{"id":93264,"date":"2017-01-09T09:56:12","date_gmt":"2017-01-09T11:56:12","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93264"},"modified":"2017-01-09T09:56:12","modified_gmt":"2017-01-09T11:56:12","slug":"este-admiravel-mundo-louco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/este-admiravel-mundo-louco","title":{"rendered":"Este Admir\u00e1vel Mundo Louco"},"content":{"rendered":"<p class=\"imgsemborda\">Este manuscrito foi encontrado entre os pertences do professor Sintom\u00e1tico de Aquino, que como se sabe, era uf\u00f3logo convicto e militante, tendo deixado, por ocasi\u00e3o de sua morte, mais de trezentos documentos, nos quais procurava provar a exist\u00eancia de vida inteligente fora do planeta Terra.<br \/>\n(A exist\u00eancia de vida inteligente no planeta Terra \u00e9 um outro problema, de que se ocupam outros ilustres especialistas).<br \/>\nN\u00e3o sabemos se este manuscrito \u00e9 aut\u00eantico.<br \/>\nParece que foi encontrado n\u00e3o se sabe onde, traduzido n\u00e3o se sabe por quem, e ser\u00e1 lido ou n\u00e3o, por n\u00e3o se sabe o tipo de pessoa.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Em todo caso o que sabemos \u00e9 que procuramos tornar o texto leg\u00edvel, j\u00e1 que achamos que conviria muito bem para completar um livro que v\u00ednhamos compondo h\u00e1 tempos e para o qual j\u00e1 n\u00e3o t\u00ednhamos mais assunto.<br \/>\nO autor deste manuscrito refere-se \u00e1s vezes aos habitantes do nosso planeta com alguma ironia.<br \/>\nMas voc\u00eas v\u00e3o notar que o relat\u00f3rio em quest\u00e3o n\u00e3o obedece a um rigor cient\u00edfico na sua exposi\u00e7\u00e3o, de maneira que n\u00e3o devemos nos impressionar muito com ele.<br \/>\nAlgumas palavras, como o leitor inteligente n\u00e3o poder\u00e1 deixar de notar, n\u00e3o pertencem \u00e1 nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Foram conservadas na forma original.<br \/>\nMas n\u00e3o oferece nenhuma dificuldade \u00e1 compreens\u00e3o do texto.<br \/>\nN\u00e3o sabemos por que m\u00e3os ter\u00e1 andado este manuscrito, nem que distor\u00e7\u00f5es ter\u00e1 ele sofrido.<br \/>\n\u00c9 desta forma que o apresentamos ao distinto p\u00fablico&#8230;<br \/>\nSou estudante de fl\u00e1ritis, na Universidade de Flutergues.<br \/>\nPor acaso, passeando no disco voador Firula 3 fui parar no conjunto estelar Fl\u00e9quites.<br \/>\nComo estivesse sem combust\u00edvel, tentei descer em algum planeta a fim de poder me reabastecer.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">O 3\u00b0 planeta deste sistema me pareceu jeitoso, pois nele h\u00e1 grandes massas de \u00e1gua.<br \/>\nComo todos sabemos, este planeta \u00e9 habitado por seres estranh\u00edssimos, uns diferentes dos outros.<br \/>\nEstes s\u00e3o desenhos que reconhe\u00e7o que s\u00e3o primitivos, mas s\u00e3o o que consegui fazer de melhor, sobre as criaturas que habitam este planeta.<br \/>\nParece que uma das esp\u00e9cies domina as outras como acontecia no finado planeta Fl\u00f3rides.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Vamos chamar estes esp\u00e9cimes de freguetes, que s\u00e3o a coisa mais parecida com os terr\u00e1queos de que eu me lembro.<br \/>\nComo \u00e9 que eles s\u00e3o?<br \/>\nVou tentar descrev\u00ea-los.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Em cima eles t\u00eam uma esfera, s\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 bem redonda.<br \/>\nDe um lado da esfera tem uns fios muito finos, que s\u00e3o de muitas cores.<br \/>\nDo outro lado tem o que eu acho que \u00e9 a cara deles.<br \/>\nNa cara, bem em cima, eles t\u00eam umas bolas que eles chamam de olhos. \u00c9 por a\u00ed que sai, \u00e1s vezes uma ag\u00fcinha. Mas s\u00f3 as vezes.<br \/>\nUm pouco mais em baixo tem uma coisa que salta pra fora, com dois buraquinhos bem em baixo.<br \/>\nIsso eles chamam de nariz.<br \/>\nMais abaixo ainda tem uma buraco grande, cheio de gr\u00e3os brancos e tem uma coisa vermelha que mexe muito.