{"id":93977,"date":"2017-01-10T14:57:36","date_gmt":"2017-01-10T16:57:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93977"},"modified":"2017-01-10T15:02:57","modified_gmt":"2017-01-10T17:02:57","slug":"a-brasileira-de-prazins-camilo-castelo-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-brasileira-de-prazins-camilo-castelo-branco","title":{"rendered":"A Brasileira de Prazins &#8211; Camilo Castelo Branco"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#1\"><span style=\"font-size: small;\">Cap\u00edtulo I<\/span><\/a><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#8\"><span style=\"font-size: small;\">Cap\u00edtulo VIII <\/span><\/a><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: medium;\"> <a href=\"#15\"><span style=\"font-size: small;\">Cap\u00edtulo\u00a0XV <\/span><\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#17\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#18\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#19\">Cap\u00edtulo XIX <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#20\">Cap\u00edtulo XX <\/a><\/strong><\/span><strong><span style=\"font-size: medium;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>Entre as diversas mol\u00e9stias significativas da minha velhice, o amor<br \/>\naos livros antigos \u2013 a mais dispendiosa \u2013 leva-me o dinheiro que<br \/>\nme sobra da botica, onde os outros achaques me obrigam a fazer grandes orgias<br \/>\nde p\u00edlulas e tisanas. E, quando cuido que me curo com as drogas e me<br \/>\nilustro com os arca\u00edsmos, arru\u00edno o est\u00f4mago, e enferrujo<br \/>\no c\u00e9rebro numa caturrice acad\u00e9mica.<\/p>\n<p>Constou-me aqui h\u00e1 dias que a Sr\u00aa Joaquina de Vilalva tinha um<br \/>\ngigo de livros velhos entre duas pipas na adega, e que as pipas, em vez de<br \/>\nmalhais de p\u00e3o, assentavam sobre missais, O meu informador denomina<br \/>\nmissais todos os livros grandes; aos pequenos chama cartilhas. Mandei perguntar<br \/>\n\u00e0 Sr\u00aa Joaquina se dava licen\u00e7a que eu visse os livros.<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 mos deixou ver, mas at\u00e9 mos deu todos \u2013<br \/>\nque escolhesse, que levasse.<\/p>\n<p>Examinei-os com alvoro\u00e7o de bibli\u00f3mano. Eles, gordurosos, h\u00famidos,<br \/>\nempoeirados, pareciam-me sedutores como ao leitor delicadamente sensual se<br \/>\nlhe afigura a face da mulher querida, oleosa de cold-cream, pulverizada de<br \/>\nbismuto.<\/p>\n<p>Havia sermon\u00e1rios latinos, um Marco Marullo, tr\u00eas ret\u00f3ricas,<br \/>\nmuitas teologias morais, um Euclides, coment\u00e1rios de vers\u00f5es<br \/>\nliterais de Tito L\u00edvio e Virg\u00edlio. Deixei tudo na benem\u00e9rita<br \/>\npodrid\u00e3o, tirante uma vers\u00e3o castelhana do mantuano por Diego<br \/>\nLopez e um muito raro Entendimento literal e canstrvi\u00e7am portugueza<br \/>\nde todas as obras de Horacio, por industria de Francisco da Costa, impresso<br \/>\nem 1639.<\/p>\n<p>Disse-me a dadivosa vi\u00fava de Vilalva que os livros estavam na adega<br \/>\nhavia mais de trinta anos, desde que seu cunhado, que estudava para padre,<br \/>\nmorrera \u00e9tico; que o seu homem \u2013 Deus lhe fale na alma \u2013<br \/>\nmandara calcar o quarto onde o estudante acabara, e atirou para as lojas tudo<br \/>\no que era do defunto \u2013 trastes, roupa e livralhada. Contou-me isto secamente<br \/>\ndo extinto cunhado, ao mesmo tempo que ro\u00e7ava com a m\u00e3o fagueira<br \/>\no ventre gr\u00e1vido de uma gata maltesa que lhe resbunava no rega\u00e7o,<br \/>\npassando-lhe pela cara a cauda em atritos de ama flacidez de arminho. E eu<br \/>\nque dedico aos bichos um afecto nost\u00e1lgico, uma sensibilidade retroactiva,<br \/>\num atavismo que me retrocede aos meus saudosos tempos de gorilha, olhava para<br \/>\na gata que me piscava um olho com uma meiguice antiga \u2013 a das meninas<br \/>\nda minha mocidade que piscavam. Onde isto vai!<\/p>\n<p>A Sr\u00aa Joaquina, para me obrigar a um eterno reconhecimento, ofereceu-me<br \/>\numa das crias da sua gata que andava para cada hora e se chamava Velhaca \u2013<br \/>\najuntou com a satisfa\u00e7\u00e3o de quem completa um esclarecimento<br \/>\ninteressante. Agradeci o porvindouro filho da Velhaca, fiz uma car\u00edcia<br \/>\nno dorso crespo da m\u00e3e, que ma recebeu familiarmente, e sai com os<br \/>\nlivros velhos empacotados em duas bulas de 1816 e 1817 que a Sr\u00aa Joaquina,<br \/>\ncom um riso c\u00e9ptico indisciplinado, me disse serem do tempo dos Afonsinhos.<br \/>\n\u2013 Porque o seu sogro, acrescentou, era um asno \u00e0s direitas que<br \/>\ncomprava a bula para poder comer carne em dia de jejum; e, sem que eu a provocasse<br \/>\na vomitar heresias, disse que os padres vendiam a bula e compravam a carne;<br \/>\ne, juntando \u00e8 heresia um anexim de limpeza muito duvidosa, disse o<br \/>\nque quer que fosse a respeito dos pecados que entram pela boca.<\/p>\n<p>Depois informaram-me que esta vi\u00fava, bastante estragada no moral e<br \/>\nainda mais no f\u00edsico, andara de amores il\u00edcitos com um escriv\u00e3o<br \/>\ndo juiz de paz, o Barroso, um dos 7500 do Mindelo, que lera o Bom senso do<br \/>\ncura Jo\u00e3o Meslier, e a saturara de m\u00e1 filosofia, e tamb\u00e9m<br \/>\na esbulhara de parte dos seus bens de raiz e do melhor da sua<\/p>\n<p>riqueza \u2013 a F\u00e9, o bord\u00e3o com que as velhas e os velhos<br \/>\ncaminham resignados e contentes para os mist\u00e9rios da eternidade.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Logo que cheguei a casa, entrei a folhear as p\u00e1ginas dos dois livros,<br \/>\npreparado para o dissabor de encontr\u00e1-los mutilados, defeituosos, com<br \/>\nfolhas de menos, comidas pelas ratazanas colaboradoras roazes do galicismo<br \/>\nna ru\u00edna da boa linguagem quinhentista. Folheei o Entendimento literal<br \/>\ne constrvi\u00e7am at\u00e9 p\u00e1ginas 154, e aqui achei um quarto<br \/>\nde papel alma\u00e7o amarelecido, com umas linhas de letra esbranqui\u00e7ada,<br \/>\nmas leg\u00edvel e regularmente escrita. O conte\u00fado do papel, onde<br \/>\nse conheciam vincos de dobras, era o seguinte:<\/p>\n<p>Jos\u00e9, teu irm\u00e3o, quando eu hoje saia da igreja, onde fui pedir<br \/>\na Nossa Senhora a tua vida ou minha morte, disse-me que eu n\u00e3o tardaria<br \/>\na pedir a Deus pela tua alma. Eu j\u00e1 n\u00e3o posso chorar mais nem<br \/>\nrezar. Agora o que pe\u00e7o a Deus \u00e9 que me leve tamb\u00e9m.<br \/>\nSe n\u00e3o morrer, endoide\u00e7o. Perdoa-me, Jos\u00e9, e pede a Deus<br \/>\nque me leve depressa para ao p\u00e9 de ti.<\/p>\n<p>Marta.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso ser a gente extraordinariamente rom\u00e2ntica<br \/>\npara interessar-se, averiguar, querer not\u00edcias das duas pessoas que<br \/>\nt\u00eam nestas linhas uma hist\u00f3ria qualquer, mais ou menos vulgar.<br \/>\nOcorreu-me logo que o estudante, a quem o livro pertencera, tinha morrido<br \/>\nna flor dos anos. Al\u00e9m disso, na margem superior do frontisp\u00edcio<br \/>\ndo volume, est\u00e1 escrito o nome do possuidor \u2013 Jos\u00e9 Dias<br \/>\nde Vilalva, e a carta \u00e9 dirigida a um Jos\u00e9. Conclu\u00ed ser<br \/>\no cunhado da vi\u00fava quem recebera a carta.<\/p>\n<p>Voltei a casa da Sr\u00aa Joaquina, muito a\u00e7odado, como um antropologista<br \/>\nque procura uni dente pr\u00e9-hist\u00f3rico, e perguntei-lhe se o seu<br \/>\ncunhado se chamava Jos\u00e9 Dias; e se tinha alguma conversada, quando<br \/>\nmorreu. \u2013 Que sim, que o cunhado era Jos\u00e9 Dias e que morrera<br \/>\npela Maria da Fonte.<\/p>\n<p>\u2013 Pois ele amou a Maria da Fonte? \u2013 perguntei com ardente curiosidade<br \/>\nhist\u00f3rica, para esclarecer a minha p\u00e1tria com um epis\u00f3dio<br \/>\nromanesco das suas guerras civis. Ela sorriu e respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 Agora! Quer dizer que o meu cunhado morreu quando por a\u00ed andavam<br \/>\nos da Maria da Fonte a tocar os sinos e a queimar a papelada dos escriv\u00e3es,<br \/>\nsabe vossemec\u00ea? Acho que foi ent\u00e3o ou por perto. \u2013 E ajuntou:<br \/>\n\u2013 Ele gostava a\u00ed muito de uma mo\u00e7a, isso \u00e9 verdade.<br \/>\nEra a Marta&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Marta? \u2013 disse eu com a satisfa\u00e7\u00e3o de ver confirmada<br \/>\na assinatura do bilhete.<\/p>\n<p>\u2013 Vossemec\u00ea conhece-a?<\/p>\n<p>_\u2014 N\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 a brasileira de Prazins, a mulher do Feliciano da Retorta,<br \/>\nque tem quinze quintas entre grandes e pequenas.<\/p>\n<p>\u2013 Bem sei; mas nunca vi essa mulher.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o que ela nunca sai do quarto; est\u00e1 assim a modos<br \/>\nde atolambada h\u00e1 muito tempo. Credo! h\u00e1 muitos anos que a n\u00e3o<br \/>\nvejo. D\u00e1-lhe a gota, salvo seja, e estrebucha como se tivesse coisa<br \/>\nm\u00e1 no interior. \u00c9 uma pena. N\u00e3o sabe o que tem de seu.<br \/>\nO Feliciano \u00e9 o homem mais rico destes arredores, e vivem como os cabaneiros,<br \/>\nde caldo e p\u00e3o de milho. Ele quando vai ao Porto receber um alqueire<br \/>\nde soberanos que lhe vem do Brasil todos os anos, vai a p\u00e9, e mete<br \/>\nao bolso umas c\u00f4deas de boroa e quatro ma\u00e7\u00e3s para n\u00e3o<br \/>\nir \u00e8 estalagem.<\/p>\n<p>Interrompi com interesse de artista:<\/p>\n<p>\u2013 Disse-me que ela endoidecera. Foi logo depois da morte do seu cunhado?<\/p>\n<p>\u2013 Isso j\u00e1 me n\u00e3o escordo. Quando eu vim casar para aqui<br \/>\nj\u00e1 meu cunhado tinha morrido. O que me lembra \u00e9 dizer-me o meu<br \/>\ndefunto, que Deus tem, que o rapaz ganhou doen\u00e7a do peito por mor dela.<br \/>\nEsses casos h\u00e1 muita gente que lhos conte. H\u00e1 por a\u00ed<br \/>\nmuito homem do seu tempo. Pergunte isso ao Senhor Reitor de Caldelas que andou<br \/>\ncom ele nos estudos e sabe todas essas trapalhadas. \u2013 E num tom de not\u00edcia<br \/>\nfestival: \u2013 Olhe que o gatinho nasceu esta noite; l\u00e1 lho mando<br \/>\nassim que estiver criado.<\/p>\n<p>Quer que lhe corte as orelhas e o rabito?<\/p>\n<p>\u2013 Fa\u00e7a-me o favor de lhe n\u00e3o cortar nada.<\/p>\n<p>Eu tinha lido, dias antes, a judiciosa cr\u00edtica de uma dama inglesa<br \/>\n\u00e0 nossa costumeira de desorelhar e derrabar gatos. Ela, lady Jackson,<br \/>\nescreve que lhe fazem compaix\u00e3o os pobres bichanos que, sem cauda nem<br \/>\norelhas, est\u00e3o como que envergonhados de si mesmos. Excelente senhora!<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Pedi que me apresentassem ao reitor de Caldelas na feira de Santo urso. Achei-lhe<br \/>\num semblante convidativo, animador a entabular-se com ele uma indaga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde curiosidades sentimentais.<\/p>\n<p>Fazia respeit\u00e1vel a sua batina sem n\u00f3doas o padre Os\u00f3rio.<br \/>\nParece que tamb\u00e9m as n\u00e3o tem na vida. Passa por ser um velho<br \/>\ntriste, que n\u00e3o teve mocidade, nem as ambi\u00e7\u00f5es que suprem<br \/>\nos doces afectos do cora\u00e7\u00e3o mutilados pelo c\u00e1lculo ou<br \/>\ncongelados pelo temperamento. H\u00e1 trinta e dois anos que pastoreia uma<br \/>\ndas mais pobres freguesias<\/p>\n<p>do arcebispado. Pregou alguns anos com aplauso dos entendidos e inutilidade<br \/>\ndos pecadores. A ret\u00f3rica \u00e9 a arte de falar bem; mas os v\u00edcios<br \/>\ns\u00e3o a arte de viver bem e alegremente. Assim se pensa, embora n\u00e3o<br \/>\nse diga.<\/p>\n<p>Como pregava gratuitamente, o vig\u00e1rio de Caldelas era chamado por<br \/>\ntodos os mordomos e confrarias festeiras. Quando se esgotavam os paneg\u00edricos<br \/>\ndos santos mais ou menos hipot\u00e9ticos, pediam-lhe que pregasse da cura<br \/>\nmilagrosa de umas maleitas ou de um leicen\u00e7o \u2013 casos que a pobre<br \/>\nNatureza e o peri\u00f3dico chamado Escul\u00e1pio s\u00f3 de per si<br \/>\nn\u00e3o poderiam explicar.<\/p>\n<p>O vig\u00e1rio subia ao p\u00falpito e improvisava coisas de grande engenho<br \/>\nem linguagem muito singela. Afirmava que Deus era t\u00e3o bom, t\u00e3o<br \/>\nprevidente, que dera \u00e0 condi\u00e7\u00e3o enfermi\u00e7a do homem<br \/>\nfor\u00e7as vitais, sobresselentes que resistiam \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne que a Natureza, grande milagre do seu Criador, s\u00f3 de per si era bastante<br \/>\npara a si mesma se restaurar. Ora, um abade rico, bacharel em Teologia, que<br \/>\nlhe ouvira estas ideias assaz naturalistas, perguntou-lhe, \u00e0 puridade,<br \/>\nse ele negava os milagres. O reitor respondeu que a respeito das sez\u00f5es<br \/>\ne dos leicen\u00e7os acreditava mais na lanceta e no sulfato de quinino.<br \/>\nDepois, acrescentou: \u2013 Deus fez o supremo milagre da ci\u00eancia para<br \/>\ncentuplicar as for\u00e7as \u00e0 natureza enfraquecida. \u2013 O te\u00f3logo<br \/>\nenrugou cientificamente a fronte cheia de suspeitas e replicou: \u2013 O<br \/>\nSenhor Reitor foi ferido da peste do s\u00e9culo. Est\u00e1 iscado de<br \/>\nVoltaire e de Alexandre Herculano. Deixou-se contaminar. Mundifique-se. Estude<br \/>\nmais e melhor. \u2013 O reitor de Caldelas afastou-se triste, e nunca mais<br \/>\nfrequentou o p\u00falpito.<\/p>\n<p>Estas informa\u00e7\u00f5es e o aspecto lhano, harm\u00f3nico do padre,<br \/>\nanimaram-me a dizerlhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns<br \/>\nesclarecimentos a respeito de uma carta encontrada num livro que pertencera<br \/>\nao seu condisc\u00edpulo Jos\u00e9 Dias de Vilalva. \u2013 Recorda-se?<br \/>\n\u2013 perguntei.<\/p>\n<p>\u2013 Se me recordo do meu pobre Jos\u00e9 Dias! Pois n\u00e3o recordo?<br \/>\nParece-me que ainda sinto neste bra\u00e7o o peso enorme da sua face moda,<br \/>\ne j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o trinta e cinco anos. \u00c9 preciso ter<br \/>\nna alma dolorosas reminisc\u00eancias para se recordar um amigo morto h\u00e1<br \/>\ntant\u00edssimo tempo, n\u00e3o lhe parece? Como sabe voc\u00ea que existiu<br \/>\nesse obscuro filho de um lavrador?<\/p>\n<p>Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assinatura, gesticulou afirmativamente,<br \/>\ne, ap\u00f3s uma breve pausa de recolhimento com as suas recorda\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndisse:<\/p>\n<p>\u2013 Fui eu que pus esta carta entre as p\u00e1ginas de um livro do<br \/>\nDias. O meu pobre condisc\u00edpulo, quando este papel lhe foi mandado \u00e0<br \/>\ncama, j\u00e1 n\u00e3o o podia ler. Tinha ca\u00eddo no torpor, na indiferen\u00e7a<br \/>\nque, a meu ver, \u00e9 a compaix\u00e3o da Provid\u00eancia pelos que<br \/>\nmorrem amando e n\u00e3o querendo morrer. J\u00e1 n\u00e3o via a vida<br \/>\nnem a morte. Li esta carta; e, como ele nada me perguntou, eu nada lhe disse&#8230;<br \/>\nAgora me recordo perfeitamente. Era um comento de Hor\u00e1cio que eu lia<br \/>\nnos seus intervalos de modorra, a fim de dar ao meu \u00e2nimo uma folga<br \/>\nque me fortalecesse para resistir ao golpe final. J\u00e1 sei pois o que<br \/>\nvoc\u00ea deseja. Quer saber se esta Marta est\u00e1 no caso de merecer<br \/>\na consagra\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica que Bernardim de Saint-Pierre<br \/>\nusurpou \u00e0s dores verdadeiras, para coroar de uma eterna aur\u00e9ola<br \/>\na sua fant\u00e1stica Virg\u00ednia.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o vou t\u00e3o longe \u2013 respondi com a mod\u00e9stia<br \/>\ngenial dos escritores que imortalizam. \u2013 A brasileira de Prazins n\u00e3o<br \/>\npode contar com o seu imortalizador em mim, nem me parece bastante fecundo<br \/>\no assunto. Sei que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante<br \/>\nmorre e a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 mais do que isto&#8230;<\/p>\n<p>O cura interrompeu:<\/p>\n<p>\u2013 Vejo que sabe quem \u00e9 Marta; mas n\u00e3o a conhece bem.<br \/>\nVirg\u00ednia e Francesca e Julieta n\u00e3o s\u00e3o mais dignas de<br \/>\npiedade nem de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permite que<br \/>\nse abram intercad\u00eancias de luz no esp\u00edrito para que a saudade<br \/>\nrebrilhe na escurid\u00e3o da dem\u00eancia \u00e9 incomparavelmente<br \/>\nmais funesto que o amor fulminante, O que \u00e9 vulgar \u00e9 morrer<br \/>\nlogo ou esquecer quinze dias depois. Quando eu tinha uma irm\u00e3 que lia<br \/>\nnovelas, \u00e0 custa de lhas ouvir analisar com um entusiasmo digno de<br \/>\nmelhor emprego, achei-me envolvido na literatura de Sue, de Souli\u00e9<br \/>\ne de Balzac, a ponto de fazer presente do meu santo Afonso Maria de Lig\u00f3rio<br \/>\ne da minha Teologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me profetizou<br \/>\nque minha irm\u00e3 havia de morrer doida, a cismar nas patacoadas das novelas.<br \/>\nEla n\u00e3o morreu doida; mas pensava em romancear a hist\u00f3ria de<br \/>\nMarta, porque dizia ela que, tendo lido trezentos volumes de novelas, n\u00e3o<br \/>\nencontrara caso imitante. \u2013 E, dando-me o bilhete de Marta: \u2013<br \/>\nEste quarto de papel \u00e9 o ex\u00f3rdio de uma agonia original.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Como a exposi\u00e7\u00e3o do reitor saiu muito enfeitada de j\u00f3ias<br \/>\nsentimentais \u2013 detest\u00e1vel esp\u00e9cie arqueol\u00f3gica<br \/>\nque ningu\u00e9m tolera \u2013 farei quanto em mim couber por. uma a uma,<br \/>\nir montando e refugando as flores de modo que as cenas dram\u00e1ticas se<br \/>\nexponham \u00e1ridas, bravias como serro de montanha por onde lavrou inc\u00eandio,<br \/>\nsem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma l\u00e1grima.<br \/>\nA Aurora a chorar! de que tempo isto \u00e9! Como a gente, sem querer, mostra<br \/>\nnuma ideia a sua certid\u00e3o de idade e uma rel\u00edquia testemunhal<br \/>\nda idade de pedra! Oh! os bigodes tingem-se; mas as frases \u2013 madeixas<br \/>\ndo esp\u00edrito \u2013 s\u00e3o refract\u00e1rias ao rejuvenescimento<br \/>\ndos vernizes.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Marta era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um irm\u00e3o<br \/>\nrico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladr\u00e3o porque, no espa\u00e7o<br \/>\nde vinte anos, lhe mandara tr\u00eas moedas, com os seguintes encargos: \u00e0<br \/>\nm\u00e3e<\/p>\n<p>6$000 r\u00e9is fortes, \u00e0s almas do Purgat\u00f3rio, de Negrelos,<br \/>\n3$000 r\u00e9is tamb\u00e9m fortes, que lhos prometera quando embarcou,<br \/>\ne o resto para ele \u2013<\/p>\n<p>A rapariga conversou diversos mancebos, uns da lavoura, outros da arte, e,<br \/>\nafinal, quando o pai lhe negociava o casamento com um pedreiro, mestre-de-obras,<br \/>\nmuito endinheirado e j\u00e1 maduro, apareceu o Jos\u00e9 Dias, filho<br \/>\nde um lavrador rico de Vilalva, a namorisc\u00e1-la. Este rapaz estudava<br \/>\nlatim para cl\u00e9rigo; mas, como era fraco, de poucas carnes e amarelo,<br \/>\no cirurgi\u00e3o disse ao pai que o mo\u00e7o n\u00e3o lhe fazia bem<br \/>\npuxar pelas mem\u00f3rias. Os padres do Minho, naquele tempo, n\u00e3o<br \/>\npuxavam quase nada pelas mem\u00f3rias; ordenavam-se t\u00e3o alheios<br \/>\n\u00e0s faculdades da alma que, sem mem\u00f3ria nem entendimento, e \u00e0s<br \/>\nvezes sem vontade, eram sofr\u00edveis sacerdotes, davam poucas silabadas<br \/>\nno Missal e liam os salmos do Brevi\u00e1rio com uma grande incerteza do<br \/>\nque queria dizer o penitente David. Pois, assim mesmo, sendo t\u00e3o f\u00e1cil<br \/>\na ordena\u00e7\u00e3o \u2013 uma coisa que se fazia com uma perna \u00e0s<br \/>\ncostas, diziam certos vig\u00e1rios \u2013 sem precis\u00e3o absoluta<br \/>\nde puxar pelas mem\u00f3rias, o Joaquim Dias quis tirar o filho do latim<br \/>\nque lhe ensinava um egresso da Ordem Terceira, o Frei Roque. Este padre-mestre<br \/>\ntinha uma irm\u00e3 paral\u00edtica: sabia ler, e prendas de costura,<br \/>\nmarcava, fizera um pav\u00e3o de missanga, n\u00e3o desconhecia o croch\u00e9<br \/>\ne ensinava raparigas para se distrair.<\/p>\n<p>No quinteiro do padre-mestre Roque foi que o Jos\u00e9 de Vilalva se afez<br \/>\na reparar na Marta de Prazins, uma rapariga muito alva, magrinha, de cabelo<br \/>\natado, muito limpa, com a sua saia de chita amarela com dois folhos, jaqueta<br \/>\nde fazenda azul com o forro dos punhos escarlates, muito s\u00e9ria com<br \/>\nprop\u00f3sito de mulher e ares muito sonsos \u2013 diziam as outras, que<br \/>\nlhe chamavam a songuinha. Os outros estudantes, rapazolas vermelha\u00e7os,<br \/>\nrefeitos, grandes parvajolas, com grandes nacos de boroa nas algibeiras das<br \/>\nv\u00e9stias de sarago\u00e7a de varas, e os vemos Virg\u00edlios ensebados<br \/>\nem saquitos de estopa suja, diziam gra\u00e7olas a Marta \u2013 chamavam-lhe<br \/>\nboa pequena, franga e peix\u00e3o. O Jos\u00e9 Dias, arredado do grupo<br \/>\ndos trocistas alvares, via-a passar silenciosa, indiferente aos gracejos,<br \/>\nolhos no ch\u00e3o, e um grande resguardo na barra da saia quando subia<br \/>\na escada. Os rapazes, aqueles embri\u00f5es de abades, como a escada de<br \/>\npedra era \u00edngreme e aberta do lado do quinteiro, punham-se a espreitar<br \/>\nas pernas das alunas da paral\u00edtica, pela maior parte raparigas entre<br \/>\ndoze e dezasseis anos, muito musculosas, com p\u00e9s grandes e os tecidos<br \/>\nrepuxados e cheios pelo exerc\u00edcio dos carretos nas safras da lavoura.<\/p>\n<p>Marta ia nos catorze quando o pai a quis tirar da mestra. Chegara-lhe aos<br \/>\nouvidos que os estudantes, m\u00e1 canalha, lhe impeticavam com a filha.<br \/>\nQueixou-se a Frei Roque. O egresso, resfolegando honradas c\u00f3leras e<br \/>\npulveriza\u00e7\u00f5es de esturrinho, mandou enfileirar os gargajolas<br \/>\nna quadra da aula, e chamou a Marta.<\/p>\n<p>\u2013 Qual foi destes tratantes o que implicou contigo. cachopa? \u2013<br \/>\nperguntou o padremestre olhando-a por cima dos \u00f3culos, orbiculares,<br \/>\ncom as hastes oxidadas de um cobre antigo. E, apontando para o primeiro da<br \/>\nfileira que era o Jos\u00e9 de Vilalva:<\/p>\n<p>\u2013 Foi este?<\/p>\n<p>\u2013 Esse nunca me disse nada \u2013 respondeu com a voz tr\u00e9mula,<br \/>\ntoda vermelha, a rapariga.<\/p>\n<p>\u2013 Foi este?<\/p>\n<p>Marta n\u00e3o ergueu os olhos nem respondeu.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, mo\u00e7a? qual foi dos nove? Diz l\u00e1. Tu que<br \/>\nte queixaste \u00e9 que algum embarrou por ti.<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o me queixei&#8230; \u2013 murmurou a interrogada.<\/p>\n<p>Verdadeiramente ela n\u00e3o se queixara. Foi o Zeferino, o filho do alferes<br \/>\nda Lamela, o mestre-pedreiro que andando a construir um canastro na eira do<br \/>\npadre-mestre, observara que os estudantes rentavam \u00e0 cachopa, e ajeitavam-se<br \/>\nem atitudes abrejeiradas, como de quem espreita, quando ela subia a escada.<\/p>\n<p>O denunciante ao pai de Marta foi ele, o pedreiro abastado, n\u00e3o porque<br \/>\no espica\u00e7assem nessa den\u00fancia o zelo dos bons costumes, e um<br \/>\njusto \u00f3dio \u00e0s concupiscentes espionagens dos rapazes, mas porque<br \/>\ngostava, deveras, da mo\u00e7a. Ele passava j\u00e1 dos trinta e dois<br \/>\ne era a primeira vez que sentia no cora\u00e7\u00e3o as alvoradas do amor.<br \/>\nFrei Roque, averiguado o caso, advertiu o pedreiro que n\u00e3o fosse m\u00e1-lingua,<br \/>\nque n\u00e3o andasse a difamar os seus disc\u00edpulos, que se preparavam<br \/>\npara o sacerd\u00f3cio \u2013 uma coisa s\u00e9ria. O epis\u00f3dio<br \/>\nacabaria assim menos mal, se dois dos estudantes, que se preparavam para o<br \/>\nsacerd\u00f3cio, mais fortes no fueiro que nas conjuga\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndesistissem de o moer a pauladas, uma noite num pinhal. O mestre-de-obras<br \/>\niniciou-se pelo mart\u00edrio obscuro num amor que principiava bastante<br \/>\nmal. Ele nunca soube ao certo quem lhe batera, e atribuiu a sova a \u00e9mulos<br \/>\nna arte, covardes e misteriosos, por causa da constru\u00e7\u00e3o de<br \/>\numa igreja que ele desdenhara, citando as regras do Vignola. Vinha a ser o<br \/>\ndesastre uma tunda por motivos de arquitectura \u2013 um mart\u00edrio<br \/>\nde artista. Invejas. Por causa da Arte padecera o seu colega Afonso Domingues,<br \/>\no arquitecto da Batalha, e Jo\u00e3o de Castilho, o do convento de Tomar,<br \/>\ne j\u00e1 tinha padecido seu mestre, o Manuel Chasco, a quem inimigos quebraram<br \/>\na cabe\u00e7a na feira dos 21, porque ele, desfazendo na obra de um colega,<br \/>\ndissera que o botar\u00e9u de um cunhal estava torto.<\/p>\n<p>Passado tempo, Marta saiu pronta da mestra. Lia a cartilha do Salamondi e<br \/>\no Grito das Almas, decifrava menos mal uma senten\u00e7as velhas, que havia<br \/>\nna casa de Prazins, monumentos das ru\u00ednas de antigas demandas, e escrevia<br \/>\nregularmente. A primeira carta que escreveu por pauta foi para o tio de Pernambuco,<br \/>\no tio Feliciano. Pedia-lhe a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o e duas moedas<br \/>\nde ouro para umas arrecadas. Era o pai que lhe ditava a carta, cheia de l\u00e1stimas<br \/>\nmendigas, mentirosas, historietas velhacas de penhoras, as grandes d\u00e9cimas,<br \/>\na ferrugem das oliveiras, o bicho da batata, o gorgulho que pegara no milho,<br \/>\nmuitas alicantinas.<\/p>\n<p>\u2013 Que era a ver se o ladr\u00e3o mandava alguma coisa \u2013 dizia<br \/>\nele, pondo cuspo na obreia vermelha para fechar a carta.<\/p>\n<p>A segunda carta que ela escreveu, j\u00e1 sem pauta, foi a Jos\u00e9<br \/>\nDias, ao estudante, que j\u00e1 n\u00e3o estudava por causa das mem\u00f3rias<br \/>\nnocivas \u00e0 sua sa\u00fade fraca, um pel\u00e9m.<\/p>\n<p>Neste tempo j\u00e1 o Zeferino da Lamela se tinha declarado com o Sime\u00e3o<br \/>\nde Prazins, de um modo quase original.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea quanto deve, \u00f3 tio Sime\u00e3o? \u2013 perguntou.<\/p>\n<p>\u2013 Quanto devo? Voc\u00ea quer pagar-me as d\u00edvidas?<\/p>\n<p>\u2013 Pode ser. Voc\u00ea deve \u00e0 Irmandade de Nossa Senhora de<br \/>\nNegrelos um conto e cem mil-r\u00e9is; voc\u00ea deve de tornas a seu irm\u00e3o<br \/>\nquatrocentos. H\u00e1-de andar l\u00e1 para um conto e quinhentos, p&#8217;ra<br \/>\nriba que n\u00e3o p&#8217;ra baixo.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 isso; voc\u00ea sabe a minha vida melhor que eu a sua \u2013<br \/>\num conto e quinhentos e pico.<\/p>\n<p>\u2013 Quanto \u00e9 o pico?<\/p>\n<p>\u2013 Obra de dez moedas, mais pinto menos pinto. Miudezas na loja ao mercador<br \/>\ne um restito da vaca amarela que comprei ao Tarraxa na feira dos 13.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea quer fazer um cambalacho? \u2013 tornou o pedreiro recuando<br \/>\no chap\u00e9u para a nuca e pondo-lhe as m\u00e3os espalmadas com for\u00e7a<br \/>\nnos ombros.<\/p>\n<p>\u2013 Se pintar&#8230; J\u00e1 sei o que voc\u00ea quer&#8230; N\u00e3o me<br \/>\nserve. Voc\u00ea quer comprar-me o lameiro da azenha \u2013 n\u00e3o vendo.<\/p>\n<p>\u2013 Eu ainda lhe n\u00e3o disse o que queria, tio Sime\u00e3o. Olhe<br \/>\nbem para mim. Voc\u00ea est\u00e1 a falar c&#8217;um home. Pago-lhe as d\u00edvidas,<br \/>\nvoc\u00ea n\u00e3o fica a dever nada, e eu caso com a sua Marta. Pode dar<br \/>\nos bens ao outro filho que eu n\u00e3o lhe quero uma de X.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea fala s\u00e9rio, \u00f3 sor Zeferino?<\/p>\n<p>\u2013 Se falo s\u00e9rio?! Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o sabe com<br \/>\nquem \u00e9 que trata.<\/p>\n<p>\u2013 Ora bem \u2013 entendamo-nos \u2013 \u00e9 a rapariga que voc\u00ea<br \/>\nquer, a rapariga estreme, sem dote nem escritura?<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o tenho sen\u00e3o uma palavra. J\u00e1 lhe disse<br \/>\nque sim.<\/p>\n<p>\u2013 A rapariga \u00e9 sua.<\/p>\n<p>Negociara a filha com o Zeferino como tinha negociado com o Tarraxa a vaca<br \/>\namarela na feira dos 13. Eis um caso esquisito de aldeia que pela torpeza<br \/>\nparece acontecido numa cidade culta. Conversou-se este di\u00e1logo debaixo<br \/>\nde um castanheiro frondoso, com um pavilh\u00e3o de folhagem gorjeado de<br \/>\np\u00e1ssaros, com uns tons de luz esverdeada, na doce placidez crepuscular<br \/>\nde uma tarde de Agosto, entre dois homens de tamancos, arremangados, com os<br \/>\npeitos cabeludos a negrejar de entre os peitilhos da camisa surrada de suor<br \/>\ne poeira, brutos no gesto e na frase. An\u00e1logas passagens, com estilo<br \/>\npouco melhor, t\u00eam sido dramatizadas nas salas, entre homens da melhor<br \/>\npolpa e casca social \u2013 uns que mandaram ensinar \u00e0s filhas os<br \/>\nverbos franceses e s\u00e3o assinantes do Journal des Dames que marca \u00e0s<br \/>\nmeninas a baliza at\u00e9 onde pode chegar o arrojo da l\u00edngua francesa<br \/>\ne os seus mais avan\u00e7ados destinos. Da outra parte, homens ricos, de<br \/>\nf\u00edgado ingurgitado, fatigados, sedentos de senhoras finas que ponham<br \/>\nno luxo das suas salas os tons vivos da carne constelada de diamantes. \u00c9<br \/>\no ep\u00edlogo de vinte anos de lavra dura, o substrato da compra de negras<br \/>\na milhares: \u2013 comprar uma branca, das que o amor pobre e o talento est\u00e9ril<br \/>\nn\u00e3o podem negociar. O contrato feito em Prazins \u2013 eis a diferen\u00e7a<br \/>\n\u2013 por parte do pedreiro era um hero\u00edsmo: dava o seu dinheiro<br \/>\npor aquela mulher; daria mais depressa o seu sangue. Era uma paix\u00e3o<br \/>\ndas que n\u00e3o pegam com os dentes anavalhados em cora\u00e7\u00f5es<br \/>\ncivilizados, quase desfeitos. Ora, os pedreiros que v\u00eam de al\u00e9m-mar,<br \/>\ne se vestiram no Pool ou no Keil, n\u00e3o amam nem cumpram assim. Fazem<br \/>\no dote econ\u00f3mico, comezinho \u00e0 esposa. Compram uma m\u00e1quina<br \/>\nde propaga\u00e7\u00e3o, condicionalmente. Se, extinto o comprador, a<br \/>\nm\u00e1quina, n\u00e3o deteriorada, tiver pretendente, o substituto que<br \/>\na compre. O defunto prefere que a sua vi\u00fava, adelga\u00e7ada e espiritualizada<br \/>\npor jejuns, lhe converse com a alma.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Por esses dias chegou carta de Pernambuco, incluindo ordem, primeira via,<br \/>\n48$000 r\u00e9is, dez moedas de ouro. Feliciano mandava 12$000 r\u00e9is<br \/>\npara as arrecadas da sobrinha, e o resto ao irm\u00e3o. Dizia-lhe que estava<br \/>\na liquidar para vir, enfim, descansar\u201a de vez, que j\u00e1 tinha para<br \/>\nos feij\u00f5es. Recomendava-lhe que fosse deitando o olho a uma ou duas<br \/>\nquintas que se vendessem at\u00e9 trinta ou quarenta mil cruzados; que se<br \/>\nainda houvesse conventos \u00e8 venda, os fosse apalavrando at\u00e9 ele<br \/>\nchegar.<\/p>\n<p>\u2013 Quarenta mil cruzados, com um raio de diabos! \u2013 exclamou o<br \/>\nSime\u00e3o, e foi mostrar a carta ao padre-mestre Roque, ao Trepa de Santo<br \/>\nTirso e ao ex-capit\u00e3o-mor de Landim; e, como encontrasse na feira o<br \/>\ndono do mosteiro dos beneditinos, o Pinto Soares, um deputado gordo \u2013<br \/>\na ret\u00f3rica viva do sil\u00eancio mais facundo que a l\u00edngua,<br \/>\nde uma grande pacifica\u00e7\u00e3o sonolenta \u2013, perguntou-lhe se<br \/>\nqueria vender as quintas dos frades, que tinha comprador. O Pinto Soares,<br \/>\ncomo um homem que acorda com esp\u00edrito e um pouco de ate\u00edsmo,<br \/>\nrespondeu-lhe que n\u00e3o vendia para n\u00e3o transmitir ao comprador<br \/>\na excomunh\u00e3o que arranjara comprando bens das ordens religiosas. Mas<br \/>\no Sime\u00e3o, em mat\u00e9ria e raios do Vaticano, tinha na sua estupidez<br \/>\na inven\u00e7\u00e3o de Franclim. Continuava a perguntar a toda a gente<br \/>\nse sabiam de conventos \u00e0 venda, ou quintas ai para quarenta mil cruzados.<\/p>\n<p>O Zeferino das Lamelas, o pedreiro que se julgava noivo por ter o neg\u00f3cio<br \/>\nfechado num conto quinhentos e pico, procurou o lavrador para se cuidar dos<br \/>\nbanhos. O velhaco, depois de o ouvir com ares de abstrac\u00e7\u00e3o<br \/>\npalerma, disse-lhe a mastigar as palavras:<\/p>\n<p>\u2013 Home, o caso mudou muito de figura. Ent\u00e3o voc\u00ea pelos<br \/>\nmodos ainda n\u00e3o sabe que vem a\u00ed o meu irm\u00e3o de Pernambuco<br \/>\ncomprar quintas e conventos?<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a desenrolar o nastro gorduroso de uma carteira de couro<br \/>\nem que tinha recibos da d\u00e9cima, um aviso da junta da par\u00f3quia<br \/>\npara pagar a c\u00f4ngrua, uma conta de azeviche contra maus-olhados, uma<br \/>\nora\u00e7\u00e3o manuscrita contra as maleitas, um oficio antigo que o<br \/>\nnomeava regedor, de que fora demitido pelos Cabrais, uma velha ressalva de<br \/>\nrecrutamento, uns versos que ele recitara no Natal, num Auto do Nascimento<br \/>\ndo Menino, onde ele fazia de rei mago, e finalmente o livrinho de Santa B\u00e1rbara,<br \/>\nmuito seb\u00e1ceo, com um lustre azulado de graxa e a carta do Feliciano<br \/>\nt\u00e3o suja que parecia ter estado em infus\u00e3o de pingue.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea ainda n\u00e3o ouviu falar desta carta!? \u2013 perguntou<br \/>\ncom sobran\u00e7aria impertinente, dando saliva aos dedos para a desdobrar.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o se fala noutra coisa. Toda a gente sabe que vem a\u00ed<br \/>\ndo Brasil o meu Feliciano para comprar quintas.<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 me constou \u2013 disse o pedreiro \u2013, mas voc\u00ea<br \/>\nr\u00f3i a corda \u00e0 conta disso, acho eu. \u2013 E como o lavrador<br \/>\nhesitasse: \u2013 O neg\u00f3cio da rapariga est\u00e1 feito ou n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 feito? Os homens conhecem-se pela palavra e os bois pelos cornos.<br \/>\nPonha para a\u00ed o que tem no interior.<\/p>\n<p>O Sime\u00e3o mascava, torcia-se, metia com dois dedos a carta estafada<br \/>\nna carteira e resmungava:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea, enfim, isto \u00e9 um modo de falar, como o outro que<br \/>\ndiz; voc\u00ea bem entende que&#8230; sim&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 O que eu entendo fisicamente falando \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\nme d\u00e1 a rapariga.<\/p>\n<p>\u2013 Deixe ver, deixe ver o que diz o meu irm\u00e3o \u2013 tartamudeava.<\/p>\n<p>\u2013 Sabe voc\u00ea que mais? \u2013 volveu iracundo o arquitecto, dando<br \/>\ncom o olho do machado num canhoto. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 de m\u00e1<br \/>\ncasta. N\u00e3o tem palavra nem vergonha nessa cara estanhada. Voc\u00ea<br \/>\n\u00e9 da gera\u00e7\u00e3o dos Travessas da Serra Negra, e basta&#8230;<br \/>\nN\u00e3o lhe digo mais nada&#8230; \u2013 Alus\u00e3o pungente a um tio do<br \/>\nSime\u00e3o, o Barnab\u00e9, capit\u00e3o das maltas de salteadores<br \/>\nque infestaram em 1835 aquela serra.<\/p>\n<p>\u2013 Veja l\u00e1 como fala&#8230; \u2013 interrompeu o lavrador ferido<br \/>\nna sua linhagem. \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o me deite a perder&#8230;<\/p>\n<p>E o outro, num \u00edmpeto de consci\u00eancia robusta:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea \u00e9 um safado. \u00c9 o que lhe eu digo. N\u00e3o<br \/>\nguarda palavra em contrato que fa\u00e7a. Eu j\u00e1 devia conhec\u00ea-lo.<br \/>\nFaz para as matan\u00e7as seis anos que voc\u00ea ajustou comigo uma porca<br \/>\npor quatro moedas e foi depois vend\u00ea-la ao Ant\u00f3nio do Eido por<br \/>\nmais um quartinho. Lembra-se, seu alma de c\u00e2ntaro? \u2013 E numa irrita\u00e7\u00e3o<br \/>\ncrescente: \u2013 Se voc\u00ea n\u00e3o fosse um velho, dava-lhe com este<br \/>\nmachado na caveira. \u2013 E muito esbandalhado nos gestos, com sarcasmo:<br \/>\n\u2013 Guarde a filha que eu hei-de achar mulher muito melhor que ela pelo<br \/>\npre\u00e7o, ouviu voc\u00ea? que leve o Diabo a burra e mais quem a tange,<br \/>\ncomo o outro que diz. Livrei-me de boa espiga. De voc\u00ea n\u00e3o pode<br \/>\nsair coisa boa; e mais da m\u00e3e que ela teve, que j\u00e1 l\u00e1<br \/>\nest\u00e1 a dar contas&#8230;<\/p>\n<p>E o lavrador com extremada prud\u00eancia e na pacatez de um grande esp\u00edrito<br \/>\nde ordem e paz:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o tem que desfazer na minha filha, ouviu?<\/p>\n<p>\u2013 Ouvi, que n\u00e3o sou mouco. Ainda ontem a topei na bou\u00e7a<br \/>\ndo Reguengo de palestra com o estudante de Vilalva. Espere-lhe a volta. A<br \/>\nsonguinha, que n\u00e3o olha direito p&#8217;ra um home, que anda ali esmadrigada<br \/>\nde cabe\u00e7a ao lado, l\u00e1 estava de m\u00e3o na ilharga a dar<br \/>\ntreta ao estudante, aquele pau de encher tripas, que h\u00e1-de ser mesmo<br \/>\num padre daquela casta! Olhe se ele lha quer para casar&#8230; Pois n\u00e3o<br \/>\nquiseste? \u2013 e arrega\u00e7ava a p\u00e1lpebra do olho esquerdo,<br \/>\nmostrando o interior inflamado com uns pontos amarelos, purulentos, indicativos<br \/>\nde insuficiente lavagem, um trejeito de garotice. E continuava: \u2013 Quem<br \/>\nlhe dera dois pontap\u00e9s, nele e mais nela! \u2013 e muito rubro de<br \/>\nc\u00f3lera dava pancadaria nas pedras, nas ra\u00edzes nodosas dos castanheiros,<br \/>\ne metia grande terror no \u00e2nimo do Sime\u00e3o quando faiscava lume<br \/>\nnos calhaus com a percuss\u00e3o do machado.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o prometia acabar pela fuga prudente do pai de<br \/>\nMarta, se o estudante de Vilalva n\u00e3o assomasse ao fundo do castanhal<br \/>\ncom uma matilha de coelheiros que ladravam a um porco muito eri\u00e7ado,<br \/>\nque os esperava com o focinho de esguelha, bufando e grunhindo. O ca\u00e7ador<br \/>\nchamava os c\u00e3es, assobiava, fazia uma bulha convencional para que a<br \/>\nMarta o ouvisse.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o tinha visto o pedreiro; os c\u00e3es \u00e9 que o viram<br \/>\ne deixaram o porco destemido para atacarem o homem, com uma velha birra que<br \/>\nlhe tinham. O Zeferino, noutra ocasi\u00e3o, segundo o seu costume, desprezaria<br \/>\na arremetida da matilha; mas, naquela conjuntura de \u00f3dio ao ca\u00e7ador,<br \/>\nesperou a canzoada com o machado em riste, empunhava o cabo com as m\u00e3os<br \/>\ncabeludas, e fazia, com o corpo inclinado, avan\u00e7os provocadores. Jos\u00e9<br \/>\nDias chamava os c\u00e3es obedientes; mas o Zeferino, muito azedo, engelhando<br \/>\nna cara uns trejeitos de baz\u00f3fia, dizia sarc\u00e1stico:<\/p>\n<p>\u2013 Deixe-os vir, deixe-os vir, que o primeiro que chegar fa\u00e7o-lhe<br \/>\nsaltar os miolos \u00e0 cara de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Que se acomodasse, conciliava pacificamente o estudante \u2013 que os c\u00e3es<br \/>\nn\u00e3o tinham outra fala. E o pedreiro insistente, muito arrogante: \u2013<br \/>\nQue venham para c\u00e1, e mais o dono, o ca\u00e7ador de borra! \u2013<br \/>\ne dizia palavradas canalhas, muito danado porque vira aparecer a Marta na<br \/>\nvaranda, a fazer meia com a cesta do novelo no bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 Sr. Zeferino, fale bem, ponha cobro na l\u00edngua advertiu<br \/>\no Jos\u00e9 Dias, com uma serenidade de mau agoiro \u2013 quando eu lhe<br \/>\nladrar ent\u00e3o se far\u00e1 com o machado para mim. Os c\u00e3es<br \/>\nladraram-lhe; eu chamei-os, que mais quer voc\u00ea, homem? Siga o seu caminho.<\/p>\n<p>\u2013 O meu caminho? o meu caminho \u00e9 este \u2013 disse batendo<br \/>\ncom o machado na terra. \u2013 Quer voc\u00ea mandar-me embora daqui? Ora<br \/>\nn\u00e3o seja tolo.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da mo\u00e7a enfurecia-o; contra o seu costume, sentia-se<br \/>\nvalente. O amor, como um vinho indigesto, dava-lhe a coragem interina dos<br \/>\nb\u00eabedos, e berrava:<\/p>\n<p>\u2013 Se \u00e9 homem, venha para c\u00e1! Voc\u00ea manda-me sair<br \/>\ndaqui, seu peda\u00e7o-de-asno? E o estudante, j\u00e1 amarelo:<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o o mando sair da\u00ed, nem lhe consinto que me chame<br \/>\nasno. Olhe que eu largo a espingarda, tiro-lhe das unhas o machado e dou-lhe<br \/>\ncom ele.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 alma do Diabo! \u2013 exclamou o pedreiro crescendo para<br \/>\no ca\u00e7ador.<\/p>\n<p>Nisto, um dos c\u00e3es, atravessado de c\u00e3o de gado e cadela coelheira,<br \/>\nque aprendera a morder nas ocasi\u00f5es razo\u00e1veis, atirou-se-lhe<br \/>\nao assento das cal\u00e7as de estopa e puxou at\u00e9 lhe descobrir a<br \/>\nepiderme da n\u00e1dega esquerda.<\/p>\n<p>O pedreiro floreava debalde o machado; os golpes cortavam o ar, e nem de<br \/>\nleve apanhavam o c\u00e3o, que dava pulos de esconso, atacando-o pela n\u00e1dega<br \/>\ndireita. A restante matilha fraternizara com o outro e juntavam os focinhos<br \/>\nnum complexo de dentu\u00e7as minac\u00edssimas com os olhos sangu\u00edneos<br \/>\ncravados nos movimentos do machado. Jos\u00e9 Dias, no entanto, espancava<br \/>\na cain\u00e7ada, e Marta n\u00e3o sabia se havia de descer para ajudar<br \/>\no pai a acomodar a bulha, ou se havia de cair na varanda a rir-se. Ela sentia-se<br \/>\nenvergonhada do espect\u00e1culo que exibia a cal\u00e7a esfarrapada;<br \/>\nmas n\u00e3o havia pudor que resistisse \u00e0quilo. O pedreiro sabia<br \/>\nque o c\u00e3o lhe chegara um pouco \u00e0 cal\u00e7a; mas, no calor<br \/>\nda luta, n\u00e3o sentira esfriar-se-lhe a pele descoberta, nem se lembrou<br \/>\nque andava sem ceroulas. Depois, como sentisse uma frescura extraordin\u00e1ria<br \/>\nna c\u00fatis, exposta ao contacto da atmosfera, levou a m\u00e3o conscienciosamente<br \/>\nao s\u00edtio, e achou em si aquele esp\u00e9cime obsoleto do Ad\u00e3o<br \/>\nprimitivamente inocente. No entanto, Marta, n\u00e3o podendo j\u00e1 consigo,<br \/>\nentalada de riso, fugira da varanda e atirara-se de bru\u00e7os sobre a<br \/>\ncama, a rebolar-se, a espernear como se tivesse uma c\u00f3lica. O estudante<br \/>\nretirou-se assobiando \u00e0 matilha ainda refilada \u00e0s n\u00e1degas<br \/>\ndo homem. O Sime\u00e3o co\u00e7ava-se com as dez unhas e dizia velhacamente<br \/>\ncomovido:<\/p>\n<p>\u2013 Meta-se a\u00ed na corte da \u00e9gua que eu vou-lhe buscar umas<br \/>\ncal\u00e7as, seu Zeferino, ou d\u00e1-se-lhe a\u00ed quatro pontos p&#8217;ra<br \/>\nremediar. D\u00ea c\u00e1 as cal\u00e7as, e n\u00e3o se aflija&#8230;<\/p>\n<p>O pedreiro respondeu-lhe porcamente e de modo t\u00e3o trivial, que o outro<br \/>\nlhe replicou:<\/p>\n<p>\u2013V\u00e1 voc\u00ea!<\/p>\n<p>E meteu-se em casa como quem receava contra-r\u00e9plica menos suja e mais<br \/>\ndura.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>O Zeferino era afilhado do morgado de Barrimau, um major de cavalaria, convencionado<br \/>\nem Evora Monte, miguelista intransigente, mas cordato. Vivia no seu escalavrado<br \/>\nsolar com um irm\u00e3o egresso beneditino, Frei Gerv\u00e1sio, muito<br \/>\ncevado e inerte, que continuava em casa a sua miss\u00e3o mon\u00e1stica.<br \/>\nEra um contemplativo. N\u00e3o lia sen\u00e3o no livro da Natureza. Se<br \/>\nn\u00e3o dormia, estrumava o seu vegetalismo com muitos adubos crassos de<br \/>\ntoucinho e capoeira, com um grande farfalhar de mastiga\u00e7\u00e3o,<br \/>\nporque dispunha de dentadura insuficiente. Tinha outro sinal ruidoso de vida<br \/>\n\u2013 era um pigarro de catarral cr\u00f3nica, arrancado dos gorgomilos<br \/>\ncom tamanho estrupido que parecia ao longe o grito rouco de um estrangulado,<br \/>\nno 5\u00ba acto de um drama de costumes. A velha criada da cozinha, muito<br \/>\nflatulenta, nunca pudera afazer-se \u00e0s explos\u00f5es daquela garganta<br \/>\nescabrosa de mucos empedrados. Quando o grasnido asp\u00e9rrimo de pav\u00e3o<br \/>\nlhe feria os ouvidos, reboando nos c\u00f4ncavos tectos dos sal\u00f5es,<br \/>\na mulher estremecia e raras vezes deixava de resmungar: \u2013 Que medo!<br \/>\ncredo! diabos leve a esgana do home. Deus me perdoe!<\/p>\n<p>De dois em dois meses apareciam em Barrimau dois egressos de Cabeceiras de<br \/>\nBasto, companheiros de noviciado de Frei Gerv\u00e1sio. Juntavam-se os tr\u00eas<br \/>\namigos numa intimidade de palestras saudosas. Com intercad\u00eancias mudas<br \/>\nde po\u00e9tica tristeza, comemoravam os seus conventuais falecidos, rezavam<br \/>\njuntos pelos seus brevi\u00e1rios beneditinos; depois, a passo cadencioso,<br \/>\nclaustral, iam para a mesa com o recolhimento prescrito pela Regra do patriarca.<br \/>\nA\u00ed, pegava de puxar por eles a natureza objectiva, e dava-lhes horas<br \/>\nde salutar esquecimento do passado irrepar\u00e1vel. Gorgolejavam copiosamente<br \/>\nos vinhos engarrafados, trai\u00e7oeiros, da Companhia, em que Frei Gerv\u00e1sio<br \/>\nderretia a presta\u00e7\u00e3o; porque, de resto, a mesa do mano morgado<br \/>\nera farta e a sua bolsa generosa para as moderadas necessidades do egresso.<\/p>\n<p>O major Zeferino Bezerra de Castro n\u00e3o tinha grande casa; mas, como<br \/>\nera solteiro e quinquagen\u00e1rio, fazia de conta que os bens lhe haviam<br \/>\nde sobejar \u00e0 vida, vendendo os alodiais e empenhando, se necess\u00e1rio<br \/>\nfosse, o morgadio, que era insignificante. Concorria com vinte moedas para<br \/>\nas miser\u00e1veis 1000 libras que o Sr. D. Miguel recebia anualmente de<br \/>\ndonativos de monarcas e dos seus partid\u00e1rios portugueses1. Festejava<br \/>\ndispendiosamente os natal\u00edcios do rei, convidando a jantar os realistas<br \/>\nnot\u00e1veis da comarca; e, contando os anos da proscri\u00e7\u00e3o,<br \/>\nia calculando a patente que lhe competia quando o soberano leg\u00edtimo<br \/>\nse restaurasse. Correspondia-se com alguns camaradas, esquecidos e atrofiados<br \/>\nnas aldeias, o general P\u00f3voas, o Bernardino, o Magessi, o Montalegre,<br \/>\no Jos\u00e9<\/p>\n<p>1Um historiador moderno dissa que D. Miguel em 1855 recebia setenta contos<br \/>\nanuais de donativos. Provavelmente deu causa a esta liberalidade de cifras<br \/>\num lapso do Sr. Joaquim Martins de Carvalho, que a p\u00e1gs. 254-255 dos<br \/>\nseus Apontamentos para a Hist\u00f3ria Conempor\u00e2nea, transcreveu de<br \/>\numa carta de Louren\u00e7o Viegas o seguinte per\u00edodo: \u00abOs rendimentos<br \/>\nde el-rei comp\u00f5em-se das 600 libras que v\u00eam de Lisboa da comiss\u00e3o<br \/>\naliment\u00edcia, 1 000 francos mensais que com toda a exactid\u00e3o<br \/>\nlhe mandava o conde de Chambord, 5 000 francos que anualmente lhe manda o<br \/>\nduque de Modena e 6 000 francos do imperador Fernando da \u00c1ustria, tamb\u00e9m<br \/>\nanuais, mas sem \u00e9poca fixa, junto a alguns extraordin\u00e1rios da<br \/>\nprov\u00edncia do Minho, fazem subir a renda anual a 400 000 francos, e<br \/>\nesta chega apenas para a despesa e economia dom\u00e9stica.\u00bb Chegando<br \/>\napenas para a despesa dom\u00e9stica de D. Miguel, 72 000$000, quanto lhe<br \/>\nseria necess\u00e1rio para despesas de fora? Um dos zeros do Sr. Martins<br \/>\nde Carvalho deve passar para a direita do 4, e reduzir a anuidade do pr\u00edncipe<br \/>\na 7 200$000 r\u00e9is ou 40 000 francos.<\/p>\n<p>Marcelino. Mas as cartas quem lhas redigia era o mano frade, recheando-as<br \/>\nde trechos de pol\u00edtica de p\u00falpito \u2013 resultado das suas<br \/>\ndigest\u00f5es morosas, contemplativas \u2013 que serviram de ornamento<br \/>\nnas colunas do Portugal Velho!, peri\u00f3dico miguelista da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Naquele ano, por meado de 1845, espalhara-se no ambiente dos realistas, como<br \/>\num aroma de jardins floridos, o boato de que vinha o Sr. D. Miguel. O seu<br \/>\nenorme partido sentia-se palpitar no anseio daqueles vagos anelos que estremeciam<br \/>\nas na\u00e7\u00f5es pag\u00e3s ao avizinhar-se o profetizado aparecimento<br \/>\ndo Messias. Afirmam-no os Santos Padres, e os padres do Minho asseveravam<br \/>\no mesmo a respeito do pr\u00edncipe proscrito. Frei Gerv\u00e1sio recebia<br \/>\ndo alto da prov\u00edncia cartas misteriosas de uns padres que paroquiavam<br \/>\nna P\u00f3voa de Lanhoso e Vieira. Era ali o foco latente do apostolado.<br \/>\nNaqueles est\u00e1bulos de ignor\u00e2ncia supersticiosa \u00e9 que devia<br \/>\naparecer, pelos modos, o pres\u00e9pio do novo redentor. Citavam-se profecias<br \/>\napocal\u00edpticas de frades que estavam inteiros sob as lajes das claustras.<br \/>\nConvergiam \u00e0quele ponto mission\u00e1rios de aspectos ser\u00e1ficos,<br \/>\nolhando para as estrelas como os magos e os pastores da Palestina. O frade<br \/>\nmostrava as cartas ao irm\u00e3o e dizia-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Mas muito grande! \u2013 corroborava o major com cabe\u00e7adas<br \/>\nafirmativas muito exageradas.<\/p>\n<p>\u2013 A R\u00fassia move-se, \u00e9 o que \u00e9 \u2013 afirmou<br \/>\nFrei Gerv\u00e1sio, correlacionando a iniciativa de Lanhoso com a propaganda<br \/>\nautocr\u00e1tica da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Num destes di\u00e1logos, em que havia desabafos, exuber\u00e2ncias de<br \/>\nj\u00fabilo, interveio o Zeferino das Lamelas, o pedreiro afilhado do major.<br \/>\nVinha contar o caso do Sime\u00e3o de Prazins e a pega que teve com os c\u00e3es<br \/>\ndo Dias de Vilalva. Mostrava a cal\u00e7a remendada \u2013 que por pouco<br \/>\nlhe n\u00e3o entravam no couro os c\u00e3es \u2013 dizia, e protestava<br \/>\nvingar-se. O egresso pacificava-o; que deixasse l\u00e1 a rapariga e mais<br \/>\no estudante; que se fosse preparando para desembainhar a espada de seu pai<br \/>\nem defesa do trono e do altar. E o major:<\/p>\n<p>\u2013 Estamos chegados a elas, Zeferino.<\/p>\n<p>E o pedreiro, esfregando as m\u00e3os cori\u00e1ceas, que rangiam como<br \/>\nduas lixas friccionadas:<\/p>\n<p>\u2013 A eles, senhor padrinho! A espada vai-se amolar Vou pedi-la ao velho!<\/p>\n<p>O pai de Zeferino, o Gaspar das Lamelas, tinha sido alferes do 17 de linha;<br \/>\ne, em 1834, como o perseguissem os liberais do concelho por pancadaria e testemunhos<br \/>\nfalsos nas devassas de 28, andou foragido alguns meses. Sequestraram-lhe os<br \/>\nbens; e o filho, que j\u00e1 era muito barbado e n\u00e3o tinha modo de<br \/>\nvida, fez-se pedreiro. Depois, aplacadas as f\u00farias dos vencedores e<br \/>\nrestabelecida a justi\u00e7a, restitu\u00edram ao Zeferino as terras devastadas.<br \/>\nO ex-alferes saiu do seu esconderijo, e recolheu-se a casa com a espada muito<br \/>\ncheia de verdete, dizendo que havia de lav\u00e1-la no sangue dos malhados.<br \/>\nEm 1838, dia de Natal, embebedou-se despropositadamente e saiu para a rua<br \/>\na dar vivas ao Sr. D. Miguel. Outros piteireiros, do mesmo credo, afectos<br \/>\n\u00e0s velhas institui\u00e7\u00f5es, responderam aos vivas com um<br \/>\nentusiasmo homicida. O Gaspar foi buscar a espada, cingiu a banda sobre a<br \/>\nniza de sarago\u00e7a, p\u00f4s a barretina com os amarelos muito oxidados,<br \/>\ne, \u00e0 frente de um grupo de jornaleiros e garotos, caminhou para a cabe\u00e7a<br \/>\ndo concelho a fim de oferecer batalha campal \u00e0s autoridades. Al\u00e9m<br \/>\nda espada do caudilho, havia na jolda tr\u00eas espingardas reiunas; o restante<br \/>\neram foices de gancho encavadas em grossas varas. Um porqueiro colossal floreava<br \/>\nunia l\u00e2mina brunida da faca de matar os cevados. A guerrilha, j\u00e1<br \/>\nengrossada por outros b\u00eabedos encontrados nas tabernas do tr\u00e2nsito,<br \/>\nchegou \u00e0 porta do morgado de Barrimau, e a clamorosos brados elegeram-no<br \/>\ngeneral. J\u00e1 se ouvia tocar a rebate em diversas torres, \u00e0 discri\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos garotos destacados. O morgado mandou-lhes dar vinho, e que debandassem,<br \/>\nque recolhessem a suas casas, porque iam levar grande tareia inutilmente.<br \/>\nO egresso veio a uma janela que abria sobre o \u00e1trio, e tentou dissuadi-los<br \/>\ndo desvario que mais parecia um excesso de vinho que de patriotismo \u2013<br \/>\ndizia. N\u00e3o fez nada. Cada vez mais picado, o alferes, faminto de vingan\u00e7a,<br \/>\nbradava que estivera quinze meses escondido, que lhe tinham estragado a sua<br \/>\ncasa, e que ia pedir contas aos Trepas e aos Andrades de Santo Tirso, uns<br \/>\nmalhados, cujas cabe\u00e7as havia de deixar espetadas em pinheiros.<\/p>\n<p>Na vila ouvia-se o toque a rebate. Dizia-se que era inc\u00eandio. Alguns<br \/>\nvadios atravessaram a ponte muito a\u00e7odados em direc\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0s freguesias de onde soavam as primeiras badaladas. O regedor de Vilalva,<br \/>\no pai do Jos\u00e9 Dias, descia esbaforido do monte do Barreiro a dar parte<br \/>\n\u00e0 autoridade. Assim que se espalhou a nova em Santo Tirso, j\u00e1<br \/>\nse ouvia alarido de vozes. A garotagem dava vivas, e guinchava uns apupos<br \/>\nprolongados que punham ecos nas margens tortuosas do rio Ave. Os liberais<br \/>\nde Santo Tirso rodearam o administrador, armados, com os seus criados. Os<br \/>\nnegociantes, com medo de saque, tamb\u00e9m sa\u00edram de clavinas. As<br \/>\nfam\u00edlias nas janelas faziam clamores, numa grande desola\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNaquela vila lembrava ainda a mortandade do tempo do cerco do Porto, e havia<br \/>\nvelhos que presenciaram outra semelhante no tempo dos franceses. O regedor<br \/>\nde Vilalva dissera que o comandante da guerrilha era o morgado de Barrimau.<br \/>\nEsta not\u00edcia fez aumentar o pavor, porque, se o morgado, s\u00e9rio,<br \/>\nprudente e bravo, aceitara o comando dos populares \u00e9 porque a coisa<br \/>\nera s\u00e9ria. Os homens de neg\u00f3cio depuseram as armas, enfardelaram<br \/>\nos valores e fugiram, caminho do Porto. Os propriet\u00e1rios, os empregados<br \/>\np\u00fablicos, os oficiais de justi\u00e7a, alguns que haviam militado<br \/>\ne emigrado, desceram \u00e0 ponte armados em n\u00famero de oitenta. Outros<br \/>\nseguiram vereda diferente para passar o rio. A guerrilha, cuja vozeada se<br \/>\naproximava, no trajecto de uma l\u00e9gua, pegou a sua febre a mais de trezentos<br \/>\nhomens. Era um domingo de festa solene, consagrado \u00e0 descida do Filho<br \/>\nde Deus, para aplacar os b\u00e1rbaros \u00f3dios do g\u00e9nero humano:<br \/>\n\u2013 uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho n\u00e3o<br \/>\npreparasse as almas a compreend\u00ea-la e senti-la. Depois, muito comunicativa,<br \/>\ncomo se v\u00ea. Gaspar das Lamelas emborracha-se ao jantar e faz brindes<br \/>\nao Menino Jesus e ao Sr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca, pungem-no saudades<br \/>\ndo rei, e sai para o terreiro a dar-lhe vivas. Outros vinhos em ebuli\u00e7\u00e3o<br \/>\nrespondem-lhe num grito de sinceridade compacta. Trava da espada, que se tingira<br \/>\nno sangue de tr\u00eas batalhas \u00e0 volta do Porto; entra com ele a<br \/>\nconvic\u00e7\u00e3o em del\u00edrio acrisolada pela alucina\u00e7\u00e3o<br \/>\nda embriaguez. E o anojo temer\u00e1rio dos grandes guerreiros o que \u00e9<\/p>\n<p>sen\u00e3o uma embriaguez de gl\u00f3ria, quando n\u00e3o \u00e9<br \/>\numa embriaguez de genebra? Nas guerras civis portuguesas houve ai um bravo<br \/>\nsoldado de fortuna que, no vigor dos anos, ganhara as charlateiras de general<br \/>\ne uma coroa de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por causa<br \/>\nda abstin\u00eancia, diziam que ele nunca sa\u00edra vitorioso de campanha<br \/>\nonde n\u00e3o entrasse b\u00eabedo. Este general, ao declinar da vida,<br \/>\ncasado e abst\u00e9mio, n\u00e3o deu uma p\u00e1gina gloriosa \u00e0<br \/>\nsua hist\u00f3ria, presidiu sem iniciativa militar nem pol\u00edtica \u00e0<br \/>\nJunta Suprema do Podo, e fechou o ciclo das suas fa\u00e7anhas a parlamentar<br \/>\nem Vieira com o padre Casimiro, o General Defensor das cinco chagas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no c\u00e9rebro vinolento do alferes das Lamelas rutilavam<br \/>\nos rel\u00e2mpagos da gl\u00f3ria quando, a brandir o gl\u00e1dio ferruginoso,<br \/>\ndescia, na vanguarda da guerrilha, o outeiro sobrejacente \u00e0 Ponte de<br \/>\nSanto Tirso. \u00c0 entrada da ponte de pau havia taverna, com as prateleiras<br \/>\nalinhadas de garrafas da Companhia, com r\u00f3tulos.