{"id":94397,"date":"2017-01-11T15:07:44","date_gmt":"2017-01-11T17:07:44","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=94397"},"modified":"2017-08-25T10:29:36","modified_gmt":"2017-08-25T12:29:36","slug":"obras-clarice-lispector","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/obras-clarice-lispector","title":{"rendered":"Obras &#8211; Clarice Lispector"},"content":{"rendered":"<table width=\"95%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">A<br \/>\nbela e a fera ou A ferida grande demais<\/a><br \/>\n<a href=\"#2\">A fuga<\/a><br \/>\n<a href=\"#3\">Gertrudes pede um conselho<\/a><br \/>\n<a href=\"#4\">Hist\u00f3ria interrompida<\/a><br \/>\n<a href=\"#5\">Mais dois b\u00eabados<\/a><br \/>\n<a href=\"#6\">O del\u00edrio<\/a><br \/>\n<a href=\"#7\">Obsess\u00e3o<\/a><br \/>\n<a href=\"#8\">Um dia a menos<\/a><br \/>\n<a href=\"#9\">A Imita\u00e7\u00e3o da Rosa<\/a><br \/>\n<a href=\"#10\">A menor mulher do mundo<\/a><br \/>\n<a href=\"#11\">Amor<\/a><br \/>\n<a href=\"#12\">Come\u00e7os de uma Fortuna<\/a><br \/>\n<a href=\"#13\">Devaneio e embriaguez duma rapariga<\/a><br \/>\n<a href=\"#14\">Feliz Anivers\u00e1rio<\/a><br \/>\n<a href=\"#15\">Mist\u00e9rio em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o<\/a><br \/>\n<a href=\"#16\">O B\u00fafalo<\/a><br \/>\n<a href=\"#17\">O Crime do Professor de Matem\u00e1tica<\/a><br \/>\n<a href=\"#18\">O jantar<\/a><br \/>\n<a href=\"#19\">OS La\u00e7os de Fam\u00edlia (Resumo)<\/a><br \/>\n<a href=\"#20\">Preciosidade<\/a><br \/>\n<\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\"><span style=\"font-size: small;\"><strong><br \/>\n<a href=\"#21\">Uma Galinha<\/a><br \/>\n<a href=\"#22\">A Explica\u00e7\u00e3o In\u00fatil<\/a><br \/>\n<a href=\"#23\">A Mudez Cantada, a Mudez Dan\u00e7ada<\/a><br \/>\n<a href=\"#24\">A Vingan\u00e7a e a Reconcilia\u00e7\u00e3o Penosa<\/a><br \/>\n<a href=\"#25\">Berna<\/a><br \/>\n<a href=\"#27\">Desenhando um Menino<\/a><br \/>\n<a href=\"#28\">Discurso de Inaugura\u00e7\u00e3o<\/a><br \/>\n<a href=\"#29\">Escrevendo<\/a><br \/>\n<a href=\"#30\">Lembran\u00e7a de um Ver\u00e3o Dif\u00edcil<\/a><br \/>\n<a href=\"#31\">Mal-estar de um anjo<\/a><br \/>\n<a href=\"#32\">Mineirinho<\/a><br \/>\n<a href=\"#33\">Noite de fevereiro<\/a><br \/>\n<a href=\"#34\">Notas sobre Dan\u00e7a Hindu<\/a><br \/>\n<a href=\"#35\">O Ch\u00e1<\/a><br \/>\n<a href=\"#36\">Os espelhos<\/a><br \/>\n<a href=\"#37\">Perfil de Seres Eleitos<\/a><br \/>\n<a href=\"#38\">Por n\u00e3o estarem distra\u00eddos<\/a><br \/>\n<a href=\"#39\">Um Amor Conquistado<\/a><br \/>\n<a href=\"#40\">Um Homem Espanhol<\/a><br \/>\n<\/strong><\/span><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#41\">Um<br \/>\npintor<\/a><br \/>\n<a href=\"#42\">Uma ira<\/a><br \/>\n<a href=\"#43\">Uma Italiana na Su\u00ed\u00e7a<\/a><br \/>\n<a href=\"#44\">A Hora da Estrela (Resumo)<\/a><br \/>\n<a href=\"#45\">A lucidez perigosa<\/a><br \/>\n<a href=\"#46\">A Paix\u00e3o Segundo G.H.<\/a><br \/>\n<a href=\"#48\">Amor \u00e0 terra<\/a><br \/>\n<a href=\"#49\">Aten\u00e7\u00e3o ao S\u00e1bado<\/a><br \/>\n<a href=\"#50\">D\u00e1-me a tua M\u00e3o<\/a><br \/>\n<a href=\"#51\">Escrever, Humildadem T\u00e9cnica<\/a><br \/>\n<a href=\"#52\">Estrela perigosa<\/a><br \/>\n<a href=\"#53\">Mas h\u00e1 a vida<\/a><br \/>\n<a href=\"#55\">Nossa trucul\u00eancia<\/a><br \/>\n<a href=\"#56\">Os Bonecos de Barro<\/a><br \/>\n<a href=\"#57\">Quero escrever o borr\u00e3o vermelho de sangue<\/a><br \/>\n<a href=\"#58\">Reparti\u00e7\u00e3o dos P\u00e3es<\/a><br \/>\n<a href=\"#59\">Sobre a Escrita<\/a><br \/>\n<\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>A bela e a fera ou A ferida grande demais<\/h2>\n<p>&#8220;Bem, ent\u00e3o saiu do sal\u00e3o de beleza pelo elevador do Copacabana<br \/>\nPalace Hotel. O chofer n\u00e3o estava l\u00e1. Olhou o rel\u00f3gio:<br \/>\neram quatro horas da tarde. E de repente lembrou-se: tinha dito a &#8220;seu&#8221;<br \/>\nJos\u00e9 para vir busc\u00e1-la \u00e0s cinco, n\u00e3o calculando<br \/>\nque n\u00e3o faria as unhas dos p\u00e9s e das m\u00e3os, s\u00f3<br \/>\na massagem. Que devia fazer? Tomar um t\u00e1xi? Mas tinha consigo uma nota<br \/>\nde quinhentos cruzeiros e o homem do t\u00e1xi n\u00e3o teria troco. Trouxera<br \/>\ndinheiro porque o marido lhe dissera que nunca se deve andar sem nenhum dinheiro.<br \/>\nOcorreu-lhe voltar ao sal\u00e3o de beleza e pedir dinheiro. Mas &#8211; mas era<br \/>\numa tarde de maio e o ar fresco era uma flor aberta com o seu perfume. Assim<br \/>\nachou que era maravilhoso e inusitado ficar de p\u00e9 na rua &#8211; ao vento<br \/>\nque mexia com os seus cabelos. N\u00e3o se lembrava quando fora a \u00faltima<br \/>\nvez que estava sozinha consigo mesma. Talvez nunca. Sempre era ela &#8211; com outros,<br \/>\ne nesses outros ela se refletia e os outros refletiam-se nela.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>A fuga<\/h2>\n<p>&#8220;Come\u00e7ou a ficar escuro e ela teve medo. A chuva ca\u00eda<br \/>\nsem tr\u00e9guas e as cal\u00e7adas brilhavam \u00famidas \u00e0 luz<br \/>\ndas l\u00e2mpadas. Passavam pessoas de guarda-chuva, imperme\u00e1vel,<br \/>\nmuito apressadas, os rostos cansados. Os autom\u00f3veis deslizavam pelo<br \/>\nasfalto molhado e uma ou outra buzina tocava maciamente.<\/p>\n<p>Quis sentar-se num banco do jardim, porque na verdade n\u00e3o sentia a<br \/>\nchuva e n\u00e3o se importava com o frio. S\u00f3 mesmo um pouco de medo,<br \/>\nporque ainda n\u00e3o resolvera o caminho a tomar. O banco seria um ponto<br \/>\nde repouso. Mas os transeuntes olhavam-na com estranheza e ela prosseguia<br \/>\na marcha.<\/p>\n<p>Estava cansada. Pensava sempre: &#8220;Mas que \u00e9 que vai acontecer<br \/>\nagora?&#8221; Se ficasse andando. N\u00e3o era a solu\u00e7\u00e3o. Voltar<br \/>\npara casa? N\u00e3o. Receava que alguma for\u00e7a a empurrasse para o<br \/>\nponto de partida.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Gertrudes pede um conselho<\/h2>\n<p>&#8220;Sentou-se de modo que seu pr\u00f3prio peso &#8220;passasse a ferro&#8221;<br \/>\na saia amarrotada. Endireitou os cabelos, a blusa. Agora, s\u00f3 esperar.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, tudo muito bom. Podia ver os telhados das casas, as flores<br \/>\nvermelhas duma janela, o sol amarelo derramado sobre tudo. N\u00e3o havia<br \/>\nhora melhor que as duas da tarde.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria esperar porque ficaria com medo. E assim n\u00e3o daria<br \/>\n\u00e0 doutora a impress\u00e3o que desejava causar. N\u00e3o pensar<br \/>\nna entrevista, n\u00e3o pensar. Inventar depressa uma hist\u00f3ria, contar<br \/>\nat\u00e9 mil, recordar-se das coisas boas. O pior \u00e9 que s\u00f3<br \/>\nse lembrava da carta que mandara. &#8220;Minha senhora, eu tenho dezessete<br \/>\nanos e queria&#8230;&#8221; Idiota, absolutamente idiota. &#8220;Estou cansada de<br \/>\nandar de um lado para outro. \u00c0s vezes n\u00e3o consigo dormir, mesmo<br \/>\nporque minhas irm\u00e3s dormem no mesmo quarto e se remexem muito. Mas<br \/>\nn\u00e3o consigo dormir porque fico pensando nas coisas. J\u00e1 resolvi<br \/>\nme suicidar, mas n\u00e3o quero mais. A senhora pode me ajudar? Gertudres.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Hist\u00f3ria interrompida<\/h2>\n<p>&#8220;Ele era triste e alto. Jamais falava comigo que n\u00e3o desse a<br \/>\nentender que seu maior defeito consistia na sua tend\u00eancia para a destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE por isso, dizia, alisando os cabelos negros como quem alisa o p\u00ealo<br \/>\nmacio e quente de um gatinho, por isso \u00e9 que sua vida se resumia num<br \/>\nmonte de cacos: uns brilhantes, outros ba\u00e7os, uns alegres, outros como<br \/>\num &#8220;peda\u00e7o de hora perdida&#8221;, sem significa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nuns vermelhos e completos, outros brancos, mas j\u00e1 espeda\u00e7ados.<\/p>\n<p>Eu, na verdade, n\u00e3o sabia o que retrucar e lamentava n\u00e3o ter<br \/>\num gesto de reserva, como o seu de alisar o cabelo, para sair da confus\u00e3o.<br \/>\nNo entanto, para quem leu um pouco e pensou bastante nas noites de ins\u00f4nia,<br \/>\n\u00e9 relativamente f\u00e1cil dizer qualquer coisa que pare\u00e7a<br \/>\nprofunda. Eu lhe respondia que mesmo destruindo ele constru\u00eda: pelos<br \/>\nmenos esse monte de cacos para onde olhar e de que falar. Perfeitamente absurdo.<br \/>\nEle, sem d\u00favida, tamb\u00e9m o achava, porque n\u00e3o respondia.<br \/>\nFicava muito triste, a olhar para o ch\u00e3o e a alisar seu gatinho morno.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>Mais dois b\u00eabados<\/h2>\n<p>&#8220;Surpreendi-me. N\u00e3o \u00e9 que abusava de minha boa vontade?<br \/>\nPor que mantinha ele um ar de t\u00e3o denso mist\u00e9rio? Podia contar<br \/>\nseus segredos sem receio de qualquer julgamento. Meu estado de embriaguez<br \/>\nme inclinava especialmente \u00e0 benevol\u00eancia e al\u00e9m disso,<br \/>\nafinal, ele n\u00e3o passava de um estranho qualquer&#8230; Por que n\u00e3o<br \/>\nfalava ele de sua vida com a objetividade com que pedira o copo de chopp ao<br \/>\ngar\u00e7om?<\/p>\n<p>Recusava-me a conceder-lhe o direito de ter uma alma pr\u00f3pria, cheia<br \/>\nde preconceitos e de amor por si mesmo. Um destro\u00e7o daqueles, com a<br \/>\nintelig\u00eancia suficiente para saber que era um destro\u00e7o, n\u00e3o<br \/>\ndeveria ter claros e escuros, como eu, que podia contar minha vida desde o<br \/>\ntempo em que meus av\u00f3s ainda n\u00e3o se conheciam. Eu possu\u00eda<br \/>\no direito de ter pudor e de n\u00e3o me revelar. Era consciente, sabia que<br \/>\nria, que sofria, lera obras sobre o budismo, fariam um epit\u00e1fio sobre<br \/>\nmeu t\u00famulo quando morresse. E embebedava-me n\u00e3o puramente, mas<br \/>\ncom um objetivo: Eu era algu\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>O del\u00edrio<\/h2>\n<p>&#8220;O dia est\u00e1 alto e forte quando se levanta. Procura os chinelos<br \/>\nembaixo da cama, tateando com os p\u00e9s, enquanto se aconchega no pijama<br \/>\nde flanela. O sol come\u00e7a a cobrir o guarda-roupa, refletindo no ch\u00e3o<br \/>\no largo quadrado da janela.<\/p>\n<p>Sente a cabe\u00e7a endurecida na nuca, os movimentos t\u00e3o dif\u00edceis.<br \/>\nOs dedos dos p\u00e9s s\u00e3o qualquer coisa gelada, impessoal. E os<br \/>\nmaxilares presos, cerrados. Vai at\u00e9 a pia, enche as m\u00e3os de<br \/>\n\u00e1gua, bebe avidamente e ela se balan\u00e7a dentro dele como num<br \/>\nfrasco vazio. Molha a testa e respira desafogado.<\/p>\n<p>Da janela enxerga a rua clara e movimentada. Guris brincam de bot\u00e3o<br \/>\n\u00e0 porta da Confeitaria Mascote, um carro buzina junto ao botequim.<br \/>\nAs mulheres, de sacola na m\u00e3o, suadas, v\u00eam da feira. Peda\u00e7os<br \/>\nde nabos e alfaces se misturam \u00e0 poeira da rua estreita. E o sol, puro<br \/>\ne cruel, espalhado por cima de tudo. &#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>Obsess\u00e3o<\/h2>\n<p>&#8220;Agora que j\u00e1 vivi o meu caso, posso rememor\u00e1-lo com mais<br \/>\nserenidade. N\u00e3o tentarei fazer-me perdoar. Tentarei n\u00e3o acusar.<br \/>\nAconteceu simplesmente.<\/p>\n<p>N\u00e3o me recordo com nitidez de seu in\u00edcio. Transformei-me independente<br \/>\nde minha consci\u00eancia e quando abri os olhos o veneno circulava irremediavelmente<br \/>\nno meu sangue, j\u00e1 antigo no seu poder.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio contar um pouco sobre mim, antes do me contato<br \/>\ncom Daniel. Apenas assim conhecer-se-\u00e1 o terreno em que suas sementes<br \/>\nforam jogadas. Embora n\u00e3o acreditasse que se pudesse compreender inteiramente<br \/>\npor que as sementes resultaram em t\u00e3o tristes frutos.<\/p>\n<p>Sempre fui sossega e nunca dei provas de possuir elementos que Daniel desenvolveu<br \/>\nem mim. Nasci de criaturas simples, instru\u00eddas naquela sabedoria que<br \/>\nse adquire pela experi\u00eancia e se adivinha pelo senso comum.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>Um dia a menos<\/h2>\n<p>&#8220;Eu desconfio que a morte vem. Morte?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que uma vez os t\u00e3o longos dias terminem?<\/p>\n<p>Assim devaneio calma, quieta. Ser\u00e1 que a morte \u00e9 um blefe?<br \/>\nUm truque da vida? \u00c9 persegui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>E assim \u00e9.<\/p>\n<p>O dia come\u00e7ara \u00e0s quatro da manh\u00e3, sempre acordara cedo,<br \/>\nj\u00e1 encontrando na pequena copa a garrafa t\u00e9rmica cheia de caf\u00e9.<br \/>\nTomou uma x\u00edcara morna e l\u00e1 ia deix\u00e1-la para Augusta<br \/>\nlavar, quando se lembrou de que a velha Augusta pedira licen\u00e7a por<br \/>\num m\u00eas para ver seu filho.<\/p>\n<p>Teve pregui\u00e7a do longo dia que se seguiria: nenhum compromisso, nenhum<br \/>\ndever, nem alegrias nem tristezas.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>A Imita\u00e7\u00e3o da Rosa<\/h2>\n<p>&#8220;Antes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada<br \/>\ne ela pr\u00f3pria j\u00e1 no vestido marrom para que pudesse atender<br \/>\no marido enquanto ele se vestia, e ent\u00e3o sairiam com calma, de bra\u00e7o<br \/>\ndado como antigamente. H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o faziam isso?<\/p>\n<p>Mas agora ele estava de novo &#8220;bem&#8221;, tomariam o \u00f4nibus, ela<br \/>\nolhando como uma esposa pela janela, o bra\u00e7o no dele, e depois jantariam<br \/>\ncom Carlota e Jo\u00e3o, recostados na cadeira com intimidade. H\u00e1<br \/>\nquanto tempo n\u00e3o via Armando enfim se recostar com intimidade e conversar<br \/>\ncom um homem? A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com<br \/>\noutro homem sobre o que sa\u00eda nos jornais. Enquanto isso ela falaria<br \/>\ncom Carlota sobre coisas de mulheres, submissa \u00e0 bondade autorit\u00e1ria<br \/>\ne pr\u00e1tica de Carlota, recebendo enfim de novo a desaten\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o vago desprezo da amiga, a sua rudeza natural, e n\u00e3o mais aquele<br \/>\ncarinho perplexo e cheio de curiosidade &#8211; e vendo enfim Armando esquecido<br \/>\nda pr\u00f3pria mulher.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>A menor mulher do mundo<\/h2>\n<p>&#8220;Nas profundezas da \u00c1frica Equatorial o explorador franc\u00eas<br \/>\nMarcel Pretre, ca\u00e7ador e homem do mundo, topou com uma tribo de pigmeus<br \/>\nde uma pequenez surpreendente. Mais surpreso, pois, ficou ao ser informado<br \/>\nde que menor povo ainda existia al\u00e9m de florestas e dist\u00e2ncias.<br \/>\nEnt\u00e3o mais fundo ele foi.<\/p>\n<p>No Congo Central descobriu realmente os menores pigmeus do mundo. E &#8211; como<br \/>\numa caixa dentro de uma caixa, dentro de uma caixa &#8211; entre os menores pigmeus<br \/>\ndo mundo estava o menor dos menores pigmeus do mundo, obedecendo talvez \u00e0<br \/>\nnecessidade que \u00e0s vezes a Natureza tem de exceder a si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Entre mosquitos e \u00e1rvores mornas de umidade, entre as folhas ricas<br \/>\ndo verde mais pregui\u00e7oso, Marcel Pretre defrontou-se com uma mulher<br \/>\nde quarenta e cinco cent\u00edmetros, madura, negra, calada.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>Amor<\/h2>\n<p>Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tric\u00f4, Ana<br \/>\nsubiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde come\u00e7ou a andar.<br \/>\nRecostou-se ent\u00e3o no banco procurando conforto, num suspiro de meia<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam<br \/>\nbanho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha<br \/>\nera enfim espa\u00e7osa, o fog\u00e3o engui\u00e7ado dava estouros.<br \/>\nO calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento<br \/>\nbatendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia<br \/>\nparar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela<br \/>\nplantara as sementes que tinha na m\u00e3o, n\u00e3o outras, mas essas<br \/>\napenas. E cresciam \u00e1rvores. Crescia sua r\u00e1pida conversa com<br \/>\no cobrador de luz, crescia a \u00e1gua enchendo o tanque, cresciam seus<br \/>\nfilhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo<br \/>\nde fome, o canto importuno das empregadas do edif\u00edcio. Ana dava a tudo,<br \/>\ntranq\u00fcilamente, sua m\u00e3o pequena e forte, sua corrente de vida.<\/p>\n<p>Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as \u00e1rvores<br \/>\nque plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua for\u00e7a, inquietava-se.<br \/>\nNo entanto sentia-se mais s\u00f3lida do que nunca, seu corpo engrossara<br \/>\num pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande<br \/>\ntesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente art\u00edstico<br \/>\nencaminhara-se h\u00e1 muito no sentido de tornar os dias realizados e belos;<br \/>\ncom o tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a \u00edntima<br \/>\ndesordem. Parecia ter descoberto que tudo era pass\u00edvel de aperfei\u00e7oamento,<br \/>\na cada coisa se emprestaria uma apar\u00eancia harmoniosa; a vida podia ser<br \/>\nfeita pela m\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas.<br \/>\nE isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num<br \/>\ndestino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.<br \/>\nO homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram<br \/>\nfilhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doen\u00e7a<br \/>\nde vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que tamb\u00e9m sem<br \/>\na felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legi\u00e3o de pessoas,<br \/>\nantes invis\u00edveis, que viviam como quem trabalha \u2014 com persist\u00eancia,<br \/>\ncontinuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para<br \/>\nsempre fora de seu alcance: uma exalta\u00e7\u00e3o perturbada que tantas<br \/>\nvezes se confundira com felicidade insuport\u00e1vel. Criara em troca algo<br \/>\nenfim compreens\u00edvel, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.<\/p>\n<p>Sua precau\u00e7\u00e3o reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da<br \/>\ntarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada<br \/>\nmembro da fam\u00edlia distribu\u00eddo nas suas fun\u00e7\u00f5es.<br \/>\nOlhando os m\u00f3veis limpos, seu cora\u00e7\u00e3o se apertava um<br \/>\npouco em espanto. Mas na sua vida n\u00e3o havia lugar para que sentisse<br \/>\nternura pelo seu espanto \u2014 ela o abafava com a mesma habilidade que<br \/>\nas lides em casa lhe haviam transmitido. Sa\u00eda ent\u00e3o para fazer<br \/>\ncompras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da fam\u00edlia<br \/>\n\u00e0 revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crian\u00e7as<br \/>\nvindas do col\u00e9gio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranq\u00fcila<br \/>\nvibra\u00e7\u00e3o. De manh\u00e3 acordaria aureolada pelos calmos deveres.<br \/>\nEncontrava os m\u00f3veis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem<br \/>\narrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das ra\u00edzes<br \/>\nnegras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim.<br \/>\nAssim ela o quisera e escolhera.<\/p>\n<p>O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais<br \/>\n\u00famido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora inst\u00e1vel.<br \/>\nAna respirou profundamente e uma grande aceita\u00e7\u00e3o deu a seu<br \/>\nrosto um ar de mulher.<\/p>\n<p>O bonde se arrastava, em seguida estacava. At\u00e9 Humait\u00e1 tinha<br \/>\ntempo de descansar. Foi ent\u00e3o que olhou para o homem parado no ponto.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre ele e os outros \u00e9 que ele estava realmente<br \/>\nparado. De p\u00e9, suas m\u00e3os se mantinham avan\u00e7adas. Era<br \/>\num cego.<\/p>\n<p>O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfian\u00e7a? Alguma<br \/>\ncoisa intranq\u00fcila estava sucedendo. Ent\u00e3o ela viu: o cego mascava<br \/>\nchicles&#8230; Um homem cego mascava chicles.<\/p>\n<p>Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irm\u00e3os viriam<br \/>\njantar \u2014 o cora\u00e7\u00e3o batia-lhe violento, espa\u00e7ado.<br \/>\nInclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que n\u00e3o nos<br \/>\nv\u00ea. Ele mascava goma na escurid\u00e3o. Sem sofrimento, com os olhos<br \/>\nabertos. O movimento da mastiga\u00e7\u00e3o fazia-o parecer sorrir e<br \/>\nde repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir \u2014 como se ele<br \/>\na tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impress\u00e3o<br \/>\nde uma mulher com \u00f3dio. Mas continuava a olh\u00e1-lo, cada vez mais<br \/>\ninclinada \u2014 o bonde deu uma arrancada s\u00fabita jogando-a desprevenida<br \/>\npara tr\u00e1s, o pesado saco de tric\u00f4 despencou-se do colo, ruiu<br \/>\nno ch\u00e3o \u2014 Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes<br \/>\nde saber do que se tratava \u2014 o bonde estacou, os passageiros olharam<br \/>\nassustados.<\/p>\n<p>Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava p\u00e1lida.<br \/>\nUma express\u00e3o de rosto, h\u00e1 muito n\u00e3o usada, ressurgia-lhe<br \/>\ncom dificuldade, ainda incerta, incompreens\u00edvel. O moleque dos jornais<br \/>\nria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de<br \/>\njornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera<br \/>\na mastiga\u00e7\u00e3o e avan\u00e7ava as m\u00e3os inseguras, tentando<br \/>\ninutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da<br \/>\nrede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu<br \/>\na nova arrancada de partida.<\/p>\n<p>Poucos instantes depois j\u00e1 n\u00e3o a olhavam mais. O bonde se sacudia<br \/>\nnos trilhos e o cego mascando goma ficara atr\u00e1s para sempre. Mas o<br \/>\nmal estava feito.<\/p>\n<p>A rede de tric\u00f4 era \u00e1spera entre os dedos, n\u00e3o \u00edntima<br \/>\ncomo quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um<br \/>\nfio partido; n\u00e3o sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma<br \/>\nestranha m\u00fasica, o mundo recome\u00e7ava ao redor. O mal estava feito.<br \/>\nPor qu\u00ea? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana<br \/>\nrespirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento<br \/>\nestavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perec\u00edvel&#8230;<br \/>\nO mundo se tornara de novo um mal-estar. V\u00e1rios anos ru\u00edam,<br \/>\nas gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus pr\u00f3prios dias, parecia-lhe<br \/>\nque as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um m\u00ednimo<br \/>\nequil\u00edbrio \u00e0 tona da escurid\u00e3o \u2014 e por um momento<br \/>\na falta de sentido deixava-as t\u00e3o livres que elas n\u00e3o sabiam<br \/>\npara onde ir. Perceber uma aus\u00eancia de lei foi t\u00e3o s\u00fabito<br \/>\nque Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como<br \/>\nse as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que n\u00e3o<br \/>\no eram.<\/p>\n<p>O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com<br \/>\nque olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado,<br \/>\ntudo tinha ganho uma for\u00e7a e vozes mais altas. Na Rua Volunt\u00e1rios<br \/>\nda P\u00e1tria parecia prestes a rebentar uma revolu\u00e7\u00e3o, as<br \/>\ngrades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles<br \/>\nmergulhara o mundo em escura sofreguid\u00e3o. Em cada pessoa forte havia<br \/>\na aus\u00eancia de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor<br \/>\nque possu\u00edam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou<br \/>\no olhar, depressa. Na cal\u00e7ada, uma mulher deu um empurr\u00e3o no<br \/>\nfilho! Dois namorados entrela\u00e7avam os dedos sorrindo&#8230; E o cego? Ana<br \/>\nca\u00edra numa bondade extremamente dolorosa.<\/p>\n<p>Ela apaziguara t\u00e3o bem a vida, cuidara tanto para que esta n\u00e3o<br \/>\nexplodisse. Mantinha tudo em serena compreens\u00e3o, separava uma pessoa<br \/>\ndas outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se<br \/>\nescolher pelo jornal o filme da noite &#8211; tudo feito de modo a que um dia se<br \/>\nseguisse ao outro. E um cego mascando goma despeda\u00e7ava tudo isso. E<br \/>\natrav\u00e9s da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de n\u00e1usea doce,<br \/>\nat\u00e9 a boca.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o percebeu que h\u00e1 muito passara do seu ponto<br \/>\nde descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com um susto; desceu<br \/>\ndo bonde com pernas d\u00e9beis, olhou em torno de si, segurando a rede<br \/>\nsuja de ovo. Por um momento n\u00e3o conseguia orientar-se. Parecia ter<br \/>\nsaltado no meio da noite.<\/p>\n<p>Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nbatia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto<br \/>\na vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso<br \/>\nrodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim p\u00f4de localizar-se.<br \/>\nAndando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os port\u00f5es do<br \/>\nJardim Bot\u00e2nico.<\/p>\n<p>Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. N\u00e3o havia<br \/>\nningu\u00e9m no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco<br \/>\nde um atalho e ali ficou muito tempo.<\/p>\n<p>A vastid\u00e3o parecia acalm\u00e1-la, o sil\u00eancio regulava sua<br \/>\nrespira\u00e7\u00e3o. Ela adormecia dentro de si.<\/p>\n<p>De longe via a al\u00e9ia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra<br \/>\ndos ramos cobria o atalho.<\/p>\n<p>Ao seu redor havia ru\u00eddos serenos, cheiro de \u00e1rvores, pequenas<br \/>\nsurpresas entre os cip\u00f3s. Todo o Jardim triturado pelos instantes j\u00e1<br \/>\nmais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada?<br \/>\nComo por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande<br \/>\ndemais.<\/p>\n<p>Um movimento leve e \u00edntimo a sobressaltou \u2014 voltou-se r\u00e1pida.<br \/>\nNada parecia se ter movido. Mas na al\u00e9ia central estava im\u00f3vel<br \/>\num poderoso gato. Seus p\u00ealos eram macios. Em novo andar silencioso,<br \/>\ndesapareceu.<\/p>\n<p>Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balan\u00e7avam, as sombras vacilavam<br \/>\nno ch\u00e3o. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe<br \/>\nter ca\u00eddo numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do<br \/>\nqual ela come\u00e7ava a se aperceber.<\/p>\n<p>Nas \u00e1rvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no ch\u00e3o<br \/>\ncaro\u00e7os secos cheios de circunvolu\u00e7\u00f5es, como pequenos<br \/>\nc\u00e9rebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade<br \/>\nintensa rumorejavam as \u00e1guas. No tronco da \u00e1rvore pregavam-se<br \/>\nas luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranq\u00fcila. O assassinato<br \/>\nera profundo. E a morte n\u00e3o era o que pens\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que imagin\u00e1rio \u2014 era um mundo de se comer com<br \/>\nos dentes, um mundo de volumosas d\u00e1lias e tulipas. Os troncos eram<br \/>\npercorridos por parasitas folhudas, o abra\u00e7o era macio, colado. Como<br \/>\na repulsa que precedesse uma entrega \u2014 era fascinante, a mulher tinha<br \/>\nnojo, e era fascinante.<\/p>\n<p>As \u00e1rvores estavam carregadas, o mundo era t\u00e3o rico que apodrecia.<br \/>\nQuando Ana pensou que havia crian\u00e7as e homens grandes com fome, a n\u00e1usea<br \/>\nsubiu-lhe \u00e0 garganta, como se ela estivesse gr\u00e1vida e abandonada.<br \/>\nA moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara at\u00e9 ele, estremecia<br \/>\nnos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vit\u00f3rias-r\u00e9gias<br \/>\nboiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva n\u00e3o lhe<br \/>\npareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nera profunda, perfumada&#8230; Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabe\u00e7a<br \/>\nrodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A<br \/>\nbrisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro<br \/>\nadocicado&#8230; O Jardim era t\u00e3o bonito que ela teve medo do Inferno.<\/p>\n<p>Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra.<br \/>\nSob os p\u00e9s a terra estava fofa, Ana aspirava-a com del\u00edcia.<br \/>\nEra fascinante, e ela sentia nojo.<\/p>\n<p>Mas quando se lembrou das crian\u00e7as, diante das quais se tornara culpada,<br \/>\nergueu-se com uma exclama\u00e7\u00e3o de dor. Agarrou o embrulho, avan\u00e7ou<br \/>\npelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria \u2014 e via o Jardim<br \/>\nem torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os port\u00f5es<br \/>\nfechados, sacudia-os segurando a madeira \u00e1spera. O vigia apareceu espantado<br \/>\nde n\u00e3o a ter visto.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o chegou \u00e0 porta do edif\u00edcio, parecia \u00e0<br \/>\nbeira de um desastre. Correu com a rede at\u00e9 o elevador, sua alma batia-lhe<br \/>\nno peito \u2014 o que sucedia? A piedade pelo cego era t\u00e3o violenta<br \/>\ncomo uma \u00e2nsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perec\u00edvel,<br \/>\nseu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as ma\u00e7anetas<br \/>\nbrilhavam limpas, os vidros da janela brilhavam, a l\u00e2mpada brilhava<br \/>\n\u2014 que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara<br \/>\nat\u00e9 agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que<br \/>\nse aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu,<br \/>\nque corria e a abra\u00e7ava. Apertou-o com for\u00e7a, com espanto. Protegia-se<br \/>\ntremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora<br \/>\ncriado \u2014 amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas<br \/>\nostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproxima\u00e7\u00e3o<br \/>\nda verdade lhe provocava, avisando-a. Abra\u00e7ou o filho, quase a ponto<br \/>\nde machuc\u00e1-lo. Como se soubesse de um mal \u2014 o cego ou o belo<br \/>\nJardim Bot\u00e2nico? \u2014 agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo.<br \/>\nFora atingida pelo dem\u00f4nio da f\u00e9. A vida \u00e9 horr\u00edvel,<br \/>\ndisse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria<br \/>\nsozinha&#8230; Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava<br \/>\ndeles&#8230; Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da crian\u00e7a<br \/>\nentre os bra\u00e7os, ouviu o seu choro assustado. Mam\u00e3e, chamou<br \/>\no menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu cora\u00e7\u00e3o crispou-se.<br \/>\nN\u00e3o deixe mam\u00e3e te esquecer, disse-lhe. A crian\u00e7a mal<br \/>\nsentiu o abra\u00e7o se afrouxar, escapou e correu at\u00e9 a porta do<br \/>\nquarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera.<br \/>\nQ sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o.<\/p>\n<p>Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha<br \/>\nvergonha?<\/p>\n<p>N\u00e3o havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na<br \/>\ncrosta e a \u00e1gua escapava. Estava diante da ostra. E n\u00e3o havia<br \/>\ncomo n\u00e3o olh\u00e1-la. De que tinha vergonha? \u00c9 que j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o era mais piedade, n\u00e3o era s\u00f3 piedade: seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nse enchera com a pior vontade de viver.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas.<br \/>\nO homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado<br \/>\npara o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Bot\u00e2nico, tranq\u00fcilo<br \/>\ne alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia \u00e0 parte forte<br \/>\ndo mundo \u2014 e que nome se deveria dar a sua miseric\u00f3rdia violenta?<br \/>\nSeria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irm\u00e3.<br \/>\nUm cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida<br \/>\nporque nenhum pobre beberia \u00e1gua nas suas m\u00e3os ardentes. Ah!<br \/>\nera mais f\u00e1cil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois n\u00e3o<br \/>\nfora verdadeira a piedade que sondara no seu cora\u00e7\u00e3o as \u00e1guas<br \/>\nmais profundas? Mas era uma piedade de le\u00e3o.<\/p>\n<p>Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo,<br \/>\ntamb\u00e9m sabia por qu\u00ea. A vida do Jardim Bot\u00e2nico chamava-a<br \/>\ncomo um lobisomem \u00e9 chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou<br \/>\ncom os olhos molhados. No entanto n\u00e3o era com este sentimento que se<br \/>\niria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi<br \/>\npara a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.<\/p>\n<p>Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante.<br \/>\nO pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fog\u00e3o,<br \/>\nonde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a \u00e1gua<br \/>\n&#8211; havia o horror da flor se entregando l\u00e2nguida e asquerosa \u00e0s<br \/>\nsuas m\u00e3os. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto<br \/>\nda lata de lixo, esmagou com o p\u00e9 a formiga. O pequeno assassinato<br \/>\nda formiga. O m\u00ednimo corpo tremia. As gotas d&#8217;\u00e1gua ca\u00edam<br \/>\nna \u00e1gua parada do tanque. Os besouros de ver\u00e3o. O horror dos<br \/>\nbesouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente.<br \/>\nHorror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes,<br \/>\nmexendo o creme. Em torno da cabe\u00e7a, em ronda, em torno da luz, os<br \/>\nmosquitos de uma noite c\u00e1lida. Uma noite em que a piedade era t\u00e3o<br \/>\ncrua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A f\u00e9 a<br \/>\nquebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.<\/p>\n<p>Depois o marido veio, vieram os irm\u00e3os e suas mulheres, vieram os<br \/>\nfilhos dos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avi\u00e3o estremecia,<br \/>\namea\u00e7ando no calor do c\u00e9u. Apesar de ter usado poucos ovos,<br \/>\no jantar estava bom. Tamb\u00e9m suas crian\u00e7as ficaram acordadas,<br \/>\nbrincando no tapete com as outras. Era ver\u00e3o, seria in\u00fatil obrig\u00e1-las<br \/>\na dormir. Ana estava um pouco p\u00e1lida e ria suavemente com os outros.<br \/>\nDepois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas.<br \/>\nEles rodeavam a mesa, a fam\u00edlia. Cansados do dia, felizes em n\u00e3o<br \/>\ndiscordar, t\u00e3o dispostos a n\u00e3o ver defeitos. Riam-se de tudo,<br \/>\ncom o cora\u00e7\u00e3o bom e humano. As crian\u00e7as cresciam admiravelmente<br \/>\nem torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos<br \/>\nantes que ele nunca mais fosse seu.<\/p>\n<p>Depois, quando todos foram embora e as crian\u00e7as j\u00e1 estavam<br \/>\ndeitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela janela. A cidade estava<br \/>\nadormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos<br \/>\nanos levaria at\u00e9 envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria<br \/>\nnuma das crian\u00e7as. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que<br \/>\nda flor sa\u00edsse o mosquito, que as vit\u00f3rias-r\u00e9gias boiassem<br \/>\nno escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Bot\u00e2nico.<\/p>\n<p>Se fora um estouro do fog\u00e3o, o fogo j\u00e1 teria pegado em toda<br \/>\na casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com o seu marido diante<br \/>\ndo caf\u00e9 derramado.<\/p>\n<p>\u2014 O que foi?! gritou vibrando toda.<\/p>\n<p>Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado,<br \/>\ncom olheiras.