{"id":93986,"date":"2017-01-10T15:05:37","date_gmt":"2017-01-10T17:05:37","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93986"},"modified":"2017-01-10T15:06:17","modified_gmt":"2017-01-10T17:06:17","slug":"coisas-que-so-eu-sei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/coisas-que-so-eu-sei","title":{"rendered":"Coisas Que S\u00f3 Eu Sei"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V <\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong> <a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X <\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><strong><a name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/strong><\/h4>\n<p>Na \u00faltima noite do Carnaval, que foi justamente aos 8 dias do m\u00eas de Fevereiro,<br \/>\ndo corrente ano, pelas 9 horas e meia da noite entrava no Teatro de S.Jo\u00e3o,<br \/>\ndesta her\u00f3ica e muito nobre e sempre leal cidade, um domin\u00f3 de cetim.<\/p>\n<p>Dera ele os dois primeiros passos no pavimento da plat\u00e9ia, quando um outro<br \/>\ndomin\u00f3 de veludo preto veio colocar-se-lhe frente a frente, numa contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\nim\u00f3vel.<\/p>\n<p>O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, evirou-lhe<br \/>\nas costas com indiferen\u00e7a natural.<\/p>\n<p>O segundo, momentos depois, aparecia ao lado do primeiro, com a mesma aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom a mesma penetra\u00e7\u00e3o de vista.<\/p>\n<p>Desta vez o domin\u00f3-cetim aventurou uma pergunta naquele desgracioso falsete,<br \/>\nque todos n\u00f3s conhecemos:<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab N\u00e3o quer mais do que isso ? \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Do qu\u2019isso !\u2026 \u00bb \u2014 respondeu<br \/>\numa m\u00e1scara que passava por casualidade, esgani\u00e7ando-se numa risada que raspava<br \/>\no t\u00edmpano. \u2014 \u00ab Olha do qu\u2019isso !\u2026 J\u00e1 vejo que \u00e9s pulha !\u2026<br \/>\n\u00bb<\/p>\n<p>E retirou-se repetindo \u2014 \u00ab Do qu\u2019isso\u2026<br \/>\ndo qu\u2019isso\u2026 \u00bb.<\/p>\n<p>Ma o domin\u00f3-cetim n\u00e3o sofreu, ao que parecia,<br \/>\na menor contrariedade com esta charivari. E o domin\u00f3-veludo nem sequer acompanhou<br \/>\ncom os olhos o imprudente que viera embara\u00e7ar-lhe uma resposta digna da pergunta,<br \/>\nfosse ela qual fosse.<\/p>\n<p>O cetim (fique assim conhecido para evitarmos<br \/>\npalavras e tempo, que \u00e9 um precios\u00edssimo cabedal), o cetim, desta vez, encarou<br \/>\ncom mais alguma reflex\u00e3o oveludo. Conjeturou suposi\u00e7\u00f5es fugitivas, que se<br \/>\ndestru\u00edam mutuamente. O veludo era for\u00e7osamente uma mulher. A pequenez do<br \/>\ncorpo, cuja flexibilidade o domin\u00f3 n\u00e3o encobria ; a delicadeza da m\u00e3o, que<br \/>\nprotestava contra o ardil mentiroso de uma luva larga ; a ponta de verniz,<br \/>\nque um descuido, no lan\u00e7ar do p\u00e9, denunciara debaixo da f\u00edmbria do veludo,<br \/>\neste complexo de atributos, quase nunca reunidos em um homem, captaram as<br \/>\ns\u00e9rias aten\u00e7\u00f5es do outro, que, incontestavelmente, era um homem.<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Quem quer que sejas \u00bb \u2014 disse o<br \/>\ncetim \u2014 \u00ab n\u00e3o te gabo o gosto! Tomara eu saber o que v\u00eas em mim, que<br \/>\ntanta impress\u00e3o te faz ! \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Nada \u00bb \u2014 respondeu o veludo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Ent\u00e3o, deixa-me, ou diz-me alguma coisa<br \/>\nainda que seja uma sensaboria, mais eloq\u00fcente que o teu sil\u00eancio. \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab N\u00e3o te quero embrutecer. Sei que tens<br \/>\nmuito esp\u00edrito, e seria um crime de lesa-Carnaval se te dissesse alguma dessas<br \/>\ngra\u00e7as salobras, capazes de fazer calar para todo o sempre um Dem\u00f3stenes de<br \/>\ndomin\u00f3.<\/p>\n<p>O cetim mudou de opini\u00e3o a respeito do seu perseguidor.<br \/>\nE n\u00e3o admira que o recebesse com rudeza no princ\u00edpio, porque, em Portugal,<br \/>\num domin\u00f3 em corpo de mulher, que passeia \u00ab sozinha \u00bb num teatro, permite<br \/>\numas suspeitas que n\u00e3o abonam as virtudes do domin\u00f3, nem lisonjeiam a vaidade<br \/>\nde quem lhe recebe o conhecimento. Mas a mulher em quem recai semelhante hip\u00f3tese<br \/>\nn\u00e3o conhece Dem\u00f3stenes, nem diz lesa-Carnaval, nem agu\u00e7a a frase com o adjetivo<br \/>\nsalobras.<\/p>\n<p>O cetim arrependeu-se da aspereza com que recebera<br \/>\nos atenciosos olharesdaquela inc\u00f3gnita, que principiava a fazer-se valer como<br \/>\ntudo aquilo que apenas seconhece por uma face boa. O cetim juraria, pelo menos,<br \/>\nque aquela mulher n\u00e3o eraest\u00fapida. E, seja dito sem ten\u00e7\u00e3o ofensiva, j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nera insignificante a descoberta,porque \u00e9 mais f\u00e1cil descobrir um mundo novo<br \/>\nque uma mulher ilustrada. \u00c9 mais f\u00e1cilser Crist\u00f3v\u00e3o Colombo que Em\u00edlio Girardin.<\/p>\n<p>O cetim, ouvida a resposta do veludo, ofereceu-lhe<br \/>\no bra\u00e7o, e gostou da boavontade com que lhe foi recebido.<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Conhe\u00e7o \u00bb \u2014 diz ele \u2014 \u00ab que<br \/>\no teu contacto me espiritualiza, belo domin\u00f3\u2026 \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Belo, me chamas tu!\u2026 \u00c9 realmente<br \/>\numa leviandade que te n\u00e3o faz honra!\u2026 Se eu levantasse esta sanefa de<br \/>\nseda, que me faz bonita, ficavas como aquele poeta espanhol que soltou uma<br \/>\nexclama\u00e7\u00e3o de terror na presen\u00e7a de um nariz\u2026 que nariz n\u00e3o seria, santo<br \/>\nDeus!\u2026 N\u00e3o sabes essa hist\u00f3ria ? \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00abN\u00e3o, meu anjo! \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Meu anjo!\u2026 Que gra\u00e7a ! Pois eu<br \/>\nte conto. Como o poeta se chama n\u00e3o sei, nem importa. Imagina tu que \u00e9s um<br \/>\npoeta, fant\u00e1stico como Lamartine, vulc\u00e2nico como Byron, sonhador como MacPherson<br \/>\ne voluptuoso como Voltaire aos 60 anos. Imagina que o t\u00e9dio desta vida chilra<br \/>\nque se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pitonisa descabelada<br \/>\ndas tuas inspira\u00e7\u00f5es, e vieste por aqui dentro a procurar um passatempo nestes<br \/>\npassatempos alvares de um baile de Carnaval. Imagina que encontravas uma mulher<br \/>\nextraordin\u00e1ria de esp\u00edrito, um anjo de eloqu\u00eancia, um dem\u00f4nio de epigrama,<br \/>\nenfim, uma destas cria\u00e7\u00f5es miraculosas que fazem rebentar uma chama improvisa<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o mais de gelo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris ? Achas nova<br \/>\na express\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 assim ?<\/p>\n<p>Um cora\u00e7\u00e3o de toucinho parece-te uma ofensa ao<br \/>\nbom senso anat\u00f4mico, n\u00e3o \u00e9 verdade ? Pois, meu caro domin\u00f3, h\u00e1 cora\u00e7\u00f5es de<br \/>\ntoucinho estreme. S\u00e3o os cora\u00e7\u00f5es, que resumam \u00f3leo em certas caras est\u00fapidas\u2026<br \/>\nPor exemplo\u2026 Olha este homem redondo, que aquiest\u00e1, com as p\u00e1lpebras<br \/>\nem quatro refegos, com os olhos vermelhos como os de um coelho morto, com<br \/>\no queixo inferior pendente, e o l\u00e1bio escarlate e vidrado como o bordo de<br \/>\numa pingadeira, orvalhada de banha de porco\u2026 Esta cara n\u00e3o te parece<br \/>\num grande rij\u00e3o ? N\u00e3o cr\u00eas que este baboso tenha um cora\u00e7\u00e3o de toucinho ?<br \/>\n\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Creio, creio ; mas fala mais baixo que<br \/>\no desgra\u00e7ado est\u00e1 gemer debaixo do teu escalpelo\u2026 \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab \u00c9s tolo, meu cavalheiro ! Ele entende<br \/>\nme l\u00e1 !\u2026 \u00c9 verdade, a\u00ed vai a hist\u00f3ria do espanhol, que tenho que fazer\u2026<br \/>\n\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Ent\u00e3o queres deixar-me ? \u00bb \u2014 \u00ab<br \/>\nE tu ?\u2026 Queres que eu te deixe ? \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Palavra de honra que n\u00e3o! Se me deixas,<br \/>\nretiro-me\u2026 \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab \u00c9s muito am\u00e1vel, meu querido Carlos\u2026<br \/>\n\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Conheces-me ?! \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Essa pergunta \u00e9 ociosa. N\u00e3o \u00e9s tu Carlos!<br \/>\n\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab J\u00e1 falaste comigo na tua voz natural<br \/>\n? \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab N\u00e3o ; mas come\u00e7o a falar agora. \u00bb<\/p>\n<p>E com efeito falou. Carlos ouviu um som de voz sonora, met\u00e1lica e insinuante.Cada<br \/>\npalavra daqueles l\u00e1bios misteriosos sa\u00eda vibrante e afinada como a nota deuma<br \/>\ntecla. Tinha aquele n\u00e3o-sei-qu\u00ea que s\u00f3 escuta nas salas onde falam mulheresdistintas,<br \/>\nmulheres que obrigam a gente a prestar f\u00e9 aos privil\u00e9gios, \u00e0s prerrogativas,aos<br \/>\ndons muito peculiares da aristocracia do sangue. Todavia, Carlos n\u00e3o serecordava<br \/>\nde ter ouvido semelhante voz, nem semelhante linguagem.<\/p>\n<p>\u00ab Uma aventura de romance ! \u00bb dizia ele l\u00e1 consigo, enquanto o domin\u00f3-veludo,<br \/>\nconjeturando o enleio em que pusera o seu entusiasta companheiro,continuava<br \/>\na fazer gala do mist\u00e9rio, que \u00e9 de todas as alfaias aquela que mais alindaa<br \/>\nmulher! Se elas pudessem andar sempre de domin\u00f3! Quantas mediocridades emintelig\u00eancia<br \/>\nrivalizariam com Jorge Sand! Quantas fisionomias infelizes viveriam coma fama<br \/>\nda mulher de Abal el-Kader!<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Ent\u00e3o quem sou eu ? \u00bb &#8211; prosseguiu ela.<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab N\u00e3o me dir\u00e1s ?&#8230; N\u00e3odizes&#8230; Pois ent\u00e3o, tu \u00e9s Carlos, e eu sou<br \/>\nCarlota&#8230; Fiquemos nisto, sim ? \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Enquanto eu n\u00e3o souber o teu nome, deixa-me chamar-te de \u00ab anjo<br \/>\n\u00bb . \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Como quiseres ; mas sinto dizer-te que n\u00e3o \u00e9s nada original! Anjo!&#8230;<br \/>\n\u00c9um apelido t\u00e3o safado como Ferreira, Silva, Souza, Costa&#8230; et cetera. N\u00e3o<br \/>\nvale apena questionarmos : batiza-me \u00e0 tua vontade. Ficarei sendo o teu \u00ab<br \/>\nanjo deEntrudo \u00bb. E a hist\u00f3ria ?&#8230; Imagina que te possu\u00edas de um amor impetuoso<br \/>\npor essamulher, que fantasiaste linda, e insensivelmente lhe curvaste o joelho,<br \/>\npedindo-lheuma esperan\u00e7a, um sorriso afetuoso atrav\u00e9s da m\u00e1scara, um aperto<br \/>\nconvulsivo dem\u00e3o, uma promessa, ao menos, de se mostrar um, dois, tr\u00eas anos<br \/>\ndepois. E essamulher, cada vez mais sublime, cada vez mais literata, cada<br \/>\nvez mais radiosa,protesta eloq\u00fcentemente contra as tuas inst\u00e2ncias, declarando-se<br \/>\nmuito feia,indecent\u00edssima de nariz, horr\u00edvel at\u00e9, e, como tal, pesa-lhe na<br \/>\nconsci\u00eancia matar astuas c\u00e2ndidas ilus\u00f5es, levantando a m\u00e1scara. Tu que a<br \/>\nn\u00e3o cr\u00eas, instas, suplicas,abrasas-te num ideal que toca as extremas do rid\u00edculo,<br \/>\ne est\u00e1s capaz de lhe dizerque te abolas o cr\u00e2nio com um tiro de pistola, se<br \/>\nela n\u00e3o levanta a cortina daquelemist\u00e9rio que te dilacera uma por uma as fibras<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o. Chamas-lhe Beatriz,Laura, Fornarina, Nat\u00e9rcia, e ela diz-te que<br \/>\nse chama Cust\u00f3dia, ou Genoveva para teaguar a poesia desses nomes, que, na<br \/>\nminha humilde opini\u00e3o, s\u00e3o completamentefabulosos. O domin\u00f3 quer fugir-te<br \/>\nardilosamente, e tu n\u00e3o lhe deixas um passo livre,nem um dito espirituoso<br \/>\na outro, nem um lan\u00e7ar de olhos para as m\u00e1scaras, que afixam como quem sabe<br \/>\nque est\u00e1 ali uma rainha, envolta naquele manto negro. Porfim, a tua persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 tal que a desconhecida Desd\u00eamona finge assustar-se, e saicontigo ao sal\u00e3o<br \/>\ndo teatro para levantar a m\u00e1scara. Arfa-te o cora\u00e7\u00e3o na ansiedadede uma esperan\u00e7a<br \/>\n: sentes o j\u00fabilo do cego de nascimento, que vai ver o sol ;estremeces como<br \/>\na crian\u00e7a a quem v\u00e3o dar um bonito, que ela n\u00e3o viu ainda, masimagina ser<br \/>\nquanto o seu cora\u00e7\u00e3o infantil ambiciona neste mundo&#8230; Ergue-se am\u00e1scara !&#8230;<br \/>\nHorror !&#8230; V\u00eas um nariz&#8230; Um nariz-pleonasmo, um nariz hom\u00e9rico, umnariz<br \/>\nmaio que o do duque de Choiseul, onde cabiam tr\u00eas jesu\u00edtas a cavalo !&#8230;Recuas<br \/>\n!