{"id":93206,"date":"2017-01-06T16:05:54","date_gmt":"2017-01-06T18:05:54","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93206"},"modified":"2017-01-09T08:51:11","modified_gmt":"2017-01-09T10:51:11","slug":"o-ermitao-do-muquem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-ermitao-do-muquem","title":{"rendered":"O Ermit\u00e3o do Muqu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial,Helvetica,sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"159\" height=\"78\">\n<div align=\"center\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>POUSO<br \/>\nPRIMEIRO O CRIME:<\/strong><\/span><a href=\"#1\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>CAP\u00cdTULO I &#8211; O VALENT\u00c3O<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">CAP\u00cdTULO II &#8211; O BATUQUE<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">CAP\u00cdTULO III &#8211; DITO<br \/>\nE FEITO<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">CAP\u00cdTULO IV &#8211; A LOUCA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"102\"><\/td>\n<td width=\"154\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong>POUSO SEGUNDO OS CHAVANTES:<\/strong><\/span><\/p>\n<p><a href=\"#5\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>CAP\u00cdTULO I &#8211; O COMBATE<br \/>\n<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">CAP\u00cdTULO II &#8211; A TABA<br \/>\nDO CACIQUE<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">CAP\u00cdTULO III &#8211; A ENFERMEIRA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">CAP\u00cdTULO IV &#8211; O RESTABELECIMENTO<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"100\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"163\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong>POUSO SEGUNDO OS CHAVANTES<br \/>\n( CONTINUA\u00c7\u00c3O ):<\/strong><\/span><\/p>\n<p><a href=\"#9\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>CAP\u00cdTULO V &#8211; O TRANSVIO<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">CAP\u00cdTULO VI &#8211; NA LAPA<br \/>\n<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\">CAP\u00cdTULO VII &#8211; A VOLTA<br \/>\n<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Bernardo Guimar\u00e3es<\/h4>\n<h2>AO LEITOR<\/h2>\n<p>Cumpre-me dizer duas palavras ao leitor a respeito da composi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo presente romance, o qual (seja dito de passagem) repousa sobre uma tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nreal mui conhecida na prov\u00edncia de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Consta este romance de tr\u00eas partes muito distintas, em cada uma das<br \/>\nquais for\u00e7oso me foi empregar um estilo diferente, visto como o meu<br \/>\nher\u00f3i em cada uma delas se v\u00ea colocado em uma situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ninteiramente nova, inteiramente diversa das anteriores.<\/p>\n<p>A primeira parte est\u00e1 inclu\u00edda no Pouso primeiro, e \u00e9<br \/>\nescrita no tom de um romance realista e de costumes; representa cenas da vida<br \/>\ndos homens do sert\u00e3o, seus folguedos ruidosos e um pouco b\u00e1rbaros,<br \/>\nseus costumes licenciosos, seu esp\u00edrito de valentia e suas rixas sanguinolentas.<br \/>\n\u00c9 verdade que o meu romance pinta o sertanejo de h\u00e1 um s\u00e9culo;<br \/>\nmas deve-se refletir que \u00e9 s\u00f3 nas cortes e nas grandes cidades<br \/>\nque os costumes e usan\u00e7as se modificam e transformam de tempos em tempos<br \/>\npela continuada comunica\u00e7\u00e3o com o estrangeiro e pelo esp\u00edrito<br \/>\nde moda. Nos sert\u00f5es, por\u00e9m, costumes e usan\u00e7as se conservam<br \/>\ninalter\u00e1veis durante s\u00e9culos, e pode-se afirmar sem receio que<br \/>\no sertanejo de Goi\u00e1s ou de Mato Grosso de hoje \u00e9 com mui pouca<br \/>\ndiferen\u00e7a o mesmo que o do come\u00e7o do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Do meio dessa sociedade tosca e grosseira do sertanejo o nosso her\u00f3i<br \/>\npassa a viver vida selv\u00e1tica no seio das florestas, no meio dos ind\u00edgenas.<br \/>\nAqui for\u00e7a \u00e9 que o meu romance tome assim certos ares de poema.<br \/>\nOs usos e costumes dos povos ind\u00edgenas do Brasil est\u00e3o envoltos<br \/>\nem trevas, sua hist\u00f3ria \u00e9 quase nenhuma, de suas cren\u00e7as<br \/>\napenas restam no\u00e7\u00f5es isoladas, incompletas e sem nexo. O realismo<br \/>\nde seu viver nos escapa, e s\u00f3 nos resta o idealismo, e esse mesmo mui<br \/>\nvago, e talvez em grande parte fict\u00edcio. Tanto melhor para o poeta<br \/>\ne o romancista; h\u00e1 largas enchan\u00e7as para desenvolver os recursos<br \/>\nde sua imagina\u00e7\u00e3o. O lirismo, pois, que reina nesta segunda<br \/>\nparte, a qual abrange os Pousos segundo e terceiro, \u00e9 muito desculp\u00e1vel;<br \/>\nesse estilo um pouco mais elevado e ideal era o \u00fanico que quadrava<br \/>\naos assuntos que eu tinha de tratar, e \u00e0s circunst\u00e2ncias de meu<br \/>\nher\u00f3i.<\/p>\n<p>O misticismo crist\u00e3o caracteriza essencialmente a terceira parte,<br \/>\nque compreende o quarto e \u00faltimo Pouso.<\/p>\n<p>Aqui h\u00e1 a realidade das cren\u00e7as e costumes do cristianismo,<br \/>\nunida \u00e0 ideal sublimidade do assunto. Reclama, pois esta parte um outro<br \/>\nestilo, um tom mais grave e solene, uma linguagem como essa que Chateaubriand<br \/>\ne Lamartine sabem falar quando tratam de t\u00e3o elevado assunto.<\/p>\n<p>Bem sei que a empresa \u00e9 superior \u00e0s minhas for\u00e7as;<br \/>\nbom ou mau, por\u00e9m, a\u00ed entrego ao p\u00fablico o meu romance;<br \/>\nele que o julgue.<\/p>\n<p>Ouro Preto, 10 de novembro de 1858<\/p>\n<h2>O AUTOR &#8211; INTRODU\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>As peregrina\u00e7\u00f5es devotas ou romarias s\u00e3o de uso imemorial<br \/>\nem todos os pa\u00edses cat\u00f3licos. Ora penduradas no cume de um rochedo<br \/>\nescarpado e quase inacess\u00edvel, ora fundadas no seio de uma gruta natural,<br \/>\nou em algum vale escuro e triste em meio de florestas ou montanhas alterosas,<br \/>\nem toda a parte do mundo crist\u00e3o encontram-se disseminadas aqui e acol\u00e1<br \/>\nessas pequenas capelas ou ermidas, que de ordin\u00e1rio devem a sua funda\u00e7\u00e3o<br \/>\na alguma lenda miraculosa, e que em \u00e9pocas determinadas atraem a si<br \/>\nmilhares de romeiros e peregrinos.<\/p>\n<p>H\u00e1 sem d\u00favida grande dose de supersti\u00e7\u00e3o nessas<br \/>\nromarias, e o povo as tem feito perder muito da sua import\u00e2ncia e prest\u00edgio,<br \/>\nmultiplicando-as infinitamente, instituindo romarias a granel por toda parte;<br \/>\ntodavia nem por isso deixam de ser uma das usan\u00e7as mais po\u00e9ticas<br \/>\ne tocantes do cristianismo.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro possui em seus apraz\u00edveis e magn\u00edficos arrabaldes<br \/>\nmais de uma ermida, que todos os anos em dias certos atrai imenso concurso de<br \/>\nromeiros. A nobre e altiva Paulic\u00e9a tamb\u00e9m todos os anos v\u00ea<br \/>\nsa\u00edrem de seu seio milhares de habitantes, que em devota romaria v\u00e3o<br \/>\nlevar oferendas e votos \u00e0 milagrosa Nossa Senhora da Penha, que se adora<br \/>\nem sua linda capela erigida a duas l\u00e9guas da cidade em um risonho outeiro,<br \/>\nque domina as apraz\u00edveis lez\u00edrias por onde remanseia o Tiet\u00ea.<\/p>\n<p>Em Minas quem n\u00e3o tem ouvido falar no irm\u00e3o Louren\u00e7o, nesse<br \/>\nnovo Paulo Eremita, que nos fraguedos da Serra do Cara\u00e7a passou a vida<br \/>\nna pr\u00e1tica do mais rigoroso ascetismo e da mais austera penit\u00eancia,<br \/>\ne l\u00e1 num recinto circundado de crespas e alterosas serranias erigiu um<br \/>\ntemplo com a invoca\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora M\u00e3e dos Homens,<br \/>\ne lan\u00e7ou os fundamentos da grande institui\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio<br \/>\nCara\u00e7a, que devia servir de n\u00facleo aos filhos de Vicente de Paula<br \/>\npara espalharem a luz da instru\u00e7\u00e3o e da f\u00e9 por toda a prov\u00edncia?<br \/>\nA capelinha de Nossa Senhora da Lapa, perto do arraial de Ant\u00f4nio Pereira,<br \/>\na duas l\u00e9guas de dist\u00e2ncia do Ouro Preto, cavada pela natureza<br \/>\nno flanco de uma montanha, \u00e9 objeto tamb\u00e9m do fervoroso culto<br \/>\ndos fi\u00e9is, e da admira\u00e7\u00e3o dos curiosos.<\/p>\n<p>Nas altas e escabrosas cumeadas de uma grande cordilheira campea o arraial de<br \/>\nS. Tom\u00e9 das Letras com suas alvas casinhas, semelhando um bando de brancas<br \/>\npombas pousadas sobre o teto do antigo templo derrocado e denegrido pelo tempo.<br \/>\n\u00c9 cren\u00e7a do povo que o ap\u00f3stolo S. Tom\u00e9 viajou e<br \/>\npregou na Am\u00e9rica, e a alguns sinais parecidos com letras, que se notam<br \/>\nem uma pedra, e que se acredita terem sido ali gravadas pelo ap\u00f3stolo,<br \/>\ndeve a povoa\u00e7\u00e3o o seu nome.<\/p>\n<p>Congonhas do Campo, com sua rica e formosa capela tendo por orago o Sr, Bom<br \/>\nJesus do Matosinho, com seu vistoso adro de escadarias, povoado de profetas<br \/>\nde pedra (escultura curiosa de um homem mutilado da m\u00e3o direita, e que<br \/>\natava ao punho o instrumento com que trabalhava), atrai de imensas dist\u00e2ncias<br \/>\nos fi\u00e9is, que v\u00eam pedir ao milagroso Jesus a cura de suas enfermidades,<br \/>\nou cumprir piedosas promessas.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda in\u00fameras outras romarias disseminadas por toda a extens\u00e3o<br \/>\ndo imp\u00e9rio. A origem da funda\u00e7\u00e3o de todas essas capelas<br \/>\n\u00e9 quase sempre a apari\u00e7\u00e3o miraculosa da imagem de algum<br \/>\nsanto no interior de uma caverna, no seio de uma floresta, no leito de um c\u00f3rrego,<br \/>\nou mesmo no c\u00f4ncavo de um tronco. Os fil\u00f3sofos do s\u00e9culo,<br \/>\nos ap\u00f3stolos da descren\u00e7a riem-se com desd\u00e9m dessas ing\u00eanuas<br \/>\ne tocantes cren\u00e7as do povo. Todavia seus engenhosos racioc\u00ednios,<br \/>\nseus sistemas transcendentes, n\u00e3o podem substituir essa f\u00e9 viva<br \/>\ne singela, que alenta e consola o homem do povo nos trabalhosos caminhos da<br \/>\nvida. Embora envolvida no cortejo de mil supersti\u00e7\u00f5es grosseiras,<br \/>\nde mil tradi\u00e7\u00f5es absurdas, deixemos-lhe essa f\u00e9, que o<br \/>\nacompanha desde o ber\u00e7o que bebeu com o leite materno, e que o consola<br \/>\nem sua hora extrema. Seja embora um erro, \u00e9 um erro consolador, que em<br \/>\nnada prejudica ao indiv\u00edduo nem \u00e0 sociedade; a esses fil\u00f3sofos<br \/>\npoder\u00edamos responder parodiando aqueles versos que Cam\u00f5es p\u00f5e<br \/>\nna boca do Adamastor: E que vos custa t\u00ea-los nesse engano, Ou seja sombra,<br \/>\nou nuvem, sonho ou nada?&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 bem longe, no cora\u00e7\u00e3o dos desertos, em uma das mais<br \/>\nremotas e despovoadas prov\u00edncias do Imp\u00e9rio, existe uma das<br \/>\nmais not\u00e1veis e concorridas dessas romarias, not\u00e1vel, sobretudo,<br \/>\nse atendermos ao s\u00edtio long\u00ednquo e \u00e0s enormes dist\u00e2ncias<br \/>\nque os romeiros t\u00eam de percorrer para chegarem ao solit\u00e1rio e<br \/>\ntriste vale em que se acha erigida a capelinha de Nossa Senhora da Abadia<br \/>\ndo Muqu\u00e9m na prov\u00edncia de Goi\u00e1s, cerca de oitenta l\u00e9guas<br \/>\nao norte da capital e a sete l\u00e9guas da povoa\u00e7\u00e3o de S.<br \/>\nJos\u00e9 de Tocantins, \u00e0 margem de um pequeno c\u00f3rrego que<br \/>\ntem o significativo nome de C\u00f3rrego das L\u00e1grimas. Das mais remotas<br \/>\nparagens acodem romeiros a essa isolada capelinha para implorar \u00e0 santa<br \/>\no al\u00edvio de seus padecimentos e trazer-lhe preciosas oferendas. Durante<br \/>\nalguns dias do ano aquele l\u00f4brego e escuro s\u00edtio transforma-se<br \/>\nem uma ruidosa e festiva povoa\u00e7\u00e3o; o Muqu\u00e9m \u00e9<br \/>\nsem contesta\u00e7\u00e3o a romaria mais concorrida e a mais em voga do<br \/>\ninterior.<\/p>\n<p>Eis aqui por que ocasi\u00e3o e como nos foi contada a hist\u00f3ria da<br \/>\nfunda\u00e7\u00e3o dessa importante romaria.<\/p>\n<p>Viaj\u00e1vamos eu e mais dois companheiros vindos de Goi\u00e1s, e atravess\u00e1vamos<br \/>\na prov\u00edncia de Minas com dire\u00e7\u00e3o \u00e0 corte; acab\u00e1vamos<br \/>\nde arranchar em um belo s\u00edtio nas campinas graciosamente acidentadas<br \/>\ndo munic\u00edpio do Patroc\u00ednio, junto \u00e0 margem de um ribeir\u00e3o,<br \/>\nchamado Rio de S. Jo\u00e3o. A paisagem era enlevadora, o tempo magn\u00edfico.<\/p>\n<p>O rio corre escoltado em uma e outra margem por uma orla de \u00e1rvores alterosas<br \/>\ne da mais formosa ramagem; o rancho est\u00e1 situado em um delicioso vargedo<br \/>\ncerca de duzentos passos de dist\u00e2ncia do leito do rio, cujo brando murm\u00fario&#8230;<br \/>\nn\u00e3o se ouvia, pois corre manso e silencioso como a jib\u00f3ia escorregando<br \/>\nsubtilmente pela vereda \u00famida dos brejos. O tope escuro dos arvoredos<br \/>\ndestacava-se vivamente no horizonte inflamado pelos clar\u00f5es do sol poente.<\/p>\n<p>Enquanto os camaradas tratavam de pensar os animais, e preparava-se a comida<br \/>\nfrugal e grosseira, mas suculenta, do viajante nessas paragens, eu e meus companheiros<br \/>\npendur\u00e1vamos dos esteios do rancho a nossa rede, essa companheira insepar\u00e1vel<br \/>\ndo viandante do sert\u00e3o, em cujo seio tanto lhe apraz embalar-se descansando<br \/>\ndas fadigas da jornada, e cismando saudades do seu pa\u00eds. J\u00e1 reclinados<br \/>\na fumar nosso cigarro nos embal\u00e1vamos indolentemente passeando olhares<br \/>\nsaudosos por aqueles horizontes, dos quais meus companheiros se afastavam por<br \/>\npouco tempo, e a que eu no \u00edntimo da alma murmurava um adeus talvez eterno,<br \/>\nquando ouvimos na estrada a batida de um animal, e alguns segundos depois um<br \/>\ncavaleiro aparece e p\u00e1ra \u00e0 porta do rancho.<\/p>\n<p>\u2014 Senhores, nos diz ele depois de saudar-nos, se ainda h\u00e1 c\u00f4modo<br \/>\npara algu\u00e9m no rancho, espero que me permitir\u00e3o fazer-lhes companhia<br \/>\nde pouso por esta noite.<\/p>\n<p>\u2014 Com muito gosto; o rancho \u00e9 de todos os viandantes, e se a sua<br \/>\ncomitiva n\u00e3o \u00e9 muito grande, cremos que n\u00e3o ficar\u00e1<br \/>\nmal acomodada.<\/p>\n<p>Em poucos instantes descarregou-se a pequena bagagem do nosso novo companheiro<br \/>\nde pouso, o qual, como a sua comitiva constava de duas pessoas, ele e seu camarada,<br \/>\naceitou o convite, que lhe fizemos, de jantar do nosso caldeir\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre pessoas desconhecidas e que nada t\u00eam a se dizerem, de ordin\u00e1rio<br \/>\na conversa\u00e7\u00e3o se trava por perguntas. Come\u00e7amos pois por<br \/>\nperguntar-lhe donde vinha.<\/p>\n<p>\u2014 De bem longe, nos respondeu ele; venho da famosa romaria de Nossa Senhora<br \/>\nda Abadia do Muqu\u00e9m na prov\u00edncia de Goi\u00e1s, de que os senhores<br \/>\ndecerto h\u00e3o de ter not\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Por certo, respondi-lhe eu; muito tenho ouvido falar nessa afamada romaria,<br \/>\ne, segundo tenho ouvido dizer, \u00e9 uma das mais bonitas e concorridas que<br \/>\ntemos.<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida alguma. \u00c9 uma maravilha que \u00e9 preciso<br \/>\nver-se para dela formar uma perfeita id\u00e9ia. Ainda que n\u00e3o seja<br \/>\npor devo\u00e7\u00e3o, mesmo por esp\u00edrito de curiosidade vale a pena<br \/>\nfazer-se essa viagem para ver como aquele lugar completamente desabitado no<br \/>\nfundo dos sert\u00f5es, onde apenas existe uma capelinha e um casebre sem<br \/>\nhabitantes, converte-se de repente em uma cidade cheia de vida, de rumor e movimento,<br \/>\ncomposta de barracas, toldas, carros-de-bois, e ranchos cobertos de capim. Re\u00fane-se<br \/>\nali todos os anos, na \u00e9poca da festa, uma popula\u00e7\u00e3o de<br \/>\ncerca de dez mil pessoas, que v\u00eam de dist\u00e2ncias enormes, at\u00e9<br \/>\ndo Par\u00e1 e Rio Grande do Sul, umas por devo\u00e7\u00e3o e para cumprirem<br \/>\npromessas, outras para fazerem com\u00e9rcio, pois que nesses dias aquele<br \/>\nlugar torna-se uma feira imensa, onde se compra, vende-se e permuta-se toda<br \/>\na qualidade de mercadorias. A\u00ed os sertanejos do norte de Goi\u00e1s,<br \/>\ne das extremas das prov\u00edncias da Bahia, Pernambuco, Piau\u00ed e Maranh\u00e3o,<br \/>\nv\u00e3o-se prover de fazendas, quinquilharias, ferragens e vinhos que compram<br \/>\naos negociantes de Meia Ponte e Goi\u00e1s que conduzem daquele ponto essas<br \/>\nmercadorias. Os romeiros tamb\u00e9m vendem aos negociantes destas duas cidades,<br \/>\ne aos de Minas e S. Paulo, grande quantidade de couros, solas, animais cavalares,<br \/>\nredes fabricadas pelos \u00edndios, escravos, ouro em p\u00f3 e diamantes.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do produto da venda dos donativos feitos pelos romeiros<br \/>\nanda anualmente por 8 a 10 contos, n\u00e3o incluindo-se nessa quantia as<br \/>\nd\u00e1divas em dinheiro, que tamb\u00e9m muito avultam.<\/p>\n<p>Mas todo esse movimento e anima\u00e7\u00e3o dura apenas de seis a oito<br \/>\ndias, findos os quais desarmam-se as tendas dos peregrinos, e o Muqu\u00e9m,<br \/>\ncomo um acampamento abandonado, volta ao sil\u00eancio e \u00e0 solid\u00e3o,<br \/>\nficando de novo a capelinha isolada em meio daqueles tristes e silenciosos ermos.<\/p>\n<p>\u2014 E o senhor, disse-lhe eu, desculpe-me a curiosidade, o senhor foi<br \/>\nl\u00e1 simplesmente por devo\u00e7\u00e3o e romaria, ou tamb\u00e9m<br \/>\na neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u2014 O meu fim principal, respondeu, foi o cumprimento de uma promessa feita<br \/>\npor minha mulher, que se achando atacada de uma enfermidade cruel, que zombava<br \/>\nde todos os rem\u00e9dios e da ci\u00eancia dos mais abalizados m\u00e9dicos,<br \/>\nlembrou-se de implorar a Nossa Senhora da Abadia rem\u00e9dio a um mal de<br \/>\ncuja cura os homens tinham desesperado. Pouca ou nenhuma f\u00e9 eu tinha<br \/>\nent\u00e3o nessas promessas e romarias, que considerava como supersti\u00e7\u00f5es<br \/>\npr\u00f3prias somente do vulgo ignorante. Todavia minha mulher mostrava tanta<br \/>\nconfian\u00e7a e f\u00e9 t\u00e3o viva que eu nem de leve ousei contrari\u00e1-la<br \/>\npara n\u00e3o agravar-lhe os sofrimentos.<\/p>\n<p>Prometermos vir ambos em romaria \u00e0 capela de Nossa Senhora da Abadia<br \/>\ndo Muqu\u00e9m trazer alguns donativos e adorar a santa em seu pr\u00f3prio<br \/>\naltar. Desde ent\u00e3o come\u00e7ou minha mulher a melhorar sensivelmente,<br \/>\ne acha-se hoje quase completamente boa. Por prud\u00eancia por\u00e9m assentamos<br \/>\nque ela n\u00e3o viesse ainda este ano; vim eu somente cumprir parte das promessas;<br \/>\nmas para o ano, se Nossa Senhora da Abadia continuar a proteger-nos, voltarei<br \/>\ncom ela, e enquanto eu for vivo, todas as vezes que as circunst\u00e2ncias<br \/>\no permitirem, hei de fazer uma peregrina\u00e7\u00e3o ao Muqu\u00e9m,<br \/>\nainda que n\u00e3o seja sen\u00e3o para depor um simples ramo de flores<br \/>\ne rezar uma Salve-Rainha aos p\u00e9s daquela milagrosa Senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Muito se fala por toda a parte, repliquei eu, nos milagres de Nossa<br \/>\nSenhora da Abadia do Muqu\u00e9m; mas o que acho a\u00ed de mais not\u00e1vel<br \/>\ne singular \u00e9 que fossem edificar essa capela e fundar essa romaria l\u00e1<br \/>\nno fundo de um sert\u00e3o remoto, podendo ser erigida em qualquer localidade<br \/>\nmais vizinha de povoados.<\/p>\n<p>\u2014 Essa localidade n\u00e3o foi escolhida por ningu\u00e9m, e segundo<br \/>\nconta a lenda, foi indicada pelo c\u00e9u para nela se edificar a capelinha<br \/>\nque a\u00ed existe. O senhor, pelo que vejo, n\u00e3o sabe a hist\u00f3ria<br \/>\nde sua funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor; apenas tenho ouvido alguma coisa de uns e outros<br \/>\na esse respeito muito por alto e vagamente.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o deixa de ser curiosa e interessante essa hist\u00f3ria;<br \/>\ne se n\u00e3o se enfadam de escutar-me, eu a contarei com muito gosto, posto<br \/>\nque seja algum tanto longa.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda que a narra\u00e7\u00e3o tenha de durar a noite inteira, n\u00e3o<br \/>\nnos enfadar\u00e1, e o escutaremos com muito prazer.<\/p>\n<p>Da minha parte perderia de bom grado duas noites de sono s\u00f3 para ouvir<br \/>\nessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A proposi\u00e7\u00e3o do viajante foi aceita pois por mim e por meus companheiros<br \/>\ncom o mais vivo prazer. De feito, quem n\u00e3o gostar\u00e1, ao descair<br \/>\nde uma noite pura e silenciosa, em um apraz\u00edvel e tranq\u00fcilo pouso<br \/>\nem meio das solid\u00f5es, recostado pregui\u00e7osamente em uma rede a<br \/>\nfumar um bom cigarro depois de ter saboreado uma x\u00edcara de caf\u00e9,<br \/>\nquem n\u00e3o gostar\u00e1 de escutar a narra\u00e7\u00e3o de uma lenda<br \/>\npopular? O sol j\u00e1 tinha desaparecido inteiramente do horizonte; sombra,<br \/>\nfresquid\u00e3o e melancolia desciam sobre a terra no manto cinzento do crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>O nosso jantar estava pronto; improvisou-se a mesa sobre algumas canastras reunidas,<br \/>\nem torno das quais cada um acomodou-se do melhor modo que p\u00f4de, e serviu-se<br \/>\no jantar, que consistia no infal\u00edvel e patriarcal feij\u00e3o com toucinho,<br \/>\nling\u00fci\u00e7as assadas, arroz e outras coisas de que j\u00e1 me n\u00e3o<br \/>\nlembro, regando-se tudo com um c\u00e1lix de aguardente de cana, que a natureza<br \/>\nparece ter criado de prop\u00f3sito nesses lugares para cortar os maus efeitos<br \/>\ndesses alimentos pesados e gordurosos. Por fim tomou-se o caf\u00e9, n\u00e3o<br \/>\nessa tintura negra e detest\u00e1vel que se serve por a\u00ed nesses hot\u00e9is<br \/>\ne hospedarias com o nome de caf\u00e9, mas o verdadeiro caf\u00e9 arom\u00e1tico<br \/>\ne bals\u00e2mico, tal como se sabe preparar em Minas, e cujos deliciosos vapores<br \/>\naquecem o c\u00e9rebro e expandem t\u00e3o suavemente o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfim, estando j\u00e1 tudo arranjado no rancho, assentamo-nos em nossas redes<br \/>\naguardando a narra\u00e7\u00e3o que o romeiro do Muqu\u00e9m nos prometera.<br \/>\nTudo foi sil\u00eancio imediatamente; cessaram as vozerias e toques de violas<br \/>\ndos camaradas, e at\u00e9 os c\u00e3es, deitados ao p\u00e9 do fogo estendendo<br \/>\no focinho por sobre as patas encruzadas, pareciam escutar com religiosa aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nas palavras do narrador.<\/p>\n<p>O nosso romeiro era natural dessa risonha e pitoresca regi\u00e3o onde tem<br \/>\no seu ber\u00e7o o majestoso e opulento Jequitinhonha, que rola suas \u00e1guas<br \/>\npor sobre rubis e diamantes, dessas donosas campinas caprichosamente acidentadas,<br \/>\ne cortadas de cristalinos ribeir\u00f5es, a cujos habitantes o c\u00e9u<br \/>\nentornou no esp\u00edrito as centelhas do engenho e da inspira\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo alastrou-lhes o solo de brilhantes e preciosas pedrarias. Poderia ter trinta<br \/>\ne tantos anos; era de imagina\u00e7\u00e3o viva, intelig\u00eancia clara,<br \/>\ne sua linguagem e maneiras revelavam um esp\u00edrito cultivado e fina educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos olhos e na boca tinha not\u00e1vel express\u00e3o de bondade e franqueza;<br \/>\nsua voz era de um timbre claro e sonoro. Nada pois faltava ao nosso narrador<br \/>\npara prender todas as aten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como o romeiro de Muqu\u00e9m tinha de seguir sua viagem por alguns dias na<br \/>\nmesma dire\u00e7\u00e3o que n\u00f3s lev\u00e1vamos, durante quatro<br \/>\nnoites entreteve-nos ele os ser\u00f5es do pouso com a narra\u00e7\u00e3o<br \/>\nda hist\u00f3ria que vamos reproduzir, e que por essa raz\u00e3o dividiremos<br \/>\nem quatro pousos.<\/p>\n<h2>POUSO PRIMEIRO O CRIME<\/h2>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I &#8211; O VALENT\u00c3O<\/h2>\n<p>Na cidade de Goi\u00e1s, antigamente Vila Boa, existia, h\u00e1 de haver<br \/>\nmais de um s\u00e9culo, um mo\u00e7o que por suas turbul\u00eancias e<br \/>\nesp\u00edrito de valentia tinha adquirido a mais estrondosa nomeada por<br \/>\ntodas aquelas paragens.<\/p>\n<p>Era filho de pais abastados e de boa fam\u00edlia; por\u00e9m educado \u00e0<br \/>\nlarga, abandonado desde a inf\u00e2ncia a si mesmo, sempre em meio de m\u00e1s<br \/>\ncompanhias, dotado al\u00e9m de tudo de \u00edndole inquieta e fogosa, este<br \/>\nrapaz, que poderia ser um homem de bem e \u00fatil \u00e0 sociedade, se<br \/>\numa educa\u00e7\u00e3o regular tivesse dado salutar dire\u00e7\u00e3o<br \/>\naos instintos de sua natureza, foi-se tornando um valent\u00e3o famoso, talhado<br \/>\na molde para as gal\u00e9s ou para o pat\u00edbulo.