{"id":93167,"date":"2017-01-06T15:25:58","date_gmt":"2017-01-06T17:25:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93167"},"modified":"2017-01-06T15:25:58","modified_gmt":"2017-01-06T17:25:58","slug":"a-escrava-isaura-bernardo-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-escrava-isaura-bernardo-guimaraes","title":{"rendered":"A Escrava Isaura &#8211; Bernardo Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"750\" height=\"110\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"159\" height=\"78\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong><font size=\"2\">Cap&iacute;tulo 1<\/font><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"><a href=\"#2\">Cap&iacute;tulo 2<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#3\"><font size=\"2\"><strong>Cap&iacute;tulo 3<\/strong><\/font><\/a><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#4\">Cap&iacute;tulo 4<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#5\">Cap&iacute;tulo 5<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#6\">Cap&iacute;tulo 6<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#7\">Cap&iacute;tulo 7<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"102\">&nbsp; <\/td>\n<td width=\"154\">\n<div align=\"center\"><font size=\"2\"><strong> <\/strong><\/font> <\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"><a href=\"#8\">Cap&iacute;tulo 8<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#9\">Cap&iacute;tulo 9<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#10\">Cap&iacute;tulo 10<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#11\">Cap&iacute;tulo 11<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#12\">Cap&iacute;tulo 12<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#13\">Cap&iacute;tulo 13<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#14\">Cap&iacute;tulo 14<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p>            <font size=\"2\"><strong> <\/strong><\/font> <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"100\">&nbsp; <\/td>\n<td width=\"163\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"><a href=\"#15\">Cap&iacute;tulo 15<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#16\">Cap&iacute;tulo 16<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#17\">Cap&iacute;tulo 17<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#18\">Cap&iacute;tulo 18<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#19\">Cap&iacute;tulo 19<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#20\">Cap&iacute;tulo 20<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#21\">Cap&iacute;tulo 21<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p> <strong><font size=\"2\"><a href=\"#22\">Cap&iacute;tulo 22<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p>            <font size=\"2\"><br \/>\n            <\/font> <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo 1<\/a><\/h2>\n<p>Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II.<\/p>\n<p> No f&eacute;rtil e opulento munic&iacute;pio de Campos de Goitacases, &agrave;<br \/>\n    margem do Para&iacute;ba, a pouca dist&acirc;ncia da vila de Campos, havia<br \/>\n    uma linda e magn&iacute;fica fazenda.<\/p>\n<p> Era um edif&iacute;cio de harmoniosas propor&ccedil;&otilde;es, vasto e<br \/>\n    luxuoso, situado em apraz&iacute;vel vargedo ao sop&eacute; de elevadas colinas<br \/>\n    cobertas de mata em parte devastada pelo machado do lavrador. Longe em derredor<br \/>\n    a natureza ostentava?se ainda em toda a sua primitiva e selv&aacute;tica rudeza;<br \/>\n    mas por perto, em torno da deliciosa vivenda, a m&atilde;o do homem tinha<br \/>\n    convertido a bronca selva, que cobria o solo, em jardins e pomares deleitosos,<br \/>\n    em gramais e pingues pastagens, sombreadas aqui e acol&aacute; por gameleiras<br \/>\n    gigantescas, perobas, cedros e copa&iacute;bas, que atestavam o vigor da antiga<br \/>\n    floresta. Quase n&atilde;o se via a&iacute; muro, cerca, nem valado; jardim,<br \/>\n    horta, pomar, pastagens, e plantios circunvizinhos eram divididos por vi&ccedil;osas<br \/>\n    e verdejantes sebes de bambus, piteiras, espinheiros e gravat&aacute;s, que<br \/>\n    davam ao todo o aspecto do mais apraz&iacute;vel e delicioso vergel.<\/p>\n<p> A casa apresentava a frente &agrave;s colinas. Entrava?se nela por um lindo<br \/>\n    alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia?se por uma escada<br \/>\n    de cantaria de seis a sete degraus. Os fundos eram ocupados por outros edif&iacute;cios<br \/>\n    acess&oacute;rios, senzalas, p&aacute;tios, currais e celeiros, por tr&aacute;s<br \/>\n    dos quais se estendia o jardim, a horta, e um imenso pomar, que ia perder?se<br \/>\n    na barranca do grande rio.<\/p>\n<p> Era por uma linda e calmosa tarde de outubro. O Sol n&atilde;o era ainda<br \/>\n    posto, e parecia boiar no horizonte suspenso sobre rolos de espuma de cores<br \/>\n    cambiantes orlados de f&ecirc;veras de ouro. A vira&ccedil;&atilde;o saturada<br \/>\n    de bals&acirc;micos efl&uacute;vios se espregui&ccedil;ava ao longo das ribanceiras<br \/>\n    acordando apenas frouxos rumores pela copa dos arvoredos, e fazendo farfalhar<br \/>\n    de leve o tope dos coqueiros, que miravam?se garbosos nas l&uacute;cidas e<br \/>\n    tranq&uuml;ilas &aacute;guas da ribeira.<\/p>\n<p> Corria um belo tempo; a vegeta&ccedil;&atilde;o reanimada por moderadas<br \/>\n    chuvas ostentava?se fresca, vi&ccedil;osa e luxuriante; a &aacute;gua do rio<br \/>\n    ainda n&atilde;o turvada pelas grandes enchentes, rolando com majestosa lentid&atilde;o,<br \/>\n    refletia em toda a pureza os espl&ecirc;ndidos coloridos do horizonte, e o<br \/>\n    n&iacute;tido verdor das selvosas ribanceiras. As aves, dando repouso &aacute;s<br \/>\n    asas fatigadas do cont&iacute;nuo voejar pelos pomares, prados e balsedos<br \/>\n    vizinhos, come&ccedil;avam a preludiar seus cantos vespertinos.<\/p>\n<p> O clar&atilde;o do Sol poente por tal sorte abraseava as vidra&ccedil;as<br \/>\n    do edif&iacute;cio, que esse parecia estar sendo devorado pelas chamas de<br \/>\n    um inc&ecirc;ndio interior. Entretanto, quer no interior, quer em derredor,<br \/>\n    reinava fundo sil&ecirc;ncio, e perfeita tranq&uuml;ilidade. Bois truculentos,<br \/>\n    e m&eacute;dias novilhas deitadas pelo gramal, ruminavam tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    &agrave; sombra de altos troncos. As aves dom&eacute;sticas grazinavam em<br \/>\n    tomo da casa, balavam as ovelhas, e mugiam algumas vacas, que vinham por si<br \/>\n    mesmas procurando os currais; mas n&atilde;o se ouvia, nem se divisava voz<br \/>\n    nem figura humana. Parecia que ali n&atilde;o se achava morador algum. Somente<br \/>\n    as vidra&ccedil;as arrega&ccedil;adas de um grande sal&atilde;o da frente<br \/>\n    e os batentes da porta da entrada, abertos de par em par, denunciavam que<br \/>\n    nem todos os habitantes daquela suntuosa propriedade se achavam ausentes.<\/p>\n<p> A favor desse quase sil&ecirc;ncio harmonioso da natureza ouvia?se distintamente<br \/>\n    o arpejo de um piano casando?se a uma voz de mulher, voz melodiosa, suave,<br \/>\n    apaixonada, e do timbre o mais puro e fresco que se pode imaginar.<\/p>\n<p> Posto que um tanto abafado, o canto tinha uma vibra&ccedil;&atilde;o sonora,<br \/>\n    ampla e volumosa, que revelava excelente e vigorosa organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vocal.<\/p>\n<p> O tom velado e melanc&oacute;lico da cantiga parecia gemido sufocado de<br \/>\n    uma alma solit&aacute;ria e sofredora.<\/p>\n<p> Era essa a &uacute;nica voz que quebrava o sil&ecirc;ncio da vasta e tranq&uuml;ila<br \/>\n    vivenda. Por fora tudo parecia escut&aacute;?la em m&iacute;stico e profundo<br \/>\n    recolhimento.<\/p>\n<p> As coplas, que cantava, diziam assim:<\/p>\n<p>Desd&#8217;o ber&ccedil;o respirando Os ares da escravid&atilde;o, Como semente<br \/>\n    lan&ccedil;ada Em terra de maldi&ccedil;&atilde;o, A vida passo chorando Minha<br \/>\n    triste condi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Os meus bra&ccedil;os est&atilde;o presos, A ningu&eacute;m posso abra&ccedil;ar,<br \/>\n    Nem meus l&aacute;bios, nem meus olhos N&atilde;o podem de amor falar; Deu?me<br \/>\n    Deus um cora&ccedil;&atilde;o Somente para penar.<\/p>\n<p>Ao ar livre das campinas Seu perfume exala a flor; Canta a aura em liberdade<br \/>\n    Do bosque o alado cantor; S&oacute; para a pobre cativa N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    can&ccedil;&otilde;es, nem amor.<\/p>\n<p>Cala te, pobre cativa; Teus queixumes crimes s&atilde;o; E uma afronta esse<br \/>\n    canto, Que exprime tua afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A vida n&atilde;o te pertence, N&atilde;o &eacute; teu teu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>As notas sentidas e maviosas daquele cantar escapando pelas janelas abertas<br \/>\n    e ecoando ao longe em derredor, d&atilde;o vontade de conhecer a sereia que<br \/>\n    t&atilde;o lindamente canta. Se n&atilde;o &eacute; sereia, somente um anjo<br \/>\n    pode cantar assim.<\/p>\n<p> Subamos os degraus, que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado de vi&ccedil;osos<br \/>\n    fest&otilde;es e lindas flores, que serve de vest&iacute;bulo ao edif&iacute;cio.<\/p>\n<p> Entremos sem cerim&ocirc;nia. Logo &agrave; direita do corredor encontramos<br \/>\n    aberta uma larga porta, que d&aacute; entrada &agrave; sala de recep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    vasta e luxuosamente mobiliada. Acha?se ali sozinha e sentada ao piano uma<br \/>\n    bela e nobre figura de mo&ccedil;a. As linhas do perfil desenham?se distintamente<br \/>\n    entre o &eacute;bano da caixa do piano, e as bastas madeixas ainda mais negras<br \/>\n    do que ele. S&atilde;o t&atilde;o puras e suaves essas linhas, que fascinam<br \/>\n    os olhos, enlevam a mente, e paralisam toda an&aacute;lise. A tez &eacute;<br \/>\n    como o marfim do teclado, alva que n&atilde;o deslumbra, emba&ccedil;ada por<br \/>\n    uma nuan&ccedil;a delicada, que n&atilde;o sabereis dizer se &eacute; leve<br \/>\n    palidez ou cor?de?rosa desmaiada. O colo donoso e do mais puro lavor sustenta<br \/>\n    com gra&ccedil;a inef&aacute;vel o busto maravilhoso. Os cabelos soltos e<br \/>\n    fortemente ondulados se despenham caracolando pelos ombros em espessos e luzidios<br \/>\n    rolos, e como franjas negras escondiam quase completamente o dorso da cadeira,<br \/>\n    a que se achava recostada. Na fronte calma e lisa como m&aacute;rmore polido,<br \/>\n    a luz do ocaso esbatia um r&oacute;seo e suave reflexo; di?la?&iacute;eis<br \/>\n    misteriosa l&acirc;mpada de alabastro guardando no seio di&aacute;fano o fogo<br \/>\n    celeste da inspira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Tinha a face voltada para as janelas, e o olhar vago pairavalhe pelo espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> Os encantos da gentil cantora eram ainda real&ccedil;ados pela singeleza,<br \/>\n    e diremos quase pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordin&aacute;ria<br \/>\n    azul?clara desenhava?lhe perfeitamente com encantadora simplicidade o porte<br \/>\n    esbelto e a cintura delicada, e desdobrando?se?lhe em roda amplas ondula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia a cantora como V&ecirc;nus nascendo<br \/>\n    da espuma do mar, ou como um anjo surgindo dentre brumas vaporosas. Uma pequena<br \/>\n    cruz de azeviche presa ao pesco&ccedil;o por uma fita preta constitu&iacute;a<br \/>\n    o seu &uacute;nico ornamento.<\/p>\n<p> Apenas terminado o canto, a mo&ccedil;a ficou um momento a cismar com os<br \/>\n    dedos sobre o teclado como escutando os derradeiros ecos da sua can&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Entretanto abre?se sutilmente a cortina de cassa de uma das portas interiores,<br \/>\n    e uma nova personagem penetra no sal&atilde;o. Era tamb&eacute;m uma formosa<br \/>\n    dama ainda no vi&ccedil;o da mocidade, bonita, bem feita e elegante.<\/p>\n<p> A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e senhoril, certo<br \/>\n    balanceio afetado e langoroso dos movimentos davam?lhe esse ar pretensioso,<br \/>\n    que acompanha toda mo&ccedil;a bonita e rica, ainda mesmo quando est&aacute;<br \/>\n    sozinha. Mas com todo esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua<br \/>\n    grande beleza deixava de ficar algum tanto eclipsada em presen&ccedil;a das<br \/>\n    formas puras e corretas, da nobre singeleza, e dos t&atilde;o naturais e modestos<br \/>\n    ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda, encantadora mesmo, e posto<br \/>\n    que vaidosa de sua formosura e alta posi&ccedil;&atilde;o, transluzia?lhe<br \/>\n    nos grandes e meigos olhos azuis toda a nativa bondade de seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Malvina aproximou?se de manso e sem ser pressentida para junto da cantora,<br \/>\n    colocando?se por detr&aacute;s dela esperou que terminasse a &uacute;ltima<br \/>\n    copia.<\/p>\n<p> &#8211; Isaura!&#8230; disse ela pousando de leve a delicada m&atilde;ozinha sobre<br \/>\n    o ombro da cantora.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! &eacute; a senhora?! &#8211; respondeu Isaura voltando?se sobressaltada.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sabia que estava a&iacute; me escutando.<\/p>\n<p> &#8211; Pois que tem isso?.., continua a cantar&#8230; tens a voz t&atilde;o bonita!