{"id":93961,"date":"2017-01-10T14:30:29","date_gmt":"2017-01-10T16:30:29","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93961"},"modified":"2017-01-10T14:30:29","modified_gmt":"2017-01-10T16:30:29","slug":"a-arte-da-capoeira-camille-adorno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-arte-da-capoeira-camille-adorno","title":{"rendered":"A Arte da Capoeira &#8211; Camille Adorno"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique<br \/>\nnos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"214\" height=\"78\">\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<a href=\"#0\">PREF\u00c1CIO <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"-2\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"256\">\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#1\">I<br \/>\n&#8211; O CAMINHO DA CAPOEIRA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"7\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"203\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">II<br \/>\n&#8211; NA RODA DA CAPOEIRA<\/a><\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-93962 size-full\" title=\"A Arte da Capoeira - Camille Adorno\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/a-arte-da-capoeira.jpg\" alt=\"A Arte da Capoeira - Camille Adorno\" width=\"450\" height=\"194\" srcset=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/a-arte-da-capoeira.jpg 450w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/a-arte-da-capoeira-300x129.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Pref\u00e1cio<\/h2>\n<p>Heran\u00e7a africana legada \u00e0 cultura brasileira, o jogo da Capoeira<br \/>\nsignifica valioso contributo \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da nossa identidade<br \/>\ncultural.<\/p>\n<p>Neste livro estabelecemos os caracteres delineadores da Capoeira, propiciando<br \/>\numa oportunidade de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 arte. Na leitura desse<br \/>\ntema ampliam-se as possibilidade de compreens\u00e3o da nossa hist\u00f3ria,<br \/>\nonde se insere a Capoeira e que preservou a lembran\u00e7a das lutas sociais<br \/>\nque forjaram a cidadania brasileira.<\/p>\n<p>Esta obra \u00e9 um passo para se promover o resgate das tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nda Capoeira divulgando essa bela express\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Kleber Adorno<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I &#8211; O Caminho da Capoeira<\/h2>\n<p>\u201cEm nome do Deus de todos os nomes Jav\u00e9, Obatal\u00e1, Olorum,<br \/>\nOi\u00f3.<\/p>\n<p>Em nome de Deus, que a todos os Homens nos faz da ternura e do p\u00f3.<\/p>\n<p>Em nome do Povo que espera na gra\u00e7a da f\u00e9, \u00e0 voz do<br \/>\nXang\u00f4 o Quilombo P\u00e1scoa que o libertar\u00e1.<\/p>\n<p>Em nome do Povo sempre deportado pelas brancas velas no ex\u00edlio dos<br \/>\nmares marginalizados no cais, nas favelas e at\u00e9 nos altares.<\/p>\n<p>Em nome do povo que fez seu Palmares, que ainda far\u00e1 Palmares de<br \/>\nnovo Palmares, Palmares, Palmares do Povo.\u201d missa dos Quilombos<\/p>\n<p>O QUE \u00c9 A CAPOEIRA?<\/p>\n<p>&#8216;Os negros usavam a Capoeira para defender sua liberdade.&#8217; Mestre Pastinha<\/p>\n<p>Capoeira \u00e9 luta, jogo e dan\u00e7a. Brincadeira de movimentos perigosos<br \/>\nexecutados com gra\u00e7a, mal\u00edcia e muitos rituais. Dan\u00e7a<br \/>\nnegra em que prevalece a agilidade da esquiva e a esperteza da fuga. Os p\u00e9s<br \/>\nque deslizam sobre o ch\u00e3o podem desferir golpes fatais: de repente,<br \/>\nante os olhos surpresos do advers\u00e1rio, o gesto r\u00e1pido. O ataque<br \/>\nfulminante. Ent\u00e3o, prostrado, o inimigo se d\u00e1 conta de que foi<br \/>\nv\u00edtima da mandinga. Isto, se ainda tiver vida&#8230; Essa dan\u00e7a<br \/>\n&#8211; enquanto forma de express\u00e3o corporal &#8211; possui uma linguagem onde<br \/>\ncada gesto significa e representa id\u00e9ias e sentimentos, emo\u00e7\u00f5es.<br \/>\nSensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cNo tempo em que o negro chegava\/fechado em gaiola\/Nasceu no Brasil\/Quilombo<br \/>\ne quilombola\/E todo dia\/Negro fugia\/ juntando a curriola\/De estalo de a\u00e7oite,<br \/>\nde ponta de faca\/ e zunido de bala\/Negro voltava p\u2019ra argola\/ no meio<br \/>\nda senzala\/E ao som do tambor primitivo\/ berimbau, maraca e viola\/Negro gritava:<br \/>\nabre ala! Vai ter jogo de Angola\u201d Mauro Duarte &amp; Paulo Cesar Pinheiro,<br \/>\nJogo de Angola O jogo da Capoeira \u00e9 a s\u00edntese da dan\u00e7a.<br \/>\nA sua ess\u00eancia, disfar\u00e7ada em brinquedo: vadia\u00e7\u00e3o;<br \/>\ndistra\u00e7\u00e3o de quem busca extravasar cada fun\u00e7\u00e3o<br \/>\ninterior nos gestos exteriores. Nessa dan\u00e7a se manifesta a tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmilenar da cultura negra de reverenciar as origens, cada vez que se repetem<br \/>\ngestos ancestrais,. renovados: o jogo da Capoeira \u00e9 um v\u00ednculo<br \/>\ncom antepassados que praticaram os mesmos atos. A habilidade, agilidade e<br \/>\ndestreza do capoeira est\u00e3o expressos com ast\u00facia no balan\u00e7o<br \/>\ndos bra\u00e7os, no arremesso oportuno dos p\u00e9s, no meneio desconcertante<br \/>\ndo tronco, na harmonia de todo o corpo em gestos circulares que n\u00e3o<br \/>\nperdem a continuidade &#8211; como se fora um ininterrupto perambular pelo c\u00edrculo,<br \/>\nem estreita liga\u00e7\u00e3o com o solo.<\/p>\n<p>A Capoeira consiste numa dan\u00e7a onde o emprego dos movimentos arriscados<br \/>\n&#8211; dado \u00e0 circunst\u00e2ncia de camuflar poss\u00edvel contenda &#8211;<br \/>\nenvolve os participantes e contagia quem assiste. A natureza d\u00faplice<br \/>\nde luta disfar\u00e7ada em brincadeira d\u00e1 forma a um jogo de movimentos<br \/>\ncombinando objetividade e precis\u00e3o no ataque com defesas velozes, originais,<br \/>\nem que o corpo \u00e9 utilizado no limite dos recursos de elasticidade e<br \/>\nflexibilidade muscular, compondo assim uma bela pl\u00e1stica humana em<br \/>\ngestos despojados, naturais, numa estranha dan\u00e7a do perigo. \u00c9<br \/>\nainda mais a dan\u00e7a da Capoeira: o contato com o ch\u00e3o, intenso<br \/>\ncomo o v\u00ednculo dos filhos com a m\u00e3e terra,. que envolve e protege,<br \/>\ngera e alimenta a vida, acolhendo a dan\u00e7a que \u00e9 tamb\u00e9m<br \/>\nem seu louvor.<\/p>\n<p>A postura respeitosa dos capoeiras uns com os outros, para com o jogo, o<br \/>\n&#8220;ch\u00e3o&#8221;, o berimbau e o atabaque, se explica no prop\u00f3sito<br \/>\nmaior da dan\u00e7a: unir. Ligar estreitamente, como as m\u00e3os que<br \/>\nse apertam ao final de cada jogo, na sauda\u00e7\u00e3o dos camar\u00e1s.<\/p>\n<p>O jogo da Capoeira \u00e9 o corpo e a ess\u00eancia de 500 anos de luta<br \/>\nde resist\u00eancia negra, constituindo-se na primeira e original manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nlibert\u00e1ria da cultura brasileira; \u00e9 o corpo e a for\u00e7a<br \/>\ndos ritos que preservam os mitos e os arqu\u00e9tipos da nossa gente. Participando<br \/>\nativamente da resist\u00eancia comum \u00e0s variadas formas de domina\u00e7\u00e3o<br \/>\nf\u00edsica e cultural, desde o seu aparecimento nas terras brasileiras<br \/>\na Capoeira insurge-se em defesa da constru\u00e7\u00e3o de uma nova identidade<br \/>\ncoletiva: esse jogo n\u00e3o foi somente um fermento revolucion\u00e1rio;<br \/>\n\u00e9 realmente um instrumento de transforma\u00e7\u00f5es firmado<br \/>\nnas mais antigas ra\u00edzes culturais do povo brasileiro; instrumento e<br \/>\nvoz de um povo na luta por um di\u00e1logo igualit\u00e1rio, respeitoso<br \/>\ne fraterno entre todas as pessoas.<\/p>\n<p>\u201cDan\u00e7a guerreira\/Corpo do negro \u00e9 de mola Na Capoeira\/<br \/>\nNegro embola e desembola\/E a dan\u00e7a que era uma festa pro povo da terra\/Virou<br \/>\na principal defesa do negro na guerra\/Pelo que se chamou liberta\u00e7\u00e3o\/E<br \/>\npor toda for\u00e7a, coragem e rebeldia\/Louvado ser\u00e1 todo dia\/Que<br \/>\nesse povo cantar e lembrar o jogo de Angola\/Da escravid\u00e3o no Brasil\u201d<br \/>\nNas rodas do jogo a luta da Capoeira \u00e9 um brinquedo guerreiro, uma<br \/>\ndivers\u00e3o entre camaradas unidos na mesma luta, irm\u00e3os no combate<br \/>\nda cidadania. Quando o jogo degenera em luta expl\u00edcita, j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nocorre a Capoeira. O objetivo da luta \u00e9 tornar o capoeira senhor de<br \/>\nsi mesmo e integrado ao grupo: \u00e9 no recesso da comunidade que ocorre<br \/>\no aprendizado e a pr\u00e1tica do jogo, de forma coletiva e fraterna. E,<br \/>\nse \u00e0s vezes isto n\u00e3o acontece, n\u00e3o se pode falar em Capoeira<br \/>\nna plenitude; quando muito em adestramento nos movimentos b\u00e1sicos,<br \/>\nde forma desvinculada dos objetivos e fundamentos da arte.<\/p>\n<p>O ponto alto da luta sempre foi resistir: contra o preconceito, a discrimina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndisfar\u00e7ada; contra oportunistas e aproveitadores astuciosos que se<br \/>\napropriam dos valores da nossa cultura e tentam adulter\u00e1-la, fazendo<br \/>\nisto de tal forma que ao negro \u00e9 mesmo vedado o acesso \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nque deram origem. O jogo da Capoeira \u00e9 a luta de resist\u00eancia<br \/>\nde um povo que sempre reagiu \u00e0 domina\u00e7\u00e3o das elites que<br \/>\ndet\u00eam o poder: a luta da Capoeira \u00e9 insubordina\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 subvers\u00e3o, \u00e9 rea\u00e7\u00e3o, mais que nunca reafirmando<br \/>\nos principal valor do homem: liberdade.<\/p>\n<p>\u201cCapoeira vai lutar\/j\u00e1 cantou e j\u00e1 dan\u00e7ou\/n\u00e3o<br \/>\npode mais esperar&#8230;\/N\u00e3o h\u00e1 mais o que falar\/cada um d\u00e1<br \/>\no que tem\/Capoeira vai lutar&#8230;\/Vem de longe, n\u00e3o tem pressa\/mas tem<br \/>\nhora p\u2019ra chegar\/ j\u00e1 deixou de lado sonhos\/dan\u00e7a, canto<br \/>\ne berimbau\/abram alas, batam palmas poeira vai levantar\/ quem sabe da vida<br \/>\nespera dia certo p\u2019ra chegar\/ Capoeira n\u00e3o tem pressa\/mas na<br \/>\nhora vai lutar&#8230;\u201d Geraldo Vandr\u00e9, Hora de Lutar Luta negra.<br \/>\nPresente no cotidiano dos morros, terreiros, favelas, pra\u00e7as e ruas.<br \/>\nCompanheira do trabalho e divers\u00e3o das feiras e festas, acompanhando<br \/>\no negro em qualquer ambiente social.<\/p>\n<p>ITINER\u00c1RIOS<\/p>\n<p>\u201cFomos ao rio de Meca\/ Pelejamos e roubamos\/E muito risco passamos\/<br \/>\ne vela.\/E \u00e1rvore seca.\/(&#8230;) A renda que apanhais\/O melhor que v\u00f3s<br \/>\npodeis,\/Nas igrejas n\u00e3o gastais\/Aos pobres pouco dais\/E n\u00e3o<br \/>\nsei o que lhe fazeis.\u201d Gil Vicente, Exorta\u00e7\u00e3o da Guerra<\/p>\n<p>PORTUGAL, \u00c1FRICA E BRASIL: A AVENTURA TRANSOCE\u00c2NICA O per\u00edodo<br \/>\nhist\u00f3rico onde se situa o descobrimento do Brasil e a conseq\u00fcente<br \/>\nforma\u00e7\u00e3o da nossa cultura teve o valioso testemunho dos relatos<br \/>\ne narrativas deixadas por escritores portugueses da \u00e9poca.<\/p>\n<p>A literatura lusa &#8211; constitu\u00edda ainda no per\u00edodo medieval<br \/>\n&#8211; alcan\u00e7ou o apogeu com Gil Vicente, Cam\u00f5es e Fern\u00e3o<br \/>\nMendes Pinto, justamente na fase em que \u00e9 completada a expans\u00e3o<br \/>\ndo povo portugu\u00eas no mundo. O Brasil, portanto, \u00e9 contempor\u00e2neo<br \/>\ndessa expans\u00e3o, nela se inserindo tanto o fato primordial da sua descoberta<br \/>\ne coloniza\u00e7\u00e3o, quanto o dos belos trabalhos produzidos pela<br \/>\ntalentosa literatura portuguesa terem por motivo inspirador os fatos decorrentes<br \/>\nda sua descoberta &#8211; al\u00e9m da conquista na \u00c1frica.<\/p>\n<p>A l\u00edngua portuguesa, instrumento dessa literatura e que com ela se<br \/>\naprimorou, deriva do latim popular, que teria chegado \u00e0 Pen\u00ednsula<br \/>\nIb\u00e9rica no s\u00e9culo III antes de Cristo.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria liter\u00e1ria &#8211; assim como na hist\u00f3ria geral<br \/>\n&#8211; encontramos divis\u00f5es em \u00e9pocas ou per\u00edodos, compreendendo<br \/>\nfases de tempo em evolu\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica e englobando conjuntos<br \/>\nde obras liter\u00e1rias com caracter\u00edsticas comuns. Nesse trabalho,<br \/>\nos historiadores da literatura consideram se as obras obedecem aproximadamente<br \/>\n\u00e0 mesma ordem de valores est\u00e1ticos, ao reuni-las com vistas<br \/>\n\u00e0 exposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Segundo o Prof. Fidelino Figueiredo, dividindo a literatura portuguesa em<br \/>\neras, temos as seguintes: medieval (do s\u00e9culo XII at\u00e9 1502),<br \/>\ncl\u00e1ssica (1502 a 1825) e rom\u00e2ntica (de 1825 aos dias atuais).<\/p>\n<p>O per\u00edodo medieval da literatura portuguesa se caracteriza pela poesia,<br \/>\nreunida em reposit\u00f3rios coletivos (os Cancioneiros), que s\u00e3o<br \/>\nos seguintes: o Cancioneiro Portugu\u00eas da Biblioteca Vaticana, o Cancioneiro<br \/>\nPortugu\u00eas Colocci-Brancuti e o Cancioneiro Portugu\u00eas da Ajuda.<\/p>\n<p>Esta fase medieval \u00e9 geralmente considerada como finda no come\u00e7o<br \/>\ndo s\u00e9culo XVI &#8211; quando \u00e9 representada a primeira obra teatral<br \/>\nde Gil Vicente, o Mon\u00f3logo do Vaqueiro, em 1502. Come\u00e7a ent\u00e3o<br \/>\no per\u00edodo cl\u00e1ssico (j\u00e1 contempor\u00e2neo do Brasil),<br \/>\nonde a literatura produz obras importantes para a compreens\u00e3o da gente<br \/>\nque realizaria a coloniza\u00e7\u00e3o, evidenciando o seu car\u00e1ter<br \/>\ne a perspectiva em que encaravam a nossa terra.<\/p>\n<p>Na fase cl\u00e1ssica encontramos os trabalhos liter\u00e1rios que mais<br \/>\ndiretamente se relacionam \u00e0 nossa hist\u00f3ria, abordando as conquistas<br \/>\nna \u00c1frica, os costumes de Portugal, as viagens de descobrimento na<br \/>\nAm\u00e9rica e an\u00e1lises e observa\u00e7\u00f5es importantes acerca<br \/>\nda sociedade da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Salientamos a import\u00e2ncia da consulta \u00e0s obras de Gil Vicente<br \/>\n(1460-1536), fundador do teatro portugu\u00eas, autor das farsas Juiz da<br \/>\nBeira, Cl\u00e9rigo da Beira, In\u00eas Pereira e Quem tem Farelos; dos<br \/>\nautos da Barca da Gl\u00f3ria, da Barca do Inferno e da Barca do Purgat\u00f3rio.<br \/>\nGil Vicente distinguiu-se ainda como poeta e cronista de costumes ao retratar<br \/>\na vida portuguesa do seu tempo.<\/p>\n<p>Outro vulto de destaque para a compreens\u00e3o do que era a gente portuguesa<br \/>\n\u00e9 Luis de Cam\u00f5es (1524-1580), n\u00e3o somente o grande poeta<br \/>\nl\u00edrico do per\u00edodo cl\u00e1ssico mas o mais importante poeta<br \/>\nda l\u00edngua portuguesa, como \u00e9pico em Os Lus\u00edadas, ou l\u00edrico,<br \/>\ncom as Rimas. Dramaturgo, distinguiu-se com as com\u00e9dias El-Rei Seleuco,<br \/>\nAnfitri\u00f5es e Filodemo.<\/p>\n<p>Muitos foram os poetas e romancistas deste per\u00edodo, cujo talento<br \/>\nn\u00e3o se ofusca ante o infausto brilho das conquistas na \u00c1frica<br \/>\ne no Brasil. Destacam-se: Bernardim Ribeiro (1475-1553), poeta e romancista,<br \/>\nautor famoso de Menina e Mo\u00e7a; Francisco de S\u00e1 Miranda (1495-1558),<br \/>\npoeta e teatr\u00f3logo: Antonio Ferreira (1528-1559), tamb\u00e9m poeta<br \/>\ne teatr\u00f3logo; Jo\u00e3o de Barros (1496-1570), autor das D\u00e9cadas<br \/>\nda \u00c1sia, prosador e historiador; Dami\u00e3o de G\u00f3is (1502-1574),<br \/>\nautor da Cr\u00f4nica do Pr\u00edncipe D. Jo\u00e3o; Fern\u00e3o Mendes<br \/>\nPinto (1509-1580) viajante e prosador, autor do relato Peregrina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde suas viagens ao Oriente; e Diogo do Couto (1542-1616), continuador das<br \/>\nD\u00e9cadas da \u00c1sia, companheiro de Cam\u00f5es em Mo\u00e7ambique,<br \/>\nautor do Soldado Pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, destacaram-se como historiadores mais especificamente<br \/>\ndo descobrimento e in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil: Pero<br \/>\nde Magalh\u00e3es Gandavo ( ? &#8211; 1576), autor da Hist\u00f3ria da Prov\u00edncia<br \/>\nde Santa Cruz e do Tratado da Terra do Brasil; Gabriel Soares de Sousa (1540-1592),<br \/>\nautor do Tratado Descritivo do Brasil; e Frei Luis de Sousa (1555-1632), autor<br \/>\nda Vida de D. Frei Bartolomeu dos M\u00e1rtires.<\/p>\n<p>Dentre os escritores brasileiros, um dos primeiros historiadores foi o Frei<br \/>\nVicente do Salvador (1564-1639), nascido na Bahia, o primeiro a fazer uso<br \/>\nda prosa liter\u00e1ria em sua Hist\u00f3ria do Brasil, que somente seria<br \/>\npublicada em 1889. Segundo o cr\u00edtico Jos\u00e9 Ver\u00edssimo,<br \/>\nao fazermos a lista dos nossos cl\u00e1ssicos, com certeza Frei Vicente<br \/>\ndo Salvador seria o primeiro.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o alguns dos principais autores e trabalhos que nos permitem<br \/>\numa introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do Brasil e seus problemas,<br \/>\ncom vistas a formarmos a nossa pr\u00f3pria cr\u00edtica do processo de<br \/>\nsurgimento da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Aos amantes da leitura, fica a sugest\u00e3o para pesquisa e estudo .AS<br \/>\nORIGENS DA CAPOEIRA<\/p>\n<p>&#8216;S\u00e3o dois pra bater no negro\/de pau, chicote e fac\u00e3o\/p\u2019ra<br \/>\nse safar tem o negro\/s\u00f3 dois p\u00e9s e duas m\u00e3os\/\u00e9<br \/>\na m\u00e3o pelo p\u00e9\/ \u00e9 o p\u00e9 pela m\u00e3o bate na<br \/>\ncara\/derruba no ch\u00e3o S\u00e9rgio Ricardo, Brincadeira de Angola<\/p>\n<p>As origens do jogo da Capoeira se encontram no princ\u00edpio da na\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrasileira, e seu desenvolvimento acompanhou o relacionamento de negros, brancos<br \/>\ne \u00edndios no continente americano. A terra descoberta aos olhos do colonizador<br \/>\nseria o ber\u00e7o de uma nova cultura &#8211; fruto das peculiaridades do ambiente<br \/>\ne da forma em que se processavam as rela\u00e7\u00f5es entre os conquistadores<br \/>\neuropeus; os amer\u00edndios &#8211; primeiros senhores do continente; e os africanos<br \/>\n&#8211; trazidos \u00e0 for\u00e7a para realizar todo o trabalho.<\/p>\n<p>No entender do descobridor o novo mundo deveria ser explorado em todos os<br \/>\naspectos, como fonte supridora da necessidade de riquezas f\u00e1ceis sentida<br \/>\nna Europa. E nada mais natural que o emprego do trabalho escravo. De nativos<br \/>\ne africanos. Afinal, a nobreza que governava o mundo ocidental gozava do privil\u00e9gio<br \/>\nde ser ociosa. Para as agruras de todos os servi\u00e7os, somente seres<br \/>\ninferiores, a\u00ed inclu\u00eddos todos que n\u00e3o tivessem a pele<br \/>\nbranca.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a dos portugueses na \u00c1frica tem registro desde meados<br \/>\nde 1430. L\u00e1, o europeu incentivava astuciosamente as diferen\u00e7as<br \/>\ntribais, fomentando rivalidades entre grupos. Depois, adquiria os prisioneiros<br \/>\nfeitos por ocasi\u00e3o dos conflitos, negociando com exploradores de toda<br \/>\nesp\u00e9cie a aquisi\u00e7\u00e3o de seres humanos para o trabalho<br \/>\nfor\u00e7ado.<\/p>\n<p>A chegada dos colonizadores significava destrui\u00e7\u00e3o completa<br \/>\npara os nativos da \u00c1frica &#8211; o prov\u00e1vel ber\u00e7o da humanidade,<br \/>\nsegundo recentes estudos. Os africanos apresados eram obrigados a trabalhar<br \/>\nnas planta\u00e7\u00f5es canavieiras das ilhas do Atl\u00e2ntico. \u00c0<br \/>\n\u00e9poca da descoberta do Brasil, Portugal j\u00e1 vivia da explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde col\u00f4nias na \u00c1frica, \u00c1sia e no Atl\u00e2ntico. Seu<br \/>\ncar\u00e1ter j\u00e1 amolecera na aventura da escravid\u00e3o. Luis<br \/>\nde Cam\u00f5es, que via muito bem com seu \u00fanico olho, se lamentava<br \/>\nde ver sua p\u00e1tria mergulhada \u201cno gosto da cobi\u00e7a e na<br \/>\nrudeza\/de uma austera, apagada e vil tristeza\u201d.<\/p>\n<p>Em 1441, Ant\u00e3o Gon\u00e7alves levou a D. Henrique dez negros que<br \/>\ntrocara por dez mouros colhidos na costa da \u00c1frica. Segundo Azorara,<br \/>\nque al\u00e9m de chefe de expedi\u00e7\u00f5es portuguesas que praticaram<br \/>\nmassacres nas terras africanas revelou pendores liter\u00e1rios, manifestos<br \/>\nem cr\u00f4nicas aduladoras, D. Henrique mostrou-se \u201cledo\u201d ao<br \/>\nver os africanos. N\u00e3o pelo n\u00famero, acentuou o cronista, \u201cmas<br \/>\npella speran\u00e7a dos outros que podya aver\u201d. No ano de 1444 fundou-se<br \/>\na Companhia de Lagos, cuja finalidade era intensificar o tr\u00e1fico de<br \/>\nescravos. No fim do s\u00e9culo, Portugal recebia em m\u00e9dia 12.000<br \/>\nescravos por ano, provenientes a princ\u00edpio de Guin\u00e9, S\u00e3o<br \/>\nTom\u00e9, Pr\u00edncipe e mais tarde, de Angola, Mo\u00e7ambique e<br \/>\ndemais regi\u00f5es africanas. A escravid\u00e3o tornara-se a mais pr\u00f3spera<br \/>\nind\u00fastria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O empreendimento desumano cresceu de tal forma que cerca de um s\u00e9culo<br \/>\nap\u00f3s iniciado, o flamengo Nicolaus Cleynaerts, humanista que se encontrava<br \/>\nna corte portuguesa como preceptor dos filhos de D. Jo\u00e3o III, fez as<br \/>\nseguintes observa\u00e7\u00f5es a respeito do reino ib\u00e9rico: \u201cTudo<br \/>\nali pulula de escravos, todos os trabalhos s\u00e3o executados por negros<br \/>\ne cativos, dos quais Portugal est\u00e1 t\u00e3o cheio que, segundo creio,<br \/>\nexistem em Lisboa mais escravos e escravas dessa esp\u00e9cie do que portugueses<br \/>\nlivres.\u201d Foi a\u00ed que entramos na hist\u00f3ria. Os interesses<br \/>\necon\u00f4micos e ideol\u00f3gicos dos portugueses &#8211; \u201ca dilata\u00e7\u00e3o<br \/>\nda F\u00e9 e do Imp\u00e9rio\u201d &#8211; segundo Cam\u00f5es -, n\u00e3o<br \/>\nestavam voltados exclusivamente para o Oriente f\u00e9rtil das ricas especiarias,<br \/>\nsedas, objetos de valor como tapetes, perfumes, produtos medicinais. Vasco<br \/>\nda Gama retornara da \u00cdndia com um carregamento de pimenta que permitiu<br \/>\nlucros de at\u00e9 6.000%, quando vendido na Europa. Mas no seu Di\u00e1rio<br \/>\nde Viagem ele contava ter percebido sinais seguros da exist\u00eancia de<br \/>\nterras a oeste de sua rota. A Espanha j\u00e1 tinha descoberto novos mundos<br \/>\nna sua tentativa de chegar ao oriente navegando sempre para ocidente. E Portugal<br \/>\nj\u00e1 tinha assegurado para si uma parte desse territ\u00f3rio, com<br \/>\na Capitula\u00e7\u00e3o da Parti\u00e7\u00e3o do Mar Oceano, mais<br \/>\nconhecida como Tratado de Tordesilhas, assinado entre as duas pot\u00eancias<br \/>\nde ent\u00e3o, em 1494.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 absurdo supor que Cabral recebera orienta\u00e7\u00e3o<br \/>\nno sentido de afastar-se ao m\u00e1ximo da costa africana, podendo confirmar<br \/>\na exist\u00eancia dessas terras e delas tomar posse. Essa seria outra tarefa<br \/>\nde sua expedi\u00e7\u00e3o. O descobrimento do Brasil \u00e9 apenas<br \/>\num epis\u00f3dio da expans\u00e3o mar\u00edtima europ\u00e9ia, no<br \/>\nmomento da transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo. As pr\u00e1ticas<br \/>\nmercantilistas e a predomin\u00e2ncia dos interesses econ\u00f4micos sobre<br \/>\nos aspectos religiosos e ideol\u00f3gicos se refletem at\u00e9 no nome<br \/>\ndefinitivo que a terra ganha, provocando protestos do cronista Jo\u00e3o<br \/>\nde Barros: \u201cPor artes diab\u00f3licas se mudava o nome de Santa Cruz,<br \/>\nt\u00e3o pio e devoto, para o de um pau de tingir panos\u201d.<\/p>\n<p>O in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o das terras brasileiras se deu<br \/>\nsob o reinado de D. Jo\u00e3o III, conhecido como O Colonizador em raz\u00e3o<br \/>\ndas expedi\u00e7\u00f5es que organizou. Em 1530 uma nova esquadra veio<br \/>\npara o Brasil sob o comando de Martim Afonso de Sousa, com instru\u00e7\u00f5es<br \/>\nsimilares \u00e0quelas emitidas aos navegadores que o antecederam: as suas<br \/>\ncinco embarca\u00e7\u00f5es explorariam o litoral compreendido entre o<br \/>\nMaranh\u00e3o e o Rio da Prata, capturando os contrabandistas encontrados<br \/>\nao longo da Costa do Pau-Brasil. Entretanto, eram mais amplos os objetivos<br \/>\nespec\u00edficos do Capit\u00e3o: fundamentar a efetiva invas\u00e3o<br \/>\nda terra, implantando n\u00facleos de povoamento dos portugueses. Pero Lopes<br \/>\nde Sousa, irm\u00e3o de Martim Afonso, relata como isso aconteceu, em seu<br \/>\nDi\u00e1rio: \u201cA todos nos pareceu t\u00e3o bem esta terra que o<br \/>\ncapit\u00e3o determinou de a povoar, e deu a todos os homens terras para<br \/>\nfazerem fazendas: e fez uma vila na ilha de S\u00e3o Vicente e outra nove<br \/>\nl\u00e9guas a dentro pelo sert\u00e3o, \u00e0 borda de um rio que se<br \/>\nchama Piratininga; e repartiu a gente nestas duas vilas e fez nelas oficinas,<br \/>\ne fez tudo em boa obra de justi\u00e7a.\u201d Em meados de 1532 foi introduzido<br \/>\nno Brasil o cultivo da cana-de-a\u00e7\u00facar e no seu desenvolvimento<br \/>\nos colonos fixaram-se \u00e0 terra, adquirindo glebas e se instalando com<br \/>\nplanta\u00e7\u00f5es e engenhos. Surgiram as duas primeiras vilas brasileiras<br \/>\nno mesmo ano: S\u00e3o Vicente e Piratininga. Desobedecendo \u00e0s ordens<br \/>\nreais as povoa\u00e7\u00f5es n\u00e3o se localizavam na chamada Costa<br \/>\ndo Pau-Brasil: revelava-se a prioridade dos portugueses &#8211; que era a busca<br \/>\ndos metais preciosos. A escolha do local para a funda\u00e7\u00e3o das<br \/>\nvilas facilitava a procura das minas do Peru e do Paraguai, \u00e0 \u00e9poca<br \/>\nem conquista &#8211; a ferro e fogo! &#8211; pelos espanh\u00f3is chefiados por Francisco<br \/>\nPizarro, que destruiriam o Imp\u00e9rio Inca.<\/p>\n<p>A sede da riqueza dos metais levou os lusitanos a explorarem o estu\u00e1rio<br \/>\nplatino, organizando entradas com destino ao interior, saindo de Canan\u00e9ia<br \/>\ne Guanabara. A entrada que partiu de Canan\u00e9ia foi dizimada pelas popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nind\u00edgenas da regi\u00e3o do atual Paran\u00e1, mostrando que a<br \/>\ndomina\u00e7\u00e3o das novas terras n\u00e3o seria uma tarefa f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Quem era a gente portuguesa que se propunha a empreender uma tarefa que<br \/>\nn\u00e3o se apresentava como das mais f\u00e1ceis? \u00c0quela altura,<br \/>\nsegundo Fernando Palha, Portugal importava tudo, desde o p\u00e3o que comia<br \/>\nat\u00e9 a l\u00e3 que fiava. Nenhum portugu\u00eas queria fazer nada:<br \/>\n\u201cA pr\u00e1tica bissecular da pilhagem no seu pr\u00f3prio pa\u00eds<br \/>\n(os impostos escorchantes), a aventura oce\u00e2nica e o tr\u00e1fico negreiro,<br \/>\ntudo isso minou a resist\u00eancia moral do povo, dando-lhe at\u00e9 repugn\u00e2ncia<br \/>\npelo trabalho.\u201d Como o Brasil s\u00f3 era habitado por silv\u00edcolas,<br \/>\nningu\u00e9m queria vir para c\u00e1 &#8211; al\u00e9m dos que seriam propriet\u00e1rios<br \/>\ndas terras. Francisco de S\u00e1 Miranda, grande poeta portugu\u00eas,<br \/>\nmas inegavelmente dominado pela ambi\u00e7\u00e3o, refere-se ao fasc\u00ednio<br \/>\ndas especiarias da \u00c1sia e da \u00c1frica &#8211; que o Brasil n\u00e3o<br \/>\ntinha &#8211; com estas palavras: \u201cao cheiro desta canela\/o reino nos despovoa&#8221;.<br \/>\nAntonio Ferreira, poeta renascentista, retrata bem o esp\u00edrito da \u00e9poca<br \/>\nem Portugal, a ambi\u00e7\u00e3o do reino pelos metais preciosos: \u201ctudo<br \/>\nobedece a este s\u00f3 Tirano\/Esta \u00e9 a idade que chamaram de ouro\/Tanto<br \/>\nvalho, Senhor, quanto entesouro\u201d. Ainda sobre o car\u00e1ter da nobreza<br \/>\ne do povo portugu\u00eas ao tempo da descoberta e explora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfala melhor o holand\u00eas Cleynaerts. Diz ele que \u201cse h\u00e1 povo<br \/>\nalgum dado \u00e0 pregui\u00e7a, sem ser o portugu\u00eas, ent\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o sei eu onde ele exista (&#8230;)\u201d. Esse tal Cleynaerts foi ainda<br \/>\nmais direto em suas considera\u00e7\u00f5es: \u201cem Portugal somos<br \/>\ntodos nobres, e tem-se como uma grande desonra exercer uma profiss\u00e3o<br \/>\nqualquer\u201d. Outro que tamb\u00e9m se queixou do car\u00e1ter dos<br \/>\ncompatriotas foi Diogo do Couto: \u201c(\u00e9) muito antiga esta mis\u00e9ria<br \/>\nportuguesa de n\u00e3o saber dar lugar \u00e0s virtudes nem engrandecer<br \/>\nhonrosos pensamentos\u201d. Quanto \u00e0 moral da nobreza &#8211; a come\u00e7ar<br \/>\npela fam\u00edlia real, que tinha origem bastarda &#8211; era a pior poss\u00edvel.<br \/>\nFrei Luis de Sousa disse que nela \u201co v\u00edcio era posto a cavalo\u201d.<\/p>\n<p>Revela Fern\u00e3o Lopes que D. Pedro I (de Portugal) confessara um dia<br \/>\na Nuno Freire que algu\u00e9m lhe dissera ter ele um filho de nome Jo\u00e3o<br \/>\nque subiria muito alto, mas ele pr\u00f3prio n\u00e3o sabia qual fosse,<br \/>\npois tinha v\u00e1rios filhos com o mesmo nome, inclusive um deles com a<br \/>\nbela In\u00eas de Castro&#8230;<\/p>\n<p>Apesar da aus\u00eancia de ouro e prata, S\u00e3o Vicente adquire contornos<br \/>\ndefinitivos: a primeira unidade produtora de a\u00e7\u00facar &#8211; o Engenho<br \/>\ndo Senhor Governador &#8211; foi instalada em 1533. Passado um ano chegam as primeiras<br \/>\ncabe\u00e7as de gado provenientes de Cabo Verde. Logo ficou evidente a insufici\u00eancia<br \/>\ndos n\u00facleos isolados de povoamento para assegurar o dom\u00ednio<br \/>\nportugu\u00eas. A maior extens\u00e3o do litoral brasileiro continuava<br \/>\n\u00e0 merc\u00ea de incurs\u00f5es estrangeiras. \u00c9 hora de D.<br \/>\nJo\u00e3o III mais uma vez justificar o cognome de Colonizador: seguindo<br \/>\nconselhos de um descendente de colonos das ilhas do Atl\u00e2ntico, Crist\u00f3v\u00e3o<br \/>\nJacques, do reitor da Universidade de Bord\u00e9us e de outros destaques<br \/>\nda corte, resolve implementar a coloniza\u00e7\u00e3o. A tantos bons conselhos<br \/>\nse acrescentou a cobi\u00e7a, objetivamente: manter o monop\u00f3lio oriental<br \/>\nera muito dispendioso e a not\u00edcia da descoberta de ouro e prata na<br \/>\nAm\u00e9rica Espanhola valorizou ainda mais o novo mundo.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil era um imenso<br \/>\ndesafio para um reino de dois milh\u00f5es de habitantes. A sa\u00edda,<br \/>\ncomo no caso do extrativismo vegetal do Pau-Brasil, foi transferir a particulares<br \/>\nos encargos desse empreendimento. Baseando-se nas informa\u00e7\u00f5es<br \/>\nemitidas por Martim Afonso, foi estabelecida a divis\u00e3o do litoral brasileiro<br \/>\nem 14 faixas lineares &#8211; as Capitanias Heredit\u00e1rias. Era a repeti\u00e7\u00e3o<br \/>\nda experi\u00eancia realizada nas ilhas de A\u00e7ores, Cabo Verde, Madeira,<br \/>\nPorto Santo, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe e no Territ\u00f3rio<br \/>\nde Angola, no continente africano. As capitanias foram entregues a 12 membros<br \/>\nda pequena nobreza &#8211; os donat\u00e1rios &#8211; dependentes do aparelho burocr\u00e1tico<br \/>\ndo Estado. Alguns nem vieram ao Brasil. O pequeno interesse e a aus\u00eancia<br \/>\nde significa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica destes aventureiros evidencia<br \/>\nque a iniciativa privada n\u00e3o acreditava nas possibilidades da terra.<\/p>\n<p>D. Jo\u00e3o III procurou incentivar os donat\u00e1rios concedendo-lhes<br \/>\namplos poderes, utilizando a ideologia feudal de prest\u00edgio e poder<br \/>\nassociados a extensos dom\u00ednios territoriais: cada capit\u00e3o era<br \/>\num rei.<\/p>\n<p>O embasamento jur\u00eddico da ocupa\u00e7\u00e3o da terra era garantido<br \/>\npela Carta de Doa\u00e7\u00e3o e pelo Foral. A Carta cedia ao donat\u00e1rio<br \/>\numa propriedade de 10 l\u00e9guas de terra ao longo da costa, em quatro<br \/>\nou cinco lotes, n\u00e3o sujeita a tributos, com exce\u00e7\u00e3o do<br \/>\nd\u00edzimo. Sobre o territ\u00f3rio total da capitania, apenas a posse.<br \/>\nHavia ainda os privil\u00e9gios da montagem de engenhos, venda de 24 \u00edndios<br \/>\npor ano em Portugal, red\u00edzima das rendas pertencentes \u00e0 coroa,<br \/>\nvintena do Pau-Brasil e d\u00edzima do quinto real sobre metais. O Foral<br \/>\nera uma esp\u00e9cie de c\u00f3digo tribut\u00e1rio, destinando os rendimentos<br \/>\ndos produtos da terra ao donat\u00e1rio e os da produ\u00e7\u00e3o do<br \/>\nsubsolo, mata e mar, cabendo \u00e0 Coroa. Era ainda pelo Foral que o donat\u00e1rio<br \/>\nconcedia sesmarias, que n\u00e3o podia retomar &#8211; direito privativo do rei.<br \/>\nEstabelecia ainda a liberdade de circula\u00e7\u00e3o de mantimentos e<br \/>\nmuni\u00e7\u00f5es na capitania, definindo a responsabilidade de defesa<br \/>\nda terra ao donat\u00e1rio e colonos.<\/p>\n<p>Algumas das caracter\u00edsticas desse processo de coloniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o medievais: extensas faixas territoriais entregues a senhores que<br \/>\ndisp\u00f5em de poder absoluto sobre coisas e pessoas. Mas do feudalismo<br \/>\ns\u00f3 tivemos alguns tra\u00e7os na estrutura pol\u00edtica e jur\u00eddica<br \/>\ndo sistema das Heredit\u00e1rias. A base econ\u00f4mica era a produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nescravista e exportadora, concentrada no mercado externo. O trabalho nunca<br \/>\nfoi essencialmente servil nem a produ\u00e7\u00e3o dominial, fechada.<br \/>\nE a estrutura de cl\u00e3s n\u00e3o era propriamente feudal, parental:<br \/>\nlimitava-se \u00e0 exist\u00eancia dos la\u00e7os familiares nobili\u00e1rquicos<br \/>\ne do enorme poder militar e pol\u00edtico dos senhores de terras e escravos.<\/p>\n<p>Genericamente, por interm\u00e9dio do sistema de capitanias foram consolidados<br \/>\nos objetivos de coloniza\u00e7\u00e3o e posse da terra. \u00c9 comum<br \/>\na avalia\u00e7\u00e3o do pouco progresso da col\u00f4nia neste per\u00edodo<br \/>\nresponsabilizando os \u00edndios e seus ataques. Ora, a resist\u00eancia<br \/>\n\u00e0 domina\u00e7\u00e3o portuguesa era a simples defesa da terra<br \/>\npelos seus leg\u00edtimos propriet\u00e1rios. Isso al\u00e9m de disporem<br \/>\nos invasores de superioridade militar. O problema maior foi a falta de investimentos<br \/>\ne a total aus\u00eancia de interesse em estabelecer rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nfraternas com os \u00edndios.<\/p>\n<p>Para coordenar as iniciativas de povoamento &#8211; ent\u00e3o muito isoladas<br \/>\n&#8211; D. Jo\u00e3o III criou o Governo Geral. Era sua fun\u00e7\u00e3o combater<br \/>\ntribos rebeldes (de prefer\u00eancia aliando-se a outras), promover entradas<br \/>\n\u00e0 procura de riquezas, fomentar a constru\u00e7\u00e3o naval (que<br \/>\ngarantiria a defesa contra ataques externos), incentivar a catequese e organizar<br \/>\nos colonos na defesa do territ\u00f3rio, entre outros. Uma das promo\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo primeiro governador-geral, Tom\u00e9 de Sousa, foi a vinda de jovens<br \/>\n\u00f3rf\u00e3s que iriam constituir fam\u00edlias cat\u00f3licas<br \/>\ncom os colonos.