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, que assim se chamava, aplicou-se com ardor desde crian\u00e7a<br \/>\nao manejo de armas de toda a qualidade, a domar animais bravos, a ca\u00e7ar,<br \/>\na nadar, enfim a toda sorte de exerc\u00edcios do corpo os mais rudes e perigosos.<\/p>\n<p>E de feito neste ponto sua educa\u00e7\u00e3o foi completa; aos vinte anos<br \/>\nde idade, n\u00e3o havia em toda capitania quem com mais destreza esgrimisse<br \/>\numa chavasca, quem tivesse olho mais certeiro para uma pontaria, quem melhor<br \/>\nse segurasse nos arreios, arg\u00fcentando os corcovos do burro o mais xucro,<br \/>\ne quanto ao nadar, s\u00f3 poderia competir com ele a lontra, ou a capivara.<\/p>\n<p>Era tamb\u00e9m agil\u00edssimo no jogo da faca; com os p\u00e9s atados<br \/>\nbem juntos e com uma faca em punho desafiava a qualquer, e com tal destreza<br \/>\nse defendia que nem assim o podiam tocar.<\/p>\n<p>Era tamb\u00e9m h\u00e1bil em manejar as armas dos \u00edndios, e sabia<br \/>\natirar a flecha como o mais destro dos Caiap\u00f3s ou dos Chavantes. Tra\u00e7ava<br \/>\nno ch\u00e3o um c\u00edrculo de dois p\u00e9s de di\u00e2metro quando<br \/>\nmuito, entesava o arco, e mandava \u00e0s nuvens uma flecha; se o ar estava<br \/>\ntranq\u00fcilo vinha ela cravar-se infalivelmente dentro daquele c\u00edrculo.<br \/>\nCausar-lhe-ia riso a fa\u00e7anha desse campon\u00eas da Su\u00ed\u00e7a,<br \/>\ndo qual se conta que por ordem de um tirano teve de atravessar com uma flecha<br \/>\numa ma\u00e7\u00e3 colocada sobre a cabe\u00e7a de seu filho; Gon\u00e7alo<br \/>\nteria atravessado um anel.<\/p>\n<p>Mas em vez de p\u00f4r ao servi\u00e7o da p\u00e1tria e da liberdade sua<br \/>\ngrande for\u00e7a e valentia, como aquele her\u00f3i, Gon\u00e7alo, \u00e1spero<br \/>\ne turbulento por natureza e por mania, atirou-se em corpo e alma na carreira<br \/>\nda devassid\u00e3o e tornouse um completo vadio, um famoso desordeiro.<\/p>\n<p>Em todos os maus lugares, onde quer que houvesse uma orgia, um batuque, uma<br \/>\nalgazarra qualquer, podiase jurar que l\u00e1 se achava Gon\u00e7alo puxando<br \/>\nbarulho, provocando desordens, s\u00f3 para ter ocasi\u00e3o de ostentar<br \/>\nsua bravura e fazer sentir a algum desgra\u00e7ado o peso de seu bra\u00e7o-de-ferro.<br \/>\nNisto consistia todo o seu orgulho, toda a sua gl\u00f3ria. Quando em Goi\u00e1s<br \/>\naparecia algum desses valent\u00f5es afamados, com um desses apelidos extravagantes<br \/>\nque por si s\u00f3s fazem tremer, como Veneno, Jacar\u00e9, Tiracouro, Cangu\u00e7u,<br \/>\netc., bem barbudo, vestido de couro, armado at\u00e9 os dentes, l\u00e1<br \/>\nia Gon\u00e7alo procur\u00e1-lo e n\u00e3o sossegava enquanto n\u00e3o<br \/>\nachasse ocasi\u00e3o de quebrar-lhe a proa.<\/p>\n<p>Entretanto esse mo\u00e7o n\u00e3o era mau por natureza; tinha no fundo<br \/>\nexcelentes qualidades e generosos instintos de cora\u00e7\u00e3o, que teriam<br \/>\nfeito dele um homem precioso, se n\u00e3o fosse a sua m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a diab\u00f3lica mania de querer passar pelo maior valent\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Ainda para maior desgra\u00e7a Gon\u00e7alo, antes de chegar aos vinte anos<br \/>\nde idade, tinha perdido pai e m\u00e3e.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o senhor absoluto de suas a\u00e7\u00f5es e de uma tal<br \/>\nou qual fortuna, n\u00e3o encontrou mais paradeiro a seus desvarios e paix\u00f5es<br \/>\ndesordenadas.<\/p>\n<p>Um preto velho, famoso feiticeiro, respeitado e temido pelo vulgo, lhe tinha<br \/>\ndado certa mandinga ou caborje, amuleto tem\u00edvel e milagroso, que o<br \/>\npreto inculcava como um preservativo infal\u00edvel contra balas, contra<br \/>\nraios, contra cobras e contra toda e qualquer esp\u00e9cie de perigos.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, supersticioso como todo o homem ignorante, acreditava piamente<br \/>\nem todas essas virtudes da mandinga, e a trazia cuidadosamente cosida em seu<br \/>\ncintur\u00e3o de couro de lontra.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo trazia tamb\u00e9m ao pesco\u00e7o outro objeto de natureza<br \/>\ninteiramente diversa; era um rico relic\u00e1rio de ouro com uma imagem de<br \/>\nN. Sr.\u00aa da Abadia, que sua m\u00e3e lhe dera em seu leito de morte recomendando<br \/>\ne aconselhando que tivesse por aquela imagem particular devo\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne que invocasse sempre o seu patroc\u00ednio em todos os trabalhos e perigos<br \/>\nda vida. Com efeito Gon\u00e7alo tinha a mais viva f\u00e9 naquela santa<br \/>\nimagem, e nunca em dias de sua vida deixou de beij\u00e1-la com fervorosa<br \/>\ndevo\u00e7\u00e3o ao deitar-se e ao levantar-se da cama depois de ter rezado<br \/>\numa ave-maria. Assim todas as vezes que se achava em apertos, com uma das m\u00e3os<br \/>\napalpava o cintur\u00e3o, em que trazia o talism\u00e3 da supersti\u00e7\u00e3o<br \/>\nafricana, e com a outra levava aos l\u00e1bios o relic\u00e1rio, confundindo<br \/>\ndesta maneira em sua tosca imagina\u00e7\u00e3o o culto da m\u00e3e de<br \/>\nDeus com uma grosseira feiti\u00e7aria.<\/p>\n<p>Apesar disso n\u00e3o se passava um s\u00f3 dia em que Gon\u00e7alo n\u00e3o<br \/>\nfizesse provar a algum pobre crist\u00e3o a for\u00e7a de seu bra\u00e7o<br \/>\nrude e vigoroso. Cabe\u00e7as e bra\u00e7os quebrados, narizes esmurrados,<br \/>\ncaras esbofeteadas, costas derreadas, eram fa\u00e7anhas que todos os dias<br \/>\naumentavam a fama e terror de seu nome.<\/p>\n<p>Zombava da justi\u00e7a, que naquele tempo e naquelas paragens parece que<br \/>\nnenhuma for\u00e7a tinha.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo muitas vezes dispersou e espancou as mil\u00edcias encarregadas<br \/>\nde prend\u00ea-lo por ocasi\u00e3o de alguma das suas falcatruas.<\/p>\n<p>Ele as espalhava a pontap\u00e9s, como quem arreda com a ponta do p\u00e9<br \/>\num trope\u00e7o que encontra em seu caminho.<\/p>\n<p>Demais, Gon\u00e7alo tinha por si grande n\u00famero de parceiros, vadios<br \/>\ne bandidos como ele, que o temiam e respeitavam, e com os quais contava em ocasi\u00e3o<br \/>\nde aperto. Era uma malta de rapazes ociosos e devassos, da qual ele por sua<br \/>\nsuperioridade em for\u00e7as e destreza e por sua riqueza e generosidade era<br \/>\no chefe natural.<\/p>\n<p>Posto que temido como uma on\u00e7a e respeitado entre seus camaradas pela<br \/>\nsua valentia, Gon\u00e7alo n\u00e3o deixava de ser estimado, e em qualquer<br \/>\nfolguedo a sua presen\u00e7a era indispens\u00e1vel, pois era o companheiro<br \/>\nmais alegre e folgaz\u00e3o que se conhecia. Ningu\u00e9m com mais primor<br \/>\nsabia pontear uma viola, cantar modinhas e lundus ou sapatear com mais desgarro<br \/>\ne desenvoltura em uma sala de batuque. Gostava de mo\u00e7as, e com tais prendas<br \/>\ne uma bonita figura, bem se v\u00ea quanto devia ser querido delas.<\/p>\n<p>Era ele pois parceiro infal\u00edvel em todas as festas, batuques e partidas<br \/>\nde prazer, quaisquer que fossem.<\/p>\n<p>\u00c0 for\u00e7a de ser temido e respeitado, pois ningu\u00e9m mais ousava<br \/>\nexperimentar as for\u00e7as de sua m\u00e3o-de-ferro, a vida de Gon\u00e7alo<br \/>\nia-se por fim mon\u00f3tona e sem acidentes, com o que andava ele mui desconsolado<br \/>\ne aborrecido.<\/p>\n<p>Essa vida tranq\u00fcila, que ia passando, sem achar ocasi\u00e3o ao menos<br \/>\nde dar uns murros ou uns pontap\u00e9s, o enjoava por tal sorte, que estava<br \/>\nresolvido a ir viajar pelos sert\u00f5es em busca de quanto valent\u00e3o<br \/>\ne fac\u00ednora afamado por a\u00ed houvesse, medir suas for\u00e7as com<br \/>\neles, mat\u00e1-los todos e trazer suas orelhas de mimo ao capit\u00e3o-mor.<br \/>\nO destino por\u00e9m ajeitou as coisas por tal modo, que n\u00e3o foi preciso<br \/>\na Gon\u00e7alo sair de Goi\u00e1s para que fossem completamente satisfeitos<br \/>\nos seus desejos.<\/p>\n<p>Entre os comparsas de Gon\u00e7alo havia um que, al\u00e9m de ser seu particular<br \/>\namigo, era o \u00fanico que ousava rivalizar com ele em for\u00e7a e destreza.<br \/>\nEra um rapaz por nome Reinaldo, robusto e bem-feito, e geralmente estimado por<br \/>\nsua franqueza e lealdade, e que ainda n\u00e3o se tinha deixado inteiramente<br \/>\neivar do esp\u00edrito de desordem e devassid\u00e3o dos seus companheiros.<br \/>\nNos exerc\u00edcios de luta, esgrima e outros era o que dava mais trabalho<br \/>\na Gon\u00e7alo, e por vezes acontecia ficar indecisa a vit\u00f3ria. Como<br \/>\nera ainda muito mo\u00e7o tinha esperan\u00e7a de uma dia igualar, sen\u00e3o<br \/>\nexceder a seu amigo em vigor e agilidade. Os companheiros o aplaudiam e animavam<br \/>\nde prop\u00f3sito para humilhar a Gon\u00e7alo, cujo orgulho interiormente<br \/>\ndesejavam ver abatido. Isto fazia espumar de raiva a Gon\u00e7alo. Nesses<br \/>\nmomentos todo o sentimento de amizade desaparecia de seu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne n\u00e3o poucas vezes suas lutas e exerc\u00edcios se teriam transformado<br \/>\nem cenas de sangue e morte, se n\u00e3o interviessem os amigos de ambos. Gon\u00e7alo<br \/>\ntinha bom cora\u00e7\u00e3o e era excelente amigo, mas prezava acima de<br \/>\ntudo a sua reputa\u00e7\u00e3o de valentia. Esta singular mania encheulhe<br \/>\nde trabalhos e infort\u00fanios o caminho da vida.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II O BATUQUE<\/h2>\n<p>Era um domingo. Por uma bela noite de luar, um desses batuques animados e<br \/>\nestrondosos, que s\u00e3o t\u00e3o comuns nas povoa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo sert\u00e3o, fazia retroar um dos mais retirados e silenciosos bairros<br \/>\nde Vila Boa. O ch\u00e3o tremia aos fren\u00e9ticos sapateados dos dan\u00e7adores;<br \/>\no rumor das violas, dos pandeiros, dos adufos, as palmas compassadas, as cantigas<br \/>\nesgueladas retumbavam ao longe das margens do Rio Vermelho, e iam perder-se<br \/>\nem sons confusos pelas quebradas das montanhas vizinhas.<\/p>\n<p>Todo esse rumor e vozerias partiam de uma casa t\u00e9rrea, por\u00e9m espa\u00e7osa,<br \/>\npropriedade de mestre Mateus, velho caboclo, ferreiro de nomeada, o qual nessa<br \/>\nnoite reunia em sua casa a mais luzida rapaziada da vila e da ro\u00e7a, e<br \/>\nas mais bonitas raparigas do lugar, a fim de festejar com batuque e folgan\u00e7a<br \/>\nos anos de uma de suas filhas, para o que tinha obtido licen\u00e7a expressa<br \/>\ndo juiz ordin\u00e1rio. Mestre Mateus era um bom velho, de costumes pac\u00edficos,<br \/>\nbenquisto, alegre e amigo de folgar. Nada havia pois de recear de um tal folguedo,<br \/>\nsendo feito em sua casa, que nunca foi teatro de desordens.<\/p>\n<p>Em uma grande sala alumiada por algumas candeias de ferro espetadas nas paredes,<br \/>\ne cuja mob\u00edlia consistia em bancos, tamboretes, caixas, catres e cepos<br \/>\nsemeados em desordens em roda da sala, estava a grande roda dos dan\u00e7adores.<\/p>\n<p>Eram guapos rapag\u00f5es em trajos domingueiros, por\u00e9m muito \u00e0<br \/>\nfresca em raz\u00e3o do imenso calor que faz naquela terra, uns em mangas<br \/>\nde camisa, outros descal\u00e7os, por\u00e9m todos de chap\u00e9u na cabe\u00e7a,<br \/>\ncigarros na boca ou na orelha, e uma comprida faca na cintura.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s raparigas, como sempre se nota nesses folguedos, havia grande<br \/>\nvariedade de cores e de figuras.<\/p>\n<p>Ao par de uma branca de longos cabelos castanhos ou louros sapateava a crioula<br \/>\nde trunfa encarapinhada; junto de uma Megera desgrenhada e titubiante linda<br \/>\nmulata de olhos \u00famidos e lascivos se bambaleava airosamente enfunando<br \/>\nas amplas saias de seu vestido branco ou cor-de-rosa. Entre muitas papudas,<br \/>\nfeias e desenxabidas viam-se algumas bonitas e roli\u00e7as caboclas, cor<br \/>\nde rola, de cabelo negro e corrido, e de olhos brilhantes como carb\u00fanculos.<br \/>\nBrilhavalhes com profus\u00e3o no pesco\u00e7o o fino ouro extra\u00eddo<br \/>\ndas ricas minas de Goi\u00e1s, em ros\u00e1rios, cord\u00f5es, caixilhos,<br \/>\nmedalhas que lhes ocultavam quase completamente o seio.<\/p>\n<p>A aguardente de cana e outros licores circulavam com abund\u00e2ncia \u00e0<br \/>\ndiscri\u00e7\u00e3o dos convivas.<\/p>\n<p>Uns a tomavam simples, ou da lisa, conforme a express\u00e3o do pa\u00eds;<br \/>\noutros preferiam a assada, isto \u00e9, aguardente queimada com a\u00e7\u00facar.<br \/>\nAs cabe\u00e7as se atordoavam de mais a mais, o batuque fervia cada vez mais<br \/>\nanimado, e os her\u00f3is da festa nessa dan\u00e7a doida e vertiginosa<br \/>\nensopavam as camisas exalando pelos poros toda a cacha\u00e7a que bebiam.<\/p>\n<p>Entre as raparigas, que l\u00e1 se achavam, havia uma que pelo seu garbo e<br \/>\nformosura era o desassossego de todos os cora\u00e7\u00f5es, e o alvo de<br \/>\ntodos os desejos. Era uma moreninha de dezessete a dezoito anos, travessa e<br \/>\nviva como uma lontra, bonita como seria dif\u00edcil encontrar outra igual,<br \/>\nmas louca e leviana como uma crian\u00e7a. Tinha por nome Maria, que a gente<br \/>\nda fam\u00edlia e depois tamb\u00e9m o povo trocou pelo apelido de Maroca,<br \/>\npelo qual era geralmente conhecida.<\/p>\n<p>Todos ardiam por obter um sorriso, um olhar, um pequeno sinal de prefer\u00eancia<br \/>\ndaquela encantadora menina; por\u00e9m nenhum ousava declarar-lhe seus sentimentos,<br \/>\nnem request\u00e1-la mui abertamente, porque todos sabiam que Reinaldo, o<br \/>\namigo de Gon\u00e7alo, que a tinha em casa em sua companhia, a amava extremosamente.<br \/>\nOra Reinaldo, que era respeitado e estimado de todos, era al\u00e9m disso<br \/>\nciumento como um tigre, e tinha a dupla vantagem de ser o amigo e o \u00fanico<br \/>\nrival de Gon\u00e7alo. Eram motivos de sobejo para que ningu\u00e9m nem<br \/>\nde leve ousasse tocar-lhe na corda a mais sens\u00edvel do cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPortanto os convivas a tratavam com certo constrangimento e reserva, o que fazia<br \/>\nque ela tomasse parte pouco ativa na dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Maroca, naturalmente travessa e desenvolta, como um diabrete, n\u00e3o gostava<br \/>\nnada dessa reserva, que n\u00e3o lhe permitia sair sempre ao meio da sala<br \/>\nsapateando doidamente como as outras. Triste e amuada em um canto da sala com<br \/>\nos bra\u00e7os cruzados, via-se-lhe o peito moreno arfar de impaci\u00eancia<br \/>\ne agitar-lhe a alva camisa, que inundada em suor se lhe colava aos seios, deixando<br \/>\nver-lhe quase a nu as puras e voluptuosas formas, pois, como se sabe, por essas<br \/>\nterras de Goi\u00e1s, talvez por causa do excessivo calor, os corpos dos vestidos<br \/>\ndas senhoras n\u00e3o t\u00eam serventia alguma, e as mangas s\u00e3o verdadeiras<br \/>\nmangas perdidas. Corpo e mangas elas os deixam cair sobre a saia em forma de<br \/>\naventais, ficando os seios a ondearem livres e desafogados, encobertos apenas<br \/>\npor alva e transparente camisa, a qual ainda quase sempre \u00e9 entremeada<br \/>\nde crivos e rendas.<\/p>\n<p>A Maroca, como j\u00e1 disse, pouco dan\u00e7ava; mas quando lhe cabia a<br \/>\nvez de sair ao meio da sala, com sua gra\u00e7a sedutora, com seu gentil balanceado<br \/>\nenfeiti\u00e7ava a todo o mundo e arrancava estrondosos bravos a toda a rapaziada.<\/p>\n<p>Reinaldo, que todo se embebia na contempla\u00e7\u00e3o dos encantos da<br \/>\nMaroca, e que a rodeava de seus ardentes olhares, como um jacar\u00e9 vigiando<br \/>\no ninho, n\u00e3o era dos mais alegres da festa.<\/p>\n<p>Todavia o batuque continua, o frenesi recresce, as palmas fervem, e as umbigadas<br \/>\nestouram cada vez com mais furor. Um cavaleiro apeia-se \u00e0 porta da sala<br \/>\ne bate.<\/p>\n<p>Sem tomar a precau\u00e7\u00e3o de perguntar quem \u00e9, mestre Mateus<br \/>\nvai imediatamente abri-la. Um belo rapag\u00e3o de botas com grandes esporas<br \/>\nde prata, chap\u00e9u \u00e0 banda, chicote na m\u00e3o e cigarro na<br \/>\nboca se apresenta no limiar da porta.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! viva! bradou mestre Mateus; seja muito bem-vindo, compadre Gon\u00e7alino;<br \/>\nj\u00e1 me tardava; por onde andou at\u00e9 agora? j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ngosta da casa deste seu velho compadre? \u2014 Entra, Gon\u00e7alo; ainda<br \/>\nvieste a tempo; j\u00e1 estavas nos fazendo falta.<\/p>\n<p>\u2014 O Sr. Gon\u00e7alo anda-se vendendo muito caro; j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 quem o veja; algu\u00e9m o ofendeu nesta casa? \u2014 Gon\u00e7alo,<br \/>\ndeixa de ouvir secas e cumprimentos; anda para c\u00e1; vamos a beber, folgar<br \/>\ne dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Todos estes cumprimentos e outros ainda eram dirigidos quase a um tempo a Gon\u00e7alo,<br \/>\nque n\u00e3o podendo responder a todos assentou de si para si que era mais<br \/>\nc\u00f4modo n\u00e3o responder a nenhum. Mestre Mateus chegou-se para Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s hoje de m\u00e1 cara, meu compadre! o que te aconteceu?&#8230;<br \/>\nN\u00e3o queres tomar alguma coisa? da lisa ou da assada?&#8230; hem? \u2014<br \/>\nVenha seja o que for, e deixem-me que estou cansado.<\/p>\n<p>Dizendo estas palavras, o mo\u00e7o atira-se atabalhodamente no primeiro assento<br \/>\nque encontra fazendo um barulho dos diabos com as esporas, faca, garruchas,<br \/>\ne todo o trem b\u00e9lico que trazia em si, joga o chap\u00e9u para um canto,<br \/>\nencosta-se \u00e0 parede, estende as pernas para o meio da sala com toda sem-cerim\u00f4nia,<br \/>\nboceja e fecha os olhos como quem quer dormir. Mestre Mateus volta da\u00ed<br \/>\na um instante com um copo na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Toma l\u00e1 da queimada, compadre. Oh! com os diabos!&#8230; queres dormir,<br \/>\nhomem? \u2014 Ora vai-te com os diabos, compadre, que me n\u00e3o deixas<br \/>\ndescansar. O que me queres? \u2014 \u00c9 da queimada; n\u00e3o tomas?<br \/>\ne ent\u00e3o fica-se aqui a dormir ou vai-se dan\u00e7ar? Gon\u00e7alo<br \/>\nsacudiu os ombros, e n\u00e3o respondeu, tomou alguns goles da assada, passeou<br \/>\num olhar indiferente pela sala, e de novo inteiri\u00e7ou-se em seu assento<br \/>\na todo o comprimento do corpo com ares de quem estava soberanamente aborrecido.<br \/>\nE de feito desde manh\u00e3 at\u00e9 aquela hora tinha ele rondado a vila<br \/>\ninteira, tinha penetrado em todos os recantos, botequins e casas de jogo, tomado<br \/>\nparte em todos os ajuntamentos onde houvesse algazarra e bebedeira, dito gra\u00e7as<br \/>\npesadas a mais de uma mo\u00e7a bonita mesmo \u00e0s barbas de seus amantes,<br \/>\ne nem assim tinha achado ensejo nem sequer de apalpar o cabo de sua faca, e<br \/>\nisto em pleno domingo, em uma vila de tanto povo, que se tem por valente e pouco<br \/>\nsofredor! Daquele dia em diante Goi\u00e1s n\u00e3o era a seus olhos mais<br \/>\ndo que um covil de aduladores, cobardes e poltr\u00f5es, um curral de carneiros<br \/>\nindigno de ser pisado pelos p\u00e9s de um homem de brio.<\/p>\n<p>Decididamente n\u00e3o podia demorar-se por mais tempo em t\u00e3o miser\u00e1vel<br \/>\npa\u00eds, e estava disposto a abandon\u00e1-lo para sempre.<\/p>\n<p>O compadre Mateus veio arranc\u00e1-lo a essas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Que diabo tens tu hoje, compadre?&#8230; dan\u00e7a-se, ou n\u00e3o<br \/>\ndan\u00e7a-se?&#8230; As mo\u00e7as est\u00e3o ardendo por te verem na roda.<br \/>\nOlha a Calu como est\u00e1 te chamando com aquele olhar derretido!&#8230; A Zezinha<br \/>\ndiz que n\u00e3o dan\u00e7a mais e vaise embora, se continuares dessa maneira;<br \/>\na Maroca por te ver assim embezerrado est\u00e1 com medo que queiras fazer<br \/>\nalgumas das tuas, e j\u00e1 foi ver o capote para escapulir-se. Ah! compadre,<br \/>\nisto n\u00e3o est\u00e1 bem; voc\u00ea, que \u00e9 sempre o melhor companheiro<br \/>\nde folgan\u00e7a, h\u00e1 de ser hoje o nosso desmancha-prazeres! Oh! bravo!&#8230;<br \/>\n\u00e9 a Maroca que sai a campo! \u00e9 a rainha da festa. Olha, compadre,<br \/>\ncomo est\u00e1 linda aquela feiticeirinha! Bravo disso! bravo, Maroca! E a<br \/>\nMaroca, depois de ter feito os mais galantes e graciosos requebros sapateando<br \/>\npela sala, girou como um corrupio sobre os tal\u00f5es, abaixou-se rapidamente<br \/>\nrente ao ch\u00e3o, deixando ver somente entre os tufos de suas alvas saias<br \/>\nenfunadas os bra\u00e7os e o rostinho cor de jambo, como uma rolinha deitada<br \/>\nem ninho de algod\u00e3o batido.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! brav\u00edssimo! bradou Gon\u00e7alo levantando-se de um<br \/>\nsalto, que retiniu com estrondo por toda a sala.<\/p>\n<p>Depois continuou baixo voltando-se para mestre Mateus: \u2014 Agora sim, compadre,<br \/>\nsou da festa; a Maroca est\u00e1 a\u00ed, vai tudo bem. E o Reinaldo, onde<br \/>\nest\u00e1 ele? n\u00e3o veio?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o enxergas!&#8230; Olha, l\u00e1 est\u00e1 ele naquele canto,<br \/>\ne por sinal que est\u00e1 hoje triste e de viseira fechada, n\u00e3o sei<br \/>\npor qu\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Bem! l\u00e1 o vejo, disse Gon\u00e7alo, em cujos olhos reluzia<br \/>\num prazer sat\u00e2nico, e continuou resmungando entre si: \u2014 Bem! muito<br \/>\nbem! aqui sim! tenho uma linda menina a quem posso fazer a corte, e ao lado<br \/>\ndela um valent\u00e3o de primeira ordem a quem farei abaixar o topete. Ah!<br \/>\nReinaldinho, meu amigo, eis aqui uma bela ocasi\u00e3o de mostrar, sem ser<br \/>\npor brincadeira, qual dos dois \u00e9 mais valente, o tigre ou a on\u00e7a,<br \/>\ne isto sem quebra de nossa amizade; para teu ensino quebrar-te-ei bem as costelas<br \/>\ndiante de toda esta gente, e nem por isso deixaremos de continuar a ser bons<br \/>\namigos como dantes. N\u00e3o ser\u00e1s o primeiro amigo a quem dou uma<br \/>\ndestas proveitosas li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pense que estas palavras, que Gon\u00e7alo murmurava consigo,<br \/>\neram um esc\u00e1rnio feroz, um sarcasmo filho do \u00f3dio; n\u00e3o,<br \/>\nelas eram a express\u00e3o sincera de seus sentimentos. Ele queria bem a Reinaldo,<br \/>\ne seria capaz de lan\u00e7ar-se por entre o ferro e o fogo para defend\u00ea-lo;<br \/>\nmas o que n\u00e3o podia levar a bem \u00e9 que este tivesse a louca pretens\u00e3o<br \/>\nde rivalizar com ele em valentia; por isso suspirava sinceramente por uma ocasi\u00e3o<br \/>\nde dar-lhe uma sova tal, que lhe desvanecesse de uma vez para sempre suas quim\u00e9ricas<br \/>\naspira\u00e7\u00f5es, e que enfim conhecendo Reinaldo o seu lugar, n\u00e3o<br \/>\nhouvesse mais motivo de desaven\u00e7a entre eles. Qu\u00e3o mal conhecia<br \/>\nele a esse amigo, medindo-o pela mesma bitola dos outros seus camaradas.<\/p>\n<p>A rapariga, que nesse momento dan\u00e7ava, vendo Gon\u00e7alo j\u00e1<br \/>\nem p\u00e9, dirigiu-se para ele e o tirou para o meio da sala.<\/p>\n<p>\u2014 Sou da\u00ed! bradou ele com voz de atordoar.<\/p>\n<p>Ganhou de um salto o meio da sala, e fazendo retinir suas grandes esporas depois<br \/>\nde ter feito em roda de toda a sala um fren\u00e9tico sapateado, passando<br \/>\nrevista a todos aqueles rostos, estacou em frente da Maroca, e deitando bra\u00e7os<br \/>\ne cabe\u00e7a para tr\u00e1s exclamou: \u2014 Ah! Maroca, meu amorzinho,<br \/>\ncomo est\u00e1s encantadora! agora \u00e9 contigo, minha rola; sai do ninho,<br \/>\nfeiticeira! A Maroca n\u00e3o se enfadou com o gracejo, sorriu-se e deixando-se<br \/>\narrebatar no rodopio da dan\u00e7a vertiginosa brilhou com a faceirice e gra\u00e7a<br \/>\ndo costume.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o Gon\u00e7alo e Maroca estavam sempre no meio da roda; eram<br \/>\no rei e a rainha da festa. As mo\u00e7as \u00e0 porfia tiravam Gon\u00e7alo<br \/>\npara o meio da roda; mas o endiabrado rapaz com o maior esc\u00e2ndalo e do<br \/>\nmundo o mais inconveniente \u2013 se \u00e9 que pode haver esc\u00e2ndalo<br \/>\ne inconveni\u00eancia em um batuque \u2013, teimava em n\u00e3o se dirigir<br \/>\nsen\u00e3o \u00e0 mimosa e gentil Maroca, como se s\u00f3 ela dan\u00e7asse<br \/>\nnaquela sala. Esta por sua parte n\u00e3o se mostrava enfadada, antes parecia<br \/>\nvaidosa com aquela prefer\u00eancia, e cada vez mais requintava em meneios<br \/>\ne requebros sedutores.<\/p>\n<p>Reinaldo, por\u00e9m, que se encostava a um canto para ocultar o furioso ci\u00fame<br \/>\nque por dentro lhe lavrava o cora\u00e7\u00e3o, rangia os dentes e mordia<br \/>\nos l\u00e1bios observando com olhos turvos e chamejantes todos os movimentos<br \/>\nde sua amante e de Gon\u00e7alo. Este, se bem dan\u00e7ava, melhor falava<br \/>\ngritando uma algaravia infernal, chasqueando e dirigindo \u00e0 Maroca os<br \/>\nmais atrevidos gracejos, que eram como setas envenenadas que iam varar o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo ciumento Reinaldo.<\/p>\n<p>Se antes da chegada de Gon\u00e7alo o batuque corria animado e caloroso, agora<br \/>\nfervia como as caldeiras de Satan\u00e1s.