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Os freguetes est\u00e3o sempre botando dentro deste buraco uma coisa que eles chamam de comida.<br \/>\nEssa tal de comida \u00e9 que d\u00e1 a eles energia, como a nossa fagula.<br \/>\nTem uns que botam bastante comida dentro. Tem outros que s\u00f3 botam de vez em quando.<br \/>\nEsses buracos servem pra outras coisas, tamb\u00e9m.<br \/>\n\u00c9 por a\u00ed que saem uns sons horrorosos que \u00e9 a voz l\u00e1 deles.<br \/>\nEmbaixo da bola tem um tubo que une a bola ao corpo.<br \/>\nDo corpo saem quatro tubos: dois pra baixo e dois pros lados.<br \/>\nOs tubos de baixo, que se chamam pernas, chegam at\u00e9 o ch\u00e3o e servem para empurrar os freguetes de um lado pro outro.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">A coisa funciona mais ou menos assim: um tubo fica ficando no ch\u00e3o, enquanto o outro se projeta para a frente e se finca no ch\u00e3o, por sua vez.<br \/>\nQuando o segundo tubo est\u00e1 ficando o primeiro se projeta para frente e assim por diante.<br \/>\nEles chamam isso &#8211; andar.<br \/>\nBem embaixo dos tubos, onde eles se fincam no ch\u00e3o, geralmente eles enfiam umas c\u00e1psulas duras, acho que pra proteger as pontas dos tubos.<br \/>\nOs tubos que saem pros lados se chamam bra\u00e7os; t\u00eam cinco tubinhos em cada ponta. E com essas pontas eles pegam nas coisas.<br \/>\nVou tentar fazer uns esquemas de como eles s\u00e3o, para que todos entendam melhor.<br \/>\nPor mais absurdos que estes esquemas pare\u00e7am \u00e9 assim mesmo que eles s\u00e3o. \u00c9 in\u00fatil chamarem minha aten\u00e7\u00e3o para o fato de que eles n\u00e3o parecem obedecer a um padr\u00e3o l\u00f3gico de desenvolvimento.<br \/>\nEu tamb\u00e9m acho que n\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Eles moram, quase todos, amontoados nuns lugares muito feios, que eles chamam de cidades.<br \/>\nEsses lugares cheiram muito mal por causa de uma s porcarias que eles fabricam e de umas nuvens escuras que saem de uns tubos muito grande que por sua vez saem de dentro de umas caixas que eles chamam de fabricas.<br \/>\nParece que eles vivem dentro de outras caixas.<br \/>\nAlgumas destas caixas s\u00e3o grandes, outras s\u00e3o pequenas.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Nem sempre moram mais freguetes nas caixas maiores.<br \/>\n\u00c1s vezes acontece o contr\u00e1rio: nas caixas grandes moram pouquinhos freguetes e nas caixas pequenininhas mora um monte deles.<br \/>\nNas cidades existem muitas caixas amontoadas umas nas outras.<br \/>\nParece que dentro destes amontoados h\u00e1 um tubo, por onde corre um carrinho na dire\u00e7\u00e3o vertical, chamado elevador, porque eleva as pessoas pra o alto dos amontoados.<br \/>\nN\u00e3o ouvi dizer que eles tenham descedores, o que me leva a acreditar que eles pulem l\u00e1 de cima at\u00e9 embaixo, de alguma maneira que eu n\u00e3o sei explicar.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Quando fica claro, eles saem das caixas deles e todos come\u00e7am a ir pra outro lugar de onde vieram.<br \/>\nN\u00e3o sei como \u00e9 que eles encontram, o lugar de onde eles sa\u00edram, mas encontram; e entram outra vez nas caixas.<br \/>\nAssim que eu cheguei era um pouco dif\u00edcil compreender o que eles diziam. Mas logo, logo, gra\u00e7as a meus estudos de fl\u00f3bitos, consegui aprender uma por\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas que eles falam.<br \/>\nAh, porque eles falam uma por\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas diferentes.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">E como \u00e9 que eles se entendem?<br \/>\nE quem foi que disse que eles se entendem?<br \/>\nQuer dizer, tem uns que entendem os outros, mas n\u00e3o \u00e9 todo mundo, n\u00e3o.<br \/>\nEles vivem brigando muito, os grandes brigam com os pequenos o tempo todo e ent\u00e3o os bem pequenos come\u00e7am a gritar e a gritar e \u00e9 a\u00ed que sai \u00e1gua das bolas que eles t\u00eam na cara.