conradino; e triunfante<br \/>\n69 Ao c\u00e9u mandou Tom\u00e1s, por penit\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cEm tempo, do presente n\u00e3o distante,<br \/>\nInda outro Carlos vir de Fran\u00e7a vejo<br \/>\n72 E fama a si e aos seus dar mais sonante.<\/p>\n<p>\u201cSai sem armas; traz s\u00f3 naquele ensejo<br \/>\nLan\u00e7a de Judas, que a Floren\u00e7a aponta:<br \/>\n75 Rasga-lhe o peito, como \u00e9 seu desejo.<\/p>\n<p>\u201cTer\u00e1s n\u00e3o terras, mas pecado e afronta,<br \/>\nQue se lhe h\u00e1 de tornar tanto mais grave,<br \/>\n78 Quanto ele a tem de pouco pre\u00e7o em conta.<\/p>\n<p>\u201cOutro, que preso sai da pr\u00f3pria nave,<br \/>\nVejo a filha vender, como fizera<br \/>\n81 Aos escravos pirata: \u00f3 pai suave!<\/p>\n<p>\u201cAvareza! o que mais de ti se espera,<\/p>\n<p>417<\/p>\n<p>Se o meu sangue a tal raiva h\u00e1s arrastado,<br \/>\n84 Que te deu sua carne em pasto, \u00f3 fera?<\/p>\n<p>\u201cPara o mal igualar, porvir, passado,<br \/>\nEntrando Alagni flor-de-lis se ostenta,<br \/>\n87 E Cristo em seu Vig\u00e1rio \u00e9 cativado.<\/p>\n<p>\u201cInj\u00farias vejo novas que exp\u2019rimenta,<br \/>\nFel, vinagre sorver o vejo ainda<br \/>\n90 E entre vivos ladr\u00f5es ter morte lenta.<\/p>\n<p>\u201cVejo o novo Pilatos, que, n\u00e3o finda<br \/>\nA sanha sua, sem decreto assalta<br \/>\n93 O Templo aceso na cobi\u00e7a infinda.<\/p>\n<p>\u201cSenhor meu! Pois que excesso nenhum falta,<br \/>\nQuando ante a puni\u00e7\u00e3o serei ditoso,<br \/>\n96 Que oculta, o teu ju\u00edzo ado\u00e7a e exalta?<\/p>\n<p>\u201cQuanto ao que me inquiriste curioso,<br \/>\nAs palavras, que, h\u00e1 pouco, eu dirigia<br \/>\n99 Do Sp\u00edrito Santo \u00e0 Esposa fervoroso,<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o nossas ora\u00e7\u00f5es enquanto \u00e9 dia.<br \/>\nMas contr\u00e1rios exemplos invocamos,<br \/>\n102 Quando a sombra da noite principia.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o Pigmali\u00e3o n\u00f3s recordamos<br \/>\nQue foi traidor, ladr\u00e3o e parricida<br \/>\n105 A sua sede de ouro condenamos.<\/p>\n<p>418<\/p>\n<p>\u201cE a miser\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o de Mida,<br \/>\nDo rogo seu estulto resultado,<br \/>\n108 Sempre do mundo inteiro escarnecida.<\/p>\n<p>\u201cDe Acam o louco feito \u00e9 memorado.<br \/>\nQue os despojos roubara, e ainda a ira<br \/>\n111 De Josu\u00e9 receia amendrontado.<\/p>\n<p>\u201cCom seu marido acusa-se Safira<br \/>\nE louva-se o mau fim de Heliodoro.<br \/>\n114 Por todo o monte imenso brado gira<\/p>\n<p>\u201cContra o que tirou vida a Polidoro.<br \/>\n\u2014 Dize do ouro o sabor, Crasso avarento! \u2014<br \/>\n117 Tamb\u00e9m clamamos todo n\u00f3s em coro.<\/p>\n<p>\u201cQual murmura, qual grita em seu lamento,<br \/>\nSegundo o afeto que o estimula e agita,<br \/>\n120 Segundo \u00e9 fraco ou forte o sentimento.<\/p>\n<p>\u201cEu \u00fanico n\u00e3o era, pois, que em grita<br \/>\nO bem, que ao dia \u00e9 pr\u00f3prio ia dizendo:<br \/>\n123 N\u00e3o al\u00e7ava outro perto a voz bendita.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Essa alma j\u00e1 deix\u00e1ramos, fazendo<br \/>\nEsfor\u00e7o por vencer a altura ingente,<br \/>\n126 Que adiante se estava oferecendo,<\/p>\n<p>Eis tremer sinto o monte de repente.<\/p>\n<p>419<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o no peito se me esfria,<br \/>\n129 Qual r\u00e9u, que \u00e0 morte arrasta-se palente.<\/p>\n<p>Delos, por certo, assim n\u00e3o se movia,<br \/>\nQuando por ninho a preferiu Latona,<br \/>\n132 Que os dois olhos do c\u00e9u parir queria.<\/p>\n<p>De toda parte um brado ent\u00e3o ressona<br \/>\nTanto, que o Mestre, para mim voltando,<br \/>\n135 \u2014 \u201cN\u00e3o h\u00e1 risco\u201d \u2014 me diz \u2014<br \/>\n\u201cteu Guia o<br \/>\nabona!\u201d<\/p>\n<p>Gloria in excelsis Deo \u2014 era entoado,<br \/>\nQuanto a voz perceber foi permitido<br \/>\n138 Do ponto, a que o rumor me foi levado.<\/p>\n<p>Quedos, como os pastores tendo ouvido<br \/>\n\u00c0 vez primeira outrora aquele canto,<br \/>\n141 Ficamos t\u00e9 findar moto e so\u00eddo.<\/p>\n<p>Depois seguimos no caminho santo,<br \/>\nVendo as almas prostradas sobre a terra,<br \/>\n144 Sempre a verter o costumado pranto.<\/p>\n<p>E se a mem\u00f3ria nisto em mim n\u00e3o erra,<br \/>\nJamais desejo, que a ignor\u00e2ncia acende,<br \/>\n147 Na mente me excitara tanta guerra,<\/p>\n<p>Quanto naquele instante em mim contende.<br \/>\nNem pela pressa, eu perguntar ousava,<\/p>\n<p>420<\/p>\n<p>Nem o que ouvia o esp\u00edrito compreende.<\/p>\n<p>151 T\u00edmido assim e pensativo andava.<\/p>\n<p>10. Loba antiga, a avareza. \u2014 23. Humilde hosp\u00edcio, a gruta<br \/>\nde<br \/>\nBel\u00e9m, onde nasceu Jesus. \u2014 25. Bom Fabr\u00edcio, C. Fabr\u00edcio,<br \/>\ngeneral romano, que recusou o dinheiro que o inimigo de Roma<br \/>\nlhe oferecia. \u2014 32. Nicolau, S. Nicolau, bispo de Mira, que dotou<br \/>\nv\u00e1rias jovens pobres. \u2014 43. Estirpe fui, Hugo Capeto, fundador<br \/>\nda dinastia dos de Fran\u00e7a. \u2014 52. Foi meu pai, etc. Segundo a<br \/>\ntradi\u00e7\u00e3o, Hugo Capeto, filho de um carniceiro, desposou a filha<br \/>\ndo \u00faltimo rei carlov\u00edngio. \u2014 61. O proven\u00e7al, Carlos<br \/>\nI de Anjou<br \/>\npor casamento herdou a Proven\u00e7a. \u2014 67. Carlos, It\u00e1lia<br \/>\nentrando, Carlos I de Anjou, conquistou o reino de N\u00e1poles,<br \/>\nmandou matar a Conradino de Su\u00e1bia e, segundo uma tradi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfez envenenar a S. Tom\u00e1s de Aquino, quando este se dirigia<br \/>\npara o concilio de Li\u00e3o. \u2014 71. Outro Carlos, de Valois, que foi<br \/>\na<br \/>\nFloren\u00e7a em veste de pacificador e expulsou os Brancos, entre<br \/>\nos quais Dante. \u2014 86. Entrando Alagni etc., o papa Bonif\u00e1cio<br \/>\nVIII, em 1303, por ordem de Filipe o Belo, foi aprisionado em<br \/>\nAlagni. \u2014 103. Pigmali\u00e3o, matou a trai\u00e7\u00e3o seu tio<br \/>\nSiqueu para<br \/>\nroub\u00e1-lo. \u2014 106. Mida, rei mitol\u00f3gico, recebeu a faculdade<br \/>\nde<br \/>\ntransformar em ouro tudo o que tocava, morreu de fome. \u2014<br \/>\n109. Acam, guerreiro israelita, depois da conquista de Jeric\u00f3,<br \/>\ndesobedecendo \u00e0s ordens de Josu\u00e9, escondeu o que saqueou e<br \/>\nfoi condenado \u00e0 morte. \u2014 112. Safira e seu marido Ananias,<br \/>\nquerendo roubar o dinheiro pertencente \u00e0 comunidade crist\u00e3,<br \/>\nforam fulminados. \u2014 113. Heliodoro, entrara no templo de<br \/>\nJerusal\u00e9m para roubar, mas foi expulso por um cavalo a<br \/>\npatadas. \u2014 115. O que tirou a vida a Polidoro, Polinestor, rei da<br \/>\nTr\u00e1cia matou a Polidoro, filho de Pr\u00edamo, para roub\u00e1-lo.<br \/>\n\u2014 116.<br \/>\nCrasso, romano, homem muito rico e avarento. \u2014 130. Delos,<br \/>\nilha do mar Egeu. Segundo a mitologia, era inst\u00e1vel, antes que<br \/>\nnela se estabelecesse Latona, que deu \u00e0 luz Apolo e Diana. \u2014<br \/>\n136. Gl\u00f3ria in excelsis Deo, \u00e9 o canto dos anjos na noite em<br \/>\nque<br \/>\nnasceu Jesus.<\/p>\n<p>421<\/p>\n<p>CANTO XXI<\/p>\n<p>Enquanto os dois Poetas continuam no seu caminho, uma alma<br \/>\nse aproxima deles. \u00c9 o poeta latino Est\u00e1cio, o qual explica<br \/>\nque o<br \/>\nabalo do monte que se deu pouco antes foi o sinal de que,<br \/>\npurificado dos seus pecados, ele pode subir ao C\u00e9u. Sabendo que<br \/>\nest\u00e1 falando com Virg\u00edlio, Est\u00e1cio demonstra-lhe o seu<br \/>\nafeto.<\/p>\n<p>A SEDE natural, que n\u00e3o sacia<br \/>\nSen\u00e3o a \u00e1gua, que, s\u00faplice, implorava<br \/>\n3 Ao senhor a mulher de Samaria,<\/p>\n<p>Molestando-me, os passos me apressava<br \/>\nAp\u00f3s meu Guia na impedida estrada,<br \/>\n6 E do justo castigo o d\u00f3 me entrava.<\/p>\n<p>Eis, como escreve Lucas na sagrada<br \/>\nHist\u00f3ria que Jesus aparecera,<br \/>\n9 Ressurgido, aos dois s\u00f3cios na jornada,<\/p>\n<p>Uma sombra surgiu; tr\u00e1s n\u00f3s viera.<br \/>\nAndando aquela turba contemplava:<br \/>\n12 Dela f\u00e9 nem o Mestre, nem eu dera.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDeus vos d\u00ea paz, irm\u00e3os!\u201d \u2014 assim<br \/>\nfalava.<br \/>\nVoltamo-nos de s\u00fabito, e Virg\u00edlio,<br \/>\n15 Cort\u00eas no gesto, a sauda\u00e7\u00e3o tornava<\/p>\n<p>422<\/p>\n<p>Logo dizendo: \u2014 \u201cDo feliz conc\u00edlio<br \/>\nTe receba na paz a santa corte,<br \/>\n18 Que a mim me desterrou no eterno ex\u00edlio!\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cComo andais\u201d \u2014 respondeu \u2014 \u201ccom passo<br \/>\nforte.<br \/>\nSe Deus no c\u00e9u vos n\u00e3o permite a entrada?<br \/>\n21 Quem vos conduz na altura desta sorte?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cOs sinais de que a fronte est\u00e1 marcada<br \/>\nDeste homem por um anjo\u201d \u2014 diz meu Guia \u2014<br \/>\n24 \u201cTo mostram di\u2019no da eternal morada,<\/p>\n<p>\u201cMas, como aquela, que, incessante fia,<br \/>\nN\u00e3o lhe havia inda a estriga consumido,<br \/>\n27 Que imp\u00f5e Cloto ao que a vida principia,<\/p>\n<p>\u201cSubir s\u00f3 n\u00e3o teria ao c\u00e9u podido<br \/>\nA sua alma, irm\u00e3 tua, como \u00e9 minha,<br \/>\n30 Pois n\u00e3o h\u00e1, como n\u00f3s, ver conseguido.<\/p>\n<p>\u201cDo inferno \u00e0s fauces fui tirado asinha<br \/>\nPara gui\u00e1-lo, e o guiarei contente<br \/>\n33 No que do meu saber n\u00e3o passe a linha.<\/p>\n<p>\u201cSe puderes, me diz, por que o eminente<br \/>\nMonte, h\u00e1 pouco, tremeu, e desde a c\u2019roa<br \/>\n36 \u00c0 base retumbou clamor ingente.\u201d \u2014<\/p>\n<p>423<\/p>\n<p>A pergunta ao desejo t\u00e3o boa soa,<br \/>\nQue ouvi-la a sede ardente me alivia,<br \/>\n39 Somente uma esperan\u00e7a mitigou-a.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuanto h\u00e1s notado\u201d \u2014 a sombra respondia<br \/>\n\u2014<br \/>\n\u201cEm nada os ritos da montanha altera:<br \/>\n42 De estranheza motivo n\u00e3o seria.<\/p>\n<p>\u201cMudan\u00e7a aqui supor se n\u00e3o pudera:<br \/>\nSubindo ao c\u00e9u quem pertencer-lhe deve,<br \/>\n45 A causa d\u00e1-se que esse efeito opera.<\/p>\n<p>\u201cNunca saraiva, chuva, orvalho ou neve<br \/>\nNesta montanha cai, passando a altura<br \/>\n48 Dos tr\u00eas degraus que est\u00e3o na escada breve.<\/p>\n<p>\u201cAqui n\u00e3o v\u00ea-se nuvem clara ou escura,<br \/>\nRel\u00e2mpago n\u00e3o luz, nem de Taumante<br \/>\n51 Mostra-se a filha, que t\u00e3o pouco dura.<\/p>\n<p>\u201cJamais daqueles tr\u00eas degraus avante,<br \/>\nEm que de Pedro o sucessor domina,<br \/>\n54 Seco vapor se eleva um s\u00f3 instante.<\/p>\n<p>\u201cTremor talvez a sua base inclina;<br \/>\nMas n\u00e3o atua no alto oculto vento,<br \/>\n57 Que n\u00e3o sei como dentro se amotina.<\/p>\n<p>\u201cQuando j\u00e1 de estar puro o sentimento<br \/>\nUma alma tem e se ala ao c\u00e9u, que a chama,<\/p>\n<p>424<\/p>\n<p>60 Segue o tremor e o grito ao movimento.<\/p>\n<p>\u201cSeu querer a pureza lhe proclama,<br \/>\nProva que tem de al\u00e7ar-se a liberdade<br \/>\n63 Por for\u00e7a do desejo, em que se inflama.<\/p>\n<p>\u201cAntes o tem; mas contra essa vontade<br \/>\nA divina justi\u00e7a ardor lhe inspira<br \/>\n66 Por pena, como o teve por maldade.<\/p>\n<p>\u201cEu que em mart\u00edrio decorridos vira<br \/>\nAnos quinhentos, \u00e0 melhor morada,<br \/>\n69 Momentos poucos h\u00e1, pus livre a mira.<\/p>\n<p>\u201cEis do tremor a causa declarada!<br \/>\nDo Senhor eis por que, louvor cantando,<br \/>\n72 Rogou cada alma em breve ser chamada!\u201d \u2014<\/p>\n<p>Calou-se. E como, a tanto mais gozando<br \/>\nEst\u00e1 quem bebe, quanto \u00e9 mor a sede,<br \/>\n75 Indiz\u00edvel prazer tive escutando.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVejo\u201d \u2014 disse Virg\u00edlio \u2014 \u201cagora<br \/>\na rede,<br \/>\nQue vos prende e depois d\u00e1 liberdade,<br \/>\n78 Donde o tremor e o j\u00fabilo procede.<\/p>\n<p>\u201cExplicar-me te praza ainda, em verdade,<br \/>\nQuem tu foste e a raz\u00e3o por que h\u00e1s jazido<br \/>\n81 S\u00e9c\u2019los tantos em tanta asperidade.\u201d \u2014<\/p>\n<p>425<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNo tempo em que o bom Tito, protegido<br \/>\nPor Deus, vingou as chagas que verteram<br \/>\n84 Sangue, por Judas\u201d \u2014 replicou \u2014 \u201cvendido,<\/p>\n<p>\u201cNa terra o nobre t\u00edtulo me deram,<br \/>\nQue mais honra perdura, e fui famoso:<br \/>\n87 Inda os lumes da f\u00e9 me n\u00e3o vieram.<\/p>\n<p>\u201cDos meus cantos o som foi t\u00e3o donoso,<br \/>\nQue de Tolosa a si me atraiu Roma:<br \/>\n90 C\u2019roas me deu de mirto glorioso.<\/p>\n<p>\u201cDe Est\u00e1cio o nome ainda o tempo doma;<br \/>\nTebas cantei e Aquiles esfor\u00e7ado:<br \/>\n93 Este das for\u00e7as me exauriu a soma.<\/p>\n<p>\u201cDo vivo ardor, que a mente me h\u00e1 tomado,<br \/>\nNa flama divinal a causa estava,<br \/>\n96 Que em milhares de engenhos h\u00e1 brilhado.<\/p>\n<p>\u201cM\u00e3e e nutriz a Eneida me alentava;<br \/>\nEstro bebi caudal no seio puro;<br \/>\n99 Quanto vali da Eneida derivava.<\/p>\n<p>\u201cPara viver no tempo (te asseguro)<br \/>\nEm que existiu Virg\u00edlio, mais um ano<br \/>\n102 Passara no, que deixo, ex\u00edlio duro.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Estas vozes ouvindo, o Mantuano<br \/>\nOlhou-me. \u2014 Cala-te! \u2014 sem falar dizia;<\/p>\n<p>426<\/p>\n<p>105 Mas a vontade est\u00e1 sujeita a engano.<\/p>\n<p>Ou no pranto ou no riso se anuncia<br \/>\nT\u00e3o r\u00e1pida a paix\u00e3o, quando se acende,<br \/>\n108 Que o querer nos sinceros prende e lia.<\/p>\n<p>Sorri-me, como que sagaz, compreende.<br \/>\nCalou-se o esp\u2019rito; e me encarava atento<br \/>\n111 Nos olhos onde a mente mais se entende.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSejas\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cfeliz no excelso<br \/>\nintento!<br \/>\nExplica-me, por\u00e9m, por que em teu rosto<br \/>\n114 Lampejar vi sorriso de momento.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Entre os extremos dois estava eu posto:<br \/>\nUm diz \u2014 sil\u00eancio! \u2014 outro a falar me instiga.<br \/>\n117 Suspiro, e o Mestre atenta em meu desgosto.<\/p>\n<p>Responde, que ao sil\u00eancio nada obriga,<br \/>\n\u201cFique\u201d \u2014 disse \u2014 \u201ca verdade bem patente,<br \/>\n120 O que anela saber ele consiga.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMaravilha causou provavelmente\u201d \u2014<br \/>\nTornei-lhe \u2014 \u201cantigo esp\u00edrito, o meu riso;<br \/>\n123 Maior ser\u00e1 me ouvindo, certamente.<\/p>\n<p>\u201cVirg\u00edlio \u00e9 quem me guia ao Para\u00edso:<br \/>\nPara deuses e her\u00f3is cantar tiveste<br \/>\n126 Por ele o esfor\u00e7o que lhe foi preciso.<\/p>\n<p>427<\/p>\n<p>\u201cSe outra causa em meu riso supuseste,<br \/>\nTe enganaste: o motivo declarado<br \/>\n129 Nas palavras est\u00e1 que lhe disseste.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Quer os p\u00e9s abra\u00e7ar do Mestre amado,<br \/>\nE o Mestre: \u2014 \u201cIrm\u00e3o, que fazes?\u201d \u2014 lhe dizia<br \/>\n\u2014<br \/>\n132 \u201cV\u00ea que \u00e9s sombra e de sombra est\u00e1s ao lado!\u201d<\/p>\n<p>Erguendo-se ele: \u2014 \u201cTanto me extasia<br \/>\nO amor\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cem que por ti me acendo,<br \/>\nQue da nossa vaidade me esquecia,<\/p>\n<p>136 Tratar sombras, quais corpos, pretendendo.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>2-3. \u00c1gua que suplica etc., a \u00e1gua simb\u00f3lica que a Samaritana<br \/>\npediu a Jesus, isto \u00e9, a verdade. \u2014 7. Como escreve Lucas,<br \/>\nEvang. XXIV, 13-15. \u2014 25. Aquela que, incessante fia etc.,<br \/>\nLaquesis n\u00e3o fiara ainda todo o fio que Cloto ajuntou e que<br \/>\nrepresenta o decorrer da vida dos homens. \u2014 48. Dos tr\u00eas<br \/>\ndegraus, onde est\u00e1 a porta do Purgat\u00f3rio. \u2014 50. De Taumante<br \/>\na<br \/>\nfilha, \u00cdris, mensageira de Juno, foi transformada em arco-\u00edris.<br \/>\n\u2014<br \/>\n53. O sucessor de Pedro, o anjo. \u2014 82-83. O Bom Tito, vingou as<br \/>\nchagas etc., Tito, destruindo Jerusal\u00e9m, vingou a morte de<br \/>\nJesus Cristo. \u2014 91. Est\u00e1cio, o poeta latino Papinio Est\u00e1cio,<br \/>\nautor de \u201cTebaida\u201d, morto no ano 96, d.C.<\/p>\n<p>428<\/p>\n<p>CANTO XXII<\/p>\n<p>Subindo ao sexto compartimento, Est\u00e1cio diz a Virg\u00edlio que,<br \/>\nn\u00e3o<br \/>\npelo pecado da avareza, mas pela sua prodigalidade, teve de<br \/>\nficar muito tempo no quinto compartimento; e, por n\u00e3o ter<br \/>\ndeclarado publicamente a sua convers\u00e3o ao cristianismo,<br \/>\nprecisou ficar muito tempo no quarto compartimento. Virg\u00edlio o<br \/>\ninforma a respeito de muitos ilustres personagens da antig\u00fcidade<br \/>\nque est\u00e3o no Limbo. Chegando os Poetas no sexto compartimento,<br \/>\nencontram uma \u00e1rvore cheia de pomos perfumados, da qual<br \/>\nsaem vozes que louvam a virtude da temperan\u00e7a.<\/p>\n<p>O ANJO atr\u00e1s j\u00e1 t\u00ednhamos deixado,<br \/>\nQue para o sexto c\u00edrc\u2019lo nos guiava,<br \/>\n3 Um P na fronte havendo-me apagado.<\/p>\n<p>E \u00e0 turba, que a justi\u00e7a desejava,<br \/>\nTinha dito Beati docemente<br \/>\n6 Com sitio e, ap\u00f3s tais vozes, se calava.<\/p>\n<p>Mais que em toda a jornada antecedente<br \/>\nEu, ligeiro, seguia sem fadiga<br \/>\n9 Os Vates, que subiam velozmente.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAquele amor, com que virtude instiga,<br \/>\nReproduz\u201d \u2014 disse o Mestre \u2014 \u201ca pr\u00f3pria chama<br \/>\n12 Mostras de si apenas dar consiga.<\/p>\n<p>429<\/p>\n<p>\u201cD\u00eas que, da vida terminada a trama,<br \/>\nDo inferno ao limbo, Juvenal descendo,<br \/>\n15 Saber me fez o afeto, que te inflama,<\/p>\n<p>\u201cT\u00e3o vivo bem-querer sabe te rendo,<br \/>\nQuanto haver pode a inc\u00f3gnita pessoa,<br \/>\n18 Contigo ora suave andar me sendo.<\/p>\n<p>\u201cMas dize (e como amigo me perdoa,<br \/>\nSe em falar h\u00e1 n\u00edmia confian\u00e7a<br \/>\n21 E em pr\u00e1tica amig\u00e1vel arrazoa):<\/p>\n<p>\u201cComo avareza fez em ti lian\u00e7a<br \/>\nCom ci\u00eancia, que o estudo te alcan\u00e7ava<br \/>\n24 E em que punhas cuidados e esperan\u00e7a?\u201d<\/p>\n<p>\u00c0s palavras do Mestre pronto estava<br \/>\nEst\u00e1cio, e lhe sorrindo: \u2014 \u201cO que me h\u00e1s dito<br \/>\n27 Penhor caro \u00e9 de afeto\u201d \u2014 lhe tornava.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes da d\u00favida o conflito<br \/>\nPor apar\u00eancia err\u00f4nea \u00e9 suscitado,<br \/>\n30 At\u00e9 que a exata causa surja ao esp\u2019rito.<\/p>\n<p>\u201cFica em tua pergunta declarado<br \/>\nCreres que eu fora avaro noutra vida,<br \/>\n33 Por ser no c\u00edrc\u2019lo a avaros destinado.<\/p>\n<p>\u201cPois sabe que a avareza repelida<br \/>\nPor mim foi nimiamente, e a demasia<\/p>\n<p>430<\/p>\n<p>36 De luas em milhares foi punida.<\/p>\n<p>\u201cMinha alma eterno fardo volveria,<br \/>\nSe aten\u00e7\u00e3o tanta em mim n\u00e3o despertasse<br \/>\n39 A indi\u2019na\u00e7\u00e3o, que nos teus versos via,<\/p>\n<p>\u201cQuando lan\u00e7aste dos mortais \u00e0 face:<br \/>\n\u2014 \u201cA que extremos impeles os humanos,<br \/>\n42 Fome de ouro sacr\u00edlega e rapace!\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o do excesso em despender, os danos<br \/>\nAprender pude, agro pesar sentindo<br \/>\n45 Desse pecado e de outros tantos insanos.<\/p>\n<p>\u201cChorar\u00e3o, tosquiados ressurgindo,<br \/>\nQuantos n\u00e3o t\u00eam sabido \u00e0 penit\u00eancia<br \/>\n48 Dar-se em vida ou sua hora extrema em vindo!<\/p>\n<p>\u201cCada culpa e a que tem contr\u00e1ria ess\u00eancia<br \/>\nAqui a pena d\u00e3o conjuntamente,<br \/>\n51 No mart\u00edrio expurgando a virul\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cEstive entre essa turba penitente,<br \/>\nQue o desvario chora da avareza<br \/>\n54 Por ter sido no oposto renitente.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuando cantaste de armas a crueza,<br \/>\nQue duplamente molestou Jocasta\u201d \u2014<br \/>\n57 Disse o cantor da pastoril simpleza \u2014<\/p>\n<p>431<\/p>\n<p>\u201cPois que de Clio ent\u00e3o o ardor te arrasta,<br \/>\nInda o fervor da f\u00e9 n\u00e3o te incendia,<br \/>\n60 E o bem sem f\u00e9 para salvar n\u00e3o basta:<\/p>\n<p>\u201cQue sol, que estrela, em treva t\u00e3o sombria<br \/>\nTe aclarou e dessa arte al\u00e7ar pudeste<br \/>\n63 Velas ap\u00f3s o pescador, que se ia?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPrimeiro\u201d \u2014 disse Est\u00e1cio \u2014 \u201ctu<br \/>\nme deste<br \/>\nDo Parnaso a beber na doce fonte<br \/>\n66 E de Deus santa luz ver me fizeste.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1s sido, como \u00e0 noite o guia insonte,<br \/>\nQue leva a luz, mas o seu bem n\u00e3o prova,<br \/>\n69 E aqueles serve, de quem vai na fronte,<\/p>\n<p>\u201cQuando disseste \u2014 \u201cO s\u00e9c\u2019lo se renova,<br \/>\nVolta a justi\u00e7a, volta a idade de ouro,<br \/>\n72 E prog\u00eanie do c\u00e9u descende nova.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u201cPor ti ganhei a f\u00e9, de vate o louro:<br \/>\nIsto deve, por\u00e9m, ser-te explicado;<br \/>\n75 D\u00ea ao desenho a cor de claro o foro,<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 stava o mundo inteiro alumiado<br \/>\nDa vera cren\u00e7a que do reino eterno<br \/>\n78 Os mensageiros tinham propagado.<\/p>\n<p>\u201cO vatic\u00ednio teu, Mestre superno,<br \/>\nAos predicantes novos se adatava;<\/p>\n<p>432<\/p>\n<p>81 Por isso, os freq\u00fcentando, o bem discerne.<\/p>\n<p>\u201cTanto a virtude sua me enlevava,<br \/>\nQue, quando os perseguiu Domiciano,<br \/>\n84 Ao pranto seu meu pranto acompanhava.<\/p>\n<p>\u201cEnquanto estiver no viver humano,<br \/>\nDei-lhes socorro e o seu exemplo austero<br \/>\n87 \u00d3dio inspirou-me \u00e0s seitas do erro insano.<\/p>\n<p>\u201cAntes j\u00e1 de cantar o cerco fero<br \/>\nDe Tebas no batismo renascera:<br \/>\n90 Mas, de medo, ocultei meu crer sincero.<\/p>\n<p>\u201cGentio largo tempo eu parecera;<br \/>\nPor isso hei tantos s\u00e9c\u2019los padecido<br \/>\n93 No c\u00edrc\u2019lo quarto; a pena merecera.<\/p>\n<p>\u201cTu a quem devo, pois, ter conseguido<br \/>\nO v\u00e9u rasgar, que tanto bem cobria.<br \/>\n96 Pois que tempo em subir \u00e9 concedido,<\/p>\n<p>\u201cOnde Ter\u00eancio diz-me ora estancia?<br \/>\nOnde est\u00e1 Plauto Varro com Cec\u00edlio?<br \/>\n99 \u00c0 qual parte do inferno a culpa os lia?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAqueles, P\u00e9rsio e eu\u201d \u2014 tornou Virg\u00edlio<br \/>\n\u2014<br \/>\nE os outros mais o Grego acompanhamos<br \/>\n102 Predileto das Musas; l\u00e1 no ex\u00edlio<\/p>\n<p>433<\/p>\n<p>\u201cDo c\u00edrculo primeiro demoramos<br \/>\nVezes freq\u00fcentes do famoso monte,<br \/>\n105 Das Camenas assento praticamos.<\/p>\n<p>\u201cEur\u00edpede \u00e9 conosco e Anacreonte,<br \/>\nSim\u00f4nide, Agaton e outros inda<br \/>\n108 Gregos, que cingem de laurel a fronte.<\/p>\n<p>\u201cSt\u00e3o hero\u00ednas, que cantaste: a linda<br \/>\nAnt\u00edgone, Deifile com Argia,<br \/>\n112 Ism\u00eania, em quem tristeza nunca finda;<\/p>\n<p>\u201cV\u00ea-se tamb\u00e9m a que mostrou Langia,<br \/>\nT\u00e9tis se v\u00ea e de Tir\u00e9sia a filha,<br \/>\n114 E das irm\u00e3s Deidama em companhia\u201d \u2014<\/p>\n<p>Os dois, da poesia maravilha,<br \/>\nCalaram-se, ao que os cerca atentos stando,<br \/>\n117 Vencida sendo da subida a trilha.<\/p>\n<p>Das ancilas do dia atr\u00e1s ficando<br \/>\nA quarta, logo a quinta se jungia<br \/>\n120 Ao carro ardente, ao alto o encaminhando,<\/p>\n<p>\u201cQuando o Mestre \u2014 \u201cEu suponho\u201d \u2014 nos dizia<br \/>\n\u201cQue n\u00f3s \u00e0 destra caminhar devemos,<br \/>\n123 Volteando, como antes se fazia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Desta arte na exp\u2019ri\u00eancia a mestra havemos,<br \/>\nE no andar prosseguimos confiados,<\/p>\n<p>434<\/p>\n<p>126 Porque de Est\u00e1cio o assenso recebemos.<\/p>\n<p>Iam diante os Vates afamados,<br \/>\nE eu logo ap\u00f3s, nas vozes escutando<br \/>\n129 Arcanos da poesia sublimados,<\/p>\n<p>Eis rompe esse col\u00f3quio doce e brando<br \/>\nUma \u00e1rvore, que \u00e0 estrada em meio achamos:<br \/>\n132 Lindos pomos na fronde est\u00e3o cheirando.<\/p>\n<p>V\u00e3o para cima decrescendo os ramos<br \/>\nDe abeto; estes descendo diminuem:<br \/>\n135 Para algu\u00e9m n\u00e3o subir \u2014 acreditamos.<\/p>\n<p>L\u00edmpidos jorros do penedo ruem<br \/>\nDa parte, em que a montanha a entrada mura;<br \/>\n138 Sobre as folhas em rocio as gotas fluem.<\/p>\n<p>Est\u00e1cio com Virg\u00edlio se apressura<br \/>\nPara essa \u00e1rvore, quando voz, da fronde,<br \/>\n141 Gritou: \u2014 \u201cN\u00e3o gozareis desta do\u00e7ura!<\/p>\n<p>\u201cMaria (e o seu desejo n\u00e3o se esconde)<br \/>\nAtende mais das bodas \u00e0 grandeza<br \/>\n144 Que ao seu gosto; e por v\u00f3s ora responde.<\/p>\n<p>\u201cDas Romanas \u00e0 antiga singeleza<br \/>\n\u00c1gua bastava; e Daniel ci\u00eancia<br \/>\n147 Logrou, tendo em desprezo a r\u00e9gia mesa.<\/p>\n<p>435<\/p>\n<p>\u201cChamou-se de ouro a idade da inoc\u00eancia;<br \/>\nFez as glandes a fome saborosas;<br \/>\n150 \u00c1gua em n\u00e9ctar tornou da sede a ard\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cAo Batista iguarias bem gostosas<br \/>\nMel, gafanhotos foram no deserto:<br \/>\nAssim fez grandes obras gloriosas,<\/p>\n<p>154 \u201cComo pelo Evangelho ficou certo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>5-6. Beati etc., S. Mateus V, 6: \u201cBeati qui esurient et sitium<br \/>\njustitiam.\u201d \u2014 14. Juvenal, poeta sat\u00edrico latino. \u2014<br \/>\n56. Jocasta,<br \/>\nm\u00e3e de Eteocles e Polinices, irm\u00e3os inimigos que originaram<br \/>\na<br \/>\nguerra de Tebas. \u2014 58. Clio, musa da hist\u00f3ria. \u2014 63. O<br \/>\npescador, S. Pedro. \u2014 83. Domiciano, imperador romano que<br \/>\nreinou do ano 81 ao 96. d.C. \u2014 97-100. Ter\u00eancio, Plauto, Varro,<br \/>\nCecilio, P\u00e9rsio, poetas latinos. \u2014 101-102. O grego&#8230; predileto<br \/>\ndas Musas, Homero.\u2014 106-107. Euripedes, Sim\u00f4nides,<br \/>\nAnacreonte, Agaton, poetas gregos. \u2014 110. Ant\u00edgone, filha de<br \/>\n\u00c9dipo, rei de Tebas; Deifile, esposa de Tideo; Argia, esposa de<br \/>\nPolinice. \u2014 111. Ism\u00eania, filha de \u00c9dipo. \u2014 112.<br \/>\nA que mostrou<br \/>\nLangia, Isifiles, que mostrou o rio Langia \u00e0s tropas sedentas de<br \/>\nAdrastro. \u2014 113. T\u00e9t\u00eds, m\u00e3e de Aquiles; de Tir\u00e9sia<br \/>\na filha,<br \/>\nDafne. \u2014 114. Deidama, filha do rei Licomedes. \u2014 142-144.<br \/>\nMaria etc., a m\u00e3e de Jesus para honrar a festa dos noivos de<br \/>\nCan\u00e1, pediu ao filho que transformasse a \u00e1gua em vinho. \u2014<br \/>\n146-147. Daniel etc., o profeta Daniel que adquiriu sabedoria<br \/>\npela sua abstin\u00eancia.<\/p>\n<p>436<\/p>\n<p>CANTO XXIII<\/p>\n<p>No sexto compartimento est\u00e3o as almas dos gulosos. Elas s\u00e3o<br \/>\natormentadas pela fome e pela sede; Dante descreve a sua<br \/>\nhorr\u00edvel magreza. O Poeta reconhece o seu parente Forense<br \/>\nDonati, o qual louva a sua vi\u00fava, Nella, e repreende a impudic\u00edcia<br \/>\ndas mulheres florentinas.<\/p>\n<p>FITAVA os olhos sobre a rama verde,<br \/>\nQual ca\u00e7ador, que ap\u00f3s um passarinho,<br \/>\n3 Correndo, parte da exist\u00eancia perde.<\/p>\n<p>Quando o que me era mais que pai: \u2014 \u201cFilhinho,<br \/>\nO tempo\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cque nos est\u00e1 marcado,<br \/>\n6 Quer mais \u00fatil emprego. Eia! a caminho!\u201d \u2014<\/p>\n<p>Voltando o rosto, a passo acelerado<br \/>\nOs s\u00e1bios sigo e, atento ao que falavam,<br \/>\n9 N\u00e3o me sentia, andando, fatigado.<\/p>\n<p>Plangentes vozes s\u00fabito entoavam<br \/>\nLabia, Domine, mea por maneira,<br \/>\n12 Que piedade e prazer me provocaram.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDo que ou\u00e7o\u201d\u2014 disse ent\u00e3o \u2014<br \/>\n\u201c\u00f3 Pai, me<br \/>\ninteira.\u201d\u2014<br \/>\n\u2014 \u201cAlmas\u201d \u2014 tornou \u2014 \u201ctalvez que o meio<\/p>\n<p>437<\/p>\n<p>tentam,<br \/>\n15 Que o peso \u00e0 sua d\u00edvida aligeira.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Peregrinos sol\u00edcitos que atentam<br \/>\nS\u00f3 na jornada, achando estranha gente,<br \/>\n18 Vontam-se apenas, mas o passo alentam:<\/p>\n<p>Tal ap\u00f3s n\u00f3s vem turba diligente;<br \/>\nEm devoto sil\u00eancio se acercava;<br \/>\n21 Olhou-nos e afastou-se prestamente.<\/p>\n<p>Os olhos encovados nos mostrava,<br \/>\nP\u00e1lida a face e o rosto descarnado,<br \/>\n24 Sobre os ossos a pele se estirava.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que Erisicton devastado<br \/>\nTanto da fome horr\u00edvel estivesse<br \/>\n27 Quando das for\u00e7as viu-se abandonado.<\/p>\n<p>Eu cogitava: \u2014 \u201cO povo aqui padece,<br \/>\nQue Solima perdeu, quando Maria<br \/>\n30 Carnes comeu ao filho, que perece.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Cad\u2019olho anel sem pedra parecia:<br \/>\nO que na humana face lesse \u201como\u201d<br \/>\n33 Bem claro o M aqui distinguiria.<\/p>\n<p>Quem crer pudera, n\u00e3o sabendo como,<br \/>\nEfeito de desejo ser, nascido<br \/>\n36 Do frescor de \u00e1gua, junto a odor de pomo?<\/p>\n<p>438<\/p>\n<p>At\u00f4nito inquiria o que haja sido<br \/>\nDe tal fome a raz\u00e3o, n\u00e3o manifesta,<br \/>\n39 Que tal magreza tenha produzido,<\/p>\n<p>Eis l\u00e1 da profundez da sua testa<br \/>\nUma alma olhos volvia e me encarava,<br \/>\n42 Gritando: \u2014 \u201cMereci gra\u00e7a como esta?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Quem fora o gesto seu n\u00e3o me indicava;<br \/>\nMas tive pela voz prova segura<br \/>\n45 Do que o aspecto seu n\u00e3o revelava.<\/p>\n<p>Foi s\u00fabito clar\u00e3o em noite escura,<br \/>\nDo rosto avivou tra\u00e7os deformados<br \/>\n48 Forese conheci nessa figura.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAi! n\u00e3o fiquem teus olhos assombrados\u201d<br \/>\n\u2014 Dizia \u2014 \u201ca lepra ao ver que me descora,<br \/>\n51 E estes ossos mesquinhos, descarnados!<\/p>\n<p>\u201cDize a verdade de ti pr\u00f3prio agora:<br \/>\nDe quais almas te vejo companheiro?<br \/>\n54 N\u00e3o haja, rogo, em responder demora.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cComo outrora \u00e9 meu d\u00f3 t\u00e3o verdadeiro,<br \/>\nVendo-te o vulto que chorei j\u00e1 morto,<br \/>\n57 T\u00e3o dif\u2019rente do que era de primeiro,<\/p>\n<p>\u201cDize, por Deus, por que \u00e9s t\u00e3o sem conforto:<\/p>\n<p>439<\/p>\n<p>Tolhe-me a fala a vista, que me espanta;<br \/>\n60 Responder-te n\u00e3o posso, em m\u00e1goa absorto.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDe tal poder\u201d \u2014 tornou \u2014 \u201cessa \u00e1gua<br \/>\ne planta<br \/>\nSabedoria eterna tem dotado,<br \/>\n63 Que consuma\u00e7\u00e3o em mim produziu tanta.<\/p>\n<p>\u201cOs que o rosto, cantando, t\u00eam banhado<br \/>\nDe pranto, havendo entregue \u00e0 gula a vida,<br \/>\n66 Sobem, na fome e sede, o santo estado.<\/p>\n<p>\u201cA fome, a sede sente-se incendida<br \/>\nDos pomos pelo aroma e por frescura<br \/>\n69 Das \u00e1guas, sobre as ramas espargida.<\/p>\n<p>\u201cCada vez que giramos na fragura,<br \/>\nRevive nossa pena e mais agrava;<br \/>\n72 Erro chamando pena o que \u00e9 do\u00e7ura.<\/p>\n<p>\u201cEsse desejo ardente de n\u00f3s trava,<br \/>\nQue fez Cristo dizer \u2014 Eli! contente,<br \/>\n75 Quando o sangue em prol nosso na Cruz dava.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cForese\u201d \u2014 hei respondido incontin\u00eanti \u2014<br \/>\n\u201cD\u00eas que deixaste a terreal morada<br \/>\n78 Passaram-se anos cinco escassamente;<\/p>\n<p>\u201cSe a for\u00e7a de pecar stava esgotada<br \/>\nAntes de vir da dor bendita a hora,<\/p>\n<p>440<\/p>\n<p>81 Em que alma \u00e9 com seu Deus conciliada,<\/p>\n<p>\u201cComo te vejo nesta altura agora?<br \/>\nL\u00e1 embaixo encontrar-te acreditara,<br \/>\n84 Onde o tempo com tempo se melhora.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cConduziu-me t\u00e3o cedo Nela cara,<br \/>\nPor pranto, que incessante h\u00e1 derramado,<br \/>\n87 Do mart\u00edrio a tragar do\u00e7ura amara.<\/p>\n<p>\u201cDe ora\u00e7\u00f5es e suspiros sufragado<br \/>\nAssim, me alcei da encosta, onde se espera,<br \/>\n90 E fui dos outros c\u00edrc\u2019los resgatado.<\/p>\n<p>\u201cTanto mais Deus com dile\u00e7\u00e3o esmera<br \/>\nAquela, que extremoso amei na terra,<br \/>\n93 Quanto, s\u00f3, em virtude ela \u00e9 sincera.<\/p>\n<p>\u201cPois a Barbagia de Sardenha encerra<br \/>\nMulheres por pudor bem mais notadas,<br \/>\n96 Que a Barbagia, onde o v\u00edcio acende guerra.<\/p>\n<p>\u201cQueres tu, doce irm\u00e3o, manifestadas<br \/>\nId\u00e9ias minhas? Pouco dista o dia<br \/>\n99 Das vozes nesta pr\u00e1tica empregadas,<\/p>\n<p>\u201cEm que pro\u00edba o p\u00falpito a ousadia<br \/>\nDas impudentes damas florentinas,<br \/>\n102 Que t\u00eam, mostrando os seios, ufania.<\/p>\n<p>441<\/p>\n<p>\u201cMorais ou quaisquer outras disciplinas<br \/>\nH\u00e3o mister para andarem bem cobertas<br \/>\n105 As mulheres pag\u00e3s ou marroquinas?<\/p>\n<p>\u201cMas, se tais despejadas foram certas<br \/>\nDo castigo, que est\u00e1-lhes iminente,<br \/>\n108 Bocas teriam para urrar abertas.<\/p>\n<p>\u201cE, se, antevendo, n\u00e3o me engana a mente,<br \/>\nGrande ang\u00fastia h\u00e3o de ter antes que nas\u00e7a<br \/>\n111 Barba ao que em ber\u00e7o embala-se inocente.<\/p>\n<p>\u201cAh! de dizer quem sejas faz-me a gra\u00e7a!<br \/>\nN\u00e3o por mim; mas a turba atenta mira<br \/>\n114 Teu corpo e a sombra, que com ele passa.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe agora \u00e0 mente\u201d \u2014 eu disse \u2014 \u201cte<br \/>\nsurgira<br \/>\nO que outrora um pra o outro havemos sido,<br \/>\n117 Desprazer inda agudo te pungira.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 pouco, me h\u00e1 do mundo conduzido<br \/>\nQuem me precede; havia ent\u00e3o rotunda<br \/>\n120 A irm\u00e3 do que v\u00eas aparecido.\u201d \u2014<\/p>\n<p>E o sol mostrei \u2014 \u201cPor noite a mais profunda<br \/>\nDos verdadeiros mortos me h\u00e1 guiado,<br \/>\n123 Quando a carne inda os ossos me circunda.<\/p>\n<p>\u201cTenho depois, por ele confortado,<br \/>\nDesta montanha pelos c\u00edrc\u2019los vindo,<\/p>\n<p>442<\/p>\n<p>126 Que em v\u00f3s corrige o que trazeis errado.<\/p>\n<p>\u201cQuanto disse, acompanha-me, cumprindo<br \/>\nT\u00e9 onde a Beatriz veja o semblante:<br \/>\n129 Ent\u00e3o sem ele avante irei seguindo.<\/p>\n<p>\u201cEi-lo! \u00c9 Virg\u00edlio o guia meu constante!<br \/>\n\u00c9 aquele outro a sombra venturosa<br \/>\nPor quem o vosso reino, vacilante,<\/p>\n<p>133 Tremeu, quando partiu-se jubilosa.\u201d \u2014<\/p>\n<p>11. Labia mea etc., verso 17 do Salmo 50: \u201cAbre-me os l\u00e1bios,<br \/>\n\u00f3<br \/>\nSenhor, e a minha boca te louvar\u00e1.\u201d \u2014 25. Erisiton, tendo<br \/>\ninjuriado a Geres foi punido com fome insaci\u00e1vel. \u2014 28-29. O<br \/>\npovo aqui padece \u00e7ue Solima perdeu etc., o povo de Jerusal\u00e9m<br \/>\nsofreu tanto a fome, que, segundo o historiador hebreu Flavio<br \/>\nJos\u00e9, uma mulher chamada Maria comeu o seu pr\u00f3prio filho. \u2014<br \/>\n32. O que na humana face lesse \u201como\u201c, na face humana est\u00e1<br \/>\nescrita a palavra \u201como\u201c (homem), os olhos representando os dois<br \/>\no e o nariz com as sobrancelhas o m. \u2014 48. Forese Donati,<br \/>\nparente de Dante, morto em 1296. \u2014 74. Cristo dizer: Eli!,<br \/>\nCristo crucificado, pouco antes de morrer, disse: \u201cEli, Eli,<br \/>\nlamma sabactani\u201d, isto \u00e9: \u201cMeu Deus, meu Deus, por que<br \/>\nme<br \/>\ndesamparaste?\u201d<\/p>\n<p>443<\/p>\n<p>CANTO XXIV<\/p>\n<p>Forese mostra a Dante outras almas de gulosos, entre as quais a<br \/>\nde Bonagiunta de Lucca, que prediz ao Poeta que se enamorar\u00e1<br \/>\nde uma mulher da sua cidade, e lhe louva o estilo da poesia.<br \/>\nProcedendo, os Poetas encontram outra \u00e1rvore e ouvem outros<br \/>\nexemplos de intemperan\u00e7a castigada.<\/p>\n<p>N\u00c3O era o passo e o praticar mais lento<br \/>\nUm do que outro; igualmente prosseguiam,<br \/>\n3 Qual nau servida por galerno vento.<\/p>\n<p>As sombras, que duas vezes pareciam<br \/>\nMortas, nos cavos olhos grande espanto,<br \/>\n6 De estar eu vivo certas, exprimiam.<\/p>\n<p>Eu, a falar continuando, entanto,<br \/>\nDisse: \u2014 \u201cConosco para ir retarda<br \/>\n9 Sua ascens\u00e3o essa alma ao reino santo.<\/p>\n<p>Mas, rogo-te declara: onde \u00e9 Picarda?<br \/>\nAfamada por feitos h\u00e1 pessoa<br \/>\n12 Entre a gente, que s\u00f4frega me esguarda?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTanto era minha irm\u00e3 gentil e boa<br \/>\nQue n\u00e3o sei qual foi mais: triunfa leda<br \/>\n15 No Olimpo, onde alcan\u00e7ou formosa c\u2019roa.<\/p>\n<p>444<\/p>\n<p>\u201cNomes dizer de mortos n\u00e3o se veda<br \/>\nAqui\u201d \u2014 Forese torna; e logo ajunta: \u2014<br \/>\n18 \u201cTanto a fome as fei\u00e7\u00f5es nossas depreda!\u201d<\/p>\n<p>\u201cEste que v\u00eas de Lucca \u00e9 Bonagiunta;<br \/>\nE aquela alma (seu dedo ia apontando),<br \/>\n21 Mais que todas desfeita, que lhe \u00e9 junta,<\/p>\n<p>\u201cFoi Tours; j\u00e1 na Igreja exerceu mando.<br \/>\nSt\u00e1, por jejuns, anguilas de Bolsena,<br \/>\n24 Ver na ceia, afogadas, expurgando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Muitos mais nomeou, que sofrem pena;<br \/>\nE todos demonstravam star contentes<br \/>\n27 De ouvir dizer Forese o que os condena.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o de fome vi mover os dentes<br \/>\nUbaldino de Pila e Bonifa\u00e7o,<br \/>\n30 Que regeu com seu bago muitas gentes.<\/p>\n<p>Misser Marchese vi, que largo espa\u00e7o<br \/>\nCom menos sede em Forli consumia.<br \/>\n33 Em beber; mas julgava-o inda escasso.<\/p>\n<p>Mas, como o que repara e que aprecia<br \/>\nEscolhendo, ao de Lucca eu me inclinava,<br \/>\n36 Porque mais conhecer-me parecia.<\/p>\n<p>Submissa voz da boca lhe soava,<\/p>\n<p>445<\/p>\n<p>Causa do mal, que trouxe-lhe o castigo:<br \/>\n39 \u201cGentucca\u201d ou n\u00e3o sei que pronunciava.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 alma\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cque falar<br \/>\ncomigo<br \/>\nQueres, ao claro te explicar procura:<br \/>\n42 Satisfeita ser\u00e1s como contigo.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMulher nasceu, mas inda \u00e9 virgem pura,<br \/>\nPor quem\u201d \u2014 torna \u2014 \u201ch\u00e1s de amar minha<br \/>\ncidade,<br \/>\n45 Posto assunto haja sido de censura.<\/p>\n<p>\u201cEste pren\u00fancio levas da verdade;<br \/>\nSe por meu murmurar te h\u00e1s enganado,<br \/>\n48 Trazer-te h\u00e1 de o porvir \u00e0 claridade,<\/p>\n<p>\u201cSe vejo aquele diz, que \u00e0 luz h\u00e1 dado<br \/>\nVersos novos, que assim t\u00eam seu come\u00e7o:<br \/>\n51 Damas que haveis de amor na mente entrado.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue v\u00eas em mim\u201d \u2014 lhe respondi \u2014 \u201cconfesso<br \/>\nQuem screve o que somente Amor lhe inspira:<br \/>\n54 O que em meu peito diz falando expresso.<\/p>\n<p>\u201cO \u00f3bice ora vejo que eu n\u00e3o vira<br \/>\nQue ao Not\u00e1rio a Guittone a mim tolhia<br \/>\n57 O doce estilo da moderna lira.<\/p>\n<p>\u201cAs vossas plumas vejo que \u00e0 porfia<br \/>\nSeguem de perto o inspirador potente;<\/p>\n<p>446<\/p>\n<p>60 Tanto alcan\u00e7ar \u00e0s nossas n\u00e3o cabia.<\/p>\n<p>\u201cQuem, por mais agradar, mais alto a mente<br \/>\nErguer que, n\u00e3o discerne um do outro estilo.\u201d<br \/>\n63 Disse e calou-se de o dizer contente.<\/p>\n<p>Como aves, que no inverno o noto asilo<br \/>\nBuscando ora num bando incorporadas,<br \/>\n66 Ora em fila apressadas v\u00e3o-se ao Nilo,<\/p>\n<p>Essas almas assim j\u00e1 demoradas,<br \/>\nVolvendo o rosto r\u00e1pidas fugiram,<br \/>\n69 Da magreza e vontade auxiliadas.<\/p>\n<p>Como aquele a quem for\u00e7as se esva\u00edram<br \/>\nCorrendo afrouxa os passos para o alento<br \/>\n72 Cobrar, em quanto os s\u00f3cios se retiram;<\/p>\n<p>Forese assim que a passo andava lento<br \/>\nDeixou passar a santa grei dizendo:<br \/>\n75 \u2014 \u201cQuando de ver-te inda terei contento?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuanto haja de viver\u201d \u2014 fui respondendo \u2014<br \/>\n\u201cN\u00e3o sei; por menos que me dure a vida<br \/>\n78 Mais ao seu termo os meus desejos tendo.<\/p>\n<p>\u201cQue onde foi a exist\u00eancia concedida<br \/>\nMais escassa a virtude \u00e9 cada dia:<br \/>\n81 Ru\u00edna espera triste e desmedida.<\/p>\n<p>447<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO que mor culpa tem\u201d \u2014 me retorquia \u2014<br \/>\n\u201c\u00c0 cauda de um corcel vejo arrastado<br \/>\n84 Ao vale, onde o pecado n\u00e3o se expia:<\/p>\n<p>\u201cVai sempre, sempre mais acelerado<br \/>\nAquele bruto na carreira fera:<br \/>\n87 Fica vilmente o corpo lacerado.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 de girar muito cada espera<br \/>\n(Para o c\u00e9u se voltava) antes que seja<br \/>\n90 Claro o que te explicar eu n\u00e3o pudera.<\/p>\n<p>\u201cAdeus, por\u00e9m: quem neste reino esteja<br \/>\nAo tempo d\u00ea seu pre\u00e7o verdadeiro;<br \/>\n93 O que eu perco ao teu lado j\u00e1 sobeja.\u201d<\/p>\n<p>Como a campanha deixa um cavaleiro,<br \/>\nA galope veloz se arremessando,<br \/>\n96 Por ter na li\u00e7a as honras de primeiro:<\/p>\n<p>Forese assim de n\u00f3s foi-se alongando.<br \/>\nFiquei dos dois esp\u00edritos ao lado,<br \/>\n99 Que o mundo est\u00e1 por mestres proclamando.<\/p>\n<p>Quando em dist\u00e2ncia tanta era apartado,<br \/>\nQue as vistas nesse andar o acompanharam,<br \/>\n102 Como a mente ao que havia revelado.<\/p>\n<p>Eis perto aos olhos meus, que se voltaram,<br \/>\nDe outra \u00e1rvore de pomos carregada<\/p>\n<p>448<\/p>\n<p>105 Os ramos vicejantes se mostraram.<\/p>\n<p>As m\u00e3os al\u00e7ava multid\u00e3o cerrada<br \/>\n\u00c0 fronde em brados; turba semelhava<br \/>\n108 De infantes, por desejos v\u00e3os turbada,<\/p>\n<p>Um objeto implorando a quem negava,<br \/>\nE que o mostrando ainda mais acende<br \/>\n111 Desejo, que a cobi\u00e7a lhes agrava.<\/p>\n<p>Foi-se, por\u00e9m, porque ningu\u00e9m a atende.<br \/>\nDa grande \u00e1rvore ent\u00e3o nos acercamos,<br \/>\n114 Que a todo o rogo e pranto desatende.<\/p>\n<p>Uma voz de entre as folhas escutamos:<br \/>\n\u2014 \u201cIde-vos logo; n\u00e3o chegueis ao perto!<br \/>\n117 Eva o fruto h\u00e1 mordido de outros ramos:<\/p>\n<p>\u201cSt\u00e3o longe estes de l\u00e1 prov\u00eam de certo.\u201d<br \/>\n\u2014<br \/>\nEnt\u00e3o de lado os passos dirigimos,<br \/>\n120 Unidos no caminho, que era aberto.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cLembrai esses malditos\u201d \u2014 inda ouvimos \u2014<br \/>\n\u201cFilhos das nuvens, duplos na figura,<br \/>\n123 Que atacaram Teseus, \u00e9brios cadimos;<\/p>\n<p>\u201cE os que em beber acharam tal do\u00e7ura,<br \/>\nQue os n\u00e3o quis Gede\u00e3o na companhia,<br \/>\n126 A Madi\u00e3 marchando l\u00e1 da altura.\u201d<\/p>\n<p>449<\/p>\n<p>Por junto \u00e0 borda o passo se volvia,<br \/>\nE as penas escutamos dos pecados<br \/>\n129 Mortais, que outrora a gula cometia.<\/p>\n<p>J\u00e1 pela estrada solit\u00e1ria entrados,<br \/>\nDemos mais de mil passos inda avante,<br \/>\n132 Contemplando, em sil\u00eancio mergulhados.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEm que cismais v\u00f3s outros?\u201d \u2014 retumbante<br \/>\nSoou voz. \u2014 Fiquei logo em sobressalto<br \/>\n135 Como o corcel de medo titubante.<\/p>\n<p>Para ver levantei a fronte ao alto:<br \/>\nAos olhos, dera em fus\u00e3o, no forno ardente,<br \/>\n138 Vidro ou metal n\u00e3o dera igual assalto,<\/p>\n<p>Como o anjo que eu vi resplendecente.<br \/>\nDizia: \u2014 \u201cA volta dai para a subida!<br \/>\n141 Quem quer paz para aqui vai certamente.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Daquele aspecto a vista foi tolhida:<br \/>\nComo quem pelo ouvido os passos guia,<br \/>\n144 Fui caminhando, aos Vates em seguida.<\/p>\n<p>E qual aura de maio, que anuncia<br \/>\nA alvorada, das flores espalhando<br \/>\n147 E das ervas o aroma, que extasia,<\/p>\n<p>Tal sobre a fronte um sopro senti brando,<br \/>\nSenti mover-se a pluma: ent\u00e3o rescende<\/p>\n<p>450<\/p>\n<p>150 Odor celeste, o olfato me enlevando<\/p>\n<p>Dizer senti: \u2014 \u201cFeliz o que se acende<br \/>\nNa Gra\u00e7a o que, da gula desligado,<br \/>\nAo sabor do apetite n\u00e3o se prende,<\/p>\n<p>154 Comendo quanto \u00e9 justo sem pecado!\u201d \u2014<\/p>\n<p>10. Picarda, irm\u00e3 de Forese Donati. \u2014 19. Bonagiunta degli<br \/>\nOrbicciani, poeta contempor\u00e2neo de Dante. \u2014 22. Tours, o papa<br \/>\nMartinho IV, que foi c\u00f4nego da catedral de Tours. \u2014 29.<br \/>\nUbaldino de Pila, de nobre fam\u00edlia pisana. \u2014 Bonifa\u00e7o,<br \/>\nBonifazio<br \/>\ndei Fieschi, arcebispo de Ravenna. \u2014 31. Messer Marchese de<br \/>\nRigogliosi, gentil-homem de Forli. \u2014 39-43 Gentucca, senhora<br \/>\nde Lucca, que Dante amou, quando em 1314 esteve em Lucca<br \/>\nna casa do seu amigo Uguccione della Faggiuola. \u2014 51. Damas<br \/>\netc., primeiro verso de uma can\u00e7\u00e3o de Dante em louvor de<br \/>\nBeatriz. \u2014 56. O not\u00e1rio, Jacopo de Lentini. \u2014 Guittone<br \/>\nde<br \/>\nArezzo. \u2014 82. O que mor culpa tem, Corso Donati, irm\u00e3o de<br \/>\nForese, chefe do partido dos Pretos, foi assassinado em 1308. \u2014<br \/>\n121-123. Esses malditos&#8230; filhos das nuvens etc., os Centauros,<br \/>\nque foram mortos por Teseu quando tentavam raptar Ipodamia.<br \/>\n\u2014 124-126. Os que n\u00e3o quis Gede\u00e3o etc., os soldados hebreus<br \/>\nque Gede\u00e3o, seguindo os conselhos de Deus, n\u00e3o quis por<br \/>\ncompanheiros, porque beberam avidamente, ajoelhando-se na<br \/>\nfonte.<\/p>\n<p>451<\/p>\n<p>CANTO XXV<\/p>\n<p>Subindo por estreita senda, do sexto ao s\u00e9timo e \u00faltimo<br \/>\ncompartimento, Dante pergunta a Virg\u00edlio como podem emagrecer<br \/>\nas almas, que n\u00e3o precisam de alimento. Respondem-lhe Virg\u00edlio,<br \/>\nantes, e depois Est\u00e1cio. Este fala da gera\u00e7\u00e3o do corpo<br \/>\ndo homem,<br \/>\nda alma que nele Deus infunde, e da maneira de exist\u00eancia<br \/>\ndepois da morte. O compartimento no qual acabam de chegar<br \/>\nest\u00e1 cheio de flamas, nas quais est\u00e3o se purificando as almas<br \/>\ndos luxuriosos.<\/p>\n<p>PARA subir o tempo nos urgia;<br \/>\nMeridiano ao Tauro o sol j\u00e1 dera,<br \/>\n3 Bem como a noite ao Scorpi\u00e3o cedia<\/p>\n<p>Qual viajor, que o passo n\u00e3o modera,<br \/>\nQue em nada atenta e sempre segue avante,<br \/>\n6 Se em seu querer necessidade impera,<\/p>\n<p>N\u00f3s penetramos no rochedo hiante,<br \/>\nPor escada estreit\u00edssima subindo,<br \/>\n9 Que obriga um ir atr\u00e1s outro adiante.<\/p>\n<p>Da cegonha o filhinho, asas abrindo,<br \/>\nPor voar logo, encolhe-as e n\u00e3o tenta<br \/>\n12 Deixar o ninho, esfor\u00e7o n\u00e3o sentindo:<\/p>\n<p>452<\/p>\n<p>Tal o desejo em mim ferve e arrefenta<br \/>\nDe perguntar chegando quase ao ato<br \/>\n15 De quem para dizer se experimenta.<\/p>\n<p>O Mestre, sem parar, pressente o fato:<br \/>\n\u2014 \u201cTens da palavra o arco\u201d \u2014 diz \u2014 \u201ctendido,<br \/>\n18 Deixa a seta partir; n\u00e3o s\u00ea coato\u201c. \u2014<\/p>\n<p>De confian\u00e7a ent\u00e3o j\u00e1 possu\u00eddo,<br \/>\nFalei, \u2014 \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel fique magro<br \/>\n21 Quem n\u00e3o precisa mais de ser nutrido?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe recordaras\u201d \u2014 torna \u2014 \u201cMeleagro<br \/>\nQue, em ardendo um ti\u00e7\u00e3o se consumia<br \/>\n24 Isso n\u00e3o fora de entender t\u00e3o agro.<\/p>\n<p>\u201cTamb\u00e9m de f\u00e1cil cren\u00e7a te seria,<br \/>\nSe no espelho notaras que o teu rosto,<br \/>\n27 Segundo te movesses, se movia.<\/p>\n<p>\u201cPor dissipar-se a d\u00favida ao teu gosto,<br \/>\nEis Est\u00e1cio, a quem rogo fervoroso<br \/>\n30 Seja a dar-te o rem\u00e9dio bem disposto.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe eu o eterno conselho explicar ouso\u201d<br \/>\n\u2014 Disse Est\u00e1cio \u2014 \u201cquando \u00e9s, Mestre, presente,<br \/>\n33 Ao teu querer me curvo respeitoso.<\/p>\n<p>\u201cSe, filho, o que eu disser guardas na mente,<br \/>\nH\u00e1s de ter \u2014 prosseguiu \u2014 \u201cesclarecidas<\/p>\n<p>453<\/p>\n<p>36 Essas d\u00favidas tuas prontamente.<\/p>\n<p>\u201cSangue puro, que as veias ressequidas<br \/>\nN\u00e3o bebem, que de parte permanece<br \/>\n39 Quais viandas em mesas bem providas,<\/p>\n<p>\u201cDo cora\u00e7\u00e3o tomou que lhe oferece<br \/>\nVirtude de que a forma aos membros veio,<br \/>\n42 Como o que \u00e0s veias por faz\u00ea-los desce;<\/p>\n<p>\u201cAinda, elaborado, desce ao seio<br \/>\nDe canal que n\u00e3o digo; ap\u00f3s, unido<br \/>\n45 Em vaso \u00e9 natural com sangue alheio.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 ali com outro confundido,<br \/>\nPaciente sendo um, sendo outro ativo,<br \/>\n48 Pela perfeita sede, em que h\u00e1 nascido.<\/p>\n<p>\u201cTrabalho ent\u00e3o come\u00e7a produtivo<br \/>\nCoagulando e depois vivificando<br \/>\n51 O condensado efeito primitivo:<\/p>\n<p>\u201cEm alma a for\u00e7a ativa se tornando,<br \/>\nComo em planta, \u00e9, no entanto, diferente:<br \/>\n54 P\u00e1ra a planta, vai a alma caminhando.<\/p>\n<p>\u201cProsseguindo, j\u00e1 move-se, j\u00e1 sente,<br \/>\nComo o fungo marinho; e logo emprende<br \/>\n57 Os sentidos, que em si tem qual semente.<\/p>\n<p>454<\/p>\n<p>\u201cOra contrai-se, filho, ora se estende<br \/>\nA for\u00e7a genetriz, do peito vinda,<br \/>\n60 Donde natura em todo o corpo entende.<\/p>\n<p>\u201cMas, filho meu, n\u00e3o sabes certo ainda<br \/>\nComo a ser vem um ente cogitante:<br \/>\n63 \u00c9 ponto em que um mais s\u00e1bio no erro finda;<\/p>\n<p>\u201cPois, na doutrina sua extravagante,<br \/>\nDistinto da alma fez o entendimento<br \/>\n66 Poss\u00edvel, n\u00e3o lhe vendo \u00f3rg\u00e3o bastante.<\/p>\n<p>\u201cAbre \u00e0 luz da verdade o pensamento:<br \/>\nV\u00ea que, no feto os \u00f3rg\u00e3os em chegando<br \/>\n69 Do c\u00e9rebro ao perfeito acabamento,<\/p>\n<p>\u201cO Primeiro Motor, ledo encarando<br \/>\nDa natureza tal primor, lhe inspira ,<br \/>\n72 Esp\u2019rito, em que virtudes st\u00e3o brilhando,<\/p>\n<p>\u201cE que ativo alimento dali tira<br \/>\nPara a pr\u00f3pria subst\u00e2ncia; e alma se forma,<br \/>\n75 Que vive e sente e pensa e em si regira.<\/p>\n<p>\u201cCom meu dizer tua mente se conforma,<br \/>\nNotando que do sol calor em vinho,<br \/>\n78 Da uva ao sumo unido, se transforma.<\/p>\n<p>\u201cO esp\u2019rito, se Laqu\u00e9sis n\u00e3o tem linho,<br \/>\nDeixa a carne e virtude, traz consigo<\/p>\n<p>455<\/p>\n<p>81 Dotes, que teve no corp\u00f3reo ninho.<\/p>\n<p>\u201cSobem de ponto no valor antigo<br \/>\nA mem\u00f3ria, a vontade, o entendimento,<br \/>\n84 Da mudez o mais fica no jazigo.<\/p>\n<p>\u201cCai logo, de espont\u00e2neo movimento,<br \/>\nPor maravilha, numa ou noutra riba,<br \/>\n87 Onde h\u00e1 do rumo seu conhecimento.<\/p>\n<p>\u201cVindo a lugar, que o circunscreva e iniba,<br \/>\nDa for\u00e7a informativa \u00e9 rodeado,<br \/>\n90 Como em membros que a morte nos derriba.<\/p>\n<p>\u201cBem como o ar de chuva carregado,<br \/>\nSe dos raios solares \u00e9 ferido,<br \/>\n93 De cores v\u00e1rias mostra-se adornado,<\/p>\n<p>\u201cO ar vizinho assim fica inserido<br \/>\nNessa forma, que desde logo amanha<br \/>\n96 Virtualmente o esp\u2019rito ali contido;<\/p>\n<p>\u201cE semelhante ao fogo, que acompanha<br \/>\nLabareda, com ele se movendo,<br \/>\n99 Cada alma segue aquela forma estranha.<\/p>\n<p>\u201cApar\u00eancia de forma nela havendo<br \/>\nSombra se chama; e, ap\u00f3s, ela organiza<br \/>\n102 Sentidos, o da vista compreendendo.<\/p>\n<p>456<\/p>\n<p>\u201cFala, ri-se, ama, odeia ou simpatiza,<br \/>\nExala dor, carpindo ou suspirando:<br \/>\n105 Neste monte j\u00e1 tens prova precisa.<\/p>\n<p>\u201cSegundo est\u00e1 sofrendo ou desejando,<br \/>\nDa alma tamb\u00e9m altera-se a figura:<br \/>\n108 V\u00ea, pois, o que a magreza est\u00e1 causando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 m\u00e3o direita, da tortura<br \/>\nEntramos pela est\u00e2ncia derradeira:<br \/>\n111 Ent\u00e3o preocupou-nos outra cura.<\/p>\n<p>Flamas brotava aqui a ribanceira,<br \/>\nAura ativa da estrada respirava:<br \/>\n114 Subindo, as recha\u00e7ava subranceira.<\/p>\n<p>Ao longe da \u00e1rdua borda caminhava<br \/>\nUm por um: precip\u00edcio temoroso<br \/>\n117 De um lado, e do outro o fogo eu receava.<\/p>\n<p>Disse Virg\u00edlio: \u2014 \u201cAqui bem cauteloso<br \/>\nDeve aplicar aos olhos seus o freio<br \/>\n120 Quem n\u00e3o quiser dar passo perigoso.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Summae clementiae Deus stavam no seio<br \/>\nDo grande inc\u00eandio as almas entoando,<br \/>\n123 E de voltar-me o ardor ent\u00e3o me veio.<\/p>\n<p>Vi nas chamas esp\u00edritos andando:<br \/>\nAos movimentos seus, aos meus estava<\/p>\n<p>457<\/p>\n<p>126 Atento, a vista a uns e a outros dando.<\/p>\n<p>E quando aquele c\u00e2ntico findava<br \/>\nVirum non cognosco alto se ouvia,<br \/>\n129 E o c\u00e2ntico em tom baixo renovava.<\/p>\n<p>E, terminando, o coro repetia:<br \/>\n\u201cDiana expulsa da floresta Helice<br \/>\n132 Que o veneno de amor tragado havia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Cantaram; cada qual como antes disse<br \/>\nEsposas e maridos, que h\u00e3o guardado<br \/>\n135 A f\u00e9, que Deus mandou sempre os unisse:<\/p>\n<p>Este modo h\u00e1 de ser, creio, alternado,<br \/>\nEnquanto os rodear a chama ardente:<br \/>\nA chaga por tal b\u00e1lsamo e cuidado<\/p>\n<p>139 H\u00e1 de ser guarnecida finalmente.