{"id":93182,"date":"2017-01-06T15:39:15","date_gmt":"2017-01-06T17:39:15","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93182"},"modified":"2017-01-06T15:39:15","modified_gmt":"2017-01-06T17:39:15","slug":"historias-e-tradicoes-da-provincia-de-minas-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/historias-e-tradicoes-da-provincia-de-minas-gerais","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias e Tradi\u00e7\u00f5es da Prov\u00edncia de Minas Gerais"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"750\" height=\"110\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"159\" height=\"78\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><font size=\"2\"><strong>Cap&iacute;tulo 1 &#8211; A ca&ccedil;ada<br \/>\n              de on&ccedil;a<\/strong><\/font><\/a><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#2\">Cap&iacute;tulo 2 &#8211; A fazenda<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#3\">Cap&iacute;tulo 3 &#8211; O primo<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#4\">Cap&iacute;tulo 4 &#8211; Paulina<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"102\">&nbsp; <\/td>\n<td width=\"154\">\n<div align=\"center\"><font size=\"2\"><strong> <\/strong><\/font> <\/p>\n<p><a href=\"#5\"><font size=\"2\"><strong>Cap&iacute;tulo 5 &#8211; &Agrave;<br \/>\n              sombra da gameleira<\/strong><\/font><\/a><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#6\">Cap&iacute;tulo 6 &#8211; O Juramento<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#7\">Cap&iacute;tulo 7 &#8211; O casamento<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#8\">Cap&iacute;tulo 8 &#8211; Lucinda<br \/>\n              e Paulina <\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"100\">&nbsp; <\/td>\n<td width=\"163\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><br \/>\n              <a href=\"#9\"><strong>Cap&iacute;tulo 9 &#8211; O noivo<\/strong><\/a><\/font><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#10\">Cap&iacute;tulo 10 &#8211; Regresso<br \/>\n              extempor&acirc;neo<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#11\">Cap&iacute;tulo 11 &#8211; Del&iacute;rio<br \/>\n              e amor<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#12\">Cap&iacute;tulo 12 &#8211; Dois<br \/>\n              verdugos<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#13\">Cap&iacute;tulo 13 &#8211; Desengano<br \/>\n              tardio<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#14\">Cap&iacute;tulo 14 &#8211; Conclus&atilde;o<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>A cabe&ccedil;a do Tiradentes Tradi&ccedil;&atilde;o mineira<\/h2>\n<p> Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma hist&oacute;ria para disfar&ccedil;ar<br \/>\n    o enfado destas longas e frigid&iacute;ssimas noites de maio? Mas, por melhor<br \/>\n    que seja a minha vontade, n&atilde;o sei, como possa satisfazer ao vosso pedido&#8230;<br \/>\n    digo mal, &#8211; cumprir as vossas ordens.<\/p>\n<p> Este frio enregela-me as asas da imagina&ccedil;&atilde;o; este vento glacial,<br \/>\n    que uiva pelos telhados, como uma matilha de c&atilde;es danados, estes guinchos<br \/>\n    de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    recolher-se toda encolhida aos mais &iacute;ntimos esconderijos do cr&acirc;nio,<br \/>\n    tiritando de frio e de medo.<\/p>\n<p> A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o esp&iacute;rito t&atilde;o<br \/>\n    seco e est&eacute;ril, como a caveira de um defunto enterrado h&aacute; cem<br \/>\n    anos.<\/p>\n<p> Ah! falei-vos em caveira!&#8230;<\/p>\n<p> E n&atilde;o &eacute;, que esta id&eacute;ia de caveira veio despertar-me<br \/>\n    a reminisc&ecirc;ncia entorpecida pelo frio?! Foi como a vara m&aacute;gica<br \/>\n    de Mois&eacute;s, que fez rebentar &aacute;gua em jorros da aridez do rochedo<br \/>\n    do deserto.<\/p>\n<p> E pois vou contar-vos a hist&oacute;ria de uma caveira memor&aacute;vel.<\/p>\n<p> N&atilde;o se arrepiem, minhas senhoras; n&atilde;o &eacute; hist&oacute;ria<br \/>\n    de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes.<\/p>\n<p> &Eacute; uma simples tradi&ccedil;&atilde;o nacional, ainda bem recente,<br \/>\n    e da nossa pr&oacute;pria terra.<\/p>\n<p> Essa hist&oacute;ria eu a poderia intitular: <\/p>\n<h2>Hist&oacute;ria de uma Cabe&ccedil;a Hist&oacute;rica<\/h2>\n<p>Era pelos fins do s&eacute;culo passado; em 178&#8230;<\/p>\n<p> Nesse tempo, esta capital de Minas, que ent&atilde;o com justa raz&atilde;o<br \/>\n    tinha o nome de Vila Rica, era opulenta e populosa, como bem poucas cidades<br \/>\n    se podiam contar no Brasil.<\/p>\n<p> Os governadores e fidalgos dessa &eacute;poca rodavam em ricas carruagens<br \/>\n    tiradas por possantes mulas por essas ladeiras, onde hoje s&oacute; rincham<br \/>\n    pesados carros puxados a bois.<\/p>\n<p> Havia quase sempre curros ou touradas, e cavalhadas magn&iacute;ficas; prociss&otilde;es<br \/>\n    de esplendor e riqueza deslumbrantes; espet&aacute;culos teatrais, em que<br \/>\n    a arte suntuosamente protegida pelos governadores era cultivada com 1 esmero<br \/>\n    no gosto da &eacute;poca; uma literatura pr&oacute;pria, se bem que um tanto<br \/>\n    abastardada pela imita&ccedil;&atilde;o do classicismo lusitano, literatura<br \/>\n    de que foram dignos representantes nomes at&eacute; hoje c&eacute;lebres.<\/p>\n<p> Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cl&aacute;udio Manuel da Costa s&atilde;o gl&oacute;rias,<br \/>\n    que nunca mais se eclipsar&atilde;o.<\/p>\n<p> Havia regozijos e festas de toda a esp&eacute;cie, muito luxo, com&eacute;rcio<br \/>\n    interior ativo, e o povo nadava na abund&acirc;ncia.<\/p>\n<p> E tudo isso por qu&ecirc;? Porque naquela &eacute;poca o ouro por essas<br \/>\n    montanhas como que brotava &agrave; flor da terra.<\/p>\n<p> O ouro era t&atilde;o abundante, que os pr&oacute;prios pretos cativos,<br \/>\n    com as migalhas que escapavam das lavras de seus senhores, edificaram mais<br \/>\n    de um templo magn&iacute;fico, que at&eacute; hoje a&iacute; est&atilde;o,<br \/>\n    e as pretas, quando iam &agrave;s suas festas costumeiras, polvilhavam a carapinha<br \/>\n    com areia de ouro.<\/p>\n<p> Mas em contraposi&ccedil;&atilde;o a tudo isso, o povo gemia debaixo da<br \/>\n    mais vil, da mais infamante escravid&atilde;o.<\/p>\n<p> O bem-estar material era grande; mas a degrada&ccedil;&atilde;o moral era<br \/>\n    profunda.<\/p>\n<p> Ali sobre aquele morro se erguia o vulto sinistro e amea&ccedil;ador da<br \/>\n    forca, que nunca se desarmava, e em que a um simples aceno da tirania, apenas<br \/>\n    com uma aparente forma de processo, se imolava tanto o criminoso como o inocente.<\/p>\n<p> Acol&aacute;, no meio daquela pra&ccedil;a p&uacute;blica, em face de um<br \/>\n    templo crist&atilde;o, &#8211; como um sarcasmo vivo, &#8211; at&eacute; bem<br \/>\n    pouco tempo se achava al&ccedil;ado o pelourinho, ainda mais infamante, em<br \/>\n    que o cidad&atilde;o era azorragado publicamente, como o mais vil escravo.<\/p>\n<p> Os capit&atilde;es-mores tamb&eacute;m de sua parte castigavam arbitrariamente<br \/>\n    com a&ccedil;outes, com o tronco e at&eacute; com a palmat&oacute;ria as mais<br \/>\n    leves faltas de seus governados.<\/p>\n<p> O ouro extra&iacute;do das minas pelo bra&ccedil;o do povo era na sua maior<br \/>\n    parte destinado a alimentar o luxo e a cobi&ccedil;a de seus opressores.<\/p>\n<p> Minas, bem como o Brasil inteiro, era bem como uma vasta fazenda explorada<br \/>\n    em proveito da metr&oacute;pole.<\/p>\n<p> O povo era uma turma de escravos, que trabalhavam debaixo do azorrague de<br \/>\n    seus feitores, &#8211; os governadores, capit&atilde;es-mores, guardas-mores<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p> A fazenda prosperava; mas os escravos ind&oacute;ceis come&ccedil;avam a<br \/>\n    se enfadar de arrote&aacute;-la s&oacute; para benef&iacute;cio de seus senhores.<\/p>\n<h2> II<\/h2>\n<p> E nessa &eacute;poca de riqueza e opul&ecirc;ncia, de servilismo e degrada&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social, no meio da pra&ccedil;a principal desta cidade se via uma cabe&ccedil;a<br \/>\n    humana dessecada, cravada sobre um alto poste.<\/p>\n<p> Este poste e esta cabe&ccedil;a eram noite e dia guardados por uma sentinela.<\/p>\n<p> E &agrave; noite uma lanterna se acendia para alumiar o l&uacute;gubre espet&aacute;culo.<\/p>\n<p> Havia dois ou tr&ecirc;s anos que este sinistro padr&atilde;o da mais brutal<br \/>\n    e feroz tirania existia ali hasteado.<\/p>\n<p> E por que raz&atilde;o esse cuidado em conservar ali t&atilde;o guardado,<br \/>\n    t&atilde;o vigiado, aquele triste e miserando resto de uma v&iacute;tima h&aacute;<br \/>\n    tanto tempo sacrificada?&#8230;<\/p>\n<p> Para que aquela sentinela ali postada constantemente dia e noite?&#8230;<\/p>\n<p> Temiam acaso que aquele cr&acirc;nio oco e ressequido onde h&aacute; tanto<br \/>\n    tempo se extinguira a vida e o pensamento, de novo se reanimasse, e reunindo-se<br \/>\n    ao tronco esquartejado e esparso, desse outra vez o sinal da revolta ao povo<br \/>\n    oprimido?&#8230;<\/p>\n<p> Ou receavam que esse cr&acirc;nio, hasteado na ponta do estandarte da emancipa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fosse o sinal certo da queda dos tiranos e do triunfo da liberdade, como esse<br \/>\n    c&eacute;lebre tambor que os soldados h&uacute;ngaros fizeram da pele de seu<br \/>\n    bravo chefe Ziska, morto no campo da batalha, tambor que quando rufava &agrave;<br \/>\n    frente deles, era seguro pren&uacute;ncio da vit&oacute;ria? Pobre Tiradentes!&#8230;<br \/>\n    ainda que n&atilde;o fosse t&atilde;o nobre e santa a causa por que te imolaste,<br \/>\n    a morte afrontosa que sofreste, e a crueldade, direi asquerosa, com que profanaram<br \/>\n    teus miserandos restos, eram motivos bastantes para aben&ccedil;oarmos tua<br \/>\n    mem&oacute;ria e execrarmos a de teus algozes.<\/p>\n<h2> III<\/h2>\n<p>Era uma noite tenebrosa, horrenda, como essa que a&iacute; vai correndo.<\/p>\n<p> Impetuosa ventania, zunindo pelos tetos da antiga e opulenta Vila Rica submersa<br \/>\n    no sono e no sil&ecirc;ncio, impelia pelos ares camadas e camadas de espessa<br \/>\n    e frigid&iacute;ssima neblina, e fazendo oscilar sobre seu poste a caveira<br \/>\n    do m&aacute;rtir da liberdade com sinistro estr&eacute;pito, agitava-lhe os<br \/>\n    compridos cabelos castanhos ainda aderentes ao cr&acirc;nio.<\/p>\n<p> Parecia que aquela cabe&ccedil;a her&oacute;ica, bafejada pelo sopro da<br \/>\n    liberdade que rugia das montanhas, em seu f&uacute;nebre oscilar amea&ccedil;ava<br \/>\n    ainda os tiranos, e lhes predizia a pr&oacute;xima ru&iacute;na.<\/p>\n<p> O p&aacute;lido clar&atilde;o da lanterna, que balou&ccedil;ava ao vento,<br \/>\n    ondulava l&uacute;gubre sobre a ossada branquicenta, desenhando ao vivo as<br \/>\n    cavidades negras dos olhos e a dentadura amarelada.<\/p>\n<p> O pobre sentinela, talvez considerando que estava de guarda a um cr&acirc;nio<br \/>\n    ressequido que a ningu&eacute;m podia fazer mal, e que longe de excitar a<br \/>\n    cobi&ccedil;a, s&oacute; poderia inspirar horror, o sentinela sentado no h&atilde;o,<br \/>\n    recostado sobre uma pedra, e com a arma sobre os joelhos, deixava-se furtar<br \/>\n    do sono.<\/p>\n<p> Um vulto todo rebu&ccedil;ado surge por entre as trevas, e se aproxima cautelosamente<br \/>\n    do tremendo poste.<\/p>\n<p> Com uma comprida vara que trazia, faz saltar do poste a caveira, apanha-a<br \/>\n    rapidamente, e de novo desaparece com o favor das trevas e do nevoeiro.<\/p>\n<p> Tudo isto foi feito com tal presteza, que quando o guarda, despertado pelo<br \/>\n    som rouco da caveira ao cair, deu f&eacute; do ocorrido, j&aacute; era tarde.<br \/>\n    Viu apenas uma sombra engolfar-se e desaparecer atrav&eacute;s do nevoeiro.<\/p>\n<p> Um instante depois o rel&oacute;gio da cadeia badalava meia-noite.<\/p>\n<p> O guarda contou que um fantasma de fogo, esvoa&ccedil;ando pelos ares, havia<br \/>\n    roubado o cr&acirc;nio, e desaparecera nas nuvens.<\/p>\n<p> As sentinelas da cadeia atestaram o fato e o guarda do poste foi acreditado,<br \/>\n    e n&atilde;o sofreu castigo.<\/p>\n<p> N&atilde;o era mesmo para acreditar que o anjo do Brasil viesse reivindicar<br \/>\n    aquela rel&iacute;quia veneranda do m&aacute;rtir da liberdade?&#8230;<\/p>\n<h2> IV <\/h2>\n<p>Conheceis essa comprida rua, que na extremidade ocidental desta cidade se<br \/>\n    estende isolada por uma encosta acima, como a cauda de um lagarto.<\/p>\n<p> Chama-se a rua das Cabe&ccedil;as.<\/p>\n<p> A origem desse nome sinistro vem de que a&iacute; se fincavam na ponta de<br \/>\n    estacas as cabe&ccedil;as dos m&iacute;seros enforcados pelas esquinas dos<br \/>\n    becos.<\/p>\n<p> &#8211; Para servir de exemplo e escarmento aos povos &#8211; diziam os<br \/>\n    tiranos.<\/p>\n<p> Mas os fatos vieram depois comprovar-lhes, que erravam, procedendo assim.<\/p>\n<p> No alto dessa rua, n&atilde;o h&aacute; muitos anos, existia ainda um velho<br \/>\n    de vida misteriosa e retra&iacute;da, a quem o povo olhava com respeito e<br \/>\n    curiosidade.<\/p>\n<p> Vivendo sozinho em uma casa quase arruinada, comunicando-se raras vezes<br \/>\n    com seus semelhantes e s&oacute; em caso de necessidade, parecia um anacoreta<br \/>\n    ou um homem possu&iacute;do de singular monomania.<\/p>\n<p> Entretanto os curiosos, que nunca faltam nas cidades, espiolhando um dia<br \/>\n    pelas fendas das arruinadas paredes da morada do velho, devassaram um singular&iacute;ssimo<br \/>\n    segredo de sua vida &iacute;ntima.<\/p>\n<p> Viram-no abrir com ar de religioso respeito a portinhola de um nicho ou<br \/>\n    de um arm&aacute;rio praticado na parede, tirar dele um cr&acirc;nio humano<br \/>\n    branco e mirrado, dep&ocirc;-lo silenciosamente sobre uma mesa colocada em<br \/>\n    frente a um orat&oacute;rio, e ajoelhando-se depois com os bra&ccedil;os encostados<br \/>\n    sobre a mesa, assim ficar por largo tempo, em atitude de profunda medita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ou no &ecirc;xtase de uma ora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas esta descoberta, como bem se pode ver, em nada veio dissipar o mist&eacute;rio<br \/>\n    que pairava sobre a vida do velho. Pelo contr&aacute;rio vinha ainda rode&aacute;-la<br \/>\n    de mais um sinistro prest&iacute;gio, e em vez de acalmar a curiosidade do<br \/>\n    povo, concorreu para mais excit&aacute;-la.<\/p>\n<p> Que cr&acirc;nio seria esse, que o velho guardava, e parecia venerar com<br \/>\n    religioso acatamento? Seria rel&iacute;quia de algum ente amado? Seria o velho<br \/>\n    algum assassino, que em expia&ccedil;&atilde;o de seu crime queria ter sempre<br \/>\n    diante de si o cr&acirc;nio da sua v&iacute;tima para lacerar continuamente<br \/>\n    a consci&ecirc;ncia com o cil&iacute;cio do remorso?&#8230;<\/p>\n<p> Seria algum cenobita imitador de S. Jer&ocirc;nimo, que tinha sempre diante<br \/>\n    de seus olhos uma caveira humana a fim de conservar de cont&iacute;nuo presente<br \/>\n    ao esp&iacute;rito o nada da exist&ecirc;ncia? A maior parte do povo por&eacute;m<br \/>\n    ficou tendo o pobre velho por um grande feiticeiro, e por isso tinha-lhe medo<br \/>\n    e o respeitava.<\/p>\n<p> Assim pois, descobrindo aquele segredo da vida do velho ainda a tornaram<br \/>\n    mais misteriosa e quase sinistra.<\/p>\n<p> Pouco tempo depois morreu o velho, foi pobremente enterrado no adro relvado<br \/>\n    da capela do Senhor Bom Jesus, sita na mesma rua, e sua casa tombando em ru&iacute;nas,<br \/>\n    ficou abandonada, pois se j&aacute; em vida de seu dono era objeto de terror<br \/>\n    para o povo, muito mais o ficou sendo depois de seu falecimento.<\/p>\n<p> N&atilde;o foi sen&atilde;o alguns anos depois, que se veio no conhecimento,<br \/>\n    de que o velho misterioso n&atilde;o era outro sen&atilde;o o ousado roubador<br \/>\n    da cabe&ccedil;a do Tiradentes, e que a caveira, que com t&atilde;o religioso<br \/>\n    cuidado guardava e venerava, era a daquele ilustre e desditoso m&aacute;rtir<br \/>\n    do primeiro movimento emancipador.<\/p>\n<p> Contou depois isto algu&eacute;m, que era o &uacute;nico deposit&aacute;rio<br \/>\n    do segredo do velho, e que por ignor&acirc;ncia ou indiferen&ccedil;a ligava<br \/>\n    pouca import&acirc;ncia a um fato t&atilde;o curioso.<\/p>\n<p> Que &eacute; feito por&eacute;m desse cr&acirc;nio hist&oacute;rico, que<br \/>\n    t&atilde;o generosos pensamentos abrigou outrora em seu seio? Quereria seu<br \/>\n    possuidor em sua fan&aacute;tica venera&ccedil;&atilde;o pela liberdade e<br \/>\n    por aquela rel&iacute;quia do seu principal m&aacute;rtir, que ela fosse com<br \/>\n    ele enterrada, e seria cumprida a sua &uacute;ltima vontade? Ou ficaria essa<br \/>\n    rel&iacute;quia, &#8211; digna de ser encerrada em uma urna de ouro, &#8211;<br \/>\n    calcada debaixo dos entulhos das paredes esboroadas da habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do velho?&#8230;<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m o sabe.<\/p>\n<p> Os fatos, que acabo de narrar, posto que pouco conhecidos, s&atilde;o tradicionais.<\/p>\n<p> Perguntem aos velhos, e mesmo a alguns mo&ccedil;os mais curiosos, das coisas<br \/>\n    antigas da nossa terra, e se convencer&atilde;o de que esta hist&oacute;ria<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; de minha lavra.<\/p>\n<p> Ouro Preto, maio de 1867.<\/p>\n<h2> A filha do fazendeiro <\/h2>\n<p><strong>Introdu&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>A cinco ou seis l&eacute;guas ao norte da cidade de Uberaba na prov&iacute;ncia<br \/>\n    de Minas Gerais se via ainda h&aacute; alguns anos uma capelinha isolada ou<br \/>\n    ermida no alto de um espig&atilde;o, dominando por todos os lados um largo<br \/>\n    e risonho horizonte como atalaia im&oacute;vel olhando em derredor as solid&otilde;es.<br \/>\n    Era uma pequenina e tosca constru&ccedil;&atilde;o de madeira com quatro paredes,<br \/>\n    coberta de telha e coroada por uma cruz, como se encontram muitas disseminadas<br \/>\n    por esses vastos sert&otilde;es.<\/p>\n<p> Essas capelinhas t&ecirc;m de ordin&aacute;rio junto a si um cercado de<br \/>\n    pedra ou de madeira, que serve de cemit&eacute;rio aos fazendeiros vizinhos.<br \/>\n    Quando se diz &#8211; vizinho &#8211; naquelas paragens, e principalmente<br \/>\n    em eras mais remotas, entende-se moradores de cinco, seis, sete e mais l&eacute;guas<br \/>\n    em redor.<\/p>\n<p> A capelinha, a que nos referimos, tinha tamb&eacute;m junto a si o seu terreno<br \/>\n    sagrado, cercado de muro de pedra, e com uma cruz no meio, e era ali, que<br \/>\n    os fazendeiros daqueles contornos mandavam enterrar os seus defuntos, para<br \/>\n    se forrarem ao trabalho de mand&aacute;-los viajar dezenas de l&eacute;guas<br \/>\n    levando-os aos povoados onde houvesse cemit&eacute;rios sagrados. Esta, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o foi erigida especialmente para esse fim, como se ver&aacute; pelo<br \/>\n    decurso desta hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> Do alto da capelinha enxergava-se em dist&acirc;ncia de cerca de meia l&eacute;gua<br \/>\n    em um apraz&iacute;vel vargedo a fachada denegrida arruinada de uma grande<br \/>\n    fazenda, com seus vastos currais, senzalas, moinho e engenho de cana, mas<br \/>\n    tudo a desmoronar-se, tudo abafado entre o matagal, que come&ccedil;ava a<br \/>\n    tomar conta do terreno com a vigorosa e luxuriante vegeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que h&aacute; naquelas regi&otilde;es. A fazenda achava-se situada ao p&eacute;<br \/>\n    de um lan&ccedil;ante entre duas vertentes orladas de filas de coqueiros chamados<br \/>\n    buritis, cujas linhas se perdiam na imensidade dos horizontes como fileira<br \/>\n    de guerreiros selvagens postados em ordem de batalha ao longo dos chapad&otilde;es.<br \/>\n    As terras de cultura ou matos de plantio eram mais longe, nas escuras matas,<br \/>\n    que acompanham as margens de um ribeir&atilde;o, que vai desaguar no Rio das<br \/>\n    Velhas.<\/p>\n<p> A algumas centenas de passos al&eacute;m da capelinha havia &agrave; beira<br \/>\n    do caminho uma cruz de pau toscamente lavrado, e via-se claramente que ali<br \/>\n    havia uma sepultura. Existindo ali t&atilde;o perto uma capela e um recinto<br \/>\n    sagrado para se enterrarem os mortos, por que raz&atilde;o fora ali sepultado<br \/>\n    aquele corpo, assim segregado dos outros h&oacute;spedes do t&uacute;mulo?<br \/>\n    Aquele lugar tinha reputa&ccedil;&atilde;o de mal-assombrado, e agente daqueles<br \/>\n    contornos, que bem sabe disso, evita o mais que pode passar por ali depois<br \/>\n    de noite fechada. Um, que por desgra&ccedil;a teve de passar por l&aacute;<br \/>\n    a desoras, quase que l&aacute; ficou morto de medo fazendo companhia ao enterrado.<br \/>\n    Con-tou, que vira sobre a sepultura levantar-se um fantasma monstruoso, o<br \/>\n    qual depois de exalar um gemido prolongado e lamentoso como o uivo de um c&atilde;o,<br \/>\n    arrebentou dando um estouro como de um tiro, e desmanchou-se em l&iacute;nguas<br \/>\n    de fogo vivo, que passearam por algum tempo por cima da sepultura, e sumiram-se<br \/>\n    um momento depois.<\/p>\n<p> Se o leitor deseja saber que acontecimentos deram lugar ao abandono daquela<br \/>\n    linda fazenda, e qual o mist&eacute;rio que encerram aquela sepultura e aquela<br \/>\n    capelinha, leia a seguinte hist&oacute;ria, que h&aacute; tempos me foi contada<br \/>\n    por um morador daquelas paragens, e que eu tratarei de reproduzir com toda<br \/>\n    a fidelidade e individua&ccedil;&atilde;o, que a mem&oacute;ria me permitir.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"> Cap&iacute;tulo 1 &#8211; A ca&ccedil;ada de on&ccedil;a<\/a><\/h2>\n<p> Estava-se abrindo uma vasta ro&ccedil;a no meio de uma mata virgem na fazenda<br \/>\n    de que acabamos de falar; isto h&aacute; de haver mais de quarenta anos. Era<br \/>\n    ocasi&atilde;o da derribada; a foice j&aacute; tinha ceifado e desbastado<br \/>\n    o mato mi&uacute;do, as taquaras e cip&oacute;s, que emaranhavam a floresta.<br \/>\n    Os troncos robustos e colossais da peroba, da canjerana, da paineira, do cedro<br \/>\n    e do ip&ecirc; ostentavam-se nus, e campeavam desafogados aqui e acol&aacute;,<br \/>\n    como colunas que ficaram em p&eacute; de um templo cujos tetos e paredes desabaram.<br \/>\n    Mas era mister tamb&eacute;m deitar por terra esses gigantes de vegeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que com suas c&uacute;pulas imensas ensombravam o terreno da planta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e roubavam a seiva ao solo. Contra cada um deles investiam dois ou tr&ecirc;s<br \/>\n    vigorosos e truculentos negros brandindo pesados e possantes machados. Nus<br \/>\n    da cintura para cima luziam-lhes as esp&aacute;duas musculosas banhadas em<br \/>\n    suor aos ardentes raios do sol de agosto. Os golpes do machado restrugiam<br \/>\n    compassados pela encosta ao som da cantiga mon&oacute;tona do africano. De<br \/>\n    tempos a tempos ouvia-se um rangido horrendo; um r&aacute;pido e passageiro<br \/>\n    tuf&atilde;o atravessava uivando a floresta, e a terra estremecia ao medonho<br \/>\n    estrugido de um tronco, que baqueava no meio da grita e alarido dos rudes<br \/>\n    trabalhadores.<\/p>\n<p> Ao p&eacute; da encosta, onde se fazia a ro&ccedil;ada, e &agrave; beira<br \/>\n    de um pequeno c&oacute;rrego havia um rancho ou coberta de capim de beira<br \/>\n    no ch&atilde;o, como os h&aacute; em todas as ro&ccedil;as, onde se preparava<br \/>\n    a comida para os escravos, e que lhes servia de guarida contra os temporais.<\/p>\n<p> Enquanto no interior do rancho uma escrava preparava comida dos trabalhadores,<br \/>\n    assentada &agrave; porta se via uma alva e delicada figura, que contrastava<br \/>\n    singularmente com a bronca e selv&aacute;tica perspectiva de tudo que a rodeava.<br \/>\n    Era uma menina de dezesseis ou dezessete anos, alva, esbelta, e de compridos<br \/>\n    cabelos castanhos.<\/p>\n<p> Tinha no rega&ccedil;o uma peneira, em que estava limpando o arroz, que<br \/>\n    tinha de servir ao jantar. Os p&eacute;s encruzados pousavam sobre umas tamanquinhas<br \/>\n    de marroquim vermelho, e a saia do vestido cor de rosa meio apanhada deixava<br \/>\n    ver as extremidades das alvas e mimosas pernas. Por causa da intensa calma<br \/>\n    descera o corpinho do vestido, e assim sem xale e em mangas de camisa quase<br \/>\n    que se lhe viam nus os seios, que arfavam puros e castos como os de Raquel,<br \/>\n    quando ia dar de beber ao rebanho na cisterna, onde encontrou Jac&oacute;.<\/p>\n<p> Seria impudic&iacute;cia um tal desalinho em outro lugar, e em outra qualquer<br \/>\n    criatura; mas cobria-a o v&eacute;u da inoc&ecirc;ncia, e o recato da solid&atilde;o.<br \/>\n    De quando em quando erguia a cabe&ccedil;a e sacudia para tr&aacute;s dos<br \/>\n    ombros as longas e bastas madeixas, que importunas lhe ca&iacute;am pelas<br \/>\n    faces a tapar-lhe os olhos e estorvar-lhe o servi&ccedil;o em que se ocupava,<br \/>\n    e ent&atilde;o deixava ver um lind&iacute;ssimo oval ornado pela mais graciosa<br \/>\n    boca e os mais magn&iacute;ficos olhos que se podem imaginar. A todos esses<br \/>\n    encantos, dava espl&ecirc;ndido realce o vivo rubor, com que o morma&ccedil;o<br \/>\n    de um sol ardente lhe afogueava as faces.<\/p>\n<p> Cairia por acaso do c&eacute;u naquele bronco s&iacute;tio &agrave; entrada<br \/>\n    do pobre rancho essa est&aacute;tua de marfim, t&atilde;o alva, t&atilde;o<br \/>\n    delicada, digna de pousar sobre pedestal de alabastro, e de ser emoldurada<br \/>\n    entre sanefas de ouro e brocado? Ou acaso um anjo baixara &agrave; terra como<br \/>\n    nos tempos b&iacute;blicos a conviver e abrigar-se &agrave; sombra da grosseira<br \/>\n    cabana do homem primitivo? Paulina era a filha do fazendeiro. Filha &uacute;nica<br \/>\n    e &oacute;rf&atilde; de m&atilde;e, gostava de acompanhar seu pai em todos<br \/>\n    os rudes trabalhos da lavoura do sert&atilde;o. Por isso enquanto seu pai<br \/>\n    com um comprido rebenque na m&atilde;o, cal&ccedil;ado de grossas botas de<br \/>\n    mateiro rompia espinhais e coivaras feitorizando o trabalho da derribada,<br \/>\n    ela tomava conta do rancho e ajudava a preta rancheira nos misteres da cozinha.<br \/>\n    Mimosa e delicada como era e n&atilde;o tendo sido criada no meio daquelas<br \/>\n    fragueiras lides, nem por isso Paulina tinha nada de melindrosa, e se entregava<br \/>\n    com o maior desembara&ccedil;o aos mais humildes e grosseiros servi&ccedil;os.<br \/>\n    Al&eacute;m das perfei&ccedil;&otilde;es que recebera da natureza, Paulina<br \/>\n    tinha tido uma educa&ccedil;&atilde;o acurada e a mais completa que naqueles<br \/>\n    tempos em nosso pa&iacute;s se podia dar a uma menina. Ainda em tenros anos<br \/>\n    tinha sido enviada para um col&eacute;gio em S. Jo&atilde;o del-rei, onde<br \/>\n    a gentil sertaneja recebeu com muito aproveitamento li&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    leitura, m&uacute;sica, dan&ccedil;a, e aprendeu as maneiras de uma sociedade<br \/>\n    um pouco mais polida do que era a da Uberaba naqueles tempos.<\/p>\n<p> Por morte de sua m&atilde;e, a que sucedeu imediatamente a de um irm&atilde;o<br \/>\n    &uacute;nico que tinha, seu pai acabrunhado por t&atilde;o dolorosos golpes,<br \/>\n    e vendo-se na mais triste soledade, apressou-se em cham&aacute;-la para junto<br \/>\n    de si, pois era ela o &uacute;nico bem que o c&eacute;u lhe tinha deixado<br \/>\n    para mitigar a dor de t&atilde;o sens&iacute;veis perdas. Ali na solid&atilde;o<br \/>\n    daquela fazenda, todos os dotes que Paulina recebera da natureza e da educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    vieram a tornar-se-lhe inteiramente in&uacute;teis. As belas faculdades de<br \/>\n    que o c&eacute;u a dotara, e que no col&eacute;gio come&ccedil;avam a desabrochar<br \/>\n    com brilho, ali, sem achar expans&atilde;o alguma, concentravam-se em si mesmas,<br \/>\n    e Paulina, que tinha muita sensibilidade e imagina&ccedil;&atilde;o viva,<br \/>\n    foi-se tornando de um car&aacute;ter disposto &agrave; melancolia e a essas<br \/>\n    paix&otilde;es vagas, que ao despontar da puberdade costumam atormentar as<br \/>\n    organiza&ccedil;&otilde;es po&eacute;ticas e delicadas. Poucas vezes deixava<br \/>\n    o retiro de sua fazenda para ir a Uberaba, que ali&aacute;s naquele tempo<br \/>\n    era ainda uma insignificante aldeia. A fam&iacute;lia de um fazendeiro vizinho,<br \/>\n    seu parente, que morava da&iacute; a duas l&eacute;guas, era a &uacute;nica<br \/>\n    que de quando em quando vinha interromper com suas visitas a mon&oacute;tona<br \/>\n    solid&atilde;o do viver de Paulina. Seu pai bem a induzia a passear mais freq&uuml;entemente<br \/>\n    ao arraial, a ir passar alguns dias em companhia de suas primas. Mas ela parece<br \/>\n    que n&atilde;o achava muito encanto na companhia das primas nem nas festan&ccedil;as<br \/>\n    do arraial, e lhes preferia a solid&atilde;o de sua casa e a companhia de<br \/>\n    seu velho pai, para quem era toda extremos, e poucas vezes se utilizava dessas<br \/>\n    permiss&otilde;es. Alguns passarinhos, o cuidado de um pequeno e lindo jardim,<br \/>\n    alguns livros e seus trabalhos de agulha, bastavam para encher-lhe agradavelmente<br \/>\n    o tempo.<\/p>\n<p> Havia j&aacute; alguns minutos que Paulina se achava &agrave; entrada do<br \/>\n    rancho entretida naquele servi&ccedil;o, quando subitamente ergueu a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    sacudiu para tr&aacute;s os compridos cabelos, alongou o colo, e p&ocirc;s-se<br \/>\n    a escutar&#8230; fazia lembrar o esbelto e arisco colhereiro, que estando a pescar<br \/>\n    tranq&uuml;ilamente &agrave; borda do lago, ao sentir qualquer rumor al&ccedil;a<br \/>\n    o colo rosado prestes a bater as asas.<\/p>\n<p> Paulina estava escutando um toque de c&atilde;es de ca&ccedil;a, que vinham<br \/>\n    descendo pela mata, c&oacute;rrego abaixo, com incr&iacute;vel assanhamento.<br \/>\n    Os latidos dos c&atilde;es e a vozeria dos ca&ccedil;adores, que os a&ccedil;ulavam,<br \/>\n    se aproximavam rapidamente atroando a floresta, e era evidente que o animal,<br \/>\n    fosse qual fosse, que era acossado, vinha acompanhando o c&oacute;rrego, e<br \/>\n    tinha de saltar no ro&ccedil;ado exatamente em frente do rancho, em que se<br \/>\n    achava Paulina. Ela, posto que algum tanto afeita a essas cenas selv&aacute;ticas,<br \/>\n    n&atilde;o deixou de amedrontar-se, e correu para dentro do rancho.<\/p>\n<p> &#8211; Suzana! Suzana!&#8230; gritou ela para a negra, &#8211; n&atilde;o ouves?&#8230;<br \/>\n    aquele toque de cachorros?&#8230; meu Deus! n&atilde;o v&aacute; ser algum bicho<br \/>\n    bravo!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; He! ha! santa virgem! murmurou a negra depois de chegar &agrave;<br \/>\n    porta do rancho e escutar um momento. &#8211; Aquele toque, sinhazinha, se<br \/>\n    ele n&atilde;o &eacute; de anta, quer me parecer que &eacute; de on&ccedil;a.<br \/>\n    Cachorro n&atilde;o est&aacute; latindo alegre como quando toca veado, n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Ou&ccedil;a, Suzana!&#8230; ah! meu Deus! que medo! o que ser&aacute;<br \/>\n    de n&oacute;s aqui sozinhas!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tem susto, sinhazinha; on&ccedil;a n&atilde;o vem c&aacute;,<br \/>\n    n&atilde;o; n&atilde;o est&aacute; a&iacute; tanta gente pra matar ela?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Quem sabe, Suzana; &#8211; chama meu pai, chama depressa&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sossega, sinhazinha; &#8211; olha, l&aacute; vem eles todos&#8230;<\/p>\n<p> De feito o fazendeiro, que ouvira tamb&eacute;m a tocada dos c&atilde;es,<br \/>\n    tinha largado imediatamente o servi&ccedil;o e descia pela encosta acompanhado<br \/>\n    de alguns escravos armados de foices e machados, e vinham fazer frente ao<br \/>\n    animal que saltasse da mata.<\/p>\n<p> Um momento depois um enorme animal amarelo malhado de preto surgiu da mata<br \/>\n    e, r&aacute;pido como um corisco, saltando pelas coivaras se encaminhava para<br \/>\n    o lado do rancho, onde nesse mesmo instante chegavam dois possantes e resolutos<br \/>\n    negros, que o velho mandara a toda a pressa para ficarem junto de Paulina.<br \/>\n    Os negros, que avistaram a on&ccedil;a, romperam numa horr&iacute;vel gritaria:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; on&ccedil;a! &eacute; on&ccedil;a! acode gente!&#8230; mata!<br \/>\n    mata!&#8211; Espavorida com aqueles berros a on&ccedil;a estacou um momento.<\/p>\n<p> Ela estava apenas como a uns duzentos passos do rancho; perto se achava<br \/>\n    um tronco de peroba meio tombado, que ao cair ficara engastalhado na galhada<br \/>\n    de uma &aacute;rvore vizinha. A on&ccedil;a pulou nele, e correu a empoleirar-se<br \/>\n    no ponto mais alto, a que p&ocirc;de galgar. Os c&atilde;es, que a perseguiam,<br \/>\n    desembocavam da mata e se reuniam embaixo do tronco, escalavrando-o com unhas<br \/>\n    e dentes, e dando saltos e ganidos furiosos. Assalto in&uacute;til! a on&ccedil;a<br \/>\n    passeava mui ancha e sobranceira ao longo do pau, e ora subia at&eacute; a<br \/>\n    mais alta grimpa, ora descia at&eacute; quase ao alcance deles, arreganhando-lhes<br \/>\n    os dentes como num sorriso feroz a mofar de seus v&atilde;os esfor&ccedil;os,<br \/>\n    e apoiando a cabe&ccedil;a enorme sobre as patas dianteiras os contemplava<br \/>\n    bem de pertinho, e como que os contava um a um em ar de desd&eacute;m.<\/p>\n<p> Entretanto o fazendeiro acompanhado de seus escravos vinha atropeladamente<br \/>\n    rompendo atrav&eacute;s das coivaras, e se aproximava da fera.<\/p>\n<p> Paulina que transida de pavor mal ousava deitar a cabe&ccedil;a fora da<br \/>\n    portinhola do rancho, em v&atilde;o bradava com quantas for&ccedil;as tinha:<br \/>\n    Meu pai! meu pai! por quem &eacute;? n&atilde;o v&aacute; l&aacute;! O velho<br \/>\n    avizinhou-se intr&eacute;pido do terr&iacute;vel animal, apontou-lhe direito<br \/>\n    ao sangrador a espingarda de fian&ccedil;a, que sempre trazia consigo, mas<br \/>\n    decerto a m&atilde;o vacilou-lhe, porque tiro apenas pegou de leve na costela<br \/>\n    da on&ccedil;a. O animal irritado deu um urro medonho, desceu at&eacute; ao<br \/>\n    meio do tronco curvou o dorso como cobra que quer dar o bote, pulou por cima<br \/>\n    de toda a alcat&eacute;ia de c&atilde;es, que esgani&ccedil;ando se apinhavam<br \/>\n    embaixo do pau, correu como uma seta para o lado do rancho, e embarafustou<br \/>\n    por ele adentro.<\/p>\n<p> Os negros soltaram a um tempo um grito de pavor, e o velho fazendeiro sentiu<br \/>\n    gelar-se-lhe o cora&ccedil;&atilde;o de susto, as pernas bambearam-lhe, e<br \/>\n    quase que foi ao ch&atilde;o. Mas o amor paternal sobrepujou o terror, e o<br \/>\n    pobre velho trope&ccedil;ando, abalroando e caindo pelos tocos e coivaras<br \/>\n    correu com a maior celeridade que p&ocirc;de para o lado do rancho; o mesmo<br \/>\n    fizeram os escravos, que o acompanhavam. A on&ccedil;a, quando entrara no<br \/>\n    rancho atropelada e acossada de perto pelos c&atilde;es, nem de leve tocou,<br \/>\n    e talvez nem viu as duas criaturas, que l&aacute; se achavam; cuidando que<br \/>\n    ali seria uma toca, onde acharia guarida segura, s&oacute; tratava de defender-se<br \/>\n    contra os que a perseguiam.<\/p>\n<p> O rancho tinha somente aquela estreita entrada, onde h&aacute; pouco Paulina<br \/>\n    se achava sentada. As duas m&iacute;seras mulheres n&atilde;o tinham nem para<br \/>\n    onde correr, pois a on&ccedil;a apoderando-se dessa entrada voltara a frente<br \/>\n    para fora mostrando a seus perseguidores as alvas e enormes presas, e as formid&aacute;veis<br \/>\n    patas capazes de estrangular um boi. Paulina para logo caiu desfalecida; a<br \/>\n    negra mais morta que viva recolheu-se toda ao &acirc;ngulo, que a coberta<br \/>\n    formava com o ch&atilde;o, como querendo entranhar-se pela terra adentro,<br \/>\n    tiritando de medo e encomendando a alma a Deus.<\/p>\n<p> Assim pois naquele mesmo lugar em que ainda h&aacute; pouco se sentava a<br \/>\n    criatura mais primorosa da terra, um transunto dos anjos do c&eacute;u, respirando<br \/>\n    inoc&ecirc;ncia, paz e ventura, alapardava-se agora o mais feroz e hediondo<br \/>\n    dos seres da cria&ccedil;&atilde;o, com os olhos chamejantes de furor, e as<br \/>\n    goelas abrasadas em sede de sangue.<\/p>\n<p> Enquanto o fazendeiro com m&atilde;o tr&ecirc;mula carregava a espingarda,<br \/>\n    os negros, que n&atilde;o tinham por armas sen&atilde;o foices e machados,<br \/>\n    hesitavam na maior perplexidade sobre o que deveriam fazer. Atacar a fera<br \/>\n    sem ter certeza alguma de mat&aacute;-la de um s&oacute; golpe, era perigos&iacute;ssimo;<br \/>\n    ela podia num momento estra&ccedil;alhar mais de um, ou o que ainda seria<br \/>\n    pior, recuando para o interior do rancho voltar sua sanha contra as duas infelizes,<br \/>\n    que l&aacute; se achavam na mais cr&iacute;tica e assustadora situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Enquanto os pretos vacilavam, e o amo escorvava espingarda, um cavaleiro<br \/>\n    a todo o galope rompe da mata, e investe para o rancho, a cuja porta a on&ccedil;a<br \/>\n    dava combate sanguinolenta aos c&atilde;es, que ousavam aproximar-se-lhe.<br \/>\n    J&aacute; estava na dist&acirc;ncia de um tiro de espingarda, quando seu cavalo<br \/>\n    embara&ccedil;a-se nas coivaras, e cai. Mas lesto e pronto o cavaleiro salta<br \/>\n    fora dos arreios, e com uma pistola em cada m&atilde;o avan&ccedil;a resoluto<br \/>\n    para a on&ccedil;a e desfecha-lhe &agrave; queima-roupa um tiro na cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Em dois arrancos o feroz animal arroja-se sobre ele, lan&ccedil;a-o por terra,<br \/>\n    e cai tamb&eacute;m para um lado estrebuchando e morre.<\/p>\n<p> Nesse momento chegavam j&aacute;, por&eacute;m tarde, os outros ca&ccedil;adores,<br \/>\n    que vieram achar tr&ecirc;s corpos ex&acirc;nimes, a on&ccedil;a, que expirara,<br \/>\n    o cavaleiro malferido e banhado em sangue, e Paulina desmaiada. Uma das enormes<br \/>\n    patas da on&ccedil;a tinha apanhado em cheio o peito do infeliz ca&ccedil;ador,<br \/>\n    e lacerando-lhe cruelmente as carnes o havia derribado no ch&atilde;o sem<br \/>\n    sentidos.<\/p>\n<p> Uma cuia de &aacute;gua fria lan&ccedil;ada na cabe&ccedil;a de Paulina<br \/>\n    restituiu-lhe prontamente os sentidos, e o consternado pai levantou aos c&eacute;us<br \/>\n    as m&atilde;os agradecidas chorando de alegria ao ver que felizmente sua filha<br \/>\n    estava ilesa. Mas o denodado ca&ccedil;ador, o intr&eacute;pido salvador de<br \/>\n    sua filha, esva&iacute;a-se em sangue que jorrava de tr&ecirc;s largos e fundos<br \/>\n    lanhos, que as garras do animal lhe haviam aberto no peito, e o velho e todos<br \/>\n    os mais estavam na mais cruel afli&ccedil;&atilde;o e desassossego por se<br \/>\n    acharem naquele ermo t&atilde;o longe de qualquer recurso. Lavat&oacute;rios<br \/>\n    de &aacute;gua fria, fios e ataduras, que eram os meios de que ali se podia<br \/>\n    lan&ccedil;ar m&atilde;o, nada conseguia estancar o sangue, que corria copioso<br \/>\n    das feridas. A pr&oacute;pria Paulina, a quem o pai em r&aacute;pidas e animadas<br \/>\n    palavras contara o ocorrido, j&aacute; esquecida do seu susto, p&aacute;lida<br \/>\n    e consternada se debru&ccedil;ava sobre o corpo ex&acirc;nime do ferido, e<br \/>\n    rasgando o len&ccedil;o e a saia do seu vestido fazia atilhos e chuma&ccedil;os,<br \/>\n    que com suas pr&oacute;prias m&atilde;os ia aplicando sobre as feridas.<\/p>\n<p> Felizmente, mais sabido do que todos eles em mat&eacute;ria de curar feridas,<br \/>\n    um preto velho tinha corrido ao mato, e voltava com um punhado de folhas na<br \/>\n    m&atilde;o. Apenas chegou, todos se arredaram para lhe dar lugar. O preto<br \/>\n    ajoelhou-se perto do ferido, tirou todos os fios e ataduras, e fazendo pantomimas<br \/>\n    e murmurando palavras cabal&iacute;sticas, mascou tr&ecirc;s ou quatro bocados<br \/>\n    das folhas que trazia, e foi deitando-as sobre as feridas. Em poucos instantes<br \/>\n    o sangue estava estancado, e o ca&ccedil;ador conduzido para o interior do<br \/>\n    rancho e cuidadosamente deposto sobre uma esteira, em menos de uma hora recobrou<br \/>\n    os sentidos. Dali for&ccedil;oso era lev&aacute;-lo para casa do fazendeiro<br \/>\n    para ser convenientemente tratado, pois havia perdido muito sangue e seu estado<br \/>\n    era melindroso.<\/p>\n<p> A on&ccedil;a marrada a um pau pelas quatro patas e carregada aos ombros<br \/>\n    de dois possantes negros, que gemiam debaixo do peso do truculento animal,<br \/>\n    e aos lados e atr&aacute;s dela a c&aacute;fila dos c&atilde;es arquejando<br \/>\n    de cansa&ccedil;o com as l&iacute;nguas dependuradas, ganindo e uivando com<br \/>\n    um choro f&uacute;nebre; em se-guida o ca&ccedil;ador cuidadosamente acomodado<br \/>\n    em um cobertor, de que armaram uma rede, conduzida por outros dois pretos;<br \/>\n    atr&aacute;s dele imediatamente o velho fazendeiro e sua filha p&aacute;lida<br \/>\n    e desgrenhada; depois o cavalo do ca&ccedil;ador, que um escravo levava pela<br \/>\n    r&eacute;dea, e logo em seguida os companheiros de ca&ccedil;a do ferido conduzindo<br \/>\n    igualmente pela r&eacute;dea suas cavalgaduras, e por fim os escravos do fazendeiro<br \/>\n    com seus machados ao ombro, rematando como uma guarda de honra toda aquela<br \/>\n    comitiva, tal era o singular e curioso pr&eacute;stito, que por uma formosa<br \/>\n    tarde de agosto desembocando de escura e espessa mata desfilava pelo lan&ccedil;ante<br \/>\n    de um risonho espig&atilde;o ao longo de um buritizal, dirigindo-se &agrave;<br \/>\n    casa do capit&atilde;o Joaquim Ribeiro, que ficava como a meia l&eacute;gua<br \/>\n    do lugar do sinistro.