<br \/>\nAlgumas pessoas de um lugar brigam com as pessoas de outro lugar e eles chamam isso de guerra e ent\u00e3o eles jogam uns nos outros umas coisas que destroem tudo que eles passam um temp\u00e3o fazendo. E at\u00e9 destroem eles mesmos.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">\u00c9 muito dif\u00edcil explicar esta tal de guerra porque eu tamb\u00e9m n\u00e3o entendi. N\u00e3o sei direito pra que \u00e9 que serve esta tal de guerra. Acho que \u00e9 pra gastar as tais coisas que eles jogam uns nos outros e que eles fabricam em grandes quantidades e que fazem as cidades ficarem cada vez mais fedorentas.<br \/>\nEles gostam muito de jogar coisas uns nos outros.<br \/>\nTem at\u00e9 uma festa que eles chamam Carnaval e eles jogam pedacinhos de umas coisas coloridas uns nos outros, enquanto ficam gritando muito.<br \/>\nEssas coisas coloridas sujam muito e ent\u00e3o vem uns freguetes que recolhem toda aquela sujeira e jogam num lugar onde eles guardam uma por\u00e7\u00e3o de porcarias que ningu\u00e9m quer.<br \/>\nE embora ningu\u00e9m queira eles ficam o tempo todo fabricando essas porcarias.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Eu poderia ainda contar muitas coisas sobre este planeta. Mas como eu n\u00e3o entendi quase nada, acho que n\u00e3o adianta muito.<br \/>\nRecomendo, por isso uma nova visita ao planeta, ,mas com muito cuidado, por um grupo especializado em planetas de alto risco.<br \/>\nPois este planeta, que \u00e9 chamado por seus freguetes de Terra \u00b4-e incrivelmente semelhante ao planeta Fl\u00f3rides do sistema Fl\u00edbito, que se desintegrou, na era Flat\u00f4nica, n\u00e3o se sabe por que, mas, que nessa ocasi\u00e3o desprendeu grandes nuvens de fuma\u00e7a em forma de cogumelos&#8230;<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Uns pelos outros<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Isso aconteceu h\u00e1 muitos anos, quando as cidades come\u00e7aram a ficar t\u00e3o cheias de gente que ir de um lugar para o outro se tornou um problema.<br \/>\nEu morava em S\u00e3o Paulo, que nesta \u00e9poca j\u00e1 tinha 20 milh\u00f5es de habitantes, e mesmo o metr\u00f4 com suas 27 linhas principais n\u00e3o dava conta de transportar todo mundo.<br \/>\nNas avenidas auxiliares, aquelas enormes avenidas que o prefeito eleito em 1996 construiu, e que t\u00eam 18 faixas de rodagem, o tr\u00e2nsito \u00e1s vezes ficava parado 5, 6 horas, de maneira que as pessoas faziam de tudo dentro dos carros: liam, faziam a barba, estudavam, jogavam batalha naval, faziam tric\u00f4, jogavam xadrez, faziam de tudo!<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Nas ruas secund\u00e1rias as pessoas desciam dos carros, dan\u00e7avam, faziam cooper, gin\u00e1stica, bal\u00e9, lutavam carat\u00ea&#8230;<br \/>\nA gente tinha que ficar o dia inteiro abrindo a porta, que toda hora tinha algu\u00e9m pedindo pra usar o banheiro, beber \u00e1gua, ou pedindo um comprimido pra dor de cabe\u00e7a.<br \/>\nEnt\u00e3o, n\u00e3o sei bem quem foi que encontrou uma maneira de facilitar algumas tarefas, ou se foram v\u00e1rias pessoas ao mesmo tempo, que tiveram a mesma id\u00e9ia.<br \/>\nO que eu sei \u00e9 que todo mundo come\u00e7ou a trocar os encargos, uns com os outros, que era pra facilitar as coisas.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">\nNo come\u00e7o facilitava, mesmo!<br \/>\nA gente telefonava pro amigo e pedia:<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 que d\u00e1 pra voc\u00ea pagar a mensalidade da minha escola que \u00e9 a\u00ed pertinho?<br \/>\nE o outro respondia:<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 bem, eu pago, mas ser\u00e1 que dava pra voc\u00ea ir ao anivers\u00e1rio do Alaor, que \u00e9 a\u00ed juntinho da sua casa?<br \/>\nAt\u00e9 que funcionava!