<\/p>\n<p>2-3. Meridiano ao Touro, etc. No hemisf\u00e9rio do Purgat\u00f3rio eram<br \/>\nduas horas da tarde e no hemisf\u00e9rio ant\u00edpoda eram duas horas<br \/>\ndepois da meia-noite. \u2014 22. Meleagro, personagem de Ov\u00eddio ao<br \/>\nqual, ao nascer, as fadas predisseram que a sua vida estava<br \/>\nligada a um ti\u00e7\u00e3o. Sua m\u00e3e Alt\u00e9ia guardou o ti\u00e7\u00e3o<br \/>\npara<br \/>\npreservar-lhe a vida; mas, depois, irada contra o filho, o lan\u00e7ou<br \/>\nao fogo no qual se consumiu, e Meleagro morreu. \u2014 37-57.<br \/>\nNestes tercetos \u00e9 descrita a forma da gera\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\n\u2014 63.<br \/>\nUm mais s\u00e1bio, o fil\u00f3sofo Averroes que n\u00e3o encontrando<br \/>\nno<br \/>\nhomem um \u00f3rg\u00e3o especial para o pensamento, como os olhos<br \/>\npara ver, as orelhas para ouvir etc., concluiu que o intelecto era<br \/>\ndisjunto da alma do homem. \u2014 70. O Primeiro Motor, Deus. \u2014<\/p>\n<p>458<\/p>\n<p>79. Laquesis, a Parca que fia o estame da vida. \u2014 121. Summae<br \/>\nDeus clementiae, hino eclesi\u00e1stico com o qual se roga a Deus<br \/>\nque nos livre da lux\u00faria. \u2014 128. Virum non cognosco, palavras<br \/>\nda Virgem Maria ao arcanjo Gabriel. \u2014 131. Helice, ou Calixto,<br \/>\nque foi expulsa da sua companhia por Diana, que sempre se<br \/>\nmanteve virgem, por ter sido seduzida por J\u00fapiter.<\/p>\n<p>459<\/p>\n<p>CANTO XXVI<\/p>\n<p>Entre os luxuriosos e os que pecaram contra a natureza Dante<br \/>\nencontra o poeta Guido Guinicelli, ao qual exprime a sua<br \/>\nprofunda admira\u00e7\u00e3o. Guido lhe aponta o poeta proven\u00e7al<br \/>\nArnaud<br \/>\nDaniel, que o sa\u00fada em versos proven\u00e7ais.<\/p>\n<p>ENQUANTO imos a borda costeando.<br \/>\nUm ap\u00f3s outro, o Mestre repetia:<br \/>\n3 \u201cEu te previno, vai com tento andando!\u2019<\/p>\n<p>O sol pela direita me feria;<br \/>\nPurpureava a luz todo o poente:<br \/>\n6 Do c\u00e9u o azul de branco se tingia.<\/p>\n<p>Co\u2019a sombra minha ainda mais rubente<br \/>\nParece a flama; e as almas, que passavam,<br \/>\n9 Notando-a davam-me aten\u00e7\u00e3o ingente.<\/p>\n<p>Nessa estianheza ensejo deparavam<br \/>\nPara, entre si, conversa\u00e7\u00e3o travarem.<br \/>\n12 \u201cN\u00e3o \u00e9 fict\u00edcio o corpo seu\u201d \u2014 falavam.<\/p>\n<p>Quando podiam, mas tendo cuidado<br \/>\nAvan\u00e7avam por mais certificarem,<br \/>\n15 O fogo expiat\u00f3rio em n\u00e3o deixarem.<\/p>\n<p>460<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTu, que vais ap\u00f3s outros colocado,<br \/>\nMostrando ser, n\u00e3o tardo, respeitoso,<br \/>\n18 Responde: em fogo e sede ardo, abrasado.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sou eu s\u00f3 de ouvir-te desejoso:<br \/>\nQuantos v\u00eas da resposta sentem sede<br \/>\n21 Mais que Et\u00edope da \u00e1gua cobi\u00e7oso.<\/p>\n<p>\u201cDiz-nos como o corpo teu parede<br \/>\nOponha desta sorte \u00e0 luz do dia:<br \/>\n24 N\u00e3o te colheu da morte acaso a rede?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Uma sombra falou-me. Eu pretendia<br \/>\nLogo explicar; por\u00e9m fui distra\u00eddo<br \/>\n27 Pelo que ent\u00e3o de novo aparecia.<\/p>\n<p>Pelo caminho andando escandecido,<br \/>\nOutra grei ao encontro veio desta:<br \/>\n30 Atalhei-me, em mirar pondo o sentido.<\/p>\n<p>De parte a parte se dirige presta<br \/>\nUma alma a outra; osculam-se e em seguida<br \/>\n33 V\u00e3o-se, contentes dessa breve festa.<\/p>\n<p>Assim da negra legi\u00e3o sa\u00edda,<br \/>\nEm marcha, toca em uma outra formiga,<br \/>\n36 Por saber do caminho ou sorte havida.<\/p>\n<p>Separando-se ap\u00f3s a mostra amiga,<br \/>\nAntes que o giro s\u00f3lito transcorra<\/p>\n<p>461<\/p>\n<p>39 Cada uma grei em brados se afadiga.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSodoma!\u201d \u2014 clama a \u00faltima \u2014 \u201cGomorra!\u201d<br \/>\nE a outra: \u2014 \u201cEntrou Pasifae na vaca,<br \/>\n42 Por que \u00e0 lux\u00faria sua touro acorra.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Como grous, de que um bando se destaca<br \/>\nPara os Rifeus e o outro pra o deserto,<br \/>\n45 Pois calma ali e frio aqui se aplaca,<\/p>\n<p>Uns se v\u00e3o, outros v\u00eam; voltando, ao perto<br \/>\nO hino se renova, e o pranto e o brado,<br \/>\n48 Que tem, qual mais conv\u00e9m, efeito certo.<\/p>\n<p>Os mesmos, que me haviam perguntado,<br \/>\nDe mim como inda h\u00e1 pouco, se acercaram:<br \/>\n51 St\u00e1 desejo nos gestos desenhado.<\/p>\n<p>Vendo ainda o que j\u00e1 manifestaram,<br \/>\n\u2014 \u201cSabeis v\u00f3s, que tereis de gl\u00f3ria em dia,<br \/>\n54 Paz que os vossos mart\u00edrios vos preparam,<\/p>\n<p>\u201cQue inda n\u00e3o jaz meu corpo em terra fria;<br \/>\nComigo vem na pr\u00f3pria compostura,<br \/>\n57 Com seu sangue e seus membros\u201d \u2014 lhe dizia.<\/p>\n<p>\u201cMinha cegueira aqui a luz procura:<br \/>\nL\u00e1 no c\u00e9u santa Dama h\u00e1 conseguido<br \/>\n60 Que eu, vivo, por aqui me eleve \u00e0 altura.<\/p>\n<p>462<\/p>\n<p>\u201cDizei-me (e seja em breve concedido)<br \/>\nQuanto anelais, no c\u00e9u, que \u00e9 de amor cheio<br \/>\n63 E em que espa\u00e7o mais amplo est\u00e1 contido!<\/p>\n<p>\u201cPara que eu tenha de narr\u00e1-lo o meio,<br \/>\nQuem fostes e tamb\u00e9m que turba \u00e9 aquela,<br \/>\n66 Que como hei visto ao vosso encontro veio.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Se o pasmo seu o montanh\u00eas revela,<br \/>\nQuando rude e bo\u00e7al v\u00ea de repente<br \/>\n69 Quanto pode encerrar cidade bela,<\/p>\n<p>Na grei n\u00e3o foi o efeito diferente.<br \/>\nTornando sobre si, por\u00e9m, do espanto,<br \/>\n72 Que se esvai logo em peito preminente,<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDitoso tu, que vendo o nosso pranto\u201d \u2014<br \/>\nRespondeu quem primeiro h\u00e1 perguntado \u2014<br \/>\n75 \u201cAlcan\u00e7as ao viver ensino santo!<\/p>\n<p>\u201cInquinaram-se aqueles no pecado,<br \/>\nPorque C\u00e9sar outrora, triunfando,<br \/>\n78 Rainha, em vitup\u00e9rio, foi chamado.<\/p>\n<p>\u201cEis por que se acusavam se apartando,<br \/>\nContra si de \u2014 Sodoma! al\u00e7ando o brado,<br \/>\n81 Do fogo \u00e0 pena o opr\u00f3brio acrescentando.<\/p>\n<p>\u201cHermafrodito foi nosso pecado;<br \/>\nMas tendo as leis humanas transgredido<\/p>\n<p>463<\/p>\n<p>84 De brutos no apetite desregrado,<\/p>\n<p>\u201cPor nossa inj\u00faria o nome \u00e9 repetido,<br \/>\nQuando partimos, da mulher impura,<br \/>\n87 Que em bestial figura besta h\u00e1 sido.<\/p>\n<p>\u201cSe queres, vendo a nossa n\u00f3doa escura,<br \/>\nDo nome de cada um ser instru\u00eddo,<br \/>\n90 N\u00e3o sei, nem tempo para tal nos dura.<\/p>\n<p>\u201cMas o meu te farei bem conhecido;<br \/>\nV\u00eas Guido Guinicelli: o crime expia<br \/>\n93 Por se haver inda a tempo arrependido.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Quais, ante a f\u00faria em que Licurgo ardia,<br \/>\nOs filhos dois achando a m\u00e3e, ficaram,<br \/>\n96 Tal senti, sem correr viva alegria,<\/p>\n<p>Quando o nome essas vozes declararam<br \/>\nDo pai meu e do pai de outros melhores,<br \/>\n99 Que em doce metro amores decantaram.<\/p>\n<p>Sem falar, sem ouvir perscrutadores<br \/>\nLongamente olhos meus o contemplaram:<br \/>\n102 Vedavam-me acercar do fogo ardores.<\/p>\n<p>Depois que em remir\u00e1-lo se enlevaram,<br \/>\nAo seu servi\u00e7o declarei-me presto,<br \/>\n105 E solenes promessas o afirmaram.<\/p>\n<p>464<\/p>\n<p>\u2014 \u201cImprimiu tal vest\u00edgio o teu protesto\u201d \u2014<br \/>\nTornou \u2014 \u201cno peito meu agradecido,<br \/>\n108 Que fora al\u00e9m do Letes manifesto.<\/p>\n<p>\u201cSe hei de ti a verdade agora ouvido,<br \/>\nO que di\u2019no me fez do sentimento,<br \/>\n111 Que tens na voz, nos olhos insculpidos?\u201d \u2014<\/p>\n<p>E eu: \u2014 \u201cDas rimas vossas o concento,<br \/>\nQue, enquanto usar-se do falar moderno,<br \/>\n114 Salvas h\u00e3o de viver do esquecimento.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO que te indico, irm\u00e3o\u201d \u2014 tornou-me terno<br \/>\n(E seu dedo outra sombra me apontava)<br \/>\n117 Mais primor teve no falar materno.<\/p>\n<p>\u201cNos versos, nos romances superava<br \/>\nA todos: stultos s\u00f3 dizer ousaram<br \/>\n120 Que o Limosim aquele avantajava.<\/p>\n<p>\u201cPelo rumor verdade desprezaram,<br \/>\nE, como arte e raz\u00e3o desconheceram,<br \/>\n123 Sem fundamento opini\u00e3o formaram.<\/p>\n<p>\u201cAssim muitos outrora procederam<br \/>\nCom Guittone e o seu nome h\u00e3o proclamado;<br \/>\n126 Mas verdade alfim todos conheceram.<\/p>\n<p>\u201cE pois que o privil\u00e9gio h\u00e1s alcan\u00e7ado<br \/>\nDe entrar nesse mosteiro portentoso,<\/p>\n<p>465<\/p>\n<p>129 Por Cristo, como abade governado,<\/p>\n<p>\u201cUm Pater Noster diz por mim piedoso;<br \/>\nQuanto mister havemos neste mundo,<br \/>\n132 Onde ato algum n\u00e3o h\u00e1 pecaminoso.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u201cPor dar lugar ao sp\u00edrito segundo,<br \/>\nJ\u00e1 pr\u00f3ximo, no fogo desparece.<br \/>\n135 Qual peixe, quando imerge de \u00e1gua ao fundo.<\/p>\n<p>Acerquei-me da sombra que aparece,<br \/>\nE disse que ao seu nome apercebia<br \/>\n138 Meu desejo o lugar que assaz merece.<\/p>\n<p>Logo assim livremente me dizia:<br \/>\n\u2014 \u201cT\u00e3o cort\u00eas vosso rogo \u00e9, que escutando,<br \/>\n141 Me encobrir n\u00e3o quisera ou poderia.<\/p>\n<p>\u201cArnaldo sou, que choro e vou cantando,<br \/>\nTriste os erros passados meus lamento,<br \/>\n144 E o fausto dia estou ledo esperando.<\/p>\n<p>\u201cE pe\u00e7o-vos pelo alto valimento,<br \/>\nQue da escada a emin\u00eancia ora vos guia,<br \/>\nQue em tempo vos lembreis do meu tormento.\u201d<\/p>\n<p>148 E, ap\u00f3s, ao fogo apurador se envia.<\/p>\n<p>466<\/p>\n<p>40. Sodoma&#8230; Gomorra, V. Inferno, canto XI, 50; cidades que<br \/>\nDeus destruiu por pecarem contra a natureza. \u2014 41. Pasifae, V.<br \/>\nInferno, canto XII, 13; mulher do rei de Creta, para unir-se com<br \/>\num touro se colocou numa vaca de madeira; e desta uni\u00e3o<br \/>\nnasceu o Minotauro. \u2014 44. Rifeus, montanhas da Mosc\u00f3via<br \/>\nboreal. \u2014 77. C\u00e9sar&#8230; rainha, em vitup\u00e9rio, foi chamado,<br \/>\nconta<br \/>\nSuet\u00f4nio que os soldados de C\u00e9sar, no triunfo que lhe foi<br \/>\nconcedido por ter vencido os Galos, cantavam: \u201cC\u00e9sar submeteu<br \/>\nas G\u00e1lias, Nicomedes a C\u00e9sar\u201d, aludindo \u00e0s suas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es com o<br \/>\nrei Nicomedes. \u2014 92. Guido Guinicelli, c\u00e9lebre poeta bolonh\u00eas<br \/>\nn.<br \/>\nem 1230 e m. em 1276. \u2014 94-95. Quais, ante a f\u00faria etc.,<br \/>\nIpsifile condenada \u00e0 morte por Licurgo, rei da Nem\u00e9ida, mas<br \/>\nfoi<br \/>\nsalva pelos dois filhos que, antes, n\u00e3o a conheciam. \u2014 115. O<br \/>\nque te indico etc., o trovador Arnaud Daniel, que viveu na<br \/>\nmetade do s\u00e9culo XII. \u2014 120. O limosim, Gerault de Berneil de<br \/>\nLimonges, outro trovador proven\u00e7al. \u2014 125. Guittone de Arezzo,<br \/>\npoeta aretino do s\u00e9cuio XII.<\/p>\n<p>467<\/p>\n<p>CANTO XXVII<\/p>\n<p>Para chegar \u00e0 escada que do s\u00e9timo e \u00faltimo compartimento<br \/>\nleva<br \/>\nao cimo do monte, Dante \u00e9 obrigado por um Anjo a atravessar as<br \/>\nflamas. Pouco depois de ter come\u00e7ado a subir, o ar escurece e<br \/>\nsobrev\u00e9m a noite. Param e Dante, cansado, adormece.<br \/>\nDespertado pela madrugada, os Poetas recome\u00e7am a subir,<br \/>\nchegando ao Para\u00edso Terrestre.<\/p>\n<p>COMO, quando os primeiros raios vibra<br \/>\nL\u00e1 onde Cristo sangue derramara,<br \/>\n3 Sotopondo-se o Ebro \u00e0 excelsa Libra,<\/p>\n<p>E, ao meio-dia, o Gange aquece e aclara<br \/>\nStava o sol; declinando a luz j\u00e1 se ia:<br \/>\n6 Eis ledo o anjo de Deus se nos depara.<\/p>\n<p>Fora da flama, \u00e0 borda ele se erguia,<br \/>\nBeati mundo corde modulando.<br \/>\n9 Em tom de voz, que a humana precedia.<\/p>\n<p>\u201cPara avante passar\u201d \u2014 acrescentando \u2014<br \/>\n\u201cApurai-vos no fogo, almas piedosas!<br \/>\n12 Entrai, de al\u00e9m nos hinos atentando.\u201d<\/p>\n<p>Lhe ouvindo ao perto as vozes sonorosas,<br \/>\nSossobrei, como quem, perdido o alento,<\/p>\n<p>468<\/p>\n<p>15 Da tumba \u00e0s trevas desce pavorosas.<\/p>\n<p>M\u00e3os cruzadas, quedei sem movimento;<br \/>\nDe olhos na chama, os vivos relembrava,<br \/>\n18 Que das fogueiras vira no tormento.<\/p>\n<p>A mim cada um dos Vates se voltava.<br \/>\n\u2014 \u201cN\u00e3o temas, filho! Aqui dor se padece,<br \/>\n21 Mas n\u00e3o morte\u201d \u2014 Virg\u00edlio me exortava.<\/p>\n<p>\u201cLembra! Lembra ou mem\u00f3ria em ti falece?<br \/>\nJ\u00e1 sobre Geri\u00e3o levei-te a salvo:<br \/>\n24 De Deus mais perto, em mim virtude cresce.<\/p>\n<p>\u201cSe destas chamas, cr\u00ea, tu foras alvo<br \/>\nEm todo o espa\u00e7o de um milheiro de anos,<br \/>\n27 De um s\u00f3 cabelo ficarias calvo.<\/p>\n<p>\u201cSe cuidas no que digo haver enganos,<br \/>\nTe acerca e por ti pr\u00f3prio experimenta,<br \/>\n30 Ao fogo expondo de tua veste os panos.<\/p>\n<p>\u201cTodo o temor do \u00e2nimo afugenta!<br \/>\nVem, pois! Mostra que tens peito seguro!\u201d \u2014<br \/>\n33 Ouvi, mas o valor meu n\u00e3o se aumenta.<\/p>\n<p>Vendo-me ainda pertinace e duro,<br \/>\nMerenc\u00f3rio me disse: \u2014 \u201c\u00d3 filho amado,<br \/>\n36 De Beatriz a ti s\u00f3 este muro!\u201d \u2014<\/p>\n<p>469<\/p>\n<p>De Tisbe ao nome, P\u00edramo chegado<br \/>\n\u00c0 morte, os olhos para v\u00ea-la abria,<br \/>\n39 Quando h\u00e1 seu sangue \u00e0 amora cor mudado;<\/p>\n<p>A resist\u00eancia minha assim cedia.<br \/>\nA Virg\u00edlio volvi-me, o nome ouvindo,<br \/>\n42 Que sempre o pensamento me alumia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a fronte meneou; sorrindo,<br \/>\nComo a infante, que um pomo h\u00e1 seduzido,<br \/>\n45 Disse: \u2014 \u201cAqui ficaremos persistindo?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Sou por ele no fogo antecedido;<br \/>\nEst\u00e1cio, que antes sempre caminhara,<br \/>\n48 Depois de mim seguia a seu pedido.<\/p>\n<p>Eu pelo fogo apenas penetrara,<br \/>\nArdor tanto senti, que, pra recreio,<br \/>\n51 Em vidro derretido me lan\u00e7ara.<\/p>\n<p>De confortar-me procurando o meio,<br \/>\nDe Beatriz Virg\u00edlio assim falava:<br \/>\n54 \u2014 \u201cSeu gesto julgo ver de fulgor cheio.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Voz peregrina ouvi, que ali cantava:<br \/>\nFora sa\u00edmos n\u00f3s, dos sons guiados,<br \/>\n57 Na parte, onde a subida se mostrava.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVinde, \u00f3 v\u00f3s de meu Pai aben\u00e7oado!\u201d<br \/>\n\u2014-<br \/>\nDo seio de um luzeiro retinia,<\/p>\n<p>470<\/p>\n<p>60 Tal que os olhos cerram-se ofuscados.<\/p>\n<p>\u201cTransmonta o sol, a noite segue ao dia,<br \/>\nN\u00e3o vos detende; a passo andai ligeiro,<br \/>\n63 Que o Ponente j\u00e1 trevas anuncia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>A trilha no penhasco sobranceiro<br \/>\nDireita sobe \u00e0 parte em que tolhia<br \/>\n66 A sombra minha o lume derradeiro.<\/p>\n<p>Vencido apenas nosso passo havia<br \/>\nAlguns degraus, a sombra, que fenece,<br \/>\n69 Mostra que o sol j\u00e1 luz n\u00e3o difundia.<\/p>\n<p>Antes que em todo apresentado houvesse<br \/>\nO imenso horizonte igual aspeito,<br \/>\n72 E a noite os seus v\u00e9us todos estendesse,<\/p>\n<p>Um degrau cada qual tomou por leito;<br \/>\nQue nos tirara da montanha a agrura,<br \/>\n75 Mais que o desejo de subir o jeito.<\/p>\n<p>Como as cabras das penhas sobre a altura,<br \/>\nAntes de fartas, r\u00e1pidas e ardentes,<br \/>\n78 T\u00eam, ruminando, mansid\u00e3o, brandura;<\/p>\n<p>Pousam \u00e0 sombra, enquanto o sol candentes<br \/>\nLumes despede, e as guarda o pegureiro<br \/>\n81 Com seu cajado e os olhos previdentes;<\/p>\n<p>471<\/p>\n<p>E como o guardador, que no terreiro<br \/>\nQuedo pernoita em sentinela aos gados<br \/>\n84 Contra assaltos do lobo carniceiro:<\/p>\n<p>Assim n\u00f3s tr\u00eas est\u00e1vamos pousados,<br \/>\nEu como cabra, os Vates quais pastores,<br \/>\n87 Da rocha a um lado e a outro conchegados.<\/p>\n<p>Escassa aberta deixa ver fulgores<br \/>\nDe estrelas, que do c\u00e9u naquela parte,<br \/>\n90 Contemplava mais l\u00facidas, maiores.<\/p>\n<p>Nessa vista engolfei-me por tal arte,<br \/>\nQue o sono me prendeu, sono que \u00e0 mente<br \/>\n93 Do que h\u00e1 de ser a provis\u00e3o comparte.<\/p>\n<p>Naquela hora em que V\u00eanus do Oriente<br \/>\nSeus lumes sobre o monte difundia,<br \/>\n96 Parecendo de amor star sempre ardente,<\/p>\n<p>Jovem formosa em sonho ver eu cria,<br \/>\nDama que em veiga amena passeando,<br \/>\n99 Flores colhendo, a modular dizia:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuem meu nome pedir, v\u00e1 me escutando:<br \/>\nSou Lia e uma grinalda, cuidadosa,<br \/>\n102 Co\u2019as minhas belas m\u00e3os a tecer ando.<\/p>\n<p>\u201cMirar-me, hei-de no espelho mais garbosa:<br \/>\nDe sua mana, Raquel se n\u00e3o separa,<\/p>\n<p>472<\/p>\n<p>105 Sentada o inteiro dia descuidosa.<\/p>\n<p>\u201cDe ver os belos olhos seus n\u00e3o p\u00e1ra,<br \/>\nComo eu em me adornar sou diligente:<br \/>\n108 Ela contempla, eu trabalhar tornara!\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 vem do dia o precursor splendente,<br \/>\nQue tanto alenta a esp\u2019ran\u00e7a ao peregrino,<br \/>\n111 Quando o seu lar j\u00e1 pr\u00f3ximo pressente.<\/p>\n<p>Fugia a treva ao lume matutino<br \/>\n\u2014 E com ela o meu sono: ergui-me ativo,<br \/>\n114 Dos mestres tendo no exemplo o ensino.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO pomo, que \u00e9 t\u00e3o doce, quanto esquivo,<br \/>\nQue a ambi\u00e7\u00e3o dos mortais procura ansiosa,<br \/>\n117 Hoje \u00e0 fome h\u00e1 de dar-te o lenitivo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Estas palavras proferiu donosa<br \/>\nDo Mestre a voz: janeiras n\u00e3o dariam<br \/>\n120 Jamais satisfa\u00e7\u00e3o t\u00e3o graciosa.<\/p>\n<p>T\u00e3o vividos anelos me pungiam<br \/>\nDe alar-me ao cimo excelso, que julgava<br \/>\n123 Que asas o passo meu favoreciam.<\/p>\n<p>Quando a comprida escada terminava<br \/>\nE o p\u00e9 firmamos no degrau superno,<br \/>\n126 Virg\u00edlio, me encarando, assim falava:<\/p>\n<p>473<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO fogo tempor\u00e1rio e o fogo eterno<br \/>\nTens visto, filho, e a altura h\u00e1s atingido.<br \/>\n129 Al\u00e9m de cuja extrema n\u00e3o discerno:<\/p>\n<p>\u201cTe hei com engenho e arte conduzido:<br \/>\nSeja-te agora o teu querer o guia;<br \/>\n132 Ang\u00fastias e fraguras tens vencido.<\/p>\n<p>\u201cOlha: o semblante o sol j\u00e1 te alumia;<br \/>\nFlores, ervinhas, \u00e1rvores virentes<br \/>\n135 V\u00ea que a terra espont\u00e2nea brota e cria.<\/p>\n<p>\u201cAntes que os olhos venham refulgentes,<br \/>\nQue em teu prol me enviaram por seu pranto,<br \/>\n138 Repousa, ou pelos prados vai florentes.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o mais te falo, nem te aceno, entanto;<br \/>\nPossuis vontade livre, reta e boa,<br \/>\nCumpre os ditames seus: a ti, portanto,<\/p>\n<p>142 Pois de ti \u00e9s senhor, dou mitra e c\u2019roa.<\/p>\n<p>1-5. Como, quando os primeiros raios etc. O sol surgia em<br \/>\nJerusal\u00e9m; na Espanha era meia-noite. No Purgat\u00f3rio o sol<br \/>\ntramontava. \u2014 8. Beati etc., bem-aventurados os limpos de<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o porque eles ver\u00e3o a Deus (S. Mateus, Evang. V,<br \/>\n8). \u2014<br \/>\n23. Geri\u00e3o etc., v. Inf XVII. \u2014 101. Lia, filha de Lab\u00e3o<br \/>\ne primeira<br \/>\nmulher de Jac\u00f3, s\u00edmbolo da vida ativa. \u2014 104. Raquel,<br \/>\nirm\u00e3 de<br \/>\nLia e segunda mulher de Jac\u00f3, s\u00edmbolo da vida contemplativa.<\/p>\n<p>474<\/p>\n<p>CANTO XXVIII<\/p>\n<p>O Poeta descreve a beleza do Para\u00edso Terrestre. Chegam Dante,<br \/>\nVirg\u00edlio e Est\u00e1cio perto de um rio que os impede de prosseguir.<br \/>\nDo<br \/>\noutro lado do rio aparece uma mulher de maravilhosa beleza que<br \/>\ndiscorre a respeito da condi\u00e7\u00e3o do lugar, resolvendo as d\u00favidas<br \/>\nque Dante lhe prop\u00f5e.<\/p>\n<p>VAGAR j\u00e1 nos recessos desejando<br \/>\nDa selva divinal, vivida espessa,<br \/>\n3 Que ao novo dia o lume faz mais brando,<\/p>\n<p>Daquela encosta a me afastar dou pressa.<br \/>\nPela veiga me interno a passo lento,<br \/>\n6 Doce aroma sentindo, que n\u00e3o cessa.<\/p>\n<p>Do ar, que circulava, o doce alento,<br \/>\nMas sempre igual, a fronte me afagando,<br \/>\n9 Tinha o bafejo de suave vento.<\/p>\n<p>As folhas, molemente balou\u00e7ando,<br \/>\nDo santo monte \u00e0 parte se inclinavam,<br \/>\n12 A que a sombra primeira vai baixando.<\/p>\n<p>Mas, no meneio seu, n\u00e3o se acurvavam<br \/>\nEm modo, que na rama aos passarinhos<br \/>\n15 Os hinos perturbassem, que entoavam.<\/p>\n<p>475<\/p>\n<p>Pousados ledamente entre os raminhos<br \/>\nSaudavam com seus cantos a alvorada<br \/>\n18 Da fronde os acordando aos murmurinhos;<\/p>\n<p>Assim de Chiassi no pinhal soada<br \/>\nDe ramo em ramo corre quando a amara<br \/>\n21 Pris\u00e3o, abre ao mestre Eolo a entrada.<\/p>\n<p>Com demorado andar eu caminhara<br \/>\nNa selva antiga tanto, que n\u00e3o via<br \/>\n24 Mais o lugar, por onde penetrara.<\/p>\n<p>Eis andar um ribeiro me tolhia,<br \/>\nQue, \u00e0 sestra deslizando-se, beijava<br \/>\n27 A ervinha, que \u00e0s margens lhe crescia:<\/p>\n<p>O cristal dessa linfa superava<br \/>\nDa terra \u00e1gua a mais pura e transparente;<br \/>\n30 Quanto continha em si patente estava.<\/p>\n<p>Entanto, pela sombra permanente,<br \/>\nQue luz da lua ou sol nunca atravessa,<br \/>\n33 Negreja aquela pl\u00e1cida corrente.<\/p>\n<p>O p\u00e9 detenho, e a vista se arremessa<br \/>\nAl\u00e9m do humilde rio, contemplando<br \/>\n36 Primores, com que maio se adere\u00e7a,<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se of\u2019rece aos olhos, como quando<\/p>\n<p>476<\/p>\n<p>De s\u00fabito um portento surge \u00e0 mente,<br \/>\n39 De outro pensar qualquer a desviando,<\/p>\n<p>Uma dama sozinha de repente,<br \/>\nQue, cantando, escolhia, de entre as flores,<br \/>\n42 Que o ch\u00e3o cobriam de matiz ridente.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cBela dama, que sentes os fervores<br \/>\nDo amor divino, se por teu semblante<br \/>\n45 Da tua alma julgar devo os ardores\u201d \u2014<\/p>\n<p>Assim falei \u2014 \u201cse caminhar avante<br \/>\nAt\u00e9 perto do rio te aprouvera,<br \/>\n48 Te entendera esse canto inebriante.<\/p>\n<p>\u201cT\u00e3o linda, em tal lugar, lembras qual era<br \/>\nPros\u00e9rpina, ao perd\u00ea-la a m\u00e3e querida<br \/>\n51 E ao perder tamb\u00e9m ela a primavera.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Qual menina, que em dan\u00e7as entretida,<br \/>\nGira ligeira em terra deslizando,<br \/>\n54 Os passos troca e volve-se garrida,<\/p>\n<p>Sobre o esmalte das flores se voltando,<br \/>\nA mim se dirigiu, como donzela<br \/>\n57 Que vai, modesta, os olhos abaixando.<\/p>\n<p>Quanto o desejo meu s\u00f4frego anela<br \/>\nAcercou-se e da ang\u00e9lica toada<br \/>\n60 Distinta pude ouvir a letra bela.<\/p>\n<p>477<\/p>\n<p>Logo em chegando \u00e0 borda em que banhada<br \/>\nA erva era da linfa cristalina,<br \/>\n63 De olhar-me fez a gra\u00e7a assinalada.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que na vista peregrina<br \/>\nDe V\u00eanus lume tal resplandecesse<br \/>\n66 Ao feri-la de amor seta mali\u2019na.<\/p>\n<p>De fronte aos olhos a sorrir se of\u2019rece.<br \/>\nAs m\u00e3os de lindas flores tendo plenas,<br \/>\n69 De que espont\u00e2neo o solo se guarnece.<\/p>\n<p>A n\u00f3s tr\u00eas passos interp\u00f5em apenas:<br \/>\nO Helesponto que Xerxes transcendera,<br \/>\n72 Li\u00e7\u00e3o em que h\u00e1 para os soberbos penas,<\/p>\n<p>Em Leandro mais \u00f3dio n\u00e3o movera,<br \/>\nQuando entre Sesto e \u00c1bidos nadava,<br \/>\n75 Do que o rio que tanto estorvo me era.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSois rec\u00e9m-vindos\u201d \u2014 ela assim falava \u2014<br \/>\n\u201cMeu riso ao ver-vos no lugar eleito<br \/>\n78 \u00c0 humana ra\u00e7a, quando \u00e0 luz brotava,<\/p>\n<p>\u201cTalvez vos maravilhe por suspeito.<br \/>\nSe lembrado o salmo Delectasti,<br \/>\n81 De todo o engano vos ser\u00e1 desfeito.<\/p>\n<p>\u201cTu, que est\u00e1s adiante e me falaste<\/p>\n<p>478<\/p>\n<p>Que mais ouvir desejas? Eis-me presta<br \/>\n84 Explica\u00e7\u00e3o a dar-te, quanto baste.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEsta \u00e1gua\u201d \u2014 torno \u2014 \u201ce o som<br \/>\ndesta floresta<br \/>\nOp\u00f5em-se \u00e0 minha f\u00e9 na maravilha.<br \/>\n87 Que eu tinha ouvido e que \u00e9 contr\u00e1ria a esta.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEu te direi a causa, de que \u00e9 filha<br \/>\nA raz\u00e3o que te move essa estranheza;<br \/>\n90 Ter\u00e1s, em vez de n\u00e9voa, a luz que brilha.<\/p>\n<p>\u201cO Bem, que em si somente se embeleza,<br \/>\nApto ao bem fez o home\u2019; em arras deu-lhe<br \/>\n93 De eterna paz \u00e0 ed\u00eanica riqueza.<\/p>\n<p>\u201cA culpa sua este alto dom tolheu-lhe;<br \/>\nA culpa sua em prantos, em desgostos<br \/>\n96 Os prazeres, os risos converteu-lhe.<\/p>\n<p>\u201cA fim de que efeitos, que, compostos<br \/>\nS\u00e3o de efl\u00favios das \u00e1guas e da terra,<br \/>\n99 Para o calor acompanhar dispostos,<\/p>\n<p>\u201cAo homem n\u00e3o fizessem qualquer guerra,<br \/>\nT\u00e3o alta h\u00e1 se elevado esta montanha,<br \/>\n102 Que \u00e9 livre desde o ponto onde se encerra.<\/p>\n<p>\u201cE porque todo o ar, por for\u00e7a manha,<br \/>\nRoda ao impulso do motor primeiro,<\/p>\n<p>479<\/p>\n<p>105 Quando estorvo nenhum seu giro acanha,<\/p>\n<p>\u201cEste cimo elevado e sobranceiro<br \/>\nPelo \u00e9ter vivo ao moto \u00e9 t\u00e3o batido,<br \/>\n108 Que o denso bosque remurmura inteiro:<\/p>\n<p>\u201cE sendo em cada um tronco percutido,<br \/>\nA virtude transmite fecundamente<br \/>\n111 Ao ar, que a esparge, em torno revolvido.<\/p>\n<p>\u201cA terra, como \u00e9 apta, circunstante<br \/>\nPor si ou por seu c\u00e9u plantas concebe<br \/>\n114 De g\u00eanero e virtude variante.<\/p>\n<p>\u201cE pois, j\u00e1 claramente se percebe<br \/>\nComo planta h\u00e1 vi\u00e7osa e florescente,<br \/>\n117 Quando o germe a terra n\u00e3o recebe.<\/p>\n<p>\u201cSabe que at\u00e9 jardim toda semente<br \/>\nDo que a terra produz em si compreende<br \/>\n120 E cont\u00e9m fruto inoto \u00e0 humana gente.<\/p>\n<p>\u201cEsta \u00e1gua de uma origem n\u00e3o depende,<br \/>\nQue alimente vapor que em chuva des\u00e7a,<br \/>\n123 Como rio que seca ou que se estende.<\/p>\n<p>\u201cDe fonte certa vem que nunca cessa,<br \/>\nPois por querer que Deus tanta dimana,<br \/>\n126 Quanta aqui por canais dois se arremessa.<\/p>\n<p>480<\/p>\n<p>\u201cA que neste \u00e1lveo que ora v\u00eas, se encana<br \/>\nMem\u00f3ria do pecado desvanece,<br \/>\n129 Aviva a outra a da virtude humana.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 Letes, se por ela o mal se esquece,<br \/>\nEuno\u00e9 quando lembra: atuam quando<br \/>\n132 O gosto de uma e de outro homem conhece.<\/p>\n<p>\u201cSaber igual aos outros comparando<br \/>\nN\u00e3o existe ao desta \u00e1gua. Ao teu pedido<br \/>\n135 Satisfa\u00e7\u00e3o hei dado assim falando.<\/p>\n<p>\u201cCorol\u00e1rio, por\u00e9m, lhe seja adido:<br \/>\nN\u00e3o receio que assim te desagrade,<br \/>\n138 Indo al\u00e9m do que fora prometido.<\/p>\n<p>\u201cPoetas que cantavam de ouro a idade<br \/>\nE sua dita, em Parnaso, certamente<br \/>\n141 Sonharam desta est\u00e2ncia a f\u2019licidade.<\/p>\n<p>\u201cEstirpe humana aqui fora inocente;<br \/>\nEterna primavera aqui domina;<br \/>\n144 Foi este n\u00e9ctar, que inventou sua mente.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a vista aos Vates se me inclina.<br \/>\nUm sorriso em seus l\u00e1bios se revela,<br \/>\nEsse conceito ouvindo, em que termina.<\/p>\n<p>148 Rosto volvi depois \u00e0 dama bela.<\/p>\n<p>481<\/p>\n<p>19. Chiassi, localidade (hoje destru\u00edda) perto de Ravena, onde<br \/>\nainda h\u00e1 um grande pinheiral. \u2014 21. \u00c9olo, rei dos ventos.<br \/>\n\u2014 40<br \/>\nUma dama, Matelda, como Dante dir\u00e1 no Canto XXXIII, v. 119.<br \/>\nPara a maior parte dos comentadores \u00e9 Matilde, condessa de<br \/>\nCanossa. \u2014 50. Pros\u00e9rpina, filha de Ceres que foi raptada por<br \/>\nPluto quando colhia flores no vale do Etna. \u2014 71. O Helesponto,<br \/>\no estreito dos Dardanelos que Xerxes, rei da P\u00e9rsia, atravessara<br \/>\ncom uma ponte de barcos para invadir a Gr\u00e9cia, e que,<br \/>\nderrotado, teve de atravessar novamente. \u2014 73. Leandro, etc.<br \/>\nLeandro todas as noites atravessava a nado o Helesponto, da<br \/>\nsua cidade \u00c1bido a Sesto, onde morava a sua amante Heros. \u2014<br \/>\n80. Delectasti etc., Salmo XCI, 5. \u2014 130. Letes, o rio do<br \/>\nesquecimento. \u2014 131. Euno\u00e9, o rio da boa recorda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>482<\/p>\n<p>CANTO XXIX<\/p>\n<p>Da floresta aparece um s\u00fabito esplendor. Dante v\u00ea avan\u00e7ar<br \/>\numa<br \/>\nprociss\u00e3o de esp\u00edritos bem-aventurados em c\u00e2ndidas vestes,<br \/>\ne,<br \/>\nno fim da prociss\u00e3o, um carro tirado por um grifo. Ouve-se um<br \/>\ntrov\u00e3o e o carro e o grifo param.<\/p>\n<p>AS vozes, que eu lhe ouvia, ela remata,<br \/>\nQual dama namorada, assim cantando:<br \/>\n3 Beati quorum tecta sunt peccata!<\/p>\n<p>Como das ninfas o formoso bando,<br \/>\nQue nas umbrosas selvas s\u00f3s andavam,<br \/>\n6 Qual ver, qual evitar o sol buscando:<\/p>\n<p>Contra o ribeiro os passos a levavam,<br \/>\nSobre a margem seguindo lentamente;<br \/>\n9 E pelos seus os meus se regulavam.<\/p>\n<p>Cinq\u00fcenta assim and\u00e1ramos somente,<br \/>\nQuando o \u00e1lveo curvou a linfa pura,<br \/>\n12 E, pois, da banda achei-me do oriente.<\/p>\n<p>Pouco \u00e9ramos avante na espessura,<br \/>\nEis, voltando-se, a dama desta sorte<br \/>\n15 Falou-me: \u2014 \u201cEscuta, irm\u00e3o, e ver procura.\u201d \u2014<\/p>\n<p>483<\/p>\n<p>Refulge de repente uma luz forte,<br \/>\nPor todo o espa\u00e7o imenso da floresta.<br \/>\n18 Rel\u00e2mpago julguei, que os ares corte.<\/p>\n<p>Mas luz ap\u00f3s rel\u00e2mpagos n\u00e3o resta;<br \/>\nE o fulgor mais e mais resplendecia.<br \/>\n21 Disse entre mim: \u2014 \u201cQue maravilha \u00e9 esta?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Pelo ar luminoso se esparzia<br \/>\nDulc\u00edssima harmonia: e em zelo ardendo<br \/>\n24 De Eva o feito imprudente eu repreendia,<\/p>\n<p>Pois, c\u00e9u e terra a Deus humildes vendo,<br \/>\nA mulher s\u00f3, que a vida come\u00e7ara,<br \/>\n27 Violava o preceito, os v\u00e9us rompendo.<\/p>\n<p>Se fiel fora e as ordens respeitara,<br \/>\nMais cedo e por mais tempo essa morada,<br \/>\n30 Em del\u00edcia inef\u00e1vel, eu gozara.<\/p>\n<p>Prosseguia, tendo a alma transportada<br \/>\nNas prim\u00edcias da eterna f\u2019licidade,<br \/>\n33 Em desejos mais vivos abrasada,<\/p>\n<p>Quando vimos de intensa claridade<br \/>\nSob a rama tornar-se o ar brilhante<br \/>\n36 E o som tomou de um hino a suavidade.<\/p>\n<p>\u00d3 Musas, santas virgens, se, constante<br \/>\nFome, frio, vig\u00edlias hei sofrido,<\/p>\n<p>484<\/p>\n<p>39 Da merc\u00ea vos rogar assoma o instante:<\/p>\n<p>Das \u00e1guas de Hipocrene bem provido<br \/>\nPara em metro cantar id\u00e9ia imensa<br \/>\n42 De Ur\u00e2nia e das irm\u00e3s seja eu valido!<\/p>\n<p>De ver, um tanto al\u00e9m, eu tive a cren\u00e7a<br \/>\n\u00c1rvores sete de ouro: era apar\u00eancia,<br \/>\n45 Emprestava a dist\u00e2ncia parecen\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas, quando me acerquei, quando a evid\u00eancia<br \/>\nProvou-me quanto a semelhan\u00e7a engana,<br \/>\n48 Dando das cousas falsa intelig\u00eancia,<\/p>\n<p>A faculdade, que \u00e0 raz\u00e3o aplana<br \/>\nO discurso, fez ver distintamente<br \/>\n51 Candelabros e ouvir no hino: Hosana!<\/p>\n<p>Cada qual flamejava refulgente,<br \/>\nMais que no azul do c\u00e9u rebrilha a lua<br \/>\n54 Da noite em meio, em seu maior crescente.<\/p>\n<p>De pasmo, que no esp\u00edrito me atua,<br \/>\nA Virg\u00edlio me volto; ele me encara:<br \/>\n57 Tamb\u00e9m revela espanto a vista sua.<\/p>\n<p>Tornei-me ao lampad\u00e1rio, que n\u00e3o p\u00e1ra,<br \/>\nProsseguindo, por\u00e9m, solene e lento:<br \/>\n60 Noiva ao altar mais presta caminhara.<\/p>\n<p>485<\/p>\n<p>Eis a dama gritou-me: \u2014 \u201cPor que atento<br \/>\n\u00c0s vivas luzes st\u00e1s com tanto excesso,<br \/>\n63 Que desvias do mais o pensamento?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Trajadas de alva cor a ver come\u00e7o<br \/>\nPessoas, que os luzeiros t\u00eam por guia:<br \/>\n66 Candor igual na terra n\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Do rio a linfa \u00e0 sestra resplendia:<br \/>\nEspelho, minha imagem, desse lado,<br \/>\n69 Oscilando, aos meus olhos refletia.<\/p>\n<p>Dos lumes tanto estava apropinquado,<br \/>\nQue pelo rio s\u00f3 fiquei distante:<br \/>\n72 Parei, por ver melhor, maravilhado.<\/p>\n<p>Esses clar\u00f5es eu vi passar avante;<br \/>\nTr\u00e1s si no ar matiz v\u00e1rio espalhavam,<br \/>\n75 A pend\u00f5es desfraldados semelhante.<\/p>\n<p>Sete listras bem claras desenhavam,<br \/>\nAs cores que cont\u00e9m de Delia o cinto<br \/>\n78 Ou st\u00e3o do sol no arco, figuravam.<\/p>\n<p>Cada estandarte, atr\u00e1s asas distinto,<br \/>\nSe perdia \u00e2 vista; entre eles pareciam<br \/>\n81 Dez passos se no c\u00e1lculo n\u00e3o minto.<\/p>\n<p>Por baixo de t\u00e3o belo c\u00e9u seguiam<br \/>\nVinte e quatro anci\u00f5es emparelhados:<\/p>\n<p>486<\/p>\n<p>84 Brancos l\u00edrios as frontes lhes cingiam.<\/p>\n<p>Todos cantavam juntos: compassados<br \/>\n\u2014 \u201cEntre as filhas de Adam sejas bendita!<br \/>\n87 Benditos teus excelsos predicados.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Quando da margem bem de fronte sita,<br \/>\nDe fresca relva e flores guarnecida,<br \/>\n90 A grei se foi que alcan\u00e7ava a santa grita,<\/p>\n<p>Como no c\u00e9u a luz de outro \u00e9 seguida,<br \/>\nQuatro animais ap\u00f3s se apresentavam,<br \/>\n93 Coroados de fronde entretecida:<\/p>\n<p>A cada qual seis asas adornavam,<br \/>\nCobertas de olhos tantos, quantos Argo<br \/>\n96 Tinha, quando os seus vida gozavam.<\/p>\n<p>De descrev\u00ea-los n\u00e3o fa\u00e7o cargo,<br \/>\nLeitor; a tanto ora me falta ensejo:<br \/>\n99 Nem posso neste ponto ser mais largo.<\/p>\n<p>Contenta Ezequiel o teu desejo:<br \/>\nEle os viu, que, do norte se arrojando,<br \/>\n102 Vinham com vento, nuve\u2019, \u00edgneo lampejo.<\/p>\n<p>Como os pintou, estava os contemplando:<br \/>\nDif\u2019ren\u00e7a quanto \u00e0s asas h\u00e1 somente;<br \/>\n105 Jo\u00e3o eu sigo, Ezequiel deixando.<\/p>\n<p>487<\/p>\n<p>Entre os quatro volvia resplendente<br \/>\nCom dupla roda um carro triunfante,<br \/>\n108 Por um grifo tirado altivamente,<\/p>\n<p>As asas estendendo ia pujante;<br \/>\nNo meio \u00e0s listras tr\u00eas de cada lado,<br \/>\n111 Sem nenhuma empecer seguia avante.<\/p>\n<p>N\u00e3o sobe a vista ao ponto sublimado<br \/>\nA que se erguem; s\u00e3o d\u2019ouro os membros d\u2019ave<br \/>\n114 No mais o r\u00f3seo e o n\u00edveo misturado.<\/p>\n<p>Roma um plaustro n\u00e3o viu t\u00e3o belo e grave<br \/>\nDo Africano em triunfo ou no de Augusto;<br \/>\n117 O do sol fora ante ele humilde trave:<\/p>\n<p>Esse que, transviado foi combusto,<br \/>\nDa Terra quando as s\u00faplicas bradaram<br \/>\n120 E em seus arcanos J\u00fapiter foi justo.<\/p>\n<p>Dan\u00e7ando \u00e0 destra aos olhos se mostraram<br \/>\nTr\u00eas damas: t\u00e3o rubente uma parece,<br \/>\n123 Que chamas se a cercassem a ocultaram.<\/p>\n<p>A segunda t\u00e3o verde resplandece,<br \/>\nComo composta de esmeralda bela;<br \/>\n126 A candura da neve outra escurece.<\/p>\n<p>A dan\u00e7a dirigindo, se desvela<br \/>\nOra a branca ora a rubra: o canto desta<\/p>\n<p>488<\/p>\n<p>129 Det\u00e9m, apressa o passo ao querer dela,<\/p>\n<p>\u00c0 sestra fazem outras quatro festa<br \/>\nDe p\u00farpura vestidas: uma guia<br \/>\n132 As outras e tr\u00eas olhos tem na testa.<\/p>\n<p>Dous anci\u00f5es no couce depois via<br \/>\nDif\u2019rentes no vestir; mas igualdade<br \/>\n135 Nos gestos seus e acatamento havia.<\/p>\n<p>Aluno um parecia na verdade<br \/>\nDe Hip\u00f3crates sublime que criado<br \/>\n138 Natura tem por bem da humanidade.<\/p>\n<p>Mostrava o companheiro outro cuidado<br \/>\nTrazendo espada t\u00e3o aguda e clara,<br \/>\n141 Que onde eu stava de susto fui tomado.<\/p>\n<p>De humilde aspeito a vista me depara<br \/>\nMais quatro: segue o velho, que, distante,<br \/>\n144 Cerra os olhos mas luz a face aclara.<\/p>\n<p>Os sete como os quatro de diante<br \/>\nTrajando a fronte sua t\u00eam cingida,<br \/>\n147 N\u00e3o de c\u2019roa de l\u00edrios alvejante,<\/p>\n<p>Mas de purp\u00fareas flores rubescida:<br \/>\nUm tanto longe ao v\u00ea-los me parece,<br \/>\n150 Que a testa a cada qual stava incendida.<\/p>\n<p>489<\/p>\n<p>E, quando o carro em face me aparece,<br \/>\nRompe um trov\u00e3o e a santa companhia,<br \/>\nAtendendo ao sinal pronta obedece:<\/p>\n<p>154 P\u00e1ra o cortejo e quanto o antecedia.<\/p>\n<p>3. Beati quorum tecta sunt peccata, Salmo XXX, l: \u201cBem-<br \/>\naventurados aqueles cujos pecados s\u00e3o perdoados.\u201d \u2014 42.<br \/>\nUr\u00e2nia, a musa da astronomia. \u2014 51. Candelabros, S. Jo\u00e3o<br \/>\nno<br \/>\nApocalipse v\u00ea sete candelabros de ouro; s\u00edmbolos dos sete<br \/>\nsacramentos ou dos sete dons do Esp\u00edrito Santo. \u2014 83-84. Vinte<br \/>\ne quatro anci\u00f5es, v. Apocalipse IV, 4; s\u00edmbolo dos vinte e quatro<br \/>\nlivros do Velho Testamento. \u2014 92-93. Quatro animais, s\u00edmbolo<br \/>\ndos quatro evangelhos. \u2014 95. Argo, monstro mitol\u00f3gico, que<br \/>\npossu\u00eda cem olhos. \u2014 100. Ezequiel, profeta de Israel, autor<br \/>\nde<br \/>\num livro do Velho Testamento, v. I, 4. \u2014 105. Jo\u00e3o, Apocalipse<br \/>\nIV, 6-8. \u2014 107. Com dupla roda um carro, a Igreja Cat\u00f3lica; as<br \/>\nduas rodas simbolizam o Velho e o Novo Testamento. \u2014 108<br \/>\nGrifo, animal mitol\u00f3gico, metade le\u00e3o e metade \u00e1guia;<br \/>\ns\u00edmbolo<br \/>\nde Jesus Cristo, com as duas naturezas, humana e divina. \u2014<br \/>\n118-120 Esse que, transviado, foi combusto, Fetonte que tentou<br \/>\nguiar o carro do Sol, por\u00e9m, a rogos da Terra, foi fulminado por<br \/>\nJ\u00fapiter. \u2014 122-129. Tr\u00eas damas, as tr\u00eas virtudes<br \/>\nteologais: f\u00e9,<br \/>\nesperan\u00e7a e caridade. \u2014 130-132. Outras quatro, as quatro<br \/>\nvirtudes cardiais: justi\u00e7a, fortaleza, temperan\u00e7a e prud\u00eancia.<br \/>\nA<br \/>\nprud\u00eancia tem tr\u00eas olhos (como diz S\u00eaneca, vigia o presente,<br \/>\nprev\u00ea o futuro e lembra o passado). \u2014 133-135. Dois anci\u00f5es,<br \/>\nS.<br \/>\nLucas e S. Paulo. \u2014 143. Mais quatro, S. Pedro, S. Jo\u00e3o, S.<br \/>\nTiago e S. Judas, escritores das Ep\u00edstolas can\u00f4nicas. \u2014<br \/>\n143-<br \/>\n144. O velho, S. Jo\u00e3o que, parece, quando escreveu o Apocalipse<br \/>\nestava perto dos noventa anos. (\u00c9 preciso notar que os<br \/>\nescritores sacros s\u00e3o apresentados em v\u00e1rios aspectos,<br \/>\nconforme os seus livros; por isso alguns entre eles s\u00e3o<br \/>\nrepetidos).<\/p>\n<p>490<\/p>\n<p>CANTO XXX<\/p>\n<p>Acolhida festivamente pelos anjos e pelos bem-aventurados,<br \/>\ndesce do C\u00e9u, Beatriz (a divina sabedoria) e pousa no carro. Nisto<br \/>\nVirg\u00edlio (a humana sabedoria) desaparece. Ela dirige-se a Dante e<br \/>\nlhe exprobra os seus desvios. Dante chora; e os anjos se<br \/>\ncompadecem dele. Beatriz, dirigindo-se a eles, exp\u00f5e mais<br \/>\nparticularmente quais foram as suas faltas depois da sua morte.<\/p>\n<p>QUANDO o setentri\u00e3o do c\u00e9u primeiro,<br \/>\nQue, jamais tendo ocaso, nem nascente,<br \/>\n3 Da culpa s\u00f3 nublou-se em nevoeiro,<\/p>\n<p>E ali fazia cada qual ciente<br \/>\nDo dever seu, bem como o deste mundo<br \/>\n6 Do nauta ao porto \u00e9 guia permanente,<\/p>\n<p>Parou, a santa grei, que ia em segundo<br \/>\nLugar antes do Grifo, dirigia,<br \/>\n9 Como \u00e0 paz sua ao carro olhar profundo.<\/p>\n<p>Um, que do c\u00e9u arauto parecia,<br \/>\nVeni, sponsa de Libano \u2014 cantando,<br \/>\n12 Tr\u00eas vezes disse, e a turba repetia.<\/p>\n<p>Como, ao soar o derradeiro bando,<br \/>\nH\u00e3o de os eleitos ressurgir ligeiros,<\/p>\n<p>491<\/p>\n<p>15 Com renovada voz aleluiando,<\/p>\n<p>Assim, da vida eterna mensageiros,<br \/>\nCem anjos, ad vocem tanti senis<br \/>\n18 Elevaram-se ao carro sobranceiros.<\/p>\n<p>Diziam todos: \u2014 Benedictus qui venis!<br \/>\nModulavam, lan\u00e7ando em torno flores:<br \/>\n21 Manibus, oh, date lilia plenis!<\/p>\n<p>J\u00e1 vi do dia aos l\u00facidos albores<br \/>\nEm parte o c\u00e9u de rosicler tingido,<br \/>\n24 Estando em parte azul e sem vapores,<\/p>\n<p>E o sol, nascendo em nuvens envolvido,<br \/>\nPermitir que se encare em seu semblante,<br \/>\n27 Entre v\u00e9us nebulosos escondido:<\/p>\n<p>Tal, em nuvem de flores odorante,<br \/>\nQue de ang\u00e9licas m\u00e3os sobe fagueira<br \/>\n30 E cai no carro e em torno a cada instante,<\/p>\n<p>De v\u00e9u neves cingida e de oliveira,<br \/>\nUma dama esguardei com verde manto<br \/>\n33 E veste em cor igual \u00e0 da fogueira.<\/p>\n<p>E o esp\u00edrito meu que, tempo tanto<br \/>\nHavia j\u00e1, n\u00e3o fora ao seu conspeito,<br \/>\n36 Tr\u00eamulo, entrando de so\u00e7obro e espanto,<\/p>\n<p>492<\/p>\n<p>Antes que aos olhos se mostrasse o aspeito,<br \/>\nSentiu, por for\u00e7a oculta que desprende,<br \/>\n39 Do antigo amor, o poderoso efeito.<\/p>\n<p>Quando essa alta influ\u00eancia em mim descende,<br \/>\nQue desde o alvor primeiro da exist\u00eancia<br \/>\n42 Da alma as pot\u00eancias me avassala e rende,<\/p>\n<p>\u00c0 sestra me voltei com dilig\u00eancia,<br \/>\nQual infante da m\u00e3e correndo ao seio,<br \/>\n45 Se dor ou medo assalta-lhe a inoc\u00eancia,<\/p>\n<p>Por dizer a Virg\u00edlio: \u2014 \u201cNeste enleio,<br \/>\nMeu sangue em cada gota \u00e9 convulsado,<br \/>\n48 De amor na antiga flama eu me incendeio.\u201d<\/p>\n<p>Mas ai! Virg\u00edlio havia-se ausentado,<br \/>\nVirg\u00edlio, o pai dulc\u00edssimo e amoroso,<br \/>\n51 Virg\u00edlio, a quem, por me salvar, fui dado!<\/p>\n<p>Quanto perdeu neste lugar formoso<br \/>\nEva, n\u00e3o tolhe as l\u00e1grimas no rosto,<br \/>\n54 Que o rocio me lavara milagroso.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o haja por Virg\u00edlio ir-se, desgosto;<br \/>\nN\u00e3o te entregues ao pranto agora, \u00f3 Dante;<br \/>\n57 Por dor mais viva ao pranto s\u00ea disposto.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Como em revista \u00e0s naus s\u00e1bio almirante<br \/>\nNas manobras feroz a dura gente<\/p>\n<p>493<\/p>\n<p>60 E os cora\u00e7\u00f5es esfor\u00e7a vigilante,<\/p>\n<p>Do carro \u00e0 borda, \u00e0 esquerda, incontin\u00eanti,<br \/>\nQuando voltei-me ao nome proferido,<br \/>\n63 Que por ser dito aqui vem simplesmente,<\/p>\n<p>A dama vi que tinha aparecido<br \/>\nVelada em meio da divina festa,<br \/>\n66 Tendo, al\u00e9m-rio, o gesto a mim volvido.<\/p>\n<p>Conquanto o v\u00e9u, que lhe cingia a testa,<br \/>\nQue de Minerva fronde coroava,<br \/>\n69 A face n\u00e3o deixasse manifesta,<\/p>\n<p>No r\u00e9gio continente que ostentava<br \/>\nDesta arte prosseguiu; por\u00e9m dizendo<br \/>\n72 O mais acerto para o fim guardava:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cOh! Sou eu! Sim! Beatriz st\u00e1s vendo!<br \/>\nPois te h\u00e1s dignado de ascender ao monte<br \/>\n75 Ter aqui dita o homem j\u00e1 sabendo?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Os olhos inclinando \u00e0 pura fonte<br \/>\nVi minha imagem; logo os volto a um lado,<br \/>\n78 Tanta vergonha me acendia a fronte!<\/p>\n<p>Qual m\u00e3e, que o filho increpa em tom maguado,<br \/>\nPareceu-me: porque se torna amara,<br \/>\n81 A piedade que pune, ao castigado.<\/p>\n<p>494<\/p>\n<p>Calou-se ela e dos anjos a voz clara<br \/>\n\u2014 \u201cIn te, Domine, speravi\u201d \u2014 de repente<br \/>\n84 Entoa, mas em pedes meos p\u00e1ra.<\/p>\n<p>Da terra italiana em serra ingente<br \/>\nDa esclav\u00f4nia por ventos contra\u00edda<br \/>\n87 Entre as selvas congela a neve algente;<\/p>\n<p>Depois liquesce e corre derretida<br \/>\nAo quente sopro, que do sul procede,<br \/>\n90 Como cera de flamas aquecida;<\/p>\n<p>Tal o so\u00e7obro as l\u00e1grimas me impede<br \/>\nAntes de ouvir a ang\u00e9lica toada,<br \/>\n93 Que o hino dos eternos orbes mede.<\/p>\n<p>Mas quando, em seus concentos expressada,<br \/>\nCompaix\u00e3o vejo mais do que se houvessem<br \/>\n96 Dito: \u2014 \u201cSenhora, por que \u00e9s tanto irada?\u201d,<\/p>\n<p>No peito meu os gelos se amolecem;<br \/>\nDos l\u00e1bios e dos olhos irrompendo,<br \/>\n99 Com l\u00e1grimas solu\u00e7os aparecem.<\/p>\n<p>Firme no carro, \u00e0 destra se volvendo,<br \/>\nEla aos pios esp\u00edritos dizia,<br \/>\n102 Do c\u00e2ntico \u00e0s palavras respondendo:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVigilantes estais no eterno dia;<br \/>\nJamais por noite ou sono distra\u00edda,<\/p>\n<p>495<\/p>\n<p>105 Do tempo os passos vossa vista espia.<\/p>\n<p>\u201cMinha resposta, pois, vai dirigida<br \/>\n\u00c0quele, que ora ao pranto os olhos solta:<br \/>\n108 A culpa seja pela dor medida.<\/p>\n<p>\u201cDos c\u00e9us, n\u00e3o pela a\u00e7\u00e3o, na imensa volta,<br \/>\nQue para um fim conduz cada semente,<br \/>\n111 Segundo os astros, que lhe v\u00e3o na escolta,<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o de gra\u00e7as por divina enchente,<br \/>\nQue chovem sobre n\u00f3s dessa emin\u00eancia,<br \/>\n114 A que se alar nem pode a nossa mente,<\/p>\n<p>\u201cEste homem foi na aurora da exist\u00eancia,<br \/>\nDe tais dotes ornado, que pudera<br \/>\n117 Da virtude alcan\u00e7ar toda a excel\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cSe, por\u00e9m, a incultura se apodera<br \/>\nOu semente ruim do bom terreno,<br \/>\n120 Plantas mali\u2019nas, pe\u00e7onhentas gera.<\/p>\n<p>\u201cConservou-se ante mim puro e sereno:<br \/>\nMeus olhos, em menina, o conduziram<br \/>\n123 Pelo caminho mais seguro e ameno.<\/p>\n<p>\u201cTanto que umbrais \u00e0 vista se me abriram<br \/>\nDa idade segunda e desta vida,<br \/>\n126 Deixou-me; outros enlevos o atra\u00edram.<\/p>\n<p>496<\/p>\n<p>\u201cQuando em esp\u00edrito eu fora convertida<br \/>\nE beleza e virtude em mim crescera,<br \/>\n129 Em menos pre\u00e7o fui por ele havida.<\/p>\n<p>\u201cPor fraguras fugiu da estrada vera,<br \/>\nEm fingidas imagens enlevado,<br \/>\n132 De que jamais se alcan\u00e7a o que se espera.<\/p>\n<p>\u201cInspira\u00e7\u00f5es em v\u00e3o hei-lhe impetrado<br \/>\nEm sonhos, em vig\u00edlia o bem mostrando:<br \/>\n135 Cego, correu pelo caminho errado.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 todo o esfor\u00e7o meu se malogrando,<br \/>\nPara salv\u00e1-lo do perigo eterno<br \/>\n138 Quis que baixasse ao reino miserando.<\/p>\n<p>\u201cFoi neste empenho que desci ao inferno,<br \/>\nE \u00e0 sombra, que de guia lhe h\u00e1 servido,<br \/>\n141 Fiz o meu rogo lacrimoso eterno.<\/p>\n<p>\u201cO preceito de Deus fora infringido,<br \/>\nSe ele do Letes transcendesse as \u00e1guas,<br \/>\nSe lhe fosse prov\u00e1-las permitido,<\/p>\n<p>145 Sem seu pre\u00e7o pagar em pranto e m\u00e1goas.\u201d \u2014<\/p>\n<p>11. Veni, sponsa, etc., convite do esposo \u00e0 esposa no C\u00e2ntico<br \/>\ndos C\u00e2nticos de Salom\u00e3o. \u2014 17. Ad vocem tanti senis, \u00e0<br \/>\nvoz de<br \/>\nvelho t\u00e3o venerando como era Salom\u00e3o. \u2014 19. Benedictus<br \/>\nqui<br \/>\nvenis, cantavam os hebreus a Jesus quando entrou em<\/p>\n<p>497<\/p>\n<p>Jerusal\u00e9m, S. Mateus, Evang. XXI, 9. \u2014 21. Manibus, oh, date<br \/>\nlilia plenis, espalhai l\u00edrios \u00e0s m\u00e3os cheias. \u2014<br \/>\n39. Do antigo amor<br \/>\netc., Dante se enamorou de Beatriz, quando tinha a idade de<br \/>\nnove anos. \u2014 83. In te, Domine, speravi, Salmo XXX, at\u00e9 \u00e0s<br \/>\npalavras: pedes meus, exprime o arrependimento e a esperan\u00e7a<br \/>\nna miseric\u00f3rdia de Deus.<\/p>\n<p>498<\/p>\n<p>CANTO XXXI<\/p>\n<p>Beatriz continua repreendendo a Dante, o qual confessa os seus<br \/>\npecados. Matilde o mergulha, ent\u00e3o, no rio Letes. Depois as sete<br \/>\ndamas que participavam da prociss\u00e3o (as quatro virtudes<br \/>\ncardiais e as tr\u00eas virtudes teologais) o levam at\u00e9 Beatriz, pedindo<br \/>\na ela que se desvele diante do seu fiel. Beatriz tira o v\u00e9u.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 TU que est\u00e1s al\u00e9m da \u00e1gua sagrada\u201d<br \/>\n\u2014 Prosseguiu Beatriz incontin\u00eanti,<br \/>\n3 A ponta a mim voltando dessa espada,<\/p>\n<p>Que de rev\u00e9s j\u00e1 fora assaz pungente \u2014<br \/>\n\u201cDiz se \u00e9 verdade, diz! \u00c0 culpa unida<br \/>\n6 Esteja a confiss\u00e3o do penitente.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Tanta a for\u00e7a mental foi confrangida,<br \/>\nQue a voz desfaleceu, se erguer tentando,<br \/>\n9 Expirou-me nas fauces inanida.<\/p>\n<p>Esperou; disse ap\u00f3s: \u2014 \u201cQue est\u00e1s pensando?<br \/>\nResponde: inda n\u00e3o tens n\u00e1gua apagado<br \/>\n12 Lembran\u00e7as do passado miserando?\u201d \u2014<\/p>\n<p>No meu enleio, de temor travado,<br \/>\nUm t\u00e3o confuso sim, tr\u00eamulo, expresso,<br \/>\n15 Que houve mister dos olhos ajudado.<\/p>\n<p>499<\/p>\n<p>Como em besta entesada em grande excesso,<br \/>\nQuebrando-se arco e corda, parte a seta<br \/>\n18 E no alvo d\u00e1 sem for\u00e7a do arremesso,<\/p>\n<p>Stando minha alma em tanto extremo inquieta<br \/>\nE em suspiros e l\u00e1grimas rompendo,<br \/>\n21 Perdeu a voz o som, que a l\u00edngua enceta.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe ao meu querer\u201d \u2014 prossegue \u2014<br \/>\n\u201cobedecendo<br \/>\nTinhas fanal, que ao bem te conduzisse,<br \/>\n24 De anelos teus a mira ser devendo,<\/p>\n<p>\u201cOnde o poder de estorvos, que impedisse<br \/>\nTeus passos? Quais grilh\u00f5es que os retivessem<br \/>\n27 Na vereda, que avante ir permitisse?<\/p>\n<p>\u201cHouve encantos, que a outros te prendessem,<br \/>\nE del\u00edcias, que tanto te atra\u00edram,<br \/>\n30 Que a tua alma enlear assim pudessem?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Do peito agros suspiros me sa\u00edram;<br \/>\nPara falar-lhe apenas tive alento,<br \/>\n33 E a voz a custo os l\u00e1bios exprimiram.<\/p>\n<p>Tornei chorando: \u2014 \u201cO engano, o fingimento<br \/>\nAo terreno prazer me h\u00e3o transviado,<br \/>\n36 Em vos nublando a face o passamento.\u201d \u2014<\/p>\n<p>500<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe ocultaras\u201d \u2014 falou-me \u2014 \u201co teu pecado,<br \/>\nA graveza da culpa ao claro vira<br \/>\n39 Aquele, por quem deves ser julgado.<\/p>\n<p>\u201cMas se o r\u00e9u, confessando, tem na mira<br \/>\nO pesar do mau feito, em nossa corte<br \/>\n42 Contra o fio da espada a m\u00f3 se vira.<\/p>\n<p>\u201cEntanto, por que seja em ti mais forte<br \/>\nDe errar o pejo e, no porvir ouvindo<br \/>\n45 Sereias, n\u00e3o procedas de igual sorte,<\/p>\n<p>\u201cEscuta-me, os teus prantos consumindo:<br \/>\nVer\u00e1s que, inda sepulta, eu te guiara,<br \/>\n48 Pela contr\u00e1ria rota conduzindo.<\/p>\n<p>\u201cJamais arte ou natura te mostrara<br \/>\nEnlevo, quanto a rara formosura<br \/>\n51 Do corpo, em p\u00f3 tornado, em que eu morara.<\/p>\n<p>\u201cSe comigo baixara \u00e0 sepultura<br \/>\nTeu supremo prazer, como arrastar-te<br \/>\n54 P\u00f4de, ap\u00f3s si, mortal del\u00edcia impura?<\/p>\n<p>\u201cEnganos tais sentindo saltear-te,<br \/>\nAos c\u00e9us al\u00e7ando a mente deverias<br \/>\n57 T\u00e9 minha eternidade sublimar-te,<\/p>\n<p>\u201cE n\u00e3o baixar do v\u00f4o, em que subias<br \/>\nTe expondo a novos tiros, atra\u00edda<\/p>\n<p>501<\/p>\n<p>60 Por jovem, por vaidades fugidias.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 duas, tr\u00eas vezes iludida<br \/>\nAve inexperta; mas a seta, o la\u00e7o<br \/>\n63 P\u00e1ssaro velho esquiva, apercebido.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Qual menino, que a m\u00e3e por largo espa\u00e7o<br \/>\nIncrepa; e, baixa a fronte, envergonhado<br \/>\n66 Reconhece em sil\u00eancio o errado passo,<\/p>\n<p>Tal me achava. \u2014 \u201cDe ouvir se est\u00e1s magoado.<br \/>\nLevanta a barba!\u201d \u2014 ainda prosseguia \u2014<br \/>\n69 \u201cOlhando-me, h\u00e1s de ser mais castigado!\u201d \u2014<\/p>\n<p>Com menos resist\u00eancia abateria<br \/>\nDe Europa o vendaval carvalho altivo<br \/>\n72 Ou da terra, que a Jarba obedecia,<\/p>\n<p>Do que eu alcei o rosto pensativo;<br \/>\nQuando ela disse barba e n\u00e3o semblante<br \/>\n75 A mal\u00edcia notei e o seu motivo.<\/p>\n<p>Olhos erguendo alfim, do mesmo instante<br \/>\nAos ares vi que flores n\u00e3o lan\u00e7ava<br \/>\n78 A falange dos anjos radiante.<\/p>\n<p>T\u00edmida a vista a Beatriz achava<br \/>\nVoltada ao Grifo, que uma s\u00f3 pessoa<br \/>\n81 Em naturezas duas encerrava.<\/p>\n<p>502<\/p>\n<p>Al\u00e9m do rio sob o v\u00e9u e a c\u2019roa<br \/>\nTanto excede a beleza sua antiga<br \/>\n84 Quanto em vida as que mais fama apregoa.<\/p>\n<p>E do pesar pungiu-me tanto a urtiga,<br \/>\nQue das cousas, que mais na terra amara<br \/>\n87 A mais cara odiei como inimiga.<\/p>\n<p>Remorso tal a mente me assaltara,<br \/>\nQue vencido tombei: qual fiquei sendo<br \/>\n90 Sabe quem dor t\u00e3o viva motivara.<\/p>\n<p>Ao cora\u00e7\u00e3o a for\u00e7a me volvendo<br \/>\nNotei a dama, que primeiro eu vira<br \/>\n93 Ao lado meu, \u2014 \u201cAbra\u00e7ai-me!\u201d \u2014 dizendo.<\/p>\n<p>T\u00e9 ao colo no rio me imergira;<br \/>\nE correndo, qual leve lan\u00e7adeira,<br \/>\n96 Das \u00e1guas sobre a tona a si me tira.<\/p>\n<p>J\u00e1 pr\u00f3ximo \u00e0 beat\u00edfica ribeira,<br \/>\nOuvi Asperges me t\u00e3o docemente,<br \/>\n99 Que o n\u00e3o descrevo ou lembro, inda que o<br \/>\nqueira.