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo por fim de contas, \u00e0 for\u00e7a de dirigir \u00e0<br \/>\nfaceira menina gra\u00e7as e galanteios, que n\u00e3o eram mal acolhidos,<br \/>\nfoi-se deixando tomar de um verdadeiro amor por ela, ou pelo menos de um vivo<br \/>\ndesejo de a possuir.<\/p>\n<p>Ele, que a princ\u00edpio s\u00f3 a procurava para provocar um ensejo de<br \/>\ntravar-se de raz\u00f5es com Reinaldo e mostrar em p\u00fablico e raso sua<br \/>\nsuperioridade moendo-lhe os ossos ou quebrando-lhe a cara, agora fascinado pelos<br \/>\nencantos daquela beleza perigosa, seria capaz de sangr\u00e1-lo ali sem compaix\u00e3o,<br \/>\nse se atrevesse a disputar-lha.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m aquela bandoleira, seduzida a seu turno pelos requebros do<br \/>\nguapo mocet\u00e3o, que era o alvo dos desejos de todas aquelas filhas do<br \/>\nbordel, nem olhava para Reinaldo, que com o inferno no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeixara a dan\u00e7a, e em p\u00e9 junto a uma candeia fincada na parede<br \/>\napertava com tremor convulsivo o cabo da larga faca, com que vagarosamente<br \/>\npicava fumo para o cigarro, relampeando de quando em quando olhares de fogo<br \/>\nora sobre um, ora sobre outra, e ardendo por ver o fim daquela para ele odiosa<br \/>\norgia.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>CAP\u00cdTULO III &#8211; DITO E FEITO<\/h2>\n<p>Enfim os dan\u00e7antes, j\u00e1 esbaforidos e estafados dos pulos e<br \/>\nsapateados daquela dan\u00e7a doidejante, assentaram de tomar algum descanso.<br \/>\nCalaram-se as violas e os adufos, e os convivas se dispersaram pelas diversas<br \/>\nacomoda\u00e7\u00f5es da casa a tomar licores e refrescos a fim de se<br \/>\nhabilitarem para nova refrega.<\/p>\n<p>Reinaldo respirou. Enrolou o seu cigarro, acendeu-o, e dirigindo-se para<br \/>\na Maroca, que pela for\u00e7a do costume viera se assentar ao p\u00e9<br \/>\ndele, disse-lhe com ar sombrio: \u2014 Maroca, vamo-nos embora; este folguedo<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 com jeito de acabar bem; j\u00e1 \u00e9 tarde,<br \/>\ne antes que aconte\u00e7a alguma desgra\u00e7a, vamos para casa.<\/p>\n<p>\u2014 Pois j\u00e1? t\u00e3o cedo!&#8230; seria melhor ent\u00e3o que<br \/>\nn\u00e3o tiv\u00e9ssemos vindo c\u00e1, respondeu a menina mostrando-se<br \/>\ncontrariada e sem procurar disfar\u00e7ar o seu descontentamento. Mestre<br \/>\nMateus h\u00e1 de se enfadar se sairmos j\u00e1; ainda \u00e9 muito<br \/>\ncedo; logo mais iremos.<\/p>\n<p>\u2014 Hum!&#8230; rugiu Reinaldo do fundo do peito. Estou hoje te desconhecendo,<br \/>\nminha amiga; quem virou-te assim essa cabecinha?&#8230; seria esse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora deixe-se de tolices, volve ela interrompendo-o com azedume; isso<br \/>\nn\u00e3o tem prop\u00f3sito nenhum. Se voc\u00ea n\u00e3o gosta destes<br \/>\ndivertimentos, devia deixar-se ficar em casa, que eu por mim bem podia vir<br \/>\nsozinha.<\/p>\n<p>Levanta-se dando um muxoxo, volta-lhe as costas e vai-se retirando com certo<br \/>\nar de desd\u00e9m. Estas palavras e este gesto doeram no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pobre rapaz, como se um ferro agudo o tivesse atravessado. Brandiu convulsivamente<br \/>\na faca, que ainda tinha na m\u00e3o, e ia crav\u00e1-la&#8230; na p\u00e9rfida<br \/>\nou em si mesmo! vacilou, conteve-se, escondeu sua amargura no fundo da alma,<br \/>\ne tomando brandamente a Maroca pelo bra\u00e7o, chamou-a a si com carinho.<\/p>\n<p>\u2014 Minha querida, lhe diz com voz meiga e suplicante, n\u00e3o sei<br \/>\nque mal te fiz eu para assim me tratares t\u00e3o desabridamente, e me despeda\u00e7ares<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o com tanta crueldade. Acaso n\u00e3o me queres mais?&#8230;<br \/>\nse assim \u00e9, se \u00e9s t\u00e3o leviana e bandoleira, que foi bastante<br \/>\numa s\u00f3 noite, um s\u00f3 momento para riscar do teu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\no meu nome e o meu amor, eu te pe\u00e7o por piedade, fala, n\u00e3o me<br \/>\nencubras nada. Antes assim, do que viver iludido. Quero ouvir da tua pr\u00f3pria<br \/>\nboca a senten\u00e7a de minha condena\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 este<br \/>\no \u00faltimo favor que te pe\u00e7o, e te deixarei livre para ir bem<br \/>\nlonge de teus olhos morrer de m\u00e1goa e desespera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No olhar e na voz do mancebo pintava-se uma dor t\u00e3o sincera e t\u00e3o<br \/>\nprofunda, que Maroca, apesar de ter um cora\u00e7\u00e3o leviano e pouco<br \/>\nsens\u00edvel, n\u00e3o deixou de enternecer-se.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te enfades comigo, meu Reinaldo, replicou com meiguice;<br \/>\nperdoa-me, se te agravei: eu sou uma estouvada, e j\u00e1 nem sei o que<br \/>\nte disse. Realmente eu estava com vontade de ficar por mais algum tempo; mas<br \/>\nse isso te incomoda, n\u00e3o ficarei mais nem um momento, e estou pronta<br \/>\ndesde j\u00e1 para acompanhar-te.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, meu amor, n\u00e3o quero estorvar-te em teus divertimentos,<br \/>\ndiz Reinaldo j\u00e1 mais tranq\u00fcilizado; dan\u00e7a e folga, quanto<br \/>\nfor do teu agrado. Mas por piedade, Maroca, mais reserva para com esse rapaz<br \/>\n, que se diz meu amigo, e que tanto te persegue com suas estouvadas galantarias:<br \/>\nele parece que nos quer perder a todos tr\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te d\u00ea isso cuidado, disse ela; e dando um saltinho<br \/>\ndeu um beijo e uma bofetadinha na face de Reinaldo, e leve como uma pena desapareceu<br \/>\npelo interior da casa cantarolando e tocando castanhola nos dedos.<\/p>\n<p>Esta cena n\u00e3o escapou ao matreiro Gon\u00e7alo, que estava na outra<br \/>\nextremidade da sala rodeado de comparsas, estendido em um banco a todo o comprimento,<br \/>\ntomando da assada, e vomitando chala\u00e7as e palavradas de arrepiar os<br \/>\ncabelos. Os ouvintes o aplaudiam vivamente e com as mais gostosas e retumbantes<br \/>\ngargalhadas.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! o bicho est\u00e1 ferido, disse l\u00e1 consigo Gon\u00e7alo<br \/>\nvendo o ar sombrio e misterioso de Reinaldo, que se sentara pensativo no tamborete<br \/>\nabandonado por Maroca, e levantando-se foi acender o cigarro na candeia que<br \/>\nestava junto ao seu amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Que diabo tens tu hoje, meu Reinaldinho, disse ele depois de ter<br \/>\nacendido o cigarro, que est\u00e1s de cara t\u00e3o fechada e trombudo<br \/>\ncomo uma anta? Quem te ofendeu, amigo? Fala, que quero j\u00e1 desagravar-te.<\/p>\n<p>\u2014 Gon\u00e7alo, nem sempre a gente est\u00e1 para brincadeiras.<br \/>\nSe \u00e9s deveras meu amigo, n\u00e3o estejas a provocarme com esses<br \/>\ngracejos de mau gosto; olha que h\u00e1 certas coisas, certos sentimentos,<br \/>\ncom que n\u00e3o se pode brincar sem perigo.<\/p>\n<p>\u2014 Perigo! algum dia me viste recuar diante de perigo algum, meu crian\u00e7ola?<br \/>\ndiz antes que j\u00e1 te pesa a cabe\u00e7a antes de tempo, e por isso<br \/>\nandas assim focinhudo e cabisbaixo.<\/p>\n<p>\u2014 Gon\u00e7alo, tu est\u00e1s de prop\u00f3sito a querer queimar-me<br \/>\no sangue!&#8230; se continuas, est\u00e3o rotos os la\u00e7os de nossa amizade<br \/>\ndesde este momento, e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E o qu\u00ea?&#8230; cala-te, meu tolo; n\u00e3o te amofines por<br \/>\nt\u00e3o pouca coisa. Aquela menina, por quem morres, se eu o quiser, posso<br \/>\nlev\u00e1-la hoje mesmo na minha garupa para onde me aprouver.<\/p>\n<p>\u2014 Disso n\u00e3o \u00e9s tu capaz, Gon\u00e7alo; eu juro por<br \/>\nminha alma; antes que lhe ponhas a m\u00e3o, cair\u00e1s morto a meus<br \/>\np\u00e9s, ou dever\u00e1s passar por cima de meu cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>\u2014 Santo Deus! como est\u00e1 exaltado o homem! Para que fui eu pisar<br \/>\nno rabo do cascavel, que dormia! Perd\u00e3o, meu Reinaldinho, continua<br \/>\nGon\u00e7alo com ironia e em tom de conselho; perd\u00e3o, eu n\u00e3o<br \/>\nte quero ofender; mas aqui entre n\u00f3s, e como amigo, devo declarar-te<br \/>\nque n\u00e3o tens o direito de ser o \u00fanico senhor e possuidor daquela<br \/>\nbonita j\u00f3ia, sen\u00e3o no caso que ela muito de sua livre vontade<br \/>\nqueira continuar a ser tua.<\/p>\n<p>\u2014 Gon\u00e7alo, \u00e9s um vil, um infame traidor! bradou Reinaldo<br \/>\nespumante e l\u00edvido de c\u00f3lera. Nasceste para as gal\u00e9s<br \/>\ne para a forca, e n\u00e3o para viver entre homens, que se prezam e se respeitam.<br \/>\nDesprezo as tuas palavras como vindas de um \u00e9brio; de um sandeu.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo que vejo, replica Gon\u00e7alo com um riso amarelo forcejando<br \/>\npor dissimular seu despeito, pelo que vejo n\u00e3o est\u00e1s disposto<br \/>\na ceder-me por modo nenhum a tua amada. Pois bem, eu a tomarei por for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o a tomar\u00e1s, Gon\u00e7alo; eu te juro.<\/p>\n<p>\u2014 E quem me impedir\u00e1?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu! \u2014 Sai-te da\u00ed, crian\u00e7a; com um pontap\u00e9<br \/>\nte arredarei do meio do caminho.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo pronunciou estas palavras com ar de desprezo e compaix\u00e3o<br \/>\ne voltou as costas a Reinaldo. Este d\u00e1 um pulo de tigre e agarrando<br \/>\na Gon\u00e7alo pelo bra\u00e7o empuxa-o violentamente e brada:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui, Gon\u00e7alo, aqui! se n\u00e3o \u00e9s um fanfarr\u00e3o,<br \/>\num cobarde, h\u00e1s de p\u00f4r em execu\u00e7\u00e3o as tuas amea\u00e7as,<br \/>\ne j\u00e1! Gon\u00e7alo arranca o bra\u00e7o das m\u00e3os de Reinaldo,<br \/>\nde um salto tomando dist\u00e2ncia a tr\u00eas passos, j\u00e1 de faca<br \/>\nal\u00e7ada, grita: \u2014 Arreda-te da\u00ed, atrevido, antes que te<br \/>\nponha o bucho \u00e0 mostra! \u2014 A mim, fanfarr\u00e3o! vem, que eu<br \/>\nn\u00e3o arredarei um dedo; n\u00e3o temo as tuas baz\u00f3fias.<\/p>\n<p>Os dois contendores estavam em dist\u00e2ncia de quatro a cinco passos<br \/>\num do outro; as facas brandidas convulsivamente relampeavam amea\u00e7adoras<br \/>\npor cima de suas cabe\u00e7as, rangiam-lhes os dentes, e nos olhos lhes<br \/>\nfuzilava um lume torvo como as chamas do inferno. Eram como dois cangu\u00e7us<br \/>\nenciumados, que ao se encontrarem arreganham os dentes e rosnam furiosos antes<br \/>\nde se arrojarem um sobre o outro.<\/p>\n<p>O neg\u00f3cio j\u00e1 cheirava a sangue, e aquela festa, come\u00e7ada<br \/>\nna paz e na alegria, estava prestes a ter o mais sanguinolento desfecho.<\/p>\n<p>\u2014 Miseric\u00f3rdia! miseric\u00f3rdia! \u2014 que ser\u00e1<br \/>\nisto! \u2014 Virgem Santa! \u2014 bradava-se de todos os cantos.<\/p>\n<p>Uma turba de homens e mulheres em gritos lan\u00e7am-se afoitamente em<br \/>\nmeio dos dois.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe, deixe esse maluco vir rasgar-me as tripas! vociferava Reinaldo<br \/>\ncomo querendo voar por cima deles e a muito custo o podiam conter.<\/p>\n<p>\u2014 Chega-te, rapaz, rugia Gon\u00e7alo, chega-te para c\u00e1,<br \/>\nque quero aqui mesmo coser-te a facadas, e aliviar-te para sempre desse ci\u00fame<br \/>\ndanado que te ferve no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por alguns momentos durou esta cena sinistra, que teria tido o mais tr\u00e1gico<br \/>\nresultado, se a turba em uma gritaria imensa n\u00e3o se entrepusesse intrepidamente<br \/>\nentre as duas facas, que se agitavam fuzilando por cima daquela multid\u00e3o<br \/>\nde cabe\u00e7as, e j\u00e1 retiniam chocando-se uma na outra; at\u00e9<br \/>\nque a muito custo conseguiu-se que se n\u00e3o travasse a luta.<\/p>\n<p>O sossego restabeleceu-se finalmente; mas que sossego triste e desanimado!<br \/>\nque contraste entre o festival e alegre bul\u00edcio e algazarra que ainda<br \/>\nh\u00e1 pouco reinavam naquela reuni\u00e3o e esse surdo e sinistro murm\u00fario<br \/>\nque agora rumorejava pelos \u00e2ngulos da sala. Os convivas tinham perdido<br \/>\ntoda a vontade de rir e divertir-se, e andavam em grupos pelos cantos conversando<br \/>\nem voz baixa debaixo da impress\u00e3o de um invenc\u00edvel terror, fazendo<br \/>\nas mais temerosas reflex\u00f5es sobre aquele triste incidente.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o mestre Mateus com seu ar bonach\u00e3o e jovial se esfor\u00e7ava<br \/>\npor desvanecer a terr\u00edvel impress\u00e3o que deixara nos \u00e2nimos<br \/>\nde todos aquela temerosa pend\u00eancia; era tudo baldado. Os mais prudentes<br \/>\nou medrosos foram-se pondo ao fresco, e a sala em poucos instantes ficou reduzida<br \/>\na menos de metade dos comparsas.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, minha gente! gritava mestre Mateus, que pasmaceira \u00e9<br \/>\nesta! aquilo foi uma ninharia, e uma travessura de rapazes; daqui a pouco<br \/>\nter\u00e3o esquecido tudo, e estar\u00e3o mais amigos do que dantes. Vamos,<br \/>\nrapaziada! \u00e2nimo! tomem da assada, e vamos com o folguedo acima.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, posto que n\u00e3o deixasse de sentir profundo abalo com<br \/>\naquele conflito com o seu amigo, entendeu que faria um triste papel se continuasse<br \/>\na ficar mudo e amuado; portanto, sopeando o mais que p\u00f4de sua emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsaltou logo na sala com o maior desembara\u00e7o exclamando: \u2014 \u00cah!<br \/>\ncom mil diabos! tens raz\u00e3o, compadre; viva o prazer, leve o diabo a<br \/>\ntristeza, e vamos com a folia por diante. O que sucedeu foi uma bagatela sem<br \/>\nimport\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez, nem ser\u00e1 a \u00faltima,<br \/>\nque se v\u00ea dois homens puxarem faca um contra outro; n\u00f3s n\u00e3o<br \/>\nsomos crian\u00e7as; e se Reinaldo entende que eu o agravei, n\u00e3o<br \/>\nfaltar\u00e1 ocasi\u00e3o nem lugar mais oportuno em que possa desagravar-se:<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 assim, Reinaldo? \u2014 Sem d\u00favida, rosnou Reinaldo<br \/>\ncom voz carregada.<\/p>\n<p>\u2014 Viva a paz! viva a alegria! exclamou mestre Mateus batendo palmas.<br \/>\nFalou quem pode: n\u00e3o h\u00e1 mais motivo de desgosto; toca a folgar.<br \/>\nMas agora, camaradas, caluda sobre este neg\u00f3cio! N\u00e3o quero por<br \/>\nmodo nenhum que se saiba a\u00ed por essas ruas, que em minha casa, onde<br \/>\nnunca houve desordens, e sempre gozou de muito boa fama, puxaram-se facas,<br \/>\ne esteve-se em termos de ver correr sangue. O passado, passado; fa\u00e7a-se<br \/>\nde conta que nada houve e toca a folgar. Ol\u00e1 das violas, vamos com<br \/>\nisto!&#8230; um vai-de-roda bem esquentado! As violas ressoaram, e a dan\u00e7a<br \/>\nrecome\u00e7ou, se bem que ainda um tanto fria e constrangida. Gon\u00e7alo<br \/>\npor\u00e9m dan\u00e7ava, palrava e gritava por todos com a maior frescura<br \/>\ne desembara\u00e7o, como se nada tivesse acontecido.<\/p>\n<p>Com o seu exemplo os outros tamb\u00e9m foram pouco a pouco se animando.<br \/>\nQuanto \u00e0 Maroca, ia tamb\u00e9m gradualmente recuperando toda sua<br \/>\ndesenvoltura natural, e alardeava de novo toda a sua gra\u00e7a e faceirice.<\/p>\n<p>S\u00f3 Reinaldo, triste e taciturno a um canto, n\u00e3o podia dissimular<br \/>\na tremenda tempestade que lhe agitava o esp\u00edrito, e devorava em sil\u00eancio<br \/>\nl\u00e1grimas de raiva e desespera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo pela sua parte ia-se sentindo cada vez mais subjugado pelos<br \/>\nencantos da sedutora menina. Aquela triste pend\u00eancia com um amigo, a<br \/>\nquem gratuitamente ofendera, longe de cont\u00ea-lo em seus desmandos, n\u00e3o<br \/>\nfoi mais que um novo incentivo que lhe fez mais vivamente cobi\u00e7ar aquela<br \/>\nbeleza t\u00e3o ciosamente vigiada por seu amante.<\/p>\n<p>Pela primeira vez em sua vida estava disposto a desenvolver toda sua for\u00e7a<br \/>\nde touro, toda sua bravura de le\u00e3o, toda a sua destreza de on\u00e7a,<br \/>\nn\u00e3o por um mero capricho ou ostenta\u00e7\u00e3o de valentia, mas<br \/>\npara satisfazer uma paix\u00e3o cega, que lhe rebentava na alma com a viol\u00eancia<br \/>\nde um vulc\u00e3o.<\/p>\n<p>Este amor fatal \u2013 se \u00e9 que se pode chamar amor um desejo caprichoso<br \/>\ne brutal \u2013 junto \u00e0 louca mania de querer provar a todos a for\u00e7a<br \/>\ne agilidade de seu bra\u00e7o, extinguiram ao menos naquela noite no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Gon\u00e7alo todo o instinto de lealdade, todo o sentimento de amizade<br \/>\nque ainda votava a Reinaldo.<\/p>\n<p>\u2014 A Maroca hoje h\u00e1 de ser minha, projetou consigo o diab\u00f3lico<br \/>\nrapaz. A princ\u00edpio dissera isto somente para lan\u00e7ar uma luva<br \/>\nde desafio a Reinaldo, com quem ardia por travar-se s\u00e9ria e publicamente;<br \/>\nmas agora era esse o mais ardente desejo de seu cora\u00e7\u00e3o, para<br \/>\ncuja satisfa\u00e7\u00e3o estava disposto a sacrificar tudo. Que viessem<br \/>\nestorv\u00e1-lo Reinaldo ou quem quer que fosse, ou toda aquela turba reunida,<br \/>\nque ele os dispersaria como quem sacode a poeira de suas botas.<\/p>\n<p>A Maroca, ou porque era ainda muito crian\u00e7a, ou por ser de seu natural<br \/>\nleviana e bandoleira e n\u00e3o amar a ningu\u00e9m, foi-se deixando facilmente<br \/>\nseduzir pela galhardia, bravura e talvez mais pela riqueza e liberalidade<br \/>\nde Gon\u00e7alo, que durante a dan\u00e7a lhe introduzira no dedo um rico<br \/>\nanel de brilhantes prometendo-lhe ainda em segredo maiores e mais magn\u00edficos<br \/>\npresentes.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o da Maroca era v\u00e1rio e leve, e portanto facilmente<br \/>\nesvoa\u00e7ou de Reinaldo para Gon\u00e7alo. Este, seguro das boas disposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nda menina, forjou logo o mais atroz e sinistro projeto.<\/p>\n<p>A noite j\u00e1 ia muito avan\u00e7ada; os galos, amiudando cada vez<br \/>\nmais seu canto, anunciavam que estava pr\u00f3ximo o romper do dia.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, consultando o rel\u00f3gio, que trazia preso a uma grossa<br \/>\ncadeia de ouro, diz em voz alta: \u2014 Tr\u00eas horas em ponto, meus caros;<br \/>\npara quem mora a mais de l\u00e9gua de dist\u00e2ncia, j\u00e1 \u00e9<br \/>\ntempo de p\u00f4r-se a caminho.<\/p>\n<p>E imediatamente sem mais cumprimentos, enquanto os outros se entretinham<br \/>\nem dan\u00e7ar, jogar ou conversar, abriu de manso a porta da rua, e desapareceu.<\/p>\n<p>Reinaldo, que n\u00e3o dan\u00e7ava, nem bebia, nem jogava, mas acabrunhado<br \/>\npor uma multid\u00e3o de pungentes e sombrios pensamentos se assentara a<br \/>\num canto, viu com prazer a sa\u00edda de Gon\u00e7alo. Seu peito respirou<br \/>\nmais desafogado com o desaparecimento daquele homem fatal, que se tornava<br \/>\npara ele um pesadelo, um espectro odioso.<\/p>\n<p>Levanta-se e procura com os olhos pela sala a Maroca, a fim de tamb\u00e9m<br \/>\nconvid\u00e1-la a retirar-se; por duas ou tr\u00eas vezes corre com a vista<br \/>\ntoda a extens\u00e3o da sala, e n\u00e3o a v\u00ea nem na roda dos que<br \/>\ndan\u00e7avam, nem assentada em parte alguma: estremeceu, e bateu-lhe o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o de modo estranho.<\/p>\n<p>Depois pensou: \u2014 Decerto est\u00e1 l\u00e1 pelo interior da casa,<br \/>\ne n\u00e3o tardar\u00e1 a aparecer. \u2014 Esperou alguns minutos aplicando<br \/>\no ouvido e embebendo os olhos pelos corredores, pelas alcovas, por todos os<br \/>\ncantos, procurando v\u00ea-la ou ao menos ouvir-lhe a voz; mas debalde.<\/p>\n<p>Esperou ainda na maior ansiedade; j\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 ele, mas<br \/>\nmuitas outras pessoas reparavam e estranhavam a demora da aus\u00eancia de<br \/>\nMaroca.<\/p>\n<p>\u2014 Maroca! Maroca! onde est\u00e1s? gritavam todos uns para aqui,<br \/>\noutros para acol\u00e1; mas ningu\u00e9m acudia de parte alguma.<\/p>\n<p>\u2014 Querem ver que aquela sonsa foi sozinha para casa sem dar parte<br \/>\na ningu\u00e9m; dizia um.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe se a coitada teve algum ataque, e est\u00e1 ca\u00edda<br \/>\na\u00ed por algum canto? opinava outro.<\/p>\n<p>\u2014 Ou est\u00e1 nalgum canto a dormir; pensava um terceiro.<\/p>\n<p>\u2014 Ou eclipsou-se com algu\u00e9m, acrescentava maliciosamente um<br \/>\nquarto.<\/p>\n<p>Enfim todos se puseram em movimento dispostos a revistar e esquadrinhar<br \/>\ntodos os recantos e depend\u00eancias da casa, gritando sempre pelo nome<br \/>\nde Maroca.<\/p>\n<p>\u2014 Maroca est\u00e1 aqui comigo! bradou uma voz retumbante, que partiu<br \/>\ndo lado da rua. Jurei que havia de lev\u00e1-la comigo e assim o cumpro.<br \/>\nQuem quiser, que venha tom\u00e1-la.<\/p>\n<p>E ouviu-se o tropel de um animal, que partia a galope.<\/p>\n<p>Todos ficaram como que petrificados.<\/p>\n<p>Reinaldo, como se um raio o ferisse, caiu p\u00e1lido e frio sobre um<br \/>\nbanco, e ficou por alguns instantes como que aniquilado. Depois levantando-se<br \/>\nbruscamente e arrancando os cabelos com ambas as m\u00e3os, bate furioso<br \/>\ncom o p\u00e9 no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! trai\u00e7\u00e3o! trai\u00e7\u00e3o infame! exclama;<br \/>\nmeu cavalo! quero j\u00e1 e j\u00e1 meu cavalo! E com brusco movimento<br \/>\nabalroando a todos investe para a porta. Em v\u00e3o os companheiros quiseram<br \/>\ndet\u00ealo e apazigu\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Deixem-me, bradou com voz de trov\u00e3o, e partiu a correr como<br \/>\numa flecha para a casa.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV A LOUCA<\/h2>\n<p>No outro dia j\u00e1 o sol andava alto, quando mestre Mateus e seus tresnoitados<br \/>\ncompanheiros da orgia da v\u00e9spera abriram os olhos \u00e0 luz do dia.<br \/>\nA primeira id\u00e9ia que se lhes apresentou ao esp\u00edrito ainda anuviado<br \/>\npelo sono e pelos vapores das liba\u00e7\u00f5es da noite, foi a fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nda v\u00e9spera, a briga terr\u00edvel entre Gon\u00e7alo e Reinaldo,<br \/>\na tremenda e desaforada trai\u00e7\u00e3o de que este fora v\u00edtima.<br \/>\nA princ\u00edpio pensaram que despertavam de um pesadelo, mas bem depressa<br \/>\nca\u00edram em si, lembrando-se que desgra\u00e7adamente era tudo pura<br \/>\nrealidade.<\/p>\n<p>Mestre Mateus saltou da cama resmungando: \u2014 Um!&#8230; estes rapazes!<br \/>\nque doidos! meu Deus! o que ter\u00e3o feito! Atirou ao ombro a jaqueta,<br \/>\np\u00f4s na cabe\u00e7a o seu chap\u00e9u de couro, deitou na boca uma<br \/>\nmasca de fumo, e sem mais perda de tempo, dirigiu-se o mais depressa que p\u00f4de<br \/>\n\u00e0 casa de Reinaldo. A\u00ed n\u00e3o encontrou sen\u00e3o uma<br \/>\nmulher velha, que morava com Reinaldo e lhe tratava da casa. Esta, que tamb\u00e9m<br \/>\nse mostrava aflit\u00edssima, contou-lhe que pela madrugada Reinaldo sozinho<br \/>\ne arquejando de cansa\u00e7o batera \u00e0 porta, arreara o cavalo a toda<br \/>\na pressa sem dizer palavra, por mais que ela lhe perguntasse o que tinha acontecido,<br \/>\no que era feito de Maroca e onde ia \u00e0quelas horas; que resmungando<br \/>\ne praguejando sem a nada responder partira a toda a brida, sem que ela soubesse<br \/>\nque rumo levara.<\/p>\n<p>Esta informa\u00e7\u00e3o foi mais que suficiente para que mestre Mateus<br \/>\ncompreendesse quantas desgra\u00e7as n\u00e3o poderiam resultar, ou n\u00e3o<br \/>\nteriam j\u00e1 resultado daquela desastrada pend\u00eancia, que vinha desacreditar<br \/>\npara todo o sempre a sua casa. Amaldi\u00e7oava a hora em que se lembrou<br \/>\nde fazer semelhante fun\u00e7\u00e3o, e dava aos diabos a Maroca, Gon\u00e7alo<br \/>\ne Reinaldo, que vieram deitar azar em sua casa, onde nunca houvera nem a mais<br \/>\ninsignificante rusga.<\/p>\n<p>Arrependeu-se mil vezes de n\u00e3o ter mandado amarrar aqueles dois malucos,<br \/>\nlogo que come\u00e7aram a brigar, e entreg\u00e1los \u00e0 justi\u00e7a;<br \/>\nteria impedido uma desgra\u00e7a, que j\u00e1 quase tinha como certa e<br \/>\nirremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Contudo o bom do velho sem mais perda de tempo corre \u00e0 casa de alguns<br \/>\ndos parceiros da v\u00e9spera, amigos dos dois rapazes, d\u00e1-lhes conta<br \/>\ndo que acaba de saber e das inquieta\u00e7\u00f5es que tinha no esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Estes tamb\u00e9m tinham acordado com a mesma preocupa\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne apenas viram mestre Mateus, perguntaram-lhe com sofreguid\u00e3o se tinha<br \/>\nnot\u00edcias de Reinaldo, de Gon\u00e7alo e da Maroca.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! se as tenho! e bem tristes. O Reinaldo \u00e9 t\u00e3o doido<br \/>\ncomo o outro. Ontem quando saiu da s\u00facia, foi direto \u00e0 casa,<br \/>\nmontou a cavalo, e voou como uma flecha atr\u00e1s de Gon\u00e7alo e de<br \/>\nMaroca. Agora voc\u00eas, que s\u00e3o seus amigos, o que devem fazer,<br \/>\n\u00e9 irem j\u00e1 e j\u00e1 cada um arrear o seu animal e correrem<br \/>\n\u00e0 fazenda de Gon\u00e7alo; n\u00e3o podiam ter tomado outro rumo.