{"id":93199,"date":"2017-01-06T15:58:10","date_gmt":"2017-01-06T17:58:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93199"},"modified":"2017-01-06T15:58:10","modified_gmt":"2017-01-06T17:58:10","slug":"o-devanear-de-um-ceptico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-devanear-de-um-ceptico","title":{"rendered":"O Devanear de um C\u00e9ptico"},"content":{"rendered":"<h4>Bernardo Guimar\u00e3es<\/h4>\n<p><strong>Tout corps som ombre et tout esprit son doute. (V. Hugo)<\/strong><\/p>\n<p>Ai da avezinha, que a tormenta um dia<br \/>\nDesgrarrara da sombra de seus bosques,<br \/>\nArrojando-a em desertos desabridos<br \/>\nDe br\u00f4nzeo c\u00e9u, de f\u00e9rvidas areias;<br \/>\nAdeja, voa, paira&#8230;. nem um ramo<br \/>\nNem uma sombra encontra onde repouse,<br \/>\nE voa, e voa ainda, ate que o alento<br \/>\nDe todo lhe falece &#8211; colhe as asas,<br \/>\nCai na areia de fogo, arqueja, e morre&#8230;.<br \/>\nTal \u00e9, minh&#8217;alma, o fado teu na terra;<br \/>\nO tuf\u00e3o da descren\u00e7a desvairou-te<br \/>\nPor desertos sem fim, onde em v\u00e3o buscas<br \/>\nUm abrigo onde pouses, uma fonte<br \/>\nOnde apagues a sede que te abrasa!<\/p>\n<p>\u00d3 mortal, por que assim teus olhos cravas<br \/>\nNa ab\u00f3bada do c\u00e9u? &#8211; Queres ver nela<br \/>\nDecifrado o mist\u00e9rio inescrut\u00e1vel<br \/>\nDo teu ser, e dos seres que te cercam?<br \/>\nEm v\u00e3o seu pensamento audaz procura<br \/>\nArrancar-se das trevas que o circundam,<br \/>\nE no ardido v\u00f4o abalan\u00e7ar-se<br \/>\n\u00c0s regi\u00f5es da luz e da verdade;<br \/>\nBaldado af\u00e3! &#8211; no espa\u00e7o ei-lo perdido,<br \/>\nComo astro desgarrado de sua \u00f3rbita,<br \/>\nErrando \u00e0s tontas na amplid\u00e3o dos v\u00e1cuo!<br \/>\nJamais pretendas estender teus v\u00f4os<br \/>\nAl\u00e9m do escasso e p\u00e1lido horizonte<br \/>\nQue m\u00e3o fatal em torno te h\u00e1 tra\u00e7ado&#8230;.<br \/>\nCom barreira de ferro o espa\u00e7o e o tempo<br \/>\nEm acanhado c\u00edrculo fecharam<br \/>\nTua pobre raz\u00e3o: &#8211; em v\u00e3o forcejas<br \/>\nPor transpor essa meta inexor\u00e1vel;<br \/>\nOs teus dom\u00ednios entre a terra e os astros,<br \/>\nEntre o t\u00famulo e o ber\u00e7o est\u00e3o prescritos:<br \/>\nAl\u00e9m, que enxergas tu? &#8211; o v\u00e1cuo e o nada!&#8230;<\/p>\n<p>Oh! feliz quadra aquela, em que eu dormia<br \/>\nEmbalado em meu sono descuidoso<br \/>\nNo tranq\u00fcilo rega\u00e7o da ignor\u00e2ncia;<br \/>\nEm que minh&#8217;alma, como fonte l\u00edmpida<br \/>\nDos ventos resguardada em quieto abrigo,<br \/>\nDa f\u00e9 os raios puros refletia!<br \/>\nMas num dia fatal encosto \u00e0 boca<br \/>\nA ta\u00e7a da ci\u00eancia &#8211; senti sede<br \/>\nInextingu\u00edvel a crestar-me os l\u00e1bios;<br \/>\nTraguei-a toda inteira -, mas encontro<br \/>\nPor fim travor de fel &#8211; era veneno,<br \/>\nQue no fundo continha -, era incerteza!