<\/p>\n<p>Matilde, abrindo os bra\u00e7os de repente,<br \/>\nCingiu-me a fronte e s\u00fabito afundou-me;<br \/>\n102 Era dessa \u00e1gua haurir conveniente.<\/p>\n<p>Assim purificado, ela guiou-me<\/p>\n<p>503<\/p>\n<p>Das damas quatro para a dan\u00e7a bela,<br \/>\n105 E cada uma nos bra\u00e7os estreitou-me.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cCada qual, ninfa aqui, nos c\u00e9us estrela,<br \/>\nAntes que Beatriz descesse ao mundo,<br \/>\n108 Servas de ordem suprema somos dela.<\/p>\n<p>\u201cOs seus olhos ver\u00e1s; mas no jucundo<br \/>\nLume interno h\u00e1s de ter vista agu\u00e7ada<br \/>\n111 Pelas tr\u00eas cujo olhar \u00e9 mais profundo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Modulando na ang\u00e9lica toada,<br \/>\nAnte o Grifo consigo me levaram:<br \/>\n114 L\u00e1 Beatriz para n\u00f3s era voltada.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEm contemplar sacia-te!\u201d \u2014 falaram \u2014<br \/>\n\u201cAs esmeraldas que ora tens presentes,<br \/>\n117 Donde os farp\u00f5es de amor te vulneraram.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Mais que a flama desejos mil ardentes<br \/>\nPrenderam olhos meus aos seus formosos,<br \/>\n120 Na adora\u00e7\u00e3o do Grifo persistentes.<\/p>\n<p>Qual sol no espelho, nesses luminosos<br \/>\nAstros o Grifo se alternando, eu via<br \/>\n123 Seres dois refletir misteriosos:<\/p>\n<p>Meu espanto, \u00f3 leitor, qual n\u00e3o seria<br \/>\nVendo o objeto na imagem transmutado,<br \/>\n126 Quando constante em si permanecia?<\/p>\n<p>504<\/p>\n<p>Enquanto eu de prazer e pasmo entrado,<br \/>\nEsse doce manjar stava gozando,<br \/>\n129 Que sacia mas sempre \u00e9 desejado,<\/p>\n<p>De ordem mais alta ser manifestando<br \/>\nPelo meneio, as tr\u00eas se adiantaram,<br \/>\n132 Por ang\u00e9lico estilo modulando.<\/p>\n<p>\u201cOs olhos santos, Beatriz\u201d \u2014 cantaram \u2014<br \/>\n\u201cOh! volve ao servo teu leal constante<br \/>\n135 A quem por ver-te os passos n\u00e3o custaram.<\/p>\n<p>\u201cNos d\u00e1 por gr\u00e3 merc\u00ea que o fido amante<br \/>\nSem v\u00e9u segunda formosura<br \/>\n138 Contemple nesse divinal semblante!\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u00d3 resplendor da luz eterna e pura!<br \/>\nQuem do Parnaso \u00e0 sombra descorando<br \/>\n141 E da \u00e1gua sua haurindo alma do\u00e7ura,<\/p>\n<p>Aturdido n\u00e3o fora, se arrojando<br \/>\nA tentar descrever qual te mostraste,<br \/>\nQuando o c\u00e9u de harmonias te cercando,<\/p>\n<p>145 Ao ar patente a face revelaste?<\/p>\n<p>71-72. De Europa etc. Ao vento boreal que sopra na nossa<br \/>\nregi\u00e3o, ou ao vento meridional que sopra na \u00c1frica, onde reinou<\/p>\n<p>505<\/p>\n<p>Jarbas. \u2014 75. A mal\u00edcia notei etc., Beatriz disse \u201cbarba\u201d<br \/>\ne n\u00e3o<br \/>\nsemblante, querendo referir-se \u00e0 idade madura de Dante.<\/p>\n<p>506<\/p>\n<p>CANTO XXXII<\/p>\n<p>Dante olha com amor a Beatriz. No entanto o carro, seguido pela<br \/>\nprociss\u00e3o dos bem-aventurados, se move em dire\u00e7\u00e3o a um<br \/>\n\u00e1rvore<br \/>\nelevad\u00edssima e despida de folhagem. O grifo ata o carro \u00e0 \u00e1rvore<br \/>\ne esta logo cobre-se de flores. O Poeta adormece. Ao despertar v\u00ea<br \/>\nBeatriz, rodeada das sete damas, sentada ao p\u00e9 da \u00e1rvore.<br \/>\nAcontecem, depois, no carro fatos maravilhosos que causam ao<br \/>\nPoeta surpresa e medo.<\/p>\n<p>COM t\u00e3o s\u00f4fregos olhos saciava<br \/>\nA sede, em que anos dez eu me incendia,<br \/>\n3 Que aos mais sentidos toda a a\u00e7\u00e3o cessava.<\/p>\n<p>Quase murada a vista se imergia<br \/>\nNo santo riso ao mais indiferente,<br \/>\n6 E nos la\u00e7os de outrora me prendia.<\/p>\n<p>Desse \u00eaxtase arrancou-me de repente<br \/>\nA voz das santas, que da esquerda soa:<br \/>\n9 \u2014 \u201cDemais contemplativa tens a mente!\u201d \u2014<\/p>\n<p>Os ofuscados olhos me nevoa<br \/>\nTorva\u00e7\u00e3o semelhante ao vivo efeito,<br \/>\n12 Que do sol causa a face em quem fitou-a.<\/p>\n<p>Mas quando \u00e0 pouco luz estive afeito<\/p>\n<p>507<\/p>\n<p>(Pouca em confronto ao lume deslumbrante,<br \/>\n15 Que por for\u00e7a deixara e a meu despeito),<\/p>\n<p>Vi que \u00e0 destra volvia o triunfante<br \/>\nEx\u00e9rcito celeste \u00e0 frente estando<br \/>\n18 Os candelabros sete e o sol flamante.<\/p>\n<p>Qual hoste a se salvar broqu\u00e9is al\u00e7ando,<br \/>\nSe volta, e co\u2019a bandeira n\u00e3o prossegue<br \/>\n21 Sen\u00e3o mudada a dire\u00e7\u00e3o, girando;<\/p>\n<p>A celeste mil\u00edcia avante segue,<br \/>\nNa marcha procedendo desfilava<br \/>\n24 Antes que o santo carro a volver chegue.<\/p>\n<p>Cada cor\u00e9ia as rodas escoltava,<br \/>\nE o Grifo a carga santa removia<br \/>\n27 Sem parecer que as penas agitava.<\/p>\n<p>Quem pelo rio me arrastado havia,<br \/>\nEst\u00e1cio e eu a roda acompanhamos,<br \/>\n30 Que por arco menor volta fazia.<\/p>\n<p>Na alta floresta caminhando vamos,<br \/>\nErma por culpa da que a serpe ouvira:<br \/>\n33 Pelo c\u00e2ntico os passos regulamos.<\/p>\n<p>And\u00e1ramos espa\u00e7o que medira<br \/>\nUma seta tr\u00eas vezes disparada:<br \/>\n36 Desceu Beatriz do carro, em que eu a vira.<\/p>\n<p>508<\/p>\n<p>\u201cAdam!\u201d \u2014 disse em murm\u00fario a grei sagrada,<br \/>\nTodos depois uma \u00e1rvore cercaram,<br \/>\n39 De folhas e de flores despojada.<\/p>\n<p>Tanto aos lados seus ramos se alargaram,<br \/>\nQuanto erguiam-se ao c\u00e9u: como portento<br \/>\n42 \u00edndios nas selvas suas os mostrariam.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 Grifo! Gl\u00f3ria a ti! De culpa isento,<br \/>\nN\u00e3o provaste do lenho doce ao gosto,<br \/>\n45 Que tanta dor causou, t\u00e3o cru tormento!\u201d \u2014<\/p>\n<p>Daquele tronco excelso em torno posto,<br \/>\nDiz o pr\u00e9stito; e o Grifo lhe contesta:<br \/>\n48 \u2014 \u201cAssim justi\u00e7a \u00e9 sempre no seu posto.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>E ao carro que tirara na floresta,<br \/>\nVoltou-se e o conduziu ao tronco anoso:<br \/>\n51 Dele foi parte, a ele atado resta.<\/p>\n<p>Quando o astro rebrilha poderoso,<br \/>\nJuntando os seus clar\u00f5es aos que desprende,<br \/>\n54 Depois do Peixe o signo luminoso,<\/p>\n<p>Brotando as plantas cada qual resplende<br \/>\nDe esmalte novo, e ainda de outra estrela<br \/>\n57 Abaixo os seus fris\u00f5es o sol n\u00e3o prende:<\/p>\n<p>S\u00fabito assim refloresceu aquela<\/p>\n<p>509<\/p>\n<p>\u00c1rvore nua, grada\u00e7\u00f5es formando<br \/>\n60 Entre rosa e violeta em c\u00f3pia bela.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o de um hino as notas escutando,<br \/>\nQuais nunca sobre a terra se cantaram,<br \/>\n63 N\u00e3o pude resistir a som t\u00e3o brando.<\/p>\n<p>Se eu narrasse como olhos se fecharam<br \/>\nDe Argo impiedosos, de S\u00edrius ao conto<br \/>\n66 Que o seu n\u00edmio velar caro pagaram,<\/p>\n<p>Pintor, tirara ao natural e em ponto<br \/>\nO sono em que engolfei-me docemente;<br \/>\n69 Mas fa\u00e7a-o quem nessa arte forma pronto!<\/p>\n<p>Passo ao momento em que espertou-se a mente:<br \/>\nFulgor ao sono intenso o v\u00e9u rompia,<br \/>\n72 \u2014 \u201cEia! que fazes?\u201d \u2014 ou\u00e7o incontin\u00eanti.<\/p>\n<p>Quais vendo que de flores se cobria<br \/>\nO linho cujo pomo apetecido<br \/>\n75 Na boda eterna os anjos extasia,<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, Pedro e Tiago ao seu sentido,<br \/>\nDepois da prostra\u00e7\u00e3o \u00e0 voz tornaram,<br \/>\n78 Que sono inda maior tinha vencido,<\/p>\n<p>E a companhia decrescida acharam<br \/>\nDe Elias e Mois\u00e9s enquanto as cores<br \/>\n81 Sobre a estola do Mestre se mudaram:<\/p>\n<p>510<\/p>\n<p>Tal despertei da luz aos esplendores,<br \/>\nVi perto a dama que me fora guia<br \/>\n84 Do rio \u00e0 margem sobre a relva e as flores.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cOnde \u00e9 Beatriz?\u201d \u2014 cuidoso lhe dizia.<br \/>\n\u2014 \u201cDa fronde nova \u00e0 sombra a v\u00eas sentada,<br \/>\n87 Junto \u00e0 raiz\u201d \u2014 Matilde respondia.<\/p>\n<p>\u201cDa companhia sua \u00e9 rodeada;<br \/>\nAo c\u00e9u ap\u00f3s o Grifo os mais subiram,<br \/>\n90 Com mais doce can\u00e7\u00e3o, mais sublimada.\u201d \u2014<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se as vozes suas prosseguiram<br \/>\nPois aquela aos meus olhos se mostrara,<br \/>\n93 Em quem meus pensamentos se imergiram.<\/p>\n<p>Sobre a terra bendita se assentara,<br \/>\nS\u00f3, como em guarda ao plaustro portentoso,<br \/>\n96 Que ao tronco antigo o Grifo vinculara.<\/p>\n<p>Rodeiam-na, com c\u00edrculo formoso,<br \/>\nAs ninfas sete, os lumes empunhando,<br \/>\n99 Seguros de Austro e de Aquil\u00e3o ruidoso.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNa selva a tua estada abreviando,<br \/>\nSer\u00e1s comigo na eternal morada<br \/>\n102 Da Roma, onde tem Cristo o r\u00e9gio mando.<\/p>\n<p>\u201cDo mundo em prol, perdido em rota errada,<\/p>\n<p>511<\/p>\n<p>O carro observa e cada cousa atento<br \/>\n105 Guarda, por ser ao mundo registrada.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Falou Beatriz; e eu, pois, que o entendimento<br \/>\nDo seu querer aos p\u00e9s tinha prostrado,<br \/>\n108 Fitei no carro a vista e o pensamento.<\/p>\n<p>Dos et\u00e9reos confins arremessado,<br \/>\nN\u00e3o rasga o raio \u00e0 densa nuve, o seio,<br \/>\n111 Com tanta rapidez precipitado,<\/p>\n<p>Como da alta ramada pelo meio,<br \/>\nC\u00f3rtice fronde, flores destruindo,<br \/>\n114 O p\u00e1ssaro de Jove irado veio.<\/p>\n<p>Com for\u00e7a imane o carro foi ferindo,<br \/>\nQue aos golpes, qual navio, se agitava,<br \/>\n117 Que o mar combate os bordos lhe investindo.<\/p>\n<p>E logo ap\u00f3s eu vi que se enviava<br \/>\nAo carro triunfal uma raposa,<br \/>\n120 Que bom cibo n\u00e3o ter manifestava.<\/p>\n<p>Increpando-lhe a vida criminosa,<br \/>\nBeatriz p\u00f4-la em fuga, e em tanta pressa,<br \/>\n123 Quanto sofreu-lhe a ossada cavernosa.<\/p>\n<p>Depois do carro \u00e0 caixa a \u00c1guia se apressa<br \/>\nA vir por onde, h\u00e1 pouco, descendera;<br \/>\n126 De in\u00e7ar de plumas seus coxins n\u00e3o cessa.<\/p>\n<p>512<\/p>\n<p>Qual gemido que a dor no peito gera,<br \/>\nOuvi do c\u00e9u baixar voz, que dizia:<br \/>\n129 \u2014 \u201c\u00d3 barca! bem m\u00e1 carga ora se onera!\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>A terra ent\u00e3o me pareceu se abria,<br \/>\nEntre as rodas um drago arrevessando<br \/>\n132 Que pelo carro a cauda introduzia.<\/p>\n<p>Depois a cauda atroce retirando,<br \/>\nQual vespa o seu ferr\u00e3o, feita a ferida,<br \/>\n135 Arranca o fundo e vai-se coleando.<\/p>\n<p>Como em terra vivaz relva crescida,<br \/>\nCobre o resto plumagem de repente,<br \/>\n138 Com ten\u00e7\u00e3o casta e pura oferecida;<\/p>\n<p>Tim\u00e3o e rodas vestem-se igualmente<br \/>\nT\u00e3o presto, que um suspiro vem lan\u00e7ado<br \/>\n141 \u00c0 flor dos l\u00e1bios menos prontamente.<\/p>\n<p>Daquele plaustro santo, assim mudado,<br \/>\nNos \u00e2ngulos cabe\u00e7as irromperam,<br \/>\n144 Tr\u00eas no tim\u00e3o e uma em cada lado.<\/p>\n<p>Essas, como as de boi, armadas eram;<br \/>\nUma s\u00f3 ponta as quatro guarnecia:<br \/>\n147 Monstros iguais j\u00e1 nunca apareceram.<\/p>\n<p>Qual penhasco em montanha excelsa, eu via<\/p>\n<p>513<\/p>\n<p>No carro nua meretriz sentada,<br \/>\n150 Lascivos olhos em redor volvia.<\/p>\n<p>Como para n\u00e3o ser-lhe arrebatada<br \/>\nEm p\u00e9 ao lado seu stava um gigante,<br \/>\n153 Com quem trocava beijos despejada.<\/p>\n<p>Que os olhos requebrava a torpe amante<br \/>\nPra mim notando, fero a flagelava<br \/>\n156 Dos p\u00e9s a fronte o barreg\u00e3o farfante.<\/p>\n<p>No ci\u00fame e na ira, que o inflamava<br \/>\nDesprende o carro e \u00e0 selva o vai tirando,<br \/>\nQue depressa aos meus olhos ocultava<\/p>\n<p>160 A prostituta e o novo monstro infando.<\/p>\n<p>38-39. Uma \u00e1rvore etc., a \u00e1rvore do bem e do mal, cujo fruto<br \/>\nAdam comera, pelo que foi expulso do Para\u00edso. \u2014 64-66. Como<br \/>\nos olhos se fecharam etc., como adormeceu e se fecharam os<br \/>\nolhos de Argos ao ouvir o conto de Merc\u00fario a respeito de S\u00edrio,<br \/>\n\u2014 73-81. Quais vendo etc., como os ap\u00f3stolos Jo\u00e3o, Pedro<br \/>\ne<br \/>\nTiago, ao assistirem \u00e0 transfigura\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo,<br \/>\nno monte<br \/>\nTabor, e ao v\u00ea-lo em companhia de Mois\u00e9s e Elias, desmaiaram<br \/>\ne despertando, depois, o viram em sua forma natural havendo<br \/>\nos dois profetas desaparecido, etc. \u2014 102. Da Roma onde tem<br \/>\nCristo o r\u00e9gio mando, o Para\u00edso. \u2014 114. O p\u00e1ssaro<br \/>\nde Jove, a<br \/>\n\u00e1guia, s\u00edmbolo do imp\u00e9rio. \u2014 119. Uma raposa, s\u00edmbolo<br \/>\nda<br \/>\nheresia. \u2014 126. De in\u00e7ar de plumas seus coxins n\u00e3o cessa,<br \/>\nprov\u00e1vel alus\u00e3o ao poder temporal outorgado por Constantino<br \/>\n\u00e0<br \/>\nIgreja Romana. \u2014 142-147. Daquele clastro etc., Dante nesta<br \/>\nvis\u00e3o, que imita as vis\u00f5es do Apocalipse, pretende simbolizar<br \/>\nos<br \/>\nfunestos efeitos das riquezas que foram oferecidas \u00e0 Igreja. As<\/p>\n<p>514<\/p>\n<p>sete cabe\u00e7as do monstro provavelmente simbolizam os sete<br \/>\npecados capitais originados pela corrup\u00e7\u00e3o. \u2014 149. Meretriz,<br \/>\na<br \/>\nC\u00faria Romana. \u2014 152. Um gigante, a casa real de Fran\u00e7a<br \/>\ne,<br \/>\ntalvez, mais particularmente, Felipe o Belo que umas vezes foi<br \/>\namigo, outras inimigo dos Papas, conseguindo que o Papa<br \/>\nClemente V, em 1305, transportasse a Santa S\u00e9 para Avinh\u00e3o.<\/p>\n<p>515<\/p>\n<p>CANTO XXXIII<\/p>\n<p>Beatriz anuncia, com linguagem misteriosa, que brevemente<br \/>\naparecer\u00e1 quem libertar\u00e1 a Igreja e a It\u00e1lia da servid\u00e3o<br \/>\ne da<br \/>\ncorrup\u00e7\u00e3o. Imp\u00f5e-lhe que escreva o que viu. Pede, depois,<br \/>\na<br \/>\nMatilde que o mergulhe nas \u00e1guas do rio Euno\u00e9. Dante, depois<br \/>\nda<br \/>\nimers\u00e3o, sente-se mais forte e disposto a subir \u00e0s estrelas.<\/p>\n<p>DEUS, venerunt gentes, alternando,<br \/>\nEm coros dois, suave melodia<br \/>\n3 Cantam as ninfas, pranto derramando.<\/p>\n<p>E Beatriz, a suspirar, ouvia<br \/>\nT\u00e3o dorida, que pouco mais, outrora<br \/>\n6 Junto da Cruz mostrara-se Maria.<\/p>\n<p>Quando lhe coube al\u00e7ar a voz canora,<br \/>\nEntre as formosas virgens posta em p\u00e9,<br \/>\n9 Com santo ardor, que as faces lhe colora:<\/p>\n<p>\u201cModicum et non videbitis me,<br \/>\nCaras irm\u00e3s, et iterum\u201d \u2014 tornava \u2014<br \/>\n12 \u201cModicum et vos videbitis me\u201d.<\/p>\n<p>Depois, antes de si as colocava,<br \/>\nE a mim e a dama e ao Vate, que restara,<br \/>\n15 Pra seguir os seus passos acenava.<\/p>\n<p>516<\/p>\n<p>Ia assim: que ela houvesse eu n\u00e3o julgara<br \/>\nO seu d\u00e9cimo passo em terra posto,<br \/>\n18 Eis sua vista na minha se depara.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMais perto\u201d \u2014 disse com sereno rosto \u2014<br \/>\n\u201cCaminha; pois falar quero contigo,<br \/>\n21 E o leves a me ouvir star bem disposto.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Beatriz, logo em tendo-me contigo,<br \/>\n\u2014 \u201cPor que\u201d \u2014 prossegue \u2014\u201cirm\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1s<br \/>\nquerido<br \/>\n24 Me inquirir, quando vens assim comigo?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Fiquei, como o que o esp\u00edrito aturdido,<br \/>\nAo seu superior falando sente,<br \/>\n27 E apenas balbucia confundido.<\/p>\n<p>Falei, com voz cortada, reverente:<br \/>\n\u2014 \u201cQuanto hei mister sabeis mui bem, senhora,<br \/>\n30 O que seja em prol meu sabeis prudente.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDe temor e vergonha desde agora\u201d \u2014<br \/>\nTornou \u2014 \u201cisento s\u00ea, stando ao meu lado:<br \/>\n33 Como quem sonha as vozes n\u00e3o demora!<\/p>\n<p>\u201cA caixa, que a serpente h\u00e1 devastado,<br \/>\nJ\u00e1 foi: de Deus castigo aos criminosos<br \/>\n36 Ser n\u00e3o pode por sopa obliterada.<\/p>\n<p>517<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o faltar\u00e3o herdeiros cuidadosos<br \/>\nDa \u00e1guia, que ao carro as suas plumas dera,<br \/>\n39 E o tornou monstro e presa aos cobi\u00e7osos.<\/p>\n<p>\u201cVejo o porvir e a voz minha assevera<br \/>\nO que prop\u00ednquos astros anunciam:<br \/>\n42 Nada os estorva, nem seu curso altera.<\/p>\n<p>\u201cUm quinhentos dez cinco prenunciam,<br \/>\nQue o c\u00e9u manda a punir a depravada<br \/>\n45 E o gigante: ambos juntos delinquiam.<\/p>\n<p>\u201cA narra\u00e7\u00e3o, talvez, de treva in\u00e7ada,<br \/>\nComo as do Esfinge e T\u00eamis n\u00e3o a entendas,<br \/>\n48 Por parecer-te ao sp\u00edrito enleada.<\/p>\n<p>\u201cFar\u00e3o, por\u00e9m, os fatos que a compreendas;<br \/>\nQuais N\u00e1iades, dar\u00e3o do enigma a chave,<br \/>\n51 Sem dano ao trigo, ao gado, sem contendas<\/p>\n<p>\u201cQue na mem\u00f3ria tua isto se grave:<br \/>\nComo te falo, assim o ensina aos vivos<br \/>\n54 Que se afanam em buscar morte insuave.<\/p>\n<p>\u201cLembra os que h\u00e1s visto feitos aflitivos.<br \/>\nDa \u00e1rvore o stado narra, que te espanta,<br \/>\n57 Quanto sofreu assaltos dois esquivos.<\/p>\n<p>\u201cQuem despoja ou mutila a sacra planta<br \/>\nBlasfema a Deus, de fato o ofende ousado:<\/p>\n<p>518<\/p>\n<p>60 Para o seu uso s\u00f3 a criou santa.<\/p>\n<p>\u201cSperou a primeira alma, que h\u00e1 provado<br \/>\nDo seu fruto, anos mil cinco gemendo<br \/>\n63 Por quem penas em si deu do pecado.<\/p>\n<p>\u201cTua alma dorme, se n\u00e3o st\u00e1 sabendo<br \/>\nA causa singular, que a planta h\u00e1 feito<br \/>\n66 T\u00e3o alta, o cimo tal largura tendo.<\/p>\n<p>\u201cSe da \u00e1gua d\u2019Elsa n\u00e3o trouxesse o efeito<br \/>\nO teu v\u00e3o cogitar sobre essa mente,<br \/>\n69 Que escurece, qual sangue \u00e0 amora o aspeito<\/p>\n<p>\u201cFora o que eu disse j\u00e1 suficiente<br \/>\nPara o justo preceito compreenderes,<br \/>\n72 Que Deus h\u00e1 posto sobre o tronco ingente.<\/p>\n<p>\u201cComo te ofusca a luz dos meus dizeres.<br \/>\nPorque de pedra tens o entendimento,<br \/>\n75 Que, afeito \u00e0 culpa, n\u00e3o permite veres,<\/p>\n<p>\u201cUma imagem te guarde o pensamento,<br \/>\nComo palma ao bord\u00e3o junta, voltando,<br \/>\n78 Peregrino, em rem\u00e9dio ao esquecimento.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNo c\u00e9rebro, qual cera conservando\u201d \u2014<br \/>\nTornei \u2014 \u201ca marca do sinete impresso,<br \/>\n81 Vosso verbo se ir\u00e1 perpetuando.<\/p>\n<p>519<\/p>\n<p>\u201cMas por que se sublima em tanto excesso<br \/>\nVossa palavra, sempre apetecida,<br \/>\n84 Que, alcan\u00e7\u00e1-la tentando, desfale\u00e7o?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor veres\u201d \u2014 diz \u2014 \u201cque escola pervertida,<br \/>\nH\u00e1s cursado, o que, pois, sua doutrina<br \/>\n87 Ao verbo meu n\u00e3o pode ser erguida;<\/p>\n<p>\u201cPois a vereda vossa da divina<br \/>\n\u00c9 t\u00e3o remota, quanto est\u00e1 distante<br \/>\n90 Da terra o c\u00e9u que ao alto mais se empina\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o me lembro\u201d \u2014 respondo \u00e0 excelsa<br \/>\namante<br \/>\n\u201cDe ter-me \u00e0s vossas leis nunca esquivado:<br \/>\n93 N\u00e3o diz-mo a consci\u00eancia vigilante.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPoss\u00edvel \u00e9 que estejas olvidado\u201d \u2014<br \/>\nRespondeu-me a sorrir \u2014 \u201ctem na lembran\u00e7a<br \/>\n96 Que inda h\u00e1 pouco, h\u00e1s do Lete \u00e1gua tragado,<\/p>\n<p>\u201cE se de flama o fumo d\u00e1 fian\u00e7a,<br \/>\nQue o teu querer no erro andou perdido<br \/>\n99 Demonstra o olvido teu com seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 da minha voz claro o sentido,<br \/>\nPor que mais facilmente de ora avante<br \/>\n102 Da rude mente seja percebido.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Mais demorado, entanto, e coruscante<br \/>\nNo c\u00edrc\u2019lo entrava o sol do meio-dia,<\/p>\n<p>520<\/p>\n<p>105 Como os climas diversos variante,<\/p>\n<p>Quando as damas, bem como astuto espia,<br \/>\nQue, precedendo a tropa, de andar cessa,<br \/>\n108 Se acaso novidade se anuncia,<\/p>\n<p>Paravam, ao sair da sombra espessa,<br \/>\nQual aos frios arroios murmurantes<br \/>\n111 Dos Alpes bosque verde-negro of\u2019re\u00e7a.<\/p>\n<p>Julguei ver Tigre e Eufrates n\u00e3o distantes<br \/>\nBrotar da mesma fonte juntamente<br \/>\n114 E separar-se lentos, quais amantes.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 gl\u00f3ria! \u00f3 esplendor da humana gente!<br \/>\nQual \u00e9, dizei-me, essa \u00e1gua, bipartida<br \/>\n117 Depois de proceder de uma nascente?\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSer-te deve a pergunta respondida<br \/>\nPor Matilde\u201d \u2014 tornou-me ent\u00e3o, falando<br \/>\n120 Em tom de quem por falta fosse arg\u00fcida,<\/p>\n<p>A dama disse: \u2014 \u201cTudo lhe explicando<br \/>\nJ\u00e1 stive: n\u00e3o podia haver efeito<br \/>\n123 Do Letes, a lembran\u00e7a lhe apagando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>E falou Beatriz: \u2014 \u201cPode ter feito<br \/>\nEscura a mente sua o mor cuidado,<br \/>\n126 Que o entendimento \u00e0s vezes torna estreito.<\/p>\n<p>521<\/p>\n<p>\u201cEis Euno\u00e9, que o curso h\u00e1 derivado:<br \/>\nConduze-o e, como sabes, o imergindo,<br \/>\n129 Seu cora\u00e7\u00e3o alenta desmaiado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Como alma nobre, ao bem nunca fugindo,<br \/>\nFaz do estranho querer pr\u00f3pria vontade,<br \/>\n132 Quando um simples sinal o est\u00e1 pedindo,<\/p>\n<p>A gentil dama, usando alta bondade,<br \/>\nGuiou-me e a Est\u00e1cio disse, que atendia:<br \/>\n135 \u2014 \u201cSegue-o tamb\u00e9m\u201d \u2014 com garbo e<br \/>\nmajestade<\/p>\n<p>Esse doce licor, que n\u00e3o sacia,<br \/>\nEu cantara, leitor, se desse ensejo<br \/>\n138 Da p\u00e1gina uma parte inda vazia.<\/p>\n<p>Mas, porque todas ocupadas vejo<br \/>\nE ao meu segundo C\u00e2ntico aplicadas<br \/>\n141 Da arte o freio me tolhe esse desejo.<\/p>\n<p>Como de planta as folhas renovadas<br \/>\nMais frescas na h\u00e1stea mostram-se, mais belas,<br \/>\nPuro sa\u00ed das \u00e1guas consagradas<\/p>\n<p>145 Pronto a me alar \u00e0s l\u00facidas estrelas.<\/p>\n<p>1. Deus venerunt gentes, Salmo 78, no qual David lamenta a<br \/>\ncontamina\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m: \u201cSenhor, as<br \/>\nna\u00e7\u00f5es<br \/>\nentraram no teu dom\u00ednio e contaminaram o teu templo.\u201d \u2014<br \/>\n10.<\/p>\n<p>522<\/p>\n<p>Modicus et non videbitis me, \u201cpouco tempo passar\u00e1 e n\u00e3o<br \/>\nme<br \/>\nvereis mais\u201d, S. Jo\u00e3o Ev. XVI, 16; Beatriz responde: \u201ce<br \/>\nnovamente passar\u00e1 pouco tempo e me vereis.\u201d Prov\u00e1vel alus\u00e3o<br \/>\nao pouco tempo que a Santa S\u00e9 teria ficado em Avinh\u00e3o. \u2014<br \/>\n36.<br \/>\nSopa, a sopa que, em sinal de expia\u00e7\u00e3o, o homicida comia sobre<br \/>\no t\u00famulo do assassinado. \u2014 43. Um quinhentos dez cinco, um<br \/>\nDVX, isto \u00e9, um chefe, um capit\u00e3o, enviado de Deus, o qual<br \/>\npunir\u00e1 a C\u00faria Romana e o rei da Fran\u00e7a. \u2014 47.<br \/>\nEsfinge, que<br \/>\nprop\u00f4s o enigma a \u00c9dipo. \u2014 T\u00eamis, que respondeu em<br \/>\nforma<br \/>\nobscura a Deucali\u00e3o, que a foi consultar. \u2014 49-51. N\u00e1iades,<br \/>\nninfas das fontes. \u2014 61. A primeira alma, etc. Adam esperou<br \/>\ncinco mil anos a vinda de Jesus Cristo, que tomou sobre si o<br \/>\nseu pecado. \u2014 67. Elsa, confluente do Arno. \u2014 112. Tigre e<br \/>\nEufrates etc., o Letes e o Euno\u00e9 pareciam esses dois rios; pois<br \/>\nnasciam na mesma fonte e, depois, se afastavam, aos poucos,<br \/>\num do outro.<\/p>\n<h2><a id=\"3\" name=\"3\"><\/a>Para\u00edso<\/h2>\n<p>CANTO I<\/p>\n<p>Invocando Apolo, o Poeta conta como do Para\u00edso Terrestre ele e Beatriz se<br \/>\nal\u00e7aram ao C\u00e9u, atravessando a esfera do fogo. Beatriz explica-lhe como possa<br \/>\nvencer o pr\u00f3prio peso e subir. \u00c9 atra\u00eddo pelo invenc\u00edvel amor. Seguindo as<br \/>\nteorias de Ptolomeu, Dante p\u00f5e a terra im\u00f3vel no centro do Universo e, em<br \/>\nredor dela, em \u00f3rbitas conc\u00eantricas, os c\u00e9us da Lua, de Merc\u00fario, de V\u00eanus,<br \/>\ndo Sol, de Marte, de J\u00fapiter, de Saturno, a oitava esfera, que \u00e9 a das estrelas<br \/>\nfixas, a nona, ou primeiro m\u00f3vel, e finalmente o Emp\u00edreo, que \u00e9 im\u00f3vel. Transportado<br \/>\npela for\u00e7a que faz rodar os c\u00e9us e pela luz sempre crescente de Beatriz, Dante<br \/>\neleva-se de um c\u00e9u para outro, e em cada um deles aparecem-lhe os esp\u00edritos<br \/>\nbem-aventurados que, quando vivos, possu\u00edram a virtude pr\u00f3pria do respectivo<br \/>\nplaneta.<\/p>\n<p>\u00c0 GL\u00d3RIA de quem tudo, aos seus acenos,<br \/>\nMove, o mundo penetra e resplandece,<br \/>\n3 Em umas partes mais em outras menos.<\/p>\n<p>No c\u00e9u onde sua luz mais aparece,<br \/>\nPortentos vi que referir, tornando,<br \/>\n6 N\u00e3o sabe ou pode quem \u00e0 terra desce;<\/p>\n<p>Pois, ao excelso desejo se acercando,<br \/>\nA mente humana se aprofunda tanto<br \/>\n9 Que a mem\u00f3ria se esvai, lembrar tentando.<\/p>\n<p>525<\/p>\n<p>Os tesouros, por\u00e9m, do reino santo,<br \/>\nQue arrecadar-me p\u00f4de o entendimento,<br \/>\n12 Ser\u00e3o mat\u00e9ria agora de meu canto.<\/p>\n<p>Faz-me neste final cometimento,<br \/>\nBom Febo, do teu estro eleito vaso,<br \/>\n15 Que tenha ao louro amado valimento.<\/p>\n<p>Fora-me assaz um cimo do Parnaso;<br \/>\nDaquele e do outro necessito agora<br \/>\n18 Para vencer na li\u00e7a a que me emprazo.<\/p>\n<p>Cala em meu peito, alenta o que te exora!<br \/>\nS\u00ea como quando a Marsias arrancado<br \/>\n21 H\u00e1s do corpo a bainha protetora!<\/p>\n<p>Se, divinal virtude, eu for entrado<br \/>\nTanto de ti, que a sombra represente<br \/>\n24 Do reino que em minha alma est\u00e1 gravado,<\/p>\n<p>Ao teu querido lenho eu, diligente,<br \/>\nIrei, por ter a c\u2019roa merecida<br \/>\n27 De ti e deste assunto preminente.<\/p>\n<p>T\u00e3o rara vez \u00e9, Padre, igual colhida<br \/>\nQuando triunfa C\u00e9sar ou poeta<br \/>\n30 (Culpa e vergonha do querer nascida)<\/p>\n<p>Que \u00e0 D\u00e9lfica Deidade a predileta<br \/>\nFronde excitar devera alta alegria,<\/p>\n<p>526<\/p>\n<p>33 Se um cora\u00e7\u00e3o por t\u00ea-la se inquieta.<\/p>\n<p>Grande inc\u00eandio em centelha principia;<br \/>\nVoz, ap\u00f3s mim, talvez, mais eloq\u00fcente<br \/>\n36 Mais gra\u00e7a em Cirra alcance e mais valia!<\/p>\n<p>Por v\u00e1rias portas surge refulgente<br \/>\nA l\u00e2mpada do mundo; mas daquela,<br \/>\n39 Onde orbes quatro brilham juntamente<\/p>\n<p>Com tr\u00eas cruzes, caminha sob estrela<br \/>\nMelhor, em modo que a mundana cera<br \/>\n42 Mais ao seu jeito retempera e assela.<\/p>\n<p>Dali nascia a luz; daqui viera<br \/>\nA noite; e um hemisf\u00e9rio branquejava<br \/>\n45 Enquanto ao outro a treva enegrecera,<\/p>\n<p>Eis vi que \u00e0 esquerda Beatriz fitava<br \/>\nOlhos no sol: jamais \u00e1guia afrontara<br \/>\n48 Tanto desse astro o lume, que ofuscava.<\/p>\n<p>Como o raio, que a luz de si despara,<br \/>\nReflete outro, que preito retrocede,<br \/>\n51 Qual romeiro, que \u00e0 volta se prepara,<\/p>\n<p>Esse ato, com que assim Beatriz procede,<br \/>\nMeu se tornou nos olhos infundido,<br \/>\n54 E o fitei mais que a um homem se concede.<\/p>\n<p>527<\/p>\n<p>Muito do que \u00e9 na terra defendido,<br \/>\nNo Para\u00edso \u00e9 dado \u00e0 humana gente,<br \/>\n57 A quem fora por dote prometido.<\/p>\n<p>Fitar o sol n\u00e3o pude longamente.<br \/>\nMas assaz para o ver fulgir no espa\u00e7o,<br \/>\n60 Qual ferro, que do fogo sai candente.<\/p>\n<p>Eis cuidei ver um dia, ao mesmo passo,<br \/>\nLuzir com outro, qual se Deus fizera<br \/>\n63 Do c\u00e9u um sol segundo no rega\u00e7o.<\/p>\n<p>Sorvidos Beatriz na eterna esfera<br \/>\nOs olhos tinha; os meus que eu desviara<br \/>\n66 Dali no seu semblante embevecera.<\/p>\n<p>Contemplando-a, o meu ser se transformara;<br \/>\nTal Glauco, portentosa erva comendo,<br \/>\n69 Igual do mar aos Deuses se tornara.<\/p>\n<p>Significar per verba n\u00e3o podendo<br \/>\nO que \u00e9 transumanar o exemplo baste<br \/>\n72 Ao que o exp\u2019rimente, a gra\u00e7a recebendo.<\/p>\n<p>De ti, que por teu lume me exaltaste,<br \/>\nAmor do meu Senhor \u00e9 conhecido,<br \/>\n75 Se em mim somente havia o que criaste.<\/p>\n<p>Quando as Sferas, no giro, conduzido<br \/>\nPor ti no eterno anelo, me enlevaram<\/p>\n<p>528<\/p>\n<p>78 Com hino ao teu compasso dirigido,<\/p>\n<p>Tantos et\u00e9reos plainos se mostraram<br \/>\nInflamados do sol, que nunca os rios,<br \/>\n81 Nem as chuvas um lago igual formaram.<\/p>\n<p>Essa luz, esses sons (jamais ouvi-os)<br \/>\nDe saber tais desejos me acenderam<br \/>\n84 Que t\u00e3o pungentes de antes n\u00e3o senti-os.<\/p>\n<p>Ela em meu cora\u00e7\u00e3o os viu como eram:<br \/>\nPor serenar-me o \u00e2nimo agitado,<br \/>\n87 Sem me escutar, seus l\u00e1bios se moveram,<\/p>\n<p>E disse: \u2014 \u201cO teu esp\u00edrito anda errado<br \/>\nCom falso imaginar: \u2019starias vendo<br \/>\n90 O que n\u00e3o v\u00eas, se houveras afastado.<\/p>\n<p>\u201cTe enganas, sobre a terra achar-te crendo:<br \/>\nO raio t\u00e3o veloz do c\u00e9u n\u00e3o desce,<br \/>\n93 Como tu que p\u2019ra o c\u00e9u vais ascendendo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Se a d\u00favida primeira desaparece,<br \/>\n\u00c0 voz que o riso segue, lhe escutando,<br \/>\n96 Inda mais outra a mente me escurece.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cModera-se o meu pasmo\u201d \u2014 lhe tornando<br \/>\nFalei \u2014 \u201cmas ora muito mais me admira<br \/>\n99 Como estes corpos leves vou passando.\u201d \u2014<\/p>\n<p>529<\/p>\n<p>Ouvindo, Beatriz terna suspira<br \/>\nE me encara piedosa, com semblante<br \/>\n102 De m\u00e3e que fala ao filho que delira.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cConservam\u201d \u2014 respondeu-me \u2014 \u201cordem<br \/>\nconstante<br \/>\nAs cousas entre si: esta \u00e9 a figura<br \/>\n105 Que o universo ao Senhor faz semelhante.<\/p>\n<p>\u201cAli v\u00ea cada uma alta criatura<br \/>\nDo Poder Sumo, bem ao claro, o selo,<br \/>\n108 Alvo sublime, que essa lei procura.<\/p>\n<p>\u201cCada um entre na ordem, que eu revelo,<br \/>\nSe vai por modos v\u00e1rios inclinando,<br \/>\n111 Mais ou menos, ao seu princ\u00edpio belo.<\/p>\n<p>\u201cPara portos dif\u2019rentes navegando<br \/>\nNo vasto mar do ser, cada qual segue<br \/>\n114 Os instintos que Deus lhe deu, criando.<\/p>\n<p>\u201cPor Ele a flama \u00e0 lua alar consegue,<br \/>\nPor Ele o cora\u00e7\u00e3o mortal se agita<br \/>\n117 E a terra em sua contra\u00e7\u00e3o prossegue.<\/p>\n<p>\u201cSeu poder n\u00e3o somente se exercita,<br \/>\nQual arco em seta, em bruto inconsciente,<br \/>\n120 Mas nos entes, que amor, raz\u00e3o concita.<\/p>\n<p>\u201cTudo ordenando, o Autor Onipotente<\/p>\n<p>530<\/p>\n<p>Com sua luz tem o c\u00e9u sempre aquietado,<br \/>\n123 Em que gira o que vai mais velozmente.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 l\u00e1, como a um alvo decretado,<br \/>\nDesse arco impele a for\u00e7a poderosa,<br \/>\n126 Quem conduz tudo a venturoso estado.<\/p>\n<p>\u201cMas, como, \u00e0s mais das vezes, revoltosa<br \/>\nA forma n\u00e3o responde ao intento da arte,<br \/>\n129 Porque a mat\u00e9ria \u00e9 na surdez teimosa,<\/p>\n<p>\u201cAssim desta vereda se desparte<br \/>\nA criatura, para o bem guiada,<br \/>\n132 Que pode propender para outra parte,<\/p>\n<p>\u201cSe, de falso prazer sendo arrastada,<br \/>\nBaixa \u00e0 terra, qual fogo desprendido,<br \/>\n135 De s\u00fabito, da nuvem carregada.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o seja mais de espanto possu\u00eddo:<br \/>\nComo ao val rio cai de monte altivo,<br \/>\n138 Para a esfera estel\u00edfera \u00e9s erguido.<\/p>\n<p>\u201cDe maravilha fora em ti motivo<br \/>\nN\u00e3o subindo; pois st\u00e1s de estorvo isento;<br \/>\nN\u00e3o fica imoto em terra o fogo vivo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>142 Disse e os olhos fitou no firmamento.<\/p>\n<p>531<\/p>\n<p>14. Febo, Apolo. \u2014 16. Parnaso, o monte Parnaso tinha dois<br \/>\ncimos; num moravam as Musas com Baco, no outro (Elic\u00e3o ou<br \/>\nCirra) morava Apolo. \u2014 20 Marsias, o s\u00e1tiro Marsias desafiou<br \/>\nApolo e foi esfolado pelo deus. \u2014 31. D\u00e9lfica deidade, Apolo.<br \/>\n\u2014<br \/>\n36. Cirra, parte do Parnaso consagrada a Apolo. \u2014 38. A<br \/>\nl\u00e2mpada do mundo, o sol, 38-41. Daquela onde orbes quatro,<br \/>\netc. o ponto do c\u00e9u no qual se conjuntam quatro c\u00edrculos<br \/>\ncelestes, os quais entrecortando-se formam tr\u00eas cruzes.<br \/>\nCaminha sob estrela melhor, a constela\u00e7\u00e3o do \u00c1ries. \u2014<br \/>\n41.<br \/>\nMundana cera, a mat\u00e9ria terrestre. \u2014 43-45. Dali nascia a luz;<br \/>\ndaqui viera a noite, no hemisf\u00e9rio do Purgat\u00f3rio amanhecia;<br \/>\nno<br \/>\nnosso hemisf\u00e9rio ca\u00eda a noite. \u2014 68. Glauco, pescador<br \/>\nmitol\u00f3gico, ao comer uma erva marinha transformou-se em<br \/>\ndeus do mar. \u2014 122-23. O C\u00e9u sempre aquietado, em que gira o<br \/>\nque vai mais velozmente, o Emp\u00edreo im\u00f3vel, dentro ou embaixo<br \/>\ndo qual gira o primeiro m\u00f3vel, que \u00e9 o mais veloz dos c\u00e9us.<\/p>\n<p>532<\/p>\n<p>CANTO II<\/p>\n<p>Sobem \u00e0 lua. Exorta\u00e7\u00e3o aos leitores. Dante pergunta<br \/>\na Beatriz se<br \/>\nas manchas da lua dependem da maior ou menor densidade do<br \/>\nastro. Beatriz confuta o erro. Todos os astros s\u00e3o iluminados pela<br \/>\nvirtude que do primeiro m\u00f3vel se difunde aos c\u00e9us sotopostos.<br \/>\nNa<br \/>\nlua a virtude \u00e9 menor que nos outros c\u00e9us.<\/p>\n<p>V\u00d3S, que em fr\u00e1gil barquinha navegando,<br \/>\nDesejosos de ouvir, haveis seguido<br \/>\n3 Meu baixel, que proeja e vai cantando,<\/p>\n<p>Volvei \u00e0 plaga, donde haveis partido,<br \/>\nO p\u00e9lago evitai; que, em me perdendo,<br \/>\n6 Vosso rumo talvez tereis perdido.<\/p>\n<p>Ondas ningu\u00e9m cortou, que vou correndo,<br \/>\nSopra Minerva e me conduz Apolo<br \/>\n9 E o Norte as Musas mostram-me, a que eu<br \/>\ntendo.<\/p>\n<p>V\u00f3s, que, raros, a tempo haveis o colo<br \/>\nErguido ao p\u00e3o dos anjos, que alimenta,<br \/>\n12 Mas n\u00e3o sacia, no terr\u00e1queo solo,<\/p>\n<p>A vossa nau guiai, de medo isenta,<br \/>\nNo salso argento, ap\u00f3s a minha esteira,<\/p>\n<p>533<\/p>\n<p>15 Enquanto \u00e1gua o seu sulco inda apresenta.<\/p>\n<p>A que em Colcos surgiu gente guerreira,<br \/>\nMenos que v\u00f3s, at\u00f4nita ficara<br \/>\n18 Jas\u00e3o vendo aplicado \u00e0 sementeira.<\/p>\n<p>Perp\u00e9tua, inata sede nos tomara<br \/>\nDo imp\u00e9rio deiforme e nos levava<br \/>\n21 Quase bem como o c\u00e9u, que jamais p\u00e1ra.<\/p>\n<p>Olhava o c\u00e9u Beatriz, eu a encarava.<br \/>\nT\u00e3o depressa talvez, quanto arrojada<br \/>\n24 Ao ar, a seta do arco se destrava,<\/p>\n<p>Cousa vi, que prendeu maravilhada<br \/>\nA vista minha s\u00fabito; e ent\u00e3o ela,<br \/>\n27 Que do meu cogitar stava inteirada,<\/p>\n<p>Voltou-se e disse leda, quanto bela:<br \/>\n\u201cA Deus eleva a mente, agradecido,<br \/>\n30 Chegados somos \u00e0 primeira estrela.\u201d<\/p>\n<p>L\u00facido, espesso, s\u00f3lido e polido<br \/>\nVulto, qual nuvem, nos cobrir parece,<br \/>\n33 Quase diamante pelo sol ferido.<\/p>\n<p>Na per\u2019la eterna entramos: assim desce<br \/>\nRaio de luz pela \u00e1gua, que recebe<br \/>\n36 No seio, mas unida permanece.<\/p>\n<p>534<\/p>\n<p>Se eu era corpo, e aqui se n\u00e3o percebe<br \/>\nComo uma dimens\u00e3o outra compreende,<br \/>\n39 Sen\u00e3o se um corpo em outro corpo embebe,<\/p>\n<p>Com mais raz\u00e3o desejo em n\u00f3s se acende<br \/>\nDe ver aquela ess\u00eancia, que \u00e9 patente<br \/>\n42 Como a nossa natura a Deus se prende.<\/p>\n<p>Ali o que por f\u00e9 se cr\u00ea somente<br \/>\nSem provas por si mesmo ser\u00e1 noto,<br \/>\n45 Como a verdade prima o que o home\u2019 assente.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAnte o Senhor com \u00e2nimo devoto<br \/>\nHumilho-me\u201d \u2014 tornei-lhe \u2014 \u201centernecido,<br \/>\n48 Pois do mundo mortal me tem remoto.<\/p>\n<p>\u201cMas dizei: neste corpo o que tem sido<br \/>\nAs manchas negras, com que l\u00e1 na terra<br \/>\n51 Sobre Caim se h\u00e3o f\u00e1bulas urdido.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Sorriu-se e respondeu: \u2014 \u201cSe assim tanto erra<br \/>\nDos mortais o ju\u00edzo no que a chave<br \/>\n54 Dos sentidos verdade n\u00e3o descerra,<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o mais depois o espanto em ti se agrave;<br \/>\nPois v\u00eas como, aos sentidos se rendendo,<br \/>\n57 Nos curtos v\u00f4os a raz\u00e3o se trave.<\/p>\n<p>\u201cMas fala, id\u00e9ias tuas me dizendo.\u201d \u2014<br \/>\n\u2014 \u201cO que parece aqui ser diferente<\/p>\n<p>535<\/p>\n<p>60 De corpo raro e denso vir stou crendo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTu ver\u00e1s\u201d \u2014 replicou \u2014 \u201cbem<br \/>\nclaramente<br \/>\nSer falsa a cren\u00e7a tua, se escutares<br \/>\n63 Os argumentos, que lhe oponho em frente.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNa oitava esfera h\u00e1 muitos luminares,<br \/>\nNos quais, por qualidade e por grandeza,<br \/>\n66 Notam-se aspetos v\u00e1rios, singulares.<\/p>\n<p>\u201cSe o denso e o raro atua, com certeza<br \/>\nVirtude \u00fanica em todos tem reg\u00eancia,<br \/>\n69 Influindo com mais, menos graveza:<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o as virtudes v\u00e1rias conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\nDos princ\u00edpios formais que destru\u00eddos<br \/>\n72 Seriam, exceto esse: \u00e9 de evid\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cSe s\u00e3o por corpo raro produzidos<br \/>\nTais sinais, ou neste astro muitos postos<br \/>\n75 De mat\u00e9ria est\u00e3o destitu\u00eddos,<\/p>\n<p>\u201cOu, como o gordo e o magro sobrepostos<br \/>\nNo corpo v\u00eas, quadernos diferentes<br \/>\n78 Este astro em seu volume tem dispostos.<\/p>\n<p>\u201cNesse caso estariam bem patentes<br \/>\nNos eclipses do sol da luz efeitos,<br \/>\n81 Que s\u00e3o, nos corpos raros, transparentes.<\/p>\n<p>536<\/p>\n<p>\u201cAssim n\u00e3o \u00e9. No outro, se desfeitos<br \/>\nForem seus fundamentos, demonstrado<br \/>\n84 Terei teu erro em ambos os respeitos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o indo o raro de um ao outro lado<br \/>\nLimite deve haver onde, j\u00e1 denso,<br \/>\n87 N\u00e3o possa o corpo ser atravessado;<\/p>\n<p>\u201cE sobre si o lume torne intenso,<br \/>\nBem como a cor, por vidro refletida,<br \/>\n90 Ao qual o chumbo \u00e9 por detr\u00e1s apenso.<\/p>\n<p>\u201cDir\u00e1s que a luz se mostra escurecida<br \/>\nA\u00ed, mais do que outra e em qualquer parte,<br \/>\n93 Por ser de mais dist\u00e2ncia refrangida.<\/p>\n<p>\u201cDesta inst\u00e2ncia consegue libertar-te<br \/>\nExperi\u00eancia, se dela te ajudares,<br \/>\n96 Por ser s\u00f3i a fonte de toda arte.<\/p>\n<p>\u201cDe espelhos tr\u00eas se a dois tu colocares<br \/>\nCom igual intervalo, e o derradeiro<br \/>\n99 Mais longe, entre os primeiros encarares;<\/p>\n<p>\u201cSe houveres pelas costas um luzeiro,<br \/>\nQue os espelhos j\u00e1 ditos esclare\u00e7a,<br \/>\n102 Dos dois repercutido e do terceiro:<\/p>\n<p>Conquanto uma extens\u00e3o menor pare\u00e7a<br \/>\nNo espelho que se avista mais distante,<\/p>\n<p>537<\/p>\n<p>105 Ver\u00e1s como igual luz o resplande\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cComo aquecida do astro rutilante,<br \/>\nA neve se derrete e se esvaece,<br \/>\n108 A frigidez perdendo e a cor brilhante,<\/p>\n<p>\u201cAssim, pois que o teu erro desparece,<br \/>\nMostra-te clar\u00e3o vou t\u00e3o refulgente,<br \/>\n111 Que cintila qual luz que do c\u00e9u desce.<\/p>\n<p>\u201cNo c\u00e9u da paz divina um corpo ingente<br \/>\nGira: em sua virtude est\u00e1 guardado<br \/>\n114 O ser de quanto \u00e9 ele o continente.<\/p>\n<p>\u201cO c\u00e9u seguinte, de astros marchetado,<br \/>\nAquele ser reparte por ess\u00eancias<br \/>\n117 Distintas, mas que tem nele encerrado.<\/p>\n<p>\u201cOs outros c\u00e9us, por v\u00e1rias influ\u00eancias,<br \/>\nDistin\u00e7\u00f5es que cont\u00eam, disp\u00f5e, lhes dando<br \/>\n120 Quanto serve aos seus fins e conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>\u201cEsses \u00f3rg\u00e3os do mundo (est\u00e1s notando)<br \/>\nSeguem, pois, grada\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o varia;<br \/>\n123 V\u00eam de cima os que abaixo v\u00e3o passando.<\/p>\n<p>\u201cComprendes j\u00e1 como \u00e9 segura a via,<br \/>\nPor onde ir \u00e0 verdade desejada:<br \/>\n126 Depois o vau tu passar\u00e1s sem guia.<\/p>\n<p>538<\/p>\n<p>\u201cDeve aos santos motores imputada<br \/>\nSer, como ao fabro o efeito do martelo,<br \/>\n129 Dos c\u00e9us a a\u00e7\u00e3o, desta arte revelada.<\/p>\n<p>\u201cE o c\u00e9u, que tantos lumes fazem belo,<br \/>\nDo Ser Supremo, que no espa\u00e7o o agita.<br \/>\n132 A imagem toma e a insculpe como selo.<\/p>\n<p>\u201cE como alma, que a humana argila habita,<br \/>\nPor diferentes membros atuando,<br \/>\n135 Faculdades diversas exercita,<\/p>\n<p>\u201cA Intelig\u00eancia assim multiplicando<br \/>\nDos astros nos milh\u00f5es sua bondade,<br \/>\n138 Sobre a Unidade sua v\u00eas girando.<\/p>\n<p>\u201cCada virtude, em sua variedade,<br \/>\nA cada precioso corpo \u00e9 unida<br \/>\n141 A que d\u00e1, como em v\u00f3s vitalidade.<\/p>\n<p>\u201cA virtude, em tais corpos infundida<br \/>\nRefulge, de um ser ledo procedente<br \/>\n144 Qual ledice em pupila refletida.<\/p>\n<p>\u201cDa\u00ed vem que uma luz de outra \u00e9 dif\u2019rente,<br \/>\nN\u00e3o por efeito do que \u00e9 denso e raro:<br \/>\nEsse \u00e9 formal princ\u00edpio eficiente<\/p>\n<p>148 Conforme a sua a\u00e7\u00e3o o turvo e o claro.\u201d \u2014<\/p>\n<p>539<\/p>\n<p>11. P\u00e3o dos anjos, teologia. \u2014 14. Salso argento, o mar. \u2014<br \/>\n16. A<br \/>\nque em Colcos surgiu gente guerreira, os Argonautas que se<br \/>\nespantaram quando Jas\u00e3o arou o campo com dois touros que<br \/>\nexpeliam flamas pelas narinas e semeou os dentes do monstro<br \/>\nque havia matado, do que surgiram guerreiros (Ov\u00eddio, Met. VII).<br \/>\n\u2014 34. Per\u2019la eterna, a lua. \u2014 51. Sobre Caim se h\u00e3o<br \/>\nf\u00e1bulas<br \/>\nurdido, segundo uma crendice popular, as manchas da lua<br \/>\nrepresentavam Caim carregando um feixe de espinhos. \u2014 60.<br \/>\nDe corpo raro e denso, Dante havia escrito no Conv\u00edvio que as<br \/>\nmanchas lunares eram partes rarefeitas do astro. \u2014 73-90. Se a<br \/>\nlua tivesse algumas partes transparentes n\u00e3o haveria<br \/>\npossibilidade de verificar-se o eclipse do sol. Se as partes<br \/>\nrarefeitas n\u00e3o s\u00e3o transparantes deveria haver ao oposto delas,<br \/>\ncomo num espelho, partes densas que impediriam a<br \/>\ntranspar\u00eancia. Nesse \u00faltimo caso, por\u00e9m, os raios externos,<br \/>\ncomo no espelho, deveriam refletir-se. \u2014 112. No c\u00e9u da paz,<br \/>\no<br \/>\nEmp\u00edreo. \u2014 112-13. Um corpo ingente gira, o primeiro m\u00f3vel,<br \/>\nque influencia os outros c\u00e9us. \u2014 127. Santos motores, os anjos<br \/>\nque agem em cada um dos c\u00e9us. \u2014 130-132. E o c\u00e9u, que<br \/>\ntantos<br \/>\nlumes fazem belo etc., aquele C\u00e9u que tantas estrelas fazem<br \/>\nbelo, recebe da divina intelig\u00eancia a virtude e a imprime nos<br \/>\noutros c\u00e9us.<\/p>\n<p>540<\/p>\n<p>CANTO III<\/p>\n<p>Na lua est\u00e3o as almas daqueles que n\u00e3o cumpriram plenamente<br \/>\nseus votos religiosos. Aparece ao Poeta a alma de Picarda Donati,<br \/>\nque resolve uma sua d\u00favida sobre o contentamento dos esp\u00edritos<br \/>\nbem-aventurados. Narra-lhe como foi violentamente tirada do<br \/>\nmosteiro. Indica-lhe a alma da imperatriz Constan\u00e7a.<\/p>\n<p>O SOL por quem primeiro ardeu meu peito,<br \/>\nProvando e refutando, me mostrara<br \/>\n3 Da formosa verdade o doce aspeito.<\/p>\n<p>Por confessar-me do erro, em que vagara,<br \/>\nQuanto poss\u00edvel fosse, convencido,<br \/>\n6 Mais alto a fronte para a sua al\u00e7ara.<\/p>\n<p>Eis fui de uma vis\u00e3o tal possu\u00eddo,<br \/>\nQue olvidei meu desejo inteiramente,<br \/>\n9 Ficando em contempl\u00e1-la submergido.<\/p>\n<p>Bem como em cristal puro e transparente,<br \/>\nOu n\u00e1gua clara, l\u00edmpida e tranq\u00fcila,<br \/>\n12 Que deixa \u00e0 vista o fundo seu patente,<\/p>\n<p>A imagem nossa quase se aniquila,<br \/>\nEm modo, que uma per\u2019la em n\u00edvea fronte<br \/>\n15 Se faz mais percept\u00edvel \u00e0 pupila,<\/p>\n<p>541<\/p>\n<p>Assim, dispostas a falar defronte<br \/>\nV\u00e1rias figuras vi: eu no erro oposto<br \/>\n18 De Narciso ca\u00ed amando a fonte.<\/p>\n<p>Eu, cuidando as fei\u00e7\u00f5es do seu composto<br \/>\nVer num espelho, s\u00fabito volvia,<br \/>\n21 Por bem saber quem fosse, atr\u00e1s o rosto.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m vi. Logo o gesto me atra\u00eda<br \/>\nDa doce guia, que, a sorir-me estando,<br \/>\n24 Dos santos olhos no esplendor ardia.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNo sorriso, n\u00e3o pasmes, reparando,<br \/>\nA causa \u00e9\u201d \u2014 diz \u2014 \u201cteu pueril engano,<br \/>\n27 \u00c0 verdade caminhas vacilando.<\/p>\n<p>\u201cAndas em falso, como s\u00f3is, de plano:<br \/>\nVerdadeiras subst\u00e2ncias est\u00e1s vendo;<br \/>\n30 Trouxe-as aqui dos votos seus o dano.<\/p>\n<p>\u201cInterroga, o que ouvires crer devendo;<br \/>\nPois da verdade a luz, que as esclarece,<br \/>\n33 As conduz, de todo erro as defendendo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Volto-me ent\u00e3o \u00e0 sombra, que parece<br \/>\nMais desejosa de falar: torvado<br \/>\n36 Come\u00e7o, e a voz impaci\u00eancia empece.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTu, esp\u00edrito eleito, que, enlevado,<\/p>\n<p>542<\/p>\n<p>Da vida eterna aqui fruis a do\u00e7ura,<br \/>\n39 Que entende s\u00f3 quem tem expr\u2019imentado,<\/p>\n<p>\u201cGr\u00e3 merc\u00ea me far\u00e1s, se porventura<br \/>\nDisseres o teu nome e a sorte vossa.\u201d \u2014<br \/>\n42 A responder-me leda se apressura.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAo bom desejo a caridade nossa,<br \/>\nComo a que manda a corte sua inteira<br \/>\n45 Imit\u00e1-la, defere quanto possa.<\/p>\n<p>\u201cEu era l\u00e1 no mundo virgem freira:<br \/>\nDiz-te a mem\u00f3ria, se as fei\u00e7\u00f5es me guarda,<br \/>\n48 Que sou, posto mais bela, e verdadeira.<\/p>\n<p>\u201cAtenta bem: ver\u00e1s que sou Picarda:<br \/>\nEstou nesta bendita companhia,<br \/>\n51 Venturosa na esfera, que \u00e9 mais tarda.<\/p>\n<p>\u201cAs nossas afei\u00e7\u00f5es que inflama e guia<br \/>\nSomente a inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u2019rito Santo,<br \/>\n54 Enlevam-se em cumprir ordens que envia.<\/p>\n<p>\u201cA sorte, ao parecer somenos tanto,<br \/>\nNos coube, por ter sido descurado<br \/>\n57 O sacro voto e em parte posto a um canto.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Respondi-lhe: \u2014 \u201cNo aspeito sublimado<br \/>\nVosso rebrilha um n\u00e3o sei que divino,<br \/>\n60 Que o tem do que foi de antes transmutado.<\/p>\n<p>543<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o fui, pois, em lembrar-me repentino;<br \/>\nPor\u00e9m, do que disseste me ajudando,<br \/>\n63 Eu do que h\u00e1s sido em recordar-me atino.<\/p>\n<p>\u201cMas v\u00f3s que estais aqui dita logrando<br \/>\nN\u00e3o sentis de outro c\u00e9u desejo ardente<br \/>\n66 Por ver mais alto mais amor gozando?\u201d \u2014<\/p>\n<p>Sorriu-se a sombra e as outras docemente;<br \/>\nE disse da alegria radiante,<br \/>\n69 O seu primeiro amor como quem sente:<\/p>\n<p>\u201cRege o nosso querer, em paz constante,<br \/>\nA caridade, irm\u00e3o: s\u00f3 desejamos<br \/>\n72 O que ora temos e n\u00e3o mais avante.<\/p>\n<p>\u201cAnelando ir mais alto do que estamos,<br \/>\nSer\u00edamos rebeldes \u00e0 vontade,<br \/>\n75 A que aprouve esta est\u00e2ncia, que habitamos.<\/p>\n<p>\u201cPois nos cumpre existir na caridade,<br \/>\nSurgir n\u00e3o pode em n\u00f3s tal pensamento,<br \/>\n78 Dessa virtude oposto \u00e0 santidade.<\/p>\n<p>\u201cCondi\u00e7\u00e3o de eternal contentamento<br \/>\n\u00c9 preceito cumprir do Onipotente:<br \/>\n81 Um s\u00f3 com ele \u00e9 logo o nosso intento.<\/p>\n<p>\u201cDo reino em cada plaga refulgente<\/p>\n<p>544<\/p>\n<p>Somos, do reino todo muito ao grado<br \/>\n84 E do Rei, que \u00e0 sua lei nos molda a mente.<\/p>\n<p>\u201cSeu preceito a paz nossa se h\u00e1 tomado:<br \/>\nEle \u00e9 mar a que tudo precipita,<br \/>\n87 Que cria, ou faz natura ao seu mandado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o ent\u00e3o que o Para\u00edso habita<br \/>\nQuem st\u00e1 do c\u00e9u em qualquer parte, e vejo<br \/>\n90 N\u00e3o chover de um s\u00f3 modo a suma dita.<\/p>\n<p>Mas, se um manjar sacia, dado o ensejo,<br \/>\nE de outro resta o apetite vivo,<br \/>\n93 Um se agradece, expondo-se o desejo.<\/p>\n<p>Por gesto e voz assim fiz-me expressivo<br \/>\nPara a tela saber que a lan\u00e7adeira<br \/>\n96 N\u00e3o rematara com lavor ativo.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPerfeita em vida, em m\u00e9rito altaneira<br \/>\nAcima santa est\u00e1, que h\u00e1 regulado<br \/>\n99 Vestes e v\u00e9us, com que professa freira,<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 finar-se, vele ou durma ao lado<br \/>\nDesse esposo, que todo voto aceita,<br \/>\n102 Se lhe \u00e9 por caridade consagrado.<\/p>\n<p>\u201cMenina e mo\u00e7a, \u00e0 sua regra estreita<br \/>\nSubmeti-me, e do mundo me apartando<br \/>\n105 Jurei aos seus preceitos ser sujeita.<\/p>\n<p>545<\/p>\n<p>\u201cRoubou-me \u00e0 paz do claustro in\u00edquo bando,<br \/>\nMais \u00e0 maldade do que ao bem afeito:<br \/>\n108 Qual foi Deus sabe o meu viver, penando!<\/p>\n<p>\u201cEste f\u00falgido esp\u2019rito, em cujo aspeito<br \/>\n(\u00c0 direita demora-me) se acende<br \/>\n111 Quanto lume o c\u00e9u nosso tem perfeito,<\/p>\n<p>\u201cO que digo de mim de si o entende;<br \/>\nSendo freira, como eu foi-lhe arrancado<br \/>\n114 O santo v\u00e9u, que o voto \u00e0 fronte prende.<\/p>\n<p>\u201cMas, ao mundo tornando de mau grado,<br \/>\nQue os seus piedosos usos ofendia,<br \/>\n117 Guardou fiel seu peito ao sacro estado.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a excelsa Const\u00e2ncia a que radia:<br \/>\nDeu de Su\u00e1bia ao Imperador segundo<br \/>\n120 Herdeiro, em que extinguiu-se a dinastia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Calou-se; e logo do Ave o hino jucundo<br \/>\nCantou: cantando aos olhos desparece,<br \/>\n123 Qual peso, que mergulha em mar profundo.<\/p>\n<p>Segui-la a vista quis quanto pudesse;<br \/>\nDe desejo invenc\u00edvel atra\u00edda,<br \/>\n126 Voltou-se, quando em todo se esvaece,<\/p>\n<p>E em Beatriz fitou-se embevecida.<\/p>\n<p>546<\/p>\n<p>Mas era o rosto seu t\u00e3o fulgurante,<br \/>\nQue ante o lume sentiu-se esmorecida.<\/p>\n<p>130 Pelo efeito atalhei-me titubante.<\/p>\n<p>1. Sol da beleza, Beatriz \u2014 17-18. No erro oposto de Narciso,<br \/>\nNarciso se enamorou da sua imagem na fonte, tomando-a por<br \/>\npessoa verdadeira. Dante caiu no erro oposto. \u2014 49. Picarda<br \/>\nDonati, irm\u00e3 de Forese e de Corso, freira de Santa Clara, foi<br \/>\nobrigada pela sua fam\u00edlia a casar-se com Rossellino della Tosa.<br \/>\n\u2014 95-96. A tela a saber que a lan\u00e7adeira etc., o motivo pelo<br \/>\nqual<br \/>\nfaltou aos votos que tomara \u2014 98. Acima Santa est\u00e1, Santa<br \/>\nClara. \u2014 118. Const\u00e2ncia, filha de Rog\u00e9rio, rei das Ap\u00falias<br \/>\ne de<br \/>\nSic\u00edlia, casada com Henrique VI e m\u00e3e de Frederico II.<\/p>\n<p>547<\/p>\n<p>CANTO IV<\/p>\n<p>Duas d\u00favidas agitam o esp\u00edrito do Poeta. A primeira \u00e9<br \/>\nrelativa \u00e0<br \/>\ndoutrina plat\u00f4nica, segundo a qual todas as almas voltam para<br \/>\nas estrelas donde sa\u00edram. A outra, se a viol\u00eancia tolhe a<br \/>\nliberdade, como pode ser justo que as almas for\u00e7adas a romper<br \/>\nos votos tenham desconto de gl\u00f3ria? Beatriz responde \u00e0 primeira<br \/>\nd\u00favida restringindo o sentido da doutrina plat\u00f4nica.<br \/>\nRelativamente \u00e0 segunda diz que aquelas almas n\u00e3o consentiram<br \/>\nno mal, mas n\u00e3o o repararam, voltando ao claustro, quando<br \/>\ntiveram possibilidade de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>DE igual modo distantes e atraentes,<br \/>\nHomem livre entre cibos dois morrera<br \/>\n3 De fome, antes que num metesse os dentes.<\/p>\n<p>Cordeiro assim, sem se mover, temera<br \/>\nNo meio de dois lobos truculentos;<br \/>\n6 Um galgo entre dois gamos n\u00e3o correra.<\/p>\n<p>Calando-me entre opostos pensamentos,<br \/>\nLouvor n\u00e3o merecia, nem censura;<br \/>\n9 Necess\u00e1rio era ent\u00e3o nos meus intentos,<\/p>\n<p>Mas no semblante o anelo se afigura;<br \/>\nConstrangido sil\u00eancio o denuncia<br \/>\n12 Melhor que a voz, quando express\u00e3o apura.<\/p>\n<p>548<\/p>\n<p>Fez Beatriz, qual Daniel fazia<br \/>\nPara os assomos moderar da ira,<br \/>\n15 Que ao mal Nabucodonosor movia.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDos desejos cada um tua alma tira\u201d<br \/>\n\u2014 Disse \u2014 \u201ce estando em tais la\u00e7os enleada,<br \/>\n18 Tolhido o racioc\u00ednio, n\u00e3o respira.<\/p>\n<p>\u201cDiscorres: se a vontade contrastada<br \/>\nNo bem persiste, pode porventura<br \/>\n21 Em m\u00e9ritos julgar-se amesquinhada?<\/p>\n<p>\u201cTurbar-te inda outra d\u00favida procura:<br \/>\nSe das estrelas a alma torna ao meio,<br \/>\n24 Como Plat\u00e3o fil\u00f3sofo assegura.<\/p>\n<p>\u201cDestes problemas dois te nasce o enleio.<br \/>\nNo derradeiro o exame principia<br \/>\n27 Porque do erro mais fel h\u00e1 no seu seio.