<\/p>\n<p>O verdadeiro poder pol\u00edtico da \u00e9poca estava nas unidades produtoras<br \/>\nem m\u00e3os da classe propriet\u00e1ria. E a m\u00e1quina governamental<br \/>\natendia a seus interesses.<\/p>\n<p>A classe dominante colonial estava voltada para suas fazendas. Seu poder<br \/>\n(e prest\u00edgio) estava evidente nas c\u00e2maras, mil\u00edcias, no<br \/>\nclero. A civiliza\u00e7\u00e3o do mundo da cruz se impunha pelo arcabuz.<br \/>\nAut\u00eanticos caudilhos, os senhores de escravos e terras, os homens bons<br \/>\n\u00e9 que conferiam vida \u00e0s c\u00e2maras do per\u00edodo colonial,<br \/>\no que perduraria durante a \u00e9poca imperial. O povo n\u00e3o participava<br \/>\nda administra\u00e7\u00e3o nem dispunha de representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi nascendo um Brasil bem diferente daquele que sequer tinha esse nome.<br \/>\nNascia tamb\u00e9m uma nova sociedade, de poucos senhores e muitos trabalhadores,<br \/>\na maioria escravos. Surgiram pequenas vilas, grandes planta\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncasas grandes das fazendas e fortifica\u00e7\u00f5es. Os primeiros donos<br \/>\nda terra se refugiaram no interior enquanto o litoral era transformado em<br \/>\ncanaviais.<\/p>\n<p>Isso tudo n\u00e3o acontecia por acaso. A explica\u00e7\u00e3o do<br \/>\nexpansionismo europeu est\u00e1 no mercantilismo e suas pr\u00e1ticas:<br \/>\ncom o desenvolvimento das muitas formas de acumula\u00e7\u00e3o de capital,<br \/>\nfoi acelerada a transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo.<br \/>\nA burguesia mercantil portuguesa (com apoio do Estado absolutista) se estabeleceu<br \/>\nna \u00c1sia e \u00c1frica, montando feitorias para a guarda do marfim,<br \/>\nmetais preciosos, especiarias, tecidos de luxo e homens escravizados. O neg\u00f3cio<br \/>\nera excelente &#8211; para os mercadores, claro. A venda de tudo isso na Europa<br \/>\nou na col\u00f4nia do novo mundo dava lucros fabulosos&#8230; E n\u00e3o precisava<br \/>\nproduzir nada: apenas fazer circular as mercadorias.<\/p>\n<p>A simples exist\u00eancia de feitorias n\u00e3o se mostrou satisfat\u00f3ria<br \/>\nna Am\u00e9rica. Para que as novas terras se tornassem um neg\u00f3cio<br \/>\nainda mais lucrativo, aumentando a acumula\u00e7\u00e3o capitalista, era<br \/>\nimperioso produzir. E para isto, intensificar a coloniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA agricultura comercial foi uma das solu\u00e7\u00f5es, baseada na produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nde g\u00eaneros tropicais, conforme as necessidades do mercado externo; o<br \/>\ncom\u00e9rcio determinando o empreendimento produtivo. A economia central<br \/>\n(metropolitana) era complementada pela col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Houve varia\u00e7\u00f5es nas formas dos esfor\u00e7os colonizadores<br \/>\nnas Am\u00e9ricas. Nas col\u00f4nias tropicais de zona temperada se desenvolveram<br \/>\nas denominadas col\u00f4nias de povoamento, recebendo o excedente demogr\u00e1fico<br \/>\nda Europa, como algumas col\u00f4nias inglesas da Am\u00e9rica do Norte;<br \/>\nnos tr\u00f3picos surgiram as col\u00f4nias chamadas de explora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom uma composi\u00e7\u00e3o social completamente original, como as col\u00f4nias<br \/>\nportuguesas e espanholas na Am\u00e9rica do Sul. O tra\u00e7o mais original<br \/>\n\u00e9 que a sociedade se baseava no latif\u00fandio, na extensa propriedade<br \/>\nagro-exportadora, denominadas plantation ou hacienda. Nesta sociedade h\u00e1<br \/>\num terr\u00edvel contraste entre a riqueza dos colonos branco-europeus,<br \/>\nmozambos (filhos de portugueses) ou criollos (filhos de espanh\u00f3is)<br \/>\nse contrapondo \u00e0 extrema mis\u00e9ria das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\na eles submetidas, nativas ou africanas. Enfim, a peculiaridade de uma sociedade<br \/>\nconstitu\u00edda essencialmente para benef\u00edcio da metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Para exercitar a domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica,<br \/>\no monop\u00f3lio \u00e9 fundamental aos interesses da classe propriet\u00e1ria.<br \/>\nSegundo o Bispo Azeredo Coutinho, um dos te\u00f3ricos do colonialismo portugu\u00eas<br \/>\ndo s\u00e9culo XVIII, temos o seguinte enunciado para estabelecer as atividades<br \/>\nna col\u00f4nia: \u201d(&#8230;) \u00c9 necess\u00e1rio que as col\u00f4nias,<br \/>\nde sua parte, sofram: 1) que s\u00f3 possam comerciar diretamente com a<br \/>\nmetr\u00f3pole, exclu\u00edda toda e qualquer outra na\u00e7\u00e3o,<br \/>\nainda que lhes fa\u00e7a um com\u00e9rcio mais vantajoso; 2) que n\u00e3o<br \/>\npossam ter f\u00e1bricas, principalmente de algod\u00e3o, linho e seda,<br \/>\ne que sejam obrigados a vestir-se das manufaturas e das ind\u00fastrias<br \/>\nda metr\u00f3pole. Desta sorte, os justos interesses e as relativas depend\u00eancias<br \/>\nmutuamente ser\u00e3o ligadas.\u201d A exclusividade da metr\u00f3pole<br \/>\ne o total dom\u00ednio das atividades pelos rein\u00f3is, comerciantes<br \/>\nportugueses, foi garantida com a cria\u00e7\u00e3o das Companhias Privilegiadas<br \/>\nde Com\u00e9rcio. Limita\u00e7\u00f5es foram impostas \u00e0 imprensa<br \/>\ne \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de livros. Como em todas as \u00e9pocas,<br \/>\neste tipo de censura visava impedir que id\u00e9ias novas sugerissem \u00e0<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o que essa explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o era justa<br \/>\ne nem resultava da vontade de Deus&#8230; S\u00e3o acrescidos impostos, taxas<br \/>\ne proibi\u00e7\u00f5es, definindo que a fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica<br \/>\nda col\u00f4nia \u00e9 suprir o que a metr\u00f3pole n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde produzir &#8211; e n\u00e3o concorrer com ela. O lucro deve ser m\u00e1ximo:<br \/>\noutro indicativo de que o modelo escravista \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nContra o trabalho livre, o interesse dos propriet\u00e1rios em impedir que<br \/>\nos assalariados, com o tempo, se apropriassem de glebas e desenvolvessem atividades<br \/>\nde subsist\u00eancia &#8211; j\u00e1 que havia abund\u00e2ncia de terras. Ficava<br \/>\nassim impedida (por meio da escravid\u00e3o) a inc\u00f4moda presen\u00e7a<br \/>\nde trabalhadores livres.<\/p>\n<p>Para as elites dominantes a escravid\u00e3o no Brasil era duplamente lucrativa:<br \/>\nincrementava a circula\u00e7\u00e3o da mercadoria humana &#8211; possibilitando<br \/>\n\u00e0 burguesia traficante a acumula\u00e7\u00e3o de lucros -, e garantia<br \/>\nelevados \u00edndices de produtividade com m\u00e3o-de-obra escrava de<br \/>\ncusto m\u00ednimo. Enquanto mercadoria o africano trazia alt\u00edssimos<br \/>\nlucros para os comerciantes da metr\u00f3pole &#8211; o que n\u00e3o era o caso<br \/>\nda escravid\u00e3o dos ind\u00edgenas, apenas um &#8220;neg\u00f3cio<br \/>\nlocal&#8221;. Quanto aos lucros na produ\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda for\u00e7a do escravo garantia os recursos para a renova\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos meios de trabalho, assalariamento dos poucos trabalhadores especializados<br \/>\ne a continuidade do tr\u00e1fico. Ali\u00e1s, a manuten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo tr\u00e1fico era fundamental, visto que o crescimento vegetativo da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nnegra era insuficiente para atender \u00e0 demanda. Essas raz\u00f5es<br \/>\nterminaram dominando os religiosos que vieram para o Brasil e n\u00e3o apenas<br \/>\nderam cobertura ideol\u00f3gica \u00e0 escravid\u00e3o, como a praticaram<br \/>\nem larga e proveitosa escala. O padre Vieira, a quem se deve tanta indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\ncontra a explora\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, colocado certa vez diante<br \/>\ndo dilema de ficar ao lado dos escravistas do Maranh\u00e3o ou do lado dos<br \/>\nsilv\u00edcolas, n\u00e3o fugiu \u00e0 conclus\u00e3o de que era \u201cf\u00e1cil<br \/>\nconciliar a consci\u00eancia com o interesse\u201d. Foi assim que tivemos<br \/>\ndesde o s\u00e9culo XVI o Poder Temporal e o Poder Espiritual conciliando<br \/>\na consci\u00eancia com o interesse, a cruz com o arcabuz, a castidade com<br \/>\no estupro, a fraternidade com a escravid\u00e3o, o direito com a for\u00e7a.<\/p>\n<p>NAVEGAR \u00c9 PRECISO&#8230;<\/p>\n<p>A expans\u00e3o mar\u00edtima teve como significado a escraviza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos africanos. Desde meados do s\u00e9culo XV os negros foram submetidos<br \/>\nao trabalho nas planta\u00e7\u00f5es do sul de Portugal (Algarve), nas<br \/>\nminas da Espanha e servi\u00e7os dom\u00e9sticos em geral na Fran\u00e7a<br \/>\ne Inglaterra.<\/p>\n<p>No decorrer do tempo e como resultado da valoriza\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico<br \/>\nnegreiro &#8211; uma atividade comercial altamente lucrativa &#8211; as formas de explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre o continente negro foram se sofisticando. Chefes de grupos tribais eram<br \/>\ncorrompidos por mercadores europeus em troca de tecidos, j\u00f3ias, metais<br \/>\npreciosos (como ouro e cobre), armas, tabaco, algod\u00e3o, cacha\u00e7a<br \/>\ne mesmo b\u00fazios &#8211; considerados objetos sagrados, e at\u00e9 funcionando<br \/>\ncomo moeda.<\/p>\n<p>As incurs\u00f5es com o objetivo de apresar nativos foram se tornando<br \/>\nraras, j\u00e1 que os sobas, chefes locais, se encarregavam da apreens\u00e3o<br \/>\nda mercadoria, inclusive organizando ataques a outras tribos. O com\u00e9rcio<br \/>\ncome\u00e7ava a ser feito harmonicamente&#8230;<\/p>\n<p>Ao serem embarcados nos portos da \u00c1frica os negros eram batizados<br \/>\npelos padres encarregados de convert\u00ea-los ao cristianismo e marcados<br \/>\ncom ferro quente. A marca servia tamb\u00e9m para distinguir os batizados<br \/>\ndaqueles que ainda n\u00e3o haviam recebido os sacramentos&#8230; Viajando nos<br \/>\npor\u00f5es dos navios negreiros, chamados tumbeiros, amontoados como coisas,<br \/>\nna mais completa promiscuidade, in\u00fameros africanos morriam em raz\u00e3o<br \/>\ndos maus tratos e doen\u00e7as, dos ferimentos diversos e ainda sucumbindo<br \/>\nante a condi\u00e7\u00e3o desumana a que eram submetidos. A dor imensa<br \/>\ncausada pela perda da liberdade, o afastamento de tudo que lhes era caro,<br \/>\nprovocava o banzo &#8211; sentimento de revolta, dor, pesar e nostalgia. Depois,<br \/>\nvinha a morte. Rugendas fez o registro: \u201cTenha-se a imagem cruel do<br \/>\nnegro em face da separa\u00e7\u00e3o de tudo quanto lhe era caro e sejam<br \/>\nrecordados os efeitos do mais profundo abatimento ou mais terr\u00edvel<br \/>\ndesespero de esp\u00edrito, unido \u00e0s priva\u00e7\u00f5es do corpo<br \/>\ne \u00e0s prova\u00e7\u00f5es da viagem. Ent\u00e3o n\u00e3o se<br \/>\nestranhar\u00e1 a baixa mortal de tantos, no alto-mar.\u201d Na chegada<br \/>\n\u00e0s terras brasileiras os negros eram leiloados. E as melhores pe\u00e7as<br \/>\nde imediato adquiridas por capatazes ou pelos pr\u00f3prios senhores, que<br \/>\nn\u00e3o raro se dedicavam \u00e0 escolha cuidadosa dos cativos.<\/p>\n<p>A vida rural predominava com caracter\u00edsticas de explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nque perduram at\u00e9 os dias atuais. Ali\u00e1s, t\u00eam um forte sabor<br \/>\nde atualidade as observa\u00e7\u00f5es feitas por frei Vicente do Salvador<br \/>\na respeito dos h\u00e1bitos extrativistas cultivados pelos colonizadores<br \/>\neuropeus: \u201cN\u00e3o s\u00f3 os que de l\u00e1 vieram, mas tamb\u00e9m<br \/>\nos que nasceram c\u00e1, n\u00e3o usam da terra como senhores, mas como<br \/>\nusufrutu\u00e1rios, s\u00f3 para a desfrutarem e a deixarem destru\u00edda.\u201d<br \/>\nOs africanos trabalhavam nas lavouras e tarefas dom\u00e9sticas nas casas<br \/>\ndos senhores. Viviam nas senzalas, quase sempre formadas de muitas constru\u00e7\u00f5es<br \/>\napertadas umas \u00e0s outras. Na senzala e na casa grande, onde moravam<br \/>\nos donos dos engenhos, o propriet\u00e1rio era senhor absoluto. Os negros<br \/>\neram submetidos aos trabalhos for\u00e7ados e cabia aos feitores estabelecer<br \/>\na disciplina e garantir a produtividade dos escravos.<\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XVI e XVII o Rio de Janeiro, Salvador e Recife foram<br \/>\nos mais importantes centros receptores de negros sudaneses &#8211; como os iorub\u00e1s,<br \/>\ngeges, haussas e minas; de bantos &#8211; como os angolas e os cabindas; e de mal\u00eas,<br \/>\nde idioma \u00e1rabe e islamizados.<\/p>\n<p>Um alto pre\u00e7o foi pago em raz\u00e3o da cruel valoriza\u00e7\u00e3o<br \/>\nmercantilista do homem negro, absurda fonte da riqueza dos que traficavam<br \/>\ne dos que o utilizavam, como afirma Herbert Aptheker: \u201cEm quatro s\u00e9culos,<br \/>\ndo XV ao XIX, a \u00c1frica perdeu, entre escravizados e mortos, 65 a 75<br \/>\nmilh\u00f5es de pessoas e estas constituem uma parte selecionada da popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\numa vez que ningu\u00e9m, intencionalmente, escraviza os velhos, os aleijados,<br \/>\nos doentes\u201d.<\/p>\n<p>Afonso Taunay estima que teriam entrado no Brasil, nos s\u00e9culos XVI,<br \/>\nXVII e XVIII, respectivamente 100.000, 600.000 e 1.300.000 negros escravizados.<br \/>\nArrancados \u00e0 for\u00e7a da sua terra, uma vida de sacrif\u00edcios<br \/>\nos aguardava: trabalho \u00e1rduo de sol a sol nas grandes fazendas-engenhos<br \/>\nde a\u00e7\u00facar, por exemplo. T\u00e3o grande era o esfor\u00e7o<br \/>\nque um africano sobrevivia em m\u00e9dia de sete a dez anos. Chegar ao Brasil<br \/>\nj\u00e1 era uma demonstra\u00e7\u00e3o de incr\u00edvel resist\u00eancia:<br \/>\ncerca de 40% dos negros malungos, denomina\u00e7\u00e3o para os aprisionados<br \/>\ne transportados, pereciam durante a viajem.<\/p>\n<p>Charles Ribeyrolles discorreu longamente acerca dos trabalhos desenvolvidos<br \/>\npelos negros no Brasil: \u201cQuem cavou a terra, quem abriu as galerias,<br \/>\ndesviou as correntes, lavou as areias, achou o ouro e os diamantes? Os negros.<br \/>\nAs tribos dos \u00edndios foram escorra\u00e7adas pelos colonos propriet\u00e1rios,<br \/>\nde floresta em floresta ou de morro em morro. Mas quem arroteou os terrenos<br \/>\ne cultivou o solo, ou quem semeou, plantou e colheu? Os negros. Quem aprontou<br \/>\nos trabalhos do campo, t\u00e3o rudes e penosos, em plena zona t\u00f3rrida,<br \/>\ne quem se encontrava a mourejar nas usinas, moinhos, estaleiros e estradas?<br \/>\nOs negros.\u201d J\u00e1 foi dito que os escravos faziam de tudo. Eram<br \/>\nas m\u00e3os e p\u00e9s do senhor de engenho. As riquezas produzidas no<br \/>\nBrasil dependiam desses trabalhadores. Andr\u00e9 Jo\u00e3o Antonil, jesu\u00edta<br \/>\nque analisou nossa vida econ\u00f4mica e social em seu Cultura e Opul\u00eancia<br \/>\ndo Brasil por Suas Drogas e Minas, escrito no in\u00edcio do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII, noticia a necessidade da importa\u00e7\u00e3o de trabalhadores<br \/>\nescravizados por serem indispens\u00e1veis. Afirmou Antonil: \u201c(&#8230;)<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio comprar cada ano algumas pe\u00e7as e reparti-las<br \/>\npelos partidos, ro\u00e7as, serrarias e barcas.\u201d As tarefas mais especializadas<br \/>\n(de caldeireiro, carpinteiro, tacheiro e marinheiro) eram realizadas pelos<br \/>\nnegros que se adaptavam mais rapidamente \u00e0 nova situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nServi\u00e7os brutais eram realizados por homens e mulheres que tamb\u00e9m<br \/>\npegavam na foice e na enxada, nos canaviais, nas oficinas ou na casa grande;<br \/>\ne um n\u00famero pequeno de trabalhadores livres, assalariados, desempenhando<br \/>\nfun\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia ou que exigiam conhecimento t\u00e9cnico<br \/>\n&#8211; como no caso do preparo do a\u00e7\u00facar &#8211; aumentavam a enorme multid\u00e3o<br \/>\nde explorados.<\/p>\n<p>Formadas de ro\u00e7as e pomares, as grandes fazendas alcan\u00e7avam<br \/>\npraticamente a auto-sufici\u00eancia. Era comum os escravos terem um dia<br \/>\nna semana para plantarem para si; o b\u00e1sico em sua alimenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nera a mandioca. Havia ainda nos engenhos outros homens livres e expropriados,<br \/>\nque n\u00e3o foram integrados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o mercantil.<br \/>\nComo trabalhavam nas ro\u00e7as de subsist\u00eancia eram chamados roceiros.<br \/>\nComo pagamento do seu trabalho os escravos recebiam castigos: &#8220;pau, pano<br \/>\ne p\u00e3o&#8221;. E reagiam. Em troca dos tormentos, assassinavam feitores,<br \/>\nsuicidavam-se, evitavam a reprodu\u00e7\u00e3o, eliminavam capit\u00e3es-do-mato<br \/>\ne mesmo propriet\u00e1rios. A resist\u00eancia se manifestava nos seus<br \/>\ncultos, onde a domina\u00e7\u00e3o era simbolicamente contestada. O candombl\u00e9<br \/>\nfoi &#8211; e ainda \u00e9 &#8211; um ritual de liberdade, protesto, rea\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 crueldade e opress\u00e3o do Deus dos brancos. Dan\u00e7ar, batucar,<br \/>\nrezar e cantar eram modos encontrados para al\u00edvio da asfixia da escravid\u00e3o.<br \/>\nA domina\u00e7\u00e3o era contestada tamb\u00e9m ao n\u00edvel do<br \/>\nreal &#8211; na fuga das fazendas e na forma\u00e7\u00e3o de quilombos, aldeias<br \/>\nde negros foragidos, onde tentavam reconstituir em matas brasileiras o modo<br \/>\nde vida que levavam na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Em seu esfor\u00e7o para estabelecer a verdade quanto ao aut\u00eantico<br \/>\ntrabalho de constru\u00e7\u00e3o do Brasil, informa Ribeyrolles: \u201cNas<br \/>\nch\u00e1caras, nas fazendas, nas moradas urbanas, nas ruas e nas pra\u00e7as<br \/>\ndas grandes cidades, sobre quem reca\u00edam os trabalhos servis e dom\u00e9sticos?<br \/>\nNas f\u00e1bricas e nas oficinas, quem girava as molas, acendia os fornos,<br \/>\nesfregava, suava, carregava e se incumbia, numa s\u00f3 palavra, dos mais<br \/>\nbaixos misteres? Os negros, os negros, quase unicamente os negros. O trabalho<br \/>\nafricano, em todas as coisas e todas as tarefas, foi o instrumento, a m\u00e3o,<br \/>\na roda e a ferramenta, intervindo em tudo como agente de produ\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndos transportes e das mudan\u00e7as, vivendo para todos os servi\u00e7os<br \/>\ne todos os encargos.\u201d Os castigos corporais eram uma constante. Puni\u00e7\u00f5es<br \/>\ninimagin\u00e1veis aplicadas sem compaix\u00e3o. O trabalho di\u00e1rio<br \/>\nconstitu\u00eda jornada estafante e muitos senhores estabeleciam que os<br \/>\nnegros deviam prover o pr\u00f3prio sustento, atrav\u00e9s do cultivo,<br \/>\nfora das horas de trabalho &#8211; no que seria o per\u00edodo de descanso &#8211; das<br \/>\nlavouras para a subsist\u00eancia. Com isto, n\u00e3o havia repouso suficiente<br \/>\npara a reposi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Tudo acontecia sob os olhos<br \/>\natentos dos prepostos dos senhores, vigilantes a qualquer sinal de rebeldia.<\/p>\n<p>A grande maioria dos negros se situava entre a oposi\u00e7\u00e3o aberta<br \/>\n\u00e0 escravid\u00e3o e a submiss\u00e3o conformada.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, os africanos passavam a ter conhecidas as caracter\u00edsticas<br \/>\nde seu comportamento frente \u00e0 escravid\u00e3o. Os escravistas puderam<br \/>\nformar conceitos quanto \u00e0 natureza de cada tipo; muitos jamais aceitaram<br \/>\na domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando esgotavam as possibilidades de barganhas e concess\u00f5es partia-se<br \/>\npara a ruptura ? o confronto direto.<\/p>\n<p>As fugas eram rotineiras e havia aqueles que se prestavam ao papel de tentar<br \/>\nrecaptur\u00e1-los, de prefer\u00eancia com vida, para retornarem ao cativeiro;<br \/>\nse fosse preciso, mortos &#8211; para servirem como exemplo e desencorajar novas<br \/>\ntentativas. O aprisionamento dos fugitivos competia aos capit\u00e3es-do-mato,<br \/>\nque contavam com auxiliares e a colabora\u00e7\u00e3o oficial da Justi\u00e7a<br \/>\ncolonial.<\/p>\n<p>O ambiente das senzalas era o que restava aos negros para tentar a preserva\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas suas dimens\u00f5es humanas, at\u00e9 que surgisse a oportunidade<br \/>\nprop\u00edcia \u00e0 fuga. Sob o disfarce de cantigas e dan\u00e7as<br \/>\nsobreviviam suas cren\u00e7as e ritos, como a mais inocente forma de divers\u00e3o.<\/p>\n<p>Gravuras e desenhos feitos pelos primeiros estudiosos que visitaram as terras<br \/>\namericanas, registraram cenas da vida na sociedade colonial, onde se encontra<br \/>\nimpressa a for\u00e7a das manifesta\u00e7\u00f5es da cultura africana.<\/p>\n<p>Ao som dos atabaques permanecia vivo o culto aos orix\u00e1s e outras<br \/>\ndan\u00e7as das quais se perdeu a mem\u00f3ria, mas de onde nasceria o<br \/>\njogo da Capoeira: os movimentos de corpo dos africanos &#8211; gestos ancestrais<br \/>\npreservados em suas dan\u00e7as &#8211; serviram com base para a elabora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma luta coletiva; afinal, os meneios de corpo, o jeito solto e \u00e1gil,<br \/>\nservem perfeitamente tanto ao fasc\u00ednio da dan\u00e7a quanto \u00e0<br \/>\nmagia da luta.<\/p>\n<p>Sabe-se que os negros eram insuper\u00e1veis na luta corpo a corpo, tamb\u00e9m<br \/>\nnuma conseq\u00fc\u00eancia direta do vigor f\u00edsico comprovado no estafante<br \/>\ntrabalho muscular que exigia alta carga de for\u00e7a. Habituados aos rigores<br \/>\nda vida na \u00c1frica, as tarefas que antes se constitu\u00edam em atividade<br \/>\nnecess\u00e1ria na terra natal eram institu\u00eddas como trabalho for\u00e7ado<br \/>\nno Brasil. A aparente submiss\u00e3o era o modo dos cativos de costumes<br \/>\ne culturas diferentes ganharem o tempo necess\u00e1rio para criar &#8211; ou simplesmente<br \/>\naproveitar &#8211; a oportunidade de fuga, dificultada pelo fato de sequer possu\u00edrem<br \/>\numa l\u00edngua comum.<\/p>\n<p>A express\u00e3o corporal nos ensina h\u00e1 mil\u00eanios uma linguagem<br \/>\nque permite a comunica\u00e7\u00e3o sem palavras, estabelecendo a fraternidade<br \/>\nnos gestos comuns: a dan\u00e7a revela os sentimentos e evidencia id\u00e9ias,<br \/>\nna pl\u00e1stica e harmonia dos movimentos. Pois disto se serviram os negros:<br \/>\nprotestando e se insurgindo, individual ou coletivamente, expressando a linguagem<br \/>\ndo corpo na revolta, na insubordina\u00e7\u00e3o \u00e0s regras do jogo<br \/>\ndo sistema colonial: formando quilombos, promovendo fugas, e assassinando<br \/>\nsenhores; mas sua luta passou especialmente pela afirma\u00e7\u00e3o de<br \/>\nsua cultura.<\/p>\n<p>As fugas dos escravos se tornaram cada vez mais organizadas. \u00c9 f\u00e1cil<br \/>\nimaginar o negro desarmado, por\u00e9m ex\u00edmio no manejo do corpo,<br \/>\na desfechar o golpe certeiro, no momento oportuno &#8211; para em seguida ganhar<br \/>\na liberdade. Livre, o terreno de pouco mato era adequado \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o<br \/>\nda liberdade, permitindo o enfrentamento dos perseguidores. A vegeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nrasteira, denominada em l\u00edngua tupy ca\u00e1-puera iria dar nome<br \/>\naos guerreiros e \u00e0 sua luta: Capoeira.<\/p>\n<p>A Capoeira \u00e9 um bom exemplo de como os negros agiam com mal\u00edcia<br \/>\ndissimulando sua verdadeira inten\u00e7\u00e3o ao enfrentar os senhores<br \/>\ne seus agentes. Para disfar\u00e7\u00e1-la, a ginga ? que fazia dela ao<br \/>\nmesmo tempo uma luta e uma dan\u00e7a! Cada negro recapturado trazia em<br \/>\nsi a certeza da liberdade. Tudo apenas uma quest\u00e3o de tentar sempre.<br \/>\nNa pr\u00f3xima tentativa&#8230; E as fugas se sucediam.<\/p>\n<p>Nas matas, os negros que conquistavam a liberdade formavam quilombos, onde<br \/>\nviviam segundo regras pr\u00f3prias. Estas comunidades foram numerosas desde<br \/>\nmeados do s\u00e9culo XVI, havendo-as em todas as capitanias e principalmente<br \/>\nna regi\u00e3o de Pernambuco e Alagoas. A\u00ed houve uma verdadeira na\u00e7\u00e3o,<br \/>\nconhecida como Palmares, que enfrentou bravamente os escravocratas.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o de Palmares aconteceu depois de cerca de sessenta<br \/>\nanos de luta, por for\u00e7as comandadas pelo paulista Domingos Jorge Velho<br \/>\ne o pernambucano Bernardo Vieira de Melo. Mas este fato n\u00e3o significou<br \/>\nderrota total. Cresceu da\u00ed a consci\u00eancia da pr\u00f3pria for\u00e7a<br \/>\nno povo negro e a certeza de que poderia encontrar a liberdade, nas terras<br \/>\npara onde veio trazido como escravo.<\/p>\n<p>Palmares ficou como ponto de refer\u00eancia de uma gente espalhada por<br \/>\ntodas as partes deste pa\u00eds, simbolizando uma luta secular de liberta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um povo que se identifica n\u00e3o somente pela pigmenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nda pele, mas pela mesma heran\u00e7a cultural. A luta do povo de Palmares<br \/>\nest\u00e1 viva como ponto de partida para chegarmos a uma sociedade livre.<\/p>\n<p>Desde a \u00e9poca da campanha dos escravistas contra o Quilombo de Palmares<br \/>\nficou o registro da luta her\u00f3ica em defesa da autonomia cultural.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia da Capoeira resulta da longa luta por reconhecimento<br \/>\ncultural travada ao longo dos quatro s\u00e9culos de cativeiro. E o termo<br \/>\ncapoeira, nome dos guerreiros das capoeiras e de sua estranha forma de luta,<br \/>\nque tornava homens desarmados capazes de enfrentar e vencer v\u00e1rios<br \/>\nadvers\u00e1rios, corporifica ainda hoje nos jovens praticantes do s\u00e9culo<br \/>\nXXI. Assim \u00e9 que a luta dos africanos e seus descendentes afro-brasileiros<br \/>\nsubsiste no jogo da Capoeira.<\/p>\n<p>A respeito das origens remotas da Capoeira \u00e9 interessante transcrever<br \/>\nAlbano de Neves e Souza, que escreveu de Luanda, Angola, a Luis da C\u00e2mara<br \/>\nCascudo, afirmando: \u201cEntre os Mucope do sul de Angola, h\u00e1 uma<br \/>\ndan\u00e7a da zebra N\u2019Golo, que ocorre durante a Efundula, festa da<br \/>\npuberdade das raparigas, quando essas deixam de ser muficuemas, meninas, e<br \/>\npassam \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mulheres, aptas ao casamento e \u00e0<br \/>\nprocria\u00e7\u00e3o. O rapaz vencedor do N\u2019Golo tem o direito de<br \/>\nescolher esposa entre as novas iniciadas e sem pagar o dote esponsal\u00edcio.<br \/>\nO N\u2019Golo \u00e9 a Capoeira.\u201d Em seguida, Albano de Neves e Souza<br \/>\npassa a expor sua teoria a respeito da evolu\u00e7\u00e3o do N\u2019Golo<br \/>\nno Brasil: \u201cOs escravos das tribos do sul que foram atrav\u00e9s do<br \/>\nentreposto de Benguela levaram a tradi\u00e7\u00e3o de luta de p\u00e9s.<br \/>\nCom o tempo, o que era em princ\u00edpio uma tradi\u00e7\u00e3o tribal<br \/>\nfoi-se transformando numa arma de ataque e defesa que os ajudou a subsistir<br \/>\ne a impor-se num meio hostil\u201d. Neves de Souza acrescenta algumas informa\u00e7\u00f5es<br \/>\ne conclui pela origem africana da Capoeira: \u201cOs piores bandidos de Benguela<br \/>\nem geral s\u00e3o muxilengues, que na cidade usam os passos do N\u2019Golo<br \/>\ncomo arma. (&#8230;) Outra das raz\u00f5es que me levam a atribuir a origem<br \/>\nda Capoeira ao N\u2019Golo \u00e9 que no Brasil \u00e9 costume os malandros<br \/>\ntocarem um instrumento a\u00ed chamado de Berimbau e que n\u00f3s chamamos<br \/>\nhungu ou m\u2019bolumbumba, conforme os lugares, e que \u00e9 tipicamente<br \/>\npastoril, instrumento esse que segue os povos pastoris at\u00e9 a Swazil\u00e2ndia,<br \/>\nna costa oriental da \u00c1frica.\u201d Estes relatos ilustram hip\u00f3teses<br \/>\nquanto \u00e0s origens da Capoeira. Note-se que essas dan\u00e7as s\u00e3o<br \/>\nconhecidas no Brasil apenas atrav\u00e9s da literatura sobre o assunto.<br \/>\nA hist\u00f3ria da Capoeira aguarda pesquisa minuciosa em terras africanas<br \/>\ncom o objetivo de constatar nessas dan\u00e7as os poss\u00edveis elementos<br \/>\nformadores da Capoeira. Dan\u00e7as com caracter\u00edsticas de luta j\u00e1<br \/>\nforam identificadas em Cuba, Martinica, na Venezuela e em outras localidades<br \/>\ndas Am\u00e9ricas, mas discute-se se teriam origens comuns \u00e0 Capoeira.<br \/>\nConcretamente, temos a luta dos negros, elaborada a partir de gestos e movimentos<br \/>\npr\u00f3prios dos africanos, cuja fonte prim\u00e1ria \u00e9 a terra<br \/>\nde onde vieram os guerreiros : a \u00c1frica. De l\u00e1 veio o elemento<br \/>\nmatriz no processo que culminou no jogo da Capoeira &#8211; o negro! &#8211; e os movimentos<br \/>\ncorporais da capoeira atual s\u00e3o fragmentos atualizados da mem\u00f3ria<br \/>\nnegra afro-brasileira. Recriando a cultura africana nessa terra, os negros<br \/>\nn\u00e3o ficaram passivos diante de sua nova condi\u00e7\u00e3o. Desterrados<br \/>\ne escravizados, combateram o poder escravista com uma rica produ\u00e7\u00e3o<br \/>\ncultural, conquistando espa\u00e7os e recriando sua autonomia e identidade<br \/>\n\u00e9tnica em solo brasileiro. E acabou brasileira esse jogo-luta, como<br \/>\ntestemunhou Charles Ribeyrolles, um franc\u00eas que aproveitou o tempo vivido<br \/>\nem nossa terra &#8211; exilado por Napole\u00e3o III &#8211; para retratar os costumes<br \/>\nda na\u00e7\u00e3o que se formava: \u201cNo s\u00e1bado \u00e0 noite,<br \/>\nfinda a \u00faltima tarefa da semana, e nos dias santificados, que trazem<br \/>\nfolga e descanso, concedem-se aos escravos uma ou duas horas para a dan\u00e7a.<br \/>\nRe\u00fanem-se no terreiro, chamam-se, agrupam-se, incitam-se e a festa<br \/>\nprincipia. Aqui \u00e9 a capoeira, esp\u00e9cie de dan\u00e7a p\u00edrrica,<br \/>\nde evolu\u00e7\u00f5es atrevidas e combativas, ao som do tambor do congo.\u201d<\/p>\n<p>A ORIGEM DO TERMO CAPOEIRA<\/p>\n<p>\u00c9 de aceita\u00e7\u00e3o geral a hip\u00f3tese do jogo de agilidade<br \/>\ncorporal ter sido o instrumento utilizado pelos escravos fugitivos na defesa<br \/>\ncontra seus perseguidores, representados pela figura do capit\u00e3o-do-mato.<br \/>\nE era no mato que se travava a luta decisiva. Pois foi desse tipo de mato<br \/>\n&#8211; a capoeira &#8211; onde os negros buscavam ref\u00fagio e ofereciam resist\u00eancia<br \/>\naos perseguidores, que surgiu tamb\u00e9m a pol\u00eamica que por longo<br \/>\ntempo consumiu em debates intermin\u00e1veis in\u00fameros intelectuais.<\/p>\n<p>Uma das teorias quanto \u00e0 origem da express\u00e3o capoeira estabelece<br \/>\na l\u00edngua tupy como aquela de onde procederia a vernaculiza\u00e7\u00e3o:<br \/>\nca\u00e1-pu\u00eara (ca\u00e1 = mato; pu\u00eara = que j\u00e1 foi)<br \/>\nresultaria nos brasileirismos capu\u00edra, capo\u00eara e capoeira. Outros<br \/>\nestudiosos afirmam que a acep\u00e7\u00e3o capoeira designa um tipo especial<br \/>\nde cesto, usado no transporte de galinhas, que eram conduzidas por escravos<br \/>\naos mercados. A esses escravos teria se estendido o emprego da denomina\u00e7\u00e3o<br \/>\nprimeiramente aplicada \u00e0s gaiolas. Segundo os defensores dessa hip\u00f3tese,<br \/>\nenquanto aguardavam a chegada dos comerciantes, os escravos se divertiam na<br \/>\npr\u00e1tica do brinquedo que tamb\u00e9m seria abrangido pelo nome capoeira.<br \/>\nFora da discuss\u00e3o da origem do termo &#8211; assunto para fil\u00f3logos,<br \/>\ncomo Pl\u00ednio Ayrosa e Antenor Nascentes &#8211; temos concretamente o &#8216;jogo<br \/>\nda capoeira&#8217; com defini\u00e7\u00e3o \u00fanica e universal. Resta ainda<br \/>\na palavra capoeiragem, empregada para nomear a pr\u00e1tica desse jogo e<br \/>\nutilizada no C\u00f3digo Penal de 1890 pelos juristas da \u00e9poca, que<br \/>\npuniam a pr\u00e1tica do jogo, classificando-o como atividade criminosa.<\/p>\n<p>ZUMBI: O MESTRE DA RESIST\u00caNCIA<\/p>\n<p>\u201cZumbi, comandante-guerreiro\/Ogum-i\u00ea, ferreiro mor, capit\u00e3o\/Da<br \/>\ncapitania da minha cabe\u00e7a\/Mandai alforria pro meu cora\u00e7\u00e3o\u201d<br \/>\nGilberto Gil &amp; Walid Salom\u00e3o, Zumbi, a felicidade guerreira<\/p>\n<p>Na l\u00edngua dos negros, &#8216;quilombo&#8217; significava povoa\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncapital, uni\u00e3o; no Brasil, teve por significado local de ref\u00fagio.<br \/>\nOs quilombos eram divididos em aldeias de nome mocambo. Seus integrantes eram<br \/>\nchamados quilombolas, calhambolas, mocambeiros.<\/p>\n<p>Zumbi nasceu no quilombo de Palmares por volta de 1655. D\u00e9cadas antes<br \/>\ndo seu nascimento este quilombo havia sido fundado por um grupo de escravos<br \/>\nfugidos de um engenho no sul de Pernambuco. Localizado bem no alto de uma<br \/>\nserra, onde est\u00e3o hoje situadas partes dos Estados de Alagoas e Pernambuco,<br \/>\nde l\u00e1 era poss\u00edvel a vis\u00e3o privilegiada das imedia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Her\u00f3i do povo afro-brasileiro, coube a Zumbi liderar a gente do quilombo<br \/>\nnum momento decisivo da luta contra os escravistas, empenhados em sufocar<br \/>\na semente da liberdade que teimava por crescer no solo brasileiro.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria daquele que seria o Zumbi come\u00e7a quando um grupo<br \/>\nde expedicion\u00e1rios liderados por um comandante chamado Br\u00e1s<br \/>\nda Rocha ataca Palmares, no ano de 1655, levando um rec\u00e9m-nascido,<br \/>\nentre os adultos capturados. A crian\u00e7a foi entregue ao chefe da coluna<br \/>\natacante, que por sua vez resolveu fazer um presente ao padre Melo, cura de<br \/>\nPorto Calvo. O religioso decidiu cham\u00e1-lo Francisco. O garoto aprendeu<br \/>\na l\u00edngua latina, o portugu\u00eas e dando mostras da intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>A grande batalha do chefe guerreiro Zumbi, zelando dia e noite pela seguran\u00e7a<br \/>\ndo seu povo e lutando para que n\u00e3o fosse extinto o ideal de se formarem<br \/>\ncomunidades onde conviviam negros, \u00edndios e brancos, come\u00e7ou<br \/>\nao completar quinze anos, em 1670. Nesse ano Francisco fugiu do padre Melo<br \/>\ne voltou para Palmares. Livre desde que nasceu, deixou para tr\u00e1s uma<br \/>\nvida muito diferente daquela que iria levar.