<\/p>\n<p>A multid\u00e3o parou, avistando gente armada que descia a cal\u00e7ada<br \/>\nde al\u00e9m, ao n\u00edvel da quinta do Mosteiro de S. Bento. O taverneiro,<br \/>\nmuito caloteado dessa vez, diz ao comandante, ao Gaspar, que n\u00e3o ca\u00edsse<br \/>\nem se meter \u00e0 ponte.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00eas v\u00e3o cair a\u00ed nessa ponte como tordos, e<br \/>\nos que n\u00e3o ca\u00edrem t\u00eam de largar os socos a fugir \u2013<br \/>\navisava, porque sabia que os de l\u00e1 eram tesos, e vinham todos armados.<\/p>\n<p>O cabecilha tinha o seu vinho quase digerido; a bravura come\u00e7ava a<br \/>\nceder \u00e0s reflex\u00f5es sensatas do taverneiro; mas o seu estado-maior,<br \/>\nuns fac\u00ednoras da quadrilha que tr\u00eas anos antes infestara as encruzilhadas<br \/>\nda Terra Negra e Travagem, n\u00e3o transigiam, e for\u00e7avam-no a beber<br \/>\ncopos de aguardente. \u2013 Que o primeiro que mostrasse os calcanhares ia<br \/>\nmalhar da ponte abaixo! \u2013 protestavam os velhos salteadores do Minho,<br \/>\nbatendo com as coronhas no balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, o administrador do concelho com dois empregados inermes atravessava<br \/>\na ponte. A guerrilha, estupefacta da aud\u00e1cia, esperava-o numa atitude<br \/>\npac\u00edfica, est\u00fapida, um retraimento de covardia, olhando-se uns<br \/>\npara os outros e todos para o alferes. Ele, empurrado pelos valentes, colocou-se<br \/>\n\u00e0 frente, na boca da ponte, com a espada nua. O administrador chegou<br \/>\nmuito de passo e perguntou se estava ali o Sr. Morgado de Barrimau, que desejava<br \/>\nfalar-lhe.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o estava. \u2013 Eu sou o chefe \u2013 disse o Gaspar.<\/p>\n<p>\u2013 Logo me pareceu que um homem s\u00e9rio, como o morgado, n\u00e3o<br \/>\nestaria \u00e0 frente deste bom povo enganado \u2013 ponderou a autoridade.<br \/>\n\u2013 E vossemec\u00ea quem \u00e9? \u2013 perguntou ao chefe.<\/p>\n<p>Que era o alferes das Lamelas, bem conhecido em toda a parte; que perguntasse<br \/>\naos malhados de Santo Tirso, a esse ladr\u00f5es que o perseguiram e lhe<br \/>\nroubaram os seus bens.<\/p>\n<p>O administrador, um bacharel, de cabeleira \u00e0 Saint-Simon, era discursivo<br \/>\ne n\u00e3o perdia lan\u00e7o de eloqu\u00eancia em casos de um romanesco<br \/>\nmedonho. A torrente do rio rugia quebrada pelo tri\u00e2ngulo dos peg\u00f5es.<br \/>\nUma rica e f\u00fanebre paisagem, cortada de um lado pelos cata-ventos que<br \/>\nrangiam nas cristas das torres do mosteiro, e do outro pela mata verde-negra,<br \/>\neri\u00e7ada de pinheiros gementes. Um pitoresco cheio de sugest\u00f5es,<br \/>\nde uma palpita\u00e7\u00e3o cicl\u00f3pica. Depois o enorme audit\u00f3rio,<br \/>\ntrezentas cabe\u00e7as, flutuando com as bocas muito escancaradas numa bestialidade<br \/>\nferamente espasm\u00f3dica de lobos espantados por um archote aceso. O meio<br \/>\nera demost\u00e9nico, inspirativo. Borbotou-lhe a golfos um palavreado discreto,<br \/>\naconselhando a turba a retirar-se aos seus apriscos, \u00e0 honrada labuta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos seus mesteres, e a n\u00e3o perturbarem com demagogias a pacifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos \u00e2nimos e a sacrat\u00edssima inviolabilidade das institui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nQuando o funcion\u00e1rio fechou a parlenda, um dos mais b\u00eabedos.<br \/>\nquer por chala\u00e7a, quer por insuficiente compreens\u00e3o dos princ\u00edpios<br \/>\npol\u00edticos da autoridade, atirou o chap\u00e9u ao ar e exclamou: .<\/p>\n<p>A autoridade ia replicar; mas a gritaria abafou-o. Ele voltou as costas \u00e0<br \/>\ncanalha, e foi-se com bons exemplos de oradores antigos. Os liberais, logo<br \/>\nque o viram retroceder, entraram na ponte de madeira com um sonoro estrondo<br \/>\nde marcha cadenciada.<\/p>\n<p>Capitaneava-os um escriv\u00e3o de direito, dos 7500, cavaleiro da Torre<br \/>\ne Espada, o Lobato, que pedira baixa de tenente no fim da campanha.<\/p>\n<p>Outro bravo, o ex-sargento Lopes, que era guarda-chefe dos tabacos, tinha<br \/>\npedido vinte homens, e atravessara com eles o Ave, na revolta do rio, sem<br \/>\nser visto, na bateira do Jos\u00e9 Pinto Soares. Ele n\u00e3o podia levar<br \/>\na bem que aqueles pategos se retirassem sem uma sova pela retaguarda e outra<br \/>\npela frente. Contava com a debandada pela ladeira das matas, e prometia, l\u00e1<br \/>\ndo alto, escorra\u00e7\u00e1-los de modo que eles se espetassem entre<br \/>\ndois fogos. Os seus vinte homens eram soldados com baixa, guardas do tabaco,<br \/>\ne s\u00f3cios aposentados das quadrilhas de 1834 \u2013 um misto de pol\u00edticos,<br \/>\nde ladr\u00f5es e m\u00e1rtires das enxovias.<\/p>\n<p>Os quatro fac\u00ednoras da horda do alferes, quando viram a marcha firme<br \/>\ne solene dos de Santo Tirso \u2013 \u00e9 agora, rapazes! \u2013 exclamaram,<br \/>\ndesfechando as espingardas. Os populares que as tinham, descarregaram as suas,<br \/>\ne avan\u00e7aram, ponte dentro, numa arremetida impetuosamente esbandalhada,<br \/>\nde rodilh\u00e3o. Uma das balas prostrara um arneiro da primeira fila dos<br \/>\nliberais; havia mais alguns feridos que se amparavam gementes as guardas da<br \/>\nponte. O bravo do Mindelo viu cair morto o seu homem, e, contendo a f\u00faria<br \/>\ndas fileiras numa disciplina rigorosa, deu a voz da descarga \u00e0 primeira,<br \/>\ne mandou abrir passagem \u00e0 imediata, que sustentava o fogo enquanto<br \/>\na outra carregava as armas.<\/p>\n<p>Os pelouros cortavam fundo pelas carnes da popula\u00e7a. Viam-se homens<br \/>\nque fugiam a coxearem, atiravam-se \u00e0s ribanceiras, escabujando em arrancos<br \/>\nde morte. Os que n\u00e3o tinham espingardas e ainda os que as tinham sem<br \/>\ncartuchame pegavam dos tamancos e galgavam socalcos, buscando o ref\u00fagio<br \/>\ndos pinhais e carvalheiras.<\/p>\n<p>O alferes sentiu um choque duro de coisa que lhe contundia as costas e lhe<br \/>\napertava o pesco\u00e7o. Era o Retrinca de Santiago de Antas, o mais feroz<br \/>\nda sua malta, que se amparava nele, quando ca\u00eda varado por um<\/p>\n<p>pelouro. Este espect\u00e1culo trivial n\u00e3o aterrava o soldado de<br \/>\nPonte Ferreira, das Antas e da Asseiceira; mas dava-lhe as antigas pernas<br \/>\nque o serviram nessas gloriosas batalhas. Tinha cinquenta anos, e fugia ganhando<br \/>\na dianteira aos garotos do seu bando destro\u00e7ado. Por\u00e9m, quando<br \/>\nele escalava a ladeira barrenta que se precipita ao sop\u00e9 do monte,<br \/>\ndesciam em saltos de bezerros mordidos por vespereiros os seus homens, num<br \/>\nturbilh\u00e3o, acossados pelo tiroteio da companhia do ex-sargento Lopes<br \/>\n\u2013 uns barba\u00e7udos que pareciam gigantes no topo da colina, e davam<br \/>\nuns berros clangorosos imitantes a mugidos de bois. O dia de ju\u00edzo!<\/p>\n<p>O Gaspar arrepiou carreira e desfilou por uma v\u00e1rzea alagada que ia<br \/>\nesbei\u00e7ar com o rio. Como a banda do alferes vermelhava ao longe, e<br \/>\na espada a prumo no punho lhe dava uma caracteriza\u00e7\u00e3o jeitosa<br \/>\ne provocante para alvejar as espingardas, as balas sibilavam-lhe por perto,<br \/>\nchofrando nos p\u00e2ntanos. Alguns homens perseguiam-no chapinando no lameiral,<br \/>\nporque o chefe dos tabacos, o Lopes, dizia-lhes: Os mais veleiros levavam-no<br \/>\nesfalfado, cambaleando, atortemelado, quando o viram desaparecer de s\u00fabito<br \/>\nentre uma espessa moita de pl\u00e1tanos. Da\u00ed a instantes, abeirando-se<br \/>\n\u00e0 ourela do rio, viram a barretina e a niza de sarago\u00e7a sobre<br \/>\nuns c\u00f4moros ervecidos; e, a dist\u00e2ncia de dez varas, aquele b\u00eabedo<br \/>\nimortal atravessava o rio a nado, numa tarde de Dezembro, com a espada nos<br \/>\ndentes, e a banda a tiracolo.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 alma do Diabo! \u2013 dizia o Patarro de Monte C\u00f3rdova,<br \/>\ncevando a arma com zagalotes para lhe atirar. \u2013 Vou matar aquele pato<br \/>\nbravo!<\/p>\n<p>E o mais novo dos quatro, um imberbe que tinha pai:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o lhe atire, \u00f3 tio Patarro! \u00c9 um velho, coitado!<br \/>\nN\u00e3o lhe v\u00ea os cabelos brancos? Aquele homem n\u00e3o se deve<br \/>\nmatar. Ele vai morrer afogado antes de chegar \u00e0 outra banda. Ver\u00e1.<br \/>\nQue raio de amizade ele tem \u00e0 espada! Aquilo \u00e9 que \u00e9!<\/p>\n<p>A meio do rio, onde a veia de \u00e1gua resvalava mais impetuosa, deixou-se<br \/>\nderivar sem esfor\u00e7o de nata\u00e7\u00e3o. Mal bracejava. Depois,<br \/>\no Ave espraiava-se em murm\u00farios de lago dormente, muito barrento, e<br \/>\ndeixava-se apegar. O alferes, com a \u00e1gua pela cinta, desatascou-se<br \/>\ndos lama\u00e7ais de al\u00e9m; e, horas depois, repassando o Ave na Ponte<br \/>\nda Lagoncinha, e, vencidas duas l\u00e9guas de chafurdeiros e barrocas,<br \/>\nentrava na sua casa das Lamelas, bebia um grande trago de genebra, e, floreando<br \/>\na espada, bradava:<\/p>\n<p>Depois, sobreveio-lhe um reumatismo articular, e ficou tolhido.<\/p>\n<p>Sete anos passados, quando todas as aldeias do Minho conclamavam D. Miguel,<br \/>\nele ainda vivia, mas entrevado num carrinho, e chorava, em impotentes arquejos<br \/>\ndo corpo paral\u00edtico, porque n\u00e3o podia amolar a l\u00e2mina<br \/>\nda espada nos ossos dos malhados.<\/p>\n<p>Tinha-a diante dos olhos pendurada numa esc\u00e1pula com o boldri\u00e9<br \/>\ne a banda. As vezes, depois de beber, punha-se a olhar para ela com os olhos<br \/>\nenvidra\u00e7ados de l\u00e1grimas, e pedia que a metessem na sua sepultura,<br \/>\nque o enterrassem com ela. E enterraram. Espera-se que o esqueleto deste legitimista,<br \/>\ncom as falanges esburgadas e recurvas no punho azevrado da espada, ressuscite,<br \/>\nao ulular da trombeta, na ressurrei\u00e7\u00e3o geral das Legitimidades.<br \/>\nPonto \u00e9 que a R\u00fassia se mova \u2013 como dizia o frade de Barrimau.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Do Alto Minho continuavam as noticias alegremente agitadoras. O Crist\u00f3v\u00e3o<br \/>\nBezerra, ex-capit\u00e3o-mor de Santa Marta de Bouro, escreveu ao seu parente<br \/>\nde Barrimau. Dizia-lhe que constava que o Sr. D. Miguel estava no seu reino,<br \/>\ne \u2013 o que mais era \u2013 muito perto dali. Que n\u00e3o se podia<br \/>\nexplicar mais pelo claro sem ter a certeza de que seu primo entendia a cifra<br \/>\nde comunica\u00e7\u00e3o entre os membros da Ordem de S. Miguel da Ala,<br \/>\ninstitu\u00edda pelo Sr. D. Afonso Henriques e renovada ultimamente pelo<br \/>\nmonarca legitimo \u2013 explicava. O major Bezerra era comendador da ordem<br \/>\ne conhecia a cifra: \u2013 que escrevesse francamente. E, desconfiando do<br \/>\ncorreio, mandou a Santa Marta de Bouro o afilhado, o filho do alferes Gaspar,<br \/>\ncom uma carta muito importante. O pedreiro, a impar de soberba por tal mensagem,<br \/>\nposto que n\u00e3o participasse do segredo do padrinho, que era discreto,<br \/>\ndisse ao pai:<\/p>\n<p>\u2013 Ou eu me engano, ou o Sr. D. Miguel est\u00e1 por a\u00ed, n\u00e3o<br \/>\ntarda&#8230;<\/p>\n<p>O alferes sentiu uma descarga el\u00e9ctrica na coluna vertebral e convulsionou-se<br \/>\nextraordinariamente. Fazia lembrar fen\u00f3menos que se contam de movimento<br \/>\ngalv\u00e2nico nos paral\u00edticos, colhidos de improviso pelo terror<br \/>\nou pela exulta\u00e7\u00e3o; mas o Gaspar, como s\u00f3 tinha o es\u00f3fago<br \/>\ndesimpedido, bebeu, com a escorr\u00eancia absorvente de um olhomarinho,<br \/>\nmuita aguardente, e desatou a berrar o Rei-chegou.<\/p>\n<p>O filho, com a discri\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de um agente secreto<br \/>\nda restaura\u00e7\u00e3o realista, zangou-se com o berreiro c\u00edvico<br \/>\ndo pai e perguntou-lhe se estava b\u00eabedo. O velho entusiasta, ferido<br \/>\nno seu cora\u00e7\u00e3o de vassalo e de progenitor. teve um honrado intervalo<br \/>\nl\u00facido, quando lhe replicou:<\/p>\n<p>\u2013 Se eu n\u00e3o estivesse aqui tolhido, respondia-te, malandro!<\/p>\n<p>Deitou o albard\u00e3o \u00e0 \u00e9gua e partiu para terras de Bouro<br \/>\no Zeferino. Quando passava defronte da casa do Sime\u00e3o, em Prazins,<br \/>\nolhou de esguelha, por debaixo da aba do chap\u00e9u, para o lavrador que<br \/>\nestava apondo os bois ao carro, e regougou um arrastado pigarro de goelas<br \/>\nencatarroadas; e, dando de espora \u00e0 andadeira, deixou cair o pau ferrado<br \/>\nao longo da perna. , azia de si consigo, ladeando a besta em corcovos chibantes.<br \/>\nO Sime\u00e3o, quando o perdeu de vista, murmurou: \u2013 Valha-te o Diabo,<br \/>\nbanab\u00f3ia!<\/p>\n<p>O ex-capit\u00e3o-mor de Santa Marta respondeu \u00e0s perguntas do primo<br \/>\nde Barrimau; e, como o portador se recomendou na qualidade de afilhado do<br \/>\nfidalgo e filho de um alferes que comandara o ataque de 1838 sobre Santo urso,<br \/>\no Crist\u00f3v\u00e3o Bezerra tratou-o muito bem e pediu-lhe not\u00edcias<br \/>\ndesse ataque a Santo Tirso que ele n\u00e3o conhecia.<\/p>\n<p>O pedreiro contou a fa\u00e7anha do pai, a nadar, com a espada nos dentes;<br \/>\ne o fidalgo, quando soube que ele estava entrevado, disse pungidamente: Mal<br \/>\nempregado! \u2013 que um general romano fizera o mesmo e que o levasse \u00e0s<br \/>\nCaldas de Vizela \u00e0 bomba quente.<\/p>\n<p>Como estava conversando com o filho de tamanho realista, fez-lhe confid\u00eancias:<br \/>\n\u2013 que D. Miguel estava perto dali; mas n\u00e3o recebia ningu\u00e9m<br \/>\nporque os malhados j\u00e1 o espreitavam em Portugal. Que a aclama\u00e7\u00e3o<br \/>\nhavia de come\u00e7ar em terras de Bouro, e estender-se at\u00e9 Lisboa;<br \/>\ne que estivesse certo que el-rei nosso senhor lhe daria a patente do pai ou<br \/>\ntalvez mais. O pedreiro esfregava os joelhos com as m\u00e3os e bamboava-se<br \/>\nhilariante na cadeira como um idiota. Tirou da algibeira da v\u00e9stia<br \/>\numa saquita de missanga, onde tinha tr\u00eas pe\u00e7as e sete pintos.<br \/>\nP\u00f4s o dinheiro com estrondo diante do Bezerra \u2013 que o mandasse<br \/>\na el-rei para as suas despesas; que eu, acrescentou, h\u00e1 quatro anos<br \/>\nque lhe dou uma moeda de ouro por ano; ele h\u00e1-de saber pelo rol quem<br \/>\n\u00e9 o Zeferino das Lamelas, porque o padre Lu\u00eds de Sousa Couto,<br \/>\ndo Porto, disse-me que el-rei conhece de nome todos os que lhe mandam dinheiro.<br \/>\nO fidalgo recusou: \u2013 que n\u00e3o estava autorizado a receber donativos,<br \/>\nnem os julgava por enquanto necess\u00e1rios, porque em poder do Dr. C\u00e2ndido,<br \/>\nde Anelhe, estavam cinquenta contos, dados pela Senhora Infanta D. Isabel<br \/>\nMaria, para p\u00f4r a prociss\u00e3o na rua.<\/p>\n<p>A carta de que Zeferino foi o ditoso portador era mais expl\u00edcita.<br \/>\nContava que D. Miguel estava escondido na resid\u00eancia do abade de S\u00e3o<br \/>\nGens de Calvos, no concelho da P\u00f3voa de Lanhoso, o reverendo Marcos<br \/>\nAnt\u00f3nio de Faria Rebelo2. Que pouqu\u00edssimas pessoas o tinham<br \/>\nvisto, porque Sua Majestade s\u00f3 se mostraria aos seus amigos fi\u00e9is<br \/>\nquando entrassem pela Galiza os generais estrangeiros que se esperavam, uns<br \/>\ndo antigo ex\u00e9rcito carlista, outros de Inglaterra.<\/p>\n<p>Esta not\u00edcia dos generais estranhos beliscou a vaidade nacional do<br \/>\nmajor Zeferino Bezerra. Parecia-lhe imposs\u00edvel que o pr\u00edncipe<br \/>\nproscrito n\u00e3o confiasse na per\u00edcia e lealdade do Santa Marta,<br \/>\ndo Vitorino, do P\u00f3voas e Bernardino. Era uma ingratid\u00e3o, dizia<br \/>\nele ao mano frade, que acrescentou: \u2013 e uma bestialidade. El-rei deve<br \/>\nsaber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o MacDonnell, no fim da<br \/>\ncampanha. Sabes tu? \u2013 rematou o morgado \u2013 aqui anda marosca. O<br \/>\nque tratam \u00e9 de se abotoarem com os cinquenta contos da Infanta D.<br \/>\nIsabel Maria, e o primo Crist\u00f3v\u00e3o \u00e9 um asno chapado.<\/p>\n<p>\u2013 Escreve-se ao P\u00f3voas e ao Bernardino \u2013 aconselhou o<br \/>\negresso \u2013 que digam alguma coisa.<\/p>\n<p>Os militares realistas responderam que sem d\u00favida estava a levedar<br \/>\nalguma tentativa de restaura\u00e7\u00e3o; que o Ribeiro Saraiva trabalhava<br \/>\ndeveras; que o Sr. D. Miguel era esperado em Londres; mas que n\u00e3o estava<br \/>\nno reino, nem c\u00e1 viria sen\u00e3o para se sentar de vez no seu trono<br \/>\nusurpado.<\/p>\n<p>\u2013 Deixa-te de asneiras, Zeferino \u2013 dizia o fidalgo ao afilhado<br \/>\ncom as cartas na m\u00e3o \u2013, el-rei h\u00e1-de vir; mas n\u00e3o<br \/>\nveio. Meu primo foi codilhado pelo abade de Calvos, e eu vou-lhe escrever<br \/>\nque n\u00e3o seja palerma, nem caia com uma de X para o levantamento que<br \/>\n\u00e9 uma comedela.<\/p>\n<p>O pedreiro, n\u00e3o obstante, apostava dobrado contra singelo que D. Miguel<br \/>\nestava em Calvos, e puxava pela saquita de missanga com gestos de troquilha<br \/>\nde burros em feira:<\/p>\n<p>\u2013 Aposto! Aqui est\u00e1 dinheiro! O fidalgo de Quadros, o Sr. Tenente-Coronel<br \/>\nCerveira Lobo tamb\u00e9m diz que el-rei j\u00e1 por c\u00e1 anda.<\/p>\n<p>\u2013 O Cerveira Lobo! olha que borrach\u00e3o! \u2013 disse o frade.<\/p>\n<p>\u2013 Quem c\u00e1 est\u00e1 \u00e9 o rei dos b\u00eabedos no corpo<br \/>\ndele \u2013 acrescentou o morgado.<\/p>\n<p>\u2013 Mas diz que o Sr. D. Miguel I gostava muito dele \u2013 objectou<br \/>\no pedreiro. \u2013 Ouvilho eu.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o duvido&#8230; \u2013 explicou o frade \u2013 que o Sr. D.<br \/>\nMiguel gostava de grandes patifes&#8230;<\/p>\n<p>O primo Crist\u00f3v\u00e3o redarguiu, magoado na sua esperteza, que<br \/>\nera t\u00e3o certo estar elrei em Calvos como era certo ter-me beijado a<br \/>\nr\u00e9gia m\u00e3o em casa do abade, na noite sempre memor\u00e1vel<br \/>\nde 16 de Abril de 1845. Que s\u00f3 o tinha visto de relance em Braga em<br \/>\n32, mas que o conhecera pelo retrato; que at\u00e9 manquejava um pouco,<br \/>\ntal e qual,<\/p>\n<p>2Como seria de mau gosto inventar este epis\u00f3dio, imponho-me o dever<br \/>\nde afirmar que estas not\u00edcias me<\/p>\n<p>foram transmitidas por um ilustrado cavalheiro da P\u00f3voa de Lanhoso,<br \/>\no Sr. Jos\u00e9 Joaquim Ferreira de<\/p>\n<p>Meio e Andrade, da casa nobil\u00edssima das Argas, falecido, com mais<br \/>\nde oitenta anos de idade, em 1881.<\/p>\n<p>Conquanto a imprensa contempor\u00e2nea, que eu saiba, n\u00e3o falasse<br \/>\nno pseudo D. Miguel, as revela\u00e7\u00f5es do<\/p>\n<p>anci\u00e3o de Lenhoso merecem-me e s\u00e3o dignas de toda a confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, consultei o reverendo Casimiro Jos\u00e9 Vieira, t\u00e3o<br \/>\ncelebrado quando dirigia com m\u00e3o armada a<\/p>\n<p>revolu\u00e7\u00e3o do Minho, que se chamou Maria da Fonte. Hoje, com<br \/>\n66 anos de idade, vive na sua casa da<\/p>\n<p>Alegria, no concelho de Pelgueiras, ao sop\u00e9 do monte de Santa Quit\u00e9ria,<br \/>\npreparando as suas Mem\u00f3rias,<\/p>\n<p>que devem esclarecer as obscuridades originais da insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde duas prov\u00edncias. Este padre que, aos<\/p>\n<p>trinta anos, foi conclamado general pelo povo, e parlamentou face a face<br \/>\ncom o conde das Antas,<\/p>\n<p>respondeu assim \u00e0 minha consulta: Eu apenas posso dizer a voc\u00ea<br \/>\nque foi verdade ter estado o tal<\/p>\n<p>impostor oculto em casa do abade, porque ele mesmo me disse; mas nada lhe<br \/>\nperguntei a tal respeito,<\/p>\n<p>por me lembrar que ele teria vergonha de se deixar enganar, depois de lhe<br \/>\nter beijado a m\u00e3o muitas<\/p>\n<p>vezes, no tempo de estudante e seminarista, quando o Sr. D. Miguel esteve<br \/>\nem Braga, a ponto de se ter<\/p>\n<p>tornado saliente para o mesmo Sr. D. Miguel, como o mesmo abade me contou<br \/>\ntamb\u00e9m, mas por isso<\/p>\n<p>mesmo nada mais posso acrescentar&#8230; (Carta de 11 de Novembro de 1882).<\/p>\n<p>como se sabe, depois que Sua Majestade quebrou a perna em 28. Que el-rei<br \/>\nnomeara o abade de Calvos seu capel\u00e3o-mor, que dera a mitra de Coimbra<br \/>\nao abade de Priscos, e fizera chantre o padre Manuel das Agras, e a ele lhe<br \/>\nfizera a merc\u00ea de duas comendas e o t\u00edtulo de bar\u00e3o de<br \/>\nBouro, afora outras gra\u00e7as a diversos cl\u00e9rigos e leigos.<\/p>\n<p>\u2013 Que te parece isto? \u2013 perguntou o morgado ao frade.<\/p>\n<p>\u2013 Parece-me a not\u00f3ria estupidez do primo Bezerra e mais dos<br \/>\npadres; mas, se o homem que l\u00e1 est\u00e1 \u00e9 o D. Miguel, ent\u00e3o<br \/>\no est\u00fapido \u00e9 ele, e que me perdoe Sua Majestade fidel\u00edssima&#8230;<\/p>\n<p>Escreveu-se novamente ao P\u00f3voas, ao Tavares de Fagilde e ao Pontes,<br \/>\num colaborador da Na\u00e7\u00e3o. Responderam -lhe que n\u00e3o havia<br \/>\ntal D. Miguel em Calvos; mas que deixasse correr o marfim, porque era necess\u00e1rio<br \/>\numa agita\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria, um simulacro, uma apalpadela&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Quer dizer \u2013 reflexionou o frade \u2013 que o tal impostor<br \/>\n\u00e9 um Baptista, o precursor do verdadeiro Messias. Pois deixemos correr<br \/>\no marfim, e mais o simulacro&#8230; que palpem \u2013 e, pondo as duas m\u00e3os<br \/>\nengalfinhadas sobre o umbigo proeminente, fazia girar um dedo polegar \u00e0<br \/>\nvolta do outro. Que o que fosse soaria, e n\u00e3o ca\u00edsse o mano<br \/>\nZeferino na estult\u00edcia de se comprometer sem que os generais portugueses<br \/>\nsa\u00edssem \u00e0 rua.<\/p>\n<p>Na correnteza destas coisas, o Zeferino das Lamelas n\u00e3o trabalhava<br \/>\nde pedreiro; abandonou as obras de alvenaria aos oficiais, e andava numa dobadoira<br \/>\nde casa do padrinho para casa do tenente-coronel realista, o Vasco Cerveira<br \/>\nLeite, morgado de Quadros, um homem nascido ilustremente, que, desde \u00c9vora<br \/>\nMonte, n\u00e3o cortara as barbas nem sa\u00edra das ru\u00ednas da<br \/>\ncasa-solar em Vermoim.<\/p>\n<p>Como a sua paix\u00e3o era inconsol\u00e1vel com o destino, deu-se \u00e0<br \/>\ndistrac\u00e7\u00e3o do \u00e1lcool; e, porque tinha a consci\u00eancia<br \/>\nda sua mis\u00e9ria de b\u00eabedo, fechava-se no seu quarto, onde \u00e0s<br \/>\nvezes ca\u00eda amodorrado sobre o v\u00f3mito. Imbecilizara-se. Cerveira<br \/>\ntinha sofrido um ataque cerebral, quando o brigadeiro Jos\u00e9 Urbano de<br \/>\nCarvalho infamemente se passara com alguns esquadr\u00f5es de cavalaria<br \/>\npara o centro da divis\u00e3o do duque da Terceira, na Chamusca. Ele vira<br \/>\no seu coronel Ant\u00f3nio Cardoso de Albuquerque dar vivas \u00e0 carta<br \/>\nconstitucional e a D. Maria II. Achou-se arrastado, ilaqueado e prisioneiro,<br \/>\nquando procurava abrir com a espada uma sepultura honrosa. Ali se extinguira<br \/>\ncoberto de opr\u00f3brio, naquela hora, o bravo e leal regimento de Chaves,<br \/>\nque nunca dera um desertor para as fileiras do inimigo. O tenente-coronel,<br \/>\ndesde esse dia, foi um desgra\u00e7ado incompreendido que se embriagava<br \/>\npara esquecer o reviramento s\u00fabito da sua carreira. Depois, a corrente<br \/>\ntravada das mis\u00e9rias. Tinha filhos que se emborrachavam como ele, e<br \/>\nfilhas que se namoravam dos engenheiros das estradas, e andavam pelas romarias<br \/>\nde roupinhas escarlates, com botinas de ponteira de verniz e chap\u00e9us<br \/>\ndesabados de seda preta com borlas e plumas. Sua m\u00e3e tinha sido a\u00e7afata<br \/>\nda apost\u00f3lica D. Carlota Joaquina, fizera-se mulher do Ramalh\u00e3o,<br \/>\ne gabava-se de ter sido amada do conde de Vila Flor. Quando entrou no vasto<br \/>\ne velho casar\u00e3o de Quadros, teve histerismos formid\u00e1veis e acordava<br \/>\nos ecos das montanhas com gritos que punham terrores sobrenaturais na vizinhan\u00e7a.<br \/>\nO Cerveira Leite poderia viver abundantemente na corte, porque os seus rendimentos<br \/>\ne foros eram muito importantes: \u00e9 o que D. Honorata lhe pedia com l\u00e1grimas;<br \/>\nmas ele, col\u00e9rico: \u2013 que n\u00e3o podia encarar os malhados,<br \/>\ne n\u00e3o sairia mais de casa sem as suas divisas de tenente-coronel de<br \/>\ndrag\u00f5es. E, apontando-lhe para os cinco filhos:<\/p>\n<p>\u2013 S\u00ea boa m\u00e3e, trata dessas crian\u00e7as que andam a\u00ed<br \/>\nporcas que fazem nojo! \u2013 Tinha estas equidades em jejum.<\/p>\n<p>E ela:<\/p>\n<p>\u2013 Mais nojo me fazem as borracheiras de voc\u00ea!<\/p>\n<p>E o fidalgo ent\u00e3o disciplinava-a militarmente. Quando lhe n\u00e3o<br \/>\ndava alguns pontap\u00e9s, desfechava-lhe um tiroteio de palavradas de tarimba,<br \/>\ne perguntava-lhe se tinha saudades dos bord\u00e9is do Ramalh\u00e3o,<br \/>\naqueles pagodes reais. Desta procacidade esqu\u00e1lida, derivou a um mutismo<br \/>\nest\u00fapido. N\u00e3o lhe respondia. Fechava-se no seu quarto, cont\u00edguo<br \/>\n\u00e0 garrafeira.<\/p>\n<p>D. Honorata Gui\u00e3o teria vinte e oito anos, quando saiu de Lisboa para<br \/>\no Minho em 34. Era formosa das finas gra\u00e7as aristocr\u00e1ticas.<br \/>\nUrna eleg\u00e2ncia nervosa, inquieta, mordiscada de desejos como uma flor<br \/>\nbranca muito picada das abelhas. Aceitara o major Cerveira, porque era rico<br \/>\ne estadeava na corte as suas libr\u00e9s. Tinha trinta anos, e dizia-se<br \/>\nque aos quarenta seria general, porque D. Miguel gostava muito dele. Rosnavase<br \/>\nque o Cerveira tinha sido um dos assassinos do marqu\u00eas de Loul\u00e9.<\/p>\n<p>Este rapaz de corte e da intimidade do rei e das infantas, disputado pelas<br \/>\ndamas da rainha, era aquele \u00e9brio encanecido que, debru\u00e7ado<br \/>\nna janela do seu quarto, fortemente fincado no peitoril de ferro da sacada,<br \/>\nrevessava ao caminho p\u00fablico golfos aziumados de vinha\u00e7a, e<br \/>\ndizia garotices de lacaio \u00e0s raparigas que passavam medrosas e o saudavam:<br \/>\n\u2013 Guarde Deus V. S\u00aa senhor fidalgo! \u2013 Tenha V. S\u00aa muito<br \/>\nboas tardes, senhor morgado! \u2013 E ele, almofa\u00e7ando as barbas conspurcadas<br \/>\nde v\u00f3mito: \u2013 Li brejeira, deixa l\u00e1 ver o patriotismo;<br \/>\nque tal \u00e9 a anca? N\u00e3o respondes, catraia? Olha como aquela rebola<br \/>\nos quadris, o grande coldre! \u2013 As cachopas n\u00e3o respondiam; safavam-se<br \/>\ncom um grande medo, porque eram suas caseiras; mas comentavam: \u2013 Que<br \/>\nlevasse o Diabo o piteireiro do fidalgo! \u2013 que a fidalga fizera bem<br \/>\nem se pisgar com o doutor dos Pombais. \u2013 Quer n\u00e3o \u2013 contrariava<br \/>\numa lavradeira idosa \u2013 foi m\u00e1 mulher que deixou assim os filhos,<br \/>\ncinco crian\u00e7as! uma desgra\u00e7a! Nem as cadelas faziam isso. Os<br \/>\nmais velhos j\u00e1 se emborracham, e as meninas est\u00e3o quase mulheres<br \/>\ne ainda n\u00e3o foram ao confesso nem sabem a doutrina. Que uma delas,<br \/>\na Teresinha, j\u00e1 se enfeitava para o estudante das Quint\u00e3s que<br \/>\nandava por l\u00e1 feito ca\u00e7ador, e que o morgadinho, o Sr. Heitor,<br \/>\nnamorava a filha do Jos\u00e9 Alho, e at\u00e9 se dizia que lhe falara<br \/>\nem casamento. Vede v\u00f3s que desgra\u00e7a, \u00f3 mo\u00e7as!<br \/>\nUm menino t\u00e3o rico e t\u00e3o fidalgo, vi-o aqui h\u00e1 tempos<br \/>\nna taverna de Vilaverde que se n\u00e3o lambia, a pagar vinho ao Alho e<br \/>\nmais \u00e0 cr\u00f3ia da filha, e a comerem todos iscas de bacalhau com<br \/>\nas m\u00e3os! Ao que eu vi chegar um senhor dos fidalgos de Quadros! Quando<br \/>\neu era rapariguita, aqueles senhores nunca sa\u00edam sem os seus mochilas<br \/>\nfardados e tinham liteiras com as armas reais pintadas. Faziam mesmo um respeito!<br \/>\nO Sr. Rodrigo, pai<\/p>\n<p>deste morgado velho, era disto dos governos l\u00e1 de Lisboa, e quando<br \/>\nvinha ver as suas quintas, \u00f3 senhores, ca\u00eda ai o poder do mundo<br \/>\nde Braga e Guimar\u00e3es a visit\u00e1-lo! E as fidalgas? isso ent\u00e3o<br \/>\na gente, quando as via, corria logo a beijar-lhes a m\u00e3o, e elas no<br \/>\ndia de P\u00e1scoa mandavam \u00e0s cachopas len\u00e7os para a cabe\u00e7a<br \/>\ne regueifas de p\u00e3o podre. Aquela casa estava sempre cheia de frades<br \/>\nde ordens ricas&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Isso, isso.., eu logo vi que essas fidalgas haviam de estar cheias<br \/>\nde frades de ordens ricas \u2013 dizia o Jos\u00e9 Dias de Vilalva. \u2013<br \/>\nMuito cheias de frades aquelas fidalgas, hem?<\/p>\n<p>\u2013 A\u00ed vens tu com as tuas alicantinas \u2013 retrucava, progn\u00f3stica<br \/>\ne solene, a tia Rosa de Carude. \u2013 \u00c9 o que tu estudas, meu valdevinos.<br \/>\nAgora \u00e9 melhor que ent\u00e3o, pois n\u00e3o foste? As fidalgas<br \/>\nde hoje em dia presentemente fogem com os doutores e deixam os filhos&#8230; Isto<br \/>\nagora \u00e9 que \u00e9 bom \u00e0s direitas, pois n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nNo tempo antigo, valha-me Deus, as fidalgas eram umas desavergonhadas que<br \/>\nconheciam frades e criavam os seus filhos.<\/p>\n<p>\u2013 Os filhos dos frades? \u2013 perguntava o Dias.<\/p>\n<p>\u2013 Cala-te a\u00ed, boca danada! Olha que padre havia de sair de ti!<br \/>\nAinda bem que a Marta de Prazins te fez mudar de rumo.<\/p>\n<p>A fuga da Honorata Gui\u00e3o com o Silveira dos Pombais n\u00e3o amotinara<br \/>\na opini\u00e3o p\u00fablica escandalizada. A excep\u00e7\u00e3o da<br \/>\naustera Rosa de Carude. toda a gente deu raz\u00e3o \u00e0 fidalga. O<br \/>\nCerveira tinha amigas da ral\u00e9, que metia em casa \u2013 uma divers\u00e3o<br \/>\n\u00e0 embriaguez, quando n\u00e3o exercia as duas distrac\u00e7\u00f5es<br \/>\nnuma promiscuidade desaforada. D. Honorata visitava-se unicamente com a D.<br \/>\nAndresa da Silveira, da casa dos Pombais, irm\u00e3 de um bacharel delegado<br \/>\nem Amarante. Chorava muito com ela e pedia-lhe que perguntasse ao mano doutor<br \/>\nse poderia separar-se por justi\u00e7a, antes de se atirar a uma cisterna.<br \/>\nD. Andresa pediu ao irm\u00e3o que viesse ouvir as tristes alega\u00e7\u00f5es<br \/>\nda sua desgra\u00e7ada amiga.<\/p>\n<p>Estava Honorata nos trinta e tr\u00eas anos, quando Silveira a encontrou<br \/>\nnos Pombais. O delegado era um rom\u00e2ntico. Emigrara em 28, sendo estudante,<br \/>\nquando alguns membros da sociedade dos Divodignos padeceram o supl\u00edcio<br \/>\nda forca pelo homic\u00eddio dos lentes. Completara a formatura em 38 e<br \/>\nfora despachado. Muito lido em Schiller e Arlincourt. Fazia solaus em que<br \/>\nhavia abencerragens e infantas crist\u00e3s apaixonadas que tocavam arrabis,<br \/>\nbanhadas de lua nos revelins dos castelos roqueiros. Tamb\u00e9m fazia prosa<br \/>\nna Gazeta Liter\u00e1ria do Porto \u2013 cenas dram\u00e1ticas em que<br \/>\nse jurava pela gorja e havia homens de prol que arrastavam mantos negros,<br \/>\ncravavam l\u00e2minas de Toledo \u00e0s portas de D. Fuas, e, cruzando<br \/>\nos bra\u00e7os, rugiam cavernosamente: E depois, os arrepios de uma casquinada<br \/>\nseca, de um estridente grasnido de gaivotas que se espica\u00e7am por sobre<br \/>\no mar banzeiro.<\/p>\n<p>A Honorata, esposa deplorativa, dama da rainha, esbeltamente magra, de uma<br \/>\neleg\u00e2ncia de ra\u00e7a afinada nos sal\u00f5es da Bemposta, palidez<br \/>\neb\u00farnea, esmaecida, airs \u00e9vapor\u00e9s, um sorriso nobre de<br \/>\nironia rebelde \u00e0 desgra\u00e7a, com a dupla poesia do mart\u00edrio<br \/>\ne da beleza, ultrapassou a encarna\u00e7\u00e3o viva dos ideais do bacharel.<br \/>\nEla tinha pejo de lhe contar os seus infort\u00fanios, a vida crapulosa<br \/>\ndo marido, a libertinagem de portas adentro com as jornaleiras, e o abandono<br \/>\nda educa\u00e7\u00e3o dos filhos. Andresa \u00e9 que contava tudo ao<br \/>\nmano Adolfo na presen\u00e7a da m\u00e1rtir. Que o Cerveira se embriagava<br \/>\ntodas as tardes e tinha am\u00e1sias da \u00faltima gentalha que punham<br \/>\ne dispunham em casa. Que os meninos eram criados brutamente; que o mais velho,<br \/>\no Heitor, nem ler sabia; porque o pai tamb\u00e9m fazia mal o seu nome.<br \/>\nQue tiveram um padre de dentro para os ensinar, mas que o padre, em vez de<br \/>\nlhes dar li\u00e7\u00e3o, trabalhava de carpinteiro em remendar os sobrados,<br \/>\ne quando era a hora do estudo largava a enx\u00f3 e vinha em mangas de camisa,<br \/>\nsem gravata e de socos para a sala. Que os meninos n\u00e3o lhe tinham respeito<br \/>\nnenhum, por isso o Heitor, quando ele o amea\u00e7ou com a palmat\u00f3ria,<br \/>\nrespondeu que lhe dava uma navalhada. O pai achou-lhe gra\u00e7a, e o padre<br \/>\nfoi-se embora. Depois, entrou um velho que dava escola em Guimar\u00e3es,<br \/>\ne os quisera ensinar com muita paci\u00eancia; mas o Heitor e mais o Egas<br \/>\ntais arrelias lhe faziam que o pobre homem fugiu. Que D. Honorata sofria aquele<br \/>\nflagelo desde a queda da realeza, como se fosse a culpada da vit\u00f3ria<br \/>\nde D. Pedro. Era da fam\u00edlia dos Gui\u00f5es, muito \u00edntimos<br \/>\ndo Sr. D. Miguel e do conde de Basto; mas todos os seus parentes foram perseguidos,<br \/>\nroubados, de modo que ela, ainda que quisesse fugir ao marido, n\u00e3o<br \/>\ntinha em Lisboa fam\u00edlia que a pudesse sustentar; \u2013 que, se n\u00e3o<br \/>\nfosse isso, j\u00e1 teria acabado o seu supl\u00edcio, e que muitas vezes<br \/>\npensara em se matar, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Os filhinhos&#8230; \u2013 atalhou Adolfo sentimentalmente.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, senhor \u2013 acudiu a dama de Carlota Joaquina \u2013,<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o os filhos. O cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e s\u00f3<br \/>\nse enche do amor aos filhos quando se evapora o amor aos pais. Eu nunca amei<br \/>\neste homem. Impuseram-me o casamento, aproveitaram-se do despeito que eu sentia<br \/>\npelas ingratid\u00f5es de um conde que eu amava, e casaram-me \u00e0 pressa.<br \/>\nO car\u00e1cter deste homem n\u00e3o piorou com a desgra\u00e7a da pol\u00edtica;<br \/>\nele \u00e9 o que sempre foi, com a diferen\u00e7a de que na corte embriagava-se<br \/>\ncom os fidalgos, no Alfeite e em Queluz, e por l\u00e1 dormia. As mulheres<br \/>\nque corrompia ou o corrompiam n\u00e3o eram minhas criadas nem minhas conhecidas;<br \/>\ne, se o eram, eu apenas tinha a convic\u00e7\u00e3o de que ele era um<br \/>\ndevasso. Tenho cinco filhos deste homem; mas basta que eu lhe diga, Sr. Dr.<br \/>\nAdolfo, que s\u00e3o dele, s\u00e3o os produtos amaldi\u00e7oados de<br \/>\numa obriga\u00e7\u00e3o est\u00fapida \u2013 a aviltadora obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ser m\u00e3e quando se \u00e9 esposa.<\/p>\n<p>Tinha dito. O bacharel nunca ouvira coisa assim, nem se lembrava de ter achado<br \/>\nnos romances uma raz\u00e3o t\u00e3o filos\u00f3fica e concludente da<br \/>\njusti\u00e7a com que a m\u00e3e pode aborrecer os filhos.<\/p>\n<p>\u2013 Sentia vontade de me ajoelhar diante dela! \u2013 dizia Adolfo \u00e0<br \/>\nirm\u00e3. \u2013 Que formosura e que talento, Andresa! O mana, eu viajei<br \/>\ncinco anos, vi as mulheres mais encantadoras da Europa, estive no Pardo, no<br \/>\nBois de Boulogne, no Hyde-Park, e nunca vi mulher que tanto me penetrasse<br \/>\nos \u00edntimos seios de alma! Nunca, por estranha fatalidade, nunca! Como<br \/>\n\u00e9 que eu sinto aos vinte e oito anos as palpita\u00e7\u00f5es de<br \/>\num cora\u00e7\u00e3o que nasce? Que fa\u00edsca de amor \u00e9 esta<br \/>\nque me lavra um inc\u00eandio devastador das alegrias de alma que ainda ontem<br \/>\nme doiravam a exist\u00eancia?<\/p>\n<p>Era o estilo hidr\u00f3pico de Arlincourt; mas \u00e9 de crer que exprimisse<br \/>\ngarrafalmente a singela e natural como\u00e7\u00e3o que lhe fez a gentileza,<br \/>\na poesia eleg\u00edaca, a majestade inflexa daquela mulher a quem a desgra\u00e7a<br \/>\ndera uma cr\u00edtica moderna e revolucion\u00e1ria na religi\u00e3o<br \/>\ndas m\u00e3es.<\/p>\n<p>D. Andresa, escandalizada, cortava-lhe os voadoiros perguntando-lhe se a<br \/>\nsepara\u00e7\u00e3o judicial poderia dar meios de subsist\u00eancia a<br \/>\nHonorata. O bacharel, muito abstracto, parecia esquecido do c\u00f3digo.<br \/>\nO estado da sua alma n\u00e3o lhe consentia folhear a infame prosa com m\u00e3o<br \/>\njurisperita.<\/p>\n<p>Que havia de estudar a quest\u00e3o; mas que lhe parecia que ela, requerendo<br \/>\no div\u00f3rcio, apenas tinha alimentos por n\u00e3o ter trazido nada<br \/>\nao casal. \u2013 Estas frases eram mastigadas com um t\u00e9dio, um engulho,<br \/>\ncomo se, depois de declamar uma Contempla\u00e7\u00e3o de Lamartine, tivesse<br \/>\nde recitar dois par\u00e1grafos da lei da enfiteuse.<\/p>\n<p>D. Andresa era senhora ajuizada, muito s\u00e9ria, educada no convento<br \/>\nde Vair\u00e3o; tinha missa em casa, e escrevia cartas a diversas freiras,<br \/>\npondo sempre no alto do papel: Jesus, Maria, Jos\u00e9. Andava nos trinta<br \/>\ne cinco anos, muito linf\u00e1tica e um grande horror aos v\u00edcios<br \/>\nda carne. O mano Adolfo conhecia-lhe a \u00edndole. N\u00e3o podia esperar<br \/>\ndela aplauso, nem sequer condescend\u00eancia, e muito menos aux\u00edlio<br \/>\n\u00e0 sua afei\u00e7\u00e3o a mulher casada. Andresa concordava com<br \/>\no irm\u00e3o na formosura de Honorata; mas observava com um risinho malicioso<br \/>\nque o n\u00e3o chamara para saber se a sua amiga era bonita ou feia; mas<br \/>\nsim para aconselh\u00e1-la e dirigi-la na separa\u00e7\u00e3o do marido<br \/>\npor justi\u00e7a.<\/p>\n<p>O Dr. Adolfo absteve-se de entusiasmos, e p\u00f4s-se a estudar a quest\u00e3o,<br \/>\nem confer\u00eancias com o Bento Cardoso, de Guimar\u00e3es, e o Torres<br \/>\ne Almeida, o Rasqueja de Braga, dois chav\u00f5es. Mas o que ele queria<br \/>\nera corar as delongas nos pombais, ganhar tempo, a salvo das suspeitas da<br \/>\nmana e do seu capel\u00e3o, um realista fin\u00f3rio que sabia da poda,<br \/>\ne trazia a pedra no sapato, dizia, cacarejando uma risada velhaca \u2013<br \/>\ne conhecia at\u00e9 onde podia chegar a fragilidade de um homem sem s\u00f3lidos<br \/>\nprinc\u00edpios de religi\u00e3o, estragado por essas na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>D. Andresa andava assustada, porque o mano nem ia para Amarante nem dava<br \/>\ncome\u00e7o ao processo. A Honorata aparecia-lhe radiosa, com um grande<br \/>\nesmero no trajar, vestidos fora da moda, mas elegantes, ricos, de mangas perdidas,<br \/>\ncom uns decotes que punham nos olhos do capel\u00e3o luzernas esquisitas,<br \/>\nescr\u00fapulos. Adolfo era discreto na presen\u00e7a da mana. Contava<br \/>\nas suas viagens, durante a emigra\u00e7\u00e3o, citava nomes de literatos<br \/>\ndesconhecidos \u00e0 fidalga, seus amigos \u00edntimos em Paris; ai! Paris!<br \/>\n\u2013 exclamava. \u2013 Se eu ent\u00e3o me passaria pela mente que havia<br \/>\nde vir de Paris para Amarante!<\/p>\n<p>\u2013 Ele porta-se muito s\u00e9rio \u2013 dizia D. Andresa ao padre<br \/>\nRocha. \u2013 Ela \u00e9 que me parece mais levantada, muito azevieira,<br \/>\nn\u00e3o acha?<\/p>\n<p>\u2013 Acho, acho&#8230; \u2013 confirmava o capel\u00e3o. \u2013 Daqui<br \/>\nrebenta coisa, minha senhora; rebenta, V. Ex\u00aa ver\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>E, com efeito, estava a rebentar, na frase explosiva do padre Rocha. O delegado<br \/>\ntinha correspond\u00eancia di\u00e1ria com Honorata, mediante uma caseira<br \/>\nde sua mana, irm\u00e3 de uma criada do Cerveira Lobo. Cartas incendi\u00e1rias<br \/>\nescritas durante a noite trocavam-se de manh\u00e3, quando o Adolfo sa\u00eda<br \/>\na respirar os b\u00e1lsamos das ribanceiras orvalhadas. \u00c0s vezes,<br \/>\nsubia a encosta at\u00e9 \u00e0 crista do monte do castelo de Vermoim.<br \/>\nDaqui, avistava-se por sobre as selvas verdes de carvalheiras e pinhais a<br \/>\nvasta casaria pardacenta de Quadros, com dois torre\u00f5es denticulados.<br \/>\nNo andaime de um dos torre\u00f5es via-se um vulto branco, com o bra\u00e7o<br \/>\namparado numa das ameias, e a cabe\u00e7a encostada \u00e0 m\u00e3o<br \/>\ncomo nas baladas de Baour Lormian. Era Honorata, com o bin\u00f3culo assestado<br \/>\nna fraga onde estava Adolfo, alaranjado pela primeira resplandec\u00eancia<br \/>\ndo Sol nascente.<\/p>\n<p>Ao cabo de duas semanas, sa\u00edram dos dom\u00ednios da balada. Uma<br \/>\nnoite, partiram de Guimar\u00e3es, caminho do Porto, dois cavalos do Gaitas,<br \/>\ne pararam na Ponte de Brito. Um dos cavalos era arreado com selim de senhora.<br \/>\nPor volta da meia-noite, Adolfo e Honorata, num passo mi\u00fado, com uma<br \/>\nansiedade, misto de exulta\u00e7\u00e3o e de susto, chegaram \u00e0<br \/>\nPonte de Brito. Ele ajudou-a a sentar-se na sela; cavalgou, disse aos dois<br \/>\narneiros o seu destino, e partiram a trote largo.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Seis anos depois, em 1845, quando o Zeferino das Lamelas andava em roda-viva<br \/>\nde Barrimau para Quadros, o Cerveira n\u00e3o tinha alterado sensivelmente<br \/>\nos seus h\u00e1bitos. Estava muito gordo, sa\u00fade de ferro \u2013<br \/>\num desmentido triunfante aos folicul\u00e1rios que desacreditam as virtudes<br \/>\nhigi\u00e9nicas, nutrientes do \u00e1lcool. Os vomit\u00f3rios quotidianos<br \/>\nexplicavam a depurada e sadia carnadura do tenente-coronel. Or\u00e7ava<br \/>\npelos cinquenta anos, com um arrogante aspecto marcial, de intonsas barbas<br \/>\ngrisalhas \u2013 olhos rutilantes afogueados pela calcina\u00e7\u00e3o<br \/>\ncerebral. As filhas n\u00e3o mostravam vest\u00edgios alguns de educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsenhoril. Aquela Teresinha, que a Rosa de Carude denunciara, fugira para casar<br \/>\ncom o minorista das Quint\u00e3s. As outras duas, muito bo\u00e7ais e<br \/>\nalavradeiradas. tinham amantes \u2013 uns engenheiros e empreiteiros do conde<br \/>\nde Clarange Lucotte, que andava fazendo as estradas entre Braga, Porto e Guimar\u00e3es.<br \/>\nNingu\u00e9m decente as queria para casar porque, al\u00e9m do descr\u00e9dito,<br \/>\no pai n\u00e3o dava dote; e, desde que a m\u00e3e fugira, convenceu-se<br \/>\nde que n\u00e3o eram suas filhas. Heitor e Egas, dois galhardos mo\u00e7os,<br \/>\nde jaqueta de alamares de prata, faixa vermelha, e sapatos de prateleira com<br \/>\nilhoses amarelos, tinham \u00e9guas travadas que entravam pelas feiras num<br \/>\narranque de r\u00f3pia e pimponice, que ia tudo raso. De resto, valentes<br \/>\ne b\u00eabedos, possantes garanh\u00f5es de femea\u00e7o reles, e muito<br \/>\nesquivos a tratarem com senhoras \u2013 canhestros e bestiais. Roubavam o<br \/>\nmilho e o vinho; vendiam, nas matas distantes, ao desbarato, cortes de madeira<br \/>\ne ro\u00e7as de mato; al\u00e9m disso tinham umas pequenas mesadas que<br \/>\no pai lhes dava. Ainda assim, a casa de Quadros n\u00e3o estava empenhada,<br \/>\nprosperava, e era das primeiras do concelho. O luxo do fidalgo era a garrafeira.<br \/>\nMais nada. As filhas de Honorata, quando, entre si, falavam da m\u00e3e,<\/p>\n<p>chamavam-lhe ; os rapazes, com um desapego desleixado que poderia fingir<br \/>\ndignidade, nem se lembravam que tinham m\u00e3e. Quanto ao pai, esse, antes<br \/>\nde jantar, era taciturno, casmurro, como quem se esfor\u00e7a por sacudir<br \/>\num pesadelo; e, de tarde, sumia-se para recome\u00e7ar as suas vis\u00f5es<br \/>\nluminosas interceptadas pelas trevas moment\u00e2neas da raz\u00e3o. N\u00e3o<br \/>\nse sabe o que ele pensava da mulher.<\/p>\n<p>Admitia pouca gente em sua casa e pouqu\u00edssima \u00e0 sua presen\u00e7a.<br \/>\nAl\u00e9m dos caseiros que lhe pagavam as grossas rendas de Vila do Conde,<br \/>\nde Esmoriz e S\u00e3o Cosme do Vale, apenas recebia o pedreiro das lamelas,<br \/>\nque lhe fizera os canastros e reconstru\u00edra algumas paredes desabadas.<br \/>\nConhecia-lhe o pai, o alferes, desde a b atalha de Ponte Ferreira. Mandava-lhe<br \/>\nbotijas de genebra e ma\u00e7os de cigarros; \u2013 que bebesse, que se<br \/>\nembebedasse, que os tempos n\u00e3o iam para outra coisa. E o alferes com<br \/>\nvaidade de fino:<\/p>\n<p>\u2013 A quem ele o vem dizer!<\/p>\n<p>Ultimamente, falavam muito da chegada do Sr. D. Miguel \u2013 , dizia o<br \/>\nCerveira, pondo as m\u00e3os no peito e os olhos no tecto.<\/p>\n<p>\u2013 Venha ele, e ver-me-\u00e1s, Zeferino, \u00e0 frente dos meus<br \/>\ndrag\u00f5es de Chaves! \u2013 Relampagueavam-lhe ent\u00e3o as pupilas<br \/>\ne fazia largos gestos marciais, com o bra\u00e7o tr\u00e9mulo como se<br \/>\nbrandisse a espada, rompendo um quadrado; montado na fantasia, arqueava as<br \/>\npernas, desca\u00eda o tronco sobre um imagin\u00e1rio cavalo empinado<br \/>\ne bufava com trejeitos ferozes. Era de um rid\u00edculo lacrim\u00e1vel.<br \/>\nO Zeferino dizia ao pai que \u00e0s vezes lhe tinha medo quando ele fazia<br \/>\naquelas partes.<\/p>\n<p>\u2013 O vinho do Porto \u00e9 o Diabo! \u2013 dizia o alferes com uma<br \/>\ngrande experi\u00eancia dessas fa\u00e7anhas incruentas \u2013\u00e9<br \/>\no Diabo!<\/p>\n<p>O Zeferino, na volta de Santa Marta de Bouro, contou-lhe o que soubera em<br \/>\ncasa do capit\u00e3o-mor. O tenente-coronel quis imediatamente partir para<br \/>\nLanhoso; mas n\u00e3o tinha roupa decente para se apresentar a el-rei. As<br \/>\nfardas estavam tra\u00e7adas, podres, com um bafio de rodilhas no fundo<br \/>\nde uma arca; dos gal\u00f5es restava um tecido esbranqui\u00e7ado com<br \/>\nlaivos verdoengos; o casco das dragonas esfarinhou-se-lhe nas m\u00e3os<br \/>\nro\u00eddo pelos ratos. N\u00e3o tinha casaca. Desde a conven\u00e7\u00e3o<br \/>\nde \u00c9vora Monte, mandava fazer a Guimar\u00e3es uns ferragoulos de<br \/>\nmescla \u00e0 laia de capote de soldado para o Inverno; de Ver\u00e3o,<br \/>\npara equilibrar o calor artificial interno com o da atmosfera, andava em ceroulas<br \/>\ne fazia leque da fralda. Por dec\u00eancia, fechava-se nos seus aposentos.<br \/>\nMandou chamar um alfaiate a Braga, o Cambraia da Rua do Souto, para se vestir<br \/>\n\u00e0 militar e \u00e0 paisana.<\/p>\n<p>Entretanto o Zeferino, um pouco desanimado, contou-lhe que o seu padrinho<br \/>\nde Barrimau e mais o frade n\u00e3o acreditavam que el-rei estivesse em<br \/>\nCalvos; que era uma comedela do Dr. C\u00e2ndido de Anelhe e dos padres para<br \/>\napanharem cinquenta contos \u00e0 D. Isabel Maria; que os generais do Sr.<br \/>\nD. Miguel n\u00e3o sabiam de nada.<\/p>\n<p>O Cerveira Lobo esfriou.<\/p>\n<p>\u2013 Tamb\u00e9m me parece \u2013 dizia \u2013 que se o meu velho<br \/>\namigo D. Miguel a\u00ed estivesse, j\u00e1 me tinha mandado chamar.<\/p>\n<p>Mas, depois que o Bezerra de Bouro asseverou que beijara a m\u00e3o de<br \/>\nel-rei, o pedreiro e o tenente-coronel j\u00e1 n\u00e3o podiam duvidar.<br \/>\nCombinou o fidalgo com Zeferino que partisse ele para Lanhoso, e dissesse<br \/>\nao capit\u00e3o-mor que o levasse a Calvos, e o abade que participasse a<br \/>\nel-rei que estava ali um pr\u00f3prio com uma carta de Vasco da Cerveira<br \/>\nLobo, tenente-coronel de drag\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2013 Assim que el-rei ouvir o meu nome, entras logo, imediatamente, num<br \/>\npronto. Depois, p\u00f5e-te de joelhos. e entrega-lhe a carta, percebeste?<br \/>\nTu vais e trazes-me resposta. Por estes oito dias, o mais tardar, tenho c\u00e1<br \/>\no fardamento. No caso de Sua Majestade me mande ir, vou; se n\u00e3o, trato<br \/>\nde chamar \u00e0s armas cinco ou seis mil homens com que posso contar.<\/p>\n<p>Zeferino, para evitar quest\u00f5es atrasadoras, n\u00e3o disse nada<br \/>\nao padrinho nem ao pai, receando as expans\u00f5es usuais da carraspana.<\/p>\n<p>O Cerveira dizia ao padre Rocha, capel\u00e3o de D. Andresa:<\/p>\n<p>\u2013 Ideias n\u00e3o me faltam; mas esqueci aquilo que se chama&#8230; sim,<br \/>\naquilo com que se escreve, quero dizer&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Ortografia?<\/p>\n<p>\u2013 E como diz, :padre Rocha, ortografia.<\/p>\n<p>Era o ex\u00f3rdio para lhe dar parte que o seu amigo e rei D. Miguel estava<br \/>\nno concelho da P\u00f3voa de Lanhoso; que lhe queria escrever; mas que n\u00e3o<br \/>\nse metia nisso; e acrescentava: \u2013 ele, o rei, aqui h\u00e1 treze anos<br \/>\nsabia tanta ortografia como eu; mas agora dizem as gazetas que ele estudou<br \/>\ncoisas e loisas e tal. Pedia, portanto, ao padre Rocha que lhe escrevesse<br \/>\na carta para ele a copiar de seu vagar. E, pondo-lhe a m\u00e3o no ombro:<br \/>\n\u2013 E ouviu, padre? V\u00e1 pensando no que quer; uma boa abadia, Santiago<br \/>\nde Antas, hem? serve-lhe? ou antes quereria ser c\u00f3nego? Enfim, pense<br \/>\nl\u00e1&#8230; N\u00f3s c\u00e1 estamos \u00e0s ordens.<\/p>\n<p>O padre era a fina flor do clero realista. Sensato, inteligente e honesto.<br \/>\nPrimeiro, quando o Cerveira lhe revelou a meia voz a chegada do seu amigo<br \/>\ne rei D. Miguel, imaginou-o no seu estado normal de bebedeira. Depois, reparando<br \/>\nmais nas atitudes firmes e desempeno da l\u00edngua, julgou-o sandeu, amolecimento<br \/>\ncerebral pela alcooliza\u00e7\u00e3o; por fim convenceu-se de que o pobre<br \/>\nhomem era enganado e escarnecido por alguns desfrutadores. O padre tinha muita<br \/>\ncompaix\u00e3o do fidalgo, que a mulher e as filhas enlameavam torpemente.<br \/>\nEle avisara D. Andresa que, no dia em que o Sr. Dr. Adolfo entrasse nos Pombais<br \/>\npela porta principal, ele sairia pela porta travessa; e a fidalga levam t\u00e3o<br \/>\na mal o proceder do irm\u00e3o que pensava em fazer testamento para que<br \/>\nos filhos dele e de Honorata<\/p>\n<p>lhe n\u00e3o herdassem as quintas. Sabia-se nesse tempo que o Dr. Adolfo<br \/>\nda Silveira era juiz de Direito nos A\u00e7ores e tinha consigo uma formosa<br \/>\namante com tr\u00eas meninos.<\/p>\n<p>A \u00fanica ideia com que o Cerveira contribuiu para a redac\u00e7\u00e3o<br \/>\nda carta foi que escrevesse: \u2013 Vossa Majestade precisa de dinheiro,<br \/>\ndiga o que quer, que eu at\u00e9 onde chegarem as minhas posses est\u00e1<br \/>\ntudo \u00e0s ordens de el-rei meu senhor.<\/p>\n<p>O padre Rocha n\u00e3o se esquivou a colaborar na endr\u00f3mina, dizia<br \/>\nele a D. Andresa \u2013 porque .<\/p>\n<p>A carta ia pomposa, a ponto de Cerveira pedir coment\u00e1rios, explica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nQue estava uma obra profunda \u2013 dizia o fidalgo, instru\u00eddo enfim<br \/>\nnas obscurezas do estilo.<\/p>\n<p>E, tirando seis pintos do bolso do colete:<\/p>\n<p>\u2013 A\u00ed tem para o seu rap\u00e9, merece-os.<\/p>\n<p>O capel\u00e3o n\u00e3o aceitou; pediu que os aplicasse por sua inten\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0s necessidades do Sr. D. Miguel.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 um realista \u00e0s direitas, padre, um grande realista!<br \/>\n\u2013 E, guardando os seis pintos, abra\u00e7ou-o efusivamente e ofereceu-lhe<br \/>\num c\u00e1lice de 1817.<\/p>\n<p>\u2013 Eu desejaria muito ver a resposta de Sua Majestade \u2013 dizia<br \/>\no padre Rocha.<\/p>\n<p>\u2013 Isso \u00e9 logo que ela chegar, padre! pois ent\u00e3o? C\u00e1<br \/>\nentre n\u00f3s n\u00e3o h\u00e1 segredos; e, se o amigo quiser, no caso<br \/>\nque el-rei me mande ir, vai comigo, e pode logo vir despachado. Pois ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 dito! \u2013 e o padre com um regozijo muito c\u00f3mico,<br \/>\ne o c\u00e1lice arom\u00e1tico debaixo do nariz: \u2013 Quem sabe se<br \/>\neu ainda serei arcebispo, \u00f3 Sr. Tenente-Coronel!<\/p>\n<p>\u2013 Ora! como dois e dois s\u00e3o quatro! H\u00e1-de ser arcebispo,<br \/>\nn\u00e3o tenha d\u00favida. Isto vai tudo mudar! \u2013 E carregava-lhe<br \/>\nforte no 1817. \u2013 Arre! estou aqui metido h\u00e1 doze anos nestes<br \/>\nmontes, que me tem levado os diabos! Tenho 49 anos: mas este punho ainda pode<br \/>\ncom a espada! H\u00e1-de haver pancadaria de criar bicho! Ol\u00e9! Eu<br \/>\ndizia \u00e0s vezes ao meu amigo D. Miguel quando o Sedv\u00e9m, e o Mata<br \/>\ne o Miguel Alcaide davam cacetada nos malhados que aquilo n\u00e3o era bonito.<br \/>\nPois agora, padre Rocha, hei-de dizer-lhe:<\/p>\n<p>O Cerveira come\u00e7ava a gaguejar, a cambalear, e entornava o c\u00e1lice.<br \/>\nO padre<\/p>\n<p>despediu-se.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>Na resid\u00eancia do abade Marcos Rebelo, em S\u00e3o Gens de Calvos,<br \/>\nhavia uma sala com alcova e janelas sobre uma horta arborizada. As pereiras,<br \/>\nmacieiras e abrunheiros principiavam a florir. Era no come\u00e7o de Abril.<br \/>\nAli, naquelas fr\u00edgidas alturas, sopram as ventanias mordentes de Barroso,<br \/>\ndo Ger\u00eas, e gelam a seiva nos troncos filtrados da neve e das cristaliza\u00e7\u00f5es<br \/>\nglaciais. Fazia frio. Na saleta caiada, muito excrement\u00edcia de moscaria,<br \/>\ncom tecto de castanho esfuma\u00e7ado e o pavimento lurado do caruncho,<br \/>\nhavia a um lado duas caixas de cereais, no outro algumas cadeiras velhas de<br \/>\nnogueira de diversos feitios, esfarpeladas no assento; nas paredes duas litografias<br \/>\n\u2013 o retrato de D. Jo\u00e3o VI, com o olho velhaco e o bei\u00e7o<br \/>\nbelfo, e o marqu\u00eas de Pombal, sentado com o decreto da expuls\u00e3o<br \/>\ndos jesu\u00edtas, apontando parlapatonamente para a barra onde alvejam<br \/>\npanos de navios que levam os expulsos. Na velha cal esburacada e emporcalhada<br \/>\nde escarros secos de antigas catarrais, destacavam molduras de carvalho com<br \/>\ndois pain\u00e9is a \u00f3leo cheios de gretas, S. Jer\u00f3nimo no<br \/>\ndeserto, com uma cara aflita, de tique doloroso, e Santo Ant\u00f3nio de<br \/>\nP\u00e1dua, num sadio en bon point, um bom sorriso ing\u00e9nuo, com o<br \/>\nMenino Jesus sentado, muito nutrido, numa bola que os hagi\u00f3logos diziam<br \/>\nser o globo terr\u00e1queo. No centro da quadra estava uma banca de pinho<br \/>\npintada a ocre, com uma coberta de cama, de chita vermelha, com araras, franjada<br \/>\nde requifes de l\u00e3 variegada. Ao lado da banca, uma cadeira de sola,<br \/>\ncom espaldar em relevo e pregaria amarela com verdete; do outro lado havia<br \/>\num fogareiro de ferro com brasas e uma cesta de verga cheia de carv\u00e3o.