<br \/>\nOh! desde ent\u00e3o o esp\u00edrito da d\u00favida,<br \/>\nComo abutre sinistro, de cont\u00ednuo<br \/>\nMe paira sobre o esp\u00edrito, e lhe entorna<br \/>\nDas turvas asas a fun\u00e9rea sombra!<br \/>\nDe eterna maldi\u00e7\u00e3o era bem digno<br \/>\nQuem primeiro tocou com m\u00e3o sacr\u00edlega<br \/>\nDa ci\u00eancia na \u00e1rvore vedada<br \/>\nE nos legou seus venenosos frutos&#8230;<\/p>\n<p>Se o verbo criador pairando um dia<br \/>\nSobre a face do abismo, a um s\u00f3 aceno<br \/>\nEvocava do nada a natureza,<br \/>\nE do seio do caos surgir fazia<br \/>\nA harmonia, a beleza, a luz, a ordem,<br \/>\nPor que deixou o esp\u00edrito do homem<br \/>\nSepulto ainda em t\u00e3o profundas trevas,<br \/>\nA debater-se neste caos sombrio,<br \/>\nOnde embri\u00f5es informes tumultuam,<br \/>\nInda aguardando a voz que \u00e0 luz os chame?<\/p>\n<p>Quando, espancando as sombras sonolentas,<br \/>\nSurge a aurora no coche radiante,<br \/>\nInundado de luz o firmamento,<br \/>\nEntre o rumor dos vivos que despertam,<br \/>\nLevanto a minha voz, e ao sol, que surge,<br \/>\nPergunto: &#8211; Onde est\u00e1 Deus? &#8211; ante meus olhos<br \/>\nA noite os v\u00e9us di\u00e1fonos desdobra,<br \/>\nVertendo sobre a terra almo sil\u00eancio,<br \/>\nProp\u00edcio ao cismador &#8211; ent\u00e3o minha alma<br \/>\nDesprende o v\u00f4o nos et\u00e9reos p\u00e1ramos,<br \/>\nAl\u00e9m dos s\u00f3is, dos mundos, dos cometas,<br \/>\nVarando afouta a profundez do espa\u00e7o,<br \/>\nAnelando entrever na imensidade<br \/>\nA eterna fonte, donde a luz emana&#8230;<br \/>\n\u00d3 p\u00e1lidos fanais, tr\u00eamulos c\u00edrios,<br \/>\nQue nas esferas guiais da noite o carro,<br \/>\nPlanetas, que em cad\u00eancias harmoniosa<br \/>\nNo \u00e9ter cristalino ides boiando,<br \/>\nDizei-me &#8211; onde est\u00e1 Deus? &#8211; sabeis se existe<br \/>\nUm ente, cuja m\u00e3o eterna e s\u00e1bia<br \/>\nVos esparziu pela extens\u00e3o do v\u00e1cuo,<br \/>\nOu do seio do caos desabrochastes<br \/>\nPor insond\u00e1vel lei do cego acaso?<br \/>\nConheceis esse rei, que rege e guia<br \/>\nNo espa\u00e7o infindo vosso errante curso?<br \/>\nEia, dizei-me, em que regi\u00f5es ignotas<br \/>\nSe eleva o trono seu inacess\u00edvel?<\/p>\n<p>Mas em v\u00e3o interrogo os c\u00e9us e os astros,<br \/>\nEm v\u00e3o do espa\u00e7o a imensid\u00e3o percorro<br \/>\nDo pensamento as asas fatigando!<br \/>\nEm v\u00e3o &#8211; todo o universo im\u00f3vel, mudo,<br \/>\nSorrir parece de meu v\u00e3o desejo!<br \/>\nD\u00favida &#8211; eis a palavra que eu encontro<br \/>\nEscrita em toda a parte &#8211; ela na terra,<br \/>\nE no livro dos c\u00e9us vejo gravada,<br \/>\n\u00c9 ela que a harmonia das esferas<br \/>\nEntoa sem cessar a meus ouvidos!