<\/p>\n<p>Quando Francisco voltou a Palmares, o quilombo havia se transformado numa<br \/>\nfortaleza. Segundo estudos recentes, dez mil pessoas, aproximadamente, viviam<br \/>\nno local Eram negros fugidos, mulheres capturadas, al\u00e9m de \u00edndios<br \/>\ne brancos que se escondiam da justi\u00e7a colonial portuguesa. Plantava-se<br \/>\nde tudo para o sustento da popula\u00e7\u00e3o quilombola: feij\u00e3o,<br \/>\nmilho, mandioca, cana-de-a\u00e7\u00facar, batata. E muitos desses artigos<br \/>\neram comercializados clandestinamente com as cidades vizinhas, pobres em g\u00eaneros<br \/>\naliment\u00edcios porque se dedicavam a uma \u00fanica cultura: o plantio<br \/>\nda cana-de-a\u00e7\u00facar, base da economia de exporta\u00e7\u00e3o<br \/>\npredominante nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p>O quilombo de Palmares era uma pequena \u00c1frica onde os negros procuravam<br \/>\nresgatar suas ra\u00edzes, inclusive abandonando os nomes recebidos dos<br \/>\nescravistas e trocando por outros de origem africana. \u00c0 frente desse<br \/>\npovoado estava Ganga Zumba e nas pequenas aldeias lideravam chefes locais.<\/p>\n<p>Ao retornar a Palmares, Francisco, com seus quinze anos, passou a ser Zumbi.<br \/>\nVale lembrar que o Deus principal de Camar\u00f5es e do Congo \u00e9 chamado<br \/>\nNzambi; em Angola denominavam Zambi o que morreu; e no Caribe, Zumbis s\u00e3o<br \/>\nmortos-vivos, criaturas que mesmo no al\u00e9m jamais descansam.<\/p>\n<p>Em Palmares foi livremente constitu\u00edda sua fam\u00edlia &#8211; pai,<br \/>\nirm\u00e3os, tias e tios. O principal dentre seus parentes: Ganga Zumba.<br \/>\nPouco depois de retornar ao quilombo, Zumbi j\u00e1 era chefe de um desses<br \/>\nmocambos e defendia a regi\u00e3o com imensa habilidade.<\/p>\n<p>Palmares sofreu diversas investidas durante quase cem anos. Quando os holandeses<br \/>\ninvadiram o Brasil, por volta de 1624, esses ataques diminu\u00edram muito:<br \/>\nos colonos lusitanos estavam mais preocupados em defender o territ\u00f3rio<br \/>\ndas amea\u00e7as externas. Foi nessa \u00e9poca que o Quilombo mais se<br \/>\ndesenvolveu. Entretanto, ap\u00f3s a expuls\u00e3o holandesa em 1654,<br \/>\numa verdadeira campanha contra Palmares se fez surgir. Dezessete expedi\u00e7\u00f5es<br \/>\norganizadas por vilas pr\u00f3ximas, bem como pelo pr\u00f3prio governo<br \/>\nde Pernambuco, embrenharam-se pela mata para derrubar os palmarinos.<\/p>\n<p>Em 1677, um tal Fern\u00e3o Carrilho, ex\u00edmio ca\u00e7ador de<br \/>\nnegros entrou em a\u00e7\u00e3o. Marchando contra Palmares com seus combatentes,<br \/>\nCarrilho conseguiu derrubar alguns chefes de mocambos e matar v\u00e1rios<br \/>\nquilombolas. Neste ataque, Ganga Zumba foi ferido, mas ainda assim conseguiu<br \/>\nfugir. Em decorr\u00eancia disso, foi levado a aceitar um tratado de paz<br \/>\nproposto pelo governador de Pernambuco em que se prometia liberdade apenas<br \/>\naos nascidos no Quilombo.<\/p>\n<p>Aos 23 anos, Zumbi rejeitou a paz dos escravistas, paz que garantia sua<br \/>\nliberdade &#8211; pois nascera em Palmares. Desmoralizado por aceitar a proposta,<br \/>\nGanga Zumba viu-se diante de uma opera\u00e7\u00e3o dos quilombolas organizados<br \/>\npara dep\u00f4-lo, sob a lideran\u00e7a de Zumbi, que nesse contexto tornou-se<br \/>\no l\u00edder maior do quilombo. Ganga Zumba desistiu de tudo, partiu para<br \/>\nCaca\u00fa, ao sul de Pernambuco, onde viria a morrer envenenado pouco tempo<br \/>\ndepois. Acredita-se que tenha sido morto por enviados de Zumbi.<\/p>\n<p>Zumbi assumiu o posto de chefe maior e reorganizou toda a estrutura de Palmares.<br \/>\nPreparou seus homens para os combates que estavam por vir. Durante esse per\u00edodo,<br \/>\no governador de Pernambuco e a pr\u00f3pria Coroa procuraram negociar, garantindo<br \/>\nvida ao l\u00edder e a seus familiares, caso aceitasse a rendi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nZumbi preferiu lutar a entregar seu povo: sua dignidade n\u00e3o tinha pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Os senhores de engenho n\u00e3o aceitavam as perdas de escravos, mercadorias<br \/>\nmuito valiosas; o governo colonial n\u00e3o suportava mais tanta derrota.<br \/>\nFoi quando surgiu a id\u00e9ia de contratar os bandeirantes paulistas, conhecidos<br \/>\npor serem grandes desbravadores e verdadeiros assassinos.<\/p>\n<p>Na guerra contra Zumbi e o povo de Palmares o sistema escravista pretendia<br \/>\nvarrer da mem\u00f3ria coletiva at\u00e9 a lembran\u00e7a da exist\u00eancia<br \/>\nde possibilidades reais das popula\u00e7\u00f5es oprimidas constru\u00edrem<br \/>\numa alternativa \u00e0 estrutura social baseada na explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo trabalho for\u00e7ado. O combatente que representava os civilizados escravagistas:<br \/>\nDomingos Jorge Velho.<\/p>\n<p>Sobre este paulista, encarregado de destruir Palmares, escreveu em 1697<br \/>\num seu contempor\u00e2neo, o Bispo de Pernambuco: \u201cEste homem \u00e9<br \/>\num dos maiores selvagens com que tenho topado&#8230; tendo sido sua vida, desde<br \/>\nque teve raz\u00e3o &#8211; se \u00e9 que teve, de sorte a perdeu tanto que<br \/>\nentendo n\u00e3o a achar\u00e1 com facilidade &#8211; at\u00e9 o presente,<br \/>\nandar pelos matos \u00e0 ca\u00e7a dos \u00edndios, e de \u00edndias,<br \/>\nestas para o exerc\u00edcio das suas torpezas e aqueles para o granjeio<br \/>\nde seus interesses.\u201d Ap\u00f3s uma primeira derrota, Domingos Jorge<br \/>\nVelho iria travar a batalha definitiva no ano de 1694. Antes de completar<br \/>\n25 anos de vida, Zumbi se recusou a desistir de lutar pela liberdade sem adjetivos,<br \/>\nconcess\u00f5es ou condi\u00e7\u00f5es: combateria at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Apesar de toda a viol\u00eancia e da selvageria dos prepostos do sistema<br \/>\ncolonial, n\u00e3o foi poss\u00edvel derrotar o s\u00edmbolo do hero\u00edsmo<br \/>\ndo povo brasileiro. Ap\u00f3s muitos anos de luta os escravistas n\u00e3o<br \/>\nconseguiram submeter a alma dos resistentes. Cada guerreiro morto em defesa<br \/>\ndo direito \u00e0 liberdade \u00e9 um exemplo de que s\u00f3 existimos<br \/>\nna plenitude quando somos livres. E morrer nessa luta significa dar a vida<br \/>\npela pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>S\u00edmbolo da resist\u00eancia \u00e0 domina\u00e7\u00e3o, Zumbi<br \/>\ndos Palmares \u00e9 refer\u00eancia legada tanto \u00e0s gera\u00e7\u00f5es<br \/>\nafricanas trazidas ao Brasil quanto aos seus descendentes afro-brasileiros.<br \/>\nMestre na luta pela liberdade, seu vulto se confunde com o caminho para a<br \/>\nconsci\u00eancia do povo brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cMinha espada espalha o sol da guerra Rompe mato, varre c\u00e9us<br \/>\ne terra a felicidade do negro \u00e9 uma felicidade guerreira Do maracatu,<br \/>\ndo maculel\u00ea e do moleque bamba Minha espada espalha o sol da guerra<br \/>\nMeu quilombo incandescendo a serra Taliqual o leque, o sapateado do mestre-escola<br \/>\nde samba Tombo da ladeira, rabo de arraia, fogo de liamba&#8230;\u201d Acompanhado<br \/>\nde um grupo consider\u00e1vel de combatentes fortemente armados, Domingos<br \/>\nJorge Velho se lan\u00e7ou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Cerca Real<br \/>\ndo Macaco, onde se encontravam Zumbi e todo o seu ex\u00e9rcito. Grande<br \/>\nfoi sua surpresa ao encontrar o esquema de defesa montado pelos quilombolas.<br \/>\nMuros gigantescos de pedra e madeira formavam tr\u00eas fileiras, seguidas<br \/>\nlogo ap\u00f3s por buracos camuflados com estacas pontiagudas em seu interior.<br \/>\nEm seguida, uma outra muralha mais comprida, contava com guaritas que abrigavam<br \/>\natiradores.<\/p>\n<p>Amedrontado, Jorge Velho mandou buscar canh\u00f5es de Recife e construiu,<br \/>\nparalelamente \u00e0 muralha de Zumbi, uma outra muralha. O ataque foi fatal.<br \/>\nO grande chefe dos quilombolas foi apanhado de surpresa pelo descuido de um<br \/>\nsentinela. Muitos morreram combatendo ou se suicidaram; outros tentaram fugir<br \/>\npelo lado esquerdo da Cerca Real, onde havia enorme precip\u00edcio. Zumbi<br \/>\nfoi um dos que conseguiu sobreviver \u00e0 matan\u00e7a, mas Palmares<br \/>\nfoi inteiramente destru\u00edda.<\/p>\n<p>Zumbi comandou seus guerreiros e venceu in\u00fameras batalhas empregando<br \/>\ncom talento as t\u00e9cnicas da guerra de guerrilhas. No combate em posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nfixa encontrou o fracasso. Perdeu o dom\u00ednio da Serra da Barriga, onde<br \/>\nse estabeleceram &#8211; entre disputas e conflitos pessoais &#8211; os vencedores: bandeirantes,<br \/>\nmilitares e &#8220;homens de bem&#8221; de Pernambuco e Alagoas. S\u00f3 restava<br \/>\numa alternativa: retornar \u00e0 estrat\u00e9gia da guerra do mato. Eram<br \/>\ncerca de mil homens. Os guerreiros foram divididos em dois bandos e foi confiada<br \/>\na chefia de um dos grupos a um companheiro chamado Ant\u00f4nio Soares, que<br \/>\nsofreu uma emboscada. Soares foi preso e enviado sob forte escolta para Recife.<\/p>\n<p>Nesse trajeto a escolta se encontrou com uma bandeira, chefiada por Andr\u00e9<br \/>\nFurtado. Soares foi seq\u00fcestrado e por longo tempo sofreu violentas torturas<br \/>\naplicadas por seus captores: queriam que revelasse onde era o esconderijo<br \/>\nde Zumbi. Como n\u00e3o obtinha \u00eaxito, Furtado mudou de t\u00e1tica:<br \/>\ngarantia sua vida e liberdade se cooperasse. Deu certo. Soares era da confian\u00e7a<br \/>\nde Zumbi. Foram em sua procura, e quando Zumbi se preparava para abra\u00e7ar<br \/>\no companheiro, foi surpreendido: Soares cravou-lhe uma faca na barriga.<\/p>\n<p>Nos olhos de Zumbi deve ter surgido ent\u00e3o um outro brilho: de tristeza<br \/>\ne desencanto. Dos seis guerreiros que o acompanhavam, a fuzilaria que sa\u00eda<br \/>\ndo mato ao redor derrubou cinco, de imediato. Ferido e sozinho, lutou at\u00e9<br \/>\no \u00faltimo momento: matou um dos atacantes e feriu outros. Amanhecia<br \/>\no dia 20 de novembro de 1695.<\/p>\n<p>Zumbi foi esfaqueado, baleado e mutilado, tendo seu \u00f3rg\u00e3o<br \/>\ngenital masculino decepado e enfiado em sua boca. Era um homem magro, pequeno<br \/>\ne coxo; muito diferente da imagem constru\u00edda a seu respeito. Seu corpo<br \/>\nfoi reconhecido pelo padre Ant\u00f4nio Melo, o mesmo que batizara o pequenino<br \/>\nFrancisco. Segundo o padre, algumas vezes Zumbi desceu a Porto Calvo para<br \/>\nvisitar seu antigo tutor e numa dessas visitas o guerreiro j\u00e1 estava<br \/>\ncom a perna afetada por um ferimento sofrido em combate.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia contra Zumbi n\u00e3o parou a\u00ed: sua cabe\u00e7a<br \/>\nfoi cortada, mergulhada em sal e mandada para Recife, com a finalidade de<br \/>\nser vista pelo povo que o considerava imortal. Mas isso de nada disso foi<br \/>\nsuficiente para impedir que renascesse num mito: sua coragem, sua for\u00e7a<br \/>\nse tornaram eternas para os que continuaram resistindo contra a escravid\u00e3o.<br \/>\nAssim \u00e9 que nos muitos quilombos que se formaram pelo Brasil nos s\u00e9culos<br \/>\nseguintes e para os que hoje relembram a sua hist\u00f3ria de luta, Zumbi<br \/>\npermanece vivo na li\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>De forma exemplar, Zumbi encarna os horrores do escravismo. Zumbi permanece<br \/>\nvivo na li\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia e \u00e9 &#8211; para sempre!<br \/>\n&#8211; um cad\u00e1ver insepulto, um morto vivo. Sua lembran\u00e7a sobreviver\u00e1<br \/>\naos tempos que nos obrigam a sonhar, \u00e0 historiografia oficial que insiste<br \/>\nem ignorar sua real import\u00e2ncia. Permanecer\u00e1 como s\u00edmbolo<br \/>\ndas atrocidades infind\u00e1veis do poder ilimitado, arbitr\u00e1rio,<br \/>\nprepotente. Ficar\u00e1, acima de tudo, como exemplo a todos que resistem<br \/>\n\u00e0 opress\u00e3o e lutam por liberdade e justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cEm cada estalo, em todo estopim, no p\u00f3 do motim Em cada intervalo<br \/>\nde guerra sem fim Eu canto, eu canto, eu canto assim A felicidade do negro<br \/>\n\u00e9 uma felicidade guerreira&#8230;<\/p>\n<p>II &#8211; CAPOEIRA &amp; CAPOEIRAS<\/p>\n<p>\u201cMeu chap\u00e9u de lado\/tamanco arrastando len\u00e7o no pesco\u00e7o\/<br \/>\nnavalha no bolso, eu passo gingando\/ provoco desafio, eu tenho orgulho de<br \/>\nser vadio.<\/p>\n<p>Sei que eles falam desse meu proceder, eu vejo quem trabalha andar no miser\u00ea.<\/p>\n<p>Eu sou vadio porque tive inclina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando era crian\u00e7a, tirava samba-can\u00e7\u00e3o.\u201d Wilson<br \/>\nBatista, Len\u00e7o no Pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>HIST\u00d3RIAS DA CAPOEIRA<\/p>\n<p>\u201cVou contar uma hist\u00f3ria\/do tempo da escravid\u00e3o\/ vou<br \/>\ncontar com muita dor\/muita dor no cora\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>Fornecendo elementos para a hist\u00f3ria do Brasil, jogo da Capoeira<br \/>\nse fez presente em todos os per\u00edodos, desde a col\u00f4nia. In\u00fameros<br \/>\nmemorialistas e cronistas de costumes fixaram a imagem de capoeiras c\u00e9lebres<br \/>\ne suas perip\u00e9cias, sendo poss\u00edvel flagrar a constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nda identidade brasileira atrav\u00e9s do acompanhamento da hist\u00f3ria<br \/>\nda capoeira.<\/p>\n<p>Acredita-se que a exist\u00eancia da Capoeira remonte \u00e0s senzalas,<br \/>\n\u00e0s fugas dos negros e aos quilombos brasileiros da \u00e9poca colonial:<br \/>\nos escravos fugitivos, pare se defenderem, fazendo do pr\u00f3prio corpo<br \/>\numa arma. As origens da Capoeira est\u00e3o nesse ambiente, onde os negros<br \/>\nrelembravam suas velhas dan\u00e7as e rituais da \u00c1frica. A maioria<br \/>\ndos golpes assemelha-se \u00e0s defesas e ataques de animais: a marrada<br \/>\ndo touro, o coice do cavalo, a fisgada do rabo de arraia. Ou ent\u00e3o<br \/>\nguardam rela\u00e7\u00e3o com instrumentos de trabalho cuja a\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 semelhante aos movimentos do corpo dos capoeiras: o martelo batendo,<br \/>\na foice ro\u00e7ando o mato.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 indica\u00e7\u00f5es seguras de que a Capoeira,<br \/>\nconforme a conhecemos no Brasil ainda hoje, tenha se desenvolvido em qualquer<br \/>\noutra parte do mundo. N\u00e3o existem pesquisas hist\u00f3ricas a respeito<br \/>\nda capoeira nos s\u00e9culos XVI a XVIII. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel,<br \/>\nportanto, reconstruirmos o processo que levou ao deslocamento da capoeira<br \/>\ndo campo \u00e0 cidade. Esse processo deve ter ocorrido por volta do come\u00e7o<br \/>\ndo s\u00e9culo XIX, considerando que datam desse per\u00edodo as primeiras<br \/>\nrefer\u00eancias hist\u00f3ricas (at\u00e9 agora conhecidas) referentes<br \/>\naos capoeiras urbanos.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, os tr\u00eas principais centros hist\u00f3ricos<br \/>\nda capoeira eram as cidades do Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Destacava-se<br \/>\na Capoeira carioca em virtude da presen\u00e7a maci\u00e7a e organizada<br \/>\ndas maltas de capoeiras, as quais distribu\u00edam-se por todas as freguesias<br \/>\nda Corte.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca do Brasil colonial, a presen\u00e7a da Capoeira<br \/>\nj\u00e1 se encontrava de tal forma sedimentada na sociedade que os capoeiras<br \/>\npassaram a formar uma classe. Premidos pelas circunst\u00e2ncias, faziam<br \/>\nusos variados da habilidade que a arte lhes conferia. Com o emprego de diversos<br \/>\ninstrumentos de ataque e defesa, passaram a prestar servi\u00e7os aos membros<br \/>\ndas classes dominantes, que deles se serviam para a execu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde crimes que garantiam a continuidade no poder.<\/p>\n<p>As descri\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo passado revelam o emprego da<br \/>\nmandinga como estrat\u00e9gia eficiente de luta dos capoeiras.<\/p>\n<p>O pintor Rugendas (1835), retratou a Capoeira na gravura intitulada Jogar<br \/>\ncapoeira ou dan\u00e7a da guerra. Nela dois negros gingam ao som de um atabaque<br \/>\n&#8211; tocado por um negro sentado &#8211; diante de uma assist\u00eancia composta por<br \/>\nnove negros (dentre os quais tr\u00eas mulheres). O cronista refere-se ao<br \/>\nque v\u00ea como uma \u201cdan\u00e7a da guerra\u201d ou um \u201cfolguedo<br \/>\nguerreiro\u201d, onde h\u00e1 \u201ccampe\u00f5es\u201d e \u201cadvers\u00e1rios\u201d<br \/>\ne como uma \u201cbriga\u201d na qual as \u201cfacas\u201d acabam com a<br \/>\n\u201cbrincadeira\u201d.<\/p>\n<p>Discorrendo sobre os \u201cusos e costumes dos negros\u201d, ap\u00f3s<br \/>\nmencionar uma \u201cesp\u00e9cie de dan\u00e7a militar\u201d Rugendas<br \/>\nfaz a seguinte descri\u00e7\u00e3o: \u201c(&#8230;) um outro folguedo guerreiro,<br \/>\nmuito mais violento, a \u2018capoeira\u2019: dois campe\u00f5es se precipitam<br \/>\num contra o outro, procurando dar com a cabe\u00e7a no peito do advers\u00e1rio<br \/>\nque desejam derrubar. Evita-se o ataque com saltos de lado e paradas igualmente<br \/>\nh\u00e1beis; mas, lan\u00e7ando-se um contra o outro mais ou menos como<br \/>\nbodes, acontece-lhes chocarem-se fortemente cabe\u00e7a contra cabe\u00e7a,<br \/>\no que faz com que a brincadeira n\u00e3o raro degenere em briga e que as<br \/>\nfacas entrem em jogo ensang\u00fcentando-a\u201d.<\/p>\n<p>O cronista Luiz Edmundo fez interessante registro do capoeira dessa \u00e9poca,<br \/>\nem \u2018O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis\u2019, retratando o &#8220;Capoeira<br \/>\nCarioca&#8221;: \u201cDe volta, pelo caminho que vai \u00e0 vala, penetramos<br \/>\na rua dos Ourives, das de maior concorr\u00eancia na cidade.<\/p>\n<p>&#8216;\u00c0 porta do estanco de tabaco est\u00e1 um homem diante de um frade<br \/>\nn\u00e9dio e rubicundo. Mostra um vasto capote de mil dobras, onde a sua<br \/>\nfigura escanifrada mergulha e desaparece deixando ver apenas, de fora, al\u00e9m<br \/>\nde dois canelos finos, de ave pernalta, uma vasta, uma hirsuta cabeleira,<br \/>\nonde naufraga em ondas tumultuosas alto feltro espanhol.<\/p>\n<p>&#8216;Fala forte. Gargalha. Cheira a aguardente e discute. \u00c9 o capoeira.<\/p>\n<p>&#8216;Sem ter do negro a complei\u00e7\u00e3o atl\u00e9tica ou sequer o<br \/>\nar rijo e sadio do reinol \u00e9, no entanto, um ser que toda a gente teme<br \/>\ne o pr\u00f3prio quadrilheiro da justi\u00e7a, por cautela, o respeita.<\/p>\n<p>&#8216;Encarna o esp\u00edrito da aventura, da malandragem e da fraude; \u00e9<br \/>\nsereno e arrojado e na hora da refrega ou da contenda, antes de pensar na<br \/>\nchupa ou na navalha, sempre ao manto cosida, vale-se de sua espl\u00eandida<br \/>\ndestreza, com ela confundindo e vencendo os mais armados e fortes contendores.<\/p>\n<p>&#8216;Nessa hora o homem franzino e leve transfigura-se. Atira longe o seu feltro<br \/>\nchamorro, seu manto de sarago\u00e7a e aos saltos, como um s\u00edmio,<br \/>\ncomo um gato, corre, recua, avan\u00e7a e rodopia, \u00e1gil, astuto,<br \/>\ncauto e decidido. Nesse manejo inopinado e c\u00e9lere, a criatura \u00e9<br \/>\num ser que n\u00e3o se toca, ou n\u00e3o se pega, um fluido, o imponder\u00e1vel,<br \/>\npensamento, rel\u00e2mpago. Surge e desaparece.<\/p>\n<p>&#8216;Mostra-se de novo e logo se tresmalha. Toda sua for\u00e7a reside nessa<br \/>\ndestreza el\u00e1stica que assombra e diante da qual o tardo europeu vacila<br \/>\nat\u00f4nito, o africano se trasteja.<\/p>\n<p>&#8216;Embora na hora da luta traga ele entre a dentu\u00e7a podre o ferro da<br \/>\nhora extrema, \u00e9 da cabe\u00e7a, bra\u00e7o, m\u00e3o e perna<br \/>\nou p\u00e9 que se vale para abater o \u00eamulo minaz.<\/p>\n<p>&#8216;Com a cabe\u00e7a em meio aos pulos em que anda, atira a cabe\u00e7ada<br \/>\nsobre o ventre daquele com quem luta e o derruba. Com a perna lan\u00e7a<br \/>\na trave, o cal\u00e7o. A m\u00e3o joga a tapona e com o p\u00e9 a rasteira,<br \/>\no pi\u00e3o e ainda o rabo de arraia.<\/p>\n<p>&#8216;Tudo isso numa coreografia de gestos que confunde. Luta com dois, com tr\u00eas,<br \/>\ne at\u00e9 quatro ou cinco. E os vence a todos. Quando os quadrilheiros<br \/>\nchegam com suas armas e os seus gritos de justi\u00e7a, sobre o campo de<br \/>\nluta nem tra\u00e7o mais se v\u00ea do capoeira feroz que se fez nuvem,<br \/>\nfuma\u00e7a e desapareceu.<\/p>\n<p>&#8216;Na hora da paz ama a m\u00fasica, a do\u00e7ura sensual do brejeiro<br \/>\nlundu, dan\u00e7a a f\u00f4fa, a chocaina e a sarambeque pelos lugares<br \/>\nonde haja vinho, jogo, fumo e mulatas. Freq\u00fcenta os p\u00e1tios das<br \/>\ntabernas, os antros da maruja para os lados do Arsenal. Usa e abusa da moral<br \/>\nda ral\u00e9, moral obl\u00edqua, reclamando pelourinho, degredo e \u00e0s<br \/>\nvezes, forca.<\/p>\n<p>&#8216;Tem sempre por amigo do peito um fals\u00e1rio, por companheiro de enxerga<br \/>\num matador profissional e por comparsa, na hora da taberna, um ladr\u00e3o.<br \/>\nNo fundo, ele \u00e9 mau porque vive onde h\u00e1 o com\u00e9rcio do<br \/>\nv\u00edcio e do crime. Socialmente, \u00e9 um cisto, como poderia ser<br \/>\numa flor. N\u00e3o lhe faltam, a par dos instintos maus, gestos am\u00e1veis<br \/>\ne enternecedores. \u00c9 cavalheiresco para com as mulheres. Defende os<br \/>\nfracos. Tem alma de Dom Quixote. E com muita religi\u00e3o. Muit\u00edssima.<br \/>\nPode faltar-lhe ao sair de casa o a\u00e7o vingador, a ferramenta de matar,<br \/>\nat\u00e9 a pr\u00f3pria coragem, mas n\u00e3o esquece do escapul\u00e1rio<br \/>\nsobre o peito e traz na boca, sempre, o nome de Maria ou de Jesus.<\/p>\n<p>&#8216;Por vezes, quando a sombra da madrugada ainda \u00e9 um grande capuz<br \/>\nsobre a cidade, est\u00e1 ele de joelhos, compassivo e piedoso, batendo<br \/>\nno peito, beijando humildemente o ch\u00e3o, em prece, diante de um nicho<br \/>\niluminado, numa esquina qualquer. Est\u00e1 rezando pela alma do que sumiu<br \/>\ndo mundo, do que matou.<\/p>\n<p>&#8216;\u00c9 de crer que, como sentimento, o capoeira \u00e9 realmente um<br \/>\ntipo encantador&#8230;\u201d Durante a primeira metade do s\u00e9culo XIX,<br \/>\na Capoeira parece ter se configurado como uma experi\u00eancia essencialmente<br \/>\nescrava. Entretanto, a partir dos anos 1850, altera-se a composi\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica e social de seus praticantes, com a incorpora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde libertos e livres, muitos dos quais brancos. Dentre esses \u00faltimos<br \/>\nhavia alguns membros da elite e tamb\u00e9m in\u00fameros estrangeiros,<br \/>\npredominantemente portugueses. Tal amplia\u00e7\u00e3o introduz mudan\u00e7as<br \/>\nna pr\u00e1tica da capoeira como a dissemina\u00e7\u00e3o do uso da<br \/>\nnavalha, caracter\u00edstico dos fadistas lusitanos.<\/p>\n<p>Durante o segundo reinado, algumas maltas de capoeira tiveram intensa atua\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica, inclusive atuando junto aos partidos da \u00e9poca. A aproxima\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a pol\u00edtica mon\u00e1rquica lhes acarretar\u00e1 uma implac\u00e1vel<br \/>\npersegui\u00e7\u00e3o por parte dos republicanos sendo que estes, ao assumirem<br \/>\no poder, incluir\u00e3o a pr\u00e1tica da capoeira como um crime previsto<br \/>\npelo C\u00f3digo Penal de 1890.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1872 levantavam-se as primeiras vozes pedindo a criminaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nda capoeira. Reconhecendo os esfor\u00e7os da pol\u00edcia para reprimir<br \/>\na \u201caud\u00e1cia\u201d dos capoeiras, \u201cterror da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\npac\u00edfica\u201d, o chefe de pol\u00edcia do Rio de Janeiro reclama,<br \/>\nem seu relato anual, da dificuldade de se reprimir a capoeira posto que esta<br \/>\n\u201cn\u00e3o \u00e9 um crime de acordo com o C\u00f3digo Criminal\u201d<br \/>\n(Holloway,1989:669).<\/p>\n<p>Seis anos depois, novamente se fala sobre o assunto, por\u00e9m observa-se<br \/>\numa diferen\u00e7a qualitativa na raz\u00e3o da persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\naos capoeiras. Se, at\u00e9 aqui, os capoeiras s\u00e3o perseguidos, principalmente,<br \/>\nporque oferecem algum tipo de amea\u00e7a f\u00edsica aos \u201cpac\u00edficos<br \/>\ncidad\u00e3os\u201d, seja quando \u201ccometem ferimentos\u201d ou &#8220;provocam<br \/>\ndesordens\u201d, agora o argumento primordial \u00e9 outro. Referindo-se<br \/>\n\u00e0 capoeira como uma \u201cdoen\u00e7a moral\u201d que prolifera<br \/>\nna \u201cgrande e civilizada cidade\u201d, o chefe de policia da Corte ressalta<br \/>\na necessidade de se formalizar a criminaliza\u00e7\u00e3o da capoeira,<br \/>\nsugerindo a deporta\u00e7\u00e3o dos estrangeiros e o envio dos brasileiros<br \/>\npara col\u00f4nias penais (op. cit. 1989:669).<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo muda o motivo central da argumenta\u00e7\u00e3o<br \/>\npolicial: o discurso da repress\u00e3o passa a coadunar-se com os pressupostos<br \/>\nevolucionistas vigentes \u00e0quela \u00e9poca. Esses conceitos, pautados<br \/>\nnuma abordagem biol\u00f3gica do social, pressupunham a inferioridade racial<br \/>\ndo negro. Assim, o temor do \u201ccont\u00e1gio moral\u201d da \u201cbarb\u00e1rie<br \/>\nnegra\u201d orientava a a\u00e7\u00e3o das autoridades.<\/p>\n<p>No entanto, a Capoeira, ao mesmo tempo em que sofre uma intensifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda persegui\u00e7\u00e3o policial, come\u00e7ar\u00e1 tamb\u00e9m<br \/>\na ser descrita por alguns literatos cariocas, n\u00e3o apenas pelo que \u201ctem<br \/>\nde mau e b\u00e1rbaro\u201d mas tamb\u00e9m como uma \u201cexcellente<br \/>\ngymnastica\u201d, a ser adotada inclusive nas escolas e quart\u00e9is,<br \/>\nsurgindo aqui uma nova representa\u00e7\u00e3o social para essa pr\u00e1tica,<br \/>\nvista agora como \u201cheran\u00e7a da mesti\u00e7agem no conflito das<br \/>\nra\u00e7as\u201d e, portanto, \u201cnacional\u201d (Moraes Filho,1893\/1979:257).<\/p>\n<p>Muitos dos nossos escritores empolgaram-se com a Capoeira e seus adeptos.<br \/>\nJoaquim Manuel de Macedo, em Mem\u00f3rias de Um Sargento de Mil\u00edcias;<br \/>\nAlu\u00edzio de Azevedo, em O Corti\u00e7o, s\u00e3o alguns dos que<br \/>\nbuscaram retratar cenas do per\u00edodo em que capoeiras pontificavam, nas<br \/>\nsuas lutas.<\/p>\n<p>Desde o Imp\u00e9rio (1822-1889) a presen\u00e7a da Capoeira na vida<br \/>\nbrasileira foi acentuada. Consta que possu\u00eda D. Pedro I um capoeira<br \/>\ncomo guarda-costas, servindo-lhe de prote\u00e7\u00e3o em suas andan\u00e7as<br \/>\nnoturnas. E n\u00e3o eram poucos os nobres que dominavam recursos da Capoeira.<br \/>\nOs negros encarregados dos servi\u00e7os dom\u00e9sticos muitas vezes<br \/>\nensinavam aos sinhozinhos alguns de seus segredos. Cada vez mais a luta era<br \/>\npraticada, rompendo todas as barreiras.<\/p>\n<p>O capoeira dessa \u00e9poca tinha por escola as pra\u00e7as, ruas e<br \/>\ncorredores. Formavam bandos perigosos, que se davam a conhecer entre si pelas<br \/>\ncaracter\u00edsticas dos chap\u00e9us, len\u00e7os, roupas, fitas e<br \/>\ntantas conven\u00e7\u00f5es quanto era poss\u00edvel imaginar.<\/p>\n<p>A criminaliza\u00e7\u00e3o da capoeira n\u00e3o foi consensual mas<br \/>\nsignificou a vit\u00f3ria pol\u00edtica de uma determinada fac\u00e7\u00e3o<br \/>\nda classe dirigente nacional.<\/p>\n<p>Em 11 de outubro de 1890 foi promulgada a Lei n\u00ba 487, de autoria de<br \/>\nSampaio Ferraz, proibia a pr\u00e1tica da capoeira e previa puni\u00e7\u00e3o<br \/>\nde 2 a 6 meses de trabalho for\u00e7ado na ilha de Fernando de Noronha.<br \/>\nNo artigo 402, que tratava &#8220;Dos vadios capoeira&#8221;, lia-se: &#8216;Fazer<br \/>\nnas ruas e pra\u00e7as p\u00fablicas exerc\u00edcios de agilidade e<br \/>\ndestreza corporal conhecidos pela denomina\u00e7\u00e3o capoeiragem; andar<br \/>\nem correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma les\u00e3o<br \/>\ncorporal, provocando tumulto ou desordem, amea\u00e7ando pessoa certa ou<br \/>\nincerta, ou incutindo temor de algum mal. Pena &#8211; pris\u00e3o celular de<br \/>\ndois a seis meses. Par\u00e1grafo \u00fanico: \u00e9 considerada circunst\u00e2ncia<br \/>\nagravante pertencer o capoeira a algum bando ou malta. Aos chefes e cabe\u00e7as<br \/>\nse impor\u00e1 a pena em dobro&#8221;.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o eram apenas os negros e mesti\u00e7os que praticavam a<br \/>\nCapoeira, a lei acabou atingindo importantes pessoas da nobreza. Exemplo disso<br \/>\nfoi o conhecido caso de Jos\u00e9 El\u00edsio dos Reis. Seu pai era o<br \/>\nconde de Matosinhos, propriet\u00e1rio do jornal O Pa\u00eds. Conhecido<br \/>\nde todos como praticante da Capoeira, Juca Reis, antes da aprova\u00e7\u00e3o<br \/>\nda lei estava em Portugal. Quando retornou ao Brasil foi preso por Sampaio<br \/>\nFerraz. A sua liberdade foi conseguida gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia<br \/>\nde Quintino Bocai\u00fava, ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores<br \/>\nno primeiro governo republicano brasileiro. Quintino amea\u00e7ou renunciar<br \/>\nao cargo se Juca Reis n\u00e3o fosse liberto. O ministro teve seu pedido<br \/>\naceito pelo marechal- presidente Deodoro: o capoeira Juca Reis foi solto e<br \/>\nretornou a Portugal.<\/p>\n<p>Os capoeiras foram perseguidos por todo o s\u00e9culo XIX. Se por um lado<br \/>\na sua a\u00e7\u00e3o provocava verdadeiro p\u00e2nico numa parcela da<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o &#8211; especialmente nas elites! &#8211; que apoiava a repress\u00e3o<br \/>\npolicial, muita gente desconfiava dessa a\u00e7\u00e3o. O texto publicado<br \/>\nno jornal Di\u00e1rio de Not\u00edcias, da cidade do Rio de Janeiro, em<br \/>\n19 de janeiro de 1890, \u00e9 uma amostra ir\u00f4nica da rea\u00e7\u00e3o<br \/>\npopular \u00e0 violenta campanha policial: &#8220;\u00c9 pol\u00edcia<br \/>\ndas primeiras\/\u00c9 levadinha do diabo\/Deu cabo dos capoeiras\/Vai dos gatunos<br \/>\ndar cabo\/J\u00e1 da navalha afiada\/A ningu\u00e9m o medo aperta\/Vai poder<br \/>\na burguesada\/Ressonar com a porta aberta A ir assim poderemos\/Andar mui sossegadinhos\/Nessa<br \/>\nterra viveremos\/Como Deus com seus anjinhos\/Ai! Assim continuando\/A pol\u00edcia<br \/>\nhemos de ver\/As suas portas fechando\/Por n\u00e3o ter mais que fazer&#8221;<br \/>\nMelo Moraes Filho, em Festas e Tradi\u00e7\u00f5es Populares do Brasil<br \/>\n(1893), fala a respeito dos grupos que formavam &#8211; as maltas &#8211; e suas proezas<br \/>\nao tempo do Imp\u00e9rio: \u201cA categoria de chefe da malta s\u00f3<br \/>\natingia aquele cuja valentia o tornava inexced\u00edvel e de chefe dos chefes<br \/>\no mais afoito entre estes, mais refletido e prudente.<\/p>\n<p>&#8216;Os capoeiras, at\u00e9 quarenta anos passados, prestavam juramento solene<br \/>\ne o lugar escolhido para isso eram as torres das igrejas. As quest\u00f5es<br \/>\nde freguesia ou de bairro n\u00e3o os desligavam, quando as circunst\u00e2ncias<br \/>\nexigiam desagravo comum; por exemplo: um senhor, por motivo de capoeiragem,<br \/>\nvendia para as fazendas um escravo filiado a qualquer malta; eles reuniam-se<br \/>\ne designavam o que havia de ving\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8216;No tempo em que os enterramentos faziam-se nas igrejas e que as festas<br \/>\nreligiosas amiudavam-se, as torres enchiam-se de capoeiras, famosos sineiros<br \/>\nque montados na cabe\u00e7a dos sinos acompanhavam toda a impuls\u00e3o<br \/>\ndos dobres, aben\u00e7oando das alturas o povo que os admirava, apinhado<br \/>\nnas pra\u00e7as ou nas ruas.\u201d Em seguida, passa o memorialista a descrever<br \/>\nalguns movimentos da Capoeira, com riqueza de detalhes que nos leva a supor<br \/>\nn\u00e3o lhe serem desconhecidos os segredos dessa arte: \u201cA capoeiragem<br \/>\nantiga e a moderna tem a sua g\u00edria e sua maneira de express\u00e3o,<br \/>\npela qual s\u00e3o compreendidos os lances do jogo. Deveras arriscados,<br \/>\ndif\u00edceis e dependendo de rapidez e h\u00e1bito, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nsem longa pr\u00e1tica que conseguem tais contendores fazerem-se not\u00e1veis.<br \/>\nPara darmos uma p\u00e1lida id\u00e9ia da g\u00edria e do jogo, ajustamos<br \/>\npor aquela algumas evolu\u00e7\u00f5es deste. Um dos preparativos mais<br \/>\nrudimentares do capoeira \u00e9 o \u2018rabo de arraia\u2019. Consiste<br \/>\nele na firmeza de um p\u00e9 sobre o solo e na rota\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea<br \/>\nda perna livre, varrendo a horizontal, de sorte que a parte dorsal v\u00e1<br \/>\nbater no flanco do contendor, seguindo-se ap\u00f3s a cabe\u00e7ada ou<br \/>\na rasteira, infal\u00edveis corol\u00e1rios da inicia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo combate.<\/p>\n<p>&#8216;Por \u2018escor\u00e3o\u2019 entendem eles amparar inesperadamente<br \/>\no p\u00e9 de encontro ao ventre do advers\u00e1rio, o que \u00e9 um<br \/>\nsubterf\u00fagio que difere do \u2018p\u00e9 de panzina\u2019, que \u00e9<br \/>\no mesmo resultado por\u00e9m feito n\u00e3o como um recurso do jogo, mas<br \/>\ndeixando \u00e0 destreza tempo de varr\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8216;O \u2018passo a dois\u2019 (g\u00edria moderna) \u00e9 um sapateado<br \/>\nr\u00e1pido que antecede \u00e0 cabe\u00e7ada e a rasteira, da qual<br \/>\no acometido se livra armando o \u2018clube x\u2019, que quer dizer o afastamento<br \/>\ncompleto das t\u00edbias e uni\u00e3o dos joelhos, que formando larga<br \/>\nbase, estabelece equil\u00edbrio, recebendo no embate o salto da botina,<br \/>\nque ainda ofende o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8216;O \u2018tombo da ladeira\u2019 \u00e9 tocar no ar, com o p\u00e9,<br \/>\no indiv\u00edduo que pula; a \u2018rasteira a ca\u00e7ador\u2019 \u00e9<br \/>\no meio gin\u00e1stico de que servem-se para &#8211; deixando-se cair sobre as<br \/>\ncostas, ao mesmo tempo que firmam-se sobre as m\u00e3os &#8211; derrubarem o contr\u00e1rio<br \/>\nimprimindo-lhe com o p\u00e9 violenta pancada na articula\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00edbio tersianal.\u201d Melo Moraes tra\u00e7a um retrato de fatos<br \/>\nsociais do Rio de Janeiro e da intensa repress\u00e3o policial \u00e0<br \/>\nCapoeira, associada \u00e0 criminalidade.<\/p>\n<p>\u201cAs escolas de capoeiragem multiplicavam nesta cidade, pertencendo<br \/>\ncada turma de disc\u00edpulos a esta ou aquela freguesia.