<br \/>\nEntre as duas pequenas janelas de r\u00f3tulas interiores e cachorros de<br \/>\npedra, trabalhava estrondosamente um rel\u00f3gio de parede, com os frisos<br \/>\ndo mostrador sem vidro, cheios de moscas mortas, penduradas por uma perna,<br \/>\nde ventres brancos muito inchados e as asas abertas.<\/p>\n<p>Dez horas. Abriu-se ent\u00e3o a porta da alcova, que rangeu ligeiramente<br \/>\nna couceira desengon\u00e7ada, e saiu um sujeito de mediana estatura, ombros<br \/>\nlargos, barba toda com raras c\u00e3s, olhos brilhantes, p\u00e1lido-trigueiro,<br \/>\num nariz adunco. Representava entre trinta e seis e quarenta anos. Sentou-se<br \/>\n\u00e0 braseira e preparou um cigarro, vagarosamente, que acendeu na aresta<br \/>\nchamejante de uma brasa. Com o cigarro ao canto dos l\u00e1bios e um olho<br \/>\nfechado pelo contacto agro do fumo, foi abrir uma das vidra\u00e7as, e p\u00f4s<br \/>\nfora a m\u00e3o a sondar a temperatura. Coxeava um pouco. Recolheu a m\u00e3o<br \/>\ncom desagrado e fechou a janela. Vinha subindo a escada de comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a cozinha uma mulher idosa, em mangas de camisa, meias azuis de l\u00e3<br \/>\ne ourelos achinelados. Pediu licen\u00e7a para entrar, fez uma mesura de<br \/>\njoelhos sem curvar o tronco, e perguntou:<\/p>\n<p>\u2013 Vossa Majestade passou bem?<\/p>\n<p>\u2013 Optimamente, Senhorinha, passei muito bem.<\/p>\n<p>\u2013 Estimo muito, Real Senhor. O Senhor Abade foi chamado \u00e0s oito<br \/>\nhoras para confessar uma freguesa que est\u00e1 a morrer de uma queda, e<br \/>\ndeixou dito que pusesse o almo\u00e7o a Vossa Majestade, se ele n\u00e3o<br \/>\nchegasse \u00e0s nove e meia.<\/p>\n<p>\u2013 Quando quiser, Senhorinha, quando quiser, visto que o abade deu essas<br \/>\nordens e quem manda aqui \u00e9 ele.<\/p>\n<p>Da cozinha vaporava um perfume de salpic\u00e3o frito com ovos. Sua Majestade<br \/>\nfarejava com as narinas anelantes num forte apetite. A criada voltou com toalha,<br \/>\nguardanapo, lou\u00e7a da \u00edndia, talheres de prata, e uma<\/p>\n<p>travessa coberta. Sua Majestade, muito familiar, tirou de sobre a mesa uns<br \/>\ncadernos escritos, cosidos com seda escarlate, e um grande tinteiro de chumbo<br \/>\ncom penas de pato.<\/p>\n<p>\u2013 Ora Vossa Majestade a incomodar-se! Valha-me Deus! eu tiro isso,<br \/>\nReal Senhor! N\u00e3o que uma coisa assim! Um rei a..<\/p>\n<p>E o Real Senhor:<\/p>\n<p>\u2013 Ande l\u00e1, Senhorinha, que eu ajudo. Um rei \u00e9 um homem<br \/>\ncomo qualquer homem.<\/p>\n<p>\u2013 Credo! faz muita diferen\u00e7a&#8230; mesmo muita&#8230;<\/p>\n<p>Ela descobriu a travessa a rir-se:<\/p>\n<p>\u2013 Vossa Majestade diz que gosta..<\/p>\n<p>\u2013 Sardinhas de escabeche? Se gosto!&#8230; Vamos a elas, que est\u00e3o<br \/>\na dizer \u2013 comeime.<\/p>\n<p>E atirou-se \u00e0s sardinhas com uma sofreguid\u00e3o pelintra.<\/p>\n<p>Depois, serviu-lhe rodelas de salpic\u00e3o com ovos. Sua Majestade gostava<br \/>\nmuito destas comezanas nacionais. J\u00e1 tinha comido tripas, e dizia que<br \/>\nno ex\u00edlio se lembrara muitas vezes desta saborosa iguaria com feij\u00e3o<br \/>\nbranco e chispe, que tinha comido em Braga. O abade de Calvos sensibilizava-se<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas quando via el-rei a esbrugar uma unha<br \/>\nde porco e a limpar as r\u00e9gias barbas oleosas das gorduras su\u00ednas.<br \/>\nO terceiro prato era vitela assada. A Senhorinha trazia-lha no espeto, porque<br \/>\nSua Majestade gostava de ir trinchando finas talhadas, enquanto a cozinheira,<br \/>\nde c\u00f3coras ao p\u00e9 do fogareiro, conservava o espeto sobre o brasido,<br \/>\na rechinar, a lourejar. Bebeu harmonicamente o real h\u00f3spede um vinho<br \/>\nbranco antigo, da lavra de um fidalgo de Braga, propriet\u00e1rio do Douro,<br \/>\nque estava no segredo do ditoso abade de Calvos \u2013 capel\u00e3o-mor<br \/>\nde el-rei e dom prior eleito de Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>A criada assistia muito jovial \u00e0quela degluti\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel,<br \/>\ne dizia particularmente ao abade: \u2013 Este senhor, pelo que come, parece<br \/>\nque tem passado muitas fominhas! Ningu\u00e9m h\u00e1-de crer o que Sua<br \/>\nMajestade atafulha naquele bandulho! \u2013 e dizia que lhe dava vontade<br \/>\nde chorar, lembrando-se das lazeiras que ele tinha apanhado; porque o abade<br \/>\ncontava que lera no Deus o quer, do visconde de Arlincourt, que o Sr. D. Miguel,<br \/>\nem Roma, n\u00e3o tinha \u00e0s vezes 10 r\u00e9is de seu para almo\u00e7ar<br \/>\numa x\u00edcara de leite. E, perguntando a el-rei se era verdade aquilo<br \/>\n\u2013 que sim, que chegara a essa extremidade; mas que preferia a fome a<br \/>\nceder os seus direitos e a felicidade dos seus vassalos pelos sessenta contos<br \/>\nanuais que lhe ofereceram da Casa do Infantado, e que ele rejeitara.<\/p>\n<p>Por fim, vinha o caf\u00e9. As fatias eram torradas ali, no fogareiro.<br \/>\nSua Majestade barrava-as de manteiga nacional \u2013 preferia a manteiga<br \/>\ndo seu Pais, como a vitela, e o lombo do porco no salpic\u00e3o portugu\u00eas,<br \/>\ne o p\u00e9 do porco nas tripas tamb\u00e9m portuguesas \u2013 tudo do<br \/>\nseu Pa\u00eds. Que rei, que patriota! \u2013 meditava o abade de Priscos,<br \/>\nbispo eleito de Coimbra, esmoncando-se e aparando as l\u00e1grimas ternas<br \/>\nno alcoba\u00e7a.<\/p>\n<p>No fim do copioso almo\u00e7o, el-rei fumava charutos espanh\u00f3is,<br \/>\nde contrabando; desabotoava o colete, dava arrotos, repoltreava-se na cadeira<br \/>\nde sola um pouco desconfort\u00e1vel, e vaporava grande colunas de fumo<br \/>\nque se espiralavam at\u00e9 ao tecto.<\/p>\n<p>A Senhorinha veio \u00e0 beira de el-rei, e disse baixinho:<\/p>\n<p>\u2013 Saber\u00e1 Vossa Majestade que est\u00e1 ali o Sr. Trocatles.<\/p>\n<p>\u2013 O&#8230;?<\/p>\n<p>\u2013 Ai! j\u00e1 me esquecia&#8230; o Senhor Visconde..<\/p>\n<p>\u2013 Que suba.<\/p>\n<p>O sujei-to que entrou era o Torcato Nunes, uni sargento do ex\u00e9rcito<br \/>\nrealista, de S\u00e3o Gens. O rei ergueu-se e fecharam-se na alcova.<\/p>\n<p>A cozinheira dizia em baixo \u00e0 outra criada de fora:<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 coisa! Mal diria eu que ainda havia de chamar visconde ao<br \/>\nsafardana do Trocatles!<\/p>\n<p>E a outra, benzendo-se:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o que ele, o mundo sempre d\u00e1 voltas! Veja voc\u00ea!<br \/>\naquele moinante que me pediu uma vez dois patacos para cigarros, e por sinal<br \/>\nque nunca mos pagou!<\/p>\n<p>\u2013 Pois v\u00eas a\u00ed! Foi ele o primeiro que conheceu o Sr. D.<br \/>\nMiguel, \u00e9 o que foi, e Sua Majestade gosta muito dele. Foi feliz o<br \/>\ndiabo do homem! Aquilo vai a governo, tu ver\u00e1s; e j\u00e1 ouvi dizer<br \/>\nque o sobrinho dele, o padre Z\u00e9 da Eira, o de Rio Caldo, que \u00e9<br \/>\nzanagra, est\u00e1 c\u00f3nego. Limparam-se da carepa, \u00e9 o que<br \/>\n\u00e9. A mulher dele j\u00e1 botou no domingo passado a sua saia e jaqu\u00e9<br \/>\nde pano azul.<\/p>\n<p>\u2013 E que rico pano!<\/p>\n<p>\u2013 Pois v\u00eas a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>Entrava nesta conjuntura o abade, esfadigado, suarento \u2013 que levasse<br \/>\no Diabo a freguesia, que pouco tempo havia de aturar ma\u00e7adas daquelas,<br \/>\npara confessar uma b\u00eabeda de uma velha que tinha bebido de mais na feira<br \/>\nda P\u00f3voa e ca\u00edra de um valado abaixo. E ele? \u2013 perguntava<br \/>\n\u2013 almo\u00e7ou bem?<\/p>\n<p>\u2013 Ora! n\u00e3o h\u00e1 que perguntar, senhor! Aquilo, salvo seja,<br \/>\n\u00e9 como a cal de uma azenha. \u00c9 quanto lhe deitarem para a tripa.<br \/>\nCoisa assim! Subiu agora para l\u00e1 o Munes. Ai! j\u00e1 me esquecia,<br \/>\n\u00e9 Senhor Abade! Olhe que na vila j\u00e1 perguntaram se c\u00e1<br \/>\nna casa estavam h\u00f3spedes, porque vinham para c\u00e1 muitas comidas.<br \/>\nQue n\u00e3o v\u00e3o eles pegar a desconfiar.. Esta pergunta \u00e0<br \/>\nmo\u00e7a traz \u00e1gua no bico.<\/p>\n<p>\u2013 E tu que respondeste, mo\u00e7a?<\/p>\n<p>\u2013 Que vinham por c\u00e1 jantar uns senhores padres, que agora era<br \/>\ntempo de confesso&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Andaste bem.<\/p>\n<p>Quando o padre Marcos Rebelo subia \u00e0 sala, pedindo licen\u00e7a<br \/>\na meio da escada, j\u00e1 o rei e o visconde vinham saindo da alcova \u2013<br \/>\num, aprumado na atitude da majestade, o outro, na do respeito, muito composto.<\/p>\n<p>\u2013 Pede licen\u00e7a na sua casa, Dom Prior? \u2013 disse el-rei.<\/p>\n<p>O Dom Prior de Guimar\u00e3es genuflectiu a perna direita; o soberano apressou-se<br \/>\na ergu\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Nada de etiquetas, j\u00e1 lho disse d\u00fazias de vezes.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o posso nem devo proceder de outra maneira, senhor!<\/p>\n<p>\u2013 Pode e deve que o mando eu.<\/p>\n<p>E o abade, inclinando-se com os bra\u00e7os em cruz sobre a batina:<\/p>\n<p>\u2013 Saber\u00e1 Vossa Majestade que o Sr. Capit\u00e3o-Mor de Santa<br \/>\nMarta, a quem Vossa Real Majestade fez bar\u00e3o de Bouro&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Bem sei&#8230; aquele am\u00e1vel cavalheiro&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Perfeito cavalheiro \u2013 atestou o Nunes.<\/p>\n<p>\u2013 Escreveu-me a carta que tenho a honra de depositar nas m\u00e3os<br \/>\nde Vossa Majestade.<\/p>\n<p>El-rei leu alto:<\/p>\n<p>Amigo Dom Prior de Guimar\u00e3es. \u2013 Um realista do concelho de Famalic\u00e3o<br \/>\nchegou h\u00e1 pouco a esta casa, a fim de que eu escrevesse ao meu nobre<br \/>\ne velho amigo para obter de S. M. licen\u00e7a para lho apresentar como<br \/>\nportador de uma carta do Sr. Vasco Cerveira Lobo, morgado de Quadros, e tenente-coronel<br \/>\nque foi do regimento de drag\u00f5es de Chaves. Diz ele que o Sr. D. Miguel<br \/>\nfora amigo pessoal do dito tenentecoronel, e por isso entende, e eu tamb\u00e9m,<br \/>\nque ser\u00e1 muito do real agrado do nosso rei e senhor receber a carta<br \/>\ndeste legitimista que nos pode ser muito \u00fatil, j\u00e1 pelo seu nome,<br \/>\ncomo tamb\u00e9m pela sua riqueza. Ouvidas as ordens de S. M. F., queira<br \/>\ntransmitir-mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Estou-me recordando \u2013 dizia o pr\u00edncipe pausando as suas<br \/>\nreminisc\u00eancias \u2013 Cerveira Lobo.., tenente-coronel de drag\u00f5es&#8230;<br \/>\nO Cerveira, o meu amigo Cerveira&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Que foi prisioneiro na Chamusca, quando o Urbano se passou para os<br \/>\nliberais, com a cavalaria e mais o coronel de drag\u00f5es, o Albuquerque<br \/>\n\u2013 lembrou o Nunes, o visconde Munes \u2013, Vossa Majestade lembra-se?<\/p>\n<p>\u2013 Perfeitamente. Dom Prior, queira escrever ao bar\u00e3o a dizer-lhe<br \/>\nque espero ansiosamente a carta do meu amigo Cerveira.<\/p>\n<p>Enquanto o abade ia ao seu quarto escrever, o h\u00f3spede disse ao ouvido<br \/>\ndo outro:<\/p>\n<p>\u2013 Isto cone mal..<\/p>\n<p>\u2013 Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Se o homem c\u00e1 vem, o meu grande amigo.<\/p>\n<p>\u2013 Recebe-lo como o teu grande amigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Se me fala em particularidades&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Ele n\u00e3o sabe falar em particularidades. \u00c9 uma besta,<br \/>\nmuito rico, e disse-me o morgado do Tanque, de Braga, seu primo, que est\u00e1<br \/>\nsempre b\u00eabedo. Nem ele c\u00e1 vem, tu ver\u00e1s&#8230; Eu at\u00e9<br \/>\nacho que as coisas correm perfeitamente. \u2013 Ouviam-se os passos do abade.<br \/>\n\u2013 Tem dinheiro, ele tem muito dinheiro, ouviste?<\/p>\n<p>Entrou o abade.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00f3 duas palavras. \u2013 E leu: \u2013 Sua Majestade recebe<br \/>\ncom muito prazer a carta do Sr. Tenente-Coronel Cerveira Lobo.<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem \u2013 aprovou el-rei. \u2013 Hoje \u00e0 noite, com<br \/>\ntodos os resguardos que urgem as cautelas.<\/p>\n<p>\u2013 Um homem, o Caneta de Braga, o chapeleiro, com uma carta \u2013<br \/>\nanunciou Senhorinha \u2013 s\u00f3 a entrega em m\u00e3o pr\u00f3pria<br \/>\nao Senhor Abade.<\/p>\n<p>Que entrasse.<\/p>\n<p>O rei e o visconde meteram-se \u00e0 alcova, simulando receios.<\/p>\n<p>Era uma carta do abade de Priscos, bispo eleito de Coimbra. Tinha a honra<br \/>\nde enviar a el-rei cem pe\u00e7as, donativo que as senhoras Botelhas, de<br \/>\nBraga, ofereciam de joelhos a S. M. F., e diziam que todos os seus haveres<br \/>\nestavam \u00e0s ordens de el-rei seu senhor.<\/p>\n<p>E entregou dois grossos cartuchos, cintados por fitas cruzadas de seda escarlate.<br \/>\nE o Caneta muito pontual:<\/p>\n<p>\u2013 Queria um recibinho, se lhe n\u00e3o custa, reverendo Senhor Abade.<\/p>\n<p>\u2013 Venha da\u00ed que eu passo-lhe o recibo.<\/p>\n<p>Os dois sa\u00edram da alcova. Os rolos estavam sobre a mesa. Eles tinham<br \/>\nouvido falar em recibo. O visconde Nunes, esgazeando os olhos, foi apalpar<br \/>\no embrulho, e muito baixinho:<\/p>\n<p>\u2013 Arame! Pesa que tem diabo! \u00c9 ouro! Come\u00e7a a pingadeira!<br \/>\nV\u00eas?<\/p>\n<p>O outro arregalou os olhos e deitou a l\u00edngua de fora quanto lhe foi<br \/>\nposs\u00edvel. Nem parecia um rei!<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>Cap\u00edtulo VII<\/h2>\n<p>\u00c0s sete da noite, a soir\u00e9e do monarca de Calvos compunha-se<br \/>\ndo visconde Nunes, seu secret\u00e1rio privado e brigadeiro de infantaria,<br \/>\ndo abade capel\u00e3o-mor de el-rei, de dois reitores, c\u00f3negos despachados,<br \/>\ne o ex-sargento-mor de Rio Caldo, nomeado capit\u00e3o-mor de Lanhoso. Estavam<br \/>\ntodos em p\u00e9 resistindo \u00e0 licen\u00e7a de se sentarem. A cadeira<br \/>\nde sola estava com o pr\u00edncipe encostada ao rel\u00f3gio; e, na mesa<br \/>\ncentral, pap\u00e9is, o tinteiro de chumbo, o Novo<\/p>\n<p>Pr\u00edncipe, de Gama e Castro, a Besta Esfolada e o Punhal dos Corcundas,<br \/>\ndo bispo Frei Fortunato. Em cima das caixas do milho estava uru meio alqueire<br \/>\ncom feij\u00f5es brancos, destinados \u00e0s tripas, e dois foles vazios<br \/>\nque a Senhorinha tencionava encher de gr\u00e3o para a fornada quando el-rei<br \/>\nse recolhesse. Sobre um dos foles resbunava um gato enroscado.<\/p>\n<p>Esperava-se o apresentante da carta de Vasco da Cerveira.<\/p>\n<p>\u00c0s oito horas anunciaram-se os advent\u00edcios. O bar\u00e3o<br \/>\nde Bouro entrou primeiro, a passo mesurado, com o peito alto, e o pesco\u00e7o<br \/>\nhirto numa gravata enchuma\u00e7ada, preta, de cord\u00e3ozinho de arame,<br \/>\nsem la\u00e7o, atacando os l\u00f3bulos das orelhas, um pouco reentrante<br \/>\nna altura dos gorgomilos. Usava \u00f3culos de ouro quadrados e uma p\u00eara<br \/>\ngrisalha; de resto, rapado. Envergava casaca nova de lemiste, muito refestelada,<br \/>\nde abas compridas com ancas proeminentes, segundo a moda; do c\u00f3s das<br \/>\ncal\u00e7as, cor de gema de ovo, pendiam berloques com armas, uma medalha<br \/>\ncom o retrato de D. Miguel aos vinte e dois anos, e uma pe\u00e7a de ouro<br \/>\ncom a mesma real ef\u00edgie. No peito da camisa, entre as lapelas do colete<br \/>\nde veludo cor de laranja, trazia pregado um punhal esmaltado, em miniatura,<br \/>\nenigma convencional dos cavaleiros de S. Miguel da Ala, obra patri\u00f3tica<br \/>\ndo ourives Novais, pai do poeta Faustino.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ele, entrou o Zeferino das Lamelas, muito enfiado, num espasmo,<br \/>\nsentindose aluir pelos joelhos. Ia de niza de pano azul com bot\u00f5es<br \/>\namarelos, cal\u00e7a branca espipada com joelheiras pelos atritos do albard\u00e3o.<br \/>\nAs pernas das cal\u00e7as chegavam apenas a meio cano das botas, que pelo<br \/>\ntamanho dos p\u00e9s dir-se-iam roubadas a um gigante.<\/p>\n<p>O Bezerra dobrou o joelho, inclinando o tronco \u00e0 m\u00e3o esquiva<br \/>\nde Sua Majestade. Por detr\u00e1s dele, o Zeferino ajoelhara batendo com<br \/>\nambas as r\u00f3tulas no tabuado. O bar\u00e3o ia falar, quando o rei,<br \/>\nreparando no outro, disse:<\/p>\n<p>\u2013 Levante-se, homem. Isto aqui n\u00e3o \u00e9 capela.<\/p>\n<p>O pedreiro teimava, achava-se bem naquela postura que o dispensava de procurar<br \/>\noutra.<\/p>\n<p>\u2013 Sua Majestade manda-o levantar\u2013 disse o visconde Munes.<\/p>\n<p>Ergueu-se, e num \u00edmpeto silencioso ia entregar a carta ao da cadeira,<br \/>\nquando o capel\u00e3o-mor lhe observou que as cartas se entregavam ao secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o exp\u00f4s que n\u00e3o pudera resistir aos pedidos que<br \/>\naquele honrado legitimista lhe fizera para o acompanhar, porque n\u00e3o<br \/>\nse atrevia a entrar sozinho \u00e0 presen\u00e7a de elrei, seu amo. Que<br \/>\nera filho de um bravo alferes, o Gaspar das Lamelas, que, em 1838, \u00e0<br \/>\nfrente de 300 homens, atacara a vila de Santo urso, dando vivas a el-rei.<br \/>\nContou a fa\u00e7anha de atravessar o Ave a nado em Janeiro, com a espada<br \/>\nnos dentes, e que por causa disso entrevecera e nunca mais se levantou.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! \u2013 interjeccionou compungidamente o monarca. \u2013 Eu<br \/>\nignorava esse not\u00e1vel ataque&#8230; estava em Roma, sem not\u00edcias&#8230;<br \/>\nDigno homem o meu honrado e bravo&#8230; como se chama seu pai?<\/p>\n<p>\u2013 Saber\u00e1 Vossa Majestade que se chama Gaspar Ferreira.<\/p>\n<p>E o rei:<\/p>\n<p>\u2013 Visconde, escreva na lista.<\/p>\n<p>O Nunes sentou-se \u00e0 mesa, pedindo v\u00e9nia a Sua Majestade, que<br \/>\nditou:<\/p>\n<p>\u2013 Gaspar Ferreiro, reformado em coronel de infantaria, com vencimento<br \/>\ndesde 1838. Escreva \u00e0 margem: Batalha de Santo Tirso. \u2013 E voltando-se<br \/>\npara Zeferino, que ladeava para a parede:<\/p>\n<p>\u2013 Diga a seu bravo pai que lhe dei a reforma em coronel, e vencer\u00e1<br \/>\nsoldo dos sete anos passados.<\/p>\n<p>O Zeferino abriu a boca para dizer o que quer que fosse.<\/p>\n<p>\u2013 A carta do meu velho amigo Teixeira? \u2013 perguntou o rei ao visconde<br \/>\nNunes.<\/p>\n<p>\u2013 Cerveira, perdoe Vossa Majestade, Cerveira Lobo.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! sim&#8230; Cerveira Lobo.<\/p>\n<p>Abriu, leu para si, passou a carta ao secret\u00e1rio, e comentando exultante:<\/p>\n<p>\u2013 Um grande amigo! dos raros! um dos nossos melhores esteios! Com homens<br \/>\nassim dedicados, o triunfo \u00e9 certo. Posso dizer com o grande vate Cam\u00f5es:<\/p>\n<p>E dir-me-eis qual \u00e9 mais excelente<\/p>\n<p>Se ser do mundo rei, se de tal gente.<\/p>\n<p>Um dos reitores que estavam na penumbra, l\u00e1 em baixo ao p\u00e9<br \/>\ndas caixas, olhou com espanto para o outro, que lhe disse \u00e0 puridade,<br \/>\ndiscretamente:<\/p>\n<p>\u2013 Diz que ele tem estudado o diabo.. at\u00e9 o latim!<\/p>\n<p>El-rei prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2013 Vou responder por meu pr\u00f3prio punho ao meu nobre amigo. \u00c9<br \/>\ndigno desta e de maiores considera\u00e7\u00f5es. Visconde, escreva na<br \/>\nlista: Vasco da Cerveira Lobo, general de cavalaria, e conde de Quadros.<\/p>\n<p>Depois, tirou de uma velha pasta de papel\u00e3o uma folha de alma\u00e7o,<br \/>\nsentou-se a escrever \u2013 e que conversassem.<\/p>\n<p>O abade, capel\u00e3o-mor, aproveitou o ensejo para servir vinho do Douro<br \/>\ne past\u00e9is de Guimar\u00e3es, cavacas do convento dos Rem\u00e9dios<br \/>\ne forminhas.<\/p>\n<p>Havia mastiga\u00e7\u00e3o de mand\u00edbulas pesadas; as forminhas<br \/>\neram frescas, muito torriscadas, davam rangidos numa trincadeira voluptuosa.<br \/>\nConversava-se em dois grupos. O sargento-mor de Rio Caldo contava passagens<br \/>\nde ca\u00e7a no Ger\u00eas, com enf\u00e1ticos arremedos, movimentados,<br \/>\nde altanaria. Que o porco-bravo viera direito a ele, e<\/p>\n<p>cortava mato, troncos de giestas como a sua coxa \u2013 e mostrava \u2013;<br \/>\ntinha apanhado de rasp\u00e3o a cadela, a Ligeira, ra\u00e7a de todos<br \/>\nos diabos que o atacava pela orelha, e ficou aleijada para nunca mais; e ele<br \/>\nent\u00e3o ca\u00edra sobre a esquerda, e trepara \u00e0 fraga da Portela,<br \/>\ne esperara o porco na clareira; e mal ele apontou, pumba! meteu-lhe tr\u00eas<br \/>\nzagalotes no quadril.<\/p>\n<p>\u2013 A gente a falar incomoda talvez el-rei \u2013 observou o bar\u00e3o<br \/>\nde Bouro.<\/p>\n<p>\u2013 Podem conversar \u00e0 vontade, que n\u00e3o me incomodam.<\/p>\n<p>\u2013 Aquilo \u00e9 que \u00e9 cabe\u00e7a! \u2013 disse baixinho,<br \/>\ntocado, um dos c\u00f3negos a outro c\u00f3nego.<\/p>\n<p>Generalizou-se a cavaqueira. Faziam-se brindes lac\u00f3nicos, circunspectos,<br \/>\ncom um grande respeito, indicando-se el-rei por um simples gesto de olhos.<br \/>\n\u2013 A virar! a virar! \u2013 Carminavam-se os c\u00f3negos. O Dom Prior<br \/>\nde Guimar\u00e3es sugeriu uma lembran\u00e7a graciosa ao bar\u00e3o.<br \/>\nQue havia dois padres Marcos, ambos priores de Guimar\u00e3es. Mas o legitimo,<br \/>\no de S\u00e3o Gens de Calvos, dizia do outro:<\/p>\n<p>\u2013 Forte b\u00eabedo!<\/p>\n<p>O visconde Nunes ria-se sarcasticamente; e enquanto os padres. num crescendo<br \/>\npalavroso, explodiam sarcasmos ao outro padre Marcos, o secret\u00e1rio<br \/>\nprivado curvou-se sobre o ombro de el-rei e segredou-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Carrega-lhe!<\/p>\n<p>\u2013 Ora&#8230;.<\/p>\n<p>\u2013 Quanto?<\/p>\n<p>\u2013 2.<\/p>\n<p>\u20133. Anda-me. 3.<\/p>\n<p>\u2013Ser\u00e1 muito!&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Bolas. 3, por minha conta. Coisa limpa.<\/p>\n<p>E, em voz alta e voltado para o grupo:<\/p>\n<p>\u2013 El-rei pergunta se o Sr. Conde de Quadros tem fam\u00edlia, se<br \/>\ntem senhora e filhos.<\/p>\n<p>O Bezerra perguntou ao Zeferino.<\/p>\n<p>Que soubesse Sua Majestade, disse o pedreiro, mais animado, que o fidalgo<br \/>\nde Quadros tinha dois rapazes e tr\u00eas raparigas, uma j\u00e1 casada;<br \/>\nmas que a fidalga, a mulher dele, aqui h\u00e1 anos atr\u00e1s, tinha<br \/>\nfugido com o doutor dos Pombais, e nunca mais voltara.<\/p>\n<p>\u2013 Desgra\u00e7as! \u2013 disse o capel\u00e3o-mor \u2013 desgra\u00e7as!<br \/>\nA corrup\u00e7\u00e3o dos tempos&#8230; Se se n\u00e3o acudir quanto antes<br \/>\na isto, n\u00e3o sei que volta se lhe h\u00e1-de dar.<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio condolente. Todos sentiam o caso infausto.<\/p>\n<p>O rei continuava a escrever, devagar, polindo a frase, boleando os per\u00edodos;<br \/>\nachava dificuldades em se medir com as locu\u00e7\u00f5es redondas e muito<br \/>\nadjectivadas da ret\u00f3rica do padre Rocha. Animava-o, por\u00e9m, a<br \/>\nideia de que D. Miguel n\u00e3o tinha fama de s\u00e1bio, e que a sua<br \/>\ncarta seria mais veros\u00edmil com alguns aleij\u00f5es gramaticais.<\/p>\n<p>Releu a carta, e acrescentou \u00e0s v\u00edrgulas. Pediu obreia ao Munes.<br \/>\nAcudiu o padre com uma quadrada, de certa grandeza, vermelha, cuidadosamente<br \/>\nrecortada.<\/p>\n<p>O envelope ainda n\u00e3o tinha subido at\u00e9 Lanhoso. Sua Majestade<br \/>\ndobrou em quatro a folha do alma\u00e7o e sobrescritou \u2013 Ao conde<br \/>\nde Quadros, general do ex\u00e9rcito real.<\/p>\n<p>Nesta ocasi\u00e3o, o Crist\u00f3v\u00e3o Bezerra chamou de parte o<br \/>\nNunes, falou-lhe em segredo, e terminou em voz alta: for do agrado de Sua<br \/>\nMajestade.<\/p>\n<p>\u2013 Eu vou falar a el-rei \u2013 disse Nunes com satisfat\u00f3ria<br \/>\ncondescend\u00eancia.<\/p>\n<p>Acercou-se do outro, com os bra\u00e7os pendentes, os p\u00e9s juntos,<br \/>\num pouco inclinado, e falou-lhe baixo.<\/p>\n<p>\u2013 Sim \u2013 respondeu o monarca.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 servido, Senhor Bar\u00e3o \u2013 comunicou o secret\u00e1rio,<br \/>\ne foi registar no livro das merc\u00eas, proferindo em voz alta: Sua Majestade<br \/>\nh\u00e1 por bem nomear sargento-mor das Lamelas Zeferino Ferreira, em aten\u00e7\u00e3o<br \/>\naos servi\u00e7os de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira.<\/p>\n<p>\u2013 V\u00e1 agradecer a el-rei, Sr. Sargento-Mor \u2013 disse o bar\u00e3o<br \/>\nde Bouro ao pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao homem.<\/p>\n<p>\u2013 Levante-se, amigo \u2013 disse o pr\u00edncipe. \u2013 Aqui tem<br \/>\na resposta da carta do meu amigo Cerveira Lobo. \u00c9 necess\u00e1rio<br \/>\nque ningu\u00e9m veja este sobrescrito. Tome sentido, que ningu\u00e9m<br \/>\nsaiba a quem esta carta \u00e9 dirigida. V\u00e1 com Deus, e estimarei<br \/>\nv\u00ea-lo aqui, Sr. Sargento-Mor, com outra carta do meu honrado amigo,<br \/>\nenquanto n\u00e3o posso abra\u00e7\u00e1-lo pessoalmente. Adeus<\/p>\n<p>A corte saiu em recuan\u00e7os, dando-se m\u00fatuos encontr\u00f5es<br \/>\npara n\u00e3o voltarem as costas \u00e0 majestade.<\/p>\n<p>A criada apareceu ent\u00e3o esfandegada para p\u00f4r a mesa, que estava<br \/>\na ceia pronta, e que o frango com arroz n\u00e3o esperava \u2013 que era<br \/>\npreciso com\u00ea-lo logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Ceava<br \/>\nsempre com el-rei e com o abade.<\/p>\n<p>O Zeferino, que tinha ali a \u00e9gua e conhecia o caminho, n\u00e3o<br \/>\nquis ir pernoitar a Santa Marta de Bouro. Havia luar e sa\u00eda um rancho<br \/>\nde romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direc\u00e7\u00e3o a<br \/>\nBraga, e ao outro dia de tarde apeava no sonoro p\u00e1tio da casa de Quadros,<br \/>\npor onde entrara com a \u00e9gua em grande estropeada, com a cara escandecida<br \/>\nnuma congest\u00e3o de j\u00fabilo.<\/p>\n<p>O Cerveira estava a dormir a sesta.<\/p>\n<p>\u2013 Apanhou-a hoje daquela casta! Como um cacho! \u2013 informou um<br \/>\ncaseiro.\u2013 Mandou aparelhar a poldra castanha do Sr. Egas, com os coldres<br \/>\ndas pistolas, escanchou-se na sela, com a espada desembainhada e desatou a<\/p>\n<p>galope por debaixo das ramadas a dar gritos: Eu estava a ver quando o levava<br \/>\na breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava abaixo da burra como<br \/>\num dez!&#8230; Depois o Sr. Egas e mais o Sr. Heitor l\u00e1 o apearam como<br \/>\npuderam, e foram-no p\u00f4r a dormir. Arre diabo! l\u00e1 que um homem<br \/>\numa vez por outra apanhe um pil\u00e3o, v\u00e1; mas embebedar-se todos<br \/>\nos dias, \u00e9 muito feio! E depois ningu\u00e9m se entende com ele.<br \/>\nMedra com o suor dos pobres. Um fona. Que v\u00e1 para o diabo que o carregue.<br \/>\nTanto se me d\u00e1 como se me deu. Se me mandar embora, boas noites. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 capaz de perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil<br \/>\ncruzados de renda, n\u00e3o gasta nem cinco, andam os filhos a vender o<br \/>\nmato e os pinheiros, uma vergonha, porque ele, a dois homens gastadores, que<br \/>\nt\u00eam amigas, uma a cada canto, d\u00e1 cada m\u00eas vinte pintos<br \/>\npara os dois! O homem deve ter muita soma de pe\u00e7as enterradas! Qualquer<br \/>\ndia cai-lhe a\u00ed em casa o Jos\u00e9 Pequeno da Lixa que lhe p\u00f5e<br \/>\na faca ao peito at\u00e9 ele p\u00f4r ali o dinheiro \u00e0 vista. Diz<br \/>\nque quer comprar mais terras, e aqui h\u00e1 dias ofereceu seis contos pela<br \/>\nquinta do Lopes de Requi\u00e3o. Veja voc\u00ea. Tem seis contos ao canto<br \/>\nda gaveta, e ainda n\u00e3o deu cinco r\u00e9is, que s\u00e3o cinco<br \/>\nr\u00e9is, \u00e0 filha, \u00e0 D. Teresinha, que casou com o estudante<br \/>\ndas Quint\u00e3s. Anda por l\u00e1 de socas, sem meias, a fazer o servi\u00e7o<br \/>\nda cozinha. E est\u00e3o a\u00ed as outras duas, que parecem umas fadistas,<br \/>\nnas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noite por esses quinchosos<br \/>\nesses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem paredes para se irem<br \/>\nmeter com elas na casa do palheiro. Uma vergonha, mestre Zeferino, a vergonha<br \/>\ndas vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me parta, que se eu tivesse assim<br \/>\numas filhas&#8230; Olhe&#8230; (batia com o p\u00e9 em cheio na relva) esmagava-as<br \/>\ncomo quem esborracha uma toupeira. Deus nos livre de b\u00eabedos! Deus nos<br \/>\nlivre de b\u00eabedos! Voc\u00ea bem sabe o que isso \u00e9, mestre Zeferino,<br \/>\nque pelos modos l\u00e1 por casa n\u00e3o tem pouco que aturar a seu pai,<br \/>\nque tamb\u00e9m as agarra muito profeitas! Olhe voc\u00ea como ele se tolheu<br \/>\nquando foi, dia de Natal, dar fogo aos de Santo Tirso! Aquilo s\u00f3 com<br \/>\nmeio almude no bucho!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 tanto assim atalhou o sargento-mor de Lamelas.\u2013<br \/>\nN\u00e3o lhe digo que meu pai n\u00e3o tivesse algum graeiro na asa; mas<br \/>\no que ele fez n\u00e3o era voc\u00ea capaz de o fazer, tio Manuel.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! isso n\u00e3o, bem o pode dizer, mestre Zeferino. Nunca me<br \/>\nemborrachei, aqui onde me v\u00ea com cinquenta anos j\u00e1 feitos; mas,<br \/>\nse algum dia me emborrachar, que ningu\u00e9m est\u00e1 livre disso, prego-me<br \/>\na dormir e n\u00e3o vou atirar-me ao Ave em Dezembro; \u00e0gora vou,<br \/>\nse Deus quiser. Vai-se p\u00f4r o alma do Diabo a dar vivas ao D. Miguel!<br \/>\nQual Migue! nem qual carapu\u00e7a! Se D. Miguel c\u00e1 vier h\u00e1-de<br \/>\nfazer tanto caso de seu pai como eu daquela bosta que ali est\u00e1. O que<br \/>\nele devia era tratar de conservar os terr\u00f5es, e fazer como voc\u00ea,<br \/>\nque se p\u00f4s a trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados<br \/>\nlhe tomaram conta das terras. E da\u00ed? Voc\u00ea hoje tem o seu par<br \/>\nde mel cruzados, ganhados com o suor do seu rosto, e at\u00e9 j\u00e1<br \/>\nme disseram que voc\u00ea dava quinze centos ao de Prazins para lhe casar<br \/>\ncom a rapariga. \u00c9 assim ou n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2013 Isso acabou \u2013 respondeu com desd\u00e9m, irritado. Agora<br \/>\nn\u00e3o a queria nem que ele a dotasse com tr\u00eas contos; entenda voc\u00ea<br \/>\no que lhe eu digo, tio Manuel, nem com seis contos! Voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\nsabe quem eu sou, mas brevemente o saber\u00e1. Pouco h\u00e1-de viver<br \/>\nquem o n\u00e3o vir.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sei quem voc\u00ea \u00e9? Ora essa&#8230; J\u00e1 lhe<br \/>\ndisse que voc\u00ea \u00e9 homem capaz\u00f3rio, honrado&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Quero c\u00e1 dizer outra coisa&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o entende&#8230;<br \/>\n\u2013 E ouvindo abrir uma janela: \u2013 L\u00e1 est\u00e1 o fidalgo&#8230;<br \/>\nDeixe-me l\u00e1 ir.<\/p>\n<p>E. afastando-se do caseiro, ia dizendo consigo:<\/p>\n<p>\u2013 Que tal est\u00e1 o labroste! Um homem vem de falar com el-rei,<br \/>\ne topa com uma cavalgadura destas! Canalha ordin\u00e1ria!<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>Cap\u00edtulo VIII<\/h2>\n<p>Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua interven\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o sobrescrito com estranheza,<br \/>\ne disse que a carta n\u00e3o era para ele; e lia:<\/p>\n<p>\u2013 Ao conde de Quadros, general do ex\u00e9rcito real. Isto que diabo<br \/>\n\u00e9?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 isso mesmo, fidalgo; isso que a\u00ed est\u00e1 vi-o<br \/>\neu com estes olhos escrever el-rei o Sr. D. Miguel, ontem \u00e0 noite,<br \/>\ndas nove para as dez. O Senhor Conde \u00e9 vossa excel\u00eancia mesmo,<br \/>\ne eu sou sargento-mor das Lamelas; l\u00e1 ficou o meu nome no livro e mais<br \/>\no de meu pai, que foi despachado coronel por el-rei.<\/p>\n<p>\u2013O teu pai?! Coronel!&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 como diz.<\/p>\n<p>\u2013 Ora essa!&#8230; coronel! caramba! \u2013 disse, despeitado; parecia-lhe<br \/>\nin\u00edqua a promo\u00e7\u00e3o; mas ocorreram-lhe os velhos caprichos<br \/>\nan\u00e1logos de el-rei; as injusti\u00e7as de algumas patentes superiores<br \/>\ndesde 1828 at\u00e9 \u00e0 conven\u00e7\u00e3o. E abriu a carta com<br \/>\nmoderado entusiasmo. Parecia que a sua raz\u00e3o imergida, restaurada depois<br \/>\nde duas horas bem roncadas, de papo acima, queria duvidar da autenticidade<br \/>\nde um D. Miguel que fazia sargento-mor um pedreiro, e coronel um reles alferes<br \/>\nque passara das mil\u00edcias de Barcelos para infantaria. Achava natural<br \/>\ne plaus\u00edvel em si as charlateiras de general e a coroa de conde; mas<br \/>\nas merc\u00eas feitas aos dois plebeus&#8230; Caramba! \u2013 Uma intermit\u00eancia<br \/>\nde ju\u00edzo. Enfim, abrira a carta e lera para si com uma custosa interpreta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nora aproximando, ora distanciando o papel dos olhos.<\/p>\n<p>A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada, iluminaram-se-lhe<br \/>\nos olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do convencimento. Lia coisas<br \/>\nque lhe evidenciavam um Sr. D. Miguel aut\u00eantico, o autor da carta. Conhecia-lhe<br \/>\na letra. Lembrava-se muito bem; era assim; e ent\u00e3o a assinatura \u2013<br \/>\nMiguel, Rei \u2013 era tal qual. Chegou a um certo per\u00edodo que devia<br \/>\nimpression\u00e1-lo mais pela mudan\u00e7a s\u00fabita que lhe transluziu<br \/>\nno semblante. Depois dobrou vagarosamente a carta.<\/p>\n<p>O Zeferino esperava a confid\u00eancia do conte\u00fado; mas o fidalgo,<br \/>\napesar da nobilita\u00e7\u00e3o do sargento-mor, continuava a consider\u00e1-lo<br \/>\no pedreiro que lhe fizera os canastros e reconstru\u00edra as paredes da<br \/>\ncozinha. N\u00e3o estava assaz b\u00eabedo para confid\u00eancias.<\/p>\n<p>\u2013 Conta l\u00e1 o que te aconteceu, Zeferino. \u2013 E sentando-se,<br \/>\nmeteu o saca-rolhas \u00e0 botija de Holanda.<\/p>\n<p>O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do rei,<br \/>\nas barbas que metiam respeito; pausava com eles os dizeres, dando ao bra\u00e7o<br \/>\ndireito, com a m\u00e3o aberta, um movimento compassado. Repetiu, piorados<br \/>\nna forma, os elogios que o Sr. D. Miguel fizera ao seu amigo Cerveira; que,<br \/>\nquando estava a escrever. perguntou se o conde de Quadros tinha Limos.<\/p>\n<p>O fidalgo sentia muita sede. Misturava de meias a genebra com \u00e1gua<br \/>\na\u00e7ucarada. E ao passo que lhe sorriam as alvoradas do seu mundo fant\u00e1stico,<br \/>\ne as trevas da raz\u00e3o se desteciam, crescia- lhe o interesse na narrativa<br \/>\ndo pedreiro. Reperguntava pormenores j\u00e1 respondidos. N\u00e3o havia<br \/>\nj\u00e1 no seu esp\u00edrito passageira sombra de d\u00favida. Era o<br \/>\nseu amigo D. Miguel quem estava em S\u00e3o Gens de Calvos; e, se ele fizera<br \/>\ncoronel o plebeu das Lamelas e sargento-mor o pedreiro, foi decerto com a<br \/>\ninten\u00e7\u00e3o de o obsequiar a ele, para lhe mostrar com que prazer<br \/>\nrecebera a sua carta.<\/p>\n<p>\u2013 Sua Majestade disse-me que estimava l\u00e1 ver-me com outra carta<br \/>\ndo Senhor Conde, enquanto n\u00e3o ia l\u00e1 abra\u00e7\u00e1-lo<br \/>\n\u2013 esclareceu Zeferino.<\/p>\n<p>\u2013 Tens de l\u00e1 ir amanh\u00e3. Aparece cedo.<\/p>\n<p>\u2013 Pronto, senhor.<\/p>\n<p>\u2013 Mas, se vais para casa, passa pelos Pombais e d\u00e1 parte ao<br \/>\npadre Rocha que preciso falar-lhe hoje \u00e0 noite ou amanh\u00e3 cedo.<\/p>\n<p>O padre Rocha preferiu vir de manh\u00e3, antes dos transportes c\u00edvicos<br \/>\ndo tenentecoronel. Repugnava-lhe o \u00e9brio e professava uma sincera compaix\u00e3o<br \/>\npelo homem.<\/p>\n<p>Pouco depois do Sol nado, o capel\u00e3o de D. Andresa estava em Quadros<br \/>\ncom um grande interesse. Queda salvar o vizinho de uma ratoeira armada ao<br \/>\nseu dinheiro, ou convencer-se de que realmente o pr\u00edncipe proscrito<br \/>\nestava no concelho da P\u00f3voa de Lanhoso.<\/p>\n<p>Chegara um pouco tarde. O Cerveira Lobo j\u00e1 tinha matado o bicho copiosamente,<br \/>\num bicho muito antigo, invulner\u00e1vel, que n\u00e3o se afogava em pouca<br \/>\ngenebra.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, padre Rocha! C\u00e1 est\u00e1<br \/>\no homem! \u2013 exclamou o fidalgo.<\/p>\n<p>\u2013 Mau! \u2013 disse consigo o padre, quando lhe apanhou em cheio as<br \/>\ninala\u00e7\u00f5es alco\u00f3licas do bafo. \u2013 Ent\u00e3o \u00e9<br \/>\ncerto, Sr. Tenente-Coronel?<\/p>\n<p>\u2013 Se me quer chamar o que eu sou, amigo padre Rocha, chame-me general<br \/>\ne conde. Veja.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! sim? Muitos parab\u00e9ns, Senhor Conde, muitos parab\u00e9ns!<br \/>\nQuanto folgo! \u2013 e lia o sobrescrito.<\/p>\n<p>\u2013 Pode abrir e leia alto!<\/p>\n<p>\u2013 Muito boa forma de letra, sim senhor&#8230; \u00c9 do pr\u00f3prio<br \/>\npunho do Sr. D. Miguel?<\/p>\n<p>\u2013 Leia e ver\u00e1. \u00c9 dele mesmo. Conhe\u00e7o a assinatura<br \/>\nmuito bem. Tal qual, sem tirar nem p\u00f4r. Vai um copito? \u2013 perguntava<br \/>\ncom a botija inclinada sobre o c\u00e1lice.<\/p>\n<p>\u2013 Muito obrigado a V. Ex.a Tenho de dizer a missa \u00e0 Sr\u00aa<br \/>\nD. Andresa \u00e0s dez horas.<\/p>\n<p>\u2013 Leia l\u00e1 ent\u00e3o. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se<br \/>\nmuito sofrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta escrita<br \/>\npara a\u00ed \u00e0-toa, Fiem? Bem diz a Na\u00e7\u00e3o que ele andava<br \/>\na estudar l\u00e1 por fora.<\/p>\n<p>\u2013 Se d\u00e1 licen\u00e7a, leio \u2013 interrompeu o padre com<br \/>\nimpaci\u00eancia curiosa.<\/p>\n<p>\u2013 V\u00e1 l\u00e1! \u2013 e puxou a cadeira e a botija para junto<br \/>\ndo capel\u00e3o.<\/p>\n<p>Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e general<br \/>\ndos meus ex\u00e9rcitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. N\u00e3o podeis<br \/>\nimaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o li escrito<br \/>\nno final da vossa mais que todas precios\u00edssima carta.<\/p>\n<p>\u2013 Fiem? \u2013 interrompeu o Cerveira.<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem \u2013 e prosseguiu lendo:<\/p>\n<p>Muitas vezes me lembrou no desterro de onze anos o vosso nome, porque n\u00e3o<br \/>\npodia esquecer o de um amigo que t\u00e3o de perto conheci e tanto me acompanhou<br \/>\nnas alegrias da minha mocidade.<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o lhe disse, padre, que o rei e mais eu t\u00ednhamos<br \/>\nfeito p\u00e2ndegas rasgadas quando \u00e9ramos rapazes?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, senhor, V. Ex\u00aa tinha-mo dito.<\/p>\n<p>\u2013 Ora a\u00ed tem, eu nunca minto. Ah! que bambochatas! \u2013 e<br \/>\nrecordava-se com os olhos num espasmo entre a saudade e as iniciativas da<br \/>\nborracheira.<\/p>\n<p>\u2013 Continuo, se V. Ex\u00aa permite.<\/p>\n<p>\u2013 Ande l\u00e1; Quem te viu e quem te v\u00ea, Cerveira Lobo! \u2013<br \/>\ndisse com tristeza, muito abatido.<\/p>\n<p>Padre Rocha encarava-o com piedade, sentia \u00e2nsias de abra\u00e7\u00e1-lo,<br \/>\ne dizer-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Ande l\u00e1. Leia, que o melhor est\u00e1 para baixo.<\/p>\n<p>Logo que cheguei a Portugal chamado por amigos de primeira ordem e fui para<br \/>\naqui enviado, perguntei se ainda \u00e9reis vivo. Alegraram-me com a resposta;<br \/>\nmas delicadamente me obrigaram a n\u00e3o escrever a algu\u00e9m, enquanto<br \/>\no triunfo infal\u00edvel da minha justi\u00e7a dependesse de certas negocia\u00e7\u00f5es,<br \/>\npendentes entre as na\u00e7\u00f5es da Europa e o meu ministro em Inglaterra,<br \/>\no Ribeiro Saraiva, que muito bem deveis conhecer de nome. Tenho eu sido violentamente<br \/>\nacusado pelos meus pr\u00f3prios amigos de ter sacrificado os meus direitos<br \/>\naos meus caprichos, submeti-me \u00e0s delibera\u00e7\u00f5es da Junta<br \/>\nde Lisboa e por isso vos n\u00e3o escrevi para vos abra\u00e7ar e chamar<br \/>\npara meu lado.<\/p>\n<p>O Cerveira come\u00e7ou a solu\u00e7ar com a cara coberta de l\u00e1grimas,<br \/>\nque destacavam no rubor da epiderme.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o que \u00e9 isso? S\u00e3o l\u00e1grimas de alegria?<br \/>\n\u2013 perguntou o padre. \u2013 Se s\u00e3o, deixeas correr.<\/p>\n<p>\u2013 Qual alegria! Estou velho.., j\u00e1 n\u00e3o posso fazer nada<br \/>\na favor de el-rei. Este pulso.. \u2013 e retesava o bra\u00e7o. O padre<br \/>\nassustava-se. \u2013 Ora leia para baixo, que est\u00e1 a\u00ed uma passagem<br \/>\nmuito bonita.<\/p>\n<p>Nunca me esqueceu nem jamais esquecer\u00e1 que \u00e9reis o tenente-coronel<br \/>\ndos meus queridos drag\u00f5es de Chaves; que fostes v\u00f3s o comandante<br \/>\nda carga solene que sofreram as tropas liberais numa das primeiras surtidas<br \/>\ndo Porto; e que fostes trai\u00e7oeiramente arrastado pelo infame general<br \/>\nUrbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram acabar desonrosamente<br \/>\nna Chamusca os \u00faltimos esquadr\u00f5es do regimento de Chaves. Mas<br \/>\nv\u00f3s, honrado Cerveira, ficastes ileso da ignominia geral, porque rejeitastes<br \/>\no perd\u00e3o e dissestes que \u00e9reis um prisioneiro de guerra, e aceit\u00e1veis<br \/>\nas consequ\u00eancias da vossa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Foi assim! \u2013 exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. \u2013<br \/>\nO Saldanha era meu capit\u00e3o quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me<br \/>\nchamar \u00e0 sua presen\u00e7a; que me fizesse liberal, e me entregavam<br \/>\na minha espada; e eu (batia duramente no peito com as m\u00e3os ambas),<br \/>\neu, padre, eu, aqui onde me v\u00ea, disse-lhe que levasse o Diabo a espada<br \/>\npara as profundas dos Infernos; que a minha espada tinha-me dado o Sr. D.<br \/>\nMiguel I, e que ele me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram estarrecidos;<br \/>\ne o patife do Saldanha, que tinha sido um realista de todos os diabos, quando<br \/>\nera o gajo da Isabel Maria, chamou-me est\u00fapido. E eu, vai n\u00e3o<br \/>\nvai, estive a mand\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>Disse o resto. O padre riu-se, e pediu-lhe licen\u00e7a para continuar<br \/>\na leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa.<\/p>\n<p>\u2013 Ande l\u00e1.<\/p>\n<p>Desgra\u00e7adamente o vosso hero\u00edsmo e amor \u00e0 minha causa<br \/>\nleg\u00edtima n\u00e3o foi muito imitado. Eu perdi a coroa, mas a perda<br \/>\nmaior foi a de amigos como v\u00f3s, bem poucos, mas que valem um remo.<\/p>\n<p>\u2013 Torne a ler esse bocado que \u00e9 coisa muito profunda, \u00f3<br \/>\npadre Rocha.<\/p>\n<p>Fez-lhe a vontade. O Rocha tamb\u00e9m admirava, e de si consigo dizia<br \/>\nque o rei tinha bom palavreado sentimental, ou que o impostor n\u00e3o era<br \/>\nqualquer peda\u00e7o-de-asno. Continuou:<\/p>\n<p>Vou responder com repugn\u00e2ncia e tristeza \u00e0s \u00faltimas linhas<br \/>\nda vossa carta em que me ofereceis liberalmente recursos. Eu vivo h\u00e1<br \/>\ndoze anos dos benef\u00edcios dos meus vassalos: seria loucura fingir que<br \/>\nn\u00e3o preciso que mos prestem hoje. A demora que tem havido no meu aparecimento<br \/>\naos meus amigos e partid\u00e1rios n\u00e3o ma explicam, mas suponho que<br \/>\n\u00e9 falta de dinheiro. Sei que minha irm\u00e3, a Sr\u00aa Infanta<br \/>\nD. Isabel Maria, deu cinquenta contos para come\u00e7ar o movimento, e esse<br \/>\ndinheiro est\u00e1 em poder de um Dr. C\u00e2ndido Rodrigues \u00c1lvares<br \/>\nde Figueiredo e Lima, lente de Coimbra. Mas o que s\u00e3o cinquenta contos<br \/>\npara sustentar uma insurrei\u00e7\u00e3o em que h\u00e1-de haver necessidade<br \/>\nde sustentar, de vestir e de armar cem mil homens! V\u00f3s, meu, honrado<br \/>\namigo, que sois militar, compreendeis que nada se pode fazer sem que os poderosos,<br \/>\nos opulentos, cooperem com a minha boa mana a Sr\u00aa D. Isabel Maria.<\/p>\n<p>Dizem-me que tenho amigos muito ricos que h\u00e3o-de aparecer a tempo;<br \/>\nmas eu necessito de preparar a ocasi\u00e3o em que eles prometem aparecer.<br \/>\n\u00c0 primeira voz tenho a certeza de levantar 12000 homens num pequeno<br \/>\nc\u00edrculo de l\u00e9guas; mas n\u00e3o me atrevo a faz\u00ea-lo,<br \/>\na tent\u00e1-lo, sem me ver bastante provido de recursos, para n\u00e3o<br \/>\nrecear o pior dos inimigos que \u00e9 a necessidade. Portanto, muito amado<br \/>\nconde, meu valoroso general, aceito o vosso empr\u00e9stimo; e tomarei da<br \/>\nvossa fortuna tr\u00eas contos de r\u00e9is, que vos recompensarei com<br \/>\no menos, que \u00e9 o dinheiro, e com o mais, que \u00e9 a minha eterna<br \/>\ngratid\u00e3o.<\/p>\n<p>Deus Nosso Senhor vos tenha em sua santa guarda. De S\u00e3o Gens de Calvos,<br \/>\naos 12 de Maio de 1845.<\/p>\n<p>Miguel, Rei.<\/p>\n<p>Esta carta n\u00e3o confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha.<br \/>\nQuando o Cerveira lhe perguntou: \u2013 que tal? o que dizia ele? \u2013<br \/>\ndobrava a carta vagarosamente, encolhia os ombros e respondia:<\/p>\n<p>\u2013 Enfim&#8230; n\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sabe o qu\u00ea? L\u00e1 que eu lhe levo o dinheiro,<br \/>\nisso levo. Pudera n\u00e3o! Tudo o que eu tiver at\u00e9 \u00e0 camisa<br \/>\ndo como. Ou se \u00e9 amigo ou n\u00e3o se \u00e9 amigo, hem? Que diz<br \/>\na isto, padre?<\/p>\n<p>\u2013 Se quem escreveu esta carta \u00e9 o Sr. D. Miguel, faz V. Ex\u00aa<br \/>\no que deve, porque faz o que pode; mas seria bom ter a certeza&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 De que \u00e9 o rei que me escreve?<\/p>\n<p>\u2013 Sim.. a prud\u00eancia&#8230; H\u00e1 muito maroto por esse mundo.<\/p>\n<p>\u2013 O padre est\u00e1 ent\u00e3o a ler! Cuida que eu lhe dava o meu<br \/>\ndinheiro sem o ver? Heide v\u00ea-lo com estes, e ouvi-lo falar primeiro.<br \/>\nMas deixe-se de asneiras, padre Rocha! \u00c9 t\u00e3o certo Deus estar<br \/>\nno C\u00e9u como ele estar em Calvos.<\/p>\n<p>\u2013 Bem! \u2013 atalhou o Rocha apressado, erguendo-se \u2013 quando<br \/>\nvai V. Ex\u00aa a Calvos?<\/p>\n<p>\u2013 Hoje \u00e9 ter\u00e7a-feira; a roupa chega de Braga na sexta,<br \/>\ne parto no s\u00e1bado. Ora agora, vou l\u00e1 mandar o Zeferino a dizer-lhe<br \/>\nque vou beijar-lhe a m\u00e3o e levar-me os tr\u00eas contos. Se faz favor,<br \/>\nescreva-me a\u00ed duas linhas, s\u00f3 duas linhas, a dizer isto.<\/p>\n<p>O padre escreveu, e saiu muito preocupado. Celebrou a missa a D. Andresa,<br \/>\ne pediu-lhe licen\u00e7a para se ausentar por tr\u00eas dias. Relatou \u00e0<br \/>\nfidalga as suas desconfian\u00e7as, o dever que se impunha de salvar o pobre<br \/>\nidiota de alguma cilada \u00e0 sua imbecilidade, e talvez de um roubo \u00e0<br \/>\nm\u00e3o armada.<\/p>\n<p>\u2013 Mas quem sabe se \u00e9 na verdade o D. Miguel que lhe pede o dinheiro?<br \/>\n\u2013 reflectia D. Andresa, discreta e sensibilizada.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 o que eu vou saber.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>Cap\u00edtulo IX<\/h2>\n<p>Naquele tempo (1845), no Porto, Rua de S. Sebasti\u00e3o, n\u00ba 1, morava<br \/>\no padre Lu\u00eds de Sousa Couto3, pale\u00f3grado da Miseric\u00f3rdia.<br \/>\nRepresentava sessenta e tantos anos, uma nutri\u00e7\u00e3o doentia, pesado,<br \/>\ncom os p\u00e9s t\u00fargidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial.<br \/>\nTinha um sorriso lhano, conversava morosamente pausado com admir\u00e1vel<br \/>\ncorrec\u00e7\u00e3o; deixava-se interromper sem impaci\u00eancias e n\u00e3o<br \/>\ninterrompia nunca os desatinos, ma\u00e7adas, e at\u00e9 as tolices de<br \/>\nquem quer que fosse. E ouvia muitas. Este padre obscurecido na sua paleografia<br \/>\nque lhe dava oito tost\u00f5es por dia, naquela asquerosa alfurja chamada<br \/>\nRua de S. Sebasti\u00e3o, com o aljube \u00e0 esquerda e as imund\u00edcies<br \/>\nda Pena Ventosa \u00e0 direita, era o impulsor, a alma, o c\u00e9rebro<br \/>\ndo gigante miguelista nas prov\u00edncias do Norte. A Junta de Lisboa consultava-o.<br \/>\nRibeiro Saraiva enviava-lhe de Londres os elementos para os seus c\u00e1lculos,<br \/>\npedia-lhe conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que<br \/>\no pr\u00edncipe proscrito o elegera bispo ou patriarca de Lisboa \u2013<br \/>\nn\u00e3o me recordo qual era a mitra.<\/p>\n<p>A sua presen\u00e7a vener\u00e1vel impunha sem artif\u00edcio; uma<br \/>\ngrande bondade obsequiadora; n\u00e3o proferia palavra ofensiva dos seus<br \/>\nadvers\u00e1rios pol\u00edticos; n\u00e3o aceitava donativos dos seus<br \/>\ncorreligion\u00e1rios; vivia com severa parcim\u00f3nia dos seus 800 r\u00e9is<br \/>\nhavidos da Santa Casa, e morreria de pen\u00faria antes de pedir ao governo<br \/>\nliberal a paga dos seus lavores ilustrados, correct\u00edssimos de int\u00e9rprete<br \/>\nde velhos e quase indecifr\u00e1veis c\u00f3dices.<\/p>\n<p>Ao entardecer do dia 15 de Maio de 1845, o padre Lu\u00eds de Sousa escrevia<br \/>\na sua correspond\u00eancia para Londres. Anunciou-se o padre Bernardo Rocha,<br \/>\nperguntando a hora menos ocupada para poder dar duas palavras ao reverendo<br \/>\ndono da casa. Foi logo recebido. Que todas as horas eram livres para receber<br \/>\nos amigos.<\/p>\n<p>Padre Rocha principiou alegando que os seus sentimentos pol\u00edticos<br \/>\neram bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro realista,<br \/>\ne que facilmente daria o sossego da sua vida em sacrif\u00edcio das suas<br \/>\nconvic\u00e7\u00f5es. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta<br \/>\ne a exigir que lhe respondessem a verdade.<\/p>\n<p>\u2013 Se a pergunta for feita a mim, n\u00e3o poderei responder de outra<br \/>\nmaneira. Que quer saber, padre Rocha?<\/p>\n<p>\u2013 Se o Sr. D. Miguel est\u00e1 em Portugal.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, senhor. H\u00e1 15 dias estava em It\u00e1lia. \u2013<br \/>\nE abrindo uma gaveta, extraiu de uma pasta muito ordin\u00e1ria de carneira<br \/>\nsurr1\u00e6ada com atilhos um papel que mostrou. \u2013 Aqui est\u00e1<br \/>\numa carta assinada pelo Sr. D. Miguel de Bragan\u00e7a, datada no 1\u00ba<br \/>\nde Maio. Quanto a isto, est\u00e1 satisfeito. Que mais quer saber?<\/p>\n<p>\u2013 Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta.<\/p>\n<p>\u2013 Bem sei \u2013 preveniu o padre Lu\u00eds. \u2013 Essa mesma<br \/>\npergunta me fez h\u00e1 dias o Bezerra de Barrimau, seu vizinho, e mais<br \/>\nde um cavalheiro de Braga, o Barata, o Manuel de Magalh\u00e3es, etc. Diz-se<br \/>\npor l\u00e1 que o Sr. D. Miguel est\u00e1 no Alto Minho, no concelho da<br \/>\nP\u00f3voa de Lanhoso. Propalam-no certos padres, n\u00e3o sei com que<br \/>\nalcance. A estupidez tem intuitos impenetr\u00e1veis. N\u00e3o percebo<br \/>\npara que fim espalham t\u00e3o absurdo boato, se n\u00e3o \u00e9 para<br \/>\nalarmar o governo ou lograr incautos.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 isso mesmo: lograr incautos \u2013 interrompeu o Rocha,<br \/>\ne contou o que se estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta<br \/>\ndo suposto D. Miguel e o empr\u00e9stimo dos tr\u00eas contos, que o fidalgo<br \/>\ntencionava levar no pr\u00f3ximo s\u00e1bado ao impostor.<\/p>\n<p>\u2013 Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e o opr\u00f3brio ao<br \/>\npartido legitimista \u2013 alvitrou o pale\u00f3grafo.<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o o podia fazer sem a certeza de n\u00e3o praticar<br \/>\nalguma imprud\u00eancia. Por isso vim consultar o reverendo Lu\u00eds de<br \/>\nSousa. e daqui irei para Braga entender-me com o governador civil.<\/p>\n<p>3O autor teve rela\u00e7\u00f5es muito saudosas com este venerando sacerdote,<br \/>\nque em 1851 residia num antigo<\/p>\n<p>casar\u00e3o da Rua de Santo Ant\u00f3nio, que depois se transformou<br \/>\nem casa de banhos. Por esse tempo, se<\/p>\n<p>congregavam ali os homens eminentes, por intelig\u00eancia e haveres, do<br \/>\npartido realista. Neste ano, padre<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Sousa passava os seus dias rodeado de pergaminhos, imobilizado<br \/>\nnuma poltrona, gemendo as<\/p>\n<p>dores da gota. Morreu muito pobre e muito desamparado.<\/p>\n<p>\u2013 Faz bem. N\u00e3o lho aconselharia, se pud\u00e9ssemos dar rem\u00e9dio<br \/>\nmais suave \u00e0 doen\u00e7a desse miser\u00e1vel impostor, de quem<br \/>\neu sei mais algumas trafic\u00e2ncias. Constou-me h\u00e1 poucas horas,<br \/>\nque umas beatas de Braga, abastadas, e de apelido Botelhas, tinham enviado<br \/>\numa importante quantia, por interm\u00e9dio de um certo abade, a um D. Miguel<br \/>\nque est\u00e1 escondido em Portugal. Eu podia dar aviso desta ladroeira;<br \/>\nmas tenho compaix\u00e3o do abade: n\u00e3o sei se ele \u00e9 ladr\u00e3o<br \/>\nou tolo. A segunda hip\u00f3tese \u00e9 que o salva de ser processado.<br \/>\nPortanto, amigo padre Rocha, faz um bom servi\u00e7o \u00e0 humanidade<br \/>\ne ao partido, solicitando o castigo desse homem que conspurca o nome de el-rei<br \/>\ne a honra do partido. Agora, visto que veio, vou dizer-lhe o que h\u00e1.<br \/>\nSaraiva trata de contrair um empr\u00e9stimo e de negociar generais, que<br \/>\ninfelizmente precisamos. O P\u00f3voas est\u00e1 decr\u00e9pito e quase<br \/>\nmorto para a nossa f\u00e9 desde Souto Redondo. As patentes superiores,<br \/>\npela maior parte, est\u00e3o em pessoas que regulam pela intelig\u00eancia<br \/>\ndo seu amigo tenente-coronel de Quadros. H\u00e1 por a\u00ed outros que<br \/>\naprenderam a t\u00e1ctica da covardia desde o cerco do Porto. Mal podemos<br \/>\ncontar com eles, quando os vemos intervir nas fac\u00e7\u00f5es dos liberais<br \/>\na fim de abrirem brecha na mesa do or\u00e7amento com as espadas postas<br \/>\nem almoeda. No ano pr\u00f3ximo futuro, o partido legitimista deve dar sinais<br \/>\nde vida; se esses sinais h\u00e3o-de ser como os do cad\u00e1ver galvanizado<br \/>\nque se convulsiona e recai na sua podrid\u00e3o, isso n\u00e3o sei. O<br \/>\nSr. D. Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre Rocha, que<br \/>\nel-rei est\u00e1 em Inglaterra, prepare-se com a sua energia para nos dar<br \/>\no muito que esperamos da sua influ\u00eancia e do seu afecto \u00e0 legitimidade.<br \/>\nE adeus, que sai depois de amanh\u00e3 de Lisboa o paquete: estou escrevendo<br \/>\nao nosso Ribeiro Saraiva.