{"id":93252,"date":"2017-01-09T09:55:10","date_gmt":"2017-01-09T11:55:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93252"},"modified":"2017-01-09T09:55:10","modified_gmt":"2017-01-09T11:55:10","slug":"producoes-satiricas-e-bocageanas-de-bernardo-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/producoes-satiricas-e-bocageanas-de-bernardo-guimaraes","title":{"rendered":"Produ\u00e7\u00f5es Sat\u00edricas e Bocageanas de Bernardo Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<h4>Bernardo Guimar\u00e3es<\/h4>\n<h2>AO LEITOR<\/h2>\n<p>D\u2019un pinceau delicat l\u2019artifice agreable Du plus hideux object fait un object fait aimable<\/p>\n<p><b>Boileau<\/b><\/p>\n<p>No intuito de perpetuar estes versos de um poeta nosso bem conhecido, os fazemos publicar pela imprensa, que, sem d\u00favida pode salvar do naufr\u00e1gio do esquecimento poesias t\u00e3o excelentes em seu g\u00eanero, e cuja perpetuidade alguns manuscritos, por a\u00ed dispersos e raros, n\u00e3o podem garantir do tempo.<\/p>\n<p>A lira do poeta mineiro tem todas as cordas; ele a sabe ferir em todos os tons e ritmos diferentes com m\u00e3o de mestre.<\/p>\n<p>Estes poemas podem se chamar er\u00f3tico-c\u00f4micos. Quando B.G. escrevia estes versos inimit\u00e1veis, sua musa estava de veia para fazer rir, e \u00e9 sabido, que para fazer rir s\u00e3o precisos talentos mais elevados do que para fazer chorar.<\/p>\n<p>Estes versos n\u00e3o s\u00e3o dedicados \u00e0s mo\u00e7as e aos meninos. Eles podem ser lidos e apreciados pelas pessoas s\u00e9rias, que os encarecem pelo lado po\u00e9tico e c\u00f4mico, sem ofensa da moralidade e nem t\u00e3o pouco das consci\u00eancias pudicas e delicadas.<\/p>\n<p>Repugnam-nos os contos obscenos e imundos, quando n\u00e3o t\u00eam o perfume da poesia; esta, por\u00e9m, encontrar\u00e1 aceno e acolhimento na classe dos leitores de um gosto delicado e no ju\u00edzo destes ser\u00e1 um flor\u00e3o de mais juntado \u00e0 coroa de poeta de que B.G. tem sabido conquistar \u00e0 for\u00e7a de seu g\u00eanio.<\/p>\n<p><b>Ouro Preto, 7 de maio de 1875<\/b><\/p>\n<h2>DISPARATES RIMADOS<\/h2>\n<p>Quando as fadas do ostracismo,<br \/>\nEmbrulhadas num len\u00e7ol,<br \/>\nCantavam em si bemol<br \/>\nAs trovas do paroxismo,<br \/>\nVeio dos fundos do abismo<br \/>\nUm fantasma de alabastro<br \/>\nE arvorou no grande mastro<br \/>\nQuatro panos de toicinho,<br \/>\nQue encontrara no caminho<br \/>\nDa casa do Jo\u00e3o de Castro.<\/p>\n<p>Nas janelas do destino,<br \/>\nQuatro meninos de rabo<br \/>\nNum s\u00f3 dia deram cabo<br \/>\nDas costelas de um supino.<\/p>\n<p>Por tamanho desatino,<br \/>\nMandou o Rei dos Amores<br \/>\nQue se tocassem tambores<br \/>\nNo alto das chamin\u00e9s<br \/>\nE ningu\u00e9m pusesse os p\u00e9s<br \/>\nL\u00e1 dentro dos bastidores.<\/p>\n<p>Mas este caso nefando<br \/>\nTeve sua nobre origem<br \/>\nEm uma fatal vertigem<br \/>\nDo famoso conde Orlando.<br \/>\nPor isso, de vez em quando,<br \/>\nAo sopro do vento sul,<br \/>\nVem surgindo de um paul<br \/>\nO gentil Dalai-lama,<br \/>\nAtra\u00eddo pela fama<br \/>\nDe uma filha de Irmensul.