<\/p>\n<p>&#8216;Desde a dos caxinguel\u00eas, meninos que iam \u00e0 frente das maltas<br \/>\nprovocar inimigos, at\u00e9 a dos mestres que serviam para exerc\u00edcios<br \/>\npreparat\u00f3rios, esses cursos regulares funcionavam sendo os mais freq\u00fcentados<br \/>\no da Praia do Flamengo, o do morro da Concei\u00e7\u00e3o, o da Praia<br \/>\nde Santa Luzia, n\u00e3o falando nas torres das igrejas &#8211; ninhos atroados<br \/>\nde capoeiras de profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8216;Alistados nos batalh\u00f5es da guarda nacional os capoeiras exerciam<br \/>\npoderosa influ\u00eancia nos pleitos eleitorais, decidiam das vota\u00e7\u00f5es,<br \/>\nporque ningu\u00e9m melhor do que eles arregimentavam votos, emprenhavam<br \/>\nurnas, afugentavam votantes, etc.<\/p>\n<p>&#8216;Muitos dos comandantes dos corpos e grande parte dos aficionados entendia<br \/>\ndo jogo, ou eram habil\u00edssimos na arte.<\/p>\n<p>&#8216;Os desafios entre as freguesias transmitiam-se por meio de pancadas de<br \/>\nsino convencionais e em horas determinadas. Os combates davam-se nas pra\u00e7as,<br \/>\nnas ruas, em s\u00edtios mais ou menos distantes e desertos.<\/p>\n<p>&#8216;\u00c0s vezes, interrompendo a marcha de uma prociss\u00e3o, o desfilar<br \/>\nde um cortejo, ouvia-se, aos gritos das senhoras correndo espavoridas, dos<br \/>\nnegros levando senhores mo\u00e7os ao colo, dos pais de fam\u00edlia pondo<br \/>\nno abrigo a mulher e os filhos, o horroroso \u2018Fecha! Fecha!\u2019. Os<br \/>\ncaxinguel\u00eas voavam na frente, a capoeiragem disparava ind\u00f4mita,<br \/>\nseguindo-se aos dist\u00farbios cabe\u00e7as quebradas, lampi\u00f5es<br \/>\napedrejados, facadas, mortes, etc&#8230;<\/p>\n<p>&#8216;A pol\u00edcia, amedrontada e sem for\u00e7a, fazia constar que perseguia<br \/>\nos desordeiros, acontecendo rar\u00edssimas vezes ser preso este ou aquele<br \/>\nque respondia a processo.<\/p>\n<p>&#8216;Pertencendo \u00e0 segunda fase da capoeiragem no Rio de Janeiro, essas<br \/>\ncenas tiveram lugar durante a administra\u00e7\u00e3o policial de Eus\u00e9bio<br \/>\nde Queiroz e de seus sucessores, desaparecendo totalmente com a guerra do<br \/>\nParaguai, que n\u00e3o acabou somente com os capoeiras, por\u00e9m assinalou<br \/>\no termo do patriotismo brasileiro.\u201d Em seguida o cronista passa a reportar-se<br \/>\n\u00e0s personalidades eminentes da \u00e9poca que se notabilizaram tamb\u00e9m<br \/>\npelos conhecimentos do jogo da Capoeira.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 geralmente sabido pela tradi\u00e7\u00e3o que no Senado,<br \/>\nna C\u00e2mara dos Deputados, no Ex\u00e9rcito, na Marinha, no funcionalismo<br \/>\np\u00fablico, na cena dram\u00e1tica e mesmo nos claustros, havia capoeiras<br \/>\nde fama, cujos nomes nos s\u00e3o conhecidos.<\/p>\n<p>&#8216;Nas garrafadas de mar\u00e7o, um dos nossos mais eloq\u00fcentes oradores<br \/>\nsacros fez prod\u00edgios nesse jogo, livrando-se de seus agressores; recordamo-nos<br \/>\nde um frade do Carmo que por ocasi\u00e3o de uma prociss\u00e3o de enterro,<br \/>\ndebandou a cabe\u00e7adas e rasteiras um grupo de indiv\u00edduos imprudentes<br \/>\nque o provocaram.<\/p>\n<p>&#8216;Pergunte-se por a\u00ed qual o ator cuja valentia e destreza como capoeira<br \/>\neram respeitados, e acreditai que a popularidade precisaria muito para atingir-lhe<br \/>\no pedestal.<\/p>\n<p>&#8216;Quando estudamos no Col\u00e9gio de Pedro II foi nosso lente de franc\u00eas<br \/>\no bacharel Gon\u00e7alves, bom professor e melhor capoeira.<\/p>\n<p>&#8216;O Dr. D. M., jurisconsulto eminente e deslumbrante gl\u00f3ria da tribuna<br \/>\ncriminal, cultivou em sua mocidade essa luta nacional, entusiasticamente levada<br \/>\na excessos pelo povo baixo, que a afogou nas desordens, em correrias reprov\u00e1veis,<br \/>\nem homic\u00eddios horrorosos.<\/p>\n<p>&#8216;Pode-se dizer que de 1870 para c\u00e1 os capoeiras n\u00e3o existem<br \/>\ne se um ou outro, verdadeiramente digno desse nome pela lealdade antiga, pela<br \/>\nconfian\u00e7a pr\u00f3pria e pelo conhecimento da arte resta por a\u00ed,<br \/>\nveio daquele tempo em que a capoeiragem tinha disciplina e dirigia-se a seus<br \/>\nfins.<\/p>\n<p>&#8216;Navalhar \u00e0 trai\u00e7\u00e3o, deixar-se prender por dois ou<br \/>\ntr\u00eas soldados e espancar a um pobre velho, ser vagabundo e ratoneiro,<br \/>\nnunca constitu\u00edram os espantosos feitos das maltas do passado, que<br \/>\nbrigavam freguesia com freguesia, disputavam elei\u00e7\u00f5es arriscadas,<br \/>\nlevavam \u00e0 dist\u00e2ncia cavalaria e soldados de permanentes quando<br \/>\nintervinham em conflitos de suscetibilidade comum.<\/p>\n<p>&#8216;O capoeira isolado, naqueles tempos, trabalhava, constitu\u00eda fam\u00edlia,<br \/>\na vadiagem lhe era proibida, n\u00e3o era gatuno, afrontava a for\u00e7a<br \/>\np\u00fablica e s\u00f3 se entregava morto ou quase morto.<\/p>\n<p>&#8216;Como fizemos ver em princ\u00edpio, as turmas militantes condensavam<br \/>\nas classe oper\u00e1rias e os escravos, express\u00e3o n\u00edtida da<br \/>\ncapoeiragem de rua.\u201d Em outro momento da sua narrativa, Melo Moraes<br \/>\nfala da presen\u00e7a de portugueses e demais cidad\u00e3os no meio da<br \/>\nCapoeira, \u00e0 \u00e9poca assimilada como costume popular.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sendo estranhos ao jogo, portugueses havia que se aliavam<br \/>\n\u00e0s maltas avulsas, distinguindo-se entre eles homens de inaudita coragem<br \/>\ne espantosa agilidade.<\/p>\n<p>&#8216;Luzidas companhias de batalh\u00f5es da guarda nacional, de que tinham<br \/>\norgulho briosos comandantes, reuniam magn\u00edfica rapaziada, de onde eram<br \/>\ntirados pra\u00e7as para dilig\u00eancias perigosas, servindo igualmente<br \/>\npara as campanhas eleitorais.<\/p>\n<p>&#8216;A prova de que a capoeiragem entrava nos nossos costumes est\u00e1 em<br \/>\nque n\u00e3o havia menino que n\u00e3o botasse o bon\u00e9 \u00e0<br \/>\nbanda e soubesse gingar, nem escolas que se n\u00e3o desafiassem para brigar,<br \/>\nsendo de data recente as lutas entre os famosos col\u00e9gios Sabino, Pardal<br \/>\ne Vitorio.\u201d Mello Moraes Filho d\u00e1 uma id\u00e9ia precisa da<br \/>\nsimula\u00e7\u00e3o e dissimula\u00e7\u00e3o da inten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndurante o jogo de capoeira: \u201cO capoeira, colocado em frente a seu contendor,<br \/>\ninveste, salta, esgueira-se, pinoteia, simula, deita-se, levanta-se e, em<br \/>\num s\u00f3 instante, serve-se dos p\u00e9s, da cabe\u00e7a, das m\u00e3os,<br \/>\nda faca, da navalha, e n\u00e3o \u00e9 raro que um apenas leve de vencida<br \/>\ndez ou vinte homens\u201d .<\/p>\n<p>Ao encerrar a reportagem da Capoeira no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX,<br \/>\ntra\u00e7a Melo Moraes o perfil do famoso capoeira Manduca da Praia.<\/p>\n<p>\u201cO Manduca da Praia era um pardo claro, alto, refor\u00e7ado, gibento<br \/>\ne quando o vimos usava barba crescida em ponta, grisalha e cor de cobre.<\/p>\n<p>&#8216;De chap\u00e9u de castor branco ou de palha ao alto da cabe\u00e7a,<br \/>\nde olhos injetados e grandes, de andar compassado e resoluto, a sua figura<br \/>\ntinha alguma coisa que infundia temor e confian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8216;Trajando com dec\u00eancia, nunca dispensava o casaco grosso comprido,<br \/>\ngrande corrente de ouro que prendia o rel\u00f3gio, sapatos de bico revirado,<br \/>\ngravata de cor com anel corredi\u00e7o, trazendo somente como arma uma bengala<br \/>\nfina de cana da \u00cdndia.<\/p>\n<p>&#8216;O Manduca tinha uma banca de peixe na pra\u00e7a do Mercado, era liso<br \/>\nem seus neg\u00f3cios, ganhava bastante e trabalhava com regalo.<\/p>\n<p>&#8216;Constante morador da Cidade Nova, n\u00e3o recebia influ\u00eancias<br \/>\nda capoeiragem local nem de outras freguesias, fazendo vida \u00e0 parte,<br \/>\nsendo capoeira por sua conta e risco.<\/p>\n<p>&#8216;Destro como uma sombra, foi no curro da rua do Lavradio, canto da do Senado,<br \/>\nonde \u00e9 hoje uma cocheira de andorinhas, que ele iniciou a sua carreira<br \/>\nde rapaz destemido e valent\u00e3o, agredindo touros bravios sobre os quais<br \/>\nsaltava, livrando-se.<\/p>\n<p>&#8216;Nas elei\u00e7\u00f5es de S. Jos\u00e9 dava cartas, pintava o diabo<br \/>\ncom as c\u00e9dulas.<\/p>\n<p>&#8216;Nos esfaqueamentos e sarilhos pr\u00f3prios do momento ningu\u00e9m<br \/>\nlhe disputava a compet\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8216;Um dia, na festa da Penha, o Manduca da Praia bateu-se com tanta vantagem<br \/>\ncontra um grupo de romeiros armados de pau, que alguns ficaram estendidos<br \/>\ne os mais inutilizados na luta.<\/p>\n<p>&#8216;O fato que mais o celebrizou nesta cidade remonta \u00e0 chegada do deputado<br \/>\nSant\u2019ana, cavalheiro distint\u00edssimo e invenc\u00edvel jogador<br \/>\nde pau, dotado de uma for\u00e7a muscular prodigiosa.<\/p>\n<p>&#8216;Sant\u2019ana, que gostava de brigas e n\u00e3o recuava diante de quem<br \/>\nquer que fosse, tendo not\u00edcia do Manduca, procurou-o.<\/p>\n<p>&#8216;Encontrando-se os dois, houve o desafio, acontecendo \u00e0quele saltar<br \/>\naos ares ao primeiro canelo do nosso capoeira, depois do que beberam champagne<br \/>\nambos e continuaram amigos.\u201d Outro capoeira famoso no come\u00e7o<br \/>\ndo s\u00e9culo XX foi Prata Preta, um dos principais l\u00edderes populares<br \/>\nda Revolta da Vacina (1904), que se notabilizou por seus confrontos com a<br \/>\npolicia durante o conflito. Sobre essa \u00e9poca \u00e9 interessante<br \/>\na leitura do relato de Lima Campos, em artigo intitulado \u201cA Capoeira\u201d,<br \/>\npublicado em 1906 na Revista Kosmos. trazendo o registro de um flagrante testemunhado<br \/>\npelo jornalista: &#8220;A alma do capoeira \u00e9 o olhar; uma esgrima sutil,<br \/>\n\u00e1gil, firme, atenta, em que a retina \u00e9 o florete flex\u00edvel,<br \/>\npenetrante, indo quase devassar a inten\u00e7\u00e3o ainda oculta, o desejo<br \/>\napenas pensado, voltada sempre para o advers\u00e1rio, apanhando-lhe todos<br \/>\nos movimentos, surpreendendo-lhe os mais insignificantes amea\u00e7os, para<br \/>\ndesvi\u00e1-los, em tempo, com a destreza defensiva dos bra\u00e7os em<br \/>\nrebates l\u00e9pidos ou evit\u00e1-los com os desvios laterais e os recuos<br \/>\nsaltados do corpo, leve, sobre ponta de p\u00e9s, at\u00e9 facultar e<br \/>\nperceber a aberta e entrar, &#8216;para ver como \u00e9, para contar como foi&#8217;,<br \/>\nsegundo o cal\u00e3o pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>&#8216;O capoeira n\u00e3o inutiliza unicamente o advers\u00e1rio pelos seus<br \/>\ngolpes; inutiliza-o tamb\u00e9m, e pior, pelo rid\u00edculo.<\/p>\n<p>&#8216;N\u00e3o lutava em sil\u00eancio, proferia sempre termos grosseiros<br \/>\nvisando exasperar, ridicularizar o contendor. Na churumela (cabe\u00e7ada),<br \/>\npor exemplo, que eles denominavam &#8216;levar a torre do pensamento ao aparelho<br \/>\nmastigante do poeta&#8217;, o advers\u00e1rio era atingido com a cabe\u00e7a<br \/>\nnum golpe vigoroso, desfechado embaixo do queixo, projetado no espa\u00e7o<br \/>\ne finalmente, esborrachava-se de ventre no ch\u00e3o, ou em cambalhotas<br \/>\ncom pernas para cima&#8221;.<\/p>\n<p>O jornalista e escritor Coelho Neto (1864-1934), professor de Literatura<br \/>\ne Teatro, formado pela Faculdade de Direito do Largo do S\u00e3o Francisco,<br \/>\nautor de mais de cem obras liter\u00e1rias e um dos fundadores da Academia<br \/>\nBrasileira de Letras (cadeira n\u00ba 2), tamb\u00e9m praticou a Capoeira.<br \/>\nEm &#8216;O Nosso Jogo&#8217;, um dos cap\u00edtulos do seu livro Bazar, tamb\u00e9m<br \/>\nregistra suas impress\u00f5es sobre as caracter\u00edsticas da arte no<br \/>\nseu tempo: &#8220;O que matou a capoeiragem entre n\u00f3s foi&#8230; a navalha.<br \/>\nEssa arma, entretanto, sutil e covarde, raramente aparecia na m\u00e3o de<br \/>\num chefe de malta, de um verdadeiro capoeira, que se teria por desonrado se,<br \/>\npara derrotar um advers\u00e1rio, se houvesse de servir do ferro&#8221;.<\/p>\n<p>Em outra passagem Coelho Neto esclarece que a arma era descartada pelo capoeira<br \/>\nque sabia aplicar com efici\u00eancia os golpes, tirando de a\u00e7\u00e3o<br \/>\no advers\u00e1rio: &#8220;O capoeira digno n\u00e3o usava navalha: timbrava<br \/>\nem mostrar as m\u00e3os limpas quando sa\u00eda de um turumbamba (briga,<br \/>\ndesordem). Generoso, se trambolhava (aplicava queda violenta) o advers\u00e1rio,<br \/>\nesperava que ele se levantasse para continuar a luta porque &#8220;n\u00e3o<br \/>\nbatia em homem deitado&#8221;; outros diziam, com mais desprezo, &#8220;em defunto&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar os contornos do perfil do capoeira carioca<br \/>\ndescrito por Coelho Neto: &#8216;O capoeira que se prezava tinha of\u00edcio ou<br \/>\nemprego, vestia com apuro e, se defendia uma causa, como aconteceu com a do<br \/>\nAbolicionismo, n\u00e3o o fazia como mercen\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8216;Quanto \u00e0s provas de superioridade da capoeiragem sobre os demais<br \/>\nesportes de agilidade e for\u00e7a s\u00e3o tantas que seria prolixa a<br \/>\nenumera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8216;Al\u00e9m dos feitos dos contempor\u00e2neos de Boca Queimada e Manduca<br \/>\nda Praia, her\u00f3is do per\u00edodo \u00e1ureo do nosso desestimado<br \/>\nesporte, citarei, entre outros, a derrota de famoso jogador de pau, guapo<br \/>\nrapag\u00e3o minhoto, que Augusto Mello duas vezes atirou de catrambias<br \/>\n(desprezo) no pomar da sua chacarinha em Vila Isabel onde, depois da luta<br \/>\ne dos abra\u00e7os de cordialidade, foi servida vasta feijoada.<\/p>\n<p>&#8216;Outro: a tunda infligida por Z\u00e9 Caetano e dois cabras destorcidos<br \/>\na grupo de marinheiros franceses, de uma corveta Palas. A maruja n\u00e3o<br \/>\nesteve com muita delonga e, vendo que a coisa n\u00e3o lhe cheirava bem<br \/>\nem terra, atirou-se ao mar, salvando-se a nado, da agilidade dos tr\u00eas<br \/>\nturunas, que a n\u00e3o deixavam tomar p\u00e9&#8221;.<\/p>\n<p>O escritor Manoel Querino, no Jornal de Not\u00edcias, da cidade de Salvador,<br \/>\nna Bahia, do dia 2 de junho de 1914, em depoimento intitulado &#8216;A Combuca Eleitoral&#8217;<br \/>\ntrata das disputas entre liberais e conservadores e do papel dos capoeiras<br \/>\na soldo dos partidos, na ocasi\u00e3o em que se realizavam as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cO capoeira fora sempre figura indispens\u00e1vel nos pleitos eleitorais,<br \/>\nfazendo respeitar a opini\u00e3o de correligion\u00e1rios, provocando<br \/>\na desordem, sempre que se fazia necess\u00e1rio; espancando o advers\u00e1rio<br \/>\ne contribuindo desse modo para a forma\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara dos<br \/>\nFagundes.\u201d Prosseguindo em sua narrativa Manoel Querino descreve o dia<br \/>\ndo pleito eleitoral: \u201cChegado que fosse o dia da elei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nestavam as hostes preparadas para a luta, cada partido arregimentava o seu<br \/>\npessoal, composto de votantes, turbulentos, capoeiras e aderentes. Todos a<br \/>\npostos, come\u00e7ava a chamada, no campo da matriz da par\u00f3quia.<br \/>\nNa ocasi\u00e3o aprazada, dava-se um conflito, era o meio de perturbar a<br \/>\nelei\u00e7\u00e3o. Chamava-se um cidad\u00e3o para votar; o grupo pol\u00edtico<br \/>\nque dispunha de maior n\u00famero de desordeiros, gritava: &#8211; \u00c9 f\u00f3sforo!<br \/>\n&#8211; \u00c9! &#8211; N\u00e3o \u00e9!&#8230; E fechava-se o tempo&#8230; Gritos, protestos,<br \/>\ndoestos, uma vozeria ensurdecedora, e, por fim, recorriam ao argumento decisivo<br \/>\n&#8211; o cacete; e o sangue dos partid\u00e1rios ensopava as lajes do templo,<br \/>\nsendo alguma vez interdito pela autoridade diocesana.<\/p>\n<p>&#8216;Aproveitando a confus\u00e3o do momento, o votante mais sagaz introduzia<br \/>\nna urna um ma\u00e7o de chapas. Chamava-se esta a\u00e7\u00e3o &#8211; emprenhar<br \/>\na urna. De modo que a vit\u00f3ria das urnas estava na raz\u00e3o de quem<br \/>\ndispunha dos maiores elementos de desordem, fossem paisanos ou militares.\u201d<br \/>\nO mesmo sistema que gerava a mis\u00e9ria provocava as turbul\u00eancias<br \/>\nno contexto social: fabricava aquele estado de coisas. Os capoeiras faziam<br \/>\nuso da viol\u00eancia, indistintamente, contra membros de uma sociedade que<br \/>\nsobrevivia \u00e0s custas da escravid\u00e3o, a viol\u00eancia institucionalizada<br \/>\nsempre gerando mais viol\u00eancia. Enquanto isso, a Capoeira fazia mais<br \/>\nadeptos, em todas os segmentos sociais. Segundo Francisco Pereira da Silva,<br \/>\no escritor Coelho Neto era ex\u00edmio na arte: \u201c\u00c1gil na pena<br \/>\nquanto destro na rasteira, duas vezes publicamente se valeu do ensino da capoeiragem<br \/>\nrecebido nos tempos de rapaz. Josu\u00e9 Montello refere-se a um destes<br \/>\nepis\u00f3dios, precisando a data de 6 de agosto de 1886, quando \u00e0<br \/>\nnoite em meeting de abolicionistas no Teatro Politeama do Rio de Janeiro,<br \/>\ndiscursava Quintino Bocai\u00fava. A certa altura, capoeiristas a soldo<br \/>\ndos escravocratas irrompem das galerias e armam tremendo salseiro. Luzes apagadas,<br \/>\nvem Coelho Neto e realiza a incr\u00edvel proeza de desarmar o chefe do<br \/>\nbando, que outro n\u00e3o era sen\u00e3o Benjamim &#8211; o mais tem\u00edvel<br \/>\ncapoeira carioca.\u201d De outra feita, o mesmo romancista Coelho Neto, em<br \/>\nepis\u00f3dio tamb\u00e9m narrado por Josu\u00e9 Montello e aqui transcrito<br \/>\nde Pereira da Silva, demonstrou seus atributos de destreza e valentia: \u201cNa<br \/>\nAcademia Brasileira de Letras, fizera o tribuno maranhense refer\u00eancia<br \/>\nem desfavor de um colega de imortalidade. Dias depois lhe apareceu um filho<br \/>\ndo suposto ofendido exigindo satisfa\u00e7\u00e3o. Gravemente desentenderam-se<br \/>\ne o jovem, que era atleta, n\u00e3o retardou seu golpe de jiu-jitsu. Instantaneamente<br \/>\ne com agilidade felina, partiu Coelho Neto para o rabo de arraia levando o<br \/>\ninsolente a beijar o p\u00f3 da cal\u00e7ada e a sumir no oco do mundo&#8230;\u201d<br \/>\nDo capoeira da Bahia, no s\u00e9culo passado, tra\u00e7ou Manoel Querino<br \/>\num perfil da sua figura inconfund\u00edvel, que em muito se assemelhava<br \/>\n\u00e0 do seu contempor\u00e2neo capoeira do Rio de Janeiro: \u201cEra<br \/>\num indiv\u00edduo desconfiado e sempre prevenido. Andando nos passeios,<br \/>\nao aproximar-se de uma esquina tomava imediatamente a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo meio da rua; em viagem se uma pessoa fazia o gesto de cortejar a algu\u00e9m,<br \/>\no capoeira, de s\u00fabito, saltava longe, com a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde desviar uma agress\u00e3o, embora imagin\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8216;Eram conhecidos \u00e0 primeira vista pela atitude singular do corpo,<br \/>\npelo andar arrevesado, pelas cal\u00e7as de boca larga, ou pantalona, cobrindo<br \/>\ntoda a parte anterior do p\u00e9, pela argolinha de ouro na orelha, como<br \/>\nins\u00edgnia de for\u00e7a e valentia, e o nunca esquecido chap\u00e9u<br \/>\n\u00e0 banda.\u201d Muitos foram os capoeiras que deixaram seus nomes e<br \/>\nfeitos inscritos nas p\u00e1ginas dos cronistas da hist\u00f3ria, deixando<br \/>\nevidente a aptid\u00e3o para feitos de coragem e bravura. Exemplo disso<br \/>\ns\u00e3o as p\u00e1ginas do jornalista e escritor Monteiro Lobato, cronista<br \/>\ne romancista, criador do S\u00edtio do Pica-pau Amarelo e seus personagens,<br \/>\nobra que o imortalizaria como maior nome da literatura infantil brasileira.<br \/>\nO seu testemunho sobre o 22 do Maraj\u00f3 foi transcrito por Jo\u00e3o<br \/>\nLyra Filho, em Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Sociologia dos Desportos:<br \/>\n\u201cTrata-se de um marinheiro, mestre em desordens, habituado a revirar<br \/>\nde pernas para o ar quiosques portugueses; imperava na Sa\u00fade, onde<br \/>\nsuas proezas de capoeira ex\u00edmio andavam de boca em boca. Tantas fez<br \/>\nque o governo o mandou para o Norte, onde foi servir no Alto Amazonas. Ali<br \/>\naclimado, tornou-se rapaz sereno. Com boa pinta, ferrou namoro com a mulher<br \/>\nde um ship-chandler, tornando-se seu amante. Mas o trio teve pouca dura\u00e7\u00e3o;<br \/>\no marido enganado morreu. O marujo casou-se com a vi\u00fava, herdeira de<br \/>\nbons pacotes, pediu baixa e seguiu para a Europa. No velho mundo, permaneceu<br \/>\ndois anos, ao cabo dos quais veio morar no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8216;O marinheiro j\u00e1 era outro; transformado em perfeito cavalheiro,<br \/>\nembasbacava a rua do Ouvidor com o apuro dos trajes, as polainas de gala,<br \/>\nas luvas de pelica e a cartola caf\u00e9-com-leite. Ningu\u00e9m sabia<br \/>\nquem ele era, embora parecesse um fidalgo. Imp\u00e1vido, petroneando de<br \/>\nmon\u00f3culo, olhava de cima. De h\u00e1bitos certos, todos os dias passava<br \/>\npelo largo S\u00e3o Francisco, assim como paca pelo carreiro. O logradouro<br \/>\nera ponto de encontro preferido por alguns rapazes gr\u00e3-finos, fortemente<br \/>\ndespeitados ante a esmagadora eleg\u00e2ncia do desconhecido. Este passou<br \/>\na ser visto como um rival, sobretudo no jogo l\u00fadico do namoro com as<br \/>\ndonzelas. Os rapazes decidiram quebrar a proa do novo \u00eamulo. Certa vez<br \/>\nem que este passava, mais imponente do que nunca, coincidiu aproximar-se da<br \/>\nroda um capoeira \u2018mordedor\u2019, que se gabava de ser um mestre em<br \/>\nsoltas. \u2018Solta\u2019 era uma cabe\u00e7ada desferida no advers\u00e1rio,<br \/>\nsem encosto da m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8216;Veio a hora da \u2018mordida\u2019 e com ela a hora da forra. Os rapazes<br \/>\nselaram o trato: o capoeira embolsaria cinco mil r\u00e9is, desde que sapecasse<br \/>\numa solta naquele fregu\u00eas de mon\u00f3culo. \u2018\u00c9 pra j\u00e1\u2019,<br \/>\ndisse o valent\u00e3o, j\u00e1 indo ao encontro do rival. Postou-se perto,<br \/>\nna cal\u00e7ada por onde caminhava o \u201822\u2019, desperdi\u00e7ando<br \/>\npassos de lorde e esticado dentro do crois\u00f4 confeccionado em Londres<br \/>\nUm, dois, tr\u00eas. Quando o antigo marujo o defrontou, o capoeira avan\u00e7ou<br \/>\ne despejou-lhe primorosa cabe\u00e7ada. Mas o advers\u00e1rio, surpreendido,<br \/>\nquebrou o corpo e mandou a cabe\u00e7ada do agressor beijar a parede. Ao<br \/>\nmesmo tempo, com um p\u00e9 bem manobrado, plantou-o no ch\u00e3o com<br \/>\numa rasteira de placa. O \u2018mordedor\u2019 ergueu-se, tonto e confuso,<br \/>\npara desabar, novamente, com outra rasteira de estilo. De agressor passara<br \/>\na agredido; desnorteado, deu sebo \u00e0s canelas e foi amansar o galo da<br \/>\ncabe\u00e7a a cem passos adiante.<\/p>\n<p>&#8216;O Petr\u00f4nio ficou por ali mesmo, onde estava, dando-se ao conserto<br \/>\ndo la\u00e7o da gravata. Mas n\u00e3o perdeu o \u00edmpeto transformado<br \/>\nno desprezo dirigido aos rapazes gr\u00e3-finos e mofinos da roda elegante:<br \/>\n\u2018- S\u00f3 uma besta desta d\u00e1 soltas sem nega\u00e7a. J\u00e1<br \/>\no Cincinato Quebra-Lou\u00e7a dizia que soltas sem nega\u00e7a s\u00f3<br \/>\nem lampi\u00e3o de esquina; se grampeasse, v\u00e1 l\u00e1. O Trinca-Espinha,<br \/>\no Estrepolia e o Z\u00e9 da Gamboa admitem soltas neste caso. Mas, assim<br \/>\nmesmo, s\u00f3 quando o semovente n\u00e3o \u00e9 firme de letra.\u2019<br \/>\nE, num giro de bengala entre os dedos, rematou com um suspiro de saudade:<br \/>\n\u2018- J\u00e1 gostei desse divertimento. Hoje, minha posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial n\u00e3o me permite cultiv\u00e1-lo. Mas vejo, com tristeza, que<br \/>\na arte est\u00e1 decaindo.\u2019 E l\u00e1 se foi, imperturb\u00e1vel<br \/>\ne superior, monologando. \u2018Soltas sem nega\u00e7a&#8230;Forte besta!\u2019<br \/>\n&#8216;Mas os rapazes n\u00e3o se deram por vencidos. Recuperados ap\u00f3s<br \/>\no estupor, uma nova tentativa de desforra cresceu no \u00e2nimo deles. A<br \/>\ndesforra deveria ser contundente. J\u00e1 ent\u00e3o, a surra deveria<br \/>\nser mediante contrato: adjudicaram a empresa ao famoso Dente de Ouro, da Sa\u00fade,<br \/>\nque haveria de romper o baluarte e quebrar de vez a proa ao estranho figur\u00e3o.<br \/>\nTudo bem assentado, foram colocar-se no momento aprazado junto ao carreiro,<br \/>\ncom o rompe-e-rasga \u00e0 frente. \u2018\u00c9 aquele l\u00e1\u2019<br \/>\n&#8211; apressaram-se em dizer, assim que ao longe repontou a cartola caf\u00e9-com-leite<br \/>\ndo sobranceiro lutador. Dente de Ouro avan\u00e7ou para o desconhecido;<br \/>\nao defront\u00e1-lo, entreparou e abriu-se num grande riso palerma: \u2018Ei<br \/>\n22! Voc\u00ea por aqui?\u2019 E a resposta: \u2018- Cala o bico, moleque,<br \/>\ne tome l\u00e1 para o cigarro. Afasta-te que hoje sou gente; n\u00e3o<br \/>\nando em m\u00e1s companhias.\u2019 E o 22 do Maraj\u00f3 seguiu caminho<br \/>\nhonesto, depois de meter uma pelega de dez na m\u00e3o do Dente de Ouro.<br \/>\nEste, alisando a nota, voltou ao grupo dos gr\u00e3-finos. \u2018Ent\u00e3o?\u2019<br \/>\n&#8211; um dos rapazes interrogou-o, desnorteado com o imprevisto desfecho. &#8211; \u2018C\u00eas<br \/>\nt\u00e3o besta? Aquele \u00e9 o 22 do Maraj\u00f3, tem corpo fechado<br \/>\npara sardinha e p\u00e9 que nunca melou saque!\u2019 \u201d Em A Alma<br \/>\nEncantada das Ruas, Jo\u00e3o do Rio, pseud\u00f4nimo de Paulo Barreto,<br \/>\njornalista, romancista, cronista, teatr\u00f3logo e contista, autor de Dentro<br \/>\nda Noite, A mulher e Os Espelhos, e dos livros de reportagens As Religi\u00f5es<br \/>\ndo Rio e Movimento Liter\u00e1rio, nascido em 1880 e que veio a falecer<br \/>\nem 1921, na cr\u00f4nica Presepes, aborda um grupo carnavalesco formado por<br \/>\nnegros da Bahia, que tem sua sede na praia Formosa, o Rei de Ouros. Descrevendo<br \/>\nsuas conversas com Dud\u00fa, um dos integrantes do grupo, quanto \u00e0<br \/>\ncomposi\u00e7\u00e3o do Presepes, indagou: \u201c- Mas porque, continuo<br \/>\neu curioso, p\u00f5em voc\u00eas junto do rei Baltazar aquele boneco de<br \/>\ncacete? &#8211; Aquele \u00e9 o rei da capoeiragem. Est\u00e1 perto do rei Baltazar<br \/>\nporque deve estar. Rei preto tamb\u00e9m viu a estrela. Deus n\u00e3o<br \/>\nesqueceu a gente. Ora, n\u00e3o sei se V.S. conhece que Baltazar \u00e9<br \/>\npai da ra\u00e7a preta. Os negros de Angola quando vieram para a Bahia trouxeram<br \/>\numa dan\u00e7a cung\u00fa, em que se ensinava a brigar. Cung\u00fa com<br \/>\no tempo virou mandinga e S. Bento.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que tem tudo isso? &#8211; Isso, gente, s\u00e3o nomes antigos da capoeiragem.<br \/>\nJogar capoeira \u00e9 o mesmo que jogar mandinga. Rei da capoeiragem tem<br \/>\nseu lugar junto de Baltazar. Capoeiragem tem sua religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Abri os olhos pasmados. O negro riu.<\/p>\n<p>&#8211; V.S, n\u00e3o conhece a arte? Hoje est\u00e1 por baixo. Valente de<br \/>\nverdade s\u00f3 h\u00e1 mesmo uns dez: Jo\u00e3o da S\u00e9, Tito<br \/>\nda Praia, Chico Bolivar, Marinho da Silva, Manoel Piquira, Ludgero da Praia,<br \/>\nManoel Tolo, Mois\u00e9s, Mariano da Piedade, C\u00e2ndido Baianinho e<br \/>\noutros&#8230; Esses cabras sabiam jogar mandingas como homens&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o os capoeiras est\u00e3o nos presepes para acabar com as<br \/>\npresepadas.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor. Capoeiragem \u00e9 uma arte, cada movimento tem um nome.<br \/>\n\u00c9 mesmo como sorte de jogo. Eu agacho, prendo V.S. pelas pernas e viro:<br \/>\n&#8211; V.S. virou bal\u00e3o e eu entrei de baixo. Se eu cair virei boi. Se eu<br \/>\nlan\u00e7ar uma tesoura eu sou um porco, porque tesoura n\u00e3o se usa<br \/>\nmais. Mas posso arrestar-lhe uma tarrafa mestra.<\/p>\n<p>&#8211; Tarrafa? &#8211; \u00c9 uma rasteira com for\u00e7a. Ou esperar o d\u00e9gas<br \/>\nde galho, assim duro, com os bra\u00e7os para o ar e se for rapaz da luta,<br \/>\npassar-lhe o tronco na queda, ou, se for arara, arrumar-lhe mesmo o ba\u00fa,<br \/>\npontap\u00e9 na pan\u00e7a. Ah! V.S. n\u00e3o imagina que por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde nomes tem o jogo. S\u00f3 rasteira, quando \u00e9 deitada, chama-se<br \/>\nbanda, quando com for\u00e7a, tarrafa, quando no ar, para bater na cara<br \/>\ndo cabra, meia lua&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 um jogo bonito!, fiz para content\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Vai at\u00e9 o au\u00ea, salto mortal, que se inventou na Bahia.<\/p>\n<p>&#8216;Para aquela li\u00e7\u00e3o intempestiva, j\u00e1 se havia formado<br \/>\num grupo de temperamentos b\u00e9licos. Um rapazola falou: &#8211; E a encruzilhada?<br \/>\n&#8211; \u00c9 verdade, n\u00e3o disseste nada da encruzilhada? &#8216;E a discuss\u00e3o<br \/>\ncresceu. Parecia que iam brigar&#8230;<\/p>\n<p>&#8216;Fora, a chuva jorrava torrencial. Um rel\u00f3gio p\u00f4s-se a bater<br \/>\npregui\u00e7osamente meia-noite. As mulatinhas cantavam tristes: \u2018Meu<br \/>\nrei de Ouros quem te matou?\/Foi um pobre ca\u00e7ad\u00f4\u2019 &#8216;Mas Dud\u00fa<br \/>\nsaltou para o meio da sala. Houve um choque de palmas. E diante do quarto,<br \/>\nonde se confundia o mundo em adora\u00e7\u00e3o a Deus, o negro cantou<br \/>\nacompanhado pelo coro: \u2018J\u00e1 deu meia noite\/O sol est\u00e1 pendente<br \/>\nUm quilo de carne\/ Para tanta gente!\u2019 &#8216;Oh! Suave ironia dos malandros!<br \/>\nNa bai\u00faca havia alegria, parati, \u00e1lcool, fantasia, talvez o<br \/>\namor nascido de todas aquelas dan\u00e7as e do insuport\u00e1vel cheiro<br \/>\ndo \u00e9ter floral&#8230;<\/p>\n<p>&#8216;N\u00e3o havia, por\u00e9m, com que comer. Diante de Jesus, que s\u00f3<br \/>\nlhes dera o dia de amanh\u00e3, a queixa se desfazia num quase riso. Um<br \/>\nquilo de carne para tanta gente! &#8216;Talvez nem isso! Sa\u00ed, deixei o \u00faltimo<br \/>\npresepe.<\/p>\n<p>&#8216;De longe, a casinhola com as suas ilumina\u00e7\u00f5es tinha um ar<br \/>\nde sonho sob a chuva, um ar de milagre, o milagre da cren\u00e7a, sempre<br \/>\neterna e vivaz, saudando o natal de Deus, atrav\u00e9s da ingenuidade dos<br \/>\npobres. Como seria bom dar-lhes de comer, \u00f3 Deus Poderoso! &#8216;Como lhes<br \/>\ndaria eu um farto jantar se, como eles, n\u00e3o tivesse apenas a esperan\u00e7a<br \/>\nde amanh\u00e3 obter um quilo de carne s\u00f3 para mim!\u201d Jo\u00e3o<br \/>\nMoniz, poeta nascido em Santo Amaro da Purifica\u00e7\u00e3o, na Bahia,<br \/>\ndeixou nas p\u00e1ginas do jornal A Tarde um relato das suas impress\u00f5es<br \/>\nacerca do famoso capoeira Besouro, personagem que at\u00e9 os dias de hoje<br \/>\n\u00e9 cantado nas rodas do jogo. Com palavras de evidente admira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nafirmou o poeta: \u201cBesouro foi a maior atra\u00e7\u00e3o de minha<br \/>\ninf\u00e2ncia. Seus combates simulados com Doze Homens, Ioi\u00f4, Nicori<br \/>\ne outros capoeiristas seus amigos, ao som do berimbau e do pandeiro, eram<br \/>\nespet\u00e1culos magn\u00edficos de for\u00e7a, agilidade e delicadeza,<br \/>\nem que os suarentos e leais contendores se aplicavam, mutuamente, os perigosos<br \/>\npreceitos de ataque e defesa, cuidadosos de se n\u00e3o machucarem, por<br \/>\nque n\u00e3o sa\u00edssem mal-avindos do brinquedo. E Besouro, ent\u00e3o,<br \/>\nprimava por essas atitudes de nobreza, ele que era respeitado como o primus<br \/>\ninter pares, no rec\u00f4ncavo e no costeiro baianos, da luta, que lhe levaria<br \/>\no nome, em situa\u00e7\u00e3o privilegiada, ao nosso folclore.<\/p>\n<p>&#8216;Conheci Besouro na pujan\u00e7a dos seus vinte e poucos anos. Era am\u00e1vel,<br \/>\nbrincalh\u00e3o, amigo das crian\u00e7as e \u2018respeitador dos brancos\u2019.<br \/>\nDe uma coragem pessoal que parecia loucura, gostava de \u2018buli\u2019<br \/>\ncom a pol\u00edcia. E n\u00e3o raro explodia um turundundum dos diabos<br \/>\nem frente \u00e0 cadeia velha, sua terra natal. Era Besouro, que, noite<br \/>\nvelha, havia acordado o destacamento para um \u2018brinquedo\u2019, que<br \/>\nse prolongava em correrias e tiros, e de que ele sa\u00eda ileso e sempre<br \/>\nsorrindo, como entrava.<\/p>\n<p>&#8216;\u00c0s vezes, no calor da luta, tirava um pouco de \u2018tinta\u2019<br \/>\nnos pra\u00e7as, mas nunca matou ningu\u00e9m. Tinha tanto horror a palavra<br \/>\nassassino quanto adorava o termo valente, que lhe cabia a rigor.\u201d A<br \/>\nrespeito de uma vers\u00e3o &#8211; at\u00e9 hoje bastante acreditada &#8211; da morte<br \/>\nde Besouro, onde este teria sido \u201cmorto trai\u00e7oeiramente pela<br \/>\npol\u00edcia, por ter abatido oito pra\u00e7as com a capoeira, de uma<br \/>\ns\u00f3 vez\u201d, vers\u00e3o esta que foi publicada em reportagem assinada<br \/>\npor Cl\u00e1udio Tuiuty Tavares, em O Cruzeiro, afirmou Jo\u00e3o Moniz<br \/>\nem sua cr\u00f4nica: \u201cAquele partic\u00edpio &#8211; abatido &#8211; empregado<br \/>\npelo rep\u00f3rter, deixa entender que Besouro matou oito soldados e por<br \/>\nisso foi morto. N\u00e3o, j\u00e1 deixei dito que Besouro nunca matou<br \/>\nningu\u00e9m, e posso afirmar, com absoluta seguran\u00e7a, que n\u00e3o<br \/>\nfoi morto pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8216;Contam-se duas vers\u00f5es da morte de Besouro. Uma, inver\u00eddica,<br \/>\nresultante de perf\u00eddia pol\u00edtica, e a outra, verdadeira, em que<br \/>\nBesouro, embriagado, fora ferido a punhal, trai\u00e7oeiramente, por um<br \/>\nrapazelho subestimado por ele \u00e0 vista de outros, quando bebiam numa<br \/>\nvenda. E n\u00e3o morreu propriamente do golpe, mas, de mau trato, que o<br \/>\ndeixaram no ch\u00e3o por mais de um dia, o intestino \u00e0 mostra, antes<br \/>\nque o trouxessem para a Santa Casa de Miseric\u00f3rdia de Santo Amaro,<br \/>\nonde fechou os olhos para a vida, cercado de amigos, admiradores e curiosos.\u201d<br \/>\nAl\u00e9m do famoso Besouro, muitos capoeiras se notabilizaram, sendo que<br \/>\nalguns se tornaram conhecidos mundialmente, como \u00e9 o caso do pescador<br \/>\nSamuel Querido de Deus, de Salvador, numa fase em que havia cessado a repress\u00e3o<br \/>\nao jogo da Capoeira e sua pr\u00e1tica j\u00e1 n\u00e3o era mais proibida.<br \/>\nJorge Amado, em Bahia de Todos os Santos, tra\u00e7ou o perfil do Querido<br \/>\nde Deus, no ano de 1944, quando o pescador ainda vivia, sob o t\u00edtulo<br \/>\nO Capoeira: \u201cJ\u00e1 come\u00e7aram os fios de cabelo branco na<br \/>\ncarapinha de Samuel Querido de Deus. Sua cor \u00e9 indefinida. Mulato,<br \/>\ncom certeza. Mas mulato claro ou mulato escuro, bronzeado pelo sangue ind\u00edgena<br \/>\nou com tra\u00e7os de italiano no rosto anguloso? Quem sabe? Os ventos do<br \/>\nmar nas pescarias deram ao rosto do Querido de Deus essa cor que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 igual a nenhuma cor conhecida, nova para todos os pintores. Ele parte<br \/>\ncom seu barco para os mares do sul do estado onde \u00e9 farto o peixe.