{"id":93979,"date":"2017-01-10T15:00:38","date_gmt":"2017-01-10T17:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93979"},"modified":"2017-01-10T15:03:03","modified_gmt":"2017-01-10T17:03:03","slug":"amor-de-perdicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/amor-de-perdicao","title":{"rendered":"Amor de Perdi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI <\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong> <a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII <\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong> <a href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <a href=\"#17\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Folheando os livros de antigos assentamentos, no cart\u00f3rio<br \/>\ndas cadeias da Rela\u00e7\u00e3o do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803<br \/>\na 1805, a folhas 232, o seguinte:<\/p>\n<p><i>Sim\u00e3o Ant\u00f4nio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro,<br \/>\n<\/i>e <i>estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa,<br \/>\ne assistente na ocasi\u00e3o de sua pris\u00e3o na cidade de Viseu, idade de dezoito<br \/>\nanos, filho de Domingos Jos\u00e9 Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeir\u00e3o<br \/>\nCastelo Branco; estatura ordin\u00e1ria, cara redonda, olhos castanhos, cabelo<br \/>\n<\/i>e <i>barba preta, vestido com jaqueta de baet\u00e3o azul, colete de fust\u00e3o<br \/>\npintado e cal\u00e7a de pano pedr\u00eas. E fiz este assento, que assinei &#8211; Filipe Moreira<br \/>\nDias.<\/i><\/p>\n<p>A margem esquerda deste assento est\u00e1 escrito:<\/p>\n<p><i>Foi para a \u00cdndia em <\/i>17 <i>de mar\u00e7o de <\/i>1807.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor,<br \/>\nse cuido que o degredo de um mo\u00e7o de dezoito anos lhe h\u00e1 de fazer d\u00f3.<\/p>\n<p>Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manh\u00e3 da vida!<br \/>\nAs lou\u00e7anias do cora\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o sonha em frutos, e todo se embalsama<br \/>\nno perfume das flores! Dezoito anos! O amor daquela idade! A passagem do seio<br \/>\nda fam\u00edlia, dos bra\u00e7os de m\u00e3e, dos beijos das irm\u00e3s para as car\u00edcias mais<br \/>\ndoces da virgem, que se lhe abre ao lado como flor da mesma saz\u00e3o e dos mesmos<br \/>\naromas, e \u00e0 mesma hora da vida! Dezoito anos!&#8230; E degredado da p\u00e1tria, do<br \/>\namor e da fam\u00edlia! Nunca mais o c\u00e9u de Portugal, nem liberdade, nem irm\u00e3os,<br \/>\nnem m\u00e3e, nem reabilita\u00e7\u00e3o, nem dignidade, nem um amigo!&#8230; \u00c9 triste!<\/p>\n<p>O leitor decerto se compungiria; e a leitora, se lhe dissessem<br \/>\nem menos de uma linha a hist\u00f3ria daqueles dezoito anos, choraria!<\/p>\n<p>Amou, perdeu-se, e morreu amando.<\/p>\n<p>\u00c9 a hist\u00f3ria. E hist\u00f3ria assim poder\u00e1 ouvi-la a olhos enxutos<br \/>\na mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por<br \/>\nvezes traz consigo do c\u00e9u um reflexo da divina miseric\u00f3rdia?! Essa, a minha<br \/>\nleitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, n\u00e3o choraria se lhe dissessem<br \/>\nque o pobre mo\u00e7o perdera honra, reabilita\u00e7\u00e3o, p\u00e1tria, liberdade, irm\u00e3s, m\u00e3e,<br \/>\nvida, tudo, por amor da primeira mulher que o despertou do seu dormir de inocentes<br \/>\ndesejos?!<\/p>\n<p>Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobressalto<br \/>\nque me causaram aquelas linhas, de prop\u00f3sito procuradas, e lidas com amargura<br \/>\ne respeito e, ao mesmo tempo, \u00f3dio. \u00d3dio, sim&#8230; A tempo vere\u00e3o se \u00e9 perdo\u00e1vel<br \/>\no \u00f3dio, ou se antes me n\u00e3o fora melhor abrir m\u00e3o desde j\u00e1 de uma hist\u00f3ria<br \/>\nque me pode acarear enojos dos frios julgadores do cora\u00e7\u00e3o, e das senten\u00e7as<br \/>\nque eu aqui lavrar contra a falsa virtude de homens, feitos b\u00e1rbaros, em nome<br \/>\nda sua honra.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/strong><\/h4>\n<p>Domingos Jos\u00e9 Correia Botelho de Mesquita e Meneses, fidalgo<br \/>\nde linhageme um dos mais antigos solarengos de Vila-Real de Tr\u00e1s-os-Montes,<br \/>\nera em 1779,juiz de fora de Cascais, e nesse mesmo ano casara com uma dama<br \/>\ndo pa\u00e7o, D. RitaTeresa Margarida Preciosa da Veiga Caldeir\u00e3o Castelo Branco,<br \/>\nfilha dum capit\u00e3o decavalos, neta de outro Ant\u00f4nio de Azevedo Castelo Branco<br \/>\nPereira da Silva, temnot\u00e1vel por sua jerarquia, como por um, naquele tempo,<br \/>\nprecioso livro acerca daArte de Guerra.<\/p>\n<p>Dez anos de enamorado, mal sucedido, consumira em Lisboa o bacharelprovinciano.<br \/>\nPara fazer-se amar da formosa dama de D. Maria I minguavam-lhedotes f\u00edsicos:<br \/>\nDomingos Botelho era extremamente feio. Para se inculcar comopartido conveniente<br \/>\na uma filha segunda, faltavam-lhe bens de fortuna: os haveresdele n\u00e3o excediam<br \/>\na trinta mil cruzados em propriedades no Douro. Os dotes deesp\u00edrito n\u00e3o o<br \/>\nrecomendavam tamb\u00e9m: era alcan\u00e7ad\u00edssimo de intelig\u00eancia, egranjeara entre<br \/>\nos seus condisc\u00edpulos da Universidade o ep\u00edteto de &#8220;brocas&#8221;, comque<br \/>\nainda hoje os seus descendentes em Vila-Real s\u00e3o conhecidos. Bem ou malderivado,<br \/>\no ep\u00edteto Brocas vem de broa. Entenderam os acad\u00eamicos que a rudezado seu<br \/>\ncondisc\u00edpulo procedia de muito p\u00e3o de milho que ele digeria na sua terra.Domingos<br \/>\nBotelho devia ter uma voca\u00e7\u00e3o qualquer, e tinha: era excelenteflautista; foi<br \/>\na primeira flauta do seu tempo; e a tocar flauta se sustentou dois anosem<br \/>\nCoimbra, durante os quais seu pai lhe suspendeu as mesadas, porque osrendimentos<br \/>\nda casa n\u00e3o bastavam a livrar outro filho de um crime de morte (1).Formara-se<br \/>\nDomingos Botelho em 1767, e fora a Lisboa ler no Desembargodo Pa\u00e7o, inicia\u00e7\u00e3o<br \/>\nbanal dos que aspiravam \u00e0 carreira da magistratura. J\u00e1 Fern\u00e3oBotelho, pai<br \/>\ndo bacharel, fora bem aceite em Lisboa, e mormente ao duque deAveiro, cuja<br \/>\nestima lhe teve a cabe\u00e7a em risco, na tentativa regicida de 1758. Oprovinciano<br \/>\nsaiu das masmorras da Junqueira ilibado da infamante n\u00f3doa, e at\u00e9 benquisto<br \/>\ndo conde de Oeiras, porque tomara parte na prova que este fizera doprimor<br \/>\nde sua geneologia sobre a dos Pintos Coelhos, do Bomjardim do Porto: pleitorid\u00edculo,<br \/>\nmas estrondoso, movido pela recusa que o fidalgo portuense fizera de suafilha<br \/>\nao filho de Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 de Carvalho.<\/p>\n<p>As artes como que o bacharel flautista vingou insinuar-se<br \/>\nna estima de D. Maria I e Pedro III n\u00e3o as sei eu. \u00c9 tradi\u00e7\u00e3o que o homem<br \/>\nfazia rir a rainha com as suas fac\u00e9cias, e por ventura com os trejeitos de<br \/>\nque tirava o melhor do seu esp\u00edrito. O certo \u00e9 que Domingos Botelho freq\u00fcentava<br \/>\no pa\u00e7o, e recebia do bolsinho da soberana uma farta pens\u00e3o. com a qual o aspirante<br \/>\na juiz de fora se esqueceu de si, do futuro e do ministro da justi\u00e7a, que,<br \/>\nmuito rogado, fiara das suas letras o encargo de juiz de fora de Cascais.<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 dito que ele se atreveu aos amores do pa\u00e7o. n\u00e3o poetando<br \/>\ncomo Lu\u00eds de Cam\u00f5es ou Bernardim Ribeiro; mas namorando na sua prosa provinciana,<br \/>\ne captando a bem-que<i>ren\u00e7a <\/i>da rainha para amolecer as durezas da dama.<br \/>\nDevia de ser, afinal, feliz &#8220;doutor bexiga&#8221; &#8211; que assim era na corte<br \/>\nconhecido &#8211; para se n\u00e3o desconcertar a disc\u00f3rdia em que andam rixados o talento<br \/>\ne a felicidade. Domingos Botelho casou com D. Rita Preciosa. Rita era uma<br \/>\nformosura, que ainda aos cinq\u00fcenta anos se podia prezar de o ser. E n\u00e3o tinha<br \/>\noutro dote. se n\u00e3o \u00e9 dote uma s\u00e9rie de avoengos, uns bispos, outros generais,<br \/>\ne entre estes o que morrera frigido em caldeir\u00e3o de n\u00e3o sei que terra da mourisma,<br \/>\ngl\u00f3ria, na verdade, um pouco ardente. mas de tal monta que os descendentes<br \/>\ndo general frito se assinaram <i>Caldeir\u00f5es.<\/i><\/p>\n<p>A dama do pa\u00e7o n\u00e3o foi ditosa com o marido. Molestavam-na<br \/>\nsaudades da corte, das pompas das c\u00e2maras reais. e dos amores de sua fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ne malde, que imolou ao capricho da rainha. Este desgostoso viver, por\u00e9m, n\u00e3o<br \/>\nempreceu que se reproduzissem em dois filhos e tr\u00eas meninas. O mais velho<br \/>\nera Manuel, o segundo Sim\u00e3o; das meninas uma era Maria, a segunda Ana e a<br \/>\n\u00faltima tinha o nome de sua m\u00e3e, e alguns tra\u00e7os de beleza dela,<\/p>\n<p>O Juiz de fora de Cascais, solicitando lugar de mais graduado<br \/>\nbanco, demorava em Lisboa, na freguesia da Ajuda. em 1784. Neste ano \u00e9 que<br \/>\nnasceu Sim\u00e3o, o pen\u00faltimo dos seus filhos. Conseguiu ele, sempre balanceado<br \/>\nda fortuna,. transfer\u00eancia para Vila-Real, sua ambi\u00e7\u00e3o suprema.<\/p>\n<p>A dist\u00e2ncia duma l\u00e9gua de Vila-Real estava a nobreza da vila<br \/>\nesperando o seu conterr\u00e2neo. Cada fam\u00edlia tinha a sua liteira com o bras\u00e3o<br \/>\nda casa. A dos Correias de Mesquita era a mais antiquada no feitio, e as libr\u00e9s<br \/>\ndos criados as mais surradas e tra\u00e7adas que figuravam na comitiva.<\/p>\n<p>D. Rita, avistando o pr\u00e9stito das liteiras, ajustou ao olho<br \/>\ndireito a sua grande luneta de oiro, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Meneses, aquilo que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o os nossos amigos e parentes que v\u00eam esperar-nos.<\/p>\n<p>&#8211; Em que s\u00e9culo estamos n\u00f3s nesta montanha? &#8211; tornou dama<br \/>\ndo pa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Em que s\u00e9culo?! O s\u00e9culo tanto \u00e9 dezoito aqui como em Lisboa.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! sim? Cuidei que o tempo parara aqui no s\u00e9culo doze&#8230;<\/p>\n<p>O marido achou que devia rir-se do chiste, que o n\u00e3o lisonjeara<br \/>\ngrandemente.<\/p>\n<p>Fern\u00e3o Botelho, pai do juiz de fora, saiu \u00e0 frente do pr\u00e9stito<br \/>\npara dar a m\u00e3o \u00e0 nora, que apeava da liteira, e conduzi-la \u00e0 de casa. D. Rita,<br \/>\nantes de ver a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as fivelas<br \/>\nde a\u00e7o, e a bolsa do rabicho. Dizia ela depois que os fidalgos de Vila-Real<br \/>\neram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes de entrar na avoenga<br \/>\nliteira de seu marido, perguntou, com a mais refalsada seriedade, se n\u00e3o haveria<br \/>\nrisco em ir dentro daquela antig\u00fcidade. Fern\u00e3o Botelho asseverou a sua nora<br \/>\nque a sua liteira n\u00e3o tinha ainda cem anos, e que os machos n\u00e3o excediam a<br \/>\ntrinta.<\/p>\n<p>O modo altivo como ela recebeu as cortesias da nobreza &#8211; velha<br \/>\nnobreza, que para ali viera em tempo de D. Deniz, fundador da vila &#8211; fez que<br \/>\no mais novo do pr\u00e9stito, que ainda vivia h\u00e1 doze anos, me dissesse a mim:<br \/>\n&#8220;Sab\u00edamos que ela era dama da Senhora D. Maria I; por\u00e9m, da soberba com<br \/>\nque nos tratou ficamos pensando que seria ela a pr\u00f3pria rainha&#8221;. Repicaram<br \/>\nos sinos da terra quando a comitiva assomou \u00e0 Senhora de Almudena. D. Rita<br \/>\ndisse ao marido que a recep\u00e7\u00e3o dos sinos era a mais estrondosa e barata.<\/p>\n<p>Apearam \u00e0 porta da velha casa de Fern\u00e3o Botelho. A aia do<br \/>\npa\u00e7o relanceou os olhos pela fachada do edif\u00edcio, e disse de si para si: &#8220;\u00c9<br \/>\numa bonita vivenda para quem foi criada em Mafra e Sintra, na Bemposta e Queluz&#8221;.<\/p>\n<p>Decorridos alguns dias, D. Rita disse ao marido que tinha<br \/>\nmedo de ser devorada das ratazanas; que aquela casa era um covil de feras;<br \/>\nque os tetos estavam a desabar; que as paredes n\u00e3o resistiriam ao inverno;<br \/>\nque os preceitos de uniformidade conjugal n\u00e3o obrigavam a morrer de frio uma<br \/>\nesposa delicada e afeita \u00e0s almofadas do pal\u00e1cio dos reis,<\/p>\n<p>Domingos Botelho conformou-se com a estremecida consorte,<br \/>\ne come\u00e7ou a f\u00e1brica dum palacete. Escassamente lhe chegavam os recursos para<br \/>\nos alicerces: escreveu \u00e0 rainha, e obteve generoso subs\u00eddio com que ultimou<br \/>\na casa. As varandas das janelas foram a \u00faltima d\u00e1diva que a real vi\u00fava fez<br \/>\n\u00e0 sua dama. Quer-nos parecer que a d\u00e1diva \u00e9 um testemunho, at\u00e9 agora in\u00e9dito,<br \/>\nda dem\u00eancia da Senhora D. Maria I.<\/p>\n<p>Domingos Botelho mandara esculpir em Lisboa a pedra de armas;<br \/>\nD. Rita, por\u00e9m, teimara que no escudo se esquarteassem tamb\u00e9m as suas; mas<br \/>\nera tarde, porque j\u00e1 a obra tinha vindo do escultor, e o magistrado n\u00e3o podia<br \/>\ncom segunda despesa, nem queria desgostar seu pai, orgulhoso de seu bras\u00e3o.<br \/>\nResultou daqui ficar a casa sem armas e D. Rita vitoriosa.<\/p>\n<p>O juiz de fora tinha ali parentela ilustre. O aprumo da fidalga<br \/>\ndobrou-se at\u00e9 aos grandes da prov\u00edncia, ou antes houve por bem levant\u00e1-los<br \/>\nat\u00e9 ela. D. Rita tinha uma corte de primos, uns que se contentavam de serem<br \/>\nprimos, outros que invejavam a sorte do marido. O mais audacioso n\u00e3o ousava<br \/>\nfit\u00e1-la de rosto, quando ela o remirava com a luneta, em jeito de tanta altivez<br \/>\ne zombaria, que n\u00e3o ser\u00e1 estranha figura dizer que a luneta de Rita Preciosa<br \/>\nera a mais vigilante sentinela da sua virtude.<\/p>\n<p>Domingos Botelho desconfiava da efic\u00e1cia dos merecimentos<br \/>\npr\u00f3prios para cabalmente encher o cora\u00e7\u00e3o de sua mulher. Inquietava-o o ci\u00fame;<br \/>\nmas sufocava os suspiros, receando que Rita se desse por injuriada da suspeita.<br \/>\nE raz\u00e3o era que se ofendesse. A neta do general fr\u00edgido no caldeir\u00e3o sarrareno<br \/>\nria dos primos, que, por amor dela, erri\u00e7avam e empoavam as cabeleiras com<br \/>\ndesgracioso esmero, e cavaleavam estrepitosamente na cal\u00e7ada os seus ginetes,<br \/>\nfingindo que os picadores da prov\u00edncia n\u00e3o desconheciam as gra\u00e7as h\u00edpicas<br \/>\ndo marqu\u00eas de Marialva.<\/p>\n<p>N\u00e3o o cuidava assim, por\u00e9m, o juiz de fora, O intriguista<br \/>\nque lhe trazia o esp\u00edrito em \u00e2nsias era o seu espelho. Via-se sinceramente<br \/>\nfeio, e conhecia Rita cada vez mais em flor, e mais enfadada no trato \u00edntimo.<br \/>\nNenhum exemplo da hist\u00f3ria antiga, exemplo de amor sem quebra entre o esposo<br \/>\ndisforme e a esposa linda, lhe ocorria. Um s\u00f3 lhe mortificava a mem\u00f3ria, e<br \/>\nesse, com quanto fosse da f\u00e1bula, era-lhe avesso, e vinha a ser o casamento<br \/>\nde V\u00eanus e Vulcano. Lembravam-lhe as redes que o ferreiro coxo fabricara para<br \/>\napanhar os deuses ad\u00falteros, e assombrava-se da paci\u00eancia daquele marido.<br \/>\nEntre si, dizia ele, que, erguido o v\u00e9u da perf\u00eddia, nem se queixaria a J\u00fapiter,<br \/>\nnem armaria ratoeiras aos primos. A par do bacamarte de Lu\u00eds Botelho, que<br \/>\nvarara em terra o alfares, estava uma fileira de bacamartes em que o juiz<br \/>\nde fora era entendido com muito superior intelig\u00eancia \u00e0 que revelava na compreens\u00e3o<br \/>\ndo <i>Digesto <\/i>e das <i>Ordena\u00e7\u00f5es do Reino.<\/i><\/p>\n<p>Este viver de sobressaltos durou seis anos, ou mais seria.<br \/>\nO juiz de fora empenhara os seus amigos na transfer\u00eancia, e conseguiu mais<br \/>\ndo que ambicionava: foi nomeado provedor para Lamego. Rita Preciosa deixou<br \/>\nsaudades em Vila-Real, e duradoura mem\u00f3ria da sua soberba, formosura e gra\u00e7as<br \/>\nde esp\u00edrito. O marido tamb\u00e9m deixou anedotas que ainda agora se repetem. Duas<br \/>\ncontarei somente para n\u00e3o enfadar. Acontecera um lavrador mandar-lhe o presente<br \/>\nduma vitela, e mandar com ela a vaca, para se n\u00e3o desgarrar a filha. Domingos<br \/>\nBotelho mandou recolher \u00e0 loja a vitela e a vaca, dizendo que quem dava a<br \/>\nfilha dava a m\u00e3e. Outra vez, deu-se o caso de lhe mandarem um presente de<br \/>\npast\u00e9is em rica salva de prata. O juiz de fora repartiu os past\u00e9is pelos meninos,<br \/>\ne mandou guardar a salva, dizendo que receberia como esc\u00e1rnio um presente<br \/>\nde doces, que valiam dez patac\u00f5es, sendo que naturalmente os past\u00e9is tinham<br \/>\nvindo como ornato da bandeja, E assim \u00e9 que, ainda hoje, em Vila-Real, quando<br \/>\nse d\u00e1 um caso an\u00e1logo de ficar algu\u00e9m com o conte\u00fado e continente, diz a gente<br \/>\nda terra: &#8220;Aquele \u00e9 como o doutor Brocas&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho assunto de tradi\u00e7\u00e3o com que possa reter-me em miudezas<br \/>\nda vida do provedor em Lamego. Escassamente sei que D. Rita aborrecia a comarca,<br \/>\ne amea\u00e7ava o marido de ir com seus cinco filhos para Lisboa, se ele n\u00e3o sa\u00edsse<br \/>\ndaquela intrat\u00e1vel terra, Parece que a fidalguia de Lamego, em todo o tempo<br \/>\norgulhosa de uma antig\u00fcidade que principia na aclama\u00e7\u00e3o de Almacave, desdenhou<br \/>\na fil\u00e1ucia da dama do pa\u00e7o, e esmerilhou certas verg\u00f4nteas podres do tronco<br \/>\ndos Botelhos Correais de Mesquita, desprimorando-lhe as c\u00e3s com o fato de<br \/>\nele ter vivido dois anos em Coimbra tocando flauta.<\/p>\n<p>Em 1801, achamos Domingos Jos\u00e9 Correia Botelho de Mesquita<br \/>\ncorregedor em Viseu.<\/p>\n<p>Manuel, o mais velho de seus filhos, tem vinte e dois anos,<br \/>\ne freq\u00fcenta o segundo ano jur\u00eddico. Sim\u00e3o, que tem quinze, estuda humanidades<br \/>\nem Coimbra. As meninas s\u00e3o o prazer e a vida toda do cora\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>O filho mais velho escreveu a seu pai queixando-se de n\u00e3o<br \/>\npoder viver com seu irm\u00e3o, temeroso do g\u00eanio sanguin\u00e1rio dele. Conta que a<br \/>\ncada passo se v\u00ea amea\u00e7ado na vida, porque Sim\u00e3o emprega em pistolas o dinheiro<br \/>\ndos livros, convive com os mais famosos perturbadores da academia, e corre<br \/>\nde noite as ruas insultando os habitantes e provocando-os \u00e0 luta com assuadas.<br \/>\nO corregedor admira a bravura de seu filho Sim\u00e3o, e diz \u00e0 consternada m\u00e3e<br \/>\nque o rapaz \u00e9 a figura e o g\u00eanio de seu bisav\u00f4 Paulo Botelho Correia, o mais<br \/>\nvalente fidalgo que dera Tr\u00e1s-os-Montes.<\/p>\n<p>Manuel, cada vez mais aterrado das arremetidas de Sim\u00e3o, sai<br \/>\nde Coimbra antes de f\u00e9rias e vai a Viseu queixar-se e pedir que lhe d\u00ea seu<br \/>\npai outro destino, D. Rita quer que seu filho seja cadete de cavalaria. De<br \/>\nViseu parte para Bragan\u00e7a Manuel Botelho, e justifica-se nobre dos quatro<br \/>\ncostados para ser cadete.<\/p>\n<p>No entanto, Sim\u00e3o recolhe a Viseu com os seus exames feitos<br \/>\ne aprovados. O pai maravilhava-se do talento do filho, e desculpa-o da extravag\u00e2ncia<br \/>\npor amor do talento. Pede-lhe explica\u00e7\u00f5es do seu mau viver com Manuel, e ele<br \/>\nresponde que seu irm\u00e3o o quer for\u00e7ar a viver mon\u00e1sticamente.<\/p>\n<p>Os quinze anos de Sim\u00e3o t\u00eam apar\u00eancias de vinte. \u00c9 forte de<br \/>\ncomplei\u00e7\u00e3o; belo homem com as fei\u00e7\u00f5es de sua m\u00e3e, e a corpul\u00eancia dela; mas<br \/>\nde todo avesso em g\u00eanio. Na plebe de Viseu \u00e9 que ele escolhe amigos e companheiros.<br \/>\nSe D. Rita lhe censura a indigna elei\u00e7\u00e3o que faz, Sim\u00e3o zomba das genealogias,<br \/>\ne mormente do general Caldeir\u00e3o que morreu frito. Isto bastou para ele granjear<br \/>\na malquer\u00eancia de sua m\u00e3e. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher,<br \/>\ne tomou parte no desgosto dela e na avers\u00e3o ao filho. As irm\u00e3s temiam-no,<br \/>\ntirante Rita, a mais nova, com quem ele brincava puerilmente, e a quem obedecia,<br \/>\nse ela lhe pedia, com meiguices de crian\u00e7a, que n\u00e3o andasse com pessoas mec\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Finalizavam as f\u00e9rias, quando o corregedor teve um grave dissabor.<br \/>\nUm dos seus criados tinha ido levar a beber os machos, e, por descuido ou<br \/>\nprop\u00f3sito, deixou quebrar algumas vasilhas que estavam \u00e0 vez no parapeito<br \/>\ndo chafariz. Os donos das vasilhas conjuraram contra o criado; espancaram-no.<br \/>\nSim\u00e3o passava nesse ensejo; e, armado de um fueiro que descravou de um carro,<br \/>\npartiu muitas cabe\u00e7as, e rematou o tr\u00e1gico espet\u00e1culo pela farsa de quebrar<br \/>\ntodos os c\u00e2ntaros. O povol\u00e9u intacto fugira espavorido, que ningu\u00e9m se atrevia<br \/>\nao filho do corregedor; os feridos, por\u00e9m, incorporaram-se e foram clamar<br \/>\njusti\u00e7a \u00e0 porta do magistrado.<\/p>\n<p>Domingos Botelho bramia contra o filho, e ordenava ao meirinho<br \/>\ngeral que o prendesse \u00e0 sua ordem. D. Rita, n\u00e3o menos irritada, mas irritada<br \/>\ncomo m\u00e3e, mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que, sem deten\u00e7a,<br \/>\nfugisse para Coimbra, e esperasse l\u00e1 o perd\u00e3o do pai.<\/p>\n<p>O corregedor quando soube o expediente de sua mulher, fingiu-se<br \/>\nzangado, e prometeu faz\u00ea-lo capturar em Coimbra. Como, por\u00e9m, D. Rita lhe<br \/>\nchamasse brutal nas suas vingan\u00e7as e est\u00fapido juiz de uma rapaziada, o magistrado<br \/>\ndesenrugou a severidade posti\u00e7a da testa, e confessou tacitamente que era<br \/>\nbrutal e est\u00fapido juiz.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/strong><\/h4>\n<p>Sim\u00e3o Botelho levou de Viseu para Coimbra arrogantes convic\u00e7\u00f5es<br \/>\nda sua valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que pusera<br \/>\ntrinta aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada deste, o levantar-se<br \/>\ndaquele, ensang\u00fcentado, a bordoada que abrangia tr\u00eas a um tempo, a que afocinhava<br \/>\ndois, a gritaria de todos, e o estr\u00e9pito dos c\u00e2ntaros afinal, Sim\u00e3o deliciava-se<br \/>\nnestas lembran\u00e7as, como ainda n\u00e3o vi nalgum drama, em que o veterano de cem<br \/>\nbatalhas relembra os louros de cada uma, e esmorece, afinal, estafado de espantar,<br \/>\nquando n\u00e3o \u00e9 de estafar, os ouvintes.<\/p>\n<p>O acad\u00eamico, por\u00e9m, com os seus entusiasmos, era incomparavelmente<br \/>\nmuito mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de trag\u00e9dia. As recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\nesporeavam-no a fa\u00e7anhas novas, e naquele tempo a academia dava azo a elas.<br \/>\nA mocidade estudiosa, em grande parte, simpatizava com as balbuciantes teorias<br \/>\nda liberdade, mais por pressentimento, que por estudo. Os ap\u00f3stolos da revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nfrancesa n\u00e3o tinham podido fazer revoar o trov\u00e3o dos seus clamores neste canto<br \/>\ndo mundo; mas os livros dos enciclopedistas, as fontes onde a gera\u00e7\u00e3o seguinte<br \/>\nbebera a pe\u00e7onha que saiu no sangue de noventa e tr\u00eas, n\u00e3o eram de todo ignorados.<br \/>\nAs doutrinas da regenera\u00e7\u00e3o social pela guilhotina tinham alguns t\u00edmidos sect\u00e1rios<br \/>\nem Portugal, e esses de ver \u00e9 que deviam pertencer \u00e0 gera\u00e7\u00e3o nova. Al\u00e9m de<br \/>\nque, o rancor \u00e0 Inglaterra lavrara nas entranhas das classes manufatureiras,<br \/>\ne o desprender-se do jugo aviltador de estranhos, apertado, desde o princ\u00edpio<br \/>\ndo s\u00e9culo anterior, com as sogas de ruinosos e p\u00e9rfidos tratados, estava no<br \/>\n\u00e2nimo de muitos e bons portugueses que se queriam antes alian\u00e7ados com a Fran\u00e7a.<br \/>\nEstes eram os pensadores reflexivos; os sect\u00e1rios da academia, por\u00e9m, exprimiam<br \/>\nmais a paix\u00e3o da novidade que as doutrinas do racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>No ano anterior de 1800, sa\u00edra Ant\u00f4nio de Ara\u00fajo de Azevedo,<br \/>\ndepois conde da Barca, a negociar em Madrid e Paris a neutralidade de Portugal.<br \/>\nRejeitaram-lhe as pot\u00eancias aliadas as propostas, tendo-lhe em conta de nada<br \/>\nos dezesseis milh\u00f5es que o diplomata oferecia ao primeiro c\u00f4nsul. Sem delongas,<br \/>\nfoi o territ\u00f3rio portugu\u00eas infestado pelos ex\u00e9rcitos de Espanha e Fran\u00e7a.<br \/>\nAs nossas tropas, comandadas pelo duque de Laf\u00f5es, n\u00e3o chegaram a travar a<br \/>\nluta desigual, porque a esse tempo Lu\u00eds Pinto de Sousa, mais tarde visconde<br \/>\nde Balsem\u00e3o, negociara ignominosa paz em Badajoz, com ced\u00eancia de Oliven\u00e7a<br \/>\n\u00e0 Espanha, exclus\u00e3o de ingleses de nossos portos, e indeniza\u00e7\u00e3o de alguns<br \/>\nmilh\u00f5es \u00e0 Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Estes sucessos tinham irritado contra Napole\u00e3o os \u00e2nimos daqueles<br \/>\nque odiavam o aventureiro, e para outros deram causa a congratularem-se do<br \/>\nrompimento com Inglaterra. Entre os desta parcialidade, na convulsiva e irrequieta<br \/>\nacademia, era voto de grande monta Sim\u00e3o Botelho, apesar dos seus imberbes<br \/>\ndezesseis anos. Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins, e muitos outros<br \/>\nalgozes e m\u00e1rtires do grande a\u00e7ougue, eram nomes de soada musical aos ouvidos<br \/>\nde Sim\u00e3o. Difam\u00e1-los na sua presen\u00e7a era afrontarem-no a ele, e bofetada certa,<br \/>\ne pistolas engatilhadas \u00e0 cara do difamador. O filho do corregedor de Viseu<br \/>\ndefendia que Portugal devia regenerar-se num batismo de sangue, para que a<br \/>\nhidra dos tiranos n\u00e3o erguesse mais uma das suas mil cabe\u00e7as sob a dava do<br \/>\nH\u00e9rcules popular.<\/p>\n<p>Estes discursos, arremedo de alguma clandestina objurgat\u00f3ria<br \/>\nde Saint-Just, afugentavam da sua comunh\u00e3o aqueles mesmos que o tinham aplaudido<br \/>\nem mais racionais princ\u00edpios de liberdade. Sim\u00e3o Botelho tornou-se odioso<br \/>\naos condisc\u00edpulos, que, para se salvarem pela inf\u00e2mia, o delataram ao bispo-conde<br \/>\ne ao reitor da Universidade.<\/p>\n<p>Um dia, proclamava o demagogo acad\u00eamico na pra\u00e7a de Sans\u00e3o<br \/>\naos poucos ouvintes que lhe restaram fi\u00e9is, uns por medo, outros por analogia<br \/>\nde bossas. O discurso ia no mais acrisolado da id\u00e9ia regicida, quando uma<br \/>\nescolta de verdeais lhe aguou a escandesc\u00eancia. Quis o orador resistir, aperrando<br \/>\nas pistolas, mas de sobra sabiam os bra\u00e7os musculosos da corte do reitor com<br \/>\nquem as haviam. O jacobino, desarmado e cercado, entre a escolta dos arqueiros<br \/>\nfoi levado ao c\u00e1rcere acad\u00eamico, donde saiu seis meses depois, a grandes inst\u00e2ncias<br \/>\ndos amigos de seu pai e dos parentes de D. Rita Preciosa.<\/p>\n<p>Perdido o ano letivo, foi para Viseu Sim\u00e3o. O corregedor repeliu-o<br \/>\nda sua presen\u00e7a com amea\u00e7as de o expulsar de casa. A m\u00e3e, mais levada do dever<br \/>\nque do cora\u00e7\u00e3o. intercedeu pelo filho e conseguiu sent\u00e1-lo \u00e0 mesa comum.<\/p>\n<p>No espa\u00e7o de tr\u00eas meses fez-se maravilhosa mudan\u00e7a nos costumes<br \/>\nde Sim\u00e3o. As companhias da rel\u00e9 desprezou-as. Sa\u00eda de casa raras vezes, ou<br \/>\ns\u00f3, ou com a irm\u00e3 mais nova, sua predileta. O campo, as \u00e1rvores e os s\u00edtios<br \/>\nmais sombrios e ermos eram o seu recreio. Nas doces noites de estio demorava-se<br \/>\npor fora at\u00e9 ao repontar da alva. Aqueles que assim o viam admiravam-lhe o<br \/>\nar cismador e o recolhimento que o seq\u00fcestrava da vida vulgar. Em casa encerrava-se<br \/>\nno seu quarto, e sa\u00eda quando o chamavam para a mesa.<\/p>\n<p>D. Rita pasmava da transfigura\u00e7\u00e3o, e o marido, bem convencido<br \/>\ndela, ao fim de cinco meses, consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Botelho amava. A\u00ed est\u00e1 uma palavra \u00fanica, explicando<br \/>\no que parecia absurda reforma aos dezessete anos.<\/p>\n<p>Amava Sim\u00e3o uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira,<br \/>\nregularmente bonita e bem nascida. Da janela do seu quarto \u00e9 que ele a vira<br \/>\npela primeira vez, para am\u00e1-la sempre. N\u00e3o ficara ela inc\u00f3lume da ferida que<br \/>\nfizera no cora\u00e7\u00e3o do vizinho: amou-o tamb\u00e9m, e com mais seriedade que a usual<br \/>\nnos seus anos.<\/p>\n<p>Os poetas cansam-nos a paci\u00eancia a falarem do amor da mulher<br \/>\naos quinze anos, como paix\u00e3o perigosa, \u00fanica e inflex\u00edvel. Alguns prosadores<br \/>\nde romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze anos \u00e9 uma<br \/>\nbrincadeira; \u00e9 a \u00faltima manifesta\u00e7\u00e3o do amor \u00e0s bonecas; \u00e9 a tentativa da<br \/>\navezinha que ensaia o v\u00f4o fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-m\u00e3e,<br \/>\nque a est\u00e1 de fronte pr\u00f3xima chamando: tanto sabe a primeira o que \u00e9 amar<br \/>\nmuito, como a segunda o que \u00e9 voar para longe.<\/p>\n<p>Teresa de Albuquerque devia ser, porventura, uma exce\u00e7\u00e3o no<br \/>\nseu amor.<\/p>\n<p>O magistrado e sua fam\u00edlia eram odiosos ao pai de Teresa,<br \/>\npor motivo de lit\u00edgios, em que Domingos Botelho lhe deu senten\u00e7as contra.<br \/>\nAfora isso, ainda no ano anterior dois criados de Tadeu de Albuquerque tinham<br \/>\nsido feridos na celebrada pancadaria da fonte. E, pois, evidente que o amor<br \/>\nde Teresa, declinando de si o dever de obtemperar e sacrificar-se ao justo<br \/>\nazedume de seu pai, era verdadeiro e forte.<\/p>\n<p>E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se<br \/>\ne falaram-se tr\u00eas meses, sem darem rebate \u00e0 vizinhan\u00e7a e nem sequer suspeitas<br \/>\n\u00e0s duas fam\u00edlias. O destino que ambos se prometiam era o mais honesto: ele<br \/>\nia formar-se para poder sustent\u00e1-la, se n\u00e3o tivessem outros recursos; ela<br \/>\nesperava que seu velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\no seu grande patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Espanta discri\u00e7\u00e3o tamanha na \u00edndole de Sim\u00e3o Botelho, e na<br \/>\npresum\u00edvel ignor\u00e2ncia de Teresa em coisas materiais da vida, como s\u00e3o um patrim\u00f4nio!<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da sua ida para Coimbra, estava Sim\u00e3o Botelho despedindo-se<br \/>\nda suspirosa menina, quando subitamente ela foi arrancada da janela. O alucinado<br \/>\nmo\u00e7o ouviu gemidos daquela voz que, um momento antes, solu\u00e7ava comovida por<br \/>\nl\u00e1grimas de saudade. Ferveu-lhe o sangue na cabe\u00e7a; contorceu-se no seu quarto<br \/>\ncomo o tigre contra as grades inflex\u00edveis da jaula. Teve tenta\u00e7\u00f5es de se matar,<br \/>\nna impot\u00eancia de socorr\u00ea-la. As restantes horas daquela noite passou-as em<br \/>\nraivas e projetos de vingan\u00e7a. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu<br \/>\na esperan\u00e7a com os c\u00e1lculos.<\/p>\n<p>Quando o chamaram para partir para Coimbra, lan\u00e7ou-se do leito<br \/>\nde tal modo transfigurado, que sua m\u00e3e, avisada do rosto amargurado dele,<br \/>\nfoi ao quarto interrog\u00e1-lo e despersuadi-lo de ir enquanto assim estivesse<br \/>\nfebril. Sim\u00e3o, por\u00e9m, entre mil projetos, achara melhor o de ir para Coimbra,<br \/>\nesperar l\u00e1 not\u00edcias de Teresa, e vir a ocultar a Viseu falar com ela. Ajuizadamente<br \/>\ndiscorrera ele; que a sua demora agravaria a situa\u00e7\u00e3o de Teresa.<\/p>\n<p>Descera o acad\u00eamico ao p\u00e1tio, depois de abra\u00e7ar a m\u00e3e e irm\u00e3s,<br \/>\ne beijar a m\u00e3o do pai, que para esta hora reservara uma admoestra\u00e7\u00e3o severa,<br \/>\na ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se ele ca\u00edsse em novas<br \/>\nextravag\u00e2ncias. Quando metia o p\u00e9 no estribo, viu a seu lado uma velha mendiga,<br \/>\nestendeu-lhe a m\u00e3o aberta como quem pede esmola, e, na palma da m\u00e3o, um pequeno<br \/>\npapel. Sobressaltou-se o mo\u00e7o; e, a poucos passos distante de sua casa, leu<br \/>\nestas linhas:<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai diz que me vai encerrar num convento por tua<br \/>\ncausa. Sofrerei tudo por amor de ti. N\u00e3o me esque\u00e7as tu, e achar-me-\u00e1s no<br \/>\nconvento, ou no c\u00e9u, sempre tua do cora\u00e7\u00e3o, e sempre leal. Parte para Coimbra.<br \/>\nL\u00e1 ir\u00e3o dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome h\u00e1s de responder<br \/>\n\u00e0 tua pobre Teresa&#8221;.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a do estudante maravilhou a academia. Se o n\u00e3o viam<br \/>\nnas aulas, em parte nenhuma o viam. Das antigas rela\u00e7\u00f5es restavam-lhe apenas<br \/>\nas dos condisc\u00edpulos sensatos que o aconselhavam para bem, e o visitaram no<br \/>\nc\u00e1rcere de seis meses, dando-lhe alentos e recursos, que seu pai lhe n\u00e3o dava,<br \/>\ne sua m\u00e3e escassamente supria. Estudava com fervor, como quem j\u00e1 dali formava<br \/>\nas bases do futuro renome e da posi\u00e7\u00e3o por ele merecida, bastante a sustentar<br \/>\ndignamente a esposa. A ningu\u00e9m confiava o seu segredo, sen\u00e3o \u00e0s cartas que<br \/>\nenviava a Teresa, longas cartas em que folgava o esp\u00edrito da tarefa da ci\u00eancia.<br \/>\nA apaixonada menina escrevia-lhe a mi\u00fado, e j\u00e1 dizia que a amea\u00e7a do convento<br \/>\nfora mero terror de que j\u00e1 n\u00e3o tinha medo, porque seu pai n\u00e3o podia viver<br \/>\nsem ela.<\/p>\n<p>Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo. Sim\u00e3o, chamado<br \/>\nem pontos dif\u00edceis das mat\u00e9rias do primeiro ano, tal conta deu de si, que<br \/>\nos lentes e os condisc\u00edpulos o houveram como primeiro premiado.<\/p>\n<p>A este tempo. Manuel Botelho, cadete em Bragan\u00e7a, destacado<br \/>\nno Porto, licenciou-se para estudar na Universidade as matem\u00e1ticas. Animou-o<br \/>\na not\u00edcia do reviramento que se dera em seu irm\u00e3o. Foi viver com ele; achou-o<br \/>\nquieto. mas alheado numa id\u00e9ia que o tornava misantropo e intrat\u00e1vel noutro<br \/>\ng\u00eanero. Pouco tempo conviveram, sendo a causa da separa\u00e7\u00e3o um desgra\u00e7ado amor<br \/>\nde Manuel Botelho a uma a\u00e7oreana casada com um acad\u00eamico. A esposa apaixonada<br \/>\nperdeu-se nas ilus\u00f5es do cego amante. Deixou o marido e fugiu com ele para<br \/>\nLisboa, e da\u00ed para Espanha. Em outro relan\u00e7o desta narrativa darei conta do<br \/>\nremate deste epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>No m\u00eas de fevereiro de 1803 recebeu Sim\u00e3o Botelho uma carta<br \/>\nde Tereza. No seguinte cap\u00edtulo se diz minuciosamente a perip\u00e9cia que for\u00e7ara<br \/>\na filha de Tadeu de Albuquerque a escrever aquela carta de pungent\u00edssima surpresa<br \/>\npara o acad\u00eamico, convertido aos deveres, \u00e0 honra, \u00e0 sociedade e a Deus pelo<br \/>\namor.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"3\"><\/a>CAP\u00cdTULO III<\/strong><\/h4>\n<p>O pai de Teresa n\u00e3o embicaria na impureza do sangue do corregedor,<br \/>\nse o ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o \u00f3dio de<br \/>\num e o desprezo do outro. O magistrado mofava do rancor do seu vizinho, e<br \/>\no vizinho malsinava de venalidade a reputa\u00e7\u00e3o do magistrado. Este sabia da<br \/>\ninjuriosa vingan\u00e7a em que o outro se ia despicando; fingia-se invulner\u00e1vel<br \/>\n\u00e0 detra\u00e7\u00e3o; mas de dia para dia se lhe azedava a b\u00edlis; e \u00e9 de crer que, se<br \/>\no n\u00e3o contivessem considera\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia, sofreria menos, desabafando pela<br \/>\nboca dum bacamarte, arma da predile\u00e7\u00e3o dos Botelhos Correais de Mesquita.<br \/>\nSeria imposs\u00edvel o reconciliarem-se.<\/p>\n<p>Rita, a filha mais nova, estava um dia na janela do quarto<br \/>\nde Sim\u00e3o, e viu a vizinha rente com os vidros e a testa apoiada nas m\u00e3os.<br \/>\nSabia Teresa que era aquela menina a mais querida irm\u00e3 de Sim\u00e3o, e a que mais<br \/>\nsemelhan\u00e7a de parecer tinha com ele. Saiu da sua artificial indiferen\u00e7a, e<br \/>\nrespondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a m\u00e3o um gesto e sorrindo. A<br \/>\nfilha do corregedor sorriu tamb\u00e9m, mas fugiu logo da janela, porque sua m\u00e3e<br \/>\ntinha proibido \u00e0s filhas de trocarem vistas com pessoa daquele casa.<\/p>\n<p>No dia seguinte, \u00e0 mesma hora, levada da simpatia que lhe<br \/>\ncausara aquele gesto de amizade, tornou Rita \u00e0 janela, e l\u00e1 viu Teresa com<br \/>\nos olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com resguardo,<br \/>\nafastando-se a um pouco do peitoril das janelas; e assim, ambas de p\u00e9, no<br \/>\ninterior dos quartos, se estavam contemplando. Como a rua era estreita, podiam<br \/>\nouvir-se, falando baixo. Tereza, mais pelo movimento dos l\u00e1bios que por palavras,<br \/>\nperguntou a Rita se era sua amiga. A menina respondeu com um gesto afirmativo,<br \/>\ne fugiu, acenando-lhe um adeus. Estes r\u00e1pidos instantes de se verem repetiram-se<br \/>\nsucessivos dias, at\u00e9 que, perdido o maior medo de ambas, ousaram demorar-se<br \/>\nem palestras a meia voz. Tereza falava de Sim\u00e3o, contava \u00e0 menina de onze<br \/>\nanos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ela havia de ser nada sua irm\u00e3,<br \/>\nrecomendando-lhe muito que n\u00e3o dissesse nada \u00e0 sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Numa dessas conversa\u00e7\u00f5es, Rita descuidara-se, e levantou de<br \/>\nmodo a voz que foi ouvida de uma irm\u00e3, que a foi logo acusar ao pai. O corregedor<br \/>\nchamou Rita, e for\u00e7ou-a pelo terror a contar tudo que ouvira \u00e0 vizinha. Tanta<br \/>\nfoi sua c\u00f3lera, que, sem atender \u00e0s raz\u00f5es da esposa, que viera espavorida<br \/>\ndos gritos, correu ao quarto de Sim\u00e3o, e viu ainda Teresa \u00e0 janela.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e9! &#8211; disse ele \u00e0 p\u00e1lida menina &#8211; N\u00e3o tenha a confian\u00e7a<br \/>\nde p\u00f4r olhos em pessoa de minha casa, Se quer casar, case com um sapateiro,<br \/>\nque \u00e9 um digno genro de seu pai.<\/p>\n<p>Tereza n\u00e3o ouviu o remate da brutal ap\u00f3strofe: tinha fugido<br \/>\naturdida e envergonhada. Por\u00e9m, como o desabrido ministro ficasse bramindo<br \/>\nno quarto, e Tadeu de Albuquerque sa\u00edsse a uma janela, a c\u00f3lera do doutor<br \/>\nredobrou, e a torrente das inj\u00farias, longo tempo represada, bateu no rosto<br \/>\ndo vizinho, que n\u00e3o ousou replicar-lhe.<\/p>\n<p>Tadeu interrogou sua filha, e acreditou que foi causa \u00e0 sanha<br \/>\nde Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando inocentemente, por<br \/>\ntrejeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de Teresa,<br \/>\nadmoestando-a que n\u00e3o voltasse \u00e0quela janela.<\/p>\n<p>Esta mansid\u00e3o do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua<br \/>\nexplica\u00e7\u00e3o no projeto de casar em breve a filha com seu primo Baltasar Coutinho,<br \/>\nde Castro-d&#8217;Aire, senhor de casa, e igualmente nobre da mesma pros\u00e1pia. Cuidava<br \/>\no velho, presun\u00e7oso conhecedor do cora\u00e7\u00e3o das mulheres, que a brandura seria<br \/>\no mais seguro expediente para levar a filha ao esquecimento daquele pueril<br \/>\namor a Sim\u00e3o. Era m\u00e1xima sua que o amor, aos quinze anos, carece de consist\u00eancia<br \/>\npara 50breviver a uma aus\u00eancia de seis meses. N\u00e3o pensava errado o fidalgo,<br \/>\nmas o erro existia. As exce\u00e7\u00f5es t\u00eam sido o lud\u00edbrio dos mais assisados pensadores,<br \/>\ntanto no especulativo como no experimental. N\u00e3o era muito que Tadeu de Albuquerque<br \/>\nfosse enganado em coisas de amor e cora\u00e7\u00e3o de mulher, cujas variantes s\u00e3o<br \/>\ntantas e t\u00e3o caprichosas, que eu n\u00e3o sei se alguma m\u00e1xima pode ser-nos guia,<br \/>\na n\u00e3o ser esta: &#8220;Em cada mulher, quatro mulheres incompreens\u00edveis, pensando<br \/>\nalternadamente como se h\u00e3o de desmentir umas \u00e0s outras&#8221;. Isto \u00e9 o mais<br \/>\nseguro; mas n\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel. A\u00ed est\u00e1 Teresa que parece ser \u00fanica em si. Dir-se-\u00e1<br \/>\nque as tr\u00eas da conta, que diz a senten\u00e7a, n\u00e3o podem coexistir com a quarta<br \/>\naos quinze anos? Tamb\u00e9m o penso assim, posto que a fixidez, a const\u00e2ncia daquele<br \/>\namor, funda em causa independente do cora\u00e7\u00e3o: \u00e9 porque Teresa n\u00e3o vai \u00e0 sociedade,<br \/>\nn\u00e3o tem um altar em cada noite na sala, n\u00e3o provou o incenso doutros gal\u00e3s,<br \/>\nnem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida pela aus\u00eancia,<br \/>\ncom a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor nas palavras que a<br \/>\nconvencem de que h\u00e1 um cora\u00e7\u00e3o para cada homem, e uma s\u00f3 mocidade para cada<br \/>\nmulher. Quem me diz a mim que Teresa teria em si as quatro mulheres da m\u00e1xima,<br \/>\nse o vapor de quatro incens\u00f3rios lhe estonteasse o esp\u00edrito? N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil,<br \/>\nnem preciso decidir. E vamos ao conto.<\/p>\n<p>Acerca de Sim\u00e3o Botelho, nunca diante de sua filha Tadeu de<br \/>\nAlbuquerque proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor.<br \/>\nO que ele fez logo foi chamar a Viseu o sobrinho de Castro-d&#8217;Aire, e preveni-lo<br \/>\ndo seu des\u00edgnio, para que ele, em face de Teresa, procedesse como convinha<br \/>\na um enamorado de fei\u00e7\u00e3o, e mutuamente se apaixonassem e prometessem auspicioso<br \/>\nfuturo ao casamento.<\/p>\n<p>Por parte de Baltasar Coutinho a paix\u00e3o inflamou-se t\u00e3o depressa,<br \/>\nquanto o cora\u00e7\u00e3o de Teresa se congelou de terror e repugn\u00e2ncia. O morgado<br \/>\nde Castro-d&#8217;Aire, atribuindo a frieza de sua prima a mod\u00e9stia, inoc\u00eancia e<br \/>\nacanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre daquela alma, e saboreou de<br \/>\nantem\u00e3o o prazer de uma lenta, mas segura conquista. Verdade \u00e9 que Baltazar<br \/>\nnunca se explicara de modo que Teresa lhe desse resposta decisiva. Um dia,<br \/>\npor\u00e9m, instigado por seu tio, afoitou-se o ditoso noivo a falar assim \u00e0 melanc\u00f3lica<br \/>\nmenina:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 tempo de lhe abrir o meu cora\u00e7\u00e3o, prima. Est\u00e1 bem disposta<br \/>\na ouvir-me?<\/p>\n<p>&#8211; Eu estou sempre bem disposta a ouvi-lo, primo Baltasar.<\/p>\n<p>O desd\u00e9m aborrecido desta resposta abalou algum tanto as convic\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo fidalgo, respeito \u00e0 inoc\u00eancia, mod\u00e9stia e acanhamento de sua prima. Ainda<br \/>\nassim, quis ele no momento persuadir-se que a boa vontade n\u00e3o poderia exprimir-se<br \/>\ndoutro modo, e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Os nossos cora\u00e7\u00f5es penso eu que est\u00e3o unidos; agora \u00e9 preciso<br \/>\nque as nossas casas se unam.<\/p>\n<p>Teresa empalideceu, e baixou os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Acaso lhe diria eu alguma coisa desagrad\u00e1vel?! &#8211; prosseguiu<br \/>\nBaltasar, rebatido pela desfigura\u00e7\u00e3o de Teresa.<\/p>\n<p>&#8211; Disse-me o que \u00e9 imposs\u00edvel fazer-se &#8211; respondeu ela sem<br \/>\nturva\u00e7\u00e3o &#8211; O primo engana-se: os nossos cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o unidos. Sou muito<br \/>\nsua amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo<br \/>\npensasse em tal.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que me aborrece, prima Teresa? &#8211; atalhou, corrido,<br \/>\no morgado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor: j\u00e1 lhe disse que o estimava muito, e por isso<br \/>\nmesmo n\u00e3o devo ser esposa dum amigo a quem n\u00e3o posso amar. A infelicidade<br \/>\nn\u00e3o seria s\u00f3 minha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem&#8230; Posso eu saber &#8211; tornou com refalsado sorriso<br \/>\no primo &#8211; quem \u00e9 que me disputa o cora\u00e7\u00e3o de minha prima?<\/p>\n<p>&#8211; Que lucra em o saber?<\/p>\n<p>&#8211; Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem&#8230;<br \/>\nE exato?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9.<\/p>\n<p>&#8211; E com tamanha paix\u00e3o que desobedece a seu pai?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o desobede\u00e7o: o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 mais forte que a submissa vontade<br \/>\nduma filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pai; mas eu<br \/>\nn\u00e3o disse ao primo Baltasar que casava; disse-lhe unicamente que amava.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de falar!&#8230;<br \/>\nQuem pensaria que os seus dezesseis anos estavam t\u00e3o abundantes de palavras!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 palavras, primo &#8211; retorquiu Teresa com gravidade<br \/>\n&#8211; s\u00e3o sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se eu lhe<br \/>\nmentisse, ficaria mais bem vista de meu primo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, prima Teresa; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer<br \/>\nem tudo. Ora olhe: n\u00e3o duvida declarar quem \u00e9 o ditoso mortal da sua prefer\u00eancia?<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe faz saber isso?<\/p>\n<p>&#8211; Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria<br \/>\nmuito de me ver vencido por quem tivesse merecimentos que eu n\u00e3o tenho aos<br \/>\nseus olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo<br \/>\nBaltasar, se o tivesse em conta de seu amigo intimo?<\/p>\n<p>&#8211; Nessa conta \u00e9 que eu o n\u00e3o posso j\u00e1 ter&#8230; &#8211; respondeu Teresa,<br \/>\nsorrindo, e pausando, como ele, as s\u00edlabas das palavras.<\/p>\n<p>&#8211; Pois nem para amigo me quer?!<\/p>\n<p>&#8211; O primo n\u00e3o me perdoa a sinceridade que eu tive, e ser\u00e1<br \/>\nde hoje em diante meu inimigo.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo contr\u00e1rio&#8230; &#8211; tornou ele com mal rebu\u00e7ada ironia &#8211;<br \/>\nmuito pelo contr\u00e1rio&#8230; Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a<br \/>\nvir casada com algum miser\u00e1vel indigno de si.