<\/p>\n<p>Corre tamb\u00e9m a not\u00edcia<br \/>\nQue o Rei Mouro, desta feita,<br \/>\nVai fazer grande colheita<br \/>\nDe mat\u00e9ria vital\u00edcia.<br \/>\nSeja-lhe a sorte prop\u00edcia,<br \/>\n\u00c9 o que mais lhe desejo.<br \/>\nPortanto, sem grande pejo,<br \/>\nPelo tope das montanhas,<br \/>\nAndam de noite as aranhas<br \/>\nComendo cascas de queijo.<\/p>\n<p>O queijo \u2014 dizem os s\u00e1bios \u2014<br \/>\n\u00c9 um grande epifonema,<br \/>\nQue veio servir de tema<br \/>\nDe famosos alfarr\u00e1bios.<br \/>\nD\u00e1 tr\u00eas pontos nos teus l\u00e1bios,<br \/>\nSe vires, l\u00e1 no horizonte,<br \/>\nCarrancudo mastodonte,<br \/>\nNa ponta de uma navalha,<br \/>\nVender cigarros de palha,<br \/>\nMolhados na \u00e1gua da fonte!&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 opini\u00f5es diversas<br \/>\nSobre dores de barriga:<br \/>\nDizem uns que s\u00e3o lombrigas;<br \/>\nOutros, que v\u00eam de conversas.<br \/>\nPor\u00e9m as l\u00ednguas perversas<br \/>\nNelas v\u00eaem grande sintoma<br \/>\nDe um bisneto de Mafoma,<br \/>\nQue, sem meias, nem chinelas,<br \/>\nSem saltar pelas janelas,<br \/>\nNum s\u00f3 dia foi a Roma.<\/p>\n<h2>A ORIGEM DO M\u00caNSTRUO<\/h2>\n<p>De uma f\u00e1bula in\u00e9dita de Ov\u00eddio, achada nas escava\u00e7\u00f5es de<br \/>\nPomp\u00e9ia e vertida em latim vulgar por Sim\u00e3o Nuntua<\/p>\n<p>\u2018Stava V\u00eanus gentil junto da fonte<br \/>\nFazendo o seu pentelho,<br \/>\nCom todo o jeito, p\u2019ra que n\u00e3o se ferisse<br \/>\nDas cricas o aparelho.<\/p>\n<p>Tinha que dar o cu naquela noite<br \/>\nAo grande pai Anquises,<br \/>\nO qual, com ela, se n\u00e3o mente a fama,<br \/>\nPassou dias felizes&#8230;<\/p>\n<p>Rapava bem o cu, pois resolvia,<br \/>\nNa mente altas ideias:<br \/>\n\u2014 Ia gerar naquela her\u00f3ica foda<br \/>\nO grande e pio En\u00e9ias.<\/p>\n<p>Mas a navalha tinha o fio rombo,<br \/>\nE a deusa, que gemia,<br \/>\nArrancava os pentelhos e, peidando,<br \/>\nCaretas mil fazia!<\/p>\n<p>Nesse entretanto, a ninfa Galat\u00e9ia,<br \/>\nAcaso ali passava,<br \/>\nE vendo a deusa assim t\u00e3o agachada,<br \/>\nJulgou que ela cagava&#8230;<\/p>\n<p>Essa ninfa travessa e petulante<br \/>\nEra de g\u00eanio mau,<br \/>\nE por pregar um susto \u00e0 m\u00e3e do Amor,<br \/>\nAtira-lhe um calhau&#8230;<\/p>\n<p>V\u00eanus se assusta. A branca m\u00e3o mimosa<br \/>\nSe agita alvoro\u00e7ada,<br \/>\nE no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)<br \/>\nTremenda navalhada.<\/p>\n<p>Da nacarada cona, em sutil fio,<br \/>\nCorre purp\u00farea veia,<br \/>\nE nobre sangue divino como<br \/>\nAs \u00e1guas purpureia&#8230;<\/p>\n<p>(\u00c9 fama que quem bebe desta \u00e1guas<br \/>\nJamais perde o tes\u00e3o<br \/>\nE \u00e9 capaz de foder noites e dias,<br \/>\nAt\u00e9 no cu de um c\u00e3o!)<\/p>\n<p>\u2014 \u201cOra porra!