<br \/>\nQuantos anos ter\u00e1? \u00c9 imposs\u00edvel saber nesse cais da Bahia,<br \/>\npois de h\u00e1 muitos anos que o saveiro de Samuel atravessa o quebra-mar<br \/>\npara voltar, dias depois, com peixe para a banca do mercado Modelo. Mas o<br \/>\nvelhos canoeiros poder\u00e3o informar que mais de sessenta invernos j\u00e1<br \/>\nse passaram desde que Samuel nasceu. Pois sua cabe\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntem fios brancos na carapinha que parece eternamente molhada de \u00e1gua<br \/>\ndo mar? &#8216;Mais de sessenta anos. Com certeza. Por\u00e9m ainda assim, n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 melhor jogador de capoeira, pelas festas de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Praia, na primeira semana de dezembro, que o Querido de Deus. Que venha<br \/>\nJuvenal, jovem de vinte anos, que venha o mais \u00e1gil, o mais t\u00e9cnico,<br \/>\nque venha qualquer um, e Samuel, o Querido de Deus, mostra que ainda \u00e9<br \/>\no rei da capoeira da Bahia de Todos os Santos. Os demais s\u00e3o seus disc\u00edpulos<br \/>\ne ainda olham espantados quando ele se atira no rabo-de-arraia, porque eleg\u00e2ncia<br \/>\nassim nunca se viu&#8230; E j\u00e1 sua carapinha tem cabelos brancos&#8230;<\/p>\n<p>&#8216;Existem muitas hist\u00f3rias a respeito de Samuel Querido de Deus. Muitas<br \/>\nhist\u00f3rias que s\u00e3o contadas no Mercado e no cais. Americanos<br \/>\ndo norte j\u00e1 vieram para v\u00ea-lo lutar. E pagaram muito caro por<br \/>\numa exibi\u00e7\u00e3o do velho lutador.<\/p>\n<p>&#8216;Certa vez seu amigo escritor foi procur\u00e1-lo. Dois cinematografistas<br \/>\nqueriam filmar uma luta de capoeira. Samuel chegara da pescaria, dez dias<br \/>\nno mar e trazia ainda nos olhos um resto de vento sul. Prontificou-se. Fomos<br \/>\nem busca de Juvenal. E, com as m\u00e1quinas de som e de filmagem, dirigimo-nos<br \/>\ntodos para a Feira de \u00c1gua dos Meninos. A luta come\u00e7ou e foi<br \/>\nsoberba. Os cinematografistas rodavam suas m\u00e1quinas. Quando tudo terminou,<br \/>\nJuvenal estendido na areia, Samuel sorrindo, o mais velho dos operadores perguntou<br \/>\nquanto era. Samuel disse uma soma absurda na sua l\u00edngua atrapalhada.<br \/>\nFora quanto os americanos haviam pago para v\u00ea-lo lutar. O escritor explicou<br \/>\nent\u00e3o que aqueles eram cinematografistas brasileiros, gente pobre.<br \/>\nSamuel Querido de Deus abriu os dentes num sorriso compreensivo. Disse que<br \/>\nn\u00e3o era nada e convidou todo mundo para comer sarapatel no botequim<br \/>\nem frente.<\/p>\n<p>&#8216;Podeis v\u00ea-lo de quando em quando no cais. De volta de uma pescaria<br \/>\ncom seu saveiro. Mas com certeza o vereis na festa da Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Praia, derrotando os capoeiras, pois ele \u00e9 o maior de todos. Seu<br \/>\nnome \u00e9 Samuel Querido de Deus.\u201d Os principais estudiosos da cultura<br \/>\nbrasileira, no passado recente, imortalizaram o jogo da Capoeira em p\u00e1ginas<br \/>\nmagistrais. \u00c9 este o caso de Eunice Catunda, que concorreu com suas<br \/>\nobserva\u00e7\u00f5es para fixar an\u00e1lise do jogo e das suas tradi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nem artigo intitulado Capoeira no Terreiro de Mestre Waldemar, publicado em<br \/>\nFundamentos &#8211; Revista de Cultura Moderna, no ano de 1952, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201cTodo artista que n\u00e3o acredita no fato de que s\u00f3 o povo<br \/>\n\u00e9 o eterno criador, que s\u00f3 dele nos pode vir a for\u00e7a<br \/>\ne a verdadeira possibilidade de express\u00e3o art\u00edstica, deveria<br \/>\nassistir a uma capoeira baiana. Ali a for\u00e7a criadora se evidencia,<br \/>\nvigorosa, livre dos preconceitos mesquinhos do academismo, tendo como lei<br \/>\nprimordial e soberana a pr\u00f3pria vida que se expressa em gestos, em<br \/>\nm\u00fasica, em poesia. Ali se exprime a vida magn\u00edfica e bela, em<br \/>\nnada prejudicada pela capacidade limitada dos instrumentos musicais primitivos,<br \/>\naos quais se adapta sem ser por eles diminu\u00edda.<\/p>\n<p>&#8216;O senso de realiza\u00e7\u00e3o coletiva, pr\u00f3pria ess\u00eancia<br \/>\nda arte, se revela no tr\u00edplice aspecto da capoeira, que \u00e9 uma<br \/>\nfus\u00e3o de tr\u00eas artes: m\u00fasica, poesia e coreografia.\u201d<br \/>\nEm seguida, Eunice Catunda acrescenta sua opini\u00e3o quanto ao lugar ocupado<br \/>\npela Capoeira no contexto das artes, abalizada por sua forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nmusical erudita: \u201cA dan\u00e7a da capoeira, na Bahia, \u00e9 o que<br \/>\njamais deixou de ser a verdadeira arte: n\u00e3o um divertimento, mas uma<br \/>\nnecessidade. Ali\u00e1s, \u00e9 esse um dos fatores a que se deve a for\u00e7a<br \/>\nmil vezes mais viva da arte popular quando a comparamos \u00e0 m\u00fasica<br \/>\nerudita: esse car\u00e1ter funcional, esse aspecto de necessidade imperiosa<br \/>\nque tem toda arte que o povo cultua. Ao passo que a m\u00fasica erudita<br \/>\nsoa cada vez mais falsa, se revela sempre mais um simples gozo de sibaritas,<br \/>\nsem fun\u00e7\u00e3o, desnecess\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8216;Na Bahia, a arte da capoeira \u00e9 atividade domingueira, t\u00e3o<br \/>\nnormal e querida quanto o nosso grande esporte nacional, o futebol. E quem<br \/>\na exerce \u00e9, na maioria, o povo trabalhador: oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ncivil, carregadores do mercado, gente de profiss\u00e3o definida, que passa<br \/>\na semana inteira no duro batente, lutando para garantir o p\u00e3o de cada<br \/>\ndia, para si e para sua fam\u00edlia.\u201d Na aprecia\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Capoeira e suas caracter\u00edsticas, a cronista prossegue registrando<br \/>\na fun\u00e7\u00e3o do mestre-capoeira e seu papel junto aos praticantes,<br \/>\nguardando uma tradi\u00e7\u00e3o que continua no correr dos anos: \u201cO<br \/>\nritual, a tradi\u00e7\u00e3o a que obedecem os participantes da capoeira,<br \/>\ns\u00e3o muito r\u00edgidos. O mestre \u00e9 o conhecedor da tradi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDa\u00ed ser ele, tamb\u00e9m a autoridade m\u00e1xima. Supervisiona<br \/>\no conjunto todo, determinando a m\u00fasica, o andamento, tirando ou indicando<br \/>\nos cantos ou indicando a pessoa que o fa\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8216;Os concorrentes novatos dan\u00e7am entre si. Mas quando algum bailarino<br \/>\nse destaca, o mestre dan\u00e7a com ele, apontando-o, por meio dessa distin\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 aten\u00e7\u00e3o dos veteranos, novatos e assistentes. Essa<br \/>\nautoridade do Mestre \u00e9 uma das coisas mais admir\u00e1veis e comoventes<br \/>\nque tenho visto. O respeito a ele demonstrado pela coletividade, o carinho<br \/>\ncom que o cercam, fariam inveja a muito regente de m\u00fasica erudita.<br \/>\nProva isto que o esp\u00edrito de disciplina \u00e9 mais vivo no povo<br \/>\nrude e inculto da nossa terra, quando este se organiza, que entre as camadas<br \/>\nsuperiores, j\u00e1 mais habituados \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o conseq\u00fcente<br \/>\nda pr\u00f3pria instru\u00e7\u00e3o e do exerc\u00edcio de atividades<br \/>\nculturais e que, por isso mesmo, teriam maior obriga\u00e7\u00e3o de compreender<br \/>\na necessidade e a import\u00e2ncia da disciplina na coletividade. Acontece<br \/>\npor\u00e9m que o mestre nunca abusa de seus direitos. N\u00e3o se atribui<br \/>\npoderes ditatoriais. Sabe que sua autoridade emana da pr\u00f3pria coletividade<br \/>\ne comporta-se como parte integrante desta.\u201d Ao entrar na descri\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo terreiro onde aprecia a Capoeira, as anota\u00e7\u00f5es descrevem<br \/>\nas condi\u00e7\u00f5es de vida da gente an\u00f4nima e humilde que resiste<br \/>\ncom a luta: \u201cO terreiro de mestre Waldemar localiza-se no c\u00e9lebre<br \/>\nbairro prolet\u00e1rio da Liberdade. Bairro de grande densidade de popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsem pretens\u00f5es, esquecido da Prefeitura que se preocupa em embelezar<br \/>\ne cuidar s\u00f3 daqueles trechos da Cidade do Salvador que se encontram<br \/>\n\u00e0 vista do turista. Quanto ao bairro da Liberdade, n\u00e3o \u00e9<br \/>\npara \u2018gringo\u2019 ver. Como todo bairro oper\u00e1rio, n\u00e3o<br \/>\ntem cal\u00e7amento, \u00e9 cheio de valas onde, em tempo de chuva, as<br \/>\n\u00e1guas parecem envoltas em nuvens de mosquitos; seus incont\u00e1veis<br \/>\ncasebres mal se t\u00eam de p\u00e9, e se o fazem \u00e9 por pura teimosia.<br \/>\nAbundam as vendolas onde se compra desde o jab\u00e1 at\u00e9 a caninha.<br \/>\n\u00c9 um bairro repleto de vida e de movimento, corajoso e revoltado.\u201d<br \/>\nA descri\u00e7\u00e3o da Capoeira praticada \u00e0 \u00e9poca evidencia<br \/>\na beleza do jogo tradicional, na per\u00edcia e habilidade no manejo do<br \/>\ncorpo, sem resvalar para o confronto aberto.<\/p>\n<p>\u201cQuando chegamos ao terreiro a capoeira j\u00e1 come\u00e7ara.<br \/>\nDois dan\u00e7arinos coleavam rentes ao ch\u00e3o, enquanto dois berimbaus<br \/>\ne tr\u00eas pandeiros acompanhavam com estranhos ritmos e sons aquela dan\u00e7a<br \/>\nmagn\u00edfica e arrebatadora, de gente combativa e forte. Os dan\u00e7arinos<br \/>\ndo momento eram um carregador do mercado de \u00c1gua dos Meninos e um oper\u00e1rio<br \/>\nda constru\u00e7\u00e3o civil. O oper\u00e1rio estava todo de branco,<br \/>\nsapatos brilhando, camisa alvejando. Era um dos melhores dan\u00e7arinos.<br \/>\n\u00c9 costume da fina-flor dos capoeiristas o dan\u00e7ar assim, \u2018de<br \/>\nponto branco\u2019 como se costuma dizer, para demonstrar sua per\u00edcia.<br \/>\nChegam ao c\u00famulo da dan\u00e7ar de chap\u00e9u e os bailarinos<br \/>\nh\u00e1beis se gabam de sair da dan\u00e7a sem uma s\u00f3 mancha de<br \/>\nterra na roupa, limpos e bem arrumados como se ainda n\u00e3o houvessem<br \/>\nentrado em fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8216;A dan\u00e7a da capoeira \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica<br \/>\nde antigas lutas aut\u00eanticas. Na Capoeira de Angola, os dan\u00e7arinos<br \/>\nvolteiam quase rentes ao ch\u00e3o, realizando paradas de bra\u00e7o,<br \/>\nem posi\u00e7\u00e3o horizontal, girando, escorregando como enguias e<br \/>\nescapulindo por sob o corpo do advers\u00e1rio. Os golpes s\u00e3o constatados<br \/>\npor mesuras e pelas exclama\u00e7\u00f5es dos assistentes. Ali\u00e1s,<br \/>\nn\u00e3o fora a precis\u00e3o daqueles movimentos, muitos dos golpes seriam<br \/>\nmortais. Esse \u00e9 o caso das c\u00e9lebres cabe\u00e7adas assestadas<br \/>\ncontra o peito e cujo impulso \u00e9 sustado s\u00f3 no derradeir\u00edssimo<br \/>\nmomento, quando a cabe\u00e7a de um dos bailarinos j\u00e1 aflorou o corpo<br \/>\ndo outro. A viol\u00eancia latente nunca se desencadeia e esse extraordin\u00e1rio<br \/>\ndom\u00ednio de paix\u00f5es mant\u00eam a assist\u00eancia numa incr\u00edvel<br \/>\ntens\u00e3o de nervos, empolgando a todos numa esp\u00e9cie de hipnotismo<br \/>\ncoletivo quase indescrit\u00edvel. S\u00f3 aqueles que assistiram a uma<br \/>\ndemonstra\u00e7\u00e3o de Capoeira de Angola poder\u00e3o compreender<br \/>\na monstruosa for\u00e7a e controle exigidos para que realize cada um daqueles<br \/>\nmovimentos, sem que se d\u00ea lugar a qualquer agress\u00e3o, sem que<br \/>\nse perca a eleg\u00e2ncia e a gra\u00e7a felina de cada gesto, absolutamente<br \/>\nmedido, calculado por uma esp\u00e9cie de instinto, j\u00e1 que os elementos<br \/>\natuantes se acham inteiramente entregues a aquela arte aparentemente t\u00e3o<br \/>\nimpulsiva e espont\u00e2nea.<\/p>\n<p>&#8216;Apesar da viol\u00eancia latente, n\u00e3o sobrev\u00eam a hostilidade.<br \/>\nH\u00e1 no meio daquilo tudo imensa fraternidade e j\u00fabilo. Verificam-se<br \/>\npasses espirituosos de bailarinos brincalh\u00f5es e sorridentes, a realizar<br \/>\ndif\u00edceis e perigos\u00edssimos passos e golpes. E entre os assistentes<br \/>\nestouram sonoras risadas&#8230; Jamais vi, em dan\u00e7as de conjunto, nacionais<br \/>\nou estrangeiras, t\u00e3o arrebatadora beleza, aliada a tal rapidez, precis\u00e3o<br \/>\ne for\u00e7a reprimida, dominada por uma inteira disciplina e lucidez.<\/p>\n<p>&#8216;Tivemos ocasi\u00e3o de admirar um menino de sete anos que dan\u00e7ou<br \/>\ncom o pr\u00f3prio mestre Waldemar, de quem \u00e9 aluno, e com aquele<br \/>\noper\u00e1rio ex\u00edmio de quem j\u00e1 falei. N\u00e3o se pode<br \/>\nimaginar quanto era comovente acompanhar a fr\u00e1gil figurinha infantil,<br \/>\nh\u00e1bil, compenetrada, a competir com o homem mais velho, em cujo rosto<br \/>\nse iluminava um sorriso afetuoso, por\u00e9m nada complacente. Concentrado,<br \/>\no menino aplicava cabe\u00e7adas e rasteiras, escapulindo matreira e agilmente<br \/>\ndas rasteiras e cabe\u00e7adas do mestre, c\u00f4nscio de sua dignidade<br \/>\nde futuro capoeirista, de futuro artista popular, imperturb\u00e1vel, sob<br \/>\nos olhares e exclama\u00e7\u00f5es dos espectadores.<\/p>\n<p>&#8216;A voz masculina, pura e profunda, se elevava acima do pulsar do conjunto<br \/>\ninstrumental, suave e intensa, muitas vezes modal, para s\u00f3 dar lugar<br \/>\nao c\u00f4ro, verdadeiro canto recitativo. Depois a voz continuava, fazendo<br \/>\nfloreios sobre a mesma base, sem nunca repetir, imposs\u00edvel quase de<br \/>\nanotar com exatid\u00e3o por meios n\u00e3o mec\u00e2nicos.<\/p>\n<p>&#8216;Os solistas se alternavam, dando \u00e0 melodia a caracter\u00edstica<br \/>\npr\u00f3pria de seu temperamento humano. Umas eram mais vivas, mais espirituosas,<br \/>\nenquanto outras eram sonhadoras, singelas. Mas todos os textos profundamente<br \/>\npo\u00e9ticos.<\/p>\n<p>&#8216;Lembro-me bem de uma voz que se elevou para cantar a beleza dos saveiros<br \/>\nde velas enfunadas, louvando o mar generoso e o vento que os conduz. Descreveu<br \/>\no vento a acumular nuvens para depois dissolv\u00ea-las em gotinhas de chuva,<br \/>\nsobre a branca vela dos saveiros que embalou. Era a poesia popular que se<br \/>\nfazia presente no esplendor t\u00edpico da arte \u00fanica que \u00e9<br \/>\na Capoeira de Angola. E a tudo isso o c\u00f4ro continuava a responder pela<br \/>\nboca de todos os assistentes e participantes: \u2018Eh! Paran\u00e1, eh!<br \/>\nParan\u00e1, camar\u00e1&#8230;\u2019 enquanto os dan\u00e7arinos voltejando,<br \/>\ngirando, desviando os corpos das cabe\u00e7adas, rindo alto, aos saltos,<br \/>\nel\u00e1sticos como gatos.\u201d<\/p>\n<p>VICENTE FERREIRA PASTINHA &#8211; O MESTRE DA CAPOEIRA ANGOLA Capoeira eu sou Angola\/valha-me<br \/>\nDeus, senhor S\u00e3o Bento\/tanto jogo para cima\/ como jogo para o ch\u00e3o&#8230;\u2019<\/p>\n<p>Vicente Ferreira Pastinha, nascido em 1889, dizia n\u00e3o ter aprendido<br \/>\na Capoeira em escola, mas \u201ccom a sorte\u201d: foi o destino o respons\u00e1vel<br \/>\npela inicia\u00e7\u00e3o do pequeno Pastinha no jogo, ainda garoto.<\/p>\n<p>Em depoimento prestado no ano de 1967, no Museu da Imagem e do Som, mestre<br \/>\nPastinha relatou a hist\u00f3ria da sua vida: \u201cQuando eu tinha uns<br \/>\ndez anos &#8211; eu era franzininho &#8211; um outro menino mais taludo do que eu tornou-se<br \/>\nmeu rival. Era s\u00f3 eu sair para a rua &#8211; ir na venda fazer compra, por<br \/>\nexemplo &#8211; e a gente se pegava em briga. S\u00f3 sei que acabava apanhando<br \/>\ndele, sempre. Ent\u00e3o eu ia chorar escondido de vergonha e de tristeza<br \/>\n(&#8230;)\u201d A vida iria dar ao moleque Pastinha a oportunidade de um aprendizado<br \/>\nque marcaria todos os anos da sua longa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cUm dia, da janela de sua casa, um velho africano assistiu a uma briga<br \/>\nda gente. \u2018Vem c\u00e1, meu filho\u2019, ele me disse, vendo que<br \/>\neu chorava de raiva depois de apanhar. Voc\u00ea n\u00e3o pode com ele,<br \/>\nsabe, porque ele \u00e9 maior e tem mais idade. O tempo que voc\u00ea perde<br \/>\nempinando raia vem aqui no meu cazu\u00e1 que vou lhe ensinar coisa de muita<br \/>\nvalia. Foi isso que o velho me disse e eu fui (&#8230;)\u201d Come\u00e7ou<br \/>\nent\u00e3o a forma\u00e7\u00e3o do mestre que dedicaria sua vida \u00e0<br \/>\ntransfer\u00eancia do legado da cultura africana a muitas gera\u00e7\u00f5es.<br \/>\nSegundo ele, a partir deste momento, o aprendizado se dava a cada dia, at\u00e9<br \/>\nque aprendeu tudo. Al\u00e9m das t\u00e9cnicas, muito mais lhe foi ensinado<br \/>\npor Benedito, o africano seu professor.<\/p>\n<p>\u201cEle costumava dizer: n\u00e3o provoque, menino, vai botando devagarzinho<br \/>\nele sabedor do que voc\u00ea sabe (&#8230;). Na \u00faltima vez que o menino<br \/>\nme atacou fiz ele sabedor com um s\u00f3 golpe do que eu era capaz. E acabou-se<br \/>\nmeu rival, o menino ficou at\u00e9 meu amigo de admira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne respeito (&#8230;).<\/p>\n<p>&#8216;Aos doze anos, em 1902, eu fui para a Escola de Aprendiz de Marinheiro.<br \/>\nL\u00e1 ensinei Capoeira para os colegas. Todos me chamavam de 110. Sa\u00ed<br \/>\nda Marinha com 20 anos (&#8230;). Vida dura, dif\u00edcil. Por causa de coisas<br \/>\nde gente mo\u00e7a e pobre, tive algumas vezes a Pol\u00edcia em cima<br \/>\nde mim. Barulho de rua, presepada. Quando tentavam me pegar eu lembrava de<br \/>\nmestre Benedito e me defendia. Eles sabiam que eu jogava Capoeira, ent\u00e3o<br \/>\nqueriam me desmoralizar na frente do povo. Por isso, bati alguma vez em pol\u00edcia<br \/>\ndesabusado, mas por defesa de minha moral e de meu corpo(&#8230;). Naquele tempo,<br \/>\nde 1910 a 1920, o jogo era livre.<\/p>\n<p>&#8216;Passei a tomar conta de uma casa de jogo. Para manter a ordem. Mas, mesmo<br \/>\nsendo capoeirista, eu n\u00e3o me descuidava de um fac\u00e3ozinho de<br \/>\ndoze polegadas e de dois cortes que sempre trazia comigo. Jogador profissional<br \/>\ndaquele tempo andava sempre armado. Assim, quem estava no meio deles sem nenhuma<br \/>\narma bancava o besta. Vi muita arrua\u00e7a, algum sangue, mas n\u00e3o<br \/>\ngosto de contar casos de briga minha. Bem, mas s\u00f3 trabalhava quando<br \/>\nminha arte negava sustento. Al\u00e9m do jogo trabalhei de engraxate, vendia<br \/>\ngazeta, fiz garimpo, ajudei a construir o porto de Salvador. Tudo passageiro,<br \/>\nsempre quis viver de minha arte. Minha arte \u00e9 ser pintor, artista (&#8230;).\u201d<br \/>\nO ritmo da sua vida foi alterado quando um ex-aluno o levou para apresentar<br \/>\naos mestres que faziam uma roda de Capoeira tradicional, na Ladeira da Pedra,<br \/>\nno bairro da Gingibirra, em Salvador, no ano de 1941.<\/p>\n<p>\u201cNa roda s\u00f3 tinha mestre. O mais mestre dos mestres era Amorzinho,<br \/>\num guarda civil. No apertar da m\u00e3o me ofereceu tomar conta de uma academia.<br \/>\nEu dei uma negativa, mas os mestres todos insistiram. Confirmavam que eu era<br \/>\no melhor para dirigir a Academia e conservar pelo tempo a Capoeira de Angola.\u201d<br \/>\nFoi na atividade do ensino da Capoeira que Pastinha se distinguiu. Ao longo<br \/>\ndos anos, a compet\u00eancia maior foi demonstrada no seu talento como pensador<br \/>\nsobre o jogo da Capoeira e na capacidade de comunicar-se.<\/p>\n<p>\u201cMas tem muita hist\u00f3ria sobre o come\u00e7o da Capoeira que<br \/>\nningu\u00e9m sabe se \u00e9 verdadeira ou n\u00e3o. A do jogo da zebra<br \/>\n\u00e9 uma. Diz que em Angola, h\u00e1 muito tempo, s\u00e9culos mesmo,<br \/>\nfazia-se uma festa todo ano em homenagem \u00e0s meninas que ficavam mo\u00e7as.<br \/>\nPrimeiros elas eram operadas pelos sacerdotes, ficando igual, assim, com as<br \/>\nmulheres casadas. Depois, enquanto o povo cantava, os homens lutavam do jeito<br \/>\nque fazem as zebras, dando marradas e coices. Os vencedores tinham como pr\u00eamio<br \/>\nescolher as mo\u00e7as mais bonitas (&#8230;). Bem, mas de uma coisa ningu\u00e9m<br \/>\nduvida: foram os negros trazidos de Angola que ensinaram Capoeira pra n\u00f3s.<br \/>\nPode ser at\u00e9 que fosse bem diferente dessa luta que esses dois homens<br \/>\nest\u00e3o mostrando agora. Me contaram que tem coisa escrita provando isso.<br \/>\nAcredito. Tudo muda. Mas a que a gente chama da Capoeira de Angola, a que<br \/>\naprendi, n\u00e3o deixei mudar aqui na Academia. Essa tem pelo menos 78<br \/>\nanos. E vai passar dos 100, porque meus disc\u00edpulos zelam por mim. Os<br \/>\nolhos deles agora s\u00e3o os meus. Eles sabem que devem continuar. Sabem<br \/>\nque a luta serve para defender o homem (&#8230;). Saem daqui sabendo tudo, sabendo<br \/>\nque a luta \u00e9 muito maliciosa e cheia de manhas. Que a gente tem de<br \/>\nser calmo. Que n\u00e3o \u00e9 uma luta atacante, ela espera. Capoeirista<br \/>\nbom tem obriga\u00e7\u00e3o de chorar no p\u00e9 do seu agressor. Est\u00e1<br \/>\nchorando, mas os olhos e o esp\u00edrito est\u00e3o ativos. Capoeirista<br \/>\nn\u00e3o gosta de abra\u00e7o e aperto de m\u00e3o. Melhor desconfiar<br \/>\nsempre das delicadezas. Capoeirista n\u00e3o dobra uma esquina de peito<br \/>\naberto. Tem de tomar dois ou tr\u00eas passos \u00e0 esquerda ou \u00e0<br \/>\ndireita para observar o inimigo. N\u00e3o entra pela porta de uma casa onde<br \/>\ntem corredor escuro. Ou tem com o que alumiar os esconderijos da sombra ou<br \/>\nn\u00e3o entra. Se est\u00e1 na rua e v\u00ea que est\u00e1 sendo olhado,<br \/>\ndisfar\u00e7a, se volta rasteiro e repara de novo no camarada. Bem, se est\u00e1<br \/>\nolhando ainda, \u00e9 inimigo e o capoeirista se prepara para o que der<br \/>\ne vier (&#8230;).\u201d Os conceitos do mestre Pastinha formaram seguidores em<br \/>\ntodo o pa\u00eds. A originalidade do m\u00e9todo de ensino, a pr\u00e1tica<br \/>\ndo jogo enquanto express\u00e3o art\u00edstica formaram uma escola que<br \/>\nprivilegia o trabalho f\u00edsico e mental para que o talento se expanda<br \/>\nem criatividade.<\/p>\n<p>\u201cCapoeira de Angola s\u00f3 pode ser ensinada sem for\u00e7ar<br \/>\na naturalidade da pessoa, o neg\u00f3cio \u00e9 aproveitar os gestos livres<br \/>\ne pr\u00f3prios de cada qual. Ningu\u00e9m luta do meu jeito mas no jeito<br \/>\ndeles h\u00e1 toda a sabedoria que aprendi. Cada um \u00e9 cada um (&#8230;).<br \/>\nN\u00e3o se pode esquecer do berimbau. Berimbau \u00e9 o primitivo mestre.<br \/>\nEnsina pelo som. D\u00e1 vibra\u00e7\u00e3o e ginga ao corpo da gente.<br \/>\nO conjunto da percuss\u00e3o com o berimbau n\u00e3o \u00e9 arranjo<br \/>\nmoderno n\u00e3o, \u00e9 coisa dos princ\u00edpios. Bom capoeirista,<br \/>\nal\u00e9m de jogar, deve saber tocar berimbau e cantar. E jogar precisa<br \/>\nser jogado sem sujar a roupa, sem tocar no ch\u00e3o com o corpo. Quando<br \/>\neu jogo, at\u00e9 pensam que o velho est\u00e1 b\u00eabado, porque fico<br \/>\ntodo mole e desengon\u00e7ado, parecendo que vou cair. Mas ningu\u00e9m<br \/>\nainda me botou no ch\u00e3o, nem vai botar (&#8230;)\u201d Vicente Ferreira<br \/>\nPastinha se calou no ano de 1981. Durante d\u00e9cadas dedicou-se ao ensino<br \/>\nda Capoeira. Mesmo completamente cego, n\u00e3o deixava seus disc\u00edpulos.<br \/>\nE continua vivo nos capoeiras, nas rodas, nas cantigas, no jogo.<\/p>\n<p>\u201cTudo o que eu penso da Capoeira, um dia escrevi naquele quadro que<br \/>\nest\u00e1 na porta da Academia. Em cima, s\u00f3 estas tr\u00eas palavras:<br \/>\nAngola, capoeira, m\u00e3e. E embaixo, o pensamento: Mandinga de escravo<br \/>\nem \u00e2nsia de liberdade, seu princ\u00edpio n\u00e3o tem m\u00e9todo<br \/>\ne seu fim \u00e9 inconceb\u00edvel ao mais s\u00e1bio capoeirista\u201d.<\/p>\n<p>MANOEL DOS REIS MACHADO: O MESTRE BIMBA<\/p>\n<p>&#8220;Chora capoeira\/capoeira chora\/chora capoeira\/ mestre Bimba foi embora&#8230;\u201d<\/p>\n<p>No dia 23 de novembro de 1899 nasceu no bairro de Engenho Velho, freguesia<br \/>\nde Brotas, cidade de Salvador, Bahia, Manoel dos Reis Machado. Teve como pai<br \/>\nLuis C\u00e2ndido Machado, caboclo de Feira de Santana. Sua m\u00e3e, Maria<br \/>\nMartinha do Bonfim, era uma crioula de Cachoeira.<\/p>\n<p>Logo ao nascer o garoto ganhou um nome que se tornaria s\u00edmbolo e<br \/>\nsin\u00f4nimo da Capoeira. Isso gra\u00e7as a uma frase dita \u00e0 hora<br \/>\ndo parto: &#8211; olha a bimbinha dele! Esta exclama\u00e7\u00e3o definiu o<br \/>\nresultado de uma aposta entre a m\u00e3e da crian\u00e7a &#8211; que imaginava<br \/>\numa menina &#8211; e a parteira, que previra um menino. Ningu\u00e9m seria capaz<br \/>\nde pensar, naquele momento, que Bimba passaria a ser um nome destinado a acompanhar<br \/>\no futuro capoeira em sua entrada na hist\u00f3ria do jogo.<\/p>\n<p>O aprendizado de lutas se iniciou com o pai, \u00e0 \u00e9poca famoso<br \/>\nlutador de batuque &#8211; uma antiga forma de luta negra. Aos 12 anos come\u00e7ou<br \/>\na aprender Capoeira com o africano Bentinho, capit\u00e3o da Cia. de Navega\u00e7\u00e3o<br \/>\nBahiana. Segundo suas palavras, o sistema de aulas \u00e0 \u00e9poca era<br \/>\nbastante violento. As rodas eram formadas na Estrada das Boiadas (atual bairro<br \/>\nda Liberdade), em Salvador, num ritmo bravio ao som do berimbau. Mestre Bimba<br \/>\ncostumava recordar um golpe formid\u00e1vel aplicado por Bentinho, que o<br \/>\nacertara na cabe\u00e7a, provocando um desmaio at\u00e9 o dia seguinte&#8230;<\/p>\n<p>Seu trabalho como mestre-capoeira iria distinguir-se pela divulga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo jogo em todos os recantos do pa\u00eds e a elabora\u00e7\u00e3o de<br \/>\num sistema pr\u00f3prio de treinamento e transmiss\u00e3o dos conhecimentos<br \/>\ne t\u00e9cnicas do jogo: a Capoeira Regional Bahiana.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as aos seus esfor\u00e7os foi aberta a primeira Academia de<br \/>\nCapoeira com autoriza\u00e7\u00e3o oficial. Esta seria a forma adotada<br \/>\npor in\u00fameros mestres para obter e legalizar um espa\u00e7o, onde<br \/>\na pr\u00e1tica do jogo n\u00e3o sofreria o perigo de persegui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAfinal, era o ano de 1937 e o pa\u00eds vivia sob uma ditadura &#8211; per\u00edodo<br \/>\nque sempre se destaca pela generaliza\u00e7\u00e3o das arbitrariedade<br \/>\ne cometimento de toda sorte de viol\u00eancias pelos detentores do poder.<br \/>\nE o que era tolerado em um dia poderia ser reprimido no outro.<\/p>\n<p>Em sua vida Bimba foi trapicheiro, doqueiro, carroceiro, carpinteiro. Mas<br \/>\nacima de qualquer coisa e por todo o tempo, mestre-capoeira. Um dos maiores<br \/>\nnomes deste of\u00edcio.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m melhor que um contempor\u00e2neo de Bimba para descrev\u00ea-lo<br \/>\nbrincando a Capoeira. Ramagem Badar\u00f3 &#8211; de conhecida fam\u00edlia<br \/>\nbahiana da zona de cultivo do cacau, que foi enfocada por Jorge Amado em Terras<br \/>\ndo Sem Fim -, jornalista, advogado e escritor, autor do romance O Sol, deixou<br \/>\ninteressante relato acerca do mestre, no artigo intitulado &#8216;Os negros lutam<br \/>\nsuas lutas misteriosas; Bimba \u00e9 o grande rei negro do misterioso rito<br \/>\nafricano&#8217;, publicado em Saga &#8211; magazine das Am\u00e9ricas, no ano de 1944,<br \/>\nem Salvador.<\/p>\n<p>\u201cTinha uma dif\u00edcil miss\u00e3o a cumprir. Encontrar um assunto<br \/>\npara uma reportagem que n\u00e3o fosse sobre guerras, suic\u00eddios ou<br \/>\ncrime. Um assunto diferente que n\u00e3o proviesse da fonte comum de todas<br \/>\nas reportagens da cidade. Das delegacias de pol\u00edcia, do Necrot\u00e9rio<br \/>\nou da Assist\u00eancia. Porque os casos de delegacia s\u00e3o sempre os<br \/>\nmesmos: roubo, crime e sedu\u00e7\u00e3o. Os de Necrot\u00e9rio s\u00e3o<br \/>\nanacr\u00f4nicos e os de Assist\u00eancia, banal\u00edssimos.<\/p>\n<p>&#8216;Estava nesse dilema, quando passou um negro de andar gingante de capoeira.<br \/>\nTinha resolvido o problema. Lembrei-me de mestre Bimba e da velha Ro\u00e7a<br \/>\ndo Lobo. Fui at\u00e9 o bairro elegante dos Barris, em cujos flancos se<br \/>\nderramam em desordem as casas de taipa da vala do Dique. Pres\u00e9pios<br \/>\nde palha da mis\u00e9ria sem esperan\u00e7a dos homens do povo. Quando<br \/>\ncomecei a descer pela picada aberta na ladeira pelos p\u00e9s descal\u00e7os<br \/>\ne calosos daquela gente que nasce com o atavismo dos p\u00e1rias e a heran\u00e7a<br \/>\ndo infort\u00fanio, j\u00e1 os sons dos berimbaus traziam aos meus ouvidos<br \/>\no cart\u00e3o de boas vindas do terreiro de mestre Bimba. Continuei descendo,<br \/>\nat\u00e9 que de repente o caminho se alargou e se confundiu com o terreiro<br \/>\nonde os homens lutavam Capoeira. O povo formava um c\u00edrculo ao redor<br \/>\ndos dois homens lutando. Jogando Capoeira no centro do c\u00edrculo.<\/p>\n<p>&#8216;O berimbau batia compassadamente, tin-tin-tin&#8230; tin-tin-tin&#8230; tin-tin-tin&#8230;<br \/>\nenquanto os homens pulavam, ca\u00edam, levantavam-se num salto e deixavam-se<br \/>\ncair outra vez, se golpeando mutuamente. O povo batia palmas acompanhando<br \/>\na m\u00fasica dos berimbaus e cantando o estribilho da Capoeira: Zum, zum,<br \/>\nzum, zum\/ Capoeira mata um Zum, zum, zum, zum\/ No terreiro fica um&#8230;<\/p>\n<p>Ca\u00ed tamb\u00e9m no meio da turma e comecei a bater palmas e a tentar<br \/>\ncantar o zum, zum da Capoeira (&#8230;).\u201d Badar\u00f3 narra o instante<br \/>\nque precede a entrada do mestre Bimba no jogo e a emo\u00e7\u00e3o que<br \/>\ntomou conta dos espectadores.<\/p>\n<p>\u201cDe s\u00fabito, o tin-tin nervoso dos berimbaus sumiu, calou-se,<br \/>\nparou. Os berimbaus deixaram de tocar. Os homens que estavam lutando tamb\u00e9m<br \/>\npararam. Com as roupas molhadas de suor desenhando nas dobras do corpo os<br \/>\nm\u00fasculos possantes. Os assistentes aplaudiram os homens que tinham<br \/>\nacabado de lutar. E eles cantaram um corrido, agradecendo os aplausos.<\/p>\n<p>Ai-ai de lel\u00f4\/ Iem-ien de lal\u00e1 Adeus meus irm\u00e3os\/ N\u00f3s<br \/>\nvamos rezar &#8216;Nesse momento gritaram: &#8211; Mestre Bimba vai lutar! &#8216;Todo mundo<br \/>\nse voltou para tr\u00e1s, batendo palmas e gritando: &#8211; Mestre Bimba&#8230; mestre&#8230;<br \/>\nviva&#8230; viva&#8230; viv\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4.<\/p>\n<p>&#8216;Um preto agigantado entrou no c\u00edrculo formado pelo povo. Sorrindo.<br \/>\nA multid\u00e3o aplaudiu com mais for\u00e7a. O sol bateu-lhe de rijo<br \/>\nno rosto escuro, iluminando-lhe as fei\u00e7\u00f5es. Era de fato, alto.<br \/>\nO rosto oval. Os olhos fundos escondidos numa testa saliente. Nariz chato.<br \/>\nCarapinha rala quase careca. E um bigode pequeno, ralo, em forma de tri\u00e2ngulo<br \/>\nsobre os l\u00e1bios grossos. Mas no conjunto era simp\u00e1tico.<\/p>\n<p>O jornalista narra a forma como Bimba se prepara para jogar, enfatizando<br \/>\na aura de respeito que envolvia o famoso mestre. Uma disputa de versos antecede<br \/>\no confronto na roda de Capoeira.<\/p>\n<p>\u201cQuando Bimba entrou no c\u00edrculo os berimbaus come\u00e7aram<br \/>\na ensaiar uns toques. E a multid\u00e3o que enchia o terreiro aplaudia freneticamente<br \/>\no seu \u00eddolo. Nisso, um crioulo possante entrou no c\u00edrculo, aceitando<br \/>\no desafio. E o povo comentou a coragem daquele homem que ia lutar com Bimba.<br \/>\nPorque entrar numa luta com Bimba sem ser convidado por ele \u00e9 procurar<br \/>\nencrenca. Mesmo sendo mera demonstra\u00e7\u00e3o. Porque ele \u00e9<br \/>\no rei da Capoeira. Os berimbaus ensaiaram um toque e um dos homens perguntou:<br \/>\n&#8211; Qual \u00e9 o toque? &#8211; S\u00e3o Bento Grande Repicado, Santa Maria,<br \/>\nAve Maria, Benguela, Cavalaria, Calambol\u00f4, Tira-de-l\u00e1-bota-c\u00e1,<br \/>\nIdalina, ou Concei\u00e7\u00e3o da Praia? &#8216;Bimba pensou rapidamente e<br \/>\ndisse: &#8211; Toque Amazonas e depois Benguela.<\/p>\n<p>&#8216;Os berimbaus come\u00e7aram a tocar. O crioulo aproximou-se e mestre<br \/>\nBimba apertou-lhe a m\u00e3o. E o povo come\u00e7ou a acompanhar o tin-tin-tin<br \/>\ndos berimbaus, batendo palmas. Bimba balanceou o corpo e cantou: No dia que<br \/>\neu amanhe\u00e7o\/ Dentro de Itabaianinha Homem n\u00e3o monta cavalo\/<br \/>\nNem mulher deita galinha As freiras que est\u00e3o rezando\/ Se esquecem<br \/>\nda ladainha &#8216;Mas o crioulo n\u00e3o ficou atr\u00e1s e cantou, negaceando<br \/>\no corpo no compasso dos berimbaus.<\/p>\n<p>A i\u00fana \u00e9 mandingueira\/ Quando est\u00e1 no bebedor Foi sabida<br \/>\ne \u00e9 ligeira\/Mas capoeira matou &#8216;Palmas festejaram o repente do crioulo.<br \/>\nPor\u00e9m, Bimba n\u00e3o deu tr\u00e9guas \u00e0 vit\u00f3ria<br \/>\ndo outro. E respondeu: Ora\u00e7\u00e3o de bra\u00e7o forte\/ Ora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde S\u00e3o Mateus Pro cemit\u00e9rio v\u00e3o os ossos\/ Os seus ossos,<br \/>\nn\u00e3o os meus &#8216;Novamente o povo aplaudiu e cantou o estribilho da Capoeira:<br \/>\nZum, zum, zum, zum\/ Capoeira mata um Zum, zum, zum, zum\/ No terreiro fica<br \/>\num &#8216;O crioulo, entretanto, n\u00e3o deixou cair a quadra de mestre Bimba<br \/>\ne replicou: E eu nasci no s\u00e1bado\/No domingo me criei E na segunda-feira\/<br \/>\nA Capoeira joguei &#8216;A multid\u00e3o deu vivas e bateu palmas para os dois<br \/>\nlutadores no centro do c\u00edrculo. Uma preta comentou: &#8211; Bom menino! Se<br \/>\n\u00e9 bom na briga como \u00e9 no canto, boa parada para Bimba.<\/p>\n<p>Come\u00e7a ent\u00e3o a disputa na roda e Ramagem Badar\u00f3 conta<br \/>\ncom detalhes o momento final: \u201cOs dois lutadores negaceavam os corpos<br \/>\nao som da m\u00fasica dos berimbaus. Um defronte do outro. Olhando-se dentro<br \/>\ndos olhos, se estudando mutuamente. O crioulo foi o primeiro a come\u00e7ar.<br \/>\nFazendo algumas fintas, procurando descobrir as partes fracas do advers\u00e1rio.<br \/>\nE mestre Bimba aparentemente deixava-se cair nas ciladas do outro. O crioulo<br \/>\nfoi come\u00e7ando a tomar gosto e abrindo mais a pr\u00f3pria guarda,<br \/>\nconcentrado no ataque. A multid\u00e3o no terreiro da Ro\u00e7a do Lobo,<br \/>\ncontinuava acompanhando com as m\u00e3os o tin-tin-tin dos berimbaus. E<br \/>\na cantar em coro o estribilho da Capoeira: Zum, zum, zum, zum\/ Capoeira mata<br \/>\num Zum, zum, zum, zum\/ No terreiro fica um &#8216;Enquanto isso os lutadores continuavam<br \/>\nnegaceando os corpos, procurando descobrir os pontos fracos do advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8216;De repente, pararam de s\u00fabito. E ficaram mudos de aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\napreciando o ataque. O crioulo avan\u00e7ou r\u00e1pido, levantou uma<br \/>\nperna e deu uma meia-lua-armada pela direita de Bimba. Por\u00e9m, n\u00e3o<br \/>\ndeu resultado, porque Bimba foi mais r\u00e1pido. Deixou-se cair na guarda,<br \/>\nenquanto tentava puxar o advers\u00e1rio numa rasteira. Mas, o crioulo tamb\u00e9m<br \/>\nera ligeiro e livrou-se do golpe com um a\u00fa pela esquerda. Bimba insistiu,<br \/>\ntornando a atac\u00e1-lo. Tentando peg\u00e1-lo numa cabe\u00e7ada presa.