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"> Cap&iacute;tulo 2 &#8211; A fazenda<\/a><\/h2>\n<p>Formosas e risonhas s&atilde;o as campinas no munic&iacute;pio da Uberaba,<br \/>\n    profundas e gigantescas as florestas, e os horizontes sempre afogueados pelos<br \/>\n    raios de um sol abrasador s&atilde;o espl&ecirc;ndidos e deslumbrantes. Vast&iacute;ssimas<br \/>\n    colinas se estendem com suaves ondula&ccedil;&otilde;es por dist&acirc;ncias<br \/>\n    sem-fim, orladas de verde-negros cap&otilde;es, que ensombram o leito de caudais<br \/>\n    e l&iacute;mpidos ribeir&otilde;es. Extensas linhas de buritis se enfileiram<br \/>\n    pela macega ao longo dos brejais at&eacute; se perderem nas profundidades<br \/>\n    do horizonte. Lisos e vi&ccedil;osos vargedos v&atilde;o terminar ao p&eacute;<br \/>\n    de um cord&atilde;o de boleados outeiros de pouca eleva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que se desenham fumacentos no fundo do painel &agrave; semelhan&ccedil;a de<br \/>\n    uma nuvem cinzenta fixa na orla extrema do c&eacute;u.<\/p>\n<p> Nem s&atilde;o essas campinas como as desabridas e mon&oacute;tonas pampas<br \/>\n    das regi&otilde;es do sul, onde a vista em v&atilde;o se cansa procurando<br \/>\n    em derredor um ponto, em que repouse, um pequeno c&ocirc;moro sequer e que<br \/>\n    interrompa a ins&iacute;pida uniformidade dos horizontes; nem como essas savanas<br \/>\n    e chapad&otilde;es intermin&aacute;veis, como os h&aacute; nas prov&iacute;ncias<br \/>\n    do norte e do centro, que o viajante palmilha de sol a sol sem que jamais<br \/>\n    lhe afaguem os ouvidos o ramalhar da folhagem, nem o consolador murm&uacute;rio<br \/>\n    das torrentes, sem ver mais que campo e c&eacute;u, e ouvindo apenas o zunido<br \/>\n    dos ventos, e o enfadonho zumbido das cigarras. De espig&atilde;o em espig&atilde;o<br \/>\n    varia a perspectiva, e apresenta novos e sempre risonhos panoramas.<\/p>\n<p> No meio desses plainos por entre as manadas de gado sem conto vagueiam os<br \/>\n    veados, e as emas passeiam em bandos erguendo o esbelto e altaneiro colo at&eacute;<br \/>\n    a altura de um cavaleiro. O canto do campeiro, que anda pelos rinc&otilde;es<br \/>\n    arrebanhando o gado, os trinos agudos da siriema, o pio melanc&oacute;lico<br \/>\n    da perdiz, e o mon&oacute;tono chiar do carro de bois, que atravessa os chapad&otilde;es<br \/>\n    carregado dos produtos de pingues colheitas, eis os &uacute;nicos sons, que<br \/>\n    de ordin&aacute;rio quebram o sil&ecirc;ncio daquelas afortunadas e risonhas<br \/>\n    solid&otilde;es.<\/p>\n<p> As vivendas dos fazendeiros s&atilde;o comumente constru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    toscas e singelas, ainda que c&ocirc;modas e vastas. Mas em compensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a situa&ccedil;&atilde;o delas &eacute; quase sempre apraz&iacute;vel e pitoresca,<br \/>\n    ao p&eacute; de algum suave lan&ccedil;ante, ouvindo o marulho da torrente,<br \/>\n    que corre &agrave; sombra dos buritizais, e olhando ao longe pelos descampados<br \/>\n    espig&otilde;es.<\/p>\n<p> Em frente &agrave; casa h&aacute; sempre um vasto curral ou terreiro, em<br \/>\n    torno do qual est&atilde;o o engenho, o moinho, o paiol e mais outros acess&oacute;rios<br \/>\n    da fazenda. Por detr&aacute;s se estende um vasto pomar, um verdadeiro bosque<br \/>\n    sombrio e perfumoso, onde a laranjeira, o limoeiro, a jabuticabeira, o jambeiro,<br \/>\n    o genipapeiro, o mamoeiro, o jaracati&aacute;, as bananeiras e coqueiros de<br \/>\n    diversas esp&eacute;cies crescem promiscuamente e cruzam suas ramagens em<br \/>\n    uma espessa ab&oacute;bada cheia de fresquid&atilde;o, de murm&uacute;rios<br \/>\n    e perfumes. Os cercados s&atilde;o latados de maracuj&aacute; com seus doces<br \/>\n    e arom&aacute;ticos frutos, ou renques de piteiras, eri&ccedil;ando em torno<br \/>\n    as longas e agudas hastes como uma floresta de baionetas, do meio das quais<br \/>\n    se ergue como um estandarte o comprido pend&atilde;o coroado de brancas flores,<br \/>\n    O jasmineiro, a cocle&aacute;ria, o bogari, a esponjeira tamb&eacute;m crescem<br \/>\n    em torno da casa, pelos cercados, junto &agrave;s fontes, saturando o ambiente<br \/>\n    de suav&iacute;ssimos aromas.<\/p>\n<p> Aqueles c&eacute;us sempre azuis e l&iacute;mpidos desconhecem os nevoeiros,<br \/>\n    os invernos, e essas brumas carregadas e &uacute;midas, que costumam embu&ccedil;ar<br \/>\n    c&eacute;u e terra em nossas montuosas e tristonhas regi&otilde;es. Quando<br \/>\n    &eacute; chegada a esta&ccedil;&atilde;o das chuvas, as &aacute;guas se precipitam<br \/>\n    do c&eacute;u em violentas borrascas entre o estampido de horrorosas trovoadas;<br \/>\n    ao estouro de mil raios parece que a esfera abraseada rompe-se em estilha&ccedil;os,<br \/>\n    e se despenha sobre a terra. A copiosa e grossa chuva em pouco tempo rega<br \/>\n    e lava os espig&otilde;es, alaga as v&aacute;rzeas, e converte os menores<br \/>\n    ribeiros em torrentes caudalosas. Mas dura pouco aquela convuls&atilde;o dos<br \/>\n    elementos; o mesmo tuf&atilde;o que trouxe a tempestade a varre em breve do<br \/>\n    firmamento, e o sol torna a dominar em toda a amplid&atilde;o da esfera azul<br \/>\n    e resplendente.<\/p>\n<p> Debaixo daqueles c&eacute;us ardentes, em meio daqueles plainos infindos<br \/>\n    t&atilde;o cheios de encantadoras perspectivas, cobertos de t&atilde;o opulenta<br \/>\n    vegeta&ccedil;&atilde;o e banhados de tanta luz, parece que a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se inflama ao reflexo daqueles horizontes de fogo, e o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nutre-se de uma seiva de amor e voluptuosidade, que o faz pulsar com mais<br \/>\n    for&ccedil;a, sentir com mais energia. A &iacute;ndole do homem ali &eacute;<br \/>\n    pl&aacute;cida e calma na apar&ecirc;ncia como o c&eacute;u, que o cobre,<br \/>\n    mas no fundo &eacute; ardente de sentimento e de paix&atilde;o. O sopro das<br \/>\n    paix&otilde;es lhe ruge n&#8217;alma violento e tormentoso como os pavorosos<br \/>\n    temporais que atroam aquelas solid&otilde;es.<\/p>\n<p> Assim, se tomardes um lugar em roda do fogo, que aquece no rancho o caldeir&atilde;o<br \/>\n    do tropeiro, ou vos sentardes na varanda do fazendeiro em horas de ser&atilde;o<br \/>\n    a conversar com o sertanejo, ouvireis sinistras lendas, horr&iacute;veis hist&oacute;rias<br \/>\n    de sangue e vingan&ccedil;a, e interessantes e rom&acirc;nticos epis&oacute;dios<br \/>\n    de amor, acontecidos naquelas paragens, como este cuja hist&oacute;ria vos<br \/>\n    estou contando.<\/p>\n<p> Eduardo, &#8211; assim se chamava o ca&ccedil;ador ferido &#8211; era um<br \/>\n    mo&ccedil;o natural da Vila Franca na prov&iacute;ncia de S. Paulo, alto,<br \/>\n    bem feito, e de fisionomia agrad&aacute;vel e simp&aacute;tica, onde transluziam<br \/>\n    os dotes de sua alma nobre e bem formada. Era muladeiro; ia todos os anos<br \/>\n    &agrave; feira de Sorocaba ou Curitiba, a comprar bestas, que vendia pelas<br \/>\n    prov&iacute;ncias de S. Paulo, Minas e Goi&aacute;s. Andava ent&atilde;o no<br \/>\n    giro de seu neg&oacute;cio, e tinha invernado a sua mulada na fazenda vizinha,<br \/>\n    pertencente a um primo do pai de Paulina, a quem j&aacute; aludimos no cap&iacute;tulo<br \/>\n    antecedente. Durante esse tempo divertiu-se em ca&ccedil;adas, a que era muit&iacute;ssimo<br \/>\n    afei&ccedil;oado, o que deu ocasi&atilde;o ao lament&aacute;vel incidente,<br \/>\n    que teve lugar na ro&ccedil;a de Joaquim Ribeiro.<\/p>\n<p> O fazendeiro vizinho e um filho seu por nome Roberto eram tamb&eacute;m<br \/>\n    da partida. Aquele depois de ter acompanhado o ferido a casa do seu parente,<br \/>\n    despediu-se e retirou-se para a sua fazenda com os outros ca&ccedil;adores,<br \/>\n    recomendando-lhe toda a paci&ecirc;ncia e cuidado com o ferido, por ser muito<br \/>\n    seu amigo, e digno de toda a estima e apre&ccedil;o. Roberto, por&eacute;m,<br \/>\n    a pretexto de fazer companhia a Eduardo, deixou-se ficar; mas n&atilde;o fazia<br \/>\n    mais do que aproveitar-se com avidez da ocasi&atilde;o que se lhe oferecia<br \/>\n    de passar alguns dias junto de sua prima Paulina, por quem desde crian&ccedil;a<br \/>\n    tinha uma paix&atilde;o louca. Havia mesmo j&aacute; como um ajuste t&aacute;cito<br \/>\n    entre os pais para o casamento dos dois primos, e j&aacute; desde a inf&acirc;ncia<br \/>\n    os entretinham em ar de brinco com essa id&eacute;ia; &#8211; mau costume<br \/>\n    que h&aacute; nas nossas fam&iacute;lias, e que &agrave;s vezes produz funestos<br \/>\n    resultados. Disse &#8211; ajuste entre os pais, porque Paulina por sua parte<br \/>\n    ouvia sempre falar nisso com a maior indiferen&ccedil;a, e entendia que aquilo<br \/>\n    n&atilde;o passava de um brinquedo entre crian&ccedil;as. Roberto, por&eacute;m,<br \/>\n    mo&ccedil;o que teria vinte anos de idade, sentia por sua prima uma verdadeira<br \/>\n    e ardente paix&atilde;o, alimentada constantemente desde a inf&acirc;ncia<br \/>\n    com os mais lisonjeiros sonhos de esperan&ccedil;a e de futuro. Al&eacute;m<br \/>\n    disso encantava-o a perspectiva de uma rica heran&ccedil;a que teria de vir-lhe<br \/>\n    &agrave;s m&atilde;os inteirinha sem outro trabalho mais que esperar que seu<br \/>\n    futuro sogro cerrasse para sempre os olhos no leito da morte.<\/p>\n<p> Roberto era um sertanejo de grosseira educa&ccedil;&atilde;o, de g&ecirc;nio<br \/>\n    &aacute;spero, e asselvajado na superf&iacute;cie, posto que no fundo n&atilde;o<br \/>\n    tivesse m&aacute; &iacute;ndole. Com tais predicados bem se v&ecirc;, que<br \/>\n    era imposs&iacute;vel ser agrad&aacute;vel aos olhos da delicada e sens&iacute;vel<br \/>\n    Paulina.<\/p>\n<p> Posto que bem apessoado e mesmo bonito, a crosta de rudeza que o revestia,<br \/>\n    tornava imposs&iacute;vel qualquer simpatia entre dois caracteres talhados<br \/>\n    por moldes t&atilde;o diferentes.<\/p>\n<p> No dia seguinte ao do desastre pela manh&atilde;, Paulina, seu pai e o primo<br \/>\n    achavam-se no quarto de Eduardo, a quem a extrema fraqueza a que o reduzira<br \/>\n    a grande perda de sangue, n&atilde;o permitia levantar-se da cama. Paulina<br \/>\n    acabava de trazer um caldo ao doente, que lho agradeceu com um olhar cheio<br \/>\n    do mais terno reconhecimento.<\/p>\n<p> &#8211; Coitadinha da prima! dizia Roberto, &#8211; que susto n&atilde;o<br \/>\n    rapou ontem! por Deus, que eu tinha bem vontade de ver a carinha, com que<br \/>\n    ficou, quando a bicha embarafustou pelo rancho adentro.<\/p>\n<p> &#8211; Com efeito, primo! que fraco gosto! que gra&ccedil;a podia achar<br \/>\n    em ver uma cara de defunta?&#8230; eu fiquei sem pinga de sangue, e ca&iacute;<br \/>\n    logo sem acordo.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! maldita bicha! mil vidas que lhe tirassem, ainda era pouco para<br \/>\n    pagar o susto, que lhe pregou, prima.<\/p>\n<p> &#8211; Ora!&#8230; o susto nada foi, j&aacute; se passou; mas o golpe, que<br \/>\n    deu no senhor Eduardo?&#8230; para esse sim, &eacute; que toda a vingan&ccedil;a<br \/>\n    seria ainda pouca. Admira que o primo, sendo t&atilde;o valente, n&atilde;o<br \/>\n    acompanhasse de perto o sr. Eduardo para ajud&aacute;-lo a matar a on&ccedil;a;<br \/>\n    talvez tivesse evitado semelhante desastre.<\/p>\n<p> &#8211; Isso &eacute; que &eacute; verdade; acudiu o velho; &#8211; se algum<br \/>\n    dos outros companheiros chegasse junto aqui com o senhor, e a bicha em vez<br \/>\n    de um recebesse dois tiros a um tempo, e que pegassem em bom lugar, talvez<br \/>\n    n&atilde;o tivesse tido tempo de fazer o que fez. Mas o que querem? a rapaziada<br \/>\n    pateteou&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora essa &eacute; que &eacute; boa!&#8230; pateteou n&atilde;o, meu<br \/>\n    tio; como &eacute; que eu havia de chegar a tempo, se o meu cavalo caiu engastalhado<br \/>\n    no meio das malditas coivaras que me atravancavam a passagem, e eu levei uma<br \/>\n    embarroada nesta perna, que me fez chiar, e que at&eacute; agora est&aacute;-me<br \/>\n    doendo, e quase que eu n&atilde;o podia dar um passo. N&atilde;o fosse isso,<br \/>\n    eu era o primeiro a chegar, e diabos me carreguem nesta hora, se eu s&oacute;<br \/>\n    n&atilde;o tivesse dado cabo da bicha, sem levar um arranh&atilde;o que fosse&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Oh! pois n&atilde;o!&#8230; exclamou Eduardo sorrindo-se: n&atilde;o<br \/>\n    havia nada mais f&aacute;cil&#8230; de dizer-se. Meu amigo, eu tamb&eacute;m levei<br \/>\n    encontroadas horr&iacute;veis no meio daquelas diab&oacute;licas coivaras<br \/>\n    e tenho o corpo todo pisado e magoado; o meu cavalo tamb&eacute;m caiu; mas<br \/>\n    naquela ocasi&atilde;o eu nada sentia; j&aacute; de longe eu tinha percebido<br \/>\n    que havia mulheres dentro do rancho, e ainda que se me tivesse quebrado uma<br \/>\n    perna havia de me arrastar, custasse o que custasse, at&eacute; o lugar do<br \/>\n    perigo. Mas se n&atilde;o fosse essa circunst&acirc;ncia, n&atilde;o seria<br \/>\n    eu bobo de me ir atirar assim, sem qu&ecirc; nem para qu&ecirc;, nas garras<br \/>\n    do terr&iacute;vel animal.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! dessa ainda n&oacute;s n&atilde;o sab&iacute;amos, sr. Eduardo,&#8211;<br \/>\n    disse o fazendeiro; mais um motivo, que vem aumentar a meus olhos a imensa<br \/>\n    obriga&ccedil;&atilde;o em que lhe estamos. Assim o senhor n&atilde;o praticou<br \/>\n    apenas um ato de estouvada valentia de ca&ccedil;ador, e n&atilde;o foi sem<br \/>\n    o saber que salvou duas criaturas? &#8211; N&atilde;o, decerto; t&atilde;o<br \/>\n    louco n&atilde;o seria eu&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E praticou um ato de nobre e generosa dedica&ccedil;&atilde;o por<br \/>\n    pessoas que nunca conheceu. Ah, sr. Eduardo! em que d&iacute;vida lhe estamos,<br \/>\n    e quando e como poderemos nunca pag&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; Qual d&iacute;vida, sr. Ribeiro! por favor n&atilde;o se inquiete<br \/>\n    com isso. N&atilde;o fiz mais do que a minha obriga&ccedil;&atilde;o, o que<br \/>\n    em meu lugar qualquer outro teria feito&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas em seu lugar, &#8211; disse Paulina olhando de esguelha e maliciosamente<br \/>\n    para Roberto &#8211; estavam alguns outros e n&atilde;o o fizeram.<\/p>\n<p> Roberto enfiou, mordeu os bei&ccedil;os e corou at&eacute; &agrave;s orelhas.<\/p>\n<p> &#8211; Porque n&atilde;o puderam &#8211; respondeu Eduardo. &#8211; Mas<br \/>\n    se teimam em querer dar-me um sinal de gratid&atilde;o, basta-me o couro da<br \/>\n    bicha. Hei de traz&ecirc;-lo sempre comigo com orgulho como um trof&eacute;u,<br \/>\n    a menos que a senhora, &#8211; acrescentou voltando-se para Paulina, &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o o queira para si a fim de pousar triunfante os seus mimosos p&eacute;s<br \/>\n    sobre os restos do medonho animal, que t&atilde;o grande susto lhe causou.<\/p>\n<p> &#8211; Com bem pouco se contenta, disse o fazendeiro.<\/p>\n<p> &#8211; Com isso e com a sua amizade, sr. Ribeiro, eu me julgo muito bem<br \/>\n    pago, e com a &iacute;ntima satisfa&ccedil;&atilde;o que me fica n&#8217;alma<br \/>\n    por ter sido &uacute;til em um dia de minha vida &agrave; sra. d. Paulina.<\/p>\n<p> Estas lisonjeiras palavras ditas com toda a gra&ccedil;a e afabilidade,<br \/>\n    mas em tom de cortesia, n&atilde;o agradaram muito a Paulina, a qual quisera<br \/>\n    que o mo&ccedil;o exigisse em paga mais alguma coisa, pois estava pronta a<br \/>\n    dar-lhe ou antes j&aacute; lhe tinha dado todo o seu amor. Decerto ela n&atilde;o<br \/>\n    queria que o mo&ccedil;o lhe fizesse ali de chofre uma declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de amor, mas notou com m&aacute;goa &iacute;ntima, que o mancebo proferiu<br \/>\n    aquelas corteses palavras quase sem emo&ccedil;&atilde;o alguma e sem ao menos<br \/>\n    olhar para ela, o que causou-lhe uma horr&iacute;vel impress&atilde;o de despeito<br \/>\n    e desalento. Retirou-se para o canto mais escuro do aposento para esconder<br \/>\n    a sua perturba&ccedil;&atilde;o e uma l&aacute;grima teimosa, que lhe queria<br \/>\n    vir aos olhos.<\/p>\n<p> &#8211; Ora bolas! &#8211; exclamou estouvadamente o primo Roberto, j&aacute;<br \/>\n    escandalizado com a prima, e cioso da import&acirc;ncia e defer&ecirc;ncia<br \/>\n    de que Eduardo era objeto. N&atilde;o vejo de que est&atilde;o fazendo tamanho<br \/>\n    escarc&eacute;u, pois o que &eacute; l&aacute; matar uma on&ccedil;a?&#8230; eu<br \/>\n    c&aacute; tenho matado mais de uma, e nem por isso ando a me gabar.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o digas tal Roberto! &#8211; atalhou o velho, &#8211; matar<br \/>\n    uma on&ccedil;a n&atilde;o &eacute; l&aacute; grande coisa; tamb&eacute;m<br \/>\n    eu as tenho matado e muitas. Mas afrontar o perigo, que o sr. Eduardo arrostou<br \/>\n    para salvar duas criaturas, &eacute; uma a&ccedil;&atilde;o valorosa e nobre,<br \/>\n    de que nem todos s&atilde;o capazes.<\/p>\n<p> &#8211; Tamb&eacute;m se ele n&atilde;o a matasse, eu teria dado cabo dela,<br \/>\n    como tenho dado de muitas outras, t&atilde;o certo como n&oacute;s estarmos<br \/>\n    agora aqui. Que me custava?&#8230; a minha espingarda n&atilde;o nega fogo, e,<br \/>\n    minha m&atilde;o, louvado seja Deus, n&atilde;o treme ainda, e quando atiro<br \/>\n    em um bicho destes, n&atilde;o atiro nas costelas, e em todo o caso a prima<br \/>\n    sempre aqui estaria t&atilde;o viva e t&atilde;o sadia como agora aqui se<br \/>\n    acha.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, senhores &#8211; retrucou Eduardo j&aacute; agoniado com<br \/>\n    as toleimas do primo e com um sorriso sard&ocirc;nico &#8211; fa&ccedil;amos<br \/>\n    de conta, que foi o sr. Roberto, quem matou a on&ccedil;a; isso pouco me importa,<br \/>\n    e n&atilde;o quero que diga outra vez que estou me gabando. O que me importa<br \/>\n    &eacute; poder restabelecer-me destas feridas para poder tratar dos meus neg&oacute;cios.<br \/>\n    Pe&ccedil;o que se esque&ccedil;am do pequeno servi&ccedil;o, que tive a fortuna<br \/>\n    de fazer-lhes, e tratem somente do meu curativo.<\/p>\n<p> &#8211; Esquecer! oh! isso nunca! nunca esqueceremos. Mas, sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    sr. Eduardo; n&atilde;o lhe conv&eacute;m falar muito e muito menos alterar-se.<br \/>\n    Tranq&uuml;ilize-se, que n&atilde;o pouparemos cuidados e desvelos para o<br \/>\n    seu completo restabelecimento. Paulina, Roberto, vamo-nos daqui, deixemos<br \/>\n    o sr. Eduardo descansar; ele precisa mais de repouso de que de qualquer outra<br \/>\n    coisa. <\/p>\n<h2><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo 3- O primo<\/a><\/h2>\n<p> Que peda&ccedil;o de bruto n&atilde;o &eacute; o tal senhor primo Roberto!<br \/>\n    ficou pensando consigo Eduardo, apenas os tr&ecirc;s se retiraram. &#8211;<br \/>\n    Pelo que vejo tem paix&atilde;o pela prima, e quer me parecer que o paspalh&atilde;o<br \/>\n    come&ccedil;a a co&ccedil;ar a canela por minha causa. Forte bobo! e entrar<br \/>\n    nos cascos de um tal palerma ser o amante de uma menina t&atilde;o meigazinha,<br \/>\n    t&atilde;o delicada!&#8230; Entretanto, se eu n&atilde;o tivesse o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o cheio de amor, t&atilde;o ocupado com a imagem da minha Lucinda,<br \/>\n    teria de amar por for&ccedil;a esta menina. T&atilde;o meiga, t&atilde;o formosa,<br \/>\n    disputada a uma fera quase &agrave; custa da minha vida!&#8230; ah! parece que<br \/>\n    o c&eacute;u a tinha destinado para mim!&#8230; &eacute; estranho encontrar-se<br \/>\n    nestes sert&otilde;es uma criaturinha t&atilde;o mimosa, t&atilde;o perfeita.<br \/>\n    Ah! senhor Roberto! senhor Roberto! d&ecirc; parab&eacute;ns &agrave; sua<br \/>\n    fortuna de eu j&aacute; ter empenhado o meu cora&ccedil;&atilde;o e a minha<br \/>\n    palavra, quando n&atilde;o impreterivelmente o tirava do lance, e ent&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que lhe havia de amargar a boca! &#8211; Ent&atilde;o prima, o que<br \/>\n    lhe parece o maluco daquele matador de on&ccedil;as? ia Roberto dizendo a<br \/>\n    sua prima, depois que sa&iacute;ram do quarto de Eduardo, e enquanto atravessavam<br \/>\n    um comprido corredor, que ia terminar numa varanda aberta dando para o vasto<br \/>\n    curral da fazenda. &#8211; Matar uma on&ccedil;a ent&atilde;o &eacute; para<br \/>\n    qualquer?&#8230; o pateta cuidou que uma on&ccedil;a se mata assim como se mata<br \/>\n    um gamb&aacute;; coitado! n&atilde;o foi m&aacute; a esfrega que levou. T&atilde;o<br \/>\n    cedo n&atilde;o lhe voltar&aacute; a vontade de andar pelos matos &agrave;s<br \/>\n    escaramu&ccedil;as com as on&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8211; Quem sabe, primo Roberto, ainda pode escaramu&ccedil;ar muitas,<br \/>\n    e mat&aacute;-las como matou a de ontem, e talvez com mais felicidade. &Eacute;<br \/>\n    um valente e destemido mo&ccedil;o aquele!&#8230;<\/p>\n<p> Este elogio foi uma seta, que partiu da boca de Paulina para o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Roberto.<\/p>\n<p> &#8211; Valente! &#8211; exclamou ele com um sorriso for&ccedil;ado e amarelo;<br \/>\n    &#8211; ora n&atilde;o fale, prima. &Eacute; paulista, e basta. Dizer paulista,<br \/>\n    &eacute; o mesmo que dizer baz&oacute;fia e fanfarrice. Eu tenho matado mais<br \/>\n    on&ccedil;as, antas, queixadas, jacar&eacute;s, sucuris, e quanto bicho bravo<br \/>\n    h&aacute; pelo mato, do que a prima mata de pulgas na sua cama, e disso nem<br \/>\n    dou f&eacute; e nem ando me gabando. Agora porque aquele pelintra de um muladeiro<br \/>\n    matou por acaso uma on&ccedil;a est&atilde;o fazendo um escarc&eacute;u, meu<br \/>\n    Deus! j&aacute; pensam que est&atilde;o em casa com um Rold&atilde;o ou um<br \/>\n    Ferrabr&aacute;s de Alexandria.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; por ter matado a on&ccedil;a, primo&#8230; arre<br \/>\n    l&aacute;! quem ouvisse isto, havia de dizer que o primo ou tem a cabe&ccedil;a<br \/>\n    muito dura ou o cora&ccedil;&atilde;o muito mau; n&atilde;o &eacute; por ter<br \/>\n    matado ao n&ccedil;a, j&aacute; se lhe disse, &#8211; mas por me ter salvado<br \/>\n    a vida, que damos e havemos de dar sempre a nossa amizade e gratid&atilde;o<br \/>\n    a esse digno mo&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Ora gratid&atilde;o!&#8230; outro qualquer teria feito o mesmo. Eu tamb&eacute;m<br \/>\n    quando a prima era mais pequena, n&atatilde;o se lembra? n&atilde;o a livrei<br \/>\n    de ser atravessada pelos chifres de um boi bravo?&#8230; se eu n&atilde;o agarro<br \/>\n    e carrego-a no ombro, e pulo de um salto a cerca do curral, adeus, prima Paulina!<br \/>\n    j&aacute; estava comendo terra h&aacute; muitos anos. E nem por isso eu vi<br \/>\n    ningu&eacute;m vir derreter-se em agradecimentos&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora, primo, nem fale nisso. Eu era uma criancinha, n&atilde;o podia<br \/>\n    dar o devido apre&ccedil;o a esse imenso servi&ccedil;o que me fez o primo.<br \/>\n    Mas hoje eu o reconhe&ccedil;o, e beijo-lhe as m&atilde;os agradecida, meu<br \/>\n    bom e valente primo. Mas se tamb&eacute;m lhe devo a vida, primo, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; isso raz&atilde;o para que eu deixe de mostrar-me tamb&eacute;m agradecida<br \/>\n    a quem acaba de prestar-mo um servi&ccedil;o n&atilde;o menos importante.<\/p>\n<p> Quanto mais Paulina procurava encarecer as qualidades de Eduardo, e a nobre<br \/>\n    e valerosa fa&ccedil;anha de que fora her&oacute;i, tanto mais se exacerbava<br \/>\n    o ciumento Roberto, e mais procurava deprimir e abocanhar aquele que em sua<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o j&aacute; era um rival perigoso.<\/p>\n<p> &#8211; Enfim, prima, &#8211; disse ele com fingida indiferen&ccedil;a &#8211;<br \/>\n    fa&ccedil;a l&aacute; e pense l&aacute; o que quiser. O que sei dizer &eacute;<br \/>\n    que se aquela maldita on&ccedil;a o tivesse alinhavado ali, bem pouco se perdia.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o fale assim, primo. Que agravo lhe fez esse mo&ccedil;o<br \/>\n    para lhe desejar tanto mal? &#8211; Quem sabe se a prima est&aacute; pensando,<br \/>\n    que aquela figura &eacute; alguma coisa neste mundo. Se a prima o n&atilde;o<br \/>\n    conhece, conhe&ccedil;o-o eu muito bem. N&atilde;o passa de um tocador de<br \/>\n    bestas muito ordin&aacute;rio e muito gangolina, que tem passado a manta a<br \/>\n    meio mundo. A mim mesmo empurrou-me ele por duzentos mil-r&eacute;is uma besta<br \/>\n    p&ecirc;lo de rato, que n&atilde;o vale cem, e que vem a n&atilde;o servir<br \/>\n    nem para cangalha. Mesmo esse punhado de bestas, que vem tocando, a prima<br \/>\n    pensa que &eacute; dele? Qual! O biltre n&atilde;o &eacute; mais do que um<br \/>\n    capataz, que vem impingir o refugo da tropa do patr&atilde;o aos bobos do<br \/>\n    sert&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; E que nos importa isso, meu primo, o que sei &eacute; que ele me<br \/>\n    salvou galhardamente a vida das garras de uma on&ccedil;a e &eacute; motivo<br \/>\n    de sobra para que eu lhe seja eternamente agradecida, e creio que tamb&eacute;m<br \/>\n    para que o primo n&atilde;o abocanhe e n&atilde;o despreze assim um homem,<br \/>\n    que n&atilde;o lhe fez mal algum.<\/p>\n<p> &#8211; Nenhum mal!&#8230; eu sei!.. e tamb&eacute;m que me importa a mim esse<br \/>\n    homem. Ou por sim, ou por n&atilde;o, amanh&atilde; ou depois, logo que ele<br \/>\n    possa montar a cavalo, hei de lev&aacute;-lo para minha casa, porque &eacute;<br \/>\n    nosso h&oacute;spede, e meu tio nenhuma obriga&ccedil;&atilde;o tem de ag&uuml;ent&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Alto l&aacute;, primo! &#8211; atalhou Paulina com vivacidade;&#8211;<br \/>\n    menos essa!&#8230; temos muito mais obriga&ccedil;&atilde;o do que o senhor, e<br \/>\n    havemos de ag&uuml;ent&aacute;-lo com muito prazer. Enquanto n&atilde;o sarar<br \/>\n    de todo, ele &eacute; nosso, e n&atilde;o arreda p&eacute; daqui.<\/p>\n<p> &#8211; Isso era bem belo!.. e a mulada dele que l&aacute; fica &agrave;<br \/>\n    toa?&#8230; n&atilde;o hei de ser eu que hei de tomar conta dela. Aquele arranh&atilde;o,<br \/>\n    que levou, ora bolas! aquilo sara num instante, e nestes dois ou tr&ecirc;s<br \/>\n    dias ele que trate de montar a cavalo, v&aacute; tomar conta da sua tropa,<br \/>\n    e depois&#8230; puxe para a sua terra, e passe por l&aacute; muito bem.<\/p>\n<p> &#8211; Arre! primo! que ojeriza &eacute; essa que tomou com o pobre mo&ccedil;o!<br \/>\n    pois ele n&atilde;o tem camaradas, que tomem conta da tropa!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Muito ordin&aacute;rios; uma s&uacute;cia de pregui&ccedil;osos.<\/p>\n<p> &#8211; Nesse caso mandaremos uma pessoa capaz de tomar conta da mulada;<br \/>\n    mas ele n&atilde;o; t&atilde;o cedo n&atilde;o se poder&aacute; mover daqui.<br \/>\n    Coitado! perdeu tanto sangue; est&aacute; t&atilde;o fraco.<\/p>\n<p> &#8211; Coitadinho do nhonh&ocirc; cheiroso! olhem n&atilde;o v&aacute;<br \/>\n    morrer de fraqueza &#8211; exclamou Roberto com uma express&atilde;o de ironia<br \/>\n    e um trejeito de cara indefin&iacute;vel &#8211; o tal magan&atilde;o, prima,<br \/>\n    parece que caiu-lhe no gosto&#8230; n&atilde;o querer&aacute; tamb&eacute;m guard&aacute;-lo<br \/>\n    no seio?&#8230; Prima, olhe que n&atilde;o fica bonito a uma mo&ccedil;a filha-fam&iacute;lia<br \/>\n    mostrar tamanho empenho assim por um&#8230; um&#8230; p&eacute; de poeira, que ningu&eacute;m<br \/>\n    sabe donde veio, nem para onde vai&#8230;<\/p>\n<p> Esta grosseira reprimenda fez enrubescer at&eacute; os olhos a filha do<br \/>\n    fazendeiro. O r&uacute;stico primo tinha tocado do modo o mais rude e brutal<br \/>\n    em uma ferida recente, de que a menina ainda nem dava f&eacute;, e a fazia<br \/>\n    sangrar cruelmente.<\/p>\n<p> Mas aquela primeira perturba&ccedil;&atilde;o do pudor virginal para logo<br \/>\n    passou e deu lugar ao despeito e &agrave; indigna&ccedil;&atilde;o. Vermelha<br \/>\n    como lacre, e mal retendo uma l&aacute;grima, que lhe pendia da p&aacute;lpebra<br \/>\n    tr&ecirc;mula e cintilante, levantou a cabe&ccedil;a com altivez e respondeu:<br \/>\n    &#8211; Senhor meu primo, n&atilde;o sei quem lhe deu o direito de me repreender<br \/>\n    e regular as minhas a&ccedil;&otilde;es!.. O senhor &eacute; muito tolo em<br \/>\n    pensar que eu lhe devo dar satisfa&ccedil;&atilde;o do que fa&ccedil;o e do<br \/>\n    que digo. Felizmente ainda tenho pai, e &eacute; s&oacute; dele e de mais<br \/>\n    ningu&eacute;m que aceito repreens&otilde;es, ouviu, meu primo?&#8230; Se vosmec&ecirc;<br \/>\n    faz garbo de ser ingrato, eu n&atilde;o quero e nem posso fazer o mesmo; hei<br \/>\n    de ser sempre muito reconhecida e grata ao mo&ccedil;o generoso e delicado<br \/>\n    que fez por mim, que lhe era inteiramente estranha e desconhecida, o que o<br \/>\n    senhor, sendo parente e amigo, n&atilde;o p&ocirc;de ou n&atilde;o quis fazer.<\/p>\n<p> Esta violenta ap&oacute;strofe fulminou o pobre do Roberto.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! prima da minha alma!&#8230; o que &eacute; isso?&#8230; por quem &eacute;&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o se enfeze&#8230; espere&#8230; olhe, venha c&aacute;&#8230; n&atilde;o foi<br \/>\n    por lhe ofender que eu falei&#8230; oh! prima&#8230; pelo amor de Deus&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    d&ecirc; o cavaco&#8230;<\/p>\n<p> Assim exclamava o desapontado primo com voz chorosa e balbuciante, enquanto<br \/>\n    a prima que voltara-lhe as costas com o mais soberano desd&eacute;m, desaparecia<br \/>\n    no fundo do corredor sem lhe dar a m&iacute;nima resposta.<\/p>\n<p> Roberto, que com raz&atilde;o desconfiava de si mesmo, e tinha talvez alguma<br \/>\n    consci&ecirc;ncia do seu pouco merecimento individual, de sua imensa inferioridade<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua inteligente e encantadora prima, n&atilde;o<br \/>\n    tinha motivo para contar muito com a afei&ccedil;&atilde;o e o amor de Paulina.<br \/>\n    Por isso era ele ciumento como um tigre, e seu cora&ccedil;&atilde;o vivia<br \/>\n    sempre em cont&iacute;nuos sustos e sobressaltos.<\/p>\n<p> N&atilde;o podia aportar &agrave; fazenda de seu tio um mancebo, um homem<br \/>\n    qualquer de boa apar&ecirc;ncia e de algum tratamento, que n&atilde;o tremesse<br \/>\n    logo pelo seu tesouro, julgando que j&aacute; lho queriam roubar, e que logo<br \/>\n    n&atilde;o voasse para l&aacute; sombrio e desconfiado a vigi&aacute;-lo com<br \/>\n    seus pr&oacute;prios olhos, como o jacar&eacute; de sentinela ao seu ninho.<\/p>\n<p> Julgava, &#8211; e nisso tinha alguma raz&atilde;o, &#8211; que ningu&eacute;m<br \/>\n    podia ver Paulina sem que logo morresse de amores por ela, e n&atilde;o desejasse<br \/>\n    a todo o custo possu&iacute;-la por esposa.<\/p>\n<p> O casamento dele com a prima tamb&eacute;m n&atilde;o passava de uma coisa<br \/>\n    apenas conversada entre as duas fam&iacute;lias, uma hip&oacute;tese plaus&iacute;vel<br \/>\n    no futuro, e nada tinha de um compromisso s&eacute;rio, que rigorosamente<br \/>\n    os obrigasse. Roberto portanto, se bem que nenhum obst&aacute;culo at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o se opunha &agrave; futura realiza&ccedil;&atilde;o de seu mais<br \/>\n    ardente desejo, todavia nenhuma garantia segura tinha tamb&eacute;m que o<br \/>\n    pudesse tranq&uuml;ilizar, e por isso raz&atilde;o de sobejo tinha ele para<br \/>\n    andar com alma entregue a cont&iacute;nuos cuidados e inquieta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &Agrave; vista disto fa&ccedil;a-se id&eacute;ia de como n&atilde;o ficaria<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o do pobre rapaz, quando viu instalar-se em casa de<br \/>\n    seu tio aquele belo e galhardo mancebo, debaixo de t&atilde;o lisonjeiros<br \/>\n    ausp&iacute;cios, e rodeado do prest&iacute;gio das extraordin&aacute;rias<br \/>\n    e romanescas circunst&acirc;ncias, que ali o trouxeram. O mo&ccedil;o, al&eacute;m<br \/>\n    de seu nobre e belo porte, tinha maneiras as mais polidas e af&aacute;veis,<br \/>\n    e todas as qualidades pr&oacute;prias para inflamar o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das mo&ccedil;as, e atrair as simpatias dos homens, prescindindo mesmo desse<br \/>\n    ato de dedica&ccedil;&atilde;o e coragem, que o tornara um &iacute;dolo aos<br \/>\n    olhos do dono da casa.<\/p>\n<p> Considere-se tudo isso, e diga-se se o pobre Roberto tinha ou n&atilde;o<br \/>\n    carradas de raz&atilde;o para ficar rebentado de inveja, de despeito e de<br \/>\n    ci&uacute;me.<\/p>\n<p> Naquelas ardentes regi&otilde;es, t&atilde;o cheias de largos e luminosos<br \/>\n    horizontes, de grandiosas perspectivas, naquelas veigas risonhas, onde tudo<br \/>\n    convida a amar, onde a vira&ccedil;&atilde;o quente e embalsamada s&oacute;<br \/>\n    respira amor e voluptuosidade, naquele clima de luz e fogo, se o amor &eacute;<br \/>\n    uma chama voraz, o ci&uacute;me &eacute; uma pe&ccedil;onha que mata.<\/p>\n<p> E tanto mais cruel e pungente devia ser o ci&uacute;me de Roberto quanto<br \/>\n    mais leal e extremosa era a sua afei&ccedil;&atilde;o; pois o amor que o pobre<br \/>\n    mo&ccedil;o consagrava a sua prima, era puro e santo, como prim&iacute;cias<br \/>\n    que eram de um cora&ccedil;&atilde;o virginal e novo, de uma alma infantil<br \/>\n    e c&acirc;ndida. Debaixo daquela crosta grosseira havia muita for&ccedil;a<br \/>\n    de amor, muita paix&atilde;o, muita energia de sentimento.<\/p>\n<p> Roberto, pois, que tinha o cora&ccedil;&atilde;o quente, mas a cabe&ccedil;a<br \/>\n    fraca e a &iacute;ndole estouvada, n&atilde;o gostou nada de ver a terna e<br \/>\n    ass&iacute;dua solicitude com que Paulina e seu pai tratavam do ca&ccedil;ador<br \/>\n    ferido, e dava aos diabos a maldita ca&ccedil;ada, que deu ocasi&atilde;o<br \/>\n    a que viesse parar &agrave; casa da sua querida aquele importuno trambolho.<\/p>\n<p> Para desvanecer a impress&atilde;o que o jovem ca&ccedil;ador tinha feito,<br \/>\n    ou porventura poderia fazer no esp&iacute;rito de Paulina, Roberto no seu<br \/>\n    bestunto de crian&ccedil;a julgou que n&atilde;o havia melhor meio do que<br \/>\n    menoscab&aacute;-lo, deprimi-lo, procurando desmerecer aos olhos da prima<br \/>\n    o imenso servi&ccedil;o que acabava de fazer-lhe.<\/p>\n<p> Tempo perdido! <\/p>\n<h2><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo 4 &#8211; Paulina<\/a><\/h2>\n<p> Eduardo livrando a filha do fazendeiro das garras de um animal feroz, sem<br \/>\n    querer a tinha entregado indefesa nas m&atilde;os de um algoz talvez ainda<br \/>\n    pior, &#8211; a uma forte e irresist&iacute;vel paix&atilde;o. A on&ccedil;a<br \/>\n    a teria estrangulado em poucos instantes; mas a paix&atilde;o enleando-se<br \/>\n    astuta e sutilmente como uma serpente em torno de seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nele distilava gota a gota toda a sua mort&iacute;fera pe&ccedil;onha.<\/p>\n<p> O car&aacute;ter melanc&oacute;lico e apaixonado de Paulina, a solid&atilde;o<br \/>\n    pl&aacute;cida, por&eacute;m mon&oacute;tona e triste em que vivia, sua imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    viva inflamada pelos raios daqueles vagos horizontes uberabenses, cujas linhas<br \/>\n    se perdem indecisas por longes fumacentos, tudo contribu&iacute;a para que<br \/>\n    suas impress&otilde;es fossem vivas e en&eacute;rgicas, seus sentimentos profundos<br \/>\n    e cheios de paix&atilde;o. O primeiro amor que lhe entrasse na alma, devia<br \/>\n    decidir por uma vez de sua sorte futura, e torn&aacute;-la para sempre feliz,<br \/>\n    ou eternamente desventurada.<\/p>\n<p> Enfim aquele vago de emo&ccedil;&otilde;es, em que lhe ondeava o esp&iacute;rito<br \/>\n    perdido em cismas melanc&oacute;licas, aquele anelo de uma felicidade ignota,<br \/>\n    que lhe fazia ofegar intumescido o seio num doce e indefin&iacute;vel anseio,<br \/>\n    achou um objeto em que fixar-se, deparou a encarna&ccedil;&atilde;o do seu<br \/>\n    ideal; concentrou-se em Eduardo.<\/p>\n<p> Se bem que at&eacute; ali n&atilde;o tivesse descoberto nem nas palavras<br \/>\n    nem nos olhares de Eduardo o menor sintoma de amor, todavia nem lhe passava<br \/>\n    pelo esp&iacute;rito a id&eacute;ia de que pudesse deixar de ser amada por<br \/>\n    ele mais tarde ou mais cedo, &#8211; credulidade e confian&ccedil;a muito<br \/>\n    natural naquela alma ing&ecirc;nua e inexperiente, que no enlevo e exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de seu afeto acreditava que aquele mancebo n&atilde;o podia ter aparecido<br \/>\n    a seus olhos tanto a prop&oacute;sito e em t&atilde;o extraordin&aacute;ria<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o, sen&atilde;o expressamente enviado pelo c&eacute;u<br \/>\n    para ser seu companheiro e protetor, seu anjo tutelar durante toda a sua exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Paulina era bonita, muito bonita, e posto que nada tivesse de vaidosa, nem<br \/>\n    de faceira, tinha plena consci&ecirc;ncia de sua incompar&aacute;vel formosura.<br \/>\n    N&atilde;o era s&oacute; no espelho, que se fiava; a impress&atilde;o de assombro,<br \/>\n    que produzia em qualquer parte, onde chegava, os cumprimentos e homenagens<br \/>\n    de que se via rodeada em qualquer reuni&atilde;o que se achasse, a inveja<br \/>\n    das outras mo&ccedil;as, os rumores, que lhe chegavam aos ouvidos quando rompia<br \/>\n    alguma multid&atilde;o &#8211; que linda mo&ccedil;a! &#8211; que prod&iacute;gio!<br \/>\n    &#8211; &eacute; um anjo!&#8230; &eacute; um sol! &#8211; tudo a confirmava na<br \/>\n    convic&ccedil;&atilde;o de que era a mais bela dentre as belas.<\/p>\n<p> Uma mo&ccedil;a com tais predicados, rica e bem educada, n&atilde;o podia<br \/>\n    deixar de agradar por toda a parte, de render todos os cora&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e se Eduardo por ora s&oacute; lhe falava com fria polidez, e a olhava com<br \/>\n    indiferen&ccedil;a, era provavelmente porque o seu estado de extrema debilidade<br \/>\n    ainda n&atilde;o lhe permitia observar nem sentir nada, principalmente na<br \/>\n    alcova escassamente alumiada em que se achava recolhido.<\/p>\n<p> Estas id&eacute;ias e sentimentos formulavam-se no esp&iacute;rito de Paulina,<br \/>\n    n&atilde;o assim limpa e distintamente como as vamos formulando &agrave; maneira<br \/>\n    de c&aacute;lculo; eram id&eacute;ias e sentimentos confusos, palpites e aspira&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que lhe ondeavam na alma, como os vapores transparentes da aurora ondeando<br \/>\n    na valada ao sopro das brisas matinais.<\/p>\n<p> Assim se passaram alguns dias. Eduardo, gra&ccedil;as &agrave; sua boa complei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e aos extremosos cuidados e desvelado tratamento, que lhe dispensavam seus<br \/>\n    h&oacute;spedes, restabelecia-se com rapidez; o amor e as inquieta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Paulina, e os ci&uacute;mes de Roberto cresciam na mesma propor&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Roberto andava inteiramente estomagado com sua formosa prima; mas n&atilde;o<br \/>\n    ousava queixar-se, nem dizer-lhe nada. N&atilde;o deprimia mais o muladeiro,<br \/>\n    e nem se atrevia a tocar na desastrada ca&ccedil;ada de on&ccedil;a, que era<br \/>\n    o seu eterno pesadelo; tinha medo de alguma estralada pior do que a que j&aacute;<br \/>\n    houvera, e que a fizesse romper inteiramente com ele. Assim, pois, assentou<br \/>\n    de mudar de estrat&eacute;gia, e como tinha ouvido dizer que o desd&eacute;m<br \/>\n    &eacute; o melhor meio de atrair a afei&ccedil;&atilde;o das mo&ccedil;as,<br \/>\n    esfor&ccedil;ou-se por aparentar o maior pouco caso do mundo para com a linda<br \/>\n    prima; fingiu-se curado da paix&atilde;o que por ela tinha; quando acontecia<br \/>\n    falar com Paulina ou olhar para ela era com um ar da maior indiferen&ccedil;a<br \/>\n    e para afastar toda a id&eacute;ia de arrufos e ci&uacute;mes, era ele mesmo,<br \/>\n    quem convidava a prima para irem conversar ao quarto de Eduardo. Ali tagarelava<br \/>\n    ele a torto e a direito soltando o dique de uma torrente de parvo&iacute;ces<br \/>\n    sem conta; falava em namoradas que dizia ter, fingia saudades de uma, exaltava<br \/>\n    a beleza e as qualidades de outra, contava os riscos e vantajosos casamentos<br \/>\n    que tinha &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o, esfor&ccedil;ando-se por<br \/>\n    afetar o tom o mais descuidoso e despreocupado do mundo. Todas essas frioleiras<br \/>\n    introduzia na conversa&ccedil;&atilde;o, viessem ou n&atilde;o a prop&oacute;sito,<br \/>\n    por&eacute;m com ar t&atilde;o aparvalhado e com tal desazo, que bem se estava<br \/>\n    vendo que tudo aquilo n&atilde;o passava de um expediente muito cedi&ccedil;o,<br \/>\n    de que lan&ccedil;ava m&atilde;o a ver se picava o amor-pr&oacute;prio de<br \/>\n    Paulina, e se com o seu desd&eacute;m ela se mostrava ofendida. Foi tempo<br \/>\n    e trabalho perdido. Paulina bem pouca aten&ccedil;&atilde;o lhe prestava,<br \/>\n    e Eduardo sorria-se interiormente de tantas parvo&iacute;ces e impertin&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> Vendo com o maior desgosto que nenhum lucro tirava de semelhante estrat&eacute;gia,<br \/>\n    Roberto mudou as guardas, e tratou de ensaiar o sistema contr&aacute;rio.