<\/p>\n<p>&#8211; Casada!&#8230; &#8211; interrompeu ela. Mas Baltasar cortou-lhe logo<br \/>\na r\u00e9plica deste modo:<\/p>\n<p>&#8211; Casada com algum famoso \u00e9brio ou jogador de pau, valent\u00e3o<br \/>\nde aguadeiros, distinto cavalheiro, que passa os anos letivos encarcerados<br \/>\nnas cadeias de Coimbra&#8230;<\/p>\n<p>Claro est\u00e1 que Baltasar Coutinho conhecia o segredo de Teresa.<br \/>\nSeu tio, naturalmente, lhe comunicara a criancice da prima, talvez antes de<br \/>\ndestinar-lhe a esposa.<\/p>\n<p>Ouvira Teresa o tom sarc\u00e1stico daquelas palavras, e erguera-se<br \/>\nrespondendo com altivez:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem mais que me diga, primo Baltasar?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho, prima; queira sentar-se algum tempo mais. N\u00e3o cuide<br \/>\nagora que est\u00e1 falando com o namorado infeliz: conven\u00e7a-se de que fala com<br \/>\no seu mais pr\u00f3ximo parente, mais sincero amigo, e mais decidido guarda da<br \/>\nsua dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a expressa vontade<br \/>\nde seu pai, uma ou outra vez conversava da janela com o filho do corregedor.<br \/>\nN\u00e3o dei valor ao sucesso, e tomei-o como brincadeira pr\u00f3pria da sua idade.<br \/>\nComo eu freq\u00fcentasse o meu \u00faltimo ano em Coimbra, h\u00e1 dois anos, conheci de<br \/>\nsobra Sim\u00e3o Botelho. Quando voltei, e me contaram a sua afei\u00e7\u00e3o ao acad\u00eamico,<br \/>\npasmei da boa f\u00e9 da priminha; depois entendi que a sua mesma inoc\u00eancia devia<br \/>\nser o seu anjo da guarda. Agora, como seu amigo, compunjo-me de a ver ainda<br \/>\nfascinada pela perversidade do seu vizinho N\u00e3o se recorda de ter visto Sim\u00e3o<br \/>\nBotelho suciando com a \u00ednfima vilanagem desta terra?! N\u00e3o viu os seus criados<br \/>\ncom as cabe\u00e7as quebradas pelo tal varredor de feiras? N\u00e3o lhe constou que<br \/>\nele, em Coimbra, abarrotado de vinho, andava pelas ruas armado como um salteador<br \/>\nde estradas, proclamando \u00e0 canalha a guerra aos nobres e aos reis, e \u00e0 religi\u00e3o<br \/>\nde nossos pa\u00eds? A prima ignoraria isto porventura?<\/p>\n<p>&#8211; Ignorava parte disso e n\u00e3o me aflige a sab\u00ea-lo. Desde que<br \/>\nconheci Sim\u00e3o, n\u00e3o me consta que ele tenha dado o menor desgosto \u00e0 sua fam\u00edlia,<br \/>\nnem ou\u00e7o falar mal dele.<\/p>\n<p>&#8211; E est\u00e1 por isso persuadida de que Sim\u00e3o deve ao seu amor<br \/>\na reforma de costume?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, nem penso nisso &#8211; replicou com enfado Tereza.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas \u00faltimas palavras:<br \/>\neu hei de, enquanto viver, trabalhar por salv\u00e1-la das garras de Sim\u00e3o Botelho.<br \/>\nSe seu pai lhe faltar, fico eu. Se as leis a n\u00e3o defenderem dos ataques do<br \/>\nseu dem\u00f4nio, eu farei ver ao valent\u00e3o que a vit\u00f3ria sobre os aguadeiros n\u00e3o<br \/>\no poupa ao desgosto de ser levado a pontap\u00e9s para fora da casa de meu tio<br \/>\nTadeu de Albuquerque.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o primo quer me governar!? &#8211; atalhou ela com desabrida<br \/>\nirrita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Quero-a dirigir enquanto a sua raz\u00e3o precisar de aux\u00edlio.<br \/>\nTenha ju\u00edzo e eu serei indiferente ao seu destino. N\u00e3o a enfado mais, prima<br \/>\nTeresa.<\/p>\n<p>Baltasar Coutinho foi dali procurar seu tio, e contou-lhe<br \/>\no essencial do di\u00e1logo. Tadeu, at\u00f4nito da coragem da filha e ferido no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne direitos paternais, correu ao quarto dela, disposto a espanc\u00e1-la. Reteve-o<br \/>\nBaltasar, reflexionando-lhe que a viol\u00eancia prejudicaria muito a crise, sendo<br \/>\ncoisa de esperar que Teresa fugisse de casa. Refreou o pai a sua ira, e meditou.<br \/>\nHoras depois, chamou sua filha, mandou-a sentar ao p\u00e9 de si, em termos serenos<br \/>\ne gesto bem composto, lhe disse que era sua vontade cas\u00e1-la com o primo; por\u00e9m,<br \/>\nque ele j\u00e1 sabia que a vontade de sua filha n\u00e3o era essa. Ajuntou que a n\u00e3o<br \/>\nviolentaria; mas tamb\u00e9m n\u00e3o consentiria que ela, sovando aos p\u00e9s o pundonor<br \/>\nde seu pai, se desse de cora\u00e7\u00e3o ao filho do seu maior inimigo. Disse mais<br \/>\nque estava a resvaIar na sepultura, e mais depressa desceria a ela, perdendo<br \/>\no amor da filha, que ele j\u00e1 considerava morta. Terminou perguntando a Teresa<br \/>\nse ela duvidava entrar num convento, e a esperar que seu pai morresse, para<br \/>\ndepois ser desgra\u00e7ada \u00e0 sua vontade.<\/p>\n<p>Teresa respondeu, chorando, que entraria num convento, se<br \/>\nessa era a vontade de seu pai; por\u00e9m, que se n\u00e3o privasse ele de a ter em<br \/>\nsua companhia nem a privasse a ela dos seus afetos, por medo de que sua filha<br \/>\npraticasse alguma a\u00e7\u00e3o indigna, ou lhe desobedecesse no que era virtude obedecer.<\/p>\n<p>Prometeu-lhe julgar-se morta para todos os homens, menos para<br \/>\nseu pai.<\/p>\n<p>Tadeu ouviu-a, e n\u00e3o lhe replicou.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"4\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV<\/strong><\/h4>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o de Teresa estava mentindo. V\u00e3o pedir sinceridade<br \/>\nao cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Para finos entendedores, o di\u00e1logo do anterior cap\u00edtulo definiu<br \/>\na filha de Tadeu de Albuquerque. E mulher varonil, tem for\u00e7a de car\u00e1ter, orgulho<br \/>\nfortalecido pelo amor, desapego das vulgares apreens\u00f5es, se s\u00e3o apreens\u00f5es<br \/>\na ren\u00fancia que uma filha fez do seu alvedrio \u00e0s imprevidentes e caprichosas<br \/>\nvontades de seu pai. Diz boa gente que n\u00e3o, e eu abundo sempre no voto da<br \/>\ngente boa. N\u00e3o ser\u00e1 aleive atribuir-lhe uma pouca de ast\u00facia ou hipocrisia,<br \/>\nse quiserem; perspic\u00e1cia seria mais correto dizer. Teresa adivinha que a lealdade<br \/>\ntrope\u00e7a a cada passo na estrada real da vida, e que os melhores fins se atingem<br \/>\npor atalhos onde n\u00e3o cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis s\u00e3o raros<br \/>\nna idade inexperta de Teresa; mas a mulher do romance quase nunca \u00e9 trivial,<br \/>\ne esta de que rezam os meus apontamentos era distint\u00edssima. A mim me basta<br \/>\ncrer em sua distin\u00e7\u00e3o, a celebridade que ela veio a ganhar \u00e0 conta da desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Da carta que ela escreveu a Sim\u00e3o Botelho, contando as cenas<br \/>\ndescritas, a cr\u00edtica deduz que a menina de Viseu contemporizava com o pai,<br \/>\npondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem romper com<br \/>\no velho em manifesta desobedi\u00eancia. Na narrativa que fez ao acad\u00eamico omitiu<br \/>\nela as amea\u00e7as do primo Baltasar, cl\u00e1usula que. a ser transmitida, arrebataria<br \/>\nde Coimbra o mo\u00e7o, em quem sobejavam brios e bravura para mant\u00ea-los.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 esta ainda a carta que surpreendeu Sim\u00e3o Botelho.<\/p>\n<p>Parecia bonan\u00e7oso o c\u00e9u de Teresa. Seu pai n\u00e3o falava em claustro<br \/>\nnem em casamento. Baltasar Coutinho voltara ao seu solar de Castro-d&#8217;Aire.<br \/>\nA tranq\u00fcila menina dava semanalmente estas boas novas a Sim\u00e3o, que, aliando<br \/>\n\u00e0s venturas do cora\u00e7\u00e3o as riquezas do esp\u00edrito, estudava incessantemente,<br \/>\ne desvelava as noites arquitetando o seu edif\u00edcio de futura gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao romper d&#8217;alva dum domingo de junho de 1803, foi Teresa<br \/>\nchamada para ir com seu pai \u00e0 primeira missa da igreja paroquial. Vestiu-se<br \/>\na menina, assustada, e encontrou o velho na antec\u00e2mara a receb\u00ea-la com muito<br \/>\nagrado, perguntando-lhe se ela se erguia de bons humores para dar ao autor<br \/>\nde seus dias um resto de velhice feliz. O sil\u00eancio de Teresa era interrogador.<\/p>\n<p>&#8211; Vais hoje dar a m\u00e3o de esposa a teu primo Baltasar, minha<br \/>\nfilha. \u00c9 preciso que te deixes cegamente levar pela m\u00e3o de teu pai. Logo que<br \/>\nderes este passo dif\u00edcil, conhecer\u00e1s que a tua felicidade \u00e9 daquelas que precisam<br \/>\nser impostas pela viol\u00eancia. Mas repara, minha querida filha, que a viol\u00eancia<br \/>\ndum pai \u00e9 sempre amor. Amor tem sido a minha condescend\u00eancia e brandura para<br \/>\ncontigo. Outro teria subjugado a tua desobedi\u00eancia com maus tratos, com os<br \/>\nrigores do convento, e talvez com o desfalque do teu grande patrim\u00f4nio. Eu,<br \/>\nn\u00e3o. Esperei que o tempo te aclarasse o ju\u00edzo, e felicito-me de te julgar<br \/>\ndesassombrada do diab\u00f3lico prest\u00edgio do maldito que acordou o teu inocente<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o te consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a<br \/>\nreflex\u00e3o fizesse mal ao zelo de boa filha com que tu vais abra\u00e7ar teu pai,<br \/>\ne agradecer-lhe a prud\u00eancia com que ele respeitou o teu g\u00eanio, velando sempre<br \/>\na honra de te encontrar digna do seu amor.<\/p>\n<p>Teresa n\u00e3o desfitou os olhos do pai; mas t\u00e3o abstra\u00edda estava,<br \/>\nque escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das \u00faltimas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me respondes, Teresa?! &#8211; tornou Tadeu, tomando-lhe cariciosamente<br \/>\nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Que hei de eu responder-lhe, meu pai? &#8211; balbuciou ela.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e1-me o que te pe\u00e7o? Enches de contentamento os poucos dias<br \/>\nque me restam?<\/p>\n<p>&#8211; E ser\u00e1 o pai feliz com o meu sacrif\u00edcio?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digas sacrif\u00edcio, Teresa&#8230; Amanh\u00e3 a estas horas ver\u00e1s<br \/>\nque transfigura\u00e7\u00e3o se fez na tua alma. Teu primo \u00e9 um composto de todas as<br \/>\nvirtudes; nem a qualidade de ser um gentil mo\u00e7o lhe falta, como se a riqueza,<br \/>\na ci\u00eancia e as virtudes n\u00e3o bastassem a formar um marido excelente.<\/p>\n<p>&#8211; E ele quer-me. depois de eu me ter negado? &#8211; disse ela com<br \/>\namargura ir\u00f4nica.<\/p>\n<p>&#8211; Se ele est\u00e1 apaixonado, filha!&#8230; e tem bastante confian\u00e7a<br \/>\nem si para crer que tu h\u00e1s de am\u00e1-lo muito!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o ser\u00e1 mais certo odi\u00e1-lo eu sempre?! Eu agora mesmo<br \/>\no abomino como nunca pensei que se pudesse abominar! Meu pai&#8230; &#8211; continuou<br \/>\nela, chorando, com as m\u00e3os erguidas &#8211; mate-me; mas n\u00e3o me force a casar com<br \/>\nmeu primo! \u00c9 escusada a viol\u00eancia, porque eu n\u00e3o caso!<\/p>\n<p>Tadeu mudou de aspecto, e disse irado:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1s de casar! &#8211; Quero que cases! Quero!&#8230; Quando n\u00e3o, amaldi\u00e7oada<br \/>\nser\u00e1s para sempre, Teresa! Morrer\u00e1s num convento! Esta casa ir\u00e1 para teu primo!<br \/>\nNenhum infame h\u00e1 de aqui p\u00f4r p\u00e9 nas alcatifas de meus av\u00f3s. Se \u00e9s uma alma<br \/>\nvil, n\u00e3o me pertences, n\u00e3o \u00e9s minha filha, n\u00e3o podes herdar apelidos honrosos,<br \/>\nque foram pela primeira vez insultados pelo pai desse miser\u00e1vel que tu amas!<br \/>\nMaldita sejas! Entra nesse quarto, e espera que da\u00ed te arranquem para outro,<br \/>\nonde n\u00e3o ver\u00e1s um raio de Sol.<\/p>\n<p>Teresa ergueu-se sem l\u00e1grimas, e entrou serenamente no seu<br \/>\nquarto. Tadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te posso dar minha filha, porque j\u00e1 n\u00e3o tenho filha.<br \/>\nA miser\u00e1vel, a quem dei este nome, perdeu-se para n\u00f3s e para ela.<\/p>\n<p>Baltasar, que, a ju\u00edzo de seu tio, era um composto de excel\u00eancia,<br \/>\ntinha apenas um quebra; a absoluta car\u00eancia de brios. Malograda a tentativa<br \/>\ndo seu amor de emboscada, tornou para a terra o primo de Teresa, dizendo ao<br \/>\nvelho que ele o livraria do ass\u00e9dio em que Sim\u00e3o Botelho lhe tinha o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda filha. N\u00e3o aprovou a reclus\u00e3o no convento, discorrendo sobre as hip\u00f3teses<br \/>\ninfamantes que a opini\u00e3o p\u00fablica inventaria. Aconselhou que a deixasse estar<br \/>\nem casa, e esperasse que o filho do corregedor viesse de Coimbra.<\/p>\n<p>Ponderaram no \u00e2nimo do velho as raz\u00f5es de Baltasar. Teresa<br \/>\nmaravilhou-se da quieta\u00e7\u00e3o inesperada de seu pai e desconfiou da incoer\u00eancia.<br \/>\nEscreveu a Sim\u00e3o. Nada lhe escondeu do sucedido; nem as ame\u00e7as de Baltasar<br \/>\npor delicadeza suprimiu. Rematava comunicando-lhe as suas suspeitas de algum<br \/>\nplano de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O acad\u00eamico, chegando ao per\u00edodo das ame\u00e7as. j\u00e1 n\u00e3o tinha<br \/>\nclara luz nos olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sez\u00f5es, e as<br \/>\nart\u00e9rias frontais arfavam-lhe entumescidas. N\u00e3o era sobressalto do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\napaixonado: era a \u00edndole arrogante que lhe escaldava o sangue. Ir dali a Castro-d&#8217;Aire<br \/>\ne apunhalar o primo de Teresa na sua pr\u00f3pria casa, foi o primeiro conselho<br \/>\nque lhe segredou a f\u00faria do \u00f3dio. Neste prop\u00f3sito saiu, alugou cavalo, e recolheu<br \/>\na vestir-se de jornada. J\u00e1 preparado, a cada minuto de espera assomava-se<br \/>\nem frenesis. O cavalo demorou-se meia hora, e o seu bom anjo, neste espa\u00e7o,<br \/>\nvestido com as galas com que ele vestia na imagina\u00e7\u00e3o Teresa, deu-lhe rebates<br \/>\nde saudade daqueles tempos e ainda das horas daquele mesmo dia em que cismava<br \/>\nna felicidade que o amor lhe prometia, se ele a procurasse no caminho do trabalho,<br \/>\ne da honra. Contemplou os seus livros com tanto afeto, como se em cada um<br \/>\nestivesse uma p\u00e1gina da hist\u00f3ria do seu cora\u00e7\u00e3o. Nenhuma daquelas p\u00e1ginas<br \/>\ntinha ele lido, sem que a imagem de Teresa lhe aparecesse a fortalec\u00ea-lo para<br \/>\nvencer os t\u00e9dios da continuada aplica\u00e7\u00e3o, e os \u00edmpetos dum natural inquieto<br \/>\ne ansioso de como\u00e7\u00f5es desusadas. &#8220;E h\u00e1 de tudo acabar assim? &#8211; pensava<br \/>\nele, com a face entre as m\u00e3os, encostado \u00e0 sua banca de estudo. &#8211; Ainda h\u00e1<br \/>\npouco eu era t\u00e3o feliz!&#8230; &#8211; Feliz! &#8211; repetiu ele, erguendo-se de golpe. &#8211;<br \/>\nQuem pode ser feliz com a desonra duma amea\u00e7a impune<sup>7 <\/sup>Mas eu perco-a!<br \/>\nNunca mais hei de v\u00ea-la!. . . Fugirei como um assassino, e meu pai ser\u00e1 o<br \/>\nmeu primeiro inimigo, e ela mesmo h\u00e1 de horrorizar-se da minha vingan\u00e7a&#8230;<br \/>\nA amea\u00e7a s\u00f3 ela a ouviu; e, se eu tivesse sido aviltado no conceito de Teresa<br \/>\npelos insultos do miser\u00e1vel, talvez que ela os n\u00e3o repetisse.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Botelho releu a carta duas vezes, e \u00e0 terceira leitura<br \/>\nachou menos afrontosas as bravatas do fidalgo cioso. A<sub>5 <\/sub>linhas<br \/>\nfinais desmentiam formalmente a suspeita do aviltamento, com que o seu orgulho<br \/>\no atormentava: eram express\u00f5es ternas, s\u00faplicas ao seu amor como recompensa<br \/>\ndos passados e futuros desgostos, vis\u00f5es encantadoras do futuro, novos juramentos<br \/>\nde const\u00e2ncia, e sentidas frases de saudade.<\/p>\n<p>Quando o arreeiro bateu \u00e0 porta, Sim\u00e3o Botelho j\u00e1 n\u00e3o pensava<br \/>\nem matar o homem de Castro-d&#8217;Aire; mas resolvera ir a Viseu, entrar de noite,<br \/>\nesconder-se e ver Teresa. Faltava-lhe, por\u00e9m, casa de confian\u00e7a onde se ocultasse.<br \/>\nNas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao arreeiro se conhecia alguma<br \/>\ncasa em Viseu onde ele pudesse estar escondido uma noite ou duas, sem receio<br \/>\nde ser denunciado. O arreeiro respondeu que tinha, a um quarto de l\u00e9gua de<br \/>\nViseu, um primo ferrador; e n\u00e3o conhecia em Viseu sen\u00e3o os estalajadeiros.<br \/>\nSim\u00e3o achou aproveit\u00e1vel o parentesco do homem, e logo da\u00ed o presenteou com<br \/>\numa jaqueta de peles e uma faixa de seda escarlate, \u00e0 conta de maiores valores<br \/>\nprometidos, se ele o bem servisse numa empresa, amorosa.<\/p>\n<p>No dia seguinte, chegou o acad\u00eamico a casa do ferrador. O<br \/>\narreeiro deu conta ao seu parente do que vinha tratado com o estudante.<\/p>\n<p>Foi Sim\u00e3o Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou<br \/>\nno mesmo ponto para Viseu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava<br \/>\nno mais impratic\u00e1vel beco da terra. A mendiga informou-se miudamente da pessoa<br \/>\nque enviava a carta, e saiu, mandando esperar o caminheiro. Pouco depois.<br \/>\nvoltou ela com a resposta, e o arreeiro partiu a galope.<\/p>\n<p>Era a resposta um grito de alegria. Teresa n\u00e3o refletiu, respondendo<br \/>\na Sim\u00e3o que naquela noite se festejavam os seus anos, e se reuniam em casa<br \/>\nos parentes. Disse-lhe que \u00e0s onze horas em ponto ela iria ao quintal e lhe<br \/>\nabriria a porta.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperava tanto o acad\u00eamico. O que ele pedia era falar-lhe<br \/>\nda rua para a janela do seu quarto, e receava imposs\u00edvel este prazer, que<br \/>\nele avaliava o m\u00e1ximo. Apertar-lhe a m\u00e3o, sentir-lhe o h\u00e1lito, abra\u00e7\u00e1-la talvez,<br \/>\ncometer a ousadia de um beijo, estas esperan\u00e7as, t\u00e3o al\u00e9m de suas modestas<br \/>\ne honestas ambi\u00e7\u00f5es, igualmente o enlevavam e assustavam. Enlevo e susto em<br \/>\ncora\u00e7\u00f5es que se estreiam na com\u00e9dia humana s\u00e3o sentimentos congeniais.<\/p>\n<p>A hora da partida, Sim\u00e3o tremia, e a si mesmo pedia contas<br \/>\nda timidez, sem saber que os encantos da vida, os mais ang\u00e9licos momentos<br \/>\nda alma, s\u00e3o esses lances de misterioso alvoro\u00e7o que aos mais ser\u00f3dios de<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o sucedem em todas as raz\u00f5es da vida, e a todos os homens, uma vez ao<br \/>\nmenos.<\/p>\n<p>As onze horas em ponto estava Sim\u00e3o encostado \u00e1 porta do quintal,<br \/>\ne a dist\u00e2ncia convencionada o arreeiro com o cavalo \u00e0 r\u00e9dea. A toada da m\u00fasica,<br \/>\nque vinha das salas remotas, alvoro\u00e7ava-o, porque a festa em casa de Tadeu<br \/>\nde Albuquerque o surpreendera. No longo termo de tr\u00eas anos nunca ele ouvira<br \/>\nm\u00fasica naquela casa. Se ele soubesse o dia natal\u00edcio de Teresa, espantara-se<br \/>\nmenos da estranha alegria daquelas salas, sempre fechadas como em dias de<br \/>\nmort\u00f3rio. Sim\u00e3o imaginou desvairadamente as quimeras que voejam, ora negras,<br \/>\nora transl\u00facidas, em redor da fantasia apaixonada. N\u00e3o h\u00e1 baliza racional<br \/>\npara as belas, nem para as horrorosas ilus\u00f5es, quando o amor as inventa. Sim\u00e3o<br \/>\nBotelho, com o ouvido colado \u00e0 fechadura, ouvia apenas o som das flautas,<br \/>\ne as pancadas do cora\u00e7\u00e3o sobressaltado.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"5\"><\/a>CAP\u00cdTULO V<\/strong><\/h4>\n<p>Baltasar Coutinho estava na sala, simulando vingativa indiferen\u00e7a<br \/>\npor sua prima. As irm\u00e3s do fidalgo e a demais parentela da casa n\u00e3o deixavam<br \/>\nrespirar Teresa. Mo\u00e7as e velhas, todas, uma, se repetiam, aconselhando-a a<br \/>\nreconciliar-se com seu primo, e dar a seu pai a alegria que o pobre velho<br \/>\ntanto rogava Deus, antes de fechar os olhos. Replicava Teresa que n\u00e3o queria<br \/>\nmal a seu primo, nem sequer estava sentida dele; que era sua amiga, e se-lo-ia<br \/>\nsempre enquanto ele lhe deixasse livre o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O velho esperava muito daquela noitada de festa. Alguns parentes<br \/>\npresumidos de circunspectos, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar<br \/>\na filha com os prazeres congruentes \u00e0 sua idade, dando-lhe ensejo a que ela<br \/>\nrepartisse o esp\u00edrito, concentrado num s\u00f3 ponto, por divers\u00f5es em que a natural<br \/>\nvaidade se preocupa, e a for\u00e7a do amor contrariado se vai a pouco e pouco<br \/>\nquebrantando. Aconselharam-lhe as reuni\u00f5es ami\u00fadas, j\u00e1 em sua casa, j\u00e1 na<br \/>\ndos seus parentes, para deste modo Teresa se mostrar a muitos, ser cortejada<br \/>\nde todos, e ter em opini\u00e3o de menos valia o \u00fanico homem com quem falava, e<br \/>\na quem julgava superior a todos. O fidalgo acedeu, mas com dificuldade: \u00e9<br \/>\nque tinha l\u00e1 um sistema seu de ajuizar das mulheres, vivera trinta anos de<br \/>\nvida libertina e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na<br \/>\nquieta\u00e7\u00e3o. Os anos de Teresa eram pela primeira vez festejados com estrondo.<br \/>\nA morgada viu ent\u00e3o o que era o minueto da corte e certos jogos de prendas<br \/>\ncom que os intervalos naqueles tempos se aligeiravam em del\u00edcias, sem fadiga<br \/>\ndo corpo, nem desagrado da moral.<\/p>\n<p>Mas, de agitada que estava, Teresa n\u00e3o compartia do gozo dos<br \/>\nseus h\u00f3spedes. Desde que soaram as dez horas daquela noite, a rainha da festa<br \/>\nparecia t\u00e3o alienada das finezas com que as senhoras e homens \u00e0 compet\u00eancia<br \/>\na lisonjeavam, que Baltasar Coutinho deu tento do desassossego de sua prima,<br \/>\ne teve a mod\u00e9stia de imaginar que ela se ofendera da indiferen\u00e7a dele, Generoso<br \/>\nat\u00e9 ao perd\u00e3o, o morgado de Castro-d&#8217;Aire, compondo o rosto com gesto grave<br \/>\ne melanc6lico, dirigiu-se a Teresa, e pediu-lhe desculpa da frieza que ele<br \/>\ndisse ser como a das montanhas, que t\u00eam vulc\u00f5es por dentro e neve por fora.<br \/>\nTeresa teve a sinceridade de responder que n\u00e3o tinha reparado na frieza de<br \/>\nseu primo, e chamou para junto dela uma menina, para evitar que a montanha<br \/>\nse fendesse em vulc\u00f5es. Pouco depois ergueu-se e saiu da sala.<\/p>\n<p>Eram dez horas e tr\u00eas quartos. Teresa correra ao fundo do<br \/>\nquintal, abrira a porta, e, como n\u00e3o visse algu\u00e9m, tornou de corrida para<br \/>\na sala. No momento, por\u00e9m, de subir a escada que ligava o jardim \u00e0 casa, Baltasar<br \/>\nCoutinho, que a espiava desde que ela saiu da sala, chegou a uma das janelas<br \/>\nsobre o jardim, bem longe de imaginar que a via. Retirou-se, e entrou com<br \/>\nTeresa na sala, ao mesmo tempo, por diversa porta. Decorridos alguns minutos,<br \/>\na menina saiu outra vez e o primo tamb\u00e9m. Teresa ouviu, a dist\u00e2ncia, o estr\u00e9pito<br \/>\ndum cavalo, quando passou ao patamar da escada. Baltasar tamb\u00e9m o ouviu, e<br \/>\nnotou que sua prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido,<br \/>\nlevava uma capa ou chale que a envolvia toda. O de Castro-d&#8217;Aire fez p\u00e9 atr\u00e1s<br \/>\npara n\u00e3o ser visto. Teresa, por\u00e9m, num relance de olhar temeroso, ainda vira<br \/>\num vulto retirar-se. Teve medo, e retrocedeu a largar a capa, e entrou na<br \/>\nsala, ofegante de cansa\u00e7o e p\u00e1lida de medo.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens, minha filha? &#8211; disse-lhe o pai &#8211; J\u00e1 duas vezes<br \/>\nsa\u00edste da sala, e vens t\u00e3o alvora\u00e7ada! Tens algum inc\u00f4modo, Teresa?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho uma dor: preciso de ir respirar de vez em quando&#8230;<br \/>\nNada \u00e9, meu pai.<\/p>\n<p>Tadeu acreditou, e disse a toda a gente que a sua filha tinha<br \/>\numa dor; s\u00f3 o n\u00e3o disse a seu sobrinho, porque o n\u00e3o encontrou, e soube que<br \/>\nele tinha sa\u00eddo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Teresa dera pela aus\u00eancia do primo, e fingiu que o<br \/>\nia procurar, resolu\u00e7\u00e3o de que o velho gostou muito. Desceu ela ao jardim,<br \/>\ncorreu \u00e0 porta onde a esperava Sim\u00e3o, abriu-a, e, com a voz cortada pela ansiedade,<br \/>\napenas disse:<\/p>\n<p>&#8211; Vai-te embora; vem amanh\u00e3 \u00e0s mesmas horas&#8230; Vai, vai!<\/p>\n<p>Sim\u00e3o, quando isto ouvia, os olhos fitos num vulto que se<br \/>\naproximava dele, rente com o muro do quintal. O arreeiro, que primeiro o vira,<br \/>\ndera um sinal, e entalara as r\u00e9deas do cavalo entre umas pedras, para ficar<br \/>\ndesembara\u00e7ado, se o estudante se n\u00e3o pudesse haver com o inimigo.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Botelho n\u00e3o se moveu do local, e Baltasar Coutinho parou<br \/>\nna dist\u00e2ncia de seis passos. O arreeiro tinha lentamente avan\u00e7ado a meio caminho<br \/>\ndo patr\u00e3o, quando este lhe disse que n\u00e3o se aproximasse. E, caminhando para<br \/>\no vulto, aperrou duas pistolas, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Isto aqui n\u00e3o \u00e9 caminho. Que quer?<\/p>\n<p>O fidalgo n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que lhe abro a boca com uma bala &#8211; tornou Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe importa o senhor quem est\u00e1?! &#8211; disse Baltasar &#8211;<br \/>\nSe eu tiver um segredo, como o senhor parece que tem o seu nestes s\u00edtios,<br \/>\nsou obrigado a confessar-lho!?<\/p>\n<p>Sim\u00e3o refletiu, e replicou.<\/p>\n<p>&#8211; Este muro pertence a uma casa onde mora uma s\u00f3 fam\u00edlia,<br \/>\ne uma s\u00f3 mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e3o nessa casa mais de quarenta mulheres esta noite &#8211;<br \/>\nredarg\u00fciu o primo de Teresa. &#8211; Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar<br \/>\noutra.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 o senhor? &#8211; tornou com arrog\u00e2ncia o filho do corregedor.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o a pessoa que me interroga, nem quero conhecer.<br \/>\nFiquemos cada um com o nosso inc\u00f3gnito. Boas noites.<\/p>\n<p>Baltasar Coutinho retrocedeu, dizendo entre si:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Que partido tem uma espada contra dois homens e duas<br \/>\npistolas?&#8221;<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Botelho cavalgou, e partiu para casa do hospitaleiro<br \/>\nferrador.<\/p>\n<p>O sobrinho de Tadeu de Albuquerque entrou na sala sem denunciar<br \/>\nlevemente altera\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo. Viu que Teresa o observava de rev\u00e9s, e soube<br \/>\ndissimular-se de modo que a sossegou. A pobre menina, ansiosa por se ver sozinha,<br \/>\nviu com prazer erguer-se para sair a primeira fam\u00edlia, que deu rebate \u00e0s outras,<br \/>\nmenos ao de Castro-d&#8217;Aire e suas irm\u00e3s, que ficaram hospedados em casa de<br \/>\nseu tio, com ten\u00e7\u00e3o de se demorarem oito dias em Viseu.<\/p>\n<p>Velou Teresa o restante da noite, escrevendo a Sim\u00e3o a longa<br \/>\nhist\u00f3ria dos seus terrores, e pedindo-lhe perd\u00e3o de o ela n\u00e3o ter advertido<br \/>\ndo baile, por ficar doida de alegria com a sua vinda. No tocante ao plano<br \/>\nde se encontrarem na seguinte noite n\u00e3o havia altera\u00e7\u00e3o na carta. Isto espantou<br \/>\no acad\u00eamico. A seu ver, o vulto era Baltasar Coutinho, e o pai de Teresa devia<br \/>\nser avisado naquela mesma noite.<\/p>\n<p>Respondeu ele contando a hist\u00f3ria do incidente com o encapotado;<br \/>\nreceando, por\u00e9m, assustar Teresa e privar-se da entrevista, escreveu nova<br \/>\ncarta em que n\u00e3o transluzia medo de ser atacado, nem sequer receio de marear-lhe<br \/>\na fama. Quis parecer a Sim\u00e3o Botelho que este era o digno porte de um amante<br \/>\ncorajoso.<\/p>\n<p>Passou o estudante aquele dia contando as longas horas, e<br \/>\nmeditando instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temer\u00e1ria<br \/>\nida, se Baltasar Coutinho era aquele homem que reservara para melhor relance<br \/>\na vingan\u00e7a da provoca\u00e7\u00e3o insolente. Mas de si para si tinha ele que pensar<br \/>\nem que tal era mais cobardia que prud\u00eancia.<\/p>\n<p>O ferrador tinha uma filha, mo\u00e7a de vinte e quatro anos, formas<br \/>\nbonitas, um rosto belo e triste. Notou Sim\u00e3o os reparos em que ela se demorava<br \/>\na contempl\u00e1-lo, e perguntou-lhe a causa daquele olhar melanc\u00f3lico com que<br \/>\nela o fitava. Mariana corou, abriu um sorriso triste, e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei o que me adivinha o cora\u00e7\u00e3o a respeito de vossa<br \/>\nsenhoria. Alguma desgra\u00e7a est\u00e1 para lhe suceder&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A menina n\u00e3o dizia isso &#8211; replicou Sim\u00e3o &#8211; sem saber alguma<br \/>\ncoisa da minha vida.<\/p>\n<p>&#8211; Alguma coisa sei&#8230; &#8211; tornou ela.<\/p>\n<p>&#8211; Ouviu contar ao arreeiro?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor. E que meu pai conhece o paizinho de vossa senhoria,<br \/>\ne tamb\u00e9m conhece o senhor. E h\u00e1 bocadinho que eu ouvi estar meu pai a dizer<br \/>\na meu tio, que \u00e9 o arreeiro que veio com vossa senhoria, que tinha suas raz\u00f5es<br \/>\npara saber que alguma desgra\u00e7a lhe estava para acontecer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Por amor duma fidalga de Viseu, que tem um primo em Castro-d&#8217;Aire.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher<br \/>\npormenores do que ele julgava mist\u00e9rio entre duas fam\u00edlias, quando o mestre<br \/>\nferrador Jo\u00e3o da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente di\u00e1logo se passara.<br \/>\nA mo\u00e7a, como ouvisse os passos do pai, sa\u00edra lentamente por outra porta.<\/p>\n<p>&#8211; Com sua licen\u00e7a &#8211; disse mestre Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre<br \/>\numa arca.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, meu fidalgo &#8211; continuou ele, descendo as mangas arrega\u00e7adas<br \/>\nda camisa, e apertando-as com dificuldade nos grossos pulsos, como quem sabe<br \/>\nas etiquetas das mangas &#8211; h\u00e1 de desculpar que eu viesse assim em mangas de<br \/>\ncamisa; mas n\u00e3o dei com a jaqueta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 muito bem, senhor Jo\u00e3o &#8211; atalhou o acad\u00eamico.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, senhor, eu devo um favor a seu pai, e um favor daquela<br \/>\ncasta. Uma vez armou-se aqui \u00e0 minha porta uma desordem, a troco de um couce<br \/>\nque um macho dum almocreve deu numa \u00e9gua, que estava ferrando, e, em t\u00e3o boa<br \/>\nhora foi, que lhe partiu rente o jarrete por aqui, salvo tal lugar.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fora fraturada<br \/>\na da \u00e9gua, e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Eu tinha ali \u00e0 m\u00e3o o martelo, e n\u00e3o me tive que n\u00e3o pregasse<br \/>\ncom ele na cabe\u00e7a do macho, que foi logo pra terra. O recoveiro de Car\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia entre uma carga,<br \/>\ne desfechou comigo, sem mais tirte nem garte. &#8220;\u00d3 alma danada! &#8211; disse-lhe<br \/>\neu &#8211; pois tu v\u00eas que o teu macho me aleijou esta \u00e9gua, que custou vinte pe\u00e7as<br \/>\na seu dono, e que eu tenho de pagar, e d\u00e1s-me um tiro por eu te atordoar o<br \/>\nmacho!?&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; E o tiro acertou-lhe? &#8211; atalhou Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Acertou; mas saber\u00e1 vossa senhoria que me n\u00e3o matou; deu-me<br \/>\naqui por este bra\u00e7o esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou<br \/>\n\u00e0 cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lha na t\u00e1bua do peito.<br \/>\nO almocreve caiu como um tordo, e n\u00e3o tugiu nem mugiu. Prenderam-me, e fui<br \/>\npara Viseu e j\u00e1 l\u00e1 estava h\u00e1 tr\u00eas anos, no ano que o pa\u00edzinho de vossa senhoria<br \/>\nveio corregedor. Andava muita gente a trabalhar contra mim, e todos me diziam<br \/>\nque eu ia pernear na forca. Estava l\u00e1 na enxovia comigo um preso a cumprir<br \/>\nsenten\u00e7a, e disse-me ele que o senhor corregedor tinha muita devo\u00e7\u00e3o com as<br \/>\nsete dores de Nossa Senhora. Uma vez que ele ia passando com a fam\u00edlia para<br \/>\na missa, disse-lhe eu: &#8211; &#8220;Senhor corregedor, pe\u00e7o a vossa senhoria, pelas<br \/>\nsete dores de Maria Sant\u00edssima, que me mande ir \u00e0 sua presen\u00e7a para eu explicar<br \/>\na minha culpa a vossa senhoria&#8221;. O paizinho de vossa senhoria chamou<br \/>\no meirinho-geral, e mandou tomar o meu nome. Ao outro dia fui chamado ao senhor<br \/>\ncorregedor, e contei-lhe tudo, mostrando-lhe ainda as cicatrizes do bra\u00e7o.<br \/>\nSeu pai ouviu-me, e disse-me: &#8211; &#8220;Vai-te embora, que eu farei o que puder&#8221;.<br \/>\nO caso \u00e9, meu fidalgo, que eu sa\u00ed absolvido, quando muita gente dizia que<br \/>\neu havia de ser enforcado \u00e0 minha porta. Faz favor de me dizer se eu n\u00e3o devo<br \/>\nandar com a cara onde o seu paizinho p\u00f5e os p\u00e9s?!<\/p>\n<p>&#8211; Tem o senhor Jo\u00e3o motivo para lhe ser grato, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida<br \/>\nnenhuma.<\/p>\n<p>&#8211; Agora faz favor de ouvir o mais. Eu, antes de ser ferrador,<br \/>\nfui criado de farda em casa do fidalgo de Castrod&#8217;Aire, que \u00e9 o senhor Baltasar.<br \/>\nConhece-o vossa senhoria? Ora, se conhece&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Conhe\u00e7o de nome.<\/p>\n<p>&#8211; Foi ele que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer;<br \/>\nmas paguei-lhas, Deus louvado. H\u00e1 de haver seis meses que ele me mandou chamar<br \/>\na Viseu, e me disse que tinha trinta pe\u00e7as para me dar, se eu lhe fizesse<br \/>\num servi\u00e7o. &#8211; &#8220;O que vossa senhoria quiser, fidalgo&#8221;. E vai ele<br \/>\ndisse-me que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto buliu c\u00e1 por dentro<br \/>\ncomigo, porque. a falar a verdade, um homem que mata outro num aperto n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 matador de oficio, acho eu, n\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n<p>&#8211; De certo&#8230; &#8211; respondeu Sim\u00e3o, adivinhando o remate da hist\u00f3ria.<br \/>\n&#8211; Quem era o homem que ele queria morto?<\/p>\n<p>&#8211; Era vossa senhoria&#8230; O homem! &#8211; disse o ferrador com espanto<br \/>\n&#8211; O senhor nem sequer mudou de cor!<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o mudo nunca de cor, senhor Jo\u00e3o &#8211; disse o acad\u00eamico.<\/p>\n<p>&#8211; Estou pasmado!<\/p>\n<p>&#8211; E vossemec\u00ea n\u00e3o aceitou a incumb\u00eancia, pelo que vejo &#8211; tornou<br \/>\nSim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor; e, ent\u00e3o, logo que ele me disse quem era, a<br \/>\nminha vontade era pregar-lhe com a cabe\u00e7a numa esquina.<\/p>\n<p>&#8211; E ele disse-lhe a raz\u00e3o por que me mandava matar?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu fidalgo; eu lhe conto: Na semana adiante, quando<br \/>\nsoube que o senhor Baltasar (raios o partam!&gt; tinha sa\u00eddo de Viseu, fui<br \/>\nfalar com o senhor corregedor, e contei-lhe tudo como se passara. O senhor<br \/>\ncorregedor esteve a cismar um pouquinho, e disse-me, e vossa senhoria h\u00e1 de<br \/>\nperdoar por eu lhe dizer o que seu pai me disse, tal e qual.<\/p>\n<p>&#8211; Diga.<\/p>\n<p>&#8211; Seu pai come\u00e7ou a esfregar o nariz, e disse-me: -&#8220;Eu<br \/>\nsei o que \u00e9 isso. Se aquele brejeiro de meu filho Sim\u00e3o tivesse honra, n\u00e3o<br \/>\nolharia para a prima desse assassino. Cuida o patife que eu consentia que<br \/>\nmeu filho se ligasse a uma filha de Tadeu de Albuquerque Ainda disse mais<br \/>\ncoisas que me n\u00e3o lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que<br \/>\nhouve. Agora apareceu-me aqui vossa senhoria, e a noite passada foi a Viseu.<br \/>\nPerdoar\u00e1 a minha confian\u00e7a: mas vossa senhoria foi falar com a tal menina;<br \/>\ne eu estive vai n\u00e3o vai a segui-lo; mas, como ia meu cunhado, que \u00e9 homem<br \/>\npara tr\u00eas, fiquei descansado. Ele contou-me um encontro que vossa senhoria<br \/>\nteve \u00e0 porta do quintal da menina. Se l\u00e1 torna, senhor Sim\u00e3o, v\u00e1 preparado<br \/>\npara alguma coisa de maior. Eu bem sei que vossa senhoria n\u00e3o \u00e9 medroso; mas<br \/>\nduma trai\u00e7\u00e3o ningu\u00e9m se livra. Se quer que eu v\u00e1 tamb\u00e9m, estou \u00e0s suas ordens;<br \/>\ne a clavina que deu pol\u00edcia ao almocreve ainda ali est\u00e1, e d\u00e1 fogo debaixo<br \/>\nde \u00e1gua, como diz o outro. Mas, se vossa senhoria d\u00e1 licen\u00e7a que eu lhe diga<br \/>\na minha opini\u00e3o, o melhor \u00e9 n\u00e3o andar nessas encamisadas. Se quer casar com<br \/>\nela, v\u00e1 pedir a seu pai licen\u00e7a, e deixe o resto c\u00e1 por minha conta; ponto<br \/>\n\u00e9 que ela queria. que eu, num abrir e fechar de olhos, atiro com ela para<br \/>\ncima duma \u00e9gua de chupeta. que ali tenho, e o pai e mais o primo ficam a ver<br \/>\nnavios.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, meu amigo &#8211; disse Sim\u00e3o &#8211; aproveitarei os seus<br \/>\nbons servi\u00e7os quando me forem necess\u00e1rios. Esta noite hei de ir, como fui<br \/>\na noite passada, a Viseu. Se houver novidade, ent\u00e3o veremos o que se h\u00e1 de<br \/>\nfazer. Conto com vossemec\u00ea, e creia que tem em mim um amigo.<\/p>\n<p>Mestre Jo\u00e3o da Cruz n\u00e3o replicou. Dali foi examinar mudamente<br \/>\na fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas necess\u00e1rias,<br \/>\nenquanto descarregava a arma, e a carregava de novo com uns zagalotes especiais,<br \/>\nque ele denominava &#8220;am\u00eandoas de pimp\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Neste intervalo, Mariana, a filha do ferrador, entrou no sobrado,<br \/>\ne disse com meiguice a Sim\u00e3o Botelho:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o sempre \u00e9 certo ir?<\/p>\n<p>&#8211; Vou; para que n\u00e3o hei de ir?!<\/p>\n<p>&#8211; Pois Nossa Senhora v\u00e1 na sua companhia &#8211; tornou ela, saindo<br \/>\nlogo para esconder as l\u00e1grimas.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"6\"><\/a>CAP\u00cdTULO VI<\/strong><\/h4>\n<p>As dez horas e meia da noite daquele dia, tr\u00eas vultos convergiram<br \/>\npara o local, raro freq\u00fcentado, em que se abria a porta do quintal de Tadeu<br \/>\nde Albuquerque. Ali se detiveram alguns minutos discutindo e gesticulando.<br \/>\nDos tr\u00eas vultos havia um, cujas palavras eram ouvidas em sil\u00eancio e sem r\u00e9plica<br \/>\npelos outros. Dizia ele a um dos dois:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conv\u00e9m que estejas perto desta porta. Se o homem aparecesse<br \/>\naqui morto, as suspeitas caiam logo sobre mim ou meu tio. Afastem-se voc\u00eas<br \/>\num do outro, tenham o ouvido aplicado ao tropel do cavalo. Depois apressem<br \/>\no passo at\u00e9 o encontrarem, de modo que os tiros sejam dados longe daqui.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; &#8211; atalhou um &#8211; quem nos diz que ele veio ontem a<br \/>\ncavalo, e hoje vem a p\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; E verdade! &#8211; acrescentou o outro.<\/p>\n<p>&#8211; Se ele vier a p\u00e9, eu lhes darei aviso para o seguirem depois<br \/>\nat\u00e9 o terem a jeito de tiro, mas longe daqui, percebem voc\u00eas? &#8211; disse Baltasar<br \/>\nCoutinho.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor: mas se ele sal. de casa do pai, e entra sem<br \/>\nnos dar tempo?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho a certeza de que n\u00e3o est\u00e1 em casa do pai, j\u00e1 Iho disse.<br \/>\nBasta de palavreado. V\u00e3o esconder-se atr\u00e1s da Igreja, e n\u00e3o adorme\u00e7am.<\/p>\n<p>Debandou o grupo, e Baltasar ficou alguns momentos encostado<br \/>\nao muro. Soaram os tr\u00eas quarto depois da dez. O de Castro-d&#8217;Aire colocou o<br \/>\nouvido \u00e0 porta, e retirou-se aceleradamente, ouvindo o rumor da folhagem seca<br \/>\nque Teresa vinha pisando.<\/p>\n<p>Apenas Baltasar, cosido com o muro, desaparecera, um vulto<br \/>\nassomou do outro lado a passo r\u00e1pido. N\u00e3o parou: foi direito a todos os pontos<br \/>\nonde uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja, que estava a duzentos<br \/>\npassos de dist\u00e2ncia. Viu os dois vultos direitos com o recanto que formava<br \/>\na jun\u00e7\u00e3o da capela-mor, e sobre o qual ca\u00edram as sombras da torre. Fitou-os<br \/>\nde passagem, e suspeitou; n\u00e3o os conheceu, mas eles disseram entre si, depois<br \/>\nque ele desaparecera:<\/p>\n<p>&#8211; E o Jo\u00e3o da Cruz, ferrador, ou o diabo por ele!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que far\u00e1 a estas horas por aqui?!<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o desconfias que ele entre nisto?<\/p>\n<p>&#8211; Agora! se entrasse, era por n\u00f3s. N\u00e3o sabes que ele foi mochila<br \/>\ndo nosso amo?<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o que medo tens?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 medo; mas tamb\u00e9m sei que foi o corregedor que o livrou<br \/>\nda forca&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso que tem! O corregedor n\u00e3o se importa com isso, nem<br \/>\nsabe que o filho c\u00e1 est\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assim ser\u00e1; mas n\u00e3o estou muito contente&#8230; Ele \u00e9 homem<br \/>\ndos diabos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deix\u00e1-lo ser&#8230; Tanto entram as balas nele como noutro&#8230;<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o continuou sobre v\u00e1rias conjeturas. De tudo o que<br \/>\neles disseram uma coisa era cert\u00edssima: ser o vulto o Jo\u00e3o da Cruz, ferrador.<\/p>\n<p>Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Baltasar<br \/>\nouviram o remoto tropel da cavalgadura.<\/p>\n<p>Ao tempo que eles sa\u00edam do seu esconderijo, sa\u00eda Jo\u00e3o da Cruz<br \/>\n\u00e0 frente do cavaleiro. Sim\u00e3o aperrou as pistolas, e o arreeiro uma clavina.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 novidade &#8211; disse o ferrador -; mas saiba vossa senhoria<br \/>\nque j\u00e1 podia estar em baixo do cavalo com quatro zagalotes no peito.<\/p>\n<p>O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s tu, Jo\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu. Vim primeiro que tu.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o estendeu a m\u00e3o ao ferrador, e disse, comovido.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00ea c\u00e1 a sua m\u00e3o; quero sentir na minha a m\u00e3o dum homem honrado.<\/p>\n<p>&#8211; Nas ocasi\u00f5es \u00e9 que se conhecem os homens &#8211; redarg\u00fciu o ferrador.<br \/>\n&#8211; Ora vamos&#8230; n\u00e3o h\u00e1 tempo para falat\u00f3rios. O senhor doutor tem uma espera.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho &#8211; disse Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Atr\u00e1s da igreja est\u00e3o dois homens que eu n\u00e3o pude conhecer;<br \/>\nmas n\u00e3o se me dava de jurar que s\u00e3o criados do Sr. Baltasar. Salte abaixo<br \/>\ndo cavalo, que h\u00e1 de haver mostarda. Eu disse-lhe que n\u00e3o viesse; mas vossa<br \/>\nsenhoria veio, e agora \u00e9 andar com a cara para frente.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que eu n\u00e3o tremo, mestre Jo\u00e3o! &#8211; disse o filho do corregedor.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei que n\u00e3o; mas, \u00e0 vista do inimigo, veremos.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o tinha apeado. O ferrador tomou as r\u00e9deas do cavalo,<br \/>\nrecuou alguns passos na rua, e foi prend\u00ea-lo \u00e0 argola da parede duma estalagem.<\/p>\n<p>Voltou, e disse a Sim\u00e3o que o seguisse a ele e ao cunhado<br \/>\nna dist\u00e2ncia de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de<br \/>\nAlbuquerque, n\u00e3o passasse do ponto donde os visse.<\/p>\n<p>Quis o acad\u00eamico protestar contra um plano que o humilhava<br \/>\ncomo protegido pela defesa dos dois homens; o ferrador, por\u00e9m, n\u00e3o admitiu<br \/>\na r\u00e9plica<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a o que eu lhe digo, fidal9o &#8211; disse ele com energia.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram<br \/>\ndefronte do quintal de Teresa, e viram, um vulto a sumir-se no \u00e2ngulo da parede.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos sobre eles &#8211; disse o ferrador &#8211; que l\u00e1 passaram para<br \/>\no adro da igreja; nestes entrementes, o doutor chegar\u00e1 \u00e0 porta do quintal<br \/>\ne entra; depois voltaremos para lhe guardar a sa\u00edda.<\/p>\n<p>Neste prop\u00f3sito, moveram-se apressados, e Sim\u00e3o Botelho caminhou<br \/>\ncom as pistolas aperradas na dire\u00e7\u00e3o da porta.<\/p>\n<p>Em frente do muro do jardim de Teresa haviam uma cascalheira<br \/>\nescarpada. que se esplainava depois numa alameda sombria.<\/p>\n<p>Os dois criados de Baltasar, quando o tropel do cavalo parou,<br \/>\nrecordaram as ordens do amo, no caso de vir a p\u00e9 Sim\u00e3o. Buscaram sitio azado<br \/>\npara o espreitarem na sa\u00edda, e entraram na alameda quando o acad\u00eamico chegara<br \/>\n\u00e0 porta do quintal.<\/p>\n<p>&#8211; Agora est\u00e1 seguro &#8211; disse um,<\/p>\n<p>&#8211; Se l\u00e1 n\u00e3o ficar dentro&#8230; &#8211; respondeu o outro, vendo-o entrar,<br \/>\ne fechar-se a porta.<\/p>\n<p>&#8211; Mas al\u00e9m v\u00eam dois homens&#8230; &#8211; disse o mais assustado, olhando<br \/>\npara a outra entrada da alameda.<\/p>\n<p>&#8211; E v\u00eam direitos a n\u00f3s&#8230; Aperra l\u00e1 a cravina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O melhor \u00e9 retirarmos. N\u00f3s estamos \u00e0 espera do outro, e<br \/>\nn\u00e3o deste. Vamos embora daqui&#8230;<\/p>\n<p>Este n\u00e3o esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira<br \/>\ndo cascalho. O mais intr\u00e9pido teve tamb\u00e9m a prud\u00eancia de todos os assassinos<br \/>\nassalariados: seguiu o assustadi\u00e7o, e deu-lhe raz\u00e3o, quando ouviu ap\u00f3s de<br \/>\nsi os passos velozes dos perseguidores. Saiu-lhes o amo de frente quando dobravam<br \/>\na esquina do quintal, disse-lhes:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas a que fogem, seus poltr\u00f5es?