{"id":93362,"date":"2017-01-09T14:07:47","date_gmt":"2017-01-09T16:07:47","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93362"},"modified":"2018-12-04T09:15:23","modified_gmt":"2018-12-04T11:15:23","slug":"aspecto-psicologico-da-adocao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/sociedade-e-cultura\/curiosidades\/aspecto-psicologico-da-adocao","title":{"rendered":"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h4>Um Drama em Tr\u00eas Atos<\/h4>\n<p>No momento em que se decide pela ado\u00e7\u00e3o, quest\u00f5es complexas e delicadas surgem dentro e fora do seio familiar. Preparar-se adequadamente para enfrent\u00e1-las \u00e9 fundamental para o bem-estar do novo relacionamento.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-93364 size-full\" title=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/aaspect1.jpg\" alt=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/aaspect1.jpg 500w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/aaspect1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>Seria um reducionismo acreditar que a ado\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 seja a fonte exclusiva de todos os males. Muitos pais, por exemplo, temem pela evolu\u00e7\u00e3o intelectual da crian\u00e7a adotada ou mesmo por seu desenvolvimento afetivo e psicossocial.<\/p>\n<p>Alguns autores afirmam que o desenvolvimento intelectual depende da atitude dos pais adotivos, bem como das solicita\u00e7\u00f5es culturais e do clima familiar em que a crian\u00e7a cresce. J\u00e1 o aspecto psicossocial e afetivo est\u00e1 ligado a v\u00e1rios fatores, entre os quais a atitude perfeccionista e ansiosa a respeito de seu futuro.<\/p>\n<p>Ter um filho, seja natural ou adotivo, requer sempre uma prepara\u00e7\u00e3o. Antes de mais nada, \u00e9 important\u00edssimo criar entre o casal um ambiente interpessoal, no qual ser\u00e1 inserida uma terceira pessoa, incompleta, portanto fr\u00e1gil, que exigir\u00e1 muitos cuidados.<\/p>\n<p>Se isso n\u00e3o acontecer, a rivalidade e o ci\u00fame poder\u00e3o surgir por parte de um dos pais, que sentir\u00e1 a crian\u00e7a roubando seu espa\u00e7o afetivo.<\/p>\n<p><strong>Faz parte ainda dessa prepara\u00e7\u00e3o entender os desejos reais que motivam o casal a querer um filho:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8211; Ele vem para salvar o casamento?<br \/>\n&#8211; Para fazer companhia a um dos pais?<br \/>\n&#8211; Para substituir um filho morto?<br \/>\n&#8211; Para suprir a falta de afeto entre o casal?<br \/>\n&#8211; Ou para diminuir a tens\u00e3o e, com isso, talvez, facilitar a ocorr\u00eancia de uma gravidez?<\/p><\/blockquote>\n<p>Deve-se estar consciente ; dos riscos de se poder ter um filho saud\u00e1vel ou doente e da profunda responsabilidade que se ter\u00e1 pelo desenvolvimento de sua personalidade. \u00c9 preciso ter em mente, sobretudo, que existe a vida de uma crian\u00e7a em jogo, a qual n\u00e3o poder\u00e1 ser devolvida como algo com defeito de fabrica\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong><br \/>\nFam\u00edlia naturalmente constitu\u00edda: equil\u00edbrio que pode ser rompido diante dos problemas inevit\u00e1veis.<\/strong><\/p>\n<p>Os pais adotantes precisam tamb\u00e9m trabalhar suas feridas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da infertilidade: o clima tenso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 culpa da impossibilidade de gerar um filho, a tortura das in\u00fameras tentativas e frustra\u00e7\u00f5es, a intensa corrida atr\u00e1s de tratamentos, a sensa\u00e7\u00e3o de humilha\u00e7\u00e3o, a cobran\u00e7a da fam\u00edlia e da sociedade por n\u00e3o poder ter filhos, etc.<\/p>\n<p>E, se a ado\u00e7\u00e3o poderia viabilizar a paternidade do casal, ainda h\u00e1 que se lutar com a discord\u00e2ncia familiar a respeito disso e mesmo contra os medos do estigma do filho adotado \u2013 visto muitas vezes, erroneamente, como uma crian\u00e7a revoltada, ingrata em rela\u00e7\u00e3o a quem lhe deu um lar, incapaz de superar o trauma de seu abandono. Resta ainda o temor de que a origem gen\u00e9tica da crian\u00e7a possa transform\u00e1-la em um marginal ou dependente qu\u00edmico.<\/p>\n<p>A prepara\u00e7\u00e3o dever\u00e1 trazer ao casal tranq\u00fcilidade para lidar com os problemas que surgirem no \u00e2mbito familiar, os quais, com certeza, n\u00e3o faltam nem mesmo na fam\u00edlia natural. \u00c9 prov\u00e1vel, por exemplo, que, ao entrar em um novo ambiente, a crian\u00e7a se mostre Insegura, pois, ao mesmo tempo em que est\u00e1 feliz por ter um lar, tem medo de perd\u00ea-lo, podendo mostrar-se agressiva at\u00e9 adquirir confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Por outro lado, a crian\u00e7a mais velha pode ter maior dificuldade para formar v\u00ednculos, uma vez que perdeu la\u00e7os afetivos anteriores, seu ambiente, seu modo de viver, isto \u00e9, suas refer\u00eancias. Por conta desses problemas e da concep\u00e7\u00e3o de que uma crian\u00e7a maior \u00e9 mais dif\u00edcil de ser reeducada, um n\u00famero cada vez maior de casais prefere adotar beb\u00eas; isso, al\u00e9m de tudo, lhes garante o acompanhamento dos primeiros anos de vida da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 importante que a fam\u00edlia adotante seja paciente, carinhosa e tenha, principalmente, a compreens\u00e3o de que aquela crian\u00e7a \u00e9 algu\u00e9m que viveu uma hist\u00f3ria de abandono e rejei\u00e7\u00e3o com os pais verdadeiros; ao mesmo tempo, ter\u00e1 de se conformar em conviver com pessoas diferentes dela.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-93366 size-full\" title=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/aaspect3.jpg\" alt=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" width=\"139\" height=\"202\" \/><\/p>\n<h4>Diferen\u00e7a na cor da pele: preconceito a ser superado.<\/h4>\n<p>A verdade sobre a ado\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, principalmente a que vai para a casa dos pais ainda beb\u00ea, nunca deve ser omitida ou negada. A hist\u00f3ria de sua origem deve ser clara. Muitos pais temem revelar a verdade para os filhos com medo de causar-lhes sofrimento.<\/p>\n<p>Nesse caso, por\u00e9m, a mentira realmente pode causar um duplo sofrimento: um necess\u00e1rio, que envolve sua verdadeira hist\u00f3ria \u2013 a qual ningu\u00e9m tem direito de omitir \u2013, o outro relativo \u00e0 perda de confian\u00e7a nos pais adotivos.<\/p>\n<p>Deve-se ter em mente que os problemas nunca deixar\u00e3o de ocorrer, seja numa fam\u00edlia naturalmente constitu\u00edda, seja numa fam\u00edlia adotiva. O importante \u00e9 que o novo lar possa ser um continente afetivo e adequado \u00e0 crian\u00e7a para que ela possa trabalhar suas dores e perceber que \u00e9 amada e desejada, sen\u00e3o n\u00e3o estaria nessa fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Psicologicamente, ado\u00e7\u00e3o significa acolhimento, para que a crian\u00e7a possa erigir sua individualidade, pois se sabe que aquela que vive numa institui\u00e7\u00e3o desenvolve-se muito menos do que a que tem uma estrutura familiar adequada.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, significa dar aos adotantes a possibilidade do exerc\u00edcio da paternidade n\u00e3o apenas como um papel social a ser desenvolvido, mas como a necessidade humana de doa\u00e7\u00e3o. As liga\u00e7\u00f5es humanas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente condicionadas aos la\u00e7os sangu\u00edneos; na ado\u00e7\u00e3o, elas se desenvolver\u00e3o, na verdade, atrav\u00e9s da afinidade dos cora\u00e7\u00f5es de pais e filhos.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-93367 size-full\" title=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/aaspect4.jpg\" alt=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" width=\"201\" height=\"142\" \/><strong><br \/>\nRec\u00e9m-nascidos: ado\u00e7\u00e3o facilitada por n\u00e3o terem nenhum v\u00ednculo familiar anterior.<\/strong><\/p>\n<p>Juridicamente, ado\u00e7\u00e3o \u00e9 o ato que cria o parentesco civil, gerando la\u00e7os de paternidade e filia\u00e7\u00e3o independentemente de procria\u00e7\u00e3o. Ela garante ao filho adotivo, portanto, um status id\u00eantico ao dos filhos consangu\u00edneos.<\/p>\n<p>Antigamente, a ado\u00e7\u00e3o era feita casualmente, isto \u00e9, ela acontecia a partir da morte de um parente, por exemplo; por conta disso, as crian\u00e7as eram acolhidas por um vizinho ou um parente. Havia tamb\u00e9m fam\u00edlias que criavam uma crian\u00e7a, dando-lhe tudo o que precisasse, mas ela assumia um papel espec\u00edfico dentro da casa, onde era encarregada dos afazeres dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por\u00e9m, o problema do menor abandonado vem se tornando cada vez mais complicado e gritante, gra\u00e7as, sobretudo, ao baixo poder aquisitivo das classes mais populares e \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o, por suas pr\u00f3prias fam\u00edlias, \u00e0s m\u00e3es solteiras, cuja idade varia entre 15 e 30 anos.<\/p>\n<p>Na maioria dos casos, elas n\u00e3o t\u00eam uma profiss\u00e3o definida e a gravidez ocorreu ao acaso, como fruto de uma rela\u00e7\u00e3o sem maiores compromissos. Em geral, seus filhos s\u00e3o entregues a um orfanato e a escolha das fam\u00edlias para eles \u00e9 feita pela pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de entrevistas com os futuros pais, na qual se tenta encontrar semelhan\u00e7as a fim de se adaptar fisicamente a crian\u00e7a. Observa-se ainda a maturidade do casal, regida por suas experi\u00eancias de vida, cultura, sa\u00fade, etc.