<br \/>\n\u00c1s vezes vinham uns pedidos meio chatos:<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea pode visitar minha sogra, por favor, que ela est\u00e1 doente, precisa de companhia? Ela mora mesmo no seu pr\u00e9dio. Como era um pedido meio chato l\u00e1 vinha outro pedido chato de volta:<br \/>\n&#8211; Tudo bem, deste que voc\u00ea v\u00e1 ao enterro do Dr. Genivaldo que \u00e9 a\u00ed na sua esquina.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Mas tinha gente que pedia pra gente umas coisas absurdas:<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 que dava pra voc\u00ea ir ao dentista por mim, enquanto eu vou comer uma pizza aqui na esquina pra voc\u00ea?<br \/>\nA\u00ed n\u00e3o dava, \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nOu ent\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Olha, vai fazer exame na escola pra mim que eu vou ao cinema pra voc\u00ea.<br \/>\nNo come\u00e7o, quando as pessoas pediam essas coisas, a gente recusava, naturalmente.<br \/>\nMas com o tempo foi ficando t\u00e3o dif\u00edcil a gente se movimentar que as pessoas foram concordando em fazer a tarefa dos outros.<br \/>\nTinha gente que substitu\u00eda os amigos no trabalho, tinha gente que namorava a namorada dos amigos, diz que teve um que at\u00e9 fez opera\u00e7\u00e3o de apendicite no lugar de um primo&#8230;<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Mas a\u00ed a coisa come\u00e7ou a encrencar.<br \/>\nPorque tinha gente que era reprovada pelo outro, o outro ficava danado!<br \/>\nTinha gente que namorava o namorado do outro e n\u00e3o devolvia. Tinha gente que pegava catapora, quando estava fazendo a tarefa dos outros e pedia indeniza\u00e7\u00e3o porque dizia que isso n\u00e3o estava na combina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE a coisa come\u00e7ou a ficar preta no dia que as pessoas come\u00e7aram a se aproveitar da confus\u00e3o.<br \/>\nTeve gente que tirou dinheiro do banco e n\u00e3o devolveu nunca mais, e teve at\u00e9 um espertinho que assumiu o comendo do 28\u00b0 ex\u00e9rcito no lugar do General Dur\u00e3o e era pra ficar s\u00f3 um ou dois dias e ele n\u00e3o queria sair mais.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Mas o c\u00famulo, mesmo, foi no dia em que um tal de Generalino Caradura chegou cedo no pal\u00e1cio do Governo, e foi dizendo que o Presidente tinha telefonado pra ele, e tinha pedido que ele ficasse na presid\u00eancia por uns tempos, que ele estava muito gripado, e que Bras\u00edlia era muito longe, p tr\u00e2nsito estava imposs\u00edvel e coisa e tal&#8230;<br \/>\nE depois que ele entrou no pal\u00e1cio, quem disse que ele sa\u00eda?<br \/>\nMas nunca mais!<br \/>\nEle inventava que agora n\u00e3o podia, porque estava resolvendo umas coisas importantes, que agora n\u00e3o podia, porque ia receber uma visita de fora, que agora n\u00e3o podia por isso, por aquilo, por aquiloutro.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Esse cara ficou no pal\u00e1cio durante anos, e s\u00f3 saiu quando soube que tinha um cara na casa dele morando com a mulher dele, gastando o dinheiro dele, e o pior, usando o carro dele, que era feito sob encomenda nas oficinas especializadas de Cochabamba.<br \/>\nEssas coisas hoje em dia j\u00e1 s\u00e3o raras&#8230;<br \/>\nE agora voc\u00eas me desculpem. Tenho muito o que fazer.<br \/>\nTenho que jogar uma partida de futebol para o meu sobrinho, enquanto ele experimenta meu vestido na costureira&#8230;<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Quando a escola \u00e9 de vidro<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Naquele tempo eu at\u00e9 que achava natural que as coisas fossem daquele jeito.<br \/>\nEu nem desconfiava que existissem lugares muito diferentes&#8230;<br \/>\nEu ia pra escola todos os dias de manh\u00e3 e quando chagava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro.<br \/>\n\u00c9, no vidro!<br \/>\nCada menino ou menina tinha um vidro e o vidro n\u00e3o dependia do tamanho de cada um, n\u00e3o!<br \/>\nO vidro dependia da classe em que a gente estudava.