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o t\u00eam anjo, que em Deus mais se extasia<br \/>\nMois\u00e9s e Samuel, Jo\u00e3o Batista,<br \/>\n30 O Evangelista, nem tamb\u00e9m Maria,<\/p>\n<p>\u201cLugar em c\u00e9u dif\u2019rente do que a vista<br \/>\nDe esp\u00edritos te deu que h\u00e3o se mostrado:<br \/>\n33 Num s\u00f3 t\u00eam todos a eternal conquista.<\/p>\n<p>\u201cO Emp\u00edreo \u00e9 por todos adornado,<br \/>\nH\u00e3o todos doce vida variamente,<\/p>\n<p>549<\/p>\n<p>36 Conforme o eterno sopro \u00e9 facultado.<\/p>\n<p>\u201cSe nesta esfera os viste, certamente,<br \/>\nN\u00e3o foi por destinada lhes ter sido,<br \/>\n39 Grau s\u00f3 denota menos eminente.<\/p>\n<p>\u201cAssim por mente humana comprendido<br \/>\nSer\u00e1, pois se eleva ao entendimento<br \/>\n42 Do que \u00e9 pelos sentidos percebido.<\/p>\n<p>\u201cPor ter do que sois v\u00f3s conhecimento<br \/>\nA Escritura atribui, mas al entende,<br \/>\n45 P\u00e9s e m\u00e3os ao Senhor do firmamento.<\/p>\n<p>\u201cEm figurar a Igreja condescende<br \/>\nGabriel e Miguel e o que a Tobia<br \/>\n48 Curou, sob a fei\u00e7\u00e3o, que \u00e0 humana tende.<\/p>\n<p>\u201cTimeu esta verdade contraria<br \/>\nNo que acerca das almas argumenta;<br \/>\n51 Parece crer \u00e0 letra o que anuncia.<\/p>\n<p>\u201cAo seu astro voltar a alma sustenta,<br \/>\nSupondo que ela \u00e0 terra descendera,<br \/>\n54 Quando, por forma ao corpo unida, o alenta.<\/p>\n<p>\u201cTalvez diversa id\u00e9ia concebera<br \/>\nDo que nas vozes suas emitira,<br \/>\n57 Escarnecida ser n\u00e3o merecera.<\/p>\n<p>550<\/p>\n<p>\u201cSe a honra ou vitup\u00e9rio atribu\u00edra Aos astros de influir<br \/>\nna vida humana, 60 Na verdade talvez firmasse a mira.<\/p>\n<p>\u201cMal entendido, o seu princ\u00edpio dana O mundo quase inteiro,<br \/>\nque prestara 63 A Jove e a Marte adora\u00e7\u00e3o insana.<\/p>\n<p>\u201cA d\u00favida segunda te depara Menos veneno, pois o mal, que encerra<br \/>\n66 Para longe de mim n\u00e3o te afastara.<\/p>\n<p>\u201cQue a Justi\u00e7a Divina l\u00e1 na terra Pare\u00e7a injusta<br \/>\n\u00e9, de p\u00e9ssima heresia, 69 Argumento de f\u00e9, que jamais<br \/>\nerra.<\/p>\n<p>\u201cMas, como a humana mente poderia \u00c0s alturas alar-se da verdade,<br \/>\n72 Vou dar-te, o que o desejo te sacia.<\/p>\n<p>\u201cConstrangimento havendo, se, \u00e0 maldade A v\u00edtima se opondo,<br \/>\nem luta insiste, 75 Desculpa elas n\u00e3o t\u00eam, sem dubiedade.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se abate a vontade, se persiste; Sempre se ergue, qual<br \/>\nflama cintilante: 78 A for\u00e7a a estorce, vezes mil resiste.<\/p>\n<p>\u201cPor menos que se dobre vacilante, Cede \u00e0 for\u00e7a: voltar<br \/>\nao santo abrigo<\/p>\n<p>81 Puderam, tendo o \u00e2nimo constante.<\/p>\n<p>\u201cSe o querer fosse inteiro no perigo, Como Louren\u00e7o no braseiro<br \/>\nardente, 84 Ou M\u00facio, que \u00e0 m\u00e3o sua deu castigo, \u201cEm<br \/>\nlivres sendo, a estrada incontin\u00eanti Do dever seguiriam pressurosas;<br \/>\n87 Mas raro \u00e9 tal valor na humana gente.<\/p>\n<p>\u201cSe atendeste, raz\u00f5es dei poderosas Para ficar tua d\u00favida<br \/>\nsolvida: 90 Causa te fora a ang\u00fastias afanosas.<\/p>\n<p>\u201cMas ante os olhos ora v\u00eas erguida Outra ainda mais grave, que,<br \/>\npor certo, 93 N\u00e3o fora por ti s\u00f3 desvanecida.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 te hei bem claramente descoberto Que n\u00e3o p\u00f4de<br \/>\nmentir alma ditosa 96 Pois da Suma Verdade \u00e9 sempre perto.<\/p>\n<p>\u201cNarrou depois Picarda que extremosa No seu amor ao v\u00e9u fora<br \/>\nConst\u00e2ncia, 99 Ao rev\u00e9s do que eu disse cautelosa.<\/p>\n<p>\u201cNa exist\u00eancia h\u00e1 mais de uma circunst\u00e2ncia, Em<br \/>\nque se faz, perigos receando, 102 O que \u00e9 vedado ou move repugn\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u201cDo pai ardentes rogos respeitando, A sua m\u00e3e Alcmeon cortava<br \/>\na vida, 105 Por piedade impiedoso se tornando.<\/p>\n<p>\u201cFique, pois, a tua mente convencida De que ao querer se a for\u00e7a<br \/>\nanda ajustada, 108 N\u00e3o h\u00e1 desculpa \u00e0 falta cometida.<\/p>\n<p>\u201cA vontade absoluta \u00e9 declarada Inimiga do mal: cede temendo<br \/>\n111 Ser, pela oposi\u00e7\u00e3o, mais lastimada.<\/p>\n<p>\u201cA verdade absoluta em mira tendo, Picarda discorreu: de outra eu falava.<\/p>\n<p>114 Verdade ambas estamos defendendo.\u201d \u2014 Do santo rio a luz assim<br \/>\nmanava, Da Fonte da verdade \u00e9 derivada: 117 Cada um dos meus desejos<br \/>\ncontentava.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 do Primeiro Amante excelsa amada! \u00d3 santa\u201d<br \/>\n\u2014 eu disse \u2014 \u201ccuja voz me anima, 120 Me inunda e a for\u00e7a<br \/>\naviva \u00e0 alma abrasada! \u201cAfeto meu que ao extremo se sublima,<br \/>\nN\u00e3o basta por tornar gra\u00e7a por gra\u00e7a: 123 Que o Senhor<br \/>\nminha d\u00edvida redima! \u201cN\u00e3o h\u00e1, bem sei, n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 quem satisfa\u00e7a A mente, se a Verdade n\u00e3o comprende<\/p>\n<p>126 Fora da qual outra nenhuma passa.<\/p>\n<p>\u201cA mente ali se refocila e prende, Qual fera, que em seu antro empolga<br \/>\na presa: 129 De outra sorte o desejo em v\u00e3o se acende.<\/p>\n<p>\u201cE por isso ao p\u00e9 nasce da certeza, Como verg\u00f4ntea, a<br \/>\nd\u00favida e nos leva 132 De cimo em cimo at\u00e9 sublime alteza.<\/p>\n<p>\u201cCom toda a rever\u00eancia que vos deva, Ouso pedir-vos me expliques,<br \/>\nSenhora, 135 Outra verdade, que me est\u00e1 na treva: \u201cOs rotos votos,<br \/>\nque homem sente e chora, Pode suprir com m\u00e9rito dif\u2019rente, 138<br \/>\nQue iguale em peso o que perdera outrora?\u201d \u2014 Beatriz me encarou:<br \/>\nt\u00e3o refulgente Lhe rebrilhava o olhar e t\u00e3o divino, Que me volto,<br \/>\nsentindo a for\u00e7a ausente, 142 E, quase aniquilado, a fronte inclino.<\/p>\n<p>13. Qual Daniel etc., Beatriz interpretou o pensamento de Dante, como Daniel<br \/>\no sonho de Nabucodonosor, que queria mandar matar os seus s\u00e1bios por<br \/>\nn\u00e3o terem podido interpret\u00e1- lo. \u2014 24. Como Plat\u00e3o<br \/>\nfil\u00f3sofo assegura, segundo a teoria plat\u00f4nica as almas s\u00e3o<br \/>\ncriadas antes dos corpos e habitam as estrelas, a elas voltando, depois da<br \/>\nmorte do corpo. \u2014 28-32.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem anjo etc., todos os anjos e santos n\u00e3o t\u00eam, no<br \/>\nc\u00e9u,<\/p>\n<p>lugar diferente daquele dos esp\u00edritos que agora apareceram. \u2014<br \/>\n47. O que a Tobia curou, o Arcanjo Gabriel que curou a cegueira de Tobias.<br \/>\n\u2014 49 Timeu, di\u00e1logo de Plat\u00e3o no qual se fala da imortalidade<br \/>\nda alma. \u2014 61-63. Mal entendido, o seu princ\u00edpio dana, etc.,<br \/>\na opini\u00e3o, mal entendida, da a\u00e7\u00e3o das estrelas sobre<br \/>\na alma, talvez, leva ao erro, e, por isso, deram-se aos planetas os nomes<br \/>\nde Jove e Marte e foram eles adorados. \u2014 83.<\/p>\n<p>Louren\u00e7o, condenado a morrer queimado vivo. \u2014 84. Muzio, Scevola,<br \/>\npara punir-se, fez queimar sua m\u00e3o sobre um braseiro.<\/p>\n<p>\u2014 104. Alcmeon, filho de Anfiarau, matou a m\u00e3e Erifiles, v.<\/p>\n<p>Purgat\u00f3rio, XII, 50.<br \/>\nCANTO V<\/p>\n<p>Continuando no discurso do canto anterior, Beatriz explica a Dante que o<br \/>\nvoto \u00e9 um pacto entre o homem e Deus. Pode mudar- se a mat\u00e9ria<br \/>\ndo voto, mas deve ser substitu\u00edda com oferecimentos de maior m\u00e9rito.<br \/>\nBeatriz lamenta a leviandade dos crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Beatriz e Dante voam depois para a esfera de Merc\u00fario, onde est\u00e3o<br \/>\nas almas dos homens que viveram uma vida digna, adquirindo fama no mundo.<br \/>\nUm esp\u00edrito fala ao Poeta.<\/p>\n<p>SE no fogo do amor te resplande\u00e7o Em modo, que o terreno amor precede;<br \/>\n3 Se aos olhos teus a for\u00e7a desfale\u00e7o; \u201cN\u00e3o te<br \/>\nespantes: efeito \u00e9 que procede Desse perfeito ver, que o bem compreende,<br \/>\n6 E, o compreendendo, em se apurar progrede.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 patente me est\u00e1 quanto resplende Na intelig\u00eancia<br \/>\ntua a Luz eterna, 9 Que, apenas vista, sempre amor acende; \u201cE, se outro<br \/>\nobjeto humano amor governa, Vest\u00edgio dela \u00e9 s\u00f3 mal percebido,<br \/>\n12 S\u00f3 transluzindo em sua forma externa.<\/p>\n<p>\u201cSaber queres se um voto n\u00e3o cumprido<\/p>\n<p>\u00c9 de outras obras resgatado, e tanto, 15 Que em ju\u00edzo de Deus<br \/>\nfique absolvido.\u201d \u2014 Come\u00e7ou Beatriz desta arte o canto;<br \/>\nE, como quem no discorrer n\u00e3o p\u00e1ra, 18 Seguiu assim no seu el\u00f3quio<br \/>\nsanto: \u201cO mor bem que ao universo Deus doara, O que indicara mais sua<br \/>\nbondade 21 O que em pre\u00e7o mais alto avaliara, \u201cFoi do querer,<br \/>\npor certo, a liberdade, Que a toda criatura inteligente 24 H\u00e1 dado<br \/>\nem privativa faculdade.<\/p>\n<p>\u201cDaqui, por dedu\u00e7\u00e3o, fica evidente Do voto a alta valia,<br \/>\nquando \u00e9 feito 27 Por acordo entre Deus e a humana mente.<\/p>\n<p>\u201cPor contrato, entre Deus e o home\u2019 aceito, Esse tesouro \u00e9<br \/>\nv\u00edtima imolada, 30 Que ao sacrif\u00edcio vai com ledo aspeito.<\/p>\n<p>\u201cPode ser porventura compensada? Se cuidas usar bem do que ofertaste,<br \/>\n33 Cr\u00eas fazer bem com prata mal ganhada.<\/p>\n<p>\u201cCerto do ponto capital ficaste; Com a dispensa a Igreja, parecendo<br \/>\n36 Em tal caso contr\u00e1rio ao que escutaste,<\/p>\n<p>\u201cConv\u00e9m, que um pouco \u00e0 mesa te detendo, Para o rijo<br \/>\nmanjar, que h\u00e1s ingerido, 39 Socorro aguardes, que te dar pretendo.<\/p>\n<p>\u201cAo que te explico atento presta ouvido E guarda-o na alma; pois n\u00e3o<br \/>\nd\u00e1 ci\u00eancia 42 Ouvir o que depois fica no olvido.<\/p>\n<p>\u201cExige do sagrado voto a ess\u00eancia Aquele objeto em sacrif\u00edcio<br \/>\ndado 45 E do pr\u00f3prio contrato a consist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cJamais pode ser este obliterado, Ainda que infringido: j\u00e1 bem<br \/>\nclara 48 Demonstra\u00e7\u00e3o sobre este ponto hei dado.<\/p>\n<p>\u201cLei rigorosa a Hebreus determinara Fazer pia obla\u00e7\u00e3o;<br \/>\nmas concedida 51 A permuta da oferta lhes ficara.<\/p>\n<p>\u201cDa mat\u00e9ria do voto \u00e9 permitida Convers\u00e3o quando<br \/>\nensejo se oferece, 54 Sem ser por isso falta cometida.<\/p>\n<p>\u201cMas n\u00e3o se muda, quando bem parece, O fardo; s\u00f3 se a<br \/>\nIgreja, tendo usado 57 Das chaves de ouro e prata, o concedesse.<\/p>\n<p>\u201cCr\u00ea que toda permuta \u00e9 passo errado,<\/p>\n<p>Quando o antigo no novo n\u00e3o se inclua, 60 Bem como quatro em seis<br \/>\nv\u00eas encerrado.<\/p>\n<p>\u201cSe o voto \u00e9 tal na gravidade sua, Que obrigue a se inclinar<br \/>\ntoda balan\u00e7a, 63 Outro voto n\u00e3o h\u00e1, que o substitua.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o contra\u00ed, mortais, votos por chan\u00e7a! Cumpri-os,<br \/>\nmas n\u00e3o Jeft\u00e9 imitando, 66 A quem deu louco voto a desesp\u2019ran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201c\u2014 Fiz mal! \u2014 dissesse ao voto seu faltando, Por n\u00e3o<br \/>\nfazer pior cumprindo-o. Estulto 69 Foi o potente Rei dos gregos, quando \u201c\u00c0<br \/>\nfilha fez chorar seu belo vulto E \u00e0 piedade moveu quantos ouviram 72<br \/>\nFalar daquele abomin\u00e1vel culto.<\/p>\n<p>\u201cA raz\u00f5es pesai bem, que vos inspiram, Crist\u00e3os! n\u00e3o<br \/>\ns\u00eade pluma a qualquer vento! 75 As n\u00f3doas com toda a \u00e1gua<br \/>\nse n\u00e3o tiram! \u201cTendes o Velho e o Novo Testamento E da Igreja<br \/>\no pastor, que os passos guia: 78 Que mais quereis por vosso salvamento? \u201cSe<br \/>\nm\u00e1 cobi\u00e7a o peito vos vicia, Homens s\u00eade e n\u00e3o<br \/>\nbrutos animais: 81 Que entre v\u00f3s o Judeu de v\u00f3s n\u00e3o ria.<\/p>\n<p>\u201cComo o cordeiro simples n\u00e3o fa\u00e7ais, Que contra si combate<br \/>\npetulante, 84 Da m\u00e3e o leite n\u00e3o querendo mais.\u201d \u2014<br \/>\nBeatriz assim disse. Eis anelante E arrebatada em \u00eaxtase voltou-se 87<br \/>\n\u00c0 parte, onde o universo \u00e9 mais brilhante.<\/p>\n<p>Ante o enlevo em que o gesto transmutou-se, Calou-se o meu desejo impaciente:<br \/>\n90 De outras quest\u00f5es, j\u00e1 prestes, refreou-se.<\/p>\n<p>Como a seta, que o alvo de repente Atinge antes que a corda esteja quieta,<br \/>\n93 No c\u00e9u segundo entramos velozmente.<\/p>\n<p>T\u00e3o leda eu via Beatriz dileta, Daquele c\u00e9u nas luzes penetrando,<br \/>\n96 Que mais vivo esplendor mostra o planeta.<\/p>\n<p>E se a estrela sorriu, se transformando, Como n\u00e3o fiquei eu, que fez<br \/>\nnatura 99 Mud\u00e1vel, impress\u00f5es todas tomando? Como viveiro de<br \/>\n\u00e1gua mansa e pura, Pela esp\u2019ran\u00e7a, de pasto, que se of\u2019re\u00e7a,<br \/>\n102 Sofregamente o peixe o anzol procura, Mais de mil esplendores vindo \u00e0<br \/>\npressa,<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEis a\u00ed quem nos traz de amor aumento!\u201d \u2014<br \/>\n105 A voz de cada qual nos endere\u00e7a.<\/p>\n<p>De cada sombra o alegre sentimento, Em se acercando a n\u00f3s, se denuncia<br \/>\n108 No fulgor do seu claro luzimento.<\/p>\n<p>Qu\u00e3o s\u00f4frego o desejo n\u00e3o seria Em ti leitor, se acaso<br \/>\ninterrompesse 111 A narra\u00e7\u00e3o de quanto ent\u00e3o se via?<br \/>\nImaginas, portanto, o que eu tivesse De conhecer aquela grei formosa, 114<br \/>\nTanto que ante os meus olhos aparece.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 criatura, que assim v\u00eas ditosa Os tronos do<br \/>\neternal triunfo, inda antes 117 De finda a terreal guerra afanosa, \u201cNos<br \/>\nlumes, que no c\u00e9u h\u00e1 mais brilhantes, Ardemos: te darei, se<br \/>\nas pretenderes, 120 Ao teu desejo informa\u00e7\u00f5es bastantes.\u201d<br \/>\n\u2014 Assim falou. \u2014 \u201cResponde que assim queres.\u201d \u2014<br \/>\nA Beatriz ouvi \u2014 \u201cdiz com franqueza, 123 E cr\u00ea como divino<br \/>\no que entenderes.\u201d \u2014 \u201cO ninho tens, j\u00e1 vejo com certeza,<br \/>\nNa luz eterna: o seu fulgor revela 126 Dos olhos teus, sorrindo-te a viveza.<\/p>\n<p>\u201cMas n\u00e3o sei quem tu \u00e9s, \u00f3 alma bela, Nem por<br \/>\nque por degraus tens esta esfera, 129 Que aos mortais nos clar\u00f5es de<br \/>\noutra se vela.\u201d Assim disse, voltado \u00e0 luz que houvera Primeira<br \/>\na voz al\u00e7ado: refulgindo, 132 Mais coruscante a vi ao que antes era.<\/p>\n<p>Bem como o sol os lumes encobrindo No seu pr\u00f3prio esplendor quando<br \/>\nesvaece 135 As cortinas que estavam-nos cingindo, Da alegria no excesso desparece<br \/>\nNos pr\u00f3prios raios a figura santa.<\/p>\n<p>Na sua luz envolta que recresce, 139 Disse o que o canto que se segue canta.<\/p>\n<p>56-57. S\u00f3 se a Igreja etc., s\u00f3 se a Igreja, que possui a chave<br \/>\nde prata (da ci\u00eancia) e de ouro (da autoridade) o permitir. \u2014<br \/>\n65.<\/p>\n<p>Jeft\u00e9, juiz de Israel, fez o voto, se vencesse os Amonitas, de sacrificar<br \/>\na primeira pessoa que encontrasse no caminho; e esta foi a sua filha. \u2014<br \/>\n69. O potente rei dos Gregos, Agamenon prometeu aos deuses o que possu\u00eda<br \/>\nde mais belo. Chorou depois a beleza da sua filha Ifig\u00eania.<br \/>\nCANTO VI<\/p>\n<p>A alma do imperador Justiniano fala ao Poeta. Narra-lhe a hist\u00f3ria<br \/>\ndo Imp\u00e9rio, de En\u00e9ias a C\u00e9sar, a Tib\u00e9rio, a Tito,<br \/>\na Carlos Magno, para mostrar-lhe a santidade da autoridade imperial.<\/p>\n<p>Diz-lhe que no C\u00e9u de Merc\u00fario est\u00e3o os esp\u00edritos<br \/>\ndaqueles que se esfor\u00e7aram para conseguir fama imortal. Discorre-lhe<br \/>\nacerca de Romeu, que administrou a corte de Raimundo Beranguer, conde de Proven\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cDEPOIS que Constatino a \u00c1guia voltara Contra o curso do c\u00e9u,<br \/>\nque ela seguira 3 P\u00f3s o her\u00f3i, que Lav\u00ednia conquistara,<br \/>\n\u201cDuzentos anos j\u00e1 passados vira Da Europa em confins de Deus<br \/>\nessa ave, 6 Vizinha aos montes, donde se partira; \u201cDas plumas sob a<br \/>\nsombra ampla e suave, De m\u00e3o em m\u00e3o o mundo h\u00e1 dominado,<br \/>\n9 T\u00e9 comigo reger do Imp\u00e9rio a nave.<\/p>\n<p>\u201cC\u00e9sar, Justiniano fui chamado.<\/p>\n<p>Do Amor, que sinto, por querer movido, 12 O sup\u00e9rfluo das leis hei<br \/>\ncerceado.<\/p>\n<p>\u201cAntes de ter a empresa cometido,<\/p>\n<p>563<\/p>\n<p>Uma s\u00f3 natureza acreditava 15 Ter Cristo e andava nessa f\u00e9<br \/>\nperdido.<\/p>\n<p>\u201cMas de Agapeto santo que mandava De Roma Santa Igreja, a voz potente<br \/>\n18 Levou-me \u00e0 cren\u00e7a pura, que eu deixava.<\/p>\n<p>\u201cO que ent\u00e3o disse, eu vejo claramente, Pois, como v\u00eas,<br \/>\ncontradi\u00e7\u00e3o implica 21 Uma falsa asser\u00e7\u00e3o e outra<br \/>\nevidente.<\/p>\n<p>\u201cQuando eu cri no que a Igreja certifica, Minha mente, de Deus por<br \/>\nalta gra\u00e7a, 24 Logo \u00e0 sublime empresa se dedica.<\/p>\n<p>\u201cBelis\u00e1rio a reger as armas passa; No favor, que lhe deu poder<br \/>\ndivino 27 Sinal vi que me ordena a paz se fa\u00e7a. \u2014 \u201cA responder-te,<br \/>\no que ouves tem destino; Mais o que hei dito agora a tanto obriga, 30 Que<br \/>\na mor explica\u00e7\u00e3o dar-te me inclino.<\/p>\n<p>\u201cVer\u00e1s que sem raz\u00e3o vontade imiga Move-se contra esse<br \/>\nestardarte santo, 33 Quando o tenta usurpar, quando o profliga.<\/p>\n<p>\u201cPelos fatos ver\u00e1s respeito quanto Mereceu desde a honra em<br \/>\nque Palante 36 Morreu por dar-lhe de sob\u2019rano o manto.<\/p>\n<p>564<\/p>\n<p>\u201cEm Alba sabes como foi constante Por mais de anos trezentos t\u00e9<br \/>\nlutarem 39 Tr\u00eas contra tr\u00eas por que ele fosse avante.<\/p>\n<p>\u201cSabes quanto ele fez por se curvarem Vizinhos desde o roubo das Sabinas<br \/>\n42 T\u00e9 Lucr\u00e9cia expirar e os Reis findarem.<\/p>\n<p>\u201cSabes que gl\u00f3ria teve nas m\u00e3os di\u2019nas De her\u00f3is,<br \/>\nque Breno e Pirro combateram, 45 E de outros reis coliga\u00e7\u00f5es<br \/>\nmali\u2019nas; \u201cD\u00e9cios, F\u00e1bios, Torquatos lhe deveram<br \/>\nE Qu\u00edncio Cincinato, que amo e louvo 48 A fama das vit\u00f3rias,<br \/>\nque tiveram; \u201cCalcou o orgulho do Africano povo, Que por fraguras, donde,<br \/>\no P\u00f3, te envias, 51 Sob An\u00edbal, abriu caminho novo.<\/p>\n<p>\u201cFez triunfar da juventude em dias Cipi\u00e3o e Pompeu, e assaz<br \/>\ndesgosto 54 Causou \u00e0s tuas p\u00e1trias serranias.<\/p>\n<p>\u201cPerto dos tempos, em que o c\u00e9u disposto Havia, por seus fins,<br \/>\ndar paz ao mundo.<\/p>\n<p>57 Em m\u00e3os de C\u00e9sar Roma o teve posto.<\/p>\n<p>\u201cO que ele fez do Var ao Rin profundo<\/p>\n<p>565<\/p>\n<p>Isara h\u00e1 visto e o Era, h\u00e1 o Sena 60 E esse vale, onde o Rone<br \/>\n\u00e9 sem segundo.<\/p>\n<p>\u201cPassando o Rubicon, ap\u00f3s Ravena, Com C\u00e9sar a \u00c1guia<br \/>\ntanto em v\u00f4o al\u00e7ou-se, 63 Que o n\u00e3o p\u00f4de seguir<br \/>\nnem voz, nem pena.<\/p>\n<p>\u201cDepois que para a Espanha remontou-se, A Durazzo e a Fars\u00e1lia<br \/>\nacometia: 66 Do efeito o ardente Nilo perturbou-se.<\/p>\n<p>\u201cO Simoente e Antandro ent\u00e3o revia, Seu ber\u00e7o, em que<br \/>\na de Heitor cinza descansa; 69 E sem deten\u00e7a a Ptolomeu se envia.<\/p>\n<p>\u201cDali, qual raio, logo Juba alcan\u00e7a; Depois volve-se \u00e0s<br \/>\nterras do Ocidente, 72 Onde os sons de Pompeu a tuba lan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cNas m\u00e3os de outro o que fez essa ave ingente No inferno Bruto<br \/>\ne C\u00e1ssio est\u00e3o sentindo, 75 Sofrem Per\u00fagia e M\u00f3dena<br \/>\ntremente.<\/p>\n<p>\u201cCle\u00f3patra inda vai triste carpindo Atroce morte, que da serpe<br \/>\ntoma, 78 Da \u00c1guia os assaltos p\u00e1vida fugindo.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 o Roxo mar tudo a \u00c1guia toma, E ao mundo t\u00e3o<br \/>\nserena a paz se inclina, 81 Que em fim de Jano as portas fecha Roma.<\/p>\n<p>566<\/p>\n<p>\u201cO que fez e faria a ave divina Para trazer \u00e0 fama sua aumento<br \/>\n84 Nesse imp\u00e9rio mortal, em que domina, \u201cParece escasso em seu<br \/>\nmerecimento, Quando em m\u00e3os de Tib\u00e9rio a contemplamos 87 Com<br \/>\npuro afeto e claro entendimento; \u201cPois que a viva justi\u00e7a, que<br \/>\nadoramos Lhe h\u00e1 nessas m\u00e3os a gl\u00f3ria concedido 90 De<br \/>\ndar vingan\u00e7a \u00e0s iras, que incitamos.<\/p>\n<p>\u201cS\u00ea, me ouvindo, de espanto possu\u00eddo: \u00c1guia a vingan\u00e7a<br \/>\ndo pecado antigo 93 Depois com Tito h\u00e1 por tornar corrido.<\/p>\n<p>\u201cQuando, mordida por lombardo imigo, Gemia a Santa Igreja, \u00e0<br \/>\nsombra da ave 96 Salvou-a Carlos Magno do perigo.<\/p>\n<p>\u201cPodes julgar, portanto, do erro grave Daqueles, cujas faltas hei notado,<br \/>\n99 Causa do mal que v\u00eas quanto se agrave.<\/p>\n<p>\u201cContra o sacro estandarte um tem hasteado \u00c1ureo l\u00edrio,<br \/>\noutro o quer por seu partido: 102 Custa dizer qual seja o mais culpado.<\/p>\n<p>\u201cGibelinos, no in\u00edquo andar sabido<\/p>\n<p>567<\/p>\n<p>Outra bandeira sigam; que \u00e0 justi\u00e7a 105 Culto esta exige nunca<br \/>\ninterrompido.<\/p>\n<p>\u201cCarlos novo a bat\u00ea-la em v\u00e3o cobi\u00e7a Com Guelfos;<br \/>\ntemas as garras, que arrancaram 108 A mais forte le\u00e3o juba inteiri\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cMais de uma vez os filhos j\u00e1 choraram Pelas culpas do pai:<br \/>\n\u00e9 louca a esp\u2019ran\u00e7a, \u2014 111 De que de Deus favor<br \/>\nl\u00edrios ganharam.<\/p>\n<p>\u201cO planeta, em que habito agora, estan\u00e7a \u00c9 de almas generosas<br \/>\nque honra e fama 114 Aspiraram do mundo na lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cQuando os desejos deste modo inflama O incentivo da gl\u00f3ria,<br \/>\naos c\u00e9us ascende 117 Do vero amor menos ativa a chama.<\/p>\n<p>\u201cMas nossa dita em parte compreende Dos m\u00e9ritos e pr\u00eamio<br \/>\nno confronto: 120 Nem menor, nem maior nenhum se entende \u201cPois da viva<br \/>\njusti\u00e7a o feito pronto Tanto os afetos nos ameiga e apura, 123 Que<br \/>\nnequ\u00edcia os n\u00e3o torce em nenhum ponto.<\/p>\n<p>\u201cVozes v\u00e1rias de sons formam do\u00e7ura: Assim os v\u00e1rios<br \/>\ngraus na eterna vida 126 Doce harmonia fazem nesta altura.<\/p>\n<p>568<\/p>\n<p>\u201cNesta per\u2019la, em que est\u00e1s, bela e polida, Rebrilha de<br \/>\nRomeu claro luzeiro, 129 Virtude \u00ednclita e mal agradecida.<\/p>\n<p>\u201cOs proven\u00e7ais, pelo ato trai\u00e7oeiro, N\u00e3o se riram;<br \/>\ncaminho segue errado 132 Quem o bem de outro inveja sobranceiro.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s filhas grato de rainha o estado Conseguiu Beranguer: tal<br \/>\nbem devia 135 A Romeu, nome humilde e n\u00e3o falado.<\/p>\n<p>\u201cPreso na trama que a cal\u00fania urdia, Que aumentado no quinto<br \/>\no er\u00e1rio havia; 138 Do er\u00e1rio contas exigiu do justo, \u201cRomeu<br \/>\npartiu-se ent\u00e3o pobre e vetusto: Se o mundo o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nlhe aquilatara, Quando, mendigo, se mantinha a custo, 142 Louvor muito maior<br \/>\nlhe dispensara.\u201d \u2014<\/p>\n<p>1-3. Depois que Constantino a \u00c1guia voltara etc., depois que Constantino<br \/>\ntransferiu o Imp\u00e9rio de Roma para Biz\u00e2ncio. \u2014 10.<\/p>\n<p>Justiniano, imperador romano e grande legislador, que reinou duzentos anos<br \/>\ndepois de Constantino, pois come\u00e7ou o seu reinado em 527. \u2014 14.<br \/>\nUma s\u00f3 natureza etc., a doutrina de Eut\u00edquio segundo a qual<br \/>\nCristo tinha s\u00f3 a natureza humana. \u2014 16. Agapeto, o papa Agabito.<br \/>\n\u2014 25. Belis\u00e1rio, grande capit\u00e3o que combateu na It\u00e1lia<br \/>\ncontra os Godos. \u2014 32. Esse estandarte<\/p>\n<p>569<\/p>\n<p>sacro, o emblema do Imp\u00e9rio, que representava a \u00e1guia. \u2014<br \/>\n35.<\/p>\n<p>Palante, companheiro de En\u00e9ias, morreu combatendo contra Turno. \u2014<br \/>\n37. Alba, cidade fundada por Asc\u00e2nio, filho de En\u00e9ias.<\/p>\n<p>\u2014 39. Tr\u00eas contra tr\u00eas, combatimento dos Hor\u00e1cios<br \/>\ncontra os Curi\u00e1cios. \u2014 41. O roubo das Sabinas, o rapto das mulheres<br \/>\ndos Sabinos, efetuado pelos Romanos. \u2014 42. Lucr\u00e9cia, mulher de<br \/>\nColatino, foi violentada por Tarquinio, da\u00ed resultando a rebeli\u00e3o<br \/>\ndos Romanos contra a monarquia. \u2014 44. Breno e Pirro, o primeiro general<br \/>\ndos Galos, o segundo rei do \u00c9piro, que invadiram a It\u00e1lia. \u2014<br \/>\n46-47. D\u00e9cios, pai, filho e neto morreram pela p\u00e1tria; F\u00e1bios,<br \/>\nilustre fam\u00edlia romana; Torquatos, T. Manlio Torquato; Qu\u00edncio,<br \/>\nQ. L\u00facio Cincinato. \u2014 51. An\u00edbal, general cartagin\u00eas<br \/>\nque invadiu a It\u00e1lia. \u2014 67. Simoente, rio perto de Tr\u00f3ia;<br \/>\nAntadro, cidade da Fr\u00edsia. \u2014 73. Nas m\u00e3os do outro o que<br \/>\nfez C\u00e9sar, Augusto vingou a morte de C\u00e9sar. \u2014 76. Cle\u00f3patra,<br \/>\nrainha do Egito, suicidou-se. \u2014 93. Tito, destruiu Jerusal\u00e9m,<br \/>\ncujos habitantes tinham crucificado a Jesus Cristo. \u2014 94.<\/p>\n<p>Lombardo imigo, Desid\u00e9rio, \u00faltimo rei longobardo que foi derrotado<br \/>\npor Carlos Magno. \u2014 101. \u00c1ureo l\u00edrio, as armas da Casa<br \/>\nde Fran\u00e7a. \u2014 106. Carlos novo, Carlos II de Anjou, chefe do partido<br \/>\nguelfo. \u2014 128. Romeu, segundo conta G. Villani, foi administrador de<br \/>\nRaimundo Beranguer, conde de Proven\u00e7a, aumentando-lhe o patrim\u00f4nio<br \/>\ne conseguindo casar as filhas de Raimundo com quatro reis. Caluniado, n\u00e3o<br \/>\nquis mais ficar na corte de Proven\u00e7a e, velho e pobre, desapareceu.<\/p>\n<p>570<\/p>\n<p>CANTO VII<\/p>\n<p>Desaparecem os bem-aventurados cantando. Beatriz explica como a crucifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Cristo restituiu ao homem a dignidade perdida, a liberdade que lhe foi<br \/>\nconferida por Deus. Os anjos e os homens por sua natureza s\u00e3o livres<br \/>\ne imortais. O homem por\u00e9m, pecando, abusou da sua liberdade, e deformou<br \/>\na imagem de Deus que tinha em si. N\u00e3o podia reparar a falta por si<br \/>\nmesmo, pois n\u00e3o podia humilhar-se tanto quanto Ad\u00e3o, em seu<br \/>\norgulho, quis subir. A Deus convinha ou perdoar ou punir. Na sua sabedoria<br \/>\ninfinita, Deus perdoou e puniu no mesmo tempo. Puniu a humanidade em Jesus<br \/>\nCristo e nele a fez novamente livre.<\/p>\n<p>\u201cHOSANNAH Sanctus Deus Sabaoth, Superillustrans daritate tua 3 Felices<br \/>\nignes horum malac\u00f2th!\u201d Assim, voltando \u00e0 melodia sua,<br \/>\nCantar ouvi essa alma venturosa 6 Em quem d\u00faplice lume se acentua.<\/p>\n<p>Tornam todas \u00e0 dan\u00e7a jubilosa, E s\u00fabito da vista se<br \/>\napartaram 9 Velozes, como flama fulgurosa.<\/p>\n<p>Disse entre mim, pois d\u00favidas me entraram: \u201cFala \u00e0 senhora<br \/>\ntua, fala; \u00e0 sede 12 Rocio as palavras suas te deparam.\u201d<\/p>\n<p>571<\/p>\n<p>Torva\u00e7\u00e3o me assenhora e a voz me impede, Que apenas B com I<br \/>\nC E conjugava: 15 Acurvei, como quem ao sono cede.<\/p>\n<p>Mas Beatriz do enleio me tirava, Com sorriso, que a mente me ilumina 18 E<br \/>\naditara entre as chamas come\u00e7ava: \u2014 \u201cComo bem vejo, d\u00favida<br \/>\ndomina A tua alma: \u2014 a vingan\u00e7a, que foi justa, 21 Puni\u00e7\u00e3o<br \/>\nteve, da justi\u00e7a di\u2019na? \u201cEsclarecer-te o esp\u00edrito<br \/>\nn\u00e3o custa.<\/p>\n<p>Atende bem: verdade preminente 24 Das vozes minhas co\u2019a express\u00e3o<br \/>\nse ajusta.<\/p>\n<p>\u201cAceitar n\u00e3o querendo, obediente, Saud\u00e1vel freio, o homem,<br \/>\nsem m\u00e3e nado, 27 Perdeu-se a si, perdeu a humana gente.<\/p>\n<p>\u201cMuitos s\u00e9c\u2019los enferma do pecado, Jazeu ela n\u00e3o<br \/>\nerro engrandecido 30 T\u00e9 que o Verbo de Deus fosse encarnado.<\/p>\n<p>\u201cPor ato s\u00f3 do Eterno Amor, unido \u00c0 natureza se h\u00e1,<br \/>\nque ao mal se dera, 33 Depois de esquiva ao Criador ter sido.<\/p>\n<p>\u201cNo que vou te dizer bem considera.<\/p>\n<p>572<\/p>\n<p>A natureza, a que se uniu beni\u2019no 36 Em pessoa, nasceu boa e sincera.<\/p>\n<p>\u201cPor si mesma, fugindo em desatino Da vereda da vida e da verdade,<br \/>\n39 Do Para\u00edso se exilou divino.<\/p>\n<p>\u201cDa Cruz a pena, em face da maldade Da natureza, a que Jesus baixara,<br \/>\n42 Foi a mais justa em sua gravidade.<\/p>\n<p>\u201cNunca injusti\u00e7a igual se praticara, Atenta essa Pessoa, que<br \/>\nh\u00e1 sofrido, 45 Que \u00e0 natureza humana se ajuntara.<\/p>\n<p>\u201cContrastes, pois, de um ato h\u00e3o procedido: Folgam Judeus da<br \/>\nmorte a Deus jucunda, 48 Foi ledo o c\u00e9u e o mundo espavorido.<\/p>\n<p>\u201cE n\u00e3o te mova sensa\u00e7\u00e3o profunda Ouvir que uma<br \/>\nvingan\u00e7a, que foi justa, 51 Vingada ser devia por segunda.<\/p>\n<p>\u201cVejo-te a mente por vereda angusta Levada a estreito n\u00f3 de<br \/>\ndubiedade, 54 Que solver mor esfor\u00e7o ora te custa.<\/p>\n<p>\u201cDir\u00e1s: \u2014 discerne o que ou\u00e7o, na verdade; Mas<br \/>\nporque Deus nos desse est\u00e1-me oculto, 57 Remindo-nos tal prova de bondade.<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>573<\/p>\n<p>\u201cEste decreto irm\u00e3o, est\u00e1 sepulto Aos olhos do que ainda<br \/>\no entendimento 60 N\u00e3o tem de Amor na flama ainda adulto.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 mist\u00e9rio em que luta o pensamento Sem fruto conseguir<br \/>\nde tal porfia, 63 Mas foi o melhor modo. Ouve-me atento! \u201cA Divina Bondade<br \/>\nque desvia De si o desamor, arde e flameja, 66 Por eternais primores se anuncia.<\/p>\n<p>\u201cDiretamente o que emanado seja Dela \u00e9 sem fim; eterna impress\u00e3o<br \/>\nfica 69 Do que no seu querer supremo esteja.<\/p>\n<p>\u201cO que assim nasce, n\u00e3o sujeito fica Das causas secund\u00e1rias<br \/>\n\u00e0 influ\u00eancia 72 E liberdade plena significa.<\/p>\n<p>\u201cMais lhe apraz, se \u00e9 conforme \u00e0 sua ess\u00eancia:<br \/>\nQue o santo Amor que em toda cousa brilha, 75 Mais vivo \u00e9 no que encerra<br \/>\nesta excel\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cAos homens de tais bens cabe a partilha: De tais predicados se um<br \/>\nfalece, 78 Sua nobreza j\u00e1 decai, se humilha.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 por pecado dessa altura desce;<\/p>\n<p>574<\/p>\n<p>Do Sumo Bem n\u00e3o mais reflete o lume, 81 Semelhan\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nmais dele oferece.<\/p>\n<p>\u201cE o grau sublime seu n\u00e3o mais assume, Se n\u00e3o contrapuser<br \/>\nao do pecado 84 Deleite mau das penas o azedume.<\/p>\n<p>\u201cQuando o g\u00eanero humano, infeccionado Todo no germe seu, foi<br \/>\ndessa alteza 87 E do seu Para\u00edso deserdado, \u201cReaver s\u00f3<br \/>\npudera (com certeza Ver\u00e1s, se bem cogitas), intervindo 90 Um dos meios,<br \/>\nque aponto por clareza: \u201cOu Deus, por gra\u00e7a infinda, remitindo;<br \/>\nOu \u2014 porque, de si mesmo, se conven\u00e7a \u2014 93 Das culpas suas<br \/>\no homem se remindo.<\/p>\n<p>\u201cPara sondar a profundeza imensa Dos eternos conselhos, prende \u00e0<br \/>\nmente 96 As raz\u00f5es que o discurso meu dispensa.<\/p>\n<p>\u201cO homem n\u00e3o podia, de indigente, As d\u00edvidas solver:<br \/>\nnunca pudera 99 Curvar-se tanto, humilde e reverente, \u201cQuanto, rebelde,<br \/>\nse elevar quisera.<\/p>\n<p>Eis por que redimir-se do pecado 102 S\u00f3 por si mesmo ao homem n\u00e3o<br \/>\ncoubera.<\/p>\n<p>575<\/p>\n<p>\u201cE, pois h\u00e1 sido do divino agrado, Por clem\u00eancia ou justi\u00e7a<br \/>\ne ambas juntando, 105 Ser ele \u00e0 vida eterna aparelhado.<\/p>\n<p>\u201cA feitura do Autor ao gosto estando Inda mais, quando a imagem nos<br \/>\nof\u2019rece 108 Do peito, de quem vem piedoso e brando, \u201cA Bondade<br \/>\nque em tudo transparece, Em prol vosso os dois modos reunia: 111 Um somente<br \/>\nbastar-lhe n\u00e3o parece.<\/p>\n<p>\u201cEntre a noite final e o primo dia Ato igual n\u00e3o se fez alto<br \/>\ne formoso 114 Desse modo por um, nem se faria.<\/p>\n<p>\u201cDando-se, h\u00e1 sido Deus mais generoso, Por que o home\u2019<br \/>\na se erguer se habilitasse, 117 Do que s\u00f3 perdoando carinhoso.<\/p>\n<p>\u201cOutro meio qualquer, que se empregasse N\u00e3o bastara \u00e0<br \/>\nJusti\u00e7a, se humilhando 120 De Deus o Filho \u00e0 carne n\u00e3o<br \/>\nbaixasse.<\/p>\n<p>\u201cPara de todo seres doutrinado Eu torno a um ponto, por que vejas claro,<br \/>\n123 Como eu, o que zelosa hei te explicado.<\/p>\n<p>\u201cDizes: \u2014 no fogo e no ar, se bem reparo<\/p>\n<p>576<\/p>\n<p>Na terra e n\u00e1gua vejo e em seus compostos 126 Corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nque destr\u00f3i sem anteparo.<\/p>\n<p>\u201cNa cria\u00e7\u00e3o por Deus foram dispostos: De corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nisentos ser deveram, 129 Certos sendo os princ\u00edpios por ti postos.<br \/>\n\u2014 \u201cCriados, meu irm\u00e3o, se consideram Os anjos e dos c\u00e9us<br \/>\no que h\u00e1 no espa\u00e7o, 132 Inteiros, puros sempre quais nasceram.<\/p>\n<p>\u201cElementos e quanto no rega\u00e7o Da natura por eles se combina<br \/>\n135 De virtude criada of\u2019recem tra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201cCriou-lhes a mat\u00e9ria a lei divina, Criando logo a for\u00e7a<br \/>\ninformativa, 138 Que nos astros, que os cercam, predomina.<\/p>\n<p>\u201cDos lumes santos moto e luz deriva Dos brutos alma, e plantas igualmente,<br \/>\n141 Por complei\u00e7\u00e3o potencial passiva.<\/p>\n<p>\u201cA vida nossa vem diretamente De Deus, Supremo Bem, que em n\u00f3s<br \/>\nacende 144 Amor tal, que o deseja eternamente: \u201cDa\u00ed, por dedu\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntamb\u00e9m descende Vossa ressurrei\u00e7\u00e3o, se ao ser e \u00e0<br \/>\ness\u00eancia Da humana carne o teu esp\u2019rito atende,<\/p>\n<p>577<\/p>\n<p>148 Quando o primeiro par teve exist\u00eancia.\u201d \u2014<\/p>\n<p>1-3. Hosannah, sanctus Deus Sabaoth, express\u00e3o constitu\u00edda<br \/>\npor palavras latinas e hebraicas: \u201cSalve, Deus dos ex\u00e9rcitos,<br \/>\nque iluminas com a tua luz os felizes lumes deste reino.\u201d \u2014 18.<br \/>\nE aditara, do verbo aditar, tornar feliz. \u2014 26. O homem sem m\u00e3e<br \/>\nnado, Ad\u00e3o. \u2014 46-48. Contrastes, pois, de um ato procedido etc.,<br \/>\na morte de Jesus Cristo deu satisfa\u00e7\u00e3o a Deus, porque reparava<br \/>\na ofensa de Ad\u00e3o e deu satisfa\u00e7\u00e3o aos Judeus pela raiva<br \/>\ndeles contra Jesus; a terra ficou espavorida pela crucifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Deus e o C\u00e9u alegre porque se abria novamente \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>578<\/p>\n<p>CANTO VIII<\/p>\n<p>Dante e Beatriz elevam-se \u00e0 estrela de V\u00eanus, onde est\u00e3o<br \/>\nos esp\u00edritos daqueles que outrora foram propensos \u00e0s paix\u00f5es<br \/>\namorosas. Encontro com Carlos Martelo, o qual referindo-se \u00e0 \u00edndole<br \/>\nmesquinha de seu irm\u00e3o Roberto, explica-lhe como se d\u00e1 que de<br \/>\num bom pai possa nascer um filho mau e, enfim, quanto providencial \u00e9<br \/>\na Natureza nos seus decretos e qu\u00e3o vaidosos s\u00e3o os homens que<br \/>\nn\u00e3o lhe seguem as indica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O MUNDO com perigo verdadeiro Creu que Ciprina bela dardejava 3 Louco amor<br \/>\ndo epiciclo que \u00e9 terceiro.<\/p>\n<p>Sacrif\u00edcios n\u00e3o s\u00f3 lhe consagrava, Preces e votos essa<br \/>\nantiga gente 6 No erro antigo fatal, que a transviava, M\u00e3e e filho<br \/>\nadoravam juntamente, Dione e o seu Cupido, que fingiram 9 De Dido reclinado<br \/>\nao seio ardente; Dessa falsa deidade o nome uniram Ao planeta, que o sol sempre<br \/>\nnamora, 12 Quando raiam seus lumes, quando expiram.<\/p>\n<p>Como ao astro eu me alcei, a mente ignora,<\/p>\n<p>579<\/p>\n<p>Mas certo fui de haver l\u00e1 penetrado, 15 Mais formosa por ver minha<br \/>\nsenhora.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea fagulha em fogo ateado, Como uma voz \u00e9 de outra discernida,<br \/>\n18 Firme o som de uma, o de outra variado, Outros clar\u00f5es notei na<br \/>\nluz subida, Mais ou menos velozes se volvendo, 21 L\u00e1 da eterna vis\u00e3o,<br \/>\ncreio, \u00e0 medida.<\/p>\n<p>Ou vis\u00edveis ou n\u00e3o, ventos rompendo, Em r\u00e1pida invas\u00e3o,<br \/>\nde nuve\u2019 escura, 24 Demorados stariam parecendo, A quem pudesse ver<br \/>\ncada luz pura, Que ao nosso encontro vem deixando a dan\u00e7a 27 Que marcam<br \/>\nserafins dos c\u00e9us na altura.<\/p>\n<p>Tr\u00e1s a grei, que primeiro nos alcan\u00e7a.<\/p>\n<p>T\u00e3o doce hosana soa, que, incessante, 30 De inda ouvi-lo o desejo<br \/>\njamais cansa.<\/p>\n<p>Dos esp\u00edritos um, que vem diante S\u00f3 principia: \u2014 \u201cTodos<br \/>\nn\u00f3s queremos 33 Quanto para aprazer-te for prestante.<\/p>\n<p>\u201cNum s\u00f3 ardor e giro nos movemos Cos Pr\u00edncipes, celestes<br \/>\nesplendores 36 De quem no mundo h\u00e1s dito (bem sabemos):<\/p>\n<p>580<\/p>\n<p>\u2014 \u201cV\u00f3s, do terceiro c\u00e9u s\u00e1bios motores!\u201d<br \/>\n\u2014 Por te agradar nos \u00e9 doce o repouso 39 T\u00e3o vivos s\u00e3o<br \/>\ndo nosso amor fervores!\u201d \u2014 De Beatriz ao gesto luminoso Depois<br \/>\nque alcei os olhos reverente 42 E certo fui do seu querer donoso, \u00c0<br \/>\nluz, que se mostrou condescendente Em tanto grau \u2014 \u201cQuem \u00e9s\u201d<br \/>\n\u2014 falei, de afeito 45 Estremecido possu\u00edda a mente.<\/p>\n<p>\u00d3 das palavras minhas raro efeito! Maior a vi brilhar; nova delice<br \/>\n48 A alegria aumentou do claro aspeito.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cBem pouco o mundo\u201d \u2014 a refulgir-me, disse \u2014<br \/>\n\u201cMe teve; se algum tempo mais vivesse, 51 Mal, que h\u00e1 de vir,<br \/>\npor certo ningu\u00e9m visse.<\/p>\n<p>\u201cO j\u00fabilo que em torno me esclarece, Aos teus olhos me encobre,<br \/>\ncomo inseto, 54 Que dos seus v\u00e9us de seda se guarnece.<\/p>\n<p>\u201cCom raz\u00e3o me votaste o extremo afeto; Pois, em mais longa vida,<br \/>\neu te mostrava 57 Por a\u00e7\u00f5es quanto me eras tu dileto.<\/p>\n<p>581<\/p>\n<p>\u201cAquela regi\u00e3o, que o Rone lava \u00c0 sestra, quando ao Sorga<br \/>\ncorre unido, 60 Por senhor seu um dia me esperava.<\/p>\n<p>\u201cComo da Aus\u00f4nia o litoral partido Por Bari, por Gaeta e por<br \/>\nCrotona.<\/p>\n<p>63 Onde \u00e9 do Tronto e Verde o mar nutrido.<\/p>\n<p>\u201cDa c\u2019roa a fronte minha j\u00e1 se entona Do vasto reino,<br \/>\nque o Dan\u00fabio rega, 66 Quando as plagas tudescas abandona.<\/p>\n<p>\u201cTrin\u00e1cria, a cujos c\u00e9us n\u00e9voa carrega Sobre o<br \/>\ngolfo, em que mais Euro embravece, 69 De Paquino a Peloro, em mor refega,<br \/>\n\u201cQue n\u00e3o Tifeu, mas s\u00falfur escurece, O trono guardaria<br \/>\n\u00e0 prole minha, 72 Que de Carlo e Rodolfo antigos desce, \u201cSe o<br \/>\nmau jugo, que os povos amesquinha, A gritar \u2014 morra! morra! \u2014<br \/>\nn\u00e3o movesse 75 Palermo, a quem temor n\u00e3o mais continha.<\/p>\n<p>\u201cSe mais prud\u00eancia meu irm\u00e3o tivesse, Dos Catalanos a<br \/>\nindig\u00eancia avara 78 Fugira, por que o mal seu n\u00e3o crescesse.<\/p>\n<p>\u201cUrgente, na verdade, se tomara Que, por si ou por outrem, n\u00e3o<br \/>\ndeixasse<\/p>\n<p>582<\/p>\n<p>81 Mais onerar a barca, que adernara.<\/p>\n<p>\u201cQuando a \u00edndole nobre transtornasse Avareza, mil\u00edcia<br \/>\nter devia, 84 Que s\u00f3 de encher seus cofres n\u00e3o curasse.\u201d<br \/>\n\u2014 \u2014 \u201cComo creio\u201d \u2014 tornei-lhe \u2014 \u201ca<br \/>\nessa alegria, Que me infundes, Senhor, a origem tira 87 De Deus que todo bem<br \/>\nfinda e inicia.<\/p>\n<p>\u201cComigo a sentes: mor prazer me inspira.<\/p>\n<p>Quanto me h\u00e1s dito, me \u00e9 no extremo caro, 90 Pois v\u00eas,<br \/>\nde Deus no espelho tendo a mira.<\/p>\n<p>\u201cLedo me h\u00e1s feito; assim tornar-me claro O que por teu dizer<br \/>\nst\u00e1 duvidoso: 93 Semente doce brota fruto amaro?\u201d \u2014 \u2014<br \/>\n\u201cVendo a verdade\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cpressuroso Dar\u00e1s<br \/>\no dorso ao que ora d\u00e1s o rosto, 96 Ver\u00e1s claro o que julgas<br \/>\ntenebroso.<\/p>\n<p>\u201cO Bem, que os c\u00e9us, que sobes, h\u00e1 disposto, Os move<br \/>\ne alegra, sem p\u00f4r provid\u00eancia 99 Nestes corpos que v\u00eas virtude<br \/>\nposto.<\/p>\n<p>\u201cE n\u00e3o s\u00f3 com perfeita previd\u00eancia Cousas terrestres<br \/>\nacham-se ordenadas, 102 Mas as preserva a sua onipot\u00eancia;<\/p>\n<p>583<\/p>\n<p>\u201cPorque as setas, deste arco arremassadas, Predestinadas s\u00e3o<br \/>\na um ponto certo, 105 Infal\u00edveis ao alvo endera\u00e7adas.<\/p>\n<p>\u201cO c\u00e9u ali\u00e1s, aos olhos teus aberto, S\u00f3 feituras<br \/>\nsem arte produzidas 108 Abrangera e ru\u00ednas no deserto.<\/p>\n<p>\u201cForam ent\u00e3o de perfei\u00e7\u00e3o despidas As Subst\u00e2ncias,<br \/>\nque regem as estrelas 111 E a m\u00e3o, que as fez assim destitu\u00eddas.<\/p>\n<p>\u201cVerdades s\u00e3o: mais claras queres v\u00ea-las?\u201d \u2014<br \/>\n\u2014 \u201cN\u00e3o\u201d \u2014 repliquei \u2014 \u201csupor n\u00e3o<br \/>\npoderia 114 Natura escassa em suas obras belas.\u201d \u2014 \u2014 \u201cUm<br \/>\nmal, dize-me, fora\u201d \u2014 prosseguia \u2014 \u201cN\u00e3o ser<br \/>\no homem cidad\u00e3o na terra?\u201d \u2014 117 \u2014 \u201cPor certo;<br \/>\ne a raz\u00e3o sei\u201d \u2014 lhe respondia.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSociedade haver\u00e1, se n\u00e3o encerra Misteres v\u00e1rios,<br \/>\nque cada um pratica? 120 N\u00e3o, se o teu Mestre em seu pensar n\u00e3o<br \/>\nerra.\u201d \u2014 Deduzindo, a evid\u00eancia significa, E logo concluiu:<br \/>\n\u2014 \u201cCausa dif\u2019rente 123 Efeito diferente sempre indica.<\/p>\n<p>\u201cNasce um S\u00f3lon, e Xerxe outro \u00e9 furente,<\/p>\n<p>584<\/p>\n<p>Melquisedeque ou D\u00e9dalo perito, 126 Que no ar perdeu o filho seu demente.<\/p>\n<p>\u201cPerfeito \u00e9 o giro pelos c\u00e9us descrito; Na cera humano<br \/>\no seu sinal fazendo, 129 Mas solar n\u00e3o distingue, nem distrito.<\/p>\n<p>\u201cDa\u00ed vem que Esa\u00fa, logo em nascendo, Difere de Jac\u00f3;<br \/>\ntoma Quirino 132 Marte por genitor, seu pai vil sendo.<\/p>\n<p>\u201cNatureza gerada, em seu destino Seria sempre igual \u00e0 que a<br \/>\nfizera, 135 Se n\u00e3o vencesse o decretar divino.<\/p>\n<p>\u201cO rosto ora diriges \u00e0 luz vera; Mas inda um corol\u00e1rio<br \/>\nte ofere\u00e7o, 138 Pois de agradar-te em mim desejo impera.<\/p>\n<p>\u201cSempre natura, se da sorte excesso A contraste, produz fruto danado,<br \/>\n141 Como semente posta em solo avesso.<\/p>\n<p>\u201cSe meditasse o mundo, desvelado, Nos fundamentos, que natura lan\u00e7a,<br \/>\n144 De melhor gente fora povoado.<\/p>\n<p>\u201cMas quem pr\u00f3prio seria \u00e0 militan\u00e7a Na soledade<br \/>\nmonacal definha, Bem pregara quem, Rei, em v\u00e3o se cansa.<\/p>\n<p>585<\/p>\n<p>148 E fora assim da estrada se caminha.\u201d \u2014<\/p>\n<p>2. Ciprina bela, V\u00eanus. \u2014 8. Dione, filha de Oceano e de T\u00e9tis,<br \/>\nm\u00e3e de V\u00eanus. \u2014 9. De Dido reclinado ao seio ardente, no<br \/>\nI Livro da Eneida, Cupido, sob a apar\u00eancia de Asc\u00e2nio, leva a<br \/>\nDido os presentes de En\u00e9ias. \u2014 58 e seg. quem fala \u00e9 Carlos<br \/>\nMartelo, filho de Carlos II de Anjou e que Dante conheceu em Floren\u00e7a<br \/>\nem 1294. \u2014 61. Aus\u00f4nia, a It\u00e1lia. \u2014 67. Trin\u00e1cria,<br \/>\na Sic\u00edlia. \u2014 70. Tifeu, segundo a lenda o gigante Tifeu, sepultado<br \/>\nna Sic\u00edlia, expele fumo e caligem. \u2014 72. De Carlo e Rodolfo,<br \/>\nCarlos de Anjou e Rodolfo de Habsburgo. 74. A gritar \u2014 morra! morra!<br \/>\n\u2014 n\u00e3o movesse Palermo, alus\u00e3o \u00e0s V\u00e9speras<br \/>\nSicilianas. &#8211; 76. Meu irm\u00e3o, Roberto de Anjou. \u2014 120. O teu mestre,<br \/>\nArist\u00f3teles. \u2014 131. Quirino R\u00f3mulo, fundador de Roma.<\/p>\n<p>586<\/p>\n<p>CANTO IX<\/p>\n<p>Depois de Carlos Martelo, fala a Dante, Cunizza de Romano, irm\u00e3 do<br \/>\ntirano Ezzelino. Prediz-lhe iminentes desventuras na Marca de Treviso e de<br \/>\nP\u00e1dua, e uma negra trai\u00e7\u00e3o do bispo de Feltre. Folco<br \/>\nde Marselha manifesta-se a Dante e lhe indica a alma resplendecente de Raab,<br \/>\nque favoreceu os hebreus na conquista da Terra Santa. Invectiva contra Floren\u00e7a<br \/>\ne contra a C\u00faria Romana.<\/p>\n<p>DEPOIS que Carlos teu, bela Clem\u00eancia Instruiu-me, narrou trai\u00e7\u00f5es<br \/>\ne enganos, 3 Que ter devia a sua descend\u00eancia; Mas disse: \u2014 \u201cCal\u2019-te!<br \/>\nDeixa o curso aos anos!\u201d \u2014 Dizer s\u00f3 posso, pois, que justo<br \/>\npranto 6 H\u00e1 de vir por vingan\u00e7a aos vossos danos.<\/p>\n<p>E voltou-se de novo o lume santo Para o Sol que de j\u00fabilos o enchia,<br \/>\n9 Sendo ele o Bem que para tudo, e tanto.<\/p>\n<p>Ah! mortais iludidos! ra\u00e7a impia, Que, em pensamentos f\u00e1tuos<br \/>\nse engolfando, 12 Do Bem Supremo os cora\u00e7\u00f5es desvia! Eis outro<br \/>\nvi pra mim se encaminhando:<\/p>\n<p>587<\/p>\n<p>De aprazer-me a vontade anunciava, 15 O brilho da luz sua acrescentando.<\/p>\n<p>Os olhos Beatriz em mim fitava, Bem como de antes: grandioso assenso, 18<br \/>\nAo meu desejo claramente dava.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 ser bendito, ao meu querer intenso Defere logo\u201d<br \/>\n\u2014 exclamo \u2014 \u201c e d\u00e1-me a prova 21 De que em ti se<br \/>\nreflete o que ora penso.\u201d \u2014 A luz ent\u00e3o, inda aos meus<br \/>\nolhos nova, D\u00eas que a vi l\u00e1 na altura onde cantava 24 Diz como<br \/>\nquem cort\u00eas rogos aprova: \u2014 \u201cNessa parte da It\u00e1lia<br \/>\nopressa e escrava, Que situada entre o Rialto 27 E as nascentes do Brenta<br \/>\ne do Piava, \u201cColina v\u00ea-se que, n\u00e3o surge ao alto: L\u00e1<br \/>\ncentelha, depois \u00edgnea procela, 30 Que a toda a regi\u00e3o deu grande<br \/>\nassalto.<\/p>\n<p>\u201cDe um s\u00f3 tronco brotamos eu com ela.<\/p>\n<p>Cunizza me chamei: aqui resplendo, 33 Porque venceu-me a flama desta estrela.<\/p>\n<p>\u201cDa sorte minha a causa n\u00e3o me sendo Desgosto, eu ma perd\u00f4o<br \/>\nalegremente 36 Talvez estranhe o vulgo o como entendo.<\/p>\n<p>588<\/p>\n<p>\u201cDa luz, que me est\u00e1 perto, refulgente, Amada j\u00f3ia desta<br \/>\nnossa esfera, 39 Revive grande a fama, e permanente \u201cDe s\u00e9c\u2019los<br \/>\ncinco mais ser\u00e1 na era.<\/p>\n<p>V\u00ea se homem com raz\u00e3o \u00e0 gl\u00f3ria aspira, 42 Se extinta<br \/>\na vida, outra no mundo o espera! \u201cA este alvo, por\u00e9m, n\u00e3o<br \/>\nlevam mira Os que o \u00c1dige cerca e o Tagliamento: 45 Nem dos seus erros<br \/>\no infort\u00fanio os tira.<\/p>\n<p>\u201cPunido em breve, o povo truculento De P\u00e1dua o lago tingir\u00e1,<br \/>\nque banha 48 Co\u2019as \u00e1guas, de Vic\u00eancia o fundamento; \u201cOnde<br \/>\no Cagnan do Sile se acompanha Se trama o la\u00e7o que far\u00e1 cativo<br \/>\n51 Quem mostra no perder soberba estranha.<\/p>\n<p>\u201cDo \u00edmpio Pastor procedimento esquivo H\u00e1-de Feltro chorar,<br \/>\ntal ribaldia 54 A Malta n\u00e3o levou nunca homem vivo.<\/p>\n<p>\u201cDe enormes dimens\u00f5es tonel seria, Que o sangue recebesse de<br \/>\nFerrara, 57 Pes\u00e1-lo o esfor\u00e7o humano esgotaria, \u201cEm tal<br \/>\nc\u00f3pia o bom Padre o derramara<\/p>\n<p>589<\/p>\n<p>Em preito ao seu partido! Os dons malvados 60 Da terra sua a \u00edndole<br \/>\nexplicara.<\/p>\n<p>\u201cEspelhos no alto (Tronos s\u00e3o chamados) A n\u00f3s refletem<br \/>\nquanto Deus indica: 63 Cr\u00ea, pois, ora nos fatos revelados.\u201d \u2014<br \/>\nCalando-se Cunizza significa, Ao giro seu anterior voltando, 66 Que em diverso<br \/>\ncuidado imersa fica: Aquele, a que aludira, rebrilhando, Com preclaro esplendor,<br \/>\nmostrou-se \u00e0 vista.<\/p>\n<p>69 Como ao sol rubi fino flamejando.<\/p>\n<p>Alegria no c\u00e9u fulgor aquista, Como a nossa no riso se declara; 72<br \/>\nMas os gestos no inferno a dor contrista.<\/p>\n<p>\u201cDeus v\u00ea tudo, e o teu ver nele se aclara\u201d \u2014 Falei<br \/>\n\u2014 \u201cditoso esp\u00edrito: patente 75 Te \u00e9 sempre quanto<br \/>\no seu querer depara.<\/p>\n<p>\u201cPorque a voz tua, enlevo permanente Do c\u00e9u, de anjos no canto<br \/>\na s\u00f3cia sendo, 78 Que em seis asas t\u00eam veste resplendente, \u201cN\u00e3o<br \/>\nsatisfaz desejos, em que ardendo Estou? Falara, sem mais ser rogado, 81 Se<br \/>\neu visse em ti bem como em mim st\u00e1s<\/p>\n<p>590<\/p>\n<p>vendo.\u201d \u2014 \u2014 \u201cO maior vale de \u00e1guas inundado\u201d<br \/>\n\u2014 Desta arte a responder-me come\u00e7ava \u2014 84 \u201cDo mar,<br \/>\nem torno \u00e0 terra derramando, \u201cOpostas plagas, se estendendo,<br \/>\nlava Contra o sol, e assim faz meridiano 87 Esse horizonte, em que primeiro<br \/>\nestava.<\/p>\n<p>\u201cNessa parte do val mediterrano Nasci, entre Ebro e Macra, que separa<br \/>\n90 Do dom\u00ednio de G\u00eanova o Toscano.<\/p>\n<p>\u201cQuase um meridiano se depara Para Bugia e o ninho meu querido: 93<br \/>\nSangue dos seus seu porto avermelhara.<\/p>\n<p>\u201cChamei-me Folco e assim fui conhecido: Este c\u00e9u da luz minha<br \/>\n\u00e9 penetrado 96 Como eu fora da sua possu\u00eddo; \u201cPois Dido,<br \/>\nque ci\u00fames h\u00e1 causado A Creusa e a Siquei, n\u00e3o mais ardera<br \/>\n99 Do que eu, enquanto \u00e0 idade me foi dado; \u201cNem Rod\u00f3pea<br \/>\ninfeliz, a quem perdera Demofonte; nem H\u00e9rcules outrora, 102 Que o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o a Iole oferecera.<\/p>\n<p>591<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 remorso aqui; folga-se agora, N\u00e3o pela<br \/>\nculpa, j\u00e1 no esquecimento, 105 Pela Virtude, cuja lei se adora.<\/p>\n<p>\u201cArte aqui se contempla, em que portento T\u00e3o alto brilha; e<br \/>\no Bem se patenteia, 108 Que influir faz na terra o firmamento.<\/p>\n<p>\u201cPara ser a medida toda cheia Dos teus desejos, nados nesta esfera,<br \/>\n111 Do meu discurso inda prossegue a teia.<\/p>\n<p>\u201cOra queres saber a luz quem era, Que a\u00ed perto de mim tanto<br \/>\ncintila, 114 Como o sol, que na linfa reverbera.<\/p>\n<p>\u201cSabe, pois, que ali v\u00eas leda e tranq\u00fcila Raab: \u00e0<br \/>\nnossa ordem reunida 117 Em grau superior clara rutila.<\/p>\n<p>\u201cFoi neste c\u00e9u, que a sombra procedida Da terra n\u00e3o alcan\u00e7a,<br \/>\nem triunfando 120 Jesus Cristo, a primeira recebida.<\/p>\n<p>\u201cDevia dar-lhe um c\u00e9u por palma, quando Assinalar lhe aprouve<br \/>\na alta vit\u00f3ria, 123 Que na Cruz teve, as palmas entregando; \u201cPois<br \/>\nque por ela come\u00e7ara a gl\u00f3ria, Que colheu Josu\u00e9 na Terra<br \/>\nSanta,<\/p>\n<p>592<\/p>\n<p>126 Que se apagou do Papa na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cA tua p\u00e1tria, que foi daquele a planta, Que ao Criador revel<br \/>\nprimeiro h\u00e1 sido 129 E causou pela inveja afli\u00e7\u00e3o tanta,<br \/>\n\u201cTem flor maldi\u00e7oada produzido, Que, ovelhas e cordeiros transviando,<br \/>\n132 Traz o pastor em lobo convertido.<\/p>\n<p>\u201cO Evangelho, por ela, abandonado E os Doutores, \u00e0s p\u00e1ginas<br \/>\nusadas 135 Das Decretais st\u00e3o muitos se aplicando.<\/p>\n<p>\u201cO Papa e os Cardeais, nisto engolfadas Tendo as id\u00e9ias, Nazar\u00e9<br \/>\nesquecem, 138 Que viu do Arcanjo as asas desdobradas.<\/p>\n<p>\u201cMas Vaticano e os s\u00edtios que enobrecem A Roma e t\u00eam sido<br \/>\no cemit\u00e9rio Dos que, fi\u00e9is a Pedro, lhe obedecem, 142 Livres<br \/>\nser\u00e3o em breve do adult\u00e9rio.\u201d \u2014<\/p>\n<p>25-28. Nessa parte, etc., a Marca Trevisana. \u2014 26. Rialto, Veneza \u2014<br \/>\n28. Colina, onde est\u00e1 situado o castelo da fam\u00edlia de Ezzelino<br \/>\nde Romano. \u2014 32. Cunizza, irm\u00e3 de Ezzelino III, mulher de fama<br \/>\nduvidosa pela sua vida livre, morta em Floren\u00e7a, onde talvez se penitenciou.<br \/>\n\u2014 37. Da luz etc., \u00e9 a alma de Folco de Marselha, trovador e<br \/>\npoeta. \u2014 44. Os que etc., os habitantes da Marca Trevisana. \u2014<br \/>\n51. Quem mostra no perder<\/p>\n<p>593<\/p>\n<p>etc., Ricardo de Camino, senhor de Treviso, que foi morto trai\u00e7oeiramente<br \/>\npelos seus inimigos. \u2014 52-54. Do \u00edmpio Pastor etc., Alexandre<br \/>\nNovello, bispo de Feltre entregou ao Papa, em 1314, v\u00e1rios gibelinos<br \/>\nde Ferrara, que foram condenados \u00e0 morte. \u2014 67. Aquele, Folco.<br \/>\n\u2014 88-89. Nessa parte etc., Marselha onde Folco morou. \u2014 97. Dido,<br \/>\nrainha de Cartago, amando En\u00e9ias, ofendeu a Creusa, mulher de En\u00e9ias<br \/>\ne ao seu marido Siqueu. \u2014 100. Rod\u00f3pea, matou-se ao ser abandonada<br \/>\npor Demofonte. \u2014 102. Iole, amante de H\u00e9rcules, que, por ci\u00fame,<br \/>\nfoi morto, por Dejanira. \u2014 116. Raab, meretriz de Jeric\u00f3, escondeu<br \/>\nos espi\u00f5es que Josu\u00e9 havia mandado a Jeric\u00f3, facilitando<br \/>\na queda da cidade e, por isso, foi salva da morte, depois da vit\u00f3ria<br \/>\ndos hebreus. \u2014 118. Neste c\u00e9u etc., segundo Tolomeu a sombra<br \/>\nda Terra se projetava at\u00e9 o limite de V\u00eanus.<\/p>\n<p>\u2014 126. Que se apagou do Papa na mem\u00f3ria, o Papa n\u00e3o se<br \/>\ninteressa pela Terra Santa, que est\u00e1 sob o dom\u00ednio dos Sarracenos.<br \/>\n\u2014 127. A tua p\u00e1tria etc., Floren\u00e7a teve origem demon\u00edaca.<br \/>\n\u2014 130. Flor maldi\u00e7oada, o dinheiro, o florim de ouro de Floren\u00e7a.<br \/>\n\u2014 135. Decretais, os livros das leis can\u00f4nicas, que asseguravam<br \/>\nvantagens aos eclesi\u00e1sticos.