\u201d \u2014 gritou a deusa irada,<br \/>\nE nisso o rosto volta&#8230;<br \/>\nE a ninfa, que conter-se n\u00e3o podia,<br \/>\nUma risada solta.<\/p>\n<p>A travessa menina mal pensava<br \/>\nQue, com tal brincadeira,<br \/>\nIa ferir na mais morosa parte<br \/>\nDa deusa regateira&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u201cEstou perdida!\u201d \u2014 tr\u00eamula murmura<br \/>\nA pobre Galat\u00e9ia,<br \/>\nVendo o sangue a correr do r\u00f3seo cono<br \/>\nDa poderosa d\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>Mas era tarde! A C\u00edpria, furibunda,<br \/>\nPor um momento a encara,<br \/>\nE, ap\u00f3s instantes, com severo acanto,<br \/>\nNesse clamor dispara:<\/p>\n<p>\u201cV\u00ea! Que fizeste, desastrada ninfa,<br \/>\nQue crime cometeste!<br \/>\nQue castigo h\u00e1 no c\u00e9u, que punir possa<br \/>\nUm crime como este?!<\/p>\n<p>Assim, por mais de um m\u00eas inutilizas<br \/>\nO vaso das del\u00edcias&#8230;<br \/>\nE em que hei de gastar das longas noites<br \/>\nAs horas t\u00e3o prop\u00edcias?<\/p>\n<p>Ai! Um m\u00eas sem foder! Que atroz supl\u00edcio&#8230;<br \/>\nEm m\u00edsero abandono,<br \/>\nQue \u00e9 que h\u00e1 de fazer, por tanto tempo,<br \/>\nEste faminto cono?&#8230;<\/p>\n<p>\u00d3 Adonis1 \u00d3 J\u00fapiter potente!<br \/>\nE tu, mavorte invicto!<br \/>\nE tu, Aquiles! Acode de pronto<br \/>\nDe minha dor ao grito!<\/p>\n<p>Esse vaso gentil que eu tencionava<br \/>\nTornar bem fresco e limpo<br \/>\nPara recreio e divinal regalo<br \/>\nDos deuses do Alto Olimpo,<\/p>\n<p>Vede seu triste estado, \u00f3! Que esta vida<br \/>\nEm sangue j\u00e1 se esvai-me!<br \/>\n\u00d3 Deus, se desejas ter foda certa<br \/>\nVingai-vos e vingai-me!<\/p>\n<p>\u00d3 ninfa, o teu cono sempre atormente<br \/>\nPerp\u00e9tuas comich\u00f5es,<br \/>\nE n\u00e3o aches quem jamais nele queira<br \/>\nVazar os seus culh\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Em negra podrid\u00e3o imundos vermes<br \/>\nRoam-te sempre a crica,<br \/>\nE \u00e0 vista dela sinta-se banzeiro<br \/>\nA mais valente pica!<\/p>\n<p>De eterno esquentamento flagelada,<br \/>\nVerta f\u00e9tidos jorros,<br \/>\nQue causem t\u00e9dio e nojo a todo mundo,<br \/>\nAt\u00e9 mesmo aos cachorros!!!\u201d<\/p>\n<p>Ouviu-lhe estas palavras piedosas<br \/>\nDo Olimpo o Gr\u00e3o-Tonante,<br \/>\nQue em p\u00edvia ao sacana do Cupido<br \/>\nComia neste instante&#8230;<\/p>\n<p>Comovido no \u00edntimo do peito,<br \/>\nDas l\u00e1stimas que ouviu,<br \/>\nMandou o menino que, de pronto, acuda<br \/>\n\u00c0 puta que o pariu&#8230;<\/p>\n<p>Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro<br \/>\nDa concha alabastrina,<br \/>\nQue quatro aladas porras v\u00e3o tirando<br \/>\nNa esfera cristalina<\/p>\n<p>Cupido que as conhece e as r\u00e9deas bate<br \/>\nDa r\u00e1pida quadriga,<br \/>\nCo\u2019a voz ora as alenta, ora co\u2019a ponta<br \/>\nDas setas as fustiga.<\/p>\n<p>J\u00e1 desce aos bosques onde a m\u00e3e aflita,<br \/>\nEm m\u00edsera agonia,<br \/>\nCom seu sangue divino o verde musgo<br \/>\nDe p\u00farpura tingia&#8230;<\/p>\n<p>No carro a toma e num momento chega<br \/>\n\u00c0 ol\u00edmpica morada,<br \/>\nOnde a turba dos deuses, reunida,<br \/>\nA espera consternada!