&#8230;<\/p>\n<p> mas eu antes quisera que cantasses outra coisa; por que &eacute; que voc&ecirc;<br \/>\n    gosta tanto dessa cantiga t&atilde;o triste, que voc&ecirc; aprendeu n&atilde;o<br \/>\n    sei onde?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Gosto dela, porque acho?a bonita e porque&#8230; ah! n&atilde;o devo falar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Fala, Isaura. J&aacute; n&atilde;o te disse que nada me deves esconder,<br \/>\n    e nada recear de mim?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Porque me faz lembrar de minha m&atilde;e, que eu n&atilde;o conheci,<br \/>\n    coitada!&#8230; Mas se a senhora n&atilde;o gosta dessa cantiga, n&atilde;o a<br \/>\n    cantarei mais.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o gosto que a cantes, n&atilde;o, Isaura. H&atilde;o de pensar<br \/>\n    que &eacute;s maltratada, que &eacute;s uma escrava infeliz, v&iacute;tima<br \/>\n    de senhores b&aacute;rbaros e cru&eacute;is. Entretanto passas aqui uma vida<br \/>\n    que faria inveja a muita gente livre. Gozas da estima de teus senhores. Deram?te<br \/>\n    uma educa&ccedil;&atilde;o, como n&atilde;o tiveram muitas ricas e ilustres<br \/>\n    damas que eu conhe&ccedil;o. &Eacute;s formosa, e tens uma cor linda, que<br \/>\n    ningu&eacute;m dir&aacute; que gira em tuas veias uma s&oacute; gota de sangue<br \/>\n    africano. Bem sabes quanto minha boa sogra antes de expirar te recomendava<br \/>\n    a mim e a meu marido. Hei de respeitar sempre as recomenda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    daquela santa mulher, e tu bem v&ecirc;s, sou mais tua amiga do que tua senhora.<br \/>\n    Oh! n&atilde;o; n&atilde;o cabe em tua boca essa cantiga lastimosa, que tanto<br \/>\n    gostas de cantar. &#8211; N&atilde;o quero, &#8211; continuou em tom de branda repreens&atilde;o,<br \/>\n    &#8211; n&atilde;o quero que a cantes mais, ouviste, Isaura?&#8230; se n&atilde;o, fecho?te<br \/>\n    o meu piano.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, senhora, apesar de tudo isso, que sou eu mais do que uma simples<br \/>\n    escrava? Essa educa&ccedil;&atilde;o, que me deram, e essa beleza, que tanto<br \/>\n    me gabam, de que me servem?&#8230; s&atilde;o trastes de luxo colocados na senzala<br \/>\n    do africano. A senzala nem por isso deixa de ser o que &eacute;: uma senzala.<\/p>\n<p> &#8211; Queixas?te da tua sorte, Isaura?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu n&atilde;o, senhora; n&atilde;o tenho motivo&#8230; o que quero dizer com<br \/>\n    isto &eacute; que, apesar de todos esses dotes e vantagens, que me atribuem,<br \/>\n    sei conhecer o meu lugar.<\/p>\n<p> &#8211; Anda l&aacute;; j&aacute; sei o que te amofina; a tua cantiga bem o diz.<br \/>\n    Bonita como &eacute;s, n&atilde;o podes deixar de ter algum namorado.<\/p>\n<p> &#8211; Eu, senhora!&#8230; por quem &eacute;, n&atilde;o pense nisso.<\/p>\n<p> &#8211; Tu mesma; pois que tem isso?&#8230; n&atilde;o te vexes; pois &eacute; alguma<br \/>\n    coisa do outro mundo? Vamos j&aacute;, confessa; tens um amante, e &eacute;<br \/>\n    por isso que lamentas n&atilde;o teres nascido livre para poder amar aquele<br \/>\n    que te agradou, e a quem ca&iacute;ste em gra&ccedil;a, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    assim?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Perdoe?me, sinh&aacute; Malvina; &#8211; replicou a escrava com um c&acirc;ndido<br \/>\n    sorriso. &#8211; Est&aacute; muito enganada; estou t&atilde;o longe de pensar nisso!<br \/>\n    &#8211; Qual longe!&#8230; n&atilde;o me enganas, minha rapariguinha!&#8230; tu amas, e<br \/>\n    &eacute;s mui linda e bem prendada para te inclinares a um escravo; s&oacute;<br \/>\n    se fosse um escravo, como tu &eacute;s, o que duvido que haja no mundo. Uma<br \/>\n    menina como tu, bem pode conquistar o amor de algum guapo mocet&atilde;o,<br \/>\n    e eis a&iacute; a causa da choradeira de tua can&ccedil;&atilde;o. Mas n&atilde;o<br \/>\n    te aflijas, minha Isaura; eu te protesto que amanh&atilde; mesmo ter&aacute;s<br \/>\n    a tua liberdade; deixa Le&ocirc;ncio chegar; &eacute; uma vergonha que uma<br \/>\n    rapariga como tu se veja ainda na condi&ccedil;&atilde;o de escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Deixe?se disso, senhora; eu n&atilde;o penso em amores e muito menos em<br \/>\n    liberdade; &agrave;s vezes fico triste &agrave; toa, sem motivo nenhum&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o importa. Sou eu quem quero que sejas livre, e h&aacute;s de<br \/>\n    s&ecirc;?lo.<\/p>\n<p> Neste ponto a conversa&ccedil;&atilde;o foi cortada por um tropel de cavaleiros,<br \/>\n    que chegavam e apeavam?se &aacute; porta da fazenda.<\/p>\n<p> Malvina e Isaura correram &agrave; janela a ver quem eram.<\/p>\n<h2><a name=\"2\" id=\"2\">Capitulo 2<\/a><\/h2>\n<p>Os cavaleiros, que acabavam de apear? se, eram dois belos e ele? gantes mancebos,<br \/>\n    que chegavam da vila de Campos. Do modo familiar, por que foram entrando,<br \/>\n    logo se depreendia que era gente de casa.<\/p>\n<p> De feito um era Le&ocirc;ncio, marido de Malvina; e outro Henrique, irm&atilde;o<br \/>\n    da mesma.<\/p>\n<p> Antes de irmos adiante for&ccedil;oso nos &eacute; travar conhecimento mais<br \/>\n    &iacute;ntimo com os dois jovens cavaleiros.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio era filho &uacute;nico do rico e magn&iacute;fico comendador<br \/>\n    Almeida, propriet&aacute;rio da bela e suntuosa fazenda em que nos achamos.<br \/>\n    O comendador, j&aacute; bastante idoso e cheio de enfermidades depois do casamento<br \/>\n    de seu filho, que tivera lugar um ano antes da &eacute;poca em que come&ccedil;a<br \/>\n    esta hist&oacute;ria, havia?lhe abandonado a administra&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    usufruto da fazenda, e vivia na corte, onde procurava alivio ou distra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos achaques que o atormentavam.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio achara desde a inf&acirc;ncia nas larguezas e facilidades<br \/>\n    de seus pais amplos meios de corromper o cora&ccedil;&atilde;o e extraviar<br \/>\n    a intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Mau aluno e crian&ccedil;a incorrig&iacute;vel, turbulento e insubordinado,<br \/>\n    andou de col&eacute;gio em col&eacute;gio, e passou como gato por brasas por<br \/>\n    cima de todos os preparat&oacute;rios, cujos exames todavia sempre salvara<br \/>\n    &agrave; sombra do patronato.<\/p>\n<p> Os mestres n&atilde;o se atreviam a dar ao nobre e mun&iacute;fico comendador<br \/>\n    o desgosto de ver seu filho reprovado. Matriculado na escola de medicina logo<br \/>\n    no primeiro ano enjoou?se daquela disciplina, e como seus pais n&atilde;o<br \/>\n    sabiam contrari&aacute;?lo, foi?se para Olinda a fim de freq&uuml;entar o<br \/>\n    curso jur&iacute;dico. Ali depois de ter dissipado n&atilde;o pequena por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fortuna paterna na satisfa&ccedil;&atilde;o de todos os seus v&iacute;cios<br \/>\n    e loucas fantasias, tomou t&eacute;dio tamb&eacute;m aos estudos jur&iacute;dicos,<br \/>\n    e ficou entendendo que s&oacute; na Europa poderia desenvolver dignamente<br \/>\n    a sua intelig&ecirc;ncia, e saciar a sua sede de saber, em puros e abundantes<br \/>\n    mananciais. Assim escreveu ao pai, que deu?lhe cr&eacute;dito e o enviou a<br \/>\n    Paris, donde esperava v&ecirc;?lo voltar feito um novo Humboldt. Instalado<br \/>\n    naquele vasto pandem&ocirc;nio do luxo e dos prazeres, Le&oacute;ncio raras<br \/>\n    vezes, e s&oacute; por desfastio, ia ouvir as eloq&uuml;entes prele&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos ex&iacute;mios professores da &eacute;poca, e nem tampouco era visto nos<br \/>\n    museus, institutos e bibliotecas. Em compensa&ccedil;&atilde;o era ass&iacute;duo<br \/>\n    frequentador do Jardim Mabile, assim como de todos os caf&eacute;s e teatros<br \/>\n    mais em voga, e tomara?se um dos mais afamados e elegantes le&otilde;es dos<br \/>\n    bulevares. No fim de alguns anos, ora de resid&ecirc;ncia em Paris, ora de<br \/>\n    giros recreativos pelas &aacute;guas e pelas principais capitais da Europa,<br \/>\n    tinha ele t&atilde;o copiosa e desapiedadamente sangrado a bolsa paterna,<br \/>\n    que o comendador a despeito de toda a sua condescend&ecirc;ncia e ternura<br \/>\n    para com seu &uacute;nico e querido filho, viu?se na necessidade de revoc&aacute;?lo<br \/>\n    &agrave; sombra dos p&aacute;trios lares a fim de evitar uma completa ru&iacute;na.<\/p>\n<p> Mas, mesmo assim, para n&atilde;o mago&aacute;?lo colhendo?lhe s&uacute;bita<br \/>\n    e rudemente as r&eacute;deas na carreira dos desvarios e dissipa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    assentou de atra&iacute;?lo suavemente acenando?lhe com a perspectiva de um<br \/>\n    rico e vantajos&iacute;ssimo casamento.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio pegou na isca e voltou &agrave; p&aacute;tria um perfeito<br \/>\n    d&acirc;ndi, gentil e elegante como ningu&eacute;m, trazendo de suas viagens,<br \/>\n    em vez de conhecimentos e experi&ecirc;ncia, enorme dose de fatuidade e petul&acirc;ncia<br \/>\n    e um t&atilde;o perfeito traquejo da alta sociedade, que o tomar&iacute;eis<br \/>\n    por um pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> Mas o pior era que, se trazia o c&eacute;rebro vazio, voltava com a alma<br \/>\n    corrompida e o cora&ccedil;&atilde;o estragado por h&aacute;bitos de devassid&atilde;o<br \/>\n    e libertinagem.<\/p>\n<p> Alguns bons e generosos instintos, de que o dotara a natureza, haviam?se<br \/>\n    apagado em seu cora&ccedil;&atilde;o ao ro&ccedil;ar de p&eacute;ssimas doutrinas<br \/>\n    confirmadas por exemplos ainda piores.<\/p>\n<p> De volta da Europa, Le&oacute;ncio contava vinte e cinco anos. O pai advertiu?lhe<br \/>\n    com palavras insinuantes e jeitosas, que j&aacute; era tempo de empregar?se<br \/>\n    em alguma coisa, de abra&ccedil;ar alguma carreira; que j&aacute; se tinha<br \/>\n    aproveitado da bolsa paterna mais do que era preciso para sua educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e que era mister ir aprendendo se n&atilde;o a aumentar, ao menos a conservar<br \/>\n    uma fortuna, &agrave; testa da qual teria de achar?se mais tarde ou mais cedo.<br \/>\n    Depois de muita hesita&ccedil;&atilde;o, Le&ocirc;ncio optou enfim pela carreira<br \/>\n    do com&eacute;rcio que lhe pareceu ser a mais independente e segura de todas;<br \/>\n    mas as suas id&eacute;ias largas e audaciosas a este respeito aterraram o<br \/>\n    bom do comendador. O com&eacute;rcio de importa&ccedil;&atilde;o e exporta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de g&ecirc;neros, mesmo em larga escala, o pr&oacute;prio tr&aacute;fego de<br \/>\n    africanos, lhe pareciam especula&ccedil;&otilde;es degradantes e impr&oacute;prias<br \/>\n    de sua alta posi&ccedil;&atilde;o e esmerada educa&ccedil;&atilde;o. O neg&oacute;cio<br \/>\n    de balc&atilde;o e a retalho, esse inspirava?lhe asco e compaix&atilde;o.<br \/>\n    S&oacute; lhe convinham as altas especula&ccedil;&otilde;es cambiais, as opera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    banc&aacute;rias e transa&ccedil;&otilde;es em que jogasse com avultados capitais.<\/p>\n<p> S&oacute; assim poderia duplicar em pouco tempo a fortuna patema. Com o<br \/>\n    que tinha observado na Bolsa de Paris e em outras pra&ccedil;as europ&eacute;ias,<br \/>\n    presumia?se com habilita&ccedil;&atilde;o bastante para dirigir as opera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do mais importante estabelecimento banc&aacute;rio, ou as mais grandiosas<br \/>\n    empresas industriais.<\/p>\n<p> O pai por&eacute;m n&atilde;o se animou a confiar sua fortuna aos azares<br \/>\n    especulativos daquele financeiro em bot&atilde;o, e que at&eacute; ali s&oacute;<br \/>\n    tinha dado provas de grande talento para consumir, em pouco tempo e em pura<br \/>\n    perda, somas consider&aacute;veis. Resolveu portanto a n&atilde;o tocar?lhe<br \/>\n    mais naquele assunto, esperando que o mancebo criasse mais algum ju&iacute;zo.<\/p>\n<p> Vendo que seu pai esquecia?se completamente dos planos de criar-lhe um pec&uacute;lio<br \/>\n    pr&oacute;prio, Le&ocirc;ncio olhou para o casamento como o meio suave e natural<br \/>\n    de adquirir fortuna, como a &uacute;nica carreira que se lhe oferecia para<br \/>\n    ter dinheiro a esbanjar a seu bel?prazer.<\/p>\n<p> Malvina, a formosa filha de um riqu&iacute;ssimo negociante da corte, amigo<br \/>\n    do comendador, j&aacute; estava destinada a Le&ocirc;ncio por comum acordo<br \/>\n    e aquiesc&ecirc;ncia dos pais de ambos. A fam&iacute;lia do comendador foi<br \/>\n    &agrave; corte; os mo&ccedil;os viram?se, amaram?se e casaram; foi coisa de<br \/>\n    poucos dias. Pouco tempo depois de seu casamento Le&ocirc;ncio passou pelo<br \/>\n    desgosto de perder sua m&atilde;e por um golpe inesperado. Esta boa e respeit&aacute;vel<br \/>\n    senhora n&atilde;o tinha sido muito feliz nas rela&ccedil;&otilde;es da vida<br \/>\n    &iacute;ntima com seu marido, que, como homem de cora&ccedil;&atilde;o &aacute;rido<br \/>\n    e frio, desconhecia as santas e puras del&iacute;cias da afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    conjugal, e com suas libertinagens e devassid&otilde;es dilacerava cotidianamente<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o de sua esposa. Para c&uacute;mulo de males linha ela<br \/>\n    perdido ainda na inf&acirc;ncia todos os seus filhos, ficando?lhe s&oacute;<br \/>\n    Le&ocirc;ncio. Lastimava?se principalmente por n&atilde;o ter-lhe deixado<br \/>\n    o c&eacute;u ao menos uma filha, que lhe servisse de companhia e consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em sua desolada velhice. Quis entretanto a sorte deparar?lhe em sua pr&oacute;pria<br \/>\n    casa uma tal ou qual compensa&ccedil;&atilde;o a seus infort&uacute;nios em<br \/>\n    uma fr&aacute;gil criatura, que veio de alguma sorte encher o v&aacute;cuo<br \/>\n    que sentia em seu bondoso e terno cora&ccedil;&atilde;o, e tornar menos triste<br \/>\n    e solit&aacute;rio o lar, em que passava os dias t&atilde;o mon&oacute;tonos<br \/>\n    e enfadonhos.