<\/p>\n<p>Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDepois atraiu-a a si, em r\u00e1pido afago.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero que lhe aconte\u00e7a nada, nunca! disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe que pelo menos me aconte\u00e7a o fog\u00e3o dar um estouro,<br \/>\nrespondeu ele sorrindo.<\/p>\n<p>Ela continuou sem for\u00e7a nos seus bra\u00e7os. Hoje de tarde alguma<br \/>\ncoisa tranq\u00fcila se rebentara, e na casa toda havia um tom humor\u00edstico,<br \/>\ntriste. \u00c9 hora de dormir, disse ele, \u00e9 tarde. Num gesto que<br \/>\nn\u00e3o era seu, mas que pareceu natural, segurou a m\u00e3o da mulher,<br \/>\nlevando-a consigo sem olhar para tr\u00e1s, afastando-a do perigo de viver.<\/p>\n<p>Acabara-se a vertigem de bondade.<\/p>\n<p>E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho,<br \/>\npor um instante sem nenhum mundo no cora\u00e7\u00e3o. Antes de se deitar,<br \/>\ncomo se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>Come\u00e7os de uma Fortuna<\/h2>\n<p>Era uma daquelas manh\u00e3s que parecem suspensas no ar. E que mais se<br \/>\nassemelhavam \u00e0 id\u00e9ia que fazemos do tempo.<\/p>\n<p>A varanda estava aberta mas a frescura se congelara fora e nada entrava do<br \/>\njardim, como se qualquer transbordamento fosse uma quebra de harmonia. S\u00f3<br \/>\nalgumas moscas brilhantes haviam penetrado na sala de jantar e sobrevoavam<br \/>\no a\u00e7ucareiro. A essa hora, Tijuca n\u00e3o havia despertado de todo.<br \/>\n&#8220;Se eu tivesse dinheiro&#8230;&#8221; pensava Artur, e um desejo de entesourar,<br \/>\nde possuir com tranq\u00fcilidade, dava a seu rosto um ar desprendido e contemplativo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou um jogador.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe de tolices, respondeu a m\u00e3e. N\u00e3o recomece com<br \/>\nhist\u00f3rias de dinheiro.<\/p>\n<p>Na realidade ele n\u00e3o tinha vontade de iniciar nenhuma conversa premente<br \/>\nque terminasse em solu\u00e7\u00f5es. Um pouco da mortifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo jantar da v\u00e9spera sobre mesadas, com o pai misturando autoridade<br \/>\ne compreens\u00e3o e a m\u00e3e misturando compreens\u00e3o e princ\u00edpios<br \/>\nb\u00e1sicos \u2014 um pouco da mortifica\u00e7\u00e3o da v\u00e9spera<br \/>\npedia, no entanto, prosseguimento. S\u00f3 que era in\u00fatil procurar<br \/>\nem si a urg\u00eancia de ontem. Cada noite o sono parecia responder a todas<br \/>\nas suas necessidades. E de manh\u00e3, ao contr\u00e1rio dos adultos que<br \/>\nacordam escuros e barbados, ele despertava cada vez mais imberbe. Despenteado,<br \/>\nmas diferente da desordem do pai, a quem parecia terem acontecido coisas durante<br \/>\na noite.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m sua m\u00e3e sa\u00eda do quarto um pouco desfeita e ainda<br \/>\nsonhadora, como se a amargura do sono tivesse lhe dado satisfa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAt\u00e9 tomarem caf\u00e9 todos estavam irritados ou pensativos, inclusive<br \/>\na empregada. N\u00e3o era esse o momento de pedir coisas. Mas para ele era<br \/>\numa necessidade pac\u00edfica a de estabelecer dom\u00ednios de manh\u00e3:<br \/>\ncada vez que acordava era como se precisasse recuperar os dias anteriores.<br \/>\nTanto o sono cortava suas amarras, todas as noites.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou um jogador nem um gastador.<\/p>\n<p>\u2014 Artur, disse a m\u00e3e irritad\u00edssima, j\u00e1 me bastam<br \/>\nas minhas preocupa\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>\u2014 Que preocupa\u00e7\u00f5es? perguntou ele com interesse.<\/p>\n<p>A m\u00e3e olhou-o seca como a um estranho. No entanto ele era muito mais<br \/>\nparente que seu pai, que, por assim dizer, entrara na fam\u00edlia. Apertou<br \/>\nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u2014 Todo o mundo tem preocupa\u00e7\u00f5es, meu filho, corrigiu-se<br \/>\nela entrando ent\u00e3o em nova modalidade de rela\u00e7\u00f5es, entre<br \/>\nmaternal e educadora.<\/p>\n<p>E da\u00ed em diante sua m\u00e3e assumira o dia. Dissipara-se a esp\u00e9cie<br \/>\nde individualidade com que acordava e Artur j\u00e1 podia contar com ela.<br \/>\nDesde sempre, ou aceitavam-no ou reduziam-no a ser ele mesmo. Em pequeno brincavam<br \/>\ncom ele, jogavam-no para o ar, enchiam-no de beijos &#8211; e de repente ficavam<br \/>\n&#8220;individuais&#8221; \u2014 largavam-no, diziam gentilmente mas j\u00e1<br \/>\nintang\u00edveis: &#8220;agora acabou&#8221;, e ele ficava todo vibrante de<br \/>\ncar\u00edcias, com tantas gargalhadas ainda por dar. Tornava-se implicante,<br \/>\nmexia num e noutro p\u00e9, cheio de uma c\u00f3lera que, no entanto,<br \/>\nse transformaria no mesmo instante em del\u00edcia, em pura del\u00edcia,<br \/>\nse eles apenas quisessem.<\/p>\n<p>\u2014 Coma, Artur, concluiu a m\u00e3e e de novo ele j\u00e1 podia<br \/>\ncontar com ela. Assim imediatamente tornou-se menor e muito mais malcriado:<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m tenho as minhas preocupa\u00e7\u00f5es mas ningu\u00e9m<br \/>\nliga. Quando digo que preciso de dinheiro parece que estou pedindo para jogar<br \/>\nou para beber.<\/p>\n<p>\u2014 Desde quando \u00e9 que o senhor admite que podia ser para jogar<br \/>\nou para beber? disse o pai entrando na sala e encaminhando-se para a cabeceira<br \/>\nda mesa. Ora essa! que pretens\u00e3o!<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o contara com a chegada do pai. Desnorteado, por\u00e9m habituado,<br \/>\ncome\u00e7ou:<\/p>\n<p>\u2014 Mas papai! sua voz desafinou numa revolta que n\u00e3o chegava<br \/>\na ser indignada. Como contrapeso, a m\u00e3e j\u00e1 estava dominada,<br \/>\nmexendo tranq\u00fcilamente o caf\u00e9 com leite, indiferente \u00e0<br \/>\nconversa que parecia n\u00e3o passar de mais algumas moscas. Afastava-as<br \/>\ndo a\u00e7ucareiro com m\u00e3o mole.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 saindo que est\u00e1 na sua hora, cortou o pai. Artur<br \/>\nvirou-se para sua m\u00e3e. Mas esta passava manteiga no p\u00e3o, absorta<br \/>\ne prazerosa. Fugira de novo. A tudo diria sim, sem dar nenhuma import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Fechando a porta, ele de novo tinha a impress\u00e3o de que a cada momento<br \/>\nentregavam-no \u00e0 vida. Assim \u00e9 que a rua parecia receb\u00ea-lo.<br \/>\n&#8220;Quando eu tiver minha mulher e meus filhos tocarei a campainha daqui<br \/>\ne farei visitas e tudo ser\u00e1 diferente&#8221;, pensou.<\/p>\n<p>A vida fora de casa era completamente outra. Al\u00e9m da diferen\u00e7a<br \/>\nde luz \u2014 como se somente saindo ele visse que tempo realmente fazia<br \/>\ne que disposi\u00e7\u00f5es haviam tomado as circunst\u00e2ncias durante<br \/>\na noite \u2014 al\u00e9m da diferen\u00e7a de luz, havia a diferen\u00e7a<br \/>\ndo modo de ser. Quando era pequeno, a m\u00e3e dizia: &#8220;fora de casa<br \/>\nele \u00e9 uma do\u00e7ura, em casa um dem\u00f4nio&#8221;. Mesmo agora,<br \/>\natravessando o pequeno port\u00e3o, ele se tornara visivelmente mais mo\u00e7o<br \/>\ne ao mesmo tempo menos crian\u00e7a, mais sens\u00edvel e sobretudo sem<br \/>\nassunto. Mas com um interesse d\u00f3cil. N\u00e3o era uma pessoa que<br \/>\nprocurasse conversas, mas se algu\u00e9m lhe perguntava como agora: &#8220;menino,<br \/>\nde que lado fica a igreja?&#8221;, ele se animava com suavidade, inclinava<br \/>\no longo pesco\u00e7o, pois todos eram mais baixos que ele; e informava atra\u00eddo,<br \/>\ncomo se nisso houvesse uma troca de cordialidades e um campo aberto \u00e0<br \/>\ncuriosidade. Ficou atento olhando a senhora dobrar a esquina em caminho da<br \/>\nigreja, pacientemente respons\u00e1vel pelo seu itiner\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Mas dinheiro \u00e9 feito para gastar e voc\u00ea sabe com qu\u00ea,<br \/>\ndisse-lhe Carlinhos intenso.<\/p>\n<p>\u2014 Quero para comprar coisas, respondeu um pouco vago.<\/p>\n<p>\u2014 Uma bicicletinha? riu Carlinhos ofensivo, corado na intriga.<\/p>\n<p>Artur riu desagradado, sem prazer.<\/p>\n<p>Sentado na carteira, esperou que o professor se erguesse. O pigarro deste,<br \/>\nprefaciando o come\u00e7o da aula, foi o sinal habitual para os alunos se<br \/>\nsentarem mais para tr\u00e1s, abrirem os olhos com aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ne n\u00e3o pensarem em nada. &#8220;Em nada&#8221;, foi a resposta perturbada<br \/>\nde Artur ao professor que o interpelava irritado. &#8220;Em nada&#8221; era<br \/>\nvagamente em conversas anteriores, em decis\u00f5es pouco definitivas sobre<br \/>\num cinema \u00e0 tarde, em \u2014 em dinheiro. Ele precisava de dinheiro.<br \/>\nMas durante a aula, obrigado a estar im\u00f3vel e sem nenhuma responsabilidade,<br \/>\nqualquer desejo tinha como base o repouso.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea ent\u00e3o n\u00e3o viu logo que Glorinha estava querendo<br \/>\nser convidada pro cinema? disse Carlinhos, e ambos olharam com curiosidade<br \/>\na menina que se afastava segurando a pasta. Pensativo, Artur continuou a andar<br \/>\nao lado do amigo,olhando as pedras do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Se voc\u00ea n\u00e3o em dinheiro para duas entradas, eu empresto,<br \/>\nvoc\u00ea paga depois.<\/p>\n<p>Pelo visto, do momento em que tivesse dinheiro seria obrigado a empreg\u00e1-lo<br \/>\nem mil coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas depois eu tenho que devolver a voc\u00ea e j\u00e1 estou devendo<br \/>\nao irm\u00e3o de Ant\u00f4nio, respondeu evasivo.<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o? que \u00e9 que tem! explicou o outro, pr\u00e1tico<br \/>\ne veemente.<\/p>\n<p>&#8220;E ent\u00e3o&#8221;, pensou com uma pequena c\u00f3lera, &#8220;e<br \/>\nent\u00e3o, pelo visto, logo que algu\u00e9m tem dinheiro aparecem os<br \/>\noutros querendo aplic\u00e1-lo, explicando como se perde dinheiro.&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Pelo visto, disse desviando do amigo a raiva, pelo visto basta voc\u00ea<br \/>\nter uns cruzeirinhos que mulher logo fareja e cai em cima.<\/p>\n<p>Os dois riram. Depois disso ele ficou mais alegre, mais confiante. Sobretudo<br \/>\nmenos oprimido pelas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Mas depois j\u00e1 era meio-dia e qualquer desejo se tornava mais \u00e1rido<br \/>\ne mais duro de suportar. Durante todo o almo\u00e7o ele pensou com rispidez<br \/>\nem fazer ou n\u00e3o fazer d\u00edvidas e sentia-se um homem aniquilado.<\/p>\n<p>\u2014 Ou ele estuda demais ou n\u00e3o come bastante de manh\u00e3,<br \/>\ndisse a m\u00e3e. O fato \u00e9 que acorda bem disposto mas aparece para<br \/>\no almo\u00e7o com essa cara p\u00e1lida. Fica logo com as fei\u00e7\u00f5es<br \/>\nduras, \u00e9 o primeiro sinal.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 nada, \u00e9 o desgaste natural do dia, disse<br \/>\no pai bem humorado.<\/p>\n<p>Olhando-se no espelho do corredor antes de sair, realmente era a cara de<br \/>\num desses rapazes que trabalham, cansados e mo\u00e7os. Sorriu sem mexer<br \/>\nos l\u00e1bios, satisfeito no fundo dos olhos. Mas \u00e0 porta do cinema<br \/>\nn\u00e3o p\u00f4de deixar de pedir emprestado a Carlinhos, porque l\u00e1<br \/>\nestava Glorinha com uma amiga.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas preferem sentar na frente ou no meio? perguntava Glorinha.<\/p>\n<p>Diante disso, Carlinhos pagou a entrada da amiga e Artur recebeu disfar\u00e7ado<br \/>\no dinheiro da entrada de Glorinha.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo visto, o cinema est\u00e1 estragado, disse de passagem para<br \/>\nCarlinhos. Arrependeu-se logo depois de ter falado, pois o colega mal ouvira,<br \/>\nocupado com a menina. N\u00e3o era necess\u00e1rio diminuir-se aos olhos<br \/>\ndo outro, para quem uma sess\u00e3o de cinema s\u00f3 tinha a ganhar com<br \/>\numa garota.<\/p>\n<p>Na realidade o cinema s\u00f3 esteve estragado no come\u00e7o. Logo depois<br \/>\nele relaxou o corpo, esqueceu-se da presen\u00e7a ao lado e passou a ver<br \/>\no filme. Somente perto do meio teve consci\u00eancia de Glorinha e num sobressalto<br \/>\nolhou-a disfar\u00e7ado. Com um pouco de surpresa constatou que ela n\u00e3o<br \/>\nera propriamente a exploradora que ele supusera: l\u00e1 estava Glorinha<br \/>\ninclinada para frente, a boca aberta pela aten\u00e7\u00e3o. Aliviado,<br \/>\nrecostou-se de novo na poltrona.<\/p>\n<p>Mais tarde, por\u00e9m, indagou-se se tinha ou n\u00e3o sido explorado.<br \/>\nE sua ang\u00fastia foi t\u00e3o intensa que ele parou diante da vitrina<br \/>\ncom uma cara de horror. O cora\u00e7\u00e3o batia como um punho. Al\u00e9m<br \/>\ndo rosto espantado, solto no vidro da vitrina, havia panelas e utens\u00edlios<br \/>\nde cozinha que ele olhou com certa familiaridade. &#8220;Pelo visto, fui&#8221;,<br \/>\nconcluiu e n\u00e3o conseguia sobrepor sua c\u00f3lera ao perfil sem culpa<br \/>\nde Glorinha. Aos poucos a pr\u00f3pria inoc\u00eancia da menina tornou-se<br \/>\na sua culpa maior: &#8220;ent\u00e3o ela explorava, explorava, e depois ficava<br \/>\ntoda satisfeita vendo o filme?&#8221;. Seus olhos se encheram de l\u00e1grimas.<br \/>\n&#8220;Ingrata&#8221;, pensou ele escolhendo mal uma palavra de acusa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nComo a palavra era um s\u00edmbolo de queixa mais do que de raiva, ele se<br \/>\nconfundiu um pouco e sua raiva acalmou-se. Parecia-lhe agora, de fora para<br \/>\ndentro e sem nenhuma vontade, que ela deveria ter pago daquele modo a entrada<br \/>\ndo cinema.<\/p>\n<p>Mas diante dos livros e cadernos fechados, seu rosto desanuviava-se.<\/p>\n<p>Deixou de ouvir as portas que batiam, o piano da vizinha, a voz da m\u00e3e<br \/>\nno telefone. Havia um grande sil\u00eancio no seu quarto, como num cofre.<br \/>\nE o fim da tarde parecia com uma manh\u00e3. Estava longe, longe, como um<br \/>\ngigante que pudesse estar fora mantendo no aposento apenas os dedos absortos<br \/>\nque viravam e reviravam um l\u00e1pis. Havia instantes em que respirava<br \/>\npesado como um velho. A maior parte do tempo, por\u00e9m, seu rosto mal<br \/>\naflorava o ar do quarto.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 estudei! gritou para a m\u00e3e que interpelava sobre<br \/>\no barulho da \u00e1gua. Lavando cuidadosamente os p\u00e9s na banheira,<br \/>\nele pensou que a amiga de Glorinha era melhor que Glorinha. Nem tinha procurado<br \/>\nreparar se Carlinhos &#8220;aproveitara&#8221; ou n\u00e3o da outra. A essa<br \/>\nid\u00e9ia, saiu muito depressa da banheira e parou diante do espelho da<br \/>\npia. At\u00e9 que o ladrilho esfriou seus p\u00e9s molhados.<\/p>\n<p>N\u00e3o! n\u00e3o queria explicar-se com Carlinhos e ningu\u00e9m<br \/>\nlhe diria como usar o dinheiro que teria, e Carlinhos podia pensar que era<br \/>\ncom bicicletas, mas se fosse o que \u00e9 que tem? e se nunca, mas nunca,<br \/>\nquisesse gastar o seu dinheiro? e cada vez ficasse mais rico?&#8230; que \u00e9<br \/>\nque h\u00e1, est\u00e1 querendo briga? voc\u00ea pensa que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 &#8230; pode ser que voc\u00ea esteja muito ocupado com os seus pensamentos,<br \/>\ndisse a m\u00e3e interrompendo-o, mas ao menos coma o seu jantar e de vez<br \/>\nem quando diga uma palavra.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele, em s\u00fabita volta \u00e0 casa paterna:<\/p>\n<p>\u2014 Ora a senhora diz que na mesa n\u00e3o se fala, ora quer que eu<br \/>\nfale, ora diz que n\u00e3o se fala de boca cheia, ora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Olhe o modo como voc\u00ea fala com sua m\u00e3e, disse o pai<br \/>\nsem severidade.<\/p>\n<p>\u2014 Papai, chamou Artur docilmente, com as sobrancelhas franzidas, papai,<br \/>\ncomo \u00e9 promiss\u00f3rias?<\/p>\n<p>\u2014 Pelo visto, disse o pai com prazer \u2014, pelo visto o gin\u00e1sio<br \/>\nn\u00e3o serve para nada.<\/p>\n<p>\u2014 Coma mais batata, Artur, tentou a m\u00e3e inutilmente arrastar<br \/>\nos dois homens para si.<\/p>\n<p>\u2014 Promiss\u00f3rias, dizia o pai afastando o prato, \u00e9 assim:<br \/>\ndigamos que voc\u00ea tenha uma d\u00edvida.<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>Devaneio e embriaguez duma rapariga<\/h2>\n<p>&#8220;Pelo quarto parecia-lhe estarem a se cruzar os el\u00e9tricos, a<br \/>\nestremecerem-lhe a imagem refletida. Estava a se pentear vagarosamente diante<br \/>\nda penteadeira de tr\u00eas espelhos, os bra\u00e7os brancos e fortes arrepiavam-se<br \/>\n\u00e0 frescurazita da tarde. Os olhos n\u00e3o se abandonavam, os espelhos<br \/>\nvibravam ora escuros ora luminosos. C\u00e1 fora, duma janela mais alta,<br \/>\ncaiu \u00e0 rua uma cousa pesada e fofa. Se os mi\u00fados e o marido<br \/>\nestivessem \u00e0 casa, j\u00e1 lhe viria \u00e0 id\u00e9ia que seria<br \/>\ndescuido deles. Os olhos n\u00e3o se despregavam da imagem, o pente trabalhava<br \/>\nmeditativo, o roup\u00e3o aberto deixava aparecerem nos espelhos os seis<br \/>\nentrecortados de v\u00e1rias raparigas.<\/p>\n<p>&#8220;A Noite!&#8221;, gritou o jornaleiro ao vento brando da Rua Riachuelo,<br \/>\ne alguma cousa arrepiou-se pressagiada. Jogou o pente \u00e0 penteadeira,<br \/>\ncantou absorta: &#8220;quem viu o pardal-zito&#8230; passou pela jane-la&#8230; voou<br \/>\npr&#8217;al\u00e9m do Mi-nho!&#8221; &#8211; mas, col\u00e9rica, fechou-se dura como<br \/>\num leque.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>Feliz Anivers\u00e1rio<\/h2>\n<p>A fam\u00edlia foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam<br \/>\nmuito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a<br \/>\nCopacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paet\u00eas<br \/>\ne um drapeado disfar\u00e7ando a barriga sem cinta. O marido n\u00e3o<br \/>\nveio por raz\u00f5es \u00f3bvias: n\u00e3o queria ver os irm\u00e3os.<br \/>\nMas mandara sua mulher para que nem todos os la\u00e7os fossem cortados<br \/>\n\u2014 e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que n\u00e3o<br \/>\nprecisava de nenhum deles, acompanhada dos tr\u00eas filhos: duas meninas<br \/>\nj\u00e1 de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e an\u00e1guas<br \/>\nengomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.<\/p>\n<p>Tendo Zilda \u2014 a filha com quem a aniversariante morava \u2014 disposto<br \/>\ncadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dan\u00e7ar,<br \/>\na nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se<br \/>\nnuma das cadeiras e emudeceu, a boca em bico, mantendo sua posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ultrajada. &#8220;Vim para n\u00e3o deixar de vir&#8221;, dissera ela a<br \/>\nZilda, e em seguida sentara-se ofendida. As duas mocinhas de cor-de-rosa e<br \/>\no menino, amarelos e de cabelo penteado, n\u00e3o sabiam bem que atitude<br \/>\ntomar e ficaram de p\u00e9 ao lado da m\u00e3e, impressionados com seu<br \/>\nvestido azul-marinho e com os paet\u00eas.<\/p>\n<p>Depois veio a nora de Ipanema com dois netos e a bab\u00e1. O marido viria<br \/>\ndepois. E como Zilda \u2014 a \u00fanica mulher entre os seis irm\u00e3os<br \/>\nhomens e a \u00fanica que, estava decidido j\u00e1 havia anos, tinha espa\u00e7o<br \/>\ne tempo para alojar a aniversariante \u2014 e como Zilda estava na cozinha<br \/>\na ultimar com a empregada os croquetes e sandu\u00edches, ficaram: a nora<br \/>\nde Olaria empertigada com seus filhos de cora\u00e7\u00e3o inquieto ao<br \/>\nlado; a nora de Ipanema na fila oposta das cadeiras fingindo ocupar-se com<br \/>\no beb\u00ea para n\u00e3o encarar a concunhada de Olaria; a bab\u00e1<br \/>\nociosa e uniformizada, com a boca aberta.<\/p>\n<p>E \u00e0 cabeceira da mesa grande a aniversariante que fazia hoje oitenta<br \/>\ne nove anos.<\/p>\n<p>Zilda, a dona da casa, arrumara a mesa cedo, enchera-a de guardanapos de<br \/>\npapel colorido e copos de papel\u00e3o alusivos \u00e0 data, espalhara<br \/>\nbal\u00f5es sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito &#8220;Happy<br \/>\nBirthday!&#8221;, em outros &#8220;Feliz Anivers\u00e1rio!&#8221; No centro<br \/>\nhavia disposto o enorme bolo a\u00e7ucarado. Para adiantar o expediente,<br \/>\nenfeitara a mesa logo depois do almo\u00e7o, encostara as cadeiras \u00e0<br \/>\nparede, mandara os meninos brincar no vizinho para n\u00e3o desarrumar a<br \/>\nmesa.<\/p>\n<p>E, para adiantar o expediente, vestira a aniversariante logo depois do almo\u00e7o.<br \/>\nPusera-lhe desde ent\u00e3o a presilha em torno do pesco\u00e7o e o broche,<br \/>\nborrifara-lhe um pouco de \u00e1gua-de-col\u00f4nia para disfar\u00e7ar<br \/>\naquele seu cheiro de guardado \u2014 sentara-a \u00e0 mesa. E desde as<br \/>\nduas horas a aniversariante estava sentada \u00e0 cabeceira da longa mesa<br \/>\nvazia, tesa na sala silenciosa.<\/p>\n<p>De vez em quando consciente dos guardanapos coloridos. Olhando curiosa um<br \/>\nou outro bal\u00e3o estremecer aos carros que passavam. E de vez em quando<br \/>\naquela ang\u00fastia muda: quando acompanhava, fascinada e impotente, o<br \/>\nv\u00f4o da mosca em torno do bolo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que \u00e0s quatro horas entrara a nora de Olaria e depois a<br \/>\nde Ipanema.<\/p>\n<p>Quando a nora de Ipanema pensou que n\u00e3o suportaria nem um segundo<br \/>\nmais a situa\u00e7\u00e3o de estar sentada defronte da concunhada de Olaria<br \/>\n\u2014 que cheia das ofensas passadas n\u00e3o via um motivo para desfitar<br \/>\ndesafiadora a nora de Ipanema \u2014 entraram enfim Jos\u00e9 e a fam\u00edlia.<br \/>\nE mal eles se beijavam, a sala come\u00e7ou a ficar cheia de gente que ruidosa<br \/>\nse cumprimentava como se todos tivessem esperado embaixo o momento de, em<br \/>\nafoba\u00e7\u00e3o de atraso, subir os tr\u00eas lances de escada, falando,<br \/>\narrastando crian\u00e7as surpreendidas, enchendo a sala \u2014 e inaugurando<br \/>\na festa.<\/p>\n<p>Os m\u00fasculos do rosto da aniversariante n\u00e3o a interpretavam<br \/>\nmais, de modo que ningu\u00e9m podia saber se ela estava alegre. Estava<br \/>\nera posta \u00e1 cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente<br \/>\ne morena. Parecia oca.<\/p>\n<p>\u2014 Oitenta e nove anos, sim senhor! disse Jos\u00e9, filho mais velho<br \/>\nagora que Jonga tinha morrido. \u2014 Oitenta e nove anos, sim senhora! disse<br \/>\nesfregando as m\u00e3os em admira\u00e7\u00e3o p\u00fablica e como<br \/>\nsinal impercept\u00edvel para todos.<\/p>\n<p>Todos se interromperam atentos e olharam a aniversariante de um modo mais<br \/>\noficial. Alguns abanaram a cabe\u00e7a em admira\u00e7\u00e3o como a<br \/>\num recorde. Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da fam\u00edlia<br \/>\ntoda. Sim senhor! disseram alguns sorrindo timidamente.<\/p>\n<p>\u2014 Oitenta e nove anos!, ecoou Manoel que era s\u00f3cio de Jos\u00e9.<br \/>\n\u00c9 um brotinho!, disse espirituoso e nervoso, e todos riram, menos sua<br \/>\nesposa.<\/p>\n<p>A velha n\u00e3o se manifestava.<\/p>\n<p>Alguns n\u00e3o lhe haviam trazido presente nenhum. Outros trouxeram saboneteira,<br \/>\numa combina\u00e7\u00e3o de j\u00e9rsei, um broche de fantasia, um vasinho<br \/>\nde cactos \u2014 nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si<br \/>\nmesma ou para seus filhos, nada que a pr\u00f3pria aniversariante pudesse<br \/>\nrealmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava<br \/>\nos presentes, amarga, ir\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u2014 Oitenta e nove anos! repetiu Manoel aflito, olhando para a esposa.<\/p>\n<p>A velha n\u00e3o se manifestava.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como se todos tivessem tido a prova final de que n\u00e3o<br \/>\nadiantava se esfor\u00e7arem, com um levantar de ombros de quem estivesse<br \/>\njunto de uma surda, continuaram a fazer a festa sozinhos, comendo os primeiros<br \/>\nsandu\u00edches de presunto mais como prova de anima\u00e7\u00e3o que<br \/>\npor apetite, brincando de que todos estavam morrendo de fome. O ponche foi<br \/>\nservido, Zilda suava, nenhuma cunhada ajudou propriamente, a gordura quente<br \/>\ndos croquetes dava um cheiro de piquenique; e de costas para a aniversariante,<br \/>\nque n\u00e3o podia comer frituras, eles riam inquietos. E Cord\u00e9lia?<br \/>\nCord\u00e9lia, a nora mais mo\u00e7a, sentada, sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o senhor! respondeu Jos\u00e9 com falsa severidade, hoje<br \/>\nn\u00e3o se fala em neg\u00f3cios!<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 certo, est\u00e1 certo! recuou Manoel depressa, olhando<br \/>\nrapidamente para sua mulher que de longe estendia um ouvido atento.<\/p>\n<p>\u2014 Nada de neg\u00f3cios, gritou Jos\u00e9, hoje \u00e9 o dia<br \/>\nda m\u00e3e!<\/p>\n<p>Na cabeceira da mesa j\u00e1 suja, os copos maculados, s\u00f3 o bolo<br \/>\ninteiro \u2014 ela era a m\u00e3e. A aniversariante piscou os olhos.<\/p>\n<p>E quando a mesa estava imunda, as m\u00e3es enervadas com o barulho que<br \/>\nos filhos faziam, enquanto as av\u00f3s se recostavam complacentes nas cadeiras,<br \/>\nent\u00e3o fecharam a in\u00fatil luz do corredor para acender a vela<br \/>\ndo bolo, uma vela grande com um papelzinho colado onde estava escrito &#8220;89&#8221;.<br \/>\nMas ningu\u00e9m elogiou a id\u00e9ia de Zilda, e ela se perguntou angustiada<br \/>\nse eles n\u00e3o estariam pensando que fora por economia de velas \u2014<br \/>\nningu\u00e9m se lembrando de que ningu\u00e9m havia contribu\u00eddo<br \/>\ncom uma caixa de f\u00f3sforos sequer para a comida da festa que ela, Zilda,<br \/>\nservia como uma escrava, os p\u00e9s exaustos e o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nrevoltado. Ent\u00e3o acenderam a vela. E ent\u00e3o Jos\u00e9, o l\u00edder,<br \/>\ncantou com muita for\u00e7a, entusiasmando com um olhar autorit\u00e1rio<br \/>\nos mais hesitantes ou surpreendidos, &#8220;vamos! todos de uma vez!&#8221;<br \/>\n\u2014 e todos de repente come\u00e7aram a cantar alto como soldados. Despertada<br \/>\npelas vozes, Cord\u00e9lia olhou esbaforida. Como n\u00e3o haviam combinado,<br \/>\nuns cantaram em portugu\u00eas e outros em ingl\u00eas. Tentaram ent\u00e3o<br \/>\ncorrigir: e os que haviam cantado em ingl\u00eas passaram a portugu\u00eas,<br \/>\ne os que haviam cantado em portugu\u00eas passaram a cantar bem baixo em<br \/>\ningl\u00eas.<\/p>\n<p>Enquanto cantavam, a aniversariante, \u00e0 luz da vela acesa, meditava<br \/>\ncomo junto de uma lareira.<\/p>\n<p>Escolheram o bisneto menor que, debru\u00e7ado no colo da m\u00e3e encorajadora,<br \/>\napagou a chama com um \u00fanico sopro cheio de saliva! Por um instante<br \/>\nbateram palmas \u00e0 pot\u00eancia inesperada do menino que, espantado<br \/>\ne exultante, olhava para todos encantado. A dona da casa esperava com o dedo<br \/>\npronto no comutador do corredor &#8211; e acendeu a l\u00e2mpada.<\/p>\n<p>\u2014 Viva mam\u00e3e!<\/p>\n<p>\u2014 Viva vov\u00f3!<\/p>\n<p>\u2014 Viva D. Anita, disse a vizinha que tinha aparecido.<\/p>\n<p>\u2014 Happy birthday! gritaram os netos, do Col\u00e9gio Bennett.<\/p>\n<p>Bateram ainda algumas palmas ralas.<\/p>\n<p>A aniversariante olhava o bolo apagado, grande e seco.<\/p>\n<p>\u2014 Parta o bolo, vov\u00f3! disse a m\u00e3e dos quatro filhos,<br \/>\n\u00e9 ela quem deve partir! assegurou incerta a todos, com ar \u00edntimo<br \/>\ne intrigante. E, como todos aprovassem satisfeitos e curiosos, ela se tornou<br \/>\nde repente impetuosa: \u2014 parta o bolo, vov\u00f3!<\/p>\n<p>E de s\u00fabito a velha pegou na faca. E sem hesita\u00e7\u00e3o ,<br \/>\ncomo se hesitando um momento ela toda ca\u00edsse para a frente, deu a primeira<br \/>\ntalhada com punho de assassina.<\/p>\n<p>\u2014 Que for\u00e7a, segredou a nora de Ipanema, e n\u00e3o se sabia<br \/>\nse estava escandalizada ou agradavelmente surpreendida. Estava um pouco horrorizada.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 um ano atr\u00e1s ela ainda era capaz de subir essas<br \/>\nescadas com mais f\u00f4lego do que eu, disse Zilda amarga.<\/p>\n<p>Dada a primeira talhada, como se a primeira p\u00e1 de terra tivesse sido<br \/>\nlan\u00e7ada, todos se aproximaram de prato na m\u00e3o, insinuando-se<br \/>\nem fingidas acotoveladas de anima\u00e7\u00e3o, cada um para a sua pazinha.<\/p>\n<p>Em breve as fatias eram distribu\u00eddas pelos pratinhos, num sil\u00eancio<br \/>\ncheio de rebuli\u00e7o. As crian\u00e7as pequenas, com a boca escondida<br \/>\npela mesa e os olhos ao n\u00edvel desta, acompanhavam a distribui\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom muda intensidade. As passas rolavam do bolo entre farelos secos. As crian\u00e7as<br \/>\nangustiadas viam se desperdi\u00e7arem as passas, acompanhavam atentas a<br \/>\nqueda.<\/p>\n<p>E quando foram ver, n\u00e3o \u00e9 que a aniversariante j\u00e1 estava<br \/>\ndevorando o seu \u00faltimo bocado?<\/p>\n<p>E por assim dizer a festa estava terminada. Cord\u00e9lia olhava ausente<br \/>\npara todos, sorria.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 lhe disse: hoje n\u00e3o se fala em neg\u00f3cios!<br \/>\nrespondeu Jos\u00e9 radiante.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 certo, est\u00e1 certo! recolheu-se Manoel conciliador<br \/>\nsem olhar a esposa que n\u00e3o o desfitava. Est\u00e1 certo, tentou Manoel<br \/>\nsorrir e uma contra\u00e7\u00e3o passou-lhe r\u00e1pido pelos m\u00fasculos<br \/>\nda cara.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje \u00e9 dia da m\u00e3e! disse Jos\u00e9.<\/p>\n<p>Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela<br \/>\nera a m\u00e3e. A aniversariante piscou. Eles se mexiam agitados, rindo,<br \/>\na sua fam\u00edlia. E ela era a m\u00e3e de todos. E se de repente n\u00e3o<br \/>\nse ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos,<br \/>\na aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a m\u00e3e<br \/>\nde todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a m\u00e3e de todos e,<br \/>\nimpotente \u00e0 cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles<br \/>\nseus filhos e netos e bisnetos que n\u00e3o passavam de carne de seu joelho,<br \/>\npensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o \u00fanico<br \/>\na ser a carne de seu cora\u00e7\u00e3o, Rodrigo, com aquela carinha dura,<br \/>\nviril e despenteada. Cad\u00ea Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido<br \/>\nnaquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando,<br \/>\nela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava.<br \/>\nComo?! como tendo sido t\u00e3o forte pudera dar \u00e1 luz aqueles seres<br \/>\nopacos, com bra\u00e7os moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara<br \/>\nem hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente,<br \/>\nela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os<br \/>\npartos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos<br \/>\ne infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera<br \/>\nela dar \u00e0 luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor<br \/>\nroncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas.<br \/>\nOlhou-os com sua c\u00f3lera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a<br \/>\nsua fam\u00edlia. Incoerc\u00edvel, virou a cabe\u00e7a e com for\u00e7a<br \/>\ninsuspeita cuspiu no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e! gritou mortificada a dona da casa. Que \u00e9 isso,<br \/>\nmam\u00e3e! gritou ela passada de vergonha, e n\u00e3o queria sequer olhar<br \/>\nos outros, sabia que os desgra\u00e7ados se entreolhavam vitoriosos como<br \/>\nse coubesse a ela dar educa\u00e7\u00e3o \u00e0 velha, e n\u00e3o<br \/>\nfaltaria muito para dizerem que ela j\u00e1 n\u00e3o dava mais banho na<br \/>\nm\u00e3e, jamais compreenderiam o sacrif\u00edcio que ela fazia. \u2014<br \/>\nMam\u00e3e, que \u00e9 isso! \u2014 disse baixo, angustiada. \u2014<br \/>\nA senhora nunca fez isso! \u2014 acrescentou alto para que todos ouvissem,<br \/>\nqueria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira<br \/>\nvez renegar\u00e1s tua m\u00e3e. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando<br \/>\nela percebeu que eles abanavam a cabe\u00e7a como se estivessem de acordo<br \/>\nque a velha n\u00e3o passava agora de uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Ultimamente ela deu pra cuspir, terminou ent\u00e3o confessando<br \/>\ncontrita para todos.<\/p>\n<p>Todos olharam a aniversariante, compungidos, respeitosos, em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Pareciam ratos se acotovelando, a sua fam\u00edlia. Os meninos, embora<br \/>\ncrescidos \u2014 provavelmente j\u00e1 al\u00e9m dos cinq\u00fcenta anos,<br \/>\nque sei eu! \u2014 os meninos ainda conservavam os tra\u00e7os bonitinhos.<br \/>\nMas que mulheres haviam escolhido! E que mulheres os netos \u2014 ainda mais<br \/>\nfracos e mais azedos \u2014 haviam escolhido. Todas vaidosas e de pernas<br \/>\nfinas, com aqueles colares falsificados de mulher que na hora n\u00e3o ag\u00fcenta<br \/>\na m\u00e3o, aquelas mulherezinhas que casavam mal os filhos, que n\u00e3o<br \/>\nsabiam p\u00f4r uma criada em seu lugar, e todas elas com as orelhas cheias<br \/>\nde brincos \u2014 nenhum, nenhum de ouro! A raiva a sufocava.<\/p>\n<p>\u2014 Me d\u00e1 um copo de vinho! disse.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio se fez de s\u00fabito, cada um com o copo imobilizado<br \/>\nna m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Vovozinha, n\u00e3o vai lhe fazer mal? insinuou cautelosa a neta<br \/>\nroli\u00e7a e baixinha.<\/p>\n<p>\u2014 Que vovozinha que nada! explodiu amarga a aniversariante. \u2014<br \/>\nQue o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas! me d\u00e1<br \/>\num copo de vinho, Dorothy! \u2014 ordenou.<\/p>\n<p>Dorothy n\u00e3o sabia o que fazer, olhou para todos em pedido c\u00f4mico<br \/>\nde socorro. Mas, como m\u00e1scaras isentas e inapel\u00e1veis, de s\u00fabito<br \/>\nnenhum rosto se manifestava. A festa interrompida, os sandu\u00edches mordidos<br \/>\nna m\u00e3o, algum peda\u00e7o que estava na boca a sobrar seco, inchando<br \/>\nt\u00e3o fora de hora a bochecha. Todos tinham ficado cegos, surdos e mudos,<br \/>\ncom croquetes na m\u00e3o. E olhavam impass\u00edveis.<\/p>\n<p>Desamparada, divertida, Dorothy deu o vinho: astuciosamente apenas dois dedos<br \/>\nno copo. Inexpressivos, preparados, todos esperaram pela tempestade.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 a aniversariante n\u00e3o explodiu com a mis\u00e9ria<br \/>\nde vinho que Dorothy lhe dera como n\u00e3o mexeu no copo. Seu olhar estava<br \/>\nfixo, silencioso. Como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n<p>Todos se entreolharam polidos, sorrindo cegamente, abstratos como se um cachorro<br \/>\ntivesse feito pipi na sala. Com estoicismo, recome\u00e7aram as vozes e<br \/>\nrisadas. A nora de Olaria, que tivera o seu primeiro momento un\u00edssono<br \/>\ncom os outros quando a trag\u00e9dia vitoriosamente parecia prestes a se<br \/>\ndesencadear, teve que retornar sozinha \u00e0 sua severidade, sem ao menos<br \/>\no apoio dos tr\u00eas filhos que agora se misturavam traidoramente com os<br \/>\noutros. De sua cadeira reclusa, ela analisava cr\u00edtica aqueles vestidos<br \/>\nsem nenhum modelo, sem um drapeado, a mania que tinham de usar vestido preto<br \/>\ncom colar de p\u00e9rolas, o que n\u00e3o era moda coisa nenhuma, n\u00e3o<br \/>\npassava era de economia. Examinando distante os sandu\u00edches que quase<br \/>\nn\u00e3o tinham levado manteiga. Ela n\u00e3o se servira de nada, de nada!<br \/>\nS\u00f3 comera uma coisa de cada, para experimentar.