<\/p>\n<p>Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz e o arreeiro apareceram, e Baltasar caminhou<br \/>\npara eles, brandando:<\/p>\n<p>&#8211; Alto a\u00ed!<\/p>\n<p>O ferrador disse ao cunhado:<\/p>\n<p>&#8211; Fala-lhe tu, que eu n\u00e3o quero que ele me conhe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Quem manda fazer alto? &#8211; disse o arreeiro.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o tr\u00eas clavinas &#8211; respondeu Baltasar.<\/p>\n<p>&#8211; Olha se os demoras a dar tempo que o doutor sa\u00eda &#8211; disse<br \/>\nJo\u00e3o da Cruz ao ouvido do arreeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00f3s c\u00e1 estamos parados &#8211; replicou o criado de Sim\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Que nos querem voc\u00eas?<\/p>\n<p>&#8211; Quero saber o que t\u00eam que fazer neste s\u00edtio.<\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00eas o que fazem por c\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o admito perguntas &#8211; disse o de Castro-d&#8217;Aire, aventurando<br \/>\nalguns passos vacilantes para a frente. &#8211; Quero saber quem s\u00e3o.<\/p>\n<p>Mestre Jo\u00e3o disse ao ouvido do cunhado:<\/p>\n<p>&#8211; Diz-lhe que, se d\u00e1 mais um passo, que o arrebentas.<\/p>\n<p>O arreeiro repetiu a cl\u00e1usula, e Baltasar parou.<\/p>\n<p>Um dos criados deles chamou-o ao lado para lhe dizer que aquele<br \/>\ndos dois que n\u00e3o falava parecia ser o Jo\u00e3o da Cruz. O morgado duvidou, e quis<br \/>\nesclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse ao cunhado:<\/p>\n<p>&#8211; Vem comigo, que eles conhecem-me.<\/p>\n<p>Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do<br \/>\nquintal de Tadeu de Albuquerque. Os criados de Baltasar, gloriosos da retirada,<br \/>\ncomo de uma derrota certa, apressaram o passo, na cola dos supostos fugitivos.<br \/>\nO morgado ainda lhes disse que os n\u00e3o seguissem; mas eles, momentos antes<br \/>\ncobardes, queriam desforrar-se agora, correndo ap\u00f3s o inimigo tanto quanto<br \/>\nlhe tinham fugido antes.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Botelho ouvira passos ligeiros, e, compelido pelo susto<br \/>\nde Teresa, abrira a porta do quintal, sem saber ainda de quem fossem os passos.<br \/>\nJo\u00e3o da Cruz, com ar galhofeiro, j\u00e1 quando os perseguidores se viam, disse<br \/>\nao filho do corregedor, se estavam ajustando o casamento, que n\u00e3o havia pano<br \/>\npara mangas.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o entendeu o perigo, apertou convulsamente a m\u00e3o de Teresa,<br \/>\ne retirou-se. Queria ele reconhecer os dois vultos parados a dist\u00e2ncia, mas<br \/>\nJo\u00e3o da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga \u00e0 submiss\u00e3o, disse ao filho<br \/>\ndo corregedor:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 por onde veio, e n\u00e3o olhe para tr\u00e1s. Sim\u00e3o foi indo at\u00e9<br \/>\nencontrar o cavalo. Montou, e esperou os dois inalter\u00e1veis guardas que o seguiam<br \/>\na passo vagaroso. Maravilhara-os o s\u00fabito desaparecimento dos criados de Baltasar,<br \/>\ne recearam-se de alguma espera fora da cidade. O ferrador conhecia o atalho<br \/>\nque podia levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Sim\u00e3o,<br \/>\ndizendo-lhe que picasse a toda a brida, que ele e o cunhado l\u00e1 iriam ter.<br \/>\nO acad\u00eamico recebeu com enfado a advert\u00eancia, admoestando-os a que o n\u00e3o tivessem<br \/>\nem tal vil pre\u00e7o. E acintemente sofreu as r\u00e9deas para n\u00e3o for\u00e7ar os homens<br \/>\na aligeirar o passo.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 como quiser &#8211; disse mestre Jo\u00e3o &#8211; que n\u00f3s vamos por fora<br \/>\ndo caminho.<\/p>\n<p>E subiram a uma rampa de olivais, para tornarem a descer encobertos<br \/>\npor moitas de giesta, cosendo-se aos torcicolos duma parede paralela com a<br \/>\nestrada.<\/p>\n<p>&#8211; O atalho vai acol\u00e1 onde a serra faz aquele cotovelo &#8211; disse<br \/>\no ferrador ao cunhado, &#8211; h\u00e3o de ali passar, ou j\u00e1 passaram. A estrada vai<br \/>\nmesmo na quebrada daquele outeirinho. Os homens \u00e9 dali que v\u00e3o atirar, encobertos<br \/>\npelos sobreiros. Vamos depressa&#8230;<\/p>\n<p>E um pouco descobertos, e outro curvados \u00e0 sombra das devesas,<br \/>\nchegaram a um valado donde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam<br \/>\no pontilh\u00e3o de um c\u00f3rrego.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 n\u00e3o vamos a tempo &#8211; disse aflito o Jo\u00e3o da Cruz &#8211; os<br \/>\nhomens v\u00e3o atirar-lhe, porque o cavalo trupa c\u00e1 muito atr\u00e1s.<\/p>\n<p>E corriam j\u00e1 sem temor de serem vistos, porque os outros tinham<br \/>\ndobrado o outeiro, em cujo vale corria a estrada.<\/p>\n<p>&#8211; Os homens v\u00e3o atirar-lhe&#8230; &#8211; disse o ferrador.<\/p>\n<p>&#8211; Gritemos daqui ao doutor que n\u00e3o v\u00e1 para diante.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tempo&#8230; Ou o matem ou n\u00e3o matem, quando voltarem<br \/>\ns\u00e3o nossos.<\/p>\n<p>Tinham j\u00e1 passado o pontilh\u00e3o, e subiam a ladeira quando ouviram<br \/>\ndois tiros.<\/p>\n<p>&#8211; Arriba! &#8211; esclamou Jo\u00e3o da Cruz &#8211; que n\u00e3o v\u00e3o meter-se \u00e0<br \/>\nestrada, se mataram o fidalgo.<\/p>\n<p>Tinham vencido o ch\u00e1, esbofados e ansiados, com as davinas<br \/>\naperradas. Os criados de Baltasar, ao inv\u00e9s da conjetura do ferrador, retrocediam<br \/>\npelo mesmo atalho, supondo que os companheiros de Sim\u00e3o iam adiante batendo<br \/>\nos pontos azados \u00e0 emboscada, ou se tinham retardado.<\/p>\n<p>&#8211; Eles a\u00ed v\u00eam! disse o arree\u00edro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s c\u00e1 estamos &#8211; respondeu o ferrador, sentando-se a coberto<br \/>\nde um c\u00f4moro. &#8211; Senta-te tamb\u00e9m, que eu n\u00e3o estou para correr atr\u00e1s deles.<br \/>\nOs assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vulto, e<br \/>\nladearam cada qual para seu lado, um galgando os socalcos duma vinha e outro<br \/>\natirando-se a uns silveirais.<\/p>\n<p>&#8211; Atira ao da esquerda &#8211; disse Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p>Foram simult\u00e2neas as explos\u00f5es. A pontaria do ferrador fez<br \/>\nlogo um cad\u00e1ver. Os balotes do arreeiro n\u00e3o estremaram o outro entre o carrascal<br \/>\nonde se embrenhara.<\/p>\n<p>A este tempo assomava Sim\u00e3o no teso donde lhe tinham atirado,<br \/>\ne corria ao ponto onde ouvira o segundo tiro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 vossa senhoria, fidalgo &#8211; bradou o ferrador.<\/p>\n<p>&#8211; Sou.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o o mataram?<\/p>\n<p>&#8211; Creio que n\u00e3o &#8211; respondeu Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Este desalmado deixou fugir o melro &#8211; tomou Jo\u00e3o da Cruz<br \/>\n&#8211; mas o meu l\u00e1 est\u00e1 a pernear na vinha. Sempre lhe quero ver as trombas&#8230;<\/p>\n<p>O ferrador desceu os tr\u00eas socalcos da vinha, e curvou-se sobre<br \/>\no cad\u00e1ver, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Alma de c\u00e2ntaro, se eu tivesse duas clavinas, n\u00e3o ias sozinho<br \/>\npara o inferno.<\/p>\n<p>&#8211; Anda da\u00ed! &#8211; disse o arreeiro &#8211; deixa l\u00e1 esse diabo, que<br \/>\no senhor doutor est\u00e1 ferido num ombro. Vamos depressa, que est\u00e1 o sangue a<br \/>\nescorrer-lhe.<\/p>\n<p>&#8211; Eu vi duas cabe\u00e7as a espreitarem-me de cima da ribanceira,<br \/>\ne cuidei que eram voc\u00eas &#8211; disse Sim\u00e3o, enquanto o ferrador, com a destreza<br \/>\nde h\u00e1bil cirurgi\u00e3o, lhe enfaixava com len\u00e7os o bra\u00e7o ferido. &#8211; Parei o cavalo,<br \/>\ne disse: &#8220;Ol\u00e9! h\u00e1 novidade?&#8221; Logo que me n\u00e3o responderam, saltei<br \/>\npara terra; mas ainda eu tinha um p\u00e9 no estribo quando me fizeram fogo. Quis<br \/>\nsaltar \u00e0 ribanceira, mas n\u00e3o pude romper o mato. Dei uma voltar grande para<br \/>\nachar subida, e foi ent\u00e3o que dei f\u00e9 de estar ferido.<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 uma arranhadura &#8211; disse Jo\u00e3o da Cruz &#8211; olhe que eu<br \/>\nsei disto, fidalgo! Estou afeito a curar muitas feridas.<\/p>\n<p>&#8211; Nos burros, mestre Jo\u00e3o? &#8211; disse o ferido, sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; E nos crist\u00e3os tamb\u00e9m, senhor doutor. Olhe que houve em<br \/>\nPortugal um rei que n\u00e3o queria outro m\u00e9dico sen\u00e3o um alveitar. Hei de mostrar-lhe<br \/>\no meu corpo, que est\u00e1 uma rede de facadas, e nunca fui ao cirurgi\u00e3o. Com ceroto<br \/>\ne vinagre sou capaz de ir ressuscitar aquela alma do diabo que ali est\u00e1 a<br \/>\nescutar a cavalaria.<\/p>\n<p>Nisto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde<br \/>\ntinha saltado o companheiro do morto.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz, como galo de fino olfato, fitou a orelha e resmungou:<\/p>\n<p>&#8211; Querem voc\u00eas ver que eles se armam!.<\/p>\n<p>Dar-se-\u00e1 caso que o outro ainda esteja por ali a tremer maleitas?<\/p>\n<p>O rumor continuou, e logo um bando de p\u00e1ssaros rompeu dentre<br \/>\na folhagem, chilreando.<\/p>\n<p>&#8211; O homem est\u00e1 ali &#8211; tornou o ferrador. &#8211; Passe-me c\u00e1 uma<br \/>\npistola, senhor Sim\u00e3o!<\/p>\n<p>Correu mestre Jo\u00e3o, e ao mesmo tempo uma grande restolhada<br \/>\nse fez entre as moitas de codessos e urzes.<\/p>\n<p>&#8211; Ele estrin\u00e7a lenha como um porco do monte! &#8211; exclamou o<br \/>\nferrador, &#8211; \u00d3 cunhado, bate este mato com alguns penedos; quero ver sair o<br \/>\njavali da moita!..<\/p>\n<p>Para o outro lado da bou\u00e7a estava um plaino cultivado. Sim\u00e3o,<br \/>\nrodeando a sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra dum ag\u00fceiro.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha l\u00e1 m\u00e3o, mestre; n\u00e3o v\u00e1 voc\u00ea atirar-me! &#8211; bradou Sim\u00e3o<br \/>\nao ferrador.<\/p>\n<p>&#8211; Pois o fidalgo j\u00e1 a\u00ed anda!? Ent\u00e3o est\u00e1 fechado o cerco.<br \/>\nEu c\u00e1 vou fazer de fur\u00e3o. Se este nos escapa, n\u00e3o h\u00e1 nada seguro neste mundo!<\/p>\n<p>N\u00e3o se enganaram. O criado de Baltasar Cout\u00ednho, quando se<br \/>\natirara desamparado \u00e0 brenha, deslocara um joelho, e ca\u00edra atordoado. O arreeiro<br \/>\nn\u00e3o examinou o efeito do tiro, porque atirara \u00e0 ventura, e achava natural<br \/>\nque o fugitivo se n\u00e3o molestasse. Quando volveu a si do aturdimento da queda,<br \/>\no homem arrastou-se at\u00e9 encontrar um cercado de \u00e1rvores silvestres, em que<br \/>\npernoitava a passarinhada. Como os melros cacarejassem, esvoa\u00e7ando, o criado<br \/>\nde Baltasar retrocedeu para o mato, cuidando que a\u00ed escaparia; mas o arreeiro<br \/>\njogava enormes calhaus em todas as dire\u00e7\u00f5es, e alguns acercavam mais que as<br \/>\nbalas do seu bacamarte. Jo\u00e3o da Cruz tirou do bolso da jaqueta um pod\u00e3o, e<br \/>\ncome\u00e7ou a cortar a selva de carvalhas novas e giestas que se emaranhavam em<br \/>\nredor do esconderijo. J\u00e1 cansado, por\u00e9m, e vendo o pouco fruto do trabalho,<br \/>\ndisse ao arreeiro:<\/p>\n<p>&#8211; Petisca lume, vai ali dentro buscar um pouco de restolho<br \/>\nseco, e vamos pegar fogo ao mato, que este ladr\u00e3o h\u00e1 de morrer assado.<\/p>\n<p>O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem<br \/>\npara fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo<br \/>\ndo restolho em que o arreeiro andava apanhando palha e Sim\u00e3o esperava o desfecho<br \/>\nda montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o acad\u00eamico sobre ele, O fugitivo,<br \/>\nsentindo-se alcan\u00e7ado, lan\u00e7ou-se de joelhos e m\u00e3os erguidas, pedindo perd\u00e3o,<br \/>\ne dizendo que o amo o obrigaria \u00e0quela desgra\u00e7a. J\u00e1 a coronha do bacamarte<br \/>\ndo arreeiro lhe ia direita ao peito, quando Sim\u00e3o lhe reteve o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se bate num homem ajoelhado! &#8211; disse o mo\u00e7o &#8211; Levanta-te,<br \/>\nrapaz!<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o posso, senhor. Tenho uma perna quebrada e estou aleijado<br \/>\npara a minha vida!<\/p>\n<p>Neste comenos chegou o ferrador, e exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Pois esse tratante ainda est\u00e1 vivo!?<\/p>\n<p>E correu sobre ele com o pod\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o mate o homem, senhor Jo\u00e3o! &#8211; disse o filho do corregedor&#8217;.<\/p>\n<p>&#8211; Que o n\u00e3o mate! Essa \u00e9 de cabo de esquadra! Com que ent\u00e3o<br \/>\no fidalgo quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar&#8230; hein?<\/p>\n<p>&#8211; Com a forca?! &#8211; atalhou Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pudera n\u00e3o! Quer que este homem fique para ir contar a hist\u00f3ria?<br \/>\nAcha bonito? L\u00e1 vossa senhoria, como \u00e9 filho de ministro, n\u00e3o ter\u00e1 perigo;<br \/>\nmas eu, que sou ferrador, posso contar que desta vez tenho o bara\u00e7o no pesco\u00e7o.<br \/>\nN\u00e3o me faz jeito o neg\u00f3cio. Deixe-me c\u00e1 com o homem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o o mate, senhor Jo\u00e3o; pe\u00e7o-lhe eu que o deixe ir. Uma<br \/>\ntestemunha n\u00e3o nos pode fazer mal.<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea! &#8211; redarg\u00fciu o ferrador &#8211; vossa senhoria \u00e9 doutor,<br \/>\nsaber\u00e1 muito, mas de justi\u00e7a n\u00e3o sabe nada. e h\u00e1 de perdoar o meu atrevimento.<br \/>\nBasta uma s\u00f3 testemunha para guiar a justi\u00e7a na devassa. As duas por tr\u00eas,<br \/>\numa testemunha de vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castrod&#8217;ALre<br \/>\na mexer os pauzinhos, \u00e9 forca certa, como dois e dois serem quatro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o digo nada; n\u00e3o me matem, que eu nem torno a ir para<br \/>\nCastro-d&#8217;Aire &#8211; exclamou o homem.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-o ficar, Jo\u00e3o da Cruz&#8230; vamos embora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso! &#8211; acudiu o ferrador &#8211; Chame-me Jo\u00e3o da Cruz&#8230; para<br \/>\neste maroto ficar bem certo de que sou o Jo\u00e3o da Cruz&#8230; Como efeito, n\u00e3o<br \/>\nsei o que me parece vossa senhoria querer deixar com vida uma alma do diabo<br \/>\nque lhe deu um tiro para o matar.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, tem voc\u00ea raz\u00e3o; mas eu n\u00e3o sei castigar miser\u00e1veis<br \/>\nque n\u00e3o resistem.<\/p>\n<p>&#8211; E, se ele o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto,<br \/>\nsenhor doutor.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos embora &#8211; tornou Sim\u00e3o &#8211; deixemos por a\u00ed esse miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mestre Jo\u00e3o cismou alguns momentos, co\u00e7ando a cabe\u00e7a, e resmungou<br \/>\ncom descontentamento:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos l\u00e1. .. Quem o seu inimigo poupa nas m\u00e3os lhe morre.<\/p>\n<p>Tinham j\u00e1 sa\u00eddo do plano e saltado o tapada, e iam descendo<br \/>\npara a estrada, quando o ferrador exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 me ficou a minha clavina escostada \u00e0 sebe&#8230; V\u00e3o indo<br \/>\nque eu venho j\u00e1.<\/p>\n<p>O arreeiro conduzia o cavalo, que pacificamente estivera tosando<br \/>\na relva das paredes marginais da estrada, quando Sim\u00e3o ouviu gritos. Conjeturou<br \/>\ncom certeza o que era.<\/p>\n<p>&#8211; O Jo\u00e3o l\u00e1 est\u00e1 a fazer justi\u00e7a! &#8211; disse o arreeiro &#8211; Deix\u00e1-lo<br \/>\nl\u00e1, meu amo, que ele \u00e9 homem que sabe o que faz.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz apareceu da\u00ed a pouco, limpando com fentos o pod\u00e3o<br \/>\nensang\u00fcentado.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 cruel, sr. Jo\u00e3o &#8211; disse o acad\u00eamico.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sou cruel &#8211; disse o ferrador &#8211; o fidalgo est\u00e1 enganado<br \/>\ncomigo; \u00e9 que, diz l\u00e1 o ditado, morrer por morrer, morra meu pai, que \u00e9 mais<br \/>\nvelho. Tanto faz matar um como dois. Quando se est\u00e1 com a m\u00e3o na massa, tanto<br \/>\nfaz amassar um alqueire como tr\u00eas. As obras devem ser acabadas, ou ent\u00e3o o<br \/>\nmelhor \u00e9 n\u00e3o se meter a gente nelas. Agora levo a minha consci\u00eancia sossegada.<br \/>\nA justi\u00e7a que prove, se quiser; mas n\u00e3o h\u00e1 de ser porque lho digam aqueles<br \/>\ndois que eu mandei de presente ao diabo.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento<br \/>\nde se ter ligado com tal homem.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"7\"><\/a>CAP\u00cdTULO VII<\/strong><\/h4>\n<p>O ferimento de Sim\u00e3o Botelho era melindroso demais para obedecer<br \/>\nprontamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aforismos de alveitaria.<br \/>\nA bala passara-lhe de rev\u00e9s a por\u00e7\u00e3o muscular do bra\u00e7o esquerdo; mas algum<br \/>\nvaso importante rompera, que n\u00e3o bastavam compressas a vedar-lhe o sangue.<br \/>\nHoras depois de ferido, o acad\u00eamico deitou-se febril, deixando-se medicar<br \/>\npelo ferrador. O arreeiro partiu para Coimbra, encarregado de espalhar a not\u00edcia<br \/>\nde ter ficado no Porto Sim\u00e3o Botelho.<\/p>\n<p>Mais que as dores e o receio da amputa\u00e7\u00e3o, o mortificava a<br \/>\n\u00e2nsia de saber novas de Teresa. Jo\u00e3o da Cruz estava sempre de sobrerrolda,<br \/>\nprecavido contra algum procedimento judicial por suspeitas dele. As pessoas<br \/>\nque vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens tinham aparecido<br \/>\nmortos, e constava serem criados dum fidalgo de Castrod&#8217;Aire, Ningu\u00e9m, por\u00e9m,<br \/>\nouvira imputar o assass\u00ednio a determinadas pessoas.<\/p>\n<p>Na tarde desse dia recebeu Sim\u00e3o a seguinte carta de Teresa:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Deus permita que tenhas chegado sem perigo a casa<br \/>\ndessa boa gente. Eu n\u00e3o sei o que se passa. mas h\u00e1 coisa misteriosa que<br \/>\neu n\u00e3o posso adivinhar. Meu pai tem estado toda a manh\u00e3 fechado com o primo,<br \/>\ne a mim n\u00e3o me deixa sair do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu<br \/>\nfelizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quis que a pobre viesse<br \/>\npedir esmola debaixo da janela do meu quarto; sen\u00e3o, eu nem tinha modo de<br \/>\nlhe dar sinal para ela esperar esta carta. N\u00e3o sei o que ela me disse Falou-me<br \/>\nem criados mortos; mas eu n\u00e3o pude entender&#8230; Tua mana Rita est\u00e1-me acenando<br \/>\npor tr\u00e1s dos vidros do teu quarto&#8230;<\/p>\n<p>Disse-me agora tua mana que os mo\u00e7os de meu primo tinham<br \/>\naparecido mortos perto da estrada. Agora j\u00e1 sei tudo. Estive para lhe dizer<br \/>\nque tu a\u00ed est\u00e1s, mas n\u00e3o me deram tempo. Meu pai de hora a hora d\u00e1 passeios<br \/>\nno corredor, e solta uns ais muitos altos.<\/p>\n<p>\u00d3 meu querido Sim\u00e3o, que ser\u00e1 feito de ti?&#8230; Est\u00e1s ferido?<br \/>\nSerei eu a causa da tua morte?<\/p>\n<p>Dize-me o que souberes. Eu j\u00e1 n\u00e3o pe\u00e7o a Deus sen\u00e3o a tua<br \/>\nvida. Foge desses s\u00edtios: vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore<br \/>\na nossa situa\u00e7\u00e3o. Tem confian\u00e7a nesta desgra\u00e7ada, que \u00e9 digna da tua dedica\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nChega a pobre: n\u00e3o quero demor\u00e1-la mais&#8230; Perguntei-lhe se se dizia de<br \/>\nti alguma coisa, e ela respondeu que n\u00e3o. Deus o queira&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Respondeu Sim\u00e3o a querer tranq\u00fcilizar o \u00e2nimo de Tereza. Do<br \/>\nseu sofrimento falava t\u00e3o de passagem, que dava a supor que nem o curativo<br \/>\nera necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Prometia partir para Coimbra logo que o pudesse fazer sem<br \/>\nreceio de Teresa sofrer na sua aus\u00eancia. Animava-a a cham\u00e1-lo assim que as<br \/>\namea\u00e7as do convento passassem a ser realizadas.<\/p>\n<p>Entretanto, Baltasar Coutinho, chamado \u00e0s autoridades judici\u00e1rias<br \/>\npara esclarecer a devassa instaurada, respondeu que efetivamente os homens<br \/>\nmortos eram seus criados, de quem ele e sua fam\u00edlia se acompanhara de Castro-d&#8217;Aire.<br \/>\nAcrescentou que n\u00e3o sabia que eles tivessem inimigos em Viseu, nem tinha contra<br \/>\nalgu\u00e9m as mais leves presun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os mais pr\u00f3ximos vizinhos da localidade onde os cad\u00e1veres<br \/>\ntinham aparecido apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros<br \/>\nao mesmo tempo, e outro pouco depois. Um apenas adiantava coisa que n\u00e3o podia<br \/>\nalumiar a justi\u00e7a, e vinha a ser que o mato, nas vizinhan\u00e7as do local, fora<br \/>\nchapotado. Nesta escuridade a justi\u00e7a n\u00e3o podia dar passo algum.<\/p>\n<p>Tadeu de Albuquerque era conivente no atentado contra a vida<br \/>\nde Sim\u00e3o Botelho. Fora seu \u00f3 alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa<br \/>\ndas sa\u00eddas freq\u00fcentes de Teresa na noite do baile. Tanto ao velho como ao<br \/>\nmorgado convinha apagar algum ind\u00edcio que pudesse envolv\u00ea-los no mist\u00e9rio<br \/>\ndaquelas duas mortes. Os criados n\u00e3o mereciam as penas dum desfor\u00e7o que implicasse<br \/>\no desdouro de seus amos. Provas contra Sim\u00e3o Botelho n\u00e3o podiam aduzi-las.<br \/>\nAquela hora o supunham eles a caminho de Coimbra, ou refugiado em casa de<br \/>\nseu pai. Restava-lhes ainda a esperan\u00e7a de que ele tivesse sido ferido, e<br \/>\nfosse acabar longe do local em que o tinham assaltado.<\/p>\n<p>Enquanto a Teresa, resolveu Albuquerque encerr\u00e1-la num convento<br \/>\ndo Porto, e escolheu Monchique, onde era prioresa uma sua pr\u00f3xima parenta.<br \/>\nEscreveu \u00e0 prelada para lhe preparar aposentos, e ao procurador para negociar<br \/>\nas licen\u00e7as eclesi\u00e1sticas para a entrada. Todavia, receando o velho algum<br \/>\nincidente no espa\u00e7o de tempo que medeava at\u00e9 se conseguirem as licen\u00e7as, resolveu<br \/>\nn\u00e3o ter consigo Teresa, e solicitou a reten\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria dela num convento<br \/>\nde Viseu.<\/p>\n<p>Acabara Teresa de ler e esconder no seio a resposta de Sim\u00e3o<br \/>\nBotelho que a mendiga lhe passara ao escurecer, pendente de uma linha, quando<br \/>\no pai entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina obedeceu, tomando<br \/>\numa capa e um len\u00e7o,<\/p>\n<p>&#8211; Vista-se como quem \u00e9: lembre-se que ainda tem os meus apelidos<br \/>\n&#8211; disse com severidade o velho.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidei que n\u00e3o era preciso vestir-me melhor para sair \u00e0<br \/>\nnoite&#8230; &#8211; disse Teresa.<\/p>\n<p>&#8211; E a senhora sabe para onde vai?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei&#8230; meu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o vista-se, e n\u00e3o me d\u00ea leis.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, meu pai. atenda-me um momento.<\/p>\n<p>&#8211; Diga.<\/p>\n<p>&#8211; Se a sua id\u00e9ia \u00e9 obrigar-me a casar com meu primo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E da\u00ed?<\/p>\n<p>&#8211; De certo n\u00e3o caso; morro, e morro contente, mas n\u00e3o caso.<\/p>\n<p>&#8211; Nem ele a quer. A senhora \u00e9 indigna de Baltasar Coutinho.<br \/>\nUm homem do meu sangue n\u00e3o aceita para esposa uma mulher que fala de noite<br \/>\naos amantes nos quintais. Vista-se depressa, que vai para um convento.<\/p>\n<p>&#8211; Prontamente, meu pai. Esse destino lho pedi eu muitas vezes.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero reflex\u00f5es. Daqui a pouco apare\u00e7a-me vestida. Suas<br \/>\nprimas esperam-na para a acompanharem.<\/p>\n<p>Quando se viu sozinha, Teresa debulhou-se em l\u00e1grimas, e quis<br \/>\nescrever a Sim\u00e3o. Aquela hora quem lhe levaria a carta? Apelou para o ret\u00e1bulo<br \/>\nda Virgem, que ela fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos que<br \/>\na protegesse, e desse for\u00e7as a Sim\u00e3o para resistir ao golpe, e guardar-lhe<br \/>\nconst\u00e2ncia atrav\u00e9s dos trabalhos que sucedessem, Depois vestiu-se, comprimindo<br \/>\ncontra o seio um embrulho em que levava o tinteiro, o papel e o macete de<br \/>\ncartas de Sim\u00e3o. Saiu do seu quarto, relanceando os olhos lacrimosos para<br \/>\no painel da Virgem, e, encontrando o pai, pediu-lhe licen\u00e7a para levar consigo<br \/>\naquela devota imagem.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 ir\u00e1 ter &#8211; respondeu ele. &#8211; Se tivesse tanta vergonha<br \/>\ncomo devo\u00e7\u00e3o, seria mais feliz do que h\u00e1 de ser.<\/p>\n<p>Uma das primas, irm\u00e3s de Baltasar, chamou-a de parte. e segredou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 menina, estava ainda na tua m\u00e3o dares rem\u00e9dio \u00e0 desordem<br \/>\ndesta casa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual rem\u00e9dio?! &#8211; perguntou Teresa com artificial seriedade.<\/p>\n<p>&#8211; Diz a teu pai que n\u00e3o duvidas casar com o mano Baltasar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Primo Baltasar n\u00e3o me quer &#8211; replicou ela, sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Quem te disse isso, Teresinha?<\/p>\n<p>&#8211; Disse-mo meu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa falar teu pai, est\u00e1 desatinado com o amor que te tem.<br \/>\nQueres tu que eu lhe fale.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Para se remediar deste modo a desgra\u00e7a de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s a brincar, prima! &#8211; redarg\u00fciu Teresa. &#8211; Eu hei de<br \/>\nser tua cunhada quando n\u00e3o tiver cora\u00e7\u00e3o. Teu mano tem a certeza de que eu<br \/>\namo outro homem. Queria viver para ele; mas, se quiserem que eu morra por<br \/>\nele, aben\u00e7oarei&#8217; todos os meus algozes. Podes dizer isto ao primo Baltasar<br \/>\ne dize-lho antes que te esque\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o? Vamos! &#8211; disse o velho.<\/p>\n<p>&#8211; Estou pronta, meu pai.<\/p>\n<p>Abriu-se a portaria do mosteiro. Teresa entrou sem uma l\u00e1grima.<br \/>\nBeijou a m\u00e3o de seu pai, que ele n\u00e3o ousou recusar-lhe na presen\u00e7a das freiras.<br \/>\nAbra\u00e7ou suas primas, com semblante de regozijo; e, ao fechar-se a porta, exclamou,<br \/>\ncom grande espanto das monjas:<\/p>\n<p>&#8211; Estou mais livre que nunca. A liberdade do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra<br \/>\n&#8220;cora\u00e7\u00e3o&#8221; uma heresia, uma blasf\u00eamia proferida na casa do Senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Que diz a menina?! &#8211; perguntou a prioresa, fitando-a por<br \/>\ncima dos \u00f3culos, e apanhando no len\u00e7o de Alcoba\u00e7a a destila\u00e7\u00e3o do esturrinho.<\/p>\n<p>&#8211; Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora.<\/p>\n<p><i>&#8211; <\/i>N\u00e3o diga <i>&#8211; minha senhora &#8211; <\/i>atalhou a escriv\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Como hei de dizer?<\/p>\n<p>&#8211; Diga: &#8220;nossa madre prioresa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, nossa madre prioresa, disse eu que me sentia aqui<br \/>\nmuito bem.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem vem para estas casas de Deus n\u00e3o vem para se sentir<br \/>\nbem &#8211; tornou a nossa madre prioresa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o?! &#8211; disse Teresa com sincera admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Quem para aqui vem, menina, h\u00e1 de mortificar o esp\u00edrito,<br \/>\ne deixar l\u00e1 fora as paix\u00f5es mundanas. Ora pois! Aqui est\u00e1 a nossa madre mestra<br \/>\nde novi\u00e7as, a quem compete encaminh\u00e1-la e dirigi-la.<\/p>\n<p>Teresa n\u00e3o redarg\u00fciu: fez um gesto de respeito \u00e0 mestra de<br \/>\nnovi\u00e7as, e seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando.<\/p>\n<p>A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Teresa<br \/>\nque era sua h\u00f3speda enquanto ali estivesse; e ajuntou que n\u00e3o sabia se seu<br \/>\npai escolheria aquele convento ou outro.<\/p>\n<p>&#8211; Que importa que seja um ou outro? &#8211; disse Teresa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 conforme. Seu pai pode querer que a menina professe em<br \/>\nordem rica das bentas ou bernardas.<\/p>\n<p>&#8211; Professe! &#8211; exclamou Teresa. &#8211; Eu n\u00e3o quero ser freira aqui,<br \/>\nnem noutra parte.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora h\u00e1 de ser o que seu pai quiser que seja.<\/p>\n<p>&#8211; Freira?! A isso n\u00e3o pode ningu\u00e9m obrigar-me! -recalcitrou<br \/>\nTeresa.<\/p>\n<p>&#8211; Isso assim \u00e9 &#8211; retorquiu a prioresa &#8211; mas, como a menina<br \/>\ntem de noviciado um ano, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e ver\u00e1<br \/>\nque n\u00e3o h\u00e1 vida mais descansada para o corpo, nem mais saud\u00e1vel para a alma.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a nossa madre &#8211; tornou Teresa, sorrindo, como se a ironia<br \/>\nlhe fosse habitual &#8211; j\u00e1 disse que a estas casas ningu\u00e9m vem para se sentir<br \/>\nbem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um modo de falar, menina. Todos temos as nossas mortifica\u00e7\u00f5es<br \/>\ne obriga\u00e7\u00f5es de coro e de servi\u00e7os para que nem sempre o esp\u00edrito est\u00e1 bem<br \/>\ndisposto. Ora v\u00eas a\u00ed. Mas, em compara\u00e7\u00e3o do que l\u00e1 vai pelo mundo, o convento<br \/>\n\u00e9 um para\u00edso. Aqui n\u00e3o h\u00e1 paix\u00f5es, nem cuidados que tirem o sono, nem a vontade<br \/>\nde comer, bendito seja o Senhor! Vive-mos umas com as outras como Deus com<br \/>\nos anjos. O que uma quer querem todas. M\u00e1s l\u00ednguas \u00e9 coisa que a menina n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 de achar aqui, nem intriguistas, nem murmura\u00e7\u00f5es de soalheiro. Enfim, Deus<br \/>\nfar\u00e1 o que for servido. Eu vou \u00e0 cozinha buscar a ceia da menina, e j\u00e1 volto.<br \/>\nAqui a deixo com a senhora madre organista, que \u00e9 uma pomba, e com a nossa<br \/>\nmestra de novi\u00e7as, que sabe dizer melhor que eu o que \u00e9 a virtude nestas santas<br \/>\ncasas.<\/p>\n<p>Apenas a prioresa voltou as costas, disse a organista \u00e0 mestra<br \/>\nde novi\u00e7as:<\/p>\n<p>&#8211; Que impostora!<\/p>\n<p>&#8211; E que est\u00fapida! &#8211; acudiu a outra. &#8211; A menina n\u00e3o se fie<br \/>\nnesta trapalhona, e veja se seu pai lhe d\u00e1 outra companhia enquanto c\u00e1 estiver,<br \/>\nque a prioresa \u00e9 a maior intriguista do convento. Depois que fez sessenta<br \/>\nanos, fala das paix\u00f5es do mundo como quem as conhece por dentro e por fora.<br \/>\nEnquanto foi nova, era a freira que mais esc\u00e2ndalos dava na casa; depois de<br \/>\nvelha era a mais rid\u00edcula porque ainda queria amar e ser amada; agora, que<br \/>\nest\u00e1 decr\u00e9pita, anda sempre este mostrengo a fazer miss\u00f5es e a curar indigest\u00f5es.<\/p>\n<p>Teresa, apesar da sua dor, n\u00e3o p\u00f4de reprimir uma risada, lembrando-se<br \/>\nda <i>vida de Deus com os anjos <\/i>que as esposas do Senhor ali viviam, no<br \/>\ndizer da madre prioresa.<\/p>\n<p>Pouco depois, entrou a prelada com a ceia, e sa\u00edram as duas<br \/>\nfreiras.<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?<br \/>\n&#8211; disse ela a Teresa.<\/p>\n<p>&#8211; Pareceram-me muito bem.<\/p>\n<p>A velha distendeu os bei\u00e7os matizados de meandros de esturrinho<br \/>\nl\u00edquido, e regougou:<\/p>\n<p>&#8211; Hum!&#8230; Est\u00e1 feito, est\u00e1 feito!&#8230; Ainda n\u00e3o s\u00e3o das piores;<br \/>\nmas, se fossem melhores, n\u00e3o se perdia nada&#8230; Ora vamos a isto, menina; aqui<br \/>\ntem duas pernas de galinha e um caldo que o podem comer os anjos.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o como nada, minha senhora &#8211; disse Teresa.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! N\u00e3o come nada?! H\u00e1 de comer; sem comer ningu\u00e9m<br \/>\nresiste. Paix\u00f5es&#8230; que as leve o porco-sujo!&#8230; As mulheres \u00e9 que ficam logradas,<br \/>\ne eles n\u00e3o t\u00eam que perder!&#8230; Que eu, c\u00e1 de mim, at\u00e9 ao presente, Deus louvado,<br \/>\nn\u00e3o sei o que sejam paix\u00f5es; mas quem tem cinq\u00fcenta e cinco anos de convento,<br \/>\ntem muita experi\u00eancia do que v\u00ea penar \u00e0s outras doidivanas. E, para n\u00e3o ir<br \/>\nmais longe, estas duas que daqui sa\u00edram t\u00eam pagado bem o seu tributo \u00e0 asneira,<br \/>\nDeus me perdoe, se peco. A organista tem j\u00e1 os seus quarenta bons, e ainda<br \/>\nvai ao locut\u00f3rio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de<br \/>\nnovi\u00e7as, \u00e0 falta doutra que quisesse s\u00ea-lo, se eu lhe n\u00e3o andasse com o olho<br \/>\nem cima, estragava-me as raparigas.<\/p>\n<p>Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela<br \/>\nmadre escriv\u00e3, que vinha, palitando os dentes, pedir \u00e0 prelada um copinho<br \/>\nde certo vinho estomacal com que todas as noites era brindada.<\/p>\n<p>&#8211; Estava eu a dizer a esta menina as pe\u00e7as que s\u00e3o a organista<br \/>\ne a mestra &#8211; disse a prioresa.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! s\u00e3o para o que eu lhe prestar! L\u00e1 foram ambas para a<br \/>\ncela da porteira. A esta hora est\u00e1 a menina a ser cortada por aquelas l\u00ednguas,<br \/>\nque n\u00e3o perdoam a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Vais tu ver se ouves alguma coisa, minha flor? &#8211; disse a<br \/>\nprelada.<\/p>\n<p>A escriv\u00e3, contente da miss\u00e3o, foi imperceptivelmente ao longo<br \/>\ndos dormit\u00f3rios at\u00e9 parar a uma porta, que n\u00e3o vedava o ru\u00eddo estridente das<br \/>\nrisadas.<\/p>\n<p>No entanto, dizia a prelada a Teresa:<\/p>\n<p>&#8211; Esta escriv\u00e3 n\u00e3o \u00e9 m\u00e1 rapariga. S\u00f3 tem o defeito de se tomar<br \/>\nda pingoleta; depois, n\u00e3o h\u00e1 quem a ature. Tem uma boa ten\u00e7a, mas gasta tudo<br \/>\nem vinho, e tem ocasi\u00f5es de entrar no coro a fazer <i>ss <\/i>que \u00e9 mesmo uma<br \/>\ndesgra\u00e7a. N\u00e3o tem outro defeito; \u00e9 uma alma lavada, e amiga da sua amiga.<br \/>\n~ verdade, que, \u00e0s vezes&#8230; (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos dormit\u00f3rios,<br \/>\ne fechou por dentro a porta); \u00e9 verdade que, \u00e0s vezes, quando anda azoratada,<br \/>\nd\u00e1 por paus e por pedras, e descobre os defeitos das suas amigas. A mim j\u00e1<br \/>\nela me assacou um aleive, dizendo que eu, quando sa\u00eda a ares, n\u00e3o ia s\u00f3 a<br \/>\nares, e andava por l\u00e1 a fazer o que fazem as outras. Forte pouca vergonha!<br \/>\nL\u00e1 que outra falasse, v\u00e1; mas ela, que tem sempre uns namorados pand\u00edlhas<br \/>\nque bebem com ela na grade, isso l\u00e1 me custa; mas, enfim, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m perfeito!&#8230;<br \/>\nBoa rapariga \u00e9 ela&#8230; se n\u00e3o fosse aquele maldito v\u00edcio&#8230;<\/p>\n<p>Como tocasse ao coro nesta ocasi\u00e3o, a veneranda prioresa bebeu<br \/>\no segundo c\u00e1lice do vinho estomacal, e disse a Teresa que a esperasse um quarto<br \/>\nde hora, que ela ia ao coro, e pouco se demoraria. Tinha ela sa\u00eddo, quando<br \/>\na escriv\u00e3 entrou a tempo que Teresa, com as m\u00e3os abertas sobre a face, dizia<br \/>\nem si: &#8220;Um convento, meu Deus! Isto \u00e9 que \u00e9 um convento?&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 sozinha? &#8211; disse a escriv\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Estou, minha senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Pois aquela grosseira vai-se embora, e deixa uma h\u00f3speda<br \/>\nsozinha?! Bem se v\u00ea que \u00e9 filha de funileiro!&#8230; Pois tinha tempo de ter pr\u00e1tica<br \/>\ndo mundo, que tem andado por l\u00e1 que farte&#8230; Eu havia de ir ao coro&#8230; Mas<br \/>\nn\u00e3o vou, para lhe fazer companhia, menina.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, v\u00e1 minha senhora, que eu fico bem sozinha &#8211; disse Teresa,<br \/>\ncom a esperan\u00e7a de poder desafogar em l\u00e1grimas a sua afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vou, &#8230;&#8230;. A menina aqui estarrecia de medo; mas a<br \/>\nprelada n\u00e3o tarda a\u00ed. Ela, se pode escapar-se do coro, n\u00e3o para l\u00e1 muito tempo.<br \/>\nApostar que ela lhe esteve a falar mal de mim?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, minha senhora, pelo contr\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha n\u00e3o<br \/>\nfala bem de ningu\u00e9m. Para ela tudo s\u00e3o libertinas e b\u00eabedas.<\/p>\n<p>&#8211; Nada, n\u00e3o, minha senhora; nada me disse a respeito de alguma<br \/>\nfreira,<\/p>\n<p>&#8211; E, se disse, deix\u00e1-la dizer. Ela o vinho n\u00e3o o bebe, suga-o;<br \/>\n\u00e9 uma esponja viva. Enquanto \u00e0 libertinagem, tomara eu tantos mil cruzados<br \/>\ncomo de amantes ela tem tido! Faz l\u00e1 uma pequena id\u00e9ia, menina!&#8230;<\/p>\n<p>A escriv\u00e3 bebeu um c\u00e1lice do vinho da sua prelada, e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Faz l\u00e1 uma pequena id\u00e9ia! Ela \u00e9 velh\u00edssima como a s\u00e9. Quando<br \/>\neu professei, j\u00e1 ela era velha como agora, com pouca diferen\u00e7a. Ora eu sou<br \/>\nfreira h\u00e1 vinte e seis anos. Calcule a menina quantas arrobas de esturr\u00ednho<br \/>\nela tem atulhado naqueles narizes! Pois olhe, quer me creia, quer n\u00e3o, tenho-lhe<br \/>\nconhecido mais de uma d\u00fazia de chichisb\u00e9us, n\u00e3o falando do padre capel\u00e3o,<br \/>\nque esse ainda agora lhe fornece a garrafeira, \u00e0 nossa custa, entende-se.<br \/>\n\u00c9 uma dissipadora dos rendimentos da casa. Eu, que sou escriv\u00e3, \u00e9 que sei<br \/>\no que ela rouba. Eu tenho imensa pena de ver a menina hospedada em casa desta<br \/>\nhip\u00f3crita. N\u00e3o se deixe levar das imposturices dela, meu anjinho. Eu sei que<br \/>\nseu pai lhe mandou falar, e a encarregou de a n\u00e3o deixar escrever, nem receber<br \/>\ncartas; mas olhe, minha filha, se quiser escrever, eu dou-lhe tinteiro, papel,<br \/>\nobreias e o meu quarto, se para l\u00e1 quiser ir escrever. Se tem algu\u00e9m que lhe<br \/>\nescreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu chamo-me Dion\u00edsia da<br \/>\nImaculada Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Muit<sub>9 <\/sub>agradecida, minha senhora &#8211; disse Teresa,<br \/>\nanimada pelo oferecimento. &#8211; Quem me dera poder mandar um recado a uma pobre<br \/>\nque mora no beco do&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O que quiser, menina. Eu mando l\u00e1 logo que for dia. Esteja<br \/>\ndescansada. N\u00e3o se fie de algu\u00e9m, sen\u00e3o de mim. Olhe que a mestra de novi\u00e7as<br \/>\ne a organista s\u00e3o duas falsas. N\u00e3o lhes d\u00ea trela, que, se as admite<br \/>\n\u00e0 sua confian\u00e7a, est\u00e1 perdida. Ai vem a lesma&#8230; Falemos noutra coisa&#8230;<\/p>\n<p>A prelada vinha entrando, e a escriv\u00e3 prosseguiu assim:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1, n\u00e3o h\u00e1 nada mais agrad\u00e1vel que a vida do convento<br \/>\nquando se tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa&#8230; A\u00ed! eras tu, menina?<br \/>\nOlha se estiv\u00e9ssemos a falar mal de ti!<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei que tu nunca falas mal de mim &#8211; disse a prelada,<br \/>\npiscando o olho a Teresa. &#8211; A\u00ed est\u00e1 essa menina que diga o que eu lhe estive<br \/>\na dizer das tuas boas qualidades&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois o que eu disse de ti &#8211; respondeu s\u00f3ror Dion\u00edsia da<br \/>\nImaculada Concei\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o precisas de perguntar porque felizmente ouviste<br \/>\no que eu estava dizendo. Oxal\u00e1 que se pudesse dizer o mesmo das outras que<br \/>\ndesonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado numa meada, que \u00e9 mesmo coisa<br \/>\nde pecado!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o vais ao coro, Nini? &#8211; tornou a prioresa.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 agora \u00e9 tarde&#8230; Tu absolves-me da falta, sim?<\/p>\n<p>&#8211; Absolvo, absolvo; mas dou-te como penit\u00eancia beberes um<br \/>\ncopinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Do estomacal?<\/p>\n<p>&#8211; Pudera!<\/p>\n<p>Dionisia cumpriu a penit\u00eancia, e saiu para, dizia ela deixar<br \/>\na prelada na sua hora de ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o delongaremos esta amostra do evang\u00e9lico e exemplar viver<br \/>\ndo convento onde Tadeu de Albuquerque mandara sua filha a respirar o pur\u00edssimo<br \/>\nar dos anjos, enquanto se lhe preparava crisol mais depurador dos sedimentos<br \/>\ndo v\u00edcio no convento de Manchique.<\/p>\n<p>Encheu-se o cora\u00e7\u00e3o de Teresa de amargura e nojo naquelas<br \/>\nduas horas de vida conventual. Ignorava ela que o mundo tinha daquilo. Ouvira<br \/>\nfalar dos mosteiros como de um ref\u00fagio da virtude, da inoc\u00eancia e das esperan\u00e7as<br \/>\nimorredoiras. Algumas cartas lera de sua tia, prelada em Monchique, e por<br \/>\nelas formara conceito do que devia ser uma santa. Daquelas mesmas dominicanas,<br \/>\nem cuja casa estava, ouvira dizer \u00e0s velhas e devotas fidalgas de V\u00edseu virtudes,<br \/>\nmaravilhas de caridade, e at\u00e9 milagres. Que desilus\u00e3o t\u00e3o triste e, ao mesmo<br \/>\ntempo, que \u00e2nsia de fugir dali!<\/p>\n<p>A cama de Teresa estava na mesma cela da prioresa, em alcova.<br \/>\nseparada, com cortinas de cassa.<\/p>\n<p>Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se, querendo,<br \/>\nperguntou-lhe a menina se poderia escrever a seu pai. A freira respondeu que<br \/>\nno dia seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua<br \/>\nfilha n\u00e3o escrevesse; assim mesmo, ajuntou ela, que lho n\u00e3o proibiria, se<br \/>\ntivesse tinteiro e papel na cela.<\/p>\n<p>Teresa deitou-se, e a prelada ajoelhou diante dum orat\u00f3rio,<br \/>\nrezando a coroa a meia voz, Se o murm\u00fario da ora\u00e7\u00e3o enfadasse a h\u00f3speda, n\u00e3o<br \/>\nteria ela muita raz\u00e3o de queixa, porque a devota monja, ao segundo <i>Padre-nosso,<br \/>\n<\/i>cabeceava de modo que j\u00e1 n\u00e3o atinou com a primeira <i>Ave-Maria. <\/i>Levantou-se,<br \/>\ncambaleando uma mesura \u00e0s imagens do santu\u00e1rio, foi deitar-se, e pegou a ressonar.<\/p>\n<p>Teresa afastou sutilmente as cortinas do quarto, e tirou de<br \/>\nentre o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel.<\/p>\n<p>A l\u00e2mpada do orat\u00f3rio lan\u00e7ava um frouxo raio sobre a cadeira<br \/>\nem que Teresa pusera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao p\u00e9 da cadeira,<br \/>\ne escreveu a Sim\u00e3o, relatando-lhe minuciosamente os sucessos daquele dia.<br \/>\nA carta rematava assim:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;N\u00e3o receies nada por mim, Sim\u00e3o. Todos estes trabalhos<br \/>\nme parecem leves, se os comparo aos que tens padecido por amor de mim. A<br \/>\ndesgra\u00e7a n\u00e3o abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projetos.<br \/>\nS\u00e3o alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resolu\u00e7\u00e3o que<br \/>\nmeu pai tome d\u00edr-ta-ei logo, podendo, ou quando puder. A falta das minhas<br \/>\nnoticias deves atribu\u00ed-la sempre ao imposs\u00edvel. Ama-me assim desgra\u00e7ada,<br \/>\nporque me parece que os desgra\u00e7ados s\u00e3o os que mais precisam de amor e de<br \/>\nconforto. Vou ver se posso esquecer-me, dormindo. Como isto \u00e9 triste, meu<br \/>\nquerido amigo!&#8230; Adeus&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<h4><strong><a name=\"8\"><\/a>CAP\u00cdTULO VIII<\/strong><\/h4>\n<p>Mariana, a filha de Jo\u00e3o da Cruz, quando viu seu pai pensar<br \/>\na chaga do bra\u00e7o de Sim\u00e3o, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente<br \/>\nda fraqueza da mo\u00e7a, e o acad\u00eamico achou estranha sensibilidade em mulher<br \/>\nafeita a curar as feridas com que seu pai vinha laureado de todas as feiras<br \/>\ne romarias.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 ainda um ano que me fizeram tr\u00eas buracos na cabe\u00e7a,<br \/>\nquando eu fui \u00e0 Senhora dos Rem\u00e9dios, a Lamego, e foi ela que me tosqueou<br \/>\ne rapou o casco \u00e0 navalha &#8211; disse o ferrador. &#8211; Pelo que vejo, o sangue do<br \/>\nfidalgo deu volta ao est\u00f4mago da rapariga!&#8230; Estamos ent\u00e3o bem aviados! Eu<br \/>\ntenho c\u00e1 a minha vida, e queria que ela fosse a enfermeira do meu doente&#8230;<br \/>\n\u00c9s, ou n\u00e3o \u00e9s, rapariga? &#8211; disse ele \u00e0 filha quando ela abriu os olhos, com<br \/>\nsemblante de envergonhada da sua fraqueza.<\/p>\n<p>&#8211; Serei com muito gosto, se o pai quiser.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, ent\u00e3o, mo\u00e7a, se h\u00e1s de ir costurar para a varanda,<br \/>\nvem aqui para a beira do senhor Sim\u00e3o. D\u00e1-lhe caldos a mi\u00fado, e trata-lhe<br \/>\nda ferida; vinagre e mais vinagre, quando ela estiver assim a modo de roxa.<br \/>\nConversa com ele, n\u00e3o o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 bom quando se est\u00e1 fraco do miolo. E vossa senhoria n\u00e3o tenha aquelas de<br \/>\ncerim\u00f4nia, nem me diga \u00e0 Mariana &#8211; a menina isto, a menina aquilo. \u00c9 &#8211; rapariga,<br \/>\nda c\u00e1 um caldo; rapariga, lava-me o bra\u00e7o, da c\u00e1 as compressas &#8211; e nada de<br \/>\npol\u00edticas. Ela est\u00e1 aqui como sua criada, porque eu j\u00e1 lhe disse que, se n\u00e3o<br \/>\nfosse o pai de vossa senhoria, j\u00e1 ela h\u00e1 muito tempo que andava por a\u00ed \u00e0s<br \/>\nesmolas, ou pior ainda. E verdade que eu podia deixar-lhe uns benzinhos ganhos<br \/>\nali a suar na bigorna h\u00e1 dez anos, afora uns quatrocentos mil r\u00e9is que herdei<br \/>\nde minha m\u00e3e, que Deus haja; mas vossa senhoria bem sabe que, se eu fosse<br \/>\n\u00e0 forca ou pela barra fora, vinha a justi\u00e7a, e tomava conta de tudo para as<br \/>\ncustas.