<\/p>\n<p>594<\/p>\n<p>CANTO X<\/p>\n<p>Depois de admirar a infinita sabedoria de Deus na cria\u00e7\u00e3o do<br \/>\nUniverso, narra o Poeta como sem aperceber-se achou-se elevado ao Sol, em<br \/>\nque est\u00e3o as almas dos doutos na teologia. Doze esp\u00edritos mais<br \/>\nreluzentes o circundam e um deles, S. Tom\u00e1s de Aquino, revela o nome<br \/>\ndos seus companheiros.<\/p>\n<p>O PODER inef\u00e1vel e primeiro, O Filho a contemplar co\u2019 Amor sublime,<br \/>\n3 De um e outro, eternal, vindo o terceiro, Quanto \u00e0 vista e \u00e0<br \/>\nraz\u00e3o nossa se exprime Com tal ordem criou, que, o efeito vendo, 6<br \/>\nDe adorar seu Autor ningu\u00e9m se exime.<\/p>\n<p>As esferas, leitor, olhos erguendo Nota a parte, onde est\u00e3o dois movimentos<br \/>\n9 Um para o outro oposi\u00e7\u00e3o fazendo.<\/p>\n<p>E come\u00e7a a mirar de arte os portentos, Que tanto dentro em si o senhor<br \/>\nama, 12 Que lhes tem sempre os olhos seus atentos.<\/p>\n<p>V\u00ea como desse ponto se derrama Em linha obl\u00edqua, o c\u00edrc\u2019lo,<br \/>\nque transporta 15 Os planetas que o mundo aguarda e chama.<\/p>\n<p>595<\/p>\n<p>Se lhes assim, n\u00e3o fosse a estrada torta, Muita for\u00e7a no c\u00e9u<br \/>\nfora perdida 18 E aqui pot\u00eancia quase toda morta.<\/p>\n<p>Se fora essa vereda preterida Mais ou menos, ficara transtornada 21 A ordem<br \/>\nno universo estatu\u00edda.<\/p>\n<p>Ora leitor, medita\u00e7\u00e3o pausada Faz de quanto comigo prelibaste:<br \/>\n24 Leda a mente h\u00e1s de ter, n\u00e3o saciada.<\/p>\n<p>Dou-te iguaria: come, pois, se praz-te.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria, em que escrevo, n\u00e3o consente, 27 Nem por instantes,<br \/>\nque a aten\u00e7\u00e3o se afaste.<\/p>\n<p>Da natura o ministro mais potente Que a influ\u00eancia do c\u00e9u na<br \/>\nterra imprime 30 E o tempo mede com sua luz fulgente, \u00c0 parte, que<br \/>\noutro verso acima exprime, Se unindo, para o ponto se volvia, 33 Onde mais<br \/>\ncedo as trevas nos dirime.<\/p>\n<p>J\u00e1 no seu seio estava e o n\u00e3o sabia, Como n\u00e3o pode algu\u00e9m<br \/>\nseu pensamento 36 Saber, quando inda \u00e0 mente n\u00e3o surgia.<\/p>\n<p>E Beatriz, em quem notava aumento<\/p>\n<p>596<\/p>\n<p>De bem para melhor, t\u00e3o de repente, 39 Que o tempo fora ante o seu<br \/>\nato lento, De si mesma quanto era refulgente! O que era l\u00e1 no sol onde<br \/>\neu me entrara, 42 N\u00e3o por cor, por seu brilho mais nitente, Posto que<br \/>\narte, uso, engenho me ajudara Descrever por imagens n\u00e3o pudera; 45<br \/>\nMas crer se pode e ver-se desejara.<\/p>\n<p>N\u00e3o se estranhe, se baixa parecera, Querendo a tanto alar-se, a fantasia;<br \/>\n48 Al\u00e9m do sol ningu\u00e9m olhos erguera.<\/p>\n<p>Quarta fam\u00edlia aqui resplandecia Do Sumo Pai, que sempre da Trindade<br \/>\n51 No inef\u00e1vel spet\u00e1culo a sacia.<\/p>\n<p>E disse Beatriz: \u2014 \u201cTanta Bondade Humilde ao Sol dos anjos agradece,<br \/>\n54 Que ao sol sens\u00edvel te al\u00e7a \u00e0 claridade.\u201d \u2014<br \/>\nPeito mortal jamais ardor aquece De sentir t\u00e3o devoto e t\u00e3o<br \/>\npiedoso, 57 Que a Deus a gratid\u00e3o inteira expresse, Quanto \u00e9<br \/>\nmeu ao convite carinhoso.<\/p>\n<p>E em tanto enlevo o cora\u00e7\u00e3o se acende, 60 Que a Beatriz olvida,<br \/>\nfervoroso.<\/p>\n<p>597<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe despraz, e no seu riso esplende Tanto brilho dos olhos expressivos,<br \/>\n63 Que do \u00eaxtase profundo me desprende.<\/p>\n<p>Fulgores ent\u00e3o vi claros e vivos, De n\u00f3s centro de si c\u2019roa<br \/>\nfazendo, 66 Mais suaves em voz que em luz ativos.<\/p>\n<p>A filha de Latona se movendo Vemos assim de um cinto rodeada, 69 No ar \u00famido<br \/>\nas cores, se mantendo.<\/p>\n<p>Dos c\u00e9us a corte, donde volto, ornada De j\u00f3ias st\u00e1 sublimes<br \/>\ne formosas: 72 S\u00f3 nos c\u00e9us pode a estima lhes ser dada.<\/p>\n<p>As vozes eram tais, que ouvi donosas.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o tem plumas para ir l\u00e1 voando 75 Pergunte a um mudo<br \/>\ncousas portentosas.<\/p>\n<p>Aqueles s\u00f3is, em torno a n\u00f3s cantando, Volveram-se tr\u00eas<br \/>\nvezes: semelharam 78 Astros em roda aos p\u00f3los circulando.<\/p>\n<p>Damas imitam, que no baile param, Em sil\u00eancio outras notas esperando<br \/>\n81 Para seguir na dan\u00e7a que encetaram.<\/p>\n<p>E uma voz do seu seio disse: \u2014 \u201cQuando<\/p>\n<p>598<\/p>\n<p>Da Gra\u00e7a o raio em que o amor se acende 84 Sublime, pelo amor se acrescentando,<br \/>\n\u201cMultiplicado em ti tanto resplende, Que te conduz pela celeste escada,<br \/>\n87 Que a subir torna quem de l\u00e1 descende, \u201cO que \u00e0 sede<br \/>\nem que tens a alma abrasada Vinho negasse, irm\u00e3o, livre n\u00e3o<br \/>\nfora, 90 Qual linfa de correr embara\u00e7ada.<\/p>\n<p>\u201cSaber desejas como a c\u2019roa enflora, Que cinge, contemplando-a<br \/>\na pulcra Dama, 93 Que para o c\u00e9u te guia protetora.<\/p>\n<p>\u201cUm anho fui da santa grei que chama De Domingos a voz pelo caminho,<br \/>\n96 Onde prospera s\u00f3 quem mal n\u00e3o trama.<\/p>\n<p>\u201cTom\u00e1s de Aquino sou; me est\u00e1 vizinho, \u00c0 destra<br \/>\nde Col\u00f4nia o grande Alberto 99 A quem de aluno e irm\u00e3o devo o<br \/>\ncarinho.<\/p>\n<p>\u201cSe dos mais todos ser desejas certo, Na santa c\u2019roa atenta cuidadoso,<br \/>\n102 A tua vista a voz siga-me perto.<\/p>\n<p>\u201cNesse esplendor sorri-se jubiloso Graciano que num e noutro foro 105<br \/>\nDi\u2019no se fez de ser no c\u00e9u ditoso.<\/p>\n<p>599<\/p>\n<p>\u201cAquele outro ornamento deste coro Foi Pedro: como a pobre a of\u2019renda<br \/>\nescassa, 108 \u00c0 Santa Igreja deu rico tesouro.<\/p>\n<p>\u201cA quinta luz, que as mais em lustro passa Se acende em tanta luz,<br \/>\nque anela o mundo 111 Saber se goza da celeste Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cO alto esp\u2019rito encerra, t\u00e3o profundo, Que se o Verbo<br \/>\nde Deus \u00e9 verdadeiro, 114 De saber tanto n\u00e3o se al\u00e7ou<br \/>\nsegundo.<\/p>\n<p>\u201cAo lado seu lampeja esse luzeiro, Que os anjos, seu mister, sua natura<br \/>\n117 Em conhecer na terra foi primeiro.<\/p>\n<p>\u201cSorri na luz menor, serena e pura, Dos s\u00e9culos crist\u00e3os<br \/>\nesse advogado 120 De Agostinho t\u00e3o \u00fatil \u00e0 escritura.<\/p>\n<p>\u201cSe os olhos da tua mente acompanhado De luz em luz me tens nestes<br \/>\nlouvores 123 Saber j\u00e1 tens da oitava desejado.<\/p>\n<p>\u201cDo Sumo Bem se enleva nos fulgores Essa alma santa, havendo demonstrado<br \/>\n126 As mentiras do mundo e os seus rigores; \u201cJaz daquela alma o corpo<br \/>\ndespojado<\/p>\n<p>600<\/p>\n<p>Em Cieldauro; e ela veio \u00e0 paz divina 129 Ap\u00f3s mart\u00edrio<br \/>\ne ex\u00edlio amargurado.<\/p>\n<p>\u201cMais longe, em cada flama purpurina, Beda, Isidoro est\u00e3o, Ricardo<br \/>\nesplende, 132 Que al\u00e9m do humano o pensamento afina.<\/p>\n<p>\u201cEsse, de quem tua vista se desprende A mim tornando, achou, grave<br \/>\ne prudente, 135 Que morte pronta um grande bem compreende: \u201c\u00c9<br \/>\nSiger, que assim luz eternamente.<\/p>\n<p>Na rua de Fouare lera outrora 138 Verdades, que \u00f3dio h\u00e3o provocado<br \/>\ningente.\u201d \u2014 E qual rel\u00f3gio, que nos chama em hora, Em que,<br \/>\ndesperta, do Senhor a Esposa 141 Matinas canta e o seu amor implora; Que,<br \/>\nno girar das rodas, t\u00e3o donosa Nota faz retinir, de amor enchendo 144<br \/>\nDevota alma, que o escuta fervorosa; O glorioso c\u00edrc\u2019lo, se movendo,<br \/>\nAssim vi eu, com tal suavidade E do\u00e7ura de vozes, que comprendo 148<br \/>\nS\u00f3 haja iguais do c\u00e9u na eternidade.<\/p>\n<p>49. Quarta fam\u00edlia, as almas que est\u00e3o no Sol, que \u00e9<br \/>\no quarto C\u00e9u. \u2014 67. A filha de Latona, Diana ou a lua. \u2014<br \/>\n97. Tom\u00e1s de Aquino, Santo te\u00f3logo (1225-1274). \u2014 98.<br \/>\nDe Col\u00f4nia o grande Alberto, o c\u00e9lebre te\u00f3logo Alberto<br \/>\nMagno. \u2014 104. Graciano, de Chiusi, em Toscana, escreveu no s\u00e9culo<br \/>\nXII um volume de C\u00e2nones eclesi\u00e1sticos, que foi chamado o Decreto<br \/>\nde Graciano.<\/p>\n<p>\u2014 107. Pedro, Pedro Lombardo, bispo de Paris, morto em 1164 que, ao<br \/>\noferecer \u00e0 Igreja o seu livro \u201cSentenciaram\u201d comparava-<br \/>\nse \u00e0 vi\u00fava do Evangelho de S. Lucas, XXI. \u2014 109. A quinta<br \/>\nluz, o sapiente rei Salom\u00e3o, filho de Davi. \u2014 115-117. Esse luzeiro<br \/>\netc.<\/p>\n<p>Dion\u00edsio Aereopagita, que escreveu uma obra \u201cDe Coelesti Hierarchia.\u201d<br \/>\n\u2014 119-120. Esse advogado etc., Paulo Or\u00f3sio, que, aconselhado<br \/>\npor Santo Agostinho, escreveu a Hist\u00f3ria, em defesa da religi\u00e3o<br \/>\ncrist\u00e3. \u2014 125-128. Essa alma santa etc.<\/p>\n<p>Severino Bo\u00e9cio, autor do livro \u201cDe consolatione philosophiae\u201d,<br \/>\naprisionado e, depois, morto por Teodorico em 524. \u2014 131.<\/p>\n<p>Beda, bispo ingl\u00eas, Ricardo, padre de Esc\u00f3cia, Isidoro, S. Isidoro<br \/>\nde Sevilha, os tr\u00eas doutos te\u00f3logos. \u2014 136. Siger de Brabante,<br \/>\nprofessor de teologia na Universidade de Paris no s\u00e9culo XIII, a qual<br \/>\ntinha a sua sede na Rua Fouare.<br \/>\nCANTO XI<\/p>\n<p>Dante elogia a vida contemplativa. \u2014 As palavras proferidas no canto<br \/>\nanterior por S. Tom\u00e1s criam duas d\u00favidas no \u00e2nimo do poeta.<br \/>\nO santo, tratando de resolver a primeira, esbo\u00e7a a vida de S. Francisco<br \/>\nde Assis.<\/p>\n<p>\u00d3 DOS mortais aspira\u00e7\u00f5es erradas! Em que falsas raz\u00f5es<br \/>\nvos enlevando 3 Tendes \u00e0 terra as asas cativadas! Qual seguia o direito;<br \/>\nqual buscando J\u00e1 aforismos; qual o sacerd\u00f3cio; 6 Qual reinava,<br \/>\nsofisma ou for\u00e7a usando; Qual roubo amava, qual civil neg\u00f3cio;<br \/>\nQual, a salaz deleite entregue a vida, 9 Afanava-se; qual passava no \u00f3cio;<br \/>\nEnquanto eu, livre da terrena lida, Ao c\u00e9u com Beatriz me alevantava,<br \/>\n12 Aceito l\u00e1 com gl\u00f3ria t\u00e3o subida.<\/p>\n<p>Cada alma santa ao ponto j\u00e1 tornava Do c\u00edrculo em que de antes<br \/>\ndemorara; 15 E como c\u00edrio em candelabro estava.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o da luz, que de antes me falara Voz suave escutei; e assim dizendo<br \/>\n18 Do seu brilho a pureza se aumentara: \u2014 \u201cO lume eterno, em que<br \/>\nme inspiro e acendo, Eu, contemplando, claramente leio 21 Teu pensamento e<br \/>\na origem lhe compreendo.<\/p>\n<p>\u201cDesejas tu, da d\u00favida no enleio, Que eu aproprie da tua mente<br \/>\n\u00e0 esfera 24 O que dizer-te, h\u00e1 pouco, me conveio.<\/p>\n<p>\u201cEu te disse \u2014 caminho onde prospera \u2014 \u2014 De saber<br \/>\ntanto n\u00e3o se al\u00e7ou segundo: \u2014 27 Aqui \u00e9, pois,<br \/>\nque a explica\u00e7\u00e3o te espera.<\/p>\n<p>\u201cA Provid\u00eancia, que governa o mundo Com t\u00e3o s\u00e1bio<br \/>\nconselho, que, torvada 30 Sente a vista quem quer sondar-lhe o fundo.<\/p>\n<p>\u201cPor ser ao seu dileto encaminhada Casta Esposa daquele, que alto grito,<br \/>\n33 Desposando-a, soltou na Cruz Sagrada, \u201cCom \u00e2nimo mais forte<br \/>\ne \u00e0 f\u00e9 restrito, Dois pr\u00edncipes, lhe deu, que, em seu<br \/>\ndesvelo, 36 O caminho mostrassem-lhe bendito.<\/p>\n<p>\u201cUm ser\u00e1fico foi no ardor do zelo, Outro ostentou, por seu saber<br \/>\nna terra,<\/p>\n<p>39 De quer\u00fabica luz esplendor belo.<\/p>\n<p>\u201cDe um s\u00f3 te falarei; pois num se encerra O que de outros aos<br \/>\nlouvores mais se estende: 42 Quem der aos dois o mesmo fim n\u00e3o erra.<\/p>\n<p>\u201cEntre Tupino e o rio, que descende Do outeiro, que escolhera santo<br \/>\nUbaldo, 45 F\u00e9rtil encosta de alto monte pende.<\/p>\n<p>\u201cDali baixa a Per\u00fagia o frio e o caldo Pela porta do Sol; atr\u00e1s<br \/>\npadece 48 Em duro jugo N\u00f3cera com Gualdo.<\/p>\n<p>\u201cOnde o declive menos agro desce Nasceu ao mundo um sol t\u00e3o<br \/>\nluminoso, 51 Como o que ao Gange \u00e0s vezes esclarece.<\/p>\n<p>\u201cDesse lugar quem fale portentoso N\u00e3o diga Assis, que pouco<br \/>\ndeclarara: 54 Chame Oriente o ber\u00e7o glorioso.<\/p>\n<p>\u201cDo nascente este sol pouco distara, Quando o conforto a receber a<br \/>\nterra 57 J\u00e1 das virtudes suas come\u00e7ara.<\/p>\n<p>\u201cContra seu pai, adolescente, em guerra Entrou por dama, a quem bem<br \/>\ncomo \u00e0 morte, 60 Ningu\u00e9m a porta com prazer descerra.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o da Igreja a recebeu na corte, E coram patre, por esposa<br \/>\namada 63 E amor votou-lhe cada vez mais forte.<\/p>\n<p>\u201cVivera ela vi\u00fava e desprezada S\u00e9culos onze e mais, e<br \/>\nde outro amante, 66 Sen\u00e3o deste, n\u00e3o fora requestada; \u201cEm<br \/>\nv\u00e3o se disse que no lar, constante, De Amiclas a encontrou esse guerreiro,<br \/>\n69 De quem tremera o mundo titubante; \u201cEm v\u00e3o fiel, de cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ninteiro, Quando Maria ao p\u00e9 da Cruz ficara, 72 Com Cristo ela subira-se<br \/>\nao madeiro.<\/p>\n<p>\u201cPara fazer minha linguagem clara, Em suma, o nome sabe dos amantes:<br \/>\n75 Com pobreza Francisco se casara.<\/p>\n<p>\u201cDos dois santa uni\u00e3o, ledos semblantes, Seu terno olhar e afeito<br \/>\nmilagroso 78 D\u00e3o a todos li\u00e7\u00f5es edificantes.<\/p>\n<p>\u201cAquela paz anela cobi\u00e7oso Vener\u00e1vel Bernardo que, primeiro,<br \/>\n81 Descal\u00e7o corre e cr\u00ea ser vagaroso.<\/p>\n<p>\u201cRiqueza inota! \u00d3 Bem s\u00f3 verdadeiro! Descal\u00e7o<br \/>\nvai Eg\u00eddio, vai Silvestre,<\/p>\n<p>84 Porque amam-na, do esposo no carreiro.<\/p>\n<p>\u201cDali se parte aquele pai e mestre Com terna esposa e com fam\u00edlia<br \/>\nsanta 87 Que de corda o burel cinge campestre.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o baixa os olhos, nem se torna e espanta Por filho ser de<br \/>\nBernardone obscuro, 90 Nem por sofrer desd\u00e9m em c\u00f3pia tanta.<\/p>\n<p>\u201cMas afouto mostrou o intento duro A Inoc\u00eancio de quem primeiro<br \/>\nobteve 93 Assenso ao regimento austero e puro.<\/p>\n<p>\u201cE quando a pobre grei progresso teve, Ap\u00f3s aquele, a cuja her\u00f3ica<br \/>\nvida 96 Melhor no c\u00e9u louvor de anjos se deve, \u201cFoi a c\u2019roa<br \/>\nsegunda concedida Por Hon\u00f3rio, que o Santo Esp\u00edrito alenta 99<br \/>\nDaquele arquimandrita a santa lida.<\/p>\n<p>\u201cEm breve a sede do mart\u00edrio o tenta, E do Sold\u00e3o soberbo<br \/>\nna presen\u00e7a 102 Cristo anuncia e a lei que o representa.<\/p>\n<p>\u201cVendo rebelde o povo \u00e0 nova cren\u00e7a.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o ficar seu zelo sem proveito 105 Da It\u00e1lia volta para<br \/>\na messe extensa.<\/p>\n<p>\u201cNa dura penha, que se interp\u00f5e ao leito Do Tibre e do Arno,<br \/>\no derradeiro selo 108 Cristo lhe p\u00f4s: dois anos dura o efeito.<\/p>\n<p>Quando a Deus, que a bem tanto quis mov\u00ea-lo, O pr\u00eamio prouve<br \/>\ndar-lhe merecido, 111 Na humildade crist\u00e3 por seu desvelo, \u201cEssa<br \/>\nesposa, que amara estremecido, Aos irm\u00e3os confiou por justa heran\u00e7a,<br \/>\n114 Para afeto lhe terem sempre fido.<\/p>\n<p>\u201cDo seio da pobreza ent\u00e3o se lan\u00e7a, Tornando ao reino<br \/>\nseu, a alma preclara: 117 Nesse jazigo o corpo seu descansa.<\/p>\n<p>\u201cPensa, pois, o que foi quem Deus julgara Di\u2019no ap\u00f3s ele,<br \/>\nde reger a barca 120 Que Pedro, no alto mar encaminhara.<\/p>\n<p>\u201cCoube a tarefa ao nosso patriarca: Quem, fiel, aos preceitos lhe obedece,<br \/>\n123 Sabe tesouros arrecadar na arca.<\/p>\n<p>\u201cSua grei novo pascigo apetece, E tanto \u00e9 dos desejos impelida,<br \/>\n126 Que em diferentes campos aparece.<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais cada ovelha \u00e9 seduzida Do mundo pelo p\u00e9rfido<br \/>\natrativo,<\/p>\n<p>129 Tanto mais ao redil volta inanida.<\/p>\n<p>\u201cPoucas temendo o lance decisivo, Acolhem-se ao pastor: escasso pano<br \/>\n132 \u00c9 j\u00e1 para vesti-las excessivo.<\/p>\n<p>\u201cSe claro te falei, livre de engano, Se tens estado ao que te digo<br \/>\natento, 135 Se da mem\u00f3ria n\u00e3o receias dano, \u201cAo teu desejo,<br \/>\nem parte, dei contento, Pois da planta bem v\u00eas qual seja a rama; E o<br \/>\ncorretivo est\u00e1 neste argumento: 139 Onde prospera s\u00f3 quem mal<br \/>\nn\u00e3o trama.\u201d<\/p>\n<p>25. Eu te disse etc. V. Canto X, v. 95-96 e 114. \u2014 37. Um ser\u00e1fico<br \/>\netc., S. Francisco de Assis. \u2014 38. Outro ostentou etc., S\u00e3o Domingos.<br \/>\n\u2014 43-48. Entre Tupino etc., descreve a situa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica<br \/>\nda cidade de Assis, na qual S. Francisco nasceu. \u2014 59. Dama a quem etc.,<br \/>\na pobreza. \u2014 64-66. Vi\u00fava e desprezada etc., o primeiro esposo<br \/>\nda Pobreza foi Jesus e, por isso, ficou vi\u00fava mais de onze s\u00e9culos.<br \/>\n\u2014 68. Amiclas, J\u00falio C\u00e9sar ficou admirado pela alegre<br \/>\npobreza do pescador Amiclas (V. Lucano, Fars\u00e1lias V, 519). \u2014<br \/>\n80. Bernardo, primeiro companheiro de S.<\/p>\n<p>Francisco. \u2014 83. Eg\u00eddio e Silvestre, companheiros de S.<\/p>\n<p>Francisco. \u2014 89. Bernardone, Pietro Bernardone, pai de S.<\/p>\n<p>Francisco. \u2014 92. Inoc\u00eancio III, papa que deu autoriza\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 Ordem Franciscana, em 1214. \u2014 98. Hon\u00f3rio III, que em<br \/>\n1223, pela segunda vez, aprovou a Ordem de S. Francisco. \u2014 99.<\/p>\n<p>Arquimandrita, pastor. \u2014 100-105. Em breve etc., S. Francisco em 1219<br \/>\nesteve no Egito tentando converter os infi\u00e9is, mas voltou logo para<br \/>\na It\u00e1lia. \u2014 106-108. Na dura penha etc., no<\/p>\n<p>monte Alv\u00e9rnia, no Casentino, S. Francisco recebeu os estigmas de<br \/>\nJesus crucificado e os manteve dois anos, pois depois de dois anos morreu.<br \/>\nCANTO XII<\/p>\n<p>Acabando S. Tom\u00e1s de falar, ajunta-se \u00e0 primeira coroa de doze<br \/>\nesp\u00edritos resplendentes, mais uma coroa de igual n\u00famero de esp\u00edritos.<br \/>\nUm destes, S. Boaventura, franciscano, tece louvores a S. Domingos. Depois<br \/>\nd\u00e1 not\u00edcia acerca dos seus companheiros.<\/p>\n<p>QUANDO o lume bendito proferira Do discurso a palavra derradeira, 3 A cor\u00e9ia,<br \/>\ncomo eu j\u00e1 a vira, Inda uma volta n\u00e3o fizera inteira, Logo outra<br \/>\nturma em c\u00edrculo a encerrava 6 Em voz acordes ambas e em carreira.<\/p>\n<p>Essa harmonia tanto superava Das Musas e sereias a cad\u00eancia, 9 Quanto<br \/>\nao reflexo a luz que rutilava.<\/p>\n<p>Como arcos dois das nuvens na apar\u00eancia Curvam-se iguais na cor e equidistantes,<br \/>\n12 Se de \u00cdris Juno exige dilig\u00eancia, Nascendo um do outro, em<br \/>\nforma semelhantes, Qual voz da que de amor foi consumida 15 Como do sol as<br \/>\nn\u00e9voas alvejantes,<\/p>\n<p>E crer fazendo que h\u00e1 de ser mantida A promessa, a No\u00e9 por<br \/>\nDeus firmada, 18 De n\u00e3o ser mais a terra submergida: Assim de n\u00f3s<br \/>\nem torno ia agitada Cada grinalda das perp\u00e9tuas rosas, 21 Uma com outra<br \/>\nem tudo conformada.<\/p>\n<p>Tanto que a dan\u00e7a e festa jubilosas, Por cantos e esplendores flamejantes<br \/>\n24 Dessas luzes suaves e amorosas, Quedar eu vi nas rota\u00e7\u00f5es<br \/>\nbrilhantes, Quais olhos, juntamente ao nosso grado, 27 Se abrindo e se fechando<br \/>\nvigilantes, De um dos novos clar\u00f5es voz, que, enlevado, Volver-me para<br \/>\nsi fez de repente, 30 Qual \u00e0 estrela polar \u00edm\u00e3 voltado:<br \/>\n\u2014 \u201cAmor\u201d \u2014 diz \u2014 \u201cque a beleza d\u00e1-me<br \/>\ningente Me induz a te falar do Mestre Santo, 33 Que ao meu foi de louvor causa<br \/>\neminente.<\/p>\n<p>\u201cUm se memore onde outro bilha tanto: Sob a mesma bandeira h\u00e3o<br \/>\nmilitado; 36 Brilha a gl\u00f3ria dos dois tamb\u00e9m no canto.<\/p>\n<p>De Cristo, a tanto custo restaurado, O ex\u00e9rcito o estandarte seu seguia,<\/p>\n<p>39 J\u00e1 raro, lento, de temor tomado, \u201cQuando \u00e0 mil\u00edcia,<br \/>\nque o valor perdia O Eterno Imperador deu provimento, 42 S\u00f3 por Gra\u00e7a:<br \/>\nesse bem n\u00e3o merecia; \u201cE da Esposa enviou por salvamento Dois<br \/>\ncampe\u00f5es, de cuja voz movida, 45 A transviada gente cobra o alento.<\/p>\n<p>\u201cNa terra, em que, ao seu h\u00e1bito, convida O Z\u00e9firo a<br \/>\nse abrirem novas flores, 48 De que se v\u00ea a Europa revestida, \u201cEm<br \/>\nplaga, onde se embate em seus furores O mar, em que, o seu curso terminado,<br \/>\n51 O sol esconde \u00e0s vezes seus ardores, \u201cJaz Calaroga em solo<br \/>\nafortunado, Que o poderoso escudo protegera, 54 No qual le\u00e3o subjuga<br \/>\ne \u00e9 subjugado.<\/p>\n<p>\u201cAli o atleta her\u00f3ico \u00e0 luz viera, Da f\u00e9 crist\u00e3<br \/>\nesse indefesso amante, 57 Que, aos seus beni\u2019no, aos maus guerra fizera.<\/p>\n<p>\u201cFoi virtude em sua alma t\u00e3o possante, Que, ainda estando no<br \/>\nmaterno seio, 60 Do porvir fez a m\u00e3e vaticinante.<\/p>\n<p>\u201cQuando a firmar-se o despos\u00f3rio veio Entre ele e a F\u00e9,<br \/>\nna fonte consagrada, 63 De muita salva\u00e7\u00e3o seguro meio, \u201cDe<br \/>\ndar p\u00f4r ele o assento a encarregada A messe viu em sonhos milagrosa,<br \/>\n66 Que dele e herdeiros seus era esparada.<\/p>\n<p>\u201cDo seu destino em prova portentosa, Anjo baixou ao fim s\u00f3 de<br \/>\ncham\u00e1-lo 69 Do Senhor de quem era a alma piedosa.<\/p>\n<p>\u201cDom\u00ednico foi dito e eu dele falo, Como o oper\u00e1rio, que<br \/>\nelegera Cristo, 72 Da vinha no lavor para ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u201cServo e enviado mostrou ser de Cristo Por quanto o amor primeiro,<br \/>\nque h\u00e1 mostrado, 75 Foi a primeira lei que nos deu Cristo.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes a m\u00e3e o achou prostrado, Em profundo sil\u00eancio<br \/>\ne bem desperto, 78 Como a dizer: \u2014 A isto eu fui mandado.<\/p>\n<p>\u201cOh! foi seu genitor feliz por certo! Oh! sua m\u00e3e realmente<br \/>\nfoi Joana 81 Se h\u00e1 no sentido que lhe d\u00e3o, acerto! \u201cN\u00e3o<br \/>\npelo amor do mundo, que se engana, Do Ostiense e Tadeu nos livros lendo,<\/p>\n<p>84 Mas de Jesus pelo man\u00e1 se afana, \u201cSapiente doutor em breve<br \/>\nsendo, Da santa vinha guarda vigilante, 87 Que presto seca, pouco zelo havendo.<\/p>\n<p>\u201cDe Roma \u00e0 sede quando foi perante, Que aos justos era compassiva<br \/>\noutrora, 90 Hoje, por culpa do que a rege, errante, \u201cOnzen\u00e1rias<br \/>\ndispensas n\u00e3o lhe implora, Nem primeira prebenda, que vagasse, 93 Nem<br \/>\nd\u00edzimas, que s\u00e3o do pobre, exora.<\/p>\n<p>\u201cMas contra o mundo, que no qual compraz-se, Pede o favor de defender<br \/>\na planta, 96 Da qual tens flores vinte e quatro em face.<\/p>\n<p>\u201cCom seu querer e com doutrina santa, Como a torrente, que da altura<br \/>\ndesce, 99 De ap\u00f3stolo por zelo o mundo espanta.<\/p>\n<p>\u201cDos hereges se arroja \u00e0 infanda messe, E onde a resist\u00eancia<br \/>\nmais porfia 102 Das for\u00e7as suas o \u00edmpeto recresce.<\/p>\n<p>Dele brotaram rios, que hoje em dia T\u00eam o jardim cat\u00f3lico regado<br \/>\n105 E aos seus arbustos d\u00e3o vi\u00e7o e valia.<\/p>\n<p>\u201cSe tal foi uma roda do afamado Carro, em que defendeu-se a Santa Igreja,<br \/>\n108 E a civil guerra em campo h\u00e1 superado, \u201cDa outra o alto m\u00e9rito<br \/>\nqual seja J\u00e1 te disse Tom\u00e1s, eu stando ausente: 111 Dele nas<br \/>\nvozes seu louvor lampeja.<\/p>\n<p>\u201cPor\u00e9m daquela roda o sulco ingente Ficou em desamparo tal,<br \/>\nque o lodo 114 Onde era a flor domina tristemente.<\/p>\n<p>\u201cV\u00ea-se a fam\u00edlia sua por tal modo Da vereda de outrora<br \/>\ntransviada, 117 Que esqueceu-lhe as pegadas j\u00e1 de todo.<\/p>\n<p>\u201cLogo a cultura m\u00e1 ser\u00e1 provada Na seara, ziz\u00e2nia<br \/>\nsendo ao vento, 120 Em vez de ir ao celeiro, arremessada.<\/p>\n<p>\u201cQue nosso livro folheasse atento Veria, creio, p\u00e1gina, em que<br \/>\nlesse: 123 \u2014 Sou, como sempre, de impureza isento. \u2014 \u201cEm<br \/>\nCasal e \u00c1gua-Sparta igual n\u00e3o v\u00ea-se: L\u00e1 de tal<br \/>\njeito entende-se a Escritura, 126 Que um t\u00edbio a foge, outro excessivo<br \/>\na empece.<\/p>\n<p>\u201cDe Bargnoregio eu sou Boaventura, Que, exercendo altos cargos, repelia<\/p>\n<p>129 Dos interesses temporais a cura.<\/p>\n<p>\u201cV\u00ea, dos irm\u00e3os descal\u00e7os primazia, Iluminato,<br \/>\nde Agostinho ao lado: 132 Cada qual no burel por Deus ardia.<\/p>\n<p>\u201cHugo v\u00ea de S. V\u00edtor premiado Como Pedro Mangiadore e<br \/>\nPedro Hispano 135 Pelos seus doze livros celebrado.<\/p>\n<p>\u201cNat\u00e3 Profeta e o Metropolitano Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo,<br \/>\nAnselmo e o afamado 138 Donato, na primeira arte sob\u2019rano.<\/p>\n<p>\u201cV\u00ea Rabano, a brilhar v\u00ea ao meu lado O calabr\u00eas Abade<br \/>\nGiovachino, 141 De esp\u00edrito prof\u00e9tico dotado.<\/p>\n<p>\u201cAos louvores do excelso paladino Moveu-me a caridosa cortesia, O dizer<br \/>\ns\u00e1bio de Tom\u00e1s de Aquino, 145 E comigo a esta santa companhia.\u201d<\/p>\n<p>12. \u00cdris, personifica\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica do arco-\u00edris.<br \/>\n\u2014 14. Qual voz do que de amor foi consumida, como voz da ninfa Eco que<br \/>\nse consumiu pelo amor por Narciso. \u2014 28. Um dos novos clar\u00f5es,<br \/>\na alma de S. Boaventura. \u2014 46. Na terra etc., na Espanha. \u2014 53-<br \/>\n54. Escudo etc., o escudo dos reis da Castela representava dois le\u00f5es,<br \/>\num debaixo e outro em cima de um castelo. \u2014 64-66. A encarregada etc.,<br \/>\nquando do batismo de S. Domingos, a<\/p>\n<p>madrinha o viu com uma estrela na testa. \u2014 80. Sua m\u00e3e realmente<br \/>\nfoi Joana. Joana em hebraico tem o significado de \u201cportadora de gra\u00e7as.\u201d<br \/>\n\u2014 83. Ostiense, o cardeal Henrique de Susa, que comentou os \u201cDecretais\u201d;<br \/>\nTadeu Aldreotti, florentino, m\u00e9dico; ou, segundo outros comentadores,<br \/>\nTadeu dei Pepoli, jurista bolonh\u00eas. \u2014 90. Por culpa etc., de Bonif\u00e1cio<br \/>\nVIII. \u2014 95- 96. A planta etc., a f\u00e9, de que se alimentaram os<br \/>\nesp\u00edritos dos vinte e quatro te\u00f3logos que est\u00e3o na presen\u00e7a<br \/>\nde Dante. \u2014 124- 126. Em Casal e Agua-Sparta, alude \u00e0 divis\u00e3o<br \/>\ndos franciscanos em dois partidos, um chefiado por libertino de Casale e outro<br \/>\npor Mateus d\u2019Acquesparta. \u2014 131. Iluminato e Agostinho, dois companheiros<br \/>\nde S. Francisco. \u2014 133-135. Hugo de S. Vitore, Pedro Mangiatore e Pedro<br \/>\nHispano, egr\u00e9gios te\u00f3logos. \u2014 136- 139. Nat\u00e3, o<br \/>\nprofeta que repreendeu Davi; S. Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, patriarca da<br \/>\nIgreja; Donato, gram\u00e1tico latino; S. Anselmo, bispo de Canterbury.<br \/>\n\u2014 139-140. Rabano e o abade Giovachino, escritores sacros.<br \/>\nCANTO XIII<\/p>\n<p>O Poeta descreve a dan\u00e7a das duas coroas de esp\u00edritos celestes.<\/p>\n<p>S. Tom\u00e1s resolve a segunda d\u00favida de Dante. Ad\u00e3o e Jesus<br \/>\nCristo s\u00e3o seres perfeit\u00edssimos, por serem obra imediata de<br \/>\nDeus.<\/p>\n<p>Mas ele n\u00e3o pode ser comparado nem a Ad\u00e3o nem a Jesus Cristo.<br \/>\nConclui o Santo advertindo do perigo dos ju\u00edzos precipitados, e de<br \/>\nquanto \u00e9 sujeito a enganar-se quem julga das coisas pelas apar\u00eancias.<\/p>\n<p>O QUE hei visto e refiro quem deseja Entender, imagine, (e bem sculpida,<br \/>\n3 Como em rocha, na mente a imagem seja) Quinze estrelas, que luz tanta espargida<br \/>\nTem por celestes regi\u00f5es dif\u2019rentes, 6 Que \u00e9 do ar a espessura<br \/>\nesclarecida, Da carro\u00e7a imagine as refulgentes Rodas, sempre girando,<br \/>\nnoite e dia, 9 Pelos espa\u00e7os do c\u00e9u nosso ingentes; Da trompa<br \/>\na boca mostre a fantasia, Que l\u00e1 no extremo do axe, ao qual a esfera<br \/>\n12 Primeira contorneia, principia.<\/p>\n<p>Se em signos dois tais astros considera,<\/p>\n<p>Iguais \u00e0 c\u2019roa que no c\u00e9u fulgura, 15 D\u00eas que Ariadne<br \/>\n\u00e0 morte se rendera; E, os raios misturando da luz pura, Para lados<br \/>\ncontr\u00e1rios se movendo 18 Aqueles c\u00edrc\u2019los dois na et\u00e9rea<br \/>\naltura: Imagine, mas quase a sombra tendo Dos versos astros, dessa dupla dan\u00e7a,<br \/>\n21 Que em torno a n\u00f3s estava se volvendo.<\/p>\n<p>Que a verdade essa imagem tanto alcan\u00e7a, Quanto a Chiana a rapidez<br \/>\nimita 24 Do c\u00e9u, que a todos os mais c\u00e9us se avan\u00e7a.<\/p>\n<p>Nem Pean cantam, nem de Baco a grita; Mas Tr\u00eas Pessoas com divina ess\u00eancia<br \/>\n27 E numa o humano ser, que a Deus se adita.<\/p>\n<p>Os hinos tendo e a dan\u00e7a intermit\u00eancia Em n\u00f3s os santos<br \/>\nlumes se fitaram; 30 Compraz-lhes dos cuidados a seq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio que os coros dois formaram, As vozes rompem, que a espantosa<br \/>\nvida 33 Do mendigo de Deus me recontaram.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuando a palha \u00e9 do trigo dividida, Quando a colheita<br \/>\nfica enceleirada, 36 A bater outra doce Amor convida.<\/p>\n<p>\u201cCr\u00eas que ao peito onde a costa foi tirada Para a boca gentil<br \/>\nformar motivo 39 Da pena ao mundo inteiro fulminada, \u201cE ao da aguda<br \/>\nlan\u00e7a o golpe esquivo Padeceu e a balan\u00e7a, em morte e vida,<br \/>\n42 Da culpa al\u00e7ou com peso decisivo, \u201cQuanta ci\u00eancia aos<br \/>\nhomens permitida Ser poderia pela m\u00e3o divina, 45 Que um e outro criou,<br \/>\nfora infundida.<\/p>\n<p>\u201cTua mente, pois, a d\u00favidas se inclina Me ouvindo que em ci\u00eancia<br \/>\nsem segundo 48 Subira quem a luz quinta domina.<\/p>\n<p>\u201cOlhos abre \u00e0 raz\u00e3o, em que me fundo: Como teu crer confundida<br \/>\ntens de v\u00ea-la 51 Na verdade, qual centro num rotundo.<\/p>\n<p>\u201cO que n\u00e3o morre, o que por morte gela \u00c9 s\u00f3 splendor<br \/>\nda Id\u00e9ia, que, nascendo 54 Do Senhor nosso, o seu amor revela; \u201cPor<br \/>\nquanto essa luz viva, procedendo Do foco seu, do qual se n\u00e3o desune,<br \/>\n57 Nem do Amor, que o terceiro fica sendo, \u201cS\u00f3 por Bondade sua,<br \/>\no fulgor une,<\/p>\n<p>Como em sp\u00ealho, em c\u00e9us nove, e o concentrando, 60 Tem a unidade<br \/>\neternalmente imune.<\/p>\n<p>\u201cAs \u00faltimas pot\u00eancias se abaixando, J\u00e1 de ato em<br \/>\nato enfraquecida fica, 63 As breves contig\u00eancias vai formando.<\/p>\n<p>\u201cContig\u00eancias palavra \u00e9 que te indica Essas cousas, que<br \/>\no c\u00e9u, no movimento, 66 Com semente ou sem ela multiplica.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o mostra arte ou subst\u00e2ncia um s\u00f3 intento E<br \/>\nmodo, mais ou menos transluzindo 69 O selo do Supremo Entendimento.<\/p>\n<p>\u201cV\u00ea-se, pois, a mesma arv\u2019re produzindo, Segundo a esp\u00e9cie,<br \/>\nou bons ou ruins frutos; 72 E v\u00f3s \u00e0 luz com v\u00e1rias manhas<br \/>\nvindo.<\/p>\n<p>\u201cBrilhava o selo inteiro nos produtos, Se a cera em ponto apropriado<br \/>\nfora, 75 E os influxos do c\u00e9u nunca interruptos; \u201cPor\u00e9m<br \/>\nnatura as impress\u00f5es desdoura, Procedendo, assim como faz o artista:<br \/>\n78 Treme-lhe a m\u00e3o que \u00e9 da arte sabedora.<\/p>\n<p>\u201cE, pois, se ardente amor a clara vista Da virtude primeira imprime<br \/>\ne adapta,<\/p>\n<p>81 A perfei\u00e7\u00e3o aqui toda se aquista.<\/p>\n<p>\u201cAssim a argila foi condigna e apta A toda perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda criatura, 84 E concebeu a Virgem pura, intacta.<\/p>\n<p>\u201cSegues, portanto opini\u00e3o segura: Como nos dois jamais t\u00e3o<br \/>\nalta h\u00e1 sido, 87 Nem jamais h\u00e1 de ser vossa natura.<\/p>\n<p>\u201cSe eu porventura houvesse conclu\u00eddo, Com raz\u00e3o me tiveras<br \/>\nperguntado: 90 \u2014 Como disseste \u2014 igual n\u00e3o tem subido?<br \/>\n\u201cDa verdade por seres informado, No que era pensa e \u00e0 sua escolha<br \/>\natende, 93 Quando \u2014 Pede \u2014 por Deus foi-lhe ordenado.<\/p>\n<p>\u201cClaro falei, tua mente bem comprende Que foi Rei quem pediu sabedoria<br \/>\n96 Para fazer o que o bom Rei pretende.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o quis saber qual n\u00famero seria Dos motores ao c\u00e9u,<br \/>\nnem se necesse 99 Com contigente um seu igual faria.<\/p>\n<p>\u201cNon si est dare primum motum esse, Ou se um tri\u00e2ng\u2019lo<br \/>\nsem ter \u00e2ng\u2019lo reto 102 Tra\u00e7ar em simic\u00edrc\u2019lo<br \/>\nse pudesse.<\/p>\n<p>\u201cE pois, o dizer meu que ora completo, Quando falava na sem par ci\u00eancia,<br \/>\n105 A prud\u00eancia real ia direto.<\/p>\n<p>\u201cDando ao \u2014 \u201cSubiu\u201d \u2014 devida intelig\u00eancia,<br \/>\nH\u00e1s de ver que somente aos Reis se aplica, 108 Muitos na soma, poucos<br \/>\nna excel\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cE feita a distin\u00e7\u00e3o que exposta fica, Meu dizer \u00e0<br \/>\ntua f\u00e9 no pai primeiro 111 E em nosso Redentor n\u00e3o contra-indica.<\/p>\n<p>\u201cPrende assim chumbo ao p\u00e9 sempre; ligeiro N\u00e3o v\u00e1s,<br \/>\nimita o caminhante lasso; 114 Ao n\u00e3o ao sim n\u00e3o corre aventureiro.<\/p>\n<p>\u201cMostra ser dos estultos o mais crasso Quem afirma, quem nega leviano<br \/>\n117 Sem distin\u00e7\u00e3o ou num ou noutro passo.<\/p>\n<p>\u201cDa\u00ed vem muitas vezes por seu dano, Que o ju\u00edzo do vulgo<br \/>\nse transvia 120 E o entendimento enleia afeto insano.<\/p>\n<p>\u201cMais do que em v\u00e3o do porto se desvia: Inc\u00f3lume n\u00e3o<br \/>\nvolta da jornada 123 Quem p\u00f3s verdade da arte n\u00e3o seguia.<\/p>\n<p>\u201cA prova d\u00e3o, por fatos confirmada Parm\u00eanides, Melisso,<br \/>\nBrisso e quantos<\/p>\n<p>126 Partiram sem saber o rumo e a estrada.<\/p>\n<p>\u201cAssim \u00c1rio fez, Sab\u00e9lio e tantos, Que, como espadas,<br \/>\nderam na Escritura, 129 Mutilando o sentido aos textos santos.<\/p>\n<p>\u201cQuem no julgar as cousas se apressura Imita aquele, que estimasse<br \/>\no trigo, 132 Quando a seara inda n\u00e3o st\u00e1 madura.<\/p>\n<p>\u201cNo inverno hei visto espinho dar castigo Ao que imprudente as ramas<br \/>\nlhe tocara; 135 Rosas depois oferecia amigo.<\/p>\n<p>\u201cE nau vi, que segura navegara, Em viagem feliz, o salso argento, 138<br \/>\nSo\u00e7obrar, quando o posto j\u00e1 tomara.<\/p>\n<p>\u201cDe Deus antecipar-se ao julgamento N\u00e3o queiram Dona Berta e<br \/>\nDom Martinho: Se um rouba e \u00e9 outro \u00e0s obla\u00e7\u00f5es<br \/>\natento, 142 Pode um se erguer, cair outro em caminho.\u201d \u2014<\/p>\n<p>15. Ariadne, filha de Mimos, depois de morta, foi transformada por Baco numa<br \/>\nconstela\u00e7\u00e3o. \u2014 23. Chiana, rio da Toscana. \u2014 25.<br \/>\nPean, hino que os antigos cantavam nas festas de Apolo. \u2014 33. Mendigo<br \/>\nde Deus, S. Francisco. \u2014 37-39. Ao peito onde a costa gentil, etc.,<br \/>\nAd\u00e3o de cuja costa foi tirada Eva, a qual comeu a ma\u00e7\u00e3<br \/>\nque foi fatal para a humanidade. \u2014 40. Ao da aguda lan\u00e7a etc.,<br \/>\nJesus Cristo. \u2014 47. Em ci\u00eancia sem segundo,<\/p>\n<p>Salom\u00e3o. \u2014 98-99. Se nascesse contigente etc., se duas premissas,<br \/>\numa necess\u00e1ria e outra contigente tenham conseq\u00fc\u00eancia necess\u00e1ria.<br \/>\n\u2014 100. Si est dare etc., se se deve admitir a exist\u00eancia de um<br \/>\nmovimento que n\u00e3o derive de outro.<\/p>\n<p>\u2014 125. Parm\u00eanides, Melisso, Brisso, fil\u00f3sofos gregos,<br \/>\nconfutados por Arist\u00f3teles. \u2014 127. \u00c1rio e Sab\u00e9lio,<br \/>\nhereges condenados pela Igreja. \u2014 140. Dona Berta e Dom Martinho, nomes<br \/>\nde pessoas comuns e ignorantes.<br \/>\nCANTO XIV<\/p>\n<p>Beatriz pergunta a um esp\u00edrito celeste, em nome de Dante, se depois<br \/>\nda ressurrei\u00e7\u00e3o dos corpos permanecer\u00e1 a luz que emana<br \/>\nde suas almas e se essa luz n\u00e3o prejudicar\u00e1 a sua vista. O esp\u00edrito<br \/>\nresponde que, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o, a vista dos esp\u00edritos<br \/>\naumentar\u00e1. Aparecem novos esp\u00edritos. Sem perceber, Dante encontra-se<br \/>\nno planeta Marte, onde est\u00e3o aqueles que defenderam com as armas a<br \/>\nreligi\u00e3o crist\u00e3. A\u00ed o aspecto do c\u00e9u vence toda<br \/>\nbeleza passada, porque quanto mais se sobe, mais cresce o esplendor dos c\u00e9us.<\/p>\n<p>DO centro \u00e0 borda e assim da borda ao centro \u00c1gua num vaso<br \/>\ncircular se agita, 3 Se a comovem de fora, se de dentro.<\/p>\n<p>Isto que digo a mente me visita S\u00fabito, quando o esp\u2019rito glorioso<br \/>\n6 De Tom\u00e1s suspendeu a voz bendita, Por semelhar-se ao efeito poderoso<br \/>\nDa sua voz e ao que Beatriz causava, 9 Quando assim disse em tom grave e donoso:<br \/>\n\u201cO que saber este homem precisava Com voz n\u00e3o disse, e, se o<br \/>\ncogita, o ignora: 12 De outra verdade com raiz se trava.<\/p>\n<p>\u201cA aur\u00e9ola, dizei-lhe, em que se inflora A subst\u00e2ncia,<br \/>\nque \u00e9 vossa eternamente, 15 Convosco h\u00e1 de existir, bem como<br \/>\nagora? \u201cSe este esplendor em v\u00f3s \u00e9 permanente, Quando<br \/>\nvis\u00edveis fordes, ressurgindo, 18 A vista sofrer\u00e1 luz t\u00e3o<br \/>\nfulgente?\u201d \u2014 Como em cor\u00e9ia as vozes v\u00e3o subindo<br \/>\nE recresce a alegria, algum motivo 21 De alvoro\u00e7o aos dan\u00e7antes<br \/>\nsobrevindo, Assim aos santos c\u00edrculos mais vivo J\u00fabilo mostram<br \/>\nno girar, no canto 24 Ante o rogo piedoso e compassivo.<\/p>\n<p>Quem, por chegar a morte, sente espanto, Para lograr no c\u00e9u viver<br \/>\ndivino, 27 Da eterna chuva desconhece o encanto.<\/p>\n<p>Quem sempre reina, \u00e9 uno, \u00e9 duplo, \u00e9 trino, Em tr\u00eas,<br \/>\nem dois, em um sempre perdura, 30 N\u00e3o abrangido \u2014 e tudo abrange<br \/>\n\u2014 em hino De t\u00e3o suave e c\u00f4nsona do\u00e7ura Dos coros<br \/>\nfoi tr\u00eas vezes aclamado, 33 Que um pr\u00eamio fora da virtude pura.<\/p>\n<p>No lume, de fulgor mais sinalado, Ouvi, do menor c\u00edrc\u2019lo voz<br \/>\nmodesta,<\/p>\n<p>36 Como a do arcanjo \u00e0 Virgem deputado.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuanto no Para\u00edso eterna a festa H\u00e1 de ser,<br \/>\ntanto o nosso amor vestido 39 Ser\u00e1 de luz em torno manifesta.<\/p>\n<p>\u201cO brilho seu do ardor h\u00e1 procedido E o ardor da vis\u00e3o,<br \/>\nque \u00e9 t\u00e3o gozosa, 42 Quanto a Gra\u00e7a o valor faz mais<br \/>\nsubido.<\/p>\n<p>\u201cE quando a carne santa e gloriosa Revestirmos, ser\u00e1 nossa pessoa<br \/>\n45 Completa e mais jucunda e mais ditosa.<\/p>\n<p>\u201cE o gratuito lume, que nos doa O Sumo Bem, ser\u00e1 mais rutilante:<br \/>\n48 A Gl\u00f3ria sua a ver nos afei\u00e7oa.<\/p>\n<p>\u201cA vis\u00e3o se far\u00e1 mais penetrante, Mor o ardor se far\u00e1<br \/>\nque ali se acende, 51 E o esplendor, que este d\u00e1, mais coruscante.<\/p>\n<p>\u201cQual carv\u00e3o, que de si flamas desprende E pelo vivo ardor as<br \/>\nescurece 54 Tanto, que entre elas seu rubor resplende, \u201cEste doce fulgor,<br \/>\nque em n\u00f3s parece, Ver deixar\u00e1 o corpo ressurgido, 57 Quando<br \/>\no sono, em que jaz um dia cesse.<\/p>\n<p>\u201cNenhuma ser\u00e1 das luzes ofendido: Star\u00e3o corp\u00f3reos<br \/>\n\u00f3rg\u00e3os adaptados 60 A quanto a deleitar-nos for provido.\u201d<br \/>\n\u2014 Os coros dois t\u00e3o ledos e apressados Responderam \u2014 am\u00e9m<br \/>\n\u2014 que bem mostraram 63 Quanto os trajos carnais s\u00e3o desejados.<\/p>\n<p>N\u00e3o por si s\u00f3s talvez os cobi\u00e7aram, Mas por amor dos<br \/>\npais, de entes queridos, 66 Antes que ternas flamas se tornaram.<\/p>\n<p>Eis, em torno, de lumes incendidos Novo c\u00edrculo aos outros se acrescenta:<br \/>\n69 Qual nitente horizonte, os tem cingidos.<\/p>\n<p>E como, quando \u00e0 tarde a sombra aumenta, No c\u00e9u come\u00e7am<br \/>\nde assomar estrelas, 72 Cuja luz d\u00fabia aos olhos se apresenta, Assim<br \/>\nme pareceu que via aquelas Novas subst\u00e2ncias, que, tamb\u00e9m girando,<br \/>\n75 Moviam-se em redor das c\u2019roas belas.<\/p>\n<p>Vero fulgor do Esp\u2019rito Santo! Oh! quando Te mostraste de s\u00fabito,<br \/>\ncandente, 78 Os olhos meus venceste, deslumbrando.<\/p>\n<p>Mas Beatriz t\u00e3o bela e t\u00e3o ridente Rebrilhou, que a vis\u00e3o<br \/>\nmaravilhosa,<\/p>\n<p>81 Bem como outras, seguir n\u00e3o pode a mente.<\/p>\n<p>Aos olhos for\u00e7a deu t\u00e3o poderosa, Que se al\u00e7aram; e<br \/>\ncom ela transportado 84 Vi-me \u00e0 esfera mais alta e luminosa.<\/p>\n<p>Fui da minha ascens\u00e3o certificado Da purpurina estrela pelo gesto,<br \/>\n87 Em que rubor notei n\u00e3o costumado.<\/p>\n<p>Nesse falar, a todos manifesto Do cora\u00e7\u00e3o, a Deus vivo holocausto,<br \/>\n90 Por sua nova gra\u00e7a, humilde presto.<\/p>\n<p>Do peito meu n\u00e3o era ainda exausto Do sacrif\u00edcio o ardor, que<br \/>\nconvencido 93 De estar aceito fui, e ser-me fausto.<\/p>\n<p>T\u00e3o l\u00facidas, t\u00e3o rubras, confundido Vi luzes em dois<br \/>\nraios fulgurantes, 96 Que disse \u2014 \u00d3 H\u00e9lios, como os tens<br \/>\nvertido! \u2014 Gal\u00e1xia, em astros mais, menos brilhantes Branqueja,<br \/>\nentre dois p\u00f3los colocados, 99 E os doutos deixa em d\u00favida hesitantes:<br \/>\nDe igual maneira em Marte constelados O signo os raios formam venerando, 102<br \/>\nDi\u00e2metros iguais sendo cruzados.<\/p>\n<p>Me est\u00e1 mem\u00f3ria o engenho superando: Se na cruz lampejar eu<br \/>\nvia Cristo, 105 Como acertar, exemplos procurando? Quem toma a Cruz e na jornada<br \/>\nCristo Segue, desculpe o que falta em arte, 108 Vendo nesse esplendor rutilar<br \/>\nCristo.<\/p>\n<p>Da cruz em cada bra\u00e7o, em toda parte Cintilantes mil fogos se moviam;<br \/>\n111 Qual desce, qual se eleva, qual desparte.<\/p>\n<p>Assim sutis argueiros se veriam, Retos ou curvos, r\u00e1pidos ou lentos,<br \/>\n114 De formas, que mult\u00edplices variam, De Sol em r\u00e9stea que<br \/>\nentra os aposentos, Onde da calma o homem se repara 117 Apurando do engenho<br \/>\ne da arte inventos; E como da harpa e lira se depara Nas cordas v\u00e1rias<br \/>\ndoce melodia 120 A quem notas ignora e n\u00e3o compara; Assim desses luzeiros<br \/>\nque ali via Na Cruz formosa, ext\u00e1tico escutava, 123 Sem comprend\u00ea-la,<br \/>\nang\u00e9lica harmonia.<\/p>\n<p>Que eram altos louvores bem julgava Ressuscita e triunfa \u2014 acaso ouvindo:<\/p>\n<p>126 Confusamente o hino me soava.<\/p>\n<p>Ouvia em tanto enlevo me sentindo, Que inda n\u00e3o sinto cousa que mais<br \/>\nqueira, 129 A mente ao canto em doce enleio, unindo.<\/p>\n<p>Ousado sou talvez desta maneira, Parecendo pospor os olhos belos, 132 Em<br \/>\nque a minha alma se embevece inteira.<\/p>\n<p>Mas quem reflete que os eternos selos V\u00e3o da beleza no alto se apurando,<br \/>\n135 E aos olhos n\u00e3o voltava-me por v\u00ea-los, \u00c0 falta me<br \/>\nachar\u00e1 perd\u00e3o, notando A verdade que digo: o prazer santo N\u00e3o<br \/>\nexcluo que em v\u00ea-la ia gozando; 139 Com a altura, se eleva o puro encanto.<\/p>\n<p>28-30. Quem sempre reina, \u00e9 uno, \u00e9 duplo, \u00e9 trino, etc.,<br \/>\nDeus. \u2014 35. Voz modesta, Salom\u00e3o. \u2014 96. H\u00e9lios,<br \/>\no Sol. \u2014 97. Gal\u00e1xia, a Via L\u00e1ctea, cuja cor deixa em<br \/>\nd\u00favida os s\u00e1bios, pois n\u00e3o sabem explicar qual seja a<br \/>\nsua natureza.<br \/>\nCANTO XV<\/p>\n<p>As almas dos combatentes pela f\u00e9 em Cristo est\u00e3o dispostas<br \/>\nem forma de cruz, vexilo de mart\u00edrio e de vit\u00f3ria. Do lado direito<br \/>\ndessa cruz move-se um esp\u00edrito e com paternal afeto sa\u00fada a<br \/>\nDante. \u00c9 Cacciaguida, seu trisav\u00f4. Descreve ele a inoc\u00eancia<br \/>\ndos costumes do seu tempo e lembra como morreu combatendo pelo sepulcro de<br \/>\nCristo, na segunda cruzada.<\/p>\n<p>BEN\u00c9VOLO querer, que significa Sempre esse amor, que a caridade inspira,<br \/>\n3 Como a cobi\u00e7a o mau querer indica, Sil\u00eancio pondo \u00e0quela<br \/>\ndoce lira; Os sons \u00e0s cordas santas suspendida, 6 Que l\u00e1 do<br \/>\nc\u00e9u a destra afrouxa e estira.<\/p>\n<p>Como aos claros esp\u00edritos seria Em v\u00e3o meu justo rogo, se excit\u00e1-lo<br \/>\n9 De acordo se calando, lhes prazia? Ah! pranteie sem tr\u00e9guas e intervalo<br \/>\nQuem, do amor transit\u00f3rio cativado, 12 P\u00f4de do amor eterno avantaj\u00e1-lo!<br \/>\nComo o sereno azul, atravessado \u00c0s vezes \u00e9 por fogo repentino,<\/p>\n<p>15 Que aos olhos nos salteia inesperado; Diss\u00e9reis astro a procurar<br \/>\ndestino, Se algum faltasse \u00e0 parte, onde se acende 18 Esse instant\u00e2neo<br \/>\nlume peregrino: Assim do bra\u00e7o, que \u00e0 direita estende, Da cruz<br \/>\nao p\u00e9 vi deslizar um astro 21 Dessa constela\u00e7\u00e3o, que<br \/>\nali resplende.<\/p>\n<p>N\u00e3o desfiou-se a per\u2019la do seu nastro; Pela brilhante linha<br \/>\ndescendera, 24 Como fogo a luzir sob o alabastro.<\/p>\n<p>De Anquise a sombra pia assim correra, Se f\u00e9 merece a Mantuana Musa,<br \/>\n27 Quando En\u00e9ias do El\u00edsio aparecera.<\/p>\n<p>\u201cO sanguis meus! O superinfusa Gratia Dei; sicui tibi cui 30 Bis unquam<br \/>\ncoeli janua reclusa?\u201d Minha aten\u00e7\u00e3o na luz, que o diz,<br \/>\nse imbui; Voltei depois pra Beatriz o viso; 33 Aqui e ali estupefato eu fui.<\/p>\n<p>Nos olhos seus ardia um tal sorriso, Que, encarando-a cuidei tocar o fundo<br \/>\n36 De ventura no eterno Para\u00edso,<\/p>\n<p>E esse esp\u2019rito, a se ver e ouvir jucundo, Vozes aduz, que a mente<br \/>\nn\u00e3o compreende, 39 Tanto o sentido seu era profundo.<\/p>\n<p>Andrede a obscuro o seu dizer n\u00e3o tende; Mas por necessidade o seu<br \/>\nconceito 42 Al\u00e9m da esfera dos mortais ascende.<\/p>\n<p>Quando o arco afrouxou do ardente afeito, E em propor\u00e7\u00e3o do<br \/>\nhumano entendimento 45 Do seu falar manifestou-se o efeito, Pude esta vozes<br \/>\ndistinguir, atento: \u201cBendito sejas, Deus, Um na Trindade, 48 Que \u00e0<br \/>\nprole minha d\u00e1s t\u00e3o alto alento! \u201cMeu longo e caro anelo,<br \/>\nna verdade D\u00eas que no grande livro hei ler podido, 51 Imut\u00e1vel<br \/>\nna sua eternidade, \u201cCumpres, \u00f3 filho; e desta luz vestido Aquela,<br \/>\nque ao teu v\u00f4o sublimado 54 Prestou asas, eu louvo agradecido.<\/p>\n<p>\u201cTu cr\u00eas que o teu pensar me \u00e9 derivado Do ser Primeiro,<br \/>\ncomo da unidade 57 Sabida o cinco e o seis se v\u00ea formado.<\/p>\n<p>\u201cE pois, quem sou e a minha alacridade, Maior que a de outros nesta<br \/>\ngrei contente,<\/p>\n<p>60 N\u00e3o mostras de saber curiosidade.<\/p>\n<p>\u201cCr\u00eas a verdade: o Espelho refulgente Desta vida reflete o pensamento<br \/>\n63 Antes que nas\u00e7a e a todos faz patente.<\/p>\n<p>\u201cMas, para o sacro amor, que traz-me atento Em perp\u00e9tua vis\u00e3o,<br \/>\ndoce desejo 66 Me acendendo, alcan\u00e7ar contentamento, \u201cCom voz<br \/>\nclara, segura e alegre, ensejo De ouvir tua vontade me oferece: 69 Qual resposta<br \/>\nhei de dar-te eu j\u00e1 antevejo.\u201d \u2014 Pra Beatriz voltei-me:<br \/>\nj\u00e1 conhece Quanto intento, e, acenando prezenteira, 72 Ao querer meu<br \/>\nas asas engrandece.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cA cada qual de v\u00f3s d\u00eas que a Primeira Igualdade<br \/>\nmostrou-se, amor, ci\u00eancia 75 Se fizeram em v\u00f3s de igual craveira;<br \/>\n\u201cPois ao Sol, que vos deu t\u00e3o viva ard\u00eancia E luz tal dispensou,<br \/>\ntanto se igualam, 78 Que n\u00e3o tem na igualdade compet\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cMas nos mortais o afeito e o saber se alam, Pela causa, a v\u00f3s<br \/>\noutros manifesta, 81 Com plumas, que, dif\u2019rentes se assinalam<\/p>\n<p>\u201cEu, pois, que sou mortal, sujeito a esta Desigualdade, de alma unicamente<br \/>\n84 Respondo \u00e0 tua carinhosa festa.<\/p>\n<p>\u201cSuplico, assim, top\u00e1zio resplendente, Que adornas esta j\u00f3ia<br \/>\npreciosa, 87 Me fa\u00e7as do teu nome ora ciente.\u201d \u2014 Falei.<br \/>\nCom voz tornou-me maviosa: \u2014 \u201c\u00d3 flor, que tanto eu, s\u00f4frego,<br \/>\nesperava, 90 Do tronco meu brotaste primorosa! \u201cAquele, em quem teu<br \/>\nnome come\u00e7ara, Que, h\u00e1 mais de um s\u00e9c\u2019lo j\u00e1,<br \/>\nno monte erguido 93 Do primeiro degrau se n\u00e3o separa, \u201cMeu filho<br \/>\nfoi, teu bisav\u00f4 h\u00e1 sido: Por obras deves lhe encurtar fadiga,<br \/>\n96 Quando \u00e0 vida mortal hajas volvido.<\/p>\n<p>\u201cFloren\u00e7a dentro em sua cerca antiga, Onde ressoa ainda a Ter\u00e7a<br \/>\ne a Noa, 99 Vivia honesta e s\u00f3bria em paz amiga.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tinha \u00e1ureos colares, nem coroa, Chapins, cintos<br \/>\nde damas em que havia 102 Mais que ver do que gra\u00e7as da pessoa.<\/p>\n<p>\u201cNo pai, nascendo, a filha n\u00e3o movia Temor; em tempo azado se<br \/>\ncasava<\/p>\n<p>105 E o dote as propor\u00e7\u00f5es nunca excedia.<\/p>\n<p>\u201cCada qual do seu lar se contentava; N\u00e3o alardava ent\u00e3o<br \/>\nSardanapalo 108 Da alcova o que no encerro se ocultava.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o era inda vencido Montemalo Por vosso Uccelatojo que, excedido<br \/>\n111 Na altura, h\u00e1-de, ao cair, dar mor abalo.<\/p>\n<p>\u201cBellincion Berti eu vi andar cingido De couro e de osso, e tamb\u00e9m<br \/>\nvi-lhe a esposa 114 Voltar do espelho sem rubor fingido.<\/p>\n<p>\u201cVestindo pele simples, n\u00e3o fastosa Nerlis e Vecchios vi, no<br \/>\nfuso e roca 117 Tendo as consortes vida deleitosa.<\/p>\n<p>\u201cDitosas! A nenhuma a dor sufoca Sperando o esposo, que roubou-lhe<br \/>\na Fran\u00e7a, 120 Nem o jazigo ignora, que lhe toca.<\/p>\n<p>\u201cUma o ber\u00e7o do filho seu balan\u00e7a, E o consola naquele<br \/>\ndoce idioma 123 Que aos pais o cora\u00e7\u00e3o no enlevo lan\u00e7a;<br \/>\n\u201cOutra, estirando do seu fuso a coma, Reconta aos filhos o que houvera<br \/>\noutrora 126 Em Fi\u00e9sole, em Tr\u00f3ia e antiga Roma.<\/p>\n<p>\u201cNesse bom tempo maravilha fora Uma Cianghella, um Lapo Salterello,<br \/>\n129 Como Corn\u00e9lia e Cincinato agora.<\/p>\n<p>\u201cDa cidade naquele viver belo, No seio dessa gente honrada e fida,<br \/>\n132 Nessa doce mans\u00e3o, da paz modelo, \u201cDeu-me Maria \u00e0<br \/>\nminha m\u00e3e dorida, E em vosso Batist\u00e9rio hei recebido 135 Os<br \/>\nnomes de crist\u00e3o e Cacciaguida.<\/p>\n<p>\u201cIrm\u00e3os Moronto e Eliseu hei tido, Minha esposa nasceu em Val-di-Pado:<br \/>\n138 Dessa origem prov\u00e9m teu apelido.<\/p>\n<p>\u201cSegui na guerra Imperador Conrado, Que me armou cavaleiro na mil\u00edcia,<br \/>\n141 Altos feitos me tendo assinalado.<\/p>\n<p>\u201cCom ele pelejei contra a nequ\u00edcia Do infiel, que o direito<br \/>\nvosso oprime 144 De culpado Pastor pela mal\u00edcia.<\/p>\n<p>\u201cDa torpe gente o assalto l\u00e1 me exime Dos enganosos v\u00ednculos<br \/>\ndo mundo, Cujo amor n\u00f3doas tantas na alma imprime: 148 M\u00e1rtir,<br \/>\nvim ao repouso sem segundo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>25. De Anquise a sombria pia etc., En\u00e9ias visitou nos Campos El\u00edsios<br \/>\na sombra do seu pai Anquise, como o descreve Virg\u00edlio, Eneida, VI.<br \/>\n\u2014 28-30. O sanguis meus etc., \u00d3 sangue meu! \u00d3 infinita<br \/>\ngra\u00e7a de Deus! A quem sen\u00e3o a ti ser\u00e1 aberta duas vezes<br \/>\na porta do C\u00e9u? \u2014 90 e segu., Do tronco meu etc. \u00c9 Cacciaguida<br \/>\nquem fala, que foi bisav\u00f4 de Dante, morto numa cruzada em 1173. Foi<br \/>\npai do primeiro Alighiero do qual derivou o nome dos Alighieri. \u2014 97.<br \/>\nFloren\u00e7a dentro em sua cerca antiga etc., no pequeno espa\u00e7o,<br \/>\nlimitado por seus antigos muros, no qual se ouviam os sinos tocarem as horas.<br \/>\n\u2014 107. Sardanapalo, rei da Ass\u00edria, c\u00e9lebre pela sua lux\u00faria.<br \/>\n\u2014 109-10. Montemalo, monte M\u00e1rio de Roma; Uccellatoio, monte<br \/>\na cavaleiro de Floren\u00e7a. Que excedido etc., Floren\u00e7a superava<br \/>\nRoma em magnific\u00eancia; assim a superar\u00e1 na decad\u00eancia.<br \/>\n\u2014 112.<\/p>\n<p>Bellincion Berti dei Ravignani, ilustre florentino. \u2014 116. Nerlis e<br \/>\nVecchio, as nobres fam\u00edlias florentinas Nerli e Del Vecchio. \u2014<br \/>\n128. Cianghella dei Tosighi, mulher desonesta. \u2014 Lapo Saltarelli, jurisconsulto<br \/>\nflorentino tido em conta de homem corrupto. \u2014 139. Imperador Conrado<br \/>\n3.\u00b0 de Hohenstaufen, que chefiou a segunda cruzada. \u2014 143. Ao infiel,<br \/>\nos maometanos. \u2014 144. Culpado pastor, o Papa.<br \/>\nCANTO XVI<\/p>\n<p>O poeta orgulha-se pela nobreza da sua fam\u00edlia. Cacciaguida continua<br \/>\nfalando a respeito da pr\u00f3pria fam\u00edlia e da antiga Floren\u00e7a.<br \/>\nDeplora a chegada em Floren\u00e7a de cidad\u00e3os de outras terras.<br \/>\nLembra as maiores fam\u00edlias da cidade, muitas das quais, no tempo de<br \/>\nDante, eram empobrecidas ou maculadas de inf\u00e2mia.<\/p>\n<p>\u00d3 MESQUINHA nobreza de alto sangue! Se tanto homem de haver-te se<br \/>\ngloria 3 Neste mundo, em que o afeto enfermo langue, Maravilhar-me j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o poderia, Pois me senti, por causa tal, ufano 6 No c\u00e9u, onde<br \/>\no apetite n\u00e3o varia.<\/p>\n<p>\u00c9s manto exposto em breve a estrago e dano: Se te faltar repara\u00e7\u00e3o<br \/>\nconstante, 9 A m\u00e3o do tempo te cerceia o pano.<\/p>\n<p>A responder come\u00e7o \u00e0 luz brilhante Por \u201cv\u00f3s\u201d<br \/>\nde que, primeira, Roma usara, 12 Mas que em vulgar dic\u00e7\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nfoi avante.<\/p>\n<p>Beatriz, que algum tanto se afastara, Fez, sorrindo-se, como a que tossira,<\/p>\n<p>15 Quando a primeira vez Ginevra errara.