<\/p>\n<p>Alguns crit\u00e9rios avaliam se ele teria condi\u00e7\u00f5es para adotar uma crian\u00e7a de outra ra\u00e7a ou que tenha defici\u00eancia. Antigamente, no ato da ado\u00e7\u00e3o, levava-se em considera\u00e7\u00e3o apenas a condi\u00e7\u00e3o material da fam\u00edlia adotiva. Atualmente as coisas mudaram: tem-se como importante tamb\u00e9m a an\u00e1lise das qualidades afetivas e dos motivos de ado\u00e7\u00e3o dos futuros pais.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as ao crescente n\u00famero de separa\u00e7\u00f5es e de novos casamentos, o pr\u00f3prio conceito de fam\u00edlia mudou. Hoje temos a fam\u00edlia nuclear intacta \u2013 quando pais e filhos vivem juntos; a fam\u00edlia binuclear \u2013 o pai e a m\u00e3e est\u00e3o separados, mas seus filhos transitam nas duas casas; fam\u00edlias de recasamento \u2013 novas com filhos de um e\/ou de outro, com ou sem filhos em comum; fam\u00edlias monoparentais \u2013 pai\/m\u00e3e solteiros ou vi\u00favos.<\/p>\n<p>Filhos adotivos e biol\u00f3gicos podem ir e vir no decorrer de suas vidas entre esses diferentes tipos de organiza\u00e7\u00f5es; ao reconhecer essa realidade, o atual Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente vigente no Brasil ampliou a possibilidade de ado\u00e7\u00e3o. Hoje, a lei brasileira n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o de estado civil, nacionalidade ou sexo do adotante, desde que a pessoa seja maior de 21 anos e possa preencher os requisitos exigidos pela lei.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-93368 size-full\" title=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/aaspect5.jpg\" alt=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" width=\"137\" height=\"202\" \/><strong><br \/>\nA afetividade do novo lar ajuda a crian\u00e7a a superar suas dores.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso ficar claro que registrar uma crian\u00e7a abandonada como filho leg\u00edtimo, sem submet\u00ea-la a um processo legal, constitui crime de falsidade ideol\u00f3gica, previsto no C\u00f3digo Penal. Mesmo que a crian\u00e7a seja encontrada numa cestinha na porta da frente, ela deve ser submetida aos requisitos legais, o que proporcionar\u00e1 seguran\u00e7a futura a quem deseja adotar.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 certeza, por exemplo, de que os pais biol\u00f3gicos n\u00e3o reclamar\u00e3o futuramente o filho doado. Se as nossas leis fossem mais \u00e1geis, por\u00e9m, se evitaria que a ado\u00e7\u00e3o fosse feita de maneira ilegal, como ocorre com freq\u00fc\u00eancia no Sul do Brasil.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-93363 size-full\" title=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/aaspect6.jpg\" alt=\"Aspecto Psicol\u00f3gico da Ado\u00e7\u00e3o\" width=\"127\" height=\"198\" \/><strong><br \/>\nMenor abandonado: problema social que pode ser resolvido com a ado\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o \u00e9 gratuita e as despesas com documentos quase inexistentes. As crian\u00e7as s\u00e3o colocadas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para serem adotadas por institui\u00e7\u00f5es especializadas junto ao Juizado de Menores, com equipes qualificadas que atendem cuidadosamente aos direitos da crian\u00e7a, fazendo diagn\u00f3sticos, selecionando fam\u00edlias, apoiando e orientando dentro das necessidades existentes.<\/p>\n<p>O processo, por\u00e9m, acaba sendo muito moroso, uma vez que, na tentativa de atender a crian\u00e7a da melhor maneira poss\u00edvel, os profissionais tornam-se excessivamente exigentes. Muitas vezes, chegam at\u00e9 mesmo a vetar fam\u00edlias por considerar seus motivos impr\u00f3prios para a ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez eles devessem levar em considera\u00e7\u00e3o que \u00e9 prefer\u00edvel ter uma crian\u00e7a em casa do que numa institui\u00e7\u00e3o e, em vez de simplesmente recusar os pais adotivos, pudessem prepar\u00e1-los e orient\u00e1-los na supera\u00e7\u00e3o de suas dificuldades. Segundo Maria Tereza Maldonado, em seu livro Caminhos do Cora\u00e7\u00e3o, \u201c(&#8230;) as equipes de profissionais poderiam (&#8230;) conhecer melhor as pessoas em quest\u00e3o, esclarecer sobre as dificuldades mais comumentemente encontradas, organizar reuni\u00f5es de pessoas que desejem adotar para que se converse sobre sentimentos, apreens\u00f5es e expectativas comuns a todos que est\u00e3o em processo de gestar uma maternidade e uma paternidade na ado\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Com a enorme escalada da viol\u00eancia no Brasil, \u00e9 de profunda import\u00e2ncia que a comunidade repense o problema do menor abandonado. N\u00e3o podemos simplesmente cruzar os bra\u00e7os e esperar que o governo resolva a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante que sociedade e governo reflitam e busquem, juntos, solu\u00e7\u00f5es para o problema.<\/p>\n<p>De fato, torna-se mister, entre outras coisas, reorientar e conscientizar a popula\u00e7\u00e3o mais carente \u2013 camada em que se observa a maior incid\u00eancia de nascimentos e abandonos \u2013 sobre a necessidade de se controlar os \u00edndices de natalidade. Todas essas, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, s\u00e3o medidas necess\u00e1rias e urgentes para resgatarmos a paz social.<\/p>\n<p>Mas por que n\u00e3o pensar na ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as carentes como um passo importante na transforma\u00e7\u00e3o do mundo \u00e0 nossa volta? Afinal, quando resolvem desempenhar o papel de protagonistas da hist\u00f3ria, pais amorosos, com certeza, podem dar um final feliz a qualquer drama.<\/p>\n<h2>Chance para a alegria<\/h2>\n<p>O preconceito e a burocracia da ado\u00e7\u00e3o ainda existem, mas iniciativas do governo e da sociedade abrem caminho para facilitar o processo no Brasil<\/p>\n<p>Com seus passos mi\u00fados, Marina (nome fict\u00edcio) brinca, absorta, em cima de um banco de madeira. De repente, chora exigindo aten\u00e7\u00e3o da monitora do abrigo p\u00fablico onde mora. A mo\u00e7a se empenha no atendimento da menina e de outras cinco crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Abandonada pelos pais, a garotinha est\u00e1 \u00e0 espera de uma fam\u00edlia, mas corre o risco de passar a inf\u00e2ncia sem esse prazer. A pequena e saud\u00e1vel Marina, 2 anos, j\u00e1 \u00e9 \u201cvelha\u201d para a ado\u00e7\u00e3o. Se fosse negra, doente ou menino, seria pior. Neste pa\u00eds, quando se pensa em ado\u00e7\u00e3o, imagina-se um beb\u00ea branco, do sexo feminino, rec\u00e9m-nascido e sem problemas f\u00edsicos ou mentais.<\/p>\n<p>Restri\u00e7\u00f5es como essas revelam apenas parte da galeria de mitos, preconceitos e medos que recheiam o tema no Brasil, inclu\u00eddo a\u00ed a morosidade da Justi\u00e7a. A pesquisadora e psic\u00f3loga L\u00eddia Weber, da Universidade Federal do Paran\u00e1, estuda o tema h\u00e1 dez anos e define assim o sentimento nacional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ado\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 como se fosse uma filia\u00e7\u00e3o de segunda categoria.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma pesquisa coordenada por L\u00eddia em Curitiba, divulgada no livro Aspectos psicol\u00f3gicos da ado\u00e7\u00e3o, indica que os preconceitos a serem combatidos n\u00e3o s\u00e3o poucos. Em primeiro lugar, a ado\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 vista como forma de resolver um problema pessoal dos adultos, e n\u00e3o o da crian\u00e7a. Das 410 pessoas entrevistadas, 82% acham que a ado\u00e7\u00e3o deve servir aos casais sem filhos.<\/p>\n<p>A hereditariedade e a hist\u00f3ria pregressa da crian\u00e7a s\u00e3o fatores desestimulantes: 53% t\u00eam medo de doen\u00e7as heredit\u00e1rias e 25% acreditam que a marginalidade, a prostitui\u00e7\u00e3o ou qualquer atitude inadequada podem ser transmitidas geneticamente. \u201cA taxa dos que pensam que a marginalidade passa pelo sangue \u00e9 pequena, mas surpreende, pois estamos falando de comportamento. Isso mostra a necessidade de esclarecer o p\u00fablico\u201d, analisa L\u00eddia.<\/p>\n<p>A prefer\u00eancia por meninas tamb\u00e9m atenderia a esse temor do desconhecido. Para o psicoterapeuta Lu\u00eds Schettini Filho, autor de v\u00e1rios livros sobre o assunto, h\u00e1 o pressuposto de que garota d\u00e1 menos trabalho e \u00e9 mais d\u00f3cil. \u201cEssa id\u00e9ia persiste mesmo com a mudan\u00e7a de costumes\u201d, diz Schettini, pai adotivo de um casal, hoje adulto.<\/p>\n<p>Outro dado apontado pela pesquisa \u00e9 a imagem negativa do Sistema Judici\u00e1rio. Para 70% dos entrevistados, \u00e9 melhor recorrer direto \u00e0 m\u00e3e biol\u00f3gica, j\u00e1 que o juizado demora muito para tomar decis\u00f5es.<\/p>\n<p>T\u00e3o comum \u00e9 essa ideia que a rapidez de certos processos chega a assustar. O engenheiro agr\u00f4nomo Tadeu Viana de Pontes, 40 anos, e a nutricionista Tereza, 44, do Recife, entraram na lista de espera para a ado\u00e7\u00e3o e foram logo chamados para ver Leonardo, hoje com 4 anos. Eles n\u00e3o tinham nenhuma pe\u00e7a de enxoval. \u201cFoi uma correria. Pedimos um dia para poder comprar o b\u00e1sico\u201d, conta Tereza.<\/p>\n<p>\u00c9 um caso \u00e0 parte. A morosidade da Justi\u00e7a explica parcialmente por que 55% das ado\u00e7\u00f5es ainda s\u00e3o feitas ilegalmente. \u00c9 a perpetua\u00e7\u00e3o da \u201cado\u00e7\u00e3o \u00e0 brasileira\u201d, termo utilizado at\u00e9 l\u00e1 fora para casos em que os pais adotivos passam por cima da lei registrando como filho biol\u00f3gico uma crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida.<\/p>\n<p>Acabar com essa pr\u00e1tica \u00e9 um dos objetivos do sistema Infoadote. Hoje, \u00e9 comum crian\u00e7as permanecerem muito tempo dentro dos abrigos sem uma situa\u00e7\u00e3o definida. S\u00e3o as \u201ccrian\u00e7as institucionalizadas\u201d. \u00d3rf\u00e3os de pais vivos, os pequenos foram parar nesses lugares por neglig\u00eancia, falta de condi\u00e7\u00f5es para sustent\u00e1-los ou maus-tratos.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m outras raz\u00f5es. \u201cMuitas mulheres sozinhas s\u00e3o denunciadas porque saem para trabalhar e deixam seus filhos trancados em casa. Sem creches, elas n\u00e3o t\u00eam alternativa\u201d, lembra L\u00eddia.<\/p>\n<p>Falta ajuda \u2013 Se houvesse maior assist\u00eancia do governo a essas fam\u00edlias, talvez o quadro fosse outro. Foi justamente para preencher essa lacuna que surgiram os grupos de apoio, na maioria formados por pais adotivos ou por adotados.<\/p>\n<p>Essas associa\u00e7\u00f5es fazem campanhas de esclarecimentos, firmam conv\u00eanios para dar atendimento psicol\u00f3gico e jur\u00eddico a pais e filhos. \u201cNo ano passado, promovemos 122 reintegra\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as \u00e0s suas fam\u00edlias e 20 ado\u00e7\u00f5es. Este ano nos uniremos \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o para a Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia para atender crian\u00e7as de rua\u201d, relata Cl\u00e1udia Cabral, 43 anos, diretora-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Terra dos Homens, do Rio.<\/p>\n<p>No Recife, toda a diretoria do Grupo de Estudo e Apoio \u00e0 Ado\u00e7\u00e3o (Gead) \u00e9 formada por pais orgulhosos de seus \u201crebentos\u201d adotivos. O grupo \u00e9 coordenado pela psic\u00f3loga Eneri de Albuquerque, 44 anos, casada com o advogado Paulo Jos\u00e9. H\u00e1 seis anos, adotaram a falante Maria Lu\u00edza. A menina foi quem abriu caminho para Luana, de 1 ano e 6 meses. \u201cEla chegava nos encontros do Gead e pedia uma irm\u00e3 a todo mundo\u201d, conta Eneri.<\/p>\n<p>O marido pensa em adotar mais uma crian\u00e7a e o entusiasmo parece contagiante. \u201cDepois da nossa experi\u00eancia, um primo meu tamb\u00e9m decidiu adotar\u201d, diverte-se Eneri. O efeito cascata atingiu ainda a engenheira Maria de Pomp\u00e9ia Pessoa, 45 anos, que adotou dois irm\u00e3os g\u00eameos, Hermes e Vitor, 11 anos. Ao todo, s\u00e3o 14 crian\u00e7as adotivas na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Prioridade \u00e0 crian\u00e7a \u2013 N\u00e3o se pode negar que a grande alavanca dessa mudan\u00e7a foi o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA), promulgado em 1990, que estabeleceu como prioridade os interesses de crian\u00e7as e adolescentes. Atenuou-se, com isso, o conceito cl\u00e1ssico da ado\u00e7\u00e3o, centrado no adulto. Agora h\u00e1 mais simplicidade e os processos se tornaram gratuitos \u2013 antes os pais pagavam os custos. O ECA tamb\u00e9m mudou o perfil dos candidatos.<\/p>\n<p>Hoje podem ser pais adotivos homem ou mulher em qualquer estado civil, maior de 21 anos, desde que pelo menos 16 anos mais velho do que a crian\u00e7a. O juiz observa se os pais t\u00eam situa\u00e7\u00e3o financeira vi\u00e1vel, se s\u00e3o saud\u00e1veis, n\u00e3o idosos nem dependentes de \u00e1lcool e drogas. \u201cIsso tem facilitado a ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as maiores e de ra\u00e7as diferentes\u201d, afirma o juiz Siro Darlan, da l\u00aa Vara da Inf\u00e2ncia e da Juventude do Rio.<\/p>\n<p>Sem restri\u00e7\u00f5es \u2013 Foi essa abertura que possibilitou \u00e0 comiss\u00e1ria de bordo Izamar Chamorro, 38 anos, realizar um sonho que trazia desde menina. \u201cQueria ter filhos da barriga e adotados\u201d, lembra. Izamar foi intercalando filhos biol\u00f3gicos com adotivos, sem restri\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a ou sexo. Ela teve Nataly, 11 anos, adotou Sara, 9. Depois teve mais dois filhos biol\u00f3gicos: Bruna, 6 anos, e Marco, 4.<\/p>\n<p>J\u00e1 separada, adotou mais tr\u00eas: as irm\u00e3s Amanda, 8 anos, e Fabiana, 6, e Lucas, 6, que chegou h\u00e1 tr\u00eas meses. Outro caso semelhante \u00e9 o da jornalista inglesa Diana Kinch, que vive no Rio. Solteira, ela mora num casar\u00e3o com cinco crian\u00e7as brasileiras \u2013 uma delas, Beatrice, 2 anos, tem uma doen\u00e7a cong\u00eanita no cora\u00e7\u00e3o. Os primeiros a chegar, Raul, 10, e Daniel, 9, foram os maiores incentivadores do aumento da fam\u00edlia. No final do ano passado veio Beatrice e, h\u00e1 dois meses, os irm\u00e3os Joe, 4, e Simon, 2. \u201cBeatrice est\u00e1 para ser operada e estamos confiantes \u201d, diz a jornalista.<\/p>\n<p>Muita gente, entretanto, n\u00e3o tem a coragem de Izamar e Diana. Al\u00e9m do medo da carga gen\u00e9tica, h\u00e1 centenas de d\u00favidas sobre a cria\u00e7\u00e3o de um filho adotivo. Como abordar a situa\u00e7\u00e3o, enfrentar o preconceito na escola e at\u00e9 na pr\u00f3pria fam\u00edlia? Especialistas afirmam que falar abertamente sobre o assunto \u00e9 o caminho.<\/p>\n<p>A medida evita o que aconteceu com a secret\u00e1ria M\u00e1rcia Bertato Vieira, de Itapetininga, interior de S\u00e3o Paulo. Ela descobriu aos 16 anos que tinha sido adotada. \u201cMinha hist\u00f3ria era uma farsa. Mas a seguran\u00e7a da minha m\u00e3e adotiva me acalmou\u201d, conta.<\/p>\n<p>Hoje, M\u00e1rcia integra o Grupo de Apoio \u00e0 Ado\u00e7\u00e3o de Itapetininga (Gaadi) e usa sua experi\u00eancia para alertar sobre os riscos de se construir uma vida sobre uma mentira. Cl\u00e1udia Leit\u00e3o, 35 anos, e Paulo Roberto da Silva, 46, encontraram uma boa forma para n\u00e3o esconder do filho adotivo a verdade. \u201c\u00c0 noite, contamos hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Entre elas, est\u00e1 a de Renato, o menino que faltava em nossa fam\u00edlia\u201d, explica Cl\u00e1udia, tamb\u00e9m m\u00e3e de Carol. No caso dessa fam\u00edlia outro aspecto interessante \u00e9 que a iniciativa de adotar partiu de Paulo. A desenvoltura dele indica que alguns homens est\u00e3o mais \u00e0 vontade com a paternidade.<\/p>\n<p>O professor universit\u00e1rio Newton Gabriel, 40 anos, \u00e9 outro exemplo. Divorciado h\u00e1 14 anos, ele est\u00e1 \u00e0s voltas com mamadeiras, depois de oito anos de hesita\u00e7\u00e3o. \u201cFoi uma longa gesta\u00e7\u00e3o\u201d, brinca o orgulhoso pai de Isaac, de um ano. \u201cN\u00e3o sentia falta do casamento, e sim de ser pai\u201d, diz.<\/p>\n<p>A dedica\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia produz efeitos dos mais inesperados. Adriano, 3 anos, paralisado por uma microcefalia, n\u00e3o movimentava nem os olhos. Mas tirou a sorte grande quando a advogada Michelle, 22 anos, visitou o abrigo onde ele estava.<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-lo, sensibilizou-se. Convenceu a fam\u00edlia a conhecer a crian\u00e7a. O pai de Michelle, o m\u00e9dico anestesista Ajalmar Amorim, 53 anos, avisou \u00e0 sua mulher, Diana: \u201cSe voc\u00ea quer a crian\u00e7a, estou com voc\u00ea. Mas n\u00e3o espere nada dela.\u201d Diana, 49 anos, aceitou o desafio. \u201cMatheus j\u00e1 ri e balbucia algumas palavras\u201d, conta.<\/p>\n<p>Aceitar n\u00e3o s\u00f3 a crian\u00e7a, mas tamb\u00e9m a sua hist\u00f3ria \u00e9 um ponto crucial para o sucesso da ado\u00e7\u00e3o. O fato de a crian\u00e7a ser portadora de uma heran\u00e7a gen\u00e9tica e psicol\u00f3gica desconhecida \u00e9 apavorante para alguns. O peso das lembran\u00e7as vai depender das rela\u00e7\u00f5es estabelecidas com os novos pais.<\/p>\n<p>Grande parte dessas crian\u00e7as requer atendimento psicol\u00f3gico para fortalecer a auto-estima e lidar com seus conflitos. Ainda mais na adolesc\u00eancia, quando todos, adotivos ou n\u00e3o, mergulham na reorganiza\u00e7\u00e3o da personalidade. \u00c9 a\u00ed que cresce o desejo de saber sobre os pais biol\u00f3gicos e at\u00e9 de encontr\u00e1-los. \u201cOs filhos devem sentir que podem contar com os pais em qualquer situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao sentir seguran\u00e7a, aquietam-se\u201d, explica Schettini Filho. N\u00e3o se pode esquecer que nenhuma crian\u00e7a vem com garantias de bom comportamento. A psicanalista Maria Luiza Ghirardi, de S\u00e3o Paulo, ressalta que mesmo com os filhos biol\u00f3gicos os pais t\u00eam uma hist\u00f3ria a construir. \u201cEsse \u00e9 o grande desafio.\u201d<\/p>\n<h2>Ordem na casa<\/h2>\n<p>No final deste m\u00eas, 27 corregedores gerais de Justi\u00e7a formar\u00e3o o Conselho de Autoridades Centrais sob o comando do secret\u00e1rio-geral de Direitos Humanos, Gilberto Sab\u00f3ia. Esse conselho ter\u00e1 a fun\u00e7\u00e3o de reformular a pol\u00edtica de ado\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds e coordenar o Infoadote, um banco de dados que reunir\u00e1 informa\u00e7\u00f5es de todos os Estados.<\/p>\n<p>O cadastro nacional trar\u00e1 a lista de crian\u00e7as pass\u00edveis de ado\u00e7\u00e3o divididas por cidade, com fichas pessoais detalhadas. Os dados, cruzados com os dos pais interessados, trar\u00e3o maior rapidez e transpar\u00eancia aos processos. \u201cO Infoadote ser\u00e1 um instrumento contra o com\u00e9rcio de crian\u00e7as, as ado\u00e7\u00f5es irregulares e a morosidade da Justi\u00e7a\u201d, afirma o idealizador do sistema, o juiz Lu\u00eds Carlos Figueiredo, da 2\u00aa Vara da Inf\u00e2ncia e da Juventude do Recife.