{"id":93249,"date":"2017-01-09T09:47:55","date_gmt":"2017-01-09T11:47:55","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93249"},"modified":"2017-01-09T09:47:55","modified_gmt":"2017-01-09T11:47:55","slug":"o-garimpeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-garimpeiro","title":{"rendered":"O Garimpeiro"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"750\" height=\"110\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"159\" height=\"78\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#1\">I &#8211; A FAZENDA<\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#2\">II &#8211; A CAVALHADA<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#3\">III &#8211; NA RO&Ccedil;A<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#4\">IV &#8211; O GARIMPO<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#5\">V &#8211; O BAIANO<\/a><\/font><\/strong><font size=\"2\"><br \/>\n              <\/font> <\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"102\">&nbsp; <\/td>\n<td width=\"154\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#6\">VI &#8211; A RECUSA<\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#7\">VII &#8211; O SACRIF&Iacute;CIO<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#8\">VIII &#8211; ELIAS<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#9\">IX &#8211; AL&Eacute;M DE QUEDA,<br \/>\n              COICE<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#10\">X &#8211; A AFRONTA<\/a><br \/>\n              <\/font><\/strong><font size=\"2\"> <\/font> <\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"100\">&nbsp; <\/td>\n<td width=\"163\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#11\">XI &#8211; DE MAL A PIOR<\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#12\">XII &#8211; MOEDEIRO FALSO<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#13\">XIII &#8211; OS VIZINHOS<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#14\">XIV &#8211; A LAVADEIRA<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#15\">XV &#8211; ABNEGA&Ccedil;&Atilde;O<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#16\">XVI &#8211; O MORIBUNDO<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#17\">XVII &#8211; A GRINALDA E O T&Uacute;MULO<br \/>\n              <\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2><a name=\"1\">I &#8211; A FAZENDA<\/a><\/h2>\n<p>As regi&otilde;es que formam os munic&iacute;pios de Arax&aacute;, Patroc&iacute;nio<br \/>\n    e Bagagem, na prov&iacute;ncia de Minas, encerram paisagens as mais risonhas<br \/>\n    e encantadoras que se podem imaginar, e quem uma vez tem percorrido esses<br \/>\n    f&eacute;rteis e pitorescos sert&otilde;es nunca mais os perde da lembran&ccedil;a.<\/p>\n<p>&Eacute; imposs&iacute;vel dar uma id&eacute;ia do aspecto geral desse pa&iacute;s.<br \/>\n    A cada emin&ecirc;ncia que se transp&otilde;e, uma nova perspectiva nos surpreende,<br \/>\n    um novo panorama se desenrola aos olhos do viandante. Aqui o solo ondula graciosamente<br \/>\n    em colinas de suave declive, separadas uma das outras por cristalinos c&oacute;rregos,<br \/>\n    orlados de cap&otilde;es, cujo tope escuro se destaca vivamente em meio do<br \/>\n    brilhante e verde-claro matiz das campinas. Al&eacute;m se achata em vastos<br \/>\n    chapad&otilde;es, que cansam a vista e impacientam o viandante que os percorre.<br \/>\n    Acol&aacute; os espig&otilde;es se aba&uacute;lam, como leivas gigantescas<br \/>\n    divididas pelos buritizais que se estendem como filas de guerreiros ao longo<br \/>\n    dos brejais. Aqui o horizonte &eacute; limitado ao longe por uma linha de<br \/>\n    serras, cujos topes, longe de serem coroados de &aacute;speros alcantis, s&atilde;o<br \/>\n    lisos e risonhos tabuleiros cobertos de vi&ccedil;osas e suculentas pastagens.<br \/>\n    Acol&aacute; uma linha escura forma o fundo do painel; &eacute; a selva profunda<br \/>\n    e imensa, que l&aacute; se vai perder pelo cora&ccedil;&atilde;o dos desertos<br \/>\n    sem fim. De todas essas encostas, por todos esses vales, &agrave; sombra de<br \/>\n    todos esses selv&aacute;ticos verg&eacute;is, jorram e murmuram perenemente<br \/>\n    com pasmosa abund&acirc;ncia as mais l&iacute;mpidas e frescas &aacute;guas.<br \/>\n    O humilde regato que aqui transpondes de um salto, algumas l&eacute;guas al&eacute;m<br \/>\n    ainda ao alcance de vossas vistas j&aacute; &eacute; largo e caudaloso rio.<\/p>\n<p>Tudo &eacute; belo e grandioso, &eacute; risonho e enlevador por aquelas<br \/>\n    imensas solid&otilde;es.<\/p>\n<p>In&uacute;meras manadas de gado e de &eacute;guas, mugindo e relinchando<br \/>\n    pelos vargedos de vi&ccedil;o perenal, bandos de emas e siriemas vagando pelos<br \/>\n    camegais, alegram a solid&atilde;o daqueles sert&otilde;es aben&ccedil;oados.<\/p>\n<p>De tr&ecirc;s em tr&ecirc;s, de quatro em quatro l&eacute;guas l&aacute;<br \/>\n    alveja no fundo do valado, entre moitas de laranjais, coqueiros e bananeiras,<br \/>\n    a casa do abastado lavrador, que o viandante fatigado sa&uacute;da sempre<br \/>\n    com indiz&iacute;vel prazer, pois sabe que &agrave; sua porta o espera a mais<br \/>\n    franca e cordial hospitalidade.<\/p>\n<p>Posto que ali ainda n&atilde;o tenham penetrado os benef&iacute;cios do progresso<br \/>\n    material, todavia a condi&ccedil;&atilde;o moral e intelectual da popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; e sempre foi excelente. Os habitantes dessas regi&otilde;es s&atilde;o<br \/>\n    not&aacute;veis pela amenidade dos costumes e pela amabilidade do trato.<\/p>\n<p>Nessas paragens os homens s&atilde;o robustos, ativos e inteligentes, as<br \/>\n    mo&ccedil;as s&atilde;o bem-feitas, meigas e formosas.<\/p>\n<p>Todas essas vantagens s&atilde;o devidas talvez em grande parte &agrave;<br \/>\n    doce e sempre igual temperatura do clima, &agrave; inexced&iacute;vel uberdade<br \/>\n    do solo, &agrave; beleza e magnific&ecirc;ncia de seus horizontes incompar&aacute;veis.<\/p>\n<p>Entre a Bagagem e a vila do Patroc&iacute;nio, no meio de espig&otilde;es<br \/>\n    separados por um pequeno c&oacute;rrego situado num vale delicioso, que ia<br \/>\n    morrer nas faldas de um serrote vizinho, era a fazenda do Major. No sert&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; fazendeiro algum tanto abastado que n&atilde;o tenha<br \/>\n    um posto elevado na guarda nacional. Portanto, para n&atilde;o declinar o<br \/>\n    nome de nosso personagem, o designaremos sempre pelo do seu posto.<\/p>\n<p>A casa do Major era baixa mas espa&ccedil;osa, circundada pelas suas faces,<br \/>\n    que olhavam para o lan&ccedil;ante do espig&atilde;o, de uma larga varanda<br \/>\n    aberta, e pelos fundos reunida entre moitas de laranjeiras, coqueiros, jambeiros<br \/>\n    e outras &aacute;rvores frut&iacute;feras, que em pitoresca desordem a sombreavam<br \/>\n    em torno.<\/p>\n<p>Na frente havia um vasto curral em um canto do qual erguia-se uma velha e<br \/>\n    truculenta gameleira, dessas que estendem seus galhos gigantescos dez bra&ccedil;os<br \/>\n    em derredor, e que servia de sombra e aprisco para o gado, para os carros<br \/>\n    e outros utens&iacute;lios de ro&ccedil;a.<\/p>\n<p>No fundo do quintal que era um vasto vergel de &aacute;rvores frut&iacute;feras<br \/>\n    plantadas promiscuamente e sem simetria alguma, corria o c&oacute;rrego, que<br \/>\n    descia das alturas vizinhas sempre fresco e cristalino, &agrave; sombra de<br \/>\n    espessos e vi&ccedil;osos cap&otilde;es. Do outro lado, pela beira do c&oacute;rrego,<br \/>\n    corria uma orla de capoeira inculta e emaranhada.<\/p>\n<p>Em certo lugar o riacho, como que fatigado de correr e retou&ccedil;ar por<br \/>\n    entre as pedras, vinha espregui&ccedil;ar-se e adormecer em um largo e cristalino<br \/>\n    tanque, em cujas bordas havia uma linda vargenzinha toda alcatifada de rasteiro<br \/>\n    e mimoso capim. Era ali a fonte e o coradouro em que as escravas da casa costumavam<br \/>\n    lavar a roupa. Ali tamb&eacute;m a filha do Major, a formosa e interessante<br \/>\n    L&uacute;cia, costumava trazer, nas horas de sesta, a sua cestinha de costura,<br \/>\n    e junto com J&uacute;lia, sua irm&atilde;zinha de nove anos, assentada no<br \/>\n    gramal &agrave; sombra de uma moita de arbustos, trabalhava cantarolando alguma<br \/>\n    singela copla, ou conversando com as escravas.<\/p>\n<p>&#8211; Joana, tu n&atilde;o queres ir &agrave; vila agora pelas festas do dia<br \/>\n    7 de setembro?<\/p>\n<p>&#8211; Sinhazinha vai?<\/p>\n<p>&#8211; Eu hei de ir por for&ccedil;a; h&aacute; parada, papai &eacute; Major,<br \/>\n    n&atilde;o pode deixar de ir, e bem v&ecirc;s que n&atilde;o pode deixar-nos<br \/>\n    aqui sozinhas.<\/p>\n<p>&#8211; E ent&atilde;o? como &eacute; que sinhazinha h&aacute; de ir sem sua negra?<br \/>\n    quem &eacute; que h&aacute; de lhe lavar e engomar os vestidos, pentear seu<br \/>\n    cabelo, e fazer o mais preciso? Sinhazinha cuida que h&aacute; de me deixar<br \/>\n    aqui? n&atilde;o v&ecirc;&#8230; n&atilde;o hei de ser eu que hei de perder festa;<br \/>\n    s&oacute; se me amarrarem&#8230; j&aacute; estou velha: &eacute; preciso aproveitar<br \/>\n    o meu tempo.<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute;s de ir, Joana, n&atilde;o tenhas cuidado, n&atilde;o posso passar<br \/>\n    sem ti&#8230; A festa dizem que vai ser muito arrojada; temos de l&aacute; ficar<br \/>\n    uns oito dias. H&aacute; cavalhadas, Joana.<\/p>\n<p>&#8211; Cavalhadas! ainda mais isso! que bom! e eu que sou doida por cavalhadas!<br \/>\n    n&atilde;o pode haver brinquedo mais bonito. H&aacute; quanto tempo n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; disso por aqui! Esta terra j&aacute; n&atilde;o &eacute; o que era<br \/>\n    dantes. No meu tempo, ah! sinhazinha! se Vmc&ecirc;. visse! que bonitas cavalhadas<br \/>\n    n&atilde;o se corriam aqui e no Arax&aacute;! era um gosto! hoje isto j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o presta para nada. Que &eacute; dos corredores de fama que ent&atilde;o<br \/>\n    havia? j&aacute; morreu tudo. Agora isso h&aacute; de ser alguma coisa &agrave;-toa.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;s enganada, Joana, estas v&atilde;o ser muito boas. Aquele mo&ccedil;o<br \/>\n    que aqui passou outro dia, n&atilde;o te lembras? aquele mo&ccedil;o alto,<br \/>\n    de cabelo preto e anelado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! j&aacute; sei&#8230; o Sr. Elias, aquele mo&ccedil;o de Uberaba&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso mesmo, Joana; ele tamb&eacute;m vai correr, e pediu a meu pai o cavalo<br \/>\n    rosilho.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! aquele sim, que bonito cavaleiro n&atilde;o h&aacute; de ser! &eacute;<br \/>\n    um mocet&atilde;o sacudido e muito bem parecido.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o achas, Joana, que &eacute; um mo&ccedil;o bem bonito? eu tamb&eacute;m<br \/>\n    gostei muito dele.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; um figur&atilde;o, e parece ser muito boa pessoa. &Eacute; pena<br \/>\n    ser t&atilde;o pobre.<\/p>\n<p>&#8211; Quem te disse que ele &eacute; pobre? voc&ecirc; o conhece?<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o; mas est&aacute; se vendo, sinhazinha; nem um pajem, nem<br \/>\n    um camarada&#8230; ele s&oacute; com seu cachorro, sua espingarda e sua mala na<br \/>\n    garupa&#8230; ent&atilde;o gente rica anda assim?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, isso n&atilde;o quer dizer nada; h&aacute; muita gente rica que anda<br \/>\n    assim por gosto.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o creia nisso, minha sinh&aacute;; est&aacute;-se vendo que ele<br \/>\n    &eacute; mesmo pobre. Quem sabe se mesmo o cavalo em que anda n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    emprestado!<\/p>\n<p>&#8211; Arre l&aacute;! Joana &#8211; replicou a mo&ccedil;a com um sorriso que n&atilde;o<br \/>\n    disfar&ccedil;ava o seu enfado. &#8211; Tamb&eacute;m que nos importa que ele seja<br \/>\n    pobre ou rico; entretanto eu duvido que nessas cavalhadas apare&ccedil;a um<br \/>\n    cavalheiro mais bem-feito e mais bonito.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! sinhazinha! est&aacute; me parecendo que Vmc&ecirc;. ficou&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    quero falar&#8230; n&atilde;o; Deus me defenda.<\/p>\n<p>&#8211; Ficou o qu&ecirc;?&#8230; Joana; fala&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sinhazinha, n&atilde;o fica zangada com sua negra?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, podes falar sem susto.<\/p>\n<p>&#8211; Ficou mordida&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mordida! N&atilde;o entendo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois se n&atilde;o entende, melhor; e calo minha boca!<\/p>\n<p>A escrava com quem L&uacute;cia entretinha esta conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era uma crioula algum tanto idosa, mas esperta, viva e palradeira: boa e fiel<br \/>\n    escrava, muito estimada de seus senhores e especialmente de L&uacute;cia,<br \/>\n    a quem na inf&acirc;ncia tinha amamentado. As &uacute;ltimas palavras que<br \/>\n    dirigiu &agrave; mo&ccedil;a foram proferidas com certa inten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ao mesmo tempo que fitava nela um olhar malicioso. A mo&ccedil;a compreendeu,<br \/>\n    corou e sorriu levemente, e tratou de desviar a conversa daquele assunto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Joana, eu tenho muita costura que fazer de amanh&atilde; em diante,<br \/>\n    tu e a Paula h&atilde;o de me ajudar, se &eacute; que querem ir &agrave; festa.<\/p>\n<p>A estas palavras, as quatro ou cinco raparigas que ali se achavam tamb&eacute;m<br \/>\n    ocupadas na lavagem de roupa, acudiram a um tempo, a garrular como uma chusma<br \/>\n    de periquitos.<\/p>\n<p>&#8211; E eu tamb&eacute;m estou a&iacute;, sinhazinha. Paula n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    capaz de engomar melhor do que eu; sinhazinha h&aacute; de me levar, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; assim?<\/p>\n<p>&#8211; E a mim tamb&eacute;m, sinhazinha, h&aacute; que tempos que eu n&atilde;o<br \/>\n    vou &agrave; vila.<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te; voc&ecirc; ainda outro dia foi &agrave; desobriga, e eu fiquei;<br \/>\n    agora &eacute; que eu devo ir, sinhazinha.<\/p>\n<p>&#8211; E eu ent&atilde;o? voc&ecirc;s todas t&ecirc;m ido &agrave; vila este ano,<br \/>\n    e eu, pobre de mim, ainda nem para ouvir uma missa.<\/p>\n<p>L&uacute;cia via-se zonza no meio daquela algazarra de pedidos importunos<br \/>\n    que choviam sobre ela a um tempo a atordoar-lhe os ouvidos, como um bando<br \/>\n    de maritacacas.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo que vejo, vai a n&atilde;o ficar ningu&eacute;m em casa! H&atilde;o<br \/>\n    de ir aquelas que for poss&iacute;vel. Havemos de ver isso depois. Por agora<br \/>\n    tratem de seu servi&ccedil;o e n&atilde;o estejam a me aborrecer.<\/p>\n<p>Estas palavras, a que L&uacute;cia ent&atilde;o procurava dar um tom severo,<br \/>\n    n&atilde;o produziram sen&atilde;o um efeito passageiro. A tagarelagem e as<br \/>\n    importuna&ccedil;&otilde;es continuaram na mesma, da&iacute; a pouco, e n&atilde;o<br \/>\n    teriam fim, se o sol que se ia escondendo atr&aacute;s das colinas n&atilde;o<br \/>\n    viesse avisar que era tempo de se recolherem.<\/p>\n<p>As negras trataram de arrumar a roupa em gamelas e balaios, que puseram na<br \/>\n    cabe&ccedil;a; L&uacute;cia tomou em um dos bra&ccedil;os seu balainho de<br \/>\n    costura, deu a m&atilde;o &agrave; sua irm&atilde;zinha, e todo aquele alegre<br \/>\n    e interessante grupo a um de fundo foi desaparecendo por entre o laranjal.<\/p>\n<p>Da&iacute; a pouco ouvia-se a sineta da casa chamando a fam&iacute;lia e<br \/>\n    os escravos para a reza da ave-maria, e ao som dessa reza, dos &uacute;ltimos<br \/>\n    cantos do galo e dos gorjeios do sabi&aacute;, enviando &agrave; tarde um<br \/>\n    derradeiro adeus, a paz e a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o do c&eacute;u desciam<br \/>\n    nas asas cinzentas do crep&uacute;sculo sobre aquelas tranq&uuml;ilas solid&otilde;es.<\/p>\n<p>L&uacute;cia tinha dezoito anos; seus cabelos eram da cor do jacarand&aacute;<br \/>\n    brunido, seus olhos tamb&eacute;m eram assim, castanhos bem escuros. Este<br \/>\n    tipo, que n&atilde;o &eacute; muito comum, d&aacute; uma gra&ccedil;a e suavidade<br \/>\n    indefin&iacute;vel &agrave; fisionomia.<\/p>\n<p>Sua tez era o meio-termo entre o alvo e o moreno, que &eacute;, a meu ver,<br \/>\n    a mais am&aacute;vel de todas as cores. Suas fei&ccedil;&otilde;es, ainda<br \/>\n    que n&atilde;o eram de irrepreens&iacute;vel regularidade, eram indicadas<br \/>\n    por linhas suaves e harmoniosas. Era bem-feita, e de alta e garbosa estatura.<\/p>\n<p>Retirada na solid&atilde;o da fazenda paterna, desde que sa&iacute;ra da<br \/>\n    escola, L&uacute;cia crescera como o arbusto do deserto, desenvolvendo em<br \/>\n    plena liberdade todas as suas gra&ccedil;as naturais, e conservando ao lado<br \/>\n    dos encantos da puberdade toda a singeleza e inoc&ecirc;ncia da inf&acirc;ncia.<\/p>\n<p>L&uacute;cia n&atilde;o tinha uma dessas cinturas t&atilde;o estreitas que<br \/>\n    se possam abranger entre os dedos das m&atilde;os; mas era fina e flex&iacute;vel.<br \/>\n    Suas m&atilde;os e p&eacute;s n&atilde;o eram dessa pequenez e delicadeza<br \/>\n    hiperb&oacute;lica, de que os romancistas fazem um dos principais m&eacute;ritos<br \/>\n    das suas hero&iacute;nas; mas eram bem-feitos e proporcionados.<\/p>\n<p>L&uacute;cia n&atilde;o era uma dessas fadas de formas a&eacute;reas e vaporosas,<br \/>\n    uma s&iacute;lfide ou uma baiadera, dessas que fazem o encanto dos sal&otilde;es<br \/>\n    de luxo. Tom&aacute;-la-&iacute;eis antes por uma das companheiras de Diana,<br \/>\n    a ca&ccedil;adora de formas esbeltas, mas vigorosas, de singelo mas gracioso<br \/>\n    gesto.<\/p>\n<p>Todavia era dotada de certa eleg&acirc;ncia natural, e de uma delicadeza<br \/>\n    de sentimentos que n&atilde;o se esperaria encontrar em uma roceira.<\/p>\n<p>Esses dotes ela os devia em parte ao c&eacute;u, que tanto a favorecera,<br \/>\n    e em parte &agrave; sua m&atilde;e, mulher espirituosa e sens&iacute;vel,<br \/>\n    e que se esmerava em dar-lhe uma excelente educa&ccedil;&atilde;o, que L&uacute;cia<br \/>\n    procurava transmitir &agrave; sua pequena irm&atilde;, desde o ber&ccedil;o.<\/p>\n<p>Quanto ao Major, homem de espirito acanhado, frio e positivista, mas boa<br \/>\n    alma, o melhor dote que julgava poder dar &agrave;s suas filhas era dinheiro<br \/>\n    e s&oacute; dinheiro.<\/p>\n<p>A gentil sertaneja bem raras vezes ia &agrave; vila do Patroc&iacute;nio;<br \/>\n    sua vida deslizava-se naquele ermo tranq&uuml;ila e uniforme, como o murm&uacute;rio<br \/>\n    mon&oacute;tono de uma fonte, e sua alma era pura e alegre como manh&atilde;<br \/>\n    de abril, pl&aacute;cida e serena como uma noite de luar. Mas a vida n&atilde;o<br \/>\n    lhe corria inativa, e nem seu cora&ccedil;&atilde;o estava vazio.<\/p>\n<p>Al&eacute;m de sua irm&atilde;zinha, em que concentrava as suas mais ternas<br \/>\n    afei&ccedil;&otilde;es, e a quem servia de mestra e de m&atilde;e na falta<br \/>\n    da verdadeira, que h&aacute; muito haviam perdido, eram seus cuidados uma<br \/>\n    linda e mansa vaquinha favorita, da qual todos os dias com suas pr&oacute;prias<br \/>\n    m&atilde;os tirava o alvo e espumante leite; eram suas pombas, seu pequeno<br \/>\n    jardim, e seu lindo orat&oacute;rio, que sempre trazia enfeitado de frescas<br \/>\n    e fragrantes flores, e em que todas as noites, com sua irm&atilde;zinha ao<br \/>\n    lado, rezava por alma de sua m&atilde;e.<\/p>\n<p>L&uacute;cia tinha prazer todas as vezes que se oferecia ocasi&atilde;o de<br \/>\n    ir &agrave; vila a qualquer festa, ou simplesmente para ouvir missa. Era uma<br \/>\n    agrad&aacute;vel interrup&ccedil;&atilde;o &agrave; sua vida mon&oacute;tona<br \/>\n    de roceira; ia espairecer um pouco seu esp&iacute;rito na sociedade, ia ver<br \/>\n    e gozar da companhia de suas amigas de escola. Mas, passados alguns dias,<br \/>\n    come&ccedil;ava a sentir saudades de sua vaquinha, de suas pombas, de suas<br \/>\n    flores e de seu orat&oacute;rio.<\/p>\n<p>Naquela ocasi&atilde;o, em que havia festas espl&ecirc;ndidas e arrojadas,<br \/>\n    como h&aacute; muitos anos n&atilde;o se faziam naquele lugar por ocasi&atilde;o<br \/>\n    do anivers&aacute;rio da independ&ecirc;ncia, havia ainda mais um incentivo,<br \/>\n    e pode-se fazer id&eacute;ia da alegria infantil com que L&uacute;cia e J&uacute;lia<br \/>\n    faziam os preparativos da pequena viagem, e da impaci&ecirc;ncia com que esperavam<br \/>\n    o dia da partida.<\/p>\n<p>Para L&uacute;cia havia ainda mais um poderoso motivo de emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e alegria. O gentil mancebo, que pousara em sua casa, e que ia correr nas<br \/>\n    cavalhadas, n&atilde;o lhe sa&iacute;a da lembran&ccedil;a. Ao pensar nele<br \/>\n    L&uacute;cia sentia no cora&ccedil;&atilde;o um alvoro&ccedil;o estranho,<br \/>\n    como nunca sentira em dia de sua vida.<\/p>\n<h2><a name=\"2\">II &#8211; A CAVALHADA<\/a><\/h2>\n<p>A vila do Patroc&iacute;nio est&aacute; em uma das mais lindas e apraz&iacute;veis<br \/>\n    situa&ccedil;&otilde;es. Ocupa o alto e os lan&ccedil;antes de uma colina<br \/>\n    de pendor suave, encostada de um lado ao topo de uma serra, e gozando pelos<br \/>\n    outros lados da mais risonha e extrema perspectiva de largos e formosos horizontes.<\/p>\n<p>Nas v&eacute;speras da festa, a que nos reportamos (h&aacute; de haver mais<br \/>\n    de vinte anos), a alegre e faceira vila estava mesmo lou&ccedil;&atilde; e<br \/>\n    garrida, como menina da ro&ccedil;a, que se enfeita com alegre sofreguid&atilde;o<br \/>\n    para ir &agrave; festa na povoa&ccedil;&atilde;o vizinha. As fazendas e arraialetes,<br \/>\n    num raio de dez l&eacute;guas em redor, tinham ficado despovoados. As casas<br \/>\n    da pequena vila j&aacute; n&atilde;o eram suficientes para acomodar tanta<br \/>\n    gente; os ranchos improvisados e cobertos de capim; as barracas e os carros<br \/>\n    de bois, outras barracas ambulantes, com seu toldo de couro, agrupados em<br \/>\n    desordem pelas campinas e vargedos vizinhos, abrigavam uma multid&atilde;o<br \/>\n    de fam&iacute;lias sertanejas, que ao sol sempre brilhante daquelas paragens,<br \/>\n    onde se desconhecem as neblinas e aguaceiros, alardeavam seus vestidos de<br \/>\n    cores vivas e variegadas, seus grossos ros&aacute;rios e trancelins de ouro<br \/>\n    com pesados relic&aacute;rios e medalhas pendentes do pesco&ccedil;o, derramando-se<br \/>\n    pelo seio com incr&iacute;vel profus&atilde;o. Os rapazes montados em lindos<br \/>\n    poldros ou em possantes mulas ajaezadas de prataria, as esporeavam pelas ruas,<br \/>\n    procurando fazer admirar as excelentes qualidades de suas cavalgaduras, e<br \/>\n    o seu desempenho e galhardia em dirigi-las. As violas, viol&otilde;es e guitarras<br \/>\n    ressoavam por todos os cantos daquela vila que sempre foi not&aacute;vel por<br \/>\n    seu gosto pelas sinfonias e serenatas.<\/p>\n<p>A arena ou circo, em que se deviam correr as cavalhadas, era no meio do largo<br \/>\n    da Matriz, em uma esplanada que fica na parte mais eminente do outeiro em<br \/>\n    que est&aacute; situada a vila. Era um arco circular de cento e vinte passos,<br \/>\n    mais ou menos, de di&acirc;metro, em torno do qual os particulares iam construindo<br \/>\n    em desordem e sem simetria alguma seus palanques toldados e guarnecidos em<br \/>\n    roda de colchas de damasco, de seda e de chita de variadas e brilhantes cores.<\/p>\n<p>Dois dias antes da festa, &agrave; tarde, fazia sua entrada na vila pela<br \/>\n    estrada do sert&atilde;o uma fam&iacute;lia, que, entre outras muitas que<br \/>\n    iam chegando, atraiu particularmente a aten&ccedil;&atilde;o do povo que vagava<br \/>\n    pelas ruas, e que se apinhava pelas portas e janelas. Era um homem idoso,<br \/>\n    tendo a seu lado uma jovem e gentil cavaleira, que cavalgava com suma gra&ccedil;a<br \/>\n    um lindo ginete branco, uma menina de nove a dez anos, e alguns pajens e mucamas<br \/>\n    a cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Que mo&ccedil;a t&atilde;o bonita &eacute; aquela? &#8211; perguntavam dali.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; a L&uacute;cia! pois n&atilde;o conhecem a L&uacute;cia? ah! cada<br \/>\n    vez mais bela!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; a L&uacute;cia! a&iacute; vem a L&uacute;cia! &#8211; sussurrava-se<br \/>\n    em outro grupo; e mo&ccedil;os, velhos e meninos a correrem &agrave;s janelas<br \/>\n    para verem aquela peregrina formosura, cuja fama h&aacute; muito j&aacute;<br \/>\n    se tinha espalhado por toda aquela redondeza.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; um sol de formosura! exclamavam simpaticamente os velhos. &Eacute;<br \/>\n    o retrato de sua m&atilde;e, que eu conheci muito no meu tempo, mas retrato<br \/>\n    favorecido&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; na verdade bonita &#8211; diziam as mo&ccedil;as; mas, coitada, por<br \/>\n    viver sempre na ro&ccedil;a, est&aacute; com um ar t&atilde;o acanhado.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, prima, se a senhora n&atilde;o fosse t&atilde;o bonita, eu diria que<br \/>\n    isso &eacute; inveja. Veja com que gra&ccedil;a e desembara&ccedil;o ela governa<br \/>\n    o cavalo&#8230; queria que ela estivesse a olhar sempre para todos os lados?<\/p>\n<p>Quando uma mo&ccedil;a &eacute; bonita, airosa e bem-feita, se cavalga um<br \/>\n    lindo ginete e sabe bem dirigi-lo, seus encantos ganham novo realce. Com o<br \/>\n    movimento as faces se incendem de cores mais vivas, os olhos despedem mais<br \/>\n    fulgor, e o porte como que se torna mais garboso e senhoril. L&uacute;cia,<br \/>\n    que reunia todas aquelas condi&ccedil;&otilde;es em grau eminente, estava<br \/>\n    fascinadora. Sua entrada na vila produziu uma verdadeira expecta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Que bonita mo&ccedil;a! e como governa bem o seu lindo cavalinho! &#8211; dizia-se<br \/>\n    ainda em um grupo de mo&ccedil;os, que se afastara a um canto para v&ecirc;-la.<br \/>\n    Eu prefiro este espet&aacute;culo a quanta cavalhada h&aacute; neste mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz&atilde;o. Entre as coisas lindas, que h&aacute; neste mundo, uma<br \/>\n    das mais lindas &eacute; ver uma linda mo&ccedil;a montada em um lindo cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! se as mulheres tamb&eacute;m corressem cavalhadas, e pilh&aacute;ssemos<br \/>\n    um terno de cavaleiras como aquela!&#8230; que dizes, Elias?<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; imposs&iacute;vel &#8211; respondeu este &#8211; como aquela n&atilde;o<br \/>\n    pode haver outra no mundo. Mas nesse caso eu quisera correr cavalhadas toda<br \/>\n    a minha vida!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! meu Deus! a primeira argolinha, que eu correr, e que hei de tirar por<br \/>\n    for&ccedil;a, h&aacute; de ser oferecida &agrave;quela incompar&aacute;vel<br \/>\n    formosura.<\/p>\n<p>&#8211; Alto l&aacute;, eu corro primeiro que tu, e serei eu que primeiro terei<br \/>\n    a honra de ofertar-lhe o anel&#8230; que ventura, j&aacute; estou sonhando com<br \/>\n    o gracioso sorriso com que ela tem de agradecer-me.<\/p>\n<p>&#8211; Que esperan&ccedil;a! na primeira corrida voc&ecirc;s todos h&atilde;o<br \/>\n    de errar, eu aposto; e eu, que serei um dos &uacute;ltimos a correr serei<br \/>\n    o primeiro a levar a argolinha &agrave; gentil dama, e o que voc&ecirc;s ainda<br \/>\n    n&atilde;o sabem, o pai dela com quem muito me dou, me h&aacute; de convidar<br \/>\n    a jantar em sua casa. Olhem, n&atilde;o v&atilde;o morrer de inveja.<\/p>\n<p>O grupo, como se v&ecirc;, era de corredores de cavalhadas, e entre eles<br \/>\n    achava-se Elias. L&uacute;cia o tinha avistado, e tinham-se saudado com os<br \/>\n    olhos. Elias ao ouvir as palavras de seus companheiros remo&iacute;a-se por<br \/>\n    dentro, e come&ccedil;ava a sentir as primeiras inquieta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do amor. Quando passara pela fazenda do Major sentira irresist&iacute;vel<br \/>\n    atra&ccedil;&atilde;o pela mo&ccedil;a; mas, atendendo &agrave; sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mo&ccedil;o pobre e sem posi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o ousara afagar<br \/>\n    muito aquele sentimento, que esperava em breve se desvaneceria. Quando por&eacute;m<br \/>\n    a viu entrar na vila radiante de beleza, e como que rodeada de uma aur&eacute;ola<br \/>\n    de prestigio, quando a viu tornar-se o alvo da admira&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    tantos ricos e galhardos mo&ccedil;os, que pareciam porfiados em merecer dela<br \/>\n    um olhar ou um sorriso, Elias sentiu um n&atilde;o sei qu&ecirc; picar-lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o, e compreendeu que nunca poderia ver de bom grado<br \/>\n    aquela beleza passar ao poder de outrem.<\/p>\n<p>Depois de dar o tempo necess&aacute;rio para o descanso dos rec&eacute;m-chegados,<br \/>\n    que se apearam em uma das melhores casas do largo, Elias foi um dos primeiros<br \/>\n    a visit&aacute;-los, no que n&atilde;o s&oacute; cumpria um dever como tamb&eacute;m<br \/>\n    satisfazia o mais ansioso anelo do seu cora&ccedil;&atilde;o. A recep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi cordial e afetuosa. E escusado dizer que L&uacute;cia, ao ver o mo&ccedil;o,<br \/>\n    corou de um modo muito expressivo.<\/p>\n<p>Havia j&aacute; l&aacute;, na sala do Major, um jovem trajado com eleg&acirc;ncia<br \/>\n    e certo requinte de mau gosto, por&eacute;m, &agrave; &uacute;ltima moda.<br \/>\n    Sobre o colete brilhavam-lhe a grossa cadeia do rel&oacute;gio, guarnecida<br \/>\n    de uma infinidade de penduricalhos, a luneta com seu competente trancelim,<br \/>\n    e no peito da camisa um formid&aacute;vel alfinete de diamante. O colete tinha<br \/>\n    tamb&eacute;m uma cintilante abotoadura met&aacute;lica. Era em tudo o tipo<br \/>\n    acabado do peralvilho da corte, todo frisado e almiscarado. Era um negociante<br \/>\n    fluminense h&aacute; pouco estabelecido no lugar. Fora a principio mascate<br \/>\n    ambulante, mas havia um ano que se instalara no Patroc&iacute;nio com loja<br \/>\n    e balc&atilde;o, e segundo dizia estava bem principiado, e em vias de enriquecer-se.<br \/>\n    Gostava muito de L&uacute;cia, e fazia a corte ao Major que o n&atilde;o olhava<br \/>\n    com maus olhos; pois via nele um rica&ccedil;o em esperan&ccedil;a, e por<br \/>\n    conseguinte um excelente genro.<\/p>\n<p>Elias viu com desespero que por toda a parte n&atilde;o encontrava sen&atilde;o<br \/>\n    rivais. Essa circunst&acirc;ncia, por&eacute;m, longe de desalent&aacute;-lo,<br \/>\n    mais estimulava e incendiava a sua nascente paix&atilde;o.<\/p>\n<p>O jovem negociante era de conversa&ccedil;&atilde;o jovial e zombeteira.<br \/>\n    Para se inculcar de fina e polida educa&ccedil;&atilde;o escarnecia de tudo<br \/>\n    quanto era do sert&atilde;o, e naquela ocasi&atilde;o, para dar mostras de<br \/>\n    seu esp&iacute;rito, come&ccedil;ou pelas cavalhadas.<\/p>\n<p>&#8211; Na corte ningu&eacute;m iria ver cavalhadas sen&atilde;o para rir-se. &Eacute;<br \/>\n    um divertimento do tempo de El-Rei nosso senhor. Que papel rid&iacute;culo<br \/>\n    n&atilde;o fazem esses papalvos que ali v&atilde;o galopar enfeitados de chap&eacute;us<br \/>\n    armados, bandas, fitas e ourop&eacute;is como figuras de entremez!&#8230; E a<br \/>\n    embaixada, Santo Deus! h&aacute; nada mais est&uacute;pido! admira que ainda<br \/>\n    haja homens s&eacute;rios, que assim se atrevam a prestar-se ao debique em<br \/>\n    p&uacute;blico sobre um cavalo dan&ccedil;ador, repetindo de boca cheia umas<br \/>\n    asneiras que ningu&eacute;m entende! &Eacute; espet&aacute;culo pr&oacute;prio<br \/>\n    s&oacute; para bobos ou crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>&#8211; Ora deixe-se disso, senhor Azevedo &#8211; replicou o Major &#8211; o senhor &eacute;<br \/>\n    bem dif&iacute;cil de contentar. O nosso povo gosta de cavalhadas, &eacute;<br \/>\n    doido por elas. N&atilde;o podemos ter circos nem teatros, como nas grandes<br \/>\n    cidades; que rem&eacute;dio se n&atilde;o nos servirmos com a lou&ccedil;a<br \/>\n    de casa!<\/p>\n<p>&#8211; Ora! fa&ccedil;am banquetes, fa&ccedil;am bailes, fa&ccedil;am corridas<br \/>\n    de touros; n&atilde;o faltam meios de divertir-se o povo; mas deixem-se dessa<br \/>\n    triste bobice das cavalhadas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas talvez V. S.&ordf; goste de ver estas. Os cavaleiros s&atilde;o excelentes;<br \/>\n    temos soberbos cavalos, e est&atilde;o muito bem doutrinados.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! nestas coisas, quanto melhor, pior! Quanto mais perfeito anda o neg&oacute;cio,<br \/>\n    mais rid&iacute;culo. Antes fosse uma verdadeira mascarada carnavalesca e<br \/>\n    doidejante; mas aquela c&ocirc;mica gravidade, aquela ins&iacute;pida regularidade,<br \/>\n    &eacute; coisa tristemente rid&iacute;cula.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; para V. S.&ordf;, acostumado aos brilhantes e variados espet&aacute;culos<br \/>\n    da corte; mas para n&oacute;s, pobres roceiros, n&atilde;o h&aacute; nada<br \/>\n    mais divertido do que ver um guapo cavaleiro dirigindo um bom e bem doutrinado<br \/>\n    ginete, tirar uma argolinha, e, encaminhando-se a um palanque, ofert&aacute;-la<br \/>\n    a uma formosa dama&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim; e depois com cara d&#8217;asno vir volteando o c&iacute;rculo com um molho<br \/>\n    de fitas na ponta da lan&ccedil;a, ao som de m&uacute;sicas e foguetarias,<br \/>\n    e ir colocar-se de novo muito concho no seu posto. H&aacute; nada mais ins&iacute;pido!<br \/>\n    S&atilde;o coisas que se devem deixar para os artistas do circo eq&uuml;estre,<br \/>\n    que as fazem muito melhores, e disso ganham a vida.<\/p>\n<p>Elias, que ouvia com impaci&ecirc;ncia as palavras do negociante, que humilhavam<br \/>\n    e o feriam em seu amor-pr&oacute;prio, julgou que n&atilde;o devia deixar<br \/>\n    sem resposta os motejos daquele pelintra, com quem, sem saber por qu&ecirc;,<br \/>\n    embirrara desde princ&iacute;pio, e assentou de confundi-lo e esmag&aacute;-lo.<br \/>\n    Elias, que al&eacute;m de ter feito os estudos preparat&oacute;rios, por seu<br \/>\n    amor &agrave; leitura tinha adquirido variada instru&ccedil;&atilde;o, era<br \/>\n    de feito muito superior ao seu advers&aacute;rio.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o &#8211; replicou Elias com polidez &#8211; n&atilde;o lhe acho raz&atilde;o,<br \/>\n    meu senhor, e entendo que a cavalhada &eacute; um divertimento muito nobre,<br \/>\n    muito agrad&aacute;vel, e muito &uacute;til.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras! e n&atilde;o me far&aacute; o favor de dizer em qu&ecirc;?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em qu&ecirc;? em muita coisa. O senhor bem sabe que as cavalhadas n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o mais do que uma imagem, um simulacro das antigas justas e torneios.<br \/>\n    Mas esses divertimentos b&aacute;rbaros, em que se derramava sangue, e que<br \/>\n    muitas vezes custavam a vida aos justadores, n&atilde;o podem compadecer-se<br \/>\n    com as luzes e costumes da civiliza&ccedil;&atilde;o atual, e admira que,<br \/>\n    mesmo nos sanguin&aacute;rios tempos da m&eacute;dia idade, fossem tolerados<br \/>\n    entre povos crist&atilde;os. A cavalhada, por&eacute;m, ficou como uma imita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquelas lutas cavalheirescas, que, n&atilde;o custando o sangue nem a vida<br \/>\n    a ningu&eacute;m, oferece um brilhante e nobre espet&aacute;culo aos olhos<br \/>\n    do povo. A equita&ccedil;&atilde;o &eacute; uma arte &uacute;til, necess&aacute;ria<br \/>\n    mesmo; ningu&eacute;m o pode contestar. A cavalhada produz est&iacute;mulo<br \/>\n    e emula&ccedil;&atilde;o entre os mo&ccedil;os para se exercerem nesta vantajosa<br \/>\n    e nobre arte, dando-lhes ocasi&atilde;o de alardear o seu garbo e destreza<br \/>\n    em dirigir um possante e fogoso ginete aos olhos do p&uacute;blico, e &agrave;s<br \/>\n    vezes tamb&eacute;m de uma amante querida, que do fundo do seu palanque o<br \/>\n    anima com um olhar, ou com um sorriso. Dizendo estas &uacute;ltimas palavras,<br \/>\n    Elias lan&ccedil;ou furtivamente sobre L&uacute;cia um olhar r&aacute;pido.<\/p>\n<p>&#8211; Triste meio de agradar &agrave;s belas, fazendo papel de tru&atilde;o!<br \/>\n    exclamou com uma gargalhada o jovem negociante.<\/p>\n<p>&#8211; E mais nobre e cavalheiresco &#8211; retorquiu Elias &#8211; do que o namoro nos bailes<br \/>\n    e nas igrejas, que &eacute; t&atilde;o comum hoje. E ainda nisto a cavalhada<br \/>\n    &eacute; uma semelhan&ccedil;a dos antigos torneios, nos quais os campe&otilde;es<br \/>\n    tinham sempre uma dama dos seus pensamentos, pela qual iam romper lan&ccedil;as<br \/>\n    na sanguinosa li&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! meu senhor! j&aacute; l&aacute; se foi o tempo dos D. Quixotes e das<br \/>\n    Dulcin&eacute;ias &#8211; disse o negociante.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade; hoje estamos no tempo dos melcatrefes e dos bonecos almiscarados;<br \/>\n    duvido que melhor&aacute;ssemos nesse ponto. O uso de correr cavalhadas tamb&eacute;m<br \/>\n    produziria ainda uma outra vantagem, e seria inspirar aos nossos fazendeiros<br \/>\n    o gosto pela cria&ccedil;&atilde;o de bons e bonitos animais, tendo mais capricho<br \/>\n    na escolha e apura&ccedil;&atilde;o das ra&ccedil;as cavalares, coisas de<br \/>\n    m&aacute;xima import&acirc;ncia, e que em nosso pa&iacute;s se trata com o<br \/>\n    maior desleixo. A cavalaria &eacute; uma das armas mais poderosas, principalmente<br \/>\n    nas guerras da Am&eacute;rica, onde ela &eacute; indispens&aacute;vel, e sem<br \/>\n    bons cavalos e bons cavaleiros n&atilde;o pode haver boa cavalaria. Quando<br \/>\n    a arte for uma arte in&uacute;til, quando a carreira militar for uma profiss&atilde;o<br \/>\n    ign&oacute;bil e desprez&iacute;vel, ent&atilde;o a cavalhada ser&aacute;<br \/>\n    um espet&aacute;culo s&oacute; pr&oacute;prio para bobos e crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o creia que h&atilde;o de ser as cavalhadas, que se correm de<br \/>\n    anos em anos, quando se correm, que nos h&atilde;o de dar bons cavaleiros,<br \/>\n    nem bons cavalos. Infelizes de n&oacute;s, se n&atilde;o houvesse outros meios<br \/>\n    de obt&ecirc;-los, como as escolas de equita&ccedil;&atilde;o, as corridas<br \/>\n    de parelhas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas onde est&aacute; nada disso entre n&oacute;s? As escolas de equita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seriam &uacute;teis, sem d&uacute;vida; mas as cavalhadas e todos os espet&aacute;culos<br \/>\n    eq&uuml;estres seriam um complemento delas, porque estimulariam os mo&ccedil;os<br \/>\n    a se exercerem nessa arte oferecendo-lhes ocasi&atilde;o de exibirem em p&uacute;blico<br \/>\n    sua agilidade e galhardia. Ningu&eacute;m freq&uuml;entaria as escolas de<br \/>\n    m&uacute;sica ou de qualquer outra arte agrad&aacute;vel, se n&atilde;o houvesse<br \/>\n    ocasi&atilde;o de apresentar em p&uacute;blico, em ocasi&otilde;es solenes<br \/>\n    como nas igrejas e nos teatros, seu talento e maestria. Para n&oacute;s, por&eacute;m,<br \/>\n    que desde a inf&acirc;ncia andamos a cavalo, essas escolas s&atilde;o muito<br \/>\n    dispens&aacute;veis, e mesmo sem elas sabemos, n&atilde;o s&oacute; governar,<br \/>\n    como domar e doutrinar os mais fogosos animais, e quando &eacute; ocasi&atilde;o<br \/>\n    de nos apresentarmos em p&uacute;blico; em breve o senhor poder&aacute; julgar<br \/>\n    se somos ou n&atilde;o bons cavaleiros.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! pelo que vejo, o senhor tamb&eacute;m &eacute; um dos corredores da<br \/>\n    cavalhada? nesse caso pe&ccedil;o-lhe mil perd&otilde;es pelo que tenho dito;<br \/>\n    mas, meu amigo, a falar-lhe com franqueza, n&atilde;o lhe invejo o gosto.<\/p>\n<p>&#8211; Embora!&#8230; O senhor acha rid&iacute;cula a cavalhada; mas, pergunto eu,<br \/>\n    qual ser&aacute; mais rid&iacute;culo, uma cavalhada ou um baile? Quem se<br \/>\n    presta mais ao debique p&uacute;blico: aquele que dirige e sopeia um generoso<br \/>\n    corcel no meio da li&ccedil;a, sopesando uma lan&ccedil;a ou brandindo uma<br \/>\n    espada, ou aquele que ao lado de uma dama arrasta os p&eacute;s em um sal&atilde;o,<br \/>\n    fazendo mesuras, trejeitos e requebros? Qual ser&aacute; a prenda mais &uacute;til<br \/>\n    e mais nobre, a dan&ccedil;a ou a equita&ccedil;&atilde;o? qual ser&aacute;<br \/>\n    mais proveitoso ao pa&iacute;s, um bom dan&ccedil;arino ou um bom cavaleiro?<\/p>\n<p>O negociante sentiu-se algum tanto desconcertado com as calorosas tiradas<br \/>\n    do jovem sertanejo em defesa das cavalhadas, e que eram interrompidas continuamente<br \/>\n    pelos aplausos e animadores apartes do Major. L&uacute;cia, que n&atilde;o<br \/>\n    supunha Elias t&atilde;o instru&iacute;do e bem-falante, o escutava com &iacute;ntima<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o e aplaudia, ora com um gesto, ora com um sorriso.<\/p>\n<p>&#8211; Seja como quiser, meu caro senhor &#8211; disse o negociante. &#8211; N&atilde;o sabia<br \/>\n    que era cavaleiro e t&atilde;o entusiasta; agora que o sei, n&atilde;o me<br \/>\n    animo mais a contrari&aacute;-lo. Fique cada um com sua opini&atilde;o que<br \/>\n    n&atilde;o vale a pena questionar sobre semelhante coisa.<\/p>\n<p>E, dirigindo-se ao Major, mudou bruscamente de conversa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No entanto, Elias teve ocasi&atilde;o de dirigir timidamente a L&uacute;cia<br \/>\n    algumas palavras sem import&acirc;ncia, s&oacute; pelo prazer de falar com<br \/>\n    ela e de lhe ouvir a voz. Por fim sempre se animou a pedir permiss&atilde;o<br \/>\n    para oferecer-lhe a primeira argolinha que tirasse nas corridas do primeiro<br \/>\n    dia.<\/p>\n<p>No dia 7 houve pela manh&atilde; a missa cantada, o te-d&eacute;um e a parada<br \/>\n    de costume. Tudo era farda: no meio daquela multid&atilde;o de uniformes,<br \/>\n    os homens vestidos &agrave; paisana formavam uma minoria impercept&iacute;vel.<br \/>\n    As fam&iacute;lias que queriam ir &agrave; igreja eram conduzidas pelas crian&ccedil;as<br \/>\n    e escravas, pois os pais e os irm&atilde;os adultos por via de regra estavam<br \/>\n    debaixo de forma. Assistindo-se aos festejos de gala nas vilas do interior,<br \/>\n    dir-se-ia que n&atilde;o h&aacute; povo mais militarizado que o nosso. Entretanto,<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; povo mais essencialmente pac&iacute;fico, menos propenso<br \/>\n    &agrave; carreira das armas.<\/p>\n<p>A lei lhe imp&otilde;e o dever de envergar uma farda e entrar em forma em<br \/>\n    certos dias do ano, e eis em que consiste o militarismo e a miss&atilde;o<br \/>\n    &uacute;nica da guarda nacional.<\/p>\n<p>&Agrave; tarde tiveram lugar as cavalhadas.<\/p>\n<p>&Agrave;s tr&ecirc;s horas, j&aacute; os palanques toldados de colchas de<br \/>\n    cores brilhantes estavam atulhados de fam&iacute;lias. Por baixo e em torno<br \/>\n    deles formigava remoinhando uma multid&atilde;o inquieta, esperando com impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    o come&ccedil;o do espet&aacute;culo.<\/p>\n<p>Por fim o estouro das gir&acirc;ndolas e o repique dos sinos deram sinal<br \/>\n    da vinda dos cavaleiros.<\/p>\n<p>Dai a um instante estes, divididos em duas turmas de dez cada uma, entraram<br \/>\n    na arena a galope por lados opostos, montados em lindos ginetes ricamente<br \/>\n    ajaezados e enfeitados de fitas e ourop&eacute;is, penachos e ressoantes guizos,<br \/>\n    e meneando as lan&ccedil;as ornadas de compridas fitas. N&atilde;o traziam<br \/>\n    m&aacute;scara, nem estavam trajados a car&aacute;ter, como &eacute; costume<br \/>\n    em algumas partes; mas, segundo o uso do sert&atilde;o, traziam uniforme militar<br \/>\n    &agrave; moda do tempo, cada um a seu talante e com primor e riqueza que podia.<br \/>\n    Uma das turmas, por&eacute;m, trazia farda azul, e outra escarlate, figurando<br \/>\n    aquela os crist&atilde;os, e esta os mouros.