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Se voc\u00ea estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho.<br \/>\nSe voc\u00ea fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior.<br \/>\nE assim, os vidros iam crescendo \u00e1 medida em que voc\u00ea ia passando de ano.<br \/>\nSe n\u00e3o passasse de ano era um horror.<br \/>\nVoc\u00ea tinha que usar o mesmo vidro do ano passado.<br \/>\nCoubesse ou n\u00e3o coubesse.<br \/>\nAli\u00e1s nunca ningu\u00e9m se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros.<br \/>\nE pra falar a verdade, ningu\u00e9m cabia direito.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confort\u00e1vel.<br \/>\nOs muitos altos de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, \u00e1s vezes at\u00e9 batiam no professor.<br \/>\nEle ficava louco da vida e atarrachava a tampa com for\u00e7a, que era pra n\u00e3o sair mais.<br \/>\nA gente n\u00e3o escutava direito o que os professores diziam, os professores n\u00e3o entendiam o que a gente falava&#8230;<br \/>\nAs meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos.<br \/>\nNingu\u00e9m queria saber se elas estavam crescendo depressa, se n\u00e3o cabia nos vidros, se respiravam direito&#8230;<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">A gente s\u00f3 podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica.<br \/>\nMas a\u00ed a gente j\u00e1 estava desesperado, de tanto ficar preso e come\u00e7ava a correr, a gritar, a bater uns nos outros.<br \/>\nAs meninas, coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. e na aula de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica elas ficavam atrapalhadas, n\u00e3o estavam acostumadas a ficarem livres, n\u00e3o tinha jeito nenhum para Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica.<br \/>\nDizem, nem sei se \u00e9 verdade, que muitas meninas usavam vidros at\u00e9 em casa.<br \/>\nE alguns meninos tamb\u00e9m.<br \/>\nEstes eram os mais tristes de todos.<br \/>\nNunca sabiam inventar brincadeiras, n\u00e3o davam risada \u00e1 toa, uma tristeza!<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Se agente reclamava?<br \/>\nAlguns reclamavam.<br \/>\nE ent\u00e3o os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ia ser assim o resto da vida.<br \/>\nUma professora, que eu tinha, dizia que ela sempre tinha usado vidro, at\u00e9 pra dormir, por isso que ela tinha boa postura.<br \/>\nUma vez um colega meu disse pra professora que existem lugares onde as escolas n\u00e3o usam vidro nenhum, e as crian\u00e7as podem crescer a vontade.<br \/>\nEnt\u00e3o a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunistas. Ou at\u00e9 coisa pior&#8230;<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Tinha menino que tinha at\u00e9 de sair da escola porque n\u00e3o havia jeito de se acomodar nos vidros. E tinha uns que mesmo quando sa\u00edam dos vidros ficavam do mesmo jeitinho, meio encolhidos, como se estivessem t\u00e3o acostumados que at\u00e9 estranhavam sair dos vidros.<br \/>\nMas uma vez, veio para minha escola um menino, que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra n\u00e3o dizer que \u00e9 pobre.<br \/>\nA\u00ed n\u00e3o tinha vidro pra botar esse menino.<br \/>\nEnt\u00e3o os professores acharam que n\u00e3o fazia mal n\u00e3o, j\u00e1 que ele n\u00e3o pagava a escola mesmo&#8230;<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Ent\u00e3o o Firuli, ele se chamava Firuli, come\u00e7ou a assistir as aulas sem estar dentro do vidro.<br \/>\nO engra\u00e7ado \u00e9 que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engra\u00e7ado&#8230;<br \/>\nE os professores n\u00e3o gostavam nada disso&#8230;<br \/>\nAfinal, o Firuli podia ser um mal exemplo pra n\u00f3s&#8230;<br \/>\nE n\u00f3s morr\u00edamos de inveja dele, que ficava no bem-bom, de perna esticada, quando queria ele espregui\u00e7ava, e at\u00e9 mesmo que gozava a cara da gente que vivia preso.<br \/>\nEnt\u00e3o um dia um menino da minha classe falou que tamb\u00e9m n\u00e3o ia entrar no vidro.