<\/p>\n<p>O Infoadote integra um projeto mais amplo do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, o Sistema de Informa\u00e7\u00e3o para a Inf\u00e2ncia e a Adolesc\u00eancia (Sipia), para o qual j\u00e1 foi destinado R$ 1,5 milh\u00e3o. O Sipia se divide em quatro frentes, com um registro de viola\u00e7\u00f5es de direitos de crian\u00e7as e adolescentes; um cadastro de crian\u00e7as infratoras; outro de ado\u00e7\u00e3o; e a cria\u00e7\u00e3o de Conselhos Tutelares e Conselhos de Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente em pelo menos 50% dos munic\u00edpios. \u201cEsse conjunto de controles provar\u00e1 que muitas das crian\u00e7as que crescem nos abrigos fogem, praticam delitos e v\u00e3o parar nos pres\u00eddios, se n\u00e3o morrerem antes pelo meio do caminho. Ou seja, nascem, crescem, vivem e morrem subcidad\u00e3os\u201d, observa Figueiredo.<\/p>\n<p>O Infoadote j\u00e1 foi apresentado a 17 Estados, mas, segundo o juiz, ainda n\u00e3o funciona plenamente pelas necessidades de ajuste ou implanta\u00e7\u00e3o de sistemas informatizados. Nem mesmo em Pernambuco os munic\u00edpios est\u00e3o equipados para fazer os cadastros e enviar as informa\u00e7\u00f5es para o Recife. Os Estados mais preparados s\u00e3o Santa Catarina \u2013 onde o Judici\u00e1rio j\u00e1 funciona em rede \u2013 e Mato Grosso.<\/p>\n<h3>Os \u00f3rf\u00e3os de p\u00e1tria<\/h3>\n<p>t\u00e9 os 8 anos, uma favela era o \u00fanico cen\u00e1rio que Jo\u00e3o enxergava do orfanato paulista onde vivia. Era seu futuro prov\u00e1vel. A salva\u00e7\u00e3o veio com o casal Jim e Nancy, de Ohio (EUA). Em 1987, eles adotaram o garoto, que virou John Herbert.<\/p>\n<p>Tornou-se um dos melhores jogadores de sua escola. Em 1997, ele cometeu o grande erro de sua vida: vendeu 7,1 gramas de maconha para um informante da pol\u00edcia. Seu mundo caiu. John virou Jo\u00e3o brasileiro e as autoridades americanas querem devolv\u00ea-lo com base na determina\u00e7\u00e3o legal de expuls\u00e3o de estrangeiros infratores.<\/p>\n<p>Para completar, os Estados Unidos s\u00e3o um dos poucos pa\u00edses que n\u00e3o ratificaram a Conven\u00e7\u00e3o Internacional de Ado\u00e7\u00e3o de Haia, de 1993, que exige cidadania autom\u00e1tica para adotados.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de John \u00e9 igual a de outros \u00f3rf\u00e3os estrangeiros adotados por americanos. Entre eles, alguns brasileiros, como Djavan da Silva, 22 anos, que vive numa pris\u00e3o em Boston, apesar de j\u00e1 ter cumprido pena de quatro anos por furto e tr\u00e1fico de droga.<\/p>\n<p>A embaixada brasileira se recusa a dar os pap\u00e9is necess\u00e1rios para que ele volte ao Pa\u00eds. Alega que a sua condi\u00e7\u00e3o de adotado por pais americanos \u00e9 irrevog\u00e1vel. Por isso, John e Djavan ainda n\u00e3o foram deportados. Outros dois brasileiros tiveram sorte diferente. Reinaldo Silva foi enviado de Michigan para o Recife sem falar portugu\u00eas nem ter fam\u00edlia na terra.<\/p>\n<p>O menor J.C.O., vive traumatizado num orfanato no interior paulista. Os dois foram \u201cdevolvidos\u201d por apresentarem problemas psicol\u00f3gicos. Mas um projeto de lei americano prev\u00ea a cidadania autom\u00e1tica para adotados. Se aprovado, ter\u00e1 car\u00e1ter retroativo. \u201cGente criada aqui de repente vira estrangeira\u201d, diz Nancy Morawetz, diretora da Cl\u00ednica de Direitos de Imigrantes da Universidade de Nova York.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quest\u00f5es referentes ao abandono e a ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes deveriam fazer parte, indissociavelmente, das reflex\u00f5es e proposi\u00e7\u00f5es acerca da pol\u00edtica social brasileira. \u00c9 fato que desde que o Brasil foi descoberto, e ainda durante o per\u00edodo de coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, a\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 pr\u00e1tica do abandono e da ado\u00e7\u00e3o come\u00e7aram a dar sinais de vida.<\/p>\n<p>Contudo, as a\u00e7\u00f5es do Estado em rela\u00e7\u00e3o a tais pr\u00e1ticas, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ado\u00e7\u00e3o e\/ou coloca\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes em fam\u00edlias substitutas, sempre atenderam aos interesses daqueles que n\u00e3o poderiam gerar biologicamente seus pr\u00f3prios filhos em detrimento dos interesses das crian\u00e7as e adolescentes disponibilizadas para ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A roda dos expostos, instrumento utilizado para facilitar a entrega das crian\u00e7as por suas m\u00e3es, e ao mesmo tempo para ocultar tal gesto atrav\u00e9s da n\u00e3o identifica\u00e7\u00e3o da progenitora, oficializou e institucionalizou o abandono no Brasil.<\/p>\n<p>A funda\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es-abrigo de n\u00edveis federal e estadual, como por exemplo a FUNABEM e a FEBEM, tornaram ainda mais degradante a situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e adolescentes abandonados que, uma vez institucionalizados, passaram por processos de subjetiva\u00e7\u00e3o extremamente comprometedores.<\/p>\n<p>As primeiras legisla\u00e7\u00f5es acerca da ado\u00e7\u00e3o pregavam a diferen\u00e7a entre os filhos adotivos e os filhos biol\u00f3gicos quando garantiam a estes o direito de herdar os bens conquistados pelos pais, e quando, por outro lado, desobrigavam essa mesma fam\u00edlia a tornar herdeiros tamb\u00e9m os filhos adotivos.<\/p>\n<p>Desta forma, ao longo dos 500 anos de consolida\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o brasileira, foi sendo tamb\u00e9m constru\u00edda uma cultura de ado\u00e7\u00e3o que, carregada de mitos, falsas impress\u00f5es, medos e distor\u00e7\u00f5es do real sentido e significado desta pr\u00e1tica, contribui para a recusa de muitas fam\u00edlias potencialmente capazes de concretiz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Repensar a quest\u00e3o do abandono e da ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes hoje, significa dar passos no sentido de re-significar valores, desmistificar cren\u00e7as limitantes e reconsiderar, acima de tudo, o interesse da crian\u00e7a e do adolescente que, conforme prescreve o ECA \u2013 Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (Cap. III, Art. 19), &#8220;[&#8230;] tem o direito de ser criado e educado no seio de sua fam\u00edlia e, excepcionalmente, em fam\u00edlia substituta [&#8230;].&#8221;<\/p>\n<p><strong>Postulamos que uma mudan\u00e7a na atual cultura de ado\u00e7\u00e3o tornar\u00e1 poss\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o de in\u00fameros ideais, presentes tanto no imagin\u00e1rio das crian\u00e7as e adolescentes como no dos adultos candidatos \u00e0 ado\u00e7\u00e3o:<\/strong> a oportunidade de concilia\u00e7\u00e3o dos interesses de ambas as partes; o direito incontest\u00e1vel de revelar a verdade quanto \u00e0 origem da crian\u00e7a e quanto ao tipo de v\u00ednculo que mant\u00e9m constitu\u00edda a fam\u00edlia (ou seja, se trata-se de uma ado\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, etc.), visto que antes tal fato deveria ser ocultado; a possibilidade de poder exercer a paternidade ou a maternidade por parte dos adultos e de poder exercer a filia\u00e7\u00e3o por parte da crian\u00e7a ou adolescente.<\/p>\n<h3>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>A tem\u00e1tica da ado\u00e7\u00e3o faz-se presente na hist\u00f3ria da humanidade desde os mais prim\u00f3rdios tempos. Uma investiga\u00e7\u00e3o acerca da hist\u00f3ria das civiliza\u00e7\u00f5es e, de modo espec\u00edfico, acerca da hist\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o familiar, ou mesmo analisando o legado da mitologia e da trag\u00e9dia greco-romana e as tradi\u00e7\u00f5es religiosas de diferentes culturas, \u00e9 poss\u00edvel perceber que o gesto de adotar e\/ou de colocar crian\u00e7as e adolescentes em fam\u00edlias, que n\u00e3o a sua de origem biol\u00f3gica, define um tra\u00e7o t\u00edpico nos paradigmas de paternidade, maternidade e filia\u00e7\u00e3o, pois representa a possibilidade da constru\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo afetivo que, enquanto tal, assemelha-se \u00e0 qualidade do v\u00ednculo biol\u00f3gico e suas resson\u00e2ncias (apego, afeto, sentido de perten\u00e7a \u00e0 fam\u00edlia, etc.).<\/p>\n<p>Em trabalho com o Grupo de Apoio aos Pais Adotivos, foi poss\u00edvel detectar uma s\u00e9rie de mitos, medos e expectativas, atuando de modo negativo no processo de prepara\u00e7\u00e3o dos casais e fam\u00edlias, tanto para a ado\u00e7\u00e3o como para o momento da revela\u00e7\u00e3o da verdade ao filho j\u00e1 adotado.<\/p>\n<p>Neste sentido, muito pouco do que ouviram dizer, do que souberam ter acontecido com outros casais e fam\u00edlias, ou do que tinham lido acerca da ado\u00e7\u00e3o, os encaminhava para uma perspectiva de ado\u00e7\u00e3o positiva e propensa ao \u00eaxito.<\/p>\n<p>Com os mitos instalados e os medos atuando, sobretudo no que diz respeito \u00e0 verdade sobre a origem da crian\u00e7a, seu passado e seu futuro ap\u00f3s a revela\u00e7\u00e3o, muitos casais e fam\u00edlias com potencial para ado\u00e7\u00e3o deixam de concretiz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Postulamos que tal fato se deva \u00e0 a\u00e7\u00e3o do paradigma biologista que privilegia o chamado &#8220;la\u00e7o de sangue&#8221; como componente indispens\u00e1vel \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o familiar em detrimento da pr\u00e1tica da ado\u00e7\u00e3o: uma outra via de acesso \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Associada a tal paradigma encontra-se tamb\u00e9m, e em pleno funcionamento, uma &#8220;cultura da ado\u00e7\u00e3o&#8221; que, dentre os muitos obst\u00e1culos que imp\u00f5e \u00e0 difus\u00e3o da pr\u00e1tica da ado\u00e7\u00e3o, favorece a integra\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as rec\u00e9m-nascidas ao seio de fam\u00edlias e desabona o acolhimento de crian\u00e7as mais velhas e adolescentes, o que aqui discutiremos prioritariamente sob o t\u00edtulo de &#8220;ado\u00e7\u00e3o tardia&#8221;.