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio-geral, governador civil interino de Braga na aus\u00eancia<br \/>\ndo conselheiro Jo\u00e3o Elias \u2013 uma vitima burlesca de tro\u00e7a<br \/>\ndos setembristas \u2013 era o Marques Murta, uma gigantesca actividade fren\u00e9tica<br \/>\nnum corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com a bossa da perspic\u00e1cia<br \/>\npol\u00edtica muito saliente. De resto, servi\u00e7al, agrad\u00e1vel,<br \/>\ncom uns requintes de delicadeza de bom tom.<\/p>\n<p>O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos sucedidos<br \/>\ne a necessidade de n\u00e3o deferir a pris\u00e3o do impostor at\u00e9<br \/>\nal\u00e9m do dia seguinte, porque no s\u00e1bado safa de Quadros o Cerveira<br \/>\nLobo com os tr\u00eas contos.<\/p>\n<p>\u2013 Talvez fosse mais curial e exemplar prend\u00ea-lo depois, e entrar<br \/>\ncom os tr\u00eas contos no cofre do distrito, visto que o Cerveira os quer<br \/>\naplicar \u00e0s necessidades da monarquia \u2013 opinou o secret\u00e1rio<br \/>\nsorridente.<\/p>\n<p>O padre n\u00e3o percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome<br \/>\nde D. Miguel I ou de D. Maria II.<\/p>\n<p>\u2013 V\u00e1 descansado \u2013 emendou a autoridade com o seu sorriso<br \/>\ninteligente, habitual. \u2013 Se o homem estiver em Calvos, amanh\u00e3<br \/>\na esta hora h\u00e1-de estar na cadeia de Braga.<\/p>\n<p>Pela meia-noite deste dia, saiu do quartel do P\u00f3pulo uma escolta de<br \/>\ninfantaria 8, que chegou a S\u00e3o Gens ao apontar da manh\u00e3. Era<br \/>\nguiada por um pr\u00e1tico sabedor das avenidas da resid\u00eancia abacial,<br \/>\num s\u00f3cio convertido e aproveitado da quadrilha de ladr\u00f5es que<br \/>\ndevastara o concelho da P\u00f3voa em 34, e saboreava agora na policia secreta<br \/>\numa qualquer prebenda honestamente ganha. Ele disp\u00f4s a soldadesca \u00e0<br \/>\nvolta da casa, debaixo das janelas, rente ao muro do passal, e mostrou ao<br \/>\nsargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do arvoredo<br \/>\nse esvoa\u00e7ou piando, alvorotada pelo estrondo das coronhadas \u00e0<br \/>\nporta principal, e uns berros formid\u00e1veis:<\/p>\n<p>\u2013 Abra! abra! sen\u00e3o vai dentro a porta!<\/p>\n<p>O abade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um cord\u00e3o<br \/>\nde soldados, a olharem para as janelas, e com as baionetas nas espingardas.<br \/>\nCorreu descal\u00e7o para a sala cont\u00edgua \u00e0 alcova do h\u00f3spede,<br \/>\ne encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as cal\u00e7as, quase<br \/>\n\u00e0s escuras, com a respira\u00e7\u00e3o ansiada.<\/p>\n<p>\u2013 Que \u00e9? \u2013 regougou o homem numa estrangula\u00e7\u00e3o<br \/>\nde susto, muito ofegante.<\/p>\n<p>\u2013 Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder Vossa Majestade<br \/>\nna adega antes que arrombem a porta.<\/p>\n<p>As coronhadas e as intima\u00e7\u00f5es amea\u00e7adoras repetiam-se.<br \/>\nUma algazarra de Inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte.<br \/>\nA Senhorinha, muito esgani\u00e7ada, expectorava agudos ais na cozinha;<br \/>\nn\u00e3o acertava a enfiar o saiote pelo direito. Os c\u00e3es de Castro<br \/>\nLaboreiro, muito ferozes, arremetiam \u00e0s portas com a dentu\u00e7a<br \/>\nrefilada. Porcos grunhiam dando bufidos espavoridos. A mo\u00e7a dos recados<br \/>\nchamava a sua M\u00e3e Sant\u00edssima e a alma da tia Jacinta do Reimundles,<br \/>\nque estava inteira na igreja. Dois criados da lavoura, estranhos ao segredo<br \/>\ndo real h\u00f3spede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha<br \/>\nprender; enterraram-se nos fenos do palheiro, prometendo esmolas de quartinho<br \/>\nao Bom Jesus do Monte e ao m\u00e1rtile S\u00e3o Trocatles, se os livrassem<br \/>\ndaquela. Entretanto, o outro, de chinelos de tapete, guiado pela m\u00e3o<br \/>\ndo abade at\u00e9 \u00e0 cozinha, passou daqui para a adega, que a criada<br \/>\nabriu com muita subtileza. Havia l\u00e1 dentro um recanto encoberto por<br \/>\nduas pipas vazias, postas ao alto; pela convexidade das aduelas e entre as<br \/>\npipas e a parede, abria-se um v\u00e1cuo onde cabia \u00e0 vontade um<br \/>\nhomem. O abade muito aflito:<\/p>\n<p>\u2013 Suba depressa Vossa Majestade que eu ajudo por cima das pipas e deixe-se<br \/>\nescorregar para o lado de l\u00e1. Cosa-se bem com a parede; se vierem revistar,<br \/>\nn\u00e3o se bula, n\u00e3o se bula, senhor!<\/p>\n<p>O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela parede,<br \/>\nas teias de aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam, enrodilhavam-se-lhe<br \/>\nviscosas ao nariz e aos bei\u00e7os. Ele sacudia-as, cuspinhava com nojo,<br \/>\nqueria acocorar-se, mas n\u00e3o cabia. Ouvia rojos de ratazanas por debaixo<br \/>\ndas pipas, e l\u00e1 fora o rodar das portas que se escancaravam com estridor.<\/p>\n<p>Em cima, o sargento e tr\u00eas soldados entraram e examinaram vagarosamente<br \/>\nos quartos e recantos.<\/p>\n<p>\u2013 Senhor Abade, ponha para aqui o rei \u2013 disse o sargento, um<br \/>\nfarsola, o P\u00edlula do 8 \u2013 queremos o rei e algumas botijas de<br \/>\ngenebra. A garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro<br \/>\no Sr. D. Miguel, que lhe queremos fazer uma sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u2013 O senhor est\u00e1 a mangar! \u2013 disse o abade afinando pelo<br \/>\ntom da chala\u00e7a. \u2013 Genebra, se a querem, dou-lha; mas a respeito<br \/>\nde rei, s\u00f3 lhe posso dar o de copas, que tenho ali um.<\/p>\n<p>\u2013 Pois sim, traga o rei de copas, e n\u00e3o ser\u00e1 mau que<br \/>\nponha em guarda tamb\u00e9m o \u00e1s do mesmo naipe.<\/p>\n<p>\u2013 D\u00e1-se-lhe j\u00e1 duas biqueiras neste padreca, \u00f3<br \/>\nmeu sargento! \u2013 prop\u00f4s o 24.<\/p>\n<p>\u2013 Deixa ver se a coisa se arranja sem biqueiras. Ande l\u00e1, Senhor<br \/>\nAbade, vamos \u00e0 genebra, \u00e0 adega. Mexa-se.<\/p>\n<p>\u2013 A genebra est\u00e1 c\u00e1 em cima \u2013 observou o abade<br \/>\num pouco enfiado.<\/p>\n<p>\u2013 Mande-a ir para baixo, que \u00e9 mais fresco. Mexa-se, mexa-se<br \/>\nque temos pressa.<\/p>\n<p>Abra a porta da adega.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, senhor, abro tudo o que vossemec\u00ea quiser \u2013resoluto,<br \/>\ncom um ar ir\u00f3nico de condescend\u00eancia, sem receio. \u2013 Os<br \/>\nsenhores t\u00eam coisas! Onde diabo procuram o Sr. D. Miguel! \u2013 E<br \/>\ndescia, pedindo a chave \u00e0 Senhorinha.<\/p>\n<p>A criada demorava-se a procur\u00e1-la, a fingir; e o sargento:<\/p>\n<p>\u2013 Se se demora, \u00f3 santinha, vai dentro a porta! \u00d3 24,<br \/>\nvai buscar um machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 preciso, camarada \u2013 acudiu o abade. \u2013<br \/>\nAqui est\u00e1 a chave. Eu abro. Entrem, procurem \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>O sargento parou \u00e0 porta a familiarizar-se com a escassa luz da adega:<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 padre! isto aqui \u00e9 que \u00e9 a sala do trono?<br \/>\nou \u00e9 o subterr\u00e2neo da inquisi\u00e7\u00e3o? Mande l\u00e1<br \/>\nacender uma candeia, se n\u00e3o tem um archote.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 mulher, traz dai uma placa acesa\u2013 disse o abade Marcos,<br \/>\ncontrafazendo o seu terror.<\/p>\n<p>E o homem, l\u00e1 dentro atr\u00e1s das pipas, tiritava como Heliog\u00e1balo<br \/>\nna latrina, seu derradeiro ref\u00fagio.<\/p>\n<p>A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro morti\u00e7o de sebo<br \/>\ncom morr\u00e3o que parecia condensar mais as trevas da l\u00f4brega caverna.<\/p>\n<p>\u2013 Arranja a\u00ed um fachoqueiro de palha, \u00f3 14! Que raio<br \/>\nde placa voc\u00ea c\u00e1 traz, mulher!<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 enquanto n\u00e3o pega bem a torcida \u2013 explicou<br \/>\na criada, caminhando atr\u00e1s do padre para o lado oposto ao esconderijo.<br \/>\nCom deito, a claridade difundia-se, mas t\u00e3o devagar que ningu\u00e9m<br \/>\ndiria a velocidade que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados<br \/>\nbatiam com os n\u00f3s dos dedos nos tampos das pipas, que toavam o som<br \/>\nabafado de cheias.<\/p>\n<p>E o 14:<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 meu sargento, o tanso do abade casca-lhe rijo no verdasco!<br \/>\nEst\u00e3o cheiinhas! \u2013 E apontando para as duas pipas vazias do canto,<br \/>\no sargento perguntava se o vinho daquelas j\u00e1 lhe tinha ca\u00eddo<br \/>\nna sacristia \u2013 e dava piparotes na barriga do padre.<\/p>\n<p>O abade tinha uns sorrisos p\u00e1lidos, comprometedores como uma den\u00fancia.<br \/>\nO 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atr\u00e1s das<br \/>\npipas.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1-de ser ratos \u2013 conjecturou o abade, tr\u00e9mulo,<br \/>\nengasgado.<\/p>\n<p>\u2013 Palpa com a baioneta por tr\u00e1s das pipas, \u00f3 24! \u2013<br \/>\ndisse o sargento.<\/p>\n<p>Assim que o a\u00e7o da baioneta raspou na parede, a Senhorinha come\u00e7ou<br \/>\na dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos.<\/p>\n<p>\u2013 Que diabo tem a velha?! \u2013 perguntou o P\u00edlula. D\u00e3o-lhe<br \/>\nestupores, bem?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 flato, costuma-lhe a dar \u2013 elucidou o abade. O 24<br \/>\nvoltara-se a ver a velha escabujar, e retirara a baioneta de tr\u00e1s idas<br \/>\npipas. O abade teve um momento de esperan\u00e7a, cuidando que o exame estava<br \/>\nfeito:<\/p>\n<p>\u2013 Tem visto, Senhor Sargento? Aqui n\u00e3o h\u00e1 nada. Os senhores<br \/>\nvieram enganados a minha casa. \u2013 E caminhou para a porta com a luz.<\/p>\n<p>\u2013 Espere a\u00ed, seu padre! Anda-me com a baioneta, 24. Escarafuncha-me<br \/>\nesses ratos.<\/p>\n<p>O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as baionetas resvalaram<br \/>\npor corpo que lhes abafava os tinidos met\u00e1licos das pontuadas, ouviu-se<br \/>\num grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E nisto apareceu uma<br \/>\ncabe\u00e7a com enormes barbas sobre um dos tampos.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! \u2013 bradou o P\u00edlula \u2013 muito bem aparecido nesta<br \/>\nfun\u00e7\u00e3o, Sr. D. Miguel I!<\/p>\n<p>Suba para cima desse trono e d\u00ea l\u00e1 de cima um bocado de cavaco<br \/>\n\u00e0s tropas! Mas o melhor \u00e9 descer c\u00e1 para baixo, Real<br \/>\nSenhor!<\/p>\n<p>O 24, muito espantado, a olhar para a cabe\u00e7a do homem:<\/p>\n<p>\u2013 Parece o padre eterno, \u00f3 meu sargento!<\/p>\n<p>\u2013 Com quem ele se parece \u00e9 com o Remexido do Algarve \u2013<br \/>\nafirmava o 14.<\/p>\n<p>\u2013 Des\u00e7a da\u00ed que ningu\u00e9m lhe faz mal, homem. Est\u00e1<br \/>\npreso \u00e0 ordem do governador civil \u2013 concluiu o sargento com seriedade<br \/>\nimponente.<\/p>\n<p>\u2013 Este senhor?&#8230; n\u00e3o&#8230; \u2013 disse o abade com as m\u00e3os<br \/>\npostas4.<\/p>\n<p>4S\u00e3o as textuais palavras e a atitude do padre, significativas da<br \/>\ncren\u00e7a entranhada na realeza do preso, e<\/p>\n<p>da sua paix\u00e3o naquele lance. Parece que intentava mover \u00e0 piedade<br \/>\na escolta, increpando-a pela<\/p>\n<p>profana\u00e7\u00e3o de p\u00f4r m\u00e3os no rei leg\u00edtimo.<br \/>\n(Informa\u00e7\u00e3o de Ferreira de Andrade.)<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o seja asno! \u2013 volveu o sargento. Este homem n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 D. Miguel. \u00c9 um falante que o est\u00e1 aqui a comer a voc\u00ea<br \/>\ne mais aos patolas tia sua laia. V\u00e1-lhe buscar a roupa, sen\u00e3o<br \/>\nele entra na escolta em mangas de camisa.<\/p>\n<p>\u2013 D\u00ea licen\u00e7a que este senhor se v\u00e1 vestir ao seu<br \/>\nquarto \u2013 suplicou o abade.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, que se arranje com guardas \u00e0 vista. \u2013 E acompanhou-os<br \/>\n\u00e0 saleta.<\/p>\n<p>Quando envergava o casaco de pano piloto, o abade disse-lhe, com um gesto,<br \/>\nque o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas algibeiras do palet\u00f3.<\/p>\n<p>O sargento perguntou que papelada era aquela que estava sobre a mesa. Leu<br \/>\na primeira folha e desatou a rir e a dizer ao barba\u00e7as:<\/p>\n<p>\u2013 Olha que grande p\u00e2ndego voc\u00ea \u00e9! Voc\u00ea como<br \/>\nse chama, \u00f3 seu coisa? \u2013 E leu alto:<\/p>\n<p>Rol das merc\u00eas que Sua Majestade o Senhor D. Miguel I fez em Portugal<br \/>\ne que se descrevem neste livro de apontamentos provisoriamente.<\/p>\n<p>E na primeira p\u00e1gina:<\/p>\n<p>Marcos Ant\u00f3nio de Faria Rebelo, abade de S\u00e3o Gens de Calvos,<br \/>\ncapel\u00e3o-mor de el-rei e Dom Prior de Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>E perguntava ao abade:<\/p>\n<p>\u2013 Este rat\u00e3o deste Dom Prior \u00e9 voc\u00ea, hem? Parab\u00e9ns!<\/p>\n<p>Em seguida:<\/p>\n<p>Torcato Munes Elias, visconde de S\u00e3o Gens, secret\u00e1rio privado<br \/>\nde el-rei.<\/p>\n<p>\u2013 Torcato Nunes! \u2013 recordava o P\u00edlula. \u2013 Eu parece-me<br \/>\nque conhe\u00e7o este diabo de o ver em Braga no Caf\u00e9 da A\u00e7ucena,<br \/>\nna Cruz de Pedra. Nunes! um pelintra. Onde est\u00e1 o visconde, que lhe<br \/>\nqueda dar um cigarro? Enfim c\u00e1 levo a papelada para Braga \u2013 e<br \/>\nenrolava os pap\u00e9is. \u2013 A gente precisa conhecer os titulares novos<br \/>\npara os respeitar e acatar, amigo Dom Prior de Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p>Quando a escolta se formou fora do port\u00e3o e o preso entrou ao centro,<br \/>\ncom a fronte majestosa abatida e os bra\u00e7os cruzados, levantou-se na<br \/>\nresid\u00eancia um choro como \u00e0 sa\u00edda de um defunto muito querido.<br \/>\nEram a cozinheira e a outra criada, num arrancar de solu\u00e7os, enquanto<br \/>\no abade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas m\u00e3os. O povo da<br \/>\naldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as \u00e1rvores<br \/>\ne de tr\u00e1s das paredes. O Torcato Nunes Elias, acordado pela mulher,<br \/>\nque recebera a nova da pris\u00e3o, saltara da cama, e correra \u00e0<br \/>\nresid\u00eancia, perguntando ao abade se el-rei tinha levado as pe\u00e7as<br \/>\ndas Botelhas de Braga.<\/p>\n<p>Que sim, que levara; pudera n\u00e3o levar!<\/p>\n<p>\u2013 Pois ent\u00e3o, abade, empreste-me a\u00ed meia moeda, que eu<br \/>\nvou disfar\u00e7ado a Braga ver o que se passa. Estou sem vint\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2013 Veja l\u00e1 se o prendem, visconde \u2013 acautelou o abade.<\/p>\n<p>\u2013 O meu dever \u00e9 seguir a sorte de el-rei! Onde ele morrer, morro<br \/>\neu!<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>Cap\u00edtulo X<\/h2>\n<p>O Cerveira Lobo saira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de manh\u00e3.<br \/>\nEstariam aqui at\u00e9 \u00e0 madrugada de s\u00e1bado, e partiriam<br \/>\nent\u00e3o para a P\u00f3voa de Lanhoso com os tr\u00eas contos de reis,<br \/>\nrepartidos em libras pelas algibeiras dos dois. Al\u00e9m de um criado de<br \/>\nvelha libr\u00e9, avivada de azul, de botas de prateleira e chap\u00e9u<br \/>\nde sola, levavam bacamartes nos ar\u00e7\u00f5es dos selotes, todos tr\u00eas.<br \/>\nForam descansar e jantar \u00e0 hospedaria dos Dois Amigos. O Cerveira vestia<br \/>\ncasaca no trinque muito lustrosa, e gravata de cambraia com la\u00e7o; o<br \/>\npeitilho posti\u00e7o atado ao pesco\u00e7o sa\u00eda muito rijo de<br \/>\ngoma reles de entre as lapelas derrubadas do colete de veludo preto. A cal\u00e7a<br \/>\nde pregas, ampla, \u00e0 cavalaria, afunilava-se no artelho, quebrando no<br \/>\npeito do p\u00e9. As botas de polimento novas rangiam e as esporas amarelas<br \/>\nno tac\u00e3o, com grandes rosetas, tilintavam num estardalha\u00e7o de<br \/>\ncaserna. Comprara chap\u00e9u de pasta com molas que faziam saltar a copa,<br \/>\ne enchiam como uma bexiga, que parecia pantominice das com\u00e9dias, dizia<br \/>\no Zeferino.<\/p>\n<p>\u00c0s quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se<br \/>\n\u00e0 mesa redonda. J\u00e1 constava em Braga que estava ali o Cerveira<br \/>\nLobo, que desde 1835 n\u00e3o sa\u00edra da casa-solar de Vermoim. Alguns<br \/>\nprimos visitaram-no; as fam\u00edlias legitimistas, e principalmente senhoras<br \/>\nvelhas, mandavam-lhe bilhetes.<\/p>\n<p>Dizia o Zeferino que o incomodavam tantas etiquetas, que estava morto por<br \/>\nse safar, n\u00e3o estava para l\u00e9rias: que as tais senhoras Sotomaiores,<br \/>\nas Peixotas e as Meneses deviam ser mais velhas que a S\u00e9, uns estafermos.<br \/>\nEle segredava ao ouvido do Zeferino coisas, ratices suas em Braga, quando<br \/>\nera rapaz. \u2013 Que fizera um destro\u00e7o nas primas, tudo pelo p\u00f3<br \/>\ndo gato. Que pagara bem o seu tributo \u00e0 asneira; e casquinava com vaidade<br \/>\npaparreta, carregando-lhe a m\u00e3o no verde. Quando entravam pelo assado,<br \/>\nchegou um tenente do 8 a contar a um amigo, que estava \u00e0 mesa, que<br \/>\nchegara naquele momento preso ao Governo Civil, vindo da P\u00f3voa de Lanhoso,<br \/>\num maroto que<\/p>\n<p>dizia ser D. Miguel, e ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia<br \/>\ntr\u00eas anos, que se parecia bastante com ele.<\/p>\n<p>O Cerveira erguera-se num grande espanto indiscreto a olhar para o oficial,<br \/>\nque o fixava com uma curiosidade ir\u00f3nica. Convergiram todos os olhares<br \/>\npara o homem das barbas respeit\u00e1veis. Quedou-se momentos naquele espasmo,<br \/>\nnum tr\u00e9mulo, e perguntou:<\/p>\n<p>\u2013 E \u00e9 com efeito o Sr. D. Miguel esse homem que chegou preso?<\/p>\n<p>\u2013 Ele diz que \u00e9 \u2013 respondeu o tenente. \u2013 Veremos<br \/>\no que se averigua no governo civil.<\/p>\n<p>\u2013 Na falta do verdadeiro D. Sebasti\u00e3o, apareceram tr\u00eas<br \/>\nfalsos \u2013 disse enfaticamente. um professor de latim, com um sorriso<br \/>\npedante.<\/p>\n<p>O Cerveira olhou-o de esconso, e saiu da mesa, seguido do Zeferino, muito<br \/>\nenfiados, ambos.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 tudo perdido! \u2013 disse dolentemente o fidalgo.<\/p>\n<p>\u2013 El-rei preso!&#8230; E n\u00e3o se levanta este Minho a livr\u00e1-lo!&#8230;<br \/>\nVamos v\u00ea-lo, quero ver se lhe posso falar. Dentro de tr\u00eas dias<br \/>\nentro em Braga com dez mil homens e arraso a cadeia.<\/p>\n<p>Fez saltar a copa do chap\u00e9u de molas e saiu para a rua, a bufar.<\/p>\n<p>O Campo de Santa Ana parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas Bragas<br \/>\n\u2013 a fiel, a caipira, plet\u00f3rica de fidalgos, de grandes propriet\u00e1rios,<br \/>\nc\u00f3negos, de chapeleiros e da clerezia mi\u00fada; \u2013 a liberal,<br \/>\nmuito an\u00e9mica, encostada ao 8 de infantaria, toda de bachar\u00e9is<br \/>\ne empregados p\u00fablicos, o Manso, o Meio Cavac\u00e3o, o Mota, o Rocha<br \/>\nVeiga, o Alves Vicente, negociantes de tendas mesquinhas, professores muito<br \/>\nret\u00f3ricos, o Capela, que ensinava franc\u00eas, o Pereira Caldas,<br \/>\nsoneteiro e pol\u00edgrafo, o velho Abreu bibliotec\u00e1rio, lacrimoso,<br \/>\no Pinheiro, muito grande, fil\u00f3sofo sensualista, mas bom vizinho, todos<br \/>\n\u00e0 volta do Monte Alverne, um c\u00f3nego muito assanhado, que foi,<br \/>\nmeses depois, comandante da brigada dos serezinos.<\/p>\n<p>Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar asseado com<br \/>\nmuito lustro, e o bater met\u00e1lico, patarata, das esporas. Abriram-lhe<br \/>\npassagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcelos do Tanque,<br \/>\nos Magalh\u00e3es, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gema daquele<br \/>\nenorme ovo realista, chocado no seio da religi\u00e3o da Carlota Joaquina,<br \/>\ndo conde de Basto e do Teles Jord\u00e3o. O Cerveira perguntava aos seus:<br \/>\n\u2013 \u00c9? \u2013 uns encolhiam os ombros, outros negavam gesticulando.<br \/>\nE ele, com intimativa:<\/p>\n<p>\u2013 Pois saibam que \u00e9!<\/p>\n<p>O Manuel de Magalh\u00e3es dizia ao ouvido do Henrique Freire:<\/p>\n<p>\u2013 Deixa-o falar, que est\u00e1 idiota.<\/p>\n<p>O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fora capit\u00e3o de cavalaria,<br \/>\ncom um bizarro sorriso de corte e ademanes de uma selec\u00e7\u00e3o rara:<\/p>\n<p>\u2013 Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, n\u00e3o h\u00e1-de<br \/>\nestar ao alcance da canalha. Descanse voss\u00eancia.<\/p>\n<p>Os janotas acercavam-se, desfrutadores, do Cerveira. Eram o Russel, o Ant\u00f3nio<br \/>\nGaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva Brand\u00e3o,<br \/>\no D. Manuel de Prelada, o D. Jo\u00e3o da Tapada, o Ant\u00f3nio Lu\u00eds<br \/>\nde Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-ch\u00e1 na lapela da<br \/>\ncasaca azul com bot\u00f5es amarelos.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco fez-se um torvelinho de povo \u00e0 porta do Governo<br \/>\nCivil. A soldadesca afastava a multid\u00e3o com frases persuasivas de coronha<br \/>\nde arma. Formou-se a escolta, e o preso saiu, de rosto levantado e afoito,<br \/>\nrara a multid\u00e3o. Cerveira Lobo fitava-o com uma ansiedade aflitiva.<br \/>\n\u2013Que se parecia&#8230; e ia jurar que era ele! \u2013 quando um realista<br \/>\nconvencionado e que estava no grupo, o major de Vila Verde, disse com um desd\u00e9m<br \/>\nde achincalha\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Olha quem ele \u00e9! Oh que traste! que grande mariola! Forte<br \/>\nmalandro!<\/p>\n<p>\u2013 Quem \u00e9? quem \u00e9? \u2013perguntavam todos.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 o Ver\u00edssimo, foi furriel da minha companhia, andou<br \/>\ncom o Remexido, e safou-se de Messines com o pr\u00e9 dos guerrilhas.<\/p>\n<p>O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe \u00e0 orelha:<\/p>\n<p>\u2013 Ouviste, \u00f3 Zeferino?<\/p>\n<p>\u2013 Estou banzado! \u2013murmurou o outro.<\/p>\n<p>\u2013 Olha que espiga! tr\u00eas contos! hem?<\/p>\n<p>\u2013 Raios parta o Diabo! \u2013 disse o pedreiro, numa s\u00edntese<br \/>\ncondensada da sua incomensur\u00e1vel ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o de<br \/>\nparte e dizia-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder \u00e0<br \/>\nconfian\u00e7a de V. Ex\u00aa, impus-me o dever de o salvar de um roubo<br \/>\nde tr\u00eas contos, e da vergonha de ser logrado por um impostor. O maior<br \/>\nservi\u00e7o que podemos fazer ao Sr. D. Miguel \u00e9 entregar \u00e0<br \/>\njusti\u00e7a um infame que se serve do seu sagrado nome para roubar os amigos<br \/>\ndo augusto pr\u00edncipe. Sr. Cerveira, v\u00e1 para sua casa; e, quando<br \/>\neu lhe disser que \u00e9 tempo, ent\u00e3o desembainhar\u00e1 a sua<br \/>\nespada:<\/p>\n<p>O Cerveira, abra\u00e7ando-o:<\/p>\n<p>\u2013 Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os h\u00e1..<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte<br \/>\nfoi transferido para a Rela\u00e7\u00e3o do Porto.<\/p>\n<p>O nome e apelidos que ele deu no Governo Civil eram verdadeiros: Ver\u00edssimo<br \/>\nBorges Camelo da Mesquita5.<\/p>\n<p>Tinha nascido em 1806 em Alva\u00e7\u00f5es do Corgo, no Douro. Ao pai<br \/>\nchamavam-lhe o Norberto das facadas, quando j\u00e1 era velho, e meirinho-geral<br \/>\nda comarca, em Vila Real Uns diziam que a alcunha facadas lhe vinha de ter<br \/>\nesfaqueado a mulher, por ci\u00fames; outros, de ter levado tr\u00eas facadas,<br \/>\nna Campe\u00e3, quando pusera cerco a uns salteadores que pernoitavam na<br \/>\nestalagem daquela aldeia, nas vertentes do Mar\u00e3o. O certo \u00e9<br \/>\nque a quadrilha tinha sovado os aguazis, e o comandante da dilig\u00eancia,<br \/>\no meirinho-geral, recolhera \u00e0 vila numa padiola.<\/p>\n<p>Norberto Borges Camelo tinha pedra de armas na casa de Alva\u00e7\u00f5es,<br \/>\numa edifica\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVII. Dava-se como descendente<br \/>\ndo bispo do Algarve D. Jo\u00e3o Camelo. Contava a origem do bras\u00e3o<br \/>\nda sua casa, concedido ao seu sexto av\u00f4 Lopo Rodrigues. Habituado a<br \/>\ncontar aos ju\u00edzes de fora e corregedores da comarca o facto provado<br \/>\npor incontest\u00e1veis pergaminhos, era convidado muito a mi\u00fado<br \/>\ndesfrutadoramente \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o her\u00e1ldica do seu<br \/>\nescudo, que ele fazia numa toada mon\u00f3tona de quem reza6.<\/p>\n<p>5Segundo as informa\u00e7\u00f5es textuais do j\u00e1 referido Jos\u00e9<br \/>\nJoaquim Ferretra de Meio e Andrade, o di\u00e1logo da<\/p>\n<p>autoridade e do preso correu assim:<\/p>\n<p>Que era das imedia\u00e7\u00f5es de Vila Real, em Tr\u00e1s-os-Montes,<br \/>\ne um dos amnistiados em \u00c9vora Monte, na<\/p>\n<p>qualidade de sargento do ex\u00e9rcito realista;<\/p>\n<p>Que numa surtida que fizeram os do Porto fora ferido num quarto por uma bala,<br \/>\nficando um pouco coxo:<\/p>\n<p>mas que n\u00e3o deixara ainda assim o servi\u00e7o;<\/p>\n<p>Que achando-se no \u00faltimo Carnaval no lugar de S\u00e3o Gens, ali<br \/>\ntomara parte nos folguedos do povo com o<\/p>\n<p>abade da freguesia, o qual o convidara no fim para sua casa;<\/p>\n<p>Que o tratara muito bem, e que, passados alguns dias, lhe dissera, depois<br \/>\nda ceia, de uma maneira muito<\/p>\n<p>recolhida e sonsa: que desconfiava ter em sua casa Sua Majestade el-rei o<br \/>\nSr. D. Miguel I (porque ele era<\/p>\n<p>em tudo um fac-s\u00edmile).<\/p>\n<p>Que nem lhe negara, nem confessara, nas que, passados dias, \u00e0 mesma<br \/>\nhora, lhe repetira aquela suspeita;<\/p>\n<p>por\u00e9m que ainda dessa vez lhe respondem com uma evasiva.<\/p>\n<p>Autoridade<\/p>\n<p>E depois?<\/p>\n<p>Preso<\/p>\n<p>Depois? que l\u00e1 se aviessem, porque o seu fim era conservar aquela<br \/>\nc\u00f3moda situa\u00e7\u00e3o, maxime quando as<\/p>\n<p>suas finan\u00e7as estavam no maior apuro.\u00bb<\/p>\n<p>Autoridade<\/p>\n<p>Que utilidade tirava em manter o abade nessa ilus\u00e3o?<\/p>\n<p>Preso (c\u00ednico)<\/p>\n<p>Que a tirava toda, porque s\u00f3 assim podia continuar no gozo da comodidade<br \/>\nque se lhe oferecia;<\/p>\n<p>Que da\u00ed por diante lhe ficara dando o tratamento de Majestade, como<br \/>\ncoisa decidida, e lhe revelara o<\/p>\n<p>desejo de que o elevasse \u00e0 dignidade de seu capel\u00e3o-mor, ao<br \/>\nque anu\u00edra;<\/p>\n<p>Que, passados alguns dias, lhe propusera a admiss\u00e3o \u00e0 sua presen\u00e7a<br \/>\nnocturna e clandestina de alguns<\/p>\n<p>eclesi\u00e1sticos e tamb\u00e9m Seculares, consumados realistas, no<br \/>\nque concordara;<\/p>\n<p>Que desse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noite, um<br \/>\nat\u00e9 dois por vez, pedindo-lhe<\/p>\n<p>todos, depois de lhe beijarem a m\u00e3o, comendas, benef\u00edcios,<br \/>\nlugares civis, postos militares e at\u00e9 prelazias \u2013 o que ele tudo<br \/>\nlhes concedeu de bom grado.<\/p>\n<p>66 Nota erudita. A hist\u00f3ria, ali\u00e1s exacta, que o fidalgo de<br \/>\nAlva\u00e7\u00f5es contava, acha-se nos Nobili\u00e1rios, e est\u00e1<\/p>\n<p>gravada no escudo desta fam\u00edlia. Lopo Rodrigues Camelo foi mo\u00e7o<br \/>\nda estribeira de el-rei D. Sebasti\u00e3o, e<\/p>\n<p>muito Querido de seu real amo. Viajara muito e era primoroso em pontos de<br \/>\ncortesia. Uma vez<\/p>\n<p>acompanhara o rei a Coimbra; e, na passagem de S\u00e3o Marcos para Tent\u00fagal,<br \/>\nencontraram a ponte do<\/p>\n<p>Mondego ca\u00edda. O rei quis passar a vau, e o estribeiro observou-lhe<br \/>\nque o passo ali era perigoso. D.<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o redarguiu: \u2013 Vossa Alteza me engana \u2013 volveu<br \/>\no cortes\u00e3o \u2013ditoso engano \u00e9 esse.\u00bb \u2013 E, metendo-se<br \/>\n\u00e0 vala espapada de limos e lodo, submergiu-se a ponto de ficar s\u00f3<\/p>\n<p>com a cabe\u00e7a e um bra\u00e7o de fora. El-rei acudiu-lhe, tomando-o<br \/>\npela m\u00e3o, e tirando-o com valente pulso<\/p>\n<p>para a margem. Lopo Rodrigues, a fim de que os seus descendentes lessem este<br \/>\ncaso no m\u00e1rmore do seu<\/p>\n<p>bras\u00e3o de armas, pediu a el-rei que lhe mandasse reformar o escudo<br \/>\nem lembran\u00e7a de tal sucesso.<\/p>\n<p>E assim lhe foi debuxado o escudo: Em campo verde uma ribeira de prata ondeada.<br \/>\nDesta ribeira emerge um bra\u00e7o vestido de azul, do qual pega outro vestido<br \/>\nde brocado com Letras de negro que dizem REI.<\/p>\n<p>Este bra\u00e7o real sai da banda direita do escudo, na esquerda est\u00e1<br \/>\numa estrela de ouro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flor-de-lis<br \/>\nde ouro. Timbre o bra\u00e7o vestido de azul com a estrela nas dedos. A<br \/>\ncarta foi registada no , no ano de 1574.<\/p>\n<p>Marcial fez rir os Romanos \u00e0 custa de um geneal\u00f3gico esquadrinhador<br \/>\nde tal casta, que, n\u00e3o tendo j\u00e1<\/p>\n<p>humanas gera\u00e7\u00f5es que espanejar do lixo dos s\u00e9culos,<br \/>\nentrou a deslindar os remotos avoengos de uni<\/p>\n<p>cavalo chamado Herpino. Passarei tamb\u00e9m \u00e0s coudelarias quando<br \/>\no bras\u00e3o subir da tenda ao sport, e<\/p>\n<p>derivar dos especieiros esparramados \u00e0s bestas elegantes.<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo era Mesquita pela m\u00e3e, que n\u00e3o conhecera.<br \/>\nTamb\u00e9m florira da cepa ilustre dos Mesquitas de Vilar de Ma\u00e7ada;<br \/>\nmas o Norberto, achando-a em flagrante adult\u00e9rio com um primo Pizarro,<br \/>\nanavalhou-a mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde<br \/>\nda Ega, e quando voltou estava esquecido o caso.<\/p>\n<p>Em 1827, o Ver\u00edssimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a<br \/>\njurisprud\u00eancia. Era bom estudante, aplicado e s\u00e9rio. Em 28 teve<br \/>\numa vertigem pol\u00edtica. Fez-se caceteiro do partido dominante, quis<br \/>\natacar na Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores<br \/>\nassassinos. Perdeu o h\u00e1bito de estudar e a compostura de que fora exemplo.<br \/>\nEm 29, abandonou a Universidade e assentou pra\u00e7a em infantaria. Quando<br \/>\no Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Numa das primeiras surtidas<br \/>\ndos liberais, foi ferido numa perna; e, apesar de coxo levemente, n\u00e3o<br \/>\nquis a baixa nem a reforma. Era um bonito homem, rosto oval, olhos de rara<br \/>\nbeleza, nariz ligeiramente aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de<br \/>\nD. Miguel, aperfei\u00e7oado pelo desaire de coxear.<\/p>\n<p>Depois da conven\u00e7\u00e3o, Ver\u00edssimo Borges recolheu a Alva\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Corgo, onde encontrou o pai num grande abatimento de tristeza e de recursos.<br \/>\nA sua lavoura de vinho era pequena. Privado do of\u00edcio e malquisto como<br \/>\nladr\u00e3o, o representante de Lopo Rodrigues socorria-se \u00e0 benefic\u00eancia<br \/>\nde uma irm\u00e3, a D. \u00c1gueda, vi\u00fava de um major de mil\u00edcias<br \/>\nque morrera no ataque ao forte das Antas. O convencionado. naquela estreiteza<br \/>\nde meios, quis voltar \u00e0 fileira; mas o pai negou-lhe a licen\u00e7a,<br \/>\narguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e citava-lhe<br \/>\nas cortes de Lamego. O Ver\u00edssimo, argumentando contra estas cortes,<br \/>\nalegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez das velhas institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Lamego, os modernos presuntos da mesma cidade.<\/p>\n<p>O Norberto gabava-se de que na sua gera\u00e7\u00e3o, Camelo liberal<br \/>\nn\u00e3o havia um s\u00f3, e que a sua maldi\u00e7\u00e3o pesaria<br \/>\ncomo chumbo derretido sobre a cabe\u00e7a do filho que perjurasse a bandeira<br \/>\ndo trono e do altar.<\/p>\n<p>A tia \u00c1gueda, a vi\u00fava do major, tinha pouco. Desde 1828 at\u00e9<br \/>\n1833 gastara seis mil cruzados em festejar os natal\u00edcios e as vit\u00f3rias<br \/>\ndo Sr. D. Miguel com banquetes e ilumina\u00e7\u00f5es que duravam tr\u00eas<br \/>\nnoites, num del\u00edrio de bombas reais e foguetes de l\u00e1grimas,<br \/>\ncom adega franca. Mandava cantar Te-Deum na igreja de Alva\u00e7\u00f5es<br \/>\nassim que no pais vinhateiro soava a not\u00edcia de alguma vit\u00f3ria<br \/>\ndo ex\u00e9rcito fiel. Ora, os realistas, a contar por cada Te-Deum de Alva\u00e7\u00f5es.<br \/>\nentravam no Porto \u00e0s quinzenas para sa\u00edrem por uma b\u00aaarreira<br \/>\ne voltarem logo pela outra. D. \u00c1gueda come\u00e7ava a desconfiar<br \/>\nque o Deus de Afonso Henriques voltara a casaca.<\/p>\n<p>Restava-lhe pouco; mas n\u00e3o queria que o Ver\u00edssimo se fizesse<br \/>\nmalhado. Sacrificou-se \u00e0 honra da fam\u00edlia, levou-o para casa,<br \/>\ndeu-lhe mesa farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de<br \/>\npapo acima, tocando flauta, a trasfegar em si o resto da garrafeira. Aconselharam-na<br \/>\nque ordenasse o sobrinho, visto que ele j\u00e1 tinha exames de latim e<br \/>\nl\u00f3gica. O Ver\u00edssimo disse que sim, que queria ser padre. Tinha-se<br \/>\nesclarecido nos encargos do of\u00edcio, observando a vida sossegada e farta<br \/>\ndos p\u00e1rocos.<\/p>\n<p>Um seu parente, o abade de Lobrigos, tinha liteira, parelha de machos, matilha<br \/>\nde c\u00e3es e h\u00f3spedes na sua resid\u00eancia episcopal. Outros,<br \/>\ncom menos rendas, eram ainda invej\u00e1veis; um viver espapa\u00e7ado<br \/>\nem doce moleza, inofensiva, com grande estupidez irrespons\u00e1vel, um<br \/>\nregalado epicurismo. Ver\u00edssimo achou que, se n\u00e3o pudesse ser<br \/>\nbom padre, havia de pertencer \u00e0 maioria; e, se desse esc\u00e2ndalo,<br \/>\num de mais ou de menos n\u00e3o perturbaria a ordem das coisas. Os seus<br \/>\namigos e parentes abundavam no dilema.<\/p>\n<p>D. \u00c1gueda fazia concess\u00f5es \u00e0 fragilidade do clero; \u2013<br \/>\nque seu sexto av\u00f4 tamb\u00e9m fora bispo e pai de sua quinta av\u00f3,<br \/>\npor Camelos. O parente abade de Lobrigos, em confirma\u00e7\u00e3o das<br \/>\npreclaras linhagens de coitos sacr\u00edlegos, afirmava que a seren\u00edssima<br \/>\ncasa de Bragan\u00e7a descendia de padres pelo pai de D. Nuno Alvares Pereira,<br \/>\nque era prior do Crato, e pelo av\u00f4, o padre Gon\u00e7alo, que fora<br \/>\narcebispo de Braga; e que os condes de Vimioso e Atalaia, e todos os Noronhas,<br \/>\noriundos de certo arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras fam\u00edlias<br \/>\nda corte descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Ver\u00edssimo<br \/>\nno futuro do sacerd\u00f3cio. Queria ser abade, ressalvando tacitamente<br \/>\ncertas condi\u00e7\u00f5es a respeito dos rebanhos e particularmente das<br \/>\novelhas.<\/p>\n<p>Em Outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta anos: sentia o c\u00e9rebro<br \/>\nmoroso na digest\u00e3o da teologia, andava enfastiado e triste. Acaso encontrou<br \/>\num camarada, sargento do mesmo regimento, o Torcato Munes mias, que andava<br \/>\na estudar para procurador de causas. Eram insepar\u00e1veis, identificaram-se<br \/>\nnuma intimidade de tasca e de alcoice. O Ver\u00edssimo nunca mais abriu<br \/>\ncomp\u00eandio nem o outro um processo. D. \u00c1gueda mandava regularmente<br \/>\na mesada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa.<\/p>\n<p>Em 1836 apareceu no Algarve a poderosa guerrilha de Jos\u00e9 Joaquim de<br \/>\nSousa Reis, o Remexido, em S\u00e3o Bartolomeu de Messines. Os dois ex-sargentos<br \/>\nalvoro\u00e7aramse com a not\u00edcia e resolveram apresentar-se ao formid\u00e1vel<br \/>\ncandilho. Ver\u00edssimo pediu \u00e0 tia uma quantia mais avultada para<br \/>\npagar as \u00faltimas despesas do sacerd\u00f3cio. A velha mandou-lhe<br \/>\no pre\u00e7o de uma vinha vendida e a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o. Os<br \/>\naventureiros partiram para o Algarve. O general recebeu-os nos bra\u00e7os,<br \/>\ne deu-lhes divisas de capit\u00e3es. Ver\u00edssimo Borges escreveu ao<br \/>\npai, a dar-lhe parte do seu her\u00f3ico destino: que advogasse a sua nobre<br \/>\ncausa na presen\u00e7a da tia \u00c1gueda, e lhe dissesse que ele n\u00e3o<br \/>\npodia largar a espada vencida enquanto visse no campo brilhar o ferro de um<br \/>\nrealista. Que o general Sousa Reis estava destinado a repor o Sr. D. Miguel<br \/>\nI no trono, ou ser o \u00faltimo a morrer em sua defesa; que ele e um seu<br \/>\namigo e camarada tinham sa\u00eddo de Braga juramentados a morder o p\u00f3<br \/>\nonde ca\u00edsse o seu general. Que eram j\u00e1 comandantes<\/p>\n<p>de companhias, e tinham duas carreiras abertas \u2013 uma que levava \u00e0<br \/>\ngl\u00f3ria, outra \u00e0 sepultura \u2013 que tamb\u00e9m era uma<br \/>\ngl\u00f3ria morrer pela p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Joaquim, o Remexido, era um bem figurado homem de trinta e oito<br \/>\nanos. Nascera em Est\u00f4mbar, estudara para cl\u00e9rigo no semin\u00e1rio<br \/>\nde Faro, e distinguira-se em perspic\u00e1cia e subtileza na percep\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas teologias. O amor inutilizou-lhe o talento aplicado a um pac\u00edfico<br \/>\ne human\u00edssimo destino. Viu uma esbelta mo\u00e7a de S\u00e3o Bartolomeu<br \/>\nde Messines quando a\u00ed foi pregar um serm\u00e3o, sendo minorista.<br \/>\nAs serenas vis\u00f5es do levita deslumbrou-lhas a formosa algarvia. N\u00e3o<br \/>\nhesitou entre o amor da humanidade e o culto ego\u00edsta da fam\u00edlia.<br \/>\nCasou, e de homem estudioso e contemplativo, volveu-se lavrador, lidou rudemente<br \/>\nnas searas, e redobrou de esfor\u00e7os \u00e0 propor\u00e7\u00e3o<br \/>\nque os filhos lhe multiplicavam o amor e os cuidados.<\/p>\n<p>Insensivelmente compenetrou-se da paix\u00e3o pol\u00edtica. Nesta prov\u00edncia,<br \/>\nonde em 1808 estalou o primeiro grito contra o dom\u00ednio franc\u00eas,<br \/>\na liberdade proclamada em 1820 abriu um abismo entre duas fac\u00e7\u00f5es<br \/>\nque por espa\u00e7o de dezoito anos se despeda\u00e7aram. Jos\u00e9<br \/>\nJoaquim de Sousa Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas<br \/>\ne as m\u00e1s ideias, e manifestou-se em 1823 um ardente sect\u00e1rio<br \/>\ndas m\u00e1s, perseguindo os afei\u00e7oados \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Porto. Em 1826 emigrou para Espanha, e voltando em 1828 extremou-se entre<br \/>\nos aclamadores do rei absoluto. Da\u00ed em diante, receoso das retalia\u00e7\u00f5es,<br \/>\nn\u00e3o teve mais uma hora de remansoso contentamento nem abriu m\u00e3o<br \/>\nda espada t\u00e3o afoita quanto cruel.<\/p>\n<p>Logo que o duque da Terceira aportou com a divis\u00e3o expedicion\u00e1ria<br \/>\n\u00e0s praias da Lagoa, em 24 de Junho de 1833, Sousa Reis com alguns c\u00famplices<br \/>\nforagiu-se nos rec\u00f4ncavos do Penedo Grande, cujas veredas montanhosas<br \/>\nconhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flor dos anos, inculpados idas<br \/>\npaix\u00f5es de seu pai, fiados na generosidade dos vencedores e na pr\u00f3pria<br \/>\ninoc\u00eancia. A vingan\u00e7a fez repres\u00e1lias na fam\u00edlia<br \/>\ndo fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa, depois do roubo<br \/>\ne do inc\u00eandio da sua casa de Messines. O le\u00e3o, como se ouvisse<br \/>\nbramir os cachorrinhos nas garras do tigre, irrompeu da caverna, precipitou-se<br \/>\ndos penhascais \u00e0 frente da sua alcateia, e atacou Est\u00f4mbar com<br \/>\nirresist\u00edvel \u00edmpeto. Estava ai a sua fam\u00edlia sob a press\u00e3o<br \/>\ndas baionetas que a vigiavam como armadilha \u00e0 queda do guerrilheiro;<br \/>\nmas a tropa n\u00e3o p\u00f4de resistir \u00e0 f\u00faria de pai. Ele<br \/>\natirava-se \u00e0s descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho.<br \/>\nOs inimigos que o viram nesse dia conservaram longo tempo a lembran\u00e7a<br \/>\nda sua catadura transfigurada pela desespera\u00e7\u00e3o. E todavia era<br \/>\num homem gentil\u00edssimo. Depois, senhoreou-se de povoa\u00e7\u00f5es<br \/>\nimportantes do Algarve e estendeu at\u00e9 \u00e0s fronteiras do Alentejo<br \/>\nos seus dom\u00ednios. Moveram-se contra ele muitos regimentos de primeira<br \/>\nlinha e de batalh\u00f5es da guarda nacional. Ele tinha adoecido de fadigas<br \/>\nincomport\u00e1veis, e descansava com algumas centenas de homens num desfiladeiro<br \/>\nda serra, chamado a Portela da Corte das Velhas. Ai o atacou uma coluna de<br \/>\nca\u00e7adores 5. O Remexido, afinal, faltou-lhe a coragem de se fazer matar.<br \/>\nViu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as baionetas. Deu-se<br \/>\n\u00e0 pris\u00e3o, e cinco dias depois era arcabuzado em Faro.<\/p>\n<p>O regimento em que eram capit\u00e3es o Ver\u00edssimo e o Nunes dispersou,<br \/>\ne eles, claro \u00e9, fugiram \u00e0 maneira dos muito discretos e bravos<br \/>\ngenerais de que rezam os fastos militares<\/p>\n<p>O pr\u00e9 dos guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatela rid\u00edcula,<br \/>\nque n\u00e3o merecia a pomposa qualifica\u00e7\u00e3o de ladroeira.<br \/>\nComo n\u00e3o tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre<br \/>\nnas algibeiras. \u00c9 o que foi, e a hist\u00f3ria n\u00e3o pode dizer<br \/>\noutra coisa. Queria talvez o major de Vila Verde, o denunciante de Braga,<br \/>\nque eles andassem \u00e0 carta das pra\u00e7as dispersas pelas montanhas,<br \/>\na repartir os quatro vint\u00e9ns di\u00e1rios e o vint\u00e9m do mun\u00edcio!<\/p>\n<p>Ver\u00edssimo foi para Alva\u00e7\u00f5es e Nunes para S\u00e3o<br \/>\nGens.<\/p>\n<p>O Norberto morreu por esse tempo de uma congest\u00e3o cerebral; algu\u00e9m<br \/>\ndiz que o esganaram na cama dois malhados de Lobrigos contra os quais ele<br \/>\ntinha jurado em 28. D. \u00c1gueda recebeu o sobrinho carinhosamente. A<br \/>\nheran\u00e7a do pai estava empenhada; foi \u00e0 pra\u00e7a; sobejaram<br \/>\nuns novecentos mil-r\u00e9is e a casa com as armas, pagas as d\u00edvidas.<br \/>\nO Nunes dizia-lhe da P\u00f3voa que andava por l\u00e1 miser\u00e1vel,<br \/>\num piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo de feij\u00f5es e o<br \/>\ntratava como um c\u00e3o vadio. Que, depois da partida do Algarve, n\u00e3o<br \/>\ntinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem tinha que vestir. O<br \/>\nVer\u00edssimo chamou-o para Alva\u00e7\u00f5es com generosidade. Vestiu-o,<br \/>\ne dava-lhe meios para ele poder estudar em Vila Real, com advogados miguelistas,<br \/>\nque o estimavam muito.<\/p>\n<p>A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do<br \/>\nSr. D. Miguel das ilumina\u00e7\u00f5es, que se parecia muito com o sobrinho.<\/p>\n<p>No Inverno de 1840, D. \u00c1gueda morreu de uma indigest\u00e3o de castanhas,<br \/>\ncomplicada com enterite cr\u00f3nica e saudades da realeza. Deixou ao sobrinho<br \/>\na casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do Sr. D. Miguel \u00e0s<br \/>\nfreiras de Santa Clara de Vila Real e mais dez moedas de ouro com a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde lhe acenderem quatro velas de cera no dia dos anos de Sua Majestade.<\/p>\n<p>Ver\u00edssimo viveu ent\u00e3o largamente. Fez-se chefe de partido nas<br \/>\nredondezas de Alva\u00e7\u00f5es do Corgo, onde era conhecido pelo capit\u00e3o<br \/>\nVer\u00edssimo. Deitou cavalo e mochila; jogou rijo dois anos na Feira de<br \/>\nSanto Ant\u00f3nio, em Vila Real, e perdeu tudo. O Nunes, que j\u00e1<br \/>\nsolicitava causas na P\u00f3voa, repartia com ele dos seus proventos muito<br \/>\nescassos, porque o juiz e os escriv\u00e3es faziam-lhe guerra implac\u00e1vel,<br \/>\ne as partes fugiam dele.<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo saiu de Alva\u00e7\u00f5es, onde n\u00e3o possu\u00eda<br \/>\npalmo de terra; e, como tinha boa forma de letra, ofereceu-se para amanuense<br \/>\na um tabeli\u00e3o de Alij\u00f3. Ganhava tr\u00eas tost\u00f5es por<br \/>\ndia e jantar. Como era boa figura, a mulher do tabeli\u00e3o, uma trigueira<br \/>\nde m\u00e1 casta, entrou a compar\u00e1-lo com o marido, que tinha os<br \/>\ndentes muito lurados e os olhos tortos. Mas o tabeli\u00e3o viu as coisas<br \/>\npelo direito, e p\u00f4s o amanuense na rua, e a mulher em len\u00e7\u00f3is<br \/>\nde vinho, dizia-se. Ver\u00edssimo conhecia o capit\u00e3o-mor de Mur\u00e7a,<br \/>\no Campos, uni hebreu realista, muito abastado.<\/p>\n<p>Ofereceu-se-me para escudeiro e foi aceite com bom ordenado. O capit\u00e3o-mor<br \/>\nera vi\u00favo; mas tinha uma governanta fresca, de uma fome de pecado irritada<br \/>\npela indiferen\u00e7a judaica do amo em mat\u00e9ria de religi\u00e3o.<br \/>\nO Ver\u00edssimo tinha a fatalidade femeeira do seu S\u00f3sia, do Sr.<br \/>\nD. Miguel. O capit\u00e3o-mor, com o seu fino olho de ra\u00e7a, lobrigou<br \/>\nas sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e imp\u00f4-lo.<br \/>\nVoltou ao Douro, e procurou o amparo de um realista poderoso, o Ant\u00f3nio<br \/>\nde Melo, de Gouvinhas, o pai do Sr. Lopo Vaz, um grande ministro liberal cheio<br \/>\nde embri\u00f5es de coisas, O fidalgo de Gouvinhas nomeou-o feitor das suas<br \/>\nquintas. Estava regalado; feitorizava pouco; o fidalgo admitia-o \u00e0s<br \/>\nsuas palestras \u00edntimas de pol\u00edtica; mas um sobrinho do Melo,<br \/>\num valente navalhista que chamavam em Coimbra o Malagueta, ganhou-lhe \u00f3dio,<br \/>\npor ci\u00fames de uma tecedeira chibante, uma rapariga\u00e7a de tremer,<br \/>\nde quadris roli\u00e7os, a Lib\u00e2nia de Covas. Travaram-se de raz\u00f5es.<br \/>\nO Malagueta correu sobre ele com um punhal. Ver\u00edssimo acobardou-se<br \/>\nna sua posi\u00e7\u00e3o dependente e despediu-se.<\/p>\n<p>A Lib\u00e2nia tinha cord\u00f5es e umas moedas ganhas com o pudor dilu\u00eddo<br \/>\nno suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos vinhateiros.<br \/>\nSeguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. Jo\u00e3o Camelo abriu<br \/>\numa escola de primeiras letras em Miragaia. Ao cabo do primeiro m\u00eas,<br \/>\ndava pontap\u00e9s impacientes nos garotos, andava ralado, n\u00e3o podia<br \/>\ncom aquela bestialidade da instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. A Lib\u00e2nia<br \/>\nqueixou-se um dia de dor de dentes. Foi uma inspira\u00e7\u00e3o. O Ver\u00edssimo<br \/>\nresolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac, \u00e0 Rua de Santo<br \/>\nAnt\u00f3nio, um bom homem. Andava neste tiroc\u00ednio, quando encontrou<br \/>\nno T\u00edvoli, defronte da Biblioteca, o Nunes. A Lib\u00e2nia gostava<br \/>\nmuito de resvalar pela montanha russa, dava umas risadas argentinas, batia<br \/>\nas palmas e queria montar os cavalos de pau que giravam no jogo da argolinha.<\/p>\n<p>Quando se encontraram, o Torcato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha morrido,<br \/>\ndeixando a casa ao outro irm\u00e3o. Estava casado, e tinha dois filhos.<br \/>\nQueria ir tentar a fortuna ao Brasil, trabalhar em mangas de camisa, se fosse<br \/>\nnecess\u00e1rio. O Ver\u00edssimo respondeu-lhe que o \u00fanico favor<br \/>\nque lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de gra\u00e7a. Confidenciou-lhe<br \/>\nas suas mis\u00e9rias mais \u00edntimas; que aquela boa rapariga tinha<br \/>\ngasto com ele quinze moedas e vendera o seu ouro; mas, t\u00e3o generosa,<br \/>\nt\u00e3o honrada que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que<br \/>\nestava resolvido a ir estabelecer-se corno dentista na prov\u00edncia, logo<br \/>\nque pudesse comprar o estojo, que custava 12$000 r\u00e9is, e n\u00e3o<br \/>\nos tinha.<\/p>\n<p>\u2013 Se os n\u00e3o tens \u2013 disse o Torcato \u2013 minha mulher<br \/>\ntem um cord\u00e3o que pesa tr\u00eas moedas; para mim n\u00e3o lho pedia;<br \/>\nmas para ti vou busc\u00e1-lo amanh\u00e3. \u2013 E acrescentou, de excelente<br \/>\nhumor: \u2013 Deus permita que na terra onde te estabeleceres sejam tantas<br \/>\nas dores de dentes que n\u00e3o tenhas m\u00e3os nem queixos a medir.<\/p>\n<p>Sa\u00edram alegres do T\u00edvoli. Sentiam-se bem aquelas duas organiza\u00e7\u00f5es<br \/>\nesquisitas. Havia ali duas almas que se amavam deveras, dois n\u00e1ufragos<br \/>\na quererem chegar um ao outro a mesma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 nestes esgotos sociais que ainda, uma vez por outra, se encontram<br \/>\nP\u00edlades e Orestes.<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo morava atr\u00e1s da S\u00e9, na Rua da Lada, uma<br \/>\ncasa de um andar, muito empenada, com o peitoril de ferro de uma \u00fanica<br \/>\njanela desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e negra corno a boca<br \/>\nde um antro. Cearam todos. Havia cabe\u00e7a de pescada cozida com cebolas,<br \/>\nsardinhas fritas e piment\u00f5es. O Nunes foi buscar duas garrafas da companhia<br \/>\nde tost\u00e3o \u00e0 Rua Ch\u00e3, e enfiou no bra\u00e7o uma rosca<br \/>\nde Valongo, que comprou na bodega da Ca\u00e7oila, uma esmama\u00e7ada<br \/>\ncom cord\u00f5es de ouro, que frigia peixe \u00e0 porta e dava arrotos.<\/p>\n<p>Cearam numa est\u00fardia de rapazes, como em Braga, nove anos antes, na<br \/>\ntasca do Catr\u00e2mbias, na Rua do Alcaide. A Lib\u00e2nia de Covas muito<br \/>\nlarachenta \u2013 que levasse o Diabo paix\u00f5es, e mais quem com elas<br \/>\nmedrava; que, em se acabando o dinheiro, faziase cruzes na boca; mas que deixar<br \/>\no seu Ver\u00edssimo, n\u00e3o o deixava nem \u00e0 quinta facada.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00f3s dev\u00edamos ir todos para o Brasil \u2013 lembrou<br \/>\no Torcato, que tinha meditado num recolhimento extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2013 E chelpa? \u2013 perguntou a Lib\u00e2nia.<\/p>\n<p>\u2013 Se tu quiseres, Ver\u00edssimo, dentro de um m\u00eas temos um<br \/>\nconto de r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2013 Boa!&#8230; \u2013disse o outro.\u2013Bem se v\u00ea que as duas garrafas<br \/>\nderam o que podiam dar \u2013 uma fantasia de um conto de r\u00e9is. Por<br \/>\ndois tost\u00f5es \u00e9 barato.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1s disposto a ouvir-me sem interrup\u00e7\u00e3o de<br \/>\nchala\u00e7a? Eu n\u00e3o estou b\u00eabedo, palavra de honra!<\/p>\n<p>Lib\u00e2nia p\u00f4s a face entre ais m\u00e3os e os cotovelos na toalha<br \/>\nsuja de vinho e migalhas, com os olhos muito fitos e rutilantes na cara do<br \/>\nNunes. O Ver\u00edssimo atirou com as pernas para cima da banca, acendeu<br \/>\num charuto de dez-r\u00e9is e disse que falasse \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>\u2013 Tu sabes que te pareces muito com D. Miguel?<\/p>\n<p>\u2013 Come\u00e7as bem. Temos asneira.<\/p>\n<p>\u2013 Mau! N\u00e3o me fales \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 sei onde queres chegar. Vais dizer-me que me fa\u00e7a<br \/>\naclamar rei, e, para evitar efus\u00e3o de sangue, venda a minha sobrinha<br \/>\nD. Maria II os meus direitos \u00e0 coroa por um conto de r\u00e9is. Dou-os<br \/>\nmais em conta.<\/p>\n<p>\u2013 Adeus minha vida! \u2013 retrucou o Nunes impaciente. \u2013 Amanh\u00e3<br \/>\nconversaremos.<\/p>\n<p>\u2013 Deixa falar o homem! \u2013 interveio a Lib\u00e2nia. \u2013 Ora<br \/>\ndiga l\u00e1, \u00e9 s\u00ea Nunes.<\/p>\n<p>O Torcato exp\u00f4s a sua teoria do conto de r\u00e9is, desfez atritos,<br \/>\nremoveu dificuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto Minho,<br \/>\nos dois. Lib\u00e2nia iria para Ramalde trabalhar nos teares da Grainha,<br \/>\nque lhe dava comida, cama e doze vint\u00e9ns por dia. Venderiam a um adeleiro<br \/>\nda Rua Ch\u00e3 os trastes para o Ver\u00edssimo se enroupar de pano piloto,<br \/>\nquinzena e cal\u00e7as com alguma dec\u00eancia, roupa branca, reforma<br \/>\ndas botas cambadas, chap\u00e9u de feltro e um palet\u00f3 de agasalho.<\/p>\n<p>Na quinta -feira gorda, a Lib\u00e2nia, com exemplar coragem, foi para Ramalde.<br \/>\nA Grainha negociava em teias, ia vend\u00ea-las ao Douro, tinha visto em<br \/>\nGouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no Porto:<\/p>\n<p>\u2013 Olhe, mo\u00e7a, quando quiser ganhar a vida honradamente, l\u00e1<br \/>\nestamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e len\u00e7\u00f3is lavados<br \/>\nna cama.<\/p>\n<p>O Nunes e o Ver\u00edssimo foram juntos at\u00e9 perto de Braga. A\u00ed,<br \/>\no de Calvos seguiu para casa, e o outro no s\u00e1bado gordo partiu para<br \/>\na P\u00f3voa de Lanhoso.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>Cap\u00edtulo XI<\/h2>\n<p>O Torcato, antes de entrar em casa, foi \u00e0 resid\u00eancia. Ia misterioso,<br \/>\ncircunvagava uns olhares cautelosos: \u2013 se ningu\u00e9m o ouviria?<br \/>\n\u2013 perguntava ao abade Mairos.<\/p>\n<p>E o abade, entrepondo as cangalhas nas p\u00e1ginas do brevi\u00e1rio:<br \/>\n\u2013 Pode falar, que estou sozinho. Que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2013 D. Miguel I est\u00e1 em Portugal \u2013 disse, curvando-se-lhe<br \/>\nao ouvido, com uma voz gutural.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea que me diz?! Como sabe isso? Pataratas!<\/p>\n<p>\u2013 Chego agora do Porto; estive com o escriv\u00e3o fidalgo, o Ferreira<br \/>\nRangel, e com o abade Gon\u00e7alo Crist\u00f3v\u00e3o. El-rei est\u00e1<br \/>\nnesta prov\u00edncia. Desconfia-se que \u00e9 em Braga, e o Jos\u00e9<br \/>\nAlvo Balsem\u00e3o disse-me que talvez eu o visse brevemente no nosso concelho,<br \/>\nporque o levantamento h\u00e1-de come\u00e7ar por aqui.<\/p>\n<p>\u2013 Que me diz voc\u00ea, amigo Torcato? \u2013 sacudia os bra\u00e7os,<br \/>\nfazia estalar os dedos como castanholas, tinha gestos mudos de exulta\u00e7\u00e3o<br \/>\next\u00e1tica \u2013 que ia escrever ao abade de Priscos, que indagasse,<br \/>\nque aparecesse&#8230; \u2013 \u00c9 preciso trabalhar, preparar os \u00e2nimos&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Chit\u00e3o! \u2013 acudiu o Nunes com o dedo a prumo sobre o<br \/>\nnariz. \u2013 Nada de espalhafato! N\u00e3o ferva em pouca \u00e1gua,<br \/>\nabade. Se der \u00e0 l\u00edngua, esbarronda-se o negocio. O rei s\u00f3<br \/>\nh\u00e1-de aparecer aos seus amigos quando os generais entrarem pela Galiza.<br \/>\nN\u00e3o fala a ningu\u00e9m; n\u00e3o se d\u00e1 a conhecer. Diz<br \/>\nque s\u00f3 falara em Lisboa com o conde de Pombeiro e com o Bobadela, e<br \/>\nno Porto com o Jos\u00e9 Ant\u00f3nio, o morgado do Bom Jardim, e mais<br \/>\ncom o padre Lu\u00eds do Torr\u00e3o&#8230; O abade conhece.<\/p>\n<p>\u2013 Pois n\u00e3o conhe\u00e7o? como as minhas m\u00e3os; \u00e9<br \/>\no vice-rei nas prov\u00edncias do norte&#8230; o nosso bom padre Lu\u00eds<br \/>\nde Sousa, que pelos modos est\u00e1 nomeado patriarca de Lisboa&#8230; Que pechincha,<br \/>\nhem?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 esse mesmo&#8230; Bem! at\u00e9 logo; vou ver a mulher e os<br \/>\nfilhos a casa, que ainda l\u00e1 n\u00e3o fui. Um abra\u00e7o, amigo<br \/>\nabade! Parab\u00e9ns! A choldra vai cair! Vida nova! Daqui a um m\u00eas<br \/>\nest\u00e1 todo esse Minho em armas, e ei rei \u00e0 frente dos seus vassalos.<br \/>\nOutro abra\u00e7o, e viva el-rei!