<\/p>\n<p>Depois de fazerem diversas evolu&ccedil;&otilde;es, postaram-se as duas turmas<br \/>\n    em fila defronte uma da outra nas extremidades do circo. Cada cavaleiro tinha<br \/>\n    o seu pajem da lan&ccedil;a a p&eacute;, conduzindo pela r&eacute;dea mais<br \/>\n    um cavalo &agrave; destra.<\/p>\n<p>&Eacute; escusado descrever todas as evolu&ccedil;&otilde;es das corridas,<br \/>\n    porque suponho que os leitores pela maior parte t&ecirc;m assistido a este<br \/>\n    divertimento, se bem que este hoje v&aacute; caindo em completo desuso e esquecimento.<\/p>\n<p>Elias era o segundo da fila dos mouros, e logo na primeira corrida ia sendo<br \/>\n    v&iacute;tima de um infeliz contratempo. Seu cavalo nimiamente fogoso e pouco<br \/>\n    acostumado ao estrondo da m&uacute;sica e da foguetaria, desgovernou-se, e<br \/>\n    era quase imposs&iacute;vel ao cavaleiro faz&ecirc;-lo trilhar a linha marcada.<br \/>\n    Corria ou antes corcoveava &agrave; direita e &agrave; esquerda, como um poldro<br \/>\n    bravio. Elias exasperado o castigava rigorosamente. O cavalo falseou de uma<br \/>\n    das m&atilde;os, e caiu de peito em terra. Elias saltou fora dos arreios;<br \/>\n    o cavalo levantou-se imediatamente; mas uma roseta da espora tendo se embara&ccedil;ado<br \/>\n    no selim, Elias caiu e foi arrastado pelo circo umas dez bra&ccedil;as no<br \/>\n    maior perigo do mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Jesus! Maria! Miseric&oacute;rdia! &#8211; foi o grito de alarme, que ressoou<br \/>\n    por todos os palanques.<\/p>\n<p>Mas Elias se desvencilhara, e estava prestes a montar de novo; mas seus companheiros<br \/>\n    n&atilde;o queriam consentir; ele por&eacute;m insistiu vivamente at&eacute;<br \/>\n    que um pajem, vindo a toda pressa do palanque do Major, veio pedir-lhe por<br \/>\n    parte deste e de sua filha L&uacute;cia que n&atilde;o corresse mais naquele<br \/>\n    cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Sinhazinha teve tamanho susto, que ficou fora de si, e quase caiu &#8211; disse<br \/>\n    o pajem.<\/p>\n<p>Ao saber que L&uacute;cia tinha desmaiado, Elias teve &iacute;mpetos de matar<br \/>\n    ali mesmo o cavalo a lan&ccedil;adas e correr aos bra&ccedil;os dela; mas<br \/>\n    ao mesmo tempo n&atilde;o podia deixar de aben&ccedil;oar do &iacute;ntimo<br \/>\n    d&#8217;alma aquele incidente, que viera revelar de modo t&atilde;o positivo o grau<br \/>\n    de interesse que inspirava &agrave; jovem e gentil roceira.<\/p>\n<p>O jovem fluminense, que nunca largava a companhia do Major, estava em seu<br \/>\n    palanque.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! minha senhora &#8211; exclamou ele com certo despeito ao ver o susto e inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de L&uacute;cia &#8211; n&atilde;o vale a pena tomar tanto cuidado pelo pobre rapaz.<br \/>\n    Deixa-o; est&aacute; no seu torneio; e, se aqui n&atilde;o se quebram lan&ccedil;as,<br \/>\n    nem rompem-se coura&ccedil;as em honra das amantes, ao menos quebram-se as<br \/>\n    costelas no ch&atilde;o. E resultado do entusiasmo cavalheiresco.<\/p>\n<p>L&uacute;cia apenas respondeu com um olhar de desprezo.<\/p>\n<p>Elias mudara os arreios para outro cavalo e as corridas continuaram. Ele<br \/>\n    ostentou-se sempre o mais garboso e mais h&aacute;bil cavaleiro.<\/p>\n<p>Chegou a hora da corrida de cabe&ccedil;as.<\/p>\n<p>S&atilde;o cabe&ccedil;as de papel&atilde;o colocadas sobre quatro postes<br \/>\n    nos cantos, e uma quinta no meio da arena. Os cavaleiros, volteando a arena<br \/>\n    a galope, cada um por sua vez tem de enfi&aacute;-las na ponta da espada;<br \/>\n    &eacute; este &uacute;ltimo passo o mais dif&iacute;cil, e em que poucos s&atilde;o<br \/>\n    felizes.<\/p>\n<p>Elias, quando largou a lan&ccedil;a, tinha nela enfiadas todas as quatro<br \/>\n    cabe&ccedil;as. Depois em vez de desembainhar a espada como os outros, viram-no<br \/>\n    abrir alguns bot&otilde;es da farda, tirar do seio um curto punhal, e dependurando-se<br \/>\n    dos arreios com a presteza e agilidade de um ga&uacute;cho, quase sumir-se<br \/>\n    debaixo do cavalo, e depois reaparecer com a cabe&ccedil;a cravada na ponta<br \/>\n    do punhal. Os aplausos e os foguetes retumbaram por todos os lados.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Meu Deus! &#8211; exclamou L&uacute;cia involuntariamente e cobrindo os olhos<br \/>\n    com o len&ccedil;o ao ver o mo&ccedil;o naquela arriscada posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se assuste, minha senhora &#8211; acudiu o fluminense &#8211; o rapaz est&aacute;<br \/>\n    em seu elemento; &eacute; um excelente artista. No circo eq&uuml;estre do<br \/>\n    Bartolomeu este rapaz podia fazer fortuna.<\/p>\n<p>Chegou por fim o momento de correr &agrave; argolinha, que &eacute; de todos<br \/>\n    os exerc&iacute;cios da cavalhada o mais dif&iacute;cil.<\/p>\n<p>Os cavaleiros de ambas as turmas se re&uacute;nem de um s&oacute; lado. Em<br \/>\n    frente deles, na outra extremidade, est&aacute; pendurada a um cord&atilde;o,<br \/>\n    preso a dois altos postes, uma argola de metal de uma polegada de di&acirc;metro.<br \/>\n    Os cavaleiros, cada um por sua vez saindo a galope da fileira, t&ecirc;m de<br \/>\n    tentar enfi&aacute;-la na ponta da lan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Quando chegou a sua vez, Elias tinha montado de novo o fogoso rosilho; quando<br \/>\n    deram f&eacute;, j&aacute; era tarde para estorv&aacute;-lo. O cavalo saiu<br \/>\n    aos trancos, num galope &aacute;spero e descompassado; mas a despeito disso,<br \/>\n    quando Elias passou entre os postes, a argolinha tinha desaparecido do cord&atilde;o.<br \/>\n    Como &eacute; de estilo, dois cavaleiros vieram escolt&aacute;-lo, e ele,<br \/>\n    ao som de aplausos, m&uacute;sicas e foguetes, dirigiu-se ao palanque de L&uacute;cia.<br \/>\n    Esta, com o mais am&aacute;vel dos sorrisos nos l&aacute;bios e com m&atilde;o<br \/>\n    tr&ecirc;mula de emo&ccedil;&atilde;o, na forma do costume, atou-lhe na ponta<br \/>\n    da lan&ccedil;a um molho de largas e compridas fitas, e ele volteou de novo<br \/>\n    a arena a toque de m&uacute;sica e estouros de foguetaria. Era o her&oacute;i<br \/>\n    da festa.<\/p>\n<p>Seguiu-se a embaixada. Um parlamentar, montado em um formoso e bem doutrinado<br \/>\n    ginete, saiu caracolando, dan&ccedil;ando, pinoteando para o meio da arena,<br \/>\n    e em um discurso bomb&aacute;stico no estilo do Carlos Magno, intimou por<br \/>\n    parte do rei dos crist&atilde;os ao chefe dos infi&eacute;is que se rendesse<br \/>\n    &agrave; discri&ccedil;&atilde;o, etc. Mas o turco descrido n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    por isso, e com a mais despejada arrog&acirc;ncia jura por Mafoma que se n&atilde;o<br \/>\n    render&aacute; e desafia a c&oacute;lera do crist&atilde;o vencedor. Ent&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; a corrida desordenada. Os cavaleiros crist&atilde;os em massa investem<br \/>\n    sobre os turcos, os quais n&atilde;o podendo sustentar o choque, correm atropeladamente<br \/>\n    pelo circo, uns para aqui, outros para acol&aacute;, sempre perseguidos pelos<br \/>\n    crist&atilde;os. Enfim os mouros, vendo-se apanhados, p&otilde;em rapidamente<br \/>\n    o p&eacute; em terra e, largando seus cavalos, correm a procurar ref&uacute;gio<br \/>\n    e padrinho cada qual em um palanque de sua escolha, e assim aqueles perros<br \/>\n    infi&eacute;is, abrigados cada um aos p&eacute;s de uma beleza crist&atilde;,<br \/>\n    de cujas m&atilde;os querem receber o batismo, ficam inteiramente a salvo<br \/>\n    da sanha dos perseguidores.<\/p>\n<p>Elias, que era mouro, atracou-se logo ao palanque do Major, e foi apadrinhar-se<br \/>\n    com L&uacute;cia. Esta com alegre alvoro&ccedil;o e quase pensando, em sua<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o infantil, que aquilo era uma realidade, adiantou-se<br \/>\n    sorrindo a dar a m&atilde;o ao cavaleiro; como &eacute; costume nessas ocasi&otilde;es,<br \/>\n    este foi convidado a jantar em casa de sua madrinha.<\/p>\n<p>Assim passou-se alegremente o primeiro dia de festa. Os outros dois, que<br \/>\n    se seguiram, correram igualmente animados e folgaram sem incidente algum,<br \/>\n    cabendo sempre a Elias as honras do dia nas cavalhadas.<\/p>\n<h2><a name=\"3\">III &#8211; NA RO&Ccedil;A<\/a><\/h2>\n<p>Festas acabadas, m&uacute;sicos a p&eacute;. Por vir muito a p&ecirc;lo,<br \/>\n    cai-me agora do bico da pena este anexim popular.<\/p>\n<p>Acabada a festa, tudo caiu na tristeza e monotonia, n&atilde;o direi ordin&aacute;ria,<br \/>\n    por&eacute;m muito pior ainda, pois contrastava horrivelmente com a alegria<br \/>\n    e festivo alvoro&ccedil;o dos dias que acabavam de escoar-se, e dos quais<br \/>\n    somente restavam as saudades.<\/p>\n<p>Elias, de garboso e brilhante cavaleiro que era, passou a n&atilde;o ser<br \/>\n    mais que mero pe&atilde;o, isto &eacute;, voltou &agrave; sua condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mo&ccedil;o pobre e sem posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O Major teve de demorar-se alguns dias ainda na vila. Elias durante esse<br \/>\n    tempo n&atilde;o deixou passar um dia sem ir &agrave; sua casa; era, por&eacute;m,<br \/>\n    muito maior a freq&uuml;&ecirc;ncia de seu rival, cuja importuna assiduidade<br \/>\n    j&aacute; escandalizava os olhos do p&uacute;blico. L&uacute;cia raras vezes<br \/>\n    lhe aparecia, e s&oacute; quando era chamada por seu pai. Outro tanto n&atilde;o<br \/>\n    praticava com Elias, a quem vinha sempre cumprimentar com ar modesto, mas<br \/>\n    com as faces incendiadas em certo rubor, que significava muito. Este procedimento<br \/>\n    enchia de despeito e feria dolorosamente o amor-pr&oacute;prio do negociante:<\/p>\n<p>&#8211; Sempre &eacute; da ro&ccedil;a! &#8211; dizia ele com seus bot&otilde;es para<br \/>\n    desabafar seu desgosto. &#8211; Estas matutas s&atilde;o assim mesmo; parece que<br \/>\n    t&ecirc;m medo dos homens de certa classe e de certa educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais elevada, e s&oacute; se ligam com os da sua ral&eacute;. Quando lhes<br \/>\n    aparece em casa alguma pessoa mais bem trajada e de maneiras mais polidas<br \/>\n    apenas animam-se a espiar por tr&aacute;s das portas&#8230; Mas esta mo&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    julguei que tivesse um bocadito mais de esp&iacute;rito&#8230; qual! E como as<br \/>\n    outras, ou pior. L&aacute; se avenha ela com o palerma do seu cavaleiro andante.<br \/>\n    L&eacute; com l&eacute;, cr&eacute; com cr&eacute;. Admira que o bobo do Major<br \/>\n    n&atilde;o perceba certas coisas e n&atilde;o veja que aquele lorpa lhe anda<br \/>\n    fazendo corte &agrave; filha. Queira Deus que dali n&atilde;o saia alguma<br \/>\n    alhada! Muito me hei de divertir com isso.<\/p>\n<p>Falando assim, por&eacute;m, o nosso negociante nem por isso estava desanimado,<br \/>\n    nem abandonava o campo. Sabia que o rapaz n&atilde;o era do lugar, e tinha<br \/>\n    de ir-se embora. Mesmo que n&atilde;o fosse, estava firmemente convencido<br \/>\n    de que o Major, homem de fortuna, jamais se resolveria a dar sua filha a um<br \/>\n    pobre-diabo, que n&atilde;o tinha onde cair morto, s&oacute; porque sabia<br \/>\n    correr cavalhadas. Assim pensava, e guardava-se para melhores tempos.<\/p>\n<p>Elias, que viera de Uberaba expressamente para tomar parte nas cavalhadas,<br \/>\n    &#8211; pois tinha bem merecida nomeada de bom cavaleiro por todos aqueles sert&otilde;es<br \/>\n    &#8211; Elias viera recomendado ao Major por pessoas importantes daquela localidade,<br \/>\n    e portanto a sua assiduidade em casa deste tinha explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    muito natural, e o Major estava longe de presumir que o mo&ccedil;o tivesse<br \/>\n    a veleidade de p&ocirc;r olhos apaixonados em sua filha. Estulto e cego, que<br \/>\n    pensava que o amor calcula as dificuldades e mede as dist&acirc;ncias das<br \/>\n    posi&ccedil;&otilde;es, e que n&atilde;o via que aquelas duas criaturas eram<br \/>\n    pr&oacute;prias para se inspirarem m&uacute;tuo e ardente amor!<\/p>\n<p>Mas, ai deles! aproximava-se o tempo de se separarem, e esta lembran&ccedil;a<br \/>\n    os enchia de ang&uacute;stia e melancolia. Viram-se, amaram-se e sabiam que<br \/>\n    eram amados; mas nunca, por uma palavra que fosse, tinham confessado um ao<br \/>\n    outro aquele sentimento, e agora iam separar-se sem um adeus, um aperto de<br \/>\n    m&atilde;o, um protesto, que os confortasse naquela longa, e quem sabe se<br \/>\n    eterna separa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Elias andava excogitando um meio de despedir-se de L&uacute;cia e protestar-lhe<br \/>\n    seu eterno amor, quando o Major o veio tirar desse embara&ccedil;o e encher<br \/>\n    da mais viva alegria. O Major tomara simpatia e afei&ccedil;&atilde;o pelo<br \/>\n    jovem uberabense, e, como lhe era recomendado por pessoas a quem n&atilde;o<br \/>\n    podia deixar de servir, o convidou para sua fazenda, onde, dizia o Major,<br \/>\n    teria muito em que empreg&aacute;-lo, at&eacute; que pudesse procurar melhor<br \/>\n    arranjo.<\/p>\n<p>Fa&ccedil;a-se id&eacute;ia do prazer e ufania com que Elias partiu, atravessando<br \/>\n    a vila ao lado da sua amada, montado no pr&oacute;prio rosilho em que tantas<br \/>\n    brilhaturas fizera nas cavalhadas.<\/p>\n<p>Instalado na fazenda do Major, Elias foi ali tratado com afetuosa bondade,<br \/>\n    como se fora um membro da fam&iacute;lia. Era o escritur&aacute;rio, ou antes<br \/>\n    secret&aacute;rio particular do Major, e posto que a escritura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um fazendeiro do sert&atilde;o seja quase que nenhuma, todavia o pai de<br \/>\n    L&uacute;cia, na sua qualidade de Major de estado-maior e ocupando um cargo<br \/>\n    de pol&iacute;cia, que raras vezes exercia, tinha v&aacute;rios of&iacute;cios<br \/>\n    a fazer e a responder, e n&atilde;o deixava de tirar proveito da boa letra<br \/>\n    e das luzes de Elias.<\/p>\n<p>Elias era tamb&eacute;m excelente m&uacute;sico: tocava diversos instrumentos,<br \/>\n    tinha uma boa voz, e todas as noites divertia os ser&otilde;es da fam&iacute;lia<br \/>\n    cantando modinhas e can&ccedil;onetas, acompanhando-se com uma viola, &uacute;nico<br \/>\n    instrumento que havia em casa. Portanto, al&eacute;m de gentil cavaleiro,<br \/>\n    Elias era tamb&eacute;m insigne trovador. Tudo isto reunido a alguma instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a uma conversa&ccedil;&atilde;o agrad&aacute;vel, tornava a sua companhia<br \/>\n    sempre am&aacute;vel e desejada. Assim, quando acontecia ausentar-se por alguns<br \/>\n    dias em algumas comiss&otilde;es, de que &agrave;s vezes o Major o encarregava,<br \/>\n    sua falta era muito sentida no seio daquela pequena e respeit&aacute;vel fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>L&uacute;cia e sua irm&atilde; mostravam muita vontade de aprender um pouco<br \/>\n    de m&uacute;sica. Tendo um t&atilde;o bom mestre em casa, o pai n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de deixar de condescender com os desejos de suas filhas, e encarregou<br \/>\n    a Elias de, nas horas vagas, dar-lhes algumas li&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Todos os dias, pois, em horas indeterminadas, via-se Elias, na espa&ccedil;osa<br \/>\n    varanda, assentado em um comprido e antigo banco de cedro entre as duas meninas,<br \/>\n    debaixo das vistas do Major, bem entendido, ocupado em ensinar-lhes os rudimentos<br \/>\n    de m&uacute;sica e a dar-lhes li&ccedil;&otilde;es de solfejo. A perspectiva<br \/>\n    que tinham em frente era magn&iacute;fica: a vista se perdia por vastas e<br \/>\n    risonhas campinas e remotos horizontes, banhados pela luz de um sol espl&ecirc;ndido.<br \/>\n    E por entre a algazarra dos melros, pintassilgos e patativas, que chilravam<br \/>\n    em torno da casa, e os gorjeios cadenciados do sabi&aacute; que cantava ao<br \/>\n    longe, ouviam-se os ensaios t&iacute;midos daquelas duas vozes infantis. Era<br \/>\n    de sobejo para encantar e exaltar a imagina&ccedil;&atilde;o impression&aacute;vel<br \/>\n    do mancebo, que nessas horas de doce ocupa&ccedil;&atilde;o esquecia-se de<br \/>\n    si, de sua pobreza, do seu futuro, para se entregar ao enlevo do mais puro<br \/>\n    e do mais ideal dos amores. As duas alunas tamb&eacute;m, por sua parte, e<br \/>\n    principalmente L&uacute;cia, tinham aquelas horas pelas mais bem empregadas<br \/>\n    da sua vida. Mas Elias j&aacute; tinha lido a J&uacute;lia de Jo&atilde;o<br \/>\n    Jacques Rousseau, e no meio de suas doces emo&ccedil;&otilde;es &agrave;s<br \/>\n    vezes estremecia ao lembrar-se da sorte dos dois amantes no romance do imortal<br \/>\n    fil&oacute;sofo de Genebra.<\/p>\n<p>O contato &iacute;ntimo daqueles dois cora&ccedil;&otilde;es, que pareciam<br \/>\n    criados um para o outro, acabou de abras&aacute;-los em uma paix&atilde;o<br \/>\n    en&eacute;rgica e profunda, dessas que n&atilde;o se extinguem sen&atilde;o<br \/>\n    com a vida. No seio da solid&atilde;o as paix&otilde;es tomam maior vulto<br \/>\n    e se enra&iacute;zam mais na alma, do que no meio do bul&iacute;cio e das<br \/>\n    distra&ccedil;&otilde;es do mundo. A alma solit&aacute;ria &eacute; como a<br \/>\n    fonte do deserto, resguardada dos ventos, que no rega&ccedil;o l&iacute;mpido<br \/>\n    e im&oacute;vel guarda fielmente a imagem do arvoredo que a sombreia.<\/p>\n<p>L&uacute;cia e Elias amavam-se; todavia nem uma s&oacute; palavra de amor<br \/>\n    lhes havia ainda escapado dos l&aacute;bios; os olhares e os sorrisos diziam<br \/>\n    tudo; eles sabiam muito bem que se amavam, e era quanto bastava para sua felicidade.<br \/>\n    Como dois cisnes, deixavam-se levar descuidosamente pela torrente pl&aacute;cida<br \/>\n    e voluptuosa das emo&ccedil;&otilde;es presentes, sem se lembrarem que mais<br \/>\n    al&eacute;m podiam ser arrastados e despeda&ccedil;ados por furiosas cachoeiras,<br \/>\n    ou engolidos em trevos sorvedouros.<\/p>\n<p>Elias suspirava por uma ocasi&atilde;o de poder estar a s&oacute;s com L&uacute;cia,<br \/>\n    e de declarar-lhe de viva voz o seu amor; mas essa ocasi&atilde;o por si mesma<br \/>\n    n&atilde;o podia oferecer-se. Todos os dias tomava a firme resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de pedir furtivamente &agrave; mo&ccedil;a uma entrevista, cujo lugar e hora<br \/>\n    j&aacute; tinha premeditado. Mas, quando era ocasi&atilde;o de falar-lhe,<br \/>\n    um invenc&iacute;vel acanhamento como que lhe paralisava a l&iacute;ngua;<br \/>\n    receava profanar com aquele pedido a pureza ang&eacute;lica daquela criatura.<\/p>\n<p>Um dia enfim revestiu-se de &acirc;nimo a superar os seus escr&uacute;pulos.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Se eu um dia pudesse falar sem testemunhas, e revelar-lhe tudo quanto<br \/>\n    sinto! &#8211; disse ele baixinho a L&uacute;cia numa ocasi&atilde;o em que o pai<br \/>\n    se ausentara por um momento.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; isso&#8230; n&atilde;o pode ser, &#8211; murmurou L&uacute;cia com voz breve<br \/>\n    e decisiva, mas cobrindo-se de tal vermelhid&atilde;o, que se teria tra&iacute;do<br \/>\n    completamente, se ali houvesse olhos perspicazes e perscrutadores.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez possa &#8211; continuou Elias sorrindo. &#8211; Sei que a senhora passa &agrave;s<br \/>\n    vezes horas inteiras sozinha na fonte do quintal. Ficar&aacute; muito assustada,<br \/>\n    se eu um dia l&aacute; aparecer?<\/p>\n<p>&#8211; Sem d&uacute;vida!&#8230; n&atilde;o; n&atilde;o v&aacute;; sen&atilde;o, nunca<br \/>\n    mais l&aacute; voltarei.<\/p>\n<p>&#8211; Nada receie; eu a respeitarei tanto ou mais do que se estiv&eacute;ssemos<br \/>\n    aqui, em presen&ccedil;a de seu pai.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o v&aacute;, n&atilde;o&#8230; tenho medo. Agora nunca mais irei l&aacute;<br \/>\n    sozinha.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o, minha senhora! n&atilde;o lhe teria feito este pedido, se<br \/>\n    soubesse que me tinha tanta avers&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Avers&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p>Os tamancos do Major, ressoando no soalho, anunciavam a sua volta, e impuseram<br \/>\n    sil&ecirc;ncio aos dois amantes.<\/p>\n<p>No primeiro dia que se seguiu a este col&oacute;quio, L&uacute;cia cumpriu<br \/>\n    restritamente a amea&ccedil;a que fizera de n&atilde;o voltar mais &agrave;<br \/>\n    fonte; mas s&oacute; Deus sabe quanto isto lhe custou. No segundo dia foi,<br \/>\n    por&eacute;m acompanhada de sua irm&atilde; e de Joana; pensava seriamente<br \/>\n    nas conseq&uuml;&ecirc;ncias daquele passo, e tinha medo; mas o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a arrastava para l&aacute;. Elias, que tudo observava com a vista perspicaz<br \/>\n    do amante, que ouvia a voz dela, sentia-lhe os passos, e quase adivinhava<br \/>\n    quando estava em casa, e que, al&eacute;m disso, subindo um pouco pela encosta<br \/>\n    do espig&atilde;o podia devassar o estreito trilho que embrenhando-se pelo<br \/>\n    pomar ia ter &agrave; fonte, n&atilde;o p&ocirc;de deixar de manifestar seu<br \/>\n    descontentamento n&atilde;o por palavras mas por seu ar triste e taciturno.<\/p>\n<p>Ao terceiro dia L&uacute;cia n&atilde;o p&ocirc;de conter-se, tomou sua cestinha<br \/>\n    de costura e l&aacute; desceu a sentar-se &agrave; sombra no gramal da fonte.<br \/>\n    Elias bem o pressentiu; mas era j&aacute; muito tarde para ter tempo e dar<br \/>\n    as voltas necess&aacute;rias a fim de ocultar seus passos; e portanto l&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o apareceu.<\/p>\n<p>&#8211; Cumpriu a sua promessa de n&atilde;o ir mais &agrave; fonte? &#8211; perguntou-lhe<br \/>\n    ele no outro dia &agrave; hora da li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Cumpri sim, senhor; sozinha n&atilde;o vou l&aacute; mais.<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto se me n&atilde;o engano parece-me que a vi ontem descer sozinha<br \/>\n    para l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Quem? a mim? o senhor viu?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhora, vi; e creio que era mesmo a senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser&#8230; &agrave; tarde faz tanto calor aqui em casa; e demais estou<br \/>\n    certa que o senhor l&aacute; n&atilde;o h&aacute; de aparecer, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; assim?<\/p>\n<p>Elias sorriu-se, e L&uacute;cia sentiu o rubor afoguear-lhe as faces.<\/p>\n<p>Elias costumava ca&ccedil;ar pelos campos do arredor, mui abundantes em perdizes,<br \/>\n    codornizes e outras ca&ccedil;as.<\/p>\n<p>No dia seguinte, logo ap&oacute;s o jantar, arreou seu cavalo, pegou na espingarda,<br \/>\n    chamou seu c&atilde;o, e saiu. Deu longas voltas para poder, sem ser observado,<br \/>\n    entrar pelo cap&atilde;o que desde as cabeceiras bordejava o c&oacute;rrego<br \/>\n    at&eacute; os fundos do quintal. Apenas se embrenhou no mato, apeou-se, atou<br \/>\n    o animal a uma &aacute;rvore, e desceu costeando o c&oacute;rrego por estreitos<br \/>\n    trilhos feitos pelos p&eacute;s do gado e de animais silvestres.<\/p>\n<p>Elias contava quase com certeza encontrar L&uacute;cia na fonte, e n&atilde;o<br \/>\n    se enganou. Ela j&aacute; estava com efeito, n&atilde;o naquele doce descuido<br \/>\n    d&#8217;alma, em que a temos visto outras vezes, mas inquieta, anelante, como a<br \/>\n    cor&ccedil;a espavorida, que cuida ouvir a cada instante o latir dos c&atilde;es<br \/>\n    e as vozes do ca&ccedil;ador.<\/p>\n<p>A entrevista durou apenas alguns minutos. Elias, que tinha estudado mil frases<br \/>\n    apaixonadas, apenas disse, tomando-lhe a m&atilde;o e beijando-a:<\/p>\n<p>&#8211; Eis-me aqui, D. L&uacute;cia; perdoe-me esta aud&aacute;cia&#8230; se soubesse<br \/>\n    quanto a amo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O senhor &eacute; bem animoso &#8211; disse ela entre risonha e enfadada.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o lhe tinha pedido que n&atilde;o viesse aqui?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem lhe queria obedecer; mas o amor foi mais forte que eu. Vim para ouvir<br \/>\n    de seus l&aacute;bios uma s&oacute; palavra de que depende a minha felicidade,<br \/>\n    a minha vida. Diga-me, a senhora me tem amor?&#8230;<\/p>\n<p>L&uacute;cia hesitou um instante, fitou os olhos no ch&atilde;o, e murmurou<br \/>\n    timidamente:<\/p>\n<p>&#8211; Muito!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Anjo! &#8211; exclamou Elias caindo a seus p&eacute;s e procurando derramar em<br \/>\n    palavras de ternura o prazer que lhe transportava a alma; mas n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    dizer mais nada. Quando o cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; cheio de felicidade,<br \/>\n    a vida toda se concentra ali, a cabe&ccedil;a fica erma de id&eacute;ias,<br \/>\n    e a l&iacute;ngua fica paralisada.<\/p>\n<p>Mas L&uacute;cia imediatamente o tirou daquele embara&ccedil;o, dizendo-lhe<br \/>\n    com ar inquieto.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; satisfeito o seu desejo. Agora retire-se, retire-se quanto<br \/>\n    antes. A cada momento pode aqui chegar algu&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>E, tirando uma flor que tinha no cabelo, a entregou a Elias. Este enla&ccedil;ando-lhe<br \/>\n    o bra&ccedil;o em torno ao colo, tomou-lhe a m&atilde;o e beijou-a com ardor.<br \/>\n    Foi tudo quanto ousou fazer.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus!<\/p>\n<p>&#8211; Adeus!<\/p>\n<p>Quando L&uacute;cia, tendo dado alguns passos, voltou o rosto para ver ainda<br \/>\n    uma vez seu amante, avistou-o de joelhos, beijando a relva em que ela estivera<br \/>\n    reclinada. Fez-lhe vivamente aceno com a m&atilde;o, para que se retirasse,<br \/>\n    e sumiu-se entre o laranjal.<\/p>\n<p>Eis em que consistiu aquela entrevista t&atilde;o ardentemente desejada.<br \/>\n    Parece que n&atilde;o valia a pena tomarem tanto trabalho, sujeitarem-se a<br \/>\n    tantos sustos e inquieta&ccedil;&otilde;es, para trocar duas palavras, dar<br \/>\n    um beijo na m&atilde;o e receber uma flor. Mesmo debaixo dos tetos do Major<br \/>\n    n&atilde;o faltaria ocasi&atilde;o azada para fazerem outro tanto muito a<br \/>\n    seu salvo. Mas era sempre uma entrevista, e uma entrevista tem grande import&acirc;ncia<br \/>\n    aos olhos dos amantes, principalmente se tem lugar ao ar livre, tendo por<br \/>\n    testemunhas o c&eacute;u, o bosque, a fonte. &Eacute; mais uma prova de confian&ccedil;a<br \/>\n    m&uacute;tua, uma garantia mais solene da lealdade e pureza do amor. O beijo<br \/>\n    da entrevista &eacute; o selo imposto ao contrato que liga para sempre duas<br \/>\n    almas.<\/p>\n<p>Os amantes s&atilde;o de ordin&aacute;rio mui f&aacute;ceis em capacitar-se<br \/>\n    de que ningu&eacute;m adivinha o sentimento que lhes ocupa o cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    cegos, n&atilde;o se apercebem que em cada palavra, em cada gesto, em cada<br \/>\n    olhar est&atilde;o traindo a todo o momento a paix&atilde;o que julgam escondida<br \/>\n    nos mais &iacute;ntimos seios d&#8217;alma e que entretanto lhes vai transparecendo<br \/>\n    em todo o seu ser. O Major n&atilde;o era dotado de grande perspic&aacute;cia,<br \/>\n    nem tinha muito conhecimento do cora&ccedil;&atilde;o humano, coisa que nem<br \/>\n    em si mesmo tivera ocasi&atilde;o de estudar, pois nunca vivera a vida do<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o. Todavia chegou a desconfiar, e em breve se convenceu<br \/>\n    da exist&ecirc;ncia de uma m&uacute;tua afei&ccedil;&atilde;o entre L&uacute;cia<br \/>\n    e o seu logo o mal, antes que tomasse maior vulto. Desde logo tratou de suprimir<br \/>\n    as li&ccedil;&otilde;es de m&uacute;sica. N&atilde;o o fez, por&eacute;m,<br \/>\n    abertamente; mas todas as vezes que era ocasi&atilde;o de tomar li&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    achava pretexto para atrapalh&aacute;-los, inventando algum servi&ccedil;o<br \/>\n    urgente, ora para o mestre, ora para as disc&iacute;pulas.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, ocupava mais que de costume a Elias em comiss&otilde;es<br \/>\n    e viagens, de modo que este pouco tempo parava em casa. Assim julgava ele<br \/>\n    impedir o progresso do mal, enquanto procurava ajeitar um meio suave e natural<br \/>\n    de se ver livre de tal h&oacute;spede.<\/p>\n<p>L&uacute;cia e Elias, portanto, j&aacute; raras vezes se viam. Estava mais<br \/>\n    que claro que tudo aquilo era manobra do Major, que por certo j&aacute; suspeitava<br \/>\n    a exist&ecirc;ncia de sua rec&iacute;proca afei&ccedil;&atilde;o. Elias compreendeu<br \/>\n    que era tempo&#8230; de qu&ecirc;? de pedir L&uacute;cia em casamento&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    por certo. Na posi&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria e quase desvalida em que<br \/>\n    se achava, n&atilde;o se abalan&ccedil;aria a dar semelhante passo; s&oacute;<br \/>\n    podia esperar um n&atilde;o redondo, categ&oacute;rico e humilhante. Era tempo<br \/>\n    de dizer adeus a L&uacute;cia, ao amor, &agrave; felicidade, e tamb&eacute;m<br \/>\n    &agrave; &uacute;ltima esperan&ccedil;a que lhe restava n&#8217;alma.<\/p>\n<p>A persuas&atilde;o de Elias ainda. mais se confirmou, quando um dia o Major,<br \/>\n    com o tom o mais ben&eacute;volo e paternal do mundo, lhe disse:<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, creia que lhe quero bem, e sinceramente desejo o seu adiantamento.<br \/>\n    Um mo&ccedil;o como o senhor, que teve estudos, e tem tantas habilita&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    n&atilde;o deve estar-se perdendo em uma ro&ccedil;a, onde as suas prendas<br \/>\n    e habilidades de nada lhe podem servir. Em qualquer povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que se estabele&ccedil;a, pode com facilidade ganhar dinheiro e posi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ao passo que aqui, na ro&ccedil;a, falo com franqueza de amigo, est&aacute;<br \/>\n    perdendo completamente o seu tempo. De minha parte, qualquer que seja o lugar<br \/>\n    para onde deseje ir, pode contar sempre com o meu pequeno pr&eacute;stimo<br \/>\n    naquilo em que lhe puder ser &uacute;til&#8230; e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz&atilde;o, Sr. Major &#8211; interrompeu vivamente Elias; V. S.&ordf;<br \/>\n    preveniu-me em um prop&oacute;sito que eu j&aacute; h&aacute; muito tinha<br \/>\n    formado. &#8211; Vejo que aqui em sua casa sou um ente in&uacute;til e que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; &agrave; sombra de seu telhado que poderia encontrar fortuna, nem<br \/>\n    felicidade.<\/p>\n<p>&#8211; Agastou-se comigo?&#8230; n&atilde;o o estou mandando embora&#8230; &eacute; apenas<br \/>\n    um conselho de amigo.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me agastei, Sr. Major; j&aacute; lhe disse que era o meu prop&oacute;sito,<br \/>\n    s&oacute; receava que V. S.&ordf; o n&atilde;o aprovasse; agora, que sei o<br \/>\n    contr&aacute;rio, d&ecirc;-me as suas ordens, que pretendo partir o mais breve<br \/>\n    poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Elias bem sabia o motivo daquele procedimento do Major, e nada tinha que<br \/>\n    lhe replicar. Era um modo polido de despedi-lo. De feito n&atilde;o era poss&iacute;vel<br \/>\n    de modo mais ben&eacute;volo e lisonjeiro cravar-se o punhal no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma v&iacute;tima. As palavras do Major ca&iacute;ram-lhe como rochedos<br \/>\n    sobre o cora&ccedil;&atilde;o com peso esmagador. For&ccedil;oso lhe era deixar<br \/>\n    L&uacute;cia, talvez para sempre!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! pobreza! pobreza! maldita pobreza! &#8211; exclamava Elias em transportes<br \/>\n    de frenesi, entrando para o seu aposento. &#8211; Pobreza! tu &eacute;s o pior dos<br \/>\n    males que afligem a humanidade, pior que a fome, pior que a lepra, pior que<br \/>\n    a morte mesmo. De toda parte &eacute;s repelida, como se foras um mal contagioso.<br \/>\n    Al&eacute;m de faltarem ao pobre todas as comodidades materiais da exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    s&atilde;o-lhe vedados todos os prazeres do cora&ccedil;&atilde;o. O pobre<br \/>\n    n&atilde;o pode, n&atilde;o deve amar&#8230; Ah! se eu fosse rico!&#8230; por que<br \/>\n    n&atilde;o quis a sorte, que eu possu&iacute;sse um pouco de dinheiro? mas<br \/>\n    quem me impede de o ter? os outros, que o ganham, s&atilde;o porventura melhores<br \/>\n    do que eu?&#8230; Sou mo&ccedil;o, e, gra&ccedil;as ao c&eacute;u, tenho sa&uacute;de,<br \/>\n    robustez e a intelig&ecirc;ncia necess&aacute;ria para saber ganhar dinheiro&#8230;<br \/>\n    A Bagagem est&aacute; ali perto&#8230; &eacute; um garimpo riqu&iacute;ssimo&#8230;<br \/>\n    pouco custa cavar a terra, e lavar o cascalho. Major! Major!&#8230; tu me expeles<br \/>\n    de tua casa por ser pobre&#8230; mas, ah! Major! queira Deus que bem cedo n&atilde;o<br \/>\n    te arrependas do pouco-caso que hoje fazes de mim, e n&atilde;o venhas humilhado<br \/>\n    implorar o perd&atilde;o a meus p&eacute;s. Major! por ti s&oacute;, tu nada<br \/>\n    vales; e esse teu vil procedimento eu o lan&ccedil;aria ao desprezo, sem que<br \/>\n    me custasse um s&oacute; momento de sono. Mas tua filha vale um tesouro e<br \/>\n    &eacute; por amor dela que eu sofro, e &eacute; por ela e para ela que eu<br \/>\n    juro e protesto&#8230; serei rico, ou do contr&aacute;rio nem tu, nem ela, nem<br \/>\n    mais ningu&eacute;m neste mundo me ver&aacute; a face.<\/p>\n<p>As rela&ccedil;&otilde;es entre L&uacute;cia e Elias estavam, pois, completamente<br \/>\n    interceptadas. H&aacute; muito tempo n&atilde;o se viam sen&atilde;o &agrave;<br \/>\n    hora do jantar com a fam&iacute;lia. Este era para eles o pior dos mart&iacute;rios.<br \/>\n    Iam-se separar sem poderem dizer-se um adeus&#8230; Um medianeiro seria para eles<br \/>\n    naquela ocasi&atilde;o um presente do c&eacute;u, para se comunicarem suas<br \/>\n    ang&uacute;stias, receios, e esperan&ccedil;as, se esperan&ccedil;as podiam<br \/>\n    ter. S&oacute; L&uacute;cia poderia achar um meio de comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre eles. L&uacute;cia lembrou-se de Joana; era a &uacute;nica pessoa a<br \/>\n    quem podia incumbir de t&atilde;o melindrosa tarefa. Ela sabia muito bem que<br \/>\n    a velha e matreira crioula j&aacute; estava ao fato de seus amores com Elias,<br \/>\n    e portanto nada arriscava encarregando-a de um recado ou de um bilhete.<\/p>\n<p>&#8211; Joana, tu h&aacute;s de me fazer uma coisa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por que n&atilde;o, sinhazinha?&#8230; qual &eacute; essa coisa?<\/p>\n<p>&#8211; Entregar-me este bilhete a&#8230; meu mestre.<\/p>\n<p>&#8211; Para que isso, minha sinh&aacute;?&#8230; esque&ccedil;a-se desse mo&ccedil;o!<br \/>\n    amanh&atilde; ele vai-se embora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; por isso mesmo; quero dizer-lhe adeus. Entregas?<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei!&#8230; Nhonh&ocirc; sabendo n&atilde;o h&aacute; de gostar; ele j&aacute;<br \/>\n    anda ressabiado, e me recomendou que n&atilde;o deixasse sinhazinha andar<br \/>\n    sozinha.<\/p>\n<p>&#8211; E que necessidade h&aacute; de que ele saiba?&#8230; isso n&atilde;o faz mal;<br \/>\n    o mo&ccedil;o tem de retirar-se e talvez nunca mais nos encontremos &#8211; disse<br \/>\n    a mo&ccedil;a suspirando.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! sinh&aacute;! eu&#8230; n&atilde;o&#8230; sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vai; leva isso e cala-te. Se ele te der alguma coisa para trazer-me, entrega-me<br \/>\n    fielmente, ouviste?<\/p>\n<p>&#8211; Sinh&aacute; mandou&#8230; que rem&eacute;dio tenho eu&#8230;<\/p>\n<p>Nessa noite Elias recebia o seguinte bilhete:<\/p>\n<p>&quot;Meu pai j&aacute; tem conhecimento de nosso amor, e, como bem est&aacute;<br \/>\n    se vendo, n&atilde;o o aprova. Vejo que nossa separa&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    inevit&aacute;vel. N&atilde;o posso explicar quanto tenho sofrido. N&atilde;o<br \/>\n    sei o que ser&aacute; de mim, e nem vejo rem&eacute;dio para nossa desgra&ccedil;a.<br \/>\n    Tudo poder&atilde;o fazer de mim menos arrancar-me do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    este amor que lhe consagro. Adeus, n&atilde;o se esque&ccedil;a desta infeliz,<br \/>\n    que, aconte&ccedil;a o que acontecer, h&aacute; de am&aacute;-lo sempre, sempre.&quot;<\/p>\n<p>Na manh&atilde; seguinte Elias mandou-lhe a seguinte resposta:<\/p>\n<p>&quot;Teu pai tem dado a entender claramente que n&atilde;o me quer mais<br \/>\n    em sua casa. Devo deixar-te e amanh&atilde; mesmo estarei longe de ti; este<br \/>\n    golpe feriu-me cruelmente, mas n&atilde;o me desalenta. Sou pobre, e &eacute;<br \/>\n    essa a raz&atilde;o por que teu pai me despreza. Mas devia lembrar-se que<br \/>\n    sou mo&ccedil;o, e, louvado Deus! tenho robustez e intelig&ecirc;ncia, sei<br \/>\n    trabalhar, e amanh&atilde; posso ser rico. Adeus, L&uacute;cia; n&atilde;o<br \/>\n    percas a esperan&ccedil;a, e ama-me sempre, que para tudo h&aacute; rem&eacute;dio.<br \/>\n    Eu vou trabalhar para me tornar digno de ti aos olhos de teu pai. O teu amor<br \/>\n    me alenta e me enche de coragem e de confian&ccedil;a em minha estrela. Ah!<br \/>\n    possas tu nunca faltar-me com ele! Eu parto com o cora&ccedil;&atilde;o ralado<br \/>\n    de ang&uacute;stia e de saudade. Ter&aacute;s not&iacute;cias minhas&#8230; dentro<br \/>\n    em dois anos estarei de volta ou&#8230; Adeus.&quot;<\/p>\n<p>No dia seguinte Elias seguindo caminho de Bagagem via sumir-se no horizonte<br \/>\n    long&iacute;nquo a fazenda do Major, e sentia como que um v&eacute;u de luto<br \/>\n    abafar-lhe o cora&ccedil;&atilde;o, ao passo que aquela apraz&iacute;vel morada,<br \/>\n    que antes formara as del&iacute;cias de L&uacute;cia, ia dora em diante tornar-se<br \/>\n    para ela um deserto horrendo, um ex&iacute;lio insuport&aacute;vel.<\/p>\n<h2><a name=\"4\">IV &#8211; O GARIMPO<\/a><\/h2>\n<p>Tinham-se passado cerca de seis meses, depois que Elias se retirara da fazenda<br \/>\n    do Major.<\/p>\n<p>As vastas e profundas selvas, no seio das quais corre ruidoso e turbulento<br \/>\n    o ribeir&atilde;o da Bagagem, tinham tombado aos golpes do machado, deixando<br \/>\n    descortinada uma larga zona em uma e outra margem. No meio dos destro&ccedil;os<br \/>\n    da floresta viam-se dispersas em desordem as fr&aacute;geis e provis&oacute;rias<br \/>\n    habita&ccedil;&otilde;es dos garimpeiros, cobertas das compridas palmas do<br \/>\n    coqueiro bagua&ccedil;u. Por aquele terreno branco e selv&aacute;tico, onde<br \/>\n    s&oacute; se esperaria encontrar o tosco sertanejo, ou o africano seminu,<br \/>\n    girava uma popula&ccedil;&atilde;o polida e bem trajada, composta de pessoas<br \/>\n    de todas as proced&ecirc;ncias, que de remotas paragens acudiam a explorar<br \/>\n    o novo descoberto, cuja fama se espalhava muito ao longe, e ali reinava movimenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e anima&ccedil;&atilde;o como em uma grande pra&ccedil;a comercial.<\/p>\n<p>Enquanto a alavanca e o almocafre retiniam pelas grupiaras extraindo o cascalho<br \/>\n    precioso, os golpes do machado reboavam pelas florestas e de espa&ccedil;o<br \/>\n    a espa&ccedil;o um baque, estrugindo ao longo das costas, anunciava a queda<br \/>\n    de mais um tronco robusto e secular. O ronco das catadupas servia como de<br \/>\n    acompanhamento &agrave;s cantigas e algazarras dos garimpeiros, que ao longo<br \/>\n    da beira do rio lavavam alegremente o esperan&ccedil;oso cascalho.<\/p>\n<p>Era uma tarde de novembro, pura, calma e cheia de esplendores. J&aacute;<br \/>\n    todos abandonavam o trabalho, patr&otilde;es e trabalhadores, e se recolhiam<br \/>\n    a seus ranchos. Come&ccedil;ava a acalmar-se o rumor e agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do dia, e ouvia-se j&aacute; a voz do sertanejo, que assentado &agrave; porta<br \/>\n    do rancho entoava ao som da viola seus toscos cantares, cujas notas prolongadas<br \/>\n    e melanc&oacute;licas iam escoando ao longe pelas ribanceiras.<\/p>\n<p>Um mo&ccedil;o de alta estatura, de olhos e barbas negras, com os bra&ccedil;os<br \/>\n    cruzados, e o chap&eacute;u de lebre enterrado nos olhos, estava em p&eacute;<br \/>\n    junto &agrave; margem do rio, encostado a um rochedo, inspecionando com ar<br \/>\n    sombrio e preocupado o servi&ccedil;o de tr&ecirc;s ou quatro trabalhadores,<br \/>\n    que lavavam as &uacute;ltimas bateadas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, Sim&atilde;o? nada ainda? &#8211; disse ele a um velho camarada,<br \/>\n    que acabava de deitar fora o cascalho de uma bateada.<\/p>\n<p>&#8211; Nada por ora, meu patr&atilde;o &#8211; respondeu o camarada &#8211; isto aqui n&atilde;o<br \/>\n    pinta; amanh&atilde; havemos de abrir outra guapiara ali mais embaixo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto, tu bem v&ecirc;s: h&aacute; aqui as melhores forma&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    ferragem, olho-de-pomba, palha-de-arroz, cativo, nada falta; e entretanto<br \/>\n    h&aacute; mais de dois meses que aqui estamos trabalhando e nos devemos dar<br \/>\n    por felizes se o servi&ccedil;o tem dado para salvar a metade das despesas.<br \/>\n    O diabo que as leve as tais forma&ccedil;&otilde;es ou informa&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    n&atilde;o as entendo; isto &eacute; uma burla. Acho que se f&ocirc;ssemos<br \/>\n    plantar batatas far&iacute;amos melhor neg&oacute;cio. Anda, Sim&atilde;o;<br \/>\n    quebra essas bateias, atira ao rio esses almocafres, e vamo-nos embora para<br \/>\n    o nosso pa&iacute;s. &Eacute; escusado andar procurando no seio da terra o<br \/>\n    que l&aacute; n&atilde;o guardamos.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha paci&ecirc;ncia, meu patr&atilde;o &#8211; respondeu o camarada. &#8211; D&ecirc;-nos<br \/>\n    ainda um pequeno servi&ccedil;o amanh&atilde;&#8230; ali, ali mais embaixo, patr&atilde;o,<br \/>\n    e eu que n&atilde;o me chame Sim&atilde;o, se a coisa ali n&atilde;o pintar.<br \/>\n    Tenha f&eacute; e reze a Nossa Senhora, e ver&aacute; se amanh&atilde; ou<br \/>\n    depois o diamante gra&uacute;do n&atilde;o vem aluminar no fundo da bateia.<\/p>\n<p>&#8211; Hist&oacute;rias! meu Sim&atilde;o; todos os dias me dizes isso e o resultado<br \/>\n    ~ sempre o que estamos vendo.<\/p>\n<p>&#8211; Mais dois dias s&oacute;, patr&atilde;o; e eu que seja enforcado, se n&atilde;o<br \/>\n    acharmos coisa que sirva.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o creias nisso, Sim&atilde;o; a sorte me persegue; tenho de ser<br \/>\n    pobre e desgra&ccedil;ado toda a minha vida &#8211; murmurou o mo&ccedil;o no tom<br \/>\n    do mais profundo desalento.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o desanime assim, patr&atilde;o; n&atilde;o se lembra mais da<br \/>\n    cigana, que leu a sua sina, e disse que a sua estrela &eacute; de pedra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, e &eacute; de pedra mesmo, ou mais dura do que pedra. O diabo leve<br \/>\n    quanta cigana h&aacute; neste mundo, e todas as suas predi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Nisto os trabalhadores puseram tristemente os seus almocafres ao ombro, pegaram<br \/>\n    em suas bateias, e se retiraram. Elias e Sim&atilde;o ficaram ainda.<\/p>\n<p>Sim&atilde;o era um velho magro, mas robusto e bem constitu&iacute;do, de<br \/>\n    cor bronzeada, e que parecia ser de ra&ccedil;a mista de &iacute;ndio e africano.<br \/>\n    Desde menino fora camarada do pai de Elias, ao qual sempre servira com a maior<br \/>\n    dedica&ccedil;&atilde;o e lealdade. O pai de Elias tamb&eacute;m o estimava<br \/>\n    e queria como a Um verdadeiro amigo, e tendo falecido h&aacute; quatro ou<br \/>\n    cinco anos sem poder deixar &agrave;quele seu &uacute;nico filho outra heran&ccedil;a<br \/>\n    mais do que uma excelente educa&ccedil;&atilde;o, que infelizmente n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de concluir, em seus &uacute;ltimos momentos rogou ao velho caboclo,<br \/>\n    que acompanhasse sempre, que nunca abandonasse a seu filho, que ficava com<br \/>\n    17 a 18 anos de idade.<\/p>\n<p>N&atilde;o era preciso que o velho o rogasse; Sim&atilde;o nunca abandonaria<br \/>\n    o jovem patr&atilde;o, a quem na inf&acirc;ncia carregara nos bra&ccedil;os<br \/>\n    e a quem votava afei&ccedil;&atilde;o de pai.