<br \/>\n    Come&ccedil;ou a rodear Paulina de tantos cuidados e aten&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a dirigir-lhe tais lisonjas e galanteios, que al&eacute;m de rid&iacute;culo<br \/>\n    o tornavam soberanamente importuno. Todas as vezes, que Paulina aparecia na<br \/>\n    sala, na varanda, no jardim, l&aacute; surgia pela frente o primo, endere&ccedil;ando-lhe<br \/>\n    finezas as mais cedi&ccedil;as, cumprimentos os mais grotescos, que fariam<br \/>\n    rir Paulina, se n&atilde;o tivesse o esp&iacute;rito t&atilde;o preocupado,<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o cheio de cuidados e inquieta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! prima da minha alma! n&atilde;o faz id&eacute;ia como est&aacute;<br \/>\n    bonita!&#8230; esta prima &eacute; um peix&atilde;o!&#8230; &eacute; mesmo um sol!&#8230;<\/p>\n<p> Outras vezes tornava-se todo sol&iacute;cito pela sua sa&uacute;de. &#8211;<br \/>\n    Bons dias, prima; &#8211; amanheceu hoje t&atilde;o amarelinha!&#8230; coitada!&#8230;<br \/>\n    parece uma defuntinha! mas sempre bonita assim mesmo; bonita como ningu&eacute;m!&#8230;<br \/>\n    &eacute; tal qual uma santinha de cera!&#8230; eu j&aacute; vi uma Nossa Senhora<br \/>\n    de gesso, que era essa sua carinha sem tirar nem p&ocirc;r&#8230; &eacute; preciso<br \/>\n    a prima dar um passeio l&aacute; em casa&#8230; suas primas est&atilde;o com uma<br \/>\n    saudade da senhora! tamb&eacute;m h&aacute; de ser bom para seu inc&ocirc;modo;<br \/>\n    a mana Mariquinha tamb&eacute;m costuma sofrer disso e d&aacute;-se bem com<br \/>\n    o passeio.<\/p>\n<p> Outras vezes sa&iacute;a com uma espingarda pelo mato, e fazia as maiores<br \/>\n    dilig&ecirc;ncias para trazer &agrave; prima uma ca&ccedil;a delicada, um<br \/>\n    ja&oacute;, uma paca, uma perdiz.<\/p>\n<p> A prima anda com tanto fastio! talvez esta ca&ccedil;a lhe fa&ccedil;a abrir<br \/>\n    a vontade de comer; mande a Susana prepar&aacute;-la bem feita para o seu<br \/>\n    jantar.<\/p>\n<p> Ai! todos aqueles obs&eacute;quios, todas aquelas finezas eram perdidas.<br \/>\n    Paulina bem via que Roberto a amava extremosamente; tinha pena dele, e n&atilde;o<br \/>\n    desejava mago&aacute;-lo, ainda que suas cont&iacute;nuas aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e galanteios n&atilde;o deixassem de importun&aacute;-la. E quanto mais crescia<br \/>\n    o amor que Eduardo lhe inspirara, mais fria, reservada e mesmo triste se mostrava,<br \/>\n    n&atilde;o de prop&oacute;sito, mas at&eacute; mesmo a pesar seu, para com<br \/>\n    o pobre Roberto. Nem por isso deixava de dirigir-lhe algumas palavras de agradecimento,<br \/>\n    e um sorriso, mas t&atilde;o frio, t&atilde;o repassado de melancolia, que<br \/>\n    n&atilde;o podia fazer desabrochar muita esperan&ccedil;a no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do infeliz rapaz.<\/p>\n<p> Roberto trincava de raiva e desesperava-se por n&atilde;o poder vencer a<br \/>\n    cruel apatia, em que para com ele se achava o cora&ccedil;&atilde;o de Paulina,<br \/>\n    e lan&ccedil;ava m&atilde;o de todos os recursos que seu fraco bestunto lhe<br \/>\n    sugeria. Por fim procurou venc&ecirc;-la com d&aacute;divas e presentes. Uma<br \/>\n    rica e grossa cadeia de ouro, em que trazia preso o seu rel&oacute;gio, pediu-lhe<br \/>\n    que aceitasse em penhor de sua amizade, e firmeza. Ofertou-lhe mais uma linda<br \/>\n    e excelente besta de sela, al&eacute;m de muitos outros mimos delicados e<br \/>\n    de pre&ccedil;o. D&aacute;divas quebrantam penhas, e &#8220;a Deus rogando<br \/>\n    e com la mano dando&#8221;, tinha ele talvez ouvido dizer sen&atilde;o ao<br \/>\n    pr&oacute;prio Sancho Pan&ccedil;a, ao menos a algum de seus confrades. Importunada<br \/>\n    para aceitar, Paulina via-se em torturas para recusar semelhantes donativos<br \/>\n    de um modo que o n&atilde;o desgostasse. Pobre amante! infeliz pretendente!<br \/>\n    disputava com admir&aacute;vel ardor e tenacidade a posse de um cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e como n&atilde;o era repelido terminantemente em termos claros e rudes, em<br \/>\n    sua simplicidade n&atilde;o compreendia quanto era completa a sua derrota.<\/p>\n<p> Mas Paulina tamb&eacute;m, coitada! era porventura mais feliz do que ele?<br \/>\n    &Eacute; verdade que Eduardo mostrava com ela o mais terno interesse, e a<br \/>\n    tratava sempre com a mais lisonjeira defer&ecirc;ncia. Nem outra coisa se<br \/>\n    poderia esperar de um mo&ccedil;o polido e de fina educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e Paulina atra&iacute;a as homenagens e a admira&ccedil;&atilde;o de todos<br \/>\n    que a viam. Todavia era ela bastante inteligente e perspicaz para deixar de<br \/>\n    compreender que nem nas express&otilde;es nem nos olhares de Eduardo, nem<br \/>\n    em toda aquela afei&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s &iacute;ntima e sincera,<br \/>\n    que o mancebo revelava por ela, n&atilde;o havia a m&iacute;nima centelha<br \/>\n    de amor. Notava com extremo desgosto que Eduardo andava sempre distra&iacute;do<br \/>\n    e pensativo, que seus olhos andavam sempre passeando ao longe, e como querendo<br \/>\n    transpor as dist&acirc;ncias com o pensamento. A conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Eduardo rolava freq&uuml;entemente sobre lembran&ccedil;as de sua terra,<br \/>\n    da qual se mostrava extremamente saudoso, e dando-se por feliz por ter sido<br \/>\n    como um instrumento da Provid&ecirc;ncia para proteger a vida de Paulina,<br \/>\n    n&atilde;o deixava de lastimar o inc&ocirc;modo, que viera atrasar seus neg&oacute;cios,<br \/>\n    e retardar sua volta ao pa&iacute;s natal. Um cruel desalento, uma tristeza<br \/>\n    mortal se apoderava ent&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o da mo&ccedil;a;<br \/>\n    mas como a esperan&ccedil;a &eacute; a &uacute;ltima companheira que nos abandona<br \/>\n    no infort&uacute;nio, ela procurava iludir suas tristes apreens&otilde;es,<br \/>\n    e pensava consigo: &#8211; Talvez ele seja frio e reservado de seu natural.<br \/>\n    &#8211; O amor nem sempre brilha nos olhos, ou se derrama em palavras de fogo,<br \/>\n    e dizem que quando existe oculto assim e guardado no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &eacute; ele mais forte e violento&#8230; Tem saudades de sua terra?&#8230; que tem<br \/>\n    isso?&#8230; h&aacute; nada mais natural?&#8230; tem l&aacute; sua m&atilde;e, seus<br \/>\n    parentes e amigos&#8230; Quem sabe!&#8230; talvez que um dia vamos juntos para l&aacute;.<\/p>\n<h2><a name=\"5\">Cap&iacute;tulo 5 &#8211; &Agrave; sombra da gameleira<\/a><\/h2>\n<p>Assim se passaram uns quinze dias, durante os quais o esp&iacute;rito de<br \/>\n    Paulina se agitava na mais cruel ansiedade entre a esperan&ccedil;a e o desalento.<\/p>\n<p> Entretanto Eduardo, mais vigoroso e quase completamente restabelecido, tinha-se<br \/>\n    j&aacute; levantado do leito, em que jazera por tantos dias, e ensaiava alguns<br \/>\n    passeios em derredor de casa, pelos currais, pelo pomar e pelos campos vizinhos.<\/p>\n<p> Estava uma linda tarde, vaporenta e melanc&oacute;lica, como s&oacute; as<br \/>\n    h&aacute; naquelas descampadas e formosas regi&otilde;es uberabenses. Como<br \/>\n    era tempo da queima dos campos, a fuma&ccedil;a das queimadas embaciando os<br \/>\n    horizontes dava-lhes formas e coloridos vagos e fant&aacute;sticos. O ar estava<br \/>\n    morno, im&oacute;vel e embalsamado. Em frente da casa se desenrolava m&aacute;gico<br \/>\n    e sublime o panorama das solid&otilde;es sem-fim numa sucess&atilde;o intermin&aacute;vel<br \/>\n    de plainos, florestas, colinas e espig&otilde;es, cujas formas iam morrer<br \/>\n    indecisas ao longe engolfadas nas ondas de um vapor dourado. O arpejo t&atilde;o<br \/>\n    l&acirc;nguido, t&atilde;o cadenciado do sabi&aacute; harmonizava-se docemente<br \/>\n    com aquele m&iacute;stico e voluptuoso remanso, que envolvia toda a natureza.<br \/>\n    Tamb&eacute;m cantava ao longe o boiadeiro que vinha tocando as manadas para<br \/>\n    os currais, e o chiado mon&oacute;tono dos carros, que cortavam os chapad&otilde;es<br \/>\n    carregados de fartas colheitas.<\/p>\n<p> Em um &acirc;ngulo do vasto curral que ficava na frente da casa, havia uma<br \/>\n    dessas gameleiras colossais, como as h&aacute; em quase todos os currais das<br \/>\n    fazendas daquele sert&atilde;o, e que podem abrigar debaixo de sua gigantesca<br \/>\n    c&uacute;pula uma numerosa manada de gado, de tronco nodoso e cheio de fendas<br \/>\n    e cavidades, em qualquer das quais um homem se abrigaria comodamente do mais<br \/>\n    violento temporal. Servem ao mesmo tempo de aprisco para o gado, e de coberta,<br \/>\n    onde se guardam carros, cangas e mais arreios de carrea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Recostado sobre a mesa de um carro, que se achava &agrave; sombra da gameleira,<br \/>\n    achava-se Eduardo tomando o fresco, e espairecendo as vistas pela elevadora<br \/>\n    perspectiva que tinha diante dos olhos; sem d&uacute;vida cismava saudades<br \/>\n    de sua terra, de sua m&atilde;e, e da sua querida Lucinda. O velho fazendeiro<br \/>\n    achava-se tamb&eacute;m encostado ao peitoril da varanda, armado de um bom<br \/>\n    par de &oacute;culos, lendo um grosso e velho alfarr&aacute;bio. N&atilde;o<br \/>\n    havia muito tempo que Eduardo se achava ali entregue a seus pensamentos, quando<br \/>\n    Paulina descendo ligeiramente a pequena escada de pedra que vinha dar ao curral,<br \/>\n    trouxe-lhe uma cesta de laranjas, e lhas ofereceu com um encantador sorriso<br \/>\n    e express&otilde;es cheias de amabilidade. Como seu pai se achava ali &agrave;<br \/>\n    vista entendeu que nenhum mal ia &agrave; sua honestidade e recato em conversar<br \/>\n    a s&oacute;s com Eduardo alguns momentos. H&aacute; muito que suspirava por<br \/>\n    uma ocasi&atilde;o de entreter-se com ele sem testemunhas, e procurar devassar-lhe,<br \/>\n    se poss&iacute;vel fosse, os segredos do cora&ccedil;&atilde;o, e por isso<br \/>\n    aproveitou-se com sofreguid&atilde;o daquela primeira oportunidade que se<br \/>\n    lhe oferecia, e vencendo a custo o natural pudor e acanhamento, encetou timidamente<br \/>\n    uma conversa&ccedil;&atilde;o cuja dire&ccedil;&atilde;o j&aacute; tinha ideado.<\/p>\n<p> O primo Roberto, por&eacute;m, que sempre desconfiado e ardendo em zelos<br \/>\n    n&atilde;o perdia um s&oacute; passo de Paulina e Eduardo, j&aacute; de uma<br \/>\n    janela os estava observando, e n&atilde;o podia suportar com paci&ecirc;ncia<br \/>\n    aquele espet&aacute;culo, que o torturava. Interromper e perturbar a todo<br \/>\n    transe e de qualquer modo que fosse, aquilo que a seus olhos era uma entrevista<br \/>\n    despejada e escan-dalosa, foi logo o seu pensamento. Intrometer-se bruscamente<br \/>\n    de permeio na conversa&ccedil;&atilde;o seria uma grosseria, que iria magoar<br \/>\n    sua prima, a quem ao lado do muito amor tinha ele muito respeito ou antes<br \/>\n    muito medo.<\/p>\n<p> &#8211; Com mil diabos! exclamava Roberto trincando os dentes e arrancando<br \/>\n    os cabelos. &#8211; L&aacute; est&atilde;o a conversar sozinhos! o que estar&atilde;o<br \/>\n    cochichando aquelas duas almas! eu dera a vida por ouvir tudo!&#8230; aquela prima<br \/>\n    jurou de me estra&ccedil;alhar o cora&ccedil;&atilde;o. Doidinha!&#8230; &agrave;s<br \/>\n    barbas de seu pai, e &agrave; minha vista, estar a cochichar com um estranho!&#8230;<br \/>\n    e continuam!&#8230; n&atilde;o sei onde estou que&#8230; e como se est&atilde;o derretendo<br \/>\n    um com outro! oh! n&atilde;o! isto &eacute; demais&#8230; n&atilde;o consinto.<\/p>\n<p> Entretanto aquele sil&ecirc;ncio e serenidade, que ainda h&aacute; pouco<br \/>\n    reinava em torno daquela pac&iacute;fica habita&ccedil;&atilde;o, tinha-se<br \/>\n    convertido em tumulto e algazarra infernal. O gado que chegava do campo e<br \/>\n    entrava de tropel pela porteira do curral, atordoava o ar com seus mugidos;<br \/>\n    n&atilde;o menos atordoadora era a gritaria dos campeiros, que o tocavam.<br \/>\n    Os negros que vinham do trabalho e se recolhiam &agrave;s senzalas ou conversando<br \/>\n    ou cantando em voz baixa ao toque da marimba faziam um zumbido semelhante<br \/>\n    ao das abelhas, quando se recolhem ao colmeal. N&atilde;o menos gritava o<br \/>\n    patr&atilde;o l&aacute; de sua varanda interrompendo a espa&ccedil;os sua<br \/>\n    leitura para ralhar e dar ordens a seus campeiros e escravos. Enfim o chiado<br \/>\n    dos carros, que se avizinhavam carregados de cana para o engenho, acabava<br \/>\n    de azoinar todos os ouvidos com aquele zunido agudo, incessante, desesperador,<br \/>\n    que nos martiriza e quase arromba os t&iacute;mpanos, som de uma intensidade<br \/>\n    e aspereza tal, que n&atilde;o h&aacute; no dicion&aacute;rio palavra assaz<br \/>\n    expressiva para signific&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Enquanto se dava toda aquela barafunda e vozeria, Roberto desceu aos pinotes<br \/>\n    para o curral boleando em torno da cabe&ccedil;a um comprido la&ccedil;o.<br \/>\n    Aquela tropelada tinha-lhe sugerido um expediente, que de pronto tratou de<br \/>\n    p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o para atrapalhar a conversa dos dois jovens.<\/p>\n<p> &#8211; Ol&aacute;, prima! &#8211; bradou ele de longe para Paulina com<br \/>\n    voz atordoadora e sempre boleando o seu la&ccedil;o. &#8211; Olhe c&aacute;;<br \/>\n    quer ver como se la&ccedil;a e se d&aacute; um tombo de rachar em qualquer<br \/>\n    destes boizinhos? &#8211; Matias! &#8211; gritou ele para um dos campeiros,<br \/>\n    toca para c&aacute; aquele boi laranjo, espanta-o bem, de modo que venha bem<br \/>\n    disparado.<\/p>\n<p> O rapaz espantou o boi, que correndo &agrave; disparada passou a algumas<br \/>\n    bra&ccedil;as de dist&acirc;ncia por diante de Roberto; este atirou-lhe o<br \/>\n    la&ccedil;o, que caiu-lhe direito sobre os chifres. O mo&ccedil;o segurou<br \/>\n    a extremidade do la&ccedil;o sobre o quadril, estacou, fez finca-p&eacute;,<br \/>\n    e de um safan&atilde;o fez tombar de costas o m&iacute;sero animal.<\/p>\n<p> Conhece, boizinho! &#8211; bradou Roberto, e correndo para o boi sem dar-lhe<br \/>\n    tempo de levantar-se agarrou-lhe nas pontas, cravou-as no ch&atilde;o, e sentou-se<br \/>\n    sobre o boi, que ficou subjugado e sem poder mexer-se do lugar.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; vendo, prima, como se escorna um boi!&#8230; Agora vou pealar<br \/>\n    aquele garrote pintado, que ali est&aacute; me fazendo fosquinhas. Quer que<br \/>\n    peale pelas m&atilde;os ou pelos p&eacute;s? hem, prima?&#8230; toca esse boizinho,<br \/>\n    Matias.<\/p>\n<p> O escravo espantou o novilho, que saiu aos corcovos. Roberto boleou o la&ccedil;o<br \/>\n    e apanhou-o pelas patas dianteiras, dando ao pobre animal um horr&iacute;vel<br \/>\n    tombo, que o fez revirar pelos ares de cambotas, e estourar no meio do curral<br \/>\n    de um modo lastimoso. &#8211; Ol&aacute;, senhor Roberto!&#8230; gritou da varanda<br \/>\n    o velho com voz &aacute;spera; &#8211; Que brincadeiras s&atilde;o essas!<br \/>\n    Vosmec&ecirc; dessa maneira vai a me dar cabo de quanta r&ecirc;s tenho no<br \/>\n    curral.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenha susto, meu tio; queria somente desabusar este novilho;<br \/>\n    este diabo est&aacute; muito arisco; precisa levar todos os dias uma boa esfrega;<br \/>\n    sen&atilde;o t&atilde;o cedo n&atilde;o serve para o carro.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o duvido, meu sobrinho; mas n&atilde;o &eacute; quebrando-lhe<br \/>\n    as costelas nesse ch&atilde;o duro, que vir&aacute; a servir. Por favor modere<br \/>\n    essas esfregas, que s&atilde;o mais de matar, que de amansar.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenha cuidado, meu tio; estou muito acostumado a lidar<br \/>\n    com este bicho&#8230; Viu, minha prima, como se joga um pealo bem jogado? O amalucado<br \/>\n    rapaz vingava-se assim nos pobres bois da raiva, com que estava contra Paulina<br \/>\n    e Eduardo, e enquanto assim desabafava procurando atrapalh&aacute;-los escutemos<br \/>\n    a curta conversa&ccedil;&atilde;o, que tiveram &agrave; sombra da gameleira,<br \/>\n    conversa&ccedil;&atilde;o a cada passo interrompida pelos gritos e algazarras<br \/>\n    do atabalhoado primo. Foi Paulina quem a encetou pelo seguinte modo: &#8211;<br \/>\n    Como lhe vi aqui t&atilde;o sozinho e t&atilde;o triste, sr. Eduardo, tomei<br \/>\n    a liberdade de vir trazer-lhe estas laranjas para se refrescar e tamb&eacute;m<br \/>\n    se distrair com elas. Bem vejo, que &eacute; fraca distra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas ao menos enquanto as descasca&#8230;.<\/p>\n<p> Ora, d. Paulina!&#8230; um presente de suas m&atilde;os seria bastante para<br \/>\n    acabar com toda a minha tristeza, no caso que eu tivesse tristeza no cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Acha ent&atilde;o a senhora, que ando triste? &#8211; Muito, e cada vez vai-se<br \/>\n    tornando mais triste, e n&atilde;o &eacute; de hoje que reparo isso.<\/p>\n<p> &#8211; Deveras, minha senhora?&#8230; pode ser, e nesse caso ser&aacute; j&aacute;<br \/>\n    o efeito da saudade, que hei de levar deste belo s&iacute;tio, e das pessoas,<br \/>\n    que nele moram.<\/p>\n<p> Este princ&iacute;pio n&atilde;o estava mau, e Paulina a estas &uacute;ltimas<br \/>\n    palavras do mancebo sentiu ameigar-se-lhe o cora&ccedil;&atilde;o ao sopro<br \/>\n    de uma aura de esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o parece, &#8211; replicou Paulina; o que pelo contr&aacute;rio<br \/>\n    me parece certo, &eacute; que as saudades que tem da sua terra, n&atilde;o<br \/>\n    lhe d&atilde;o muito tempo para pensar em n&oacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! perd&atilde;o, d. Paulina; a senhora me faz grande injusti&ccedil;a:<br \/>\n    n&atilde;o sou ingrato a tal ponto, que as saudades dos meus e da minha terra<br \/>\n    me risquem da mem&oacute;ria pessoas, a quem devo tantas finezas, e as quais<br \/>\n    sempre trarei gravadas no cora&ccedil;&atilde;o. Lembro-me na verdade sempre<br \/>\n    e com muita saudade de minha bela Franca; tenho l&aacute; minha m&atilde;e,<br \/>\n    parentes, amigos, e&#8230;<\/p>\n<p> Eduardo interrompeu-se e suspirou.<\/p>\n<p> &#8211; E mais alguma coisa, n&atilde;o &eacute; assim? atalhou Paulina<br \/>\n    esfor&ccedil;ando-se por sorrir, por&eacute;m com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    num susto, numa ansiedade como quem espera a senten&ccedil;a, que vai decidir<br \/>\n    de todo o seu futuro.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhora; e mais algu&eacute;m, &#8211; respondeu Eduardo com<br \/>\n    acento melanc&oacute;lico, &#8211; para que hei de eu neg&aacute;-lo, e sempre<br \/>\n    que olho para a senhora, me lembro de uma mo&ccedil;a que l&aacute; conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o parece-se comigo? &#8211; Alguma coisa&#8230; ao menos<br \/>\n    na formosura. Linda como ela, s&oacute; a senhora e mais ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; Que lisonja! murmurou Paulina, que cada vez se tornava mais p&aacute;lida<br \/>\n    e estava branca como papel.<\/p>\n<p> &#8211; Lisonja n&atilde;o, senhora. Eu pensava, que n&atilde;o seria poss&iacute;vel<br \/>\n    encontrar no mundo criatura t&atilde;o bela como Lucinda; depois que vi a<br \/>\n    senhora, desenganei-me, e falo sinceramente e com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nas m&atilde;os, se n&atilde;o quisesse tanto bem a Lucinda, teria impreterivelmente<br \/>\n    de amar a senhora&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Quem sabe!&#8230; disse automaticamente Paulina, desconcertada, tr&ecirc;mula<br \/>\n    e sem j&aacute; saber o que dizia. &#8211; Ent&atilde;o o senhor quer muito<br \/>\n    bem a essa mo&ccedil;a? &#8211; Muito! muito! &#8211; disse Eduardo com exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e sem reparar na crescente perturba&ccedil;&atilde;o de Paulina. Amo-a sincera<br \/>\n    e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de am&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; Feliz mulher!&#8230; mas dizem que os mo&ccedil;os todos s&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o inconstantes&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pode ser&#8230; mas eu&#8230; eu nunca serei infiel&#8230; por&eacute;m d.Paulina!&#8230;<br \/>\n    que tem?.. est&aacute; t&atilde;o p&aacute;lida e tr&ecirc;mula! Meu Deus!<br \/>\n    est&aacute; sofrendo alguma coisa?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; nada; replicou Paulina esfor&ccedil;ando-se<br \/>\n    por mostrar-se tranq&uuml;ila; &#8211; quando o sol entra, este sereno da<br \/>\n    tarde sempre me faz calafrios. &Eacute; bom que me recolha. Boa-noite, sr.<br \/>\n    Eduardo.<\/p>\n<p> Roberto, que com suas algazarras e proezas com os bois nada tinha conseguido<br \/>\n    no intuito de perturbar o col&oacute;quio de Eduardo e Paulina largara o la&ccedil;o,<br \/>\n    e saindo sem ser notado para fora do curral, e cozendo-se com a cerca do mesmo<br \/>\n    viera sutilmente postar-se junto deles, de modo que sem ser visto podia otimamente<br \/>\n    espreit&aacute;-los e escut&aacute;-los. Chegou justamente a tempo de ouvir<br \/>\n    clara e distintamente aquelas palavras de Eduardo &#8211; Amo-a muito; amo-a<br \/>\n    sincera e ardentemente, e nunca, nunca hei de deixar de am&aacute;-la. &#8211;<br \/>\n    Sup&otilde;e para logo que eram dirigidas a sua prima, e n&atilde;o quis ouvir<br \/>\n    mais. Desta vez n&atilde;o p&ocirc;de conter-se, rangeu os dentes enfurecido,<br \/>\n    e sem atender a considera&ccedil;&atilde;o alguma puxou pela faca, que sempre<br \/>\n    trazia &agrave; cinta, e &aacute;gil como um gato saltou de um pulo para dentro<br \/>\n    do curral.<\/p>\n<p> Exatamente no instante, em que Roberto de faca em punho saltava a cerca<br \/>\n    e avan&ccedil;ava furibundo para os dois, um tro&ccedil;o de gado, que os<br \/>\n    campeiros estouvadamente escaramu&ccedil;avam pelo curral, entrava atropeladamente<br \/>\n    por baixo da gameleira e amea&ccedil;ava envolver em seu turbilh&atilde;o<br \/>\n    a pobre Paulina no momento em que tendo-se despedido de Eduardo se ia retirando.<br \/>\n    Roberto vendo o iminente perigo que corria sua prima, esqueceu-se de sua c&oacute;lera,<br \/>\n    e em vez de avan&ccedil;ar para Eduardo, correu a acudi-la. Assim por um estranho<br \/>\n    capricho do acaso, que tamb&eacute;m parecia zombar do infeliz rapaz, achou<br \/>\n    este mudado o seu papel no momento em que entrava em cena, e for&ccedil;oso<br \/>\n    lhe foi aceitar a mudan&ccedil;a. Em dois saltos colocou-se junto a Paulina,<br \/>\n    e protegendo-a com o corpo, e a pontap&eacute;s esparrodava para um lado e<br \/>\n    para outro o gado, que corria de tropel para o lado dela. Eduardo tamb&eacute;m,<br \/>\n    apesar de sua fraqueza, lan&ccedil;ando m&atilde;o de um ferro, que arrancou<br \/>\n    do carro, saltara para junto de Paulina. Afugentado que foi o gado, e passado<br \/>\n    aquele incidente, Roberto achou-se em presen&ccedil;a de sua prima e de Eduardo<br \/>\n    na mais estranha e esquerda situa&ccedil;&atilde;o, que imagi-nar-se pode.<br \/>\n    Estes de sua parte nem por sombra podiam desconfiar qual tinha sido a sua<br \/>\n    primeira e sinistra inten&ccedil;&atilde;o, pois que na triste disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de esp&iacute;rito em que se achavam, nem tinham visto donde ele surgira,<br \/>\n    e estavam na persuas&atilde;o que ele ali se apresentara no &uacute;nico intuito<br \/>\n    de acudir a Paulina. Esta com voz tr&ecirc;mula e com um sorriso for&ccedil;ado,<br \/>\n    lhe rendia os devidos agradecimentos.<\/p>\n<p> &#8211; Deus lhe pague, meu primo; o senhor &eacute; um valente; se n&atilde;o<br \/>\n    fosse o senhor, esses malditos bois me teriam esmagado&#8230; ah! meu Deus! &#8211;<br \/>\n    acrescentou lan&ccedil;ando a Eduardo um r&aacute;pido olhar &#8211; que dia<br \/>\n    aziago este de hoje! Roberto desconcertado, com os olhos baixos e como que<br \/>\n    corrido nada respondia a sua prima, e n&atilde;o sabia o que devia dizer,<br \/>\n    nem fazer. O infeliz at&eacute; mesmo em seus furores sofria os mais estranhos<br \/>\n    e cru&eacute;is desencantamentos.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; l&aacute; isso, senhores? &#8211; gritou da varanda<br \/>\n    o pai de Paulina, que observara aquele alvoroto. &#8211; Menina, o que andas<br \/>\n    fazendo no meio desse curral cheio de gado bravo e espantadi&ccedil;o? Sr.<br \/>\n    Eduardo, recolha-se tamb&eacute;m; olhe que este sereno n&atilde;o lhe pode<br \/>\n    fazer bem.<\/p>\n<p> Roberto entendeu, que devia escoltar sua prima, e conduziu-a para casa.<br \/>\n    Eduardo acompanhou-os e deixou-se ficar na varanda, enquanto Paulina retirando-se<br \/>\n    para seu aposento foi devorar em segredo sua ang&uacute;stia e desespera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e ensopou de l&aacute;grimas o travesseiro, por n&atilde;o ter um seio amigo<br \/>\n    em que pudesse derram&aacute;-las.<\/p>\n<p> Tinha no cora&ccedil;&atilde;o amarguras a transbordar, e as l&aacute;grimas<br \/>\n    que chorava, l&aacute;grimas de fel e fogo, n&atilde;o podiam alivi&aacute;-lo.<br \/>\n    Era desgra&ccedil;ada e n&atilde;o tinha a quem lan&ccedil;ar a culpa de sua<br \/>\n    desventura, sen&atilde;o ao destino ou ao c&eacute;u que trazendo ali aquele<br \/>\n    mancebo em t&atilde;o fatais circunst&acirc;ncias viera como que de prop&oacute;sito<br \/>\n    e sem piedade arroj&aacute;-la no caminho do infort&uacute;nio. A morte era<br \/>\n    o &uacute;nico pensamento consolador, em que se abrigava aquela alma ulcerada.<br \/>\n    T&atilde;o vivo e ardente fora o afeto que concebera por Eduardo, t&atilde;o<br \/>\n    doloroso o golpe, que este sem querer acabava de lhe vibrar no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2><a name=\"6\">Cap&iacute;tulo 6 &#8211; O Juramento<\/a><\/h2>\n<p>Eduardo achando-se a s&oacute;s na varanda debru&ccedil;ou-se sobre o parapeito<br \/>\n    e com a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os refletia sobre as ocorr&ecirc;ncias<br \/>\n    daquela tarde. A estranha perturba&ccedil;&atilde;o em que ca&iacute;ra Paulina<br \/>\n    no fim da conversa&ccedil;&atilde;o que com ele tivera, lhe causava a mais<br \/>\n    dolorosa impress&atilde;o. J&aacute; por vezes lhe despontara no esp&iacute;rito<br \/>\n    a suspeita de que Paulina havia concebido amor por ele, por maior que fosse<br \/>\n    o cuidado e o esfor&ccedil;o desta em ocultar seus &iacute;ntimos sentimentos,<br \/>\n    e esta id&eacute;ia o afligia sumamente. Foi de alguma sorte de prop&oacute;sito<br \/>\n    para sondar o cora&ccedil;&atilde;o da menina e atalhar os progressos de uma<br \/>\n    paix&atilde;o, a que n&atilde;o podia corresponder, que Eduardo n&atilde;o<br \/>\n    hesitou em fazer-lhe a rela&ccedil;&atilde;o do amor, que consagrava a outra.<br \/>\n    Compreendeu, ent&atilde;o, claramente, quanto extremo de paix&atilde;o abrasava<br \/>\n    aquela alma c&acirc;ndida e sens&iacute;vel, cuja paz viera perturbar com<br \/>\n    seu aparecimento a um tempo providencial e desastrado. Teve infinita pena<br \/>\n    dela, e arrependeu-se mil vezes das palavras que dissera e da cruel revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe fez sem calcular as conseq&uuml;&ecirc;ncias. Teria sido menos cruel<br \/>\n    deix&aacute;-la na incerteza, e encarregar ao tempo e &agrave; aus&ecirc;ncia<br \/>\n    a cura de um mal que ele com suas palavras n&atilde;o fez mais que exacerbar.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso acrescia a considera&ccedil;&atilde;o de que Roberto o<br \/>\n    reputava um rival e n&atilde;o podia encar&aacute;-lo com bons olhos. Somente<br \/>\n    o velho chefe da casa n&atilde;o tinha para com ele preven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alguma. Achava-se, pois, Eduardo em posi&ccedil;&atilde;o sumamente melindrosa<br \/>\n    naquela casa, e sua estada ali por mais tempo n&atilde;o poderia deixar de<br \/>\n    produzir cenas desagrad&aacute;veis e funestos resultados. Era-lhe pois for&ccedil;oso<br \/>\n    e indispens&aacute;vel deixar o mais breve poss&iacute;vel aquela fazenda,<br \/>\n    e quanto mais pensava e refletia, mais se firmava nessa resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Destas reflex&otilde;es o veio despertar Roberto, que se aproximando bruscamente,<br \/>\n    disse-lhe em tom &aacute;spero e seco: &#8211; sr. Eduardo, &eacute; preciso<br \/>\n    que sem mais demora o senhor saia desta casa!&#8230;<\/p>\n<p> Eduardo olhou para ele espantado.<\/p>\n<p> &#8211; O que est&aacute; dizendo, homem? respondeu-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; preciso que o senhor saia quanto antes desta casa, repito,<br \/>\n    se n&atilde;o quer que eu ou o senhor nos ponhamos a perder.<\/p>\n<p> Eduardo ia assomar-se; mas refletiu, que nenhum proveito tirava em brigar<br \/>\n    com aquele simples e estouvado rapaz; reportou-se e respondeu-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Roberto, eu por ora acho-me muito bem aqui, e nem vejo motivo<br \/>\n    algum para p&ocirc;r-mo-nos a perder. Os donos da casa creio que nem por sombra<br \/>\n    pensam em despedir-me; e como quem quer o senhor enxotar- 31 me? &#8211; Se<br \/>\n    o dono da casa soubesse que o senhor anda querendo lhe desencaminhar a filha&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Alto l&aacute;, senhor caluniador! devagar com isso! onde e por<br \/>\n    que modo viu o senhor que eu faltasse ao respeito no m&iacute;nimo ponto que<br \/>\n    fosse &agrave; sra. d. Paulina?&#8230; se aturo com paci&ecirc;ncia suas sandices,<br \/>\n    n&atilde;o estou de &acirc;nimo a ag&uuml;entar t&atilde;o infame cal&uacute;nia.<\/p>\n<p> &#8211; Sandeu e caluniador ser&aacute; ele! veja onde est&aacute; e com<br \/>\n    quem fala&#8230; olhe que n&atilde;o sou nenhum caipira tocador de burros, arrieiro<br \/>\n    ou capataz de tropa. Cuida que n&atilde;o ouvi&#8230; ainda agora&#8230; ali debaixo<br \/>\n    da gameleira? Com esta arrieirada Eduardo ia perdendo a paci&ecirc;ncia, e<br \/>\n    posto que nenhuma arma tivesse consigo e se achasse ainda fraco e em convalescen&ccedil;a<br \/>\n    para poder medir-se com um atleta armado de faca e cacete e em pleno gozo<br \/>\n    de sa&uacute;de e robustez, j&aacute; de punho fechado se dispunha a responder-lhe<br \/>\n    com meia d&uacute;zia de sopapos, quando uma id&eacute;ia que atravessou-lhe<br \/>\n    o esp&iacute;rito deteve-lhe o bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Ouviu o qu&ecirc;, senhor amansa-garrotes? perguntou ele. Fale;<br \/>\n    n&atilde;o esteja a me impacientar com suas meias palavras.<\/p>\n<p> &#8211; Ouvi, sim; ouvi o senhor estar se derretendo todo, e dizendo mel&uacute;rias<br \/>\n    a minha prima; at&eacute; por sinal, que estava lhe falando assim: hei de<br \/>\n    am&aacute;-la sempre; nunca mais hei de deixar de am&aacute;-la.<\/p>\n<p> A estas palavras Eduardo, apesar da triste e grave disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que se achava, apesar da impaci&ecirc;ncia e indigna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que lhe causavam as impertin&ecirc;ncias e improp&eacute;rios do primo, n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de conter uma gargalhada.<\/p>\n<p> &#8211; E o senhor ainda ri-se! bradou Roberto enfurecido, e avan&ccedil;ando<br \/>\n    com gesto amea&ccedil;ador.<\/p>\n<p> &#8211; Tenha m&atilde;o l&aacute;, senhor Roberto; disse Eduardo segurando-lhe<br \/>\n    brandamente o bra&ccedil;o. O caso n&atilde;o &eacute; para brigarmos&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Como n&atilde;o? queria ainda mais? &#8211; Ora venha c&aacute;,<br \/>\n    escute um pouco, senhor Roberto dos meus pecados. Eis a&iacute; a que nos<br \/>\n    podem levar as apar&ecirc;ncias. Um engano da sua parte o ia levando a praticar<br \/>\n    desatinos contra uma pessoa que nunca o ofendeu, e nem lhe deseja mal algum.<br \/>\n    Mas o senhor est&aacute; desculpado, pois decerto n&atilde;o ouviu toda a<br \/>\n    conversa, e era f&aacute;cil enganar-se.<\/p>\n<p> &#8211; Ouvir mais para qu&ecirc;?&#8230; foi de sobra o que eu ouvi.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; assim, homem de Deus; tenha paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    escute-me. Sua prima vendo-me ali sentado sozinho e pensativo, perguntava-me<br \/>\n    a raz&atilde;o por que ando triste, e se j&aacute; estava aborrecido de estar<br \/>\n    aqui. Eu respondi-lhe que me achava muito bem nesta casa, por&eacute;m que<br \/>\n    tinha muitas saudades de minha terra, e principalmente de uma pessoa de l&aacute;,<br \/>\n    de uma mo&ccedil;a a quem quero muito bem, com a qual se Deus n&atilde;o mandar<br \/>\n    o contr&aacute;rio, tenho de me casar. Era dessa mo&ccedil;a, que eu dizia<br \/>\n    a sua prima, que nunca hei de deixar de am&aacute;-la.<\/p>\n<p> 32 &#8211; V&aacute; contar essa mais adiante, que por c&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    pega. Com essa ainda n&atilde;o me emba&ccedil;a, sr. Eduardo.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! senhor!&#8230; que necessidade tenho eu de engan&aacute;-lo?&#8230;<br \/>\n    creia, que &eacute; a pura verdade; juro-o por minha alma, e se isto n&atilde;o<br \/>\n    basta, pode perguntar &agrave; pr&oacute;pria d. Paulina.<\/p>\n<p> Ao ouvir a explica&ccedil;&atilde;o de Eduardo, Roberto sentiu no &iacute;ntimo<br \/>\n    da alma uma alegria, um al&iacute;vio como h&aacute; muito tempo n&atilde;o<br \/>\n    experimentara. Parecia-lhe que lhe tinham tirado um enorme peso do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e tomando a m&atilde;o de Eduardo, disse-lhe com efus&atilde;o: &#8211; Perdoe-me,<br \/>\n    meu amigo; agora vejo que fui um grosseiro, um estonteado. Mas o senhor bem<br \/>\n    deve saber, que onde h&aacute; amor h&aacute; ci&uacute;me, e eu&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    posso negar, quero um bem a minha prima&#8230; o ci&uacute;me &eacute; um inferno&#8230;<br \/>\n    faz a gente dar por paus e por pedras sem saber o que faz&#8230; arre! cruz!&#8230;<br \/>\n    eu mesmo estou envergonhado&#8230; mas esque&ccedil;amo-nos disso, sr. Eduardo;<br \/>\n    aperte esta m&atilde;o, e fiquemos amigos como dantes.<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o, senhor Roberto; amigos sempre como dantes. O senhor<br \/>\n    tem toda a desculpa; o caso n&atilde;o era para menos. Mas espero, que fique<br \/>\n    firmemente, acreditando que eu nem de leve sou capaz de faltar ao respeito<br \/>\n    nem desencaminhar a quem quer que seja, quanto mais a senhora sua prima a<br \/>\n    quem tributo o maior respeito, simpatia e at&eacute; admira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que de tudo isso ela &eacute; merecedora, mas sem a menor dose de amor, porque<br \/>\n    como j&aacute; lhe disse, tenho o cora&ccedil;&atilde;o ocupado e minha palavra<br \/>\n    comprometida com outra.<\/p>\n<p> &#8211; Isso &eacute; que eu queria saber. Agora sim! posso ficar com o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o sossegado, j&aacute; que o senhor me afirma e jura,<br \/>\n    que n&atilde;o quer bem nem tem pretens&atilde;o alguma sobre minha prima&#8230;<br \/>\n    e que nunca&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhor Roberto; atalhou Eduardo acudindo ao embara&ccedil;o<br \/>\n    do pobre rapaz e adivinhando-lhe o pensamento. Juro-lhe pelas cinzas de meu<br \/>\n    pai, que sinto pela sra.d. Paulina muita afei&ccedil;&atilde;o, mas que esta<br \/>\n    afei&ccedil;&atilde;o em nada se parece com amor; e juro-lhe tamb&eacute;m,<br \/>\n    que nunca em dias de minha vida porei o menor embara&ccedil;o, nem servirei<br \/>\n    de estorvo por qualquer modo que seja ao seu amor, e ao seu futuro casamento<br \/>\n    com ela. Bem sabe que sou paulista, e quando um paulista jura&#8230; nem &eacute;<br \/>\n    preciso jurar; basta dar sua palavra, nem que lhe cortem a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    &eacute; capaz de faltar a ela.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem!&#8230; viva isso, meu amigo!&#8230; assim &eacute; que eu gosto<br \/>\n    de homem. Toque aqui, havemos de ser sempre amigos&#8230; E adeus! n&atilde;o<br \/>\n    quero aborrec&ecirc;-lo mais. Boas-noites.<\/p>\n<p> J&aacute; era noite fechada. Eduardo recolheu-se a seu quarto cada vez mais<br \/>\n    firme na resolu&ccedil;&atilde;o de retirar-se o mais breve que lhe fosse<br \/>\n    poss&iacute;vel daquela casa, onde o acaso o havia conduzido para ser sem<br \/>\n    o querer a chave do enlace de um drama, cujo desfecho poderia ser fatal.<\/p>\n<p> Quanto a Roberto, esse respirava enfim desafogado, com o esp&iacute;rito<br \/>\n    livre do pesadelo que o perseguia, isto &eacute; ciente de que um homem como<br \/>\n    era o senhor Eduardo, de tanto m&eacute;rito e galhardia, longe de ser seu<br \/>\n    rival morria 33 de amores por outra.<\/p>\n<p> Portanto apenas dele se despediu andou por todos os cantos da casa em que<br \/>\n    podia penetrar, &agrave; cata da prima a fim de expandir um pouco com ela<br \/>\n    o contentamento de que se achava possu&iacute;do. Debalde: a pobrezinha tinha-se<br \/>\n    encerrado em seu quarto e nessa noite ningu&eacute;m mais lhe viu o rosto.<br \/>\n    E o simples do primo n&atilde;o compreendia, que aquilo mesmo que tanto prazer<br \/>\n    lhe causava, levara ang&uacute;stia mortal ao cora&ccedil;&atilde;o de sua<br \/>\n    prima.<\/p>\n<p> Da&iacute; a dois dias Eduardo despedia-se da casa do sr. Joaquim Ribeiro,<br \/>\n    depois de se trocarem de parte a parte os mais vivos protestos de eterno reconhecimento<br \/>\n    e amizade, e depois de ter Eduardo renovado em particular a Roberto o juramento<br \/>\n    de nunca ter pretendido e nem pretender para o futuro ao amor, nem &agrave;<br \/>\n    m&atilde;o da senhora d. Paulina.<\/p>\n<p> Ao apertar na despedida a m&atilde;o desta, sentiu que estava gelada, e<br \/>\n    que a agitava um tremor convulso, que ela procurou disfar&ccedil;ar retirando-a<br \/>\n    prontamente. Eduardo, como fica dito, sentia por ela a mais viva e terna simpatia;<br \/>\n    compungiu-se dentro da alma, e n&atilde;o p&ocirc;de conter as l&aacute;grimas<br \/>\n    que lhe rolavam pelas faces. Paulina as viu e n&atilde;o p&ocirc;de chorar,<br \/>\n    porque a ang&uacute;stia lhe havia secado a fonte das l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Da janela de seu quarto ela viu Eduardo sumir-se al&eacute;m das &uacute;ltimas<br \/>\n    colinas. Nesse momento os ouvidos lhe zuniram, e seus olhos se escureceram.<\/p>\n<p> Pareceu-lhe que o t&uacute;mulo a devorava em vida, e que sua alma se afogava<br \/>\n    nas trevas da noite eterna.<\/p>\n<p>Eduardo achando-se a s&oacute;s na varanda debru&ccedil;ou-se sobre o parapeito<br \/>\n    e com a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os refletia sobre as ocorr&ecirc;ncias<br \/>\n    daquela tarde. A estranha perturba&ccedil;&atilde;o em que ca&iacute;ra Paulina<br \/>\n    no fim da conversa&ccedil;&atilde;o que com ele tivera, lhe causava a mais<br \/>\n    dolorosa impress&atilde;o. J&aacute; por vezes lhe despontara no esp&iacute;rito<br \/>\n    a suspeita de que Paulina havia concebido amor por ele, por maior que fosse<br \/>\n    o cuidado e o esfor&ccedil;o desta em ocultar seus &iacute;ntimos sentimentos,<br \/>\n    e esta id&eacute;ia o afligia sumamente. Foi de alguma sorte de prop&oacute;sito<br \/>\n    para sondar o cora&ccedil;&atilde;o da menina e atalhar os progressos de uma<br \/>\n    paix&atilde;o, a que n&atilde;o podia corresponder, que Eduardo n&atilde;o<br \/>\n    hesitou em fazer-lhe a rela&ccedil;&atilde;o do amor, que consagrava a outra.<br \/>\n    Compreendeu, ent&atilde;o, claramente, quanto extremo de paix&atilde;o abrasava<br \/>\n    aquela alma c&acirc;ndida e sens&iacute;vel, cuja paz viera perturbar com<br \/>\n    seu aparecimento a um tempo providencial e desastrado. Teve infinita pena<br \/>\n    dela, e arrependeu-se mil vezes das palavras que dissera e da cruel revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe fez sem calcular as conseq&uuml;&ecirc;ncias. Teria sido menos cruel<br \/>\n    deix&aacute;-la na incerteza, e encarregar ao tempo e &agrave; aus&ecirc;ncia<br \/>\n    a cura de um mal que ele com suas palavras n&atilde;o fez mais que exacerbar.