<\/p>\n<p>L\u00e1grimas jubilosas, como contas de vidro sujas, tremeluziam nas p\u00e1lpebras<br \/>\ninflamadas do abade.<\/p>\n<p>\u2013 Jante comigo, Nunes, jante comigo! Vai-se abrir uma de 1815, \u00e0<br \/>\nsa\u00fade de el-rei!<\/p>\n<p>\u2013 Parece que me estoira a pele! N\u00e3o estou em mim! \u2014 Que<br \/>\nia ver a mulher e que voltava j\u00e1.<\/p>\n<p>Na noite de s\u00e1bado para domingo de Carnaval, o Ver\u00edssimo pernoitou<br \/>\nna P\u00f3voa de Lanhoso, na estalagem do Relhas.<\/p>\n<p>Disse ao estalajadeiro que era de longe e andava a viajar pela prov\u00edncia.<br \/>\nPerguntou se por ali n\u00e3o se festejava o Entrudo. O bodegueiro informou<br \/>\nque na P\u00f3voa havia guerra de laranjadas e \u00e0s vezes pancadaria<br \/>\nde Senhor Deus miseric\u00f3rdia; mas que na freguesia de Calvos havia com\u00e9dias<br \/>\nnos tr\u00eas dias de Entrudo, por sinal que o seu filho, um barbado que<br \/>\nali estava, com uma cara angulosa muito alvar, fazia de namorado no M\u00e9dico<br \/>\nFingido, um entremez, coisa rica, que era de um homem malhar de costas naquele<br \/>\nch\u00e3o a rir \u2013 que se ele quisesse ver as com\u00e9dias, podia<br \/>\nir com o seu rapaz, que lhe arranjava l\u00e1 una cadeira de casa do abade.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio para a representa\u00e7\u00e3o do M\u00e9dico Fingido<br \/>\narranjou-se na eira do Gon\u00e7alves, muito espa\u00e7osa e ajeitada,<br \/>\nporque as figuras entravam e saiam, conforme a rubrica, do palheiro que tinha<br \/>\ntr\u00eas portas. O palco, barrado de ferro, ainda h\u00famido, estava<br \/>\nao abrigo de cobertas de chita alinhavadas umas nas outras, retesadas nas<br \/>\npontas por postes de pinho que rematavam em forquilhas para receberem uns<br \/>\nvarais lan\u00e7ados transversalmente. Havia dois mastros de castanheiro<br \/>\ndescascados, afestoados de buxos, alecrim e cam\u00e9lias, coroados por<br \/>\nbandeiras vermelhas esburacadas. Parte dos mastros tinha uma lista em ziguezague<br \/>\npintada a zarc\u00e3o, que se ia espiralando pelo pau acima, com cercadura<br \/>\nde cruzinhas: \u2013 era obra de Cheta, um trolha inspirado que j\u00e1<br \/>\ntinha pintado um painel das Alminhas, onde havia almas do sexo fraco com grandes<br \/>\ntetas lambidas por labaredas, e um rei coroado com a boca aberta ao acto de<br \/>\nberrar queimado, e tamanha boca que s\u00f3 cedia \u00e0 de um bispo mitrado,<br \/>\nmuito empertigado, com o seu b\u00e1culo. O trolha ensaiara o entremez,<br \/>\ne n\u00e3o entrava, porque lhe tinha morrido o pai, havia quinze dias, contava<br \/>\nele a um senhor de fora, desconhecido, que tinha vindo com o gal\u00e3,<br \/>\no filho do estalajadeiro da P\u00f3voa.<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo foi admitido aos camarins, onde estavam sentados, em caixas<br \/>\nde milho e na salgadeira, os figurantes \u00e0 espera da sua vez, j\u00e1<br \/>\nvestidos. Viam-se os personagens do entremez. Matilde, amante de Alm\u00e9nio,<br \/>\numa ing\u00e9nua, a protagonista da pe\u00e7a, a doente namorada, que<br \/>\nlevou o pai a trazer-lhe a casa o amante, o m\u00e9dico fingido. Este papel<br \/>\nfora confiado a um latag\u00e3o oficial de carpinteiro, com os pulsos cabeludos<br \/>\ne os n\u00f3s dos dedos com umas protuber\u00e2ncias calosas que pareciam<br \/>\ncastanhas piladas antigas. Nas ma\u00e7\u00e3s do rosto mascarrara duas<br \/>\nzonas de carmim, que pareciam a dist\u00e2ncia umas chagas de mendigo de<br \/>\nromaria aperfei\u00e7oadas. Trajava um vestido de cetim branco da fidalga<br \/>\nvelha de Rio Caldo, feito em 1824 para um baile que houve em Braga aos anos<br \/>\nde D. Jo\u00e3o VI. O peito chato do carpinteiro ficava \u00e0 altura<br \/>\ndos quadris da fidalga, e as clav\u00edculas espipavam as ombreiras do corpete,<br \/>\nprendendo os movimentos ao desgra\u00e7ado Matilde. Posto que a cena fosse<br \/>\na Casa de Astolfo, pai da doente fingida, a<\/p>\n<p>velhaca estava de chap\u00e9u de palhinha com enorme telha enconchada e<br \/>\nplumas brancas muito amarelecidas do mofo. O vestido era-lhe curto, mas lucravam<br \/>\ncom isso as pernas, que se deixavam ver at\u00e9 acima do jarrete, cingidas<br \/>\nde fitas cruzadas que subiam de uns sapatos de duraque sem tac\u00f5es,<br \/>\nfeitos de prop\u00f3sito e em concord\u00e2ncia com os \u00e2ngulos reentrantes<br \/>\ne salientes dos p\u00e9s. Era o grotesco do horror. A criada de Matilde,<br \/>\na Laberca, tamb\u00e9m vestia de cetim azul-ferrete, um pouco menos antigo,<br \/>\nempr\u00e9stimo das senhoras de S. Crau, que o assoalhavam de vez em quando<br \/>\npara os entremezes. N\u00e3o tinha chap\u00e9u nem sapatos de duraque:<br \/>\nobedecia mais \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o natural. Na cabe\u00e7a<br \/>\nusava touca de folhos com la\u00e7os de fita escarlate e nos p\u00e9s<br \/>\nos butes do amo com ponteira de verniz; ele era o criado do juiz de direito<br \/>\nsubstituto; gozava cr\u00e9ditos de representar pap\u00e9is de lacaia<br \/>\nfazendo rebentar a gente.<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo fez os seus cumprimentos \u00e0s duas damas, e manteve<br \/>\numa seriedade verdadeiramente real. O Alm\u00e9nio era o filho do estalajadeiro<br \/>\nda P\u00f3voa de Lanhoso, o Relhas. Cal\u00e7as brancas, quinzena de veludilho,<br \/>\nbengala de cast\u00e3o de prata, chap\u00e9u branco de castor e \u00f3culos.<br \/>\nDisse ao Ver\u00edssimo que punha os \u00f3culos para fingir de m\u00e9dico.<br \/>\nEstava a um canto o galego, o Gon\u00e7alo, aguadeiro da casa. Como n\u00e3o<br \/>\nhavia em Calvos o costume rigoroso dos aguadeiros, o trolha ensaiador vestiu-o<br \/>\nde almocreve, com as botas refegadas, faixa branca e em mangas de camisa,<br \/>\ncom uma monteira comprada em Tui. A cara era ao pr\u00f3prio, de uma verdade<br \/>\nt\u00edpica. O Pantufo, um saloio rico que queria casar com Matilde, e foi<br \/>\nbigodeado pelo fingido m\u00e9dico, vestia a melhor andaina de fato do presidente<br \/>\nda c\u00e2mara, um apaixonado pelos entremezes, que a gravidade idas suas<br \/>\nfun\u00e7\u00f5es impedia de representar; mas emprestava a roupa e a intelig\u00eancia<br \/>\ndramatol\u00f3gica. Havia mais duas figuras, o Falsete, e o Astolfo, que<br \/>\nse estavam vestindo l\u00e1 dentro, por detr\u00e1s de um ripado, que<br \/>\nos deixava ver em camisa enfiando as pernas sujas nas pantalonas, enquanto<br \/>\no trolha lhes rebocava de vermelh\u00e3o as caras.<\/p>\n<p>O Nunes atravessara a eira, e endireitara para o palheiro, quando lhe disse<br \/>\no Gon\u00e7alves que estava l\u00e1 dentro um fidalgo de longe. Encostou-se<br \/>\nao batente da porta, trocou um lance de olhos com o Ver\u00edssimo, e saiu<br \/>\napressadamente, arranjando pelo caminho uma fisionomia cheia de alvoro\u00e7o,<br \/>\nde surpresa.<\/p>\n<p>Entrou pela resid\u00eancia, muito esbofado:<\/p>\n<p>\u2013 O abade, j\u00e1 esteve na eira do Gon\u00e7alves?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o; estou a acabar de jantar, e l\u00e1 vou ver essa borracheira<br \/>\nde com\u00e9dia. Voc\u00ea vem aganado!<\/p>\n<p>\u2013 Vinha perguntar-lhe se conhece um sujeito de fora que l\u00e1 est\u00e1<br \/>\nna eira.<\/p>\n<p>\u2013 Aqui veio um rapazola da P\u00f3voa pedir-me uma cadeira h\u00e1<br \/>\ncoisa de meia hora para um fidalgo que tinha vindo com ele. Perguntei-lhe<br \/>\nquem era o fidalgo. Diz que n\u00e3o sabe. Esta canalha em vendo um bigorrilhas<br \/>\nde casaco chama-lhe fidalgo.<\/p>\n<p>\u2013 Venha j\u00e1 da\u00ed comigo. Por quem \u00e9, n\u00e3o<br \/>\nse demore&#8230; O abade, lembra-se de ver el-rei em Braga h\u00e1 treze anos?<\/p>\n<p>\u2013 Ora se lembro!&#8230; Beijei-lhe a m\u00e3o tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>\u2013 E, se o vir agora, conhece-o?<\/p>\n<p>\u2013 Parece-me que sim \u2013 o padre limpava \u00e0 pressa os bei\u00e7os<br \/>\namarelos dos ovos do arroz-doce. \u2013 Mas isso que quer dizer? Voc\u00ea<br \/>\nest\u00e1 doido, ou temos carraspana, amigo Nunes?<\/p>\n<p>\u2013 Homem! venha comigo, e depois chame-me doido ou borrach\u00e3o,<br \/>\nl\u00e1 como quiser; mas n\u00e3o se demore que eu estou em brasas vivas.<\/p>\n<p>\u2013 A\u00ed vou, a\u00ed vou, n\u00e3o se atrigue. Vai uma pinga<br \/>\ndo choco?<\/p>\n<p>\u2013 Venha de l\u00e1 isso. \u2013 Bebeu de um trago, e pediu outro:<br \/>\n\u2013 Agora, \u00e0 sa\u00fade de el-Rei! \u00e0 sa\u00fade daquele<br \/>\nque talvez esteja bem perto de n\u00f3s! a cem passos!<\/p>\n<p>\u2013 Toque! \u2013 exclamou o abade.<\/p>\n<p>Pelo caminho, disse-lhe o Nunes que era preciso o maior disfarce, n\u00e3o<br \/>\nolhar muito de frente para ele, e s\u00f3 deviam falar-lhe se a ocasi\u00e3o<br \/>\nviesse muito a jeito.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 a sonhar, homem!<\/p>\n<p>Quando entraram \u00e0 eira, j\u00e1 tinia come\u00e7ado a festa. Ver\u00edssimo<br \/>\nestava em p\u00e9, com a m\u00e3o direita apoiada nas costas da cadeira.<br \/>\nDe um e de outro lado remexia-se a turba, muitas raparigas a rirem dos actores<br \/>\nvestidos de mulheres, e uns rapazes com chala\u00e7as de uma gra\u00e7a<br \/>\naparvalhada, muito local, a que os do palco respondiam \u00e0 letra com<br \/>\nmanguitos, e os que faziam de mulheres batiam palmadas no traseiro, voltando-o<br \/>\npara o p\u00fablico. C\u00e3es ladravam \u00e0s figuras; os rapazes<br \/>\ndavam-lhes pauladas e eles ganiam. As velhas mandavam calar o gentio para<br \/>\npoderem perceber as faias: \u2013 Canalha brava, calaide-vos a\u00ed! \u2013<br \/>\nUma balb\u00fardia que parecia um teatro de cidade de primeira ordem. O<br \/>\ntio Gon\u00e7alves, o dono da eira, dizia que estavam todos b\u00eabedos,<br \/>\ne voltava-se para o desconhecido, como a pedir desculpa.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 Entrudo \u2013 dizia \u2013 \u00e9 Entrudo, senhor!<\/p>\n<p>Quando apareceu o padre na cancela da eira, houve sil\u00eancio com algumas<br \/>\nfungadelas de riso das cachopas, e recome\u00e7ou a com\u00e9dia em obs\u00e9quio<br \/>\nao abade e \u00e0 Arte ultrajada pela hilaridade bruta da plateia. Notaram<br \/>\nalguns velhos sisudos que o forasteiro das grandes barbas se mantivera muito<br \/>\ns\u00e9rio durante a tro\u00e7a da canalha. Assim o dizia o Gon\u00e7alves<br \/>\nao abade, perguntando-lhe se conhecia aquele senhor.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o conhe\u00e7o \u2013 e acotovelava o Nunes, segredando-lhe<br \/>\ncom o disfarce:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea adivinhou. \u00c9 ele.<\/p>\n<p>\u2013 Que me diz, abade?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 ele.<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo dera tr\u00eas passos para acender um cigarro no de um<br \/>\nm\u00fasico que estava sentado num bombo.<\/p>\n<p>\u2013 E ele! \u2013 repetiu o abade. \u2013 Voc\u00ea n\u00e3o o viu<br \/>\ncoxear?<\/p>\n<p>\u2013 Fale baixo, fale baixo, e n\u00e3o olhe muito para ele, que eu<br \/>\nj\u00e1 o vi deitar-nos os olhos \u2013 acautelou o Nunes.<\/p>\n<p>\u2013 Tamb\u00e9m eu&#8230;<\/p>\n<p>Estalou neste momento uma gargalhada geral. Ver\u00edssimo tamb\u00e9m<br \/>\nse riu, e deu palmas.<\/p>\n<p>\u2013 Olha! olha! a dar palmas! \u2013 notou o abade com transporte. Aquilo<br \/>\nsensibilizou-o at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas! O Sr. D. Miguel I a dar<br \/>\npalmas \u00e0s figuras do M\u00e9dico Fingido, na eira do Gon\u00e7alves,<br \/>\nem S\u00e3o Gens de Calvos! Tocante!<\/p>\n<p>A risada geral, as palmas e os apupos n\u00e3o eram figorosamente uma ova\u00e7\u00e3o<br \/>\nao autor do entremez nem aos curiosos. Eis o caso. Na cena I o Astolfo pede<br \/>\ncarinhosamente \u00e0 filha que coma alguma coisa. Matilde diz que n\u00e3o<br \/>\npode, que n\u00e3o est\u00e1 em si; que lhe acuda, que lhe acuda, porque<br \/>\num suor frio lhe faz perder os sentidos.<\/p>\n<p>O gargajola esperava ser amparado pelo outro, em harmonia com a rubrica que<br \/>\ndiz: Finge desmaio, e Astolfo a sust\u00e9m nos bra\u00e7os. Mas ou porque<br \/>\nse antecipasse a desmaiar, ou porque Astolfo se demorasse a ampar\u00e1-la,<br \/>\nMatilde escorregou de costas sobre o barro ainda fresco do palco; e, no acto<br \/>\nde se erguer debaixo dos apupos da multid\u00e3o, arrega\u00e7aram-se-lhe<br \/>\nas saias e saiotes at\u00e9 \u00e0 cintura. Ora a Matilde n\u00e3o usava<br \/>\ncalcinhas. Um esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Ver\u00edssimo Borges n\u00e3o p\u00f4de sustentar a gravidade competente<br \/>\n\u00e0 sua pessoa. A natureza rebentou por de fora numas casquinadas convulsas<br \/>\nque poderiam custar-lhe uma mocada, se a deflagra\u00e7\u00e3o do riso<br \/>\nn\u00e3o fosse geral.<\/p>\n<p>Matilde fugiu do palco, enfiou pelo palheiro e n\u00e3o voltou \u00e0<br \/>\ncena. O ensaiador, o trolha, saiu ao terreiro a explicar ao p\u00fablico<br \/>\na suspens\u00e3o do entremez nestas palavras:<\/p>\n<p>\u2013 Aquele alma do Diabo despiu a farpela, e diz que raios o parta, se<br \/>\nc\u00e1 tornar. Voc\u00eas pode ir \u00e0 sua vida que n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nhoje treato.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a debandar o audit\u00f3rio em grande algazarra. Ver\u00edssimo<br \/>\nparecia esperar que o gal\u00e3, o Relhas J\u00fanior, se despisse para<br \/>\nse retirar. O Gon\u00e7alves perguntava-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 E que tal esteve a chala\u00e7a, senhor? M\u00e1 m\u00eas pr&#8217;\u00f3<br \/>\nhome, que se mais tivesse mais punha \u00f3 l\u00e9u! \u2013 e voltando-se<br \/>\npara o abade, que, a pedido do Nunes, guardava respeitosa dist\u00e2ncia:<br \/>\n\u2013 \u00d3 Senhor Abade! coisa assim n\u00e3o consta! Eu, se me sucedesse<br \/>\numa daquelas, metia a cabe\u00e7a num fole.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o acasos \u2013 disse Ver\u00edssimo com indulg\u00eancia.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o se lembrou que estava vestido de senhora.<\/p>\n<p>O abade ganhou \u00e2nimo, abeirou-se do Gon\u00e7alves, cumprimentando<br \/>\no outro cerimoniosamente, e disse:<\/p>\n<p>\u2013 O entremez n\u00e3o presta para nada. Se o homem n\u00e3o ca\u00edsse,<br \/>\nningu\u00e9m se ria.<\/p>\n<p>\u2013 Provavelmente&#8230; \u2013 assentiu o Ver\u00edssimo, correspondendo<br \/>\n\u00e0 cortesia do Torcato Nunes, que parecia aproximar-se mais acanhado.<br \/>\n\u2013 Estes casos de escorregar \u2013 acrescentou o desconhecido \u2013<br \/>\nacontecem nos primeiros teatros do mundo e at\u00e9 nas salas onde se dan\u00e7a;<br \/>\ne de ordin\u00e1rio as senhoras que desastradamente caem, s\u00e3o verdadeiras<br \/>\nsenhoras \u00e9 muito pior e mais melindroso.<\/p>\n<p>O abade e o Nunes com muitos gestos afirmativos \u2013 que sim, que era<br \/>\nmuito pior, e mais melindroso, muito mais.<\/p>\n<p>Derivou a conversa\u00e7\u00e3o para as belezas naturais do Minho. O<br \/>\ndesconhecido sentia ter vindo no Inverno, quando apenas se adivinhavam as<br \/>\npompas da Primavera.<\/p>\n<p>Principiava a chuviscar. O abade ofereceu a sua casa ao forasteiro, enquanto<br \/>\nn\u00e3o estiava a chuva. Ver\u00edssimo aceitou por momentos, visto que<br \/>\nn\u00e3o se prevenira com guarda-chuva \u2013 um traste que detestava.<br \/>\nOs aguaceiros repetiram-se com pequenas intercad\u00eancias, varejados pelo<br \/>\nsul; por fim, as cristas da serrania empardeceram, as nuvens rolavam pelos<br \/>\ndeclives como escarc\u00e9us a despenharem-se, fechou-se o horizonte sem<br \/>\numa nesga, e a chuva n\u00e3o parava. O abade n\u00e3o permitiu que o<br \/>\nh\u00f3spede sa\u00edsse com tal tempo e j\u00e1 perto da noite.<\/p>\n<p>Durante a ceia, apareceram algumas raparigas mascaradas com len\u00e7\u00f3is,<br \/>\nabra\u00e7ando a Senhorinha que servia \u00e0 mesa, e dizendo em falsete<br \/>\npilh\u00e9rias ao Nunes, a quem chamavam Trocatles e pr\u00e9curador de<br \/>\ncausas perdidas. Ver\u00edssimo mostrava-se contente e dizia:<\/p>\n<p>\u2013 Bom povo! excelente povo! Este Minho \u00e9 o bom cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Portugal, e os seus habitantes, segundo me consta, possuem os melhores<br \/>\ncora\u00e7\u00f5es do reino. Eram dignos de ser mais felizes do que s\u00e3o,<br \/>\ncarregados por tributos, esmagados pelo peso dos empregados p\u00fablicos,<br \/>\nque s\u00e3o o flagelo de Portugal..<\/p>\n<p>O padre escutava-o com religiosa aten\u00e7\u00e3o; o Nunes beliscava<br \/>\na coxa do abade, que tomam a presid\u00eancia da mesa e pusera o h\u00f3spede<br \/>\n\u00e0 sua direita.<\/p>\n<p>No fim da ceia, o padre Marcos, com o copo na m\u00e3o, e de p\u00e9,<br \/>\ndisse que fazia uma sa\u00fade ao seu h\u00f3spede, porque lhe parecia<br \/>\nque tinha a honra de beber \u00e0 sa\u00fade de um realista, de um partid\u00e1rio<br \/>\nde Sua Majestade o Sr. D. Miguel I, que Deus guardasse! O h\u00f3spede agradeceu,<br \/>\ndeclarando que mesmo numa roda de liberais n\u00e3o negada os seus sentimentos<br \/>\npol\u00edticos: que era realista, e como tal brindava \u00e0 sa\u00fade<br \/>\nde todos os amigos do pr\u00edncipe proscrito.<\/p>\n<p>O Nunes dava canel\u00f5es inteligentes e \u00e0s vezes dolorosos no<br \/>\nabade, que o encarava de esconso como quem diz: \u2013 percebo; n\u00e3o<br \/>\nfa\u00e7a de mim asno; sei que estou falando com el-rei.<\/p>\n<p>A criada deu parte que estava pronta a cama.<\/p>\n<p>\u2013 Quando Vossoria quiser \u2013 disse ela ao h\u00f3spede.<\/p>\n<p>Ver\u00edssimo sorriu-se agradavelmente:<\/p>\n<p>\u2013 Que inc\u00f3modo estou dando a esta excelente fam\u00edlia&#8230;<br \/>\nIrei descansar, Senhor Abade, e Sr. Torcato&#8230; parece-me que lhe ouvi chamar<br \/>\nTorcato.<\/p>\n<p>\u2013 Nunes Elas, um criado de vossa&#8230; \u2013 e susteve-se.<\/p>\n<p>Dizia-lhe depois o abade no quinteiro:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea ia-se estendendo, Nunes! Esteve por um triz a dizer, um<br \/>\ncriado de Vossa Majestade, n\u00e3o esteve?<\/p>\n<p>\u2013 Por um triz, abade, que me estendia! Tal \u00e9 a certeza de que<br \/>\nest\u00e1 el-rei nesta casa! \u2013 E com transporte, olhando para as janelas:<br \/>\n\u2013 Onde est\u00e1 pernoitando o Sr. D. Miguel I! o rei amado dos Portugueses,<br \/>\nna pobre resid\u00eancia de S\u00e3o Gens de Calvos! Isto parece um sonho!<\/p>\n<p>A segunda-feira de Entrudo foi uni chover desabalado. N\u00e3o houve entremez<br \/>\nnem se via viva alma no cruzeiro. O abade n\u00e3o consentiu que o h\u00f3spede<br \/>\nse retirasse; e, aconselhado por Nunes, mandou \u00e0 P\u00f3voa buscar<br \/>\na bagagem. Era um ba\u00fa de lata amolgado na tampa, com um cadeado ro\u00eddo<br \/>\nde ferrugem. O legitimista ainda n\u00e3o tinha dado nome algum, nem os<br \/>\noutros ousavam abrir ensejo a que ele tivesse de o inventar. Seria indelicadeza<br \/>\nobrigado a mentir. Al\u00e9m de que, o padre Marcos, tratando-o sempre por<br \/>\nsenhor \u2013 o senhor isto, o senhor aquilo \u2013, entendia que se aproximava<br \/>\ndo tratamento que se deve aos reis, e ao mesmo tempo ia insinuando ao real<br \/>\nh\u00f3spede que j\u00e1 o conhecia.<\/p>\n<p>\u2013 Bom \u00e9 que ele se v\u00e1 persuadindo que n\u00e3o somos<br \/>\npategos \u2013 dizia o abade ao Nunes. \u2013 Sim, bom \u00e9 que se persuada&#8230;<br \/>\nvoc\u00ea percebe. \u2013 E piscava com esperteza.<\/p>\n<p>\u2013 Ora, se percebo! O abade tem andado com uma c\u00e1bula muito fina.<br \/>\nEu \u00e9 que me custa a ter m\u00e3o em mim. A minha vontade era deitar-me<br \/>\nde joelhos aos p\u00e9s dele, e dizer-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Deixe estar \u2013 acomodava o padre \u2013 deixe estar, Nunes.<br \/>\nAs coisas n\u00e3o v\u00e3o assim&#8230; Quando for tempo, eu lhe direi&#8230;<br \/>\nNada de espantar a ca\u00e7a.<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo pediu ao abade algum livro para se entreter, e n\u00e3o<br \/>\no obrigar a atur\u00e1lo. O padre levou-o ao seu quarto, onde havia uma<br \/>\nestante de pinho com tr\u00eas lotes de livros. Mostrou-lhe o Punhal dos<br \/>\nCorcundas, a Defesa de Portugal, do padre Alvito Buela, a Besta Esfolada,<br \/>\nos Burros, e o Novo Pr\u00edncipe. O Ver\u00edssimo levou-os para o seu<br \/>\nquarto, excepto os Burros; disse que n\u00e3o gostava de poesia. Falou com<br \/>\nlouvor do padre Jos\u00e9 Agostinho e de Frei Fortunato de S. Boaventura<br \/>\n\u2013 colunas do altar e do trono, que tinham deixado dois v\u00e1cuos<br \/>\nimpreench\u00edveis na falange realista. Perguntou-lhe o abade se os tinha<br \/>\nconhecido pessoalmente. \u2013 Que sim, com as suas m\u00e3os&#8230; E sorria,<br \/>\ncomo o pr\u00edncipe proscrito, se lhe fizessem semelhante pergunta.<\/p>\n<p>\u2013 Que prazer teria o padre Jos\u00e9 Agostinho, se hoje vivesse e<br \/>\npudesse ver el-rei!&#8230; \u2013 meditou o abade com a sua grande perspic\u00e1cia<br \/>\nobservadora.<\/p>\n<p>\u2013 Decerto. \u2013 concordava o Ver\u00edssimo indolentemente. \u2013<br \/>\nMas quem tem agora esperan\u00e7as de ver D. Miguel em Portugal?<\/p>\n<p>\u2013 Eu, senhor, eu! \u2013 respondeu o padre, batendo na arca do peito<br \/>\ncom as m\u00e3os ambas. \u2013 Eu!<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo folheava o Punhal dos Corcundas, e parecia n\u00e3o<br \/>\nperceber a veem\u00eancia do padre.<\/p>\n<p>\u2013 Bons desejos, bons desejos do caro abade..<\/p>\n<p>\u2013 E de quase toda a na\u00e7\u00e3o portuguesa, senhor! D. Miguel<br \/>\nI nunca deixou de reinar nos cora\u00e7\u00f5es do seu povo. Eu tenho<br \/>\nna minha alma o retrato dele desde que o vi h\u00e1 treze anos em Braga<br \/>\ne lhe beijei as suas reais m\u00e3os! \u2013 Escandecia-se o entusiasmo,<br \/>\npunha as m\u00e3os, chamejavam-lhe nos olhos reflexos do fogo interno; e<br \/>\no Ver\u00edssimo continuava a folhear o Punhal dos Corcundas.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o viu-o, abade?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, meu senhor, vi-o com estes olhos, toquei-lhe com estas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2013 Ainda se recorda das suas fei\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>\u2013 Perfeitamente.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! se o visse hoje, decerto o n\u00e3o conhecia&#8230; Est\u00e1<br \/>\nmuito acabado.<\/p>\n<p>\u2013 Conhecia, conhecia..<\/p>\n<p>O abade sentiu um raio de dramatiza\u00e7\u00e3o que o vibrou todo. Eri\u00e7aram-se-lhe<br \/>\nos cabelos, e coou-lhe pela espinha uma fa\u00edsca el\u00e9ctrica. Fez<br \/>\num passo atr\u00e1s, e quando o Ver\u00edssimo repetiu: , o padre p\u00f4s<br \/>\num joelho em terra, estendeu o bra\u00e7o direito, e com o dedo indicador<br \/>\nem riste, exclamou:<\/p>\n<p>\u2013 Ei-lo! ei-lo!<\/p>\n<p>\u2013 O abade! o senhor est\u00e1 alucinado! Por quem \u00e9, levante-se!<br \/>\nEu n\u00e3o sou quem pensa!<\/p>\n<p>\u2013 Estou como devo estar diante do meu rei! \u2013 teimou o abade,<br \/>\ncom os dois joelhos no sobrado.<\/p>\n<p>\u2013 Levante-se que vem gente! \u2013 dizia o outro, ouvindo passos na<br \/>\nescada.<\/p>\n<p>Era o Nunes.<\/p>\n<p>\u2013 Entre, amigo! \u2013 disse o abade, respondendo ao vizinho que pedia<br \/>\nlicen\u00e7a.<\/p>\n<p>Torcato encontrou o abade de joelhos e o Ver\u00edssimo esfor\u00e7ando-se<br \/>\npor levant\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Ajoelhe a meu lado, Nunes! que eu estou aos p\u00e9s de el-rei!<br \/>\n\u2013 exclamou o padre.<\/p>\n<p>E o outro, ajoelhando:<\/p>\n<p>\u2013 Eu j\u00e1 o sabia, Real Senhor!<\/p>\n<p>Foi assim que se inaugurou a corte de D. Miguel I em S\u00e3o Gens de Calvos,<br \/>\nsegunda-feira de Entrudo de 1845, \u00e0s 3 horas da tarde.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>Cap\u00edtulo XII<\/h2>\n<p>Depois, bem sabem, senhores, como aquele padre Rocha despenhou abruptamente<br \/>\no desfecho da farsa, cuidando que vingava a moral e punia com degredo o celerado<br \/>\nque infamava o sacrat\u00edssimo nome de el-rei D.<\/p>\n<p>Miguel. No tr\u00e2nsito para a Rela\u00e7\u00e3o, a meia l\u00e9gua,<br \/>\nna estrada do Porto, o Ver\u00edssimo, com delicadas maneiras e o seu aspecto<br \/>\nvener\u00e1vel, obteve que o sargento da escolta lhe permitisse alugar a<br \/>\nmula de um almocreve que seguia a mesma direc\u00e7\u00e3o. Cavalgou na<br \/>\nalbarda da mula arreatada com chocalho, sem estribos; empunhou a corda do<br \/>\ncabresto, e ladeado de doze pra\u00e7as do 8, entrou ao cair da tarde em<br \/>\nFamalic\u00e3o.<\/p>\n<p>O Torres de Castel\u00f5es, o administrador, legitimista no fundo, bom<br \/>\nlavrador, mandou-lhe cama para a cadeia e permitiu-lhe que ceasse com uni<br \/>\namigo que o seguira de longe. Era o Nunes, o P\u00edlades das horas certas<br \/>\ne incertas. Orestes estava desanimado; queixava-se das fantasias do outro,<br \/>\nconsiderava-se perdido.<\/p>\n<p>\u2013 Pobre Lib\u00e2nia! \u2013 deplorava \u2013 quando ela souber<br \/>\nque eu estou na Rela\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Como tinha alguma pr\u00e1tica do foro criminal, o Nunes consolava-o: que<br \/>\nn\u00e3o havia mat\u00e9ria para pron\u00fancia; e, quando fosse pronunciado,<br \/>\na Rela\u00e7\u00e3o o despronunciaria.<\/p>\n<p>\u2013 Eu \u00e9 que vou ser o teu procurador, se me n\u00e3o prenderem<br \/>\n\u2013 acrescentava, muito confiado na lei e na sua actividade. \u2013 Quanto<br \/>\n\u00e0 fantasia do conto de r\u00e9is, j\u00e1 n\u00e3o falta tudo,<br \/>\nporque tens as cem pe\u00e7as das Botelhas. Se te deixam ser rei mais um<br \/>\ndia ou dois, tinhas nesta santa hora 3750$000 r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2013 Tu gracejas e eu vou esperar na cadeia uma senten\u00e7a de degredo<br \/>\n\u2013 atalhou o Ver\u00edssimo, naquela estranha situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnunca experimentada, de ouvir os passes da sentinela rentes com a grade do<br \/>\nseu quarto.<\/p>\n<p>\u00c0s oito da noite, fechara-se a porta da cadeia, e Nunes sa\u00edra<br \/>\ntriste, com um pungitivo arrependimento de meter o amigo naquela rascada.<\/p>\n<p>Ao escurecer do dia seguinte, o preso foi conduzido do Governo Civil do Porto<br \/>\npara a Rela\u00e7\u00e3o com um mandado do carcereiro na baioneta do sargento.<br \/>\nQuando sa\u00eda do Governo Civil, j\u00e1 Lib\u00e2nia e o Munes, que<br \/>\nse antecipara a procur\u00e1-la em Ramalde, o esperavam. A Lib\u00e2nia<br \/>\nera uma forte mulher para os trabalhos da vida. Fitou-o com um semblante aceso<br \/>\nde coragem, um sorriso afoito, e disse-lhe muito animosa:<\/p>\n<p>\u2013 Alma at\u00e9 Almeida e de Almeida p&#8217;ra diente alma sempre!<\/p>\n<p>Ver\u00edssimo ocupou o quarto de malta n\u00ba 2, com uma rasgada janela<br \/>\nsobre o Douro, um quarto cheio de luz e de sol, de onde tinha sa\u00eddo<br \/>\no Gravito para a forca \u2013 elucidou o carcereiro, e mostrou-lhe no grosso<br \/>\nalisar da porta as iniciais de alguns padecentes com a data de 1829.<\/p>\n<p>A Lib\u00e2nia e mais o Torcato pernoitaram na Estalagem do Cantinho, na<br \/>\nRua do Loureiro, e passavam o mais do tempo na Rela\u00e7\u00e3o. Ao fim<br \/>\nde seis dias j\u00e1 o Munes requeria a soltura do preso, por falta de nota<br \/>\nda culpa; mas a pron\u00fancia chegou ao oitavo dia, da comarca da P\u00f3voa.<br \/>\nO preso agravou para a Rela\u00e7\u00e3o. Era juiz-relator do agravo o<br \/>\nconselheiro Fortunato Leite, natural do Douro, que, quinze anos antes, no<br \/>\nreinado de D. Miguel, tinha sido amigo de Norberto Borges, e lhe devera a<br \/>\nfineza rara de o avisar na v\u00e9spera do dia em que lhe havia de cercar<br \/>\na casa por ordem do facinoroso corregedor de Vila Real, o Albano, que os liberais<br \/>\nmataram, no meio de uma escolta, em 1836. Quando o relator folheava o processo,<br \/>\nos apelidos do preso, a naturalidade, os pormenores, sugeriram-lhe mem\u00f3rias<br \/>\nda sua persegui\u00e7\u00e3o em 1831, e o salvar-se t\u00e3o extraordinariamente<br \/>\npela amizade do meirinho-geral. Informou-se e evidenciou que o Norberto Horges,<br \/>\nde Alva\u00e7\u00f5es do Corgo, era pai do preso. Estava pois salvo o<br \/>\nfilho do seu benfeitor, sem grande viol\u00eancia \u00e0 justi\u00e7a,<br \/>\nporque a pron\u00fancia fora precipitada, irregular, as testemunhas citadas<br \/>\n\u2013 os padres suspeitos de frequentarem a resid\u00eancia de Calvos \u2013<br \/>\nnada depuseram que provasse projectos revolucion\u00e1rios do agravante.<\/p>\n<p>E lavrou o ac\u00f3rd\u00e3o muito recheado de grifo: \u2013 Que agravado<br \/>\nera o agravante pelo juiz da comarca de Lanhoso, porquanto na pron\u00fancia<br \/>\nde primeira inst\u00e2ncia haviam sido desprezadas as formalidades mais curiais,<br \/>\npois que nenhuma testemunha depusera que o agravante se inculcasse D. Miguel<br \/>\npara perturbar a ordem constitu\u00edda, chamando o povo \u00e0 revolta;<br \/>\ne das respostas do agravante no interrogat\u00f3rio a que procedeu a autoridade<br \/>\nadministrativa, constava que o preso quase que fora obrigado por um cl\u00e9rigo<br \/>\nest\u00fapido e esturrado miguelista a deixar-se chamar D. Miguel I; mas<br \/>\nn\u00e3o constava nem se provava que o agravante se aproveitasse de tal<br \/>\nfraude e impostura para extorquir valores aos seus est\u00fapidos cortes\u00e3os;<br \/>\no que decerto praticada um gamenho decidido a fingir-se D. Miguel para os<br \/>\nespoliar. Que a pron\u00fancia fora in\u00edqua, atabafada apaixonadamente,<br \/>\ne sem base, visto que nada se colhia dos depoimentos das testemunhas, e apenas<br \/>\nse fez obra por hip\u00f3teses e ind\u00edcios, fundada num rol de indiv\u00edduos<br \/>\nalarves, a quem o suposto monarca fazia merc\u00eas de comendas, de t\u00edtulos,<br \/>\nde patentes e at\u00e9 de mitras, sem que da\u00ed resultasse alvoroto<br \/>\nnem leve perturba\u00e7\u00e3o na ordem p\u00fablica, nem mesmamente<br \/>\ndano para os mencionados burros que pediam as merc\u00eas, e que deviam ser<br \/>\npronunciados em primeira inst\u00e2ncia, se a corte de S\u00e3o Gens de<br \/>\nCalvos n\u00e3o fosse uma farsa de Entrudo.<\/p>\n<p>E, dilatando-se filosoficamente e chistoso, o juiz-relator adicionava, aconselhando,<br \/>\nque seda bom e proveitoso que nas tenras selv\u00e1ticas do Minho se espalhassem<br \/>\nmuitos Migu\u00e9is daquela casta e feitio at\u00e9 que os novos Sebastianistas<br \/>\nse convencessem de que somente assim poderiam arranjar um Miguel que lhes<br \/>\ndesse comendas, t\u00edtulos, postos militares e prelazias.<\/p>\n<p>Os desembargadores, com o seu rap\u00e9 engatilhado aos narizes, riram<br \/>\nmuito do final do ac\u00f3rd\u00e3o, e, sorvidas as pitadas sibilantes,<br \/>\nassinaram por unanimidade.<\/p>\n<p>Reformada a senten\u00e7a e pagas as custas pelo juiz da primeira Inst\u00e2ncia,<br \/>\nVer\u00edssimo foi posto em liberdade; e, quando chegou ao escrit\u00f3rio<br \/>\ndo carcereiro Melo para se despedir, encontrou a Lib\u00e2nia de Covas desmaiada<br \/>\nde j\u00fabilo, nos bra\u00e7os da mulher do chaveiro. Como era feliz,<br \/>\ndeixou-se ser mulher \u2013 chorou; e quando lhe cumpria dar \u00e2nimo<br \/>\nao preso, no p\u00e1tio do Governo Civil, riu-se com a valentia dos homens<br \/>\nextraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>O conselheiro Leite recomendou ao Munes procurador que lhe mandasse a casa<br \/>\no Ver\u00edssimo. O filho de Norberto apresentou-se timorato, receoso, com<br \/>\nmaneiras submissas, mas dignas de um Borges Camelo infeliz.<\/p>\n<p>O desembargador explicou-lhe que o chamara para lhe fazer conhecer a d\u00edvida<br \/>\nque lhe pagou, posto que as situa\u00e7\u00f5es fossem muito diversas.<br \/>\nImproperou-lhe serenamente o seu delito; estigmatizou a ac\u00e7\u00e3o<br \/>\nde permitir que o julgassem D. Miguel; falou acerbamente contra este tirano<br \/>\nparricida, incestuoso, canalha, e terminou por lhe aconselhar o trilho da<br \/>\nhonra, o trabalho, e a expia\u00e7\u00e3o das suas irregularidades, mostrando-se<br \/>\ndigno da compaix\u00e3o que lhe inspirara, despronunciando-o. Ver\u00edssimo<br \/>\nbeijou-lhe a m\u00e3o, e recusou dez pintos que o conselheiro lhe dava \u2013<br \/>\nque, se um dia necessitasse, lhos pediria. E o Fortunato Leite, a rir:<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o as bestas dos abades sempre ca\u00edram? Fez voc\u00ea<br \/>\nmuito bem. Devia esfolar essas cavalgaduras!<\/p>\n<p>O Ver\u00edssimo recuava muito agradecido.<\/p>\n<p>O conselheiro Fortunato exerceu uma en\u00e9rgica influ\u00eancia vitalizadora<br \/>\nna nova encerebra\u00e7\u00e3o de Ver\u00edssimo Borges e bastante na<br \/>\ndo Torcato Munes Elias.<\/p>\n<p>Por media\u00e7\u00e3o do bondoso desembargador, obteve o Nunes alvar\u00e1<br \/>\nde solicitador de causas nos audit\u00f3rios do Porto. Ganhou boas rela\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEra esperto, zeloso e pagava-se regularmente. Chamou para a cidade a mulher<br \/>\ne os dois filhos Alugaram casa na Rua de Tr\u00e1s as duas fam\u00edlias.<br \/>\nDavam-se muito bem, e gastavam economicamente os 750$000 r\u00e9is das Botelhas,<br \/>\nde meias com os sal\u00e1rios de procurador. O Ver\u00edssimo frequentava<br \/>\n\u00e0 noite o caf\u00e9 das Hortas, jogava o quino e, de vez em quando,<br \/>\nia ao caf\u00e9 da Rua de Santo Ant\u00f3nio ouvir os demagogos dos manos<br \/>\nPassos, que o festejavam e catequizavam. Dava-se com os Navarros, com o Almeida<br \/>\nPenha, com os Peixotos vidraceiros Ele, sobpondo ao reconhecimento os escr\u00fapulos<br \/>\nde espi\u00e3o, contava ao conselheiro Leite, cabralista intransigente,<br \/>\nos planos dos setembristas, os clubes, as lojas de carbon\u00e1rios, as<br \/>\ntram\u00f3ias arranjadas em Braga pelo bar\u00e3o do Casal, muito setembrista,<br \/>\npadre Alves Vicente, de combina\u00e7\u00e3o com o Passos Jos\u00e9,<br \/>\ncom o Faria Guimar\u00e3es, com o m\u00e9dico Resende, com o Dam\u00e1sio,<br \/>\ncom o Alves Marfins. O governador civil, visconde de Beire, estava em dia<br \/>\ncom as conspira\u00e7\u00f5es da Viela da Neta \u2013 aquele baluarte<br \/>\nda Liberdade que demorava paredes meias com os escombros do Deboche, n\u00e3o<br \/>\ngrifado, muito \u00e0 francesa; \u2013tudo acabado hoje em dia, e soterrado<br \/>\ndebaixo de uma loja de modas, de um caf\u00e9 e de uma taverna \u2013 o<br \/>\nvitalismo soez e chato da decad\u00eancia.<\/p>\n<p>Ver\u00edssimo arrecadava uma gratifica\u00e7\u00e3o, umas seis libras<br \/>\nmensais, mesquinha paga dos servi\u00e7os que fazia \u00e0 ordem, \u00e0<br \/>\ntranquilidade c\u00edvica da Rua das Flores e das Congostas.<\/p>\n<p>Na contra-revolu\u00e7\u00e3o de 9 de Outubro de 46, quando foi preso<br \/>\no duque, Jos\u00e9 Passos encontrou o Ver\u00edssimo na Pra\u00e7a Nova,<br \/>\nchamou-lhe patriota, p\u00f4s-lhe a m\u00e3o no ombro, sacudiu-o pelas<br \/>\nlapelas, e disse-lhe que movesse, que agitasse as massas, porque o duque estava<br \/>\na desembarcar. Os sinos tangiam a rebate, a plebe ondeava para Vilar, num<br \/>\nrestrugir de tempestade, quando o Ver\u00edssimo e o Nunes procuraram o<br \/>\nconselheiro Fortunato, que tiritava de medo com as suas enx\u00fandias espapadas<br \/>\nentre as filhas, numa consterna\u00e7\u00e3o. Disseram-lhe que se iam<br \/>\narmar para se constitu\u00edrem sentinelas da seguran\u00e7a do seu benfeitor.<br \/>\nO conselheiro abra\u00e7ou-os muito comovido, numa excita\u00e7\u00e3o<br \/>\napopl\u00e9ctica.<\/p>\n<p>Depois formaram-se os batalh\u00f5es nacionais. Ver\u00edssimo e Torcato<br \/>\nforam promovidos a tenentes do batalh\u00e3o da Vista Alegre. Quando foi<br \/>\nda refrega de Valpa\u00e7os tinham compreendido inteligentemente que a retirada<br \/>\nde S\u00e1 da Bandeira, da veiga de Chaves, era a fraqueza precursora de<br \/>\numa derrota. Conheciam o p\u00e9rfido esp\u00edrito do 15 e do 3 de infantaria<br \/>\n\u2013 previram a trai\u00e7\u00e3o. Tinham pensado maduramente os dois<br \/>\ntenentes, sem entusiasmo, com a prud\u00eancia dos quarenta anos apalpados<br \/>\npelos reveses de vinte batalhas. Resolveram desertar quando os batalh\u00f5es<br \/>\nde linha se passassem para as for\u00e7as reais. Travou-se o encontro de<br \/>\nValpa\u00e7os. Com os dois regimentos que mim turbilh\u00e3o e a gritos<br \/>\nde Viva a Rainha se abra\u00e7aram \u00e0s vanguardas do Casal, tamb\u00e9m<br \/>\neles, por debaixo do fogo do seu batalh\u00e3o, se passaram, dando vivas<br \/>\n\u00e0 Carta Constitucional. Eram a obra da prud\u00eancia e do conselheiro<br \/>\nFortunato Leite.<\/p>\n<p>Quando o bar\u00e3o de Casal foi espostejar os miguelistas a Braga, os<br \/>\ndois tenentes apresentados pediram v\u00e9nia ao general para servirem na<br \/>\ncoluna do visconde de Vinhais; \u2013 que tinham repugn\u00e2ncia de pelejar<br \/>\ncara a cara com os seus parentes bandeados nas guerrilhas do padre Casimiro<br \/>\nJos\u00e9 Vieira e do padre Jos\u00e9 da Laje. A vergonha impunhalhes<br \/>\no dever de doirar a mentira. N\u00e3o lhes pareceu decente irem acutilar<br \/>\nnas mas de Braga o Crist\u00f3v\u00e3o Bezerra, de Bouro, e o abade de<br \/>\nCalvos e o padre Manuel das Agras. N\u00e3o poderiam ver sem m\u00e1goa<br \/>\na soldadesca a dar saque aos dinheiros das senhoras Botelhas.<\/p>\n<p>Ainda assim n\u00e3o puderam esquivar-se a perseguir os realistas da comitiva<br \/>\nde MacDonald, desde Vila Real at\u00e9 Sabroso; mas n\u00e3o desembainharam<br \/>\nas espadas, porque o visconde de Vinhais os admitiu ao seu quartel-general,<br \/>\ne os cad\u00e1veres que encontraram pela serra do Mezio at\u00e9 Sabroso,<br \/>\nonde pereceu acutilado o caudilho escoc\u00eas, eram fa\u00e7anhas das<br \/>\nguardas avan\u00e7adas. Os dois tenentes n\u00e3o deram nem tiraram gota<br \/>\nde sangue nesta luta fratricida. Um triunfo a seco.<\/p>\n<p>Conclu\u00edda a guerra civil pelo conv\u00e9nio de Gramido, depositaram<br \/>\nas armas e pediram empregos. O conselheiro Leite, o Casal, o Vinhais, o Alpendurada,<br \/>\no Carneiro Geraldes, o Joaquim Torcato, o centro cabralista recomendou-os<br \/>\n\u00e0 considera\u00e7\u00e3o magn\u00e2nima de Sua Majestade. O Nunes,<br \/>\ncomo sabia do foro, foi despachado escriv\u00e3o de direito para a Estremadura,<br \/>\nVer\u00edssimo Borges obteve uma fiscaliza\u00e7\u00e3o rendosa dos<br \/>\ntabacos e sab\u00e3o em Tr\u00e1s-os-Montes; depois foi transferido, com<br \/>\nvantagem, para a alf\u00e2ndega de Viana do Minho; e por \u00faltimo para<br \/>\numa direc\u00e7\u00e3o aduaneira do Ultramar. Ainda vivia h\u00e1 poucos<br \/>\nanos, porque um jornal da localidade, debaixo de um s\u00edmbolo f\u00fanebre<br \/>\n\u2013 um anjo curvado e deplorativo sobre a sua urna, enlutada pelas madeixas<br \/>\nde um chor\u00e3o \u2013 publicava:<\/p>\n<p>Ver\u00edssimo Borges Camelo da Mesquita d\u00e1 parte aos seus numerosos<br \/>\ne respeit\u00e1veis amigos que foi Deus servida chamar \u00e0 sua divina<br \/>\npresen\u00e7a, hoje pelas 5 horas da manh\u00e3, sua chorada esposa D.<br \/>\nLib\u00e2nia de Covas<\/p>\n<p>Borges da Mesquita, a cujo cad\u00e1ver, etc. Pelo seu profundo estado<br \/>\nde consterna\u00e7\u00e3o pede desculpa de cumprimentos.<\/p>\n<p>O jornal, depois de uns adjectivos l\u00fagubres e velhos como a morte,<br \/>\nacrescentava:<\/p>\n<p>A Ex.ma Sr\u00aa D. Lib\u00e2nia, que todos choramos com seu Ex.mo vi\u00favo,<br \/>\nera uma senhora de esmerad\u00edssima educa\u00e7\u00e3o, pertencia<br \/>\n\u00e0 ilustre fam\u00edlia dos Covas; \u2013 modelo no trato insinuante<br \/>\ncom que cativava o respeito e a amizade de todas as pessoas desta Ilha, que<br \/>\ntiveram a fortuna de a conhecer. Receba S. Ex.mo Sr. Conselheiro-Director<br \/>\nos nossos mais sentidos p\u00easames pela desgra\u00e7a que acaba de o<br \/>\nferir implacavelmente.<\/p>\n<p>Ver\u00edssimo e Nunes podem ainda viver, porque eram robustos de corpo<br \/>\ne de alma.<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>Cap\u00edtulo XIII<\/h2>\n<p>O Zeferino deixou o Cerveira Lobo em Quadros, com os tr\u00eas contos de<br \/>\nr\u00e9is, foi para as Lamelas, e entrou de noite, para que o n\u00e3o<br \/>\nvissem. Ele tinha-se gabado aos vizinhos de que estava despachado sargento-mor<br \/>\ne seu pai coronel reformado. Ao Jos\u00e9 Dias de Vilalva e mais ao pai,<br \/>\nque era regedor, mandara-lhes dizer que eles brevemente haviam de topar com<br \/>\no seu homem. Da Marta de Prazins dizia trapos e farrapos. A sua paix\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o tinha outro respiradouro. Al\u00e9m disso, n\u00e3o podia esquecer-se<br \/>\nda n\u00e1dega exposta pelo c\u00e3o \u00e0s descompostas gargalhadas<br \/>\nda rapariga. Era uma vergonha cr\u00f3nica. E, para remate de desastres,<br \/>\nvoltava para as Lamelas, a ouvir as rabugices do pai que lhe chamava cavalgadura<br \/>\n\u2013 que se deixasse de pol\u00edtica e fosse fazer paredes, que \u00e9<br \/>\no que ele sabia.<\/p>\n<p>Constava-lhe demais a mais que o Jos\u00e9 Dias, o estudante, estava sempre<br \/>\nem Prazins, e tinha ido com Marta e mais o Sime\u00e3o ao fogo preso da<br \/>\nromaria de Santiago da Cruz. Viram-nos todos tr\u00eas a tomar caf\u00e9<br \/>\nde madrugada numa barraca, a cochicharem os dois muito aconchegados, enquanto<br \/>\no velho tosquenejava a dormitar.<\/p>\n<p>O pai de Jos\u00e9 Dias, o Joaquim de Vilalva, era uni lavrador de primeira<br \/>\nordem. Lavrava quarenta canos de milho e centeio, uma pipa de azeite, dez<br \/>\nde vinho, muita castanha, tinha tr\u00eas juntas de bois chibantes e poldros<br \/>\nde cria\u00e7\u00e3o. O Jos\u00e9, meeiro no casal, a n\u00e3o se<br \/>\nordenar, era um dos primeiros casamentos do concelho.<\/p>\n<p>O rapaz amava castamente a Marta com a pudic\u00edcia do primeiro amor.<br \/>\nEla tinha uma formosura meiga, delicada e suplicante. Parecia pedir que a<br \/>\nn\u00e3o imolassem a uma paix\u00e3o sensual; mas, se o seu amado o exigisse,<br \/>\na vitima coroar-se-ia de flores, e iria risonha e mansamente para o sacrif\u00edcio.<br \/>\nTinha \u00eaxtases a contemplar-lhe os cabelos loiros e a p\u00e1lida face<br \/>\ndoentia; deixava-se beijar com a impassibilidade de uma santa de jaspe \u2013<br \/>\num quadro paradis\u00edaco sem frutas nem cobras.<\/p>\n<p>O Jos\u00e9 n\u00e3o necessitava pedi-la ao pai na incerteza de uma recusa.<br \/>\nDisse-lhe que ela havia de ser a sua esposa: a crian\u00e7a contou ao pai<br \/>\nas palavras do amado e o Sime\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Ora venha de l\u00e1 esse abra\u00e7o, amigo e s\u00ea Z\u00e9!<br \/>\n\u2013 e apertou o futuro genro com a ternura de pai que arranja a sua filha<br \/>\ncomo se quer.<\/p>\n<p>Mas os pais do estudante j\u00e1 tinham dito ao rapaz que mudasse de rumo,<br \/>\nque a mo\u00e7a de Prazins n\u00e3o era forma de seu p\u00e9. A m\u00e3e,<br \/>\nprincipalmente, protestava que, enquanto ela fosse viva, a tal filha da Genoveva<br \/>\nde Prazins n\u00e3o havia de ser sua nora, nem que a levasse o Diabo, e<br \/>\nDeus lhe perdoasse, se pecava. Justificava se dizendo que a Marta era de ruim<br \/>\ncasta; que a m\u00e3e, a Genoveva, dera desgostos ao homem, pintava a manta<br \/>\nnas romarias, andara muito falada com um frade de Santo Tirso, e um dia pegara<br \/>\na dar gritos na igreja; toda a gente disse que ela tinha o Dem\u00f3nio<br \/>\nno corpo, e afinal morrera doida, atirando-se ao rio Ave.<\/p>\n<p>E constava-lhe que o av\u00f4 dela tamb\u00e9m n\u00e3o era escorreito,<br \/>\ne quando j\u00e1 tinha sessenta anos mandara fazer uma sobrepeliz, abrira<br \/>\ncoroa, e onde houvesse um defunto l\u00e1 ia com um ripan\u00e7o \u00e0<br \/>\nigreja e punha-se a cantar como os padres. A tia Maria de Vilalva tinha inconsciente<br \/>\nmente este horror moderno, cient\u00edfico da hereditariedade mas o que<br \/>\nmais a impulsionava na sua resist\u00eancia aos rogos do filho era ter sido<br \/>\nm\u00e1 mulher e m\u00e3e de Marta De m\u00e1 \u00e1rvore, ruim fruto<br \/>\n\u2013 era toda a sua filosofia, que se encontra dilu\u00edda modernamente<br \/>\nnas explora\u00e7\u00f5es fisiopsicol\u00f3gicas de Janet, de Maudsley<br \/>\ne no determinismo.<\/p>\n<p>O Joaquim de Vilalva, muito instado pelo filho e pelo padre Os\u00f3rio,<br \/>\no de Caldelas, prometia fazer o que a sua companheira fizesse; mas dizia-lhe<br \/>\na ela em particular:<\/p>\n<p>\u2013 Tu aguenta-te, Maria; nunca digas que sim, ouviste?<\/p>\n<p>E ela:<\/p>\n<p>\u2013 Deixa-me c\u00e1, homem! V\u00eam barrados. Credo!<\/p>\n<p>A tia Maria era muito rezadeira, erguia-se de noite para n\u00e3o pender<br \/>\na sua missinha no Ver\u00e3o ao romper do dia, e garganteava com uma melopeia<br \/>\nfanhosa a via-sacra na Quaresma, \u00e0 volta da igreja; presenteava os<br \/>\nsantos dos altares com os mimos da sua lavoura, que se leiloavam ao domingo<br \/>\nno adro, dava cama e mesa untuosa aos mission\u00e1rios, confessava-se todos<br \/>\nos meses, e sentia pelas suas vizinhas menos beatas o inef\u00e1vel prazer<br \/>\nde afirmar que haviam de cair vestidas e cal\u00e7adas no Inferno. O filho<br \/>\npenetrou-se de uma ideia trivial a respeito de sua m\u00e3e: \u2013 Que<br \/>\nos sentimentos religiosos a Levariam a dar o consentimento, se Marta cometesse<br \/>\num desses pecados que se remedeiam com o matrim\u00f3nio. O padre Os\u00f3rio<br \/>\ndizia-lhe que a inten\u00e7\u00e3o era honesta, mas o expediente mau.<br \/>\nN\u00e3o lhe citou te\u00f3logos nem preceitos de origem divina. Argumentoulhe<br \/>\ncom a hip\u00f3tese da pertinaz resist\u00eancia da m\u00e3e. Que n\u00e3o<br \/>\nesperava nada da sua religi\u00e3o um h\u00e1bito de trejeitos de m\u00e3os<br \/>\ne de bei\u00e7os, o automatismo id\u00f3latra dos selvagens<\/p>\n<p>da Am\u00e9rica, que davam guinchos mec\u00e2nicos, prostrando-se por<br \/>\nterra, quando ouviram a primeira missa; que a religi\u00e3o das aldeias,<br \/>\nsobre a dos indianos da catequese dos jesu\u00edtas, as vantagens que tinha<br \/>\nera a hipocrisia em uns, e o fanatismo em outros, quando n\u00e3o se jantavam<br \/>\nambas as coisas nos mesmos fi\u00e9is, O padre Os\u00f3rio paroquiava<br \/>\ne conhecia o seu rebanho, joeirando-o pelos crivos do confession\u00e1rio.<br \/>\nN\u00e3o conhecia menos a tia Maria de Vilalva. Afirmava que a fragilidade<br \/>\nde Marta seria para a velha mais um motivo de \u00f3dio e desprezo; porque,<br \/>\nna sua cartilha e nos ditames dos seus directores espirituais, n\u00e3o<br \/>\nse lia nem ouvia que a m\u00e3e devia encobrir a desonra de unia rapariga<br \/>\ncasando-a com o seu filho, sedutor dela.<\/p>\n<p>As reflex\u00f5es do vig\u00e1rio de Caldelas eram \u00f3ptimas, mas<br \/>\nextempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Um oficial de pedreiro de Prazins, que trabalhava com o mestre Zeferino,<br \/>\ncontoulhe que uma noite se enganara com o luar, e, cuidando que era dia nado,<br \/>\nse levantara para ir para a obra; mas que ao passar por diante da casa do<br \/>\nSime\u00e3o ouvira duas horas no rel\u00f3gio, e vira luz pelas frestas<br \/>\nde uma janela. Que se pusera \u00e0 coca debaixo de um carvalho, a desconfiar<br \/>\nque a luz \u00e0quela hora n\u00e3o era coisa boa, e estivera, vai n\u00e3o<br \/>\nvai, \u00e0 pernas para que te quero, lembrando-se se seria bruxedo ou alma<br \/>\npenada, porque se dizia que a Genoveva do Sime\u00e3o, a que se deitara<br \/>\nao rio, n\u00e3o podia entrar no Purgat\u00f3rio, e morrera com o Diabo<br \/>\nno corpo, salvo seja. Estava nisto quando a luz se sumiu, e se coou pelas<br \/>\nfrestas de outra janela, e logo depois noutra mais baixa, onde um homem podia<br \/>\nchegar com o cabo de um machado. Nisto apagou-se a luz e abriu-se a janela<br \/>\nde portadas sem vidros. Dava-lhe a chapada do luar; era como se fosse dia.<br \/>\nO pedreiro, muito no escuro da ramaria do carvalho, viu apontar uma cabe\u00e7a<br \/>\ne depois meio corpo de homem, que se p\u00f4s \u00e0s cavaleiras do peitoril<br \/>\nda janela, quedou-se a olhar e a escutar a um Lado e outro; depois desmontou-se<br \/>\nmuito devagarinho, sem tugir nem mugir, pendurou-se no peitoril e deixou-se<br \/>\ncair, ficando em p\u00e9. A janela fechou-se, e o Jos\u00e9 Dias, que<br \/>\no oper\u00e1rio conheceu como se o visse ao meio-dia, meteu-se ao caminho<br \/>\nde Vilalva, por sinal que levava sapatos de borracha que brilhavam ao luar<br \/>\ncomo um espelho.<\/p>\n<p>O oratoriano Manuel Bernardes, como \u00e9 not\u00f3rio, escreveu um<br \/>\nlivro edificante, muito piedoso, chamado Armas da Castidade. O m\u00edstico<br \/>\nfilho de S. Filipe N\u00e9ri, com duas palavras s\u00e3s, de um realismo<br \/>\nser\u00e1fico, cabalmente explicou a situa\u00e7\u00e3o de outro Jos\u00e9<br \/>\nDias a respeito de outra Marta, conhecia-lhe o leito, dizia ele. \u00c9<br \/>\no mais que se pode dizer sem escandalizar ningu\u00e9m. Conhecia-lhe o leito.<\/p>\n<p>Mas o Zeferino \u00e9 que sentiu em cheio no peito amante a facada do esc\u00e2ndalo.<br \/>\nO oficial viu-o sentar-se sobre uma padieira que estava esquadriando, e, com<br \/>\no rosto entre as m\u00e3os, desfazer-se em pranto. Ele tinha amado aquela<br \/>\nrapariga desde que a vira aos treze anos. Trabalhara e roubara como galego<br \/>\npara a poder comprar ao pai por um conto e quinhentos e pico. Meteu-se na<br \/>\npol\u00edtica; fez-se sargento-mor a ver se se levantava a uma altura em<br \/>\nque a Marta o achasse digno dela e superior ao estudante. Desabadas as esperan\u00e7as<br \/>\ncom a pris\u00e3o do patife de Calvos, cismava ainda em voltar de novo ao<br \/>\ncampo quando viesse o D. Miguel aut\u00eantico, porque o tenente-coronel<br \/>\nde Quadros lhe dizia que el-rei chegava a Portugal na Primavera do ano seguinte<br \/>\n\u2013 afirmava-lho o padre Rocha, para o consolar juntamente com as bebedeiras<br \/>\nquotidianas. Tudo acabado, perdido, como se Lhe morresse a Eva do seu para\u00edso!<br \/>\nE por isso o pedreiro chorava como os grandes poetas tra\u00eddos, como<br \/>\nCam\u00f5es, como Tasso, como Alfredo de Musset. As l\u00e1grimas na cara<br \/>\ntostada daquele oper\u00e1rio tinham o travo das que a poesia cristalizou<br \/>\nno pante\u00e3o dos m\u00e1rtires do amor.<\/p>\n<p>Depois, levantou-se, limpou as faces \u00e0 manga da camisa, pegou da esquadria<br \/>\ne continuou a trabalhar, assobiando a m\u00fasica triste de uma cantiga<br \/>\ndesse tempo:<\/p>\n<p>\u00d3 mar, se queres,<\/p>\n<p>Tem d\u00f3 de mim.<\/p>\n<p>Estes assobios eram o silvo da serpente da vingan\u00e7a; mas o seu rancor<br \/>\nn\u00e3o punha a pontaria em Marta. Se deixava de cinzelar a pedra, e fitava<br \/>\nos olhos ext\u00e1ticos num imenso v\u00e1cuo, via passar lucilante a<br \/>\nimagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze anos. Um grande rom\u00e2ntico<br \/>\n\u2013 uma explos\u00e3o de ideias que florejavam daquele pedreiro como<br \/>\num canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia destas transig\u00eancias<br \/>\ncom os anjos despenhados. Dir-se-ia que ele tinha lido as Confiss\u00f5es<br \/>\nde um filho do s\u00e9culo, aquela torrente de l\u00e1grimas ign\u00f3beis<br \/>\nque lava os p\u00e9s de uma dissoluta ilustrada.<\/p>\n<p>Ele, desde essa hora funesta, pensou em matar o Jos\u00e9 Dias; mas, nas<br \/>\nricas protuber\u00e2ncias \u00f3sseas do seu grande cr\u00e2nio, a bossa<br \/>\ndo homic\u00eddio era muito rudimentar. Tinha tido v\u00e1rias ocasi\u00f5es<br \/>\nde poder-se gabar dessa perfei\u00e7\u00e3o. Haviam-lhe batido dois estudantes<br \/>\nnum pinhal, por causa das den\u00fancias ao padre-mestre Roque; e, quando<br \/>\no c\u00e3o do Dias lhe rasgou a cal\u00e7a num s\u00edtio melindroso,<br \/>\no Zeferisno desconfiou que, se fosse capaz de matar um homem, deveria ter<br \/>\natirado com o machado \u00e0 cabe\u00e7a do ca\u00e7ador. Ele queria<br \/>\nespezinhar o cad\u00e1ver de Jos\u00e9 Dias, espostej\u00e1-lo, trinc\u00e1-lo,<br \/>\nmasc\u00e1-lo, esmo\u00ea-lo, devor\u00e1-lo, mas \u00e0 maneira dos<br \/>\ndevoristas inc\u00f3lumes que compram um porco j\u00e1 morto na Ribeira<br \/>\nVelha, e o esquartejam com um grande regozijo antrop\u00f3fago, com as m\u00e3os<br \/>\nensopadas nas banhas da v\u00edtima.<\/p>\n<p>O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a descoberta<br \/>\nque fizera naquela noite em que se enganara com o luar. A Marta estava desacreditada<br \/>\nna freguesia; as mulheres que sachavam os milharais faziam coment\u00e1rios<br \/>\nperp\u00e9tuos ao texto do pedreiro, recordavam as fa\u00e7anhas da Genoveva,<br \/>\ncontadas pelas velhas, e as mais antigas diziam que a Br\u00edgida Galinheira,<br \/>\nav\u00f3 da Marta, j\u00e1 tinha dado o exemplo \u00e0 filha. \u2013<br \/>\nUma gera\u00e7\u00e3o de marafonas do alto, dizia a tia Rosa de Carude,<br \/>\ncuspindo no ch\u00e3o, e pondo a soca em cima. Riam-se do Zeferino, que<br \/>\nandava<\/p>\n<p>como a cobra que perdeu a pe\u00e7onha, muito escamado; que lhe tinham<br \/>\nsa\u00eddo dois casamentos com boas lavradeiras, e ele diz que havia de<br \/>\nir morrer solteiro \u00e0s Pedras Negras, depois da matar um homem; e houve<br \/>\nquem afirmasse que o vira com um bacamarte, debaixo dos carvalhos, por essa<br \/>\nnoite fora, defronte da casa do Sime\u00e3o. Uma cal\u00fania.<\/p>\n<p>Avisaram a m\u00e3e do Jos\u00e9 Dias da espera do pedreiro, e ela fez<br \/>\ndormir o filho numa trapeira que n\u00e3o tinha janela por onde saltas-se,<br \/>\ne fechava-o de noite por fora, rogando pragas \u00e0 seresma de Prazins:<br \/>\n\u2013 Que um raio a partisse e o Diabo a levasse para as profundas do abismo!<br \/>\nDepois ia rezar a coroa com os criados, e rogava a Deus pelos que andavam<br \/>\nsobre as \u00e1guas do mar e pelas almas de todos os seus parentes e vizinhos,<br \/>\ncom uma intona\u00e7\u00e3o chorada que fazia devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Jos\u00e9 Dias vivia amargurado. Tinha sido criado num grande respeito<br \/>\naos pais, e sentia-se in\u00e1bil para lhes reagir. A doen\u00e7a de peito<br \/>\nque principiava a desvigorizar-lhe o como, implicava-lhe com a atonia da alma.<br \/>\nSentia o ego\u00edsmo indolente dos enfermos minados pela consump\u00e7\u00e3o<br \/>\nlenta. Invejava a robustez do irm\u00e3o, um trabalhador forte que dormia<br \/>\ndez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o gado<br \/>\ncom uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das chulas. Passava<br \/>\nmuitas horas com o seu confidente, o padre Os\u00f3rio. Pedia-lhe conselhos<br \/>\n\u2013 que arranjasse modo de ele poder casar com a Marta.<\/p>\n<p>\u2013 Que eu \u2013 dizia com desalento \u2013 n\u00e3o vou Longe;<br \/>\nmas queria remediar o mal que fiz.<\/p>\n<p>A Marta escrevia-lhe para Caldelas, porque a tia Maria de Vilalva, uma vez<br \/>\nque l\u00e1 viu um garoto com carta para o filho, deu sobre ele com um enga\u00e7o,<br \/>\nque por pouco o n\u00e3o apanha pela cabe\u00e7a com os dentes do instrumento.<br \/>\nAs cartas eram desconfian\u00e7as, receio do abandono, l\u00e1grimas.