<\/p>\n<p>E por assim dizer, de novo a festa estava terminada. As pessoas ficaram sentadas<br \/>\nbenevolentes. Algumas com a aten\u00e7\u00e3o voltada para dentro de si,<br \/>\n\u00e0 espera de alguma coisa a dizer. Outras vazias e expectantes, com<br \/>\num sorriso am\u00e1vel, o est\u00f4mago cheio daquelas porcarias que n\u00e3o<br \/>\nalimentavam mas tiravam a fome. As crian\u00e7as, j\u00e1 incontrol\u00e1veis,<br \/>\ngritavam cheias de vigor. Umas j\u00e1 estavam de cara imunda; as outras,<br \/>\nmenores, j\u00e1 molhadas; a tarde cala rapidamente. E Cord\u00e9lia,<br \/>\nCord\u00e9lia olhava ausente, com um sorriso estonteado, suportando sozinha<br \/>\no seu segredo. Que \u00e9 que ela tem? algu\u00e9m perguntou com uma curiosidade<br \/>\nnegligente, indicando-a de longe com a cabe\u00e7a, mas tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nresponderam. Acenderam o resto das luzes para precipitar a tranq\u00fcilidade<br \/>\nda noite, as crian\u00e7as come\u00e7avam a brigar. Mas as luzes eram<br \/>\nmais p\u00e1lidas que a tens\u00e3o p\u00e1lida da tarde. E o crep\u00fasculo<br \/>\nde Copacabana, sem ceder, no entanto se alargava cada vez mais e penetrava<br \/>\npelas janelas como um peso.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho que ir, disse perturbada uma das noras levantando-se e sacudindo<br \/>\nos farelos da saia. V\u00e1rios se ergueram sorrindo.<\/p>\n<p>A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele t\u00e3o<br \/>\ninfamiliar fosse uma armadilha. E, impass\u00edvel, piscando, recebeu aquelas<br \/>\npalavras propositadamente atropeladas que lhe diziam tentando dar um final<br \/>\narranco de efus\u00e3o ao que n\u00e3o era mais sen\u00e3o passado:<br \/>\na noite j\u00e1 viera quase totalmente. A luz da sala parecia ent\u00e3o<br \/>\nmais amarela e mais rica, as pessoas envelhecidas. As crian\u00e7as j\u00e1<br \/>\nestavam hist\u00e9ricas.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 que ela pensa que o bolo substitui o jantar, indagava-se<br \/>\na velha nas suas profundezas.<\/p>\n<p>Mas ningu\u00e9m poderia adivinhar o que ela pensava. E para aqueles que<br \/>\njunto da porta ainda a olharam uma vez, a aniversariante era apenas o que<br \/>\nparecia ser: sentada \u00e0 cabeceira da mesa imunda, com a m\u00e3o fechada<br \/>\nsobre a toalha como encerrando um cetro, e com aquela mudez que era a sua<br \/>\n\u00faltima palavra. Com um punho fechado sobre a mesa, nunca mais ela seria<br \/>\napenas o que ela pensasse. Sua apar\u00eancia afinal a ultrapassara e, superando-a,<br \/>\nse agigantava serena. Cord\u00e9lia olhou-a espantada. O punho mudo e severo<br \/>\nsobre a mesa dizia para a infeliz nora que sem rem\u00e9dio amava talvez<br \/>\npela \u00faltima vez: \u00c9 preciso que se saiba. \u00c9 preciso que<br \/>\nse saiba. Que a vida \u00e9 curta. Que a vida \u00e9 curta.<\/p>\n<p>Por\u00e9m nenhuma vez mais repetiu. Porque a verdade era um relance. Cord\u00e9lia<br \/>\nolhou-a estarrecida. E, para nunca mais, nenhuma vez repetiu \u2014 enquanto<br \/>\nRodrigo, o neto da aniversariante, puxava a m\u00e3o daquela m\u00e3e<br \/>\nculpada, perplexa e desesperada que mais uma vez olhou para tr\u00e1s implorando<br \/>\n\u00e0 velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num \u00edmpeto<br \/>\ndilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cord\u00e9lia<br \/>\nquis olhar.<\/p>\n<p>Mas a esse novo olhar \u2014 a aniversariante era uma velha \u00e0 cabeceira<br \/>\nda mesa.<\/p>\n<p>Passara o relance. E arrastada pela m\u00e3o paciente e insistente de Rodrigo<br \/>\na nora seguiu-o espantada.<\/p>\n<p>\u2014 Nem todos t\u00eam o privil\u00e9gio e o orgulho de se reunirem<br \/>\nem torno da m\u00e3e, pigarreou Jos\u00e9 lembrando-se de que Jonga \u00e9<br \/>\nquem fazia os discursos.<\/p>\n<p>\u2014 Da m\u00e3e, v\u00edrgula! riu baixo a sobrinha, e a prima mais<br \/>\nlenta riu sem achar gra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s temos, disse Manoel acabrunhado sem mais olhar para a<br \/>\nesposa. N\u00f3s temos esse grande privil\u00e9gio disse distra\u00eddo<br \/>\nenxugando a palma \u00famida das m\u00e3os.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era nada disso, apenas o mal-estar da despedida, nunca se<br \/>\nsabendo ao certo o que dizer, Jos\u00e9 esperando de si mesmo com perseveran\u00e7a<br \/>\ne confian\u00e7a a pr\u00f3xima frase do discurso. Que n\u00e3o vinha.<br \/>\nQue n\u00e3o vinha. Que n\u00e3o vinha. Os outros aguardavam. Como Jonga<br \/>\nfazia falta nessas horas \u2014 Jos\u00e9 enxugou a testa com o, len\u00e7o<br \/>\n\u2014 como Jonga fazia falta nessas horas! Tamb\u00e9m fora o \u00fanico<br \/>\na quem a velha sempre aprovara e respeitara, e isso dera a Jonga tanta seguran\u00e7a.<br \/>\nE quando ele morrera, a velha nunca mais falara nele, pondo um muro entre<br \/>\nsua morte e os outros. Esquecera-o talvez. Mas n\u00e3o esquecera aquele<br \/>\nmesmo olhar firme e direto com que desde sempre olhara os outros filhos, fazendo-os<br \/>\nsempre desviar os olhos. Amor de m\u00e3e era duro de suportar: Jos\u00e9<br \/>\nenxugou a testa, her\u00f3ico, risonho.<\/p>\n<p>E de repente veio a frase:<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 o ano que vem! disse Jos\u00e9 subitamente com mal\u00edcia,<br \/>\nencontrando, assim, sem mais nem menos, a frase certa: uma indireta feliz!<br \/>\nAt\u00e9 o ano que vem, hein?, repetiu com receio de n\u00e3o ser compreendido.<\/p>\n<p>Olhou-a, orgulhoso da artimanha da velha que espertamente sempre vivia mais<br \/>\num ano.<\/p>\n<p>\u2014 No ano que vem nos veremos diante do bolo aceso! esclareceu melhor<br \/>\no filho Manoel, aperfei\u00e7oando o esp\u00edrito do s\u00f3cio. At\u00e9<br \/>\no ano que vem, mam\u00e3e! e diante do bolo aceso! disse ele bem explicado,<br \/>\nperto de seu ouvido, enquanto olhava obsequiador para Jos\u00e9. E a velha<br \/>\nde s\u00fabito cacarejou um riso frouxo, compreendendo a alus\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela abriu a boca e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9.<\/p>\n<p>Estimulado pela coisa ter dado t\u00e3o inesperadamente certo, Jos\u00e9<br \/>\ngritou-lhe emocionado, grato, com os olhos \u00famidos:<\/p>\n<p>\u2014 No ano que vem nos veremos, mam\u00e3e!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou surda! disse a aniversariante rude, acarinhada.<\/p>\n<p>Os filhos se olharam rindo, vexados, felizes. A coisa tinha dado certo.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as foram saindo alegres, com o apetite estragado. A nora<br \/>\nde Olaria deu um cascudo de vingan\u00e7a no filho alegre demais e j\u00e1<br \/>\nsem gravata. As escadas eram dif\u00edceis, escuras, incr\u00edvel insistir<br \/>\nem morar num prediozinho que seria fatalmente demolido mais dia menos dia,<br \/>\ne na a\u00e7\u00e3o de despejo Zilda ainda ia dar trabalho e querer empurrar<br \/>\na velha para as noras \u2014 pisado o \u00faltimo degrau, com al\u00edvio<br \/>\nos convidados se encontraram na tranq\u00fcilidade fresca da rua. Era noite,<br \/>\nsim. Com o seu primeiro arrepio.<\/p>\n<p>Adeus, at\u00e9 outro dia, precisamos nos ver. Apare\u00e7am, disseram<br \/>\nrapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade<br \/>\nsem receio. Alguns abotoavam os casacos das crian\u00e7as, olhando o c\u00e9u<br \/>\n\u00e0 procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na<br \/>\ndespedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer<br \/>\naquela palavra a mais \u2014 que palavra? eles n\u00e3o sabiam propriamente,<br \/>\ne olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas<br \/>\nque era morto. Come\u00e7aram a se separar, andando meio de costas, sem<br \/>\nsaber como se desligar dos parentes sem brusquid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 o ano que vem! repetiu Jos\u00e9 a indireta feliz, acenando<br \/>\na m\u00e3o com vigor efusivo, os cabelos ralos e brancos esvoa\u00e7avam.<br \/>\nEle estava era gordo, pensaram, precisava tomar cuidado com o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAt\u00e9 o ano que vem! gritou Jos\u00e9 eloq\u00fcente e grande, e sua<br \/>\naltura parecia desmoron\u00e1vel. Mas as pessoas j\u00e1 afastadas n\u00e3o<br \/>\nsabiam se deviam rir alto para ele ouvir ou se bastaria sorrir mesmo no escuro.<br \/>\nAl\u00e9m de alguns pensarem que felizmente havia mais do que uma brincadeira<br \/>\nna indireta e que s\u00f3 no pr\u00f3ximo ano seriam obrigados a se encontrar<br \/>\ndiante do bolo aceso; enquanto que outros, j\u00e1 mais no escuro da rua,<br \/>\npensavam se a velha resistiria mais um ano ao nervoso e \u00e0 impaci\u00eancia<br \/>\nde Zilda, mas eles sinceramente nada podiam fazer a respeito: &#8220;Pelo menos<br \/>\nnoventa anos&#8221;, pensou melanc\u00f3lica a nora de Ipanema. &#8220;Para<br \/>\ncompletar uma data bonita&#8221;, pensou sonhadora.<\/p>\n<p>Enquanto isso, l\u00e1 em cima, sobre escadas e conting\u00eancias, estava<br \/>\na aniversariante sentada \u00e0 cabeceira da mesa, erecta, definitiva, maior<br \/>\ndo que ela mesma. Ser\u00e1 que hoje n\u00e3o vai ter jantar, meditava<br \/>\nela. A morte era o seu mist\u00e9rio.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>Mist\u00e9rio em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o<\/h2>\n<p>&#8220;Numa noite de maio &#8211; os jacintos r\u00edgidos perto da vidra\u00e7a<br \/>\n&#8211; a sala de jantar de uma casa estava iluminada e tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>Ao redor da mesa, por um instante imobilizados, achavam-se o pai, a m\u00e3e,<br \/>\na av\u00f3, tr\u00eas crian\u00e7as e uma mocinha magra de dezenove anos.<br \/>\nO sereno perfumado de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o n\u00e3o era perigoso,<br \/>\nmas o modo como as pessoas se agrupavam no interior da casa tornava arriscado<br \/>\no que n\u00e3o fosse o seio de uma fam\u00edlia numa noite fresca de maio.<br \/>\nNada havia de especial na reuni\u00e3o: acabara-se de jantar e conversava-se<br \/>\nao redor da mesa, os mosquitos em torno da luz. O que tornava particularmente<br \/>\nabastada a cena, e t\u00e3o desabrochado o rosto de cada pessoa, \u00e9<br \/>\nque depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso nessa fam\u00edlia:<br \/>\npois numa noite de maio, ap\u00f3s o jantar, eis que as crian\u00e7as<br \/>\nt\u00eam ido diariamente \u00e0 escola, o pai mant\u00e9m os neg\u00f3cios,<br \/>\na m\u00e3e trabalhou durante anos nos partos e na casa, a mocinha est\u00e1<br \/>\nse equilibrando na delicadeza de sua idade, e a av\u00f3 atingiu um estado.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a>O B\u00fafalo<\/h2>\n<p>&#8220;Mas era primavera. At\u00e9 o le\u00e3o lambeu a testa glabra da<br \/>\nleoa. Os dois animais louros. A mulher desviou os olhos da jaula, onde s\u00f3<br \/>\no cheiro quente lembrava a carnificina que ela viera buscar no Jardim Zool\u00f3gico.<br \/>\nDepois o le\u00e3o passeou enjubado e tranq\u00fcilo, e a leoa lentamente<br \/>\nreconstituiu sobre as patas estendidas a cabe\u00e7a de uma esfinge. &#8220;Mas<br \/>\nisso \u00e9 amor, \u00e9 amor de novo&#8221;, revoltou-se a mulher tentando<br \/>\nencontrar-se com o pr\u00f3prio \u00f3dio mas era primavera e dois le\u00f5es<br \/>\nse tinham amado. Com os punhos nos bolsos do casaco, olhou em torno de si,<br \/>\nrodeada pelas jaulas, enjaulada pelas jaulas fechadas. Continuou a andar.<br \/>\nOs olhos estavam t\u00e3o concentrados na procura que sua vista \u00e0s<br \/>\nvezes se escurecia num sono, e ent\u00e3o ela se refazia como na frescura<br \/>\nde uma cova.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a>O Crime do Professor de Matem\u00e1tica<\/h2>\n<p>&#8220;Quando o homem atingiu a colina mais alto, os sinos tocavam na cidade<br \/>\nembaixo. Viam-se apenas os tetos irregulares das casas. Perto dele estava<br \/>\na \u00fanica \u00e1rvore da chapada. O homem estava de p\u00e9 com um<br \/>\nsaco pesado na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Olhou para baixo com olhos m\u00edopes. Os cat\u00f3licos entravam devagar<br \/>\ne mi\u00fados na igreja, e ele procurava ouvir as vozes esparsas das crian\u00e7as<br \/>\nespalhadas na pra\u00e7a. Mas apesar da limpidez da manh\u00e3 os sons<br \/>\nmal alcan\u00e7avam o planalto. Via tamb\u00e9m o rio que de cima parecia<br \/>\nim\u00f3vel, e pensou: \u00e9 domingo. Viu ao longe a montanha mais alta<br \/>\ncom as escarpas secas. N\u00e3o fazia frio mas ele ajeitou o palet\u00f3<br \/>\nagasalhando-se melhor. Afinal pousou com cuidado o saco no ch\u00e3o. Tirou<br \/>\nos \u00f3culos talvez para respirar melhor porque, com os \u00f3culos<br \/>\nna m\u00e3o, respirou muito fundo. A claridade batia nas lentes que enviaram<br \/>\nsinais agudos. Sem os \u00f3culos, seus olhos piscaram claros, quase jovens,<br \/>\ninfamiliares.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a>O jantar<\/h2>\n<p>&#8220;Ele entrou tarde no restaurante. Certamente ocupara-se at\u00e9 agora<br \/>\nem grandes neg\u00f3cios. Poderia ter uns sessenta anos, era alto, corpulento,<br \/>\nde cabelos brancos, sobrancelhas espessas e m\u00e3os potentes. Num dedo<br \/>\no anel de sua for\u00e7a. Sentou-se amplo e s\u00f3lido.<\/p>\n<p>Perdi-o de vista e enquanto comia observei de novo a mulher magra de chap\u00e9u.<br \/>\nEla ria com a boca, olhei-o. Ei-lo de olhos fechados mastigando p\u00e3o<br \/>\ncom vigor e mecanismo, os dois punhos cerrados sobre a mesa. Continuei comendo<br \/>\ne olhando. O gar\u00e7om dispunha os pratos sobre a toalha. Mas o velho<br \/>\nmantinha os olhos fechados. A um gesto mais vivo do criado ele abriu os abriu<br \/>\ncom tal brusquid\u00e3o que este mesmo movimento se comunicou \u00e0s<br \/>\ngrandes m\u00e3os e um garfo caiu.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"19\"><\/a>OS La\u00e7os de Fam\u00edlia (Resumo)<\/h2>\n<p>A mulher e a m\u00e3e acomodaram-se finalmente no t\u00e1xi que as levaria<br \/>\n\u00e0 Esta\u00e7\u00e3o. A m\u00e3e contava e recontava as duas malas<br \/>\ntentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos<br \/>\nescuros, a que um ligeiro estrabismo dava um cont\u00ednuo brilho de zombaria<br \/>\ne frieza assistia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o esqueceu de nada, respondia a<br \/>\nfilha divertida, com paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Ainda estava sob a impress\u00e3o da cena meio c\u00f4mica entre sua m\u00e3e<br \/>\ne seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha,<br \/>\nos dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada<br \/>\nmomento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na<br \/>\nhora da despedida, antes de entrarem no t\u00e1xi, a m\u00e3e se transformara<br \/>\nem sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. &#8220;Perdoe alguma palavra<br \/>\nmal dita&#8221;, dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira<br \/>\nAnt\u00f4nio n\u00e3o saber o que fazer das malas nas m\u00e3os, a gaguejar<br \/>\n&#8211; perturbado em ser o bom genro. &#8220;Se eu rio, eles pensam que estou louca&#8221;,<br \/>\npensara Catarina franzindo as sobrancelhas. &#8220;Quem casa um filho perde<br \/>\num filho, quem casa uma filha ganha mais um&#8221;, acrescentara a m\u00e3e,<br \/>\ne Ant\u00f4nio aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de p\u00e9,<br \/>\nobservava com mal\u00edcia o marido, cuja seguran\u00e7a se desvanecera<br \/>\npara dar lugar a um homem moreno e mi\u00fado, for\u00e7ado a ser filho<br \/>\ndaquela mulherzinha grisalha&#8230; Foi ent\u00e3o que a vontade de rir tornou-se<br \/>\nmais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato quando tinha vontade de<br \/>\nrir: seus olhos tomavam uma express\u00e3o esperta e contida, tornavam-se<br \/>\nmais estr\u00e1bicos &#8211; e o riso sa\u00eda pelos olhos. Sempre do\u00eda<br \/>\num pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde pequena rira<br \/>\npelos olhos, desde sempre fora estr\u00e1bica.<\/p>\n<p>\u2014 Continuo a dizer que o menino est\u00e1 magro, disse a m\u00e3e<br \/>\nresistindo aos solavancos do carro. E apesar de Ant\u00f4nio n\u00e3o estar<br \/>\npresente, ela usava o mesmo tom de desafio e acusa\u00e7\u00e3o que empregava<br \/>\ndiante dele. Tanto que uma noite Ant\u00f4nio se agitara: n\u00e3o \u00e9<br \/>\npor culpa minha, Severina! Ele chamava a sogra de Severina, pois antes do<br \/>\ncasamento projetava serem sogra e genro modernos. Logo \u00e0 primeira visita<br \/>\nda m\u00e3e ao casal, a palavra Severina tornara-se dif\u00edcil na boca<br \/>\ndo marido, e agora, ent\u00e3o, o fato de cham\u00e1-la pelo nome n\u00e3o<br \/>\nimpedira que&#8230; &#8211; Catarina olhava-os e ria.<\/p>\n<p>\u2014 O menino sempre foi magro, mam\u00e3e, respondeu-lhe. O t\u00e1xi<br \/>\navan\u00e7ava mon\u00f3tono.<\/p>\n<p>\u2014 Magro e nervoso, acrescentou a senhora com decis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Magro e nervoso, assentiu Catarina paciente. Era um menino nervoso,<br \/>\ndistra\u00eddo. Durante a visita da av\u00f3 tornara-se ainda mais distante,<br \/>\ndormira mal, perturbado pelos carinhos excessivos e pelos belisc\u00f5es<br \/>\nde amor da velha. Ant\u00f4nio, que nunca se preocupara especialmente com<br \/>\na sensibilidade do filho, passara a dar indiretas \u00e0 sogra, &#8220;a<br \/>\nproteger uma crian\u00e7a\u201d &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o esqueci de nada&#8230;, recome\u00e7ou a m\u00e3e, quando<br \/>\numa freada s\u00fabita do carro lan\u00e7ou-as uma contra a outra e fez<br \/>\ndespencarem as malas. \u2014 Ah! ah! &#8211; exclamou a m\u00e3e como a um desastre<br \/>\nirremedi\u00e1vel, ah! dizia balan\u00e7ando a cabe\u00e7a em surpresa,<br \/>\nde repente envelhecida e pobre. E Catarina?<\/p>\n<p>Catarina olhava a m\u00e3e, e a m\u00e3e olhava a filha, e tamb\u00e9m<br \/>\na Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos, ela<br \/>\najeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente poss\u00edvel<br \/>\nremediar a cat\u00e1strofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria<br \/>\nin\u00fatil esconder: Catarina fora lan\u00e7ada contra Severina, numa<br \/>\nintimidade de corpo h\u00e1 muito esquecida, vinda do tempo em que se tem<br \/>\npai e m\u00e3e. Apesar de que nunca se haviam realmente abra\u00e7ado<br \/>\nou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a m\u00e3e<br \/>\nenchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando<br \/>\nem cumplicidade e a m\u00e3e nem notava. Mas depois do choque no t\u00e1xi<br \/>\ne depois de se ajeitarem, n\u00e3o tinham o que falar &#8211; por que n\u00e3o<br \/>\nchegavam logo \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o esqueci de nada, perguntou a m\u00e3e com voz resignada.<\/p>\n<p>Catarina n\u00e3o queria mais fit\u00e1-la nem responder-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ah! minhas luvas! exclamava a m\u00e3e perplexa. S\u00f3<br \/>\nse espiaram realmente quando as malas foram dispostas no trem, depois de trocados<br \/>\nos beijos: a cabe\u00e7a da m\u00e3e apareceu na janela.<\/p>\n<p>Catarina viu ent\u00e3o que sua m\u00e3e estava envelhecida e tinha os<br \/>\nolhos brilhantes.<\/p>\n<p>O trem n\u00e3o partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A m\u00e3e<br \/>\ntirou o espelho da bolsa e examinou-se no seu chap\u00e9u novo, comprado<br \/>\nno mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo<br \/>\nonde n\u00e3o faltava alguma admira\u00e7\u00e3o por si mesma. A filha<br \/>\nobservava divertida. Ningu\u00e9m mais pode te amar sen\u00e3o eu, pensou<br \/>\na mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe \u00e0<br \/>\nboca um gosto de sangue. Como se &#8220;m\u00e3e e filha&#8221; fosse vida<br \/>\ne repugn\u00e2ncia. N\u00e3o, n\u00e3o se podia dizer que amava sua m\u00e3e.<br \/>\nSua m\u00e3e lhe do\u00eda, era isso. A velha guardara o espelho na bolsa,<br \/>\ne fitava-a sorrindo. O rosto usado e ainda bem esperto parecia esfor\u00e7ar-se<br \/>\npor dar aos outros alguma impress\u00e3o, da qual o chap\u00e9u faria<br \/>\nparte. A campainha da Esta\u00e7\u00e3o tocou de s\u00fabito, houve<br \/>\num movimento geral de ansiedade, v\u00e1rias pessoas correram pensando que<br \/>\no trem j\u00e1 partia: mam\u00e3e! disse a mulher. Catarina! disse a velha.<br \/>\nAmbas se olhavam espantadas, a mala na cabe\u00e7a de um carregador interrompeu-lhes<br \/>\na vis\u00e3o e um rapaz correndo segurou de passagem o bra\u00e7o de Catarina,<br \/>\ndeslocando-lhe a gola do vestido. Quando puderam ver-se de novo, Catarina<br \/>\nestava sob a imin\u00eancia de lhe perguntar se n\u00e3o esquecera de nada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 &#8230;n\u00e3o esqueci de nada? perguntou a m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa,<br \/>\ne ambas se olhavam at\u00f4nitas &#8211; porque se realmente haviam esquecido,<br \/>\nagora era tarde demais. Uma mulher arrastava uma crian\u00e7a, a crian\u00e7a<br \/>\nchorava, novamente a campainha da Esta\u00e7\u00e3o soou&#8230; Mam\u00e3e,<br \/>\ndisse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a outra? e agora era<br \/>\ntarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou tua m\u00e3e,<br \/>\nCatarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o v\u00e1 pegar corrente de ar! gritou Catarina.<\/p>\n<p>\u2014 Ora menina, sou l\u00e1 crian\u00e7a, disse a m\u00e3e sem<br \/>\ndeixar por\u00e9m de se preocupar com a pr\u00f3pria apar\u00eancia.<br \/>\nA m\u00e3o sardenta, um pouco tr\u00eamula, arranjava com delicadeza a<br \/>\naba do chap\u00e9u e Catarina teve subitamente vontade de lhe perguntar<br \/>\nse fora feliz com seu pai:<\/p>\n<p>\u2014 D\u00ea lembran\u00e7as a titia! gritou.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim!<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e, disse Catarina porque um longo apito se ouvira e no<br \/>\nmeio da fuma\u00e7a as rodas j\u00e1 se moviam.<\/p>\n<p>\u2014 Catarina! disse a velha de boca aberta e olhos espantados, e ao primeiro<br \/>\nsolavanco a filha viu-a levar as m\u00e3os ao chap\u00e9u: este ca\u00edra-lhe<br \/>\nat\u00e9 o nariz, deixando aparecer apenas a nova dentadura. O trem j\u00e1<br \/>\nandava e Catarina acenava. O rosto da m\u00e3e desapareceu um instante e<br \/>\nreapareceu j\u00e1 sem o chap\u00e9u, o coque dos cabelos desmanchado<br \/>\ncaindo em mechas brancas sobre os ombros como as de uma donzela &#8211; o rosto<br \/>\nestava inclinado sem sorrir, talvez mesmo sem enxergar mais a filha distante.<\/p>\n<p>No meio da fuma\u00e7a Catarina come\u00e7ou a caminhar de volta, as<br \/>\nsobrancelhas franzidas, e nos olhos a mal\u00edcia dos estr\u00e1bicos.<br \/>\nSem a companhia da m\u00e3e, recuperara o modo firme de caminhar: sozinha<br \/>\nera mais f\u00e1cil. Alguns homens a olhavam, ela era doce, um pouco pesada<br \/>\nde corpo. Caminhava serena, moderna nos trajes, os cabelos curtos pintados<br \/>\nde acaju. E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe<br \/>\npareceu a felicidade &#8211; tudo estava t\u00e3o vivo e tenro ao redor, a rua<br \/>\nsuja, os velhos bondes, cascas de laranja &#8211; a for\u00e7a fluia e refluia<br \/>\nno seu cora\u00e7\u00e3o com pesada riqueza. Estava muito bonita neste<br \/>\nmomento, t\u00e3o elegante; integrada na sua \u00e9poca e na cidade onde<br \/>\nnascera como se a tivesse escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia<br \/>\no gosto que essa mulher tinha pelas coisas do mundo. Espiava as pessoas com<br \/>\ninsist\u00eancia, procurando fixar naquelas figuras mut\u00e1veis seu prazer<br \/>\nainda \u00famido de l\u00e1grimas pela m\u00e3e. Desviou-se dos carros,<br \/>\nconseguiu aproximar-se do \u00f4nibus burlando a fila, espiando com ironia;<br \/>\nnada impediria que essa pequena mulher que andava rolando os quadris subisse<br \/>\nmais um degrau misterioso nos seus dias.<\/p>\n<p>O elevador zumbia no calor da praia. Abriu a porta do apartamento enquanto<br \/>\nse libertava do chapeuzinho com a outra m\u00e3o; parecia disposta a usufruir<br \/>\nda largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua m\u00e3e que lhe ardia<br \/>\nno peito. Ant\u00f4nio mal levantou os olhos do livro. A tarde de s\u00e1bado<br \/>\nsempre fora &#8220;sua&#8221;, e, logo depois da partida de Severina, ele a<br \/>\nretomava com prazer, junto \u00e0 escrivaninha.<\/p>\n<p>\u2014 &#8220;Ela&#8221; foi?<\/p>\n<p>\u2014 Foi sim, respondeu Catarina empurrando a porta do quarto de seu filho.<br \/>\nAh, sim, l\u00e1 estava o menino, pensou com al\u00edvio s\u00fabito.<br \/>\nSeu filho. Magro e nervoso. Desde que se pusera de p\u00e9 caminhara firme;<br \/>\nmas quase aos quatro anos falava como se desconhecesse verbos: constatava<br \/>\nas coisas com frieza, n\u00e3o as ligando entre si. L\u00e1 estava ele<br \/>\nmexendo na toalha molhada, exato e distante. A mulher sentia um calor bom<br \/>\ne gostaria de prender o menino para sempre a este momento; puxou-lhe a toalha<br \/>\ndas m\u00e3os em censura: este menino! Mas o menino olhava indiferente para<br \/>\no ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre distra\u00eddo. Ningu\u00e9m<br \/>\nconseguira ainda chamar-lhe verdadeiramente a aten\u00e7\u00e3o. A m\u00e3e<br \/>\nsacudia a toalha no ar e impedia com sua forma a vis\u00e3o do quarto: mam\u00e3e,<br \/>\ndisse o menino. Catarina voltou-se r\u00e1pida. Era a primeira vez que ele<br \/>\ndizia &#8220;mam\u00e3e&#8221; nesse tom e sem pedir nada. Fora mais que uma<br \/>\nconstata\u00e7\u00e3o: mam\u00e3e! A mulher continuou a sacudir a toalha<br \/>\ncom viol\u00eancia e perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas<br \/>\nn\u00e3o encontrou ningu\u00e9m que entendesse o que ela n\u00e3o pudesse<br \/>\nexplicar. Desamarrotou a toalha com vigor antes de pendur\u00e1-la para<br \/>\nsecar. Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que o filho dissera:<br \/>\nmam\u00e3e, quem \u00e9 Deus. N\u00e3o, talvez: mam\u00e3e, menino<br \/>\nquer Deus. Talvez. S\u00f3 em s\u00edmbolos a verdade caberia, s\u00f3<br \/>\nem s\u00edmbolos \u00e9 que a receberiam. Com os olhos sorrindo de sua<br \/>\nmentira necess\u00e1ria, e sobretudo da pr\u00f3pria tolice, fugindo de<br \/>\nSeverina, a mulher inesperadamente riu de fato para o menino, n\u00e3o s\u00f3<br \/>\ncom os olhos: o corpo todo riu quebrado, quebrado um inv\u00f3lucro, e uma<br \/>\naspereza aparecendo como uma rouquid\u00e3o. Feia, disse ent\u00e3o o<br \/>\nmenino examinando-a.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos passear! respondeu corando e pegando-o pela m\u00e3o.<\/p>\n<p>Passou pela sala, sem parar avisou ao marido: vamos sair! e bateu a porta<br \/>\ndo apartamento.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio mal teve tempo de levantar os olhos do livro &#8211; e com surpresa<br \/>\nespiava a sala j\u00e1 vazia. Catarina! chamou, mas j\u00e1 se ouvia o<br \/>\nru\u00eddo do elevador descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto, tossindo<br \/>\ne assoando o nariz. Porque s\u00e1bado era seu, mas ele queria que sua mulher<br \/>\ne seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava o seu s\u00e1bado. Catarina!<br \/>\nchamou aborrecido embora soubesse que ela n\u00e3o poderia mais ouvi-lo.<br \/>\nLevantou-se, foi \u00e0 janela e um segundo depois enxergou sua mulher e<br \/>\nseu filho na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo o caminho a tomar. E de<br \/>\ns\u00fabito pondo-se em marcha.<\/p>\n<p>Por que andava ela t\u00e3o forte, segurando a m\u00e3o da crian\u00e7a?<br \/>\npela janela via sua mulher prendendo com for\u00e7a a m\u00e3o da crian\u00e7a<br \/>\ne caminhando depressa, com os olhos fixos adiante; e, mesmo sem ver, o homem<br \/>\nadivinhava sua boca endurecida. A crian\u00e7a, n\u00e3o se sabia por<br \/>\nque obscura compreens\u00e3o, tamb\u00e9m olhava fixo para a frente, surpreendida<br \/>\ne ing\u00eanua. Vistas de cima as duas figuras perdiam a perspectiva familiar,<br \/>\npareciam achatadas ao solo e mais escuras \u00e0 luz do mar. Os cabelos<br \/>\nda crian\u00e7a voavam&#8230;<\/p>\n<p>O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob a sua inoc\u00eancia de frase<br \/>\ncotidiana, inquietou-o: aonde v\u00e3o? Via preocupado que sua mulher guiava<br \/>\na crian\u00e7a e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu<br \/>\nalcance ela transmitisse a seu filho&#8230; mas o qu\u00ea? &#8220;Catarina&#8221;,<br \/>\npensou, &#8220;Catarina, esta crian\u00e7a ainda \u00e9 inocente!&#8221;<br \/>\nEm que momento \u00e9 que a m\u00e3e, apertando uma crian\u00e7a, dava-lhe<br \/>\nesta pris\u00e3o de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem.<br \/>\nMais tarde seu filho, j\u00e1 homem, sozinho, estaria de p\u00e9 diante<br \/>\ndesta mesma janela, batendo dedos nesta vidra\u00e7a; preso. Obrigado a<br \/>\nresponder a um morto. Quem saberia jamais em que momento a m\u00e3e transferia<br \/>\nao filho a heran\u00e7a. E com que sombrio prazer. Agora m\u00e3e e filho<br \/>\ncompreendendo-se dentro do mist\u00e9rio partilhado. Depois ningu\u00e9m<br \/>\nsaberia de que negras ra\u00edzes se alimenta a liberdade de um homem. &#8220;Catarina&#8221;,<br \/>\npensou com c\u00f3lera, &#8220;a crian\u00e7a \u00e9 inocente!&#8221;<br \/>\nTinham por\u00e9m desaparecido pela praia. O mist\u00e9rio partilhado.<\/p>\n<p>&#8220;Mas e eu? e eu?&#8221; perguntou assustado. Os dois tinham ido embora<br \/>\nsozinhos. E ele ficara. &#8220;Com o seu s\u00e1bado.&#8221; E sua gripe.<br \/>\nNo apartamento arrumado, onde &#8220;tudo corria bem&#8221;. Quem sabe se sua<br \/>\nmulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos m\u00f3veis<br \/>\nbem escolhidos, das cortinas e dos quadros? fora isso o que ele lhe dera.<br \/>\nApartamento de um engenheiro. E sabia que se a mulher aproveitava da situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um marido mo\u00e7o e cheio de futuro &#8211; deprezava-a tamb\u00e9m, com<br \/>\naqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem inquietou-se.<br \/>\nPorque n\u00e3o poderia continuar a lhe dar sen\u00e3o: mais sucesso.<br \/>\nE porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem.<br \/>\nAssim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava propriamente,<br \/>\ncomo se tivesse vivido sempre. As rela\u00e7\u00f5es entre ambos eram<br \/>\nt\u00e3o tranq\u00fcilas. \u00c0s vezes ele procurava humilh\u00e1-la,<br \/>\nentrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava<br \/>\nser vista nua. Por que precisava humilh\u00e1-la? no entanto ele bem sabia<br \/>\nque ela s\u00f3 seria de um homem enquanto fosse orgulhosa. Mas tinha se<br \/>\nhabituado a torna-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura, e j\u00e1<br \/>\nagora ela sorria &#8211; sem rancor? Talvez de tudo isso tivessem nascido suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\npac\u00edficas, e aquelas conversas em voz tranq\u00fcila que faziam a atmosfera<br \/>\ndo lar para a crian\u00e7a. Ou esta se irritava \u00e0s vezes? \u00c0s<br \/>\nvezes o menino se irritava, batia os p\u00e9s, gritava sob pesadelos. De<br \/>\nonde nascera esta criaturinha vibrante, sen\u00e3o do que sua mulher e ele<br \/>\nhaviam cortado da vida di\u00e1ria. Viviam t\u00e3o tranq\u00fcilos que,<br \/>\nse se aproximava um momento de alegria, eles se olhavam rapidamente, quase<br \/>\nir\u00f4nicos, e os olhos de ambos diziam: n\u00e3o vamos gast\u00e1-lo,<br \/>\nn\u00e3o vamos ridiculamente us\u00e1-lo. Como se tivessem v\u00edvido<br \/>\ndesde sempre.<\/p>\n<p>Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa de m\u00e3os dadas com<br \/>\no filho, e dissera-se: ela est\u00e1 tomando o momento de alegria &#8211; sozinha.<br \/>\nSentira-se frustrado porque h\u00e1 muito n\u00e3o poderia viver sen\u00e3o<br \/>\ncom ela. E ela conseguia tomar seus momentos &#8211; sozinha. Por exemplo, que fizera<br \/>\nsua mulher entre o trem e o apartamento? n\u00e3o que a suspeitasse mas<br \/>\ninquietava-se.<\/p>\n<p>A \u00faltima luz da tarde estava pesada e abatia-se com gravidade sobre<br \/>\nos objetos. As areias estalavam secas. O dia inteiro estivera sob essa amea\u00e7a<br \/>\nde irradia\u00e7\u00e3o. Que nesse momento, sem rebentar, embora, se ensurdecia<br \/>\ncada vez mais e zumbia no elevador ininterrupto do edif\u00edcio. Quando<br \/>\nCatarina voltasse eles jantariam afastando as mariposas. O menino gritaria<br \/>\nno primeiro sono, Catarina interromperia um momento o jantar&#8230; e o elevador<br \/>\nn\u00e3o pararia por um instante sequer?! N\u00e3o, o elevador n\u00e3o<br \/>\npararia um instante.<\/p>\n<p>\u2014 &#8220;Depois do jantar iremos ao cinema&#8221;, resolveu o homem.<br \/>\nPorque depois do cinema seria enfim noite, e este dia se quebraria com as<br \/>\nondas nos rochedos do Arpoador.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span> www.releituras.com<\/p>\n<h6>Os La\u00e7os de Fam\u00edlia (Resumo)<\/h6>\n<p>Publicado em 1960, La\u00e7os de fam\u00edlia \u00e9 um dos pontos<br \/>\nm\u00e1ximos da prosa de Clarice Lispector, talvez o supra-sumo de seus<br \/>\ncontos. As narrativas dessa obra usam constantemente o fluxo de consci\u00eancia,<br \/>\npor meio do qual conhecemos o universo mais \u00edntimo das personagens.<br \/>\n\u00c9 um expediente que autoriza sua literatura a ser chamada ora de psicol\u00f3gica,<br \/>\nora de introspectiva.<\/p>\n<p>Suas personagens s\u00e3o sempre flagradas no momento em que, a partir<br \/>\ndo cotidiano banal, alcan\u00e7am o lado misterioso, inusitado, diferente<br \/>\nda exist\u00eancia humana, mesmo que n\u00e3o consigam entend\u00ea-lo.<br \/>\nNo fim, acabamos nos deparando com hist\u00f3rias de exterioriza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo oculto, em que o protagonista termina buscando, nos elementos exteriores,<br \/>\no seu interior. Ou seja, a busca da identidade passa pela busca do outro,<br \/>\nseja humano, animal ou objeto.<\/p>\n<p>O primeiro conto \u00e9 Devaneio e embriaguez de uma rapariga, que chama<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o pelo virtuosismo da autora de reproduzir com fidelidade<br \/>\nas express\u00f5es t\u00edpicas de Portugal (lusitanismos) no fluxo de<br \/>\nconsci\u00eancia da protagonista, de fato portuguesa. Essa personagem est\u00e1<br \/>\nentediada com seu papel de esposa e m\u00e3e de fam\u00edlia, chegando<br \/>\na relaxar em suas tarefas de tal forma que, presa \u00e0 cama, o marido<br \/>\npensa que est\u00e1 adoentada. \u00c9 o t\u00e9dio que se instala.<\/p>\n<p>Uma mudan\u00e7a ocorre quando ela e o marido v\u00e3o jantar com um<br \/>\nrico negociante. A protagonista embebeda-se, o que lhe abre caminho para a<br \/>\nexplos\u00e3o de vida, longe da mesmice do cotidiano. Fica sempre na vertigem<br \/>\nda sa\u00edda de seus limites, algo at\u00e9 pr\u00f3ximo do vexame,<br \/>\nmas sente-se segura por ser amparada pela presen\u00e7a de seu marido.<\/p>\n<p>Sua felicidade chega a ser comprometida com a chegada no restaurante de uma<br \/>\nloira, dona de um padr\u00e3o de beleza mais em voga na sociedade. A humilha\u00e7\u00e3o<br \/>\nparece ficar consagrada pelo fato de a nova figura portar chap\u00e9u, ao<br \/>\ncontr\u00e1rio da portuguesa.<\/p>\n<p>O jogo \u00e9 virado quando a portuguesa percebe, ao olhar para a cintura<br \/>\nfina da mo\u00e7a, que esta estaria impossibilitada de parir. Conclui: bonita,<br \/>\nmas ineficiente no que seria sua fun\u00e7\u00e3o feminina. Isso talvez<br \/>\nexplique a compara\u00e7\u00e3o que a protagonista faz entre si e uma<br \/>\nvaca: leite, maternidade, vida.<\/p>\n<p>O resto do conto dedica-se ao triunfo da portuguesa, em meio a uma n\u00e1usea<br \/>\nprovocada pela bebedeira, que lhe faz sentir o corpo agigantado. Atinge, a\u00ed,<br \/>\nsua epifania. Sente-se bem. \u00c9 esposa e m\u00e3e de fam\u00edlia.