<\/p>\n<p>Sim&atilde;o era garimpeiro mestre, muito conhecedor de terrenos diamantinos,<br \/>\n    de que tinha adquirido grande pr&aacute;tica na Diamantina, de onde seu defunto<br \/>\n    patr&atilde;o e ele mesmo eram naturais, e onde tinham residido nos primeiros<br \/>\n    tempos de sua vida.<\/p>\n<p>Sim&atilde;o era verdadeiramente um habil&iacute;ssimo garimpeiro, e parecia<br \/>\n    que farejava o diamante; mas, infelizmente para o seu jovem amo, para quem<br \/>\n    somente trabalhava, e para quem desejaria descobrir um tesouro, a sua grande<br \/>\n    habilidade tinha ficado sempre em falta, o que sumamente o afligia; mas nem<br \/>\n    assim desesperava.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; aqui mesmo na Bagagem, meu amo, dizia-lhe ele &agrave;s vezes,<br \/>\n    &eacute; neste ch&atilde;o mesmo que est&aacute; enterrada a sua estrela de<br \/>\n    pedra.<\/p>\n<p>Quando Elias foi para o Patroc&iacute;nio correr cavalhadas, Sim&atilde;o,<br \/>\n    que vinha com ele, quis ficar na Bagagem.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; que estou aqui, patr&atilde;o, vou ver se acho a sua estrela<br \/>\n    de pedra. Tamb&eacute;m o patr&atilde;o n&atilde;o vai longe; se precisar<br \/>\n    de mim, &eacute; um pulo. Compre um pedacinho de grupiara, e deixe-me trabalhar.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! meu velho Sim&atilde;o &#8211; exclamou o mo&ccedil;o, logo que os outros<br \/>\n    se retiraram &#8211; estou perdido! estou desesperado! n&atilde;o sei o que fa&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Garimpar, patr&atilde;o, garimpar! n&atilde;o desanime t&atilde;o depressa;<br \/>\n    joguemos a &uacute;ltima cartada.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Sim&atilde;o, se isto continuar assim, e continua, estou certo, em<br \/>\n    breve n&atilde;o terei mais com que pagar as poucas pra&ccedil;as que tenho<br \/>\n    no servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o importa, patr&atilde;o; pode mand&aacute;-los embora; eu sozinho<br \/>\n    trabalharei. Quando se tem de ser feliz, tanto vale ter uma como dez ou cem<br \/>\n    pra&ccedil;as; e n&atilde;o sei por que &eacute;, tenho mais f&eacute; quando<br \/>\n    trabalho sozinho.<\/p>\n<p>&#8211; Trabalha para ti, meu pobre Sim&atilde;o; est&aacute;s velho, precisas<br \/>\n    guardar alguma coisa para quando n&atilde;o puderes mais trabalhar. Eu mesmo,<br \/>\n    infeliz de mim! n&atilde;o sei se te poderei valer em tempo algum. Deixa-me<br \/>\n    entregue a minha m&aacute; ventura; &eacute; loucura lutar contra o destino&#8230;<br \/>\n    ah! L&uacute;cia&#8230; L&uacute;cia&#8230; nunca mais te verei!<\/p>\n<p>E o mo&ccedil;o pendeu a cabe&ccedil;a e tapou os olhos com as m&atilde;os,<br \/>\n    mergulhado em profunda tristeza.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre de meu patr&atilde;o!&#8230; o que &eacute; isso!&#8230; tenha &acirc;nimo!<br \/>\n    quem porfia mata ca&ccedil;a&#8230; o patr&atilde;o h&aacute; de ser rico, e h&aacute;<br \/>\n    de se casar com essa L&uacute;cia, em que est&aacute; sempre a falar. H&aacute;<br \/>\n    uma voz que sempre me diz c&aacute; dentro que o patr&atilde;o h&aacute; de<br \/>\n    ser rico, e h&aacute; mesmo. J&aacute; fiz uma promessa a Nossa Senhora do<br \/>\n    Patroc&iacute;nio, e ela nos h&aacute; de valer.<\/p>\n<p>&#8211; Assim te ou&ccedil;a ela, Sim&atilde;o. E eu n&atilde;o queria l&aacute;<br \/>\n    grandes riquezas. Bastava achar neste ch&atilde;o uma soma qualquer para me<br \/>\n    servir de princ&iacute;pio; cinco contos, quatro, dois mesmo j&aacute; me<br \/>\n    chegavam para servir de base a excelentes especula&ccedil;&otilde;es. Com<br \/>\n    atividade e o pouco de intelig&ecirc;ncia que Deus me deu, eu os faria multiplicarem-se<br \/>\n    em minhas m&atilde;os em pouco tempo. A n&atilde;o me cair do c&eacute;u,<br \/>\n    s&oacute; do seio da terra eu poderia arrancar esse come&ccedil;o; os homens<br \/>\n    n&atilde;o mo dariam, e nem eu jamais lho iria pedir. Mas este ch&atilde;o<br \/>\n    ingrato &eacute; como o c&eacute;u, surdo a meus rogos.<\/p>\n<p>&#8211; E eu, patr&atilde;o, tenho f&eacute; que deste ch&atilde;o mesmo &eacute;<br \/>\n    que havemos de arrancar, com o favor de Deus e Maria Sant&iacute;ssima, n&atilde;o<br \/>\n    digo um princ&iacute;pio de riqueza, mas uma riqueza inteira.<\/p>\n<p>&#8211; E entretanto h&aacute; seis meses que trabalho sem descanso, e em vez de<br \/>\n    principio, aqui vim encontrar o meu fim, a morte de todas as minhas esperan&ccedil;as;<br \/>\n    aqui acabei, completei a minha mis&eacute;ria e minha desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Meu amo hoje est&aacute; muito abatido!&#8230; v&aacute; passear, v&aacute;<br \/>\n    girar o com&eacute;rcio. Vamos ter uma bonita noite. V&aacute; divertir-se.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, Sim&atilde;o; estou muito aborrecido, n&atilde;o tenho desejos<br \/>\n    de ver a cara de ningu&eacute;m. Se queres, podes retirar-te.<\/p>\n<p>&#8211; E o patr&atilde;o o que fica fazendo aqui sozinho?<\/p>\n<p>&#8211; Fico a tomar fresco por um instante, estou com a cabe&ccedil;a a arder-me.<\/p>\n<p>J&aacute; era quase noite. Elias assentou-se numa pedra, e com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    entre as m&atilde;os e os cotovelos sobre os joelhos, apenas se achou s&oacute;,<br \/>\n    come&ccedil;ou a desafogar suas m&aacute;goas, falando consigo mesmo e quase<br \/>\n    chorando de desespero.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; l&aacute; v&atilde;o seis meses, e at&eacute; hoje nada! nada<br \/>\n    absolutamente. Eu teria feito melhor, sem d&uacute;vida, se tivesse aventurado<br \/>\n    o pouco que possu&iacute;a em uma mesa de lansquen&ecirc;. Ao menos teria<br \/>\n    ganhado ou perdido depressa e sem trabalho esse pouco que tinha, e eu seria<br \/>\n    o &uacute;nico trabalhador&#8230; E que me importariam diamantes e todas as riquezas<br \/>\n    do mundo, se n&atilde;o fosses tu, L&uacute;cia, que me acendeste no peito<br \/>\n    uma sede de riquezas, que eu nunca sentiria se n&atilde;o te conhecesse! Mas<br \/>\n    tu n&atilde;o tens a culpa, tu, a mais bela, a mais ing&ecirc;nua e a mais<br \/>\n    nobre das criaturas. A culpa &eacute; de teu avaro e ign&oacute;bil pai, que<br \/>\n    p&otilde;e a pre&ccedil;o de ouro a posse de tua m&atilde;o. E assim se profana<br \/>\n    vilmente, assim se vilipendia a sorte de um anjo sobre a terra. Est&aacute;s<br \/>\n    calculada em ouro, e eu, desgra&ccedil;ado de mim! por mais que rogue ao c&eacute;u,<br \/>\n    por mais que cave a terra, n&atilde;o posso achar esse ouro! Eu em vez de<br \/>\n    ach&aacute;-lo, tenho cavado mais fundo ainda o abismo de minha mis&eacute;ria.<br \/>\n    N&atilde;o importa! prosseguirei ainda. J&aacute; agora consome-se at&eacute;<br \/>\n    &agrave;s &uacute;ltimas a minha m&aacute; sina. J&aacute; bem pouco me resta.<br \/>\n    Venderei meu cavalo, meus arreios, minha faca de prata, e darei tudo ainda<br \/>\n    a devorar a este maldito garimpo, que at&eacute; t&atilde;o desapiedadamente<br \/>\n    me tem tratado. E quando evaporar-se a &uacute;ltima esperan&ccedil;a&#8230; as<br \/>\n    cachoeiras deste ribeir&atilde;o s&atilde;o fundas e escabrosas, e minhas<br \/>\n    pistolas n&atilde;o negam fogo&#8230;<\/p>\n<p>Elias ia talvez continuar aquele triste mon&oacute;logo, inspirado pelo desespero,<br \/>\n    quando um som de passadas que se avizinhavam o fizeram levantar subitamente<br \/>\n    o rosto. Era um homem algum tanto idoso e bem trajado e de agrad&aacute;vel<br \/>\n    presen&ccedil;a, que a passos vagarosos se encaminhava para ele.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o &#8211; disse o desconhecido cumprimentando-o. &#8211; Perd&atilde;o,<br \/>\n    se o vim indiscretamente perturbar em suas tristes reflex&otilde;es, e se,<br \/>\n    sem o querer, entrei no segredo de sua desgra&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! o senhor ouvia-me?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor; mas sem o querer; espero que me desculpar&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sem d&uacute;vida; nem posso levar a mal o acaso que aqui o trouxe a ponto<br \/>\n    de ouvir as minhas loucuras. Demais a minha infelicidade, ainda que eu o queira,<br \/>\n    daqui em diante n&atilde;o poder&aacute; ser um segredo.<\/p>\n<p>&#8211; Todavia n&atilde;o deixei de ser por demais curioso, eu o confesso. Eu<br \/>\n    estava ali entre aquelas burras apanhando algumas forma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do cascalho e examinando-as, e ouvi tudo. Devia-me retirar, &eacute; verdade,<br \/>\n    mas o que ia ouvindo come&ccedil;ou a interessar-me por tal sorte, que como<br \/>\n    a pesar meu ali fiquei pregado a escut&aacute;-lo. Mas pode ficar certo que<br \/>\n    o interesse que me inspirou, e n&atilde;o uma v&atilde; curiosidade, aqui<br \/>\n    me traz para junto do senhor, e que suas palavras ca&iacute;ram em ouvidos<br \/>\n    de quem sabe respeitar segredos e as m&aacute;goas alheias.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenho disso a menor d&uacute;vida, e muito folgo de ter esta<br \/>\n    ocasi&atilde;o de travar conhecimento com um homem que, segundo todas as apar&ecirc;ncias,<br \/>\n    &eacute; digno de toda a estima e respeito. S&oacute; lhe pe&ccedil;o que<br \/>\n    n&atilde;o d&ecirc; import&acirc;ncia alguma &agrave;s loucuras que eu estava<br \/>\n    dizendo: estava desabafando minhas m&aacute;goas com estes rochedos; s&atilde;o<br \/>\n    del&iacute;rios da imagina&ccedil;&atilde;o de um homem a quem a fortuna persegue.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o: eu sou mais velho, tenho tamb&eacute;m sofrido muito, e<br \/>\n    portanto me desculpar&aacute; se lhe falo com uma franqueza algum tanto rude.<br \/>\n    &Eacute; uma vergonha para um mo&ccedil;o, como o senhor, ainda na flor dos<br \/>\n    anos, e que, ao que parece, tem bastante intelig&ecirc;ncia e atividade, deixar-se<br \/>\n    assim abater covardemente ao primeiro golpe da adversidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas ah! se o senhor soubesse as circunst&acirc;ncias fatais em que me acho!<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; a falta de fortuna que eu lamento&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; sei; desculpe-me interromp&ecirc;-lo; eu ouvi tudo, e nem assim<br \/>\n    acho justifica&ccedil;&atilde;o ao seu desalento. O senhor ama uma rapariga,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; assim? e &eacute; por amor dela que deseja adquirir alguma<br \/>\n    fortuna. E mais um motivo para querer viver e prosseguir em novos e perseverantes<br \/>\n    esfor&ccedil;os para adquirir uma posi&ccedil;&atilde;o brilhante em que possa<br \/>\n    fazer a felicidade sua e dela. Deve ser bem fraco esse amor que sucumbe logo<br \/>\n    diante da primeira dificuldade, que n&atilde;o sabe lutar contra a adversidade<br \/>\n    e ao primeiro contratempo, julgando tudo perdido, s&oacute; acha ref&uacute;gio<br \/>\n    no suic&iacute;dio, sem se lembrar que com esse procedimento pusil&acirc;nime<br \/>\n    vai encher de luto e desespera&ccedil;&atilde;o o cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    sua amante. Se todos assim procedessem, recuando, logo desde as primeiras<br \/>\n    tentativas, quase ningu&eacute;m no mundo lograria seus intentos, quase ningu&eacute;m<br \/>\n    alcan&ccedil;aria as riquezas, as honras e a felicidade.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que posso eu fazer?&#8230; atirei-me num abismo sem sa&iacute;da, e no<br \/>\n    qual devo ficar para sempre sepultado.<\/p>\n<p>&#8211; Pois a sua intelig&ecirc;ncia, servida por dois bra&ccedil;os juvenis e<br \/>\n    vigorosos, n&atilde;o lhe poder&aacute; abrir um caminho para sair desse abismo,<br \/>\n    que eu creio que s&oacute; existe na sua imagina&ccedil;&atilde;o? Admira<br \/>\n    que um homem, na sua idade e com t&atilde;o boas disposi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tenha t&atilde;o pouca f&eacute; no seu futuro, e t&atilde;o pouca confian&ccedil;a<br \/>\n    nos homens!<\/p>\n<p>Elias nada tinha que replicar &agrave;s justas e severas reflex&otilde;es<br \/>\n    daquele desconhecido, cujo exterior e cujas palavras sisudas logo &agrave;<br \/>\n    primeira vista inspiravam a um tempo respeito e simpatia, e esperava com ansiosa<br \/>\n    curiosidade o resultado daquela singular entrevista, que o acaso lhe preparava<br \/>\n    em tal ocasi&atilde;o com um homem que nunca tinha visto.<\/p>\n<p>&#8211; Saiba, por&eacute;m &#8211; continuou o desconhecido &#8211; que n&atilde;o vim aqui<br \/>\n    s&oacute; no intuito de anim&aacute;-lo e dar-lhe conselhos. Quero abrir-lhe,<br \/>\n    se puder o caminho para desvi&aacute;-lo desse abismo em que ainda n&atilde;o<br \/>\n    caiu, como sup&otilde;e, mas em que o desespero o ia precipitar. Venho fazer-lhe<br \/>\n    uma proposta; estar&aacute; disposto a aceit&aacute;-la?<\/p>\n<p>&#8211; Fale, senhor; qual &eacute; ela? estou bem certo que n&atilde;o me propor&aacute;<br \/>\n    nada que n&atilde;o seja para meu benef&iacute;cio.<\/p>\n<p>&#8211; E &eacute; sem d&uacute;vida alguma. Em primeiro lugar entendo que este<br \/>\n    descoberto da Bagagem n&atilde;o pode oferecer vantagem nenhuma a quem com<br \/>\n    pequenos capitais quer tentar um come&ccedil;o de fortuna. &Eacute; um garimpo<br \/>\n    falaz e trai&ccedil;oeiro. Sou da Bahia, e garimpeiro tamb&eacute;m; vim aqui<br \/>\n    examinar este novo descoberto, de que se me contavam maravilhas; vejo o contr&aacute;rio,<br \/>\n    e posso falar com pleno conhecimento de causa. H&aacute; aqui, na verdade,<br \/>\n    e t&ecirc;m-se extra&iacute;do grandes e magn&iacute;ficos diamantes, como<br \/>\n    n&atilde;o os h&aacute; em outros garimpos. Mas esses n&atilde;o chegam a<br \/>\n    todos e o seu aparecimento mesmo &eacute; um engodo perigoso, que s&oacute;<br \/>\n    serve para arruinar milhares de garimpeiros, e somente felicita a um ou outro<br \/>\n    filho predileto da fortuna. Pode-se dizer que desta terra, e o senhor &eacute;<br \/>\n    um exemplo, vinga-se cruelmente daqueles que lhe rasgam o seio. N&atilde;o<br \/>\n    acontece o mesmo no Sincor&aacute;; ali o diamante &eacute; neg&oacute;cio<br \/>\n    que pode chegar a todos, e qualquer mo&ccedil;o ativo e inteligente acha ali<br \/>\n    meios seguros de fazer em pouco tempo alguma fortuna.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo isso pode ser, observou Elias; mas para subir a grandes alturas &eacute;<br \/>\n    preciso p&ocirc;r o p&eacute; nos primeiros degraus e esses me faltam.<\/p>\n<p>&#8211; Isto l&aacute; &eacute; verdade; mas tenha paci&ecirc;ncia; escute-me ainda<br \/>\n    um instante. Tenho l&aacute; no Sincor&aacute; muitas lavras que comprei por<br \/>\n    baixo pre&ccedil;o, mas que informam muito bem; est&atilde;o em abandono por<br \/>\n    me faltar uma pessoa de confian&ccedil;a que possa p&ocirc;r &agrave; testa<br \/>\n    do servi&ccedil;o, e meus neg&oacute;cios n&atilde;o me deixam tempo para<br \/>\n    ficar ali preso &agrave; cola dos bateeiros, como &eacute; indispens&aacute;vel.<br \/>\n    O senhor inspirou-me confian&ccedil;a e simpatia desde a primeira vez que<br \/>\n    o vi; pois saiba que n&atilde;o &eacute; esta a primeira, e tenho ouvido fazerem-lhe<br \/>\n    por toda parte aus&ecirc;ncias as mais honrosas. A sua infelicidade, de cujo<br \/>\n    segredo por um singular acaso agora estou de posse, acabou de inspirar-me<br \/>\n    um decidido interesse pela sua sorte. Se quiser, pois, ir administrar o servi&ccedil;o<br \/>\n    dessas lavras, lhe darei sociedade com lucro razo&aacute;vel no produto delas,<br \/>\n    e fora disso tamb&eacute;m sempre me achar&aacute; pronto a valer-lhe com<br \/>\n    o meu pequeno pr&eacute;stimo. Creia que n&atilde;o tenho interesse nenhum<br \/>\n    em engan&aacute;-lo; posso ser-lhe &uacute;til e desejo sinceramente dar-lhe<br \/>\n    a m&atilde;o. Por estes dias tenho de voltar para o Sincor&aacute;. Agora<br \/>\n    resolva-se. Aceita os meus oferecimentos? quer ir comigo?&#8230;<\/p>\n<p>O partido &eacute; excelente, pensou consigo Elias. Mas para o Sincor&aacute;!&#8230;<br \/>\n    para t&atilde;o longe de minha L&uacute;cia!&#8230; n&atilde;o sei se terei &acirc;nimo.<\/p>\n<p>&#8211; A sua proposta &eacute; a mais vantajosa poss&iacute;vel &#8211; respondeu Elias<br \/>\n    depois de um breve sil&ecirc;ncio &#8211; e n&atilde;o tenho palavras para exprimir<br \/>\n    a minha gratid&atilde;o por esse seu generoso procedimento para com um estranho,<br \/>\n    que mal conhece, fundado apenas em uma vaga simpatia e em uma reputa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que bem podia n&atilde;o ser merecida. Todavia o acaso merece que se reflita<br \/>\n    um pouco, e n&atilde;o posso j&aacute; e de pronto resolver-me. Amanh&atilde;,<br \/>\n    se lhe aprouver, lhe darei a resposta. Onde e a que horas o poderei encontrar?<\/p>\n<p>&#8211; Amanh&atilde; ao meio-dia, naquele rancho de telha, que l&aacute; se avista<br \/>\n    do outro lado do rio entre dois bagua&ccedil;us&#8230; est&aacute; vendo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou&#8230; j&aacute; sei; amanh&atilde; ao meio-dia l&aacute; estarei.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem!&#8230; v&aacute; dormir sobre o caso; boa noite.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite.<\/p>\n<p>J&aacute; ia escurecendo. Elias encaminhou-se vagarosamente para o seu rancho,<br \/>\n    onde foi, n&atilde;o dormir, mas velar sobre o caso.<\/p>\n<p>Elias n&atilde;o teve muito que pensar para tomar resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    definitiva. O inesperado da proposta e a id&eacute;ia da dist&acirc;ncia que<br \/>\n    o ia separar de sua querida L&uacute;cia o espantaram a princ&iacute;pio.<br \/>\n    Mas entre a possibilidade de uma fortuna e a situa&ccedil;&atilde;o desesperada<br \/>\n    em que se via na Bagagem, n&atilde;o havia que hesitar. Quanto &agrave; dist&acirc;ncia,<br \/>\n    porventura ali mesmo a algumas l&eacute;guas apenas da fazenda do Major, n&atilde;o<br \/>\n    estava ele t&atilde;o separado dela, como se estivesse no fim do mundo? e<br \/>\n    porventura n&atilde;o o separava dela tamb&eacute;m um abismo pior do que<br \/>\n    todas as dist&acirc;ncias, a pobreza? e n&atilde;o era esse abismo, que ia<br \/>\n    procurar encher e superar, indo para bem longe? am&aacute;-lo-ia mais, ser-lhe-ia<br \/>\n    ela mais fiel, estando ele perto?<\/p>\n<p>Tendo-se, pois, resolvido definitivamente, comunicou sua inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e contou a ventura da tarde a seu velho camarada, que, assentado ao p&eacute;<br \/>\n    do fogo aceso no meio do rancho, fumava tranq&uuml;ilamente o seu cachimbo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o Vmc&ecirc;. vai-me deixar, patr&atilde;o? &#8211; disse o velho,<br \/>\n    fitando em Elias olhos lastimosos.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? pois tu n&atilde;o me acompanhas?<\/p>\n<p>&#8211; Eu!&#8230; para t&atilde;o longe?&#8230; ah! meu patr&atilde;o! pudesse eu&#8230; mas<br \/>\n    j&aacute; estou velho e mofino; essas viagens j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    para mim&#8230; que necessidade tenho eu de ir largar os ossos l&aacute; t&atilde;o<br \/>\n    longe?<\/p>\n<p>&#8211; Mas nesse caso, meu bom Sim&atilde;o, tamb&eacute;m n&atilde;o vou.<\/p>\n<p>&#8211; E por que n&atilde;o, meu patr&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Como hei de deixar-te aqui sozinho e desamparado!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o lhe d&ecirc; isso cuidado. Ainda sei trabalhar. Deus &eacute;<br \/>\n    de miseric&oacute;rdia, e nunca h&aacute; de faltar a este pobre velho um<br \/>\n    prato de feij&atilde;o e um ranchinho em que durma. J&aacute; que &eacute;<br \/>\n    para seu bem, v&aacute;, meu patr&atilde;o; Vmc&ecirc;. n&atilde;o deve perder<br \/>\n    um lance de fortuna, que vem mesmo agora a talho de foice, por amor de um<br \/>\n    velho camarada, que j&aacute; para pouco presta. Tamb&eacute;m o patr&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o &eacute; t&atilde;o crian&ccedil;a que n&atilde;o possa<br \/>\n    sair sozinho pelo mundo, e eu, a dizer a verdade, mais lhe iria servir de<br \/>\n    peso que de outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Contudo, Sim&atilde;o, n&atilde;o tenho &acirc;nimo de deixar-te assim.<br \/>\n    Se adoeceres&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o banze com isso. Tenho por aqui muito conhecimento, e muito patr&atilde;o<br \/>\n    bom, que h&aacute; de ter d&oacute; de mim. V&aacute;, patr&atilde;o, e N.<br \/>\n    S. do Patroc&iacute;nio permita que seja para bem. No entanto, c&aacute; para<br \/>\n    mim, a minha f&eacute; &eacute; mesmo com este garimpo daqui. E deste ch&atilde;o<br \/>\n    que n&oacute;s havemos de um dia arrancar a sua estrela de pedra.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o creias tal, Sim&atilde;o, deste ch&atilde;o s&oacute; podem<br \/>\n    brotar para mim espinhos e urtigas, l&aacute;grimas e mis&eacute;rias.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; bem!&#8230; um dia Vmc&ecirc;. se h&aacute; de desenganar; bote<br \/>\n    sentido no que estou dizendo. V&aacute; para o seu Sincor&aacute;, e N. S.<br \/>\n    da Guia que lhe acompanhe. V&aacute; procurar sua estrela de pedra l&aacute;<br \/>\n    por esse mundo de meu Deus, e deixe-me c&aacute; ficar procurando ela por<br \/>\n    aqui mesmo. Havemos de ver quem acha primeiro.<\/p>\n<p>Elias nenhuma import&acirc;ncia ligava &agrave;queles pressentimentos do<br \/>\n    pobre Sim&atilde;o. Era simplicidade ou caduquice de seu velho camarada. Depois<br \/>\n    de conversarem mais algum tempo sobre sua pr&oacute;xima separa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ambos adormeceram: o camarada sobre um couro ao p&eacute; do fogo, e o patr&atilde;o<br \/>\n    sobre sua pobre cama estendida sobre um jirau a um canto do rancho.<\/p>\n<p>Da&iacute; a alguns dias Elias abra&ccedil;ou chorando seu velho camarada,<br \/>\n    era o &uacute;nico amigo que deixava na Bagagem! deu-lhe todo o dinheiro que<br \/>\n    inda lhe restava, e, tirando uma carta da algibeira, entregou-lhe dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Esta carta &eacute; para L&uacute;cia, Sim&atilde;o; tu mesmo a ir&aacute;s<br \/>\n    levar em sua na fazenda do Major ***; &eacute; um &uacute;ltimo favor que<br \/>\n    quero te merecer. Ningu&eacute;m l&aacute; te conhece, pedir&aacute;s pousada,<br \/>\n    e &eacute; imposs&iacute;vel que despertes a menor suspeita. L&aacute; procurar&aacute;s<br \/>\n    entreg&aacute;-la ocultamente a uma velha escrava por nome Joana, que a levar&aacute;<br \/>\n    fielmente &agrave;s m&atilde;os de L&uacute;cia.<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; sossegado, patr&atilde;o; a carta h&aacute; de ser entregue.<\/p>\n<p>A carta de Elias era assim:<\/p>\n<p>&quot;J&aacute; l&aacute; v&atilde;o seis meses que nos separamos e que me<br \/>\n    acho aqui na Bagagem, onde a fortuna me n&atilde;o sorriu. Manda-me agora<br \/>\n    o destino que eu v&aacute; tent&aacute;-la bem longe daqui, por&eacute;m com<br \/>\n    muito melhores esperan&ccedil;as. Parto hoje para o Sincor&aacute;. N&atilde;o<br \/>\n    te assustes, minha querida, com a dist&acirc;ncia que vai separar-nos. Em<br \/>\n    qualquer parte que eu v&aacute;, te amarei sempre com o mesmo ardor e lealdade.<br \/>\n    Falta-me ainda ano e meio para cumprir o meu fad&aacute;rio. Mas n&atilde;o<br \/>\n    esmore&ccedil;amos; conserva-me fiel e puro o teu amor, tua confian&ccedil;a<br \/>\n    no futuro e na Provid&ecirc;ncia, e o c&eacute;u nos proteger&aacute;. Adeus,<br \/>\n    at&eacute; o prazo marcado.&quot;<\/p>\n<p>Da&iacute; a um instante Elias, em companhia de seu protetor, partia para<br \/>\n    o Sincor&aacute;.<\/p>\n<h2><a name=\"5\">V &#8211; O BAIANO<\/a><\/h2>\n<p>J&aacute; perto de dois anos eram passados, depois que Elias descoro&ccedil;oado<br \/>\n    de encontrar no solo da Bagagem ao menos os elementos de uma riqueza, que<br \/>\n    se tornara condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel para sua felicidade,<br \/>\n    ralado de saudades e com o esp&iacute;rito oscilando entre as mais sinistras<br \/>\n    apreens&otilde;es e as mais lisonjeiras esperan&ccedil;as, partira para longes<br \/>\n    terras em busca de fortuna, fiado na prote&ccedil;&atilde;o de um homem que<br \/>\n    lhe era inteiramente desconhecido, abandonando seu destino &agrave; merc&ecirc;<br \/>\n    da fatalidade.<\/p>\n<p>A Bagagem j&aacute; ent&atilde;o apresentava o aspecto de uma povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nascente, cheia de com&eacute;rcio, vida e anima&ccedil;&atilde;o, como s&atilde;o<br \/>\n    em seu come&ccedil;o todos os descobertos diamantinos. J&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    eram simplesmente os toscos ranchos cobertos de bagua&ccedil;u espalhados<br \/>\n    em desordem ao longo das margens do rio. Por entre eles alvejavam j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o raras algumas casas caiadas e envidra&ccedil;adas, como gar&ccedil;as<br \/>\n    pousadas entre um bando de pardacentas pombas silvestres.<\/p>\n<p>Algumas ruas menos irregulares se iam formando, e nelas viam-se j&aacute;<br \/>\n    bonitas e bem sortidas lojas e casas de neg&oacute;cio de toda a esp&eacute;cie.<\/p>\n<p>A Bagagem contava em seu seio talvez vinte mil almas &agrave; custa dos munic&iacute;pios<br \/>\n    vizinhos, que ficaram despovoados. Quase todo o Patroc&iacute;nio, o Arax&aacute;,<br \/>\n    grande parte do Piracatu e Uberaba tinham-se mudado para as matas da Bagagem.<\/p>\n<p>O Major *** tamb&eacute;m n&atilde;o ficara isento da mania geral, e, tentado<br \/>\n    pelo dem&ocirc;nio do garimpo, deixou quase em completo abandono sua lavoura,<br \/>\n    e veio estabelecer-se na Bagagem com sua fam&iacute;lia e quase toda a escravatura.<br \/>\n    Outro motivo tamb&eacute;m influiu no &acirc;nimo do Major para dar esse passo.<br \/>\n    L&uacute;cia, depois da partida de Elias, tinha ca&iacute;do em profunda tristeza<br \/>\n    e abatimento; sua sa&uacute;de se alterava e ela definhava, como a planta<br \/>\n    mimosa a quem falta a seiva da terra e o orvalho do c&eacute;u. O Major bem<br \/>\n    conhecia o verdadeiro motivo daquela indisposi&ccedil;&atilde;o de sua filha;<br \/>\n    mas, ou para afetar que nem a possibilidade concebia de uma paix&atilde;o<br \/>\n    amorosa, ou mesmo porque respeitava a delicada suscetibilidade dos sentimentos<br \/>\n    de L&uacute;cia, fingia ignor&aacute;-lo. Portanto, julgou conveniente arranc&aacute;-la<br \/>\n    &agrave; solid&atilde;o daquela fazenda, e, no meio da agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e dos passatempos da sociedade, procurar alguma distra&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    constante e profunda melancolia da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>O Major tinha constru&iacute;do uma bonita e asseada casinha no lan&ccedil;ante<br \/>\n    de uma colina &agrave; margem direita do ribeir&atilde;o, algum tanto isolada<br \/>\n    do resto da povoa&ccedil;&atilde;o. Era um templozinho, de que L&uacute;cia<br \/>\n    era a deusa tutelar, e onde aflu&iacute;am uma multid&atilde;o de devotos<br \/>\n    a render-lhe cultos e adora&ccedil;&otilde;es. Mas ela, triste como a juriti,<br \/>\n    a quem exilaram da sombra silenciosa de seus bosques, sentia indiz&iacute;vel<br \/>\n    saudade dos laranjais da fazenda paterna, de seu jardim, de sua fonte, e mais<br \/>\n    ainda de um ente, cuja imagem em seu esp&iacute;rito andava sempre ligada<br \/>\n    &agrave; daquela saudosa solid&atilde;o. A carta que Elias escrevera ao sair<br \/>\n    da Bagagem fora-lhe fielmente entregue; a id&eacute;ia da dist&acirc;ncia<br \/>\n    enorme que se ia interpor entre ela e seu amante ainda mais agravou o seu<br \/>\n    estado de prostra&ccedil;&atilde;o, aumentando-lhe os sustos e inquieta&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    A imagem de Elias estava sempre presente ao seu esp&iacute;rito, triste como<br \/>\n    a lua melanc&oacute;lica a mirar-se no seio im&oacute;vel de um lago solit&aacute;rio.<br \/>\n    De seus l&aacute;bios nunca escapava um sorriso que exprimisse verdadeiro<br \/>\n    prazer. Se algumas vezes sorria, seu sorriso era como um clar&atilde;o frouxo<br \/>\n    a custo escapado da alma por entre nuvens de tristeza.<\/p>\n<p>Todavia, mais por efeito do tempo do que das distra&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    seu pai lhe procurava, a feliz e vigorosa organiza&ccedil;&atilde;o de L&uacute;cia<br \/>\n    conseguiu triunfar e impor um termo aos progressos e estragos do sofrimento<br \/>\n    moral. N&atilde;o lhe voltou aquela inalter&aacute;vel e serena alegria dos<br \/>\n    primeiros anos, nem se lhe desvaneceram as m&aacute;goas e inquieta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o. Mas, ao pungir da dor violenta que a lacerava, substituiu-se<br \/>\n    uma melancolia calma e resignada, como noite de luar sucedendo silenciosa<br \/>\n    e triste aos horrores da tormenta.<\/p>\n<p>A gra&ccedil;a e gentileza de L&uacute;cia, seu ador&aacute;vel recato e<br \/>\n    aquele toque simp&aacute;tico de melancolia que a envolvia como um v&eacute;u,<br \/>\n    n&atilde;o podiam deixar de atrair a aten&ccedil;&atilde;o e produzir impress&atilde;o<br \/>\n    sobre a popula&ccedil;&atilde;o da Bagagem, comem grande parte de fazendeiros<br \/>\n    abastados dos arredores, que desprezando a enxada e o machado, puseram nas<br \/>\n    m&atilde;os de seus escravos o abri&atilde;o e a bateia, e de jovens negociantes<br \/>\n    de todas as proced&ecirc;ncias, que vinham de remotas paragens tentar neg&oacute;cio<br \/>\n    com os garimpeiros. O Major por seu lado, para dar uma divers&atilde;o &agrave;s<br \/>\n    id&eacute;ias melanc&oacute;licas de sua filha, procurava entret&ecirc;-la<br \/>\n    e distrai-la por todos os meios, e para esse fim costumava dar em sua casa<br \/>\n    freq&uuml;entes reuni&otilde;es, a que convidava a melhor sociedade da Bagagem.<\/p>\n<p>Muitos desses negociantes, muitos filhos de fazendeiros abastados, subjugados<br \/>\n    pelos encantos da gentil roceira, ofertaram a L&uacute;cia suas homenagens;<br \/>\n    mas para logo desistiam, n&atilde;o achando brecha por onde pudessem entrar<br \/>\n    nos arcanos daquele cora&ccedil;&atilde;o misterioso. Outros, mais audazes<br \/>\n    ou interpretando mal a fria amabilidade com que ela os tratara, abalan&ccedil;aram-se<br \/>\n    a revelar sua paix&atilde;o, e mesmo a pedi-la em casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha, j&aacute; tens vinte anos; acho que j&aacute; &eacute; tempo<br \/>\n    de pensar no casamento, e tenho para ti um noivo que decerto n&atilde;o rejeitar&aacute;s.<br \/>\n    &Eacute; o senhor F.; pediu-me hoje a tua m&atilde;o. Acho-o muito capaz de<br \/>\n    fazer a tua felicidade.<\/p>\n<p>Esta pequena alocu&ccedil;&atilde;o L&uacute;cia ouvia sempre ao menos uma<br \/>\n    vez por semana, e todas as vezes com imperturb&aacute;vel e glacial frieza<br \/>\n    lhe respondia:<\/p>\n<p>&#8211; Pe&ccedil;o-lhe, meu pai, que n&atilde;o me fale ora em casamento; n&atilde;o<br \/>\n    me sinto com inclina&ccedil;&atilde;o para esse estado. Talvez mais tarde&#8230;<br \/>\n    Meu pai bem v&ecirc; que minha irm&atilde; &eacute; ainda muito crian&ccedil;a.<br \/>\n    Enquanto ela n&atilde;o crescer mais e n&atilde;o puder lhe servir de companhia,<br \/>\n    eu n&atilde;o posso nem devo casar-me. Julgo-me necess&aacute;ria para ambos.<\/p>\n<p>O pai parecia aceder a estas raz&otilde;es e respeitava as repugn&acirc;ncias<br \/>\n    da filha. &Eacute; verdade tamb&eacute;m que, dos pretendentes que at&eacute;<br \/>\n    ali tinham aspirado &agrave; m&atilde;o de L&uacute;cia, posto que fossem<br \/>\n    todos dignos e belos mo&ccedil;os, todavia nenhum estava em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de assegurar-lhe uma posi&ccedil;&atilde;o muito brilhante pelo lado pecuni&aacute;rio;<br \/>\n    e o Major, que como bom pai desejava a felicidade da sua filha, mas que n&atilde;o<br \/>\n    concebia a felicidade sem a riqueza, esperava que L&uacute;cia encontraria<br \/>\n    ainda um marido milion&aacute;rio, e portanto facilmente condescendia com<br \/>\n    sua recusa.<\/p>\n<p>Assim passaram-se mais alguns meses, sem que nada alterasse a mon&oacute;tona<br \/>\n    tristeza do viver de L&uacute;cia, sem que uma esperan&ccedil;a viesse alent&aacute;-la,<br \/>\n    e nem novo golpe da sorte reavivar a chaga de seus antigos sofrimentos.<\/p>\n<p>Por esse tempo chegara &agrave; Bagagem um rico viajante, elegantemente trajado,<br \/>\n    com numeroso s&eacute;quito de pajens e camaradas e aparatosa bagagem. Era<br \/>\n    um jovem baiano, bem-feito, bonito, e de maneiras agrad&aacute;veis e insinuantes.<br \/>\n    Do Sincor&aacute;, onde se enriquecera com a compra de diamantes, viera &agrave;<br \/>\n    Bagagem continuar na mesma especula&ccedil;&atilde;o, e examinar e explorar<br \/>\n    este novo descoberto. A chegada de um h&oacute;spede destes a uma de nossas<br \/>\n    povoa&ccedil;&otilde;es do interior produz tanta ou maior expecta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que a visita de um soberano a qualquer grande capital do mundo civilizado.<\/p>\n<p>Leonel, assim se chamava o rec&eacute;m-chegado, tornou-se logo extremamente<br \/>\n    popular. Al&eacute;m de seu agrad&aacute;vel exterior e da afabilidade de<br \/>\n    suas maneiras, era dotado de prendas e qualidades que o tornavam apreciado<br \/>\n    e desejado em todas as companhias, tocava admiravelmente viol&atilde;o e cantava<br \/>\n    com muita gra&ccedil;a as modinhas e lundus da sua terra. Al&eacute;m de tudo<br \/>\n    era sumamente liberal, e tratava-se com luxo que, relativamente ao lugar,<br \/>\n    podia-se chamar suntuoso.<\/p>\n<p>N&atilde;o tardou muito que Leonel fosse tamb&eacute;m apresentado em casa<br \/>\n    do Major ***. Como sabemos, este costumava dar em sua casa algumas partidas<br \/>\n    ou pequenos saraus para dar alguma divers&atilde;o &agrave; melanc&oacute;lica<br \/>\n    disposi&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito de sua filha. Com o aparecimento<br \/>\n    de Leonel, essas partidas, que j&aacute; iam esmorecendo pelo nenhum resultado<br \/>\n    que produziam no esp&iacute;rito de L&uacute;cia, recome&ccedil;aram com nova<br \/>\n    anima&ccedil;&atilde;o. O Major era calculista, e preparava as cartas para<br \/>\n    um grande jogo. Contava que a bela figura, as delicadas maneiras do jovem<br \/>\n    baiano n&atilde;o deixariam de produzir impress&atilde;o no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de sua filha, e a curariam para sempre de sua antiga e louca paix&atilde;o.<br \/>\n    Por outro lado estava convencido, e n&atilde;o sem raz&atilde;o, que ningu&eacute;m<br \/>\n    que tivesse cora&ccedil;&atilde;o de mo&ccedil;o, podia chegar-se a L&uacute;cia<br \/>\n    sem sentir a irresist&iacute;vel influ&ecirc;ncia de seus lindos olhos; a<br \/>\n    experi&ecirc;ncia de todos os dias o estava confirmando. Leonel, que por sua<br \/>\n    conversa&ccedil;&atilde;o viva e alegre, por suas prendas e belas maneiras<br \/>\n    era a alma daquelas pequenas reuni&otilde;es, n&atilde;o tardou com efeito<br \/>\n    em sentir o m&aacute;gico influxo do brilho daqueles grandes olhos aveludados,<br \/>\n    daquele meigo e melanc&oacute;lico sorrir. Concebeu logo por ela uma paix&atilde;o<br \/>\n    ardente que n&atilde;o podia mais dissimular.<\/p>\n<p>Cerca de quinze dias depois que Leonel aparecera pela primeira vez em casa<br \/>\n    do Major, os dois, debru&ccedil;ados a uma janela em casa deste, travaram<br \/>\n    entre si a meia voz a seguinte conversa&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Major, n&atilde;o devo ocultar-vos por mais tempo que concebi por<br \/>\n    sua filha o mais ardente e extremoso amor, se &eacute; que j&aacute; o n&atilde;o<br \/>\n    tem adivinhado. Seria para mim a suprema felicidade, se eu pudesse ganhar<br \/>\n    tamb&eacute;m o cora&ccedil;&atilde;o dela, como ela soube conquistar o meu.<br \/>\n    Desejaria saber se o senhor acolhe bem este meu sentimento, que lhe afian&ccedil;o<br \/>\n    &eacute; puro e sincero, para saber se devo ou n&atilde;o continuar minhas<br \/>\n    visitas &agrave; sua casa.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sempre o receberei com os bra&ccedil;os abertos &#8211; retorquiu o Major<br \/>\n    com vivacidade &#8211; e de todo o cora&ccedil;&atilde;o folgo que minha filha inspirasse<br \/>\n    esses sentimentos a um mo&ccedil;o t&atilde;o distinto e de t&atilde;o belas<br \/>\n    qualidades. Mas ela?&#8230; sabe se lhe corresponde? o senhor n&atilde;o lhe fez<br \/>\n    ainda declara&ccedil;&atilde;o alguma?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ela&#8230; &eacute; sempre af&aacute;vel e boa para comigo; mas acho-a sempre<br \/>\n    t&atilde;o fria, t&atilde;o reservada, que n&atilde;o sei o que deva pensar.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o lhe d&ecirc; isso cuidado, senhor Leonel, &eacute; efeito do<br \/>\n    acanhamento; criada na ro&ccedil;a, e ainda n&atilde;o sabe desenvolver-se<br \/>\n    em uma conversa&ccedil;&atilde;o. s n&atilde;o desanime por isso; quando se<br \/>\n    familiarizar mais um pouco com o senhor, h&aacute; de perder esse acanhamento,<br \/>\n    eu lhe afian&ccedil;o. D&aacute;-me muito gosto em continuar a freq&uuml;entar<br \/>\n    esta sua casa, e posso assegurar-lhe que L&uacute;cia ser&aacute; sua&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assegura? mas, meu Deus! por que modo? se quer prevalecer-se da autoridade<br \/>\n    paterna para impor uma alian&ccedil;a, que talvez lhe desagrada, oh! nisso<br \/>\n    nunca consentirei.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, senhor Leonel, impor?&#8230; nunca! Prezo muito a minha filha para obrig&aacute;-la<br \/>\n    a casar com quem quer que seja, contra sua vontade, mas n&atilde;o creio poss&iacute;vel<br \/>\n    que ela rejeite&#8230;<\/p>\n<p>Nesse momento tocou a m&uacute;sica, e uma menina, chegando-se aos conversadores,<br \/>\n    chamou-os para dan&ccedil;arem ou verem dan&ccedil;ar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; dan&ccedil;ar com ela, disse o Major; &acirc;nimo e perseveran&ccedil;a!<br \/>\n    sem isso nada se arranja neste mundo.<\/p>\n<h2><a name=\"6\">VI &#8211; A RECUSA<\/a><\/h2>\n<p>No dia seguinte ao desta conversa, o Major foi bem cedo ter ao quarto de<br \/>\n    sua filha.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, minha L&uacute;cia &#8211; foi logo dizendo sem mais pre&acirc;mbulo<br \/>\n    &#8211; que tal parece esse belo mo&ccedil;o baiano, que ultimamente tem freq&uuml;entado<br \/>\n    a nossa casa?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que tal me parece?&#8230; &#8211; disse L&uacute;cia com embara&ccedil;o &#8211; t&atilde;o<br \/>\n    cedo, uma tal pergunta? &#8211; acrescentou sorrindo. &#8211; Palavra, que n&atilde;o<br \/>\n    sei lhe responder, meu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te de visagens; responde-me. Que tal te parece o senhor Leonel?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O que parecem todos, um mo&ccedil;o bem-parecido, de muito boas maneiras,<br \/>\n    e que talvez seja muito boa pessoa.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez, n&atilde;o; &eacute; mesmo um excelente mo&ccedil;o e, al&eacute;m<br \/>\n    de tudo, muito rico.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, a que vem tudo isso, meu pai?<\/p>\n<p>&#8211; A que vem? ainda me perguntas? pois sabe que esse excelente mo&ccedil;o,<br \/>\n    esse belo e rico baiano, foi a tua boa fortuna que o trouxe aqui para teu<br \/>\n    marido.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; esperava por isso &#8211; murmurou L&uacute;cia dentro d&#8217;alma; &eacute;<br \/>\n    mais um pretendente! Que praga que nunca se extingue! Para meu marido! &#8211; exclamou<br \/>\n    ela &#8211; ah! meu pai, por piedade, n&atilde;o me fale nisso.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, para teu marido &#8211; replicou o Major com enfado &#8211; rejeitar&aacute;s<br \/>\n    ainda este?<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai, n&atilde;o lhe tenho dito tantas vezes que n&atilde;o quero, que<br \/>\n    n&atilde;o devo me casar por ora?<\/p>\n<p>&#8211; Mas com este, minha filha!&#8230; olha bem o que fazes. Rejeit&aacute;-lo &eacute;<br \/>\n    um coice na fortuna.<\/p>\n<p>&#8211; E aceitar este ou outro qualquer, meu pai, &eacute; cravar-me um punhal<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o. Tenho pressentimentos de que, se me casar, serei<br \/>\n    muito desgra&ccedil;ada.<\/p>\n<p>&#8211; Crian&ccedil;a!&#8230; deixa-te dessas loucas apreens&otilde;es; essa repugn&acirc;ncia<br \/>\n    h&aacute; de passar com o tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca, meu pai, nunca passar&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; bem, L&uacute;cia, &eacute;s uma crian&ccedil;a sem ju&iacute;zo.<br \/>\n    Vai pensar bem no que te proponho e deixa-te de hesita&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Os anos voam e a beleza foge-lhe nas asas. Mais tarde quando quiseres te casar,<br \/>\n    n&atilde;o achar&aacute;s mais marido que te queira. Anda, vai refletir um<br \/>\n    pouco sobre o caso, e, se &eacute;s uma menina de ju&iacute;zo, certamente<br \/>\n    mudar&aacute;s de acordo. Fortunas destas n&atilde;o se encontram duas vezes<br \/>\n    na vida. Pensa bem no que te digo, e amanh&atilde; espero achar-te convertida.<\/p>\n<p>O Major saiu, e L&uacute;cia ficou sozinha por muito tempo encerrada em seu<br \/>\n    quarto a refletir deveras, n&atilde;o sobre as vantagens do casamento, que<br \/>\n    seu pai lhe propunha, mas sobre as dificuldades de sua penosa situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e sobre a luta que se ia travar entre ela e o Major, visto o modo por que<br \/>\n    este se mostrava empenhado na realiza&ccedil;&atilde;o deste &uacute;ltimo<br \/>\n    enlace projetado. A respeito dos outros pretendentes o Major cedera quase<br \/>\n    sem insist&ecirc;ncia alguma &agrave;s primeiras palavras de L&uacute;cia.<br \/>\n    Mas, a respeito deste &uacute;ltimo, n&atilde;o parecia resolvido a desistir,<br \/>\n    retirar-se sem se dar por vencido. E o pior era que parecia estar coberto<br \/>\n    de raz&atilde;o, pois Leonel era em verdade um mancebo que parecia pr&oacute;prio,<br \/>\n    a todos os respeitos, para fazer a felicidade de uma mo&ccedil;a, e as mais<br \/>\n    ricas e formosas donzelas da Bagagem teriam tido inveja da sorte de L&uacute;cia.<br \/>\n    Encerrada em seu quarto L&uacute;cia refletiu muito e amargamente sobre a<br \/>\n    cruel situa&ccedil;&atilde;o em que se achava, e, depois de ter chorado e<br \/>\n    rezado muito, pedindo aux&iacute;lio ao c&eacute;u, saiu do quarto resolvida<br \/>\n    a lutar at&eacute; o &uacute;ltimo transe, e disposta a aceitar antes o v&eacute;u<br \/>\n    de freira do que a grinalda de noiva.<\/p>\n<p>Leonel, todo confiado em sua bela presen&ccedil;a e seus dotes pessoais apesar<br \/>\n    da fria reserva de L&uacute;cia, n&atilde;o hesitava um momento que por fim<br \/>\n    ela acabaria por se lhe render.<\/p>\n<p>O Major nessa mesma tarde foi sondar de novo o cora&ccedil;&atilde;o de sua<br \/>\n    filha. Redobrou de inst&acirc;ncias, multiplicou os argumentos, entre os quais<br \/>\n    envolveu amea&ccedil;as mal disfar&ccedil;adas: nada a abalou. Por fim desceu<br \/>\n    at&eacute; a s&uacute;plica; L&uacute;cia respondeu mergulhando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    entre as colchas do leito, em que estava assentada, e desatou em prantos e<br \/>\n    solu&ccedil;os. O velho comovido por momento nada ousou responder a esta explos&atilde;o<br \/>\n    de l&aacute;grimas e solu&ccedil;os, e retirou-se triste e desconcertado,<br \/>\n    mas n&atilde;o desanimado.<\/p>\n<p>Como de costume, o jovem baiano apareceu &agrave; noite em casa do Major.<br \/>\n    L&uacute;cia, que at&eacute; ali s&oacute; sentira por Leonel a mesma indiferen&ccedil;a<br \/>\n    que para com os anteriores pretendentes, agora experimentava tamb&eacute;m<br \/>\n    um certo afastamento, uma repugn&acirc;ncia que mal podia dissimular. J&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o via nesse homem um simples pretendente: era um amea&ccedil;o vivo<br \/>\n    da sua felicidade, era a morte de suas esperan&ccedil;as, porque no fundo<br \/>\n    da alma L&uacute;cia ainda nutria uma esperan&ccedil;a, t&iacute;mida, vacilante<br \/>\n    sim, mas era sempre uma esperan&ccedil;a, e era ela que ainda lhe alimentava<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o, e dava-lhe coragem para viver. E talvez, quem sabe?