<br \/>\nO pai n\u00e3o a mortificava. Pelo contr\u00e1rio, dizia-lhe a mi\u00fado:<\/p>\n<p>\u2013 Se o Z\u00e9 de Vilalva n\u00e3o casar contigo, talvez seja a<br \/>\ntua fortuna, porque pode ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais m\u00eas<br \/>\nmenos m\u00eas ele rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O brasileiro<br \/>\nda Rita Chasca, que chegou agora, diz que ele tem quatrocentos contos fortes,<br \/>\npara riba, que n\u00e3o para baixo.<\/p>\n<p>A Marta escondia-se a chorar; e, \u00e0s vezes, lembrava-se do fim da m\u00e3e<br \/>\n\u2013 o suic\u00eddio; e punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido<br \/>\ncavo de uma levada que parecia trazer-lhe os gemidos agonizantes de muitos<br \/>\nafogados.<\/p>\n<p>O Dias falava-lhe na sua doen\u00e7a, no desfalecimento de for\u00e7as,<br \/>\nque j\u00e1 o n\u00e3o deixavam ca\u00e7ar, da tristeza que o consumia,<br \/>\ndo desamor com que a fam\u00edlia o via padecer, do \u00f3dio que come\u00e7ava<br \/>\na ter \u00e0 m\u00e3e, e idas saudades dilacerantes que sentia pela sua<br \/>\nquerida Marta. \u2013 Que o seu amigo padre Os\u00f3rio trabalhava para<br \/>\nobter o consentimento do pai; mas que, se o n\u00e3o obtivesse, estava resolvido<br \/>\na fugir com ela, mesmo sem recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe<br \/>\npodia emprestar.<\/p>\n<p>De tempo a tempo ia v\u00ea-la de dia; mas a m\u00e3e trazia-o muito espreitado,<br \/>\ne ralava-o: \u2013 que a tal cr\u00f3ia havia de dar cabo dele. O cirurgi\u00e3o<br \/>\ntinha-lhe dito delicadamente que o Jos\u00e9 abusava do 6\u00ba. Ela, como<br \/>\nsabia os manda. mentos de cor e salteados, entendeu logo, e dizia a toda a<br \/>\ngente que o seu Z\u00e9 andava assim uni pilharengo por causa do 6\u00ba.<br \/>\nEra o resultado de saber a doutrina crist\u00e3 esta dec\u00eancia no explicar-se<br \/>\npor n\u00fameros. As vizinhas entendiam-na e diziam-lhe que o Jos\u00e9<br \/>\nandava forgado, que lhe metesse uma enxada nas unhas e o pusesse a ro\u00e7ar<br \/>\nmato oito dias, que ele perdia o cio.<\/p>\n<p>Decorreram alguns meses. Com a Primavera a sa\u00fade de Jos\u00e9 Dias<br \/>\npareceu restaurar-se. Ele atribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai,<br \/>\nque era regedor, a pedido do governador civil, que o mandou chamar a Braga,<br \/>\npor interven\u00e7\u00e3o do padre Os\u00f3rio, dava o consentimento;<br \/>\nmas a m\u00e3e recalcitrava. Esperava-se, por\u00e9m, a vinda dos mission\u00e1rios<br \/>\na Requi\u00e3o, para a reduzirem ao dever de cat\u00f3lica. O vig\u00e1rio<br \/>\nde Caldelas j\u00e1 tinha prevenido um egresso do Varatojo, Frei Jo\u00e3o<br \/>\nde Borba da Montanha, das terras de Celorico de Basto, de uma for\u00e7a<br \/>\nprodigiosa em empresas mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Marta recobrava alegres esperan\u00e7as, e o Zeferino das Lamelas digeria<br \/>\na sua dor, assobiando a m\u00fasica da melanc\u00f3lica balada:<\/p>\n<p>\u00d3 mar, se queres,<\/p>\n<p>Tem d\u00f3 de mim.<\/p>\n<p>Para seu desafogo, ia a mi\u00fado a Quadros saber quando chegaria o Sr.<br \/>\nD. Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formara-se a<br \/>\njun\u00e7\u00e3o dos dois partidos hostis aos Cabrais, aproximados pelas<br \/>\nelei\u00e7\u00f5es sanguin\u00e1rias de 1845. O tenente-coronel reunia<br \/>\nespingardas em Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho<br \/>\nda P\u00f3voa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimar\u00e3es. O padre Rocha<br \/>\ncomunicava-lhe as not\u00edcias enviadas de Londres pelo Saraiva, e conseguiu<br \/>\nque ele fosse ao Porto receber o grau de comendador da Ordem de S. Miguel<br \/>\nda Ala, a casa do Jo\u00e3o de Albuquerque, da \u00cdnsua, que representava<br \/>\nnas prov\u00edncias do Norte o Gr\u00e3o- Mestrado. O Zeferino sentia<br \/>\nmomentos de j\u00fabilo de tigre que se agacha a medir o salto \u00e0<br \/>\npresa. Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a<br \/>\nmastigar os f\u00edgados do Jos\u00e9 Dias.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>Cap\u00edtulo XIV<\/h2>\n<p>Em Mar\u00e7o daquele ano, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os<br \/>\nmotins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na c\u00e2mara dos<br \/>\ncomuns, lorde Bentinck explicou tragicamente, em frases pomposas, a origem<br \/>\ndessa revolu\u00e7\u00e3o, que um desd\u00e9m ind\u00edgena chamou<br \/>\n. Ele disse que os Cabrais mandaram construir cemit\u00e9rios; mas n\u00e3o<br \/>\nos muraram; de modo que entravam neles c\u00e3es, gatos e porcos-bravos<br \/>\nem tamanha quantidade<\/p>\n<p>que chegaram a desenterrar os cad\u00e1veres7. As na\u00e7\u00f5es<br \/>\ne os naturalistas deviam formar uma ideia assaz agigantada do tamanho dos<br \/>\ngatos portugueses que desenterravam cad\u00e1veres, e das boas aven\u00e7as<br \/>\ndos nossos c\u00e3es com os referidos gatos na obra da exuma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos mortos, e n\u00e3o menos se espantariam da familiaridade dos javalis<br \/>\nque vinham do Ger\u00eas colaborar com os c\u00e3es e gatos naquela minera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional de 1846 est\u00e1 definida nos fastos da Europa revolucion\u00e1ria.<br \/>\nFoi ama reac\u00e7\u00e3o, uma batalha social \u00e0 canzoada e gataria<br \/>\nconfederadas com o focinho profanador de porco-mont\u00eas. E da\u00ed<br \/>\nprocedeu escreverem os jornalistas da Alemanha, um pa\u00eds s\u00e9rio,<br \/>\nque a revolu\u00e7\u00e3o do Minho era o . Os cad\u00e1veres servidos<br \/>\nnos banquetes ilegais e nocturnos dos javalis, com a conviv\u00eancia de<br \/>\ngatarr\u00f5es a rosnarem com o lombo eri\u00e7ado, e molossos de colmilhos<br \/>\nensanguentados foi caso que impressionou grandemente as ra\u00e7as tudescas,<br \/>\npor ser um acto proibido pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas<br \/>\nde Braga, quer a alcateia das feras coligadas, o certo \u00e9 que a insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Alto Minho tabu esta prov\u00edncia e a transmontana, devastando as papeletas<br \/>\nimpressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos gatos<br \/>\n\u00eb seus c\u00famplices fez sofrer ao capital do pa\u00eds ama diminui\u00e7\u00e3o<br \/>\nde 77 milh\u00f5es e meio de cruzados, segundo o c\u00e1lculo do ministro<br \/>\nda Fazenda Franzini, muito retr\u00f3grado, mas um g\u00e9nio no algarismo.<\/p>\n<p>O Zeferino das Lamelas, \u00e0s primeiras como\u00e7\u00f5es do vulc\u00e3o<br \/>\npopular, nos arredores de Guimar\u00e3es, preparou-se; e assim que ouviu<br \/>\nrepicar a rebate em Ronfe, cheio de ci\u00fames como o sineiro de Notre<br \/>\nDame, agarrou-se \u00e0 corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios<br \/>\nde tr\u00eas freguesias, e pegou a dar morras aos Cabrais com aplauso universal.<br \/>\nDepois, explicou o que era o cadastro, confundindo este expediente estat\u00edstico<br \/>\ncom canastro: \u2013 que os Cabrais e os seus empregados andavam a tomar<br \/>\nas terras a rol para empenharem Portugal \u00e0 Inglaterra; que esses r\u00e9is<br \/>\nestavam nos cart\u00f3rios das administra\u00e7\u00f5es e em casa dos<br \/>\nregedores; que era preciso queimar as papeletas e matar os cabralistas.<\/p>\n<p>Em seguida, invadiram a administra\u00e7\u00e3o de Santo Tirso, quebraram<br \/>\nas vidra\u00e7as dos cartistas fugitivos e queimaram os impressos e quantos<br \/>\npap\u00e9is acharam, no Campo da Feira. Depois, abalaram para Famalic\u00e3o.<br \/>\nZeferino nomeara-se chefre da gentalha embriagada nas adegas arrombadas dos<br \/>\ncabralistas, e alvitrou que se prendessem os regedores que topassem. Dizia<br \/>\nque o Joaquim de Vilalva, nas elei\u00e7\u00f5es do ano anterior, muito<br \/>\nsocadas, cascara no povo e mais os cabos, na assembleia de Landim, cacetada<br \/>\nbrava. A bebedeira dos ouvintes dera \u00e0 p\u00e9rfida aleivosia do<br \/>\npedreiro vingativo o valor de facto hist\u00f3rico. O plano de Zeferino<br \/>\nera abrir oportunidade a que Jos\u00e9 Dias fosse assassinado ou, pelo menos,<br \/>\npreso e degredado como cabralista.<\/p>\n<p>Vilalva ficava-lhes a jeito, no caminho de Famalic\u00e3o. O amante de<br \/>\nMarta ouvira grande alarido e vira ao longe a multid\u00e3o que galgava<br \/>\num outeiro turbulentamente. Viase desfraldado no ar, em oscila\u00e7\u00f5es<br \/>\nlargas, o pano escarlate de uma bandeira: era um peda\u00e7o do velho estandarte<br \/>\nque servia nas prociss\u00f5es de Santa Maria de Abade. Jos\u00e9 pediu<br \/>\nao pai que fugisse. O regedor disse que n\u00e3o \u2013 que nunca tinha<br \/>\nfeito mal a ningu\u00e9m, nem sequer prendera um refract\u00e1rio: que<br \/>\no mais que podiam fazer era tirar-lhe o governo.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias tinha medo \u00e0s cobardes amea\u00e7as do Zeferino;<br \/>\ndiziam-lhe que o pedreiro jurara mat\u00e1-lo, e j\u00e1 constava que<br \/>\nera ele o chefe da guerrilha, em que se alistaram todos os ladr\u00f5es<br \/>\ne assassinos conhecidos na comarca. A m\u00e3e empurrava-o pela porta fora<br \/>\n\u2013 que fugisse para Caldelas; que n\u00e3o fosse o Diabo armar-lhe<br \/>\nalguma trempe por causa da Marta, da tal bebedinha que n\u00e3o dera cavaco<br \/>\nao pedreiro. Ele deitou o selote \u00e0 \u00e9gua e fugiu a galope; mas<br \/>\no regedor, com a sua consci\u00eancia ilibada, esperou os revoltosos com<br \/>\no Zeferino \u00e0 frente, brandindo a espada do pai, que n\u00e3o se desembainhara<br \/>\ndesde o ataque a Santo urso.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 voc\u00ea preso por cabralista! \u2013 intimou o pedreiro,<br \/>\ndeitando-lhe a m\u00e3o \u00e0 lapela da v\u00e9stia; e voltado para<br \/>\na turba: \u2013 Rapazes, cercaide a casa; tudo que estiver, preso!.<\/p>\n<p>\u2013 Os meus filhos sa\u00edram; mas entrem, busquem \u00e0 vontade<br \/>\n\u2013 disse o regedor; e, olhando para o pedreiro, ironicamente: \u2013<br \/>\nAh seu Zeferino, seu Zeferino, voc\u00ea n\u00e3o veio aqui para me prender<br \/>\na mim&#8230; \u00c9 outra hist\u00f3ria que voc\u00ea l\u00e1 sabe. Isto<br \/>\nde mulheres s\u00e3o os nossos pecados, mestre Zeferino&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o me cante! \u2013 bradou o das Lamelas com furiosos arremessos.<br \/>\n\u2013 Est\u00e1 preso, e mexa-se j\u00e1 para a cadeia.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o pode prender-me, mestre Zeferino \u2013 contrariou<br \/>\na autoridade dentro da lei. \u2013 V\u00e1 buscar primeiro unia ordem do<br \/>\nmeu administrador ou do governador civil.<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 governador civil! \u2013 explicou<br \/>\no caudilho. \u2013 Agora s\u00e3o outros governos, seu asno! Quem reina<br \/>\n\u00e9 o Sr. D. Miguel I. E voc\u00ea n\u00e3o me esteja a\u00ed a<br \/>\nfanfar, que eu j\u00e1 n\u00e3o o enxergo. Ande l\u00e1 para a cadeia,<br \/>\ncom dez milh\u00f5es de diabos!<\/p>\n<p>O regedor entrou em Vila Nova de Famalic\u00e3o na onda de alguns milhares<br \/>\nde homens e rapazes que davam vivas a D. Miguel, \u00e0s leis novas, \u00e0<br \/>\nsanta religi\u00e3o e morras aos cabralistas. Quando queimavam os pap\u00e9is,<br \/>\num brasileiro setembrista, o S\u00e1 Miranda, disse ao comandante que n\u00e3o<br \/>\nconvinha por enquanto aclamar D. Miguel; que dessem morras ao governo e vivas<br \/>\n\u00e0 religi\u00e3o. Nesta barafunda, o regedor preso entre meia d\u00fazia<br \/>\nde jornaleiros que discutiam as leis velhas e as novas na taverna do Folipo,<br \/>\ncompreendera um aceno do taverneiro e fugira pelos quintais. Meteu-se ao caminho<br \/>\nde Braga, onde estava o general conde das Antas. O Jos\u00e9 Dias, receando<br \/>\nque o perseguissem em Caldelas, refugiara-se tamb\u00e9m em Braga e alistou-se<br \/>\nno batalh\u00e3o dos serezinos comandado pelo c\u00f3nego Monte Alverne.<\/p>\n<p>7Carta dirigida ao cavalheiro Jos\u00e9 Hume. Vers\u00e3o de Ant\u00f3nio<br \/>\nPereira dos Reis, 1847, p\u00e1g. 99.<\/p>\n<p>Neste meio-tempo, chegou da Am\u00e9rica o Feliciano Rodrigues Prazins,<br \/>\ntio de Marta. Demorou-se poucos dias. Ganhara medo que o roubassem as guerrilhas.<br \/>\nFoi para o Porto p\u00f4r em seguran\u00e7a as suas letras e voltou quando<br \/>\na queda dos Cabrais garantia o sossego dos capitalistas. Na volta a Prazins,<br \/>\nolhou mais atentamente para a sobrinha, deu-me alguns cord\u00f5es, e disse<br \/>\nao irm\u00e3o que n\u00e3o se lhe dava de casar com ela. O Sime\u00e3o<br \/>\nafirmou logo com um descaramento perdo\u00e1vel: \u2013 que n\u00e3o<br \/>\nse fosse sem resposta o mano, que a mo\u00e7a dava o cavaco por de.<\/p>\n<p>Feliciano tinha quarenta e sete anos. N\u00e3o se parecia com a maioria<br \/>\ndos nossos patr\u00edcios que regressam do Brasil com unia opul\u00eancia<br \/>\nde formas almofadadas de carnes socadas. Era magro esqueleticamente, um organismo<br \/>\nde poeta sugado pelos vampiros do spleen. Dizia, por\u00e9m, que tinha febras<br \/>\nde a\u00e7o e nunca tomara rem\u00e9dios de botica. Muito m\u00edope,<br \/>\nusava de mon\u00f3culo redondo num aro de b\u00fafalo verde. Como era<br \/>\necon\u00f3mico at\u00e9 \u00e0 mis\u00e9ria, dizia-se em Pernambuco<br \/>\nque o Feliciano usava um vidro s\u00f3 para n\u00e3o comprar dois; e que,<br \/>\nse pudesse, venderia um olho como coisa in\u00fatil. Com a economia e o<br \/>\ntrabalho bem propiciado em trinta anos arredondara trezentos contos. Chegara<br \/>\naos quarenta e sete, ao outono da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcara<br \/>\nnos lat\u00edbulos da V\u00e9nus vagabunda. A sua virgindade era adnnrada<br \/>\ne not\u00f3ria; depunham a favor dela os seus caixeiros, os feitores, e<br \/>\n\u2013 o que mais \u00e9 \u2013 as suas escravas. Os seus patr\u00edcios<br \/>\ndevassos chamavam-lhe o Feliciano Pudic\u00edcio. Ele n\u00e3o se envergonhava<br \/>\nde confessar a sua castidade ao p\u00e1roco de Caldelas. Tinha vivido como<br \/>\num dessexuado; \u2013 que trabalhava muito nos seus armaz\u00e9ns, que<br \/>\ndormia poucas horas, e n\u00e3o dava folga ao corpo nem pega aos v\u00edcios.<br \/>\nOriginal\u00edssimo. Que lhe sa\u00edram casamentos ricos; mas que ele<br \/>\npara ser rico n\u00e3o tinha precis\u00e3o de mulher; que vira algumas<br \/>\nmeninas pobres a namor\u00e1-lo; mas que desconfiara que lhe namorassem<br \/>\no seu dinheiro. N\u00e3o tinha queda para o sexo, que ele dizia seixo. Numa<br \/>\npalavra, estava virgem. Ele podia dizer como Hamlet. N\u00e3o me deleitam<br \/>\nos homens nem t\u00e3o-pouco as mulheres.<\/p>\n<p>A sobrinha reformara aquela natureza aleijada. Talvez o desd\u00e9m com<br \/>\nque Marta o tratava na crise da sua paix\u00e3o, fosse grande parte no amor<br \/>\ndo brasileiro. Al\u00e9m disto, a mo\u00e7a, muito parecida com ele na<br \/>\ndelgadeza das formas, tinha encantos que dispensavam a esquivan\u00e7a para<br \/>\nse fazer amar de um homem de quarenta e sete anos \u2013 intacto demais a<br \/>\nmais. O presente que lhe fez de uma meada de cord\u00f5es de ouro significava<br \/>\numa desordem, pelo menos interina, na sua condi\u00e7\u00e3o sovina. Marta<br \/>\naceitou a d\u00e1diva sem entusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai<br \/>\na prevenira da possibilidade de ser mulher de seu tio, se adregasse gostar<br \/>\ndela. Quando o tio lhe deu os cord\u00f5es, teve-lhe uma n\u00e1usea,<br \/>\num quase-\u00f3dio, suspeitando-lhe os projectos; e quando ele fugiu para<br \/>\no Porto, com medo \u00e0s guerrilhas, sentiu ela uma satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nincompar\u00e1vel. Entretanto, apesar das m\u00e1s informa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo brasileiro da Rita Chasca, o Feliciano sentia filtrar-selhe nas c\u00e9lulas<br \/>\nimpolutas do cora\u00e7\u00e3o o veneno doce de uma paix\u00e3o cheia<br \/>\nde condescend\u00eancias, pouco superciliosa em pontos de honra, como quem<br \/>\npensa que no t\u00e1lamo conjugal n\u00e3o se faz mister a virgindade<br \/>\nem duplicado. Mas n\u00e3o era assim que ele pensava. Ningu\u00e9m lhe<br \/>\ndesdourara a honra da sobrinha, nem o derri\u00e7o com o Jos\u00e9 Dias<br \/>\nfazia implic\u00e2ncia \u00e0 sua honestidade. Ele n\u00e3o tinha os<br \/>\nrudimentos de mal\u00edcia necess\u00e1ria para desconfiar que uma menina<br \/>\nde dezasseis anos, criada nos seios da natureza imaculada de uma aldeia do<br \/>\nMinho, pudesse abrir de noite uma janela, debru\u00e7ar-se no peitoril e<br \/>\najudar a subir um homem. O oficial do pedreiro \u00e9 que sabia casos, anomalias,<br \/>\ndesde aquela noite em que o luar o enganou.<\/p>\n<p>Marta ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio. Irritou-se.<br \/>\nTinha sido criada com muito mimo, sem m\u00e3e, voluntariosa, e com uns<br \/>\nares senhoris que desautorizavam o respeito que o pai, r\u00fastico lavrador,<br \/>\nn\u00e3o sabia incutir. Em vez de chorar corno as filhas desgra\u00e7adas<br \/>\ne humildes, respondeu desabridamente que n\u00e3o casava com o tio; que<br \/>\no desenganasse, se quisesse; e, se n\u00e3o quisesse, ela o desenganaria.<br \/>\nA terr\u00edvel nota golpeara-lhe o cora\u00e7\u00e3o cheio de saudades<br \/>\nde Jos\u00e9 Dias, que lhe escrevera de Braga, por interven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo padre Os\u00f3rio, dando-lhe coragem e esperan\u00e7a no casamento<br \/>\nlogo que cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando<br \/>\nele instava com ela a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem mais<br \/>\nrico de Portugal, abaixo do rei. Marta replicava com trejeitos de t\u00e9dio<br \/>\ndesdenhoso; e, exaltada pela bo\u00e7al insist\u00eancia do pai, protestava,<br \/>\nse a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>O Sime\u00e3o perdeu a vontade de comer; andava atordoado numa tristeza<br \/>\nest\u00fapida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido<br \/>\nna serra. A pequena j\u00e1 n\u00e3o queria ir \u00e0 mesa, metia-se<br \/>\nna cama e fingia-se doente para n\u00e3o encontrar o tio Feliciano.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Dias e o pai permaneciam em Braga, porque em diferentes pontos<br \/>\nda prov\u00edncia continuavam as agita\u00e7\u00f5es miguelistas; o<br \/>\nnovo minist\u00e9rio n\u00e3o tinha for\u00e7a, e o Zeferino das Lamelas<br \/>\nnunca depusera as armas. Os serezinos faziam excurs\u00f5es e batiam os<br \/>\nrealistas ou prendiam os agitadores. Jos\u00e9 Dias, numa dessas surtidas<br \/>\na Vila Verde, a p\u00e9 e com pouca sa\u00fade, ganhara uma bronquite<br \/>\nque o teve de cama largo tempo. Quando se levantou, numa aparente convalescen\u00e7a,<br \/>\na t\u00edsica tuberculosa recrudescia pessimamente caracterizada. O padre<br \/>\nOs\u00f3rio fora visit\u00e1-lo, ouvira o m\u00e9dico e sabia que o<br \/>\nseu amigo estava perdido. Falou ao pai, em particular, no estado do filho.<br \/>\nLembroulhe a sua promessa de consentir no casamento com a pobre Marta, que<br \/>\nse perdera confiada nos compromissos do Jos\u00e9. O lavrador mostrou n\u00e3o<br \/>\nperceber a conveni\u00eancia de Marta em casar, se o seu filho tinha de morrer<br \/>\ncedo. \u2013 Que a vi\u00fava, dizia, nada ganhava com isso, porque os<br \/>\nherdeiros de Jos\u00e9 eram seus pais. N\u00e3o compreendeu a quest\u00e3o<br \/>\npor outra face. Mas, apertado pela palavra que dera, repetiu que ele pela<br \/>\nsua parte concedia a licen\u00e7a, se a m\u00e3e a desse; e justificava-se<br \/>\ndeste respeito \u00e0 mulher, alegando que a casa de Vilalva era toda da<br \/>\nsua companheira, e o que ele levara para o casal n\u00e3o valia dois carac\u00f3is.<\/p>\n<p>\u2013 Enfim \u2013 conclu\u00eda \u2013 se o rapaz arrijar, casa querendo<br \/>\na m\u00e3e; mas, enquanto ele assim estiver, fa\u00e7a favor de lhe n\u00e3o<br \/>\nfalar na rapariga&#8230; Bem lhe basta o seu mal&#8230; E um homem que est\u00e1<br \/>\ndoente deveras n\u00e3o deve pensar em mulheres, \u00e9 na salva\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua alma. Eu penso assim, amigo padre Os\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2013 O vig\u00e1rio aprende o padre-nosso \u2013 dizia o de Caldelas.<\/p>\n<p>Entretanto, o doente, muito animado, n\u00e3o sentia aqueles desalentos<br \/>\ne press\u00e1gios de morte que meses antes o afligiam. Habituara-se ao sofrimento;<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o tinha mem\u00f3ria das perfeitas del\u00edcias da<br \/>\nsa\u00fade. Quando expectorava sem viol\u00eancia, e a dispneia cedia aos<br \/>\nxaropes e ao pez de Borgonha, julgava-se numa quase-completa restaura\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEscrevia ao Os\u00f3rio e a Marta com muita alegria e devotos agradecimentos<br \/>\na Deus e a Maria Sant\u00edssima, com quem se apegara fervorosamente desde<br \/>\nque padecia, e tamb\u00e9m com o \u00f3leo de f\u00edgado de bacalhau.<\/p>\n<p>A repugn\u00e2ncia de Marta, face a face do tio Feliciano, seria um afrontoso<br \/>\ndesengano para o milion\u00e1rio, se n\u00e3o interviesse o implac\u00e1vel<br \/>\ne engenhoso ci\u00fame de Zeferino. Este chefe de guerrilha em armist\u00edcio<br \/>\nsoube que o brasileiro queria casar com a sobrinha e que o Jos\u00e9 Dias<br \/>\nestava em Braga muito acabado, a dar \u00e0 casca. O pedreiro chamou os<br \/>\nbravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brasileiro de Prazins pedira para<br \/>\nFamalic\u00e3o um regimento da divis\u00e3o do Antas para deitar cerco<br \/>\n\u00e0s casas dos realistas, e sujeitara-se a sustentar o regimento \u00e0<br \/>\nsua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prend\u00ealo como cabralista,<br \/>\ne faz\u00ea-lo p\u00f4r \u00e0 m\u00e1 cara o dinheiro que havia de<br \/>\ndar \u00e0 tropa. Um dos da malta, vizinho do brasileiro, o Metro, tinha-o<br \/>\nconvidado para padrinho de um filho. Procurou-o \u00e0s escondidas e avisou-o<br \/>\nque se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a pressa. Queria que<br \/>\na sobrinha tamb\u00e9m fosse. Escrevia-lhe que, se quisesse ir, compraria<br \/>\ncasa no Porto. Marta respondia que estava muito doente, que n\u00e3o podia<br \/>\nsair da cama. O pai chegava a descomp\u00f4-la: \u2013 Que n\u00e3o tinha<br \/>\nmol\u00e9stia nenhuma, que era por causa do Z\u00e9 Dias; mas que perdesse<br \/>\ndai a ideia porque estivera com o Dr. Pedrosa, de Santo Tirso, que o vira<br \/>\nem Braga, e lhe dissera que o Dias estava ethego e mais m\u00eas menos m\u00eas<br \/>\nesticava a canela.<\/p>\n<p>Marta respondia com serenidade de alma forte, e escorada numa resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuicida:<\/p>\n<p>\u2013 Se n\u00e3o casar com ele neste mundo, casarei no outro.<\/p>\n<p>\u2013 Que te leve o Diabo! \u2013 resmungava o Sime\u00e3o, ri\u00e7ando<br \/>\nfreneticamente as su\u00ed\u00e7as. Depois voltava manso e velhaco \u00e0<br \/>\nbeira do leito: \u2013 Olha, menina, teu tio est\u00e1 velho e esmagri\u00e7ado.<br \/>\nAquilo n\u00e3o pode ir longe. Tu ficas para a\u00ed podre de rica, e<br \/>\npodes casar depois com um fidalgo, se quiseres&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Valha-me Nossa Senhora! \u2013 murmurava Marta, pondo os olhos na<br \/>\nlitografia da M\u00e3e de Jesus traspassada das sete espadas. \u2013 Quem<br \/>\nme dera morrer&#8230;<\/p>\n<p>A t\u00edsica do Jos\u00e9 Dias com as frialdades h\u00famidas de Novembro<br \/>\nentrou no segundo per\u00edodo. Recrudesceram as dores de peito e a dispneia,<br \/>\ncom acessos febris nocturnos. Expectora\u00e7\u00e3o esverdeada com estrias<br \/>\namarelas, e extrema magreza com repugn\u00e2ncia a todo o alimento. Pela<br \/>\nausculta\u00e7\u00e3o ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso.<br \/>\nOs m\u00e9dicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incomodidades<br \/>\nda estalagem, e o levasse para casa, onde lhe seria mais suave a morte na<br \/>\nsua cama, com a assist\u00eancia da fam\u00edlia. Foi para Vilalva transportado<br \/>\nnuma liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais desafogado;<br \/>\ne que, se h\u00e1 mais tempo tivessem sa\u00eddo de Braga, j\u00e1 ele<br \/>\nestaria rijo.<\/p>\n<p>A m\u00e3e, quando o viu entrar t\u00e3o acabado, t\u00e3o desfigurado,<br \/>\nfez um berreiro descomunal, e n\u00e3o teve m\u00e3o em si que n\u00e3o<br \/>\nrogasse pragas \u00e0 Marta, que lhe matara o seu querido filhinho. As vizinhas<br \/>\nconcordavam: \u2013 que diabos levasse a mulher que o tolhera!<\/p>\n<p>O doente afligia-se, chorava como crian\u00e7a, e pedia ao pai que o deixasse<br \/>\nir para Caldelas, para casa do seu amigo; que n\u00e3o podia ver a m\u00e3e;<br \/>\nque lha tirasse de diante dos olhos; e que, se ele tivesse de morrer, que<br \/>\nlha n\u00e3o deixassem ir \u00e0 beira da sua cama. E fazia trejeitos<br \/>\nfuriosos, com os olhos a estalar das \u00f3rbitas escavadas, incendido pela<br \/>\nfebre.<\/p>\n<p>Chegou o padre Os\u00f3rio, e o doente aplacou-se sob as consola\u00e7\u00f5es<br \/>\ncalmantes do seu santo amigo. Deitou-se, com promessa de ir no dia seguinte<br \/>\npara Caldelas; mas nunca mais se levantou, nem fez in\u00fateis esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Os\u00f3rio n\u00e3o o desamparou. Ia \u00e0 sua igreja dizer a missa<br \/>\ndominical e voltava para Vilalva com as respostas de Marta aos bilhetes que<br \/>\nJos\u00e9 lhe escrevia \u2013 poucas linhas em que ainda por vezes lampejavam<br \/>\nalegres esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Toda a influ\u00eancia de Os\u00f3rio n\u00e3o conseguiu que o enfermo<br \/>\nrecebesse a m\u00e3e no seu quarto. N\u00e3o lhe podia perdoar o \u00f3dio<br \/>\nque ela tinha a Marta; e bradava que a fazia respons\u00e1vel perante Deus<br \/>\nda desonra da desgra\u00e7ada menina. A velha escutava estes tremendos emprazamentos<br \/>\npara a eternidade, e dizia de si consigo, a beata: \u2013 bem me fio eu nisso.<\/p>\n<p>Por fim, j\u00e1 n\u00e3o podia escrever, nem levantar a cabe\u00e7a<br \/>\nno travesseiro; mas perguntava ao Os\u00f3rio se tinha not\u00edcias de<br \/>\nMarta; que pedisse ao irm\u00e3o que fosse l\u00e1, e lhe dissesse que<br \/>\nele estava mais doente e n\u00e3o podia escrever.<\/p>\n<p>Um desses recados motivou o bilhete que se copiou na Introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeste livro, e que o moribundo j\u00e1 n\u00e3o p\u00f4de ler. Desde<br \/>\nque a m\u00e3e lhe meteu \u00e0 for\u00e7a dentro do quarto o vig\u00e1rio<br \/>\ncom a extrema-un\u00e7\u00e3o, um homem de opa com a campainha, outro<br \/>\ncom a \u00e1gua benta na caldeirinha, mais dois com tochas, e outros com<br \/>\na sua devota curiosidade, o moribundo caiu na modorra comatosa, e apenas,<br \/>\ncom longos espa\u00e7os, tinha mis acessos sibilantes de ligeira tosse seca.<br \/>\nAbria ent\u00e3o os olhos, que fitava no rosto de Os\u00f3rio, e \u00e0s<br \/>\nvezes circunvagava-os espavoridos como em busca da vis\u00e3o espectral<br \/>\nda m\u00e3e, que o vig\u00e1rio de Caldelas cuidadosamente e com doloroso<br \/>\nconstrangimento defendia de entrar \u00e0 alcova.<\/p>\n<p>Em Prazins ouvia-se dobrar a defunto em Vilalva. Marta perguntou ao pai quem<br \/>\ntinha morrido.<\/p>\n<p>Ele respondeu serenamente:<\/p>\n<p>\u2013 Dizem que foi o Dias que est\u00e1 com Deus. Reza-lhe por alma,<br \/>\nque \u00e9 o que ele precisa agora.<\/p>\n<p>Marta deu um grande grito, e com as m\u00e3os na cabe\u00e7a, a correr,<br \/>\ndeitou a fugir pelos campos. Ela sabia onde era o remanso fundo do rio Ave<br \/>\nem que a m\u00e3e se suicidara. O pai correu atr\u00e1s dela, a gritar,<br \/>\nque lhe acudissem. Fora da aldeia, andava uma ro\u00e7a de mato, com muitos<br \/>\njornaleiros, que correram todos atr\u00e1s de Marta, e a levavam quase apanhada<br \/>\nquando ela caiu, a estrebuchar, em convuls\u00f5es. Conduziram-na para casa<br \/>\ncom os sentidos perdidos, e puseram mulheres a vigi\u00e1-la na cama. Esta<br \/>\nnova chegou a Caldelas. D. Teresa, a irm\u00e3 do padre Os\u00f3rio, foi<br \/>\ncom o irm\u00e3o a Prazins, e convenceram o Sime\u00e3o a deixar ir a<br \/>\nfilha para a companhia deles algum tempo.<\/p>\n<p>Marta chorava muito, abra\u00e7ando-se no amigo de Jos\u00e9 Dias; e<br \/>\nele, quando o lavrador com impertin\u00eancia dizia \u00e0 filha: , observava-lhe<br \/>\ncom azedumes:<\/p>\n<p>\u2013 Deixe-a chorar, deixe-a chorar! \u2013 E voltando-se para a uma:<br \/>\n\u2013 A estupidez \u00e9 cruel!<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>Cap\u00edtulo XV<\/h2>\n<p>O Sime\u00e3o de Prazins tinha sido antigamente regedor um ano; depois,<br \/>\nca\u00eddo o minist\u00e9rio e o governador civil que o nomeara, voltou<br \/>\nao poder o Joaquim de Vilalva, cartista puritano, com a restaura\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Carta. Duas restaura\u00e7\u00f5es boas. O Sime\u00e3o lembrava-se<br \/>\ncom saudades da sua import\u00e2ncia no ano em que governara a freguesia<br \/>\n\u2013 o respeito dos rapazes recrutados, as considera\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos taverneiros, que davam jogo em casa, das raparigas solteiras que andavam<br \/>\ngr\u00e1vidas, a autoridade do seu funcionalismo na junta de par\u00f3quia,<br \/>\netc. Ora, como o Joaquim de Vilalva, desgostoso e doente com a morte do filho,<br \/>\npedira a demiss\u00e3o, o administrador nomeou a regedoria no de Prazins.<br \/>\nO brasileiro achou que era bom ter de casa a autoridade para maior seguran\u00e7a<br \/>\ndos seus cabedais e pessoa. Foi uma desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois do conv\u00e9nio de Gramido, Zeferino recolhera \u00e0s Lamelas<br \/>\ncom alguns dos seus primitivos legion\u00e1rios. Ele tinha passado transes<br \/>\namargos. Juntara-se ao aventureiro Reinaldo MacDonnell, em Guimar\u00e3es,<br \/>\nquando o escoc\u00eas descia do Marco de Canaveses para Braga; esteve nas<br \/>\nbarricadas da Cruz da Pedra quando o bar\u00e3o do Casal espatifou a resist\u00eancia<br \/>\ndaqueles desgra\u00e7ados iludidos pelo caudilho estrangeiro; foi dos primeiros<br \/>\na fugir por Carvalho de Este, a compreender a inutilidade da defesa, e por<br \/>\nmontes e vales deu consigo em Porto de Ave, e daqui foi para Guimar\u00e3es,<br \/>\nonde se aquartelaram o MacDonell com o seu estado-maior. Logo que chegou foi<br \/>\nprocurar o tenente-coronel Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general.<br \/>\nMandaram-no ao palacete do visconde da Azenha, onde o escoc\u00eas se tinha<br \/>\naquartelado com o seu estadomaior. O Cerveira Lobo estava a beberricar conhaque<br \/>\nvelho copiosaimente sobre uma ceia farta, comida sem sobressaltos. \u00c0<br \/>\nmesa, onde faiscavam os cristais dos licores, avultavam, cintilando os metais<br \/>\ndas suas fardas, o quartel-mestre-general Vitorino Tavares, de Fagilde, Jos\u00e9<br \/>\nMaria de Abreu, ajudante-de-ordens, o morgado de P\u00e9 de Moura, o Cerveira<br \/>\nLobo e o Sebasti\u00e3o de Castro, do Covo, comandante do batalh\u00e3o<br \/>\nde volunt\u00e1rios realistas de Oliveira de Azem\u00e9is, que arredondava<br \/>\n42 pra\u00e7as, e seu irm\u00e3o Ant\u00f3nio Carlos de Castro, ajudante-de-ordens<br \/>\ndo general \u2013 dois homens gentilmente valorosos; \u2013 o coronel Abreu<br \/>\nFreire, morgado de Avanca, e o Bandeira de Estarreja que \u00e9 hoje padre.<\/p>\n<p>A noite era de 27 de Dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A garrafeira<br \/>\nda casa do Arco era um calor\u00edfico. O MacDonell, muito rubro, naquela<br \/>\nbebedeira cr\u00f3nica que lhe assistiu na vida e na morte, esmo\u00eda<br \/>\na ceia passeando num vasto sal\u00e3o, de bra\u00e7o dado com uma formosa<br \/>\nsenhora da casa, D. Em\u00edlia Correia Leite de Almada. Dirse- ia que o<br \/>\nbravo septuagen\u00e1rio tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava<br \/>\nmatizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira Lobo<br \/>\nbebia e relatava proezas dos seus saudosos drag\u00f5es de Chaves com gestos<br \/>\nb\u00e9licos e as pernas desviadas como se apertasse nas coxas a sela de<br \/>\num cavalo empinado no fragor da peleja. Nisto entrou um camarada, \u00e0s<br \/>\n11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre-general, que o procurava<br \/>\ncom muita urg\u00eancia um capit\u00e3o de atiradores do batalh\u00e3o<br \/>\ndo P\u00f3pulo.<\/p>\n<p>O Vitorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capit\u00e3o Pinho<br \/>\nLeal8, um robusto e jovial\u00edssimo rapaz, de trinta anos, com uma f\u00e9<br \/>\npol\u00edtica, ant\u00edpoda da sua forte intelig\u00eancia \u2013 uma<br \/>\nesp\u00e9cie de poeta medieval com um grande amor rom\u00e2ntico \u00e0s<br \/>\ncatedrais e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es obsoletas e extintas. Ele<br \/>\ntinha muitos destes camaradas vision\u00e1rios e respeit\u00e1veis na<br \/>\nsua falange da Madre-Silva&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Que h\u00e1? \u2013 perguntou o quartel-mestre-general.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 que estamos cercados pelos Cabrais. Os nossos piquetes<br \/>\nde Santa Luzia e do Castelo j\u00e1 foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil<br \/>\nem outros pontos. Veja l\u00e1 o que quer que eu fa\u00e7a.<\/p>\n<p>O Vitorino ficou passado de terror, e levou o capit\u00e3o \u00e0 sala<br \/>\nem que o MacDonell passeava pelo bra\u00e7o de D. Em\u00edlia Azenha,<br \/>\ne o visconde, o hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos h\u00f3spedes,<br \/>\nc\u00f3negos, abades, capit\u00e3es-mores, antigos magistrados. Pinho<br \/>\nLeal repetiu ao escoc\u00eas o que dissera ao seu quartel-mestre. Mas a dama<br \/>\nassustada desprendeu-se do bra\u00e7o do general, e foi preparar os ba\u00fas<br \/>\npara a fuga; e os do estado-maior compeliram o general a fugir tamb\u00e9m.<br \/>\nEra uma hora da noite quando o ex\u00e9rcito realista abandonou Guimar\u00e3es<br \/>\ne entrou na estrada de Amarante.<\/p>\n<p>8Era o meu actual e prezado amigo Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho<br \/>\nLeal, autor do<\/p>\n<p>Portugal Antigo e Moderno.<\/p>\n<p>Pinho Leal inventara o ataque dos eabralistas para salvar-se a si e aos outros<br \/>\nda carni\u00e7aria inevit\u00e1vel; porque, ao romper a manh\u00e3 do<br \/>\ndia seguinte, entraram em Guimar\u00e3es seiscentos soldados do Casal ainda<br \/>\nembriagados da sangueira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu estilo<br \/>\nmilitarmente pitoresco os verac\u00edssimos esclarecimentos de Pinho Leal:<br \/>\n&#8230;A besta do escoc\u00eas continuava na sua p\u00e2nria sem se importar<br \/>\nda guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua . Eu, vendo que de um momento<br \/>\npara outro, pod\u00edamos ser surpreendidos e trucidadas pelos Cabrais,<br \/>\naproveitando a circunstt\u00e2ncia de estar e tendo na casa da c\u00e2mara<br \/>\num de cem homens, comandados pelo alferes Jos\u00e9 Maria (o morgado do<br \/>\nTriste) dei-lhe a ele somente parte do que ia p\u00f4r em execu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEscolhi da gente do um sargento e quatro soldados da mesma companhia, de todo<br \/>\no segredo e confian\u00e7a. Sa\u00ed com eles por um beco e fui com eles<br \/>\npela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e outra no piquete<br \/>\ndo Castelo. Ao mesmo tempo, n\u00e3o sei quem \u00e9 que estava num monte<br \/>\nao norte de Guimar\u00e3es que deu uns poucos de tiros que muito ajudaram<br \/>\no meu plano. O em vista da nossa pr\u00e9via combina\u00e7\u00e3o, mandou<br \/>\ntocar a reunir e formou o suporte debaixo dos Arcos da C\u00e2mara. Eu e<br \/>\nos meus cinco homens viemos sorrateiramente metermo-nos na vila. Fui a tempo<br \/>\nem que j\u00e1 na Pra\u00e7a da Oliveira estava muita gente armada9.<\/p>\n<p>E dali, Pinho Leal foi \u00e0 casa do Arco, a fim de salvar aqueles homens<br \/>\nque se ensopavam em bebidas de guerra numa pacifica\u00e7\u00e3o de idiotas,<br \/>\ne retardar alguns dias a benem\u00e9rita morte do general escoc\u00eas<br \/>\nassalariado por Guizot com credenciais de Costa Cabral.<\/p>\n<p>O Cerveira Lobo, quando soube que a for\u00e7a marchava \u00e0 uma hora<br \/>\ndaquela noite frigid\u00edssima, encarregou o Zeferino de lhe comprar uma<br \/>\nbotija de genebra da fina, Fockink legitima. Tinha um frasco empalhado que<br \/>\npunha a tiracolo nas marchas nocturnas. Encheu-o com a ajuda do pedreiro.<br \/>\nO tenente-coronel, num grande desequil\u00edbrio, n\u00e3o acertava a<br \/>\ndespejar a botija no frasco. O Zeferino dizia depois que o vira t\u00e3o<br \/>\nborracho que logo desconfiou que malhava abaixo do cavalo. O Cerveira afirmava<br \/>\nque se sentia com os seus trinta anos; que andara a trote largo do seu cavalo<br \/>\ntreze l\u00e9guas e n\u00e3o estava cansado. O Zeferino perguntou-lhe<br \/>\nse o Casal os apanharia ainda de noite; se estaria tudo acabado com outra<br \/>\nmastigada como a de Braga. Cerveira respondeu iracundo que o general era um<br \/>\nasno, e que ele estava resolvido e mais o Vitorino a mat\u00e1lo como traidor<br \/>\nao Sr. D. Miguel I.<\/p>\n<p>Moveu-se o ex\u00e9rcito em direitura \u00e0 Lixa. O Cerveira ia no grupo<br \/>\ndo quartelgeneral. MacDonell, de vez em quando, regougava monoss\u00edlabos<br \/>\nem espanhol ao quartel-mestre. O Cerveira retardava-se \u00e0s vezes um<br \/>\npouco e emborcava o candil, grogolejando e despegando pigarros teimosos. O<br \/>\nVitorino notava-lhe que ele bebia de mais \u2013 que o calor da genebra n\u00e3o<br \/>\nse espalhava pelo corpo, mas sim concentrava-se na cabe\u00e7a \u2013 que<br \/>\nera um perigo. O Cerveira dizia que estava afeito; mas queixava-se de dores<br \/>\nnas fontes e zunidos nas orelhas; que n\u00e3o se podia lamber com sono,<br \/>\ne que dava cinco mil cruzados por estar na sua cama. E abaixando a voz tartamuda:<\/p>\n<p>\u2013 Este ladr\u00e3o deste ingl\u00eas meto-lhe a espada at\u00e9<br \/>\naos copos! Palavra de honra que o mato amanh\u00e3!<\/p>\n<p>O Vitorino deu tento de que o tenente-coronel gaguejava; mas atribuiu \u00e0<br \/>\nembriaguez o embara\u00e7o na fala. Entrou a queixar-se o Cerveira de que<br \/>\nestava tonto da cabe\u00e7a, que se queria apear, porque n\u00e3o podia<br \/>\nagarraras r\u00e9deas; e chamava com ansiedade o Zeferino que vinha muito<br \/>\n\u00e0 retaguarda. O quartel-mestre-general chamou uni ajudante-de-ordens,<br \/>\ne pediu-lhe que o ajudasse a apear o tenente-coronel. Cerveira Lobo dobrava<br \/>\no tronco ao longo do pesco\u00e7o do cavalo que estranhava o peso e o sacudia,<br \/>\nsentindo-se livre da press\u00e3o do freio.<\/p>\n<p>O apopl\u00e9ctico ia resvalar, quando os dois oficiais o ampararam nos<br \/>\nbra\u00e7os, numa s\u00edncope. Um deles acende uni palito fosf\u00f3rico<br \/>\nno lume do charuto, e disse que o tenentecoronel tinha o rosto inchado e muito<br \/>\nvermelho. Chamavam-no, sacudiam-no; n\u00e3o dava sinal de vida; nem um<br \/>\nronquido estertoroso. Inclinaram-no sobre um combro de mato molhado; n\u00e3o<br \/>\nlhe acharam pulso; a boca entortara-se, e os olhos muito abertos com umas<br \/>\nestrias sangu\u00edneas. Estava morto, fulminado pela apoplexia alco\u00f3lica.<\/p>\n<p>A respeito deste desastroso remate do \u00e9brio ilustre, escreve Pinho<br \/>\nLeal: Nesta retirada pelas duas ou tr\u00eas horas da noite, morreu em marcha<br \/>\ncom unia apoplexia fulminante o F&#8230;10 Coitado! quando me lembra isto ainda<br \/>\ntenho c\u00e1 meus remorsos de consci\u00eancia. Quem sabe se seria eu<br \/>\na causa da morte daquele pobre diabo? Consolame por\u00e9m a certeza de<br \/>\nque, mesmo que eu fosse a causa indirecta da morte do fidalgote, poupei muitas<br \/>\nvidas de gente mo\u00e7a (e a minha que era o principal para mim); e o morto<br \/>\nj\u00e1 poucos anos podia durar, pois estava no cal\u00e7ado velho11.<\/p>\n<p>Zeferino e alguns homens da comitiva do Cerveira passaram o restante da noite<br \/>\n\u00e0 beira do cad\u00e1ver do fidalgo de Quadros. \u00c0 claridade<br \/>\nfusca da manh\u00e3 invernosa viramlhe o semblante que metia pavor. Quiseram<br \/>\ncerrar-lhe as p\u00e1lpebras que resistiam \u00e0 distens\u00e3o, cori\u00e1ceas,<br \/>\nnum retesamento org\u00e1stico. A maxila inferior parecia deslocada e torta,<br \/>\nrepuxando a comissura direita dos l\u00e1bios num esgar de esc\u00e1rnio<br \/>\nou de ang\u00fastia dilacerante. A cor do rosto era agora de unia amarelid\u00e3o<br \/>\nde barro, molhado pelo orvalho que se filtrara atrav\u00e9s do len\u00e7o<br \/>\ncom que lho cobriram. Tinha os dedos aduncos, inflex\u00edveis, e uma das<br \/>\nm\u00e3os afincada como garra nas correias da pasta.<\/p>\n<p>9Carta de 10 de Junho de 1877.<\/p>\n<p>10Quando Pinho Leal publicar as suas Mem\u00f3rias, ent\u00e3o se saber\u00e1<br \/>\no verdadeiro nome do morto.<\/p>\n<p>11Carta citada.<\/p>\n<p>O Zeferino disse que o seu tenente-coronel devia trazer um cintur\u00e3o<br \/>\ncom dinheiro em ouro; mas ningu\u00e9m ousou desabotoar a farda do morto<br \/>\ndefendido pelo sagrado terror da morte. Apenas uma das sentinelas intanguidas<br \/>\nde frio, votou que se bebesse o resto da genebra. Assim que foi dia claro,<br \/>\no Zeferino desceu \u00e0 igreja pr\u00f3xima, a Margaride, avisar o p\u00e1roco<br \/>\nque tinha morrido na estrada um fidalgo do ex\u00e9rcito do Sr. D. Miguel.<br \/>\nO padre, estremunhado e liberal, respondeu que n\u00e3o era coveiro; que<br \/>\nse dirigisse ao regedor. A autoridade, sem as delongas dos processos legais,<br \/>\ndepositou o cintur\u00e3o com as pe\u00e7as na m\u00e3o do administrador,<br \/>\ne mandou abrir uma cova no adro da igreja, onde o baldearam com um responso<br \/>\necon\u00f3mico. Passavam jornaleiros para as ro\u00e7as. Punham as enxadas<br \/>\nno ch\u00e3o e encostavam \u00e0s m\u00e3os calosas as caras contemplativas.<br \/>\nO regedor contava que lhe acharam mais de um conto de r\u00e9is em ouro.<\/p>\n<p>\u2013 Toma! \u2013 disse um dos jornaleiros \u2013 um conto de r\u00e9is!<br \/>\n\u2013 E inclinando-se \u00e0 orelha de outro jornaleiro: \u2013 \u00d3<br \/>\nT\u00f3nio, se temos ido mais cedo para o monte&#8230; e top\u00e1mos o morto&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Que pechincha!&#8230;<\/p>\n<p>Restos de virtudes antigas. Estavam a fazer um id\u00edlio em prosa.<\/p>\n<p>O Zeferino acompanhou a guerrilha at\u00e9 que mataram o general em Tr\u00e1s-os-<br \/>\nMontes os soldados do Vinhais; depois passou com alguns chefes realistas para<br \/>\na Junta do Porto; e, acabada a luta, foi para casa e entregou a espada ao<br \/>\npai, que o recebeu com estas car\u00edcias:<\/p>\n<p>\u2013 Eu sempre te disse que eras uma cavalgadura! Que te n\u00e3o fiasses<br \/>\nno b\u00eabedo de Quadros; que n\u00e3o sa\u00edsses a campo sem l\u00e1<br \/>\nver o morgado de Barrimau. Agora, peda\u00e7ode- asno, torna a come\u00e7ar<br \/>\ncom as paredes, e tem cuidado que te n\u00e3o deitem a unha. Lembra-te que<br \/>\nprendeste o regedor de Vilalva, e quiseste agarrar o brasileiro de Prazins<br \/>\nque tem agora demais a mais o irm\u00e3o regedor. Olha se te lembras&#8230;<br \/>\nA m\u00e3e do Jos\u00e9 Dias anda por a\u00ed a berrar que a Marta e<br \/>\nmais tu lhe matas-te o filho. Lume no olho, homem, lume no olho!<\/p>\n<p>\u2013 Se algu\u00e9m embarrar por mim, dou-lhe cabo da casta! \u2013<br \/>\nprotestava o pedreiro, cortando com o bra\u00e7o e punho fechado punhadas<br \/>\na\u00e9reas. \u2013 Se me matarem&#8230; at\u00e9 lho agrade\u00e7o! \u2013<br \/>\nE com desalento: \u2013 Sou o maior infeliz e desgra\u00e7ado que cobre<br \/>\na rosa do Sol! Veja voc\u00ea: h\u00e1 tr\u00eas anos que n\u00e3o tenho<br \/>\numa migalha de estifa\u00e7\u00e3o, c&#8217;um raio de diabos! Isto acaba mal,<br \/>\ndigo-lho eu! Voc\u00ea ver\u00e1, sor pai, que ou me matam ou eu acabo<br \/>\nnuma forca pr&#8217;\u00e1mor daquela rapariga que foi o Diabo que me apareceu,<br \/>\ne n\u00e3o me passa daqui! \u2013 e apertava o gorgomilo nodoso entre dois<br \/>\ndedos como quem apanha uma pulga.<\/p>\n<p>Os administradores de concelho receberam ordem de recolherem as espingardas<br \/>\nreiunas que se encontrassem nas aldeias, em poder do povo. Para as cabe\u00e7as<br \/>\ndos distritos ramificaram-se destacamentos a fim de coadjuvarem a autoridade.<br \/>\nSime\u00e3o de Prazins, como regedor, foi chamado a Famalic\u00e3o e incumbido<br \/>\nde dirigir a dilig\u00eancia militar que devia dar um assalto a Lamelas,<br \/>\na casa do Zeferino, onde se haviam denunciado as espingardas com que alguns<br \/>\nmiguelistas se tinham recolhido, contra as condi\u00e7\u00f5es estipuladas<br \/>\nno protocolo de Gramido. O regedor compreendeu o perigo da empresa; pediu<br \/>\nque o demitissem; mas a autoridade imp\u00f4s-lhe com azedume o cumprimento<br \/>\ndos seus deveres, e negou-lhe a demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o Zeferino, sucumbido \u00e0 carga dos reveses, indiferente \u00e0<br \/>\nvida e \u00e0 morte, se chamava infeliz e desgra\u00e7ado, o destino implac\u00e1vel<br \/>\npreparava-lhe novo desastre. Ele, ao romper da manh\u00e3, depois de uma<br \/>\nins\u00f3nia febril, sonhava que era sargento-mor das Lamelas e assistia<br \/>\n\u00e0 formatura do regimento de mil\u00edcias de Barcelos debaixo do<br \/>\nsolar de D. Maria Pinheiro. Na janela g\u00f3tica do velho edif\u00edcio<br \/>\nda \u00e9poca de D. Afonso IV estava D. Miguel I assistindo ao desfilar<br \/>\ndo seu ex\u00e9rcito vencedor, em que havia muitas m\u00fasicas marciais,<br \/>\nde fulgurantes trompas, tocando o Rei-chegou; e o abade de Calvos, dentro<br \/>\nde um carro\u00e7\u00e3o e vestido de pontifical, borrifava o povo com<br \/>\nhissopadas de \u00e1gua benta, cantando o Bendito. As tropas estendiam-se<br \/>\nat\u00e9 Barcelinhos, e pelo C\u00e1vado abaixo velejavam muitos barquinhos<br \/>\nembandeirados de galhardetes com as bandas musicais de Santiago de Antas de<br \/>\nRuiv\u00e3es tocando a Cana-verde e \u00c1gua leva o regadinho. Num desses<br \/>\nbergantins com pavilh\u00e3o de colchas vermelhas vinha sentada a irm\u00e3<br \/>\ndo padre Roque, mestre de latim, com os seus \u00f3culos, a fazer meia;<br \/>\ne ao lado dela, vestida de cetim branco e borzeguins vermelhos dourados, com<br \/>\nos cabelos soltos, vestida como os anjos da prociss\u00e3o da Senhora da<br \/>\nBurrinha em Braga, a Marta de Prazins. Ele estava na ponte, absorto na vis\u00e3o<br \/>\nda noiva que chegava pelo C\u00e1vado para se casar quando um vizinho lhe<br \/>\nbateu com o cabo da sachola na janela tr\u00eas pancadas. Saltou da cama<br \/>\natordoado.<\/p>\n<p>Que fugisse pelo quintal que j\u00e1 estavam soldados a entrar nas Lamelas<br \/>\ncom o regedor.<\/p>\n<p>Zeferino ganhou de pronto os desvios de um pinhal, e por detr\u00e1s de<br \/>\num socalco enxergou o Sime\u00e3o ao lado do sargento da escolta parar em<br \/>\nfrente da sua casa e apontar para as janelas. Ouviu bater estrondosas coronhadas<br \/>\nno portal, e viu alguns soldados invadirem depois o quintal, e entrarem pela<br \/>\nporta da cozinha que ficara aberta. Depois avistou a escolta a retirar-se<br \/>\ncom dois homens carregados de armas.<\/p>\n<p>O velho alferes, entrevado, estava muito aflito quando o filho entrou. O<br \/>\nsargento quisera levar&#8211;lhe a sua espada; e compadecera-se dele quando o vira<br \/>\na chorar e a dizerlhe que era um alferes do antigo ex\u00e9rcito, e que<br \/>\no deixasse morrer ao lado da sua espada, j\u00e1 que ele n\u00e3o podia<br \/>\ndefend\u00ea-la porque estava tolhido.<\/p>\n<p>O Zeferino perguntou pacificamente:<\/p>\n<p>\u2013 E o Sime\u00e3o que dizia?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o dizia nada. Eu \u00e9 que lhe disse&#8230; Arrieiros somos,<br \/>\nna estrada andamos, vizinho Sime\u00e3o.<\/p>\n<p>O pedreiro quedou-se longo tempo sentado com as m\u00e3os fincadas na cabe\u00e7a:<br \/>\nolhava para o canto em que tivera duas d\u00fazias de espingardas compradas<br \/>\npelo Cerveira Leite, e dizia com resigna\u00e7\u00e3o contrafeita:<\/p>\n<p>\u2013 Elas assim com&#8217;\u00e1ssim j\u00e1 n\u00e3o serviam de nada&#8230;<br \/>\nA guerra acabou&#8230; Que leve o Diabo tudo&#8230; \u2013 E, passados alguns segundos<br \/>\nde recolhida ang\u00fastia: \u2013 Veja voc\u00ea, sor pai! O Sime\u00e3o<br \/>\nd\u00e1-me a filha, depois diz que ma n\u00e3o d\u00e1; isto n\u00e3o<br \/>\nse fazia a um homem que p\u00f5e navalha na cara&#8230; Eu levava a minha vida<br \/>\nmuito direita, estava muito bem, voc\u00ea bem sabe; deitei-me a trabalhar<br \/>\nquanto podia; e vai depois, por causa da minha paix\u00e3o, fiquei areado<br \/>\ndo ju\u00edzo, deixei a arte, andei por esse mundo a gastar \u00e0 minha<br \/>\ncusta, ao frio e ao calor, em t\u00e9rminos de me levar o Diabo com uma<br \/>\nbala; e vai agora o Sime\u00e3o entra-me pela porta dentro, leva-me as armas,<br \/>\ne, se me pilha, metia-me uma baioneta no corpo&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Homem \u2013 atalhou o pai com ju\u00edzo \u2013 n\u00e3o fosses<br \/>\ntu l\u00e1 a Prazins embirrar com o brasileiro&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Eu tenho a minha paix\u00e3o \u2013 objectou o filho com transporte<br \/>\n\u2013 tinha c\u00e1 dentro do peito esta navalha de ponta espetada; e<br \/>\nele&#8230; que mal lhe fiz eu p&#8217;ra me querer mal?&#8230; Sabe voc\u00ea que mais?&#8230;<br \/>\nAssim com&#8217;\u00e1ssim, estou perdido&#8230;<\/p>\n<p>Saiu arrebatadamente e foi para o Monte C\u00f3rdova conversar com o Patarro,<br \/>\num velho celerado que se batera em Braga com a cavalaria do Casal e pudera<br \/>\nsalvar-se com o sacrif\u00edcio de tr\u00eas dedos e do nariz acutilados.<\/p>\n<p>Na semana seguinte, quarta-feira, era o mercado de Famalic\u00e3o. O regedor<br \/>\ntinha comprado duas juntas de bois para o caseiro da Retorta, uma quinta solarenga,<br \/>\ntorreada, com o bras\u00e3o dos Brand\u00f5es, que o brasileiro comprara<br \/>\na um fidalgo de Afife. O neg\u00f3cio deitara a tarde. Sime\u00e3o sa\u00edra<br \/>\nao desfazer da feira com o caseiro da Retorta e mais dois lavradores de outra<br \/>\nfreguesia que montavam \u00e9guas andadeiras de muitos brios. O Sime\u00e3o<br \/>\ncavalgava a sua velha ru\u00e7a, de uma pachorra mansa, invulner\u00e1vel<br \/>\n\u00e0 espora. Recebia as chibatadas encolhendo os quadris e andando para<br \/>\ntr\u00e1s. Ela n\u00e3o podia manifestar de um modo mais sens\u00edvel<br \/>\na sua repugn\u00e2ncia pelas pressas. O dono gabavase de s\u00f3 ter ca\u00eddo<br \/>\njuntamente com ela poucas vezes. Sa\u00edram da feira conversando a respeito<br \/>\nde Marta. Constava aos outros que ela se quisera matar \u00e0 conta do Jos\u00e9<br \/>\nDias. O Sime\u00e3o achava que sim, que ela quisera atirar-se ao rio; mas<br \/>\nque estava quase boa em Caldelas; que o vig\u00e1rio e mais a irm\u00e3<br \/>\nlhe tinham dado um jeito ao miolo; e logo que ela estivesse fina, casava com<br \/>\no tio.<\/p>\n<p>\u2013 E ele qu\u00e9-la? \u2013 perguntou o Bento de Penso.<\/p>\n<p>\u2013 Pois ent\u00e3o!&#8230; Tomara-a ele j\u00e1.<\/p>\n<p>\u2013 Enfim \u2013 tornou o Bento \u2013 voc\u00ea h\u00e1-de perdoar<br \/>\nque eu lhe diga o que tenho c\u00e1 no sentido. O povo diz que o Dias entrava<br \/>\nl\u00e1 de noite. Eu n\u00e3o vi, mas \u00e9 o que diz o povo. Ora um<br \/>\nhome sempre se atriga de casar com mulher de maus cretos. O seu brasileiro<br \/>\npelos modos \u00e9 de b\u00f4 comer&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Tem b\u00f4 est\u00f4mago, \u00e9 o que \u00e9 \u2013 confirmou<br \/>\no Belchior da Rechousa.<\/p>\n<p>O Sime\u00e3o n\u00e3o estranhava estas franquezas muito triviais nas<br \/>\naldeias ainda imaculadas do resguardo das conveni\u00eancias; mas defendia<br \/>\na honra da filha, atribuindo ao Zeferino as cal\u00fanias que espalhava<br \/>\npara se vingar.<\/p>\n<p>\u2013 Enfim \u2013 disse o Belchior \u2013 voc\u00ea tinha-lha dado<br \/>\npor quinze centos. \u00c9 o que diz o povo, e palavra d&#8217;home n\u00e3o<br \/>\ntorna atr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2013 Isso c\u00e1 da minha parte foi chala\u00e7a&#8230; \u2013 defendia-se<br \/>\no Sime\u00e3o, quando tr\u00eas homens, mascarados com len\u00e7os, fincando<br \/>\nas argolas dos paus no caminho, saltaram de uma ribanceira, \u00e0 frente<br \/>\ndas tr\u00eas \u00e9guas que caminhavam a passo. Um dos tr\u00eas jogou<br \/>\numa paulada \u00e0 cabe\u00e7a do Sime\u00e3o e derrubou-o.<\/p>\n<p>Os dois lavradores das \u00e9guas travadas deram de calcanhares e pareciam<br \/>\ndois duendes de com\u00e9dia m\u00e1gica vistos \u00e0 luz crespuscular.<br \/>\nO caseiro abandonou as sogas dos bois, galgou paredes e searas em desapoderada<br \/>\nfuga at\u00e9 Famalic\u00e3o, e \u00e0 entrada da vila gritou \u2013<br \/>\naqui d&#8217;el-rei ladr\u00f5es! Contou o sucesso ao povo alvorotado, acudiu<br \/>\na autoridade, encheu-se a estrada de gente em cata de Sime\u00e3o e da malta<br \/>\ndos ladr\u00f5es. Acharam-no prostrado, de costas, arquejando, com a cara<br \/>\nempastada de sangue que borbotava empo\u00e7ando-se dos dois lados da cabe\u00e7a.<br \/>\nA \u00e9gua rilhava entre os dentes e o freio umas verg\u00f4nteas tenras<br \/>\nde tojo, e de vez em quando tossia a sua pulmoeira com os ilhais enfolipados.<br \/>\nO Futrica, um ferrador da Terra Negra, examinou a cabe\u00e7a do ferido,<br \/>\ne disse que tinha o miolo \u00e0 vista; n\u00e3o podia durar muito, que<br \/>\nlhe dessem a santa un\u00e7\u00e3o. Pediu-se uma padiola ao lavrador mais<br \/>\npr\u00f3ximo e levaram-no para Prazins prometendo duas de doze a dois jornaleiros.<br \/>\nO caseiro montou a \u00e9gua para ir a Santo Tirso chamar o Baptista, o<br \/>\ncirurgi\u00e3o da casa; mas a burra, estranhando as esporas dos tamancos,<br \/>\nlevantou-se com o cavaleiro, deixou-se cair sobre os jarretes traseiros, voltou-se<br \/>\nde lado como quem se ajeita para dormir: foi necess\u00e1rio levant\u00e1-la.<br \/>\nO povo dava risadas estridentes quando o caseiro puxava debaixo do ventre<br \/>\nda \u00e9gua a perna entalada, muito cabeluda; e ali perto estava a padiola<br \/>\ncom um velho gemente, agonizante, a pedir a confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim que a padiola entrou em Prazins, foi aviso \u00e0 Marta que o pai<br \/>\nestava a morrer com pancadas que lhe deram os ladr\u00f5es de estrada. D.<br \/>\nTeresa e o prior acompanharam-na. Quando chegaram, sa\u00eda o p\u00e1roco<br \/>\nde o confessar e tocava o sino ao vi\u00e1tico. Havia uma agita\u00e7\u00e3o<br \/>\nde angustiosa curiosidade no povo que conflu\u00eda \u00e0 igreja chamado<br \/>\npelo sinal. Dizia-se que eram ladr\u00f5es que sa\u00edram ao lavrador<br \/>\nem Santiago de Antas; havia opini\u00f5es mais individualistas: segredava-se<br \/>\no nome do pedreiro; um pastor de cabras dizia que vira passar de madrugada<br \/>\npara as Lamelas o Patarro de Monte C\u00f3rdova e mais outro mal-encarado;<br \/>\nmas todos \u00e0 uma diziam que n\u00e3o tinham visto nada, nem queriam<br \/>\nsaber de desgra\u00e7as, com medo \u00e0 malta do Zeferino.