<\/p>\n<p>&#8211; Vossemec\u00ea tem uma casinha sofr\u00edvel &#8211; atalhou Sim\u00e3o &#8211; pode,<br \/>\nquerendo, casar a sua filha numa boa casa de lavoura.<\/p>\n<p>&#8211; Assim ela quisesse. Maridos n\u00e3o lhe faltam; at\u00e9 o alferes<br \/>\nda casa da Igreja a queria, se eu lhe fizesse doa\u00e7\u00e3o de tudo, que pouco \u00e9,<br \/>\nmas ainda quatro mil cruzados bons; o caso \u00e9 que a mo\u00e7a n\u00e3o tem querido casar,<br \/>\ne eu, a falar a verdade, sou s\u00f3 e mais ela, e tamb\u00e9m n\u00e3o tenho grande vontade<br \/>\nde ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se n\u00e3o fosse ela,<br \/>\nfidalgo, muitas asneiras tinha eu feito! Quando vou \u00e0s feiras ou romarias,<br \/>\nse a levo comigo, n\u00e3o bato, nem apanho; indo sozinho, \u00e9 desordem certa. A<br \/>\nrapariga j\u00e1 conhece quando a pinga me sobe ao capacete do alambique; puxa-me<br \/>\npela jaqueta, e por bons modos p\u00f5e-me fora do arraial. Se algu\u00e9m chama para<br \/>\nbeber mais um quartilho, ela n\u00e3o me deixa ir, e eu acho gra\u00e7a \u00e0 obedi\u00eancia<br \/>\ncom que me deixo guiar pela mo\u00e7a, que me pede que n\u00e3o v\u00e1 por alma da m\u00e3e.<br \/>\nEu c\u00e1, em ela me pedindo por alma da minha santa mulher, j\u00e1 n\u00e3o sei de que<br \/>\nfreguesia sou.<\/p>\n<p>Mariana ouvia o pai. escondendo meio rosto no seu alv\u00edssimo<br \/>\navental de linho. Sim\u00e3o estava-se gozando na simpleza daquele quadro r\u00fastico,<br \/>\nmas sublime de naturalidade.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz foi chamado para ferrar um cavalo, e despediu-se<br \/>\nnestes termos:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o<br \/>\ncomo quem \u00e9 e como se fosse teu irm\u00e3o ou marido.<\/p>\n<p>O rosto de Mariana acerejou-se quando aquela \u00faltima palavra<br \/>\nsaiu, natural como todas, da boca de seu pai.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a ficou encostada ao batente da alcova de Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o foi nada boa esta praga que lhe caiu em casa, Mariana!<br \/>\n&#8211; disse o acad\u00eamico &#8211; Fazerem-na enfermeira dum doente, e privarem-na talvez<br \/>\nde ir costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que se me d\u00e1 a mim disso? &#8211; respondeu ela, sacudindo o avental,<br \/>\ne baixando o c\u00f3s ao lugar da cintura com infantil gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Sente-se, Mariana; seu pai disse-lhe que se sentasse&#8230;<br \/>\nV\u00e1 buscar a sua costura, e d\u00ea-me dali um folha de papel e um l\u00e1pis que est\u00e1<br \/>\nna carteira.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o pai tamb\u00e9m me disse que o n\u00e3o deixasse escrever&#8230;<br \/>\n&#8211; replicou ela, sorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Pouco, n\u00e3o faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas.<\/p>\n<p>&#8211; Veja l\u00e1 o que faz&#8230; &#8211; tornou ela, dando-lhe o papel e o<br \/>\nl\u00e1pis &#8211; Olhe se alguma carta se perde, e se descobre tudo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tudo o qu\u00ea, Mariana? Pois sabe alguma coisa.?<\/p>\n<p>&#8211; Era preciso que eu fosse tola&#8230; Eu n\u00e3o lhe disse j\u00e1 que<br \/>\nsabia da sua amizade a uma menina fidalga da cidade?<\/p>\n<p>&#8211; Disse. Mas que tem isso?<\/p>\n<p>&#8211; Aconteceu o que eu receava. Vossa senhoria est\u00e1 ai ferido,<br \/>\ne toda a gente fala nuns homens que apareceram mortos.<\/p>\n<p>&#8211; Que tenho eu com os homens que apareceram mortos?<\/p>\n<p>&#8211; Para que est\u00e1 a fingir-se de novas?! Pois eu n\u00e3o sei que<br \/>\nesses homens eram criados do primo da tal senhora? Parece que vossa senhoria<br \/>\ndesconfia de mim, e est\u00e1 a querer guardar um segredo que eu tomara que ningu\u00e9m<br \/>\nsoubesse, para que meu pai e o senhor Sim\u00e3o n\u00e3o tenha alguns trabalhos maiores&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o, Mariana; eu n\u00e3o devia esconder de si o mau encontro<br \/>\nque tivemos.<\/p>\n<p>&#8211; E Deus queira que seja o \u00faltimo!&#8230; Tanto tenho pedido ao<br \/>\nSenhor dos Passos que lhe d\u00ea rem\u00e9dio a essa paix\u00e3o!&#8230; O pior futuro \u00e9 o que<br \/>\nainda est\u00e1 por passar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra logo<br \/>\nque esteja bom, e a menina da cidade fica em sua casa.<\/p>\n<p>&#8211; Se assim for, j\u00e1 prometi dois arr\u00e1teis de cera ao Senhor<br \/>\ndos Passos; mas n\u00e3o me diz o cora\u00e7\u00e3o que vossa senhoria fa\u00e7a o que diz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito agradecido lhe estou pelo bem que me deseja &#8211; disse<br \/>\nSim\u00e3o, comovido. &#8211; N\u00e3o sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.<\/p>\n<p>&#8211; Basta ver o que o seu paizinho fez pelo meu &#8211; disse ela,<br \/>\nlimpando as l\u00e1grimas. &#8211; O que seria de mim, se ele me faltasse, e se fosse<br \/>\n\u00e0 forca como toda a gente dizia!&#8230; Eu era ainda muito nova quando ele estava<br \/>\nna enxovia. Teria treze anos; mas estava resolvida a atirar-me ao po\u00e7o, se<br \/>\nele fosse condenado \u00e0 morte. Se o degredassem, ent\u00e3o ia com ele; ia morrer<br \/>\nonde ele fosse morrer. N\u00e3o h\u00e1 dia nenhum que eu n\u00e3o pe\u00e7a a Deus que d\u00ea a seu<br \/>\npai tantos prazeres como estrelas tem o c\u00e9u. Fui de prop\u00f3sito \u00e0 cidade para<br \/>\nbeijar os p\u00e9s \u00e0 sua m\u00e3ezinha, e vi suas manas, e uma, que era a mais nova,<br \/>\ndeu-me uma sa\u00eda de lap\u00edm, que eu ainda ali tenho guardada como uma rel\u00edquia.<br \/>\nDepois, cada vez que ia \u00e0 feira, dava uma grande volta para ver se acertava<br \/>\nde encontrar a senhora D. Ritinha \u00e0 janela; e muitas vezes vi o senhor Sim\u00e3o.<br \/>\nE talvez n\u00e3o saiba que eu estava a beber na fonte quando vossa senhoria, h\u00e1<br \/>\ndois para tr\u00eas anos<sub>8 <\/sub>deu muita pancada nos criados, que era mesmo<br \/>\num rebuli\u00e7o que parecia o fim do mundo. Eu vim contar ao pai. e ele caiu ao<br \/>\nch\u00e3o a dar risadas como um doido&#8230; Depois nunca mais o vi sen\u00e3o quando vossa<br \/>\nsenhoria entrou com o tio de Coimbra; mas j\u00e1 sabia que vinha para esta desgra\u00e7a.<br \/>\nporque tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar<br \/>\nporque via uma pessoa muito minha amiga a cair numa cova muito funda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso s\u00e3o sonhos, Mariana!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o sonhos, s\u00e3o; mas eu nunca sonhei nada que n\u00e3o acontecesse.<br \/>\nQuando o meu pai matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro<br \/>\nnoutro homem; antes de minha m\u00e3e morrer, acordei eu a chorar por ela, e mais<br \/>\nainda viveu dois meses&#8230; A gente da cidade ri-se dos sonhos, mas Deus sabe<br \/>\no que isto \u00e9&#8230; A\u00ed vem meu pai&#8230; Senhor dos Passos! N\u00e3o v\u00e1 ser alguma m\u00e1<br \/>\nnova!&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz entrou com uma carta que recebera da pobre do<br \/>\ncostume. Enquanto Sim\u00e3o leu a carta escrita do convento, Mariana fitou os<br \/>\nseus grandes olhos azuis no rosto do acad\u00eamico, e, a cada contra\u00e7\u00e3o da fronte<br \/>\ndele, angustiavase-lhe a ela o cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o teve m\u00e3o da sua \u00e2nsia, e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; E noticia m\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Tu \u00e9s muito atrevida, rapariga! &#8211; disse Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9, n\u00e3o &#8211; atalhou o estudante. &#8211; N\u00e3o \u00e9 m\u00e1 noticia, Mariana,<br \/>\nSenhor Jo\u00e3o. deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgra\u00e7ados \u00e9 que<br \/>\nsabem avaliar os amigos.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 verdade; mas eu n\u00e3o me atrevia a perguntar o que<br \/>\na carta diz.<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu perguntei, meu pai; foi porque me pareceu que o senhor<br \/>\nSim\u00e3o estava aflito quando lia.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o se enganou &#8211; tornou o doente, voltando-se para o ferrador.<br \/>\n&#8211; O pai arrastou Teresa ao convento.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre \u00e9 patife duma vez! &#8211; disse o ferrador, fazendo com<br \/>\nos bra\u00e7os instintivamente um movimento de quem aperta \u00e0s m\u00e3os um pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Neste, lance, um observador pesp\u00edcaz veria luzir nos olhos<br \/>\nde Mariana um clar\u00e3o de inocente alegria.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Mariana<br \/>\nespontaneamente lhe chegou, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Enquanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que est\u00e1 a ferver.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;E necess\u00e1rio arrancar-te da\u00ed &#8211; dizia a carta de Sim\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Esse convento h\u00e1 de ter uma evasiva. Procura-a, e dize-me a noite e a<br \/>\nhora em que devo esperar-te. Se n\u00e3o puderes fugir, essas portas h\u00e3o de abrir-se<br \/>\ndiante da minha c\u00f3lera. Se da\u00ed te mandarem para outro convento mais longe,<br \/>\navisa-me, que eu irei, sozinho ou acompanhado, roubar-te ao caminho. \u00c9 indispens\u00e1vel<br \/>\nque te refa\u00e7as de \u00e2nimo para te n\u00e3o assustarem os arrojos da minha paix\u00e3o.<br \/>\n\u00c9s minha! N\u00e3o sei de que me serve a vida, se a n\u00e3o sacrificar a salvar-te.<br \/>\nCreio em ti, Teresa, creio. Ser-me-\u00e1s fiel na vida e na morte. N\u00e3o sofras<br \/>\ncom paci\u00eancia; luta com hero\u00edsmo. A submiss\u00e3o \u00e9 uma ignom\u00ednia quando o poder<br \/>\npaternal \u00e9 uma afronta. Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quase<br \/>\nbom. Dize-me uma palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue<br \/>\nn\u00e3o diminui as for\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Sim\u00e3o pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o<br \/>\nao ferrador, e recomendou-lhe que o entregasse \u00e0 pobre com a carta.<\/p>\n<p>Depois ficou relendo a de Teresa, e recordando-se da resposta<br \/>\nque dera.<\/p>\n<p>Mestre Jo\u00e3o foi \u00e0 cozinha, e disse a Mariana:<\/p>\n<p>&#8211; Desconfio de uma coisa, rapariga.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9, meu pai?<\/p>\n<p>&#8211; O nosso doente est\u00e1 sem dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Porqu\u00ea? O pai como sabe isso?<\/p>\n<p>&#8211; E que ele pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ela<br \/>\npesava tanto como uma bexiga de porco cheia de vento.<\/p>\n<p>Isto bole-me c\u00e1 por dentro! Queria oferecer-lhe dinheiro e<br \/>\nn\u00e3o sei como h\u00e1 de ser&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu pensarei nisso, meu pai &#8211; disse Mariana. refletindo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim; cogita l\u00e1 tu, que tens melhores id\u00e9ias que eu.<\/p>\n<p>&#8211; E, se o pai n\u00e3o quiser bulir nos seus quatrocentos, eu tenho<br \/>\naquele dinheiro dos meus bezerros: s\u00e3o onze moedas de ouro menos um quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Pois falaremos: pensa tu no modo de ele aceitar sem <i>remorsos.<\/i><\/p>\n<p>Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre Jo\u00e3o, era<br \/>\nsin\u00f4mico de <i>escr\u00fapulos, <\/i>ou <i>repugn\u00e2ncia.<\/i><\/p>\n<p>Foi Mariana levar o caldo a Sim\u00e3o, que lho rejeitou como distra\u00eddo<br \/>\nem profundo cismar.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o toma o caldinho? &#8211; disse ela com tristeza.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso, n\u00e3o tenho vontade, menina; ser\u00e1 logo. Deixe-me<br \/>\nsozinho algum tempo; v\u00e1, v\u00e1; n\u00e3o passe o seu tempo ao p\u00e9 dum doente aborrecido.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me quer aqui? Irei, e voltarei quando vossa senhoria<br \/>\nchamar.<\/p>\n<p>Dissera isto Mariana com os olhos a verterem l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o notou as l\u00e1grimas, e pensou um momento na dedica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda mo\u00e7a; mas n\u00e3o lhe disse palavra alguma.<\/p>\n<p>E ficou pensando na sua espinhosa situa\u00e7\u00e3o. Deviam de ocorrer-lhe<br \/>\nid\u00e9ias aflitivas que os romancistas raras vezes atribuem aos seus her\u00f3is.<br \/>\nNos romances todas as crises se explicam, menos a crise ign\u00f3bil da falta de<br \/>\ndinheiro. Entendem os novelistas que a mat\u00e9ria \u00e9 baixa e pleb\u00e9ia. O estilo<br \/>\nvai de m\u00e1 vontade para coisas rasas. Balzac fala muito em dinheiro; mas dinheiro<br \/>\na milh\u00f5es. N\u00e3o conhe\u00e7o, nos cinq\u00fcenta livros que tenho dele, um gal\u00e3 num entre<br \/>\nato da sua trag\u00e9dia a cismar no modo de arranjar uma quantia com que um usur\u00e1rio<br \/>\nlhe lan\u00e7a, desde a casa do juiz de paz a todas as esquinas, donde o assaltam<br \/>\no capital e o juro de oitenta por cento. Dist<sub>0 <\/sub>\u00e9 que os mestres<br \/>\nem romances se escapam sempre. Bem sabem eles que o interesse do leitor se<br \/>\ngela a passo igual que o her\u00f3i se encolhe nas propor\u00e7\u00f5es destes heroizinhos<br \/>\nde botequim, de quem o leitor dinheiroso foge por instinto, e o outro foge<br \/>\ntamb\u00e9m, porque n\u00e3o tem que fazer com ele. A coisa \u00e9 vilmente pros\u00e1ica, de<br \/>\ntodo o meu cora\u00e7\u00e3o o confesso. N\u00e3o \u00e9 bonito deixar a gente vulgarizar-se o<br \/>\nseu her\u00f3i a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que escreveu<br \/>\n\u00e0 mulher estremecida uma carta como aquela de Sim\u00e3o Botelho. Quem a lesse,<br \/>\ndiria que o rapaz tinha postadas, em diferentes esta\u00e7\u00f5es das estradas do pa\u00eds,<br \/>\ncarro\u00e7as e folgadas parelhas de mulas para transportarem a Paris, a Veneza,<br \/>\nou ao Jap\u00e3o a bela fugitiva! A estradas, naquele tempo, deviam ser boas para<br \/>\nisso, mas n\u00e3o tenho a certeza de que houvesse estradas para o Jap\u00e3o. Agora<br \/>\ncreio que h\u00e1, porque me dizem que h\u00e1 tudo.<\/p>\n<p>Pois eu j\u00e1 lhes fiz saber, leitores, pela boca de mestre Jo\u00e3o,<br \/>\nque o filho do corregedor n\u00e3o tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em dinheiro<br \/>\nque ele cismava, quando Mariana lhe trouxe o caldo rejeitado.<\/p>\n<p>A meu ver, deviam atribul\u00e1-lo estes pensamentos:<\/p>\n<p>Como pagaria a hospitalidade de Jo\u00e3o da Cruz?<\/p>\n<p>Com que agradeceria os desvelos de Mariana?<\/p>\n<p>Se Teresa fugisse, com que recurso proveria \u00e0 subsist\u00eancia<br \/>\nde ambos?<\/p>\n<p>Ora, Sim\u00e3o Botelho sa\u00edra de Coimbra com a sua mesada, que<br \/>\nn\u00e3o era grande, e quase lha absorvera o aluguel da cavalgadura, e a gorjeta<br \/>\ngenerosa que dera ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante ferrador.<\/p>\n<p>As rel\u00edquias desse dinheiro dera-as ele \u00e0 portadora da carta<br \/>\nnaquele dia. M\u00e1 situa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Lembrou-se de escrever \u00e0 m\u00e3e. Que lhe diria ele? Como explicaria<br \/>\na sua resid\u00eancia naquela casa? Deste modo n\u00e3o iria ele dar ind\u00edcios da morte<br \/>\nmisteriosa dos dois criados de Baltasar Coutinho?<\/p>\n<p>Al\u00e9m de que, sobejamente sabia ele que sua m\u00e3e o n\u00e3o amava;<br \/>\ne, a mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria o escassamente necess\u00e1rio<br \/>\npara a jornada at\u00e9 Coimbra. P\u00e9ssima situa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Cansado de pensar, favoreceu-o a provid\u00eancia dos infelizes<br \/>\ncom um sono profundo,<\/p>\n<p>E Mariana entrara p\u00e9 ante p\u00e9 na sala, e, ouvindo-lhe a respira\u00e7\u00e3o<br \/>\nalta, aventurou-se a entrar na alcova. Lan\u00e7ou-lhe um len\u00e7o de cassa sobre<br \/>\no rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira sobre<br \/>\numa banqueta que adornava o quarto, pegou nela, e saiu p\u00e9 ante p\u00e9. Abriu a<br \/>\ncarteira, viu pap\u00e9is, que n\u00e3o soube ler, e num dos repartimentos duas moedas<br \/>\nde seis vint\u00e9is. Foi restituir a carteira ao seu lugar, e tomou de um cabide<br \/>\nas cal\u00e7as, colete e jaqueta \u00e0 espanhola, do h\u00f3spede. Examinou os bolsos e<br \/>\nn\u00e3o encontrou um ceitil.<\/p>\n<p>Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve<br \/>\nmeia hora assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se<br \/>\nde golpe, conversou longo tempo com o pai. Jo\u00e3o da Cruz escutou-a, contrariou-a,<br \/>\nmas ia de vencida sempre pelas r\u00e9plicas da filha, at\u00e9 que, a final, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Farei o que dizes, Mariana. D\u00e1-me c\u00e1 o teu dinheiro, que<br \/>\nn\u00e3o vou agora levantar a pedra da lareira para bulir no caixote dos quatrocentos<br \/>\nmil r\u00e9is. Tanto faz um como outro: teu \u00e9 ele todo.<\/p>\n<p>Mariana deu-se pressa em ir \u00e0 arca, donde tirou uma bolsa<br \/>\nde linho com dinheiro em prata, e alguns cord\u00f5es, an\u00e9is e arrecadas. Guardou<br \/>\no seu oiro numa boceta, e deu a bolsa ao pai.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz aparelhou a \u00e9gua. e saiu. Mariana foi para a<br \/>\nsala do doente.<\/p>\n<p>Acordou Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabe!? &#8211; exclamou ela com semblante entre alegre e assustado,<br \/>\nperfeitamente contrafeito.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9, Mariana?<\/p>\n<p>&#8211; Sua m\u00e3ezinha sabe que vossa senhoria aqui est\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe?! Isso \u00e9 imposs\u00edvel! Quem lho disse?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei; o que sei \u00e9 que ela mandou chamar meu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Isso espanta-me!&#8230; E n\u00e3o me escreveu?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor!&#8230; Agora me lembro que talvez ela soubesse<br \/>\nque o senhor aqui esteve, e cuide que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1, e por isso lhe n\u00e3o escreveu&#8230;<br \/>\nPoder\u00e1 ser?<\/p>\n<p>&#8211; Poder\u00e1&#8230; Mas quem lho diria!? Se isto se sabe, ent\u00e3o podem<br \/>\nsuspeitar da morte dos homens.<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser que n\u00e3o; e ainda que desconfiem, n\u00e3o h\u00e1 testemunhas.<br \/>\nO pai disse que n\u00e3o tinha medo nenhum. O que for soar\u00e1. N\u00e3o esteja a cismar<br \/>\nnisso&#8230; Vou-lhe buscar o caldinho, sim?<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, se quer, Mariana. O c\u00e9u deparou-me em si a amizade duma<br \/>\nirm\u00e3.<\/p>\n<p>N\u00e3<sub>0 <\/sub>achou a mo\u00e7a na sua alegre alma palavras em<br \/>\nresposta \u00e0 do\u00e7ura que o rosto do mancebo exprimia.<\/p>\n<p>Veio com o &#8220;caldinho&#8221; &#8211; diminuitivo que a ret\u00f3rica<br \/>\nduma linguagem meiga sanciona; mas contra o qual protestava a larga e funda<br \/>\nmalga branca, ao lado da travessa com meia galinha loura, de gorda.<\/p>\n<p>&#8211; Tanta coisa! &#8211; exclamou, sorrindo, Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Coma o que puder &#8211; disse ela corando. &#8211; Eu bem sei que os<br \/>\nsenhores da cidade n\u00e3o comem em malgas tamanhas, mas eu n\u00e3o tinha outra mais<br \/>\npequena; e coma sem nojo, que esta malga nunca serviu, que a fui eu comprar<br \/>\n\u00e0 loja, por pensar que vossa senhoria n\u00e3o quisera ontem comer por se atrigar<br \/>\nda outra.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, Mariana, n\u00e3o seja injusta, eu n\u00e3o tinha, nem tenho<br \/>\nvontade.<\/p>\n<p>&#8211; Mas coma por eu lhe pedir&#8230; Perdoe o meu atrevimento&#8230;<br \/>\nFa\u00e7a de conta que \u00e9 uma sua irm\u00e3 que lhe pede. Ainda agora me disse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que o c\u00e9u me dava em si a amizade duma irm\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois a\u00ed est\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Sim\u00e3o achou t\u00e3o necess\u00e1rio \u00e0 sua conserva\u00e7\u00e3o o sacrif\u00edcio,<br \/>\ncomo ao contentamento da carinhosa Mariana. Passou-lhe na mente, sem sombra<br \/>\nde vaidade, a conjetura de que era amado daquela doce criatura. Entre si dizia<br \/>\nque seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal afei\u00e7\u00e3o quando n\u00e3o tinha<br \/>\nalma para lha premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem longe de se afligir,<br \/>\nlisonjeavam-no os desvelos da gentil mo\u00e7a. Ningu\u00e9m sente em si o peso do amor<br \/>\nque se inspira e n\u00e3o comparte. Nas m\u00e1ximas afli\u00e7\u00f5es, nas derradeiras horas<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o e da vida, \u00e9 grato ainda sentir-se amado quem j\u00e1 n\u00e3o pode achar<br \/>\nno amor divers\u00e3o das penas, nem soldar o \u00faltimo fio que se est\u00e1 partindo.<br \/>\nOrgulho ou insaciabilidade do cora\u00e7\u00e3o humano, seja o que for, no amor que<br \/>\nnos d\u00e3o n\u00f3s graduamos o que valemos em nossa consci\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o desprazia, portanto, o amor de Mariana ao amante apaixonado<br \/>\nde Teresa. Isto ser\u00e1 culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se<br \/>\nme deixam ter opini\u00e3o, a culpa de Sim\u00e3o Botelho est\u00e1 na fraca natureza, que<br \/>\n\u00e9 toda galas no c\u00e9u, no mar e na terra, e toda incoer\u00eancias, absurdas e v\u00edcios<br \/>\nno homem, que se aclamou a si pr\u00f3prio rei da cria\u00e7\u00e3o, e nesta boa f\u00e9 din\u00e1st\u00edca<br \/>\nvai vivendo e morrendo.<\/p>\n<p>Duas horas se detivera Jo\u00e3o da Cruz fora de casa. Chegou quando<br \/>\na curiosidade do estudante era j\u00e1 sofrimento.<\/p>\n<p>&#8211; Estar\u00e1 seu pai preso?! &#8211; disse ele a Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o mo diz o cora\u00e7\u00e3o, e o meu cora\u00e7\u00e3o nunca me engana &#8211;<br \/>\nrespondera ela.<\/p>\n<p>E Sim\u00e3o replicara:<\/p>\n<p>&#8211; E que lhe diz o cora\u00e7\u00e3o a meu respeito, Mariana? Os meus<br \/>\ntrabalhos ficar\u00e3o aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Vou-lhe dizer a verdade, senhor Sim\u00e3o&#8230; mas n\u00e3o digo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diga que lho pe\u00e7o, porque tenho f\u00e9 no bom anjo que fala<br \/>\nem sua alma. Diga&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim&#8230; O meu cora\u00e7\u00e3o diz-me que os seus trabalhos ainda<br \/>\nest\u00e3o no come\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Sim\u00e3o ouviu-a atentamente e n\u00e3o respondeu. Assombrou-lhe o<br \/>\n\u00e2nimo esta id\u00e9ia torva, e afrontosa \u00e0 singela rapariga: &#8211; &#8220;Pensar\u00e1 ela<br \/>\nem me desviar de Teresa, para se fazer amar?&#8221;<\/p>\n<p>Pensava assim quando chegou o ferrador.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui estou de volta &#8211; disse ele com semblante festivo. &#8211;<br \/>\nSua m\u00e3e mandou-me chamar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei&#8230; E como soube ela que eu estava aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Ela sabia que o fidalgo estivera c\u00e1: mas cuidava que vossa<br \/>\nsenhoria j\u00e1 tinha ido para Coimbra. Quem lho disse n\u00e3o sei, nem perguntei;<br \/>\nporque a uma pessoa de respeito n\u00e3o se fazem perguntas. Dizia ela que sabia<br \/>\no fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa; mas eu,<br \/>\nc\u00e1 como pude, acomodei-a e n\u00e3o h\u00e1 novidade. Perguntou-me o que estava o menino<br \/>\nfazendo aqui depois que a fidalguinha fora para o convento. Disse-lhe que<br \/>\nvossa senhoria estava adoentado de uma queda que dera do cavalo abaixo. Tornou<br \/>\nela a perguntar-me se o senhor tinha dinheiro; e eu disse que n\u00e3o sabia. E,<br \/>\nvai ela, foi dentro, e voltou dai a pouco com este embrulho, para eu lhe entregar.<br \/>\nA\u00ed o tem tal e qual; n\u00e3o sei quanto \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o me escreveu?<\/p>\n<p>&#8211; Disse que n\u00e3o podia ir \u00e0 escrivaninha, porque estava l\u00e1<br \/>\no senhor corregedor &#8211; respondeu com firmeza mestre Jo\u00e3o &#8211; e tamb\u00e9m me recomendou<br \/>\nque n\u00e3o lhe escrevesse vossa senhoria sen\u00e3o de Coimbra, porque, se seu pai<br \/>\nsoubesse que o menino c\u00e1 estava, ia tudo raso l\u00e1 em casa. Ora ai est\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o lhe falou nos criados de Baltasar?<\/p>\n<p>&#8211; Nem um pio!&#8230; L\u00e1 na cidade ningu\u00e9m j\u00e1 falava nisso hoje.<\/p>\n<p>&#8211; E que lhe disse da senhora D. Teresa?<\/p>\n<p>&#8211; Nada, sen\u00e3o que ela fora para o convento. Agora deixe-me<br \/>\nir amantar a \u00e9gua, que est\u00e1 a escorrer em fio. \u00d3 rapariga, traze-me c\u00e1 a manta.<\/p>\n<p>Enquanto Sim\u00e3o contava onze moedas menos um quartinho, maravilhando<br \/>\nda estranha liberalidade, Mariana, abra\u00e7ando o pai no repartimento vizinho<br \/>\nda casa, exclamava:<\/p>\n<p>&#8211; Arranjou muito bem a mentira!<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 rapariga, quem mentiu foste tu! Aquilo l\u00e1 o arranjaste<br \/>\ntu com essa tua cabecinha! Mas a coisa saiu ao pintar, hein? Ele comeu-a que<br \/>\nnem confeitos! Anda l\u00e1, que ficaste sem os bezerros, mas l\u00e1 vir\u00e1 tempo em<br \/>\nque ele te d\u00ea bois a troco de bezerros.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o fiz isto por interesse, meu pai&#8230; &#8211; atalhou ela,<br \/>\nressentida.<\/p>\n<p>&#8211; Olha o milagre! isso sei eu: mas, como diz l\u00e1 o ditado;<br \/>\nquem semeia, colhe.<\/p>\n<p>Mariana quedou pensativa, e dizendo entre si: &#8211; Ainda bem<br \/>\nque ele n\u00e3o pode pensar de mim o que meu pai pensa. Deus sabe que n\u00e3o tenho<br \/>\nesperan\u00e7as nenhumas interesseiras no que fiz.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o chamou o ferrador, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Meu caro Jo\u00e3o, se eu n\u00e3o tivesse dinheiro, aceitava sem<br \/>\nrepugn\u00e2ncia os seus favores, e creio que vossemec\u00ea mos faria sem esperan\u00e7a<br \/>\nde ganhar com eles; mas, como recebi esta quantia, h\u00e1-de consentir que lhe<br \/>\nd\u00ea parte dela para os meus alimentos. Motivos de gratid\u00e3o a dividas que se<br \/>\nn\u00e3o pagam. ainda me ficam muitos para nunca me esquecer de si e da sua boa<br \/>\nfilha. Tome este dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; As contas fazem-se no fim &#8211; respondeu o ferrador, retirando<br \/>\na m\u00e3o &#8211; e ningu\u00e9m nos h\u00e1 de ouvir, se Deus quiser. Precisando eu de dinheiro,<br \/>\nc\u00e1 venh9. Por ora, ainda est\u00e1 a capoeira cheia de galinhas, e o p\u00e3o coze-se<br \/>\ntodas as semanas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas aceite &#8211; instou Sim\u00e3o &#8211; e d\u00ea-lhe a aplica\u00e7\u00e3o que quiser.<\/p>\n<p>&#8211; Em minha casa ningu\u00e9m d\u00e1 leis sen\u00e3o eu &#8211; replicou mestre<br \/>\nJo\u00e3o, com simulado enfadamento. &#8211; Guarde l\u00e1 o seu dinheiro, fidalgo, e n\u00e3o<br \/>\nfalemos mais nisso, se quer que o neg\u00f3cio v\u00e1 direito at\u00e9 ao fim. <i>E victo-s\u00e9rio!<\/i><\/p>\n<p>Nos cinco subsequentes dias recebeu Sim\u00e3o regularmente cartas<br \/>\nde Teresa, umas resignadas e confortadoras, outras escritas na viol\u00eancia exasperada<br \/>\nda saudade. Em uma dizia:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Meu pai deve saber que est\u00e1s a\u00ed, e, enquanto a\u00ed estiveres,<br \/>\ndecerto me n\u00e3o tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra, e deix\u00e1ssemos<br \/>\nesquecer a meu pai os \u00faltimos acontecimentos. Sen\u00e3o, meu querido esposo,<br \/>\nnem ele me d\u00e1 liberdade, nem eu sei como hei de fugir deste inferno. N\u00e3o<br \/>\nfazes id\u00e9ia do que \u00e9 um convento! Se eu pudesse fazer do meu cora\u00e7\u00e3o sacrif\u00edcio<br \/>\na Deus, teria de procurar uma atmosfera menos viciosa que esta. Creio que<br \/>\nem toda a parte se pode orar e ser virtuosa, menos neste convento&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Noutra carta exprimia-se assim:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;N\u00e3o me desampares, Sim\u00e3o; n\u00e3o v\u00e1s para Coimbra. Eu<br \/>\nreceio que meu pai me queira mudar deste convento para outro mais rigoroso.<br \/>\nUma freira me disse que eu n\u00e3o ficava aqui; outra positivamente me afirmou<br \/>\nque o pai diligencia a minha ida para um mosteiro do Porto. Sobretudo, o<br \/>\nque me aterra, mas n\u00e3o me dobra, \u00e9 saber eu que o intento do pai \u00e9 fazer-me<br \/>\nprofessar. Por mais que imagine viol\u00eancias e tiranias, nenhuma vejo capaz<br \/>\nde me arrancar os votos. Eu n\u00e3o posso professar sem ser novi\u00e7a um ano, e<br \/>\nir a perguntar tr\u00eas vezes; hei de responder sempre que n\u00e3o. Se eu pudesse<br \/>\nfugir daqui!&#8230; Ontem fui \u00e0 cerca, e vi l\u00e1 uma porta de carro que d\u00e1 para<br \/>\no caminho. Soube que algumas vezes aquela porta se abre para entrarem carros<br \/>\nde lenha; mas infelizmente n\u00e3o se torna a abrir at\u00e9 ao principio do inverno.<br \/>\nSe n\u00e3o puder antes, meu Sim\u00e3o, fugirei nesse tempo&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Tiveram, entretanto, bom e pronto \u00eaxito as dilig\u00eancias de<br \/>\nTadeu de Albuquerque. A prelada de Monchique, religiosa de sumas virtudes,<br \/>\ncuidando que a filha de seu primo muito de sua devo\u00e7\u00e3o e amor a Deus se recolhia<br \/>\nao mosteiro, preparou-lhe casa, e congratulou-se com a sobrinha de t\u00e3o piedosa<br \/>\nresolu\u00e7\u00e3o. A carta congratulat\u00f3ria n\u00e3o a recebeu Teresa, porque viera \u00e0 m\u00e3o<br \/>\nde seu pai. Continha ela reflex\u00f5es tendentes a desvanec\u00ea-la do prop\u00f3sito,<br \/>\nse algum desgosto passageiro a impedia \u00e0 imprud\u00eancia de procurar um ref\u00fagio<br \/>\nonde as paix\u00f5es se exacerbavam mais.<\/p>\n<p>Tomadas todas as precau\u00e7\u00f5es, Tadeu de Albuquerque fez avisar<br \/>\nsua filha de que sua tia de Monchique a queria ter em sua companhia algum<br \/>\ntempo, e que a jornada se faria na madrugada do dia seguinte.<\/p>\n<p>Teresa, quando recebeu a surpreendente nova, j\u00e1 tinha enviado<br \/>\na carta daquele dia a Sim\u00e3o. Em sua aflitiva perplexidade, resolveu fazer-se<br \/>\ndoente, e t\u00e3o febril estava das como\u00e7\u00f5es, que dispensava o artif\u00edcio. O velho<br \/>\nn\u00e3o queria transigir com a doen\u00e7a; mas o m\u00e9dico do mosteiro reagiu contra<br \/>\na desumanidade do pai e da prioresa, interessada na viol\u00eancia. Quis Teresa<br \/>\nnessa noite escrever a Sim\u00e3o; mas a criada da prelada, obedecendo \u00e0s suspeitas<br \/>\nda ama, n\u00e3o desamparou a cabeceira do leito da enferma. Era causa a esta espionagem<br \/>\nter dito a escriv\u00e3, numa hora de m\u00e1 digest\u00e3o daquele certo vinho estomacal,<br \/>\nque Teresa passava as noites em ora\u00e7\u00e3o mental, e tinha correspond\u00eancia com<br \/>\num anjo do c\u00e9u por interven\u00e7\u00e3o duma mendiga. Algumas religiosas tinham visto<br \/>\na mendiga no p\u00e1tio do convento esperando a esmola de Teresa; mas cuidaram<br \/>\nque era aquela pobre uma devo\u00e7\u00e3o da menina. As palavras ir\u00f4nicas da escriv\u00e3<br \/>\nforam comentadas, e a mendiga recebeu ordem de sair da portaria. Teresa, num<br \/>\n\u00edmpeto de ang\u00fastia, quando tal soube, correu a uma janela, e chamou a pobre,<br \/>\nque se retirava assustada, e lan\u00e7ou-lhe ao p\u00e1tio um bilhete com estas palavras:<br \/>\n&#8220;\u00c9 imposs\u00edvel a nossa correspond\u00eancia. Vou ser tirada daqui para outro<br \/>\nconvento. Espera em Coimbra not\u00edcias minhas&#8221;. Isto foi rapidamente ao<br \/>\nconhecimento da prioresa, e, logo, \u00e0s ordens dela, partiu o hortel\u00e3o no encal\u00e7o<br \/>\nda pobre. O hortel\u00e3o seguiu-a at\u00e9 fora da porta, espancou-a, tirou-lhe o bilhete,<br \/>\ne foi do convento apresent\u00e1-lo a Tadeu de Albuquerque, A mendiga n\u00e3o retrocedeu;<br \/>\ncaminhou a casa do ferrador, e contou a Sim\u00e3o o acontecido.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o lan\u00e7ou-se fora do leito e chamou Jo\u00e3o da Cruz. Naquele<br \/>\naperto queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem que lhe<br \/>\nestendesse m\u00e3o capaz de apertar o cabo dum punhal. O ferrador ouviu a hist\u00f3ria<br \/>\ne deu o seu voto: &#8220;esperar at\u00e9 ver&#8221;. Sim\u00e3o repeliu a prudencial<br \/>\nfrieza do confidente, e disse que partia para Viseu imediatamente.<\/p>\n<p>Mariana estava ali; ouvira a confid\u00eancia, e achara acertada<br \/>\na opini\u00e3o de seu pai. Vedando, por\u00e9m, a impaci\u00eancia do h\u00f3spede, pediu licen\u00e7a<br \/>\npara falar onde n\u00e3o era chamada, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Se o senhor Sim\u00e3o quer, eu vou \u00e0 cidade e procuro no convento<br \/>\na Brito, que \u00e9 uma rapariga minha conhecida, mo\u00e7a duma freira, e dou-lhe uma<br \/>\ncarta sua para entregar \u00e0 fidalga.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 poss\u00edvel, Mariana? &#8211; exclamou Sim\u00e3o, a ponto de abra\u00e7ar<br \/>\na mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o! &#8211; disse o ferrador &#8211; o que pode fazer-se, faz-se.<br \/>\nVai-te vestir, rapariga, que eu vou botar o albard\u00e3o \u00e0 \u00e9gua.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o sentou-se a escrever. T\u00e3o embaralhadas lhe acudiam as<br \/>\nid\u00e9ias, que n\u00e3o atinava a formar o des\u00edgnio mais proveitoso \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de<br \/>\nambos. Ao cabo de longa vacila\u00e7\u00e3o, disse a Teresa que fugisse, \u00e0 hora do dia,<br \/>\nquando a porta estivesse aberta ou violentasse a porteira a abrir-lha. Dizia-lhe<br \/>\nque marcasse ela a hora do dia seguinte em que ele a devia esperar com cavalgaduras<br \/>\npara a fuga. Em recurso extremo, prometia assaltar com homens armados o mosteiro,<br \/>\nou incendi\u00e1-lo para se abrirem as portas. Este programa era o mais parecido<br \/>\ncom o esp\u00edrito do acad\u00eamico. Em vivo fogo ardia aquela pobre cabe\u00e7a! Fechada<br \/>\na carta, come\u00e7ou a passear em torcicolos, como se obedecesse a desencontrados<br \/>\nimpulsos. Encravara as unhas na cabe\u00e7a, e arrancava os cabelos. Investia como<br \/>\ncego contra as paredes, e sentava-se um momento para erguer-se de mais furioso<br \/>\n\u00edmpeto. Maquinalmente aferrava das pistolas, e sacudia os bra\u00e7os vertiginosos.<br \/>\nAbria a carta para rel\u00ea-la, e estava a ponto de rasg\u00e1-la, cuidando que iria<br \/>\ntarde, ou n\u00e3o lhe chegaria \u00e0s m\u00e3os. Neste conflito de contr\u00e1rios projetos,<br \/>\nentrou Mariana, e muito alucinado devia de estar Sim\u00e3o para lhe n\u00e3o ver as<br \/>\nl\u00e1grimas.<\/p>\n<p>O que tu sofrias, nobre cora\u00e7\u00e3o de mulher pura! Se o que fazes<br \/>\npor esse mo\u00e7o \u00e9 gratid\u00e3o ao homem que salvou a vida de teu pai, que rara virtude<br \/>\na tua! Se o amas, se por lhe dar al\u00edvio \u00e0s dores tu mesma lhe desempeces o<br \/>\ncaminho por onde te ele h\u00e1 de fugir para sempre, que nome darei ao teu hero\u00edsmo!<br \/>\nQue anjo te fadou o cora\u00e7\u00e3o para a santidade desse obscuro mart\u00edrio?!<\/p>\n<p>&#8211; Estou pronta, disse Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tem a carta, minha boa amiga. Fa\u00e7a muito por n\u00e3o vir<br \/>\nsem resposta &#8211; disse Sim\u00e3o, dando-lhe com a carta um embrulho de dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; E o dinheiro tamb\u00e9m \u00e9 para a senhora? &#8211; disse ela.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, \u00e9 para si, Mariana: compre um anel.<\/p>\n<p>Mariana tomou a carta, e voltou rapidamente as costas para<br \/>\nque Sim\u00e3o n\u00e3o lhe visse o gesto de despeito sen\u00e3o desprezo.<\/p>\n<p>O acad\u00eamico n\u00e3o ousou insistir, vendo-a apressar-se na descida<br \/>\npara o quinteiro, onde o ferrador enfreava a \u00e9gua.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lhe chegues muito com a vara &#8211; disse Jo\u00e3o da Cruz a<br \/>\nMariana, que, de um pulo, se assentou no albard\u00e3o, coberto de uma colcha escarlate.<br \/>\n&#8211; Tu vais amarela como cidra, mo\u00e7a! &#8211; exclamou ele reparando na palidez da<br \/>\nfilha &#8211; Tu. que tens?<\/p>\n<p>&#8211; Nada; que hei de eu ter?! d\u00ea-me c\u00e1 a vara, meu pai.<\/p>\n<p>A \u00e9gua partiu a galope, e o ferrador, no meio da estrada,<br \/>\na rever-se na filha e na \u00e9gua, dizia em solil\u00f3quio, que Sim\u00e3o ouvira:<\/p>\n<p>&#8211; Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas tem Viseu!<br \/>\nPela mais pintada n\u00e3o dava eu a minha \u00e9gua; e, se c\u00e1 viesse o Miramolim de<br \/>\nMarrocas pedir-me a filha, os diabos me levem se eu lha dava! Isto \u00e9 que s\u00e3o<br \/>\nmulheres, e o mais \u00e9 uma hist\u00f3ria!<\/p>\n<h4><strong><a name=\"9\"><\/a>CAP\u00cdTULO IX<\/strong><\/h4>\n<p>Apeou Mariana defronte do mosteiro, e foi \u00e0 portaria chamar<br \/>\na sua amiga Brito.<\/p>\n<p>&#8211; Que boa mo\u00e7a! &#8211; disse o padre capel\u00e3o, que estava no raro<br \/>\nlateral da porta, praticando com a prioresa, acerca da salva\u00e7\u00e3o das almas,<br \/>\ne de umas coretas de vinho do Pinh\u00e3o que ele recebera naquele dia, e do qual<br \/>\nj\u00e1 tinha engarrafado um almude para tonizar o est\u00f4mago da prelada.<\/p>\n<p>&#8211; Que boa mo\u00e7a! &#8211; tornou ele, com um olho nela e outro no<br \/>\nraro, onde a ciumosa prioresa se estava remordendo.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe l\u00e1 a mo\u00e7a, e diga quando h\u00e1 de ir a servente buscar<br \/>\no vinho.<\/p>\n<p>&#8211; Quando quiser, senhora prioresa. Mas repare bem nos olhos,<br \/>\nno feitio, naquele todo da rapariga!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois repare o senhor padre Jo\u00e3o &#8211; replicou a freira &#8211; que<br \/>\neu tenho mais que fazer.<\/p>\n<p>E retirou-se com o cora\u00e7\u00e3o mal-ferido, e o queixo superior<br \/>\nescorrendo l\u00e1grimas&#8230; de simonte,<\/p>\n<p>&#8211; Donde \u00e9 vossemec\u00ea? &#8211; disse brandamente o padre capel\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sou da aldeia &#8211; respondeu Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; Isso vejo eu&#8230; Mas de que aldeia \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me confesso agora.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o faria mal se se confessasse a mim, menina, que sou<br \/>\npadre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem vejo.<\/p>\n<p>&#8211; Que mal g\u00eanio tem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isto que v\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; Quem procura c\u00e1 no convento?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 disse l\u00e1 para dentro quem procuro.<\/p>\n<p>&#8211; Mariana, \u00e9s tu?! Anda c\u00e1!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a fez uma cortesia de cabe\u00e7a ao padre capel\u00e3o, e foi<br \/>\nao locut\u00f3rio donde vinha aquela voz.<\/p>\n<p>&#8211; Eu queria falar contigo em particular, Joaquina &#8211; disse<br \/>\nMariana.<\/p>\n<p>&#8211; Eu vou ver se arranjo uma grade: espera a\u00ed.<i>.<\/i><\/p>\n<p>O padre tinha sa\u00eddo do p\u00e1tio, e Mariana, enquanto esperava,<br \/>\nexaminou, uma a uma, as janelas do mosteiro. Numa das janelas, atrav\u00e9s das<br \/>\nreixas de ferro, viu ela uma senhora sem h\u00e1bito.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 aquela? &#8211; perguntou Mariana ao seu cora\u00e7\u00e3o, que palpitava<br \/>\n&#8211; Se eu fosse amada como ela!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sobe aquelas escadinhas, Mariana, e entra na primeira porta<br \/>\ndo corredor, que eu l\u00e1 vou &#8211; disse Joaquina.<\/p>\n<p>Mariana deu alguns passos, olhou novamente para a janela onde<br \/>\nvira a senhora sem h\u00e1bito, e repetiu ainda:<\/p>\n<p>&#8211; Se eu fosse amada como ela!&#8230;<\/p>\n<p>Mal entrou na grade, disse \u00e0 sua amiga:<\/p>\n<p>&#8211; Olha l\u00e1, Joaquina, quem \u00e9 uma menina muito branca, alva<br \/>\ncomo leite, que estava ali agora numa janela?<\/p>\n<p>&#8211; Seria alguma novi\u00e7a, que h\u00e1 duas c\u00e1 muito lindas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ela n\u00e3o tinha vestimenta nenhuma de freira.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! j\u00e1 sei; \u00e9 a D. Teresinha de Albuquerque.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o me enganei &#8211; disse Mariana, pensativa.<\/p>\n<p>&#8211; Pois tu conhece-la?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; mas por amor dela \u00e9 que eu c\u00e1 vim falar contigo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que \u00e9?! Que tens tu com a fidalga?<\/p>\n<p>&#8211; Eu c\u00e1, por mim nada; mas com uma pessoa que lhe quer muito.<\/p>\n<p>&#8211; O filho do corregedor?<\/p>\n<p>&#8211; Esse mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas esse est\u00e1 em Coimbra,<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se est\u00e1, nem se n\u00e3o. Faz-me tu um favor?<\/p>\n<p>&#8211; Se eu puder&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Podes&#8230; Eu queria falar com ela.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 dianho! Isso n\u00e3o sei se poder\u00e1 ser, porque a trazem as<br \/>\nfreiras debaixo de olho, e ela vai-se embora amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Para onde vai?<\/p>\n<p>&#8211; Vai para outro convento, n\u00e3o sei se de Lisboa, se do Porto.<br \/>\nOs ba\u00fas j\u00e1 est\u00e3o preparados, e ela est\u00e1 morta por sair. E tu que lhe queres?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o to posso dizer, porque n\u00e3o sei&#8230; Queria dar-lhe um<br \/>\npapel&#8230; Faze com que ela venha c\u00e1, que eu dou-te chita para um vestido.<\/p>\n<p>&#8211; Como tu est\u00e1s rica, Mariana!&#8230; &#8211; atalhou, rindo, Joaquina.<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o quero a tua chita, rapariga. Se eu puder dizer-lhe que venha, sem<br \/>\nque algu\u00e9m me ou\u00e7a, digo-lho. E agora \u00e9 boa mar\u00e9, porque tocou ao coro&#8230;<br \/>\nDeixa-me ir l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Joaquina saiu-se bem da dif\u00edcil comiss\u00e3o. Teresa estava sozinha,<br \/>\nabsorvida a cismar, com os olhos fitos no ponto onde vira Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; A menina faz favor de vir comigo depressinha? &#8211; disse-lhe<br \/>\na criada.<\/p>\n<p>Seguiu-a Teresa, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir<br \/>\na porta. Se perguntarem por vossa excel\u00eancia, digo-lhe que a menina est\u00e1 no<br \/>\nmirante.<\/p>\n<p>A voz de Mariana tremia, quando D. Teresa lhe perguntou quem<br \/>\nera.<\/p>\n<p>&#8211; Sou uma portadora desta carta para vossa excel\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 de Sim\u00e3o! &#8211; exclamou Teresa.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha senhora.<\/p>\n<p>A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro,<br \/>\ne ningu\u00e9m me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de<br \/>\nMonchique, do Porto. Que se n\u00e3o aflija, porque eu sou sempre a mesma. Que<br \/>\nn\u00e3o venha c\u00e1, porque isso seria in\u00fatil, e muito perigoso. Que v\u00e1 ver-me ao<br \/>\nPorto, que hei de arranjar modo de lhe falar. Diga-lhe isto, sim?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha senhora.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se esque\u00e7a, n\u00e3o? Vir c\u00e1, por modo nenhum. \u00c9 imposs\u00edvel<br \/>\nfugir, e vou muito acompanhada. Vai o primo Baltasar e as minhas primas, e<br \/>\nmeu pai e n\u00e3o sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho<br \/>\n\u00e9 uma locura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?<\/p>\n<p>Joaquina disse fora da porta:<\/p>\n<p>&#8211; Menina, olhe que a prioresa anda l\u00e1 por dentro a procur\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, adeus &#8211; disse Teresa, sobressaltada. &#8211; Tome l\u00e1 esta<br \/>\nlembran\u00e7a como prova de minha gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>E tirou do dedo um anel de ouro, que ofereceu a Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o aceito minha senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o aceita?<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o fiz algum favor a vossa excel\u00eancia. A receber<br \/>\nalguma paga h\u00e1 de ser de quem c\u00e1 me mandou. Fique com Deus, minha senhora,<br \/>\ne oxal\u00e1 que seja feliz.<\/p>\n<p>Saiu Teresa, e Joaquina entrou na grade.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 te vais embora, Mariana?<\/p>\n<p>&#8211; Vou, que \u00e9 pressa; um dia virei conversar contigo muito.<br \/>\nAdeus, Joaquina.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o me contas o que isto \u00e9? O amor da fidalga est\u00e1<br \/>\nperto daqui? Conta, que eu n\u00e3o digo nada, rapariga!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquina?<\/p>\n<p>Mariana, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado<br \/>\nda fidalga; e, se alguma vez se distraia deste exerc\u00edcio de mem\u00f3ria, era para<br \/>\npensar nas fei\u00e7\u00f5es da amada do seu h\u00f3spede, e dizer, como em segredo, ao seu<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o: &#8220;N\u00e3o lhe bastava ser fidalga e rica: \u00e9, al\u00e9m de tudo, linda<br \/>\ncomo nunca vi outra!&#8221; E o cora\u00e7\u00e3o da pobre mo\u00e7a, avergando ao que a consci\u00eancia<br \/>\nlhe ia dizendo, chorava.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava<br \/>\nao longo do caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura.<\/p>\n<p>Ao descobrir Mariana, desceu ao quinteiro, desprezando cautelas<br \/>\ne esquecido j\u00e1 do ferimento, cuja crise de perigo piorara naquele dia, que<br \/>\nera o oitavo depois do tiro.<\/p>\n<p>A filha do ferrador deu o recado, e sem altera\u00e7\u00e3o de palavra.<br \/>\nSim\u00e3o escutara-a placidamente at\u00e9 ao ponto em que lhe ela disse que o primo<br \/>\nBaltasar a acompanhava ao Porto.<\/p>\n<p>&#8211; O primo Baltasar!&#8230; &#8211; murmurou ele com um sorriso sinistro<br \/>\n&#8211; Sempre este primo Baltasar cavando a sua sepultura e a minha!