<\/p>\n<p>J\u00e1 Merc\u00fario de emplastros se aparelha<br \/>\nPara a ven\u00e9rea chaga,<br \/>\nFeliz porque naquele curativo<br \/>\nEspera certa paga&#8230;<\/p>\n<p>Vulcano, vendo o estado da consorte,<br \/>\nMil pragas vomitou&#8230;<br \/>\nMarte arranca um suspiro que as ab\u00f3badas<br \/>\nCelestes abalou&#8230;<\/p>\n<p>Sorriu a furto a ciumenta Juno,<br \/>\nLembrando o antigo pleito,<br \/>\nE Palas, orgulhosa l\u00e1 consigo,<br \/>\nResmoneou: \u2014 \u201c Bem feito!\u201d<\/p>\n<p>Coube a Apolo lavar dos roxos l\u00edrios<br \/>\nO sangue que escorria,<br \/>\nE de tes\u00e3o terr\u00edvel assaltado,<br \/>\nConter-se mal podia!<\/p>\n<p>Mas, enquanto se fez o curativo,<br \/>\nEm seus divinos bra\u00e7os,<br \/>\nJove sust\u00e9m a filha, acalentando-a<br \/>\nCom beijos e com abra\u00e7os.<\/p>\n<p>Depois, subindo ao trono luminoso,<br \/>\nCom carrancudo aspecto,<br \/>\nE erguendo a voz troante, fundamenta<br \/>\nE lavra este Decreto:<\/p>\n<p>\u2014\u201cSuspende, \u00f3 filho, os lamentos justos<br \/>\nPor t\u00e3o atroz delito,<br \/>\nQue no tremendo Livro do Destino<br \/>\nDe h\u00e1 muito estava escrito.<\/p>\n<p>Desse ultraje feroz ser\u00e1 vingado<br \/>\nO teu divino cono,<br \/>\nE as impreca\u00e7\u00f5es que fulminaste<br \/>\nAgora sanciono.<\/p>\n<p>Mas, ainda \u00e9 pouco: \u2014 a todas as mulheres<br \/>\nEstenda-se o castigo<br \/>\nPara expiar o crime que esta infame<br \/>\nOusou para contigo&#8230;<\/p>\n<p>Para punir t\u00e3o b\u00e1rbaro atentado,<br \/>\nToda humana crica,<br \/>\nDe hoje em diante, l\u00e1 de tempo em tempo,<br \/>\nEscorra sangue em bica&#8230;<\/p>\n<p>E por mem\u00f3ria eterna chore sempre<br \/>\nO cono da mulher,<br \/>\nCom l\u00e1grimas de sangue, o caso infando,<br \/>\nEnquanto mundo houver&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Am\u00e9m! Am\u00e9m! Com voz atroadora<br \/>\nOs deuses todos urram!<br \/>\nE os ecos das ol\u00edmpicas ab\u00f3badas,<br \/>\nAm\u00e9m! Am\u00e9m! Sussurram&#8230;<\/p>\n<h2>ELIXIR DO PAJ\u00c9<\/h2>\n<p><b>Lasciva est nobis pagina, vita proba.<\/b><\/p>\n<p>Que tens, caralho, que pesar te oprime<br \/>\nque assim te vejo murcho e cabisbaixo<br \/>\nsumido entre essa basta pentelheira,<br \/>\nmole, caindo pela perna abaixo?<\/p>\n<p>Nessa postura merenc\u00f3ria e triste<br \/>\npara tr\u00e1s tanto vergas o focinho,<br \/>\nque eu cuido vais beijar, l\u00e1 no traseiro,<br \/>\nteu s\u00f3rdido vizinho!<\/p>\n<p>Que \u00e9 feito desses tempos gloriosos<br \/>\nem que erguias as guelras inflamadas,<br \/>\nna barriga me dando de cont\u00ednuo<br \/>\ntremendas cabe\u00e7adas?<\/p>\n<p>Qual hidra furiosa, o colo al\u00e7ando,<br \/>\nco&#8217;a sanguinosa crista a\u00e7oita os mares,<br \/>\ne sustos derramando<br \/>\npor terras e por mares,<br \/>\naqui e al\u00e9m atira mortais botes,<br \/>\ndando co&#8217;a cauda horr\u00edveis piparotes,<br \/>\nassim tu, \u00f3 caralho,<br \/>\nerguendo o teu vermelho cabe\u00e7alho,<br \/>\nfaminto e arquejante,<br \/>\ndando em v\u00e3o rabanadas pelo espa\u00e7o,<br \/>\npedias um caba\u00e7o!