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Dona Dem\u00eancia ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um.<br \/>\nMas no dia seguinte duas meninas resolveram que n\u00e3o iam entrar no vidro tamb\u00e9m:<br \/>\n&#8211; Se o Firuli pode por que \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o podemos?<br \/>\nMas Dona Dem\u00eancia n\u00e3o era sopa.<br \/>\nDeu um coque em cada uma, e l\u00e1 se foram elas, cada uma pro seu vidro&#8230;<br \/>\nJ\u00e1 no outro dia a coisa tinha engrossado.<br \/>\nJ\u00e1 tinha oito meninos que n\u00e3o queriam saber de entrar nos vidros.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Dona Dem\u00eancia perdeu a paci\u00eancia e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor l\u00e1 da escola.<br \/>\nSeu Hermenegildo chegou muito desconfiado:<br \/>\n&#8211; Aposto que essa rebeli\u00e3o foi fomentada pelo Firuli. \u00c9 um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo!<br \/>\nA gente n\u00e3o sabia o que \u00e9 que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele estava falando mal do Firuli.<br \/>\nE seu Hermenegildo n\u00e3o conversou mais. Come\u00e7ou a pegar as meninos um por um e enfiar \u00e1 for\u00e7a dentro dos vidros.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Mas n\u00f3s est\u00e1vamos loucos para sair tamb\u00e9m, e pra cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro &#8211; j\u00e1 tinha dois fora.<br \/>\nE todo mundo come\u00e7ou a correr do seu Hermenegildo, que era pra ele n\u00e3o pegar a gente, e na correria come\u00e7amos a derrubar os vidros.<br \/>\nE quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais dona Dem\u00eancia j\u00e1 estava na janela gritando &#8211; SOCORRO! V\u00c2NDALOS! B\u00c0RBAROS!<br \/>\n(pra ela b\u00e1rbaro era xinga\u00e7\u00e3o).<br \/>\nChamem o Bombeiro, o ex\u00e9rcito da Salva\u00e7\u00e3o, a Pol\u00edcia Feminina&#8230;<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Os professores das outras classes mandaram cada um, um aluno para ver o que estava acontecendo.<br \/>\nE quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava na 6\u00b0 s\u00e9rie todo mundo ficou assanhado e come\u00e7ou a sair dos vidros.<br \/>\nNa pressa de sair come\u00e7aram a esbarrar uns nos outros e os vidros come\u00e7aram a cair e a quebrar.<br \/>\nFoi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era pra pensar num castigo bem grande, pro dia seguinte.<br \/>\nEnt\u00e3o eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria tudo de novo.<\/p>\n<p class=\"imgsemborda\">Ent\u00e3o diante disso seu Hermenegildo pensou um pocadinho, e come\u00e7ou a contar pra todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que n\u00e3o usavam vidro nem nada, e que dava bem certo, as crian\u00e7as gostavam muito mais.<br \/>\nE que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, n\u00e3o precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.<br \/>\nDona Dem\u00eancia, que apesar do nome n\u00e3o era louca nem nada, ainda disse timidamente:<br \/>\n&#8211; Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental n\u00e3o \u00e9 bem isso&#8230;<\/p>\n<p>Seu Hermenegildo n\u00e3o se pertubou:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tem import\u00e2ncia. Agente come\u00e7a experimentando isso. Depois a gente experimenta outras coisas&#8230;<br \/>\nE foi assim que na minha terra come\u00e7aram a aparecer as Escolas Experimentais.<br \/>\nDepois aconteceram muitas coisas, que um dia eu ainda vou contar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este manuscrito foi encontrado entre os pertences do professor Sintom\u00e1tico de Aquino, que como se sabe, era uf\u00f3logo convicto e militante, tendo deixado, por ocasi\u00e3o de sua morte, mais de trezentos documentos, nos quais procurava provar a exist\u00eancia de vida inteligente fora do planeta Terra. 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