&#8230; Sentes despregar-se-te o cora\u00e7\u00e3o das entranhas, coras de vergonha efoges<br \/>\ndesabridamente&#8230; \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab Tudo isso \u00e9 muito natural. \u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab pois n\u00e3o h\u00e1 nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe conto<br \/>\no resto,que \u00e9 o mais interessante para o mancebo que faz do nariz de uma mulher<br \/>\noterm\u00f4metro de avaliar-lhe a temperatura do cora\u00e7\u00e3o. Imagina, meu jovem Carlos,que<br \/>\nsa\u00edste do teatro depois, e entraste na \u00c1guia de Ouro a comer ostras, segundo<br \/>\nocostume dos elegantes do Porto. E quando pensavas, ainda aterrado, na aventura<br \/>\ndo nariz, te aparecia o fat\u00eddico domin\u00f3, e se assentava ao teu lado, silencioso<br \/>\neim\u00f3vel, como a larva das tuas asneiras, cuja mem\u00f3ria procuravas delir naimagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom os vapores do vinho&#8230; Perturba-se-te a digest\u00e3o, e sentescontra\u00e7\u00f5es no<br \/>\nest\u00f4mago, que te amea\u00e7am com o vomito. A massa enorme daquelenariz figura-se-te<br \/>\nno prato em que tens a ostra, e j\u00e1 n\u00e3o podes levar \u00e0 boca umbocado do teu<br \/>\napetitoso manjar sem um fragmento daquele fatal nariz \u00e0 mistura.Queres transigir<br \/>\ncom o sil\u00eancio do domin\u00f3 ; mas n\u00e3o podes. A inexor\u00e1vel mulheraproxima-se de<br \/>\nti, e tu, com um sorriso cruelmente sarc\u00e1stico, pedes-lhe que te n\u00e3oentorne<br \/>\ncom o nariz o copo de vinho. Achas isto natural, Carlos ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cH\u00e1 a\u00ed crueldade de mais&#8230; O poeta devia ser mais generoso com<br \/>\nadesgra\u00e7a, porque a miss\u00e3o do poeta \u00e9 a indulg\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 para as grandesafrontas,<br \/>\nmas at\u00e9 para os grandes narizes.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSer\u00e1 ; mais o poeta, que transgrediu a sublime miss\u00e3o de generosidadepara<br \/>\ncom as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquela mulher, pungidapelo<br \/>\nsarcasmo, levanta a m\u00e1scara. O poeta ergue-se, e vai fugir com grandeesc\u00e2ndalo<br \/>\ndo dono da casa, que naturalmente tem a sorte do botic\u00e1rio de NicolauTolentino.<br \/>\nMas&#8230; Vingan\u00e7a do c\u00e9u !&#8230; aquela mulher ao levantar a m\u00e1scara arrancado<br \/>\nrosto um nariz posti\u00e7o, e deixa ver a mais famosa cara que o c\u00e9u alumia h\u00e1<br \/>\nseismil anos ! O espanhol que ajoelhar \u00e0quela dulc\u00edssima vis\u00e3o de um sonho,<br \/>\nmas anobre andaluza repele-o com um gesto, onde o desprezo est\u00e1 associado<br \/>\n\u00e0dignidade mais senhoril.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/strong><\/h4>\n<p>Carlos cismava na aplica\u00e7\u00e3o da anedota, quando o domin\u00f3 lhe disse,adivinhando-lhe<br \/>\no pensamento:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me suponhas<br \/>\ncapazde assombrar-te com a minha fealdade. A minha mod\u00e9stia n\u00e3o vai t\u00e3o longe&#8230;<br \/>\nMas,meu pacient\u00edssimo amigo, h\u00e1 em mim um defeito pior que um nariz enorme<br \/>\n: n\u00e3o \u00e9f\u00edsico nem moral ; \u00e9 um defeito repulsivo e repelente : \u00e9 uma coisa<br \/>\nque eu n\u00e3o seiexprimir-te com a linguagem do inferno, que \u00e9 a \u00fanica e mais<br \/>\neloq\u00fcente que eu seifalar, quando me lembro que sou assim defeituosa !\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c9s uma enigma !&#8230;\u201d &#8211; atalhou Carlos, embara\u00e7ado, e convencido<br \/>\nde queencontrara um tipo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em<br \/>\nPortugal.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSou, sou !&#8230;\u201d &#8211; acudiu ela com rapidez &#8211; \u201csou aos<br \/>\nmeus pr\u00f3prios olhos umdomin\u00f3, um continuado carnaval de l\u00e1grimas&#8230; Est\u00e1 bom<br \/>\n! N\u00e3o quero tristezas&#8230; Seme tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te.<br \/>\nEu n\u00e3o vim aqui fazer papel dedama dolorida. Soube que estavas aqui, procurei-te,<br \/>\nespere-te mesmo comansiedade, porque sei que \u00e9s espirituoso, e podias, sem<br \/>\npreju\u00edzo da tua dignidade,ajudar-me a passar algumas horas de ilus\u00e3o. Fora<br \/>\ndaqui, tu ficas sendo Carlos, e euserei sempre uma inc\u00f3gnita muito grata ao<br \/>\nseu companheiro. Agora acompanha-me:vamos ao camarote 10 da segunda ordem.<br \/>\nConheces aquela fam\u00edlia ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c9 uma gente da prov\u00edncia. N\u00e3o digas tu nada ; deixa-me falar<br \/>\na mim, ever\u00e1s que n\u00e3o passas mal&#8230; \u00c9 muito orgulho, n\u00e3o achas ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o acho, n\u00e3o, minha querida ; mas eu antes queria n\u00e3o desperdi\u00e7arestas<br \/>\nhoras porque fogem. Tu vais falar, mas n\u00e3o \u00e9 comigo. Sabes que tenhoci\u00fames<br \/>\nde ti?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSei que tens ci\u00fames de mim&#8230; Sabes tu que eu tenho um profundoconhecimento<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o humano ? J\u00e1 v\u00eas que n\u00e3o sou a mulher que imaginas, ouquererias<br \/>\nque eu fosse. N\u00e3o comeces a desvanecer-te com uma conquistaesperan\u00e7osa. Faz<br \/>\ncalar o teu amor-pr\u00f3prio, e emprega a tua vaidade em bloquearcom ternuras<br \/>\ncalculadas uma inocente a quem possas fazer feliz, enquanto aenganas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cJulgas, portanto, que te minto !&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o julgo, n\u00e3o. Se mentes a algu\u00e9m \u00e9 a ti pr\u00f3prio : bem v\u00eas<br \/>\nque n\u00e3o tecreio.. Tempo perdido ! Anda, vem comigo, sen\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSen\u00e3o.. O qu\u00ea ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSen\u00e3o&#8230; Olha.\u201d<\/p>\n<p>E a melindrosa desconhecida largou-lhe o bra\u00e7o com delicadeza, e retirara-se,<br \/>\napertando-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlos, sinceramente comovido, apertou aquela m\u00e3o, com o frenesiapaixonado<br \/>\nde um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se mataria.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o,\u201d<\/p>\n<p>\u2014 exclamou ele com entusiasmo<\/p>\n<p>\u2014 \u201cn\u00e3o me fujas, porque me levasa esperan\u00e7a mais bela que o meu<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o concebeu. Deixa-me adorar-te, sem teconhecer !&#8230; N\u00e3o levantes nunca<br \/>\nesse v\u00e9u&#8230; Mais deixa-me ver a face da tua alma,que deve ser a realidade<br \/>\nde um sonho de vinte e sete anos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEst\u00e1s dram\u00e1tico, meu poeta ! Eu sinto realmente a minha pobreza<br \/>\ndepalavras garrafais&#8230; Queria ser uma vestal de estilo fervente para sustentar<br \/>\no fogosagrado do di\u00e1logo&#8230; O mon\u00f3logo dever cansar-te, e a trag\u00e9dia desde<br \/>\nS\u00f3focles at\u00e9n\u00f3s n\u00e3o pode dispensar uma segunda pessoa&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c9s um prod\u00edgio&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDe literatura grega, n\u00e3o \u00e9 verdade ? Inda sei muitas outras<br \/>\ncoisas daGr\u00e9cia. A Lais tamb\u00e9m era muito versada, e repetia as raps\u00f3dias gregas<br \/>\ncom umgarbo sublime ; mas a Lais era&#8230; Sabes tu o que ela era ?&#8230; E serei<br \/>\neu o mesmo ?J\u00e1 v\u00eas que a literatura n\u00e3o \u00e9 sintoma de virtudes dignas da tua<br \/>\nafei\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Tinham chegado ao camarote na segunda ordem. O domin\u00f3-veludo bateu, e aporta<br \/>\nfoi, como devia ser, aberta.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia que ocupava o camarote compunha-se de muitas pessoas, sem tipo,vulgar\u00edssimas,<br \/>\ne prosaicas de mais para captarem a aten\u00e7\u00e3o de um leitor avesso atrivialidades.<br \/>\nTodavia, estava a\u00ed uma mulher que valia um mundo, ou coisa maio queo mundo<br \/>\n\u2014 o cora\u00e7\u00e3o de um poeta.<\/p>\n<p>As rosas purpurinas dos vinte anos tinham-lhe sido crestadas pelo h\u00e1litoabrasado<br \/>\ndos sal\u00f5es. A placidez extempor\u00e2nea de uma vida agitada via-se-lhe norosto<br \/>\nprotestando n\u00e3o contra os prazeres, mas contra a debilidade de um sexo quen\u00e3o<br \/>\npode acompanhar com a mat\u00e9ria as evolu\u00e7\u00f5es desenfreadas do esp\u00edrito. Masque<br \/>\nolhos ! Mas que vida ! Que eletricidade no frenesi daquelas fei\u00e7\u00f5es ! Queproje\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma sombra azulada lhe descia das p\u00e1lpebras ! Era uma mulher emcujo rosto<br \/>\ntransluzia a soberba, talvez demasiada, da sua superioridade.<\/p>\n<p>O domin\u00f3-veludo estendeu-lhe a m\u00e3o, e chamou-lhe Laura.<\/p>\n<p>Seria Laura ? \u00c9 certo que ela estremeceu, e recuou a m\u00e3o repentinamentecomo<br \/>\nse uma v\u00edbora lha tivesse mordido.<\/p>\n<p>Aquela palavra simbolizava um mist\u00e9rio dilacerante : era a senha de umagrande<br \/>\nluta em que a pobre senhora devia sair escorrendo sangue.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cLaura,\u201d &#8211; repetiu o domin\u00f3 &#8211; \u201cn\u00e3o me apertas a m\u00e3o<br \/>\n? Deixa-me ao menossentar-me perto&#8230; Muito perto de ti&#8230; Sim ?\u201d<\/p>\n<p>O homem que mais pr\u00f3ximo estava de Laura afastou-se urbanamente paradeixa<br \/>\naproximar uma m\u00e1scara, que denunciara o sexo pela voz, e a distin\u00e7\u00e3o pelam\u00e3o.<\/p>\n<p>E Carlos nunca mas despregou os olhos daquela mulher, que revelava a cadainstante<br \/>\num pensamento na variadas fisionomias com que queria disfar\u00e7ar a suaang\u00fastia<br \/>\n\u00edntima.<\/p>\n<p>A desconhecida fez sinal a Carlos para que se aproximasse. Carlos, enleadonos<br \/>\nembara\u00e7os naturais daquela situa\u00e7\u00e3o toda para ele enigm\u00e1tica, recusavacumprir<br \/>\nas imperiosas determina\u00e7\u00f5es de uma mulher que parecia calcar todos osmelindres.<br \/>\nOs quatro ou cinco homens, que pareciam familiares de Laura, n\u00e3oderam muita<br \/>\nimport\u00e2ncia aos domin\u00f3s. Conjeturaram, primeiro, e quando supuseramque tinham<br \/>\nconhecido as visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres,que se<br \/>\nfalavam de perto como duas amigas \u00edntimas. O cavalheiro passou por um talEduardo,<br \/>\ne a desconhecida tiveram-na por uma D. Ant\u00f4nia.<\/p>\n<p>Laura umedecia os l\u00e1bios com a l\u00edngua. As surpresas pungentes produzemuma<br \/>\nfebre, e aquecem o mais belo calculado sangue-frio. A inc\u00f3gnita,profundamente<br \/>\nconhecedora da situa\u00e7\u00e3o da sua v\u00edtima, falou ao ouvido de Carlos :<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEstuda-me aquela fisionomia. Eu n\u00e3o estou em circunst\u00e2ncias<br \/>\nde serMax&#8230; Sofro demasiado para contar as pulsa\u00e7\u00f5es deste cora\u00e7\u00e3o. Se te<br \/>\nsentirescondo\u00eddo desta mulher, tem compaix\u00e3o de mim, que sou mais desgra\u00e7ada<br \/>\nque ela.\u201d<\/p>\n<p>E voltando-se para Laura :<\/p>\n<p>\u2014 \u201cProcuro, h\u00e1 quatro anos, uma ocasi\u00e3o de prestar homenagem \u00e0<br \/>\ntuaconquista. Deus, que \u00e9 Deus, n\u00e3o despreza os incensos do verme da terra,<br \/>\nnemesconde \u00e0 vista dos homens a sua fronte majestosa num manto de estrelas.<br \/>\nTu,Laura, que \u00e9s mulher, embora os homens te chamem anjo, n\u00e3o desprezar\u00e1s<br \/>\nvaidosaa homenagem de uma pobre criatura, que vem depor a teus p\u00e9s o \u00f3bolo<br \/>\nsincero dasua adora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Laura n\u00e3o levantava os olhos do leque ; mas a m\u00e3o, que o sustinha, tremia<br \/>\n; eos olhos, que o contemplavam, pareciam absortos num quadro aflitivo.<\/p>\n<p>E o domin\u00f3 continuou:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cFoste muito feliz, minha cara amiga ! Eras digna de o ser. Colheste<br \/>\no frutoaben\u00e7oado da aben\u00e7oada semente que o Senhor fecundou no teu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndepomba !&#8230; Olha, Laura, deves dar muitas gra\u00e7as \u00e0 Provid\u00eancia, que velou<br \/>\nos teuspassos no caminho do crime. Quando devias resvalar no abismo da prostitui\u00e7\u00e3o,subiste,<br \/>\nradiante de virtudes, ao trono das virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal<br \/>\n!\u00c9s uma excep\u00e7\u00e3o a milhares de desgra\u00e7adas, que nasceram em estofos dedamasco,<br \/>\ncresceram em perfumes de opul\u00eancia. E, quanto mais, minha ditosaLaura, tu<br \/>\nnasceste nas palhas da mis\u00e9ria, cresceste nos andrajos da indig\u00eancia,ainda<br \/>\nviste com os olhos da raz\u00e3o a desgra\u00e7a sentada \u00e0 cabeceira do teu leito&#8230;<br \/>\ne,contudo, eis-te a\u00ed rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que<br \/>\npodesinsultar toda essa turba de mulheres, que te admiram !&#8230; H\u00e1 tanta mulher<br \/>\ninfeliz !&#8230;Queres saber a hist\u00f3ria de uma ?&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava,n\u00e3o<br \/>\ntinha ainda balbuciado um monoss\u00edlabo ; mas a urgente pergunta, duas vezesrepetida,<br \/>\ndo domin\u00f3, obrigou-a a responder afirmativamente com um gesto.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPois bem, Laura, conversemos amigavelmente.\u201d<\/p>\n<p>Um dos indiv\u00edduos, que estava presente, e ouvira pronunciar Laura,perguntou<br \/>\n\u00e0 mulher que assim era chamada:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cElisa, ela chama-te Laura ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o, meu pai&#8230;\u201d &#8211; respondeu Elisa, titubeando.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cChamo Laura, chamo&#8230; e que tem l\u00e1 isso, Sr. Visconde ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 atalhou ainc\u00f3gnita, com afabilidade, erguendo o falsete para ser bem<br \/>\nouvida.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c9 um nome de Carnaval, que passa com os domin\u00f3s. Quarta-feira<br \/>\nde cinza torna a filha de V.Exa. a chamar-se Elisa.\u201d<\/p>\n<p>O visconde sorriu-se, e o domin\u00f3 continuou, abaixando a voz, e falando naturalmente:<\/p>\n<h4><strong><a name=\"3\"><\/a>CAP\u00cdTULO III<\/strong><\/h4>\n<p>\u2014 \u201cHenriqueta&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas a fibras de Elisa. O rostoincendiou-se-lhe<br \/>\ndaquele encarnado do pudo ou da raiva. Esta sensa\u00e7\u00e3o violentan\u00e3o podia ser<br \/>\ndesapercebida. O visconde, que parecia estranho \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o\u00edntima daquelas<br \/>\nsupostas amigas, n\u00e3o o p\u00f4de ser \u00e0 agita\u00e7\u00e3o febril de sua filha.