<\/p>\n<p>Um caba\u00e7o! Que era este o \u00fanico esfor\u00e7o,<br \/>\n\u00fanica empresa digna de teus brios;<br \/>\nporque surradas conas e punhetas<br \/>\ns\u00e3o ilus\u00f5es, s\u00e3o petas,<br \/>\ns\u00f3 dignas de caralhos doentios.<\/p>\n<p>Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?<br \/>\nQuem sepultou-te nesse vil marasmo?<\/p>\n<p>Acaso pra teu tormento,<br \/>\nindefluxou-te algum esquentamento?<br \/>\nOu em p\u00edvias est\u00e9reis te cansaste,<br \/>\nficando reduzido a in\u00fatil traste?<br \/>\nPorventura do tempo a dextra irada<br \/>\nquebrou-te as for\u00e7as, envergou-te o colo,<br \/>\ne assim deixou-te p\u00e1lido e pendente,<br \/>\nolhando para o solo,<br \/>\nbem como in\u00fatil l\u00e2mpada apagada<br \/>\nentre duas colunas pendurada?<\/p>\n<p>Caralho sem tens\u00e3o \u00e9 fruta chocha,<br \/>\nsem gosto nem cherume,<br \/>\nling\u00fci\u00e7a com bolor, banana podre,<br \/>\n\u00e9 lampi\u00e3o sem lume<br \/>\nteta que n\u00e3o d\u00e1 leite,<br \/>\nbal\u00e3o sem g\u00e1s, candeia sem azeite.<\/p>\n<p>Por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 tempo ainda<br \/>\nde esmorecer,<br \/>\npois que teu mal ainda pode<br \/>\nal\u00edvio ter.<\/p>\n<p>Sus, \u00f3 caralho meu, n\u00e3o desanimes,<br \/>\nque ainda novos combates e vit\u00f3rias<br \/>\ne mil brilhantes gl\u00f3rias<br \/>\na ti reserva o fornicante Marte,<br \/>\nque tudo vencer pode co&#8217;engenho e arte.<\/p>\n<p>Eis um santo elixir miraculoso<br \/>\nque vem de longes terras,<br \/>\ntranspondo montes, serras,<br \/>\ne a mim chegou por modo misterioso.<\/p>\n<p>Um paj\u00e9 sem tes\u00e3o, um nigromante<br \/>\ndas matas de Goi\u00e1s,<br \/>\nsentindo-se incapaz<br \/>\nde bem cumprir a lei do matrim\u00f4nio,<br \/>\nfoi ter com o dem\u00f4nio,<br \/>\na lhe pedir conselho<br \/>\npara dar-lhe vigor ao aparelho,<br \/>\nque j\u00e1 de encarquilhado,<br \/>\nde velho e de cansado,<br \/>\nquase se lhe sumia entre o pentelho.<br \/>\n\u00c0 meia-noite, \u00e0 luz da lua nova,<br \/>\nco&#8217;os manit\u00f3s falando em uma cova,<br \/>\ncomp\u00f4s esta triaga<br \/>\nde plantas cabal\u00edsticas colhidas,<br \/>\npor sua pr\u00f3prias m\u00e3os \u00e0s escondidas.<\/p>\n<p>Esse velho paj\u00e9 de pica mole,<br \/>\ncom uma gota desse feiti\u00e7o,<br \/>\nsentiu de novo renascer os brios<br \/>\nde seu velho chouri\u00e7o!<\/p>\n<p>E ao som das in\u00fabias,<br \/>\nao som do bor\u00e9,<br \/>\nna taba ou na brenha,<br \/>\ndeitado ou de p\u00e9,<br \/>\nno macho ou na f\u00eamea<br \/>\nde noite ou de dia,<br \/>\nfodendo se via<br \/>\no velho paj\u00e9!