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso acrescia a considera&ccedil;&atilde;o de que Roberto o<br \/>\n    reputava um rival e n&atilde;o podia encar&aacute;-lo com bons olhos. Somente<br \/>\n    o velho chefe da casa n&atilde;o tinha para com ele preven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alguma. Achava-se, pois, Eduardo em posi&ccedil;&atilde;o sumamente melindrosa<br \/>\n    naquela casa, e sua estada ali por mais tempo n&atilde;o poderia deixar de<br \/>\n    produzir cenas desagrad&aacute;veis e funestos resultados. Era-lhe pois for&ccedil;oso<br \/>\n    e indispens&aacute;vel deixar o mais breve poss&iacute;vel aquela fazenda,<br \/>\n    e quanto mais pensava e refletia, mais se firmava nessa resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Destas reflex&otilde;es o veio despertar Roberto, que se aproximando bruscamente,<br \/>\n    disse-lhe em tom &aacute;spero e seco: &#8211; sr. Eduardo, &eacute; preciso<br \/>\n    que sem mais demora o senhor saia desta casa!&#8230;<\/p>\n<p> Eduardo olhou para ele espantado.<\/p>\n<p> &#8211; O que est&aacute; dizendo, homem? respondeu-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; preciso que o senhor saia quanto antes desta casa, repito,<br \/>\n    se n&atilde;o quer que eu ou o senhor nos ponhamos a perder.<\/p>\n<p> Eduardo ia assomar-se; mas refletiu, que nenhum proveito tirava em brigar<br \/>\n    com aquele simples e estouvado rapaz; reportou-se e respondeu-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Roberto, eu por ora acho-me muito bem aqui, e nem vejo motivo<br \/>\n    algum para p&ocirc;r-mo-nos a perder. Os donos da casa creio que nem por sombra<br \/>\n    pensam em despedir-me; e como quem quer o senhor enxotar-me? &#8211; Se o<br \/>\n    dono da casa soubesse que o senhor anda querendo lhe desencaminhar a filha&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Alto l&aacute;, senhor caluniador! devagar com isso! onde e por<br \/>\n    que modo viu o senhor que eu faltasse ao respeito no m&iacute;nimo ponto que<br \/>\n    fosse &agrave; sra. d. Paulina?&#8230; se aturo com paci&ecirc;ncia suas sandices,<br \/>\n    n&atilde;o estou de &acirc;nimo a ag&uuml;entar t&atilde;o infame cal&uacute;nia.<\/p>\n<p> &#8211; Sandeu e caluniador ser&aacute; ele! veja onde est&aacute; e com<br \/>\n    quem fala&#8230; olhe que n&atilde;o sou nenhum caipira tocador de burros, arrieiro<br \/>\n    ou capataz de tropa. Cuida que n&atilde;o ouvi&#8230; ainda agora&#8230; ali debaixo<br \/>\n    da gameleira? Com esta arrieirada Eduardo ia perdendo a paci&ecirc;ncia, e<br \/>\n    posto que nenhuma arma tivesse consigo e se achasse ainda fraco e em convalescen&ccedil;a<br \/>\n    para poder medir-se com um atleta armado de faca e cacete e em pleno gozo<br \/>\n    de sa&uacute;de e robustez, j&aacute; de punho fechado se dispunha a responder-lhe<br \/>\n    com meia d&uacute;zia de sopapos, quando uma id&eacute;ia que atravessou-lhe<br \/>\n    o esp&iacute;rito deteve-lhe o bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Ouviu o qu&ecirc;, senhor amansa-garrotes? perguntou ele. Fale;<br \/>\n    n&atilde;o esteja a me impacientar com suas meias palavras.<\/p>\n<p> &#8211; Ouvi, sim; ouvi o senhor estar se derretendo todo, e dizendo mel&uacute;rias<br \/>\n    a minha prima; at&eacute; por sinal, que estava lhe falando assim: hei de<br \/>\n    am&aacute;-la sempre; nunca mais hei de deixar de am&aacute;-la.<\/p>\n<p> A estas palavras Eduardo, apesar da triste e grave disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que se achava, apesar da impaci&ecirc;ncia e indigna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que lhe causavam as impertin&ecirc;ncias e improp&eacute;rios do primo, n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de conter uma gargalhada.<\/p>\n<p> &#8211; E o senhor ainda ri-se! bradou Roberto enfurecido, e avan&ccedil;ando<br \/>\n    com gesto amea&ccedil;ador.<\/p>\n<p> &#8211; Tenha m&atilde;o l&aacute;, senhor Roberto; disse Eduardo segurando-lhe<br \/>\n    brandamente o bra&ccedil;o. O caso n&atilde;o &eacute; para brigarmos&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Como n&atilde;o? queria ainda mais? &#8211; Ora venha c&aacute;,<br \/>\n    escute um pouco, senhor Roberto dos meus pecados. Eis a&iacute; a que nos<br \/>\n    podem levar as apar&ecirc;ncias. Um engano da sua parte o ia levando a praticar<br \/>\n    desatinos contra uma pessoa que nunca o ofendeu, e nem lhe deseja mal algum.<br \/>\n    Mas o senhor est&aacute; desculpado, pois decerto n&atilde;o ouviu toda a<br \/>\n    conversa, e era f&aacute;cil enganar-se.<\/p>\n<p> &#8211; Ouvir mais para qu&ecirc;?&#8230; foi de sobra o que eu ouvi.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; assim, homem de Deus; tenha paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    escute-me. Sua prima vendo-me ali sentado sozinho e pensativo, perguntava-me<br \/>\n    a raz&atilde;o por que ando triste, e se j&aacute; estava aborrecido de estar<br \/>\n    aqui. Eu respondi-lhe que me achava muito bem nesta casa, por&eacute;m que<br \/>\n    tinha muitas saudades de minha terra, e principalmente de uma pessoa de l&aacute;,<br \/>\n    de uma mo&ccedil;a a quem quero muito bem, com a qual se Deus n&atilde;o mandar<br \/>\n    o contr&aacute;rio, tenho de me casar. Era dessa mo&ccedil;a, que eu dizia<br \/>\n    a sua prima, que nunca hei de deixar de am&aacute;-la.<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; contar essa mais adiante, que por c&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    pega. Com essa ainda n&atilde;o me emba&ccedil;a, sr. Eduardo.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! senhor!&#8230; que necessidade tenho eu de engan&aacute;-lo?&#8230;<br \/>\n    creia, que &eacute; a pura verdade; juro-o por minha alma, e se isto n&atilde;o<br \/>\n    basta, pode perguntar &agrave; pr&oacute;pria d. Paulina.<\/p>\n<p> Ao ouvir a explica&ccedil;&atilde;o de Eduardo, Roberto sentiu no &iacute;ntimo<br \/>\n    da alma uma alegria, um al&iacute;vio como h&aacute; muito tempo n&atilde;o<br \/>\n    experimentara. Parecia-lhe que lhe tinham tirado um enorme peso do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e tomando a m&atilde;o de Eduardo, disse-lhe com efus&atilde;o: &#8211; Perdoe-me,<br \/>\n    meu amigo; agora vejo que fui um grosseiro, um estonteado. Mas o senhor bem<br \/>\n    deve saber, que onde h&aacute; amor h&aacute; ci&uacute;me, e eu&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    posso negar, quero um bem a minha prima&#8230; o ci&uacute;me &eacute; um inferno&#8230;<br \/>\n    faz a gente dar por paus e por pedras sem saber o que faz&#8230; arre! cruz!&#8230;<br \/>\n    eu mesmo estou envergonhado&#8230; mas esque&ccedil;amo-nos disso, sr. Eduardo;<br \/>\n    aperte esta m&atilde;o, e fiquemos amigos como dantes.<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o, senhor Roberto; amigos sempre como dantes. O senhor<br \/>\n    tem toda a desculpa; o caso n&atilde;o era para menos. Mas espero, que fique<br \/>\n    firmemente, acreditando que eu nem de leve sou capaz de faltar ao respeito<br \/>\n    nem desencaminhar a quem quer que seja, quanto mais a senhora sua prima a<br \/>\n    quem tributo o maior respeito, simpatia e at&eacute; admira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que de tudo isso ela &eacute; merecedora, mas sem a menor dose de amor, porque<br \/>\n    como j&aacute; lhe disse, tenho o cora&ccedil;&atilde;o ocupado e minha palavra<br \/>\n    comprometida com outra.<\/p>\n<p> &#8211; Isso &eacute; que eu queria saber. Agora sim! posso ficar com o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o sossegado, j&aacute; que o senhor me afirma e jura,<br \/>\n    que n&atilde;o quer bem nem tem pretens&atilde;o alguma sobre minha prima&#8230;<br \/>\n    e que nunca&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhor Roberto; atalhou Eduardo acudindo ao embara&ccedil;o<br \/>\n    do pobre rapaz e adivinhando-lhe o pensamento. Juro-lhe pelas cinzas de meu<br \/>\n    pai, que sinto pela sra.d. Paulina muita afei&ccedil;&atilde;o, mas que esta<br \/>\n    afei&ccedil;&atilde;o em nada se parece com amor; e juro-lhe tamb&eacute;m,<br \/>\n    que nunca em dias de minha vida porei o menor embara&ccedil;o, nem servirei<br \/>\n    de estorvo por qualquer modo que seja ao seu amor, e ao seu futuro casamento<br \/>\n    com ela. Bem sabe que sou paulista, e quando um paulista jura&#8230; nem &eacute;<br \/>\n    preciso jurar; basta dar sua palavra, nem que lhe cortem a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    &eacute; capaz de faltar a ela.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem!&#8230; viva isso, meu amigo!&#8230; assim &eacute; que eu gosto<br \/>\n    de homem. Toque aqui, havemos de ser sempre amigos&#8230; E adeus! n&atilde;o<br \/>\n    quero aborrec&ecirc;-lo mais. Boas-noites.<\/p>\n<p> J&aacute; era noite fechada. Eduardo recolheu-se a seu quarto cada vez mais<br \/>\n    firme na resolu&ccedil;&atilde;o de retirar-se o mais breve que lhe fosse<br \/>\n    poss&iacute;vel daquela casa, onde o acaso o havia conduzido para ser sem<br \/>\n    o querer a chave do enlace de um drama, cujo desfecho poderia ser fatal.<\/p>\n<p> Quanto a Roberto, esse respirava enfim desafogado, com o esp&iacute;rito<br \/>\n    livre do pesadelo que o perseguia, isto &eacute; ciente de que um homem como<br \/>\n    era o senhor Eduardo, de tanto m&eacute;rito e galhardia, longe de ser seu<br \/>\n    rival morriade amores por outra.<\/p>\n<p> Portanto apenas dele se despediu andou por todos os cantos da casa em que<br \/>\n    podia penetrar, &agrave; cata da prima a fim de expandir um pouco com ela<br \/>\n    o contentamento de que se achava possu&iacute;do. Debalde: a pobrezinha tinha-se<br \/>\n    encerrado em seu quarto e nessa noite ningu&eacute;m mais lhe viu o rosto.<br \/>\n    E o simples do primo n&atilde;o compreendia, que aquilo mesmo que tanto prazer<br \/>\n    lhe causava, levara ang&uacute;stia mortal ao cora&ccedil;&atilde;o de sua<br \/>\n    prima.<\/p>\n<p> Da&iacute; a dois dias Eduardo despedia-se da casa do sr. Joaquim Ribeiro,<br \/>\n    depois de se trocarem de parte a parte os mais vivos protestos de eterno reconhecimento<br \/>\n    e amizade, e depois de ter Eduardo renovado em particular a Roberto o juramento<br \/>\n    de nunca ter pretendido e nem pretender para o futuro ao amor, nem &agrave;<br \/>\n    m&atilde;o da senhora d. Paulina.<\/p>\n<p> Ao apertar na despedida a m&atilde;o desta, sentiu que estava gelada, e<br \/>\n    que a agitava um tremor convulso, que ela procurou disfar&ccedil;ar retirando-a<br \/>\n    prontamente. Eduardo, como fica dito, sentia por ela a mais viva e terna simpatia;<br \/>\n    compungiu-se dentro da alma, e n&atilde;o p&ocirc;de conter as l&aacute;grimas<br \/>\n    que lhe rolavam pelas faces. Paulina as viu e n&atilde;o p&ocirc;de chorar,<br \/>\n    porque a ang&uacute;stia lhe havia secado a fonte das l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Da janela de seu quarto ela viu Eduardo sumir-se al&eacute;m das &uacute;ltimas<br \/>\n    colinas. Nesse momento os ouvidos lhe zuniram, e seus olhos se escureceram.<\/p>\n<p> Pareceu-lhe que o t&uacute;mulo a devorava em vida, e que sua alma se afogava<br \/>\n    nas trevas da noite eterna.<\/p>\n<h2><a name=\"7\">Cap&iacute;tulo 7 &#8211; O casamento<\/a><\/h2>\n<p>Era uma bonita e radiante tarde de s&aacute;bado.<\/p>\n<p> A Vila Franca do Imperador, linda e risonha povoa&ccedil;&atilde;o da prov&iacute;ncia<br \/>\n    de S. Paulo, &#8211; como que se espanejava alegre e faceira em cima de sua<br \/>\n    colina aos &uacute;ltimos raios do sol de dezembro.<\/p>\n<p> Era v&eacute;spera do dia de descanso para os que verdadeiramente trabalham,<br \/>\n    de prazer para os patuscos e folgaz&otilde;es, missa e rezas para os padres<br \/>\n    e devotos.<\/p>\n<p> Na verdade descansa-se, reza-se e diverte-se muito em todos os domingos.<br \/>\n    Mas as tardes e noites de s&aacute;bado sabem muito mais do que as de domingo.<br \/>\n    Naquelas espera-se pela festa, o que dizem ser o melhor dela; nesta acaba-se<br \/>\n    com ela, o que n&atilde;o deixa de ser triste.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m deita-se da cama mais aborrecido em uma noite de domingo<br \/>\n    do que o estudante, o lente, o empregado p&uacute;blico, o jornaleiro, enfim<br \/>\n    do que todo mundo &#8211; cat&oacute;lico, bem entendido, &#8211; &agrave;<br \/>\n    exce&ccedil;&atilde;o do soldado, do escravo e outros miser&aacute;veis, para<br \/>\n    os quais n&atilde;o h&aacute; domingo nem dia santo, e do imperador, do duque,<br \/>\n    do frade e outros, para os quais todo o dia &eacute; dia santo.<\/p>\n<p> Eis a raz&atilde;o por que se escolhem de ordin&aacute;rio as tardes e as<br \/>\n    noites de s&aacute;bado para os casamentos, batizados, bailes, concertos,<br \/>\n    espet&aacute;culos, enfim para tudo quanto &eacute; regozijo.<\/p>\n<p> No largo da matriz da Franca havia mais um motivo para a efervesc&ecirc;ncia<br \/>\n    da alegria e do prazer.<\/p>\n<p> Celebrava-se nesse dia com muita pompa e arrojo o casamento de uma mo&ccedil;a<br \/>\n    pertencente a uma das mais ricas e distintas fam&iacute;lias da Franca. Os<br \/>\n    sinos repicavam alegre e incessantemente entre as m&atilde;os de encarni&ccedil;ados<br \/>\n    rapazes; uma imensidade de foguetes e gir&acirc;ndolas estouravam nos ares,<br \/>\n    e toldavam a atmosfera com uma ab&oacute;bada de fogo e fumo. &Agrave; porta<br \/>\n    da igreja restrugia uma numerosa banda de m&uacute;sica. Na igreja, pelo adro,<br \/>\n    pelas ruas n&atilde;o se via sen&atilde;o gente alegre, alardeando asseados<br \/>\n    e garridos trajes domingueiros, pois em toda a vila n&atilde;o ficou uma pessoa,<br \/>\n    que pusesse gravata ao pesco&ccedil;o, que n&atilde;o fosse convidada. Parecia<br \/>\n    aquele noivado uma festa p&uacute;blica, e fazia recordar as bodas de Gamacho.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a era formosa por sua rara beleza, e fora o alvo cobi&ccedil;ado<br \/>\n    e disputado por muitos e guapos pretendentes de fora e do lugar. Era filha<br \/>\n    do major Jos&eacute; Ferreira, um dos mais abastados fazendeiros de toda a<br \/>\n    comarca e chamava-se Lucinda.<\/p>\n<p> Pelo nome e pelos predicados o leitor j&aacute; ter&aacute; atinado que<br \/>\n    a noiva n&atilde;o era mais nem menos sen&atilde;o a namorada, a senhora dos<br \/>\n    pensamentos do jovem muladeiro Eduardo, que vimos quase papado por uma on&ccedil;a<br \/>\n    na fazenda de Joaquim Ribeiro, querendo salvar-lhe a filha. Adivinhou e sem<br \/>\n    d&uacute;vida ter&aacute; tamb&eacute;m adivinhado que o noivo era o pr&oacute;prio<br \/>\n    Eduardo, e nada mais natural; eram dois amantes firmes, que h&aacute; muito<br \/>\n    tempo se queriam, e dignos um do outro; dois belos e interessantes jovens,<br \/>\n    para os quais de h&aacute; multo o himeneu entretecia sorrindo os la&ccedil;os<br \/>\n    de seda e ouro, com que devia uni-los para sempre.<\/p>\n<p> No momento, em que os dois guapos e jovens noivos com as m&atilde;os enla&ccedil;adas<br \/>\n    recebiam em face do altar-mor a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o nupcial, um viandante<br \/>\n    cavalgando uma linda e possante mula coberta de poeira e suor, envolto em<br \/>\n    uma pala de linho branco, e cal&ccedil;ando botas de mateiro guarnecidas de<br \/>\n    largas chilenas de prata, entrava pela vila e passando pelo largo da matriz,<br \/>\n    ao ver aquela influ&ecirc;ncia de povo e alvoroto festival, picado de curiosidade<br \/>\n    apeou-se para ver que santo se festejava, e ao mesmo tempo rezar uma ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e dar gra&ccedil;as ao c&eacute;u por ter-lhe dado at&eacute; ali pr&oacute;spera<br \/>\n    viagem. Deixando o animal entregue ao camarada que o acompanhava, entrou pela<br \/>\n    porta principal, atravessando a custo a multid&atilde;o. A cerim&ocirc;nia.<br \/>\n    estava conclu&iacute;da, e os noivos entonados e radiantes vinham descendo<br \/>\n    da nave para a porta do frontisp&iacute;cio, atravessando a multid&atilde;o<br \/>\n    que se abria para dar-lhes passagem, como dois soberbos cisnes cortando as<br \/>\n    ondas encrespadas de um lago agitado pelos ventos. Vendo o grande pr&eacute;stito<br \/>\n    que vinha pelo meio da igreja, o viandante arredou-se para um lado para v&ecirc;-lo<br \/>\n    passar. Os noivos, que vinham na frente, foi como era natural o primeiro objeto<br \/>\n    de sua aten&ccedil;&atilde;o. Mal deu com os olhos neles &#8211; Lucinda!<br \/>\n    &#8211; bradou ele com voz que ressoou por toda a igreja.<\/p>\n<p> Ao som daquela voz Lucinda empalideceu e cambaleou. Todos voltaram-se para<br \/>\n    o lado donde ele rompera, mas o viandante, agachando-se, encolhendo-se, rompeu<br \/>\n    sereno e r&aacute;pido como uma seta por entre a turba, que se agitava, e<br \/>\n    enquanto todos at&ocirc;nitos indagavam com os olhos donde partira aquele<br \/>\n    grito, saiu rapidamente por uma porta travessa, montou de um salto a cavalo,<br \/>\n    e desapareceu no primeiro beco que encontrou. Foi direito apear-se em casa<br \/>\n    de sua m&atilde;e, em cuja companhia morava sempre que estava na Franca.<\/p>\n<p> &#8211; Meu filho! enfim&#8230; sempre chegaste! exclamou a velha, apenas o<br \/>\n    viu, estendendo-lhe os bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! minha m&atilde;e! minha m&atilde;e! exclamou o mancebo, e lan&ccedil;ou-se<br \/>\n    nos bra&ccedil;os dela solu&ccedil;ando, mas com os olhos secos e chamejantes.<\/p>\n<p> &#8211; Que tens, filho, que est&aacute;s assim amarelo e a tremer&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que golpe, minha m&atilde;e! que golpe acabo de receber! &#8211;<br \/>\n    Golpe, meu filho?&#8230; agora?&#8230; dizia a m&atilde;e assustada reparando por<br \/>\n    todo o corpo.<\/p>\n<p> &#8211; Neste instante.<\/p>\n<p> &#8211; Mas&#8230; n&atilde;o vejo sangue&#8230; onde foi o golpe? fala, meu filho;<br \/>\n    n&atilde;o me assustes assim.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; isso, minha m&atilde;e; Lucinda&#8230; quem o diria!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! j&aacute; sei; j&aacute; sei. J&aacute; se casou&#8230; Gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus, respiro sossegada; pensei que te havia sucedido alguma desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Pois quer maior desgra&ccedil;a, minha m&atilde;e?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual desgra&ccedil;a, menino! n&atilde;o perdes nada com isso&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! minha m&atilde;e, s&oacute; Deus sabe quanto perco. Perco o<br \/>\n    sossego e a alegria do cora&ccedil;&atilde;o e para sempre&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual para sempre! est&aacute;s ainda muito tolo, meu filho. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; m&aacute;goa, que o tempo n&atilde;o console. Tu &eacute;s ainda<br \/>\n    muito crian&ccedil;a. N&atilde;o faltam por esse mundo mo&ccedil;as mais bonitas<br \/>\n    que a Lucinda, e &#8211; aqui entre n&oacute;s &#8211; mais bem-educadas,<br \/>\n    que te queiram. &Eacute;s um rapaz bem parecido e de muito boas maneiras;<br \/>\n    o ponto &eacute; que sejas comportado e saibas trabalhar, como at&eacute;<br \/>\n    aqui tens feito, que noivas ricas e formosas te sair&atilde;o aos centos.<\/p>\n<p> &#8211; Nem falar nisso, minha m&atilde;e! eu acreditar mais em mo&ccedil;as!?&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o quero sujeitar-me a levar outra vez uma desfeita destas.<\/p>\n<p> &#8211; Sossega, meu filho; h&aacute; males que v&ecirc;m para bem. Bem<br \/>\n    sabes, que nunca aprovei muito essa tua inclina&ccedil;&atilde;o para semelhante<br \/>\n    rapariga. Achava nela um n&atilde;o sei qu&ecirc; de leviana e de estouvada<br \/>\n    que nada me agradava, e nunca tive f&eacute; com esta gente de Ferreiras;<br \/>\n    s&atilde;o todos falsos, e sem palavra.<\/p>\n<p>As provas est&aacute;s vendo. Queres que te diga uma coisa?&#8230; se n&atilde;o<br \/>\n    te visse t&atilde;o agoniado, era este um dos dias mais felizes de toda a<br \/>\n    minha vida.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, minha m&atilde;e, ela mostrava querer-me tanto, e os pais pareciam<br \/>\n    fazer tanto gosto em nosso casamento. Quem sabe se n&atilde;o houve por a&iacute;<br \/>\n    algum embuste, alguma patranha&#8230; aquele Hip&oacute;lito &eacute; um infame<br \/>\n    capaz de tudo.<\/p>\n<p> &#8211; Meu filho, se eu disser que a&iacute; n&atilde;o houve de todo sua<br \/>\n    tal ou qual velhacaria da parte do mo&ccedil;o, minto. Mas hist&oacute;rias!<br \/>\n    aquilo &eacute; mesmo gente sem cruz nem cunho.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!&#8230; logo vi. Ent&atilde;o sempre houve patranha.<\/p>\n<p> &#8211; Um enredo que de nada valeria, se eles fossem pessoas de palavra.<\/p>\n<p> &#8211; Mas enfim, minha m&atilde;e, qual foi esse enredo?&#8230; estou ardendo<br \/>\n    por sab&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Tu pensas, que n&atilde;o se soube logo por aqui de uma c&eacute;lebre<br \/>\n    ca&ccedil;ada de on&ccedil;a, em que andaste l&aacute; pela Uberaba?&#8230; Correu<br \/>\n    por aqui que com risco de vida tinhas livrado das goelas de uma on&ccedil;a<br \/>\n    uma mocinha, filha de um fazendeiro muito rico, e que dizem ser linda como<br \/>\n    um sol.<\/p>\n<p> &#8211; At&eacute; a&iacute; tudo &eacute; pura verdade; mas que tem isso<br \/>\n    com&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Vai escutando. Disseram mais que ficaste por tal forma embelezado<br \/>\n    pela tal mocinha, que te invernaste na dita fazenda a ponto de parecer que<br \/>\n    de l&aacute; nunca mais sairias, que eras l&aacute; todo de dentro, e j&aacute;<br \/>\n    parecias um filho da casa; que j&aacute; nem cuidavas de teus neg&oacute;cios,<br \/>\n    e mil outras coisas, que n&atilde;o me lembro.<\/p>\n<p> Eduardo suspirou. Este suspiro era um pensamento vago, que queria dizer:<br \/>\n    &#8211; Pobre Paulina!&#8230; antes assim tivesse acontecido! &#8211; Daqui a<br \/>\n    Uberaba n&atilde;o &eacute; longe, &#8211; continuou a velha,&#8211; umas<br \/>\n    vinte l&eacute;guas quando muito, e n&atilde;o faltaram portadores que c&aacute;<br \/>\n    trouxessem todas essas novidades. De todas essas coisas o espertalh&atilde;o<br \/>\n    do Hip&oacute;lito da Cana Verde, que bem sabes que era um dos maiores apaixonados<br \/>\n    da Lucinda, se aproveitou e foi met&ecirc;-las todas nos ouvidos dela e dos<br \/>\n    pais, e decerto acrescentando pontos e pintando a coisa com cores ainda mais<br \/>\n    feias.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! miser&aacute;vel intrigante! bradou Eduardo batendo os queixos<br \/>\n    e espumando de c&oacute;lera. &#8211; N&atilde;o soube aquele infame dizer<br \/>\n    tamb&eacute;m que estando eu a ca&ccedil;ar o acaso me fez chegar &agrave;quela<br \/>\n    fazenda perseguindo uma on&ccedil;a; que fiz por aquela mo&ccedil;a o que<br \/>\n    faria todo o homem de bem e de coragem, &#8211; n&atilde;o ele, que n&atilde;o<br \/>\n    tem brios, e n&atilde;o passa de um miser&aacute;vel poltr&atilde;o; &#8211;<br \/>\n    que a on&ccedil;a arrojando-se sobre mim feriu-me gravemente, e atirou-me<br \/>\n    no ch&atilde;o sem sentidos e esvaindo-me em sangue&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Santo Nome de Jesus!&#8230; exclamou a velha benzendo-se. &#8211; Disso<br \/>\n    ningu&eacute;m soube por c&aacute;. Que perigo! santo Deus!&#8230; nunca deixar&aacute;<br \/>\n    dessa maldita mania de ca&ccedil;ar!&#8230; e como vais? &#8211; n&atilde;o sofres<br \/>\n    mais nada?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nada, minha m&atilde;e, gra&ccedil;as a Deus. N&atilde;o tive sen&atilde;o<br \/>\n    perda de sangue, estou perfeitamente bom. O tratante, continuou ele, esqueceu-se<br \/>\n    tamb&eacute;m de dizer, que fui levado em bra&ccedil;os para a casa do fazendeiro,<br \/>\n    e que for&ccedil;oso me foi ficar ali longos dias para curar minhas feridas<br \/>\n    e restabelecer minhas for&ccedil;as quase de todo esgotadas em raz&atilde;o<br \/>\n    da imensa perda de sangue; que se fui tratado com todo o carinho e desvelo<br \/>\n    pelo pai e pela filha, &eacute; porque nenhuma outra coisa se devia esperar<br \/>\n    de pessoas de cora&ccedil;&atilde;o bem formado e agradecido vendo-me em tal<br \/>\n    estado, ainda que nenhum servi&ccedil;o tivessem de mim recebido.<\/p>\n<p> Esqueceu-se tamb&eacute;m o infame velhaco, que essa mo&ccedil;a desde crian&ccedil;a<br \/>\n    est&aacute; prometida em casamento a um primo e vizinho seu, que a estima<br \/>\n    extremosamente; enfim que por esses motivos todos foi-me indispens&aacute;vel<br \/>\n    demorar pela Uberaba muito mais do que seria preciso para aviar meus neg&oacute;cios,<br \/>\n    sofrendo n&atilde;o pequenos preju&iacute;zos. Ah! maldito mexeriqueiro! &#8211;<br \/>\n    concluiu Eduardo espumando de raiva e dando sobre uma mesa um murro furioso.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o sei onde estou, que n&atilde;o vou j&aacute; arrancar-te<br \/>\n    essa l&iacute;ngua danada e com ela essa alma de lama!.. mas todo o tempo<br \/>\n    &eacute; tempo. Amanh&atilde;&#8230; amanh&atilde; temos de ajustar contas, infame<br \/>\n    trapaceiro.<\/p>\n<p> &#8211; Sossega, meu filho; n&atilde;o te ponhas a perder por t&atilde;o<br \/>\n    pouco. A culpa n&atilde;o &eacute; tanto do Hip&oacute;lito. Se a Lucinda<br \/>\n    e sua gente tivessem grande empenho no teu casamento, n&atilde;o teriam acreditado<br \/>\n    t&atilde;o de leve nesses mexericos. Olha o que te digo; os Ferreiras n&atilde;o<br \/>\n    est&atilde;o l&aacute; muito bem de fortuna, por mais que se diga. O Hip&oacute;lito<br \/>\n    tem fama de possuir mundos e fundos, posto que seja um gangolina, um trapaceiro.<br \/>\n    Demais &eacute; ainda parente deles, e essa gente gosta muito de casar parente<br \/>\n    com parente e por isso &eacute; que vai saindo essa perrada mofina que est&aacute;s<br \/>\n    vendo. E tu, meu filho, n&atilde;o passas de um principiante, e eis a&iacute;<br \/>\n    por qu&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Seja l&aacute; como for, minha m&atilde;e, &#8211; interrompeu com<br \/>\n    impaci&ecirc;ncia o filho, &#8211; em todo o caso &eacute; uma tremenda desfeita,<br \/>\n    que me fizeram, um desaforo, que n&atilde;o posso por nada ag&uuml;entar de<br \/>\n    cara alegre, e de que mais tarde ou mais cedo, desta ou daquela maneira juro<br \/>\n    que hei de me vingar.<\/p>\n<p> &#8211; Cala-te, filho; o melhor modo de te vingar &eacute; n&atilde;o te<br \/>\n    dares por achado. Deus e o tempo &eacute; que te h&atilde;o de vingar. O tal<br \/>\n    Hip&oacute;lito al&eacute;m de ser um paspalh&atilde;o muito sem gra&ccedil;a,<br \/>\n    &eacute; um atroado, um libertino. A senhora Lucinda, oh! Essa nunca me enganou,<br \/>\n    e Deus me perdoe, &#8211; est&aacute; me parecendo, que vem a dar em uma&#8230;<br \/>\n    refinada sirigaita&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que est&aacute; dizendo, minha m&atilde;e?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o te enfades, Eduardo; n&atilde;o queiras tomar as dores<br \/>\n    por quem te atrai&ccedil;oa&#8230; quer me parecer, que esse casamento&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; praga, que estou rogando, n&atilde;o; Deus tal n&atilde;o permita;<br \/>\n    &#8211; quer me parecer, que n&atilde;o pode acabar bem.<\/p>\n<p> &#8211; D&ecirc; no que der, juro que n&atilde;o h&atilde;o de ter muito<br \/>\n    alegre a sua lua-de-mel. Pelo menos hei de quebrar a cara &agrave;quele tratante.<\/p>\n<p> &#8211; Deixa-te disso, menino; &eacute; como te disse, n&atilde;o te d&ecirc;s<br \/>\n    por achado. O desprezo &eacute; a melhor vingan&ccedil;a, e a &uacute;nica<br \/>\n    que eles merecem. Finge mesmo que vieste apaixonado pela linda uberabense,<br \/>\n    e que te julgas feliz por te terem aliviado de uma carga, que outra coisa<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; a tua Lucinda, e deixa correr trinta dias por um m&ecirc;s.<br \/>\n    Enfim, meu filho, h&aacute; muito tempo de conversar: sossega esse cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e vai descansar, enquanto eu vou preparar-te uma boa ceia.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; escusado, minha m&atilde;e; n&atilde;o tenho fome nenhuma,<br \/>\n    a boca amarga-me como fel, e a minha cabe&ccedil;a &eacute; uma brasa.<\/p>\n<p> &#8211; Quem sabe, tens algum ramo de febre.<\/p>\n<p> &#8211; Qual febre! a minha febre &eacute; a raiva, &eacute; o desespero.<\/p>\n<p> &#8211; Ora por quem &eacute;s, esquece-te disso e vai descansar.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o estou cansado, minha m&atilde;e; vou passear para distrair-me<br \/>\n    um pouco.<\/p>\n<p> &#8211; Passear! n&atilde;o caias em tal. Olha, n&atilde;o v&aacute;s fazer<br \/>\n    por a&iacute; alguma loucura, Eduardo.<\/p>\n<p> &#8211; Protesto que nada farei, minha m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quero que saias; mandarei avisar os teus amigos de tua<br \/>\n    chegada; com eles te distrair&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, minha m&atilde;e, o passeio me convinha mais; para que incomodar<br \/>\n    os amigos?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o, Eduardo; n&atilde;o sair&aacute;s; se &eacute;s<br \/>\n    meu filho, h&aacute;s de me obedecer.<\/p>\n<p> A velha retirou-se, e Eduardo, que nunca nem mesmo nas mais insignificantes<br \/>\n    coisas desobedecera a sua m&atilde;e, deixou-se ficar em casa.<\/p>\n<h2><a name=\"8\">Cap&iacute;tulo 8 &#8211; Lucinda e Paulina<\/a><\/h2>\n<p>O leitor por certo pensar&aacute;, que vai ter lugar um terr&iacute;vel duelo;<br \/>\n    que Eduardo ardendo em c&oacute;lera e ci&uacute;mes desatende &agrave;s ordens<br \/>\n    de sua m&atilde;e, espera que esta esteja adormecida, salta pela janela, e<br \/>\n    com uma pistola na m&atilde;o e um punhal no seio introduz-se misteriosamente<br \/>\n    na sala, onde se festejam as bodas da formosa Lucinda, como o cavalheiro negro<br \/>\n    da Noite do Castelo, e a&iacute; prega uma bala na cabe&ccedil;a do feliz<br \/>\n    rival, ou pelo menos o esbofeteia em pleno baile, arranca da cabe&ccedil;a<br \/>\n    da noiva a grinalda nupcial e a calca aos p&eacute;s rugindo. Depois de ter<br \/>\n    feito tudo isto, sem que os assistentes, im&oacute;veis de assombro, ousassem<br \/>\n    opor-lhe o menor embara&ccedil;o, desaparece, esvai-se como um fantasma. Isto<br \/>\n    seria por certo mais dram&aacute;tico, e talvez mesmo sublime. Mas eu conto<br \/>\n    uma hist&oacute;ria, e n&atilde;o invento um conto; quero portanto narrar<br \/>\n    os fatos com aquela fidelidade, que permite-me a minha mem&oacute;ria, tais<br \/>\n    quais mos contaram h&aacute; bastantes anos.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade que o nosso her&oacute;i era valente e cora&ccedil;udo,<br \/>\n    tinha muito pundonor e era dotado de nobres e altivos sentimentos; mas o certo<br \/>\n    &eacute; que s&oacute; nos primeiros dias pensou em vingan&ccedil;a. As palavras<br \/>\n    de sua m&atilde;e tinham deixado profunda impress&atilde;o em seu esp&iacute;rito,<br \/>\n    e talvez tamb&eacute;m que algum sentimento &iacute;ntimo ainda muito em g&eacute;rmen<br \/>\n    e adormecido nas dobras do cora&ccedil;&atilde;o, contribu&iacute;sse para<br \/>\n    acalmar o seu justo ressentimento.<\/p>\n<p> Doeu-lhe cruelmente a desfeita de que fora v&iacute;tima, e n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    por muitos dias disfar&ccedil;ar o despeito e rancor, de que se achava possu&iacute;do.<br \/>\n    Mas uma imagem sedutora come&ccedil;ava a aparecer a mi&uacute;do em seu esp&iacute;rito,<br \/>\n    e com seu aspecto ang&eacute;lico e sereno dissipava-lhe os negrumes e tormentos<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o. Era como uma fada branca e vaporosa, que vinha varrendo<br \/>\n    a bruma espessa dos horizontes, e fazia coar uma r&eacute;stia de luz meiga<br \/>\n    no fundo daquela alma ulcerada. Era a imagem suave e melanc&oacute;lica de<br \/>\n    Paulina, que surgia por detr&aacute;s da sombra de Lucinda, que se esvaecia;<br \/>\n    era o tipo nobre e delicado da filha do fazendeiro, que apagava na tela da<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o as formas voluptuosas da r&oacute;sea e faceira paulista.<\/p>\n<p> Paulina, ainda que Eduardo disso n&atilde;o tivesse consci&ecirc;ncia, tinha-lhe<br \/>\n    ficado para sempre gravada no cora&ccedil;&atilde;o em profundos e indel&eacute;veis<br \/>\n    caracteres. N&atilde;o havia nele ainda uma paix&atilde;o, porque havia um<br \/>\n    obst&aacute;culo, outra paix&atilde;o; o cora&ccedil;&atilde;o humano n&atilde;o<br \/>\n    pode conter a um tempo duas paix&otilde;es; na tela, onde existe um retrato,<br \/>\n    n&atilde;o se pode estampar outro sem apagar o primeiro.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia ainda paix&atilde;o, mas existia o g&eacute;rmen dela,<br \/>\n    g&eacute;rmen que s&oacute; esperava a ocasi&atilde;o e o terreno livre para<br \/>\n    desenvolver-se com todo o vi&ccedil;o e energia. Assim acontece por vezes,<br \/>\n    que debaixo do ch&atilde;o ocupado por uma planta robusta existe oculta a<br \/>\n    semente de outra planta. Se o ardor do sol ou a geada cresta, e faz definhar<br \/>\n    a primeira, esta cresce e rebenta com tal vi&ccedil;o e for&ccedil;a, que<br \/>\n    sufoca e mata a primeira, e toma como conta do terreno.<\/p>\n<p> Eduardo confrontara no esp&iacute;rito as gra&ccedil;as t&atilde;o naturais,<br \/>\n    o porte modesto, e o sorriso t&atilde;o meigo de Paulina com os ademanes faceiros<br \/>\n    e pretensiosos e a garridice de Lucinda, a c&acirc;ndida inoc&ecirc;ncia de<br \/>\n    uma com a maliciosa vivacidade de outra, e compreendia que, se tivesse tido<br \/>\n    a dita de t&ecirc;-las visto ambas a um tempo com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    livre e esp&iacute;rito desprevenido, nem um momento teria hesitado na escolha.<br \/>\n    Lucinda com seu gentil donaire um pouco desenvolto, seu rosto sempre corado<br \/>\n    e risonho, com o voluptuoso meneio das esbeltas e bem torneadas formas fascinava<br \/>\n    os olhos, abrasava a imagina&ccedil;&atilde;o, e era capaz de fazer arder<br \/>\n    em febre de sensualismo o mais est&oacute;ico e frio temperamento. Paulina<br \/>\n    com a suave e ang&eacute;lica figura inspirava respeito, amor e adora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    insinuava-se no cora&ccedil;&atilde;o como um meigo raio da lua no seio de<br \/>\n    um lago dormente, e a&iacute; ficava para sempre estampada.<\/p>\n<p> As qualidades de Lucinda, Eduardo as pesava e exagerava no esp&iacute;rito<br \/>\n    a ponto de convert&ecirc;-las em abomin&aacute;veis defeitos, enquanto Paulina<br \/>\n    lhe aparecia rodeada de uma aur&eacute;ola cada vez mais prestigiosa de candura<br \/>\n    e beleza. Seu pensamento volvia-se de cont&iacute;nuo com a mais viva saudade<br \/>\n    para a fazenda de Joaquim Ribeiro, recordava tra&ccedil;o por tra&ccedil;o<br \/>\n    as fei&ccedil;&otilde;es de Paulina, seus gestos, suas palavras, e admirava-se<br \/>\n    de ver como tudo lhe ficara t&atilde;o intimamente gravado na mem&oacute;ria;<br \/>\n    eram como caracteres apagados, que um reativo faz subitamente reaparecer vivos<br \/>\n    e distintos.<\/p>\n<p> Lucinda era duplamente culpada para com Eduardo. Com sua deslealdade lhe<br \/>\n    havia trancado por dois lados os caminhos da felicidade e do amor. Mas n&atilde;o<br \/>\n    era a perda de Lucinda, que ele agora lastimava; antes o amor, que lhe havia<br \/>\n    consagrado, se ia convertendo em desprezo e avers&atilde;o; era sim a perda<br \/>\n    de um tesouro, que a seus olhos valia mil vezes mais do que ela, de uma formosa<br \/>\n    e ador&aacute;vel criatura, que o amava sincera e ardentemente, e a cujo amor<br \/>\n    por causa de Lucinda havia renunciado para sempre. Maldita a hora em que preferira<br \/>\n    o fatal juramento, que fizera ao primo de Paulina! maldito o estouvado e bronco<br \/>\n    pretendente, que veio estorvar-lhe o caminho da felicidade, que o c&eacute;u<br \/>\n    como que de prop&oacute;sito tinha preparado diante de seus passos todo alastrado<br \/>\n    das rosas da esperan&ccedil;a e do amor! mais maldita ainda a estulta const&acirc;ncia<br \/>\n    e lealdade que guardara para com uma loureira caprichosa, que t&atilde;o levianamente<br \/>\n    o esquecera! Um anjo como que lhe ca&iacute;ra dos c&eacute;us, e se lhe entregava<br \/>\n    nos bra&ccedil;os, e ele o repelira de seu seio por amor de uma mulher vulgar,<br \/>\n    de uma filha da terra sem f&eacute; e sem pudor! Estas reflex&otilde;es noite<br \/>\n    e dia amarguravam a alma de Eduardo, e quanto mais crescia a admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o amor, que concebera por Paulina, mais pungente era a ang&uacute;stia,<br \/>\n    que lhe ralava o cora&ccedil;&atilde;o. O mal era sem rem&eacute;dio; Eduardo,<br \/>\n    al&eacute;m de ser naturalmente dotado de instintos de lealdade e honradez<br \/>\n    a toda a prova, era paulista, firme e tenaz em seu prop&oacute;sito, incapaz<br \/>\n    de faltar &agrave; sua palavra e levando at&eacute; ao fanatismo a religi&atilde;o<br \/>\n    do juramento. Ora, Eduardo tinha dado a sua palavra de honra a Roberto, tinha-lhe<br \/>\n    mesmo jurado pelas cinzas de seu pai, que nunca serviria de estorvo ao seu<br \/>\n    enlace com Paulina.<\/p>\n<p> Esta cruel situa&ccedil;&atilde;o o acabrunhava, e por mais esfor&ccedil;os<br \/>\n    que fizesse, n&atilde;o podia dissimular sua tristeza e abatimento aos olhos<br \/>\n    dos que com ele tratavam, e como a ningu&eacute;m comunicara ainda a causa<br \/>\n    de seus desgostos, mais o afligia ainda o pensar que todos haviam de atribu&iacute;-los<br \/>\n    ao pesar de se ver tra&iacute;do por Lucinda.<\/p>\n<p> Sua estada na Franca tornara-se-lhe insuport&aacute;vel; seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o chamava para a Uberaba e para a fazenda de Joaquim Ribeiro; mas que iria<br \/>\n    ele l&aacute; fazer, sen&atilde;o avivar suas m&aacute;goas vendo de perto<br \/>\n    um para&iacute;so, donde um ente insignificante, um est&oacute;lido trambolho,<br \/>\n    ou antes sua tola confian&ccedil;a em uma mulher o tinha expelido para sempre.<br \/>\n    E quem sabe se o amor que havia inspirado a Paulina duraria ainda, e se ela<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o estaria para sempre unida ao lorpa do primo? Mas tamb&eacute;m,<br \/>\n    pensava Eduardo, bem poderia acontecer que Paulina, a qual segundo tinha observado<br \/>\n    nenhuma inclina&ccedil;&atilde;o sentia por seu primo,se recusasse obstinadamente<br \/>\n    a dar-lhe a m&atilde;o de esposa, e que nesse caso Roberto desenganado e sem<br \/>\n    esperan&ccedil;a, apesar da sua sandice n&atilde;o pusesse d&uacute;vida em<br \/>\n    desobrig&aacute;-lo de um juramento, que em nada lhe poderia aproveitar.<\/p>\n<p> Assim passou Eduardo mais de um m&ecirc;s com o esp&iacute;rito agitado<br \/>\n    ao embate de encontrados pensamentos, pondo a imagina&ccedil;&atilde;o em<br \/>\n    torturas em busca de um meio, que o arrancasse daquele estado de irresolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e tristeza que o acabrunhava. Sua m&atilde;e, que na maior inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    assim o via cada vez mais preocupado e abatido, procurava em v&atilde;o consol&aacute;-lo<br \/>\n    e distra&iacute;-lo: mas ela tamb&eacute;m como os demais ignorava ainda a<br \/>\n    verdadeira causa da cont&iacute;nua preocupa&ccedil;&atilde;o e tristeza de<br \/>\n    seu filho.<\/p>\n<p> &#8211; Arre tamb&eacute;m com isso, Eduardo! &#8211; disse-lhe ela um dia<br \/>\n    em tom de branda repreens&atilde;o; &#8211; n&atilde;o mostrar&aacute;s um<br \/>\n    dia que &eacute;s homem? j&aacute; vou perdendo a f&eacute; contigo&#8230; Teus<br \/>\n    irm&atilde;os est&atilde;o casados uns e outros espalhados por esse mundo;<br \/>\n    restavas perto de mim somente tu para consolo e amparo de minha velhice; mas<br \/>\n    infelizmente vejo que tamb&eacute;m n&atilde;o posso contar contigo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! minha m&atilde;e, n&atilde;o fale assim; por que motivo?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Porque pensei que eras gente, que tinhas coragem e ju&iacute;zo.<br \/>\n    Agora vejo que n&atilde;o passas de um maluco e um moleir&atilde;o; que n&atilde;o<br \/>\n    tens timbre, nem disposi&ccedil;&atilde;o para nada. A Lucinda anda por a&iacute;<br \/>\n    cada vez mais tr&ecirc;fega e garrida, rindo, pulando e saracoteando como<br \/>\n    nunca, e tu meu fracalh&atilde;o, andas a&iacute; todo embezerrado e amuado<br \/>\n    como crian&ccedil;a que apanhou bolos, sem ter &acirc;nimo de varrer da mem&oacute;ria<br \/>\n    aquela sirigaita!&#8230; ah! meu filho, meu filho, assim tu me desesperas! &#8211;<br \/>\n    Ah! minha m&atilde;e, como vosmec&ecirc; se engana! eu fa&ccedil;o tanto caso<br \/>\n    hoje de Lucinda como da primeira besta que comprei em Sorocaba, que j&aacute;<br \/>\n    nem sei de que cor era.<\/p>\n<p> &#8211; Deveras!