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue tens, Elisa ?!\u201d &#8211; perguntou ele sobressaltado.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNada, meu pai&#8230; Foi um ligeiro incomodo&#8230; Estou quase boa&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSe queres respirar vamos ao sal\u00e3o, ou vamos para casa&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAntes para casa\u201d \u2014 respondeu Elisa.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEu vou mandar buscar a sege\u201d \u2014 disse o visconde ;<br \/>\ne retirou-se.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o v\u00e1s, Elisa&#8230;\u201d &#8211; disse o domin\u00f3, com uma voz imperiosa,<br \/>\nsemelhante auma amea\u00e7a inexor\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o v\u00e1s&#8230; Porque, se vais, contarei a todo o mundouma hist\u00f3ria<br \/>\nque s\u00f3 tu h\u00e1s-de-saber. Este outro domin\u00f3, que tu n\u00e3o conheces, \u00e9 umcavalheiro<br \/>\n: n\u00e3o temas a menor imprud\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o me martirizes !\u201d<\/p>\n<p>\u2014 disse Elisa.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEu sou infeliz de mais, para serflagelada com a tua vingan\u00e7a&#8230;<br \/>\nTu \u00e9s Henriqueta, n\u00e3o \u00e9s ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue te importa a ti saber quem eu sou ?!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cImporta muito&#8230; Sei que \u00e9s desgra\u00e7ada !&#8230; N\u00e3o sabia que vivias<br \/>\nno Porto;mas palpitou-me o cora\u00e7\u00e3o que eras tu, apenas me chamaste Laura.\u201d<\/p>\n<p>O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege n\u00e3o podia tardar, econvidando<br \/>\na filha para dar alguns passeios no sal\u00e3o do teatro. Elisa satisfez acarinhosa<br \/>\nansiedade do pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que sedemorasse<br \/>\nat\u00e9 mais tarde.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cOnde julgavas tu que eu existia ? No cemit\u00e9rio, n\u00e3o \u00e9 assim<br \/>\n?\u201d &#8211; perguntou<\/p>\n<p>Henriqueta.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o : sabia que vivias, e profetizava que devia encontrar-te&#8230;<br \/>\nQue hist\u00f3riame queres tu contar ?&#8230; A tua ? Essa j\u00e1 eu sei&#8230; Imagino-a&#8230;<br \/>\nTens sido muitoinfeliz&#8230; Olha, Henriqueta&#8230; Deixa-me dar-te esse tratamento<br \/>\nafetuoso com que nosconhecemos, com que fomos t\u00e3o amigas, alguns fugitivos<br \/>\ndias, no tempo em que odestino nos marcava com o mesmo estigma de infort\u00fanio&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO mesmo&#8230; N\u00e3o !&#8230;\u201d \u2014 atalhou Henriqueta.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO mesmo, sim, o mesmo&#8230; E se me for\u00e7as a contradizer-te, direi<br \/>\nqueinvejo a tua sorte, seja ela qual for&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Elisa chorava, e Henriqueta emudecera. Carlos estava impaciente pelodesfecho<br \/>\ndesta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas duasmulheres,<br \/>\ne faz\u00ea-las amigas, sem saber a raz\u00e3o porque eram inimigas. A belezaimp\u00f5e-se<br \/>\n\u00e0 compaix\u00e3o. Elisa era bela, e Carlos era de uma sensibilidade extremosa.<\/p>\n<p>A m\u00e1scara poderia ser, mas a outra era um anjo de simpatia e formosura. O<br \/>\nesp\u00edritogosta do mist\u00e9rio que esconde o belo ; mas decide-se pela beleza real,<br \/>\nsem mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Henriqueta, depois de alguns minutos de sil\u00eancio, durante os quais n\u00e3o eraposs\u00edvel<br \/>\navaliar-lhe o cora\u00e7\u00e3o pela exterioridade da fisionomia, exclamou com\u00edmpeto,<br \/>\ncomo se despertasse de um sonho, daqueles \u00edntimos sonhos de dor, em quea alma<br \/>\nse reconcentra:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTeu marido ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEst\u00e1 em Londres.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cH\u00e1 quanto tempo o n\u00e3o visite ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cH\u00e1 dois anos.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAbandonou-te ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAbandonou-me.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cE tu ?&#8230; Abandonaste-o ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o concebo a pergunta&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAinda o amas ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAinda&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cCom paix\u00e3o ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cCom del\u00edrio&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEscreves-lhe ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o me responde&#8230; Despreza-me, e chama-me Laura.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cElisa !\u201d \u2014 disse Henriqueta, com a voz tremula, e<br \/>\napertando-lhe a m\u00e3ocom entusiasmo nervoso<\/p>\n<p>\u2014 \u201cElisa ! Perd\u00f4o-te&#8230; \u00c9s bem mais desgra\u00e7ada que eu,porque tens<br \/>\num homem que p\u00f4de chamar-te Laura, e eu n\u00e3o tenho sen\u00e3o umnome&#8230; Sou Henriqueta<br \/>\n! Adeus.\u201d<\/p>\n<p>Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado daquele pr\u00f3logo deum<br \/>\nromance. Henriqueta tomo-lhe o bra\u00e7o com precipita\u00e7\u00e3o, e saiu do camaroteabaixando<br \/>\nlevemente a cabe\u00e7a aos cavalheiros, que se davam tratos por adivinhar osegredo<br \/>\ndaquela conversa.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta<br \/>\n; masn\u00e3o me atrai\u00e7oes, se queres a minha amizade.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cComo hei-de eu atrai\u00e7oar-te, se n\u00e3o sei quem \u00e9s ? Podes chamar-te<br \/>\nJ\u00faliaem vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais&#8230; Tudo<br \/>\nmist\u00e9rios !Tens-me, h\u00e1 mais de uma hora, num estado de tortura ! Eu n\u00e3o sirvo<br \/>\npara estas emboscadas&#8230; Diz-me quem \u00e9 aquela mulher&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o viste que \u00e9 D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado<br \/>\n?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o a conhecia&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEnt\u00e3o que mais queres que eu te diga ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMuitas outras coisas, minha ingrata. Quero que me digas quantos<br \/>\nnomestem aquela Laura, que se chama Elisa. Fala-me do marido daquela mulher&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEu te digo&#8230; O marido daquela mulher chama-se Vasco de Seabra..<br \/>\nEst\u00e1ssatisfeito ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o&#8230; Quero saber que rela\u00e7\u00f5es tens tu com esse Vasco ou com<br \/>\naquelaLaura?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o saber\u00e1s mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo<br \/>\numprofundo sil\u00eancio a respeito do que ouviste. \u00c0 menor pergunta que me fa\u00e7as,<br \/>\ndeixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma mulher<br \/>\ndesoalheiro. Eu contra\u00ed contigo a obriga\u00e7\u00e3o de te contar a minha vida ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o ; mas contra\u00edstes com a minha alma a obriga\u00e7\u00e3o de eu me<br \/>\ninteressarna tua vida e nos teus infort\u00fanios desde este momento.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cObrigado, cavalheiro ! \u2014 Juro-te uma sincera amizade. \u2014<br \/>\nH\u00e1s-de ser omeu confidente.<\/p>\n<p>Estava, outra vez, na plat\u00e9ia. Henriqueta aproximou-se ao quarto camarote<br \/>\ndaprimeira ordem, firmou o p\u00e9 de fada na frisa, segurou-se ao peitoril do<br \/>\ncamarote, etravou conversa\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia que o ocupava. Carlos acompanhou-a<br \/>\nem todosesses movimentos, et preparou-se para um novo enigma.<\/p>\n<p>Segundo o costume, as m\u00e3os de Henriqueta passaram por uma an\u00e1liserigorosa.<br \/>\nN\u00e3o era poss\u00edvel, por\u00e9m, faz\u00ea-la tirar a luva da m\u00e3o esquerda.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDomin\u00f3, porque n\u00e3o deixas ver este anel ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 perguntava uma senhorade olhos negros, e vestida de negro, como uma<br \/>\nvi\u00fava rigorosamente enlutada.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue te importa o anel, minha querida Sofia !?&#8230; Falemos de<br \/>\nti, aqui emsegredo. Ainda vives melanc\u00f3lica, como a Dido da f\u00e1bula ? Fica-te<br \/>\nbem essa cor deesquifes, mas n\u00e3o sustentas o car\u00e1ter art\u00edstico com perfei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA tua tristeza \u00e9fingida, n\u00e3o \u00e9 verdade ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o me ofendas, domin\u00f3, que eu n\u00e3o te mere\u00e7o essa inj\u00faria&#8230;<br \/>\nA desgra\u00e7anunca se finge&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDisseste uma verdade, que \u00e9 a tua condena\u00e7\u00e3o. Eu, se tivesse<br \/>\nsidoabandonada por um amante, n\u00e3o vinha aqui dar-me em espect\u00e1culo a um baile<br \/>\ndem\u00e1scaras. A desgra\u00e7a n\u00e3o se finge, \u00e9 verdade ; mas a saudade esconde-se<br \/>\nparachorar, e a vergonha n\u00e3o se ostenta radiosa desse sorriso que te brinca<br \/>\nnos l\u00e1bios&#8230;Olha, minha amiga, h\u00e1 umas mulheres que nasceram para esta \u00e9poca,<br \/>\ne para esteshomens. H\u00e1 outras que a Provid\u00eancia caprichosa atirou a esta gera\u00e7\u00e3o<br \/>\ncorrompidacomo os imperadores romanos atiravam os crist\u00e3os ao anfiteatro dos<br \/>\nle\u00f5es.Felizmente que tu n\u00e3o \u00e9s das segundas, e sabes harmonizar com o teu<br \/>\ng\u00eaniofolgaz\u00e3o e desleixado uma hipocrisia que te vai bem num sof\u00e1 de penas,<br \/>\nonde turecostas com um perfeito conhecimento das atitudes l\u00e2nguidas das mulherescansadas<br \/>\ndo Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio !&#8230; \u00c9s a \u00fanicamulher<br \/>\npara quem este pa\u00eds \u00e9 pequeno. Devias conhecer o Regente, e Richelieu, eos<br \/>\nabades de Versalhes, e as filhas do Regente, e as Helo\u00edsas desenvoltas dosabades,<br \/>\ne as aias da duquesa do Maine&#8230; et cetera. Isto por c\u00e1 \u00e9 pequen\u00edssimo paraas<br \/>\nFrineias. Uma mulher da tua \u00edndole morre asfixiada neste ambiente pesado emque<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o, nas suas expans\u00f5es rom\u00e2nticas, encontra, quase sempre, a m\u00e3o burguesa<br \/>\ndas conveni\u00eancias a tapar-lhe os respiradouros&#8230; Parece que te enfadasde<br \/>\nmim ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o te enganas, domin\u00f3&#8230; Obsequeias-me se me n\u00e3o deres o inc\u00f4modode<br \/>\nte mandar retirar.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c9s muito delicada, minha nobre Sofia !&#8230; J\u00e1 agora, por\u00e9m, deixa-me<br \/>\ndar-te uma id\u00e9ia mais precisa desta mulher que te enfada, e que, apesar das<br \/>\ntuasinjusti\u00e7as, se interessa na tua sorte. Diz-me c\u00e1&#8230; Tens uma sincera paix\u00e3o,<br \/>\numasaudade pungente por aquele belo capit\u00e3o de cavalaria que te deixou, t\u00e3o<br \/>\nsozinha,com as tuas agonias de amante ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue te importa ?&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c9s cruel ! Pois n\u00e3o ouves o tom sentimental com que te fa\u00e7o<br \/>\nestapergunta ?&#8230; Quantos anos tens ?&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMetade e outros tantos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cA resposta n\u00e3o me parece tua&#8230; Aprendeste essa vulgaridade<br \/>\ncom a filhado teu sapateiro ?&#8230; Ora olha : tu tens 38 anos, a n\u00e3o ser mentiroso<br \/>\no assento debatismo, que se l\u00ea no cart\u00f3rio da freguesia dos M\u00e1rtires em Lisboa.<\/p>\n<p>Aos vinte anos amavas com ternura um tal Pedro Sep\u00falveda. Aos vinte ecinco,<br \/>\namavas com paix\u00e3o, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com del\u00edrio,um<br \/>\ntal Sebasti\u00e3o de Meireles. Aos 35, amavas, em Londres, com frenesi um tal&#8230;Como<br \/>\nse chamava&#8230; N\u00e3o me recordo.. Diz-me, por piedade, o nome desse homem,que,<br \/>\nsen\u00e3o, fica o meu discurso sem o efeito do drama&#8230; N\u00e3o dizes, m\u00e1 ?&#8230; Ai<br \/>\n!&#8230;Eu tenho aqui a mnem\u00f4nica&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Henriqueta tirou a luva da m\u00e3o esquerda, e deixou ver um anel&#8230; Sofiaestremeceu,<br \/>\ne corou at\u00e9 \u00e0s orelhas.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cJ\u00e1 te recordas ?&#8230; N\u00e3o cores, minha querida amiga&#8230; Que n\u00e3o<br \/>\nfica bemao teu car\u00e1ter de mulher que conhece o mundo pela face positiva&#8230;<br \/>\nDeixa-me agoraarredondar o per\u00edodo, como dizem os literatos&#8230; Ora tu, que<br \/>\namastedesenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres fingir, debaixo<br \/>\ndessevestido negro, um cora\u00e7\u00e3o varado de saudades e \u00f3rf\u00e3o de consola\u00e7\u00f5es ?&#8230;<br \/>\nAdeus,minha bela hip\u00f3crita&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o bra\u00e7o a Carlos.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"4\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV<\/strong><\/h4>\n<p>Eram tr\u00eas horas.<\/p>\n<p>Henriqueta disse que se retirava, depois de vitimar com seus ligeiros, maspungentes<br \/>\ngracejos, alguns daqueles muito que provocam o sarcasmo s\u00f3 com apresen\u00e7a,<br \/>\ns\u00f3 com o vulto corporal, s\u00f3 com a sensaboria de um remoque parvo epretensioso.<br \/>\nO Carnaval \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o anual destes infelizes.