<br \/>\nEm meio \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de que o leite est\u00e1 estourando<br \/>\nem seu seio, determina que arrumar\u00e1 sua casa, colocar\u00e1 seu lar<br \/>\nnos eixos. Assume majestosamente o seu papel feminino.<\/p>\n<p>O segundo conto \u00e9 Amor, cuja protagonista \u00e9 outra dona de casa,<br \/>\nque passa sua vida cuidando do lar e da fam\u00edlia, como uma maneira de<br \/>\nocupar o tempo e fugir de si mesma. Nota-se, pois, que n\u00e3o est\u00e1<br \/>\nfeliz.<br \/>\nNuma tarde, enquanto todos estavam ausentes, resolve fazer compras. No caminho<br \/>\nde volta, no bonde, uma cena inusitada ocorre: v\u00ea um cego mascando chiclete.<br \/>\nEsse ato maquinal feito na escurid\u00e3o talvez possa ser comparado ao<br \/>\nestilo de vida da protagonista. Com certeza, foi um detonador de desequil\u00edbrio<br \/>\nna exist\u00eancia insossa da personagem, o que fica simbolizado no tranco<br \/>\nque o bonde d\u00e1, provocando a queda de suas compras.<\/p>\n<p>T\u00e3o atrapalhada a personagem fica, que desce no ponto errado. Dirige-se<br \/>\nao Jardim Bot\u00e2nico. \u00c9 o momento e o lugar de sua epifania. Diante<br \/>\ndas \u00e1rvores, sua emo\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande. Esses<br \/>\nvegetais davam frutos, mas tamb\u00e9m eram sugados por parasitas, o que<br \/>\nlhe deu um inc\u00f4modo nojo (seria uma met\u00e1fora de sua condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nfeminina?).<\/p>\n<p>Perde tanto a no\u00e7\u00e3o do tempo que, quando se lembra de que tinha<br \/>\numa fam\u00edlia para cuidar, descobre que o parque estava fechado com ela<br \/>\ndentro. Enquanto se esfor\u00e7a para encontrar algu\u00e9m que lhe permitisse<br \/>\na sa\u00edda, realiza uma invers\u00e3o de valores. Se antes achava anormal,<br \/>\nloucura um cego mascando chiclete, agora \u00e9 o seu pr\u00f3prio estilo<br \/>\nde vida, de dona de casa, mergulhado em rotinas dom\u00e9sticas, que se<br \/>\ntorna uma loucura.<br \/>\nConsegue voltar, dedicando-se ao seu marido e aos seus filhos. Ama-os, mas<br \/>\nagora de uma forma incomodante; ama-os sentindo at\u00e9 nojo.<\/p>\n<p>O terceiro conto, Uma galinha, pode ser resumido na seguinte indaga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo narrador: &#8220;Que \u00e9 que havia nas suas v\u00edsceras que fazia<br \/>\ndela um ser?&#8221;. \u00c9 a hist\u00f3ria de uma galinha que foi comprada<br \/>\npara servir de refei\u00e7\u00e3o a uma fam\u00edlia, mas que consegue<br \/>\nfugir num v\u00f4o prodigioso e desajeitado. \u00c9 a luta por vida, mesmo<br \/>\nque numa exist\u00eancia da forma mais instintiva.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 perseguida pelo chefe da fam\u00edlia, numa p\u00e2ndega<br \/>\ncorrida pelos telhados da vizinhan\u00e7a, at\u00e9 ser agarrada. De volta<br \/>\nao lar opressor, no meio do estresse misteriosamente a ave bota um ovo. Mais<br \/>\numa vez a imagem da feminilidade associada \u00e0 maternidade. Tal ato mostra-se<br \/>\nt\u00e3o sagrado, pois que \u00e0 v\u00e9spera da morte ela d\u00e1<br \/>\nvida, que acaba sendo poupada, tornando-se o xod\u00f3 da casa.<\/p>\n<p>O tempo passa, e com ele talvez todo o aspecto divino de sua feminilidade.<br \/>\nUm dia acaba por servir de refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O quarto conto \u00e9 A imita\u00e7\u00e3o da rosa. Laura, sua protagonista<br \/>\n(outra dona de casa), \u00e9 extremamente perfeccionista. \u00c9 t\u00e3o<br \/>\nmet\u00f3dica que arruma a casa e a si muito tempo antes do compromisso<br \/>\nque tem \u00e0 noite, s\u00f3 para estar dispon\u00edvel para ajudar<br \/>\no seu marido a se trocar de roupa.<\/p>\n<p>O cl\u00edmax surge quando v\u00ea um buqu\u00ea de rosas, algo t\u00e3o<br \/>\ncomum, que pareceu naquele momento inusitado. \u00c9 uma met\u00e1fora<br \/>\nda feminilidade e da perfei\u00e7\u00e3o. Quase uma representa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Laura, que s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 completamente perfeita no seu<br \/>\npapel feminino porque n\u00e3o tem filhos.<\/p>\n<p>Sente a tenta\u00e7\u00e3o de mandar as flores para sua amiga Carlota,<br \/>\nque lhe \u00e9 exatamente o oposto no quesito perfei\u00e7\u00e3o. Mas<br \/>\npor que dar algo que \u00e9 o melhor de si? Por que n\u00e3o ficar elas?<br \/>\nN\u00e3o teria mais direito? At\u00e9 que conclui que seria coerente com<br \/>\nseu senso de perfei\u00e7\u00e3o envi\u00e1-las.<\/p>\n<p>O quinto conto, Feliz anivers\u00e1rio, \u00e9 sobre uma festa em comemora\u00e7\u00e3o<br \/>\naos 89 anos de D. Anita. Toda a fam\u00edlia re\u00fane-se, todos ali<br \/>\nsa\u00eddos, gerados da matriarca. No entanto, esses la\u00e7os de fam\u00edlia<br \/>\ns\u00e3o apenas formais, pois o grupo est\u00e1 presente apenas por obriga\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 mais emotividade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 velha,<br \/>\nmuito menos entre si. Tudo \u00e9 artificial, for\u00e7ado. D. Anita percebe<br \/>\nque todos ali lhe s\u00e3o alheios, n\u00e3o parecem terem sa\u00eddo<br \/>\ndela. \u00c9 quando sente nojo. Em meio \u00e0 festinha, cospe. Um ato<br \/>\nescandaloso, mas que acaba sendo desculpado em nome da idade da senhora.<\/p>\n<p>Nesse momento D. Anita triunfa sobre sua fam\u00edlia. Um dos seus filhos,<br \/>\nempolgado em fazer discursos, no final da festa despede-se com um &#8220;At\u00e9<br \/>\no ano que vem&#8221;. Era um indicativo de que, apesar da mediocridade de sua<br \/>\nfam\u00edlia, D. Anita os superava, estava acima deles.<\/p>\n<p>A menor mulher do mundo, o sexto conto, \u00e9 carregado de aspectos l\u00edricos<br \/>\ne simb\u00f3licos. Narra a descoberta da menor integrante de uma isolada<br \/>\ne fr\u00e1gil tribo africana de pigmeus, os Likoualas. \u00c9 o elemento<br \/>\nmais p\u00e1ria dos p\u00e1rias. Assemelha-se \u00e0 galinha do conto<br \/>\nUma galinha, ou a Macab\u00e9a, de A hora da estrela. E o mais inusitado<br \/>\n\u00e9 que Pequena Flor (este \u00e9 o nome que ela recebeu) est\u00e1<br \/>\ngr\u00e1vida. Carrega dentro de si o mais precioso segredo da feminilidade:<br \/>\na maternidade.<\/p>\n<p>A not\u00edcia da descoberta desse min\u00fasculo ser humano espalha-se<br \/>\npelos jornais, causando as mais diferentes rea\u00e7\u00f5es em seus leitores,<br \/>\ndesde a aliena\u00e7\u00e3o, at\u00e9 o assombro, passando pelo lirismo,<br \/>\nrevolta e encanto. Mas destaca-se o mal-estar do cientista-explorador que<br \/>\na descobriu, pois sabe que o menor dos seres carrega uma vida, e a sagacidade<br \/>\nde uma senhora, que encerra o conto quando fecha o jornal que estava lendo<br \/>\n\u00e9 diz: &#8220;Deus sabe o que faz&#8221;. Dentro de uma cena banal, o<br \/>\nmist\u00e9rio da vida.<\/p>\n<p>O s\u00e9timo conto \u00e9 O jantar. \u00c9 o primeiro a apresentar<br \/>\no foco narrativo centrado numa figura masculina, que se p\u00f5e a observar<br \/>\ncom detalhismo incr\u00edvel um outro homem jantando. Na realidade, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 uma simples janta, mas um espet\u00e1culo do vigor primitivo diante<br \/>\ndo mais primordial ato da exist\u00eancia: alimentar-se. A met\u00e1fora<br \/>\npara isso est\u00e1 na m\u00e3o pesada e cabeluda do faminto manipulando<br \/>\nos diferentes manjares.<\/p>\n<p>Todo esse show esfria quando o degustador pede a sobremesa, que \u00e9<br \/>\nclassificada como med\u00edocre em compara\u00e7\u00e3o a toda a encena\u00e7\u00e3o<br \/>\nanterior, e principalmente quando p\u00f5e \u00f3culos para pagar a conta.<br \/>\nNesse momento o observado &#8211; talvez longe do aspecto mais primitivo &#8211; parece<br \/>\nter envelhecido.<\/p>\n<p>O oitavo conto, Preciosidade, tematiza delicadamente a inicia\u00e7\u00e3o<br \/>\nfeminina. Sua protagonista \u00e9 uma menina que vivia a constante tens\u00e3o<br \/>\nde sempre se guardar. Sabia que possu\u00eda uma preciosidade, pois \u00e9<br \/>\numa mulher, mas nem sequer pensava no potencial que ela permitia. Temia a<br \/>\npossibilidade dos homens por onde ela passava fazerem ou mesmo falarem alguma<br \/>\ncoisa proibida. Vivia, pois, na tens\u00e3o da possibilidade de um ataque<br \/>\n\u00e0 sua feminilidade.<\/p>\n<p>Flagramos a menina no in\u00edcio de um dia, preparando-se para ir \u00e0<br \/>\nescola. Notamos o seu car\u00e1ter desleixado, pois, como tem de sair cedinho,<br \/>\nningu\u00e9m a v\u00ea e ningu\u00e9m a fiscaliza. Por isso, n\u00e3o<br \/>\ntem que se preocupar em tomar banho.<\/p>\n<p>Uma reviravolta acontece. Na escurid\u00e3o do caminho, perde sua preciosidade:<br \/>\n\u00e9 tocada. A cena transborda um mutismo tenso, n\u00e3o s\u00f3<br \/>\nda v\u00edtima, mas tamb\u00e9m dos agressores. Tanto que estes fogem,<br \/>\ndeixando-a por muito tempo paralisada, sem no\u00e7\u00e3o do tempo. Quando<br \/>\nvolta a si, retoma seu caminho para a escola, chegando na terceira aula.<\/p>\n<p>O fato de ter sido tocada indica ter sido desejada. Perdeu uma preciosidade,<br \/>\nque de certa forma era uma virgindade, mas acaba ganhando outra. Nasce mulher,<br \/>\ncom desejos. Por isso pede a seus pais sapatos novos. Quer ser bonita, quer<br \/>\naproveitar a vida, quer ser amada.<\/p>\n<p>O nono conto, Os la\u00e7os de fam\u00edlia, inicia-se com a despedida<br \/>\nde Severina, que havia passado alguns dias na casa de sua filha, Catarina.<br \/>\nEnxerga-se aqui a riqueza das rela\u00e7\u00f5es familiares, apesar das<br \/>\ncomuns faltas de jeito, dos interditos, do sil\u00eancio. O marido de Catarina,<br \/>\nengenheiro (t\u00edpico representante do pragm\u00e1tico, do certinho,<br \/>\ndo ajustado), n\u00e3o se relacionava bem com a sogra, o que parecia ser<br \/>\nrec\u00edproco, mesmo que os conflitos se mostrassem surdos. No entanto,<br \/>\nna despedida, apresenta-se de ambos os lados uma cordialidade surpreendente.<\/p>\n<p>Mais interessante \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filha.<br \/>\nQuerem se despedir, mas n\u00e3o conseguem usar as palavras na adequada<br \/>\nsinceridade. \u00c9 dif\u00edcil para Catarina dizer para a m\u00e3e<br \/>\nque a ama. A mesma dificuldade deve estar do lado de Severina. Dessa forma,<br \/>\ntudo cai na formalidade dos la\u00e7os de fam\u00edlia, escondendo outros<br \/>\nla\u00e7os mais fortes.<\/p>\n<p>Voltando para casa, depois da partida da m\u00e3e, Catarina pensa em seu<br \/>\nfilho, qualificado por Severina como uma crian\u00e7a nervosa. Encontra-o<br \/>\nensimesmado, introspectivo, absorto. D\u00e1 trabalho libert\u00e1-lo<br \/>\nde seu mundo, chamar a sua aten\u00e7\u00e3o. Mas consegue. Resolve sair<br \/>\ncom ele para um passeio, o que deixa o seu marido apreensivo. Misteriosamente<br \/>\nele sabe da explos\u00e3o de sentimento, de amor que a esposa est\u00e1<br \/>\ntendo e que parece querer transferi-lo para o seu filho. Talvez por isso ele<br \/>\nexclame: &#8220;Catarina, esta crian\u00e7a ainda \u00e9 inocente!&#8221;.<br \/>\nMas sua frase cai no vazio. Est\u00e1 sozinho. Da janela do seu apartamento,<br \/>\nv\u00ea sua mulher e seu filho passeando. Intui o la\u00e7o misterioso<br \/>\nque h\u00e1 entre eles. Sente-se mais solit\u00e1rio, por estar exclu\u00eddo<br \/>\ndessa liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O d\u00e9cimo conto, Come\u00e7os de uma fortuna, \u00e9 diferente<br \/>\ndo conjunto, pois apresenta uma personagem masculina, um adolescente. Trata-se<br \/>\nde Artur, algu\u00e9m que luta por aten\u00e7\u00e3o, o que o faz adorar<br \/>\ntrocas. Como numa psican\u00e1lise, o narrador entra na g\u00eanese desse<br \/>\nsentimento. Quando beb\u00ea, o menino adorava que as pessoas o abra\u00e7assem,<br \/>\no acariciassem, apertassem sua bochecha. Mas estranhava que logo se cansavam<br \/>\ne o largavam, t\u00e3o cheio de vida, t\u00e3o carente, t\u00e3o sedento<br \/>\npor mais aten\u00e7\u00e3o. Paravam, saciavam-se, mas ele n\u00e3o,<br \/>\nsempre ficando no v\u00e1cuo.<\/p>\n<p>A d\u00favida \u00e9 se as rela\u00e7\u00f5es baseadas na troca de<br \/>\nfato s\u00e3o aut\u00eanticas. Parece ser esse o problema que atormenta<br \/>\no garoto. Quer ir ao cinema com uma menina, mas n\u00e3o tem dinheiro para<br \/>\ntanto. Pede dinheiro para os pais (belamente duros e afetivos), no que \u00e9<br \/>\nnegado. H\u00e1 a possibilidade, que se concretiza, de conseguir emprestado<br \/>\ncom um amigo, o que significa contrair d\u00edvidas. E n\u00e3o p\u00e1ra<br \/>\nde pensar em fazer fortuna, al\u00e9m de ficar na d\u00favida: n\u00e3o<br \/>\nsabe se foi explorado pela menina. Riqueza, d\u00edvida, explora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntroca, afeto, todos s\u00e3o elementos que se misturam na mente de um adolescente<br \/>\nque ainda \u00e9 o beb\u00ea carente pedindo mais aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmais carinho.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo conto \u00e9 Mist\u00e9rio em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o,<br \/>\ndenso de simbologia. Em uma noite tranq\u00fcila de maio, uma fam\u00edlia<br \/>\ncomposta de av\u00f3, m\u00e3e, pai, crian\u00e7as e uma filha aproveitam<br \/>\na abastan\u00e7a a que atingiram. A \u00fanica insatisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando de madrugada todos foram dormir, surgem tr\u00eas homens fantasiados<br \/>\npara um baile. Um galo, um touro (o mais gordo) e um cavaleiro. Passam diante<br \/>\nda casa abastada e admiram o jardim. Invadem-no, para colher um jacinto, curiosamente<br \/>\na flor que chega a representar os prazeres da exist\u00eancia. A id\u00e9ia<br \/>\nde equil\u00edbrio, comodismo, abastan\u00e7a, \u00e9 oposta \u00e0<br \/>\nde intensidade da vida. Viver \u00e9 de fato um desequil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Mas a flor n\u00e3o chega a ser de fato colhida. Fica pendurada no ramo<br \/>\nquebrado. \u00c9 que no momento em que ia ser colhida, o homem-touro nota<br \/>\nque est\u00e3o sendo observados, justo pela mo\u00e7a.<\/p>\n<p>O lar desequilibra-se. Terror. Medo. Todos acordam, mas n\u00e3o conseguem<br \/>\nver o motivo do desassossego da mo\u00e7a &#8211; os rapazes haviam fugido, entregando-se<br \/>\ndesajeitadamente \u00e0 festa que os esperava. A ex-abastada fam\u00edlia<br \/>\nchega a duvidar que algu\u00e9m tivesse estado l\u00e1, mas obt\u00e9m<br \/>\na certeza quando v\u00ea o talo quebrado da flor de jacinto. A partir desse<br \/>\nmomento, todos se esfor\u00e7am para reconquistar o equil\u00edbrio em<br \/>\nsuas vidas. Menos a mo\u00e7a, agora dotada de fios de cabelo branco.<\/p>\n<p>O pen\u00faltimo conto \u00e9 O crime do professor de Matem\u00e1tica,<br \/>\ndotado de elementos religiosos como missa, pecado, ju\u00edzo final. Seu<br \/>\nprotagonista, um professor de Matem\u00e1tica (s\u00edmbolo da frieza,<br \/>\nprecis\u00e3o, objetividade) vai at\u00e9 a parte mais alta da cidade<br \/>\nenterrar um cachorro. \u00c9 uma forma de compensar o seu c\u00e3o de<br \/>\nestima\u00e7\u00e3o que havia abandonado. O que o animal havia feito de<br \/>\nerrado? Nada. Apenas tinha feito do pedagogo o homem que seria seu dono. Ser<br \/>\nhumano era uma tarefa que incomodava, assustava o mestre, principalmente quando<br \/>\no bicho encarava, n\u00e3o cobrando nada, apenas humanidade.<\/p>\n<p>No final, o homem desenterra o c\u00e3o e se esquece do crime que havia<br \/>\ncometido (abandonar o c\u00e3o ou n\u00e3o ter coragem de ser humano?).<br \/>\nDesce a montanha (como se estivesse em posi\u00e7\u00e3o mais elevada,<br \/>\nmais consciente de suas falhas e ca\u00edsse na aliena\u00e7\u00e3o?)<br \/>\ne volta para o &#8220;seio de sua fam\u00edlia&#8221;. Mergulha, provavelmente,<br \/>\nna apatia de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O \u00faltimo conto \u00e9 O b\u00fafalo. Nele a protagonista, vinda<br \/>\nde um fracasso amoroso de n\u00e3o ser correspondida, quer odiar. \u00c9<br \/>\nprovavelmente um mecanismo de defesa, de acordo com uma frase que se fixa<br \/>\nem sua mente: &#8220;Onde aprender a odiar para n\u00e3o morrer de amor?&#8221;<br \/>\nDirige-se, portanto, ao zool\u00f3gico, na esperan\u00e7a de que, em contato<br \/>\ncom formas t\u00e3o primitivas, conseguisse t\u00e3o destrutivo sentimento.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o encontra esse sentimento, muito menos aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSua experi\u00eancia parece fadada ao fracasso. At\u00e9 que passeia na<br \/>\nmontanha russa. Sentir-se jogada em todas as dire\u00e7\u00f5es \u00e9<br \/>\num solavanco semelhante ao vivenciado pela personagem de Amor. \u00c9 um<br \/>\ndesequil\u00edbrio que abre caminho para experi\u00eancias superiores.<br \/>\nAt\u00e9 que se depara com o torso volumoso de um b\u00fafalo, algo pr\u00f3ximo<br \/>\nda simbologia sexual masculina. A protagonista parece desej\u00e1-lo, mas<br \/>\nmomentaneamente cai na mesma armadilha do amar: \u00e9 ignorada, pois o<br \/>\nanimal lhe d\u00e1 as costas.<\/p>\n<p>No entanto, em pouco tempo, como que instintiva e intuitivamente, o animal<br \/>\nsente a presen\u00e7a da mulher. Aproxima-se dela e a encara. \u00c9 um<br \/>\ncontato fort\u00edssimo, em que ela sente a explos\u00e3o de algo como<br \/>\num misto de \u00f3dio e amor, da forma mais primitiva e, talvez por isso,<br \/>\nmais intensa. \u00c9 a sua epifania, que se assemelha a um \u00eaxtase<br \/>\nsexual. O conto termina com o desmaio da protagonista, que tem em seus \u00faltimos<br \/>\nmomentos de consci\u00eancia as id\u00e9ias do c\u00e9u e do b\u00fafalo<br \/>\nmisturando-se.<\/p>\n<h2><a name=\"20\"><\/a>Preciosidade<\/h2>\n<p>&#8220;De manh\u00e3 cedo era sempre a mesma coisa renovada: acordar. O<br \/>\nque era vagaroso, desdobrado, vasto. Vastamente ela abria os olhos.<\/p>\n<p>Tinha quinze anos e n\u00e3o era bonita. Mas por dentro da magreza, a vastid\u00e3o<br \/>\nquase majestosa em que se movia como dentro de uma medita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE dentro da nebulosidade algo precioso. Que n\u00e3o se espregui\u00e7ava,<br \/>\nn\u00e3o se comprometia, n\u00e3o se contaminava. Que era intenso como<br \/>\numa j\u00f3ia. Ela.<\/p>\n<p>Acordava antes de todos, pois para ir \u00e0 escola teria que pegar um<br \/>\n\u00f4nibus e um bonde, o que lhe tomaria uma hora. O que lhe daria uma hora.<br \/>\nDe devaneio agudo como um crime. O vento da manh\u00e3 violentando a janela<br \/>\ne o rosto at\u00e9 que os l\u00e1bios ficavam duros, gelados. Ent\u00e3o<br \/>\nela sorria. Como se sorrir fosse em si um objetivo.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"21\"><\/a>Uma Galinha<\/h2>\n<p>Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque n\u00e3o passava de nove<br \/>\nhoras da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Parecia calma. Desde s\u00e1bado encolhera-se num canto da cozinha. N\u00e3o<br \/>\nolhava para ningu\u00e9m, ningu\u00e9m olhava para ela. Mesmo quando a<br \/>\nescolheram, apalpando sua intimidade com indiferen\u00e7a, n\u00e3o souberam<br \/>\ndizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.<\/p>\n<p>Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto v\u00f4o, inchar<br \/>\no peito e, em dois ou tr\u00eas lances, alcan\u00e7ar a murada do terra\u00e7o.<br \/>\nUm instante ainda vacilou \u2014 o tempo da cozinheira dar um grito \u2014<br \/>\ne em breve estava no terra\u00e7o do vizinho, de onde, em outro v\u00f4o<br \/>\ndesajeitado, alcan\u00e7ou um telhado. L\u00e1 ficou em adorno deslocado,<br \/>\nhesitando ora num, ora noutro p\u00e9. A fam\u00edlia foi chamada com<br \/>\nurg\u00eancia e consternada viu o almo\u00e7o junto de uma chamin\u00e9.<br \/>\nO dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente<br \/>\nalgum esporte e de almo\u00e7ar, vestiu radiante um cal\u00e7\u00e3o<br \/>\nde banho e resolveu seguir o itiner\u00e1rio da galinha: em pulos cautelosos<br \/>\nalcan\u00e7ou o telhado onde esta, hesitante e tr\u00eamula, escolhia com<br \/>\nurg\u00eancia outro rumo. A persegui\u00e7\u00e3o tornou-se mais intensa.<br \/>\nDe telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteir\u00e3o da rua. Pouco<br \/>\nafeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por<br \/>\nsi mesma os caminhos a tomar, sem nenhum aux\u00edlio de sua ra\u00e7a.<br \/>\nO rapaz, por\u00e9m, era um ca\u00e7ador adormecido. E por mais \u00ednfima<br \/>\nque fosse a presa o grito de conquista havia soado.<\/p>\n<p>Sozinha no mundo, sem pai nem m\u00e3e, ela corria, arfava, muda, concentrada.<br \/>\n\u00c0s vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto<br \/>\no rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento.<br \/>\nE ent\u00e3o parecia t\u00e3o livre.<\/p>\n<p>Est\u00fapida, t\u00edmida e livre. N\u00e3o vitoriosa como seria um<br \/>\ngalo em fuga. Que \u00e9 que havia nas suas v\u00edsceras que fazia dela<br \/>\num ser? A galinha \u00e9 um ser. \u00c9 verdade que n\u00e3o se pode\u00adria<br \/>\ncontar com ela para nada. Nem ela pr\u00f3pria contava consigo, como o galo<br \/>\ncr\u00ea na sua crista. Sua \u00fanica vantagem \u00e9 que havia tantas<br \/>\ngalinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra t\u00e3o igual<br \/>\ncomo se fora a mesma.<\/p>\n<p>Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcan\u00e7ou-a.<br \/>\nEntre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma<br \/>\nasa atrav\u00e9s das telhas e pousada no ch\u00e3o da cozinha com certa<br \/>\nviol\u00eancia. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que aconteceu. De pura afoba\u00e7\u00e3o a galinha p\u00f4s<br \/>\num ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida<br \/>\nque fora para a maternidade, pare\u00adcia uma velha m\u00e3e habituada.<br \/>\nSentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando<br \/>\nos olhos. Seu cora\u00e7\u00e3o, t\u00e3o pequeno num prato, solevava<br \/>\ne abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo.<br \/>\nS\u00f3 a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal por\u00e9m<br \/>\nconseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do ch\u00e3o e<br \/>\nsaiu aos gritos:<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e, mam\u00e3e, n\u00e3o mate mais a galinha, ela p\u00f4s<br \/>\num ovo! ela quer o nosso bem!<\/p>\n<p>Todos correram de novo \u00e0 cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente.<br \/>\nEsquentando seu filho, esta n\u00e3o era nem suave nem arisca, nem alegre,<br \/>\nnem triste, n\u00e3o era nada, era uma galinha. O que n\u00e3o sugeria<br \/>\nnenhum sentimento especial. O pai, a m\u00e3e e a filha olhavam j\u00e1<br \/>\nh\u00e1 algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ningu\u00e9m<br \/>\nacariciou uma cabe\u00e7a de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa<br \/>\nbrusquid\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Se voc\u00ea mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha<br \/>\nna minha vida!<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m! jurou a menina com ardor. A m\u00e3e, cansada,<br \/>\ndeu de ombros.<\/p>\n<p>Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com<br \/>\na fam\u00edlia. A menina, de volta do col\u00e9gio, jogava a pasta longe<br \/>\nsem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se<br \/>\nlembrava: &#8220;E dizer que a obriguei a correr naquele estado!&#8221; A galinha<br \/>\ntornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a<br \/>\ncozinha e o terra\u00e7o dos fundos, usando suas duas capacidades: a de<br \/>\napatia e a do sobressalto.<\/p>\n<p>Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam t\u00ea-la esquecido,<br \/>\nenchia-se de uma pequena coragem, resqu\u00edcios da grande fuga \u2014<br \/>\ne circulava pelo ladrilho, o corpo avan\u00e7ando atr\u00e1s da cabe\u00e7a,<br \/>\npausado como num campo, embora a pequena cabe\u00e7a a tra\u00edsse: mexendo-se<br \/>\nr\u00e1pida e vibr\u00e1til, com o velho susto de sua esp\u00e9cie j\u00e1<br \/>\nmecanizado.<\/p>\n<p>Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se<br \/>\nrecortara contra o ar \u00e0 beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses<br \/>\nmomentos enchia os pulm\u00f5es com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado<br \/>\n\u00e0s f\u00eameas cantar, ela n\u00e3o cantaria mas ficaria muito mais<br \/>\ncontente. Embora nem nesses instantes a express\u00e3o de sua vazia cabe\u00e7a<br \/>\nse alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu \u00e0 luz ou bicando milho<br \/>\n\u2014 era uma cabe\u00e7a de galinha, a mesma que fora desenhada no come\u00e7o<br \/>\ndos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.<\/p>\n<h2><a name=\"22\"><\/a>A Explica\u00e7\u00e3o In\u00fatil<\/h2>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil lembrar-me de como e por que escrevi<br \/>\num conto ou um romance. Depois que se despegam de mim, tamb\u00e9m eu os<br \/>\nestranho. N\u00e3o se trata de &#8220;transe&#8221;, mas a concentra\u00e7\u00e3o<br \/>\nno escrever parece tirar a consci\u00eancia do que n\u00e3o tenha sido<br \/>\no escrever propriamente dito. Alguma coisa, por\u00e9m, posso tentar reconstituir,<br \/>\nse \u00e9 que importa, e se responde ao que me foi perguntado.<\/p>\n<p>O que me lembro do conto &#8220;Feliz Anivers\u00e1rio&#8221;, por exemplo,<br \/>\n\u00e9 da impress\u00e3o de uma festa que n\u00e3o foi diferente de<br \/>\noutras de anivers\u00e1rio; mas aquele dia era um dia pesado de ver\u00e3o,<br \/>\ne acho at\u00e9 que nem pus a id\u00e9ia de ver\u00e3o no conto. Tive<br \/>\numa &#8220;impress\u00e3o&#8221;, de onde resultaram algumas linhas vagas,<br \/>\nanotadas apenas pelo gosto e necessidade de aprofundar o que se sente.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"23\"><\/a>A Mudez Cantada, a Mudez Dan\u00e7ada<\/h2>\n<p>&#8220;Quase n\u00e3o era canto, no sentido em que este \u00e9 aproveitamento<br \/>\nmusical da voz. Quase n\u00e3o era voz, no sentido em que esta tende a dizer<br \/>\npalavras. \u00c9 antes da voz ainda, \u00e9 f\u00f4lego. Uma palavra<br \/>\nou outra \u00e0s vezes escapava, revelando de que era feita aquela mudez<br \/>\ncantada: de hist\u00f3ria de viver, amar, e morrer. Essas tr\u00eas palavras<br \/>\nn\u00e3o ditas eram interrompidas por lamentos e modula\u00e7\u00f5es.<br \/>\nModula\u00e7\u00f5es de f\u00f4lego, primeiro est\u00e1gio de voz que<br \/>\ncapta o sofrimento no seu primeiro est\u00e1gio de gemido, e capta a alegria<br \/>\nno seu primeiro est\u00e1gio de gemido. E de grito. E mais outro grito,<br \/>\neste de alegria por se ter gritado. Em torno a assist\u00eancia aconchegava-se<br \/>\nescura e suja. Depois de uma das modula\u00e7\u00f5es que de t\u00e3o<br \/>\nprolongada morre em suspiro, o grupo esgotado como cantor murmura um &#8220;ol\u00e9&#8221;<br \/>\nem am\u00e9m, \u00faltima brasa.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m o canto impaciente que a voz apenas n\u00e3o<br \/>\nexprime: ent\u00e3o um sapateado nervoso e firme o entrecorta, o &#8220;ol\u00e9&#8221;<br \/>\nque interrompe a cada instante n\u00e3o \u00e9 mais am\u00e9m, \u00e9<br \/>\nincitamento, \u00e9 touro negro.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"24\"><\/a>A Vingan\u00e7a e a Reconcilia\u00e7\u00e3o Penosa<\/h2>\n<p>&#8220;O forasteiro, tendo diante dos olhos essa beleza perfeita, n\u00e3o<br \/>\nsaber\u00e1 talvez elucidar o seu mist\u00e9rio: a cena su\u00ed\u00e7a<br \/>\ntem um excesso de evid\u00eancia de beleza. Ap\u00f3s a primeira sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde facilidade, segue-se a id\u00e9ia do indevass\u00e1vel. Cart\u00e3o-postal,<br \/>\nsim. Mas aos poucos a imobilidade e o equil\u00edbrio come\u00e7am a inquietar.<\/p>\n<p>Olhe-se para as montanhas ao longe, e \u00e9 o tonto e tranq\u00fcilo espa\u00e7o.<br \/>\nMas na pequena cidade alta, de casas e igrejas apertadas por muros que j\u00e1<br \/>\ntombaram, h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o \u00edntima e severa.<br \/>\nNa cidade de torres, becos, ogivas e sil\u00eancio, o Dem\u00f4nio ter\u00e1<br \/>\nsido expulso para al\u00e9m dos Alpes. Sem o Dem\u00f4nio, restou uma paz<br \/>\nperturbadora, marcas de uma vida que se formou com dureza, o punho da Reforma,<br \/>\nsinais de conquista lenta, aperfei\u00e7oamento obstinado e penoso.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"25\"><\/a>Berna<\/h2>\n<p>&#8220;O forasteiro, tendo diante dos olhos essa beleza perfeita, n\u00e3o<br \/>\nsaber\u00e1 talvez elucidar o seu mist\u00e9rio: a cena su\u00ed\u00e7a<br \/>\ntem um excesso de evid\u00eancia de beleza. Ap\u00f3s a primeira sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde facilidade, segue-se a id\u00e9ia do indevass\u00e1vel. Cart\u00e3o-postal,<br \/>\nsim. Mas aos poucos a imobilidade e o equil\u00edbrio come\u00e7am a inquietar.<\/p>\n<p>Olhe-se para as montanhas ao longe, e \u00e9 o tonto e tranq\u00fcilo espa\u00e7o.<br \/>\nMas na pequena cidade alta, de casas e igrejas apertadas por muros que j\u00e1<br \/>\ntombaram, h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o \u00edntima e severa.<br \/>\nNa cidade de torres, becos, ogivas e sil\u00eancio, o Dem\u00f4nio ter\u00e1<br \/>\nsido expulso para al\u00e9m dos Alpes. Sem o Dem\u00f4nio, restou uma paz<br \/>\nperturbadora, marcas de uma vida que se formou com dureza, o punho da Reforma,<br \/>\nsinais de conquista lenta, aperfei\u00e7oamento obstinado e penoso.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"27\"><\/a>Desenhando um Menino<\/h2>\n<p>&#8220;Como conhecer jamais o menino? Para conhec\u00ea-lo tenho que esperar<br \/>\nque ele se deteriore, e s\u00f3 ent\u00e3o ele estar\u00e1 ao meu alcance.<br \/>\nL\u00e1 est\u00e1 ele, um ponto no infinito. Ningu\u00e9m conhecer\u00e1<br \/>\no hoje dele. Nem ele pr\u00f3prio. Quanto a mim, olho, e \u00e9 in\u00fatil:<br \/>\nn\u00e3o consigo entender coisa apenas atual. Totalmente atual. O que conhe\u00e7o<br \/>\ndele \u00e9 a sua situa\u00e7\u00e3o: o menino \u00e9 aquele em quem<br \/>\nacabaram de nascer os primeiros dentes, e \u00e9 o mesmo que ser\u00e1<br \/>\nm\u00e9dico ou carpinteiro. Enquanto isso &#8211; l\u00e1 est\u00e1 ele sentado<br \/>\nno ch\u00e3o, de um real que tenho de chamar de vegetativo para poder entender.<br \/>\nTinha mil desses meninos sentados no ch\u00e3o, teriam eles a chance de<br \/>\nconstruir um mundo outro, um que levasse em conta a mem\u00f3ria da atualidade<br \/>\nabsoluta a que um dia j\u00e1 pertencemos? A uni\u00e3o faria a for\u00e7a.<br \/>\nL\u00e1 est\u00e1 ele sentado, iniciando tudo de novo, mas, para a pr\u00f3pria<br \/>\nprote\u00e7\u00e3o futura dele, sem nenhuma chance verdadeira de realmente<br \/>\niniciar.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"28\"><\/a>Discurso de Inaugura\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>&#8220;&#8230;o futuro que estamos aqui inaugurando \u00e9 uma linha met\u00e1lica.<br \/>\n\u00c9 alguma coisa que de prop\u00f3sito \u00e9 destitu\u00edda.<br \/>\nDe tudo o que vivemos s\u00f3 ficar\u00e1 esta linha. Ela \u00e9 o resultado<br \/>\ndo c\u00e1lculo matem\u00e1tico da inseguran\u00e7a: quanto mais depurada,<br \/>\nmenos risco ela correr\u00e1, a linha met\u00e1lica n\u00e3o corre o<br \/>\nrisco da linha de carne. S\u00f3 a linha met\u00e1lica n\u00e3o dar\u00e1<br \/>\naos abutres do que comer. A nossa linha met\u00e1lica n\u00e3o tem possibilidade<br \/>\nde putrefa\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma linha que se garante eterna. N\u00f3s,<br \/>\no que aqui estamos neste momento, a iniciamos com o prop\u00f3sito de que<br \/>\nseja eterna. Queremos uma linha met\u00e1lica porque do princ\u00edpio<br \/>\nao fim ela \u00e9 do mesmo metal. N\u00e3o sabemos com muita certeza se<br \/>\nessa linha ser\u00e1 forte bastante para salvar, mas \u00e9 forte para<br \/>\ndurar. Para durar por si s\u00f3, como cria\u00e7\u00e3o nossa. Ainda<br \/>\nn\u00e3o se apurou se a linha vergar\u00e1 ao peso da primeira alma que<br \/>\nnela se pendure, como sobre os abismos do inferno.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"29\"><\/a>Escrevendo<\/h2>\n<p>&#8220;N\u00e3o me lembro mais onde foi o come\u00e7o, foi por assim dizer<br \/>\nescrito todo ao mesmo tempo. Tudo estava ali, ou devia estar, como no espa\u00e7o-temporal<br \/>\nde um piano aberto, nas teclas simult\u00e2neas do piano. Escrevi procurando<br \/>\ncom muita aten\u00e7\u00e3o o que se estava organizando em mim e que s\u00f3<br \/>\ndepois da quinta paciente c\u00f3pia \u00e9 que passei a perceber. Meu<br \/>\nreceio era de que, por impaci\u00eancia com a lentid\u00e3o que tenho em<br \/>\nme compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido. Tinha a<br \/>\nimpress\u00e3o de que, mais tempo eu me desse, e a hist\u00f3ria diria<br \/>\nsem convuls\u00e3o o que ela precisava dizer. Cada vez mais acho tudo uma<br \/>\nquest\u00e3o de paci\u00eancia, de amor criando paci\u00eancia, de paci\u00eancia<br \/>\ncriando amor.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"30\"><\/a>Lembran\u00e7a de um Ver\u00e3o Dif\u00edcil<\/h2>\n<p>&#8220;A ins\u00f4nia levitava a cidade mal iluminada. N\u00e3o havia porta<br \/>\nfechada e toda janela tinha sua quente luz. Em torno dos lampi\u00f5es as<br \/>\nlarvas voavam. \u00c0 margem do rio as mesas, as poucas conversas cansadas,<br \/>\ncrian\u00e7as adormecidas no colo. A desperta leveza da noite n\u00e3o<br \/>\nnos deixava ir dormir; como andarilhos, devagar and\u00e1vamos. Faz\u00edamos<br \/>\nparte do vel\u00f3rio amarelado dos lampi\u00f5es e das larvas aladas,<br \/>\ne de redondas alturas suspensas, e da vig\u00edlia de toda uma ab\u00f3bada<br \/>\nceleste. Faz\u00edamos parte da grande espera que, por si mesma e sem si<br \/>\nmesma, \u00e9 que o universo inteiro faz. Desde as outras enormes larvas<br \/>\nque haviam outrora bebido lentamente \u00e1gua daquele rio.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"31\"><\/a>Mal-estar de um anjo<\/h2>\n<p>&#8220;Ao sair do edif\u00edcio, o inesperado me tomou. O que antes fora<br \/>\napenas chuva na vidra\u00e7a, abafado de cortina e aconchego era na rua<br \/>\na tempestade e a noite. Tudo isso se fizera enquanto eu descera pelo elevador?<br \/>\nDil\u00favio carioca, sem ref\u00fagio poss\u00edvel, Copacabana com<br \/>\n\u00e1gua entrando pelas lojas rasas e fechadas, \u00e1guas grossas de<br \/>\nlama at\u00e9 o meio da perna, o p\u00e9 tateando para encontrar cal\u00e7adas<br \/>\ninvis\u00edveis. At\u00e9 movimento de mar\u00e9 j\u00e1 tinha, onde<br \/>\nse juntasse bastante de \u00e1gua come\u00e7ava a atuar a secreta influ\u00eancia<br \/>\nda Lua: j\u00e1 havia fluxo e refluxo de mar\u00e9. E o pior era o temor<br \/>\nancestral gravado na carne: estou sem abrigo, o mundo me expulsou para o pr\u00f3prio<br \/>\nmundo, e eu que s\u00f3 caibo numa casa nunca mais terei casa na vida, esse<br \/>\nvestido ensopado sou eu, os cabelos escorridos nunca secar\u00e3o, e sei<br \/>\nque n\u00e3o serei dos escolhidos para a Arca, pois j\u00e1 selecionaram<br \/>\no melhor casal da minha esp\u00e9cie.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"32\"><\/a>Mineirinho<\/h2>\n<p>&#8220;\u00c9, suponho que \u00e9 em mim, como um dos representantes de<br \/>\nn\u00f3s, que devo procurar por que est\u00e1 doendo a morte de um fac\u00ednora.<br \/>\nE por que \u00e9 que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho<br \/>\ndo que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o<br \/>\nassunto. Vi no seu rosto a pequena convuls\u00e3o de um conflito, o mal-estar<br \/>\nde n\u00e3o entender o que se sente, o de precisar trair sensa\u00e7\u00f5es<br \/>\ncontradit\u00f3rias por n\u00e3o saber como harmoniz\u00e1-las. Fatos<br \/>\nirredut\u00edveis, mas revolta irredut\u00edvel tamb\u00e9m, a violenta<br \/>\ncompaix\u00e3o da revolta. Sentir-se dividido na pr\u00f3pria perplexidade<br \/>\ndiante de n\u00e3o poder esquecer que Mineirinho era pregui\u00e7oso e<br \/>\nj\u00e1 matara demais; e no entanto n\u00f3s o quer\u00edamos vivo.