<\/p>\n<p>Certos de que esta cultura da ado\u00e7\u00e3o carece de aten\u00e7\u00e3o especial no sentido de ser primeiramente conhecida para que, posteriormente, possa ser transformada e ent\u00e3o permitir a g\u00eanese de novas pr\u00e1ticas de cuidado com as crian\u00e7as e adolescentes no Brasil, \u00e9 que nos propomos a discutir tal tem\u00e1tica, desejando socializar conhecimentos que, assim cremos, poder\u00e3o fomentar o in\u00edcio de um processo de desconstru\u00e7\u00e3o dos preconceitos, mitos e medos em torno da ado\u00e7\u00e3o tardia.<\/p>\n<h3>Contextualizando a pr\u00e1tica da ado\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>No Brasil, assim como em grande parte do mundo ocidental, o destino das crian\u00e7as rejeitadas e abandonadas por seus pais biol\u00f3gicos segue uma ordem cruel: boa parte cresce e se &#8220;educa&#8221; nos limites da institui\u00e7\u00e3o, quase sempre mantida e dirigida pelo Estado ou por associa\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais e religiosas.<\/p>\n<p>Algumas crian\u00e7as, e porque n\u00e3o dizer, umas poucas privilegiadas, s\u00e3o adotadas por casais e fam\u00edlias. Contudo, grande parte delas, os de fato exclu\u00eddos social e economicamente pelo sistema, habitam as ruas.<\/p>\n<p>Atualmente a ado\u00e7\u00e3o tem sido o tema-alvo das preocupa\u00e7\u00f5es de muitos que, por raz\u00e3o de sua exig\u00eancia profissional (ju\u00edzes, promotores de justi\u00e7a, advogados, assistentes sociais, psic\u00f3logos e educadores) ou por gesto de solidariedade, voltam-se para a causa das crian\u00e7as e dos adolescentes brasileiros em situa\u00e7\u00e3o de abandono, conflito com a lei e\/ou de institucionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Tais preocupa\u00e7\u00f5es conectam-se a um contexto tridimensional:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>1) o compromisso assumido com todas as crian\u00e7as e adolescentes do Brasil e oficializado com a promulga\u00e7\u00e3o da Lei 8.069, em 13 de julho de 1990, que disp\u00f5e sobre o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA), em especial os que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de abandono e, portanto, fora do conv\u00edvio familiar;<\/p>\n<p>2) a necessidade de se construir uma nova cultura da ado\u00e7\u00e3o, liberta dos entraves paradigm\u00e1ticos que historicamente se op\u00f5em a uma postura de maior flexibilidade e aceita\u00e7\u00e3o da ado\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia brasileira, dificultando a pr\u00e1xis legal e contribuindo para a solidifica\u00e7\u00e3o de uma tend\u00eancia nacional, ou seja, a de que crian\u00e7a abandonada no Brasil tem um destino tra\u00e7ado: a institui\u00e7\u00e3o ou a rua;<\/p>\n<p>3) refere-se \u00e0 possibilidade de fortes, necess\u00e1rias e urgentes contribui\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia psicol\u00f3gica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ado\u00e7\u00e3o, uma vez que por meio da pesquisa e da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica fomenta-se a constru\u00e7\u00e3o e instala\u00e7\u00e3o de uma outra cultura.<\/p><\/blockquote>\n<p>Analisando o disposto pela Lei 8.069 e considerando os apontamentos de Vargas (1998, p. 25) \u00e9 poss\u00edvel perceber que<\/p>\n<p>as mudan\u00e7as introduzidas pelo ECA colocam a sociedade brasileira diante de um novo paradigma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00f3tica e aos modos de a\u00e7\u00e3o quando se trata de Inf\u00e2ncia e Juventude. A Carta Constitucional, tanto como o Estatuto, traz avan\u00e7os fundamentais quando passa a considerar a crian\u00e7a e o adolescente:<\/p>\n<blockquote><p>1) sujeitos de direito;<\/p>\n<p>2) pessoas em condi\u00e7\u00f5es peculiares de desenvolvimento; e<\/p>\n<p>3) de prioridade absoluta.<\/p><\/blockquote>\n<p>Assim, temos vigorando concomitantemente no Brasil, de um lado, uma legisla\u00e7\u00e3o que &#8220;teoricamente&#8221; se coloca a servi\u00e7o da crian\u00e7a e do adolescente e, de outro lado, uma cultura que os marginaliza e exclui. Dados capazes de dar forma e materialidade a essa cultura s\u00e3o apresentados a seguir.<\/p>\n<p>Uma pesquisa feita por Weber (1996) sobre a cultura da ado\u00e7\u00e3o atuante na sociedade brasileira nos revela um perfil dos pais adotivos: 91% dos que adotam s\u00e3o casados, encontram-se dentro de uma faixa et\u00e1ria nominal de 40 anos e 55 % n\u00e3o possuem filhos naturais; a maior parte dos casais pertence a classes sociais de melhores condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e realizam a ado\u00e7\u00e3o seguindo criteriosamente os tr\u00e2mites legais, ou seja, por meio dos Juizados da Inf\u00e2ncia e da Juventude, enquanto que a minoria dos adotantes, portanto, os de classes menos privilegiadas, realizam as ado\u00e7\u00f5es dentro do modelo intitulado ado\u00e7\u00e3o \u00e0 brasileira.<\/p>\n<p>A mesma pesquisa (WEBER, 1996) categoriza as crian\u00e7as como adot\u00e1veis e n\u00e3o-adot\u00e1veis. O perfil das crian\u00e7as que mais interessam aos casais correspondem \u00e0quelas (76%) cujo estado de sa\u00fade \u00e9 avaliado como saud\u00e1vel, sendo que a prefer\u00eancia aponta para as rec\u00e9m-nascidas, ou seja, 69% dos beb\u00eas que t\u00eam at\u00e9 3 meses de idade, 60% s\u00e3o do sexo feminino e 64% s\u00e3o de pele clara (crian\u00e7as brancas).<\/p>\n<p>Do outro lado desta estat\u00edstica est\u00e3o as crian\u00e7as que despertam menos interesse nos postulantes \u00e0 ado\u00e7\u00e3o; s\u00e3o, portanto, as que configuram o quadro das n\u00e3o-adot\u00e1veis: 16,66% s\u00e3o adotadas com a idade m\u00e9dia de 2 anos; 36% das crian\u00e7as s\u00e3o de cor negra ou parda e 23,15% s\u00e3o adotadas mediante a presen\u00e7a de alguma defici\u00eancia ou problema de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Na pesquisa de Casellato (1998), outra face da cultura da ado\u00e7\u00e3o se revela, agora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s expectativas e motiva\u00e7\u00f5es dos pais para a ado\u00e7\u00e3o: 29% dos pesquisados apontam como motiva\u00e7\u00e3o para a ado\u00e7\u00e3o a impossibilidade de ter os pr\u00f3prios filhos; 16,34% afirmam que a decis\u00e3o pela ado\u00e7\u00e3o se liga ao desejo de ajudar uma crian\u00e7a; 9,80% j\u00e1 manifestavam o desejo de ado\u00e7\u00e3o; 6,54% adotaram porque &#8220;a crian\u00e7a apareceu&#8221;; 5,88% adotaram por se tratar de filhos de parentes; 9,71% apontam como motiva\u00e7\u00e3o os sentimentos de solid\u00e3o, compaix\u00e3o e afei\u00e7\u00e3o pela crian\u00e7a; 3,27% somente adotaram depois da morte de um filho natural (biol\u00f3gico); e 2,61% optaram pela ado\u00e7\u00e3o porque assim puderam escolher o sexo da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Observando os resultados da pesquisa \u00e9 poss\u00edvel concluir que por detr\u00e1s das expectativas e motiva\u00e7\u00f5es dos adotantes est\u00e1 o desejo de satisfa\u00e7\u00e3o de interesses pr\u00f3prios, ou seja, para a maioria dos adotantes, a ado\u00e7\u00e3o resolve um problema, preenche uma lacuna e contribui para a resolu\u00e7\u00e3o de um luto: o desejo de aumentar o n\u00famero de filhos, de fazer caridade, de solucionar problemas conjugais, de encontrar companhia, possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o procriativa (no caso da esterilidade\/infertilidade de alguns casais), complementar a identidade pessoal, evitar discrimina\u00e7\u00e3o social (por n\u00e3o ter tido filhos naturais), substituir um filho que se perdeu, etc.<\/p>\n<p>Todos estes n\u00fameros nos remetem a reflex\u00f5es importantes acerca da ado\u00e7\u00e3o, tornando mister, portanto, uma aten\u00e7\u00e3o mais efetiva por parte do Estado, das Institui\u00e7\u00f5es e dos profissionais envolvidos, em especial os psic\u00f3logos. Contudo, os n\u00fameros supra citados referem-se \u00e0s crian\u00e7as que foram j\u00e1 adotadas, \u00e9 por isso que eles podem ser expressos: s\u00e3o concretos.<\/p>\n<p>Nossa preocupa\u00e7\u00e3o reside na diferen\u00e7a matem\u00e1tica (estat\u00edstica) existente entre estes n\u00fameros e o total das crian\u00e7as e adolescentes brasileiros em situa\u00e7\u00e3o de abandono e\/ou institucionalizados: onde e como eles est\u00e3o? que futuro os espera? e quanto \u00e0s crian\u00e7as consideradas n\u00e3o-adot\u00e1veis, as mais velhas e\/ou portadoras de defici\u00eancia e problemas de sa\u00fade? se os n\u00fameros apontam para uma diminuta express\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ado\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas, para onde apontam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ado\u00e7\u00f5es tardias, ou seja, aquelas em que as crian\u00e7as t\u00eam mais de dois anos de idade ou j\u00e1 s\u00e3o consideradas adolescentes?<\/p>\n<p>No Brasil, como atestam v\u00e1rios autores, entre eles Justo (1997, p. 71),<\/p>\n<p>as institui\u00e7\u00f5es asilares comumente denominadas &#8220;Orfanatos&#8221;, &#8220;Lar&#8221; ou &#8220;Casa da Crian\u00e7a&#8221; persistem ainda hoje, embora com menor express\u00e3o do que em outros tempos, como um dos lugares da inf\u00e2ncia, a saber, da inf\u00e2ncia daquelas crian\u00e7as que, por diversos motivos, foram desalojadas da guarda e do amparo familiar.