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A sua, fidalgo! &#8211; exclamou Jo\u00e3o da Cruz. &#8211; Morra ele, que<br \/>\no levem trinta milh\u00f5es de diabos! Mas vossa senhoria h\u00e1 de viver enquanto<br \/>\neu for Jo\u00e3o. Deixe-a ir para o Porto, que n\u00e3o tem perigo no convento. De hora<br \/>\na hora Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, est\u00e1 por l\u00e1 algum tempo,<br \/>\ne \u00e0s duas por tr\u00eas, quando o velho mal se precatar, a fidalguinha engrampa-o,<br \/>\ne \u00e9 sua t\u00e3o certo como esta luz que nos alumia.<\/p>\n<p>&#8211; Eu hei de v\u00ea-la antes de partir para Coimbra &#8211; disse Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que ela recomendou-me muito que n\u00e3o fosse l\u00e1 &#8211; acudiu<br \/>\nMariana.<\/p>\n<p>&#8211; Por causa do primo? &#8211; tornou o acad\u00eamico ironicamente.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que sim, e por talvez n\u00e3o servir de nada l\u00e1 ir vossa<br \/>\nsenhoria &#8211; respondeu timidamente a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1, se quer, &#8211; brandou mestre Jo\u00e3o &#8211; a mulher, vai-se-lhe<br \/>\ntirar ao caminho. N\u00e3o tem mais que dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai, n\u00e3o meta este senhor em maiores trabalhos? &#8211; disse<br \/>\nMariana.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem d\u00favida menina &#8211; atalhou Sim\u00e3o &#8211; eu \u00e9 que n\u00e3o quero<br \/>\nmeter ningu\u00e9m em trabalhos. Com a minha desgra\u00e7a, por maior que ela seja,<br \/>\nhei de eu lutar sozinho.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz, assumiu uma gravidade de que a sua figura raras<br \/>\nvezes se enobrecia, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Sim\u00e3o, vossa senhoria n\u00e3o sabe nada do mundo. N\u00e3o<br \/>\nmeta sozinho a cabe\u00e7a aos trabalhos, que eles, como o outro que diz, quando<br \/>\npegam de ensarrilhar um homem, n\u00e3o lhe deixam tomar f\u00f4lego. Eu sou um r\u00fastico;<br \/>\nmas, a bem dizer, estou naquela daquele que dizia que o mal dos seus burrinhos<br \/>\no fizera alveitar. Paix\u00f5es&#8230; que as leve o diabo, e mais quem com elas engorda.<br \/>\nPor causa de uma mulher, ainda que ela seja filha do rei, n\u00e3o se h\u00e1 de um<br \/>\nhomem botar a perder. Mulheres h\u00e1 tantas como a praga, e s\u00e3o como as r\u00e3s do<br \/>\ncharco, que mergulha uma, e aparecem quatro \u00e0 tona da \u00e1gua. Um homem rico<br \/>\ne fidalgo como vossa senhoria, onde quer topa uma com um palmo de cara como<br \/>\nse quer e um dote de encher o olho. Deixe-a ir com Deus ou com a breca, que<br \/>\nela, se tiver de ser sua, n\u00e3o lhe h\u00e1 de vir dar, tanto andar para tr\u00e1s como<br \/>\npara diante: \u00e9 ditado dos antigos. Olhe que isto n\u00e3o \u00e9 medo, fidalgo. Tome<br \/>\nsentido, que Jo\u00e3o da Cruz sabe o que \u00e9 p\u00f4r dois homens duma feita a olhar<br \/>\no sete-estrelo, mas n\u00e3o sabe o que \u00e9 medo. Se o senhor quer sair \u00e0 estrada<br \/>\ne tirar a tal pessoa ao pai, ao primo, e a um regimento, se for necess\u00e1rio,<br \/>\neu vou montar na \u00e9gua, e daqui a tr\u00eas horas estou de volta com quatro homens,<br \/>\nque s\u00e3o quatro drag\u00f5es.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o fitara os olhos chamejantes no do ferrador, e Mariana<br \/>\nexclamara, ajuntando as m\u00e3os sobre o seio:<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai, n\u00e3o lhe d\u00ea esses conselhos!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te a\u00ed, rapariga! &#8211; disse mestre Jo\u00e3o. &#8211; Vai tirar o<br \/>\nalbard\u00e3o \u00e0 \u00e9gua, amanta-a, e bota-lhe seco. N\u00e3o \u00e9s aqui chamada.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o v\u00e1 aflita, senhora &#8211; disse Sim\u00e3o \u00e0 mo\u00e7a, que se retirava,<br \/>\namargurada. &#8211; Eu n\u00e3o aproveito alguns dos conselhos de seu pai. Ou\u00e7o-o com<br \/>\nboa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o que a honra<br \/>\ne o cora\u00e7\u00e3o me aconselharem.<\/p>\n<p>Ao anoitecer, Sim\u00e3o, como estivesse sozinho, escreveu uma<br \/>\nlonga carta, da qual extratamos os seguintes per\u00edodos:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Considero-te perdida, Teresa. O Sol de amanh\u00e3 pode<br \/>\nser que eu o n\u00e3o veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. Parece<br \/>\nque o frio da minha sepultura me est\u00e1 passando o sangue e os ossos.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paix\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o se conforma com a desgra\u00e7a. Eras a minha vida: tinha a certeza de que<br \/>\nas contrariedades me n\u00e3o privavam de ti, S\u00f3 o receio de perder-te me mata.<br \/>\nO que me resta do passado \u00e9 a coragem de ir buscar uma morte digna de mim<br \/>\ne de ti. Se tens for\u00e7a para uma agonia lenta, eu n\u00e3o posso com ela.<\/p>\n<p>Poderia viver com a paix\u00e3o infeliz; mas este rancor sem<br \/>\nvingan\u00e7a \u00e9 um inferno. N\u00e3o hei de dar barata a vida, n\u00e3o. Ficar\u00e1s sem mim,<br \/>\nTeresa; mas n\u00e3o haver\u00e1 ai um infame que te persiga depois da minha morte.<br \/>\nTenho ci\u00fames de todas as tuas horas. H\u00e1s de pensar com muita saudade no<br \/>\nteu esp\u00f4oo do c\u00e9u, e nunca tirar\u00e1s de mim os olhos da tua alma para veres<br \/>\nao p\u00e9 de ti o miser\u00e1vel que nos matou a realidade de tantas esperan\u00e7as formosas.<\/p>\n<p>Tu ver\u00e1s esta carta quando eu j\u00e1 estiver num outro mundo,<br \/>\nesperando as ora\u00e7\u00f5es das tuas l\u00e1grimas. As ora\u00e7\u00f5es! Admiro-me desta faisca<br \/>\nde f\u00e9 que me alumia nas minhas trevas.!&#8230; Tu deras-me com o amor a religi\u00e3o,<br \/>\nTeresa. Ainda creio; n\u00e3o se apaga a luz, que \u00e9 tua; mas a provid\u00eancia divina<br \/>\ndesamparou-me.<\/p>\n<p>Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a<br \/>\ntua lealdade a uma sombra, a raz\u00e3o por que me atra\u00edste a um abismo. Escutar\u00e1s<br \/>\ncom gl\u00f3ria a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.<\/p>\n<p>A hora em que leres esta carta&#8230;&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o o deixaram continuar as l\u00e1grimas, nem depois a presen\u00e7a<br \/>\nde Mariana. Vinha ela p\u00f4r a mesa para a ceia, e, quando desdobrava a toalha,<br \/>\ndisse em voz abafada, como se a si mesma somente o dissesse:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a \u00faltima vez que ponho a mesa ao senhor Sim\u00e3o em minha<br \/>\ncasa!<\/p>\n<p>&#8211; Por que diz isso, Mariana?<\/p>\n<p>&#8211; Por que mo diz o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desta vez, o acad\u00eamico ponderou supersticiosamente os ditames<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a, e com o sil\u00eancio meditativo deu-lhe a ela a evid\u00eancia<br \/>\nantecipada do vatic\u00ednio.<\/p>\n<p>Quando voltou com a travessa da galinha, vinha chorando a<br \/>\nfilha de Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p>&#8211; Chora com pena de mim, Mariana? &#8211; disse Sim\u00e3o, enternecido.<\/p>\n<p>&#8211; Choro, porque me parece que o n\u00e3o tornarei a ver; ou, se<br \/>\no vir, ser\u00e1 de modo que oxal\u00e1 que eu morresse antes de o ver.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o ser\u00e1, talvez, assim, minha amiga&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vossa senhoria n\u00e3o me faz uma coisa que eu lhe pe\u00e7o?<\/p>\n<p>&#8211; Veremos o que pede, menina.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o saia esta noite, nem amanh\u00e3,<\/p>\n<p>&#8211; Pede o imposs\u00edvel, Mariana. Hei de sair, porque me mataria<br \/>\nse n\u00e3o sa\u00edsse.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o perdoe a minha ousadia. Deus o tenha da sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>A rapariga foi contar ao pai as inten\u00e7\u00f5es do acad\u00eamico. Acudiu<br \/>\nlogo mestre Jo\u00e3o combatendo a id\u00e9ia da sa\u00edda, com encarecer os perigos do<br \/>\nferimento. Depois, como n\u00e3o conseguisse dissuadi-lo, resolveu acompanh\u00e1-lo.<br \/>\nSim\u00e3o agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com decis\u00e3o. O ferrador n\u00e3o cedia<br \/>\ndo prop\u00f3sito, e estava j\u00e1 preparando a clavina, e arra\u00e7oando com medida dobrada<br \/>\na \u00e9gua &#8211; para o que desse e viesse &#8211; dizia ele, quando o estudante lhe disse<br \/>\nque, melhor avisado, resolvera n\u00e3o ir a Viseu, e seguir Teresa ao Porto, passados<br \/>\nos dias de convalescen\u00e7a. Facilmente o acreditou Jo\u00e3o da Cruz; mas Mariana,<br \/>\nsubmissa sempre ao que o seu cora\u00e7\u00e3o lhe bacorejava, duvidou da mudan\u00e7a, e<br \/>\ndisse ao pai que vigiasse o fidalgo.<\/p>\n<p>As onze horas da noite, ergueu-se o acad\u00eamico, e escutou o<br \/>\nmovimento interior da casa: n\u00e3o ouviu o mais ligeiro ru\u00eddo, a n\u00e3o ser o rangido<br \/>\nda \u00e9gua na manjedoura. Escorvou de p\u00f3lvora nova as duas pistolas. Escreveu<br \/>\num bilhete sobrescritado a Jo\u00e3o da Cruz, e ajuntou-o \u00e0 carta que escrevera<br \/>\na Teresa. Abriu as portas da janela do seu quarto, e passou dali para a varanda<br \/>\nde pau, da qual o salto \u00e0 estrada era sem risco. Saltou, e tinha dado alguns<br \/>\npassos, quando a fresta, lateral \u00e0 porta da varanda, se abriu, e a voz de<br \/>\nMariana lhe disse:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o adeus, senhor Sim\u00e3o. Eu fico pedindo a Nossa Senhora<br \/>\nque v\u00e1 na sua companhia.<\/p>\n<p>O acad\u00eamico parou, e ouviu a voz intima que lhe dizia: &#8211; &#8220;O<br \/>\nteu anjo da guarda fala pela boca daquela mulher, que n\u00e3o tem mais intelig\u00eancia<br \/>\nque a do cora\u00e7\u00e3o alumiado pelo seu amor.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; D\u00ea um abra\u00e7o em seu pai. Mariana &#8211; disse-lhe Sim\u00e3o &#8211; e adeus&#8230;<br \/>\nat\u00e9 logo, ou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 ao ju\u00edzo final&#8230; &#8211; atalhou ela.<\/p>\n<p>&#8211; O destino h\u00e1 de cumprir-se&#8230; Seja o que o c\u00e9u quiser.<\/p>\n<p>Tinha Sim\u00e3o desaparecido nas trevas, quando Mariana acendeu<br \/>\na l\u00e2mpada do santu\u00e1rio, e ajoelhou orando com o fervor das l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Era uma hora, e estava Sim\u00e3o defronte do convento, contemplando<br \/>\numa a uma as janelas. Em nenhuma vira da clar\u00e3o de luz; s\u00f3 a do lampad\u00e1rio<br \/>\ndo Sacramento se coava ba\u00e7a e p\u00e1lida na vidra\u00e7a duma fresta do templo. Sentou-se<br \/>\nnas escaleiras da igreja, e ouviu ali, im\u00f3vel as quatro horas. Das mil vis\u00f5es<br \/>\nque lhe relancearam no atribulado esp\u00edrito, a que mais a mi\u00fado se repetia<br \/>\nera a de Mariana suplicante, com as m\u00e3os postas; mas, ao mesmo tempo, cria<br \/>\nele ouvir os gemidos de Teresa, torturada pela saudade, pedindo ao c\u00e9u que<br \/>\na salvasse das m\u00e3os de seus algozes. O vulto de Ta deu de Albuquerque, arrastando<br \/>\na filha a um convento, n\u00e3o lhe afogueava a sede da vingan\u00e7a; mas cada vez<br \/>\nque lhe acudia \u00e0 mente a imagem odiosa de Baltasar Coutinho instin tivamente<br \/>\nas m\u00e3os do acad\u00eamico se asseguravam da posse das pistolas.<\/p>\n<p>As quatro horas e um quarto, acordou a natureza toda em hinos<br \/>\ne aclama\u00e7\u00f5es ao raiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do mosteiro<br \/>\nmelodias interrompidas pelo toque solene das Ave-Marias na torre. O horizonte<br \/>\npassara de escarlate a alvacento. A p\u00farpura da aurora, como labareda enorme,<br \/>\ndesfizera-se em part\u00edculas de luz, que ondeavam no declive das montanhas,<br \/>\ne se distendiam nas plan\u00edcies e nas v\u00e1rzeas, como se o anjo do Senhor, \u00e0 voz<br \/>\nde Deus, viesse desenrolando aos olhos da criatura as maravilhas do repontar<br \/>\ndum dia festivo.<\/p>\n<p>E nenhuma destas galas do c\u00e9u e da terra enlevara os olhos<br \/>\ndo mo\u00e7o poeta.!<\/p>\n<p>As quatro horas e meia, ouviu Sim\u00e3o o tinido de liteiras,<br \/>\ndirigindo-se \u00e0quele ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira<br \/>\nao convento.<\/p>\n<p>Pararam as liteiras vazias na portaria, e logo depois chegaram<br \/>\ntr\u00eas senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irm\u00e3s de Baltasar, acompanhadas<br \/>\nde dois mochilas com as mulas \u00e0 r\u00e9dia. As damas foram sentar-se nos bancos<br \/>\nde pedra, laterais \u00e0 portaria. Em seguida abriu-se a grossa porta, rangendo<br \/>\nnos gonzos, e as tr\u00eas senhoras entraram.<\/p>\n<p>Momentos depois, viu Sim\u00e3o chegar \u00e0 portaria Tadeu de Albuquerque,<br \/>\nencostado ao bra\u00e7o de Baltasar Coutinho. O velho denotava quebranto e desfalecimento<br \/>\na espa\u00e7os. O de Castro-d&#8217;A\u00edre, bem composto de figura e caprichosamente vestido<br \/>\n\u00e0 castelhana, gesticulava com o aprumo de quem d\u00e1 as suas irrefut\u00e1veis raz\u00f5es,<br \/>\ne consola tomando a riso a dor alheia.<\/p>\n<p>&#8211; Nada de lam\u00farias, meu tio! &#8211; dizia ele. &#8211; Desgra\u00e7a seria<br \/>\nv\u00ea-la casada! Eu prometo-lhe antes de um ano restituir-lhe curada. Um ano<br \/>\nde convento \u00e9 um \u00f3timo vomit\u00f3rio do cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nada como isso para limpar<br \/>\no sarro do v\u00edcio em cora\u00e7\u00f5es de meninas criadas \u00e0 discri\u00e7\u00e3o. Se meu tio a<br \/>\nobrigasse, desde menina, a uma obedi\u00eancia cega, t\u00ea-la-ia agora submissa, e<br \/>\nela n\u00e3o se julgaria autorizada a escolher marido.<\/p>\n<p>&#8211; Era uma filha \u00fanica, Baltasar! &#8211; dizia o velho solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>&#8211; Pois por isso mesmo &#8211; replicou o sobrinho. &#8211; Se tivesse<br \/>\noutra, ser-lhe-ia menos sens\u00edvel a perda, e menos funesta a desobedi\u00eancia.<br \/>\nFaria a sua casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licen\u00e7a<br \/>\nr\u00e9gia para deserdar a primog\u00eanita. Assim, agora, n\u00e3o lhe vejo outro rem\u00e9dio<br \/>\nsen\u00e3o empregar o caut\u00e9rio \u00e0 chaga; com emplastros \u00e9 que se n\u00e3o faz nada.<\/p>\n<p>Abriu-se novamente a portaria. e sa\u00edram as tr\u00eas senhoras,<br \/>\ne ap\u00f3s elas Teresa.<\/p>\n<p>Tadeu enxugou as l\u00e1grimas, e deu alguns passos a saudar a<br \/>\nfilha, que n\u00e3o ergueu do ch\u00e3o os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Teresa&#8230; &#8211; disse o velho.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui estou, senhor &#8211; respondeu a filha, sem o encarar.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda \u00e9 tempo &#8211; tornou Albuquerque.<\/p>\n<p>&#8211; Tempo de qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Tempo de seres boa filha.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me acusa a consci\u00eancia de o n\u00e3o ser.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda mais?!&#8230; Queres ir para tua casa, e esquecer o maldito<br \/>\nque nos faz a todos desgra\u00e7ados?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu pai. O meu destino \u00e9 o convento. Esquec\u00ea-lo nem<br \/>\npor morte. Serei filha desobediente, mas mentirosa \u00e9 que nunca.<\/p>\n<p>Teresa, circunvagando os olhos, viu Baltasar, e estremeceu,<br \/>\nexclamando:<\/p>\n<p>&#8211; Nem aqui!<\/p>\n<p>&#8211; Fala comigo, prima Teresa? &#8211; disse Baltasar, risonho.<\/p>\n<p>&#8211; Consigo falo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presen\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia.<br \/>\nDois tinha eu h\u00e1 dias, dignos de acompanharem a minha prima, mas esses houve<br \/>\na\u00ed um assassino que mos matou. A falta deles, sou eu que me ofere\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Dispenso-o da delicadeza &#8211; atalhou Teresa, com veem\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Eu \u00e9 que me n\u00e3o dispenso de a servir, \u00e0 falta dos meus dois<br \/>\nfi\u00e9is criados, que um celerado me matou.<\/p>\n<p>&#8211; Assim devia ser &#8211; tornou ela tamb\u00e9m ir\u00f4nica -porque os cobardes<br \/>\nescondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda se n\u00e3o fizeram as contas finais&#8230;, minha querida<br \/>\nprima &#8211; redarg\u00fciu o morgado.<\/p>\n<p>Este di\u00e1logo correu rapidamente, enquanto Tadeu de Albuquerque<br \/>\ncortejava a prioresa e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas de<br \/>\nBaltasar, tinham sa\u00eddo do \u00e1trio do convento, e deram de rosto em Sim\u00e3o Botelho,<br \/>\nencostado \u00e0 esquina da rua fronteira.<\/p>\n<p>Teresa viu-o&#8230; adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Sim\u00e3o!<\/p>\n<p>O filho do corregedor n\u00e3o se moveu.<\/p>\n<p>Baltasar, espavorido do encontro, fitando os olhos nele, duvidava<br \/>\nainda.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 incr\u00edvel que este infame aqui viesse! &#8211; exclamou o de<br \/>\nCastro-d&#8217;Aire.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o deu alguns passos, e disse placidamente:<\/p>\n<p>&#8211; <i>In[ame&#8230; <\/i>eu! e por que?<\/p>\n<p>&#8211; Infame, e infame assassino! &#8211; replicou Baltasar. &#8211; J\u00e1 fora<br \/>\nda minha presen\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 parvo este homem! &#8211; disse o acad\u00eamico. &#8211; Eu n\u00e3o discuto<br \/>\ncom sua senhoria&#8230; Minha senhora &#8211; disse ele a Teresa, com a voz comovida<br \/>\ne o semblante alterado unicamente pelos afetos do cora\u00e7\u00e3o. &#8211; Sofra com resigna\u00e7\u00e3o,<br \/>\nda qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldi\u00e7oar a viol\u00eancia,<br \/>\ne bem pode ser que a meio caminho do seu calv\u00e1rio a miseric\u00f3rdia divina lhe<br \/>\nredobre as for\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Que diz este patife?! &#8211; exclamou Tadeu.<\/p>\n<p>&#8211; Vem aqui insult\u00e1-lo, meu tio! &#8211; respondeu Baltasar, &#8211; Tem<br \/>\na petul\u00e2ncia de se apresentar a sua filha a confort\u00e1-la na sua malvadez! Isto<br \/>\n\u00e9 de mais! Olhe que eu esmago-o aqui, <i>seu <\/i>vil\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Vil\u00e3o \u00e9 o desgra\u00e7ado que me amea\u00e7a, sem ousar avan\u00e7ar para<br \/>\nmim um passo &#8211; redarg\u00fciu o filho do corregedor.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o o tenho feito &#8211; exclamou enfurecidamente Baltasar<br \/>\n&#8211; por entender que me avilto, castigando-o na presen\u00e7a de criados de meu tio,<br \/>\nque tu podes supor meus defensores, canalha!<\/p>\n<p>&#8211; Se assim \u00e9 &#8211; tornou Sim\u00e3o, sorrindo &#8211; espero nunca me encontrar<br \/>\nde rosto com sua senhoria. Reputo-o t\u00e3o cobarde, t\u00e3o sem dignidade, que o<br \/>\nhei de mandar azorragar pelo primeiro mariola das esquinas.<\/p>\n<p>Baltasar Coutinho lan\u00e7ou-se de \u00edmpeto a Sim\u00e3o. Chegou a apertar-lhe<br \/>\na garganta nas m\u00e3os; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as damas<br \/>\nchegaram a interpor-se entre os dois, Baltasar tinha o alto do cr\u00e2nio aberto<br \/>\npor uma bala, que lhe entrara na fronte. Vacilou um segundo, e caiu desamparado<br \/>\naos p\u00e9s de Teresa.<\/p>\n<p>Tadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros<br \/>\ne criados rodearam Sim\u00e3o, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola.<br \/>\nAnimados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lan\u00e7ar-se ao homicida,<br \/>\ncom risco de vida, quando um homem, com um len\u00e7o pela cara, correu da rua<br \/>\nfronteira, e se colocou, de bacamarte aperrado, \u00e0 beira de Sim\u00e3o. Estacaram<br \/>\nos homens.<\/p>\n<p>&#8211; Fuja, que a \u00e9gua est\u00e1 ao cabo da rua &#8211; disse o ferrador<br \/>\nao seu h\u00f3spede.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fujo&#8230; Salve-se, e depressa &#8211; respondeu Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Fuja, que se ajunta o povo e n\u00e3o tardam a\u00ed soldados.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 lhe disse que n\u00e3o fujo &#8211; replicou o amante de Teresa,<br \/>\ncom os olhos postos nela, que ca\u00edra desfalecida sobre as escadas da igreja.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 perdido! &#8211; tornou Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 o estava. V\u00e1-se embora, meu amigo, por sua filha lho<br \/>\nrogo. Olhe que pode ser-me \u00fatil; fuja&#8230;<\/p>\n<p>Abriram-se todas as portas e janelas, quando o ferrador se<br \/>\nlan\u00e7ou na fuga. at\u00e9 cavalgar a \u00e9gua.<\/p>\n<p>Um dos vizinhos do mosteiro, que, em raz\u00e3o do seu of\u00edcio,<br \/>\nprimeiro saiu \u00e0 rua, era o meirinho geral.<\/p>\n<p>&#8211; Prendam-no, prendam-no, que \u00e9 um matador! &#8211; exclamava Tadeu<br \/>\nde Albuquerque.<\/p>\n<p>&#8211; Qual? &#8211; perguntou o meirinho geral.<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu &#8211; respondeu o filho do corregedor.<\/p>\n<p>&#8211; Vossa senhoria! &#8211; disse o meir\u00ednho, espantado; e, aproximando-se,<br \/>\nacrescentou a meia voz: &#8211; Venha, que eu deixo-o fugir.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o fujo &#8211; tornou Sim\u00e3o. &#8211; Estou preso. Aqui tem a minhas<br \/>\narmas.<\/p>\n<p>E entregou as pistolas.<\/p>\n<p>Tadeu de Albuquerque, quando se recobrou do espasmo, fez transportar<br \/>\na filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem ao<br \/>\nPorto.<\/p>\n<p>As irm\u00e3s de Baltasar seguiram o cad\u00e1ver de seu irm\u00e3o para<br \/>\ncasa do tio.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"10\"><\/a>CAP\u00cdTULO X<\/strong><\/h4>\n<p>O corregedor acorda com o grande rebuli\u00e7o que ia na casa,<br \/>\ne perguntou \u00e0 esposa, que ele supunha tamb\u00e9m desperta na c\u00e2mara imediata,<br \/>\nque bulha era aquela. Como ningu\u00e9m lhe respondesse, sacudiu freneticamente<br \/>\na campainha, e ferrou ao mesmo tempo, aterrado pela hip\u00f3tese de inc\u00eandio na<br \/>\ncasa. Quando D. Rita acudiu, j\u00e1 ele estava enfiando os cal\u00e7\u00f5es \u00e0s avessas.<\/p>\n<p>&#8211; Que estrondo \u00e9 este? Quem \u00e9 que grita? &#8211; exclamou Domingos<br \/>\nBotelho.<\/p>\n<p>&#8211; Quem grita mais \u00e9 o senhor &#8211; respondeu D. Rita.<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu?! Mas quem \u00e9 que chora?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o suas filhas.<\/p>\n<p>&#8211; E por qu\u00ea? Diga numa palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, direi: o Sim\u00e3o matou um homem.<\/p>\n<p>&#8211; Em Coimbra?&#8230; E fazem tanta bulha por isso!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o foi em Coimbra, foi em Viseu &#8211; tornou D. Ri-ta.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora manga comigo?! Pois o rapaz est\u00e1 em Coimbra, e<br \/>\nmata em Viseu! A\u00ed est\u00e1 um caso para que as <i>Ordena\u00e7\u00f5es do Reino n\u00e3o <\/i>providenciaram.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que brinca, Menezes! Seu filho matou na madrugada<br \/>\nde hoje Baltasar Coutinho, sobrinho de Tadeu de Albuquerque.<\/p>\n<p>Domingos Botelho mudou inteiramente de aspecto.<\/p>\n<p>&#8211; Foi preso? &#8211; perguntou o corregedor.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 em casa do juiz de fora.<\/p>\n<p>&#8211; Manda-me chamar o meirinho geral. Sabe como foi e por que<br \/>\nfoi essa morte?&#8230; Mande-me chamar o meirinho, sem demora.<\/p>\n<p>&#8211; Por que se n\u00e3o veste o senhor, e vai a casa do juiz?<\/p>\n<p>&#8211; Que vou eu fazer a casa do juiz?<\/p>\n<p>&#8211; Saber de seu filho como isto foi.<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o sou pai; sou corregedor. N\u00e3o me incumbe a mim interrog\u00e1-lo.<br \/>\nSenhora D. Rita, eu n\u00e3o quero ouvir choradeiras; diga \u00e0s meninas que se calem,<br \/>\nou que v\u00e3o chorar no quintal.<\/p>\n<p>O meirinho, chamado, relatou miudamente o que sabia e disse<br \/>\nter-se verificado que o amor \u00e0 filha do Albuquerque fora causa daquele desastre.<\/p>\n<p>Domingos Botelho, ouvia a hist\u00f3ria, disse ao meirinho:<\/p>\n<p>&#8211; O juiz de fora que cumpra as leis; se ele n\u00e3o for rigoroso,<br \/>\neu o obrigarei a s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Ausente o meirinho, disse D. Rita Preciosa ao marido:<\/p>\n<p>&#8211; Que significa esse modo de falar de seu filho?<\/p>\n<p>&#8211; Significa que sou corregedor desta comarca, e que n\u00e3o protejo<br \/>\nassassinos por ci\u00fames, e ci\u00fames da filha dum homem, que eu detesto. Eu antes<br \/>\nqueria ver mil vezes morto Sim\u00e3o que ligado a essa fam\u00edlia. Escrevi-lhe muitas<br \/>\nvezes dizendo-lhe que o expulsava de minha casa, se algu\u00e9m me desse a certeza<br \/>\nde que ele tinha correspond\u00eancia com tal mulher. N\u00e3o h\u00e1 de querer a senhora<br \/>\nque eu v\u00e1 sacrificar a minha integridade a um filho rebelde, e de mais a mais<br \/>\nhomicida.<\/p>\n<p>D. Rita, algum tanto por afeto maternal e bastante por esp\u00edrito<br \/>\nde contradi\u00e7\u00e3o, contendeu largo espa\u00e7o; mas desistiu, obrigada pela ins\u00f3lita<br \/>\npertin\u00e1cia e c\u00f3lera do marido. T\u00e3o iracundo e \u00e1spero em palavras nunca o ela<br \/>\nvira. Quando lhe ele disse: &#8211; &#8220;Senhora, em coisas de pouca monta o seu<br \/>\ndom\u00ednio era toler\u00e1vel; em quest\u00f5es de honra, o seu dom\u00ednio acabou: deixe-me!&#8221;<br \/>\n&#8211; D. Rita, quando tal ouviu, e reparou na fisionomia de Domingos Botelho,<br \/>\nsentiu-se mulher, e retirou-se.<\/p>\n<p>A ponto foi isto de entrar o juiz de fora na sala de espera.<br \/>\nO corregedor foi receb\u00ea-lo, n\u00e3o com o semblante afetuoso de quem vai agradecer<br \/>\na delicadeza e implorar indulg\u00eancia, sen\u00e3o que, de carrancudo que ia, mais<br \/>\nparecera ir ele representar o juiz, por vir naquela visita dar a crer que<br \/>\na balan\u00e7a da justi\u00e7a na sua m\u00e3o tremia algumas vezes.<\/p>\n<p>&#8211; Come\u00e7o por dar a vossa senhoria os p\u00easames da desgra\u00e7a de<br \/>\nseu filho &#8211; disse o juiz de fora.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado a vossa senhoria. Sei tudo. Est\u00e1 instaurado o processo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o podia deixar eu de aceitar a querela.<\/p>\n<p>&#8211; Se a n\u00e3o aceitasse, obrig\u00e1-lo-ia eu ao cumprimento dos seus<br \/>\ndeveres.<\/p>\n<p>&#8211; A situa\u00e7\u00e3o do senhor Sim\u00e3o Botelho \u00e9 p\u00e9ssima. Confessa tudo.<br \/>\nDiz que matou o algoz da mulher que ele amava&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fez muito bem &#8211; interrompeu o corregedor, soltando uma casquinada<br \/>\nseca e rouca.<\/p>\n<p>&#8211; Perguntei-lhe se foi em defesa, e fiz-lhe sinal que respondesse<br \/>\nafirmativamente. Respondeu que n\u00e3o; que, a defender-se, o faria com a ponta<br \/>\nda bota, e n\u00e3o com um tiro. Busquei todos os modos honestos de o levar a dar<br \/>\nalgumas respostas que denotassem alucina\u00e7\u00e3o ou dem\u00eancia; ele, por\u00e9m, respondeu<br \/>\ne replica com tanta igualdade e presen\u00e7a de esp\u00edrito, que \u00e9 imposs\u00edvel supor<br \/>\nque o assass\u00ednio n\u00e3o foi perpetrado muito intencionalmente e de claro ju\u00edzo.<br \/>\nAqui tem vossa senhoria uma especial\u00edssima e triste posi\u00e7\u00e3o. Queria valer-lhe,<br \/>\ne n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>&#8211; E eu n\u00e3o posso nem quero, senhor doutor juiz de fora. Est\u00e1<br \/>\nna cadeia?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o: est\u00e1 em minha casa. Venho saber se vossa senhoria<br \/>\ndetermina que lhe seja preparada com dec\u00eancia a pris\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o determino nada. Fa\u00e7a de conta que o preso Sim\u00e3o n\u00e3o<br \/>\ntem aqui parente algum.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, senhor doutor corregedor &#8211; disse o juiz de fora com<br \/>\ntristeza e compun\u00e7\u00e3o &#8211; vossa senhoria \u00e9 pai.<\/p>\n<p>&#8211; Sou um magistrado.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 demasiada a severidade &#8211; perdoe-me a reflex\u00e3o, que \u00e9 amiga.<br \/>\nL\u00e1 est\u00e1 a lei para o castigar; n\u00e3o o castigue vossa senhoria com o seu \u00f3dio.<br \/>\nA desgra\u00e7a quebranta o rancor de estranhos, quanto mais o afetuoso ressentimento<br \/>\nde um pai!<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o odeio, senhor doutor; desconhe\u00e7o esse homem em que<br \/>\nme fala. Cumpra o seus deveres, que lho ordena o corregedor, e o amigo mais<br \/>\ntarde lhe agradecer\u00e1 a delicadeza.<\/p>\n<p>Saiu o juiz de fora, e foi encontrar Sim\u00e3o na mesma serenidade<br \/>\nem que o deixara.<\/p>\n<p>&#8211; Venho de falar com seu pai &#8211; disse o juiz; encontrei-o mais<br \/>\nirado do que era natural calcular. Penso que por enquanto nada pode esperar<br \/>\nda influ\u00eancia ou patroc\u00ednio dele.<\/p>\n<p>&#8211; Isto que importa? &#8211; respondeu sossegadamente Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Importa muito, senhor Botelho. Se seu pai quisesse haveria<br \/>\nmeios de mais tarde lhe ado\u00e7ar a senten\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Que me importa a mim a senten\u00e7a? &#8211; replicou o filho do corregedor.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo que vejo, n\u00e3o lhe importa ao senhor ir a uma forca?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Que diz, senhor Sim\u00e3o! &#8211; redarg\u00fciu espantado o interrogador.<\/p>\n<p>&#8211; Digo que o meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 indiferente ao destino da minha<br \/>\ncabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; E sabe que seu pai n\u00e3o lhe d\u00e1 mesmo prote\u00e7\u00e3o, a prote\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas primeiras necessidades na cadeia?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia; que tem isso? Que importa morrer de fome, ou<br \/>\nmorrer no pat\u00edbulo?<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o escreve a sua m\u00e3e? Pe\u00e7a-lhe que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que hei de eu pedir a minha m\u00e3e? &#8211; atalhou Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pe\u00e7a-lhe que amacie a c\u00f3lera de seu pai, sen\u00e3o o senhor<br \/>\nBotelho n\u00e3o tem quem o alimente.<\/p>\n<p>&#8211; Vossa senhoria est\u00e1-me julgando um miser\u00e1vel, a quem d\u00e1<br \/>\ncuidado saber onde h\u00e1 de almo\u00e7ar hoje. Penso que n\u00e3o incumbem ao senhor juiz<br \/>\nde fora essas miudezas de est\u00f4mago.<\/p>\n<p>&#8211; De certo n\u00e3o &#8211; redarg\u00fciu, irritado, o juiz &#8211; Fa\u00e7a o que<br \/>\nquiser.<\/p>\n<p>E, chamando o meirinho geral, entregou-lhe o r\u00e9u, dispensando<br \/>\no aguazil de pedir for\u00e7a para acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O carceireiro recebeu respeitosamente o preso, e alojou-o<br \/>\nnum dos quartos melhores do c\u00e1rcere; mas nu e desprovido do m\u00ednimo conforto.<\/p>\n<p>Um outro preso emprestou-lhe uma cadeira de pau. Sim\u00e3o sentou-se,<br \/>\ncruzou os bra\u00e7os e meditou.<\/p>\n<p>Pouco depois, um criado de seu pai conduziu-lhe o almo\u00e7o,<br \/>\ndizendo-lhe que sua m\u00e3e lho mandava a ocultas, e entregando-lhe uma carta<br \/>\ndela, cujo conte\u00fado importa saber. Sim\u00e3o, antes de tocar no almo\u00e7o, cujo cabaz<br \/>\nestava no pavimento, leu o seguinte:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Desgra\u00e7ado, que est\u00e1s perdido!<br \/>\nEu n\u00e3o te posso valer, porque teu pai est\u00e1 inexor\u00e1vel: As escondidas dele<br \/>\n\u00e9 que te mando o almo\u00e7o, e n\u00e3o sei se poderei mandar-te o jantar!<br \/>\nQue destino o teu! Oxal\u00e1 que tivesses morrido ao nascer!<br \/>\nMorto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino n\u00e3o quis largar<br \/>\na vitima.<br \/>\nPara que saiste de Coimbra? A que vieste, infeliz? Agora sei que tens vivido<br \/>\nfora de Coimbra h\u00e1 quinze dias, e nunca tiveste uma palavra que dissesses<br \/>\na tua m\u00e3e!. .&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Sim\u00e3o suspendeu a leitura, e disse entre si:<\/p>\n<p>&#8211; Como se entende isto?! Pois minha m\u00e3e n\u00e3o mandou chamar<br \/>\no Jo\u00e3o da Cruz! E n\u00e3o foi e]a quem me mandou o dinheiro?<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que o almo\u00e7o arrefece, menino! &#8211; disse o criado.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o continuou a ler, sem ouvir o criado:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Deves estar sem dinheiro, e eu desgra\u00e7adamente n\u00e3o<br \/>\nposso hoje enviar-te um pinto. Teu irm\u00e3o Manuel, desde que fugiu para Espanha,<br \/>\nabsorve-me todas as economias &#8211; Veremos, passado algum tempo, o que posso<br \/>\nfazer; mas receio bem que teu pai saia de Viseu, e nos leve para Vila-Real,<br \/>\npara abandonar de todo o teu julgamento \u00e0 severidade das leis.<br \/>\nMeu pobre Sim\u00e3o! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo \u00e9 que<br \/>\nteu pai teve carta dum lente, participando-lhe a tua falta nas aulas, e<br \/>\nsa\u00edda para o Porto, segundo dizia o arreeiro que te acompanhou.<br \/>\nN\u00e3o posso mais. Teu pai j\u00e1 espancou a Ritinha, por ela querer ir \u00e0 cadeia.<br \/>\nConta com o pouco valor da tua pobre m\u00e3e e ao p\u00e9 dum homem enfurecido como<br \/>\nest\u00e1 teu pai&#8221; &#8211;<\/p><\/blockquote>\n<p>Sim\u00e3o Botelho refletiu alguns minutos, e convenceu-se de que<br \/>\no dinheiro recebido era de Jo\u00e3o da Cruz. Quando saiu com o esp\u00edrito desta<br \/>\nmedita\u00e7\u00e3o, tinha os olhos marejados de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o chore, menino &#8211; disse o criado. &#8211; Os trabalhos s\u00e3o para<br \/>\nos homens, e Deus h\u00e1 de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Leva o almo\u00e7o &#8211; disse ele.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o quer almo\u00e7ar?!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Nem voltes aqui. Eu n\u00e3o tenho fam\u00edlia. N\u00e3o quero absolutamente<br \/>\nnada da casa de meus pais. Diz a minha m\u00e3e que eu estou sossegado, bem alojado,<br \/>\ne feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora j\u00e1.<\/p>\n<p>O criado saiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo<br \/>\nestava doido. D. Rita achou prov\u00e1vel a suspeita do servo, e viu a evid\u00eancia<br \/>\nda locura nas palavras do filho.<\/p>\n<p>Quando o carcereiro voltou ao quarto de Sim\u00e3o, entrou acompanhado<br \/>\nde uma rapariga camponesa: era Mariana. A filha de Jo\u00e3o da Cruz, que at\u00e9 \u00e0quele<br \/>\nmomento n\u00e3o apertava sequer a m\u00e3o do h\u00f3spede. correu a ele com os bra\u00e7os abertos<br \/>\ne o rosto banhado de l\u00e1grimas. O carcereiro retirou-se, dizendo consigo: &#8211;<br \/>\n&#8220;Esta \u00e9 bem mais bonita que a fidalga!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero ver l\u00e1grimas, Mariana &#8211; disse Sim\u00e3o. &#8211; Aqui, se<br \/>\nalgu\u00e9m deve chorar, sou eu; mas l\u00e1grimas dignas de mim, l\u00e1grimas de gratid\u00e3o<br \/>\naos favores que tenho recebido de si e de seu pai. Acabo de saber que minha<br \/>\nm\u00e3e nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pai aquele dinheiro que recebi.<\/p>\n<p>Mariana escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto.<\/p>\n<p>&#8211; Seu pai teve algum perigo? &#8211; tornou Sim\u00e3o em voz percept\u00edvel<br \/>\ndela.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 em casa?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1, e parece furioso. Queria vir aqui, mas eu n\u00e3o o deixei.<\/p>\n<p>&#8211; Perseguiu-o algu\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Diga-lhe que n\u00e3o se assuste, e v\u00e1 depressa sosseg\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o posso ir sem fazer o que ele me disse. Eu vou sair,<br \/>\ne volto daqui a pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Mande-me comprar uma banca, uma cadeira, e um tinteiro e<br \/>\npapel &#8211; disse Sim\u00e3o, dando-lhe dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de vir logo tudo; j\u00e1 c\u00e1 podia estar; mas o pai disse-me<br \/>\nque n\u00e3o comprasse nada sem saber se sua fam\u00edlia lhe mandava o necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o tenho fam\u00edlia, Mariana. Tome o dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o recebo dinheiro, sem licen\u00e7a de meu pai. Para essas<br \/>\ncompras trouxe eu demais. E a sua ferida como estar\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda agora me lembro que tenho uma ferida! &#8211; disse Sim\u00e3o,<br \/>\nsorrindo. &#8211; Deve estar boa, que n\u00e3o me d\u00f3i&#8230; Soube alguma coisa de D. Teresa?<\/p>\n<p>&#8211; Soube que foi para o Porto. Estavam ali a contar que o pai<br \/>\na mandara meter sem sentidos na liteira, e est\u00e1 muito povo \u00e0 porta do fidalgo.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, Mariana&#8230; N\u00e3o h\u00e1 desgra\u00e7ado sem amparo. V\u00e1, pense<br \/>\nno seu h\u00f3spede, seja o seu anjo de miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Saltaram de novo as l\u00e1grimas dos olhos da mo\u00e7a; e, por entre<br \/>\nsolu\u00e7os, estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Tenha paci\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 de morrer ao desamparo. Fa\u00e7a de<br \/>\nconta que lhe apareceu hoje uma irm\u00e3.<\/p>\n<p>E, dizendo, tirou das amplas algibeiras um embrulho de biscoitos<br \/>\ne uma garrafa de licor de canela, que dep\u00f4s sobre a cadeira.<\/p>\n<p>&#8211; Mau almo\u00e7o \u00e9; mas n\u00e3o achei outra coisa pronta &#8211; disse ela,<br \/>\ne saiu apressada, como para poupar ao infeliz palavras de gratid\u00e3o.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"11\"><\/a>CAP\u00cdTULO XI<\/strong><\/h4>\n<p>O corregedor, nesse mesmo dia, ordenou que se preparassem<br \/>\nmulher e filhas para no dia imediato sa\u00edrem de Viseu com tudo que pudesse<br \/>\nser transportado em cavalgaduras.<\/p>\n<p>Vou descrever a singela e dorida reminisc\u00eancia duma senhora<br \/>\ndaquela fam\u00edlia, como a tenho em carta recebida h\u00e1 meses:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o cinq\u00fcenta e sete anos, e ainda me lembro,<br \/>\ncomo se fossem ontem passados, os tristes acontecimentos da minha mocidade.<br \/>\nN\u00e3o sei como \u00e9 que tenho hoje mais clara a mem\u00f3ria das coisas da inf\u00e2ncia.<br \/>\nParece-me que h\u00e1 trinta anos me n\u00e3o lembravam com tantas circunst\u00e2ncias<br \/>\ne pormenores.<br \/>\nQuando a m\u00e3e disse a mim e as minhas irm\u00e3s que prepar\u00e1ssemos os nossos ba\u00fas,<br \/>\nrompemos todas num choro que irritou a ira do pai. As manas, como mais velhas<br \/>\nou mais afeitas ao castigo, calaram-se logo. Eu, por\u00e9m, que s\u00f3 uma vez,<br \/>\ne unicamente por causa de Sim\u00e3o, tinha sido castigada, continuei a chorar,<br \/>\ne tive o inocente valor de pedir ao pai que me deixasse ir ver o mano \u00e0<br \/>\ncadeia antes de sairmos de Viseu.<br \/>\nEnt\u00e3o fui castigada pela segunda vez, e asperamente.<br \/>\nO criado que levou o jantar \u00e0 cadeia voltou com ele, e contou-nos que Sim\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 tinha alguns m\u00f3veis no seu quarto, e estava jantando com exterior sossegado.<br \/>\nAquela hora todos os sinos de Viseu estavam dobrando a finados por alma<br \/>\nde Baltasar.<br \/>\nAo p\u00e9 dele disse o criado que estava uma formosa rapariga de aldeia e coberta<br \/>\nde l\u00e1grimas. Apontando-a ao criado que a observava, disse Sim\u00e3o: &#8211; A minha<br \/>\nfam\u00edlia \u00e9 esta.<br \/>\nNo dia seguinte, ao romper da manh\u00e3, partimos para Vila-Real. A m\u00e3e chorava<br \/>\nsempre; o pai, encolerizado por isso, saiu da liteira em que vinha com ela,<br \/>\nfez que eu passasse para o seu lugar, e fez toda a jornada na minha cavalgadura.<br \/>\nLogo que chegamos a Vila-Real, eram t\u00e3o freq\u00fcentes as desordens em casa,<br \/>\n\u00e0 conta do Sim\u00e3o, que meu pai abandonou a fam\u00edlia, e foi sozinho para a<br \/>\nquinta de Montezelos. A m\u00e3e quis tamb\u00e9m abandonar-nos e ir para os primos<br \/>\nde Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pai. que fizera<br \/>\numa espantosa mudan\u00e7a de g\u00eanio, quando tal soube, amea\u00e7ou minha m\u00e3e de a<br \/>\nobrigar judicialmente a n\u00e3o sair da casa de seu marido e filhas.<br \/>\nEscrevia a m\u00e3e a Sim\u00e3o, e n\u00e3o recebia resposta. Pensava ela que o filho<br \/>\nn\u00e3o respondia: anos depois, vimos entre os pap\u00e9is de meu pai todas as cartas<br \/>\nque ela escrevera. J\u00e1 se v\u00ea que o pai as fazia tirar no correio.<br \/>\nUma senhora de Viseu escreveu \u00e0 m\u00e3e, louvando-a pelo muito amor <i>e <\/i>caridade<br \/>\ncom que ela acudia \u00e0s necessidades de seu infeliz filho. Esta carta foi-lhe<br \/>\nentregue por um almocreve; quando n\u00e3o, teria o destino das outras. Espantou-se<br \/>\nminha m\u00e3e do conceito em que a tinha a sua amiga, e confessou-lhe que n\u00e3o<br \/>\no tinha socorrido, porque o filho rejeitara o pouco que ela quisera fazer<br \/>\nem seu bem. A isto respondeu a senhora de Viseu que uma rapariga, filha<br \/>\ndum ferrador, estava vivendo nas vizinhan\u00e7as da cadeia, e cuidava do preso<br \/>\ncom abund\u00e2ncia e limpeza, e a todos dizia que ali estava por ordem e \u00e0 custa<br \/>\nda senhora D. Rita Preciosa. Acrescentava a amiga de minha m\u00e3e que algumas<br \/>\nvezes mandara chamar a bela mo\u00e7a, e lhe quisera dar alguns cozinhados mais<br \/>\nesquisitos para Sim\u00e3o, os quais ela rejeitava, dizendo que o senhor Sim\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o aceitava nada.<br \/>\nDe tempos a tempos receb\u00edamos estas novas, sempre triste, porque, na aus\u00eancia<br \/>\nde meu pai, conspiraram, como era de esperar, quase todas as pessoas distintas<br \/>\nde Viseu contra o meu desgra\u00e7ado irm\u00e3o.<br \/>\nA m\u00e3e escrevia aos seus parentes da capital implorando a gra\u00e7a r\u00e9gia para<br \/>\no filho; mas aquelas cartas n\u00e3o saiam do correio, e iam dar todas \u00e0 m\u00e3o<br \/>\nde meu pai.<br \/>\nE que fazia este, entretanto, na quinta, sem fam\u00edlia, sem gl\u00f3ria, nem recompensa<br \/>\nalguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava aquele grande<br \/>\nmontado onde ainda hoje, por entre os tojos e urzes, que voltaram com o<br \/>\nabandono, se podem ver rel\u00edquias de cepas plantadas por ele. A m\u00e3e escrevia-lhe<br \/>\nlastimando o filho; meu pai apenas respondia que a justi\u00e7a n\u00e3o era uma brincadeira,<br \/>\ne que na antig\u00fcidade os pr\u00f3prios pais condenavam os filhos criminosos.<br \/>\nTeve minha m\u00e3e a afoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licen\u00e7a para<br \/>\nir a Viseu. Meu inexor\u00e1vel pai negou-lha, e invectivou-a furiosamente.<br \/>\nPassados sete meses, soubemos que Sim\u00e3o tinha sido condenado a morrer na<br \/>\nforca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as janelas por<br \/>\noito dias; vestimos de luto, e minha m\u00e3e caiu doente.<br \/>\nQuando isto se soube em Vila-Real, todas as pessoas ilustres da terra foram<br \/>\na Montezelos, a fim de obrigarem brandamente o pai a empregar o seu valimento<br \/>\nna salva\u00e7\u00e3o do filho condenado. De Lisboa vieram alguns parentes protestar<br \/>\ncontra a inf\u00e2mia, que tamanha ignom\u00ednia faria recair sobre a fam\u00edlia, Meu<br \/>\npai a todos respondia com estas palavras: &#8211; A forca n\u00e3o foi inventada somente<br \/>\npara os que n\u00e3o sabem o nome do seu av\u00f4. A ignominia das fam\u00edlias s\u00e3o as<br \/>\nm\u00e1s a\u00e7\u00f5es. A justi\u00e7a n\u00e3o infama sen\u00e3o aquele que castiga.<br \/>\nT\u00ednhamos n\u00f3s um tio-av\u00f4, muito velho e venerando, chamado Ant\u00f4nio da Veiga.<br \/>\nFoi este quem fez o milagre, e foi assim: Apresentou-se a meu pai, e disse-lhe:<br \/>\n&#8211; Guardou-me Deus a vida at\u00e9 aos oitenta e tr\u00eas anos. Poderei viver mais<br \/>\ndois ou tr\u00eas? Isto nem j\u00e1 \u00e9 vida; mas foi-o, e honrada, e sem mancha at\u00e9<br \/>\nagora, e j\u00e1 agora h\u00e1 de assim acabar; meus olhos n\u00e3o h\u00e3o de ver a desonra<br \/>\nde sua fam\u00edlia. Domingos Botelho, ou tu me prometes aqui de salvar teu filho<br \/>\nda forca, ou eu na tua presen\u00e7a me mato. &#8211; E, dizendo isto, apontava ao<br \/>\npesco\u00e7o uma navalha de barba. Meu pai teve-lhe m\u00e3o do bra\u00e7o, e disse que<br \/>\nSim\u00e3o n\u00e3o seria enforcado.<br \/>\nNo dia seguinte, foi meu pai para o Porto, onde tinha muitos amigos na Rela\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne de l\u00e1 para Lisboa.<br \/>\nEm principio de mar\u00e7o de 1805, soube minha m\u00e3e, com grande prazer, que Sim\u00e3o<br \/>\nfora removido para as cadeias da Rela\u00e7\u00e3o do Porto, vencendo os grandes obst\u00e1culos<br \/>\nque opuseram a essa mudan\u00e7a os queixosos, que eram Tadeu de Albuquerque<br \/>\ne as irm\u00e3s do morto.<br \/>\nDepois&#8230;&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Suspendemos aqui o extrato da carta para n\u00e3o anteciparmos<br \/>\na narrativa de sucessos, que importa, em respeito \u00e0 arte, atar no fio cortado.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Botelho vira imperturb\u00e1vel chegar o dia do julgamento.<br \/>\nSentou-se no banco dos homicidas sem patrono nem testemunhas de defesa. As<br \/>\nperguntas respondeu com o mesmo \u00e2nimo frio daquelas respostas ao interrogat\u00f3rio<br \/>\ndo ju\u00edzo. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com toda a lealdade,<br \/>\nsem articular o nome de Teresa Clementina de Albuquerque. Quando o advogado<br \/>\nda acusa\u00e7\u00e3o proferiu aquele nome, Sim\u00e3o Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de<br \/>\ninf\u00e2mia e sangue? Que miser\u00e1vel acusador est\u00e1 ai, que n\u00e3o sabe, com a confiss\u00e3o<br \/>\ndo r\u00e9u, provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputa\u00e7\u00e3o duma mulher?