<br \/>\nA cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justi\u00e7a que<br \/>\nse vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu<br \/>\nfria: &#8220;O que eu sinto n\u00e3o serve para dizer. Quem n\u00e3o sabe<br \/>\nque Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e j\u00e1<br \/>\nentrou no c\u00e9u.&#8221; Respondi-lhe que &#8220;mais do que muita gente<br \/>\nque n\u00e3o matou&#8221;.<\/p>\n<h2><a name=\"33\"><\/a>Noite de fevereiro<\/h2>\n<p>&#8220;Juro, acredita em mim &#8211; a sala de visitas estava escura &#8211; mas a m\u00fasica<br \/>\nchamou para o centro da sala &#8211; a sala se escureceu toda dentro da escurid\u00e3o<br \/>\n&#8211; eu estava nas trevas &#8211; senti que por mais escura a sala era clara &#8211; agasalhei-me<br \/>\nno medo &#8211; como j\u00e1 me agasalhei de ti em ti mesmo &#8211; que foi que me encontrei?<br \/>\n&#8211; nada sen\u00e3o que a sala escura enchia-se da claridade que se adivinha<br \/>\nno mais escuro &#8211; e que eu tremia no centro dessa dif\u00edcil luz &#8211; acredita<br \/>\nem mim embora eu n\u00e3o possa explicar &#8211; houve alguma coisa perfeita e<br \/>\ngraciosa &#8211; como se eu nunca tivesse visto uma flor &#8211; ou como se eu fosse a<br \/>\nflor &#8211; &#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"34\"><\/a>Notas sobre Dan\u00e7a Hindu<\/h2>\n<p>&#8220;O dan\u00e7arino faz gestos hier\u00e1ticos, quadrados, e p\u00e1ra.<br \/>\n\u00c9 que parar por v\u00e1rios instantes tamb\u00e9m faz parte. \u00c9<br \/>\na dan\u00e7a do estatelamento: os movimentos param as coisas. O dan\u00e7arino<br \/>\npassa de uma imobilidade a outra, dando-me tempo para a estupefa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE muitas vezes sua imobilidade s\u00fabita \u00e9 a resson\u00e2ncia<br \/>\ndo salto anterior: o ar parado ainda cont\u00e9m todo o tremor do gesto.<br \/>\nEle agora est\u00e1 inteiramente parado. Existir se torna sagrado como se<br \/>\nn\u00f3s fossemos apenas o executante da vida.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a dan\u00e7a do homem, que tem a ci\u00eancia dos n\u00fameros<br \/>\ne das alturas, e a quem uma veem\u00eancia maior \u00e9 permitida.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 mulher hindu, ela n\u00e3o se espanta nem me espanta. Seus<br \/>\nmovimentos s\u00e3o t\u00e3o continuados e envolventes como a imobilidade<br \/>\ncorredia de um rio.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"35\"><\/a>O Ch\u00e1<\/h2>\n<p>&#8220;As imagina\u00e7\u00f5es que assustam. Pensei numa festa &#8211; sem<br \/>\nbebida, sem comida, festa s\u00f3 de olhar. At\u00e9 as cadeiras alugadas<br \/>\ne trazidas para um terceiro andar vazio da Rua da Alf\u00e2ndega, este seria<br \/>\num bom lugar. Para essa festa eu convidaria todos os amigos e amigas que tive<br \/>\ne n\u00e3o tenho mais. S\u00f3 eles, sem nem sequer os entre-amigos m\u00fatuos.<br \/>\nPessoas que vivi, pessoas que me viveram. Mas como \u00e9 que se volta da<br \/>\nRua da Alf\u00e2ndega ao anoitecer? As cal\u00e7adas estariam secas e duras,<br \/>\neu sei.<\/p>\n<p>Preferi outra imagina\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou misturando carinho,<br \/>\ngratid\u00e3o, raiva; s\u00f3 depois \u00e9 que se desdobraram duas<br \/>\nasas de morcego, como o que vem de longe e vai chegando muito perto, mas tamb\u00e9m<br \/>\nbrilhavam as asas. Seria um ch\u00e1 &#8211; domingo, Rua do Lavradio &#8211; que eu<br \/>\noferecia a todas as empregadas que j\u00e1 tive na vida.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"36\"><\/a>Os espelhos<\/h2>\n<p>&#8220;O que \u00e9 um espelho? N\u00e3o existe a palavra espelho &#8211; s\u00f3<br \/>\nespelhos, pois um \u00fanico \u00e9 uma infinidade de espelhos. &#8211; Em algum<br \/>\nlugar do mundo deve haver uma mina de espelhos? N\u00e3o s\u00e3o preciso<br \/>\nmuitos para se ter a mina faiscante e sonamb\u00falica: bastam dois, e um<br \/>\nreflete o reflexo do que o outro refletiu, num tremor que se transmite em<br \/>\nmensagem intensa e insistente ad infinitum, liquidez em que se pode mergulhar<br \/>\na m\u00e3o fascinada e retir\u00e1-la escorrendo de reflexos, reflexos<br \/>\ndessa dura \u00e1gua. &#8211; O que \u00e9 um espelho? Como a bola de cristal<br \/>\ndos videntes, ele me arrasta para o vazio que no vidente \u00e9 o seu campo<br \/>\nde medita\u00e7\u00e3o, e em mim o campo de sil\u00eancios e sil\u00eancios.<br \/>\n&#8211; Esse vazio cristalizado que tem dentro de si espa\u00e7o para se ir para<br \/>\nsempre sem parar: pois espelho \u00e9 o espa\u00e7o mais profundo que<br \/>\nexiste.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"37\"><\/a>Perfil de Seres Eleitos<\/h2>\n<p>&#8220;Era um ser que elegia. Entre as mil coisas que poderia ter sido, fora<br \/>\nse escolhendo. Num trabalho para o qual usava lentes, enxergando o que podia<br \/>\ne apalpando com as m\u00e3os \u00famidas o que n\u00e3o via, o ser fora<br \/>\nescolhendo e por isso indiretamente se escolhia. Aos poucos se juntara para<br \/>\nser. Separava, separava. Em relativa liberdade, se se descontasse o furtivo<br \/>\ndeterminismo que agira discreto sem se dar um nome. Descontado esse furtivo<br \/>\ndeterminismo, o ser se escolhia livre. Guiava-o a vontade de descobrir o pr\u00f3prio<br \/>\ndeterminismo, e segui-lo com esfor\u00e7o, pois a linha verdadeira \u00e9<br \/>\nmuito apagada, as outras s\u00e3o mais vis\u00edveis. Separava, separava.<br \/>\nSeparava o chamado joio do trigo, e o melhor, o melhor se comia. \u00c0s<br \/>\nvezes comia o pior. A escolha dif\u00edcil era comer o pior. Separava perigos<br \/>\ndo grande perigo, e era com o grande perigo que o ser, embora com medo, ficava.<br \/>\nS\u00f3 para pensar com susto o peso das coisas. Afastava de si as verdades<br \/>\nmenores que terminou n\u00e3o chegando a conhecer. Queria as verdades dif\u00edceis<br \/>\nde suportar. Por ignorar as verdades menores, o ser parecia rodeado de mist\u00e9rio;<br \/>\npor ser ignorante, era um ser misterioso.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"38\"><\/a>Por n\u00e3o estarem distra\u00eddos<\/h2>\n<p>&#8220;Havia a lev\u00edssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como<br \/>\nquando se sente a garganta um pouco seca e se v\u00ea que por admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nse estava de boca entreaberta: eles respiravam de antem\u00e3o o ar que<br \/>\nestava \u00e0 frente, e ter esta sede era a pr\u00f3pria \u00e1gua deles.<br \/>\nAndavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar mat\u00e9ria<br \/>\ne peso \u00e0 lev\u00edssima embriaguez que era a alegria da sede deles.<br \/>\nPor causa de carros e pessoas, \u00e0s vezes eles se tocavam, e ao toque<br \/>\n&#8211; a sede \u00e9 a gra\u00e7a, mas as \u00e1guas s\u00e3o uma beleza<br \/>\nde escuras &#8211; e ao toque brilhava o brilho da \u00e1gua deles, a boca ficando<br \/>\num pouco mais seca de admira\u00e7\u00e3o. Como eles admiravam estarem<br \/>\njuntos!&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"39\"><\/a>Um Amor Conquistado<\/h2>\n<p>&#8220;Encontrei Ivan Lessa na fila de lota\u00e7\u00e3o do bairro e est\u00e1vamos<br \/>\nconversando quando Ivan se espantou e me disse: olhe que coisa esquisita.<br \/>\nOlhei para tr\u00e1s e vi, da esquina para a gente, um homem vindo com o<br \/>\nseu tranq\u00fcilo cachorro puxado pela coleira. S\u00f3 que n\u00e3o<br \/>\nera cachorro. A atitude toda era de cachorro, e a do homem era a de um homem<br \/>\ncom seu c\u00e3o. Este \u00e9 que n\u00e3o era. Tinha focinho acompridado<br \/>\nde quem pode beber em copo fundo, rabo longo e duro &#8211; poderia, \u00e9 verdade,<br \/>\nser apenas uma varia\u00e7\u00e3o individual da ra\u00e7a. Ivan levantou<br \/>\na hip\u00f3tese de quati, mas achei o bicho muito cachorro demais para ser<br \/>\nquati, ou seria o quati mais resignado e enganado que jamais vi. Enquanto<br \/>\nisso, o homem calmamente vindo. Calmamente, n\u00e3o; havia uma tens\u00e3o<br \/>\nnele, era uma calma de quem aceitou luta: seu ar era de um natural desafiador.<br \/>\nN\u00e3o se tratava de um pitoresco; era por coragem que andava em p\u00fablico<br \/>\ncom o seu bicho.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"40\"><\/a>Um Homem Espanhol<\/h2>\n<p>&#8220;N\u00e3o era Pepe apenas, n\u00e3o era guia apenas. No calor do<br \/>\nver\u00e3o, o rosto intumescido pela bebida que mal se evaporava era substitu\u00edda<br \/>\npor outra, o homem parou no meio de uma ruela branca e sombria de C\u00f3rdoba,<br \/>\nolhou-nos e disse bem lento para que a frase penetrasse a nossa lentid\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Ustedes no tienen um gu\u00eda. Ustedes tienem &#8211; Pepe El Gu\u00eda!<\/p>\n<p>Paramos, atentos ao que deveria ser uma coincid\u00eancia singular. Qual?<br \/>\nPepe El Gu\u00eda imobilizara-se com os olhos \u00famidos de emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nvinho, calor e desespero. Devia ser extraordin\u00e1rio e pesado ser Pepe<br \/>\nEl Gu\u00eda. Ainda parado, o rosto escorrendo suor, com a roupa escura<br \/>\nda eleg\u00e2ncia a que era obrigado, ele esperava que atrav\u00e9s de<br \/>\nseu pr\u00f3prio sil\u00eancio intenso compreend\u00eassemos. Olh\u00e1vamos<br \/>\ncom os olhos franzidos pelo sol. At\u00e9 que a fraca brisa passou por n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"41\"><\/a>Um pintor<\/h2>\n<p>&#8220;A surpresa de ver que o pintor come\u00e7a por n\u00e3o recear<br \/>\ninclusive a simetria. \u00c9 preciso experi\u00eancia ou coragem para revaloriz\u00e1-la,<br \/>\nquando facilmente se pode imitar o &#8220;falso assim\u00e9trica&#8221;, uma<br \/>\ndas originalidades mais comuns. A simetria \u00e9 concentrada, concentrada.<br \/>\nMas n\u00e3o dogm\u00e1tica. \u00c9 tamb\u00e9m hesitante, como a<br \/>\ndos que passaram pela esperan\u00e7a de que duas assimetrias encontrar-se-\u00e3o<br \/>\nna simetria. Esta como solu\u00e7\u00e3o terceira: a s\u00edntese. Da\u00ed<br \/>\ntalvez o ar despojado, a delicadeza de coisa vivida e depois revivida, e n\u00e3o<br \/>\num certo arrojo dos que n\u00e3o sabem. N\u00e3o \u00e9 propriamente<br \/>\ntranq\u00fcilidade o que est\u00e1 ali. H\u00e1 uma dura luta de coisa<br \/>\nque apesar de corrida se mant\u00e9m de p\u00e9, e nas cores mais densas<br \/>\nh\u00e1 uma lividez daquilo que mesmo torto est\u00e1 de p\u00e9. Suas<br \/>\ncruzes s\u00e3o entortadas por s\u00e9culos de mortifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nS\u00e3o altares? Pelo menos o sil\u00eancio de altar. O sil\u00eancio<br \/>\nde portais. O esverdeamento toma um tom do que estivesse entre vida e morte,<br \/>\numa intensidade de crep\u00fasculo.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"42\"><\/a>Uma ira<\/h2>\n<p>&#8220;- &#8220;Esta&#8221; &#8211; se disse o homem ajoelhado como antes de ir para<br \/>\na guerra &#8211; &#8220;esta \u00e9 a minha prece de possesso. Estou conhecendo<br \/>\no inferno da paix\u00e3o. N\u00e3o sei que nome dar ao que me toma, ou<br \/>\nao que estou com voracidade tomando, sen\u00e3o o de paix\u00e3o. O que<br \/>\n\u00e9 isso que \u00e9 t\u00e3o violento que me faz pedir clem\u00eancia<br \/>\na mim mesmo? \u00c9 a vontade de destruir, como se para este momento de<br \/>\ndestruir eu tivesse nascido. Momento que vir\u00e1 ou n\u00e3o, a minha<br \/>\nescolha depende de eu poder ou n\u00e3o me ouvir. Deus ouve, mas eu me ouvirei?<br \/>\nA for\u00e7a da destrui\u00e7\u00e3o ainda se cont\u00e9m um instante<br \/>\nem mim. N\u00e3o posso destruir ningu\u00e9m ou nada, pois a piedade me<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o forte como a ira; ent\u00e3o eu quero destruir a mim,<br \/>\nque sou fonte dessa paix\u00e3o. N\u00e3o quero pedir a Deus que me aplaque,<br \/>\namo tato a Deus que tenho medo de tocar nele com meu pedido, meu pedido queima,<br \/>\nminha pr\u00f3pria prece \u00e9 perigosa de t\u00e3o ardente, e poderia<br \/>\ndestruir em mim a imagem de Deus, que ainda quero salvar em mim.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"43\"><\/a>Uma Italiana na Sui\u00e7a<\/h2>\n<p>&#8220;Rosa perdeu os pais quando era pequena. Os irm\u00e3os se espalharam<br \/>\npelo mundo e ela entrou para o orfanato de um convento. L\u00e1 levava uma<br \/>\nvida s\u00f3bria e dura com as outras crian\u00e7as. Durante o inverno<br \/>\no grande casar\u00e3o permanecia frio, e os trabalhos n\u00e3o se interrompiam.<br \/>\nEla lavava roupa, varria os quartos, costurava. Enquanto isso as esta\u00e7\u00f5es<br \/>\nse sucediam. Com a cabe\u00e7a raspada e o longo vestido de fazenda grosseira,<br \/>\n\u00e0s vezes, com a vassoura na m\u00e3o, espiava pelos vidros da janela.<br \/>\nOutono era a esta\u00e7\u00e3o de que mais gostava porque n\u00e3o era<br \/>\npreciso sair para v\u00ea-lo: atr\u00e1s dos vidros as folhas ca\u00edam<br \/>\namareladas no p\u00e1tio, e isso era o outono.<\/p>\n<p>Nesse convento su\u00ed\u00e7o, quando um homem pisava no patamar, lavava-se<br \/>\no ch\u00e3o e queimava-se \u00e1lcool em cima. Depois vinha de novo o<br \/>\ninverno, e as m\u00e3os se avermelhavam, abriam-se feridas, a cama gelada<br \/>\nimpossibilitava o sono, e criava sonhos acordados. No dormit\u00f3rio escuro,<br \/>\ncom os olhos abertos sobre o len\u00e7ol, ela espiava os pequenos pensamentos<br \/>\npiscarem.&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"44\"><\/a>A Hora da Estrela (Resumo)<\/h2>\n<p>\u00daltimo volume publicado pela escritora, data de 1977, ano em que morreu.<br \/>\nDe certa forma condensa as experi\u00eancias at\u00e9 ent\u00e3o realizadas<br \/>\npela autora, ao revolver sua principal preocupa\u00e7\u00e3o &#8211; o ato de<br \/>\nescrever.<\/p>\n<p>Narrado em 1\u00ba pessoa por Rodrigo S. M., escritor que pretende contar,<br \/>\nsem requintes e brilho de estrelas, a hist\u00f3ria de uma nordestina:<\/p>\n<p><b>Relato antigo, este, pois n\u00e3o quero ser modernoso e inventar modismos<br \/>\n\u00e0 guisa de originalidade. Assim \u00e9 que experimentarei contra<br \/>\nmeus h\u00e1bitos uma hist\u00f3ria com come\u00e7o, meio e gran finale<br \/>\nseguido de sil\u00eancio e de chuva caindo.<\/b><\/p>\n<p>Atrav\u00e9s das constantes interfer\u00eancias do narrador, o leitor<br \/>\nvai conhecendo qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 o relacionamento dele (como<br \/>\nautor) com o ato da escritura e, ao mesmo tempo, desvenda seu envolvimento<br \/>\ncom a personagem que vai gradativamente compondo. Nesse sentido pode-se perceber<br \/>\nque a composi\u00e7\u00e3o da obra serve para amarrar dois pontos fundamentais<br \/>\nda fic\u00e7\u00e3o: a cria\u00e7\u00e3o da personagem e a psicologia<br \/>\nda composi\u00e7\u00e3o. Outro ponto a ser destacado \u00e9 o da linguagem<br \/>\nque, na obra adquire uma presen\u00e7a constante, porque \u00e9 motivo<br \/>\nde insistentes investiga\u00e7\u00f5es por parte do narrador, chegando<br \/>\n\u00e0s raias da personifica\u00e7\u00e3o, uma vez que a linguagem tamb\u00e9m<br \/>\nenfrenta a &#8220;crise&#8221; da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Sim, mas n\u00e3o esquecer que para escrever n\u00e3o-importa-o-qu\u00ea<br \/>\no meu material b\u00e1sico \u00e9 a palavra. Assim \u00e9 que esta hist\u00f3ria<br \/>\nser\u00e1 feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evola um<br \/>\nsentido secreto que ultrapassa palavras e frases. \u00c9 claro que, como<br \/>\ntodo escritor, tenho a tenta\u00e7\u00e3o de usar termos suculentos: conhe\u00e7o<br \/>\nadjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos t\u00e3o esguios<br \/>\nque atravessam agudos o ar em vias de a\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que palavra<br \/>\n\u00e9 a\u00e7\u00e3o, concordais? Mas eu n\u00e3o vou enfeitar a<br \/>\npalavra, pois se eu tocar no p\u00e3o da mo\u00e7a se tornar\u00e1 em<br \/>\nouro &#8211; e a jovem (ela tem dezenove anos) e a jovem n\u00e3o poderia mord\u00ea-lo,<br \/>\nmorrendo de fome. Tenho ent\u00e3o que falar simples para captar a sua delicada<br \/>\ne vaga exist\u00eancia.<\/b><\/p>\n<p>O narrador passa a mergulhar no problema da comunica\u00e7\u00e3o, na<br \/>\nesperan\u00e7a de poder traduzir com palavras a historia e combin\u00e1-la<br \/>\ncom a discuss\u00e3o sobre a palavra e a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Grito puro e sem pedir esmola. Sei que h\u00e1 mo\u00e7as que vendem<br \/>\no corpo, \u00fanica posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sandu\u00edche<br \/>\nde mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ningu\u00e9m<br \/>\na quer, ela \u00e9 virgem e in\u00f3cua, n\u00e3o faz falta a ningu\u00e9m.<br \/>\nAli\u00e1s &#8211; descubro eu agora &#8211; tamb\u00e9m eu n\u00e3o fa\u00e7o<br \/>\na menor falta, e at\u00e9 o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor,<br \/>\nsim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.<\/b><\/p>\n<p>O posicionamento do autor na investiga\u00e7\u00e3o escrita combinado<br \/>\ncom a preocupa\u00e7\u00e3o de se auto-analisar traduz-se no profundo<br \/>\ndebate entre a finalidade da cria\u00e7\u00e3o e o ve\u00edculo da comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\nque \u00e9 a linguagem. Por fim, ao investigar fragmentos da vida da personagem,<br \/>\nisto \u00e9, ao confeccionar a narrativa propriamente dita, passando pela<br \/>\ninvestiga\u00e7\u00e3o dos fatos, a linguagem passa a exercer seus dom\u00ednios<br \/>\nna vida social, indicando, dentre os processos de cria\u00e7\u00e3o, a<br \/>\nintera\u00e7\u00e3o do elemento bruto (palavra), da lapida\u00e7\u00e3o<br \/>\nart\u00edstica (autor) e da transposi\u00e7\u00e3o social (vida da personagem).<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 poss\u00edvel verificar o entrecruzamento dessas<br \/>\ntr\u00eas investiga\u00e7\u00f5es, todas elas modeladas a partir de aprofundamento<br \/>\npscicofilos\u00f3ficos que desencadeiam a tessitura da trama do volume.<br \/>\nO leitor que esperar um relato linear ou uma hist\u00f3ria romanesca, dificilmente<br \/>\nconseguir\u00e1 satisfazer seus anseios, pois o volume n\u00e3o \u00e9<br \/>\num relato sentimental, nem procura dourar a realidade:<\/p>\n<p><b>(&#8230;) nada cintilar\u00e1, trata-se de mat\u00e9ria opaca e por sua<br \/>\npr\u00f3pria natureza desprez\u00edvel por todos.<\/b><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por que ler o volume? De certa forma, sua leitura induz a captar<br \/>\no sentido mais profundo da linguagem e a tentar, atrav\u00e9s da forma,<br \/>\no esbo\u00e7o de um conte\u00fado. Ler pela necessidade de ler, da mesma<br \/>\nforma que se encontra no escritor a necessidade de escrever:<\/p>\n<p><b>Enquanto eu tiver perguntas e n\u00e3o houver resposta continuarei<br \/>\na escrever. (&#8230;)<br \/>\nEscrevo neste instante com algum pr\u00e9vio pudor por vos estar invadindo<br \/>\ncom tal narrativa t\u00e3o exterior e expl\u00edcita. De onde, no entanto<br \/>\nat\u00e9 sangue arfante de t\u00e3o vivo de vida poder\u00e1 quem sabe<br \/>\nescorrer e logo se coagular em cubos de gel\u00e9ia tr\u00eamula. Ser\u00e1<br \/>\nessa hist\u00f3ria um dia o meu co\u00e1gulo? Que sei eu. Se h\u00e1<br \/>\nveracidade nela &#8211; e \u00e9 claro que a hist\u00f3ria \u00e9 verdadeira<br \/>\nembora inventada &#8211; que cada um a reconhe\u00e7a em si mesmo porque todos<br \/>\nn\u00f3s somos um e quem n\u00e3o tem pobreza de dinheiro tem pobreza<br \/>\nde esp\u00edrito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro<br \/>\n&#8211; existe a quem falte o delicado essencial.<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o raro, o processo de produ\u00e7\u00e3o da linguagem \u00e9<br \/>\nassociado ao processo de produ\u00e7\u00e3o musical. A composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nassume o aspecto da m\u00fasica e a nomenclatura torna-se a mesma.<\/p>\n<p><b>(..) As palavras s\u00e3o sons transfundidos de sombras que se entrecruzam<br \/>\ndesiguais, estalactites, rendas, m\u00fasica transfigurada de \u00f3rg\u00e3o.<br \/>\nMal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, m\u00f3rbida e obscura<br \/>\ntendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. (&#8230;)<\/b><\/p>\n<p><b> Esqueci de dizer que tudo o que estou agora escrevendo \u00e9 acompanhado<br \/>\npelo rufar enf\u00e1tico de um tambor batido por um soldado. No instante<br \/>\nmesmo que eu come\u00e7ar a hist\u00f3ria &#8211; de s\u00fabito cessar\u00e1<br \/>\no tambor.<\/b><\/p>\n<h2>O Autor, a personagem, uma hist\u00f3ria&#8230;<\/h2>\n<p>O narrador coloca dados sobre a hist\u00f3ria que pretende contar, intercalando-os<br \/>\ncom suas preocupa\u00e7\u00f5es metaling\u00fc\u00edsticas. Com poucas<br \/>\npalavras situa a narrativa no presente, mesmo porque, segundo ele, n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 outro tempo poss\u00edvel.<\/p>\n<p><b>Quero acrescentar, \u00e0 guisa de informa\u00e7\u00f5es sobre a<br \/>\njovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente<br \/>\n\u00e9 o dia de hoje e o dia de amanh\u00e3 ser\u00e1 um hoje, a eternidade<br \/>\n\u00e9 o estado das coisas neste momento.<\/b><\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o flui com facilidade. Ela<br \/>\ntranscorre com esfor\u00e7o descomunal, pois escrever \u00e9 como &#8220;quebrar<br \/>\nrochas&#8221;.<\/p>\n<p>Devagar, buscada nas entrelinhas, vai surgindo Macab\u00e9a, personagem<br \/>\nnordestina de Alagoas que, por algum motivo desconhecido, vem para o Rio,<br \/>\n&#8220;uma cidade toda feita contra ela&#8221;. O narrador, identificando-se<br \/>\ncom a personagem, envolve-se na narrativa, partilha com sofreguid\u00e3o<br \/>\no destino que vai tra\u00e7ando para ela, e, culminando num processo de<br \/>\npuro \u00eaxtase de cria\u00e7\u00e3o, acaba se tornando ele mesmo um<br \/>\npersonagem. Faz-se pobre como a personagem, adquire olheiras, n\u00e3o se<br \/>\npermite mais prazeres pequenos como futebol, porque se identifica com a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nvivida pela nordestina: escrevo por n\u00e3o ter nada a fazer no mundo:<br \/>\nsobrei e na h\u00e1 lugar para mim na terra dos homens.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o de Macab\u00e9a se d\u00e1 aos poucos, para<br \/>\nque o leitor possa ter tempo para se acostumar com toda a mis\u00e9ria da<br \/>\npersonagem:<\/p>\n<p><b>Ela nascera com maus antecedentes e agora parecia uma filha de um n\u00e3o-sei-o-qu\u00ea<br \/>\ncom ar de se desculpar por ocupar espa\u00e7o. No espelho distraidamente<br \/>\nexaminou de perto as manchas no rosto. Em Alagoas chamavam-na de &#8220;panos&#8221;,<br \/>\ndiziam que vinham do f\u00edgado. Disfar\u00e7ava os panos com grossa<br \/>\ncamada de p\u00f3 branco e se ficava meio coitada era melhor que o pardacento.<br \/>\nEla era toda um pouco encardida pois raramente se lavava. De dia usava saia<br \/>\ne blusa, de noite dormia de combina\u00e7\u00e3o. Uma colega de quarto<br \/>\nn\u00e3o sabia como avisar que seu cheiro era murrinhento. E como n\u00e3o<br \/>\nsabia, ficou por isso mesmo, pois tinha medo de ofend\u00ea-la. Nada nela<br \/>\nera iridescente, embora a pele do rosto entre as manchas tivesse um leve brilho<br \/>\nde opala. Mas n\u00e3o importava. Ningu\u00e9m olhava para ela na rua,<br \/>\nela era caf\u00e9 frio.<\/b><\/p>\n<p>Entre a singela e a asquerosa, Macab\u00e9a aparece \u00f3rf\u00e3,<br \/>\nsendo criada por uma tia que morre n\u00e3o sem antes lhe financiar um curso<br \/>\nde datilografia. Com r\u00e1pidas pinceladas, o autor comp\u00f5e o quadro<br \/>\nda inf\u00e2ncia miser\u00e1vel, de educa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria.<\/p>\n<p><b>Nascera inteiramente raqu\u00edtica, heran\u00e7a do sert\u00e3o<br \/>\n(&#8230;)<\/b><\/p>\n<p><b> Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no<br \/>\nsert\u00e3o de Alagoas. (&#8230;) Muito depois fora para Macei\u00f3 com a<br \/>\ntia beata, \u00fanica parenta sua no mundo. Uma outra vez se lembrava de<br \/>\ncoisa esquecida. Por exemplo a tia lhe dando cascudos no alto da cabe\u00e7a<br \/>\n(&#8230;)<\/b><\/p>\n<p><b>Depois &#8211; ignora-se por qu\u00ea &#8211; tinham vindo para o Rio, o inacredit\u00e1vel<br \/>\nRio de Janeiro, a tia lhe arranjara emprego, finalmente morrera e ela, agora<br \/>\nsozinha, morava numa vaga de quarto compartilhado com mais quatro mo\u00e7as<br \/>\nbalconistas das Lojas Americanas.<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 como datil\u00f3grafa que a jovem sobrevive no Rio. Alimentava-se<br \/>\nmal, cheirava mal, vivia mal. Estava amea\u00e7ada de ser despedida do emprego.<\/p>\n<p>Pequenas vaidades a sustentavam, pequenos prazeres serviam para amolecer-lhe<br \/>\na vida.<\/p>\n<p><b>(&#8230;) o luxo que se dava era tomar um gole de caf\u00e9 frio antes de<br \/>\ndormir. Pagava o luxo tendo azia ao acordar. (&#8230;)<\/b><\/p>\n<p><b> Ela era calada (por n\u00e3o ter o que dizer) mas gostava de ru\u00eddos.<br \/>\nEram vida. (&#8230;)<\/b><\/p>\n<p>Seu espa\u00e7o est\u00e1 circunscrito \u00e0 Rua do Acre, onde mora,<br \/>\ne \u00e0 Rua do Lavradio, onde trabalha, perto do porto que espia no movimento<br \/>\ndomingueiro.<\/p>\n<p><b>Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes<br \/>\nde j\u00f3ias e roupas acetinadas &#8211; s\u00f3 para se mortificar um pouco.<br \/>\n\u00c9 que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco<br \/>\n\u00e9 um encontro.<\/b><\/p>\n<p>Tinha poucos &#8220;luxos&#8221;: uma vez por m\u00eas ia ao cinema, pintava<br \/>\nde vermelho as unhas das m\u00e3os, bebia refrigerante e caf\u00e9, comia<br \/>\ncachorro-quente e \u00e0s vezes sandu\u00edche de mortadela. Morava em<br \/>\npens\u00e3o miser\u00e1vel com quatro Marias no mesmo quarto. Macab\u00e9a<br \/>\n, de madrugada, ligava o r\u00e1dio emprestado e invariavelmente ouvia a<br \/>\nR\u00e1dio Rel\u00f3gio, que dava &#8220;hora certa e cultura&#8221; atrav\u00e9s<br \/>\nde pequenas informa\u00e7\u00f5es do tipo almanaque intercaladas com an\u00fancios<br \/>\ncomerciais; mesmo porque, a mo\u00e7a adorava e colecionava recortes de<br \/>\nan\u00fancios. O tom mon\u00f3tono da r\u00e1dio casa-se perfeitamente<br \/>\ncom a vida da datil\u00f3grafa que passa a se identificar com o locutor<br \/>\nna escassez de atra\u00e7\u00f5es, na falta de colorido, na linguagem<br \/>\ndesnudada, no vocabul\u00e1rio pequeno. A R\u00e1dio Rel\u00f3gio \u00e9<br \/>\nt\u00e3o-somente um tra\u00e7o exterior semelhante ao esbo\u00e7o de<br \/>\npoucas linhas tra\u00e7ado para a personagem.<\/p>\n<p>O mundo inteiro de Macab\u00e9a \u00e9 totalmente fora dos padr\u00f5es,<br \/>\nconvertendo a personagem que est\u00e1 sendo criada num ser totalmente inveross\u00edmil<br \/>\na conviver com um mundo real e devastador. O narrador ao tecer as caracter\u00edsticas<br \/>\nda mo\u00e7a, vai-se distanciando dos fatos que inicialmente constituem<br \/>\nsua preocupa\u00e7\u00e3o primeira e passa a se identificar cada vez mais<br \/>\ncom a personagem, tanto que acaba por receber as press\u00f5es que ele mesmo<br \/>\ncria para Macab\u00e9a, assumindo para si a morte que se aproxima da personagem.<br \/>\nPassando por lenta metamorfose, o narrador deixa transbordar em si o sofrimento<br \/>\nde sua &#8220;cria&#8221; que estranhamente principia mi\u00fada, cresce e<br \/>\nconsegue uma autonomia na narrativa, fazendo o narrador confessar que j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o pode influir no destino da personagem.<\/p>\n<p><b>(Estou passando por um pequeno inferno com esta hist\u00f3ria. Queiram<br \/>\nos deuses que eu nunca descreva o l\u00e1zaro porque sen\u00e3o eu me<br \/>\ncobriria de lepra).<\/b><\/p>\n<p><b> Nestes \u00faltimos tr\u00eas dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me<br \/>\ntiro-me de mim como quem tira uma roupa. <\/b><\/p>\n<p><b>Despersonalizo-me a ponto de adormecer (&#8230;)<\/b><\/p>\n<p><b> Vou fazer o poss\u00edvel para que ela n\u00e3o morra. Mas que vontade<br \/>\nde adormec\u00ea-la e de eu mesmo ir para a cama dormir.<\/b><\/p>\n<p><b> Macab\u00e9a por acaso vai morrer? Como posso saber?<\/b><\/p>\n<p>No escrit\u00f3rio da datil\u00f3grafa tamb\u00e9m trabalha a oxigenada<br \/>\nGl\u00f3ria, mesti\u00e7a de &#8220;bom vinho portugu\u00eas e tamb\u00e9m<br \/>\namaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue africano escondido&#8221;.<br \/>\nGl\u00f3ria termina por atrair as aten\u00e7\u00f5es de Ol\u00edmpico<br \/>\nde Jesus, nome que ironicamente remete \u00e0 cultura pag\u00e3 e \u00e0<br \/>\nreligiosidade crist\u00e3, num contraponto entre gregos e romanos.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpico de Jesus foi um breve-brev\u00edssimo caso de namoro de<br \/>\nMacab\u00e9a. Ele \u00e9 oper\u00e1rio, metal\u00fargico, com canino<br \/>\nde ouro e tem uma louca paix\u00e3o por discursos, sonhando com dinheiro<br \/>\ne querendo ser deputado por Parana\u00edba. Passa como uma luz pela id\u00e9ia<br \/>\nde Macab\u00e9a que at\u00e9 ela \u00e9 algu\u00e9m, uma datilografa<br \/>\ncom namorado metal\u00fargico, que pode at\u00e9 se casar, embora ambos<br \/>\ntenham problemas de comunica\u00e7\u00e3o. Para Ol\u00edmpico, trocar<br \/>\nMacab\u00e9a por Gl\u00f3ria foi neg\u00f3cio de ocasi\u00e3o: a oxigenada<br \/>\ntinha fam\u00edlia, comida na mesa, pai a\u00e7ougueiro e, para completar,<br \/>\nera loura, oxigenada, mas loura.<\/p>\n<p>Macab\u00e9a confessa \u00e0 colega de trabalho que gostaria de ser Marylin<br \/>\nMonroe e \u00e9 com uma atriz que se parece na \u00faltima cena da narrativa,<br \/>\nquando representa seu \u00fanico e grande papel, ao ser atropelada por um<br \/>\nrico &#8220;Mercedes&#8221;. Antes de morrer, balbucia uma frase: &#8220;Quanto<br \/>\nao futuro&#8221;, pois a cartomante, consultada pouco antes, antecipara-lhe<br \/>\num futuro em que seria amada por um rico e louro estrangeiro. O abra\u00e7o<br \/>\nfinal, que ela mesma se d\u00e1 ao assumir a posi\u00e7\u00e3o fetal<br \/>\npara acomodar o corpo, representa a uni\u00e3o do amor, da vida a se extinguir<br \/>\ne da morte. A morte d\u00e1 a Macab\u00e9a a oportunidade vital de reconhecer-se<br \/>\ncomo ser humano consciente, \u00e0 espera do futuro.<\/p>\n<p><b>Ter\u00e1 tido ela saudade do futuro? Ou\u00e7o a m\u00fasica antiga<br \/>\nde palavras e palavras, sim, \u00e9 assim. Nesta hora exata macab\u00e9a<br \/>\nsente um fundo enj\u00f4o de est\u00f4mago e quase vomitou, queria vomitar<br \/>\no que n\u00e3o \u00e9 corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.<\/b><\/p>\n<p>O sangue que Macab\u00e9a vomitou saiu de sua boca como o batom dos l\u00e1bios<br \/>\nvermelhos da estrela de cinema, estrela inating\u00edvel, sublime, assemelhando-se<br \/>\n\u00e0 et\u00e9rea vida da nordestina, t\u00e3o breve como um ponto-final.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span> br.geocities.com<\/p>\n<h6>Hora da Estrela (Resumo)<\/h6>\n<h2>Clarice LIspector<\/h2>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" title=\"Clarice Lispector\" src=\"imagens\/amor-1.jpg\" alt=\"Clarice Lispector\" width=\"129\" height=\"173\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>Macab\u00e9a nasceu em Alagoas, num ambiente de extrema pobreza. \u00d3rf\u00e3<br \/>\ndos pais desde os dois anos de idade, foi criada por uma tia, \u00fanica<br \/>\nparenta sua no mundo, t\u00e3o pobre quanto ela. Dessa tia a menina levou<br \/>\nmuitos cascudos na cabe\u00e7a, forma que empregava a mulher para educar<br \/>\na sobrinha. Batia mas n\u00e3o era somente porque ao bater gozava de grande<br \/>\nprazer sensual ela que n\u00e3o se casara por nojo &#8211; como tamb\u00e9m<br \/>\nporque achava seu dever.<\/p>\n<p>Destitu\u00edda de qualquer conforto, totalmente alienada do consumismo<br \/>\n_o \u00fanico desejo da menina era comer goiabada com queijo, prazer que<br \/>\nquase sempre lhe era negado, por castigo.<\/p>\n<p>A medida que crescia, Macab\u00e9a aprendia que &#8220;vida \u00e9 assim:<br \/>\naperta-se o bot\u00e3o e a vida acende&#8221;. S\u00f3 que ela n\u00e3o<br \/>\nsabia qual era o bot\u00e3o de acender. Nem se dava conta de que vivia numa<br \/>\nsociedade t\u00e9cnica onde ela era um parafuso dispens\u00e1vel. ( observe<br \/>\na atualidade da cr\u00edtica feita pela autora neste trecho ) .Mas uma coisa<br \/>\ndescobriu inquieta: j\u00e1 n\u00e3o sabia mais ter tido pai e m\u00e3e,<br \/>\ntinha esquecido o sabor. &#8220;Ela falava sim, mas era extremamente muda&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe por que as duas vieram para o Rio de Janeiro, quando Macab\u00e9a<br \/>\ntinha 19 anos. Um pouco antes de morrer a tia arranjou-lhe emprego de datil\u00f3grafa<br \/>\nno escrit\u00f3rio de uma empresa de representante de roldanas ( observe<br \/>\nque ironia existe aqui_ o parafuso dispens\u00e1vel vai trabalhar numa empresa<br \/>\nque revende roldanas_ \u00e9 a engrenagem perfeita!!!)<\/p>\n<p>A mo\u00e7a passou a morar numa vaga de quarto compartilhado com quatro<br \/>\nbalconistas das Lojas Americanas. O quarto ficava numa regi\u00e3o pouco<br \/>\nnobre da cidade, pr\u00f3ximo a prostitutas que serviam a marinheiros.<\/p>\n<p>O chefe da firma, Sr. Raimundo Silveira, um dia lhe avisou com brutalidade<br \/>\nque ia despedi-la porque ela errava demais na datilografia, al\u00e9m de<br \/>\nsujar o papel. Com sua natural humildade ela respondeu se desculpando pelo<br \/>\naborrecimento causado. Surpreso com a rea\u00e7\u00e3o, o chefe adiou<br \/>\na demiss\u00e3o, embora contrariado.<\/p>\n<p>Macab\u00e9a tinha um sono superficial porque estava resfriada havia um<br \/>\nano. Tinha acessos de tosse que sufocava com o travesseiro para n\u00e3o<br \/>\nacordar as colegas de quarto. \u00c0s vezes sentia fome antes de dormir<br \/>\ne ficava meio alucinada pensando em coxa de vaca. O rem\u00e9dio era mastigar<br \/>\ne engolir papel. ( Noto aqui j\u00e1 um tra\u00e7o do realismo fant\u00e1stico<br \/>\nt\u00e3o comum aos escritores desta gera\u00e7\u00e3o de 45 ).<\/p>\n<p>Dessa forma defendia-se da morte por interm\u00e9dio de um viver de menos<br \/>\ngastando pouco de sua vida para esta n\u00e3o acabar, (&#8230;).<\/p>\n<p>Teria ela a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o vivia para nada?<br \/>\nS\u00f3 uma vez se fez uma tr\u00e1gica pergunta: quem sou eu?<\/p>\n<p>Assustou-se tanto que parou de pensar. (.. ) O luxo que se dava era tomar<br \/>\num gole de caf\u00e9 frio antes de dormir. Pagava o luxo tendo azia ao acordar.<br \/>\n(&#8230;) Vivia em tanta mesmice que de noite n\u00e3o se lembrava do que acontecera<br \/>\nde manh\u00e3. (&#8230;) Quando dormia quase que sonhava que a tia lhe batia<br \/>\nna cabe\u00e7a. Ou sonhava estranhamente em sexo, ela que de apar\u00eancia<br \/>\nera assexuada.<\/p>\n<p>Quando acordava se sentia culpada sem saber por que, talvez porque o que<br \/>\n\u00e9 bom devia ser proibido. Culpada e contente. Por via das d\u00favidas<br \/>\nse sentia de prop\u00f3sito culpada e rezava mecanicamente tr\u00eas ave-marias,<br \/>\nam\u00e9m, am\u00e9m, am\u00e9m. Rezava mas sem Deus ela n\u00e3o<br \/>\nsabia quem era Ele e portanto Ele n\u00e3o existia. (&#8230;)<\/p>\n<p>Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrinas faiscantes<br \/>\nde j\u00f3ias e roupas acetinadas &#8211; s\u00f3 para se mortificar um pouco.<br \/>\n\u00c9 que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e, sofrer um pouco<br \/>\n\u00e9 um encontro. Domingo ela &#8220;acordava mais cedo para ficar mais<br \/>\ntempo sem fazer nada\u2019.