&#8230; ent&atilde;o que motivo tens mais para andar assim triste<br \/>\n    e sorumb&aacute;tico? &#8211; Minha m&atilde;e n&atilde;o se lembra que no<br \/>\n    fatal dia em que aqui cheguei, procurando dar-me conselhos e consola&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    entre outras coisas me disse: &#8211; n&atilde;o te d&ecirc;s por achado,<br \/>\n    finge mesmo que morres de amores pela linda uberabense? &#8211; Oh! se me<br \/>\n    lembro!&#8230; como se fosse hoje, e &eacute; isso o que deverias ter feito logo.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, minha m&atilde;e; n&atilde;o &eacute; preciso fingir;<br \/>\n    eu morro mesmo de amores por ela.<\/p>\n<p> &#8211; Deveras!.. t&atilde;o depressa! t&atilde;o longe dela!&#8230; como pode<br \/>\n    ser isso, meu filho? &#8211; Tamb&eacute;m n&atilde;o sei lhe dizer, minha<br \/>\n    m&atilde;e. Quer-me parecer, que j&aacute; a amava desde l&aacute; sem o saber.<br \/>\n    Apagou-se de meu cora&ccedil;&atilde;o o retrato de Lucinda, e por baixo dele<br \/>\n    achei gravado o de Paulina.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; extraordin&aacute;rio; mas nem por isso posso compreender<br \/>\n    o motivo por que andas triste. Queres bem a essa mo&ccedil;a e ela na obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que est&aacute; para contigo, &eacute; imposs&iacute;vel que te desdenhe,<br \/>\n    e o pai muito menos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me desdenha n&atilde;o, minha m&atilde;e; disso estou<br \/>\n    certo, e at&eacute; creio que me quer muito bem.<\/p>\n<p> &#8211; Pois ent&atilde;o?&#8230; ela &eacute; rica, bonita e de boa fam&iacute;lia;<br \/>\n    tu tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute;s nenhum p&eacute;-rapado; vai l&aacute;,<br \/>\n    pede-a em casamento, que estou certa que n&atilde;o ta negar&atilde;o; casa-te<br \/>\n    com ela e est&aacute; tudo acabado. Parece at&eacute; que a miseric&oacute;rdia<br \/>\n    de Deus estava armando as coisas deste jeito, para que nunca fosses marido<br \/>\n    daquela boneca de fogo &#8211; Deus me perdoe, &#8211; e tivesses uma mulher<br \/>\n    como mereces.<\/p>\n<p> &#8211; Prouvera a Deus, que assim fosse! mas, ai de mim! n&atilde;o pode,<br \/>\n    n&atilde;o pode ser assim.<\/p>\n<p> &#8211; Por que n&atilde;o, meu filho? quem te estorva?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; S&atilde;o contos largos, minha m&atilde;e! &#8211; Pois venham<br \/>\n    esses contos largos; tens porventura segredos para mim?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nenhum por certo, e pe&ccedil;o-lhe perd&atilde;o por n&atilde;o<br \/>\n    lhe ter contado tudo h&aacute; mais tempo.<\/p>\n<p> Eduardo contou ent&atilde;o a sua m&atilde;e fiel e minuciosamente, tudo<br \/>\n    quanto lhe acontecera na fazenda de Joaquim Ribeiro desde a ca&ccedil;ada<br \/>\n    da on&ccedil;a at&eacute; &agrave; sua retirada.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; v&ecirc; portanto minha m&atilde;e; &#8211; concluiu ele,<br \/>\n    &#8211; que n&atilde;o me &eacute; poss&iacute;vel por forma nenhuma pretender<br \/>\n    jamais a m&atilde;o dessa mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Ora valha-me Deus!&#8230; a&iacute; temos outra. Pois menino, n&atilde;o<br \/>\n    se est&aacute; vendo pela pintura que me fizeste desse Roberto, que &eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel que a mo&ccedil;a o queira para marido, e que te prefere<br \/>\n    um milh&atilde;o de vezes? Que te importa esse paspalh&atilde;o do primo?<br \/>\n    n&atilde;o sejas tolo; deixa-te de escr&uacute;pulos; vai l&aacute;, e pede-a<br \/>\n    em casamento, e d&aacute; uma figa a esse Roberto.<\/p>\n<p> &#8211; Eu faltar &agrave; minha palavra, quebrar um juramento!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual juramento! isso foi um juramento louco, que Deus n&atilde;o<br \/>\n    ouviu, nem aceitou.<\/p>\n<p> &#8211; Louco ou n&atilde;o, &eacute; um juramento, minha m&atilde;e; devo<br \/>\n    cumpri-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Ser&aacute;, mas&#8230; meu filho, uma promessa, um juramento o padre<br \/>\n    pode, quando seja preciso, comut&aacute;-lo em penit&ecirc;ncias, jejuns e<br \/>\n    romarias.<\/p>\n<p> &#8211; Quando a viola&ccedil;&atilde;o dele a ningu&eacute;m prejudica,<br \/>\n    pode ser, minha m&atilde;e; mas neste caso?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute;s um louco, Eduardo; &#8211; eu creio que desejo mais do<br \/>\n    que tu mesmo a tua felicidade &#8211; Em nome de teu pai, por cujas cinzas<br \/>\n    juraste, eu te desobrigo desse juramento.<\/p>\n<p> &#8211; Pelo amor de Deus, minha m&atilde;e, n&atilde;o me obrigue a lhe<br \/>\n    desobedecer pela primeira vez em minha vida.<\/p>\n<p> &#8211; Valha-te Deus, filho!&#8230; pois bem? j&aacute; que assim te emperras<br \/>\n    no teu juramento, faze o que entenderes. Mas tudo isto &eacute; culpa tua,<br \/>\n    por n&atilde;o teres me dado ouvidos; n&atilde;o te enfades, se te falo assim.<br \/>\n    Se me ouvisses e n&atilde;o ficasses embasbacado diante daquela enfatuada<br \/>\n    Lucinda, n&atilde;o andarias agora enredado em tantos desgostos. O teu exemplo<br \/>\n    deve servir de li&ccedil;&atilde;o mestra para os rapazolas, que entendem<br \/>\n    que a primeira mocetona bonita que lhes enche os olhos, deve ser por for&ccedil;a<br \/>\n    sua mulher.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, minha m&atilde;e, quem n&atilde;o cai nessas?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Isso &eacute; verdade; s&atilde;o todos assim, e &eacute; malhar<br \/>\n    em ferro frio. Mas agora se queres um conselho, vai-te embora, meu filho.<br \/>\n    &Eacute; tempo de feira; pega no dinheiro que tens, e se n&atilde;o tens eu<br \/>\n    te darei, e vai para Sorocaba. Vai negociar, vai girar, vai correr mundo para<br \/>\n    te distrair. Vai divertir-te, demora-te por l&aacute; o tempo que quiseres,<br \/>\n    e volta, n&atilde;o macamb&uacute;zio e triste como agora, mas alegre, fresco<br \/>\n    e bem-disposto, como foi antigamente o meu Eduardo.<\/p>\n<p> &#8211; Isso pretendo eu fazer, minha m&atilde;e, e desde j&aacute; vou<br \/>\n    dispor os preparativos da viagem.<\/p>\n<h2><a name=\"9\">Cap&iacute;tulo 9 &#8211; O noivo<\/a><\/h2>\n<p>Uma paix&atilde;o infeliz alimentada na solid&atilde;o, na mon&oacute;tona<br \/>\n    serenidade de um lar dom&eacute;stico quase vazio, quando ap&oacute;s um passado<br \/>\n    de inoc&ecirc;ncia, remanso e alegria nos embebemos em um futuro onde s&oacute;<br \/>\n    vemos l&aacute;grimas e dores, quando a desesperan&ccedil;a com sopro de fogo<br \/>\n    vem secar uma l&aacute;grima consoladora, que a saudade talvez quisesse fazer<br \/>\n    brotar nas p&aacute;lpebras l&iacute;vidas, essa paix&atilde;o &eacute; um<br \/>\n    cancro que r&oacute;i as fibras do cora&ccedil;&atilde;o, um sopro de morte,<br \/>\n    que desseca e estanca a seiva da exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Tal era o viver da m&iacute;sera Paulina, depois que vira transpor as &uacute;ltimas<br \/>\n    colinas o vulto de Eduardo, e com ele todas as suas esperan&ccedil;as. Uma<br \/>\n    tristeza profunda, indiz&iacute;vel, lhe envolvia a alma como um crepe negro.<br \/>\n    Todos os encantos da solid&atilde;o que habitava, aqueles largos e luminosos<br \/>\n    horizontes e aquelas pitorescas campinas, que a rodeavam de risonhas perspectivas,<br \/>\n    aquelas tardes mornas e voluptuosas, t&atilde;o prenhes de perfumes e can&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tudo isso tinha-se extinguido para aquela alma, que recolhida em si mesma<br \/>\n    s&oacute; via o horizonte turvo e fun&eacute;reo de suas agonias. Erra, quem<br \/>\n    pensa que o espet&aacute;culo da natureza na solid&atilde;o, que a mudez e<br \/>\n    remanso dos ermos pode adormecer as dores fundas do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    consolar os grandes infort&uacute;nios; a solid&atilde;o tem para o desgra&ccedil;ado<br \/>\n    o olhar impass&iacute;vel de uma companheira, que nos sorri e nos afaga na<br \/>\n    adversidade com o mesmo sorriso, com que nos afagou em horas de ventura e<br \/>\n    de alegria.<\/p>\n<p> Os sofrimentos da alma se faziam sentir de um modo assustador na organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    f&iacute;sica de Paulina. O verme pe&ccedil;onhento tinha pousado no &acirc;mago<br \/>\n    da tenra e mimosa flor do deserto e, devorando-lhe a seiva da vida,deixava<br \/>\n    nele o g&eacute;rmen da morte. J&aacute; ningu&eacute;m a via como outrora<br \/>\n    esbelta e &aacute;gil como a ema percorrer as campinas em busca de flores<br \/>\n    e frutas, nem ir sentar-se corada e risonha &agrave; sombra do laranjal, ou<br \/>\n    na relva da fonte a coser e a cantar entre as escravas. Quando sa&iacute;a<br \/>\n    do seu quarto, onde passava os dias a coser ou a ler maquinalmente, viam-na<br \/>\n    p&aacute;lida e vacilante arrastar-se a passos lentos ao longo dos corredores,<br \/>\n    descer ao curral, procurar a sombra da gameleira, sentar-se sobre a mesa do<br \/>\n    mesmo carro onde ouvira da boca de Eduardo a fatal revela&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que a tornara infeliz para sempre, e ali com as m&atilde;os agarradas a um<br \/>\n    dos fueiros e a face encostada a elas, os olhos fixos ao longe pela estrada<br \/>\n    que se perdia serpeando pelas colinas, ficar horas e horas entregue a um torpor<br \/>\n    melanc&oacute;lico, que a tornava como est&aacute;tua.<\/p>\n<p> O pai notava com a mais viva inquieta&ccedil;&atilde;o e ansiedade o r&aacute;pido<br \/>\n    definhar de sua filha, e desesperava-se vendo que todos os cuidados e desvelos,<br \/>\n    todos os meios de que lan&ccedil;ava m&atilde;o, n&atilde;o conseguiam atalhar<br \/>\n    os progressos do mal, que amea&ccedil;ava roubar-lhe sua &uacute;nica e querida<br \/>\n    filha.<\/p>\n<p> &#8211; Que tens, Paulina, que cada vez te vejo mais p&aacute;lida e abatida,<br \/>\n    dizia-lhe o pai j&aacute; talvez pela cent&eacute;sima vez. Tu sofres alguma<br \/>\n    coisa que n&atilde;o me queres dizer. &Eacute; preciso que te distraias, que<br \/>\n    recobres as tuas cores, a tua antiga alegria, que voltes ao que dantes eras,<br \/>\n    se n&atilde;o queres que eu morra de desgosto.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu pai, eu mesmo n&atilde;o sei o que sofro; n&atilde;o tenho<br \/>\n    indisposi&ccedil;&atilde;o, nem dor alguma; entretanto acho-me mal. O que<br \/>\n    sei dizer &eacute; que desde o dia em que estive a ponto de cair nas garras<br \/>\n    daquela on&ccedil;a, j&aacute; n&atilde;o sou a mesma, e creio que nunca mais<br \/>\n    o serei. De que serviu aquele mo&ccedil;o ter-me livrado das garras do animal,<br \/>\n    o choque que senti, arruinou-me a sa&uacute;de.<\/p>\n<p> &#8211; Assim devia ser, minha filha; compreendo muito bem, que &agrave;<br \/>\n    vista daquele animal feroz, aqueles gritos e alaridos&#8230; aquele mo&ccedil;o<br \/>\n    aparecendo de improviso como ca&iacute;do do c&eacute;u para salvar-te, e<br \/>\n    depois lavado em sangue e quase morto&#8230; tudo isso n&atilde;o podia deixar<br \/>\n    de causar um grande abalo nos nervos e alterar a sa&uacute;de de uma fraca<br \/>\n    crian&ccedil;a, como tu &eacute;s. Mas tudo isso j&aacute; se passou h&aacute;<br \/>\n    tanto tempo&#8230; j&aacute; l&aacute; vai quase um ano; e em vez de melhorar,<br \/>\n    te vejo sempre a pior, a pior&#8230; oh!&#8230; minha filha!&#8230; querer&aacute;s me<br \/>\n    deixar sozinho neste mundo?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Oh? meu pai! n&atilde;o pense nisso. Deus &eacute; grande; isto<br \/>\n    h&aacute; de passar, creia-me; s&atilde;o ainda efeitos do abalo que senti.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; de passar, h&aacute; de passar, sempre est&aacute;s a<br \/>\n    falar assim e cada vez est&aacute;s a pior. Olha, minha filha, talvez te seja<br \/>\n    &uacute;til mudar de ares, ver novas terras, distrair-te por esse mundo. J&aacute;<br \/>\n    te tenho dito muitas vezes, o mal que te consome n&atilde;o &eacute; mais<br \/>\n    que pura nervosia; o que te conv&eacute;m &eacute; distra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e n&atilde;o &eacute; no deserto desta fazenda que te h&aacute;s de distrair.<br \/>\n    Vamo-nos embora; venderei fazenda, escravos, gado, tudo e iremos para Vila<br \/>\n    Rica, para S. Paulo, para o Rio de Janeiro, para onde quiseres&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para qu&ecirc;, meu pai? o mal n&atilde;o est&aacute; nesta terra,<br \/>\n    nem nestes ares, nem em nada do que me cerca; o mal est&aacute; dentro de<br \/>\n    mim mesma, e me acompanhar&aacute; por toda parte. Sossegue, meu pai; se Deus<br \/>\n    for servido, aqui mesmo melhorarei e ficarei boa.<\/p>\n<p> &#8211; Deus assim o permita, minha filha! mas por quem &eacute;s, n&atilde;o<br \/>\n    v&aacute;s encerrar-te no quarto, nem l&aacute; ficar estatelada embaixo da<br \/>\n    gameleira, como costumas; n&atilde;o fazes id&eacute;ia de quanto isso me<br \/>\n    aflige. Vai antes passear pelo quintal, tratar das tuas flores, dos teus passarinhos&#8230;<br \/>\n    sen&atilde;o fico pensando, que queres morrer mesmo, e me deixar sozinho neste<br \/>\n    mundo.<\/p>\n<p> Joaquim Ribeiro j&aacute; tinha suspeitado ou antes estava certo da causa<br \/>\n    dos sofrimentos de sua filha. Era para ele fora de d&uacute;vida que n&atilde;o<br \/>\n    era sen&atilde;o o mo&ccedil;o que a tinha salvado da on&ccedil;a, que inspirando-lhe<br \/>\n    uma paix&atilde;o cega e fatal, tendo-a livrado de uma morte desastrosa, a<br \/>\n    ia levando a outra morte mais lenta e talvez mais cruel. Sabia tamb&eacute;m<br \/>\n    que Eduardo estava ajustado para casar-se e talvez j&aacute; estivesse casado<br \/>\n    com uma rica e formosa mo&ccedil;a de seu pa&iacute;s, e portanto por esse<br \/>\n    lado imposs&iacute;vel lhe era tentar o mais poderoso sen&atilde;o o &uacute;nico<br \/>\n    rem&eacute;dio para o mal de sua filha. Todavia respeitando o melindre de<br \/>\n    Paulina, nunca ousou interrog&aacute;-la diretamente sobre tal assunto, porque<br \/>\n    entendia talvez com raz&atilde;o, que tocar em uma ferida, para a qual n&atilde;o<br \/>\n    podia dar rem&eacute;dio algum, s&oacute; serviria para agrav&aacute;-la.<br \/>\n    Propunha passeios e distra&ccedil;&otilde;es a sua filha, mas ela quase sempre<br \/>\n    se recusava, e quando por condescender com seu pai os aceitava, voltava ainda<br \/>\n    mais triste e abatida que nunca.<\/p>\n<p> Depois de envidar sem resultado algum todos os expedientes e recursos de<br \/>\n    que podia lan&ccedil;ar m&atilde;o, o velho depois de muito pensar e dar tratos<br \/>\n    &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o, capacitou-se de que o &uacute;nico meio<br \/>\n    que lhe restava a tentar para arrancar sua filha daquele estado de melancolia<br \/>\n    e prostra&ccedil;&atilde;o, que a ia arrastando ao t&uacute;mulo, era o casamento.<\/p>\n<p> A mudan&ccedil;a de estado, a companhia e intimidade de um bom marido, o<br \/>\n    desempenho dos deveres dom&eacute;sticos, talvez produzissem no esp&iacute;rito<br \/>\n    da mo&ccedil;a uma revolu&ccedil;&atilde;o salutar, e a restituisem &agrave;<br \/>\n    vida e &agrave; alegria. A dificuldade estava na execu&ccedil;&atilde;o desse<br \/>\n    pensamento. Se a causa de seus sofrimentos era, como pensava, a violenta paix&atilde;o<br \/>\n    que havia concebido por Eduardo, bem dif&iacute;cil seria induzi-la a aceitar<br \/>\n    um marido, fosse ele quem fosse.<\/p>\n<p> Todavia Joaquim Ribeiro n&atilde;o recuou diante de tal dificuldade, e deliberou<br \/>\n    envidar os &uacute;ltimos esfor&ccedil;os para levar a efeito seu pensamento.<br \/>\n    N&atilde;o tinha necessidade de procurar um noivo para sua filha; desde a<br \/>\n    inf&acirc;ncia de Paulina e Roberto havia como que um compromisso t&aacute;cito<br \/>\n    entre ele e os pais de Roberto, seus parentes e vizinhos, um projeto de fam&iacute;lia<br \/>\n    para cas&aacute;-los, caso n&atilde;o aparecesse algum ulterior obst&aacute;culo;<br \/>\n    n&atilde;o tinha mais, pois, do que abreviar um neg&oacute;cio, que j&aacute;<br \/>\n    estava meio conchavado. Roberto, apesar de sua simplicidade e rudeza era bom<br \/>\n    mo&ccedil;o, bem apessoado, e tinha um excelente cora&ccedil;&atilde;o; aquelas<br \/>\n    maneiras broncas e asselvajadas eram efeito da educa&ccedil;&atilde;o, e facilmente<br \/>\n    as iria perdendo com o traquejo do mundo. Este casamento ele o proporia tamb&eacute;m<br \/>\n    a Paulina como um ponto de honra, como um compromisso, a que nem ele nem ela<br \/>\n    poderiam faltar sem quebra de sua lealdade.<\/p>\n<p> Logo no dia seguinte ao em que concebeu aquele projeto, Joaquim Ribeiro<br \/>\n    procurou sua filha para lhe comunicar sua resolu&ccedil;&atilde;o, disposto<br \/>\n    a empregar todos os meios, at&eacute; mesmo a autoridade paterna para induzi-la<br \/>\n    a dar esse passo. N&atilde;o foi preciso tanto; Paulina relutou muito, por&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o tanto quanto ele receava.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, minha filha; &#8211; disse-lhe o pai depois de muita insist&ecirc;ncia<br \/>\n    de parte a parte; &#8211; propunha-te esse casamento porque acredito que &eacute;<br \/>\n    o &uacute;nico meio de salvar-te; mas j&aacute; que queres morrer e arrastar-me<br \/>\n    contigo &agrave; sepultura, fa&ccedil;a-se a tua vontade.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, meu pai, &#8211; exclamou a mo&ccedil;a tomando a m&atilde;o<br \/>\n    de seu pai, beijando-a com ternura e banhando-a em l&aacute;grimas; &#8211;<br \/>\n    j&aacute; que meu pai assim o quer, e assim acha conveniente, farei o que<br \/>\n    meu pai determina, visto que esse casamento,&#8211; murmurou ela em voz mais<br \/>\n    baixa e como a medo, se n&atilde;o pode me fazer feliz, tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    me tornar&aacute; mais desgra&ccedil;ada do que sou Paulina, que j&aacute;<br \/>\n    tinha renunciado a toda a esperan&ccedil;a de felicidade no mundo, n&atilde;o<br \/>\n    quis e nem p&ocirc;de recusar-se ao sacrif&iacute;cio que dela exigia seu<br \/>\n    pai quase com as l&aacute;grimas nos olhos. Se n&atilde;o tinha amor a seu<br \/>\n    primo, tamb&eacute;m n&atilde;o lhe tinha avers&atilde;o. Casada ou n&atilde;o,<br \/>\n    teria de sofrer sempre at&eacute; morrer. Resignou-se portanto e curvou-se<br \/>\n    &agrave; vontade de seu pai, porque assim tinha ao menos o prazer, embora<br \/>\n    fosse por pouco tempo, de alent&aacute;-lo com a esperan&ccedil;a de um futuro<br \/>\n    no qual ela mesma pouca ou nenhuma confian&ccedil;a tinha.<\/p>\n<p> Nesse mesmo dia Joaquim Ribeiro despachou um pr&oacute;prio com um bilhete<br \/>\n    a Roberto, pedindo-lhe que o mais breve que fosse poss&iacute;vel chegasse<br \/>\n    a sua casa. Escusado &eacute; dizer, que no outro dia &agrave; hora de almo&ccedil;o<br \/>\n    Roberto apeava-se ofegante e ansioso de curiosidade &agrave; porta da casa<br \/>\n    de seu tio, e largando &agrave; porta o animal batendo virilha e pingando<br \/>\n    suor, de dois pinotes galgou a escada da varanda; e se n&atilde;o chegou mais<br \/>\n    cedo, &eacute; porque n&atilde;o tinha asas.<\/p>\n<p> Cumpre-nos aqui dizer que Roberto, depois da partida de Eduardo, n&atilde;o<br \/>\n    tinha perdido nem um ceitil da paix&atilde;o que tinha por sua prima, e n&atilde;o<br \/>\n    deixava de fazer reiteradas visitas &agrave; fazenda de seu tio, e ora em<br \/>\n    ca&ccedil;adas, ora campeando uma r&ecirc;s perdida, ora por qualquer outro<br \/>\n    pretexto, que sabia inventar, l&aacute; ia quase sempre esbarrar e pernoitar.<br \/>\n    Vendo-a triste e indisposta perguntava-lhe o que tinha. Ela sempre meiga e<br \/>\n    af&aacute;vel respondia-lhe, ora que era uma indisposi&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    est&ocirc;mago, ora uma constipa&ccedil;&atilde;o, e o simples do rapaz acreditando<br \/>\n    piamente estava longe de suspeitar, que tudo aquilo n&atilde;o era menos do<br \/>\n    que o efeito de uma paix&atilde;o profunda, da qual ele n&atilde;o era o objeto,<br \/>\n    e l&aacute; de si para si julgava, que a mol&eacute;stia de Paulina n&atilde;o<br \/>\n    era sen&atilde;o vontade de se casar, pois tinha ouvido dizer a muita gente<br \/>\n    que algumas mo&ccedil;as adoecem e morrem por n&atilde;o se casarem a tempo.<br \/>\n    Roberto, al&eacute;m de ser muito mo&ccedil;o, &#8211; pois teria vinte anos<br \/>\n    quando muito, &#8211; n&atilde;o tivera educa&ccedil;&atilde;o alguma; demais,<br \/>\n    vivendo sempre na ro&ccedil;a, n&atilde;o tinha a menor experi&ecirc;ncia<br \/>\n    de mundo, e muito menos desse pequeno mundo t&atilde;o cheio de problemas<br \/>\n    e mist&eacute;rios, que se chama cora&ccedil;&atilde;o humano. Era um simpl&oacute;rio,<br \/>\n    mas tinha um excelente car&aacute;ter, e muita sensibilidade. H&aacute; muito<br \/>\n    tempo desejava falar ao tio no seu casamento com Paulina; mas tinha vergonha<br \/>\n    e acanhamento como uma mo&ccedil;a. Todas as vezes, que ia a casa do tio,<br \/>\n    ia na firme resolu&ccedil;&atilde;o de falar-lhe francamente no neg&oacute;cio,<br \/>\n    mas apenas chegava &agrave; sua presen&ccedil;a, a coragem o abandonava, falava<br \/>\n    muito, contava mil hist&oacute;rias, e por fim nunca dizia ao que ia.<\/p>\n<p> Portanto compreende-se como lhe caiu a sopa no mel, quando Joaquim Ribeiro,<br \/>\n    francamente e sem rodeios, lhe declarou, que o mandara chamar com o &uacute;nico<br \/>\n    fim de comunicar-lhe, que era seu desejo efetuar com a maior brevidade poss&iacute;vel<br \/>\n    o casamento dele com sua filha. O rapaz n&atilde;o cabia na pele de contente,<br \/>\n    e n&atilde;o p&ocirc;de disfar&ccedil;ar aos olhos do tio sua alegria infantil<br \/>\n    e grotesca; estava como embriagado; beijou a m&atilde;o do tio, e derretendo-se<br \/>\n    em protestos de gratid&atilde;o e amizade tais parvo&iacute;ces soltou, representou<br \/>\n    tantas farsas, que faziam sorrir o bom do velho, se n&atilde;o tivesse a alma<br \/>\n    t&atilde;o carregada de graves e sombrios pensamentos.<\/p>\n<p> Paulina n&atilde;o apareceu a seu primo sen&atilde;o muito tarde, &agrave;<br \/>\n    hora do jantar; desculpou-se com suas costumadas enxaquecas e indisposi&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    a coitada estava efetivamente mais p&aacute;lida e desfeita que nunca. O primo<br \/>\n    desta vez j&aacute; mais ousado n&atilde;o cessou de atorment&aacute;-la com<br \/>\n    um chuveiro de obs&eacute;quios e galanteios impertinentes, a que a mo&ccedil;a<br \/>\n    respondia com uma frieza e mesmo com um ar de displic&ecirc;ncia, que em v&atilde;o<br \/>\n    se esfor&ccedil;ava por dissimular. S&oacute; a n&iacute;mia simplicidade<br \/>\n    de Roberto poderia n&atilde;o perceber quanto ela se achava constrangida e<br \/>\n    contrariada. &Eacute; que no cora&ccedil;&atilde;o da infeliz dava-se ent&atilde;o<br \/>\n    uma terr&iacute;vel luta, e come&ccedil;ava a sentir, quanto era pesado o<br \/>\n    sacrif&iacute;cio, a que por condescender com seu pai se havia sujeitado.<\/p>\n<p> &Agrave; tardinha Paulina, a despeito da advert&ecirc;ncia ou do pedido<br \/>\n    de seu pai, foi, como tinha de costume, sentar-se debaixo dos ramos da grande<br \/>\n    gameleira do curral, sobre a mesa do carro. Como para disfar&ccedil;ar o motivo,<br \/>\n    que ali sempre a conduzia, levava um livro, que &agrave;s vezes abria, mas<br \/>\n    nunca lia; a infeliz tinha muito que ler no livro negro de seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Aquele lugar tinha para a alma de Paulina um doloroso encanto; ela o visitava<br \/>\n    como a m&atilde;e, que volta de cont&iacute;nuo ao t&uacute;mulo do filho<br \/>\n    querido que perdeu, ou como a rola, que pousa arrulando gemidos de saudade<br \/>\n    sobre os destro&ccedil;os do ninho, donde o gavi&atilde;o arrancou-lhes os<br \/>\n    tenros filhotes.<\/p>\n<p> Estava-se no m&ecirc;s de agosto; o sabi&aacute; cantava tristemente; abafado<br \/>\n    entre vapores, o sol sem raios pendia vermelho e abraseado sobre os &uacute;ltimos<br \/>\n    espig&otilde;es, cujas formas envoltas em um v&eacute;u fumacento se iam apagando<br \/>\n    ao longe como as sombras de um painel desbotado pelo tempo. Nem uma brisa<br \/>\n    agitava o ambiente perfumado e morno, e melanc&oacute;lico sil&ecirc;ncio<br \/>\n    pousava sobre as solid&otilde;es.<\/p>\n<p> Havia um ano, que naquele mesmo lugar, em uma serena e silenciosa tarde<br \/>\n    como aquela, Paulina tinha ouvido sua senten&ccedil;a de morte dos l&aacute;bios<br \/>\n    daquele mesmo, que pouco antes lhe tinha salvado a vida.<\/p>\n<p> Paulina olhava para o caminho da Uberaba&#8230; dava o &uacute;ltimo adeus &agrave;s<br \/>\n    suas esperan&ccedil;as, e dentro da alma como que lhe sussurrava um hino confuso,<br \/>\n    mais dorido e f&uacute;nebre como o eco, da campa que tomba sobre um cad&aacute;ver.<\/p>\n<p> Quando mais absorvida se achava em seu angustioso cismar, eis que se lhe<br \/>\n    apresenta em frente o rosto rubicundo e folgaz&atilde;o do seu bom primo,<br \/>\n    do seu noivo. Aquela apari&ccedil;&atilde;o inesperada, que vinha quebrar<br \/>\n    de modo t&atilde;o abrupto e cruel o fio de seus dolorosos pensamentos, causou-lhe<br \/>\n    a mais desagrad&aacute;vel impress&atilde;o, o mais horr&iacute;vel choque<br \/>\n    que imaginar-se pode. Mas for&ccedil;oso lhe era dissimular.<\/p>\n<p> &#8211; Prima de meu cora&ccedil;&atilde;o, &#8211; disse-lhe Roberto com<br \/>\n    toda a meiguice de que era capaz, &#8211; o que est&aacute; fazendo aqui t&atilde;o<br \/>\n    sozinha?!&#8230; vamos passear, e n&atilde;o aqui assim triste como uma juriti<br \/>\n    de asa quebrada.<\/p>\n<p> &#8211; Ora primo!&#8230; respondeu ela esfor&ccedil;ando-se por sorrir. &#8211;<br \/>\n    Estou tomando o fresco&#8230; faz tanto calor: e eu estou com tantas dores de<br \/>\n    cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; do est&ocirc;mago, prima? eu n&atilde;o lhe disse que tomasse<br \/>\n    ch&aacute; de losna?&#8230; a mana Josefina tamb&eacute;m costuma ter disso, e<br \/>\n    diz que para isso ch&aacute; de losna &eacute; um porrete&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Hei de tom&aacute;-lo logo ao deitar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pois tome e ver&aacute;&#8230; mas, mudando de conversa&#8230; a prima j&aacute;<br \/>\n    sabe de uma?&#8230; ora tamb&eacute;m a quem vou eu perguntar!&#8230; decerto j&aacute;<br \/>\n    sabe.<\/p>\n<p> &#8211; De qu&ecirc;, primo? &#8211; Ora! inda pergunta!.., pois n&atilde;o<br \/>\n    sabe para que seu pai mandou-me chamar?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu n&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora deixe-se disso;&#8230; pois ele n&atilde;o lhe disse nada?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; A respeito de qu&ecirc;, primo?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ande l&aacute;! a senhora sabe bem; est&aacute; se fazendo desentendida.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! pode ser&#8230; me parece que trata-se&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; De qu&ecirc;, prima? fale&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora! tamb&eacute;m o primo sabe muito bem, e para que hei de ser<br \/>\n    eu a primeira a falar.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o a prima quer&#8230; n&atilde;o quer? &#8211; Casar-me com o primo,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; isso?&#8230; para que havemos de estar com mist&eacute;rios,<br \/>\n    disse Paulina impaciente por terminar aquele incidente, que a mortificava.<\/p>\n<p> &#8211; Isso mesmo, prima&#8230; quer, n&atilde;o quer?<\/p>\n<p>&#8211; Quero, primo, porque meu pai assim o quer, e &eacute; meu dever obedecer-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; S&atilde;o todas assim; &#8211; pensou Roberto l&aacute; com os<br \/>\n    seus bot&otilde;es &#8211; est&atilde;o mortas por se casarem, e sempre de<br \/>\n    boca dura. E sabe, continuou ele em voz alta, que seu pai quer que isso seja<br \/>\n    quanto antes? &#8211; Sei tudo, meu primo.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o apronte-se, minha rica prima, arranje quanto antes<br \/>\n    o seu enxoval&#8230; seu pai quer que o noivado seja aqui na ro&ccedil;a, muito<br \/>\n    &agrave; capucha; mas eu n&atilde;o estou por essa; quero que seja no arraial<br \/>\n    e com muito arrojo; ele que n&atilde;o tenha susto, que eu fa&ccedil;o as<br \/>\n    despesas. Que bonito noivado n&atilde;o h&aacute; de ser&#8230; e que par feliz<br \/>\n    n&atilde;o havemos de ser, hem, minha prima do meu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    meu benzinho da minha alma? Assim falando, Roberto agarrava com amoroso frenesi<br \/>\n    em uma das frias e brancas m&atilde;os de Paulina, enla&ccedil;ou-lhe com<br \/>\n    for&ccedil;a o bra&ccedil;o em torno da cintura, e pespegou-lhe na face um<br \/>\n    sequioso beijo, cujo estalo teria denunciado ao longe seu atrevimento, se<br \/>\n    o curral n&atilde;o estivesse completamente ermo, e retirou-se &agrave; pressa<br \/>\n    como que corrido de sua pr&oacute;pria ousadia, e com medo de alguma reprimenda.<\/p>\n<h2><a name=\"10\">Cap&iacute;tulo 10 &#8211; Regresso extempor&acirc;neo<\/a><\/h2>\n<p>Ao sentir a impress&atilde;o daquele beijo, ao qual seu rosto se teria incendiado<br \/>\n    de vivo rubor, se porventura o recebesse de Eduardo, as faces de Paulina j&aacute;<br \/>\n    habitualmente p&aacute;lidas se cobriram de lividez cadav&eacute;rica. Esse<br \/>\n    beijo, que n&atilde;o era aceito nem santificado pelo amor, viera como sopro<br \/>\n    de ardentes e bravios p&aacute;ramos crestar-lhe para sempre o matiz virginal<br \/>\n    das faces, e estampar-lhe no rosto o selo do infort&uacute;nio eterno, O sangue<br \/>\n    todo refluiu-lhe ao cora&ccedil;&atilde;o, e largo tempo ela ficou na mesma<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o, em que a deixara Roberto, im&oacute;vel e como que<br \/>\n    petrificada.<\/p>\n<p> Saindo enfim daquela esp&eacute;cie de vertigem, levantou-se, e volvendo<br \/>\n    um &uacute;ltimo olhar para a estrada da Uberaba, divisou ao longe um cavaleiro,<br \/>\n    que vinha s&oacute; dirigindo para a fazenda. Pelo que se podia julgar ao<br \/>\n    longe, era pessoa de distin&ccedil;&atilde;o; cavalgava possante e garboso<br \/>\n    animal, e acompanhava-o um camarada tocando um cargueiro com canastras. Paulina,<br \/>\n    que j&aacute; se havia levantado e ia-se recolher, deteve-se alguns minutos<br \/>\n    para reconhecer quem era o viandante. Como vinha marchando com muita rapidez,<br \/>\n    este n&atilde;o levou muito tempo a chegar &agrave; porteira do curral. Quando<br \/>\n    curvou-se sobre o animal para correr a tramela e abrir a porteira, gritando<br \/>\n    &#8211; d&aacute; licen&ccedil;a,&#8211; pela voz e pela figura logo o reconheceu;<br \/>\n    j&aacute; antes seu cora&ccedil;&atilde;o lho estava adivinhando. Era ele!<br \/>\n    era Eduardo! S&oacute; Deus sabe quanto esfor&ccedil;o foi preciso &agrave;<br \/>\n    pobre mo&ccedil;a para manter-se em p&eacute;, e saudar convenientemente o<br \/>\n    cavaleiro, que entrava.<\/p>\n<p>Comprimentou-o, todavia, dominando do melhor modo que p&ocirc;de a sua perturba&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    convidou-o a apear-se e a subir para a varanda, e a muito custo com passos<br \/>\n    tr&ecirc;mulos e vacilantes o foi acompanhando.<\/p>\n<p> As faces de Paulina, onde h&aacute; longo tempo n&atilde;o assomava nem<br \/>\n    o mais leve rubor, se incenderam de repente, e converteram-se em duas rosas<br \/>\n    purp&uacute;reas; o lado principalmente, em que Roberto acabava de imprimir<br \/>\n    seus l&aacute;bios, ardia-lhe como uma brasa viva. Considerava-se quase como<br \/>\n    uma amante infiel, e parecia-lhe que Eduardo estava vendo em sua face o vest&iacute;gio<br \/>\n    do beijo que acabava de receber, e entretanto notava que Eduardo a olhava<br \/>\n    com um olhar bem diferente do de outrora, e lhe lan&ccedil;ava vistas repassadas<br \/>\n    de emo&ccedil;&atilde;o e de ternura. Pobre infeliz! acabava de se precipitar<br \/>\n    no abismo no momento em que a m&atilde;o do destino baixava talvez sobre ela<br \/>\n    para ergu&ecirc;-la ao c&eacute;u do amor e da felicidade.<\/p>\n<p> Como por&eacute;m aparecera Eduardo ali naquela ocasi&atilde;o?&#8230; o que<br \/>\n    vinha ele fazer? &Eacute; o que o leitor vai imediatamente saber.<\/p>\n<p> Eduardo poucos dias depois da &uacute;ltima conversa que tivera com sua<br \/>\n    m&atilde;e, fez seus aprestos de viagem, e partiu para Sorocaba. Esperava<br \/>\n    conseguir com as fadigas, cuidados e distra&ccedil;&otilde;es dessa longa<br \/>\n    jornada sen&atilde;o o completo esquecimento, ao menos uma grande divers&atilde;o<br \/>\n    a seus pesares.<\/p>\n<p> Sorocaba em tempos de feira, assim como &eacute; um foco de atividade e<br \/>\n    com&eacute;rcio, &eacute; tamb&eacute;m mans&atilde;o de prazeres e divertimentos<br \/>\n    de toda a natureza.<\/p>\n<p> A aflu&ecirc;ncia de uma multid&atilde;o de pessoas de todas as classes<br \/>\n    e proced&ecirc;ncias, a anima&ccedil;&atilde;o e movimento, que ali reina,<br \/>\n    as reuni&otilde;es, jogos, bailes, espet&aacute;culos e folguedos de todo<br \/>\n    o g&ecirc;nero s&atilde;o suficientes para atordoar a cabe&ccedil;a de um<br \/>\n    mo&ccedil;o, e faz&ecirc;-lo esquecer, ao menos temporariamente, a fada de<br \/>\n    seus sonhos, por mais enamorado que esteja.<\/p>\n<p> A vida do muladeiro, por outro lado, &eacute; rude e trabalhosa; exige uma<br \/>\n    cont&iacute;nua vigil&acirc;ncia, uma atividade incessante. O muladeiro quase<br \/>\n    que n&atilde;o larga os arrieiros sen&atilde;o para deitar-se e repousar algumas<br \/>\n    horas. Tanger manadas de milhares de mulas bravias atrav&eacute;s de imensos<br \/>\n    e in&oacute;spitos sert&otilde;es por matas, serrad&otilde;es e campinas abertas,<br \/>\n    rode&aacute;-las, repont&aacute;-las e cont&aacute;-las todos os dias de manh&atilde;<br \/>\n    e de tarde, al&eacute;m de outras muitas fadigas e cuidados inerentes a esse<br \/>\n    g&ecirc;nero de vida, &eacute; tarefa para acabrunhar as mais ativas e robustas<br \/>\n    organiza&ccedil;&otilde;es, e pouco ou nenhum tempo pode deixar para pensar<br \/>\n    em amores.<\/p>\n<p> N&atilde;o aconteceu assim a Eduardo, que, no meio da sedu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mil festins e prazeres, e a despeito de todas as fadigas e preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de seu afanoso neg&oacute;cio, nem um s&oacute; dia se esqueceu de Paulina.<br \/>\n    Bem pelo contr&aacute;rio tudo lhe rememorava a imagem dela, e a cada passo<br \/>\n    encontrava objetos, que lhe avivavam a saudade que o consumia. Uma bonita<br \/>\n    perspectiva, um curral, uma gameleira, que via em seu caminho, levava-lhe<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o para a fazenda de Joaquim Ribeiro e para junto<br \/>\n    de Paulina.<\/p>\n<p>Se bem que n&atilde;o se descuidasse dos penosos misteres do seu g&ecirc;nero<br \/>\n    de vida, trabalhava como por h&aacute;bito e maquinalmente, como quem se desencarrega<br \/>\n    de uma tarefa, e n&atilde;o com aquele gosto, zelo e dedica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de quem procura promover seus interesses e adquirir bens da fortuna.<\/p>\n<p> O giro costumado de Eduardo nas excurs&otilde;es de seu neg&oacute;cio era<br \/>\n    passar o Paran&aacute;, percorrer alguns munic&iacute;pios da prov&iacute;ncia<br \/>\n    de Mato Grosso, atravessar a de Goi&aacute;s e entrar em Minas pelos munic&iacute;pios<br \/>\n    de Paracatu, Patroc&iacute;nio, Arax&aacute; e Uberaba, para daqui recolher-se<br \/>\n    &agrave; Franca.<\/p>\n<p> Desta vez, por&eacute;m, sem plano deliberado, quase sem o querer e sem<br \/>\n    o pensar, come&ccedil;ou sua derrota em sentido inverso. Seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o chamava para a Uberaba, e para l&aacute; tangeu a sua tropa. Bem sabia,<br \/>\n    que n&atilde;o ia sen&atilde;o avivar suas m&aacute;goas no teatro de seu<br \/>\n    infort&uacute;nio; mas ia assim mesmo, como o passarinho fascinado pela serpente,<br \/>\n    e que soltando lamentosos pios vai descendo de ramo em ramo at&eacute; meter-se<br \/>\n    nas goelas do voraz e hediondo r&eacute;ptil.<\/p>\n<p> Chegando a Uberaba, Eduardo procurou informar-se do estado da fam&iacute;lia<br \/>\n    de Joaquim Ribeiro, e soube com prazer e consterna&ccedil;&atilde;o a um tempo,<br \/>\n    que Paulina se achava ainda solteira, mas gravemente enferma, o que era motivo<br \/>\n    para seu pai andar sumamente aflito e desgostoso. Eduardo logo presumiu qual<br \/>\n    era a causa do mal de Paulina, e ficou com o cora&ccedil;&atilde;o entregue<br \/>\n    &agrave; maior ang&uacute;stia e &agrave; mais cruel perplexidade. Aparecer<br \/>\n    a Paulina era avivar-lhe uma chaga profunda e dolorosa, a que ele n&atilde;o<br \/>\n    podia dar rem&eacute;dio algum; era agravar para ambos uma situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; t&atilde;o cruel e desesperada; era, al&eacute;m de tudo isso, faltar<br \/>\n    de alguma sorte ao juramento que prestara a Roberto, pois tendo consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de ser adorado pela mo&ccedil;a, s&oacute; a sua presen&ccedil;a poderia servir<br \/>\n    de estorvo ao enlace dele com sua prima. Por outro lado considerava que no<br \/>\n    decurso de um ano as coisas poderiam ter mudado de face, e tomado uma dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    inteiramente nova, e que ningu&eacute;m sabia o que ia pelo interior daquela<br \/>\n    fam&iacute;lia; era bem poss&iacute;vel que Paulina se recusasse constante<br \/>\n    e inexoravelmente a aceitar a m&atilde;o de seu primo, e que este desenganado<br \/>\n    por fim tivesse desistido de sua pretens&atilde;o. Nessa eventualidade t&atilde;o<br \/>\n    natural deveria ele acaso deixar que se definhasse e morresse de pura m&aacute;goa<br \/>\n    aquela por quem daria mil vidas que tivesse? n&atilde;o era pelo contr&aacute;rio<br \/>\n    seu rigoroso dever voar a ela, e no caso que fosse poss&iacute;vel, levar-lhe<br \/>\n    consola&ccedil;&atilde;o e esperan&ccedil;a, e salvar-lhe segunda vez a exis-t&ecirc;ncia?<br \/>\n    &#8211; Vou decididamente! &#8211; pensou consigo depois de um longo dia de<br \/>\n    ansiedade e hesita&ccedil;&atilde;o. &#8211; Tenho neg&oacute;cios e cobran&ccedil;as<br \/>\n    a realizar por aquele lado, e n&atilde;o posso deixar de passar pela fazenda<br \/>\n    de Joaquim Ribeiro. Uma hora que l&aacute; me demore, poderei saber de tudo,<br \/>\n    e decidirei do futuro; meu e de Paulina. Jurei a Roberto de nunca servir de<br \/>\n    estorvo ao seu casamento, mas n&atilde;o de nunca p&ocirc;r os p&eacute;s<br \/>\n    em casa de seu tio.<\/p>\n<p> Tomada esta delibera&ccedil;&atilde;o, Eduardo montou a cavalo pela manh&atilde;,<br \/>\n    e na tarde desse mesmo dia chegou, como vimos, &agrave; fazenda de Joaquim<br \/>\n    Ribeiro.<\/p>\n<p> Roberto estava com seu tio na sala de jantar conversando e discutindo planos<br \/>\n    para a celebra&ccedil;&atilde;o do cons&oacute;rcio. O tio queria que fosse<br \/>\n    na ro&ccedil;a sem estrondo e com muita simplicidade; o sobrinho instava para<br \/>\n    que fosse no arraial e com muito arrojo e galhardia.<\/p>\n<p> Gra&ccedil;as ao crep&uacute;sculo, que descia escurecendo a sombria sala,<br \/>\n    n&atilde;o notaram a perturba&ccedil;&atilde;o e o extraordin&aacute;rio transtorno<br \/>\n    das fei&ccedil;&otilde;es de Paulina, quando veio comunicar-lhes a chegada<br \/>\n    do sr. Eduardo. Esta inesperada nova causou o maior sobressalto no esp&iacute;rito<br \/>\n    de ambos, assim como para Paulina fora um raio que a esmagara.<\/p>\n<p> &#8211; O sr. Eduardo! &#8211; exclamou Roberto levantando-se com a maior<br \/>\n    surpresa e agita&ccedil;&atilde;o; &#8211; que diabo vem c&aacute; fazer agora<br \/>\n    esse homem!&#8230; sua visita nesta ocasi&atilde;o era bem dispens&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; De fato, &#8211; disse consigo o velho, &#8211; veio em bem m&aacute;<br \/>\n    ocasi&atilde;o. O que vir&aacute; fazer?&#8230; queira Deus n&atilde;o venha desmanchar<br \/>\n    com sua presen&ccedil;a todos os meus planos?&#8230;<\/p>\n<p> Na realidade a presen&ccedil;a de Eduardo naquela ocasi&atilde;o vinha alterar<br \/>\n    profundamente a situa&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos daquela pequena<br \/>\n    fam&iacute;lia; vinha arrancar com suas m&atilde;os o b&aacute;lsamo, que<br \/>\n    o velho fazendeiro com paternal carinho aplicava sobre o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da filha, e que talvez com o aux&iacute;lio do tempo e da reflex&atilde;o<br \/>\n    viesse a produzir saud&aacute;veis resultados.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos ter com ele, Roberto, &#8211; disse o fazendeiro; &#8211;<br \/>\n    muito lhe devemos eu e Paulina; &eacute; nosso dever receb&ecirc;-lo com os<br \/>\n    bra&ccedil;os abertos, e trat&aacute;-lo com toda a distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e carinho.<\/p>\n<p> Sa&iacute;ram imediatamente a receber o h&oacute;spede. Paulina os acompanhou.