{"id":93170,"date":"2017-01-06T15:28:40","date_gmt":"2017-01-06T17:28:40","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93170"},"modified":"2017-01-06T15:28:40","modified_gmt":"2017-01-06T17:28:40","slug":"a-orgia-dos-duendes-bernardo-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-orgia-dos-duendes-bernardo-guimaraes","title":{"rendered":"A Orgia dos Duendes &#8211; Bernardo Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"159\" height=\"78\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong><span style=\"font-size: small;\">I<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"102\"><\/td>\n<td width=\"154\">\n<div align=\"center\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#3\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>III<\/strong><\/span><\/a><span style=\"font-size: small;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"100\"><\/td>\n<td width=\"163\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">IV<\/a><\/span><\/strong> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\"><strong>V<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I<\/h2>\n<p>Meia-noite soou na floresta<br \/>\nNo rel\u00f3gio de sino de pau;<br \/>\nE a velhinha, rainha da festa,<br \/>\nSe assentou sobre o grande jirau.<\/p>\n<p>Lobisome apanhava os gravetos<br \/>\nE a fogueira no ch\u00e3o acendia,<br \/>\nRevirando os compridos espetos,<br \/>\nPara a ceia da grande folia.<\/p>\n<p>Junto dele um vermelho diabo<br \/>\nQue sa\u00edra do antro das focas,<br \/>\nPendurado num pau pelo rabo,<br \/>\nNo borralho torrava pipocas.<\/p>\n<p>Taturana, uma bruxa amarela,<br \/>\nResmungando com ar carrancudo,<br \/>\nSe ocupava em frigir na panela<br \/>\nUm menino com tripas e tudo.<\/p>\n<p>Getirana com todo o sossego<br \/>\nA caldeira da sopa adubava<br \/>\nCom o sangue de um velho morcego,<br \/>\nQue ali mesmo co\u2019as unhas sangrava.<\/p>\n<p>Mamangava frigia nas banhas<br \/>\nQue tirou do cacha\u00e7o de um frade<br \/>\nAdubado com pernas de aranha,<br \/>\nFresco lombo de um frei dom abade.<\/p>\n<p>Vento sul sobiou na cumbuca,<br \/>\nGalo-Preto na cinza espojou;<br \/>\nPor tr\u00eas vezes zumbiu a mutuca,<br \/>\nNo cupim o macuco piou.<\/p>\n<p>E a rainha co\u2019as m\u00e3os ressequidas<br \/>\nO sinal por tr\u00eas vezes foi dando,<br \/>\nA corte das almas perdidas<br \/>\nDesta sorte ao batuque chamando:<\/p>\n<p>&#8220;Vinde, \u00f3 filhas do oco do pau,<br \/>\nLagartixas do rabo vermelho,<br \/>\nVinde, vinde tocar marimbau,<br \/>\nQue hoje \u00e9 festa de grande aparelho.<\/p>\n<p>Raparigas do monte das cobras,<br \/>\nQue fazeis l\u00e1 no fundo da brenha?<br \/>\nDo sepulcro trazei-me as abobras,<br \/>\nE do inferno os meus feixes de lenha.<\/p>\n<p>Ide j\u00e1 procurar-me a bandurra<br \/>\nQue me deu minha tia Marselha,<br \/>\nE que aos ventos da noite sussura,<br \/>\nPendurada no arco-da-velha.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1s, que inda aqui n\u00e3o te vejo,<br \/>\nEsqueleto gamenho e gentil?