<\/p>\n<p> Havia nascido em casa uma escravinha, que desde o ber&ccedil;o atraiu por<br \/>\n    sua gra&ccedil;a, gentileza e vivacidade toda a aten&ccedil;&atilde;o e solicitude<br \/>\n    da boa velha.<\/p>\n<p> Isaura era filha de uma linda mulata, que fora por muito tempo a mucama<br \/>\n    favorita e a criada fiel da esposa do comendador. Este, que como homem libidinoso<br \/>\n    e sem escr&uacute;pulos olhava as escravas como um serralho &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    lan&ccedil;ou olhos cobi&ccedil;osos e ardentes de lasc&iacute;via sobre a<br \/>\n    gentil mucama. Por muito tempo resistiu ela &aacute;s suas brutais solicita&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    mas por fim teve de ceder &agrave;s amea&ccedil;as e viol&ecirc;ncias. T&atilde;o<br \/>\n    torpe e b&aacute;rbaro procedimento n&atilde;o p&ocirc;de por muito tempo<br \/>\n    ficar oculto aos olhos de sua virtuosa esposa, que com isso concebeu mortal<br \/>\n    desgosto.<\/p>\n<p> Acabrunhado por ela das mais violentas e amargas exprobra&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    o comendador n&atilde;o ousou mais empregar a viol&ecirc;ncia contra a pobre<br \/>\n    escrava, e nem tampouco conseguiu jamais por outro qualquer meio superar a<br \/>\n    invenc&iacute;vel repugn&acirc;ncia que lhe inspirava. Enfureceu?se com tanta<br \/>\n    resist&ecirc;ncia, e deliberou em seu cora&ccedil;&atilde;o perverso vingar?se<br \/>\n    da maneira a mais b&aacute;rbara e ign&oacute;bil, acabrunhando?a de trabalhos<br \/>\n    e castigos.<\/p>\n<p> Exilou?a da sala, onde apenas desempenhava levianos e delicados servi&ccedil;os,<br \/>\n    para a senzala e os fragueiros trabalhos da ro&ccedil;a, recomendando bem<br \/>\n    ao feitor que n&atilde;o lhe poupasse servi&ccedil;o nem castigo. O feitor,<br \/>\n    por&eacute;m, que era um bom portugu&ecirc;s ainda no vigor dos anos, e que<br \/>\n    n&atilde;o tinha as entranhas t&atilde;o empedernidas como o seu patr&atilde;o,<br \/>\n    seduzido pelos encantos da mulata, em vez de trabalho e surras, s&oacute;<br \/>\n    lhe dava car&iacute;cias e presentes, de maneira que da&iacute; a algum tempo<br \/>\n    a mulata deu &agrave; luz da vida a gentil escravinha, de que falamos. Este<br \/>\n    fato veio exacerbar ainda mais a sanha do comendador contra a m&iacute;sera<br \/>\n    escrava. Expeliu com improp&eacute;rios e amea&ccedil;as o bom e fiel feitor,<br \/>\n    e sujeitou a mulata a t&atilde;o rudes trabalhos e t&atilde;o cruel tratamento,<br \/>\n    que em breve a precipitou no t&uacute;mulo, antes que pudesse acabar de criar<br \/>\n    sua tenra e mimosa filhinha.<\/p>\n<p> Eis a&iacute; debaixo de que tristes ausp&iacute;cios nasceu a linda e infeliz<br \/>\n    Isaura. Todavia, como para indeniz&aacute;?la de tamanha desventura, uma santa<br \/>\n    mulher, um anjo de bondade, curvou?se sobre o ber&ccedil;o da pobre crian&ccedil;a<br \/>\n    e veio ampar&aacute;?la &agrave; sombra de suas asas caridosas. A mulher do<br \/>\n    comendador considerou aquela tenra e formosa cria como um mimo, que o c&eacute;u<br \/>\n    lhe enviava para consol&aacute;?la das ang&uacute;stias e dissabores, que<br \/>\n    tragava em conseq&uuml;&ecirc;ncia dos torpes desmandos de seu devasso marido.<\/p>\n<p> Levantou ao c&eacute;u os olhos banhados em l&aacute;grimas, e jurou pela<br \/>\n    alma da infeliz mulata encarregar?se do futuro de Isaura. cri&aacute;?la e<br \/>\n    educ&aacute;?la, como se fosse uma filha.<\/p>\n<p> Assim o cumpriu com o mais religioso escr&uacute;pulo. &Agrave; medida que<br \/>\n    a menina foi crescendo e entrando em idade de aprender, foi?lhe ela mesma<br \/>\n    ensinando a ler e escrever, a coser e a rezar. Mais tarde procurou?lhe tamb&eacute;m<br \/>\n    mestres de m&uacute;sica, de dan&ccedil;a, de italiano, de franc&ecirc;s,<br \/>\n    de desenho, comprou?lhe livros, e empenhou?se enfim em dar &agrave; menina<br \/>\n    a mais esmerada e fina educa&ccedil;&atilde;o, como o faria para com uma filha<br \/>\n    querida. Isaura, por sua parte, n&atilde;o s&oacute; pelo desenvolvimento<br \/>\n    de suas gra&ccedil;as e atrativos corporais, como pelos r&aacute;pidos progressos<br \/>\n    de sua viva e robusta intelig&ecirc;ncia, foi muito al&eacute;m das mais exageradas<br \/>\n    esperan&ccedil;as da excelente velha, a qual em vista de t&atilde;o felizes<br \/>\n    e brilhantes resultados, cada vez mais se comprazia em lapidar e polir aquela<br \/>\n    j&oacute;ia, que ela dizia ser a p&eacute;rola entran&ccedil;ada em seus cabelos<br \/>\n    brancos. &#8211; O c&eacute;u n&atilde;o quis dar?me uma filha de minhas entranhas,<br \/>\n    &#8211; costumava ela dizer, &#8211; mas em compensa&ccedil;&atilde;o deu?me uma filha<br \/>\n    de minha alma.<\/p>\n<p> O que por&eacute;m mais era de admirar na interessante menina, &eacute;<br \/>\n    que aquela predile&ccedil;&atilde;o e extremosa solicitude de que era objeto,<br \/>\n    n&atilde;o a tornava impertinente, vaidosa ou arrogante nem mesmo para com<br \/>\n    seus parceiros de cativeiro. O mimo, com que era tratada, em nada lhe alterava<br \/>\n    a natural bondade e candura do cora&ccedil;&atilde;o. Era sempre alegre e<br \/>\n    boa com os escravos, d&oacute;cil e submissa com os senhores.<\/p>\n<p> O comendador n&atilde;o gostava nada do singular capricho de sua esposa<br \/>\n    para com a mulatinha, capricho que qualificava de caduquice.<\/p>\n<p> &#8211; Forte loucura! &#8211; costumava exclamar com acento de comisera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; ai se esmerando em criar uma formid&aacute;vel tafulona, que<br \/>\n    l&aacute; pelo tempo adiante h&aacute; de lhe dar &aacute;gua pela barba.<br \/>\n    As velhas, umas d&atilde;o para rezar, outras para ralhar desde a manh&atilde;<br \/>\n    at&eacute; &agrave; noite, outras para lavar cachorrinhos ou para criar pintos;<br \/>\n    esta deu para criar mulatinhas princesas. &Eacute; um divertimento um pouco<br \/>\n    mais dispendioso na verdade; mas.., que lhe fa&ccedil;a bom proveito; ao menos<br \/>\n    enquanto se entret&eacute;m por l&aacute; com o seu embeleco, poupa?me uma<br \/>\n    boa d&uacute;zia de impertinentes e rabugentos serm&otilde;es&#8230; L&aacute;<br \/>\n    se avenha!&#8230;<\/p>\n<p> Poucos dias depois do casamento de Le&ocirc;ncio, o comendador, com toda<br \/>\n    a fam&iacute;lia, inclusive os dois novos desposados, transportou?se de novo<br \/>\n    para a fazenda de Campos. Foi ent&atilde;o que o comendador entregou a seu<br \/>\n    filho toda a administra&ccedil;&atilde;o e usufruto daquela propriedade, com<br \/>\n    toda a escravatura e mais acess&oacute;rios nela existentes, declarando?lhe<br \/>\n    que achando?se j&aacute; bastante velho, enfermo e cansado, queria passar<br \/>\n    tranq&uuml;ilamente o resto de seus dias livre de afazeres e preocupa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    para o que bastavam?lhe com sobejid&atilde;o as rendas que para si reservava.<br \/>\n    Feita em vida esta magn&iacute;fica dota&ccedil;&atilde;o a seu filho, retirou?se<br \/>\n    para a corte. Sua esposa por&eacute;m preferiu ficar em companhia do filho,<br \/>\n    o que foi muito do gosto e aprova&ccedil;&atilde;o do marido.<\/p>\n<p> Malvina, que apesar da sua vaidade aristocr&aacute;tica tinha alma c&acirc;ndida<br \/>\n    e boa, e um cora&ccedil;&atilde;o bem formado, n&atilde;o p&ocirc;de deixar<br \/>\n    de conceber logo desde o principio o mais vivo interesse e terna afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela cativa Isaura.<\/p>\n<p> Era esta com efeito de &iacute;ndole t&atilde;o bondosa e fagueira, t&atilde;o<br \/>\n    d&oacute;cil, modesta e submissa, que apesar de sua grande beleza e incontest&aacute;veis<br \/>\n    dotes de esp&iacute;rito, conquistava logo ao primeiro encontro a benevol&ecirc;ncia<br \/>\n    de todos.<\/p>\n<p> Isaura tornou?se imediatamente, n&atilde;o direi a mucama favorita, mas<br \/>\n    a fiel companheira, a amiga de Malvina que, afeita aos prazeres e passatempos<br \/>\n    da corte, muito folgou de encontrar t&atilde;o boa e am&aacute;vel companhia<br \/>\n    na solid&atilde;o que ia habitar.<\/p>\n<p> &#8211; Por que raz&atilde;o n&atilde;o libertam esta menina? &#8211; dizia ela um dia<br \/>\n    &agrave; sua sogra. &#8211; Uma t&atilde;o boa e interessante criatura n&atilde;o<br \/>\n    nasceu para ser escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Tem raz&atilde;o, minha filha, &#8211; respondeu bondosamente a velha; &#8211; mas<br \/>\n    que quer voc&ecirc;?&#8230; n&atilde;o tenho &acirc;nimo de soltar este passarinho<br \/>\n    que o c&eacute;u me deu para me consolar e tornar mais suport&aacute;veis<br \/>\n    as pesadas e compridas horas da velhice.<\/p>\n<p> E tamb&eacute;m libert&aacute;?la para qu&ecirc;? Ela aqui &eacute; livre,<br \/>\n    mais livre do que eu mesma, coitada de mim, que j&aacute; n&atilde;o tenho<br \/>\n    gostos na vida nem for&ccedil;as para gozar da liberdade. Quer que eu solte<br \/>\n    a minha patativa? e se ela transviar?se por a&iacute;, e nunca mais acertar<br \/>\n    com a porta da gaiola?&#8230; N&atilde;o, n&atilde;o, minha filha; enquanto eu<br \/>\n    for viva, quero t&ecirc;?la sempre bem pertinho de mim, quero que seja minha,<br \/>\n    e minha s&oacute;. Voc&ecirc; h&aacute; de estar dizendo l&aacute; consigo<br \/>\n    &#8211; forte ego&iacute;smo de velha! &#8211; mas tamb&eacute;m eu j&aacute; poucos dias<br \/>\n    terei de vida; o sacrif&iacute;cio n&atilde;o ser&aacute; grande. Por minha<br \/>\n    morte ficar&aacute; livre, e eu terei o cuidado de deixar?lhe um bom legado.<\/p>\n<p> De feito, a boa velha tentou por diversas vezes escrever seu testamento<br \/>\n    a fim de garantir o futuro de sua escravinha, de sua querida pupila; mas o<br \/>\n    comendador, auxiliado por seu filho com delongas e f&uacute;teis pretextos,<br \/>\n    conseguia ir sempre adiando a satisfa&ccedil;&atilde;o do louv&aacute;vel<br \/>\n    e santo desejo de sua esposa, at&eacute; o dia em que, fulminada por um ataque<br \/>\n    de paralisia geral, ela sucumbiu em poucas horas sem ter tido um s&oacute;<br \/>\n    momento de lucidez e reanima&ccedil;&atilde;o para expressar sua &uacute;ltima<br \/>\n    vontade.<\/p>\n<p> Malvina jurou sobre o cad&aacute;ver de sua sogra continuar para com a infeliz<br \/>\n    escrava a mesma prote&ccedil;&atilde;o e solicitude que a defunta lhe havia<br \/>\n    prodigalizado. Isaura pranteou por muito tempo a morte daquela que havia sido<br \/>\n    para ela m&atilde;e desvelada e carinhosa; e continuou a ser escrava n&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; de uma boa e virtuosa senhora, mas de senhores caprichosos, devassos<br \/>\n    e cru&eacute;is.<\/p>\n<h2><a name=\"3\" id=\"3\">Capitulo 3<\/a><\/h2>\n<p>Falta?nos ainda conhecer mais de perto a Henrique, o cunhado de Le&ocirc;ncio.<br \/>\n    Era ele um elegante e bonito rapaz de vinte anos, fr&iacute;volo, estouvado<br \/>\n    e vaidoso, como s&atilde;o quase sempre todos os jovens, mormente quando lhes<br \/>\n    coube a ventura de terem nascido de um pai rico. N&atilde;o obstante esses<br \/>\n    ligeiros sen&otilde;es, tinha bom cora&ccedil;&atilde;o e bastante dignidade<br \/>\n    e nobreza de alma. Era estudante de medicina, e como estava?se em f&eacute;rias,<br \/>\n    Le&ocirc;ncio o convidara a vir visitar a irm&atilde; e passar alguns dias<br \/>\n    em sua fazenda.<\/p>\n<p> Os dois mancebos chegavam de Campos, onde Le&ocirc;ncio desde a v&eacute;spera<br \/>\n    linha ido ao encontro do cunhado.<\/p>\n<p> S&oacute; depois de casado Le&ocirc;ncio, que antes disso poucas e breves<br \/>\n    estadas fizera na casa paterna, come&ccedil;ou a prestar aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; extrema beleza e &agrave;s gra&ccedil;as incompar&aacute;veis de<br \/>\n    Isaura. Posto que lhe coubesse em sorte uma linda e excelente mulher, ele<br \/>\n    n&atilde;o se havia casado por amor, sentimento esse a que seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    at&eacute; ali parecia absolutamente estranho. Casara?se por especula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e como sua mulher era mo&ccedil;a e bonita, sentira apenas por ela paix&atilde;o,<br \/>\n    que se ceva no gozo dos prazeres sensuais, e com eles se extingue. Estava<br \/>\n    reservado &agrave; infeliz Isaura fazer vibrar profunda e violentamente naquele<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o as fibras que ainda n&atilde;o estavam de todo estragadas<br \/>\n    pelo atrito da devassid&atilde;o.