<\/p>\n<p>Vinde, \u00f3 s\u00e1bios, l\u00e2mpadas brilhantes,<br \/>\nQue ardestes sobre as aras da ci\u00eancia,<br \/>\nAgora desdobrai ante meus olhos<br \/>\nEssas p\u00e1ginas, onde meditando<br \/>\nEm profundo cismar cair deixastes<br \/>\nDe vosso g\u00eanio as v\u00edvidas centelhas:<br \/>\nDai-me o fio subtil, que me conduza<br \/>\nPelo vosso intricado labirinto:<br \/>\nRasgai-me a venda, que me enubla os olhos,<br \/>\nGuiai meus passos, que embrenhar-me quero<br \/>\nDo racioc\u00ednio das regi\u00f5es sombrias,<br \/>\nE surpreender no seio de atr\u00e1s nuvens<br \/>\nO escondido segredo&#8230;<\/p>\n<p>Oh! louco intento!&#8230;<br \/>\nEm mil vig\u00edlias palejou-me a fronte,<br \/>\nE amorteceu-se o lume de seus olhos<br \/>\nA sondar esse abismo tenebroso,<br \/>\nVasto e profundo, em que as mil hip\u00f3teses,<br \/>\nOs erros mil, os engenhosos sonhos,<br \/>\nOs confusos sistemas se debatem,<br \/>\nSe confundem, se ro\u00e7am, se abalroam,<br \/>\nEm um caos sem fim turbilhonando:<br \/>\nAtento a lhe escrutar o seio l\u00f4brego<br \/>\nEm v\u00e3o cansei-me; nesse af\u00e3 penoso<br \/>\nUma negra vertigem pouco e pouco<br \/>\nMe enubla a mente, e a deixa desvairada<br \/>\nNo escuro abismo flutuando incerta!<\/p>\n<p>Filosofia, dom mesquinho e fr\u00e1gil,<br \/>\nFarol enganador de escasso lume,<br \/>\nTu s\u00f3 geras um p\u00e1lido crep\u00fasculo,<br \/>\nOnde giram fantasmas nebulosos,<br \/>\nD\u00fabias vis\u00f5es, que o esp\u00edrito desvairam<br \/>\nNum caos de intermin\u00e1veis conjeturas.<br \/>\nDespeda\u00e7a essas p\u00e1ginas in\u00fateis,<br \/>\nTriste apan\u00e1gio da fraqueza humana,<br \/>\nEm vez de luz, amontoando sombras<br \/>\nNo santu\u00e1rio augusto da verdade.<br \/>\nUm palavra s\u00f3 talvez bastara<br \/>\nPra saciar de luz meu pensamento;<br \/>\nEssa ningu\u00e9m a sabe sobre a terra!&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 tu, meu Deus, s\u00f3 tu dissipar podes<br \/>\nA, que os olhos me cerca, escura treva!<br \/>\n\u00d3 tu, que \u00e9s pai de amor e de piedade,<br \/>\nQue n\u00e3o negas o orvalho \u00e0 flor do campo,<br \/>\nNem o t\u00eanue sustento ao vil inseto,<br \/>\nQue de infinda bondade almos tesouros<br \/>\nCom profus\u00e3o derramas pela terra,<br \/>\n\u00d3 meu Deus, por que negas \u00e0 minha alma<br \/>\nA luz que \u00e9 seu alento, e seu conforto?<br \/>\nPor que exilaste a tua criatura<br \/>\nLonge do s\u00f3lo teu, c\u00e1 neste vale<br \/>\nDe eterna escurid\u00e3o? &#8211; Acaso o homem,<br \/>\nQue \u00e9 pura emana\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia tua,<br \/>\n\u00c9 que se diz criado \u00e0 tua imagem,<br \/>\nDe adorar-te em ti mesmo n\u00e3o \u00e9 digno,<br \/>\nDe contemplar, gozar tua presen\u00e7a,<br \/>\nDe tua gl\u00f3ria no esplendor perene?