<\/p>\n<p>Carlos, ao ver que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto irritara<br \/>\nasua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e at\u00e9 com ressentimento,pela<br \/>\nrealidade de uma esperan\u00e7a, que fizera a sua felicidade de algumas horas.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEu n\u00e3o me arrependo\u201d \u2014 disse ele \u2014 \u201cde ter<br \/>\nsido a volunt\u00e1ria testemunhade teus desfor\u00e7os&#8230; Ainda mesmo que me tivessem<br \/>\nconhecido, e tu fosses umamulher licenciosa e depravada, n\u00e3o me arrependeria&#8230;<br \/>\nOuvi-te, iludi-me na esperan\u00e7a vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser<br \/>\no escolhido para sentir deperto as pulsa\u00e7\u00f5es vertiginosas do teu cora\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nEstou recompensado de mais..<\/p>\n<p>Ainda assim, Henriqueta, eu n\u00e3o tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessando-te<br \/>\num desejo de conhecer-te que n\u00e3o posso iludir&#8230; Este desejo vais-mo tuconvertendo<br \/>\nnuma dor; e ser\u00e1 logo uma saudade insuport\u00e1vel, que te fariacompaix\u00e3o se soubesses<br \/>\navaliar o que \u00e9 na minha alma um desejo imposs\u00edvel. Se tumo n\u00e3o dizes, que<br \/>\nme dir\u00e1 o teu nome ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o sabes que sou Henriqueta ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue importa ? E ser\u00e1s-tu Henriqueta ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSou&#8230; Juro-te que sou&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o basta isto&#8230; Ora diz-me&#8230; N\u00e3o sentes a precis\u00e3o de ser-me<br \/>\ngrata ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cA qu\u00ea, meu cavalheiro ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cGrata ao melindre com que te tenho tratado, grata \u00e0 delicadeza<br \/>\ncom quete pe\u00e7o uma revela\u00e7\u00e3o da tua vida, e grata a este impulso invenc\u00edvel<br \/>\nque me manda ajoelhar-te&#8230; Ser\u00e1 nobre zombar de um amor que involuntariamente<br \/>\nfizeste nascer?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o te iludas, Carlos\u201d \u2014 replicou Henriqueta num tom<br \/>\nde seriedade,semelhante ao de uma m\u00e3e que aconselha seu filho. \u201cO amor<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 isso que pica atua curiosidade. As mulheres s\u00e3o f\u00e1ceis de transigir<br \/>\nde boa f\u00e9 com a mentira, e,pobres mulheres!&#8230; Sucumbem muitas vezes \u00e0 eloqu\u00eancia<br \/>\nartificiosa de umconquistador. Os homens, fartos de estudarem as paix\u00f5es na<br \/>\nsua origem, eenfadados das r\u00e1pidas ilus\u00f5es que eles choram todos os dias,<br \/>\nest\u00e3o prontos semprea declararem-se afetados de c\u00f3lera-paix\u00e3o, e nunca apresentam<br \/>\ncarta limpa dec\u00e9pticos. De maneira que o sexo fr\u00e1gil das quimeras sois v\u00f3s,<br \/>\ncriancinhas de toda avida, que brincais aos trinta anos com a mulher como<br \/>\naos seis brinc\u00e1veis com oscavalinhos de pau, e os fradinhos de sabugo ! Olha,<br \/>\nCarlos, eu n\u00e3o sou ingrata&#8230;Vou-me despedir de ti, mas hei-de conversar contigo<br \/>\nainda. N\u00e3o instes ; abandona-te \u00e0 minha generosidade, e ver\u00e1s que alguma coisa<br \/>\nlucraste em me encontrar e emme n\u00e3o conhecer. Adeus.<\/p>\n<p>Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos numaesp\u00e9cie<br \/>\nde idiotismo, quando a viu desaparecer \u00e0 sa\u00edda do teatro. O seu primeiropensamento<br \/>\nfoi segui-la ; mas a prud\u00eancia lembrou-lhe que era uma indignidade. Osegundo<br \/>\nfoi empregar a intriga astuciosa at\u00e9 roubar alguma revela\u00e7\u00e3o \u00e0quela Sofiada<br \/>\nprimeira ordem ou \u00e0 Laura da segunda. N\u00e3o lhe lembraram recursos, nem eu seiquais<br \/>\neles poderiam ser. Laura e Sofia, para dissiparem completamente a esperan\u00e7aansiosa<br \/>\nde Carlos, tinham-se retirado. Era necess\u00e1rio esperar, era necess\u00e1rioconfiar<br \/>\nnaquela mulher extraordin\u00e1ria, cujas promessas o alvoro\u00e7ado poeta traduziaem<br \/>\nmil vers\u00f5es.<\/p>\n<p>Carlos retirou-se, e esqueceu n\u00e3o sei quantas mulheres, que ainda, na noiteanterior,<br \/>\nlhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, ergueu-se, e escreveu asreminisc\u00eancias<br \/>\nvivas da cena, quase fabulosa, que lhe transtornava o plano de vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve nunca um cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o ambicioso de futuro, t\u00e3o fervente de poesia,e<br \/>\nt\u00e3o fant\u00e1stico de conjecturas ! Carlos adorava seriamente aquela mulher !<\/p>\n<p>Comoestas adora\u00e7\u00f5es se afervoram com t\u00e3o pouco, n\u00e3o sei eu : mas que o amor<br \/>\n\u00e9 assim,vou eu jur\u00e1-lo, e espero que os meus amigos me n\u00e3o deixem mentir.<\/p>\n<p>Imaginem, portanto, a inquieta\u00e7\u00e3o daquele grande espiritualista, quando viupassarem,<br \/>\nvagarosos e enfadonhos, oito dias, sem que o mais ligeiro ind\u00edcio lheviesse<br \/>\nconfirmar a exist\u00eancia de Henriqueta ! N\u00e3o direi que o desesperado amanteapelou<br \/>\npara o supremo tribunal das paix\u00f5es imposs\u00edveis. O suic\u00eddio n\u00e3o lhe passoununca<br \/>\npela imagina\u00e7\u00e3o ; e muito sinto que esta verdade diminua as simpatias que<br \/>\no meu her\u00f3i poderia granjear. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que o apaixonado mancebo<br \/>\nviviasombrio, isolava-se contra os seus h\u00e1bitos socialmente galhofeiros, abominava<br \/>\nasimpertin\u00eancias de sua m\u00e3e que o consolava com anedotas tr\u00e1gicas a respeito<br \/>\nderapazes cegos de amor, e, enfim, sofrera a ponta tal que resolvera abandonarPortugal,<br \/>\nse, no fim de quinze dias, a fat\u00eddica mulher continuasse a ludibriar a suaesperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Diga-se, por\u00e9m, em honra e louvor da ast\u00facia humana : Carlos, resolvido apartir,<br \/>\nlembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na gazetilha do Nacional, dissesse,por<br \/>\nexemplo, o seguinte:<\/p>\n<p>\u201cO Sr. Carlos de Almeida vai, no pr\u00f3ximo paquete, para Inglaterra. S.<br \/>\nSatenciona observar de perto a civiliza\u00e7\u00e3o das primeiras capitais da Europa.<br \/>\nO Sr.Carlos de Almeida \u00e9 uma intelig\u00eancia, que, enriquecida pela instru\u00e7\u00e3o<br \/>\npr\u00e1tica da suavisita aos focos da civiliza\u00e7\u00e3o, h\u00e1-de voltar \u00e0 sua p\u00e1tria com<br \/>\nfecundo cabedal deconhecimentos em todos os ramos das ci\u00eancias humanas. Fazemos<br \/>\nvotos por queS. Sra se recolha em breve ao seio dos seus numerosos amigos.\u201d<\/p>\n<p>Esta local bem podia ser que chegasse \u00e0s m\u00e3os de Henriqueta. Henriquetabem<br \/>\npodia ser que conjeturasse o imperioso motivo que obrigava o infeliz a buscardistra\u00e7\u00f5es<br \/>\nlonge da p\u00e1tria, onde a sua paix\u00e3o era invenc\u00edvel. E, depois, nada maisf\u00e1cil<br \/>\nque uma carta, uma palavra, um raio de esperan\u00e7a, que lhe transtornasse osseus<br \/>\nplanos.<\/p>\n<p>Era esta a infal\u00edvel ten\u00e7\u00e3o de Carlos, quando ao d\u00e9cimo quarto dia lhe foientregue<br \/>\na seguinte carta:<\/p>\n<h4><strong><a name=\"5\"><\/a>CAP\u00cdTULO V<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cCarlos.<\/p>\n<p>Sem ofender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do domin\u00f3,porque,<br \/>\nem boa verdade, eu continuo a ser para ti um domin\u00f3 moral, n\u00e3o \u00e9 assim ?\u201d<\/p>\n<p>Passaram-se catorze dias, depois que tiveste o mau encontro de uma mulher,que<br \/>\nte privou de algumas horas de deliciosa intriga. V\u00edtima da tua delicadeza,levaste<br \/>\no sacrif\u00edcio a ponto de te mostrares interessado na sorte dessa c\u00e9lebredesconhecida<br \/>\nque te mortificou. N\u00e3o serei eu, generoso Carlos, ingrata a essamanifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\ncavalheirosa, embora ela ser\u00e1 um rasgo de artista, e n\u00e3o um desejoespont\u00e2neo.<\/p>\n<p>Queres saber porque tenho demorado catorze dias este grande sacrif\u00edcio que<br \/>\nvou fazer ? \u00c9 porque ainda hoje me levanto de uma febre incessante, que meinsultou<br \/>\nnaquele camarote da segunda ordem, e que, neste momento, parecedeclinar.<\/p>\n<p>Permita Deus que seja longo o intervalo para ser longa a carta : mas eu sinto-me<br \/>\nt\u00e3o pequena para os sacrif\u00edcios grandes !&#8230; N\u00e3o te quero responsabilizar<br \/>\npela minha sa\u00fade ; mas, se o meu sil\u00eancio de longos tempos suceder a esta<br \/>\ncarta,conjectura, meu amigo, que Henriqueta caiu no leito, donde h\u00e1-de erguer-se,<br \/>\nse n\u00e3o\u00e9 gra\u00e7a que os mortos h\u00e3o-de erguer-se um dia.<\/p>\n<p>Queres apontamentos para um romance que ter\u00e1 o m\u00e9rito de ser portugu\u00eas ?<br \/>\nVou dar-tos.<\/p>\n<p>Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus pais tinham o lustre dos bras\u00f5es, masn\u00e3o<br \/>\nbrilhavam nada pelo ouro. Viviam sem fausto, sem hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, sembailes<br \/>\ne sem bilhetes de boas-festas. As visitas que Henriqueta conhecia eram, nosexo<br \/>\nfeminino, quatro velhas suas tias, e, no masculino, quatro caseiros que vinham<br \/>\nanualmente pagar as rendas, com que seu pai regulava economicamente uma nobreindepend\u00eancia.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o de Henriqueta era um mo\u00e7o de talento, que granjeara uma instru\u00e7\u00e3o,enriquecida<br \/>\nsempre pelos desvelos com que afagava a sua paix\u00e3o \u00fanica. Isolado detodo o<br \/>\nmundo, o irm\u00e3o de Henriqueta confiou a sua irm\u00e3 os segredos do seu muitosaber,<br \/>\ne formou-lhe um esp\u00edrito varonil, e inspirou-lhe uma ambi\u00e7\u00e3o faminta deci\u00eancia.<\/p>\n<p>Bem sabes, Carlos, que falo de mim, e n\u00e3o posso, nesta parte, engrinaldar-me<br \/>\nde flores imodestas, se bem que n\u00e3o me faltariam depois espinhos que medesculpassem<br \/>\nas vaidosas flores&#8230;<\/p>\n<p>Eu cheguei a ser o eco fiel dos talentos do meu irm\u00e3o. Nossos pais n\u00e3ocompreendiam<br \/>\nas pr\u00e1ticas liter\u00e1rias com que aligeir\u00e1vamos as noites de Inverno ; e,mesmo<br \/>\nassim, folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos olhos aquele rir de bondosoorgulho,<br \/>\nque tanto inflama as vaidades da intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Aos dezoito anos achei pequeno o horizonte da minha vida, e enfastiei-me<br \/>\ndaleitura, que mo fazia cada vez amesquinhar-se mais. S\u00f3 com a experi\u00eancia<br \/>\nseconhece o quanto a literatura modifica a organiza\u00e7\u00e3o de uma mulher. Eu creio<br \/>\nque amulher, apurada na ci\u00eancia das coisas pensa de um modo extraordin\u00e1rio<br \/>\nna ci\u00eanciadas pessoas. O prisma das suas vistas penetrantes \u00e9 belo, mas as<br \/>\nlindas cambiantes do seu prisma s\u00e3o como as cores variegadas do arco-\u00edris,<br \/>\nque anuncia tempestade.<\/p>\n<p>Meu irm\u00e3o lia-me os segredos do cora\u00e7\u00e3o ! N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil mentir ao talento comas<br \/>\nhipocrisias do talento. Compreendeu-me, teve d\u00f3 de mim.<\/p>\n<p>Meu pai morreu, e minha m\u00e3e pediu \u00e0 alma de meu pai que lhe alcan\u00e7asse doSenhor<br \/>\numa vida longa para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um milagre nar\u00e1pida<br \/>\nconvalescen\u00e7a com que minha m\u00e3e saiu de uma enfermidade de quatroanos.<\/p>\n<p>Eu vi um dia um homem no quarto de meu irm\u00e3o, onde entrei como entravasempre<br \/>\nsem receio de encontrar um desconhecido. Quis retirar-me, e meu irm\u00e3ochamou-me<br \/>\npara me apresentar, pela primeira vez na sua vida, um homem.<\/p>\n<p>Este homem chama-se Vasco de Seabra.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se por orgulho, se por acaso, meu irm\u00e3o chamou a conversa aocampo<br \/>\nda literatura. Falava-se em romances, em dramas, em estilos, em escolas, en\u00e3o<br \/>\nsei que outros assuntos ligeiros e graciosos que me cativaram o cora\u00e7\u00e3o e<br \/>\nacabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Vasco falava bem, e revelava coisas que me n\u00e3o eram novas com estilo novo.Naquele<br \/>\nhomem, via-se o g\u00eanero aformoseado pela arte que s\u00f3 na sociedade se adquire.<br \/>\nEm meu irm\u00e3o faltava-lhe o relevo de estilo, que se lapida ao trato dosmaus<br \/>\ne dos bons. Bem sabes Carlos, que te digo uma verdade, sem pretens\u00f5es de bas-bleu<br \/>\n, que \u00e9 de todas as mis\u00e9rias a mais lastimosa mis\u00e9ria das mulherescultivadas.<\/p>\n<p>Vasco retirou-se, e eu quisera antes que ele se n\u00e3o retirasse.<\/p>\n<p>Disse-me meu irm\u00e3o que aquele rapaz era uma intelig\u00eancia superior, masdepravada<br \/>\npelos maus costumes. A raz\u00e3o por que ele viera a nossa casa era muitosimples<br \/>\n; encarregara-o seu pai de falar com meu irm\u00e3o a respeito da remiss\u00e3o deuns<br \/>\nforos.<\/p>\n<p>Vasco passou nesse dia por debaixo das minhas janelas: fixou-me, cortejou-me,<br \/>\ncorei, e n\u00e3o me atrevi a segui-lo com os olhos, mas segui-o com o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQue suprema mis\u00e9ria, Carlos ! Que ren\u00fancia t\u00e3o impensada faz uma mulher da<br \/>\nsua tranquilidade.<\/p>\n<p>Voltou um quarto de hora depois : retirei-me, sem querer mostrar-lhe que<br \/>\nopercebia ; fiz-me distra\u00edda, por entre as cortinas, a contemplar a marcha<br \/>\ndas nuvens,e das nuvens descia um olhar precipitado sobre aquele indiferente<br \/>\nque me faziacorar e sofrer. Viu-me, adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda.<br \/>\nEu vi o gesto da cortesia, mas fingi-me e n\u00e3o lhe correspondi. Foi isto um<br \/>\nhero\u00edsmo, n\u00e3o \u00e9 verdade ? Seria ; mas eu tive remorsos, apenas ele desaparecera,<br \/>\nde o tratar t\u00e3o grosseiramente.