<\/p>\n<p> Concebeu por ela o mais cego e violento amor, que de dia em dia ia crescendo<br \/>\n    na raz&atilde;o direta dos s&eacute;rios e poderosos obst&aacute;culos que<br \/>\n    encontrava, obst&aacute;culos a que n&atilde;o estava afeito, e que em v&atilde;o<br \/>\n    se esfor&ccedil;ava para superar. Mas nem por isso desistia de sua tresloucada<br \/>\n    empresa, porque em fim de contas, &#8211; pensava ele, &#8211; Isaura era propriedade<br \/>\n    sua, e quando nenhum outro meio fosse eficaz, restava?lhe o emprego da viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio era um digno herdeiro de todos os maus instintos e da brutal<br \/>\n    devassid&atilde;o do comendador.<\/p>\n<p> Pelo caminho, como sua mente andava sempre cheia da imagem de Isaura, Le&ocirc;ncio<br \/>\n    conversara longamente com seu cunhado a respeito dela, exaltando?lhe a beleza,<br \/>\n    e deixando transluzir com revoltante cinismo as lascivas inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que abrigava no cora&ccedil;&atilde;o. Esta conversa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    agradava muito a Henrique, que &agrave;s vezes corava de pejo e de indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por sua irm&atilde;, mas n&atilde;o deixou de excitar?lhe viva curiosidade<br \/>\n    de conhecer uma escrava de t&atilde;o extraordin&aacute;ria beleza.<\/p>\n<p> No dia seguinte ao da chegada dos mancebos &agrave;s oito horas da manh&atilde;,<br \/>\n    Isaura, que acabava de espanejar os m&oacute;veis e arranjar o sal&atilde;o,<br \/>\n    achava?se sentada junto a uma janela e entrelinha?se a bordar, &agrave; espera<br \/>\n    que seus senhores se levantassem para servir?lhes o caf&eacute;. Le&ocirc;ncio<br \/>\n    e Henrique n&atilde;o tardaram em aparecer, e parando &agrave; porta do sal&atilde;o<br \/>\n    puseram?se a contemplar Isaura, que sem se aperceber da presen&ccedil;a deles<br \/>\n    continuava a bordar distraidamente.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, que te parece? segredava Le&ocirc;ncio a seu cunhado. &#8211; Uma<br \/>\n    escrava desta ordem n&atilde;o &eacute; um tesouro inapreci&aacute;vel? Quem<br \/>\n    n&atilde;o diria que uma andaluza de C&aacute;diz, ou uma napolitana?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; nada disso; mas &eacute; coisa melhor, respondeu Henrique<br \/>\n    maravilhado; &eacute; uma perfeita brasileira.<\/p>\n<p> &#8211; Qual brasileira! &eacute; superior a tudo quanto h&aacute;. Aqueles encantos<br \/>\n    e aquelas dezessete primaveras em uma mo&ccedil;a livre, teriam feito virar<br \/>\n    o ju&iacute;zo a muita gente boa. Tua irm&atilde; pretende com inst&acirc;ncia,<br \/>\n    que eu a liberte, alegando que essa era a vontade de minha defunta m&atilde;e;<br \/>\n    mas nem t&atilde;o tolo sou eu, que me desfa&ccedil;a assim sem mais nem menos<br \/>\n    de uma j&oacute;ia t&atilde;o preciosa. Se minha m&atilde;e teve o capricho<br \/>\n    de cri&aacute;?la com todo o mimo e de dar?lhe uma primorosa educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o foi decerto para abandon&aacute;?la ao mundo, n&atilde;o achas?&#8230;<br \/>\n    Tamb&eacute;m meu pai parece que cedeu &agrave;s inst&acirc;ncias do pai dela,<br \/>\n    que &eacute; um pobre galego, que por ai anda, e que pretende libert&aacute;?la;<br \/>\n    mas o velho pede por ela t&atilde;o exorbitante soma, que julgo nada dever<br \/>\n    recear por esse lado. V&ecirc; l&aacute;, Henrique, se h&aacute; nada que<br \/>\n    pague uma escrava assim?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; com efeito encantadora &#8211; replicou o mo&ccedil;o, &#8211; se estivesse<br \/>\n    no serralho do sult&atilde;o, seria sua odalisca favorita. Mas devo notar?te,<br \/>\n    Le&ocirc;ncio, &#8211; continuou, cravando no cunhado um olhar cheio de maliciosa<br \/>\n    penetra&ccedil;&atilde;o, &#8211; como teu amigo e como irm&atilde;o de tua mulher,<br \/>\n    que o teres em tua sala e ao lado de minha irm&atilde; uma escrava t&atilde;o<br \/>\n    linda e t&atilde;o bem tratada n&atilde;o deixa de ser inconveniente e talvez<br \/>\n    perigoso para a tranq&uuml;ilidade dom&eacute;stica&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Bravo! &#8211; atalhou Le&ocirc;ncio, galhofando, &#8211; para a idade que tens, j&aacute;<br \/>\n    est&aacute;s um moralista de polpa!&#8230; mas n&atilde;o te d&ecirc; isso cuidado,<br \/>\n    meu menino; tua irm&atilde; n&atilde;o tem dessas veleidades, e &eacute; ela<br \/>\n    mesma quem mais gosta de que Isaura seja vista e admirada por todos. E tem<br \/>\n    raz&atilde;o; Isaura &eacute; como um traste de luxo, que deve estar sempre<br \/>\n    exposto no sal&atilde;o.<\/p>\n<p> Querias que eu mandasse para a cozinha os meus espelhos de Veneza?&#8230;<\/p>\n<p> Malvina, que vinha do interior da casa, risonha, fresca e alegre como uma<br \/>\n    manh&atilde; de abril, veio interromper?lhes a conversa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Bom dia, senhores pregui&ccedil;osos! &#8211; disse ela com voz argentina e<br \/>\n    festiva como o trino da andorinha. &#8211; At&eacute; que enfim sempre se levantaram!<br \/>\n    &#8211; Est&aacute;s hoje muito alegre, minha querida, &#8211; retorquiu?lhe sor? rindo<br \/>\n    o marido; &#8211; viste algum passarinho verde de bico dourado?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o vi, mas hei de ver; estou alegre mesmo, e quero que hoje aqui<br \/>\n    em casa seja um dia de festa para todos. Isto depende de ti, Le&ocirc;ncio,<br \/>\n    e estava aflita por te ver de p&eacute;; quero dizer?te uma coisa; j&aacute;<br \/>\n    devia t&ecirc;?la dito ontem, mas o prazer de ver este ingrato de irm&atilde;o,<br \/>\n    que h&aacute; tanto tempo n&atilde;o vejo, me fez esquecer&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas o que &eacute;?&#8230; fala, Malvina.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o te lembras de uma promessa, que sempre me fazes, promessa sagrada,<br \/>\n    que h&aacute; muito tempo devia ter sido cumprida?&#8230; hoje quero absolutamente,<br \/>\n    exijo, o seu cumprimento.<\/p>\n<p> &#8211; Deveras?.., mas que promessa?&#8230; n&atilde;o me lembro.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! como te fazes de esquecido!&#8230; n&atilde;o te lembras, que me prometeste<br \/>\n    dar liberdade a&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! j&aacute; sei, j&aacute; sei; &#8211; atalhou Le&ocirc;ncio com impaci&ecirc;ncia.<br \/>\n    &#8211; Mas tratar disso aqui agora? em presen&ccedil;a dela?&#8230; que necessidade<br \/>\n    h&aacute; de que nos ou&ccedil;a? &#8211; E que mal faz isso? mas seja como quiseres,<br \/>\n    &#8211; replicou a mo&ccedil;a tomando a m&atilde;o de Le&ocirc;ncio e levando?o<br \/>\n    para o interior da casa; &#8211; vamos c&aacute; para dentro. Henrique, espera a&iacute;<br \/>\n    um momento, enquanto eu vou mandar preparar?nos o caf&eacute;.<\/p>\n<p> S&oacute; depois da chegada de Malvina, Isaura deu pela presen&ccedil;a<br \/>\n    dos dois mancebos, que a certa dist&acirc;ncia a contemplavam cochichando<br \/>\n    a respeito dela. Tamb&eacute;m pouco ouviu ela e nada compreendeu do r&aacute;pido<br \/>\n    di&aacute;logo que tivera lugar entre Malvina e seu marido. Apenas estes se<br \/>\n    retiraram ela tamb&eacute;m se levantou e ia sair, mas Henrique, que ficara<br \/>\n    s&oacute;, a deteve com um gesto.<\/p>\n<p> &#8211; Que me quer, senhor? &#8211; disse ela baixando os olhos com humildade.<\/p>\n<p> &#8211; Espera ai, menina; tenho alguma coisa a dizer?te, &#8211; replicou o mo&ccedil;o,<br \/>\n    e sem dizer mais nada colocou?se diante dela devorando?a com os olhos, e como<br \/>\n    ext&aacute;tico contemplando?lhe a maravilhosa beleza.<\/p>\n<p> Henrique sentia?se acanhado diante daquela nobre figura radiante de beleza,<br \/>\n    e de ang&eacute;lica serenidade. Por seu lado Isaura tamb&eacute;m olhava<br \/>\n    para o mo&ccedil;o, at&ocirc;nita e tolhida, esperando em v&atilde;o que lhe<br \/>\n    dissesse o que queria. Por fim Henrique, afoito, e estouvado como era, lembrando?se<br \/>\n    que Isaura, a despeito de toda a sua formosura, n&atilde;o passava de uma<br \/>\n    escrava, entendeu que fazia um rid&iacute;culo papel, deixando?se ali ficar<br \/>\n    diante dela em muda e ext&aacute;tica contempla&ccedil;&atilde;o, e chegando?se<br \/>\n    a ela com todo o desembara&ccedil;o e petul&acirc;ncia travou?lhe da m&atilde;o,<br \/>\n    e&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mulatinha, disse, &#8211; tu n&atilde;o fazes id&eacute;ia de quanto &eacute;s<br \/>\n    feiticeira.<\/p>\n<p> Minha irm&atilde; tem raz&atilde;o; &eacute; pena que uma menina assim t&atilde;o<br \/>\n    linda n&atilde;o seja mais que uma escrava. Se tivesses nascido livre, serias<br \/>\n    incontestavelmente a rainha dos sal&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; bem, senhor, est&aacute; bem! replicou Isaura soltando?se<br \/>\n    da m&atilde;o de Henrique; se &eacute; s&oacute; isso o que tinha a dizer?me,<br \/>\n    deixe?me ir embora.<\/p>\n<p> &#8211; Espera ainda um pouco; n&atilde;o sejas assim m&aacute;; eu n&atilde;o<br \/>\n    te quero fazer mal algum. Oh! quanto eu daria para obter a tua liberdade,<br \/>\n    se com ela pudesse obter tamb&eacute;m o teu amor!&#8230; &Eacute;s muito mimosa<br \/>\n    e muito linda para ficares por muito tempo no cativeiro; algu&eacute;m impreterivelmente<br \/>\n    vir&aacute; arrancar?te dele, e se h&aacute;s de cair nas m&atilde;os de algum<br \/>\n    desconhecido, que n&atilde;o saber&aacute; dar?te o devido apre&ccedil;o,<br \/>\n    seja eu, minha Isaura, seja o irm&atilde;o de tua senhora, que de escrava<br \/>\n    te haja de fazer uma princesa&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! senhor Henrique! retorquiu a menina com enfado; &#8211; o senhor n&atilde;o<br \/>\n    se peja de dirigir esses galanteios a uma escrava de sua irm&atilde;? isso<br \/>\n    n&atilde;o lhe fica bem; h&aacute; por a&iacute; tanta mo&ccedil;a bonita,<br \/>\n    a quem o senhor pode fazer a corte&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o; ainda n&atilde;o vi nenhuma que te iguale, Isaura, eu te juro.<\/p>\n<p> Olha, Isaura; ningu&eacute;m mais do que eu est&aacute; nas circunst&acirc;ncias<br \/>\n    de conseguir a tua liberdade; sou capaz de obrigar Le&ocirc;ncio a te libertar,<br \/>\n    porque, se me n&atilde;o engano, j&aacute; lhe adivinhei os planos e as inten&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e protesto?te que hei de burl&aacute;?los todos; &eacute; uma inf&acirc;mia<br \/>\n    em que n&atilde;o posso consentir. Al&eacute;m da liberdade ter&aacute;s tudo<br \/>\n    o que desejares, sedas, j&oacute;ias, carros, escravos para te servirem, e<br \/>\n    achar&aacute;s em mim um amante extremoso, que sempre te h&aacute; de querer,<br \/>\n    e nunca te trocar&aacute; por quanta mo&ccedil;a h&aacute; por esse mundo,<br \/>\n    por bonita e rica que seja, porque tu s&oacute; vales mais que todas elas<br \/>\n    juntas.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus! &#8211; exclamou Isaura com um ligeiro tom de mofa; &#8211; tanta grandeza<br \/>\n    me aterra; isso faria virar?me o ju&iacute;zo. Nada, meu senhor; guarde suas<br \/>\n    grandezas para quem melhor as merecer; eu por ora estou contente com a minha<br \/>\n    sorte.<\/p>\n<p> &#8211; Isaura!&#8230; para que tanta crueldade!&#8230; escuta, &#8211; disse o mo&ccedil;o<br \/>\n    lan&ccedil;ando o bra&ccedil;o ao pesco&ccedil;o de Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Henrique! &#8211; gritou ela esquivando?se ao abra&ccedil;o, &#8211; por quem<br \/>\n    &eacute;, deixe?me em paz! &#8211; Por piedade, Isaura! &#8211; insistiu o rapaz continuando<br \/>\n    a querer abra&ccedil;&aacute;?la; &#8211; oh!&#8230; n&atilde;o fales t&atilde;o alto!&#8230;<br \/>\n    um beijo&#8230; um beijo s&oacute;, e j&aacute; te deixo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Se o senhor continua, eu grito mais alto. N&atilde;o posso aqui trabalhar<br \/>\n    um momento, que n&atilde;o me venham perturbar com declara&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que n&atilde;o devo escutar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Oh! como est&aacute; altaneira! &#8211; exclamou Henrique, j&aacute; um tanto<br \/>\n    agastado com tanta resist&ecirc;ncia. &#8211; N&atilde;o lhe falta nada!&#8230; tem<br \/>\n    at&eacute; os ares desdenhosos de uma grande senhora!&#8230; n&atilde;o te arrufes<br \/>\n    assim, minha princesa&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Arre l&aacute;, senhor! &#8211; bradou a escrava j&aacute; no auge da impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; n&atilde;o bastava o senhor Le&ocirc;ncio!&#8230; agora vem o senhor<br \/>\n    tamb&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Como?&#8230; que est&aacute;s dizendo?&#8230; tamb&eacute;m Le&ocirc;ncio?&#8230;<br \/>\n    oh!&#8230; oh! bem o cora&ccedil;&atilde;o me estava adivinhando!&#8230; que inf&acirc;mia!&#8230;<br \/>\n    mas decerto tu o escutas com menos impaci&ecirc;ncia, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    assim? &#8211; Tanto como escuto ao senhor.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o duvido Isaura; a lealdade, que deves a tua senhora, que tanto<br \/>\n    te estima, n&atilde;o te permite que d&ecirc;s ouvidos &agrave;quele perverso.<br \/>\n    Mas comigo o caso &eacute; diferente; que motivo h&aacute; para seres cruel<br \/>\n    assim? &#8211; Eu cruel para com meus senhores!!! Ora, senhor, pelo amor de Deus!&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o esteja assim a escarnecer de uma pobre cativa.