<\/p>\n<p>Ela era do\u00edda por soldado. &#8220;Quando via um, pensava com estremecimento<br \/>\nde prazer: ser\u00e1 que ele vai me matar?&#8221;<\/p>\n<p>Macab\u00e9a tinha um luxo, al\u00e9m de uma vez por m\u00eas ir ao<br \/>\ncinema: pintava de vermelho grosseiramente escarlate as unhas das m\u00e3os.<br \/>\nGostava de filme de terror ou de musicais. Tinha predile\u00e7\u00e3o<br \/>\npor mulher enforcada ou que levava tiro no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Quando acordava n\u00e3o sabia mais quem era. S\u00f3 depois \u00e9<br \/>\nque pensava: sou datil\u00f3grafa e virgem, e gosto de coca-cola. ( retrato<br \/>\natual e t\u00edpico da literatura contempor\u00e2nea _ j\u00e1 neste<br \/>\nlivro a autora fez uma refer\u00eancia \u00e0 rede de varejo Lojas Americanas<br \/>\ne agora tamb\u00e9m salienta a marca Coca-cola de refrigerantes ). S\u00f3<br \/>\nent\u00e3o vestia-se, passava o resto do dia representando com obedi\u00eancia<br \/>\no papel de ser.<\/p>\n<p>Todas as madrugadas ligava o r\u00e1dio emprestado por uma colega de moradia.<br \/>\nDeixava o som bem baixinho na R\u00e1dio Rel\u00f3gio, &#8220;que dava<br \/>\nhora certa e cultura&#8221;. No intervalo entre as &#8220;gotas de minutos&#8221;,<br \/>\nhavia an\u00fancios comerciais. Ela adorava an\u00fancios.<\/p>\n<p>A vida de Macab\u00e9a &#8211; ela possu\u00eda uma vida interior e n\u00e3o<br \/>\nsabia disso &#8211; era cheia do vazio que enche a alma dos santos Ela era uma esp\u00e9cie<br \/>\nde santa. &#8220;N\u00e3o sabia que meditava pois ignorava o que quer dizer<br \/>\na palavra. Mas sua vida era uma longa medita\u00e7\u00e3o sobre o nada.<br \/>\n( Meditava enquanto batia \u00e0 m\u00e1quina, por isso errava ainda mais).<\/p>\n<p>Contudo a mo\u00e7a tinha seus prazeres: \u00e0s noites costumava ler<br \/>\n\u00e0 luz da vela os an\u00fancios que recortava de jornais velhos do<br \/>\nescrit\u00f3rio. Gostava especialmente de um an\u00fancio que mostrava<br \/>\num colorido pote aberto de creme para pele de mulheres. &#8220;O creme era<br \/>\nt\u00e3o apetitoso que se tivesse dinheiro para compr\u00e1-lo n\u00e3o<br \/>\nseria boba. Que pele, que nada, ela o comeria, isso sim, \u00e0s colheradas<br \/>\nno pote mesmo. Faltava gordura ao seu organismo. &#8220;Tornava-se com o tempo<br \/>\napenas mat\u00e9ria vivente em sua forma prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>Talvez fosse assim para se defender da grande tenta\u00e7\u00e3o de ser<br \/>\ninfeliz de uma vez e ter pena de si. ( Era apenas fina mat\u00e9ria org\u00e2nica.<br \/>\nExistia, s\u00f3 isto).<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, ela sentia enj\u00f4o para comer. &#8220;Isso vinha desde<br \/>\npequena quando soubera que havia comido gato frito. Assustou-se para sempre.<br \/>\nPerdeu o apetite, s\u00f3 tinha a grande fome. ( Nunca havia jantado ou<br \/>\nalmo\u00e7ado num restaurante. Era de p\u00e9 mesmo no botequim da esquina).<\/p>\n<p>Macab\u00e9a jamais havia ganho presentes. Um dia, viu um livro que o patr\u00e3o,<br \/>\ndado a literatura, deixara sobre a mesa. &#8220;Humilhados e Ofendidos&#8221;.<br \/>\nFicou pensativa. Talvez tivesse se definido pela primeira vez numa classe<br \/>\nsocial, Pensou, pensou e pensou! Chegou \u00e0 conclus\u00e3o que na verdade<br \/>\nningu\u00e9m jamais a ofendera, tudo que acontecia era porque as coisas<br \/>\ns\u00e3o assim mesmo e n\u00e3o havia luta poss\u00edvel, para que lutar?<\/p>\n<p>Um dia em que quis descansar, inventou a mentira.<\/p>\n<p>Nunca se sentiu t\u00e3o contente. N\u00e3o devia nada a ningu\u00e9m<br \/>\ne ningu\u00e9m lhe devia nada. &#8220;At\u00e9 deu-se ao luxo de ter t\u00e9dio&#8221;.<\/p>\n<p>No dia seguinte, 7 de maio, sob uma forte chuva de final de tarde, encontrou<br \/>\num namorado. &#8220;O rapaz e ela se olharam por entre a chuva e se reconheceram<br \/>\ncomo dois nordestinos, bichos da mesma esp\u00e9cie que se farejam. Ele<br \/>\na olhara enxugando o rosto molhado com as m\u00e3os, E a mo\u00e7a, bastou-lhe<br \/>\nv\u00ea-lo para torn\u00e1-lo imediatamente sua goiabada com queijo&#8221;<br \/>\n( observe como aqui a associa\u00e7\u00e3o entre o desejo da gula e da<br \/>\nlux\u00faria se complementam )<\/p>\n<p>Ele a convidou para passear. O rapaz era do sert\u00e3o da Para\u00edba<br \/>\ne estranhou o nome dela, achando que parecia nome de doen\u00e7a de pele.<\/p>\n<p>Na segunda e na terceira vez em que se encontraram tamb\u00e9m chovia.<br \/>\nPerdendo a for\u00e7ada educa\u00e7\u00e3o que vinha mostrando, o rapaz<br \/>\ndisse para ela: &#8220;Voc\u00ea tamb\u00e9m s\u00f3 sabe \u00e9 mesmo<br \/>\nchover!&#8221; &#8220;Desculpe&#8221;, acrescentou a mo\u00e7a que j\u00e1<br \/>\no amava tanto que n\u00e3o sabia como se livrar dele. Numa dessas vezes<br \/>\n\u00e9 que lhe perguntou seu nome e ficou sabendo ser Ol\u00edmpico de<br \/>\nJesus (ele acrescentou Moreira Chaves, mentindo, porque tinha como sobrenome<br \/>\napenas o nome de Jesus, sobrenome dos que n\u00e3o tem t\u00eam pai). Fora<br \/>\ncriado por um padrasto.<\/p>\n<p>Ele era oper\u00e1rio de uma metal\u00fargica, transportava o dia inteiro<br \/>\nbarras de metal. Conseguia at\u00e9 economizar algum dinheiro; dormia de<br \/>\ngra\u00e7a numa guarita em obras de demoli\u00e7\u00e3o, por camaradagem<br \/>\ndo vigia.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpico gostaria de ser toureiro n\u00e3o tinha pena do touro,<br \/>\napreciava o sangue. Antes de vir para o Rio, tinha ajuntado economias at\u00e9<br \/>\nconseguir arrancar um canino perfeito, substituindo-o por um dente de ouro<br \/>\nfaiscante. Mantinha a esperan\u00e7a de ser um homem rico, poderoso e at\u00e9<br \/>\ndeputado. Em sua terra fora o que se chama de &#8220;cabra safado&#8221;, pois<br \/>\nj\u00e1 havia matado um homem de que n\u00e3o gostava, nos cafund\u00f3s<br \/>\ndo sert\u00e3o, com um canivete.<\/p>\n<p>Nas horas de folga esculpia figuras de santo, mas n\u00e3o as vendia por<br \/>\nach\u00e1-las bonitas. Ol\u00edmpico era macho de briga. Mas fraquejava<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o a enterros: \u00e0s vezes ia tr\u00eas vezes por<br \/>\nsemana a enterro de desconhecidos, cujos an\u00fancios sa\u00edam nos<br \/>\njornais. (&#8230;) Sempre que podia roubava alguma coisa, Matar e roubar davam-lhe<br \/>\ncerto &#8220;status&#8221;. &#8220;Vingava-se dos poderosos desenhando caricaturas<br \/>\nde seus retratos nos jornais&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;As poucas conversas entre os namorados versavam sobre farinha, carne<br \/>\nde sol, carne-seca, rapadura e melado, Pois esse era o passado de ambos e<br \/>\neles esqueciam o amargor da inf\u00e2ncia. (&#8230;) Os dois n\u00e3o sabiam<br \/>\ninventar acontecimentos\u2019, Sentados no banco da pra\u00e7a, &#8220;nada<br \/>\nos distinguia do resto do nada. Em seus di\u00e1logos curtos e inconsequentes.<br \/>\nMacab\u00e9a relatava informa\u00e7\u00f5es esparsas ouvidas na R\u00e1dio<br \/>\nRel\u00f3gio e Ol\u00edmpico ou repetia seus sonhos de grandeza ou se<br \/>\nirritava com ela. A \u00fanica vez em que a mo\u00e7a falou de si pr\u00f3pria<br \/>\nna vida foi quando respondeu ao namorado que lhe perguntou se tinha preocupa\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8220;N\u00e3o, n\u00e3o tenho nenhuma. Acho que n\u00e3o preciso vencer<br \/>\nna vida&#8221;. Estava habituada a se esquecer de si mesma.<\/p>\n<p>Certa vez, para se mostrar forte, Ol\u00edmpico levantou Macab\u00e9a<br \/>\ncom um bra\u00e7o s\u00f3; mas n\u00e3o aguentou por muito tempo. A<br \/>\nmo\u00e7a caiu &#8220;de cara na lama, o nariz sangrando&#8221;.<\/p>\n<p>Mas era delicada e foi logo dizendo: N\u00e3o se incomode, foi uma queda<br \/>\npequena. Ele passou v\u00e1rios dias sem procur\u00e1-la. Seu brio fora<br \/>\natingido. Depois retornou e chegaram at\u00e9 a entrar num a\u00e7ougue:<br \/>\no cheiro de carne crua a encantava e ele ficava fascinado com a faca amolada<br \/>\ndo a\u00e7ougueiro&#8221;.<\/p>\n<p>Macab\u00e9a n\u00e3o dava nenhuma despesa a Ol\u00edmpico a n\u00e3o<br \/>\nser quando este lhe pagou um cafezinho pingado &#8220;que ela encheu de a\u00e7\u00facar<br \/>\nquase a ponto de vomitar mas controlou-se para n\u00e3o fazer vergonha.<br \/>\nO a\u00e7\u00facar ela botou muito para aproveitar\u2019.<\/p>\n<p>Certa feita, os dois foram ao zool\u00f3gico, \u2018ela pagando a pr\u00f3pria<br \/>\nentrada. Teve muito espanto ao ver os bichos.<\/p>\n<p>Quando Ol\u00edmpico viu Gl\u00f3ria, a colega de Macab\u00e9a. apaixonou-se<br \/>\npor ela. &#8220;Gl\u00f3ria possu\u00eda no sangue um bom vinho portugu\u00eas<br \/>\ne tamb\u00e9m era amaneirada no bamboleio do caminhar por causa do sangue<br \/>\nafricano escondido. Apesar de branca, tinha em si a for\u00e7a da mulatice.<\/p>\n<p>Oxigenava em amarelo-ovo os cabelos crespos cujas ra\u00edzes estavam sempre<br \/>\npretas. Mas mesmo oxigenada ela era loura, o que significava um degrau a mais<br \/>\npara Ol\u00edmpico&#8221;. ( Repare no nome do personagem_ representa a eterna<br \/>\nloucura humana de alcan\u00e7ar os deuses ).<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, era carioca, pertencente ao ambicionado cl\u00e3 do<br \/>\nSul do pais &#8220;Gl\u00f3ria tinha m\u00e3e, pai e comida quente em hora<br \/>\ncerta. Isso tornava-a material de primeira qualidade.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpico caiu em \u00eaxtase quando soube que o pai dela trabalhava<br \/>\nem um a\u00e7ougue. Pelos quadris adivinha-se que seria boa parideira.<\/p>\n<p>Enquanto Macab\u00e9a lhe pareceu ter em si mesma seu pr\u00f3prio fim<\/p>\n<p>Ol\u00edmpico desmanchou o namoro com Macab\u00e9a para namorar Gl\u00f3ria.<br \/>\n&#8220;Diante da cara pouco inexpressiva demais de Macab\u00e9a, ele at\u00e9<br \/>\nque quis lhe dizer alguma gentileza suavizante na hora do adeus para sempre.<br \/>\nE ao se despedir lhe disse. Voc\u00ea, Macab\u00e9a, \u00e9 um cabelo<br \/>\nna sopa. N\u00e3o d\u00e1 vontade de comer. Me desculpe se eu lhe ofendi,<br \/>\nmas sou sincero. Voc\u00ea est\u00e1 ofendida? &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o! Ah por favor quero Ir embora! Por favor me diga logo adeus! (&#8230;<br \/>\n)<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o dela veio de repente inesperada: p\u00f4s-se sem<br \/>\nmais nem menos a rir. Ria por n\u00e3o ter se lembrado de chorar. (&#8230; )<br \/>\nFicaram rindo os dois a\u00ed ele teve uma intui\u00e7\u00e3o que finalmente<br \/>\nera uma delicadeza perguntou-lhe se ela estava rindo de nervoso Ela parou<br \/>\nde rir e disse muito, muito cansada: N\u00e3o sei n\u00e3o&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Macab\u00e9a procurou permanecer como se nada tivesse perdido. N\u00e3o<br \/>\nficou triste nem desesperada: &#8220;ela era cr\u00f4nica&#8221;.<\/p>\n<p>No dia seguinte ao final do namoro, ela resolveu se dar uma festa: comprou<br \/>\nsem necessidade um batom novo vermelho bem vivo. &#8220;No banheiro da firma<br \/>\npintou a boca at\u00e9 e at\u00e9 fora dos contornos para que seus l\u00e1bios<br \/>\nfinos tivessem aquela coisa esquisita dos l\u00e1bios de Marylin Monroe<br \/>\n(mais uma refer\u00eancia ao mundo pop! )<\/p>\n<p>Gl\u00f3ria riu-se dela. Voc\u00ea endoidou, criatura?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Depois tudo passou e Macab\u00e9a continuou a gostar de n\u00e3o<br \/>\npensar em nada. Vazia, vazia&#8221; Gl\u00f3ria lhe perguntou &#8220;Por que<br \/>\n\u00e9 que voc\u00ea me pede tanta aspirina? (&#8230; ) &#8211; \u00c9 para eu<br \/>\nn\u00e3o me doer tanto ! &#8211; Voc\u00ea se d\u00f3i? &#8211; Eu me d\u00f4o o<br \/>\ntempo todo &#8211; Aonde? Dentro, n\u00e3o sei explicar. (. ) &#8211; Um dia a p\u00edlula<br \/>\nte cola na parede da garganta que nem galinha de pesco\u00e7o meio cortado,<br \/>\ncorrendo por ai&#8221;<\/p>\n<p>Macab\u00e9a rezava indiferentemente e o misterioso Deus dos outros lhe<br \/>\ndava, \u00e0s vezes, um estado de gra\u00e7a. \u2018Feliz, feliz, feliz.<br \/>\nEla de alma quase voando. E tamb\u00e9m vira o disco-voador&#8221;<\/p>\n<p>\u00c0s vezes a gra\u00e7a lhe pegava em pleno escrit\u00f3rio. Ent\u00e3o<br \/>\nela ia ao banheiro para ficar sozinha. De p\u00e9 e sorrindo at\u00e9<br \/>\npassar; esse Deus era muito misericordioso com ela: dava-lhe o que lhe tirava&#8221;<\/p>\n<p>Sua \u00fanica conex\u00e3o com o mundo restringiu-se a Gl\u00f3ria,<br \/>\nque n\u00e3o era amiga, s\u00f3 colega. Quando mais nova, Macab\u00e9a<br \/>\nse conectava com o retrato de Greta Garbo. &#8220;Mas o que ela queria mesmo<br \/>\nser n\u00e3o era a altiva Greta Garbo cuja tr\u00e1gica sensualidade estava<br \/>\nem pedestal solit\u00e1rio. Ela queria parecer com Marylin.<\/p>\n<p>O namoro de Ol\u00edmpico e Gl\u00f3ria ia bem. &#8220;Gl\u00f3ria tinha<br \/>\num traseiro alegre e fumava cigarro mentolado para manter um h\u00e1lito<br \/>\nbom nos seus beijos intermin\u00e1veis com Ol\u00edmpico&#8221; Este n\u00e3o<br \/>\nse arrependeu de ter rompido com Macab\u00e9a, pois seu destino era subir<br \/>\nna vida. Gl\u00f3ria compensou a colega por ter-lhe roubado o namorado convidando-a<br \/>\npara uma refei\u00e7\u00e3o num domingo em sua casa, onde Macab\u00e9a<br \/>\nse fartou de chocolate, biscoitos e bolo. No dia seguinte passou mal.<\/p>\n<p>&#8220;Dias depois, recebendo o sal\u00e1rio, teve a aud\u00e1cia de pela<br \/>\nprimeira vez na vida procurar o m\u00e9dico barato indicado por Gl\u00f3ria.<br \/>\n(&#8230; )<\/p>\n<p>Esse m\u00e9dico n\u00e3o tinha objetivo nenhum. A medicina era exatamente<br \/>\no que queria nada. Macab\u00e9a estava com come\u00e7o de tuberculose<br \/>\npulmonar (mas tamb\u00e9m ela s\u00f3 comia cachorro quente, tomava caf\u00e9<br \/>\ne coca-cola). O doutor lhe aconselhou comer espaguete e evitar \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Palavras do m\u00e9dico no final da consulta, quando ela demonstrou n\u00e3o<br \/>\nsaber o que era espaguete e n\u00e3o entender o que ele queria dizer com<br \/>\nevitar \u00e1lcool: &#8220;Sabe de uma coisa? V\u00e1 para os raios que<br \/>\nte partam!&#8221; A ningu\u00e9m, nem a Gl\u00f3ria contou acerca da consulta.<\/p>\n<p>A colega havia garantido a Macab\u00e9a que ficara com Ol\u00edmpico<br \/>\nporque n\u00e3o queria desobedecer a cartomante, que era m\u00e9dium.<br \/>\nTalvez por remorso, aconselhou \u00e0 nordestina: &#8220;Por que voc\u00ea<br \/>\nn\u00e3o paga uma consulta e pede pra ela te p\u00f4r as cartas?&#8221;<br \/>\nE emprestou-lhe dinheiro.<\/p>\n<p>Pela segunda vez, a mo\u00e7a tomou coragem, a pretexto de dor de dente<br \/>\nconseguiu licen\u00e7a para faltar ao servi\u00e7o. N\u00e3o lhe foi<br \/>\ndif\u00edcil descobrir o endere\u00e7o da gorda e exageradamente gentil<br \/>\nmadama Carlota, ex-prostituta, ex-cafetina, atual cartomante bem sucedida,<br \/>\nmoradora de apartamento pr\u00f3prio, f\u00e3 de Jesus, &#8220;doidinha<br \/>\npor Ele&#8221; que sempre a ajudou.<\/p>\n<p>Mais falando de si mesma do que de sua &#8220;cliente&#8221;, a cartomante<br \/>\nconcluiu: Mas, Macabeazinha. que vida horr\u00edvel a sua! Que meu amigo<br \/>\nJesus tenha d\u00f3 de voc\u00ea, filhinha! Mas que horror!&#8221; Resolveu,<br \/>\nent\u00e3o, animar a pobre coitada. &#8220;Tenho grandes noticias para lhe<br \/>\ndar:<\/p>\n<p>Sua vida vai mudar completamente! (&#8230;) At\u00e9 seu namorado vai voltar<br \/>\ne propor casamento (&#8230;) e seu chefe n\u00e3o vai mais lhe despedir! E tem<br \/>\nmais! Um dinheiro grande vai lhe entrar pela porta adentro em horas da noite<br \/>\ntrazido por um homem estrangeiro (&#8230;) Ele \u00e9 alourado e tem olhos azuis<br \/>\nou verdes ou castanhos ou pretos. (&#8230; ) Parece se chamar Hans, e \u00e9<br \/>\nele quem vai se casar com voc\u00ea!<\/p>\n<p>&#8220;Num s\u00fabito \u00edmpeto de vivo impulso, Macab\u00e9a, entre<br \/>\nferoz e desajeitada, deu um estalado beijo no mosto da madama. (..) S\u00f3<br \/>\nent\u00e3o vira que sua vida era uma mis\u00e9ria. Teve vontade de chorar.<\/p>\n<p>Saiu da casa da cartomante mudada. &#8220;At\u00e9 para atravessar a rua<br \/>\nela j\u00e1 era outra pessoa. Uma pessoa gr\u00e1vida de futuro&#8221;<\/p>\n<p>Ao dar o passo para descer da cal\u00e7ada, Macab\u00e9a foi atropelada<br \/>\npor um luxuoso Mercedes amarelo, que fugiu, sem que o motorista prestasse<br \/>\nsocorro. Ela bateu na quina do meio-fio com a cabe\u00e7a, que come\u00e7ou<br \/>\na sangrar. Tomada por uma esp\u00e9cie de del\u00edrio oco, observou que<br \/>\nhavia capim na rua. &#8220;O Destino tinha escolhido para ela um beco no escuro<br \/>\ne uma sarjeta&#8221; como se ela fosse &#8220;uma galinha de pesco\u00e7o<br \/>\nmal cortado que corre espavorida pingando sangue. S\u00f3 que Macab\u00e9a<br \/>\nlutava muda. Ent\u00e3o come\u00e7ou levemente a garoar_ Ol\u00edmpico<br \/>\ntinha raz\u00e3o ela s\u00f3 sabia mesmo era chover!<\/p>\n<p>Os curiosos que se aproximaram nada fizeram &#8220;como antes pessoas nada<br \/>\nhaviam feito por ela, s\u00f3 que agora pelo menos a espiavam. o que lhe<br \/>\ndava uma exist\u00eancia&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ela se mexeu devagar b acomodou o corpo em posi\u00e7\u00e3o fetal.<br \/>\n(. ) Era uma maldita e n\u00e3o sabia. Agarrava-se a um fiapo de consci\u00eancia<br \/>\ne repetia mentalmente sem cessar eu sou, eu sou. eu sou. Teve uma \u00famida<br \/>\nfelicidade suprema, pois ela nascera para o abra\u00e7o da morte. (.. )<br \/>\nUm gosto suave, arrepiante, g\u00e9lido e agudo como no amor. Seria esta<br \/>\na gra\u00e7a a que v\u00f3s chamais Deus? Sim? Se iria morrer, na morte<br \/>\npassava de virgem a mulher. Ent\u00e3o ela pronunciou uma frase que ningu\u00e9m<br \/>\nentendeu: &#8220;Quanto ao futuro.&#8221; Vomitou um pouco de sangue\u2019<br \/>\nEstava enfim livre de si e de n\u00f3s. (&#8230;) Viver \u00e9 um luxo. Pronto,<br \/>\npassou.&#8221;<\/p>\n<h2>COMENT\u00c1RIO<\/h2>\n<p>&#8220;A Hora da Estrela&#8221; \u00e9, basicamente, o relato das fracas<br \/>\naventuras de uma mo\u00e7a alagoana &#8220;numa cidade toda feita contra<br \/>\nela&#8221;:_ o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Clarice Lispector usa o recurso de criar um narrador-personagem: \u00e0<br \/>\nmedida que ele nos faz conhecer a protagonista, tamb\u00e9m conhece sua<br \/>\npr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>Por que o narrador escreve? Para se compreender. Enquanto eu tiver perguntas<br \/>\npara fazer e n\u00e3o houver resposta continuarei a escrever&#8221;. Sua<br \/>\ntarefa \u00e9 &#8220;a procura da palavra no escuro&#8221;. Evita tratar da<br \/>\nfelicidade: ela &#8220;provoca aquela saudade demasiada e lil\u00e1s- (.)<br \/>\nEu n\u00e3o quero provocar porque d\u00f3i.\u2019<\/p>\n<p>O narrador n\u00e3o tem classe social, \u00e9 um marginalizado &#8220;Escrevo<br \/>\npor n\u00e3o ter nada a fazer no mundo: sobrei e n\u00e3o h\u00e1 lugar<br \/>\npara mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado<br \/>\ne n\u00e3o suporto mais a rotina de me ser e se n\u00e3o fosse a sempre<br \/>\nnovidade que \u00e9 escrever, eu me morreria.-<\/p>\n<p>Macab\u00e9a \u00e9, portanto. uma inven\u00e7\u00e3o do narrador<br \/>\nque com ela se identifica e com ela morre.<\/p>\n<p>Mo\u00edda-a sobre o destino e a solid\u00e3o dele mesmo. Cria-a de forma<br \/>\nonisciente (= que tudo sabe) e onipotente ( que tudo pode). Faz da vida dela<br \/>\numa aprendizagem da morte, pois declara: &#8220;A morte que \u00e9 nesta<br \/>\nhist\u00f3ria o meu personagem predileto\u2019. Macab\u00e9a desejava<br \/>\nser estrela de cinema, admirava Greta Garbo e Marylin Monroe.<\/p>\n<p>A morte a fez atingir seu objetivo: essa foi a hora da estrela..<\/p>\n<p>De qualquer maneira, e apesar dos pesares, ou apesar do encontro marcado<br \/>\ncom o crep\u00fasculo, a mo\u00e7a experimentou a antevis\u00e3o da<br \/>\naurora &#8211; &#8220;a cartomante lhe decretara senten\u00e7a de vida&#8221; e<br \/>\nela era \u2018uma pessoa gr\u00e1vida de futuro&#8221;.<\/p>\n<p>Ao ser colhida pelo Mercedes amarelo j\u00e1 havia assumido para sempre<br \/>\na felicidade imposs\u00edvel, num esfor\u00e7o sobre-humano que consistiu<br \/>\nem mitificar o pesadelo em sonho&#8221;. (Eduardo Portella).<\/p>\n<p>Junto ao sangue de sua cabe\u00e7a, nas pedras do esgoto, estava vivo um<br \/>\ntufo de capim verde.<\/p>\n<p>Macab\u00e9a \u00e9 um substantivo coletivo, &#8220;a resistente ra\u00e7a<br \/>\nan\u00e3 teimosa&#8221;, o Nordeste rural na sua dif\u00edcil contracena<br \/>\ncom a engrenagem urbana, a cidade inconquist\u00e1vel. Ela \u00e9 o grito<br \/>\nno sil\u00eancio daqueles que est\u00e3o marginalizados social e existencialmente.<\/p>\n<p>&#8220;A Hora da Estrela\u2019 apresenta dois n\u00facleos de interesse<br \/>\na hist\u00f3ria de Macab\u00e9a e as reflex\u00f5es do narrador. E,<br \/>\npois, um romance do tipo digressivo em que as opini\u00f5es do narrador<br \/>\nfazem parte do enredo As p\u00e1ginas iniciais s\u00e3o tomadas pelos<br \/>\ncoment\u00e1rios dele sobre a pr\u00f3pria narrativa, \u00e9 um texto<br \/>\nde metalinguagem, isto \u00e9, muito preocupado com a investiga\u00e7\u00e3o<br \/>\nda natureza linguistica do pr\u00f3prio texto.<\/p>\n<p>O narrador assume tr\u00eas formas de presen\u00e7a: mon\u00f3logo fio<br \/>\ncondutor da a\u00e7\u00e3o; relato puro e simples: palavras das personagens.<\/p>\n<p>Na verdade, sofrendo de consci\u00eancia culposa, Clarice Lispector se esconde<br \/>\nna figura do narrador. Ele escreve no estilo que caracteriza a escritora:<br \/>\na palavra, material b\u00e1sico da narrativa &#8220;n\u00e3o pode ser enfeitada<br \/>\ne artisticamente v\u00e3, tem que ser apenas ela&#8221;.<\/p>\n<p>Sem ret\u00f3rica ( discursos eloquentes) e sem melodramas ( impactos emocionais),<br \/>\no interior das personagens vai aparecendo e sensibilizando ( \u00e9 o que<br \/>\nchamamos de epifania ).<\/p>\n<p>A consci\u00eancia individual passa ao primeiro plano da narra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nrevelada de forma simples, profunda e po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Embora possa parecer alienada dos problemas sociais, Clarice Lispector neste<br \/>\nlivro denuncia todo o contexto social brasileiro e, por extens\u00e3o, a<br \/>\ninjusti\u00e7a no mundo. Ela apresenta a estrutura interna do ser humano<br \/>\nmassacrado. Com este processo, aparentemente de pura introspec\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de pura fabula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, ela questiona o mundo<br \/>\norganizado e a cultura dominante, resgatando do preconceito os ofendidos e<br \/>\nhumilhados.<\/p>\n<p>Em um de seus escritos ela deixou as seguintes palavras:<\/p>\n<p>&#8220;Desde que me conhe\u00e7o o fato social teve em mim import\u00e2ncia<br \/>\nmaior do que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade<br \/>\npara mim. Muito antes de sentir &#8220;arte\u2019, senti a beleza profunda<br \/>\nda luta. Mas \u00e9 que tenho um modo simpl\u00f3rio de me aproximar do<br \/>\nfato social: eu queria era &#8220;fazer alguma coisa, como se escrever n\u00e3o<br \/>\nfosse fazer. O que n\u00e3o consigo \u00e9 usar o escrever para isso,<br \/>\npor mais que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema da justi\u00e7a<br \/>\n\u00e9 em mim um sentimento t\u00e3o \u00f3bvio e t\u00e3o b\u00e1sico<br \/>\nque n\u00e3o consigo me surpreender com ele &#8211; e, sem me surpreender n\u00e3o<br \/>\nconsigo escrever&#8221;.<\/p>\n<p>Sua preocupa\u00e7\u00e3o com o problema dos oprimidos confirma-se na<br \/>\ndedicat\u00f3ria do livro, na qual Clarice Lispector registrou &#8220;Esta<br \/>\nhist\u00f3ria acontece em estado de emerg\u00eancia e de calamidade p\u00fablica&#8221;.<br \/>\nTrata-se de livro inacabado porque lhe falta a resposta. Resposta esta que<br \/>\nespero que algu\u00e9m no mundo ma-d\u00ea\u2019<\/p>\n<h2>Considera\u00e7\u00f5es Gerais<\/h2>\n<p>Este livro tem duas caracter\u00edsticas fundamentais: a originalidade<br \/>\ndo estilo e a profundidade psicol\u00f3gica no enfoque de temas aparentemente<br \/>\nbanais. A linha condutora \u00e9 a est\u00f3ria de um imigrante nordestino<br \/>\ndeslocado e perdido na grande cidade do Rio de Janeiro. Atrav\u00e9s desse<br \/>\npersonagem, descortina-se a pobreza &#8220;feia e prom\u00edscua&#8221; e<br \/>\nao mesmo tempo a singeleza de vidas t\u00e3o pouco interessantes. A narrativa,<br \/>\ncheia de digress\u00f5es (que fazem lembrar o estilo machadiano), vai al\u00e9m<br \/>\nda descri\u00e7\u00e3o realista de um cotidiano inexpressivo &#8211; questiona<br \/>\nos valores da sociedade moderna, o papel social do artista contempor\u00e2neo<br \/>\ne a pr\u00f3pria exist\u00eancia humana. A Hora da Estrela transita entre<br \/>\no lado tr\u00e1gico e o lado espl\u00eandido da vida, entre a fragilidade<br \/>\ne a grandeza do ser humano. O tema da solid\u00e3o tem a fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde dar destaque \u00e0s desigualdades sociais e ao enigma da vida, imprimindo<br \/>\nnovas perspectivas aos problemas e indaga\u00e7\u00f5es que nos cercam<\/p>\n<h2><a name=\"45\"><\/a>A lucidez perigosa<\/h2>\n<p>Estou sentindo uma clareza t\u00e3o grande<br \/>\nque me anula como pessoa atual e comum:<br \/>\n\u00e9 uma lucidez vazia, como explicar?<br \/>\nassim como um c\u00e1lculo matem\u00e1tico perfeito<br \/>\ndo qual, no entanto, n\u00e3o se precise.<\/p>\n<p>Estou por assim dizer<br \/>\nvendo claramente o vazio.<br \/>\nE nem entendo aquilo que entendo:<br \/>\npois estou infinitamente maior que eu mesma,<br \/>\ne n\u00e3o me alcan\u00e7o.<br \/>\nAl\u00e9m do que:<br \/>\nque fa\u00e7o dessa lucidez?<br \/>\nSei tamb\u00e9m que esta minha lucidez<br \/>\npode-se tornar o inferno humano<br \/>\n&#8211; j\u00e1 me aconteceu antes.<\/p>\n<p>Pois sei que<br \/>\n&#8211; em termos de nossa di\u00e1ria<br \/>\ne permanente acomoda\u00e7\u00e3o<br \/>\nresignada \u00e0 irrealidade &#8211;<br \/>\nessa clareza de realidade<br \/>\n\u00e9 um risco.<\/p>\n<p>Apagai, pois, minha flama, Deus,<br \/>\nporque ela n\u00e3o me serve<br \/>\npara viver os dias.<br \/>\nAjudai-me a de novo consistir<br \/>\ndos modos poss\u00edveis.<br \/>\nEu consisto,<br \/>\neu consisto,<br \/>\nam\u00e9m.<\/p>\n<h2><a name=\"46\"><\/a>A Paix\u00e3o Segundo G.H.<\/h2>\n<p>Considerado por muitos o grande livro de Clarice Lispector, A paix\u00e3o<br \/>\nsegundo G.H. tem um enredo banal. Depois de despedir a empregada, uma mulher<br \/>\nvai fazer uma faxina no quarto de servi\u00e7o. Mal come\u00e7a a limpeza,<br \/>\ndepara com uma barata. Tomada pelo nojo, ela esmaga o inseto contra a porta<br \/>\nde um arm\u00e1rio. Depois, numa esp\u00e9cie b\u00e1rbara de ascese,<br \/>\ndecide provar da barata morta.<\/p>\n<p>Ao esmagar a barata, e depois degustar seu interior branco, operou-se em<br \/>\nG.H. uma revela\u00e7\u00e3o. O inseto a apanhou em meio a sua rotina<br \/>\n\u201ccivilizada\u201d, entre os filhos, afazeres dom\u00e9sticos e contas<br \/>\na pagar, e a lan\u00e7ou para fora do humano, deixando-a na borda do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nselvagem da vida. Esse desejo de encontrar o que resta do homem quando a linguagem<br \/>\nse esgota move, desde o in\u00edcio, a literatura de Clarice.<\/p>\n<p>Mesmo sem ser um livro de inspira\u00e7\u00e3o religiosa, G.H. tem,<br \/>\nainda, um aspecto epif\u00e2nico. Ao degustar a pasta branca que escorre<br \/>\nda barata morta, a protagonista comunga com o real e ali o divino &#8211; a for\u00e7a<br \/>\nimpessoal que nos move &#8211; se manifesta. E s\u00f3 depois desse ato, que desarruma<br \/>\ntoda a vis\u00e3o civilizada, G.H. pode enfim se reconstruir.<\/p>\n<p>O escritor argentino Ricardo Piglia disse certa vez que toda a literatura<br \/>\npode ser reduzida a dois g\u00eaneros fundamentais: as narrativas de amor<br \/>\ne as narrativas de mist\u00e9rio. Em G.H., essas duas claves b\u00e1sicas<br \/>\nda fic\u00e7\u00e3o se entrela\u00e7am. Pois \u00e9 justamente a mistura<br \/>\nletal de amor e mist\u00e9rio que chamamos de paix\u00e3o.<\/p>\n<p>JOS\u00c9 CASTELLO Jornalista, escritor e Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\npela UFRJ.<\/p>\n<p>A PAIX\u00c3O SEGUNDO G.H.<\/p>\n<p>CLARICE LISPECTOR A PAIX\u00c3O SEGUNDO G.H.<\/p>\n<p>Romance Rocco Rio de Janeiro &#8211; 1998 Copyright\u00a9 1964, Clarice Lispector,<br \/>\nPaulo Gurgel Valente e Pedro Gurgel Valente Direitos desta edi\u00e7\u00e3o<br \/>\nreservados \u00e0 EDITORA ROCCO LTDA.<\/p>\n<p>Rua Rodrigo Silva, 26 &#8211; 5\u00ba andar 20011-040 &#8211; Rio de Janeiro, RJ Tel.:<br \/>\n507-2000 &#8211; Fax 5072244 Printed in Brazil\/ Impresso no brasil Estabelecimento<br \/>\ndo texto Marlene Gomes Mendes (Dra. Em Literatura Brasileira pela USP\/ Prof\u00aa<br \/>\nde Cr\u00edtica Textual da UFF) CIP &#8211; Brasil. Cataloga\u00e7\u00e3o-na-fonte<br \/>\nSindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.<\/p>\n<p>L753p Lispector, Clarice, 1925-1977 A paix\u00e3o segundo G.H.: romance\/<br \/>\nClarice Lispector.<\/p>\n<p>&#8211; Rio de Janeiro: Rocco, 1998 &#8211; 1. Romance brasileiro. I. T\u00edtulo.<\/p>\n<p>97-1888 CDD-869.93 CDU-869.0(81)-3 NOTA PR\u00c9VIA 97-1889 Todo texto<br \/>\ncom tradi\u00e7\u00e3o &#8211; tomada a palavra no sentido que a Cr\u00edtica<br \/>\nTextual lhe empresta &#8211; tende a apresentar, nas reprodu\u00e7\u00f5es que<br \/>\ndele s\u00e3o feitas, um maior ou menor n\u00famero de altera\u00e7\u00f5es<br \/>\nque v\u00e3o, desde os erros cometidos por distra\u00e7\u00e3o de digitadores<br \/>\nat\u00e9 as \u201ccorre\u00e7\u00f5es\u201d bem intencionadas de revisores<br \/>\nou copidesques. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio que se proceda ao estabelecimento<br \/>\ndesse texto, procurando, no confronto com as edi\u00e7\u00f5es publicadas<br \/>\nem vida do autor, restituir-lhe sua fidedignidade e genuinidade.<\/p>\n<p>Clarice Lispector escrevia e reescrevia seus textos, mas n\u00e3o se preocupava<br \/>\nem guardar manuscritos e originais, como se pode verificar no arquivo que<br \/>\nse encontra na Funda\u00e7\u00e3o Casa de Rui Barbosa, cujo invent\u00e1rio<br \/>\nfoi organizado por Eliane Vasconcellos, e publicado em 1994. De toda sua obra<br \/>\nficcional, s\u00f3 restou um original datilografado: o de \u00c1gua viva,<br \/>\na prop\u00f3sito do qual fala em carta a Olga Borelli, mostrando como trabalhava<br \/>\nexaustivamente o texto: \u201c&#8230;N\u00e3o pude te esperar: estava morrendo<br \/>\nde cansa\u00e7o, porque estou trabalhando ininterruptamente desde as cinco<br \/>\nda manh\u00e3. Infelizmente eu \u00e9 que tenho que fazer a c\u00f3pia<br \/>\nde Atr\u00e1s do pensamento, sempre fiz a \u00faltima c\u00f3pia dos<br \/>\nmeus livros anteriores porque cada vez que copio vou modificando, acrescentando,<br \/>\nmexendo neles, enfim\u201d (grifo nosso).<\/p>\n<p>No entanto, depois de encaminhar o texto \u00e0 editora, Clarice n\u00e3o<br \/>\nse interessava mais por ele, conforme declara em entrevista concedida a Affonso<br \/>\nRomano de Sant\u2019Anna e Marina Colasanti, para o Museu da Imagem e do<br \/>\nSom, em 20 de outubro de 1976: \u201cAffonso &#8211; Voc\u00ea tem os seus textos<br \/>\nescritos na cabe\u00e7a. E uma vez voc\u00ea me disse uma coisa impressionante:<br \/>\nvoc\u00ea nunca rel\u00ea um texto seu.<\/p>\n<p>Clarice &#8211; N\u00e3o. Enj\u00f4o. Quando \u00e9 publicado, \u00e9 como<br \/>\nlivro morto. N\u00e3o quero mais saber dele. E quando eu leio, estranho,<br \/>\nacho ruim. A\u00ed n\u00e3o leio, ora!\u201d Olga Boreili, grande amiga<br \/>\ne companheira de Clarice Lispector, com quem conversamos recentemente, nos<br \/>\nassegurou que, de fato, Clarice n\u00e3o revia seus textos depois que encaminhava<br \/>\nos originais \u00e0 editora.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel trabalhar com textos de Clarice<br \/>\nLispector, ignorando-se o fato de que n\u00e3o os revia e, por tanto, n\u00e3o<br \/>\nfazia mudan\u00e7as de uma edi\u00e7\u00e3o para outra.<\/p>\n<p>Por isso, ao preparar o texto deste romance, consideramos a 1 edi\u00e7\u00e3o,<br \/>\npublicada em 1964, pela Editora do Autor, como texto base.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o segundo G.H. teve 5 edi\u00e7\u00f5es em vida da autora:<br \/>\na 2 (1968) e a 3 (1972), pela Editora Sabi\u00e1; a 4 (1974) e a 5 (1976),<br \/>\npela Jos\u00e9 Olympio. Coube-nos nesta edi\u00e7\u00e3o procurar sanar<br \/>\nas incorre\u00e7\u00f5es que, com o tempo, foram se incorporando ao texto<br \/>\noriginal da autora.<\/p>\n<p>A POSS\u00cdVEIS LEITORES Este livro \u00e9 como um livro qualquer.<\/p>\n<p>Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma j\u00e1<br \/>\nformada.<\/p>\n<p>Aquelas que sabem que a aproxima\u00e7\u00e3o, do que quer que seja,<br \/>\nse faz gradualmente e penosamente &#8211; atravessando inclusive o oposto daquilo<br \/>\nque se vai aproximar. Aquelas pessoas que, s\u00f3 elas, entender\u00e3o<br \/>\nbem devagar que este livro nada tira de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A mim, por exemplo, o personagem G. H.<\/p>\n<p>foi dando pouco a pouco uma alegria dificil; mas chama-se alegria.<\/p>\n<p>C.L.<\/p>\n<p>MARLENE GOMES MENDES \u20182! complete life may be one ending in 50 fuli<br \/>\nident with the nonself that there is no selfto die.\u201d BERNARDBERENSON<br \/>\nestou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar<br \/>\na algu\u00e9m o que vivi e n\u00e3o sei a quem, mas n\u00e3o quero ficar<br \/>\ncom o que vivi. N\u00e3o sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nprofunda. N\u00e3o confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa<br \/>\nque eu, pelo fato de n\u00e3o a saber como viver, vivi uma outra? A isso<br \/>\nquereria chamar desorganiza\u00e7\u00e3o, e teria a seguran\u00e7a de<br \/>\nme aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nanterior. A isso prefiro chamar desorganiza\u00e7\u00e3o pois n\u00e3o<br \/>\nquero me confirmar no que vivi &#8211; na confirma\u00e7\u00e3o de mim eu perderia<br \/>\no mundo como eu o tinha, e sei que n\u00e3o tenho capacidade para outro.<\/p>\n<p>Se eu me confirmar e me considerar verdadeira, estarei perdida porque n\u00e3o<br \/>\nsaberei onde engastar meu novo modo de ser &#8211; se eu for adiante nas minhas<br \/>\nvis\u00f5es fragment\u00e1rias, o mundo inteiro ter\u00e1 que se transformar<br \/>\npara eu caber nele.<\/p>\n<p>Perdi alguma coisa que me era essencial, e que j\u00e1 n\u00e3o me \u00e9<br \/>\nmais. N\u00e3o me \u00e9 necess\u00e1ria, assim como se eu tivesse perdido<br \/>\numa terceira perna que at\u00e9 ent\u00e3o me impossibilitava de andar<br \/>\nmas que fazia de mim um trip\u00e9 est\u00e1vel. Essa terceira perna eu<br \/>\nperdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive:<br \/>\napenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas \u00e9 que posso<br \/>\ncaminhar. Mas a aus\u00eancia in\u00fatil da terceira me faz falta e me<br \/>\nassusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontr\u00e1vel por mim mesma,<br \/>\ne sem sequer precisar me procurar.<\/p>\n<p>Estou desorganizada porque perdi o que n\u00e3o precisava? Nesta minha<br \/>\nnova covardia &#8211; a covardia \u00e9 o que de mais novo j\u00e1 me aconteceu,<br \/>\n\u00e9 a minha maior aventura, essa minha covardia \u00e9 um campo t\u00e3o<br \/>\namplo que s\u00f3 a grande coragem me leva a aceit\u00e1-la -, na minha<br \/>\nnova covardia, que \u00e9 como acordar de manh\u00e3 na casa de um estrangeiro,<br \/>\nn\u00e3o sei se terei coragem de simplesmente ir. \u00c9 dif\u00edcil<br \/>\nperder-se. \u00c9 t\u00e3o dif\u00edcil que provavelmente arrumarei<br \/>\ndepressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de<br \/>\nque vivo. At\u00e9 agora achar-me era j\u00e1 ter uma id\u00e9ia de<br \/>\npessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem<br \/>\nmesmo sentia o grande esfor\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o que era viver.