<br \/>\nPor\u00e9m o crioulo contra-atacou com uma calcanheira violent\u00edssima.<br \/>\nEntretanto Bimba livrou-se agilmente com um formid\u00e1vel pulo mortal.<\/p>\n<p>&#8216;Os berimbaus tocavam com mais frenesi. Demonstrando a excita\u00e7\u00e3o<br \/>\nnervosa dos tocadores. Tamb\u00e9m as palmas de acompanhamento diminu\u00edram<br \/>\nmuito, quase cessando.<\/p>\n<p>&#8216;Enquanto isso a assist\u00eancia completamente em suspenso, apreciava<br \/>\na luta nos seus m\u00ednimos detalhes.<\/p>\n<p>&#8216;Bimba notou que tinha bom advers\u00e1rio. O crioulo era bom de verdade.<br \/>\nManhoso, \u00e1gil e corajoso. O crioulo come\u00e7ou a se afastar de<br \/>\nBimba como se fosse dar-lhe as costas numa fuga. Bimba percebeu de relance<br \/>\no truque do advers\u00e1rio e ficou em guarda. Os m\u00fasculos completamente<br \/>\ncontrolados, prontos para aproveitar aquela oportunidade. Como ele esperava,<br \/>\no crioulo deu-lhe completamente as costas, como se fugisse da luta.<\/p>\n<p>Esperando que ele ca\u00edsse no velho truque da Capoeira e mergulhasse<br \/>\nnum arp\u00e3o de cabe\u00e7a, dando-lhe a oportunidade de contra-atacar<br \/>\ncom um mort\u00edfero arp\u00e3o de joelho. Mestre Bimba, que j\u00e1<br \/>\nprevira o golpe, defendeu-se com uma negativa. Puxando ao mesmo tempo a \u00fanica<br \/>\nperna do crioulo apoiada no ch\u00e3o, com uma violenta rasteira. Pegado<br \/>\nde surpresa, o crioulo perdeu o equil\u00edbrio, subiu e desabou no terreiro.<br \/>\nUma gritaria retumbante festejou a sagacidade de Bimba. Todo mundo ficou excitado,<br \/>\nmenos mestre Bimba.<\/p>\n<p>&#8216;O capoeirista ca\u00eddo, levantou-se com a mesma rapidez com que ca\u00edra.<br \/>\nPor\u00e9m, estava raivoso, com o sangue fervendo nas veias. Danado de raiva<br \/>\ne meio descontrolado. E afastou-se de Bimba, sempre negaceando o corpo, procurando<br \/>\ndesanuviar a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A assist\u00eancia gritava e batia palmas acompanhando o tin-tin-tin nervoso<br \/>\nda orquestra dos berimbaus e o xique-xique dos chocalhos de vime, cantando<br \/>\nsempre o estribilho da capoeira: Zum, zum, zum, zum\/Capoeira mata um Zum,<br \/>\nzum, zum, zum\/No terreiro fica um &#8216;Nesse instante o crioulo voltou novamente<br \/>\npara o centro do c\u00edrculo. E avan\u00e7ou para Bimba tentando peg\u00e1-lo<br \/>\nnuma vingativa pela esquerda. N\u00e3o acertou e tomou uma vaia.<\/p>\n<p>O crioulo se descontrolou e avan\u00e7ou louco de raiva. Tentou apanhar<br \/>\nBimba com um golpe de cotovelo e um sopapo galopante. Mas Bimba n\u00e3o<br \/>\nse deixava alcan\u00e7ar. Continuava negaceando o corpo, sempre fintando,<br \/>\npor meio de r\u00e1pidas escapadas. A multid\u00e3o delirava. Isso, entretanto,<br \/>\nlhe distraiu a aten\u00e7\u00e3o. Fazendo com que relaxasse a vigil\u00e2ncia<br \/>\nda sua guarda. E o crioulo soube tirar partido desse descuido.<\/p>\n<p>Aproximou-se veloz, levantou a perna e deu-lhe uma b\u00ean\u00e7\u00e3o<br \/>\nem pleno peito. Mestre Bimba pressentiu o golpe e tentou livrar-se. Foi ligeiro.<br \/>\nMas n\u00e3o o suficiente para se livrar completamente do golpe. O peito<br \/>\nlhe doeu e a sua vaidade tamb\u00e9m. Porque as palmas do p\u00fablico<br \/>\nfestejavam o crioulo.<\/p>\n<p>&#8216;Bimba n\u00e3o deu tr\u00e9guas \u00e0 vit\u00f3ria do outro. Avan\u00e7ou<br \/>\npara o crioulo fingindo ir dar um bal\u00e3o a\u00e7oitado. Depois, ensaiou<br \/>\numa palma e levantou a perna como se fosse dar uma b\u00ean\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO crioulo ficou todo confuso com a rapidez e a sucess\u00e3o dos golpes.<\/p>\n<p>Pensou que aquele \u00faltimo golpe era o verdadeiro ataque que Bimba queria<br \/>\nfazer e procurou defender-se caindo numa rasteira. Viu o seu erro e tentou<br \/>\nderrubar Bimba com uma encruzilhada. Tamb\u00e9m errou e mestre Bimba dominou-o<br \/>\ncom um tronco de pesco\u00e7o, antes que ele pudesse livrar-se num bal\u00e3o.<br \/>\nTinha vencido a luta. O povo invadiu o terreiro aplaudindo o rei da Capoeira.<br \/>\nBimba abra\u00e7ou o advers\u00e1rio. E o crioulo mostrou que era homem<br \/>\nmesmo. Cantou: Santo Ant\u00f4nio pequenino\/Amansador de burro brabo Amansai-me<br \/>\nem Capoeira\/com setenta mil diabos &#8216;Bimba gostou do elogio e retribuiu, cantando:<br \/>\nConheci um camarada\/Quando n\u00f3s andarmos juntos N\u00e3o vai haver<br \/>\ncemit\u00e9rios\/P\u2019ra caber tantos defuntos &#8216;A multid\u00e3o tornou<br \/>\na aplaudir e mestre Bimba abra\u00e7ou o crioulo (&#8230;).\u201d Com sua incurs\u00e3o<br \/>\nno terreiro de mestre Bimba, Ramagem Badar\u00f3 conseguiu sua reportagem<br \/>\ne escreveu bonita p\u00e1gina sobre a Capoeira desse tempo, mostrando-nos<br \/>\nmais uma vez o quanto \u00e9 solid\u00e1ria a aut\u00eantica manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nda luta, nessa arte.<\/p>\n<p>Mestre Bimba dedicou-se ao jogo at\u00e9 o final dos seus dias. Em seus<br \/>\n\u00faltimos anos de vida, deixou a Bahia e veio para Goi\u00e1s, atra\u00eddo<br \/>\npela possibilidade de encontrar o reconhecimento a que fazia jus. No ano de<br \/>\n1974 mestre Bimba deixou definitivamente o conv\u00edvio da fam\u00edlia,<br \/>\namigos e disc\u00edpulos e passou a ocupar lugar de destaque na mem\u00f3ria<br \/>\nda Capoeira.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II &#8211; Na Roda da Capoeira<\/h2>\n<p>&#8216;Ritmo na luz\/ ritmo na cor\/ ritmo no movimento ritmo nas gretas sangrentas<br \/>\ndos p\u00e9s descal\u00e7os ritmo nas unhas descarnadas\/Mas ritmo\/ ritmo.<\/p>\n<p>\u00d3 vozes dolorosas de \u00c1frica! Agostinho Neto, Fogo e ritmo.<\/p>\n<p>A M\u00daSICA DA CAPOEIRA<\/p>\n<p>Berimbau j\u00e1 fez chamada\/\u00e9 hora de lutar essa dan\u00e7a Capoeira,<br \/>\noi sinh\u00e1\/ \u00e9 de matar&#8230;\u2019<\/p>\n<p>Como as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es musicais n\u00e3o deixaram<br \/>\nvest\u00edgios seguros, \u00e9 imposs\u00edvel precisar como e quando<br \/>\nsurgiu a m\u00fasica. A maior parte dos estudiosos sequer se arrisca a fazer<br \/>\nespecula\u00e7\u00f5es; outros abordam hip\u00f3teses com base no que<br \/>\nse sabe sobre a vida humana pr\u00e9-hist\u00f3rica e preenchem as lacunas<br \/>\n\u00f3bvias com forte dose de imagina\u00e7\u00e3o. Entretanto, nenhuma<br \/>\nteoria afirma com certeza o momento em que os primitivos come\u00e7aram<br \/>\na fazer arte por meio de sons.<\/p>\n<p>Ao que tudo indica, o homem das cavernas conferia \u00e0 sua m\u00fasica<br \/>\num sentido religioso, considerando-a um presente dos deuses e atribuindo-lhe<br \/>\nfun\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas. Associada \u00e0 dan\u00e7a, a m\u00fasica<br \/>\nassumia um car\u00e1ter ritual, por meio do qual era poss\u00edvel reverenciar<br \/>\no Desconhecido, agradecendo-lhe a fertilidade da terra, a abund\u00e2ncia<br \/>\nda ca\u00e7a. Com o ritmo sa\u00eddo de movimentos elementares &#8211; batendo<br \/>\nas m\u00e3os e os p\u00e9s &#8211; talvez eles buscassem tamb\u00e9m celebrar<br \/>\nfatos da sua realidade: vit\u00f3rias nas guerras, descobertas surpreendentes.<br \/>\nCom o passar do tempo, al\u00e9m do uso das batidas de m\u00e3os e p\u00e9s,<br \/>\nsuas dan\u00e7as passaram a ser ritmadas com pancadas na madeira, a princ\u00edpio<br \/>\nde forma simples e depois mais trabalhadas, para soarem de modo diferente.<br \/>\nPode ter surgido da\u00ed o instrumento de percuss\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar o quanto os barulhos da natureza<br \/>\ndeviam fascinar o homem daqueles tempos, inspirando-lhe a vontade de imitar<br \/>\no ru\u00eddo das \u00e1guas, o sopro do vento, os sons dos demais animais.<br \/>\nComo para isso o ritmo n\u00e3o era suficiente e o artesanato ainda n\u00e3o<br \/>\npossibilitava a inven\u00e7\u00e3o de instrumentos mel\u00f3dicos, estranhos<br \/>\nsons emitidos pela garganta devem ter constitu\u00eddo as formas rudimentares<br \/>\nde canto. Isto junto com o ritmo resultou numa mistura de palmas, gritos e<br \/>\nbatidas. Era tudo ao alcance do homem primitivo. E certamente ter\u00e1<br \/>\nsido um estilo que resistiu por muito tempo.<\/p>\n<p>Segundo os conceitos atuais de m\u00fasica, essas tentativas de express\u00e3o<br \/>\nforam demasiado pobres para se enquadrarem na categoria de arte musical. Do<br \/>\nponto de vista hist\u00f3rico, entretanto, tiveram uma import\u00e2ncia<br \/>\nenorme, pois a r\u00edtmica elementar ent\u00e3o desenvolvida acompanhou<br \/>\no homem em sua caminhada, se espalhando sobre a terra, preponderantes na elabora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde culturas e civiliza\u00e7\u00f5es. E continuou evoluindo com ele, acumulando<br \/>\ntodas as transforma\u00e7\u00f5es vividas pela humanidade at\u00e9 os<br \/>\ndias atuais, sendo que muitas de suas antigas descobertas permanecem em pleno<br \/>\nuso, com pequenas modifica\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>NA RODA DO BERIMBAU<\/p>\n<p>A roda se enche de sons. \u00c9 uma festa de ritmos e cantos bravios,<br \/>\nonde a sensibilidade se manifesta livremente. E acontece a dan\u00e7a e<br \/>\no canto em meio \u00e0 luta.<\/p>\n<p>Na Capoeira a musicalidade \u00e9 fundamental. Raiz e corpo da arte, a<br \/>\nmelodia flui de toda parte. Berimbaus, atabaques, ganz\u00e1s, agog\u00f4s,<br \/>\npandeiros, tudo \u00e9 som e movimento.<\/p>\n<p>As cantigas est\u00e3o presentes no jogo desde quando se forma o c\u00edrculo.<br \/>\nE o primeiro canto &#8211; geralmente conduzido pelo capoeira mais antigo presente<br \/>\n\u00e0 roda &#8211; pode ser um improviso.<\/p>\n<p>Se o berimbau toca Angola, o canto inicial \u00e9 um solo denominado ladainha.<br \/>\nNeste momento, enquanto \u00e9 ouvida a cantiga, n\u00e3o h\u00e1 jogo.<br \/>\nA aten\u00e7\u00e3o de todos est\u00e1 no conte\u00fado da m\u00fasica.<br \/>\nPode estar sendo transmitida uma mensagem onde o capoeira d\u00e1 express\u00e3o<br \/>\n\u00e0 sua viv\u00eancia na roda ou \u00e0s experi\u00eancias adquiridas<br \/>\nao longo da vida. Pode ser ainda que a ladainha rememore fatos passados, trazidos<br \/>\n\u00e0 lembran\u00e7a como aviso aos jovens, enquanto perpetua um pouco<br \/>\nda hist\u00f3ria do jogo e dos capoeiras.<\/p>\n<p>A m\u00fasica \u00e9 um dos instrumentos de preserva\u00e7\u00e3o<br \/>\nda mem\u00f3ria, transmitindo as tradi\u00e7\u00f5es de diferentes \u00e9pocas<br \/>\ndo passado da Capoeira. O canto \u00e0s vezes exprime tristeza pela aus\u00eancia<br \/>\nde um camarada que j\u00e1 morreu, encerrando ainda uma advert\u00eancia<br \/>\nou observa\u00e7\u00e3o, um exemplo pr\u00e1tico, uma li\u00e7\u00e3o<br \/>\npara a vida. Ao encerrar a ladainha \u00e9 iniciado pelo solista um refr\u00e3o,<br \/>\nsinal para a entrada do coro formado pelos capoeiras.<\/p>\n<p>\u00c0 medida em que o jogo tenha seu desenvolvimento, as cantigas ir\u00e3o<br \/>\nacompanhar e descrever &#8211; numa linguagem peculiar &#8211; as situa\u00e7\u00f5es<br \/>\nque acontecem na roda, quando n\u00e3o ocorre do canto determinar, de forma<br \/>\nsutil, o desenvolvimento das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A poesia pode significar uma provoca\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m ou<br \/>\numa brincadeira com qualquer dos capoeiras; pode traduzir uma advert\u00eancia<br \/>\n\u00e0 forma muita das vezes perigosa em que transcorre o jogo; pode ser<br \/>\nainda a rever\u00eancia a um orix\u00e1. De qualquer forma, as cantigas<br \/>\ntrazem uma caracter\u00edstica comum &#8211; a linguagem figurada e de compreens\u00e3o<br \/>\nrestrita aos jogadores.<\/p>\n<p>A sonoridade vibrante dos berimbaus \u00e9 magn\u00e9tica. Agora tocam<br \/>\na I\u00fana. Dizem os antigos que neste toque ressoa o canto da ave Inhuma<br \/>\n(ou Anhuma) e conta a lenda que ela \u00e9 portadora de uma for\u00e7a<br \/>\nm\u00e1gica. Encantada, dos seus pios de desprende a magia dos deuses&#8230;<\/p>\n<p>Ou\u00e7amos o toque. Num dado momento se destacam os sons agudos de um<br \/>\nberimbau para no instante seguinte serem suplantados por outro, que vibra<br \/>\ncom profunda gravidade. \u00c9 o di\u00e1logo das I\u00fanas. Como se<br \/>\ndois seres mitol\u00f3gicos, tomados de profunda paix\u00e3o, tornassem<br \/>\naud\u00edvel seu canto de amor. Que \u00e0s vezes ecoa aparentando entendimento,<br \/>\npara subitamente transfigurar-se no embate inarm\u00f4nico de apaixonado<br \/>\ndesencontro.<\/p>\n<p>Ao final prevalece a compreens\u00e3o entre berimbaus gunga e viola &#8211;<br \/>\nde timbres grave e agudo, respectivamente &#8211; mas fica a n\u00edtida impress\u00e3o<br \/>\nque de repente come\u00e7ar\u00e1 tudo mais um vez.<\/p>\n<p>O atabaque traz evoca\u00e7\u00f5es que transportam ao mundo da magia.<br \/>\nO ritmo misterioso descobre &#8211; \u00e0 vis\u00e3o da mente &#8211; um cen\u00e1rio<br \/>\nde realismo fant\u00e1stico. A for\u00e7a dos sons invade o capoeira,<br \/>\narrastando o pensamento, que se perde num turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es<br \/>\ne pode levar \u00e0 trilha do sobrenatural: empolga\u00e7\u00e3o e fasc\u00ednio<br \/>\nse traduzem em agilidade e for\u00e7a. E se descortina a \u00c1frica viva<br \/>\nem cada um de n\u00f3s. Misteriosa, como a exalta\u00e7\u00e3o que brota<br \/>\nbem de dentro, aos jorros, atinge a superf\u00edcie da pele e transborda,<br \/>\nem gestos de for\u00e7a e beleza. At\u00e9 que sobrevenha a calma e sossego,<br \/>\ncomo numa estranha dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Os tons do agog\u00f4 se destacam num claro contraponto entre a marca\u00e7\u00e3o<br \/>\ndiscreta e a disson\u00e2ncia que fere os sentidos, despertando-os. Essa<br \/>\n\u00e9 sua fun\u00e7\u00e3o, e \u00e0 medida em que esses sons se<br \/>\nfazem ouvir, se perde a no\u00e7\u00e3o do tempo e espa\u00e7o, na excita\u00e7\u00e3o<br \/>\nque atordoa: tudo se torna encanto.<\/p>\n<p>Ao fundo o ganz\u00e1 imp\u00f5e o balan\u00e7o do som capaz de prender<br \/>\n&#8211; no seu movimento compassado &#8211; o fluxo da vontade, arrastando-a e somente<br \/>\nliberando o capoeira ap\u00f3s conquistada sua alma. S\u00f3 a\u00ed<br \/>\nele retorna, entre surpreso e extasiado, ao confronto com a realidade. Talvez<br \/>\numa serpente m\u00edtica tenha sacudido os guizos, em meio ao torvelinho<br \/>\ndos sentidos livres, e tenha capturado sua presa, tornando-a semelhante, dando-lhe<br \/>\nsuas caracter\u00edsticas de contida agressividade e determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O troar constante do reco-reco pode impelir o ouvinte a quedar-se surpreso.<br \/>\nA aten\u00e7\u00e3o \u00e9 desviada para o soar imprevis\u00edvel,<br \/>\nque causa a sensa\u00e7\u00e3o de uma chibata imagin\u00e1ria, provocando<br \/>\nestalos que ressoam dentro do capoeira, os a\u00e7oites despertando arrepios<br \/>\nde coragem e repercutindo na luta.<\/p>\n<p>Noutro momento o berimbau toca Angola. Est\u00e1 prestes a acontecer o<br \/>\njogo de maior import\u00e2ncia, que define o esp\u00edrito da Capoeira.<br \/>\nA voz do mestre se levanta, com um acento de tristeza e lamento, entoando<br \/>\num canto de forte sabor nost\u00e1lgico. O berimbau gunga acompanha gravemente<br \/>\nas modula\u00e7\u00f5es da voz, repicando de forma compassada e real\u00e7ando<br \/>\ncada verso da cantiga. E talvez resida nisto a grande musicalidade das ladainhas,<br \/>\ntodas de extrema simplicidade.<\/p>\n<p>Enquanto o gunga se ajusta \u00e0 voz que puxa a cantoria, formando um<br \/>\ndueto, o berimbau viola acrescenta ao conjunto o timbre agudo, despontando<br \/>\nem improvisos que se sucedem numa riqueza de varia\u00e7\u00f5es impressionante.<\/p>\n<p>Cada instrumento acrescenta \u00e0 m\u00fasica colorido especial, dando<br \/>\nvida \u00e0 Capoeira. Africanos pela origem, nascidos do sangue e natureza<br \/>\ndo negro, constru\u00edram a brasilidade. Gra\u00e7as a eles, cantores<br \/>\nnativistas s\u00e3o capazes de encontrar elementos para a composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma express\u00e3o musical brasileira, representativa dos sentimentos<br \/>\ncomuns \u00e0 nossa gente. O som vai prosseguir por horas a fio, fazendo<br \/>\na del\u00edcia dos jogadores entregues \u00e0 arte, embevecendo os que<br \/>\nassistem \u00e0 roda e ensinando um caminho para a redescoberta de outras<br \/>\nformas de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>AS ORIGENS DO BERIMBAU Talvez desde a pr\u00e9-hist\u00f3ria o arco musical<br \/>\nse constitui numa das formas de instrumento encontradas pelo homem, na busca<br \/>\nda express\u00e3o sonora que lhe permitisse exteriorizar o \u00edntimo.<br \/>\nE o acompanhou no decorrer da sua evolu\u00e7\u00e3o, presente em diversas<br \/>\nculturas at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>Acreditam alguns pesquisadores que o arco musical resultaria do desenvolvimento<br \/>\ndo arco de ca\u00e7a &#8211; cuja inven\u00e7\u00e3o pode ter ocorrido em<br \/>\nalgum momento entre cerca de 20.000 a 15.000 anos passados, no norte da \u00c1frica.<br \/>\nOutros j\u00e1 supuseram exatamente o contr\u00e1rio: o arco de ca\u00e7a<br \/>\n\u00e9 que teria se originado do arco musical&#8230; E para aumentar o elenco<br \/>\nde possibilidades, existem opini\u00f5es que discordam das anteriores: o<br \/>\narco musical e o arco de ca\u00e7a tiveram origem e desenvolvimento completamente<br \/>\nindependentes um do outro&#8230;<\/p>\n<p>Dentre a diversidade de teorias a respeito do arco musical predomina certa<br \/>\nconcord\u00e2ncia, ao ser fixado o per\u00edodo por volta de 15.000 a.C.<br \/>\ncomo \u00e9poca em que possivelmente ocorreria o seu uso pelo homem primitivo.<br \/>\nPinturas localizadas em uma caverna (Les Trois Fr\u00e9res) na regi\u00e3o<br \/>\nsudeste da Fran\u00e7a, feitas nesse per\u00edodo da pr\u00e9-hist\u00f3ria,<br \/>\nretratam um homem que se veste com peles de bis\u00e3o, trazendo seguro<br \/>\num objeto que se parece com o arco, mantido pr\u00f3ximo do rosto. O pesquisador<br \/>\nAbb\u00e9 Breuil identificou o desenho como de um homem tocando um arco<br \/>\nmusical.<\/p>\n<p>De todo modo, relatos mais recentes de exploradores e viajantes, particularmente<br \/>\ndo s\u00e9culo XIX, trazem outras evid\u00eancias do arco musical na \u00c1frica<br \/>\nCentral, do Sul, Patag\u00f4nia, Novo M\u00e9xico, Brasil&#8230;<\/p>\n<p>Existem formas diversas de classifica\u00e7\u00e3o do arco musical.<br \/>\nAssim, tanto pode ser inclu\u00eddo na categoria de c\u00edtaras, quanto<br \/>\nalgumas formas se encaixam com maior facilidade na classe das harpas. Mais<br \/>\numa vez, qualquer que seja a opini\u00e3o seguida, o arco musical se fez<br \/>\npresente nas antigas culturas eg\u00edpcia, ass\u00edria, cald\u00e9ia,<br \/>\nfen\u00edcia, persa, ind\u00fa. Na \u00c1frica, muitas esp\u00e9cies<br \/>\nde arco musical podem ser encontradas entre tribos de Uganda, pigmeus do Congo,<br \/>\nem Angola e noutras regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o foram efetuadas pesquisas em profundidade no Brasil e continente<br \/>\nafricano antes do final do s\u00e9culo passado, n\u00e3o existem informa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndocumentais quanto \u00e0 presen\u00e7a e uso do arco musical, na forma<br \/>\npor n\u00f3s conhecida como berimbau, antes dessa \u00e9poca. Com certeza<br \/>\nexistiam &#8211; j\u00e1 que s\u00e3o utilizados tradicionalmente &#8211; h\u00e1<br \/>\nmuito tempo no continente africano. O que n\u00e3o podemos \u00e9 precisar<br \/>\ndesde quando.<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00f5es importantes foram prestadas por in\u00fameros<br \/>\nexploradores, viajantes e pesquisadores do per\u00edodo final do s\u00e9culo<br \/>\npassado e alguns mais recentes, que apesar de fazerem narrativas um tanto<br \/>\nsuperficiais e sem detalhes, nos permitem estabelecer a presen\u00e7a do<br \/>\nnosso berimbau na \u00c1frica, originando sua presen\u00e7a tamb\u00e9m<br \/>\nno Brasil, pois al\u00e9m das formas id\u00eanticas, s\u00e3o iguais<br \/>\nem constru\u00e7\u00e3o e tocados do mesmo modo. Resumindo, registram<br \/>\no mesmo instrumento, seja qual for a denomina\u00e7\u00e3o dada em cada<br \/>\nlugar.<\/p>\n<p>O mais antigo desenho desse instrumento \u00e9 dos exploradores Capelo<br \/>\ne Ivens, que fizeram o desenho de um arco musical em tudo semelhante ao berimbau<br \/>\nem &#8216;De Benguela \u00e0s terras de Iaca&#8217;, Lisboa, 1881. O texto, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o traz nenhum coment\u00e1rio a respeito do instrumento.<\/p>\n<p>Ladislau Batalha, no livro Angola, editado no ano de 1889, em Lisboa fez<br \/>\na seguinte descri\u00e7\u00e3o do berimbau: \u201cO humbo \u00e9 o<br \/>\ntipo dos instrumentos de corda. Consta geralmente de metade de uma caba\u00e7a,<br \/>\noca e bem seca. Furam-na no centro, em dois pontos pr\u00f3ximos. \u00c0<br \/>\nparte, fazem um arco como de flecha, com a competente corda.<\/p>\n<p>Amarram a extremidade do arco, com uma cordinha do mato, \u00e0 caba\u00e7a,<br \/>\npor via dos dois orif\u00edcios; ent\u00e3o, encostando o instrumento<br \/>\n\u00e0 pele do peito que serve neste caso de caixa sonora, fazem vibrar<br \/>\na corda do arco, por meio de uma palhinha.\u201d A descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o deixa d\u00favidas. Em que pese a aus\u00eancia de detalhes<br \/>\nmais espec\u00edficos, o humbo \u00e9 realmente nosso velho e conhecido<br \/>\nberimbau.<\/p>\n<p>O mesmo Ladislau Batalha torna a referir-se a ele em Costumes Angolenses,<br \/>\nde 1890, tamb\u00e9m publicado em Lisboa: \u201cUm negralh\u00e3o toca<br \/>\nno seu humbo, esp\u00e9cie de guitarra de uma s\u00f3 corda a que o corpo<br \/>\nnu do artista serve de caixa sonora.\u201d No mesmo ano de 1890, ainda em<br \/>\nLisboa, Henrique Augusto Dias de Carvalho, em sua Etnografia e Hist\u00f3ria<br \/>\nTradicional dos Povos da Lunda, desenhou o mesmo instrumento, sozinho e com<br \/>\noutros, incluindo a denomina\u00e7\u00e3o rucumbo e a descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nseguinte: \u201cO rucumbo, constitu\u00eddo de uma corda distendida em<br \/>\narco de madeira flex\u00edvel, que tem numa das extremidades uma pequena<br \/>\ncaba\u00e7a a servir de caixa de resson\u00e2ncia; o arco fica entalado<br \/>\nentre o corpo e o bra\u00e7o esquerdo, indo a m\u00e3o correspondente<br \/>\nsegurar nele a certa altura, e os sons s\u00e3o obtidos com a m\u00e3o<br \/>\ndireita, por interm\u00e9dio de uma pequena varinha que tange a corda em<br \/>\ndiferentes alturas.\u201d O major Dias de Carvalho afirma ainda que \u201cos<br \/>\nlundas chamam-lhe viol\u00f4m. Tocam-no quando passeiam e tamb\u00e9m quando<br \/>\nest\u00e3o deitados nas cubatas\u201d. Diz ainda que o instrumento era<br \/>\n\u201cmuito c\u00f4modo e port\u00e1til\u201d.<\/p>\n<p>Do \u00c1lbum Etnogr\u00e1fico de Jos\u00e9 Redinha, Luanda, s.d.,<br \/>\nconsta um desenho de instrumento com a descri\u00e7\u00e3o a seguir: \u201cUm<br \/>\nmonoc\u00f3rdio, lucungo, com caixa de resson\u00e2ncia, constitu\u00edda<br \/>\npor um copo de caba\u00e7a.\u201d Outra informa\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia<br \/>\nafricana do berimbau decorre de Albano de Neves e Souza, consultado por Luis<br \/>\nda C\u00e2mara Cascudo, e que afirmou: \u201c(&#8230;) um instrumento a\u00ed<br \/>\nchamado de Berimbau e que n\u00f3s chamamos hungu ou m\u2019bolumbumba,<br \/>\nconforme os lugares e que \u00e9 tipicamente pastoril, instrumento esse<br \/>\nque segue os povos pastoris at\u00e9 a Swazil\u00e2ndia, na costa oriental<br \/>\nda \u00c1frica.\u201d<\/p>\n<p>No Brasil, um dos primeiros a fazer o registro da presen\u00e7a do berimbau<br \/>\nfoi Henry Koster, que descreveu o instrumento da seguinte forma: \u201c(&#8230;)<br \/>\num grande arco com uma corda tendo uma meia quenga de coco no meio, ou uma<br \/>\npequena caba\u00e7a amarrada. Colocam-na contra o abdome e tocam a corda<br \/>\ncom o dedo ou com um pedacinho de pau.\u201d Jean Baptiste Debret, em Viagem<br \/>\nPitoresca e Hist\u00f3rica ao Brasil, deixou-nos o desenho de um tocador<br \/>\nde berimbau e uma descri\u00e7\u00e3o do instrumento, ao qual denomina<br \/>\nurucungo: \u201cE finalmente o urucungo, aqui representado. Este instrumento<br \/>\nse comp\u00f5e da metade de uma caba\u00e7a aderente a um arco formado<br \/>\npor uma varinha curva com um fio de lat\u00e3o, sobre o qual se bate ligeiramente.<br \/>\nPode-se ao mesmo tempo estudar o instinto musical do tocador que apoia a m\u00e3o<br \/>\nsobre a frente descoberta da caba\u00e7a, a fim de obter pela vibra\u00e7\u00e3o<br \/>\num som mais grave e harmonioso. Este efeito, quando feliz, s\u00f3 pode<br \/>\nser comparado ao som de uma corda e t\u00edmpano, pois \u00e9 obtido batendo-se<br \/>\nligeiramente sobre a corda com uma pequena vareta que se segura entre o indicador<br \/>\ne o dedo m\u00e9dio da m\u00e3o direita.\u201d Outra descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nacompanha a gravura que reproduz um instrumento em tudo id\u00eantico ao<br \/>\nberimbau, colocado \u00e0 m\u00e3o de um vendedor e que nos foi deixada<br \/>\npor Johhan Emmanuel Pohl, em Viagem no Interior do Brasil, de 1832, onde afirma:<br \/>\n\u201cOs negros gostam muito de m\u00fasica. Consta da gritaria mon\u00f3tona<br \/>\nde um entoador, como estribilho e seguido por todo o coro de maneira igualmente<br \/>\nmon\u00f3tona, ou, quando instrumental, do sonido de uma corda retesada<br \/>\nnum pequeno arco, num simples instrumento que descansa sobre uma caba\u00e7a<br \/>\nesvaziada que d\u00e1, no m\u00e1ximo, tr\u00eas tons&#8230;\u201d Estas<br \/>\ns\u00e3o as descri\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias mais antigas ao<br \/>\nberimbau conhecidas at\u00e9 o momento. Apesar de ligeiras discord\u00e2ncias<br \/>\nquanto \u00e0 denomina\u00e7\u00e3o e detalhes menores, de h\u00e1<br \/>\nmuito o berimbau se faz presente ao lado do negro, garantindo-lhe a presen\u00e7a<br \/>\nda m\u00fasica no momento desejado.<\/p>\n<p>A CONSTRU\u00c7\u00c3O DO BERIMBAU<\/p>\n<p>O primeiro passo para o fabrico do berimbau \u00e9 a obten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma madeira flex\u00edvel e resistente, que suporte arqueamento e press\u00e3o<br \/>\nsem ceder demasiado. Escolhe-se uma vara sem muitos n\u00f3s ou grandes<br \/>\ncurvas, que bem pode ser &#8220;biriba&#8221; (a preferida pela maioria dos<br \/>\ncapoeiras ) ou guatamb\u00fa (mais facilmente encontrada). O guatamb\u00fa<br \/>\nse apresenta como a madeira indicada &#8211; ao lado da taipoca e outras esp\u00e9cies<br \/>\nnativas &#8211; na constru\u00e7\u00e3o do berimbau, por se tornarem suas varas<br \/>\nmuito leves, ap\u00f3s secas, sendo comuns longas hastes muito regulares,<br \/>\napresentando grossura mais ou menos uniforme de uma extremidade a outra. Tirada<br \/>\na vara, que n\u00e3o seja demasiado grossa ou muito fina. O tamanho ideal<br \/>\n\u00e9 de aproximadamente 1.20 m.<\/p>\n<p>Quando a madeira ainda est\u00e1 verde, caso n\u00e3o seja perfeitamente<br \/>\nreta, basta pass\u00e1-la sobre o calor do fogo, ainda com casca, para que<br \/>\nsejam corrigidas eventuais curvas, dando-lhe a forma reta necess\u00e1ria.<br \/>\nA casca do guatamb\u00fa sai com facilidade, passando uma faca de l\u00e2mina<br \/>\nafiada de ponta a ponta da vara, removendo longas tiras.<\/p>\n<p>Passamos, a seguir, \u00e0 confec\u00e7\u00e3o propriamente dita do<br \/>\nberimbau. Esculpe-se uma pequena ponta na extremidade mais grossa da vara,<br \/>\nque ir\u00e1 servir como conex\u00e3o para se ajustar o arame do berimbau.<br \/>\nA outra ponta deve ser bem acertada, pois ir\u00e1 receber um pequeno peda\u00e7o<br \/>\nde sola de couro, que impedir\u00e1 o arame de rachar a madeira.<\/p>\n<p>O arame &#8211; que cumprir\u00e1 o papel de corda do instrumento &#8211; \u00e9<br \/>\num fio de a\u00e7o com um comprimento maior que a vara cerca de 20 cm e<br \/>\nrecebe em sua extremidade um la\u00e7o de di\u00e2metro adequado para se<br \/>\nencaixar na ponta esculpida na madeira &#8211; que ser\u00e1 o p\u00e9 do instrumento<br \/>\n&#8211; enquanto que no outro extremo recebe uma la\u00e7ada menor, onde ser\u00e1<br \/>\namarrado o cord\u00e3o que ir\u00e1 prend\u00ea-lo \u00e0 madeira.<br \/>\nAp\u00f3s esta primeira fase, o berimbau \u00e9 vergado &#8211; ou &#8220;armado&#8221;<br \/>\npara o ajuste da corda, formando o arco &#8211; com o emprego de um p\u00e9 flexionando<br \/>\na madeira, enquanto uma das m\u00e3os apoia a extremidade superior da vara<br \/>\ne a outra amarra o arame. Pronto o berimbau, j\u00e1 se tornou comum acrescentar-lhe<br \/>\ndiscreta pintura, manchas de fogo e verniz, com a finalidade de embelez\u00e1-lo.<br \/>\nEsta pintura \u00e0s vezes possui um significado especial para o tocador,<br \/>\nquando \u00e9 este que confecciona o instrumento.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o da caixa de resson\u00e2ncia,<br \/>\nindispens\u00e1vel ao arco do berimbau. Para isto, utiliza-se uma caba\u00e7a<br \/>\nque serve \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o ao nosso prop\u00f3sito. De prefer\u00eancia,<br \/>\nque a caba\u00e7a se encontre j\u00e1 bem seca e n\u00e3o tenha sido<br \/>\ncolhida madura. Que a casca n\u00e3o seja demasiado grossa ou muito fina.<br \/>\nO tamanho ideal ter\u00e1 um circunfer\u00eancia de aproximadamente 18<br \/>\ncm &#8211; quando se pretenda fazer um berimbau gunga, de timbre grave; caso se<br \/>\npretenda um berimbau viola, de timbre agudo, o tamanho dever\u00e1 ser menor,<br \/>\ncom cerca de 11 cm.<\/p>\n<p>Escolhida a caba\u00e7a, primeiramente fa\u00e7amos uma abertura tal<br \/>\nque seja poss\u00edvel a sa\u00edda de um som claro. Esta abertura ser\u00e1<br \/>\nproporcional ao di\u00e2metro m\u00e1ximo alcan\u00e7ado pela caba\u00e7a<br \/>\ne feita na extremidade oposta \u00e0 que se prende a haste, quando ainda<br \/>\nno p\u00e9. Conclu\u00edda a abertura &#8211; feita com uma serra fina &#8211; se<br \/>\na caba\u00e7a for demasiado grossa \u00e9 conveniente que coloquemos \u00e1gua<br \/>\nem seu interior e deixar por 48h, para depois rasp\u00e1-lo at\u00e9 que<br \/>\na casca se torne da espessura desejada. Isso para que a resson\u00e2ncia<br \/>\nobtida seja de boa qualidade. Depois, com o emprego de uma lixa, daremos \u00e0<br \/>\nabertura da caba\u00e7a o acabamento necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Terminado este preparo, a caba\u00e7a receber\u00e1 no seu fundo dois<br \/>\nfuros paralelos em uma dist\u00e2ncia de aproximadamente 3 cm um do outro,<br \/>\npor onde ir\u00e1 passar o cord\u00e3o que a manter\u00e1 fixa ao arco.<br \/>\nO tamanho deste cord\u00e3o ir\u00e1 depender do grau de curvatura obtido<br \/>\npelo arco, para que a caba\u00e7a fique presa de forma tal que aperte o<br \/>\narame e proporcione ao tocador a necess\u00e1ria firmeza para segurar o<br \/>\ninstrumento, apoiando-o sobre o dedo m\u00ednimo atrav\u00e9s deste cord\u00e3o.<br \/>\nServir\u00e1 ainda para afinar o instrumento, conforme a press\u00e3o<br \/>\nexercida sobre a corda.<\/p>\n<p>Na escolha da vareta a ser utilizada na percuss\u00e3o do arame s\u00e3o<br \/>\npreferidas pequenas varas tiradas de peda\u00e7os de bambu, da grossura<br \/>\naproximada de um l\u00e1pis e comprimento de mais ou menos 30 cm. Outra<br \/>\nesp\u00e9cie de vareta muito apreciada \u00e9 de bambu fino, do tipo das<br \/>\nvaras de pesca, obedecendo \u00e0s dimens\u00f5es citadas. A vareta ser\u00e1<br \/>\nusada segura entre os dedos indicador e polegar, apoiada sobre o dedo m\u00e9dio<br \/>\nde uma m\u00e3o, enquanto a outra sustenta o instrumento e prende o dobr\u00e3o.<br \/>\nA percuss\u00e3o da corda se d\u00e1 numa altura pouco superior ao ponto<br \/>\nonde o dobr\u00e3o pressiona o arame. As batidas devem ser firmes.<\/p>\n<p>O dobr\u00e3o &#8211; denomina\u00e7\u00e3o popular das antigas moedas de<br \/>\n40 r\u00e9is &#8211; \u00e9 empregado com a finalidade de pressionar o arame<br \/>\nquando se pretende obter uma nota aguda, j\u00e1 que o berimbau emite dois<br \/>\ntons b\u00e1sicos (grave e agudo) e outros efeitos. \u00c9 por seu interm\u00e9dio<br \/>\nque o tocador estica ainda mais a corda do instrumento, provocando em conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\na modifica\u00e7\u00e3o do tom grave para o agudo ou um chiado caracter\u00edstico.<br \/>\nMuitos capoeiras preferem o uso de pedras lisas e resistentes no lugar das<br \/>\nmoedas de cobre, por considerarem o som obtido mais agrad\u00e1vel, al\u00e9m<br \/>\nda escolha das pedras possibilitar o emprego daquela de formato mais conveniente<br \/>\npara o manuseio do tocador.<\/p>\n<p>O CAXIXI<\/p>\n<p>Na execu\u00e7\u00e3o do berimbau, um outro instrumento constitui acess\u00f3rio<br \/>\nindispens\u00e1vel: o caxixi, que \u00e9 usado como chocalho.<\/p>\n<p>Caxixi \u00e9 o nome que se d\u00e1 ao pequeno cesto de al\u00e7as,<br \/>\nfeito com tiras de junco tran\u00e7adas, contendo em seu interior contas<br \/>\nde l\u00e1grimas, pequenas conchas marinhas ou b\u00fazios. O seu fundo<br \/>\n\u00e9 feito de peda\u00e7os de caba\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do seu emprego como complemento ao berimbau, Edison Carneiro<br \/>\nnos informa em Candombl\u00e9s da Bahia acerca de outros usos do caxixi.<\/p>\n<p>\u201cCaxixi, s.m. Saquinho de palha tran\u00e7ada que cont\u00e9m<br \/>\nsementes de bananeira-do-mato, usado pelos pais dos candombl\u00e9s de Angola<br \/>\npara acompanhar certos c\u00e2nticos, especialmente a ingor\u00f4ssi. (&#8230;)<br \/>\nIngor\u00f4ssi, s.m. Reza da na\u00e7\u00e3o Angola. O tata, agitando<br \/>\num caxixi, fica no meio das filhas, que sentadas em esteiras, batem com a<br \/>\nm\u00e3o espalmada sobre a boca, respondendo ao solo. (&#8230;) O chefe do candombl\u00e9<br \/>\nacrescenta \u00e0 orquestra, quando Nag\u00f4 ou Jeje, o som do adj\u00e1,<br \/>\numa ou duas camp\u00e2nulas compridas que, sacudidas ao movimento da filha,<br \/>\najudam a manifesta\u00e7\u00e3o do orix\u00e1, e quando Angola ou Congo,<br \/>\no som do caxixi, um saquinho de palha tran\u00e7ada cheio de sementes. (&#8230;)<br \/>\nOs candombl\u00e9s de Angola e do Congo sa\u00fadam conjuntamente os inkices<br \/>\ncom um cantoch\u00e3o l\u00fagubre, o ingor\u00f4ssi, que se comp\u00f5e<br \/>\nde mais de trinta cantigas diferentes. As muzenzas se sentam em esteiras,<br \/>\nem volta do tata, que, com um caxixi na m\u00e3o, faz o solo, respondido<br \/>\npor um coro de gritos entrecortados por pequenas pancadas na boca.\u201d<br \/>\nNo acompanhamento do berimbau o caxixi \u00e9 usado prendendo-se a sua al\u00e7a<br \/>\nentre os dedos anular e m\u00e9dio da m\u00e3o que segura a vareta. Tem<br \/>\ndestaque especial na marca\u00e7\u00e3o r\u00edtmica dos toques.<\/p>\n<p>A RODA DE CAPOEIRA<\/p>\n<p>&#8220;Chibata na m\u00e3o\/Capoeira no p\u00e9\/pega esse negro que \u00e9<br \/>\nde Nazar\u00e9..