<\/p>\n<p>Demorei-me nestas puerilidades, meu amigo, porque n\u00e3o h\u00e1 nada mais grato<br \/>\npara n\u00f3s que a recorda\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos instantes de ventura a que se prendem<br \/>\nos primeiros instantes da desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Aquelas linhas fastidiosas s\u00e3o a hist\u00f3ria da minha transfigura\u00e7\u00e3o. A\u00ed principiaa<br \/>\nlonga noite da minha vida.<\/p>\n<p>Nos dias imediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os perigos<br \/>\nda minha fraqueza, e quis ser forte. Resolvi n\u00e3o v\u00ea-lo mais : revesti-me deum<br \/>\norgulho digno da minha imodesta superioridade \u00e0s outras mulheres: sustentei<br \/>\neste car\u00e1ter dois dias ; e, ao terceiro, era fraca como todas as outras.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 n\u00e3o podia divorciar-me da imagem daquele homem, daquelas n\u00fapcias infelizes<br \/>\nque meu cora\u00e7\u00e3o contra\u00edra. O meu instinto n\u00e3o era mau ; porque aeduca\u00e7\u00e3o tinha<br \/>\nsido boa ; e, n\u00e3o obstante a humildade constante com que sempre sujeitei a<br \/>\nminha m\u00e3e os meus inocent\u00edssimos desejos, senti-me ent\u00e3o, com m\u00e1goa minha,<br \/>\nrebelde, e capaz de conspirar contra a minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A freq\u00fcente repeti\u00e7\u00e3o dos passeios de Vasco n\u00e3o podia ser indiferente a meuirm\u00e3o.<br \/>\nFui suavemente interrogada por minha m\u00e3e a tal respeito, respondi-lhe com<br \/>\nrespeito, mas sem temor. Meu irm\u00e3o pressentiu a necessidade de matar aquela<br \/>\ninclina\u00e7\u00e3o nascente, e exp\u00f4s-me um quadro feio dos costumes p\u00e9ssimos de Vasco,e<br \/>\no conceito p\u00fablico em que era tido o primeiro homem a quem eu t\u00e3o francamenteme<br \/>\noferecia em namoro. Fui altiva com o meu irm\u00e3o, e adverti-lhe que os nossos<br \/>\ncora\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham contra\u00eddo a obriga\u00e7\u00e3o de se consultarem.<\/p>\n<p>Meu irm\u00e3o sofreu ; eu tamb\u00e9m sofri ; e, passado o momento da exalta\u00e7\u00e3o,quis<br \/>\ncerrar a ferida que abrira naquele cora\u00e7\u00e3o, desde a inf\u00e2ncia identificado<br \/>\ncom asminhas vontades.<\/p>\n<p>Este sentimento era nobre ; mas o do amor n\u00e3o era inferior. Se eu pudessereconcili\u00e1-los<br \/>\nambos ! N\u00e3o podia, nem sabia faz\u00ea-lo ! Uma mulher, quando principiaa sua dolorosa<br \/>\ntarefa do amor, n\u00e3o sabe mentir com apar\u00eancias, nem calcula ospreju\u00edzos que<br \/>\npode evitar com um pouco de impostura. Eu fui assim. Deixe-me ir abandonada<br \/>\n\u00e0 correnteza da minha inclina\u00e7\u00e3o ; e, quando forcejei por me tornar tranquila,<br \/>\n\u00e0 isen\u00e7\u00e3o da minha alma, n\u00e3o pude vencer a corrente<\/p>\n<p>Vasco de Seabra perseguia-me : as cartas eram incessantes, e a grandepaix\u00e3o<br \/>\nque elas exprimiam n\u00e3o era ainda igual \u00e0 paix\u00e3o que me faziam.<\/p>\n<p>Meu irm\u00e3o quis tirar-me de Lisboa, e minha m\u00e3e instava pela sa\u00edda, ou pelaminha<br \/>\nentrada a toda a pressa nas Sal\u00e9sias. Informei Vasco das inten\u00e7\u00f5es de minha<br \/>\nfam\u00edlia.<\/p>\n<p>No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno de outra sociedade,<br \/>\nentrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha m\u00e3e, e foi urbanamente<br \/>\nrepelido. Eu soube-o, e torturei-me ! N\u00e3o sei do que seria ent\u00e3o capaza minha<br \/>\nalma ofendida ! Sei que foi capaz de tudo que pode caber em for\u00e7as de umamulher,<br \/>\ncontrariada nas ambi\u00e7\u00f5es que nutrira, sozinha consigo, e conjurada aperder-se<br \/>\npor elas.<\/p>\n<p>Vasco, irritado num nobre est\u00edmulo, escreveu-me, como quem me pedia amim<br \/>\na satisfa\u00e7\u00e3o dos desprezos da minha fam\u00edlia. Respondi-lhe que lha dava plena<br \/>\ncomo ele a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela porta da desonra,<br \/>\ne muito cedo entraria nela com a minha honra ilibada. Que desgra\u00e7a ! Naquele<br \/>\ntempo at\u00e9 as pompas de estilo me seduziam !&#8230; Respondi que sim, e cumpri.<\/p>\n<p>Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paci\u00eancia \u00e9 curta. At\u00e9 ao correio<br \/>\nque vem.<\/p>\n<p>Henriqueta.\u201d<\/p>\n<h4><strong><a name=\"6\"><\/a>CAP\u00cdTULO VI<\/strong><\/h4>\n<p>Carlos relera, com s\u00f4frega ansiedade, a singela expans\u00e3o de uma alma que,talvez,<br \/>\nnunca se abrira, se a n\u00e3o rasgasse o espinho de um mart\u00edrio surdo.Henriqueta<br \/>\nn\u00e3o escrevia assim uma carta a um homem, que pudesse consol\u00e1-la.Afeita a gemer<br \/>\nno sil\u00eancio, e na solid\u00e3o, tornava-se como ego\u00edsta das suas dores, esupunha<br \/>\nque divulg\u00e1-las era esfolhar a mais bela flor da sua coroa de m\u00e1rtir.Escreveu,<br \/>\nporque a sua carta era um mito de segredo e publicidade ; porque a suaafli\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o rastejava pelos queixumes lamuriantes e triviais de um grande n\u00famerode<br \/>\nmulheres, que n\u00e3o choram nunca a viuvez do cora\u00e7\u00e3o, e lastimam sempre ademora<br \/>\ndas segundas n\u00fapcias ; escreveu enfim, porque a sua dor, sem desonrar-secom<br \/>\numa publicidade est\u00e9ril, interessava um cora\u00e7\u00e3o, esposava uma simpatia, umsofrimento<br \/>\nsimult\u00e2neo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre admira\u00e7\u00e3o ! H\u00e1mulheres vaidosas<br \/>\n&#8211; deixem-me assim dizer &#8211; da fidalguia do seu sofrer. Risonhaspara o mundo,<br \/>\n\u00e9 muito sublime aquela ang\u00fastia represada que s\u00f3 pode extravasaros sobejos<br \/>\ndo seu fel em uma carta an\u00f4nima. Lagrimosas para si, e fechadas noc\u00edrculo<br \/>\nestreito que a sociedade lhes tra\u00e7a como o compasso inexor\u00e1vel dasconveni\u00eancias,<br \/>\nessas sim, s\u00e3o duas vezes anjos despenhados !<\/p>\n<p>Quem pudesse receber na ta\u00e7a de suas l\u00e1grimas algumas que a\u00ed se choram,e<br \/>\nque a opul\u00eancia material n\u00e3o enxuga, experimentaria consola\u00e7\u00f5es de um sabornovo.<\/p>\n<p>O padecimento que se esconde imp\u00f5e o respeito religioso do augusto mist\u00e9riodesta<br \/>\nreligi\u00e3o universal, simbolizada pelo sofrimento comum. O homem que pudesseverter<br \/>\numa gota de orvalho na aridez de algum cora\u00e7\u00e3o, seria o sacerdoteprovidencial<br \/>\nno tabern\u00e1culo de um esp\u00edrito superior, que velasse a vida da terra paraque<br \/>\ntamanhas agonias n\u00e3o fossem est\u00e9reis na vida do c\u00e9u. N\u00e3o h\u00e1 na terra maisgloriosa<br \/>\nmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Carlos, portanto, sentiu-se feliz deste orgulho santo que enobrece aconsci\u00eancia<br \/>\ndo homem que recebe o privil\u00e9gio de uma confid\u00eancia. Esta mulher,dizia ele,<br \/>\n\u00e9 para mim um ente quase fant\u00e1stico. Al\u00edvios quais s\u00e3o os que eu possodar-lhe<br \/>\n?&#8230; Nem ao menos escrever-lhe !&#8230; E ela&#8230; Em que far\u00e1 consistir o seuprazer<br \/>\n?!<\/p>\n<p>Deus o sabe ! Quem pode explicar, e mesmo explicar-se a singularidadede um<br \/>\nproceder, \u00e0s vezes, inconceb\u00edvel ?<\/p>\n<p>No correio pr\u00f3ximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta:<\/p>\n<p>\u201cQue imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta ? Adivinhaste<br \/>\noresto, com presteza natural. Recordaste mil aventuras deste g\u00e9nero, e amoldaste<br \/>\naminha hist\u00f3ria \u00e0s leg\u00edtimas consequ\u00eancias de todas as aventuras. Julgaste-meabandonada<br \/>\npelo homem com quem fugira, e chamaste a isto, talvez, uma dedu\u00e7\u00e3ocontida<br \/>\nnos princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Pensaste bem, amigo, a l\u00f3gica da desgra\u00e7a \u00e9 essa, e o contr\u00e1rio dos teusju\u00edzos<br \/>\n\u00e9 o que se chama sofisma, porque eu estou em pensar que a virtude \u00e9 oabsurdo<br \/>\nda l\u00f3gica dos fatos, \u00e9 a heresia da religi\u00e3o das sociedades, \u00e9 a aberra\u00e7\u00e3omonstruosa<br \/>\ndas leis, que regem o destino do mundo. Achas-me metaf\u00edsica de mais ?<\/p>\n<p>N\u00e3o te impacientes. A dor refugia-se nas abstra\u00e7\u00f5es, e encontra melhor p\u00e1bulo<br \/>\nnaLoucura de Erasmo, que nas sisudas dedu\u00e7\u00f5es de Montesquieu.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e estava reservada para uma grande prova\u00e7\u00e3o ! Amparou-a Deusnaquele<br \/>\ngolpe, e permitiu-lhe uma energia que n\u00e3o era de esperar. Vasco de Seabrabateu<br \/>\n\u00e0s portas de todas as igrejas de Lisboa, para me apresentar, como suamulher,<br \/>\nao cura da freguesia, e achou-as fechadas. \u00c9ramos perseguidos, e Vascon\u00e3o<br \/>\ncontava com a sua superioridade sobre meu irm\u00e3o, que lhe fizera certa einfal\u00edvel<br \/>\na morte, onde quer que a fortuna lho deparasse.<\/p>\n<p>Fugimos de Lisboa para Espanha. Um dia entrou Vasco, alvoro\u00e7ado, p\u00e1lido efebril<br \/>\ndaquela febre de medo, que, realmente, era, at\u00e9 ent\u00e3o, a \u00fanica face prosaicado<br \/>\nmeu amante. Emalamos a toda a pressa, e partimos para Londres. \u00c9 que Vascode<br \/>\nSeabra vira meu irm\u00e3o em Madrid.<\/p>\n<p>Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranq\u00fcilizou-se, porque lheafian\u00e7aram<br \/>\nde Lisboa a volta de meu irm\u00e3o, que perdera as esperan\u00e7as deencontrar-me.<\/p>\n<p>Se me perguntas como era a vida \u00edntima destes dois fugitivos, aos quais n\u00e3ofaltava<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o alguma das aventuras rom\u00e2nticas de um rapto, dir-ta-ei em poucas<br \/>\nlinhas.<\/p>\n<p>O primeiro m\u00eas das nossas n\u00fapcias de emboscada foi um sonho, uma febre,uma<br \/>\nanarquia de sensa\u00e7\u00f5es que, levadas ao extremo do gozo, pareciam tocar asraias<br \/>\ndo sofrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as sedutoras fraquezas de umhomem<br \/>\n; queimava-me com o seu fogo, divinizava-me com o seu esp\u00edrito ; levava-me<br \/>\nde mundo em mundo \u00e0 regi\u00e3o dos anjos onde a vida deve ser o \u00eaxtase, oarroubamento,<br \/>\na aliena\u00e7\u00e3o com que a minha alma se derramava nas sensa\u00e7\u00f5es ardent\u00edssimas<br \/>\ndaquele homem.<\/p>\n<p>No segundo m\u00eas, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez \u201cque era<br \/>\nmuitomeu amigo\u201d. O cora\u00e7\u00e3o pulsava-lhe vagaroso, os olhos n\u00e3o faiscavam<br \/>\neletricidade,os sorrisos eram frios&#8230; Os meus beijos j\u00e1 os n\u00e3o aqueciam naqueles<br \/>\nl\u00e1bios ! \u2018Sintopor ti uma sincera estima.\u2019 Quanto isto se diz, depois<br \/>\nde um amor vertiginoso, quen\u00e3o sabe as frases triviais, a paix\u00e3o est\u00e1 morta.<br \/>\nE estava&#8230;<\/p>\n<p>Depois, Carlos, fal\u00e1vamos em literatura, analis\u00e1vamos as \u00f3peras, discut\u00edamosos<br \/>\nm\u00e9ritos dos romances, e viv\u00edamos em academia permanente, quando Vasco men\u00e3o<br \/>\ndeixava quatro, cinco e seis horas entregue \u00e0s minhas inocentes recrea\u00e7\u00f5escient\u00edficas.<\/p>\n<p>Vasco cansara-se de mim. A consci\u00eancia afirmou-me esta verdade atroz.Sufoquei<br \/>\na indigna\u00e7\u00e3o, as l\u00e1grimas e os gemidos. Sofri sem limites. Abrasou-se-mena<br \/>\nalma um inferno que me coava fogo nas veias. N\u00e3o houve nunca mulher assim<br \/>\ndesgra\u00e7ada !<\/p>\n<p>E vivemos assim dezoito meses. A palavra \u201ccasamento\u201d foi banida<br \/>\nde nossascurtas conversa\u00e7\u00f5es&#8230; Vasco desquitava-se de compromissos, que ele<br \/>\nchamavaparvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu escravo, como<br \/>\nele intitulavao n\u00e9scio que se deixava algemar \u00e0s obscuras supersti\u00e7\u00f5es do<br \/>\ns\u00e9timo sacramento&#8230;Foi a\u00ed que Vasco de Seabra encontrou a Sofia que te apresentei<br \/>\nno Real Teatro deS. Jo\u00e3o, na primeira ordem.<\/p>\n<p>Comecei ent\u00e3o a pensar em minha m\u00e3e, em meu irm\u00e3o, na minha honra, naminha<br \/>\ninf\u00e2ncia, na mem\u00f3ria deslustrada de meu pai, na tranquilidade de minha vidaat\u00e9<br \/>\nao momento em que me atirei \u00e0 lama e salpiquei com ela a face da minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Peguei na pena para escrever a minha m\u00e3e. Escrevera a primeira palavra,quando<br \/>\ncompreendi o vexame, a desgrada\u00e7\u00e3o e a vilania com que ousava apresentar-me<br \/>\n\u00e0quela virtuosa senhora, com a face manchada de n\u00f3doas,contagiosas. Repeli<br \/>\ncom nobreza esta tenta\u00e7\u00e3o, e desejei, naquele instante, que minha m\u00e3e me julgasse<br \/>\nmorta.<\/p>\n<p>Em Londres viv\u00edamos numa hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo ameu<br \/>\nirm\u00e3o. Viera a\u00ed hospedar-se uma fam\u00edlia portuguesa. Era o visconde do Prado,e<br \/>\nsua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco, e a viscondessa<br \/>\nesua filha visitaram-me, tratando-me como irm\u00e3 de Vasco.<\/p>\n<p>Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na hist\u00f3riadesta<br \/>\ngente, que j\u00e1 conheceste no camarote da segunda ordem.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o posso agora dispor de mim&#8230; Saber\u00e1s, alguma vez, a raz\u00e3o por quen\u00e3o<br \/>\npude continuar esta carta.<\/p>\n<p>Adeus, at\u00e9 outro dia.<\/p>\n<p>Henriqueta.\u201d<\/p>\n<h4><strong><a name=\"7\"><\/a>CAP\u00cdTULO VII<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cCumpro religiosamente as minhas promessas. Tu n\u00e3o avalias o sacrif\u00edcio<br \/>\nquefa\u00e7o. N\u00e3o importa. Como n\u00e3o quero cativar a tua gratid\u00e3o, nem, mesmo ainda,mover<br \/>\na tua piedade, basta-me a consci\u00eancia do que sou para ti, que \u00e9 (medita bem)o<br \/>\nmais que posso ser..<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria&#8230; n\u00e3o \u00e9 assim ? Principia agora.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Alves era um pobre amanuense do escrit\u00f3rio de um tabeli\u00e3o deLisboa.