<br \/>\nA minha acusa\u00e7\u00e3o est\u00e1 feita: eu a fiz. Agora a lei que fale, e cale-se o vil\u00e3o<br \/>\nque n\u00e3o sabe acusar sem infamar.<\/p>\n<p>O juiz imp\u00f4s-lhe sil\u00eancio. Sim\u00e3o sentou-se, murmurando:<\/p>\n<p>&#8211; Miser\u00e1veis todos!<\/p>\n<p>Ouviu o r\u00e9u a senten\u00e7a de morte natural para sempre na forca,<br \/>\narvorada no local do delito. E ao mesmo tempo sa\u00edram dentre a multid\u00e3o uns<br \/>\ngritos dilacerantes. Sim\u00e3o voltou a face para as turbas, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Ides ter um belo espet\u00e1culo, senhores! A forca \u00e9 a \u00fanica<br \/>\nfesta do povo! Levai dai essa pobre mulher que chora: essa \u00e9 a criatura \u00fanica<br \/>\npara quem o meu supl\u00edcio n\u00e3o ser\u00e1 um passatempo,<\/p>\n<p>Mariana foi transportada em bra\u00e7os \u00e0 sua casinha, na vizinhan\u00e7a<br \/>\nda cadeia. Os robustos bra\u00e7os que a levam eram os de seu pai, Sim\u00e3o Botelho,<br \/>\nquando, em toda a agilidade e for\u00e7a dos dezoito anos, ia do tribunal ao c\u00e1rcere,<br \/>\nouviu algumas vozes que se alteravam deste modo:<\/p>\n<p>&#8211; Quanto vai ele a padecer?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bem feito! Vai pagar pelos inocentes que o pai mandou<br \/>\nenforcar.<\/p>\n<p>&#8211; Queria apanhar a morgada \u00e0 for\u00e7a de balas!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o que estes fidalgos cuidam que n\u00e3o \u00e9 mais sen\u00e3o matar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Matasse ele um pobre. e tu verias como ele estava em casal<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m \u00e9 verdade!<\/p>\n<p>&#8211; E como ele vai de cara no ar!<\/p>\n<p>&#8211; Deixa ir, que n\u00e3o tarda quem lha fa\u00e7a cair ao ch\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que o carrasco j\u00e1 vem pelo caminho.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 chegou de noite, e trazia dois cutelos numa coifa.<\/p>\n<p>&#8211; Tu viste-o?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; mas disse a minha comadre que lho dissera a vizinha<br \/>\ndo cunhado da irm\u00e3, que o carrasco est\u00e1 escondido numa enxovia.<\/p>\n<p>&#8211; Tu h\u00e1s de levar os pequenos a ver o padecente?<\/p>\n<p>&#8211; Pudera n\u00e3o! Estes exemplos n\u00e3o se devem perder.<\/p>\n<p>&#8211; Eu c\u00e1 de mim j\u00e1 vi enforcar tr\u00eas, que me lembre, todos por<br \/>\nmatadores.<\/p>\n<p>&#8211; Por isso tu, h\u00e1 dois anos, n\u00e3o atiraste com a vida do Amaro<br \/>\nLampreia a casa do diabo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assim foi; mas, se eu o n\u00e3o matasse, matava-me ele.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o de que voga o exemplo?!<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei c\u00e1 de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos \u00e9<br \/>\nque prega aos pa\u00eds que levem os filhos a verem os enforcados.<\/p>\n<p>&#8211; Isso h\u00e1 de ser para o n\u00e3o esfolarem a ele, quando ele nos<br \/>\nesfola com os pedit\u00f3rios.<\/p>\n<p>T\u00e3o desassombrado ia o esp\u00edrito de Sim\u00e3o, que algumas vezes<br \/>\nesvoa\u00e7ou nos l\u00e1bios um sorriso, desafiado pela filosofia do povo, \u00e0 cerca<br \/>\nda forca,<\/p>\n<p>Recolhido ao seu quarto. foi intimado para apelar, dentro<br \/>\ndo prazo legal. Respondeu que n\u00e3o apelava, que estava contente da sua sorte,<br \/>\ne de boas avan\u00e7as com a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Perguntou por Mariana, e o carcereiro lhe disse que a mandava<br \/>\nchamar. Veio Jo\u00e3o da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque<br \/>\na via delirante a falar em forca e a pedir que a matassem primeiro. Agud\u00edss\u00edma<br \/>\nfoi ent\u00e3o a dor do acad\u00eamico ao compreender, como se instantaneamente lhe<br \/>\nfulgurasse a verdade, que Mariana o amava at\u00e9 o extremo de morrer. Por momentos<br \/>\nse lhe esvaiu do cora\u00e7\u00e3o a imagem de Teresa, se \u00e9 poss\u00edvel assim pens\u00e1-lo.<br \/>\nV\u00ea-la-ia porventura como um anjo redimido em serena contempla\u00e7\u00e3o do seu criador;<br \/>\ne veria Mariana como o s\u00edmbolo da tortura, morrer a peda\u00e7os, sem instantes<br \/>\nde amor remunerado que lhe dessem a gl\u00f3ria do mart\u00edrio. Uma, morrendo amada;<br \/>\noutra, agonizando, sem ter ouvido a palavra &#8220;amor&#8221; dos l\u00e1bios que<br \/>\nescassamente balbuciavam frias palavras de gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>E chorou ent\u00e3o aquele homem de ferro. Chorou l\u00e1grimas que<br \/>\nvaliam bem as amarguras de Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; Cuide de sua filha, senhor Cruz! &#8211; disse Sim\u00e3o com fervente<br \/>\ns\u00faplica ao ferrador &#8211; Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. V\u00e1 consolar<br \/>\nessa criatura, que nasceu debaixo da minha m\u00e1 estrela. Tire-a de Viseu; leve-a<br \/>\npara sua casa. Salve-a, para que neste mundo fiquem duas irm\u00e3s que me chorem.<br \/>\nOs favores que me tem feito, j\u00e1 agora dispensa-os a brevidade da minha vida.<br \/>\nDaqui a dias mandam-me recolher ao orat\u00f3rio; bom ser\u00e1 sua filha ignore.<\/p>\n<p>De volta, Jo\u00e3o da Cruz achou a filha prostada na pavimento,<br \/>\nferida no rosto, chorando e rindo, demente em suma. Levou-a amarrada para<br \/>\nsua casa, e deixou a cargo de outra pessoa a sustenta\u00e7\u00e3o do condenado.<\/p>\n<p>Terribil\u00edssimas foram ent\u00e3o as horas solit\u00e1rias do infeliz.<br \/>\nAt\u00e9 \u00e0quele dia, Mariana, benquista do carcereiro e protegida pela amiga de<br \/>\nD. Rita Preciosa, tinha franca entrada no c\u00e1rcere a toda a hora do dia, e<br \/>\nraras horas deixava sozinho o preso. Costurava enquanto ele escrevia, ou cuidava<br \/>\ndo amanho e limpeza do quarto. Se Sim\u00e3o estava no leito doente ou prostrado,<br \/>\nMariana, que tivera alguns princ\u00edpios de escrita, sentava-se \u00e0 banca, e escrevia<br \/>\ncem vezes o nome de <i>Sim\u00e3o, <\/i>que muitas vezes as l\u00e1grimas deliam. E isto<br \/>\nassim, durante sete meses, sem nunca ouvir nem proferir a palavra amor. Isto<br \/>\nassim, depois das vig\u00edlias noturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no<br \/>\ncaminho de sua casa, onde ia visitar o pai a desoras.<\/p>\n<p>Nunca mais o preso, na perspectiva da forca, viu entrar aquela<br \/>\ndoce criatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar, medido e calculado<br \/>\npara que as inteiras horas da asfixia as gozasse o cordel do pat\u00edbulo. Nunca<br \/>\nmais!<\/p>\n<p>E, quando ele evocava a imagem de Teresa, um capricho dos<br \/>\nolhos quebrantados lhe afigurava a vis\u00e3o de Mariana ao par da outra. E lacrimosas<br \/>\nvia as duas. Saltava ent\u00e3o do leito, fincava os dedos nos espessos ferros<br \/>\nda janela, e pensava em partir o cr\u00e2nio contra as grades.<\/p>\n<p>N\u00e3o o sustinha a esperan\u00e7a na terra, nem no c\u00e9u. Raio de luz<br \/>\ndivina jamais penetrou no seu erg\u00e1stulo. O anjo da piedade encarnada naquela<br \/>\ncriatura celestial que enlouquecera, ou voltara para o c\u00e9u com o esp\u00edrito<br \/>\ndela. O que o salvara do suic\u00eddio n\u00e3o era, pois, esperan\u00e7as em Deus, nem nos<br \/>\nhomens; era este pensamento: &#8220;Afinal, <i>cobarde! <\/i>Que bravura \u00e9 morrer<br \/>\nquando n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a da vida?! A forca \u00e9 um triunfo quando se encontra<br \/>\nao cabo do caminho da honra.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"12\"><\/a>CAP\u00cdTULO XII<\/strong><\/h4>\n<p>&#8211; E Teresa?<\/p>\n<p>Perguntam a tempo, minha senhoras, e n\u00e3o me hei de queixar<br \/>\nse me arg\u00fc\u00edrem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menosporte.<\/p>\n<p>Esquecido, n\u00e3o. Muito h\u00e1 que me reluz e voeja, alada como<br \/>\no ideal querubim dos santos, nesta minha quase escuridade, aquela ave do c\u00e9u,<br \/>\ncomo a pedir-me que lhe cubra de flores o restilho de sangue que ela deixou<br \/>\nna terra. Mais l\u00e1grimas que sangue deixaste, \u00f3 filha da amargura! Flores s\u00e3o<br \/>\ntuas l\u00e1grimas, e do c\u00e9u me diz se os perfumes delas n\u00e3o valem mais aos p\u00e9s<br \/>\ndo teu Deus que as preces de muita devota que morre santificada pelo mundo,<br \/>\ne cujo cheiro de santidade n\u00e3o passa do olfato hip\u00f3crita ou est\u00fapido dos mortais.<\/p>\n<p>Teresa Clementina bem a viam transportada da escadaria do<br \/>\ntemplo onde ca\u00edra, \u00e0 liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento,<br \/>\nviu defronte de si uma criada, que lhe dizia banais e frias express\u00f5es de<br \/>\nal\u00edvio. Se alguma criada de seu pai lhe era amiga, decerto n\u00e3o aquela, acintemente<br \/>\nescolhida pelo velho. Nem ao menos a confian\u00e7a para tal expans\u00e3o em gritos<br \/>\nrestava \u00e0 afligida menina! Mas um raio de piedade ferira o peito da mulher<br \/>\nat\u00e9 \u00e0quela hora desafeta a sua ama.<\/p>\n<p>Perguntava-se a si mesma Teresa se aquela horrorosa situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nseria um sonho! Sentia-se de novo falecer de for\u00e7as, e voltava \u00e0 vida, sacudida<br \/>\npela consci\u00eancia da sua desgra\u00e7a. Condoeu-se a criada, e incitou-a a respirar,<br \/>\nchorando com ela, e dizendo-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Pode falar, menina, que ningu\u00e9m nos segue.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m?!<\/p>\n<p>&#8211; As suas primas ficaram: apenas v\u00eam os dois lacaios.<\/p>\n<p>&#8211; E meu pai n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, fidalga&#8230; Pode chorar e falar \u00e0 sua vontade.<\/p>\n<p>&#8211; E eu vou para o Porto?<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, sim minha senhora.<\/p>\n<p>&#8211; E tu viste tudo como foi, Constan\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; Desgra\u00e7adamente vi&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como foi? Conta-me tudo.<\/p>\n<p>&#8211; A menina bem sabe que seu primo morreu.<\/p>\n<p>&#8211; Morreu?! Vi-o cair quase nos meus p\u00e9s; mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Morreu logo, e depois quiseram os criados, \u00e0 voz de seu<br \/>\npai, prender o senhor Sim\u00e3o; mas ele com outra pistola&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E fugiu? &#8211; atalhou Teresa, com veemente alegria.<\/p>\n<p>&#8211; Afinal foi ele que se deu \u00e0 pris\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 preso?!<\/p>\n<p>E, sufocada pelos solu\u00e7os, com o rosto no len\u00e7o, n\u00e3o ouvia<br \/>\nas palavras confortadoras de Constan\u00e7a.<\/p>\n<p>Serenado algum tanto o violento acesso de gemidos e choro,<br \/>\nTeresa sugeriu \u00e0 criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem<br \/>\nonde pousassem para ela ir a Viseu dar o \u00faltimo adeus a Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os<br \/>\nnovos perigos que ia acumular \u00e0 desgra\u00e7a do seu amante, e animando-a com a<br \/>\nesperan\u00e7a de livrar-se Sim\u00e3o do crime, com a influ\u00eancia do pai, apesar da<br \/>\npersegui\u00e7\u00e3o do fidalgo.<\/p>\n<p>Calaram lentamente estas raz\u00f5es no esp\u00edrito de Teresa. Chorosa,<br \/>\nansiada e a reveses desfalecida, foi Teresa vencendo a dist\u00e2ncia que a separava<br \/>\nde Monchique, onde chegou ao quinto dia de jornada.<\/p>\n<p>A prelada j\u00e1 estava sabedora dos sucessos, por emiss\u00e1rios<br \/>\nque se adiantaram ao moroso caminhar da liteira.<\/p>\n<p>Foi Teresa recebida com brandura por sua tia, posto que as<br \/>\nrecomenda\u00e7\u00f5es de Tadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa e absoluta priva\u00e7\u00e3o<br \/>\nde meios de escrever a quem quer que fosse.<\/p>\n<p>Ouviu a prelada da boca de sua sobrinha a fiel hist\u00f3ria dos<br \/>\nacontecimentos, e viu uma a uma as cartas de Sim\u00e3o Botelho. Choraram abra\u00e7adas;<br \/>\nmas a prelada, enxugadas as l\u00e1grimas de mulher ao fogo da austeridade religiosa,<br \/>\nfalou e aconselhou como freira, e freira que ciliciava o corpo com as rosetas,<br \/>\ne o cora\u00e7\u00e3o com as priva\u00e7\u00f5es tormentosas de quarenta anos.<\/p>\n<p>Teresa carecia de for\u00e7as para a rebeli\u00e3o. Deixou a sua tia<br \/>\na santa vaidade de exorcismar o dem\u00f4nio das paix\u00f5es, e deu um sorriso ao anjo<br \/>\nda morte, que, de permeio ao seu amor e \u00e0 esperan\u00e7a, lhe interpunha a asa<br \/>\nnegra que t\u00e3o de luz refulgente rebrilha \u00e0s vezes em cora\u00e7\u00f5es infelizes.<\/p>\n<p>Quis Teresa escrever.<\/p>\n<p>&#8211; A quem, minha filha? &#8211; perguntou a prelada.<\/p>\n<p>Teresa n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Escrever-lhe para qu\u00ea? &#8211; tornou a religiosa. &#8211; Cuidas tu,<br \/>\nmenina, que as tuas cartas lhe chegam \u00e0 m\u00e3o? Que vais tu fazer sen\u00e3o redobrar<br \/>\na ira de teu pai contra ti e contra o infeliz preso?! Se o amas, como creio,<br \/>\napesar de tudo, cuida em salv\u00e1-lo. Se n\u00e3o ouves a minha raz\u00e3o, finge-te esquecida.<br \/>\nSe podes violentar a tua dor, dissimula, faze muito porque o teu pai chegue<br \/>\na noticia de que lhe ser\u00e1s d\u00f3cil em tudo, se ele tiver piedade do teu pobre<br \/>\namigo.<\/p>\n<p>N\u00e3o recalcitrou Teresa. Deu outro sorriso ao anjo da morte,<br \/>\ne pediu-lhe que a envolvesse a ela, e ao seu amor, e \u00e0 sua esperan\u00e7a, de todo,<br \/>\nna negrura de suas asas.<\/p>\n<p>De m\u00eas a m\u00eas recebia a abadessa de Monchique uma carta de<br \/>\nseu primo. Eram estas cartas um respiradouro de vingan\u00e7a. Em todas dizia o<br \/>\nvelho que o assassino iria ao pat\u00edbulo irremediavelmente. A sobrinha n\u00e3o via<br \/>\nas cartas; mas reparava nas l\u00e1grimas da compassiva freira.<\/p>\n<p>A d\u00e9bil complei\u00e7\u00e3o de Teresa deperecia aceleradamente. A ci\u00eancia<br \/>\ncondenou-a a morte breve. Disto foi informado Tadeu de Albuquerque, e respondeu:<br \/>\n&#8211; &#8220;Que a n\u00e3o desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria mais tranq\u00fcilo,<br \/>\ne com a sua honra sem mancha&#8221;, Era assim imaculada a honra do fidalgo<br \/>\nde Viseu!&#8230; A HONRA, que dizem proceder em linha reta da virtude de S\u00f3crates,<br \/>\nda virtude de Jesus Cristo, da virtude de milh\u00f5es de m\u00e1rtires, que se deram<br \/>\n\u00e0s garras das feras, quando predicavam a caridade e o perd\u00e3o aos homens!<\/p>\n<p>Quantas car\u00edcias inventou a simpatia e a piedade, todas, por<br \/>\nminist\u00e9rio das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar<br \/>\no ardor que consumia rapidamente a reclusa. In\u00fatil tudo. Teresa reconhecia<br \/>\ncom l\u00e1grimas a compaix\u00e3o, e, ao mesmo tempo, alegrava-se tirando das car\u00edcias<br \/>\na certeza de que os m\u00e9dicos a julgavam incur\u00e1vel,<\/p>\n<p>Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga<br \/>\ndo convento dos Rem\u00e9dios de Lamengo lhe dissera que Sim\u00e3o tinha sido condenado<br \/>\n\u00e0 morte.<\/p>\n<p>&#8211; E eu vivo ainda!<\/p>\n<p>Depois orou, e chorou; mas os costumes da sua vida em paroxismos<br \/>\ncontinuaram inalter\u00e1veis.<\/p>\n<p>Perguntou \u00e0 senhora que lhe dera a noticia se a sua amiga<br \/>\ndo convento dos Rem\u00e9dios lhe faria a esmola de fazer chegar \u00e0s m\u00e3os de Sim\u00e3o<br \/>\numa carta. Prontificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada.<br \/>\nEntendeu esta religiosa que O derradeiro col\u00f3quio entre dois moribundos n\u00e3o<br \/>\npodia danific\u00e1-los na vida temporal, nem na vida eterna.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a carta que leu Sim\u00e3o, quinze dias depois do seu julgamento:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Sim\u00e3o, meu esposo. Sei tudo&#8230; Est\u00e1 conosco a morte.<br \/>\nOlha que te escrevo sem l\u00e1grimas. A minha agonia come\u00e7ou h\u00e1 sete meses.<br \/>\nDeus \u00e9 bom, que me poupou ao crime. Ouvi a not\u00edcia da tua pr\u00f3xima morte,<br \/>\ne ent\u00e3o compreendi porque estou morrendo hora a hora. Aqui est\u00e1 o nosso<br \/>\nfim, Sim\u00e3o!&#8230; Olha as nossas esperan\u00e7as! Quando tu me dizias os teus sonhos<br \/>\nde felicidade, e eu te dizia os meus!&#8230; Que mal fariam a Deus os nossos<br \/>\ninocentes desejos?!&#8230; Porque n\u00e3o merecemos n\u00f3s o que tanta gente tem?&#8230;<br \/>\nAssim acabaria tudo, Sim\u00e3o? N\u00e3o posso cr\u00ea-lo! A eternidade apresenta-se-me<br \/>\ntenebrosa, porque a esperan\u00e7a era a luz que me guiava de ti para a f\u00e9. Mas<br \/>\nn\u00e3o pode findar assim o nosso destino. V\u00ea se podes segurar o \u00faltimo fio<br \/>\nda tua vida a uma esperan\u00e7a qualquer. Ver-nos-emos num outro mundo, Sim\u00e3o?<br \/>\nTerei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu rezo, suplico, mas desfale\u00e7o<br \/>\nna f\u00e9 quando me lembram as \u00faltimas agonias do teu mart\u00edrio. As minhas s\u00e3o<br \/>\nsuaves; quase que as n\u00e3o sinto. N\u00e3o deve custar a morte a quem tiver o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ntranq\u00fcilo. O pior \u00e9 a saudade, saudade daquelas esperan\u00e7as que tu achavas<br \/>\nno meu cora\u00e7\u00e3o, adivinhando as tuas. N\u00e3o importa, se nada h\u00e1 al\u00e9m desta<br \/>\nvida. Ao menos, morrer. Se tu pudesses viver agora, de que te serviria?<br \/>\nEu tamb\u00e9m estou condenada, e sem rem\u00e9dio. Segue-me, Sim\u00e3o! N\u00e3o tenhas saudades<br \/>\nda vida, n\u00e3o tenhas, ainda que a raz\u00e3o te diga que podias ser feliz, se<br \/>\nme n\u00e3o tivesses encontrado no caminho por onde te levei \u00e0 morte&#8230; E que<br \/>\nmorte, meu Deus!&#8230; Aceita-a! N\u00e3o te arrependas. Se houver crime, a justi\u00e7a<br \/>\nde Deus te perdoar\u00e1 pelas ang\u00fastias que tens de sofrer no c\u00e1rcere&#8230; e nos<br \/>\n\u00faltimos dias, e na presen\u00e7a da&#8230;&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Teresa ia escrever uma palavra, quando a pena lhe caiu da<br \/>\nm\u00e3o, e uma convuls\u00e3o lhe vibrou todo o corpo por largo espa\u00e7o. N\u00e3o escreveu<br \/>\na palavra! Mas a id\u00e9ia da <i>for\u00e7a <\/i>parou-lhe a vida. A freira entrou na<br \/>\ncela a pedir-lhe a carta, porque o correio ia a partir. Teresa, indicando-lhe,<br \/>\ndisse:<\/p>\n<p>&#8211; Leia, se quiser, e feche-a, por caridade, que eu n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>Nos tr\u00eas dias seguintes Teresa n\u00e3o saiu do leito. A cada hora<br \/>\nas religiosas assistentes esperavam que ela fechasse os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Custa muito morrer! &#8211; dizia algumas vezes a enferma.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o esp\u00edrito<br \/>\ndo mundo,<\/p>\n<p>Teresa ouvia-os, e dizia com \u00e2nsia:<\/p>\n<p>&#8211; Mas a esperan\u00e7a do c\u00e9u, sem ele!&#8230; Que \u00e9 o c\u00e9u, meu Deus?<\/p>\n<p>E o apost\u00f3lico capel\u00e3o do mosteiro n\u00e3o sabia dizer se os bens<br \/>\ndo c\u00e9u tinham comum com os do mundo as del\u00edcias que falsamente na terra se<br \/>\nchamam assim. Aquelas sutilezas espirituais que v\u00eam com algumas esp\u00e9cies de<br \/>\nf\u00edsica, assim \u00e0 maneira dos \u00faltimos lampejos da vital flama, tinha-as a enferma,<br \/>\nquando acontecia falarem-lhe as religiosas na bem-aventuran\u00e7a. \u00c0s vezes, se<br \/>\no capel\u00e3o, convidado pela lucidez de Teresa, entrava os dom\u00ednios da filosofia,<br \/>\ntratando como tema a imortalidade da alma, a inculta senhora argumentava em<br \/>\nbreves termos, com raz\u00f5es t\u00e3o claras a favor da uni\u00e3o eterna das almas, j\u00e1<br \/>\ndeste mundo esposas, que o padre ficava em d\u00favidas se seria her\u00e9tico contestar<br \/>\numa cl\u00e1usula n\u00e3o inscrita em algum dos quatro evangelhos.<\/p>\n<p>Maravilhava-se j\u00e1 a medicina da pertin\u00e1cia daquela vida. Tinha<br \/>\na abadessa escrito a seu primo Tadeu, apressando-o a ir ver o anjo ao despedir-se<br \/>\nda terra. O velho, tocado de piedade e por ventura de amor paternal, deliberou<br \/>\ntirar do convento a filha, na esperan\u00e7a de salv\u00e1-la ainda, Uma forte raz\u00e3o<br \/>\nacrescia \u00e0quela: era a mudan\u00e7a do condenado para os c\u00e1rceres do Porto. Deu-se<br \/>\npressa, pois, o fidalgo, e chegou ao Porto a tempo que a religiosa, amiga<br \/>\nda outra de Lamego, entregava \u00e0 doente esta carta de Sim\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;N\u00e3o me fujas ainda, Teresa. J\u00e1 n\u00e3o vejo a forca, nem<br \/>\na morte. Meu pai protege-me, e a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Prende ao cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nos \u00faltimos fios da tua vida. Prolonga a tua agonia, enquanto te eu disser<br \/>\nque espero. Amanh\u00e3 vou para as cadeias do Porto, e hei de ali esperar a<br \/>\nabsolvi\u00e7\u00e3o ou comuta\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a. A vida \u00e9 tudo. Posso amar-te no degredo.<br \/>\nEm toda a parte h\u00e1 c\u00e9u, e flores, e Deus. Se viveres, um dia ser\u00e1s livre;<br \/>\na pedra do sepulcro \u00e9 que nunca se levanta, Vive, Teresa, vive! H\u00e1 dias,<br \/>\nlembrava-me que as tuas l\u00e1grimas lavariam da minha face as n\u00f3doas do sangue<br \/>\ndo enforcado. Esse pesadelo atroz passou. Agora neste inferno respira-se;<br \/>\no esparto do carrasco j\u00e1 me n\u00e3o aperta em sonhos a garganta. J\u00e1 fito os<br \/>\nolhos no c\u00e9u, e reconhe\u00e7o a provid\u00eancia dos infelizes. Ontem, vi as nossas<br \/>\nestrelas, aquelas dos nossos segredos nas noites da aus\u00eancia. Volvi \u00e0 vida,<br \/>\ne tenho o cora\u00e7\u00e3o cheio de esperan\u00e7as. N\u00e3o morras, filha da minha alma!&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Ia alta a noite, quando Teresa, sentada no seu leito, leu<br \/>\nesta carta. Chamou a criada, para ajud\u00e1-la a vestir, Mandou abrir a janela<br \/>\ndo seu quarto, e encostou as faces \u00e0s reixas de ferro. Esta janela olhava<br \/>\npara o mar, e o mar era nessa noite uma imensa flama de prata; e a Lua, esplendid\u00edssima,<br \/>\neclipsava o fulgor dumas estrelas que Teresa procurava no c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o aquelas! &#8211; exclamou ela.<\/p>\n<p>&#8211; Aquelas que, minha senhora? &#8211; disse Constan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; As minhas estrelas!&#8230; p\u00e1lidas como eu&#8230; A vida! ai! a<br \/>\nvida! &#8211; clamou ela, erguendo-se, e passando pela fronte as m\u00e3os cadav\u00e9ricas<br \/>\n&#8211; Quero viver! Deixai-me viver, \u00f3 Senhor!<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de viver, menina! H\u00e1 de viver, que Deus \u00e9 piedoso! &#8211;<br \/>\ndisse a criada &#8211; mas n\u00e3o tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe<br \/>\ngrande mal.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-me, deixa-me, que tudo isto \u00e9 viver&#8230; N\u00e3o vejo o<br \/>\nc\u00e9u h\u00e1 tanto tempo! Sinto-me ressuscitar aqui, Constan\u00e7a! Por que n\u00e3o tenho<br \/>\neu respirado todas as noites este ar? Eu poderia viver alguns anos? Poderei,<br \/>\nminha Constan\u00e7a? Pede tu, pede muito \u00e0 minha Virgem Sant\u00edssima! Vamos orar<br \/>\nambas! Vamos, que o Sim\u00e3o n\u00e3o morre&#8230; O meu Sim\u00e3o vive, e quer que eu viva.<br \/>\nEst\u00e1 no Porto amanh\u00e3, e talvez j\u00e1 esteja&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem, minha senhora?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim\u00e3o; o Sim\u00e3o vem para o Porto.<\/p>\n<p>A criada julgou que a sua ama delirava, mas n\u00e3o a contrariou.<\/p>\n<p>&#8211; Teve carta dele a fidalga? &#8211; tornou ela, cuidando que assim<br \/>\nlhe alimentava aquele instante de febril contentamento.<\/p>\n<p>&#8211; Tive&#8230; Queres ouvir?&#8230; Eu leio&#8230;<\/p>\n<p>E leu a carta, com grande pasmo de Constan\u00e7a, que se convenceu.<\/p>\n<p>&#8211; Agora vamos rezar, sim?&#8230; Tu n\u00e3o \u00e9s inimiga dele, n\u00e3o?<br \/>\nOlha, Constan\u00e7a, se eu casar com ele, tu vais para a nossa companhia. Ver\u00e1s<br \/>\ncomo \u00e9s feliz, Queres ir, n\u00e3o queres?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha senhora, vou. Mas ele conseguir\u00e1 livrar-se da<br \/>\nmorte?<\/p>\n<p>&#8211; Livra; tu ver\u00e1s que livra; o pai dele h\u00e1 de livr\u00e1-lo&#8230;<br \/>\ne a Virgem Sant\u00edssima \u00e9 que nos h\u00e1 de unir. Mas, se eu morro&#8230; se eu morro,<br \/>\nmeu Deus!<\/p>\n<p>E, com as m\u00e3os convulsivamente enla\u00e7adas sobre o seio, Teresa<br \/>\narquejava em pranto.<\/p>\n<p>&#8211; Se eu n\u00e3o tenho j\u00e1 for\u00e7as!&#8230; Todos dizem que eu morro,<br \/>\ne o m\u00e9dico j\u00e1 nem me receita!&#8230; Ent\u00e3o melhor me fora ter acabado antes desta<br \/>\nhora! Morrer com esperan\u00e7as, \u00f3 M\u00e3e de Deus!<\/p>\n<p>E ajoelhou ante o ret\u00e1bulo devoto que trouxera do seu quarto<br \/>\nde Viseu, ao qual sua m\u00e3e e av\u00f3 j\u00e1 tinham orado, e em cujo rosto compassivo<br \/>\nos olhos das duas senhoras moribundas tinham apagado os seus \u00faltimos raios<br \/>\nde luz.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"13\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIII<\/strong><\/h4>\n<p>Anunciara-se Tadeu de Albuquerque na portaria de Monchique,<br \/>\nao dia seguinte dos anteriores sucessos.<\/p>\n<p>Sua prima, primeira senhora que lhe saiu ao locut\u00f3rio, vinha<br \/>\nenxugando as l\u00e1grimas de alegria.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o cuide que eu choro de aflita, meu primo &#8211; disse ela.<br \/>\n&#8211; O nosso anjo, se Deus quiser, pode salvar-se. Logo de manh\u00e3 a vi passear<br \/>\npor seu p\u00e9 nos dormit\u00f3rios. Que diferen\u00e7a de semblante ela tem hoje! Isto,<br \/>\nmeu primo, \u00e9 milagre de duas santas que temos inteiras na claustura, e com<br \/>\nas quais algumas perfeitas criaturas desta casa se apegaram. Se as melhoras<br \/>\ncontinuarem assim, temos a Teresa; o c\u00e9u consente que esteja entre n\u00f3s aquele<br \/>\nanjo mais alguns anos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito folgo com o que me diz, minha boa prima &#8211; atalhou<br \/>\no fidalgo. &#8211; A minha resolu\u00e7\u00e3o \u00e9 lev\u00e1-la j\u00e1 para Viseu, e l\u00e1 se restabelecer\u00e1<br \/>\ncom os ares p\u00e1trios, que s\u00e3o muito mais sadios que os do Porto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ainda cedo para t\u00e3o longa e custosa jornada, meu primo.<br \/>\nN\u00e3o v\u00e1 o senhor cuidar que ela est\u00e1 capaz de se meter ao caminho. Lembre-se<br \/>\nque ainda ontem pensamos em encontr\u00e1-la hoje morta. Deixe-a estar mais alguns<br \/>\nmeses; e depois n\u00e3o digo que n\u00e3o leve; mas, por enquanto, n\u00e3o consinto semelhante<br \/>\nimprud\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Maior imprud\u00eancia &#8211; replicou o velho &#8211; \u00e9 conserv\u00e1-la no<br \/>\nPorto, onde, as estas horas, deve estar o malvado matador de meu sobrinho.<br \/>\nTalvez n\u00e3o saiba a prima?&#8230; Pois \u00e9 verdade: o patife do corregedor saiu a<br \/>\ncampo em defesa dele, e conseguiu que o tribunal da Rela\u00e7\u00e3o lhe aceitasse<br \/>\na apela\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a, passado o prazo da lei; e, n\u00e3o contente com isto,<br \/>\nfez que o filho fosse removido para as cadeias do Porto. Eu agora trabalho<br \/>\npara que a senten\u00e7a seja confirmada, e espero consegui-lo; mas, enquanto o<br \/>\nassassino aqui estiver, n\u00e3o quero que minha filha esteja no Porto.<\/p>\n<p>&#8211; O primo \u00e9 pai, e eu sou apenas uma parenta &#8211; disse a abadessa<br \/>\n&#8211; cumpra-se a sua vontade. Quer ver a menina, n\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n<p>&#8211; Quero, se \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, enquanto eu vou cham\u00e1-la, queira entrar na primeira<br \/>\ngrade \u00e0 sua m\u00e3o direita, que Teresa l\u00e1 vai ter.<\/p>\n<p>Avisada Teresa de que seu pai a esperava, instantaneamente<br \/>\na cor sadia que alegrava as senhoras religiosas se demudou na lividez costumada.<br \/>\nQuis a tia, vendo-a assim, que ela n\u00e3o sa\u00edsse do seu quarto, e encarregava-se<br \/>\nde espa\u00e7ar a visita do pai.<\/p>\n<p>&#8211; Tem de ser &#8211; disse Teresa. &#8211; Eu vou, minha tia.<\/p>\n<p>O pai, ao v\u00ea-la, estremeceu e enfiou. Esperava mudan\u00e7a, mas<br \/>\nn\u00e3o tamanha. Pensou que a n\u00e3o conheceria sem o prevenirem de que ia ver sua<br \/>\nfilha.<\/p>\n<p>&#8211; Como eu te encontro, Teresa! &#8211; exclamou ele, comovido. &#8211;<br \/>\nPor que me n\u00e3o disseste h\u00e1 mais tempo o teu estado?<\/p>\n<p>Teresa sorriu-se, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o estou t\u00e3o mal como as minhas amigas imaginam.<\/p>\n<p>&#8211; Ter\u00e1s tu for\u00e7as para ir comigo para Viseu?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu pai; n\u00e3o tenho mesmo for\u00e7as para lhe dizer em poucas<br \/>\npalavras que n\u00e3o torno ao Viseu.<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o, se a tua sa\u00fade depender disso?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A minha sa\u00fade depende do contr\u00e1rio. Aqui viverei ou morrerei.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto assim, Teresa &#8211; replicou Tadeu com dissimulada<br \/>\nbrandura. &#8211; se eu entender que estes ares s\u00e3o nocivos \u00e0 tua sa\u00fade, h\u00e1s de<br \/>\nir, porque \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o minha conduzir e corrigir a tua m\u00e1 sina.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 corrigida, meu pai. A morte emenda todos os erros da<br \/>\nvida.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei; mas eu quero-te viva, e, portanto, recobra for\u00e7as<br \/>\npara o caminho, Logo que tiveres meio dia de jornada, ver\u00e1s como a sa\u00fade volta<br \/>\ncomo por milagre.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vou, meu pai.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vais?! &#8211; exclamou, irritado, o velho, lan\u00e7ando \u00e0s grades<br \/>\nas m\u00e3os trementes de ira.<\/p>\n<p>&#8211; Separam-nos esses ferros a que meu pai se encosta, e para<br \/>\nsempre nos separam.<\/p>\n<p>&#8211; E as leis? Cuidas tu que eu n\u00e3o tenho direitos leg\u00edtimos<br \/>\npara te obrigar a sair do convento? N\u00e3o sabes que tens apenas dezoito anos?<\/p>\n<p>&#8211; Sei que tenho dezoito anos; as leis n\u00e3o sei quais s\u00e3o, nem<br \/>\nme incomoda a minha ignor\u00e2ncia. Se pode ser que m\u00e3o violenta venha arrancar-me<br \/>\ndaqui, conven\u00e7a-se, meu pai, de que essa m\u00e3o h\u00e1 de encontrar um cad\u00e1ver. Depois&#8230;<br \/>\no que quiserem de mim. Enquanto, por\u00e9m, eu puder dizer que n\u00e3o vou, juro-lhe<br \/>\nque n\u00e3o vou, meu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Sei o que \u00e9! &#8211; bramiu o velho. &#8211; j\u00e1 sabes que o assassino<br \/>\nest\u00e1 no Porto?<\/p>\n<p>&#8211; Sei, sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda o dizes sem vergonha, nem horror de ti mesma! Ainda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai &#8211; interrompeu Teresa &#8211; n\u00e3o posso continuar a ouvi-lo,<br \/>\nporque me sinto mal. D\u00ea-me licen\u00e7a&#8230; e vingue-se como puder. A minha gl\u00f3ria<br \/>\nneste longo mart\u00edrio seria uma forca levantada ao lado da do assassino.<\/p>\n<p>Teresa saiu da grade, deu alguns passos na dire\u00e7\u00e3o da sua<br \/>\ncela, e encostou-se esva\u00edda \u00e0 parede. Correram a ampar\u00e1-la sua tia e a criada,<br \/>\nmas ela, afastando-as suavemente de si, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso&#8230; Estou boa&#8230; Esses golpes d\u00e3o vida, minha<br \/>\ntia.<\/p>\n<p>E caminhou sozinha a passos vacilantes.<\/p>\n<p>Tadeu batia \u00e0 porta do mosteiro com irris\u00f3rio enfurecimento<br \/>\npancadas, umas ap\u00f3s outras, com grande medo da porteira e outras madres, espantadas<br \/>\ndo ins\u00f3lito desprop\u00f3sito.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso, primo? &#8211; disse a prelada, com severidade.<\/p>\n<p>&#8211; Quero c\u00e1 fora Teresa.<\/p>\n<p>&#8211; Como fora? Quem h\u00e1 de lan\u00e7\u00e1-la fora?!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora, que n\u00e3o pode aqui reter uma filha contra a vontade<br \/>\nde seu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Isso assim \u00e9; mas tenha prud\u00eancia, primo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 prud\u00eancia nem meia prud\u00eancia. Quero minha filha c\u00e1<br \/>\nfora.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ela n\u00e3o quer ir?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o espere que por bons modos a conven\u00e7amos a sair, porque<br \/>\nn\u00e3o havemos trazer-lha a rastos.<\/p>\n<p>&#8211; Eu vou busc\u00e1-la, sendo preciso &#8211; redarg\u00fciu em crescente<br \/>\nf\u00faria. &#8211; Abram-me estas portas, que eu a trarei!<\/p>\n<p>&#8211; Estas portas n\u00e3o se abrem assim, meu primo, sem licen\u00e7a<br \/>\nsuperior. A regra do mosteiro n\u00e3o pode ser quebrantada para servir uma paix\u00e3o<br \/>\ndesordenada, Tranq\u00fcilize-se, senhor! V\u00e1 descansar desse frenesi, e venha noutra<br \/>\nhora combinar comigo o que for digno de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho entendido! &#8211; exclamou o velho, gesticulando contra<br \/>\no ralo do locut\u00f3rio. &#8211; Conspiram todas contra mim! Ora descansem, que eu lhes<br \/>\ndarei uma boa li\u00e7\u00e3o, Fique a senhora abadessa sabendo que eu n\u00e3o quero que<br \/>\nminha filha receba mais cartas do matador, percebeu?<\/p>\n<p>&#8211; Eu creio que Teresa nunca recebeu cartas de matadores, nem<br \/>\nsuponho que as receba d&#8217;ora em diante.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3<sub>0 <\/sub>sei se sabe, nem se n\u00e3o. Eu vigiarei o convento.<br \/>\nA criada, que est\u00e1 com ela, ponham-na fora, percebeu?<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? &#8211; redarg\u00fciu a prelada com enfado.<\/p>\n<p>&#8211; Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ela nada me<br \/>\ntem contado.<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o tinha que lhe dizer, senhor!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3<sub>0 <\/sub>me conte hist\u00f3rias, prima! A criada quero<br \/>\nv\u00ea-la sair do convento e j\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o lhe posso fazer a vontade, porque n\u00e3o fa\u00e7o injusti\u00e7as.<br \/>\nSe vossa senhoria quiser que a sua filha tenha outra criada, mande-lha: mas<br \/>\na que ela tem, logo que deixe de a servir, h\u00e1 muitas senhoras nesta casa que<br \/>\na desejam, e ela mesma deseja aqui ficar.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho entendido &#8211; bradou ele &#8211; querem-me matar! Pois n\u00e3o<br \/>\nmatam; primeiro h\u00e1 de o diabo dar um estouro!<\/p>\n<p>Tadeu de Albuquerque saiu em corcovos do \u00e1trio do mosteiro.<br \/>\nEra hedionda aquela raiva que lhe contraia as faces encorreadas, revendo suor<br \/>\ne sangue aos olhos acovados.<\/p>\n<p>Apresentou-se ao intendente da pol\u00edcia, pedindo provid\u00eancias<br \/>\npara que se lhe entregasse sua filha. O intendente respondeu que ele n\u00e3o solicitava<br \/>\ncompetentemente tais provid\u00eancias. Instou para que o carcereiro da cadeia<br \/>\nn\u00e3o deixasse sair alguma carta de um assassino vindo da comarca de Viseu,<br \/>\npor nome Sim\u00e3o Botelho. O intendente disse que n\u00e3o podia, sem motivos concernentes<br \/>\na devassas, obstar a que o preso escrevesse a quem quer que fosse.<\/p>\n<p>Reduplicada a f\u00faria, foi dali ao corregedor do Porto, com<br \/>\nos mesmos requerimentos, em tom arrogante. O corregedor, particular amigo<br \/>\nde Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a velhice<br \/>\nsem ju\u00edzo era coisa t\u00e3o de riso como de l\u00e1stima. Esteve ent\u00e3o a pique de perder-se<br \/>\na cabe\u00e7a de Tadeu de Albuquerque. Andava e desandava as ruas do Porto, sem<br \/>\natinar com uma sa\u00edda digna da sua pros\u00e1pia e vingan\u00e7a. No dia seguinte, bateu<br \/>\n\u00e0 porta de alguns desembargadores, e achava-os mais inclinados \u00e0 dem\u00eancia<br \/>\nque \u00e0 justi\u00e7a a respeito de Sim\u00e3o Botelho. Um deles, amigo de inf\u00e2ncia de<br \/>\nD. Rita Preciosa, e implorado por ela, falou assim ao sanhudo fidalgo:<\/p>\n<p>&#8211; Em pouco est\u00e1 o ser homicida, senhor Albuquerque. Quantas<br \/>\nmortes teria vossa senhoria hoje feito se alguns advers\u00e1rios se opusessem<br \/>\n\u00e0 sua c\u00f3lera? Esse infeliz mo\u00e7o, contra quem o senhor solicita desvairadas<br \/>\nviol\u00eancias, conserva a honra na altura da sua imensa desgra\u00e7a. Abandonou-o<br \/>\no pai, deixando-o condenar \u00e0 forca; e ele da sua extrema degrada\u00e7\u00e3o nunca<br \/>\nfez sair um grito suplicante de miseric\u00f3rdia, Um estranho lhe esmolou a subsist\u00eancia<br \/>\nde oito meses de c\u00e1rcere, e ele aceitou a esmola, que era honra para si e<br \/>\npara quem lha dava. Hoje, fui eu ver esse desgra\u00e7ado filho de uma senhora<br \/>\nque eu conheci no pa\u00e7o, sentada ao lado dos reis. Achei-o vestido de baet\u00e3o<br \/>\ne pano pedr\u00eas. Perguntei-lhe se assim estava desprovido de fato. Respondeu-me<br \/>\nque se vestira \u00e0 propor\u00e7\u00e3o dos seus meios, e que devia \u00e0 caridade dum ferrador<br \/>\naquelas cal\u00e7as e jaqueta. Repliquei-lhe eu que escrevesse a seu pai para o<br \/>\nvestir decentemente. Disse-me que n\u00e3o pedia nada a quem consentiu que os delitos<br \/>\ndo seu cora\u00e7\u00e3o e da sua dignidade e do pundonor do seu nome fossem expiados<br \/>\nnum pat\u00edbulo. H\u00e1 grandeza neste homem de dezoito anos, senhor Albuquerque.<br \/>\nSe vossa senhoria tivesse consentido que sua filha amasse Sim\u00e3o Botelho Castelo-Branco,<br \/>\nteria poupado a vida ao homem sem honra que se lhe atravessou com insultos<br \/>\ne ofensas corporais de tal afronta, que desonrado ficaria Sim\u00e3o se as n\u00e3o<br \/>\nrepelisse como homem de alma e brios. Se vossa senhoria se n\u00e3o tivesse oposto<br \/>\n\u00e0s honest\u00edssimas e inocentes afei\u00e7\u00f5es de sua filha, a justi\u00e7a n\u00e3o teria mandado<br \/>\narvorar uma forca, nem a vida de seu sobrinho teria sido imolada aos seus<br \/>\ncaprichos de mau pai. E, se sua filha casasse com o filho do corregedor de<br \/>\nViseu, pensa acaso vossa senhoria que os seus bras\u00f5es sofriam desdouro? N\u00e3o<br \/>\nsei de que s\u00e9culo data a nobreza do senhor Tadeu de Albuquerque, mas do bras\u00e3o<br \/>\nde D. Rita Teresa Margarida Preciosa Caldeir\u00e3o Castelo-Branco posso dar-lhe<br \/>\ninforma\u00e7\u00f5es sobre as p\u00e1ginas das mais ver\u00eddicas e ilustres genealogias do<br \/>\nreino. Par parte de seu pai, Sim\u00e3o Botelho tem do melhor sangue de Tr\u00e1s-os-Montes,<br \/>\ne n\u00e3o se temer\u00e1 de entrar em compet\u00eancias com o dos Albuquerques de Viseu,<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9 de certo o dos <i>Albuquerques terr\u00edveis <\/i>de que reza Lu\u00eds de<br \/>\nCam\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Ofendido at\u00e9 ao \u00e2mago pela derradeira ironia, Tadeu ergueu-se<br \/>\nde \u00edmpeto, tomou o chap\u00e9u e a enorme bengala de cast\u00e3o de ouro e fez a cortesia<br \/>\nde despedida.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o amargas as verdades, n\u00e3o \u00e9 assim? &#8211; disse-lhe, sorrindo,<br \/>\no desembargador Mour\u00e3o Mosqueira,<\/p>\n<p>&#8211; Vossa excel\u00eancia l\u00e1 sabe o que diz, e eu c\u00e1 sei no que hei<br \/>\nde ficar &#8211; respondeu com tom ir\u00f4nico o fidalgo, alanceado na sua honra e na<br \/>\ndos seus quinze av\u00f3s.<\/p>\n<p>O desembargador retorquiu:<\/p>\n<p>&#8211; Fique no que quiser; mas v\u00e1 na certeza, se isso lhe serve<br \/>\nde alguma coisa, que Sim\u00e3o Botelho n\u00e3o vai \u00e0 forca.<\/p>\n<p>&#8211; Veremos&#8230; &#8211; resmoneou o velho.<\/p>\n<p>S\u00e3o treze dias decorridos do m\u00eas de Mar\u00e7o de 1805.<\/p>\n<p>Est\u00e1 Sim\u00e3o num quarto de malta das cadeias da Rela\u00e7\u00e3o. Um<br \/>\ncatre de t\u00e1buas, um colch\u00e3o de embarque, uma banca e cadeira de ninho e um<br \/>\npequeno pacote de roupa, colocado no lugar do travesseiro, s\u00e3o a sua mob\u00edlia.<br \/>\nSobre a mesa tem um caixote de pau preto, que cont\u00e9m as cartas de Teresa,<br \/>\nramilhetes secos, os seus manuscritos do c\u00e1rcere de Viseu e um avental de<br \/>\nMariana, o \u00faltimo com que ela, no dia do julgamento, enxugara as l\u00e1grimas<br \/>\ne arrancara de si no primeiro instante de dem\u00eancia.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o rel\u00ea as cartas de Teresa, abre os envolt\u00f3rios de papel<br \/>\nque encerram as flores ressequidas, contempla o avental de linho, procurando<br \/>\nesva\u00eddos vest\u00edgios das l\u00e1grimas. Depois, encosta a face e o peito aos ferros<br \/>\nda sua janela, e avista os horizontes boleados pela serras de Valongo e Gralheira,<br \/>\ne cortados pelas ribas pitorescas de Gaia, do Candal, de Oliveira e do mosteiro<br \/>\nda Serra-do-Pilar. ~ um dia lindo, Refletem-se do azul do c\u00e9u os mil matizes<br \/>\nda primavera. Tem aromas o ar, e a vira\u00e7\u00e3o fugitiva dos jardins derrama no<br \/>\n\u00e9ter as aromas que roubou aos canteiros, Aquela indefinida alegria, que parece<br \/>\nreluzir nas legi\u00f5es de esp\u00edrito que se geram ao sol de mar\u00e7o, rejubila a natureza<br \/>\nque, toda pompa de luz e flores, se est\u00e1 namorando do calor que a vai fecundando.<\/p>\n<p>Dia de amor e de esperan\u00e7as era aquele que o Senhor mandava<br \/>\n\u00e0 cho\u00e7a escravada na garganta da serra, ao pal\u00e1cio esplendoroso que reverberava<br \/>\nao Sol os seus espir\u00e1culos, ao opulento que passeava as ruas moles equipagens,<br \/>\nbafejado pelo respiro acre das sar\u00e7as, e ao mendigo que desentorpecia os membros<br \/>\nencostado \u00e0s colunas dos templos.<\/p>\n<p>E Sim\u00e3o Botelho, fugindo a claridade da luz e o voejar das<br \/>\naves, meditando, chorava e escrevia assim as suas medita\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O p\u00e3o do trabalho de cada dia e o teu seio para repousar<br \/>\numa hora a face, pura de manchas: n\u00e3o pedi mais ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>Achei-me homem aos dezesseis anos. Vi a virtude \u00e0 luz do<br \/>\nteu amor. Cuidei que era santa a paix\u00e3o que. absorvia todas as outras, ou<br \/>\nas depurava com o seu fogo sagrado.<\/p>\n<p>Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo<br \/>\nque eu n\u00e3o possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Teresa,<br \/>\nse os meus l\u00e1bios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus quando<br \/>\nquis eu fazer do meu amor o teu opr\u00f3brio.<\/p>\n<p>Nunca, Teresa! Nunca, 6 mundo que me condenas!<\/p>\n<p>Se teu pai quisesse que eu me arrastasse a seus p\u00e9s para<br \/>\nte merecer, beijar-lhos-ia. Se tu me mandasses morrer para te n\u00e3o privar<br \/>\nde ser feliz com outro homem, morreria, Teresa!<\/p>\n<p>Mas tu eras sozinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz<br \/>\nn\u00e3o devia sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A ins\u00e2nia<br \/>\ndo crime aturde a consci\u00eancia; n\u00e3o a minha, que se n\u00e3o temia das escadas<br \/>\nda forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o estrebuxamento da<br \/>\nsufoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu esperava a cada hora o chamamento para o orat\u00f3rio, e<br \/>\ndizia comigo: falarei a Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Sem pavor, premeditava nas setenta horas dessa agonia moral,<br \/>\ne antevia consola\u00e7\u00f5es que o crime n\u00e3o ousa esperar sem inj\u00faria da justi\u00e7a<br \/>\nde Deus.<\/p>\n<p>Mas chorava por ti, Teresa! O travor do meu c\u00e1lix tinha<br \/>\nsobre a amargura as mil amarguras das tuas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Gemias aos meus ouvidos, m\u00e1rtir! Ver-me-ias sacudindo nas<br \/>\nconvuls\u00f5es da morte, em teus del\u00edrios. A mesma morte tem horror da suprema<br \/>\ndesgra\u00e7a. Tarde morrerias, A minha imagem, em vez de te acenar com a palma<br \/>\nde mart\u00edrios, te seria um fantasma levando das t\u00e1buas dum cadafalso.<\/p>\n<p>Que morte a tua, \u00f3 minha santa amiga!&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>E prosseguiu at\u00e9 ao momento em que Jo\u00e3o da Cruz, com ordem<br \/>\ndo intendente geral da pol\u00edcia, entrou no quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui! &#8211; exclamou Sim\u00e3o, abra\u00e7ando-o. &#8211; E Mariana? Deixou-a<br \/>\nsozinha?! Morta, talvez!<\/p>\n<p>&#8211; Nem sozinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre est\u00e1<br \/>\natr\u00e1s da porta&#8230; Mariana voltou ao seu ju\u00edzo.<\/p>\n<p>&#8211; Fala verdade, senhor Jo\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Pudera mentir!&#8230; Aquilo foi coisa de bruxaria, enquanto<br \/>\na mim&#8230; Sangrias, sedenhos, \u00e1gua fria na cabe\u00e7a, e exorcismos do mission\u00e1rio,<br \/>\nn\u00e3o lhe digo nada, a rapariga est\u00e1 escorreita, e, assim que tiver um todo-nada<br \/>\nde for\u00e7as, bota-se ao caminho.<\/p>\n<p>&#8211; Bendito seja Deus! &#8211; exclamou Sim\u00e3o.<\/p>\n<p><i>&#8211; Am\u00e9m &#8211; <\/i>acrescentou o ferrador. &#8211; Ent\u00e3o que arranjo<br \/>\n\u00e9 este de casa? Que breca de tarimba \u00e9 esta?! Quer-se aqui uma cama de gente,<br \/>\ne alguma coisa em que um crist\u00e3o se possa sentar,<\/p>\n<p>&#8211; Isto assim est\u00e1 excelente.<\/p>\n<p>&#8211; Bem vejo&#8230; E de barriga? Como vamos n\u00f3s de trincadeira?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda tenho dinheiro, meu amigo.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ter muito, n\u00e3o tem d\u00favida; mas eu tenho mais, e vossa<br \/>\nsenhoria tem ordem franca. Veja l\u00e1 esse papel.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o leu uma carta de D. Rita Preciosa, escrita ao ferrador,<br \/>\nem que o autorizava a socorrer seu filho com as necess\u00e1rias despesas, prontificando-se<br \/>\na pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas com a sua assinatura.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 justo &#8211; disse Sim\u00e3o, restituindo a carta &#8211; porque eu devo<br \/>\nter uma legitima.