&#8221;<\/p>\n<p>As cantigas est\u00e3o presentes no jogo desde o momento em que se forma<br \/>\na roda. O canto inicial &#8211; em geral conduzido pelo mestre, ou capoeira mais<br \/>\nantigo &#8211; pode constituir-se na apresenta\u00e7\u00e3o da roda, do lugar<br \/>\nonde \u00e9 feito o jogo.<\/p>\n<p>Quando um capoeira visita uma roda formada por grupo que n\u00e3o freq\u00fcente<br \/>\nhabitualmente, o canto de abertura pode ser seu, o que demonstrar\u00e1<br \/>\ndefer\u00eancia e homenagem ao visitante.<\/p>\n<p>O toque do berimbau agrupa os capoeiras em c\u00edrculo. A princ\u00edpio,<br \/>\nsomente se ouve o som do gunga; em seguida entram no ritmo os demais berimbaus.<br \/>\nO viola e o violinha, com seu timbre ainda mais agudo. Agora \u00e9 a vez<br \/>\ndo atabaque, com sua marca\u00e7\u00e3o forte, pesada. Um a um se apresentam<br \/>\npara a roda o agog\u00f4, reco-reco, pandeiro, ganz\u00e1.<\/p>\n<p>Os capoeiras acompanham com palmas o som dos instrumentos. Todos permanecem<br \/>\nde p\u00e9. O toque inicial \u00e9 Angola, e o canto &#8211; um solo: a ladainha<br \/>\n&#8211; pode ser costumeiro \u00e0quela roda ou improvisado, como esta cantiga<br \/>\nde autoria do mestre Canjiquinha: .<\/p>\n<p>&#8216;Meu Deus o que eu fa\u00e7o\/para viver nesse mundo\/se ando limpo, sou<br \/>\nmalandro\/se ando sujo, sou imundo\/oh que mundo v\u00e9io grande\/oh que mundo<br \/>\nenganad\u00f4\/se eu n\u00e3o brigo, sou covarde\/se mato sou assassino\/se<br \/>\neu n\u00e3o falo, sou calado\/se falo, sou falad\u00f4\/eu digo dessa maneira\/meu<br \/>\nmestre que me ensin\u00f4&#8230;&#8217; Durante a ladainha n\u00e3o h\u00e1 jogo.<br \/>\nOs capoeiras ouvem atentamente o canto. Neste momento o mestre-capoeira transmite<br \/>\numa mensagem \u00e0 roda ou a determinado capoeira. \u00c9 na cantiga<br \/>\nque o capoeira expressa sua viv\u00eancia no jogo.<\/p>\n<p>&#8216;Quando eu tinha dinheiro\/levei a vida a vadiar\/ comi na mesa de ioi\u00f4\/deitei<br \/>\nna cama de iai\u00e1\/ o dinheiro acabou\/me mandaram trabalhar&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0s vezes a ladainha traz \u00e0 lembran\u00e7a fatos passados,<br \/>\nrelembrados como aviso aos jovens, e assim o capoeira guarda at\u00e9 hoje<br \/>\na hist\u00f3ria do jogo e dos jogadores, instrumento de preserva\u00e7\u00e3o<br \/>\nda mem\u00f3ria e transmiss\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es de cada<br \/>\n\u00e9poca e da sua arte.<\/p>\n<p>\u2018Tava l\u00e1 em casa\/sem pensar, nem \u2018maginar\/quando ouvi<br \/>\nbater na porta\/mandaram me chamar\/para ajudar a vencer\/a guerra do Paraguai\/eu<br \/>\nque nunca fui de luta\/nem pretendia lutar\/botei a arma na m\u00e3o\/era tempo<br \/>\nde brigar\/era hora de lutar&#8230;&#8217; Pode acontecer ainda de estar mesclada \u00e0<br \/>\nalegria da brincadeira a tristeza pela aus\u00eancia do capoeira que j\u00e1<br \/>\nmorreu e o canto busca exprimir estes sentimentos.<\/p>\n<p>&#8216;Adeus Bahia, zum, zum, zum\/Cord\u00e3o de Ouro eu vou partir\/porque mataram<br \/>\no meu Besouro&#8230;&#8217; Os que ouvem procuram estar atentos ao conte\u00fado do<br \/>\ncanto, que pode conter uma advert\u00eancia ou observa\u00e7\u00e3o,<br \/>\num exemplo pr\u00e1tico, uma li\u00e7\u00e3o para a vida.<\/p>\n<p>&#8216;Mataram o capoeira\/dentro da delegacia delegado me chamou\/p&#8217;ra prestar<br \/>\ndepoimento daquilo que eu n\u00e3o sabia&#8230;&#8217; Ao terminar a ladainha o mestre<br \/>\ninicia um refr\u00e3o, que \u00e9 o sinal para a entrada do coro, acompanhando<br \/>\no canto.<\/p>\n<p>&#8216;I\u00ea, viva meu Deus\/viva meu mestre\/galo cantou\/\u00e9 hora, \u00e9<br \/>\nhora\/da volta ao mundo\/que o mundo deu\/que o mundo d\u00e1\/camar\u00e1&#8217;<br \/>\nAntes de iniciar o jogo, entrando na roda, os capoeiras executam um movimento<br \/>\nde rever\u00eancia, de sauda\u00e7\u00e3o \u00e0 Capoeira, ao berimbau,<br \/>\n\u00e0 roda, de respeito aos camaradas presentes. \u00c9 uma demonstra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde obedi\u00eancia ao jogo e \u00e0s suas regras.<\/p>\n<p>Os capoeiras firmam o corpo sobre as m\u00e3os apoiadas ao solo, bra\u00e7os<br \/>\nflexionados &#8211; um sob o corpo, o outro em posi\u00e7\u00e3o paralela. A<br \/>\nperna que corresponde ao bra\u00e7o utilizado em apoio permanece acima do<br \/>\nsolo, flexionada; a outra se coloca em posi\u00e7\u00e3o ainda mais alta,<br \/>\nestirada.<\/p>\n<p>Deste modo, em uma demonstra\u00e7\u00e3o de habilidade, dom\u00ednio<br \/>\ndo corpo e equil\u00edbrio, os capoeiras anunciam sua disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndentro da roda: a brincadeira, a disputa baseada no respeito aos fundamentos<br \/>\nda arte.<\/p>\n<p>Feita a sauda\u00e7\u00e3o, os capoeiras se cumprimentam e entram na<br \/>\nroda. \u00c0 medida em que o jogo se desenvolve, o canto acompanha as situa\u00e7\u00f5es<br \/>\nque acontecem na roda, quando n\u00e3o as provoca, como ocorre quando um<br \/>\njogador procura demonstrar sua superioridade ao outro.<\/p>\n<p>&#8216;Pega esse negro\/derruba no ch\u00e3o esse negro \u00e9 valente\/esse<br \/>\nnegro \u00e9 o c\u00e3o..&#8217;.<\/p>\n<p>Quando h\u00e1 inten\u00e7\u00e3o de provocar algu\u00e9m, da assist\u00eancia<br \/>\nou dentro da roda, o capoeira que conduz o canto pode entoar: E \u00e9 tu<br \/>\nque \u00e9 moleque\/moleque \u00e9 tu\/mas \u00e9 tu que \u00e9 moleque\/moleque<br \/>\n\u00e9 tu\/moleque te pego\/te jogo no ch\u00e3o\/castiga o moleque\/conforme<br \/>\na raz\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O canto pode servir para brincar com uma mulher que entra na roda: Se essa<br \/>\nmulher fosse minha\/eu ensinava a viver dava mam\u00e3o com farinha\/de noite<br \/>\ne de dia p\u2019ra ela aprender&#8230;<\/p>\n<p>A brincadeira do canto pode envolver uma advert\u00eancia velada aos jogadores,<br \/>\nse um deles \u00e9 atingido ou provocado de forma perigosa. Noutras vezes<br \/>\na cantiga tamb\u00e9m narra acontecimentos ocorridos dentro do jogo, de<br \/>\nsignifica\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria: Siri botou\/gameleira no ch\u00e3o<br \/>\nbotou, botou\/gameleira no ch\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Pode ser que a m\u00fasica sirva de consolo a um capoeira que n\u00e3o<br \/>\nse d\u00ea bem no jogo, em linguagem peculiar: A canoa virou\/marinheiro no<br \/>\nfundo do mar\/tem dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 comum ainda o canto em que h\u00e1 refer\u00eancia a determinado<br \/>\norix\u00e1, da devo\u00e7\u00e3o do jogador; outros mencionam o nome<br \/>\nde um capoeira, em sua homenagem.<\/p>\n<p>As letras trazem uma caracter\u00edstica comum: a linguagem, em geral,<br \/>\n\u00e9 figurada, sendo sua compreens\u00e3o restrita aos capoeiras. Com<br \/>\nisto, para os que ignoram sua fun\u00e7\u00e3o, s\u00e3o apenas cantigas&#8230;<\/p>\n<p>Os capoeiras prosseguem no jogo, nos seus gestos de enorme beleza. Sem se<br \/>\ntocarem, na comunica\u00e7\u00e3o dos movimentos imprevistos e s\u00fabitos.<br \/>\nO bom capoeira jamais explicita seus golpes. Age sorrateiramente e s\u00f3<br \/>\natacando quando o advers\u00e1rio est\u00e1 vulner\u00e1vel. Parece<br \/>\nmilagre que as pernas percorram o mesmo espa\u00e7o sem se chocarem. Ningu\u00e9m<br \/>\n\u00e9 ferido, n\u00e3o h\u00e1 agress\u00e3o. A luta existe no esfor\u00e7o<br \/>\nde suplantar o advers\u00e1rio pela habilidade na execu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo jogo.<\/p>\n<p>A roda pode durar horas, prendendo os espectadores na agilidade e alegria<br \/>\ndos cantos e movimentos, na sucess\u00e3o de cenas emocionantes, onde um<br \/>\nminuto de desaten\u00e7\u00e3o pode levar um dos capoeiras ao solo. Mas<br \/>\nn\u00e3o se deixem enganar&#8230;a dan\u00e7a pode ser um jogo camuflando<br \/>\na luta e a brincadeira pode ter um final inesperado: S\u00e3o Salvador,<br \/>\nBahia\/A tarde morria devagar E berimbau se ouvia\/ Gente na rua a passar Algu\u00e9m<br \/>\nno desejo da briga\/Fazia cantiga de provocar S\u00e3o Salvador, Bahia\/ Um<br \/>\nhomem passando escutou\/ Isso \u00e9 comigo! e falou:\/Se quer jogar vamos<br \/>\nl\u00e1\/ Eu ia pra l\u00e1 mas n\u00e3o vou\/E dizendo se ajoelhou\/ Dois<br \/>\nhomens fizeram ora\u00e7\u00e3o\/Come\u00e7aram jogando no ch\u00e3o\/<br \/>\nJogaram Angola, Santa Maria\/ S\u00e3o Bento Pequeno\/ Cavalaria\/ E o povo<br \/>\nassistia\/ tremendo\/Capoeira pra matar\/ Faca de ponta\/ Rabo de arraia Na dan\u00e7a<br \/>\nda morte do lugar\/ S\u00e3o Salvador, Bahia Quando a pol\u00edcia chegou\/<br \/>\nUm corpo no ch\u00e3o havia Em volta o sil\u00eancio dizendo\/ Seu mo\u00e7o,<br \/>\nessa briga acabou\/ S\u00e3o Salvador, Bahia\/ Bahia de S\u00e3o Salvador\u201d<\/p>\n<p>O JOGO DA CAPOEIRA<\/p>\n<p>\u201cCapoeira \u00e9 luta de bailarinos. \u00c9 dan\u00e7a de gladiadores.<br \/>\n\u00c9 duelo de camaradas. \u00c9 jogo, \u00e9 bailado, \u00e9 disputa<br \/>\n&#8211; simbiose perfeita de for\u00e7a e ritmo, poesia e agilidade. \u00danica<br \/>\nem que os movimentos s\u00e3o comandados pela m\u00fasica e pelo canto.<br \/>\nA submiss\u00e3o da for\u00e7a ao ritmo. Da viol\u00eancia \u00e0 melodia.<br \/>\nA sublima\u00e7\u00e3o dos antagonismos.<\/p>\n<p>Na Capoeira, os contendores n\u00e3o s\u00e3o advers\u00e1rios, s\u00e3o<br \/>\n\u2018camaradas\u2019. N\u00e3o lutam, fingem lutar. Procuram &#8211; genialmente<br \/>\n&#8211; dar a vis\u00e3o art\u00edstica de um combate. Acima do esp\u00edrito<br \/>\nde competi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 neles um sentido de beleza. O capoeira<br \/>\n\u00e9 um artista e um atleta, um jogador e um poeta.\u201d Dias Gomes<\/p>\n<p>Para compreender esse jogo \u00e9 preciso primeiramente entender o prop\u00f3sito<br \/>\ndos capoeiras ao entrarem na roda. A leitura gestual do jogo de Capoeira desvenda-o<br \/>\ncomo um modo particular de fazer pol\u00edtica: as estrat\u00e9gias baseada<br \/>\nsobretudo no enfrentamento indireto.<\/p>\n<p>A luta-dan\u00e7a-jogo expressa o modo como os negros inverteram, a seu<br \/>\nfavor, a for\u00e7a vis\u00edvel e expl\u00edcita dos poderosos, fugindo<br \/>\ndo enfrentamento direto a partir de regras que n\u00e3o foram definidas<br \/>\npor eles.<\/p>\n<p>A aparente oposi\u00e7\u00e3o entre a rebeldia passiva e a rebeldia<br \/>\nativa determina a dubiedade do jogo de Capoeira: os seus movimentos corporais<br \/>\nindicam uma negocia\u00e7\u00e3o, mais do que rebeli\u00e3o. Durante<br \/>\no confronto os corpos negociam e a ginga significa a possibilidade da barganha,<br \/>\natuando no sentido de moderar o conflito. Ao menor sinal de distra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo oponente, quando \u201cas chances de falhar s\u00e3o m\u00ednimas\u201d<br \/>\n(como ensinava mestre Pastinha), explode o contra-ataque, como um rel\u00e2mpago,<br \/>\ndeflagrando-se ent\u00e3o o conflito.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um jogo de consider\u00e1vel complexidade &#8211; apesar da apar\u00eancia<br \/>\nsimples -, onde h\u00e1 objetividade em todos os gestos e uma filosofia<br \/>\nintr\u00ednseca determinando o sentido da movimenta\u00e7\u00e3o. A<br \/>\ndisputa \u00e0s vezes transcorre de forma t\u00e3o sutil que muitos n\u00e3o<br \/>\nse apercebem da sua exist\u00eancia, ou n\u00e3o conseguem entend\u00ea-la.<br \/>\nO capoeira pretende suplantar o oponente: s\u00f3 que \u00e9 dada \u00eanfase<br \/>\nespecial \u00e0 mal\u00edcia na movimenta\u00e7\u00e3o; a intelig\u00eancia<br \/>\n\u00e9 privilegiada na execu\u00e7\u00e3o dos golpes, em detrimento<br \/>\nda aplica\u00e7\u00e3o de movimentos de for\u00e7a e pot\u00eancia.<br \/>\nPredomina particularmente a ast\u00facia nos contra-ataques irresist\u00edveis.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 o objetivo de superar o advers\u00e1rio na base do<br \/>\nvale-tudo. Os gestos s\u00e3o naturalmente estudados, permitindo a observa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndetida de um camarada pelo outro. Se um movimento \u00e9 executado de forma<br \/>\nirrefletida, seu autor n\u00e3o perde por esperar&#8230; De pronto est\u00e1<br \/>\ncriada a oportunidade de uma sucess\u00e3o de ataques e contra-ataques.<br \/>\nCada gesto \u00e9 executado com muita aten\u00e7\u00e3o em todos os<br \/>\ndetalhes. A hora exata de empreg\u00e1-lo \u00e9 aquela que diminua as<br \/>\npossibilidades de deixar uma brecha para a defesa. \u00c9 imprescind\u00edvel<br \/>\nestar atento \u00e0s rea\u00e7\u00f5es do oponente, procurar iludi-lo,<br \/>\ncham\u00e1-lo para a armadilha. Tudo de forma calculada, treinada, assimilada<br \/>\ndurante horas de exerc\u00edcio e pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o princ\u00edpio fundamental do jogo de Capoeira: nada de<br \/>\nexplos\u00f5es de viol\u00eancia. N\u00e3o se trata de uma briga, mas<br \/>\nde um entretenimento. Deve prevalecer a aceita\u00e7\u00e3o das regras.<br \/>\nMal\u00edcia, manha, ast\u00facia, esperteza, s\u00e3o sin\u00f4nimos<br \/>\ndo jogo. N\u00e3o se pretende a demonstra\u00e7\u00e3o ou exibi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde nada que n\u00e3o seja a compet\u00eancia na disputa.<\/p>\n<p>A movimenta\u00e7\u00e3o do jogo acontece basicamente no ch\u00e3o.<br \/>\nIsto n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o podem ser executados movimentos<br \/>\naltos; significa que o capoeira busca explorar as facilidades de locomo\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo solo, fazendo uso de todos os recursos colocados ao seu dispor gra\u00e7as<br \/>\naos treinos, destinados a habilitar o praticante a gestos aparentemente inofensivos.<\/p>\n<p>Se um capoeira interrompe um movimento j\u00e1 iniciado, por encontrar-se<br \/>\no advers\u00e1rio demasiado longe, \u00e9 bem prov\u00e1vel que o outro<br \/>\ncapoeira reaja de forma ins\u00f3lita: se aproximando do oponente aos saltos,<br \/>\ncomo se fosse um s\u00edmio, para desferir potente cabe\u00e7ada. Pode<br \/>\nser ainda que o seu parceiro escapula do ataque correndo pelo solo, como se<br \/>\nfosse um gato.<\/p>\n<p>No jogo da Capoeira se desconfia de imediato do capoeira que afivela um<br \/>\nsorriso fixo ao rosto, como se tudo n\u00e3o passasse de uma grande piada.<br \/>\nEssa pode ser a forma encontrada para criar-se um clima descontra\u00eddo,<br \/>\nonde as defesas ficar\u00e3o abertas, permitindo o ataque desconcertante.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o do esp\u00edrito bem-humorado e descontra\u00eddo do<br \/>\njogo de gestos soltos e naturais, tanto faz se o capoeira \u00e9 um garot\u00e3o<br \/>\nbem nutrido, cheio de m\u00fasculos e espelhando vigor, ou se \u00e9 um<br \/>\nvelho mestre. O que importa \u00e9 a viv\u00eancia, a experi\u00eancia,<br \/>\na sabedoria, a pr\u00e1tica: vale mais o conhecimento dos fundamentos da<br \/>\nCapoeira.<\/p>\n<p>As oportunidades de atingir o advers\u00e1rio n\u00e3o s\u00e3o procuradas<br \/>\ncom a ferocidade t\u00edpica do combate entre irracionais. O capoeira sabe<br \/>\n&#8211; simplesmente ao encostar o p\u00e9 no advers\u00e1rio &#8211; que seus movimentos<br \/>\npodem ser fatais. Ent\u00e3o, para que atirar o advers\u00e1rio \u00e0<br \/>\ndist\u00e2ncia, nocauteado, talvez inutilizado? A ess\u00eancia da Capoeira<br \/>\n\u00e9 compreender o jogo como uma brincadeira entre amigos, que se respeitam<br \/>\ne v\u00eaem na luta uma divers\u00e3o amistosa. Nesse brinquedo vale mais<br \/>\num movimento desnorteante que um chute arrasador. \u00c9 preciso mal\u00edcia,<br \/>\nmanha, para suplantar o oponente. Saber esperar sem perder o esp\u00edrito<br \/>\nmalandreado do jogo. Na hora certa surgir\u00e1 a oportunidade; basta ter<br \/>\ncalma. A pr\u00f3pria circularidade do jogo e de seus movimentos assegura<br \/>\nao capoeira que eventualmente se encontre em desvantagem, a oportunidade ideal<br \/>\npara recuperar terreno.<\/p>\n<p>O capoeira busca o jogo no ch\u00e3o por saber que ali os recursos f\u00edsicos<br \/>\nse igualam: a vantagem s\u00f3 poder\u00e1 ser encontrada com muita da<br \/>\nhabilidade. Cada gesto envolve grande margem de risco, em raz\u00e3o de<br \/>\ndetalhes aparentemente insignificantes. Um movimento executado de forma que<br \/>\ndeixe parte do tronco ou da cabe\u00e7a desprotegidos \u00e9 de imediato<br \/>\naproveitado pelo contendor, que logo procura atacar a regi\u00e3o desguarnecida.<br \/>\nNo momento seguinte o capoeira que levou vantagem se afasta sorridente &#8211; e<br \/>\nquando ningu\u00e9m estiver esperando, inicia o contra-ataque, tirando proveito<br \/>\nde cada brecha na defesa do advers\u00e1rio. As iniciativas de ataque e<br \/>\ndefesa se sucedem, uma ap\u00f3s a outra, exigindo total concentra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos jogadores As oportunidades de superar o advers\u00e1rio n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nfor\u00e7adas. O clima de brincadeira entre companheiros n\u00e3o \u00e9<br \/>\nquebrado por cenas de viol\u00eancia banal. A superioridade de um capoeira<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o a outro &#8211; ou mesmo o equil\u00edbrio entre ambos<br \/>\n&#8211; se manifesta tanto na oportunidade bem aproveitada para evidenciar esperteza,<br \/>\nquanto no modo educado de reconhecer o momento de vacila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o do jogo n\u00e3o admite que o capoeira em desvantagem<br \/>\nbusque a desforra ou o revide a qualquer custo. O capoeira sabe que se no<br \/>\npassado o aspecto de brinquedo e divers\u00e3o do jogo representava sobretudo<br \/>\numa estrat\u00e9gia pol\u00edtica para ocultar o aspecto combativo, proeminente<br \/>\nna capoeira da sociedade escravista, at\u00e9 hoje essa natureza d\u00faplice<br \/>\n(brincadeira e combate) est\u00e1 presente e contamina todos os elementos<br \/>\ndo sistema cultural da Capoeira.<\/p>\n<p>As t\u00e1ticas dos capoeiras no jogo se baseiam no disfarce e na camuflagem<br \/>\ndos verdadeiros objetivos. Exemplo disso \u00e9 o berimbau: \u00e9 um<br \/>\ninstrumento musical mas ao mesmo tempo pode ser uma arma: e fala-se em \u201carmar\u201d<br \/>\no berimbau para poder toc\u00e1-lo; montar o instrumento e afin\u00e1-lo,<br \/>\nesticando-se o arame, prendendo-o a uma das extremidades da madeira envergada<br \/>\ne depois ajustando a caba\u00e7a na outra extremidade &#8211; e em \u201cdesarmar\u201d<br \/>\no berimbau, ao final de uma roda No jogo da Capoeira h\u00e1 movimentos<br \/>\ncorporais cujos nomes nos remetem ao terreno das brincadeiras de inf\u00e2ncia<br \/>\n(pi\u00e3o, bal\u00e3o) e h\u00e1 aqueles que sup\u00f5em o combate<br \/>\n(armada, arp\u00f4o de cabe\u00e7a, asfixiante); e existe a chamada de<br \/>\nAngola, que \u00e9 um momento de ruptura na roda de capoeira, quando os<br \/>\ndois jogadores se movimentam emparelhados para a frente e para tr\u00e1s<br \/>\nat\u00e9 que um, subitamente, \u201cdesarma\u201d a chamada, isto \u00e9,<br \/>\naplica um golpe qualquer sobre o advers\u00e1rio, reiniciando assim o jogo.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es do jogo (tais como golpes<br \/>\ne floreios, avan\u00e7os e recuos, ataques e esquivas) \u00e9 d\u00fabia<br \/>\ncomo as pr\u00f3prias cantigas de Capoeira, que falam do jogo que \u201ctodos<br \/>\npodem aprender, general at\u00e9 doutor\u201d, ao mesmo tempo em que avisam<br \/>\ndo perigo da brincadeira: \u201cCapoeira \u00e9 ligeira, ela \u00e9 brasileira,<br \/>\nela \u00e9 de matar\u201d.<\/p>\n<p>Luta coletiva que incorpora s\u00e9culos de resist\u00eancia cultural,<br \/>\nexpressando corporalmente a linguagem de um povo que tradicionalmente resistiu<br \/>\n\u00e0 domina\u00e7\u00e3o, a Capoeira \u00e9 fundamentalmente um<br \/>\njogo de contrapoder. Atuando nos vazios do advers\u00e1rio, aproveitando-se<br \/>\ndas lacunas provocadas pelos movimentos do pr\u00f3prio atacante, o importante<br \/>\npara o capoeira \u00e9 saber aproveitar o espa\u00e7o vazio deixado pelo<br \/>\noutro; s\u00f3 quando h\u00e1 oportunidade de \u00eaxito o capoeira parte<br \/>\npara o embate direto. Percebe-se, ent\u00e3o, que o mesmo corpo que aparentemente<br \/>\nconformara-se, na ocasi\u00e3o oportuna insurge-se e ataca: inesperado,<br \/>\nsurpreendente, invertendo as regras do jogo que garantem a domina\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne aquele que j\u00e1 se acostumava ao aparente dom\u00ednio da situa\u00e7\u00e3o<br \/>\npoder\u00e1, num instante, &#8216;levar uma rasteira&#8217; e tornar-se, ele pr\u00f3prio,<br \/>\no dominado.<\/p>\n<p>A surpresa \u00e9 o elemento essencial nas estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o<br \/>\ne rea\u00e7\u00e3o da Capoeira, subvertendo e invertendo as regras do<br \/>\njogo da domina\u00e7\u00e3o: a principal inten\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\nsempre a de desequilibrar o outro, o qual, por sua vez, deve evitar cair.<br \/>\nAfinal, cair \u00e9 ficar em desvantagem: perder o dom\u00ednio, o poder.<br \/>\nTodos os movimentos da luta da Capoeira se encaixam nesse mesmo prop\u00f3sito:<br \/>\nderrubar o outro. E para que isso ocorra, mais do que for\u00e7a f\u00edsica<br \/>\no capoeira deve ter fundamentalmente mandinga, mal\u00edcia. Essa regra<br \/>\ndo jogo garante h\u00e1 s\u00e9culos a unidade da Capoeira como pr\u00e1tica<br \/>\nde camaradas. Mesmo que um deles acabe derrubado, no ch\u00e3o. Afinal&#8230;<\/p>\n<p>&#8216;Capoeira que \u00e9 bom\/ n\u00e3o cai E se um dia ele cai\/ cai bem&#8230;&#8217;<br \/>\nVin\u00edcius de Moraes &amp; Baden Powell, Berimbau<\/p>\n<p>A PREPARA\u00c7\u00c3O DO CAPOEIRA Quando se afirma ser a Capoeira luta,<br \/>\ndan\u00e7a, arte, mandinga, fica impl\u00edcita a diversidade das t\u00e9cnicas<br \/>\ne processos existentes em sua aprendizagem. A mandinga, a ast\u00facia e<br \/>\na agilidade se sobrep\u00f5em \u00e0 for\u00e7a f\u00edsica, posto<br \/>\nque o mais forte n\u00e3o \u00e9 aquele fisicamente mais avantajado mas<br \/>\no mais malicioso, o mais mandingueiro.<\/p>\n<p>A metodologia utilizada com este objetivo exige o emprego de instrumental<br \/>\nadequado ao que se prop\u00f5e: fazer um capoeira, para que este possa jog\u00e1-la,<br \/>\ncorporific\u00e1-la. Estabelecido este prop\u00f3sito, cabe ao mestre<br \/>\nverificar individualmente a medida na qual o iniciante possui alguns requisitos<br \/>\nb\u00e1sicos: ritmo, flexibilidade articular, elasticidade e for\u00e7a<br \/>\nmuscular, etc.<\/p>\n<p>Esta observa\u00e7\u00e3o ocorre quando o iniciante demonstra facilidade<br \/>\n&#8211; ou n\u00e3o &#8211; na execu\u00e7\u00e3o dos movimentos voltados \u00e0<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o e condicionamento corporal.<\/p>\n<p>O primeiro passo pode consistir em andar engatinhando, ou seja, o corpo<br \/>\napoiado nas m\u00e3os, bra\u00e7os e pernas mantidos flexionados, deslocando<br \/>\nlentamente pelo solo.<\/p>\n<p>Este treinamento possui finalidades essenciais para o jogador, sob os aspectos<br \/>\ndo desenvolvimento f\u00edsico e de retomar-se a intimidade homem-terra.<br \/>\nA locomo\u00e7\u00e3o executada desta forma exige for\u00e7a muscular<br \/>\ndiretamente proporcional ao corpo, perfeita coordena\u00e7\u00e3o entre<br \/>\nos movimentos dos membros inferiores e superiores, mantidos sob intenso trabalho<br \/>\naer\u00f3bico.<\/p>\n<p>Outra posi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel na prepara\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo capoeira \u00e9 a denominada parada, ou parada de m\u00e3os, em que<br \/>\no corpo fica im\u00f3vel na postura vertical, com a cabe\u00e7a para baixo,<br \/>\nsustentado pelos bra\u00e7os estirados e as m\u00e3os abertas apoiadas<br \/>\nao solo.<\/p>\n<p>Tendo o praticante desenvolvido suficiente for\u00e7a e equil\u00edbrio,<br \/>\no exerc\u00edcio seguinte \u00e9 andar com as m\u00e3os, usando a mesma<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o vertical da parada, agora com as pernas flexionadas<br \/>\nnos joelhos.<\/p>\n<p>Os m\u00fasculos do tronco e membros superiores, muito solicitados no<br \/>\njogo, s\u00e3o trabalhados especificamente com a pr\u00e1tica de flex\u00f5es<br \/>\ndos bra\u00e7os, na postura descrita acima. Nestes exerc\u00edcios o corpo<br \/>\npermanece na vertical, cabe\u00e7a para baixo. As pernas se encontram dobradas<br \/>\nnos joelhos, a coluna vertebral com pequena arquea\u00e7\u00e3o, os p\u00e9s<br \/>\nauxiliando o equil\u00edbrio, deslizando sobre uma superf\u00edcie vertical<br \/>\n(que pode ser uma parede), paralela ao corpo.<\/p>\n<p>OS MOVIMENTOS<\/p>\n<p>\u201cOlha a armada\/meia lua e cabe\u00e7ada a rasteira e a queixada\/<br \/>\np\u2019ra matar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>A GINGA<\/p>\n<p>A ginga \u00e9 a movimenta\u00e7\u00e3o corporal essencial da capoeira.<br \/>\nPasso de dan\u00e7a, passo de luta. Primeiro, para aprender-se o jogo. Cad\u00eancia,<br \/>\nmovimenta\u00e7\u00e3o oscilante, meneio do corpo, que desconcerta e engana,<br \/>\nno jeito bamboleante, na dan\u00e7a de todo o corpo.<\/p>\n<p>A sua caracter\u00edstica principal \u00e9 permitir a descontra\u00e7\u00e3o,<br \/>\na entrega aos ritmos da Capoeira. Funciona como arma\u00e7\u00e3o para<br \/>\noutros movimentos, permitindo desloca\u00e7\u00f5es constantes.<\/p>\n<p>Como se fora uma dan\u00e7a &#8211; nem por isto obrigada a ter prop\u00f3sitos<br \/>\ninofensivos &#8211; estabelece harmonia entre a Capoeira e a pr\u00f3pria natureza<br \/>\ndo jogador: vers\u00e1til, din\u00e2mica, criativa.<\/p>\n<p>Permitindo que a um s\u00f3 tempo o corpo lute aparentando dan\u00e7ar,<br \/>\na ginga camufla o potencial letal dos movimentos. \u00c9 a ginga que predisp\u00f5e<br \/>\no jogador a um jogo situado entre a brincadeira e o combate. A ginga n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 unicamente uma base para o arremesso de golpes. E os movimentos da<br \/>\nCapoeira n\u00e3o s\u00e3o somente golpes.<\/p>\n<p>Existe um princ\u00edpio de movimenta\u00e7\u00e3o em equil\u00edbrio,<br \/>\ncom as a\u00e7\u00f5es circulares t\u00edpicas do jogo, que determina<br \/>\numa forma de ginga para cada jogador, atendendo a suas caracter\u00edsticas<br \/>\ne prefer\u00eancias. Afinal, n\u00e3o podemos esquecer as peculiaridades<br \/>\ndo jogo.<\/p>\n<p>As padroniza\u00e7\u00f5es &#8211; ou estiliza\u00e7\u00f5es &#8211; levam \u00e0<br \/>\ndiminui\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o reservado \u00e0 arte, aos improvisos<br \/>\nde cada jogador, empobrecendo e descaracterizando o jogo, invertendo suas<br \/>\nfinalidades.<\/p>\n<p>As tentativas de estabelecer-se um estilo \u00fanico de ginga, geralmente<br \/>\ns\u00e3o o resultado das iniciativas de alguns professores, que buscam ajust\u00e1-la<br \/>\n\u00e0s raz\u00f5es pelas quais praticam a Capoeira, sejam a promo\u00e7\u00e3o<br \/>\nde shows ou o ensino de pugilato. Isso contraria o fundamental: a arte se<br \/>\npresta \u00e0 luta e pode ser vista como demonstra\u00e7\u00e3o, mas<br \/>\nsua natureza vai muito al\u00e9m destas meras possibilidades.<\/p>\n<p>Qualquer compara\u00e7\u00e3o que implique em limita\u00e7\u00e3o,<br \/>\nexclus\u00e3o de componentes do seu conte\u00fado, provoca deturpa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPrincipalmente se referentes a modalidades pugil\u00edsticas, por relacionarem<br \/>\na Capoeira com manifesta\u00e7\u00f5es inseridas em outro contexto cultural.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e3o menos equivocadas compara\u00e7\u00f5es com<br \/>\noutras dan\u00e7as, entendidas conforme os conceitos geralmente adotados<br \/>\npara sua compreens\u00e3o. Isso importaria em excluir a possibilidade do<br \/>\nemprego ofensivo-defensivo, existente desde o surgimento do jogo, de forma<br \/>\nimpl\u00edcita ou expl\u00edcita.<\/p>\n<p>\u00c9 importante observar a ginga, notando o intenso magnetismo a desprender-se<br \/>\ndo capoeira dan\u00e7ando com todo o corpo, balan\u00e7ando os bra\u00e7os,<br \/>\nsorridente frente ao advers\u00e1rio que por for\u00e7a quer atingi-lo.<\/p>\n<p>Os bra\u00e7os se posicionam sempre de forma tal que fica garantida prote\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 cabe\u00e7a, quando se fa\u00e7a necess\u00e1rio, para &#8211; na<br \/>\nocasi\u00e3o apropriada &#8211; prepararem um ataque. As pernas alternam passos<br \/>\nque permitem a execu\u00e7\u00e3o de outros movimentos. Na mobilidade<br \/>\ndos quadris se encontra uma das causas da agilidade com que os capoeiras se<br \/>\nesquivam ante ataques, sendo recurso auxiliar no arremesso de movimentos com<br \/>\nos p\u00e9s, m\u00e3os ou cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de incluir uma sucess\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es de<br \/>\nguarda do capoeira, a ginga possibilita o in\u00edcio e velocidade nos ataques<br \/>\ne defesas. Esta premissa estabelece, portanto, a necessidade do pleno conhecimento<br \/>\nda sua mec\u00e2nica. \u00c0 medida que o jogador se entrega ao ritmo de<br \/>\nforma descontra\u00edda, deve personaliz\u00e1-la, ajustando-a sempre<br \/>\nconforme seu temperamento e inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao gingar o capoeira se permite improvisos e inova\u00e7\u00f5es, considerando<br \/>\no essencial: defender um lado do corpo enquanto o outro se prepara (ou executa)<br \/>\num ataque. Deve ser considerada imprescind\u00edvel a manuten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo equil\u00edbrio do corpo. Nestas condi\u00e7\u00f5es, o emprego de<br \/>\nfigura\u00e7\u00f5es e gestos destinados a desviar a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo advers\u00e1rio, camuflando o prop\u00f3sito de ataques e defesas,<br \/>\nacontece de acordo com a criatividade de cada um. O desenvolvimento da maneira<br \/>\npr\u00f3pria de gingar depende de imagina\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica<br \/>\nconstante.<\/p>\n<p>\u00c9 importante o treinamento da ginga pelo capoeira defronte a um camarada,<br \/>\nexecutando apenas gestos destinados a desviar a aten\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio,<br \/>\naplicando diversas formas de truques ao seu alcance, para enganar o oponente,<br \/>\nassim como a execu\u00e7\u00e3o intensiva individual.<\/p>\n<p>A\u00da<\/p>\n<p>Movimento de locomo\u00e7\u00e3o do capoeira na roda, permite aproximar-se<br \/>\nou afastar-se do oponente, armando ataques e executando uma defesa.<\/p>\n<p>NEGATIVA<\/p>\n<p>Aqui o capoeira desce sobre uma perna, que flexionar\u00e1 sob o peso<br \/>\ndo corpo, ao abaixar-se. Com isto, temos o corpo sobre uma perna, apoiado<br \/>\nno calcanhar, enquanto a ponta do p\u00e9 (flexionada) firma a base no ch\u00e3o.<br \/>\nA outra perna \u00e9 lan\u00e7ada \u00e0 frente, esticada, o calcanhar<br \/>\ntocando o solo. O bra\u00e7o deste lado apoia a m\u00e3o ao solo, garantindo<br \/>\nao capoeira tr\u00eas pontos de apoio e uma posi\u00e7\u00e3o que permite<br \/>\nlocomo\u00e7\u00e3o r\u00e1pida.<\/p>\n<p>Geralmente os capoeiras aperfei\u00e7oam a execu\u00e7\u00e3o da negativa<br \/>\ntreinando a troca de negativas, que consiste em alternar sucessivamente os<br \/>\npontos de apoio do corpo, de um lado e de outro, em r\u00e1pidos movimentos<br \/>\nRESIST\u00caNCIA \u00c9 uma defesa onde o capoeira se abaixa sobre as pernas<br \/>\nflexionadas, colocando o peso do corpo sobre uma perna. O bra\u00e7o correspondente<br \/>\na esta perna mant\u00eam a m\u00e3o apoiada no solo, enquanto o tronco<br \/>\n\u00e9 ligeiramente curvado, a outra m\u00e3o \u00e0 frente da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao treinar a resist\u00eancia o capoeira se prepara para outros movimentos,<br \/>\nsendo comum conjugar sua execu\u00e7\u00e3o com o a\u00fa.<\/p>\n<p>MEIA-LUA DE FRENTE<\/p>\n<p>Ao fazer este movimento o capoeira descreve uma meia-lua com uma perna estirada,<br \/>\narremessada com o p\u00e9 passando \u00e0 altura do advers\u00e1rio<br \/>\ne completando um semic\u00edrculo, para ent\u00e3o voltar com o p\u00e9<br \/>\nao ponto inicial, retornando \u00e0 ginga.<\/p>\n<p>B\u00caN\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>O capoeira ao aplicar a B\u00ean\u00e7\u00e3o levanta a perna que se<br \/>\nencontra atr\u00e1s na ginga, puxa-a em dire\u00e7\u00e3o a si e &#8211; num<br \/>\nmovimento r\u00e1pido &#8211; empurra-a contra o peito do advers\u00e1rio, buscando<br \/>\natingi-lo com o calcanhar.<\/p>\n<p>ESQUIVA<\/p>\n<p>Neste movimento o capoeira se desloca sem recuar o corpo, por\u00e9m evitando<br \/>\na trajet\u00f3ria de um gesto contr\u00e1rio, se abaixando lateralmente.<\/p>\n<p>CABE\u00c7ADA<\/p>\n<p>Em uma posi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 da esquiva, o capoeira<br \/>\nprojeta seu tronco para a frente, sobre uma perna flexionada servindo como<br \/>\nbase, buscando atingir o advers\u00e1rio com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>RASTEIRA Na execu\u00e7\u00e3o da rasteira o capoeira cai sobre uma<br \/>\ndas pernas, que se flexiona sob o peso do corpo.<\/p>\n<p>Se a perna flexionada for a esquerda, tendo por pontos de apoio o p\u00e9<br \/>\ndesta perna e as duas m\u00e3os sobre o solo, o capoeira tra\u00e7a um<br \/>\nsemic\u00edrculo \u00e0 sua frente, com a perna direita, o p\u00e9 desta<br \/>\nperna passando rente ao solo, buscando varrer o advers\u00e1rio. O movimento<br \/>\nprossegue at\u00e9 que se complete o c\u00edrculo, quando o capoeira se<br \/>\nlevanta j\u00e1 defronte ao oponente.<\/p>\n<p>MARTELO BAIXO<\/p>\n<p>O capoeira desce ao solo, apoiando-se \u00e0s m\u00e3os, executando<br \/>\num giro sobre o p\u00e9 da perna que se encontra \u00e0 frente, arremessando<br \/>\na perna de tr\u00e1s, at\u00e9 voltar \u00e0 posi\u00e7\u00e3o inicial.<\/p>\n<p>CHAP\u00c9U DE COURO<\/p>\n<p>Na execu\u00e7\u00e3o do chap\u00e9u de couro, o capoeira principia<br \/>\numa rasteira e interrompe a certa altura, para voltar com a mesma perna em<br \/>\ndire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 inicial, desferindo um movimento<br \/>\nid\u00eantico ao anterior.<\/p>\n<p>QUEIXADA Aqui o capoeira se posiciona defronte ao advers\u00e1rio, d\u00e1<br \/>\num passo lateral e em seguida, numa tor\u00e7\u00e3o do tronco, arremessa<br \/>\na perna da frente, desferindo um movimento semicircular \u00e0 altura da<br \/>\ncabe\u00e7a do advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>O golpe prossegue at\u00e9 a descida da perna at\u00e9 o solo.<\/p>\n<p>ARMADA<\/p>\n<p>O capoeira executa um giro de todo o corpo, aparentemente dando as costas<br \/>\nao advers\u00e1rio, posicionando-se sobre a perna que se encontra \u00e0<br \/>\nfrente, arremessando a outra perna, em um movimento que completa o giro do<br \/>\ncorpo, tendo como objetivo a cabe\u00e7a do oponente.