<br \/>\nO tabeli\u00e3o morreu, e Ant\u00f4nio Alves, privado dos escassos lucros deamanuense,<br \/>\nlutou com a fome. A mulher por um lado com a filhinha ao colo, e elepelo outro<br \/>\ncom as l\u00e1grimas da indig\u00eancia, conseguiram algumas moedas, e com elasa passagem<br \/>\ndo pobre marido para o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Foi, e deixou entregues \u00e0 Provid\u00eancia a mulher e a filha.<\/p>\n<p>Josefa esperava todos os dias carta de seu marido. Nem carta, nem umind\u00edcio<br \/>\nda sua exist\u00eancia. Julgou-se vi\u00fava, vestiu-se de preto e viveu de esmolas,pedidas<br \/>\n\u00e0 noite na pra\u00e7a do Rossio.<\/p>\n<p>A filha chamava-se Laura, e crescera bela, n\u00e3o obstante as ang\u00fastias dafome,<br \/>\nque transformam a formosura do ber\u00e7o.<\/p>\n<p>Aos quinze anos de Laura, j\u00e1 sua m\u00e3e n\u00e3o mendigava. A desonraproporcionara-lhe<br \/>\nabund\u00e2ncia que uma honrosa mendicidade lhe n\u00e3o dera. Lauraera amante de um<br \/>\nrico, que cumpria fielmente com a m\u00e3e as condicionais estipuladas na escritura<br \/>\nde venda da filha.<\/p>\n<p>Um ano depois, Laura explorava outra mina. Josefa n\u00e3o sofria com asvicissitudes<br \/>\nda filha, e continuava a gozar os fins da vida \u00e0 sombra de t\u00e3o fecunda\u00e1rvore.<\/p>\n<p>A indig\u00eancia e a sociedade fizeram-lhe compreender que s\u00f3 h\u00e1 desonra nafome<br \/>\ne na nudez.<\/p>\n<p>Outro ano depois, a radiosa Laura declarou-se o pr\u00e9mio do cavaleiro quemais<br \/>\nairoso entrasse no torneio.<\/p>\n<p>Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram premiados,porque<br \/>\ntodos esgrimiam galhardamente.<\/p>\n<p>Desgra\u00e7a foi para Laura, quando os melhores campe\u00f5es se retiraramfatigados<br \/>\nda li\u00e7a. Os que vieram depois eram bisonhos no jogo das armas, e viramque<br \/>\na dama das justas j\u00e1 n\u00e3o valia a pena de perigosos botes de lan\u00e7a e de arreios<br \/>\nmuito custosos de pedraria e ouro.<\/p>\n<p>Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, viu-se aindabela<br \/>\ncom vinte e cinco anos, e perguntou \u00e0 sua consci\u00eancia a baixa do pre\u00e7o comque<br \/>\ncorria no leil\u00e3o de mulheres. A consci\u00eancia respondeu-lhe que descesse daaltura<br \/>\ndas suas ambi\u00e7\u00f5es, que viesse para onde a chamava a l\u00f3gica de sua vida, econtinuaria<br \/>\na ser rainha num reino de segunda ordem, j\u00e1 que a exautoravam de umtrono que<br \/>\ntivera na primeira.<\/p>\n<p>Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Aclamaram-na soberana,reuniu-se<br \/>\numa corte tumultuosa na antec\u00e2mara desta odalisca f\u00e1cil, e n\u00e3o houvegrande<br \/>\nnem pequeno a quem se baixassem os reposteiros do trono.<\/p>\n<p>Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe a sualegitimidade.<br \/>\nOs cortes\u00e3os voltaram-se para o sol nascente, e apedrejaram, como osIncas,<br \/>\no astro que se escondia para alumiar os ant\u00edpodas de um outro mundo.<\/p>\n<p>Os ant\u00edpodas de um outro mundo eram uma sociedade inculta, sem aintelig\u00eancia<br \/>\nda arte, sem o culto \u00e0 formosura, sem as opul\u00eancias que o ouro cria nasaltas<br \/>\nregi\u00f5es da civiliza\u00e7\u00e3o, e, finalmente, sem algum dos atributos que Laura amaratanto<br \/>\nnos mundos onde fora soberana duas vezes.<\/p>\n<p>A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento ; mas era bela<br \/>\nainda.Sua m\u00e3e, enferma num hospital, pedia a Deus, como esmola, a sua morte.<\/p>\n<p>A desgra\u00e7ada foi punida.<\/p>\n<p>No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito ; pediu que a deitassem<br \/>\naop\u00e9 de si ; o enfermeiro riu-se, e entrou com ela noutra enfermaria, onde<br \/>\no anjo dopudor e das l\u00e1grimas cobriam o rosto na presen\u00e7a da \u00falcera mais esqu\u00e1lida<br \/>\ne maslastimosa do g\u00e9nero humano.<\/p>\n<p>Laura principiava a sondar a profundidade do abismo em que ca\u00edra.<\/p>\n<p>Sua m\u00e3e recordava as fomes de outro tempo, quando sua filha, virgem ainda,chorava<br \/>\ne suplicava, com ela, uma esmola ao passageiro.<\/p>\n<p>As priva\u00e7\u00f5es de ent\u00e3o eram semelhantes \u00e0s priva\u00e7\u00f5es de agora, com adiferen\u00e7a,<br \/>\npor\u00e9m, que a Laura de hoje, desonrada e repelida, n\u00e3o podia j\u00e1 prometero futuro<br \/>\nda Laura de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora, Carlos, vejamos o que \u00e9 o mundo, e pasmemos diante das evolu\u00e7\u00f5esgin\u00e1sticas<br \/>\ndos acontecimentos.<\/p>\n<p>Aparece em Lisboa um capitalista, que chama a aten\u00e7\u00e3o dos capitalistas, aconsidera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Governo, e, por via de regra, desafia inimizades pol\u00edticas e invejas,que<br \/>\nprocuram o seu princ\u00edpio de vida para denegrir-lhe o luzimento da sua afrontosa<br \/>\nopul\u00eancia.<\/p>\n<p>Este homem compra uma quinta na prov\u00edncia do Minho, e, mais barato ainda,compra<br \/>\no t\u00edtulo de visconde do Prado.<\/p>\n<p>Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes venenosos da pol\u00edtica o pobrevisconde,<br \/>\nescreve um dia um artigo, onde se acham, entre muitas, as seguintesalus\u00f5es:<\/p>\n<p>\u2018O Sr. Visconde do Prado adscreveu \u00e0 imoralidade do Governo a imoralidadede<br \/>\nsua fortuna. Como ela foi adquirida, di-lo-iam as costas de \u00c1frica se os sert\u00f5escontassem<br \/>\nos horrorosos dramas da escravatura, em que o Sr. Visconde foiher\u00f3i&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>O Sr. Visconde do Prado era Ant\u00f4nio Alves h\u00e1 26 anos, e a pobre mulher quedeixou<br \/>\nem Portugal, com uma tenra filhinha ao colo, ningu\u00e9m dir\u00e1 em que ruamorreu<br \/>\nde fome sobre as lajes, ou em que \u00e1gua-furtada curtiam ambas as agoniasda<br \/>\nfome, enquanto o Sr. Visconde medrava cinicamente na hidropisia do ouro, comque<br \/>\nhoje vem arrotar moralidades no teatro das suas inf\u00e2mias de esposo e de pai&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>Melhor fora que o Sr. Visconde indagasse onde repousam os ossos de suamulher<br \/>\ne de sua filha, e nos pusesse a\u00ed um padr\u00e3o de m\u00e1rmore, que possa atestarao<br \/>\nmenos o remorso de um infame contrito&#8230;\u2019<\/p>\n<p>Este insulto direto, e fundamentado, ao visconde do Prado, fez ru\u00eddo emLisboa.<br \/>\nAs edi\u00e7\u00f5es do jornal espalharam-se, e leram-se e comentaram-se com fren\u00e9tica<br \/>\nmaldade.<\/p>\n<p>\u00c0s m\u00e3os de Laura chegou este jornal. Sua m\u00e3e, ouvindo l\u00ea-lo, delirou. A filhacuidou<br \/>\nque sonhava ; e a situa\u00e7\u00e3o de ambas perderia muito se eu tentasse roubar-lhe<br \/>\nas cores vigorosas da tua imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Josefa e Laura entravam no palacete do visconde do Prado.O<br \/>\nporteiro respondeu que S. Exa n\u00e3o estava ainda a p\u00e9. Esperaram. \u00c0s 11 horassa\u00eda<br \/>\nos visconde, e, ao saltar para a carruagem, viu duas mulheres que seaproximavam.<br \/>\nMeteu a m\u00e3o ao bolso do colete, e tirou doze vint\u00e9ns que lan\u00e7ava nam\u00e3o de<br \/>\numa das duas mulheres. Olhou admirado para elas, quando viu que aesmola lhe<br \/>\nera recusada.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQue querem\u201d \u2014 interrompeu ele, com soberba indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuero ver meu marido que n\u00e3o vejo h\u00e1 26 anos&#8230;\u201d \u2014<br \/>\nrespondeu Josefa.<\/p>\n<p>O visconde estacou ferido de um raio. O suor gotejava-lhe na testa em bagasfrias.<br \/>\nLaura aproximou-se, em atitude de beijar-lhe a m\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPois qu\u00ea ?&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 interpelou o visconde.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSou sua filha&#8230;\u201d \u2014 respondeu Laura com humildoso<br \/>\nrespeito.O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas \u00e0 carruagem, e mandou<br \/>\n\u00e0sduas mulheres que o seguissem.O resto no correio seguinte. Adeus, Carlos.<\/p>\n<p>Henriqueta.\u201d<\/p>\n<h4><strong><a name=\"8\"><\/a>CAP\u00cdTULO VIII<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cCarlos, tenho quase tocado a extrema desta minha peregrina\u00e7\u00e3o. A minhaIl\u00edada<br \/>\nest\u00e1 no \u00faltimo canto. Quero dizer-te que \u00e9 esta a minha pen\u00faltima carta.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou t\u00e3o independente como pensava. A n\u00e3o serem os poetas, ningu\u00e9mgosta<br \/>\nde contar as suas m\u00e1goas ao vento. \u00c9 belo dizer-se que um gemido nas asasda<br \/>\nbrisa vai da terra em dorido suspirar at\u00e9 ao coro dos anjos. \u00c9 bonito conversarcom<br \/>\na fonte suspirosa, e contar \u00e0 avezinha gemedora os segredos do nosso pensar.<\/p>\n<p>Tudo isto \u00e9 delicioso de uma puerilidade inofensiva ; mas eu, Carlos, n\u00e3o<br \/>\ntenho almapara estas coisas, nem engenho para estes artif\u00edcios.<\/p>\n<p>Vou contando as minhas penas a um homem que n\u00e3o pode zombar deminhas l\u00e1grimas,<br \/>\nsem trair a generosidade do seu cora\u00e7\u00e3o, e a sensibilidade dotalento. Sabes<br \/>\nqual \u00e9 o meu ego\u00edsmo, o meu estip\u00eandio neste trabalho, nestafranqueza de alma,<br \/>\nque ningu\u00e9m te pode disputar como \u00fanico em merec\u00ea-la ? Eu tedigo.<\/p>\n<p>Quero uma carta tua, dirigida a Ang\u00e9lica Micaela. Diz-me o que a tua alma<br \/>\ntedisse ; n\u00e3o tenhas pejo em denunci\u00e1-la ; associa-te um momento \u00e0 minha dor,<br \/>\nedize-me o que farias se tivesses sido Henriqueta.<\/p>\n<p>Aqui tens o pr\u00f3logo desta carta ; agora vamos espreitar o lance extraordin\u00e1rio<br \/>\ndaquele encontro, em que deixamos o visconde e a&#8230; Como hei-de chamar-lhe<br \/>\n?&#8230;A viscondessa, e a sua Exma Filha D. Laura.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPois \u00e9 poss\u00edvel existires ?\u201d \u2014 perguntava o visconde,<br \/>\nsinceramenteadmirado, a sua mulher.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPois n\u00e3o me conheces, Ant\u00f4nio ?\u201d \u2014 respondia ela com<br \/>\nest\u00fapidanaturalidade.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTinham-me dito que morreras&#8230;\u201d \u2014 tornou ele com desasada<br \/>\nhipocrisia.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cTinham-me dito, h\u00e1 dezessete anos, que tu e nossa filha t\u00ednheis<br \/>\nsido v\u00edtimas dac\u00f3lera-morbo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cFelizmente que lhe mentiram\u201d \u2014 interrompeu Laura com<br \/>\nafetadameiguice. \u2014 \u201cN\u00e3o \u00e9 que lhe t\u00ednhamos rezado por alma, e nunca<br \/>\ndeixamos depronunciar o seu nome em saudosas l\u00e1grimas.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cComo tendes vivido ?\u201d \u2014 perguntou o visconde.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPobre, mas honradamente\u201d \u2014 respondeu Josefa, dando-se<br \/>\nuns aresausteros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o c\u00e9u por testemunha.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAinda bem !\u201d &#8211; tornou o visconde \u2014 \u201cmas que modo<br \/>\nde vida tem sido ovosso ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO trabalho, meu querido Ant\u00f4nio, o trabalho de nossa filha tem<br \/>\nsido oamparo da sua honra e da minha velhice. Tu abandonastes-nos com tamanhacrueldade<br \/>\n!&#8230; Que mal te fizemos-n\u00f3s ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cNenhum, mas n\u00e3o vos disse eu que vos considerava mortas?\u201d<br \/>\n\u2014respondeu o visconde a sua mulher, que tivera a habilidade de arrancara<br \/>\nduasvolumosas l\u00e1grimas, tanto a prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO passado, passado\u201d \u2014 disse Laura, afagando carinhosamente<br \/>\nas m\u00e3ospaternas, e dando-se uns ares de inoc\u00eancia capazes de iludir S. Sim\u00e3o<br \/>\nEstilista. \u2014\u201cQuer o pai saber\u201d (prosseguiu ela com sentimento)<br \/>\n\u201cqual tem sido a minha vida ?Olhe, meu pai, n\u00e3o se envergonhe da posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial em que encontra sua filha&#8230;Tenho sido modista, tenho trabalhado incessantemente&#8230;<br \/>\nTenho lutado com astenta\u00e7\u00f5es da pen\u00faria, e tenho feito consistir em minhas<br \/>\nl\u00e1grimas o meu triunfo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cBem, minha filha\u201d \u2014 interrompeu o visconde com sincera<br \/>\ncontri\u00e7\u00e3o \u2014\u201cesque\u00e7amos o passado&#8230; De hora em diante ser\u00e1 a abund\u00e2ncia<br \/>\no pr\u00e9mio da tuavirtude&#8230; Ora diz-me : o mundo sabe que tu \u00e9s minha filha<br \/>\n?&#8230; Disseste a algu\u00e9mque era teu marido, Josefa ?\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o, meu pai.\u201d \u2014 \u201cN\u00e3o, meu Antoninho.\u201d \u2014<br \/>\nresponderam ambas, como setivessem previsto e calculado as perguntas e as<br \/>\nrespostas.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPois bem,\u201d \u2014 continuou o visconde \u2014 \u201cvamos<br \/>\na conciliar com o mundo asnossas posi\u00e7\u00f5es presentes, passadas e futuras. De<br \/>\nhora avante, Laura, \u00e9s minhafilha, \u00e9s filha do visconde do Prado, e n\u00e3o podes<br \/>\nchamar-te Laura. Ser\u00e1s Elisa,compreendes-me ? \u00c9 necess\u00e1rio que te chames Elisa&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014\u201cSim, meu pai&#8230; Eu serei Elisa\u201d \u2014 atalhou a inocente<br \/>\nmodista comimpetuosa alegria.<\/p>\n<p>\u2014 \u201c\u00c9 necess\u00e1rio abandonar Lisboa\u201d \u2014 prosseguiu o visconde.