<\/p>\n<p>Mas estes abrigos n\u00e3o s\u00e3o novos e Justo (1997) aponta para isso. As institui\u00e7\u00f5es asilares est\u00e3o ainda presentes na sociedade porque se tornaram mecanismos de uma pseudo-a\u00e7\u00e3o de cuidado do Estado para com a inf\u00e2ncia brasileira.<\/p>\n<p>Elas cumprem um papel que a fam\u00edlia deveria cumprir se n\u00e3o fossem os muitos absurdos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e sociais que assolam nosso pa\u00eds e afetam a fam\u00edlia de modo direto: a desigualdade social, os anos de pol\u00edtica neoliberal, principal promotora do desemprego e da exclus\u00e3o social; a fome; a mis\u00e9ria; a falta de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade da mulher e de programas de informa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s possibilidades de planejamento familiar e contracep\u00e7\u00e3o; a viol\u00eancia sexual, etc.<\/p>\n<p>Obviamente, a lista de motivos que resultam no abandono de crian\u00e7as se desdobra e assume outras dimens\u00f5es que adiante ser\u00e3o abordadas; n\u00e3o podemos culpabilizar o Estado e a pol\u00edtica, embora sejam respons\u00e1veis e pass\u00edveis de questionamentos muito s\u00e9rios. Igualmente, n\u00e3o podemos culpabilizar as fam\u00edlias, muitas vezes vitimadas pelo contexto em que se encontram inseridas e integradas.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o podemos deixar de fazer em hip\u00f3tese alguma durante as considera\u00e7\u00f5es, investiga\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas transformadoras da atual cultura da ado\u00e7\u00e3o no Brasil, \u00e9 considerar o fato de que ado\u00e7\u00f5es devem ser incentivadas, mas que por detr\u00e1s de tal feito est\u00e1 a pr\u00e1tica do abandono: uma pr\u00e1tica sustenta a outra.<\/p>\n<p>Na verdade, \u00e9 desde o per\u00edodo do Brasil Col\u00f4nia que conhecemos as primeiras legisla\u00e7\u00f5es relacionadas ao cuidado com as crian\u00e7as e adolescentes, como podemos ver em Ferreira e Carvalho (2002, p. 138):<\/p>\n<p>[&#8230;] a primeira medida oficial sobre cuidados \u00e0 inf\u00e2ncia carente no Brasil data de 1553, quando o Rei D. Jo\u00e3o II determinou que as crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s tivessem alimenta\u00e7\u00e3o garantida pelos administradores da col\u00f4nia. [&#8230;]<\/p>\n<p>Com a cria\u00e7\u00e3o das Santas Casas de Miseric\u00f3rdia, o Brasil Col\u00f4nia importa um outro costume de Portugal: a roda dos expostos, ou roda dos enjeitados. Consistia de uma porta girat\u00f3ria, acoplada ao muro da institui\u00e7\u00e3o, com uma gaveta onde as crian\u00e7as enjeitadas eram depositadas em sigilo, ficando as m\u00e3es no anonimato. Geralmente, o motivo de tal gesto era uma gravidez indesejada, mas a pobreza tamb\u00e9m podia levar as m\u00e3es a se desfazerem do filho desta forma.<\/p>\n<p>As rodas foram institu\u00eddas para evitar a pr\u00e1tica do aborto e do infantic\u00eddio e tamb\u00e9m para tornar um pouco menos cruel o pr\u00f3prio abandono. Antes delas, os rec\u00e9m-nascidos eram deixados em portas de igrejas ou na frente de casas abastadas e muitas acabaram morrendo antes de serem encontradas.<\/p>\n<p>Somente na d\u00e9cada de 30 \u00e9 que come\u00e7aram a funcionar os conhecidos e ainda sobreviventes internatos, orfanatos, lares, casas transit\u00f3rias, etc., legalizados a partir do primeiro C\u00f3digo de Menores, de 1927, e que cumprem com a dupla tarefa de, por meio da reclus\u00e3o, proteger as crian\u00e7as e adolescentes das hostilidades e riscos presentes na sociedade, ao passo que protegiam tamb\u00e9m essa mesma sociedade da inc\u00f4moda conviv\u00eancia com a figura do menor abandonado.<\/p>\n<p>Com a inaugura\u00e7\u00e3o dos orfanatos, por volta de 1950 as rodas dos enjeitados foram extintas, mas devido aos incont\u00e1veis casos de maus tratos denunciados pela sociedade civil, o Estado inaugura, sob a \u00e9gide de um novo paradigma de cuidado com a inf\u00e2ncia, a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem) e, em diversos estados do territ\u00f3rio nacional, a Funda\u00e7\u00e3o Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m na d\u00e9cada de 50 \u00e9 promulgada a Carta dos Direitos Universais da Crian\u00e7a e do Adolescente, pela ONU &#8211; Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, e, como afirma Ferreira e Carvalho (2002), seus princ\u00edpios contagiam e inspiram os constituintes de 1988, que ap\u00f3s significativas altera\u00e7\u00f5es na Constitui\u00e7\u00e3o Federal, possibilitam a formula\u00e7\u00e3o do ECA &#8211; Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, em 1990.<\/p>\n<p>Esta lei, de n\u00famero 8.069\/90, traz um significativo avan\u00e7o na concep\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia \u00e0 inf\u00e2ncia brasileira e, de modo especial, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ado\u00e7\u00e3o, tornando-se um importante marco na hist\u00f3ria e na cultura da ado\u00e7\u00e3o do Brasil, representando a transi\u00e7\u00e3o entre o per\u00edodo da chamada &#8220;ado\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica&#8221;, cujo objetivo maior fixava-se na satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades dos casais impossibilitados de gerar filhos biologicamente, para a chamada &#8220;ado\u00e7\u00e3o moderna&#8221;, que privilegia a crian\u00e7a no sentido de garantir-lhe o direito de crescer e ser educada no seio de uma fam\u00edlia (WEBER, 2001).<\/p>\n<p>Este modelo de ado\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica \u00e9 o que ainda se v\u00ea atuante na cultura da ado\u00e7\u00e3o do Brasil. Os motivos que levam casais a adotar, na maioria das vezes, est\u00e3o vinculados \u00e0 sua satisfa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a prioritariamente, ou seja, nesses casos n\u00e3o s\u00e3o as crian\u00e7as que precisam de uma fam\u00edlia, mas s\u00e3o fam\u00edlias que precisam de uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Adotam crian\u00e7as casais que, como j\u00e1 mencionamos, n\u00e3o podem gerar seus pr\u00f3prios filhos por motivos de infertilidade ou esterilidade (LADVOCAT, 2002); fam\u00edlias que perderam um filho e buscam atrav\u00e9s da ado\u00e7\u00e3o preencher o espa\u00e7o vazio que a perda fez existir; casais que constru\u00edram, durante boa parte de sua vida em comum, um conjunto de bens que ficar\u00e1 sem quem dele desfrute ou continue ap\u00f3s sua morte, portanto, por raz\u00f5es de sobreviv\u00eancia e continuidade patrimonial; casais que projetam na exist\u00eancia de um filho (biol\u00f3gico ou adotivo) o motivo de manuten\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o conjugal, a resolu\u00e7\u00e3o de conflitos e a realiza\u00e7\u00e3o do projeto de vida a dois (casar e ter filhos); homens e mulheres solteiros que buscam realizar a experi\u00eancia da paternidade e da maternidade; homens e mulheres vi\u00favos que n\u00e3o tiveram filhos a tempo e querem evitar a solid\u00e3o; casais que desejam poder escolher o sexo do beb\u00ea, etc.<\/p>\n<p>Em casos como estes a crian\u00e7a \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para os problemas, anseios e expectativas dos adotantes. O ECA vem dar a este paradigma um novo formato, invertendo radicalmente os p\u00f3los desta configura\u00e7\u00e3o, tirando a crian\u00e7a da periferia da fam\u00edlia adotante e colocando-a no centro.<\/p>\n<p>Contudo, e paradoxalmente, a lei que d\u00e1 direito \u00e0 crian\u00e7a e ao adolescente n\u00e3o lhes garante um lar, uma fam\u00edlia. A ado\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, e jamais poder\u00e1 ser, obrigat\u00f3ria. Ainda h\u00e1 muitas crian\u00e7as e adolescentes nas ruas e muitas crian\u00e7as e adolescentes institucionalizados. Ali ou acol\u00e1, exclu\u00eddas do conv\u00edvio familiar, embora alguns abrigos o tentem imitar, muitas crian\u00e7as e adolescentes crescem alijados de figuras importantes para a estrutura\u00e7\u00e3o de sua identidade e personalidade e, conforme afirma Justo (1997, p. 72-73),<\/p>\n<p>o drama central da vida da crian\u00e7a institucionalizada incide, justamente, sobre os referenciais em rela\u00e7\u00e3o aos quais possa criar sua pr\u00f3pria identidade pessoal e ancorar as diferencia\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas enumeradas de sua singularidade e de sua localiza\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido, a identidade pessoal \u00e9 criada a partir de diferencia\u00e7\u00f5es progressivas entre o &#8220;Eu&#8221; e o &#8220;n\u00e3o Eu&#8221;, centradas nas experi\u00eancias com o pr\u00f3prio corpo, com os objetos do mundo f\u00edsico e com as pessoas constitutivas do c\u00edrculo de rela\u00e7\u00f5es psicossociais do sujeito. [&#8230;]<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o de vida da crian\u00e7a institucionalizada \u2013 expulsa do eldorado familiar e recolhida caridosamente no lugar dos enjeitados, desvalidos, degenerados e desgra\u00e7ados \u2013 traz como marca principal a perda das refer\u00eancias de sua origem (a filia\u00e7\u00e3o paternal), e das funda\u00e7\u00f5es de sua pessoa, preenchidas por uma inser\u00e7\u00e3o no universo simb\u00f3lico que a codifica com tra\u00e7os extremamente pejorativos.