<br \/>\nEu quisera acordar-te c\u2019um beijo ]<br \/>\nL\u00e1 no teu tenebroso covil.<\/p>\n<p>Galo-preto da torre da morte,<br \/>\nQue te aninhas em leito de brasas,<br \/>\nVem agora esquecer tua sorte,<br \/>\nVem-me em torno arrastar tuas asas.<\/p>\n<p>Sapo-inchado, que moras na cova<br \/>\nOnde a m\u00e3o do defunto enterrei,<br \/>\nTu n\u00e3o sabes que hoje \u00e9 lua nova,<br \/>\nQue \u00e9 o dia das dan\u00e7as da lei?<\/p>\n<p>Tu tamb\u00e9m, \u00f3 gentil Crocodilo,<br \/>\nN\u00e3o deplores o suco das uvas;<br \/>\nVem beber excelente restilo<br \/>\nQue eu do pranto extra\u00ed das vi\u00favas.<\/p>\n<p>Lobisome, que fazes, meu bem<br \/>\nQue n\u00e3o vens ao sagrado batuque?<br \/>\nComo tratas com tanto desd\u00e9m,<br \/>\nQuem a c\u2019roa te deu de gr\u00e3o-duque?&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II<\/h2>\n<p>Mil duendes dos antros sa\u00edram<br \/>\nBatucando e batendo matracas,<br \/>\nE mil bruxas uivando surgiram,<br \/>\nCavalgando em compridas estacas.<\/p>\n<p>Tr\u00eas diabos vestidos de roxo<br \/>\nSe assentaram aos p\u00e9s da rainha,<br \/>\nE um deles, que tinha o p\u00e9 coxo,<br \/>\nCome\u00e7ou a tocar campainha.<\/p>\n<p>Campainha, que toca, \u00e9 caveira<br \/>\nCom badalo de casco de burro,<br \/>\nQue no meio da selva agoureira<br \/>\nVai fazendo medonho sussurro.<\/p>\n<p>Capetinhas, trepados nos galhos<br \/>\nCom o rabo enrolado no pau,<br \/>\nUns agitam sonoros chocalhos,<br \/>\nOutros p\u00f5em-se a tocar marimbau.<\/p>\n<p>Crocodilo roncava no papo<br \/>\nCom ru\u00eddo de grande fragor:<br \/>\nE na inchada barriga de um sapo<br \/>\nEsqueleto tocava tambor.<\/p>\n<p>Da carca\u00e7a de um seco defunto<br \/>\nE das tripas de um velho bar\u00e3o,<br \/>\nDe uma bruxa engenhosa o bestunto<br \/>\nArmou logo feroz rabec\u00e3o.<\/p>\n<p>Assentado nos p\u00e9s da rainha<br \/>\nLobisome batia a batuta<br \/>\nCo\u2019a canela de um frade, que tinha<br \/>\nInda um pouco de carne corruta.<\/p>\n<p>J\u00e1 ressoam timbales e rufos,<br \/>\nFerve a dan\u00e7a do cateret\u00ea;<br \/>\nTaturana, batendo os adufos,<br \/>\nSapateia cantando \u2014 o le r\u00ea!<\/p>\n<p>Getirana, bruxinha tarasca,<br \/>\nArranhando fanhosa bandurra,<br \/>\nCom tremenda embigada descasca<br \/>\nA barriga do velho Caturra.<\/p>\n<p>O Caturra era um sapo papudo<br \/>\nCom dous chifres vermelhos na testa,<br \/>\ne era ele, a despeito de tudo,<br \/>\nO rapaz mais patusco da festa.<\/p>\n<p>J\u00e1 no meio da roda zurrando<br \/>\nAparece a mula-sem-cabe\u00e7a,<br \/>\nBate palmas, a s\u00facia berrando<br \/>\n\u2014 Viva, viva a Sra. Condessa!&#8230;<\/p>\n<p>E dan\u00e7ando em redor da fogueira<br \/>\nv\u00e3o girando, girando sem fim;<br \/>\nCada qual uma estrofe agoureira<br \/>\nV\u00e3o cantando alternados assim:<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III<\/h2>\n<p>TATURANA<\/p>\n<p>Dos prazeres de amor as prim\u00edcias,<br \/>\nDe meu pai entre os bra\u00e7os gozei;<br \/>\nE de amor as extremas del\u00edcias<br \/>\nDeu-me um filho, que dele gerei.