<br \/>\n    Tinha apenas introduzido o rec&eacute;m-chegado na sala de jantar e trocava<br \/>\n    com ele as primeiras palavras de cumprimento e civilidade, quando Paulina<br \/>\n    que se conservara em p&eacute;, tr&ecirc;mula e arquejante, a um canto desviado,<br \/>\n    deu um grito agudo, e sentou-se de chofre, ou antes caiu sobre uma cadeira.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; isto! que tens, Paulina &#8211; bradou o pai atirando-se<br \/>\n    para ela. Eduardo e Roberto acudiram ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Paulina! Paulina! &#8211; gritava o pai sustendo-a no bra&ccedil;o,<br \/>\n    e agitando-a; &#8211; era debalde; a infeliz n&atilde;o podia ouvi-lo. Pendurada<br \/>\n    no bra&ccedil;o paterno a fronte branca pendia-lhe para tr&aacute;s como l&iacute;rio<br \/>\n    esgalhado, o corpo alquebrava-se l&#038;aciracirc;nguido e inerte, e as p&aacute;lpebras<br \/>\n    transparentes e cerradas eram como l&acirc;mpadas de alabastro, onde a luz<br \/>\n    acabara de extinguir-se. Estava profundamente desmaiada.<\/p>\n<p> &#8211; A cavalo j&aacute;, Roberto! a cavalo e depressa! &#8211; gritou<br \/>\n    o velho. Pegue no melhor animal que a&iacute; houver, corra j&aacute; a Uberaba<br \/>\n    e traga-nos um m&eacute;dico.<\/p>\n<p> Roberto, que em outra qualquer ocasi&atilde;o teria afrontado fadigas, coriscos<br \/>\n    e raios, e teria ido ao inferno para servir a Paulina, desta vez, apesar da<br \/>\n    gravidade do caso, hesitou e prestou-se de mau humor. Seus antigos ci&uacute;mes<br \/>\n    renasciam, e suspeitas cru&eacute;is lhe atravessavam o esp&iacute;rito, suspeitas<br \/>\n    que para outro qualquer mais perspicaz h&aacute; muito teriam tomado o car&aacute;ter<br \/>\n    de certeza. N&atilde;o seria aquele maldito h&oacute;spede a causa dos sofrimentos<br \/>\n    de sua prima, e do v&aacute;gado de que acabava de ser v&iacute;tima?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nesse caso ele que v&aacute;! &#8211; pensava ele. Quem as armou<br \/>\n    que as desarme. No estado de irrita&ccedil;&atilde;o, de que se achava possu&iacute;do<br \/>\n    contra o rec&eacute;m-chegado, esteve a ponto de dizer estouvadamente: &#8211;<br \/>\n    Aqui o sr. Eduardo, que acaba de chegar e ainda est&aacute; com o animal selado,<br \/>\n    bem nos pode fazer esse favor. Mas o amor, que consagrava a Paulina, e o respeito,<br \/>\n    que tinha a seu tio, prevaleceram em sua alma.<\/p>\n<p> Da&iacute; a alguns instantes Roberto galopava &agrave; r&eacute;dea solta<br \/>\n    atrav&eacute;s da escurid&atilde;o da noite, vomitando pragas e amaldi&ccedil;oando<br \/>\n    a hora em que aparecera em casa de seu tio aquele maldito sr. Eduardo.<\/p>\n<h2><a name=\"11\">Cap&iacute;tulo 11 &#8211; Del&iacute;rio e amor<\/a><\/h2>\n<p>O del&iacute;quio de Paulina durou cerca de um quarto de hora.<\/p>\n<p> Quando voltou a si e abriu os grandes e negros olhos, encontrou o rosto<br \/>\n    de Eduardo que, bem pr&oacute;ximo ao seu, quase que a bafejava, observando-a<br \/>\n    com ansiosa inquieta&ccedil;&atilde;o enquanto o pai com os bra&ccedil;os<br \/>\n    a sustinha sobre a cadeira.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! o senhor ainda est&aacute; aqui! &#8211; exclamou ela, tapando<br \/>\n    os olhos com a m&atilde;o. Sr. Eduardo&#8230; por piedade! fuja, fuja&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    posso v&ecirc;-lo!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Desastrado aparecimento o deste homem hoje! &#8211; refletia o amargurado<br \/>\n    velho. &#8211; Mas porventura posso me queixar dele?&#8230; tem ele a culpa de<br \/>\n    nada?&#8230; Infeliz Paulina!&#8230;pobre de minha filha! t&atilde;o boazinha, t&atilde;o<br \/>\n    linda, t&atilde;o crian&ccedil;a, e j&aacute; sabendo o que &eacute; a desgra&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    e mais desgra&ccedil;ado de mim ainda, que nada posso fazer por ela!&#8230; S&oacute;<br \/>\n    esse homem, que j&aacute; uma vez salvou-a, poderia salv&aacute;-la ainda,<br \/>\n    pois n&atilde;o h&aacute; a menor d&uacute;vida, a pobrezinha tem uma paix&atilde;o<br \/>\n    louca por esse mo&ccedil;o&#8230; ah!&#8230; se fosse poss&iacute;vel&#8230; que me importa<br \/>\n    o Roberto?&#8230; tratei com ele, &eacute; verdade; mas ser&aacute; ele t&atilde;o<br \/>\n    bruto e t&atilde;o desalmado, que n&atilde;o tenha pena desta infeliz?&#8230;<br \/>\n    ser&aacute; t&atilde;o est&uacute;pido, que n&atilde;o veja que n&atilde;o<br \/>\n    deve, nem pode casar-se com Paulina?&#8230; mas que loucura a minha!.., ele n&atilde;o<br \/>\n    pode &#8211; j&aacute; est&aacute; comprometido e quem sabe se j&aacute; casado<br \/>\n    com outra&#8230; Pobre da minha Paulina!&#8230; &eacute; agora que sinto a falta,<br \/>\n    que te faz tua m&atilde;e&#8230; s&oacute; ela poderia entrar no segredo desse<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o maltratado, e dar-lhe algum conforto e consola&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    mas, eu&#8230; pobre de mim! que posso eu fazer sen&atilde;o chorar contigo, filha<br \/>\n    de minha alma!&#8230;<\/p>\n<p> E as l&aacute;grimas corriam em fio pelas faces do velho na solid&atilde;o<br \/>\n    da noite, cujo sil&ecirc;ncio s&oacute; era interrompido pelos del&iacute;rios<br \/>\n    de Paulina, que entregue a um sono let&aacute;rgico, murmurava sons confusos<br \/>\n    entre os quais vinha freq&uuml;entemente o nome de Eduardo.<\/p>\n<p>Este, por seu lado, tamb&eacute;m se recolhera ao aposento que lhe fora destinado,<br \/>\n    com o cora&ccedil;&atilde;o transido de ang&uacute;stias, e passou a noite<br \/>\n    nas mais cru&eacute;is tribula&ccedil;&otilde;es de esp&iacute;rito. Ele passara<br \/>\n    como o sopro do g&ecirc;nio do mal junto daquela formosa e interessante menina,<br \/>\n    e lhe fizera entrever um para&iacute;so de amor e de ventura para abism&aacute;-la<br \/>\n    imediatamente num pego de amarguras. Aquela mimosa flor do deserto, que havia<br \/>\n    encontrado em seu caminho, de t&atilde;o belo e puro matiz, t&atilde;o rica<br \/>\n    de seiva e de perfume, vinha encontr&aacute;-la agora raqu&iacute;tica e p&aacute;lida<br \/>\n    como goivo despencado de uma grinalda mortu&aacute;ria. E essa flor, que risonha<br \/>\n    e lou&ccedil;&atilde; se havia espanejado a seus olhos ofertando-lhe todo<br \/>\n    o perfume de seu c&aacute;lix, ele a havia desdenhado e passado al&eacute;m<br \/>\n    com os olhos embebidos em n&atilde;o sei que falsa miragem&#8230; e fora esse<br \/>\n    desd&eacute;m, que lhe mirrara o seio entornando nele o g&eacute;rmen da destrui&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E agora que desiludido e arrependido voltava sobre seus passos em busca da<br \/>\n    flor, cujo perfume lhe ficara guardado no cora&ccedil;&atilde;o, ainda seria<br \/>\n    tempo? poderia ele ainda com o bafejo de seu amor restituir-lhe o alento e<br \/>\n    a vida?&#8230; Quem sabe? Eduardo, cujas p&aacute;lpebras ardentes n&atilde;o<br \/>\n    se cerraram essa noite, esperava ansioso o alvorecer do dia. Paulina amanheceu<br \/>\n    mais tranq&uuml;ila, posto que extremamente abatida e em tal estado de fraqueza,<br \/>\n    que n&atilde;o lhe permitia levantar-se da cama.<\/p>\n<p> Eduardo quando saiu de seu quarto encontrou j&aacute; na varanda o dono<br \/>\n    da casa debru&ccedil;ado ao parapeito e com os olhos na estrada de Uberaba,<br \/>\n    &agrave; espera de Roberto com o m&eacute;dico. Em sua impaci&ecirc;ncia n&atilde;o<br \/>\n    calculava que era ainda muito cedo para poderem chegar.<\/p>\n<p> &#8211; Bom-dia, senhor Ribeiro; &#8211; disse-lhe cumprimentando-o&#8230; Como<br \/>\n    passou a senhora sua filha? &#8211; Ah! j&aacute; est&aacute; de p&eacute;,<br \/>\n    senhor Eduardo?&#8230; replicou o fazendeiro voltando-se para ele. &#8211; Paulina&#8230;<br \/>\n    eu sei&#8230; teve ainda muita febre e del&iacute;rio; mas agora est&aacute; mais<br \/>\n    sossegada. Todavia acho que n&atilde;o est&aacute; nada boa.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o faz id&eacute;ia quanto me d&oacute;i no fundo da alma<br \/>\n    o inc&ocirc;modo dela, senhor Ribeiro.<\/p>\n<p> &#8211; Muito agradecido, senhor Eduardo&#8230; mas enfim&#8230; &eacute; vontade<br \/>\n    do c&eacute;u&#8230; que se h&aacute; de fazer&#8230; Deus que tenha piedade de n&oacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Mas ah! senhor Ribeiro, quando penso, &#8211; e tenho motivos muito<br \/>\n    fortes para pensar assim, quando penso, que sem o querer e por desgra&ccedil;a<br \/>\n    minha sou a causa dos sofrimentos de sua filha e de todos os seus inc&ocirc;modos,<br \/>\n    minha afli&ccedil;&atilde;o toca ao desespero.<\/p>\n<p> &#8211; Bem o compreendo, senhor Eduardo; e eu tamb&eacute;m&#8230; para que<br \/>\n    negar-lhe? penso do mesmo modo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Portanto j&aacute; v&ecirc; o senhor que n&atilde;o devo me demorar<br \/>\n    mais um instante em sua casa, visto que n&atilde;o lhe posso dar rem&eacute;dio<br \/>\n    nem al&iacute;vio algum. Minha presen&ccedil;a lhe faz mal, e antes que ela<br \/>\n    me veja outra vez, &eacute; meu dever retirar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo contr&aacute;rio; agora j&aacute; que aqui veio, tenha paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    h&aacute; de ficar; o senhor &eacute; o &uacute;nico que poder&aacute; salv&aacute;-la<br \/>\n    nesta cruel conjuntura; perdoe esta franqueza de um pobre pai desatinado pela<br \/>\n    dor e em risco de perder sua &uacute;nica filha. Ela tem pelo senhor uma paix&atilde;o<br \/>\n    louca, estou disso bem persuadido; aquele sucesso da on&ccedil;a a fez enlouquecer&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Tamb&eacute;m assim o creio, senhor Ribeiro; por&eacute;m&#8230; desgra&ccedil;adamente<br \/>\n    em nada lhe posso valer.., tenho as m&atilde;os atadas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que me diz?&#8230;ah!&#8230; j&aacute; me lembro&#8230; desgra&ccedil;ado de<br \/>\n    mim!&#8230; onde anda esta cabe&ccedil;a!&#8230; essa senhora, com quem ia casar-se<br \/>\n    ou talvez j&aacute; esteja casado&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nada disso, senhor Ribeiro; dessa loucura h&aacute; muito estou<br \/>\n    desencantado, e por esse lado nada mais me estorva&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Deveras!&#8230; pois ent&atilde;o o que lhe impede?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Escute ainda, senhor Ribeiro; tenha paci&ecirc;ncia; devo dizer-lhe<br \/>\n    tudo; se naquele tempo eu tinha meu cora&ccedil;&atilde;o e minha palavra<br \/>\n    empenhada a uma mulher, hoje a tenho empenhada a um homem&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Como assim?&#8230; n&atilde;o o entendo; tenha a bondade de explicar-se<br \/>\n    melhor.<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o sabe o senhor Ribeiro, que num dia seu sobrinho<br \/>\n    tomado de ci&uacute;mes, sem que eu desse motivo algum, cuidando que eu fazia<br \/>\n    a corte &agrave; sra. d. Paulina, veio me tomar satisfa&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    e que eu para livr&aacute;-lo do engano e da afli&ccedil;&atilde;o em que<br \/>\n    o via, em termos de fazer alguma loucura, protestei-lhe que n&atilde;o tinha<br \/>\n    o menor amor &agrave; senhora sua filha, &#8211; e n&atilde;o tinha, pelo<br \/>\n    menos eu ent&atilde;o assim o acreditava, &#8211; e jurei-lhe pelas cinzas<br \/>\n    de meu pai que nunca serviria de estorvo ao seu casamento com a mesma senhora?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, senhor; nunca ouvi falar em tal coisa.<\/p>\n<p> &#8211; Pois &eacute; a verdade desgra&ccedil;adamente, e agora&#8230; tenho<br \/>\n    os bra&ccedil;os atados.<\/p>\n<p> &#8211; Mas que tem isso?&#8230; que importa esse juramento, se Paulina n&atilde;o<br \/>\n    quiser casar-se com ele?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Contanto que n&atilde;o seja eu que o estorve&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E ser&aacute; ele t&atilde;o mau, t&atilde;o desalmado, que queira<br \/>\n    sacrificar sua prima?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei, senhor. &#8211; A verdade &eacute; que dei-lhe o<br \/>\n    juramento; desse juramento s&oacute; ele pode desobrigar-me.<\/p>\n<p> &#8211; E que rem&eacute;dio ter&aacute; ele, se nem eu, nem Paulina quisermos<br \/>\n    aceit&aacute;-lo?&#8230; Vamos, meu amigo, vamos ver a pobre menina; ela est&aacute;<br \/>\n    sempre a falar no seu nome. Veja se a pode tranq&uuml;ilizar. Engane-a mesmo,<br \/>\n    se tanto &eacute; preciso, d&ecirc;-lhe uns toques de esperan&ccedil;a. Viva<br \/>\n    ela enganada por algum tempo; que mal faz isso? depois quando estiver mais<br \/>\n    forte e bem disposta, com vagar e cautelosamente a irei desenganando.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! senhor Ribeiro, n&atilde;o sou capaz de enganar a ningu&eacute;m,<br \/>\n    quanto mais a ela. Se me permite, irei dizer-lhe toda a verdade; irei dizer-lhe,<br \/>\n    que a amo muito&#8230; que a maior, a &uacute;nica felicidade minha neste mundo<br \/>\n    depende dela&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Deveras, senhor Eduardo?&#8230; atalhou o velho com alegre sobressalto,<br \/>\n    &#8211; que estou eu ouvindo?&#8230; ent&atilde;o a quer bem?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Muito, senhor Ribeiro, muito! mas&#8230; de que serve?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; De que serve?!&#8230; n&atilde;o compreendo tal pergunta&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E o juramento&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pelo amor de Deus, n&atilde;o me fale em tal juramento! Vamos, meu<br \/>\n    amigo, continuou Ribeiro com alegre sofreguid&atilde;o, &#8211; vamos visit&aacute;-la.<\/p>\n<p> Ribeiro tomou o mo&ccedil;o pelo bra&ccedil;o, conduziu-o at&eacute; a porta<br \/>\n    do quarto de Paulina, que se achava sentada sobre a cama, impeliu-o de manso<br \/>\n    para dentro dizendo a sua filha: &#8211; Paulina; aqui est&aacute; o sr. Eduardo,<br \/>\n    que vem fazer-te uma visita;&#8211; e retirou-se.<\/p>\n<p> O bom do velho, ao saber que Eduardo adorava sua filha, e que nenhum impedimento<br \/>\n    havia mais para que se casasse com ele, exultava de contentamento, e tinha<br \/>\n    como j&aacute; realizada a cura e a felicidade de sua filha. Quanto ao juramento,<br \/>\n    esse n&atilde;o lhe dava muito cuidado, porque n&atilde;o fazia id&eacute;ia<br \/>\n    da import&acirc;ncia que Eduardo ligava a ele, do fan&aacute;tico aferro e<br \/>\n    tenaci-dade de paulista com que guardava um juramento.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! &eacute; ele! &eacute; ele ainda!?.. exclamou a mo&ccedil;a<br \/>\n    apenas avistou Eduardo, &#8211; que vem fazer aqui este homem?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o lhe dizia eu? &#8211; disse Eduardo para o pai de Paulina,<br \/>\n    que se ia retirando, &#8211; a minha presen&ccedil;a a incomoda.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o creia tal; &#8211; disse-lhe o velho em voz baixa;&#8211;<br \/>\n    deixe-se ficar por algum tempo, tenha paci&ecirc;ncia. Minha filha, continuou<br \/>\n    voltando-se para Paulina; &#8211; o sr. Eduardo n&atilde;o te quer fazer mal<br \/>\n    algum; ele te estima muito, e n&atilde;o procura sen&atilde;o meios de salvar-te.<br \/>\n    Ditas estas palavras o velho retirou-se.<\/p>\n<p> &#8211; Salvar-me ele! exclamou Paulina com um ar de ins&acirc;nia e um<br \/>\n    sorriso indiz&iacute;vel. Tomara eu que ele me salve de si mesmo! aqui n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; nenhuma on&ccedil;a, e &eacute; s&oacute; das on&ccedil;as que ele<br \/>\n    sabe me salvar.<\/p>\n<p> &#8211; Quem sabe, d. Paulina? &#8211; disse Eduardo com um triste sorriso,<br \/>\n    sentando-se em um tamborete junto &agrave; cabeceira da enferma. &#8211; Deus<br \/>\n    ainda pode permitir que eu a salve de outros males. Por quem &eacute;, n&atilde;o<br \/>\n    me queira mal&#8230; diga-me, vai se sentindo melhor?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E que lhe importa?&#8230; eu n&atilde;o tenho nada&#8230; Como vai a sua<br \/>\n    querida l&aacute; da Franca? seguramente j&aacute; se casaram, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; assim?&#8230;<\/p>\n<p> O del&iacute;rio de Paulina exaltava-se com a presen&ccedil;a de Eduardo;<br \/>\n    suas palavras desassisadas, seus olhares desvairados dilaceravam o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do mancebo que j&aacute; se arrependia da visita, que por condescender com<br \/>\n    o velho lhe viera fazer.<\/p>\n<p> &#8211; Por compaix&atilde;o, &#8211; respondeu-lhe o mo&ccedil;o, &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o me fale nisso, d. Paulina, essa mulher morreu para mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Morreu?&#8230; pois que tem isso? eu tamb&eacute;m n&atilde;o vou morrer?&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o sabe? esta noite sonhei com ela&#8230; estava em uma sala de baile&#8230;<br \/>\n    vestida com um luxo e uma riqueza de espantar&#8230; come&ccedil;ou a dan&ccedil;ar<br \/>\n    uma valsa com o senhor&#8230; de repente foi-se virando em um drag&atilde;o medonho,<br \/>\n    enroscou-se-lhe por todo o corpo, e come&ccedil;ou a lhe morder a nuca&#8230;<br \/>\n    o senhor dava gritos desesperados, mas todo o mundo fugia espavorido; eu fiquei<br \/>\n    s&oacute; e queria lhe acudir; mas meus p&eacute;s estavam agarrados no ch&atilde;o,<br \/>\n    e meus bra&ccedil;os n&atilde;o podiam mover-se; queria gritar, tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o podia; teria morrido sufocada se meu pai, que estava perto de mim,<br \/>\n    n&atilde;o me acordasse&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; singular!&#8230; ah! d. Paulina, esse sonho&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que tem esse sonho?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; uma imagem da realidade. Essa mulher era mesmo um drag&atilde;o;<br \/>\n    atrai&ccedil;oou-me;&#8230; achei-a casando-se com outro.<\/p>\n<p> &#8211; Bem feito! exclamou Paulina com um acento indiz&iacute;vel de malicioso<br \/>\n    prazer; &#8211; bem feito: foi castigo de Deus; porque fez t&atilde;o pouco<br \/>\n    caso de mim.<\/p>\n<p> &#8211; Diz bem, d. Paulina; foi mesmo castigo de Deus. Mas eu n&atilde;o<br \/>\n    queria parecer-me com ela. Que importa! nada perdi. Juro-lhe, d. Paulina,<br \/>\n    que depois que vi a senhora foi-me bem custoso n&atilde;o me esquecer dessa<br \/>\n    mo&ccedil;a, e guardar-lhe a fidelidade que guardei.<\/p>\n<p> &#8211; Deveras, sr. Eduardo!&#8230; pelo que vejo, quer-me bem&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O meu amor para com a senhora, creio que n&atilde;o &eacute; de<br \/>\n    agora&#8230; creio que existia desde a primeira vez; mas ai de mim!&#8230; principiou<br \/>\n    infeliz, infeliz parece-me que vai acabar&#8230;a desgra&ccedil;a me persegue&#8230;<br \/>\n    hoje n&atilde;o me &eacute; permitido ofertar&#8211;lhe o meu amor&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O seu amor!&#8230; exclamou Paulina sentando-se no leito, fitando no<br \/>\n    mancebo olhos ardentes, e sem atender que lhe apareciam quase nus os alvos<br \/>\n    seios arquejando-lhe afanosos; era bela assim, bela de amor e de del&iacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, o meu amor, d. Paulina! o meu amor t&atilde;o grande, como<br \/>\n    eu n&atilde;o sei explicar, e que decerto j&aacute; existia sem eu saber dentro<br \/>\n    de meu cora&ccedil;&atilde;o, e que hoje rebenta como urna labareda, que eu<br \/>\n    n&atilde;o posso conter nem disfar&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! veio t&atilde;o tarde! &#8211; disse Paulina suspirando e abanando<br \/>\n    tristemente a cabe&ccedil;a. &#8211; Outro lhe tomou a dianteira&#8230; j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o me perten&ccedil;o. Olhe aqui esta face&#8230; n&atilde;o v&ecirc;<br \/>\n    como est&aacute; vermelha?&#8230; arde-me como uma brasa&#8230; foi um beijo, e n&atilde;o<br \/>\n    foi o senhor que mo deu.<\/p>\n<p> &#8211; Um beijo!&#8230; quem lho deu? &#8211; Um beijo, sim&#8230; foi meu marido&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; A senhora est&aacute; gracejando&#8230; quem &eacute; seu marido?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o sabe?.., o primo Roberto &eacute; meu marido&#8230;<br \/>\n    meu pai mandou-o chamar; ontem ficou tudo ajustado.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! j&aacute; entendo, &#8211; murmurou Roberto alcan&ccedil;ando<br \/>\n    que as palavras de Paulina n&atilde;o eram puro del&iacute;rio como a princ&iacute;pio<br \/>\n    pensara. &#8211; Se assim &eacute;, refletiu ele consigo, &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    me resta mais esperan&ccedil;a alguma.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, &#8211; senhor Eduardo; &#8211; continuou Paulina<br \/>\n    como que adivinhando e respondendo ao pensamento de Eduardo; &#8211; o primo<br \/>\n    Roberto breve vai se casar comigo&#8230; Coitado! vai se casar com um cad&aacute;ver;<br \/>\n    a cama do noivado h&aacute; de ser um esquife&#8230; Paulina acompanhou estas<br \/>\n    palavras de um riso fun&eacute;reo, que fez estremecer Eduardo; e deixou pender<br \/>\n    a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Mas esse seu primo ser&aacute; t&atilde;o duro de entranhas, que<br \/>\n    queira assim sacrific&aacute;-la? &#8211; Mas ele me quer tanto&#8230; desde crian&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Fatalidade! eu tamb&eacute;m, d. Paulina, eu tamb&eacute;m, da outra<br \/>\n    vez que aqui estive, jurei a esse mo&ccedil;o que nunca da minha parte poria<br \/>\n    o menor estorvo ao seu casamento&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Jurou isso?&#8230; meu Deus!&#8230; n&atilde;o h&aacute; esperan&ccedil;a<br \/>\n    mais!&#8230; eu j&aacute; dei-lhe o meu sim; e o senhor jurou-lhe o seu&#8230; n&atilde;o,<br \/>\n    ah! ah! ah!&#8230; como isto &eacute; engra&ccedil;ado!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas, d. Paulina, para salv&aacute;-la, para possu&iacute;-la, tudo<br \/>\n    devo tentar. Vou entender-me francamente com seu primo, dir-lhe-ei tudo sem<br \/>\n    rebu&ccedil;o, e se ele tem dignidade e nobreza de alma, deve desistir de<br \/>\n    sua pretens&atilde;o, e me desobrigar&aacute; do juramento que lhe dei.<\/p>\n<p> &#8211; Roberto?&#8230; duvido; tem por mim um amor furioso&#8230; &eacute; um estonteado,<br \/>\n    e tem cabe&ccedil;a dura. Roberto h&aacute; de se casar comigo, ainda que<br \/>\n    seja &agrave; beira da sepultura.<\/p>\n<p> Nesse momento ouviu-se rumor de falas na varanda. Era Roberto que chegava<br \/>\n    com o m&eacute;dico. Eduardo tomou a m&atilde;o de Paulina, e beijou-a ternamente;<br \/>\n    esta respondeu-lhe apertando estreitamente a dele e cravando-lhe um olhar,<br \/>\n    que continha um treno de ternura, de amor e de sofrimento. Seu esp&iacute;rito<br \/>\n    come&ccedil;ava a serenar-se; sentia inef&aacute;vel prazer em saber que era<br \/>\n    amada por aquele que seu cora&ccedil;&atilde;o escolhera, e nesse momento<br \/>\n    de gozo ficaram adormecidas todas as suas m&aacute;goas e inquieta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    todos os seus sofrimentos f&iacute;sicos e morais.<\/p>\n<p> &#8211; Ora pois! &#8211; dizia ela consigo, gra&ccedil;as ao c&eacute;u,<br \/>\n    um momento sequer j&aacute; fui feliz em minha vida. Agora s&oacute; me resta<br \/>\n    resignar-me para sofrer e morrer!<\/p>\n<h2><a name=\"12\">Cap&iacute;tulo 12 &#8211; Dois verdugos<\/a><\/h2>\n<p>O m&eacute;dico que viera com Roberto, era um padre. Era muito comum naqueles<br \/>\n    sert&otilde;es, onde havia quase absoluta falta de m&eacute;dicos profissionais,<br \/>\n    os padres exercerem tamb&eacute;m a medicina, sendo a um tempo m&eacute;dicos<br \/>\n    da alma e do corpo, reunindo em si dois sacerd&oacute;cios.<\/p>\n<p>Bom ! &#8211; disse consigo Paulina, quando soube dessa particularidade;<br \/>\n    eu creio que hei de precisar mais do padre do que do m&eacute;dico.<\/p>\n<p> O m&eacute;dico foi logo introduzido no quarto da doente, onde se demorou<br \/>\n    cerca de um quarto de hora.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; de ser nada, senhor Ribeiro, &#8211; disse<br \/>\n    ele saindo; &#8211; a menina teve e tem ainda uma forte febre maligna complicada<br \/>\n    com alguma irregularidade nas fun&ccedil;&otilde;es uterinas. Com as aplica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e o regimen, que vou prescrever, n&atilde;o corre risco algum, e em breve<br \/>\n    estar&aacute; s&atilde;. Mas olhe que &eacute; preciso muita dieta, e muita<br \/>\n    cautela&#8230; Tais achaques s&atilde;o muito comuns aqui pelo sert&atilde;o porque<br \/>\n    os senhores fazendeiros,&#8211; perdoe-me o diz&ecirc;-lo, sr. Ribeiro, &#8211;<br \/>\n    s&atilde;o muito desmazelados na cria&ccedil;&atilde;o de seus filhos; deixam<br \/>\n    os meninos, como esta por exemplo, em uma idade t&atilde;o cr&iacute;tica,<br \/>\n    andarem por a&iacute; ao rigor deste sol ardente, molharem-se, apanharem sereno,<br \/>\n    comerem frutas verdes e fazerem mil outras estrepolias&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; de ser isso mesmo, &#8211; acudiu bruscamente Roberto;<br \/>\n    &#8211; a prima costuma andar a&iacute; &agrave; toa no quintal o dia inteiro<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a quarando ao sol, comendo s&oacute; frutas, e quando vem<br \/>\n    para a mesa n&atilde;o come nada; depois quando &eacute; de tardinha vai ali<br \/>\n    para debaixo da gameleira, e fica apanhando sereno at&eacute; a noite.<\/p>\n<p> &#8211; Eis a&iacute;!&#8230; n&atilde;o &eacute; outra a causa de sua mol&eacute;stia&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas, senhor padre, &#8211; atalhou o fazendeiro, &#8211; o mal n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; de agora; j&aacute; vai para um ano que ela sofre.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o duvido; ela tem inc&ocirc;modo cr&ocirc;nico do est&ocirc;mago,<br \/>\n    e as fun&ccedil;&otilde;es do &uacute;tero, como j&aacute; disse, n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o muito regulares. Mas tudo isso complica-se agora com uma febre<br \/>\n    aguda, que &eacute; preciso atalhar prontamente.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! senhor padre! senhor padre! &#8211; pensou consigo Eduardo,<br \/>\n    &#8211; se Vossa Reverend&iacute;ssima lhe examinasse mais a alma do que o<br \/>\n    corpo, se a ouvisse de confiss&atilde;o em vez de tomar-lhe o pulso, acharia<br \/>\n    em outra parte a origem da mol&eacute;stia.<\/p>\n<p> Enquanto Joaquim Ribeiro e o padre conversavam, Eduardo, que assustado com<br \/>\n    a gravidade e os progressos do mal de Paulina n&atilde;o queria perder tempo,<br \/>\n    nem adiar para mais tarde a solu&ccedil;&atilde;o do problema de seu destino,<br \/>\n    chamou de parte Roberto e o convidou para uma conversa particular, decidido<br \/>\n    a dizer-lhe tudo com a mais rude franqueza. Desceram ambos a escada e dirigiram-se<br \/>\n    para um canto do curral.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Roberto, &#8211; come&ccedil;ou Eduardo com tom s&eacute;rio<br \/>\n    e comovido, &#8211; sei que o que tenho a dizer-lhe de maneira nenhuma lhe<br \/>\n    pode ser agrad&aacute;vel; vou dar em seu cora&ccedil;&atilde;o um golpe bem<br \/>\n    cruel; mas tenha paci&ecirc;ncia; assim &eacute; preciso.<\/p>\n<p> &#8211; Um golpe!&#8230; em meu cora&ccedil;&atilde;o! que quer dizer isto?!&#8230;<br \/>\n    o senhor est&aacute; ca&ccedil;oando, senhor Eduardo.<\/p>\n<p> &#8211; Nunca falei t&atilde;o s&eacute;rio. Tenha paci&ecirc;ncia, j&aacute;<br \/>\n    lhe pedi&#8230; ali&aacute;s perco o meu tempo. Se fosse s&oacute; por meu respeito,<br \/>\n    nunca daria este passo, e hoje mesmo me sumiria para sempre desta casa; mas<br \/>\n    &eacute; por amor daquela pobre mo&ccedil;a, que ali jaz penando no fundo<br \/>\n    de uma cama&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pior ! &#8211; interrompeu Roberto com impaci&ecirc;ncia;&#8211;<br \/>\n    cada vez o entendo menos. Deixe-se de rodeios, senhor Eduardo; desembuche,<br \/>\n    que estou ardendo por saber que alhada &eacute; essa.<\/p>\n<p> Roberto j&aacute; se achava com uma terr&iacute;vel predisposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contra Eduardo, e por isso o recebia, como se costuma dizer, &agrave; ponta<br \/>\n    de baioneta.<\/p>\n<p> &#8211; Se soubesse que estava de t&atilde;o m&aacute; disposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e se n&atilde;o fosse tamanha a gravidade do caso, n&atilde;o o incomodaria&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o senhor; n&atilde;o h&aacute; de me deixar assim com a<br \/>\n    pulga na orelha; j&aacute; agora diga ao que veio&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Prontamente; vou-lhe explicar tudo em palavras bem poucas e bem<br \/>\n    claras. Saiba, senhor Roberto, que n&atilde;o &eacute; por vontade dela, que<br \/>\n    sua prima vai casar-se com o senhor.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; por vontade dela! &#8211; exclamou Roberto arregalando<br \/>\n    os olhos, cruzando os bra&ccedil;os e dando dois passos para tr&aacute;s;<br \/>\n    &#8211; e quem lhe meteu essa nos cascos, senhor Eduardo?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ela mesmo, senhor Roberto; neste instante acaba de mo dizer.<\/p>\n<p> &#8211; Fora com essa!&#8230; v&aacute; preg&aacute;-la mais adiante, que aqui<br \/>\n    n&atilde;o pega. Ainda ontem ali ela me deu o sim sem constrangimento algum<br \/>\n    deste mundo. Isso se n&atilde;o &eacute; mexerico seu, &eacute; del&iacute;rio<br \/>\n    dela.<\/p>\n<p> &#8211; Nem del&iacute;rio, nem mexerico, senhor Roberto; &eacute; a pura<br \/>\n    verdade. E saiba mais, &#8211; pois &eacute; necess&aacute;rio declarar-lhe<br \/>\n    com franqueza a verdade toda inteira, &#8211; saiba mais que n&atilde;o sei<br \/>\n    se por felicidade ou infelicidade minha, sua prima desde a primeira vez que<br \/>\n    me viu &#8211; naquela fatal ca&ccedil;ada, lembra-se? criou por mim uma afei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma paix&atilde;o irresist&iacute;vel, que ela em v&atilde;o tem-se esfor&ccedil;ado<br \/>\n    por combater. Essa paix&atilde;o, que n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    ser muito ladino para perceber, &eacute; a causa de todos os seus sofrimentos,<br \/>\n    e &eacute; ela que sem d&uacute;vida alguma a levar&aacute; &agrave; sepultura,<br \/>\n    se o senhor n&atilde;o tiver piedade dela&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu ter piedade dela!&#8230; se o entendo diabos me carreguem. Visto<br \/>\n    ser assim como diz, o senhor por que n&atilde;o teve piedade dela a primeira<br \/>\n    vez que c&aacute; esteve? por que me cedeu o campo? &#8211; O senhor tem fraca<br \/>\n    mem&oacute;ria; n&atilde;o lhe disse que minha palavra estava empenhada a<br \/>\n    outra mo&ccedil;a? agora felizmente esses la&ccedil;os est&atilde;o quebrados,<br \/>\n    e cumpre-lhe, senhor Roberto, por sua honra e dignidade, pelo sentimento de<br \/>\n    humanidade, ceder de sua pretens&atilde;o deixando-nos livres a mim e a ela,<br \/>\n    se n&atilde;o quer sacrificar uma pobre menina.<\/p>\n<p> Enquanto Eduardo falava, Roberto n&atilde;o podia ter-se de impaci&ecirc;ncia;<br \/>\n    puxava o nariz, sustinha-se ora num p&eacute; ora noutro, fungava, trincava<br \/>\n    os dentes, e fazia mil trejeitos.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! isto &eacute; demais! prorrompeu ele enfim depois de um curto<br \/>\n    sil&ecirc;ncio; &#8211; pois quando ainda ontem meu tio acaba de me chamar<br \/>\n    para tratar de meu casamento e abreviar esse neg&oacute;cio, agora &eacute;<br \/>\n    que o senhor vem com toda a frescura do mundo querer arrancar-me a minha noiva?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o &eacute; vontade minha s&oacute;, senhor Roberto: &eacute;<br \/>\n    tamb&eacute;m a vontade dela e o desejo mais ardente de seu tio&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E o senhor j&aacute; se esqueceu que jurou que nunca em tempo algum<br \/>\n    serviria de estorvo ao meu casamento? &eacute; bom modo esse de cumprir um<br \/>\n    juramento.<\/p>\n<p> &#8211; Jurei, &eacute; verdade; esse juramento hei de cumpri-lo, se o senhor<br \/>\n    tiver a alma t&atilde;o empedernida, que n&atilde;o queira desobrigar-me dele.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; j&aacute; lhe dando um bonito cumprimento!&#8230; quem o<br \/>\n    chamou c&aacute;? que motivo o trouxe aqui, sen&atilde;o o desejo de me estorvar?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Engana-se. Meus neg&oacute;cios aqui me chamaram, e eu n&atilde;o<br \/>\n    jurei de n&atilde;o p&ocirc;r os p&eacute;s nesta casa.<\/p>\n<p> &#8211; Se Paulina lhe quer tanto bem, como diz, devia saber que sua presen&ccedil;a<br \/>\n    j&aacute; era um estorvo.<\/p>\n<p> &#8211; Eu estou sempre presente no cora&ccedil;&atilde;o dela, senhor Roberto;<br \/>\n    a minha aus&ecirc;ncia em nada poderia favorec&ecirc;-lo, j&aacute; que quer<br \/>\n    que lhe diga toda a verdade; o senhor vai mat&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me mete cucas, senhor Eduardo; eu sei o que &eacute;<br \/>\n    um cora&ccedil;&atilde;o de mo&ccedil;a. Mande-se mudar e deixe-nos, que tudo<br \/>\n    se arranjar&aacute; por c&aacute; sem o senhor, sem d&uacute;vida nem matinada.<br \/>\n    A mol&eacute;stia de minha prima apareceu com o senhor; desapare&ccedil;a,<br \/>\n    que ela tamb&eacute;m desaparecer&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Talvez a sua presen&ccedil;a lhe seja mais fatal&#8230; mas n&atilde;o<br \/>\n    foi para estarmos a brigar, que o chamei, senhor Roberto; j&aacute; lhe disse<br \/>\n    o que h&aacute;; agora diga-me de uma vez, quer ou n&atilde;o quer salvar<br \/>\n    sua prima&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Salv&aacute;-la como?&#8230; de qu&ecirc;?&#8230; salv&aacute;-la do senhor?&#8230;<br \/>\n    estou pronto.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se fa&ccedil;a desentendido. Quer ou n&atilde;o quer<br \/>\n    desobrigar-nos a ela do sim que lhe deu, e a mim do juramento?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Do juramento?&#8230; pois o senhor j&aacute; n&atilde;o o quebrou?..<br \/>\n    pode ainda quebr&aacute;-lo quantas vezes quiser.<\/p>\n<p> Eduardo perdia a paci&ecirc;ncia; todavia tentou ainda com termos brandos<br \/>\n    e persuasivos reduzir a &iacute;ndole crespa e revessa de Roberto. Foi tempo<br \/>\n    perdido; nenhuma raz&atilde;o podia calar naquela cabe&ccedil;a de ferro,<br \/>\n    nenhum sentimento acalmar aquele cora&ccedil;&atilde;o irritado.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! &#8211; exclamou por fim Eduardo, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    podendo sofrear sua impaci&ecirc;ncia e indigna&ccedil;&atilde;o; &#8211;<br \/>\n    j&aacute; que o senhor &eacute; um desalmado, e tem a cabe&ccedil;a t&atilde;o<br \/>\n    rija como uma bigorna, fique-se embora com sua teima infernal; mas esteja<br \/>\n    bem certo que o senhor n&atilde;o se casa sen&atilde;o com um cad&aacute;ver,<br \/>\n    e esse cad&aacute;ver &eacute; feito pelas suas m&atilde;os. Paulina, sua<br \/>\n    prima, morre de paix&atilde;o, e &eacute; o senhor quem lhe cava a sepultura.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me venha com pataratas, senhor Eduardo; o que lhe conv&eacute;m<br \/>\n    &eacute; tratar de cumprir o seu juramento, retirando-se desta casa.<\/p>\n<p> &#8211; Sei mais do que o senhor cumprir a minha palavra. Olhe que num momento<br \/>\n    posso me ver livre do senhor e desse desastrado juramento&#8230;<\/p>\n<p>porventura jurei de n&atilde;o mat&aacute;-lo?&#8230;<\/p>\n<p> Eduardo, &eacute;brio de c&oacute;lera, j&aacute; apalpava o cabo da faca,<br \/>\n    que trazia presa &agrave; cava do colete, quando Joaquim Ribeiro que da varanda<br \/>\n    os observava, e vendo que os dois mo&ccedil;os alteravam vozes, descera ao<br \/>\n    curral e se avizinhara sem que eles dessem f&eacute;, avan&ccedil;ou e agarrando<br \/>\n    seu sobrinho pelo bra&ccedil;o, bradou-lhe: &#8211; Mas eu n&atilde;o lhe<br \/>\n    jurei nada, senhor meu sobrinho!&#8230; nosso contrato est&aacute; rasgado, porque<br \/>\n    vejo que o senhor &eacute; um homem desalmado e indigno da m&atilde;o de minha<br \/>\n    filha. Nem viva nem morta ela nunca lhe pertencer&aacute;. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mais o senhor, quem estorva esse casamento, senhor Eduardo; sou eu que n&atilde;o<br \/>\n    o quero. O senhor est&aacute; desobrigado de seu juramento.<\/p>\n<p> Roberto ficou fulminado com aquela terr&iacute;vel ap&oacute;strofe de seu<br \/>\n    tio; p&aacute;lido e tr&ecirc;mulo n&atilde;o atinava com o que devia responder,<br \/>\n    e ali ficaria assim por longo tempo, se Eduardo, tomando a palavra, n&atilde;o<br \/>\n    viesse em seu aux&iacute;lio: &#8211; N&atilde;o, senhor! disse Eduardo com<br \/>\n    voz firme; &#8211; n&atilde;o me considero desobrigado, enquanto ele mesmo<br \/>\n    n&atilde;o desistir; ela e o senhor deram-lhe um direito que sem quebra de<br \/>\n    lealdade n&atilde;o lhe podem mais negar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que louca teima, senhor Eduardo!&#8230; e assim Paulina morrer&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o posso, senhor, n&atilde;o posso ser falso &agrave;s cinzas<br \/>\n    de meu pai&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Roberto, &#8211; disse o velho com voz suplicante, voltando-se para<br \/>\n    seu sobrinho, &#8211; Roberto, meu sobrinho, olha o que fazes. Tua prima est&aacute;<br \/>\n    em risco de vida. Ela n&atilde;o te quer, e s&oacute; te aceitava por marido<br \/>\n    por comprazer comigo; s&oacute; o senhor Eduardo pode fazer a sua felicidade,<br \/>\n    s&oacute; ele pode salvar-lhe a vida, que est&aacute; por um fio. Roberto,<br \/>\n    tem piedade dela&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ai! que isto j&aacute; me enjoa, e at&eacute; me cheira a desaforo!<br \/>\n    &#8211; bradou Roberto; &#8211; o senhor Eduardo pode quebrar o juramento,<br \/>\n    e o senhor meu tio pode faltar &agrave; sua palavra quantas vezes quiserem.<br \/>\n    E adeus! passem muito bem, e fa&ccedil;am o que entenderem.<\/p>\n<p> E sem querer ouvir mais nada, montou em seu animal que ali estava ainda<br \/>\n    arreado, e picou a galope caminho de sua casa.<\/p>\n<p> Os dois ficaram im&oacute;veis, pasmos e silenciosos por largo tempo olhando<br \/>\n    o cavaleiro, at&eacute; que este se encobriu pela avenida de um cap&atilde;o<br \/>\n    vizinho.<\/p>\n<p> &#8211; Que desalmado e brutal sobrinho tem o senhor Ribeiro, &#8211; disse<br \/>\n    Eduardo; &#8211; e era a um tal homem que o senhor ia entregar sua filha?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E n&atilde;o menos desalmado e cruel, &#8211; retrucou-lhe Ribeiro,<br \/>\n    &#8211; &eacute; o senhor, que por um v&atilde;o escr&uacute;pulo deixa sucumbir<br \/>\n    minha infeliz filha.<\/p>\n<p> &#8211; Jurei, senhor Ribeiro, e n&atilde;o sou homem que falte ao meu juramento<br \/>\n    por motivo nenhum deste mundo.<\/p>\n<p> &#8211; E diz que quer muito&#8230; que adora a minha Paulina&#8230; oh!&#8230; perdoe-me;<br \/>\n    n&atilde;o posso acredit&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Ribeiro, por compaix&atilde;o, n&atilde;o agrave com suas<br \/>\n    queixas a dor de meu cora&ccedil;&atilde;o, que, &#8211; esteja certo, &#8211;<br \/>\n    sofre tanto ou mais do que o seu. Adoro a sua filha, e sei que sem ela serei<br \/>\n    o mais desgra&ccedil;ado dos homens. Mas, meu amigo, que hei de eu fazer?&#8230;<br \/>\n    acima de tudo est&aacute; Deus, a religi&atilde;o, a honra, a consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me diga tal; nem Deus nem a religi&atilde;o querem o<br \/>\n    suplicio in&uacute;til e a morte de uma inocente criatura.<\/p>\n<p> &#8211; Deus abomina o perj&uacute;rio, senhor Ribeiro&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Deus n&atilde;o aceita um juramento louco&#8230; Entretanto s&atilde;o<br \/>\n    os senhores dois os algozes de minha filha! Pobre Paulina!&#8230; o destino fez-te<br \/>\n    escapar das garras de uma on&ccedil;a para te colocar entre duas feras ainda<br \/>\n    piores&#8230;<\/p>\n<p> Dizendo isto o infeliz velho lastimava-se e chorava como uma crian&ccedil;a,<br \/>\n    arrancando as c&atilde;s e praguejando da sua sorte.<\/p>\n<p> &#8211; &Acirc;nimo, meu amigo!&#8230; disse-lhe Eduardo, chegando-se mansamente<br \/>\n    para ele. N&atilde;o se entregue assim ao seu pesar. O estado de sua filha<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; ainda para desesperar. Com a minha aus&ecirc;ncia seu<br \/>\n    esp&iacute;rito acalmar&aacute;; n&atilde;o h&aacute; sofrimento algum, a<br \/>\n    que o tempo n&atilde;o traga algum al&iacute;vio. Quanto a mim n&atilde;o<br \/>\n    devo parar mais nem um instante nesta casa, onde a minha presen&ccedil;a parece<br \/>\n    que &eacute; e ser&aacute; sempre um desastre. Adeus, senhor Ribeiro!