<br \/>\n    com esse instinto admir&aacute;vel de que s&atilde;o dotadas certas mulheres,<br \/>\n    atrav&eacute;s das mais brilhantes exterioridades ela sabia penetrar no fundo<br \/>\n    dos cora&ccedil;&otilde;es, e achava em Leonel alguma coisa que lhe repugnava.<\/p>\n<p>Quando Leonel entrou na sala, L&uacute;cia descorou e estremeceu de modo<br \/>\n    que teria atra&iacute;do a aten&ccedil;&atilde;o de todos, se n&atilde;o fosse<br \/>\n    a fraca claridade que reinava na sala, iluminada ent&atilde;o por uma s&oacute;<br \/>\n    vela. N&atilde;o escapou, por&eacute;m, a Leonel aquele estremecimento de<br \/>\n    L&uacute;cia; mas gra&ccedil;as &agrave; sua vaidade o interpretou como efeito<br \/>\n    do alvoro&ccedil;o que lhe causava a sua presen&ccedil;a, e o tomou como bom<br \/>\n    press&aacute;gio. Se pudesse ver melhor o semblante da mo&ccedil;a, teria<br \/>\n    notado nele a extrema palidez e uma express&atilde;o de ang&uacute;stia e<br \/>\n    de horror que o tiraria de seu engano.<\/p>\n<p>Passados alguns minutos da conversa&ccedil;&atilde;o banal, L&uacute;cia<br \/>\n    retirou-se para acalmar, ou antes para ocultar a agita&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    seu esp&iacute;rito. Sua agita&ccedil;&atilde;o era das mais penosas. Criada<br \/>\n    na singeleza da ro&ccedil;a, habituada apenas &agrave; conviv&ecirc;ncia de<br \/>\n    uma sociedade de costumes ch&atilde;os e sem etiquetas, n&atilde;o estava<br \/>\n    acostumada a dissimular seus pesares e inquieta&ccedil;&otilde;es. Mas o instinto<br \/>\n    delicado de seu esp&iacute;rito advertia-lhe que era mister mascarar sua dor<br \/>\n    com as exterioridades do contentamento e da tranq&uuml;ilidade.<\/p>\n<p>A companhia ainda era pouco numerosa: com um gesto o Major convidou Leonel<br \/>\n    para a mesma janela em que os vimos conversar pela primeira vez. O Major come&ccedil;ou<br \/>\n    o di&aacute;logo.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Leonel, tenho esperan&ccedil;as de que L&uacute;cia aceitar&aacute;<br \/>\n    com prazer a m&atilde;o de esposo que o senhor lhe oferece. Mas, quando ontem<br \/>\n    conversamos, esqueci-me de tocar em um ponto que entretanto n&atilde;o devo<br \/>\n    lhe ocultar. O prazer que senti ao ouvir sua proposta provavelmente me fez<br \/>\n    passar pela id&eacute;ia esse objeto. Enfim, para encurtar raz&otilde;es,<br \/>\n    talvez o senhor Leonel, como outros muitos, esteja em engano a respeito de<br \/>\n    minha posi&ccedil;&atilde;o pecuni&aacute;ria, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta, senhor Major; pe&ccedil;o-lhe que n&atilde;o toque em tal assunto,<br \/>\n    se n&atilde;o quer ofender-me. Eu nunca indaguei, e nem indago quais s&atilde;o<br \/>\n    os seus haveres. Merc&ecirc; de Deus, possuo alguma coisa para n&atilde;o<br \/>\n    precisar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se enfade, senhor Leonel; n&atilde;o &eacute; nesse sentido<br \/>\n    que falo; bem conhe&ccedil;o o seu desinteresse. Mas todavia ficaria com um<br \/>\n    escr&uacute;pulo n&#8217;alma, se n&atilde;o lhe fizesse essa revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e n&atilde;o lhe declarasse que estou arruinado.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras, senhor Major?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; a pura verdade; completamente arruinado. Este maldito garimpo,<br \/>\n    que seduz e cega o homem mais do que a mesa do jogo ou a meretriz artificiosa,<br \/>\n    tem-me devorado em pouco tempo todos os meus haveres, uma sofr&iacute;vel<br \/>\n    fortuna adquirida &agrave; custa de longos anos de trabalho na lavoura e no<br \/>\n    com&eacute;rcio, sem a m&iacute;nima compensa&ccedil;&atilde;o. Minha fazenda,<br \/>\n    meus escravos est&atilde;o hipotecados quase at&eacute; o &uacute;ltimo, e<br \/>\n    em breve a mis&eacute;ria vir&aacute; bater-me &agrave; porta. Desculpe-me<br \/>\n    esta franqueza; eu n&atilde;o devia ocultar-lhe as minhas circunst&acirc;ncias,<br \/>\n    porque n&atilde;o me ficaria airoso dar-lhe a minha filha em casamento, sem<br \/>\n    que o senhor soubesse que casava-se com a filha de um miser&aacute;vel.<\/p>\n<p>&#8211; Miser&aacute;vel&#8230; n&atilde;o diga tal, senhor Major! isso nunca! mas,<br \/>\n    ainda que fosse um mendicante, mesmo assim eu teria orgulho de ser esposo<br \/>\n    de sua filha.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a desonra&#8230; bem sabe que o p&uacute;blico &eacute; implac&aacute;vel<br \/>\n    para com o negociante ou especulador infeliz.<\/p>\n<p>&#8211; Qual desonra, senhor Major! o mau sucesso de uma especula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    contanto que seja l&iacute;cita, n&atilde;o desonra a ningu&eacute;m. N&atilde;o<br \/>\n    se acovarde por essa forma&#8230; n&atilde;o faltar&atilde;o meios de reabilitar-se.<br \/>\n    Tranq&uuml;ilize-se; o p&uacute;blico e o com&eacute;rcio n&atilde;o ser&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o desapiedados como pensa. Pode-se fazer com seus credores um conv&ecirc;nio<br \/>\n    que salvar&aacute; tudo. Eu me entenderei com eles, e, gra&ccedil;as a Deus,<br \/>\n    estou em circunst&acirc;ncias de lhe poder ser &uacute;til sem sacrif&iacute;cio<br \/>\n    meu.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que o Major mui de prop&oacute;sito fazia aquela confid&ecirc;ncia<br \/>\n    a seu futuro genro para sondar sua generosidade e provocar o seu oferecimento.<br \/>\n    Mas n&atilde;o era assim; o Major fazia-lhe aquela revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    porque entendia que era de seu dever, e procedia por um impulso de franqueza<br \/>\n    que lhe era natural. A princ&iacute;pio, portanto, o generoso oferecimento<br \/>\n    do jovem baiano o perturbou e desconcertou algum tanto; mas depois penetrou-lhe<br \/>\n    na alma como o raiar de uma dupla esperan&ccedil;a. Nesse enlace estava a<br \/>\n    felicidade da filha e a salva&ccedil;&atilde;o de sua fortuna.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor! Perd&atilde;o! nem falemos nisso &#8211; replicou o Major<br \/>\n    algum tanto enfiado; longe de mim a id&eacute;ia de lhe ser pesado; e o que<br \/>\n    diria o povo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E que tem o povo com os nossos neg&oacute;cios, e n&oacute;s com o que<br \/>\n    ele dir&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Dir&aacute;, e com apar&ecirc;ncias de verdade, que contratando este casamento<br \/>\n    especulei com a sua generosidade.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tem direito a dizer tal. Sabia eu por acaso do estado dos Seus<br \/>\n    neg&oacute;cios quando lhe pedi a filha em casamento? e entretanto, desde<br \/>\n    que aqui cheguei, aspirei a ser seu genro. E h&aacute; nada mais natural do<br \/>\n    que O genro socorrer ao sogro, ou o sogro ao genro? Sois demasiadamente escrupuloso,<br \/>\n    senhor Major.<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser; mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; nem falemos mais nisso, caro Major; s&atilde;o horas de nos divertirmos.<\/p>\n<p>Algumas pessoas, que chegaram e vieram cumprimentar o Major, acabaram de<br \/>\n    p&ocirc;r termo &agrave;quela conversa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Leonel foi sentar-se ao p&eacute; de L&uacute;cia, que j&aacute; tinha voltado<br \/>\n    &agrave; sala. A coitada parecia que estava assentada em uma cadeira de ferro<br \/>\n    em brasa. Seu olhar era incerto, mudava de cor a cada momento, mal respondia<br \/>\n    &agrave;s perguntas que Leonel lhe dirigia, e &agrave;s vezes parecia querer<br \/>\n    levantar-se bruscamente, e deitar-se a correr pela casa adentro. Mas aos olhos<br \/>\n    de Leonel tudo isto tinha uma explica&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s plaus&iacute;vel<br \/>\n    para quem n&atilde;o conhecia o estado do cora&ccedil;&atilde;o de L&uacute;cia.<br \/>\n    Era o acanhamento que resulta da emo&ccedil;&atilde;o que sente toda a mo&ccedil;a<br \/>\n    ao ver perto de si um homem apenas conhecido, e que tem de ser seu marido.<\/p>\n<p>O Major por sua parte, pouco conversava, e andava pensativo, ocupado em refletir<br \/>\n    nos meios que empregaria em um novo assalto que projetava dirigir contra o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o da filha, para reduzi-la a dar o sim. Agora, que nesse<br \/>\n    casamento via tamb&eacute;m a reabilita&ccedil;&atilde;o de sua fortuna, &eacute;<br \/>\n    f&aacute;cil conceber com que novo ardor e encarni&ccedil;amento estava disposto<br \/>\n    a atac&aacute;-la.<\/p>\n<p>L&uacute;cia, por sua parte, s&oacute; esperava com a maior impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    pelo momento de recolher-se para dar livre curso a seus pensamentos e a suas<br \/>\n    l&aacute;grimas.<\/p>\n<h2><a name=\"7\">VII &#8211; O SACRIF&Iacute;CIO<\/a><\/h2>\n<p>No outro dia L&uacute;cia acordou, ou antes levantou-se, pois bem pouco dormira,<br \/>\n    cheia de sustos e de tristes pressentimentos; mas procurou ocultar do melhor<br \/>\n    modo que p&ocirc;de suas inquieta&ccedil;&otilde;es, e premunir-se de for&ccedil;a<br \/>\n    e resolu&ccedil;&atilde;o para afrontar os novos embates que a amea&ccedil;avam.<br \/>\n    Por um lado a atormentava a posi&ccedil;&atilde;o extrema em que se via colocada<br \/>\n    pelas inst&acirc;ncias do pai, posi&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o via<br \/>\n    outro meio de escapar-se, sen&atilde;o rendendo-se &agrave; discri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou por meio de uma confiss&atilde;o, que, em vez de aplac&aacute;-lo, atrairia<br \/>\n    sobre ela a c&oacute;lera de seu pai. Por outro lado a torturava a cruel incerteza<br \/>\n    em que se achava a respeito da sorte de Elias, do qual nem not&iacute;cias<br \/>\n    tinha, posto que j&aacute; tivesse findado o prazo de dois anos, dentro do<br \/>\n    qual prometera voltar ou dar not&iacute;cias suas. Pensava na dist&acirc;ncia<br \/>\n    imensa que os separava, nos imensos perigos que o rodeavam por aqueles sert&otilde;es<br \/>\n    infestados de assassinos e salteadores e infeccionados de epidemias mort&iacute;feras,<br \/>\n    e a esperan&ccedil;a a abandonava, e sua alma se entregava a um desalento<br \/>\n    mortal.<\/p>\n<p>Estava extremamente p&aacute;lida e triste; liam-se no semblante os vest&iacute;gios<br \/>\n    de uma noite velada no sofrimento, mas em sua fisionomia como que transluzia<br \/>\n    a altivez de uma resolu&ccedil;&atilde;o inabal&aacute;vel.<\/p>\n<p>O Major, que espiava com impaci&ecirc;ncia o momento em que L&uacute;cia<br \/>\n    despertasse, dirigiu-se a seu quarto, logo que a sentiu levantada.<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha&#8230; mas est&aacute;s t&atilde;o p&aacute;lida e desfeita!!&#8230;<br \/>\n    est&aacute;s sofrendo alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8211; Nada, meu pai&#8230; &eacute; um inc&ocirc;modo passageiro. Sempre que me deito<br \/>\n    tarde, passo mal.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! n&atilde;o admira; n&atilde;o est&aacute;s acostumada a estas palestras<br \/>\n    e folguedos at&eacute; alta noite.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade, meu pai; e quanta saudade n&atilde;o tenho da nossa boa<br \/>\n    vida da ro&ccedil;a!&#8230; quando voltaremos para l&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei dizer-te. Talvez breve, talvez nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca!&#8230; como assim, meu pai?<\/p>\n<p>&#8211; Para falar-te com franqueza, isto depende de ti; est&aacute; em tuas m&atilde;os.<\/p>\n<p>&#8211; Em minhas m&atilde;os?&#8230; explique-se meu pai; cada vez o entendo menos.<\/p>\n<p>&#8211; Sim; de ti e s&oacute; de ti depende isso.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o posso saber como?<\/p>\n<p>&#8211; Senta-te a&iacute; e escuta-me; tenho coisas importantes a dizer-te.<\/p>\n<p>A estas palavras L&uacute;cia sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, e<br \/>\n    fechar-se-lhe o cora&ccedil;&atilde;o como a um sopro gelado.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;mula e p&aacute;lida assentou-se na cama, enquanto seu pai puxava<br \/>\n    uma cadeira e sentava-se junto dela.<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha &#8211; come&ccedil;ou o Major, abaixando cautelosamente a voz, e<br \/>\n    quase ao ouvido de L&uacute;cia &#8211; o que vou dizer-te, quisera poder ocultar-te<br \/>\n    para sempre; n&atilde;o quereria por nada deste mundo tornar-te mais aflita<br \/>\n    e triste do que te vejo h&aacute; certo tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Pode falar, meu pai; Deus me dar&aacute; coragem e resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para tudo, seja qual for a nova desgra&ccedil;a que vem anunciar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, &eacute; uma desgra&ccedil;a, mas que tu, com uma s&oacute; palavra,<br \/>\n    podes converter em felicidade para todos n&oacute;s.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras, meu pai?&#8230; pois explique-se, que da minha parte estou pronta<br \/>\n    a todo e qualquer sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p>&#8211; Em poucas palavras vou dizer-te tudo. Depois que deixamos nossa fazenda<br \/>\n    para vir especular neste garimpo, os meus neg&oacute;cios t&ecirc;m ido de<br \/>\n    mal a pior. Tenho-me visto for&ccedil;ado a fazer despesas que n&atilde;o<br \/>\n    posso comportar, e o rendimento, como ter&aacute;s podido observar, tem sido<br \/>\n    nenhum. Ultimamente uma sociedade em que tomei parte, n&atilde;o tendo dado<br \/>\n    resultado algum depois de enormes despesas, acabou de arruinar-me completamente,<br \/>\n    bem como a quase todos os outros s&oacute;cios. Minha fazenda e meus escravos<br \/>\n    chegam apenas para satisfazer aos imensos encargos que contra&iacute; nessa<br \/>\n    malfadada empresa, e ficaremos por portas, se te n&atilde;o resolveres&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A qu&ecirc;, meu pai?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A casar com o senhor Leonel.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! isso nunca!&#8230;<\/p>\n<p>Estas palavras escaparam ao peito da mo&ccedil;a com espont&acirc;nea e r&aacute;pida<br \/>\n    explos&atilde;o. O Major lan&ccedil;ou-lhe um olhar severo e exprobrador.<\/p>\n<p>L&uacute;cia reportou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Mas &#8211; continuou ela mudando de tom que tem meu casamento com a sua quebra,<br \/>\n    meu pai?<\/p>\n<p>&#8211; Muito, minha filha. Leonel, sabendo que eu me achava nesses transes apertados,<br \/>\n    ofereceu-me espont&acirc;nea e generosamente seus servi&ccedil;os e, o que<br \/>\n    &eacute; mais ainda, sua bolsa. Mas se recusas dar-lhe a m&atilde;o de esposa<br \/>\n    como poderei aceit&aacute;-los?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! meu pai, n&atilde;o me obrigue a semelhante sacrif&iacute;cio; por<br \/>\n    piedade! a mis&eacute;ria! a mis&eacute;ria mil vezes!&#8230; mas j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    sei o que penso, nem o que digo&#8230; meu pai, tenha piedade de sua filha.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! L&uacute;cia, minha querida L&uacute;cia!&#8230; pondera que n&atilde;o<br \/>\n    se trata somente de ti. J&aacute; n&atilde;o falo de mim, que estou velho,<br \/>\n    e que pouco me importa o modo por que passarei o resto de meus dias. Mas tua<br \/>\n    irm&atilde;zinha, t&atilde;o linda, t&atilde;o inocente, coitada! n&atilde;o<br \/>\n    terei a legar-lhe sen&atilde;o a mis&eacute;ria. Oh! e a mis&eacute;ria &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o triste para quem j&aacute; viveu na abastan&ccedil;a!<\/p>\n<p>Tendo dito estas palavras o Major enxugou duas grossas l&aacute;grimas, que<br \/>\n    lhe rolavam pelas faces macilentas.<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai!&#8230; &#8211; exclamou L&uacute;cia, pondo-se rapidamente em p&eacute;,<br \/>\n    e apertando convulsivamente as m&atilde;os uma na outra. Depois deixou pender<br \/>\n    a fronte, abaixou os olhos e uma chuva de l&aacute;grimas, que lhe brotavam<br \/>\n    das p&aacute;lpebras ardentes, circundavam-lhe as faces, e ca&iacute;ram no<br \/>\n    pavimento aos p&eacute;s do velho. Este tamb&eacute;m levantou-se profundamente<br \/>\n    comovido, e, sustendo-a nos bra&ccedil;os, j&aacute; ia quase desistir de<br \/>\n    suas pretens&otilde;es. Mas a bela e nobre alma de L&uacute;cia j&aacute;<br \/>\n    tinha aceitado o sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p>&#8211; Tranq&uuml;ilize-se, meu pai &#8211; disse ela com tom firme e resoluto, enxugando<br \/>\n    a &uacute;ltima l&aacute;grima que lhe brotava dos olhos; aceito o marido<br \/>\n    que me quer dar, j&aacute; que assim &eacute; preciso para felicidade sua<br \/>\n    e de minha irm&atilde;.<\/p>\n<p>&#8211; O c&eacute;u te aben&ccedil;oe, querida filha; nem eu esperava outra coisa<br \/>\n    da bondade de teu cora&ccedil;&atilde;o e da nobreza de teus sentimentos.<br \/>\n    N&atilde;o te arrepender&aacute;s, eu te asseguro: Leonel &eacute; um excelente<br \/>\n    mo&ccedil;o, que saber&aacute; fazer-te feliz, e Deus aben&ccedil;oar&aacute;<br \/>\n    teu casamento, porque o mereces.<\/p>\n<p>&#8211; Serei feliz!&#8230; por certo!&#8230; &#8211; murmurou L&uacute;cia consigo; ao menos<br \/>\n    abreviarei o meu mart&iacute;rio.<\/p>\n<p>&#8211; Posso, portanto, L&uacute;cia &#8211; continuou o Major &#8211; assegurar desde hoje<br \/>\n    ao senhor Leonel que d&aacute;s o teu consentimento?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai tem a minha palavra, e de hoje em diante pode dispor de mim, como<br \/>\n    lhe aprouver.<\/p>\n<p>O pai saiu satisfeit&iacute;ssimo com o resultado desta &uacute;ltima tentativa,<br \/>\n    por que n&atilde;o sabia medir o alcance e a import&acirc;ncia do cruel e<br \/>\n    doloroso sacrif&iacute;cio que acabava de impor a sua filha. Homem de alma<br \/>\n    fria, posto que boa, julgava que as paix&otilde;es sinceras e profundas n&atilde;o<br \/>\n    existem sen&atilde;o nas novelas, e que os sentimentos da mulher n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o mais do que caprichos da imagina&ccedil;&atilde;o, que com o tempo<br \/>\n    se desvanecem.<\/p>\n<p>L&uacute;cia, acabrunhada sob o peso do sacrif&iacute;cio a que acabava de<br \/>\n    dedicar-se para a felicidade de seu pai e de sua irm&atilde;, foi sentar-se<br \/>\n    junto a uma mesa, e escondendo a cabe&ccedil;a entre os dois lindos bra&ccedil;os<br \/>\n    nus, a&iacute; ficou por muito tempo abandonando o cora&ccedil;&atilde;o aos<br \/>\n    golpes da dor que o torturava.<\/p>\n<p>A voz de Joana veio despert&aacute;-la.<\/p>\n<p>&#8211; Sinhazinha, aqui est&aacute; isto, que lhe mandaram entregar.<\/p>\n<p>L&uacute;cia levantou a cabe&ccedil;a e fitou em Joana os olhos &uacute;midos<br \/>\n    de l&aacute;grimas. Joana entregou-lhe uma carta; L&uacute;cia tomou-a, reparou<br \/>\n    no sobrescrito e um r&aacute;pido estremecimento convulsivo lhe percorreu<br \/>\n    o corpo. Rasgou com a m&atilde;o tr&ecirc;mula a carta e leu o seguinte:<\/p>\n<p>&quot;Minha L&uacute;cia. C&aacute; de longe, a mais de duzentas l&eacute;guas<br \/>\n    de dist&acirc;ncia, participo do prazer que sentir&aacute;s ao ler esta carta,<br \/>\n    pois nem um momento ainda duvidei da sinceridade e const&acirc;ncia do teu<br \/>\n    amor. A fortuna, que ai sempre se me mostrou esquiva, sorriu-me aqui no Sincor&aacute;.<br \/>\n    Gra&ccedil;as a Deus, tenho feito excelentes neg&oacute;cios. Enfim, L&uacute;cia,<br \/>\n    j&aacute; sou rico, ao menos para nossa terra. N&atilde;o me &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    estar l&aacute; no prazo que te marquei, mas fa&ccedil;o-te esta para tranq&uuml;ilizar-te.<br \/>\n    Em breve l&aacute; estarei. Eu quisera ter asas e voar para junto de ti&#8230;<br \/>\n    Sou feliz, s&oacute; as saudades me atormentam. Adeus, L&uacute;cia; at&eacute;<br \/>\n    breve. Teu Elias&quot;.<\/p>\n<p>Descrever o que se passava na alma de L&uacute;cia, enquanto com m&atilde;o<br \/>\n    tr&ecirc;mula e olhar desvairado percorria esta carta, &eacute; coisa que<br \/>\n    n&atilde;o cabe no poss&iacute;vel. Uma vertigem se apoderou dela; apenas<br \/>\n    teve tempo para amarrotar depressa aquela carta fatal e escond&ecirc;-la no<br \/>\n    seio. De p&aacute;lida que estava, tornou-se l&iacute;vida, os olhos se lhe<br \/>\n    escureceram, e teria ca&iacute;do da cadeira em que estava, se Joana, que<br \/>\n    ficara ao p&eacute; dela, n&atilde;o a tivesse amparado.<\/p>\n<p>&#8211; Santa Virgem! exclamou assustada a rapariga, sacudindo-a. Que tem! que<br \/>\n    tem, sinhazinha?&#8230;<\/p>\n<p>Mas L&uacute;cia ainda n&atilde;o tinha perdido o vigor de sua bela organiza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e em poucos instantes voltou daquele breve del&iacute;quio.<\/p>\n<p>&#8211; O que &eacute; isto, menina?&#8230; o que &eacute; que est&aacute; sofrendo?&#8230;<br \/>\n    fale, n&atilde;o oculte nada &agrave; sua negra, exclamou a sol&iacute;cita<br \/>\n    escrava. Eu vou falar com nhonh&ocirc; para mandar chamar m&eacute;dico.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, Joana, n&atilde;o &eacute; preciso; n&atilde;o digas nada a<br \/>\n    meu pai, eu te pe&ccedil;o. Isto passa j&aacute;; foi uma vertigem, porque<br \/>\n    passei mal a noite; mas j&aacute; estou melhor.<\/p>\n<p>Ah! por que n&atilde;o chegou uma hora mais cedo aquela carta fatal? teria<br \/>\n    sido reden&ccedil;&atilde;o daquela pobre alma que penava entre horrorosos<br \/>\n    mart&iacute;rios; teria aberto para ela um horizonte de esperan&ccedil;as<br \/>\n    e venturas. Mas naquela ocasi&atilde;o era como nuvem negra que acabava de<br \/>\n    escurecer para sempre o horizonte de seu porvir.<\/p>\n<h2><a name=\"8\">VIII &#8211; ELIAS<\/a><\/h2>\n<p>O infort&uacute;nio de L&uacute;cia tinha chegado a seu c&uacute;mulo.<\/p>\n<p>O seu casamento com Leonel estava definitivamente contratado, e era o acontecimento<br \/>\n    de que se falava mais na Bagagem em todos os c&iacute;rculos. Era um lindo<br \/>\n    par, dois noivos em todos os sentidos dignos um do outro, e todos formavam<br \/>\n    a mais lisonjeira id&eacute;ia do risonho futuro de amor e de ventura, cujas<br \/>\n    portas o himeneu ia abrir de par em par &agrave;quele par afortunado.<\/p>\n<p>Os pretendentes de L&uacute;cia, por&eacute;m, que haviam sido preteridos<br \/>\n    &#8211; e n&atilde;o eram poucos &#8211; vingaram-se em apodos e maliciosas aprecia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a respeito do noivo.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre mo&ccedil;a! Deus sabe o que ser&aacute; dela com aquele boneco enfeitado!<br \/>\n    Deus queira que ali n&atilde;o esteja encoberto um formid&aacute;vel cavalheiro<br \/>\n    de ind&uacute;stria!<\/p>\n<p>&#8211; A fazenda de contrabando &eacute; quase sempre a mais bem enfardada. Aquele<br \/>\n    Major &eacute; bem simpl&oacute;rio. N&atilde;o seria eu que daria minha filha<br \/>\n    a um homem s&oacute; porque anda com grandes equipagens e patacoadas, inculcando-se<br \/>\n    rico, sem lhe ver a carteira.<\/p>\n<p>&#8211; &Agrave;s vezes um biltre, desses que a&iacute; andam com ares de gr&atilde;o-senhor,<br \/>\n    n&atilde;o passa de um mero cobrador, que nada tem de seu, e anda a imposturar<br \/>\n    com o dinheiro do patr&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; L&aacute; diz o ditado: quem vai casar longe, ou quer enganar, ou vai enganado.<br \/>\n    Este melro, por&eacute;m, que n&atilde;o cai no la&ccedil;o, &eacute; capaz<br \/>\n    de enfiar o Major e toda a sua gera&ccedil;&atilde;o pelo fundo de uma agulha.<br \/>\n    L&aacute; se avenham.<\/p>\n<p>Entre os pretendentes desprezados contava-se tamb&eacute;m Azevedo, o jovem<br \/>\n    negociante fluminense que j&aacute; vimos junto de L&uacute;cia, no Patroc&iacute;nio,<br \/>\n    e que era um dos seus mais ass&iacute;duos e pertinazes adoradores. Como muitos<br \/>\n    outros negociantes dali tinha mudado a sua loja para a Bagagem, deixando quase<br \/>\n    em tapera aquela vila, por cujas desertas ruas crescia abundante capoeira,<br \/>\n    e vagueavam livremente as emas, veados e siriemas.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o lhe agouro bem, dizia Azevedo referindo-se ao casamento de Leonel.<br \/>\n    Estas mo&ccedil;oilas da ro&ccedil;a na sala s&atilde;o umas santinhas; nem<br \/>\n    sabem falar; s&atilde;o todas mod&eacute;stia e pudor. Mas por detr&aacute;s<br \/>\n    das portas e pelos quintais, ai! ai! h&aacute; que se lhe diga. O noivo que<br \/>\n    rogue a Deus que n&atilde;o volte l&aacute; desses sert&otilde;es do Sincor&aacute;<br \/>\n    certo rapazola que eu conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p>Mas todos esses dit&eacute;rios eram filhos do despeito de certos descontentes.<br \/>\n    A maioria da popula&ccedil;&atilde;o bagagense, de que o baiano por suas liberalidades<br \/>\n    e suas maneiras sedutoras tinha adquirido a estima e simpatia, aprovava e<br \/>\n    aplaudia sinceramente e de todo cora&ccedil;&atilde;o aquele feliz cons&oacute;rcio.<\/p>\n<p>Leonel continuou a freq&uuml;entar ainda com mais assiduidade a casa do Major,<br \/>\n    onde quase todas as noites havia belas reuni&otilde;es, tocatas e saraus.<br \/>\n    Eram essas horas as mais cru&eacute;is para L&uacute;cia, como bem se pode<br \/>\n    avaliar, que em sua nobre e sublime dedica&ccedil;&atilde;o fazia esfor&ccedil;os<br \/>\n    her&oacute;icos para dissimular a ang&uacute;stia que lhe ralava o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o queria que por modo algum seu pai suspeitasse quanto era duro e<br \/>\n    doloroso o sacrif&iacute;cio que lhe tinha imposto, e procurava fingir que<br \/>\n    de boa mente se conformava com a sua nova sorte. A for&ccedil;a de vontade<br \/>\n    conseguia dar a seu semblante e a suas palavras um ar, se n&atilde;o de contentamento,<br \/>\n    ao menos da serenidade melanc&oacute;lica, que dava novo realce &agrave; sua<br \/>\n    nobre e graciosa fisionomia.<\/p>\n<p>Corria ent&atilde;o a quaresma, e como nesse tempo s&atilde;o proibidas as<br \/>\n    b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os matrimoniais, for&ccedil;oso foi adiar para mais<br \/>\n    tarde o casamento, que pelo voto de Leonel e do Major teria tido lugar imediatamente.<\/p>\n<p>J&aacute; uns quinze dias se tinham passado, depois que L&uacute;cia esperava<br \/>\n    resignada o dia tremendo, em que ia irrevogavelmente imolar a felicidade de<br \/>\n    seu cora&ccedil;&atilde;o aos interesses de seu pai e de sua irm&atilde;.<br \/>\n    O altar do himeneu ia ser o pat&iacute;bulo, e o leito nupcial o t&uacute;mulo<br \/>\n    de sua felicidade.<\/p>\n<p>&Agrave; porta da loja de um dos mais abastados negociantes da Bagagem apeava-se<br \/>\n    um jovem viajante que, pelo primor de seu trajo e pela luzida bagagem que<br \/>\n    trazia, mostrava ser homem de fortuna. O tom familiar e o alegre alvoro&ccedil;o<br \/>\n    com que foi recebido indicavam ser ele um antigo conhecido do negociante.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! bons olhos o vejam, meu caro senhor Elias, exclamou o negociante abra&ccedil;ando-o<br \/>\n    com transporte. N&atilde;o sabe que prazer me d&aacute; em torn&aacute;-lo<br \/>\n    a ver. Veio mais bonito, mais sacudido, e pelo que vejo, fez fortuna l&aacute;<br \/>\n    por onde andou?!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o perdi meu tempo, louvado seja Deus!&#8230; respondeu o mo&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8211; Entre, entre; venha descansar; depois conversaremos. Mande desarrear seus<br \/>\n    animais; n&atilde;o consinto que v&aacute; pousar em outra parte.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado; aceito o seu obs&eacute;quio.<\/p>\n<p>Tendo sa&iacute;do da Bagagem, levando na algibeira a mis&eacute;ria, e o<br \/>\n    desespero no cora&ccedil;&atilde;o, depois de dois anos de aus&ecirc;ncia,<br \/>\n    Elias voltava com a carteira recheada de boas dezenas de contos de r&eacute;is,<br \/>\n    s&oacute; respirando amor, esperan&ccedil;a e felicidade. Com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alvoro&ccedil;ado e a transbordar de alegria, durante toda a sua longa viagem<br \/>\n    n&atilde;o pensava em outra coisa sen&atilde;o no momento feliz de tornar<br \/>\n    a ver a sua querida L&uacute;cia, e chegara com a cabe&ccedil;a recheada dos<br \/>\n    mais brilhantes planos de ventura e de amor, planos que para ele j&aacute;<br \/>\n    eram uma realidade, pois j&aacute; estava vencida a barreira que os separava<br \/>\n    &#8211; a pobreza.<\/p>\n<p>Meia hora depois, tendo j&aacute; Elias acomodado sua bagagem, e dado as<br \/>\n    necess&aacute;rias providencias para o arranjo de seus animais, o negociante<br \/>\n    convidou-o para uma sala vizinha.<\/p>\n<p>&#8211; Venha para c&aacute; tomar algum refresco; venha conversar um pouco, e<br \/>\n    contar-nos que tal &eacute; isso por l&aacute;; contam-se maravilhas.<\/p>\n<p>&#8211; Temos tempo, meu amigo; tenho muito que contar-lhe, mas isso ser&aacute;<br \/>\n    com mais vagar. Venho de longe, e sou daqui; portanto julgo que tenho direito<br \/>\n    de perguntar primeiro por not&iacute;cias da minha terra, que novidades h&aacute;,<br \/>\n    se o com&eacute;rcio vai bem, se aparece muito diamante, etc., etc.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! meu amigo; isto por aqui vai sempre na mesma pasmaceira, e n&atilde;o<br \/>\n    promete grande coisa. Vai-se apenas tenteando o neg&oacute;cio. H&aacute;<br \/>\n    mais garimpeiros arruinados do que bagua&ccedil;us por esses matos. Este garimpo<br \/>\n    n&atilde;o anima; &eacute; como uma loteria, em que s&oacute; h&aacute; sortes<br \/>\n    grandes, e essas muito poucas. Aparecem de tempos a tempos grandes diamantes;<br \/>\n    mas n&atilde;o h&aacute; servi&ccedil;o jornaleiro; ganha um por cem que perdem.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j&aacute; assim o pensava; nunca tive grande f&eacute; neste descoberto.<br \/>\n    N&atilde;o acontece assim na Diamantina, e nem tampouco no Sincor&aacute;.<br \/>\n    Quem d&aacute; ali um servi&ccedil;o pode ter a certeza de que h&aacute; de<br \/>\n    tirar ao menos para salvar as despesas.<\/p>\n<p>&#8211; Pois aqui &eacute; o contr&aacute;rio; quem garimpa tem noventa e nove<br \/>\n    probabilidades de perder e uma de ganhar. Os fazendeiros pensaram que garimpar<br \/>\n    &eacute; o mesmo que plantar milho, quiseram colher o que n&atilde;o tinham<br \/>\n    plantado, e quase todos v&atilde;o dando com suas fortunas em vaza-barris.<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto, disse Elias chegando-se a uma janela, noto que a povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apesar disso n&atilde;o deixa de ir crescendo. Estou vendo muitas casas novas,<br \/>\n    que n&atilde;o deixei quando daqui sa&iacute;, e tudo vai a melhor.<\/p>\n<p>&#8211; O lugar vai em aumento n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida; mas isso n&atilde;o<br \/>\n    pode ir longe.<\/p>\n<p>&#8211; A prop&oacute;sito. De quem &eacute; aquela casinha, que l&aacute; est&aacute;<br \/>\n    no alto daquele lan&ccedil;ante? como est&aacute; bem situada!&#8230; dali deve-se<br \/>\n    gozar a vista de toda a povoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>-, Oh! aquela &eacute; de uma das principais v&iacute;timas da explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    destas lavras. E do Major ***; n&atilde;o o conhece?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito! Muito!&#8230; mas que me diz? pois o Major *** tamb&eacute;m se arruinou?!<\/p>\n<p>A conversa&ccedil;&atilde;o ca&iacute;a enfim casualmente no ponto a que<br \/>\n    queria lev&aacute;-la Elias, que ardia por ter novas do Major e de sua filha,<br \/>\n    os quais j&aacute; sabia que se achavam na Bagagem. Pode-se pois facilmente<br \/>\n    imaginar com que avidez curiosa, com que mal disfar&ccedil;ada sofreguid&atilde;o<br \/>\n    dirigiu ao negociante a &uacute;ltima pergunta.<\/p>\n<p>&#8211; Consta, respondeu este com toda fleuma, que todos os seus bens est&atilde;o<br \/>\n    empenhados e que, se forem liquidar os seus neg&oacute;cios, n&atilde;o lhe<br \/>\n    ficar&aacute; um real, e a prop&oacute;sito, por falarmos no Major, perguntava<br \/>\n    o senhor h&aacute; pouco por novidades. Pois saiba que a mais importante que<br \/>\n    temos, e que agora anda por a&iacute; pela boca de todos, &eacute; o casamento<br \/>\n    de sua filha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De L&uacute;cia?&#8230; atalhou vivamente o mo&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois de quem mais h&aacute; de ser?&#8230; ent&atilde;o conhece-a?<\/p>\n<p>Elias n&atilde;o respondeu; sentia como uma esp&eacute;cie de vertigem, que<br \/>\n    o atordoava, como se um raio tivesse estalado junto dele. Agarrou-se ao peitoril<br \/>\n    da janela para n&atilde;o cair. Assim esteve por alguns instantes, depois<br \/>\n    dos quais continuou forcejando debalde para dar &agrave; sua voz o tom da<br \/>\n    mais completa indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Conhe&ccedil;o-a muito; &eacute; uma linda menina; mas&#8230; diziam-me que<br \/>\n    era muito esquiva; admira-me que se resolvesse a casar-se, e quem sabe..<\/p>\n<p>&#8211; Quem sabe o qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Quem sabe se n&atilde;o vai de muito boa vontade?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E por que n&atilde;o? o noivo &eacute; um guapo mocet&atilde;o, de bonita<br \/>\n    figura e fino trato, e, o que mais &eacute;, muito rico. Ela, como Vmc&ecirc;.<br \/>\n    bem sabe, &eacute; a mo&ccedil;a mais linda destes arredores; digo-lhe com<br \/>\n    veras que nunca vi casamento mais bem ajustado. O Major est&aacute; um pouco<br \/>\n    arruinado, &eacute; verdade; mas o genro &eacute; riqu&iacute;ssimo, e, ao<br \/>\n    que dizem por a&iacute;, vai escorar o sogro, o que n&atilde;o lhe custar&aacute;<br \/>\n    pouco. Com aquele casamento a felicidade entrou-lhe pela casa dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Entrou?!&#8230; pois j&aacute;? exclamou o mo&ccedil;o com vis&iacute;vel perturba&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Ou vai entrar, &eacute; o mesmo, pois o neg&oacute;cio &eacute; decidido,<br \/>\n    e est&aacute; por poucos dias. &Eacute; mais um par de rolinhas amorosas,<br \/>\n    como dizia um amigo meu meio metido a poeta, que veio fazer seu ninho aqui<br \/>\n    nas matas da Bagagem.<\/p>\n<p>Elias n&atilde;o teve &acirc;nimo de dizer mais nem uma palavra; o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lhe batia desencontrado; tinha as faces secas e a l&iacute;ngua se lhe pegava<br \/>\n    ao c&eacute;u da boca. Tr&ecirc;mulo e coberto de horr&iacute;vel amarelid&atilde;o,<br \/>\n    mal se podia suster agarrado ao peitoril da janela.<\/p>\n<p>Posto que j&aacute; o sol tivesse entrado, e j&aacute; fosse escasseando<br \/>\n    a luz do dia, o negociante n&atilde;o deixou de perceber a extrema perturba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o transtorno das fei&ccedil;&otilde;es do rapaz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O que tem, meu amigo?&#8230; ainda agora parecia vender sa&uacute;de, e agora<br \/>\n    o vejo t&atilde;o p&aacute;lido e desfigurado? est&aacute; sofrendo decerto<br \/>\n    algum inc&ocirc;modo?<\/p>\n<p>&#8211; Nada&#8230; quase nada. S&atilde;o acessos de intermitentes, que apanhei no<br \/>\n    Rio S. Francisco, e que &agrave;s vezes ainda se repetem; mas passam logo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; ningu&eacute;m l&aacute; vai que as n&atilde;o apanhe. Deite-se<br \/>\n    neste canap&eacute;, enquanto vou lhe mandar trazer um copo de vinho quente<br \/>\n    com a&ccedil;&uacute;car; dizem que &eacute; bom. Depois, se quiser, chamarei<br \/>\n    m&eacute;dico&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Aceito o vinho; mas n&atilde;o ser&aacute; preciso tomar maior inc&ocirc;modo;<br \/>\n    isto passa logo.<\/p>\n<p>Elias aceitou o oferecimento mais para se ver a s&oacute;s com o seu desespero,<br \/>\n    do que por necessidade que tivesse de aux&iacute;lio algum. Seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que at&eacute; ali se enchia a transbordar de esperan&ccedil;as e venturas,<br \/>\n    sentiu-se subitamente atracado entre as garras da mais cruel decep&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mil projetos desencontrados lhe tumultuavam na cabe&ccedil;a. Ora queria ir<br \/>\n    imediatamente ver L&uacute;cia, exprobrar-lhe sua perf&iacute;dia, e apunhalar-se<br \/>\n    &agrave; sua vista. Mas isso seria uma triste vingan&ccedil;a: n&atilde;o<br \/>\n    convinha deix&aacute;-los vivos e felizes sobre a terra. Iria procurar primeiro<br \/>\n    o feliz sedutor, esbofete&aacute;-lo, cuspir-lhe no rosto e depois arrancar-lhe<br \/>\n    as entranhas, e com o mesmo punhal, ainda fumegante do sangue do vil, imolar-se<br \/>\n    aos olhos da p&eacute;rfida&#8230; Mas&#8230; ele era inocente talvez; ignorava que<br \/>\n    aquela embusteira j&aacute; tinha penhorado a outrem por um juramento sagrado<br \/>\n    o seu amor e a sua m&atilde;o. A v&iacute;tima devia ser ela, somente ela.<br \/>\n    Mas como vingar-se dela?&#8230; mat&aacute;-la?&#8230; semelhante id&eacute;ia lhe<br \/>\n    repugnava&#8230; derramar o sangue de uma fraca mulher &eacute; a mais infame<br \/>\n    das cobardias, o mais monstruoso dos atentados. Desprez&aacute;-la?&#8230; mas<br \/>\n    o desprezo s&oacute; &eacute; um castigo, quando recai sobre pessoa que nos<br \/>\n    ama, e L&uacute;cia! exclamava o infeliz estorcendo-se em &acirc;nsias de<br \/>\n    desespero, L&uacute;cia n&atilde;o me ama; L&uacute;cia nunca me amou; sen&atilde;o,<br \/>\n    jamais se teria t&atilde;o facilmente esquecido de mim para se entregar a<br \/>\n    outrem. E assim n&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio! nem o consolo da vingan&ccedil;a<br \/>\n    me &eacute; dado! e a v&iacute;tima de todos estes embustes e perf&iacute;dias<br \/>\n    serei eu, somente eu!<\/p>\n<p>Elias foi interrompido em suas febris maquina&ccedil;&otilde;es por seu h&oacute;spede,<br \/>\n    que lhe trazia o vinho quente, enquanto uma escrava lhe preparava a cama em<br \/>\n    uma alcova imediata &agrave; sala. Depois de trocarem algumas palavras banais,<br \/>\n    o negociante julgou conveniente deix&aacute;-lo s&oacute;, visto o seu inc&ocirc;modo<br \/>\n    de sa&uacute;de, e depois de t&ecirc;-lo cuidadosamente deitado em seu leito<br \/>\n    despediu-se recomendando-lhe que se abafasse bem.<\/p>\n<p>Apenas por&eacute;m o mo&ccedil;o achou-se s&oacute;, arrojou para longe<br \/>\n    de si coberturas e len&ccedil;&oacute;is, saltou fora da cama, e come&ccedil;ou<br \/>\n    a passear a passos precipitados ao comprido da sala. Assim passou grande parte<br \/>\n    da noite com a id&eacute;ia de sua desgra&ccedil;a a devorar-lhe o c&eacute;rebro,<br \/>\n    e a fustigar-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Por fim, &agrave; for&ccedil;a de pensar, ou antes, &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de delirar, come&ccedil;ou a duvidar da realidade de seu infort&uacute;nio;<br \/>\n    achou que tinha sido demasiado leviano em dar t&atilde;o depressa inteiro<br \/>\n    cr&eacute;dito &agrave;s palavras do negociante, e apelou para o dia seguinte.<\/p>\n<p>Embalado nessa d&uacute;vida consoladora, que o c&eacute;u como que lhe enviara<br \/>\n    para dar algum repouso &agrave; sua imagina&ccedil;&atilde;o tresvairada,<br \/>\n    adormeceu quando os galos j&aacute; come&ccedil;avam a amiudar seus cantos.<\/p>\n<h2><a name=\"9\">IX &#8211; AL&Eacute;M DE QUEDA, COICE<\/a><\/h2>\n<p>O dia amanhecera espl&ecirc;ndido.<\/p>\n<p>Os vultos das grandes &aacute;rvores isoladas, restos da floresta, que o<br \/>\n    machado tinha poupado, debuxavam-se em um c&eacute;u puro e rico de fulgores,<br \/>\n    e balanceavam os topes verde-negros, como velhos caciques sacudindo os cocares<br \/>\n    nas dan&ccedil;as sagradas.<\/p>\n<p>As brisas, que sopravam frescas, traziam mil perfumes de flores selv&aacute;ticas,<br \/>\n    e rumorejavam pela encosta, mesclando seu sussurro ao marulho das cachoeiras<br \/>\n    e &agrave; vozeria alegre dos garimpeiros, cujos almocafres e alavancas retiniam<br \/>\n    no cascalho das grupiaras. Toda a povoa&ccedil;&atilde;o despertava alegre<br \/>\n    e cheia de vida, como gar&ccedil;a que &agrave; beira do lago se espaneja<br \/>\n    aos raios do sol, sacudindo das brancas asas as p&eacute;rolas matutinas.<\/p>\n<p>Quando Elias despertou, o sol j&aacute; batia em cheio por ambas as margens<br \/>\n    do ribeir&atilde;o. Abriu a janela, e deu com os olhos naquele magn&iacute;fico<br \/>\n    e risonho espet&aacute;culo, que t&atilde;o cruel e pungente contraste formava<br \/>\n    com o estado reamargurado de seu cora&ccedil;&atilde;o. O golpe que recebera<br \/>\n    na v&eacute;spera repercutia-se agora em sua alma, ainda mais rude e doloroso.<br \/>\n    Ali esteve por mais de uma hora pensativo, perplexo e mergulhado no mais profundo<br \/>\n    abatimento. N&atilde;o atinava com o que deveria fazer, e desejaria ali ficar<br \/>\n    para sempre mudo, im&oacute;vel, petrificado como uma est&aacute;tua.<\/p>\n<p>Por fim resolveu-se a procurar na agita&ccedil;&atilde;o do corpo alguma<br \/>\n    divers&atilde;o aos pensamentos que lhe escaldavam o c&eacute;rebro. Pegou<br \/>\n    no chap&eacute;u, e saiu &agrave; toa e sem destino pelas ruas da povoa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Encontrou muitos amigos e conhecidos, que o cumprimentavam, e da boca dos<br \/>\n    quais, sem que o perguntasse, ouvia a confirma&ccedil;&atilde;o da fatal not&iacute;cia<br \/>\n    do casamento de L&uacute;cia. Esse casamento andava de boca em boca, e era<br \/>\n    o acontecimento que ent&atilde;o mais preocupava a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do p&uacute;blico. Elias andava como que atordoado; aquele movimento e burburinho<br \/>\n    da popula&ccedil;&atilde;o como que lhe causava vertigens. Os cumprimentos<br \/>\n    e felicita&ccedil;&otilde;es de seus amigos o perturbavam, e pareciam-lhe<br \/>\n    um sarcasmo cruel. Assim vagou maquinalmente pelas ruas. Quando se recolheu<br \/>\n    a casa, era j&aacute; meio-dia.<\/p>\n<p>Logo ao chegar &agrave; casa do negociante, veio-lhe ao encontro o seu arrieiro<br \/>\n    a pedir-lhe dinheiro para pagamento do milho e mais despesa da tropa. Tirou<br \/>\n    da carteira uma nota de 20$000 e apresentou-a ao caixeiro da casa, pedindo-lhe<br \/>\n    que a trocasse por mi&uacute;dos. O caixeiro, depois de examinar a nota por<br \/>\n    um instante, devolveu-a a Elias.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o, meu amo, disse-lhe o caixeiro, n&atilde;o lhe posso servir:<br \/>\n    esta nota &eacute; falsa.<\/p>\n<p>Elias enfiou. N&atilde;o podendo ficar mais p&aacute;lido do que estava,<br \/>\n    tornou-se verde.<\/p>\n<p>&#8211; Falsa! repetiu com uma voz que lhe sa&iacute;a do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e mal passava pelos l&aacute;bios.<\/p>\n<p>&#8211; Falsa, sim, senhor; se duvida chamemos o patr&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi preciso cham&aacute;-lo; ele vinha entrando nesse momento<br \/>\n    pela loja.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! bom dia, amigo; como passou? Levantou-se cedo! ent&atilde;o, por onde<br \/>\n    andou? andou matando saudades? decerto ainda n&atilde;o almo&ccedil;ou? passou<br \/>\n    melhor do seu inc&ocirc;modo de ontem?<\/p>\n<p>O pobre mo&ccedil;o naquele momento tinha talvez mais vontade de enforcar-se<br \/>\n    do que de responder &agrave;quela chusma de perguntas com que seu h&oacute;spede<br \/>\n    &agrave; queima-roupa o obsequiava.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; nada sofro; estou bom, respondeu Elias em tom breve. Apresentei<br \/>\n    esta nota a seu caixeiro para ma trocar, e disse-me ser falsa. Veja.<\/p>\n<p>&#8211; Fals&iacute;ssima! exclamou o negociante, depois de examinar a nota um<br \/>\n    momento. S&atilde;o notas falsas procedentes da Bahia. H&aacute; muito tempo<br \/>\n    o com&eacute;rcio est&aacute; avisado, e o governo j&aacute; tem expedido<br \/>\n    as mais terminantes ordens e tomado medidas en&eacute;rgicas para descobrir<br \/>\n    os moedeiros falsos, e consta que as pesquisas feitas v&atilde;o obtendo resultado.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! vou ver outra, interrompeu bruscamente Elias; e tirou da carteira<br \/>\n    uma nota de 50$000. E esta? tamb&eacute;m ser&aacute; falsa?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda mais falsa do que a outra, se &eacute; poss&iacute;vel, exclamou<br \/>\n    o negociante, apenas olhou para a nota. Ah! meu caro senhor Elias, como &eacute;<br \/>\n    que foi deixar-se emba&ccedil;ar por essa maneira?