<br \/>\nV\u00e3o ver o que \u00e9 feito daqueles doidos. Depressa! depressa! ah!<br \/>\ne queira Deus que j\u00e1 n\u00e3o seja tarde.<\/p>\n<p>Mestre Mateus era respeitado e estimado dos rapazes, e seus conselhos eram<br \/>\nexecutados \u00e0 risca, como se fossem ordens.<\/p>\n<p>Foi dito e feito. Em menos de meia hora alguns mo\u00e7os, amigos dos<br \/>\ndois, galopavam \u00e0 r\u00e9dea solta caminho da casa de Gon\u00e7alo,<br \/>\nque morava em uma pequena fazenda de sua propriedade a l\u00e9gua e meia<br \/>\nda vila.<\/p>\n<p>Teriam andado cerca de uma l\u00e9gua, quando divisaram a umas quinze<br \/>\nbra\u00e7as ao lado do caminho \u00e0 beira de um pequeno cap\u00e3o<br \/>\numa mulher assentada no ch\u00e3o e encostada ao tronco de uma \u00e1rvore.<br \/>\nCorreram a reconhec\u00ea-la.<\/p>\n<p>Estava ela com a cabe\u00e7a como que pregada ao tronco da \u00e1rvore,<br \/>\ncom ar de idiota, com os olhos muito abertos, parados e obstinadamente fitos<br \/>\nem um cad\u00e1ver todo mutilado e ensang\u00fcentado, que estava estendido<br \/>\ndiante dela. O capim em roda estava todo amassado e ensopado em sangue; o<br \/>\nsol abrasador ardia a pino; uma nuvem de insetos, moscas e maribondos esvoa\u00e7avam<br \/>\nsobre aquele lugar, e mais longe j\u00e1 pairavam alguns urubus atra\u00eddos<br \/>\npelo cheiro da sangueira, que dali se exalava como se fosse um matadouro.<\/p>\n<p>Os rapazes deram um grito de horror, e sentiram os cabelos se entesarem<br \/>\ncomo espetos na cabe\u00e7a, quando na mulher reconheceram a Maroca e no<br \/>\ncad\u00e1ver o desditoso Reinaldo.<\/p>\n<p>A Maroca nem deu f\u00e9 da chegada dos cavaleiros, e conservou-se im\u00f3vel<br \/>\ncomo uma est\u00e1tua, sempre com os olhos desvairados fincados sobre aquele<br \/>\ncorpo ensang\u00fcentado.<\/p>\n<p>Chamaram-na pelo nome, sacudiram-na com for\u00e7a para ver se a arrancavam<br \/>\ndaquele torpor, e se dizia alguma coisa da cena horrorosa que ali se passara.<br \/>\nMas ela apenas olhava para eles como que pasmada, resmungava uns sons inintelig\u00edveis,<br \/>\ne tornava a cravar olhos estatelados sobre o cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>E aquela feiticeira menina, ainda nessa madrugada t\u00e3o linda, t\u00e3o<br \/>\nviva e travessa, agora descabelada, salpicada de sangue, com as fei\u00e7\u00f5es<br \/>\nhorrivelmente transtornadas, parecia um fantasma, e causava horror \u00e0queles<br \/>\nfulminado a alma da infeliz rapariga, que caiu em um estado de idiotismo,<br \/>\ndo qual nada p\u00f4de depois arranc\u00e1-la.<\/p>\n<p>A pobrezinha tinha tamb\u00e9m os vestidos e as m\u00e3os salpicadas<br \/>\nde sangue, e parecia ferida, posto que ligeiramente, em uma ou outra parte<br \/>\ndo corpo. Sem d\u00favida naquele trance horr\u00edvel se lan\u00e7ara<br \/>\nentre os combatentes para os separar e se achara envolvida naquela temerosa<br \/>\nluta.<\/p>\n<p>Os cavaleiros, \u00e0 vista do que observaram, conclu\u00edram que o<br \/>\ncombate tinha sido renhido, furioso e desesperado. O corpo de Reinaldo estava<br \/>\ntodo contuso, cutilado e esfaqueado; na boca e nos dentes, onde espumava um<br \/>\nsangue negro, viam-se farrapos de pano, o que indicava que no \u00faltimo<br \/>\ntrance o infeliz combatera at\u00e9 com os dentes. Tudo enfim revelava que<br \/>\nali se passara uma cena pavorosa, da qual os vest\u00edgios mudos, que existiam,<br \/>\nfalavam mais alto do que toda e qualquer narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Notaram depois os cavaleiros que pelo campo seguia uma batida, a qual ia<br \/>\nsalpicada de um rastilho de sangue e que ia perder-se na estrada; da\u00ed<br \/>\ndepreenderam que Gon\u00e7alo, gravemente ferido na luta, por a\u00ed<br \/>\nse retirara, naturalmente para sua casa. Dois dos companheiros seguiram aquele<br \/>\ntrilho ensang\u00fcentado, a ver se encontravam Gon\u00e7alo vivo ou morto;<br \/>\nseguiram pela estrada at\u00e9 a fazenda do mesmo, mas n\u00e3o o encontraram<br \/>\nl\u00e1. A gente da casa n\u00e3o soube dizer o que era feito dele, posto<br \/>\nque percorressem toda aquela vizinhan\u00e7a em in\u00fateis pesquisas<br \/>\ne indaga\u00e7\u00f5es. Os outros se encarregaram de procurar meios de<br \/>\ntransportar para a vila o cad\u00e1ver de Reinaldo, e o corpo tamb\u00e9m<br \/>\nquase sem alma da infeliz Maroca.<\/p>\n<p>Quanto a Gon\u00e7alo, nunca mais se p\u00f4de saber o destino que tomara,<br \/>\nnem se era vivo ou morto. A justi\u00e7a e mesmo os particulares fizeram<br \/>\npor muito tempo grandes esfor\u00e7os para descobrir-lhe a pista. Mas tudo<br \/>\nfoi baldado.<\/p>\n<p>Seus amigos tamb\u00e9m fizeram por largo tempo ativas e perseverantes<br \/>\npesquisas por toda a capitania sem poder obter dele nem a mais leve not\u00edcia.<br \/>\nDesanimados enfim de encontr\u00e1-lo descansaram na suposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nali\u00e1s muito plaus\u00edvel, de que Gon\u00e7alo, gravemente ferido<br \/>\nna luta em que sacrificara o seu amigo, tinha morrido em alguma gruta oculta<br \/>\ne profunda, ou pelos matos em algum recanto, onde era imposs\u00edvel descobri-lo,<br \/>\ne que suas carnes tinham sido devoradas pelos corvos, e seus ossos arrebatados<br \/>\npelas enxurradas.<\/p>\n<p>Esse deplor\u00e1vel acontecimento, que causou geral assombro e consterna\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfoi por largo tempo em Goi\u00e1s objeto de conversa\u00e7\u00e3o em<br \/>\ntodos os c\u00edrculos.<\/p>\n<p>\u2014 Eis a\u00ed o que faz uma mulher m\u00e1! dizia a tia Josefa,<br \/>\nvelha companheira de mestre Mateus, anos depois daquele acontecimento, em<br \/>\num dia em que mestre Mateus acabava de contar com todas as particularidades<br \/>\naquele tr\u00e1gico sucesso a algumas pessoas que se achavam em sua casa.<br \/>\nDois rapazes t\u00e3o novos, t\u00e3o bons, t\u00e3o bemapessoados,<br \/>\ndois guapos mocet\u00f5es, que mereciam cada um uma noiva de truz, foram<br \/>\npara o mato fora de horas esfaquearam-se como furiosos e matarem-se por amor<br \/>\nde uma perdida, que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Arre l\u00e1 com isso, minha velha! atalhou mestre Mateus; n\u00e3o<br \/>\nte faz pena ao menos o triste estado em que at\u00e9 hoje se acha a coitadinha.<br \/>\nMaroca era uma simples crian\u00e7a, que n\u00e3o sabia o que fazia. Os<br \/>\ntais senhores mocet\u00f5es \u00e9 que eram dois loucos furiosos. Deus<br \/>\nos perdoe e se amerceie de suas almas. Ela era uma pobre menina, que ainda<br \/>\nn\u00e3o podia saber o que os homens s\u00e3o capazes de fazer por amor<br \/>\nde uma mulher bonita. Olha, Josefa, a coitadinha ainda est\u00e1 muda e<br \/>\npateta assim mesmo como no dia em que aconteceu a desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Foi castigo de Deus! resmungou a velha.<\/p>\n<h3>POUSO SEGUNDO OS CHAVANTES<\/h3>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>CAP\u00cdTULO I &#8211; O COMBATE<\/h2>\n<p>Nas margens do grande rio Tocantins, que banha o norte da prov\u00edncia<br \/>\nde Goi\u00e1s, e reunido ao Araguaia vai como que dar a m\u00e3o ao rei<br \/>\ndos rios para entrar de par com ele no Atl\u00e2ntico, habita uma na\u00e7\u00e3o<br \/>\nind\u00edgena das mais ferozes e indom\u00e1veis que se conhecem, ainda<br \/>\nque tamb\u00e9m uma das mais valentes e industriosas. \u00c9 a na\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Chavantes, que dominava uma larga zona em ambas as margens daquele rio,<br \/>\ncuja navega\u00e7\u00e3o tornava extremamente dif\u00edcil e perigosa<br \/>\npara os Europeus. Sobretudo na \u00e9poca a que nos reportamos, o seu nome<br \/>\nera o terror dos habitantes de Goi\u00e1s, ningu\u00e9m ousava penetrar<br \/>\nnaqueles sert\u00f5es desconhecidos, infestados por essa e outras tribos<br \/>\nselvagens, que muitas vezes sa\u00edam do fundo de suas brenhas a exercerem<br \/>\nhorr\u00edveis matan\u00e7as, estragos e depreda\u00e7\u00f5es nos<br \/>\nestabelecimentos e fazendas dos brancos. Algumas dessas expedi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nque se organizavam com o nome de bandeiras para recha\u00e7\u00e1-los<br \/>\nou extermin\u00e1-los, voltavam desanimadas e destro\u00e7adas sem nada<br \/>\nter conseguido. Menos d\u00f3ceis que os Caiap\u00f3s e os Coroados, que<br \/>\nj\u00e1 se iam submetendo ao aldeamento e catequese, os Chavantes mal conheciam<br \/>\nos brancos, com quem n\u00e3o queriam rela\u00e7\u00e3o alguma, e odiavam<br \/>\ndo fundo da alma.<\/p>\n<p>Quatro ou cinco anos depois dos tristes acontecimentos que deixei narrados<br \/>\na noite passada, uma numerosa tribo daquela na\u00e7\u00e3o achava-se<br \/>\nestabelecida no barranco esquerdo do rio algumas dezenas de l\u00e9guas<br \/>\nabaixo de S. Jos\u00e9 do Tocantins, pouco mais ou menos nas regi\u00f5es<br \/>\nonde \u00e9 hoje o munic\u00edpio da Palma.<\/p>\n<p>Seu arranchamento era uma longa fila de tabas ou cabanas cobertas de palmas<br \/>\nde coqueiro, disseminadas em pitoresca desordem ao longo da margem do rio<br \/>\nem uma extens\u00e3o de cerca de meia l\u00e9gua, como um bando de aves<br \/>\naqu\u00e1ticas pousadas \u00e0 beira da torrente.<\/p>\n<p>Era uma bela e calmosa sesta de Setembro. O \u00edndio naturalmente pregui\u00e7oso,<br \/>\nporque para prover as necessidades da vida simples que leva em meio dos desertos<br \/>\nn\u00e3o precisa de regar a terra com seu suor desde o nascer at\u00e9<br \/>\no p\u00f4r-do-sol, nessas horas de calma \u00edntima sobretudo entrega-se<br \/>\n\u00e0 sua natural indol\u00eancia, e dorme ou se diverte.<\/p>\n<p>Uma turba de meninos de ambos os sexos entre alegres algazarras patinhavam<br \/>\nna \u00e1gua \u00e0 beira do rio adestrando-se na arte de nadar, t\u00e3o<br \/>\nnecess\u00e1ria ao selvagem. As mulheres assentadas em diversos grupos \u00e0<br \/>\nsombra da canjerana ou da copa\u00edba secular, umas amamentavam suas crian\u00e7as,<br \/>\noutras teciam por passatempo esteiras, redes ou cabazes de cip\u00f3s ou<br \/>\nde palha de coqueiro; outras, deitadas em suas redes delicadamente tecidas<br \/>\nde fios de tucum e enfeitadas de penas, embalavam-se indolentemente olhando<br \/>\nas nuvens a passearem pelo c\u00e9u, ou as \u00e1guas do rio a correrem<br \/>\nsilenciosas. Os poucos homens que nessa ocasi\u00e3o ali se achavam, pois<br \/>\nestavam pela maior parte dispersos pelas matas ao longo da margem do rio ocupados<br \/>\nem ca\u00e7adas e pescarias, uns assavam peixe, ou muqueavam um lagarto,<br \/>\num tatu ou uma paca em fogueiras acendidas fora das tabas; outros consertavam<br \/>\nsuas armas, ou talhavam arcos e flechas, e os aparelhavam de vistosas penas;<br \/>\num outro, deitado de costas no ch\u00e3o, e esticando o arco com os p\u00e9s,<br \/>\nse divertia em mandar \u00e0s nuvens uma flecha e v\u00ea-la voltar e cravar-se<br \/>\nno mesmo lugar donde partira; outros enfim, nada absolutamente querendo fazer,<br \/>\ndormiam a sesta, ou deixavam passar o tempo.<\/p>\n<p>De repente ouviu-se de uma das extremidades do arraial dos \u00edndios<br \/>\numa gritaria imensa, que se foi propagando e ecoando por toda a aldeia. Os<br \/>\nmeninos saltaram ligeiramente fora da \u00e1gua e correram a se amoutar<br \/>\nnas tabas, as mulheres largaram suas ocupa\u00e7\u00f5es, e olhavam espantadas<br \/>\npara todos os lados; os homens levantaram-se rapidamente com as armas na m\u00e3o<br \/>\ne acudiram ao ponto onde come\u00e7ara o alarma. A causa daquele grande<br \/>\nalarido e celeuma era um homem de aspecto estranho que sozinho em uma canoa<br \/>\nvinha vogando rio abaixo.<\/p>\n<p>A figura e os tra\u00e7os j\u00e1 esfarrapados desse homem causaram<br \/>\ngrande estranheza e espanto aos selvagens.<\/p>\n<p>Trajava um grande gib\u00e3o de l\u00e3 grossa apertado com um cintur\u00e3o<br \/>\nde couro de lontra, ao qual se prendia uma comprida faca com cabo e bainha<br \/>\nguarnecida de prata, cal\u00e7as de algod\u00e3o, e perneiras de couro<br \/>\nde mateiro; trazia a barba mui comprida e sobre os cabelos pretos e anelados<br \/>\num pequeno chap\u00e9u de sola. Posto que sua tez naturalmente morena estivesse<br \/>\ntisnada ainda pelo sol, e viesse armado de arco e flechas, os selvagens apenas<br \/>\no avistaram, exclamaram: \u2014 Imboaba! Imboaba! \u2014 e esta palavra<br \/>\nodiosa, passando de boca em boca em uma imensa vozeria, repercutiu como um<br \/>\neco pelas ribanceiras do Tocantins.<\/p>\n<p>O atrevido canoeiro ouviu toda aquela algazarra e logo compreendeu o iminente<br \/>\nperigo que o amea\u00e7ava; por\u00e9m j\u00e1 lhe n\u00e3o era poss\u00edvel<br \/>\nrecuar e continuou a vogar procurando avizinhar-se o mais poss\u00edvel<br \/>\ndo barranco oposto \u00e0s habita\u00e7\u00f5es dos \u00edndios, esperando<br \/>\nassim poder escapar \u00e0 sua sanha e passar inc\u00f3lume. Mas a largura<br \/>\ndo rio n\u00e3o era suficiente para p\u00f4-lo a salvo de suas flechadas,<br \/>\ne apenas achou-se em frente da aldeia, uma nuvem de flechas voou assobiando<br \/>\nsobre ele; mas o destro aventureiro, deitando-se imediatamente no fundo da<br \/>\ncanoa e amparando-se com o seu largo remo, nem de leve foi tocado, antes achou-se<br \/>\nprovido de grande muni\u00e7\u00e3o de flechas, de que tinha precis\u00e3o,<br \/>\ne que lhe iam ser de grande utilidade. Reenviou logo uma, e varou um c\u00e3o,<br \/>\nque ladrava na praia; uma segunda cravou-se no bra\u00e7o de um ind\u00edgena;<br \/>\numa terceira levou a orelha de outro. E o afoito estrangeiro, entrincheirado<br \/>\nno fundo da canoa e fazendo escudo da larga p\u00e1 de remo, ia deslizando<br \/>\ns\u00e3o e salvo pela torrente abaixo e fazendo estragos na linha dos inimigos<br \/>\ncom as armas que estes mesmos lhe forneciam. Felizmente para ele n\u00e3o<br \/>\ntinham os selvagens ali \u00e0 m\u00e3o naquele momento uma canoa sequer.<br \/>\nMais algumas flechadas felizes do arco do intr\u00e9pido canoeiro ca\u00edram<br \/>\nsobre os \u00edndios e acabaram de os p\u00f4r em furor. Vendo que com<br \/>\nas flechas n\u00e3o era poss\u00edvel ofender o imboaba, lan\u00e7aram-se<br \/>\nalguns ao rio armados de tacapes e dispostos a irem a nado atracar a canoa.<br \/>\nF\u00e1cil seria ao canoeiro escapar \u00e0 for\u00e7a de remo, se a<br \/>\nmultid\u00e3o de flechas, que continuava a chover sobre a canoa, n\u00e3o<br \/>\no impedisse de remar, dando-lhe apenas tempo de resguardar-se de seus tiros<br \/>\ne descochar de quando em quando uma ou outra flecha.<\/p>\n<p>J\u00e1 dois robustos nadadores com o tacape nos dentes estavam a poucas<br \/>\nbra\u00e7as da canoa; um deles enfim a alcan\u00e7a e lan\u00e7a m\u00e3o<br \/>\n\u00e0 borda. O canoeiro por\u00e9m a corta imediatamente de um s\u00f3<br \/>\ngolpe com sua grande faca de mato.<\/p>\n<p>O \u00edndio dando um grito horr\u00edvel de dor desaparece deixando<br \/>\num sulco ensang\u00fcentado \u00e0 flor da \u00e1gua, e surge instantes<br \/>\ndepois mais abaixo, rolando \u00e0 merc\u00ea da corrente, enquanto os<br \/>\npeixes saltitando disputavam entre si a m\u00e3o que se tinham lan\u00e7ado<br \/>\nao rio, tamb\u00e9m n\u00e3o ousaram aproximar-se, temendo o mort\u00edfero<br \/>\ngume daquela formid\u00e1vel faca. O forasteiro por um momento julgou-se<br \/>\nsalvo e fora de perigo. Mas eis que de s\u00fabito d\u00e1 com os olhos<br \/>\nem duas canoas entulhadas de \u00edndios, que surgiam da volta do rio singrando<br \/>\n\u00e1guas acima a todo remar.<\/p>\n<p>Era uma turma de ind\u00edgenas, que estando a pescar pelas proximidades<br \/>\ntinham ouvido o alarido que havia nas tabas, e julgando ser algum perigo,<br \/>\nacudiam em seu socorro. O canoeiro viu que a sua situa\u00e7\u00e3o era<br \/>\ndesesperada e sua morte inevit\u00e1vel, e que seu \u00fanico recurso<br \/>\nera morrer como homem combatendo at\u00e9 o \u00faltimo alento.<\/p>\n<p>\u00c0 for\u00e7a de aud\u00e1cia e de esfor\u00e7os desesperados<br \/>\nconseguiu encostar a canoa ao barranco oposto; tomou \u00e0 pressa todas<br \/>\nas suas armas, saltou em terra e embrenhou-se pelo mato, n\u00e3o para escapar<br \/>\naos selvagens, pois bem via que seria uma tentativa in\u00fatil, mas para<br \/>\nescolher um lugar onde pudesse defender-se por mais tempo e vender mais cara<br \/>\na sua vida. Os \u00edndios em n\u00famero sempre crescente saltavam na<br \/>\n\u00e1gua e atravessavam o rio; os das canoas tamb\u00e9m se aproximavam<br \/>\nrapidamente. O forasteiro bem compreendeu que qualquer resist\u00eancia seria<br \/>\nin\u00fatil, mas n\u00e3o era homem a deixar-se degolar como uma ovelha,<br \/>\ne preparou-se para combater at\u00e9 o \u00faltimo trance. Depois de ter-se<br \/>\nentranhado cerca de uns duzentos passos por um mato espesso e emaranhado,<br \/>\nabrindo caminho com a faca por entre taquaras e cip\u00f3s, escolheu posi\u00e7\u00e3o<br \/>\npara fazer frente aos inimigos junto a um corpulento tronco de peroba, que<br \/>\nlhe oferecia formid\u00e1vel baluarte. Por detr\u00e1s desse tronco estendia-se<br \/>\num espesso e impenetr\u00e1vel tabocal, que lhe protegia a retaguarda.<\/p>\n<p>Ali encostou todo o seu arsenal de armas, que consistiam em um arco com<br \/>\nalgumas flechas, uma grande faca, uma foice pequena, uma pistola de dois canos<br \/>\ne uma espingarda carregada com os \u00faltimos cartuchos que lhe restavam,<br \/>\ne que de prop\u00f3sito reservava para ocasi\u00f5es dif\u00edceis.<br \/>\nAli resolveu-se a resistir at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas aos seus selvagens<br \/>\nagressores.<\/p>\n<p>Estes, seguindo a batida que o estrangeiro ia fazendo com sua pequena foice,<br \/>\nem breve chegaram a descobri-lo, e logo travou-se entre eles o combate o mais<br \/>\ntemeroso e desigual que se pode conceber. As flechas dos \u00edndios iam-se<br \/>\ncravar no tronco, por tr\u00e1s do qual o imboaba se abrigava, ou entranhavam-se<br \/>\npelo tabocal, onde se perdiam silvando. Avan\u00e7ando um a um pela estreita<br \/>\npicada praticada em um mato cerrado e atravancado de taquaras e cip\u00f3s,<br \/>\nos selvagens iam caindo tamb\u00e9m um a um aos tiros certeiros do aventureiro,<br \/>\nque n\u00e3o perdia uma s\u00f3 flecha, nem um s\u00f3 tiro; aquele<br \/>\nem quem fazia a mira ca\u00eda infalivelmente, ou morto ou gravemente ferido.<br \/>\nOs selvagens, cujo n\u00famero de instante a instante se aumentava, atiravam-se<br \/>\nfuriosos para o tronco por tr\u00e1s do qual se defendia aquele homem terr\u00edvel<br \/>\ncom a coragem do desespero; por\u00e9m na confus\u00e3o com que se precipitavam,<br \/>\nca\u00edam uns sobre os outros embara\u00e7ados na multid\u00e3o de<br \/>\ncip\u00f3s e matos emaranhados que obstru\u00edam aquele lugar.<\/p>\n<p>Mais de um caiu aos p\u00e9s do intr\u00e9pido imboaba a um bem atirado<br \/>\ngolpe de foice ou recuou rugindo de dor com a m\u00e3o decepada ou com o<br \/>\ncr\u00e2nio escorchado. Parecia que o estrangeiro ia morrer oprimido debaixo<br \/>\nde tantos cad\u00e1veres, que ele mesmo amontoava em torno de si.<\/p>\n<p>Nada mais terr\u00edvel do que a on\u00e7a, quando, sendo mal atirada,<br \/>\nse precipita abaixo do tronco em que \u00e9 acuada pelos c\u00e3es; assenta-se<br \/>\nsobre os quadris rosnando e apresentando as agudas e monstruosas presas, e<br \/>\na cada bote que d\u00e1 com as formid\u00e1veis patas atabafa e esmaga<br \/>\num c\u00e3o, e em poucos instantes se v\u00ea rodeada de um lastro de cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>Pois assim estava aquele sanhudo aventureiro ceifando e derribando a granel<br \/>\nos imprudentes selvagens que ousavam avizinhar-se-lhe. Estes, j\u00e1 transidos<br \/>\nde terror supersticioso, pensando que n\u00e3o combatiam contra um homem,<br \/>\nmas contra algum esp\u00edrito ou ente sobrenatural, sentiam falecer-lhes<br \/>\na coragem e come\u00e7aram a recuar espavoridos diante de t\u00e3o descomunal<br \/>\ndenodo e valentia.<\/p>\n<p>Um deles por\u00e9m, que parecia comandar aos outros, com um grito fez<br \/>\nrecuar todos aqueles combatentes estouvados e imprudentes, e seguido somente<br \/>\nde um companheiro avan\u00e7ou resolutamente para o tronco.<\/p>\n<p>O estrangeiro j\u00e1 tinha descarregado todas as suas armas de fogo e<br \/>\ndespedido todas as suas flechas. Este \u00faltimo combate portanto foi dado<br \/>\ncorpo a corpo sobre cad\u00e1veres e em um lama\u00e7al de sangue. Ainda<br \/>\nque extremamente fatigado e todo crivado de golpes, o forasteiro ainda deu<br \/>\nque fazer a seus advers\u00e1rios. Um golpe de tacape descarregado sobre<br \/>\na nuca o fez titubear; outro imediatamente foi desfechado, e Gon\u00e7alo,<br \/>\npois era ele, caiu sobre um lago de sangue por ele mesmo derramado.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>CAP\u00cdTULO II &#8211; A TABA DO CACIQUE<\/h2>\n<p>Uma prolongada e imensa grita aplaudiu aquela vit\u00f3ria a tanto custo<br \/>\nalcan\u00e7ada por uma multid\u00e3o sobre um s\u00f3 homem. Os selvagens<br \/>\nem seu furor de vingan\u00e7a j\u00e1 iam arrojar-se sobre o cad\u00e1ver,<br \/>\nesquartej\u00e1-lo e devor\u00e1-lo ali mesmo. Mas o jovem guerreiro que<br \/>\ndescarregara o \u00faltimo golpe sobre Gon\u00e7alo, e que parecia ser<br \/>\no chefe ou cacique daquela horda, op\u00f4s-se-lhes energicamente bradando<br \/>\nem voz irada: \u2014 Ai daquele que ousar tocar naquele corpo!&#8230; O cad\u00e1ver<br \/>\nde um t\u00e3o feroz e valente inimigo \u00e9 um trof\u00e9u, que deve<br \/>\nser apresentado ao nosso velho e venerando chefe. Este espet\u00e1culo por<br \/>\ncerto lhe aquecer\u00e1 e regozijar\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o murchado<br \/>\npelos anos. E quem vos diz que esse estrangeiro n\u00e3o est\u00e1 vivo<br \/>\nainda?&#8230; Se assim \u00e9, se ainda temos de v\u00ea-lo tornar \u00e0<br \/>\nvida, acrescenta o jovem guerreiro em tom menos severo e quase risonho, mais<br \/>\nescolhida v\u00edtima, sacrif\u00edcio mais excelente n\u00e3o poder\u00e1<br \/>\nser oferecido a Tup\u00e1 no dia de minha feliz uni\u00e3o com a formosa<br \/>\nGuaraciaba, esse raio de luz descido do c\u00e9u para iluminar-me o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O chefe, que assim falava, e que tinha prostrado a golpes de tacape o sanhudo<br \/>\nimboaba, chamava-se Inim\u00e1.<\/p>\n<p>A ele estava prometida a gentil e mimosa Guaraciaba, filha do velho e poderoso<br \/>\ncacique Ori\u00e7anga, e a mais encantadora dentre as filhas da floresta.<\/p>\n<p>O fato de ter vibrado o golpe de morte sobre o formid\u00e1vel estrangeiro<br \/>\nera para Inim\u00e1 uma proeza que ia ainda exaltar o seu merecimento e<br \/>\nench\u00ea-lo de gl\u00f3ria aos olhos do velho cacique, da donosa Guaraciaba<br \/>\ne da tribo inteira. Pelo menos ele assim o esperava, e j\u00e1 de antem\u00e3o<br \/>\nse regozijava interiormente de seu triunfo.<\/p>\n<p>\u2014 Foi Tup\u00e1, exclamava ele em transportes de alegria, foi Tup\u00e1<br \/>\nque aqui nos enviou este estrangeiro; e foi sua voz que me chamou para nos<br \/>\nlibertar de um monstro, enviado por Anhang\u00e1 para maquinar a nossa perdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guerreiros, vamos dar gra\u00e7as aos c\u00e9us e oferecer sacrif\u00edcios<br \/>\naos manit\u00f3s de nossas tabas por este sucesso de t\u00e3o feliz agouro.<\/p>\n<p>Inim\u00e1 ajuntou as armas do aventureiro, contemplou-as com admira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne curiosidade, e mandando conduzilas com o corpo de Gon\u00e7alo em uma<br \/>\ncanoa, apressou-se em ir depor cheio de orgulho aqueles trof\u00e9us, t\u00e3o<br \/>\nfacilmente conquistados, aos p\u00e9s do poderoso Ori\u00e7anga e da formosa<br \/>\nGuaraciaba.<\/p>\n<p>A taba do velho cacique Ori\u00e7anga, mais vasta e mais s\u00f3lida<br \/>\nque todas as outras, com sua porta guarnecida de flechas e lan\u00e7as enfeitadas<br \/>\nde vistosos penachos, com seu teto de palmas de bagu\u00e7u tingidas de<br \/>\noca e de urucu, mirava-se galhardamente na torrente do Tocantins, e elevava-se<br \/>\nentre as outras cabanas como a gar\u00e7a, rainha dos lagos, entre um bando<br \/>\nde pequenas aves. A noite se aproximava. Sentado \u00e0 porta da taba sobre<br \/>\na pele enorme de uma on\u00e7a negra, Ori\u00e7anga esperava com impaci\u00eancia<br \/>\nque lhe trouxessem vivo ou morto o audacioso estrangeiro que assim ousava<br \/>\nresistir a seus guerreiros, indignado de que tantos combatentes gastassem<br \/>\ntanto tempo e achassem tamanha dificuldade em matar ou prender um s\u00f3<br \/>\nhomem. Em p\u00e9 junto dele, como t\u00edmida cor\u00e7a junto ao le\u00e3o<br \/>\ndeitado, a gentil Guaraciaba tinha tamb\u00e9m os olhos fitos com ansiosa<br \/>\ncuriosidade nas canoas, que da outra margem vinham ligeiramente singrando.