<\/p>\n<p>Mas se minha fraqueza foi tanta,<br \/>\nDe um convento fui freira professa;<br \/>\nOnde morte morri de uma santa;<br \/>\nVejam l\u00e1, que tal foi esta pe\u00e7a.<\/p>\n<p>GETIRANA<\/p>\n<p>Por conselhos de um c\u00f4nego abade<br \/>\nDous maridos na cova soquei;<br \/>\nE depois por amores de um frade<br \/>\nAo supl\u00edcio o abade arrastei.<\/p>\n<p>Os amantes, a quem despojei,<br \/>\nConduzi das desgra\u00e7as ao c\u00famulo,<br \/>\nE alguns filhos, por artes que sei,<br \/>\nMe ca\u00edram do ventre no t\u00famulo.<\/p>\n<p>GALO-PRETO<\/p>\n<p>Como frade de um santo convento<br \/>\nEste gordo touti\u00e7o criei;<br \/>\nE de lindas donzelas um cento<br \/>\nNo altar da lux\u00faria imolei.<\/p>\n<p>Mas na vida beata de asc\u00e9tico<br \/>\nMui contrito rezei, jejuei,<br \/>\nT\u00e9 que um dia de ataque apopl\u00e9tico<br \/>\nNos abismos do inferno estourei.<\/p>\n<p>ESQUELETO<\/p>\n<p>Por fazer aos mortais crua guerra<br \/>\nMil fogueiras no mundo ateei;<br \/>\nQuantos vivos queimei sobre a terra,<br \/>\nJ\u00e1 eu mesmo cont\u00e1-los n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Das severas virtudes mon\u00e1sticas<br \/>\nDei no entanto piedosos exemplos;<br \/>\nE por isso cabe\u00e7as fant\u00e1sticas<br \/>\nInda me erguem altares e templos.<\/p>\n<p>MULA-SEM-CABE\u00c7A<\/p>\n<p>Por um bispo eu morria de amores,<br \/>\nQue afinal meus extremos pagou;<br \/>\nMeu marido, fervendo em furores<br \/>\nDe ci\u00fames, o bispo matou.<\/p>\n<p>Do cons\u00f3rcio enjoei-me dos la\u00e7os,<br \/>\nE ansiosa quis v\u00ea-los quebrados,<br \/>\nMeu marido piquei em peda\u00e7os,<br \/>\nE depois o comi aos bocados.<\/p>\n<p>Entre galas, veludo e damasco<br \/>\nEu vivi, bela e nobre condessa;<br \/>\nE por fim entre as m\u00e3os do carrasco<br \/>\nSobre um cepo perdi a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>CROCODILO<\/p>\n<p>Eu fui papa; e aos meus inimigos<br \/>\nPara o inferno mandei c\u2019um aceno;<br \/>\nE tamb\u00e9m por servir aos amigos<br \/>\nt\u00e9 nas h\u00f3stias botava veneno.<\/p>\n<p>De princesas cru\u00e9is e devassas<br \/>\nFui na terra constante patrono;<br \/>\nPor gozar de seus mimos e gra\u00e7as<br \/>\nOpiei aos maridos sem sono.<\/p>\n<p>Eu na terra vig\u00e1rio de Cristo,<br \/>\nQue nas m\u00e3os tinha a chave do c\u00e9u,<br \/>\nEis que um dia de um golpe imprevisto<br \/>\nNos infernos ca\u00ed de bol\u00e9u.<\/p>\n<p>LOBISOME<\/p>\n<p>Eu fui rei, e aos vassalos fi\u00e9is<br \/>\nPor chala\u00e7a mandava enforcar;<br \/>\nE sabia por modos cru\u00e9is<br \/>\nAs esposas e filhas roubar.<\/p>\n<p>Do meu reino e de minhas cidades<br \/>\nO talento e a virtude enxotei;<br \/>\nDe michelas, carrascos e frades<br \/>\nDo meu trono os degraus rodeei.<\/p>\n<p>Com o sangue e suor de meus povos<br \/>\nDiverti-me e criei esta pan\u00e7a,<br \/>\nPara enfim, urros dando e corcovos,<br \/>\nVir ao demo servir de pitan\u00e7a.