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cV\u00f3s sois meu pai\u201d \u2014 disse eu \u2014 \u201cem<br \/>\nv\u00f3s se inspira Para falar-vos do \u00e2nimo a ousadia, 18 Me al\u00e7ais<br \/>\nmais do que a mente pr\u00f3pria aspira.<\/p>\n<p>\u201cPor tantos rios se enche de alegria Minha alma que em ledice \u00e9<br \/>\ntransformada, 21 Pois do prazer n\u00e3o vence-a a demasia.<\/p>\n<p>\u201cDizei-me, pois, minha prim\u00edcia amada, Os ascendentes vossos<br \/>\ne em qual era 24 Foi a vossa puer\u00edcia assinalada.<\/p>\n<p>\u201cDe S\u00e3o Jo\u00e3o a grei como vivera Dizei-me e os que em<br \/>\nseu seio se mostraram, 27 A quem mais alta distin\u00e7\u00e3o coubera.\u201d<br \/>\n\u2014 Como ao sopro do vento mais se aclaram As flamas no carv\u00e3o,<br \/>\ndessa arte \u00e0quela 30 Luz, me ouvindo, os fulgores se avivaram; E quanto<br \/>\naos olhos se ostentou mais bela, Tanto com voz mais doce e mais suave 33 Respondeu,<br \/>\nsem falar vulgar loquela.<\/p>\n<p>Disse: \u2014 \u201cDo dia, em que se ouvia o Ave Ao momento, em que ao<br \/>\nmundo a m\u00e3e querida, 36 Hoje santa me deu no transe grave,<\/p>\n<p>Do Le\u00e3o foi aos p\u00e9s reacendida De Marte a luz quinhentos e<br \/>\ncinq\u00fcenta 39 Vezes mais trinta na incessante lida.<\/p>\n<p>\u201cO lugar, onde o sesto \u00faltimo assenta, Dos jogos anuais termo<br \/>\n\u00e0 carreira, 42 Meu ber\u00e7o e o dos av\u00f3s te representa.<\/p>\n<p>Deles te baste esta no\u00e7\u00e3o primeira: O que h\u00e3o sido,<br \/>\nonde \u00e9 sua perman\u00eancia 45 Calar prefiro a dar not\u00edcia<br \/>\ninteira.<\/p>\n<p>\u201cDos que haviam ent\u00e3o sufici\u00eancia Para a guerra, entre<br \/>\nMarte e Jo\u00e3o Batista, 48 S\u00e3o qu\u00edntuplo os que t\u00eam<br \/>\nora exist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cToda gente, por\u00e9m, que se v\u00ea mista Co\u2019a de Campi,<br \/>\nCertaldo, e mais Figghine 51 Pura estava, do nobre at\u00e9 o artista.<\/p>\n<p>\u201cAcerto fora do que bem combine T\u00ea-los vizinhos, linha demarcando,<br \/>\n54 Que com Trepiano e com Galuz confine, \u201cEm lugar de hospedar o infeto<br \/>\nbando Dos vil\u00f5es de Aguglion junto aos de Signa, 57 Da fraude expertos<br \/>\nno mister nefando.<\/p>\n<p>\u201cSe a gente, hoje no mundo a mais maligna,<\/p>\n<p>A C\u00e9sar n\u00e3o se houvesse declarado 60 Cruel madrasta em vez<br \/>\nde m\u00e3e benigna, \u201cQuem se diz Florentino e \u00e0 usura \u00e9<br \/>\ndado, Vende e merca, tornava a Simifonte, 63 Onde o av\u00f4 mendigava esfarrapado.<\/p>\n<p>\u201cAinda em Montemurli foram Conti, Os seus Cerchi ainda Acone conservara<br \/>\n66 E, talvez, Valdigrieve os Buodelmonti.<\/p>\n<p>\u201cSempre de castas confus\u00e3o depara, Como a de cibo em corpo mal<br \/>\ndisposto, 69 Mal \u00e0 cidade, e danos lhes prepara.<\/p>\n<p>\u201cTouro cego primeiro em terra \u00e9 posto Que anho cego; e melhor<br \/>\ncorta uma espada 72 Do que cinco num feixe bem composto.<\/p>\n<p>\u201cSe de Urbisaglia a sorte desgra\u00e7ada E a de Luni tu v\u00eas,<br \/>\nse igual espera 75 Chiusi e Sinigaglia malfadada: \u201cDos solares mau fim<br \/>\nn\u00e3o perecera \u00c0 tua mente estranheza ou caso forte, 78 Pois no<br \/>\nex\u00edcio de Estados considera.<\/p>\n<p>\u201cTerrenas cousas todas sofrem morte, Como v\u00f3s; mas de algumas,<br \/>\nperdurando, 81 Quem curta vida tem n\u00e3o sabe a sorte.<\/p>\n<p>\u201cE como a lua, sem cessar girando Cobre ou descobre as praias do oceano,<br \/>\n84 De Floren\u00e7a a fortuna vai mudando; \u201cAssim que n\u00e3o suponhas<br \/>\nmais que humano O que eu disser de ex\u00edmios florentinos, 87 A cuja fama<br \/>\no tempo j\u00e1 fez dano.<\/p>\n<p>\u201cEu vi os Ughi, vi os Catellinos, Fillippe, Greci, Ornami e os Albericos<br \/>\n90 Decadentes, mas ainda nobres, di\u2019nos.<\/p>\n<p>\u201cGrandes em fama, de virtudes ricos Os de Sanella vi; tamb\u00e9m<br \/>\nos de Arca, 93 Soldanieri, Ardingos e Bastichos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 porta de S\u00e3o Pedro, que ora abarca Inf\u00e2mia nova<br \/>\ntanto em peso ingente, 96 Que far\u00e1 so\u00e7obrar em breve a barca,<br \/>\n\u201cEstavam Ravignans; seu descendente Foi Conde Guido e quantos ao diante<br \/>\n99 De Bellincione o nome t\u00eam fulgente.<\/p>\n<p>\u201cDella Pressa em governo era prestante E Galligaio no solar dourara<br \/>\n102 Punho e copos da espada fulgurante.<\/p>\n<p>\u201cA Coluna do Esquilo se elevara,<\/p>\n<p>Sacchetti, Giuochi Fifanti e Barucci 105 Galli e quem pelo alqueire se pejara.<\/p>\n<p>Era j\u00e1 grande o tronco dos Calfucci E \u00e0s cadeiras curuis tinham<br \/>\nsubido, 108 Assumindo o poder, Sizi e Arragucci.<\/p>\n<p>\u201cQuanto lustre daqueles, que abatido Tem soberba! Que feito viu Floren\u00e7a<br \/>\n111 Sem ser de Esfera de Ouro enobrecido? \u201cEram pais dos que julgam<br \/>\ngl\u00f3ria imensa No concist\u00f3rio, vago o episcopado, 114 Cevar-se<br \/>\ndos banquetes na licen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cSurgia o bando j\u00e1 sem pejo e ousado, Drag\u00e3o que investe<br \/>\na quem lhe teme a ira, 117 Cordeiro em vendo bolsa ou bra\u00e7o armado;<br \/>\n\u201cDe princ\u00edpio t\u00e3o vil a origem tira, Que Donato Ubertino<br \/>\nse afrontava, 120 Quando a um desses o sogro a filha unira.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 Caponsacco no Mercado estava, De Fi\u00e9sole vindo; e<br \/>\nl\u00e1 j\u00e1 era 123 Giuda, Infangato: o nome os ilustrava.<\/p>\n<p>\u201cIncr\u00edvel cousa vou dizer, mas vera: No recinto uma porta outrora<br \/>\nhavia, 126 \u00c0 qual deu nome a gente della Pera.<\/p>\n<p>\u201cFidalgo, que o bras\u00e3o belo trazia Do bar\u00e3o cujo nome,<br \/>\ngl\u00f3ria e vida 129 De S\u00e3o Tom\u00e9 celebra-se no dia; \u201cLhe<br \/>\ndeve o privil\u00e9gio e honra subida; Mas hoje ao popular partido se une<br \/>\n132 Trazendo de ouro a faixa guarnecida.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 Gualterotti viam-se e Importuni; E em Borgo a paz de todo<br \/>\nse perdera, 135 Quando uma turba nova em si re\u00fane.<\/p>\n<p>\u201cA casa, de que o mal vosso nascera, Que vos deu morte, justamente<br \/>\nirada, 138 E ao feliz viver vosso o fim pusera, \u201cEm si, na prole sua<br \/>\nfora honrada: Por que sua alian\u00e7a recusaste 141 Por sugest\u00e3o,<br \/>\no Buondelmonte, errada? \u201cQuando \u00e0 cidade a vez primeira entraste,<br \/>\nSe do Ema \u00e0s \u00e1guas Deus te houvesse dado, 144 Ledice fora o<br \/>\npranto, que causaste: \u201cFor\u00e7ado era que ao m\u00e1rmore quebrado,<br \/>\nDa ponte guarda, v\u00edtima imolasse 147 Floren\u00e7a, de sua paz o<br \/>\nfim chegado.<\/p>\n<p>\u201cCom esses e outros, que inda eu mais lembrasse,<\/p>\n<p>Floren\u00e7a vi gozar fausto repouso, 150 Sem motivo que pranto lhe excitasse.<\/p>\n<p>Com esses e outros vi t\u00e3o glorioso E junto o povo, que ao rever lan\u00e7ado<br \/>\nN\u00e3o era na h\u00e1stea o l\u00edrio seu formoso, 154 Nem por fac\u00e7\u00f5es<br \/>\nem rubro transformado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>11. Por \u201cv\u00f3s\u201d etc., Dante falou a Cacciaguida com o \u201cv\u00f3s\u201d<br \/>\nem lugar de \u201dtu\u201d, como faziam os romanos quando falavam a pessoas<br \/>\nde respeito e que n\u00e3o se usava mais no tempo de Dante. \u2014 13-14.<br \/>\nBeatriz etc., sorriu como maliciosamente sorriu a camareira de Ginevra, no<br \/>\nromance de Lancelot, quando a sua dona foi beijada pela primeira vez pelo<br \/>\namante. \u2014 33.<\/p>\n<p>Sem falar vulgar loquela, em latim. \u2014 37-39. Do Le\u00e3o etc., Marte<br \/>\naproximou-se 580 vezes da constela\u00e7\u00e3o do Le\u00e3o, isto \u00e9,<br \/>\npassaram 1091 anos a come\u00e7ar pela anuncia\u00e7\u00e3o do nascimento<br \/>\nde Jesus. \u2014 40. O lugar etc., a casa de Cacciaguida estava situada no<br \/>\nbairro (sesto) que ficava por \u00faltimo nas corridas de S. Jo\u00e3o,<br \/>\nisto \u00e9, no bairro de S. Pedro. \u2014 47. Entre Marte e Jo\u00e3o<br \/>\nBatista, entre a est\u00e1tua de Marte e a igreja de S. Jo\u00e3o Batista.<\/p>\n<p>\u2014 49-51. Toda gente etc., os cidad\u00e3os de Floren\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nse haviam mesclado aos camponeses das redondezas. \u2014 58. Se a gente hoje<br \/>\nno mundo a mais maligna, a C\u00faria Romana. \u2014 61.<\/p>\n<p>Quem se diz etc., alus\u00e3o a personagem que n\u00e3o foi poss\u00edvel<br \/>\nidentificar. \u2014 62. Simifonte, castelo no vale do Rio Elsa. \u2014 94.<br \/>\n\u00c0 porta de S. Pedro que ora abarca inf\u00e2mia nova, no bairro de<br \/>\nS.<\/p>\n<p>Pedro morava a fam\u00edlia dos Cerchi. \u2014 101. Dourada punho e copos<br \/>\netc., havia recebido ins\u00edgnias de nobreza. \u2014 103. A coluna do<br \/>\nEsquilo, no bras\u00e3o da fam\u00edlia Pigli havia uma coluna. \u2014<br \/>\n105.<\/p>\n<p>E quem pelo alqueire se pejara, a nobre fam\u00edlia Chiaromonti usava<br \/>\npesos e medidas falsas. \u2014 111. Esferas de ouro, no bras\u00e3o da<br \/>\nfam\u00edlia Lamberti havia esferas de ouro. \u2014 112. Eram pais etc.,<br \/>\ndos Visdomini e dos Tosinghi, os quais administravam<\/p>\n<p>fraudulentamente as rendas episcopais. \u2014 115. O bando sem pejo e ousado<br \/>\netc., a fam\u00edlia dos Amidei. \u2014 118-120. De princ\u00edpio t\u00e3o<br \/>\nvil etc., de origens t\u00e3o baixas que Ubertino Donati ficara ofendido<br \/>\nquando o sogro deu em casamento uma das filhas a um Adimari. \u2014 126.<br \/>\nGente della Pera, a fam\u00edlia della Pera, extinta no tempo de Dante,<br \/>\nera de origem ilustre. \u2014 127.<\/p>\n<p>Fidalgo, que o bras\u00e3o belo trazia etc., o bar\u00e3o Hugo de Brandeburgo<br \/>\ncujo bras\u00e3o foi usado por diversas fam\u00edlias. Hugo morreu no<br \/>\ndia de S. Tom\u00e9 e, nesse dia, a sua mem\u00f3ria era honrada na igreja<br \/>\nda Badia, onde fora sepultado. \u2014 131. Mas hoje ao popular partido etc.,<br \/>\nGiano della Bella, embora de fam\u00edlia nobre, que usava o bras\u00e3o<br \/>\nde Hugo com faixa de ouro, chefiou em 1295 o partido popular. \u2014 136-141.<br \/>\nA casa etc., os Amidei, indignados contra Buondelmonte dei Buondelmonti por<br \/>\nhaver faltado ao compromisso de casamento com uma mo\u00e7a da sua fam\u00edlia,<br \/>\nderam origem \u00e0s lutas civis em Floren\u00e7a. \u2014 143. Se do<br \/>\nEma etc., teria sido melhor se os Buondelmonti se tivessem afogado no rio<br \/>\nEma, ao atravess\u00e1-lo, quando foram para Floren\u00e7a. \u2014 145.<br \/>\nAo m\u00e1rmore quebrado etc., Buondelmonti foi assassinado pelos Amidei<br \/>\nperto da est\u00e1tua de Marte.<\/p>\n<p>CANTO XVII<\/p>\n<p>Dante pede a Cacciaguida que lhe declare qual sorte lhe est\u00e1 reservada.<br \/>\nEste prediz-lhe o ex\u00edlio, a persegui\u00e7\u00e3o pelos inimigos<br \/>\ne o seu ref\u00fagio na corte dos Scaligeros, Exorta-o a falar do que viu<br \/>\ne ouviu na sua viagem, sem receio de ofender ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>QUAL a Climene explica\u00e7\u00f5es rogava De quanto em desconcerto<br \/>\npr\u00f3prio ouvira 3 O que austeros depois os pais tornava, Tal fiquei,<br \/>\ntal efeito pressentira Com Beatriz a santa luz brilhante, 6 Que da Cruz eu<br \/>\nda altura descer vira.<\/p>\n<p>E disse Beatriz: \u2014 \u201cDesse anelante Desejo a flama exibe e nela<br \/>\nesteja 9 Ao que tens na alma imagem semelhante, \u201cN\u00e3o, por que<br \/>\nmais ao claro em ti se veja, Mas porque, sendo a sede revelada.<\/p>\n<p>12 Prestada em propor\u00e7\u00e3o \u00e1gua te seja.\u201d \u2014<br \/>\n\u2014 \u201c\u00d3 cara estirpe minha \u00e0 Gl\u00f3ria al\u00e7ada!<br \/>\n\u2014 Como conhecem as terrenas mentes 15 N\u00e3o dar a obtusos dois<br \/>\ntri\u00e2ng\u2019lo entrada,<\/p>\n<p>\u201cAssim v\u00eas tu as cousas contingentes L\u00e1 no porvir, o Centro<br \/>\ncontemplando, 18 A quem todos os tempos st\u00e3o presentes; \u201cEm quanto<br \/>\neu a Virg\u00edlio acompanhando, Subia o monte, onde ao pecado h\u00e1<br \/>\ncura, 21 E tamb\u00e9m pelo inferno penetrando, \u201cSobre a exist\u00eancia<br \/>\nminha ouvi futura Agras palavras, posto que me sinta 24 Impert\u00e9rrito<br \/>\naos golpes da ventura.<\/p>\n<p>\u201cFolgara em ter ci\u00eancia bem distinta Dos reveses, que a sorte<br \/>\nme prepara: 27 Menos mogoa a seta ao que a pressinta.\u201d Ao sp\u00edrito,<br \/>\nque, h\u00e1 pouco me falara, Meu desejo hei desta arte declarado, 30 Como<br \/>\na senhora minha me ordenara.<\/p>\n<p>Sem ambages, que aos homens enviscado Tinham, antes de Deus ser o Cordeiro,<br \/>\n33 Que os pecados remiu, sacrificado, Mas em preciso estilo e verdadeiro,<br \/>\nLogo tornou-me o paternal afeito, 36 Velado e transparente em seu luzeiro:<br \/>\n\u2014 \u201cA conting\u00eancia, que do espa\u00e7o estreito Da mat\u00e9ria<br \/>\nos limites n\u00e3o transcende,<\/p>\n<p>39 Toda se pinta no eternal aspeito.<\/p>\n<p>\u201cNecessidade, entanto, n\u00e3o a prende, Como n\u00e3o prende<br \/>\na vista em que se espelha 42 A nau, que as \u00e1guas r\u00e1pida descende.<\/p>\n<p>\u201cDe l\u00e1 bem como se transmite \u00e0 orelha Doce harmonia de<br \/>\n\u00f3rg\u00e3o, refletido 45 O tempo me \u00e9 que a ti j\u00e1 se<br \/>\naparelha.<\/p>\n<p>\u201cQual de Atenas Hip\u00f3lito h\u00e1 partido Pela perf\u00eddia<br \/>\nda madrasta \u00edmpia, 48 Tal deixar\u00e1s Floren\u00e7a perseguido.<\/p>\n<p>\u201cAssim se quer e a trama principia; Ser\u00e1 em breve executado<br \/>\no plano 51 L\u00e1 onde a Cristo vendem cada dia.<\/p>\n<p>\u201cA culpa o mundo a quem padece o dano Dar\u00e1; mas ter\u00e1<br \/>\npena merecida, 54 Da verdade em vingan\u00e7a, o algoz insano.<\/p>\n<p>\u201cDeixar\u00e1s toda a causa a mais querida, Chaga primeira de tormentos<br \/>\ncheia, 57 Do desterro pelo arco produzida.<\/p>\n<p>\u201cSentir\u00e1s quanto amarga; quanto anseia O sal de estranho p\u00e3o;<br \/>\nque \u00e9 dura estrada 60 Subir, descer degraus da escada alheia.<\/p>\n<p>\u201cTua ang\u00fastia h\u00e1 de ser mais agravada, Te acompanhar<br \/>\nno val do ex\u00edlio vendo 63 Ign\u00f3bil gente, est\u00f3lida malvada.<\/p>\n<p>\u201cIngrato, louco e mau te acometendo O bando se h\u00e1 de unir: ser\u00e1<br \/>\ncorrido 66 Ele, n\u00e3o tu, o opr\u00f3brio merecendo.<\/p>\n<p>\u201cSeu bestial instinto conhecido Ter\u00e3o seus feitos; gl\u00f3ria<br \/>\nconsumada 69 Ter\u00e1s; tu s\u00f3 formando o teu partido.<\/p>\n<p>\u201cTe h\u00e1 de ser acolhida franqueada Primeira pelo ex\u00edmio<br \/>\ne gr\u00e3 Lombardo 72 Que por bras\u00e3o tem \u00c1guia sobre Escada.<\/p>\n<p>\u201cTer\u00e1 contigo t\u00e3o cort\u00eas resguardo, Que, o rogo<br \/>\nprevenindo, o dom se apresse, 75 Que s\u00f3i entre outros, se mostrar mais<br \/>\ntardo.<\/p>\n<p>\u201cVer\u00e1s com ele o que ao nascer merece Tanto deste astro b\u00e9lico<br \/>\na influ\u00eancia, 78 Que a fama a gl\u00f3ria ao nome lhe engrandece.<\/p>\n<p>\u201cInda ignorada j\u00e1z tanta excel\u00eancia: S\u00f3 voltas<br \/>\nnove em torno lhe tem dado 81 Estas esferas na anual cad\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cMas antes que o Gasc\u00e3o tenha enganado Henrique excelso j\u00e1<br \/>\nfar\u00e1 patentes<\/p>\n<p>84 De ouro o desd\u00e9m e o \u00e2nimo esfor\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e3o grandezas suas t\u00e3o fulgentes, Que inimigos malgrado<br \/>\nas contemplando, 87 Ter\u00e3o de as proclamar por preminentes.<\/p>\n<p>\u201cNele confia, o bem dele esperando; A sorte mudar\u00e1 de muita<br \/>\ngente, 90 Ricos, mendigos condi\u00e7\u00e3o trocando.<\/p>\n<p>\u201cDele o que eu digo inculcar\u00e1s na mente, Sem narr\u00e1-lo.\u201d<br \/>\n\u2014 E prozeas predizia, 93 Incr\u00edveis inda a quem lhe for presente.<br \/>\n\u2014 \u2014 \u201cEis, filho, o coment\u00e1rio\u201d \u2014 prosseguia<br \/>\n\u2014 \u201cDo que se foi j\u00e1 dito; eis a emboscada, 96 Que num per\u00edodo<br \/>\nbreve se encobria.<\/p>\n<p>\u201cMas por ti dos vizinhos invejada N\u00e3o seja a sorte; prolongada<br \/>\na vida, 99 Ver\u00e1s sua perf\u00eddia castigada.\u201d \u2014 Depois<br \/>\nque essa alma santa conclu\u00edda, Calcando-se, mostrou j\u00e1 ter a<br \/>\ntrama 102 Da tela, que eu lhe oferecera urdida, Com tom de voz falei de homem,<br \/>\nque clama Por bom conselho, ao recear perigo, 105 De quem, s\u00e1bio e<br \/>\ndiscreto, o bem de outro ama.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cVejo, \u00f3 pai, que, investindo, o tempo imigo Contra<br \/>\nmim corre para o golpe dar-me, 108 Mais grave, porque opor-me n\u00e3o consigo.<\/p>\n<p>\u201cDe prud\u00eancia, portanto, \u00e9 bem que me arme; N\u00e3o<br \/>\nsuceda, ao perder p\u00e1tria guarida, 111 Dos meus versos por causa outra<br \/>\nfaltar-me.<\/p>\n<p>\u201cNo mundo, onde em perp\u00e9tua dor se lida, Da montanha subindo<br \/>\no excelso cume, 114 Donde elevou-me Beatriz querida, \u201cE depois pelo<br \/>\nc\u00e9u de lume em lume Cousas tais aprendi, que, se as redigo, 117 Travo<br \/>\nter\u00e3o a muitos de azedume.<\/p>\n<p>\u201cSe da verdade eu for remisso amigo, Morrer temo dos homens pelo olvido,<br \/>\n120 Que o tempo de hoje h\u00e3o de chamar antigo.\u201d \u2014 A luz,<br \/>\nonde o tesouro era escondido, Que eu achara, se fez t\u00e3o coruscante,<br \/>\n123 Como o sol de \u00e1ureo espelho refletido.<\/p>\n<p>E disse: \u2014 \u201cA consci\u00eancia vacilante Por pr\u00f3prios<br \/>\natos ou vergonha alheia 126 Teu falar haver\u00e1 por cruciante.<\/p>\n<p>\u201cMas deves repelir mentira feia; Toda a tua vis\u00e3o faz manifesta,<br \/>\n129 Coce-se a pele, que \u00e9 de lepra cheia.<\/p>\n<p>\u201cAo primeiro sabor ser\u00e1 molesta Tua palavra; mas vital sustento<br \/>\n132 Deixar\u00e1 depois, quando for digesta.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 de o teu bra\u00e7o assemelhar-se ao vento, Que ao mais<br \/>\nsoberbo cimo ousado investe; 135 H\u00e1 de isto ao nome teu dar lustre<br \/>\ne aumento.<\/p>\n<p>\u201cAnte os olhos aqui, no c\u00e9u, tiveste, No santo monte e l\u00e1<br \/>\nno val das dores 138 Almas, que a fama com seu brilho veste.<\/p>\n<p>\u201cPois de ouvintes o \u00e2nimo ou leitores Pre\u00e7o n\u00e3o<br \/>\nd\u00e1 ao exemplo derivado De origem vil, sem nota, sem louvores, 142 Nem<br \/>\na outro argumento mal fundado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>1. Qual a Climene etc., Fetonte (que com o seu exemplo faz com que os pais<br \/>\nsejam austeros com os filhos) perguntou \u00e0 m\u00e3e Climene se ele<br \/>\nera verdadeiramente filho do Sol. \u2014 46. Qual de Atenas etc., Hip\u00f3lito<br \/>\nfilho de Teseu, n\u00e3o querendo sujeitar-se aos desejos de sua madrasta<br \/>\nFedra, foi banido de Atenas, caluniado por ela. \u2014 51. L\u00e1 onde<br \/>\na Cristo vendem todo dia, a C\u00faria Romana. \u2014 71. Gr\u00e3 Lombardo<br \/>\netc., Bartolomeu della Scala, senhor de Verona. \u2014 76-77. O que ao nascer<br \/>\netc., Cangrande della Scala, irm\u00e3o de Bartolomeu, que foi not\u00e1vel<\/p>\n<p>capit\u00e3o. Cangrande em 1300 tinha nove anos. \u2014 82-83. Mas antes<br \/>\nque o Gasc\u00e3o tenha enganado etc. Clemente V, papa de origem francesa,<br \/>\ndepois de ter prometido a Henrique VII que o reconheceria como imperador,<br \/>\nquando Henrique chegou \u00e0 It\u00e1lia, em 1312, o adversou.<br \/>\nCANTO XVIII<\/p>\n<p>Beatriz conforta o Poeta. Cacciaguida mostra-lhe outros esp\u00edritos<br \/>\nque combateram pela f\u00e9 crist\u00e3. Sobem depois a J\u00fapiter,<br \/>\nande est\u00e3o as almas dos pr\u00edncipes que governaram com justi\u00e7a.<br \/>\nOs esp\u00edritos se disp\u00f5em de maneira a desenhar palavras de conselho<br \/>\naos que governam; por \u00faltimo se comp\u00f5em na forma de uma \u00e1guia.<\/p>\n<p>J\u00c1 gozava em sil\u00eancio do seu verbo Essa alma venturosa e eu<br \/>\ncogitava, 3 O doce temperando pelo acerbo; Mas aquela, que a Deus me encaminhava,<br \/>\n\u2014 \u201cMuda o pensar; que perto\u201d \u2014 me dizia \u2014 6<br \/>\n\u201cEu sou do que injusti\u00e7as desagrava.\u201d \u2014 Voltei-me<br \/>\n\u00e0 voz, que sempre me infundia Valor: dos santos olhos a ternura 9 Descrever<br \/>\na palavra renuncia.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 a l\u00edngua em v\u00e3o dizer procura; Mas sobre<br \/>\nsi tornando, desfalece 12 A mente sem socorro l\u00e1 da altura.<\/p>\n<p>Ora somente referir se of\u2019rece Que outro desejo, a santa contemplando,<\/p>\n<p>15 Do cora\u00e7\u00e3o, ao todo, desparece.<\/p>\n<p>Como a del\u00edcia eterna, rebrilhando Direta em Beatriz, me extasiava<br \/>\n18 Do gesto seu por um reflexo brando, Com riso, de que a luz me subjugava,<br \/>\n\u2014 \u201cVolve-te, escuta ainda; o Para\u00edso 21 N\u00e3o st\u00e1<br \/>\ns\u00f3 nos meus olhos\u201d \u2014 me falava.<\/p>\n<p>Como a paix\u00e3o, no seu dizer conciso Pelos olhos se exprime, na alma<br \/>\nenquanto 24 Tolhe o prest\u00edgio seu todo o ju\u00edzo, Assim no flamejar<br \/>\ndo fulgor santo, Voltando-me, o desejo vi patente 27 De aditar ao que disse<br \/>\nora algum tanto.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNa quinta est\u00e2ncia da \u00e1rvore, que, ingente, Pelo<br \/>\ncimo se nutre\u201d \u2014 principia \u2014 30 \u201cQue frutos sempre<br \/>\nd\u00e1, sempre \u00e9 virente, \u201cEsp\u00edritos habitam, que algum<br \/>\ndia Nome tinham na terra t\u00e3o famoso, 33 Que opimo assunto \u00e0s<br \/>\nMusas prestaria.<\/p>\n<p>\u201cDa cruz os bra\u00e7os olha cuidadoso: Os que eu te nomear ver\u00e1s<br \/>\nfulgindo, 36 Qual rel\u00e2mpago em nuvem pressuroso.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Na Cruz vi perpassar, o nome ouvindo De Josu\u00e9, um tra\u00e7o rutilante,<br \/>\n39 Mal acabara a voz, presto surgindo.<\/p>\n<p>Disse o gr\u00e3 Macabeu: no mesmo instante Outro acorria, sobre si rodando,<br \/>\n42 Tange alegria esse pi\u00e3o brilhante; Assim fez Carlos Magno, assim<br \/>\nOrlando.<\/p>\n<p>Atento, os movimentos seus esguardo, 45 Qual monteiro ao falc\u00e3o no<br \/>\nar voando.<\/p>\n<p>Seguiram-se Guilherme e Rinoardo; Distingue o duque Godofredo a vista, 48<br \/>\nE logo ap\u00f3s se assinalou Guiscardo.<\/p>\n<p>Depois com os outros esplendores mista Provou-me a alma ditosa, que h\u00e1<br \/>\nfalado, 51 Ser nos coros do c\u00e9u sublime artista.<\/p>\n<p>Voltei-me ent\u00e3o para o direito lado Por conhecer de Beatriz o intento,<br \/>\n54 Em palvras ou gestos declarado.<\/p>\n<p>Nos olhos puros seus vi tal contento, Fulgor tal, que excedia o seu semblante<br \/>\n57 Quando de antes prendeu-me o pensamento.<\/p>\n<p>Como, ao sentir prazer inebriante, Cada vez que o bem faz homem conhece<\/p>\n<p>60 Ir da virtude na vereda avante, Assim mais amplo o arco me parece Do c\u00edrc\u2019lo,<br \/>\nem que vou co\u2019o c\u00e9u girando 63 Ao ver quanto prod\u00edgio<br \/>\ntal recresce.<\/p>\n<p>T\u00e3o presto, como em n\u00edvea face, quando A chama do pudor se<br \/>\nacende, volta 66 A cor a ser qual de antes, branqueando, Pelo doce candor,<br \/>\nque a vista envolta Me teve, conheci que a sexta estrela 69 Nos recebera a<br \/>\nmim e a minha escolta.<\/p>\n<p>De J\u00fapiter na esfera arg\u00eantea e bela O cintilar de amor, que<br \/>\nali resplende, 72 Linguage\u2019 humana aos olhos me revela.<\/p>\n<p>De aves qual bando, que se estreita ou estende, Do rio junto \u00e0 borda<br \/>\ne que \u00e0 verdura 75 Do pascigo, a folgar os v\u00f4os tende, Tal em<br \/>\nseus lumes grei ditosa e pura, Adejando, cantava e descrevia 78 De D, de I,<br \/>\nde L uma figura.<\/p>\n<p>Ao compasso dos hinos se movia E em sil\u00eancio quedava, se detendo, 81<br \/>\nQuando alguma das letras conclu\u00eda.<\/p>\n<p>Peg\u00e1sea Diva, \u00f3 tu, que, concedendo A gl\u00f3ria ao g\u00eanio,<br \/>\nlhe dilatas vida, 84 Cidades, reinos imortais fazendo! Brilha em mim! por<br \/>\nque seja referida Cada figura, qual me foi presente! 87 Faz tua for\u00e7a<br \/>\nem meus versos conhecida! E cinco vezes sete claramente Vogais e consoantes<br \/>\nvi, notando 90 Cada qual pelo tra\u00e7o refulgente: \u201cDILIGITE JUSTITIAM\u201d<br \/>\nindicando Verbo e nome primeiros na escritura; 93 \u201cQUI JUDICATIS TERRAM\u201d<br \/>\nterminando.<\/p>\n<p>Colocando-se assim cada luz pura, No fim pausaram no voc\u00e1b\u2019lo<br \/>\nquinto: 96 Sobre o argento de Jove ouro fulgura.<\/p>\n<p>De outros lumes, que descem, vi distinto Do M o cimo: cantam, l\u00e1 pousados,<br \/>\n99 Bem que os atrai ao divinal precinto.<\/p>\n<p>Como carv\u00f5es ardentes encontrados De centelhas um jorro de si lan\u00e7am,<br \/>\n102 Press\u00e1gios por estultos venerados, Muitos mil fogos para o ar avan\u00e7am,<br \/>\nSubindo \u00e0 altura, que lhes h\u00e1 marcado<\/p>\n<p>105 O Sol, de quem beleza e brilho alcan\u00e7am.<\/p>\n<p>J\u00e1, cada qual ao seu lugar tornado, De \u00c1guia o colo a meus<br \/>\nolhos se mostrava, 108 Rematando em cabe\u00e7a, desenhado.<\/p>\n<p>Guia n\u00e3o teve o artista que os tra\u00e7ava: \u00c9 seu todo o<br \/>\nprimor, toda a mestria, 111 Que em cada ninho forma pr\u00f3pria grava.<\/p>\n<p>A santa grei, por\u00e9m, que parecia De ornar de c\u2019roa o M estar<br \/>\ncontente, 114 Movendo-se, a figura perfazia.<\/p>\n<p>Quanta j\u00f3ias, \u00f3 astro refulgente, Mostraram-me provir justi\u00e7a<br \/>\nhumana 117 Do c\u00e9u de que \u00e9s ornato permanente! \u00c0 Mente,<br \/>\npois, suplico de que emana O moto e a for\u00e7a tua, atenta veja 120 Da<br \/>\nn\u00e9voa a causa que o teu brilho empana; E de ira inda uma vez tomada<br \/>\nseja Contra os que mercadejam no seu templo, 123 Que do sangue dos m\u00e1rtires<br \/>\nflameja.<\/p>\n<p>Celestial mil\u00edcia, que eu contemplo, Roga por esses, que ora est\u00e3o<br \/>\nna terra 126 Transviados, seguindo h\u00f3rrido exemplo.<\/p>\n<p>Com gl\u00e1dio outrora se travava a guerra; Hoje em tirar o p\u00e3o,<br \/>\nque Deus tem dado, 129 Dos combatentes o valor se encerra.<\/p>\n<p>Tu que escreves pra ser logo emendado Pensa que Pedro e Paulo h\u00e3o<br \/>\nressurgido, 132 Pela vinha morrendo que h\u00e1s talado.<\/p>\n<p>Tu bem podes dizer: \u2014 \u201cDevoto hei sido Do que, ao deserto dando<br \/>\ntanto apre\u00e7o, Sofreu mart\u00edrio \u00e0 dan\u00e7a oferecido:<br \/>\n136 O pescador e Paulo n\u00e3o conhe\u00e7o.\u201d \u2014<\/p>\n<p>28. Da \u00e1rvore que, ingente, pelo cimo se nutre, o Para\u00edso que<br \/>\nrecebe vida de Deus. \u2014 38. Josu\u00e9, sucessor de Mois\u00e9s na<br \/>\nchefia do povo hebreu e que conquistou a Terra Prometida. \u2014 40. O gr\u00e3<br \/>\nMacabeu, Judas Macabeu que combateu contra Ant\u00edoco. \u2014 43-48.<br \/>\nOrlando, paladino de Carlos Magno; Guilherme, d\u20190range; combateu contra<br \/>\nos infi\u00e9is; Rinoardo, companheiro de Guilherme; Godofredo de Bouillon,<br \/>\nconquistou a cidade de Jerusal\u00e9m; Roberto Guiscardo, libertou as Ap\u00falias<br \/>\ndos Sarracenos, no s\u00e9culo XI. \u2014 49-51. Depois com os outros etc.,<br \/>\nCacciaguida cantou, provando que era um sublime artista. \u2014 82. Peg\u00e1sea<br \/>\nDiva, a musa Caliope. \u2014 91-93. Diligite etc., amai a justi\u00e7a<br \/>\nv\u00f3s que governais o mundo. \u2014 107. \u00c1guia etc., a \u00e1guia<br \/>\n\u00e9 o s\u00edmbolo da justi\u00e7a e da monarquia. \u2014 130. Tu<br \/>\nque escreves etc., alus\u00e3o ao papa Bonif\u00e1cio VIII, que escrevia<br \/>\nas censuras, para emend\u00e1-las depois de ter recebido dinheiro. \u2014<br \/>\n134-136. Do que etc., a moeda florentina, o florim, trazia a ef\u00edgie<br \/>\nde S. Jo\u00e3o Batista, que sofreu o mart\u00edrio por causa da dan\u00e7a<br \/>\nde Salom\u00e9.<br \/>\nCANTO XIX<\/p>\n<p>Dante fala \u00e0 \u00c1guia externando uma sua antiga d\u00favida<br \/>\nse algu\u00e9m possa salvar-se n\u00e3o tendo conhecimento da lei de Cristo.<\/p>\n<p>Respondendo, a \u00c1guia aproveita a ocasi\u00e3o para repreender os<br \/>\nmalvados reis crist\u00e3os do seu tempo que nunca obter\u00e3o a gra\u00e7a<br \/>\nde Deus.<\/p>\n<p>DE asas pandas formosa se ostentava Essa imagem, que enlevos de alegria 3<br \/>\nNas almas enla\u00e7adas excitava, E rubi cada qual me parecia, Em que raio<br \/>\nde sol, f\u00falgido ardendo, 6 Os lumes nos meus olhos refrangia.<\/p>\n<p>O que eu agora descrever pretendo Voz n\u00e3o contou, nem pena h\u00e1<br \/>\nreferido, 9 Nem criou fantasia encarecendo.<\/p>\n<p>O bico da \u00c1guia vi falar, e o ouvido Eu e meu nas palavras distinguia,<br \/>\n12 Mas n\u00f3s e nosso estava no sentido.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPorque fui justo e pio\u201d \u2014 assim dizia \u2014<br \/>\n\u201cExaltado me vejo a tanta gl\u00f3ria, 15 Que excede a quanto o anelo<br \/>\naspiraria.<\/p>\n<p>\u201cDe mim deixei na terra tal mem\u00f3ria, Que apregoam-na os homens<br \/>\npervertidos, 18 Sem exemplos seguir, que narra a hist\u00f3ria.\u201d \u2014<br \/>\nComo em pira d\u00e3o lenhos incendidos Um s\u00f3 calor, aqueles mil<br \/>\namores 21 Da imagem stavam num falar contidos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o lhes disse: \u201c\u00d3 v\u00f3s, perp\u00e9tuas flores<br \/>\nDo j\u00fabilo eternal, que num perfume 24 Sentir fazeis mult\u00edplices<br \/>\nolores, \u201cEsta fome fartai, que me consome, H\u00e1 largo tempo, na<br \/>\nterrestre vida, 27 Onde alimento nunca achar presume.<\/p>\n<p>\u201cSe do c\u00e9u noutro reino \u00e9 refletida A divina Justi\u00e7a<br \/>\nem claro espelho, 30 Sei que sem v\u00e9us no vosso \u00e9 percebida.<\/p>\n<p>\u201cSabeis que, atento, a ouvir-vos me aparelho; Sabeis tamb\u00e9m<br \/>\nque, nunca saciado, 33 Ardo em desejo que se fez j\u00e1 velho.\u201d \u2014<br \/>\nQual falc\u00e3o, do capelo desvendado, Que a fronte move, as asas exercita<br \/>\n36 E se apavona ledo e alvoro\u00e7ado, Tal vi a ins\u00edgnia, que essa<br \/>\ngrei bendita,<\/p>\n<p>Louvor da gra\u00e7a divinal, formara, 39 Com hinos pr\u00f3prios da<br \/>\nmans\u00e3o que habita.<\/p>\n<p>Depois dizia: \u2014 \u201cAquele, que tra\u00e7ara Com seu compasso<br \/>\no mundo e no come\u00e7o 42 De ocultas, claras cousas o dotara, \u201cN\u00e3o<br \/>\np\u00f4de tanto seu poder impresso No universo deixar, que o Eterno Verbo<br \/>\n45 A cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve infindo excesso.<\/p>\n<p>\u201cProva-o bem quem primeiro foi soberbo; Pois, sendo ele perfeita criatura,<br \/>\n48 N\u00e3o esperando a luz, caiu acerbo.<\/p>\n<p>\u201cTodo ente, pois, somenos em natura Conter o Bem sem fim n\u00e3o<br \/>\ncircunscrito 51 N\u00e3o pode e em si guarda a mensura.<\/p>\n<p>\u201cNossa vista, de alcance t\u00e3o finito, Posto seja um dos raios<br \/>\ndessa Mente, 54 Que as cousas todas enche no infinito, \u201cN\u00e3o \u00e9,<br \/>\npor natureza, t\u00e3o potente, Que n\u00e3o discirna a sua Causa Eterna,<br \/>\n57 Do que ela \u00e9 na verdade diferente.<\/p>\n<p>\u201cPenetra na justi\u00e7a sempiterna A vista concedida ao vosso mundo,<br \/>\n60 Bem como o olhar, que pelo mar se interna:<\/p>\n<p>\u201cSe junto ao litoral lhe enxerga o fundo, No p\u00e9lago o n\u00e3o<br \/>\nv\u00ea: certo \u00e9 que existe, 63 Mas encoberto est\u00e1 por ser<br \/>\nprofundo.<\/p>\n<p>\u201cSe do Lume n\u00e3o vem, que s\u00f3 persiste Sempre sereno, a<br \/>\nluz torna-se em treva, 66 Ou da carne \u00e9 veneno, ou sombra triste.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 compreendes que o v\u00e9u romper se deva, Que a Divina<br \/>\nJusti\u00e7a te escondia, 69 E a t\u00e3o freq\u00fcentes d\u00favidas<br \/>\nte leva.<\/p>\n<p>\u201cJunto ao Indo \u2014 tua mente assim dizia \u2014 Um var\u00e3o<br \/>\nvem \u00e1 luz: de Cristo o nome 72 Nem por voz, nem por letras conhecia.<\/p>\n<p>\u201cOs feitos e desejos s\u00e3o desse home\u2019 Bons no quanto julgar<br \/>\n\u00e0 raz\u00e3o cabe; 75 Em pecar ditos e atos n\u00e3o consome.<\/p>\n<p>\u201cQuando sem f\u00e9 e sem batismo acabe, H\u00e1 justi\u00e7a<br \/>\nem ser ele condenado? 78 Pode ter culpa quem n\u00e3o cr\u00ea, n\u00e3o<br \/>\nsabe? \u201cMas tu quem \u00e9s, que, em tribunal sentado, Julgas, de l\u00e9guas<br \/>\nem milh\u00f5es distante, 81 Se mal v\u00eas o que a um palmo \u00e9<br \/>\ncolocado? \u201cEm duvidar, por certo, iria avante<\/p>\n<p>Quem assim sutilezas apurara, 84 Sem a luz da Escritura triunfante.<\/p>\n<p>\u201cTerrenos vermes! ra\u00e7a estulta, ignara! A primeira Vontade,<br \/>\npor si boa, 87 De si, Supremo Bem, se n\u00e3o separa.<\/p>\n<p>\u201cJusto \u00e9 somente o que com ela soa, A si nenhum criado bem a<br \/>\ntira, 90 Todo o bem, radiando, ela afei\u00e7oa.\u201d \u2014 Como a cegonha,<br \/>\nque o seu ninho gira, Os filhotes j\u00e1 tendo apascentado, 93 Enquanto<br \/>\ncada qual, farto, a remira, Assim, os olhos quando eu tinha al\u00e7ado<br \/>\nFez o p\u00e1ssaro santo; e asas movia, 96 Por m\u00faltiplas vontades<br \/>\nsustentado.<\/p>\n<p>Volteando cantou; depois dizia: \u201cAs notas n\u00e3o comprendes do<br \/>\nmeu canto, 99 Como os mortais de Deus sabedoria.\u201d \u2014 As flamas<br \/>\nquando j\u00e1 do Esp\u2019rito Santo Quedaram nessa imagem, que alcan\u00e7ara<br \/>\n102 Aos Romanos do mundo temor tanto, Prosseguiu: \u2014 \u201cEste reino<br \/>\nn\u00e3o depara Jamais quem n\u00e3o acompanhou a Cristo 105 Nem antes,<br \/>\nnem depois que \u00e0 Cruz se al\u00e7ara.<\/p>\n<p>\u201cDizem muitos em grita \u2014 Cristo! Cristo! Menos perto, em ju\u00edzo,<br \/>\ndo que o infido 108 Lhe h\u00e3o de ser que jamais conheceu Cristo.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 de os danar o Et\u00edope descrido, Quando em grei rica<br \/>\ne pobre eternamente 111 For o g\u00eanero humano repartido.<\/p>\n<p>\u201cDos reis crist\u00e3os o que dir\u00e3o em frente Os Persas, lendo<br \/>\nno volume aberto, 114 Onde tanto flag\u00edcio est\u00e1 patente? \u201cAli<br \/>\nh\u00e3o de se ver entre os de Alberto Os que ser\u00e3o em breve registados:<br \/>\n117 De Praga o reino tornar\u00e3o deserto.<\/p>\n<p>Se h\u00e3o de ver sobre o Sena acumulados Os do Rei, que a moeda falsifica,<br \/>\n120 Da fera morto aos dentes afiados.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 de ver a soberba, atroce, inica Quem me dem\u00eancia o Escoc\u00eas<br \/>\ne o Bret\u00e3o lan\u00e7a: 123 Nenhum nos seus confins contente fica.<\/p>\n<p>\u201cE se h\u00e1 de ver quanto em lux\u00faria avan\u00e7a O Rei<br \/>\nde Espanha e o que a Bo\u00eamia rege, 126 Que mostra ao seu dever tanta<br \/>\nesquivan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m ao Coxo de Si\u00e3o inveje:<\/p>\n<p>Com I sua bondade se assinala, 129 Com M o que em contr\u00e1rio ama e<br \/>\nprotege \u201cSe h\u00e1 de ver que a avareza \u00e0 ign\u00e1via iguala<br \/>\nNo Rei da ilha, em que morreu Anquise, 132 E donde o fogo, a trovejar, se<br \/>\nexala.<\/p>\n<p>\u201cPorque do seu valor mal se aju\u00edze, Em cifra a hist\u00f3ria<br \/>\nsua \u00e9 resumida, 135 Que muito em pouco espa\u00e7o localize, \u201cSer\u00e1<br \/>\npatente a vergonhosa vida Do tio e desse irm\u00e3o, que h\u00e3o desonrado<br \/>\n138 Dois cetros e a ascend\u00eancia enobrecida.<\/p>\n<p>\u201cO Rei de Portugal ser\u00e1 notado E o Rei de Noruega e mais aquele,<br \/>\n141 Que de Veneza os cunhos tem falsado.<\/p>\n<p>\u201cDitosa Hungria! que de si repele O jugo da opress\u00e3o! Feliz<br \/>\nNavarra, 144 Quando em seus montes que defensa vele! \u201cE creiam todos<br \/>\nque j\u00e1 d\u2019isto em arra Nic\u00f3sia e Famagusta se lamentam,<br \/>\nBramindo de uma fera sob a garra: 148 Os exemplos dos mais n\u00e3o o escarmentam.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>28. Noutro reino, em outra ordem de bem-aventurados. \u2014 34.<\/p>\n<p>Qual falc\u00e3o de capelo desvendado, libertado pelo ca\u00e7ador que<br \/>\nlhe tira a venda. \u2014 46. Quem primeiro foi soberbo, L\u00facifer. \u2014<br \/>\n102. Aos Romanos do mundo temor tanto etc., a \u00e1guia era a ins\u00edgnia<br \/>\nde Roma. \u2014 110-11. Quando em grei rica e pobre etc., quando os justos<br \/>\ne os pecadores ser\u00e3o divididos eternamente em duas partes, uma delas<br \/>\nrica de todos os bens e a outra pobre e danada. \u2014 115. Alberto I, de<br \/>\n\u00c1ustria, que em 1304 devastou a Bo\u00eamia. \u2014 119-120. Rei<br \/>\nque a moeda falsifica etc., Filipe o Belo, que falsificou o dinheiro para<br \/>\npagar os mercen\u00e1rios, morreu em 1314 por efeito de uma queda de cavalo,<br \/>\nnuma ca\u00e7ada. \u2014 122. O Escoc\u00eas e o Bret\u00e3o etc., os<br \/>\nreis Roberto da Esc\u00f3cia e Eduardo da Inglaterra, em guerra entre si.<\/p>\n<p>\u2014 125. O rei da Espanha, Fernando IV; e o que a Bo\u00eamia rege,<br \/>\nVenceslau IV. \u2014 127-129. O coxo de Si\u00e3o etc., Carlos II de Anjou,<br \/>\nrei de Ap\u00falia e de Jerusal\u00e9m, ser\u00e1 marcado no livro da<br \/>\njusti\u00e7a divina com I pela sua bondade e com 1000 (M) pelas suas malvadezas.<br \/>\n\u2014 131. O rei da ilha em que morreu Anquise, Frederico II de Arag\u00e3o,<br \/>\nrei da Sic\u00edlia. \u2014 137-136. Do tio, Jaime, rei de Maiorca e Minorca;<br \/>\ndesse irm\u00e3o, Jaime II, rei de Arag\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 139. O rei de Portugal, D. Diniz, o lavrador. \u2014 140-141. O<br \/>\nrei de Noruega, Acon VII; e mais aquele etc., o rei de Ragusa, na Dalm\u00e1cia,<br \/>\nque falsificou a moeda de Veneza. \u2014 143. Feliz Navarra etc., o Poeta<br \/>\nfaz votos para que a Navarra se defenda contra o opress\u00e3o dos reis<br \/>\nfranceses para n\u00e3o cair na opress\u00e3o como a ilha de Chipre (Nic\u00f3sia<br \/>\ne Famagosta s\u00e3o cidades dessa ilha), que est\u00e1 sendo tiranizada<br \/>\npor Henrique II.<br \/>\nCANTO XX<\/p>\n<p>A \u00c1guia louva alguns reis antigos que foram justos e virtuosos.<\/p>\n<p>Depois solve a Dante uma d\u00favida, como possam estar no C\u00e9u alguns<br \/>\nesp\u00edritos que, na sua opini\u00e3o, quando em vida n\u00e3o tinham<br \/>\ntido f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p>QUANDO esse astro, que a todos alumia Deste hemisf\u00e9rio nosso j\u00e1<br \/>\ndescende 3 E se consome em toda parte o dia, O c\u00e9u, que dele s\u00f3<br \/>\nde antes se acende, Cintilante se mostra de repente 6 Por mil luzeiros, em<br \/>\nque um s\u00f3 resplende.<\/p>\n<p>Do c\u00e9u surgiu-me essa mudan\u00e7a \u00e0 mente Depois que o santo<br \/>\np\u00e1ssaro calou-se, 9 Dos reis, no mundo, ins\u00edgnia refulgente;<br \/>\nPois desses vivos lumes ateou-se Inda mais o clar\u00e3o, hino cantando,<br \/>\n12 Que na mem\u00f3ria inst\u00e1vel apagou-se.<\/p>\n<p>\u00d3 doce amor! num riso te velando, Quanto indicas arder nos esplendores,<br \/>\n15 Que est\u00e3o santo pensar s\u00f3 respirando!.<\/p>\n<p>Quando as gemas sublimes nos fulgores, De que o sexto planeta se adornava<br \/>\n18 Findaram seus ang\u00e9licos dul\u00e7ores, De rio o murmurar ouvir<br \/>\njulgava, Que, em claras espadanas debru\u00e7ado 21 Com sua veia abundante<br \/>\nas rochas lava.<\/p>\n<p>Da c\u00edt\u2019ra em bra\u00e7o como o som formado, Como o sopro na<br \/>\navena penetrando 24 Em mel\u00f3dicas notas modulado, Assim formou-se um<br \/>\nmurm\u00fario brando, Que subiu, logo ap\u00f3s, da ave formosa, 27 Pelo<br \/>\ncanal do colo, se exalando.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o em voz tornou-se harmoniosa, Que do bico em palavras irrompia:<br \/>\n30 Em minha alma insculpiram-se ansiosa.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNa parte atenta, que em mim v\u00ea\u201d \u2014 dizia<br \/>\n\u2014 \u201cQue at\u00e9 na \u00e1guia mortal afronta ousada 33 O sol,<br \/>\nquando rutila ao meio-dia; \u201cPorque dos fogos, de que sou formada, Aqueles,<br \/>\ncom que a vista me cintila, 36 No c\u00e9u gradua\u00e7\u00e3o tem sublimada,<br \/>\n\u201cEsse, que brilha em meio por poupila, Foi o r\u00e9gio cantor do<br \/>\nEsp\u2019rito Santo,<\/p>\n<p>39 Que a Arca trasladou de vila em vila.<\/p>\n<p>\u201cConhece ora a valia de seu canto, Qual foi o efeito desse ardente<br \/>\nzelo, 42 Galard\u00e3o recebendo tal e tanto.<\/p>\n<p>\u201cDos cinco, que o sobrolho me ornam belo, Consolou o que ao bico est\u00e1<br \/>\nmais perto 45 Vi\u00fava em d\u00f3 do filho, seu desvelo.<\/p>\n<p>\u201cQuanto custa lhe est\u00e1 bem descoberto A Cristo n\u00e3o seguir,<br \/>\npela exp\u2019ri\u00eancia 48 Do c\u00e9u e do penar pungente e certo.<\/p>\n<p>\u201cE o que est\u00e1 logo ap\u00f3s na circunf\u2019r\u00eancia<br \/>\nDo sobrolho, onde v\u00eas arco superno, 51 Morte adiou por vera penit\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cConhece agora que o ju\u00edzo eterno N\u00e3o muda, se o rogar<br \/>\ndo arrependido 54 Em cr\u00e1stino tornar fato hodierno.<\/p>\n<p>\u201cA mim e \u00e0s leis esse outro h\u00e1 transferido \u00c0 Gr\u00e9cia,<br \/>\ndo Pont\u00edfice em proveito: 57 Boa inten\u00e7\u00e3o mau fruto h\u00e1<br \/>\nproduzido.<\/p>\n<p>\u201cConhece agora que o maligno efeito Dessa obra pia lhe n\u00e3o \u00e9<br \/>\nnocivo, 60 Posto haja o mundo horrendo desproveito.<\/p>\n<p>\u201cO que v\u00eas do sobrolho no declive Guilherme \u00e9, por quem<br \/>\nchora o reino opresso 63 De Frederico e Carlo ao mando esquivo.<\/p>\n<p>\u201cConhece agora bem com quanto excesso Ao Rei justo ama o c\u00e9u:<br \/>\ndo seu semblante 66 Ainda no fulgor se mostra expresso.<\/p>\n<p>\u201cQuem crer pudera em vosso mundo errante Que entre estas luzes santas<br \/>\nquinta seja 69 Rifeu Troiano, da justi\u00e7a amante? \u201cConhece agora<br \/>\nque mist\u00e9rio esteja Na Gra\u00e7a \u2014 aquilo, que inda o mundo<br \/>\nignora \u2014 72 Bem que o fundo inef\u00e1vel n\u00e3o lhe veja.\u201d<br \/>\n\u2014 Qual codorniz que os v\u00f4os seu demora, Paira cantando e cala-se,<br \/>\nenlevada 75 Nas do\u00e7uras finais da voz sonora: Tal parece-me a imagem<br \/>\nsinalada Pelo eterno prazer, que, a seu desejo, 78 Faz que seja quanto \u00e9<br \/>\ncousa criada.<\/p>\n<p>Posto a d\u00favida minha neste ensejo, Como no vidro a cor, fosse patente,<br \/>\n81 N\u00e3o mais espero a solu\u00e7\u00e3o, que almejo.<\/p>\n<p>Cedendo \u00e0 for\u00e7a do seu peso urgente.<\/p>\n<p>Prorrompo logo: \u2014 Que mist\u00e9rio imenso! \u2014<\/p>\n<p>84 Da \u00e1guia o j\u00fabilo fez-se mais fulgente.<\/p>\n<p>Brilho tendo nos olhos mais intenso A sacrossanta forma respondia 87 Por<br \/>\nn\u00e3o mais ter-me at\u00f4nito e suspenso: \u2014 \u201cBem vejo que<br \/>\ntu cr\u00eas\u201d \u2014 assim dizia \u2014 \u201cN\u00e3o porque<br \/>\nentendas, mas porque assevero: 90 Ocultas cousas s\u00e3o, mas f\u00e9<br \/>\nte guia.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9s como quem da cousa o nome vero Aprende; mas inota fica a<br \/>\ness\u00eancia, 93 Se n\u00e3o a explica esp\u00edrito sincero.<\/p>\n<p>\u201cDos c\u00e9us o reino sofre um viol\u00eancia Do ardente amor e<br \/>\nda esperan\u00e7a viva, 96 Que triunfam da pr\u00f3pria Onipot\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cMas n\u00e3o \u00e9, qual vit\u00f3ria humana, esquiva: Vencido<br \/>\n\u00e9 Deus por ser assim servido; 99 Tem, vencido, vit\u00f3ria decisiva.<\/p>\n<p>\u201cMaravilhado, ao veres, te h\u00e1s sentido, Do meu sobrolho a luz<br \/>\nquinta e primeira 102 Neste imp\u00e9rio aos eleitos concedido.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o morreram gentios: cren\u00e7a inteira No Redentor futuro<br \/>\nou no j\u00e1 vindo 105 Tinham antes da hora derradeira.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 vida um, l\u00e1 do inferno ressurgindo, Onde n\u00e3o<br \/>\nse corrige o condenado, 108 A merc\u00ea recebeu anelo infindo, \u201cVivo<br \/>\nanelo, que ardor tanto empenhado Em suplicar a Deus tal gra\u00e7a havia,<br \/>\n111 Que p\u00f4de o seu querer ser abalado.<\/p>\n<p>\u201cQuando voltou \u00e0 carne e \u00e0 luz do dia, Em que n\u00e3o<br \/>\nfez deten\u00e7a a alma ditosa, 114 Naquele h\u00e1 crido que a salvar<br \/>\npodia; \u201cE foi na f\u00e9, no amor t\u00e3o fervorosa, Que ao passar<br \/>\nnova morte h\u00e1 merecido 117 Sublimar-se \u00e0 exist\u00eancia gloriosa.<\/p>\n<p>\u201cE do outro, pela Gra\u00e7a protegido, Que prov\u00e9m de uma<br \/>\norigem t\u00e3o profunda, 120 Que a nascente olho algum n\u00e3o lhe h\u00e1<br \/>\nsabido, \u201cFoi no amor \u00e0 justi\u00e7a sem segunda: De gra\u00e7a<br \/>\nem gra\u00e7a a Reden\u00e7\u00e3o futura 123 Mostrou-lhe Deus revela\u00e7\u00e3o<br \/>\njucunda.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 f\u00e9 se entrega; e a sua mente pura A pervers\u00e3o<br \/>\ngent\u00edlica rejeita, 126 Do mundo repreendendo a vida impura \u201cAs<br \/>\ndamas tr\u00eas que achavam-se \u00e0 direita, Do carro, o seu batismo<br \/>\nefetuaram,<\/p>\n<p>129 Anos mil precedendo a lei perfeita.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 predestina\u00e7\u00e3o! N\u00e3o te alcan\u00e7aram<br \/>\nA raiz esses olhos, que a primeira 132 Cousa jamais ao todo interpretaram.<\/p>\n<p>\u201cMortais! Oh! n\u00e3o julgueis t\u00e3o de carreira! Porque n\u00f3s<br \/>\nque Deus vemos n\u00e3o sabemos 135 Dos preferidos seus a grei inteira.<\/p>\n<p>\u201cEsta ignor\u00e2ncia por ditosa havemos; Que o nosso bem por este<br \/>\nbem se afina, 138 De ser quanto Deus quer o que queremos.\u201d \u2014 Por<br \/>\nessa imagem de fei\u00e7\u00e3o divina Assim, para aclarar-me a curta<br \/>\nvista, 141 Dada me foi suave medicina: E como a um bom cantor bom citarista<br \/>\nAcompanha, vibrar fazendo a corda, 144 E desta arte mais gra\u00e7a o canto<br \/>\naquista, Assim a fala (a mente me recorda) Da ave santa os luzeiros dois seguiam<br \/>\nComo dos olhos o bater concorda, 148 Com sua voz igualmente se moviam.<\/p>\n<p>37. Esse, que brilha etc., Davi rei de Israel e autor dos Salmos.<\/p>\n<p>\u2014 44. Consolou o que, o imperador Trajano, que foi justo com a vi\u00fava<br \/>\n(V. Canto X, 82 do Purgat\u00f3rio). \u2014 46-48. Quanto custa etc. Uma<br \/>\ncren\u00e7a popular afirmava que Trajano tivesse sido libertado do Inferno<br \/>\npelas preces de S. Greg\u00f3rio. Por isso Trajano podia estabelecer uma<br \/>\ncompara\u00e7\u00e3o entre o Inferno e o Para\u00edso. \u2014 49-51.<br \/>\nE o que est\u00e1 etc., Esequias, rei de Jud\u00e1, o qual, pela predi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo profeta Isa\u00edas soube que estava no fim da sua vida, mas, pedindo<br \/>\na Deus, obteve mais quinze anos de vida e expiou os seus pecados. \u2014<br \/>\n55-57. Esse outro etc., Constantino que transferiu para Biz\u00e2ncio a capital<br \/>\ndo Imp\u00e9rio Romano. \u2014 62. Guilherme II, rei de Ap\u00falia e<br \/>\nda Sic\u00edlia. \u2014 63. Frederico II de Arag\u00e3o e Carlos II Anjou.<br \/>\n\u2014 69. Rifeu Troiano, personagem da Eneida; homem justo e honesto, morreu<br \/>\ncombatendo pela sua p\u00e1tria. \u2014 101. A luz quinta e primeira, Rifeu<br \/>\ne Trajano. \u2014 103- 105. Cren\u00e7a inteira no Redentor futuro ou no<br \/>\nj\u00e1 vindo, Rifeu acreditou na futura paix\u00e3o de Jesus, Trajano<br \/>\nna paix\u00e3o que Cristo j\u00e1 tinha sofrido. \u2014 127. As damas<br \/>\ntr\u00eas, as tr\u00eas virtudes teologais. \u2014 129. Anos mil etc.,<br \/>\nmil anos antes que Cristo institu\u00edsse o batismo.<br \/>\nCANTO XXI<\/p>\n<p>Dante sobe do c\u00e9u de J\u00fapiter ao de Saturno, no qual encontra<br \/>\nas almas dos que se dedicaram na vida \u00e0 celeste contempla\u00e7\u00e3o,<br \/>\nonde v\u00ea uma escada alt\u00edssima pela qual vai subindo o descendo<br \/>\numa multid\u00e3o de almas resplendentes. S. Pedro Dami\u00e3o vai ao<br \/>\nencontro do poeta e lhe fala do dogma da predestina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>DE Beatriz no gesto o entendimento, Acompanhando os olhos, embebia; 3 De<br \/>\nai n\u00e3o cuidava absorto o pensamento Beatriz, sem sorrir-se, me dizia:<br \/>\n\u2014 \u201cO sorriso contenho; de outra sorte, 6 Como Semele, em cinzas<br \/>\nte veria.<\/p>\n<p>\u201cMinha beleza, viste j\u00e1, mais forte Refulge, quanto mais se<br \/>\neleva a escada, 9 Por onde ascende para a eterna corte.<\/p>\n<p>\u201cTeu vigor, se n\u00e3o fora moderada, Ao seu fulgor, de todo fenecera,<br \/>\n12 Qual fronde, pelo raio espeda\u00e7ada.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 s\u00e9tima chegamos clara esfera, Que sob o peito do Le\u00e3o<br \/>\nardente 15 Da luz mais viva do que de antes era.<\/p>\n<p>\u201cTeus olhos acompanhe pronta a mente; Sejam-te espelho a quanto este<br \/>\nastro belo, 18 Que um espelho \u00e9 tamb\u00e9m, far\u00e1 patente.\u201d<br \/>\n\u2014 Quem bem coubesse a for\u00e7a do desvelo, Com que a vista em seu<br \/>\ngesto se pascia, 21 Quando voltei-me a impulso de outro anelo, Quanto contente<br \/>\nfui conheceria, Minha guia celeste obedecendo, 24 Ap\u00f3s uma gozando<br \/>\noutra alegria.<\/p>\n<p>No cristal, que, em seu giro se movendo, O nome do Monarca tem querido, 27<br \/>\nQue a todo v\u00edcio foi flagelo horrendo, De \u00e1urea cor, em que<br \/>\no sol \u00e9 refletido, Escada vi de t\u00e3o sublime altura, 30 Que o<br \/>\ntopo aos olhos stava-me escondido.<\/p>\n<p>Pelos degraus brilhando com luz pura Descia soma tanta de esplendores, 33<br \/>\nQue os clar\u00f5es todos ver se me afigura.<\/p>\n<p>Como, ao seu modo, aos matinais albores, As gralhas, pelos ares se movendo,<br \/>\n36 Aquecem-se, do frio nos rigores, Umas se v\u00e3o n\u00e3o mais voltar<br \/>\nquerendo,<\/p>\n<p>Tornam outras, buscando o pouso amado, 39 Rodam outras, os v\u00f4os seus<br \/>\ncontendo: Tal dos lumes o bando sublimado Pela escada formosa parecia, 42<br \/>\nAt\u00e9 certo degrau terem tocado.<\/p>\n<p>E o que parou mais perto resplendia T\u00e3o claro, que eu pensei: \u2014<br \/>\nLuz, que eu venero 45 Em ti, amor, em que ardes, denuncia.<\/p>\n<p>Mas Beatriz de quem sinal espero Pra dizer ou calar, grave emudece: 48 Eu<br \/>\npois o anelo meu, reprimir quero.<\/p>\n<p>Ela, que o meu pensar ent\u00e3o conhece, Pois quem tudo prev\u00ea lho<br \/>\nmanifesta, 51 \u2014 \u201cCumpre\u201d \u2014 disse \u2014 \u201co<br \/>\nque a mente ora apetece.\u201d \u2014 E comecei: \u2014 \u201cDireito<br \/>\nn\u00e3o me presta A resposta o meu m\u00e9rito apoucado: 54 Mas por aquela,<br \/>\nque o valor me empresta, \u201cEsp\u00edrito ditoso, que velado St\u00e1s<br \/>\npor tua alegria, me declara 57 Por que t\u00e3o perto a mim te h\u00e1s<br \/>\ncolocado; \u201cE por que muda est\u00e1 na esfera clara Do para\u00edso<br \/>\na doce sinfonia,<\/p>\n<p>60 Que t\u00e3o devota noutras escutara.\u201d \u2014 \u2014 \u201cComo<br \/>\nos olhos o ouvido\u201d \u2014 respondia \u2014 \u201cTens mortal: nesta<br \/>\nesfera n\u00e3o se canta, 63 Nem Beatriz sorri, como so\u00eda.<\/p>\n<p>\u201cTantos degraus desci da escala santa De prazer por te dar mostra evidente<br \/>\n66 Em vozes e na luz que me abrilhanta.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o que me apresse o afeto mais ardente, Pois l\u00e1 por<br \/>\ncima igual ou mais se acende, 69 Como te prova o flamejar ingente.<\/p>\n<p>\u201cMas alta caridade, que nos prende A quem por seu querer tudo governa,<br \/>\n72 Quais v\u00eas, marca os lugares como entende.\u201d \u2014 \u2014<br \/>\n\u201cBem conhe\u00e7o\u201d \u2014 tornei \u2014 \u201csacra luzerna,<br \/>\nComo o livre amor do c\u00e9u na corte 75 Basta para cumprir vontade eterna;<br \/>\n\u201cMas como, entre a dos teus santa coorte, Tu s\u00f3 chamado a este<br \/>\ncargo h\u00e1s sido, 78 Por discernir n\u00e3o hei mente assaz forte.\u201d<br \/>\n\u2014 A voz final n\u00e3o tendo proferido, Qual veloz roda, sobre si<br \/>\ngirando, 81 Volveu-se o lume, s\u00fabito movido.<\/p>\n<p>O amor, que encerrava, ent\u00e3o falando \u2014 \u201cEm mim dardeja\u201d<br \/>\n\u2014 disse \u2014 \u201ca luz divina, 84 Esta, que me circunda, penetrando.<\/p>\n<p>\u201cCom meu ver, sua a\u00e7\u00e3o, que assim combina, Tanto me alteia,<br \/>\nque a Suprema Ess\u00eancia, 87 Donde ela emana, a mim se descortina.<\/p>\n<p>\u201cDa\u00ed vem do meu j\u00fabilo esta ard\u00eancia; Pois a minha<br \/>\nvis\u00e3o quanto \u00e9 mais clara, 90 Da claridade em mim sobe a emin\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cAlma, por\u00e9m, que mais no c\u00e9u se aclara, O serafim, que<br \/>\nem Deus mais se embevece, 93 Resposta ao teu dizer n\u00e3o deparara.<\/p>\n<p>\u201cTanto o que me perguntas desparece Dos eternos conselhos no infinito,<br \/>\n96 Que a vista a todos p\u00e1vida esmorece.<\/p>\n<p>\u201cAo mundo isto por ti deve ser dito, Que da verdade saiba quanto aberra,<br \/>\n99 Os p\u00e9s movendo ao transcedente fito.<\/p>\n<p>\u201cAlma, que \u00e9 flama aqui, fumo \u00e9 na terra: O que no c\u00e9u<br \/>\njamais saber alcan\u00e7a, 102 Como ver pode, quando a cinza a encerra?\u201d<br \/>\n\u2014 Em tanto enleio o seu dizer me lan\u00e7a, Que humilde, outras perguntas<br \/>\nevitando,<\/p>\n<p>105 Em lhe saber o nome pus a esp\u2019ran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDe mares dois no meio demorando, De Florenca n\u00e3o longe,<br \/>\nest\u00e3o rochedos, 108 Aos trov\u00f5es sobranceiros se empinando.<\/p>\n<p>\u201cCatria chama-se a giba dos penedos: Ao p\u00e9 se v\u00ea um claustro<br \/>\nconsagrado 111 Da alma com Deus aos m\u00edsticos segredos.\u201d \u2014<br \/>\nTerceira vez o santo me h\u00e1 tornado.<\/p>\n<p>E disse, prosseguindo: \u2014 \u201cNessa ermida 114 Somente a Deus servir<br \/>\nme hei dedicado.<\/p>\n<p>\u201cCom suco de oliveira por comida, Contente a calma e frio suportava,<br \/>\n117 Passando ali contemplativo a vida.<\/p>\n<p>\u201cNesse retiro ao c\u00e9u se aparelhava Ampla seara; est\u00e9ril<br \/>\ntanto agora, 120 Que o v\u00e9u j\u00e1 cai que o mal dissimulava.<\/p>\n<p>\u201cFui Pedro Damiano; um Pedro outrora Dito Pecador junto ao \u00c1dria<br \/>\nesteve 123 Na casa em que invocou Nossa Senhora.<\/p>\n<p>\u201cDa vida me restava espa\u00e7o breve, Quando ao claustro arrancado,<br \/>\nme cingiram 126 Chap\u00e9u, que a indignas fontes j\u00e1 se deve.<\/p>\n<p>\u201cMagros descal\u00e7os a miss\u00e3o cumpriram, O Vaso de Elei\u00e7\u00e3o<br \/>\ne Cefas, tendo 129 O p\u00e3o de cada dia, que pediram.<\/p>\n<p>\u201cHoje o pastor, a custo se movendo, Anda de um lado ao do outro carregado,<br \/>\n132 Quem o sustente por de tr\u00e1s querendo.<\/p>\n<p>\u201cSeu manto, o palafr\u00e9m tendo embu\u00e7ado, Dois brutos numa<br \/>\npele est\u00e1 fingindo: 135 \u00d3 paci\u00eancia, quanto h\u00e1s<br \/>\nsuportado!