<\/p>\n<p>MEIA-LUA DE COMPASSO Neste movimento o capoeira se abaixa at\u00e9 o solo,<br \/>\napoiando as duas m\u00e3os ao solo e desferindo um giro com a perna de tr\u00e1s,<br \/>\narremessando-a \u00e0 altura do tronco do advers\u00e1rio. O giro \u00e9<br \/>\nexecutado sobre a perna base, como se fosse um compasso. Durante todo o movimento<br \/>\na cabe\u00e7a se encontra entre os bra\u00e7os, os olhos atentos ao advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>No treinamento b\u00e1sico, \u00e9 \u00fatil a execu\u00e7\u00e3o<br \/>\nem seguida \u00e0 resist\u00eancia, exigindo um maior controle da meia-lua<br \/>\ne mantendo o corpo bem pr\u00f3ximo ao solo durante toda a movimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao treinar contra-ataques \u00e0 meia-lua, um movimento pouco convencional,<br \/>\npor\u00e9m de certa utilidade, \u00e9 o de puxar a perna de apoio de quem<br \/>\narremessa o golpe, com a m\u00e3o, provocando a interrup\u00e7\u00e3o<br \/>\ne queda do capoeira.<\/p>\n<p>CHAPA LATERAL Este movimento \u00e9 executado de forma semelhante \u00e0<br \/>\nB\u00ean\u00e7\u00e3o. A perna \u00e9 puxada pelo capoeira (joelho<br \/>\nflexionado) e distendida em um gesto s\u00fabito, procurando atingir o oponente<br \/>\ncom a parte inferior do p\u00e9.<\/p>\n<p>CHAPA DE COSTAS<\/p>\n<p>Neste movimento o capoeira se abaixa at\u00e9 o solo, numa posi\u00e7\u00e3o<br \/>\npr\u00f3xima \u00e0 da meia lua de compasso, quando ent\u00e3o desfere<br \/>\num golpe id\u00eantico \u00e0 chapa lateral, agora contando com o apoio<br \/>\ndas duas m\u00e3os ao solo e se aproveitando do fato de estar de costas<br \/>\npara o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>CHAPA-P\u00c9 RODADO Ao executar este chute o capoeira faz um giro de<br \/>\ntodo o corpo sobre uma perna base que se encontra \u00e0 frente, dando as<br \/>\ncostas ao advers\u00e1rio. Neste momento, aproveitando o impulso do movimento<br \/>\nde rota\u00e7\u00e3o do corpo, desfere vigoroso chute na posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nda chapa lateral, em dire\u00e7\u00e3o ao tronco do advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>TESOURA DE COSTAS Na tesoura o capoeira parte de um a\u00fa ou de posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nid\u00eantica \u00e0quela inicial da meia-lua de compasso. Em um r\u00e1pido<br \/>\nsalto, deve buscar prender entre suas pernas as do advers\u00e1rio, mantendo<br \/>\na frente do corpo para o solo, apoiando-se sobre as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Em seguida, encaixado o movimento, um dos bra\u00e7os \u00e9 levantado<br \/>\ndo solo para fazer um gesto no sentido de rota\u00e7\u00e3o do tronco,<br \/>\nservindo o outro como base para o corpo ser girado de lado, tesourando a base<br \/>\nde apoio do advers\u00e1rio e arremessando-o ao solo.<\/p>\n<p>PONTE<\/p>\n<p>Movimento usado como fuga de um ataque, onde o capoeira &#8211; saindo de uma<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o igual \u00e0 da resist\u00eancia &#8211; executa uma curvatura<br \/>\ndo tronco e coluna, apoiando as m\u00e3os ao solo, para levantar-se com<br \/>\no apoio dos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>COICE Como se percebe pelo nome, o coice \u00e9 um movimento onde o capoeira<br \/>\nse apoia sobre os bra\u00e7os e desfere um potente chute duplo.<\/p>\n<p>As pernas s\u00e3o encolhidas e depois arremessadas contra o advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>RABO DE ARRAIA No rabo de arraia o capoeira se aproxima do advers\u00e1rio<br \/>\ne se atira ao solo, apoiado \u00e0s m\u00e3os, lan\u00e7ando um dos<br \/>\np\u00e9s em dire\u00e7\u00e3o ao rosto do oponente, enquanto a outra<br \/>\nperna d\u00e1 equil\u00edbrio ao movimento.<\/p>\n<p>V\u00d4O DO MORCEGO<\/p>\n<p>Na execu\u00e7\u00e3o deste movimento o capoeira pula em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nao advers\u00e1rio, com as pernas e bra\u00e7os encolhidos. No ar, as<br \/>\npernas s\u00e3o distendidas e os p\u00e9s empurrados com for\u00e7a<br \/>\ncontra o oponente. Ao cair no solo, o capoeira amortece a queda com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>PARAFUSO O capoeira executa um giro em tudo semelhante ao da armada. Quando<br \/>\na perna come\u00e7a a efetuar o semic\u00edrculo, o capoeira d\u00e1<br \/>\num salto e desfere um pontap\u00e9 lateral com a outra perna, girando no<br \/>\nar, gra\u00e7as ao impulso obtido durante toda a movimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>MEIA-LUA SOLTA<\/p>\n<p>Na execu\u00e7\u00e3o do giro, o calcanhar da perna que descreve a meia-lua<br \/>\nprocura passar \u00e0 altura da cabe\u00e7a do oponente.<\/p>\n<p>Neste movimento o capoeira faz um giro de tronco, preparando-se para executar<br \/>\na meia-lua solta. Em seguida arremessa o corpo num giro sobre uma perna flexionada,<br \/>\nno ar, como se fizesse uma meia-lua de compasso acima do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>VARIA\u00c7\u00d5ES DO A\u00da Em geral os movimentos da Capoeira<br \/>\ns\u00e3o executados pelo jogador de forma pessoal, cada um acrescentando<br \/>\ncaracter\u00edsticas que os tornem mais adequados a um momento particular<br \/>\ndo jogo. O a\u00fa \u00e9 um dos movimentos que j\u00e1 tem consagrado<br \/>\no uso da maior quantidade de variantes. Temos assim o a\u00fa aberto, o<br \/>\na\u00fa fechado, o a\u00fa com martelo, em que o capoeira na posi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo a\u00fa desfere um pontap\u00e9 no advers\u00e1rio, o a\u00fa com<br \/>\nrol\u00ea, quando o capoeira conclui o movimento na posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde negativa, a\u00fa compasso, executado sobre uma das m\u00e3os, procurando<br \/>\ncair com uma perna esticada atingindo o oponente com o calcanhar, a\u00fa<br \/>\ncom queda de rins e a\u00fa camale\u00e3o.<\/p>\n<p>A CAPOEIRA NO S\u00c9CULO XX<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 karat\u00ea e n\u00e3o \u00e9 kung-fu maculel\u00ea,<br \/>\nmaracatu&#8230;\u2019<\/p>\n<p>A Capoeira permaneceu na ilegalidade at\u00e9 os anos 30 e 40 deste s\u00e9culo,<br \/>\nquando foram abertas em Salvador, Bahia, as primeiras \u201cacademias\u201d<br \/>\ncom licen\u00e7a oficial para o ensino da capoeira como uma pr\u00e1tica<br \/>\nesportiva.<\/p>\n<p>Neste empreendimento destacaram-se dois mestres baianos negros e origin\u00e1rios<br \/>\ndas camadas pobres da cidade, Bimba e Pastinha, considerados pelos capoeiras<br \/>\natuais como os \u201cher\u00f3is culturais\u201d desta luta.<\/p>\n<p>Para viabilizar seu projeto regional e \u00e9tnico, estabeleceram duas<br \/>\nestrat\u00e9gias diferentes.<\/p>\n<p>O criador da capoeira Regional Baiana, mestre Bimba, n\u00e3o viu nenhum<br \/>\ninconveniente em \u201cmesti\u00e7ar\u201d essa luta, incorporando \u00e0<br \/>\nmesma movimentos de lutas ocidentais e orientais (tais como box, catch, savate,<br \/>\njiu-jitsu e luta greco-romana).<\/p>\n<p>Por outro lado, o mestre Pastinha, outro nome famoso da capoeira baiana,<br \/>\ncontempor\u00e2neo de Bimba e igualmente empenhado na legitima\u00e7\u00e3o<br \/>\nda pr\u00e1tica do jogo, reagindo \u00e0quela \u201cmesti\u00e7agem\u201d<br \/>\nda capoeira, afirmou a \u201cpureza africana\u201d da lute, difundindo o<br \/>\nestilo da capoeira Angola e procurando distingui-lo da Regional.<\/p>\n<p>Diferentemente do s\u00e9culo XIX, quando a pr\u00e1tica da Capoeira,<br \/>\ntolerada como contraven\u00e7\u00e3o ou criminalizada, empurrava os negros<br \/>\npare fora da sociedade brasileira, com a capoeira esporte os negros foram<br \/>\nabsorvidos: est\u00e3o do lado de dentro, \u201cno jogo\u201d.<\/p>\n<p>Bimba e Pastinha serviram-se de t\u00e1ticas distintas, defendendo maneiras<br \/>\ndiferentes de inser\u00e7\u00e3o social. Suas escolas propuseram por interm\u00e9dio<br \/>\nda Capoeira, estrat\u00e9gias simb\u00f3licas e pol\u00edticas diferenciadas<br \/>\nque visavam, em \u00faltima instancia, ampliar o espa\u00e7o pol\u00edtico<br \/>\ndos negros na sociedade brasileira, indicando dois caminhos poss\u00edveis.<br \/>\nDe um lado foi organizado o estilo Regional, que embora incorpore elementos<br \/>\nde lutas ocidentais, guarda elementos que reafirmam a identidade \u00e9tnica<br \/>\nnegra nas m\u00fasicas, nos toques do berimbau e nos pr\u00f3prios movimentos<br \/>\nque, conforme depoimento de mestre Bimba, s\u00e3o provenientes tamb\u00e9m<br \/>\ndo batuque e do maculel\u00ea.<\/p>\n<p>A Capoeira Regional coloca em contato sistemas de valores distintos e, portanto,<br \/>\nconstru\u00e7\u00f5es corporais distintas (movimentos corporais de brancos<br \/>\ne negros), operando uma media\u00e7\u00e3o, criando um campo simb\u00f3lico<br \/>\namb\u00edguo e ambivalente.<\/p>\n<p>Sob esse aspecto a Capoeira Regional oferece uma afirma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde identidade mais ampla que a da Capoeira Angola afirmando a presen\u00e7a<br \/>\ndo negro enquanto parte da sociedade brasileira e, finalmente, enquanto s\u00edmbolo<br \/>\nda na\u00e7\u00e3o como um todo. A Regional admite por exemplo, a incorpora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde elementos de outras formas de luta e novos conceitos quanto \u00e0 maximiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos efeitos dos golpes; e permite a constru\u00e7\u00e3o de uma nova presen\u00e7a<br \/>\nnegra no cen\u00e1rio nacional. Um pre\u00e7o foi pago por isso, no plano<br \/>\npol\u00edtico: renunciar \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de uma diferen\u00e7a<br \/>\nna identidade negra.<\/p>\n<p>A Capoeira que se quer pura, representada pelo estilo Angola \u00e9 uma<br \/>\nforma inequ\u00edvoca de afirma\u00e7\u00e3o da identidade \u00e9tnica:<br \/>\nem sua pr\u00f3pria designa\u00e7\u00e3o os praticantes reafirmam sua<br \/>\norigem e ao conservar a pureza da constru\u00e7\u00e3o corporal negra,<br \/>\ndemarcam uma forma culturalmente distinta de jogar capoeira. Os defensores<br \/>\nda Capoeira Angola consideram que existindo como resist\u00eancia no momento<br \/>\nde inclus\u00e3o do negro na sociedade brasileira, ela s\u00f3 \u00e9<br \/>\nrevalorizada como reafirma\u00e7\u00e3o dessa mesma resist\u00eancia<br \/>\nem fun\u00e7\u00e3o da recupera\u00e7\u00e3o de uma identidade negra<br \/>\nespec\u00edfica, no bojo da constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de<br \/>\numa consci\u00eancia negra. A constru\u00e7\u00e3o dessa identidade \u00e9<br \/>\nposs\u00edvel a partir de uma postura conservadora, que reinventa a tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne s\u00f3 se mant\u00e9m com a recupera\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea<br \/>\ndos outros elementos que, no plano simb\u00f3lico, organizam essa vis\u00e3o<br \/>\nde mundo negra. Exemplo disso \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o da origem<br \/>\nafricana da capoeira a partir do ritual de inicia\u00e7\u00e3o denominado<br \/>\ndan\u00e7a da zebra ou N\u2019Golo.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o Capoeira Angola versus Capoeira Regional \u00e9<br \/>\nmatizada: o estilo Regional preserva as caracter\u00edsticas amb\u00edguas<br \/>\ne mant\u00e9m elementos que assinalam as fronteiras culturais e \u00e9tnicas<br \/>\ndos negros, mesmo com a incorpora\u00e7\u00e3o de movimentos corporais<br \/>\nde lutas brancas.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da Capoeira Angola n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o somente<br \/>\nvoltar ao passado, mas buscar na Capoeira uma vis\u00e3o do mundo que questionou,<br \/>\ndesde o princ\u00edpio, diversos conceitos e padr\u00f5es da cultura ocidental.<br \/>\nAfinal, quando surgiu a Regional, j\u00e1 existia uma tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nconsolidada na Capoeira, principalmente nas rodas de rua do Rio de Janeiro<br \/>\ne da Bahia Depoimentos obtidos junto aos velhos mestres de Capoeira da Bahia<br \/>\nlembram personagens important\u00edssimos na hist\u00f3ria da luta no<br \/>\ns\u00e9culo XX, tais como Tra\u00edra, Cobrinha Verde, On\u00e7a Preta,<br \/>\nPiv\u00f4, Nag\u00e9, Samuel Preto, Geraldo Chapeleiro, Daniel Noronha,<br \/>\nTotonho de Mar\u00e9, Juvenal, Can\u00e1rio Pardo, Aberr\u00ea, Livino,<br \/>\nBilusca, Cabelo Bom e outros. In\u00fameras cantigas lembram os nomes e<br \/>\nas proezas destes capoeiras, mantendo-os vivos na mem\u00f3ria coletiva<br \/>\nda Capoeira.<\/p>\n<p>Destacou-se entre os que defendiam a escola tradicional o mestre Waldemar,<br \/>\ndo bairro da Liberdade, em Salvador, falecido em 1990. Desde 1940 conduzindo<br \/>\na roda de Capoeira que viria a ser o mais importante ponto de encontro dos<br \/>\ncapoeiras da capital bahiana, infelizmente mestre Waldemar n\u00e3o teve<br \/>\nna velhice o reconhecimento que merecia. N\u00e3o foram muitos os capoeiras<br \/>\nmais jovens que tiveram a honra de conhec\u00ea-lo e ouvi-lo contar suas<br \/>\nhist\u00f3rias. Lamentavelmente, morreu na pobreza, como os mestres Pastinha,<br \/>\nBimba e muitos outros.<\/p>\n<p>Alguns mestres-capoeiras, antigos freq\u00fcentadores das famosas rodas<br \/>\nde Capoeira tradicional de Salvador, apesar da idade avan\u00e7ada ainda<br \/>\nd\u00e3o sua contribui\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento do jogo, ministrando<br \/>\ncursos, palestras e mesmo ensinando regularmente em institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nno Brasil e em outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Com a boa aceita\u00e7\u00e3o obtida pela escola de mestre Bimba, dividiu-se<br \/>\no universo da Capoeira em tend\u00eancias divergentes: alguns se voltaram<br \/>\npara a preserva\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es e outros procuraram<br \/>\ndesenvolver um estilo mais direcionado para o combate, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas lutas marciais. Conforme ensinam os velhos mestres da Capoeira baiana,<br \/>\na express\u00e3o &#8216;Capoeira Angola&#8217; ou &#8216;Capoeira de Angola&#8217; somente surgiu<br \/>\nap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o da &#8216;Regional&#8217;, com o objetivo de estabelecer-se<br \/>\numa designa\u00e7\u00e3o diferente entre esta e a Capoeira tradicional,<br \/>\nj\u00e1 amplamente difundida. At\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o se fazia<br \/>\nnecess\u00e1ria a diferencia\u00e7\u00e3o e o jogo se chamava simplesmente<br \/>\nCapoeira.<\/p>\n<p>Se o trabalho desenvolvido por mestre Bimba mudou os rumos da Capoeira,<br \/>\nmuitos capoeiras se preocuparam em mostrar que a Angola n\u00e3o precisaria<br \/>\nsofrer modifica\u00e7\u00f5es, pois j\u00e1 continha elementos para<br \/>\numa eficaz defesa pessoal. A cis\u00e3o ficou mais intensa, levando a uma<br \/>\naut\u00eantica polariza\u00e7\u00e3o, a partir da funda\u00e7\u00e3o,<br \/>\nem 1941, do Centro Esportivo de Capoeira Angola, em Salvador, sob a lideran\u00e7a<br \/>\ndo mestre Pastinha, reconhecido como o mais importante representante dessa<br \/>\nescola.<\/p>\n<p>A ampla expans\u00e3o da Regional, principalmente como uma modalidade<br \/>\nde luta, contribuiu para difundir a falsa id\u00e9ia de que a Angola n\u00e3o<br \/>\ndispunha de recursos para o enfrentamento, afirmando-se ainda que as antigas<br \/>\nrodas de Capoeira, anteriores a mestre Bimba, n\u00e3o apresentavam situa\u00e7\u00f5es<br \/>\nreais de com ate. Entretanto, os velhos mestres fazem quest\u00e3o de dizer<br \/>\nque estes ocorriam de uma forma diferente da atual, em que os jogadores se<br \/>\nvaliam mais da agilidade e da mal\u00edcia, da mandinga, do que da for\u00e7a<br \/>\npropriamente dita.<\/p>\n<p>No seu livro Capoeira Angola, mestre Pastinha afirma que &#8220;sem d\u00favida,<br \/>\na Capoeira Angola se assemelha a uma graciosa dan\u00e7a onde a ginga maliciosa<br \/>\nmostra a extraordin\u00e1ria flexibilidade dos capoeiras. Mas, Capoeira<br \/>\nAngola \u00e9, antes de tudo, luta e luta violenta&#8221;.<\/p>\n<p>Pr\u00e1tica comum no cotidiano das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo<br \/>\nXX, a Capoeira n\u00e3o exigia de seus praticantes nenhuma indument\u00e1ria<br \/>\nespecial. O capoeira entrava no jogo cal\u00e7ado com a roupa do dia-a-dia.<br \/>\nNas rodas mais tradicionais, aos domingos, alguns dos capoeiras mais destacados<br \/>\nfaziam quest\u00e3o de se apresentar trajando refinados ternos de linho<br \/>\nbranco, como era comum at\u00e9 meados desse s\u00e9culo.<\/p>\n<p>O ensino da antiga Capoeira Angola ocorria de forma espont\u00e2nea. Os<br \/>\nmais novos aprendiam com os mais experimentados, diretamente, com a participa\u00e7\u00e3o<br \/>\nna roda. O aprendizado informal nas ruas e pra\u00e7as das cidades brasileiras<br \/>\npredominou at\u00e9 1960.<\/p>\n<p>Expressivo n\u00famero de capoeiras se refere atualmente \u00e0 Angola<br \/>\ncomo uma das formas de jogo, n\u00e3o propriamente como um estilo metodizado<br \/>\nde Capoeira.<\/p>\n<p>Lembramos, como j\u00e1 foi dito neste livro, que a velocidade e outras<br \/>\ncaracter\u00edsticas do jogo da Capoeira est\u00e3o diretamente relacionados<br \/>\ncom o tipo de &#8216;toque&#8217; executado pelo berimbau. Entre outros, existe aquele<br \/>\ndenominado toque de Angola, que tem a caracter\u00edstica de ser lento e<br \/>\ncompassado. Jogar Angola consiste, na maioria dos casos, em jogar Capoeira<br \/>\nao som do toque de Angola.<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o do aut\u00eantico significado da Capoeira Angola vem<br \/>\nmudando com o enorme trabalho das escolas tradicionais, que realizam um s\u00e9rio<br \/>\ne valioso trabalho de divulga\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o dos fundamentos<br \/>\ndessa modalidade.<\/p>\n<p>No meio da Capoeira, durante d\u00e9cadas os disc\u00edpulos de mestre<br \/>\nBimba e de mestre Pastinha alimentaram diverg\u00eancias. A Angola, desvalorizada<br \/>\ndurante as d\u00e9cadas de 60 e 70, momento do auge da Regional &#8211; que procurava<br \/>\nconquistar o mercado ent\u00e3o aberto \u00e0s chamadas artes marciais<br \/>\n&#8211; seria, ao longo da d\u00e9cada de 80 e desde o in\u00edcio dos anos<br \/>\n90, revalorizada como deposit\u00e1ria da tradi\u00e7\u00e3o, no bojo<br \/>\nda valoriza\u00e7\u00e3o da negritude e do crescimento da consci\u00eancia<br \/>\nnegra.<\/p>\n<p>A grande parte das academias, escolas e associa\u00e7\u00f5es de Capoeira<br \/>\ndedicam algum tempo ao jogo de Angola quando realizam suas rodas, que nem<br \/>\nsempre corresponde \u00e0quilo que os antigos capoeiristas denominavam Capoeira<br \/>\nAngola. E o jogo acaba resumindo-se \u00e0 constante utiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas m\u00e3os como apoio no ch\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de movimentos<br \/>\nde pouca efici\u00eancia combativa, golpes mais baixos e lentos, realizados<br \/>\nvisando maior efeito est\u00e9tico com a explora\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio<br \/>\ne da flexibilidade do capoeira.<\/p>\n<p>Evidentemente, seria tarefa dific\u00edlima reproduzir detalhadamente<br \/>\nantigas movimenta\u00e7\u00f5es e rituais da Capoeira. Afinal, como qualquer<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00e3o din\u00e2mica, o jogo tem sofrido modifica\u00e7\u00f5es<br \/>\nao longo de sua hist\u00f3ria. O esfor\u00e7o dos capoeiras dedicados<br \/>\nao ensino da arte que viveram uma intensa preocupa\u00e7\u00e3o de recuperar<br \/>\no saber ancestral da Capoeira, mediante o contato com os velhos mestres, demonstra<br \/>\numa saud\u00e1vel preocupa\u00e7\u00e3o com a preserva\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas suas ra\u00edzes hist\u00f3ricas, recuperando informa\u00e7\u00f5es<br \/>\njunto aos antigos capoeiras, que vivenciaram in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es<br \/>\ninteressantes, acumulando experi\u00eancia valiosa ao longo de muitos anos<br \/>\nde pr\u00e1tica e ensino.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a essa proveitoso interc\u00e2mbio podem ser encontradas<br \/>\nna maioria dos capoeiras algumas das mais relevantes caracter\u00edsticas<br \/>\nda Angola, como a continuidade do jogo, quando os jogadores procuram explorar<br \/>\nao m\u00e1ximo a movimenta\u00e7\u00e3o evitando interrup\u00e7\u00f5es<br \/>\nna din\u00e2mica do jogo; as esquivas, fundamentais na Angola, em que o capoeira<br \/>\nevita ao m\u00e1ximo o bloqueio dos movimentos do advers\u00e1rio, procurando<br \/>\ntrabalhar dentro dos golpes, aproveitando-se dos desequil\u00edbrios e falhas<br \/>\nna guarda do outro; a improvisa\u00e7\u00e3o, t\u00edpica dos jogadores<br \/>\nde capoeira ambientados nas &#8220;rodas de rua&#8221; e que pela experi\u00eancia<br \/>\ndiante de situa\u00e7\u00f5es de enfrentamento real sabem que os golpes<br \/>\ne outras t\u00e9cnicas treinadas no dia-a-dia s\u00e3o um ponto de partida<br \/>\npara a luta, mas precisam ser moldadas r\u00e1pida e criativamente \u00e0<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o de momento.<\/p>\n<p>A maioria das escolas n\u00e3o adotam a denomina\u00e7\u00e3o de Angola<br \/>\nou Regional para a Capoeira que ensinam. E entre as que se identificam como<br \/>\nRegional, poucas demonstram rela\u00e7\u00e3o direta com o trabalho de<br \/>\nmestre Bimba: na imensa maioria, os mestres afirmam jogar e ensinar uma forma<br \/>\nmista, conciliando elementos tradicionais com as inova\u00e7\u00f5es introduzidas<br \/>\npor mestre Bimba.<\/p>\n<p>Os fundamentos da luta tradicional ensinados \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es<br \/>\npelos velhos mestres da Bahia, como Waldemar, Cai\u00e7ara, Canjiquinha,<br \/>\nJo\u00e3o Grande, Jo\u00e3o Pequeno, Paulo dos Anjos, Ferreirinha e Curi\u00f3,<br \/>\nentre outros, contribu\u00edram decisivamente para o avan\u00e7o na organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos grupos e na retomada das antigas tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX a tend\u00eancia<br \/>\nconstatada na grande maioria das escolas foi de que a Capoeira incorpore as<br \/>\ncaracter\u00edsticas das duas escolas. Importante, portanto, que os capoeiras<br \/>\nconhe\u00e7am a sua hist\u00f3ria, praticando sua luta de forma consciente.<br \/>\nAngola e Regional possuem valioso conte\u00fado hist\u00f3rico e n\u00e3o<br \/>\nse excluem: completam-se<\/p>\n<p>Indiscutivelmente, o jogo da Capoeira \u00e9 uma das mais significativas<br \/>\ncontribui\u00e7\u00f5es dos africanos e seus descendentes para a forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nda nossa identidade cultural, inserindo-se na nossa hist\u00f3ria e preservando<br \/>\na lembran\u00e7a das lutas sociais que forjaram a cidadania brasileira.<br \/>\nPromover o resgate das tradi\u00e7\u00f5es da Capoeira significa recuperar<br \/>\na consci\u00eancia da identidade brasileira. Divulgando essa bel\u00edssima<br \/>\nlinguagem corporal estamos expressando a voz de uma nacionalidade constru\u00edda<br \/>\nna luta de resist\u00eancia \u00e0 domina\u00e7\u00e3o cultural. Lutar<br \/>\npela recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria brasileira \u00e9 lembrando<br \/>\ndos her\u00f3is sa\u00eddos do seio do povo. N\u00e3o nos esque\u00e7amos<br \/>\ndo exemplo recente de Pastinha, Bimba, Querido de Deus, Besouro e tantos dos<br \/>\nnossos irm\u00e3os que corporificam a cultura brasileira.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o desses mestres permitiu a preserva\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Capoeira enquanto luta e arte, jogo e dan\u00e7a, aspectos essenciais<br \/>\nnuma manifesta\u00e7\u00e3o cultural cujo valor depende dessa complexa<br \/>\ndubiedade. Vale ressaltar a import\u00e2ncia do trabalho desenvolvido pelos<br \/>\nmestres e capoeiras espalhados por todo o mundo, que t\u00eam desenvolvido<br \/>\nesfor\u00e7os proveitosos pela continuidade dessa luta, \u00fanica e original.<\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia da Capoeira estar\u00e1 assegurada pela a\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos in\u00fameros praticantes que compreendam a import\u00e2ncia dessa<br \/>\nforma exclusiva e magn\u00edfica de express\u00e3o corporal, cultivando<br \/>\na gra\u00e7a e leveza dos movimentos, as possibilidades t\u00e9cnicas<br \/>\ne pl\u00e1sticas de traduzir fisicamente elasticidade, flexibilidade e controle.<br \/>\nTudo isso temperado com muita mal\u00edcia. E o que \u00e9 mais importante,<br \/>\nsem esquecer a finalidade da luta: a liberdade &#8211; que resume o objetivo a ser<br \/>\nalcan\u00e7ado e o caminho a percorrer.<\/p>\n<p>Fortalecido pelas tradi\u00e7\u00f5es ricas em caracteres e componentes,<br \/>\nos negros constru\u00edram a unidade da sua resist\u00eancia em torno dos<br \/>\nseus valores, determinando assim as a\u00e7\u00f5es da sua resist\u00eancia<br \/>\nsocial e cultural. Mesmo assumindo uma l\u00edngua que n\u00e3o era a<br \/>\ndeles, adotando uma forma de comunica\u00e7\u00e3o totalmente estranha<br \/>\naos seus costumes &#8211; a escrita -, o negro preservou no corpo a mem\u00f3ria<br \/>\nda sua identidade. Essa mem\u00f3ria corporal constitui-se na fonte de saber,<br \/>\nno banco de dados que d\u00e1 suporte \u00e0 mem\u00f3ria dos usos,<br \/>\ncostumes e tradi\u00e7\u00f5es. tem na Capoeira o mais importante discurso<br \/>\nde liberdade e autonomia memorizado no corpo. E \u00e9 a partir dessa significativa<br \/>\ninterfer\u00eancia n\u00e3o-verbal que os negros participaram da defini\u00e7\u00e3o<br \/>\nda nossa cultura: sentindo na pele a emerg\u00eancia dos problemas pol\u00edticos<br \/>\ne sociais, resgataram da sua mem\u00f3ria corporal a luta de resist\u00eancia<br \/>\nda Capoeira.<\/p>\n<p>O jogo da capoeira \u00e9 um dos caminhos para a grande aventura da redescoberta:<br \/>\na constru\u00e7\u00e3o da cidadania brasileira Por que n\u00e3o tentar?<\/p>\n<h2>Bibliografia<\/h2>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\">GOSTINHO NETO. Fogo e Ritmo. Poetas e Contistas Africanos,<br \/>\nBRASILIENSE, 1963.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos (Guia das Ruas<br \/>\ne dos Mist\u00e9rios da Cidade do Salvador). S\u00e3o Paulo, MARTINS,<br \/>\n1970.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">ANTONIL, Andr\u00e9 Jo\u00e3o. Cultura e Opul\u00eancia<br \/>\ndo Brasil por suas Drogas e Minas.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">APTHEKER, Herbert. Uma nova hist\u00f3ria dos Estados<br \/>\nUnidos: a era colonial. Rio de Janeiro, CIVILIZA\u00c7\u00c3O BRASILEIRA,<br \/>\n1967.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">BADAR\u00d3, Ramagem. Os Negros Lutam Suas Lutas Misteriosas<br \/>\n&#8211; Bimba \u00e9 o Grande Rei Negro do Misterioso Rito-Africano. SAGA (Magazine<br \/>\ndas Am\u00e9ricas). Salvador, agosto, 1944.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">BAINES, Anthony, Musical Instruments Trough the Ages.<br \/>\nLondres, PENGUIN BOOKS, 1969.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">BATALHA, Ladislau. Angola. Lisboa, 1889.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; Costumes Angolenses. Lisboa, 1890.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">CAPELO &amp; IVENS. De Benguela \u00e0s Terras de<br \/>\nIaca. Lisboa, 1881.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">CASCUDO, Luis da C\u00e2mara. Folclore do Brasil (Pesquisas<br \/>\ne notas). Rio de Janeiro, FUNDO DE CULTURA, 1967.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">CARNEIRO, Edison. Candombl\u00e9s da Bahia. Rio de<br \/>\nJaneiro, EDI\u00c7\u00d5ES DE OURO, 1961.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">CATUNDA, Eunice. Capoeira no Terreiro de Mestre Waldemar.<br \/>\nFUNDAMENTOS (Revista de Cultura Moderna). S\u00e3o Paulo, n\u00ba 30, 1952.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">COELHO NETO, Henrique Maximiano. \u201cO nosso jogo\u201d,<br \/>\nIn: Bazar. Porto, LIVRARIA CHANDRON, 1928.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Hist\u00f3rica<br \/>\nao Brasil. S\u00e3o Paulo, 1972.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">DIAS DE CARVALHO, Henrique Augusto. Etnografia e Hist\u00f3ria<br \/>\nTradicional dos Povos da Lunda. Lisboa, 1890.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">DIAS GOMES, Alfredo de Freitas. Furac\u00f5es da Bahia<br \/>\n(Folheto do Grupo Folcl\u00f3rico Olodumar\u00e9). Salvador, s.d.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">DO RIO, Jo\u00e3o. Presepes. A Alma Encantada das<br \/>\nRuas. Rio de Janeiro, H. GARNIER, 1910.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">DUARTE, Mauro &amp; PINHEIRO, Paulo Cesar. Jogo de Angola.<br \/>\nGUERREIRA. LP 31C062421096, Clara Nunes, EMI-ODEON.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">EDMUNDO, Luis. O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis.<br \/>\nRio de Janeiro, ATHENA EDITORA, s.d.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">FERREIRA, Olavo Leonel. Hist\u00f3ria do Brasil. S\u00e3o<br \/>\nPaulo, EDITORA \u00c1TICA, 1978.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">GIL, Gilberto &amp; SALOM\u00c3O, Walid. Zumbi, a<br \/>\nfelicidade guerreira. QUILOMBO. LP, DISCOS WEA.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">HOLLOWAY, Thomas. \u201c\u2018A Healthy Terror\u2019:<br \/>\nPolice Repression of Capoeiras in Nineteenth-Century Rio de Janeiro\u201d,<br \/>\nin: The Hispanic American Historical Review, 69:4, DUKE UNIVERSITY PRESS,<br \/>\nNorth Caroline, 1989.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. S\u00e3o<br \/>\nPaulo, 1942.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">LIMA CAMPOS, Cesar C\u00e2mara. &#8220;A Capoeira&#8221;,<br \/>\nIn: Revista Kosmos n\u00ba 3, Rio de Janeiro, mar\u00e7o de 1906 LYRA FILHO,<br \/>\nJo\u00e3o. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Sociologia dos Desportos. BIBLIOTECA<br \/>\nDO EX\u00c9RCITO EDITORA &amp; EDI\u00c7\u00d5ES BLOCH, 1973.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">MELO MORAES FILHO. Festas e Tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nPopulares do Brasil. Rio de Janeiro, F. BRIGUIET &amp; CIA, 1946.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">MONIZ, Jo\u00e3o. De Wildeberger a Besouro. A Tarde.<br \/>\nSalvador, 05\/07 05 1949.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">MORAES, Vin\u00edcius de &amp; POWELL, Baden. Berimbau.<br \/>\nOS AFRO-SAMBAS, LP FM-16FE1016, COMPANHIA BRASILEIRA DE DISCOS.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">NADOTTI, Nelson &amp; DIEGUES, Carlos. Quilombo (Roteiro<br \/>\ndo filme e cr\u00f4nica das filmagens). Rio de Janeiro, EDI\u00c7\u00d5ES<br \/>\nACHIAM\u00ca, 1984.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">OLIVEIRA, Valdemar de. Frevo, Capoeira e Passo. Recife,<br \/>\nCOMPANHIA EDITORA DE PERNAMBUCO, 1971.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional,<br \/>\nBrasiliense, S\u00e3o Paulo,1985.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">POHL, Johhan Emmanuel. Reise in Innern von Brasilien.<br \/>\nViena, 1832.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">QUERINO, Manoel. A Combuca eleitoral. JORNAL DE NOT\u00cdCIAS,<br \/>\nSalvador, 02 06 1914.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">REDINHA, Jos\u00e9. \u00c1lbum Etnogr\u00e1fico.<br \/>\nLuanda, s.d.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">REIS, Jo\u00e3o Jos\u00e9 &amp; SILVA, Eduardo.<br \/>\nNegocia\u00e7\u00e3o e conflito: a resist\u00eancia negra no Brasil escravista,<br \/>\nCOMPANHIA DAS LETRAS, S\u00e3o Paulo, 1989.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">REIS, Jo\u00e3o Jos\u00e9. Rebeli\u00e3o escrava<br \/>\nno Brasil: a hist\u00f3ria do levante dos mal\u00eas (1835), BRASILIENSE,<br \/>\nS\u00e3o Paulo,1986.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">RIBEYROLLES, Charles. Brasil Pitoresco. S\u00e3o Paulo,<br \/>\nMARTINS, S.D.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">RICARDO, S\u00e9rgio. Brincadeira de Angola.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">RODRIGUES, Nina. OS africanos no Brasil. NACIONAL, S\u00e3o<br \/>\nPaulo, 1977 (1 a ed.1933).<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">ROMERO, Abelardo. Origem da Imoralidade no Brasil.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">RUGENDAS, Jo\u00e3o Maur\u00edcio. Viagem Pitoresca<br \/>\nAtrav\u00e9s do Brasil. S\u00e3o Paulo, MARTINS, 1954.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">SALVADOR, Vicente do. Hist\u00f3ria do Brasil.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">SOARES, Carlos Eug\u00eanio L\u00edbano. A negregada<br \/>\ninstitui\u00e7\u00e3o: capoeiras no Rio de Janeiro (1850-1890), Rio de<br \/>\nJaneiro, SMC\/Departamento Geral de Documenta\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o<br \/>\nCultural, 1994.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">VANDR\u00c9, Geraldo. Hora de Lutar. LP PPL122202.<br \/>\nCONTINENTAL.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">CONSULTA COMPLEMENTAR ALALEONA, Domingos. Hist\u00f3ria<br \/>\nda M\u00fasica &#8211; desde a antig\u00fcidade at\u00e9 nossos dias. S\u00e3o<br \/>\nPaulo, RICORDI, 1978.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">AMADO, Jorge. Terras do Sem Fim. S\u00e3o Paulo, MARTINS,<br \/>\n1970.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">AZEVEDO, Alu\u00edzio de. O Corti\u00e7o. S\u00e3o<br \/>\nPaulo, EDITORA \u00c1TICA, 1978.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">CACCIATORE, Olga Gudolle. Dicion\u00e1rio de Cultos<br \/>\nAfro-Brasileiros. Rio de Janeiro, FORENSE UNIVERSIT\u00c1RIA, 1977.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">CARNEIRO, Edison. Ladinos e Crioulos: estudos sobre<br \/>\no negro no Brasil. Rio de Janeiro, CIVILIZA\u00c7\u00c3O BRASILEIRA, 1964.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">MACEDO, Joaquim Manoel de. Mem\u00f3rias de um Sargento<br \/>\nde Mil\u00edcia.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">PAGANO, Let\u00edcia. A M\u00fasica e Sua Hist\u00f3ria.<br \/>\nS\u00e3o Paulo, RICORDI, 1968.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">QUERINO, Manoel. Costumes Africanos no Brasil. Rio de<br \/>\nJaneiro, CIVILIZA\u00c7\u00c3O BRASILEIRA, 1938.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">REGO, Waldeloir. Capoeira Angola &#8211; ensaio s\u00f3cio-etnogr\u00e1fico.<br \/>\nRio de Janeiro, ITAPU\u00c3, 1968.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">TAVARES, Odorico. Bahia: imagens da terra e do povo.<br \/>\nRio de Janeiro, CIVILIZA\u00c7\u00c3O BRASILEIRA, 1961.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: xx-small;\">VIEIRA, Em\u00edlio. Na roda do berimbau. Goi\u00e2nia,<br \/>\nORIENTE, 1973. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: PREF\u00c1CIO I &#8211; O CAMINHO DA CAPOEIRA II &#8211; NA RODA DA CAPOEIRA &nbsp; &nbsp; Pref\u00e1cio Heran\u00e7a africana legada \u00e0 cultura brasileira, o jogo da Capoeira significa valioso contributo \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da nossa identidade cultural. 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