<\/p>\n<p>RAINHA<\/p>\n<p>J\u00e1 no ventre materno fui boa;<br \/>\nMinha m\u00e3e, ao nascer, eu matei;<br \/>\nE a meu pai, por herdar-lhe a coroa<br \/>\nEu seu leito co\u2019as m\u00e3os esganei.<\/p>\n<p>Um irm\u00e3o mais idoso que eu,<br \/>\nC\u2019uma pedra amarrada ao pesco\u00e7o,<br \/>\nAtirado \u00e0s ocultas morreu<br \/>\nAfogado no fundo de um po\u00e7o.<\/p>\n<p>Em marido nenhum achei jeito;<br \/>\nAo primeiro, o qual tinha ci\u00fames,<br \/>\nUma noite co\u2019as colchas do leito<br \/>\nAbafei para sempre os queixumes.<\/p>\n<p>Ao segundo, da torre do pa\u00e7o<br \/>\nDespenhei por me ser desleal;<br \/>\nAo terceiro por fim num abra\u00e7o<br \/>\npelas costas cravei-lhe um punhal.<\/p>\n<p>Entre a turba de meus servidores<br \/>\nRecrutei meus amantes de um dia;<br \/>\nQuem gozava meus r\u00e9gios favores<br \/>\nNos abismos do mar se sumia.<\/p>\n<p>No banquete infernal da lux\u00faria<br \/>\nQuantos vasos aos l\u00e1bios chegava,<br \/>\nSatisfeita aos desejos a f\u00faria,<br \/>\nSem piedade depois os quebrava.<\/p>\n<p>Quem pratica proezas tamanhas<br \/>\nC\u00e1 n\u00e3o veio por fraca e mesquinha,<br \/>\nE merece por suas fa\u00e7anhas<br \/>\nInda mesmo entre v\u00f3s ser rainha.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV<\/h2>\n<p>Do batuque infernal, que n\u00e3o finda,<br \/>\nTurbilhona o fatal rodopio;<br \/>\nMais veloz, mais veloz, mais ainda<br \/>\nFerve a dan\u00e7a como um corrupio.<\/p>\n<p>Mas eis que no mais quente da festa<br \/>\nUm rebenque estalando se ouviu,<br \/>\nGalopando atrav\u00e9s da floresta<br \/>\nMagro espectro sinistro surgiu<\/p>\n<p>Hediondo esqueleto aos arrancos<br \/>\nChocalhava nas abas da sela;<br \/>\nEra a Morte, que vinha de tranco<br \/>\nAmontada numa \u00e9gua amarela.<\/p>\n<p>O terr\u00edvel rebenque zunindo<br \/>\nA nojenta canalha enxotava;<br \/>\nE \u00e0 esquerda e \u00e0 direita zurzindo<br \/>\nCom voz rouca desta arte bradava:<\/p>\n<p>&#8220;Fora, fora! esqueletos poentos,<br \/>\nLobisomes, e bruxas mirradas!<br \/>\nPara a cova esses ossos nojentos!<br \/>\nPara o inferno essas almas danadas!&#8221;<\/p>\n<p>Um estouro rebenta nas selvas,<br \/>\nQue recendem com cheiro de enxofre;<br \/>\nE na terra por baixo das relvas<br \/>\nToda a s\u00facia sumiu-se de chofre.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V<\/h2>\n<p>E aos primeiros albores do dia<br \/>\nNem ao menos se viam vest\u00edgios<br \/>\nDa nefanda, asquerosa folia,<br \/>\nDessa noite de horrendos prod\u00edgios.<\/p>\n<p>E nos ramos saltavam as aves<br \/>\nGorjeando canoros queixumes,<br \/>\nE brincavam as auras suaves<br \/>\nEntre as flores colhendo perfumes.<\/p>\n<p>E na sombra daquele arvoredo,<br \/>\nQue inda h\u00e1 pouco viu tantos horrores,<br \/>\nPasseando sozinha e sem medo<br \/>\nLinda virgem cismava de amores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II &nbsp; III IV V &nbsp; I Meia-noite soou na floresta No rel\u00f3gio de sino de pau; E a velhinha, rainha da festa, Se assentou sobre o grande jirau. 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