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o! n&atilde;o escarne&ccedil;o&#8230; Isaura!&#8230; escuta, &#8211; exclamava<br \/>\n    Henrique forcejando para abra&ccedil;&aacute;?la e furtar?lhe um beijo.<\/p>\n<p> &#8211; Bravo!&#8230; brav&iacute;ssimo! &#8211; retumbou pelo sal&atilde;o uma voz acompanhada<br \/>\n    de sard&ocirc;nica e estrepitosa gargalhada.<\/p>\n<p> Henrique voltou?se sobressaltado. Toda a sua amorosa exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinha?se?lhe gelado de s&uacute;bito no &acirc;mago do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio estava em p&eacute; no meio da porta, de bra&ccedil;os cruzados<br \/>\n    e olhando para ele com sorriso do mais insultante esc&aacute;rnio.<\/p>\n<p> &#8211; Bravo! muito bem, senhor meu cunhado! &#8211; continuou Le&ocirc;ncio no mesmo<br \/>\n    tom de mofa. &#8211; Est&aacute; pondo em pr&aacute;tica belissimamente as suas<br \/>\n    li&ccedil;&otilde;es de moral!&#8230; requestando?me as escravas!&#8230; est&aacute;<br \/>\n    galante!&#8230;<\/p>\n<p> sabe respeitar divinamente a casa de sua irm&atilde;!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! maldito importuno! murmurou Henrique, trincando os dentes de c&oacute;lera,<br \/>\n    e seu primeiro impulso foi investir de punho fechado, e responder com cacha&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    aos insolentes sarcasmos do cunhado.<\/p>\n<p> Refletindo por&eacute;m um momento, sentiu que lhe seria mais vantajoso<br \/>\n    empregar contra o seu agressor a mesma arma de que se servira contra ele,<br \/>\n    o sarcasmo, que as circunst&acirc;ncias lhe permitiam vibrar de modo vitorioso<br \/>\n    e decisivo. Acalmou?se, pois, e com sorriso de soberano desd&eacute;m: &#8211; Ah!<br \/>\n    perd&atilde;o, meu cunhado! &#8211; disse ele n&atilde;o sabia que a peregrina j&oacute;ia<br \/>\n    do seu sal&atilde;o lhe merecesse tanto cuidado, que o levasse a ponto de<br \/>\n    and&aacute;?la espionando; creio que tem mais zelo por ela do que mesmo pelo<br \/>\n    respeito que se deve &agrave; sua casa e &agrave; sua mulher. Pobre de minha<br \/>\n    irm&atilde;!&#8230; &eacute; bem simples, e admira que, h&aacute; mais tempo,<br \/>\n    n&atilde;o tenha conhecido o belo marido que possui!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O que est&aacute;s dizendo, rapaz? &#8211; bradou Le&ocirc;ncio com gesto amea&ccedil;ador;<br \/>\n    &#8211; repete; que est&aacute;s dizendo? &#8211; O mesmo que o senhor acaba de ouvir,<br \/>\n    &#8211; redarg&uuml;iu Henrique com firmeza, &#8211; e fique certo que o seu indigno procedimento<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; de ficar por muito tempo oculto &agrave; minha irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8211; Qual procedimento!? tu deliras, Henrique?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Fa&ccedil;a?se de esquerdo!&#8230; pensa que n&atilde;o sei tudo?&#8230; enfim.<\/p>\n<p> adeus, senhor Le&ocirc;ncio: eu me retiro, porque seria altamente inconveniente,<br \/>\n    indigno e rid&iacute;culo da minha parte estar a disputar com o senhor por<br \/>\n    amor de uma escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Espera, Henrique&#8230; escuta&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o; n&atilde;o tenho neg&oacute;cio nenhum com o senhor.<br \/>\n    Adeus! &#8211; disse e retirou?se precipitadamente.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio sentiu?se esmagado, e arrependeu?se mil e uma vezes de ter<br \/>\n    provocado t&atilde;o imprudentemente aquele leviano e estouvado rapaz.<\/p>\n<p> Ignorava que seu cunhado estivesse ao fato da paix&atilde;o que sentia por<br \/>\n    Isaura, e dos esfor&ccedil;os que empregava para vencer?lhe a isen&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e lograr seus favores. verdade que lhe havia falado sem muito rebu&ccedil;o<br \/>\n    a esse respeito; mas algumas palavras ditas entre rapazes, em tom de mera<br \/>\n    chocarrice, n&atilde;o constitu&iacute;am base suficiente para que sobre ela<br \/>\n    Henrique pudesse articular uma acusa&ccedil;&atilde;o contra ele em face de<br \/>\n    sua mulher.<\/p>\n<p> Decerto a rapariga lhe havia revelado alguma coisa, e isto o fazia espumar<br \/>\n    de despeito e raiva contra um e outra. Bem pouco lhe importava a perturba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da paz dom&eacute;stica, o que o enfurecia era o perigo em que se colocara<br \/>\n    de ver desconcertados os seus perversos des&iacute;gnios sobre a gentil escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Maldi&ccedil;&atilde;o! &#8211; rugia ele l&aacute; consigo. &#8211; Aquele maluco<br \/>\n    &eacute; bem ca? paz de desconcertar todos os meus planos. Se sabe alguma<br \/>\n    coisa, como parece, n&atilde;o por&aacute; d&uacute;vida em levar tudo aos<br \/>\n    ouvidos de Malvina&#8230;<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio ficou por alguns momentos em p&eacute;, im&oacute;vel, sombrio,<br \/>\n    carrancudo, com o esp&iacute;rito entregue &agrave; cruel inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o fustigava.<\/p>\n<p> Depois, pairando as vistas em derredor, deu com os olhos em Isaura, a qual,<br \/>\n    desde que Le&ocirc;ncio se apresentara, corrida, tr&ecirc;mula e anelante,<br \/>\n    fora sumir?se em um canto da sala; dali presenciara em silenciosa ansiedade<br \/>\n    a alterca&ccedil;&atilde;o dos dois mo&ccedil;os, como cor&ccedil;a mal ferida<br \/>\n    escutando o rugir de dois tigres, que disputaram entre si o direito de devor&aacute;?la.<br \/>\n    Por seu lado tamb&eacute;m se arrependia do intimo d&#8217;alma, e raivava contra<br \/>\n    si mesma pela indiscreta e louca revela&ccedil;&atilde;o, que em um assomo<br \/>\n    de impaci&ecirc;ncia deixara escapar dos seus l&aacute;bios. Sua imprud&ecirc;ncia<br \/>\n    ia ser causa da mais deplor&aacute;vel disc&oacute;rdia no seio daquela fam&iacute;lia,<br \/>\n    disc&oacute;rdia, de que por fim de contas ela viria a ser a principal v&iacute;tima.<br \/>\n    A desaven&ccedil;a entre os dois mancebos era como o choque de duas nuvens,<br \/>\n    que se encontram e continuam a pairar tranq&uuml;ilamente no c&eacute;u; mas<br \/>\n    o raio desprendido de seu seio teria de vir certeiro sobre a fronte da infeliz<br \/>\n    cativa.<\/p>\n<h2><a name=\"4\" id=\"4\">Cap&iacute;tulo 4<\/a><\/h2>\n<p> &#8211; Ah! est&aacute;s ainda ai?&#8230; fizeste bem, &#8211; disse Le&ocirc;ncio mal avistou<br \/>\n    Isaura, que tr&ecirc;mula e confusa n&atilde;o ousara sair do cantinho, a<br \/>\n    que se abrigara, e onde fazia mil votos ao c&eacute;u para que seu senhor<br \/>\n    n&atilde;o a visse, nem se lembrasse dela naquele momento. &#8211; Isaura, continuou<br \/>\n    ele, &#8211; pelo que vejo, andas bem adiantada em amores!&#8230; estavas a ouvir finezas<br \/>\n    daquele rapazola&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Tanto como ou&ccedil;o as suas, meu senhor, por n&atilde;o ter outro rem&eacute;dio.<\/p>\n<p> Uma escrava, que ousasse olhar com amor para seus senhores, merecia ser<br \/>\n    severamente castigada.<\/p>\n<p> &#8211; Mas tu disseste alguma coisa &agrave;quele estouvado, Isaura?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu?! &#8211; respondeu a escrava perturbando?se; &#8211; eu, nada que possa ofender<br \/>\n    nem ao senhor nem a ele&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pesa bem as tuas palavras, Isaura; olha, n&atilde;o procures enganar?me.<br \/>\n    Nada lhe disseste a meu respeito? &#8211; Nada.<\/p>\n<p> &#8211; Juras? &#8211; Juro, &#8211; balbuciou Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! Isaura, Isaura!&#8230; tem cuidado. Se at&eacute; aqui tenho sofrido com<br \/>\n    paci&ecirc;ncia as tuas repulsas e desd&eacute;ns, n&atilde;o estou disposto<br \/>\n    a suportar que em minha casa, e quase em minha presen&ccedil;a, estejas a<br \/>\n    escutar galanteios de quem quer que seja, e muito menos revelar o que aqui<br \/>\n    se passa. Se n&atilde;o queres o meu amor, evita ao menos de incorrer no meu<br \/>\n    &oacute;dio.<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o, senhor, que culpa tenho eu de andarem a perseguir?me? &#8211;<br \/>\n    Tens alguma raz&atilde;o; estou vendo que me verei for&ccedil;ado a desterrar?te<br \/>\n    desta casa, e a esconder?te em algum canto, onde n&atilde;o sejas t&atilde;o<br \/>\n    vista e cobi&ccedil;ada&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Para qu&ecirc;, senhor&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Basta; n&atilde;o te posso ouvir agora, Isaura. N&atilde;o conv&eacute;m<br \/>\n    que nos encontrem aqui conversando a s&oacute;s. Em outra ocasi&atilde;o te<br \/>\n    escutarei. &#8211; preciso estorvar que aquele estonteado v&atilde; intrigar?me<br \/>\n    com Malvina &#8211; murmurava Le&ocirc;ncio retirando?se. &#8211; Ah! c&atilde;o! maldita<br \/>\n    a hora em que te trouxe &agrave; minha casa! &#8211; Permita Deus que tal ocasi&atilde;o<br \/>\n    nunca chegue! &#8211; exclamou tristemente dentro da alma a rapariga, vendo seu<br \/>\n    senhor retirar?se.<\/p>\n<p> Ela via com ang&uacute;stia e mortal desassossego as continuas e cada vez<br \/>\n    mais encarni&ccedil;adas solicita&ccedil;&otilde;es de Le&ocirc;ncio, e n&atilde;o<br \/>\n    atinava com um meio de opor?lhes um paradeiro. Resolvida a resistir at&eacute;<br \/>\n    &agrave; morte, lembrava?se da sorte de sua infeliz m&atilde;e, cuja triste<br \/>\n    hist&oacute;ria bem conhecia, pois a tinha ouvido, segredada a medo e misteriosamente,<br \/>\n    da boca de alguns velhos escravos da casa, e o futuro se lhe antolhava carregado<br \/>\n    das mais negras e sinistras cores. Revelar tudo a Malvina era o &uacute;nico<br \/>\n    meio, que se lhe apresentava ao esp&iacute;rito, para p&ocirc;r termo &agrave;s<br \/>\n    ousadias do seu marido, e atalhar futuras desgra&ccedil;as. Mas Isaura amava<br \/>\n    muito sua jovem senhora para ousar dar semelhante passo, que iria derramar?lhe<br \/>\n    no seio um pego de desgostos e amarguras, quebrando?lhe para sempre a risonha<br \/>\n    e doce ilus&atilde;o em que vivia.<\/p>\n<p> Preferia antes morrer como sua m&atilde;e, vitima das mais cru&eacute;is<br \/>\n    sev&iacute;cias, do que ir por suas m&atilde;os lan&ccedil;ar uma nuvem sinistra<br \/>\n    no c&eacute;u at&eacute; ali t&atilde;o sereno e bonan&ccedil;oso de sua querida<br \/>\n    senhora.<\/p>\n<p> O pai de Isaura, o &uacute;nico ente no mundo, que &agrave; exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Malvina se interessava por ela, pobre e simples jornaleiro, n&atilde;o<br \/>\n    se achava em estado de poder proteg&ecirc;?la contra as persegui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e viol&ecirc;ncias de que se achava amea&ccedil;ada. Em t&atilde;o cruel situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Isaura n&atilde;o sabia sen&atilde;o chorar em segredo a sua desventura, e<br \/>\n    implorar ao c&eacute;u, do qual somente podia esperar rem&eacute;dio a seus<br \/>\n    males.<\/p>\n<p> Bem se compreende pois agora aquele acento t&atilde;o dorido, t&atilde;o<br \/>\n    repassado de ang&uacute;stia, com que cantava a sua can&ccedil;&atilde;o favorita.<br \/>\n    Malvina enganava?se atribuindo sua tristeza a alguma paix&atilde;o amorosa.<br \/>\n    Isaura conservava ainda o cora&ccedil;&atilde;o no mais puro estado de isen&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Com quanto mais d&oacute; n&atilde;o a teria lastimado sua boa e sens&iacute;vel<br \/>\n    senhora, se pudesse adivinhar a verdadeira causa dos pesares que o ralavam.<\/p>\n<h2><a name=\"5\" id=\"5\"> Cap&iacute;tulo 5<\/a><\/h2>\n<p> Isaura despertando de suas pungentes e amargas preocupa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> tomou seu balainho de costura e ia deixar o sal&atilde;o, resolvida a sumir?se<br \/>\n    no mais escondido recanto da casa, ou amoitar?se em algum esconderijo do pomar.<br \/>\n    Esperava assim esquivar?se &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o de cenas indecentes<br \/>\n    e vergonhosas, como essas por que acabava de passar. Apenas dera os primeiros<br \/>\n    passos foi detida por uma extravagante e grotesca figura, que penetrando no<br \/>\n    sal&atilde;o veio postar?se diante de seus olhos.<\/p>\n<p> Era um monstrengo afetando formas humanas, um hom&uacute;nculo em tudo mal<br \/>\n    constru&iacute;do, de cabe&ccedil;a enorme, tronco raqu&iacute;tico, pernas<br \/>\n    curtas e arqueadas para fora, cabeludo como um urso, e feio como um mono.<\/p>\n<p> Era como um desses tru&otilde;es disformes, que formavam parte indispens&aacute;vel<br \/>\n    do s&eacute;quito de um grande rei da M&eacute;dia Idade, para divertimento<br \/>\n    dele e de seus cortes&otilde;es. A natureza esquecera de lhe formar o pesco&ccedil;o,<br \/>\n    e a cabe&ccedil;a disforme nascia?lhe de dentro de uma formid&aacute;vel corcova,<br \/>\n    que a resguardava quase como um capuz. Bem reparado todavia, o rosto n&atilde;o<br \/>\n    era muito irregular, nem repugnante, e exprimia muita cordura, submiss&atilde;o<br \/>\n    e bonomia.