<\/p>\n<p>Se acaso ecoando<br \/>\nna mata sombria,<br \/>\nmedonho se ouvia<br \/>\no som do bor\u00e9<br \/>\ndizendo: &#8220;Guerreiros,<br \/>\n\u00f3 vinde ligeiros,<br \/>\nque \u00e0 guerra vos chama<br \/>\nferoz aimor\u00e9&#8221;,<br \/>\n&#8211; assim respondia<br \/>\no velho paj\u00e9,<br \/>\nbrandindo o caralho,<br \/>\nbatendo co&#8217;o p\u00e9:<br \/>\n&#8211; Mas neste trabalho,<br \/>\ndizei, minha gente,<br \/>\nquem \u00e9 mais valente,<br \/>\nmais forte quem \u00e9?<br \/>\nQuem vibra o marzapo<br \/>\ncom mais valentia?<br \/>\nQuem conas enfia<br \/>\ncom tanta destreza?<br \/>\nQuem fura caba\u00e7os<br \/>\ncom mais gentileza?&#8221;<\/p>\n<p>E ao som das in\u00fabias,<br \/>\nao som do bor\u00e9,<br \/>\nna taba ou na brenha,<br \/>\ndeitado ou de p\u00e9,<br \/>\nno macho ou na f\u00eamea,<br \/>\nfodia o paj\u00e9.<\/p>\n<p>Se a in\u00fabia soando<br \/>\npor vales e outeiros,<br \/>\n\u00e0 deusa sagrada<br \/>\nchamava os guerreiros,<br \/>\nde noite ou de dia,<br \/>\nningu\u00e9m jamais via<br \/>\no velho paj\u00e9,<br \/>\nque sempre fodia<br \/>\nna taba na brenha,<br \/>\nno macho ou na f\u00eamea,<br \/>\ndeitando ou de p\u00e9,<br \/>\ne o duro marzapo,<br \/>\nque sempre fodia,<br \/>\nqual rijo tacape<br \/>\na nada cedia!<\/p>\n<p>Vassoura terr\u00edvel<br \/>\ndos cus indianos,<br \/>\npor anos e anos,<br \/>\nfodendo passou,<br \/>\nlevando de rojo<br \/>\ndonzelas e putas,<br \/>\nno seio das grutas<br \/>\nfodendo acabou!<br \/>\nE com sua morte<br \/>\nmilhares de gretas<br \/>\nfazendo punhetas<br \/>\nsaudosas deixou&#8230;<\/p>\n<p>Feliz caralho meu, exulta, exulta!<br \/>\nTu que aos conos fizeste guerra viva,<br \/>\ne nas guerras de amor criaste calos,<br \/>\neleva a fronte altiva;<br \/>\nem triunfo sacode hoje os badalos;<br \/>\nalimpa esse bolor, lava essa cara,<br \/>\nque a Deusa dos amores,<br \/>\nj\u00e1 pr\u00f3diga em favores<br \/>\nhoje novos triunfos te prepara,<br \/>\ngra\u00e7as ao santo elixir<br \/>\nque herdei do paj\u00e9 bandalho,<br \/>\nvai hoje ficar em p\u00e9<br \/>\no meu cansado caralho!<\/p>\n<p>Vinde, \u00f3 putas e donzelas,<br \/>\nvinde abrir as vossas pernas<br \/>\nao meu tremendo marzapo,<br \/>\nque a todas, feias ou belas,<br \/>\ncom caralhadas eternas<br \/>\nporei as cricas em trapo&#8230;<br \/>\nGra\u00e7as ao santo elixir<br \/>\nque herdei do paj\u00e9 bandalho,<br \/>\nvai hoje ficar em p\u00e9<br \/>\no meu cansado caralho!<\/p>\n<p>Sus, caralho! Este elixir<br \/>\nao combate hoje tem chama<br \/>\ne de novo ardor te inflama<br \/>\npara as campanhas do amor!<br \/>\nN\u00e3o mais ficar\u00e1 \u00e0-toa,<br \/>\nnesta indol\u00eancia tamanha,<br \/>\ncriando teias de aranha,<br \/>\ncobrindo-te de bolor&#8230;<\/p>\n<p>Este elixir milagroso,<br \/>\no maior mimo na terra,<br \/>\nem uma s\u00f3 gota encerra<br \/>\nquinze dias de tes\u00e3o&#8230;<br \/>\nDo macr\u00f3bio centen\u00e1rio<br \/>\nao esquecido mazarpo,<br \/>\nque j\u00e1 mole como um trapo,<br \/>\nnas pernas balan\u00e7a em v\u00e3o,<br \/>\nd\u00e1 tal for\u00e7a e valentia<br \/>\nque s\u00f3 com uma estocada<br \/>\np\u00f5e a porta escancarada<br \/>\ndo mais rebelde caba\u00e7o,<br \/>\ne pode em cento de f\u00eameas<br \/>\nfoder de fio a pavio,<br \/>\nsem nunca sentir cansa\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Eu te adoro, \u00e1gua divina,<br \/>\nsanto elixir da tes\u00e3o,<br \/>\neu te dou meu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\neu te entrego a minha porra!