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o j\u00e1 v\u00ea que n\u00e3o tem mais do que pedir por boca. Eu vou<br \/>\ncomprar-lhe arranjos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Abra-me o seu nobre cora\u00e7\u00e3o para outro servi\u00e7o mais valioso<br \/>\n&#8211; atalhou o preso.<\/p>\n<p>&#8211; Diga l\u00e1, fidalgo.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Teresa<br \/>\nde Albuquerque.<\/p>\n<p>&#8211; O berzabum parece-me que as arma! &#8211; disse o ferrador. &#8211;<br \/>\nVenha de l\u00e1 a carta. O pai dela est\u00e1 c\u00e1. J\u00e1 sabia?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois est\u00e1; e, se o diabo o traz \u00e0 minha beira, n\u00e3o sei se<br \/>\nlhe darei com a cabe\u00e7a numa, j\u00e1 me lembrou de o esperar no caminho e pendur\u00e1-lo<br \/>\npelo gasnete no galho dum sobreiro. . . A carta tem resposta?<\/p>\n<p>&#8211; Se lha derem, meu bom amigo.<\/p>\n<p>Chegou o ferrador a Monchique, a tempo que um oficial da justi\u00e7a,<br \/>\ndois m\u00e9dicos e Tadeu de Albuquerque entravam no p\u00e1tio do convento.<\/p>\n<p>Falou o azuaz\u00edl \u00e0 prelada, exigindo em nome do juiz de fora<br \/>\nque dois m\u00e9dicos entrassem no convento a examinar a doente D. Teresa Clementina<br \/>\nde Albuquerque, a requerimento de seu pai.<\/p>\n<p>Perguntou a prelada aos m\u00e9dicos se eles tinham a necess\u00e1ria<br \/>\nlicen\u00e7a eclesi\u00e1stica para entrarem em Monchique. \u00c0 resposta negativa redarg\u00fciu<br \/>\na abadessa que as portas do convento n\u00e3o se abriam. Disseram os m\u00e9dicos de<br \/>\nTadeu de Albuquerque que era aquele o estilo dos mosteiros, e n\u00e3o houve que<br \/>\nredarg\u00fcir \u00e0 rigorosa prelada.<\/p>\n<p>Sa\u00edram, e o ferrador s\u00f3 ent\u00e3o refletiu no modo de entregar<br \/>\na carta. A primeira id\u00e9ia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 senhora freira!<\/p>\n<p>&#8211; Que quer vossemec\u00ea? &#8211; disse a prelada.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora faz favor de dizer \u00e0 senhora D. Teresinha de Viseu,<br \/>\nque est\u00e1 aqui o pai daquela rapariga da aldeia que ela sabe?<\/p>\n<p>&#8211; E quem \u00e9 vossemec\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Sou o pai da tal rapariga que ela sabe.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei! &#8211; exclamou de dentro a voz de Teresa, correndo ao<br \/>\nlocut\u00f3rio.<\/p>\n<p>A prelada retirou-se a um lado, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea l\u00e1 o que fazes, minha filha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A sua filha escreveu-me? &#8211; disse Teresa ao Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhora, aqui est\u00e1 a carta.<\/p>\n<p>E depositou na roda a carta em que a abadessa reparou, e disse,<br \/>\nsorrindo:<\/p>\n<p>&#8211; Muito engenhoso \u00e9 o amor, Teresinha&#8230; Permita Deus que<br \/>\nas noticias da rapariga da aldeia te alegrem o cora\u00e7\u00e3o; mas olha, filhinha,<br \/>\nn\u00e3o cuides que a tua velha tia \u00e9 menos esperta que o <i>pai da rapariga da<br \/>\naldeia.<\/i><\/p>\n<p>Teresa respondeu com beijos \u00e0s jovialidades carinhosas da<br \/>\nsanta senhora, e sumiu-se a ler a carta, e a responder-lhe. Entregando a resposta,<br \/>\ndisse ela ao ferrador:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o v\u00ea ai sentada naquela escadinha uma pobre?<\/p>\n<p>&#8211; Vejo, sim, senhora, e conhe\u00e7o-a. Como diabo veio para aqui<br \/>\nesta mulher? Cuide que depois da esfrega que lhe deu o hortel\u00e3o, a pobrezinha<br \/>\nn\u00e3o tinha pernas que a c\u00e1 trouxessem! A mulher pelos modos tem fibras daquela<br \/>\ncasta!<\/p>\n<p>&#8211; Fale baixo &#8211; tornou Teresa. &#8211; Pois olhe&#8230; quando trouxer<br \/>\nas cartas, entregue-lhas a ela, sim? Eu j\u00e1 a mandei \u00e0 cadeia; mas n\u00e3o a deixaram<br \/>\nl\u00e1 entrar.<\/p>\n<p>&#8211; Bem est\u00e1, e o arranjo n\u00e3o \u00e9 mau assim. Fique com Deus, menina.<\/p>\n<p>Esta boa nova alegrou Sim\u00e3o. A provid\u00eancia divina apiedara-se<br \/>\ndele naquele dia. O restaurar-se o ju\u00edzo de Mariana e a possibilidade de corresponder-se<br \/>\ncom Teresa eram as m\u00e1ximas alegrias que podiam baixar do c\u00e9u ao seu cerrado<br \/>\ninfort\u00fanio.<\/p>\n<p>Exaltara-se Sim\u00e3o em gra\u00e7as a Deus, na presen\u00e7a de Jo\u00e3o da<br \/>\nCruz, que arrumava, no quarto, uns m\u00f3veis que comprara em segunda m\u00e3o, quando<br \/>\neste, suspendendo o trabalho, exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o vou-lhe dizer outra coisa, que n\u00e3o tinha ten\u00e7\u00e3o de<br \/>\nlhe dizer, para o apanhar de <i>s\u00fapeto.<\/i><\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; A minha Mariana veio comigo, e ficou na estalagem porque<br \/>\nn\u00e3o se podia bulir com dores; mas amanh\u00e3 ela c\u00e1 est\u00e1 para lhe fazer a cozinha<br \/>\ne varrer a casa.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o, reconcentrando o indefin\u00edvel sentimento que esta noticia<br \/>\nlhe causara, disse com melanc\u00f3lica pausa:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, pois, certo que a minha m\u00e1 estr\u00e9ia arrasta a sua desgra\u00e7ada<br \/>\nfilha a todos os meus abismos! Pobre anjo de caridade, que digna tu \u00e9s do<br \/>\nc\u00e9u!<\/p>\n<p>&#8211; Que est\u00e1 o senhor ai a pregar? &#8211; interrompeu o ferrador.<br \/>\n&#8211; Parece que ficou a modo de tristonho com a not\u00edcia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Jo\u00e3o &#8211; tornou solenemente o preso &#8211; n\u00e3o deixe aqui<br \/>\na sua querida filha. Deixe-ma ver, traga-a consigo uma vez a esta casa; mas<br \/>\nn\u00e3o a deixe c\u00e1, porque eu n\u00e3o posso tolher o destino de Mariana. Como h\u00e1 de<br \/>\nela viver no Porto, sozinha, sem conhecer ningu\u00e9m, bela como ela \u00e9, e perseguida<br \/>\ncomo tem de ser?!<\/p>\n<p>&#8211; Perseguida! T\u00f3 <i>carocha! <\/i>N\u00e3o que ela \u00e9 mesmo de se<br \/>\nlhe dar que a persigam!&#8230; Que v\u00e3o para l\u00e1, mas que deixem as ventas em casa.<br \/>\nMeu amigo, as mulheres s\u00e3o como as p\u00earas verdes: um homem apalpa-as, e, se<br \/>\no dedo acha duro, deixa-as, e n\u00e3o as come. \u00c9 como \u00e9. A rapariga sai \u00e0 m\u00e3e.<br \/>\nMinha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentanto, dei-lhe um dia<br \/>\num belisc\u00e3o numa perna. E vai ela p\u00f5e-se direita comigo, e deu-me dois cascudos<br \/>\nnas trombas, que ainda agora os sinto. A Mariana!&#8230; Aquilo \u00e9 d&#8217;a pele de<br \/>\nSatan\u00e1s! Pergunte o senhor, se algum dia falar com aquele fidalguinho Mendes,<br \/>\nde Viseu, a tro\u00e7ada que ele levou com as r\u00e9dias da \u00e9gua, s\u00f3 por lhe bulir<br \/>\nna chinela quando ela estava em cima da burra!<\/p>\n<p>Sim\u00e3o sorriu ao rasgado peneg\u00edrico da bravura da mo\u00e7a, e orgulhou-se<br \/>\nsecretamente dos brandos afagos com que ela o desvelara em oito meses de quase<br \/>\ncontinuada conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; E vossemec\u00ea h\u00e1 de privar-se da companhia de sua filha? &#8211;<br \/>\ninsistiu o preso.<\/p>\n<p>&#8211; Eu l\u00e1 me arranjarei como puder. Tenho uma cunhada velha,<br \/>\ne levo-a para mim para me arranjar o caldo. E vossa senhoria pouco tempo aqui<br \/>\nestar\u00e1&#8230; O senhor corregedor l\u00e1 anda a tratar de o p\u00f4r na rua, e que o senhor<br \/>\nsai, c\u00e1 para mim s\u00e3o favas contadas. E assim com&#8217;assim, viu dizer-lhe tudo<br \/>\nduma feita: a rapariga, se eu a n\u00e3o deixasse vir para o Porto, dava um estouro<br \/>\ncomo uma castanha. Olhe que eu n\u00e3o sou tolo, fidalgo. Que ela tem paix\u00e3o d&#8217;alma<br \/>\npor vossa senhoria, isto; t\u00e3o certo como eu ser Jo\u00e3o. \u00c9 a sua sina; que hei<br \/>\nde eu fazer-lhe? Deix\u00e1-la, que pelo senhor Sim\u00e3o n\u00e3o lhe h\u00e1 de vir mal, ou<br \/>\nent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 honra neste mundo.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o lan\u00e7ou-se aos bra\u00e7os do ferrador, exclamando:<\/p>\n<p>&#8211; Pudesse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!<\/p>\n<p>&#8211; Qual marido!&#8230; &#8211; disse o ferrador com os olhos vidrados<br \/>\ndas primeiras l\u00e1grimas que Sim\u00e3o lhe vira &#8211; Eu nunca me lembrei disso, nem<br \/>\nela!&#8230; Eu sei que sou um ferrador, e ela sabe que pode ser sua criada, e<br \/>\nmais nada, senhor Sim\u00e3o; mas&#8230; sabe que mais? Eu desejo que os meus amigos<br \/>\nsejam desgra\u00e7ados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre rapariga!<br \/>\nN\u00e3o falemos nisto, que eu por milagre choro; mas, quando pego a chorar, sou<br \/>\num chafariz&#8230; Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a c\u00f4moda ali; duas<br \/>\ncadeiras deste lado, e duas daquele. A barra acol\u00e1. O ba\u00fa debaixo da cama.<br \/>\nA bacia e a bilha da \u00e1gua sobre esta coisa, que n\u00e3o sei como se chama. Os<br \/>\nlen\u00e7\u00f3is e o mais bragal tem-nos l\u00e1 a rapariga. Amanh\u00e3 \u00e9 que o quarto h\u00e1 de<br \/>\nficar que nem uma capela. Olhe que a Mariana j\u00e1 me disse que comprasse duas<br \/>\naquelas&#8230; Como se chamam aquelas envasilhas de p\u00f4r ramos?<\/p>\n<p>&#8211; Jarras.<\/p>\n<p>&#8211; E como diz, duas jarras para flores; mas eu n\u00e3o sei onde<br \/>\nse vende isso. Agora vou buscar o jantar, que a mo\u00e7a h\u00e1 de cuidar que me n\u00e3o<br \/>\ndeixar sair da cadeia. Ainda lhe n\u00e3o disse que n\u00e3o me deixaram c\u00e1 entrar ontem<br \/>\n\u00e0 tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua m\u00e3e para um senhor desembargador,<br \/>\nfui onde a ele, e hoje de manh\u00e3 j\u00e1 l\u00e1 tinha na estalagem a ordem do senhor<br \/>\nintendente geral da policia. At\u00e9 logo.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"14\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIV<\/strong><\/h4>\n<p>Um incidente agora me ocorre, n\u00e3o muito concertado com o seguimento<br \/>\nda hist\u00f3ria, mas a prop\u00f3sito vindo para demonstrar uma face da \u00edndole do ex~corregedor<br \/>\nde Viseu, j\u00e1 ent\u00e3o exonerado do cargo.<\/p>\n<p>Sabido \u00e9 que Manuel Botelho, o primog\u00eanito. voltando a freq\u00fcentar<br \/>\nmatem\u00e1ticas em Coimbra, fugira dali para Espanha com uma dama desleal a seu<br \/>\nmarido, estudante a\u00e7oreano que cursava medicina.<\/p>\n<p>Um ano demorara na Corunha Manuel Botelho com a fugitiva.<br \/>\nalimentando-se dos recursos que sua m\u00e3e, extremosa por ele, lhe remetia, vendendo<br \/>\na pouco e pouco as suas j\u00f3ias, e privando as filhas dos adornos pr\u00f3prios dos<br \/>\nanos e da qualidade.<\/p>\n<p>Secaram-se estas fontes, e n\u00e3o restavam outras. D. Rita disse<br \/>\nafinal ao filho que deixara de socorrer Sim\u00e3o por n\u00e3o ter meios; e agora das<br \/>\nescassas economias que fazia nada podia enviar-lhe porque estava em obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde pagar os alimentos de Sim\u00e3o \u00e0 pessoa que por compaix\u00e3o lhos dera em Viseu,<br \/>\ne lhos estava dando no Porto. Ajuntava ela, para consola\u00e7\u00e3o do filho, que<br \/>\nviesse ele para Vila-Real, e trouxesse consigo a infeliz senhora; que fosse<br \/>\nele para casa, e a deixasse a ela numa estalagem at\u00e9 se lhe arranjar habita\u00e7\u00e3o;<br \/>\nque o ensejo era oportuno por estar na quinta de Montezelos o pai, quase divorciado<br \/>\nda fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Voltou pelo Minho Manuel Botelho, e chegou com a dama ao Porto,<br \/>\nquinze dias depois que Sim\u00e3o entrara no c\u00e1rcere.<\/p>\n<p>J\u00e1 noutro ponto deixamos dito que nunca os dois irm\u00e3os se<br \/>\nderam, nem estimaram; mas o infort\u00fanio de Sim\u00e3o remia as culpas do g\u00eanio fatal<br \/>\nque o orfanara de pai e m\u00e3e, e s\u00f3 da irm\u00e3 Rita lhe deixara uma lembran\u00e7a saudosa.<\/p>\n<p>Foi Manuel \u00e0 cadeia, e, abrindo os bra\u00e7os ao irm\u00e3o. teve um<br \/>\nglacial acolhimento.<\/p>\n<p>Perguntou-lhe Manuel a hist\u00f3ria do seu desastre,<\/p>\n<p>&#8211; Consta do processo &#8211; respondeu Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E tem o mano esperan\u00e7as de liberdade? &#8211; replicou Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o penso nisso.<\/p>\n<p>&#8211; Eu pouco posso oferecer-lhe, porque vou para casa for\u00e7ado<br \/>\npela falta de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei consigo da minha.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o preciso nada, Esmolas s\u00f3 as recebo daquela mulher.<\/p>\n<p>J\u00e1 Manuel tinha reparado em Mariana, e da beleza da mo\u00e7a inferira<br \/>\nconclus\u00f5es para formar falsos ju\u00edzos.<\/p>\n<p>&#8211; E quem \u00e9 esta menina? &#8211; tornou Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um anjo&#8230; N\u00e3o lhe sei dizer mais nada.<\/p>\n<p>Mariana sorriu-se, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Sou uma criada do senhor Sim\u00e3o e de vossa senhoria.<\/p>\n<p>&#8211; E c\u00e1 do Porto?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3<sub>0<\/sub>, meu senhor, seu dos arrabaldes de Viseu.<\/p>\n<p>&#8211; E tem feito sempre companhia a meu mano?<\/p>\n<p>Sim\u00e3o atalhou assim \u00e0 resposta balbuciante de Mariana:<\/p>\n<p>&#8211; A sua curiosidade incomoda-me, mano Manuel,<\/p>\n<p>&#8211; Cuidei que n\u00e3o era ofensiva &#8211; replicou o outro, tomando<br \/>\no chap\u00e9u. &#8211; Quer alguma coisa para a m\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211; Nada.<\/p>\n<p>Estando Manuel Botelho, na tarde desse dia, fechando as malas<br \/>\npara seguir jornada para Vila-Real, foi visitado pelo desembargador Mour\u00e3o<br \/>\nMosqueira e pelo corregedor do crime.<\/p>\n<p>&#8211; Devemos \u00e0 espionagem da pol\u00edcia &#8211; disse o corregedor &#8211; a<br \/>\nnovidade de estar nesta estalagem um filho do meu antigo amigo, condisc\u00edpulo<br \/>\ne colega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abra\u00e7o e oferecer<br \/>\no nosso pr\u00e9stimo. Esta senhora \u00e9 sua esposa? &#8211; continuou o magistrado, reparando<br \/>\nna a\u00e7oreana.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 minha esposa&#8230; &#8211; balbuciou Manuel &#8211; \u00e9&#8230;<br \/>\nminha irm\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Sua irm\u00e3&#8230; &#8211; disse Mosqueira &#8211; qual das tr\u00eas? H\u00e1 cinco<br \/>\nanos que as vi em Viseu, e grande mudan\u00e7a fez esta senhora, que n\u00e3o me recordo<br \/>\ndas suas fei\u00e7\u00f5es absolutamente coisa nenhuma. E a senhora D. Ana Am\u00e1lia?<\/p>\n<p>&#8211; Justamente &#8211; disse Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; Bela lhe afirmo eu que est\u00e1, minha senhora; mas fez-se um<br \/>\nrosto muito outro do que era!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vieram ver o infeliz Sim\u00e3o? &#8211; atalhou o corregedor.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor&#8230; viemos ver meu pobre irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Foi um raio que caiu na fam\u00edlia aquele rapaz!&#8230; -ajuntou<br \/>\nMosqueira &#8211; mas pode estar na certeza que a senten\u00e7a n\u00e3o se executa; diga<br \/>\na sua m\u00e3e que mo ouviu da minha boca. O meu tribunal est\u00e1 preparando para<br \/>\nlhe minorar a pena em dez anos de degredo para a \u00cdndia, e seu pai. segundo<br \/>\nme disse na passagem para Vila-Real, j\u00e1 preparou as coisas na suplica\u00e7\u00e3o e<br \/>\nno desembargo do pa\u00e7o, n\u00e3o obstante o morto ter l\u00e1 parentes poderosos nas<br \/>\nduas inst\u00e2ncias. Quis\u00e9ramos absolv\u00ea-lo e restitui-lo \u00e0 sua fam\u00edlia; mas tanto<br \/>\n\u00e9 imposs\u00edvel. Sim\u00e3o matou, e confessa soberbamente que matou. N\u00e3o consente<br \/>\nmesmo que se diga que em defesa o fez. \u00c9 um doido desgra\u00e7ado com sentimentos<br \/>\nnobil\u00edssimos! Chovem cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabe\u00e7a<br \/>\ndo pobre rapaz com uma sem-cerim\u00f4nia que indigna o \u00e2nimo.<\/p>\n<p>&#8211; E essa menina que foi a causa da desgra\u00e7a? &#8211; perguntou Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 uma hero\u00edna! &#8211; respondeu o corregedor do crime, &#8211;<br \/>\nDavam-na j\u00e1 por morta quando Sim\u00e3o chegou aqui. Desde que soube das probabilidades<br \/>\nda comuta\u00e7\u00e3o da pena, deu um pontap\u00e9 na morte, e est\u00e1 salva, segundo me disse<br \/>\no m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8211; Conhece-a muito bem, minha senhora? &#8211; disse o desembargador<br \/>\n\u00e0 dama, suposta irm\u00e3 de Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem &#8211; respondeu ela, relaceando os olhos ao amante.<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que \u00e9 formos\u00edssima!<\/p>\n<p>&#8211; Decerto &#8211; acudiu Manuel &#8211; \u00e9 formos\u00edssima!<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem &#8211; disse o corregedor, erguendo-se. &#8211; Leve este<br \/>\nabra\u00e7o ao pai, e diga-lhe que o condisc\u00edpulo c\u00e1 est\u00e1 leal e dedicado como<br \/>\nsempre. Eu tenho de lhe escrever brevemente.<\/p>\n<p>&#8211; E outro abra\u00e7o a sua virtuosa, m\u00e3e &#8211; acrescentou o desembargador.<\/p>\n<p>&#8211; Vou desconfiado! &#8211; disse o Mosqueira ao colega. &#8211; Manuel<br \/>\nBotelho tinha, h\u00e1 coisa de um ano, fugido para Espanha com uma senhora casada.<br \/>\nAquela mulher que vimos n\u00e3o \u00e9 irm\u00e3 dele.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, se nos mentiu, \u00e9 patife, por nos obrigar a cortejar<br \/>\numa concubina!&#8230; Eu me informarei&#8230; &#8211; disse o corregedor, ofendido no seu<br \/>\naustero pundonor.<\/p>\n<p>E no pr\u00f3ximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia<br \/>\nno per\u00edodo final &#8220;Tive o gosto de conhecer teu filho Manuel e uma de<br \/>\ntuas filhas; por ele te mandei um abra\u00e7o, e por ela te mandaria outro, se<br \/>\nfosse moda ensinarem velhos a meninas bonitas como se d\u00e3o os abra\u00e7os nos pais&#8221;.<\/p>\n<p>Estava j\u00e1 Manuel em casa, e cuidava em trajar uma modesta<br \/>\ncasa para a a\u00e7oreana, auxiliado por sua bondosa e indulgente m\u00e3e. Domingos<br \/>\nBotelho fora informado da vinda, e dissera que n\u00e3o queria ver o filho, avisando-o<br \/>\nde que era considerado desertor de cavalaria seis desde que abandonara os<br \/>\nestudos, onde estava com licen\u00e7a.<\/p>\n<p>Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou imediata<br \/>\ne secretamente devassar se em Vila-Real estava a senhora que indicava a carta.<br \/>\nA espionagem deu-a como certa na estalagem, enquanto Manuel Botelho cuidava<br \/>\nnos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz de fora, e este mandou<br \/>\nchamar \u00e0 sua presen\u00e7a a mulher suspeita, e ouviu dela a sua hist\u00f3ria sincera<br \/>\ne lacrimosamente contada. Condoeu-se o juiz, e revelou ao colega as suas averigua\u00e7\u00f5es,<br \/>\nDomingos Botelho foi a Vila-Real, e hospedou-se em casa do juiz de fora, onde<br \/>\na senhora foi novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da prov\u00edncia<br \/>\nlavrava ordem de pris\u00e3o para o cadete desertor de cavalaria de Bragan\u00e7a.<\/p>\n<p>A a\u00e7oreana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda<br \/>\nsambra, e apar\u00eancia de inten\u00e7\u00f5es sinistras.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou pai de Manuel &#8211; disse Domingos Botelho. Sei a hist\u00f3ria<br \/>\nda senhora. O infame \u00e9 ele. Vossa senhoria \u00e9 a v\u00edtima. O castigo da senhora<br \/>\nprincipiou desde o momento em que a sua consci\u00eancia lhe disse que praticou<br \/>\numa a\u00e7\u00e3o indigna. Se a consci\u00eancia lho n\u00e3o disse ainda, ela lho dir\u00e1. Donde<br \/>\n\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Da ilha do Faial &#8211; respondeu tr\u00eamula a dama.<\/p>\n<p>&#8211; Tem fam\u00edlia?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho m\u00e3e e irm\u00e3s.<\/p>\n<p>&#8211; Sua m\u00e3e aceit\u00e1-la-ia, se a senhora lhe pedisse abrigo?<\/p>\n<p>&#8211; Creio que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que Manuel \u00e9 um desertor, que a estas horas est\u00e1 preso<br \/>\nou fugitivo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quer isto dizer que a senhora n\u00e3o tem prote\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>A pobre mulher solu\u00e7ava, abafada por \u00e2nsias, e debulhada em<br \/>\nl\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o vai para sua m\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho recursos alguns &#8211; respondeu ela.<\/p>\n<p>&#8211; Quer partir hoje mesmo? A porta da estalagem. daqui a pouco,<br \/>\nencontrar\u00e1 uma liteira e uma criada para acompanh\u00e1-la at\u00e9 ao Porto. L\u00e1 entregar\u00e1<br \/>\numa carta. A pessoa a quem escrevo lhe cuidar\u00e1 da passagem para Lisboa. Em<br \/>\nLisboa outra pessoa a levar\u00e1 a bordo da primeira embarca\u00e7\u00e3o que sair para<br \/>\nos A\u00e7ores. Estamos combinados? Aceita?<\/p>\n<p>&#8211; E beijo as m\u00e3os de vossa senhoria&#8230; Uma desgra\u00e7ada como<br \/>\neu n\u00e3o podia esperar tanta caridade.<\/p>\n<p>Poucas horas depois. a esposa do m\u00e9dico&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que tinha morrido de paix\u00e3o e vergonha talvez! &#8211; exclama<br \/>\numa leitora sens\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, minha senhora; o estudante continuava nesse ano a freq\u00fcentar<br \/>\na Universidade; e, como tinha j\u00e1 vasta instru\u00e7\u00e3o em patologia, poupou-se \u00e0<br \/>\nmorte da vergonha. que \u00e9 uma morte inventada pelo visconde de A. Garrett no<br \/>\n<i>Fr. Luiz de Sousa, <\/i>e \u00e0 morte da paix\u00e3o. que \u00e9 outra morte inventada<br \/>\npelos namorados nas cartas despeitosas, e que n\u00e3o pega nos maridos a quem<br \/>\no s\u00e9culo dotou de uns longes de filosofia, filosofia grega e romana, porque<br \/>\nbem sabem que os fil\u00f3sofos da antig\u00fcidade davam por mimo as mulheres aos seus<br \/>\namigos, quando os seus amigos por favor lhas n\u00e3o tiravam, E esta filosofia<br \/>\nhoje ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Pois o m\u00e9dico n\u00e3o morreu, nem sequer desmedrou, ou levou <i>R<br \/>\n<\/i>significativo de preocupa\u00e7\u00e3o do \u00e2nimo, insens\u00edvel \u00e0s amenidades da terap\u00eautica.<\/p>\n<p>A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudin\u00e1ria<br \/>\nque seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem esperan\u00e7as,<br \/>\nsem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou ao Porto, onde<br \/>\nprocurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma carta do doutor Domingos<br \/>\nBotelho. Um per\u00edodo desta carta dizia assim:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Deste-me a noticia duma filha que eu n\u00e3o conhecia,<br \/>\nnem conhe\u00e7o. A m\u00e3e desta senhora est\u00e1 no Faial, para onde ela vai. Cuida<br \/>\ntu, ou manda cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali algu\u00e9m<br \/>\nde correr com a passagem dela para os A\u00e7ores no primeiro navio. A mim me<br \/>\ndar\u00e1s conta das despesas. Meu filho Manuel teve ao menos a virtude de n\u00e3o<br \/>\nmatar ningu\u00e9m para se constituir amante. Do modo como correm os tempos,<br \/>\nmuito virtuoso \u00e9 o rapaz que n\u00e3o mata o marido da mulher que ama. V\u00ea se<br \/>\nconsegues do general, que est\u00e1 ai, perd\u00e3o para o rapaz, que \u00e9 desertor da<br \/>\ncavalaria seis, e me consta que est\u00e1 escondido em casa dum parente. Enquanto<br \/>\na Sim\u00e3o, creio que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel salv\u00e1-lo do degredo tempor\u00e1rio&#8230; \u00c9 uma<br \/>\nlan\u00e7a em \u00c1frica livr\u00e1-lo da forca. Em Lisboa movem-se grandes pot\u00eancias<br \/>\ncontra o desgra\u00e7ado, e eu estou mal visto do intendente geral por abandonar<br \/>\no lugar&#8230; etc.&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Partiu para Lisboa a a\u00e7oreana, e dali para a sua terra, e<br \/>\npara o abrigo de sua m\u00e3e, que a julgara morta, e lhe deu anos de vida, se<br \/>\nn\u00e3o ditosa, sossegada e desiludida de quimeras.<\/p>\n<p>Manuel Botelho, obtido o perd\u00e3o pela preponder\u00e2ncia do corregedor<br \/>\ndo crime, mudou de regimento para Lisboa, e ai permaneceu at\u00e9 que, falecido<br \/>\nseu pai, pediu a baixa e voltou \u00e0 prov\u00edncia.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"15\"><\/a>CAP\u00cdTULO XV<\/strong><\/h4>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz, no dia 4 de agosto de 1805, sentou-se \u00e0 mesa<br \/>\ncom triste aspecto e nenhum apetite do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o comes, Jo\u00e3o? &#8211; disse-lhe a cunhada.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o passa daqui o bocado &#8211; respondeu ele, pondo o dedo nos<br \/>\ngorgomilos.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho saudades da rapariga&#8230; Dava agora tudo quando tenho<br \/>\npara a ver aqui ao p\u00e9 de mim, com aqueles olhos que pareciam ir direito aos<br \/>\ndesgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgra\u00e7as da minha<br \/>\nvida, que ma fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para sempre!&#8230; Se<br \/>\neu n\u00e3o tivesse dado o tiro no almocreve, n\u00e3o vinha a ficar em obriga\u00e7\u00e3o ao<br \/>\ncorregedor, e n\u00e3o se me dava que o filho vivesse ou morresse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, se tens saudades &#8211; atalhou a senhora Josefa &#8211; manda<br \/>\nbuscar a rapariga, tem-na c\u00e1 algum tempo, e torna depois para onde ao senhor<br \/>\nSim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o \u00e9 de homem que p\u00f5e navalha na cara, Josefa. O rapaz,<br \/>\nse ela lhe falta, morre de pasmo dentro daqueles ferros. Isto \u00e9 veneta que<br \/>\nme deu hoje&#8230; Sabes que mais? Leve a breca o dinheiro! Amanh\u00e3 vou ao Porto.<\/p>\n<p>&#8211; Pois isso \u00e9 o que deves fazer.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 dito. Quem c\u00e1 ficar que o ganhe. V\u00e3o-se os an\u00e9is e<br \/>\nfiquem os dedos. Por ora, tem-se resistido a tudo com o meu bra\u00e7o. A rapariga,<br \/>\nse ficar com menos, l\u00e1 se avenha. Assim o quer, assim o tenha.<\/p>\n<p>Reanimou-se a fisionomia do mestre ferrador, e como que os<br \/>\nempe\u00e7os da garganta se iam removendo \u00e0 medida que planizava a sua ida ao Porto.<\/p>\n<p>Acabara de almo\u00e7ar, e ficara cism\u00e1tico, encostado \u00e0 mesa do<br \/>\nescano.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda est\u00e1s malucando?! &#8211; tornou Josefa.<\/p>\n<p>&#8211; Parece coisa do dem\u00f4nio, mulher!&#8230; A rapariga estar\u00e1 doente<br \/>\nou morta?<\/p>\n<p>&#8211; Anjo bento da Sant\u00edssima Trindade! &#8211; exclamou a cunhada,<br \/>\nerguendo as m\u00e3os &#8211; que dizes tu, Jo\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Estou c\u00e1 por dentro negro como aquela sert\u00e3!<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 flato, homem! Vai tomar ar; trabalha um poucochinho<br \/>\npara espaireceres.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Cruz passou ao coberto onde tinha o arm\u00e1rio da ferragem<br \/>\ne a bigorna, e come\u00e7ou a atarracar cravos.<\/p>\n<p>Alguns conhecidos tinham passados, palavreando com ele consoante<br \/>\ncostumavam, e achavam-no taciturno e nada para gra\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu, Jo\u00e3o? &#8211; dizia um.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho nada. Vai \u00e0 tua vida e deixa-me, que n\u00e3o estou<br \/>\npara l\u00e9rias.<\/p>\n<p>Outro parava e dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Guarde-o Deus, senhor Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E a vossemec\u00ea tamb\u00e9m. Que novidade h\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei nada.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o v\u00e1 com Nossa Senhora, que eu estou c\u00e1 de candeias<br \/>\n\u00e0s avessas.<\/p>\n<p>O ferrador largava o martelo; sentava-se aos poucos no tronco,<br \/>\ne co\u00e7ava a cabe\u00e7a com frenesi. Depois recome\u00e7ava novamente, e t\u00e3o alheado<br \/>\no fazia, que estragava o cravo, ou martelava os dedos.<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 coisa do diabo! &#8211; exclamou ele; e foi \u00e0 cozinha procurar<br \/>\na pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paix\u00f5es et\u00e9reas se aturde<br \/>\ncom absinto. &#8211; Hei de afogar-te, coisa m\u00e1, que me est\u00e1s apertando a alma!<br \/>\n&#8211; continuou o ferrador, sacudindo os bra\u00e7os, e batendo o p\u00e9 no soalho.<\/p>\n<p>Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre<br \/>\na sua possante mula. Envolvia-se o cavaleiro num amplo capote \u00e0 moda espanhola,<br \/>\nsem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de couro cru, com esporas<br \/>\namarelas afiveladas, e o chap\u00e9u derrubado sobre os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Ora viva! &#8211; disse o passageiro.<\/p>\n<p>&#8211; Viva! &#8211; respondeu mestre Jo\u00e3o, relaceando os olhos pelas<br \/>\nquatro patas da mula, a ver se tinha obra em que entreter o esp\u00edrito &#8211; A mula<br \/>\n\u00e9 de r\u00f3pia e chiban\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 m\u00e1. Vossemec\u00ea \u00e9 que \u00e9 o senhor Jo\u00e3o da Cruz?<\/p>\n<p>&#8211; Para o servir.<\/p>\n<p>&#8211; Venho aqui pagar-lhe uma d\u00edvida.<\/p>\n<p>&#8211; A mim? O senhor n\u00e3o me deve nada, que eu saiba.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sou eu que devo; \u00e9 meu pai, e ele que me encarregou<br \/>\nde lhe pagar.<\/p>\n<p>&#8211; E quem \u00e9 seu pai?<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai era um recoveiro de Car\u00e7\u00e3o, chamado Bento Machado.<\/p>\n<p>Proferida metade destas palavras, o cavalheiro afastou rapidamente<br \/>\nas bandas do capote e desfechou um bacamarte no peito do ferrador. O ferido<br \/>\nrecuou, exclamando:<\/p>\n<p>&#8211; Mataram-me!&#8230; Mariana, n\u00e3o te vejo mais!&#8230;<\/p>\n<p>O assassino teria dado cinq\u00fcenta passos a todo o galope da<br \/>\nespantada mula, quando Jo\u00e3o da Cruz, debru\u00e7ado sobre o banco, arrancava o<br \/>\n\u00faltimo suspiro com a cara posta no ch\u00e3o, donde apontara ao peito do almocreve<br \/>\ndez anos antes.<\/p>\n<p>Os caminheiros, que perpassaram pelo cavaleiro inadvertidamente,<br \/>\najuntaram-se em redor do cad\u00e1ver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro, e j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o ouviu as \u00faltimas palavras de seu cunhado. Quis transport\u00e1-lo para dentro<br \/>\ne correr a chamar cirurgi\u00e3o; mas um cirurgi\u00e3o estava no ajuntamento, e declarou<br \/>\nmorto o homem.<\/p>\n<p>&#8211; Quem o matou? &#8211; exclamavam trinta vozes a um tempo.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia vieram justi\u00e7a de Viseu lavrar auto e devassar:<br \/>\nnenhum ind\u00edcio lhes deu o fio do misterioso assass\u00ednio. O escriv\u00e3o dos \u00f3rf\u00e3os<br \/>\ninventariou os objetos encontrados, e fechou as portas quando os sinos corriam<br \/>\no derradeiro dobre ao cair da lousa sobre Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n<p>Deus ter\u00e1 descontado nos instintos sanguin\u00e1rios do teu temperamento<br \/>\na nobreza de tua alma! Pensando nas incoer\u00eancias da tua \u00edndole, homem que<br \/>\nme explicas a provid\u00eancia, assombram-me as caprichosas ant\u00edteses que a m\u00e3o<br \/>\nde Deus infunde em alentos na criatura. Dorme o teu sono infinito, se nenhum<br \/>\noutro tribunal te cita a responder pelas vidas que tiraste, e pelo uso que<br \/>\nfizeste da tua. Mas, se h\u00e1 est\u00e2ncia de castigo e de miseric\u00f3rdia, as l\u00e1grimas<br \/>\nde tua filha ter\u00e3o sido, na presen\u00e7a do Juiz Supremo, os teus merecimentos.<\/p>\n<p>Fez Josefa escrever a Mariana, noticiando-lhe a morte de seu<br \/>\npai, mas sobrescritou a carta a Sim\u00e3o Botelho, para maior seguran\u00e7a. Estava<br \/>\nMariana no quarto do preso, quando <i>a <\/i>carta lhe foi entregue.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o a letra, Mariana&#8230; E a obreia \u00e9 preta&#8230;<\/p>\n<p>Mariana examinou o sobrescrito, e empalideceu.<\/p>\n<p>&#8211; Eu conhe\u00e7o a letra &#8211; disse ela &#8211; \u00e9 do Joaquim da loja. Abra,<br \/>\ndepressa, senhor Sim\u00e3o&#8230; Meu pai morreria?<\/p>\n<p>&#8211; Que lembran\u00e7a! Pois n\u00e3o teve h\u00e1 tr\u00eas dias carta dele?&#8230;<br \/>\nE n\u00e3o disse que estava bom?<\/p>\n<p>&#8211; Isso que tem?&#8230; Veja quem assina.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o buscou a assinatura, e disse:<\/p>\n<p><i>&#8211; Josefa Maria!&#8230; <\/i>\u00c9 a tua tia que lhe escreve.<\/p>\n<p>&#8211; Leia&#8230; leia&#8230; Que diz ela? Deixe-me ler a mim&#8230;<\/p>\n<p>O preso lia mentalmente, e Mariana instou:<\/p>\n<p>&#8211; Leia alto, por quem \u00e9, senhor Sim\u00e3o, que estou a tremer&#8230;<br \/>\ne vossa senhoria descora&#8230; Que \u00e9, meu Deus?<\/p>\n<p>Sim\u00e3o deixou cair a carta, e sentou-se prostrado de \u00e2nimo.<br \/>\nMariana correu a levantar a carta, e ele, tomando-lhe a m\u00e3o, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Pobre amigo!&#8230; Choremo-lo ambos&#8230; choremo-lo, Mariana,<br \/>\nque o am\u00e1vamos como filhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois morreu? &#8211; bradou ela.<\/p>\n<p>&#8211; Morreu&#8230; mataram-no!&#8230;<\/p>\n<p>A mo\u00e7a expediu um grito estr\u00eddulo, e foi com o rosto contra<br \/>\nos ferros das grades. Sim\u00e3o inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita<br \/>\nternura e veem\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Mariana, lembre-se que \u00e9 o meu amparo. Lembre-se de que<br \/>\nas \u00faltimas palavras de seu pai deviam ser recomendar-lhe o desgra\u00e7ado que<br \/>\nrecebe das tuas m\u00e3os benfeitoras o p\u00e3o da vida. Mariana, minha querida irm\u00e3,<br \/>\nven\u00e7a a dor, que pode mat\u00e1-la, e ven\u00e7a-a por amor de mim. Ouve-me, amiga da<br \/>\nminha alma?<\/p>\n<p>Mariana exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-me chorar, por caridade!&#8230; Ai! meu Deus, se eu torno<br \/>\na endoidecer!<\/p>\n<p>&#8211; Que seria de mim! &#8211; A quem deixaria Mariana o seu nobre<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o para me suavizar este mart\u00edrio? Quem me levaria ao desterro uma palavra<br \/>\namiga que me animasse a crer em Deus? N\u00e3o h\u00e1 de enlouquecer, Mariana, porque<br \/>\neu sei que me estima, que me ama, e que afrontar\u00e1 com coragem a maior desgra\u00e7a<br \/>\nque ainda pode sugerir-me o inferno! Chore, minha irm\u00e3, chore: mas veja-me<br \/>\natrav\u00e9s das suas l\u00e1grimas!<\/p>\n<h4><strong><a name=\"16\"><\/a>CAP\u00cdTULO XVI<\/strong><\/h4>\n<p>Mariana, decorridos dias, foi a Viseu recolher a heran\u00e7a paterna<br \/>\nEm propor\u00e7\u00e3o com o seu nascimento, bem dotada a deixara o laborioso ferrador.<br \/>\nAfora os campos, cujo rendimento bastaria para a sustenta\u00e7\u00e3o dela, Mariana<br \/>\nlevantou a laje conhecida da lareira e achou os quatrocentos mil r\u00e9is com<br \/>\nque Jo\u00e3o da Cruz contava para alimentar as regalias de sua decrepitude inerte.<br \/>\nVendeu Mariana as terras, e deixou a casa a sua tia, que nascera nela, e onde<br \/>\nseu pai casara.<\/p>\n<p>Liquidada a heran\u00e7a, tornou para o Porto, e depositou o seu<br \/>\ncabedal nas m\u00e3os de Sim\u00e3o Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha<br \/>\nem que vivia, fronteira \u00e0 Rela\u00e7\u00e3o, na Rua de S. Bento.<\/p>\n<p>&#8211; Por que vendeu as suas terras, Mariana? &#8211; perguntou o preso.<\/p>\n<p>&#8211; Vendi-as, porque n\u00e3o fa\u00e7o ten\u00e7\u00e3o de l\u00e1 voltar.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o faz?&#8230; Para onde h\u00e1 de ir, Mariana, indo eu degredado?<br \/>\nFica no Porto?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor, n\u00e3o fico &#8211; balbuciou ela como admirada desta<br \/>\npergunta, \u00e0 qual o seu cora\u00e7\u00e3o julgava ter respondido de muito.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o?!<\/p>\n<p>&#8211; Vou para o degredo, se vossa senhoria me quiser na sua companhia.<\/p>\n<p>Fingindo-se surpreendido, Sim\u00e3o seria rid\u00edculo aos seus pr\u00f3prios<br \/>\nolhos.<\/p>\n<p>&#8211; Esperava essa resposta, Mariana, e sabia que n\u00e3o me dava<br \/>\noutra. Mas sabe o que \u00e9 o degredo, minha amiga?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho ouvido dizer muitas vezes o que \u00e9, senhor Sim\u00e3o&#8230;<br \/>\n\u00c9 uma terra mais quente que a nossa; mas tamb\u00e9m h\u00e1 l\u00e1 p\u00e3o, e vive-se&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E morre-se abrasado ao sol doentio daquele c\u00e9u morre-se<br \/>\nde saudades da p\u00e1tria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores<br \/>\ndas gal\u00e9s, que t\u00eam um condenado na conta de fera.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por<br \/>\nisso \u00e0 mulher dum preso, que cumpriu dez anos de senten\u00e7a na \u00cdndia, e viveu<br \/>\nmuito bem em uma terra chamada Solor, onde teve uma tenda; e, se n\u00e3o fossem<br \/>\nas saudades, diz ela que n\u00e3o vinha, porque lhe corria melhor por l\u00e1 a vida<br \/>\nque por c\u00e1. Eu, se for por vontade do Senhor Sim\u00e3o, vou p\u00f4r uma lojinha tamb\u00e9m.<br \/>\nVer\u00e1 como eu amanho a vida. Afeita ao calor estou eu; vossa senhoria n\u00e3o est\u00e1;<br \/>\nmas n\u00e3o h\u00e1 de ter precis\u00e3o, se Deus quiser, de andar ao tempo.<\/p>\n<p>&#8211; E suponha, Mariana, que eu morro apenas chegar ao degredo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falemos nisso, senhor Sim\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Falemos, minha amiga, porque eu hei de sentir \u00e0 hora da<br \/>\nmorte, a pesar-me na alma, a responsabilidade do seu destino&#8230; Seu eu morrer?<\/p>\n<p>&#8211; Se o senhor morrer, eu saberei morrer tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m morre quando quer, Mariana&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! se morre!&#8230; E vive tamb\u00e9m quando quer&#8230; N\u00e3o mo disse<br \/>\nj\u00e1 a senhora D. Teresa?<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe disse ela?<\/p>\n<p>&#8211; Que estava a passar quando vossa senhoria chegou ao Porto,<br \/>\ne que a sua chegada lhe dera vida. Pois h\u00e1 muita gente assim, senhor Sim\u00e3o&#8230;<br \/>\nE mais a fidalga \u00e9 fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os<br \/>\ntrabalhos; e, se fosse preciso meter uma lanceta no bra\u00e7o e deixar correr<br \/>\no sangue at\u00e9 morrer, fazia-o como quem o diz.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a-me, Mariana que espera de mim?<\/p>\n<p>&#8211; Que hei de eu esperar!&#8230; Por que me diz isso o senhor Sim\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Os sacrif\u00edcios que Mariana tem feito e quer fazer por mim<br \/>\ns\u00f3 podiam ter uma paga, embora mos n\u00e3o fa\u00e7a esperando recompensa. Abre-me<br \/>\no seu cora\u00e7\u00e3o, Mariana?<\/p>\n<p>&#8211; Que quer que eu lhe diga?<\/p>\n<p>&#8211; Conhece a minha vida t\u00e3o bem como eu, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>&#8211; Conhe\u00e7o. E que tem isso?<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte \u00e0quela desgra\u00e7ada<br \/>\nsenhora?<\/p>\n<p>&#8211; E dai? Quem lhe diz menos disso?!<\/p>\n<p>&#8211; Os sentimentos do cora\u00e7\u00e3o s\u00f3 os posso agradecer com amizade.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j\u00e1 lhe pedi mais alguma coisa, senhor Sim\u00e3o?!<\/p>\n<p>&#8211; Nada me pediu, Mariana; mas obriga-me tanto, que me faz<br \/>\nmais infeliz o peso da obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mariana n\u00e3o respondeu; chorou.<\/p>\n<p>&#8211; E por que chora? &#8211; tornou Sim\u00e3o carinhosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 ingratid\u00e3o&#8230; e eu n\u00e3o mere\u00e7o que me diga que o fa\u00e7o<br \/>\ninfeliz.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me compreendeu&#8230; Sou infeliz por n\u00e3o poder faz\u00ea-la<br \/>\nminha mulher. Eu queria que Mariana pudesse dizer:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Sacrifiquei-me por meu marido; no dia em que o vi<br \/>\nferido em casa de meu pai, velei as noites a seu lado; quando a desgra\u00e7a o<br \/>\nencerrou entre ferros, dei-lhe o p\u00e3o que nem seus ricos pais lhe davam; quando<br \/>\no vi sentenciado \u00e0 forca, endoideci; quando a luz da minha raz\u00e3o me tornou<br \/>\nnum raio de compaix\u00e3o divina, corri ao segundo c\u00e1rcere, alimentei-o, vesti-o,<br \/>\ne adornei-lhe as paredes nuas do seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o,<br \/>\nfiz-me a p\u00e1tria daquele pobre cora\u00e7\u00e3o, trabalhei \u00e0 luz do sol homicida para<br \/>\nele se resguardar do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>O esp\u00edrito de Mariana n\u00e3o podia altear-se \u00e0 express\u00e3o do preso;<br \/>\nmas o cora\u00e7\u00e3o adivinhava-lhe as id\u00e9ias. E a pobre mo\u00e7a sorria e chorava a<br \/>\num tempo. Sim\u00e3o continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Tem vinte e seis anos, Mariana. Viva, que esta sua exist\u00eancia<br \/>\nn\u00e3o pode ser sen\u00e3o um supl\u00edcio oculto. Viva, que n\u00e3o deve dar tudo a quem<br \/>\nlhe n\u00e3o pode restituir sen\u00e3o as l\u00e1grimas que eu lhe tenho custado. O tempo<br \/>\ndo meu desterro n\u00e3o pode estar longe; esperar outro melhor destino seria uma<br \/>\nlocura. Se eu ficasse na p\u00e1tria, livre ou preso, pediria a minha irm\u00e3 que<br \/>\ncompletasse a obra generosa da sua compaix\u00e3o, esperando que eu lhe desse a<br \/>\n\u00faltima palavra da minha vida. Mas n\u00e3o v\u00e1 comigo \u00e0 \u00c1frica ou \u00e0 \u00cdndia, que sei<br \/>\nque voltar\u00e1 sozinha \u00e0 p\u00e1tria depois que eu fechar os olhos. Se o meu degredo<br \/>\nfor tempor\u00e1rio, e a morte me guardar para maiores naufr\u00e1gios, voltarei \u00e0 p\u00e1tria<br \/>\num dia. \u00c9 preciso que Mariana aqui esteja para eu poder dizer que venho para<br \/>\na minha fam\u00edlia, que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar<br \/>\ncom marido e filhos, a sua extremosa fam\u00edlia ser\u00e1 a minha. Se a vir livre<br \/>\ne s\u00f3, irei para a companhia de minha irm\u00e3. Que me responde, Mariana?<\/p>\n<p>A filha de Jo\u00e3o da Cruz, erguendo os olhos do pavimento. disse:<\/p>\n<p>&#8211; Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Sim\u00e3o partir<br \/>\npara o degredo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pense desde j\u00e1, Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho que pensar&#8230; A minha ten\u00e7\u00e3o est\u00e1 feita&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fale, minha amiga; diga qual \u00e9 a sua ten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mariana hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:<\/p>\n<p>&#8211; Quando eu vir que n\u00e3o lhe sou precisa, acabo com a vida.<br \/>\nCuida que eu ponho muito em me matar? N\u00e3o tenho pai, n\u00e3o tenho ningu\u00e9m, a<br \/>\nminha vida n\u00e3o faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Sim\u00e3o pode viver sem mim?<br \/>\nPaci\u00eancia!&#8230; Eu \u00e9 que n\u00e3o posso&#8230;<\/p>\n<p>Susteve o complemento da id\u00e9ia como quem se peja duma ousadia.<br \/>\nO preso apertou-a nos bra\u00e7os estremecidamente, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Ir\u00e1, ir\u00e1 comigo, minha irm\u00e3. Pense muito no infort\u00fanio de<br \/>\nn\u00f3s ambos d&#8217;ora em diante, que ele \u00e9 comum; \u00e9 um veneno que havemos de tragar<br \/>\nunidos, e l\u00e1 teremos uma sepultura de terra t\u00e3o pesada como a da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Desde este dia, um secreto j\u00fabilo endoidecia o cora\u00e7\u00e3o de<br \/>\nMariana. N\u00e3o inventemos maravilhas de abnega\u00e7\u00e3o. Era de mulher o cora\u00e7\u00e3o de<br \/>\nMariana. Amava como a fantasia se compraz de idear o amor duns anjos que batem<br \/>\nas asas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se fazerem<br \/>\nver e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha ci\u00fames de Teresa,<br \/>\nn\u00e3o ci\u00fames que se refrigeram na expans\u00e3o ou no despeito, mas infernos surdos,<br \/>\nque n\u00e3o rompiam em labareda aos l\u00e1bios, porque os olhos se abriam prontos<br \/>\nem l\u00e1grimas para apag\u00e1-la. Sonhava com as del\u00edcias do desterro, porque voz<br \/>\nhumana alguma n\u00e3o iria l\u00e1 gemer \u00e0 cabeceira do desgra\u00e7ado. Se a for\u00e7assem<br \/>\na resignar a sua ingl\u00f3ria miss\u00e3o de irm\u00e3 daquele homem, resign\u00e1-la-ia, dizendo:<br \/>\n&#8211; &#8220;Ningu\u00e9m lhe ado\u00e7ar\u00e1 as penas t\u00e3o desinteresseiramente como o eu fiz&#8221;.<\/p>\n<p>E, contudo, nunca vacilou em aceitar da m\u00e3o de Teresa ou da<br \/>\nmendiga as cartas para Sim\u00e3o. A cada vinco de dor que a leitura daquelas cartas<br \/>\nsulcava na fronte do preso, Mariana, que o espreitava disfar\u00e7ada, tremia em<br \/>\ntodas as fibras do seu cora\u00e7\u00e3o, e dizia entre si: &#8211; &#8220;Para que h\u00e1 de aquela<br \/>\nsenhora amargurar-lhe a vida?&#8221;<\/p>\n<p>E amargurava acerbamente a desditosa menina!<\/p>\n<p>Ressurgiram naquela alma esperan\u00e7as, que n\u00e3o deviam durar<br \/>\nal\u00e9m do tempo necess\u00e1rio para que a desilus\u00e3o lhe acrisolasse o infort\u00fanio.<br \/>\nImaginara ela a liberdade, o perd\u00e3o, o casamento, a ventura, a coroa do seu<br \/>\nmart\u00edrio. A<sub>5 <\/sub>suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas<br \/>\nporque n\u00e3o conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em<br \/>\ndemasia nas ora\u00e7\u00f5es das virtuosas do mosteiros. Se os vatic\u00ednios das profetisas<br \/>\nse realizassem, Sim\u00e3o sairia da cadeia, Tadeu de Albuquerque morreria de velhice<br \/>\ne de raiva, o casamento seria um ato indisput\u00e1vel, e o c\u00e9u dos desgra\u00e7ados<br \/>\nprincipiaria neste mundo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Sim\u00e3o Botelho, ao cabo de cinco meses de c\u00e1rcere, j\u00e1<br \/>\nsabia o seu destino, e achara \u00fatil prevenir Teresa, para n\u00e3o sucumbir ao inevit\u00e1vel<br \/>\ngolpe da separa\u00e7\u00e3o. Bem queria ele alumiar com esperan\u00e7as a perspectiva negra<br \/>\ndo desterro; mas froixos e frios eram os al\u00edvios em que n\u00e3o era parte a convic\u00e7\u00e3o<br \/>\nnem o sentimento. Teresa n\u00e3o podia sequer iludir-se, porque tinha no peito<br \/>\num despertador que a estava acordando sempre para a hora final, embora o semblante<br \/>\nenganasse a condol\u00eancia dos estranhos.