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Falsa! falsa!&#8230; deveras?!&#8230; murmurava o mo&ccedil;o com voz rouca e abafada.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o que lhe digo, meu amigo; ningu&eacute;m aqui na Bagagem dar&aacute;<br \/>\n    cinco r&eacute;is por qualquer dessas notas.<\/p>\n<p>&#8211; Em que mundo andei eu, pois, meu Deus!! meu Deus! estou perdido! perdido<br \/>\n    para sempre1<\/p>\n<p>E, atirando-se sobre um tamborete, que estava perto do mostrador, apertava<br \/>\n    convulsivamente a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os.<\/p>\n<p>&#8211; Perdido por t&atilde;o pouca coisa? por uns 70$000! o caso n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    para tanto, meu amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Prouvera ao c&eacute;u fosse s&oacute; isso!&#8230; solu&ccedil;ou Elias com<br \/>\n    voz apenas intelig&iacute;vel.<\/p>\n<p>&#8211; Como diz?&#8230; ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; s&oacute; isso?&#8230;<\/p>\n<p>Elias j&aacute; n&atilde;o ouvia mais; estava aniquilado debaixo da nova<br \/>\n    e horr&iacute;vel cat&aacute;strofe que acabava de fulmin&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Tra&iacute;do em seu amor, vira na v&eacute;spera derrocado em um momento<br \/>\n    o formoso castelo de suas esperan&ccedil;as, constru&iacute;do com tanto enlevo<br \/>\n    nos sonhos de dois anos de inquieta&ccedil;&otilde;es e trabalhos. Quando<br \/>\n    ia colocar a pedra do remate na c&uacute;pula do edif&iacute;cio, ei-lo que<br \/>\n    de s&uacute;bito se desmorona at&eacute; os fundamentos. Restava-lhe ainda<br \/>\n    a fortuna, consistente em algumas dezenas de contos, que &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de vontade, intelig&ecirc;ncia e atividade adquirira no Sincor&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; De que me serve este dinheiro? dizia ele na v&eacute;spera. &Agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de muito querer e muito trabalhar eu o ganhei por amor de L&uacute;cia e para<br \/>\n    L&uacute;cia. Agora, que L&uacute;cia me abandona, eu o veria queimar-se com<br \/>\n    a mesma impassibilidade com que vejo arder este cigarro.<\/p>\n<p>Mas pensava o mancebo que de feito no outro dia, a uma s&oacute; palavra,<br \/>\n    toda aquela riqueza ia esvaecer-se como o fumo! mas ah! no momento da cat&aacute;strofe,<br \/>\n    essa impassibilidade com que contava tamb&eacute;m se esvaeceu em presen&ccedil;a<br \/>\n    da cruel realidade. Quase todo o dinheiro que trazia do Sincor&aacute; era<br \/>\n    falso; consistia em notas do mesmo padr&atilde;o e valor daquelas que acabava<br \/>\n    de apresentar. Estava pobre como dantes. O rochedo, que acabava de conduzir<br \/>\n    at&eacute; o cimo da montanha em dois longos anos de fadigas e perseverantes<br \/>\n    esfor&ccedil;os, acabava de rolar no fundo dos abismos.<\/p>\n<p>Era preciso ter na alma uma tr&iacute;plice coura&ccedil;a de estoicismo<br \/>\n    para poder suportar impass&iacute;vel aqueles dois rudes golpes, desfechados<br \/>\n    um ap&oacute;s outro pela m&atilde;o da fatalidade. Elias, posto que n&atilde;o<br \/>\n    fosse das almas mais fracas, sentiu-se humilhado, acabrunhado e recalcado<br \/>\n    nesse antro de desespera&ccedil;&atilde;o, para sair do qual s&oacute; h&aacute;<br \/>\n    uma porta &#8211; o suic&iacute;dio.<\/p>\n<p>Elias sentia viva necessidade de desabafar-se, de contar a algu&eacute;m<br \/>\n    seus infort&uacute;nios; parecia-lhe que, se n&atilde;o o fizesse, se lhe<br \/>\n    rebentaria o cora&ccedil;&atilde;o. Mas na Bagagem n&atilde;o tinha um s&oacute;<br \/>\n    amigo de confian&ccedil;a a quem abrisse sua alma, a n&atilde;o ser o velho<br \/>\n    Sim&atilde;o. Esse, Elias n&atilde;o sabia por onde andava, e ningu&eacute;m<br \/>\n    lhe poderia dar not&iacute;cias dele. Tinha, pois, de concentrar em si mesmo<br \/>\n    a tempestade, que amea&ccedil;ava romper-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Todavia n&atilde;o lhe era poss&iacute;vel dissimular a seu h&oacute;spede<br \/>\n    o horr&iacute;vel rev&eacute;s por que acabava de passar, vendo em um instante<br \/>\n    reduzida a fumo a fortuna que &agrave; for&ccedil;a de tanto trabalho e perseveran&ccedil;a<br \/>\n    tinha sabido adquirir, no espa&ccedil;o de pouco mais de ano.<\/p>\n<p>Depois de ter reunido por algum tempo o fel de seu infort&uacute;nio, Elias<br \/>\n    chamou de parte o negociante, e contou-lhe como depois de ter tentado fortuna<br \/>\n    na Bagagem sem resultado algum, e vendo-se quase reduzido &agrave; mis&eacute;ria,<br \/>\n    partira para o Sincor&aacute; em companhia de um homem desconhecido, que o<br \/>\n    convidara. Chegando ali, esse homem com toda a franqueza e generosidade o<br \/>\n    protegeu e auxiliou, colocando-o &agrave; testa do trabalho de suas lavras,<br \/>\n    em cujos rendimentos lhe dava consider&aacute;veis interesses. Mas infelizmente<br \/>\n    esse homem, poucos meses depois, morreu de febre intermitente, deixando a<br \/>\n    Elias quase no mesmo estado em que sa&iacute;ra da Bagagem. Deu sepultura<br \/>\n    decente &agrave;quele bom e generoso protetor, a cujas cinzas sempre seria<br \/>\n    reconhecido, e chorou sobre sua sepultura l&aacute;grimas sinceras de dor<br \/>\n    e de saudade. Com os pequenos recursos que adquiriu durante aqueles poucos<br \/>\n    meses, continuou a garimpar em umas datas que lhe eram pr&oacute;prias. Mas<br \/>\n    essas lavras eram pobres, e mal lhe davam para se ir mantendo. J&aacute; de<br \/>\n    novo a mis&eacute;ria o amea&ccedil;ava de perto, quando um dia um mo&ccedil;o<br \/>\n    de maneiras af&aacute;veis e de gentil e agrad&aacute;vel presen&ccedil;a<br \/>\n    apareceu no servi&ccedil;o em que ele trabalhava. Era um rico negociante,<br \/>\n    que andava comprando diamantes na m&atilde;o dos garimpeiros, e que os pagava<br \/>\n    a bom pre&ccedil;o. Todos os dias continuou a aparecer no servi&ccedil;o,<br \/>\n    comprava os diamantes que iam aparecendo sem reparar muito na qualidade nem<br \/>\n    no peso deles, e dava mostras manifestas de que queria proteg&ecirc;-lo e<br \/>\n    dar-lhe a m&atilde;o. Por fim esse mo&ccedil;o, estreitando cada vez mais<br \/>\n    suas rela&ccedil;&otilde;es com ele, e como reconhecesse nele bastante intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e fino tato no conhecimento dos diamantes, o induziu a largar o garimpo e<br \/>\n    ser seu agente no neg&oacute;cio dos diamantes, dando-lhe avultados interesses.<br \/>\n    Gra&ccedil;as a esse novo e opulento protetor, que negociava em grande escala,<br \/>\n    e que todos os meses enviava para a capital da Bahia partidas consider&aacute;veis<br \/>\n    de diamantes, Elias, que o servia com zelo e intelig&ecirc;ncia, adquiriu<br \/>\n    em pouco tempo um avultado pec&uacute;lio. Nesse tempo o pre&ccedil;o do diamante<br \/>\n    teve grande alta nos mercados europeus, de modo que puderam realizar os mais<br \/>\n    vantajosos neg&oacute;cios e Elias via o seu pequeno pec&uacute;lio duplicar-se,<br \/>\n    triplicar-se, de m&ecirc;s a m&ecirc;s, e em breve p&ocirc;de fazer avultadas<br \/>\n    transa&ccedil;&otilde;es por sua pr&oacute;pria conta. Enfim, em menos de<br \/>\n    um ano, achou-se possuidor de uma soma de 50 contos, o que, no sert&atilde;o,<br \/>\n    j&aacute; se pode chamar uma fortuna. Mas o seu bom protetor, que era ao mesmo<br \/>\n    tempo seu comiss&aacute;rio oficioso para a venda das pedras na Bahia, era<br \/>\n    tamb&eacute;m o seu banqueiro e o deposit&aacute;rio de seus valores. Tanta<br \/>\n    generosidade o confundia, o enchia de gratid&atilde;o e n&atilde;o lhe permitia<br \/>\n    duvidar um s&oacute; instante da boa-f&eacute; e probidade de tal homem. Manifestando-lhe<br \/>\n    ultimamente o des&iacute;gnio que formara de voltar ao seu pa&iacute;s natal,<br \/>\n    notou, n&atilde;o sem estranheza, que nenhuma obje&ccedil;&atilde;o lhe op&ocirc;s,<br \/>\n    contentando-se apenas em manifestar o pesar que sentia pela falta que lhe<br \/>\n    ia fazer, dizia ele, um t&atilde;o bom e prestimoso amigo. A Elias pouco importava<br \/>\n    que ele aprovasse ou n&atilde;o o seu des&iacute;gnio; sua resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era inabal&aacute;vel. Mas n&atilde;o podendo deixar sem pesar o generoso<br \/>\n    protetor a quem tudo devia, esperava encontrar tamb&eacute;m da sua parte<br \/>\n    alguma relut&acirc;ncia em deix&aacute;-lo partir, e alguma luta de sentimentos.<br \/>\n    Agora infelizmente caiu o v&eacute;u ao mist&eacute;rio, e compreendia o motivo<br \/>\n    infame daquele procedimento. Toda aquela liberalidade e generosa prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe dispensava, era o la&ccedil;o execrando, que lhe estava armando. Tendo<br \/>\n    de retirar-se, o seu amigo e protetor contou-lhe todo o dinheiro seu, que<br \/>\n    tinha em seu poder, perto de 50 contos, tudo em notas daquele valor e padr&atilde;o,<br \/>\n    que seu h&oacute;spede acabava de ver! E assim acabava ele de atravessar cheio<br \/>\n    de contenta mento e de esperan&ccedil;a duzentas l&eacute;guas de sert&atilde;o,<br \/>\n    cuidando trazer na algibeira a fortuna e a felicidade, quando n&atilde;o trazia<br \/>\n    mais do que um ma&ccedil;o de papel sujo.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, concluiu tristemente o mo&ccedil;o, veja l&aacute; se &eacute; ou<br \/>\n    n&atilde;o para desesperar esta minha situa&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; triste na verdade, mas n&atilde;o ainda para desesperar. O senhor<br \/>\n    &eacute; ainda muito mo&ccedil;o e com a atividade e intelig&ecirc;ncia de<br \/>\n    que disp&otilde;e, assim como em menos de dois anos adquiriu esses quarenta<br \/>\n    ou cinq&uuml;enta contos falsos, agora com mais conhecimento do mundo e o<br \/>\n    escarmento dessa dolorosa experi&ecirc;ncia, pode tamb&eacute;m adquiri-los<br \/>\n    verdadeiros. O futuro &eacute; seu, amigo, e &eacute; vasto o campo das especula&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; O futuro! oh! o futuro &eacute; s&oacute; de Deus. Amanh&atilde; s&oacute;<br \/>\n    Deus sabe o que ser&aacute; feito de mim!<\/p>\n<p>Esta exclama&ccedil;&atilde;o sussurrou apenas pelos l&aacute;bios do mo&ccedil;o,<br \/>\n    que, por assim dizer, a solu&ccedil;ara dentro do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ah! decerto pouco lhe importaria a perda de milhares de contos, que sem,<br \/>\n    se esses contos n&atilde;o fossem o pre&ccedil;o da felicidade de seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas agora, que a felicidade lhe fugia para sempre, a perda desse dinheiro,<br \/>\n    que como um sonho se escoara de suas m&atilde;os, n&atilde;o era mais do que<br \/>\n    um pontap&eacute; com que o destino atirava desdenhosamente no abismo a v&iacute;tima<br \/>\n    sangrada no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Assim, pois, seu amor, suas esperan&ccedil;as, sua riqueza, sua felicidade,<br \/>\n    tudo isso fora uma ilus&atilde;o, uma quimera. Reais s&oacute; foram seus<br \/>\n    trabalhos e fadigas, suas ang&uacute;stias e inquieta&ccedil;&otilde;es; real<br \/>\n    era a perf&iacute;dia de L&uacute;cia; real s&oacute; era a sua pobreza e<br \/>\n    a sua atual desespera&ccedil;&atilde;o. A id&eacute;ia do suic&iacute;dio<br \/>\n    fixou-se no esp&iacute;rito do mancebo. Iria apunhalar-se aos olhos da p&eacute;rfida,<br \/>\n    deixando<\/p>\n<p>lhe por legado a sua maldi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A maldi&ccedil;&atilde;o de quem morre &eacute; terr&iacute;vel, pensava<br \/>\n    ele, e paira eternamente sobre a cabe&ccedil;a do maldito.<\/p>\n<h2><a name=\"10\">X &#8211; A AFRONTA<\/a><\/h2>\n<p>Esse dia, em que Elias se via calcado pela pesada m&atilde;o da fatalidade<br \/>\n    mais fundo da mis&eacute;ria e do infort&uacute;nio, era s&aacute;bado de<br \/>\n    aleluia. &Eacute; esse justamente o dia de mais festan&ccedil;as e folias<br \/>\n    nas povoa&ccedil;&otilde;es do interior. &Agrave; tardinha as guitarras e<br \/>\n    viol&otilde;es ressoavam por toda a parte, as serenatas se ensaiavam, e uma<br \/>\n    alegre celeuma rumorejava por todos os cantos da nascente povoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Em casa do Major nesse dia tamb&eacute;m a reuni&atilde;o era mais numerosa<br \/>\n    e animada do que de ordin&aacute;rio, n&atilde;o s&oacute; por ser o dia que<br \/>\n    era, como tamb&eacute;m por se darem ali como umas festas esponsais, em que<br \/>\n    se iam de uma vez para sempre confirmar as solenes e rec&iacute;procas promessas<br \/>\n    do casamento de L&uacute;cia e Leonel, que tinha de ser celebrado no domingo<br \/>\n    seguinte, chamado de Pascoela. Nesse dia o Major dirigira convites expressos<br \/>\n    a grande parte das pessoas mais importantes do lugar. Ao toque de ave-maria<br \/>\n    j&aacute; ali se achava reunida uma escolhida sociedade, e na pequena sala<br \/>\n    do Major reinava entre luzes e harmonias a maior anima&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    contentamento.<\/p>\n<p>Contentamento!? oh! sim; ele se espelhava na fisionomia de todos exceto na<br \/>\n    da infeliz L&uacute;cia, que forcejava em v&atilde;o para dar a seu semblante<br \/>\n    visos, se n&atilde;o de prazer, ao menos de sossego e serenidade. No prop&oacute;sito<br \/>\n    de disfar&ccedil;ar aos olhos dos outros, principalmente aos de seu pai e<br \/>\n    de seu noivo, a ang&uacute;stia que por dentro a pungia, vestira-se com todo<br \/>\n    o esmero, e at&eacute; com certa garridice. Trazia vestido de alva e transparente<br \/>\n    gar&ccedil;a, sobreposto a uma saia cor-de-rosa, segundo o costume encantador<br \/>\n    que estava em moda naquele tempo. O cinto era uma larga fita azul, cujas compridas<br \/>\n    pontas brincavam sobre as r&oacute;seas ondula&ccedil;&otilde;es da saia que<br \/>\n    a envolviam. Ao v&ecirc;-la assim trajada poder-se-ia dizer com exatid&atilde;o<br \/>\n    quase literal que era a aurora de um formoso dia surgindo entre nuvens de<br \/>\n    azul e rosas. As mangas do vestido nimiamente curtas deixavam-lhe ver quase<br \/>\n    completamente nus os bra&ccedil;os cheios, mas mimosamente torneados. Na cabe&ccedil;a<br \/>\n    trazia por &uacute;nico enfeite uma rosa natural. Por&eacute;m no meio de<br \/>\n    toda aquela faceira, mas singela casquilhice, ou fosse por um singular acaso,<br \/>\n    ou de prop&oacute;sito, via-se-lhe no peito uma saudade roxa: era o s&iacute;mbolo<br \/>\n    de seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Com o mesmo fim de disfar&ccedil;ar seus &iacute;ntimos pesares, L&uacute;cia<br \/>\n    procurava abaf&aacute;-los no meio do turbilh&atilde;o, conversando, dan&ccedil;ando<br \/>\n    e brincando. Dobrado mart&iacute;rio para aquela nobre alma!<\/p>\n<p>Enquanto na casa do Major tudo era alegria e folguedo, luz e harmonia, sozinho<br \/>\n    e merenc&oacute;rio, com os cotovelos fincados sobre o parapeito da ponte<br \/>\n    que comunicava as duas partes da povoa&ccedil;&atilde;o, achava-se um vulto,<br \/>\n    que com a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os olhava fixamente para o ribeir&atilde;o,<br \/>\n    que logo abaixo da ponte se despenha em rugidoras catadupas. Nos cach&otilde;es<br \/>\n    revoltos da torrente via a imagem das id&eacute;ias que lhe turbilhonavam<br \/>\n    no c&eacute;rebro, dos sentimentos tempestuosos que lhe empuxavam desencontrada<br \/>\n    e dolorosamente o cora&ccedil;&atilde;o. O amor, a raiva, o ci&uacute;me,<br \/>\n    a vergonha, a sede de vingan&ccedil;a, ora lhe traziam aos l&aacute;bios um<br \/>\n    sorriso infernal de desespero, ora espremiam-lhe dos olhos l&aacute;grimas<br \/>\n    de fel e de fogo. De quando em quando erguia a cabe&ccedil;a, olhava para<br \/>\n    o alto da encosta, onde se avistava a linda casinha do Major difundindo em<br \/>\n    borbot&otilde;es, luzes e harmonias, risadas e festivas vozerias. Tornava<br \/>\n    a curvar-se sobre o parapeito, rangendo os dentes e arrancando os cabelos<br \/>\n    como um possesso; depois com os olhos turvos namorava a torrente, que engrossada<br \/>\n    pelas chuvas dos dias precedentes roncava debaixo de seus p&eacute;s. Num<br \/>\n    acesso de desespero ia precipitar-se; mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n&atilde;o! murmurou com voz cavernosa. &Eacute; preciso v&ecirc;-la<br \/>\n    ainda uma vez, uma s&oacute; e morrer. Quero ver tudo por meus pr&oacute;prios<br \/>\n    olhos; quero assistir &agrave;s ex&eacute;quias de minha felicidade, que l&aacute;<br \/>\n    se est&atilde;o celebrando com tanta pompa e regozijo. Depois&#8230; me imolarei<br \/>\n    sobre elas. Vamos! coragem! apresentemo-nos l&aacute;; pouca gente reparar&aacute;<br \/>\n    na minha presen&ccedil;a&#8230; ah! talvez nem ela!&#8230; que importa? vamos!<\/p>\n<p>E saiu da ponte precipitadamente, encaminhou-se &agrave; casa, onde foi compor<br \/>\n    melhor o seu vestu&aacute;rio, e dirigiu-se resolutamente pelo caminho da<br \/>\n    casa do Major.<\/p>\n<p>N&atilde;o estranhem os leitores a sem-cerim&ocirc;nia com que Elias, sem<br \/>\n    motivo algum plaus&iacute;vel, vai apresentar-se em casa do Major em uma noite<br \/>\n    de festim, sem a ele ter sido convidado. Nas povoa&ccedil;&otilde;es do sert&atilde;o<br \/>\n    de Minas, antes que a malfadada pol&iacute;tica de aldeia tivesse penetrado<br \/>\n    por elas, degenerando ou estragando a singeleza dos costumes primitivos, as<br \/>\n    fam&iacute;lias, pela cordial intimidade que entre elas reinava, eram como<br \/>\n    grupos diversos de uma s&oacute; fam&iacute;lia. As portas das salas de recep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nunca estavam fechadas. Nunca se soube o que &eacute; um criado, ou o cord&atilde;o<br \/>\n    de uma campainha para anunciar uma visita, e muito menos um porteiro. Nos<br \/>\n    dias de regozijo e festa principalmente, as portas e janelas estavam francas<br \/>\n    para os passantes que quisessem ver ou tomar parte no regozijo, sem que ningu&eacute;m<br \/>\n    lhes embargasse o passo, porque todos eram amigos e conhecidos &iacute;ntimos.<\/p>\n<p>Os leitores podem fazer id&eacute;ia das emo&ccedil;&otilde;es que agitavam<br \/>\n    o esp&iacute;rito de Elias ao aproximar-se daquela casa, e portanto me dispensar&atilde;o<br \/>\n    da dif&iacute;cil, sen&atilde;o imposs&iacute;vel, tarefa de descrev&ecirc;-las.<\/p>\n<p>No momento em que Elias chegou, um homem cantava, acompanhando-se ao viol&atilde;o.<br \/>\n    Elias estremeceu ao ouvir aquela voz; parecia-lhe j&aacute; a ter ouvido em<br \/>\n    alguma parte. Demorou-se um pouco no corredor at&eacute; que acabasse o canto.<br \/>\n    A porta, que do corredor dava entrada para a sala, estava aberta de par em<br \/>\n    par. Porta e corredor estavam atulhados de gente de toda a classe, que escutava<br \/>\n    o cantor. Apenas este se calou entre palmas e bravos, e o povo come&ccedil;ou<br \/>\n    a mover-se e agitar-se, aproveitando-se do rebuli&ccedil;o geral, Elias, para<br \/>\n    n&atilde;o ser notado, envolveu-se na turba e foi-se encaminhando para a sala.<br \/>\n    Ao chegar por&eacute;m ao limiar da porta, estacou de s&uacute;bito, como<br \/>\n    se um rel&acirc;mpago dando-lhe nos olhos lhe tivesse ofuscado a vista. O<br \/>\n    que vira ele?&#8230;<\/p>\n<p>No fundo da sala, bem defronte da porta, viu sentada L&uacute;cia com os<br \/>\n    olhos baixos e as fei&ccedil;&otilde;es um pouco abatidas, mas deslumbrante<br \/>\n    de beleza. O pudor e a como&ccedil;&atilde;o tinham-lhe acendido nas faces<br \/>\n    desbotadas pelo sofrimento uma ligeira cor, como a leve sombra de rosa, que<br \/>\n    lhe ondeava na alva gar&ccedil;a do vestido.<\/p>\n<p>Ao seu lado e meio voltado para ela, envolvendo-a de olhares ardentes e apaixonados,<br \/>\n    estava o feliz trovador, sustendo ainda nas m&atilde;os seu ala&uacute;de.<br \/>\n    Apenas Elias fitou-o por um momento, reconheceu no noivo de L&uacute;cia,<br \/>\n    quem?&#8230; o seu execr&aacute;vel protetor da Bahia, o moedeiro falso, o roubador<br \/>\n    de sua fortuna! O ladr&atilde;o de sua felicidade era o mesmo ladr&atilde;o<br \/>\n    de sua bolsa! Depois de lhe furtar o dinheiro no Sincor&aacute;, correra &agrave;<br \/>\n    Bagagem para roubar-lhe o cora&ccedil;&atilde;o de sua amante!&#8230; Sim, era<br \/>\n    ele; ele mesmo, que ali estava rico &agrave; custa de sua mis&eacute;ria,<br \/>\n    feliz &agrave; custa de seu infort&uacute;nio.<\/p>\n<p>O primeiro impulso do cora&ccedil;&atilde;o do mo&ccedil;o foi chegar-se<br \/>\n    a Leonel, arranc&aacute;-lo pelo bra&ccedil;o de junto da sua noiva, pux&aacute;-lo<br \/>\n    para o meio da casa, e dizendo-lhe: ladr&atilde;o, quero marcar-te na cara!<br \/>\n    imprimir-lhe nas faces uma bofetada. Mas teve prud&ecirc;ncia bastante ainda<br \/>\n    para sopear aquele primeiro movimento. Desviou os olhos dos dois noivos e<br \/>\n    procurou pela sala o Major. Descobriu-o logo bem perto da porta sentado junto<br \/>\n    a uma mesa, e dirigiu-se a ele.<\/p>\n<p>&#8211; Major, d&aacute; licen&ccedil;a?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pode chegar; quem &eacute;?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me conhece mais, senhor Major?&#8230; disse o mo&ccedil;o avizinhando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! o senhor Elias!&#8230; por aqui!&#8230; h&aacute; bem tempo que n&atilde;o<br \/>\n    o vejo, e nem tenho not&iacute;cias suas. Ent&atilde;o, por onde andou? quando<br \/>\n    chegou? conte-nos isso.<\/p>\n<p>&#8211; Cheguei ontem, e n&atilde;o pude resistir ao desejo de vir v&ecirc;-lo<br \/>\n    e cumpriment&aacute;-lo, apesar de que a hora e a ocasi&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    sejam pr&oacute;prias&#8230; pe&ccedil;o-lhe desculpa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado. Fez muito bem; esta casa est&aacute; sempre aberta para os amigos,<br \/>\n    em toda e qualquer ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Muito lhe agrade&ccedil;o tanta bondade, e por estar certo dela &eacute;<br \/>\n    que me atrevi a procur&aacute;-lo mesmo em tal ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p>Elias fazia um esfor&ccedil;o supremo para dominar e disfar&ccedil;ar a tempestade<br \/>\n    que lhe ia dentro d&#8217;alma. Por seu lado o Major tamb&eacute;m estava longe<br \/>\n    de sentir no cora&ccedil;&atilde;o o prazer que procurava aparentar, com o<br \/>\n    aparecimento de Elias naquela ocasi&atilde;o. Bem conhecia a m&uacute;tua<br \/>\n    afei&ccedil;&atilde;o que, h&aacute; longo tempo, existia entre sua filha<br \/>\n    e o jovem uberabense, e que era ela a causa da tristeza e do abatimento em<br \/>\n    que L&uacute;cia h&aacute; tanto tempo vivia, e da repugn&acirc;ncia que sempre<br \/>\n    mostrara em aceitar um marido. Agora, por&eacute;m, que essa repugn&acirc;ncia<br \/>\n    estava vencida, segundo ele pensava, e que o tempo e um novo afeto iam produzindo<br \/>\n    o desejado efeito, o aparecimento inesperado daquele rapaz n&atilde;o podia<br \/>\n    produzir em seu esp&iacute;rito agrad&aacute;vel impress&atilde;o, e n&atilde;o<br \/>\n    deixava de recear que a sua presen&ccedil;a pudesse perturbar o complemento<br \/>\n    de seus projetos. Este receio subiu de ponto ao notar os olhares desvairados<br \/>\n    e o acento estranho da voz do mancebo, que debalde procurava dar a todo o<br \/>\n    seu ser um ar da mais fria indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Nesta ocasi&atilde;o principalmente, meu amigo, prosseguiu o Major continuando<br \/>\n    a conversa, sinto especial prazer em ter mais uma testemunha, e da qualidade<br \/>\n    do senhor, da felicidade de minha filha, pois tenho a satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de participar-lhe que muito brevemente vai-se casar com o senhor Leonel, aquele<br \/>\n    belo e distinto cavalheiro que l&aacute; se acha junto dela.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; disso tive not&iacute;cia, e dou-lhe os meus sinceros parab&eacute;ns.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; um excelente mo&ccedil;o. N&atilde;o h&aacute; quem o veja, que<br \/>\n    desde a primeira vista n&atilde;o fique gostando dele. Quero ter a honra de<br \/>\n    desde j&aacute; o apresentar a ele.<\/p>\n<p>O simples do Major pensava que com esta formal declara&ccedil;&atilde;o dava<br \/>\n    logo in limine golpe de morte a toda e qualquer esperan&ccedil;a que ainda<br \/>\n    porventura Elias alimentasse a respeito de sua filha. N&atilde;o tinha id&eacute;ia<br \/>\n    da veem&ecirc;ncia das paix&otilde;es en&eacute;rgicas e profundas que, em<br \/>\n    vez de cederem, mais se inflamam diante dos obst&aacute;culos que se lhes<br \/>\n    op&otilde;em.<\/p>\n<p>&#8211; Com muito gosto! vamos, senhor Major. Tamb&eacute;m desejo felicitar a<br \/>\n    noiva, disse Elias com um tom de amarga ironia que n&atilde;o escapou ao Major.<\/p>\n<p>Este travou-lhe do bra&ccedil;o, e o foi conduzindo para junto dos noivos.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Leonel, disse ele ao chegar defronte dos noivos, tenho a satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de lhe apresentar este meu patr&iacute;cio e amigo, que acaba de chegar de<br \/>\n    fora, o senhor Elias.<\/p>\n<p>Leonel estremeceu, e olhou rapidamente para Elias. Depois, reportando-se,<br \/>\n    fez um breve aceno com a cabe&ccedil;a, e o cumprimentou friamente.<\/p>\n<p>Esta recep&ccedil;&atilde;o fez ferver o sangue a Elias, que, resolvido a<br \/>\n    desmascarar aquele embusteiro, dirigiu-lhe resolutamente a palavra:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! senhor Leonel!&#8230; j&aacute; n&atilde;o me conhece?&#8230; tenho infinito<br \/>\n    prazer em torn&aacute;-lo a ver.<\/p>\n<p>&#8211; Pois qu&ecirc;! exclamou o Major, ent&atilde;o j&aacute; se conheciam?&#8230;<\/p>\n<p>Leonel levantou-se p&aacute;lido, e com vis&iacute;vel perturba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    largou, ou, antes, deixou cair sobre a cadeira o viol&atilde;o que tinha nas<br \/>\n    m&atilde;os, e bastantemente enfiado balbuciou:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor &eacute;&#8230; quem?&#8230; n&atilde;o me lembro de todo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois deveras n&atilde;o se lembra de mim, continuou Elias em voz alta;<br \/>\n    Veja l&aacute;&#8230; olhe bem para minha cara.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; de todo n&atilde;o me lembro; tenho m&aacute; mem&oacute;ria,<br \/>\n    e lido com gente, replicou Leonel recobrando aos poucos sua seguridade habitual.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o se lembra de Elias, o seu amigo, o seu protegido do Sincor&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Elias!&#8230; resmungou o baiano como que forcejando por lembrar-se, n&atilde;o<br \/>\n    sei&#8230; talvez com um esfor&ccedil;o de mem&oacute;ria&#8230; no Sincor&aacute;!&#8230;<br \/>\n    conheci e protegi l&aacute; tanta gente.<\/p>\n<p>Aquela fatuidade e arrog&acirc;ncia, aquele desdenhoso esquecimento, fosse<br \/>\n    real ou fingido, fez perder de todo a paci&ecirc;ncia a Elias, que bradou<br \/>\n    com toda a for&ccedil;a de seus pulm&otilde;es:<\/p>\n<p>&#8211; Diga antes, senhor Leonel, enganei e roubei l&aacute; tanta gente!<\/p>\n<p>&#8211; Insolente! gritou Leonel; senhor Major, este homem ou &eacute; um doido,<br \/>\n    ou est&aacute; b&ecirc;bado; se o n&atilde;o fizer desaparecer imediatamente<br \/>\n    daqui, retiro-me de sua casa para nunca mais voltar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te, ladr&atilde;o, bradou Elias; e, agarrando com m&atilde;o de ferro<br \/>\n    o bra&ccedil;o de Leonel, antes que ningu&eacute;m pudesse estorv&aacute;-lo,<br \/>\n    em dois arrancos o arrastou para o meio da sala exclamando: &Eacute;s um ladr&atilde;o,<br \/>\n    e hei de marcar-te na cara!&#8230;<\/p>\n<p>Imediatamente se ouviu o estalo de uma bofetada nas faces do baiano. Um punhal<br \/>\n    reluziu na m&atilde;o deste; mas j&aacute; ambos estavam cercados e separados<br \/>\n    por uma turba imensa.<\/p>\n<p>&#8211; Que desaforo, senhor Major! exclamava um; isto n&atilde;o se tolera! como<br \/>\n    admite em sua casa um doido destes!<\/p>\n<p>&#8211; Prendam! prendam esse biltre, bradava outro. Se n&atilde;o &eacute; algum<br \/>\n    malvado, &eacute; algum doido, ou algum b&ecirc;bado.<\/p>\n<p>&#8211; Este rapaz noutro tempo mostrava ter ju&iacute;zo, dizia um terceiro, que<br \/>\n    conhecia Elias. N&atilde;o sei como agora se lhe virou o miolo por esta maneira!&#8230;<br \/>\n    mande aferrolh&aacute;-lo imediatamente; &eacute; um homem perigoso.<\/p>\n<p>O Major dava aos diabos o momento em que se lembrara de apresentar a Leonel<br \/>\n    aquele endiabrado rapaz, e, entendendo que o despeito e o ci&uacute;me lhe<br \/>\n    tinham transtornado o ju&iacute;zo, tratou de dar provid&ecirc;ncias para<br \/>\n    segur&aacute;-lo bem.<\/p>\n<p>Elias rodeado e segurado por uma multid&atilde;o de esbirros oficiosos, que<br \/>\n    lhe dirigiam improp&eacute;rios e bald&otilde;es, foi dali arrastado para<br \/>\n    a casa da pris&atilde;o, enquanto Leonel, cercado por seus amigos, brandia<br \/>\n    em v&atilde;o o punhal, vomitando amea&ccedil;as, e baforando vingan&ccedil;as.<\/p>\n<p>L&uacute;cia tr&ecirc;mula e at&ocirc;nita assistira &agrave;quela escandalosa<br \/>\n    cena sem dela nada compreender. Retirou-se como que assombrada para seu quarto;<br \/>\n    mas, naquele incidente, em que todos viam um deplor&aacute;vel e horr&iacute;vel<br \/>\n    desacato, ela entrevia como que um lampejo de esperan&ccedil;a. Ela, e s&oacute;<br \/>\n    ela acreditara nas palavras de Elias, e o julgava cheio de raz&atilde;o.<\/p>\n<p>Leonel retirou-se para sua casa, respirando vingan&ccedil;a, mas aterrado<br \/>\n    dentro d&#8217;alma com o aparecimento fatal daquele mo&ccedil;o.<\/p>\n<h2><a name=\"11\">XI &#8211; DE MAL A PIOR<\/a><\/h2>\n<p>E lias tinha gasto cerca de quatro meses em sua viagem do Sincor&aacute;<br \/>\n    &agrave; Bagagem. Quando disse a seu h&oacute;spede que apanhara febres intermitentes<br \/>\n    na margem do S. Francisco, n&atilde;o tinha mentido, se bem que naquela ocasi&atilde;o<br \/>\n    nada sentisse que delas procedesse. Essas sez&otilde;es que apanhou em caminho<br \/>\n    foram que, com grande desespero seu, demoraram-lhe a volta por mais de dois<br \/>\n    meses.<\/p>\n<p>Durante esse pen&iacute;vel trajeto foi que o p&uacute;blico e o governo<br \/>\n    brasileiro deram f&eacute; da grande quantidade de notas falsas que tinham<br \/>\n    sido introduzidas na circula&ccedil;&atilde;o, e que se come&ccedil;aram a<br \/>\n    dar as mais en&eacute;rgicas provid&ecirc;ncias para descobrir e capturar<br \/>\n    os fabricantes e introdutores da moeda falsa. Esta not&iacute;cia, por&eacute;m,<br \/>\n    ainda n&atilde;o tinha penetrado pelos sert&otilde;es que Elias tinha de atravessar<br \/>\n    do Sincor&aacute; a Bagagem; por isso ao chegar a esta povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de ter conhecimento da abomin&aacute;vel fraude de que fora v&iacute;tima.<\/p>\n<p>Leonel era um dos agentes mais audazes e ativos dessa sociedade de moedeiros<br \/>\n    falsos, cujo centro existia na Bahia e que se ramificava pelo imp&eacute;rio<br \/>\n    inteiro.<\/p>\n<p>Por ai j&aacute; se pode avaliar de que t&ecirc;mpera era a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    daquele homem, e de que perversidades n&atilde;o seria capaz. Tinha por&eacute;m<br \/>\n    o dom de ocultar sua perversidade debaixo das mais brilhantes e sedutoras<br \/>\n    exterioridades, e a todos iludia e fascinava.<\/p>\n<p>Depois de ter passado centenas de contos de notas falsas no Sincor&aacute;<br \/>\n    e em outros pontos de sua prov&iacute;ncia, assentou de percorrer outros pontos<br \/>\n    do imp&eacute;rio, prosseguindo em suas criminosas especula&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Girando assim constantemente, mais facilmente poderia escapar &agrave;s investiga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da pol&iacute;cia, e no caso que ela lhe quisesse deitar a garra, p&ocirc;r-se-ia<br \/>\n    a salvo atravessando o Atl&acirc;ntico. Na Bagagem, por&eacute;m, o atrevido<br \/>\n    cavalheiro de ind&uacute;stria achou nos olhos de L&uacute;cia um engodo irresist&iacute;vel,<br \/>\n    que o deteve nessa localidade por mais tempo do que desejava. Logo que a viu,<br \/>\n    tomou-se de uma paix&atilde;o cega pela mo&ccedil;a, n&atilde;o inspirada<br \/>\n    por um casto e sincero amor, mas filha desse desejo material e libidinoso<br \/>\n    das almas libertinas, e jurou possu&iacute;-la custasse o que custasse. Para<br \/>\n    logo conheceu a impossibilidade de seduzir e lan&ccedil;ar no caminho da desonra<br \/>\n    aquela alma t&atilde;o nobre, aquele cora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o casto.<br \/>\n    Mas o casamento, para Leonel, era um meio t&atilde;o simples como outro qualquer<br \/>\n    de trazer-lhe aos bra&ccedil;os a mulher que cobi&ccedil;asse. Abandon&aacute;-la<br \/>\n    depois, onde e quando quisesse, era para ele tamb&eacute;m neg&oacute;cio<br \/>\n    de bem pouca pondera&ccedil;&atilde;o. Entregue &agrave; descuidosa cegueira<br \/>\n    que resulta da prosperidade e da opul&ecirc;ncia, nem pensava na possibilidade<br \/>\n    de encontrar naquelas paragens alguma das v&iacute;timas de suas fraudes,<br \/>\n    e quase que j&aacute; nem se lembrava de Elias, e, ou ignorava ou j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o se recordava de que pa&iacute;s era ele. Estava al&eacute;m disso<br \/>\n    persuadido que nos sert&otilde;es as leis e a justi&ccedil;a s&atilde;o impotentes<br \/>\n    contra quem quer que tenha na carteira algumas centenas de contos de r&eacute;is.<\/p>\n<p>O escandaloso incidente, que tinha tido lugar em casa do Major, fizera viva<br \/>\n    impress&atilde;o no esp&iacute;rito da popula&ccedil;&atilde;o, que em peso<br \/>\n    estigmatizava o ato violento de Elias. O Major, cheio de indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de susto ao mesmo tempo, era o mais empenhado em exigir a puni&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tal atentado, a despeito da oposi&ccedil;&atilde;o de Leonel, que clamava<br \/>\n    em altas vozes que dispensava a vindita das leis, e que ali ou em qualquer<br \/>\n    parte saberia desforrar-se cabal e categoricamente.<\/p>\n<p>Elias, que na Bagagem poucas rela&ccedil;&otilde;es tinha, passou aos olhos<br \/>\n    de todos por um louco, um desmiolado. O horr&iacute;vel logro de notas falsas,<br \/>\n    de que fora v&iacute;tima no Sincor&aacute;, j&aacute; tinha sido divulgado,<br \/>\n    mas nem assim o p&uacute;blico quis se convencer que Leonel pudesse ter a<br \/>\n    m&iacute;nima parte naquele acontecimento, tal era a sat&acirc;nica habilidade<br \/>\n    deste para embair a todos e captar a geral estima e confian&ccedil;a. Esse<br \/>\n    fato, longe de escusar a Elias, serviu para explicar e confirmar a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que muitos estavam, de que o rapaz endoidecera.<\/p>\n<p>Ainda outra circunst&acirc;ncia contribuiu para dar mais vulto a essa convic&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O Major tivera a ingenuidade de revelar em presen&ccedil;a de muitas pessoas<br \/>\n    a paix&atilde;o de Elias por sua filha.<\/p>\n<p>&#8211; Bem conhe&ccedil;o o motivo de tudo isto, disse ele, este pobre rapaz h&aacute;<br \/>\n    muito tempo gostava de L&uacute;cia, e parece que tinha a louca pretens&atilde;o<br \/>\n    de casar-se com ela. A paix&atilde;o e o desejo transtornaram-lhe a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    coitado! tenho pena dele; mas n&atilde;o devo tolerar que fique impune semelhante<br \/>\n    desacato.<\/p>\n<p>Assim o infeliz Elias, para c&uacute;mulo dos males, era objeto da compaix&atilde;o<br \/>\n    desdenhosa de uns, dos motejos de outros, e do &oacute;dio de alguns. Somente<br \/>\n    o negociante, em cuja casa se hospedara, e a quem tinha contado sua triste<br \/>\n    aventura, tinha motivos para n&atilde;o acompanhar a opini&atilde;o do vulgo;<br \/>\n    mas, homem de esp&iacute;rito fleum&aacute;tico, n&atilde;o querendo ir de<br \/>\n    encontro ao parecer de ningu&eacute;m, guardava para si sua convic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    esperando que o tempo viesse deslindar aquele neg&oacute;cio, o que julgava<br \/>\n    que n&atilde;o poderia tardar muito.<\/p>\n<p>&#8211; Tantos contratempos viraram-lhe a bola, dizia um.<\/p>\n<p>&#8211; Era um rapaz pac&iacute;fico e prudente, ajuntava outro, n&atilde;o sei<br \/>\n    que diabo lhe entrou na cabe&ccedil;a para fazer aquela estrada!<\/p>\n<p>&#8211; Coitado&#8230; observava outro, de um dia para outro viu-se roubado em tudo<br \/>\n    que possu&iacute;a, e atrai&ccedil;oado em seu amor&#8230; o caso &eacute; mesmo<br \/>\n    para enlouquecer.<\/p>\n<p>Assim, enquanto Leonel campeava insolente e orgulhoso, protegido pela estima<br \/>\n    e simpatia geral, Elias jazia em uma pris&atilde;o, como um pobre maluco,<br \/>\n    que apenas merece um pouco de compaix&atilde;o.<\/p>\n<p>Do seio de sua pris&atilde;o Elias formulou uma den&uacute;ncia contra Leonel.<br \/>\n    Mas Elias era um man&iacute;aco; as autoridades desprezaram a den&uacute;ncia,<br \/>\n    embora estivesse concebida nos termos mais sensatos e procedentes.<\/p>\n<p>Leonel, para remover toda e qualquer suspeita que algu&eacute;m pudesse nutrir<br \/>\n    a seu respeito, quis que se desse rigorosa busca em tudo quanto era seu, em<br \/>\n    todos os valores que trazia consigo, e nada se encontrou que o pudesse comprometer.<\/p>\n<p>Todavia, como bem se pode julgar, Leonel estava longe de viver tranq&uuml;ilo<br \/>\n    depois daquele desacato, e esperava com a maior impaci&ecirc;ncia e inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o domingo seguinte para efetuar o seu casamento, e depois &#8211; com a noiva ou<br \/>\n    sem ela &#8211; evaporar-se. Teria desaparecido incontinenti, se esse passo n&atilde;o<br \/>\n    viesse despertar contra ele as mais bem fundadas suspeitas, n&atilde;o fosse<br \/>\n    um terr&iacute;vel ind&iacute;cio, uma confiss&atilde;o t&aacute;cita de seu<br \/>\n    crime. Via-se enleado em um labirinto, cuja sa&iacute;da se lhe ia tornando<br \/>\n    extremamente dif&iacute;cil.<\/p>\n<p>Mas como Elias nenhuma outra prova tinha contra ele mais do que a sua palavra,<br \/>\n    e al&eacute;m disso estava por poucos dias a ver-se livre do compromisso que<br \/>\n    ainda o detinha na Bagagem, ainda n&atilde;o julgava t&atilde;o cr&iacute;tica<br \/>\n    a sua situa&ccedil;&atilde;o que devesse tomar logo o partido extremo da fuga.<br \/>\n    Para manter-se na reputa&ccedil;&atilde;o que soubera conquistar, de leal<br \/>\n    e honrado cavalheiro, for&ccedil;oso era levar a cabo o odioso drama em que<br \/>\n    se envolvera. Uma vez casado, ou a pretexto de ir arrecadar seus bens, ou<br \/>\n    em virtude de uma carta que recebesse de seu pai ou de sua m&atilde;e, que<br \/>\n    estava &agrave; morte, chamando-o junto de si, se retiraria poucos dias depois<br \/>\n    muito honestamente, e sem despertar suspeitas teria tempo de p&ocirc;r-se<br \/>\n    a salvo.<\/p>\n<p>Para melhor disfar&ccedil;ar sua perf&iacute;dia e mais arras dar de generosidade<br \/>\n    e cavalheirismo, como o crime de Elias era particular, e por ele n&atilde;o<br \/>\n    poderia ser acusado sem haver parte queixosa, Leonel desistiu da acusa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    judici&aacute;ria, mas protestando sempre que apenas o visse solto, ou havia<br \/>\n    de morrer &agrave;s suas m&atilde;os, ou havia de lavar em seu sangue a afronta<br \/>\n    de que fora v&iacute;tima.<\/p>\n<p>Mas seus amigos tiveram o cuidado de dissuadi-lo, fazendo-lhe ver que nenhum<br \/>\n    desdouro sofria em sua honra em conseq&uuml;&ecirc;ncia do desatino de um<br \/>\n    louco rematado; que ele seria t&atilde;o louco como o seu ofensor se fosse<br \/>\n    arriscar a sua exist&ecirc;ncia nas garras de uma fera intrat&aacute;vel,<br \/>\n    por motivos de pundonor; que se vingava do coice de um burro, ou da cornada<br \/>\n    de um touro bravio.<\/p>\n<p>Leonel, que n&atilde;o primava pela coragem, e que sabia quanto o seu advers&aacute;rio<br \/>\n    era vigoroso e destro no manejo de toda a esp&eacute;cie de armas, mostrou<br \/>\n    ceder com dificuldade a estes conselhos, reservando-se todavia interiormente<br \/>\n    o direito de tomar alguma cobarde e trai&ccedil;oeira vingan&ccedil;a, se<br \/>\n    porventura tivesse ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p>A riqueza, principalmente quando &eacute; acompanhada de um verniz de cortesia,<br \/>\n    generosidade e cavalheirismo, &eacute; sempre cortejada e adulada.<\/p>\n<p>Leonel tinha pois uma numerosa roda de aduladores, que s&oacute; para n&atilde;o<br \/>\n    incorrerem em seu desagrado deixaram de cumprir um dever de humanidade para<br \/>\n    com o pobre mo&ccedil;o, que jazia na pris&atilde;o sozinho, abandonado, sem<br \/>\n    ser visitado por quase ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Elias passou essas amargas horas, umas vezes sepultado em profundo abatimento,<br \/>\n    numa letargia da alma e do corpo, outras em acesso de raiva e exaspera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    esbravejando, vociferando, e dando com a cabe&ccedil;a pelas paredes. Estes<br \/>\n    transportes de furor ainda mais confirmaram a cren&ccedil;a em que estavam,<br \/>\n    de ter ele ca&iacute;do em aliena&ccedil;&atilde;o mental em raz&atilde;o<br \/>\n    dos horr&iacute;veis contratempos que o tinham fulminado naqueles &uacute;ltimos<br \/>\n    dias. O infeliz bem via e conhecia os motivos do abandono em que o deixavam<br \/>\n    seus conterr&acirc;neos por amor de um astuto aventureiro que os soubera engodar;<br \/>\n    e os lamentava do fundo da alma; mas n&atilde;o podia refletir, sem estremecer<br \/>\n    e encher-se de furor, na sorte que esperava a pobre L&uacute;cia, nas garras<br \/>\n    daquele bandido sem f&eacute;, sem costumes, sem consci&ecirc;ncia; e o que<br \/>\n    mais desesperava ainda era o pensar que ela ali estava bem perto, ela! que<br \/>\n    era a causa de todos os seus sofrimentos, ouvindo talvez tranq&uuml;ila os<br \/>\n    seus bramidos de dor, e reputando-o, como os demais, um louco digno apenas<br \/>\n    de comisera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Estas e infindas outras considera&ccedil;&otilde;es dolorosas davam-lhe febre<br \/>\n    e del&iacute;rio; sentia arder-lhe o cr&acirc;nio e o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&uacute;mido de ang&uacute;stias como que lhe n&atilde;o cabia no peito.<br \/>\n    A id&eacute;ia do suic&iacute;dio, que h&aacute; dois dias antes lhe apresentara<br \/>\n    como o &uacute;nico meio de livrar-se daquela situa&ccedil;&atilde;o infernal,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o lhe sorria. O desejo de ver-se vingado o prendia &agrave;<br \/>\n    vida, e essa vingan&ccedil;a ele a entrevia pendente sobre a cabe&ccedil;a<br \/>\n    dos culpados, amea&ccedil;adora e terr&iacute;vel. Era esta esperan&ccedil;a<br \/>\n    que o alentava e o fazia suportar com alguma resigna&ccedil;&atilde;o as inclem&ecirc;ncias<br \/>\n    da sorte e as injusti&ccedil;as dos homens.<\/p>\n<h2><a name=\"12\">XII &#8211; MOEDEIRO FALSO<\/a><\/h2>\n<p>L&uacute;cia, abalada violentamente em todo o seu organismo pelo inesperado<br \/>\n    aparecimento de Elias e pela triste cena a que dera lugar na noite de s&aacute;bado,<br \/>\n    caiu em uma prostra&ccedil;&atilde;o febril e profunda, que nos primeiros<br \/>\n    dias chegou a causar s&eacute;rios cuidados a respeito de sua exist&ecirc;ncia.<br \/>\n    Aquela alma forte, aquela feliz e vigorosa organiza&ccedil;&atilde;o enfim<br \/>\n    sucumbiu &agrave; luta atroz que h&aacute; tanto tempo trazia travada com<br \/>\n    os sentimentos do cora&ccedil;&atilde;o. &Agrave;s vezes delirava, e ent&atilde;o<br \/>\n    o nome de Elias lhe vagava sempre pelos l&aacute;bios no meio do tropel de<br \/>\n    suas id&eacute;ias confusas e incoerentes. S&oacute; ent&atilde;o seu pai<br \/>\n    reconheceu que o amor de sua filha n&atilde;o era uma simples veleidade de<br \/>\n    crian&ccedil;a, um capricho da imagina&ccedil;&atilde;o, mas uma dessas paix&otilde;es<br \/>\n    veementes e profundas, que com os obst&aacute;culos mais se exaltam, e que<br \/>\n    nunca mais se desalijam do cora&ccedil;&atilde;o onde uma vez entraram. Mas<br \/>\n    era tarde; o mal j&aacute; estava feito, e era irremedi&aacute;vel.