<br \/>\nOh! meu Deus, por que cinges o teu trono<br \/>\nDa impenetr\u00e1vel sombra do mist\u00e9rio?<br \/>\nQuando da esfera os eixos abalando<br \/>\nPassa no c\u00e9u entre abrasadas nuvens<br \/>\nDa tempestade o carro fragoroso,<br \/>\nSenhor, \u00e9 tua c\u00f3lera tremenda<br \/>\nQue brada no trov\u00e3o, e chove em raios?<br \/>\nE o \u00edris, essa faixa cambiante,<br \/>\nQue cinge o manto azul do firmamento,<br \/>\nComo um la\u00e7o que prende aos c\u00e9us a terra,<br \/>\n\u00c9 de tua clem\u00eancia an\u00fancio meigo?<br \/>\n\u00c9 tua imensa gl\u00f3ria que resplende<br \/>\nNo disco flamejante, que derrama<br \/>\nLuz e calor por toda a natureza?<br \/>\nDize, \u00f3 Senhor, por que a m\u00e3o ocultas,<br \/>\nQue a flux esparge tantas maravilhas?<br \/>\nDize, \u00f3 Senhor, que para mim n\u00e3o mudas<br \/>\nAs p\u00e1ginas do livro do universo!&#8230;<br \/>\nMas, ai! que o invoco em v\u00e3o! ele se esconde<br \/>\nNos abismos de sua eternidade.<\/p>\n<p>Um eco s\u00f3 da profundez do v\u00e1cuo<br \/>\nPavoroso retumba, e diz &#8211; d\u00favida!&#8230;.<\/p>\n<p>Vir\u00e1 a morte com as m\u00e3os geladas<br \/>\nQuebrar um dia esse terr\u00edvel selo,<br \/>\nQue a meus olhos esconde tanto arcanos?<\/p>\n<p>\u00d3 campa! &#8211; atra barreira inexor\u00e1vel<br \/>\nEntre a vida e a morte levantada!<br \/>\n\u00d3 campa, que mist\u00e9rios insond\u00e1veis<br \/>\nEm teu escuro seio muda encerras?<br \/>\n\u00c9s tu acaso o p\u00f3rtico do El\u00edsio,<br \/>\nQue nos franqueias as regi\u00f5es sublimes<br \/>\nQue a luz da verdade eterna brilha?<br \/>\nOu \u00e9s do nada a fauce tenebrosa,<br \/>\nOnde a morte pra sempre nos arroja<br \/>\nEm um sono sem fim adormecidos!<br \/>\nOh! quem pudera levantar afouto<br \/>\nUm canto ao menos desse v\u00e9u tremendo<br \/>\nQue encobre a eternidade&#8230;<\/p>\n<p>Mas debalde<br \/>\nInterrogo o sepulcro &#8211; e o debru\u00e7ado<br \/>\nSobre a voragem t\u00e9trica e profunda,<br \/>\nOnde as extintas gera\u00e7\u00f5es baqueiam,<br \/>\nInclino o ouvido, a ver se um eco ao menos<br \/>\nDas margens do infinito me responde!<br \/>\nMas o sil\u00eancio que nas campas reina,<br \/>\n\u00c9 como o nada &#8211; f\u00fanebre e profundo&#8230;<\/p>\n<p>Se ao menos eu soubesse que co&#8217;a vida<br \/>\nTerminariam tantas incertezas,<br \/>\nEmbora os olhos meus al\u00e9m da campa,<br \/>\nEm vez de abrir-se para a luz perene,<br \/>\nFossem na eterna escurid\u00e3o do nada<br \/>\nPara sempre apagar-se&#8230; &#8211; mas quem sabe?<br \/>\nQuem sabe se depois desta exist\u00eancia<br \/>\nRenascerei &#8211; pra duvidar ainda?!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardo Guimar\u00e3es Tout corps som ombre et tout esprit son doute. 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