<\/p>\n<p>E, ent\u00e3o, era o expandir-se em l\u00e1stimas nas cartas que escrevia<br \/>\nao seu amigo; invoca\u00e7\u00f5es a Deus, e sacr\u00edlegas ap\u00f3strofes ao destino; branduras<br \/>\nde paci\u00eancia e \u00edmpetos de c\u00f3lera contra o pai; o aferro \u00e0 vida que lhe foge,<br \/>\ne s\u00faplicas \u00e0 morte.<\/p>\n<p>No termo de sete meses o tribunal de segunda inst\u00e2ncia comutou<br \/>\na pena \u00faltima em dez anos de degredo para a \u00cdndia. Tadeu de Albuquerque acompanhou<br \/>\na Lisboa a apela\u00e7\u00e3o, e ofereceu a sua casa a quem mantivesse de p\u00e9 a forca<br \/>\nde Sim\u00e3o Botelho. O pai do condenado, segundo assustador aviso que seu filho<br \/>\nManuel lhe dera, foi para Lisboa lutar com o dinheiro e as poderosas influ\u00eancias<br \/>\nque Tadeu de Albuquerque granjeara na Casa da Suplica\u00e7\u00e3o e no Desembargo do<br \/>\nPa\u00e7o. Venceu Domingos Botelho, e, instigado mais do seu capricho que do amor<br \/>\npaternal, alcan\u00e7ou do Pr\u00edncipe Regente a gra\u00e7a de cumprir o condenado a sua<br \/>\nsenten\u00e7a na pris\u00e3o de Vila-Real.<\/p>\n<p>Quando intimaram a Sim\u00e3o Botelho a decis\u00e3o do recurso e a<br \/>\ngra\u00e7a do Regente, o preso respondeu que n\u00e3o aceitava a gra\u00e7a; que queria a<br \/>\nliberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judici\u00e1rios contra<br \/>\num favor que n\u00e3o implorava e que reputava mais atroz do que a morte.<\/p>\n<p>Domingos Botelho, avisado da rejei\u00e7\u00e3o do filho, respondeu<br \/>\nque fizesse ele a sua vontade; mas que a sua vit\u00f3ria dele sobre os protetores<br \/>\ne os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Viseu estava plenamente obtida.<\/p>\n<p>Foi aviso ao intendente geral da pol\u00edcia, e o nome de Sim\u00e3o<br \/>\nBotelho foi inscrito no cat\u00e1logo dos degredados para a \u00cdndia.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"17\"><\/a>CAP\u00cdTULO XVII<\/strong><\/h4>\n<p>A verdade \u00e9 algumas vezes o escolho de um romance.<\/p>\n<p>Na vida real, recebemo-la como ela sai dos encontrados casos,<br \/>\nou da l\u00f3gica implac\u00e1vel das coisas; mas, na novela, custa-nos a sofrer que<br \/>\no autor, se inventa, n\u00e3o invente melhor; e, se copia, n\u00e3o minta por amor da<br \/>\narte.<\/p>\n<p>Um romance que estriba na verdade o seu merecimento \u00e9 frio,<br \/>\n\u00e9 impertinente, \u00e9 uma coisa que n\u00e3o sacode os nervos, nem a gente, sequer<br \/>\numa temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatruzes<br \/>\nsomos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>A verdade! Se ela \u00e9 feia, para que oferec\u00ea-la em pain\u00e9is ao<br \/>\np\u00fablico!?<\/p>\n<p>A verdade do cora\u00e7\u00e3o humano! Se o cora\u00e7\u00e3o humano tem filamentos<br \/>\nde ferro que o prendem ao barro doente saiu, ou pesam nele e o submergem no<br \/>\ncharco da culpa primitiva, para que \u00e9 emergi-lo, retrat\u00e1-lo e p\u00f4-lo \u00e0 venda!?<\/p>\n<p>Os reparos s\u00e3o de quem tem o ju\u00edzo no seu lugar; mas, pois<br \/>\nque eu perdi o meu a estudar a verdade, j\u00e1 agora a desforra que tenho \u00e9 pint\u00e1-la<br \/>\ncomo ela \u00e9 feia e repugnante.<\/p>\n<p>A desgra\u00e7a afervora ou quebranta o amor?<\/p>\n<p>Isto \u00e9 que eu submeto \u00e0 decis\u00e3o do leitor inteligente. Fatos<br \/>\ne n\u00e3o teses \u00e9 o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e n\u00e3o<br \/>\nexplica as fun\u00e7\u00f5es \u00f3pticas do aparelho visual.<\/p>\n<p>Ao cabo de dezenove meses de c\u00e1rcere, Sim\u00e3o Botelho almejava<br \/>\num raio de Sol, uma lufada do ar n\u00e3o coada pelos ferros, o pavimento do c\u00e9u,<br \/>\nque o da ab\u00f3bada do seu cub\u00edculo pesava-lhe o peito.<\/p>\n<p>\u00c2nsia de viver era a sua; n\u00e3o era j\u00e1 \u00e2nsia de amar.<\/p>\n<p>Seis meses de sobressaltos diante da forca deviam distender-lhe<br \/>\nas fibras do cora\u00e7\u00e3o; e o cora\u00e7\u00e3o, para o amor, quer-se forte e tenso, de<br \/>\numa certa rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anseios das esperan\u00e7as,<br \/>\ne com as alegrias. que o enchem e refor\u00e7am para os reveses.<\/p>\n<p>Caiu a forca pavorosa aos olhos de Sim\u00e3o; mas os pulsos ficaram<br \/>\nem ferros, o pulm\u00e3o ao ar mortal das cadeias, o esp\u00edrito entanguido no glacial<br \/>\nestupidez dumas paredes salitrosas, e dum pavimento que ressoa os derradeiros<br \/>\npassos do \u00faltimo padecente, e dum teto que filtra a morte a gotas de \u00e1gua.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o dos dezoito anos, o cora\u00e7\u00e3o sem<br \/>\nremorsos, o esp\u00edrito anelante de gl\u00f3rias, ao cabo de dezoito meses de estagna\u00e7\u00e3o<br \/>\nda vida?<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 a v\u00edscera, ferida de paralisia, a primeira que<br \/>\nfalece sufocada pela rebeli\u00f5es da alma que se identifica \u00e0 natureza, e a quer,<br \/>\ne se devora na \u00e2nsia dela, e se estorce nas agonias da amputa\u00e7\u00e3o, para os<br \/>\nquais a saudade da ventura extinta \u00e9 um caut\u00e9rio em brasa; e o amor, que leva<br \/>\nao abismo pelo caminho da sonhada felicidade, n\u00e3o \u00e9 sequer um refrig\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ao desla\u00e7ar da garganta a corda da justi\u00e7a, Sim\u00e3o Botelho<br \/>\nteve uma hora de desafogo, como que sentia o pat\u00edbulo lascar entre os seus<br \/>\nbra\u00e7os, e ent\u00e3o convidou o cora\u00e7\u00e3o da mulher que o perdera a assistir \u00e0s segundas<br \/>\nn\u00fapcias da sua vida com a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois, a passo igual, a esperan\u00e7a fugia-lhe para as areias<br \/>\nda \u00c1sia, e o cora\u00e7\u00e3o intumescia-se de fel, o amor afogava-se nele. morte inevit\u00e1vel,<br \/>\nquando n\u00e3o h\u00e1 abertura por onde a esperan\u00e7a entre a luzir na escurid\u00e3o \u00edntima.<\/p>\n<p>Esperan\u00e7a para Sim\u00e3o Botelho, qual?<\/p>\n<p>A \u00cdndia, a humilha\u00e7\u00e3o, a mis\u00e9ria, a indig\u00eancia.<\/p>\n<p>E os anelos daquela alma tinham mirado as ambi\u00e7\u00f5es de um nome.<br \/>\nPara a felicidade do amor envidava as for\u00e7as do talento; mas, al\u00e9m do amor,<br \/>\nestava a gl\u00f3ria, o renome e a v\u00e3 imortalidade, que s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 dem\u00eancia nas grandes<br \/>\nalmas e nos g\u00eanios que se sentem previver nas gera\u00e7\u00f5es vindouras.<\/p>\n<p>Mas grinaldas de amor a escorrerem sangue dos espinhos, essas<br \/>\ninfiltram veneno corrosivo no pensamento, apagam no seio a fa\u00edsca das nobres<br \/>\nafoitezas, apoucam a id\u00e9ia que abrangera mundos, e paralisam de mortal espasmo<br \/>\nos estos do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito meses de c\u00e1rcere,<br \/>\ncom o pat\u00edbulo ou o degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor<br \/>\nda alma.<\/p>\n<p>A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o cora\u00e7\u00e3o, se ousava<br \/>\nresponder, retra\u00eda-se, recriminado pelos ditames da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>De al\u00e9m, daquele convento onde outra exist\u00eancia agonizava,<br \/>\ngementes queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que n\u00e3o sabias nem<br \/>\npodias consolar, pedias palavras ao anjo da compaix\u00e3o para ela, e as do dem\u00f4nio<br \/>\ndo desespero para ti.<\/p>\n<p>Os dez anos de ferros em que lhe quiseram minorar a pena,<br \/>\neram-lhe mais horrorosos que o pat\u00edbulo. E aceit\u00e1-los-ia, porventura, se amasse<br \/>\no c\u00e9u, onde Teresa bebia o ar, que nos pulm\u00f5es se lhe formava em pe\u00e7onha?<br \/>\nCreio: &#8211; antes a masmorra, onde pode ouvir-se o som abafado de uma voz amiga;<br \/>\nantes os paroxismos de dez anos sobre as lajes \u00famidas de uma enxovia, se,<br \/>\nna hora extrema, a \u00faltima fa\u00edsca da paix\u00e3o, ao bruxulear para morrer, nos<br \/>\nalumia o caminho do c\u00e9u por onde o anjo do amor desditoso se levantou a dar<br \/>\nconta de si a Deus, e a pedir a alma do que ficou.<\/p>\n<p>Teresa pedira a Sim\u00e3o Botelho que aceitasse dez anos de cadeia,<br \/>\ne esperasse ai a sua reden\u00e7\u00e3o por ela.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Dez anos! &#8211; dizia-lhe a enclausurada de Monchique.<br \/>\nEm dez anos ter\u00e1 morrido meu pai e eu serei tua esposa, e irei pedir ao<br \/>\nrei que te perdoe, se n\u00e3o tiveres cumprido a senten\u00e7a. Se vais ao degredo,<br \/>\npara sempre te perdi, Sim\u00e3o, porque morrer\u00e1s, ou n\u00e3o achar\u00e1s mem\u00f3ria de<br \/>\nmim, quando voltares&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Como a pobre se iludia nas horas em que as d\u00e9beis for\u00e7as de<br \/>\nvida se lhe concentravam no cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>As \u00e2nsias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue,<br \/>\nque criara novo, j\u00e1 lhe sa\u00eda em golfadas com a tosse.<\/p>\n<p>Se por amor ou piedade o condenado aceitasse os ferrolhos<br \/>\ntr\u00eas mil seiscentas e cinq\u00fcenta vezes corridos sobre as suas longas noites<br \/>\nsolit\u00e1rias, nem assim Teresa susteria a pedra sepulcral que a vergava de hora<br \/>\na hora.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;N\u00e3o esperes nada, m\u00e1rtir &#8211; escrevia-lhe ele. &#8211; A luta<br \/>\ncom a desgra\u00e7a \u00e9 in\u00fatil, e eu n\u00e3o posso j\u00e1 lutar. Foi um atroz engano o<br \/>\nnosso encontro. N\u00e3o temos nada neste mundo, Caminhemos ao encontro da morte&#8230;<br \/>\nH\u00e1 um segredo que s\u00f3 no sepulcro se sabe. Ver-nos-emos?<\/p>\n<p>Vou. Abomino a p\u00e1tria, abomino a minha fam\u00edlia; todo este<br \/>\nsolo est\u00e1 aos meus olhos coberto de forcas, e quantos homens falam a minha<br \/>\nl\u00edngua, creio que os ou\u00e7o vociferar as impreca\u00e7\u00f5es do carrasco. Em Portugal,<br \/>\nnem a liberdade com a opul\u00eancia; nem j\u00e1 agora a realiza\u00e7\u00e3o das esperan\u00e7as<br \/>\nque me dava o teu amor, Teresa!<\/p>\n<p>Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero<br \/>\nmorrer, mas n\u00e3o aqui. Apague-se a luz dos meus olhos; mas a luz do c\u00e9u,<br \/>\nquero-a! Quero ver o c\u00e9u no meu \u00faltimo olhar!<\/p>\n<p>N\u00e3o me pe\u00e7as que aceite dez anos de pris\u00e3o. Tu n\u00e3o sabes<br \/>\no que \u00e9 a liberdade cativa dez anos! N\u00e3o compreendes a tortura dos meus<br \/>\nvinte meses. A voz \u00fanica que tenho ouvido \u00e9 a da mulher piedosa que me esmola<br \/>\no p\u00e3o de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarc\u00e1stica boa-nova<br \/>\nde uma gra\u00e7a real, que me comuta o morrer instant\u00e2neo da forca pelas agonias<br \/>\nde dez anos de c\u00e1rcere.<\/p>\n<p>Salva-te, se podes, Teresa. Renuncia ao prest\u00edgio dum grande<br \/>\ndesgra\u00e7ado. Se teu pai te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma aurora<br \/>\nde paz, vive para a felicidade desse dia. E, se n\u00e3o, morre, Teresa, que<br \/>\na felicidade \u00e9 a morte, \u00e9 o desfazerem-se em p\u00f3 as fibras laceradas pela<br \/>\ndor, \u00e9 o esquecimento que salva das inj\u00farias a mem\u00f3ria dos padecentes&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>As palavras \u00fanicas de Teresa, em resposta \u00e0quela carta, significativa<br \/>\nda turba\u00e7\u00e3o do infeliz, foram estas: &#8220;Morrerei, Sim\u00e3o, morrerei. Perdoa<br \/>\ntu ao meu destino&#8230; Perdi-te&#8230; Bem sabes que sorte eu queria dar-te&#8230; e<br \/>\nmorro, porque n\u00e3o posso, nem poderei jamais resgatar-te. Se podes, viva; n\u00e3o<br \/>\nte pe\u00e7o que morras, Sim\u00e3o; quero que vivas para me chorares. Consolar-te-\u00e1<br \/>\no meu esp\u00edrito&#8230; Estou tranq\u00fcila. Vejo a aurora da paz&#8230; Adeus, at\u00e9 ao c\u00e9u,<br \/>\nSim\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Seguiram-se a esta carta muitos dias de terr\u00edvel taciturnidade.<br \/>\nSim\u00e3o Botelho n\u00e3o respondia \u00e0s perguntas de Mariana, Di-lo-\u00edeis arroubado<br \/>\nnas voluptuosas ang\u00fastias do seu pr\u00f3prio aniquilamento. A criatura posta por<br \/>\nDeus ao lado daqueles dezoito anos t\u00e3o atribulados chorava; mas as l\u00e1grimas,<br \/>\nse Sim\u00e3o as via, tiravam-no da mudez sossegada para \u00edmpetos de afli\u00e7\u00e3o, que<br \/>\nafinal o extenuavam..<\/p>\n<p>Decorreram seis meses ainda.<\/p>\n<p>E Teresa vivia, dizendo \u00e0s suas consternadas companheiras<br \/>\nque sabia ao certo o dia do seu trespasse.<\/p>\n<p>Duas primaveras via Sim\u00e3o Botelho pelas grades do seu c\u00e1rcere.<br \/>\nA terceira j\u00e1 enflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.<\/p>\n<p>Era em mar\u00e7o de 1807.<\/p>\n<p>No dia 10 desse m\u00eas, recebeu o condenado intima\u00e7\u00e3o para sair<br \/>\nna primeira embarca\u00e7\u00e3o que levava \u00e2ncora do Douro para a \u00cdndia. Nesse tempo<br \/>\nvinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa os que tinham<br \/>\nigual destino.<\/p>\n<p>Nenhum estorvo impedia o embarque de Mariana, que se apresentou<br \/>\nao corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu<br \/>\namo.<\/p>\n<p>&#8211; E a passagem vale-a bem! &#8211; disse o galhofeiro magistrado.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o assistiu ao encaixotar da sua bagagem, numa quieta\u00e7\u00e3o<br \/>\nterr\u00edvel, como se ignorasse o seu destino.<\/p>\n<p>Quis muitas vezes escrever a derradeira carta \u00e0 moribunda<br \/>\nTeresa, e nem sinais de l\u00e1grimas podia j\u00e1 enviar-lhe no papel.<\/p>\n<p>&#8211; Que trevas, meu Deus! &#8211; exclamava ele, e arrancava a m\u00e3os<br \/>\ncheias os cabelos. &#8211; Dai-me l\u00e1grimas, Senhor! Deixai-me chorar, ou matai-me,<br \/>\nque este sofrimento e insuport\u00e1vel!<\/p>\n<p>Mariana contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura,<br \/>\nou os n\u00e3o menos medonhos da letargia.<\/p>\n<p>&#8211; E Teresa! &#8211; bradava ele, surgindo subitamente do seu espasmo.<br \/>\n&#8211; E aquela infeliz menina que eu matei! N\u00e3o hei de v\u00ea-la mais, nunca mais!<br \/>\nNingu\u00e9m me levar\u00e1 ao degredo a noticia de sua morte! E, quando a eu chamar<br \/>\npara que me veja morrer digno dela, quem te dir\u00e1 que eu morri, \u00f3 m\u00e1rtir?!<\/p>\n<p>A 17 de mar\u00e7o de 1807, saiu dos c\u00e1rceres da Rela\u00e7\u00e3o Sim\u00e3o<br \/>\nAnt\u00f4nio Botelho, e embarcou no cais da Ribeira, com setenta e cinco companheiros.<br \/>\nO filho do ex-corregedor de Viseu, a pedido do desembargador Mour\u00e3o Mosqueira,<br \/>\ne por ordem do regedor das justi\u00e7a, n\u00e3o ia amarrado com cordas ao bra\u00e7o de<br \/>\nalgum companheiro. Desceu da cadeia ao embarque, ao lado de um meirinho, e<br \/>\nseguido de Mariana, que vigiava os caix\u00f5es da bagagem. O magistrado, fiel<br \/>\namigo de D. Rita Preciosa, foi a bordo da nau, e recomendou ao comandante<br \/>\nque distinguisse o condenado Sim\u00e3o, consentindo-o na tolda, e sentando-o \u00e0<br \/>\nsua mesa. Chamou Sim\u00e3o de parte, e deu-lhe um cartucho de dinheiro em ouro,<br \/>\nque sua m\u00e3e lhe enviava. Sim\u00e3o Botelho aceitou o dinheiro, e, na presen\u00e7a<br \/>\nde Mour\u00e3o Mosqueira. pediu ao comandante que fizesse distribuir pelos seus<br \/>\ncompanheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 demente o senhor Sim\u00e3o?! &#8211; disse o desembargador.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho a dem\u00eancia da dignidade: por amor da minha dignidade<br \/>\nme perdi; quero agora ver a que extremo de infort\u00fanio ela pode levar os seus<br \/>\namantes. A caridade s\u00f3 me n\u00e3o humilha quando parte do cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o do dever.<br \/>\nN\u00e3o conhe\u00e7o a pessoa que me remeteu esse dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 sua m\u00e3e &#8211; tornou Mosqueira.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho m\u00e3e. Quer vossa excel\u00eancia remeter-lhe esta esmola<br \/>\nrejeitada?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, senhor comandante, cumpra o que lhe pe\u00e7o, ou eu atiro<br \/>\ncom isto ao rio.<\/p>\n<p>O Comandante aceitou o dinheiro, e o desembargador saiu de<br \/>\nbordo como espantado da sinistra condi\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Onde \u00e9 Monchique? &#8211; perguntou Sim\u00e3o a Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 acol\u00e1, senhor Sim\u00e3o &#8211; respondeu. indicando-lhe o mosteiro,<br \/>\nque se debru\u00e7a sobre a margem do Douro, em Miragaia.<\/p>\n<p>Cruzou os bra\u00e7os Sim\u00e3o, e viu atrav\u00e9s do gradeamento do mirante<br \/>\num vulto,<\/p>\n<p>Era Teresa.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera recebera ela o adeus de Sim\u00e3o, e respondera enviando-lhe<br \/>\na tran\u00e7a dos seus cabelos.<\/p>\n<p>Ao anoitecer daquele dia, pediu Teresa os sacramentos, e comungou<br \/>\n\u00e0 grade do coro, onde se foi amparada \u00e0 sua criada, Parte das horas da noite<br \/>\npassou-as sentada ao p\u00e9 do santu\u00e1rio de sua tia, que toda a noite orou, Algumas<br \/>\nvezes pediu que a levassem \u00e0 janela que se abria para o mar, e n\u00e3o sentia<br \/>\nali a frialdade da vira\u00e7\u00e3o. Conversava serenamente com as freiras, e despedira-se<br \/>\nde todas, uma a uma, indo por seu p\u00e9 \u00e0s celas das senhoras entrevadas para<br \/>\nlhes dar o beijo da despedida.<\/p>\n<p>Todas cuidavam em reanim\u00e1-la, e Teresa sorria, sem responder<br \/>\naos piedosos artif\u00edcios com que as boas almas a si mesmas queriam simular<br \/>\nesperan\u00e7as. Ao abrir da manh\u00e3, Teresa leu uma a uma a cartas de Sim\u00e3o Botelho.<br \/>\nAs que tinham sido escritas nas margens do Mondego enterneciam-na a copiosas<br \/>\nl\u00e1grimas. Eram hinos \u00e0 felicidade prevista: eram tudo que mais formoso pode<br \/>\ndar o cora\u00e7\u00e3o humano quando a poesia da paix\u00e3o d\u00e1 cor ao pensamento, e uma<br \/>\nformosa e inspirativa natureza lhe empresta os seus esmaltes, Ent\u00e3o lhe acudiam<br \/>\nvivas reminisc\u00eancias daqueles dias: a sua alegria doida, as suas doces tristezas,<br \/>\nesperan\u00e7as a desveneceram saudades, os mudos col\u00f3quios com a irm\u00e3 querida<br \/>\nde Sim\u00e3o, o c\u00e9u arom\u00e1tico que se lhe alargava \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o s\u00f4frega de vagos<br \/>\ndesejos, tudo, enfim, que lembra a desgra\u00e7ados.<\/p>\n<p>Ema\u00e7ou depois as cartas, e cintou-as com fitas de seda desenla\u00e7adas<br \/>\nde raminhos de flores murchas, que Sim\u00e3o, dois anos antes, lhe atirara da<br \/>\nsua janela ao quarto dela.<\/p>\n<p>As p\u00e9talas das flores soltas quase todas se desfizeram, e<br \/>\nTeresa, contemplando-as, disse: &#8211; &#8220;Como a minha vida&#8230;&#8221; &#8211; e chorou,<br \/>\nbeijando os c\u00e1lices desfolhados das primeiras que recebeu.<\/p>\n<p>Deu as cartas a Constan\u00e7a, e encarregou-a de uma ordem, a<br \/>\nrespeito delas, que logo veremos cumprida.<\/p>\n<p>Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo<br \/>\nreclinado sobre uma cadeira. Erguendo-se, quase tirada pela viol\u00eancia, aceitou<br \/>\numa x\u00edcara de caldo, e murmurou com um sorriso: &#8211; &#8220;Para a viagem&#8230;&#8221;<br \/>\n&#8211;<\/p>\n<p>As nove horas da manh\u00e3 pediu a Constan\u00e7a que a acompanhasse<br \/>\nao mirante, e, sentando-se em \u00e2nsias mortais, nunca mais desfitou os olhos<br \/>\nda nau, que j\u00e1 estava verga alta, esperando a leva dos degredados.<\/p>\n<p>Quando viu, a dois a dois, entrarem, amarrados, no tombadilho,<br \/>\nos condenados, Teresa teve um breve acidente, em que a j\u00e1 frouxa claridade<br \/>\ndos olhos se lhe apagou, e as m\u00e3os conculsas pareciam querer aferrar a luz<br \/>\nfugitiva.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Sim\u00e3o Botelho a viu.<\/p>\n<p>E ao mesmo tempo atracou \u00e0 nau um bote em que vinha a pobre<br \/>\nde Viseu, chamando Sim\u00e3o. Foi ele ao portal\u00f3, e, estendendo o bra\u00e7o \u00e0 mendiga,<br \/>\nrecebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu ele que a primeira n\u00e3o era<br \/>\nsua, pela lisura do papel, mas n\u00e3o a abriu.<\/p>\n<p>Ouviu-se a voz de levar \u00e2ncora e largar amarras. Sim\u00e3o encostou-se<br \/>\n\u00e0 amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.<\/p>\n<p>Viu agitar-se um len\u00e7o, e ele respondeu com o seu \u00e0quele aceno.<br \/>\nDesceu a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distintamente Sim\u00e3o viu<br \/>\num rosto e uns bra\u00e7os suspensos das reixas de ferro; mas n\u00e3o era de Teresa<br \/>\naquele rosto: seria antes um cad\u00e1ver que subiu da claustra ao mirante, com<br \/>\nos ossos da cara in\u00e7ados ainda das herpes da sepultura.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 Teresa? &#8211; perguntou Sim\u00e3o a Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, senhor, \u00e9 ela &#8211; disse num afogado gemido a generosa criatura,<br \/>\nouvindo o seu cora\u00e7\u00e3o dizer-lhe que a alma do condenado iria breve no seguimento<br \/>\ndaquela por quem se perdera.<\/p>\n<p>De repente aquietou o len\u00e7o que se agitava no mirante, e entreviu<br \/>\nSim\u00e3o um movimento impetuoso de alguns bra\u00e7os e o desaparecimento de Teresa<br \/>\ne do vulto de Constan\u00e7a, que ele divisara mais tarde.<\/p>\n<p>A nau parou defronte de Sobreiras. Uma nuvem no horizonte<br \/>\nda barra, e o s\u00fabito encapelamento das ondas causara a suspens\u00e3o da viagem<br \/>\nanunciada pelo comandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia com o piloto-mor,<br \/>\nque mandava lan\u00e7ar ferro at\u00e9 novas ordens. Mais tarde adiou-se a sa\u00edda para<br \/>\no dia seguinte.<\/p>\n<p>E, no entanto, 5im\u00e1o Botelho, como o cad\u00e1ver embalsamado,<br \/>\ncujos olhos artificiais rebrilham cravados e imotos num ponto, l\u00e1 tinha os<br \/>\nseus imersos na interior escuridade do miradouro. Nenhum sinal de vida. E<br \/>\nas horas passaram at\u00e9 que o derradeiro raio de Sol se apagou nas grades do<br \/>\nmosteiro.<\/p>\n<p>Ao escurecer, voltou de terra o comandante, e contemplou,<br \/>\ncom os olhos embaciados de l\u00e1grimas. o desterrado, que contemplava as primeiras<br \/>\nestrelas, iminentes ao mirante,<\/p>\n<p>&#8211; Procura-a no c\u00e9u? &#8211; disse o nauta.<\/p>\n<p>&#8211; Se a procuro no c\u00e9u&#8230; &#8211; repetiu maquinalmente Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sim!&#8230; No c\u00e9u deve ela estar.<\/p>\n<p>&#8211; Quem, senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Teresa.<\/p>\n<p>&#8211; Teresa&#8230;! Morreu?!<\/p>\n<p>&#8211; Morreu, al\u00e9m, no mirante, donde ela estava acenando.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente.<br \/>\nO comandante lan\u00e7ou-lhe os bra\u00e7os, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Coragem, grande desgra\u00e7ado, coragem! Os homens do mar cr\u00eaem<br \/>\nem Deus! Espere que o c\u00e9u se abra para si pelas s\u00faplicas daquele anjo!<\/p>\n<p>Mariana estava um passo atr\u00e1s de Sim\u00e3o, e tinha as m\u00e3os erguidas.<\/p>\n<p>&#8211; Acabou-se tudo!&#8230; &#8211; murmurou Sim\u00e3o. &#8211; Eis-me livre&#8230; para<br \/>\na morte&#8230; Senhor comandante &#8211; continuou ele energicamente &#8211; eu n\u00e3o me suicido.<br \/>\nPode deixar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Pe\u00e7o-lhe que se recolha \u00e0 c\u00e2mara. O seu beliche est\u00e1 ao<br \/>\np\u00e9 do meu.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 obrigat\u00f3rio recolher-me?<\/p>\n<p>&#8211; Para vossa senhoria n\u00e3o h\u00e1 obriga\u00e7\u00f5es; h\u00e1 rogos: pe\u00e7o-lhe,<br \/>\nn\u00e3o mando.<\/p>\n<p>&#8211; Vou, e agrade\u00e7o a compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Mariana seguiu-o com aquele olhar quebrado e mavioso do Jau,<br \/>\nquando o poeta desembarcava, segundo a id\u00e9ia apaixonada do cantor de Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>Encarou nela Sim\u00e3o, e disse ao comandante:<\/p>\n<p>&#8211; E esta infeliz?<\/p>\n<p>&#8211; Que o siga&#8230; &#8211; respondeu o compassivo homem do mar, que<br \/>\ncria em Deus.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o recolheu-se ao beliche, e o comandante sentou-se em<br \/>\nfrente dele, e Mariana ficou no escuro da c\u00e2mara a chorar.<\/p>\n<p>&#8211; Fale, senhor Sim\u00e3o! &#8211; disse o comandante &#8211; desafogue e chore.<\/p>\n<p>&#8211; Chorei, senhor!<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o tinha imaginado uma ang\u00fastia igual \u00e0 sua. A inven\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana n\u00e3o criou ainda um quadro t\u00e3o atroz. Arrepiam-se-me os cabelos, e tenho<br \/>\nvisto espet\u00e1culos horr\u00edveis na terra e no mar.<\/p>\n<p>Acintemente, o comandante estava provocando Sim\u00e3o ao desabafo.<br \/>\nN\u00e3o respondia o condenado. Ouvia os solu\u00e7os de Mariana, e tinha os olhos postos<br \/>\nno ma\u00e7o das Cartas, que pusera sobre uma banqueta.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Quando em Miragaia me contaram a morte daquela senhora,<br \/>\npedi a uma pessoa relacionada no convento que me levasse a ouvir de alguma<br \/>\nfreira a triste hist\u00f3ria. Uma religiosa ma contou; mas eram mais os gemidos<br \/>\nque as palavras. Soube que ela, quando desc\u00edamos na altura do Oiro, proferia<br \/>\nem alta voz: &#8211; &#8220;Sim\u00e3o, adeus at\u00e9 \u00e0 eternidade!&#8221; &#8211; E caiu nos bra\u00e7os<br \/>\nduma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante, e a trouxeram meia-morta<br \/>\npara baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma palavra mais lhe ouviram.<br \/>\nDepois, contaram-me o que ela penara em dois anos e nove meses naquele mosteiro;<br \/>\no amor que ela lhe tinha, e as mil mortes que ali padeceu, de cada vez que<br \/>\na esperan\u00e7a lhe morria. Que desgra\u00e7ada menina, e que desgra\u00e7ado mo\u00e7o o senhor<br \/>\n\u00e9!<\/p>\n<p>&#8211; Por pouco tempo&#8230; &#8211; disse Sim\u00e3o, como se o dissesse a si<br \/>\npr\u00f3prio, ou a pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o estivesse dialogando consigo.<\/p>\n<p>&#8211; Creio, creio, por pouco tempo &#8211; prosseguiu o capit\u00e3o &#8211; mas,<br \/>\nse os amigos pudessem salv\u00e1-lo, senhor, eu dar-lhos-ia na \u00cdndia mais fi\u00e9is<br \/>\nque em Portugal. Prometo-lhe, sob a minha palavra de honra, alcan\u00e7ar do vizo-rei<br \/>\na sua resid\u00eancia em Goa. Prometo segurar-lhe um decente principio de vida<br \/>\ne as comodidades que fazem a exist\u00eancia t\u00e3o saud\u00e1vel como ela \u00e9 na \u00c1sia. N\u00e3o<br \/>\no intimide a id\u00e9ia do degredo, senhor Sim\u00e3o. Viva, fa\u00e7a por vencer-se, e ser\u00e1<br \/>\nfeliz!<\/p>\n<p>&#8211; O seu sil\u00eancio, por piedade, senhor&#8230; &#8211; atalhou o degredado.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei que \u00e9 cedo ainda para planizar futuros. Desculpe<br \/>\n\u00e0 simpatia que me inspira a indiscri\u00e7\u00e3o, mas aceite um amigo nesta hora atribulada.<\/p>\n<p>&#8211; Aceito, e preciso dele&#8230; Mariana! &#8211; Chamou Sim\u00e3o. &#8211; Venha<br \/>\naqui, se este cavalheiro o permite.<\/p>\n<p>Mariana entrou no quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Esta mulher tem sido a minha provid\u00eancia &#8211; disse Sim\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Porque ela me valeu, n\u00e3o senti a fome em dois anos e nove meses de c\u00e1rcere.<br \/>\nTudo que tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta criatura.<br \/>\nSeja respeit\u00e1vel ao seus olhos, senhor, porque ela \u00e9 t\u00e3o pura como a verdade<br \/>\no deve ser nos l\u00e1bios dum moribundo. Se eu morrer, senhor comandante, aceite<br \/>\no legado de a amparar com a sua caridade como se ela fosse minha irm\u00e3. Se<br \/>\nela quiser voltar \u00e0 sua p\u00e1tria, seja o seu protetor na passagem. &#8211; E, estendendo-lhe<br \/>\na m\u00e3o, disse com transporte: &#8211; Promete-me isto, senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Juro-lho.<\/p>\n<p>O comandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Sim\u00e3o<br \/>\ncom Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; Estou tranq\u00fcilo pelo seu futuro, minha amiga.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j\u00e1 o estava, senhor Sim\u00e3o &#8211; respondeu ela.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trocam palavras por largo espa\u00e7o. Sim\u00e3o apoiou a face<br \/>\nsobre a mesa, e apertou com as m\u00e3os as fontes arquejantes. Mariana, de p\u00e9,<br \/>\nao lado dele, fitava os olhos na luz morti\u00e7a da l\u00e2mpada oscilante, e cismava,<br \/>\ncomo ele, na morte.<\/p>\n<p>E o nordeste sibilava, como um gemido, nas g\u00e1veas da nau.<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>As onze horas da noite, o comandante recolhera-se num beliche<br \/>\nde passageiro, e Mariana, sentada no pavimento, com o rosto sobre os joelhos,<br \/>\nparecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e aflitivas horas daquele dia.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o Botelho velava prostrado no camarote, com os bra\u00e7os<br \/>\ncruzados sobre o peito, e os olhos fitos na luz que balan\u00e7ava, pendente de<br \/>\num arame. O ouvido t\u00ea-lo-ia, talvez, atento a um assobio da ventania: devia<br \/>\nde soar-lhe como um ai plangente aquele silvo agudo, voz \u00fanica no sil\u00eancio<br \/>\nda terra e c\u00e9u.<\/p>\n<p>A meia-noite, estendeu Sim\u00e3o o bra\u00e7o tr\u00eamulo ao ma\u00e7o das cartas<br \/>\nque Teresa lhe enviara, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que<br \/>\nera dela. Rompeu a obreia, e disp\u00f4s-se no camarote para alcan\u00e7ar o ba\u00e7o clar\u00e3o<br \/>\nda l\u00e2mpada.<\/p>\n<p>Dizia assim a carta:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;\u00c9 j\u00e1 o meu esp\u00edrito que te fala, Sim\u00e3o. A tua amiga<br \/>\nmorreu. A tua pobre Teresa, \u00e0 hora em que leres esta carta, se Deus n\u00e3o<br \/>\nme engana, est\u00e1 em descanso.<\/p>\n<p>Eu devia poupar-te a esta \u00faltima tortura; n\u00e3o devia escrever-te;<br \/>\nmas perdoa \u00e0 tua esposa do c\u00e9u a culpa, pela consola\u00e7\u00e3o que sinto em conversar<br \/>\ncontigo a esta hora, hora final da noite da minha vida,<\/p>\n<p>Quem te diria que eu morri, se n\u00e3o fosse eu mesma, Sim\u00e3o?<br \/>\nDaqui a pouco. perder\u00e1s de vista este mosteiro; correr\u00e1s milhares de l\u00e9guas,<br \/>\ne n\u00e3o achar\u00e1s, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga:<\/p>\n<p>&#8211; A infeliz espera-te noutro mundo, e pede ao Senhor que<br \/>\nte resgate. &#8211; Se te pudesses iludir, meu amigo, quererias antes pensar que<br \/>\neu ficava com a vida e com esperan\u00e7a de ver-te na volta do degredo? Assim<br \/>\npode ser, mas, ainda agora, neste solene momento, me domina a vontade de<br \/>\nfazer-te sentir que eu n\u00e3o podia viver. Parece que a mesma infelicidade<br \/>\ntem \u00e0s vezes vaidade de mostrar que o \u00e9, at\u00e9 n\u00e3o pod\u00ea-lo ser mais! Quero<br \/>\nque digas: &#8211; Est\u00e1 morta, e morreu quando eu lhe tirei a \u00faltima esperan\u00e7a.<br \/>\n&#8211;<\/p>\n<p>&#8211; Isto n\u00e3o \u00e9 queixar-me, Sim\u00e3o: n\u00e3o \u00e9. Talvez, que eu pudesse<br \/>\nresistir alguns dias \u00e0 morte, se tu ficasses; mas, de um modo ou de outro,<br \/>\nera inevit\u00e1vel fechar os olhos quando se rompesse o \u00faltimo fio, este \u00faltimo<br \/>\nque se est\u00e1 partindo, e eu mesma o ou\u00e7o partir.<\/p>\n<p>N\u00e3o v\u00e3o estas palavras acrescentar a tua pena. Deus me livre<br \/>\nde ajuntar um remorso injusto \u00e0 tua saudade.<\/p>\n<p>Se eu pudesse ainda ver-te feliz neste mundo; se Deus permitisse<br \/>\n\u00e0 minha alma esta vis\u00e3o!&#8230; <i>Feliz, <\/i>tu, meu pobre condenado!&#8230; Sem<br \/>\no querer, o meu amor agora te fazia inj\u00faria, julgando-te capaz de felicidade!<br \/>\nTu morrer\u00e1s de saudade, se o clima do desterro te n\u00e3o matar ainda antes<br \/>\nde sucumbires \u00e0 dor do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>A vida era bela, era, Sim\u00e3o, se a tiv\u00e9ssemos como tu ma<br \/>\npintavas nas tuas cartas, que li h\u00e1 pouco! Estou vendo a casinha que tu<br \/>\ndescrevias defronte de Coimbra, cercada de \u00e1rvores, flores e aves. A tua<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o passeava comigo \u00e0s margens do Mondego<b>, <\/b>\u00e0 hora pensativa<br \/>\ndo escurecer. Estrelava-se o c\u00e9u, e a Lua abrilhantava a \u00e1gua. Eu respondia<br \/>\ncom a mudez do cora\u00e7\u00e3o ao teu sil\u00eancio, e, animada por teu sorriso, inclinava<br \/>\na face ao teu seio, como se fosse ao de minha m\u00e3e. Tudo isto li nas tuas<br \/>\ncartas; e parece que cessa o despeda\u00e7ar da agonia enquanto a alma se est\u00e1<br \/>\nrecordando. Noutra carta, me falavas em triunfos e gl\u00f3rias e imortalidade<br \/>\ndo teu nome. Tamb\u00e9m eu ia ap\u00f3s da tua aspira\u00e7\u00e3o, ou adiante dela, porque<br \/>\no maior quinh\u00e3o dos teus prazeres de esp\u00edrito queria eu que fosse meu. Era<br \/>\ncrian\u00e7a h\u00e1 tr\u00eas anos, Sim\u00e3o, e j\u00e1 entendia os teus anelos de gl\u00f3ria, e imaginava-os<br \/>\nrealizados como obra minha, se tu me dizias, como disseste muitas vezes,<br \/>\nque n\u00e3o serias nada sem o estimulo do meu amor.<\/p>\n<p>\u00d3 Sim\u00e3o, de que c\u00e9u t\u00e3o lindo ca\u00edmos! A hora que te escrevo,<br \/>\ntu est\u00e1s para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.<\/p>\n<p>Que importa morrer, se n\u00e3o podemos jamais ter nesta vida<br \/>\na nossa esperan\u00e7a de h\u00e1 tr\u00eas anos? Poderias tu com a desesperan\u00e7a e com<br \/>\na vida, Sim\u00e3o? Eu n\u00e3o podia. Os instantes do dormir eram os escassos benef\u00edcios<br \/>\nque Deus me concedia; a morte \u00e9 mais que uma necessidade, \u00e9 uma miseric\u00f3rdia<br \/>\ndivina, uma bem-aventuran\u00e7a para mim.<\/p>\n<p>E que farias tu da vida sem a tua companheira de mart\u00edrio?<br \/>\nOnde tu ir\u00e1s aviventar o cora\u00e7\u00e3o que a desgra\u00e7a te esmagou, sem o esquecimento<br \/>\nda imagem desta d\u00f3cil mulher, que seguiu cegamente a estrela da tua malfadada<br \/>\nsorte?!<\/p>\n<p>Tu nunca h\u00e1s de amar, n\u00e3o, meu esposo? Terias pejo de ti<br \/>\nmesmo, se uma vez visses passar rapidamente a minha sombra por diante dos<br \/>\nteus olhos enxutos? Sofre, sofre ao cora\u00e7\u00e3o da tua amiga estas derradeiras<br \/>\nperguntas, a que tu responder\u00e1s, no alto mar, quando esta carta leres.<\/p>\n<p>Rompe a manh\u00e3. Vou ver a minha \u00faltima aurora&#8230; a \u00faltima<br \/>\ndos meus dezoito anos!<\/p>\n<p>Aben\u00e7oado sejas, Sim\u00e3o! Deus te proteja, e te livre de uma<br \/>\nagonia longa. Todas as minhas ang\u00fastias lhe ofere\u00e7o em desconto das tuas<br \/>\nculpas. Se algumas impaci\u00eancias a justi\u00e7a divina me condena, oferece tu<br \/>\na Deus, meu amigo, os teus padecimentos, para que eu seja perdoada.<\/p>\n<p>Adeus! \u00c0 luz da eternidade parece-me que j\u00e1 te vejo, Sim\u00e3o!&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Ergueu-se o degredado, olhou em redor de si e fitou com espasmo<br \/>\nMariana, que levantava a cabe\u00e7a ao menor movimento dele.<\/p>\n<p>&#8211; Que tem, senhor Sim\u00e3o? &#8211; disse ela, erguendo-se.<\/p>\n<p>&#8211; Estava aqui, Mariana?&#8230; N\u00e3o se vai deitar?!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vou; o comandante deu-me licen\u00e7a de ficar aqui.<\/p>\n<p>&#8211; Mas h\u00e1 de assim passar a noite?! Rogo-lhe que v\u00e1, porque<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio o seu sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>&#8211; Se o n\u00e3o incomodo, deixe-me aqui estar, senhor Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Esteja, minha amiga, esteja&#8230; Poderei subir ao conv\u00e9s?<\/p>\n<p>&#8211; Quer ir ao conv\u00e9s, senhor Botelho? &#8211; disse o comandante,<br \/>\nlan\u00e7ando-se do beliche.<\/p>\n<p>&#8211; Queria, senhor comandante.<\/p>\n<p>&#8211; Iremos juntos.<\/p>\n<p>Sim\u00e3o ajuntou a carta de Teresa ao ma\u00e7o das suas, e saiu cambaleando.<br \/>\nNo conv\u00e9s sentou-se num monte de cordame, e contemplou o mirante do Manchique,<br \/>\nque avultava negro ao sop\u00e9 da serra penhascosa em que atualmente vai a Rua<br \/>\nda Restaura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o passeava da proa \u00e0 r\u00e9, mas com o ouvido fito aos<br \/>\nmovimentos do degredado. Receara ele o prop\u00f3sito do suic\u00eddio, porque Mariana<br \/>\nlhe incutira semelhante suspeita.<\/p>\n<p>Queria o mar\u00edtimo falar-lhe palavras consoladoras, mas pensava<br \/>\nconsigo: &#8211; &#8220;O que h\u00e1 de dizer-se a um homem que sofre assim?&#8221; &#8211;<br \/>\nE parava junto dele algumas vezes, como para desviar-lhe o esp\u00edrito daquele<br \/>\nmirante.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o me suicido! &#8211; exclamou abruptamente Sim\u00e3o Botelho.<br \/>\n&#8211; Se a sua generosidade, senhor capit\u00e3o. se interessa em que eu viva, pode<br \/>\ndormir descansado a sua noite, que eu n\u00e3o me suicido.<\/p>\n<p>&#8211; Mas mere\u00e7o-lhe eu a condescend\u00eancia de descer comigo \u00e0 c\u00e2mara?<\/p>\n<p>&#8211; Irei; mas eu, l\u00e1, sofro mais, senhor.<\/p>\n<p>N\u00e3o replicou o comandante, e continuou a passear no conv\u00e9s<br \/>\napesar das rajadas de vento.<\/p>\n<p>Mariana estava agachada entre os pacotes da carga, a pouca<br \/>\ndist\u00e2ncia de Sim\u00e3o. O comandante viu-a, falou-lhe, e retirou-se.<\/p>\n<p>As tr\u00eas horas da manh\u00e3, Sim\u00e3o Botelho segurou entre as m\u00e3os<br \/>\na testa, que se lhe abria abrasada pela febre. N\u00e3o p\u00f4de ter-se sentado, e<br \/>\ndeixou cair o meio corpo. A cabe\u00e7a, ao declinar, pousou no seio de Mariana.<\/p>\n<p>&#8211; O Anjo da compaix\u00e3o sempre comigo! &#8211; murmurou ele, &#8211; Teresa<br \/>\nfoi muito desgra\u00e7ada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quer descer ao camarote? &#8211; disse ela.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o poderei&#8230; Ampare-me, minha irm\u00e3.<\/p>\n<p>Deu alguns passos para a escadinha, e olhou ainda sobre o<br \/>\nmirante. Desceu a \u00edngreme escada, apegando-se \u00e0s cordas. Lan\u00e7ou-se sobre o<br \/>\ncolch\u00e3o, e pediu \u00e1gua. que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o estarcimento,<br \/>\ne as \u00e2nsias, com intervalo de del\u00edrio.<\/p>\n<p>De manh\u00e3 veio a bordo um facultativo, por convite do capit\u00e3o.<br \/>\nExaminando o condenado, disse que era febre maligna a doen\u00e7a, e bem podia<br \/>\nser que ele achasse a sepultura no caminho da \u00cdndia.<\/p>\n<p>Mariana ouviu o progn\u00f3stico, e n\u00e3o chorou.<\/p>\n<p>As onze horas saiu barra fora a nau. As \u00e2nsias da doen\u00e7a acresceram<br \/>\nas do enj\u00f4o. A pedido do comandante, Sim\u00e3o bebia rem\u00e9dios, que bolsava logo,<br \/>\nrevoltos pelas contra\u00e7\u00f5es do v\u00f4mito.<\/p>\n<p>Ao segundo dia de viagem, Mariana disse a Sim\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Se o meu irm\u00e3o morrer, que hei de eu fazer \u00e0quelas cartas<br \/>\nque v\u00e3o na caixa?<\/p>\n<p>Pasmosa serenidade a desta pergunta!<\/p>\n<p>&#8211; Se eu morrer no mar &#8211; disse ele &#8211; Mariana, atire ao mar<br \/>\ntodos os meus pap\u00e9is, todos; e estas cartas que est\u00e3o debaixo do meu travesseiro<br \/>\ntamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Passada uma \u00e2nsia, que lhe embargava a voz, Sim\u00e3o continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Se eu morrer, que tenciona fazer, Mariana?<\/p>\n<p>&#8211; Morrerei, senhor Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Morrer\u00e1s?!&#8230; Tanta gente desgra\u00e7ada que eu fiz!&#8230;<\/p>\n<p>A febre aumentava. Os sintomas da morte eram vis\u00edveis aos<br \/>\nolhos do capit\u00e3o, que tinha sobeja experi\u00eancia de ver morrerem centenares<br \/>\nde condenados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum medicamento.<\/p>\n<p>Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de<br \/>\nCascais, sobreveio tormenta s\u00fabita. O navio fez-se ao largo muitas milhas,<br \/>\ne, perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado. Ao sexto dia de navega\u00e7\u00e3o<br \/>\nincerta, por entre espessas brumas, partiu-se o leme defronte de Gibraltar.<br \/>\nE, em seguida ao desastre, aplacaram as refregas, desencapelaram-se as ondas,<br \/>\ne nasceu, com a aurora do dia seguinte, um formoso dia de primavera. Era o<br \/>\ndia de primavera. Era o dia 27 de mar\u00e7o, o nono da enfermidade de Sim\u00e3o Botelho.<\/p>\n<p>Mariana tinha envelhecido. O comandante, encarando nela, exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Parece que volta da \u00edndia com os dez anos de trabalhos j\u00e1<br \/>\npassados!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 acabados&#8230; de certo&#8230; &#8211; disse ela.<\/p>\n<p>Ao anoitecer desse dia o condenado delirou pela \u00faltima vez,<br \/>\ne dizia assim no seu del\u00edrio:<\/p>\n<p>&#8220;A casinha, defronte de Coimbra, cercada de \u00e1rvores,<br \/>\nflores e aves. Passeavas comigo \u00e0 margem do Mondego, \u00e0 hora pensativa do escurecer.<br \/>\nEstrelava-se o c\u00e9u, e a Lua abrilhantava a \u00e1gua. Eu respondia com a mudez<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o ao teu sil\u00eancio, e, animada por teu sorriso, inclinada a face ao<br \/>\nteu seio, como se fosse o de minha m\u00e3e&#8230; De que c\u00e9u t\u00e3o lindo ca\u00edmos!&#8230;<br \/>\nA tua amiga morreu&#8230; A tua pobre Teresa&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E que farias tu da vida, sem a tua companheira de mart\u00edrio?&#8230;<br \/>\nOnde ir\u00e1s tu aviventar o cora\u00e7\u00e3o que a desgra\u00e7a te esmagou?!&#8230; Rompe a manh\u00e3&#8230;<br \/>\nVou ver a minha \u00faltima aurora&#8230; a \u00faltima dos meus dezoito anos. Oferece a<br \/>\nDeus os teus padecimentos, para que eu seja perdoado&#8230; Mariana&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Mariana colocou os ouvidos aos l\u00e1bios roxos do moribundo,<br \/>\nquando cuidou ouvir o seu nome.<\/p>\n<p>&#8220;Tu vir\u00e1s ter conosco; ser-te-emos irm\u00e3os no c\u00e9u&#8230; O<br \/>\nmais puro anjo ser\u00e1s tu&#8230; se \u00e9s deste mundo, irm\u00e3; se \u00e9s deste mundo, Mariana&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o do del\u00edrio para a letargia completa era o an\u00fancio<br \/>\ninfal\u00edvel do trespasse.<\/p>\n<p>Ao romper da manh\u00e3 apagara-se a l\u00e2mpada. Mariana sa\u00edra a pedir<br \/>\nluz, e ouvira um gemido estertoroso. Voltando \u00e0s escuras, com os bra\u00e7os estendidos<br \/>\npara tatear a face do agonizante, encontrou a m\u00e3o convulsa, que lhe apertou<br \/>\numa das suas, e relaxou de s\u00fabito a press\u00e3o dos dedos.<\/p>\n<p>Entrou o comandante com uma l\u00e2mpada, e aproximou-lha da respira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque n\u00e3o embaciou levemente o vidro.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 morto! &#8211; disse ele.<\/p>\n<p>Mariana curvou-se sobre o cad\u00e1ver, e beijou-lhe a face. Era<br \/>\no primeiro beijo. Ajoelhou depois ao p\u00e9 do beliche com as m\u00e3os erguidas, e<br \/>\nn\u00e3o orava nem chorava.<\/p>\n<p>Algumas horas volvidas, o comandante disse a Mariana:<\/p>\n<p>&#8211; Agora \u00e9 tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo&#8230;<br \/>\n\u00c9 ventura morrer quando se vem a este mundo com tal estrela. Passe a senhora<br \/>\nMariana ali para a c\u00e2mara que vai ser levado daqui o defunto.<\/p>\n<p>Mariana tirou o ma\u00e7o das cartas debaixo do travesseiro, e<br \/>\nfoi a uma caixa buscar os pap\u00e9is de Sim\u00e3o. Atou o rolo no avental, que ele<br \/>\ntinha daquelas l\u00e1grimas dela, choradas no dia da sua dem\u00eancia, e cingiu o<br \/>\nembrulho \u00e0 cintura.<\/p>\n<p>Foi o cad\u00e1ver envolto num len\u00e7ol, e transportado ao conv\u00e9s.<\/p>\n<p>Mariana seguiu-o.<\/p>\n<p>D<sub>0 <\/sub>por\u00e3o da nau foi trazida uma pedra, que um marujo<br \/>\nlhe atou \u00e0s pernas com um peda\u00e7o de cabo. O comandante contemplava a cena<br \/>\ntriste com os olhos \u00famidos, e os soldados que guarneciam a nau, t\u00e3o funeral<br \/>\nrespeito os impressionara, que insensivelmente se descobriram.<\/p>\n<p>Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e<br \/>\nparecia estupidamente encarar aqueles empux\u00f5es que o marujo dava ao cad\u00e1ver,<br \/>\npara segurar a pedra na cintura.<\/p>\n<p>Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe<br \/>\no balan\u00e7o para o arremessarem longe. E, antes que o baque do cad\u00e1ver se fizesse<br \/>\nouvir na \u00e1gua, todos viram, e ningu\u00e9m j\u00e1 p\u00f4de segurar Mariana, que se atirara<br \/>\nao mar.<\/p>\n<p>A voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram<br \/>\nhomens para salvar Mariana.<\/p>\n<p>Salv\u00e1-la!&#8230;<\/p>\n<p>Viram-na, um momento, bracejar, n\u00e3o para resistir \u00e0 morte<br \/>\nmas para abra\u00e7ar-se ao cad\u00e1ver de Sim\u00e3o, que uma onda lhe atirou aos bra\u00e7os.<br \/>\nO comandante olhou para o s\u00edtio donde Mariana se atirara, e viu, enleado no<br \/>\ncordame, o avental, e \u00e0 flor da \u00e1gua, um rolo de pap\u00e9is, que os marujos recolheram<br \/>\nna lancha. Eram, como sabem, a correspond\u00eancia de Teresa e Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>Da fam\u00edlia de Sim\u00e3o Botelho vive ainda, em Vila-Real-de-Tr\u00e1s-os-Montes,<br \/>\na senhora D. Rita Em\u00edlia da Veiga Castelo Branco, a irm\u00e3 predileta dele. A<br \/>\n\u00faltima pessoa falecida, h\u00e1 vinte e seis anos, foi Manoel Botelho, pai do autor<br \/>\ndeste livro.<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI &nbsp; Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII &nbsp; INTRODU\u00c7\u00c3O Folheando os livros de antigos assentamentos, no cart\u00f3rio das 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