\u201d \u2014 Calou-se. Luzes mil eu vi, fulgindo, Descer em veloz<br \/>\ngiro a excelsa escada: 138 Seu brilho, em cada volta, ia subindo.<\/p>\n<p>Parando em torno a essa alma afortunada, A voz em som t\u00e3o alto despediram,<br \/>\nQue n\u00e3o pudera ser de outro igualada.<\/p>\n<p>142 N\u00e3o sei, torvado, o que elas proferiram.<\/p>\n<p>6. Semele, amada por J\u00fapiter, a conselho da ciumenta Juno, pediu ao<br \/>\ndeus que se lhe mostrasse em todo o esplendor da sua majestade e morreu abrasada.<br \/>\n\u2014 25. No cristal, que, em seu giro se movendo etc., no l\u00facido<br \/>\nplaneta que, girando no universo, tem o nome de Saturno, o qual reinou no<br \/>\ns\u00e9culo de ouro, no qual foi banida do mundo qualquer mal\u00edcia.<br \/>\n\u2014 121-123. Pedro Damiano, monge beneditino, foi prior do mosteiro de<br \/>\nSanta Cruz; e, posteriormente, em 1057 foi nomeado cardeal pelo papa Estev\u00e3o<br \/>\nIX. Pedro Pecador, S. Pedro degli Onesti, fundador<\/p>\n<p>do convento de Santa Maria do Porto, perto de Ravena. \u2014 128.<\/p>\n<p>O Vaso de Elei\u00e7\u00e3o, S. Paulo; Cefas, S. Pedro.<br \/>\nCANTO XXII<\/p>\n<p>Outros esp\u00edritos bem-aventurados aproximam-se do Poeta, entre eles<br \/>\nS. Bento, o qual lhe indica alguns dos seus santos companheiros; depois lamenta<br \/>\nprofundamente a corrup\u00e7\u00e3o da ordem por ele fundada. Sobe da\u00ed<br \/>\no Poeta \u00e0 oitava esfera que \u00e9 a das Estrelas Fixas.<\/p>\n<p>VOLTEI-ME a Beatriz, de espanto entrado, Qual menino, que busca sempre o<br \/>\namparo 3 De pessoa, em quem mais h\u00e1 confiado.<\/p>\n<p>Beatriz, como a m\u00e3e, que ao filho caro S\u00fabito acorre ao v\u00ea-lo<br \/>\nespavorido, 6 Com voz, que s\u00f3i lhe ser terno anteparo, \u2014 \u201cAo<br \/>\nc\u00e9u\u201d \u2014 disse \u2014 \u201cn\u00e3o v\u00eas que foste<br \/>\nerguido? Ignoras tu que o c\u00e9u em tudo \u00e9 santo 9 E a caridade<br \/>\na tudo h\u00e1 presidido? \u201cPois comover-te o grito p\u00f4de tanto,<br \/>\nOh! quanto o meu sorriso te abalara 12 E dos celestes coros o alto canto!<br \/>\n\u201cSe esse grito os seus rogos revelara, J\u00e1 de agora souberas a<br \/>\nvingan\u00e7a, 15 Que inda antes de morrer, ver\u00e1s, amara.<\/p>\n<p>\u201cDo c\u00e9u a espada pune sem tardan\u00e7a, Mas sem pressa, conquanto<br \/>\no n\u00e3o pare\u00e7a 18 A quem no medo aguarde e na esperan\u00e7a<br \/>\n\u201cMas por voltar o rosto ora come\u00e7a: Que tens de ver esp\u00edritos<br \/>\nfamosos, 21 Se a vista, como eu digo, se endere\u00e7a.\u201d \u2014 Como<br \/>\nordenara, os olhos curiosos Alcei: gl\u00f3bulos vejo mais de cento, 24<br \/>\nQue os raios seus cruzavam luminosos.<\/p>\n<p>Eu estava como quem reprime atento Do desejo o aguilh\u00e3o, e receava<br \/>\n27 Por perguntas mostrar molesto intento; Eis uma dessas p\u00e9r\u2019las,<br \/>\nque ostentava Entre as outras mais brilho, mais grandeza.<\/p>\n<p>30 Para dar-me contento se acercava.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe como eu\u201d \u2014 disse a sua voz \u2014 \u201ccerteza<br \/>\nDa caridade houvesse, que em n\u00f3s arde, 33 Teu desejo exprimiras com<br \/>\nfranqueza.<\/p>\n<p>\u201cPor que maior demora n\u00e3o retarde Teu fim sublime, eu te darei<br \/>\nresposta, 36 Posto em sil\u00eancio o teu pensar se aguarde.<\/p>\n<p>\u201cO monte, que o Cassino tem na encosta,<\/p>\n<p>Estava, em seu cabe\u00e7o, povoado 39 Por gente ignara, ao erro e ao mal<br \/>\ndisposta \u201cAli, primeiro, o Nome hei proclamado Daquele, que aos humanos<br \/>\na verdade 42 Trouxe que humanos tanto h\u00e1 sublimado.<\/p>\n<p>\u201cDa Gra\u00e7a em mim luziu tal claridade, Que salvar pude os povos<br \/>\ncircunstantes 45 Do culto, que perdera a humanidade.<\/p>\n<p>\u201cEremitas h\u00e3o sido esses brilhantes Fogos, que v\u00eas: na<br \/>\nflama se acenderam, 48 Que frutos brota e flores vicejantes.<\/p>\n<p>\u201cMac\u00e1rio e Romualdo aqueles eram, Estes os meus irm\u00e3os,<br \/>\nque, os p\u00e9s firmando 51 No claustro, os cora\u00e7\u00f5es ao Senhor<br \/>\nderam.\u201d \u2014 \u2014 \u201cEsse afeto, que mostras me falando\u201d<br \/>\n\u2014 Tornei \u2014 \u201ce o bem-querer, que t\u00e3o patente 54 Nos<br \/>\nesplendores vossos \u2019stou notando, \u201cO \u00e2nimo dilata-me: igualmente<br \/>\nO sol faz, quando \u00e0 rosa purpurina 57 O seio desabrocha rescendente.<\/p>\n<p>\u201cE, pois, te rogo, \u00f3 Padre meu, te inclina A declarar-me se<br \/>\na merc\u00ea mere\u00e7o 60 De ver-te a face, mas sem v\u00e9u, beni\u2019na.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO teu sublime anelo todo apre\u00e7o H\u00e1 de achar\u201d<br \/>\n\u2014 disse \u2014 \u201cirm\u00e3o, na extrema esfera, 63 Onde todos<br \/>\ne o meu ter\u00e3o seu apre\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201cMadura, inteira ali se considera Perfeita a aspira\u00e7\u00e3o;<br \/>\nali somente 66 Demora cada parte sempre onde era.<\/p>\n<p>\u201cSem p\u00f3los, sem lugar \u00e9 permanente; At\u00e9 l\u00e1<br \/>\nnossa escada vai subindo; 69 Foge-te \u00e0 vista a sua altura ingente.<\/p>\n<p>\u201cViu-a Jac\u00f3, o topo lhe atingindo, Quando em sua vis\u00e3o<br \/>\na contemplava 72 De inumer\u00e1veis anjos refulgindo.<\/p>\n<p>\u201cMas ningu\u00e9m por subi-la os p\u00e9s destrava Hoje da terra;<br \/>\ne a minha regra escrita 75 Inutilmente nos pap\u00e9is se grava.<\/p>\n<p>\u201cA morada mon\u00e1stica bendita \u00c9 covil; o capuz se h\u00e1<br \/>\ntransformado 78 E farinha cont\u00e9m ruim, maldita.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o seja usura havida por pecado T\u00e3o grave contra Deus,<br \/>\nquanto a avareza, 81 Que aos monges tem os cora\u00e7\u00f5es eivado;<\/p>\n<p>\u201cPois quanto a Igreja poupa \u00e9 da pobreza, Que de Deus por amor<br \/>\nseu p\u00e3o mendiga, 84 N\u00e3o pra cevo a parentes, ou a torpeza.<\/p>\n<p>\u201cNa terra a carne ao homem tanto obriga, Que haver um bom princ\u00edpio<br \/>\nn\u00e3o bastara 87 Entre a planta em nascendo e a sua espiga.<\/p>\n<p>\u201cSem ouro e prata Pedro come\u00e7ara, Eu com jejuns, com ora\u00e7\u00f5es;<br \/>\nconvento 90 Francisco humildemente levantara.<\/p>\n<p>\u201cDe cada qual \u00e0 origem estando atento, Ver\u00e1s o branco<br \/>\nem negro transformado, 93 Se depois tens seu fim no pensamento.<\/p>\n<p>\u201cMaior milagre foi, quando tornado Para tr\u00e1s, o Jord\u00e3o<br \/>\ndo mar fugia, 96 Do que socorro a tanto mal levado.\u201d \u2014 Calou-se,<br \/>\ne a santa grei logo se unia; Cerrou-se a grei, e o esp\u00edrito com ela,<br \/>\n99 Qual turbilh\u00e3o, na altura se encobria.<\/p>\n<p>Na escada alcei-me ap\u00f3s, da dama bela Ao oceano; por seu poder mudada<br \/>\n102 A natureza minha se revela.<\/p>\n<p>Naturalmente nunca acelerada Descida houve na terra, nem subida,<\/p>\n<p>105 Que possa ao meu voar ser igualada.<\/p>\n<p>Seja-me assim, leitores, concedida A gl\u00f3ria, pela qual choro e suspiro,<br \/>\n108 Bata nos peitos de alma compungida, Como eu, enquanto o dedo meto e tiro,<br \/>\nDo fogo o signo, de que est\u00e1 seguido 111 O Tauro, vi, e entrei logo<br \/>\nem seu giro.<\/p>\n<p>Gloriosas estrelas, luz que h\u00e1s sido Por gr\u00e3 virtude a causa<br \/>\nde que emana 114 Humilde engenho, que h\u00e1 em mim nascido, Convosco na<br \/>\ncarreira, em que se afana, Andava o que a mortal vida origina, 117 Quando<br \/>\naspirei primeiro ar da Toscana.<\/p>\n<p>E quanto permitiu Gra\u00e7a Divina Nesse alto c\u00e9u entrar, que vos<br \/>\ncompreende, 120 Por v\u00f3s passar me deu sorte beni\u2019na.<\/p>\n<p>Por v\u00f3s devoto anelo em mim se acende Para alcan\u00e7ar virtude<br \/>\nnesse forte, 123 \u00c1rduo passo que a si me atrai, me prende.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPerto \u00e0 ventura extrema \u00e9s de tal sorte, Que<br \/>\na vista clara tens e penetrante\u201d \u2014 126 Diz Beatriz, o meu formoso<br \/>\nnorte.<\/p>\n<p>\u201cMas antes de te ergueres mais avante, Remira abaixo, e v\u00ea, por<br \/>\nmim guiado, 129 Sob os p\u00e9s quanto mundo est\u00e1 distante; \u201cPor<br \/>\nque teu peito, em j\u00fabilo inundado, Seja presente ao povo triunfante,<br \/>\n132 Que nesta esfera avan\u00e7a extasiado.\u201d \u2014 Ent\u00e3o,<br \/>\nvolvendo os olhos anelante \u00c0s sete esferas, nosso globo vejo 135 Tal,<br \/>\nque sorri-me do seu vil semblante.<\/p>\n<p>Quem lhe d\u00e1 pouco apre\u00e7o em todo ensejo Aplaudo, e grande s\u00e1bio,<br \/>\nem meu conceito, 138 \u00c9 quem p\u00f5e noutra parte o seu desejo.<\/p>\n<p>Vejo da filha de Latona o aspeito Sem a sombra, que fosse em parte densa,<br \/>\n141 Em parte rara imaginar me h\u00e1 feito.<\/p>\n<p>Do filho, Hiperi\u00e3o, a flama intensa Pude olhar; perto e em torno lhe<br \/>\ngiravam 144 Maia e Dione em volta pouco extensa.<\/p>\n<p>Como aos do pai e filho temperavam De Jove os fogos, vi e o movimento 147<br \/>\nV\u00e1rio, que em roda ao centro seu formavam.<\/p>\n<p>Dos orbes sete eu contemplava atento Grandeza e rapidez, e comprendia<\/p>\n<p>150 Dist\u00e2ncias e postos seus no firmamento.<\/p>\n<p>Como o curso dos G\u00eameos eu seguia De montes, mares via todo envolto<br \/>\nO canto estreito, em que homem se gloria: 154 Olhos depois aos belos olhos<br \/>\nvolto.<\/p>\n<p>13-15. Se esses gritos etc., se tivesses ouvido o que foi dito, saberias<br \/>\na vingan\u00e7a de Deus sobre os maus padres, que vir\u00e1 bem cedo.<br \/>\n\u2014 37-39. O monte que o Cassino etc., Montecassino, sobre o qual S. Bento,<br \/>\nno V s\u00e9culo, fundou o c\u00e9lebre mosteiro, no local onde havia<br \/>\num templo a Apolo. \u2014 49. Mac\u00e1rio (S.), de Alexandria, que, no<br \/>\ns\u00e9culo IV, fundou v\u00e1rios mosteiros; Romualdo (S.), monge do<br \/>\ns\u00e9culo X, nascido em Ravena, que fundou a ordem dos Camaldolenses.<br \/>\n\u2014 70. Viu-a Jac\u00f3 etc., o patriarca Jac\u00f3 viu em sonho uma<br \/>\nescada que da terra subia at\u00e9 o C\u00e9u, Gen. XXVIII, 12. \u2014<br \/>\n74. A minha regra escrita etc. Na terra ningu\u00e9m observa a minha regra<br \/>\nde viver religiosamente. \u2014 94. Maior milagre etc., quando Deus fez com<br \/>\nque o Jord\u00e3o retirasse suas \u00e1guas e o mar Vermelho deixasse<br \/>\nseu leito descoberto para o povo de Israel passar Jos. III, 14. \u2014 110-111.<\/p>\n<p>O signo, a constela\u00e7\u00e3o dos G\u00eameos. \u2014 115-117. Convosco<br \/>\netc., Dante nasceu no m\u00eas de maio, quando o Sol se encontra no signo<br \/>\ndos G\u00eameos. \u2014 139. Filha de Latona, a Lua. \u2014 142.<\/p>\n<p>Hiperi\u00e3o; alguns mit\u00f3logos fazem do Sol um nume diferente de<br \/>\nFebo e filho de Hiperi\u00e3o. \u2014 144. M\u00e1ia, m\u00e3e de Merc\u00fario;<br \/>\nDione, m\u00e3e de V\u00eanus. \u2014 145-146. Aos do pai etc., J\u00fapiter<br \/>\n(Jove) temperava a frieza do pai (Saturno) e o calor do filho (Marte).<br \/>\nCANTO XXIII<\/p>\n<p>Descem Cristo e Maria no meio de anjos e de almas bem- aventuradas. Cristo,<br \/>\npor\u00e9m, logo desaparece; e o arcanjo Gabriel, em forma de chama, coroa<br \/>\na Maria. Depois, Maria sobe no Emp\u00edreo reunindo-se ao seu divino filho.<\/p>\n<p>QUANDO tudo em seus v\u00e9us a noite esconde, Sobre o ninho dos filhos<br \/>\nseus amados 3 Ave, pousada entre a dileta fronde, Para ver os seus gestos<br \/>\ndesejados E buscar cibo que lhes d\u00ea sustento, 6 Desvelos, que lhes s\u00e3o<br \/>\nbem compensados, Da rama espia o tempo de olho atento E com s\u00f4frego<br \/>\nanelo espera o dia, 9 Da alvorada aguardando o nascimento; Tal vigilante Beatriz<br \/>\neu via Para a plaga voltada luminosa, 12 Onde mais lento o sol me parecia.<\/p>\n<p>Vendo-a assim pronta em vista e cuidadosa, Homem fiquei, que melhorar-se<br \/>\naspira 15 E na esperan\u00e7a alenta a alma cuidosa.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, breve, a demora logo expira Entre atentar e ver que o c\u00e9u<br \/>\nse aclara 18 Com luz, que, viva mais e mais, subira.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEis a mil\u00edcia\u201d \u2014 a dama diz preclara \u2014<br \/>\n\u201cDa vit\u00f3ria de Cristo! Eis a colheita, 21 Que o giro entre as<br \/>\nesferas nos depara!\u201d Parece a face ter de flamas feita; Arde nos olhos<br \/>\nseus tanta alegria, 24 Que a palavra a diz\u00ea-la n\u00e3o se ajeita.<\/p>\n<p>Qual Tr\u00edvia em plenil\u00fanios irradia Entre as ninfas eternas<br \/>\nse sumindo, 27 De que o c\u00e9u nos recessos se alumia, Sobre milh\u00f5es<br \/>\nde fogos refulgindo Um sol vi, que os clar\u00f5es seus lhes prestava, 30<br \/>\nComo aos astros o nosso a luz partindo.<\/p>\n<p>Por entre o aceso lume fulgurava A Divina Subst\u00e2ncia t\u00e3o brilhante<br \/>\n33 Que a vista, contemplando-a, desmaiava.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 Beatriz! \u00d3 guia doce e amante!\u201d \u2014<br \/>\nTornou-me: \u2014 \u201cO que te enleia a intelig\u00eancia 36 For\u00e7a<br \/>\ninvenc\u00edvel tem, sem semelhante.<\/p>\n<p>\u201cAqui st\u00e1 o Saber e a Onipot\u00eancia, Que para o c\u00e9u<br \/>\ncaminho abrindo \u00e0 terra,<\/p>\n<p>39 Cumpriu-lhe inextinguivel apet\u00eancia.\u201d Como o fogo da nuvem<br \/>\nse descerra, No seio, estreito j\u00e1, se dilatando, 42 E, devendo subir,<br \/>\nbaixa e se aterra, Assim, entre del\u00edcias se alargando, Alma senti num<br \/>\n\u00eaxtase arroubada; 45 Qual fui n\u00e3o sei, de todo me olvidando.<\/p>\n<p>\u201cAbre os olhos e v\u00ea qual sou tornada; Pois te foi dado ver tanto<br \/>\nportento 48 J\u00e1 posso, ora a sorrir ser contemplada.\u201d \u2014<br \/>\nEstava eu como quem, no pensamento De passada vis\u00e3o vest\u00edgio<br \/>\ntendo 51 Salv\u00e1-los quer em v\u00e3o do esquecimento, Quando a sublime<br \/>\noferta recebendo, De gratid\u00e3o me entrei, que n\u00e3o se apaga 54<br \/>\nDo livro, em que o passado est\u00e1 vivendo.<\/p>\n<p>Se quantos c\u2019as irm\u00e3s Pol\u00ednia afaga, Com dulc\u00edssimo<br \/>\nleite os alentando, 57 Por eloq\u00fc\u00eancia me ajudassem maga, Na mil\u00e9sima<br \/>\nparte eu, me afanando, Cantar n\u00e3o conseguira o santo riso, 60 Que raiava<br \/>\nno aspeito venerando.<\/p>\n<p>Desta arte, descrevendo o Para\u00edso Saltar deve este meu sacro poema,<br \/>\n63 Como em caminho \u00e0s vezes \u00e9 preciso.<\/p>\n<p>Mas quem pensar que \u00e9 ponderoso o tema E d\u00e9bil o ombro, que<br \/>\nlhe est\u00e1 sujeito, 66 A mal n\u00e3o levar\u00e1, se ao cargo eu<br \/>\ntrema.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 para baixel pequeno e estreito O mar que a proa vai cortando<br \/>\nagora, 69 Nem para nauta a se poupar afeito.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPorque tanto o meu gesto te enamora, Que n\u00e3o contemplas<br \/>\no jardim formoso, 72 Que aos doces raios de Jesus se enflora? \u201cTem a<br \/>\nRosa, em que o Verbo milagroso Carne se fez; os l\u00edrios t\u00eam, que<br \/>\nensinam 75 O bom caminho pelo odor mimoso.\u201d \u2014 Assim diz Beatriz.<br \/>\nPois me dominam Seus conselhos, aos transes se oferecem 78 Meus olhos, que<br \/>\nante a luz d\u00e9beis se inclinam.<\/p>\n<p>\u00c0 sombra estando, \u00e0s vezes me aparecem Prados vestidos de formosas<br \/>\nflores 81 Do sol aos raios que entre nuvens descem; Assim turbas distingo<br \/>\nde esplendores, A que do alto baixaram mil ardentes<\/p>\n<p>84 Clar\u00f5es sem ver a causa dos fulgores.<\/p>\n<p>\u00d3 Virtude beni\u2019na que esplendentes Os fazes, deste espa\u00e7o,<br \/>\nassim subindo, 87 Aos meus olhos, pra ver-te inda impotentes.<\/p>\n<p>Da bela flor o doce nome ouvindo, Que noite e dia invoco sempre, atento 90<br \/>\nNo lume, que maior stava fulgindo, Quando em sua grandeza e luzimento Vi com<br \/>\nmeus olhos essa viva estrela, 93 Que vence, como aqui, no firmamento; Do c\u00e9u<br \/>\nbaixando flama se revela, Que em forma circular, como coroa 96 Cingiu-a, se<br \/>\nagitando em torno dela.<\/p>\n<p>A melodia que mais branda soa Na terra e as almas para si mais tira, 99 Trov\u00e3o<br \/>\nseria, que das nuvens troa, Comparada \u00e0 do\u00e7ura dessa lira, Que,<br \/>\ndo azul mais suave em c\u00e9u vestido, 102 C\u2019roava a bela, divinal<br \/>\nsafira.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSou ang\u00e9lico amor, que, assim movido, Mostro o prazer,<br \/>\nque vem do seio santo, 105 Que ao Salvador do mundo albergue h\u00e1 sido.<\/p>\n<p>\u201cHei de girar, do c\u00e9u Senhora, enquanto Deres, do filho entrando<br \/>\nem companhia, 108 \u00c0 suma esfera mais divino encanto.\u201d \u2014<br \/>\nCantava assim da c\u2019roa a melodia.<\/p>\n<p>Dos outros lumes todos almo canto 111 O nome proclamava de Maria.<\/p>\n<p>Dos orbes o primeiro, r\u00e9gio manto, Que sente mais fervor, que mais<br \/>\nse anima, 114 Do Supremo Senhor ao sopro, tanto De n\u00f3s distante se<br \/>\ninternava acima, Que o aspecto seu na imensidade pura, 117 De distinguir a<br \/>\nvista desanima.<\/p>\n<p>Dos olhos meus a for\u00e7a em v\u00e3o se apura, Seguir querendo a flama<br \/>\ncoroada, 120 Que ap\u00f3s seu Filho ergueu-se para a altura.<\/p>\n<p>Qual crian\u00e7a, de leite saciada, Que, \u00e1vida ainda, \u00e0<br \/>\nm\u00e3e estende os bra\u00e7os, 123 No afeto seu mostrando-se inflamada,<br \/>\nCada esplendor, subindo nos espa\u00e7os, Tendia-se, a Maria revelando 126<br \/>\nQuanto os prendem de amor excelso os la\u00e7os.<\/p>\n<p>Depois ver se fizeram modulando \u201cRegina coeli\u201d em tanta conson\u00e2ncia,<\/p>\n<p>129 Que me perdura na alma esse hino brando.<\/p>\n<p>Oh! dos celestes pr\u00eamios que abund\u00e2ncia Se cont\u00e9m nesses<br \/>\ncofres, que h\u00e3o guardado 132 Frutos colhidos na terrena est\u00e2ncia!<br \/>\nNo c\u00e9u se frui tesouro acumulado, No pranto e em Babil\u00f4nia conseguido,<br \/>\n135 Onde o ouro ficara desdenhado.<\/p>\n<p>Do filho de Maria conduzido, L\u00e1 triunfa, por sua alta vit\u00f3ria,<br \/>\nDas duas leis aos santos reunido, 139 Quem guarda chaves da celeste gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>25. Tr\u00edvia, \u00e9 um dos nomes de Diana, isto \u00e9 da lua.<br \/>\n\u2014 29. Um sol, Jesus Cristo. \u2014 32. A divina subst\u00e2ncia, Jesus<br \/>\nCristo \u2014 37.<\/p>\n<p>O Saber e a Onipot\u00eancia, Jesus Cristo \u2014 55. Pol\u00ednia, a<br \/>\nmusa da poesia l\u00edrica. \u2014 73. Rosa, a rosa m\u00edstica, a Virgem<br \/>\nMaria. \u2014 74.<\/p>\n<p>Os l\u00edrios, os Ap\u00f3stolos. \u2014 88. Da bela flor o nome etc.,<br \/>\na Virgem Maria. \u2014 92. Essa viva estrela, a Virgem Maria. \u2014 112.<br \/>\nDos orbes o primeiro, r\u00e9gio manto, o nono c\u00e9u, isto \u00e9,<br \/>\no primeiro m\u00f3vel, que envolve os oito c\u00e9us inferiores. \u2014<br \/>\n119. A flama coroada, a Virgem Maria, coroada pelo arcanjo Gabriel. \u2014<br \/>\n138.<\/p>\n<p>Das duas leis os santos, os santos do Velho e do Novo Testamento. \u2014<br \/>\n139. Quem guarda as chaves etc., S. Pedro.<br \/>\nCANTO XXIV<\/p>\n<p>Beatriz roga aos santos que iluminem o intelecto de Dante. Eles manifestaram<br \/>\no seu assentimento. O mais luminoso entre os santos, S. Pedro, aproxima-se<br \/>\nmais do Poeta, o interroga sobre a F\u00e9. O ap\u00f3stolo aprova inteiramente<br \/>\nas respostas de Dante o aben\u00e7oa, cingindo-o tr\u00eas vezes com o<br \/>\nseu esplendor.<\/p>\n<p>\u201c\u00d3 SODAL\u00cdCIO, \u00e0 ceia convidado Do cordeiro de<br \/>\nDeus, que d\u00e1 sustento 3 Tal, que o apetite heis sempre saciado, Se<br \/>\ninda antes de chegar ao passamento Preliba este homem \u2014 assim Deus dispensa<br \/>\n\u2014 6 Da mesa, em que comeis, t\u00eanue fragmento: Al\u00edvio dai-lhe<br \/>\nem sua sede imensa.<\/p>\n<p>Na fonte sempre hauris, de que deriva 9 Quanto ele, s\u00f4frego aspirando,<br \/>\npensa.\u201d \u2014 Disse ent\u00e3o Beatriz. Com flama viva, \u00c0<br \/>\nguisa de cometa, a grei contente, 12 Como esferas em p\u00f3los, gira ativa.<\/p>\n<p>Em rel\u00f3gio quem p\u00f5e atenta a mente, Das rodas uma cuida estar<br \/>\nsem moto 15 E correndo estar outra velozmente:<\/p>\n<p>Pelo v\u00e1rio compasso que lhes noto Nas cor\u00e9ias, j\u00e1 lento,<br \/>\nj\u00e1 apressado, 18 Da gl\u00f3ria sua a estimativa adoto.<\/p>\n<p>Do c\u00edrc\u2019lo em mor beleza assinalado Um lume vi surgir t\u00e3o<br \/>\nventuroso, 21 Que outro nenhum ficara avantajado.<\/p>\n<p>Em torno a Beatriz girou formoso Por vezes tr\u00eas com t\u00e3o divino<br \/>\ncanto, 24 Que trasladar n\u00e3o posso o som donoso.<\/p>\n<p>Screver n\u00e3o cabe \u00e0 pena enlevo tanto, Cores n\u00e3o tem<br \/>\npalavra ou fantasia, 27 Que exprimam propriamente o doce encanto.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSanta irm\u00e3 nossa, que dessa arte envia Devotos rogos,<br \/>\nteu ardente afeito 30 Dessa bela cor\u00e9ia me desvia.\u201d \u2014 Parando,<br \/>\no bento lume ao claro aspeito De Beatriz o sopro h\u00e1 dirigido, 33 Que<br \/>\nfalou do que eu disse pelo jeito.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEterna luz desse var\u00e3o subido, Que de Deus\u201d \u2014<br \/>\ntorna \u2014 \u201cas chaves da alegria 36 Que infinda \u00e0 terra deu,<br \/>\nh\u00e1s recebido, \u201cDeste homem como queiras avalia<\/p>\n<p>O saber sobre a F\u00e9 lhe perguntando, 39 Pela qual sobre o mar andaste<br \/>\num dia.<\/p>\n<p>\u201cSe bem cr\u00ea, se bem spera, terno amando, Certo sabeis, pois tens<br \/>\nfitado a vista 42 Onde tudo se est\u00e1 representando.<\/p>\n<p>\u201cMas como cidad\u00e3os o c\u00e9u conquista Pela F\u00e9 verdadeira,<br \/>\npara honr\u00e1-la 45 Explique ele por que na F\u00e9 persista.\u201d<br \/>\n\u2014 O bacharel apresta-se e n\u00e3o fala T\u00e9 que o Mestre a quest\u00e3o<br \/>\nhaja of\u2019recido, 48 Por aprov\u00e1-la, n\u00e3o por termin\u00e1-la:<br \/>\nAssim, de todas as raz\u00f5es munido, Dispus-me, enquanto Beatriz se explica,<br \/>\n51 A tal assunto, por tal Mestre arguido.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTeu pensar, bom crist\u00e3o, me significa: O que \u00e9<br \/>\nF\u00e9?\u201d \u2014 Presto, ouvindo, o rosto al\u00e7ava 54 Para a<br \/>\nluz, que a quest\u00e3o desta arte indica.<\/p>\n<p>Voltei-me a Beatriz: j\u00e1 me acenava Para que sem deten\u00e7a \u00e1gua<br \/>\nfizesse 57 Brotar da interna fonte, onde a guardava.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cA gra\u00e7a, que concede eu me confesse Ao sublime Prim\u00f3pilo\u201d<br \/>\n\u2014 assim digo \u2014 60 \u201cPermita que os conceitos claro expresse!<\/p>\n<p>\u201cComo escrito, Pai meu,\u201d \u2014 depois prossigo \u2014 \u201cFoi<br \/>\ncom verdade pelo irm\u00e3o amado, 63 Que Roma em bom caminho p\u00f4s<br \/>\ncontigo, \u201c\u00c9 a F\u00e9 a subst\u00e2ncia do esperado E argumento<br \/>\nevidente do invis\u00edvel: 66 Da F\u00e9 a ess\u00eancia assim tenho<br \/>\njulgado.\u201d \u2014 Tornou-me: \u2014 \u201cO parecer teu \u00e9 plaus\u00edvel,<br \/>\nSe o porque foi subst\u00e2ncia definida 69 E argumento te fica intelig\u00edvel.\u201d<br \/>\n\u2014 \u2014 \u201cDe mist\u00e9rios\u201d \u2014 disse eu \u2014<br \/>\n\u201csoma crescida, A mim nestas esferas revelada, 72 Est\u00e1 na terra<br \/>\naos olhos escondida.<\/p>\n<p>\u201cSua exist\u00eancia em cren\u00e7a \u00e9 s\u00f3 firmada,<br \/>\nEm que se fundamenta alta Esperan\u00e7a: 75 Subst\u00e2ncia, pois, tem<br \/>\nsido intitulada.<\/p>\n<p>\u201cE como em cren\u00e7a o racioc\u00ednio lan\u00e7a As premissas<br \/>\nsem ter mais outra vista, 78 Por isso de argumento o nome alcan\u00e7a.\u201d<br \/>\n\u2014 \u2014 \u201cSe quanto l\u00e1 na terra homem conquista Por doutrina,<br \/>\nassim fosse comprendido, 81 Lugar faltava ao engenho do sofista\u201d \u2014<br \/>\nDaquele aceso amor foi respondido;<\/p>\n<p>E mais: \u2014 \u201cNesta moeda examinado 84 Metal e peso muito bem tem<br \/>\nsido.<\/p>\n<p>\u201cMas diz: na bolsa a tens arrecadado?\u201d \u2014 \u2014 \u201cSim\u201d<br \/>\n\u2014 tornei \u2014 \u201ct\u00e3o redonda \u00e9, t\u00e3o polida,<br \/>\n87 Que do bom cunho estou certificado.\u201d \u2014 A voz ent\u00e3o,<br \/>\ndesse esplendor sa\u00edda Perguntou-me: \u2014 \u201cEssa pedra preciosa,<br \/>\n90 Em que toda virtude se acha erguida \u201cDonde a tens?\u201d \u2014<br \/>\nEu: \u2014 \u201cA chuva copiosa, Pelo Esp\u00edrito Santo derramada 93<br \/>\nNa Lei antiga e nova portentosa, \u201cRaz\u00e3o \u00e9, porque foi-me<br \/>\ndemonstrada Com agudeza tal, que outra seria 96 Obtusa, se lhe fora comparada.\u201d<br \/>\n\u2014 \u2014 \u201cPorque divina lei pareceria A nova e a antiga\u201d<br \/>\n\u2014 a voz logo retorna \u2014 99 \u201cQue a t\u00e3o profunda convic\u00e7\u00e3o<br \/>\nte guia?\u201d \u2014 \u2014 \u201c\u00c9 prova que a verdade clara<br \/>\ntorna De obras a s\u00e9rie\u201d \u2014 eu disse \u2014 \u201ca que<br \/>\nnatura 102 Nunca ferro aqueceu, bateu bigorna.\u201d \u2014 A luz me replicou:<br \/>\n\u2014 \u201cQuem te assegura Que as obras fossem tais? Quem defendido 105<br \/>\nPor provas deve ser. Quem mais to jura?<\/p>\n<p>709<\/p>\n<p>Ent\u00e3o falei: \u2014 \u201cSe o mundo convertido Sem milagres de<br \/>\nCristo \u00e0 lei se houvesse, 108 Este o maior milagre houvera sido; \u201cPorque<br \/>\npobre, em jejum, para ter messe Semeado h\u00e1s na terra \u00f3tima planta:<br \/>\n111 Onde foi vinha, hoje espinhal s\u00f3 cresce.\u201d \u2014 Mal conclu\u00eda,<br \/>\nquando a corte santa Nas esferas \u2014 Louvemos Deus! \u2014 entoa 114<br \/>\nNessa toada, em que no c\u00e9u se canta.<\/p>\n<p>Do sublime Bar\u00e3o, que at\u00e9 a c\u2019roa De ramo em ramo me<br \/>\nelevado havia, 117 Naquele exame, a voz de novo soa.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cA gra\u00e7a com tua mente consorcia Tanto, que por teus<br \/>\nl\u00e1bios tem falado: 120 T\u00e9 aqui respondeste o que cumpria.<\/p>\n<p>\u201cDou, pois, assenso ao que me tens tornado; Mas tua cren\u00e7a exprime,<br \/>\nlhe acrescendo 123 De que fonte \u00e0 tua alma ela h\u00e1 brotado.\u201d<br \/>\n\u2014 \u2014 \u201c\u00d3 Santo Padre, \u00f3 Sp\u00edrito, que<br \/>\nvendo St\u00e1s quanto creste, tanto que chegaste 126 Ao Sepulcro, o mais<br \/>\nmo\u00e7o antecedendo, \u201cDirei\u201d \u2014 lhe torno \u2014 \u201c(assim<br \/>\ndeterminaste)<\/p>\n<p>Da minha F\u00e9 a f\u00f3rmula evidente, 129 Sua origem direi como ordenaste.<\/p>\n<p>\u201cEm um s\u00f3 Deus eu creio onipotente, Eterno, que, imut\u00e1vel,<br \/>\nos c\u00e9us move 132 No desejo e no amor sempre clemente.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o, para que tal cren\u00e7a se comprove, Metaf\u00edsica<br \/>\ne f\u00edsica discretas; 135 Mas da verdade a prova tamb\u00e9m chove<br \/>\n\u201cPor Mois\u00e9s, pelos salmos, por profetas, Pelo Evangelho e escritos,<br \/>\nque inspirado 138 Vos tem o Esp\u2019rito Santo, almas seletas.<\/p>\n<p>\u201cNas Tr\u00eas Pessoas creio afervorado; Creio na ess\u00eancia delas<br \/>\nUna e Trina, 141 Tanto que \u00e9 st\u00e1 com s\u00e3o bem conjugado.<\/p>\n<p>\u201cO que de altos mist\u00e9rios da divina Condi\u00e7\u00e3o digo,<br \/>\nem tra\u00e7os mil se assela 144 Em mim pela evang\u00e9lica doutrina.<\/p>\n<p>\u201cEste o princ\u00edpio, esta a fagulha bela, Que depois se dilata<br \/>\nem flama ardente 147 E em mim cintila, qual nos c\u00e9us estrela.\u201d<br \/>\n\u2014 Qual patr\u00e3o, que de servo diligente Apraz\u00edveis not\u00edcias<br \/>\nescutando, 150 Feito o sil\u00eancio, o abra\u00e7a de contente,<\/p>\n<p>Assim, quando acabei, me aben\u00e7oando E cantando, tr\u00eas vezes me<br \/>\nacercava O esplendor apost\u00f3lico, mostrando 154 Das respostas que eu<br \/>\ndei quanto folgava.<\/p>\n<p>20. Um lume, S. Pedro. \u2014 39. Pela qual sobre o mar andaste um dia,<br \/>\nsobre as \u00e1guas do Mar de Tiber\u00edade, S. Mateus, Ev. XIV. \u2014<br \/>\n59. Prim\u00f3pilo, assim chamava-se, no ex\u00e9rcito romano, o centuri\u00e3o<br \/>\nda primeira coorte; aqui indica S. Pedro. \u2014 62. Irm\u00e3o amado,<br \/>\nS. Paulo. &#8211; 64-66. A f\u00e9 etc., Dante repete a defini\u00e7\u00e3o<br \/>\nque da f\u00e9 deu S. Paulo na Ep\u00edstola aos Hebreus, XI, 1. \u2014<br \/>\n98. A nova e a antiga, o novo e o velho testamento. \u2014 106-108. Se o<br \/>\nmundo convertido etc., Dante repete a argumenta\u00e7\u00e3o de S. Agostinho,<br \/>\nDe Civ. Dei, livro XXIV, cap. 5. \u2014 125-126. Que chegaste ao sepulcro<br \/>\netc. S. Pedro chegou ao sepulcro de Jesus, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nantes de S. Jo\u00e3o Evangelista. Jo\u00e3o XX, 1-9.<br \/>\nCANTO XXV<\/p>\n<p>S. Tiago examina o Poeta sobre a Esperan\u00e7a, perguntando em que ela<br \/>\nconsiste, se ele a possui, de onde veio nele. \u00c0 segunda pergunta responde<br \/>\nBeatriz; \u00e0s outras duas responde Dante.<\/p>\n<p>Aproxima-se S. Jo\u00e3o Evangelista, e diz a Dante que o seu corpo, apesar<br \/>\nda comum opini\u00e3o, morrendo, ficara na Terra.<\/p>\n<p>SE este sacro poema houver podido (Em que tem posto a m\u00e3o o c\u00e9u<br \/>\ne a terra 3 E em que hei por tanto tempo emagrecido) Aquele \u00f3dio abrandar<br \/>\nque me desterra Do belo aprisco, onde eu dormi cordeiro, 6 Contr\u00e1rio<br \/>\naos lobos, que lhe movem guerra; Com voz e l\u00e3 melhor que de primeiro<br \/>\nVoltando, eu do batismo sobre a fonte 9 Hei-de, vate, cingir-me de loureiro;<br \/>\nPois l\u00e1 entrei na f\u00e9, que uma alma insonte Aproxima de Deus<br \/>\ne causa h\u00e1 sido 12 De girar Pedro em torno \u00e0 minha fronte.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a n\u00f3s um lume vem sa\u00eddo Da grei, a que a primeira<br \/>\npertencia 15 Dos vig\u00e1rios, que h\u00e1 Cristo institu\u00eddo.<\/p>\n<p>Beatriz, resplendente de alegria, \u2014 \u201cOlha!\u201d \u2014 me<br \/>\ndisse \u2014 \u201cEis o Bar\u00e3o famoso 18 Por quem vai-se \u00e0<br \/>\nGal\u00edzia em romaria! Quando \u00e0 consorte acerca-se amoroso O pombo,<br \/>\ncada qual mostra, girando 21 Entre arrulhos o ardor seu amoroso: Os dois Pr\u00edncipes<br \/>\nvi t\u00e3o ledos, quando Da gl\u00f3ria sua no esplendor se acolhem 24<br \/>\nO manjar, que se frui no c\u00e9u louvando.<\/p>\n<p>Depois que as sauda\u00e7\u00f5es entre si colhem Coram me cada um t\u00e1cito<br \/>\nfica 27 Com tais clar\u00f5es, que de os olhar me tolhem.<\/p>\n<p>Sorrindo, Beatriz assim se explica: \u2014 \u201c\u00d3 alma egr\u00e9gia,<br \/>\npor quem foi descrita 30 Del\u00edcia, de que a nossa igreja \u00e9 rica,<br \/>\n\u201cAqui a Esp\u2019ran\u00e7a faz ouvir bendita: Mostraste-a, toda<br \/>\nvez que aos tr\u00eas h\u00e1 dado 33 Jesus de v\u00ea-lo em sua Gl\u00f3ria<br \/>\na dita.\u201d \u2014 \u2014 \u201cErgue o rosto com sp\u00edrito esfor\u00e7ado,<br \/>\nPois da terra quem sobe a tanta altura 36 Ser deve ao brilho nosso afei\u00e7oado.\u201d<br \/>\n\u2014 O \u00e2nimo desta arte me assegura<\/p>\n<p>A luz segunda; a vista, pois, levanto 39 Aos montes, cujo lume a fez escura.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe o nosso Rei te h\u00e1 dado favor tanto, Que v\u00eas<br \/>\nos condes seus antes da morte 42 Do seu pal\u00e1cio no recinto santo, \u201cPorque,<br \/>\nvindo \u00e9 verdade desta corte, A Esperan\u00e7a, que tanto os homens<br \/>\nprende, 45 Em ti, nos mais o cora\u00e7\u00e3o conforte.<\/p>\n<p>\u201cO que ela seja diz, como se acende Em tua alma; diz donde se origina.\u201d<br \/>\n\u2014 48 Estas palavras inda o santo expende.<\/p>\n<p>E quem as plumas conduziu beni\u2019na Das asas minhas neste v\u00f4o ingente,<br \/>\n51 Tornou, por que a resposta me previna: \u201cA militante Igreja um mais<br \/>\nardente Filho n\u00e3o tem na Esp\u2019ran\u00e7a, como escrito 54 \u00c9<br \/>\nno Sol, que alumia a nossa mente.<\/p>\n<p>\u201cEis por que Deus permite que do Egito, Para ver a Si\u00e3o tinha<br \/>\nchegado 57 Antes de estar o tempo seu prescrito.<\/p>\n<p>\u201cOs outros pontos dois lhe h\u00e1s perguntado, Somente por que \u00e0<br \/>\nterra ele respira 60 Quanto \u00e9s desta virtude deleitado.<\/p>\n<p>\u201cLhos deixo, sem que assim vangloria aufira; Poder\u00e1 responder<br \/>\nao teu contento, 63 Se a Gra\u00e7a divinal o alenta e inspira.<\/p>\n<p>\u201cComo disc\u00edp\u2019lo, que a seu Mestre atento De assunto fala,<br \/>\nem que \u00e9 perito e experto, \u2014 66 Folgando de mostrar zelo e talento,<br \/>\n\u201cEsperan\u00e7a \u00e9\u201d \u2014 disse tu \u2014 \u201cguardar<br \/>\ncerto Da Gl\u00f3ria, pela Gra\u00e7a produzida 69 E m\u00e9rito provado<br \/>\ne descoberto.<\/p>\n<p>\u201cSendo luz de astros muitos procedida, Pelo sumo cantor do Sumo Guia<br \/>\n72 Foi-me primeiro na alma introduzida.<\/p>\n<p>\u201cEspere em ti \u2014 na excelsa Teodia Disse \u2014 aquele, que o<br \/>\nnome teu conhece: 75 Com f\u00e9 como eu, quem n\u00e3o conheceria? \u201cComo<br \/>\nseu rocio, tamb\u00e9m sobre mim desce O da Ep\u00edstola sacra e, redundante,<br \/>\n78 Outros inunda a chuva, que recresce.\u201d Falava assim: do seio coruscante<br \/>\nDaquele inc\u00eandio tremulava chama, 81 Qual rel\u00e2mpago, s\u00fabita,<br \/>\nincessante.<\/p>\n<p>Respondeu-me: \u2014 \u201cEsse amor que inda me<\/p>\n<p>inflama Pela virtude, que me dera alento 84 No mart\u00edrio, ao findar<br \/>\nda vida a trama, \u201cAtrai-me a ti, que tens contentamento Por ela; e,<br \/>\npois, me diz de qual ventura 87 A Esperan\u00e7a te fez prometimento.\u201d<br \/>\n\u2014 E eu: \u2014 \u201cFoi declarado na Escritura O sinal (sua forma<br \/>\nest\u00e1 sabida) 90 De almas, que, amigas, o Senhor apura \u201cDisse<br \/>\nIsa\u00edas: cada qual cingida Em sua p\u00e1tria ser\u00e1 de dupla<br \/>\nveste, 93 E a p\u00e1tria sua \u00e9 nesta doce vida.<\/p>\n<p>\u201cPor que mais a verdade manifeste, Das c\u00e2ndidas estolas discorrendo<br \/>\n96 Mais claro teu irm\u00e3o falou do que este.\u201d \u2014 Palavras<br \/>\ntais eu proferido havendo.<\/p>\n<p>\u201cSperant in te\u201d ressoa l\u00e1 da altura, 99 Ao hino os coros<br \/>\ntodos respondendo.<\/p>\n<p>Lume entre eles depois tanto fulgura, Que, se o C\u00e2ncer tivesse igual<br \/>\nestrela, 102 Fora do inverno um m\u00eas luz sem mistura.<\/p>\n<p>Como leda no baile entra a donzela E, para a noiva honrar, dan\u00e7a inocente<\/p>\n<p>105 Sem que v\u00edcio ou vaidade impere nela: O clar\u00e3o assim vi<br \/>\nresplandecente Aos dois se apropinquar, que circulavam 108 Quanto convinha<br \/>\nao seu amor ardente.<\/p>\n<p>Entrou no canto e dan\u00e7a, que formavam: Qual sem voz sposa imota, aos<br \/>\ntr\u00eas o aspeito 111 De Beatriz os olhos contemplavam.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO santo \u00e9 este, que estreitava ao peito O nosso Pelicano<br \/>\ne dele h\u00e1 sido 114 Sobre a cruz \u00e0 miss\u00e3o sublime eleito.\u201d<br \/>\n\u2014 Assim diz Beatriz. Sempre embebido O seu olhar est\u00e1 na luz<br \/>\nterceira 117 Depois, como antes de eu a ter ouvido.<\/p>\n<p>Quem do sol fita os olhos na carreira, Crendo v\u00ea-lo de eclipse anuviado,<br \/>\n120 Para ver sente o efeito da cegueira: Por esse lume assim fui deslumbrado.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor que te afanas procurando\u201d \u2014 fala \u2014 123<br \/>\n\u201cO que no c\u00e9u n\u00e3o pode ser achado? \u201cNa terra o corpo<br \/>\nmeu \u00e0 terra iguala, At\u00e9 que o nosso n\u00famero complete 126<br \/>\nO que eterno prop\u00f3sito assinala.<\/p>\n<p>\u201cTer vestes duas s\u00f3 do c\u00e9u compete No claustro aos lumes<br \/>\ndois, que se elevaram: 129 Esta verdade ao mundo teu repete.\u201d \u2014<br \/>\nCalou-se e os esplendores tr\u00eas pararam E com eles a doce melodia, 132<br \/>\nDe que os sons a cor\u00e9ia acompanharam.<\/p>\n<p>O remo, assim, que o mar de antes feria, Se h\u00e1 fadiga ou perigo, \u00e9<br \/>\nbem que cesse, 135 Logo ao sinal do apito, que assobia: Na mente ai! quanto<br \/>\na como\u00e7\u00e3o recresce, Quando o gesto n\u00e3o pude ver formoso<br \/>\nDe Beatriz ainda que eu stivesse 139 Ao seu lado e no mundo glorioso!<\/p>\n<p>1-6. Se este sacro poema etc. Dante exprime a esperan\u00e7a que o seu<br \/>\nPoema abrande os esp\u00edritos dos seus concidad\u00e3os e lhe seja concedida<br \/>\na volta a Floren\u00e7a. \u2014 17-18. O Bar\u00e3o etc., S. Tiago, cujo<br \/>\ncorpo foi sepulto em Compostela, na Gal\u00edcia. \u2014 24. O manjar,<br \/>\nDeus. \u2014 29-30. Por quem foi descrita etc. refere-se Dante \u00e0 chamada<br \/>\nep\u00edstola cat\u00f3lica que, por\u00e9m, por muitos \u00e9 atribu\u00edda<br \/>\na S. Tiago Zezedeu. \u2014 32-33. Toda vez etc.: no Evangelho os tr\u00eas<br \/>\nap\u00f3stolos Pedro, Jo\u00e3o e Tiago figuram as tr\u00eas virtudes<br \/>\nteologais, a f\u00e9, a caridade e a esperan\u00e7a.<br \/>\nCANTO XXVI<\/p>\n<p>O ap\u00f3stolo S. Jo\u00e3o interroga Dante a respeito da terceira virtude<br \/>\nteologal, a Caridade. Responde Dante e os seus conceitos s\u00e3o aplaudidos<br \/>\npor toda a corte celeste. Beatriz reaviva no Poeta a vista que estava ofuscada.<br \/>\nAproxima-se Ad\u00e3o que lhe fala e esclarece alguns pontos duvidosos de<br \/>\nDante.<\/p>\n<p>FOSSE j\u00e1 morta a vista eu receava, Eis da f\u00falgida flama, que<br \/>\nofuscara, 3 Atento fez-me a voz, que assim falava: \u2014 \u201cEnquanto<br \/>\na for\u00e7a a vista n\u00e3o repara, Que em minha n\u00edmia luz h\u00e1s<br \/>\nconsumido 6 Compensa\u00e7\u00e3o no discursar depara.<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7a e diz pra onde \u00e9 dirigido Teu esp\u00edrito<br \/>\ne sabe que, se escura 9 A vista sentes, n\u00e3o a tens perdido; \u201cPois<br \/>\nquem te guia na divina altura Virtude tem no olhar, como Anania 12 Nas m\u00e3os<br \/>\ntivera, que a cegueira cura.\u201d \u2014 \u2014 \u201cQuando bem lhe<br \/>\naprouver\u201d \u2014 eu respondia \u2014 \u201cRem\u00e9dio aos olhos<br \/>\nd\u00ea, por onde a chama 15 Com ela entrou, que sempre incendia.<\/p>\n<p>\u201cO Bem, que pelo c\u00e9u prazer derrama Alfa e \u00d4mega h\u00e1<br \/>\nsido na escritura, 18 Que amor ou forte ou leve em mim proclama.\u201d Aquela<br \/>\nmesma voz, que me assegura N\u00e3o haver eu de s\u00fabito cegado, 21<br \/>\nInda excitar-me a lhe falar procura.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor mais estreito crivo ser passado Deves\u201d \u2014 disse<br \/>\n\u2014 \u201ce portanto denuncia 24 O que ao fito h\u00e1 teu arco endere\u00e7ado.\u201d<br \/>\n\u2014 \u2014 \u201cRaz\u00f5es\u201d \u2014 tornei \u2014 \u201cda<br \/>\ns\u00e3 filosofia E autoridade, que daqui descende, 27 Me influem desse<br \/>\namor toda a energia.<\/p>\n<p>\u201cO bem, enquanto bem, quando se entende, Ateia amor que \u00e9 tanto<br \/>\nmais ardente, 30 Quanto mais de bondade em si comprende.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 pois, ess\u00eancia, em si tanto excelente, Que todo bem,<br \/>\nque ser lhe possa externo 33 Reflexo \u00e9 s\u00f3 da sua luz fulgente;<br \/>\n\u201cAtrai, mais que outra, o esp\u00edrito, que, terno, Amando, conhecer<br \/>\npode a verdade, 36 Que desta prova \u00e9 o alicerce eterno.<\/p>\n<p>\u201cDessa verdade eu vejo a claridade<\/p>\n<p>Naquele, que demonstra o amor primeiro 39 De todo ente, a quem cabe eternidade.<\/p>\n<p>\u201cVejo na voz do Autor, s\u00f3 e verdadeiro, Que de si disse, a Mois\u00e9s<br \/>\nfalando: 42 \u2014 O bem te hei-de mostrar perfeito e inteiro. \u2014 \u201cTamb\u00e9m<br \/>\ntu mo revelas, come\u00e7ando O sublime preg\u00e3o, que \u00e0 terra<br \/>\nensina, 45 Mais que os outros, o arcano venerando.\u201d \u2014 \u2014<br \/>\n\u201cPela raz\u00e3o\u201d \u2014 ouvi \u2014 \u201cpela divina Autoridade,<br \/>\nque com ela acorda, 48 O amor teu, e mais que tudo a Deus destina.<\/p>\n<p>\u201cDiz-me, por\u00e9m: n\u00e3o sentes outra corda, Que para Deus<br \/>\nte arrasta? Faz patente 51 Com quantos dentes esse amor te morda.\u201d \u2014<br \/>\nDa \u00c1guia de Cristo n\u00e3o me foi latente O prop\u00f3sito santo<br \/>\ne onde queria 54 Na profiss\u00e3o levar-me diligente.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEst\u00edmulos, que possam\u201d \u2014 lhe eu dizia \u2014<br \/>\n\u201cPara Deus impelir a humana ess\u00eancia, 57 Tem minha caridade noite<br \/>\ne dia; \u201cPorque do mundo o ser; minha exist\u00eancia; A morte que sofreu<br \/>\npara que eu viva; 60 O que espera um crist\u00e3o da f\u00e9 na ard\u00eancia;<\/p>\n<p>\u201cDo bem, que eu disse, a intelig\u00eancia ativa, Me afastaram do<br \/>\nmar do amor culpado, 63 Do santo amor me conduzindo \u00e0 vida.<\/p>\n<p>\u201cAs flores, de que o horto \u00e9 todo ornado, Do Jardineiro eterno,<br \/>\neu amo tanto, 66 Quanto ele em perfei\u00e7\u00e3o lhes tem doado.\u201d<br \/>\n\u2014 Calei-me e resoou mel\u00edfluo canto Pelo c\u00e9u, que Beatriz<br \/>\nacompanhava, 69 Dizendo todos: \u2014 Santo! Santo! Santo! \u2014 Como pungente<br \/>\nluz olhos destrava Do sono, a vista, o brilho procurando, 72 Que as p\u00e1lpebras<br \/>\ndescerra, invade, agrava; E o desperto, os motivos ignorando Da s\u00fabita<br \/>\nvig\u00edlia, olhos desvia, 75 Na mente, entanto, a reflex\u00e3o calando:<br \/>\nEm mim, dessa arte, a n\u00e9voa desfazia De Beatriz o olhar, que pelo espa\u00e7o<br \/>\n78 De mais de milhas mil resplendecia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o mais claro que antes a ver passo: Quarta luz perto a n\u00f3s,<br \/>\nmaravilhado, 81 Diviso e uma pergunta logo fa\u00e7o.<\/p>\n<p>E ela: \u2014 \u201cNesse lume, ora chegado,<\/p>\n<p>Seu Criador contempla a alma primeira 84 Que a Virtude primeira haja criado.\u201d<br \/>\n\u2014 Qual fronde, que, ao soprar da aura ligeira, O cimo curva e, logo<br \/>\nap\u00f3s, se erguendo 87 Pela for\u00e7a, que a torna sobranceira, Tal<br \/>\neu, essas palavras lhe entendendo At\u00f4nito fiquei; depois seguro 90 Fez-me<br \/>\num desejo, que me estava ardendo.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00danico pomo, que nasceu maduro! Dos homens pai, que<br \/>\nh\u00e1s visto filha e nora 93 Em cada esposa ent\u00e3o e no futuro!<br \/>\n\u201cDevota e humilde a minha voz te exora! Fala-me, pois! Do meu desejo<br \/>\n\u00e9s certo; 96 Almejo ouvir-te, e n\u00e3o to expresso agora.\u201d<br \/>\n\u2014 Como de manto um animal coberto Movimento, que os membros seus agita<br \/>\n99 Pelo envolt\u00f3rio, deixa descoberto: Assim essa primeira alma bendita<br \/>\nPelo tremor da sua luz mostrava 102 O prazer de agradar-me quanto a excita.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o hei mister declares\u201d \u2014 me tornava \u2014<br \/>\n\u201cTeu desejo, melhor que tu sabendo 105 Quanto a certeza em tua mente<br \/>\ngrava.<\/p>\n<p>\u201cNesse espelho infal\u00edvel estou lendo, Em que \u00e9 todo o<br \/>\nvis\u00edvel refletido, 108 Cousa nenhuma o refletir podendo.<\/p>\n<p>\u201cOuvir aspiras quando vindo hei sido L\u00e1 no santo jardim, donde,<br \/>\nguiado 111 Por t\u00e3o comprida escada, tens subido; \u201cQuanto tempo<br \/>\nali fui deliciado; Da c\u00f3lera divina a causa vera; 114 Que idioma falei,<br \/>\npor mim formado.<\/p>\n<p>\u201cO pomo, \u00f3 filho meu, n\u00e3o considera Motivo s\u00f3<br \/>\npor si do acerbo ex\u00edlio, 117 Mas ordens transgredir, que Deus me dera.<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 donde Beatriz moveu Virg\u00edlio Quatro mil e trezentos<br \/>\ne dois anos 120 A ventura anelei deste conc\u00edlio.<\/p>\n<p>\u201cDo desterro senti na terra os danos, Enquanto vezes novecentas trinta<br \/>\n123 Seu giro fez o sol do c\u00e9u nos planos.<\/p>\n<p>\u201cAntes que a gente de Nemrod consinta Em meter m\u00e3os \u00e0<br \/>\nobra intermin\u00e1vel, 126 A l\u00edngua, que falei, se achava extinta.<\/p>\n<p>\u201cDe homem feitura sempre perdur\u00e1vel<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9; vem do capricho e um dia cessa, 129 Do c\u00e9u segundo<br \/>\no influxo vari\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cA humana fala a natureza expressa; Por ela o modo de falar deixado<br \/>\n132 Ao homem est\u00e1, segundo lhe interessa.<\/p>\n<p>\u201cAntes de eu ter no inferno penetrado El o supremo bem significava,<br \/>\n135 Que desta leda luz me h\u00e1 circundado; \u201cDepois em Eli o nome<br \/>\nse mudava; Qual rama dos mortais uso varia, 138 Sucede a folha nova \u00e0<br \/>\nque secava.<\/p>\n<p>\u201cNo monte, que mais alto ao ar se envia Santa vida vivi, depois culpada,<br \/>\nDa hora prima \u00e0 s\u00e9tima do dia, 142 Noutro quadrante o sol fazendo<br \/>\nentrada.\u201d<\/p>\n<p>2. F\u00falgida flama, S. Jo\u00e3o Evangelista. \u2014 11. Anania;<br \/>\na m\u00e3o de Ananias teve a virtude de restituir a vista a S. Paulo, que<br \/>\nficara cego pela luz do c\u00e9u que o investiu (Atos dos Ap\u00f3stolos<br \/>\nIX, 10- 17). \u2014 38. \u2014 Naquele etc. Dante se refere ou a Plat\u00e3o<br \/>\nou a Arist\u00f3teles, em algum ponto dos seus livros no qual declaram que<br \/>\nDeus \u00e9 a suprema causa. \u2014 44-45. O sublime preg\u00e3o, o Evangelho<br \/>\nde S\u00e3o Jo\u00e3o. \u2014 83-84. Alma primeira, Ad\u00e3o; Virtude<br \/>\nprimeira, Deus. \u2014 118-120. L\u00e1 donde etc. o limbo. \u2014 Dante,<br \/>\nseguindo o c\u00e1lculo d\u2019Eus\u00e9bio, cr\u00ea que da cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mundo at\u00e9 a morte de Jesus Cristo passaram 5.232 anos, subtraindo<br \/>\ndos<\/p>\n<p>quais os 950 que Ad\u00e3o viveu, ficam 4302 anos. \u2014 139-141. No<br \/>\nmonte etc., Ad\u00e3o viveu no Para\u00edso Terrestre, isto \u00e9,<br \/>\nna parte mais alta do monte Purgat\u00f3rio, apenas sete horas.<br \/>\nCANTO XXVII<\/p>\n<p>S. Pedro exprobra os maus pastores da Igreja; e todos os santos manifestam<br \/>\na sua aprova\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras do Ap\u00f3stolo.<\/p>\n<p>Novamente o Poeta contempla a Terra, e, depois, com Beatriz, eleva-se ao<br \/>\nPrimeiro M\u00f3vel.<\/p>\n<p>GL\u00d3RIA ao Pai! Gl\u00f3ria ao Filho! ao Esp\u00edrito Santo! Un\u00edssono<br \/>\nentoava o Para\u00edso: 3 Senti-me inebriado ao doce canto.<\/p>\n<p>Pareceu-me o que eu via um doce riso Do universo: tomava-me a ebriedade 6<br \/>\nPelos olhos e ouvidos o ju\u00edzo.<\/p>\n<p>\u00d3 j\u00fabilo! \u00d3 inef\u00e1vel f\u2019licidade! De paz<br \/>\n\u00f3 vida inteira e de ternura! 9 Riqueza certa, isenta de ansiedade!<br \/>\nFulgia-me ante os olhos a luz pura Dos esplendores quatro; mais brilhante<br \/>\n12 O que veio primeiro eis se afigura! E tal se me apresenta o seu semblante,<br \/>\nQual fora Jove, se, aves ele e Marte, 15 A plumagem trocassem rutilante.<\/p>\n<p>A Provid\u00eancia, que no c\u00e9u reparte Tarefa a cada qual, calar<br \/>\nfizera 18 O venturoso coro em toda parte, Quando lhe ouvi: \u2014 \u201cA<br \/>\ncor se em mim se altera N\u00e3o o estranhes: enquanto estou falando 21<br \/>\nMudan\u00e7a igual em todos ver espera.<\/p>\n<p>\u201cQuem, meu lugar na terra ora usurpando, Meu lugar, meu lugar, vago<br \/>\nem presen\u00e7a 24 De Cristo o deixa, converteu nefando \u201cMeu cemit\u00e9rio<br \/>\nna sentina imensa De sangue e podrid\u00e3o, com que o perverso, 27 Do c\u00e9u<br \/>\nlan\u00e7ado, frui del\u00edcia intensa.\u201d \u2014 O c\u00e9u ent\u00e3o<br \/>\neu vi todo submerso Na cor, que por manh\u00e3 e \u00e0 tarde acende 30<br \/>\nSobre as nuvens o sol do lado adverso.<\/p>\n<p>Qual a dama, que \u00e0 virtude cultos rende E, de si bem segura, se enrubesce,<br \/>\n33 Quando torpezas de outra ouve e compreende, Beatriz transmudada me parece,<br \/>\nAo c\u00e9u ante a paix\u00e3o do Onipotente 36 Igual eclipse em seio<br \/>\nque envolvesse.<\/p>\n<p>Prosseguiu logo o Ap\u00f3stolo eminente; E tanto a voz lhe estava demudada,<\/p>\n<p>39 Que mais n\u00e3o fora o vulto seu rubente.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cCom sangue meu a Igreja alimentada N\u00e3o foi, nem Lino<br \/>\ne Cleto o seu lhe deram 42 De ouro em gan\u00e2ncia para ser mudada.<\/p>\n<p>\u201cComo Calixto e Pio mereceram, Urbano e Sixto a sempiterna vida? 45<br \/>\nP\u00f3s muito pranto o sangue seu verteram.<\/p>\n<p>\u201cPor nossos sucessores dividida N\u00e3o quisemos a grei \u2014<br \/>\nparte chamada 48 \u00c0 destra, parte \u00e0 esquerda repelida; \u201cNem<br \/>\nque das chaves fosse a ins\u00edgnia usada Por estandarte em campo sanguinoso<br \/>\n51 Contra crist\u00e3os em guerra encarni\u00e7ada.<\/p>\n<p>\u201cNem que, por privil\u00e9gio mentiroso De trafic\u00e2ncia, em<br \/>\nselo eu figurasse 54 Quanta vez de pudor me acendo iroso! \u201cCom vestes<br \/>\nde pastor lobo rapace Daqui em cada pascigo se avista: 57 Para que n\u00e3o<br \/>\nsurgiu Deus, que os fulminasse? \u201cDe Gasconha e Cahors ra\u00e7a malquista<br \/>\nBeber-nos sangue vem: belo come\u00e7o, 60 O indi\u2019no fim que tens,<br \/>\nquanto contrista!<\/p>\n<p>\u201cMas Deus que a Roma, do seu mal no excesso, De mundo em gl\u00f3ria<br \/>\nos Cipi\u00f5es mandava, 63 Dar\u00e1 socorro, como foi-me expresso.<\/p>\n<p>\u201cE tu, que o peso da mat\u00e9ria grava, Voltando, \u00f3 filho,<br \/>\nao mundo lhe revela 66 Quanto eu te digo dessa gente prava.\u201d \u2014<br \/>\nComo o vapor nos ares se congela, E em flocos baixa, quando o sol tocado 69<br \/>\nPelas pontas est\u00e1 da Cabra bela; Assim vi eu o \u00e9ter adornado<br \/>\nDe clar\u00f5es triunfantes, que detido 72 Haviam-se na altura ao nosso<br \/>\nlado.<\/p>\n<p>Tinha-os a vista na ascens\u00e3o seguido E os seguiu t\u00e9 que enfim<br \/>\nsubir avante 75 Pelo espa\u00e7o n\u00e3o foi-lhe permitido.<\/p>\n<p>Que eu n\u00e3o podia ver mais adiante Notando, Beatriz disse: \u2014<br \/>\n\u201cRepara 78 Quanto agora, girando, est\u00e1s distante.\u201d \u2014<br \/>\nDesde a hora, em que a terra eu contemplara, Por todo o arco, que o clima<br \/>\nfaz primeiro, 81 Do meio at\u00e9 o fim, j\u00e1 me avan\u00e7ara.<\/p>\n<p>A passagem, que Ulisses aventureiro Al\u00e9m Gades tentou e a plaga via,<\/p>\n<p>84 Em que Europa foi cargo prazenteiro, Naquela \u00e1rea inda mais divisaria;<br \/>\nPor\u00e9m sob os meus p\u00e9s o sol andava 87 Dist\u00e2ncia, que a<br \/>\nde um signo precedia.<\/p>\n<p>A namorada mente, em que reinava Sempre a Senhora minha, no incentivo, 90<br \/>\nMais que nunca de olh\u00e1-la se inflamava.<\/p>\n<p>Se de arte ou natureza almo atrativo Pelos olhos prender nos pode a mente,<br \/>\n93 Seja em pintura, seja em corpo vivo, Nada foram, conjuntas, certamente,<br \/>\nAnte o enlevo que o peito me ilumina, 96 Quando me volta ao gesto seu ridente.<\/p>\n<p>Virtude, olhando-a em mim tanto se afina Que do ninho de Leda me destrava<br \/>\n99 E ao c\u00e9u veloc\u00edssimo me empina.<\/p>\n<p>Tanto na altura e brilho se mostrava Uniforme este c\u00e9u, que eu n\u00e3o<br \/>\nsabia 102 Qual pouso Beatriz me destinava.<\/p>\n<p>Ela, por\u00e9m, que o meu desejo via No sorriso t\u00e3o leda assim<br \/>\ncome\u00e7a, 105 Que em seu rosto exultar Deus parecia.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO movimento, que no centro cessa, Em torno ao qual, por\u00e9m,<br \/>\ntudo o mais gira, 108 Daqui partindo \u00e0 roda se endere\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cSomente a sua a\u00e7\u00e3o este c\u00e9u tira Da soberana<br \/>\nMente, em que se acende 111 O amor, que o move, o influxo, que respira.<\/p>\n<p>\u201cDe luz e amor um c\u00edrculo o compreende, Assim como ele aos mais;<br \/>\ndeste precinto 114 Unicamente quem lho cinge entende.<\/p>\n<p>\u201cSeu movimento \u00e9 por si s\u00f3 distinto, Por ele os outros<br \/>\nc\u00e9us medidos sendo, 117 Como dez por metade e por seu quinto.<\/p>\n<p>\u201cFicas, portanto, ao claro conhecendo Como o tempo a raiz neste c\u00e9u<br \/>\ntenha, 120 As ramas pelos outros estendendo.<\/p>\n<p>\u201cFatal cobi\u00e7a; que os mortais despenha Em t\u00e3o profundo<br \/>\np\u00e9lago, que al\u00e7ar-se 123 Do abismo fora a vista em v\u00e3o<br \/>\nse empenha! \u201cNos homens o querer pode enflorar-se, Mas de chuvas cont\u00ednuas<br \/>\na\u00e7outado 126 Bom fruto s\u00e3o n\u00e3o h\u00e1-de conservar-se.<\/p>\n<p>\u201cF\u00e9, inoc\u00eancia, abrigo t\u00eam buscado Nas crian\u00e7as;<br \/>\nmas cada qual se esquiva<\/p>\n<p>129 Antes que \u00e0 face o bu\u00e7o haja apontado.<\/p>\n<p>\u201cQuem balbucia de comer se priva; Em tendo solta a l\u00edngua, a<br \/>\nqualquer hora 132 Mostra em toda iguaria fome ativa.<\/p>\n<p>\u201cQuem balbucia a m\u00e3e respeita e adora; Mas, quando a voz j\u00e1<br \/>\nsente desprendida, 135 V\u00ea-la em mortalha o seu desejo exora.<\/p>\n<p>\u201cAssim de alva se torna enegrecida A cutis da gentil filha daquele,<br \/>\n138 Que traz manh\u00e3, da noite em despedida.<\/p>\n<p>\u201cEstranheza, por\u00e9m, de ti repele Vendo o g\u00eanero humano<br \/>\ntransviado: 141 Quem h\u00e1 que em bem reg\u00ea-lo se desvele? \u201cPor<br \/>\nfor\u00e7a do cent\u00e9simo olvidado Inda antes de deixar Janeiro o inverno,<br \/>\n144 H\u00e3o de as esferas dar t\u00e3o forte brado, \u201cQue a fortuna,<br \/>\nde esp\u2019ran\u00e7a alvo hodierno Far\u00e1 que as popas d\u00eam<br \/>\nlugar \u00e0s proas, A armada correr\u00e1 com bom governo 148 E ap\u00f3s<br \/>\nas flores vir\u00e3o frutas boas.\u201d \u2014<\/p>\n<p>10-11. A luz pura dos esplendores quatro, as almas dos tr\u00eas ap\u00f3stolos<br \/>\ne de Ad\u00e3o. \u2014 13-14. O seu semblante, qual fosse Jove etc., S.<br \/>\nPedro de branco que era ficou vermelho, como o planeta de Marte. \u2014 22.<br \/>\nQuem, meu lugar na terra ora usurpando, o papa Bonif\u00e1cio VIII, que,<br \/>\nsegundo o Poeta, obteve o Papado usando de fraudes. \u2014 25. Meu cemit\u00e9rio,<br \/>\nRoma ou mesmo o Vaticano, onde segundo a tradi\u00e7\u00e3o foi sepultado<br \/>\no corpo de S.<\/p>\n<p>Pedro. \u2014 41. Lino e Cleto, S. Lino e S. Cleto foram sucessores de S.<br \/>\nPedro. \u2014 43-44. Sixto foi elevado ao Papado no ano 128; Pio em 154;<br \/>\nCalixto em 218 e Urbano em 231. \u2014 58-59. De Gasconha e Cahors; o Poeta<br \/>\nalude a Jo\u00e3o XXII de Cahors, elevado ao papado em 1316 e a Clemente<br \/>\nV de Gasconha, papa em 1305. \u2014 79-84. Desde a hora etc.; desde a hora<br \/>\nem que pela primeira vez eu olhara para a terra, notei que havia percorrido<br \/>\na quarta parte da esfera e, por isso, eram passadas seis horas. \u2014 98-99.<br \/>\nNinho de Leda, constela\u00e7\u00e3o dos G\u00eameos (Castor e P\u00f3lux<br \/>\nnasceram dos amores de Leda com o cisne). \u2014 142-144. Por for\u00e7a<br \/>\ndo cent\u00e9simo olvidado etc., antes do m\u00eas de janeiro n\u00e3o<br \/>\nmais pertencer ao inverno, e sim \u00e0 primavera, pela acumula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas fra\u00e7\u00f5es de tempo que n\u00e3o foram calculadas na reforma<br \/>\ndo calend\u00e1rio efetuada por J\u00falio C\u00e9sar, que ainda vigorava<br \/>\nno tempo do Poeta. \u2014 147. A armada, a humanidade.