&#8230; perdoe-me,<br \/>\n    se sou a causa involunt&aacute;ria de tantos sofrimentos&#8230; por piedade, n&atilde;o<br \/>\n    se queixe de mim&#8230; sou digno de l&aacute;stima, mais do que ningu&eacute;m&#8230;<br \/>\n    eu tamb&eacute;m sofro&#8230; sofro tanto como ela&#8230; e vou ser para sempre infeliz.<\/p>\n<p> Falando assim o mo&ccedil;o abaixava o rosto e tapava os olhos com a m&atilde;o<br \/>\n    para ocultar suas l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8211; Acredito e lastimo-o de todo o cora&ccedil;&atilde;o, senhor Eduardo,&#8211;<br \/>\n    respondeu-lhe o fazendeiro; &#8211; mas espero que me far&aacute; o favor<br \/>\n    de n&atilde;o ir ainda hoje; espere ainda at&eacute; amanh&atilde; ou depois,<br \/>\n    tenha paci&ecirc;ncia. Quem sabe se aquele estouvado cair&aacute; ainda em<br \/>\n    si?&#8230; ele estava atordoado com o golpe que recebeu; n&atilde;o sabia o que<br \/>\n    dizia, nem o que fazia&#8230; o caso n&atilde;o era para menos. Mas talvez que<br \/>\n    refletindo pense melhor&#8230; Esperemos; sou eu que lhe pe&ccedil;o em nome de<br \/>\n    Paulina.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia resistir. Eduardo deixou-se ficar e com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    atravessado das mais raladoras ang&uacute;stias encaminhou-se para a gameleira,<br \/>\n    a cuja sombra foi se sentar. Era ali o horto, em que h&aacute; tempos fizera<br \/>\n    tragar &agrave; m&iacute;sera Paulina o c&aacute;lix da amargura; era ali<br \/>\n    tamb&eacute;m, que agora ia sorver as fezes do fel das desventuras, que ele<br \/>\n    por uma cruel fatalidade tinha preparado com suas pr&oacute;prias m&atilde;os<br \/>\n    para si e para ela.<\/p>\n<p> Que de amargas reflex&otilde;es, que de pungentes recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o o assaltaram ali naqueles curtos momentos, que resumiam uma vida<br \/>\n    inteira de decep&ccedil;&otilde;es, de m&aacute;goas e de ang&uacute;stias!<\/p>\n<h2><a name=\"13\">Cap&iacute;tulo 13 &#8211; Desengano tardio<\/a><\/h2>\n<p>Joaquim Ribeiro, deixando Eduardo no curral, entrou para casa e foi procurar<br \/>\n    o padre, que estava na sala de jantar acabando de consumir pausadamente uma<br \/>\n    excelente refei&ccedil;&atilde;o. Ali comunicou ele confidencialmente ao padre,<br \/>\n    que era conhecido e velho amigo seu, a verdadeira causa dos padecimentos de<br \/>\n    sua filha, e as cru&eacute;is dificuldades, em que se via, expondo-lhe minuciosamente<br \/>\n    tudo o que havia ocorrido em sua casa, desde a primeira vez que Eduardo nela<br \/>\n    aparecera, at&eacute; o &uacute;ltimo incidente, que entre ele e Roberto acabava<br \/>\n    de ter lugar.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o j&aacute; vejo, &#8211; disse o padre, que bem pouco<br \/>\n    pode valer neste caso a medicina, e que no meu car&aacute;ter de padre e de<br \/>\n    amigo poderei talvez prestar-lhe melhores servi&ccedil;os aconselhando a esses<br \/>\n    malucos para entrarem no caminho da boa raz&atilde;o, do qual me parece que<br \/>\n    ambos eles andam bem desviados, ou consolando a pobre menina, e prestando-lhe,<br \/>\n    &#8211; caso precise, o que Deus n&atilde;o h&aacute; de permitir, &#8211;<br \/>\n    os socorros do meu minist&eacute;rio. Se o senhor me permite mesmo n&atilde;o<br \/>\n    sairei de sua casa, enquanto n&atilde;o vir todo esse neg&oacute;cio acomodado<br \/>\n    e arranjado do melhor modo que for poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! senhor padre, quanto lhe fico agradecido!&#8230; faz-me com isso<br \/>\n    o maior favor do mundo; eu mesmo j&aacute; lhe ia pedir. Ajude-me, por quem<br \/>\n    &eacute;, a salvar aquela pobrezinha.<\/p>\n<p> &#8211; Esse &eacute; o meu dever como m&eacute;dico, como padre, e muito<br \/>\n    particularmente como amigo. Por agora vamos ao quarto da menina a ver como<br \/>\n    vai passando.<\/p>\n<p> A febre de Paulina tinha declinado consideravelmente, e tinha-lhe voltado<br \/>\n    a calma e lucidez do esp&iacute;rito; mas achava-se em estado de debilidade<br \/>\n    e prostra&ccedil;&atilde;o tal, que parecia estar em del&iacute;quio. O m&eacute;dico<br \/>\n    e o pai fizeram-lhe algumas perguntas, a que respondeu com voz lenta e fraca,<br \/>\n    por&eacute;m com muito acordo e conveni&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; extremamente fraca, &#8211; disse o padre, &#8211; mas<br \/>\n    antes isso&#8230; &eacute; a rea&ccedil;&atilde;o da febre; se n&atilde;o sobrevier<br \/>\n    algum outro acesso, n&atilde;o h&aacute; mais perigo&#8230; &Eacute; preciso ir-lhe<br \/>\n    dando desde j&aacute; os cordiais, que indiquei, nada de alimentos, e sobretudo<br \/>\n    muito sossego. Vamo-nos, sr. Ribeiro; deixemos a menina descansar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, senhor padre; podem ficar e conversar&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    sinto por ora necessidade de repouso. Por que n&atilde;o aparece tamb&eacute;m<br \/>\n    o sr. Eduardo?&#8230; e o primo&#8230; que &eacute; dele, meu pai?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Roberto, &#8211; respondeu-lhe o pai, &#8211; teve precis&atilde;o<br \/>\n    de ir a casa, &#8211; e volta logo &agrave; noite. Queres que chame o sr.<br \/>\n    Eduardo? Paulina fez um aceno afirmativo.<\/p>\n<p> Ribeiro fez um sinal ao padre chamando-o para fora do quarto.<\/p>\n<p> &#8211; Que diz, senhor padre, &#8211; perguntou-lhe, apenas sa&iacute;ram,<br \/>\n    &#8211; acha que n&atilde;o haver&aacute; inconveniente em deixar que Paulina<br \/>\n    se entretenha alguns instantes com esse mo&ccedil;o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei, meu amigo?&#8230; a presen&ccedil;a dele vai-lhe avivar uma lembran&ccedil;a<br \/>\n    que convinha trazer-lhe sempre arredada do esp&iacute;rito o mais que fosse<br \/>\n    poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, senhor padre, de que serve n&atilde;o se achar ele ali, se<br \/>\n    ela o traz sempre presente na imagina&ccedil;&atilde;o? assim melhor ser&aacute;,<br \/>\n    que de fato esteja presente; ela quer-lhe tanto&#8230; talvez a presen&ccedil;a<br \/>\n    dele lhe sirva de algum al&iacute;vio e consola&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Pode ser; mas recomende ao mo&ccedil;o toda a cautela e modera&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    uma conversa&ccedil;&atilde;o s&oacute; para distra&iacute;-la e nada de tocar<br \/>\n    em assuntos melindrosos, nada de excitar-lhe emo&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> O bom padre n&atilde;o considerava, que bastava verem-se para alvoro&ccedil;ar-se<br \/>\n    um pego de emo&ccedil;&otilde;es no fundo daquelas duas almas t&atilde;o amantes,<br \/>\n    e t&atilde;o desafortunadas.<\/p>\n<p> Eduardo ainda se achava &agrave; sombra da gameleira, absorvido em suas<br \/>\n    amargas reflex&otilde;es, quando delas foi distra&iacute;do pelo chamado de<br \/>\n    Joaquim Ribeiro.<\/p>\n<p> Introduzido no quarto de Paulina, Eduardo foi sentar-se triste e silencioso<br \/>\n    junto &agrave; sua cabeceira.<\/p>\n<p> &#8211; Bem aparecido, sr. Eduardo! &#8211; disse-lhe ela; &#8211; estava<br \/>\n    mesmo com vontade de o ver. Acho-me t&atilde;o tranq&uuml;ila!&#8230; parece que<br \/>\n    a paz dos anjos desceu sobre a minha alma&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o faz id&eacute;ia, d. Paulina, do quanto me alegram suas<br \/>\n    melhoras&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas acho-me t&atilde;o fraca&#8230; t&atilde;o fraca, que quase n&atilde;o<br \/>\n    posso mover-me&#8230; o que vale &eacute; que o senhor me quer bem, e o seu amor<br \/>\n    me h&aacute; de dar alento e vida, n&atilde;o &eacute; assim? &#8211; Sim,<br \/>\n    d. Paulina, &#8211; exclamou o mancebo tomando-lhe a m&atilde;o que pendia<br \/>\n    &agrave; beira da cama, como um jasmim debru&ccedil;ado &agrave; borda de<br \/>\n    um vaso de alabastro; &#8211; o amor que lhe tenho &eacute; muito grande,<br \/>\n    e se este amor pode restituir-lhe a sa&uacute;de perdida, a vida e a felicidade,<br \/>\n    eu me julgarei o homem mais afortunado do mundo&#8230; mas, d. Paulina, &eacute;<br \/>\n    preciso que a senhora se tranq&uuml;ilize, e evite essas lembran&ccedil;as.<br \/>\n    Tratemos primeiramente da sua sa&uacute;de, da sua vida, que tamb&eacute;m<br \/>\n    &eacute; a minha, ouviu, d. Paulina? depois, quando se achar melhor trataremos<br \/>\n    do nosso amor.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o, sr. Eduardo; tratemos dele j&aacute;; tratemos<br \/>\n    dele sempre; &eacute; s&oacute; ele que me d&aacute; algum al&iacute;vio aos<br \/>\n    meus padecimentos&#8230; diga-me, esteve com o primo? falou com ele?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu Deus! meu Deus! que hei de eu dizer-lhe?&#8230; pensou Eduardo<br \/>\n    no maior embara&ccedil;o, e respondeu trope&ccedil;ando nas palavras: &#8211;<br \/>\n    Com o sr. Roberto? ah!&#8230; sim&#8230; falei-lhe&#8230; por&eacute;m ele&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Acabe&#8230; mas para qu&ecirc;? j&aacute; sei; n&atilde;o quis ceder<br \/>\n    por nada, n&atilde;o &eacute; assim? &#8211; N&atilde;o &eacute; isso, d.<br \/>\n    Paulina; &eacute; que ele nada quis decidir; estava de muito mau humor.<\/p>\n<p>&#8211; Que disfarce, sr. Eduardo! para que quer enganar-me?&#8230; bem se est&aacute;<br \/>\n    vendo por esse seu ar triste, por suas meias palavras, que n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    para n&oacute;s esperan&ccedil;a de felicidade. Que lhe dizia eu, sr. Eduardo?<br \/>\n    Paulina, que meio sentada tinha a cabe&ccedil;a encostada &agrave; cabeceira<br \/>\n    do catre, deixou-a cair tristemente sobre o peito.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quero engan&aacute;-la, n&atilde;o d. Paulina; por quem<br \/>\n    &eacute;, n&atilde;o desanime assim. Seu primo ficou muito agastado, &eacute;<br \/>\n    verdade; era isso muito natural naquele primeiro choque, que tanto o devia<br \/>\n    magoar&#8230; decerto mais tarde, refletindo friamente&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual!&#8230; nunca! nunca!&#8230; &eacute; imposs&iacute;vel!&#8230; interrompeu<br \/>\n    a mo&ccedil;a abanando tristemente a cabe&ccedil;a. Eu conhe&ccedil;o-o muito&#8230;<br \/>\n    desde crian&ccedil;a; &eacute; mais f&aacute;cil morrer do que consentir que<br \/>\n    eu me case com outro. Que loucura a daquele pobre primo! n&atilde;o v&ecirc;<br \/>\n    que n&atilde;o encontrar&aacute; mais do que um cad&aacute;ver? Fuja, senhor<br \/>\n    Eduardo; suma-se da minha presen&ccedil;a! eu sou dele. Cumpra o seu juramento.<br \/>\n    Eu tamb&eacute;m jurei&#8230; n&atilde;o v&ecirc; este beijo na face&#8230; ainda<br \/>\n    me est&aacute; ardendo como brasa&#8230; isto &eacute; mais que um juramento&#8230;<\/p>\n<p> Um vivo rubor despontava nas faces de Paulina; seus olhos desvairados se<br \/>\n    incendiavam de um fulgor estranho, e o sorriso p&aacute;lido da ins&acirc;nia<br \/>\n    lhe vagueava pelos l&aacute;bios. Era um novo acesso da febre e do del&iacute;rio,<br \/>\n    que se anunciava. Eduardo consternado e p&aacute;lido de susto, em v&atilde;o<br \/>\n    procurou palavras para acalm&aacute;-la; chamou Ribeiro e o padre, que estavam<br \/>\n    num compartimento vizinho, e saiu com o cora&ccedil;&atilde;o esmagado de<br \/>\n    dor e desalento.<\/p>\n<p> Seriam tr&ecirc;s horas da tarde, quando se manifestou em Paulina esse novo<br \/>\n    acesso de del&iacute;rio, que durou at&eacute; a noite. Com a noite por&eacute;m<br \/>\n    acalmou-se, e Paulina conversou placidamente com seu pai, com o padre e com<br \/>\n    Eduardo. Parecia reanimada; mostrou-se t&atilde;o tranq&uuml;ila e arrazoada;<br \/>\n    sua conversa&ccedil;&atilde;o foi t&atilde;o cheia de senso e lucidez, que<br \/>\n    a todos encheu de esperan&ccedil;as. Assim esteve at&eacute; perto da meia-noite<br \/>\n    conversando sossegada e distra&iacute;da sem o mais leve ind&iacute;cio de<br \/>\n    outro sofrimento que n&atilde;o fosse a n&iacute;mia fraqueza. O resto da<br \/>\n    noite, ao que pareceu, passou-a tranq&uuml;ilamente adormecida.<\/p>\n<p> Quando Paulina acordou era j&aacute; dia. Mandou chamar seu pai, o padre<br \/>\n    e Eduardo. Logo que chegaram, perguntou se podia abrir a janela do seu quarto,<br \/>\n    pois estava com saudade do ar e da luz.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida nenhuma, &#8211; respondeu o padre, &#8211; visto<br \/>\n    que n&atilde;o h&aacute; vento, e o ar n&atilde;o est&aacute; &uacute;mido<br \/>\n    nem frio; &eacute; mesmo conveniente renovar-se o ar deste quarto.<\/p>\n<p> Estava uma manh&atilde; espl&ecirc;ndida. A janela do quarto de Paulina<br \/>\n    dava para o seu jardim, desse jardim, que outrora, em tempos mais felizes,<br \/>\n    ela cultivava com suas pr&oacute;prias m&atilde;os e que era o enlevo da sua<br \/>\n    solid&atilde;o.<\/p>\n<p> A bafagem de ar que entrou pela janela, inundou o quarto de um delicioso<br \/>\n    perfume de jasmins e flores de laranjeira. Uma chusma de passarinhos esvoa&ccedil;ava<br \/>\n    e trinava pelos ramos florescidos do pomar; os colibris verdes cruzavam-se<br \/>\n    zumbindo pelos ares, lindas borboletas entravam e sa&iacute;am volteando pelo<br \/>\n    quarto, e por baixo mesmo da janela, pousada sobre uma romeira ressonava uma<br \/>\n    suav&iacute;ssima e festiva orquestra de pintassilgos. O ar estava t&eacute;pido<br \/>\n    e sereno, e o c&eacute;u de um esplendor e limpidez maravilhosa.<\/p>\n<p> Paulina estava pl&aacute;cida e calma, mas em tal palidez e imobilidade,<br \/>\n    que mais parecia uma est&aacute;tua de alabastro. Pouco a pouco por&eacute;m<br \/>\n    ao contato daquele ar puro e embalsamado, daquela luz suave, suas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    foram-se reanimando, um leve matiz de rosa assomou-lhe &agrave;s faces, seus<br \/>\n    olhos encheram-se de um meigo fulgor, e denunciavam que uma alma vivificava<br \/>\n    ainda aquele formoso e delicado corpo. Apesar da sua prostra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    no rosto de Paulina transluzia um bem-estar, uma serenidade ang&eacute;lica;<br \/>\n    seus seios arfavam brandamente, um meio sorriso da mais suave express&atilde;o<br \/>\n    estava fixo em seus l&aacute;bios, e sobre a fronte parecia que lhe pairava<br \/>\n    um reflexo da bem-aventuran&ccedil;a.<\/p>\n<p> Parecia reinar naquele aposento um n&atilde;o sei qu&ecirc; de m&iacute;stico<br \/>\n    e beat&iacute;fico, um efl&uacute;vio celestial que todos aspiravam em santo<br \/>\n    e silencioso recolhimento. Eduardo, sobretudo, cheio de emo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de amor e de esperan&ccedil;a, contemplava em adora&ccedil;&atilde;o o rosto<br \/>\n    de Paulina, e julgava-se transportado ao para&iacute;so.<\/p>\n<p> O sil&ecirc;ncio, que h&aacute; alguns instantes reinava naquele aposento,<br \/>\n    como em um santu&aacute;rio, teria durado ainda mais longo tempo, se n&atilde;o<br \/>\n    viesse quebr&aacute;-lo bruscamente um pajem, que entrou aceleradamente no<br \/>\n    quarto, e entregou uma carta a Joaquim Ribeiro. Este no mesmo instante abriu-a<br \/>\n    sem refletir, que ia excitar a curiosidade de Paulina, e que a carta que vinha<br \/>\n    da fazenda do pai de Roberto, podia conter uma m&aacute; nova. Dentro dela<br \/>\n    vinha outra carta dirigida a Eduardo, que Ribeiro imediatamente lhe entregou.<\/p>\n<p> Ribeiro passou r&aacute;pida e silenciosamente os olhos pela carta que lhe<br \/>\n    era dirigida; o seu conte&uacute;do era o seguinte: &#8211; &#8220;Dou-lhe<br \/>\n    a triste not&iacute;cia que meu filho Roberto amanheceu hoje morto em seu<br \/>\n    quarto com a cabe&ccedil;a atravessada por uma bala. O infeliz, quando aqui<br \/>\n    chegou ontem, encerrou-se em seu quarto sem aparecer a ningu&eacute;m. Ao<br \/>\n    romper do dia ouviu-se um tiro no seu quarto; acudiu-se prontamente, arrombou-se<br \/>\n    a porta, e fomos ach&aacute;-lo estendido no ch&atilde;o e lavado em sangue.<br \/>\n    Que desgra&ccedil;a, meu amigo!&#8230; n&atilde;o posso atinar com o motivo que<br \/>\n    o levou a tal loucura&#8230; Achou-se sobre sua mesa essa carta ao senhor Eduardo,<br \/>\n    com a recomenda&ccedil;&atilde;o de ser entregue imediatamente, como ver&aacute;<br \/>\n    no sobrescrito.&#8221; Por mais esfor&ccedil;o, que fizesse Ribeiro para ocultar<br \/>\n    a sua perturba&ccedil;&atilde;o durante a leitura, a m&aacute;goa e a consterna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pintavam-se em seu rosto.<\/p>\n<p> Paulina, que tudo estava observando, perguntou-lhe com a ansiedade: &#8211;<br \/>\n    &Eacute; carta do primo Roberto, n&atilde;o &eacute;, meu pai?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, minha filha ;&#8211; respondeu o velho esfor&ccedil;ando-se<br \/>\n    por mostrar-se tranq&uuml;ilo; &#8211; &eacute; um simples recado de teu tio;<br \/>\n    n&atilde;o tem import&acirc;ncia alguma; pede-me apenas que entregue imediatamente<br \/>\n    aquela carta ao senhor Eduardo, e pede-me not&iacute;cias de tua sa&uacute;de.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu pai!&#8230; meu pai!&#8230; quem sabe?&#8230; Vosmec&ecirc; quer me<br \/>\n    enganar&#8230; e essa outra carta?&#8230; de quem &eacute;, senhor Eduardo?&#8230; leia,<br \/>\n    leia em voz alta&#8230; por favor, se n&atilde;o &eacute; algum segredo&#8230;<\/p>\n<p> Eduardo, que acabava de decifrar n&atilde;o sem dificuldade os terr&iacute;veis<br \/>\n    garranchos, que o infeliz Roberto com m&atilde;o convulsa tinha tra&ccedil;ado<br \/>\n    naquele papel, vendo que nenhum inconveniente havia na leitura daquela carta,<br \/>\n    que &agrave; exce&ccedil;&atilde;o da &uacute;ltima frase, &#8211; a qual<br \/>\n    envolvia um sentido sinistro, &#8211; continha uma lisonjeira not&iacute;cia,<br \/>\n    que ele estava ansioso por comunicar a Paulina, leu em voz alta o seguinte:<br \/>\n    &#8220;Senhor Eduardo. Confesso e reconhe&ccedil;o, que ontem fui estouvado<br \/>\n    e grosseiro com o senhor. Hoje, pensando melhor, vejo que o senhor tem raz&atilde;o,<br \/>\n    e que eu sou um desgra&ccedil;ado que nada tem mais que fazer neste mundo.<br \/>\n    Desisto de tudo; fa&ccedil;a de conta que eu nunca existi; e que nunca o senhor<br \/>\n    me deu juramento nenhum. Adeus! sejam felizes, e rezem por minha alma. Roberto.&#8221;<br \/>\n    Estas &uacute;ltimas palavras Eduardo suprimiu-as na leitura.<\/p>\n<p> &#8211; Pobre de meu primo! &#8211; exclamou Paulina, apenas Eduardo acabou<br \/>\n    de ler; &#8211; e eu que supunha que ele n&atilde;o seria capaz de dar esse<br \/>\n    passo!&#8230; que injusti&ccedil;a!&#8230; hei de lhe pedir perd&atilde;o de joelhos&#8230;<br \/>\n    que cora&ccedil;&atilde;o! que alma de anjo!&#8230; meu pai!&#8230; senhor Eduardo!&#8230;<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a quase n&atilde;o podia mais falar de emo&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    solu&ccedil;ava e arquejava comprimindo o peito com as m&atilde;os, como temendo<br \/>\n    que lhe rebentasse.<\/p>\n<p> &#8211; Basta, &#8211; exclamou o pai j&aacute; cheio de inquieta&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    basta, minha filha; n&atilde;o conv&eacute;m que fales mais. Acalma-te; o<br \/>\n    c&eacute;u acaba de fazer tudo para a tua felicidade; agora o que precisas<br \/>\n    &eacute; sa&uacute;de&#8230; vamos; deita-te e descansa&#8230; nada de conversas por<br \/>\n    ora;&#8230; retiremo-nos, meus senhores.<\/p>\n<p> &#8211; Para qu&ecirc;, meu pai?&#8230; eu acho-me t&atilde;o contente&#8230; e<br \/>\n    tranq&uuml;ila&#8230; senhor Eduardo, por favor demore-se um momento&#8230; meu pai<br \/>\n    h&aacute; de permitir, que lhe diga duas palavras.<\/p>\n<p> &#8211; Paulina!&#8230; mais tarde, minha filha, conversar&aacute;s com ele<br \/>\n    quanto quiseres.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenha susto, meu pai; duas palavras s&oacute;, e ele<br \/>\n    sair&aacute; logo, &#8211; disse Paulina cravando-lhe um olhar suplicante.<\/p>\n<p> O pai n&atilde;o teve &acirc;nimo de contrari&aacute;-la mais.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, minha filha; por&eacute;m cautela; por quem &eacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o fales muito, nem te comovas.<\/p>\n<h2><a name=\"14\">Cap&iacute;tulo 14 &#8211; Conclus&atilde;o<\/a><\/h2>\n<p> &#8211; Ah! senhor Ribeiro, &#8211; disse o padre com tom severo, apenas<br \/>\n    se acharam fora do aposento de Paulina, &#8211; foi uma grave imprud&ecirc;ncia<br \/>\n    a entrada daquele rapaz com as cartas no quarto da menina!&#8230; queira Deus<br \/>\n    da&iacute; n&atilde;o venha algum mau resultado.<\/p>\n<p> &#8211; Tem raz&atilde;o, senhor padre; eu tamb&eacute;m logo vi o inconveniente&#8230;<br \/>\n    mas que havia eu de fazer?&#8230; o maldito moleque, e quem aqui o introduziu<br \/>\n    sem licen&ccedil;a minha, tem a culpa de tudo. Mas como ela n&atilde;o soube<br \/>\n    da not&iacute;cia sen&atilde;o na parte que tem de boa&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Muito embora, senhor Ribeiro; toda e qualquer emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    violenta, ainda mesmo de alegria, no estado em que ela est&aacute; lhe pode<br \/>\n    ser fatal.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo pode ser, senhor padre; mas eu nunca ouvi dizer que ningu&eacute;m<br \/>\n    morresse de alegria.<\/p>\n<p> &#8211; Como n&atilde;o, meu amigo?&#8230; em estado de plena sa&uacute;de,<br \/>\n    ainda bem; mas no estado melindroso e cr&iacute;tico, em que se acha sua filha,<br \/>\n    qualquer impress&atilde;o forte seja de dor ou de prazer, pode determinar<br \/>\n    uma crise, e nessa crise ela sucumbir.<\/p>\n<p> A vida dela est&aacute; presa por um fio t&atilde;o delicado, que o abalo<br \/>\n    o mais insignificante pode quebr&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Deus tal n&atilde;o permita, &#8211; disse o velho consternado;<br \/>\n    &#8211; e Deus queira que a presen&ccedil;a desse mo&ccedil;o tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o lhe fa&ccedil;a mal&#8230; seria bom faz&ecirc;-lo sair&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Para qu&ecirc;?&#8230; j&aacute; agora o choque est&aacute; recebido,<br \/>\n    e se tiver de produzir algum mau resultado, quer ele esteja, quer n&atilde;o,<br \/>\n    ele sempre h&aacute; de aparecer.<\/p>\n<p> Ribeiro e o padre continuaram conversando sem se afastarem muito do quarto<br \/>\n    de Paulina para poderem acudir prontamente no caso de algum acidente.<\/p>\n<p> &#8211; Paulina!&#8230; minha Paulina! exclamou o mancebo, logo que se acharam<br \/>\n    a s&oacute;s, sentando-se &agrave; beira da cama, e tomando entre as suas<br \/>\n    as m&atilde;os da mo&ccedil;a. &#8211; Gra&ccedil;as ao c&eacute;u hoje posso<br \/>\n    chamar-te minha!&#8230; Deus teve compaix&atilde;o de n&oacute;s&#8230; somos felizes,<br \/>\n    Paulina.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, Eduardo!&#8230; somos felizes; muito felizes&#8230; eu<br \/>\n    bem estava sonhando esta noite que uns anjos do c&eacute;u estavam voando<br \/>\n    em roda de mim, cantando e dizendo que eu era a mais feliz de todas as mulheres.<br \/>\n    Eu estava muito contente; mas o que me causou m&aacute;goa&#8230; foi ver l&aacute;<br \/>\n    somente o meu primo, que estava a um canto sombrio e pesaroso, e n&atilde;o<br \/>\n    te ver em parte alguma&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas est&aacute;s vendo-me agora, minha querida, feliz e contente<br \/>\n    junto a ti, e isto agora n&atilde;o &eacute; um sonho.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute;&#8230; mas parece&#8230; custa-me a crer em tamanha<br \/>\n    felicidade&#8230; que eu nunca esperei. Eu ia morrer de m&aacute;goa e pesar&#8230;<br \/>\n    mas agora creio que morro de felicidade&#8230; Eduardo!&#8230;<\/p>\n<p>Paulina arquejava; suas faces come&ccedil;avam a enrubescer, e seus olhos<br \/>\n    enchiam-se daquele reflexo brilhante e vago, que costumava acompanhar o del&iacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu Deus! meu Deus! &#8211; murmurou consigo Eduardo aterrado<br \/>\n    e com o cora&ccedil;&atilde;o transido de ang&uacute;stia;&#8211; &eacute;<br \/>\n    a febre!&#8230; &eacute; o del&iacute;rio que volta!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; D. Paulina, &#8211; disse em voz alta, &#8211; deixemos esta conversa<br \/>\n    para logo&#8230; temos tempo de sobejo para isso&#8230; temos uma vida inteira de<br \/>\n    amor e felicidade&#8230; por enquanto a senhora precisa de descanso; deite-se<br \/>\n    e sossegue.. . adeus!&#8230; eu vou mandar vir-lhe um cordial, e volto breve.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o! &#8211; disse a mo&ccedil;a cada vez com<br \/>\n    mais exalta&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o consinto; fica a&iacute;, Eduardo.<br \/>\n    N&atilde;o quero perder um momento&#8230; de tua companhia neste dia t&atilde;o<br \/>\n    feliz&#8230; o melhor cordial &eacute; o nosso amor, n&atilde;o &eacute; assim,<br \/>\n    Eduardo?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute;, d. Paulina, mas a sua sa&uacute;de&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me fales em sa&uacute;de&#8230; eu n&atilde;o sofro nada&#8230;<br \/>\n    sou t&atilde;o feliz.. Olha, Eduardo, olha esta face&#8230; este beijo funesto&#8230;<br \/>\n    est&aacute; me ardendo ainda&#8230; apaga-o, Eduardo, apaga esse beijo com tua<br \/>\n    boca&#8230;<\/p>\n<p> Falando assim Paulina estendia a cabe&ccedil;a, e apresentava a face a Eduardo<br \/>\n    de um modo t&atilde;o meigo e suplicante, que ele quase contaminado do mesmo<br \/>\n    del&iacute;rio chegou-lhe os l&aacute;bios e beijou-a com ardor.<\/p>\n<p> A face de Paulina estava fria. Eduardo aterrado desviou o rosto, e encarou-a<br \/>\n    com aten&ccedil;&atilde;o. Os olhos ba&ccedil;os mal refletiam uma luz frouxa<br \/>\n    como de quem vai adormecer; o carmim das faces tomava um tom l&iacute;vido,<br \/>\n    as p&aacute;lpebras tremiam-lhe; mas um fraco sorriso estava sempre fixo em<br \/>\n    seus l&aacute;bios, e pairava-lhe sobre a fronte ang&eacute;lica serenidade.<\/p>\n<p> Paulina enla&ccedil;ou-se ao pesco&ccedil;o de Eduardo, e deitou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    sobre o ombro dele como crian&ccedil;a, que quer adormecer. &#8211; Eduardo!<br \/>\n    &#8211; murmurou com voz sumida, exalou um fraco solu&ccedil;o, e ficou im&oacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Paulina! Paulina! &#8211; exclamou o mo&ccedil;o assustado, agitando<br \/>\n    a brandamente. &#8211; Estava de feito adormecida.<\/p>\n<p> Eduardo pousou-a de mansinho sobre o travesseiro; examinou a com mais aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Estava morta ! T&atilde;o t&ecirc;nue era o fio, que prendia &agrave; vida<br \/>\n    aquela d&eacute;bil e mimosa criatura, que n&atilde;o p&ocirc;de resistir<br \/>\n    &agrave;quela &uacute;ltima emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Morreu nos bra&ccedil;os da felicidade, com o sorriso nos l&aacute;bios<br \/>\n    e o prazer no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Dir-se-ia, que n&atilde;o foi a morte com o seu sopro sinistro que extinguiu<br \/>\n    aquela exist&ecirc;ncia; mas que um anjo de Deus, baixando sobre o fr&aacute;gil<br \/>\n    e formoso corpo de Paulina, veio sorrindo cerrar-lhe as p&aacute;lpebras,<br \/>\n    e sorvendo-lhe a alma num beijo, a conduziu para o c&eacute;u.<\/p>\n<p> Algumas horas depois dois pretos conduzindo um cad&aacute;ver ensang&uuml;entado<br \/>\n    em uma rede chegavam &agrave; casa de Joaquim Ribeiro.<\/p>\n<p> Era o cad&aacute;ver do infeliz Roberto, que levavam a sepultar no cemit&eacute;rio<br \/>\n    de Uberaba.<\/p>\n<p> O padre, por&eacute;m, n&atilde;o consentiu que dessem aquela caminhada<br \/>\n    in&uacute;til, fazendo-lhes ver que o p&aacute;roco da Uberaba por modo nenhum<br \/>\n    podia consentir, que se enterrase em lugar sagrado o cad&aacute;ver do suicida.<\/p>\n<p> Foi sepultado a meia l&eacute;gua de dist&acirc;ncia da fazenda, junto a<br \/>\n    um cap&atilde;o &agrave; beira da estrada.<\/p>\n<p> O padre n&atilde;o quis benzer o lugar da cova, nem rezar sobre o cad&aacute;ver<br \/>\n    as ora&ccedil;&otilde;es dos finados.<\/p>\n<p> Mas o povo, que compreende melhor a infinita miseric&oacute;rdia divina,<br \/>\n    e tem mais f&eacute; nelas do que os pr&oacute;prios ministros da religi&atilde;o,<br \/>\n    cravou sobre a sepultura uma cruz de pau toscamente lavrada; &#8211; &agrave;<br \/>\n    sombra desse s&iacute;mbolo santo toda a terra &eacute; sagrada.<\/p>\n<p> Joaquim Ribeiro tamb&eacute;m n&atilde;o consentiu que a filha fosse enterrada<br \/>\n    no cemit&eacute;rio comum; n&atilde;o queria afastar-se, nem mesmo na morte,<br \/>\n    daquela que tanto idolatrara na vida. N&atilde;o podendo guardar aqueles restos<br \/>\n    queridos em um magn&iacute;fico t&uacute;mulo de m&aacute;rmore, porque naqueles<br \/>\n    sert&otilde;es faltava-lhe tudo &#8211; o art&iacute;fice e a mat&eacute;ria<br \/>\n    &#8211; mandou benzer e cercar um pequeno terreno no alto de uma risonha colina<br \/>\n    que ficava &agrave; vista da casa, n&atilde;o muito al&eacute;m do s&iacute;tio<br \/>\n    em que dormia o eterno sono o desafortunado Roberto, e ali guardou no seio<br \/>\n    da terra aquele dep&oacute;sito sagrado. Mandou depois erigir ali uma capelinha<br \/>\n    singela, mas alva e asseada, que se divisava a grandes dist&acirc;ncias servindo<br \/>\n    de farol ao viandante por aquelas vastas e descampadas solid&otilde;es.<\/p>\n<p> Ali o velho e infeliz pai ia rezar todos os dias, at&eacute; que pouco tempo<br \/>\n    depois ali foi tamb&eacute;m repousar ao lado de sua filha.<\/p>\n<p> Contava o povo, que um triste noitib&oacute;, que todas as noites fazia<br \/>\n    seu pouso nos bra&ccedil;os da cruz da sepultura de Roberto, sa&iacute;a de<br \/>\n    l&aacute; alta noite soltando guinchos lamentosos, e vinha pousar nos muros<br \/>\n    do cemit&eacute;rio; e que uma pomba alva como neve sa&iacute;a batendo as<br \/>\n    asas da sepultura de Paulina, e desaparecia nos ares.<\/p>\n<p> Era, dizia o povo supersticioso, a alma de Roberto, que andava penando em<br \/>\n    busca de Paulina, que fugindo sempre dele ia se esconder no c&eacute;u.<\/p>\n<p> Assim o sempre infeliz Roberto, bem como durante a vida, viera tamb&eacute;m<br \/>\n    depois de morto repousar e suspirar ainda junto daquela, por quem seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    havia suspirado em v&atilde;o durante a vida inteira.<\/p>\n<p> Eduardo desapareceu, e ningu&eacute;m sabe ao certo o que fora feito desse<br \/>\n    mal-aventurado mo&ccedil;o.<\/p>\n<p> Correu fama de que se retirara para a Bahia e que a&iacute; tomando o burel<br \/>\n    de frade morrera pouco tempo depois em um convento.<\/p>\n<h3>Jupira<\/h3>\n<h2>Cap&iacute;tulo I<\/h2>\n<p> Jupira estava sentada &agrave; sombra de uma canjerana ainda nova, de folhagem<br \/>\n    mui vi&ccedil;osa e cerrada, que dava fresqu&iacute;ssima sombra. Estava tecendo<br \/>\n    um cabaz de palhas de buriti, enquanto sua m&atilde;e, &iacute;ndia algum<br \/>\n    tanto idosa, a alguns passos de dist&acirc;ncia moqueava um gordo e grande<br \/>\n    ti&uacute;.<\/p>\n<p> Era isto &agrave; margem do Rio Grande de Minas, algumas l&eacute;guas acima<br \/>\n    das paragens onde ele, reunindo-se ao Parna&iacute;ba toma o nome de Paran&aacute;.<\/p>\n<p> Como a pequena &aacute;rvore, que lhe prestava sombra, Jupira era tamb&eacute;m<br \/>\n    uma flor nova das selvas, que apenas abria o c&aacute;lix &agrave;s vira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do deserto; uma linda caboclinha de treze a catorze anos, mas de tez um pouco<br \/>\n    mais clara do que a das suas companheiras da floresta. Era no veranico de<br \/>\n    janeiro; o rio estava baixo, e na larga zona de areia, que mediava entre ele<br \/>\n    e a floresta que o bordeja, viam-se dispersos alguns bugres de ambos os sexos,<br \/>\n    uns pescando ou banhando-se, outros dormindo ou comendo. O sol ardent&iacute;ssimo<br \/>\n    do meio-dia reverberava no seio do rio e nas areias da praia, a ponto de ofuscar<br \/>\n    as vistas; estava um calor insuport&aacute;vel.<\/p>\n<p> Pouco abaixo daquele grupo via-se um ind&iacute;gena de formas truculentas<br \/>\n    e vigorosas cortando as &aacute;guas em todas as dire&cccedil;&otilde;es, ora<br \/>\n    nadando com rapidez, ora boiando &agrave; flor do rio, ora sumindo-se de mergulho<br \/>\n    na profundez dos rebojos, e era preciso olhar com muita aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para ver que tinha em uma das m&atilde;os uma delgada linha. Ningu&eacute;m<br \/>\n    diria que ele estava pescando. O &iacute;ndio pesca &agrave; linha os grandes<br \/>\n    peixes, quase como quem persegue um veado ou uma anta atrav&eacute;s de campos<br \/>\n    e florestas. Com um pequeno anzol ou fisga, e uma linha de tucum da grossura<br \/>\n    de um fio de barbante, pescam n&atilde;o s&oacute; os pequenos bagres e pirapitingas,<br \/>\n    como os corpulentos dourados e curumat&atilde;s, e o ja&uacute;, que atinge<br \/>\n    &agrave;s vezes o tamanho de um homem de alta estatura, e tem a for&ccedil;a<br \/>\n    de um touro. Apenas o peixe ferra a isca, e que o &iacute;ndio o percebe fisgado,<br \/>\n    em vez de procurar pux&aacute;-lo &agrave; terra, salta na &aacute;gua e d&aacute;-lhe<br \/>\n    corda, acompanhando-o em todas as voltas que lhe apraz dar pelo rio, tenteando<br \/>\n    a corda de modo que n&atilde;o se quebre, como quem tempera as r&eacute;deas<br \/>\n    a um poldro bravio e fogoso. A pr&oacute;pria for&ccedil;a do peixe arrasta<br \/>\n    o &iacute;ndio e o ajuda a romper as &aacute;guas sem fatigar-se muito, e<br \/>\n    assim ora pairando &agrave; flor do rio, ora cortando-o veloz como uma seta,<br \/>\n    ora sumindo-se nos escuros abismos, o &iacute;ndio acompanha todos os seus<br \/>\n    movimentos, at&eacute; que o peixe extenuado de cansa&ccedil;o se deixa facilmente<br \/>\n    arrastar para a praia.<\/p>\n<p> Depois de ter gasto cerca de meia hora naquelas evolu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    o &iacute;ndio surgiu &agrave; praia agarrando pelas guelras com ambas as<br \/>\n    m&atilde;os e arrastando a custo um enorme peixe que media a altura de seu<br \/>\n    corpo, e ainda a cauda vinha abrindo um sulco pela areia, e dirigiu-se &agrave;<br \/>\n    sombra onde se achava a linda caboclinha.<\/p>\n<p> &#8211; Uff!&#8230; Jupira!&#8230; &#8211; exclamou largando o peixe e deixando-o<br \/>\n    estourar no ch&atilde;o; &#8211; sei que n&atilde;o gostas do ti&uacute;,<br \/>\n    que &eacute; o que tua m&atilde;e tem para te dar, e fui ao fundo do rio buscar<br \/>\n    esse peixe para ti; custou-me bem a arranc&aacute;-lo da &aacute;gua. Fala,<br \/>\n    menina, qual desses teus fracos companheiros &eacute; capaz de lutar no fundo<br \/>\n    da &aacute;gua com um peixe destes?&#8230;<\/p>\n<p> Jupira contemplou o peixe por alguns instantes com admira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    depois olhou para o &iacute;ndio, fez-lhe um ligeiro gesto de agradecimento,<br \/>\n    e continuou no seu servi&ccedil;o. O &iacute;ndio deitou-se de ventre sobre<br \/>\n    a areia a alguns passos de dist&acirc;ncia e fitava os olhos ardentes sobre<br \/>\n    a gentil menina. Parecia truculenta jib&oacute;ia procurando fascinar com<br \/>\n    os olhos a t&iacute;mida pomba, que pretende devorar.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o ingrata columi, &#8211; disse o &iacute;ndio abanando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, &#8211; de todo n&atilde;o queres saber do infeliz Baguari?&#8230;<\/p>\n<p> Por &uacute;nica resposta Jupira levantou-se, e levando o seu trabalho foi<br \/>\n    sentar-se por detr&aacute;s de sua m&atilde;e, como para esconder-se do &iacute;ndio<br \/>\n    e furtar-se a seus olhares devoradores.<\/p>\n<p> Baguari p&ocirc;s-se em p&eacute; de um salto, arrancou do &iacute;ntimo<br \/>\n    peito um gemido rouco, antes um rugido e disse: &#8211; Jupira, olha que o<br \/>\n    cangu&ccedil;u quando v&ecirc; a veadinha tenra pelos bosques, nunca mais<br \/>\n    lhe perde o rasto, e n&atilde;o descansa enquanto n&atilde;o lhe lan&ccedil;a<br \/>\n    as garras. E eu sou o cangu&ccedil;u e tenho fome de ti! &#8211; Baguari!<br \/>\n    &#8211; exclamou a m&atilde;e assustada por sua filha, que cada vez mais se<br \/>\n    chegava a ela; &#8211; a menina ainda &eacute; muito nova&#8230; olha agora &eacute;<br \/>\n    que os peitos lhe v&ecirc;m apontando. Para que apanhar a flor que ainda n&atilde;o<br \/>\n    abriu, colher os favos do jata&iacute; que ainda n&atilde;o tem mel?.. Deixa<br \/>\n    passar mais algumas luas; quando o ip&ecirc; der flores outra vez, Jupira<br \/>\n    te abra&ccedil;ar&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o fale assim, minha m&atilde;e! &#8211; murmurou a menina<br \/>\n    ao ouvido de sua m&atilde;e. &#8211; Assim pudesse o ip&ecirc; nunca mais<br \/>\n    dar flores! Baguari afastou-se silencioso, e chegando ao meio do areal da<br \/>\n    praia, bateu palmas e soltou um assovio estridente como o da anta. A horda<br \/>\n    que se achava dispersa pela margem, reunia-se em torno dele. Baguari mostrou-lhes<br \/>\n    o peixe, e os selvagens soltando alaridos de alegria, em um instante o fizeram<br \/>\n    em postas levando cada um o seu peda&ccedil;o para se banquetearem aquela<br \/>\n    tarde.<\/p>\n<p> Jupira disse a sua m&atilde;e: &#8211; N&atilde;o viu aquele peixe t&atilde;o<br \/>\n    grande, que Baguari matou? &#8211; Pois n&atilde;o vi, minha filha?.. foi<br \/>\n    para ti que ele o pescou.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quero do seu peixe, nem de nada que passar por suas m&atilde;os.<br \/>\n    Tenho mais medo dele do que daquele ja&uacute;, se o encontrasse no fundo<br \/>\n    da &aacute;gua.<\/p>\n<p> Da&iacute; a pouco a tarde trazia sombra e fresquid&atilde;o por aquelas<br \/>\n    magn&iacute;ficas solid&otilde;es e os &iacute;ndios, tripudiando e banqueteando-se,<br \/>\n    com seus alegres alaridos faziam saltarem espantadas as feras de seus covis,<br \/>\n    e os passarinhos deixarem em sobressalto os seus abrigos de verdura.<\/p>\n<p>Somente Baguari, &#8211; que cuidara nessa tarde abrevar-se de cauim e de<br \/>\n    prazer nos bra&ccedil;os da gentil Jupira, &#8211; retirado no mais rec&ocirc;ndito<br \/>\n    antro da floresta, arrancava rugidos de amargura de despeito.<\/p>\n<h3>Cap&iacute;tulo II<\/h3>\n<p>Em seu lado sudoeste a prov&iacute;ncia de Minas termina em um &acirc;ngulo<br \/>\n    agudo, em uma vasta nesga de terra encravada entre as prov&iacute;ncias de<br \/>\n    Goi&aacute;s e de S. Paulo, das quais a separam os dois grandes rios Parna&iacute;ba<br \/>\n    e Rio Grande, que se v&atilde;o reunir na ponta do &acirc;ngulo. Nessas regi&otilde;es,<br \/>\n    sobre as quais a natureza parece ter entornado a flux todo o cofre de seus<br \/>\n    favores, trinta l&eacute;guas pouco mais ou menos acima da conflu&ecirc;ncia<br \/>\n    dos dois rios, est&aacute; situado o Semin&aacute;rio de Nossa Senhora M&atilde;e<br \/>\n    dos Homens, fundado h&aacute; cerca de cinq&uuml;enta anos pelos padres da<br \/>\n    Congrega&ccedil;&atilde;o da Miss&atilde;o de S. Vicente de Paula em uma vasta<br \/>\n    e rica fazenda, que lhes deixou em legado um opulento fazendeiro daquelas<br \/>\n    paragens.<\/p>\n<p> Possui a fazenda matas na prodigiosa uberdade, pingues e magn&iacute;ficas<br \/>\n    pastagens, por entre as quais um caudaloso ribeir&atilde;o vai sereno rolando<br \/>\n    suas &aacute;guas cor de esmeralda sombreadas por duas orlas de frondoso e<br \/>\n    verde-negro arvoredo, pelo que decerto lhe deram o nome de Rio Verde. Atravessa<br \/>\n    as mais formosas e risonhas campinas entrecortadas de vi&ccedil;osos cap&otilde;es<br \/>\n    e palmares pitorescos, e vai perder-se no Rio Grande, que passa a cinco ou<br \/>\n    seis l&eacute;guas do semin&aacute;rio ocultando seu curso entre gigantescas<br \/>\n    e profundas matas.<\/p>\n<p> Pelas imedia&ccedil;&otilde;es do semin&aacute;rio para logo se foram agregando<br \/>\n    alguns moradores, e em torno dele construindo-se algumas casinhas dispersas<br \/>\n    pela campina, de sorte que o lugar chamado Campo Belo, nome que perfeitamente<br \/>\n    lhe quadra, tornou-se como uma pequena aldeia.<\/p>\n<p> Por aqueles sert&otilde;es vagavam por esse tempo alguns restos de tribos<br \/>\n    selvagens vindas de Goi&aacute;s e Mato Grosso, j&aacute; algum tanto familiarizadas<br \/>\n    com a sociedade dos brancos, mas conservando ainda os h&aacute;bitos selv&aacute;ticos<br \/>\n    e a independ&ecirc;ncia da vida errante. Os padres fizeram reiterados esfor&ccedil;os<br \/>\n    para cham&aacute;-los ao gr&ecirc;mio do cristianismo e da vida social, doutrin&aacute;-los,<br \/>\n    e utilizar seus servi&ccedil;os.<\/p>\n<p> Os mission&aacute;rios de S.Vicente, por&eacute;m, parecem que n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o dotados daquele tino e habilidade, de que dispunham os disc&iacute;pulos<br \/>\n    de In&aacute;cio de Loiola para catequizar os ind&iacute;genas. Por vezes<br \/>\n    conseguiram reunir na fazenda alguns bandos; mas nunca alcan&ccedil;aram que<br \/>\n    se sujeitassem por muito tempo a um trabalho cont&iacute;nuo e regular.