<\/p>\n<p>O Sime\u00e3o estava ainda com a face arregoada de sangue, vestido sobre<br \/>\na cama, resfolegando com muita ansiedade, gemendo com dores, e a cabe\u00e7a<br \/>\num pouco elevada sobre um magro travesseiro muito comprido dobrado em tr\u00eas<br \/>\npelo vig\u00e1rio. Esperava-se o cirurgi\u00e3o. A filha teve um desmaio<br \/>\nquando viu a cara ensanguentada do pai, \u00e0 luz morti\u00e7a de uma<br \/>\nvela de sebo numa placa de lata. D. Teresa, com a Marta nos bra\u00e7os,<br \/>\ndisse ao irm\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Que mis\u00e9ria de casa! Pede luzes e \u00e1gua para se lavar<br \/>\naquele sangue.<\/p>\n<p>E, assim que Marta voltou a si, levou-a para o seu quarto \u2013 que a viria<br \/>\nchamar quando o pai a pudesse ver. Queria retir\u00e1-la do espect\u00e1culo<br \/>\ndos paroxismos.<\/p>\n<p>Quando chegou a extrema-un\u00e7\u00e3o com o pr\u00e9stito clamoroso<br \/>\ndo Bendito e o tilintar espacejado da campainha, Marta carpia-se em altos<br \/>\ngritos, e pedia que a deixassem despedir-se de seu pai.<\/p>\n<p>Ela tinha ouvido dizer a uma das vizinhas que lhe invadiram a alcova: \u2013<br \/>\nquem lhe bateu, \u00f3 mulheres, n\u00e3o foi outro sen\u00e3o o Zeferino<br \/>\ndas Lamelas. Juro que n\u00e3o foi outro. \u2013 Esta afirmativa cravou-lhe<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o o remorso de ser ela a causa da morte do pai. Queda<br \/>\nir pedir-lhe perd\u00e3o; rogava \u00e0 sua amiga que pelas chagas de<br \/>\nCristo a deixasse ir ajoelhar-se \u00e0 beira de seu desgra\u00e7ado pai.<br \/>\nD. Teresa conteve-a, receando novo ataque de loucura; que esperasse que se<br \/>\nfizesse o curativo; que o cirurgi\u00e3o n\u00e3o queria no quarto sen\u00e3o<br \/>\no barbeiro que lhe estava a rapar a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Pouco depois chegava o tio Feliciano da quinta da Retorta, onde residia assistindo<br \/>\n\u00e0s obras. Vinha aterrado. Disse ao Os\u00f3rio que j\u00e1 estava<br \/>\narrependido de comprar a quinta; que Portugal era uma ladroeira e um bando<br \/>\nde fac\u00ednoras; que se ia embora muito breve. E, entrando no quarto onde<br \/>\na sobrinha chorava, disse-lhe consternadamente que, se morresse o pai, fizesse<br \/>\nde conta que tinha em seu tio um segundo pai.<\/p>\n<p>O cirurgi\u00e3o saiu desconfiado do ferimento. Uma das pauladas despegara<br \/>\num peda\u00e7o de tegumento, deixando descoberto o cr\u00e2nio, que o ferrador<br \/>\nda Terra Negra chamara o miolo. A hemorragia era grande, e havia receio de<br \/>\ncomo\u00e7\u00e3o cerebral. O facultativo, depois de o sangrar, mandou-lhe<br \/>\np\u00f4r panos molhados na cabe\u00e7a, de quarto em quarto de hora. Marta<br \/>\ne Teresa n\u00e3o abandonaram um momento o catre do enfermo; o padre Os\u00f3rio<br \/>\npassou a noite na saleta atendendo o brasileiro que lhe falava muito na sobrinha,<br \/>\nna paix\u00e3o que ela tivera pelo Jos\u00e9 Dias, e n\u00e3o lho levava<br \/>\na mal, pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A\u00ed pela madrugada o ferido sentiu-se muito angustiado, tinha estremecimentos,<br \/>\ndizia disparates; queria arrancar os pachos da cabe\u00e7a, bracejava, e<br \/>\npuxava para o peito a face da filha lavada em l\u00e1grimas. O padre acudiu<br \/>\ne mais o Feliciano; receavam que ele estivesse agonizando. Depois aquela agita\u00e7\u00e3o<br \/>\nesmoreceu num dormitar sobressaltado, com a cabe\u00e7a no rega\u00e7o<br \/>\nde Marta, que brandamente lhe compunha o pacho da ferida. Quando espertou<br \/>\nda modorra conheceu a filha, e repeliu-a. Falou no pedreiro que o matara,<br \/>\ne recaiu no estado comatoso. O padre Os\u00f3rio atribu\u00eda aquela<br \/>\nsonol\u00eancia a derramamento de sangue no cr\u00e2nio, um sintoma de morte<br \/>\nprov\u00e1vel. O cirurgi\u00e3o veio de madrugada, mandou-lhe deitar sanguessugas<br \/>\natr\u00e1s das orelhas, e disse ao vig\u00e1rio de Caldelas que estava<br \/>\nmal-encarado o neg\u00f3cio; que aquele diabo de sono lhe parecia de mau<br \/>\nagouro. Que ia ver uns doentes e voltava logo.<\/p>\n<p>Marta fazia muitas promessas \u00e0 Senhora da Sa\u00fade; dez voltas<br \/>\nde joelhos ao redor da sua capela, um resplendor de prata, jejuar a p\u00e3o<br \/>\ne \u00e1gua seis meses a fio, n\u00e3o comer carne durante um ano, ir<br \/>\ndescal\u00e7a \u00e0 romaria da milagrosa Senhora. Com estas promessas<br \/>\nsentia-se menos oprimida do seu remorso; o pai estava ali a morrer por causa<br \/>\ndela, e a Maria de V\u00edlalva j\u00e1 dizia tamb\u00e9m que fora ela<br \/>\na causa da morte do seu filho. Uma desgra\u00e7ada, que vinha assim a causar<br \/>\na morte do noivo e do pai.<\/p>\n<p>O ferido teve uma intermit\u00eancia de repousada vig\u00edlia. Olhou<br \/>\npara a filha, e disselhe que morria, que a deixava sem pai nem m\u00e3e.<br \/>\nO Feliciano acudiu:<\/p>\n<p>\u2013 Isso n\u00e3o lhe d\u00ea cuidado, mano Sime\u00e3o. Nada lhe<br \/>\nh\u00e1-de faltar. \u00c9 minha sobrinha; n\u00e3o tenho mais ningu\u00e9m<br \/>\nneste mundo.<\/p>\n<p>\u2013 Eu morria contente \u2013 balbuciou o Sime\u00e3o lacrimoso \u2013<br \/>\nse ela fosse sua mulher&#8230;<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio esquisito. Marta abaixou os olhos; a D. Teresa olhou<br \/>\npara o irm\u00e3o a ver o que ele dizia; o padre Os\u00f3rio olhava para<br \/>\no brasileiro a ver como se expressavam as suas ideias; o Feliciano esperava<br \/>\nque os outros dissessem alguma coisa. E ent\u00e3o o pai de Marta, aconchegando-a<br \/>\nde si, com muita ternura:<\/p>\n<p>\u2013 Casas com o teu tio, minha filha? \u00c9 o \u00faltimo pedido<br \/>\nque te fa\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Marta fez um gesto afirmativo, e caiu de joelhos, curvada sobre o leito,<br \/>\na solu\u00e7ar; depois, deu um grito e escorregou para o ch\u00e3o, em<br \/>\nconvuls\u00f5es, com o rosto muito escarlate e a boca a espumar. D. Teresa<br \/>\ne o irm\u00e3o conduziram-na ao seu quarto. Deitaram-na j\u00e1 sossegada,<br \/>\nmas numa rigidez insens\u00edvel, com a boca ligeiramente toda.<\/p>\n<p>O cirurgi\u00e3o chegava nesta conjuntura e disse que a rapariga herdara<br \/>\na mol\u00e9stia da m\u00e3e, que eram ataques epil\u00e9pticos; e ao<br \/>\ntio Eeliciano disse-lhe particularmente que o pior da heran\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nera a epilepsia; era a dem\u00eancia que levou a m\u00e3e ao suic\u00eddio.<br \/>\nQue a rapariga era fraca, e tinha sido criada com umas mimalhices de menina<br \/>\nda cidade, que estragam o corpo e a alma; que era preciso ter muito cuidado<br \/>\ncom ela, n\u00e3o a afligir, distra\u00ed- la, casada, enfim, que seria<br \/>\nbom cas\u00e1-la, e dar-lhe vinagre a cheirar, quando viesse outro ataque,<br \/>\ne ter cuidado que ela n\u00e3o apanhasse a l\u00edngua entre os dentes;<br \/>\nque lhe metessem um pano entre os dois queixos, quando lhe desse outro ataque.<\/p>\n<p>\u2013 Ele disse que o melhor era casar-se \u2013 lembrou o Feliciano ao<br \/>\npadre Os\u00f3rio.<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a>Cap\u00edtulo XVI<\/h2>\n<p>Relatava o vig\u00e1rio de Caldelas:<\/p>\n<p>\u2013 O c\u00e9rebro do Sime\u00e3o, se era refract\u00e1rio aos<br \/>\ngolpes da dignidade, n\u00e3o era mais sens\u00edvel \u00e0s como\u00e7\u00f5es<br \/>\ndas pauladas. Duas vezes feliz quanto \u00e0 cabe\u00e7a: nem honra nem<br \/>\npredisposi\u00e7\u00f5es inflamat\u00f3rias. Cicatrizou a ferida; come\u00e7ou<br \/>\na comer galinhas com a fome de um canibal e com o prazer carn\u00edvoro<br \/>\nde uma raposa. Dera tacitamente Marta o consentimento de casar com o tio;<br \/>\nesperava em soturno abatimento que a casassem; e, se minha irm\u00e3 lhe<\/p>\n<p>tocava nesse assunto, dizia: . Quanto ao casamento \u2013 prosseguiu o padre<br \/>\nOs\u00f3rio \u2013 eu cismava se a primeira noite nupcial seria a v\u00e9spera<br \/>\nde escandalosas desaven\u00e7as, arrependimentos, choradeiras, div\u00f3rcio,<br \/>\nvergonhas, coisas; mas ocorria-me que Feliciano me confessara repetidamente<br \/>\nque sa\u00edra da sua aldeia aos doze anos e tornara casto e puro como sa\u00edra.<br \/>\nE eu ent\u00e3o, atendendo a que a castidade, al\u00e9m de ser em si e<br \/>\nvirtualmente uma coisa boa, tem umas ignor\u00e2ncias anat\u00f3micas,<br \/>\ne umas inconscientes condescend\u00eancias com as impurezas alheias, descansava,<br \/>\ntranquilizava o meu esp\u00edrito escrupuloso. Uma falsa compreens\u00e3o<br \/>\nda honra alheia \u00e0s vezes me aconselhava que mandasse o brasileiro conversar<br \/>\nsobre o assunto com o oper\u00e1rio que o luar enganara em certa noite;<br \/>\nmas a honra, como a consci\u00eancia, n\u00e3o s\u00e3o quantidades constantes<br \/>\nno geral das pessoas; s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es da alma t\u00e3o<br \/>\nvari\u00e1veis como a mat\u00e9ria exposta \u00e0s mudan\u00e7as climat\u00e9ricas.<br \/>\nOra as condi\u00e7\u00f5es mentais e morais de Feliciano Prazins eram<br \/>\nas melhores e as mais garantidas para a sua felicidade. Com que direito ia<br \/>\neu estragar aquele excelente organismo?<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui o padre Os\u00f3rio com a sua grande pr\u00e1tica etnol\u00f3gica<br \/>\ndos usos e costumes dos maridos sertanejos do Minho.<\/p>\n<p>O mano lavrador n\u00e3o era mais apontado em melindres de pundonor. Assim<br \/>\ncomo curara em sil\u00eancio o cora\u00e7\u00e3o, golpeado pelas deslealdades<br \/>\nda defunta Genoveva, do mesmo modo se acomodara com os estragos sofridos nos<br \/>\ntegumentos da cabe\u00e7a. Dizialhe o administrador que querelasse contra<br \/>\no Zeferino, porque havia testemunhas indicativas que faziam prova. N\u00e3o<br \/>\nquis. \u2013 Depois \u00e9 que me d\u00e3o cabo do canastro; \u2013<br \/>\ndizia com um dom prof\u00e9tico, e circunspec\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel<br \/>\nnum homem sem instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>No entanto, Zeferino debatia-se num azedume de desesperado, muito m\u00e1-l\u00edngua,<br \/>\ninsano de paix\u00e3o, a degenerar para fac\u00ednora em teorias de escavacar<br \/>\nmeio mundo. Come\u00e7ou a superar-lhe nas entranhas o v\u00edcio do pai<br \/>\ncom sedes ardentes de vinho do Porto e genebra. Sentia al\u00edvios, consola\u00e7\u00f5es<br \/>\ninef\u00e1veis, quando se embebedava; rejuvenescia; a vida encarava-se-lhe<br \/>\nmelhor. Arranchava com vadios nas noitadas das tavernas onde se jogava esquineta<br \/>\ne monte. Trocava na mesa da tavolagem pe\u00e7as de duas caras que comprara<br \/>\nno tempo em que amealhara dez mil cruzados com dez anos de trabalho. Os parceiros<br \/>\nroubavam-no. Vinham de noite de Famalic\u00e3o a Landim, perto das Lamelas,<br \/>\njogadores professos, armar a forquinha ao pedreiro com cartas marcadas e pego.<br \/>\nDepois das perdas, quando se via atascado na esterqueira do jogo e da borracheira,<br \/>\nembriagava-se de novo, e nessas alucina\u00e7\u00f5es ia a Prazins, de<br \/>\nclavina ao ombro, com o Tagarro de Monte C\u00f3rdova, e falava alto, com<br \/>\npetul\u00e2ncia, paira que Marta o ouvisse. O brasileiro e o Sime\u00e3o<br \/>\ntinham-lhe medo e n\u00e3o abriam as janelas depois do Sol posto.<\/p>\n<p>Espalhou-se ent\u00e3o a not\u00edcia de que o brasileiro ia efectivamente<br \/>\ncasar com a sobrinha.<\/p>\n<p>O Zeferino escreveu ao Feliciano uma carta an\u00f3nima, que era um traslado<br \/>\naumentado do depoimento do pedreiro que vira o Jos\u00e9 Dias saltar da<br \/>\njanela. E por fim amea\u00e7ava-o: \u2013 que, se casasse com a Marta,<br \/>\nn\u00e3o a havia de gozar muito tempo. O Feliciano mostrou a carta ao irm\u00e3o.<br \/>\nConcordaram que era o pedreiro com a sua paix\u00e3o, danado de raiva. O<br \/>\nbrasileiro entrou a cismar que o celerado era capaz de levar a vingan\u00e7a<br \/>\nao cabo \u2013 bater-lhe, mat\u00e1-lo. Os tiros desfechados \u00e0 sua<br \/>\nhonra de marido de Marta resvalavam-lhe na coura\u00e7a da consci\u00eancia:<br \/>\n, dizia ele; mas a ideia de um tiro ao seu f\u00edsico, inquietava-o deveras.<br \/>\n, dizia o brasileiro ao mano, num grande mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Lembrou-lhe o seu compadre, o Francisco Melro da Pena, um taverneiro de olhos<br \/>\nestr\u00e1bicos, de alcunha o Alma Negra, um que o tinha avisado, quando<br \/>\na malta da patuleia tencionava agarr\u00e1-lo. O Melro rompera rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom o Zeferino, por causa da partilha de uns dinheiros apanhados na mala do<br \/>\ncorreio de Guimar\u00e3es, e dizia hiperbolicamente ao seu compadre que<br \/>\no Zeferino, quando andara na patuleia, era ladr\u00e3o como rato.<\/p>\n<p>O Melro era m\u00e1 bisca. Estivera tr\u00eas anos na Rela\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomo c\u00famplice num homic\u00eddio que se fizera na sua tasca. Vivia<br \/>\napertadamente com mulher e quatro filhos, e n\u00e3o cessava de pedir empr\u00e9stimos<br \/>\nao compadre desde que o avisara. Quando o Sime\u00e3o foi espancado, o Melro<br \/>\nlogo lhe disse era segredo que quem lhe batera fora o Zeferino, com as costas<br \/>\nguardadas par dois pimp\u00f5es do Monte C\u00f3rdova. E acrescentou:<br \/>\n\u2013 Ele bem sabe a quem as faz. Havia de ser comigo ou com pessoa que<br \/>\nme doesse&#8230;<\/p>\n<p>O Feliciano deu um passeio para os lados da Pena, onde morava o compadre.<br \/>\nDisse-lhe que ia ver a quinta da Comenda que se vendia; que lha fosse mostrar.<br \/>\nConversaram; e, no regresso, pararam em frente de uma casa com tr\u00eas<br \/>\njanelas e um quintal espa\u00e7oso.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 aqui \u2013 disse o Melro.<\/p>\n<p>O brasileiro p\u00f4s o mon\u00f3culo e leu um bilhete pregado na porta<br \/>\ncom quatro tachas: Domingo, \u00e0s 10 da manh\u00e3, depois da missa,<br \/>\nvai \u00e0 pra\u00e7a a quem mais der sobre a avalia\u00e7\u00e3o<br \/>\njudicial de 500$000 r\u00e9is esta casa, d\u00edzima a Deus, para partilhas.<br \/>\nO Feliciano leu, retirou-se apressado para que o n\u00e3o vissem, murmurando<br \/>\nquaisquer palavras a que o compadre Melro respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 Vossoria ent\u00e3o est\u00e1 a ler! T\u00e3o certo tivesse<br \/>\neu o C\u00e9u como tenho a casa&#8230;<\/p>\n<p>Feliciano seguiu para Prazins e o Melro disse aos fregueses da taverna que<br \/>\no seu compadre ia comprar a quinta da Comenda, e que estivera a ler o escrito<br \/>\nda casa do Cambado que se vendia, e dissera que talvez a comprasse para a<br \/>\ndar a um afilhado&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Ao teu pequeno?! \u2013 perguntavam.<\/p>\n<p>\u2013 Pois a quem h\u00e1-de ser! Aquilo \u00e9 que \u00e9 um homem<br \/>\n\u00e0s direitas!<\/p>\n<p>\u2013 Ele n\u00e3o sabe o que tem de seu. Tanto lhe monta dar-te a casa<br \/>\ncomo a mim pagar-te um quarteir\u00e3o de aguardente \u2013 encareceu uni<br \/>\npedreiro. \u2013 Anda agora a trabalhar no pal\u00e1cio da Retorta. Que<br \/>\nriqueza! Parece um mosteiro. Pelos modos vai para l\u00e1 viver logo que<br \/>\ncase com a Marta. L\u00e1 o mestre Zeferino rebenta que o leva os diabos!<br \/>\nIsso diz que d\u00e1 cada arranco&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 O Zeferino, a falar a verdade, tem raz\u00e3o \u2013 disse o Melro.<br \/>\n\u2013 O Sime\u00e3o tinha-lha prometido. Gente sem palavra que a leve<br \/>\no Diabo! Eu, se fosse comigo&#8230; Mas, enfim, \u00e9 irm\u00e3o do meu compadre&#8230;<br \/>\nn\u00e3o devo dizer nada. Que se governem.<\/p>\n<p>O Melro, \u00e0s 8 da noite, quando os fregueses desalojaram, fechou a<br \/>\ntaverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse \u00e0 mulher:<\/p>\n<p>\u2013 A casa do Cambado \u00e9 nossa, mas \u00e9 preciso vindimar o<br \/>\nZeferino&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Credo! \u2013 exclamou a mulher com as m\u00e3os na cabe\u00e7a.<br \/>\n\u2013 Nossa Senhora nos acuda!<\/p>\n<p>\u2013 Leva rumar! \u2013 e punha o dedo no nariz.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 Joaquim, \u00f3 marido da minha alma, lembra-te dos tr\u00eas<br \/>\nanos que penaste na cadeia! Olha para aqueles quatro filhos!..<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 te disse que me n\u00e3o cantes \u2013 e relan\u00e7ava-lhe<br \/>\no seu formid\u00e1vel olhar vesgo incendido como os lampejos da candeia<br \/>\nem que afogueava o cachimbo de pau. Depois, foi tirar de entre a cama de bancos<br \/>\ne a parede uma velha clavina. Sentou-se \u00e0 lareira e disse \u00e0<br \/>\nmulher que tivesse m\u00e3o na candeia. Enroscou o saca-trapo na ponta da<br \/>\nvareta de ferro e descarregou a arma, tirando primeiro a bucha de musgo, e<br \/>\ndepois, voltando o cano, vazou o chumbo na palma da m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 Joaquim, v\u00ea l\u00e1 o que vais fazer! \u2013 insistia<br \/>\na mulher, limpando os olhos com a estopa da camisa. E ele, assobiando o hino<br \/>\nda Maria da Fonte, despejava a p\u00f3lvora da escorva, desaparafusava a<br \/>\nculatra e tirava as duas bra\u00e7adeiras. A mulher solu\u00e7ava, e ele<br \/>\ncantando numa surdina rouca:<\/p>\n<p>Leva avante, portugueses,<\/p>\n<p>Leva avante, e n\u00e3o temer&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.<\/p>\n<p>E o Melro numa distrac\u00e7\u00e3o l\u00edrica:<\/p>\n<p>Pela santa liberdade,<\/p>\n<p>Triunfar ou padecer&#8230;<\/p>\n<p>Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido da<br \/>\nculatra para sentir a press\u00e3o do sopro, que fazia um fr\u00e9mito<br \/>\n\u00e1spero impedido pelas esc\u00f3rias nitrosas. Pediu \u00e0 mulher<br \/>\numas febras de algod\u00e3o em rama, enroscou-as numa agulha de albarda<br \/>\ne escarafunchou o ouvido do cano.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 suja \u2013 disse ele \u2013 d\u00e1 c\u00e1 um<br \/>\ntodo-nada de aguardente.<\/p>\n<p>\u2013 Joaquim, vamo-nos deitar, pelas almas. N\u00e3o te desgraces!<\/p>\n<p>\u2013 Traz aguardente e cala-te, j\u00e1 to disse, mulher, com dez diabos!<br \/>\n\u2013 E p\u00f4s-se a assobiar a Luisinha. Enroscou algod\u00e3o embebido<br \/>\nem aguardente no saca-trapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano<br \/>\nat\u00e9 sa\u00edrem brancas e secas as \u00faltimas farripas da zaracoteia.<br \/>\nSoprou novamente e o ar saia sem estorvo pelo ouvido com um sibilo igual.<br \/>\nParecia satisfeito, e cantarolava, mezza voce:<\/p>\n<p>Agora, agora, agora,<\/p>\n<p>Luisinha, agora.<\/p>\n<p>Armou a clavina, aparafusou as bra\u00e7adeiras, a culatra e a fecharia,<br \/>\nintroduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o c\u00e3o repetidas vezes, acompanhando<br \/>\no movimento com o dedo polegar, paira certificar-se de que o desarmador, a<br \/>\ncaixeta e o fradete trabalhavam harmonicamente. Levantou o fuzil de a\u00e7o,<br \/>\nque fez um som rijo na mola, e friccionou-o com p\u00f3lvora fina; e, com<br \/>\no bordo de um navalh\u00e3o de cabo de chifre, lascou a aresta da pederneira<br \/>\nque faiscava.<\/p>\n<p>\u2013 Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem! \u2013 solu\u00e7ava a mulher.<br \/>\nE ele, zangado com as l\u00e1stimas da mulher, com expans\u00e3o raivosa,<br \/>\nnum sfogato:<\/p>\n<p>E viva a nossa rainha,<\/p>\n<p>Luisinha<\/p>\n<p>Que \u00e9 uma linda capitoa&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Vai \u00e0 loja atr\u00e1s da seira dos figos e traz o ma\u00e7o<br \/>\ndos cartuchos e uma cabacinha de p\u00f3lvora de escorvar que est\u00e1<br \/>\nao canto.<\/p>\n<p>A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invoca\u00e7\u00f5es ao<br \/>\nBom Jesus de Braga, e \u00e0s almas santas benditas. Ele encarou-a de esconso,<br \/>\ne regougou:<\/p>\n<p>\u2013 Mau!&#8230; mau!..<\/p>\n<p>Carregou a. clavina com a p\u00f3lvora de um cartucho; bateu com a coronha<br \/>\nno sobrado, e deu algumas palmadas na rec\u00e2mara para fazer descer a p\u00f3lvora<br \/>\nao ouvido. Fez duas buchas do papel do cartucho, bateu-as com a vareta ligeiramente,<br \/>\numa sobre a p\u00f3lvora e a outra sobre a bala.<\/p>\n<p>Agora, a gora, agora,<\/p>\n<p>Luisinha, agora.<\/p>\n<p>Depois, pegou da clavina pela guarda-mata, e p\u00f4s-se a fazer pontarias<br \/>\nvagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.<\/p>\n<p>A mulher fora sentar-se no sobrado, \u00e0 beira da enxerga de tr\u00eas<br \/>\nfilhos a chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procur\u00e1-la.<br \/>\n\u00d3 Alma Negra fora dentro beber uns tragos de aguardente, voltou enroupado<br \/>\nnum capote de militar, despojo das batalhas da Maria da Fonte.<\/p>\n<p>\u2013 Ora agora \u2013 disse ele \u2013 ouviste? porta da cozinha e a<br \/>\ncancela da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.<\/p>\n<p>\u2013 Vai com Nossa Senhora \u2013 disse a mulher; e p\u00f4s-se de joelhos<br \/>\na una estampa do Bom Jesus a rezar muitos padre-nossos, a fio.<\/p>\n<p>Era uma noite de Fevereiro, de n\u00e9voa cerrada, um c\u00e9u de carv\u00e3o<br \/>\npulverizado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma estrela. N\u00e3o<br \/>\nse agitava um galho de \u00e1rvore nua movido pelo ar nem ondulava uma erva.<br \/>\nEra a serenidade negra e imota das catacumbas. As vezes rugia nas folhas ensopadas<br \/>\nde nebrina no ch\u00e3o esponjoso das carvalheiras a fuga r\u00e1pida<br \/>\ndas hardas, dos toir\u00f5es e das raposas que se avizinhavam do povoado<br \/>\na fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro estremecia e punha o dedo no gatilho.<br \/>\nO restolhar de um gato-bravo, o pio da coruja no campan\u00e1rio distante<br \/>\npunham arrepios de medo na espinha daquele homem que ia matar outro \u2013<br \/>\ncham\u00e1-lo \u00e0 janela e var\u00e1-lo \u00e0 trai\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom uma bala. \u2013 Era o tra\u00e7ado.<\/p>\n<p>\u2013 Que raio de escuro! \u2013 dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.<\/p>\n<p>Em noites assim, o Universo seria o imenso v\u00e1cuo precedente ao Fiat<br \/>\ngenes\u00edaco, se os viandantes n\u00e3o esbarrassem com as \u00e1rvores<br \/>\ne n\u00e3o escorregassem nos silvedos das ribanceiras. O noct\u00edvago<br \/>\nsente na sua individualidade, nos seus calos e no seu nariz, a doce impress\u00e3o<br \/>\npante\u00edsta das \u00e1rvores e dos calhaus. Que este globo est\u00e1<br \/>\nmuito bem feito. Os transgressores do descanso que Deus estatuiu nas horas<br \/>\ntenebrosas, os celerados das aldeias que larapeiam o presunto do vizinho,<br \/>\nque fisgam a mo\u00e7a incauta ou empunham o trabuco homicida, se n\u00e3o<br \/>\ntemem encontrar as patrulhas c\u00edvicas das grandes municipalidades, encontram<br \/>\nos troncos hostilmente nodosos das \u00e1rvores que s\u00e3o as patrulhas<br \/>\nde Deus. Alguns, por\u00e9m, protegidos pelo Mefisto a quem venderam a alma<br \/>\npelo pre\u00e7o da consci\u00eancia eleitoral, ou mais barata, chegam inc\u00f3lumes<br \/>\nao delito, passando ilesos como o lobo e o javali por entre os troncos das<br \/>\ncarvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a esbracejarem retorcidos numa<br \/>\nagonia patibular.<\/p>\n<p>O Melro, como o porco-mont\u00eas e o lobo-cerval, embrenhara-se por pinhais<br \/>\ne carvalheiras; \u00e0s vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos galos<br \/>\ntresnoitados e latir dos c\u00e3es. Ao fundo das bou\u00e7as ladeirentas,<br \/>\nrugia o rio Pele nos a\u00e7udes das azenhas e nas guardas dos pontilh\u00f5es.<br \/>\nLamelas era da parte de al\u00e9m. Mas o rio, de monte a monte, rugia intransit\u00e1vel<br \/>\nnas pequenas pontes. Foi \u00e0 de Landim, uma aldeia engravatada, onde<br \/>\nainda se avistavam clar\u00f5es de luz nas vidra\u00e7as das fam\u00edlias<br \/>\ndistintas que jogavam a bisca em ricos saraus do faubourg Saint-Honor\u00e9,<br \/>\ncom uns deboches sardanapalescos de sueca a feij\u00f5es.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco.<br \/>\nTinia dinheiro l\u00e1 dentro. Jogava-se o monte.<\/p>\n<p>O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, p\u00e9 ante<br \/>\np\u00e9, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro.<br \/>\nEra ele quem reclamava um quartinho que pusera de porta, e o banqueiro recolhera<br \/>\ncom as paradas que estavam dentro, quando tirou a contr\u00e1ria de cara.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o admitia ladroeiras!<\/p>\n<p>E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chala\u00e7as a respeito<br \/>\nde ladroeiras; que todos os que estavam daquela porta para dentro eram cavalheiros.<br \/>\nO Zeferino replicava que n\u00e3o queria saber de cavalheiros; que queria<br \/>\no seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem queria roubar que<br \/>\nfosse para a Terra Negra.<\/p>\n<p>A alus\u00e3o era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos cavalheiros<br \/>\nalguns veteranos da antiga quadrilha do Fa\u00edsca, na Terra Negra, muito<br \/>\ndesfalcada pelo degredo e pela for\u00e7a. Travou-se a luta a soco e pau;<br \/>\nhavia lampejos de navalhas que davam estalos nas molas; o Tagarro de Monte<br \/>\nC\u00f3rdova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois galhos do baralho<br \/>\ncom um murro herc\u00faleo, fenomenal. O taverneiro abriu a porta para escoar<br \/>\no turbilh\u00e3o. Eles sa\u00edram de rold\u00e3o; e, quando entestaram<br \/>\ncom a treva exterior, quedaram-se cegos como num antro de caverna. Um, por\u00e9m,<br \/>\ndos que estavam, n\u00e3o saiu; encostara-se ao mostrador com as m\u00e3os<br \/>\nno baixo ventre, gritando que o mataram; e, vergando sobre os joelhos, num<br \/>\nescabujar angustioso, caiu de bru\u00e7os, quando o taverneiro e o Tagarro<br \/>\no seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.<\/p>\n<p>Quando, \u00e0 meia-noite, o Alma Negra entrava em casa pela porta do quintal,<br \/>\nencontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom Jesus do Monte.<br \/>\nAo lado dela estavam duas filhas a rezar tamb\u00e9m, a tiritar, embrulhadas<br \/>\nnuma manta esburacada, aquecendo as m\u00e3os com o bafo.<\/p>\n<p>O Melro mandou deitar as filhas, e foi \u00e0 loja contar \u00e0 mulher,<br \/>\nl\u00edvida e tr\u00e9mula, como o Zeferino morreu sem ele p\u00f4r para<br \/>\nisso prego nem estopa. Ela p\u00f4s as m\u00e3os com transporte e disse<br \/>\nque fora milagre do Bom Jesus; que estivera tr\u00eas horas de joelhos diante<br \/>\nda sua divina imagem. O marido objectava contra o milagre \u2013 que o compadre<br \/>\nn\u00e3o lhe dava a casa, visto que n\u00e3o fora ele quem vindimara o<br \/>\nZeferino; e a mulher \u2013 que levasse o demo a casa; que eles tinham vivido<br \/>\nat\u00e9 ent\u00e3o na choupana alugada e que o Bom Jesus os havia de<br \/>\najudar.<\/p>\n<p>Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o compadre,<br \/>\ndepois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:<\/p>\n<p>\u2013 Enfim, voc\u00ea ganha a casa, compadre, porque m\u00e1tava Z\u00e9f\u00e9rino,<br \/>\nse os outros n\u00e3o matam ele, hem?<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a>Cap\u00edtulo XVII<\/h2>\n<p>Celebrou-se o casamento na capela da quinta da Retorta. Foi o vig\u00e1rio<br \/>\nde Caldelas o ministro do sacramento. D. Teresa madrinha, e o padrinho veio<br \/>\ndo Porto, o bar\u00e3o do Raba\u00e7al, um gordo, casado com as brancas<br \/>\ncarnes veludosas da filha do Eus\u00e9bio Mac\u00e1rio. O padrinho, muito<br \/>\nfaceiro, dizia ao Feliciano:<\/p>\n<p>\u2013 Mi p\u00e9rdoe, amigo Pr\u00e1zins, voc\u00ea si casa com minina<br \/>\nm\u00e1grita, muito seca di encontros. A mi mi d\u00e1 na tineta para<br \/>\ngostar das redondinhas, hem? \u00c9 a minha filosofia. A mulher si quer<br \/>\nroli\u00e7a, de man\u00earas que a gente ache nos bra\u00e7os ela.<\/p>\n<p>O devasso fazia corar o casto noivo. A Marta, \u00e0 sobremesa, n\u00e3o<br \/>\nlhe percebia umas gra\u00e7olas obrigat\u00f3rias em bodas canalhas, que<br \/>\nfaziam n\u00e1useas \u00e0 aristocr\u00e1tica D. Teresa, muito pontilhosa<br \/>\nem n\u00e3o admitir equ\u00edvocos. O vig\u00e1rio achava no bar\u00e3o<br \/>\na salobra brutalidade que faz nos inteligentes a c\u00f3cega do riso que<br \/>\no Cervantes, o Rabelais, o Swift e o portugu\u00eas Sr. Lu\u00eds de Ara\u00fajo<br \/>\nnem sempre conseguem quando querem.<\/p>\n<p>A Marta, numa tristeza inalter\u00e1vel, desde que saiu da igreja. Ao fim<br \/>\nda tarde, fechou-se com D. Teresa no seu quarto, abriu o ba\u00fa, e tirou<br \/>\ndo fundo o pacotinho das cartas do Jos\u00e9 Dias, e disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 A senhora h\u00e1-de guard\u00e1-las; e, quando eu morrer, queime-as,<br \/>\nsim?<\/p>\n<p>\u2013 E se eu morrer adiante de ti? \u2013 perguntou D. Teresa risonha.<\/p>\n<p>\u2013 Diga ent\u00e3o ao Sr. Padre Os\u00f3rio que as queime: porque<br \/>\nolhe \u2013 e abra\u00e7ou-se nela a chorar, a solu\u00e7ar \u2013 eu&#8230;<br \/>\neu morro, ou endoide\u00e7o. Cheguei a esta desgra\u00e7a; estou casada<br \/>\nrara fazer a vontade a meu pai, cuidando que ele morria; n\u00e3o sei como<br \/>\nhei-de sair disto sen\u00e3o acabando de vez ou perdendo o ju\u00edzo<br \/>\ncomo a minha m\u00e3e&#8230; bem sabe como ela acabou.<\/p>\n<p>D. Teresa Os\u00f3rio banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas<br \/>\nque se dizem ao comum das meninas casadas com maridos repugnantes e ricos.<br \/>\n\u2013 Que se havia de afazer, que tudo esquecia com o tempo. Ela, um pouco<br \/>\naristocrata por bastardia, n\u00e3o acreditava em melindres de sentimentalidade<br \/>\nna filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida airada. O apaixonar-se<br \/>\npelo Dias, um bonito rapaz de aldeia, parecialhe trivial; tentar suicidar-se<br \/>\nquando ele morreu, para uma senhora lida em novelas rom\u00e2nticas, era<br \/>\num caso ordin\u00e1rio e pouco significativo; por\u00e9m, condescender<br \/>\ncom a vontade do pai, casando com o tio, pareceu-lhe um acto de condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nplebeia, a natureza reles da filha do Sime\u00e3o que afinal dominava estupidamente<br \/>\nas indecisas manifesta\u00e7\u00f5es de uma \u00edndole artificialmente<br \/>\ndelicada.<\/p>\n<p>O padre compreendia mais humanamente Marta, dizendo \u00e0 irm\u00e3:<\/p>\n<p>\u2013 Ela quando consentiu em casar com o tio j\u00e1 estava doente da<br \/>\nmol\u00e9stia nervosa que a h\u00e1-de levar ao suic\u00eddio.<\/p>\n<p>D. Teresa, com o seu crit\u00e9rio um pouco adulterado pelas exc\u00eantricas<br \/>\nhero\u00ednas de Sue e Dumas, n\u00e3o podia entroncar aquela rapariga<br \/>\nde uma aldeia minhota na genealogia dessas parisienses naufragadas em romanescas<br \/>\ntempestades. E demais, se Marta, como o irm\u00e3o dizia, estava sob a influ\u00eancia<br \/>\nda loucura, a sua desgra\u00e7a parecia-lhe uma doen\u00e7a e n\u00e3o<br \/>\numa trag\u00e9dia, segundo as exig\u00eancias de uma senhora que tinha<br \/>\nlido o mais selecto da biblioteca rom\u00e2ntica francesa desde 1835 a 1845<br \/>\n\u2013 tudo o que h\u00e1 de mais falso e tolo na literatura da Europa.<br \/>\nD. Teresa queria mais drama na desgra\u00e7a de Marta; porque, se alguma<br \/>\npoesia eleg\u00edaca lhe concedera pela tentativa de matar-se, toda se resolvia<br \/>\nem chilra prosa pelo facto de a imaginar no t\u00e1lamo conjugal com o arganaz<br \/>\ndo tio.<\/p>\n<p>Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldelas a fim de dizer a missa<br \/>\nde madrugada, e deixara a irm\u00e3 a pedido de Marta; o bar\u00e3o do<br \/>\nRaba\u00e7al escancarava a boca nuns bocejos ruidosos e levantava uma perna<br \/>\nespregui\u00e7ando-se; o noivo olhava para o mostrador do rel\u00f3gio<br \/>\ncolado aos olhos; e Marta, muito aconchegada de D. Teresa, queixava-se de<br \/>\nc\u00e3ibras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via fa\u00edscas<br \/>\nno ar, e tinha muito calor na cabe\u00e7a. D. Teresa dizia-lhe que se fosse<br \/>\ndeitar, que precisava de recolher-se. Marta pedia-lhe que a deixasse ir dormir<br \/>\nao p\u00e9 dela, pedia-lho pela alma de sua m\u00e3e, pela vida de seu<br \/>\nirm\u00e3o.<\/p>\n<p>A h\u00f3speda compreendia, compadecia-se, receava o ataque epil\u00e9ptico,<br \/>\nprecedido sempre das fa\u00edscas e c\u00e3ibras de que se queixava a<br \/>\nnoiva; mas n\u00e3o sabia como dirigir-se ao marido de Marta a pedir-lhe<br \/>\nque se fosse deitar sozinho. Nos seus numerosos romances n\u00e3o achara<br \/>\num epis\u00f3dio desta esp\u00e9cie. Interveio na cr\u00edtica conjuntura<br \/>\no Sime\u00e3o, dizendo \u00e0 filha:<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o horas de ir \u00e0 deita. O teu marido est\u00e1 a<br \/>\ncair com sono.<\/p>\n<p>Marta fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de c\u00f3lera,<br \/>\nnum arremesso de cabe\u00e7a erguida, e com os l\u00e1bios a crisparem.<br \/>\nEra a nevrose epil\u00e9ptica. Seguiram-se as convuls\u00f5es, o espumar<br \/>\nda boca, um paroxismo longo de vinte minutos. D. Teresa pediu que a ajudassem<br \/>\na lev\u00e1-la para a sua cama, e disse com fidalga impertin\u00eancia<br \/>\nao Sime\u00e3o que a deixassem com ela, e n\u00e3o lhe falassem no marido.<br \/>\nSime\u00e3o co\u00e7ava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao<br \/>\nbar\u00e3o que a sua sobrinha era atreita \u00e0queles ataques; mas que<br \/>\no cirurgi\u00e3o lhe dissera que lhe haviam de passar em casando. O do Raba\u00e7al<br \/>\nnotou que o rem\u00e9dio ent\u00e3o bom era, e seria bom come\u00e7\u00e1-lo<br \/>\nquanto antes. Disse mais chala\u00e7as a prop\u00f3sito e foi-se deitar.<br \/>\nFeliciano ainda foi saber como estava a esposa, mas j\u00e1 n\u00e3o havia<br \/>\nluz no quarto de D. Teresa. Recolheuse \u00e0 cama, e continuou mais uma<br \/>\nnoite no seu leito solit\u00e1rio, virginalmente.<\/p>\n<p>D. Teresa sentia-se mal, num embara\u00e7o quase rid\u00edculo, naquele<br \/>\nmeio. Marta n\u00e3o a largava, parecia uma crian\u00e7a espavorida, agarrada<br \/>\nao vestido da m\u00e3e, assim que ouvia os passos do tio. Ele, muito carinhoso,<br \/>\ncom o mon\u00f3culo no olho direito, a oferecer-lhe castanhas de ovos, toucinho<br \/>\ndo c\u00e9u, a pegar-lhe da m\u00e3o e a fazer-lhe festas no rosto muito<br \/>\ncorado de pudor. D. Teresa discretamente deixou-os sozinhos. A Marta ficou<br \/>\na olhar para a porta por onde a amiga se evadira, e fazia uns gestos de quem<br \/>\nmeditava raspar-se; mas o marido tinha-a segura pelas m\u00e3os mimosas,<br \/>\nbeijando-lhas ambas com uma sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito<br \/>\ncomedida, estendendo os beijos quentes e h\u00famidos at\u00e9 aos pulsos<br \/>\nl\u00e1cteos e redondinhos. Marta, numa impassibilidade, n\u00e3o se recusava<br \/>\n\u00e0s car\u00edcias, e pareceu mesmo inclinar um pouco o rosto quando<br \/>\no esposo com um bom sorriso do amor dos quinze anos lhe pediu um beijinho,<br \/>\nque foi mais demorado do que era de esperar da sua candura e da inexperi\u00eancia<br \/>\nde tais del\u00edcias. Estavam ambos rosados; mas o rubor de Marta era carminado<br \/>\nde mais e nos seus olhos havia uma rutila\u00e7\u00e3o vaga pela extens\u00e3o<br \/>\nda grande sala. Ela via a sombra de Jos\u00e9 Dias: era o Jos\u00e9 Dias<br \/>\nem pessoa, dizia ela depois a D. Teresa, quando recuperou os sentidos, e n\u00e3o<br \/>\nsabia como a transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de<br \/>\nque o tio, depois que a beijara no rosto, a levara pelo bra\u00e7o e entrara<br \/>\ncom ela no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos bra\u00e7os<br \/>\ncom muita for\u00e7a, n\u00e3o a deixando fugir e sufocando-lhe os suspiros<br \/>\ncom os beijos. N\u00e3o se lembrava de mais nada. E D. Teresa, quanto cabia<br \/>\nna sua al\u00e7ada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto \u00e9,<br \/>\nque o marido a fora chamar ao laranjal, um pouco aflito, dizendo que a sua<br \/>\nesposa estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz.<\/p>\n<p>Padre Os\u00f3rio veio jantar e buscar a irm\u00e3. Observou no aspecto<br \/>\ndo brasileiro uma irradia\u00e7\u00e3o de felicidade, o j\u00fabilo<br \/>\nde uni homem que se sentia impavidamente completo, na integridade da sua miss\u00e3o<br \/>\nfilog\u00ednica. Foi ent\u00e3o que o padre assentou as suas teonas um<br \/>\npouco flutuantes acerca das vantagens da castidade em benef\u00edcio das<br \/>\nimpurezas alheias.<\/p>\n<p>O Feliciano, quando o cirurgi\u00e3o chegou \u00e0 tarde, contou-lhe<br \/>\ncom pouco recato de pudic\u00edcia conjugal as circunst\u00e2ncias, particularidades<br \/>\nocasionadas no , dizia ele. O facultativo, um velho patusco, disse que n\u00e3o<br \/>\nse admirava, porque a Sr\u00aa D. Marta era muito nervosa, imperfeita ainda<br \/>\nna sua organiza\u00e7\u00e3o, e que as impress\u00f5es desconhecidas<br \/>\ne um pouco violentas nas constitui\u00e7\u00f5es fracas produziam extraordin\u00e1rias<br \/>\nperturba\u00e7\u00f5es; mas que n\u00e3o se assustasse, que n\u00e3o<br \/>\nera nada; que as segundas naturezas se faziam com o h\u00e1bito.<\/p>\n<p>\u2013 Banhos de mar \u2013 aconselhava \u2013 bife na grelha e vinho<br \/>\ndo Porto, quanto mais choco melhor. O que se quer c\u00e1 fora \u00e9<br \/>\num rapaz; n\u00e3o h\u00e1 como um filho para fortalecer a complei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma mulher d\u00e9bil; um filho, quando sai do ventre da m\u00e3e,<br \/>\ntraz consigo para fora os maus nervos, e acabam os chiliques. Ande-me com<br \/>\num rapag\u00e3o para a frente!<\/p>\n<p>Na aus\u00eancia de D. Teresa, a melancolia de Marta cerrava-se de dia para<br \/>\ndia. O governo da casa era-lhe de todo indiferente, como se fosse h\u00f3speda.<br \/>\nO marido n\u00e3o a compelia a interessar-se nesses arranjos de que, dizia<br \/>\no Sime\u00e3o, ela nunca quisera saber em Prazins. O bar\u00e3o do Raba\u00e7al<br \/>\nmandara-lhe do Porto cozinheira e governanta. Marta sa\u00eda raras vezes<br \/>\nde uma saleta onde tinha um orat\u00f3rio que trouxera de casa. Confessavase<br \/>\nmensalmente a Frei Roque, o irm\u00e3o da sua mestra, e professor do de<br \/>\nVilalva, e demorava-se no confession\u00e1rio com perguntas desvairadas<br \/>\na respeito da alma de Jos\u00e9 Dias, porque dizia ela ao padre-mestre que<br \/>\no via muitas vezes em corpo e alma, e at\u00e9 o ouvia falar e lhe sentia<br \/>\nas m\u00e3os no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo da confiss\u00e3o,<br \/>\ndizia \u00e0 irm\u00e3 que a Marta dava em doida como a m\u00e3e.<\/p>\n<p>O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, num dos paroxismos epil\u00e9pticos,<br \/>\nse p\u00f4s a rir para ele com os olhos espasm\u00f3dicos e a chamar-lhe<br \/>\nJos\u00e9, seu Josezinho. Passada a nevrose, quando ela imergia num torpor<br \/>\nf\u00edsico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe chamar Josezinho.<br \/>\nEla parecia esfor\u00e7ar-se muito para recordar-se, e dizia que n\u00e3o<br \/>\nse lembrava de nada. Vinha o cirurgi\u00e3o a mi\u00fado: \u2013 que<br \/>\nera histerismo, e consolava o marido com a esperan\u00e7a no tal rapag\u00e3o,<br \/>\nesperan\u00e7as bem fundadas, segundo as confid\u00eancias do pai; mas,<br \/>\nconsultado pelo padre Os\u00f3rio, o Pedrosa, um grande cl\u00ednico,<br \/>\ndizia que a brasileira n\u00e3o tinha simplesmente a gota coral; que havia<br \/>\nali epilepsia complicada com del\u00edrio, aliena\u00e7\u00e3o mental<br \/>\nintermitente, um estado de inconsci\u00eancia ou consci\u00eancia anormal,<br \/>\ne que verdadeiramente se n\u00e3o podiam determinar bem quais eram os seus<br \/>\nactos de lucidez intercorrente.<\/p>\n<p>\u2013 Ela est\u00e1 gr\u00e1vida \u2013 observou o vig\u00e1rio<br \/>\nde Caldelas. \u2013 Parece que este facto denota uma tal ou qual normalidade<br \/>\nde consci\u00eancia, uma concep\u00e7\u00e3o racional dos deveres de<br \/>\nesposa&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o denota nada \u2013 refutou o m\u00e9dico. \u2013 Fa\u00e7a<br \/>\nde conta que \u00e9 uma son\u00e2mbula. E, como a sua dem\u00eancia \u00e9<br \/>\nfuncional e n\u00e3o org\u00e2nica, n\u00e3o h\u00e1 desorganiza\u00e7\u00f5es<br \/>\nf\u00edsicas que a estorvem de ser m\u00e3e. O meu colega que lhe assistiu<br \/>\n\u00e0 \u00faltima vertigem disse-me que, alguns minutos antes do ataque,<br \/>\nela, numa grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para Vilalva, que queria<br \/>\nver o Jos\u00e9 Dias&#8230; O marido felizmente fora nessa ocasi\u00e3o prover-se<br \/>\nde vinagre \u00e0 despensa. Eu considero-a perdida, a menos que se lhe n\u00e3o<br \/>\nd\u00ea uma pronta e completa divers\u00e3o ao esp\u00edrito, e nem assim<br \/>\nse consegue sen\u00e3o temporariamente deserdar os desgra\u00e7ados que<br \/>\ntiveram m\u00e3e e av\u00f3 como esta Marta. Eu assisti ao primeiro e<br \/>\nao \u00faltimo per\u00edodo de Genoveva. Repetiram-se as vertigens, veio<br \/>\na decad\u00eancia gradual da raz\u00e3o, del\u00edrios, ideias confusas,<br \/>\nconcep\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, nevroses ves\u00e2nicas e, por fim,<br \/>\nsuicidou-se j\u00e1 num estado de dem\u00eancia epil\u00e9ptica, que<br \/>\nos especialistas consideram a mais incur\u00e1vel. Este me parece o itiner\u00e1rio<br \/>\nda Mana, e cas\u00e1la com o tio deixou de ser um acto imoral para ser um<br \/>\nest\u00fapido arranjo de fortuna por lado do pai e de lux\u00faria por<br \/>\nparte do marido. Esta pequena tinha de vir a isto, e h\u00e1-de ir a dem\u00eancia,<br \/>\nmesmo sem drama nem paix\u00e3o. Tem o c\u00e9rebro defeituoso assim como<br \/>\npodia ter a espinha vertebral raqu\u00edtica. Como se faz a perda da vista?<br \/>\nPela paralisia dos nervos \u00f3pticos; pois a<\/p>\n<p>perda da vista normal da alma \u00e9 tamb\u00e9m a paralisia de uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde massa encef\u00e1lica. Bem sei que isto embara\u00e7a um pouco os senhores<br \/>\nte\u00f3logosmetaf\u00edsicos, mas l\u00e1 se avenham: a verdade \u00e9<br \/>\nesta.<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a>XVIII<\/h2>\n<p>Chegaram por este tempo, vindos das terras de Basto a Requi\u00e3o, os<br \/>\nt\u00e3o almejados mission\u00e1rios, interrompidos no seu est\u00e9ril<br \/>\napostolado pela revolu\u00e7\u00e3o de Maria da Fonte. Marta ouviu a not\u00edcia<br \/>\ncom alvoro\u00e7o, e disse que queria seguir os serm\u00f5es \u2013 que<br \/>\nprecisava de salvar a sua alma. O Feliciano viera um pouco estragado de Pernambuco<br \/>\na respeito de religi\u00e3o; mas respeitava as cren\u00e7as alheias, e<br \/>\nn\u00e3o contrariava as devo\u00e7\u00f5es da sobrinha. O padre Roque<br \/>\nera de parecer que se n\u00e3o deixasse Marta entrar muito pela m\u00edstica;<br \/>\naconselhava o marido que fosse viajar com a mulher, que a tirasse daquela<br \/>\nterra, porque as suas enfermidades n\u00e3o podiam cur\u00e1-las os serm\u00f5es<br \/>\nnem as h\u00f3stias. O egresso conhecia a farm\u00e1cia do varatojano<br \/>\nde Borba da Montanha, e sabia que a primeira receita de Frei Jo\u00e3o era<br \/>\nexorcism\u00e1-la como demon\u00edaca.<\/p>\n<p>\u2013 D\u00e3o cabo dela, voc\u00eas ver\u00e3o, d\u00e3o cabo dela<br \/>\n\u2013 dizia o padre-mestre.<\/p>\n<p>Eram quatro os mission\u00e1rios que assentaram o vest\u00edbulo do para\u00edso<br \/>\nem Requi\u00e3o.<\/p>\n<p>O padre Jos\u00e9 da Fraga, ainda novo, bem composto e limpo nas suas vestes<br \/>\nsacerdotais, grave e semblante inteligente. Tinha-se ordenado em Brancanes<br \/>\ncom o prop\u00f3sito de ir propagar o cristianismo na China; depois, interesses<br \/>\ne rogos de fam\u00edlia determinaram-no a ficar na p\u00e1tria, sem abrir<br \/>\nm\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica. Lera e percebera Raulica,<br \/>\nLacordaire, e imitava o segundo com bastante engenho. O padre Os\u00f3rio<br \/>\ndizia-lhe que guardasse as suas p\u00e9rolas para outro audit\u00f3rio<br \/>\nmenos su\u00edno. E, de feito, as mulheres, quando de madrugada o viam no<br \/>\np\u00falpito, aconchegavam-se umas das outras para comodamente tosquenejarem<br \/>\no seu sono da manh\u00e3; e os homens diziam que n\u00e3o o chamava Deus<br \/>\npor aquele caminho \u2013 que n\u00e3o calhava p&#8217;r&#8217;\u00e1 pr\u00e9dega.<\/p>\n<p>O padre Cosme de Tagilde, robusto, de meia-idade, autor da Escala do C\u00e9u<br \/>\npelas Escarpas do G\u00f3lgota e da Via Ser\u00e1fica para o Reino dos<br \/>\nQuerubins, era pregador de sentimento. Tinha sido furriel no ex\u00e9rcito<br \/>\nrealista, e ordenara-se para herdar uns bens de uma parenta beata que tinha<br \/>\nhorror \u00e0 tropa. Lera as novelas do Pr\u00e9vost e Madama de Genlis,<br \/>\nquando era furriel. Ficou-lhe dessas leituras uma linguagem amela\u00e7ada,<br \/>\ncom interjei\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas, e um jeito especial de tocar<br \/>\nas m\u00e3es com imagens ternas tiradas das coisas infantis. Por exemplo:<br \/>\nE o teu filhinho, mulher, o filhinho que Deus te levou para a companhia dos<br \/>\nanhos, quando l\u00e1 do C\u00e9u te v\u00ea pecar, estende para ti os<br \/>\nseus bracinhos, e diz: M\u00e3e, \u00f3 m\u00e3e! n\u00e3o peques;<br \/>\nm\u00e3e, n\u00e3o peques! pelas l\u00e1grimas que por mim choraste,<br \/>\nn\u00e3o caias na tenta\u00e7\u00e3o, porque, se te perdes, se te afundas<br \/>\nno abismo eterno, n\u00e3o tornar\u00e1s a ver o teu filhinho que te chama<br \/>\ndo C\u00e9u, m\u00e3e, \u00f3 m\u00e3e! E infantilizava o timbre da<br \/>\nvoz, inclinava a um lado a cabe\u00e7a num langor menineiro, estendia os<br \/>\nbra\u00e7os do p\u00falpito abaixo com as m\u00e3os abertas, alongava<br \/>\nos bei\u00e7os no jeito da boquinha de crian\u00e7a, e muito mavioso,<br \/>\nnum tr\u00e9mulo de voz e bra\u00e7os: M\u00e3e! \u00f3 m\u00e3e!<br \/>\nE todas as que tinham perdido filhinhos desatavam num berreiro.<\/p>\n<p>O padre Silvestre da Azenha, homem antigo, de uma porcaria de sotaina digna<br \/>\ndos hagiol\u00f3gios, boa pessoa, incapaz de mentir voluntariamente, era<br \/>\nforte na topografia do Inferno e nas genealogias, usos e costumes dos diversos<br \/>\ndiabos. Afirmava que a legi\u00e3o deles se dividia cm esquadras, capitaneadas<br \/>\npor L\u00facifer, pr\u00edncipe da Lux\u00faria, por Asmodeu, Satan\u00e1s,<br \/>\nBelzebu e outros, cada um com a pasta ministerial dos seus competentes v\u00edcios.<br \/>\nDava not\u00edcia de um caudilho de esquadra, chamado Beemote, cujo empenho<br \/>\nera bestializar os fi\u00e9is \u2013 verdadeira superfluidade. \u2013<br \/>\nLeviat\u00e3 capitaneava o esquadr\u00e3o da Soberba; e o ministro e secret\u00e1rio<br \/>\nde Estado encarregado da pasta da Avareza chamava-se Mamona. A ci\u00eancia<br \/>\nmoderna matou este diabo, extraiu-lhe o \u00f3leo, e p\u00f4-lo ao servi\u00e7o<br \/>\ndos intestinos dos pecadores \u2013 \u00f3leo de Mamona. Explicava o padre<br \/>\n\u00e0s mulheres o que era a corja dos dem\u00f3nios \u00edncubos. Contava<br \/>\ncasos de algumas que ficaram gr\u00e1vidas desses devassos, e dizia em latim<br \/>\nque tais dem\u00f3nios fecundos podiam, mesmo contra a vontade da mulher,<br \/>\nrem habere cum illa. E as mulheres, sem p\u00f4r mais na carta, farejavam<br \/>\no latim e murmuravam indignadas: \u2013 T&#8217;arrenego! Catixa! cruzes, canhoto!<br \/>\n\u2013 e benziam-se, cuspinhando nos calcanhares umas das outras.<\/p>\n<p>Frei Jo\u00e3o de Borba da Montanha, conquanto n\u00e3o frequentasse<br \/>\no p\u00falpito, era o vulto mais proeminente da miss\u00e3o. Sa\u00edra<br \/>\nj\u00e1 velho do Varatojo, peito fraco, um pigarro cr\u00f3nico de catarro<br \/>\npituitoso, com poucos dentes, por onde as palavras lhe sa\u00edam assobiadas<br \/>\nque nem melro nos sinceirais de Julho. Por isso o confession\u00e1rio era<br \/>\na sua faina de prosp\u00e9rrimas colheitas para o C\u00e9u, e os exorcismos<br \/>\na sua famosa gl\u00f3ria cheia de triunfos sobre todas as esquadras dos<br \/>\ndem\u00f3nios conhecidos do seu companheiro padre Azenha. Eram ambos, de<br \/>\nm\u00e3os dadas, o terror do Inferno; um a explorar diabos no planeta, o<br \/>\noutro a enxot\u00e1-los. \u00c0 omnipot\u00eancia deste varatojano \u00e9<br \/>\nque o vig\u00e1rio de Caldelas confiara a redu\u00e7\u00e3o da m\u00e3e<br \/>\nde Jos\u00e9 Dias.<\/p>\n<p>Este egresso tinha feito \u00e0 sua custa a terceira edi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Pecador Convertido ao Caminho da Verdade, obra do seu conventual varatojano<br \/>\nFrei Manuel de Deus. Vendia o livro por 720, meia encaderna\u00e7\u00e3o.<br \/>\nChamava-lhe ele o seu balde de tirar almas do profundo po\u00e7o do enxofre<br \/>\ninfernal. Todas as beatas se consideravam mais ou menos empo\u00e7adas,<br \/>\ne por 720 metiam-se no balde de Frei Jo\u00e3o. Barato.<\/p>\n<p>Foi este o mission\u00e1rio escolhido por Sime\u00e3o, de harmonia com<br \/>\no genro. Marta lembrava-se que o seu Jos\u00e9 Dias lhe falara nele com<br \/>\nmuita esperan\u00e7a em que desfizesse os obst\u00e1culos do casamento.<br \/>\nQuis confessar-se ao varatojano. e revelou para esse acto uma expectativa<br \/>\nser\u00e1fica, grande delibera\u00e7\u00e3o ansiosa, um sobressalto<br \/>\njubiloso em que parecia influir a coopera\u00e7\u00e3o sobrenatural do<br \/>\nquerido morto. O padre Os\u00f3rio entrevia prel\u00fadios de loucura<br \/>\nnas alegres disposi\u00e7\u00f5es com que Marta, num recolhimento contemplativo,<br \/>\ndesde o apontar da aurora, esperava \u00e0<\/p>\n<p>porta da igreja que chegassem os mission\u00e1rios com o cortejo das mulheres<br \/>\nencapuchadas, muito ramelosas, estralejando os seus tamancos ferrados na grade<br \/>\ndo adro que vedava a passagem aos porcos.<\/p>\n<p>Enquanto na igreja, depois da miss\u00e3o, se depunha a h\u00f3stia nas<br \/>\nl\u00ednguas saburrentas e gretadas das beatas \u2013 que engoliam aquela<br \/>\nfarinha triga como quem devora sevamente um Deus \u2013 c\u00e1 fora armavam-se<br \/>\nno adro dois tabuleiros, assentes em tripe\u00e7as de engon\u00e7os, com<br \/>\nseus pavilh\u00f5es de guarda-s\u00f3is de paninho azul. Algumas mulheres<br \/>\nde aspectos repelentes, sujas da poeira das jornadas, com os canelos calosos<br \/>\ne encodeados, expunham nos tabuleiros as suas mercadorias, e ao mesmo tempo<br \/>\ninjuriavam-se reciprocamente por velhas rixas invejosas \u00e0 conta de<br \/>\nsubornarem freguesas com caramunhas e palavreados. No sil\u00eancio do templo,<br \/>\nouvia-se c\u00e1 de fora: \u2013 Arre, b\u00eabeda! \u2013 Cala-te a\u00ed,<br \/>\ncalhama\u00e7o!<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica, feita nos tabuleiros, al\u00e9m<br \/>\ndas obras em brochura e encadernadas dos mission\u00e1rios, constava da<br \/>\nRegra de S. Bento, da Miss\u00e3o Aumentada, da Miss\u00e3o Abreviada,<br \/>\ndas Piedosas Medita\u00e7\u00f5es, das Horas do Crist\u00e3o, do M\u00eas<br \/>\nde Maria, do M\u00eas de Jesus e do Livro de Santa B\u00e1rbara. Havia<br \/>\ntamb\u00e9m Novenas, Via-sacras com estampas de um horror sacr\u00edlego,<br \/>\nuns Cristos que pareciam manipan\u00e7os do Bi\u00e9. Seguia-se a camada<br \/>\ndos Escapul\u00e1rios; uns eram de N. S. do Carmo, de N. S. das Dores, da<br \/>\nConcei\u00e7\u00e3o; outros do Precios\u00edssimo sangue de Jesus, do<br \/>\nCora\u00e7\u00e3o do mesmo, da Sant\u00edssima Trindade e de S. Francisco.<br \/>\nTinham grande sa\u00edda os Cord\u00f5es do mesmo santo, e as Correias<br \/>\nde S. Agostinho, com um bot\u00e3o de osso, a apertar na cintura \u2013<br \/>\narn\u00eas impenetr\u00e1vel ao Diabo, por causa do bot\u00e3o, que,<br \/>\nposto na correia, tem virtudes para osso muito admir\u00e1veis, quase como<br \/>\nas da carne, mas no sentido inverso \u2013 ela atraindo o c\u00e3o tinhoso,<br \/>\ne ele repulsando-o. De Santo Agostinho e do Anjo da Guarda tamb\u00e9m havia<br \/>\nRezas enfiadas em metal, ou em cord\u00e3o, simplesmente, mais baratinhas.<br \/>\nNa esp\u00e9cie medalheiro, grande profus\u00e3o: as medalhas mais procuradas<br \/>\neram as do Cora\u00e7\u00e3o de Maria do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus,<br \/>\ndo Anjo da Guarda e de Santa Teresa, a 10 r\u00e9is.<\/p>\n<p>As coroas, penduradas em barbantes ou estendidas em meadas, eram diversas<br \/>\nno tamanho e na nomenclatura: as ser\u00e1ficas com sete mist\u00e9rios,<br \/>\ne cada mist\u00e9rio com dez ave-marias; as da Sr\u00aa da Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom doze Aves e tr\u00eas mist\u00e9rios: \u2013 uma certa conta que os<br \/>\nmission\u00e1rios l\u00e1 graduavam com a gafaria espiritual das confessadas.<br \/>\nHavia algumas que se aguentavam com os Ros\u00e1rios de quinze mist\u00e9rios,<br \/>\ne a Coroa dos nove coros dos Anjos, e a do Precios\u00edssimo sangue e cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Jesus. Mas o grande consumo era de contas de azeviche, refract\u00e1rias<br \/>\naos maus-olhados; de modo e maneira que, se o azeviche \u00e9 leg\u00edtimo,<br \/>\nsenhores, logo que um inimigo nos encara a conta racha de meio a meio.<\/p>\n<p>Marta, a beata, a senhora brasileira de Prazins, como lhe chamavam as regateiras<br \/>\ndas drogas da salva\u00e7\u00e3o, fornecera-se de tudo em duplicado; mas<br \/>\nsobre todos os devocion\u00e1rios o da sua leitura dilecta era o Pecador<br \/>\nConvertido ao Caminho da Verdade, edi\u00e7\u00e3o do seu confessor varatojano,<br \/>\nFrei Jo\u00e3o de Borba da Montanha.<\/p>\n<p>S\u00e3o impenetr\u00e1veis os segredos revelados no tribunal da penit\u00eancia<br \/>\npor Marta ao seu director espiritual. O padre Os\u00f3rio, n\u00e3o obstante,<br \/>\nsuspeitava que a penitente revelasse, com escrupulosa consci\u00eancia, solicitada<br \/>\npor mi\u00fadas averigua\u00e7\u00f5es do mission\u00e1rio, saudades,<br \/>\nreminisc\u00eancias sensualistas, carnalidades que se lhe formalizavam no<br \/>\nesp\u00edrito dementado, enfim, vis\u00f5es e sonhos com o Jos\u00e9<br \/>\nDias. Inferia o padre a sua conjectura, sabendo que Frei Jo\u00e3o lhe mandara<br \/>\nler no Pecador Convertido, tr\u00eas vezes por dia, o cap\u00edtulo 33,<br \/>\nintitulado Resist\u00eancia \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es contra a castidade.<br \/>\nFortalecia esta hip\u00f3tese ter dito Marta a D. Teresa que a alma de Jos\u00e9<br \/>\nDias lhe aparecia em sonhos; e \u00e0s vezes, mesmo acordada, lhe parecia<br \/>\nsenti-lo na cama \u00e0 sua beira; e ent\u00e3o mordia o travesseiro para<br \/>\nque o tio a n\u00e3o ouvisse chorar. Pode ser que estas revela\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncomunicadas ao confessor, um simpl\u00f3rio incapaz de destrin\u00e7ar<br \/>\nentre doen\u00e7a e pecado, fossem acompanhadas de particularidades sensitivas<br \/>\nque Marta por vergonha n\u00e3o contava \u00e0 sua amiga. \u00c9 certo<br \/>\nque a confessada do varatojano lia, declamando, diante do seu orat\u00f3rio,<br \/>\ntr\u00eas vezes, por dia, a Resist\u00eancia \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es<br \/>\ncontra a castidade.