<\/p>\n<p>Leonel, como era seu dever, foi visitar sua futura esposa com vivas mostras<br \/>\n    da maior ang&uacute;stia e consterna&ccedil;&atilde;o, mas dizendo dentro<br \/>\n    de si: &#8211; Oh! se ela sucumbiu j&aacute;, que reden&ccedil;&atilde;o para mim!<br \/>\n    Como noivo foi sem escr&uacute;pulo introduzido no quarto da enferma em ocasi&atilde;o<br \/>\n    em que esta parecia estar mais tranq&uuml;ila. L&uacute;cia em um estado de<br \/>\n    marasmo mal se percebeu da visita que era apresentada, e respondeu &agrave;<br \/>\n    sua sauda&ccedil;&atilde;o e a suas perguntas com tal indiferen&ccedil;a,<br \/>\n    que bem mostrava n&atilde;o saber ela com quem estava falando. Por fim Leonel<br \/>\n    para despertar sua aten&ccedil;&atilde;o tomou-lhe uma das m&atilde;os entre<br \/>\n    as suas, e debru&ccedil;ando-se sobre o rosto da enferma que se achava reclinada<br \/>\n    sobre o travesseiro, dirigiu-lhe em tom afetuoso estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; D. L&uacute;cia, olhe-me; n&atilde;o me conhece?&#8230; sou eu; &eacute; o<br \/>\n    Leonel&#8230; &eacute; o seu esposo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu esposo! meu esposo!&#8230; quem &eacute;? &eacute; Elias?<\/p>\n<p>E levantando um pouco o rosto e abrindo os olhos, que at&eacute; ali conservara<br \/>\n    quase fechados no torpor da febre, fitou-os em Leonel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! gritou ela espavorida, e recuando para o canto da cama. N&atilde;o!<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; Elias! n&atilde;o &eacute; meu esposo! &eacute; o ladr&atilde;o&#8230;<br \/>\n    l&aacute; est&aacute; a marca na cara!&#8230; fuja, senhor! fuja daqui!&#8230;<\/p>\n<p>Leonel p&aacute;lido e horrorizado levantou-se bruscamente, e saiu do quarto<br \/>\n    sem dizer palavra.<\/p>\n<p>Para qualquer outro homem, que amasse verdadeiramente, aquela revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do del&iacute;rio &#8211; como o sonho da esposa do conde d&#8217;Este &#8211; teria sido um<br \/>\n    raio fulminador. Mas naquela ocasi&atilde;o Leonel, dissipado o primeiro assombro<br \/>\n    e terror que lhe causaram as palavras delirantes de L&uacute;cia, viu nelas<br \/>\n    uma aurora de esperan&ccedil;a, um sinal de reden&ccedil;&atilde;o. Depois<br \/>\n    do desacato que sofrera em casa do Major, tinha-se mil vezes arrependido do<br \/>\n    compromisso que tomara pedindo em casamento sua filha, compromisso que agora<br \/>\n    o envolvia nas mais s&eacute;rias dificuldades; e posto que fosse grande o<br \/>\n    desejo de Possu&iacute;-la uma noite sequer, contudo maior era a necessidade<br \/>\n    que tinha de se p&ocirc;r a salvo, evitando algum futuro incidente que o viesse<br \/>\n    perder completamente, e n&atilde;o sabia que meio excogitasse para conseguir<br \/>\n    esse fim sem comprometimento seu. Quando pediu a m&atilde;o de L&uacute;cia,<br \/>\n    n&atilde;o lhe ocorrera que corria ent&atilde;o a quaresma e que for&ccedil;oso<br \/>\n    lhe seria espa&ccedil;ar por tanto tempo o seu casamento. Se de tal se lembrasse,<br \/>\n    talvez n&atilde;o se arriscasse a tanto. O aparecimento de Elias e a cena<br \/>\n    da noite de s&aacute;bado chamavam as aten&ccedil;&otilde;es sobre ele. As<br \/>\n    folhas da corte come&ccedil;avam a falar muito no aparecimento de notas falsas,<br \/>\n    e nos esfor&ccedil;os e dilig&ecirc;ncias que o governo empregava por todo<br \/>\n    o imp&eacute;rio para descobrir e prender os moedeiros falsos. Estava-se na<br \/>\n    ter&ccedil;a-feira, e at&eacute; domingo pr&oacute;ximo Deus sabe o que poderia<br \/>\n    acontecer. Portanto, por mais lisonjeiro que fosse o conceito de que ainda<br \/>\n    gozava na Bagagem, por mais confian&ccedil;a que nele depositassem, a posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do jovem baiano era das mais criticas e arriscadas.<\/p>\n<p>J&aacute; pelas ruas lhe tinham constado os antigos amores de L&uacute;cia<br \/>\n    e Elias, e posto que esse rumor vago n&atilde;o fosse ainda um motivo bastante<br \/>\n    s&oacute;lido para determinar um rompimento, todavia Leonel estava disposto<br \/>\n    a prevalecer-se dele, e agarrar-se a essa &uacute;nica t&aacute;bua de salva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que a sorte lhe deparara.<\/p>\n<p>Pode-se pois calcular com que &iacute;ntima e viva satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    saiu da casa do Major, posto que levasse no rosto a m&aacute;scara da tristeza,<br \/>\n    depois que a revela&ccedil;&atilde;o de L&uacute;cia, posto que resultado<br \/>\n    do del&iacute;rio, veio romper de um s&oacute; golpe todas as malhas da rede<br \/>\n    terr&iacute;vel em que t&atilde;o imprudentemente se tinha enleado.<\/p>\n<p>A visita de Leonel foi feita pela manh&atilde;; o pai de L&uacute;cia n&atilde;o<br \/>\n    estava em casa. Nessa mesma tarde Leonel voltaria para retirar sua palavra,<br \/>\n    desfazer o contrato, e despedir-se, e nessa mesma noite desapareceria da Bagagem;<br \/>\n    tal foi o projeto, que imediatamente formulou em seu esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>Elias, ao sair da pris&atilde;o tratou imediatamente de abandonar aquela<br \/>\n    terra, onde tinha visto quebrarem-se um por um todos os elos da cadeia dourada<br \/>\n    de seus sonhos, terra de maldi&ccedil;&atilde;o, como dizia ele, coito de<br \/>\n    fariseus vis e desalmados, que s&oacute; rendem culto ao ouro e ao diamante,<br \/>\n    e que seriam capazes de entregar at&eacute; o pr&oacute;prio Cristo, se entre<br \/>\n    eles aparecesse, &agrave; sanha de seus algozes por um punhado de ouro. Despediu<br \/>\n    os camaradas que ainda lhe restavam, vendeu animais e bagagens que lhe eram<br \/>\n    desnecess&aacute;rios, e, sem nada dizer, nem despedir-se de ningu&eacute;m,<br \/>\n    montou a cavalo sozinho e subiu pelo caminho que vai para o Patroc&iacute;nio.<br \/>\n    Essa estrada passava pela frente da casa de L&uacute;cia a algumas bra&ccedil;as<br \/>\n    de dist&acirc;ncia. Ao avist&aacute;-la, Elias sentiu um horr&iacute;vel aperto<br \/>\n    de cora&ccedil;&atilde;o. Mas um irresist&iacute;vel atrativo como que o detinha<br \/>\n    ali; retardou o passo do animal, e perscrutou com as vistas todos os lados<br \/>\n    da casa a ver se avistava L&uacute;cia, ou algu&eacute;m da casa; n&atilde;o<br \/>\n    viu ningu&eacute;m. Aplicou o ouvido &agrave; escuta de alguma voz, de algum<br \/>\n    rumor, que dali partisse; mas reinava na casa o maior sil&ecirc;ncio e quieta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como se nela ningu&eacute;m morasse. Ainda mais se lhe anuviou o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de melancolia.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, L&uacute;cia! adeus! murmurou o mo&ccedil;o lan&ccedil;ando um triste<br \/>\n    e derradeiro olhar sobre a casa do Major. Perdoa o estouvamento que cometi;<br \/>\n    n&atilde;o serei eu mais que irei perturbar teu sossego e tua felicidade.<br \/>\n    Mas ah! queira Deus que em breve n&atilde;o experimentes o rigor do castigo<br \/>\n    do c&eacute;u. Adeus!<\/p>\n<p>E esporeando o cavalo desapareceu na mata pelas voltas do caminho.<\/p>\n<p>Na tarde desse mesmo dia Leonel, montado em um lindo ginete, subia o caminho<br \/>\n    da encosta que o conduzia &agrave; casa de L&uacute;cia. Ia desfazer o contrato<br \/>\n    de casamento, e despedir-se, e ia altivo e resoluto, porque de feito o motivo<br \/>\n    que tinha para assim proceder era o mais leg&iacute;timo e nobre; mas tal<br \/>\n    motivo n&atilde;o bastaria para demover de seus perversos des&iacute;gnios<br \/>\n    aquela alma obcecada e habituada ao crime, se n&atilde;o fora o risco que<br \/>\n    corria sua pessoa demorando-se por mais tempo na Bagagem. Sua inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era desaparecer nessa mesma noite, para o que j&aacute; dera as necess&aacute;rias<br \/>\n    provid&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Para arredar de si qualquer suspeita, deixaria uma carta para ser apresentada<br \/>\n    a todos os seus amigos, na qual lhes faria ver que retirava-se por que n&atilde;o<br \/>\n    lhe era poss&iacute;vel, nem lhe ficava airoso por modo nenhum demorar-se,<br \/>\n    nem mais um instante, em uma terra onde acabava de ser v&iacute;tima do mais<br \/>\n    escandaloso desacato e do mais profundo dissabor por que pode passar o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do homem. Levava contudo a mais grata lembran&ccedil;a daquele pa&iacute;s<br \/>\n    e de seus habitantes, e protestava seu reconhecimento a todos que o honraram<br \/>\n    com sua amizade.<\/p>\n<p>Exultando com o acontecimento que lhe dava t&atilde;o plaus&iacute;vel motivo<br \/>\n    de p&ocirc;r-se a salvo sem despertar suspeitas, o jovem baiano chegou &agrave;<br \/>\n    porta da casa do Major.<\/p>\n<p>No momento de apear-se achava-se bem junto &agrave; porta um homem de grotesca<br \/>\n    figura, pobre e andrajosamente vestido, mas cal&ccedil;ado e com uma gravata<br \/>\n    esfarrapada ao pesco&ccedil;o, e da apar&ecirc;ncia a mais benigna e submissa<br \/>\n    que se pode imaginar. Este homem, depois de tirar respeitosamente o amarrotado<br \/>\n    chap&eacute;u de p&ecirc;lo, fazer uma profunda rever&ecirc;ncia e pegar no<br \/>\n    estribo para apear-se, desdobrou e apresentou a Leonel um papel sem lho entregar.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! j&aacute; sei! exclamou com impaci&ecirc;ncia o mancebo, sem ao menos<br \/>\n    olhar para o papel. &Eacute; alguma subscri&ccedil;&atilde;o&#8230; &eacute; um<br \/>\n    chuveiro delas todos os dias. Em outra ocasi&atilde;o, meu amigo&#8230; apare&ccedil;a<br \/>\n    em minha casa.<\/p>\n<p>&#8211; Perdoe-me V. S.&ordf; n&atilde;o &eacute; isso de que se trata; tenha a<br \/>\n    bondade de ler o papel.<\/p>\n<p>Leonel tomou o papel, passou por ele um ligeiro lance de vista, empalideceu,<br \/>\n    e num instante desarmou-se-lhe todo aquele ar de seguran&ccedil;a e impon&ecirc;ncia<br \/>\n    que o revestia. Depois, com ar espantadi&ccedil;o olhou para todos os lados<br \/>\n    como quem queria correr. O homem lan&ccedil;ou-lhe a m&atilde;o ao punho,<br \/>\n    e disse-lhe com solenidade:<\/p>\n<p>&#8211; V. S.&ordf; est&aacute; preso &agrave; ordem do senhor delegado de pol&iacute;cia.<\/p>\n<p>&#8211; Inf&acirc;mia!&#8230; eu!&#8230; eu mesmo!? &eacute; imposs&iacute;vel; h&aacute;<br \/>\n    engano da sua Parte, meu caro.<\/p>\n<p>Dizendo isto, Leonel ia entrar para a casa do Major. O homem o deteve.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o; V. S.&ordf; h&aacute; de acompanhar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Vou s&oacute; dar um recado, e volto neste instante.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor; tenho ordens apertadas.<\/p>\n<p>O mo&ccedil;o mordeu os bei&ccedil;os de raiva.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem! disse, vamos l&aacute;! onde quer me levar?<\/p>\n<p>E ia montar a cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o, meu senhor; tenha paci&ecirc;ncia. V. S.&ordf; h&aacute;<br \/>\n    de ir a p&eacute;. Eu vou puxando seu cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Biltre! bradou o mo&ccedil;o encolerizado e levantando o chicote, o cavalo<br \/>\n    &eacute; meu; tenho de ir &agrave; casa, e n&atilde;o quero ir a p&eacute;.<\/p>\n<p>E j&aacute; ia pondo o p&eacute; no estribo. O meirinho apitou, e s&uacute;bito<br \/>\n    dois soldados, surgindo por detr&aacute;s de uma cerca vizinha, acudiram prontamente,<br \/>\n    e colocaram-se aos lados de Leonel. Este abaixou os olhos tr&ecirc;mulo e<br \/>\n    convulso de raiva e de vergonha, e disse aos guardas em tom r&aacute;pido:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos!&#8230; vamos depressa! quero saber que maroteira &eacute; esta.<\/p>\n<p>O que ele queria por&eacute;m era evitar a vergonha e humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ser visto naquelas circunst&acirc;ncias pelo Major e L&uacute;cia. L&uacute;cia<br \/>\n    estava doente em seu quarto; mas o Major e algumas outras pessoas da casa<br \/>\n    j&aacute; tinham acudido &agrave; janela.<\/p>\n<p>&#8211; O que &eacute; isto, senhor Leonel!? o que &eacute; que estou vendo! exclamou<br \/>\n    o Major. Camaradas, que quer dizer isto? aqui h&aacute; decerto algum engano.<br \/>\n    Que fez este homem?<\/p>\n<p>&#8211; Ele melhor o sabe do que n&oacute;s, senhor Major, disse um dos soldados;<br \/>\n    pergunte a ele.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se inquiete, Major, disse Leonel. Estou preso, &eacute; verdade;<br \/>\n    mas h&aacute; sem d&uacute;vida algum equivoco. Eu vou j&aacute; deslindar<br \/>\n    tudo isto, e breve estou de volta.<\/p>\n<p>E foi saindo a passos r&aacute;pidos no meio dos dois guardas, e acompanhado<br \/>\n    pelo meirinho.<\/p>\n<p>Nesse momento vinha descendo pela estrada que passava pela frente da casa<br \/>\n    a uns cem passos de dist&acirc;ncia, um cavaleiro todo embu&ccedil;ado em<br \/>\n    seu ponche e com o rosto quase inteiramente encoberto por seu largo chap&eacute;u<br \/>\n    desabado. Ao presenciar aquela cena, parou, deixando que primeiro passassem<br \/>\n    a escolta e o preso. Quando iam passando por diante dele, ergueu o chap&eacute;u<br \/>\n    e descobrindo o rosto, clamou com acento de voz sat&acirc;nico:<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem, que a vingan&ccedil;a do c&eacute;u veio mais cedo do que eu<br \/>\n    esperava!<\/p>\n<p>A esta voz Leonel, que marchava rapidamente e com os olhos cravados no ch&atilde;o,<br \/>\n    levantou sobressaltado a cabe&ccedil;a, estremeceu, cambaleou, e teria ca&iacute;do,<br \/>\n    se n&atilde;o se tivesse escorado ao bra&ccedil;o de um dos guardas. Tinha<br \/>\n    reconhecido Elias.<\/p>\n<p>Elias, que na manh&atilde; daquele mesmo dia tinha partido com o firme prop&oacute;sito<br \/>\n    de nunca mais voltar a Bagagem, ao sair da mata e avistar as vastas e formosas<br \/>\n    campinas que se estendiam diante de seus olhos, sentiu cobrir-lhe o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma nuvem da mais sombria tristeza, e a custo se arrancava daqueles s&iacute;tios<br \/>\n    onde deixava para sempre sepultadas suas esperan&ccedil;as e sua felicidade.<br \/>\n    As r&eacute;deas bambaleavam frouxas ao pesco&ccedil;o do animal, que marchava<br \/>\n    como lhe aprazia, enquanto o cavaleiro se esquecia no abismo de seus melanc&oacute;licos<br \/>\n    pensamentos. A cada espig&atilde;o que transpunha, cada buritizal que via<br \/>\n    atr&aacute;s de si pelos imensos chapad&otilde;es, sentia-se-lhe desfalecer<br \/>\n    a alma, a fraquear a resolu&ccedil;&atilde;o. Seu imenso amor, talvez tamb&eacute;m<br \/>\n    uma r&eacute;stia de luz de esperan&ccedil;a, que ainda lhe bruxuleava no<br \/>\n    fundo d&#8217;alma, ou mesmo algum oculto pressentimento o arrastava para junto<br \/>\n    de L&uacute;cia. Enfim, tanto refletiu, calculou, devaneou, que, depois de<br \/>\n    ter cismado muito e andado bem pouco, estaria apenas a tr&ecirc;s l&eacute;guas<br \/>\n    de dist&acirc;ncia, quando j&aacute; o sol descambava, torceu bruscamente<br \/>\n    as r&eacute;deas ao cavalo, e voltou a galope.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos! exclamou; quero ir ver com meus pr&oacute;prios olhos a consuma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de minha desgra&ccedil;a. Sim! quero ver, assistir a tudo; e seja para ela<br \/>\n    a minha presen&ccedil;a como imagem viva do remorso, e como prel&uacute;dio<br \/>\n    da vingan&ccedil;a que n&atilde;o tardar&aacute; a cair do c&eacute;u.<\/p>\n<p>Quis o acaso que Elias chegasse exatamente a ponto de assistir ao ato da<br \/>\n    pris&atilde;o de Leonel. Depois desta cena a que j&aacute; assistimos, Elias<br \/>\n    enterrou outra vez o chap&eacute;u sobre os olhos, esporeou o cavalo e seguiu<br \/>\n    seu destino, murmurando consigo:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! L&uacute;cia! L&uacute;cia! tu me tra&iacute;ste, mas nem assim meu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o pode odiar-te, e agora sinto-me feliz por te ver livre<br \/>\n    das garras daquele malvado, do que por me ver t&atilde;o cabal e solenemente<br \/>\n    vingado!<\/p>\n<\/p>\n<h2><a name=\"13\">XIII &#8211; OS VIZINHOS<\/a><\/h2>\n<p>Depois da triste ocorr&ecirc;ncia da noite de s&aacute;bado, L&uacute;cia<br \/>\n    bem quisera mandar a Elias um bilhete, um simples recado mesmo, n&atilde;o<br \/>\n    para reatar rela&ccedil;&otilde;es culp&aacute;veis com seu antigo amante;<br \/>\n    seu honesto cora&ccedil;&atilde;o repelia semelhante id&eacute;ia, mas para<br \/>\n    explicar seu procedimento, pedir-lhe perd&atilde;o, e dizer-lhe um derradeiro<br \/>\n    e eterno adeus. Mas como? sempre rodeada de pessoas que a cercavam de cuidados<br \/>\n    &agrave;s vezes importunos, n&atilde;o lhe era poss&iacute;vel satisfazer<br \/>\n    esse desejo. Seu pai mesmo, receando que de novo se reavivasse um sentimento<br \/>\n    que j&aacute; supunha quase extinto, posto que tivesse toda a confian&ccedil;a<br \/>\n    na honestidade de sua filha, contudo, &agrave; vista do estado de exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que ca&iacute;ra sua imagina&ccedil;&atilde;o enferma, julgou necess&aacute;rio<br \/>\n    observ&aacute;-la com todo o cuidado e vigil&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Esta continua obsess&atilde;o ainda mais lhe irritava o esp&iacute;rito,<br \/>\n    e aumentava os mart&iacute;rios do cora&ccedil;&atilde;o. Ser odiada, desprezada<br \/>\n    talvez por Elias sem deparar um meio de justificar-se para com ele e pedir-lhe<br \/>\n    perd&atilde;o, era a mais pungente das torturas que a atormentavam. Queria<br \/>\n    s&oacute; poder lhe dizer:<\/p>\n<p>&#8211; Elias, tens raz&atilde;o de me odiar, de me amaldi&ccedil;oar mesmo; mas<br \/>\n    acredita-me, eu n&atilde;o sou culpada; um dia saber&aacute;s tudo, e estou<br \/>\n    certa que me perdoar&aacute;s. Eu te amo ainda, e te amarei sempre; mas o<br \/>\n    c&eacute;u n&atilde;o quer que sejamos um do outro. Curvo-me &agrave; impiedade<br \/>\n    de meu destino, esperando que a morte em breve vir&aacute; p&ocirc;r termo<br \/>\n    a meus mart&iacute;rios. Adeus!&#8230;<\/p>\n<p>Seriam estas as &uacute;ltimas palavras, que lhe dirigiria, e depois se devotaria<br \/>\n    inteira ao sacrif&iacute;cio que lhe era imposto. Mas nem isso, nem esse extremo<br \/>\n    consolo lhe era dado, e ainda mais pen&iacute;vel se tornava sua situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quando se lembrava que naquela fatal noite Elias apenas lhe relanceara um<br \/>\n    olhar sinistro e exprobrador.<\/p>\n<p>No dia em que fora preso Leonel, L&uacute;cia inculcando-se restabelecida,<br \/>\n    levantou-se da cama, em que h&aacute; dois dias jazia; mas achava-se ainda<br \/>\n    muito alquebrada para poder sair do quarto.<\/p>\n<p>Logo depois da cena da pris&atilde;o, o Major dirigiu-se ao quarto de sua<br \/>\n    filha.<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha, disse ele, reveste-te de paci&ecirc;ncia e de coragem; tenho<br \/>\n    mais um triste contratempo a anunciar-te.<\/p>\n<p>&#8211; Qual &eacute;, meu pai?&#8230; fale! fale!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o te aflijas, querida L&uacute;cia. O golpe &eacute; bem sens&iacute;vel,<br \/>\n    mas creio que mais para mim, do que para ti. O neg&oacute;cio h&aacute; de<br \/>\n    ser sabido imediatamente, e antes que outro te conte, quero que o saibas de<br \/>\n    minha pr&oacute;pria boca.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o o que &eacute;, meu pai?&#8230; pode falar sem susto. Eu j&aacute;<br \/>\n    estou acostumada a ouvir m&aacute;s novas.<\/p>\n<p>&#8211; Acabo de assistir a uma cena bem triste. Leonel, o teu noivo, acaba de<br \/>\n    ser preso aqui &agrave; porta de nossa casa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, meu pai?!&#8230; exclamou L&uacute;cia, levantando-se com um brilho estranho<br \/>\n    nos olhos, que o pai tomou por um novo acesso de del&iacute;rio, e que n&atilde;o<br \/>\n    era mais do que um lampejo de uma alegria que quase se parecia com a loucura.<\/p>\n<p>&#8211; Sim? continuou ela. O Sr. Leonel preso? e por qu&ecirc;, meu pai?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei ainda; mas sem d&uacute;vida pelo crime de moeda falsa,<br \/>\n    de que o acusava o pobre Elias&#8230; E ningu&eacute;m acreditava!&#8230; meu Deus!&#8230;<br \/>\n    como s&atilde;o as coisas deste mundo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E que sina a minha, meu pai! ah! n&atilde;o h&aacute; nada certo nem seguro<br \/>\n    neste mundo!<\/p>\n<p>&#8211; Tranq&uuml;iliza-te, minha filha; e d&aacute; gra&ccedil;as ao c&eacute;u<br \/>\n    que nos veio livrar talvez das garras de um embusteiro, de um monstro. Foi<br \/>\n    para n&oacute;s uma felicidade<\/p>\n<p>&#8211; Foi mesmo, meu pai; foi uma felicidade muito grande. Aquele homem, n&atilde;o<br \/>\n    sei por qu&ecirc;, fazia-me medo. Uma antipatia invenc&iacute;vel me arredava<br \/>\n    dele&#8230; Ah!&#8230; foi como se me tirassem um peso de cima do cora&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; E como te resignavas a casar-te com ele?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Era um sacrif&iacute;cio, meu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Sacrif&iacute;cio!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, meu pai, um sacrif&iacute;cio, mas um sacrif&iacute;cio necess&aacute;rio<br \/>\n    para sua felicidade e de minha irm&atilde;; um sacrif&iacute;cio imposto pelo<br \/>\n    dever. J&aacute; n&atilde;o se lembra de assim mo ter declarado?<\/p>\n<p>&#8211; Lembro-me, L&uacute;cia; mas se soubesse que tinhas tanta repugn&acirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muita! muita repugn&acirc;ncia!<\/p>\n<p>&#8211; Se eu o soubesse, antes queria sofrer toda a sorte de mis&eacute;rias,<br \/>\n    do que tornar para sempre desgra&ccedil;ada a minha filha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade! eu seria muito, muito desgra&ccedil;ada.<\/p>\n<p>&#8211; E por que te n&atilde;o abrias comigo com toda a franqueza?<\/p>\n<p>&#8211; A vista do que meu pai me falou, era meu dever calar-me e submeter-me.<\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; boa e querida filha&#8230; e como teu cora&ccedil;&atilde;o adivinhava!<br \/>\n    e eu, cego e cruel pai que eu era! te ia arrastando sem piedade para t&atilde;o<br \/>\n    duro sacrif&iacute;cio!&#8230; perdoa-me, minha L&uacute;cia. Louco e desventurado<br \/>\n    pai que sou!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai, esque&ccedil;amo-nos de tudo isso; agora s&oacute; devemos nos<br \/>\n    alegrar e dar gra&ccedil;as ao c&eacute;u que t&atilde;o a tempo nos veio<br \/>\n    livrar das m&atilde;os daquele homem que s&oacute; queria a nossa perdi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz&atilde;o, minha filha; demos gra&ccedil;as ao c&eacute;u. Adeus;<br \/>\n    vai descansar. Ainda n&atilde;o est&aacute;s boa, e tens necessidade de repousar.<br \/>\n    Adeus.<\/p>\n<p>Apenas o Major saiu, L&uacute;cia foi lan&ccedil;ar-se de joelhos aos p&eacute;s<br \/>\n    de um crucifixo, que tinha pendurado &agrave; cabeceira do catre, e com todo<br \/>\n    o fervor de seu cora&ccedil;&atilde;o murmurou esta ora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    gra&ccedil;as:<\/p>\n<p>&quot;&Oacute; meu bom pai do c&eacute;u, eu vos rendo infinitas gra&ccedil;as<br \/>\n    pelo imenso beneficio que acabais de fazer-me, livrando-me das ciladas de<br \/>\n    um malfeitor, que me queria arrojar no abismo da perdi&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    da desgra&ccedil;a. Eu bem sei que n&atilde;o merecia t&atilde;o assinalado<br \/>\n    favor, mas v&oacute;s sois bom, e tivestes piedade de mim. Mas lembrai-vos<br \/>\n    tamb&eacute;m do infeliz Elias!&#8230; O pobre Elias!&#8230; tem direito de me querer<br \/>\n    mal&#8230; s&oacute; me falta o seu perd&atilde;o. Ah! Elias! quando souberes<br \/>\n    de tudo, tu me perdoaras&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Mal ia L&uacute;cia acabando aquela prece, que do trono do Onipotente ia<br \/>\n    sensivelmente se desviando para a pessoa de seu amante, quando entrou Joana<br \/>\n    no quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Estava rezando, sinhazinha? faz bem; o rezar alivia muito o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da gente, quando est&aacute; aflito.<\/p>\n<p>&#8211; Estava, sim, Joana; o que me queres?<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est&aacute;, disse a escrava apresentando-lhe um bilhete.<\/p>\n<p>Pelo sobrescrito L&uacute;cia logo conheceu que era de Elias. O cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pulou-lhe de alegria; ainda uma vez voltou a Deus seu pensamento agradecido.<br \/>\n    Sem demora abriu e leu o bilhete. Mas logo &agrave; primeira linha sua fronte<br \/>\n    se anuviou, e o brilho de seus olhos se empanou de l&aacute;grimas. O bilhete<br \/>\n    dizia assim:<\/p>\n<p>&quot;Adeus, L&uacute;cia! adeus para sempre! foste bastantemente leviana<br \/>\n    para me desprezares por um aventureiro desconhecido, s&oacute; porque tem<br \/>\n    algum dinheiro e uma bela apar&ecirc;ncia. Praza ao c&eacute;u que bem cedo<br \/>\n    n&atilde;o te arrependas, e que n&atilde;o venha a ser ele mesmo o algoz que<br \/>\n    me vingar&aacute; de tua ingratid&atilde;o! Vou para bem longe procurar esquecer-me<br \/>\n    de ti; n&atilde;o sei se o conseguirei. Quando esta receberes, j&aacute; estarei<br \/>\n    mui longe daqui. Adeus! esquece-te tamb&eacute;m de mim.&quot;<\/p>\n<p>L&uacute;cia j&aacute; esperava que naquela carta n&atilde;o poderiam vir<br \/>\n    sen&atilde;o queixas e exprobra&ccedil;&otilde;es. Elias ignorava as circunst&acirc;ncias<br \/>\n    fatais que a tinham for&ccedil;ado a dar o &#8211; sim &#8211; a Leonel; tinha pois sobeja<br \/>\n    raz&atilde;o para acus&aacute;-la e queixar-se amargamente. Mas aquela partida<br \/>\n    repentina, aquela amarga despedida para todo o sempre, lhe dilaceravam o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ah! nunca mais v&ecirc;-lo, nunca mais poder-se justificar para com ele, ela,<br \/>\n    inocente v&iacute;tima, que ia imolar-se em um sacrif&iacute;cio, que a m&atilde;o<br \/>\n    de Deus acabava de afastar de cima de sua cabe&ccedil;a, ser condenada a viver<br \/>\n    odiada e desprezada pelo ente a quem mais amava no mundo! Este pensamento<br \/>\n    continuamente a atormentava, e n&atilde;o podia perdoar a Elias a precipitada<br \/>\n    sofreguid&atilde;o com que a condenava, e se animava a abandon&aacute;-la<br \/>\n    para sempre, sem ter-lhe ouvido uma palavra, agora que o destino parecia querer<br \/>\n    abrir-lhe de novo o caminho da esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! exclamava ela chorando, &eacute; preciso ter bem pouco amor para proceder<br \/>\n    assim. Eu n&atilde;o o condenaria t&atilde;o de leve. Mas decerto que ele<br \/>\n    n&atilde;o me ama como eu o amo.<\/p>\n<p>Entretanto ainda uma vaga esperan&ccedil;a a alentava. Elias talvez chegasse<br \/>\n    a ter conhecimento, se &eacute; que j&aacute; n&atilde;o tinha, do sucesso<br \/>\n    que trouxe ou havia de trazer inevitavelmente o rompimento de seu contrato<br \/>\n    de casamento com Leonel. Se lhe tinha verdadeiro amor, havia por certo de<br \/>\n    arrepender-se da precipitada resolu&ccedil;&atilde;o que tomara de nunca mais<br \/>\n    v&ecirc;-la, e voltaria. Se n&atilde;o fosse o amor, a curiosidade mesmo o<br \/>\n    faria voltar, e, quem sabe? tamb&eacute;m desejo a vingan&ccedil;a para ter<br \/>\n    o prazer de v&ecirc;-la humilhada em raz&atilde;o do triste desfecho da projetada<br \/>\n    uni&atilde;o. Fosse por&eacute;m qual fosse o motivo que o trouxesse, ela<br \/>\n    s&oacute; suspirava por v&ecirc;-lo na Bagagem; n&atilde;o faltaria ocasi&atilde;o<br \/>\n    de revelar-lhe tudo o que ocorrera, e o seu perd&atilde;o era certo.<\/p>\n<p>Como j&aacute; vimos, L&uacute;cia n&atilde;o se enganara: a resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desesperada de Elias apenas tinha durado algumas horas. Mas antes que L&uacute;cia<br \/>\n    o soubesse, teve de passar ainda muitos dias de cruel incerteza e inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Elias, em conseq&uuml;&ecirc;ncia dos profundos pesares e violentas como&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de esp&iacute;rito por que havia passado durante aqueles dias, sofreu um novo<br \/>\n    e grave ataque de febre intermitente que tinha apanhado em sua volta do Sincor&aacute;,<br \/>\n    ataque que o prostrou na cama por muitos dias. N&atilde;o querendo incomodar<br \/>\n    nenhum dos habitantes da Bagagem, contra os quais estava possu&iacute;do do<br \/>\n    mais vivo e justo ressentimento, recolhera-se a um tosco e pobre ranchinho,<br \/>\n    separado cerca de um quarto de l&eacute;gua do rio acima do grosso da povoa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    onde era tratado por uma pobre parda velha, sua conhecida de Uberaba, que<br \/>\n    como tantos outros tinha mudado para a Bagagem os seus penates.<\/p>\n<p>Elias conhecia e trazia consigo os medicamentos necess&aacute;rios para combater<br \/>\n    sua mol&eacute;stia, e portanto, dispensou o m&eacute;dico que a boa velha<br \/>\n    em v&atilde;o instava que se chamasse. Gra&ccedil;as a esse curativo e aos<br \/>\n    cuidados da caridosa enfermeira, no fim de oito dias achava-se inteiramente<br \/>\n    fora de perigo.<\/p>\n<p>Durante essa for&ccedil;ada reclus&atilde;o, as dores f&iacute;sicas o incomodavam<br \/>\n    menos do que as inquieta&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito e as amarguras<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>L&uacute;cia n&atilde;o lhe sa&iacute;a do pensamento. Nos sonhos delirosos<br \/>\n    da febre ela lhe aparecia, ora risonha e feliz ao lado de um esposo, am&aacute;vel<br \/>\n    e brilhante cavalheiro; e ent&atilde;o lhe escapavam bramidos roucos de raiva<br \/>\n    e desespero, que pareciam despeda&ccedil;ar-lhe o peito. Ora a via pobre e<br \/>\n    envolta nos andrajos da mis&eacute;ria, mas pura, santa e sempre fiel &agrave;<br \/>\n    lembran&ccedil;a de seu amor; e ent&atilde;o l&aacute;grimas doridas lhe rebentavam<br \/>\n    dos olhos; chorava e solu&ccedil;ava como uma crian&ccedil;a. Sabia que com<br \/>\n    a pris&atilde;o de Leonel achava-se desfeito o casamento de L&uacute;cia,<br \/>\n    que o Major estava arruinado, e que a mis&eacute;ria em breve prazo o esperava<br \/>\n    a ele e a toda a fam&iacute;lia. Esta considera&ccedil;&atilde;o o enchia<br \/>\n    de amargura; ent&atilde;o mais que nunca maldizia o infame embusteiro que<br \/>\n    o iludira, praguejava a sorte e blasfemava contra o c&eacute;u.<\/p>\n<p>Na sua pobre cabana ningu&eacute;m o vinha ver, porque ningu&eacute;m o supunha<br \/>\n    ali, crendo todos, em raz&atilde;o do seu desaparecimento, que tinha sa&iacute;do<br \/>\n    da Bagagem.<\/p>\n<p>Um dia disse-lhe a velha caseira:<\/p>\n<p>&#8211; Meu mo&ccedil;o, Vmc&ecirc;. est&aacute; aqui t&atilde;o s&oacute;, n&atilde;o<br \/>\n    tem com quem conversar; isto n&atilde;o est&aacute; bom; n&atilde;o quer que<br \/>\n    eu chame algum de seus amigos para entreter o tempo?<\/p>\n<p>&#8211; Amigos!&#8230; oh! minha velha; pelo amor de Deus! n&atilde;o me fale nos amigos<br \/>\n    da Bagagem, quisera antes ver o rosto do Satan&aacute;s.<\/p>\n<p>&#8211; Pois como?&#8230; n&atilde;o h&aacute; por ai nem uma viva alma com quem n&atilde;o<br \/>\n    tenha tomado caipora?!<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma, minha velha, nenhuma!&#8230; mas n&atilde;o&#8230; minto&#8230; havia um velho<br \/>\n    e pobre camarada. Em v&atilde;o tenho perguntado por ele&#8230; ningu&eacute;m<br \/>\n    me d&aacute; not&iacute;cias; nem sei se &eacute; vivo ou morto.<\/p>\n<p>&#8211; E &eacute; s&oacute; esse?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda h&aacute; mais outra pessoa; e essa eu daria a minha vida para v&ecirc;-la,<br \/>\n    ainda que fosse um instante; mas essa, ai de mim!&#8230; essa n&atilde;o pode<br \/>\n    vir aqui.<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; vendo, que &eacute; alguma mo&ccedil;a bonita.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade!&#8230; muito bonita; bonita como n&atilde;o h&aacute; nem<br \/>\n    pode haver nenhuma.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, meu mo&ccedil;o, Vmc&ecirc;. est&aacute; muito doente para pensar<br \/>\n    agora em mo&ccedil;as bonitas. Pense antes na Virgem Sant&iacute;ssima, que<br \/>\n    &eacute; quem lhe h&aacute; de valer.<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto se essa de quem falo, me aparecesse agora, aqui, estou certo<br \/>\n    que no mesmo instante eu sararia.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o &eacute; m&aacute;gica?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; mais do que isso; &eacute; um anjo.<\/p>\n<p>&#8211; Anjo!&#8230; nesse caso n&atilde;o me canso em ir procur&aacute;-la, porque<br \/>\n    &eacute; coisa que n&atilde;o existe mais neste mundo.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o te canses mesmo, minha velha; tu n&atilde;o a encontrar&aacute;s;<br \/>\n    nem ela vir&aacute; c&aacute;. Ela &eacute; do c&eacute;u; n&atilde;o pode<br \/>\n    descer a este inferno em que estou penando.<\/p>\n<h2><a name=\"14\">XIV &#8211; A LAVADEIRA<\/a><\/h2>\n<p>No dia seguinte bem cedo a boa velha veio pressurosa acordar Elias.<\/p>\n<p>&#8211; Levante-se, meu mo&ccedil;o; o dia amanheceu bonito, e tenho uma bela not&iacute;cia<br \/>\n    para lhe dar.<\/p>\n<p>&#8211; Boa not&iacute;cia para mim!&#8230; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel! para<br \/>\n    mim!&#8230; neste mundo j&aacute; n&atilde;o pode haver not&iacute;cia nem boa<br \/>\n    nem m&aacute;. A &uacute;nica boa not&iacute;cia que me poderiam dar era que<br \/>\n    j&aacute; morri.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! quem fala agora em morrer!&#8230; dou-lhe parte que temos agora aqui<br \/>\n    perto uma bela vizinhan&ccedil;a: j&aacute; Vmc&ecirc;. n&atilde;o ficar&aacute;<br \/>\n    t&atilde;o sozinho.<\/p>\n<p>&#8211; Vizinhan&ccedil;a! oh! que bela nova! tomara que me deixem sozinho, e que<br \/>\n    eu nunca lhes veja a cara. Sen&atilde;o me mudarei ainda para mais longe.<\/p>\n<p>&#8211; Sozinho se veja o diabo!&#8230; olhe que uma vizinhan&ccedil;a como esta n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; para desprezar. &Eacute; um velho, uma menina muito linda, e uma<br \/>\n    mo&ccedil;a bonita como um sol. N&atilde;o os conhe&ccedil;o, nem me lembro<br \/>\n    de ter visto essa gente em parte nenhuma.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n&atilde;o me recordo de ter visto casa nenhuma aqui por perto, e pensei<br \/>\n    que estava livre de toda a vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o viu uma casinha coisa de uns cem passos ali mais adiante?<\/p>\n<p>&#8211; De todo n&atilde;o me lembro; tamb&eacute;m eu estava t&atilde;o doente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tamb&eacute;m a casa &eacute; t&atilde;o pequena, &eacute; como esta mais<br \/>\n    ou menos, e est&aacute; escondida no mato, que mal se avista.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o pobres como n&oacute;s?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assim parece, ou talvez mais ainda, coitados; mas parece ser boa gente.<br \/>\n    Quando fui apanhar &aacute;gua fresca numa fonte que h&aacute; para a casa,<br \/>\n    pediram-me para encher o pote, e estive conversando um pouco com eles. O homem<br \/>\n    estava para dentro; mas a menina &eacute; muito dada e muito meigazinha; a<br \/>\n    mo&ccedil;a &eacute; tamb&eacute;m muito boa e bonita, meu mo&ccedil;o, bonita<br \/>\n    at&eacute; ali&#8230; mas n&atilde;o sei que tem, que anda t&atilde;o triste!&#8230;<br \/>\n    comparando mal, parece uma imagem de Nossa Senhora das Dores.<\/p>\n<p>&#8211; Pois de todo n&atilde;o sabes quem &eacute; essa gente? de onde &eacute;?<br \/>\n    de onde veio? perguntou com s&ocirc;frega curiosidade Elias, a quem um s&uacute;bito<br \/>\n    pensamento tinha atravessado o esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>&#8211; Nada sei de todo.<\/p>\n<p>&#8211; Um velho, uma mo&ccedil;a e uma menina, n&atilde;o &eacute; o que disseste?<\/p>\n<p>&#8211; Tal e qual.<\/p>\n<p>&#8211; Um velho alto e cheio de corpo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; A menina &eacute; morena e ter&aacute; dez ou onze anos. A mo&ccedil;a<br \/>\n    &eacute; clara, bem-feita, olhos grandes, cabelos castanhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Justamente!&#8230; pelo que vejo, s&atilde;o seus conhecidos?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que sim.<\/p>\n<p>&#8211; Um velho, uma mo&ccedil;a, uma menina! refletiu consigo Elias, e com estes<br \/>\n    sinais! n&atilde;o podem ser outros. O Major estava em v&eacute;speras de<br \/>\n    completa ru&iacute;na!&#8230; infeliz fam&iacute;lia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E n&atilde;o tiveste ocasi&atilde;o, continuou Elias, de ouvir o nome de<br \/>\n    alguma das pessoas da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que sim&#8230; espere&#8230; Ah! agora me lembro&#8230; ouvi o velho chamar l&aacute;<br \/>\n    de dentro a mo&ccedil;a pelo nome de&#8230; de&#8230; L&uacute;cia.<\/p>\n<p>&#8211; L&uacute;cia!&#8230; que nome divino acabas de pronunciar, minha boa velha!<br \/>\n    s&atilde;o eles mesmos! &eacute; ela!&#8230; ah! desventurada L&uacute;cia! e<br \/>\n    mais desventurado de mim, que n&atilde;o posso valer-te!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou vendo que essa mo&ccedil;a &eacute; o anjo de que Vmc&ecirc;. h&aacute;<br \/>\n    pouco falava?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;, minha velha, &eacute; ela mesma. E dir&aacute;s ainda que os<br \/>\n    anjos n&atilde;o andam c&aacute; pela terra?&#8230;<\/p>\n<p>Elias n&atilde;o teve mais sossego, e levantou-se imediatamente. S&oacute;<br \/>\n    a id&eacute;ia de que ali t&atilde;o perto dele achava-se L&uacute;cia, dava-lhe<br \/>\n    vigor e alma nova. Era impetuoso, irresist&iacute;vel o desejo de v&ecirc;-la;<br \/>\n    mas ao mesmo tempo a lembran&ccedil;a da pobreza, em que ia encontr&aacute;-la,<br \/>\n    o contristava e enchia-lhe de amargura o cora&ccedil;&atilde;o. Vieram-lhe<br \/>\n    ao esp&iacute;rito todos os tristes transes de sua vida passada, e refletiu<br \/>\n    amargamente sobre os cru&eacute;is e estranhos caprichos da sorte. Ele, que<br \/>\n    outrora fora quase que despedido da casa do Major, e considerado indigno de<br \/>\n    p&ocirc;r os olhos em sua filha, ele que h&aacute; poucos dias fora tratado<br \/>\n    desabrida e brutalmente em casa do mesmo Major por amor de um infame aventureiro,<br \/>\n    ele o via esse mesmo Major, a seu lado, tanto ou mais miser&aacute;vel do<br \/>\n    que ele pr&oacute;prio. Se tivesse alma maldosa e vingativa, oferecia lhe<br \/>\n    ent&atilde;o uma bela ocasi&atilde;o de espezinh&aacute;-lo humilhando-o com<br \/>\n    a sua visita; a sua presen&ccedil;a por si s&oacute; seria um sarcasmo vivo<br \/>\n    que devia encher de confus&atilde;o e vergonha aquele homem outrora t&atilde;o<br \/>\n    f&aacute;tuo e ambicioso. Mas Elias nada tinha de vingativo e rancoroso. Sua<br \/>\n    alma nobre era incapaz de desrespeitar o infort&uacute;nio de quem quer que<br \/>\n    fosse, quanto mais do pai daquela a quem tanto adorava.<\/p>\n<p>Entretanto crescia-lhe o desejo cada vez mais impaciente de ver L&uacute;cia.<br \/>\n    Passado o abalo e a como&ccedil;&atilde;o violenta dos primeiros dias, e enfraquecido<br \/>\n    o corpo pela enfermidade, acalmou-se a irrita&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito<br \/>\n    do infeliz mancebo, come&ccedil;ou a refletir com mais frieza, e uma voz interior<br \/>\n    como que o advertia de que L&uacute;cia era inocente, e o amava ainda como<br \/>\n    sempre, e que algum motivo muito poderoso a for&ccedil;ara a condescender<br \/>\n    com a vontade de seu pai.<\/p>\n<p>Posto que ainda bastante fraco, Elias parecia lesto e disposto como em seus<br \/>\n    dias de perfeita sa&uacute;de; uma for&ccedil;a interior o reanimava como<br \/>\n    por encanto. Seu primeiro cuidado foi ir ver, ainda que a certa dist&acirc;ncia,<br \/>\n    a casinha em que viera habitar a fam&iacute;lia do infeliz Major. Era uma<br \/>\n    tosca choupana, a &uacute;ltima que se via &agrave; orla do caminho que seguia<br \/>\n    rio acima para o com&eacute;rcio de Mundim. Mas essa choupana aos olhos de<br \/>\n    Elias tinha mais encantos que um pal&aacute;cio: era o templo que encerrava<br \/>\n    uma divindade.<\/p>\n<p>Sentado sobre a relva que se estendia pela encosta acima em frente de sua<br \/>\n    casinha, esteve por largo tempo contemplando-a e examinando-a minuciosamente;<br \/>\n    mas n&atilde;o viu ningu&eacute;m. Apenas a fuma&ccedil;a que sa&iacute;a<br \/>\n    pelo telhado, e algum rumor confuso de vozes atestavam que a choupana era<br \/>\n    habitada. Depois de estar ali mais de uma hora a contemplar a casa, e embebido<br \/>\n    em mil pensamentos, ora risonhos e esperan&ccedil;osos, ora amargos e sombrios,<br \/>\n    a porta se abriu, o Major saiu, e imediatamente a porta se fechou. Envolvido<br \/>\n    num largo sobretudo, chap&eacute;u de p&ecirc;lo de lebre, carregado sobre<br \/>\n    os olhos, a cabe&ccedil;a desca&iacute;da sobre o peito, arrimando-se a uma<br \/>\n    grossa bengala, l&aacute; ia o Major a caminho da povoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ao v&ecirc;-lo, Elias teve o mais profundo d&oacute; e sentiu apertar-lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o. Como estava a certa dist&acirc;ncia do caminho, o<br \/>\n    Major passou sem v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Onde ir&aacute; aquele infeliz pai?, pensava Elias; que ir&aacute; fazer?<br \/>\n    Ir&aacute; talvez envidar os &uacute;ltimos esfor&ccedil;os para achar algum<br \/>\n    meio de manter com dec&ecirc;ncia sua pequena fam&iacute;lia, t&atilde;o digna<br \/>\n    de melhor sorte! ir&aacute; talvez vender alguma j&oacute;ia que ainda resta<br \/>\n    a suas filhas, para dar-lhes um peda&ccedil;o de p&atilde;o!&#8230; E a que portas<br \/>\n    vais bater, infeliz Major!&#8230; de uns monstros sem consci&ecirc;ncia e sem<br \/>\n    entranhas, que folgam com a desdita alheia, como folga o urubu ao ver expirar<br \/>\n    o animal em que vai cravar o imundo bico faminto de carni&ccedil;a. Esses<br \/>\n    mesmos, que ainda ontem regozijavam-se em tua casa, e bebendo &agrave; tua<br \/>\n    custa, hoje apenas se dignar&atilde;o testemunhar-te um pouco de compaix&atilde;o.<br \/>\n    Cega-os a gana do dinheiro; piores que os lobos, s&atilde;o capazes de devorarem-se<br \/>\n    uns aos outros por um punhado de ouro. Major! Major! eles vos arrancar&atilde;o<br \/>\n    at&eacute; a camisa do corpo, e tomai bem cuidado sobre vossas filhas! eles<br \/>\n    s&atilde;o capazes de roubar-te esse &uacute;nico tesouro de teu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    esse &uacute;ltimo consolo de teu infort&uacute;nio!&#8230;<\/p>\n<p>A voz da velha enfermeira o veio despertar daquelas sombrias reflex&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; Ol&aacute;, senhor Elias!&#8230; o que est&aacute; aia banzar?&#8230; fuja desse<br \/>\n    sol, que est&aacute; ficando muito quente; venha tomar seu caldo. Ent&atilde;o?<br \/>\n    perguntou ela depois que Elias se aproximou; ent&atilde;o, viu os novos vizinhos?<\/p>\n<p>&#8211; Vi somente o velho: &eacute; muito meu conhecido.<\/p>\n<p>&#8211; Falou com ele?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; ele saiu de casa, e passou por mim sem ver-me; coitado! vai<br \/>\n    t&atilde;o cabisbaixo! ainda ontem era rico; hoje, minha velha, talvez lhe<br \/>\n    possamos dar esmolas!<\/p>\n<p>&#8211; Forte pena!&#8230; mas Deus &eacute; grande; h&aacute; de compadecer-se deles.<br \/>\n    Eu tenho mais d&oacute; &eacute; das pobres meninas, coitadinhas! t&atilde;o<br \/>\n    mimosas, t&atilde;o bonitinhas! h&aacute; de custar-lhes bastante acostumarem-se<br \/>\n    com a pobreza.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez n&atilde;o; foram criadas na ro&ccedil;a, e est&atilde;o acostumadas<br \/>\n    com o trabalho. O pai n&atilde;o tinha outro defeito sen&atilde;o o de ser<br \/>\n    muito fanfarr&atilde;o e todo enfatuado de riqueza e fidalguia. No mais era<br \/>\n    um homem de bem, e soube dar excelente educa&ccedil;&atilde;o a suas filhas.<br \/>\n    Mas nem por isso s&atilde;o menos dignas de l&aacute;stima.<\/p>\n<p>&#8211; E por que n&atilde;o vai fazer-lhe uma visita, e oferecer-lhe o nosso pr&eacute;stimo?<br \/>\n    coitados!&#8230; N&atilde;o digo hoje, mas amanh&atilde; ou depois, quando melhorar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esse &eacute; o meu desejo; mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o qu&ecirc;?