<\/p>\n<p> Isaura teria soltado um grito de pavor, se h&aacute; muito n&atilde;o estivesse<br \/>\n    familiarizada com aquela estranha figura, pois era ele, sem mais nem menos,<br \/>\n    o senhor Belchior, fiel e excelente ilh&eacute;u, que h&aacute; muitos anos<br \/>\n    exercia naquela fazenda mui digna e conscienciosamente, apesar de sua deformidade<br \/>\n    e idiotismo, o cargo de jardineiro. Parece que as flores, que s&atilde;o o<br \/>\n    s&iacute;mbolo natural de tudo quanto &eacute; belo, puro e delicado, deviam<br \/>\n    ter um cultor menos disforme e repulsivo. Mas quis a sorte ou o capricho do<br \/>\n    dono da casa estabelecer aquele contraste, talvez para fazer sobressair a<br \/>\n    beleza de umas &agrave; custa da fealdade do outro.<\/p>\n<p> Belchior tinha em uma das m&atilde;os o vasto chap&eacute;u de palha, que<br \/>\n    arrastava pelo ch&atilde;o, e com a outra empunhava. n&atilde;o um ramalhete,<br \/>\n    mas um enorme feixe de flores de todas as qualidades, &agrave; sombra das<br \/>\n    quais procurava eclipsar sua desgraciosa e extravagante figura. Parecia um<br \/>\n    desses vasos de lou&ccedil;a, de formas fant&aacute;sticas e grotescas, que<br \/>\n    se enchem de flores para enfeitar bufetes e aparadores.<\/p>\n<p> &#8211; Valha?me Deus! &#8211; pensou Isaura ao dar com os olhos no jardineiro.<\/p>\n<p> &#8211; Que sorte &eacute; a minha! ainda mais este!&#8230; este ao menos &eacute;<br \/>\n    de todos o mais suport&aacute;vel: os outros me amofinam, e atormentam: este<br \/>\n    as vezes me faz rir.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem aparecido, senhor Belchior! ent&atilde;o, o que deseja? &#8211; Senhora<br \/>\n    Isaura, eu&#8230; eu&#8230; vinha&#8230;, &#8211; resmungou embara&ccedil;ado o jardineiro.<\/p>\n<p> &#8211; Senhora!&#8230; eu senhora!&#8230; tamb&eacute;m o senhor pretende ca&ccedil;oar<br \/>\n    comigo, senhor Belchior?&#8230;<\/p>\n<p> Eu ca&ccedil;oar com a senhora!&#8230; n&atilde;o sou capaz&#8230; minha l&iacute;ngua<br \/>\n    seja comida de bichos, se eu faltar com o respeito devido &agrave; senhora&#8230;<br \/>\n    Vinha trazer?lhe estas froles, se bem que a senhora mesma &eacute; uma frol&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Arre l&aacute;, senhor Belchior!&#8230; sempre a dar?me de senhora!&#8230; se<br \/>\n    continua por essa forma, ficamos mal, e n&atilde;o aceito as suas froles&#8230;<br \/>\n    Eu sou Isaura, escrava da senhora D. Malvina; ouviu, senhor Belchior! &#8211; Embora<br \/>\n    l&aacute; isso; e soverana c&aacute; deste cora&ccedil;&atilde;o, e eu, menina,<br \/>\n    dou?me por feliz se puder beijar?te os p&eacute;s. Olha, Isaura&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ainda bem! Agora sim; trate?me desse modo.<\/p>\n<p> &#8211; Olha, Isaura, eu sou um pobre jardineiro, l&aacute; isso &eacute; verdade;<br \/>\n    mas sei trabalhar, e n&atilde;o h&aacute;s de achar vazio o meu mealheiro,<br \/>\n    onde j&aacute; tenho mais de meio mil cruzados. Se me quiseres, como eu te<br \/>\n    quero, arranjote a liberdade, e caso?me contigo, que tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;s para andar a&iacute; assim como escrava de ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; Muito obrigada pelos seus bons desejos; mas perde seu tempo, senhor Belchior.<br \/>\n    Meus senhores n&atilde;o me libertam por dinheiro nenhum.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! deveras!&#8230; que malbados!&#8230; ter assim no catibeiro a rainha da Jermosura!&#8230;<br \/>\n    mas n&atilde;o importa, Isaura; terei mais gosto em ser escravo de uma escrava<br \/>\n    como tu, do que em ser senhor dos senhores de cem mil cativos. Isaura!&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o fazes id&eacute;ia de como te quero. Quando vou molhar as minhas<br \/>\n    froles, estou a lembrar?me de ti com uma soidade!&#8230;<\/p>\n<p> Deveras! ora viu?se que amor!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Isaura! &#8211; continuou Belchior, curvando os joelhos, &#8211; tem piedade deste<br \/>\n    teu infeliz cativo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Levante?se, levante?se, &#8211; interrompeu Isaura com impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Seria bonito que meus senhores viessem aqui encontr&aacute;?lo fazendo<br \/>\n    esses pap&eacute;is!&#8230; que estou?lhe dizendo?&#8230; ei?los a&iacute;!&#8230; ah!<br \/>\n    senhor Belchior! De feito, de um lado Le&ocirc;ncio, e de outro Henrique e<br \/>\n    Malvina, os estavam observando.<\/p>\n<p> Henrique, tendo?se retirado do sal&atilde;o, despeitado e furioso contra<br \/>\n    seu cunhado, assomado e leviano como era, foi encontrar a irm&atilde; na sala<br \/>\n    de jantar, onde se achava preparando o caf&eacute; e ali em presen&ccedil;a<br \/>\n    dela n&atilde;o hesitou em desabafar sua c&oacute;lera, soltando palavras<br \/>\n    imprudentes, que lan&ccedil;aram no esp&iacute;rito da mo&ccedil;a o germe<br \/>\n    da desconfian&ccedil;a e da inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Este teu marido, Malvina, n&atilde;o passa de um miser&aacute;vel patife<br \/>\n    &#8211; disse bufando de raiva.<\/p>\n<p> &#8211; Que est&aacute;s dizendo, Henrique?!&#8230; que te fez ele?&#8230; &#8211; perguntou<br \/>\n    a mo&ccedil;a, espantada com aquele rompante.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho pena de ti, minha irm&atilde;&#8230; se soubesses&#8230; que inf&acirc;mia!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute;s doido, Henrique!&#8230; o que h&aacute; ent&atilde;o? &#8211; Permita<br \/>\n    Deus que nunca o saibas!&#8230; que vilania!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O que houve ent&atilde;o, Henrique?&#8230; fala, explica?te por quem &eacute;s,<br \/>\n    &#8211; exclamou Malvina, p&aacute;lida e ofegante no c&uacute;mulo da afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! que tens?&#8230; n&atilde;o te aflijas assim, minha irm&atilde;, &#8211; respondeu<br \/>\n    Henrique, j&aacute; arrependido das loucas palavras que havia soltado. Tarde<br \/>\n    compreendeu que fazia um triste e deplor&aacute;vel papel, servindo de mensageiro<br \/>\n    da disc&oacute;rdia e da desconfian&ccedil;a entre dois esposos, que at&eacute;<br \/>\n    ali viviam na mais perfeita harmonia e tranquilidade. Tarde e em v&atilde;o<br \/>\n    procurou atenuar o terr&iacute;vel efeito de sua fatal indiscri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o te inquietes, Malvina, continuou ele procurando sorrir?se;<br \/>\n    &#8211; teu marido &eacute; um formid&aacute;vel turr&atilde;o, eis a&iacute; tudo;<br \/>\n    n&atilde;o v&aacute;s pensar que nos queremos bater em duelo.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o; mas vieste espumando de raiva, com os olhos em fogo, e com<br \/>\n    um ar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual!&#8230; pois n&atilde;o me conheces?&#8230; sempre fui assim; por &#8211; d&aacute;<br \/>\n    c&aacute; aquela palha &#8211; pego fogo, mas tamb&eacute;m &eacute; fogo de palha.<\/p>\n<p> &#8211; Mas pregaste?me um susto!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Coitada!&#8230; toma isto, &#8211; disse?lhe Henrique, oferecendo?lhe uma x&iacute;cara<br \/>\n    de caf&eacute;, &eacute; a melhor coisa que h&aacute; para aplacar sustos<br \/>\n    e ataques de nervos.<\/p>\n<p> Malvina procurou acalmar?se, mas as palavras do irm&atilde;o tinham?lhe<br \/>\n    penetrado no &acirc;mago do cora&ccedil;&atilde;o, como a dentada de uma v&iacute;bora,<br \/>\n    a&iacute; deixando o veneno da desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p> O aparecimento de Le&ocirc;ncio, que vinha do sal&atilde;o, p&ocirc;s termo<br \/>\n    a este incidente. Os tr&ecirc;s tomaram caf&eacute; &agrave; pressa e sem<br \/>\n    trocarem palavras; estavam j&aacute; ressabiados uns com outros, olhavam?se<br \/>\n    com desconfian&ccedil;a, e de um momento para outro a disc&oacute;rdia insinuara?se<br \/>\n    no seio daquela pequena fam&iacute;lia, ainda h&aacute; pouco t&atilde;o feliz,<br \/>\n    un&acirc;nime e tranq&uuml;ila. Tomado o caf&eacute; retiraram?se, mas todos<br \/>\n    por um impulso instintivo, dirigiram seus passos para o sal&atilde;o, Henrique<br \/>\n    e Malvina de bra&ccedil;os dados pelo grande corredor da entrada, e Le&ocirc;ncio<br \/>\n    sozinho por compartimentos interiores, que comunicavam com o sal&atilde;o.<br \/>\n    Era ali com efeito que se achava o pomo fatal, mas inocente, que devia servir<br \/>\n    de instrumento da desuni&atilde;o e descalabro daquela nascente fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Chegaram ainda a tempo de presenciar o final da cena rid&iacute;cula, que<br \/>\n    Belchior representava aos p&eacute;s de Isaura. Le&ocirc;ncio, por&eacute;m,<br \/>\n    que os espiava atrav&eacute;s das sanefas entreabertas de uma alcova, n&atilde;o<br \/>\n    avistava Henrique e Malvina, que haviam parado no corredor junto &agrave;<br \/>\n    porta da entrada.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! oh! &#8211; exclamou ele no momento em que Belchior prostrava?se aos p&eacute;s<br \/>\n    de Isaura. Creio que tenho dentro de casa um &iacute;dolo, diante do qual<br \/>\n    todos v&ecirc;m ajoelhar?se e render adora&ccedil;&otilde;es!&#8230; at&eacute;<br \/>\n    o meu jardineiro!&#8230; Ol&aacute;, senhor Belchior, est&aacute; bonito!&#8230; Continue<br \/>\n    com a farsa, que n&atilde;o est&aacute; m&aacute;&#8230; mas para tratar dessa<br \/>\n    flor n&atilde;o precisamos de seus cuidados, n&atilde;o; tem entendido, senhor<br \/>\n    Belchior!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o, senhor meu, &#8211; balbuciou o jardineiro erguendo?se tr&ecirc;mulo<br \/>\n    e confuso; &#8211; eu vinha trazer estas froles para os basos da sala&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E apresent&aacute;?las de joelhos!&#8230; essa &eacute; galante!&#8230; Se continua<br \/>\n    nesse papel de gal&atilde;, declaro?lhe que o ponho pela porta fora com dois<br \/>\n    pontap&eacute;s nessa corcova.<\/p>\n<p> Corrido, confuso e azoinado, Belchior, cambaleando e esbarrando pelas cadeiras,<br \/>\n    l&aacute; se foi &agrave;s cegas em busca da porta da rua.<\/p>\n<p> &#8211; Isaura! &oacute; minha Isaura! &#8211; exclamou Le&ocirc;ncio saindo da alcova,<br \/>\n    avan&ccedil;ando com os bra&ccedil;os abertos para a rapariga, e dando &agrave;<br \/>\n    voz at&eacute; ali &aacute;spera e rude, a mais suave e tema inflex&atilde;o.<\/p>\n<p> Um ai agudo e pungente, que ecoou pelo sal&atilde;o, o faz parar mudo, g&eacute;lido<br \/>\n    e petrificado. Tinha avistado no meio da porta Malvina, que, p&aacute;lida<br \/>\n    e desfalecida, ocultava a fronte no ombro de seu irm&atilde;o, que a amparava<br \/>\n    nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu irm&atilde;o! &#8211; exclamou ela voltando de seu del&iacute;quio,<br \/>\n    &#8211; agora compreendo tudo que ainda h&aacute; pouco me dizias.<\/p>\n<p> E com uma das m&atilde;os comprimindo o cora&ccedil;&atilde;o, que parecia<br \/>\n    querer?lhe estalar de dor, e com a outra escondendo no len&ccedil;o as l&aacute;grimas,<br \/>\n    que dos formosos olhos lhe brotavam aos pares, correu a encerrar?se em seu<br \/>\n    aposento.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio desconcertado pelo terr&iacute;vel contratempo, de que acabava<br \/>\n    de ser v&iacute;tima, ficou largo tempo a passear, fren&eacute;tico e agitado,<br \/>\n    de um a outro lado, ao longo do sal&atilde;o, furioso contra o cunhado, a<br \/>\n    cuja impertinente leviandade atribu&iacute;a as fatais ocorr&ecirc;ncias daquela<br \/>\n    manh&atilde;, que amea&ccedil;avam burlar todos os seus planos sobre Isaura,<br \/>\n    e excogitando meios de safar?se das dificuldades em que se via empenhado.<\/p>\n<p> Isaura, tendo resistido em menos de uma hora, a tr&ecirc;s abordagens consecutivas,<br \/>\n    dirigidas contra o seu pudor e isen&ccedil;&atilde;o, aturdida, cheia de susto,<br \/>\n    confus&atilde;o e vergonha, correu a esconder?se entre os laranjais como lebre<br \/>\n    medrosa, que ouve ladrarem pelos prados os galgos encarni&ccedil;ados a seguirem?lhe<br \/>\n    a pista.<\/p>\n<p> Henrique altamente indignado contra o cunhado n&atilde;o lhe queria ver<br \/>\n    a cara; tomou sua espingarda e saiu disposto a passar o dia inteiro passarinhando<br \/>\n    pelos matos, e a retirar?se impreterivelmente para a corte ao romper do dia<br \/>\n    seguinte.<\/p>\n<p> Os escravos ficaram pasmos, quando &agrave; hora do almo&ccedil;o Le&ocirc;ncio<br \/>\n    achou?se sozinho &agrave; mesa. Le&ocirc;ncio mandou chamar Malvina, mas esta,<br \/>\n    pretextando uma indisposi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o quis sair de seu quarto.<br \/>\n    Seu primeiro movimento foi um &iacute;mpeto de c&oacute;lera brutal; esteve<br \/>\n    a ponto de atirar toalha, pratos, talheres e tudo pelos ares, e ir esbofetear<br \/>\n    o desassisado e insolente rapaz, que em m&aacute; hora viera &agrave; sua<br \/>\n    casa para perturbar a tranq&uuml;ilidade do seu viver dom&eacute;stico. Mas<br \/>\n    conteve?se a tempo, e acalmando?se entendeu que melhor era n&atilde;o se dar<br \/>\n    por achado, e encarar com ares da maior indiferen&ccedil;a e mesmo de desd&eacute;m,<br \/>\n    os arrufos da esposa, e o mau humor do cunhado. Estava bem persuadido que<br \/>\n    lhe seria dif&iacute;cil, se n&atilde;o imposs&iacute;vel, dissimular mais<br \/>\n    aos olhos da esposa o seu torpe procedimento; incapaz, por&eacute;m, de retratar?se<br \/>\n    e implorar perd&atilde;o, resolveu amparar?se da tempestade, que ia despenhar?se<br \/>\n    sobre sua cabe&ccedil;a, com o escudo da mais c&iacute;nica indiferen&ccedil;a.<br \/>\n    Inspiravam?lhe este alvitre o orgulho, e o mau conceito em que tinha todas<br \/>\n    as mulheres, nas quais n&atilde;o reconhecia pundonor nem dignidade.