<\/p>\n<p>Dentro em poucos minutos o corpo de Gon\u00e7alo inanimado e banhado em<br \/>\nsangue, conduzido em uma rede com todas as suas armas, foi posto aos p\u00e9s<br \/>\ndo velho cacique. Inim\u00e1 e seus companheiros precediam o cad\u00e1ver,<br \/>\nsoltando clamores de feroz alegria. O cacique por\u00e9m os recebeu com<br \/>\nsemblante torvado, e ouviu com impaci\u00eancia a narra\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe fez Inim\u00e1 do combate e da desesperada resist\u00eancia do<br \/>\nestrangeiro, e dos estragos que fez em sua gente. Depois abanando a cabe\u00e7a<br \/>\ncom ar descontente e gesto merenc\u00f3rio exclamou: \u2014 Ah! Inim\u00e1!<br \/>\nInim\u00e1! j\u00e1 n\u00e3o pareces o filho do valente e invenc\u00edvel<br \/>\nIabor\u00e9! Quem diria que n\u00e3o ousaste ir sozinho arrostar a sanha<br \/>\ndo estrangeiro, e que deixaste morrer teus companheiros como uma vara de caitetus<br \/>\n\u00e0s garras da on\u00e7a esfaimada!&#8230; Mancebos fracos e degenerados<br \/>\nde hoje, sois incapazes de encurvar o arco de vossos antepassados. Em outros<br \/>\ntempos, quando a idade n\u00e3o tinha ainda branqueado estes cabelos nem<br \/>\nquebrado estes pulsos, eu s\u00f3 ou qualquer dos meus valentes teria esmagado<br \/>\nesse mancebo com a mesma facilidade com que espeda\u00e7o este cachimbo.<br \/>\n\u2014 E esmagou entre os dedos o canudo pelo qual aspirava a fuma\u00e7a<br \/>\nda pituma.<\/p>\n<p>A este gesto, a estas duras palavras bagas de suor frio escorregaram pela<br \/>\ntesta do jovem guerreiro, que batendo os dentes como um queixada enfurecido,<br \/>\ncom voz convulsa e abafada respondeu: \u2014 Ori\u00e7anga! Ori\u00e7anga!<br \/>\nn\u00e3o profiras tais palavras!&#8230; a c\u00f3lera te cega, velho cacique,<br \/>\ne torna-te injusto. N\u00e3o penses que esse estrangeiro que acabamos de<br \/>\ngarrotear era um inimigo vulgar. N\u00e3o; era um enviado de Anhang\u00e1,<br \/>\ne estou certo que com ele combatiam contra n\u00f3s os manit\u00f3s das<br \/>\ntrevas ocultos entre os ramos da floresta. Se l\u00e1 te acharas, se presenciasses<br \/>\nesse estranho combate e visses por que modo sobrenatural o maldito imboaba<br \/>\nse furtava a nossos golpes, por certo nos n\u00e3o julgarias com t\u00e3o<br \/>\ninjusto rigor. Mas seja como queres: ao que me parece esse temer\u00e1rio<br \/>\nestrangeiro n\u00e3o est\u00e1 morto ainda e \u00e9 bem poss\u00edvel<br \/>\nque ainda volte \u00e0 vida; de prop\u00f3sito sopeei a for\u00e7a de<br \/>\nmeu pulso ao vibrar-lhe o \u00faltimo golpe. Procurem cham\u00e1-lo \u00e0<br \/>\nvida, curem-se suas feridas, e quando de todo tiver recobrado suas for\u00e7as,<br \/>\nque venha medir suas armas comigo. Se aos primeiros botes eu n\u00e3o calcar-lhe<br \/>\no peito debaixo de meu joelho, e n\u00e3o escachar-lhe o cr\u00e2nio com<br \/>\num golpe deste tacape, possam os meus olhos nunca mais se encontrar com os<br \/>\nda formosa e incompar\u00e1vel Guaraciaba.<\/p>\n<p>\u2014 Sejas como dizes, replicou Ori\u00e7anga; seja o estrangeiro recolhido<br \/>\nem um dos aposentos de minha taba; os paj\u00e9s pensem suas feridas, e<br \/>\nministrem-lhe todos os cuidados que reclama seu estado, e vejam se lhe restituem<br \/>\na vida. Se ele recuperar os sentidos e viver, Inim\u00e1, ser\u00e1 um<br \/>\nsacrif\u00edcio de excelentes ausp\u00edcios para o dia em que receberes<br \/>\npor esposa em tua taba a gentil Guaraciaba.<\/p>\n<p>Ditas estas palavras, como descia a noite, o velho cacique levantou-se e<br \/>\na passos lentos recolheu-se para o interior da cabana.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo do corpo de Gon\u00e7alo todo ensang\u00fcentado e<br \/>\ncrivado de golpes n\u00e3o fez mais impress\u00e3o sobre o esp\u00edrito<br \/>\ndaqueles ferozes selvagens, do que o de uma fera que em uma partida de ca\u00e7a<br \/>\nacabassem de matar e arrastar para as tabas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o assim para Guaraciaba, que ao ver aquele belo e garboso mancebo,<br \/>\nem cujo rosto inanimado ressumbrava a altivez e galhardia, todo pisado e banhado<br \/>\nem sangue, sentiu agitar-lhe o seio um sentimento ins\u00f3lito de interesse<br \/>\ne compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, recolhido em um dos compartimentos da taba do cacique, foi<br \/>\nali deitado sobre um leito de macias peles e confiado aos cuidados de Andiara,<br \/>\no mais vener\u00e1vel e mais s\u00e1bio dos paj\u00e9s, e que primava<br \/>\nna arte de curar golpes e toda a qualidade de enfermidades. Guaraciaba prestou-se<br \/>\ngraciosamente a auxili\u00e1-lo, e quis ser ela mesma com encantadora solicitude<br \/>\na enfermeira do prisioneiro ferido. Andiara examinou com aten\u00e7\u00e3o<br \/>\no corpo de Gon\u00e7alo, e reconhecendo que a vida ainda n\u00e3o o tinha<br \/>\nde todo abandonado, administrou-lhe os primeiros cuidados e concebeu esperan\u00e7as<br \/>\nde salv\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Inim\u00e1, sombrio e cabisbaixo, retirou-se no fundo de sua taba, ruminando<br \/>\nna mente as cru\u00e9is palavras de Ori\u00e7anga e entregue aos mais<br \/>\nsinistros pressentimentos.<\/p>\n<p>Enquanto Gon\u00e7alo sem sentidos jaz entre a vida e a morte, entregue<br \/>\naos cuidados do paj\u00e9 e da mimosa Guaraciaba, vejamos o que fizera ele<br \/>\ndepois da horr\u00edvel e encarni\u00e7ada luta em que matara seu amigo,<br \/>\ne por que s\u00e9rie de acontecimentos viera ele cair nas m\u00e3os dos<br \/>\nferozes Chavantes.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, crivado de graves e profundos golpes e perdendo muito sangue<br \/>\ndepois daquele furioso e desesperado combate, desatinado e torturado pelas<br \/>\ndores do corpo e pelas tormentas da alma, dirigiu-se o mais depressa que p\u00f4de<br \/>\npara sua casa. A\u00ed tratou de estancar o sangue das feridas e pens\u00e1-las<br \/>\n\u00e0 pressa e do melhor modo que p\u00f4de; e como ali mais do que em<br \/>\noutra qualquer parte estaria em perigo a sua seguran\u00e7a, arrecadou todo<br \/>\no dinheiro e objetos de valor que pudesse levar consigo, e sem nada dizer<br \/>\na seus dom\u00e9sticos, abandonando a casa, escravos e haveres de toda esp\u00e9cie,<br \/>\nmontou de novo a cavalo, e tomando por trilhos escusos e desconhecidos com<br \/>\ngrande dificuldade p\u00f4de chegar exausto de for\u00e7a e quase desfalecendo<br \/>\n\u00e0 casa de um velho caboclo, que lhe era muito afei\u00e7oado e que<br \/>\nhabitava um miser\u00e1vel ranchinho escondido entre matos em um s\u00edtio<br \/>\nretra\u00eddo e ignorado. A\u00ed esteve por muitos dias oculto curando-se<br \/>\nde suas feridas e recuperando suas for\u00e7as. Por felicidade o caboclo<br \/>\nera grande curandeiro, e gra\u00e7as aos rem\u00e9dios que aplicou, e<br \/>\nque consistiam em ervas e ra\u00edzes silvestres, cujas virtudes conhecia,<br \/>\nao zelo e dedica\u00e7\u00e3o com que tratava o seu jovem h\u00f3spede,<br \/>\ne \u00e0 admir\u00e1vel robustez da organiza\u00e7\u00e3o de Gon\u00e7alo,<br \/>\neste viu suas feridas irem-se prontamente cicatrizando, e seu vigor e sa\u00fade<br \/>\nde dia a dia restabelecer-se.<\/p>\n<p>Entretanto em seu obscuro esconderijo Gon\u00e7alo n\u00e3o podia estar<br \/>\nmuito tranq\u00fcilo. A justi\u00e7a de Goi\u00e1s ativava dilig\u00eancias<br \/>\nsobre dilig\u00eancias para descobri-lo. As mil\u00edcias e esbirros passaram<br \/>\nalgumas vezes por perto do pobre rancho do caboclo sem a mais leve suspeita<br \/>\nde que ali se achava aquele que com tanto af\u00e3 procuravam por toda a<br \/>\nparte, e muitas vezes Gon\u00e7alo em seu leito de dores tinha de escutar<br \/>\nas amea\u00e7as, pragas e maldi\u00e7\u00f5es com que aqueles homens<br \/>\no acabrunhavam. O matreiro caboclo os acompanhava na ladainha das impreca\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndando a todos os diabos o nome de Gon\u00e7alo, a quem mimoseava com os<br \/>\nmais horripilantes ep\u00edtetos, chamando-o de Satan\u00e1s, tigre, cangu\u00e7u,<br \/>\netc.<\/p>\n<p>Outras vezes dando falsas informa\u00e7\u00f5es e ind\u00edcios por<br \/>\nele mesmo excogitados iludia e desorientava completamente as dilig\u00eancias.<\/p>\n<p>Por sua parte tamb\u00e9m as inumer\u00e1veis v\u00edtimas das valentias<br \/>\nde Gon\u00e7alo, que lhe guardavam secreto rancor, e os amigos de Reinaldo,<br \/>\nque os tinha muitos e dedicados, desejosos de ving\u00e1-lo, procuravam<br \/>\nGon\u00e7alo por toda a parte e faziam altas dilig\u00eancias para descobri-lo,<br \/>\ndispostos a fazer pronta justi\u00e7a por suas pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>A vida de Gon\u00e7alo andava pois pendente de um fio.<\/p>\n<p>Ele portanto, que avisado pelas pr\u00f3prias patrulhas que o procuravam,<br \/>\nn\u00e3o ignorava estas circunst\u00e2ncias, logo que se sentiu com algumas<br \/>\nfor\u00e7as e em estado de poder montar a cavalo, depois de ter agradecido<br \/>\ne remunerado generosamente os servi\u00e7os do bom caboclo, desapareceu,<br \/>\ne dirigindo-se para os sert\u00f5es do norte, embrenhou-se pelas matas que<br \/>\ndemoram entre a Serra Geral e o rio Tocantins.<\/p>\n<p>Sozinho naqueles ermos sem recurso, vivendo de frutos silvestres, de mel<br \/>\ne de ca\u00e7a mal assada e sem adubo algum, pedindo raras vezes furtivamente<br \/>\nagasalho em alguma pobre choupana, sofrendo trabalhos e priva\u00e7\u00f5es,<br \/>\na que s\u00f3 sua robusta complei\u00e7\u00e3o podia resistir, foi-se<br \/>\nentranhando de mais em mais pelos sert\u00f5es, procurando fugir para bem<br \/>\nlonge de uma terra que se lhe tornara odiosa, e cuja lembran\u00e7a lhe<br \/>\noprimia o cora\u00e7\u00e3o como um pesadelo. Com as m\u00e3os manchadas<br \/>\nno sangue de um amigo, a quem perfidamente assassinara, com a alma atassalhada<br \/>\nde remorsos e em um sombrio desespero, vagava a esmo pelos desertos esperando<br \/>\nmorrer \u00e0s garras de alguma fera ou entre as m\u00e3os dos gentios,<br \/>\nse n\u00e3o sucumbisse \u00e0 mortal tristeza que por dentro o corro\u00eda.<\/p>\n<p>Assim vagou por muito tempo at\u00e9 que chegou \u00e0s margens do Tocantins,<br \/>\nonde sendo bem acolhido entre uma tribo de \u00edndios Coroados, foram-se<br \/>\ncom o tempo acalmando as ang\u00fastias que o flagelavam, viveu largo tempo<br \/>\nentre eles, adotou os seus costumes, aprendeu a sua l\u00edngua, e j\u00e1<br \/>\npor sua intelig\u00eancia, j\u00e1 por sua grande for\u00e7a e destreza<br \/>\nno manejo de armas de qualquer esp\u00e9cie, gozou de grande respeito e<br \/>\nprest\u00edgio entre eles.<\/p>\n<p>Decidido a romper completamente com a sociedade dos homens civilizados,<br \/>\nGon\u00e7alo p\u00f4s-se ao servi\u00e7o daquela na\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor mais de uma vez foi-lhe dado o comando de expedi\u00e7\u00f5es destinadas<br \/>\na debelar tribos inimigas, ou a fazer frente \u00e0s bandeiras encarregadas<br \/>\nde submeter ou exterminar os \u00edndios, e sempre voltava vitorioso e carregado<br \/>\nde despojos.<\/p>\n<p>Mas a inveja e a rivalidade de alguns dos principais da tribo, que viam<br \/>\ncom maus olhos o ascendente que esse estrangeiro ia tomando sobre o chefe<br \/>\ne sobre a na\u00e7\u00e3o inteira, foram tornando por fim dif\u00edcil<br \/>\ne espinhosa a situa\u00e7\u00e3o de Gon\u00e7alo. De car\u00e1ter<br \/>\nassomado e altivo, ele teve mais de uma vez de dar a alguns dos \u00edndios<br \/>\nas terr\u00edveis li\u00e7\u00f5es que costumava dar outrora em Goi\u00e1s<br \/>\na seus compatriotas. Demais, os Coroados come\u00e7avam a entreter rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde amizade e de com\u00e9rcio com os goianos. Algumas hordas destes selvagens<br \/>\nj\u00e1 come\u00e7avam a ir a Goi\u00e1s vender esteiras, peles, guaran\u00e1<br \/>\ne outros objetos e comprar armas, ferramentas, fazenda e quinquilharias. Estas<br \/>\ncomunica\u00e7\u00f5es com seus patr\u00edcios n\u00e3o convinham<br \/>\npor maneira nenhuma a Gon\u00e7alo, que com raz\u00e3o receava que por<br \/>\num acaso ou por uma trai\u00e7\u00e3o de seus rivais da tribo fosse conhecida<br \/>\nem Goi\u00e1s a sua exist\u00eancia entre aqueles ind\u00edgenas. Portanto<br \/>\nresolveu-se a abandonar para sempre os Coroados, e ir procurar ref\u00fagio<br \/>\nem mais desertos e long\u00ednquos pa\u00edses. Ele bem sabia que ia arrostar<br \/>\nperigos e azares ainda maiores, e que da\u00ed em diante s\u00f3 encontraria<br \/>\nferas e gentios indom\u00e1veis; mas antes quereria morrer entre as garras<br \/>\nde um tigre ou trespassado pelas flechas dos selvagens, do que voltar a Goi\u00e1s<br \/>\nainda mesmo de seu moto pr\u00f3prio, quanto mais preso e entregue \u00e0<br \/>\njusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Em uma noite pois, metido em uma canoa, em que embarcou suas armas e as<br \/>\nprovis\u00f5es que p\u00f4de, deixou furtivamente o arraial dos Coroados,<br \/>\ne abandonou seu destino \u00e0 merc\u00ea da torrente do Tocantins. Assim<br \/>\nfoi descendo atrav\u00e9s de mil dificuldades e perigos, que superava \u00e0<br \/>\nfor\u00e7a de aud\u00e1cia, destreza e ast\u00facia, em luta j\u00e1<br \/>\ncom as cachoeiras do rio, j\u00e1 com as hordas selvagens de ambas as margens,<br \/>\nj\u00e1 com a fome e priva\u00e7\u00f5es de toda a sorte, at\u00e9<br \/>\nque chegou ao lugar onde, depois de obstinada resist\u00eancia, o vimos cair<br \/>\ncomo morto em poder dos Chavantes.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>CAP\u00cdTULO III &#8211; A ENFERMEIRA<\/h2>\n<p>Era alta noite ; o sil\u00eancio e o sono reinavam na taba do velho cacique,<br \/>\no qual, depois de ter narrado aos amigos reunidos em torno do fogo algumas<br \/>\ndas proezas de sua mocidade, adormecera suavemente entre a fuma\u00e7a de<br \/>\nseu cachimbo e os vapores de um vaso de cauim sobre a sua enorme pele de on\u00e7a.<br \/>\nOs fogos da taba se extinguiram; no meio daquele profundo sil\u00eancio ouvia-se<br \/>\napenas s\u00f3 o resfolgar das pessoas adormecidas nos diversos aposentos<br \/>\nda vasta cabana.<\/p>\n<p>Somente no quarto em que fora recolhido o infeliz Gon\u00e7alo algu\u00e9m<br \/>\nvelava. Era Guaraciaba, que \u00e0 luz de um fogo que continuamente alimentava,<br \/>\nobservava com ansiosa curiosidade e interesse o rosto do mancebo moribundo.<\/p>\n<p>De vez em quando brandindo um ti\u00e7\u00e3o se aproximava subtilmente<br \/>\ndo leito do ferido a ver se em seu rosto se manifestavam j\u00e1 alguns<br \/>\nsinais de vida, avizinhava cautelosamente o ouvido como que procurando escutar-lhe<br \/>\na respira\u00e7\u00e3o e o palpitar do cora\u00e7\u00e3o. Curiosa<br \/>\ne inquieta n\u00e3o podia arredar sua aten\u00e7\u00e3o daquele leito,<br \/>\nem que jazia o m\u00edsero prisioneiro, e o sono se recusava a cerrar-lhe<br \/>\nas p\u00e1lpebras mimosas. A pouca dist\u00e2ncia de Gon\u00e7alo, Andiara,<br \/>\no paj\u00e9 encarregado de sua cura, deitado em uma esteira de juncos, ressonava<br \/>\nprofundamente.<\/p>\n<p>Enfim l\u00e1 pela madrugada Gon\u00e7alo fez um ligeiro movimento,<br \/>\ne um fraco gemido quase impercept\u00edvel escapou-lhe do peito. Guaraciaba<br \/>\nestremeceu e o cora\u00e7\u00e3o pulsou-lhe com viol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 vivo! murmurou com alegre sobressalto a filha da floresta,<br \/>\ne escutou ainda; mas n\u00e3o ouviu mais som, nem notou movimento algum.<br \/>\nAproximou-se de novo ao leito, e cuidou notar um leve arquejar do peito do<br \/>\nprisioneiro; mas este, p\u00e1lido e im\u00f3vel, n\u00e3o apresenta<br \/>\nainda no semblante sinal algum de vida. Guaraciaba enfim afoita-se a p\u00f4r-lhe<br \/>\nde manso a m\u00e3o sobre o cora\u00e7\u00e3o. Gon\u00e7alo com o<br \/>\nfrescor da madrugada e gra\u00e7as aos b\u00e1lsamos eficazes que o experiente<br \/>\npaj\u00e9 lhe vertera nas feridas, ia pouco e pouco recuperando os sentidos,<br \/>\ne acordava lentamente de seu longo desfalecimento. As id\u00e9ias se despertavam<br \/>\nem sua alma como em um sonho nebuloso e vago, e duvidava se era ainda em corpo<br \/>\ne alma um habitante deste mundo, ou se j\u00e1 era um esp\u00edrito errante<br \/>\npelos limbos da eternidade. No meio por\u00e9m daquele pen\u00edvel del\u00edrio<br \/>\nde suas confusas id\u00e9ias ele sentiu a m\u00e3o mimosa de Guaraciaba<br \/>\npousar-lhe docemente sobre o cora\u00e7\u00e3o; mas em v\u00e3o tentou<br \/>\nabrir os olhos; suas p\u00e1lpebras amortecidas e inertes n\u00e3o obedeceram<br \/>\n\u00e0 sua vontade; quis falar, mas n\u00e3o lhe saiu do peito mais que<br \/>\num ralido impercept\u00edvel. Este aflitivo pesadelo j\u00e1 h\u00e1<br \/>\nalguns minutos o atormentava, quando Gon\u00e7alo ouviu confusamente uma<br \/>\nvoz doce e infantil murmurando em l\u00edngua ind\u00edgena estas palavras<br \/>\na espa\u00e7os interrompidas: \u2014 Pobre mancebo! meus irm\u00e3os<br \/>\nforam bem cru\u00e9is em maltrat\u00e1-lo assim! \u00c9 bem triste ver<br \/>\num guerreiro assim na flor da vida, t\u00e3o belo e t\u00e3o valente,<br \/>\nprostrado e morto a golpes de tacape, como se fora um jaguar! E por que havia<br \/>\nele de ser t\u00e3o louco e temer\u00e1rio! Se n\u00e3o resistisse,<br \/>\nacharia talvez entre n\u00f3s agasalho amigo e franco. Como \u00e9 gentil,<br \/>\ne diferente dos meus companheiros da floresta! seus cabelos negros e luzentes<br \/>\ncomo as penas do anu enroscam-se como serpentes em redor do pesco\u00e7o,<br \/>\nseu porte \u00e9 como o dos her\u00f3is; em sua larga frente ressumbra<br \/>\ncomo que alguma coisa de superior e de celeste. Entretanto, ai de mim! esse<br \/>\nbelo estrangeiro \u00e9 a v\u00edtima destinada a ser sacrificada a Tup\u00e1<br \/>\nno dia em que eu for entregue como esposa entre as m\u00e3os de Inim\u00e1<br \/>\npara tornar os manit\u00f3s prop\u00edcios \u00e0 nossa uni\u00e3o!<br \/>\nSe assim \u00e9, \u00f3 meu pai, \u00f3 Inim\u00e1, possa nunca mais<br \/>\nraiar esse dia de t\u00e3o nefasto e abomin\u00e1vel sacrif\u00edcio!<br \/>\nAo som deste suave mon\u00f3logo o esp\u00edrito de Gon\u00e7alo come\u00e7ava<br \/>\na desnevoar-se pouco a pouco como aos acordes de uma m\u00fasica celestial.<br \/>\nRecorda-se ent\u00e3o confusamente do medonho combate da v\u00e9spera,<br \/>\ne pasma de se achar ainda no n\u00famero dos vivos. Entretanto essa voz<br \/>\nsuave, que com tanta ternura o lastima, anuncia-lhe tamb\u00e9m que ele<br \/>\n\u00e9 prisioneiro, e que sua vida n\u00e3o \u00e9 poupada sen\u00e3o<br \/>\npara que seja solenemente sacrificada em um dia de festins nupciais. Mas as<br \/>\npalavras desse ser desconhecido repassadas de piedosa do\u00e7ura lhe ressoavam<br \/>\naos ouvidos como um hino de esperan\u00e7a, e posto que nada pudesse ver,<br \/>\nseu cora\u00e7\u00e3o como que adivinhava a presen\u00e7a de um anjo<br \/>\nsalvador, que velava junto ao seu leito. Gon\u00e7alo faz um esfor\u00e7o<br \/>\ne consegue fazer um movimento e exala um fraco gemido.<\/p>\n<p>Guaraciaba cala-se e suspende a respira\u00e7\u00e3o, como a rola assustada,<br \/>\nque interrompe o arrulho ao ouvir passos na floresta; retira-se um pouco,<br \/>\nespera um momento e de novo chega-se ao leito e interroga com os olhos o rosto<br \/>\ndo ferido. Este sente-lhe os passos, enfim pode abrir os olhos e com voz d\u00e9bil<br \/>\ne sumida pronuncia em l\u00edngua ind\u00edgena estas palavras: \u2014<br \/>\nVirgem da floresta, ou anjo do c\u00e9u, como me pareces, que tanta compaix\u00e3o<br \/>\nmostras pelo infeliz prisioneiro, dize-me, quem \u00e9s tu, onde me acho<br \/>\neu, e o que se pretende fazer de mim? \u2014 A filha de Ori\u00e7anga,<br \/>\nmaravilhada de ouvir nos l\u00e1bios do estrangeiro a l\u00edngua de seus<br \/>\npais, lhe responde comovida: \u2014 Tu te achas na taba de Ori\u00e7anga,<br \/>\nmeu pai e cacique dos Chavantes, em cujo poder ca\u00edste prisioneiro.<\/p>\n<p>Aqui ficar\u00e1s at\u00e9 que sarem tuas feridas e recobres a sa\u00fade<br \/>\ne as for\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 Para depois ser conduzido ao sacrif\u00edcio, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nassim, filha de Ori\u00e7anga? \u2014 Oh! quem to disse! atalhou ela vivamente,<br \/>\ne pensou consigo aterrada: acaso me teria ele ouvido? \u2014 Oh! sim! bem<br \/>\no sei; continua Gon\u00e7alo animando-se; sei que me conservam a vida para<br \/>\ndepois festejarem com a minha morte e consagrarem com meu sangue cobardemente<br \/>\nderramado tuas bodas com&#8230; mas n\u00e3o o conseguir\u00e3o&#8230; com estes<br \/>\ndentes ainda posso arrancar as ataduras destas feridas e fazer correr por<br \/>\nelas todo o meu sangue, para que o n\u00e3o derrameis em vossas festas abomin\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! n\u00e3o! n\u00e3o fa\u00e7as tal; exclama aflita. Acalma-te;<br \/>\nnenhum perigo te amea\u00e7a&#8230; mas \u00e9 l\u00e1stima que sejas, como<br \/>\npareces, um filho dos imboabas, desses cru\u00e9is inimigos e perseguidores<br \/>\nda ra\u00e7a dos adoradores de Tup\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o creias, filha de Ori\u00e7anga: eu sou como v\u00f3s<br \/>\noutros filho das selvas livres; sei encurvar o arco e despedir a flecha de<br \/>\nmeus antepassados, falo, como v\u00eas, a tua l\u00edngua, e s\u00f3<br \/>\nconhe\u00e7o o imboaba para odiar-lhe e beberlhe o sangue.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo por uma prudente ast\u00facia entendeu que devia nesta<br \/>\nconjuntura ocultar a verdade, e nem ele mentia totalmente, pois que voluntariamente<br \/>\nse havia seq\u00fcestrado da sociedade para viver entre os selvagens. Ao ouvir<br \/>\nestas palavras Guaraciaba n\u00e3o p\u00f4de conter um grito de surpresa<br \/>\ne satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade o que acabas de dizer, estrangeiro? qu\u00ea!<br \/>\ntu n\u00e3o \u00e9s imboaba!&#8230; tu \u00e9s dos nossos! nesse caso tranq\u00fciliza-te;<br \/>\nnada tens a temer aqui, \u00e9 a filha de Ori\u00e7anga quem responde<br \/>\npela tua vida.<\/p>\n<p>\u2014 Anjo, exclama Gon\u00e7alo com voz sumida e angustiada, para que<br \/>\nqueres poupar-me a vida?&#8230; Ah! tu n\u00e3o sabes quanto ela me \u00e9<br \/>\nodiosa e pesada&#8230; Mas tu n\u00e3o \u00e9s por certo uma mulher&#8230; tu<br \/>\n\u00e9s um manit\u00f3 celeste enviado por Tup\u00e1 para proteger-me<br \/>\ne consolar-me&#8230; ah! deixa-me beijar essa m\u00e3o generosa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cala-te, interrompeu ela levando-lhe os dedos \u00e0 boca; o paj\u00e9<br \/>\nn\u00e3o quer que fales, pois isso te far\u00e1 muito mal. Ah! imprudente<br \/>\nque eu fui em te fazer assim falar por tanto tempo.<\/p>\n<p>A primeira claridade do dia j\u00e1 vinha frouxamente penetrando pelas<br \/>\nfrestas da cabana. As selvas come\u00e7avam a despertar aos mil rumores<br \/>\nque faziam uma multid\u00e3o de aves esvoa\u00e7ando, piando, grasnando<br \/>\nou gorjeando entre os ramos orvalhados. Nuvens de papagaios, araras e periquitos<br \/>\natravessavam o espa\u00e7o enchendo os ares de sua incessante algazarra;<br \/>\ne enquanto o tucano, vaidoso de sua vistosa plumagem, fazia ouvir seu rouco<br \/>\ne ingrato grasnar, o sabi\u00e1 do alto da peroba secular desprendia seus<br \/>\ncadenciados gorjeios. Guaraciaba desperta o paj\u00e9 adormecido, e anuncia-lhe,<br \/>\nsem disfar\u00e7ar sua alegria, que o estrangeiro recobrara os sentidos,<br \/>\ne com a maior inst\u00e2ncia lhe pede e recomenda que se desvele em trat\u00e1-lo<br \/>\ncom todo o zelo que exige o seu estado melindroso.<\/p>\n<p>Andiara votava paternal afei\u00e7\u00e3o \u00e0 filha do cacique,<br \/>\nsobre cuja inf\u00e2ncia velara desde o ber\u00e7o com a mais terna solicitude.<br \/>\nTendo ela ainda em tenra idade perdido sua m\u00e3e, a linda e donosa Naum\u00e1,<br \/>\nAndiara, parente e amigo fiel e extremoso de Ori\u00e7anga, a cuja fam\u00edlia<br \/>\njulgava estar ligada a gl\u00f3ria da na\u00e7\u00e3o dos Chavantes,<br \/>\ntomou a si o cuidado de educar e desenvolver os dotes do corpo e do esp\u00edrito<br \/>\nda gentil menina, \u00faltima prog\u00eanie de uma ra\u00e7a de her\u00f3icos<br \/>\ncaciques, e em quem repousava toda a esperan\u00e7a da tribo. Ele a tinha<br \/>\nsempre junto a si, e a conduzia pela m\u00e3o em seus giros pelas florestas;<br \/>\nele entretecia com suas pr\u00f3prias m\u00e3os vistosos canitares de<br \/>\nplumas ondulantes para sombrear-lhe a fronte, e lhe engastava o cinto da ara\u00e7\u00f3ia<br \/>\nde palhetas de ouro nativo e de brilhantes pedrarias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a exercitava na arte de encurvar o arco, de brandir o tacape,<br \/>\nde fender com os ombros as \u00e1guas das torrentes, ou impelir rapidamente<br \/>\ncom o remo uma piroga a resvalar pelas ondas azuladas de seu rio natal; ensinavalhe<br \/>\nas dan\u00e7as e cantigas sagradas, e os hinos de guerra, dando-lhe uma<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o toda varonil na esperan\u00e7a de torn\u00e1la<br \/>\num dia uma hero\u00edna capaz de elevar a na\u00e7\u00e3o ao mais subido<br \/>\nauge de gl\u00f3ria e de grandeza. Guaraciaba por seu lado respeitava e<br \/>\nqueria ao velho paj\u00e9 como a um outro pai; com docilidade e submiss\u00e3o<br \/>\nfilial obedecia \u00e0s suas ordens, escutava os seus conselhos, e retribu\u00eda-lhe<br \/>\ncom afetuosa gratid\u00e3o os afagos e cuidados que dele recebia.