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a e o adolescente brasileiro, primeiramente vitimados por quest\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f4micas advindas de uma pol\u00edtica nacional que, historicamente, vem sendo respons\u00e1vel pelo crescimento de desigualdades de toda ordem, s\u00e3o tamb\u00e9m vitimados por um processo de estigmatiza\u00e7\u00e3o, marginaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o quando s\u00e3o alijados do direito \u00e0 fam\u00edlia por conseq\u00fc\u00eancia de uma cultura da ado\u00e7\u00e3o que privilegia crian\u00e7as rec\u00e9m-nascidas em detrimento de crian\u00e7as mais velhas e\/ou adolescentes. Assim, urge-nos questionar e buscar respostas: que cultura \u00e9 essa? que mitos, medos e expectativas povoam o imagin\u00e1rio da fam\u00edlia brasileira, impedindo-as ou dificultando os processos de ado\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<h3>Ado\u00e7\u00e3o tardia: parte do problema ou da solu\u00e7\u00e3o?<\/h3>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o tardia \u00e9 apenas uma das m\u00faltiplas faces da tem\u00e1tica a que nos propomos investigar. Autoras como Vargas (1998) e Weber (1998) consideram tardias as ado\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as com idade superior a dois anos. Mas este est\u00e1 longe de ser o \u00fanico aspecto definidor desta modalidade de ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as consideradas &#8220;idosas&#8221; para ado\u00e7\u00e3o, segundo Vargas (1998, p. 35)<\/p>\n<p>ou foram abandonadas tardiamente pelas m\u00e3es, que por circunst\u00e2ncias pessoais ou socioecon\u00f4micas, n\u00e3o puderam continuar se encarregando delas ou foram retiradas dos pais pelo poder judici\u00e1rio, que os julgou incapazes de mant\u00ea-las em seu p\u00e1trio poder, ou, ainda, foram \u2018esquecidas\u2019 pelo Estado desde muito pequenas em \u2018orfanatos\u2019 que, na realidade, abrigam uma minoria de \u00f3rf\u00e3os [&#8230;].<\/p>\n<p>Dentre as diferentes modalidades de ado\u00e7\u00e3o, a tardia \u00e9 a que recebe de modo direto o impacto da atual cultura. Uma recente pesquisa, realizada por Almeida (2003) em cidades do interior paulista consideradas de porte m\u00e9dio (Bauru e Mar\u00edlia) aponta para uma seq\u00fc\u00eancia de dados que nos interessam.<\/p>\n<p>No ano de 2001, dos 133 casais e fam\u00edlias cadastrados como postulantes \u00e0 ado\u00e7\u00e3o nas duas comarcas, 118 deles colocaram como condi\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o da ado\u00e7\u00e3o o fato da crian\u00e7a ser branca, ou seja, 82,72% do total; somente 9 casais e fam\u00edlias, o que equivale a 6,72% do total, aceitaram adotar crian\u00e7as pardas ou negras; 5 casais e fam\u00edlias cadastradas manifestaram-se indiferentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cor e etnia das crian\u00e7as (3,76% do total cadastrado); e apenas 1, entre os 133 cadastrados, manifestou expl\u00edcito interesse em adotar uma crian\u00e7a negra (0,75% entre os cadastrados) \u2013 vale dizer que este casal ou fam\u00edlia candidato \u00e0 ado\u00e7\u00e3o, conforme afirma\u00e7\u00e3o do pesquisador, tamb\u00e9m s\u00e3o negros.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 hav\u00edamos exposto, os n\u00fameros da pesquisa de Almeida (2003) apontam para uma incontest\u00e1vel prefer\u00eancia dos postulantes \u00e0 ado\u00e7\u00e3o por crian\u00e7as brancas. O que isso significa? Significa que o n\u00famero de crian\u00e7as pardas, mas especificamente o n\u00famero das crian\u00e7as negras, em institui\u00e7\u00f5es asilares (orfanatos, casas transit\u00f3rias, etc.) \u00e9 muito maior do que o de crian\u00e7as brancas, logo, t\u00eam menos chances de serem adotadas e usufru\u00edrem do constitucional direito \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia disso, permanecem por muito mais tempo nas referidas institui\u00e7\u00f5es e quando s\u00e3o adotadas \u2013 quando o s\u00e3o \u2013 configuram outro quadro estat\u00edstico, o das ado\u00e7\u00f5es tardias.<\/p>\n<p>Em novo procedimento investigativo, agora no ano de 2002, Almeida (2003) levantou informa\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 comarca de Bauru e cruzou dados que v\u00e3o al\u00e9m da cor da pele (ou etnia) das crian\u00e7as em fun\u00e7\u00e3o dos interesses dos postulantes \u00e0 ado\u00e7\u00e3o, considerando tamb\u00e9m a idade, sexo e estado de sa\u00fade das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Em termos gerais, sua conclus\u00e3o corrobora com as estat\u00edsticas nacionais. 76,19% dos postulantes \u00e0 ado\u00e7\u00e3o interessam-se por crian\u00e7as brancas e os demais se distribuem entre as categorias: &#8220;branca at\u00e9 morena clara&#8221; (12,70%), &#8220;branca at\u00e9 parda clara&#8221; (3,17%), &#8220;parda&#8221; (1,59%), &#8220;parda at\u00e9 negra&#8221; (3,17%) e &#8220;indiferente&#8221; (3,17%). Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 idade \u2013 e tais dados nos s\u00e3o preciosos porque definem a faixa et\u00e1ria das crian\u00e7as consideradas idosas para ado\u00e7\u00e3o \u2013 temos um grande n\u00famero de postulantes interessados por crian\u00e7as rec\u00e9m nascidas e\/ou com idade inferior a 18 meses (72,36%) em detrimento ao diminuto n\u00famero de postulantes interessados em crian\u00e7as com mais de 2 anos (26,99%).<\/p>\n<p>Quanto ao sexo, a prefer\u00eancia \u00e9 por meninas, na propor\u00e7\u00e3o de 50,79% contra 46,03% de interesse por crian\u00e7as do sexo masculino. Ao serem cadastrados no programa de ado\u00e7\u00e3o, os postulantes respondem se aceitam ou n\u00e3o adotar crian\u00e7as com HIV negativado e o levantamento de Almeida (2003) aponta para o seguinte resultado: 61,90% n\u00e3o aceitam adotar tais crian\u00e7as, enquanto que 38,10% aceitam: elas tamb\u00e9m engrossam as estat\u00edsticas das ado\u00e7\u00f5es tardias ou as estat\u00edsticas de crian\u00e7as institucionalizadas no Brasil.<\/p>\n<p>As contribui\u00e7\u00f5es de Almeida (2003) com todos estes dados estat\u00edsticos relacionados \u00e0 ado\u00e7\u00e3o d\u00e3o sentido \u00e0quilo que podemos verificar por meio da literatura nacional. Estes n\u00fameros auxiliam na caracteriza\u00e7\u00e3o ou defini\u00e7\u00e3o do perfil das crian\u00e7as consideradas &#8220;n\u00e3o adot\u00e1veis&#8221; no contexto social brasileiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria exagero, nem tampouco um risco relacionado \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, mencionar neste momento de nosso texto que essas crian\u00e7as \u2013 negras, com mais de dois anos de idade, portadoras de alguma defici\u00eancia ou possuidoras de um hist\u00f3rico de problemas m\u00e9dico-biol\u00f3gicos \u2013 s\u00e3o aquelas destinadas a um per\u00edodo muito extenso de institucionaliza\u00e7\u00e3o e vitimadas por m\u00faltiplos abandonos: o &#8220;abandono da fam\u00edlia biol\u00f3gica&#8221; que, por motivos s\u00f3cio-econ\u00f4micos ou \u00e9tico-morais, s\u00e3o impedidas de manter os seus filhos; o &#8220;abandono do Estado&#8221; que, por meio das limitadas legisla\u00e7\u00f5es e deficit\u00e1rias pol\u00edticas p\u00fablicas, tem os bra\u00e7os engessados para o acolhimento de seus \u00f3rf\u00e3os; o &#8220;abandono da sociedade&#8221; que ainda n\u00e3o entendeu o sentido do termo inclus\u00e3o, uma vez que se v\u00ea ocupada com a inven\u00e7\u00e3o de novas, refinadas e eficientes t\u00e9cnicas de exclus\u00e3o do diferente e das minorias.<\/p>\n<p>Os mitos que constituem a atual cultura da ado\u00e7\u00e3o no Brasil, apresentam-se como fortes obst\u00e1culos \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de ado\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as &#8220;idosas&#8221; e adolescentes (ado\u00e7\u00f5es tardias), uma vez que potencializam cren\u00e7as e expectativas negativas ligadas \u00e0 pr\u00e1tica da ado\u00e7\u00e3o enquanto forma de coloca\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes em fam\u00edlias substitutas.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a rec\u00e9m nascida, e como nos apontam os n\u00fameros, \u00e9 mais procurada pelas fam\u00edlias postulantes \u00e0 ado\u00e7\u00e3o. Tal fato se justifica pelo encontro de &#8220;possibilidades&#8221; e &#8220;expectativas&#8221; que nas mesmas se materializam, porque representam (segundo o imagin\u00e1rio dos adotantes):<\/p>\n<p>A possibilidade de uma adapta\u00e7\u00e3o tranquila da crian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos pais e dos pais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crian\u00e7a e, conseq\u00fcentemente, uma saud\u00e1vel rela\u00e7\u00e3o entre os pais e filho adotivo, imitando assim a &#8220;poss\u00edvel&#8221; ou &#8220;almejada&#8221; rela\u00e7\u00e3o destes numa situa\u00e7\u00e3o onde se faz presente o v\u00ednculo biol\u00f3gico-sangu\u00edneo;<\/p>\n<p>A oportunidade de constru\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo afetivo mais profundo entre m\u00e3e-pai-filho, a tal ponto de apagar as marcas da rejei\u00e7\u00e3o e abandono promovidos pela m\u00e3e e pai biol\u00f3gicos;<\/p>\n<p>Tempo h\u00e1bil para a constru\u00e7\u00e3o do aqui denominado pacto s\u00f3cio-familiar, caso seja op\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia adotiva manter segredo quanto as origens da crian\u00e7a adotada;<\/p>\n<p>O acompanhamento integral de seu desenvolvimento f\u00edsico e psicossocial que se manifestam desde as mais primitivas express\u00f5es faciais como o sorriso e movimento dos olhos acompanhando objetos e demonstrando o reconhecimento das figuras parentais at\u00e9 as primeiras falas e primeiros passos;<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o do desejo materno e paterno de poder trocar as fraldas de um beb\u00ea a quem chamar\u00e1 de filho, seguido dos desejos complementares \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o