<\/p>\n<p> Depois do almo&ccedil;o Le&ocirc;ncio montou a cavalo, percorreu as ro&ccedil;as<br \/>\n    e cafezais, coisa que bem raras vezes fazia, e ao descambar do Sol voltou<br \/>\n    para casa, jantou com o maior sossego e apetite, e depois foi para o sal&atilde;o,<br \/>\n    onde, repoltreando?se em macio e fresco sof&aacute;, p&ocirc;s?se a fumar<br \/>\n    tranq&uuml;ilamente o seu havana.<\/p>\n<p> Nesse comenos chega Henrique de suas excurs&otilde;es venat&oacute;rias,<br \/>\n    e depois de procurar em v&atilde;o a irm&atilde; por todos os cantos da casa,<br \/>\n    vai enfim encontr&aacute;?la encerrada em seu quarto de dormir desfigurada,<br \/>\n    p&aacute;lida, e com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.<\/p>\n<p> &#8211; Por onde andaste, Henrique?&#8230; estava aflita por te ver, &#8211; exclamou a<br \/>\n    mo&ccedil;a ao avistar o irm&atilde;o. &#8211; Que m&aacute; moda &eacute; essa<br \/>\n    de deixar a gente assim sozinha!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sozinha?!&#8230; pois at&eacute; aqui n&atilde;o vivias sem mim na companhia<br \/>\n    de teu belo marido?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me fales nesse homem&#8230; eu andava iludida; agora vejo que andava<br \/>\n    pior do que sozinha, na companhia de um perverso.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda bem que presenciaste com teus pr&oacute;prios olhos o que eu n&atilde;o<br \/>\n    tinha &acirc;nimo de dizer?te. Mas, vamos! que pretendes fazer?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O que pretendo?&#8230; vais ver neste mesmo instante&#8230; Onde est&aacute; ele?&#8230;<br \/>\n    viste?o por ai?&#8230;<\/p>\n<p> Se me n&atilde;o engano, vi?o no sal&atilde;o; havia l&aacute; um vulto<br \/>\n    sobre um sof&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, Henrique, acompanha?me at&eacute; l&aacute;.<\/p>\n<p> Por que raz&atilde;o n&atilde;o vais s&oacute;? poupa?me o desgosto de encarar<br \/>\n    aquele homem&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o; &eacute; preciso que v&aacute;s comigo; estava<br \/>\n    &agrave; tua espera mesmo para esse fim. Preciso de uma pessoa que me ampare<br \/>\n    e me alente. Agora at&eacute; tenho medo dele.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! compreendo; queres que eu seja teu guarda?costas, para poderes descompor<br \/>\n    a teu jeito aquele birbante. Pois bem; presto?me de boa vontade, e veremos<br \/>\n    se o patife tem o atrevimento de te desrespeitar.<\/p>\n<p> Vamos!<\/p>\n<h2><a name=\"6\" id=\"6\">Cap&iacute;tulo 6<\/a><\/h2>\n<p> &#8211; Senhor Le&ocirc;ncio, &#8211; disse Malvina com voz alterada aproximando?se<br \/>\n    do sof&aacute;, em que se achava o marido, &#8211; desejo dizer?lhe duas palavras,<br \/>\n    se isso n&atilde;o o incomoda.<\/p>\n<p> &#8211; Estou sempre &agrave;s tuas ordens, querida Malvina, &#8211; respondeu levantando?se<br \/>\n    lesto e risonho, e como quem nenhum reparo fizera no tom cerimonioso com que<br \/>\n    Malvina o tratava. &#8211; Que me queres?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Quero dizer?lhe, &#8211; exclamou a mo&ccedil;a em tom severo, e fazendo v&atilde;os<br \/>\n    esfor&ccedil;os para dar ao seu lindo e mavioso semblante um ar feroz, &#8211; quero<br \/>\n    dizer?lhe que o senhor me insulta e me atrai&ccedil;oa em sua casa, da maneira<br \/>\n    a mais indigna e desleal&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Santo Deus!&#8230; que est&aacute;s a&iacute; a dizer, minha querida?&#8230;<\/p>\n<p> explica?te melhor, que n&atilde;o compreendo nem uma palavra do que dizes&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Debalde, que o senhor se finge surpreendido; bem sabe a causa do meu desgosto.<br \/>\n    Eu j&aacute; devia ter pressentido esse seu vergonhoso procedimento; h&aacute;<br \/>\n    muito que o senhor n&atilde;o &eacute; o mesmo para comigo, e me trata com<br \/>\n    tal frieza e indiferen&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Oh! meu cora&ccedil;&atilde;o, pois querias que durasse eternamente a<br \/>\n    lua?de?mel?&#8230; isso seria horrivelmente mon&oacute;tono e prosaico.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda escarneces, infame! &#8211; bradou a mo&ccedil;a, e desta vez as faces<br \/>\n    se lhe afoguearam de extraordin&aacute;rio rubor, e fuzilaram?lhe nos olhos<br \/>\n    lampejos de c&oacute;lera terr&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! n&atilde;o te exasperes assim, Malvina; estou gracejando &#8211; disse Le&ocirc;ncio<br \/>\n    procurando tomar?lhe a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Boa ocasi&atilde;o para gracejos!&#8230; deixe?me, senhor!&#8230; que inf&acirc;mia!&#8230;<\/p>\n<p> que vergonha para n&oacute;s ambos!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas enfim n&atilde;o te explicar&aacute;s? &#8211; N&atilde;o tenho que explicar;<br \/>\n    o senhor bem me entende. S&oacute; tenho que exigir&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pois exige, Malvina.<\/p>\n<p> &#8211; D&ecirc; um destino qualquer a essa escrava, a cujos p&eacute;s o senhor<br \/>\n    costuma vilmente prostrar?se: liberte?a, venda?a, fa&ccedil;a o que quiser.<br \/>\n    Ou eu ou ela havemos de abandonar para sempre esta casa; e isto hoje mesmo.<br \/>\n    Escolha entre nos.<\/p>\n<p> &#8211; Hoje?! &#8211; E j&aacute;! &#8211; &Eacute;s muito exigente e injusta para comigo,<br \/>\n    Malvina, &#8211; disse Le&ocirc;ncio depois de um momento de pasmo e hesita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Bem sabes que &eacute; meu desejo libertar Isaura; mas acaso depende isso<br \/>\n    de mim somente? &eacute; a meu pai que compete fazer o que de mim exiges.<\/p>\n<p> &#8211; Que miser&aacute;vel desculpa, senhor! seu pai j&aacute; lhe entregou<br \/>\n    escravos e fazenda, e dar&aacute; por bem feito tudo quanto o senhor fizer.<br \/>\n    Mas se acaso o senhor a prefere a mim&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Malvina!&#8230; n&atilde;o digas tal blasf&ecirc;mia!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Blasf&ecirc;mia!&#8230; quem sabe!&#8230; mas enfim d&ecirc; um destino qualquer<br \/>\n    a essa rapariga, se n&atilde;o quer expelir?me para sempre de sua casa. Quanto<br \/>\n    a mim, n&atilde;o a quero mais nem um momento em meu servi&ccedil;o; &eacute;<br \/>\n    bonita demais para mucama.<\/p>\n<p>&#8211; O que lhe dizia eu, senhor Le&ocirc;ncio? acudiu Henrique, que j&aacute;<br \/>\n    cansado e envergonhado do papel de mudo guarda?costas, entendeu que devia<br \/>\n    intervir tamb&eacute;m na querela. &#8211; Est&aacute; vendo?.. eis a&iacute; o<br \/>\n    fruto que se colhe desses belos trastes de luxo, que quer por for&ccedil;a<br \/>\n    ter em seu sal&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Esses trastes n&atilde;o seriam t&atilde;o perigosos, se n&atilde;o existissem<br \/>\n    vis mexeriqueiros, que n&atilde;o hesitam em perturbar o sossego da casa dos<br \/>\n    outros para conseguir seus fins perversos&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Alto l&aacute;, senhor!&#8230; para impedir que o senhor n&atilde;o transportasse<br \/>\n    o seu traste de luxo do sal&atilde;o para a alcova, percebe?&#8230; o esc&acirc;ndalo<br \/>\n    cedo ou tarde seria not&oacute;rio, e nenhum dever tenho eu de ver de bra&ccedil;os<br \/>\n    cruzados minha irm&atilde; indignamente ultrajada.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Henrique! bradou Le&ocirc;ncio avan&ccedil;ando para ele, hirto<br \/>\n    de c&oacute;lera e com gesto amea&ccedil;ador.<\/p>\n<p> &#8211; Basta, senhores &#8211; gritou Malvina interpondo?se aos dois mancebos. &#8211; Toda<br \/>\n    a disputa por tal motivo &eacute; in&uacute;til e vergonhosa para n&oacute;s<br \/>\n    todos. Eu j&aacute; disse a Le&ocirc;ncio o que tinha de dizer; ele que se<br \/>\n    decida; fa&ccedil;a o que entender. Se quiser ser homem de brio e pundonor,<br \/>\n    ainda &eacute; tempo. Se n&atilde;o, deixe?me, que eu o entregarei ao desprezo<br \/>\n    que merece.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! Malvina! estou pronto a fazer todo o poss&iacute;vel para te tranq&uuml;ilizar<br \/>\n    e contentar: mas deves saber que n&atilde;o posso satisfazer o teu desejo<br \/>\n    sem primeiro entender?me com meu pai, que est&aacute; na corte. &Eacute; preciso<br \/>\n    mais que saibas, que meu pai nenhuma vontade tem de libertar Isaura, tanto<br \/>\n    assim, que para se ver livre das importuna&ccedil;&otilde;es do pai dela,<br \/>\n    que tamb&eacute;m quer a todo custo libert&aacute;?la, exigiu uma soma por<br \/>\n    tal forma exorbitante, que &eacute; quase imposs&iacute;vel o pobre homem<br \/>\n    arranj&aacute;?la.<\/p>\n<p> &#8211; O de casa!&#8230; d&aacute; licen&ccedil;a? &#8211; bradou neste momento com voz<br \/>\n    forte e sonora uma pessoa, que vinha subindo a escada do alpendre.<\/p>\n<p> &#8211; Quem quer que &eacute;, pode entrar, &#8211; gritou Le&ocirc;ncio dando gra&ccedil;as<br \/>\n    ao c&eacute;u, que t&atilde;o a prop&oacute;sito mandava?lhe uma visita para<br \/>\n    interromper aquela importuna e detest&aacute;vel quest&atilde;o e livr&aacute;?lo<br \/>\n    dos apuros em que se via entalado.<\/p>\n<p> Entretanto, como se ver&aacute;, n&atilde;o tinha muito de que congratular?se.<br \/>\n    O visitante era Miguel, o antigo feitor da fazenda, o pai de Isaura, que havia<br \/>\n    sido outrora grosseiramente despedido pelo pai de Le&ocirc;ncio.<\/p>\n<p> Este, que ainda o n&atilde;o conhecia, recebeu?o com afabilidade.<\/p>\n<p> &#8211; Queira sentar?se, &#8211; disse?lhe, &#8211; e dizer?nos o motivo por que nos faz<br \/>\n    a honra de procurar, &#8211; Obrigado! &#8211; disse o rec&eacute;m?chegado, depois de<br \/>\n    cumprimentar respeitosamente Henrique e Malvina. &#8211; V. S.a sem d&uacute;vida<br \/>\n    &eacute; o senhor Le&ocirc;ncio?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Para o servir.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem!&#8230; &eacute; com V. S.&ordf; que tenho de tratar na falta do<br \/>\n    senhor seu pai. O meu neg&oacute;cio &eacute; simples, e julgo que o posso<br \/>\n    declarar em presen&ccedil;a aqui do senhor e da senhora, que me parecem ser<br \/>\n    pessoas de casa.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida! entre n&oacute;s n&atilde;o h&aacute; segredo, nem<br \/>\n    reservas.<\/p>\n<p> &#8211; Eis aqui ao que vim, senhor meu, &#8211; disse Miguel, tirando da algibeira<br \/>\n    de seu largo sobretudo uma carteira, que apresentou a Le&ocirc;ncio; &#8211; fa&ccedil;a<br \/>\n    o favor de abrir esta carteira; aqui encontrar&aacute; V. S.&ordf; a quantia<br \/>\n    exigida pelo senhor seu pai, para a liberdade de uma escrava desta casa por<br \/>\n    nome Isaura.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio enfiou, e tomando maquinalmente a carteira, ficou alguns instantes<br \/>\n    com os olhos pregados no teto.<\/p>\n<p> &#8211; Pelo que vejo, &#8211; disse por fim, &#8211; o senhor deve ser o pai&#8230;<\/p>\n<p> aquele que dizem ser o pai da dita escrava. ? &eacute; o senhor. ? n&atilde;o<br \/>\n    me lembra o nome..<\/p>\n<p> &#8211; Miguel, um criado de V. S.a &#8211; &Eacute; verdade; o senhor Miguel. Folgo<br \/>\n    muito que tenha arranjado meios de libertar a menina; ela bem merece esse<br \/>\n    sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> Enquanto Le&ocirc;ncio abre a carteira, e conta e reconta mui pausadamente<br \/>\n    nota por nota o dinheiro, mais para ganhar tempo a refletir sobre o que deveria<br \/>\n    fazer naquelas conjunturas, do que para verificar se estava exata a soma,<br \/>\n    aproveitemo?nos do ensejo para contemplar a figura do bom e honrado portugu&ecirc;s,<br \/>\n    pai da nossa hero&iacute;na, de quem ainda n&atilde;o nos ocupamos sen&atilde;o<br \/>\n    de passagem.<\/p>\n<p> Era um homem de mais de cinq&uuml;enta anos; em sua fisionomia nobre e alerta<br \/>\n    transpirava a franqueza, a bonomia, e a lealdade.<\/p>\n<p> Trajava pobremente, mas com muito alinho e limpeza, e por suas maneiras<br \/>\n    e conversa&ccedil;&atilde;o, conhecia?se que aquele homem n&atilde;o viera<br \/>\n    ao Brasil, como quase todos os seus patr&iacute;cios, dominado pela gan&acirc;ncia<br \/>\n    de riquezas. Tinha o trato e a linguagem de um homem polido, e de acurada<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o. De feito Miguel era filho de uma nobre e honrada fam&iacute;lia<br \/>\n    de miguelistas, que havia emigrado para o Brasil. Seus pais, v&iacute;timas<br \/>\n    de persegui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, morreram sem ter nada que<br \/>\n    legar ao filho, que deixaram na idade de dezoito a vinte anos. Sozinho, sem<br \/>\n    meios e sem prote&ccedil;&atilde;o, viu?se for&ccedil;ado a viver do trabalho<br \/>\n    de seus bra&ccedil;os, metendo?se a jardineiro e horticultor, mister este,<br \/>\n    que como filho de lavrador, robusto, ativo e inteligente, desempenhava com<br \/>\n    suma per&iacute;cia e perfei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O pai de Le&ocirc;ncio, tendo tido ocasi&atilde;o de conhec&ecirc;?lo, e<br \/>\n    apreciando o seu merecimento, o engajou para feitor de sua fazenda com vantajosas<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es. Ali serviu muitos anos sempre mui respeitado e querido<br \/>\n    de todos, at&eacute; que aconteceu?lhe a fatal, mas muito desculp&aacute;vel<br \/>\n    fraqueza, que sabemos, e em consequ&ecirc;ncia da qual foi grosseiramente<br \/>\n    despedido por seu patr&atilde;o. Miguel concebeu amargo ressentimento e m&aacute;goa<br \/>\n    profunda, n&atilde;o tanto por si, como por amor das duas infelizes criaturas,<br \/>\n    que n&atilde;o podia proteger contra a sanha de um senhor perverso e brutal.