<\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o dizia assim:<\/p>\n<p>Senhor amoros\u00edssimo, n\u00e3o vos escondais, n\u00e3o me deixeis<br \/>\nsozinha, que me cerca o le\u00e3o para me devorar; os seus rugidos me atormentam<br \/>\npara que n\u00e3o goste das suavidades do vosso amor. Cercarei todo o Mundo,<br \/>\nsubirei aos C\u00e9us, n\u00e3o descansarei enquanto n\u00e3o achar<br \/>\no meu amor. Conjuro-vos, filhas de Jerusal\u00e9m, criaturas da terra que,<br \/>\nse encontrares o meu amado, lhe digais que morro de amor. E, se quereis os<br \/>\nsinais para conhec\u00ea-lo, ouvi. O meu amado \u00e9 c\u00e2ndido e rubicundo,<br \/>\nescolhido entre milhares; c\u00e2ndido por divino, e rubicundo por humano,<br \/>\nc\u00e2ndido porque inocente, e rubicundo por chagado. Ai! doce amor, onde<br \/>\nvos escondestes? Tende compaix\u00e3o de quem vos busca. Estes sinais que<br \/>\nde v\u00f3s tenho s\u00f3 servem de avivar-me a saudade, s\u00e3o setas<br \/>\nque me ferem; morro, desfale\u00e7o, se vos n\u00e3o acho.<\/p>\n<p>Os cabelos da sua cabe\u00e7a s\u00e3o como p ouro mais puro e mais precioso,<br \/>\ns\u00e3o como palmitos e pretos como o corvo. Se n\u00e3o entendeis, filhas<br \/>\nde Jerusal\u00e9m, nem eu vo-lo saberei explicar; o que vos digo \u00e9<br \/>\nque os seus cabelos s\u00e3o fortes la\u00e7os que bastam para prender<br \/>\na todo o Mundo, bastam para abrasar tudo de amor. Ai! amado do meu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nse as admira\u00e7\u00f5es do que sois abrasam a alma, que vos v\u00ea<br \/>\npor enigmas, que ser\u00e1 quando vos vir claramente! Os seus olhos s\u00e3o<br \/>\ncomo pombas sobre correntes de \u00e1guas, mansos, puros, suaves, benignos,<br \/>\namorosos. Que majestosos, que humildes, que graves, que serenos, que doces,<br \/>\nque suaves! Oh dulc\u00edssimo amor, j\u00e1 que tanto fechais os olhos<br \/>\npara n\u00e3o serem vistos, ao menos n\u00e3o os fecheis para me n\u00e3o<br \/>\nverem! As suas faces s\u00e3o como canteiros de flores arom\u00e1ticas,<br \/>\nsempre belas, sempre cheirosas; passam os dias, os meses e os anos, e os s\u00e9culos,<br \/>\ne as faces do meu amor sempre s\u00e3o flores, nem o sol as murcha, nem<br \/>\no frio as corta, nem a \u00e1gua as corrompe, nem o vento as desfolha; s\u00e3o<br \/>\nrosas, s\u00e3o a\u00e7ucenas, s\u00e3o brancas e encarnadas. Oh! quem<br \/>\nme dera uma gota da \u00e1gua que as rega, um gr\u00e3o do calor que as<br \/>\nvivifica; quem me dera que o Jardineiro que as comp\u00f5e me quisera semear<br \/>\numas<\/p>\n<p>flores no meu jardim e tomar \u00e0 sua conta comp\u00f4-las e reg\u00e1-las,<br \/>\nque o meu amado gosta muito de flores. Dizei-me, aves do ar, flores do campo,<br \/>\npeixes do mar, viventes da Terra, dizei-me se sabeis onde assiste este jardineiro.<br \/>\nMas que digo, se este mesmo \u00e9 o amado a quem busco e n\u00e3o mere\u00e7o<br \/>\nachar! \u00d3 saudade ardente, \u00f3 sede matadora, \u00f3 seta penetrante,<br \/>\n\u00f3 amor escondido! Que fareis, Senhor, que fareis, se o vosso empenho<br \/>\n\u00e9 ser amado, porque a minha ventura est\u00e1 em vos ter amor, como<br \/>\nescondeis o mesmo que me havia de enamorar? Os seus l\u00e1bios s\u00e3o<br \/>\nl\u00edrios, que destilam mirra excelente, l\u00edrios de pureza de onde<br \/>\nsaem palavras que inflamam no amor da mortifica\u00e7\u00e3o. Oh! se fora<br \/>\nt\u00e3o ditosa minha alma que recebera alguma parte da mirra que destilam<br \/>\nteus l\u00edrios! Oh! se foram t\u00e3o felizes meus olhos que viram a<br \/>\nengra\u00e7ada cor de tais l\u00e1bios! Onde estais escondido, amado do<br \/>\nmeu cora\u00e7\u00e3o? N\u00e3o saem por esses l\u00e1bios as palavras<br \/>\ncom que andais chamando pelas ruas, fortalezas e muros da cidade: algum \u00e9<br \/>\npequenino venha para mim? Logo, como vos escondeis desta pequenina pobre e<br \/>\nnecessitada que com tanto empenho vos busca? Suas m\u00e3os s\u00e3o como<br \/>\nde ouro feitas ao torno e cheias de jacintos, todas perfeitas, todas preciosas;<br \/>\nmas reparai, filhas de Jerusal\u00e9m, e por aqui vos ser\u00e1 mais f\u00e1cil<br \/>\nconhec\u00ea-lo, que, no meio do ouro e jacintos, tem em cada m\u00e3o<br \/>\num precioso rubi que a passa de uma para a outra. O seu peito e entranhas<br \/>\ns\u00e3o de marfim ornadas de safiras, dando a conhecer a cor celeste da<br \/>\nsafira, a branca do marfim e sua dureza, que os seus afectos s\u00e3o puras,<br \/>\nc\u00e2ndidos, castos, virginais, fortes, celestiais e divinos, sinceros,<br \/>\ncompostos, s\u00f3lidos e constantes. \u00d3 peito de amor, entranhas<br \/>\nde piedade, como assim vos fechais para quem vos ama? Aqui deve de haver mist\u00e9rio!<br \/>\nGostais talvez de me ver aflita para provar se sou amante! Quereis que me<br \/>\ncuste muito o que muito vale, porque, se o lograr a pouco custo, farei talvez<br \/>\npouco caso do que n\u00e3o tem pre\u00e7o. Mas ai, amado meu, que, se<br \/>\nme n\u00e3o dizeis onde passais a sesta ao meio-dia, temo que, andando vagabunda,<br \/>\nvenha a cair nas m\u00e3os dos vossos contr\u00e1rios! A sua apar\u00eancia<br \/>\n\u00e9 como a do L\u00edbano, a sua composi\u00e7\u00e3o como a do<br \/>\ncedro; em Judeia o monte mais formoso \u00e9 o L\u00edbano, no L\u00edbano<br \/>\na \u00e1rvore mais excelente \u00e9 o cedro: assim \u00e9 o meu amado<br \/>\nentre os filhos dos homens. A sua garganta \u00e9 suav\u00edssima, porque<br \/>\nsaem por ela as vozes, as respira\u00e7\u00f5es do peito, que \u00e9<br \/>\narquivo de amores e suavidades; enfim, todo \u00e9 formoso, todo perfeito,<br \/>\ntodo am\u00e1vel. Tal \u00e9 o meu amado, este \u00e9 o meu amigo, filhas<br \/>\nde Jerusal\u00e9m, criaturas da Terra; se o achardes, dizei-lhe que morro<br \/>\nde amor&#8230;<\/p>\n<p>Marta dizia a ora\u00e7\u00e3o em voz alta, em modula\u00e7\u00f5es<br \/>\ncantadas, num arroubamento de preghiera. Aqueles dizeres, alinhavados pelo<br \/>\nvaratojano, s\u00e3o extractos e imita\u00e7\u00f5es das escandec\u00eancias<br \/>\ner\u00f3ticas do poema dram\u00e1tico da Sulamita no \u2013 os trechos<br \/>\nmais liricamente sensuais da antiguidade hebraica. Eles deram o tom de todas<br \/>\nas exalta\u00e7\u00f5es nevr\u00f3ticas, desde os \u00eaxtases hist\u00e9ricos<br \/>\nde Teresa de Jesus at\u00e9 \u00e0s alucina\u00e7\u00f5es da beata<br \/>\nMaria Alacoque e da portuguesa madre Maria do C\u00e9u, a cantora dos passarinhos<br \/>\nde Vilar de Frades. Desta pe\u00e7onha doce, elanguescente, vibr\u00e1til<br \/>\ne enervante, cheia de meiguices epid\u00e9rmicas de um corpo nu em froux\u00e9is<br \/>\nde arminhos, \u00e9 que se fizeram uns Manuais modernos em Fran\u00e7a<br \/>\npor onde as adolescentes principiam a conversar com Jesus e a compreend\u00ea-lo<br \/>\nem linhas correctas, sob pl\u00e1sticas macias, a esper\u00e1-lo, a desej\u00e1-lo,<br \/>\ncomo lho figuram com todas as pulsa\u00e7\u00f5es, redondezas e flexibilidades<br \/>\nda carne.<\/p>\n<p>Marta, entre o Deus incompreens\u00edvel e o Cristo-homem, via um ser tang\u00edvel,<br \/>\no seu \u00fanico termo de compara\u00e7\u00e3o \u2013 o Jos\u00e9<br \/>\nDias, esposo da sua alma e dominador dos seus nervos reacendidos e abraseados<br \/>\npela saudade. Nas ap\u00f3strofes a Jesus, palpitavam-lhe n\u00edtidas<br \/>\nas curvas do amante que a ouvia de entre as nuvens, numa clareira azul, com<br \/>\na sua lividez marm\u00f3rea e os an\u00e9is dos cabelos louros esparsos<br \/>\ncomo nas cabe\u00e7as dos querubins. Tinha aquele namoro no C\u00e9u quando<br \/>\nabria a p\u00e1gina do livro com que o confessor lhe dissera que havia de<br \/>\nexorcizar as tenta\u00e7\u00f5es voluptuosas da sua alma e do seu corpo.<\/p>\n<h2><a name=\"19\"><\/a>Cap\u00edtulo XIX<\/h2>\n<p>Frei Jo\u00e3o n\u00e3o se entendia j\u00e1 com a sua confessada. Deviam<br \/>\nser grandemente disparatadas as revela\u00e7\u00f5es de Marta para que<br \/>\no varatojano desconfiasse que ela estava obsessa e que as suas vis\u00f5es<br \/>\ndeviam ser malfeitorias de dem\u00f3nio \u00edncubo. Feliciano discordava<br \/>\nda opini\u00e3o do inexor\u00e1vel exorcista, quando ele o interrogava<br \/>\nsobre miudezas de alcova. O marido contava singelamente que sua mulher passava<br \/>\na maior parte do dia a rezar pelo livro no orat\u00f3rio; que tinha dias<br \/>\nde comer bem e outros dias de n\u00e3o comer nada; que n\u00e3o dava palavra<br \/>\n\u00e0s criadas, nem se metia no governo da casa; que com ele tamb\u00e9m<br \/>\nfalava pouco, e n\u00e3o desatremava. Que dormia bem e sempre na mesma cama<br \/>\ncom ele. Verdade era que \u00e0s vezes ele acordava e a via sentada com<br \/>\nos olhos postos no tecto.<\/p>\n<p>\u2013 Pois \u00e9 isso&#8230; \u2013 atalhava o varatojano.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 isso qu\u00ea, Sr. Frei Jo\u00e3o? \u2013 perguntava<br \/>\no marido.<\/p>\n<p>O confessor n\u00e3o podia explicar-se. O seu praxista Brognolo, ampliado<br \/>\npelo padremestre arr\u00e1bido Frei Jos\u00e9 de Jesus Maria, admoestava-o<br \/>\na ocultar de terceiras pessoas os sinais evidentes da obsess\u00e3o de uma<br \/>\nalma, sem estar devidamente aparelhado para o combate e na presen\u00e7a<br \/>\ndo inimigo. O aparelho, neste caso, era a estola, a agua benta, o latim \u2013<br \/>\numa l\u00edngua familiar ao Diabo. Al\u00e9m dos preceitos da arte, havia<br \/>\na inviolabilidade do segredo da confiss\u00e3o; e uma caridade decente aconselhava<br \/>\nque Feliciano ignorasse as tentativas ad\u00falteras do dem\u00f3nio incito,<br \/>\nfigurado na pessoa espectral do Jos\u00e9 Dias. Com o vig\u00e1rio de<br \/>\nCaldelas foi menos reservado o exorcista. Asseverou-lhe que a brasileira de<br \/>\nPrazins estava possessa, muito gravemente energ\u00famena. O padre Os\u00f3rio<br \/>\nabriu um sorriso importuno, destes que v\u00eam de dentro em golfos involunt\u00e1rios<br \/>\ncomo a n\u00e1usea de um embarcadi\u00e7o enjoado. O egresso reparou no<br \/>\ntrejeito her\u00e9tico da boca do padre, e perguntou-lhe se tinha alguma<br \/>\nd\u00favida a p\u00f4r.<\/p>\n<p>\u2013 Uma pequena d\u00favida, Sr. Frei Jo\u00e3o \u2013 respondeu<br \/>\nintemeratamente o vig\u00e1rio. \u2013 N\u00e3o posso aceitar que o Diabo,<br \/>\nsendo filho de Deus, seja o ente perverso que faz sofrer a pobre Marta&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 O Diabo, filho de Deus! \u2013 interrompeu o varatojano, levando<br \/>\nas m\u00e3os enclavinhadas \u00e0 testa. \u2013 Padre Os\u00f3rio,<br \/>\no senhor disse uma blasf\u00e9mia enorme&#8230; Santo nome de Jesus! O Diabo<br \/>\nfilho de Deus! An\u00e1tema!<\/p>\n<p>\u2013An\u00e1tema \u00e0 l\u00f3gica, ao racioc\u00ednio, portanto!<br \/>\n\u2013 contraveio sereno e risonho o outro.<\/p>\n<p>\u2013 A l\u00f3gica? a l\u00f3gica de Calvino, de Voltaire.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, senhor, a l\u00f3gica do professor que ma ensinou no<br \/>\nsemin\u00e1rio bracarense. Criador n\u00e3o \u00e9 pai?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 sim, e dai?<\/p>\n<p>\u2013 Deus \u00e9 pai de todas as suas criaturas; ora o Diabo \u00e9<br \/>\ncriatura de Deus; logo: Deus \u00e9 pai do Diabo.<\/p>\n<p>\u2013 Distinguo! \u2013 contrariou o varatojano.<\/p>\n<p>E o vig\u00e1rio, sem atender \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica:<\/p>\n<p>\u2013 Se Deus \u00e9 bom, as suas criaturas n\u00e3o podem ser m\u00e1s;<br \/>\nora, o Dem\u00f3nio \u00e9 mau: logo, o Dem\u00f3nio n\u00e3o pode<br \/>\nser criatura de Deus; mas, se o Diabo n\u00e3o \u00e9 criatura de Deus,<br \/>\npergunto eu o mesmo que um negro da \u00c1frica perguntava ao mission\u00e1rio:<br \/>\nQuem \u00e9 o pai do Diabo?<\/p>\n<p>\u2013 Distinguo! \u2013 insistiu o varatojano apoiado nas velhas f\u00f3rmulas<br \/>\nda dial\u00e9ctica esmagadora. \u2013 Deus criou os anjos; destes houve<br \/>\nalguns que se rebelaram contra o seu criador, e foram precipitados do C\u00e9u:<br \/>\ns\u00e3o os esp\u00edritos infernais. Alguns desses anjos n\u00e3o desceram<br \/>\n\u00e0s trevas inferiores, e permanecem para flagelo do g\u00e9nero humano<br \/>\nno ar caliginoso. Aer caliginosus est quasi carcer doemonibus usque in diem<br \/>\njudicii, diz S. Agostinho. Deus permite que os dem\u00f3nios vexem as criaturas,<br \/>\npelo bem que pode resultar \u00e0s criaturas desse vexame. \u00c9 o que<br \/>\nse colhe do Evangelho de S. Jo\u00e3o: Omnia per ipsum facta sunt. Portanto,<br \/>\nDeus permite o mal? logo: este mal \u00e9 bom, porque Deus \u00e9 o Sumo<br \/>\nBem. Verdade \u00e9 que os males n\u00e3o s\u00e3o bens&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Ia eu dizer&#8230; \u2013 atalhou o padre Os\u00f3rio; ao que o mission\u00e1rio<br \/>\nacudiu prestes e vitoriosamente:<\/p>\n<p>\u2013 Mas Deus tira os bens desses mesmos males, como diz S. Tom\u00e1s:<br \/>\nBonum invenire potest sitie maio, sed malum non potest invenire sine bono<br \/>\nLogo: Deus permite o mal como causa do bem; id est, permite o Dem\u00f3nio<br \/>\ncomo exercita\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel do g\u00e9nero humano. Melius<br \/>\njudicavit Deus de malis bona facere, quam mala nulla esse permittere, diz<br \/>\nS. Agostinho; e S. Tom\u00e1s ainda \u00e9 mais claro e persuasivo: Divina<br \/>\nsapientia permittit aliqua mala tieri per moios Angelos propter bona quite<br \/>\nex eis elicit. S\u00e3o doze as causas por que Deus permite que os dem\u00f3nios<br \/>\natormentem as criaturas humanas. Primeira: para que o homem obstinado na culpa<br \/>\nseja neste mundo e no outro atormentado; segunda&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Estou convencido, Sr. Frei Jo\u00e3o \u2013 atalhou o vig\u00e1rio<br \/>\n\u2013 Vossa Rever\u00eancia j\u00e1 esclareceu a minha d\u00favida.<br \/>\n\u00c9 o caso que Deus permite dem\u00f3nios flagelantes para depurar<br \/>\ncom eles os pecadores \u2013 uns e outros criaturas da sua divina justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 isso mesmo.<\/p>\n<p>\u2013 O esp\u00edrito do mau homem \u2013 do pecador que \u00e9 em<br \/>\nsi um dem\u00f3nio interno, depura-se pela ac\u00e7\u00e3o de outro<br \/>\ndem\u00f3nio externo, ambos criaturas do seu divino amor&#8230; Percebi. Estou<br \/>\nconvencido&#8230; Deus \u00e9 como um pai que azorraga o seu filho querido a<br \/>\nver se ele recebe as mortifica\u00e7\u00f5es como car\u00edcias. Rico<br \/>\npai! \u2013 E acrescentou com amargura: \u2013 Ah! meu Frei Jo\u00e3o,<br \/>\nreceio muito que as supersti\u00e7\u00f5es venham a desabar o catolicismo<br \/>\nque deve a sua exist\u00eancia \u00e0 vit\u00f3ria que alcan\u00e7ou<br \/>\nsobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade. Ego sum veritas.<\/p>\n<p>Frei Jo\u00e3o ia fulminar segunda vez a argumenta\u00e7\u00e3o do<br \/>\npadre Os\u00f3rio, quando os outros mission\u00e1rios chegavam, para assistirem<br \/>\nao jantar de despedida em casa da brasileira.<\/p>\n<p>Fechara-se a miss\u00e3o; os padres iam dali para Barcelos; mas Frei Jo\u00e3o,<br \/>\nempenhado em desendemoninhar a pobre Marta, hospedou-se na quinta da Revolta,<br \/>\nem cuja capela celebrava missa e confessava as suas filhas espirituais insaci\u00e1veis<br \/>\ndo p\u00e3o dos anjos, que digeriam numa vadiagem dorminhoca, amesendadas<br \/>\nnos adros das igrejas e nos soalheiros, catando as pr\u00f3prias pulgas<br \/>\ne as vidas alheias.<\/p>\n<p>Frei Jo\u00e3o andava apercebido com todos os utens\u00edlios infestos<br \/>\nao Diabo. Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energ\u00famena das mais<br \/>\nprovadas armas nos seus triunfos sobre o Inferno. Lan\u00e7ou-lhe ao pesco\u00e7o<br \/>\num santo lenho, um breve da Marca, a ver\u00f3nica de S.. Bento, o S\u00edmbolo<br \/>\nde Santo Atan\u00e1sio, cruzinhas de Jerusal\u00e9m, ver\u00f3nica com<br \/>\na cabe\u00e7a de Santo Anast\u00e1cio, rel\u00edquias de v\u00e1rios<br \/>\nsantos, umas esqu\u00edrolas de ossos grudadas em farrapinhos, ora\u00e7\u00f5es<br \/>\nmanuscritas da lavra do varatojano, metidas em saquinhos surrados da transpira\u00e7\u00e3o<br \/>\nde outras obsessas.<\/p>\n<p>Marta devia jejuar, como preparat\u00f3rio. Parece que o Dem\u00f3nio<br \/>\nse compraz de habitar est\u00f4magos confortados na quentura do bolo aliment\u00edcio.<br \/>\nO exorcista jejuava tamb\u00e9m conforme o preceito dos praxistas, e aconselhava<br \/>\nao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus que dissera pela<br \/>\nboca de S. Mateus que : Hoc genus demioniorum in nullo potest exire nisi oratione<br \/>\na jejuino. O Feliciano dizia que sim, que jejuava; mas, \u00e0s escondidas<br \/>\ndo frade, comia bifes de presunto com ovos; come\u00e7ava a revelar ideias<br \/>\nego\u00edstas, um cuidado da sua alimenta\u00e7\u00e3o e do seu repouso,<br \/>\ncerto desprezo c\u00ednico pela parte que o Diabo tomara na sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Frei Jo\u00e3o de Borba da Montanha expendeu ao vig\u00e1rio de Caldelas<br \/>\nos fortes sintomas que Marta apresentava de estar possessa. Eram muitos, e<br \/>\nbastava-lhe citar os seguintes:<\/p>\n<p>Ouvir a voz de Jos\u00e9 Dias que a chamava, no sonho e na vig\u00edlia.<br \/>\nE mostrava o texto: quando patiens audit quasdam voces se vocantes. Porque<br \/>\naborrecia a carne e o p\u00e3o, e tinha grande fastio. O Os\u00f3rio lembrava-lhe<br \/>\nque seriam enojos peculiares da gravidez; mas o varatojano confundia-o com<br \/>\no latim. Quando quis non potuit gustare panem aut cantem. Ela digeria com<br \/>\nmuita dificuldade os alimentos. Era obra do Diabo, porque o livro dizia \u2013<br \/>\nbem v\u00ea \u2013 mostrava Frei Jo\u00e3o ao padre Os\u00f3rio: Quando<br \/>\nquis sanus cibum digerere non potest in stomacho. Chorava e n\u00e3o<\/p>\n<p>dizia por que chorava. Diabrura com toda a certeza: \u2013 Quando lacrymas<br \/>\nplorat et nescit quid ploret. Havia um artigo que acentuava as mais fortes<br \/>\npresun\u00e7\u00f5es da obsess\u00e3o \u00edncuba de Marta. Parece<br \/>\nque ela no confession\u00e1rio se acusava de repugn\u00e2ncias, de concess\u00f5es<br \/>\nviolentadas, de resist\u00eancias \u00e0s car\u00edcias do esposo: e<br \/>\ntalvez revelasse que a imagem de Jos\u00e9 Dias intervinha nessas lutas<br \/>\nda alcova. \u00c9 o que se depreende do Sinal d\u00e9cimo terceiro que<br \/>\nFrei Jo\u00e3o mostrava com o dedo no seu Brognolo, e vai em latim, como<br \/>\nl\u00e1 est\u00e1, para que poucas pessoas possam alegar intelig\u00eancia:<br \/>\n\u2013 Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non potest, quia videt<br \/>\naliud corpus intermedium, aut sibi videtur esse.<\/p>\n<p>\u2013 Aqui \u00e9 onde bate o ponto! \u2013 dizia Frei Jo\u00e3o martelando<br \/>\ncom o dedo indicador na p\u00e1gina indecente.<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o ser\u00e1 essa vis\u00e3o o intr\u00f3ito de<br \/>\numa aliena\u00e7\u00e3o mental? \u2013 perguntava o de Caldelas. \u2013<br \/>\nN\u00e3o v\u00ea, padre Jo\u00e3o, que esta rapariga est\u00e1 abatida<br \/>\npor uma grande amargura que prende com actos da sua vida passada? N\u00e3o<br \/>\na v\u00ea t\u00e3o ca\u00edda, t\u00e3o melanc\u00f3lica&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Os melanc\u00f3licos s\u00e3o os mais vexados pelo Dem\u00f3nio<br \/>\n\u2013 replicou o egresso. \u2013 Veja Galeno e Avicena, que aqui v\u00eam<br \/>\ncitados. \u2013 E folheou o Brognolo, at\u00e9 encontrar o texto triunfal.<\/p>\n<p>\u2013 Aqui tem; leia, ver\u00e3o que a dem\u00eancia pode ser obra do<br \/>\nDem\u00f3nio.<\/p>\n<p>O padre Os\u00f3rio leu com uma grande ignor\u00e2ncia curiosa: Os dem\u00f3nios<br \/>\nacometem mais os melanc\u00f3licos. Primeiro, por que o humor melanc\u00f3lico<br \/>\ncom dificuldade se tira e \u00e9 de sua natureza inobediente e rebelde.<br \/>\nSegundo, porque o humor melanc\u00f3lico \u00e9 mais apto para gerar diversas<br \/>\nenfermidades incur\u00e1veis, porque, se \u00e9 muito enxuto, ofende as<br \/>\nmembranas do c\u00e9rebro e faz ao homem doido; se ofende os ventr\u00edculos<br \/>\ncausa apoplexia, e gera raivas, frenesis e \u00f3dios; e estes efeitos de<br \/>\nmelancolia muitas vezes os costuma causar o Dem\u00f3nio, etc.<\/p>\n<p>\u2013 O padre Os\u00f3rio est\u00e1-se a rir?! \u2013 invectivou Frei<br \/>\nJo\u00e3o abespinhado \u2013 Sabe o senhor que mais? Eu j\u00e1 tinha<br \/>\nouvido dizer ao abade de Santiago de Antas que o Sr. Padre Vig\u00e1rio<br \/>\nde Caldelas n\u00e3o era muito seguro em mat\u00e9ria de f\u00e9; que<br \/>\ntinha um bocado de fedor her\u00e9tico nas suas pr\u00e9dicas, e que dava<br \/>\nmais import\u00e2ncia \u00e0 quina do que aos santos milagrosos na cura<br \/>\ndas maleitas.<\/p>\n<p>\u2013 Se isso fede a heresia, ent\u00e3o, Sr. Frei Jo\u00e3o, estou<br \/>\nde todo pobre \u2013 obtemperou Os\u00f3rio, e continuou deixando impar<br \/>\nde espantada indigna\u00e7\u00e3o o mission\u00e1rio. \u2013 A respeito<br \/>\nda enfermidade de Marta, sou a dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria<br \/>\neu que lhe ministrassem banhos de chuva, calmantes, distrac\u00e7\u00f5es;<br \/>\ne, baldados estes recursos, que a internassem num hospital de alienadas, porque<br \/>\nesta mulher \u00e9 filha de uma doida, \u00e9 neta de outros doidos, e<br \/>\npouco h\u00e1-de viver quem a n\u00e3o vir de todo mentecapta. Al\u00e9m<br \/>\nde herege sou profeta, meu caro Sr. Frei Jo\u00e3o. A sua energ\u00famena<br \/>\ntem infelizmente o dem\u00f3nio que raras vezes a ci\u00eancia vence \u2013<br \/>\no dem\u00f3nio da dem\u00eancia heredit\u00e1ria que a n\u00e3o se<br \/>\ncurar com a agua em chuveiro, tamb\u00e9m se n\u00e3o cura com a \u00e1gua<br \/>\nbenta. Seria bom que Vossa Rever\u00eancia, antes de p\u00f4r \u00e0 prova<br \/>\nos exorcismos, ouvisse a opini\u00e3o dos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>\u2013 Eu sei o que dizem os m\u00e9dicos \u2013 e sorria com menosprezo<br \/>\nda pobre medicina. \u2013 Eu, aqui onde me v\u00ea, com os exorcismos, com<br \/>\neste rem\u00e9dio que n\u00e3o inventei, mas que a Igreja de Nosso Senhor<br \/>\nJesus Cristo me deixou, e que ele mesmo, o divino Mestre usou, como o Sr.<br \/>\nPadre Os\u00f3rio deve ter lido nos seus Evangelhos&#8230; ou nega a autoridade<br \/>\ndos Evangelhos? Nega que Jesus Cristo expulsava dem\u00f3nios?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o senhor, eu sei a hist\u00f3ria da legi\u00e3o que<br \/>\nse meteu nos porcos&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 E outras; os livros sagrados est\u00e3o cheios desses factos a<br \/>\nque o padre Os\u00f3rio chama hist\u00f3rias; n\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3rias,<br \/>\ns\u00e3o factos.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! Sr. Frei Jo\u00e3o! Jesus Cristo, a sua vida e os seus milagres<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3ria? n\u00e3o pertencem \u00e0 hist\u00f3ria?<br \/>\nMau \u00e9 isso ent\u00e3o!<\/p>\n<p>A pol\u00e9mica prolongou-se um tanto azeda; Os\u00f3rio escandalizava<br \/>\nos pios ouvidos do egresso que, pondo as m\u00e3os no peito e os olhos no<br \/>\nC\u00e9u, exclamava com S. Paulo que era necess\u00e1rio que houvesse<br \/>\nesc\u00e2ndalos. Interrompera-os o brasileiro, dizendo que a sua sobrinha<br \/>\nestava com um ataque e que lhe dera no jardim. Frei Jo\u00e3o entrou na<br \/>\nalcova para onde a tinham levado em bra\u00e7os, e o padre Os\u00f3rio<br \/>\nficou ouvindo a revela\u00e7\u00e3o da governanta, que lhe dizia:<\/p>\n<p>\u2013 A desgra\u00e7adinha est\u00e1 de todo varrida! Eu estava no<br \/>\ntanque a passar uns len\u00e7os por \u00e1gua quando ela entrou no pomar<br \/>\nsem fazer caso de mim, como se ali n\u00e3o estivesse viva alma. E vai depois,<br \/>\np\u00f4s-se a cortar rosas e a dizer que eram para o seu amado Jos\u00e9<br \/>\nAlves, para o seu esposo Jos\u00e9 Alves. V. S\u00aa n\u00e3o me dir\u00e1<br \/>\nquem diacho, Deus me perdoe, \u00e9 este Jos\u00e9 Alves?<\/p>\n<p>\u2013 E depois?<\/p>\n<p>\u2013 Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das<br \/>\nrosas muito chegado \u00e0 cara e da\u00ed a pouco caiu para o lado a<br \/>\ndar aos bra\u00e7os e a espernear. Eu ent\u00e3o chamei a cozinheira e<br \/>\nlevamo-la para o quarto com os sentidos perdidos! O Jos\u00e9 Alves, quanto<br \/>\na mim, acho que foi derri\u00e7o que ela teve em solteira. J\u00e1 ouvi<br \/>\ndizer que a casaram com o arenque do tio contra vontade&#8230; S o que tem estes<br \/>\ncasamentos&#8230;<\/p>\n<p>O padre Os\u00f3rio n\u00e3o elucidou a governanta. Assim que o Feliciano<br \/>\nlhe disse que se iam ler os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres paroquiais,<br \/>\ne observou-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos,<br \/>\nSr. Prazins. O dem\u00f3nio que ela tem \u00e9 a doen\u00e7a. Fa\u00e7a<br \/>\no que lhe disse o padre-mestre Roque, que \u00e9 um velho ilustrado e virtuoso.<br \/>\nV\u00e1 dar um giro com ela. Leve-a \u00e0 capital; demore-se por l\u00e1;<br \/>\ne, quando a vir distra\u00edda, contente e com bom apetite, volte para sua<br \/>\ncasa.<\/p>\n<p>O brasileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram ch\u00e9rinolas;<br \/>\nmas que o frade se lhe metera em casa, e dizia que n\u00e3o se ia embora<br \/>\nsem curar ela. Acrescentou que n\u00e3o podia agora sair do Minho porque<br \/>\nestava \u00e0 espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na batota<br \/>\ndo Porto a sua parte de alguns contos de r\u00e9is, que<\/p>\n<p>acharam por morte do pai; \u2013 que lhe convinha muito comprar a quinta<br \/>\nda Ermida que partia com a dele, e havia outro brasileiro que a trazia de<br \/>\nolho. Que a respeito da sobrinha tencionava lev\u00e1-la a banhos do mar,<br \/>\ne havia de comprar o Manual do Raspail, a ver o que ele dizia da mol\u00e9stia,<br \/>\nporque em Pernambuco toda a casta de doen\u00e7a se curava pelo Raspail,<br \/>\ne que levasse o Diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos.<\/p>\n<p>Que sim, que comprasse o Manual do Raspail \u2013 concordou o padre Os\u00f3rio,<br \/>\ne saiu muito cansado \u2013 dizia ele \u00e0 irm\u00e3 \u2013 de lidar<br \/>\ncom as duas cavalgaduras.<\/p>\n<h2><a name=\"20\"><\/a>Cap\u00edtulo XX<\/h2>\n<p>Marta estava no quarto, onde tinha o seu orat\u00f3rio de pau-preto com<br \/>\nfrisos dourados, e dentro uma antiga escultura em marfim de um Cristo dignamente<br \/>\nrepresentado na sua agonia humana. De cada lado da cruz ardia uma vela de<br \/>\ncera benzida. Frei Jo\u00e3o entrara de sobrepeliz e estola: seguiam-no<br \/>\no Feliciano com uma vela de arr\u00e1tel acesa, e o Sime\u00e3o com a<br \/>\ncaldeirinha da \u00e1gua benta. Marta, com um pavor na vista, tremia, de<br \/>\np\u00e9, encostada \u00e0 c\u00f3moda. O exorcista sentou-se, e chamou<br \/>\na energ\u00famena com um gesto imperativo de cabe\u00e7a. Ela aproximou-se<br \/>\nhesitante e ajoelhou. Frei Jo\u00e3o comp\u00f4s o semblante e deu \u00e0<br \/>\nvoz uma toada l\u00fagubre em conformidade com a rubrica de Brognolo \u2013<br \/>\ncom grave aspecto e voz horr\u00edvel, diz o demon\u00f3mano. Come\u00e7ou<br \/>\npor exercitar o Preceito provativo, a ver se havia efectivamente dem\u00f3nio.<br \/>\nE ent\u00e3o bradou, fazendo estremecer Marta: In nomine Jesu Christi. Ego<br \/>\nJoannes est minister Christi&#8230; Vinha a dizer, em vulgar, ao Dem\u00f3nio<br \/>\nou aos esp\u00edritos imundos, vel vobis spiritis inmundis, que, se estavam<br \/>\nno corpo daquela criatura, dessem logo um sinal evidente, ou vexando-a, ou<br \/>\nmovendo-lhe os humores, segundo o seu costume, pelo modo que por Deus lhe<br \/>\nfosse permitido: eo modo quod a Deo juerit permissum. Marta estava retransida<br \/>\nde um sagrado horror, posto que n\u00e3o percebesse do latim do padre sen\u00e3o<br \/>\ndem\u00f3nio e esp\u00edritos imundos. Nunca lhe tinham dito que ela estava<br \/>\nendemoninhada, e \u00e0 sua mentalidade faltava-lhe neste lance a for\u00e7a<br \/>\nconvincente e a energia da palavra para combater o engano do seu confessor.<br \/>\nN\u00e3o tinha vigor de car\u00e1cter nem rudimentos de intelig\u00eancia<br \/>\npara reagir. Educada em melhores condi\u00e7\u00f5es, sucumbiria com a<br \/>\nmesma vontade inerte sob a viol\u00eancia do confessor. H\u00e1 condescendentes<br \/>\nhumildades mais vergonhosas sem o diagn\u00f3stico da dem\u00eancia que<br \/>\nas desculpe. Ela estava de joelhos; mas, n\u00e3o podendo suster-se, sentou-se<br \/>\nnum arfar de suspiros, ansiada, at\u00e9 que as l\u00e1grimas lhe explodiram<br \/>\nnuma torrente.<\/p>\n<p>Frei Jo\u00e3o fez um trejeito de satisfa\u00e7\u00e3o, um agouro de<br \/>\nvit\u00f3ria, e p\u00f4s-lhe o Preceito lenitivo: et omnia afflictio a<br \/>\nvobis causata. E atacou logo os dem\u00f3nios com o Preceito instrutivo:<br \/>\n: et statim coram me illam prosternatis. Marta, com efeito, estava prostrada,<br \/>\ncom a face no pavimento, estirando os bra\u00e7os no paroxismo epil\u00e9ptico,<br \/>\ne o colo e o tronco hirtos numa inflexibilidade tet\u00e2nica.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o h\u00e1 que duvidar \u2013 disse o exorcista ao marido<br \/>\ne ao pai da obsessa. \u2013 Levemna daqui e depois continuaremos.<\/p>\n<p>Marta, passado o letargo, disse ao tio que mal se lembrava do que passara<br \/>\nno orat\u00f3rio com o Sr. Frei Jo\u00e3o; mas que lhe tinha medo, que<br \/>\nn\u00e3o queria mais confessar-se com ele.<\/p>\n<p>\u2013 Cada vez mais provado que est\u00e1 obsessa. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 ela quem fala; \u00e9 o Dem\u00f3nio que me teme! \u2013 exclamou<br \/>\no exorcista com uma santa baz\u00f3fia, refutando as vacila\u00e7\u00f5es<br \/>\num pouco c\u00e9pticas do brasileiro; ao passo que o Sime\u00e3o asseverava<br \/>\nque a filha tinha o Dem\u00f3nio; porque a sua defunta mulher tamb\u00e9m<br \/>\no tinha, e se deitara ao rio porque nunca quisera que lhe fizessem as rezas.<\/p>\n<p>Ao outro dia, vencidas as repugn\u00e2ncias de Marta, continuou o exorcista,<br \/>\ncarranqueando cada vez mais e pondo vibra\u00e7\u00f5es horrorosas na<br \/>\nlaringe. Deu-lhe a ela o seu Brognolo para que lesse em voz alta os Preceitos<br \/>\nque a criatura vexada pode p\u00f4r ao Dem\u00f3nio. Marta, de joelhos,<br \/>\ndiante do orat\u00f3rio, leu: Dem\u00f3nio maldito, eu corno racional<br \/>\ncriatura de Deus, redimida com o seu precioso sangue, depois que para me salvar<br \/>\nse humanou, cheia de f\u00e9, te mando em virtude do sant\u00edssimo nome<br \/>\nde Jesus, que logo me obede\u00e7as e me atormentes levemente, ou fazendo<br \/>\ntremer o meu corpo ou lan\u00e7ando-o em terra, deixando-me em meu ju\u00edzo.<\/p>\n<p>O corpo de Marta visivelmente tremia; ela deu o livro ao exorcista com um<br \/>\narremesso impaciente, e murmurou solu\u00e7ante:<\/p>\n<p>\u2013 Deixem-me, deixem-me pelas chagas de Cristo!<\/p>\n<p>Frei Jo\u00e3o sorriu-se, e resmoneou \u00e0 orelha do Feliciano:<\/p>\n<p>\u2013 O maldito serve-se do nome de Cristo para me afastar! Eu vou escangalhar-te,<br \/>\nSatan\u00e1s!<\/p>\n<p>E lan\u00e7ou m\u00e3o do gl\u00e1dio das Objurga\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAs objurga\u00e7\u00f5es s\u00e3o perguntas feitas ao Diabo, \u00e0<br \/>\nm\u00e1 cara, e latinamente. Diz, maldito Dem\u00f3nio, serpente insidiosa,<br \/>\nconheces que existe Deus? Conheces que foste criado anjo alumiado de muitas<br \/>\nprendas, e que pela tua soberba te perdeste? Sabes que, repulsa do Para\u00edso,<br \/>\nperdeste para sempre a gra\u00e7a de Deus? Pergunta-lhe afinal, depois de<br \/>\nmuitas inj\u00farias, se reconhece nele um ministro de Deus, e como ousar\u00e1<br \/>\na n\u00e3o manifestar-se? Quomodo igitur poteris contra estimulum calcitrare?<\/p>\n<p>O Dem\u00f3nio n\u00e3o respondeu ainda; mas o frade ia apert\u00e1-lo,<br \/>\nmandando que se ajoelhassem todos. Ele ent\u00e3o, numa postura ser\u00e1fica,<br \/>\nbra\u00e7os cruzados no peito e olhos no Cristo, declamou:<\/p>\n<p>\u2013 Veni, sancte spiritus: reple tuorum corda fidelium, et tui amores<br \/>\nin eis ignem accende. \u2013 Pedia ao Esp\u00edrito Santo que descesse<br \/>\na encher os cora\u00e7\u00f5es dos seus fi\u00e9is, e abras\u00e1-los<br \/>\nno fogo do seu amor. Depois: \u2013 Dominus vobiscum.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 de co espirituo \u2013 respondeu o Sime\u00e3o, que sabia<br \/>\najudar \u00e0 missa.<\/p>\n<p>Seguiram-se v\u00e1rios Oremus e depreca\u00e7\u00f5es, e a Ladainha<br \/>\nde Nossa Senhora; mais outros Oremus, e a detesta\u00e7\u00e3o da energ\u00famena,<br \/>\numa estirada que principiava: E tu, Dem\u00f3nio maldito, com que autoridade<br \/>\nintentas possuir jamais meu corpo ou molestarme por modo algum? Marta rejeitou<br \/>\no livro, e disse que n\u00e3o podia ler nem estar de joelhos; que tinha<br \/>\nv\u00e1gados e que se queria ir deitar. Mas o exorcista, severo e formid\u00e1vel<br \/>\nno seu minist\u00e9rio \u2013 que n\u00e3o, que n\u00e3o se ia deitar,<br \/>\nque n\u00e3o lhe fugia, que se pusesse de joelhos a seus p\u00e9s! Ele<br \/>\nent\u00e3o, segundo a rubrica do livro director, sentou-se, cobriu-se, voz<br \/>\ngrave e horr\u00edvel, virado contra o Dem\u00f3nio, como juiz para tal<br \/>\nr\u00e9u j\u00e1 convencido, aspergiu a possessa de \u00e1gua benta,<br \/>\nululando: Asperge me, Domine&#8230; e recomendou aos circunstantes que apagassem<br \/>\nduas velas, e n\u00e3o dessem palavra. Profundo sil\u00eancio. Ouvia-se<br \/>\napenas o zumbido das moscas que se esvoa\u00e7avam do tecto atra\u00eddas<br \/>\npelo calor da luz \u00fanica, e pousavam na fronte chagada do Cristo. O<br \/>\nrecinto era espa\u00e7oso e quase em trevas. A vela, encoberta pelas curvas<br \/>\nlaterais do orat\u00f3rio, n\u00e3o alumiava sen\u00e3o o curto espa\u00e7o<br \/>\nda projec\u00e7\u00e3o em que Marta, retra\u00edda num terror, tinha<br \/>\nos dedos das m\u00e3os postas, chegadas aos l\u00e1bios, como se quisesse<br \/>\nabafar os suspiros.<\/p>\n<p>Passados minutos, o exorcista come\u00e7ou a conjurar e ligar o Dem\u00f3nio<br \/>\nem nome do Padre e do Filho e do Esp\u00edrito Santo, tratando-o de imundo,<br \/>\nafrontando-o bravamente com ep\u00edtetos que deviam ofender o mais desbragado<br \/>\npatife. Marta fez um movimento de aflitivo desabrimento; parecia querer fugir;<br \/>\nmas o padre prendeu-a com a estola, em harmonia com o Brognolo: Se n\u00e3o<br \/>\nestiver quieta, pode-a prender com uma estola. Feitas novas e mais terr\u00edveis<br \/>\nconjura\u00e7\u00f5es, o exorcista levantou-se com pavorosa solenidade,<br \/>\ne exclamou: Exurge, Christe! adjuva nos! Levanta-te, Cristo, e auxilia-nos!<\/p>\n<p>O egresso continuava as evoca\u00e7\u00f5es ao Cristo, quando Marta caiu<br \/>\nsem acordo.<\/p>\n<p>\u2013 Vit\u00f3ria! \u2013 exclamou o exorcista \u2013 vit\u00f3ria!<\/p>\n<p>E, mostrando ao brasileiro una p\u00e1gina do livro: ou\u00e7a l\u00e1,<br \/>\nSr. Feliciano: O sinal mais certo de que o Dem\u00f3nio obedeceu e se retirou<br \/>\nde todo \u00e9 o que a sagrada Escritura nos exp\u00f5e no capitulo IX<br \/>\nde S. Marcos: \u2013 Deixar a criatura por terra algum tempo como morta.<br \/>\nIsto se viu no endemoninhado surdo e mudo que Cristo nosso bem curou, e do<br \/>\nqual diz o texto: Et jactus est sicut mortuus. Depois, com j\u00fabilo,<br \/>\nlimpando o suor:<\/p>\n<p>\u2013 Podem lev\u00e1-la, deitem-na, ponham-lhe as rel\u00edquias todas<br \/>\ndebaixo do travesseiro.<\/p>\n<p>Os dois n\u00e3o podiam facilmente levant\u00e1-la; na rigidez, como<br \/>\nempedernida do corno, parecia colada ao pavimento. O brasileiro pedia ao exorcista<br \/>\nque a amparasse por um dos bra\u00e7os; mas o frade, artista austero, respondeu<br \/>\nque lhe era defeso p\u00f4r as m\u00e3os nas possessas. E, de feito, Carlos<br \/>\nBaucio, na Arte do Exorcista, legisla: que os exorcistas n\u00e3o ponham<br \/>\nas m\u00e3os fisicamente sobre a criatura principalmente sendo mulher (propter<br \/>\npericulum), pois que as mulheres nem com o sinal-da-cruz se devem tocar \u2013<br \/>\nMulieres nec signo crucis sunt tangendae.<\/p>\n<p>Marta passara a noite muito agitada, febril, com del\u00edrio; dava risadinhas<br \/>\nmuito argentinas, falava no Jos\u00e9 Alves; sacudia a roupa com frenesi,<br \/>\ne, quando emergia do torpor, sentava-se no leito a olhar para o tio, com uma<br \/>\nfixidez repelente. Feliciano n\u00e3o se deitara, e de madrugada disse ao<br \/>\nirm\u00e3o que fosse chamar o m\u00e9dico, que a Marta estava com um febr\u00e3o;<br \/>\ne que levasse o Diabo o frade para as profundezas do Inferno e mais os exorcismos.<\/p>\n<p>J\u00e1 quando era dia, o brasileiro foi descansar um pouco na cama de<br \/>\nD. Teresa, porque receava que se lhe pegasse a febre da mulher. \u00c0s<br \/>\nnove horas, a governanta foi acord\u00e1-lo, muito alvora\u00e7ada, para<br \/>\nlhe dizer que a Sr\u00aa D. Marta tinha sa\u00eddo sozinha ao nascer do<br \/>\nSol e que uma mulher a encontrara j\u00e1 perto da casa do vig\u00e1rio<br \/>\nde Caldelas, a correr, que parecia uma doidinha. Frei Jo\u00e3o recebeu<br \/>\ntamb\u00e9m a nova da fuga, quando acabava de dizer missa em ac\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gra\u00e7as pelo triunfo obtido sobre o Dem\u00f3nio. O m\u00e9dico<br \/>\nchegava ao mesmo tempo, e informado das cenas dos exorcismos, disse ao varatojano<br \/>\ninj\u00farias que o frade n\u00e3o tinha dito ao Diabo; chamou ao brasileiro<br \/>\ne ao irm\u00e3o corja de est\u00fapidos, e partiu para Caldelas com o<br \/>\nFeliciano. O frade, insultado pelo m\u00e9dico, e pelos modos bruscos e<br \/>\ndesabridos do brasileiro, citou urnas palavras de Jesus que manda sacudir<br \/>\no p\u00f3 das sand\u00e1lias no limiar da casa dos \u00edmpios, e foi-se<br \/>\nembora. Seguiram-no algumas beatas num alto choro por longo espa\u00e7o;<br \/>\ne, quando ele desapareceu no cotovelo da estrada, houve delas que arrancavam<br \/>\ncabelos, cheios de l\u00eandeas; outras davam-se bofetadas, e as mais hist\u00e9ricas<br \/>\nguinchavam uivos estridentes.<\/p>\n<p>O Melro, o taverneiro, o compadre do Feliciano, quando elas lhe passaram<br \/>\n\u00e0 porta a chorar, atr\u00e1s do mission\u00e1rio, saiu fora, e<br \/>\ndisse-lhes com um racionalismo brutal:<\/p>\n<p>\u2013 Ah grandes coiras!<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>Marta regressou com D. Teresa, alguns dias depois. O brasileiro conveio no<br \/>\ntratamento hidrop\u00e1tico da esposa; e a compadecida irm\u00e3 do vig\u00e1rio<br \/>\nofereceu-se como enfermeira da pobre senhora que se abra\u00e7ava nela com<br \/>\nmedo imbecil, a pedir-lhe que a n\u00e3o deixasse, que a defendesse do mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>D. Teresa assistiu ao nascimento da primeira filha de Marta. Imaginava a<br \/>\nirm\u00e3 do vig\u00e1rio que no esp\u00edrito da m\u00e3e se havia<br \/>\nde operar uma benigna mudan\u00e7a; que o amor \u00e0 filha seria divers\u00e3o<br \/>\n\u00e0 saudade de Jos\u00e9 Alves; mas a medicina n\u00e3o esperava<br \/>\naltera\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, porque era mat\u00e9ria corrente<br \/>\nnos tratados alienistas que um c\u00e9rebro lesado n\u00e3o se restaura<br \/>\nsob a impress\u00e3o do amor maternal, que s\u00f3 actua nas organiza\u00e7\u00f5es<br \/>\nnormais. Por\u00e9m, D. Teresa n\u00e3o podia crer que Marta estivesse<br \/>\nconfirmadamente louca, posto que nas suas conversa\u00e7\u00f5es em que,<br \/>\nraras vezes, se interessava, disparatasse, afirmando que via a alma de Jos\u00e9<br \/>\nAlves, como quem conta um caso trivial.<\/p>\n<p>Quando lhe mostraram a filha rec\u00e9m-nascida, contemplou-a alguns segundos;<br \/>\nmas nem balbuciou uma palavra carinhosa, nem fez gesto algum de contentamento.<br \/>\nA amiga dizia-lhe coisas muito meigas da filhinha, a ver se lhe espertava<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o. Punha-lha nos bra\u00e7os, dava-lha a beijar. Marta<br \/>\ncedia com tristeza e constrangimento. beijando a filha como se fora uma crian\u00e7a<br \/>\nalheia. A ama ia dizer \u00e0s criadas que a brasileira era uma cafra, que<br \/>\nn\u00e3o podia ver o anjinho do C\u00e9u.<\/p>\n<p>Os paroxismos eram menos frequentes; mas, tr\u00eas dias antes do ataque,<br \/>\na torva\u00e7\u00e3o de Marta manifestava-se com extravag\u00e2ncias,<br \/>\ndel\u00edrios. Fechava-se no quarto com muitos vasos de flores, que enfileirava<br \/>\nno sobrado, como se ajardinasse um passeio. Uma vez disse a D. Teresa, \u00e0<br \/>\nmadrinha de sua filha, que arranjara aquele caminho de rosas, porque o seu<br \/>\nJos\u00e9 Alves lhe dissera em Prazins que havia de fazer-lhe um jardim<br \/>\nem Vilalva quando casassem, e ela fizera aquele jardim para passearem juntos<br \/>\nquando ele viesse \u00e0 noite. D. Teresa encarou-a com uma grande piedade,<br \/>\nporque se convenceu ent\u00e3o que estava perdida.<\/p>\n<p>O Feliciano, quando ela se fechava no quarto, j\u00e1 sabia que estava<br \/>\na preparar-se o ataque; ia dormir noutra cama; necessitava do seu repouso,<br \/>\ndizia ele; tinha de erguer-se cedo para ver o que faziam os jornaleiros, e<br \/>\nn\u00e3o podia perder as noites. Como o arrependimento de se casar j\u00e1<br \/>\no mortificava, evadia-se \u00e0s irremedi\u00e1veis apoquenta\u00e7\u00f5es,<br \/>\nolhando egoistamente para o seu bem-estar, e lembrando-se \u00e0s vezes<br \/>\nque, tendo uma mulher assim doente, n\u00e3o lhe seria muito desagrad\u00e1vel<br \/>\nficar vi\u00favo. N\u00e3o obstante, como, passado o ataque epil\u00e9ptico,<br \/>\na esposa recaia numa serena indol\u00eancia, numa impassibilidade mansa e<br \/>\ntranquila, o tio ia dormir com ela, tendo sempre em vista as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo seu bem-estar, as necessidades imperiosas da sua fisiologia. Assim se explica<br \/>\na fecundidade de Marta, que deu em sete anos cinco filhos a seu marido. O<br \/>\nm\u00e9dico j\u00e1 tinha explicado satisfatoriamente ao padre Os\u00f3rio<br \/>\nque a dem\u00eancia de Marta era funcional, e as qualidades reprodutoras<br \/>\nn\u00e3o tinham que ver com as anormalidades cerebrais. A Provid\u00eancia<br \/>\nn\u00e3o teve a bondade de fazer est\u00e9reis as dementes.<\/p>\n<p>Entretanto, aos tr\u00eas dias precedentes \u00e0s crises epil\u00e9pticas,<br \/>\nparece que o marido lhe era repulsivo. Dava-se ent\u00e3o a reviv\u00eancia<br \/>\nde Jos\u00e9 Alves, o seu amado saia do sepulcro, e transportava-a nas suas<br \/>\nasas de anjo ao para\u00edso de Prazins. D. Teresa, colando o ouvido \u00e0<br \/>\nfechadura da porta, ouvia-a conversar como em di\u00e1logo, ficar silenciosa,<br \/>\ndepois de uma interroga\u00e7\u00e3o, por largo espa\u00e7o de tempo;<br \/>\nvinha de mansinho \u00e0 porta espreitar que a n\u00e3o escutassem. Dizia<br \/>\npalavras confusas, abafadas, cariciosamente proferidas, como se tivesse os<br \/>\nl\u00e1bios postos em contacto de um rosto amado. O nome de Jos\u00e9<br \/>\nreal\u00e7ava com uma nitidez jubilosa, com uni timbre de meiguice infantil;<br \/>\ne \u00e0s vezes, um grito em esfor\u00e7ado desespero como se ele se lhe<br \/>\ndesatasse dos bra\u00e7os para lhe fugir. Um espiritista da escola de Kardec<br \/>\ntiraria desta loucura um argumento a favor das Manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nvis\u00edveis, em que o fluido, o perisp\u00edrito se apresenta semimaterial,<br \/>\ncom as formas vagas do corpo, quase tang\u00edvel ao medium.<\/p>\n<p>O Feliciano ignorava estas cenas extra-naturais. Ele; ao sexto ano de casado,<br \/>\nencoura\u00e7ara-se num impenetr\u00e1vel ego\u00edsmo de avarento,<br \/>\ncortando fundamente por todas as despesas que em vista da sua grande fortuna<br \/>\nse reputavam sovinarias. A medicina j\u00e1 o considerava lun\u00e1tico,<br \/>\nmais ou menos infeccionado da aliena\u00e7\u00e3o da mulher: E a loucura<br \/>\nque \u00e9 se n\u00e3o a exagera\u00e7\u00e3o do car\u00e1cter?<br \/>\nPorque o viam \u00e0s vezes atravessar os seus pinhais, com o mon\u00f3culo,<br \/>\ngesticulando, e falando sozinho, chamavam-lhe doido. Errada hip\u00f3tese<br \/>\ndo vulgo ignorante. Ele fazia opera\u00e7\u00f5es aritm\u00e9ticas em<br \/>\nvoz alta como os velhos poetas inspirados faziam madrigais numa declama\u00e7\u00e3o<br \/>\nr\u00edtmica ao ar livre e ao luar. O certo \u00e9 que ningu\u00e9m<br \/>\no apanhava em intervalo escuro para o defraudar num vint\u00e9m. Comprou,<br \/>\numas ap\u00f3s outras, todas as quintas que foram do Vasco Cerveira Lobo,<br \/>\nde Quadros; umas \u00e0 vi\u00fava, e outras aos filhos. A D. Honorata<br \/>\nGui\u00e3o, casada em segundas n\u00fapcias com o desembargador do Ultramar<br \/>\nAdolfo da. Silveira, veio \u00e0 Metr\u00f3pole assim que viuvou para<br \/>\nse habilitar herdeira de metade do casal n\u00e3o vinculado do tenente-coronel.<br \/>\nOs filhos Egas e Heitor, sabendo que sua m\u00e3e estava nos Pombais, com<br \/>\no marido e filhos, tentaram escorra\u00e7\u00e1-la com amea\u00e7as<br \/>\ne insultos, atirando-lhe tiros \u00e0 janela. O magistrado fugiu com a sua<br \/>\nfam\u00edlia e acompanhou com for\u00e7a armada os actos judiciais. Afinal,<br \/>\nHonorata, vendeu a sua parte, ao desbarato, ao brasileiro Prazins; e o morgado,<br \/>\nvendido o seu patrim\u00f3nio desvinculado, e mais o irm\u00e3o, vergonhosamente<br \/>\ncasados, esfarrapam hoje o resto da torpe exist\u00eancia na tavolagem das<br \/>\ntavernas. As filhas salvaram-se do naufr\u00e1gio agarradas \u00e0s pranchas<br \/>\ndos seus dotes. Arranjaram facilmente maridos que desempenharam os seus casais<br \/>\ne as sovavam de pontap\u00e9s injustos e extempor\u00e2neos, quando se<br \/>\nlembravam dos engenheiros do conde de Clarange Lucote.<\/p>\n<p>A brasileira de Prazins tem hoje cinquenta e tr\u00eas anos. Os seus vizinhos<br \/>\nque contam trinta anos, nunca a viram, porque ela, desde que, em 1848, morreu<br \/>\nD. Teresa, nunca mais saiu do seu quarto. J\u00e1 ningu\u00e9m a vai escutar;<br \/>\nmas repete as mesmas palavras do seu amor de h\u00e1 quarenta anos, pede<br \/>\nque lhe levem flores, tem as mesmas alucina\u00e7\u00f5es, e \u2013 o<br \/>\nque mais \u00e9 \u2013 ainda tem l\u00e1grimas, quando, nos intervalos<br \/>\ndos del\u00edrios, entra na angustiosa convic\u00e7\u00e3o de que Jos\u00e9<br \/>\nDias \u00e9 morto. O padre Os\u00f3rio ainda a procura nesses per\u00edodos<br \/>\nde raz\u00e3o bruxuleante e fala-lhe da irm\u00e3 por sentir a inef\u00e1vel<br \/>\namargura doce de se ver acompanhado nas l\u00e1grimas. Mas o padre diz que<br \/>\nnunca pudera ver nitidamente a linha divis\u00f3ria entre a raz\u00e3o<br \/>\ne a ins\u00e2nia de Marta. Depois do del\u00edrio, sobrev\u00e9m a monomania<br \/>\nhipocondr\u00edaca. A alma continua a dormir sem sonhar, sem as alucina\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNessa segunda crise de torpor, ele e s\u00f3 ele \u00e9 admitido ao seu<br \/>\nquarto, depois de esperar que des\u00e7a da cama ou se embrulhe num xaile<br \/>\npara encobrir a sordidez do corpete dos vestidos. Este xaile \u00e9 uma<br \/>\ncintila resistente de instinto feminil que raras vezes se apaga no comum das<br \/>\ndementes, excepto no maior n\u00famero das hist\u00e9ricas com erotismo.<\/p>\n<p>Marta tem duas filhas casadas e j\u00e1 m\u00e3es. \u00c0s temporadas,<br \/>\nvestem serenamente os seus trajes domingueiros e v\u00e3o para casa dos<br \/>\npais, onde continuam na s\u00e1fara dos campos a sua lida de solteiras.<br \/>\nO pai educara-as na lavoura de p\u00e9 descal\u00e7o, e sachola nas unhas.<br \/>\nTrabalham nas lavras com uma grande alegria e garganteiam cantigas muito frescas.<br \/>\nE os maridos, cheios de bom senso, j\u00e1 as n\u00e3o procuram. Quando<br \/>\nregressam, recebem-nas sem as<\/p>\n<p>interrogarem; porque, se as afligem, d\u00e3o-lhes v\u00e1gados e choram.<br \/>\nNos outros filhos intanguidos, escrofulosos, tristes e sem inf\u00e2ncia,<br \/>\npredomina a di\u00e1tese da imbecilidade e a falta de senso moral, que \u00e9<br \/>\numa esp\u00e9cie patol\u00f3gica menos estudada dos alienistas. Entre<br \/>\nestes filhos h\u00e1 um que estudou para cl\u00e9rigo. Passava por ser<br \/>\no mais escorreito. O pai achava-lhe talento. Estudou seis anos latim, em Braga,<br \/>\ndebaixo das mais rigorosas viol\u00eancias \u00e0 sua incapacidade; e quando<br \/>\nFeliciano, pr\u00f3digo de dinheiro para este filho, e desenganado pelo<br \/>\nprofessor, o mandou buscar com tr\u00eas reprova\u00e7\u00f5es, ele trazia<br \/>\nnuma caixa de lata cinco mil e tantas h\u00f3stias com que se prevenira<br \/>\npara as suas consagra\u00e7\u00f5es de sacerdote. E o pai foi t\u00e3o<br \/>\nfeliz que p\u00f4de vender as h\u00f3stias com o pequeno preju\u00edzo<br \/>\nde dez por cento.<\/p>\n<p>\u2013 A\u00ed tem o brasileiro de Prazins, se nunca o viu \u2013 dizia-me<br \/>\nh\u00e1 tr\u00eas meses o padre Os\u00f3rio. mostrando-me no mercado<br \/>\nde Famalic\u00e3o um velho escanifrado, muito escanhoado, direito, com o<br \/>\nmon\u00f3culo fixo, vestido de cotim, com um guarda-p\u00f3 sujo, esfarpelado<br \/>\nna abotoadura, e uma chibata de marmeleiro com que sacudia a poeira das cal\u00e7as<br \/>\narrega\u00e7adas. \u2013 Tem 84 anos \u2013 continuou o vig\u00e1rio<br \/>\nde Caldelas \u2013 veio a p\u00e9 de sua casa, que dista daqui l\u00e9gua<br \/>\ne meia, janta um vint\u00e9m de arroz, bebe outro vint\u00e9m de vinho,<br \/>\ntem quinhentos contos, e volta para sua casa a p\u00e9, atrav\u00e9s ou<br \/>\npouco menos das suas catorze quintas. Com a frugalidade, com o exerc\u00edcio<br \/>\ne com o seu ego\u00edsmo s\u00f3rdido viver\u00e1 ainda muito tempo,<br \/>\nporque o velho Alexandre Dumas disse que os ego\u00edstas e os papagaios<br \/>\nviviam cento e cinquenta anos.<\/p>\n<h3>P. S.<\/h3>\n<p>Com os subs\u00eddios ministrados pelo cura de Caldelas compus esta narrativa,<br \/>\nespraiando-me por acess\u00f3rios do duvidoso bom senso, cuja responsabilidade<br \/>\ndeclino dos ombros daquele discreto sacerdote. Tudo que neste livro tem bafio<br \/>\nde velhas chala\u00e7as, ironias e s\u00e1tiras \u00e9 meu; e, se algu\u00e9m<br \/>\npor isso me arguir de pouco respeitador do v\u00edcio e da tolice, retiro<br \/>\ntudo.<\/p>\n<p>Se o meu condescendente informador me permite, ouso dizer-lhe \u2013 para<br \/>\nnos esquivarmos ambos \u00e0s ins\u00eddias da cr\u00edtica portuguesa<br \/>\n\u2013 que a dem\u00eancia de Marta n\u00e3o \u00e9 extremamente original<br \/>\nnem o meu romance uma singularidade incontroversa. O que, sem disputa, \u00e9<br \/>\noriginal, \u00e9 duvidar eu de que o sou.<\/p>\n<p>Num Conto de Charles Nodier, autor remoto que se perde no crep\u00fasculo<br \/>\nda literatura arqueol\u00f3gica, h\u00e1 uma L\u00cdDIA que endoideceu<br \/>\nquando o marido, um barqueiro de limpo nascimento e generosa \u00edndole,<br \/>\npereceu num inc\u00eandio salvando tr\u00eas crian\u00e7as e sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>L\u00eddia enlouquece e cuida que seu esposo est\u00e1 no C\u00e9u<br \/>\nde dia e a visita de noite. Ela, desde o repontar da aurora, sai ao jardim,<br \/>\ne colhe flores para o brindar quando ele desce do azul com asas de penas de<br \/>\nouro. Ao cabo de seis anos deste sonhar delicioso, a ditosa do\u00edda,<br \/>\nquando andava a recolher as flores dilectas para o bouquet das n\u00fapcias<br \/>\ncom o anjo de cada noite, sentou-se em dulc\u00edssima sonol\u00eancia<br \/>\ne expirou.<\/p>\n<p>As analogias de L\u00eddia e Marta frisam pela vis\u00e3o dominante na<br \/>\ndem\u00eancia de ambas \u2013 uma esp\u00e9cie de ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo amado. No que elas diversificam essencialmente \u00e9 que uma sonhou<br \/>\nseis anos e a outra vai no trig\u00e9simo s\u00e9timo da sua dem\u00eancia;<br \/>\nL\u00eddia sonhou absorvida na sua ideal alian\u00e7a com um cel\u00edcola,<br \/>\num bem-aventurado com asas de ouro; Marta quando imerge alucinada no seu letargo,<br \/>\n\u00e9 a paix\u00e3o leal ao amado sempre vivo na terra e no seu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nL\u00eddia passa as noites em amplexos do marido celestial; Marta, sem consci\u00eancia<br \/>\nda sua vida org\u00e2nica, tem cinco filhos, corno se arrancasse de si a<br \/>\npor\u00e7\u00e3o ign\u00f3bil de seu ser e a rejeitasse ao sevo sensual<br \/>\ndo marido, ressalvando a alma dessa inconsciente materialidade. Quer-me, portanto,<br \/>\nparecer que n\u00e3o h\u00e1 n\u00f3doa de plagiato no meu livrinho<br \/>\n\u2013 uma coisa original como o pecado.<\/p>\n<p>O leitor pergunta:<\/p>\n<p>\u2013 Qual \u00e9 o intuito cient\u00edfico, disciplinar, moderno,<br \/>\ndeste romance? Que prova o conclui? Que h\u00e1 a\u00ed proveitoso como<br \/>\nelemento que reorganize o indiv\u00edduo ou a esp\u00e9cie?<\/p>\n<p>Respondo: Nada, pela palavra, nada. O meu romance n\u00e3o pretende reorganizar<br \/>\ncoisa nenhuma. E o autor desta obra est\u00e9ril assevera, em nome do patriarca<br \/>\nVoltaire, que deixaremos este mundo tolo e mau, tal qual era quando c\u00e1<br \/>\nentr\u00e1mos.<\/p>\n<p>S\u00e3o Miguel de Seide, Dezembro de 1882.<\/p>\n<h2>FIM<\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII &nbsp; Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo\u00a0XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX &nbsp; Introdu\u00e7\u00e3o Entre as diversas mol\u00e9stias [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-93977","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Brasileira de Prazins - Camilo Castelo Branco<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Brasileira de Prazins - Camilo Castelo Branco, Obra, Livro, Marta, Maria da Fonte, Literatura, A Brasileira de Prazins - Camilo Castelo Branco\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Brasileira de Prazins - Camilo Castelo Branco\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A Brasileira de Prazins - Camilo Castelo Branco, Obra, Livro, Marta, Maria da Fonte, Literatura, A Brasileira de Prazins - Camilo Castelo Branco\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-brasileira-de-prazins-camilo-castelo-branco\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-10T16:57:36+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2017-01-10T17:02:57+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"313 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-brasileira-de-prazins-camilo-castelo-branco#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-brasileira-de-prazins-camilo-castelo-branco\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"A Brasileira de Prazins &#8211; 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