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSim, sim, meu pai&#8230; Vivamos num sert\u00e3o&#8230; Quero gozar, sozinha,<br \/>\nnapresen\u00e7a de Deus a felicidade de ter pai&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o iremos para um sert\u00e3o&#8230; Vamos para Londres ; mas&#8230; atendam-me&#8230;<br \/>\n\u00e9 preciso que ningu\u00e9m as veja, nestes primeiros anos, principalmente emLisboa&#8230;<br \/>\nA minha posi\u00e7\u00e3o atual \u00e9 muito melindrosa. Tenho muitos inimigos, muitosinvejosos,<br \/>\nmuitos infames, que procuram perder-me no conceito que pude comprarcom o meu<br \/>\ndinheiro. Estou farto de Lisboa ; partiremos nos primeiro paquete..<\/p>\n<p>Josefa, repara em ti, e v\u00ea que \u00e9s viscondessa do Prado. Elisa, a tua educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nfoidesgra\u00e7adamente mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas<br \/>\nna alta sociedade. Voltaremos um dia, e ter\u00e1s ent\u00e3o suprido com a educa\u00e7\u00e3o<br \/>\npr\u00e1tica a rudeza que indispensavelmente tens.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o progrido, neste di\u00e1logo, Carlos. O programa do visconde foirigorosamente<br \/>\ncumprido.<\/p>\n<p>Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, comesta<br \/>\nfam\u00edlia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do viscondeatravessar<br \/>\num corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio dizer-me que acabavade ver,<br \/>\nelegantemente trajada, uma mulher que conhecera em Lisboa, chamada Laura.<\/p>\n<p>Acrescentou v\u00e1rias circunst\u00e2ncias da vida desta mulher, e acabou por mostrarvivos<br \/>\ndesejos de saber o tolo opulento a quem tal mulher estava associada.<\/p>\n<p>Vasco pediu a lista dos h\u00f3spedes, e viu que os \u00fanicos portugueses eramVasco<br \/>\nde Seabra e sua irm\u00e3, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua filha D.Elisa<br \/>\nPimentel.<\/p>\n<p>Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se de uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de terencontrado<br \/>\num patr\u00edcio, que lhe explicasse aqueles gritos b\u00e1rbaros dos serventes dohotel,<br \/>\nque lhe davam \u00e1gua por vinho. Vasco n\u00e3o duvidou em ser int\u00e9rprete dovisconde,<br \/>\ncontanto que as suas luzes em l\u00edngua inglesa pudessem chegar aoesconderijo<br \/>\ndonde nunca mas vira sair a suposta Laura.<\/p>\n<p>Correram as coisas \u00e0 medida do seu desejo. Na noite desse dia, fomosconvidados<br \/>\npara tomar ch\u00e1, na saleta do visconde. Eu hesitei, sem saber ainda seLaura<br \/>\nseria familiar do visconde. Vasco, por\u00e9m, despreveniu-me deste temor,afian\u00e7ando-me<br \/>\nque se tinha iludido com a semelhan\u00e7a das duas mulheres.<\/p>\n<p>Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o artif\u00edcio tirou maiorpartido<br \/>\ndas maneiras adquiridas em h\u00e1bitos libertinos. Elisa era uma mulher decorte,<br \/>\ncom os ademanes fascinadores dos sal\u00f5es, onde a imoralidade do cora\u00e7\u00e3opasseia<br \/>\nde bra\u00e7o dado com a ilustra\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. O som da palavra, a escolha dafrase,<br \/>\na compostura airosa da m\u00edmica, o tom sublime em que as suas id\u00e9ias eramvoluptuosamente<br \/>\nlan\u00e7adas na torrente de uma conversa\u00e7\u00e3o animada, tudo isto mefez crer que<br \/>\nLaura era a primeira mulher que eu tinha encontrado, talhada \u00e0 fei\u00e7\u00e3o do meu<br \/>\nesp\u00edrito.<\/p>\n<p>Quando agora pergunto \u00e0 minha consci\u00eancia como estas transi\u00e7\u00f5es se fazem,descreio<br \/>\nda educa\u00e7\u00e3o, lamento os anos consumidos no cultivo da intelig\u00eancia, echego<br \/>\na persuadir-me que a escola da devassid\u00e3o \u00e9 a antec\u00e2mara por onde maisf\u00e1cil<br \/>\nse entra no mundo da gra\u00e7a e da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Perdoa-me o absurdo, Carlos ; mas h\u00e1 mist\u00e9rios na vida que s\u00f3 pelo absurdose<br \/>\nexplicam.<\/p>\n<p>Henriqueta.\u201d<\/p>\n<h4><strong><a name=\"9\"><\/a>CAP\u00cdTULO IX<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cLi a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de l\u00e1grimas, e o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndereconhecimento. N\u00e3o esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a injusti\u00e7a<br \/>\nde tejulgar infeccionado deste marasmo de ego\u00edsmo que entorpece o esp\u00edrito,<br \/>\ne calcina ocora\u00e7\u00e3o. E, demais, supunha-te insens\u00edvel pelo fato de seres inteligente.<br \/>\nEis aqui um disparate, que eu n\u00e3o ousaria balbuciar na presen\u00e7a do mundo.<br \/>\nO que vale \u00e9 que asminhas cartas n\u00e3o ser\u00e3o lidas pelas mediocridades, que<br \/>\nse acham em conc\u00edliopermanente para condenar, em nome de n\u00e3o sei que tolas<br \/>\nconveni\u00eancias, asheresias do g\u00eanio.<\/p>\n<p>Deixa-me dizer-te francamente o ju\u00edzo que eu formo do homem transcendenteem<br \/>\ng\u00eanio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que seinveja,<br \/>\nque se ama, e que se detesta, muitas vezes.<\/p>\n<p>O homem de talento \u00e9 sempre um mau homem. Alguns conhe\u00e7o eu que omundo proclama<br \/>\nvirtuosos e s\u00e1bios. Deix\u00e1-los proclamar. O talento n\u00e3o \u00e9 sabedoria.Sabedoria<br \/>\n\u00e9 o trabalho incessante do esp\u00edrito sobra a ci\u00eancia. O talento \u00e9 a vibra\u00e7\u00e3oconvulsiva<br \/>\nde esp\u00edrito, a originalidade inventiva e rebelde \u00e0 autoridade, a viagemext\u00e1tica<br \/>\npelas regi\u00f5es inc\u00f3gnitas da id\u00e9ia. Agostinho, F\u00e9nelon, Madame de Sta\u00ebl eBentham<br \/>\ns\u00e3o sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron s\u00e3o talentos.Compara<br \/>\nas vicissitudes dessas duas mulheres e os servi\u00e7os prestados \u00e0humanidade por<br \/>\nesses homens, e ter\u00e1s encontrado o antagonismo social em quelutem o talento<br \/>\ncom a sabedoria.<\/p>\n<p>Porque \u00e9 mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio umespinho<br \/>\nenvenenado ? Essa espl\u00eandida ta\u00e7a de brilhantes e ouro porque \u00e9 quecont\u00e9m<br \/>\no fel, que abrasa os l\u00e1bios de quem a toca ?<\/p>\n<p>Aqui tens um tema para trabalhos superiores \u00e0 cabe\u00e7a de uma mulher, aindamesmo<br \/>\nrefor\u00e7ada por duas d\u00fazias de cabe\u00e7as acad\u00eamicas !<\/p>\n<p>Lembra-me ouvir dizer a um doido que sofria por ter talento. Pedi-lhe ascircunst\u00e2ncias<br \/>\ndo seu mart\u00edrio sublime, e respondeu-me o seguinte com a maisprofunda convic\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne a mais tocante solenidade filos\u00f3fica : os talentos s\u00e3o raros, eos est\u00fapidos<br \/>\ns\u00e3o muitos. Os est\u00fapidos guerreiam barbaramente o talento : s\u00e3o osv\u00e2ndalos<br \/>\ndo mundo espiritual. O talento n\u00e3o tem partido nesta peleja desigual. Foge,dispara<br \/>\nna retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se,segrega-se<br \/>\ndo contacto do mundo, e curte em sil\u00eancio aquele fel de vingan\u00e7a, que,mais<br \/>\ncedo ou mais tarde, cospe na cara de algum inimigo, que encontra desviado<br \/>\ndocorpo do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Ai tem, \u2014 acrescentou ele \u2014 a raz\u00e3o por que o homem de talento<br \/>\n\u00e9 perigosona sociedade. O \u00f3dio inspira-lhe e eloqu\u00eancia da tra\u00e7\u00e3o. A mulher<br \/>\nque lhe ouve oastucioso hino das suas apaixonadas lam\u00farias, acredita-o, abandona-se,<br \/>\nperde-se, eretira-se, por fim, gritando contra o seu algoz, e pedindo \u00e0 sociedade<br \/>\nque grite comela.<\/p>\n<p>Agora, diz-me tu, Carlos, at\u00e9 que ponto devemos acreditar este doido. Eu<br \/>\npormim n\u00e3o me satisfa\u00e7o com o seu sistema, todavia sinto-me propensa a aperfei\u00e7oar<br \/>\noprisma do doido, at\u00e9 encontrar as cores inalter\u00e1veis do ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Seja o que for, eu creio que \u00e9s uma excep\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sofra com isto a tuamod\u00e9stia.<br \/>\nA tua carta fez-me chorar, e acredito que sofrias, escrevendo-a.<\/p>\n<p>H\u00e1s-decontinuar a visitar-me espiritualmente na minha Tebaida, sem cil\u00edcios,<br \/>\nsim ?<\/p>\n<p>Agora conclua-se a hist\u00f3ria, que leva seus visos de folhetim filos\u00f3fico,<br \/>\nmoral,social, e n\u00e3o sei que mais por a\u00ed se diz, que n\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p>Contra\u00ed amizade com a filha do visconde do Prado. N\u00e3o era ela, por\u00e9m, t\u00e3o\u00edntima<br \/>\nque me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra n\u00e3o era meu irm\u00e3o. Porele<br \/>\nme fora imposto, como preceito, o segredo de nossas rela\u00e7\u00f5es. Bem longeestava<br \/>\neu de compreender este zelo de virtuosa honestidade, quando a m\u00e3o de umdem\u00f4nio<br \/>\nme tirou a venda dos olhos.<\/p>\n<p>Vasco amava Laura !! Eu pus dois pontos de admira\u00e7\u00e3o, mas acredita que foiuma<br \/>\nurg\u00eancia ret\u00f3rica, uma composi\u00e7\u00e3o art\u00edstica, que me obrigou a admirar-me,<br \/>\nescrevendo, de coisas que me n\u00e3o admiram, pensando.<\/p>\n<p>Que \u00e9 o que levou t\u00e3o depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher,que<br \/>\ndesprezei o mundo, e me desprezei a mim pr\u00f3pria para satisfazer-lhe o caprichode<br \/>\nalguns meses ? Foi uma mis\u00e9ria que ainda hoje me envergonha, suposto queesta<br \/>\nvergonha devesse ser um reflexo das faces dele&#8230; Vasco amava a filha dovisconde<br \/>\ndo Prado, a Laura de alguns meses antes, porque a Elisa de hoje era aherdeira<br \/>\nde n\u00e3o sei quantos centos de contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>Devo envergonhar-me de ter amado este homem, n\u00e3o \u00e9 verdade, Carlos ?N\u00e3o devo<br \/>\nsofrer um instante a perda de um miser\u00e1vel, que eu vejo daqui com umagrilheta<br \/>\nde ouro algemada a uma perna, tapando em v\u00e3o os ouvidos para n\u00e3o ouvir-lhe<br \/>\no ru\u00eddo&#8230; a senten\u00e7a do for\u00e7ado que o segue at\u00e9 ao fim de uma exist\u00eancia<br \/>\nfartade opr\u00f3brio, e c\u00e9lebre de inf\u00e2mias !<\/p>\n<p>E n\u00e3o sofro, Carlos ! Tenho aqui no seio uma \u00falcera que n\u00e3o tem cura&#8230;Choro,<br \/>\nporque \u00e9 intensa a dor que ela me causa&#8230; Mas, olha, n\u00e3o tenho l\u00e1grimasque<br \/>\nn\u00e3o sejam remorsos&#8230; N\u00e3o tenho remorsos que n\u00e3o sejam picados pela afrontaque<br \/>\nfiz a minha m\u00e3e, e a meu irm\u00e3o&#8230; N\u00e3o me d\u00f3i o meu pr\u00f3prio aviltamento, n\u00e3o<br \/>\n!Se em minha alma cabe algum entusiasmo, algum desejo, \u00e9 o entusiasmo dapenit\u00eancia,<br \/>\n\u00e9 o desejo de torturar-me..<\/p>\n<p>Fugi tanto da hist\u00f3ria, meu Deus !&#8230; Desculpa estes desvios, meu pacienteamigo<br \/>\n!&#8230; Eu queria correr muito sobre o que falta, e hei-de consegui-lo, porque<br \/>\nn\u00e3o posso parar, e temo de me converter em est\u00e1tua, como a mulher de Loth,<br \/>\nquandoolho com aten\u00e7\u00e3o para o meu passado..<\/p>\n<p>O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco n\u00e3osei<br \/>\ncomo recebeu o convite ; o que eu sei \u00e9 que os v\u00ednculos destas rela\u00e7\u00f5esestreitaram-se<br \/>\nmuito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se comigo em intimidadesdo seu passado,<br \/>\ntodas mentirosas. Estas intimidades eram o pr\u00f3logo de outra que tuavaliar\u00e1s.<br \/>\nFoi ela a pr\u00f3pria que me disse que esperava ainda poder chamar-me irm\u00e3! Isto<br \/>\n\u00e9 uma atrocidade sublime, Carlos ! Diante dessa dor calam-se todas asagonias<br \/>\nposs\u00edveis ! O insulto n\u00e3o podia ser mais despeda\u00e7ador ! O punhal n\u00e3o podiaentrar<br \/>\nmais dentro no virtuoso cora\u00e7\u00e3o da pobre amante de Vasco de Seabra !&#8230;Agora,<br \/>\nsim, que eu quero a tua admira\u00e7\u00e3o, meu amigo ! Tenho direito \u00e0 tuacompaix\u00e3o,<br \/>\nse n\u00e3o podes estremecer de entusiasmo diante do hero\u00edsmo de umam\u00e1rtir ! Ouvi<br \/>\neste an\u00fancio dilacerante !&#8230; Senti fugir-me o entendimento&#8230; Aquelamulher<br \/>\nsufocou-me a voz na garganta&#8230; Horrorizei-me n\u00e3o sei se dela, se dele, sede<br \/>\nmim&#8230; Nem uma l\u00e1grima !&#8230; Acreditei-me doida&#8230; Senti-me est\u00fapida daqueleidiotismo<br \/>\npungente que faz chorar os estranhos, que nos v\u00eaem nos l\u00e1bios um sorrisode<br \/>\nimbecilidade&#8230;<\/p>\n<p>Elisa parece que recuou aterrada da express\u00e3o da minha fisionomia&#8230; Fez-me<br \/>\nn\u00e3o sei que perguntas&#8230; N\u00e3o me lembro mesmo se aquela mulher permaneceudiante<br \/>\nde mim&#8230; Basta !&#8230; N\u00e3o posso prolongar esta situa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Na tarde desse mesmo dia, chamei uma criada da hospedaria. Pedi-lhe queme<br \/>\nvendesse algumas j\u00f3ias de pouco valor que eu possu\u00eda ; eram minhas ; minhasn\u00e3o&#8230;<br \/>\nEram um roubo que eu fiz a minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dia seguinte, quando Vasco, depois do almo\u00e7o, visitava ovisconde<br \/>\ndo Prado, escrevi estas linhas:<\/p>\n<p>\u201cVasco de Seabra n\u00e3o pode gloriar-se de ter desonrado Henriqueta deLencastre.<br \/>\nEsta mulher sentia-se digna de uma coroa de virgem, virgem do cora\u00e7\u00e3o,virgem<br \/>\nna sua honra, quando abandonava um vil\u00e3o, que n\u00e3o p\u00f4de infectar da suainf\u00e2mia<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o da mulher que arrastou ao abismo da sua lama, sem lhe salpicar acara.<br \/>\nFoi a Provid\u00eancia que a salvou !\u201d<\/p>\n<p>Deixei este escrito sobre as luvas de Vasco, e fui \u00e0 esta\u00e7\u00e3o dos caminhos<br \/>\ndeferro.<\/p>\n<p>Dois dias depois entrava um paquete.<\/p>\n<p>Ao ver a minha p\u00e1tria, cobri o rosto com as m\u00e3os, e chorei&#8230; Era a vergonhae<br \/>\no remorso. Diante do Porto senti uma inspira\u00e7\u00e3o do c\u00e9u. Saltei numa catraia,<br \/>\nepouco depois achava-me nesta terra, sem um conhecimento, sem o apoio e semsubsist\u00eancia<br \/>\npara muitos dias.