<\/p>\n<p> Atra&iacute;dos pelo desejo de obterem algumas roupas, ferramentas, armas<br \/>\n    e enfeites, acudiam de quando em quando ao semin&aacute;rio; mas no fim de<br \/>\n    um a dois meses quando muito aborreciam-se do trabalho, entregavam-se &agrave;<br \/>\n    sua natural indol&ecirc;ncia e, se apertavam com eles, desapareciam, e internavam-se<br \/>\n    de novo pelas matas do Rio Grande, continuando sua vida n&ocirc;made e selv&aacute;tica.<\/p>\n<p> Em um desses bandos, que se acolhiam &agrave;s vezes &agrave; fazenda de<br \/>\n    Campo Belo havia uma caboclinha nova por nome Jurema, n&atilde;o de todo linda,<br \/>\n    mas um pouco menos feia e mais bem-feita do que as suas companheiras. Jos&eacute;<br \/>\n    Lu&iacute;s, mo&ccedil;o branco e bem-disposto, empregado no semin&aacute;rio,<br \/>\n    agradou-se sumamente dela, e por tal arte soube catequiz&aacute;-la, que no<br \/>\n    fim de algum tempo Jurema lhe deu uma linda e vi&ccedil;osa filhinha.<\/p>\n<p> Sabedores do fato os padres induziram Jos&eacute; Lu&iacute;s a casar-se<br \/>\n    com a &iacute;ndia. Batizaram-se ao mesmo tempo a m&atilde;e e a filha, e<br \/>\n    no dia seguinte o pai e a m&atilde;e receberam-se em leg&iacute;timo matrim&ocirc;nio.<br \/>\n    Jurema trocou o seu nome selv&aacute;tico pelo de Ana, e a filha, que a m&atilde;e<br \/>\n    chamava Jupira, pelo de Maria.<\/p>\n<p> Os &iacute;ndios n&atilde;o punham dificuldade alguma em se deixarem batizar,<br \/>\n    casar e receber todos os mais sacramentos da igreja; mas isso para eles era<br \/>\n    um ato sem conseq&uuml;&ecirc;ncia. No dia seguinte esqueciam seus novos nomes,<br \/>\n    e os esposos se separavam com a mesma facilidade com que largavam seus vestidos,<br \/>\n    para tomarem de novo a ara&ccedil;&oacute;ia, e tornavam aos matos para serem<br \/>\n    t&atilde;o bons adoradores de Tup&atilde; como dantes.<\/p>\n<p> Aconteceu pois que um belo dia a esposa de Jos&eacute; Lu&iacute;s anoiteceu<br \/>\n    e n&atilde;o amanheceu, desaparecendo com seus irm&atilde;os em Tup&atilde;,<br \/>\n    e levando consigo sua filhinha ainda de mama. Jos&eacute; Lu&iacute;s ficou<br \/>\n    sumamente aflito e magoado com este acontecimento; fez imensas dilig&ecirc;ncias<br \/>\n    para apanhar ao menos a filha pois com a m&atilde;e j&aacute; n&atilde;o contava<br \/>\n    mais &agrave; vista de um tal pro-cedimento.<\/p>\n<p> Mas todos os seus passos foram perdidos, e depois de um ano de pesquisas<br \/>\n    e excurs&otilde;es pelas matas, desanimou&#8230;<\/p>\n<p> As florestas s&atilde;o imensas, e aquela gente n&atilde;o tem pouso certo<br \/>\n    nem por uma semana.<\/p>\n<p> Eram j&aacute; passados mais de dois anos, quando Jurema sem mais cerim&ocirc;nia<br \/>\n    entrou-lhe pela porta dentro, e se lhe apresentou conduzindo pela m&atilde;o<br \/>\n    a pequena Jupira, e j&aacute; com outro caboclinho &agrave;s costas acocorado<br \/>\n    em uma pequena maca de buriti, que trazia presa &agrave; testa, como &eacute;<br \/>\n    costume entre as &iacute;ndias. Apareceu a seu marido sorrindo-se tranq&uuml;ila<br \/>\n    e fresca, como se nada houvesse acontecido, como se se tivessem separado na<br \/>\n    v&eacute;spera. Jos&eacute; Lu&iacute;s ficou at&ocirc;nito com aquela inesperada<br \/>\n    visita; maior por&eacute;m foi a sua alegria do que o seu espanto, e deu gra&ccedil;as<br \/>\n    ao c&eacute;u, que lhe restituiu a filha, a qual ele tratou logo de p&ocirc;r<br \/>\n    em bom recato e seguran&ccedil;a, despedindo cortesmente a m&atilde;e, que<br \/>\n    com isso n&atilde;o se mostrou nem de leve magoada, pois segundo as apar&ecirc;ncias<br \/>\n    j&aacute; tinha novo esposo no bando dos seus.<\/p>\n<p> Receoso Jos&eacute; Lu&iacute;s, de que sua filha n&atilde;o fosse de novo<br \/>\n    levada para o mato por sua m&atilde;e, guardou-a com toda a cautela, confiando-a<br \/>\n    aos cuidados de uma velha parenta que era a sua caseira, e n&atilde;o respirou<br \/>\n    tranq&uuml;ilo enquanto Jurema com todo o seu bando n&atilde;o desapareceram<br \/>\n    das imedia&ccedil;&otilde;es de Campo Belo.<\/p>\n<p> A menina crescia linda, engra&ccedil;ada, e travessa como uma ariranha.<br \/>\n    Tinha muita vivacidade e penetra&ccedil;&atilde;o, mas os instintos selv&aacute;ticos<br \/>\n    prevaleciam nela, e foi com muita dificuldade, que seu pai no fim de sete<br \/>\n    anos conseguiu que ela adquirisse alguns costumes de civiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    andasse vestida, cosesse, lesse e escrevesse alguma coisa. Muitas vezes a<br \/>\n    iam agarrar pelos matos quase nua, trepada como macaco nas mais altas &aacute;rvores,<br \/>\n    ou nadando nos profundos remansos do Rio Verde em risco de ser devorada por<br \/>\n    algum ja&uacute; ou sucuri.<\/p>\n<p> Todavia Jupira era uma interessante menina, e pela singularidade de suas<br \/>\n    qualidades f&iacute;sicas e morais era o enlevo de toda aquela pequena povoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Andava de casa em casa, e em todas elas era mui querida e festejada. &Agrave;s<br \/>\n    vezes tamb&eacute;m penetrava no semin&aacute;rio, a&iacute; fazia o regalo<br \/>\n    e as del&iacute;cias dos padres e dos estudantes.<\/p>\n<p> Quando, por&eacute;m, ali se achava algum bando dos seus parentes da selva,<br \/>\n    n&atilde;o queria mais sair do meio deles; j&aacute; lhes conhecia bem a l&iacute;ngua,<br \/>\n    da qual j&aacute; balbuciava algumas palavras quando voltara do mato. Por<br \/>\n    isso muitas vezes servia de int&eacute;rprete entre os &iacute;ndios e os<br \/>\n    padres com sumo gosto e contentamento de todos. Somente Jos&eacute; Lu&iacute;s<br \/>\n    &#8211; e com raz&atilde;o &#8211; se afligia muito com isso, e n&atilde;o<br \/>\n    gostava nada de ver sua filha t&atilde;o afei&ccedil;oada aos seus parentes<br \/>\n    do mato. Zangava-se, ralhava, castigava, mas era debalde; o pendor que a menina<br \/>\n    tinha para os seus era irresist&iacute;vel.<\/p>\n<p> Jupira j&aacute; tinha nove para dez anos, quando sua m&atilde;e, depois<br \/>\n    de vaguear largos anos pelos sert&otilde;es de Goi&aacute;s, Par&aacute; e<br \/>\n    Mato Grosso, tornou a aparecer em Campo Belo com a horda, a que pertencia.<br \/>\n    Jupira!&#8230; exclamou a &iacute;ndia, apenas p&ocirc;s os olhos em sua filha.<br \/>\n    Esta tamb&eacute;m imediatamente reconheceu sua m&atilde;e, saltou-lhe ao<br \/>\n    colo, e nunca mais quis deix&aacute;-la.<\/p>\n<p> Jos&eacute; Lu&iacute;s ficou cheio de gosto e inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com o reaparecimento da m&atilde;e de sua filha. Desta vez redobrou de cuidados<br \/>\n    e precau&ccedil;&otilde;es. Jupira sem que ela o soubesse, n&atilde;o andava<br \/>\n    sem uma sentinela &agrave; vista. Era um primo seu, um sobrinho de Jos&eacute;<br \/>\n    Lu&iacute;s, por nome Carlos, e a quem todos chamavam Carlito, pouco mais<br \/>\n    velho do que ela, rapazinho vivo e esperto como um diabrete. N&atilde;o tendo<br \/>\n    podido parar no semin&aacute;rio em raz&atilde;o de seu g&ecirc;nio tr&ecirc;fego,<br \/>\n    ind&oacute;cil e insubordinado, freq&uuml;entava como externo a escola de<br \/>\n    primeiras letras, onde se havia muito mal. Entretanto era excelente para servir<br \/>\n    de companheiro de brinquedos e ao mesmo tempo de sentinela a sua prima durante<br \/>\n    o dia, porque de noite dormia ela fechada debaixo de chave em companhia da<br \/>\n    velha caseira de Jos&eacute; Lu&iacute;s.<\/p>\n<p> Todavia apesar de todas essas precau&ccedil;&otilde;es, uma bela manh&atilde;<br \/>\n    Jupira n&atilde;o amanheceu em casa. Tinha arranjado modo de trepar pela parede,<br \/>\n    e como a casa era de telha-v&atilde;, isto &eacute;, sem forro no teto, descobriu<br \/>\n    um peda&ccedil;o de telhado, saltou fora, e voou para as selvas em companhia<br \/>\n    de sua m&atilde;e.<\/p>\n<h2>Cap&iacute;tulo III<\/h2>\n<p> Esta segunda fuga foi muito mais dolorosa ao cora&ccedil;&atilde;o de Jos&eacute;<br \/>\n    Lu&iacute;s do que a primeira. J&aacute; amava extremosamente sua filha, e<br \/>\n    tinha a mais terna solicitude por aquela interessante menina, cuja cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lhe tinha custado tantos cuidados e desvelos, cujo fruto em um s&oacute; momento<br \/>\n    vira esvaecer-se. Era &agrave; semelhan&ccedil;a de uma flor peregrina e rara,<br \/>\n    em cuja cultura o jardineiro se esmera com o mais desvelado amor. Um dia por&eacute;m,<br \/>\n    quando pela manh&atilde; vai visitar o tenro bot&atilde;o, que de dia a dia<br \/>\n    anseia por ver desabrochar em flor, acha-a cortada pela raiz por verme daninho,<br \/>\n    murcha e perdida para sempre.<\/p>\n<p> Jos&eacute; Lu&iacute;s fez altas dilig&ecirc;ncias para reaver sua filha,<br \/>\n    mas sempre sem resultados. Bem quisera ele para reivindic&aacute;-la armar<br \/>\n    uma bandeira e levar a guerra a todas as tribos selvagens, como outrora Menelau<br \/>\n    levou toda a Gr&eacute;cia armada aos muros de Tr&oacute;ia para reconquistar<br \/>\n    a esposa, que um peralta lhe havia seduzido e roubado. Mas n&atilde;o lhe<br \/>\n    era isso poss&iacute;vel, e contentava-se em dirigir s&uacute;plicas ao c&eacute;u,<br \/>\n    e fazer promessas a Nossa Senhora M&atilde;e dos Homens para que lhe restitu&iacute;sse<br \/>\n    a filha.<\/p>\n<p> Nas selvas Jupira cresceu linda e garbosa como a palmeira das campinas,<br \/>\n    mas esquiva e soberba como a ema, rainha dos chapad&otilde;es. Suas gra&ccedil;as<br \/>\n    fascinaram as vistas de todos os jovens bugres, que a seguiam, admirando-a<br \/>\n    e adorando-a como a um manit&ocirc; ca&iacute;do do c&eacute;u; mas a nenhum<br \/>\n    deles foi dado colher aquela peregrina flor das selvas. Baguari era chefe<br \/>\n    de uma forte e numerosa horda estranha. Encontrando-se com o bando de Jupira,<br \/>\n    encantado de sua beleza, abandonou os seus para segui-la.<\/p>\n<p> Mas Jupira fugia dele como a t&iacute;mida lontra foge do jacar&eacute;,<br \/>\n    ou como a pomba se esconde do gavi&atilde;o. Era &agrave; sombra de sua m&atilde;e<br \/>\n    que vinha arquejante e espantada como a ca&ccedil;a acossada pelo jaguar,<br \/>\n    abrigar-se das persegui&ccedil;&otilde;es do cacique. Temerosa de cair-lhe<br \/>\n    nas garras a menina mal ousava arredar-se alguns passos da companhia dos seus.<\/p>\n<p> Os outros bugres pretendentes aos favores de Jupira, que sabiam das inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Baguari, furiosos de raiva e de ci&uacute;me, e n&atilde;o ousando opor-se<br \/>\n    de viva for&ccedil;a ao possante cacique, ainda que desejassem devorar-se<br \/>\n    uns aos outros, uniam-se para fazer face ao inimigo comum e mais forte, e<br \/>\n    seguiam e vigiavam por toda a parte a formosa menina a fim de obstar a que<br \/>\n    o cacique lograsse seus intentos. Assim Jupira sem querer e sem o pensar tinha<br \/>\n    sempre ao p&eacute; de si uma escolta ativa e vigilante para a defender contra<br \/>\n    qualquer tentativa violenta de seu sanhudo amante, como s&oacute;i acontecer<br \/>\n    entre as brutas alim&aacute;rias, pouco acima das quais se achavam aqueles<br \/>\n    selvagens na categoria dos entes. Baguari era valente e terr&iacute;vel;<\/p>\n<p>membrudo e robusto como a anta, &aacute;gil e veloz como a on&ccedil;a, j&aacute;<br \/>\n    tinha sufocado nos bra&ccedil;os um dos seus rivais, e traspassado o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a outro com uma flecha, por terem ousado disputar-lhe abertamente a posse<br \/>\n    da formosa Jupira. Mas era s&oacute; e detestado por todos, e eram muitos<br \/>\n    contra ele. Por isso tamb&eacute;m da parte dele havia constrangimento e receio.<\/p>\n<p> O tronco do ip&ecirc; j&aacute; se tinha de novo toucado de seus tufados<br \/>\n    cachos de flores amarelas. Baguari que conforme a promessa de Jurema, estava<br \/>\n    esperando com impaci&ecirc;ncia aquela quadra, foi ter com ela, e disse-lhe:<br \/>\n    &#8211; Olha, Jurema, o ip&ecirc; j&aacute; est&aacute; florescendo. &Eacute;<br \/>\n    tempo de cumprires a promessa que me fizeste, e entregar-me tua filha.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! minha m&atilde;e! minha m&atilde;e! d&aacute;-me antes a um<br \/>\n    sucuri, &#8211; exclamou Jupira, atracando-se com a m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8211; Jupira, &#8211; disse Jurema para sua filha, &#8211; olha que Baguari<br \/>\n    &eacute; forte e te quer muito bem. Vai com ele, minha filha.<\/p>\n<p> &#8211; Se minha m&atilde;e teima, eu irei lan&ccedil;ar-me na lagoa dos<br \/>\n    sucuris retorquiu a menina com firmeza.<\/p>\n<p> A lagoa dos sucuris era um banhado, que por ali havia e onde existia enorme<br \/>\n    quantidade desses formid&aacute;veis r&eacute;pteis. Quem nela ca&iacute;a<br \/>\n    era irremissivelmente devorado pelos monstros. Jurema sabia, que sua filha<br \/>\n    era bem capaz de p&ocirc;r em pr&aacute;tica a sua amea&ccedil;a, e disse<br \/>\n    ao cacique: &#8211; Est&aacute;s ouvindo, Baguari? &#8211; ela n&atilde;o<br \/>\n    te quer ainda. &Eacute; que ainda n&atilde;o &eacute; tempo. Espera ainda,<br \/>\n    Baguari;&#8230; mais tarde&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Cala-te, filha de Anhang&aacute;! &#8211; bradou o &iacute;ndio<br \/>\n    rugindo e batendo o p&eacute; com for&ccedil;a &#8211; n&atilde;o quero mais<br \/>\n    te escutar, boicininga enganadora&#8230; ou hoje ou nunca!&#8230;<\/p>\n<p> Ouvindo os gritos e vendo a atitude amea&ccedil;adora do cacique, os outros<br \/>\n    bugres, que estavam de alcat&eacute;ia, aproximaram-se de arco e flecha em<br \/>\n    punho, murmurando palavras de amea&ccedil;a. Baguari lan&ccedil;ou-me de rev&eacute;s<br \/>\n    um furibundo olhar, soltou um rugido de raiva e de despeito, e retirou-se<br \/>\n    vagarosamente rosnando como um tigre enfurecido.<\/p>\n<p> Vendo que nem por bem, nem por viol&ecirc;ncia lhe era poss&iacute;vel obter<br \/>\n    a posse da virgem indiana, Baguari que n&atilde;o desistia de seus intentos<br \/>\n    sobre ela, recorreu &agrave;s ciladas.<\/p>\n<p> Jupira gostava de ca&ccedil;ar p&aacute;ssaros. Com um pequeno arco e flechas<br \/>\n    proporcionadas &agrave;s suas for&ccedil;as, ela varava os ja&oacute;s, inhambus,<br \/>\n    macucos, capoeiras e outras aves que abundavam naquelas florestas, e abastecia<br \/>\n    de copiosa ca&ccedil;a o rancho de seu pequeno bando. Um dia &agrave; hora<br \/>\n    do p&ocirc;r-do-sol ela estava sozinha com sua m&atilde;e &agrave; beira de<br \/>\n    um cap&atilde;o embalando-se indolentemente em sua maca de palhas de buriti<br \/>\n    e abanando o rosto e enxotando as mutucas com o cocar de penas, que havia<br \/>\n    tirado da cabe&ccedil;a. Seus companheiros vagueavam pelo campo a pouca dist&acirc;ncia.<br \/>\n    Um ja&oacute; come&ccedil;ou a piar dentro da mata. Jupira saltou lestamente<br \/>\n    da rede, tomou o arco e flechas, e embrenhou-se no cap&atilde;o, sem que sua<br \/>\n    m&atilde;e, que estava ocupada em esfolar um tamandu&aacute;, desse f&eacute;<br \/>\n    daquele movimento.<\/p>\n<p> O ja&oacute; &eacute; uma ave grande e excelente de se comer, mas muito<br \/>\n    arisca e dific&iacute;lima de se ca&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Os &iacute;ndios e os sertanejos, que com eles aprenderam, empregam uma<br \/>\n    engenhosa ast&uacute;cia para os atrair e apanhar. &Eacute; de ordin&aacute;rio<br \/>\n    ao p&ocirc;r-do-sol que os ja&oacute;s costumam piar, vagueando pelas sombras<br \/>\n    da mata. O ca&ccedil;ador esconde-se cuidadosamente em alguma moita junto<br \/>\n    ao lugar, em que os ouve piando, e come&ccedil;a tamb&eacute;m a piar, imitando-os<br \/>\n    com toda a perfei&ccedil;&atilde;o. O ja&oacute; acudindo &agrave;quele chamado,<br \/>\n    que cuida ser de algum de seus companheiros, vem se aproximando, descobre-se,<br \/>\n    e ent&atilde;o o ca&ccedil;ador atira-lhe ou flecha-o muito &agrave; vontade.<\/p>\n<p> Jupira, que era habil&iacute;ssima neste manejo foi se esconder e come&ccedil;ou<br \/>\n    a responder ao ja&oacute;. Mas este em vez de aproximar-se, ia-se afastando<br \/>\n    aos poucos, e piando cada vez mais ao longe. Jupira piando sempre e mudando<br \/>\n    de esconderijo em esconderijo o foi acompanhando, sem nunca conseguir avist&aacute;-lo,<br \/>\n    entranhou-se a uma grande dist&acirc;ncia pelo cap&atilde;o adentro. O sol<br \/>\n    j&aacute; era entrado, e as sombras do crep&uacute;sculo come&ccedil;avam<br \/>\n    a escurecer a floresta; Jupira desanimada ia j&aacute; voltando, quando sentiu<br \/>\n    pelas costas m&atilde;o de ferro agarrar-lhe o ombro, e uma voz medonha bradou-lhe<br \/>\n    &#8211; Jupira, agora &eacute;s minha!&#8211; Era Baguari que usara daquela<br \/>\n    nega&ccedil;a para atrair Jupira e arred&aacute;-la dos seus. Assim a pobre<br \/>\n    menina cuidando ser a ca&ccedil;adora era a ca&ccedil;a, que vinha descuidada<br \/>\n    cair nas m&atilde;os de seu feroz perseguidor.<\/p>\n<p> Jupira deu um grito de terror; mas o cacique levou-lhe imediatamente a m&atilde;o<br \/>\n    &agrave; boca, e nem os companheiros dela poderiam ouvi-la, na dist&acirc;ncia<br \/>\n    em que se achavam. Viu que nenhum partido poderia tirar da resist&ecirc;ncia,<br \/>\n    e procurou aplacar o seu feroz agressor.<\/p>\n<p> &#8211; Espera, Baguari! &#8211; dizia ela arquejando de susto: &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o me fa&ccedil;as mal; eu me entrego&#8230; mas larga-me.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o; tu queres enganar-me; mas &eacute; escusado; desta vez<br \/>\n    n&atilde;o me escapar&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quero te enganar, n&atilde;o, Baguari. Vamos onde est&aacute;<br \/>\n    minha m&atilde;e&#8230; ela me entregar&aacute; a ti, e eu te juro que n&atilde;o<br \/>\n    hei de p&ocirc;r d&uacute;vida nenhuma em ser tua.<\/p>\n<p> &#8211; Por Tup&atilde;!&#8230; nesse la&ccedil;o n&atilde;o caio eu, minha<br \/>\n    formosa gar&ccedil;a do Paran&aacute;. J&aacute; agora n&atilde;o sair&aacute;s<br \/>\n    mais dos meus bra&ccedil;os, quer tu e tua m&atilde;e queiram, quer n&atilde;o<br \/>\n    queiram.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, Baguari; sou tua; n&atilde;o te fugirei mais;&#8230; mas larga-me&#8230;<br \/>\n    tu assim me sufocas&#8230; ai&#8230;<\/p>\n<p> Falando assim e debatendo-se Jupira procurava ganhar tempo a ver se seus<br \/>\n    companheiros dando por falta dela vinham em seu socorro, ou a excogitar algum<br \/>\n    ardil para arrancar-se dos bra&ccedil;os do seu brutal amante. Melhor por&eacute;m<br \/>\n    do que ela esperava, veio o destino ou o c&eacute;u em seu aux&iacute;lio.<br \/>\n    Pisada pelo &iacute;ndio uma enorme jararaca que dormia em uma moita de capim<br \/>\n    quase debaixo de seus p&eacute;s, salta enfurecida, e enrosca-se-lhe nas pernas.<br \/>\n    O &iacute;ndio d&aacute; um grito de horror, sacode vigorosamente a perna,<br \/>\n    e atira longe o medonho r&eacute;ptil, que felizmente n&atilde;o o havia picado,<br \/>\n    recua em dois pulos com Jupira nos bra&ccedil;os, larga-a no ch&atilde;o,<br \/>\n    e investe de tacape al&ccedil;ado sobre a cobra, que ia se esgueirando pelo<br \/>\n    matagal adentro. Jupira n&atilde;o perdeu um s&oacute; instante; mal se viu<br \/>\n    solta dos bra&ccedil;os do truculento cacique, enquanto este a rijos botes<br \/>\n    de tacape perseguia a cobra, mais veloz e sutil do que uma irara desapareceu<br \/>\n    pela mata, e chegou suando e arquejante ao p&eacute; de sua m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8211;Est&aacute; morta!&#8230; &#8211; bradou triunfante o cacique. &#8211;<br \/>\n    Jupira!&#8230; Jupira!&#8230; Jupira!&#8230; Onde est&aacute;s? Mas Jupira j&aacute; estava<br \/>\n    longe.<\/p>\n<h2>Cap&iacute;tulo IV<\/h2>\n<p> Quando Baguari, perseguindo Jupira, chegou ao lugar em que Jurema se achava,<br \/>\n    j&aacute; era noite e os outros bugres j&aacute; ali reunidos estavam acendendo<br \/>\n    seus fogos.<\/p>\n<p> &#8211; Que fizeste a Jupira, que ela me apareceu correndo e chorando, toda<br \/>\n    assustada? perguntou Jurema a Baguari.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o lhe fiz mal algum, Jurema; ela &eacute; arisca e medrosa<br \/>\n    como a saracura do brejo.<\/p>\n<p> &#8211; Tem medo de ti, porque n&atilde;o sabes amim&aacute;-la. A pomba<br \/>\n    foge do carcar&aacute;, que lhe fisga as unhas, mas gosta do trocaz, que a<br \/>\n    beija e acaricia.<\/p>\n<p> &#8211; Mas porventura sou eu algum jacar&eacute; do rio para ela fugir-me<br \/>\n    assim, e obrigar-me a negace&aacute;-la como o jaguar que anda &agrave; espia<br \/>\n    da veada nova?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Por essa forma, Baguari, nunca Jupira te querer&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o queira embora; h&aacute; de ser minha. Para que me deu<br \/>\n    Tup&atilde; estes olhos, que enxergam mais do que os do gavi&atilde;o, e estes<br \/>\n    pulsos mais fortes do que os do cangu&ccedil;u?&#8230;<\/p>\n<p> A estas palavras ressoou por entre os outros bugres um murm&uacute;rio surdo,<br \/>\n    e alguns rosnaram palavras de indigna&ccedil;&atilde;o e de amea&ccedil;a.<br \/>\n    Baguari vibrou sobre eles um olhar de fogo e sangue, e voltando-se para Jurema<br \/>\n    e sua filha: &#8211; Est&aacute; bem, &#8211; disse; &#8211; n&atilde;o quero<br \/>\n    mais teimar contigo, Jurema. Vou-me embora para os meus. E tu Jupira fica-te<br \/>\n    em paz; n&atilde;o te perseguirei mais. Dou-te seis luas para me esperar e<br \/>\n    ai daquele, que ousar tocar-te, e ai de ti, se te entregares a algum! De feito<br \/>\n    eram j&aacute; passados dois meses, e ningu&eacute;m mais via por aquelas<br \/>\n    paragens o sanhudo Baguari. Tinha realmente ido reunir-se a seus companheiros,<br \/>\n    cuja resid&ecirc;ncia favorita era para as bandas de Sant&#8217;Ana do Parna&iacute;ba<br \/>\n    pr&oacute;ximo &agrave; jun&ccedil;&atilde;o dos dois grandes rios.<\/p>\n<p> Jupira pois podia j&aacute; passear sozinha e desassombrada, e adormecer<br \/>\n    tranq&uuml;ila &agrave; sombra da figueira silvestre pelas margens do seu<br \/>\n    p&aacute;trio Paran&aacute;, ela que tinha mais medo do amor de um homem do<br \/>\n    que das sanhas do cangu&ccedil;u, das ciladas do sucuri.<\/p>\n<p> Em uma sesta ardente ela estava sozinha sentada &agrave; sombra bem junto<br \/>\n    &agrave; margem do rio. Pendurada a um galho se via perto dela uma pequena<br \/>\n    maca, onde dormia um irm&atilde;ozinho seu, que ela embalava cantando, e enxotando<br \/>\n    com um ramo os maribondos e mutucas, que lhe esvoa&ccedil;avam em torno. Espalhados<br \/>\n    pela praia, pendurados ou encostados pelos troncos viam-se armas, redes, esteiras<br \/>\n    e mais utens&iacute;lios indianos, sinal de que a sua horda n&atilde;o devia<br \/>\n    andar por longe. De feito, Jurema e seus companheiros tinham-se entranhado<br \/>\n    pela floresta &agrave; cata de jabuticabas, araticuns, bacuparis e outras<br \/>\n    frutas silvestres de que abundam aquelas matas, e deixaram ali Jupira tomando<br \/>\n    conta do rancho e vigiando a crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Entretida com aquele cuidado Jupira n&atilde;o viu um vulto, que na margem<br \/>\n    oposta surgiu da mata, e atirando-se ao rio o veio atravessando sereno e sem<br \/>\n    ru&iacute;do, como um jacar&eacute;, mal tendo a cabe&ccedil;a fora da &aacute;gua.<\/p>\n<p> Ao aproximar-se da barranca mergulhou, e Jupira s&oacute; o viu quando surgindo<br \/>\n    fora da &aacute;gua, saltou na praia perto dela. Soltou um grito de susto<br \/>\n    cuidando ser algum monstro aqu&aacute;tico, que a vinha devorar; por&eacute;m,<br \/>\n    seu terror ainda subiu de ponto, quando naquele vulto reconheceu Baguari,<br \/>\n    que se erguia ao p&eacute; dela gotejante, gigantesco e hediondo, com os olhos<br \/>\n    vermelhos e chamejantes como duas brasas.<\/p>\n<p> &#8211; Jupira, hoje &eacute; o dia! &#8211; bradou o &iacute;ndio lan&ccedil;ando-lhe<br \/>\n    as m&atilde;os. &#8211; H&aacute;s de ir comigo ou hei de dar-te a comer aos<br \/>\n    peixes deste rio.<\/p>\n<p> Jupira tremendo e transida de horror, deixou-se ficar muda e queda, como<br \/>\n    a cor&ccedil;a que sentiu no cangote a garra agu&ccedil;ada da su&ccedil;uarana.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos, Jupira!&#8230; desta vez eu te juro n&atilde;o me escapar&aacute;s<br \/>\n    mais.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, vamos, Baguari; &#8211; disse Jupira voltando-se do susto e<br \/>\n    recobrando sua natural coragem e resolu&ccedil;&atilde;o. &#8211; Devo ser<br \/>\n    tua; bem vejo que Tup&atilde; me destinou para ti, e que n&atilde;o me &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel por mais que fa&ccedil;a escapar ao teu poder.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!&#8230; enfim!&#8230; ainda bem que o conheces. Acompanha-me.<\/p>\n<p> Falando assim Baguari a ia arrastando para a mata.<\/p>\n<p> Presa &agrave; barranca estava uma canoa que aqueles ind&iacute;genas, que<br \/>\n    j&aacute; tinham alguma ind&uacute;stria e possu&iacute;am alguma ferramenta,<br \/>\n    haviam fabricado.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o! para a&iacute; n&atilde;o! exclamou Jupira. &#8211;<br \/>\n    Minha gente n&atilde;o pode tardar a voltar, e ai de n&oacute;s se nos encontrarem!<br \/>\n    matar-nos-&atilde;o a mim e a ti!&#8230; Entremos naquela canoa, vamos para a<br \/>\n    outra banda, e fujamos para bem longe.<\/p>\n<p> N&atilde;o pareceu m&aacute; a Baguari aquela proposta.<\/p>\n<p> &#8211; Seja como quiseres&#8230; mas esse columim?&#8230; disse o &iacute;ndio<br \/>\n    apontando para a crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Tup&atilde; tomar&aacute; conta dele &#8211; respondeu a menina<br \/>\n    apontando para o c&eacute;u.<\/p>\n<p> Entraram na canoa, e Jupira para mostrar que de bom grado acompanhava o<br \/>\n    seu roubador, levou para dentro dela seu arco e flechas, e mais utens&iacute;lios<br \/>\n    que lhe pertenciam. Sua inten&ccedil;&atilde;o por&eacute;m era precipitar-se<br \/>\n    no meio do rio, e deixar-se afogar, no caso que n&atilde;o pudesse matar Baguari.<br \/>\n    Chegados que foram ao meio do rio, Jupira debru&ccedil;ccedil;ou-se sobre o bordo<br \/>\n    da canoa como para mirar a profundidade das &aacute;guas. Um forte p&eacute;<br \/>\n    de vento, que ent&atilde;o se levantou, arrancou-lhe da cabe&ccedil;a e atirou<br \/>\n    no rio o bonito canitar de penas de arara guarnecido de ouro e pedrarias,<br \/>\n    que trouxera da casa de seu pai.<\/p>\n<p> Uma s&uacute;bita inspira&ccedil;&atilde;o atravessou o esp&iacute;rito<br \/>\n    de Jupira.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! o meu canitar!&#8230; o meu canitar!&#8230; exclamou a menina ajuntando<br \/>\n    as m&atilde;os com mostras de grande l&aacute;stima.<\/p>\n<p> &#8211; O meu canitar, que eu quero tanto&#8230; l&aacute; se vai pela &aacute;gua<br \/>\n    abaixo!&#8230; ah! meu Deus, espera, Baguari!&#8230; vou ver se o posso apanhar.<\/p>\n<p> Dizendo isto fazia gesto de quem ia lan&ccedil;ar-se a nado.<\/p>\n<p> &#8211; Espera tu a&iacute;, que eu j&aacute; te trago o teu canitar.<\/p>\n<p> Disse e de um salto atirou-se ao rio. Apenas se havia afastado umas quatro<br \/>\n    ou cinco bra&ccedil;as da canoa, Jupira toma o arco, e acocha-lhe uma flecha,<br \/>\n    que foi cravar-se-lhe na esp&aacute;dua. O &iacute;ndio arrancou um rugido<br \/>\n    de dor, e afundou-se por um momento; apenas surgiu de novo &agrave; tona da<br \/>\n    &aacute;gua, nova flecha voou do arco de Jupira e foi cravar-se na outra esp&aacute;dua<br \/>\n    do &iacute;ndio. Nenhuma das flechas por&eacute;m havia penetrado muito fundo,<br \/>\n    e nem lhe tolhiam o movimento dos bra&ccedil;os; o &iacute;ndio enfurecido<br \/>\n    lan&ccedil;ou-se sobre a canoa, a qual tamb&eacute;m n&atilde;o sendo governada<br \/>\n    vinha rapidamente sobre ele levada pela torrente. Quem o visse ent&atilde;o<br \/>\n    com aquelas duas hastes emplu-madas sobre o dorso, cuidaria ver um drag&atilde;o<br \/>\n    alado arrojando-se sobre a canoa para devorar a infeliz menina. Jupira, que<br \/>\n    o esperava em p&eacute; com um feroz sorriso de triunfo, deixou-o chegar,<br \/>\n    e quando o &iacute;ndio enfurecido ia deitar a m&atilde;o ao bordo da pequena<br \/>\n    igara, descarregou-lhe com toda a for&ccedil;a o remo sobre a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e rebentou-lhe o cr&acirc;nio. O &iacute;ndio desapareceu, e foi surgir um<br \/>\n    pouco abaixo &agrave; flor da &aacute;gua entre uma multid&atilde;o de peixes,<br \/>\n    que saltitando devoravam o sangue e os miolos que escorriam do cr&acirc;nio<br \/>\n    do desventurado cacique.<\/p>\n<h2>Cap&iacute;tulo V<\/h2>\n<p> O cad&aacute;ver de Baguari foi rolando longos dias &agrave; merc&ecirc;<br \/>\n    da torrente do Paran&aacute;, servindo de pasto aos peixes, e de banquete<br \/>\n    e batel a um tempo aos urubus, que sobre ele iam boiando rio abaixo, at&eacute;<br \/>\n    que enfim foi encalhar em uma praia arenosa justamente em um lugar, onde ent&atilde;o<br \/>\n    achavam-se arranchados os seus companheiros. Dir-se-ia, que a m&atilde;o do<br \/>\n    destino para ali o tangera de prop&oacute;sito como para clamar vingan&ccedil;a.<br \/>\n    Posto que j&aacute; meio devorado pelos peixes, foi logo reconhecido pelos<br \/>\n    seus. Baguari ao partir lhes havia prometido que em menos de tr&ecirc;s luas<br \/>\n    havia de voltar com Jupira; que se at&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o aparecesse<br \/>\n    &eacute; porque o teriam morto, e nesse caso deixava a cargo deles a sua vingan&ccedil;a.<br \/>\n    De feito voltou, mas sem vida e sem Jupira, e apenas trazendo ainda no dorso<br \/>\n    as flechas que ela lhe havia cravado, como em vida havia trazido cravadas<br \/>\n    no peito as setas, com que os lindos olhos de Jupira lhe haviam atravessado<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Apenas os &iacute;ndios o reconheceram, soltaram grandes alaridos de d&oacute;,<br \/>\n    recolheram o cad&aacute;ver em uma grande maca, teceram em torno dele dan&ccedil;as<br \/>\n    f&uacute;nebres, e deram-lhe sepultura &agrave; sombra de uma velha sucupira.<\/p>\n<p> Feitas as honras f&uacute;nebres ao seu valente chefe, aqueles ind&iacute;genas<br \/>\n    trataram logo de marchar pela margem do Rio Grande acima a fim de lhe vingarem<br \/>\n    a morte. A horda de Baguari era muito mais numerosa e forte do que o bando<br \/>\n    desorganizado em que vivia Jupira, o qual constava de rel&iacute;-quias de<br \/>\n    hordas devastadas e dispersadas pelos brancos. De longo tempo em contato com<br \/>\n    os brancos tinham perdido os h&aacute;bitos belicosos, e grande parte de sua<br \/>\n    coragem e fereza selv&aacute;tica. Em breve chegou-lhes aos ouvidos a not&iacute;cia<br \/>\n    de que a gente de Baguari marchava contra eles a fim de vingar a morte de<br \/>\n    seu chefe. Fracos e pusil&acirc;nimes, aqueles restos da fam&iacute;lia caiap&oacute;<br \/>\n    n&atilde;o podiam resistir aos robustos e aguerridos Guaian&aacute;s, que<br \/>\n    sobre eles vinham cheios de c&oacute;lera e sede de vingan&ccedil;a, e seriam<br \/>\n    infalivelmente exterminados.<\/p>\n<p> Jupira n&atilde;o havia ocultado aos seus a morte do sanhudo Baguari; pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio, risonha e triunfante lhes narrou com toda a franqueza e<br \/>\n    ingenuidade a ast&uacute;cia de que se valera para livrar para sempre daquele<br \/>\n    feroz pretendente. Contando como certa a sua ru&iacute;na e possu&iacute;dos<br \/>\n    de terror, seus covardes companheiros resolveram mandar um emiss&aacute;rio<br \/>\n    ao encontro dos inimigos para dar-lhes satisfa&ccedil;&otilde;es e dizer-lhes<br \/>\n    que nenhuma parte tinham tido na morte de seu chefe, que fora Jupira a &uacute;nica<br \/>\n    autora daquele atentado, e que para aplacar sua justa c&oacute;lera estavam<br \/>\n    prontos a entregar-lhes viva ou morta a criminosa. Este teria sido o destino<br \/>\n    da linda caboclinha se um de seus pretendentes, esperando assim fazer jus<br \/>\n    &agrave; gratid&atilde;o e ao amor da rapariga, n&atilde;o a tivesse avisado<br \/>\n    da b&aacute;rbara e aleivosa inten&ccedil;&atilde;o dos seus.<\/p>\n<p> Jupira e sua m&atilde;e fugiram para Campo Belo e acolheram-se &agrave;<br \/>\n    fazenda dos padres, resolvidas a nunca mais voltarem para a companhia de seus<br \/>\n    p&eacute;rfidos companheiros.<\/p>\n<p> Era j&aacute; a quarta vez que Jupira desde que nascera trocava a selva<br \/>\n    pela casa paterna, e a casa pela selva alternativamente. Seu pai a recebeu<br \/>\n    com os bra&ccedil;os abertos, e sentiu grande alegria em tornar a achar a<br \/>\n    filha, na qual j&aacute; h&aacute; muito havia perdido as esperan&ccedil;as<br \/>\n    de tornar a p&ocirc;r os olhos em dias de sua vida. Recolheu-a para casa,<br \/>\n    e extasiado de sua formosura e do vi&ccedil;oso desenvolvimento de suas esbeltas<br \/>\n    formas deu-lhe lindos vestidos e enfeites, que ela de bom grado trocou pelo<br \/>\n    curto saiote e pelo canitar de que usava nas selvas, e empregou todos os meios,<br \/>\n    todas as car&iacute;cias e sedu&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis para fix&aacute;-la<br \/>\n    de uma vez para sempre no seio da sociedade civilizada.<\/p>\n<p> Se com os trajos selv&aacute;ticos Jupira por seu garbo e gentileza fazia<br \/>\n    lembrar uma Moema ou uma Lind&oacute;ia, vestida &agrave; maneira da gente<br \/>\n    civilizada era uma rapariga sedutora, capaz de alvoro&ccedil;ar o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e inflamar o sangue de um anacoreta. Era alta e muito bem-feita. Os cabelos<br \/>\n    negros, corredios e luzentes como asa do anu, eram t&atilde;o bastos e compridos<br \/>\n    que a linda cabocla ainda pouco adestrada na arte de se toucar, via-se em<br \/>\n    apuros para acomod&aacute;-los sobre sua pequena cabe&ccedil;a e muitas vezes<br \/>\n    rebelando-se contra as fitas e pris&otilde;es, as quebravam e tombando-lhe<br \/>\n    pelo colo se derramavam em liberdade pelos n&eacute;dios e morenos ombros.<br \/>\n    Os olhos um pouco levantados nos cantos exteriores, eram bem rasgados, e dardejavam<br \/>\n    das pupilas negras lampejos, que denunciavam o ardor de seu temperamento e<br \/>\n    uma alma en&eacute;rgica e resoluta. Os l&aacute;bios rubros, carnosos, e<br \/>\n    &uacute;midos eram como dois favos t&uacute;rgidos de mel da mais inef&aacute;vel<br \/>\n    voluptuosidade, e quando se fendiam em um sorriso mostravam duas linhas de<br \/>\n    alv&iacute;ssimos dentes um pouco agu&ccedil;ados como os dos carn&iacute;voros,<br \/>\n    e seu sorriso tinha singular e indefin&iacute;vel express&atilde;o de ingenuidade<br \/>\n    e de selv&aacute;tica fereza. A todos esses encantos, a todas essas linhas<br \/>\n    e voluptuosas formas, servia como de brilhante inv&oacute;lucro a tez de uma<br \/>\n    cor original, um r&oacute;seo acaboclado, como que dourado pelos raios do<br \/>\n    sol, que dava peregrino relevo &agrave; sua linda figura.<\/p>\n<p> Quando ia &agrave; missa aos domingos, na pequena capela do semin&aacute;rio<br \/>\n    todos os olhos voltavam-se para a interessante cabocla, todos a contemplavam<br \/>\n    sorrindo com o mais curioso interesse e complac&ecirc;ncia. At&eacute; mesmo<br \/>\n    os seus gestos e ademanes um pouco estouvados, o ar desajeitado e constrangido,<br \/>\n    com que vergava as suas vestiduras, tudo nela parecia galante, e encantador.<\/p>\n<p> Se bem que na pia batismal tivesse recebido o nome de Maria, os moradores<br \/>\n    de Campo Belo conservavam-lhe sempre o seu nome ind&iacute;gena de Jupira,<br \/>\n    por acharem-no mais galante e entenderem que lhe assentava melhor.<\/p>\n<p> &Eacute; escusado dizer, que n&atilde;o faltaram apaixonados &agrave;quela<br \/>\n    t&atilde;o sedutora qu&atilde;o peregrina formosura. Mas como j&aacute; corria<br \/>\n    pela aldeia a hist&oacute;ria da morte do cacique que &agrave;s m&atilde;os<br \/>\n    da fr&aacute;gil menina pagara com a vida a sua aud&aacute;cia, os amantes<br \/>\n    de Jupira tinham-lhe certo respeito, e n&atilde;o a requestavam sen&atilde;o<br \/>\n    com certa timidez e reserva, se bem que nenhum deles tivesse inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de lan&ccedil;ar-lhe m&atilde;os violentas. Mas aquele epis&oacute;dio de<br \/>\n    sua vida rodeando-a de um terr&iacute;vel prest&iacute;gio servia-lhe de salvaguarda,<br \/>\n    e de broquel contra qualquer desacato ao seu pudor.<\/p>\n<p> Entre os amantes de Jupira o mais ass&iacute;duo, ardente e apaixonado,<br \/>\n    e talvez tamb&eacute;m o mais guapo, o mais rico e considerado de todos, era<br \/>\n    um mancebo por nome Quirino, filho de um abastado fazendeiro daqueles arredores.<br \/>\n    Era um rapag&atilde;o alto e bem disposto, de barba cerrada e negra, e pupila<br \/>\n    ardente e viva, em que transluzia todo o fogo de sua alma capaz de todos os<br \/>\n    extremos.<\/p>\n<p> Quirino amava, n&atilde;o como se ama na cidade, onde se namora muito e<br \/>\n    ama-se quase nada, mas como se ama no sert&atilde;o, em meio da solid&atilde;o,<br \/>\n    debaixo daqueles c&eacute;us ardentes, no seio daquela natureza espl&ecirc;ndida:<br \/>\n    amava com paix&atilde;o, com fogo. Quirino freq&uuml;entava assiduamente a<br \/>\n    casa de Jos&eacute; Lu&iacute;s, onde cercava a rapariga de mil aten&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    obs&eacute;quios e adora&ccedil;&otilde;es, sem que ela nem de leve se mostrasse<br \/>\n    sens&iacute;vel a tantas demonstra&ccedil;&otilde;es de afeto, por mais que<br \/>\n    ele empregasse todos os meios ao seu alcance para ganhar-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A princ&iacute;pio nem lhe passava pelo pensamento casar-se com uma pobre<br \/>\n    cabocla filha de uma gentia e criada nos matos.<\/p>\n<p> Por&eacute;m quanto maior era a insensibilidade e esquivan&ccedil;a de Jupira,<br \/>\n    mais ardente se tomava a paix&atilde;o do rapaz, e mais se lhe ati&ccedil;ava<br \/>\n    o desejo de possu&iacute;-la; estava disposto a empregar todos os meios, a<br \/>\n    fazer todos os sacrif&iacute;cios para esse fim.<\/p>\n<p> Como Jupira tratava todos os outros amantes com a mesma indiferen&ccedil;a<br \/>\n    e talvez pior do que a ele, Quirino entendeu que toda aquela insens&iacute;vel<br \/>\n    esquivan&ccedil;a n&atilde;o era sen&atilde;o resultado dos poucos anos e<br \/>\n    da selv&aacute;tica timidez e acanhamento da rapariga, e esperava que de modo<br \/>\n    nenhum ela recusasse uma proposta de casamento com um mo&ccedil;o como ele<br \/>\n    era, bem apessoado, rico e de boa fam&iacute;lia. Depois de ter lutado em<br \/>\n    v&atilde;o por vencer a obstinada indiferen&ccedil;a da menina, era aquele<br \/>\n    o seu &uacute;ltimo recurso. Uma vez casado mais f&aacute;cil lhe seria catequiz&aacute;-la<br \/>\n    e ganhar-lhe a vontade e o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Demais, j&aacute; esse casamento n&atilde;o lhe parecia t&atilde;o rid&iacute;culo<br \/>\n    e desigual, pois Jupira era filha leg&iacute;tima de Jos&eacute; Lu&iacute;s,<br \/>\n    e Jos&eacute; Lu&iacute;s empregado do semin&aacute;rio, tinha adquirido alguns<br \/>\n    bens de fortuna, e era homem que gozava de respeito e considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no lugar. Quirino pois, n&atilde;o hesitou mais um instante, e foi pedir-lhe<br \/>\n    a m&atilde;o de sua filha.<\/p>\n<p> Jos&eacute; Lu&iacute;s acolheu com infinita satisfa&ccedil;&atilde;o a<br \/>\n    proposta do mancebo; n&atilde;o podia desejar melhor partido nem maior ventura<br \/>\n    para sua filha, e foi logo comunicar-lhe a pretens&atilde;o do mo&ccedil;o.<\/p>\n<p> Ela por&eacute;m com grande pasmo e desgosto de Jos&eacute; Lu&iacute;s<br \/>\n    recusou-se obstinadamente a semelhante casamento. Foi debalde que Jos&eacute;<br \/>\n    Lu&iacute;s por muitos dias lutou com ela empregando exorta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    conselhos, s&uacute;plicas e at&eacute; por fim repreens&otilde;es e amea&ccedil;as<br \/>\n    para induzi-la a aceitar a m&atilde;o de Quirino.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai, &#8211; disse-lhe ela afinal com um sorriso, que fez arrepiarem-se<br \/>\n    as carnes de Jos&eacute; Lu&iacute;s, &#8211; ningu&eacute;m ser&aacute; capaz<br \/>\n    de dar-me um marido contra a minha vontade; eu j&aacute; sei como a gente<br \/>\n    se livra deles, quando nos querem levar &agrave; for&ccedil;a!<\/p>\n<p>Jos&eacute; Lu&iacute;s assombrado com aquela resposta recolheu-se ao sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    e desistiu do seu prop&oacute;sito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap&iacute;tulo 1 &#8211; A ca&ccedil;ada de on&ccedil;a Cap&iacute;tulo 2 &#8211; A fazenda Cap&iacute;tulo 3 &#8211; O primo Cap&iacute;tulo 4 &#8211; Paulina &nbsp; Cap&iacute;tulo 5 &#8211; &Agrave; sombra da gameleira Cap&iacute;tulo 6 &#8211; O Juramento Cap&iacute;tulo 7 &#8211; O casamento Cap&iacute;tulo 8 &#8211; Lucinda e Paulina &nbsp; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-93182","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Hist\u00f3rias e Tradi\u00e7\u00f5es da Prov\u00edncia de Minas Gerais<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Hist\u00f3rias e Tradi\u00e7\u00f5es da Prov\u00edncia de Minas Gerais, Obra, Cabe\u00e7a, Hist\u00f3rica, Tiradentes, Hist\u00f3rias e 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