<\/p>\n<p>Andiara pelo muito afeto que tinha \u00e0 gentil menina, ou por uma natural<br \/>\nsimpatia, deixou-se tamb\u00e9m penetrar do interesse que a ela inspirara<br \/>\no malferido estrangeiro, e esfor\u00e7ou-se com desvelo e ardor em restituir-lhe<br \/>\na vida e a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Tendo pois bem recomendado o enfermo aos cuidados do paj\u00e9, Guaraciaba<br \/>\ndeixa a taba, corre \u00e0 beira do rio, banha as faces e os olhos ardentes<br \/>\nde ins\u00f4nia na sua onda l\u00edmpida e fresca, e com um pente de madeira<br \/>\npreciosa e arom\u00e1tica encrustado de l\u00e2minas de ouro desembara\u00e7a<br \/>\ne alisa os negros e luzidos cabelos, que se espalham como um v\u00e9u sobre<br \/>\nos ombros e o seio. Vai depois pressurosa despertar seu pai, e com prazenteiro<br \/>\ne ing\u00eanuo sorriso diz-lhe: \u2014 Meu pai, ele vive! \u2014 Quem,<br \/>\nfilha?&#8230; o imboaba? \u2014 Sim, o estrangeiro, meu pai; esta madrugada abriu<br \/>\nos olhos e falou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem, minha filha! d\u00e1 gra\u00e7as a Tup\u00e1, que nos<br \/>\nenvia um her\u00f3i dos imboabas para ser imolado no dia em que eu te entregar<br \/>\nnos bra\u00e7os de Inim\u00e1 como companheira de sua taba. Excelente<br \/>\nagouro, que promete a perpetua\u00e7\u00e3o dos her\u00f3icos caciques<br \/>\ndo sangue de meus av\u00f3s! O sacrif\u00edcio desse sanhudo e valente<br \/>\nimboaba ser\u00e1 mais grato a Tup\u00e1 do que se imol\u00e1ssemos<br \/>\num cento de v\u00edtimas ordin\u00e1rias, e os c\u00e9us ser\u00e3o<br \/>\nprop\u00edcios \u00e0 tua uni\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, meu pai, tu te enganas, esse prisioneiro n\u00e3o \u00e9<br \/>\num imboaba; ele \u00e9, como n\u00f3s, filho e Tup\u00e1, fala a l\u00edngua<br \/>\ndas florestas, e odeia como n\u00f3s a ra\u00e7a de nossos perseguidores.<\/p>\n<p>\u2014 E que manit\u00f3 celeste, ou que paj\u00e9 inspirado revelou-te<br \/>\nesse mist\u00e9rio?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ele; ele mesmo mo disse.<\/p>\n<p>\u2014 E acreditaste!&#8230; n\u00e3o sabes que a mentira, o embuste, a trai\u00e7\u00e3o<br \/>\nandam sempre nos l\u00e1bios dessa gente p\u00e9rfida e cruel? \u2014<br \/>\nOh! n\u00e3o&#8230; sua voz, suas falas, sua figura n\u00e3o s\u00e3o do<br \/>\nimboaba; nelas respira o esp\u00edrito de verdade, e em seu rosto transluz<br \/>\na altivez do filho das florestas.<\/p>\n<p>\u2014 De feito, murmurou o velho chefe abanando a cabe\u00e7a, quem<br \/>\ncom tanta destreza encurva o arco e vibra t\u00e3o mort\u00edferas flechadas,<br \/>\nquem combate com tamanho denodo e valentia, n\u00e3o pode ser do sangue<br \/>\nvil do imboaba trai\u00e7oeiro. Mas seja como for, \u00e9 sempre um inimigo<br \/>\ne um her\u00f3i; e tu, minha encantadora e querida Guaraciaba, tu \u00e9s<br \/>\nbem digna de que tua uni\u00e3o seja consagrada com o sangue de um her\u00f3i<br \/>\nsoterrado pelas m\u00e3os de teu esposo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! meu pai! se para que minha uni\u00e3o seja feliz e agrad\u00e1vel<br \/>\naos c\u00e9us, \u00e9 mister que corra o sangue de um desgra\u00e7ado<br \/>\nprisioneiro, perdoa-me, meu pai, eu n\u00e3o serei nunca a esposa de Inim\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Que dizes, filha! como queres menosprezar a velha e sagrada usan\u00e7a<br \/>\nde nossos antepassados? \u00c9 sempre grato a Tup\u00e1 o sangue do inimigo<br \/>\nvertido em honra sua, e cometer\u00edamos um crime se poup\u00e1ssemos<br \/>\na v\u00edtima que ele mesmo nos envia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a v\u00edtima n\u00e3o \u00e9 um inimigo, \u00e9 um<br \/>\ninfeliz foragido, que porventura procurava entre n\u00f3s gasalhado e asilo,<br \/>\ne a quem recebemos com as armas na m\u00e3o, como se fora um jaguar.<\/p>\n<p>\u2014 Seja pois como dizes, prezada filha; quero ainda condescender com<br \/>\nteus caprichos de crian\u00e7a. Sare esse estrangeiro de suas feridas, e<br \/>\nquando o seu estado o permitir, seja conduzido \u00e0 minha presen\u00e7a<br \/>\npara nos dizer quem \u00e9, e contar-nos a sua hist\u00f3ria; depois veremos<br \/>\no que dele se far\u00e1. E ai dele se procurar enganar-me com seus embustes<br \/>\ne mentiras!<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV &#8211; O RESTABELECIMENTO<\/h2>\n<p>Gon\u00e7alo, gra\u00e7as ao acertado curativo do s\u00e1bio e experiente<br \/>\nAndiara, e \u00e0 desvelada solicitude com que o tratava a filha de Ori\u00e7anga,<br \/>\nfoi mais depressa do que se podia esperar sarando de suas feridas e contus\u00f5es,<br \/>\ne readquirindo seu antigo vigor. Para seu pronto restabelecimento sem d\u00favida<br \/>\nmais que tudo contribuiu a am\u00e1vel e interessante enfermeira que o assistia.<br \/>\nGuaraciaba, que em l\u00edngua chavante significa \u2013 raio de luz \u2013<br \/>\nera com efeito a mais gentil e graciosa dentre as filhas da floresta.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se pense que entre esses selvagens n\u00e3o se encontram<br \/>\nsen\u00e3o rostos grosseiros e est\u00fapidos, instintos selv\u00e1ticos<br \/>\ne ferozes; n\u00e3o \u00e9 muito raro ver-se entre eles, principalmente<br \/>\nentre certas tribos privilegiadas, fei\u00e7\u00f5es bem modeladas, regulares<br \/>\ne expressivas, e nobres e generosos impulsos do cora\u00e7\u00e3o; encontram-se<br \/>\npor vezes entre eles criaturas em que a obra de Deus faz lembrar ainda a perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sua celeste origem. Guaraciaba era o tipo da beleza ind\u00edgena no<br \/>\nmais alto apuro de sua perfei\u00e7\u00e3o. Filha mimosa de um poderoso<br \/>\ncacique, criada com carinho \u00e0 sombra da taba paterna, sua tez n\u00e3o<br \/>\nse crestara aos ardores do sol tropical, nem se lacerara nos espinhos das<br \/>\nselvas enredadas, e tinha em todo o seu frescor e pureza a delicada cor de<br \/>\njambo. Seus cabelos negros, compridos e corridos ocultavamlhe quase completamente<br \/>\nos ombros, e algumas madeixas desgarradas desciam ondulando a beijar os puros<br \/>\ncontornos dos seios virginais. Seus olhos pretos e oblongos ora eram meigos<br \/>\ne serenos como a superf\u00edcie de um lago dormente em noite de luar, ora<br \/>\ncheios de vivacidade cintilavam como o carb\u00fanculo. Seu porte, seus<br \/>\nademanes tinham a flexibilidade e a gra\u00e7a da cec\u00e9m, que ao sopro<br \/>\ndas brisas matinais embala-se \u00e0 beira da torrente. Ela se comprazia<br \/>\nmuitas vezes com a turba de suas companheiras em banhar os mimosos membros<br \/>\nnas \u00e1guas do seu p\u00e1trio rio, que ela fendia com a destreza e<br \/>\nrapidez da lontra. Tamb\u00e9m empunhava com gra\u00e7a e garbo senhoril<br \/>\num arco trabalhado de primorosas esculturas, e um carc\u00e1s tran\u00e7ado<br \/>\nde palhas de coqueiro imitando a pele escamosa e matizada de uma serpente<br \/>\ne bem provido de setas, com que fazia crua guerra \u00e0s avezinhas, cujas<br \/>\npenas cobi\u00e7ava para seus enfeites.<\/p>\n<p>Guaraciaba e Andiara n\u00e3o poupavam desvelos e cuidados para que Gon\u00e7alo<br \/>\nrecuperasse for\u00e7as e sa\u00fade. Ela mesma trazia em vasos de concha<br \/>\nde tartaruga, ou de madeira esculpida, os selv\u00e1ticos manjares preparados<br \/>\npor suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Ora o regalava com os mais saborosos<br \/>\npeixes e a ca\u00e7a a mais delicada, ora com os tenros palmitos ou a alva<br \/>\nmandioca embebida no delicioso mel de jata\u00ed, com ovos de tartaruga,<br \/>\ncom frutos silvestres, e o suave licor extra\u00eddo do tronco do buriti;<br \/>\ne Gon\u00e7alo como que ressurgia do t\u00famulo vivificado pela m\u00e3o<br \/>\nde um anjo.<\/p>\n<p>Entretanto os Chavantes em diversos grupos se dispersavam pelas imensas<br \/>\nflorestas que bordam as margens do Tocantins, em excurs\u00f5es mais ou<br \/>\nmenos long\u00ednquas de ca\u00e7adas e pescarias, ou em busca dos ingredientes<br \/>\nde que fabricam o precioso guaran\u00e1, de cuja composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nat\u00e9 hoje se ignora o segredo, ou em correrias pelas fazendas dos brancos,<br \/>\nonde iam exercer viol\u00eancias e rapinas.<\/p>\n<p>Quanto a Inim\u00e1, profundamente ofendido com as cru\u00e9is palavras<br \/>\ncom que Ori\u00e7anga o havia humilhado em presen\u00e7a de Guaraciaba<br \/>\ne de grande n\u00famero de guerreiros, se embrenhava \u00e0 testa de alguns<br \/>\ndos seus pelas florestas vizinhas para ocultar seu amargo despeito, e disposto<br \/>\na n\u00e3o aparecer sen\u00e3o para lavar sua afronta no sangue do atrevido<br \/>\nforasteiro que dela fora a causa. Nas tabas pois com Ori\u00e7anga e sua<br \/>\nfilha ficara apenas uma pequena parte da tribo, pela maior parte velhos, mulheres<br \/>\ne crian\u00e7as, e uma escolta de guerreiros escolhidos eram como uma guarda<br \/>\ndo velho cacique.<\/p>\n<p>Logo que Gon\u00e7alo se achou fora de perigo e algum tanto restabelecido<br \/>\nde suas for\u00e7as, foi conduzido pela gentil Guaraciaba \u00e0 presen\u00e7a<br \/>\ndo velho chefe, para narrar-lhe suas aventuras. Junto \u00e0 margem do rio,<br \/>\n\u00e0 sombra de uma colossal figueira silvestre, achava-se sentado o velho<br \/>\ncacique rodeado de alguns guerreiros veteranos, com os quais se comprazia<br \/>\nem rememorar as fa\u00e7anhas das eras de outrora, e com essas lembran\u00e7as<br \/>\ndo passado sua alma se expandia como o velho e carcomido tronco da floresta<br \/>\nj\u00e1 sem seiva nem folhagem, cujo calvo tope se enrama de vi\u00e7osas<br \/>\nparasitas e floridas trepadeiras. Gon\u00e7alo se assentou no meio deles;<br \/>\nservia-lhe de assento a sali\u00eancia de uma das enormes ra\u00edzes do<br \/>\ntronco. A mimosa filha de Ori\u00e7anga apresentou a cada um dos circunstantes<br \/>\num vaso de cauim, e um cachimbo aceso, que circulou de boca em boca, em sinal<br \/>\nde paz e boa amizade. Assentada sobre a relva a alguns passos em frente de<br \/>\nGon\u00e7alo, com os p\u00e9s encruzados, o bra\u00e7o pousado sobre<br \/>\nos joelhos e a face sobre a m\u00e3o, Guaraciaba, que nesse momento oferecia<br \/>\n\u00e0 estatu\u00e1ria o mais original e gracioso modelo, estava pronta<br \/>\na escutar com a maior aten\u00e7\u00e3o e infantil curiosidade.<\/p>\n<p>\u2014 Estrangeiro, diz Ori\u00e7anga, quem quer que tu sejas, ou descendas<br \/>\ndo sangue maldito do imboaba, ou tenhas nascido neste pa\u00eds que Tup\u00e1<br \/>\naben\u00e7oou, j\u00e1 que o c\u00e9u te fez cair em nosso poder, \u00e9s<br \/>\nnosso escravo, e faremos de ti o que nos aprouver. Mas diz algu\u00e9m que<br \/>\nn\u00e3o pertences \u00e0 ra\u00e7a detestada de nossos perseguidores,<br \/>\ne que as tuas tristes aventuras obrigam-te a vaguear pelas selvas foragido<br \/>\nsem taba e sem manit\u00f3s. Conta-nos pois com esp\u00edrito de verdade<br \/>\na hist\u00f3ria de teus infort\u00fanios, e \u00e0 vista dela veremos<br \/>\nqual a sorte que mereces.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, prevenido por Guaraciaba de que teria de contar ao pai dela<br \/>\na hist\u00f3ria dos acontecimentos de sua vida , j\u00e1 tinha fantasiado<br \/>\nem seu esp\u00edrito a narra\u00e7\u00e3o que devia fazer ao velho cacique.<br \/>\nN\u00e3o lhe era preciso inventar muitas f\u00e1bulas, mas somente disfar\u00e7ar<br \/>\ncertas circunst\u00e2ncias de sua vida mudando o nome de algumas pessoas<br \/>\ne lugares e ocultando a sua verdadeira nacionalidade, para tornar interessante<br \/>\na sua narra\u00e7\u00e3o. Assim pois misturando \u00e0s vezes a hist\u00f3ria<br \/>\nreal de sua vida, cheia de incidentes e trabalhos, com algumas f\u00e1bulas<br \/>\npor ele mesmo ideadas, disse que pertencia \u00e0 bela e formid\u00e1vel<br \/>\ntribo dos Guaicurus, que habitavam as remotas regi\u00f5es banhadas pelos<br \/>\nrios Paran\u00e1 e Paraguai. Seu pai era um cacique afamado naquelas paragens<br \/>\npor seu grande valor e poderio. Esse cacique \u00e0 testa de seus valentes<br \/>\nguerreiros montados em grandes e velozes cavalos, percorriam as campinas de<br \/>\nseu pa\u00eds natal com a rapidez do tuf\u00e3o, e causavam estragos e<br \/>\ndevasta\u00e7\u00f5es imensas nos estabelecimentos dos brancos de quem<br \/>\nse tinham tornado implac\u00e1veis inimigos. Enfim, depois de uma guerra<br \/>\ndesastrosa, ele, seu pai e toda a sua fam\u00edlia tinham ca\u00eddo prisioneiros<br \/>\nem poder dos brancos; depois tinham sido conduzidos por seus senhores a Goi\u00e1s,<br \/>\nonde foram vendidos e longo tempo gemeram v\u00edtimas de b\u00e1rbaro<br \/>\ne violento cativeiro, e onde vira seu pai sucumbir ao peso de maus tratamentos<br \/>\ne excessivos trabalhos. Enfim crescendo em for\u00e7as e idade, e n\u00e3o<br \/>\npodendo por modo algum resignar-se a suportar o jugo infame da escravid\u00e3o,<br \/>\nconseguira evadir-se, e se refugiara nas matas do Alto Tocantins. Acolhido<br \/>\nentre os Coroados, que habitavam essas regi\u00f5es, em breve adquiriu a<br \/>\nestima e apre\u00e7o dos principais da tribo, que o escolheram para comandar<br \/>\numa expedi\u00e7\u00e3o que tinha de marchar a exercer vingan\u00e7as<br \/>\ne depreda\u00e7\u00f5es nas povoa\u00e7\u00f5es dos imboabas. Aproveitou-se<br \/>\ncom sofreguid\u00e3o dessa ocasi\u00e3o para vingar a morte de seu pai,<br \/>\nmatando com a pr\u00f3pria m\u00e3o o seu algoz e reduzindo a cinzas suas<br \/>\nfazendas. Em muitas outras ocasi\u00f5es teve de prestar os mais importantes<br \/>\nservi\u00e7os aos Coroados, quer expondo intrepidamente a sua vida na guerra,<br \/>\nquer ensinando-lhes diversos of\u00edcios e artes, que aprendera durante<br \/>\no seu cativeiro entre os brancos, quer enriquecendo-os com instrumentos, armas<br \/>\ne mil outros despojos de imenso valor, que saqueava das fazendas que destru\u00eda.<br \/>\nMas enfim seus pr\u00f3prios feitos e servi\u00e7os suscitaram-lhe uma<br \/>\nmultid\u00e3o de inimigos, excitando a inveja e descontentamento de muitos,<br \/>\nque tinham ci\u00fame do brilho e lustre que seu nome ia adquirindo entre<br \/>\neles. Seus rivais n\u00e3o ousavam guerre\u00e1-lo abertamente, mas urdiamlhe<br \/>\nciladas de todo o g\u00eanero, e moviam-lhe uma persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\ntrai\u00e7oeira, \u00e0 qual teria inevitavelmente sucumbido, se n\u00e3o<br \/>\ntivesse fugido ocultamente a favor da noite em uma canoa confiando sua vida<br \/>\n\u00e0 merc\u00ea da corrente do rio sagrado, que o tinha conduzido at\u00e9<br \/>\nali, afrontando novos trabalhos e perigos em busca de um asilo em qualquer<br \/>\ncanto do mundo. Chegando \u00e0quelas paragens eles Chavantes tomando-o<br \/>\npor um inimigo, ou imboaba, o tinham atacado t\u00e3o bruscamente e com<br \/>\ntal sanha, que o colocaram na necessidade de defender-se com encarni\u00e7amento<br \/>\nat\u00e9 o \u00faltimo trance.<\/p>\n<p>Enfim nenhuma inimizade ou indisposi\u00e7\u00e3o tinha com os Chavantes,<br \/>\nde cujo poderio tinha muitas vezes ouvido falar, e cuja bravura ecoava at\u00e9<br \/>\nas mais remotas regi\u00f5es. Esperava que dali em diante n\u00e3o o considerassem<br \/>\nmais como um inimigo, nem como um estrangeiro, por\u00e9m sim como um companheiro<br \/>\nde mais, um aliado fiel, que n\u00e3o aspira a outra coisa mais do que a<br \/>\nter ocasi\u00e3o de expor sua vida e derramar seu sangue pela causa dos<br \/>\nvalentes Chavantes, e de seu bravo e poderoso chefe.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo entremeara nesta narra\u00e7\u00e3o os in\u00fameros<br \/>\ne variados epis\u00f3dios de sua vida agitada e aventureira, envolvendo-os<br \/>\nem circunst\u00e2ncias estranhas e fant\u00e1sticas; pintava com mod\u00e9stia,<br \/>\npor\u00e9m com anima\u00e7\u00e3o e calor, os renhidos combates em que<br \/>\ntinha suplantado seus inimigos e rivais, os rudes trabalhos e arriscadas aventuras<br \/>\npor que tinha passado, as proezas que praticou comandando os Coroados em suas<br \/>\ncorrerias pelas fazendas dos brancos, e assim teve por largo tempo presa a<br \/>\naten\u00e7\u00e3o do cacique e mais ouvintes, que absortos e enlevados<br \/>\nn\u00e3o se fartavam de escut\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Bem! Disse o velho caudilho apenas Gon\u00e7alo deu por terminada<br \/>\na sua narra\u00e7\u00e3o; os teus infort\u00fanios me tocam, e tuas<br \/>\npalavras parecem-me ser inspiradas pelo esp\u00edrito da verdade. Itajiba,<br \/>\ntu \u00e9s um bravo, e as fa\u00e7anhas que tens praticado s\u00e3o<br \/>\ndignas dos mais valentes caciques. Mas antes de seres adotado em nossa tribo,<br \/>\ncomo pareces desejar, \u00e9 mister que proves com os teus feitos e com<br \/>\nservi\u00e7os reais, que n\u00e3o com meras palavras, a for\u00e7a de<br \/>\nteu bra\u00e7o, a valentia de teu \u00e2nimo, e a lealdade de teu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor agora por\u00e9m cumpre que continues o teu curativo, e que recuperes<br \/>\ncompletamente com o sangue vazado por tantas e t\u00e3o graves feridas a<br \/>\nsa\u00fade e as for\u00e7as de que haver\u00e1s mister para te sujeitares<br \/>\na essas prova\u00e7\u00f5es, e mostrares o que podes e sabes fazer. N\u00e3o<br \/>\nser\u00e1s mais tratado como prisioneiro; \u00e9s livre; as florestas<br \/>\ne as campinas te s\u00e3o francas; podes por elas vagar e ca\u00e7ar a<br \/>\nteu sabor, como se estivesses em teu pa\u00eds natal, pois que essa formosa<br \/>\ncriatura, a quem por felicidade tua soubeste inspirar interesse e piedade,<br \/>\ngarante a sinceridade de tuas palavras, e a minha Guaraciaba, que conversa<br \/>\ncom os manit\u00f3s celestes, e escuta as falas dos sagrados paj\u00e9s,<br \/>\nn\u00e3o costuma iludir-se.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo ou Itajiba, como se chamou durante o tempo que esteve entre<br \/>\nos Chavantes, restitu\u00eddo \u00e0 liberdade, e tratado com o mais carinhoso<br \/>\ndesvelo na taba do velho Ori\u00e7anga, sentia de dia em dia renascerem-lhe<br \/>\nas for\u00e7as e vigorar-se-lhe a sa\u00fade. Viu com prazer que todas<br \/>\nas suas armas lhe tinham sido fielmente conservadas. Mas suas armas de fogo<br \/>\nse lhe tornavam da\u00ed em diante completamente in\u00fateis, pois estavam<br \/>\nvazias, e nenhuma muni\u00e7\u00e3o lhe restava para de novo carreg\u00e1-las;<br \/>\nisto causava-lhe bastante pesar, pois essas armas com suas temerosas detona\u00e7\u00f5es<br \/>\ne seu maravilhoso mecanismo seriam um objeto de assombro para aqueles selvagens<br \/>\ne mais um meio para atrair seu respeito e admira\u00e7\u00e3o, e dar a<br \/>\nGon\u00e7alo ainda mais prest\u00edgio entre eles.<\/p>\n<p>Notou ainda mais, com \u00edntima satisfa\u00e7\u00e3o, que lhe tinham<br \/>\ndeixado intacto o sagrado talism\u00e3 objeto de seu fervoroso culto, a<br \/>\nimagem de sua celestial protetora em todos os trabalhos e perigos da vida.<br \/>\nA curiosa Guaraciaba n\u00e3o p\u00f4de deixar de perguntar-lhe o que significava<br \/>\naquele objeto com aquela linda imagenzinha de ouro, que sempre trazia pendente<br \/>\nao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 um precioso e sagrado manit\u00f3, que me legaram meus<br \/>\npais, respondeu-lhe Gon\u00e7alo, \u00e9 ele quem me proteje, e noite<br \/>\ne dia vela sobre meus passos, e quem leva minhas rogativas at\u00e9 o trono<br \/>\ndo Grande Tup\u00e1. Sem ele h\u00e1 muito teria sucumbido aos imensos<br \/>\ntrabalhos e perigos que me t\u00eam atribulado a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Dizendo isto Gon\u00e7alo levou aos l\u00e1bios respeitosamente a santa<br \/>\nimagem, e a apresentou \u00e0 filha de Ori\u00e7anga, para que fizesse<br \/>\no mesmo. Guaraciaba imitou-o com gesto t\u00edmido, e disse: \u2014 Eu<br \/>\ntamb\u00e9m quisera ter um lindo manit\u00f3 como este; mas dar-se-\u00e1<br \/>\ncaso que ele tamb\u00e9m me proteja, como protege a ti? \u2014 E por que<br \/>\nn\u00e3o, uma vez que o veneres com sincero amor e respeito, e invoques<br \/>\ncom f\u00e9 viva a sua prote\u00e7\u00e3o? Se ele atende \u00e0 rogativa<br \/>\ndo infeliz foragido, a quem as paix\u00f5es e os desatinos da mocidade arrojaram<br \/>\nnum pego de desgra\u00e7as, muito mais piedoso ouvido prestar\u00e1 sem<br \/>\nd\u00favida \u00e0 t\u00edmida s\u00faplica da casta e formosa virgem<br \/>\ndo deserto. Tu o ter\u00e1s um dia, eu to prometo, e sentir\u00e1s os<br \/>\nsalutares efeitos de sua miraculosa prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Guaraciaba, que desde a primeira vista sentira pelo jovem estrangeiro uma<br \/>\ns\u00fabita e viva afei\u00e7\u00e3o, ing\u00eanua e singela como todas<br \/>\nas filhas da floresta, abandonava-se sem escr\u00fapulo a esse sentimento,<br \/>\nde que apenas tinha consci\u00eancia e nem procurava dissimul\u00e1-lo.<br \/>\nSua uni\u00e3o com Inim\u00e1, a quem ela n\u00e3o votava nem \u00f3dio<br \/>\nnem afei\u00e7\u00e3o, era apenas um projeto de fam\u00edlia, de que<br \/>\nouvia falar desde o ber\u00e7o, e do qual na infantil singeleza de sua alma<br \/>\nn\u00e3o compreendia ainda nem a import\u00e2ncia nem o alcance, e assim<br \/>\na inocente dando folgas a essa paix\u00e3o, que come\u00e7ava a germinar<br \/>\ncom intensidade em seu cora\u00e7\u00e3o, mal pensava que criava um insuper\u00e1vel<br \/>\nobst\u00e1culo \u00e0 sua uni\u00e3o com o jovem cacique. N\u00e3o<br \/>\nassim Gon\u00e7alo, que n\u00e3o podendo ser insens\u00edvel a t\u00e3o<br \/>\ncasto e t\u00e3o sincero amor da virgem indiana, bem previa que esse amor<br \/>\ndevia tornar-se um dia a origem de tristes complica\u00e7\u00f5es e fatais<br \/>\nconflitos, e olhava com inquieta\u00e7\u00e3o para o futuro, que antevia<br \/>\neri\u00e7ado de dificuldades e perigos; por isso quase sempre uma nuvem<br \/>\nde tristeza pairava em sua fronte grave e pensativa.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>CAP\u00cdTULO V O TRANSVIO<\/h2>\n<p>Logo que Itajiba mais vigoroso se achou em estado de encurvar um arco e ensaiar<br \/>\nseus passos pelas sendas da floresta, Guaraciaba, para distra\u00ed-lo de<br \/>\nsua ina\u00e7\u00e3o e dos cuidados que pareciam atorment\u00e1-lo,<br \/>\nconvidou-o a um passeio e ca\u00e7ada de aves pelas selvas circunvizinhas.<br \/>\nItajiba teve logo ensejo de mostrar sua maravilhosa destreza em atirar a flecha,<br \/>\ncom grande prazer de Guaraciaba, que saltava de contente conduzindo para a<br \/>\nsua taba uma chusma de avezinhas de variadas cores, derribadas pelas certeiras<br \/>\nflechadas de Itajiba.<\/p>\n<p>As roupas velhas e dilaceradas, que Gon\u00e7alo trouxera consigo, j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o podiam servir a Itajiba; tendo de ser adotado na tribo dos Chavantes<br \/>\nfor\u00e7oso lhe era que se trajasse \u00e0 maneira dos selvagens. Guaraciaba,<br \/>\nauxiliada por suas companheiras, incumbiu-se de vesti-lo e arm\u00e1-lo<br \/>\ncom todo o esplendor do luxo selv\u00e1tico. Uma t\u00fanica, que lhe<br \/>\ndescia at\u00e9 os joelhos, enfeitada de penas de brilhantes cores, lhe<br \/>\nrodeava a cintura; um carc\u00e1s formado de pele de uma monstruosa jib\u00f3ia<br \/>\nlhe pendia dos ombros recheado de mort\u00edferas setas.<\/p>\n<p>Em vez do chap\u00e9u de couro sombreava-lhe a fronte um diadema de plumas<br \/>\nondulantes de vistosas e brilhantes cores. Um rico tacape e um bem trabalhado<br \/>\narco, que Guaraciaba despendurou da sala de armas de seu pai, foram por ele<br \/>\nempunhados. Em forma de manto a pele mosqueada de um enorme jaguar lhe ca\u00eda<br \/>\npelas esp\u00e1duas. A estes trajos selv\u00e1ticos Itajiba, pouco afeito<br \/>\na trazer os membros expostos aos rigores do tempo, ajuntou uns borzeguins<br \/>\nou polainas de pele de sucuri, impenetr\u00e1vel \u00e0 umidade, agasalhou<br \/>\nos ombros e o peito com uma esp\u00e9cie de gib\u00e3o estreito feito<br \/>\nde macias e finas peles, apertou o seu cintur\u00e3o de couro de lontra,<br \/>\nao qual prendeu a sua larga faca, e com estes trajos pareceu aos olhos de<br \/>\ntodos garboso e belo como um verdadeiro pr\u00edncipe das florestas.<\/p>\n<p>Os passatempos e ca\u00e7adas de Itajiba e Guaraciaba repetiam-se todos<br \/>\nos dias, e o tempo assim lhes corria suave, como as ondas serenas do p\u00e1trio<br \/>\nrio \u00e0 sombra dos arvoredos seculares, e sua m\u00fatua afei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nalimentada por aqueles solit\u00e1rios entretenimentos, de dia em dia se<br \/>\naumentava, sem que eles se apercebessem, e se expandia como a flor ignorada<br \/>\ne sem nome, que exala seus perfumes na solid\u00e3o. \u00c0 medida que<br \/>\ncresciam as for\u00e7as de Itajiba, esses passeios foram-se alargando a<br \/>\nmaiores dist\u00e2ncias, j\u00e1 deslizando vagarosamente em uma leve piroga<br \/>\nao longo das umbrosas ribanceiras, j\u00e1 pelas veredas escondidas da floresta;<br \/>\ne pelo caminho Itajiba fazia cair aos certeiros tiros de seu arco a arara<br \/>\nazul ou encarnada, a alva gar\u00e7a, rainha dos lagos, o r\u00f3seo colhereiro,<br \/>\ncujas penas s\u00e3o t\u00e3o estimadas, o tucano de enorme bico, cujo<br \/>\npeito rubro \u00e9 procurado para enfeite da t\u00fanica das virgens,<br \/>\no ja\u00f3, o inhambu, a capoeira, cujas carnes s\u00e3o t\u00e3o tenras<br \/>\ne saborosas, e mil outras aves, de cujas lindas penas Guaraciaba com suas<br \/>\nh\u00e1beis m\u00e3os compunha vistosos ornatos para as armas de seus<br \/>\nguerreiros.