<br \/>\nA id\u00e9ia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela<br \/>\nque me plantava no ch\u00e3o. Mas e agora? estarei mais livre? N\u00e3o.<br \/>\nSei que ainda n\u00e3o estou sentindo livremente, que de novo penso porque<br \/>\ntenho por objetivo achar &#8211; e que por seguran\u00e7a chamarei de achar o<br \/>\nmomento em que encontrar um meio de sa\u00edda. Por que n\u00e3o tenho<br \/>\ncoragem de apenas achar um meio de entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me<br \/>\nporque n\u00e3o sei para onde d\u00e1 essa entrada. E nunca antes eu me<br \/>\nhavia deixado levar, a menos que soubesse para o qu\u00ea.<\/p>\n<p>Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana.<br \/>\nSe tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que<br \/>\n\u00e9 novo e tenho medo de viver o que n\u00e3o entendo quero sempre<br \/>\nter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, n\u00e3o sei me<br \/>\nentregar \u00e0 desorienta\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 que se explica<br \/>\nque o meu maior medo seja exatamente em rela\u00e7\u00e3o: a ser? e no<br \/>\nentanto n\u00e3o h\u00e1 outro caminho. Como se explica que o meu maior<br \/>\nmedo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como \u00e9 que se<br \/>\nexplica que eu n\u00e3o tolere ver, s\u00f3 porque a vida n\u00e3o \u00e9<br \/>\no que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por<br \/>\nque \u00e9 que ver \u00e9 uma tal desorganiza\u00e7\u00e3o? E uma<br \/>\ndesilus\u00e3o. Mas desilus\u00e3o de qu\u00ea? se, sem ao menos sentir,<br \/>\neu mal devia estar tolerando minha organiza\u00e7\u00e3o apenas constru\u00edda?<br \/>\nTalvez desilus\u00e3o seja o medo de n\u00e3o pertencer mais a um sistema.<br \/>\nNo entanto se deveria dizer assim: ele est\u00e1 muito feliz porque finalmente<br \/>\nfoi desiludido. O que eu era antes n\u00e3o me era bom. Mas era desse n\u00e3o-bom<br \/>\nque eu havia organizado o melhor: a esperan\u00e7a. De meu pr\u00f3prio<br \/>\nmal eu havia criado um bem futuro. O medo agora \u00e9 que meu novo modo<br \/>\nn\u00e3o fa\u00e7a sentido? Mas por que n\u00e3o me deixo guiar pelo<br \/>\nque for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei<br \/>\no destino pela probabilidade.<\/p>\n<p>No entanto na inf\u00e2ncia as descobertas ter\u00e3o sido como num laborat\u00f3rio<br \/>\nonde se acha o que se achar? Foi como adulto ent\u00e3o que eu tive medo<br \/>\ne criei a terceira perna? Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder?<br \/>\nPerder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando.<br \/>\nAs duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa.<br \/>\nN\u00e3o sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas<br \/>\nenquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa<br \/>\nsonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia,<br \/>\naquela coisa latejando, a que eu estava t\u00e3o habituada que pensava que<br \/>\nlatejar era ser uma pessoa. \u00c9? Tamb\u00e9m , tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Fico t\u00e3o assustada quando percebo que durante horas perdi minha forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana. N\u00e3o sei se terei uma outra para substituir a perdida. Sei que<br \/>\nprecisarei tomar cuidado para n\u00e3o usar superficialmente uma nova terceira<br \/>\nperna que em mim renasce f\u00e1cil como capim, e a essa perna protetora<br \/>\nchamar de uma verdade Mas \u00e9 que tamb\u00e9m n\u00e3o sei que forma<br \/>\ndar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E &#8211; e se a realidade<br \/>\n\u00e9 mesmo que nada existiu?! Quem sabe nada me aconteceu? S\u00f3 posso<br \/>\ncompreender o que me acontece mas s\u00f3 acontece o que eu compreendo &#8211;<br \/>\nque sei do resto? O resto n\u00e3o existiu. Quem sabe nada existiu! Quem<br \/>\nsabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolu\u00e7\u00e3o? E que<br \/>\nminha luta contra essa desintegra\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo esta:<br \/>\na de tentar agora dar-lhe uma forma? Uma forma contorna o caos, uma forma<br \/>\nd\u00e1 constru\u00e7\u00e3o \u00e0 subst\u00e2ncia amorfa &#8211; a vis\u00e3o<br \/>\nde uma carne infinita \u00e9 a vis\u00e3o dos loucos, mas se eu cortar<br \/>\na carne em peda\u00e7os e distribu\u00ed-los pelos dias e pelas fomes<br \/>\n&#8211; ent\u00e3o ela n\u00e3o ser\u00e1 mais a perdi\u00e7\u00e3o e<br \/>\na loucura: ser\u00e1 de novo a vida humanizada.<\/p>\n<p>A vida humanizada. Eu havia humanizado demais a vida.<\/p>\n<p>Mas como fa\u00e7o agora? Devo ficar com a vis\u00e3o toda, mesmo que<br \/>\nisso signifique ter uma verdade incompreens\u00edvel? ou dou uma forma ao<br \/>\nnada, e este ser\u00e1 o meu modo de integrar em mim a minha pr\u00f3pria<br \/>\ndesintegra\u00e7\u00e3o? Mas estou t\u00e3o pouco preparada para entender.<br \/>\nAntes, sempre que eu havia tentado, meus limites me davam uma sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nf\u00edsica de inc\u00f4modo, em mim qualquer come\u00e7o de pensamento<br \/>\nesbarra logo com a testa. Cedo fui obrigada a reconhecer, sem lamentar, os<br \/>\nesbarros de minha pouca intelig\u00eancia, e eu desdizia caminho. Sabia que<br \/>\nestava fadada a pensar pouco, raciocinar me restringia dentro de minha pele.<br \/>\nComo, pois, inaugurar agora em mim o pensamento? E talvez s\u00f3 o pensamento<br \/>\nme salvasse, tenho medo da paix\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 que tenho de salvar o dia de amanh\u00e3, j\u00e1 que tenho<br \/>\nque ter uma forma porque n\u00e3o sinto for\u00e7a de ficar desorganizada,<br \/>\nj\u00e1 que fatalmente precisarei enquadrar a monstruosa carne infinita<br \/>\ne cort\u00e1-la em peda\u00e7os assimil\u00e1veis pelo tamanho de minha<br \/>\nboca e pelo tamanho da vis\u00e3o de meus olhos, j\u00e1 que fatalmente<br \/>\nsucumbirei \u00e0 necessidade de forma que vem de meu pavor de ficar delimitada<br \/>\n&#8211; ent\u00e3o que pelo menos eu tenha a coragem de deixar que essa forma<br \/>\nse forme sozinha como uma crosta que por si mesma endurece, a nebulosa de<br \/>\nfogo que se esfria em terra. E que eu tenha a grande coragem de resistir \u00e0<br \/>\ntenta\u00e7\u00e3o de inventar uma forma.<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o que farei agora por deixar subir \u00e0 tona um sentido,<br \/>\nqualquer que seja, esse esfor\u00e7o seria facilitado se eu fingisse escrever<br \/>\npara algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas receio come\u00e7ar a compor para poder ser entendida pelo algu\u00e9m<br \/>\nimagin\u00e1rio, receio come\u00e7ar a \u201cfazer\u201d um sentido,<br \/>\ncom a mesma mansa loucura que at\u00e9 ontem era o meu modo sadio de caber<br \/>\nnum sistema. Terei que ter a coragem de usar um cora\u00e7\u00e3o desprotegido<br \/>\ne de ir falando para o nada e para o ningu\u00e9m? Assim como uma crian\u00e7a<br \/>\npensa para o nada. E correr o risco de ser esmagada pelo acaso.<\/p>\n<p>N\u00e3o compreendo o que vi. E nem mesmo sei se vi, j\u00e1 que meus<br \/>\nolhos terminaram n\u00e3o se diferenciando da coisa vista. S\u00f3 por<br \/>\num inesperado tremor de linhas, s\u00f3 por uma anomalia na continuidade<br \/>\nininterrupta de minha civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 que por um \u00e1timo<br \/>\nexperimentei a vivificadora morte. A fina morte que me fez manusear o proibido<br \/>\ntecido da vida.<\/p>\n<p>\u00c9 proibido dizer o nome da vida. E eu quase o disse. Quase n\u00e3o<br \/>\nme pude desembara\u00e7ar de seu tecido, o que seria a destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndentro de mim de minha \u00e9poca.<\/p>\n<p>Talvez o que me tenha acontecido seja uma compreens\u00e3o &#8211; e que, para<br \/>\neu ser verdadeira, tenho que continuar a n\u00e3o estar \u00e0 altura<br \/>\ndela, tenho que continuar a n\u00e3o entend\u00ea-la. Toda compreens\u00e3o<br \/>\ns\u00fabita se parece muito com uma aguda incompreens\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o. Toda compreens\u00e3o s\u00fabita \u00e9 finalmente a<br \/>\nrevela\u00e7\u00e3o de uma aguda incompreens\u00e3o. Todo momento de<br \/>\nachar \u00e9 um perder-se a si pr\u00f3prio. Talvez me tenha acontecido<br \/>\numa compreens\u00e3o t\u00e3o total quanto uma ignor\u00e2ncia, e dela<br \/>\neu venha a sair intocada e inocente como antes. Qualquer entender meu nunca<br \/>\nestar\u00e1 \u00e0 altura dessa compreens\u00e3o, pois viver \u00e9<br \/>\nsomente a altura a que posso chegar &#8211; meu \u00fanico n\u00edvel \u00e9<br \/>\nviver, S\u00f3 que agora, agora sei de um segredo. Que j\u00e1 estou esquecendo,<br \/>\nah sinto que j\u00e1 estou esquecendo&#8230;<\/p>\n<p>Para sab\u00ea-lo de novo, precisaria agora re-morrer. E saber ser\u00e1<br \/>\ntalvez o assassinato de minha alma humana. E n\u00e3o quero, n\u00e3o<br \/>\nquero. O que ainda poderia me salvar seria uma entrega \u00e0 nova ignor\u00e2ncia,<br \/>\nisso seria poss\u00edvel. Pois ao mesmo tempo que luto por saber, a minha<br \/>\nnova ignor\u00e2ncia, que \u00e9 o esquecimento, tornou-se sagrada. Sou<br \/>\na vestal de um segredo que n\u00e3o sei mais qual foi. E sirvo ao perigo<br \/>\nesquecido. Soube o que n\u00e3o pude entender, minha boca ficou selada,<br \/>\ne s\u00f3 me restaram os fragmentos incompreens\u00edveis de um ritual.<br \/>\nEmbora pela primeira vez eu sinta que meu esquecimento esteja enfim ao n\u00edvel<br \/>\ndo mundo. Ah, e nem ao menos quero que me seja explicado aquilo que para ser<br \/>\nexplicado teria que sair de si mesmo. N\u00e3o quero que me seja explicado<br \/>\no que de novo precisaria da valida\u00e7\u00e3o humana para ser interpretado.<\/p>\n<p>Vida e morte foram minhas, e eu fui monstruosa. Minha coragem foi a de um<br \/>\nson\u00e2mbulo que simplesmente vai. Durante as horas de perdi\u00e7\u00e3o<br \/>\ntive a coragem de n\u00e3o compor nem organizar. E, sobretudo a de n\u00e3o<br \/>\nprever. At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o tivera a coragem de me deixar<br \/>\nguiar pelo que n\u00e3o conhe\u00e7o e em dire\u00e7\u00e3o ao que<br \/>\nn\u00e3o conhe\u00e7o: minhas previs\u00f5es condicionavam de antem\u00e3o<br \/>\no que eu veria. N\u00e3o eram as antevis\u00f5es da vis\u00e3o: j\u00e1<br \/>\ntinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previs\u00f5es me fechavam o mundo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que por horas desisti. E, por Deus, tive o que eu n\u00e3o<br \/>\ngostaria. N\u00e3o foi ao longo de um vale fluvial que andei eu sempre pensara<br \/>\nque encontrar seria f\u00e9rtil e \u00famido como vales fluviais. N\u00e3o<br \/>\ncontava que fosse esse grande desencontro.<\/p>\n<p>Para que eu continue humana meu sacrif\u00edcio ser\u00e1 o de esquecer?<br \/>\nAgora saberei reconhecer na face comum de algumas pessoas que elas esqueceram.<br \/>\nE nem sabem mais que esqueceram o que esqueceram.<\/p>\n<p>Eu vi. Sei que vi porque n\u00e3o dei ao que vi o meu sentido. Sei que<br \/>\nvi &#8211; porque n\u00e3o entendo. Sei que vi &#8211; porque para nada serve o que<br \/>\nvi. Escuta, vou ter que falar porque n\u00e3o sei o que fazer de ter vivido.<br \/>\nPior ainda: n\u00e3o quero o que vi. O que vi arrebenta a minha vida di\u00e1ria.<br \/>\nDesculpa eu te dar isto, eu bem queria ter visto coisa melhor. Toma o que<br \/>\nvi, livra-me de minha in\u00fatil vis\u00e3o, e de meu pecado in\u00fatil.<\/p>\n<p>Estou t\u00e3o assustada que s\u00f3 poderei aceitar que me perdi se<br \/>\nimaginar que algu\u00e9m me est\u00e1 dando a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Dar a m\u00e3o a algu\u00e9m sempre foi o que esperei da alegria. Muitas<br \/>\nvezes antes de adormecer &#8211; nessa pequena luta por n\u00e3o perder a consci\u00eancia<br \/>\ne entrar no mundo maior &#8211; muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para<br \/>\na grandeza do sono, finjo que algu\u00e9m est\u00e1 me dando a m\u00e3o<br \/>\ne ent\u00e3o vou, vou para a enorme aus\u00eancia de forma que \u00e9<br \/>\no sono. E quando mesmo assim n\u00e3o tenho coragem, ent\u00e3o eu sonho.<\/p>\n<p>Ir para o sono se parece tanto com o modo como agora tenho de ir para a<br \/>\nminha liberdade. Entregar-me ao que n\u00e3o entendo ser\u00e1 p\u00f4r-me<br \/>\n\u00e0 beira do nada. Ser\u00e1 ir apenas indo, e como uma cega perdida<br \/>\nnum campo. Essa coisa sobre natural que \u00e9 viver. O viver que eu havia<br \/>\ndomesticado para torn\u00e1-lo familiar. Essa coisa corajosa que ser\u00e1<br \/>\nentregar-me, e que \u00e9 como dar a m\u00e3o \u00e0 m\u00e3o mal-assombrada<br \/>\ndo Deus, e entrar por essa coisa sem forma que \u00e9 um para\u00edso.<br \/>\nUm para\u00edso que n\u00e3o quero! Enquanto escrever e falar vou ter<br \/>\nque fingir que algu\u00e9m est\u00e1 segurando a minha m\u00e3o.<\/p>\n<p>Oh pelo menos no come\u00e7o, s\u00f3 no come\u00e7o. Logo que puder<br \/>\ndispens\u00e1-la, irei sozinha. Por enquanto preciso segurar esta tua m\u00e3o<br \/>\n&#8211; mesmo que n\u00e3o consiga inventar teu rosto e teus olhos e tua boca.<br \/>\nMas embora decepada, esta m\u00e3o n\u00e3o me assusta. A inven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndela vem de tal id\u00e9ia de amor como se a m\u00e3o estivesse realmente<br \/>\nligada a um corpo que, se n\u00e3o vejo, \u00e9 por incapacidade de amar<br \/>\nmais. N\u00e3o estou \u00e0 altura de imaginar uma pessoa inteira porque<br \/>\nn\u00e3o sou uma pessoa inteira. E como imaginar um rosto se n\u00e3o<br \/>\nsei de que express\u00e3o de rosto preciso? Logo que puder dispensar tua<br \/>\nm\u00e3o quente, irei sozinha e com horror. O horror ser\u00e1 a minha<br \/>\nresponsabilidade at\u00e9 que se complete a metamorfose e que o horror se<br \/>\ntransforme em claridade. N\u00e3o a claridade que nasce de um desejo de<br \/>\nbeleza e moralismo, como antes mesmo sem saber eu me propunha; mas a claridade<br \/>\nnatural do que existe, e \u00e9 essa claridade natural o que me aterroriza.<\/p>\n<p>Embora eu saiba que o horror &#8211; o horror sou eu diante das coisas.<\/p>\n<p>Por enquanto estou inventando a tua presen\u00e7a, como um dia tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o saberei me arriscar a morrer sozinha, morrer \u00e9 do maior<br \/>\nrisco, n\u00e3o saberei passar para a morte e p\u00f4r o primeiro p\u00e9<br \/>\nna primeira aus\u00eancia de mim &#8211; tamb\u00e9m nessa hora \u00faltima<br \/>\ne t\u00e3o primeira inventarei a tua presen\u00e7a desconhecida e contigo<br \/>\ncome\u00e7arei a morrer at\u00e9 poder aprender sozinha a n\u00e3o existir,<br \/>\ne ent\u00e3o eu te libertarei. Por enquanto eu te prendo, e tua vida desconhecida<br \/>\ne quente est\u00e1 sendo a minha \u00fanica \u00edntima organiza\u00e7\u00e3o,<br \/>\neu que sem a tua m\u00e3o me sentiria agora solta no tamanho enorme que<br \/>\ndescobri. No tamanho da verdade? Mas \u00e9 que a verdade nunca me fez sentido.<br \/>\nA verdade n\u00e3o me faz sentido! \u00c9 por isso que eu a temia e a<br \/>\ntemo. Desamparada, eu te entrego tudo &#8211; para que fa\u00e7as disso uma coisa<br \/>\nalegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu n\u00e3o<br \/>\nfalar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.<\/p>\n<p>A verdade n\u00e3o faz sentido, a grandeza do mundo me encolhe. Aquilo<br \/>\nque provavelmente pedi e finalmente tive, veio, no entanto me deixar carente<br \/>\ncomo uma crian\u00e7a que anda sozinha pela terra. T\u00e3o carente que<br \/>\ns\u00f3 o amor de todo o universo por mim poderia me consolar e me cumular,<br \/>\ns\u00f3 um tal amor que a pr\u00f3pria c\u00e9lula-ovo das coisas vibrasse<br \/>\ncom o que estou chamando de um amor. Daquilo a que na verdade apenas chamo<br \/>\nmas sem saber-lhe o nome.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 sido o amor o que vi? Mas que amor \u00e9 esse t\u00e3o<br \/>\ncego como o de uma c\u00e9lula-ovo? foi isso? aquele horror, isso era amor?<br \/>\namor t\u00e3o neutro que &#8211; n\u00e3o, n\u00e3o quero ainda me falar,<br \/>\nfalar agora seria precipitar um sentido como quem depressa se imobiliza na<br \/>\nseguran\u00e7a paralisadora de uma terceira perna. Ou estarei apenas adiando<br \/>\no come\u00e7ar a falar? por que n\u00e3o digo nada e apenas ganho tempo?<br \/>\nPor medo. \u00c9 preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo que sinto. \u00c9 como se eu tivesse uma moeda e n\u00e3o soubesse<br \/>\nem que pa\u00eds ela vale.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar<br \/>\n\u00e0 enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi,<br \/>\ne terei que acrescentar: n\u00e3o \u00e9 isso, n\u00e3o \u00e9 isso!<br \/>\nMas \u00e9 preciso tamb\u00e9m n\u00e3o ter medo do rid\u00edculo,<br \/>\neu sempre preferi o menos ao mais por medo tamb\u00e9m do rid\u00edculo:<br \/>\n\u00e9 que h\u00e1 tamb\u00e9m o dilaceramento do pudor. Adio a hora<br \/>\nde me falar. Por medo? E porque n\u00e3o tenho uma palavra a dizer.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho uma palavra a dizer. Por que n\u00e3o me calo, ent\u00e3o?<br \/>\nMas se eu n\u00e3o for\u00e7ar a palavra a mudez me engolfar\u00e1 para<br \/>\nsempre em ondas. A palavra e a forma ser\u00e3o a t\u00e1bua onde boiarei<br \/>\nsobre vagalh\u00f5es de mudez.<\/p>\n<p>E se estou adiando come\u00e7ar \u00e9 tamb\u00e9m porque n\u00e3o<br \/>\ntenho guia. O relato de outros viajantes poucos fatos me oferecem a respeito<br \/>\nda viagem: todas as informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o terrivelmente incompletas.<\/p>\n<p>Sinto que uma primeira liberdade est\u00e1 pouco a pouco me tomando&#8230;<br \/>\nPois nunca at\u00e9 hoje temi t\u00e3o pouco a falta de bom-gosto: escrevi<br \/>\n\u201cvagalh\u00f5es de mudez\u201d, o que antes eu n\u00e3o diria porque<br \/>\nsempre respeitei a beleza e a sua modera\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca.<br \/>\nDisse \u201cvagalh\u00f5es de mudez\u201d, meu cora\u00e7\u00e3o se<br \/>\ninclina humilde, e eu aceito. Terei enfim perdido todo um sistema de bom Mas<br \/>\nser\u00e1 este o meu ganho \u00fanico? Quanto eu devia ter vivido presa<br \/>\npara sentir-me agora mais livre somente por n\u00e3o recear mais a falta<br \/>\nde est\u00e9tica&#8230; Ainda n\u00e3o pressinto o que mais terei ganho. Aos<br \/>\npoucos, quem sabe, irei percebendo. Por enquanto o primeiro prazer t\u00edmido<br \/>\nque estou tendo \u00e9 o de constatar que perdi o medo do feio. E essa perda<br \/>\n\u00e9 de uma tal bondade. \u00c9 uma do\u00e7ura.<\/p>\n<p>Quero saber o que mais, ao perder, eu ganhei. Por enquanto n\u00e3o sei:<br \/>\ns\u00f3 ao me reviver \u00e9 que vou viver.<\/p>\n<p>Mas como me reviver? Se n\u00e3o tenho uma palavra natural a dizer. Terei<br \/>\nque fazer a palavra como se fosse criar o que me aconteceu? Vou criar o que<br \/>\nme aconteceu. S\u00f3 porque viver n\u00e3o \u00e9 relat\u00e1vel.<br \/>\nViver n\u00e3o \u00e9 viv\u00edvel. Terei que criar sobre a vida. E<br \/>\nsem mentir. Criar sim, mentir n\u00e3o. Criar n\u00e3o \u00e9 imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 correr o grande risco de se ter a realidade. Entender \u00e9 uma<br \/>\ncria\u00e7\u00e3o, meu \u00fanico modo. Precisarei com esfor\u00e7o<br \/>\ntraduzir sinais de tel\u00e9grafo &#8211; traduzir o desconhecido para uma l\u00edngua<br \/>\nque desconhe\u00e7o, e sem sequer entender para que valem os sinais. Falarei<br \/>\nnessa linguagem son\u00e2mbula que se eu estivesse acordada n\u00e3o seria<br \/>\nlinguagem.<\/p>\n<p>At\u00e9 criar a verdade do que me aconteceu. Ah, ser\u00e1 mais um<br \/>\ngrafismo que uma escrita, pois tento mais uma reprodu\u00e7\u00e3o do<br \/>\nque uma express\u00e3o. Cada vez preciso menos me exprimir. Tamb\u00e9m<br \/>\nisto perdi? N\u00e3o, mesmo quando eu fazia esculturas eu j\u00e1 tentava<br \/>\napenas reproduzir, e apenas com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Ficarei perdida entre a mudez dos sinais? Ficarei, pois sei como sou: nunca<br \/>\nsoube ver sem logo precisar mais do que ver. Sei que me horrorizarei como<br \/>\numa pessoa que fosse cega e enfim abrisse os olhos e enxergasse &#8211; mas enxergasse<br \/>\no qu\u00ea? um tri\u00e2ngulo mudo e incompreens\u00edvel. Poderia essa<br \/>\npessoa n\u00e3o se considerar mais cega s\u00f3 por estar vendo um tri\u00e2ngulo<br \/>\nincompreens\u00edvel? Eu me pergunto: se eu olhar a escurid\u00e3o com<br \/>\numa lente, verei mais que a escurid\u00e3o? a lente n\u00e3o devassa a<br \/>\nescurid\u00e3o, apenas a revela ainda mais. E se eu olhar a claridade com<br \/>\numa lente, com um choque verei apenas a claridade maior.<\/p>\n<p>Enxerguei, mas estou t\u00e3o cega quanto antes porque enxerguei um tri\u00e2ngulo<br \/>\nincompreens\u00edvel. A menos que eu tamb\u00e9m me transforme no tri\u00e2ngulo<br \/>\nque reconhecer\u00e1 no incompreens\u00edvel tri\u00e2ngulo a minha pr\u00f3pria<br \/>\nfonte e repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estou adiando. Sei que tudo o que estou falando \u00e9 s\u00f3 para<br \/>\nadiar &#8211; adiar o momento em que terei que come\u00e7ar a dizer, sabendo que<br \/>\nnada mais me resta a dizer. Estou adiando o meu sil\u00eancio. A vida toda<br \/>\nadiei o sil\u00eancio? mas agora, por desprezo pela palavra, talvez enfim<br \/>\neu possa come\u00e7ar a falar.<\/p>\n<p>Os sinais de tel\u00e9grafo. O mundo eri\u00e7ado de antenas, e eu captando<br \/>\no sinal. S\u00f3 poderei fazer a transcri\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica.<br \/>\nH\u00e1 tr\u00eas mil anos desvairei-me, e o que restaram foram fragmentos<br \/>\nfon\u00e9ticos de mim. Estou mais cega do que antes. Vi, sim. Vi, e me assustei<br \/>\ncom a verdade bruta de um mundo cujo maior horror \u00e9 que ele \u00e9<br \/>\nt\u00e3o vivo que, para admitir que estou t\u00e3o viva quanto ele &#8211; e<br \/>\nminha pior descoberta \u00e9 que estou t\u00e3o viva quanto ele &#8211; terei<br \/>\nque al\u00e7ar minha consci\u00eancia de vida exterior a um ponto de crime<br \/>\ncontra a minha vida pessoal.<\/p>\n<p>Para a minha anterior moralidade profunda &#8211; minha moralidade era o desejo<br \/>\nde entender e, como eu n\u00e3o entendia, eu arrumava as coisas, foi s\u00f3<br \/>\nontem e agora que descobri que sempre fora profundamente moral: eu s\u00f3<br \/>\nadmitia a finalidade &#8211; para a minha profunda moralidade anterior, eu ter descoberto<br \/>\nque estou t\u00e3o cruamente viva quanto essa crua luz que ontem aprendi,<br \/>\npara aquela minha moralidade, a gl\u00f3ria dura de estar viva \u00e9<br \/>\no horror. Eu antes vivia de um mundo humanizado, mas o puramente vivo derrubou<br \/>\na moralidade que eu tinha? \u00c9 que um mundo todo vivo tem a for\u00e7a<br \/>\nde um Inferno.<\/p>\n<p>Ontem de manh\u00e3 quando sa\u00ed da sala para o quarto da empregada<br \/>\n&#8211; nada me fazia supor que eu estava a um passo da descoberta de um imp\u00e9rio.<br \/>\nA um passo de mim. Minha luta mais prim\u00e1ria pela vida mais prim\u00e1ria<br \/>\nia-se abrir com a tranq\u00fcila ferocidade devoradora dos animais do deserto.<br \/>\nEu ia me defrontar em mim com um grau de vida t\u00e3o primeiro que estava<br \/>\npr\u00f3ximo do inanimado. No entanto nenhum gesto meu era indicativo de<br \/>\nque eu, com os l\u00e1bios secos pela sede, ia existir.<\/p>\n<p>S\u00f3 depois \u00e9 que me ocorreria uma frase antiga que tola mente<br \/>\nse gravara h\u00e1 anos na minha mem\u00f3ria, apenas o subt\u00edtulo<br \/>\nde um artigo numa revista e que eu terminara por n\u00e3o ler: \u201cPerdida<br \/>\nno inferno abrasador de um canyon uma mulher luta desesperadamente pela vida\u201d.<br \/>\nNada me fazia supor ao que eu ia. Mas \u00e9 que nunca fui capaz de perceber<br \/>\nas coisas se encaminhando; todas as vezes que elas chegavam a um \u00e1pice,<br \/>\nme parecia com surpresa um rompimento, explos\u00e3o dos instantes, com<br \/>\ndata, e n\u00e3o a continua\u00e7\u00e3o de uma ininterrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, antes de entrar no quarto, o que era eu? Era o que<br \/>\nos outros sempre me haviam visto ser, e assim eu me conhecia. N\u00e3o sei<br \/>\ndizer o que eu era. Mas quero ao menos me lembrar: que estava eu fazendo?<br \/>\nEram quase dez horas da manh\u00e3, e h\u00e1 muito tempo meu apartamento<br \/>\nn\u00e3o me pertencia tanto. No dia anterior a empregada se despedira. O<br \/>\nfato de ningu\u00e9m falar ou andar e poder provocar acontecimentos alargava<br \/>\nem sil\u00eancio esta casa onde em semiluxo eu vivo. Atardava-me \u00e0<br \/>\nmesa do caf\u00e9 como est\u00e1 sendo dif\u00edcil saber como eu era.<br \/>\nNo entanto tenho que fazer o esfor\u00e7o de pelo menos me dar uma forma<br \/>\nanterior para poder entender o que aconteceu ao ter perdido essa forma.<\/p>\n<p>Eu me atardava \u00e0 mesa do caf\u00e9, fazendo bolinhas de miolo de<br \/>\np\u00e3o &#8211; era isso? Preciso saber, preciso saber o que eu era! Eu era isto:<br \/>\neu fazia distraidamente bolinhas redondas com miolo de p\u00e3o, e minha<br \/>\n\u00faltima e tranq\u00fcila liga\u00e7\u00e3o amorosa dissolvera-se<br \/>\namistosamente com um afago, eu ganhando de novo o gosto ligeiramente ins\u00edpido<br \/>\ne feliz da liberdade. Isto me situa? Sou agrad\u00e1vel tenho amizades sinceras,<br \/>\ne ter consci\u00eancia disso faz com que eu tenha por mim uma amizade apraz\u00edvel<br \/>\no que nunca excluiu um certo sentimento ir\u00f4nico por mim mesma, embora<br \/>\nsem persegui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas &#8211; como era antes o meu sil\u00eancio, \u00e9 o que n\u00e3o sei<br \/>\ne nunca soube. \u00c0s vezes, olhando um instant\u00e2neo tirado na praia<br \/>\nou numa festa, percebia com leve apreens\u00e3o ir\u00f4nica o que aquele<br \/>\nrosto sorridente e escurecido me revelava: um sil\u00eancio. Um sil\u00eancio<br \/>\ne um destino que me escapavam, eu, fragmento hierogl\u00edfico de um imp\u00e9rio<br \/>\nmorto ou vivo. Ao olhar o retrato eu via o mist\u00e9rio. N\u00e3o. Vou<br \/>\nperder o resto do medo do mau-gosto, vou come\u00e7ar meu exerc\u00edcio<br \/>\nde coragem, viver n\u00e3o \u00e9 coragem, saber que se vive \u00e9<br \/>\na coragem &#8211; e vou dizer que na minha fotografia eu via O Mist\u00e9rio.<br \/>\nA surpresa me tomava de leve, s\u00f3 agora estou sabendo que era uma surpresa<br \/>\no que me tomava: \u00e9 que nos olhos sorridentes havia um sil\u00eancio<br \/>\ncomo s\u00f3 vi em lagos, e como s\u00f3 ouvi no sil\u00eancio mesmo.<\/p>\n<p>Nunca, ent\u00e3o, havia eu de pensar que um dia iria de encontro a este<br \/>\nsil\u00eancio. Ao estilha\u00e7amento do sil\u00eancio. Olhava de relance<br \/>\no rosto fotografado e, por um segundo, naquele rosto inexpressivo o mundo<br \/>\nme olhava de volta tamb\u00e9m inexpressivo. Este &#8211; apenas esse &#8211; foi o<br \/>\nmeu maior contato comigo mesma? o maior aprofundamento mudo a que cheguei,<br \/>\nminha liga\u00e7\u00e3o mais cega e direta com o mundo. O resto &#8211; o resto<br \/>\neram sempre as organiza\u00e7\u00f5es de mim mesma, agora sei, ah, agora<br \/>\neu sei. O resto era o modo como pouco a pouco eu havia me transformado na<br \/>\npessoa que tem o meu nome. E acabei sendo o meu nome. \u00c9 suficiente<br \/>\nver no couro de minhas valises as iniciais G.H., e eis-me. Tamb\u00e9m dos<br \/>\noutros eu n\u00e3o exigia mais do que a primeira cobertura das iniciais<br \/>\ndos nomes. Al\u00e9m do mais a \u201cpsicologia\u201d nunca me interessou,<br \/>\nO olhar psicol\u00f3gico me impacientava e me impacienta, \u00e9 um instrumento<br \/>\nque s\u00f3 transpassa. Acho que desde a adolesc\u00eancia eu havia sa\u00eddo<br \/>\ndo est\u00e1gio do psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A G.H. vivera muito, quero dizer, vivera muitos fatos. Quem sabe eu tive<br \/>\nde algum modo pressa de viver logo tudo o que eu tivesse a viver para que<br \/>\nme sobrasse tempo de&#8230; de viver sem fatos? de viver. Cumpri cedo os deveres<br \/>\nde meus sentidos, tive cedo e rapidamente dores e alegrias &#8211; para ficar depressa<br \/>\nlivre do meu destino humano menor? e ficar livre para buscar a minha trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Minha trag\u00e9dia estava em alguma parte. Onde estava o meu destino<br \/>\nmaior? um que n\u00e3o fosse apenas o enredo de minha vida. A trag\u00e9dia<br \/>\n&#8211; que \u00e9 a aventura maior &#8211; nunca se realizara em mim. S\u00f3 o meu<br \/>\ndestino pessoal era o que eu conhecia. E o que eu queria.<\/p>\n<p>Em torno de mim espalho a tranq\u00fcilidade que vem de se chegar a um grau<br \/>\nde realiza\u00e7\u00e3o a ponto de se ser G.H. at\u00e9 nas valises.<br \/>\nTamb\u00e9m para a minha chamada vida interior eu adotara sem sentir a minha<br \/>\nreputa\u00e7\u00e3o: eu me trato como as pessoas me tratam, sou aquilo<br \/>\nque de mim os outros v\u00eaem. Quando eu ficava sozinha n\u00e3o havia<br \/>\numa queda, havia apenas um grau a menos daquilo que eu era com os outros,<br \/>\ne isso sempre foi a minha naturalidade e a minha sa\u00fade. E a minha esp\u00e9cie<br \/>\nde beleza. S\u00f3 meus retratos \u00e9 que fotografavam um abismo? Um<br \/>\nabismo.<\/p>\n<p>Um abismo de nada. S\u00f3 essa coisa grande e vazia: um abismo.<\/p>\n<p>Ajo como o que se chama de pessoa realizada. Ter feito escultura durante<br \/>\num tempo indeterminado e intermitente tamb\u00e9m me dava um passado e um<br \/>\npresente que fazia com que os outros me situassem: a mim se referem como a<br \/>\nalgu\u00e9m que faz esculturas que n\u00e3o seriam m\u00e1s se tivesse<br \/>\nhavido menos amadorismo. Para uma mulher essa reputa\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\nsocialmente muito, e situou-me, tanto para os outros como para mim mesma,<br \/>\nnuma zona que socialmente fica entre mulher e homem. O que me deixava muito<br \/>\nmais livre para ser mulher, j\u00e1 que eu n\u00e3o me ocupava formalmente<br \/>\nem s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 minha chamada vida \u00edntima, talvez tamb\u00e9m tenha<br \/>\nsido a escultura espor\u00e1dica o que lhe deu um leve tom de pr\u00e9-cl\u00edmax<br \/>\n&#8211; talvez por causa do uso de um certo tipo de aten\u00e7\u00e3o a que<br \/>\nmesmo a arte diletante obriga. Ou por ter passado pela experi\u00eancia de<br \/>\ndesgastar pacientemente a mat\u00e9ria at\u00e9 gradativamente encontrar<br \/>\nsua escultura imanente; ou por ter tido, atrav\u00e9s ainda da escultura,<br \/>\na objetividade for\u00e7ada de lidar com aquilo que j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nera eu.<\/p>\n<p>Tudo isso me deu o leve tom de pr\u00e9-cl\u00edmax de quem sabe que,<br \/>\nauscultando os objetos, algo desses objetos vir\u00e1 que me ser\u00e1<br \/>\ndado e por sua vez dado de volta aos objetos. Talvez tenha sido esse tom de<br \/>\npr\u00e9-cl\u00edmax o que eu via na sorridente fotografia mal-assombrada<br \/>\nde um rosto cuja palavra \u00e9 um sil\u00eancio inexpressivo, todos os<br \/>\nretratos de pessoas s\u00e3o um retrato de Mona Lisa.<\/p>\n<p>E \u00e9 s\u00f3 o que posso dizer a meu respeito? Ser \u201csincera\u201d?<br \/>\nRelativamente sou. N\u00e3o minto para formar verdades falsas. Mas usei<br \/>\ndemais as verdades como pretexto. A verdade como pretexto para mentir? Eu<br \/>\npoderia relatar a mim mesma o que me lisonjeasse, e tamb\u00e9m fazer o<br \/>\nrelato da sordidez. Mas tenho que tomar cuidado de n\u00e3o confundir defeitos<br \/>\ncom verdades. Tenho medo daquilo a que me levaria uma sinceridade: \u00e0<br \/>\nminha chamada nobreza, que omito, \u00e0 minha chamada sordidez, que tamb\u00e9m<br \/>\nomito. Quanto mais sincera eu fosse, mais seria levada a me lisonjear tanto<br \/>\ncom as ocasionais nobrezas como sobretudo com a ocasional sordidez. A sinceridade<br \/>\ns\u00f3 n\u00e3o me levaria a me vangloriar da mesquinhez. Essa eu omito,<br \/>\ne n\u00e3o s\u00f3 por falta do autoperd\u00e3o, eu que me perdoei tudo<br \/>\no que foi grave e maior em mim. A mesquinhez eu tamb\u00e9m a omito porque<br \/>\na confiss\u00e3o me \u00e9 muitas vezes uma vaidade, mesmo a confiss\u00e3o<br \/>\npenosa.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que eu queira estar pura da vaidade, mas preciso ter<br \/>\no campo ausente de mim para poder andar. Se eu andar. Ou n\u00e3o querer<br \/>\nter vaidade \u00e9 a pior forma de se envaidecer? N\u00e3o, acho que estou<br \/>\nprecisando de olhar sem que a cor de meus olhos importe, preciso ficar isenta<br \/>\nde mim para ver.<\/p>\n<p>E \u00e9 isso tudo o que eu era? Quando abro a porta a uma visita inesperada,<br \/>\no que surpreendo no rosto de quem est\u00e1 me vendo \u00e0 porta \u00e9<br \/>\nque acabam de surpreender em mim meu suave pr\u00e9-cl\u00edmax. O que<br \/>\nos outros recebem de mim reflete-se ent\u00e3o de volta para mim, e forma<br \/>\na atmosfera do que se chama: eu. O pr\u00e9-climax foi talvez at\u00e9<br \/>\nagora a minha exist\u00eancia. A outra &#8211; a inc\u00f3gnita e an\u00f4nima<br \/>\n&#8211; essa outra minha exist\u00eancia que era apenas profunda, era o que provavelmente<br \/>\nme dava a seguran\u00e7a de quem tem sempre na cozinha uma chaleira em fogo<br \/>\nbaixo: para o que desse e viesse, eu teria a qualquer momento \u00e1gua<br \/>\nfervendo.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a \u00e1gua nunca fervera. Eu n\u00e3o precisava de viol\u00eancia,<br \/>\neu fervilhava o suficiente para a \u00e1gua nunca ferver nem derramar. N\u00e3o,<br \/>\neu n\u00e3o conhecia a viol\u00eancia. Eu nascera sem miss\u00e3o, minha<br \/>\nnatureza n\u00e3o me impunha nenhuma; e sempre tive a m\u00e3o bastante<br \/>\ndelicada para n\u00e3o me impor um papel. Eu n\u00e3o me impunha um papel,<br \/>\nmas me organizara para ser compreendida por mim, n\u00e3o suportaria n\u00e3o<br \/>\nme encontrar no cat\u00e1logo. Minha pergunta, se havia, n\u00e3o era:<br \/>\n\u201cque sou\u201d, mas \u201centre quais eu sou\u201d. Meu ciclo era<br \/>\ncompleto: o que eu vivia no presente j\u00e1 se condicionava para que eu<br \/>\npudesse posteriormente me entender. Um olho vigiava a minha vida. A esse olho<br \/>\nora provavelmente eu chamava de verdade, ora de moral, ora de lei humana,<br \/>\nora de Deus, ora de mim. Eu vivia mais dentro de um espelho. Dois minutos<br \/>\ndepois de nascer eu j\u00e1 havia perdido as minhas origens.<\/p>\n<p>Um passo antes do cl\u00edmax, um passo antes da revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\num passo antes do que se chama amor. Um passo antes de minha vida &#8211; que, por<br \/>\numa esp\u00e9cie de forte \u00edm\u00e3 ao contr\u00e1rio, eu n\u00e3o<br \/>\ntransformava em vida; e tamb\u00e9m por uma vontade de ordem. H\u00e1<br \/>\num mau-gosto na desordem de viver. E mesmo eu nem saberia, se tivesse desejado,<br \/>\ntransformar esse passo latente em passo real. Pelo prazer por uma coes\u00e3o<br \/>\nharmoniosa, pelo prazer avaro e permanentemente promissor de ter &#8211; mas n\u00e3o<br \/>\ngastar &#8211; eu n\u00e3o precisava do cl\u00edmax ou da revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nou de mais do que o pr\u00e9-amor, que \u00e9 t\u00e3o mais feliz que<br \/>\namor. A promessa me bastava? Uma promessa me bastava.<\/p>\n<p>Quem sabe essa atitude ou falta de atitude tamb\u00e9m tenha vindo de<br \/>\neu, nunca tendo tido marido ou filhos, n\u00e3o ter precisado, como se diz,<br \/>\nmanter ou quebrar grilh\u00f5es: eu era continuamente livre. Ser continuamente<br \/>\nlivre tamb\u00e9m era ajudado pela minha natureza que \u00e9 f\u00e1cil:<br \/>\ncomo e bebo e durmo f\u00e1cil. E tamb\u00e9m, \u00e9 claro, minha liberdade<br \/>\nvinha de eu ser financeiramente independente.