<br \/>\nFaze que ela, sempre tesa,<br \/>\ne em tes\u00e3o sempre crescendo,<br \/>\nsem cessar viva fodendo,<br \/>\nat\u00e9 que fodendo morra!<\/p>\n<p>Sim, faze que este caralho,<br \/>\npor tua santa influ\u00eancia,<br \/>\na todos ven\u00e7a em pot\u00eancia,<br \/>\ne, com gloriosos abonos,<br \/>\nseja logo proclamado,<br \/>\nvencedor de cem mil conos&#8230;<br \/>\nE seja em todas as rodas,<br \/>\nd&#8217;hoje em diante respeitado<br \/>\ncomo her\u00f3i de cem mil fodas,<br \/>\npor seus her\u00f3icos trabalhos,<br \/>\neleito rei dos caralhos!<\/p>\n<h2>[VARIA\u00c7\u00c3O]i<\/h2>\n<p>Sou um paj\u00e9 constipado<br \/>\nSou um paj\u00e9 conturbado<br \/>\nSou um paj\u00e9 contra-bardo<br \/>\nGuerreiro da cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nDe vol\u00fapias nas donzelas<br \/>\nFazidas de ervas, elas<br \/>\nEmprenhadas ficar\u00e3o.<\/p>\n<p>Irreverente, traquina<br \/>\nSem pensar em hero\u00edna<br \/>\nRemete \u00f3dio ser\u00f3dio.<br \/>\nMenestrel e menos tal<br \/>\nCarretel, corda vocal<br \/>\nInconstante determina<br \/>\nAguardente com serina<br \/>\nProdol\u00f3gico fascina<br \/>\nPoesia fescenina.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Limeira, camarada,<br \/>\nA tua filosomia,<br \/>\nCompanheira desterrada<br \/>\nDo paj\u00e9, bernardaria<br \/>\nSe bernardo bernardasse<br \/>\nE os quel\u00e9 juveniasse<br \/>\nPor trepar na escadaria.<\/p>\n<p>\u201cEssa risonha verdura<br \/>\nEsses bosques, rios, montes,<br \/>\nCampinas, flores, perfumes,<br \/>\nSombrias grutas e fontes?\u201d<br \/>\nO paj\u00e9 da picadura<br \/>\nTra\u00e7as as conas em cardumes<br \/>\nAcende 32 lumes<br \/>\nProdologicamente.<\/p>\n<p>Em madre-de-deus-do-angu<br \/>\nMandado comer s\u00f3 cru<br \/>\nQuem pensa que deus tem madre<br \/>\nQuem pensa no angu de Deus<br \/>\nSe quiser que fa\u00e7a os seus<br \/>\n50 nomes do padre<br \/>\nContando, com um sem sabre<br \/>\nO caralho de Mateus<br \/>\nLenga lenga lenga len<br \/>\nGa lenga lenga lenga.<\/p>\n<p>i Segundo Duda Machado aparece como pr\u00f3logo nas edi\u00e7\u00f5es clandestinas do poema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardo Guimar\u00e3es AO LEITOR D\u2019un pinceau delicat l\u2019artifice agreable Du plus hideux object fait un object fait aimable Boileau No intuito de perpetuar estes versos de um poeta nosso bem conhecido, os fazemos publicar pela imprensa, que, sem d\u00favida pode salvar do naufr\u00e1gio do esquecimento poesias t\u00e3o excelentes em seu g\u00eanero, e cuja perpetuidade alguns [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-93252","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ 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