<\/p>\n<p>Entrei em casa de uma modista, e pedi obra. N\u00e3o ma negou. Aluguei uma\u00e1gua-furtada,<br \/>\nonde trabalho h\u00e1 quatro anos ; onde, h\u00e1 quatro anos, comprimo bemaos rins,<br \/>\nsegundo a linguagem antiga, os cil\u00edcios do meu remorso.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e e meu irm\u00e3o vivem. Julgam-me morta, e eu pe\u00e7o a Deus que n\u00e3ohaja<br \/>\num ind\u00edcio da minha vida. S\u00ea-me tu fiel, meu generoso amigo, n\u00e3o medenuncies,<br \/>\npela tua honra e pela sorte de tuas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>Tu sabes o resto. Ouviste, no teatro, Elisa. Foi ela a que me disse que o<br \/>\nseumarido a abandonara, chamando-lhe Laura. Aquela est\u00e1 punida..<\/p>\n<p>Sofia&#8230; (lembras-te de Sofia ?) Essa \u00e9 uma pequena aventura, que aproveiteipara<br \/>\ntornar menos ins\u00edpidas aquelas horas em que me acompanhaste&#8230; Foi umarival<br \/>\nque n\u00e3o honra ningu\u00e9m&#8230; Uma Laura com os respeitos p\u00fablicos, e asconsidera\u00e7\u00f5es<br \/>\nque se barateiam a corpos ulcerosos, contando que se vistam develudos matizados.<br \/>\nAinda eu era feliz, quando o infame amante dessa mulher medava aquele anel,<br \/>\nque viste, como obla\u00e7\u00e3o de sacrif\u00edcio que me fazia de um rival..<\/p>\n<p>Escreve-me.<\/p>\n<p>H\u00e1s-de ouvir-me no pr\u00f3ximo Carnaval.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, Carlos, deixa-me fazer-ta uma pergunta : N\u00e3o me achas maisdefeituosa<br \/>\nque o nariz daquela andaluza da hist\u00f3ria que te contei ?<\/p>\n<p>Henriqueta.\u201d<\/p>\n<h4><strong><a name=\"10\"><\/a>CAP\u00cdTULO X<\/strong><\/h4>\n<p>\u00c9 natural a exalta\u00e7\u00e3o de Carlos, depois de erguido o v\u00e9u, em que seescondiam<br \/>\nos mist\u00e9rios de Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do belo e pelapoesia<br \/>\nda desgra\u00e7a, Carlos n\u00e3o teve nunca impress\u00e3o na vida que mais lheincendiasse<br \/>\numa paix\u00e3o.<\/p>\n<p>As cartas a \u00c2ngela Micaela eram o desafogo do seu amor sem esperan\u00e7a. Osmais<br \/>\nferventes \u00eaxtases da sua alma de poeta, imprimiu-os naquelas cartas escritasdebaixo<br \/>\nde uma impress\u00e3o que lhe roubava a tranquilidade do sono, e o ref\u00fagio deoutros<br \/>\nafetos.<\/p>\n<p>Henriqueta respondera concisamente \u00e0s explos\u00f5es de um del\u00edrio que nemsequer<br \/>\na fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta n\u00e3o podia amar. Arrancaram-lhepela<br \/>\nraiz a flor do cora\u00e7\u00e3o. Esterilizaram-lhe a \u00e1rvore dos belos frutos, eenvenenaram-lhe<br \/>\nde sarcasmo e ironia os instintos do carinho brando, queacompanham a mulher<br \/>\nat\u00e9 a sepultura.<\/p>\n<p>Carlos n\u00e3o podia suportar uma repulsa nobre. Persuadira-se que havia umescal\u00e3o<br \/>\nmoral para todas. Confiava no seu ascendente em n\u00e3o sei que mulheres, entre<br \/>\nas quais lhe n\u00e3o fora penoso nunca fixar o dia do seu triunfo.<\/p>\n<p>Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. Oamor-pr\u00f3prio,<br \/>\nangustiado nos apertos de uma impossibilidade invenc\u00edvel, adquireuma nova<br \/>\nfei\u00e7\u00e3o, e converte-se em paix\u00e3o, como as paix\u00f5es primeiras, que nossopram<br \/>\na tempestade no l\u00edmpido lago da adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Carlos, em \u00faltimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No lanceextremo<br \/>\nde um desafogo, iria ele, audacioso, humilhar-se aos p\u00e9s daquela mulher,que<br \/>\na n\u00e3o poder am\u00e1-lo, choraria com ele ao menos.<\/p>\n<p>Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a imagina\u00e7\u00e3o, quando lhe ocorreua<br \/>\nastuciosa lembran\u00e7a de surpreender a morada de Henriqueta surpreendendo apessoa<br \/>\nque no correio lhe tirava as cartas, subscritas a \u00c2ngela Micaela.<\/p>\n<p>Conseguiu o comprometimento de um empregado do correio, Carlosempregou nesta<br \/>\nmiss\u00e3o um vigia insuspeito.<\/p>\n<p>No dia do correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n\u00b0 628. O que aentregou<br \/>\nfez um sinal a um homem que passeava no corredor, e este homem seguiude longe<br \/>\na velha at\u00e9 ao campo de Santo Ov\u00eddio. Feliz das vantagens que lucrara emtal<br \/>\ncomiss\u00e3o, correu a encontrar-se com Carlos. \u00c9 ocioso descrever a precipita\u00e7\u00e3ocom<br \/>\nque o enamorado mancebo, espiritualizado por algumas libras, correu \u00e0indicada<br \/>\ncasa. Em honra de Carlos, \u00e9 necess\u00e1rio dizer que aquelas librasrepresentavam<br \/>\na eloqu\u00eancia com que ele tentaria mover a velha em seu favor, porisso que,<br \/>\n\u00e0 vista das informa\u00e7\u00f5es que tivera da pobreza da casa, concluiu que n\u00e3oera<br \/>\nali a resid\u00eancia de Henriqueta.<\/p>\n<p>Acertou.<\/p>\n<p>A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua bai\u00faca, quando Carlos seaproximou,<br \/>\ne muito urbanamente lhe pediu licen\u00e7a para dizer-lhe duas palavras.<\/p>\n<p>A velha, que n\u00e3o podia recear alguma agress\u00e3o trai\u00e7oeira aos seus virtuososoitenta<br \/>\nanos, franqueou os umbrais da sua pocilga, e prestou ao seu h\u00f3spede acadeira<br \/>\n\u00fanica do seu camarim de tecto de vigas e pavimento de lajes.<\/p>\n<p>Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado da chave com queBernardes<br \/>\nmanda fechar os sonetos, aplicou-a \u00e0 abertura da prosa, e conheceu depronto<br \/>\nas vantagens de ser cl\u00e1ssico, quando conv\u00e9m. A velha, quando viu cair norega\u00e7o<br \/>\nduas libras, sentiu o que nunca sentira a mais carinhosa das m\u00e3es, com doisfilhinhos<br \/>\nno colo. Luziram-lhe os olhos, e dan\u00e7aram-lhe os nervos em todas asevolu\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos seus vinte e cinco anos.<\/p>\n<p>Feito isto, Carlos precisou a sua miss\u00e3o nos seguintes termos:<\/p>\n<p>\u201cEsse pequeno donativo, que lhe fa\u00e7o, h\u00e1-de ser repetido, se vossemec\u00ea<br \/>\nmefizer um grande servi\u00e7o, que pode fazer-me. Vossemec\u00ea recebeu, h\u00e1 pouco,<br \/>\numacarta, e vai entreg\u00e1-la a uma pessoa, cuja felicidade est\u00e1 nas minhas m\u00e3os.<br \/>\nEstoucerto que vossemec\u00ea n\u00e3o h\u00e1-de querer ocultar-me a morada dessa senhora,<br \/>\ne priv\u00e1-la de ser feliz. O servi\u00e7o que tenho a pedir-lhe, e a pagar-lhe bem,<br \/>\n\u00e9 este ; pode fazer-mo ?\u201d<\/p>\n<p>A fr\u00e1gil mulher, que n\u00e3o se sentia bastante hero\u00edna para ir de encontro \u00e0legenda<br \/>\nque D. Jo\u00e3o V fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com maisalgumas reflex\u00f5es<br \/>\ne denunciou o santo asilo das l\u00e1grimas de Henriqueta, segundavez atrai\u00e7oada<br \/>\npor uma mulher, fr\u00e1gil \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de ouro, que lhe roubara umamante, e vem<br \/>\nagora devassar-lhe o seu sagrado ref\u00fagio.<\/p>\n<p>Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da Rua dos Pelames,subia<br \/>\na um terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe n\u00e3o foi aberta. Esperou.Momentos<br \/>\ndepois, subia um rapaz com uma caixa de chap\u00e9u de senhora : bateu ;perguntaram<br \/>\nde dentro quem era, o rapaz falou, e a porta foi imediatamente aberta.<\/p>\n<p>Henriqueta estava sem domin\u00f3 na presen\u00e7a de Carlos.<\/p>\n<p>Foi sublime esta apari\u00e7\u00e3o. A mulher que Carlos viu, n\u00e3o saberemos n\u00f3s pint\u00e1-la.<br \/>\nEra o original dessas espl\u00eandidas iluminuras que o pincel do s\u00e9culo XVI faziasaltar<br \/>\nda tela, e consagrava a Deus, denominando-as Madalena, Maria Egipc\u00edaca e Margarida<br \/>\nde Cortona.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 fraco, e sente-se mesquinho perante a majestade da beleza !Carlos<br \/>\nsentiu-se dobrar nos joelhos ; e a primeira palavra que balbuciou foi \u201cPerd\u00e3o\u201d!<\/p>\n<p>Henriqueta n\u00e3o p\u00f4de receber com a firmeza que devia supor-se-lhe uma talsurpresa.<br \/>\nSentou-se e limpou o suor que lhe correra de improviso todo o corpo.<\/p>\n<p>A coragem de Carlos desmereceu do muito em que ele a tinha. Sucumbiu, enem<br \/>\nao menos lhe deixou o dom dos lugares-comuns. Silenciosos, olhavam-se comuma<br \/>\nsimplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta revolvia no pensamento<br \/>\naind\u00fastria com que o seu segredo fora violado. Carlos invocava ao cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npalavrasque o salvassem daquela crise, que o materializava por ter tocado<br \/>\no extremo doespiritualismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos faremos cargo de satisfazer as desp\u00f3ticas exig\u00eancias do leitor, quepede<br \/>\ncontas das interjei\u00e7\u00f5es e das retic\u00eancias de um di\u00e1logo.<\/p>\n<p>O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista, \u00e9 que<br \/>\namusa das lamenta\u00e7\u00f5es desceu \u00e0 invoca\u00e7\u00e3o de Carlos, que, por fim, desenvolveutoda<br \/>\na eloqu\u00eancia da paix\u00e3o. Henriqueta ouviu-o com a seriedade com que umarainha<br \/>\nabsoluta escuta um ministro da fazenda, que lhe conta os chat\u00edssimos ema\u00e7udos<br \/>\nneg\u00f3cios das finan\u00e7as.<\/p>\n<p>Sorria-se, \u00e0s vezes, e respondia com um ressaibo de m\u00e1goa e deressentimento,<br \/>\nque matava, no nascedouro, os transportes do seu infeliz amante.<\/p>\n<p>As suas \u00faltimas palavras, essas sim, s\u00e3o signas de se arquivarem paraescarmento<br \/>\ndaqueles que se julgam herdeiros dos raios de J\u00fapiter Ol\u00edmpico, quandose empavonam<br \/>\nde fulminar as mulheres que tiveram a desventura de se queimarem,como as mariposas,<br \/>\nno lume el\u00e9trico de seus olhos. Foram estas as suas palavras:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSr. Carlos ! At\u00e9 hoje os nossos esp\u00edritos viveram ligados por<br \/>\numas n\u00fapciasque eu pensei n\u00e3o perturbarem a nossa cara tranquilidade, nem<br \/>\nescandalizarem acaprichosa opini\u00e3o p\u00fablica. De ora em diante, um solene div\u00f3rcio<br \/>\nentre os nossosesp\u00edritos. Estou punida de mais. Fui fraca e talvez m\u00e1, em<br \/>\nprender-lhe a sua aten\u00e7\u00e3onum baile mascarado. Perdoe-me, que sou, por isso,<br \/>\nmais desgra\u00e7ada do quepensa. Seja meu amigo. N\u00e3o me envenene esta santa obscuridade,<br \/>\neste c\u00edrculoestreito da minha vida, em que a m\u00e3o de Deus tem derramado algumas<br \/>\nflores. Sen\u00e3o pode avaliar o travo das minhas l\u00e1grimas, respeite cavalheiramente<br \/>\numa mulherque lhe pede com as m\u00e3os erguidas o favor, a piedade de a deixar<br \/>\nsozinha com osegredo da sua desonra, que eu prometo nunca mais alargar a minha<br \/>\nalma nestasrevela\u00e7\u00f5es, que morreriam comigo, se eu pudesse suspeitar que atra\u00eda<br \/>\ncom elas aminha desgra\u00e7a&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Henriqueta continuava, quando Carlos, com l\u00e1grimas de uma dor sincera, lhepedia<br \/>\nao menos a sua estima, e lhe entregava as suas cartas, debaixo do sagradojuramento<br \/>\nde nunca mais a procurar.<\/p>\n<p>Henriqueta, entusiasmada p<\/p>\n<p>Henriqueta, entusiasmada pelo pat\u00e9tico desta nobre rogativa, apertou ansiosamente<br \/>\na m\u00e3o de Carlos, e despediram-se&#8230;..<\/p>\n<p>E nunca mais se viram.<\/p>\n<p>Mas o leitor tem o direito a saber mais alguma coisa.<\/p>\n<p>Carlos, um m\u00eas depois, partiu para Lisboa, colheu as necess\u00e1riasinforma\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne entrou em casa da m\u00e3e de Henriqueta. Uma senhora, vestida de luto,e encostada<br \/>\na duas criadas, veio encontr\u00e1-lo numa sala.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cN\u00e3o tenho a honra de conhecer&#8230;\u201d \u2014 disse a m\u00e3e de<br \/>\nHenriqueta.<\/p>\n<p>\u201cSou um amigo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cDe meu filho ?!&#8230;\u201d &#8211; interrompeu ela. &#8211; \u201cVem-me dar<br \/>\nparte do tristeacontecimento ?&#8230; Eu j\u00e1 o sei !&#8230; Meu filho \u00e9 um assassino<br \/>\n!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E prerrompeu num choro, que a n\u00e3o deixava articular palavras.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cO filho de V. Exa assassino !&#8230;\u201d \u2014 interpelou Carlos.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cSim&#8230; Sim&#8230; Pois n\u00e3o sabe que ele matou em Londres o sedutor<br \/>\ndaminha desgra\u00e7ada filha ?!&#8230; da minha filha&#8230; assassinada por ele&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u2014 \u201cAssassinada, sim, mas s\u00f3 na sua honra\u201d \u2014 atalhou Carlos.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPois minha filha vive !&#8230; Henriqueta vive !&#8230; Oh meu Deus,<br \/>\nmeu Deus, euvos agrade\u00e7o !&#8230;\u201d<\/p>\n<p>A pobre senhora ajoelhou, as criadas ajoelharam com ela, e Carlos sentiu<br \/>\numcalafrio nervoso, e uma exalta\u00e7\u00e3o religiosa, que quase o fizeram ajoelhar<br \/>\ncomaquele grupo de mulheres, cobertas del\u00e1grimas&#8230;<\/p>\n<p>Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu irm\u00e3o,<br \/>\nechoravam ambos abra\u00e7ados com toda a expans\u00e3o de uma dor represada.<\/p>\n<p>Houve a\u00ed um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem n\u00e3osaber\u00e1<br \/>\ndescrever nunca.<\/p>\n<p>Henriqueta abra\u00e7ou sua m\u00e3e, e entrou num convento onde pedeincessantemente<br \/>\na Deus a salva\u00e7\u00e3o de Vasco de Seabra.<\/p>\n<p>Carlos \u00e9 o \u00edntimo amigo desta fam\u00edlia, e conta este lance da sua vida comoum<br \/>\nhero\u00edsmo digno de outras \u00e9pocas.<\/p>\n<p>Laura, vi\u00fava de quatro meses, contrai segundas n\u00fapcias, e vive feliz com<br \/>\noseu segundo marido, digno dela.<\/p>\n<p>Acabou o conto.<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X &nbsp; CAP\u00cdTULO I Na \u00faltima noite do Carnaval, que foi justamente aos 8 dias do m\u00eas de Fevereiro, do corrente ano, pelas 9 horas e meia 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