<\/p>\n<p>Guaraciaba tanto tinha de meiga e singela, como de alegre e tr\u00eafega;<br \/>\nela se aprazia por vezes em perturbar com encantadoras travessuras as graves<br \/>\ne profundas cismas de seu amigo. Ora lesta e subtil como uma lebre sumia-se<br \/>\nentre as moitas da floresta, sem que Itajiba o pressentisse; este dando por<br \/>\nsua falta, olha inquieto para todos os lados , chama-a gritando seu nome uma<br \/>\ne muitas vezes, aplica o ouvido aos ecos; mas Guaraciaba n\u00e3o responde,<br \/>\nnem aparece em parte alguma. No auge da inquieta\u00e7\u00e3o Itajiba<br \/>\nperplexo n\u00e3o sabe nem o que pensar nem o que fazer, quando sente por<br \/>\ndetr\u00e1s uma ligeiras m\u00e3ozinhas a lhe tapar os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Guaraciaba! lhe diz ele sorrindo, que susto me causaste! oh! n\u00e3o<br \/>\nbrinques mais por essa forma, que me fazes mal.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoa-me, Itajiba; quis distrair-te de teus cuidados. Estavas t\u00e3o<br \/>\ntriste e pensativo! parece que tens muita saudade dos teus e do teu pai! \u2014<br \/>\nN\u00e3o; pura e formosa filha de Ori\u00e7anga, quando estou junto a<br \/>\nteu lado, que me importa o resto do mundo?&#8230;<\/p>\n<p>Outras vezes com pena das pobres avezinhas, em que Itajiba fazia a mira,<br \/>\nou lhe espantava a ca\u00e7a, ou lhe fazia perder o tiro tocando-lhe o bra\u00e7o<br \/>\nno momento de despedir a seta.<\/p>\n<p>Uma vez ambos atravessavam o rio em uma canoa, que Itajiba remava; estavam<br \/>\nainda longe da barranca oposta, quando Guaraciaba s\u00fabito d\u00e1<br \/>\num grito, salta na \u00e1gua e desaparece. Itajiba p\u00e1lido de susto<br \/>\npensa que algum monstro do rio, algum jacar\u00e9 ou sucuri, a arrebatou;<br \/>\nsem perder um momento salta na \u00e1gua com a faca em punho, mergulha e<br \/>\nsurge de novo \u00e0 tona da \u00e1gua, torna a mergulhar e a surgir,<br \/>\ne nada v\u00ea sen\u00e3o a canoa rodando rio abaixo sem governo.<\/p>\n<p>Em desesperada ansiedade estava resolvido a morrer naquelas \u00e1guas<br \/>\nantes do que sair delas sem Guaraciaba, quando uma gargalhada vibrante e harmoniosa<br \/>\ncomo o canto da siriema retroa no barranco vizinho. Era Guaraciaba, que de<br \/>\nprop\u00f3sito se lan\u00e7ara ao rio, e de um mergulho ganhara a margem.<br \/>\nItajiba ganha de novo a canoa, e dirige-se para o barranco.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 querida e formosa Guaraciaba, diz ele ao chegar entre risonho<br \/>\ne grave, por piedade, n\u00e3o brinques mais assim. Olha que um dia, assim<br \/>\ncomo hoje tomei um gracejo teu pela realidade, poderei tomar a realidade por<br \/>\ngracejo e faltar-te no perigo.<\/p>\n<p>Um dia a alegria e contentamento, que sempre reinavam nas partidas de ca\u00e7a<br \/>\ndos dois selv\u00e1ticos amantes, foram perturbados por um triste, posto<br \/>\nque bem simples incidente. Itajiba avistara pousadas sobre um galho de uma<br \/>\nalta canjerana duas lindas e grandes juritis de luzidia plumagem, que se beijavam<br \/>\ne se afagavam com os encarnados biquinhos, arrulhando de prazer; imediatamente<br \/>\nembebe a seta e curva o arco.<\/p>\n<p>\u2014 Pobrezinhas! exclama Guaraciaba correndo a estorv\u00e1-lo, n\u00e3o<br \/>\nas mate, n\u00e3o; deixa-as.<\/p>\n<p>Mas o tiro tinha partido sibilando, e as duas amantes pombas ca\u00edram<br \/>\nvaradas no cora\u00e7\u00e3o pela mesma seta.<\/p>\n<p>Uma nuvem de tristeza cobriu o cora\u00e7\u00e3o de Guaraciaba, que<br \/>\nnesse dia n\u00e3o brincou nem sorriu mais, um funesto pressentimento a<br \/>\nafligia, e aquele acontecimento parecia-lhe um press\u00e1gio sinistro,<br \/>\nmas n\u00e3o sabia de qu\u00ea, Itajiba em v\u00e3o procurava dissipar<br \/>\na triste preocupa\u00e7\u00e3o de sua amiga, j\u00e1 zombando daquela<br \/>\npueril apreens\u00e3o, j\u00e1 procurando desvanec\u00ea-la com raz\u00f5es<br \/>\ns\u00e9rias. Guaraciaba resolveu-se a consultar os paj\u00e9s sobre a<br \/>\nsignifica\u00e7\u00e3o daquele nefasto acontecimento. O primeiro a quem<br \/>\nse dirigiu respondeu-lhe abanando a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! filha de Ori\u00e7anga, semelhante sucesso n\u00e3o pode<br \/>\nser de bom agouro. Resguarda bem teu cora\u00e7\u00e3o das chamas do amor:<br \/>\nteu cora\u00e7\u00e3o e o daquele a quem amares n\u00e3o poder\u00e3o<br \/>\nser unidos sen\u00e3o pela morte.<\/p>\n<p>\u2014 Em que te pode afligir um fato t\u00e3o simples, \u00f3 bela<br \/>\ne mimosa filha do mais poderoso dos caciques? disselhe o venerando Andiara,<br \/>\na quem consultou depois. Essa seta traspassando ao mesmo tempo duas inocentes<br \/>\npombas \u00e9 o amor unindo para sempre duas almas puras.<\/p>\n<p>Esta engenhosa e consoladora explica\u00e7\u00e3o calou no esp\u00edrito<br \/>\nde Guaraciaba, e nesse mesmo dia se desvaneceram todos os seus sombrios pressentimentos.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo, que no meio da sociedade civilizada s\u00f3 se tinha afei\u00e7oado<br \/>\npor capricho e passageiramente a uma ou outra mulher, agora no meio das selvas<br \/>\nsentia brotar com energia em seu cora\u00e7\u00e3o o g\u00e9rmen de<br \/>\numa paix\u00e3o ardente e profunda pela mimosa e encantadora virgem dos<br \/>\nChavantes. Posto que visse que esse sentimento era correspondido de um modo<br \/>\ninequ\u00edvoco pela filha de Ori\u00e7anga, nem por isso o futuro se<br \/>\nlhe antolhava muito sereno e limpo de tormentas. Sabia que o velho cacique,<br \/>\ncioso do lustre de sua descend\u00eancia, a destinava desde a inf\u00e2ncia<br \/>\nao jovem e garboso guerreiro Inim\u00e1, que tamb\u00e9m de seu lado a<br \/>\nadorava extremosamente, e somente morto renunciaria ao seu amor. E Ori\u00e7anga,<br \/>\nos paj\u00e9s, os veteranos da tribo, a na\u00e7\u00e3o inteira enfim<br \/>\npoderiam ver impass\u00edveis a quebra de t\u00e3o solenes promessas,<br \/>\ne consentiriam de bom grado que a ilustre e formosa noiva de Inim\u00e1<br \/>\npassasse aos bra\u00e7os de um obscuro estrangeiro, foragido e sem nome?<br \/>\nEm outros tempos Gon\u00e7alo sem deter-se um momento em nenhuma dessas<br \/>\nconsidera\u00e7\u00f5es a teria arrebatado \u00e0 for\u00e7a de armas<br \/>\ne despeito de Ori\u00e7anga, de Inim\u00e1 e dos Chavantes, e teria arrostado<br \/>\no furor da tribo inteira s\u00f3 para possu\u00ed-la. Mas os longos infort\u00fanios<br \/>\ne reveses por que passara tinham domado um pouco sua \u00edndole impaciente<br \/>\ne fogosa, tornando-o mais prudente e cauteloso.<\/p>\n<p>Guaraciaba por sua parte ouvia com indiferen\u00e7a desde a inf\u00e2ncia<br \/>\nfalar-se em sua futura uni\u00e3o com Inim\u00e1, e nunca ao nome desse<br \/>\nguerreiro sentira palpitar-lhe mais r\u00e1pido o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor\u00e9m depois que conheceu o jovem estrangeiro, essa id\u00e9ia tornou-se<br \/>\num peso para sua alma, e n\u00e3o concebia como poderia ser mulher de Inim\u00e1<br \/>\namando Itajiba. Mas seu cora\u00e7\u00e3o, cheio da confian\u00e7a que<br \/>\na inoc\u00eancia inspira, repousava no porvir e esperava que o c\u00e9u<br \/>\naplainaria todas as dificuldades, e portanto abandonava-se sem reserva \u00e0<br \/>\npaix\u00e3o que a dominava.<\/p>\n<p>Inim\u00e1, retra\u00eddo na profundez das selvas com alguns dos Chavantes<br \/>\nque lhe eram mais afei\u00e7oados, continuava a viver afastado das tabas<br \/>\ne quase sem comunica\u00e7\u00e3o alguma com o resto da tribo, e o desgra\u00e7ado<br \/>\namante ignorava ainda que nesse m\u00edsero forasteiro, que deixara moribundo<br \/>\ne crivado de golpes e somente digno de l\u00e1stima e piedade, surgia contra<br \/>\nele um poderoso e formid\u00e1vel rival de gl\u00f3ria e de amor.<\/p>\n<p>Isolado no fundo das solid\u00f5es procurava disfar\u00e7ar o seu pesar<br \/>\ne abreviar o tempo ansiosamente esperado de lavar sua afronta, cevando o seu<br \/>\nfuror nos fragueiros exerc\u00edcios da ca\u00e7a, e perseguindo animais<br \/>\nferozes, como o touro batido e expelido da manada, que desabafa as iras entre<br \/>\nrugidos furiosos escorchando troncos e rasgando a terra com as polidas pontas.<\/p>\n<p>Um dia os dois amantes, enlevados em seus entretenimentos, transpondo arroios,<br \/>\ndescendo grutas e galgando colinas, n\u00e3o dando f\u00e9 das dist\u00e2ncias<br \/>\nque percorriam, nem das horas que se escoavam rapidamente, esquecidos das<br \/>\ntabas, do tempo e do mundo, foram-se alargando mais que de costume em seu<br \/>\npasseio pela floresta.<\/p>\n<p>Quando enfim j\u00e1 fatigados e percebendo-se do tempo, que fugia, lembraram-se<br \/>\nde encaminhar seus passos de novo para as cabanas, acharam-se em consider\u00e1vel<br \/>\ndist\u00e2ncia, e com o dia j\u00e1 quase a terminar sua carreira. O sol<br \/>\ndescambava rapidamente para o ocaso, e nuvens bronzeadas, que de espa\u00e7o<br \/>\nem espa\u00e7o enchiam-se de fogo como estofos de algod\u00e3o ardente,<br \/>\nanunciavam iminente tempestade. Itajiba, que desconhecia aqueles lugares,<br \/>\nonde pela primeira vez penetrava, e que se achava algum tanto confundido pelos<br \/>\ngiros e voltas que dera pela floresta, subiu a uma emin\u00eancia a fim de<br \/>\nprocurar orientar-se; mas o negrume do ocidente, impelido por uma rija ventania,<br \/>\ncome\u00e7ava a apoderar-se de todo o horizonte; o sol se escondera completamente<br \/>\nentre um mont\u00e3o de negras e carregadas nuvens, e Itajiba, cercado por<br \/>\ntodos os lados de horizontes nublados e morros cobertos de florestas, n\u00e3o<br \/>\npodia atinar com o rumo das habita\u00e7\u00f5es dos Chavantes.<\/p>\n<p>Por si s\u00f3 nada receava Itajiba, afeito a assoberbar todos os contratempos<br \/>\nsuscitados pelos homens ou pelos elementos; nem t\u00e3o pouco sentia-se<br \/>\nsem coragem para proteger contra quaisquer azares naquelas solid\u00f5es<br \/>\na fr\u00e1gil e mimosa criatura que t\u00e3o cheia de confian\u00e7a<br \/>\no acompanhava. Ele bastaria para Guaraciaba, como Guaraciaba era todo o seu<br \/>\nmundo ou antes o seu c\u00e9u. Mas a sua longa aus\u00eancia, o sol que<br \/>\nbaixava, a tempestade e a noite, que se avizinhava, as suspeitas e susto de<br \/>\nOri\u00e7anga e de todos os Chavantes crendo perdida sua Guaraciaba e talvez<br \/>\nroubada por ele, em quem t\u00e3o generosamente se fiara, e sobre quem iam<br \/>\nrecair ainda que por momentos suspeitas da mais negra deslealdade, tudo isto<br \/>\neram reflex\u00f5es que o enchiam da mais cruel inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O vento rugia cada vez com mais viol\u00eancia; o c\u00e9u se abria em<br \/>\ncataratas de fogo, e a chuva come\u00e7ava a despejar-se em torrentes; a\u00e7oitadas<br \/>\npela refega as \u00e1rvores vergavam-se rangendo e uivando horrivelmente,<br \/>\ne de tempos a tempos um tronco arrancado pelo temporal baqueava com temeroso<br \/>\nestrondo desabando pelos grot\u00f5es profundos. Itajiba naquela cruel conjuntura,<br \/>\nj\u00e1 esquecido de todos os mais cuidados, s\u00f3 tratou de procurar<br \/>\numa guarida, em que pudesse p\u00f4r a salvo de t\u00e3o tremendo temporal<br \/>\na sua amada Guaraciaba. Mas por toda a parte s\u00f3 via as selvas imensas,<br \/>\nque rugiam e curvavam-se amea\u00e7adoras como querendo desabar sobre suas<br \/>\ncabe\u00e7as, e as torrentes que estrugiam rolando troncos e rochedos pelas<br \/>\nquebradas inacess\u00edveis. Tomando Guaraciaba pela m\u00e3o e amparando-a<br \/>\ncontra a f\u00faria do vento, que parecia querer arranc\u00e1-la do solo<br \/>\ne arrebat\u00e1-la pelos ares, Itajiba foi descendo para um grot\u00e3o,<br \/>\nno fundo do qual roncava um ribeir\u00e3o encachoeirado entre rochedos.<br \/>\nN\u00e3o longe da ribanceira enorme lajedo servia de teto a uma vasta e<br \/>\nprofunda furna, cuja larga entrada se formava sobre uma esplanada, por baixo<br \/>\nda qual a torrente turva e espumosa rolava em catadupas. Essa furna medonha<br \/>\n\u00e0 margem de um abismo, ninho talvez de panteras e serpentes, tornou-se<br \/>\nnesse dia como a alcova misteriosa que acolheu em seu seio dois amantes felizes,<br \/>\nque a tempestade surpreendeu desgarrados de seus lares, e os abrigou contra<br \/>\na f\u00faria dos elementos desencadeados. Entretanto Guaraciaba, perdida<br \/>\nno deserto com seu amante em meio daquela horrorosa borrasca, n\u00e3o mostrava<br \/>\npavor nem inquieta\u00e7\u00e3o alguma, e sorria-se ao perigo, como a<br \/>\ngaivota unindo seus alegres pios ao rugir do furac\u00e3o dos mares. \u00c9<br \/>\nque ela se fiava na sua inoc\u00eancia e na eficaz prote\u00e7\u00e3o<br \/>\nde seu valente e dedicado amante. Ali no interior daquela furna os dois amantes<br \/>\nse assentaram ao lado um do outro sobre um musgoso banco de pedra talhado<br \/>\npela natureza, esperando que a tormenta se amainasse. Itajiba enla\u00e7ava<br \/>\no bra\u00e7o em torno do colo de Guaraciaba, e lhe apertava as m\u00e3os<br \/>\nentre as suas, enquanto esta fitava nele seus olhos negros cheios ao mesmo<br \/>\ntempo de amor e de timidez.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>CAP\u00cdTULO VI &#8211; NA LAPA<\/h2>\n<p>As paix\u00f5es grandes gostam de expandir-se em ocasi\u00f5es solenes<br \/>\nem face dos espet\u00e1culos grandiosos da natureza, em meio das solid\u00f5es.<br \/>\nItajiba, com o cora\u00e7\u00e3o a transbordar de emo\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de amor, pensou que o c\u00e9u lhe enviara aquela tremenda tempestade<br \/>\ne lhe mostrara aquele rec\u00f4ndito e misterioso abrigo de prop\u00f3sito<br \/>\npara que tivesse ensejo de revelar \u00e0 formosa filha de Ori\u00e7anga<br \/>\ntoda a for\u00e7a e ardor imenso de sua paix\u00e3o, e todos os cuidados<br \/>\ne desassossegos que o acompanhavam. Enquanto pois em roda e por fora da caverna<br \/>\nurravam os furac\u00f5es, de instante a instante os raios estalavam, a torrente<br \/>\nentumecida despenhava-se com fragor na profundeza do abismo, e a tormenta<br \/>\ndesabava furiosa dilacerando o manto verde-negro das florestas, uma paix\u00e3o<br \/>\nimensa como os desertos onde engendrou-se, pura como a casta e inocente virgem<br \/>\nque dela era objeto, se desafogava em palavras repassadas de ternura no seio<br \/>\nda selv\u00e1tica beleza que a tinha sabido inspirar.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 minha mui formosa e querida Guaraciaba, murmurava Itajiba<br \/>\naos p\u00e9s da filha de Ori\u00e7anga; se teu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nadivinhou nem compreendeu o puro e ardente afeto que do fundo da alma te consagro,<br \/>\neu n\u00e3o sei por que maneira, nem com que palavras te possa explic\u00e1-lo,<br \/>\npois nem na nossa linguagem das florestas, nem naquela que os imboabas nossos<br \/>\nperseguidores me ensinaram, n\u00e3o existem express\u00f5es que possam<br \/>\ndar id\u00e9ia dos suaves transportes desta paix\u00e3o imensa e profunda,<br \/>\nque tu, \u00f3 a mais formosa das filhas da floresta, s\u00f3 tu soubeste<br \/>\ninspirar me. Paix\u00f5es como esta, que me devora, n\u00e3o as pode explicar<br \/>\na l\u00edngua dos homens; s\u00f3 os anjos do c\u00e9u poderiam exprimi-las<br \/>\nem seus cantares de inef\u00e1vel harmonia. Ah! e como poderia eu n\u00e3o<br \/>\namar-te, a ti, manit\u00f3 celeste enviado por Tup\u00e1 para velar sobre<br \/>\nmeus dias, a ti, que com teus carinhosos desvelos, com teu divinal sorriso<br \/>\nme restitu\u00edste \u00e0 vida, quando eu era j\u00e1 cad\u00e1ver,<br \/>\na ti enfim, que com teu amor tornando-me o mais feliz dos viventes, vens abrir-me<br \/>\nde novo as portas do porvir e da esperan\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>A estas palavras Itajiba cobriu de ardentes beijos as m\u00e3os de Guaraciaba,<br \/>\nque tinha entre as suas, levantou-se e assentou-se de novo ao lado dela, continuou<br \/>\nem tom mais grave: \u2014 Mas ah! minha querida Guaraciaba, quantos embara\u00e7os<br \/>\ne obst\u00e1culos invenc\u00edveis n\u00e3o v\u00eam opor-se ao complemento<br \/>\nde nossa felicidade! e qu\u00e3o incerta \u00e9 a nossa sorte no futuro!<br \/>\nTeu pai desde o ber\u00e7o destinou-te ao belo e valente Inim\u00e1, que<br \/>\ntamb\u00e9m te adora com extremo; e teu pai jamais consentir\u00e1 em<br \/>\nquebrar t\u00e3o sagrado compromisso. Os guerreiros de tua tribo de h\u00e1<br \/>\nmuito te consideram e aclamam \u00e0 futura esposa desse brilhante chefe,<br \/>\ne sem d\u00favida se opor\u00e3o resolutamente a que sejas entregue ao<br \/>\nobscuro estrangeiro foragido. Bem sei que as florestas imensas est\u00e3o<br \/>\n\u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, e que em qualquer canto da terra,<br \/>\nsem nada mais que o nosso amor, ser\u00edamos felizes, como o somos agora<br \/>\ndentro desta lapa zombando das tormentas, que a\u00ed rugem pelo mundo.<br \/>\nMas tu bem sabes, jurei lealdade e prometi meus servi\u00e7os a Ori\u00e7anga<br \/>\ne \u00e0 sua tribo, e a nossa fuga seria uma torpe trai\u00e7\u00e3o,<br \/>\nem que nem eu nem tu consentir\u00edamos jamais. Entretanto eu te amo com<br \/>\namor inextingu\u00edvel, e creio que nem na terra nem no c\u00e9u h\u00e1<br \/>\npoder para apagar esta chama viva e pura que arde-me no cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne nem de leve posso suportar a id\u00e9ia desesperadora de perder-te um<br \/>\ndia. \u00d3 Guaraciaba, minha doce e pura Guaraciaba! Pudessem estes momentos,<br \/>\nque aqui passamos s\u00f3s nesta caverna ignorada, tendo aos p\u00e9s<br \/>\nessa torrente, amparados por este penedo e guardados pela tempestade, pudessem<br \/>\nestes momentos prolongar-se por toda a eternidade! Estas palavras coavam docemente<br \/>\npelos atentos ouvidos de Guaraciaba, e lhe ressoavam na alma como um hino<br \/>\ncelestial. Ela sentia-se ao mesmo tempo enternecida e ufana por ouvir aquele<br \/>\naltivo e ind\u00f4mito guerreiro pronunciar a seus p\u00e9s palavras do<br \/>\nmais submisso e mavioso amor, e respondeu-lhe cheia de emo\u00e7\u00e3o:<br \/>\n\u2014 Itajiba, tuas falas s\u00e3o mais doces para a minha alma do que<br \/>\nos favos da jata\u00ed, ou o suco delicioso do abacaxi. Elas fazem-me palpitar<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o como a flor que estremece ao bafejo perfumado das<br \/>\nbrisas da manh\u00e3. Tu me amas, bem o sei: e o amor que te consagro, tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 para ti nenhum segredo, embora meus l\u00e1bios n\u00e3o<br \/>\no tenham revelado. A flor mesmo nas trevas se trai pelo seu perfume; a fonte<br \/>\ndo deserto escondida entre os rochedos se revela por seu murm\u00fario ao<br \/>\ncaminhante sequioso. Desde os primeiros momentos tu viste meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nabrir-se para ti, como a flor do manac\u00e1 aos primeiros raios do sol.<br \/>\nSinto que n\u00e3o poderei viver mais sen\u00e3o ao teu lado e \u00e0<br \/>\ntua sombra; se eles quiserem separar-me de ti, ah! morrerei como a flor que<br \/>\nda sombra orvalhada do bosque foi transplantada para os areais de fogo. Mas,<br \/>\nItajiba, confiemos na prote\u00e7\u00e3o do c\u00e9u; Tup\u00e1 \u00e9<br \/>\nbom e ampara os amores puros. Inim\u00e1 bem depressa se convencer\u00e1<br \/>\nde que o n\u00e3o posso amar, procurar\u00e1 esquecer-se de mim, e desistir\u00e1<br \/>\nde suas pretens\u00f5es; e meu pai desligado de suas promessas aben\u00e7oar\u00e1<br \/>\nnosso amor. Amemo-nos, Itajiba, amemo-nos cada vez mais, se \u00e9 poss\u00edvel,<br \/>\ne o c\u00e9u encarregar\u00e1 de nosso futuro.<\/p>\n<p>E dizendo estas palavras Guaraciaba lan\u00e7ava seus mimosos bra\u00e7os<br \/>\nao colo de Itajiba e o bafejava com seu amor, como a baunilha que enla\u00e7a<br \/>\nseus tenros vimes ao robusto e altivo tronco do deserto, e lhe distila em<br \/>\ntorno seu delicioso perfume.<\/p>\n<p>Itajiba, bebendo com avidez as suaves falas de Guaraciaba, foi-se deixando<br \/>\ntamb\u00e9m enlevar pela ing\u00eanua e viva confian\u00e7a que aquela<br \/>\nalma inocente depositava na prote\u00e7\u00e3o do c\u00e9u. A tempestade<br \/>\ntinha sido t\u00e3o violenta quanto passageira. O mesmo vento impetuoso<br \/>\nque a trouxera a varria rapidamente do firmamento e impelia as nuvens dilaceradas<br \/>\npara al\u00e9m das \u00faltimas montanhas do levante, como os esquadr\u00f5es<br \/>\nem debandada de um ex\u00e9rcito derrotado, que foge atropeladamente diante<br \/>\ndo inimigo vitorioso. O sol j\u00e1 quase tocando ao ocaso, desembara\u00e7ado<br \/>\ndas nuvens que o afrontavam, vibrou subitamente seus raios horizontais por<br \/>\nentre os ramos orvalhados da floresta, e um brando clar\u00e3o r\u00f3seo<br \/>\ninsinuando-se pela entrada da caverna iluminou-a de suave crep\u00fasculo<br \/>\ne revestiu-a do aspecto fant\u00e1stico de uma gruta de fadas.<\/p>\n<p>\u2014 Olha, Itajiba, exclama sorrindo a filha de Ori\u00e7anga, Tup\u00e1<br \/>\nmandou-nos a tempestade e encaminhou nossos passos para esta caverna ignorada<br \/>\npelos homens a fim de que as juras de nosso amor fossem proferidas longe de<br \/>\nvistas curiosas, e n\u00e3o ecoassem em ouvidos estranhos. V\u00ea como<br \/>\nele agora nos envia um raio de esperan\u00e7a e festeja nossa felicidade!&#8230;<\/p>\n<p>Itajiba transportado de amor enla\u00e7ou ao peito a fronte radiante de<br \/>\nGuaraciaba; j\u00e1 seus l\u00e1bios se tocavam nas del\u00edcias do<br \/>\nprimeiro beijo de amor&#8230; s\u00fabito um rumor, que se avizinha, chega-lhes<br \/>\naos ouvidos; ouvem-se gritos selv\u00e1ticos, latir de c\u00e3es, sons<br \/>\nde bor\u00e9s e tropear de ca\u00e7adores. Este estrugido se avizinhava<br \/>\nde mais em mais; um instante depois um ligeiro rumor se fez sentir mesmo ao<br \/>\np\u00e9 da entrada da furna; Itajiba e Guaraciaba sobressaltados olham para<br \/>\naquele lugar e levantam-se de s\u00fabito dando um grito de terror . Uma<br \/>\nenorme cangu\u00e7u negra se apresenta parada \u00e1 porta da gruta com<br \/>\nos olhos chamejantes, rosnando e mostrando as agudas presas como que pasmada<br \/>\ne indignada de encontrar em seu covil aqueles estranhos h\u00f3spedes. T\u00e3o<br \/>\nperto deles se achava a fera, que Itajiba n\u00e3o tendo espa\u00e7o suficiente<br \/>\npara enristar a flecha, brandiu contra ela o seu formid\u00e1vel tacape.<br \/>\nO monstro surpreendido por aquele brusco ataque recuou dois saltos e de novo<br \/>\nvoltou a face ao seu agressor; este em p\u00e9 \u00e0 porta da gruta j\u00e1<br \/>\nde arco feito procurava segurar a mira no cora\u00e7\u00e3o da on\u00e7a,<br \/>\nquando cheio de pasmo d\u00e1 com os olhos em um guerreiro, que em p\u00e9<br \/>\nsobre a esplanada exterior da furna a uns dez passos de dist\u00e2ncia por<br \/>\ndetr\u00e1s da fera, igualmente de arco encurvado tamb\u00e9m a encarava<br \/>\ncom assombro, e parecia como que a sua sombra ou o reflexo de sua figura.<br \/>\nEra Inim\u00e1, que seguido de alguns companheiros perseguia aquela on\u00e7a<br \/>\ne de flecha feita igualmente fazia a mira&#8230; contra ele ou contra a fera,<br \/>\nque se interpunha entre os dois na mesma dire\u00e7\u00e3o? N\u00e3o<br \/>\no p\u00f4de saber Itajiba, que em seu assombro esqueceu a fera, que diante<br \/>\ndele rugia apresentando as presas amea\u00e7adoras e agitando a comprida<br \/>\ncauda a estorcer-se e bater-lhe os flancos como uma jararaca enfurecida. Tendo<br \/>\nem frente dois inimigos igualmente ferozes como que hesitava em qual dos dois<br \/>\nempregaria o primeiro tiro e aguardava o que primeiro atacasse. Inim\u00e1<br \/>\npor\u00e9m, que entre as sombras da gruta entrevira Guaraciaba, espumava<br \/>\ne batia os dentes de furor, e na sofreguid\u00e3o de sua c\u00f3lera com<br \/>\ntal f\u00faria esticou o arco, que este partiu em suas m\u00e3os, e a<br \/>\nflecha caiu-lhe inerte aos p\u00e9s. A este rumor a on\u00e7a, cujos olhos<br \/>\nat\u00e9 ent\u00e3o estavam constantemente fixos em Itajiba, volta-se<br \/>\nrapidamente, em dois pulos se precipita sobre Inim\u00e1, tomba-o de costas,<br \/>\ncalca-lhe o peito com as enormes patas, e apresenta aos c\u00e3es, que come\u00e7am<br \/>\na assalt\u00e1-la, a boca escancarada guarnecida de bu\u00eddos dentes,<br \/>\n\u00e0 semelhan\u00e7a de um riso de feroz esc\u00e1rnio. Os companheiros<br \/>\nde Inim\u00e1, n\u00e3o podendo acompanhar de perto seu infatig\u00e1vel<br \/>\ne valente chefe, ainda n\u00e3o eram chegados; mais um instante s\u00f3<br \/>\ne Inim\u00e1 teria terminado ingloriamente a exist\u00eancia \u00e0s<br \/>\ngarras daquele feroz animal. Estava nas m\u00e3os de Itajiba o ver-se para<br \/>\nsempre livre de seu poderoso rival, sem que sua morte pudesse por maneira<br \/>\nalguma serlhe imputada. Mas tal pensamento nem por sombra lhe passou pelo<br \/>\nesp\u00edrito, que a isso se recusava absolutamente seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nleal e generoso. Uma bem despedida seta partiu de seu arco e voou silvando<br \/>\nao cora\u00e7\u00e3o do monstro, que expirou estrebuchando em seu sangue.