&#8230; h&aacute; de ir; s&atilde;o nossos vizinhos, e talvez<br \/>\n    lhes possamos prestar nalguma coisa.<\/p>\n<p>Elias bem ardia em desejos de ir ver L&uacute;cia. Mas, ofendido h&aacute;<br \/>\n    t&atilde;o pouco tempo pelo Major em seu amor-pr&oacute;prio, sentia certa<br \/>\n    repugn&acirc;ncia em ir visit&aacute;-lo, e demais receava que ele pensasse<br \/>\n    que sua visita naquela ocasi&atilde;o tinha por fim humilh&aacute;-lo e mortific&aacute;-lo.<br \/>\n    Visitar L&uacute;cia na aus&ecirc;ncia do pai, tamb&eacute;m sua natural delicadeza<br \/>\n    n&atilde;o permitia, principalmente naquela condi&ccedil;&atilde;o em que<br \/>\n    ela se achava; era dever duplamente sagrado para ele respeitar-lhe o recato<br \/>\n    e a reputa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Elias passou essa manh&atilde; a excogitar um meio de ver L&uacute;cia sem<br \/>\n    encontrar-se com o Major; mas seu c&eacute;rebro abrasado e debilitado pela<br \/>\n    mol&eacute;stia n&atilde;o lhe sugeriu nenhum. A tarde o acesso febril o prostrou<br \/>\n    na cama, e for&ccedil;oso lhe foi renunciar por esse dia ao seu desejo.<\/p>\n<p>No dia seguinte amanheceu muito melhor. O Major saiu como na v&eacute;spera<br \/>\n    &agrave; mesma hora. Elias que n&atilde;o ousava fazer uma visita formal &agrave;<br \/>\n    casa de seus vizinhos, come&ccedil;ou a rond&aacute;-la em torno, mas em certa<br \/>\n    dist&acirc;ncia respeitosa, a ver se por acaso entrevia de longe a sua querida<br \/>\n    L&uacute;cia, e esperando que o acaso lhes proporcionaria ao menos um momento<br \/>\n    de entrevista. O s&iacute;tio era inteiramente ermo. A casa tinha um grande<br \/>\n    cercado ou quintal quase inteiramente inculto, e cont&iacute;guo ao quintal<br \/>\n    da casa de Elias, tendo ambos nos fundos por limites o ribeir&atilde;o. Elias<br \/>\n    rodeou primeiramente o cercado pelo lado exterior, passou pela frente da casa<br \/>\n    e desceu at&eacute; &agrave; margem do ribeir&atilde;o, enfiando &aacute;vidos<br \/>\n    e perscrutadores olhares por todas as janelas, atrav&eacute;s das cercas e<br \/>\n    dos arvoredos. Se algu&eacute;m o visse, nada poderia suspeitar; ia embu&ccedil;ado<br \/>\n    em seu capote, arrimado a um bast&atilde;o, era um pobre enfermo em convalescen&ccedil;a,<br \/>\n    que dava o seu passeio higi&ecirc;nico. N&atilde;o viu ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>De volta &agrave; casa lembrou-se de fazer a mesma excurs&atilde;o pelo lado<br \/>\n    interior do quintal de sua casa, que ficava cont&iacute;guo ao dos vizinhos.<br \/>\n    Aquele tamb&eacute;m estava coberto de arbustos silvestres e capoeira inculta,<br \/>\n    de maneira que, por entre as moitas, podia Elias muito a seu sabor e sem ser<br \/>\n    visto observar por entre paus mal unidos da cerca todo o quintal vizinho,<br \/>\n    e mesmo divisar algumas vezes o terreiro. Teria dado como uns trinta passos<br \/>\n    ao longo da cerca que ia morrer &agrave; beira do rio, quando ouviu vozes<br \/>\n    de mulher um pouco mais abaixo. O cora&ccedil;&atilde;o pulou-lhe cheio de<br \/>\n    alvoro&ccedil;o; cuidou ouvir a voz de L&uacute;cia! Foi-se aproximando com<br \/>\n    precau&ccedil;&atilde;o at&eacute; o ponto donde partiam as vozes, colocou-se<br \/>\n    &agrave; cerca, espreitou e viu&#8230;<\/p>\n<p>A pequena dist&acirc;ncia da cerca um jorro d&#8217;&aacute;gua ca&iacute;a por<br \/>\n    uma bica em um tanque raso alcatifado de cascalhos, no qual L&uacute;cia,<br \/>\n    com os p&eacute;s descal&ccedil;os mergulhados n&#8217;&aacute;gua, a saia do vestido,<br \/>\n    presa por um len&ccedil;o, rega&ccedil;ada quase at&eacute; os joelhos, o<br \/>\n    corpo do vestido descido, os r&oacute;seos seios mal cobertos pela fina e<br \/>\n    transparente camisa e os compridos cabelos ajuntados atr&aacute;s por uma<br \/>\n    fita, caindo-lhe pelas esp&aacute;duas, estava lavando roupa.<\/p>\n<p>Debru&ccedil;ada sobre o tanque, cujas &aacute;guas borbulhando-lhe em torno<br \/>\n    beijavam amorosas as duas colunas de alabastro nelas mergulhadas, dir-se-ia<br \/>\n    V&ecirc;nus no momento em que nascia da espuma do mar, ou branca a&ccedil;ucena<br \/>\n    que ali nascera &agrave; beira da fonte, e pendia o c&aacute;lix a mirar-se<br \/>\n    em seu cristalino rega&ccedil;o. Nunca Elias, nos dias em que ela era rica<br \/>\n    e feliz, no meio das festas e do esplendor do luxo, nunca a vira t&atilde;o<br \/>\n    linda, t&atilde;o fascinadora assim. O cora&ccedil;&atilde;o batia-lhe com<br \/>\n    tal viol&ecirc;ncia, que tinha medo que fosse ouvido e tra&iacute;sse a sua<br \/>\n    presen&ccedil;a ali. Entretanto quase se envergonhava de estar ali espreitando<br \/>\n    &agrave;s escondidas e profanando com suas vistas o inocente e descuidoso<br \/>\n    desalinho daquela casta criatura. Queria fugir, mas seus p&eacute;s estavam<br \/>\n    pregados &agrave; terra, e seus olhos n&atilde;o podiam desviar-se daquela<br \/>\n    ang&eacute;lica figura que os fascinava, e se L&uacute;cia nunca dali sa&iacute;sse,<br \/>\n    Elias tamb&eacute;m ali ficaria para sempre, ou ent&atilde;o de um salto transpondo<br \/>\n    a cerca, iria se arrojar aos p&eacute;s dela, se do lado de cima da bica n&atilde;o<br \/>\n    estivesse em p&eacute; uma escrava que com ela conversava. Era a boa e fiel<br \/>\n    Joana, que acabava de colher nos canteiros destro&ccedil;ados daquela inculta<br \/>\n    horta um punhado de ervas para o parco jantar da fam&iacute;lia, enquanto<br \/>\n    a senhora lavava a roupa.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; s&oacute; a morte que nivela as condi&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    o destino &agrave;s vezes a antecipa, e se compraz em curvar a cabe&ccedil;a<br \/>\n    dos ricos e orgulhosos at&eacute; beijarem o p&oacute; da terra, e coloca<br \/>\n    escravos ao n&iacute;vel do senhor. Mas o destino &eacute; cego, e o raio<br \/>\n    que fulmina sobre a cabe&ccedil;a do culpado tamb&eacute;m &agrave;s vezes<br \/>\n    debru&ccedil;a sobre o lodo o l&iacute;rio puro da inoc&ecirc;ncia e da virtude.<\/p>\n<p>Quando Elias as avistou, a conversa das duas estava tocando a seu fim.<\/p>\n<p>&#8211; Tem paci&ecirc;ncia, sinhazinha, dizia a escrava. Nossa Senhora do Patroc&iacute;nio<br \/>\n    h&aacute; de ter piedade de n&oacute;s. Querendo Deus, tudo se h&aacute; de<br \/>\n    arranjar e n&oacute;s ainda havemos de voltar para nossa ro&ccedil;a. Mas<br \/>\n    enquanto isso se n&atilde;o arranja, aqui est&aacute; sua negra velha, que<br \/>\n    ainda pode trabalhar para Vmc&ecirc;s. todos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas tu hoje &eacute;s forra, Joana; deves ir cuidar na tua vida&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que me importa l&aacute; isso?&#8230; por acaso eu pedi alguma alforria? entreguem-me<br \/>\n    c&aacute; a minha carta, e h&atilde;o de ver como eu a fa&ccedil;o em pedacinhos<br \/>\n    e atiro tudo no fogo.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n&atilde;o, Joana!&#8230; tal n&atilde;o far&aacute;s. Fui eu que pedi<br \/>\n    a meu pai te forrasse, e sabes por qu&ecirc;?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei l&aacute;!&#8230; de certo foi porque sinhazinha n&atilde;o me quer<br \/>\n    mais; quer ficar livre de mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pelo contr&aacute;rio, Joana, foi para n&atilde;o ficar sem ti. Se n&atilde;o<br \/>\n    fosses forra, irias cair nas m&atilde;os dos credores de meu pai, como todos<br \/>\n    os outros escravos da casa.<\/p>\n<p>&#8211; Credo! Nossa Senhora me guarde!&#8230; ent&atilde;o, n&atilde;o; quero a minha<br \/>\n    carta; quero ser livre para poder ser escrava de minha sinhazinha. Esses diabos<br \/>\n    desses homens! Deus me perdoe!&#8230; parece que n&atilde;o s&atilde;o batizados.<br \/>\n    Meu senhor j&aacute; valeu a eles todos, e agora n&atilde;o tem um s&oacute;<br \/>\n    que tenha piedade dele. M&aacute; peste que os persiga!&#8230; Agora vou cuidar<br \/>\n    na janta&#8230; sinhazinha fica a&iacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Fico, Joana; podes ir; vou acabar de enxaguar esta roupa.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa isso, sinhazinha. Eu logo venho acabar de lavar e estender toda essa<br \/>\n    roupa; n&atilde;o esteja se matando sem precis&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o gosto de estar &agrave; toa, e bem sabes que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a primeira vez que lavo roupa, e tamb&eacute;m isto me serve de distra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tem medo de ficar aqui sozinha?<\/p>\n<p>&#8211; Medo de qu&ecirc;?&#8230; quem pode vir me fazer mal aqui neste ermo?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; bem, disse Joana retirando-se. Assim mesmo eu vou chamar sinh&aacute;<br \/>\n    J&uacute;lia para ficar com Vmc&ecirc;.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; preciso, Joana&#8230; J&uacute;lia est&aacute; ocupada<br \/>\n    com uma costura que &eacute; preciso acabar hoje mesmo. Eu tamb&eacute;m l&aacute;<br \/>\n    vou neste instante.<\/p>\n<p>Nenhum favor melhor podia o c&eacute;u fazer a Elias naquele instante do<br \/>\n    que deixar L&uacute;cia ali sozinha; e dir-se-ia que L&uacute;cia adivinhava,<br \/>\n    e queria ficar s&oacute;, como se tivesse ajustado uma entrevista. A emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Elias subiu de ponto. N&atilde;o fosse uma excessiva ousadia, uma profana&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    teria de um salto transposto a cerca e iria cair a seus p&eacute;s&#8230;<\/p>\n<p>Logo que Joana desapareceu por entre os arbustos do quintal, L&uacute;cia<br \/>\n    deixou a fonte, e sentou-se sobre a grama do coradouro, pousou a face em uma<br \/>\n    das m&atilde;os, e p&ocirc;s-se a cismar. Era um modelo perfeito para a est&aacute;tua<br \/>\n    de uma n&aacute;iade. Depois tirou do seio uma carta, e lan&ccedil;ou sobre<br \/>\n    ela um olhar. Seus olhos arrasavam-se de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Que crueldade, meu Deus, exclamou ela, deixar-me assim arrebatadamente,<br \/>\n    e abandonar-me t&atilde;o sozinha e desamparada neste ermo&#8230; isto &eacute;<br \/>\n    de quem ama deveras?&#8230; e al&eacute;m de tudo, a pobreza!&#8230; Meu Deus!&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o sei o que ser&aacute; de mim&#8230; hei de morrer de tristeza!&#8230; se<br \/>\n    me dissesse ao menos onde foi!&#8230; eu dera tudo para saber onde ele est&aacute;!&#8230;<\/p>\n<p>Ouvindo estas palavras, Elias n&atilde;o p&ocirc;de mais conter-se; pulou<br \/>\n    a cerca, e em dois saltos estava ao p&eacute; de L&uacute;cia.<\/p>\n<p>&#8211; Eis-me aqui, L&uacute;cia!&#8230; eis-me aqui a teus p&eacute;s! exclamou o<br \/>\n    mancebo.<\/p>\n<p>L&uacute;cia assustada deu um grito, e ergueu-se rapidamente. Num relance<br \/>\n    desatou da cintura o len&ccedil;o com que suspendia as saias, e com ele comp&ocirc;s<br \/>\n    os ombros e os seios que trazia quase nus. Lembrava V&ecirc;nus, quando do<br \/>\n    traje de ninfa ca&ccedil;adora, em que estava disfar&ccedil;ada, transfigurou-se<br \/>\n    subitamente aos olhos de En&eacute;ias em verdadeira deusa, deixando tombar-lhe<br \/>\n    aos p&eacute;s as vestes ro&ccedil;agantes.<\/p>\n<p>&#8211; Perdoa-me, minha L&uacute;cia! perdoa a minha ousadia; ela &eacute; filha<br \/>\n    do muito amor que te consagro. Eu estava ali&#8230; eu te ouvia, e eu te amo;<br \/>\n    v&ecirc; se era poss&iacute;vel conter-me. Se ainda me amas, tu me perdoar&aacute;s.<\/p>\n<p>O sobressalto de L&uacute;cia n&atilde;o tardou em transformar-se na efus&atilde;o<br \/>\n    de uma celeste alegria.<\/p>\n<p>&#8211; Se ainda te amo!&#8230; exclamou, pois duvida ainda?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou t&atilde;o infeliz, que custo a acreditar em tamanha ventura.<\/p>\n<p>&#8211; Compreendo. Pensa que lhe fui infiel; que trai o nosso amor. Tinha raz&atilde;o<br \/>\n    para pensar assim; mas quando souber o que houve, estou certa que me h&aacute;<br \/>\n    de perdoar.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenho nada que perdoar-te; eu &eacute; que devo pedir-te perd&atilde;o<br \/>\n    de meu estouvamento e precipita&ccedil;&atilde;o. Meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; adivinhou tudo. Mas entretanto conta-me, minha querida L&uacute;cia,<br \/>\n    conta-me como tudo isso foi&#8230;<\/p>\n<p>Aquela entrevista, que o acaso preparara, durou apenas meia hora; mas meia<br \/>\n    hora de gozos e efus&otilde;es d&#8217;alma, de delicias inef&aacute;veis, meia<br \/>\n    hora t&atilde;o cheia de amor e felicidade, que aos olhos de Elias compensou<br \/>\n    largamente dois anos de agros sofrimentos e &aacute;speros trabalhos, meia<br \/>\n    hora que ele trocaria de bom grado por um s&eacute;culo de viver ordin&aacute;rio.<\/p>\n<p>Entretanto L&uacute;cia contou-lhe rapidamente a hist&oacute;ria de seu projetado<br \/>\n    casamento com Leonel, as solicita&ccedil;&otilde;es de seu pai, e as tristes<br \/>\n    circunst&acirc;ncias que a arrastaram &agrave;quele sacrif&iacute;cio, que<br \/>\n    al&eacute;m da felicidade lhe custaria tamb&eacute;m a vida, mas que ela julgava<br \/>\n    necess&aacute;rio e de seu dever para felicidade de seu pai e de sua irm&atilde;.<\/p>\n<p>&#8211; E n&atilde;o te lembravas, disse Elias com um triste sorriso, que nesse<br \/>\n    sacrif&iacute;cio arrastavas mais uma v&iacute;tima?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! se me lembrava!&#8230; mas eu nem not&iacute;cias tinha de ti&#8230; e, mesmo<br \/>\n    que as tivesse, a n&atilde;o estares em circunst&acirc;ncias de valer a meu<br \/>\n    pai, levarias a mal esse sacrif&iacute;cio, se infelizmente se consumasse?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, minha L&uacute;cia&#8230; eu n&atilde;o teria rem&eacute;dio sen&atilde;o<br \/>\n    admirar-te, embora se me estalasse de dor o cora&ccedil;&atilde;o. Mas a carta<br \/>\n    que te escrevi do Sincor&aacute;, acaso n&atilde;o chegou-te &agrave;s m&atilde;os?<\/p>\n<p>&#8211; Chegou, Elias; mas em que momento, meu Deus? Eu acabava de dar o meu consentimento,<br \/>\n    de comprometer solenemente a minha palavra para com meu pai; j&aacute; era<br \/>\n    tarde. Faz id&eacute;ia de quanto era triste e desesperadora a minha posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre L&uacute;cia! quanto &eacute;s boa&#8230; quanto &eacute;s ador&aacute;vel<br \/>\n    e sublime! Se antes eu te amava, de hoje em diante eu te admiro, eu te adoro,<br \/>\n    e n&atilde;o me julgo digno do amor de uma criatura t&atilde;o superior, de<br \/>\n    um anjo, de que o mundo n&atilde;o &eacute; digno.<\/p>\n<p>&#8211; Se n&atilde;o te julgasse digno, eu nunca te amaria, e n&atilde;o teria<br \/>\n    passado por tantas afli&ccedil;&otilde;es e ang&uacute;stias s&oacute; por<br \/>\n    amor de ti. Mas, hoje sou feliz. Deus teve piedade de mim, arredou de meu<br \/>\n    caminho aquele maldito homem, e restituiu-me o meu Elias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! aquele homem parecia enviado ao mundo por Satan&aacute;s para perturbar<br \/>\n    a nossa felicidade! Tudo que podia fazer meu prazer, minha gl&oacute;ria neste<br \/>\n    mundo, ele pretendia arrancar-me; parece que o perseguia uma inveja feroz<br \/>\n    de tudo quanto era meu; queria para si o dinheiro de minha bolsa, o amor de<br \/>\n    meu cora&ccedil;&atilde;o, o ar de meus pulm&otilde;es, o sangue de minhas<br \/>\n    veias. Mas o monstro apenas conseguiu roubar-me o fruto do meu suor, essa<br \/>\n    pequena fortuna que eu tinha adquirido&#8230; mas que importa isso, L&uacute;cia?!&#8230;<br \/>\n    Deus ainda me conserva a mesma intelig&ecirc;ncia, a mesma atividade e disposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e eu saberei adquirir outra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas por piedade!&#8230; eu te pe&ccedil;o, n&atilde;o me abandones mais; n&atilde;o<br \/>\n    v&aacute;s mais procurar fortuna l&aacute; t&atilde;o longe. N&atilde;o quero<br \/>\n    mais que saias de perto de mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, L&uacute;cia, eu sou pobre&#8230; tu tamb&eacute;m est&aacute;s t&atilde;o<br \/>\n    pobre como eu. Hoje h&aacute; um motivo ainda mais forte para que eu empregue<br \/>\n    todos os esfor&ccedil;os para adquirir alguma coisa; e se por aqui n&atilde;o<br \/>\n    for poss&iacute;vel, devo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deves amar-me, a mim s&oacute;, e a mais ningu&eacute;m. Somos ambos pobres;<br \/>\n    o destino nivelou nossas condi&ccedil;&otilde;es; e agora n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    mais embara&ccedil;o algum para nossa uni&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas a pobreza, L&uacute;cia&#8230; por mim s&oacute; eu a suportaria como tenho<br \/>\n    suportado, de cora&ccedil;&atilde;o alegre; mas doer-me-ia horrivelmente ver-te<br \/>\n    em minha companhia sofrendo as inclem&ecirc;ncias e priva&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da indig&ecirc;ncia sem poder erguer-te a uma condi&ccedil;&atilde;o mais<br \/>\n    feliz.<\/p>\n<p>&#8211; Porventura j&aacute; n&atilde;o sou t&atilde;o pobre, Elias? e deixarei<br \/>\n    de s&ecirc;-lo, se me abandonares?&#8230; ent&atilde;o antes queres me ver sofrendo<br \/>\n    sozinha os rigores da pobreza, do que em tua companhia!<\/p>\n<p>&#8211; Mas olha, L&uacute;cia; tu &eacute;s muito mo&ccedil;a, formosa e bem-educada&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o te faltar&atilde;o maridos que, mais felizes do que eu, possam<br \/>\n    dar-te no mundo a posi&ccedil;&atilde;o de que &eacute;s t&atilde;o digna&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te!&#8230; n&atilde;o digas mais tal blasf&ecirc;mia, eu te pe&ccedil;o<br \/>\n    pelo nosso amor. Antes miser&aacute;vel contigo do que milion&aacute;ria com<br \/>\n    um Leonel, ou com quem quer que seja. Mas tu n&atilde;o ir&aacute;s mais para<br \/>\n    longe; fica por aqui mesmo na nossa terra; eu te pe&ccedil;o pelo nosso amor,<br \/>\n    por tudo quanto mais queres neste mundo ou no outro&#8230; pela alma de teu pai<br \/>\n    e de tua m&atilde;e&#8230; em toda a parte se ganha com que passar a vida, e que<br \/>\n    necessidade temos n&oacute;s de riquezas? o nosso amor ser&aacute; a nossa<br \/>\n    riqueza, e porventura n&atilde;o basta ele para nos tornar felizes?<\/p>\n<p>&#8211; Sossega, minha querida L&uacute;cia; n&atilde;o irei longe. O teu amor,<br \/>\n    assim como me enche o cora&ccedil;&atilde;o de felicidade, d&aacute;-me tamb&eacute;m<br \/>\n    toda a coragem e toda a confian&ccedil;a no futuro. &Eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    que Deus n&atilde;o aben&ccedil;oe o trabalho de quem se esfor&ccedil;a para<br \/>\n    amparar e fazer a felicidade de um anjo, como tu &eacute;s. Mas olha, L&uacute;cia,<br \/>\n    n&atilde;o quero, n&atilde;o devo pedir-te a teu orgulhoso pai, enquanto desta<br \/>\n    destra que vou oferecer-te, n&atilde;o puder escorregar um pouco de ouro.<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230; mas se isso n&atilde;o for poss&iacute;vel, me abandonar&aacute;s?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nunca, minha L&uacute;cia, nunca! serei teu, sempre teu.<\/p>\n<p>&#8211; Basta!&#8230; adeus! j&aacute; estamos aqui h&aacute; muito tempo; algu&eacute;m<br \/>\n    pode nos ver&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um instante ainda: escuta, L&uacute;cia. Da minha malfadada fortuna do<br \/>\n    Sincor&aacute; restam-me ainda alguns destro&ccedil;os. Vou p&ocirc;-los em<br \/>\n    jogo. N&atilde;o sairei destes arredores. Saber&aacute;s not&iacute;cias minhas,<br \/>\n    e eu virei ver-te todas as vezes que puder; n&atilde;o sei que pressentimento<br \/>\n    me diz que seremos felizes, muito felizes. Adeus.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus&#8230; n&atilde;o te esque&ccedil;as de mim e n&atilde;o me fujas mais.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; nunca mais; eu te juro&#8230; por este beijo&#8230; mais este&#8230; e<br \/>\n    mais ainda. Adeus!<\/p>\n<p>E dizendo isto Elias cingiu a mo&ccedil;a a seu peito, e lhe deu um beijo<br \/>\n    em cada uma das faces e o &uacute;ltimo na boca. Era a primeira vez que tal<br \/>\n    ousava.<\/p>\n<h2><a name=\"15\">XV &#8211; ABNEGA&Ccedil;&Atilde;O<\/a><\/h2>\n<p>O garimpeiro &eacute; como o jogador; sua esperan&ccedil;a est&aacute; sempre<br \/>\n    no seio da grupiara, como a do jogador nas cartas do baralho, nos dados ou<br \/>\n    no tabuleiro verde do bilhar; isto &eacute;, sua felicidade dorme na urna<br \/>\n    do acaso, de onde as mais das vezes nunca sai. Por mais que sejam os reveses<br \/>\n    com que a fortuna os maltrate, por mais que repila e os calque aos p&eacute;s,<br \/>\n    esses cegos e pertinazes amantes est&atilde;o sempre de rojo a mendigar favores<br \/>\n    aos p&eacute;s daquela cruel e caprichosa am&aacute;sia.<\/p>\n<p>Elias possu&iacute;a ainda algum dinheiro e objetos de valor, restos que<br \/>\n    tinham escapado &agrave; depreda&ccedil;&atilde;o de seu execr&aacute;vel<br \/>\n    protetor do Sincor&aacute;, e que podiam servir de princ&iacute;pio a novas<br \/>\n    especula&ccedil;&otilde;es. Elias, que j&aacute; tinha garimpado muito, tinha<br \/>\n    certo pendor natural para este g&ecirc;nero de vida; e apesar de ter dissipado<br \/>\n    o melhor de seu tempo e de seu dinheiro em explorar minas de diamantes, sem<br \/>\n    outro resultado mais do que cont&iacute;nuas perdas, nem assim perdera a f&eacute;<br \/>\n    em que estava de que do ch&atilde;o havia de lhe brotar a riqueza e a felicidade.<br \/>\n    Esta era a cren&ccedil;a firme do seu velho camarada, cren&ccedil;a que por<br \/>\n    muito repetida n&atilde;o deixava de fazer profunda impress&atilde;o na imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    algum tanto fatalista e supersticiosa de seu jovem amo.<\/p>\n<p>Elias costumava tamb&eacute;m ter sonhos matizados de rubis e diamantes,<br \/>\n    e al&eacute;m disso, como j&aacute; ouvimos da boca do velho Sim&atilde;o,<br \/>\n    uma cigana lhe predissera que sua estrela era de pedra. O amor n&atilde;o<br \/>\n    contribu&iacute;a menos poderosamente para inspirar-lhe aquela resolu&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    suspirava impaciente pelo momento em que pudesse ver-se para sempre unido<br \/>\n    a L&uacute;cia, e para esse fim s&oacute; &Eacute; que desejava enriquecer,<br \/>\n    e enriquecer depressa. Ora, a n&atilde;o cair do c&eacute;u, s&oacute; do<br \/>\n    seio da terra poderia ver surgir de um dia para outro uma fortuna. Demais<br \/>\n    a quest&atilde;o era de pouco tempo; em poucos meses, em poucos dias, em algumas<br \/>\n    horas mesmo poderia ficar resolvido o problema de seu destino. Elias era audaz<br \/>\n    e resoluto; com o primeiro sorriso de L&uacute;cia voltara-lhe toda a sua<br \/>\n    coragem e seguridade, toda a sua confian&ccedil;a no futuro.<\/p>\n<p>Comprou datas, engajou pra&ccedil;as, e come&ccedil;ou a trabalhar com atividade<br \/>\n    e ardor inconceb&iacute;vel. Mas ah! aquela terra da Bagagem para ele parecia<br \/>\n    ser amaldi&ccedil;oada; parecia que o diamante sumia-se do lugar onde tocavam<br \/>\n    suas plantas!<\/p>\n<p>Tinha-se escoado um m&ecirc;s, e com ele grande parte dos recursos de Elias<br \/>\n    sem o menor resultado. Mont&otilde;es de cascalho bruto aglomerado em torno<br \/>\n    das grupiaras, eis o fruto &uacute;nico que se via do trabalho do infeliz<br \/>\n    mo&ccedil;o.<\/p>\n<p>Durante esse tempo duas vezes viu L&uacute;cia, mas com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pesaroso e cheio de tristes press&aacute;gios n&atilde;o ousou comunicar-lhe<br \/>\n    o mau &ecirc;xito de suas explora&ccedil;&otilde;es, e embalou-a com vagas<br \/>\n    esperan&ccedil;as, que ele mesmo n&atilde;o alimentava. Mas nem assim desistiu<br \/>\n    ainda. Coragem!&#8230; dizia ele consigo. Mais um pouco de paci&ecirc;ncia!&#8230;<br \/>\n    mais quinze dias; mais um m&ecirc;s! &agrave;s vezes a sorte do jogo est&aacute;<br \/>\n    na &uacute;ltima cartada.<\/p>\n<p>E mais quinze dias, mais um m&ecirc;s se foram de insano trabalho, e de ansioso<br \/>\n    esperar, sem que a ingrata grupiara lhe entreabrisse nem mesmo um leve sorriso<br \/>\n    de esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Elias j&aacute; tinha o cora&ccedil;&atilde;o curtido de decep&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    mas nem por isso este &uacute;ltimo insucesso deixou de lhe amargar cruelmente.<br \/>\n    Depois de tantas tentativas malogradas, depois de tantos e t&atilde;o cru&eacute;is<br \/>\n    reveses, esbarrava enfim na muralha impenetr&aacute;vel do imposs&iacute;vel.<br \/>\n    Cansou de lutar, e o desalento calou-lhe fundo pela alma adentro.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre ainda, meu Deus! exclamava o infeliz; pobre sempre, e cada vez mais<br \/>\n    pobre! e n&atilde;o poder dar a L&uacute;cia, pobre ainda mais do que eu,<br \/>\n    sen&atilde;o a mis&eacute;ria em troca de seu amor! Ah! c&eacute;u de bronze,<br \/>\n    que deixas exposta aos mais duros rigores da sorte a mais pura e a mais bela<br \/>\n    de tuas criaturas! ah! terra maldita, que escondes tesouros em teu seio avaro<br \/>\n    e deixas perecer &agrave; m&iacute;ngua o mais lindo dos seres, a mais formosa<br \/>\n    flor que te adorna a face!&#8230;<\/p>\n<p>Elias por si s&oacute; bem pouco se importaria com a pobreza; estava afeito<br \/>\n    a suport&aacute;-la desde longo tempo. Mas cortava-lhe o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ver a sua querida L&uacute;cia, nascida e educada sempre no meio da abastan&ccedil;a,<br \/>\n    sofrendo priva&ccedil;&otilde;es e quase reduzida &agrave; mis&eacute;ria,<br \/>\n    e condenada a trabalhar com suas pr&oacute;prias m&atilde;os para prover &agrave;<br \/>\n    sua subsist&ecirc;ncia, de seu pai e de sua irm&atilde;zinha. Blasfemava contra<br \/>\n    o c&eacute;u e maldizia da Provid&ecirc;ncia, que lhe negava sua prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    naquela nobre e santa tarefa em que se empenhava para arrancar &agrave; mis&eacute;ria<br \/>\n    aquela criatura digna do c&eacute;u.<\/p>\n<p>Desejava morrer, e a id&eacute;ia do suic&iacute;dio como um fantasma l&uacute;gubre<br \/>\n    lhe esvoa&ccedil;ava de cont&iacute;nuo pela mente. Mas lembrava-se de L&uacute;cia,<br \/>\n    de L&uacute;cia na mis&eacute;ria, e compreendia que era preciso viver para<br \/>\n    ela. Quem lhe poderia valer, se ele faltasse?&#8230; arrancar-se a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    naquela ocasi&atilde;o era talvez roubar a L&uacute;cia o &uacute;ltimo, se<br \/>\n    bem que fraco arrimo, que lhe restava neste mundo. Naquelas circunst&acirc;ncias<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o era somente o simples amante de L&uacute;cia; considerava-se<br \/>\n    um irm&atilde;o, um pai.<\/p>\n<p>Elias, completamente desalentado, abandonou de todo os seus servi&ccedil;os,<br \/>\n    e estava como que de bra&ccedil;os cruzados em frente de seu destino inexor&aacute;vel<br \/>\n    a contemplar-lhe a sinistra catadura, sem ousar lutar contra ele e esperando<br \/>\n    que o esmagasse.<\/p>\n<p>Elias tinha-se estabelecido no Com&eacute;rcio de baixo, chamado de Joaquim<br \/>\n    Ant&ocirc;nio, que fica rio abaixo, a perto de uma l&eacute;gua da povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    principal. H&aacute; dois dias, desamparado da esperan&ccedil;a, tinha abandonado<br \/>\n    o trabalho, e n&atilde;o fazia mais do que cismar na sua triste sorte, entregue<br \/>\n    &agrave;s mais pungentes ang&uacute;stias e &agrave; mais cruel perplexidade.<\/p>\n<p>Na tarde do segundo dia, estando &agrave; janela da casinha que habitava,<br \/>\n    envolto em suas cismas ordin&aacute;rias, um rapaz entregou-lhe uma carta.<br \/>\n    Abriu-a imediatamente; era de L&uacute;cia e dizia assim:<\/p>\n<p>&quot;Meu querido Elias. A sorte come&ccedil;a a conspirar de novo contra<br \/>\n    n&oacute;s. Eu pensava que, caindo em pobreza, ningu&eacute;m mais poria os<br \/>\n    olhos em mim, e que poderia amar-te tranq&uuml;ila e livremente, sem que a<br \/>\n    turba dos pretendentes, que outrora me importunava, viesse mais perturbar<br \/>\n    a nossa felicidade, por essa doce compensa&ccedil;&atilde;o que me trazia.<br \/>\n    Enganava-me, ai de mim!&#8230; Um de meus antigos pretendentes reaparece, e solicita<br \/>\n    com mil empenhos a minha m&atilde;o. E um mo&ccedil;o n&atilde;o muito rico,<br \/>\n    mas negociante bem principiado, e dotado, segundo dizem todos, de excelentes<br \/>\n    qualidades. Meu pai insta comigo com todas as for&ccedil;as para que me decida<br \/>\n    quanto antes. Tenho esgotado sem resultado algum todas as minhas escusas,<br \/>\n    e j&aacute; n&atilde;o sei de que meio lan&ccedil;ar m&atilde;o para me defender.<br \/>\n    Infelizmente este n&atilde;o &eacute; um aventureiro desconhecido, um moedeiro<br \/>\n    falso, que de um instante para outro pode desaparecer entre as grades de uma<br \/>\n    cadeia. &Eacute; do pa&iacute;s, e geralmente conhecido e estimado por suas<br \/>\n    boas qualidades, e promete mil arranjos a meu pai. N&atilde;o preciso dizer-te<br \/>\n    mais, meu querido Elias, podes ajuizar em que cru&eacute;is apuros me vejo<br \/>\n    de novo enleada. Nossa pobreza aumenta de dia a dia, e eu quase enlouque&ccedil;o<br \/>\n    pensando nestas coisas. Aparece, Elias; s&oacute; a tua presen&ccedil;a me<br \/>\n    poder&aacute; inspirar resolu&ccedil;&atilde;o e coragem para arredar de nossa<br \/>\n    cabe&ccedil;a mais esta desgra&ccedil;a! Vem; eu te espero com ansiedade.<br \/>\n    Adeus!&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Acabada a leitura, Elias entrou em acessos de furor; percorrendo a passos<br \/>\n    largos e precipitados a pequena sala em que estava, soltava bramidos de desespero,<br \/>\n    e chorava l&aacute;grimas de fogo, e batendo com a cabe&ccedil;a pelas paredes,<br \/>\n    arrancando os cabelos, vomitava blasf&ecirc;mias e impreca&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    horr&iacute;veis.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem! bradava ele, j&aacute; que o c&eacute;u me n&atilde;o favorece,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o recompensa o trabalho honesto, condena a virtude &agrave;s<br \/>\n    torturas da mis&eacute;ria, e s&oacute; enriquece os ladr&otilde;es, tomarei<br \/>\n    duas pistolas, irei me postar a&iacute; em qualquer ponto da estrada, e tomarei<br \/>\n    &agrave; for&ccedil;a aos ladr&otilde;es o que o c&eacute;u desapiedado nega<br \/>\n    a um anjo. Que importa!&#8230; estou certo que em cada negociante que matar mandarei<br \/>\n    para o inferno a alma de um ladr&atilde;o, e &eacute; l&aacute; o seu lugar.<br \/>\n    &Eacute; um crime!? n&atilde;o&#8230; pelo menos a consci&ecirc;ncia n&atilde;o<br \/>\n    me remorde&#8230; N&atilde;o serei mais do que o agente da justi&ccedil;a do c&eacute;u<br \/>\n    sobre a terra, j&aacute; que nela n&atilde;o h&aacute; nem sombra de justi&ccedil;a.<br \/>\n    Infames!&#8230; n&atilde;o contentes de enriquecerem-se &agrave; custa do suor<br \/>\n    e das l&aacute;grimas dos pobres, ainda querem lhes roubar a felicidade, e<br \/>\n    julgam-se com direito a isso, porque sabem absorver o fruto do trabalho dos<br \/>\n    outros! Oh! por Deus, ou pelo diabo, que n&atilde;o h&aacute; de ser assim!&#8230;<br \/>\n    Este mundo!&#8230; este mundo &eacute; o inferno dos bons e o para&iacute;so dos<br \/>\n    malvados&#8230; E portanto o rem&eacute;dio &eacute; ou livrar-me dele para sempre,<br \/>\n    ou alistar-me no n&uacute;mero dos malvados&#8230; Mas&#8230; que estou eu a dizer!&#8230;<br \/>\n    eu endoide&ccedil;o!&#8230; L&uacute;cia! minha L&uacute;cia! &eacute; pois verdade<br \/>\n    que devo perder-te!&#8230; perder-te para sempre?!&#8230;<\/p>\n<p>Este estado de exalta&ccedil;&atilde;o, que quase tocava ao del&iacute;rio,<br \/>\n    durou por largo tempo, at&eacute; que veio a fadiga e a prostra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por fim atirou-se na cama que tinha ali mesmo na pequena sala; j&aacute; a<br \/>\n    noite ia adiantada, e gra&ccedil;as ao torpor do cansa&ccedil;o dormiu algumas<br \/>\n    horas. Com esse repouso acalmou-se um pouco a irrita&ccedil;&atilde;o de seu<br \/>\n    esp&iacute;rito. Quando acordou, j&aacute; os galos cantavam. Levantou-se,<br \/>\n    abriu a janela para refrescar a cabe&ccedil;a abraseada ao sopro das brisas<br \/>\n    da madrugada. Ainda n&atilde;o era dia. Debru&ccedil;ou-se sobre o peitoril<br \/>\n    e depois de estar a cismar largo tempo com a cabe&ccedil;a embebida entre<br \/>\n    as m&atilde;os, murmurou consigo:<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; decidido!&#8230; minha vida tem de ser sempre uma s&eacute;rie<br \/>\n    de prova&ccedil;&otilde;es e mart&iacute;rio. &Eacute; essa a vontade do c&eacute;u,<br \/>\n    e &eacute; escusado lutar contra o destino. Portanto ou devo me desfazer dela<br \/>\n    desde j&aacute;, ou resignar-me &agrave; minha sorte. O meu dever de crist&atilde;o<br \/>\n    &eacute; curvar-me e aceitar cheio de resigna&ccedil;&atilde;o o c&aacute;lix<br \/>\n    da amargura. L&uacute;cia, a sublime L&uacute;cia, j&aacute; uma vez me deu<br \/>\n    o exemplo. Ela ia resoluta e corajosa sacrificar a sua felicidade ao bem-estar<br \/>\n    de seu pai e de sua irm&atilde;. Agora o c&eacute;u me imp&otilde;e igual<br \/>\n    sacrif&iacute;cio; saibamos imit&aacute;-la. Esquec&ecirc;-la, deixar de am&aacute;-la,<br \/>\n    ah! n&atilde;o; isso n&atilde;o cabe no poss&iacute;vel. Mas fugirei; irei<br \/>\n    morrer longe dela, ralado de desgosto e de saudade. Se o c&eacute;u n&atilde;o<br \/>\n    me permite possu&iacute;-la, saiba eu ao menos ser digno dela.<\/p>\n<p>Elias tinha tomado uma resolu&ccedil;&atilde;o santa e sublime, digna de<br \/>\n    seu nobre cora&ccedil;&atilde;o. Ia retirar todas as promessas, protestos<br \/>\n    e juramentos que fizera a L&uacute;cia, ia renunciar a todas as suas esperan&ccedil;as<br \/>\n    e imolar seu amor e sua felicidade ao bem-estar e ao futuro da fam&iacute;lia<br \/>\n    de L&uacute;cia. O sacrif&iacute;cio era duro, mas a nobreza e magnanimidade<br \/>\n    daquela a&ccedil;&atilde;o o exaltava aos olhos da pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    e dava-lhe coragem bastante para lev&aacute;-la a efeito. Iria ele mesmo em<br \/>\n    pessoa anunciar &agrave; sua amada a her&oacute;ica resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que tomara?&#8230; nos primeiros momentos foi esse o seu pensamento; iria comunicar-lhe<br \/>\n    aquele des&iacute;gnio que, estava certo, lhe fora inspirado pelo c&eacute;u,<br \/>\n    e que julgava de seu rigoroso dever levar a efeito. Se ela fraqueasse, se<br \/>\n    recuasse diante da enormidade do sacrif&iacute;cio, embora! ele n&atilde;o<br \/>\n    desistiria do seu prop&oacute;sito, lhe faria ver que seria uma a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    indigna, um crime da parte dele estar servindo de eterno embara&ccedil;o ao<br \/>\n    sossego e felicidade de uma fam&iacute;lia a quem ele, pobre e desprotegido<br \/>\n    da fortuna, n&atilde;o podia servir de aux&iacute;lio algum. Lembrar-lhe-ia<br \/>\n    que h&aacute; bem pouco tempo ela, de seu pr&oacute;prio moto, se havia votado<br \/>\n    a um sacrif&iacute;cio semelhante, porque o julgava de seu dever, e que esse<br \/>\n    dever reaparecia agora, talvez ainda com mais forte raz&atilde;o; enfim procuraria<br \/>\n    por todos os modos vigorar-lhe o cora&ccedil;&atilde;o; e com suas palavras<br \/>\n    e seu exemplo n&atilde;o lhe custaria inspirar &agrave; nobre e virtuosa alma<br \/>\n    de sua amante a necess&aacute;ria coragem e resigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Mas Elias, depois de refletir melhor, teve medo de dar este passo e desconfiou<br \/>\n    da for&ccedil;a de seu pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o. Julgou que por<br \/>\n    meio de uma carta conseguiria o mesmo resultado, evitando uma cena dilacerante,<br \/>\n    a que nem ele nem talvez ela pudessem resistir. Pegou na pena e escreveu a<br \/>\n    L&uacute;cia a seguinte carta:<\/p>\n<p>&quot;Querida L&uacute;cia: O destino me persegue, o c&eacute;u me abandona,<br \/>\n    e eu nunca poderei ser mais que um esfor&ccedil;o perene para a tua felicidade<br \/>\n    e de tua fam&iacute;lia. O c&eacute;u votou-me a um perp&eacute;tuo mart&iacute;rio;<br \/>\n    for&ccedil;oso me &eacute; aceit&aacute;-lo e resignar-me, porque &eacute;<br \/>\n    loucura querer lutar contra a onipot&ecirc;ncia do destino. O mesmo sacrif&iacute;cio,<br \/>\n    a que n&atilde;o h&aacute; muito tempo te curvaste em virtude de um dever<br \/>\n    santo, hoje de novo nos &eacute; imposto a n&oacute;s ambos pelo nosso inexor&aacute;vel<br \/>\n    destino. Resignemo-nos, minha querida, j&aacute; que &eacute; essa a vontade<br \/>\n    do c&eacute;u, e pede a Deus que nos inspire a resolu&ccedil;&atilde;o e coragem<br \/>\n    necess&aacute;ria para n&atilde;o desfalecermos no cumprimento deste doloroso<br \/>\n    dever. Cumpre-nos renunciar para sempre a este amor t&atilde;o puro e t&atilde;o<br \/>\n    ardente que era o sonho dourado do nosso porvir, e dizer eterno adeus &agrave;<br \/>\n    esperan&ccedil;a e &agrave; felicidade. Embora o cora&ccedil;&atilde;o se<br \/>\n    nos rasgue entre as garras da ang&uacute;stia, a consci&ecirc;ncia estar&aacute;<br \/>\n    pura e serena; e se nos n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ser unidos neste<br \/>\n    mundo pelo amor, ao menos procuraremos ser dignos um do outro pela virtude.<br \/>\n    N&atilde;o creias que com esta triste separa&ccedil;&atilde;o v&atilde;o quebrar-se<br \/>\n    os protestos e juramentos santos que proferimos nos nossos dias de esperan&ccedil;a;<br \/>\n    n&atilde;o, porque nossas almas nunca se separar&atilde;o; e sempre se amar&atilde;o,<br \/>\n    porque o amor &eacute; uma chama que o sopro do destino n&atilde;o pode apagar.<br \/>\n    E, se acaso est&atilde;o rotos os juramentos de nosso amor, foi a m&atilde;o<br \/>\n    de Deus que os desatou, impondo-nos um dever mais alto e mais santo. Adeus,<br \/>\n    L&uacute;cia!&#8230; Deus me &eacute; testemunho que, ao romper estes t&atilde;o<br \/>\n    suaves la&ccedil;os, rompem-se-me tamb&eacute;m uma por uma todas as fibras<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o. Adeus; tem coragem para entregar teu destino a quem<br \/>\n    pode amparar-te. Quanto a mim, vou para bem longe amar-te ainda e sempre,<br \/>\n    at&eacute; que a dor e a saudade venham p&ocirc;r termo a meus tristes dias&#8230;<br \/>\n    Elias.&quot;<\/p>\n<p>Quando Elias terminou esta carta, escrita com as l&aacute;grimas dos olhos<br \/>\n    e o fel do cora&ccedil;&atilde;o, sua fronte, coberta de palidez cadav&eacute;rica,<br \/>\n    apesar do fresco da manh&atilde; que girava pela sala, gotejava bagas de suor<br \/>\n    frio. Dir-se-ia um condenado que lavrava com a pr&oacute;pria m&atilde;o sua<br \/>\n    senten&ccedil;a de morte.<\/p>\n<p>Li Elias mesmo quis ser o portador de sua carta at&eacute; &agrave; casa<br \/>\n    de sua velha enfermeira, onde encarregaria a esta de faz&ecirc;-la chegar<br \/>\n    &agrave;s m&atilde;os de L&uacute;cia.<\/p>\n<p>O Sol que surgia dardejava seus raios horizontais por entre as copas das<br \/>\n    &aacute;rvores seculares, restos da antiga floresta, que aqui e acol&aacute;<br \/>\n    projetavam sombras gigantescas pelas ribanceiras do rio, quando Elias montou<br \/>\n    a cavalo, e dirigiu-se a seu destino, absorto em seus tristes pensamentos,<br \/>\n    e procurando fortalecer-se na nobre e generosa resolu&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    acabava de tomar. Estaria pouco mais ou menos no meio do caminho, ladeado<br \/>\n    de dist&acirc;ncia em dist&acirc;ncia de pequenos ranchos, que costeando a<br \/>\n    margem do ribeir&atilde;o seguia para o Com&eacute;rcio da Cachoeira, quando<br \/>\n    em certa altura ouviu uns gemidos abafados que pareciam sair de dentro de<br \/>\n    uma miser&aacute;vel choupana, quase escondida entre a capoeira, que se avistava<br \/>\n    a uns cinq&uuml;enta passos da estrada, quase &agrave; beira do rio. Parou<br \/>\n    e escutou por alguns instantes; os gemidos continuaram. N&atilde;o podia haver<br \/>\n    d&uacute;vida; era algum desgra&ccedil;ado que sofria, e morria talvez &agrave;<br \/>\n    m&iacute;ngua e &agrave; fome naquele miser&aacute;vel casebre, ou tamb&eacute;m<br \/>\n    quem sabe? ali gemia a v&iacute;tima de algum horroroso atentado, desses que<br \/>\n    t&atilde;o comumente se perpetravam na Bagagem, naquela &eacute;poca. Elias<br \/>\n    n&atilde;o era homem de &acirc;nimo a presenciar o sofrimento de quem quer<br \/>\n    que fosse, sem procurar socorr&ecirc;-lo de qualquer maneira.<\/p>\n<p>Dirigiu-se &agrave; choupana, apeou-se e bateu &agrave; porta.<\/p>\n<h2><a name=\"16\">XVI &#8211; O MORIBUNDO<\/a><\/h2>\n<p>Apareceu da&iacute; a um instante, na &uacute;nica janelinha que havia na<br \/>\n    casa, a cara encarquilhada de uma velhinha de aspecto repulsivo e sinistro:<br \/>\n    seus olhos grandes e redondos, o olhar frouxo mas l&ocirc;brego e carregado,<br \/>\n    o nariz adunco e largo sobreposto &agrave;s faces engelhadas, cabelo curto<br \/>\n    e eri&ccedil;ado em forma de topete davam-lhe a apar&ecirc;ncia de uma verdadeira<br \/>\n    coruja, aninhada naquele pardieiro. Elias quase teve medo, e se n&atilde;o<br \/>\n    fosse dia claro teria acreditado na exist&ecirc;ncia de bruxas.<\/p>\n<p>&#8211; O que quer, meu senhor?&#8230; bradou, ou antes guinchou a velha com voz esgani&ccedil;ada.<\/p>\n<p>&#8211; Desejava ver a pessoa que est&aacute; a&iacute; dentro a gemer. Parece<br \/>\n    que sofre bastante; talvez eu lhe possa ser &uacute;til, e dar alguns al&iacute;vios.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se aflija, meu patr&atilde;o: &eacute; um pobre velho que est&aacute;<br \/>\n    entrevado ali no fundo de uma cama. H&aacute; muito tempo que est&aacute;<br \/>\n    assim, sem que ningu&eacute;m possa lhe dar al&iacute;vio, coitado!&#8230; dali<br \/>\n    s&oacute; para a cova. Se quer dar a ele alguma esmola, pode me entregar,<br \/>\n    e Deus Nosso Senhor lhe dar&aacute; o pago&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu mesmo desejava v&ecirc;-lo; tamb&eacute;m entendo alguma coisa de<br \/>\n    medicina, e talvez lhe possa ensinar algum curativo com que se d&ecirc; bem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o m&eacute;dico que trata dele n&atilde;o quer que receba visita nenhuma,<br \/>\n    &#8211; nem fale com ningu&eacute;m; por isso Vmc&ecirc;. n&atilde;o repare, eu<br \/>\n    n&atilde;o lhe posso abrir a porta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenha cuidado; eu atalharei toda a conversa, e, se for necess&aacute;rio,<br \/>\n    n&atilde;o lhe darei mesmo uma s&oacute; palavra. Quero s&oacute; v&ecirc;-lo<br \/>\n    um instante e saio imediatamente.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor; perd&atilde;o; n&atilde;o pode ser. Ele &eacute; muito<br \/>\n    palrador, e vendo gente come&ccedil;a a tagarelar de modo que nunca mais tem<br \/>\n    fim; e fica cada vez a pior, a pior; e eu &eacute; que o estou ag&uuml;entando,<br \/>\n    e isso n&atilde;o me faz conta.<\/p>\n<p>&#8211; Mas j&aacute; lhe disse que se ele falar, me retirarei logo, replicou com<br \/>\n    vivacidade Elias, a quem j&aacute; come&ccedil;avam a impacientar as negativas<br \/>\n    da velha, e que mesmo j&aacute; come&ccedil;ava a desconfiar que havia ali<br \/>\n    algum mist&eacute;rio que a maldita velha estava com medo que ele fosse descobrir.<br \/>\n    &#8211; Em nome do c&eacute;u, abra essa porta.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor; j&aacute; lhe disse; n&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! senhor! bradou de dentro a voz rouca e alquebrada do enfermo. Quem<br \/>\n    quer que est&aacute; a&iacute;, pelo amor de Deus, entre c&aacute; dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; ouvindo? disse Elias, ele me chama; abra essa porta.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, n&atilde;o pode ser; quantas vezes quer que lhe diga?<\/p>\n<p>E depois voltando-se para dentro e abrindo extraordinariamente os enormes<br \/>\n    olhos, como r&atilde; esbordoada, bradou para o enfermo:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! velhote de uma figa! n&atilde;o pode calar essa boca?&#8230; &eacute; assim<br \/>\n    que pretende sarar?&#8230; parece uma criancinha!