<br \/>\nCANTO XXVIII<\/p>\n<p>Dante volve os olhos para Beatriz, que estava atr\u00e1s dele; depois mira<br \/>\npara a frente e v\u00ea um ponto brilhant\u00edssimo, em torno do qual<br \/>\nse movem nove c\u00edrculos de luz, que giram mais rapidamente e s\u00e3o<br \/>\nmais brilhantes quanto mais pr\u00f3ximos est\u00e3o dele. Aquele ponto<br \/>\n\u00e9 Deus; os c\u00edrculos s\u00e3o os coros ang\u00e9licos.<\/p>\n<p>DEPOIS que acerca do existir presente Dos m\u00edseros mortais mostrou<br \/>\nverdade 3 Aquela a que empara\u00edsa a mente, Como quem v\u00ea no espelho<br \/>\na claridade De tocha, que de tr\u00e1s esteja acesa, 6 Suspeita inda n\u00e3o<br \/>\ntenho da verdade; E, para olhar voltado, tem certeza De que o vidro \u00e9<br \/>\nfiel ao que apresenta, 9 Como o canto \u00e9 do metro a natureza: Assim<br \/>\nminha mem\u00f3ria representa Que eu fiz, nos belos olhos me enlevando,<br \/>\n12 Com que amor cativou minha alma isenta.<\/p>\n<p>De os contemplar, por\u00e9m, os meus deixando E no que esse orbe faz onipotente,<br \/>\n15 Quando em seu giro atenta-se os fitando,<\/p>\n<p>Um ponto vi, que lume t\u00e3o fulgente Dardejava, que a vista deslumbrada,<br \/>\n18 Fechava-se ante o lume translucente; Estrela, ao parecer, mais apoucada,<br \/>\nJunto dela, de lua figurada, 21 Como estrela ao p\u00e9 de outra colocada.<\/p>\n<p>Como a c\u2019roa talvez, que se depara Cingindo astro, que a torna luminosa,<br \/>\n24 Quando o vapor que a tem mais condensara, \u00cdgneo c\u00edrc\u2019lo,<br \/>\nem carreira impetuosa.<\/p>\n<p>Distante, ao Ponto mais veloz cercava 27 Do que a esfera que vai mais pressurosa.<\/p>\n<p>Este c\u00edrc\u2019lo primeiro outro abra\u00e7ava; Ao terceiro o segundo,<br \/>\noutro ao terceiro, 30 Ao quarto o quinto e o sexto o circundava.<\/p>\n<p>T\u00e3o largo o s\u00e9timo era, que, inda inteiro, Abrangido, por certo,<br \/>\no n\u00e3o teria 33 Aquele, que de Juno \u00e9 mensageiro.<\/p>\n<p>Oitavo e nono assim: mas se movia Mais lento cada qual, segundo ele era 36<br \/>\nMais longe do primeiro, que corria.<\/p>\n<p>E a flama rutilava mais sincera<\/p>\n<p>No que da Excelsa luz mais perto estava 39 Creio que em fluxo seu mais recebera.<\/p>\n<p>Mas Beatriz, que o enleio meu notava \u2014 \u201cDaquele Ponto o c\u00e9u<br \/>\ne a natureza 42 Est\u00e3o na depend\u00eancia\u201d \u2014 me falava.<\/p>\n<p>\u201cOlha o c\u00edrc\u2019lo mais pr\u00f3ximo e a presteza, Que<br \/>\ntanto lhe acelera o movimento: 45 De ardent\u00edssimo amor punge-o a viveza.\u201d<br \/>\n\u2014 \u2014 \u201cSe do mundo.\u201d \u2014 eu lhe disse \u2014 \u201co<br \/>\nregimento Fosse qual nestes orbes aparece 48 Do que ou\u00e7o eu conseguira<br \/>\nj\u00e1 contento; \u201cMas no mundo sens\u00edvel me parece Ser cada<br \/>\nesfera tanto mais divina, 51 Quanto mais longe do seu centro desce, \u201cSe<br \/>\ninstruir-me o querer teu determina Neste ser\u00e1fico, estupendo templo,<br \/>\n54 Que s\u00f3 com luz e com amor confina, \u201cExplicar-me te digna,<br \/>\nporque o exemplo N\u00e3o se conforma em tudo ao seu modelo: 57 Por saber<br \/>\na raz\u00e3o em v\u00e3o contemplo\u201d \u2014 \u2014 \u201cDe desatar<br \/>\no n\u00f3 se ardente anelo Teus dedos n\u00e3o contentam, n\u00e3o te<br \/>\nespante: 60 Tal \u00e9, porque ningu\u00e9m tentou solv\u00ea-lo.\u201d<br \/>\n\u2014<\/p>\n<p>Tornou-me ela e seguiu: \u2014 \u201cTer\u00e1s bastante No que direi<br \/>\nde luz ao entendimento: 63 Agu\u00e7a o engenho e escuta vigilante.<\/p>\n<p>\u201cNos c\u00edrc\u2019los corporais o crescimento Regula pelo influxo,<br \/>\nque \u00e9 spargido 66 Nas partes que lhes formam complemento.<\/p>\n<p>\u201cMor bondade, mor bem tem produzido De mor bem foi mor corpo aquinhoado,<br \/>\n69 Se igual primor nas partes \u00e9 contido.<\/p>\n<p>\u201cO c\u00edrc\u2019lo, pois, do qual arrebatado Gira o alto universo,<br \/>\n\u00e9 referente 72 Ao de amor e ci\u00eancia mais dotado.<\/p>\n<p>\u201cSe \u00e0 virtude a medida propriamente Adaptas, n\u00e3o regendo-te<br \/>\na apar\u00eancia 75 Das subst\u00e2ncias, que em c\u00edrc\u2019los tens<br \/>\nem frente, \u201cMir\u00edfica h\u00e1s de ver correspond\u00eancia<br \/>\nEntre maior e mais, menor e menos 78 Em cada c\u00e9u e a sua intelig\u00eancia.\u201d<br \/>\n\u2014 Como os ares s\u00e3o f\u00falgidos, serenos, Se B\u00f3reas<br \/>\nsopra aquela face inchando, 81 Que os h\u00e1litos difunde mais amenos.<\/p>\n<p>Resolvendo-se a n\u00e9voa e se apagando A sombra que o hemisf\u00e9rio<br \/>\nenegrecia, 84 E o c\u00e9u, a rir-se, as pompas ostentando: Assim eu, quando<br \/>\naquela que me guia Com sua explica\u00e7\u00e3o minha alma aclara, 87<br \/>\nE a verdade, qual astro, me alumia.<\/p>\n<p>Depois que as vozes suas rematara, Bem como ferro a faiscar fervente, 90<br \/>\nDos c\u00edrculos cad\u2019un flamas dispara.<\/p>\n<p>Cada centelha inc\u00eandio faz ingente Em soma tal, que a do xadrez passava,<br \/>\n93 Dobrando-se o algarismo infindamente.<\/p>\n<p>De coro em coro hosana ressoava Ao Ponto, que ao seu ubi, onde t\u00eam<br \/>\nstado 96 E onde sempre estar\u00e3o pra sempre os trava.<\/p>\n<p>Ela, o esp\u00edrito meu vendo atalhado, Disse-me: \u2014 \u201cAqueles<br \/>\nc\u00edrculos primeiros 99 Te h\u00e3o Serafins e Querubins mostrado.<\/p>\n<p>Assim nos orbes seus volvem ligeiros Por semelhar-se ao Ponto e o conseguindo,<br \/>\n102 Segundo a v\u00ea-lo est\u00e3o mais altaneiros.<\/p>\n<p>\u201cOs Amores, que em torno est\u00e3o, seguindo, Tronos se chamam do<br \/>\ndivino aspeto<\/p>\n<p>105 O primeiro tern\u00e1rio concluindo.<\/p>\n<p>\u201cPrazer, bem sabes, todos t\u00eam seleto, Quanto mais sua vista se<br \/>\naprofunda 108 Na verdade, alto fito do inteleto.<\/p>\n<p>\u201cDesta arte se conhece que se funda Mais na vis\u00e3o celestial<br \/>\nventura 111 Do que no amor, a\u00e7\u00e3o, que vem segunda.<\/p>\n<p>\u201cDa vis\u00e3o \u00e9 a medida a merc\u00ea pura, Por vontade<br \/>\ne por gra\u00e7a produzida: 114 De grau em grau se enal\u00e7a a criatura.<\/p>\n<p>\u201cOutro tern\u00e1rio, que do c\u00e9u movida.<\/p>\n<p>Germina em primavera sempiterna, 117 Pelo \u00c1ries noturno n\u00e3o<br \/>\ndespida, \u201cHosana entoa na harmonia eterna Com tr\u00eas coros; que<br \/>\nsoam de alegria 120 Em ordens tr\u00eas, em cujo seio interna.<\/p>\n<p>\u201cOrdens tr\u00eas compreende a jerarquia, Domina\u00e7\u00f5es,<br \/>\nVirtudes, ocupando 123 Potestades final categoria.<\/p>\n<p>\u201cNos pen\u00faltimos c\u00edrculos girando, Principados e Arcanjos<br \/>\nresplandecem; 126 E dos Anjos, ap\u00f3s festivo bando.<\/p>\n<p>\u201cNo Ponto as Ordens todas se embevecem, De baixo a Deus s\u00e3o<br \/>\ntodas atra\u00eddas, 129 E uma das outras a atra\u00e7\u00e3o padecem.<\/p>\n<p>\u201cContemplando-as, id\u00e9ias t\u00e3o subidas Dion\u00edsio<br \/>\nformou com tanto zelo, 132 Que as fez, como eu, por nomes conhecidas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o quis Greg\u00f3rio como norma t\u00ea-lo; Neste c\u00e9u<br \/>\nquando entrou, por\u00e9m, se ria 135 Do erro, em que estivera, ao perceb\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u201cMortal, que o gr\u00e3 mist\u00e9rio compreendia E o disse \u00e0<br \/>\nterra, n\u00e3o te mova espanto: Quem tinha-o visto aqui lhe descobria 139<br \/>\nE mais verdade deste imp\u00e9rio santo.\u201d \u2014<\/p>\n<p>33. Aquele que de Juno \u00e9 mensageiro, \u00cdride, o arco-\u00edris.<br \/>\n\u2014 38.<\/p>\n<p>Excelsior luz, Deus. \u2014 64. Circ\u2019los corporais, os c\u00e9us<br \/>\ndo mundo sens\u00edvel. \u2014 67-69. Mor bondade etc.; os corpos que cont\u00eam<br \/>\nem si maior bondade difundem maior bem. \u2014 73-78. Se a virtude etc.;<br \/>\nmedindo os C\u00e9us n\u00e3o pela apar\u00eancia, mas pela virtude,<br \/>\nver\u00e1s que o menor que est\u00e1 mais perto de Deus corresponde ao<br \/>\nmaior no mundo sens\u00edvel; e assim por diante. \u2014 94-96. De coro<br \/>\nem coro etc.; os coros hosanavam a Deus que os mant\u00e9m no seu lugar,<br \/>\nonde estiveram e ficar\u00e3o por toda a eternidade. \u2014 109- 111. Desta<br \/>\narte se conhece etc. Era uma quest\u00e3o da escol\u00e1stica: a beatitude<br \/>\nceleste consiste na vis\u00e3o ou no amor? Dante segue S. Tom\u00e1s que<br \/>\na p\u00f5e na vis\u00e3o de Deus. \u2014 121-126. Ordens tr\u00eas etc.<br \/>\nO Poeta colocou nos primeiros tr\u00eas c\u00edrculos os Serafins, os Querubins<br \/>\ne os Tronos; nos tr\u00eas c\u00edrculos sucessivos est\u00e3o as<\/p>\n<p>Domina\u00e7\u00f5es, que ensinam a arte de dominar para o bem, as Virtudes<br \/>\nque operam os milagres, e as Potestades que ensinam a respeitar a autoridade.<br \/>\nNos \u00faltimos c\u00edrculos est\u00e3o os Principados e os Anjos<br \/>\ne Arcanjos. \u2014 131. Dionisio, o Aeropagita, que escreveu um livro sobre<br \/>\nas hierarquias celestes.<\/p>\n<p>\u2014 133. Greg\u00f3rio, o papa S. Greg\u00f3rio Magno que divergiu<br \/>\ndas opini\u00f5es de S. Dionisio sobre as hierarquias celestes. \u2014<br \/>\n138.<\/p>\n<p>Quem tinha-os visto etc., S. Paulo, que em vida teve uma vis\u00e3o das<br \/>\ncousas celestes e foi mestre de S. Dionisio.<br \/>\nCANTO XXIX<\/p>\n<p>Beatriz esclarece a Dante que os anjos foram criados por Deus no mesmo tempo<br \/>\nem que foram criados os c\u00e9us. Fala-lhe dos anjos fi\u00e9is e dos<br \/>\nanjos rebeldes, os quais foram precipitados no Inferno.<\/p>\n<p>Censura os falsos fil\u00f3sofos e os padres mentirosos que esquecem que<br \/>\no escopo da predica\u00e7\u00e3o \u00e9 persuadir os homens a serem<br \/>\ncrist\u00e3os, e vendem as indulg\u00eancias para obter bens materiais.<\/p>\n<p>QUANDO aos dois gentis filhos de Latona, Um por \u00c1ries coberto, outro<br \/>\npor Libra, 3 A um tempo cinge do horizonte a zona, Quanto espa\u00e7o o<br \/>\nz\u00eanite os equilibra, T\u00e9 que mude o hemisf\u00e9rio e, desprendido<br \/>\n6 Deste cinto um e outro se deslibra, Tanto calou-se Beatriz, luzido De riso<br \/>\ntendo o rosto e olhos fitando 9 Nesse Ponto que os meus tinha vencido.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTeu desejo\u201d \u2014 falou-me \u2014 \u201cantecipando<br \/>\nAgora n\u00e3o te inquiro: j\u00e1 o hei visto 12 No centro de todo o<br \/>\nubi e todo o quando.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o para ter mais perfei\u00e7\u00e3o, pois isto Fora imposs\u00edvel,<br \/>\nmas porque fulgindo<\/p>\n<p>15 O seu splendor dizer pudesse, \u2014 Existo, \u2014 \u201cNa Eternidade,<br \/>\no tempo n\u00e3o medindo Nem o lugar, criar se h\u00e1 dignado 18 Amores<br \/>\nnove o Eterno Amor se abrindo.<\/p>\n<p>\u201cAntes n\u00e3o tinha na ina\u00e7\u00e3o ficado: Nem antes,<br \/>\nnem depois era existente, 21 Quando Deus sobre as \u00e1guas foi levado.<\/p>\n<p>\u201cMat\u00e9ria e forma puras, juntamente, Quais setas de tricorde<br \/>\narco voando 24 Sa\u00edram do ato da Infal\u00edvel Mente.<\/p>\n<p>\u201cComo, em vidro, em cristal, em \u00e2mbar quando Luz do sol toca,<br \/>\n\u00e9 logo refletida 27 Do vir ao ser dist\u00e2ncia n\u00e3o se dando,<br \/>\n\u201cTal a obra triforme, conclu\u00edda De uma s\u00f3 vez, no ser<br \/>\nraiou perfeita 30 Sem star parte por outra antecedida.<\/p>\n<p>\u201cOrdem foi concriada, a que \u00e9 sujeita Cada subst\u00e2ncia;<br \/>\no cimo foi marcado 33 No mundo a que por ato puro \u00e9 feita; \u201c\u00c0<br \/>\nfor\u00e7a pura imo lugar st\u00e1 dado; S\u00e3o no meio travados for\u00e7a<br \/>\ne ato 36 Por n\u00f3 que indissol\u00favel se h\u00e1 tornado.<\/p>\n<p>\u201cJer\u00f4nimo escreveu que longo trato De s\u00e9c\u2019los antes<br \/>\nde outro mundo feito 39 Fora dos anjos o imp\u00e9rio nato.<\/p>\n<p>\u201cA verdade, por\u00e9m, st\u00e1 no conceito De escritores, que<br \/>\ninflui o Esp\u00edrito Santo 42 Ver\u00e1s, pensando, da verdade o efeito.<\/p>\n<p>\u201cRaz\u00e3o em parte o v\u00ea tamb\u00e9m, porquanto Compreender<br \/>\nn\u00e3o pudera que os motores 45 Inertes fossem por espa\u00e7o tanto.<\/p>\n<p>\u201cSabes, pois, onde e quando esses Amores Criados foram e de qual maneira:<br \/>\n48 Do teu desejo apago tr\u00eas ardores.<\/p>\n<p>\u201cEm menos tempo do que a soma inteira De um a vinte se faz, dos anjos<br \/>\nparte 51 Turbou vosso elemento sobranceira.<\/p>\n<p>\u201cFiel a outra emprega-se dessa arte, Que v\u00eas: assim girando jubilosa,<br \/>\n54 Deste excelso mister se n\u00e3o disparte.<\/p>\n<p>\u201cO mal causou soberba criminosa Do que h\u00e1s visto no abismo do<br \/>\ntormento, 57 Do mundo sob a mole ponderosa.<\/p>\n<p>\u201cMas estes, com modesto pensamento, Mostraram-se \u00e0 Bondade agradecidos,<\/p>\n<p>60 Que lhes deu t\u00e3o sublime entendimento.<\/p>\n<p>\u201cNa vista se exaltando, enriquecidos S\u00e3o de m\u00e9rito e<br \/>\ngra\u00e7a iluminante, 63 Por querer certo e firme dirigidos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o duvides; e sabe, de ora avante, Que receber a gra\u00e7a<br \/>\n\u00e9 merit\u00f3rio, 66 Segundo o afeto mostrar-se constante.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1, pois, este celeste consist\u00f3rio, Se quanto ora te<br \/>\nhei dito a mente alcan\u00e7a, 69 Bem podes contemplar sem adjut\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u201cComo em vossas escolas se afian\u00e7a, Na terra, que \u00e9 da<br \/>\nang\u00e9lica natura 72 O querer, o entender, o ter lembran\u00e7a, \u201cEu<br \/>\ndevo ainda revelar-te a pura Verdade, que entre v\u00f3s se h\u00e1 confundido,<br \/>\n75 Sendo enleada por t\u00e3o m\u00e1 leitura.<\/p>\n<p>\u201cEstas subst\u00e2ncias, o prazer obtido De verem Deus, jamais rosto<br \/>\nvoltaram 78 Dos olhos a que nada oculto h\u00e1 sido.<\/p>\n<p>\u201cSeu ver, novos objetos n\u00e3o cortaram; N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o,<br \/>\npor que se lhes suponha 81 Rememorar id\u00e9ias, que passaram.<\/p>\n<p>\u201cAssim na terra sem dormir se sonha, Crendo e n\u00e3o crendo proferir<br \/>\nverdade: 84 Neste caso h\u00e1 mais culpa e mais vergonha.<\/p>\n<p>\u201cDe opini\u00f5es n\u00e3o tendes fixidade Filosofando, tanto vos<br \/>\ntransporta 87 Da ostenta\u00e7\u00e3o e de o pensar vaidade.<\/p>\n<p>\u201cNo c\u00e9u menos do que isto se suporta \u2014 Ser a Santa Escritura<br \/>\ndesdenhada 90 Ou ter intelig\u00eancia errada e torta.<\/p>\n<p>\u201cPara ser pelo mundo semeada Quanto sangue custou pouco se atenta,<br \/>\n93 E quanto a cren\u00e7a humilde a Deus agrada.<\/p>\n<p>\u201cQual para alardear engenho, inventa; Quando o Santo Evangelho est\u00e1<br \/>\ncalado 96 Tais inven\u00e7\u00f5es o p\u00falpito comenta.<\/p>\n<p>\u201cQual diz que a lua, tendo atr\u00e1s voltado, No ato da Paix\u00e3o<br \/>\nde Cristo, houvera, 99 Interpondo-se, a luz do Sol velado.<\/p>\n<p>\u201cQual afirma que o lume se escondera Por si mesmo; e o eclipse \u00e0<br \/>\n\u00cdndia, \u00e0 Espanha 102 Comum como \u00e0 Jud\u00e9ia, se fizera.<\/p>\n<p>\u201cEm Floren\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 c\u00f3pia tamanha De Lapi<br \/>\ne Bindi quanto s\u00f3 num ano<\/p>\n<p>105 O p\u00falpito de contos desentranha.<\/p>\n<p>\u201cDesta arte a ovelha, que n\u00e3o sabe o engano, Do pasto volta<br \/>\nt\u00famida de vento, 108 Desculpa n\u00e3o lhe d\u00e1 n\u00e3o vendo<br \/>\no dano.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o disse Jesus Cristo ao seu convento: Parti e ao mundo apregoai<br \/>\nmentira; 111 Mas deu-lhes da verdade o fundamento; \u201cEle t\u00e3o alto,<br \/>\nem sua voz se ouvira, Que foi-lhes o Evangelho escudo e lan\u00e7a 114 Nos<br \/>\npr\u00e9lios, de que a F\u00e9 vitriz sa\u00edra.<\/p>\n<p>\u201cOra em serm\u00f5es o trocadilho, a chan\u00e7a Est\u00e3o na<br \/>\nvoga; o riso provocando 117 Incha o capuz; por nada mais se can\u00e7a*.<\/p>\n<p>\u201cSe o vulgo vira o p\u00e1ssaro nefando, Que em c\u00f3gula se<br \/>\naninha, n\u00e3o quisera 120 Indulg\u00eancias, em que se anda confiando;<br \/>\n\u201cStult\u00edcia tal da terra se apodera, Que, em prova e testemunho<br \/>\nn\u00e3o firmado, 123 Qualquer a d\u00e1-las apto considera.<\/p>\n<p>\u201cDe Santo Ant\u00f4nio assim medra o cevado E outros muitos, que os<br \/>\nporcos mais ascosos, 126 Que pagam com dinheiro n\u00e3o cunhado.<\/p>\n<p>\u201cMas longa vai a digress\u00e3o; cuidosos Os olhos volve \u00e0<br \/>\nverdadeira estrada; 129 O tempo \u00e9 curto, andemos pressurosos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 tanto a grei dos anjos avultada, Que nem por voz, nem por<br \/>\nhumana mente 132 Ser pode a conta sua calculada.<\/p>\n<p>\u201cBem te demonstra a reflex\u00e3o prudente Que n\u00e3o diz dos<br \/>\nmilhares, que revela 135 A soma Daniel precisamente.<\/p>\n<p>\u201cA luz primeira, que irradia nela, \u00c9 por maneiras tantas recebida,<br \/>\n138 Quantos fulgores s\u00e3o, que a fazem bela.<\/p>\n<p>\u201cE, pois que a percep\u00e7\u00e3o logo \u00e9 seguida Do amor,<br \/>\ndo afeto ang\u00e9lico a do\u00e7ura 141 Est\u00e1 em graus diversos<br \/>\naquecida.<\/p>\n<p>\u201cDo Poder Eternal v\u00ea, pois, a altura E grandeza, que em espelhos<br \/>\nt\u00e3o brilhantes A sua imagem multiplica pura, 145 Permanecendo um sempre<br \/>\ncomo de antes.\u201d<\/p>\n<p>1-9. Quando aos dois etc. Quanto tempo o Sol e a Lua, quando essas duas estrelas<br \/>\nest\u00e3o \u2013 o Sol perto de Aries no poente, e a Lua perto da Libra<br \/>\nno oriente \u2013 encontrando-se simultaneamente no mesmo horizonte por poucos<br \/>\nmomentos,<\/p>\n<p>tanto tempo Beatriz ficou calada, fixando o Ponto luminoso, isto \u00e9 Deus.<br \/>\n\u2014 18. Amores nove, os nove c\u00edrculos de anjos. \u2014 22.<\/p>\n<p>Mat\u00e9ria e forma etc.; Deus criou no mesmo tempo a forma pura (os anjos),<br \/>\na mat\u00e9ria pura (os elementos), a forma conjunta \u00e0 mat\u00e9ria<br \/>\n(os corpos e as almas). \u2014 31-36. Ordem foi concriada etc.; na parte<br \/>\nsuperior do Universo foram colocados os anjos (ato puro); na inferior a mat\u00e9ria<br \/>\npura; e no meio a forma conjunta \u00e0 mat\u00e9ria. \u2014 37-41. Jer\u00f4nimo<br \/>\netc. S. Jer\u00f4nimo escreveu que os anjos foram criados antes do mundo<br \/>\nsens\u00edvel; mas o Poeta est\u00e1 de acordo com outros escritores,<br \/>\nque se baseiam sobre os livros sagrados. \u2014 50-51. Dos anjos parte etc.,<br \/>\nos anjos rebeldes convulsionaram a Terra. \u2014 56. Do que h\u00e1s visto<br \/>\netc., L\u00facifer. \u2014 97-102. Qual diz etc. Os pregadores discutem<br \/>\nsem base nenhuma sobre a origem do eclipse que se deu no dia da morte de Jesus.<br \/>\n\u2014 104. Lapi e Bindi, nomes comuns em Floren\u00e7a, no tempo de Dante.<br \/>\n\u2014 109. Convento, os Ap\u00f3stolos. \u2014 124. De Santo Ant\u00f4nio<br \/>\netc.; com essas fraudes os padres engordam.<\/p>\n<p>* Conservou-se a grafia original (can\u00e7a) em lugar da atual (cansa)<br \/>\npara preservar a rima. [NE]<br \/>\nCANTO XXX<\/p>\n<p>Os nove coros ang\u00e9licos aos poucos v\u00e3o desaparecendo, Dante<br \/>\nvolve os seus olhos novamente para Beatriz, cuja beleza \u00e9 agora maravilhosa<br \/>\na tal ponto que renuncia a descrev\u00ea-la. Eles est\u00e3o no Emp\u00edreo,<br \/>\ne Dante v\u00ea um rio de luz, cujas ribas est\u00e3o esmaltadas de flores.<br \/>\nDo rio saem centelhas que formam flores e depois voltam para as ondas. Enfim<br \/>\nv\u00ea uma grande rosa de luz na qual aparecem anjos e os bem-aventurados.<br \/>\nNo meio h\u00e1 um trono preparado para o imperador Henrique VII.<\/p>\n<p>TALVEZ milhas seis mil de n\u00f3s distando, A hora sexta ferve e deste<br \/>\nmundo 3 A sombra vai-se ao n\u00edvel inclinando, Quando o meio do c\u00e9u,<br \/>\np\u2019ra n\u00f3s profundo, Tal se faz que n\u00e3o mostra o seu semblante<br \/>\n6 Mais de uma estrela deste val ao fundo; E enquanto vem do sol a radiante<br \/>\nN\u00fancia, o c\u00e9u olhos cerra, adormecido 9 Um ap\u00f3s outro<br \/>\nat\u00e9 o mais brilhante: Tal o triunfo, sem cessar movido De g\u00e1udio,<br \/>\nem torno ao Ponto deslumbroso, 12 Que parece, contendo estar contido,<\/p>\n<p>Extinguiu-se aos meus olhos vagaroso.<\/p>\n<p>N\u00e3o vendo a pompa mais, a amor cedendo, 15 A Beatriz voltei-me fervoroso.<\/p>\n<p>Num s\u00f3 louvor eu, resumir querendo Dela o que vezes mil tenho cantado,<br \/>\n18 Frustara o intento, o esfor\u00e7o meu perdendo.<\/p>\n<p>Pelo humano ideal imaginado N\u00e3o seria o primor, que vi mas, creio,<br \/>\n21 Goz\u00e1-lo todo, s\u00f3 a Deus \u00e9 dado.<\/p>\n<p>Neste \u00e1rduo passo superado, anseio: Vate jamais em tr\u00e1gico<br \/>\npoema 24 Ou c\u00f4mico sentiu tamanho enleio; Quanto a vista ao clar\u00e3o<br \/>\ndo sol mais trema.<\/p>\n<p>Tanto a mem\u00f3ria do seu doce riso 27 As pot\u00eancias do esp\u00edrito<br \/>\nme algema.<\/p>\n<p>D\u00eas que vi do seu gesto o para\u00edso Na terra at\u00e9 me al\u00e7ar<br \/>\na vis\u00e3o pura 30 Meu canto renovar n\u00e3o foi preciso.<\/p>\n<p>Mas seguir-lhe a sublime formosura Nos versos meus agora n\u00e3o me atrevo,<br \/>\n33 Como artista, que o extremo esfor\u00e7o apura.<\/p>\n<p>Beatriz, sendo tal que a deixar devo A tuba, mais que a minha, sonorosa,<\/p>\n<p>36 Enquanto esta \u00e1rdua empresa ao termo levo, Com gesto e voz de guia<br \/>\ncuidadosa, \u2014 \u201cAo c\u00e9u que \u00e9 pura luz\u201d \u2014<br \/>\ndisse \u2014 \u201cao presente 39 Al\u00e7amo-nos da esfera mais vultosa,<br \/>\n\u201cLuz intelectual, de amor ardente, Amor do sumo bem, que enche a alegria;<br \/>\n42 Alegria em dul\u00e7ores transcendente.<\/p>\n<p>\u201cDo c\u00e9u ver\u00e1s, na santa bizarria, Uma e outra mil\u00edcia:<br \/>\numa no aspeto 45 Que h\u00e1s de ver do final Ju\u00edzo em dia.\u201d<br \/>\nComo aos visivos esp\u00edritos direto Rel\u00e2mpago, que a a\u00e7\u00e3o<br \/>\nlhes tolhe e os priva 48 De discernir o mais patente objeto, Circunfluiu-me<br \/>\nassim uma luz viva Com v\u00e9u do seu fulgor, que me impedia 51 Em claridade<br \/>\nver tanto excessiva.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSempre o Amor, que este c\u00e9u tanto extasia, Por ser<br \/>\no c\u00edrio \u00e0 flama aparelhado, 54 Este saudar a quem recebe envia.\u201d<br \/>\n\u2014 Bem n\u00e3o tinha estas vozes escutado, Eis senti que virtude milagrosa<br \/>\n57 A for\u00e7a minha havia sublimado;<\/p>\n<p>Senti vista mais que antes poderosa E tal, que a luz mais penetrante e pura<br \/>\n60 Afrontar poderia valorosa.<\/p>\n<p>F\u00falvido lume um rio me afigura, Entre margens correndo, que esmaltava<br \/>\n63 A primavera da celeste altura.<\/p>\n<p>Do seio essa corrente arremessava Centelhas; que entre as flores se espargiam<br \/>\n66 Como rubis, que o ouro circundava.<\/p>\n<p>Quando \u00e9brias de perfumes pareciam Reprofundavam na ribeira bela:<br \/>\n69 Se umas entravam, outras emergiam.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO desejo, que te urge e te desvela, De saber quanto v\u00eas<br \/>\nmaravilhado 72 Me agrada neste excesso que revela.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o ser\u00e1s em tal sede saciado Sen\u00e3o dessa \u00e1gua<br \/>\ntendo j\u00e1 bebido\u201d \u2014 75 Dos meus olhos o sol me h\u00e1<br \/>\ndeclarado.<\/p>\n<p>\u201cOs top\u00e1zios, que movem-se, o luzido Rio e das flores o matiz<br \/>\nridente 78 Pref\u00e1cio umbroso da verdade h\u00e3o sido.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, por ser isto impenetr\u00e1vel \u00e0 mente,<\/p>\n<p>Mas por defeito da fraqueza tua, 81 Que te veda vis\u00e3o tanto eminente.\u201d<br \/>\n\u2014 N\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7a, que t\u00e3o presto rua Ao<br \/>\nseio maternal, em despertando 84 Mais tarde do que est\u00e1 na usan\u00e7a<br \/>\nsua, Como eu: melhor espelho desejando Fazer dos olhos, \u00e0 \u00e1gua<br \/>\nme inclinava, 87 Que flui, pureza e perfei\u00e7\u00e3o nos dando.<\/p>\n<p>Das p\u00e1lpebras apenas se molhava A borda, a forma, que antes vi comprida,<br \/>\n90 Do rio, circular se apresentava.<\/p>\n<p>Como quem sob a m\u00e1scara escondida A face teve e logo diferente 93<br \/>\nSe mostra, essa apar\u00eancia removida, Assim flores, centelhas, mais fulgente<br \/>\nAlegria mostraram e eu j\u00e1 via 96 Do c\u00e9u ambas as cortes claramente,<br \/>\n\u00d3 de Deus esplendor, por quem j\u00e1 via O triunfo do reino da verdade,<br \/>\n99 D\u00e1-me valor; que eu diga o que j\u00e1 via.<\/p>\n<p>L\u00e1 alto h\u00e1 luz de tanta claridade, Que Deus vis\u00edvel<br \/>\nfaz \u00e0 criatura, 102 Que em v\u00ea-lo tem da paz a f\u2019licidade.<\/p>\n<p>Ela se estende em circular figura, T\u00e3o vasta que o seu \u00e2mbito<br \/>\nfaria 105 Ao sol desmarcad\u00edssima cintura.<\/p>\n<p>Um raio era o que dela aparecia Refletido no M\u00f3bile Primeiro, 108<br \/>\nA que assim vida e influxo principia.<\/p>\n<p>Qual em cristal do pr\u00f3ximo ribeiro Se espelha, como para ver as flores<br \/>\n111 E verdura, que o vestem, lindo outeiro, Miravam-se, da luz aos esplendores,<br \/>\nDe degraus em milh\u00f5es almas tornadas 114 Da terra para os c\u00e9licos<br \/>\nfulgores.<\/p>\n<p>Se claridades tantas derramadas St\u00e3o no imo degrau, como da Rosa 117<br \/>\nNo cimo h\u00e3o de as grandezas ser esmadas? Sem turbar-me, a amplitude<br \/>\nportentosa, Notava o qual e o quanto da alegria, 120 Em que se enleva aquela<br \/>\ngrei ditosa.<\/p>\n<p>De perto, ao longe igual resplendecia; Pois onde por si mesmo Deus governa<br \/>\n123 Da natureza a lei n\u00e3o mais regia.<\/p>\n<p>Ao centro \u00e1ureo da Rosa sempiterna,<\/p>\n<p>Que em degraus dilatada rescendia 126 Louvor ao sol da primavera eterna,<br \/>\nComo quem cala, mas falar queria, Beatriz, me atraindo, disse: \u2014 \u201cAtenta<br \/>\n129 Dos brancos v\u00e9us na imensa jerarquia \u201cO espa\u00e7o v\u00ea,<br \/>\nque esta cidade ostenta! Quanto cada fileira est\u00e1 cerrada! 132 A poucos<br \/>\nlugar vago se apresenta.<\/p>\n<p>\u201cEssa grande cadeira assinalada J\u00e1 de coroa, que te move espanto,<br \/>\n135 Antes de teres nesta boda entrada, \u201cSer\u00e1 de Henrique excelso,<br \/>\nque h\u00e1 de o manto Vestir de Augusto, para a It\u00e1lia vindo 138<br \/>\nAntes de afeita ao regimento santo.<\/p>\n<p>\u201cCega cobi\u00e7a, a tantos iludindo, Iguais vos torna a infante,<br \/>\nque sem tino 141 De ama o seio n\u00e3o quer, fome sentindo.<\/p>\n<p>\u201cSer\u00e1 ent\u00e3o Prefeito no divino Foro aquele, que, oculto<br \/>\nou descoberto, 144 N\u00e3o h\u00e1 de ser de acompanh\u00e1-lo di\u2019no.<\/p>\n<p>\u201cA Deus, por\u00e9m, apraz que esteja perto Tempo, em que perder\u00e1<br \/>\ncargo sagrado! Ter\u00e1 com Sim\u00e3o Mago o lugar certo,<\/p>\n<p>148 E o de Anagni ser\u00e1 mais soterrado.\u201d \u2014<\/p>\n<p>1-6. O Poeta quer que se entenda como desapareceu aos seus olhos a vis\u00e3o<br \/>\nde que \u00e9 objeto o canto anterior; e compara o desaparecimento ao apagar-se<br \/>\ndas estrelas no come\u00e7o do dia. \u2014 7-8. Do sol a radiante n\u00fancia,<br \/>\na aurora. \u2014 44. Uma e outra mil\u00edcia, os santos que combateram<br \/>\ncontra os v\u00edcios e os anjos fi\u00e9is, que combateram contra os<br \/>\nrebeldes. 44-45. Uma no aspecto etc., os santos com os corpos com os quais<br \/>\naparecer\u00e3o no Ju\u00edzo Final. \u2014 116. Rosa; o imenso c\u00edrculo<br \/>\nno qual se encontram os bem-aventurados tem a forma de uma rosa. \u2014 136.<br \/>\nHenrique VII, eleito imperador em 1308, coroado em Mil\u00e3o em 1311, e<br \/>\nem Roma em 1312. Morreu em Buoncovento em 1313. \u2014 142. Prefeito no divino<br \/>\nforo, papa. \u2014 143-144. Aquele etc., Clemente V que aparentemente ser\u00e1<br \/>\nseu amigo, mas ocultamente ser\u00e1 seu inimigo. \u2014 147. Ter\u00e1<br \/>\ncom Sim\u00e3o Mago o lugar certo, no Inferno entre os simon\u00edacos.<br \/>\n\u2014 148. O de Anagni, Bonif\u00e1cio VIII.<br \/>\nCANTO XXXI<\/p>\n<p>Enquanto Dante contempla a rosa do Para\u00edso, Beatriz sobe e vai ocupar<br \/>\no lugar que lhe pertence, no meio dos bem-aventurados. S.<\/p>\n<p>Bernardo \u00e9 o \u00faltimo guia de Dante. Ele lhe indica a Virgem<br \/>\nMaria, toda brilhante de luz celeste.<\/p>\n<p>FORMA assumindo de uma branca rosa, Tinha ante os olhos a mil\u00edcia<br \/>\nsanta, 3 Que em seu sangue fez Cristo sua Esposa.<\/p>\n<p>A outra, que, adejando, v\u00ea, decanta Do Onipotente a gl\u00f3ria,<br \/>\nque a enamora, 6 E a bondade, que deu-lhe alteza tanta, Bem como abelhas,<br \/>\ncujo enxame agora Nas flores se apascenta, agora torna 9 \u00c0 colmeia,<br \/>\nonde os favos elabora, Descia \u00e0 flor imensa que se adorna De folhas<br \/>\ntantas, e depois subia 12 Ao centro, onde o amor seu sempre sojorna.<\/p>\n<p>Nas faces viva flama refulgia, Nas asas ouro, em tudo mais alvura, 15 Que<br \/>\na candidez da neve escurecia.<\/p>\n<p>De s\u00f3lio em s\u00f3lio entrando na flor pura E as asas agitando,<br \/>\nderramavam 18 Ardor e paz, colhidos l\u00e1 na altura.<\/p>\n<p>As multid\u00f5es aladas, que giravam, Ao Senhor se interpondo e \u00e0<br \/>\nflor brilhante, 21 Nem vista, nem splendores atalhavam, Que a luz divina cala<br \/>\npenetrante No universo, segundo ele merece; 24 Nada lhe empece o brilho triunfante.<\/p>\n<p>O gaudioso imp\u00e9rio, onde aparece A par da grei antiga a grei recente<br \/>\n27 De olhos, de amor num fito se embevece.<\/p>\n<p>Trina luz, que, num astro unicamente, Fulgindo, alma lhes tens inebriada,<br \/>\n30 Conosco nas procelas s\u00ea clemente! Se os B\u00e1rbaros, da terra<br \/>\nenregelada Vindos, que H\u00e9lice cobre cada dia 33 No seu giro, do filho<br \/>\nacompanhada, A pompa ao ver, que a Roma enobrecia, Pasmavam, quando j\u00e1<br \/>\nLatr\u00e3o famoso 36 Do mundo as maravilhas precedia; Da terra eu ido ao<br \/>\ntrono luminoso, Exal\u00e7ado do tempo \u00e0 eterna vida<\/p>\n<p>39 E de Floren\u00e7a ao reino virtuoso, Quanto havia de ter a alma transida!<br \/>\nNem ouvir, nem falar apetecera: 42 Tanta alegria ao passo estava unida! Bem<br \/>\ncomo o peregrino considera O templo, a que seu voto o conduzira, 45 E o que<br \/>\nv\u00ea recontar, tornando, espera, Na ardente luz a minha vista gira De<br \/>\ndegrau em degrau, e agora acima, 48 Abaixo logo e em derredor remira.<\/p>\n<p>Rostos eu vi, que a caridade anima Com lume divinal; seu doce riso 51 Por<br \/>\nsuave atrativo se sublima.<\/p>\n<p>Sem deterem-se mais do que o preciso, Os olhos meus haviam rodeado 54 Em<br \/>\nsua forma geral o Para\u00edso: Vivo desejo em mim stando ateado, A Beatriz<br \/>\nvoltei-me; ter queria 57 A solu\u00e7\u00e3o do que era inexplicado Ao<br \/>\nque eu pensava o oposto respondia: Nos gloriosos trajos de um eleito, 60 Em<br \/>\nvez de Beatriz, um velho eu via.<\/p>\n<p>Nos olhos transluzia-lhe e no aspeito Alegria beni\u2019na e o continente<br \/>\n63 De pai era, \u00e0 ternura sempre afeito.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cE Beatriz?\u201d \u2014 exclamo eu de repente.<\/p>\n<p>Tornou-o: \u2014 \u201cBaixar me fez do meu assento 66 Por contentar o<br \/>\nteu desejo ardente.<\/p>\n<p>\u201cVer\u00e1s, do cimo ao c\u00edrc\u2019lo t\u00e9rcio atento,<br \/>\nBeatriz nesse trono colocada, 69 Que lhe h\u00e1 dado imortal merecimento.\u201d<br \/>\n\u2014 Olhos al\u00e7ando, \u00e0 Dama sublimada, Divisei que de c\u2019roa<br \/>\nera cingida, 72 Da eterna luz, em refra\u00e7\u00e3o, formada.<\/p>\n<p>Da regi\u00e3o et\u00e9rea a mais subida Vista mortal, no pego profundando,<br \/>\n75 De t\u00e3o longe n\u00e3o fora dirigida, Como olhos meus, em Beatriz<br \/>\nfitando.<\/p>\n<p>Via-a, por\u00e9m: a ef\u00edgie livremente 78 Descia a mim do vulto<br \/>\nvenerando.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSenhora! Esp\u2019ran\u00e7a minha permanente! Que n\u00e3o<br \/>\ntemeste, por me dar sa\u00fade, 81 Teus vest\u00edgios deixar no inferno<br \/>\nhorrente! \u201cDe tantas cousas, quantas eu ver pude Ao teu grande valor<br \/>\ne alta bondade<\/p>\n<p>84 A gra\u00e7a referir devo e virtude.<\/p>\n<p>\u201cSendo eu servo, me deste a liberdade, Pelos meios e vias conduzido,<br \/>\n87 De que dispunha a tua potestade.<\/p>\n<p>\u201cSeja eu do teu valor fortalecido, Porque minha alma, que fizeste pura<br \/>\n90 Te agrade ao ser seu v\u00ednculo solvido.\u201d \u2014 Desta arte<br \/>\norei. L\u00e1 da sublime altura, Em que estava sorrindo-se encarou-me; 93<br \/>\nDepois voltou-se \u00e0 eterna Formosura.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPor chegares\u201d \u2014 o velho assim falou-me \u2014<br \/>\n\u201cAo termo da jornada, como anelas, 96 A que seu rogo e santo amor mandou-me,<br \/>\n\u201cTeus olhos voem pelas flores belas: Eles mais h\u00e3o-de se acender,<br \/>\nno esguardo 99 Para al\u00e7ar-se ao divino raio, em v\u00ea-las.<\/p>\n<p>\u201cE a Rainha do c\u00e9u, por quem eu ardo Cheio de amor, nos h\u00e1<br \/>\nde ser beni\u2019na, 102 Pois sou seu servo, o seu fiel Bernardo.\u201d<br \/>\n\u2014 Como quem da Cro\u00e1cia se destina A ver Santo Sud\u00e1rio<br \/>\nem romaria, 105 Por fama antiga da fei\u00e7\u00e3o divina;<\/p>\n<p>Devoto a contemplar se n\u00e3o sacia, Dizendo em si: \u201c\u00f3 Jesus!<br \/>\nmeu Deus piedoso! 108 Tal o semblante vosso parecia!\u201d Assim notei o<br \/>\nafeito caridoso Daquele, que em seus \u00eaxtases no mundo 111 A paz celeste<br \/>\nprelibou ditoso.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cFilho da gra\u00e7a, este viver jucundo Ser-te n\u00e3o<br \/>\npode\u201d \u2014 prosseguia \u2014 \u201cnoto, 114 Se os olhos teus n\u00e3o<br \/>\nal\u00e7as c\u00e1 do fundo.<\/p>\n<p>\u201cDos c\u00edrculos atenta ao mais remoto: L\u00e1 no trono a Rainha<br \/>\nest\u00e1 sentada; 117 Seu reino, o c\u00e9u, lhe \u00e9 s\u00fadito<br \/>\ne devoto.\u201d \u2014 O rosto ergui. Bem como na alvorada A parte, em que<br \/>\no sol nasce no horizonte 120 Excede a que franqueia \u00e0 noite entrada,<br \/>\nAssim, quase a subir de vale a monte, No p\u00edncaro eminente parte eu<br \/>\nvia 123 Vencer em lume a qualquer outra fronte.<\/p>\n<p>Como l\u00e1 donde espera-se do dia O carro, que perdeu Fetonte, a flama<br \/>\n126 Aumenta e noutros pontos se embacia, Assim essa pac\u00edfica oriflama<br \/>\nSe avivava no meio; e a cada lado<\/p>\n<p>129 Por modo igual se enfraquecia a chama.<\/p>\n<p>De milhares o centro rodeado Stava de anjos voando como em festa, 132 Cada<br \/>\num na arte e no brilho assinalado.<\/p>\n<p>De os ver e ouvir contento manifesta A Beldade: que extremos de alegria 135<br \/>\nA outros santos nos seus olhos presta.<\/p>\n<p>Se eu tivera opulenta fantasia E a eloq\u00fc\u00eancia n\u00e3o menos,<br \/>\ndesse encanto 138 Um s\u00f3 tra\u00e7o exprimir n\u00e3o poderia.<\/p>\n<p>No vivo lume e ao ver Bernardo quanto Os meus olhos, absortos, se fitavam,<br \/>\nVolveu-lhe os seus, acesos de ardor tanto, 142 Que a mais fervor meu \u00eaxtase<br \/>\nenal\u00e7avam.<\/p>\n<p>2. A mil\u00edcia santa, os santos. \u2014 3. Os outros, os anjos. \u2014<br \/>\n32.<\/p>\n<p>H\u00e9lice, a ninfa H\u00e9lice ou Calixto que foi transformada por<br \/>\nJ\u00fapiter na constela\u00e7\u00e3o da Ursa Maior. \u2014 33. Do<br \/>\nfilho acompanhada, o filho de H\u00e9lice foi transformado na constela\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Ursa Menor. \u2014 35. Latr\u00e3o, foi por algum tempo a sede dos imperadores<br \/>\nromanos. \u2014 102. Bernardo, S. Bernardo, abade de Clairvaux, na Borgonha,<br \/>\nque foi devotado ao culto da Virgem Maria. \u2014 104. Santo Sud\u00e1rio,<br \/>\nou Ver\u00f4nica (imagem verdadeira), imagem de Jesus impressa num v\u00e9u,<br \/>\nrel\u00edquia que se conserva em Roma. \u2014 116. A rainha, a virgem Maria.<br \/>\n\u2014 125. O carro que perdeu Fetonte, o sol. \u2014 127. Oriflama, estandarte<br \/>\nde guerra dos reis de Fran\u00e7a; aqui indica a Virgem.<br \/>\nCANTO XXXII<\/p>\n<p>S. Bernardo esclarece a Dante a composi\u00e7\u00e3o da rosa do Para\u00edso.<\/p>\n<p>De um lado est\u00e3o os santos crist\u00e3os; do outro os hebreus, que<br \/>\nacreditaram no Cristo que devia vir. Entre uns e outros a Virgem Maria. Embaixo<br \/>\nde Maria, mulheres hebr\u00e9ias; mais embaixo as crian\u00e7as mortas<br \/>\nlogo depois do batismo.<\/p>\n<p>DE contemplar no seu prazer sorvido, De instruir-me, espont\u00e2neo, se<br \/>\nincumbia, 3 E este santo discurso h\u00e1 proferido: \u2014 \u201cA chaga,<br \/>\nque sarou e ungiu Maria Abrira a bela, que aos seus p\u00e9s sentada 6 Divisas,<br \/>\ndo homem no primeiro dia.<\/p>\n<p>\u201cSt\u00e1 na t\u00e9rcia fileira entronizada Logo abaixo Raquel;<br \/>\nresplendente 9 Ao lado Beatriz v\u00eas colocada.<\/p>\n<p>\u201cSara, Rebeca, Judite e a prudente Bisav\u00f3 do cantor, que lamentara,<br \/>\n12 Miserere clamando, a culpa ingente: \u201cNum degrau cada uma se depara<br \/>\nDa rosa, folha a folha, descendendo 15 Como seu nome a minha voz declara.<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e3o, do degrau s\u00e9timo descendo, Como de l\u00e1<br \/>\nsubindo, em seguimento 18 Hebr\u00e9ias, dividida a Rosa sendo: \u201cFormam<br \/>\nelas, assim, repartimento, Segundo em Cristo a f\u00e9 predominara, 21 Da<br \/>\nsanta escada em todo o comprimento.<\/p>\n<p>\u201cDa parte, em que da flor se completara Em cada folha o n\u00famero,<br \/>\nexal\u00e7ado 24 V\u00eas quem a Cristo no porvir sperara; \u201cDa parte,<br \/>\nonde o hemiciclo \u00e9 sinalado De alguns lugares vagos, se apresenta 27<br \/>\nQuem creu em Cristo ao mundo j\u00e1 chegado.<\/p>\n<p>\u201cComo de um lado a divis\u00e3o se ostenta, Da Virgem pelo trono<br \/>\ndemarcada 30 E pelos mais, que a vista representa, \u201cAssim do oposto<br \/>\na sede destinada Ao que no ermo e mart\u00edrio sempre h\u00e1 sido 33<br \/>\nSanto e em dois anos da infernal estada, \u201cLugar que, tem por conta,<br \/>\nh\u00e1 precedido Aos de Francisco, de Agostinho, Bento 36 E outros, de<br \/>\num degrau cada um descido.<\/p>\n<p>\u201cDe Deus ora contempla o s\u00e1bio intento:<\/p>\n<p>Igualmente a f\u00e9 nova e a antiga cren\u00e7a 39 H\u00e3o de encher<br \/>\no jardim do firmamento.<\/p>\n<p>\u201cAbaixo do degrau da escada imensa, Que as divis\u00f5es reparte,<br \/>\nest\u00e1 sentado 42 Ningu\u00e9m, porque ao seu m\u00e9rito perten\u00e7a,<br \/>\n\u201cMas pelo alheio, e ao modo decretado.<\/p>\n<p>Seus corpos tais esp\u00edritos deixaram 45 Antes que discernir lhes fosse<br \/>\ndado.<\/p>\n<p>\u201cBem \u00e0 luz da evid\u00eancia to declaram Pela voz infantil<br \/>\ne pelo gesto: 48 Olha, escuta, e tuas d\u00favidas se aclaram.<\/p>\n<p>\u201cDuvidas e o n\u00e3o fazes manifesto; Sutil pensar em n\u00f3<br \/>\nte prende estreito; 51 Mas deste enleio vou livrar-te presto.<\/p>\n<p>\u201cCrer-se n\u00e3o pode em casual efeito Do reino divinal no infindo<br \/>\nespa\u00e7o; 54 Nem h\u00e1 fome, nem sede ou triste aspeito.<\/p>\n<p>\u201cDe eternas leis vincula tudo o la\u00e7o, E, como o anel no dedo,<br \/>\njustamente 57 Da cria\u00e7\u00e3o responde tudo ao tra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201cPortanto aquela prematura gente Sine causa n\u00e3o sobe \u00e0<br \/>\nvida eterna; 60 Mais ou menos, cada um entra excelente.<\/p>\n<p>\u201cDeste reino o Monarca, que o governa De amor em tanto extremo, em<br \/>\ntal ventura, 63 Que desejo nenhum al\u00e9m se interna, \u201cCriando,<br \/>\nde sua face na do\u00e7ura, Os esp\u00edritos, dota-os a seu grado.<\/p>\n<p>66 Isto basta saber: n\u00e3o mais apura.<\/p>\n<p>\u201cAo claro est\u00e1 nos g\u00eameos demonstrado, Que haviam, \u2014<br \/>\nna Escritura se refere, 69 J\u00e1 no materno ventre batalhado.<\/p>\n<p>\u201cAssim a luz alt\u00edssima confere A grinalda da Gra\u00e7a dignamente<br \/>\n72 Segundo a cor da coma, que prefere.<\/p>\n<p>\u201cGradua\u00e7\u00e3o, portanto, diferente Lhes cabe sem ter m\u00e9ritos<br \/>\nna vida: 75 Vis\u00e3o primeira os distinguiu somente.<\/p>\n<p>\u201cNos primitivos tempos conseguida Estava a salva\u00e7\u00e3o,<br \/>\nquando a inoc\u00eancia 78 \u00c0 f\u00e9 dos pais se achava reunida.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s primeiras idades em seq\u00fc\u00eancia, Dos filhos trouxe<br \/>\n\u00e0s asas inocentes 81 Circuncis\u00e3o, virtude e perman\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cDepois de anunciada a Gra\u00e7a \u00e0s gentes.<\/p>\n<p>Sem batismo perfeito haver de Cristo 84 N\u00e3o valeu a inoc\u00eancia<br \/>\ndesses entes.<\/p>\n<p>\u201cOra atento na face, que \u00e0 de Cristo Mais se assemelha; a sua<br \/>\nluz t\u00e3o pura 87 S\u00f3 te pode dispor a veres Cristo.\u201d \u2014<br \/>\nVi chover de alegria tal ternura, Que a Maria os esp\u00edritos levavam<br \/>\n90 Para voar criados nessa altura, Que quanto os olhos antes contemplavam<br \/>\nTais portentos patentes n\u00e3o fizera: 93 Os assomos de Deus se revelavam.<\/p>\n<p>Dos anjos o primeiro, que viera, Cantando \u201cAve, Maria, gratia plena\u201d,<br \/>\n96 Ante Maria as asas estendera.<\/p>\n<p>Respondendo \u00e0 divina cantilena De toda parte a gloriosa corte, 99<br \/>\nResplendeu cada face mais serena.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00d3 santo Pai, que a caridade forte Em prol meu fez deixar<br \/>\no doce assento, 102 A ti marcado por eterna sorte, Diz-me que anjo com tal<br \/>\ncontentamento Da soberana a fronte olha divina, 105 No amor mostra do fogo<br \/>\no encendimento.\u201d \u2014<\/p>\n<p>Desta arte inda vali-me da doutrina Daquele, que enlevava-se em Maria, 108<br \/>\nComo no sol a estrela matutina.<\/p>\n<p>Tornou-me: \u2014 \u201cAlacridade e bizarria, Quanta em anjo haver possa<br \/>\ne nalma humana, 111 H\u00e1 nele; assim nos d\u00e1 suma alegria: \u201cFoi<br \/>\nele o que \u00e0 bendita Soberana Levou a palma, o filho de Deus quando<br \/>\n114 Quis assumir a nossa carga insana.<\/p>\n<p>\u201cMinhas vozes tua vista acompanhando, Do just\u00edssimo imp\u00e9rio<br \/>\nal\u00e7a aos formosos 117 Patr\u00edcios, de alto nome, venerando.<\/p>\n<p>\u201cOs dois, que acima brilham, venturosos Por starem perto da Sob\u2019rana<br \/>\nAugusta; 120 S\u00e3o desta Flor princ\u00edpios gloriosos: \u201c\u00c0<br \/>\nsestra sua aquele, que se ajusta, O Pai \u00e9 que, tentado por mau gosto<br \/>\n123 Tanta amargura \u00e0 sua prole custa.<\/p>\n<p>\u00c0 destra o Pai primeiro se acha posto Da santa Igreja; as chaves lhe<br \/>\nentregara 126 Da Rosa Cristo e o fez o seu preposto.<\/p>\n<p>\u201cE o que antes de morrer vaticinara<\/p>\n<p>Duros tempos daquela amada Esposa, 129 Que por lan\u00e7as e cravos se<br \/>\nalcan\u00e7ara, \u201cFica-lhe a par; e, junto, a gl\u00f3ria goza O<br \/>\ncapit\u00e3o da gente ingrata, insana, 132 Que viveu de man\u00e1, revel,<br \/>\nteimosa.<\/p>\n<p>\u201cEm frente a Pedro v\u00eas que senta-se Ana, T\u00e3o leda a excelsa<br \/>\nFilha contemplando, 135 Que im\u00f3veis olhos tem, cantado hosana.<\/p>\n<p>\u201cEm frente ao Pai dos homens venerando, \u00c9 Luzia: a Beatriz h\u00e1<br \/>\nsuplicado, 138 Quando ias para o abismo te inclinando \u201cMas da tua vis\u00e3o<br \/>\no assinalado Tempo foge: paremos, pois, fazendo 141 Do pano, que h\u00e1,<br \/>\nvestido bem talhado.<\/p>\n<p>\u201cE para o Amor Primeiro olhos erguendo, Saibamos se do seu fulgor no<br \/>\nseio 144 Penetras, quanto possas te absorvendo.<\/p>\n<p>\u201cMas, de que retrocedas no receio, Movendo as asas, em vez de ir avante,<br \/>\n147 Impetra gra\u00e7a, de piedade cheio, \u201cDaquela, que em valer \u00e9<br \/>\nt\u00e3o pujante.<\/p>\n<p>Em mente a voz me segue fervoroso, Com vivo afeto e cora\u00e7\u00e3o<br \/>\namante.\u201d \u2014<\/p>\n<p>151 E esta santa ora\u00e7\u00e3o disse piedoso:<\/p>\n<p>5. A bela que aos seus p\u00e9s etc. Eva. \u2014 8. Raquel, mulher de<br \/>\nJacob. \u2014 10-11. Sara, mulher de Abr\u00e3o; Rebeca, mulher de Isaque;<br \/>\nJudite, que livrou o povo de Israel, matando Olofernes; a prudente bisav\u00f3<br \/>\netc., Rute, bisav\u00f3 de Davi. \u2014 32. Ao que etc., S.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Batista. \u2014 35. Francisco, Agostinho e Bento, santos fundadores<br \/>\nde ordens religiosas. \u2014 67-69. G\u00eameos, Esa\u00fa e Jacob. \u2014<br \/>\n79-81. \u00c0s primeiras idades etc., nos tempos que passaram de Abr\u00e3o<br \/>\nat\u00e9 Cristo, a circuncis\u00e3o era requisito indispens\u00e1vel<br \/>\npara a salva\u00e7\u00e3o. \u2014 82-84. Depois de enunciada etc., depois<br \/>\nde Cristo \u00e9 indispens\u00e1vel o batismo. \u2014 85. Na face que<br \/>\n\u00e0 de Cristo etc., Maria Virgem. \u2014 112. Foi ele o que etc., Gabriel.<br \/>\n\u2014 122. O pai etc., Ad\u00e3o. \u2014 124. O pai primeiro etc., S.<\/p>\n<p>Pedro. \u2014 127-129. E o que etc., S. Jo\u00e3o Evangelista. \u2014<br \/>\n131. O capit\u00e3o etc., Mois\u00e9s. \u2014 133. Ana, m\u00e3e da<br \/>\nVirgem. \u2014 137. Luzia, Santa Luzia, virgem e m\u00e1rtir, v. Inferno<br \/>\nII, 97-102.<br \/>\nCANTO XXXIII<\/p>\n<p>S. Bernardo pede \u00e0 Virgem Maria que conceda a Dante contemplar a Deus.<br \/>\nO Poeta v\u00ea um tr\u00edplice c\u00edrculo no qual est\u00e1 revelada<br \/>\na Trindade divina. No c\u00edrculo m\u00e9dio v\u00ea figurada a ef\u00edgie<br \/>\nhumana. No esp\u00edrito de Dante se forma o desejo de conhecer o modo da<br \/>\nuni\u00e3o da natureza divina com a humana. Um repentino esplendor lhe revela<br \/>\no mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o de Cristo; e aqui termina a<br \/>\nsublime vis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cVIRGEM M\u00e3e, por teu Filho procriada, Humilde e sup\u2019rior<br \/>\n\u00e0 criatura, 3 Por conselho eternal predestinada! \u201cPor ti se enobreceu<br \/>\ntanto a natura Humana, que o Senhor n\u00e3o desdenhou-se 6 De se fazer<br \/>\nde quem criou, feitura.<\/p>\n<p>\u201cNo seio teu o amor aviventou-se, E ao seu ardor, na paz da eternidade,<br \/>\n9 O germe desta flor assim formou-se.<\/p>\n<p>\u201cMeridiana Luz da Caridade \u00c9s no c\u00e9u! Viva fonte de esperan\u00e7a<br \/>\n12 Na terra \u00e9s para a fraca humanidade! \u201cH\u00e1 tal grandeza<br \/>\nem ti, h\u00e1 tal pujan\u00e7a,<\/p>\n<p>Que quer sem asas voe o seu anelo 15 Quem gra\u00e7a aspira em ti sem confian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cAo m\u00edsero, que roga ao teu desvelo Acode, e, \u00e0s mais<br \/>\ndas vezes, por vontade 18 Livre, te praz sem s\u00faplica val\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u201cEm ti miseric\u00f3rdia, em ti piedade, Em ti magnific\u00eancia,<br \/>\nem ti se aduna 21 Na criatura o que haja de bondade.<\/p>\n<p>\u201cEsse mortal, que da \u00ednfima lacuna Do mundo at\u00e9 o emp\u00edreo,<br \/>\npasso a passo, 24 Viu quanto a vida esp\u2019ritual reuna, \u201cTe exora<br \/>\naux\u00edlio ao seu esfor\u00e7o escasso: A mente sublunar lhe seja dado<br \/>\n27 A Suma Dita no celeste espa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201cEu que, no meu ardor, nunca aspirado Hei mais por mim o que em prol<br \/>\ndele pe\u00e7o 30 Meus rogos todos al\u00e7o esperan\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u201cTe digna conseguir que o v\u00e9u espesso Da humanidade sua despare\u00e7a,<br \/>\n33 E assim lhe seja o Sumo Bem concesso.<\/p>\n<p>\u201cDepois da alta vis\u00e3o d\u00e1 que ainda eu pe\u00e7a Que<br \/>\nconserves, Rainha Onipotente, 36 Sempre pura sua alma e ao mal avessa.<\/p>\n<p>\u201cDe perversas paix\u00f5es guarda-o clemente: V\u00ea Beatriz e<br \/>\no c\u00e9u inteiro unidos, 39 Juntando as m\u00e3os, ao voto meu fervente!\u201d<br \/>\n\u2014 Os olhos, que por Deus s\u00e3o t\u00e3o queridos No santo orador<br \/>\nfitos demonstraram 42 Que eram seus ternos rogos atendidos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ao Lume eterno se elevaram, Em que, se deve crer, da criatura<br \/>\n45 Olhos, em modo tal, n\u00e3o profundavam.<\/p>\n<p>E dos desejos eu, que \u00e0 mor altura Suba, o ardor cessar, como devia,<br \/>\n48 Senti, me apropinquando da ventura.<\/p>\n<p>Bernardo, me acenando, me sorria, Que para cima olhasse; mas eu estava 51<br \/>\nJ\u00e1 por mim mesmo tal qual me queria.<\/p>\n<p>A vista, que em pureza sublimava, Do alto, que \u00e9 por si toda a Verdade,<br \/>\n54 Mais e mais pelos raios penetrava.<\/p>\n<p>E o que eu vi, desde ent\u00e3o, na imensidade Transcendeu quanto o verbo<br \/>\nhumano intente: 57 Cede a mem\u00f3ria a tanta majestade.<\/p>\n<p>Qual homem, que, a sonhar, v\u00ea claramente,<\/p>\n<p>Depois s\u00f3 guarda a sensa\u00e7\u00e3o impressa, 60 E o mais em<br \/>\ntodo lhe n\u00e3o volta \u00e0 mente; Tal eu; quase a vis\u00e3o inteira<br \/>\ncessa.<\/p>\n<p>Mas no meu cora\u00e7\u00e3o quase destila 63 Do\u00e7ura que em seu<br \/>\n\u00eaxtase come\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim ao sol a neve se aniquila, Assim na leve folha, entregue ao vento,<br \/>\n66 Se dispersava o or\u00e1c\u2019lo da Sibila.<\/p>\n<p>Flama excelsa, que o humano pensamento Excedes tanto, oh! presta ao meu,<br \/>\npiedosa, 69 Um pouco de inef\u00e1vel luzimento.<\/p>\n<p>E a l\u00edngua minha faz t\u00e3o poderosa, Que uma centelha s\u00f3<br \/>\nda tua Gl\u00f3ria 72 Aos p\u00f3steros transmita venturosa; Pois que,<br \/>\nem parte surgindo-me \u00e0 mem\u00f3ria E sendo por meus versos celebrada,<br \/>\n75 Melhor se entender\u00e1 tua vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Da luz pela agudeza suportada, Eu me perdera, creio, com certeza, 78 Se da<br \/>\nluz fora a vista desviada.<\/p>\n<p>E, recordo-me, pois mor afouteza Tomei, tanto, que face a face olhando, 81<br \/>\nEncarar pude na Infinita Alteza.<\/p>\n<p>Tu \u00f3 Gra\u00e7a abundante, me animando, Olhos fitar ousei na luz<br \/>\neterna, 84 A vis\u00e3o almejada consumando.<\/p>\n<p>E l\u00e1 na profundeza vi que se interna Unido pelo amor num s\u00f3<br \/>\nvolume 87 O que pelo universo se esquaderna: Acidente, subst\u00e2ncia e<br \/>\no seu costume, Conjuntos entre si por tal maneira, 90 Que da verdade exprimo<br \/>\num frouxo lume.<\/p>\n<p>Creio que a forma universal inteira Vi desse n\u00f3; porquanto mais ao<br \/>\nlargo 93 Sinto, ao dizer, ledice verdadeira.<\/p>\n<p>Um s\u00f3 instante \u00e0 mente d\u00e1 letargo Maior, que s\u00e9c\u2019los<br \/>\nvinte e cinco \u00e0 empresa 96 Que admirar fez Netuno a sombra de Argo.<\/p>\n<p>De \u00eaxtase assim minha alma toda presa, Atenta, absorta, im\u00f3vel<br \/>\nse imergia, 99 E sempre em contemplar mais stava acesa.<\/p>\n<p>E essa Luz tal efeito produzia, Que em deix\u00e1-la por ver dif\u2019rente<br \/>\naspeto 102 Consentir imposs\u00edvel me seria: Que o Bem da sua aspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nobjeto,<\/p>\n<p>Todo est\u00e1 nela; \u00e9 tudo l\u00e1 perfeito, 105 Como fora de<br \/>\nl\u00e1 tudo \u00e9 defeto.<\/p>\n<p>Meu dizer de ora avante mais estreito Ser\u00e1 no que recordo que o do<br \/>\ninfante 108 Ainda ao seio maternal afeito; N\u00e3o porque presentasse outro<br \/>\nsemblante A viva Luz, que a contemplar eu stava, 111 Antes, como depois, sempre<br \/>\nconstante; Mas, como, olhando, a vista se alentava, A Imut\u00e1vel Ess\u00eancia<br \/>\nparecia 114 Mudar, quando s\u00f3 eu me transformava.<\/p>\n<p>Na subst\u00e2ncia profunda e clara eu via Da excelsa Luz tr\u00eas c\u00edrc\u2019los<br \/>\ndicernidos 117 Por cores tr\u00eas, de igual periferia, \u00cdris de \u00edris,<br \/>\num de outro refletidos Estavam, flama o t\u00earcio parecia 120 Spirando,<br \/>\npor igual, de um, de outro unidos, Quanto \u00e9 curta express\u00e3o!<br \/>\nQuanto a excedia Meu pensar, ao que eu vi, este j\u00e1 sendo 123 Tal, que<br \/>\npouco bastante n\u00e3o diria.<\/p>\n<p>Lume eterno, que a sede em ti s\u00f3 tendo, S\u00f3 te entendes, de<br \/>\nti sendo entendido, 126 E te amas e sorris s\u00f3 te entendendo!<\/p>\n<p>O girar, que, dessa arte concebido Via em ti como flama refletida, 129 Quanto<br \/>\nfoi dos meus olhos abrangido, No seio seu da pr\u00f3pria cor tingida A<br \/>\npr\u00f3pria ef\u00edgie humana oferecia: 132 Foi nela a vista minha submergida!<br \/>\nGe\u00f4metra, que o esp\u00edrito crucia Para o cir\u2019lo medir, em<br \/>\nv\u00e3o procura 135 Princ\u00edpio, que ao seu fim mais conviria: Assim<br \/>\neu ante a nova vis\u00e3o pura Ver anelara como a image\u2019 humana 138<br \/>\nAo c\u00edrculo se adapta e ali perdura.<\/p>\n<p>\u00c0s asas minhas fora empresa insana, Se clareado a mente n\u00e3o<br \/>\nme houvesse 141 Fulgor, que a posse da verdade aplana.<\/p>\n<p>\u00c0 fantasia aqui valor fenece; Mas a vontade minha a id\u00e9ias<br \/>\nbelas, Qual roda, que ao motor pronta obedece, 145 Volvia o Amor, que move<br \/>\nsol e estrelas.<\/p>\n<p>66. O or\u00e1c\u2019lo da Sibila; Virg\u00edlio (Eneida III) diz que<br \/>\na Sibila Cumana escrevia os seus or\u00e1culos sobre folhas soltas e depois<br \/>\nas jogava no ar, sendo dispersadas pelo vento. \u2014 94-96, Um s\u00f3<\/p>\n<p>instante etc., um s\u00f3 instante do tempo transcorrido depois da vis\u00e3o<br \/>\nme causa maior esquecimento que n\u00e3o aquele que vinte e cinco s\u00e9culos<br \/>\ncausaram ao epis\u00f3dio dos Argonautas, o qual surpreendeu a Netuno. \u2014<br \/>\n118-120. \u00cdris de \u00edris etc., o Filho parecia refletido no outro,<br \/>\nno Pai como \u00edris de \u00edris; e o terceiro, o Esp\u00edrito Santo<br \/>\nparecia fogo procedente de um e de outro. \u2014 127-131. O girar que, dessa<br \/>\narte etc., aquele dos c\u00edrculos, isto \u00e9, o segundo, que parecia<br \/>\nrefletido do outro, pareceu-me tivesse ef\u00edgie humana, tingida, por\u00e9m,<br \/>\nde cor divina. \u2014 134. Para o c\u00edrc\u2019lo medir, para encontrar<br \/>\na quadratura do c\u00edrculo, isto \u00e9 um quadrado cuja \u00e1rea<br \/>\nseja igual \u00e0 de um determinado c\u00edrculo. \u2014 143. Mas a vontade<br \/>\nminha etc., mas o Amor, isto \u00e9, Deus, que move o Sol e as estrelas,<br \/>\nmovia a minha vontade, concordemente \u00e0 sua, como uma roda que obedece<br \/>\nao motor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Inferno Purgat\u00f3rio Para\u00edso &nbsp; Inferno CANTO I Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, come\u00e7a a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um le\u00e3o e uma loba, que o repelem para a selva. 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