<br \/>\nInim\u00e1 levantou-se desfigurado e torvo, com o peito sangrento lacerado<br \/>\npelas unhas da terr\u00edvel cangu\u00e7u. O peito lhe arquejava com viol\u00eancia<br \/>\ne seus olhos sangu\u00edneos e desvairados procuravam Itajiba; apenas o<br \/>\navista, grita-lhe com voz convulsa: \u2014 Bem lan\u00e7ada flecha, guerreiro!&#8230;<br \/>\ncumpriste com destreza o teu dever. Quando o cangu\u00e7u acossado encontra-se<br \/>\ncom o jaguar, este o mata, e oferece assim dobrada presa ao ca\u00e7ador.<br \/>\nO jaguar se refugia na toca do cangu\u00e7u, onde o ca\u00e7ador o veio<br \/>\nsurpreender. \u00c9 pois for\u00e7oso agora que pelejemos. Miser\u00e1vel<br \/>\nforasteiro, que vieste trazer a ziz\u00e2nia e a disc\u00f3rdia a nossas<br \/>\ntabas, desta vez n\u00e3o me escapar\u00e1s. Dize-me, insolente e traidor<br \/>\nimboaba, como ousaste roubar \u00e0 taba do cacique essa virgem que te acompanha?<br \/>\nContavas acaso conduzi-la a salvamento para o teu covil tenebroso?&#8230; Mas<br \/>\ntu v\u00eas; Tup\u00e1 \u00e9 justiceiro; foi ele que em seus ocultos<br \/>\ndes\u00edgnios dirigiu para aqui meus passos, dando-me por guia essa fera,<br \/>\nque acaba de morrer \u00e0s tuas m\u00e3os, como tu morrer\u00e1s \u00e0s<br \/>\nminhas em puni\u00e7\u00e3o de teu infame atentado. E tu que fizeste,<br \/>\ndesgra\u00e7ada Guaraciaba, incauta pomba, que te deixaste enlear nos la\u00e7os<br \/>\nda astuciosa serpente? como te animaste cobrir assim de vergonha e opr\u00f3brio<br \/>\nas c\u00e3s vener\u00e1veis de teu pai?&#8230; tu que eras o manit\u00f3<br \/>\ntutelar de nossa tribo, ser\u00e1s de hoje em diante a sua ignom\u00ednia,<br \/>\ne ver\u00e1s teu nome pronunciado com horror!&#8230;<\/p>\n<p>A raiva, o pasmo, o ci\u00fame de Inim\u00e1, vendo a sua adorada Guaraciaba<br \/>\ntransviada e fugitiva por aqueles desertos em companhia de um estrangeiro,<br \/>\nque ele detestava, tinham-lhe ofuscado completamente o esp\u00edrito, e<br \/>\nextinguido em seu cora\u00e7\u00e3o todo o sentimento nobre, todo o instinto<br \/>\nde generosidade. Arrebatando um arco a um dos companheiros, que por fim vinham<br \/>\nchegando de tropel, embebe-lhe uma flecha e a dispara contra Itajiba, por\u00e9m<br \/>\ncom tal f\u00faria e cegueira, que a flecha passou sibilando aos ouvidos<br \/>\nde Itajiba, ro\u00e7ou pelo cocar de plumas de Guaraciaba, que se achava<br \/>\npor detr\u00e1s dele, e sem tocar em ningu\u00e9m foi-se perder zunindo<br \/>\nlugubremente na profundez da furna.<\/p>\n<p>Itajiba, que at\u00e9 aquele momento ouvira tudo com impass\u00edvel<br \/>\nserenidade, e s\u00f3 tratava de guardar-se a si e a sua formosa companheira<br \/>\nda furiosa agress\u00e3o do exasperado cacique, rompe enfim o sil\u00eancio:<br \/>\n\u2014 Inim\u00e1, brada ele, \u00e9s um vil e um cobarde tu, que \u00e0<br \/>\ntesta de tantos guerreiros n\u00e3o te pejas de insultar a um estrangeiro<br \/>\ns\u00f3 e sem outra defesa mais que as suas armas, e destilas de teus l\u00e1bios<br \/>\no veneno da cal\u00fania contra a filha de teu chefe, contra uma virgem<br \/>\nador\u00e1vel digna do respeito e do culto dos homens. \u00c9s um vil<br \/>\ne um cobarde tu, que voltas tuas armas contra aquele que h\u00e1 poucos<br \/>\ninstantes salvou-te a vida podendo te deixar morrer vilmente entre as garras<br \/>\nde uma fera&#8230;<\/p>\n<p>Inim\u00e1 espumando de raiva n\u00e3o o deixou prosseguir, lan\u00e7a-se<br \/>\nde um salto sobre Itajiba e atira-lhe um furioso golpe de tacape. Itajiba<br \/>\ndestro como a on\u00e7a desvia-se rapidamente dando um pulo para tr\u00e1s,<br \/>\ne com a faca em uma das m\u00e3os e o tacape na outra est\u00e1 pronto<br \/>\ne em atitude de pelejar.<\/p>\n<p>Aquela caverna ia ser testemunha de uma luta t\u00e3o feroz e sanguinolenta<br \/>\ncomo essa que Itajiba j\u00e1 tivera a sustentar ao chegar entre os Chavantes;<br \/>\nmas ah! desta vez ele n\u00e3o quereria morrer, pois o prendia com os mais<br \/>\nsuaves la\u00e7os ao mundo e \u00e0 vida o amor da linda e inocente criatura<br \/>\nque ali se achava testemunhando todas aquelas cenas de horror. Entretanto<br \/>\no combate era dos mais arriscados e desiguais; embora matasse Inim\u00e1,<br \/>\nItajiba teria de travar-se depois com os cinco ou seis guerreiros da comitiva<br \/>\ndaquele. Mas o \u00e2nimo n\u00e3o lhe franqueia, encomenda-se com mais<br \/>\nfervor que nunca \u00e0 celestial protetora e resoluto aguarda novo ataque<br \/>\nde Inim\u00e1. Guaraciaba, por\u00e9m, lan\u00e7a-se no meio dos dois<br \/>\ncontendores, e voltando-se para Inim\u00e1 com ar altivo e senhoril exclama:<\/p>\n<p>\u2014 Det\u00e9m-te, Inim\u00e1! que furor te cega? \u00e9 com esse<br \/>\nprocedimento atroz e indigno que esperas merecer um dia ter a teu lado, em<br \/>\ntua taba, a filha do nobre e valente Ori\u00e7anga? \u00e9 assim que pretendes<br \/>\ntornar-te digno de comandar a her\u00f3ica e generosa na\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Chavantes?&#8230; no furor insensato que te alucina, ousas lan\u00e7ar inj\u00farias<br \/>\ne bald\u00f5es contra a filha de teu chefe, e atentar contra a vida daquele<br \/>\nque a acompanha e protege por estas solid\u00f5es! sabes acaso o motivo<br \/>\nque nos obrigou a procurar este abrigo, onde nos vieste encontrar? quem te<br \/>\ndisse que fugimos oculta e trai\u00e7oeiramente da cabana de Ori\u00e7anga?&#8230;<br \/>\nMas n\u00e3o \u00e9 para contigo, Inim\u00e1, que devo justificar-me<br \/>\ndesta singular ocorr\u00eancia. Guerreiros, continua ela dirigindo-se aos<br \/>\ncompanheiros de Inim\u00e1, guiai-me a mim e a este estrangeiro \u00e0s<br \/>\nnossas tabas e conduzi-nos \u00e0 presen\u00e7a de meu pai; a ele e a<br \/>\nmais ningu\u00e9m devo dar satisfa\u00e7\u00e3o do meu procedimento.<\/p>\n<p>Falando assim o peito de Guaraciaba ofegava de indigna\u00e7\u00e3o,<br \/>\nseus olhos cintilavam como diamantes entre as sombras da caverna, e seu talhe<br \/>\ne colo elevavam-se garbosos como o da ema, rainha das campinas, quando irritada<br \/>\nse ergue contra aquele que pretende roubar-lhe o ninho. Em seu orgulhoso porte,<br \/>\nna altivez de sua nobre linguagem, revelava-se a descendente de her\u00f3icos<br \/>\ncaciques, a verdadeira princesa das florestas. A estas nobres e severas palavras<br \/>\nde Guaraciaba Inim\u00e1 sentiu gelar-se-lhe no cora\u00e7\u00e3o toda<br \/>\na sua c\u00f3lera, e esteve a ponto de cair de rojo a seus p\u00e9s suplicando-lhe<br \/>\nperd\u00e3o; mas Itajiba ali estava, o orgulho o conteve e balbuciou apenas<br \/>\ntimidamente estas palavras: \u2014 Perdoa-me, formosa filha de Ori\u00e7anga,<br \/>\nse te ofendi com minhas rudes falas; a c\u00f3lera, o amor, o ci\u00fame<br \/>\nme desvairam&#8230; Vai, gentil Guaraciaba , vai tranq\u00fcila recolher-te \u00e0<br \/>\nsombra da taba, onde sem d\u00favida teu pai te espera na mais ansiosa inquieta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas esse vil forasteiro, que te acompanha, esse sedutor infame pertence-me;<br \/>\nh\u00e1 entre mim e ele um pleito de vida e morte, o qual \u00e9 for\u00e7oso<br \/>\nque hoje mesmo fique decidido.<\/p>\n<p>\u2014 Inim\u00e1, bradou ela com imp\u00e9rio, este estrangeiro acompanhou-me<br \/>\npor vontade minha, e deve comigo voltar \u00e0s tabas. Itajiba, acompanha-me;<br \/>\nguerreiros, segui-me e guiai-nos \u00e0 taba de meu pai.<\/p>\n<p>Inim\u00e1, subjugado por aquelas imperiosas palavras, nada replicou;<br \/>\nreceava mais a indigna\u00e7\u00e3o daquela delicada virgem do que todo<br \/>\no valor e destreza de seu audaz e intr\u00e9pido rival. Comprimiu pois todo<br \/>\no seu orgulho bem no fundo da alma, e acompanhou silenciosamente aos outros<br \/>\nsem nada compreender das inten\u00e7\u00f5es da filha de Ori\u00e7anga.<br \/>\nMas aquela submiss\u00e3o e defer\u00eancia j\u00e1 vinham tarde e de<br \/>\nnada j\u00e1 lhe podiam servir. A senten\u00e7a do jovem cacique estava<br \/>\nirrevogavelmente lavrada no esp\u00edrito de Guaraciaba.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>CAP\u00cdTULO VII &#8211; A VOLTA<\/h2>\n<p>Grande agita\u00e7\u00e3o e ansiedade reinava no arraial dos Chavantes.<br \/>\nH\u00e1 muito que as sombras da noite tinham descido sobre a terra, e nem<br \/>\nGuaraciaba nem Itajiba, que desde pela manh\u00e3 vagavam pelas florestas,<br \/>\nn\u00e3o apareciam.<\/p>\n<p>Que grave acidente lhes teria sobrevindo, que assim os retinha \u00e0<br \/>\nnoite pelos desertos? a tempestade t\u00ea-los-ia desorientado, e vagariam<br \/>\nperdidos pelas obscuras selvas sem acharem quem os guiasse \u00e0s tabas?<br \/>\nou talvez a cheia das torrentes tivesse arrebatado, o raio fulminado, ou as<br \/>\nferas devorado aqueles imprudentes e descuidados ca\u00e7adores? ou talvez,<br \/>\nquem sabe? \u2014 e esta era a mais plaus\u00edvel e a mais cruel das conjecturas,<br \/>\n\u2014 talvez o astuto e fementido estrangeiro, tendo seduzido o singelo<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o de Guaraciaba, traindo infamemente as suas promessas,<br \/>\npagasse a generosa prote\u00e7\u00e3o e hospitalidade que encontrara na<br \/>\ntaba de Ori\u00e7anga, roubando-lhe a filha, \u00faltimo ramo de sua gera\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne \u00fanica alegria e consola\u00e7\u00e3o de seus velhos dias? Entre<br \/>\ntodas estas tristes apreens\u00f5es se dividiam os esp\u00edritos preocupados<br \/>\ne inquietos com a estranha desapari\u00e7\u00e3o da filha do cacique,<br \/>\ne de seu h\u00f3spede. J\u00e1 por ordem de Ori\u00e7anga grande n\u00famero<br \/>\nde pessoas batiam as florestas por todos os lados \u00e0 pista dos dois<br \/>\namantes desgarrados ou fugitivos. E que \u00e2nsias, que dolorosas ang\u00fastias<br \/>\nn\u00e3o dilaceravam o cora\u00e7\u00e3o do idoso chefe, que se via<br \/>\nem trances de perder sua \u00fanica e adorada filha, alegria e orgulho de<br \/>\nsua velhice! Desatinado e louco n\u00e3o parava um instante em parte alguma;<br \/>\nora se assentava ao p\u00e9 das cinzas de seu fogo extinto arrancando as<br \/>\nc\u00e3s, e proferindo impreca\u00e7\u00f5es; ora em p\u00e9 \u00e0<br \/>\nporta da cabana olhava para todos os lados&#8230; a escurid\u00e3o da noite;<br \/>\nescutava a todos os instantes&#8230; o sil\u00eancio das solid\u00f5es; a cada<br \/>\nmomento expedia mais um mais outro batedor para estes e aqueles s\u00edtios,<br \/>\ne j\u00e1 quase a tribo inteira, deixando desertas as tabas, percorria as<br \/>\nflorestas em todas as dire\u00e7\u00f5es em procura dos dois transviados.<\/p>\n<p>Somente o velho Andiara parecia estar tranq\u00fcilo e pouco cuidadoso do<br \/>\nsucesso, que a todos preocupava. Esse s\u00e1bio e experiente paj\u00e9,<br \/>\nque sabia ler no cora\u00e7\u00e3o dos homens, bem tinha notado o ardente<br \/>\ne vivo amor que os dois jovens se votavam um a outro, e longe de condenar<br \/>\nesse amor e procurar estorv\u00e1-lo, ele o aprovava e aplaudia interiormente,<br \/>\npois tinha em pouco apre\u00e7o o jovem Inim\u00e1, que n\u00e3o julgava<br \/>\ndigno do comando de sua na\u00e7\u00e3o, e concebera desde o come\u00e7o<br \/>\na mais sincera e profunda estima e admira\u00e7\u00e3o por Itajiba, e<br \/>\ntinha para si que ele seria capaz de elevar a na\u00e7\u00e3o ao mais<br \/>\nalto grau de poder e prosperidade.<\/p>\n<p>Andiara pois, que observava e protegia os amores dos dois jovens, e que lia<br \/>\nclaramente em seus cora\u00e7\u00f5es, adivinhara o verdadeiro motivo<br \/>\nde sua demora, e procurando acalmar a inquieta\u00e7\u00e3o do velho cacique<br \/>\ndizia-lhe: \u2014 Nada receies, Ori\u00e7anga, sobre a sorte dos dois jovens<br \/>\npasseadores. Sem d\u00favida procurando abrigar-se da tormenta, que os acolheu<br \/>\nlonge daqui, asilaram-se no seio de alguma gruta, ou no c\u00f4ncavo de algum<br \/>\nvelho tronco, e a\u00ed esperando que a tormenta amainasse, surpreendidos<br \/>\npela noite adormeceram no sono descuidado da inoc\u00eancia, como duas aves<br \/>\nerrantes, que ao cair das trevas pousam \u00e0 sombra do primeiro tronco<br \/>\nque encontram em seu caminho.<\/p>\n<p>Tranquiliza-te; Guaraciaba e Itajiba te amam e te veneram muito para te<br \/>\nfugirem trai\u00e7oeiramente. Eles se amam e Tup\u00e1 vela sobre eles.<\/p>\n<p>Enfim um murm\u00fario surdo come\u00e7ou a levantar-se na extremidade<br \/>\ndas habita\u00e7\u00f5es, e brand\u00f5es acesos ondearam atrav\u00e9s<br \/>\nda escurid\u00e3o da noite. Um grupo de guerreiros avan\u00e7a pela frente<br \/>\ndas tabas ao longo da margem do rio. No meio deles marchavam Guaraciaba e<br \/>\nItajiba opressos de fadiga, mas com rosto tranq\u00fcilo e sereno. Atr\u00e1s<br \/>\ndo s\u00e9quito um vulto silencioso e isolado seguia com ar sinistro; era<br \/>\nInim\u00e1. Pelo caminho o s\u00e9quito se engrossava cada vez mais e<br \/>\nagitava-se soltando grandes clamores. Estes clamores eram em grande parte<br \/>\naclama\u00e7\u00f5es de alegria pelo feliz reaparecimento de Guaraciaba;<br \/>\nmuitos deles por\u00e9m eram tamb\u00e9m gritos amea\u00e7adores e impreca\u00e7\u00f5es<br \/>\ncontra aquele que eles julgavam ter desencaminhado e pretendido roubar deslealmente<br \/>\na filha do cacique. J\u00e1 os \u00e2nimos se amotinavam, e muitos guerreiros,<br \/>\nignorando as circunst\u00e2ncias daquele fatal sucesso, com gestos amea\u00e7adores<br \/>\nestavam prestes a se lan\u00e7arem sobre Itajiba. Felizmente chegaram sem<br \/>\nincidente algum \u00e0 taba do velho cacique.<\/p>\n<p>Guaraciaba saltou ao colo de seu pai, que a esperava \u00e0 porta com<br \/>\nos bra\u00e7os estendidos e chorou de alegria apertandoa contra o peito.<br \/>\nOri\u00e7anga ordenou que se retirasse a turba que se apinhava tumultuosa<br \/>\n\u00e0 porta de sua cabana, e ficou com Guaraciaba e Itajiba.<\/p>\n<p>\u2014 Querida filha, exclama ele, que mau esp\u00edrito te desencaminhou<br \/>\npor essas selvas, e ia-te desgarrando da sombra da taba paterna?&#8230; Ah! quantas<br \/>\nang\u00fastias, quantos frios sustos n\u00e3o embebeste no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde teu velho pai, demorando-te assim at\u00e9 as horas mortas da noite entre<br \/>\nos perigos da floresta tenebrosa!&#8230; Esse estrangeiro, que te acompanha, por<br \/>\nque n\u00e3o te guiou ele mais cedo \u00e0s nossas tabas? Oh! minha Guaraciaba,<br \/>\npor Tup\u00e1 eu te pe\u00e7o, dizeme, n\u00e3o seria ele acaso quem<br \/>\nde prop\u00f3sito transviou-te procurando roubar vil e trai\u00e7oeiramente<br \/>\na minha filha, \u00fanico bem que o c\u00e9u ainda me conserva, a Inim\u00e1<br \/>\na esposa que eu lhe tinha prometido, e \u00e0 tribo o \u00faltimo ramo<br \/>\nde um antigo e ilustre tronco de her\u00f3is j\u00e1 quase extinto?&#8230;<br \/>\nAi dele se tal era seu louco intento! por enorme e cruel que seja n\u00e3o<br \/>\nhaver\u00e1 castigo que seja excessivo para punir t\u00e3o nefanda trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tranq\u00fciliza-te, meu pai, atalhou Guaraciaba, nem eu nem Itajiba<br \/>\ncometemos crime algum, nem praticamos a\u00e7\u00e3o de que possamos nos<br \/>\nenvergonhar diante de ti. Eu vou contar-te fielmente a hist\u00f3ria dos<br \/>\nacontecimentos que nos detiveram na floresta at\u00e9 estas horas, e se<br \/>\nainda me acreditas, meu pai, ver\u00e1s que somos inocentes e nos perdoar\u00e1s.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Guaraciaba, com a franqueza e ingenuidade de uma alma pura,<br \/>\nreferiu-lhe por mi\u00fado o seu descaminho, a tempestade que os assaltou<br \/>\ne os obrigou a procurarem ref\u00fagio dentro de uma furna; pinta-lhe com<br \/>\ncalor e vivacidade, como quem se achava ainda sob a impress\u00e3o dos acontecimentos,<br \/>\nas terr\u00edveis cenas que ali tiveram lugar, e por fim em tom grave e<br \/>\ntriste acrescentou estas palavras: \u2014 Agora, pai querido, for\u00e7oso<br \/>\n\u00e9 revelar-te um sentimento, que n\u00e3o devo ocultar-te por mais<br \/>\ntempo; ah! e quanto me custa faz\u00ea-lo, pois sei que vou magoar-te o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Filha, se para repouso de teu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso<br \/>\nque me fa\u00e7as essa revela\u00e7\u00e3o, fala, que estou pronto a<br \/>\nouvirte, embora isso deva doer-me como uma seta envenenada.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoa-me, meu pai, se vou de encontro \u00e0s tuas vistas a meu<br \/>\nrespeito; mas devo hoje declarar-te com franqueza, eu n\u00e3o devo jamais<br \/>\nser esposa de Inim\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Que dizes, filha? pois queres que eu falte a minhas sagradas promessas?<br \/>\n\u2014 Mas, meu pai, se esse que destinais para meu companheiro e que deve<br \/>\nsubstituir-te no comando da tribo, tornar-se por suas a\u00e7\u00f5es<br \/>\nindigno dessa hora, se procede como um vil e vai deslustrar teu nome e tua<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o, desde esse momento est\u00e1s desligado de tuas promessas.<br \/>\nDesde o ber\u00e7o ou\u00e7o falar que sou destinada a Inim\u00e1, mas<br \/>\nposto que n\u00e3o lhe tivesse repugn\u00e2ncia, contudo nunca ao seu nome<br \/>\npalpitou-me o cora\u00e7\u00e3o, nem suspirou por essa uni\u00e3o. Hoje,<br \/>\npor\u00e9m, tudo mudou-se; sua presen\u00e7a me importuna, seu amor me<br \/>\natormenta, e essa uni\u00e3o, com que me acenam, tornou-se para mim uma<br \/>\namea\u00e7a de morte. Se \u00e9 a sucess\u00e3o no governo da tribo<br \/>\nque ele ambiciona, d\u00e1-lha, meu pai, mas d\u00e1-lha sem mim, que<br \/>\nde bom grado a ela renuncio, e nem aspiro a outra felicidade sen\u00e3o<br \/>\na que \u00e9 dada pelo amor.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo amor! e acaso amas tu algu\u00e9m, que n\u00e3o seja Inim\u00e1?<br \/>\n\u2014 Ah! meu pai! desde que meus olhos viram Itajiba, meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nvoou para ele.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! sim! meu cora\u00e7\u00e3o parece-me que j\u00e1 tinha<br \/>\nadivinhado esse fatal desvio de tuas afei\u00e7\u00f5es&#8230; e n\u00e3o<br \/>\nte envergonhas de amar um estrangeiro foragido, que o acaso arrojou em nossas<br \/>\npraias? \u2014 N\u00e3o, meu pai; antes me ufano disso e me desvane\u00e7o<br \/>\nde ser por ele amada, pois que esse estrangeiro \u00e9 um her\u00f3i.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Guaraciaba, minha querida, raio de luz que me alumias os tenebrosos<br \/>\ncaminhos da vida, flor mimosa que embalsamas com teus aromas minha taba solit\u00e1ria,<br \/>\nem que cruel ansiedade vem colocar-me o teu imprudente amor! Devo eu despeda\u00e7ar<br \/>\nteu cora\u00e7\u00e3o contrariando tuas afei\u00e7\u00f5es, e impondo-te<br \/>\num jugo que detestas? Ah! n\u00e3o; amo-te muito para poder faz\u00ea-lo.<br \/>\nMas posso eu sem quebra de minha lealdade iludir as esperan\u00e7as por<br \/>\nt\u00e3o longo tempo alimentadas do jovem cacique, e faltar vergonhosamente<br \/>\na meus sagrados compromissos?&#8230; nunca; antes a morte do que um tal opr\u00f3brio.<br \/>\nMinha mente vacila incerta entre esses dois tremendos escolhos. S\u00f3<br \/>\na voz inspirada dos paj\u00e9s que sondam os arcanos do porvir e interpretam<br \/>\na vontade do c\u00e9u, poder\u00e1 guiar-me na penosa escurid\u00e3o<br \/>\ndo meu esp\u00edrito. Amanh\u00e3, ao primeiro canto das aves na floresta,<br \/>\neu os farei chamar na minha taba, e com seus s\u00e1bios conselhos eles<br \/>\nme inspirar\u00e3o por certo o modo mais acertado de proceder em t\u00e3o<br \/>\ndif\u00edcil conjuntura. Entretanto, cara filha, vai repousar das fadigas<br \/>\ne tribula\u00e7\u00f5es deste mal-agourado dia, enquanto eu velo sobre<br \/>\ntua sorte meditando os meios de torn\u00e1-la feliz.<\/p>\n<p>Inim\u00e1 de volta \u00e0s tabas, das quais vivia retirado desde o<br \/>\ndia em que trouxera Itajiba moribundo \u00e0 presen\u00e7a de Ori\u00e7anga,<br \/>\nfoi minuciosamente informado por seus amigos de tudo que nelas ocorrera durante<br \/>\na sua aus\u00eancia. A pretendida origem e nacionalidade de Itajiba, as singulares<br \/>\naventuras de sua vida, que j\u00e1 andavam de boca em boca, seus oferecimentos<br \/>\ne a pretens\u00e3o que manifestara de ser adotado na tribo, o agasalho e<br \/>\ncordial hospitalidade que encontrara na cabana do cacique, a viva simpatia<br \/>\ne interesse que inspirara a Guaraciaba, seus passeios e ca\u00e7adas quotidianas<br \/>\npelas selvas vizinhas, a cega condescend\u00eancia de Ori\u00e7anga e a<br \/>\nprote\u00e7\u00e3o n\u00e3o disfar\u00e7ada de Andiara para com os<br \/>\ndois amantes, tudo isso foi sabido nessa mesma noite por Inim\u00e1 entre<br \/>\ntransportes de indigna\u00e7\u00e3o e furor.<\/p>\n<p>As coisas tinham tomado uma fatal dire\u00e7\u00e3o, que ele no fundo<br \/>\nde suas selvas estava bem longe de adivinhar.<\/p>\n<p>Naquele m\u00edsero estrangeiro, que derrubara a um golpe de seu tacape,<br \/>\ne a quem de prop\u00f3sito procurara poupar a vida a fim de tornar mais<br \/>\nsolene o seu triunfo sacrificando-o no dia de suas bodas, via surgir um tem\u00edvel<br \/>\ne poderoso rival a suas ambiciosas esperan\u00e7as de amor e de poder. Inim\u00e1<br \/>\nbem o compreendeu, e tratou desde logo de estorvar por todos os meios o progresso<br \/>\nda fortuna daquele audaz aventureiro. Entregue \u00e0 raiva e ao ci\u00fame,<br \/>\nque lhe envenenava o cora\u00e7\u00e3o, perturbava-lhe o esp\u00edrito,<br \/>\nandava de taba ati\u00e7ando o \u00f3dio e a ziz\u00e2nia, concitando<br \/>\nos \u00e2nimos dos Chavantes j\u00e1 predispostos pelos acontecimentos<br \/>\ndo dia contra Itajiba, ao qual pintava como um embusteiro, um enviado dos<br \/>\nimboabas, que viera astutamente insinuar-se entre eles para entreg\u00e1-los<br \/>\ntrai\u00e7oeiramente aos seus perseguidores.<\/p>\n<p>Comentando os acontecimentos mostrava-lhes como o ardiloso forasteiro, para<br \/>\nchegar a seus fins, com fingida humildade e submiss\u00e3o conseguira captar<br \/>\na benevol\u00eancia do velho e cr\u00e9dulo cacique, e procurara com suas<br \/>\nartes infernais seduzir sua filha para dela fazer um instrumento de suas abomin\u00e1veis<br \/>\nmaquina\u00e7\u00f5es e planos de trai\u00e7\u00e3o. Fazia-lhes ver,<br \/>\ntamb\u00e9m, que Ori\u00e7anga, a quem o peso dos anos tornara imbecil<br \/>\ne caduco, com suas imprudentes complac\u00eancias, com sua estulta credulidade,<br \/>\ndeixava o campo inteiramente livre \u00e0s p\u00e9rfidas maquina\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo astuto forasteiro; que eles Chavantes nada podiam esperar mais de um chefe<br \/>\nque a idade tinha tornado idiota a tal ponto, que via sem indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\nsua filha entregar-se sem reserva a uma vergonhosa paix\u00e3o pelo ign\u00f3bil<br \/>\nforasteiro, que sem inj\u00faria e desonra da briosa na\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Chavantes n\u00e3o podia nem mais um dia permanecer vivo entre eles.<br \/>\nQuanto a si, Inim\u00e1 considerava-se instrumento escolhido por Tup\u00e1<br \/>\npara destruir os sinistros planos e punir a aud\u00e1cia do estrangeiro;<br \/>\nos acontecimentos at\u00e9 ali ocorridos bem o estavam revelando, e ele<br \/>\ncontava com o valor e dedica\u00e7\u00e3o de seus bravos companheiros<br \/>\npara ajud\u00e1-lo a bem desempenhar sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas falas apaixonadas de Inim\u00e1 ca\u00edram nos \u00e2nimos de<br \/>\ngrande parte daqueles selvagens como a chama lan\u00e7ada em t\u00f3rridas<br \/>\nmacegas nos ardentes e ventosos dias de Agosto. Os amigos de Inim\u00e1<br \/>\nprotestavam alto e bom som, que na aurora seguinte haviam de arrancar da taba<br \/>\ndo cacique o traidor estrangeiro, arrast\u00e1-lo por diante das tabas,<br \/>\narrancar-lhe os olhos e a l\u00edngua, e atir\u00e1-lo no fundo do rio<br \/>\ncom uma pedra atada ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Itajiba por sua parte j\u00e1 contava entre os Chavantes<br \/>\nn\u00e3o pequeno n\u00famero de camaradas dedicados, dos quais soube granjear<br \/>\na estima e afei\u00e7\u00e3o por seu car\u00e1ter naturalmente bom e<br \/>\ngeneroso, e a quem por seus atos de valor, por sua for\u00e7a e destreza<br \/>\ninexced\u00edveis, inspirava respeito e admira\u00e7\u00e3o. Estes o<br \/>\ndefenderiam com ardor a todo o trance, e se oporiam resolutamente \u00e0<br \/>\nexecu\u00e7\u00e3o do plano atroz de seus inimigos.<\/p>\n<p>Os esp\u00edritos divididos se irritavam, e a noite, que se passou quase<br \/>\ntoda sem dormir em roda das fogueiras em calorosas alterca\u00e7\u00f5es,<br \/>\nparecia pressagiar para o dia seguinte graves e temerosos acontecimentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: POUSO PRIMEIRO O CRIME:CAP\u00cdTULO I &#8211; O VALENT\u00c3O CAP\u00cdTULO II &#8211; O BATUQUE CAP\u00cdTULO III &#8211; DITO E FEITO CAP\u00cdTULO IV &#8211; A LOUCA POUSO SEGUNDO OS CHAVANTES: CAP\u00cdTULO I &#8211; O COMBATE CAP\u00cdTULO II &#8211; A TABA DO CACIQUE CAP\u00cdTULO III &#8211; A ENFERMEIRA 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