<\/p>\n<p>Da escultura, suponho, veio meu jeito de s\u00f3 pensar na hora de pensar,<br \/>\npois eu aprendera a s\u00f3 pensar com as m\u00e3os e na hora de us\u00e1-las.<br \/>\nTamb\u00e9m da escultura intermitente fica -me o h\u00e1bito do prazer,<br \/>\na que por natureza eu j\u00e1 tendia: meus olhos tanto haviam manuseado<br \/>\na forma das coisas que eu fora aprendendo cada vez mais o prazer, e enraizando<br \/>\nme nele. Eu podia, com muito menos do que eu era, eu j\u00e1 podia usar<br \/>\ntudo: exatamente como ontem, \u00e0 mesa do caf\u00e9, me bastava, para<br \/>\nformar formas redondas de miolo de p\u00e3o, a superf\u00edcie de meus<br \/>\ndedos e a superf\u00edcie do miolo de p\u00e3o. Para ter o que eu tinha<br \/>\neu nunca precisara nem de dor nem de talento, o que eu tinha n\u00e3o me<br \/>\nera conquista, era dom.<\/p>\n<p>E quanto a homens e mulheres, que era eu? Sempre tive uma admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nextremamente afetuosa por h\u00e1bitos e jeitos masculinos, e sem urg\u00eancia<br \/>\ntinha o prazer de ser feminina, ser feminina tamb\u00e9m me foi um dom.<br \/>\nS\u00f3 tive a facilidade dos dons, e n\u00e3o o espanto das voca\u00e7\u00f5es<br \/>\n&#8211; \u00e9 isso? Da mesa onde me atardava porque tinha tempo, eu olhava em<br \/>\ntorno enquanto os dedos arredondavam o miolo de p\u00e3o. O mundo era um<br \/>\nlugar. Que me servia para viver: no mundo eu podia colar uma bolinha de miolo<br \/>\nna outra, bastava justap\u00f4-las, e, sem mesmo for\u00e7ar, bastava pressiona-las<br \/>\no suficiente para que uma superf\u00edcie se unisse a outra superf\u00edcie,<br \/>\ne assim com prazer eu ia formando uma pir\u00e2mide curiosa que me satisfazia:<br \/>\num tri\u00e2ngulo reto feito de formas redondas, uma forma que \u00e9 feita<br \/>\nde suas formas opostas. Se isso me tinha um sentido, o miolo de p\u00e3o<br \/>\ne meus dedos provavelmente sabiam.<\/p>\n<p>O apartamento me reflete. \u00c9 no \u00faltimo andar, o que \u00e9<br \/>\nconsiderado uma eleg\u00e2ncia. Pessoas de meu ambiente procuram morar na<br \/>\nchamada \u201ccobertura\u201d. \u00c9 bem mais que uma eleg\u00e2ncia.<br \/>\n\u00c9 um verdadeiro prazer: de l\u00e1 domina-se uma cidade. Quando essa<br \/>\neleg\u00e2ncia se vulgarizar, eu, sem sequer saber por que, me mudarei para<br \/>\noutra eleg\u00e2ncia? Talvez. Como eu, o apartamento tem penumbras e luzes<br \/>\n\u00famidas, nada aqui \u00e9 brusco: um aposento precede e promete o<br \/>\noutro. Da minha sala de jantar eu via as misturas de sombras que preludiavam<br \/>\no living. Tudo aqui \u00e9 a r\u00e9plica elegante, ir\u00f4nica e espirituosa<br \/>\nde uma vida que nunca existiu em parte alguma: minha casa \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o<br \/>\napenas art\u00edstica.<\/p>\n<p>Tudo aqui se refere na verdade a uma vida que se fosse real n\u00e3o me<br \/>\nserviria. O que decalca ela, ent\u00e3o? Real, eu n\u00e3o a entenderia,<br \/>\nmas gosto da duplicata e a entendo. A c\u00f3pia \u00e9 sempre bonita.<br \/>\nO ambiente de pessoas semi-art\u00edsticas e art\u00edsticas em que vivo<br \/>\ndeveria, no entanto, me fazer desvalorizar as c\u00f3pias: mas sempre pareci<br \/>\npreferir a par\u00f3dia, ela me servia. Decalcar uma vida provavelmente<br \/>\nme dava &#8211; ou d\u00e1 ainda? at\u00e9 que ponto se rebentou a harmonia<br \/>\nde meu passado? &#8211; decalcar uma vida provavelmente me dava seguran\u00e7a<br \/>\nexatamente por essa vida n\u00e3o ser minha: ela n\u00e3o me era uma responsabilidade.<\/p>\n<p>O leve prazer geral &#8211; que parece ter sido o tom em que vivo ou vivia &#8211; talvez<br \/>\nviesse de que o mundo n\u00e3o era eu nem meu: eu podia usufru\u00ed-lo.<br \/>\nAssim como tamb\u00e9m aos homens eu n\u00e3o os havia feito meus, e podia<br \/>\nent\u00e3o admira-los e sinceramente am\u00e1-los, como se ama sem ego\u00edsmos,<br \/>\ncomo se ama a uma id\u00e9ia. N\u00e3o sendo meus, eu nunca os torturava.<\/p>\n<p>Como se ama a uma id\u00e9ia. A espirituosa eleg\u00e2ncia de minha casa<br \/>\nvem de que tudo aqui est\u00e1 entre aspas. Por honestidade com uma verdadeira<br \/>\nautoria, eu cito o mundo, eu o citava, j\u00e1 que ele n\u00e3o era nem<br \/>\neu nem meu. A beleza, como a todo o mundo, uma certa beleza era o meu objetivo?<br \/>\neu vivia em beleza? Quanto a mim mesma, sem mentir nem ser verdadeira &#8211; como<br \/>\nnaquele momento em que ontem de manh\u00e3 estava sentada \u00e0 mesa<br \/>\ndo caf\u00e9 &#8211; quanto a mim mesma, sempre conservei uma aspa \u00e0 esquerda<br \/>\ne outra \u00e0 direita de mim. De algum modo \u201ccomo se n\u00e3o fosse<br \/>\neu\u201d era mais amplo do que se fosse &#8211; uma vida inexistente me possu\u00eda<br \/>\ntoda e me ocupava como uma inven\u00e7\u00e3o. Somente na fotografia,<br \/>\nao revelar-se o negativo, revelava-se algo que, inalcan\u00e7ado por mim,<br \/>\nera alcan\u00e7ado pelo instant\u00e2neo: ao revelar-se o negativo tamb\u00e9m<br \/>\nse revelava a minha presen\u00e7a de ectoplasma. Fotografia \u00e9 o retrato<br \/>\nde um c\u00f4ncavo, de uma falta, de uma aus\u00eancia? Enquanto eu mesma<br \/>\nera, mais do que limpa e correta, era uma r\u00e9plica bonita. Pois tudo<br \/>\nisso \u00e9 o que provavelmente me torna generosa e bonita. Basta o olhar<br \/>\nde um homem experimentado para que ele avalie que eis uma mulher de generosidade<br \/>\ne gra\u00e7a, e que n\u00e3o d\u00e1 trabalho, e que n\u00e3o r\u00f3i<br \/>\num homem: mulher que sorri e ri. Respeito o prazer alheio, e delicadamente<br \/>\neu como o meu prazer, o t\u00e9dio me alimenta e delicadamente me come,<br \/>\no doce t\u00e9dio de uma lua-de-mel.<\/p>\n<p>Essa imagem de mim entre aspas me satisfazia, e n\u00e3o apenas superficialmente.<br \/>\nEu era a imagem do que eu n\u00e3o era, e essa imagem do n\u00e3o-ser<br \/>\nme cumulava toda: um dos modos mais fortes \u00e9 ser negativamente. Como<br \/>\neu n\u00e3o sabia o que era, ent\u00e3o \u201cn\u00e3o ser\u201d era<br \/>\na minha maior aproxima\u00e7\u00e3o da verdade: pelo menos eu tinha o<br \/>\nlado avesso: eu pelo menos tinha o \u201cn\u00e3o\u201d, tinha o meu oposto.<br \/>\nO meu bem eu n\u00e3o sabia qual era, ent\u00e3o vivia com algum pr\u00e9-fervor<br \/>\no que era o meu mal.<\/p>\n<p>E vivendo o meu \u201cmal\u201d, eu vivia o lado avesso daquilo que nem<br \/>\nsequer eu conseguiria querer ou tentar. Assim como quem segue \u00e0 risca<br \/>\ne com amor uma vida de \u201cdevassid\u00e3o\u201d, e pelo menos tem o<br \/>\noposto do que n\u00e3o conhece nem pode nem quer: uma vida de freira. S\u00f3<br \/>\nagora sei que eu j\u00e1 tinha tudo, embora do modo contr\u00e1rio: eu<br \/>\nme dedicava a cada detalhe do n\u00e3o. Detalhadamente n\u00e3o sendo,<br \/>\neu me provava que &#8211; que eu era.<\/p>\n<p>Esse modo de n\u00e3o ser era t\u00e3o mais agrad\u00e1vel, t\u00e3o<br \/>\nmais limpo: pois, sem estar agora sendo ir\u00f4nica, sou uma mulher de esp\u00edrito.<br \/>\nE de corpo espirituoso. \u00c0 mesa do caf\u00e9 eu me enquadrava com<br \/>\nmeu robe branco, meu rosto limpo e bem esculpido, e um corpo simples. De mim<br \/>\nirradiava-se a esp\u00e9cie de bondade que vem da indulg\u00eancia pelos<br \/>\npr\u00f3prios prazeres e pelos prazeres dos outros. Eu comia delicadamente<br \/>\no meu, e delicadamente enxugava a boca com o guardanapo.<\/p>\n<p>Esse ela, G.H. no couro das valises, era eu; sou eu &#8211; ainda? N\u00e3o.<br \/>\nDesde j\u00e1 calculo que aquilo que de mais duro minha vaidade ter\u00e1<br \/>\nde enfrentar ser\u00e1 o julgamento de mim mesma: terei toda a apar\u00eancia<br \/>\nde quem falhou, e s\u00f3 eu saberei se foi a falha necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>S\u00f3 eu saberei se foi a falha necess\u00e1ria.<\/p>\n<h2><a name=\"48\"><\/a>Amor \u00e0 terra<\/h2>\n<p>Laranja na mesa.<br \/>\nBendita a \u00e1rvore<br \/>\nque te pariu.<\/p>\n<h2><a name=\"49\"><\/a>Aten\u00e7\u00e3o ao S\u00e1bado<\/h2>\n<p>Acho que s\u00e1bado \u00e9 a rosa da semana; s\u00e1bado de tarde<br \/>\na casa \u00e9 feita de cortinas ao vento, e algu\u00e9m despeja um balde<br \/>\nde \u00e1gua no terra\u00e7o; s\u00e1bado ao vento \u00e9 a rosa da<br \/>\nsemana; s\u00e1bado de manh\u00e3, a abelha no quintal, e o vento: uma<br \/>\npicada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilh\u00e3o em mim perdido: outras<br \/>\nabelhas farejar\u00e3o e no outro s\u00e1bado de manh\u00e3 vou ver<br \/>\nse o quintal vai estar cheio de abelhas.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado \u00e9 que as formigas subiam pela pedra.<\/p>\n<p>Foi num s\u00e1bado que vi um homem sentado na sombra da cal\u00e7ada<br \/>\ncomendo de uma cuia de carne-seca e pir\u00e3o; n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos<br \/>\ntomado banho.<\/p>\n<p>De tarde a campainha inaugurava ao vento a matin\u00ea de cinema: ao vento<br \/>\ns\u00e1bado era a rosa de nossa semana.<\/p>\n<p>Se chovia s\u00f3 eu sabia que era s\u00e1bado; uma rosa molhada, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9?<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esfor\u00e7o<br \/>\nmet\u00e1lico a semana se abre em rosa: o carro freia de s\u00fabito e,<br \/>\nantes do vento espantado poder recome\u00e7ar, vejo que \u00e9 s\u00e1bado<br \/>\nde tarde.<\/p>\n<p>Tem sido s\u00e1bado, mas j\u00e1 n\u00e3o me perguntam mais.<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 peguei as minhas coisas e fui para domingo de manh\u00e3.<\/p>\n<p>Domingo de manh\u00e3 tamb\u00e9m \u00e9 a rosa da semana.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 propriamente rosa que eu quero dizer.<\/p>\n<h2><a name=\"50\"><\/a>D\u00e1-me a tua M\u00e3o<\/h2>\n<p>D\u00e1-me a tua m\u00e3o:<br \/>\nVou agora te contar<br \/>\ncomo entrei no inexpressivo<br \/>\nque sempre foi a minha busca cega e secreta.<\/p>\n<p>De como entrei<br \/>\nnaquilo que existe entre o n\u00famero um e o n\u00famero dois,<br \/>\nde como vi a linha de mist\u00e9rio e fogo,<br \/>\ne que \u00e9 linha sub-rept\u00edcia.<\/p>\n<p>Entre duas notas de m\u00fasica existe uma nota,<br \/>\nentre dois fatos existe um fato,<br \/>\nentre dois gr\u00e3os de areia por mais juntos que estejam<br \/>\nexiste um intervalo de espa\u00e7o,<br \/>\nexiste um sentir que \u00e9 entre o sentir<br \/>\n&#8211; nos interst\u00edcios da mat\u00e9ria primordial<br \/>\nest\u00e1 a linha de mist\u00e9rio e fogo<br \/>\nque \u00e9 a respira\u00e7\u00e3o do mundo,<br \/>\ne a respira\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do mundo<br \/>\n\u00e9 aquilo que ouvimos<br \/>\ne chamamos de sil\u00eancio.<\/p>\n<h2><a name=\"51\"><\/a>Escrever, Humildadem T\u00e9cnica<\/h2>\n<p>Essa incapacidade de atingir, de entender, \u00e9 que faz com que eu, por<br \/>\ninstinto de&#8230; de qu\u00ea? procure um modo de falar que me leve mais depressa<br \/>\nao entendimento. Esse modo, esse &#8220;estilo&#8221; (!), j\u00e1 foi chamado<br \/>\nde v\u00e1rias coisas, mas n\u00e3o do que realmente e apenas \u00e9:<br \/>\numa procura humilde.<\/p>\n<p>Nunca tive um s\u00f3 problema de express\u00e3o, meu problema \u00e9<br \/>\nmuito mais grave: \u00e9 o de concep\u00e7\u00e3o. Quando falo em &#8220;humildade&#8221;<br \/>\nrefiro-me \u00e0 humildade no sentido crist\u00e3o (como ideal a poder<br \/>\nser alcan\u00e7ado ou n\u00e3o); refiro-me \u00e0 humildade que vem<br \/>\nda plena consci\u00eancia de se ser realmente incapaz. E refiro-me \u00e0<br \/>\nhumildade como t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Virgem Maria, at\u00e9 eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas<br \/>\n\u00e9 que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Humildade com t\u00e9cnica \u00e9 o seguinte: s\u00f3 se aproximando<br \/>\ncom humildade da coisa \u00e9 que ela n\u00e3o escapa totalmente. Descobri<br \/>\neste tipo de humildade, o que n\u00e3o deixa de ser uma forma engra\u00e7ada<br \/>\nde orgulho.<\/p>\n<p>Orgulho n\u00e3o \u00e9 pecado, pelo menos n\u00e3o grave: orgulho<br \/>\n\u00e9 coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. S\u00f3 que<br \/>\norgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que<br \/>\nerro d\u00e1 \u00e0 vida, faz perder muito tempo.<\/p>\n<h2><a name=\"52\"><\/a>Estrela perigosa<\/h2>\n<p>Estrela perigosa<br \/>\nRosto ao vento<br \/>\nMarulho e sil\u00eancio<br \/>\nleve porcelana<br \/>\ntemplo submerso<br \/>\ntrigo e vinho<br \/>\ntristeza de coisa vivida<br \/>\n\u00e1rvores j\u00e1 floresceram<br \/>\no sal trazido pelo vento<br \/>\nconhecimento por encanta\u00e7\u00e3o<br \/>\nesqueleto de id\u00e9ias<br \/>\nora pro nobis<br \/>\nDecompor a luz<br \/>\nmist\u00e9rio de estrelas<br \/>\npaix\u00e3o pela exatid\u00e3o<br \/>\nca\u00e7a aos vagalumes.<br \/>\nVagalume \u00e9 como orvalho<br \/>\nDi\u00e1logos que disfar\u00e7am conflitos por explodir<br \/>\nEla pode ser venenosa como \u00e0s vezes o cogumelo \u00e9.<\/p>\n<p>No obscuro erotismo de vida cheia<br \/>\nnodosas ra\u00edzes.<br \/>\nMissa negra, feiticeiros.<br \/>\nNa proximidade de fontes,<br \/>\nlagos e cachoeiras<br \/>\nbra\u00e7os e pernas e olhos,<br \/>\ntodos mortos se misturam e clamam por vida.<br \/>\nSinto a falta dele<br \/>\ncomo se me faltasse um dente na frente:<br \/>\nexcrucitante.<br \/>\nQue medo alegre,<br \/>\no de te esperar.<\/p>\n<h2><a name=\"53\"><\/a>Mas h\u00e1 a vida<\/h2>\n<p>Mas h\u00e1 a vida<br \/>\nque \u00e9 para ser<br \/>\nintensamente vivida,<br \/>\nh\u00e1 o amor.<br \/>\nQue tem que ser vivido<br \/>\nat\u00e9 a \u00faltima gota.<br \/>\nSem nenhum medo.<br \/>\nN\u00e3o mata.<\/p>\n<h2><a name=\"55\"><\/a>Nossa trucul\u00eancia<\/h2>\n<p>Quando penso na alegria voraz<br \/>\ncom que comemos galinha ao molho pardo,<br \/>\ndou-me conta de nossa trucul\u00eancia.<br \/>\nEu, que seria incapaz de matar uma galinha,<br \/>\ntanto gosto delas vivas<br \/>\nmexendo o pesco\u00e7o feio<br \/>\ne procurando minhocas.<br \/>\nDever\u00edamos n\u00e3o com\u00ea-las e ao seu sangue?<br \/>\nNunca.<br \/>\nN\u00f3s somos canibais,<br \/>\n\u00e9 preciso n\u00e3o esquecer.<br \/>\nE respeitar a viol\u00eancia que temos.<br \/>\nE, quem sabe, n\u00e3o com\u00eassemos a galinha ao molho pardo,<br \/>\ncomer\u00edamos gente com seu sangue.<\/p>\n<p>Minha falta de coragem de matar uma galinha<br \/>\ne no entanto com\u00ea-la morta<br \/>\nme confunde, espanta-me,<br \/>\nmas aceito.<br \/>\nA nossa vida \u00e9 truculenta:<br \/>\nnasce-se com sangue<br \/>\ne com sangue corta-se a uni\u00e3o<br \/>\nque \u00e9 o cord\u00e3o umbilical.<br \/>\nE quantos morrem com sangue.<br \/>\n\u00c9 preciso acreditar no sangue<br \/>\ncomo parte de nossa vida.<br \/>\nA trucul\u00eancia.<br \/>\n\u00c9 amor tamb\u00e9m.<\/p>\n<h2><a name=\"56\"><\/a>Os Bonecos de Barro<\/h2>\n<p>O que ela amava acima de tudo era fazer bonecos de barro \u2014 o que ningu\u00e9m<br \/>\nlhe ensinara. \u2014 Trabalhava numa pequena cal\u00e7ada de cimento em<br \/>\nsombra, junto \u00e0 \u00faltima janela do por\u00e3o. Quando queria<br \/>\ncom muita for\u00e7a ia pela estrada at\u00e9 ao rio. Numa de suas margens,<br \/>\nescal\u00e1vel embora escorregadia, achava-se o melhor barro que algu\u00e9m<br \/>\npoderia desejar: branco, male\u00e1vel, pastoso: frio. S\u00f3 em peg\u00e1-lo,<br \/>\nem sentir sua frescura delicada, alegrezinha e cega, aqueles peda\u00e7os<br \/>\ntimidamente vivos, o cora\u00e7\u00e3o da pessoa se enternecia \u00famido<br \/>\nquase rid\u00edculo. Virg\u00ednia cavava com os dedos aquela terra p\u00e1lida<br \/>\ne lavada \u2014 na lata presa \u00e0 cintura iam se reunindo os trechos<br \/>\namorfos. O rio em pequenos gestos molhava-lhe os p\u00e9s descal\u00e7os<br \/>\ne ela mexia os dedos \u00famidos com excita\u00e7\u00e3o e clareza.<br \/>\nAs m\u00e3os livres, ela ent\u00e3o cuidadosamente galgava a margem at\u00e9<br \/>\na extens\u00e3o plana . No pequeno p\u00e1tio de cimento depunha a sua<br \/>\nriqueza. Misturava o barro \u00e0 \u00e1gua, as p\u00e1lpebras frementes<br \/>\nde aten\u00e7\u00e3o \u2014 concentrada, o corpo \u00e0 escuta, ela<br \/>\npodia obter uma por\u00e7\u00e3o exata de barro e de \u00e1gua numa<br \/>\nsabedoria que nascia naquele mesmo instante, fresca e progressivamente criada.<br \/>\nConseguia uma mat\u00e9ria clara. e tenra de onde se poderia modelar um<br \/>\nmundo.<\/p>\n<p>Como, como explicar o milagre&#8230; Ela se amedrontava pensativa. Nada dizia,<br \/>\nn\u00e3o se movia, mas interiormente sem nenhuma palavra repetia: Eu n\u00e3o<br \/>\nsou nada, n\u00e3o tenho orgulho, tudo me pode acontecer; se quiser, me<br \/>\nimpedir\u00e1 de fazer a massa de barro; se quiser, pode me pisar, me estragar<br \/>\ntudo; eu sei que n\u00e3o sou nada. Era menos que uma vis\u00e3o, era<br \/>\numa sensa\u00e7\u00e3o no corpo, um pensamento assustado sobre o que lhe<br \/>\npermita conseguir tanto barro e \u00e1gua e diante de quem ela devia humilhar-se<br \/>\ncom seriedade . Ela lhe agradecia com uma alegria dif\u00edcil, fr\u00e1gil<br \/>\ne tensa; sentia em alguma coisa como o que n\u00e3o se v\u00ea de olhos<br \/>\nfechados. Mas o que n\u00e3o se v\u00ea de olhos fechados tem uma exist\u00eancia<br \/>\ne uma for\u00e7a, como o escuro, como a aus\u00eancia \u2014 compreendia-se<br \/>\nela, assentindo feroz e muda com a cabe\u00e7a. Mas nada sabia de si, passaria<br \/>\ninocente e distra\u00edda pela sua realidade sem reconhec\u00ea-la; como<br \/>\numa crian\u00e7a, como uma pessoa.<\/p>\n<p>Depois de obtida a mat\u00e9ria, numa queda de cansa\u00e7o ela poderia<br \/>\nperder a vontade de fazer bonecos. Ent\u00e3o ia vivendo para a frente como<br \/>\numa menina.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, sentia seu corpo aberto e fino, e no fundo uma serenidade<br \/>\nque n\u00e3o se podia conter, ora se desconhecendo, ora respirando tr\u00eamula<br \/>\nde alegria, as coisas incompletas. Ela mesma insone como luz \u2014 esgazeada,<br \/>\nfugaz, vazia, mas no \u00edntimo um ardor que era vontade de guiar-se a<br \/>\numa s\u00f3 coisa, um interesse que fazia o cora\u00e7\u00e3o acelerar-se<br \/>\nsem ritmo&#8230; de s\u00fabito, como era vago viver. Tudo isso tamb\u00e9m<br \/>\npoderia passar, a noite caindo repentinamente, a escurid\u00e3o fresca sobre<br \/>\no dia morno.<\/p>\n<p>Mas \u00e0s vezes ela se lembrava do barro molhado, corria alegre e assustada<br \/>\npara o p\u00e1tio: mergulhava os dedos naquela mistura fria, muda e constante<br \/>\ncomo uma espera; amassava, amassava, aos poucas ia extraindo formas. Fazia<br \/>\ncrian\u00e7as, cavalos, uma m\u00e3e com um filho, uma m\u00e3e sozinha,<br \/>\numa menina fazendo coisas de barro, um menino descansando, uma menina contente,<br \/>\numa menina vendo se ia chover, uma flor, um cometa de cauda salpicada de areia<br \/>\nlavada e faiscante, uma flor murcha com sol por cima, o cemit\u00e9rio do<br \/>\nBrejo Alto, uma mo\u00e7a olhando&#8230; Muito mais, muito mais. Pequenas formas<br \/>\nque nada significavam, mas que eram na realidade misteriosas e calmas. \u00c0s<br \/>\nvezes alta como uma \u00e1rvore alta, mas n\u00e3o eram \u00e1rvores,<br \/>\nm:to eram nada&#8230;\u00c1s vezes um pequeno objeto de forma quase estrelada,<br \/>\nmas s\u00e9rio e cansado como uma pessoa. Um trabalho que jamais acabaria,<br \/>\nisso era o que de mais bonito e atento ela j\u00e1 soubera. Pois se ela<br \/>\npodia fazer o que existia e o que n\u00e3o existia!&#8230;<\/p>\n<p>Depois de prontos, os bonecos eram colocados ao sol. Ningu\u00e9m lhe<br \/>\nensinara, mas ela os depositava nas manchas de sol no ch\u00e3o, manchas<br \/>\nsem vento nem ardor. O barro secava mansamente, conservava o tom claro, n\u00e3o<br \/>\nenrugava, n\u00e3o rachava. mesmo quando seco parecia delicado, evanescente<br \/>\ne \u00famido. E ela pr\u00f3pria podia confundi-lo com o barro pastoso.<br \/>\nAs figurinhas assim, pareciam r\u00e1pidas, quase como se fossem se desmanchar<br \/>\n\u2014 e isso era como se elas fossem se movimentar. Olhava para o boneco<br \/>\nim\u00f3vel e mudo. Por amor ou apenas prosseguindo o trabalho ela fechava<br \/>\nos olhos e se concentrava numa for\u00e7a viva e luminosa, da qualidade<br \/>\ndo perigo e da esperan\u00e7a, numa for\u00e7a de sede que lhe percorria<br \/>\no corpo celeremente com um impulso que se destinava \u00e0 figura. Quando,<br \/>\nenfim, se abandonava, seu fresco e cansado bem-estar vinha de que ela podia<br \/>\nenviar, embora n\u00e3o soubesse o que, talvez. Sim ela \u00e0s vezes<br \/>\npossu\u00eda um gosto dentro do corpo, um gosto alto e angustiante que tremia<br \/>\nentre a for\u00e7a e o cansa\u00e7o \u2014 era um pensamento como sons<br \/>\nouvidos, uma flor no cora\u00e7\u00e3o: Antes que ele se dissolvesse,<br \/>\nmaciamente r\u00e1pido, no seu ar interior, para sempre fugitivo, ela tocava<br \/>\ncom os dedos num objeto, entregando-o. E, quando queria dizer algo que vinha<br \/>\nfino, obscuro e liso \u2014 e isso poderia ser perigoso \u2014 ela encostava<br \/>\num dedo apenas, um dedo p\u00e1lido, polido e transparente, um dedo tr\u00eamulo<br \/>\nde dire\u00e7\u00e3o. No mais agudo e do\u00eddo do seu sentimento ela<br \/>\npensava: Sou feliz. Na verdade, ela o era nesse instante, e se em vez de pensar:<br \/>\nSou feliz, procurava o futuro, era porque, obscuramente, escolhia um movimento<br \/>\npara a frente que servisse de forma \u00e0 sua sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim juntara uma prociss\u00e3o de coisas mi\u00fadas. Quedavam-se<br \/>\nquase despercebidas no seu quarto. Eram bonecos magrinhos e altos como ela<br \/>\nmesma. Minuciosos, ligeiramente desproporcionados, alegres, um pouco perplexos<br \/>\n\u2014 \u00e0s vezes, subitamente, pareciam um homem coxo rindo. Mesmo<br \/>\nsuas figurinhas mais suaves tinham uma imobilidade atenta como a de um santo.<br \/>\nE pareciam inclinar-se, para quem as olhava, tamb\u00e9m como os santos.<br \/>\nVirg\u00ednia podia fit\u00e1-las uma manh\u00e3 inteira, que seu amor<br \/>\ne sua surpresa n\u00e3o diminuiriam.<\/p>\n<p>\u2014 Bonito&#8230; bonito como uma coisinha molhada, dizia ela excedendo-se<br \/>\nnum \u00edmpeto impercept\u00edvel e doce.<\/p>\n<p>Ela observava: mesmo bem acabados, eles eram toscos como se pudessem ainda<br \/>\nser trabalhados. Mas vagamente, ela pensava que nem ela nem ningu\u00e9m<br \/>\npoderia tentar aperfei\u00e7o\u00e1-los sem destruir sua linha de nascimento<br \/>\n. Era como se eles s\u00f3 pudessem se aperfei\u00e7oar por si mesmos,<br \/>\nse isso fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p>As dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo. Seus bonecos, pelo<br \/>\nefeito do barro claro, eram p\u00e1lidos. Se ela queria sombre\u00e1-los<br \/>\nn\u00e3o o conseguia com o aux\u00edlio da cor, e por for\u00e7a dessa<br \/>\ndefici\u00eancia aprendeu a lhes dar sombra ainda por meio de forma. Depois<br \/>\ninventou uma liberdade: com uma folhinha seca sob um fino tra\u00e7o de<br \/>\nbarro conseguia um vago colorido, triste assustada quase inteiramente morto.<br \/>\nMisturando barro \u00e0 terra, obtinha ainda outro material menos pl\u00e1stico,<br \/>\npor\u00e9m mais severo e solene. MAS COMO FAZER O C\u00c9U? Nem come\u00e7ar<br \/>\npodia! N\u00e3o queria nuvens \u2014 o que poderia obter, pelo menos grosseiramente<br \/>\n\u2014 mas o c\u00e9u, o c\u00e9u mesmo, com sua exist\u00eancia, cor<br \/>\nsolta, aus\u00eancia de cor. Ela descobriu que precisava usar uma mat\u00e9ria<br \/>\nmais leve que n\u00e3o pudesse sequer ser apalpada, sentida, talvez apenas<br \/>\nvista, quem sabe! Compreendeu que isso ela conseguiria com tintas.<\/p>\n<p>E \u00e0s vezes numa queda, como se tudo se purificasse, ela se contentava<br \/>\nem fazer uma superf\u00edcie lisa, serena, unida, numa simplicidade fina<br \/>\ne tranq\u00fcila.<\/p>\n<h2><a name=\"57\"><\/a>Quero escrever o borr\u00e3o vermelho de sangue<\/h2>\n<p>Quero escrever o borr\u00e3o vermelho de sangue<br \/>\ncom as gotas e co\u00e1gulos pingando<br \/>\nde dentro para dentro.<br \/>\nQuero escrever amarelo-ouro<br \/>\ncom raios de translucidez.<br \/>\nQue n\u00e3o me entendam<br \/>\npouco-se-me-d\u00e1.<br \/>\nNada tenho a perder.<br \/>\nJogo tudo na viol\u00eancia<br \/>\nque sempre me povoou,<br \/>\no grito \u00e1spero e agudo e prolongado,<br \/>\no grito que eu,<br \/>\npor falso respeito humano,<br \/>\nn\u00e3o dei.<\/p>\n<p>Mas aqui vai o meu berro<br \/>\nme rasgando as profundas entranhas<br \/>\nde onde brota o estertor ambicionado.<br \/>\nQuero abarcar o mundo<br \/>\ncom o terremoto causado pelo grito.<br \/>\nO cl\u00edmax de minha vida ser\u00e1 a morte.<\/p>\n<p>Quero escrever no\u00e7\u00f5es<br \/>\nsem o uso abusivo da palavra.<br \/>\nS\u00f3 me resta ficar nua:<br \/>\nnada tenho mais a perder.<\/p>\n<h2><a name=\"58\"><\/a>Reparti\u00e7\u00e3o dos P\u00e3es<\/h2>\n<p>Era s\u00e1bado e est\u00e1vamos convidados para o almo\u00e7o de obriga\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas cada um de n\u00f3s gostava demais de s\u00e1bado para gast\u00e1-lo<br \/>\ncom quem n\u00e3o quer\u00edamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara<br \/>\ncom a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E n\u00f3s ali presos, como se<br \/>\nnosso trem tivesse descarrilado e f\u00f4ssemos obrigados a pousar entre<br \/>\nestranhos. Ningu\u00e9m ali me queria, eu n\u00e3o queria a ningu\u00e9m.<br \/>\nQuanto a meu s\u00e1bado \u2013 que fora da janela se balan\u00e7ava<br \/>\nem ac\u00e1cias e sombras \u2013 eu preferia, a gast\u00e1-lo mal, fech\u00e1-la<br \/>\nna m\u00e3o dura, onde eu o amarfanhava como a um len\u00e7o. \u00c0<br \/>\nespera do almo\u00e7o, beb\u00edamos sem prazer, \u00e0 sa\u00fade<br \/>\ndo ressentimento: amanh\u00e3 j\u00e1 seria domingo. N\u00e3o \u00e9<br \/>\ncom voc\u00ea que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e sopr\u00e1vamos<br \/>\ndevagar a fuma\u00e7a do cigarro seco. A avareza de n\u00e3o repartir<br \/>\no s\u00e1bado,ia pouco a pouco roendo e avan\u00e7ando como ferrugem,<br \/>\nat\u00e9 que qualquer alegria seria um insulto \u00e0 alegria maior.<\/p>\n<p>S\u00f3 a dona da casa n\u00e3o parecia economizar o s\u00e1bado para<br \/>\nus\u00e1-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 conhecera outros s\u00e1bados. Como pudera esquecer que se quer<br \/>\nmais e mais? N\u00e3o se impacientava sequer com o grupo heterog\u00eaneo,<br \/>\nsonhador e resignado que na sua casa s\u00f3 esperava como pela hora do<br \/>\nprimeiro trem partir, qualquer trem \u2013 menos ficar naquela esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nvazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nbatendo para outros, outros cavalos.<\/p>\n<p>Passamos afinal \u00e0 sala para um almo\u00e7o que n\u00e3o tinha<br \/>\na b\u00ean\u00e7\u00e3o da fome. E foi quando surpreendidos deparamos<br \/>\ncom a mesa. N\u00e3o podia ser para n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado<br \/>\ne que n\u00e3o viera? Mas \u00e9ramos n\u00f3s mesmos. Ent\u00e3o<br \/>\naquela mulher dava o melhor n\u00e3o importava a quem? E lavava contente<br \/>\nos p\u00e9s do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olh\u00e1vamos.<\/p>\n<p>A mesa fora coberta por uma solene abund\u00e2ncia. Sobre a toalha branca<br \/>\namontoavam-se espigas de trigo. E ma\u00e7\u00e3s vermelhas, enormes cenouras<br \/>\namarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde l\u00edquido,<br \/>\nabacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes<br \/>\neri\u00e7ados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre<br \/>\na pr\u00f3pria carne aquosa, piment\u00f5es ocos e avermelhados que ardiam<br \/>\nnos olhos \u2013 tudo emaranhado em barbas e barbas \u00famidas de milho,<br \/>\nruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas<br \/>\ne que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E n\u00e3o lhes<br \/>\nimportava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ningu\u00e9m:<br \/>\npara o ar, para o redondo ar. S\u00e1bado era de quem viesse. E a laranja<br \/>\nado\u00e7aria a l\u00edngua de quem primeiro chegasse.<\/p>\n<p>Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava p\u00e9s de estranhos<br \/>\npusera \u2013 mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar \u2013 um ramo de<br \/>\ntrigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia<br \/>\ncom seus alegres caro\u00e7os. Tudo cortado pela acidez espanhola que se<br \/>\nadivinhava nos lim\u00f5es verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse<br \/>\natravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de t\u00e3o<br \/>\npisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de n\u00f3s. Tudo limpo<br \/>\ndo retorcido desejo humano. &#8216;Tudo como \u00e9, n\u00e3o como quis\u00e9ramos.<br \/>\nS\u00f3 existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas.<br \/>\nAssim como homens e mulheres, e n\u00e3o n\u00f3s, os \u00e1vidos. Assim<br \/>\ncomo um s\u00e1bado. Assim como apenas existe. Existe.<\/p>\n<p>Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ningu\u00e9m, era bom. Sem<br \/>\nnenhum sonho. E n\u00f3s pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados,<br \/>\ncrescendo, maiores, \u00e0 altura da vida poss\u00edvel. Ent\u00e3o,<br \/>\ncomo fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto n\u00f3s<br \/>\nquer\u00edamos com\u00ea-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo<br \/>\nofereci o que eu sentia \u00e0quilo que me fazia sentir. Era um viver que<br \/>\neu n\u00e3o pagara de antem\u00e3o com o sofrimento da espera, fome que<br \/>\nnasce quando a boca j\u00e1 est\u00e1 perto da comida. Porque agora est\u00e1vamos<br \/>\ncom fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho,<br \/>\ncom os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho<br \/>\nque o outro bebia. L\u00e1 fora Deus nas ac\u00e1cias. Que existiam. Com\u00edamos.<br \/>\nComo quem d\u00e1 \u00e1gua ao cavalo. A carne trinchada foi distribu\u00edda.<br \/>\nA cordialidade era rude e rural. Ningu\u00e9m falou mal de ningu\u00e9m<br \/>\nporque ningu\u00e9m falou bem de ningu\u00e9m. Era reuni\u00e3o de colheita,<br \/>\ne fez-se tr\u00e9gua. Com\u00edamos. Como uma horda de seres vivos, cobr\u00edamos<br \/>\ngradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a exist\u00eancia, e planta,<br \/>\ne colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem n\u00e3o<br \/>\nengana o que come: comi aquela comida e n\u00e3o o seu nome. Nunca Deus<br \/>\nfoi t\u00e3o tomado pelo que Ele \u00e9. A comida dizia rude, feliz, austera:<br \/>\ncome, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai.<br \/>\nComi sem ternura, comi sem a paix\u00e3o da piedade. E sem me oferecer \u00e0<br \/>\nesperan\u00e7a. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida.<br \/>\nPorque nem sempre posso ser a guarda de meu irm\u00e3o, e n\u00e3o posso<br \/>\nmais ser a minha guarda, ah n\u00e3o me quero mais. E n\u00e3o quero formar<br \/>\na vida porque a exist\u00eancia j\u00e1 existe. Existe como um ch\u00e3o<br \/>\nonde n\u00f3s todos avan\u00e7amos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra.<br \/>\nMas teu prazer entende o meu. N\u00f3s somos fortes e n\u00f3s comemos.<\/p>\n<p>P\u00e3o \u00e9 amor entre estranhos.<\/p>\n<h2><a name=\"59\"><\/a>Sobre a Escrita<\/h2>\n<p>Meu Deus do c\u00e9u, n\u00e3o tenho nada a dizer. O som de minha m\u00e1quina<br \/>\n\u00e9 macio.<\/p>\n<p>Que \u00e9 que eu posso escrever? Como recome\u00e7ar a anotar frases?<br \/>\nA palavra \u00e9 o meu meio de comunica\u00e7\u00e3o. Eu s\u00f3 poderia<br \/>\nam\u00e1-la. Eu jogo com elas como se lan\u00e7am dados: acaso e fatalidade.<br \/>\nA palavra \u00e9 t\u00e3o forte que atravessa a barreira do som. Cada<br \/>\npalavra \u00e9 uma id\u00e9ia. Cada palavra materializa o esp\u00edrito.<br \/>\nQuanto mais palavras eu conhe\u00e7o, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.<\/p>\n<p>Devemos modelar nossas palavras at\u00e9 se tornarem o mais fino inv\u00f3lucro<br \/>\ndos nossos pensamentos. Sempre achei que o tra\u00e7o de um escultor \u00e9<br \/>\nidentific\u00e1vel por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras<br \/>\nque digo &#8211; \u00e9 por esconderem outras palavras.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 mesmo a palavra secreta? N\u00e3o sei \u00e9 porque a ouso?<br \/>\nN\u00e3o sei porque n\u00e3o ouso diz\u00ea-la? Sinto que existe uma<br \/>\npalavra, talvez unicamente uma, que n\u00e3o pode e n\u00e3o deve ser<br \/>\npronunciada. Parece-me que todo o resto n\u00e3o \u00e9 proibido. Mas<br \/>\nacontece que eu quero \u00e9 exatamente me unir a essa palavra proibida.<br \/>\nOu ser\u00e1? Se eu encontrar essa palavra, s\u00f3 a direi em boca fechada,<br \/>\npara mim mesma, sen\u00e3o corro o risco de virar alma perdida por toda<br \/>\na eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma<br \/>\nfruta proibida. As palavras \u00e9 que me impedem de dizer a verdade.<\/p>\n<p>Simplesmente n\u00e3o h\u00e1 palavras.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o sei dizer \u00e9 mais importante do que o que eu digo.<br \/>\nAcho que o som da m\u00fasica \u00e9 imprescind\u00edvel para o ser<br \/>\nhumano e que o uso da palavra falada e escrita s\u00e3o como a m\u00fasica,<br \/>\nduas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal,<br \/>\ne mineral e vegetal tamb\u00e9m. Sim, mas \u00e9 a sorte \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>Sempre quis atingir atrav\u00e9s da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo<br \/>\ntempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranq\u00fcilidade ou simplesmente<br \/>\na verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais<br \/>\neu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecer\u00e1 quando eu<br \/>\nde todo n\u00e3o escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo<br \/>\nhomem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crep\u00fasculo<br \/>\ne pode ser uma aurora.<\/p>\n<p>Simplesmente as palavras do homem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: A bela e a fera ou A ferida grande demais A fuga Gertrudes pede um conselho Hist\u00f3ria interrompida Mais dois b\u00eabados O del\u00edrio Obsess\u00e3o Um dia a menos A Imita\u00e7\u00e3o da Rosa A menor mulher do mundo Amor Come\u00e7os de uma Fortuna Devaneio e embriaguez duma rapariga [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-94397","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Obras - Clarice Lispector, Literatura Obras - Clarice Lispector<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Obras - Clarice Lispector, Literatura, A Hora da Estrela, A Fuga, Os La\u00e7os de Fam\u00edlia, O Del\u00edrio, Preciosidade, Obras - Clarice Lispector\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Obras - Clarice Lispector, Literatura Obras - Clarice Lispector\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Obras - Clarice Lispector, Literatura, A Hora da Estrela, A Fuga, Os La\u00e7os de Fam\u00edlia, O Del\u00edrio, Preciosidade, Obras - Clarice Lispector\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/obras-clarice-lispector\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-11T17:07:44+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2017-08-25T12:29:36+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"205 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/obras-clarice-lispector#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/obras-clarice-lispector\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Obras &#8211; 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