&#8230; pois olhe: se continuar assim,<br \/>\n    n&atilde;o sei se estarei mais para o aturar&#8230; se quer conversar com todo<br \/>\n    o mundo que passa, mando p&ocirc;r sua cama l&aacute; no meio da estrada,<br \/>\n    e eles que o ag&uuml;entem.<\/p>\n<p>&#8211; Quem est&aacute; a&iacute; na porta entre c&aacute; por caridade; n&atilde;o<br \/>\n    fa&ccedil;a caso do que ela est&aacute; dizendo; por caridade!&#8230; pelas cinco<br \/>\n    chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo! entre&#8230; entre&#8230; quanto antes.<\/p>\n<p>&#8211; Ai! ai! ai!&#8230; ululou a velha harpia. Bendito Deus! ainda de mais a mais<br \/>\n    variado do ju&iacute;zo!<\/p>\n<p>&#8211; Mulher infernal, bradou Elias com for&ccedil;a, abre-me j&aacute;, se n&atilde;o<br \/>\n    queres que arrebente a porta.<\/p>\n<p>&#8211; Arrebentar! como est&aacute; bonito o mo&ccedil;o! tomara ver isso!&#8230;<br \/>\n    porventura a casa &eacute; sua?&#8230; mo&ccedil;o, v&aacute; andando seu caminho,<br \/>\n    e n&atilde;o esteja tentando a Deus! j&aacute; lhe disse que n&atilde;o abro.<\/p>\n<p>E dizendo isto bateu com a janela, e trancou-a.<\/p>\n<p>Elias entendeu que n&atilde;o devia mais esperdi&ccedil;ar palavras com aquela<br \/>\n    megera. Meteu o ombro &agrave; franzina porta que estava apenas trancada por<br \/>\n    uma fraca tramela, e que cedeu logo ao primeiro empurr&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Miseric&oacute;rdia! guinchou a velha, este homem tem o diabo no corpo!<br \/>\n    miseric&oacute;rdia! aqui-del-rei!<\/p>\n<p>Elias afastou com um empurr&atilde;o a velha que se apresentara por diante<br \/>\n    querendo-lhe estorvar a entrada e fazendo uma berraria dos diabos; e foi-se<br \/>\n    dirigindo rapidamente para a miser&aacute;vel alcova, antes antro, em que<br \/>\n    jazia o desgra&ccedil;ado velho. Em um jirau de pau roli&ccedil;o, desses<br \/>\n    cujos p&eacute;s s&atilde;o forquilhas cravadas no ch&atilde;o, naquela espelunca<br \/>\n    escura e &uacute;mida, sobre um imundo colch&atilde;o de palha, estava estirado<br \/>\n    um velho caboclo, esqu&aacute;lido e macilento, arquejando convulsivamente<br \/>\n    e entregue aos mais dolorosos sofrimentos. Espetada &agrave; parede, junto<br \/>\n    &agrave; cabeceira, uma negra candeia de ferro lhe dava sobre o rosto bronzeado<br \/>\n    um l&uacute;gubre clar&atilde;o amarelento.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; &eacute;s tu, meu pobre Sim&atilde;o! exclamou o mo&ccedil;o com<br \/>\n    um tom de assombro e de ang&uacute;stia inexprim&iacute;vel, apenas fitou<br \/>\n    os olhos na fisionomia do velho. Es tu, meu bom Sim&atilde;o! continuou sentando-se<br \/>\n    &agrave; beira do pobre leito, e tomando entre as suas as m&atilde;os do velho<br \/>\n    camarada. Perdoa-me, meu Sim&atilde;o; sou eu o culpado de aqui jazeres assim<br \/>\n    &agrave; m&iacute;ngua!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! meu patr&atilde;o! meu patr&atilde;o! bradou o velho fazendo um esfor&ccedil;o<br \/>\n    supremo para levantar-se e erguendo ao c&eacute;u os bra&ccedil;os descarnados;<br \/>\n    bendito seja Deus!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! j&aacute; eram conhecidos!&#8230; rosnou com voz tr&ecirc;mula a velha<br \/>\n    que se tinha postado &agrave; porta da alcova, e com os olhos esbugalhados<br \/>\n    e torvos contemplava cheia de furor aquela cena. Tanto melhor para mim!&#8230;<br \/>\n    Ol&aacute;, meu mo&ccedil;o, j&aacute; que veio tomar conta da casa com tanta<br \/>\n    sem-cerim&ocirc;nia, fique-se por a&iacute;, e arrume-se l&aacute; com seu<br \/>\n    doente, que eu aqui n&atilde;o ponho mais os meus p&eacute;s.<\/p>\n<p>&#8211; Vai-te com Deus ou com o diabo, mulher infernal; nem nunca mais me apare&ccedil;as,<br \/>\n    que n&atilde;o fazes falta nenhuma.<\/p>\n<p>&#8211; Que eu vou, &eacute; sem d&uacute;vida; Vmc&ecirc;. quando veio aqui tentar<br \/>\n    a gente, j&aacute; veio de m&aacute; ten&ccedil;&atilde;o&#8230; mas olhe, meu<br \/>\n    senhorzinho, que talvez n&atilde;o leve o bocado &agrave; boca. As vezes a<br \/>\n    gente vai buscar l&atilde;, e sai tosquiado.<\/p>\n<p>Elias mal ouviu estas palavras, que a velha ao retirar-se ia resmungando<br \/>\n    entre as queixadas.<\/p>\n<p>&#8211; Foi Deus, meu amo, disse o velho com voz arquejante, e nos olhos j&aacute;<br \/>\n    quase embaciados pelas sombras da morte divisava-se um lampejo de alegria<br \/>\n    &#8211; foi Deus, que o trouxe aqui agora&#8230; Eu ia morrer com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o triste&#8230; ah! esta velha!&#8230; esta velha &eacute; o diabo que me<br \/>\n    entrou pela casa. Deus me perdoe!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o te embaraces com ela, Sim&atilde;o; j&aacute; l&aacute; se foi&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o creia, patr&atilde;o, h&aacute; de andar por a&iacute; rondando<br \/>\n    para nos escutar. V&aacute; ver primeiro, patr&atilde;o, tenha paci&ecirc;ncia;<br \/>\n    e volte depressa. Tenho muito que lhe contar, e n&atilde;o sei se a morte<br \/>\n    me dar&aacute; tempo.<\/p>\n<p>Elias, cheio de curiosidade e assombro, saiu sutilmente da alcova e foi rodear<br \/>\n    a cabana. A velha estava de feito do lado de fora com o ouvido colado &agrave;<br \/>\n    parede do quarto, onde se achava o moribundo. Apenas por&eacute;m pressentiu<br \/>\n    Elias, foi-se retirando e resmungando horr&iacute;veis pragas.<\/p>\n<p>&#8211; Mau fim tenhas tu, velho feiticeiro, e a teu louco patr&atilde;o, rosnava<br \/>\n    a velha. &Eacute; esse o pago que me d&aacute;s de te ter ag&uuml;entado at&eacute;<br \/>\n    aqui com toda a paci&ecirc;ncia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te, velha bruxa!&#8230; se te encontrar aqui mais a espreitar e escutar,<br \/>\n    atiro-te com um pau a vontade de voltar mais c&aacute;.<\/p>\n<p>A velha amedrontada com a amea&ccedil;a de Elias que h&aacute; pouco tivera<br \/>\n    raz&atilde;o para crer que n&atilde;o ficaria s&oacute; em palavras, sem nunca<br \/>\n    deixar de resmungar pragas e maldi&ccedil;&otilde;es, foi recolher-se &agrave;<br \/>\n    sua casa que ficava a. uma centena de passos.<\/p>\n<p>Elias voltou pressuroso ao quarto do enfermo.<\/p>\n<p>&#8211; Agora podes falar, Sim&atilde;o, disse sentando-se &agrave; beirada do<br \/>\n    jirau. Ningu&eacute;m nos ouve; estamos completamente s&oacute;s&#8230; mas n&atilde;o&#8230;<br \/>\n    espera. Vou ver os meios de procurar-te algum socorro&#8230; coitado do meu Sim&atilde;o!&#8230;<br \/>\n    aqui t&atilde;o desamparado!&#8230; e nas garras desta bruxa maldita!&#8230; vou mandar<br \/>\n    ver um m&eacute;dico.<\/p>\n<p>&#8211; Qual m&eacute;dico, patr&atilde;o!&#8230; n&atilde;o tome esse trabalho&#8230;<br \/>\n    uma a duas horas de vida &eacute; o mais que me resta&#8230; se tanto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o que pensas, meu pobre Sim&atilde;o; quem sabe?&#8230; Em todo o<br \/>\n    caso n&atilde;o posso deixar-te morrer assim &agrave; m&iacute;ngua de socorro&#8230;<br \/>\n    Dize-me, n&atilde;o haver&aacute; por aqui algum vizinho que tenha pr&eacute;stimo<br \/>\n    a n&atilde;o ser essa velha maldita? <\/p>\n<p>&#8211; Oh! patr&atilde;o, por piedade! n&atilde;o cuide nisso&#8230; o tempo &eacute;<br \/>\n    pouco&#8230; sinto-me morrer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Morrer!&#8230; n&atilde;o; tem &acirc;nimo, meu Sim&atilde;o&#8230; eu vou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E quando voltar, me achar&aacute; morto, e o que &eacute; pior ainda, roubado!<\/p>\n<p>&#8211; Roubado!&#8230; Exclamou Elias com um triste sorriso, pensando que aquilo era<br \/>\n    j&aacute; o del&iacute;rio da agonia.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, patr&atilde;o; roubado!&#8230; fique a&iacute; sossegado&#8230; tenho muito<br \/>\n    que lhe contar, e h&aacute; de ser j&aacute;. Depois fa&ccedil;a o que quiser.<\/p>\n<p>A curiosidade de Elias era grande, ansiosa, e o estado do velho camarada<br \/>\n    era com efeito extremo, e ele podia expirar de um momento para outro. For&ccedil;oso<br \/>\n    foi pois ceder &agrave; rogativa do pobre camarada que, com a voz sumida entrecortada<br \/>\n    de gemidos, a custo p&ocirc;de fazer a seguinte narra&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; Quando Vmc&ecirc;. foi-se embora para o Sincor&aacute;, meu &uacute;nico<br \/>\n    cuidado foi andar esgravatando por todo esse rio abaixo e acima a ver se Deus<br \/>\n    me ajudava e se eu descobria alguma lavra bem rica para meu patr&atilde;o.<br \/>\n    Meu patr&atilde;o velho, coitado, Deus o tenha em sua gl&oacute;ria!&#8230; quando<br \/>\n    ele morreu, deixou Vmc&ecirc;. pequenino a meu cuidado. Como &eacute; que<br \/>\n    eu havia de morrer sossegado se deixasse Vmc&ecirc;. pobre e desamparado neste<br \/>\n    mundo?!&#8230; Para mim, pobre velho cansado e sozinho no mundo, o que eu quero<br \/>\n    fazer com diamante?&#8230; era para Vmc&ecirc;. Com o almocafre no ombro e a bateia<br \/>\n    na m&atilde;o andei provando as forma&ccedil;&otilde;es por toda essa beira<br \/>\n    de rio. Perdi muito tempo sem achar&#8230; mas, Deus louvado, sempre fazia algum<br \/>\n    vint&eacute;m para ir passando o resto da vida. A resto Nossa Senhora do Patroc&iacute;nio<br \/>\n    me ouviu&#8230; sempre achei o que eu e Vmc&ecirc;. and&aacute;vamos procurando<br \/>\n    h&aacute; tanto tempo. Que lavra, patr&atilde;o!&#8230; &eacute; uma lavra de<br \/>\n    estrondo!&#8230; eu ia morrer com tamanho pesar, se n&atilde;o lhe pudesse contar!&#8230;<br \/>\n    mas Deus foi de miseric&oacute;rdia&#8230; agora morro sossegado&#8230;<\/p>\n<p>Elias ouvia at&ocirc;nito aquelas palavras do velho camarada e n&atilde;o<br \/>\n    ousava dar-lhes cr&eacute;dito. Eram seguramente del&iacute;rios da imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um moribundo, e em sua incredulidade quase se envergonhava de tom&aacute;-las<br \/>\n    ao s&eacute;rio.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre Sim&atilde;o!&#8230; refletiu consigo, a raz&atilde;o j&aacute; o vai<br \/>\n    abandonando com a vida! N&atilde;o podia conceber que &agrave; cabeceira de<br \/>\n    um miser&aacute;vel moribundo a fortuna e a felicidade o esperassem, como<br \/>\n    por vezes o infort&uacute;nio costumava-se ocultar entre as rosas de um festim<br \/>\n    para nos desfechar um golpe fatal e imprevisto. Todavia n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    deixar de interromper o velho, e dirigir-lhe com &aacute;vida curiosidade<br \/>\n    esta pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Uma lavra!&#8230; tu deliras, meu pobre Sim&atilde;o!&#8230; onde est&aacute; ela?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu j&aacute; lhe conto&#8230; ah! se Vmc&ecirc;. n&atilde;o aparecesse t&atilde;o<br \/>\n    a tempo!&#8230; Vmc&ecirc;. est&aacute; duvidando?&#8230; aqui est&aacute; o que lhe<br \/>\n    h&aacute; de fazer acabar de crer&#8230; &eacute; o diamante, que eu j&aacute;<br \/>\n    tinha tirado&#8230; isto &eacute; seu&#8230; se Vmc&ecirc;. n&atilde;o aparecesse,<br \/>\n    tudo isto ia parar nas m&atilde;os daquela malvada mulher, Deus me perdoe<br \/>\n    a mim e a ela!<\/p>\n<p>Dizendo isto o velho, com a m&atilde;o tr&ecirc;mula e convulsa, ia tirando<br \/>\n    do pesco&ccedil;o um pequeno saquitel de couro preso a um cord&atilde;o, em<br \/>\n    forma de bentinho, e o entregou nas m&atilde;os de Elias, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Corte e veja para acabar de crer, e n&atilde;o cuidar que j&aacute; estou<br \/>\n    treslendo&#8230;<\/p>\n<p>Elias puxou a faca que trazia presa &agrave; casa do colete, e cortou com<br \/>\n    cuidado o saquitel. Caiu-lhe na m&atilde;o um punhado de grossos e lindos<br \/>\n    diamantes. Um lampejo de alegria raiou nos olhos empanados do moribundo que<br \/>\n    murmurou com voz surda:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; seu; &eacute; tudo seu, patr&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Sim&atilde;o, disse Elias, n&atilde;o deixas no mundo filho, irm&atilde;o,<br \/>\n    parente ou amigo, a quem queiras beneficiar?&#8230; posso eu aceitar isto sem<br \/>\n    preju&iacute;zo de ningu&eacute;m?<\/p>\n<p>&#8211; De ningu&eacute;m, patr&atilde;o, de ningu&eacute;m. Eu sou sozinho no<br \/>\n    mundo. Se o patr&atilde;o n&atilde;o aparece t&atilde;o a tempo, minha herdeira<br \/>\n    era essa velha desalmada&#8230; cruz!&#8230; Deus lhe perdoe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E quem &eacute; esta velha?&#8230; que pretendia ela<\/p>\n<p>&#8211; Eu j&aacute; lhe conto&#8230; ah!&#8230; meu Deus!&#8230; que dor!&#8230; parece-me que<br \/>\n    vou j&aacute; morrer! Meu Deus!&#8230; dai-me for&ccedil;a por mais um instante<br \/>\n    para poder acabar&#8230;<\/p>\n<p>Elias olhou para o c&eacute;u e repetiu do fundo d&#8217;alma a s&uacute;plica<br \/>\n    do moribundo. O velho acalmou-se um pouco e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; mais de um m&ecirc;s que ca&iacute; entrevado e sem poder mover-me,<br \/>\n    meti-me neste ranchinho onde sempre tenho morado. Achei-me sozinho e sem ter<br \/>\n    quem me tratasse, morreria aqui &agrave; fome e &agrave; m&iacute;ngua sem<br \/>\n    ningu&eacute;m saber, se n&atilde;o fosse esta velha, &uacute;nica vizinha<br \/>\n    que h&aacute; aqui mais perto e que, dando f&eacute; de mim que aqui estava<br \/>\n    abandonado, ofereceu-se para me tratar. Aceitei agradecido a esmola que me<br \/>\n    fazia e julguei que vinha mandada por Deus. O povo daqui, vendo-me assim andar<br \/>\n    arredado e sozinho e sempre a garimpar pelos matos, tinha tomado cisma comigo<br \/>\n    e andava dizendo que eu era feiticeiro, tinha parte com o diabo, e que neste<br \/>\n    meu ranchinho eu tinha arrobas de diamante enterrado. A velha que dava ouvido<br \/>\n    a estas coisas, e tentada pelo dem&ocirc;nio, veio um dia dar busca em meu<br \/>\n    pesco&ccedil;o, enquanto eu estava dormindo&#8230; eu logo acordei e bem o percebi;<br \/>\n    mas ela j&aacute; tinha descoberto o neg&oacute;cio&#8230; Foi a minha perdi&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Ningu&eacute;m mais entrou aqui sen&atilde;o ela e uma sua comadre, t&atilde;o<br \/>\n    boa como ela, Deus a perdoe! que faz as suas vezes e me fica de sentinela,<br \/>\n    quando a outra tem precis&atilde;o de sair. Assim h&aacute; mais de um m&ecirc;s<br \/>\n    estou aqui no fundo desta cama&#8230; elas n&atilde;o me deixam sozinho um instante<br \/>\n    e n&atilde;o vejo outras caras sen&atilde;o as delas&#8230; O certo &eacute; que<br \/>\n    cada vez vou a pior e desconfio&#8230; mas, ah! patr&atilde;o, por alma do defunto<br \/>\n    patr&atilde;o velho, n&atilde;o v&aacute; dizer a ningu&eacute;m nem fa&ccedil;a<br \/>\n    mal a essas desgra&ccedil;adas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas desconfias o qu&ecirc;?&#8230; fala, fala, Sim&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Desconfio que est&atilde;o me preparando para ir mais depressa. Nestes<br \/>\n    dias, vendo que estava mesmo &agrave;s portas da morte, disse a elas que tinha<br \/>\n    que fazer certas declara&ccedil;&otilde;es e pedi-lhes que me chamassem um<br \/>\n    homem para escrever o que eu queria e algumas pessoas para testemunhas&#8230;<br \/>\n    Tempo perdido!&#8230; nunca mais acharam o tal homem. Por fim pedi que me chamassem<br \/>\n    um padre: o mesmo; nunca acharam padre para me confessar. Eu ia morrer sem<br \/>\n    confiss&atilde;o nas garras daquelas duas bruxas, Deus me perdoe! que estavam<br \/>\n    aflitas por me verem morto para me roubarem e deitarem meu corpo aos urubus&#8230;<br \/>\n    Mas nesta hora n&atilde;o devo lembrar-me das ofensas, sen&atilde;o para perdoar.<br \/>\n    Deus louvado! Vmc&ecirc;. apareceu, e eu lhes perd&ocirc;o de todo o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! em que m&atilde;os estavas, meu pobre Sim&atilde;o!&#8230; mas a lavra,<br \/>\n    Sim&atilde;o? ainda n&atilde;o me disseste onde est&aacute; a lavra?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; sim&#8230; a lavra &eacute;&#8230; ai! meu Deus!&#8230;<\/p>\n<p>Deu um grito, estrebuchou, seus olhos se estalaram, escapou-lhe do peito<br \/>\n    um solu&ccedil;o rouquenho, e ficou im&oacute;vel.<\/p>\n<p>&#8211; Sim&atilde;o! Sim&atilde;o! gritou Elias agitando-lhe o bra&ccedil;o. Vendo<br \/>\n    por&eacute;m que n&atilde;o dava ind&iacute;cio algum de vida: &#8211; Morto! morto!<br \/>\n    exclamou com ang&uacute;stia, morto e levando consigo para a sepultura o segredo<br \/>\n    de minha felicidade!<\/p>\n<p>Elias, tendo-o j&aacute; por morto, j&aacute; se dispunha a retirar-se e<br \/>\n    a ir dar ordens para o enterro de seu velho camarada, quando um fraco gemido<br \/>\n    veio anunciar-lhe que ele ainda n&atilde;o estava morto. O moribundo tinha<br \/>\n    feito apenas o primeiro termo, que durou cerca de dez minutos. Elias foi examin&aacute;-lo,<br \/>\n    e viu que respirava, e come&ccedil;ava a mover os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Patr&atilde;o? patr&atilde;o!&#8230; que &eacute; dele? foram as primeiras<br \/>\n    palavras que proferiu com voz quase impercept&iacute;vel. Ah! est&aacute;<br \/>\n    ai&#8230; quase que n&atilde;o enxergo nada&#8230; A lavra &eacute; l&aacute;&#8230; rio<br \/>\n    abaixo&#8230; quase uma l&eacute;gua abaixo de Joaquim Ant&ocirc;nio&#8230; passando<br \/>\n    tr&ecirc;s c&oacute;rregos, o terceiro do lado de c&aacute; do rio&#8230; H&aacute;<br \/>\n    l&aacute; uma cruz de cedro que eu mesmo finquei&#8230; e cinco pedras grandes<br \/>\n    em cruz&#8230; e&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o p&ocirc;de dizer mais&#8230; Estas &uacute;ltimas palavras mesmo eram<br \/>\n    ditas com voz t&atilde;o sumida, que Elias precisava quase encostar o ouvido<br \/>\n    &agrave; boca do moribundo para poder ouvi-las. De novo estalou os olhos,<br \/>\n    inteiri&ccedil;ou-se na cama, e exalou um suspiro convulsivo; era o derradeiro.<\/p>\n<p>Elias cerrou-lhe os olhos, e, ajoelhando-se ao p&eacute; do m&iacute;sero<br \/>\n    leito com piedoso recolhimento, rezou pela alma do finado. Depois deu ao c&eacute;u<br \/>\n    fervorosas gra&ccedil;as pelo inestim&aacute;vel e quase miraculoso benef&iacute;cio<br \/>\n    que acabava de fazer-lhe por interm&eacute;dio de um velho e miser&aacute;vel<br \/>\n    camarada.<\/p>\n<p>Fechou cuidadosamente as portas e janelas da casa, montou a cavalo e partiu<br \/>\n    a galope para o Com&eacute;rcio da Cachoeira a dar ordens para que se fizesse<br \/>\n    um enterro decente a seu fiel e infeliz camarada.<\/p>\n<\/p>\n<h2><a name=\"17\">XVII &#8211; A GRINALDA E O T&Uacute;MULO<\/a><\/h2>\n<p>Desde pela manh&atilde; L&uacute;cia esperava com a mais ansiosa impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    a vinda de seu amante. Achava-se cada vez mais enleada em cru&eacute;is apuros,<br \/>\n    e todos os dias seu pai a apertava vivamente para que se decidisse a aceitar<br \/>\n    por marido o negociante que havia solicitado sua m&atilde;o.<\/p>\n<p>Bem via ela que o horizonte de novo se anuviava e que outra vez o c&eacute;u<br \/>\n    ia lhe impor o cruel dever de imolar, desta vez irremissivelmente, o seu amor<br \/>\n    &agrave; felicidade de sua fam&iacute;lia. Mas desta vez sua alma, ou porque<br \/>\n    j&aacute; estivesse cansada de tantos embates e prostrada pelo desalento,<br \/>\n    ou porque seu amor mais avivado pela presen&ccedil;a de Elias e fortalecido<br \/>\n    pela esperan&ccedil;a dominasse despoticamente em seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o sentia aquela coragem que a tinha sustentado a primeira<br \/>\n    vez em sua nobre dedica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, refletia ela consigo, eu ent&atilde;o era s&oacute;. N&atilde;o tinha<br \/>\n    not&iacute;cias de Elias, que andava por longas terras; n&atilde;o podia saber<br \/>\n    se ainda amava-me e nem mesmo se era vivo ou morto; podia dispor livremente<br \/>\n    de meu destino. Mas, agora que ele se acha perto de mim, que sei que vive<br \/>\n    e vive s&oacute; para amar-me, e tanto direito tem adquirido ao meu amor,<br \/>\n    posso eu, sem consult&aacute;-lo, sem dizer-lhe uma palavra, sacrificar o<br \/>\n    meu futuro, que &eacute; tamb&eacute;m o dele, a um pesar eterno?&#8230; oh! n&atilde;o!<br \/>\n    certo que n&atilde;o!&#8230; eu atrai&ccedil;oaria o amor que me consagra e a<br \/>\n    confian&ccedil;a que em mim tem, e mereceria bem que de novo me desprezasse<br \/>\n    e amaldi&ccedil;oasse.<\/p>\n<p>Tranq&uuml;ilizada um pouco por este subterf&uacute;gio que lhe sugeria a<br \/>\n    sua consci&ecirc;ncia de amante, L&uacute;cia se escusava para com seu pai<br \/>\n    com algumas evasivas, procurando ganhar tempo at&eacute; que tivesse ocasi&atilde;o<br \/>\n    de achar-se com Elias para de acordo com ele resolver o terr&iacute;vel dilema<br \/>\n    em que estava empenhado o futuro de ambos.<\/p>\n<p>Mas o sol j&aacute; desca&iacute;a muito de meio-dia e Elias n&atilde;o se<br \/>\n    apresentava. A posi&ccedil;&atilde;o de L&uacute;cia tornava-se cada vez mais<br \/>\n    triste e aflita e recresciam as inst&acirc;ncias, rogos e amea&ccedil;as de<br \/>\n    seu pai, que nesse dia assentara de levar ao &uacute;ltimo extremo a resignada<br \/>\n    paci&ecirc;ncia e submiss&atilde;o de sua filha.<\/p>\n<p>Os homens de alma fraca e esp&iacute;rito acanhado, quando de ricos que eram<br \/>\n    caem em estado de pobreza, tornam-se irrit&aacute;veis, intolerantes, injustos<br \/>\n    e at&eacute; &agrave;s vezes cru&eacute;is. O rancor de que se acham possu&iacute;dos<br \/>\n    contra o destino que os maltrata e do qual n&atilde;o se podem vingar, eles<br \/>\n    o desabafam contra as pessoas que com eles vivem e lhes s&atilde;o sujeitas.<br \/>\n    O Major, encolerizado com as delongas e hesita&ccedil;&otilde;es de L&uacute;cia,<br \/>\n    perdeu aquela prud&ecirc;ncia e bonomia que sempre o caracterizava, e, calcando<br \/>\n    aos p&eacute;s o decoro e o respeito que sempre guardava para com os sentimentos<br \/>\n    de sua filha, acabrunhou-a com um mont&atilde;o de impertinentes repreens&otilde;es<br \/>\n    e cru&eacute;is exprobra&ccedil;&otilde;es:<\/p>\n<p>&#8211; Filha ind&oacute;cil e caprichosa!&#8230; bradava ele em acessos de c&oacute;lera,<br \/>\n    que n&atilde;o sabes sacrificar uma paix&atilde;ozinha indigna e rid&iacute;cula<br \/>\n    aos verdadeiros interesses e ao sossego e felicidade de minha velhice&#8230; pensa<br \/>\n    acaso que n&atilde;o estou percebendo que ainda traz arraigada no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    essa afei&ccedil;&atilde;o vergonhosa por esse pobre-diabo, que a&iacute;<br \/>\n    anda &agrave; toa sem eira nem beira, e que tem sido constantemente o fantasma<br \/>\n    perturbador do meu repouso e da felicidade de minha fam&iacute;lia?! Se nesta<br \/>\n    desgra&ccedil;ada terra houvesse pol&iacute;cia e um recrutamento em regra,<br \/>\n    n&atilde;o andariam por a&iacute; passeando livremente esse e outros vadios<br \/>\n    dessa laia, que n&atilde;o t&ecirc;m outra ocupa&ccedil;&atilde;o mais do<br \/>\n    que perturbar a paz das fam&iacute;lias!&#8230; Ah! nunca pensei que a minha filha<br \/>\n    querida, que eu criei aos meus bra&ccedil;os e ao meu colo, com tanto esmero<br \/>\n    e tanto mimo, viesse amargurar-me assim o resto de meus dias!&#8230;<\/p>\n<p>E L&uacute;cia, a pobre L&uacute;cia, com os olhos baixos e coberta de vergonha,<br \/>\n    ouvia toda aquela explos&atilde;o da c&oacute;lera paterna, tr&ecirc;mula<br \/>\n    e transida de horror, como quem ouve o estalar da trovoada, e s&oacute; respondia<br \/>\n    com l&aacute;grimas e solu&ccedil;os. Seu cora&ccedil;&atilde;o j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o tinha for&ccedil;as para resistir a t&atilde;o rudes embates; for&ccedil;oso<br \/>\n    lhe era curvar-se a esse novo sacrif&iacute;cio que o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    repelia, mas a consci&ecirc;ncia aconselhava.<\/p>\n<p>Levada ao &uacute;ltimo extremo pelas cru&eacute;is e duras palavras do Major,<br \/>\n    L&uacute;cia, com a fronte rubra a um tempo de pejo e de indigna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com o cora&ccedil;&atilde;o a transbordar de amargura e desespero, atirou-se<br \/>\n    aos p&eacute;s de seu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Eis-me aqui, meu pai!&#8230; bradou com voz rouca e cortada de solu&ccedil;os.<br \/>\n    Eis aqui, n&atilde;o a sua filha, mas a sua escrava. Fa&ccedil;a dela o que<br \/>\n    bem lhe aprouver!<\/p>\n<p>Nesse momento ouve-se o tropel de um cavaleiro que apeia-se e bate &agrave;<br \/>\n    porta. Esse incidente correu o pano sobre aquela triste e dolorosa cena; L&uacute;cia<br \/>\n    levantou-se enxugando &agrave; pressa as l&aacute;grimas e procurando compor<br \/>\n    o rosto transtornado pelas cru&eacute;is emo&ccedil;&otilde;es do momento.<br \/>\n    O Major foi tranq&uuml;ilamente abrir a porta que da rua ou da estrada dava<br \/>\n    imediatamente para a pequena sala em que se achavam; mas empalideceu ao reconhecer<br \/>\n    no visitante o mancebo contra o qual h&aacute; poucos instantes a c&oacute;lera<br \/>\n    lhe tinha feito vomitar os mais injuriosos improp&eacute;rios. Elias, gra&ccedil;as<br \/>\n    ao bafejo extraordin&aacute;rio que recebera da fortuna &agrave; cabeceira<br \/>\n    de seu camarada moribundo, apresentava-se com ar altivo e resoluto; dir-se-ia<br \/>\n    que ouvira as inj&uacute;rias de que h&aacute; pouco fora o alvo, e delas<br \/>\n    vinha exigir pronta satisfa&ccedil;&atilde;o. Mas, n&atilde;o era nada disso.<\/p>\n<p>Elias, depois de ter dado com minucioso cuidado as necess&aacute;rias provid&ecirc;ncias<br \/>\n    para que se fizesse o enterro a seu velho camarada com a poss&iacute;vel dec&ecirc;ncia,<br \/>\n    montou de novo a cavalo, e sem ao menos parar na casa de sua velha enfermeira,<br \/>\n    dirigiu-se a toda a pressa &agrave; choupana do Major. J&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    eram precisas as entrevistas furtivas; os t&iacute;midos e ocultos manejos<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o tinham lugar. Era tempo de apresentar-se francamente<br \/>\n    e declarar sem dissimula&ccedil;&atilde;o as suas pretens&otilde;es.<\/p>\n<p>Quando Elias se apresentou ao limiar da porta, L&uacute;cia n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    conter um grito de surpresa. O Major recuou um pouco desconcertado, murmurando<br \/>\n    consigo: este homem&#8230;! meu Deus!&#8230; este homem &eacute; como um espectro<br \/>\n    que surge sempre diante de mim em ocasi&otilde;es destas. Depois, recuperando<br \/>\n    o sangue-frio, cumprimentou cortesmente e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! senhor Elias, muito me honra a sua visita&#8230; mas, desculpe-me a franqueza,<br \/>\n    continuou com sorriso sard&ocirc;nico, n&atilde;o posso dissimular-lhe que<br \/>\n    nesta ocasi&atilde;o ela n&atilde;o me parece de muito bom agouro.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o?&#8230; sinto muito, senhor Major; mas n&atilde;o admira que eu,<br \/>\n    que sempre tenho sido infeliz, n&atilde;o possa agourar sen&atilde;o desgra&ccedil;as.<br \/>\n    Mas agora&#8230; n&atilde;o sei qual possa ser o motivo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se lembra que a &uacute;ltima visita com que me honrou, foi<br \/>\n    em v&eacute;speras de casar-se minha filha L&uacute;cia?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! se me lembro!&#8230; perfeitamente.<\/p>\n<p>&#8211; E lembra-se tamb&eacute;m que esse casamento se desfez de um modo bem triste?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como se fosse hoje, senhor Major&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem; e agora que estou de novo em v&eacute;speras de cas&aacute;-la,<br \/>\n    eis que me aparece a sua visita. Sou algum tanto supersticioso e n&atilde;o<br \/>\n    deixo de ficar um pouco apreensivo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E n&atilde;o &eacute; sem fundamento a sua apreens&atilde;o, senhor Major.<br \/>\n    J&aacute; que me fala com tanta franqueza, permita-me que lhe retribua na<br \/>\n    mesma, e fique sabendo que o meu aparecimento hoje em sua casa n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; longe de ser o an&uacute;ncio de um novo desmancho de casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras, senhor Elias!? exclamou o Major com um sorriso que exprimia a<br \/>\n    um tempo estranheza, desd&eacute;m e zombaria. Deveras! ent&atilde;o ainda<br \/>\n    desta vez espera que temos pela barba algum moedeiro falso?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pouco importa, retorquiu Elias sorrindo. Se n&atilde;o &eacute; moedeiro<br \/>\n    falso, o noivo de agora n&atilde;o deixa de ser um usurpador que pretende<br \/>\n    roubar o que lhe n&atilde;o pode pertencer. Da primeira vez foi a pol&iacute;cia<br \/>\n    quem se encarregou de desmanchar o casamento; desta vez, por&eacute;m, serei<br \/>\n    eu mesmo.<\/p>\n<p>O Major estava pasmo, e n&atilde;o sabia o que pensar da aud&aacute;cia e<br \/>\n    impavidez com que o mo&ccedil;o proferia aquelas palavras que a seus olhos<br \/>\n    eram verdadeiros desprop&oacute;sitos. Estar&aacute; louco este homem? pensava;<br \/>\n    ou prevalecendo-se do estado de pobreza e desvalimento em que me acho, vem<br \/>\n    agora vingar-se insultando-me?&#8230;<\/p>\n<p>L&uacute;cia tamb&eacute;m, entre at&ocirc;nita e contente, n&atilde;o podia<br \/>\n    bem atinar com a significa&ccedil;&atilde;o daquele inesperado incidente,<br \/>\n    e ardia por ouvir da boca de Elias a explica&ccedil;&atilde;o de t&atilde;o<br \/>\n    extraordin&aacute;rio procedimento; mas n&atilde;o lhe ficando bem dirigir-lhe<br \/>\n    a palavra, o interrogava com os olhos, onde reluzia a mais ansiosa e viva<br \/>\n    curiosidade.<\/p>\n<p>&#8211; Seguramente, replicou o Major depois de um instante de sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    o senhor est&aacute; gracejando; mas permita-me que lhe advirta que nem a<br \/>\n    ocasi&atilde;o nem o assunto s&atilde;o pr&oacute;prios para zombarias.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o, senhor Major!&#8230; n&atilde;o zombo, nem sou capaz de zombar<br \/>\n    de ningu&eacute;m em neg&oacute;cio t&atilde;o melindroso. Repito-lhe que<br \/>\n    venho desmanchar um casamento, porque venho aqui de prop&oacute;sito para<br \/>\n    pedir a m&atilde;o de sua filha para outra pessoa que tem mais direito a ela<br \/>\n    do que esse pretendente com quem a quer casar, e que em ponto nenhum lhe &eacute;<br \/>\n    inferior.<\/p>\n<p>O assombro do Major crescia de ponto, ao mesmo tempo que se aumentava o contentamento<br \/>\n    de L&uacute;cia, que come&ccedil;ava a entrever o desfecho daquela cena.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o o senhor, prosseguiu o Major pausadamente e carregando nas<br \/>\n    palavras; ent&atilde;o o senhor veio &agrave; minha casa de prop&oacute;sito<br \/>\n    para embargar o casamento de minha filha com a pessoa a quem eu quero d&aacute;-la?&#8230;<br \/>\n    Deveras meu senhor? o senhor mesmo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor! eu mesmo! repetiu Elias com seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; E quem lhe d&aacute; esse direito?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o; n&atilde;o venho exigir; venho pedir.<\/p>\n<p>O Major hesitou um momento na resposta que devia dar; passou a m&atilde;o<br \/>\n    pelas barbas grisalhas e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Se vem pedir, o caso &eacute; diferente&#8230; Todavia, por mais que o senhor<br \/>\n    me diga isto, me parece uma farsa, e acabemos com ela, eu n&atilde;o posso<br \/>\n    por modo algum faltar &agrave; minha palavra j&aacute; comprometida com outra<br \/>\n    pessoa.<\/p>\n<p>&#8211; E a senhora D. L&uacute;cia?&#8230; n&atilde;o conta com ela? desculpe-me a<br \/>\n    pergunta. Dizendo isto, Elias fitava os olhos em L&uacute;cia.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o posso deixar, respondeu o Major, de estranhar o desembara&ccedil;o<br \/>\n    com que o senhor se intromete nos neg&oacute;cios de minha fam&iacute;lia;<br \/>\n    contudo devo declarar-lhe&#8230;<\/p>\n<p>O Major ia responder que sim; mas L&uacute;cia fixou-lhe um olhar, que parecia<br \/>\n    dizer-lhe: n&atilde;o minta. O Major prosseguiu algum tanto embara&ccedil;ado:<\/p>\n<p>&#8211; Devo declarar-lhe que ela, infalivelmente, dar&aacute; o seu consentimento;<br \/>\n    tenho disso certeza.<\/p>\n<p>Elias olhou para L&uacute;cia; esta lhe fazia com a cabe&ccedil;a um sinal<br \/>\n    negativo.<\/p>\n<p>&#8211; Que certeza tem disso, senhor Major? j&aacute; a consultou?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho toda a certeza. Demais, j&aacute; que come&ccedil;amos a explicar-nos<br \/>\n    com toda a franqueza, continuemos da mesma sorte: n&atilde;o desfazendo em<br \/>\n    nenhuma outra pessoa, o noivo a quem destino minha filha &eacute; um mo&ccedil;o<br \/>\n    muito distinto, ativo e inteligente, e j&aacute; possui alguma coisa; aqui<br \/>\n    pela Bagagem n&atilde;o conhe&ccedil;o outro que esteja em melhores, nem mesmo<br \/>\n    em iguais condi&ccedil;&otilde;es. Poder-se-&aacute; dizer outro tanto desse<br \/>\n    que a pretende, e que julgais com mais direito de que o outro? Estamos pobres<br \/>\n    como sabe; por mim, que j&aacute; pouco tenho a viver, pouco me importaria<br \/>\n    a pobreza. Mas custar-me-ia muito resignar-me a ver minha L&uacute;cia sofrer<br \/>\n    as priva&ccedil;&otilde;es da pobreza, podendo dar-lhe uma posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais c&ocirc;moda e brilhante na sociedade. Seria uma crueldade que nunca<br \/>\n    me perdoaria a mim mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz&atilde;o de sobra, senhor Major; nem vou contra isso. Ent&atilde;o<br \/>\n    &eacute; muito rico esse mo&ccedil;o?&#8230; quanto possuir&aacute; ele pouco<br \/>\n    mais ou menos?<\/p>\n<p>&#8211; Principiou a negociar h&aacute; pouco tempo, e j&aacute; possui talvez<br \/>\n    mais de vinte contos livres. Aqui para o sert&atilde;o n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mau come&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8211; E se esse outro, que tamb&eacute;m pretende a m&atilde;o de sua filha,<br \/>\n    possui tanto ou mais do que isso?<\/p>\n<p>&#8211; Embora!&#8230; a minha palavra &eacute; sagrada; n&atilde;o &eacute; motivo<br \/>\n    bastante para eu faltar a ela.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, senhor Major, sua filha ainda n&atilde;o deu palavra ao noivo que<br \/>\n    lhe quer dar. E suponhamos que ela j&aacute; tivesse hipotecado sua palavra<br \/>\n    e seu amor a este de quem lhe falo, e que fosse o noivo da escolha de seu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! nesse caso&#8230; eu sei? mas&#8230; acabemos com este mist&eacute;rio; quem<br \/>\n    &eacute; esse pretendente?&#8230; onde est&aacute; esse noivo?<\/p>\n<p>&#8211; Pergunte-o &aacute; sua filha, senhor Major; ela, tanto como eu, lho poder&aacute;<br \/>\n    dizer.<\/p>\n<p>L&uacute;cia corou extraordinariamente e baixou os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; exclamou o Major como acordando de um sonho, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    preciso que me digam nada; j&aacute; o adivinhei!&#8230; &eacute; o senhor mesmo&#8230;<br \/>\n    mas ser&aacute; poss&iacute;vel?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor Major; o senhor o disse; sou eu mesmo. O que acha nisso de<br \/>\n    estranho?<\/p>\n<p>&#8211; Nada&#8230; O que somente me maravilha e n&atilde;o posso conceber &eacute;<br \/>\n    que o senhor, que ainda ontem era t&atilde;o pobre como eu me vejo agora,<br \/>\n    pudesse de um dia para outro adquirir uma fortuna&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Caiu-me do c&eacute;u, senhor Major; posso assim dizer. E n&atilde;o foi<br \/>\n    para mim que o c&eacute;u a enviou, foi para sua filha, que &eacute; um dos<br \/>\n    seus anjos, que o c&eacute;u a enviou. Era para ela que eu h&aacute; muitos<br \/>\n    anos, com esfor&ccedil;os e dilig&ecirc;ncias inauditas, a procurava. A caprichosa<br \/>\n    fortuna de um dia para outro o reduziu &agrave; pobreza, quis tamb&eacute;m<br \/>\n    de um momento para outro tornar-me rico. Foi uma compensa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    senhor; e o c&eacute;u quer que este pouco que agora a fortuna me concede<br \/>\n    seja consagrado a tirar da mis&eacute;ria a fam&iacute;lia a quem ela t&atilde;o<br \/>\n    cruelmente despojou.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Elias, disse o Major comovido, desculpe-me&#8230; eu tenho sido v&iacute;tima<br \/>\n    de tantas decep&ccedil;&otilde;es, de tantas mistifica&ccedil;&otilde;es neste<br \/>\n    mundo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Compreendo, atalhou o mo&ccedil;o, duvida ainda do que eu digo. Tem muita<br \/>\n    raz&atilde;o, senhor Major. Quer uma prova, n&atilde;o &eacute; assim? Ei-la<br \/>\n    aqui.<\/p>\n<p>Dizendo isto, Elias tirou do bolso um pequeno embrulho, e o entregou ao Major.<\/p>\n<p>&#8211; Bem v&ecirc;, acrescentou ele, que s&oacute; o jogo, o testamento ou o<br \/>\n    garimpo nos podem tornar ricos de um dia para outro.<\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o na verdade magn&iacute;ficos brilhantes, disse o Major depois<br \/>\n    de abrir o embrulho. S&oacute; aqui, h&aacute; um valor de muito mais de vinte<br \/>\n    contos.<\/p>\n<p>&#8211; E a lavra de onde sa&iacute;ram ainda n&atilde;o est&aacute; esgotada,<br \/>\n    disse Elias.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; vejo que o c&eacute;u os destinava um ao outro, e de maneira<br \/>\n    nenhuma me posso opor ao vosso casamento, visto que as coisas tocadas pela<br \/>\n    m&atilde;o de Deus se encaminham de modo t&atilde;o vis&iacute;vel para esse<br \/>\n    fim. N&atilde;o me &eacute; preciso perguntar a L&uacute;cia se consente nesse<br \/>\n    casamento. H&aacute; muito sei de vossa m&uacute;tua afei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e que era a causa da repugn&acirc;ncia de L&uacute;cia em aceitar outros enlaces.<br \/>\n    O c&eacute;u me &eacute; testemunha de que eu, dentro d&#8217;alma, n&atilde;o desaprovava<br \/>\n    esse amor, e que sempre fiz justi&ccedil;a &agrave;s suas qualidades e bons<br \/>\n    sentimentos, senhor Elias. Mas este mundo, esta sociedade tem tais exig&ecirc;ncias&#8230;<br \/>\n    e eu tamb&eacute;m, eu que em minha vida singela e uniforme nunca sondei o<br \/>\n    oceano das paix&otilde;es humanas, n&atilde;o podia conhecer todo o alcance<br \/>\n    de tal amor, e pensava, insensato que eu era! que contrariando os afetos de<br \/>\n    minha filha, procurava-lhe a verdadeira felicidade. Mas espero, meus filhos,<br \/>\n    que me perdoar&atilde;o e n&atilde;o me querer&atilde;o mal por isso.<\/p>\n<p>&#8211; Esque&ccedil;amos o passado, senhor Major, esse passado, que para n&oacute;s<br \/>\n    ambos tem sido bem triste e bem cheio de transes de amargura. Tinha um motivo<br \/>\n    justo de proceder assim, eu o reconhe&ccedil;o; e tanto o reconhe&ccedil;o<br \/>\n    que ainda hoje, ao levantar-me do leito onde passara a noite em l&aacute;grimas,<br \/>\n    torturado de ang&uacute;stias e o desalento n&#8217;alma, vendo-me pobre, sem futuro<br \/>\n    e sem esperan&ccedil;a depois de mil v&atilde;s tentativas e desesperados<br \/>\n    esfor&ccedil;os para adquirir algumas coisas, parti para aqui com a firme<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o de renunciar para sempre ao meu amor e a todas as<br \/>\n    minhas esperan&ccedil;as de felicidade, desligar-me de todos os juramentos<br \/>\n    e protestos que nos dias de esperan&ccedil;a fizera &agrave; sua filha e com<br \/>\n    o meu exemplo e minhas palavras aconselh&aacute;-la, alent&aacute;-la, para<br \/>\n    que se resolvesse a aceitar o esposo que podia ampar&aacute;-la neste mundo,<br \/>\n    e esquecesse o desgra&ccedil;ado que n&atilde;o podia servir sen&atilde;o<br \/>\n    de estorvo &agrave; sua felicidade e &agrave; de sua fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>&#8211; Que belo e generoso procedimento! exclamou o Major, j&aacute; sinto-me<br \/>\n    orgulhoso em o ter por genro.<\/p>\n<p>L&uacute;cia, sem dizer palavra, olhava fixamente para Elias com os olhos<br \/>\n    nadando em ternura e em arroubos de felicidade.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o c&eacute;u se condoeu de n&oacute;s, continuou, e no curto caminho<br \/>\n    do Com&eacute;rcio de baixo para aqui, a fortuna por um modo extraordin&aacute;rio<br \/>\n    sorriu-me junto ao leito de morte de um pobre velho, e encontrei num momento<br \/>\n    e sem procurar aquilo que h&aacute; tanto tempo procurava em v&atilde;o com<br \/>\n    esfor&ccedil;os inauditos. Esque&ccedil;a-se do passado, senhor Major, e aben&ccedil;oe<br \/>\n    o nosso amor; eu tamb&eacute;m de tudo me esquecerei, e pode ficar certo que<br \/>\n    encontrar&aacute; em mim um filho submisso e afetuoso, e suas filhas, uma<br \/>\n    um marido terno e extremoso, e outra um irm&atilde;o dedicado.<\/p>\n<p>O Major, comovido no &iacute;ntimo do cora&ccedil;&atilde;o pelo generoso<br \/>\n    procedimento e pelas nobres palavras do mancebo, lan&ccedil;ou-se em seus<br \/>\n    bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8211; Sejam felizes, exclamou com l&aacute;grimas nos olhos, sejam felizes, meus<br \/>\n    filhos!&#8230; o c&eacute;u aben&ccedil;oe o vosso amor.<\/p>\n<p>Logo desde o dia seguinte Elias tratou de empregar toda a dilig&ecirc;ncia<br \/>\n    para descobrir a mina indicada por seu velho camarada no leito de morte. No<br \/>\n    fim de alguns dias de pesquisas, com bastante trabalho e paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    descobriu-a enfim no fundo de um grot&atilde;o escuro e coberto de espessa<br \/>\n    mata. N&atilde;o havia trilho algum que l&aacute; conduzisse. O velho e astuto<br \/>\n    caboclo mui de prop&oacute;sito tinha tido o cuidado de n&atilde;o deixar<br \/>\n    vest&iacute;gio algum por onde pudesse ser descoberto o tesouro que n&atilde;o<br \/>\n    queria que pertencesse a mais ningu&eacute;m sen&atilde;o a seu jovem patr&atilde;o.<br \/>\n    Elias imediatamente deu servi&ccedil;o e o resultado n&atilde;o desmentiu<br \/>\n    as palavras do velho caboclo. Em poucos dias ele tinha quadruplicado o legado<br \/>\n    que na hora da morte recebera das m&atilde;os do fiel e dedicado Sim&atilde;o.<br \/>\n    Mas, coisa singular! logo depois a lavra se esgotou, e por mais servi&ccedil;os<br \/>\n    que dessem, ningu&eacute;m conseguiu descobrir o m&iacute;nimo diamante. Dir-se-ia<br \/>\n    que a Provid&ecirc;ncia tinha ali depositado aquele pequeno tesouro unicamente<br \/>\n    para servir de recompensa &agrave; virtude daqueles dois fi&eacute;is e dedicados<br \/>\n    amantes.<\/p>\n<p>Quinze dias depois do acontecimento que teve lugar na pequena choupana do<br \/>\n    Major, na pequena e &uacute;nica capelinha que ent&atilde;o havia na Bagagem,<br \/>\n    celebrava-se um casamento sem pompa alguma e com a maior simplicidade; mas<br \/>\n    o j&uacute;bilo e contentamento que se irradiava na fisionomia dos noivos<br \/>\n    e de todos que presenciavam aquela solenidade, davam-lhe um ar festivo e anunciavam<br \/>\n    que era um casamento feliz. Era com efeito um simp&aacute;tico e formoso par,<br \/>\n    digno de todas as venturas da terra e de todas as b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os<br \/>\n    do c&eacute;u.<\/p>\n<p>Ao sa&iacute;rem da igreja, os noivos, separando-se da comitiva que os acompanhava,<br \/>\n    desviaram-se para um lado da igrejinha, e encaminharam-se para uma cova que<br \/>\n    ali se havia recentemente aberta, junto &agrave; qual havia tamb&eacute;m<br \/>\n    uma cruz nova de madeira.<\/p>\n<p>Ajoelharam-se junto dela, e nessa postura estiveram rezando por algum tempo.<br \/>\n    Ao levantarem-se, a mo&ccedil;a despregou o mais lindo ramo de sua grinalda<br \/>\n    de noiva e o depositou em um dos bra&ccedil;os da cruz; no outro o marido<br \/>\n    colocou um ramalhete de perp&eacute;tuas e saudades. E o povo que, cheio de<br \/>\n    interesse e admira&ccedil;&atilde;o, contemplava aquela nobre e tocante cena,<br \/>\n    bendizia-os de todo o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: I &#8211; A FAZENDA II &#8211; A CAVALHADA III &#8211; NA RO&Ccedil;A IV &#8211; O GARIMPO V &#8211; O BAIANO &nbsp; VI &#8211; A RECUSA VII &#8211; O SACRIF&Iacute;CIO VIII &#8211; ELIAS IX &#8211; AL&Eacute;M DE QUEDA, COICE X &#8211; A AFRONTA &nbsp; XI &#8211; DE [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-93249","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - 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