da figura materna e paterna, tais como, dar-lhe colo, amamentar, ninar, dar banho, trocar-lhe as roupas, etc.;<\/p>\n<p>Protagonizar o papel de pai e m\u00e3e no processo de educa\u00e7\u00e3o do filho, incluindo a possibilidade de acompanhar o desenvolvimento escolar que se desdobra em situa\u00e7\u00f5es menores em propor\u00e7\u00e3o ao todo do processo, mas que s\u00e3o extremamente significativas aos pais, como por exemplo, ver seus primeiros rabiscos no papel se transformarem em garatujas e depois em figuras humanas cada vez mais complexas e representativas, acompanhar os primeiros passos do filho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o, fazer-se presente nas reuni\u00f5es da escola e nas comemora\u00e7\u00f5es c\u00edvicas e culturais, participar com o filho de eventos esportivos, etc.;<\/p>\n<p>Construir uma hist\u00f3ria familiar e registr\u00e1-la, desde os primeiros dias de vida do filho, por meio de fotografias que compor\u00e3o o \u00e1lbum de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Se, por um lado, essas expectativas presentes no imagin\u00e1rio dos postulantes \u00e0 ado\u00e7\u00e3o, encontram na &#8220;crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida&#8221; a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o, tornando-as alvos de seus interesses e por assim ser, as mais procuradas para ado\u00e7\u00e3o, tais expectativas s\u00e3o tamb\u00e9m os motivos que colocam as chamadas &#8220;crian\u00e7as idosas&#8221; e adolescentes no final da fila de espera por uma fam\u00edlia. \u00c0 lista de motivos que tem levado casais e fam\u00edlias considerados aptos \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o de ado\u00e7\u00f5es, tardias ou n\u00e3o, a desistirem, somam-se quest\u00f5es de toda ordem:<\/p>\n<p>O medo manifestado por muitos casais e fam\u00edlias postulantes \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de que a crian\u00e7a adotada, principalmente a que tem idade igual ou superior a dois anos, por ter permanecido um longo per\u00edodo de seu processo desenvolvimento na institui\u00e7\u00e3o ou transitando entre diferentes fam\u00edlias, n\u00e3o se adapte \u00e0 realidade de uma fam\u00edlia em definitivo, por crer (equivocadamente) que a mesma j\u00e1 ter\u00e1 formado sua personalidade, car\u00e1ter e por ter se lhe incorporado &#8220;v\u00edcios&#8221;, &#8220;m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;falta de limites&#8221; e &#8220;dificuldade de conviv\u00eancia&#8221;;<\/p>\n<p>A negativa expectativa quanto \u00e0 possibilidade do estabelecimento de v\u00ednculos afetivos entre os adotantes e a crian\u00e7a tendo em vista seu hist\u00f3rico de rejei\u00e7\u00e3o e abandono associado \u00e0 consci\u00eancia de sua n\u00e3o perten\u00e7a (biol\u00f3gica) \u00e0 fam\u00edlia adotiva;<\/p>\n<p>O mito de que ao longo do processo de desenvolvimento da crian\u00e7a, seus desejos por conhecer a fam\u00edlia biol\u00f3gica ser\u00e3o intensificados de modo a comprometer a rela\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia adotiva, sendo este o motivo de constantes conflitos que, quase sempre, culminam com a revolta e\/ou fuga do filho adotivo;<\/p>\n<p>O tempo de espera nas filas pela ado\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, coordenadas pelos juizados da inf\u00e2ncia e juventude, tende a ser longo e o processo burocr\u00e1tico se apresenta como obst\u00e1culo dos mais dif\u00edceis de serem superados tendo em vista as exig\u00eancias a serem cumpridas (ali\u00e1s, todas em fun\u00e7\u00e3o do bem-estar das crian\u00e7as);<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o brasileira, que por cautela e prud\u00eancia, n\u00e3o d\u00e1 de imediato a certid\u00e3o de ado\u00e7\u00e3o plena da crian\u00e7a \u00e0 fam\u00edlia adotiva, gerando uma ansiedade na mesma que, para evitar desgastes emocionais em ambas as partes, opta pela desist\u00eancia da ado\u00e7\u00e3o em vez de aceitar a guarda provis\u00f3ria da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Vale dizer que em situa\u00e7\u00f5es como essa, a fam\u00edlia adotiva permanece por um per\u00edodo que varia de um a dois anos com a guarda provis\u00f3ria da crian\u00e7a que, por sua vez, ainda est\u00e1 judicialmente ligada \u00e0 fam\u00edlia biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Como o poder judici\u00e1rio prima preferencialmente pela perman\u00eancia das crian\u00e7as em suas fam\u00edlias de origem e somente na falta ou impossibilidade desta, disponibiliza a crian\u00e7a para coloca\u00e7\u00e3o em fam\u00edlia substituta, muitas fam\u00edlias temem \u2013 e por isso recusam a guarda provis\u00f3ria \u2013 que depois de um tempo de conv\u00edvio, que certamente resultar\u00e1 na constru\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos afetivos com a crian\u00e7a, esta tenha que ser devolvida a sua m\u00e3e, pai ou fam\u00edlia biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o contexto de inser\u00e7\u00e3o de nossa preocupa\u00e7\u00e3o central: a ado\u00e7\u00e3o tardia. Acabamos de apresentar, apoiados na literatura, aspectos que se apresentam como barreiras para a realiza\u00e7\u00e3o das ado\u00e7\u00f5es tardias. Contudo, n\u00e3o esgotamos a explora\u00e7\u00e3o deste contexto que \u00e9, segundo nosso ponto de vista, fiel reflexo da atual cultura da ado\u00e7\u00e3o e seus &#8220;pr\u00e9-conceitos&#8221;.<\/p>\n<h3>Considera\u00e7\u00f5es finais: por uma nova cultura da ado\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Vimos que a atua\u00e7\u00e3o da atual cultura da ado\u00e7\u00e3o tem dificultado os processos de ado\u00e7\u00e3o em seus mais diferentes est\u00e1gios, ou seja, desde o processo de discernimento e decis\u00e3o do casal\/fam\u00edlia postulante \u00e0 ado\u00e7\u00e3o at\u00e9 o processo de constru\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos que produzir\u00e3o os t\u00e3o almejados la\u00e7os de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Assim, identificamos a atual cultura da ado\u00e7\u00e3o como um n\u00f3, metaforicamente falando. Postulamos como tarefa dos chamados profissionais da ado\u00e7\u00e3o (psic\u00f3logos, assistentes sociais, advogados, promotores de justi\u00e7a, ju\u00edzes, etc.) o urgente exerc\u00edcio \u00e9tico de &#8220;cuidado&#8221; com a tem\u00e1tica, de modo a n\u00e3o reproduzirmos os mitos e medos existentes, mas que, pelo contr\u00e1rio, trabalhemos em fun\u00e7\u00e3o de suas desconstru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Urge, pois, desbiologizar o paradigma de constitui\u00e7\u00e3o familiar, promover pol\u00edticas p\u00fablicas em favor das crian\u00e7as e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de risco (abandono ou conflito com a lei) ao passo que urge tamb\u00e9m o inaugurar de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para as fam\u00edlias sem filhos, de modo que estas, devidamente acompanhadas, orientadas e informadas, encontrem na legisla\u00e7\u00e3o brasileira e nas institui\u00e7\u00f5es que a defendem, lugares em que possam vislumbrar a possibilidade de tornarem real o desejado exerc\u00edcio da maternidade e da paternidade, por via da ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os adolescentes estigmatizados pelo abandono e pela institucionaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixar\u00e3o de existir ou de representar uma amea\u00e7a ao bem-estar social \u2013 porque bem sabemos que assim \u00e9 que s\u00e3o hoje vistos pelo senso comum e por alguns de nossos representantes pol\u00edticos \u2013 se n\u00e3o atuarmos em fun\u00e7\u00e3o de uma diminui\u00e7\u00e3o do abandono; a outra face da moeda em que se encontra o tema da ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, j\u00e1 tarda um novo olhar para as pol\u00edticas de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher e de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia. Se n\u00e3o olharmos para as institui\u00e7\u00f5es de acolhimento \u00e0 crian\u00e7a ainda em vigor e se n\u00e3o olharmos para a atual cultura da ado\u00e7\u00e3o, e se estes nossos olhares n\u00e3o forem cr\u00edticos e construtivos, afim de remeter-nos a um engajamento cient\u00edfico, pol\u00edtico e social, para que o cuidado com as crian\u00e7as e adolescentes brasileiros torne-se mais humano do que estigmatizador, mais \u00e9tico e est\u00e9tico do que maqueador de uma realidade que nos custa caro aos olhos internacionais, ent\u00e3o amargaremos, por d\u00e9cadas e s\u00e9culos, a inc\u00f4moda consci\u00eancia de que n\u00e3o fizemos o que poder\u00edamos ter feito.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de uma nova cultura da ado\u00e7\u00e3o \u00e9, segundo nosso modo de ver, um dos desafios e um dos caminhos que podemos decidir enfrentar e percorrer para que o contingente de crian\u00e7as e adolescentes sem fam\u00edlias comece a diminuir no Brasil. Este \u00e9 um direito inalien\u00e1vel da crian\u00e7a e do adolescente e um dever \u00e9tico de todos.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte<\/span>: www.terra.com.br\/www.proceedings.scielo.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um Drama em Tr\u00eas Atos No momento em que se decide pela ado\u00e7\u00e3o, quest\u00f5es complexas e delicadas surgem dentro e fora do seio familiar. Preparar-se adequadamente para enfrent\u00e1-las \u00e9 fundamental para o bem-estar do novo relacionamento. Seria um reducionismo acreditar que a ado\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 seja a fonte exclusiva de todos os males. 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