<\/p>\n<p> Mas for&ccedil;oso lhe foi resignar?se. N&atilde;o lhe faltava servi&ccedil;o<br \/>\n    nem acolhimento pelas fazendas vizinhas. Conhecedores de seu m&eacute;rito,<br \/>\n    os lavradores em redor o aceitariam de bra&ccedil;os abertos; a dificuldade<br \/>\n    estava na escolha.<\/p>\n<p> Optou pelo mais vizinho, para ficar o mais perto poss&iacute;vel de sua<br \/>\n    querida filhinha.<\/p>\n<p> Como o comendador quase sempre achava?se na corte ou em Campos, Miguel tinha<br \/>\n    muita ocasi&atilde;o e facilidade de ir ver a menina, &agrave; qual cada vez<br \/>\n    ia criando mais entranhado afeto. A esposa do comendador, na aus&ecirc;ncia<br \/>\n    deste, dava ao portugu&ecirc;s franca entrada em sua casa, e facilitava?lhe<br \/>\n    os meios de ver e afagar a filhinha, com o que vivia ele mui consolado e contente.<br \/>\n    De feito o c&eacute;u tinha dado &agrave; sua filha na pessoa de sua senhora<br \/>\n    uma segunda m&atilde;e t&atilde;o boa e desvelada, como poderia ser a primeira,<br \/>\n    e que mais do que esta lhe podia servir de amparo e prote&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A morte inesperada daquela virtuosa senhora veio despeda&ccedil;ar?lhe o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quebrando?lhe todas as suas lisonjeiras esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p> Muito pode o amor paterno em uma alma nobre e sens&iacute;vel!&#8230;<\/p>\n<p> Miguel, sobrepujando todo o &oacute;dio, repugn&acirc;ncia e asco, que lhe<br \/>\n    inspirava a pessoa do comendador, n&atilde;o hesitou em ir humilhar?se diante<br \/>\n    dele, importun&aacute;?lo com suas s&uacute;plicas, rogar?lhe com as l&aacute;grimas<br \/>\n    nos olhos, que abrisse pre&ccedil;o &agrave; liberdade de Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; dinheiro que a pague; h&aacute; de ser sempre minha,<br \/>\n    &#8211; respondia com orgulhoso cinismo o inexor&aacute;vel senhor ao infeliz e<br \/>\n    aflito pai.<\/p>\n<p> Um dia enfim para se ver livre das importuna&ccedil;&otilde;es e s&uacute;plicas<br \/>\n    de Miguel, disse?lhe com mau modo: &#8211; Homem de Deus, traga?me dentro de um<br \/>\n    ano dez contos de r&eacute;is, e lhe entrego livre a sua filha e&#8230; deixe?me<br \/>\n    por caridade. Se n&atilde;o vier nesse prazo, perca as esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8211; Dez contos de r&eacute;is! &eacute; soma demasiado forte para mim.. ?<br \/>\n    mas n&atilde;o importa!&#8230; ela vale muito mais do que isso. Senhor comendador,<br \/>\n    vou fazer o imposs&iacute;vel para trazer?lhe essa soma dentro do prazo marcado.<br \/>\n    Espero em Deus, que me h&aacute; de ajudar.<\/p>\n<p> O pobre homem, &agrave; for&ccedil;a de trabalho e economia, impondo?se<br \/>\n    priva&ccedil;&otilde;es, vendendo todo o sup&eacute;rfluo, e limitando?se<br \/>\n    ao que era estritamente necess&aacute;rio, no fim do ano apenas tinha arranjado<br \/>\n    metade da quantia exigida. Foi?lhe mister recorrer &agrave; generosidade de<br \/>\n    seu novo patr&atilde;o, o qual, sabendo do santo e nobre fim a que se propunha<br \/>\n    seu feitor, e do vexame e extors&atilde;o de que era v&iacute;tima, n&atilde;o<br \/>\n    hesitou em fornecer?lhe a soma necess&aacute;ria, a t&iacute;tulo de empr&eacute;stimo<br \/>\n    ou adiantamento de sal&aacute;rios.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio, que como seu pai julgava imposs&iacute;vel que Miguel em<br \/>\n    um ano pudesse arranjar t&atilde;o consider&aacute;vel soma, ficou at&ocirc;nito<br \/>\n    e altamente contrariado, quando este se apresentou para lha meter nas m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8211; Dez contos, &#8211; disse por fim Le&ocirc;ncio acabando de contar o dinheiro.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; justamente a soma exigida por meu pai. &#8211; Bem est&oacute;lido e<br \/>\n    avaro &eacute; este meu pai, murmurou ele consigo, &#8211; eu nem por cem contos<br \/>\n    a daria. &#8211; Senhor Miguel, &#8211; continuou em voz alta, entregando?lhe a carteira,<br \/>\n    &#8211; guarde por ora o seu dinheiro; Isaura n&atilde;o me pertence ainda; s&oacute;<br \/>\n    meu pai pode dispor dela. Meu pai acha?se na corte, e n&atilde;o deixou?me<br \/>\n    autoriza&ccedil;&atilde;o alguma para tratar de semelhante neg&oacute;cio.<br \/>\n    Arranje?se com ele.<\/p>\n<p> &#8211; Mas V. S.&ordf; &eacute; seu filho e herdeiro &uacute;nico, e bem podia<br \/>\n    por si mesmo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Alto l&aacute;, senhor Miguel! meu pai felizmente &eacute; vivo ainda,<br \/>\n    e n&atilde;o me &eacute; permitido desde j&aacute; dispor de seus bens, como<br \/>\n    minha heran&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Embora, senhor; tenha a bondade de guardar esse dinheiro e envi&aacute;?lo<br \/>\n    ao senhor seu pai, rogando?lhe da minha parte o favor de cumprir a promessa<br \/>\n    que me fez de dar liberdade a Isaura mediante essa quantia.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda p&otilde;es d&uacute;vida, Le&ocirc;ncio?! &#8211; exclamou Malvina impaciente<br \/>\n    e indignada com as tergiversa&ccedil;&otilde;es do marido. &#8211; Escreve, escreve<br \/>\n    quanto antes a teu pai; n&atilde;o te podes esquivar sem desonra a cooperar<br \/>\n    para a liberdade dessa rapariga.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio, subjugado pelo olhar imperioso da mulher, e pela for&ccedil;a<br \/>\n    das circunst&acirc;ncias, que contra ele conspiravam, n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    mais escusar?se.<\/p>\n<p> P&aacute;lido e pensativo, foi sentar?se junto a uma mesa, onde havia papel<br \/>\n    e tinta, e de pena em punho p&ocirc;s?se a meditar em atitude de quem ia escrever.<br \/>\n    Malvina e Henrique, debru&ccedil;ados a uma janela, conversavam entre si em<br \/>\n    voz baixa. Miguel, sentado a um canto na outra extremidade da sala, esperava<br \/>\n    pacientemente, quando Isaura, que do quintal, onde se achava escondida, o<br \/>\n    tinha visto chegar, entrando no sal&atilde;o sem ser sentida, se lhe apresentou<br \/>\n    diante dos olhos. Entre pai e filha travou?se a meia voz o seguinte di&aacute;logo:<br \/>\n    &#8211; Meu pai!&#8230; que novidade o traz aqui?&#8230; a modo que lhe estou vendo um ar<br \/>\n    mais alegre que de costume.<\/p>\n<p> &#8211; Calada! &#8211; murmurou Miguel, levando o dedo &agrave; boca e apontando para<br \/>\n    Le&ocirc;ncio. &#8211; Trata?se da tua liberdade.<\/p>\n<p> &#8211; Deveras, meu pai!&#8230; mas como p&ocirc;de arranjar isso? &#8211; Ora como?!&#8230;<br \/>\n    a peso de ouro. Comprei?te, minha filha, e em breve vais ser minha.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu querido pai!&#8230; como vossemec&ecirc; &eacute; bom para sua filha!&#8230;<\/p>\n<p> se soubesse quantos hoje j&aacute; me vieram oferecer a liberdade!&#8230;<\/p>\n<p> mas por que pre&ccedil;o! meu Deus!&#8230; nem me atrevo a lhe contar. Meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    adivinhava, continuou beijando com terna efus&atilde;o as m&atilde;os de Miguel;<br \/>\n    &#8211; eu n&atilde;o devia receber a liberdade sen&atilde;o das m&atilde;os daquele<br \/>\n    que me deu a vida!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sim, querida Isaura! &#8211; disse o velho apertando?a contra o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; O c&eacute;u nos favoreceu, e em breve vais ser minha, minha s&oacute;,<br \/>\n    minha para sempre!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas ele consente?&#8230; perguntou Isaura apontando para Le&ocirc;ncio.<\/p>\n<p> &#8211; O neg&oacute;cio n&atilde;o &eacute; com ele, &eacute; com seu pai, a<br \/>\n    quem agora escreve.<\/p>\n<p> &#8211; Nesse caso tenho alguma esperan&ccedil;a; mas se minha sorte depender<br \/>\n    somente daquele homem, serei para sempre escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Arre! com mil diabos!&#8230; resmungou consigo Le&ocirc;ncio levantando?se,<br \/>\n    e dando sobre a mesa um furioso murro com o punho fechado. &#8211; N&atilde;o sei<br \/>\n    que volta hei de dar para desmanchar esta inqualific&aacute;vel loucura de<br \/>\n    meu pai! &#8211; J&aacute; escreveste, Le&ocirc;ncio? &#8211; perguntou Malvina voltando?se<br \/>\n    para dentro.<\/p>\n<p> Antes que Le&ocirc;ncio pudesse responder a esta pergunta, um pajem, entrando<br \/>\n    rapidamente pela sala, entrega?lhe uma carta tarjada de preto.<\/p>\n<p> &#8211; De luto!&#8230; meu Deus!&#8230; que ser&aacute;! &#8211; exclamou Le&ocirc;ncio, p&aacute;lido<br \/>\n    e tr&ecirc;mulo, abrindo a carta, e depois de a ter percorrido rapidamente<br \/>\n    com os olhos lan&ccedil;ou?se sobre uma cadeira, solu&ccedil;ando e levando<br \/>\n    o len&ccedil;o aos olhos.<\/p>\n<p> &#8211; Le&ocirc;ncio! Le&ocirc;ncio!&#8230; que tem?&#8230; exclamou Malvina p&aacute;lida<br \/>\n    de susto; e tomando a carta que Le&ocirc;ncio atirara sobre a mesa, come&ccedil;ou<br \/>\n    a ler com voz entrecortada:<\/p>\n<p>&quot;Le&ocirc;ncio, tenho a dar?te uma dolorosa not&iacute;cia, para a qual<br \/>\n    teu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o podia estar preparado. E um golpe, pelo<br \/>\n    qual todos n&oacute;s temos de passar inevitavelmente, e que deves suportar<br \/>\n    com resigna&ccedil;&atilde;o. Teu pai j&aacute; n&atilde;o existe; sucumbiu<br \/>\n    anteontem subitamente, v&iacute;tima de uma congest&atilde;o cerebral&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Malvina n&atilde;o p&ocirc;de continuar; e nesse momento, esquecendo?se das<br \/>\n    inj&uacute;rias e de tudo que lhe havia acontecido naquele nefasto dia, lan&ccedil;ou?se<br \/>\n    sobre seu marido, e abra&ccedil;ando?se com ele estreitamente, misturava suas<br \/>\n    l&aacute;grimas com as dele.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu pai! meu pai!&#8230; tudo est&aacute; perdido! &#8211; exclamou Isaura,<br \/>\n    pendendo a linda e pura fronte sobre o peito de Miguel. &#8211; J&aacute; nenhuma<br \/>\n    esperan&ccedil;a nos resta!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Quem sabe, minha filha! &#8211; replicou gravemente o pai. &#8211; N&atilde;o desanimemos;<br \/>\n    grande &eacute; o poder de Deus!&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"7\" id=\"7\">Cap&iacute;tulo 7<\/a><\/h2>\n<p>Na fazenda de Le&ocirc;ncio havia um grande sal&atilde;o toscamente constru&iacute;do,<br \/>\n    sem forro nem soalho, destinado ao trabalho das escravas que se ocupavam em<br \/>\n    fiar e tecer l&atilde; e algod&atilde;o.<\/p>\n<p> Os m&oacute;veis deste lugar consistiam em tripe&ccedil;as, tamboretes,<br \/>\n    bancos, rodas de fiar, dobadouras, e um grande tear colocado a um canto.<\/p>\n<p> Ao longo do sal&atilde;o, defronte de largas janelas guarnecidas de bala&uacute;stres,<br \/>\n    que davam para um vasto p&aacute;lio interior, via?se postada uma fila de<br \/>\n    fiandeiras. Eram de vinte a trinta negras, crioulas e mulatas, com suas tenras<br \/>\n    crias ao colo ou pelo ch&atilde;o a brincarem em redor delas.<\/p>\n<p> Umas conversavam, outras cantarolavam para encurtarem as longas horas de<br \/>\n    seu fastidioso trabalho. Viam?se ali caras de todas as idades, cores e feitios,<br \/>\n    desde a velha africana, trombuda e macilenta, at&eacute; &agrave; roli&ccedil;a<br \/>\n    e luzidia crioula, desde a negra brunida como azeviche at&eacute; &agrave;<br \/>\n    mulata quase branca.<\/p>\n<p> Entre estas &uacute;ltimas distinguia?se uma rapariguinha, a mais faceira<br \/>\n    e gentil que se pode imaginar nesse g&ecirc;nero. Esbelta e flex&iacute;vel<br \/>\n    de corpo, tinha o rostinho mimoso, l&aacute;bios um tanto grossos, mas bem<br \/>\n    modelados, voluptuosos, &uacute;midos, e vermelhos como boninas que acabam<br \/>\n    de desabrochar em manh&atilde; de abril. Os olhos negros n&atilde;o eram muito<br \/>\n    grandes, mas tinham uma viveza e travessura encantadoras. Os cabelos negros<br \/>\n    e anelados podiam estar bem na cabe&ccedil;a da mais branca fidalga de al&eacute;m?mar.<br \/>\n    Ela por&eacute;m os trazia curtos e mui bem frisados &agrave; maneira dos<br \/>\n    homens. Isto longe de tirar?lhe a gra&ccedil;a, dava &agrave; sua fisionomia<br \/>\n    zombeteira e espevitada um chispe original e encantador. Se n&atilde;o fossem<br \/>\n    os brinquinhos de ouro, que lhe tremiam nas pequenas e bem molduradas orelhas,<br \/>\n    e os t&uacute;rgidos e ofegantes seios que como dois tr&ecirc;fegos cabritinhos<br \/>\n    lhe pulavam por baixo de transparente camisa, tom&aacute;?la?&iacute;eis por<br \/>\n    um rapazote maroto e petulante. Veremos em breve de que ral&eacute; era esta<br \/>\n    crian&ccedil;a, que tinha o bonito nome de Rosa.<\/p>\n<p> No meio do sussurro das rodas, que giravam, das mon&oacute;tonas cantarolas<br \/>\n    das fiandeiras, do compasso estr&eacute;pito do tear, que trabalhava incessantemente,<br \/>\n    dos guinchos e alaridos das crian&ccedil;as, quem prestasse atento ouvido,<br \/>\n    escutaria a seguinte conversa&ccedil;&atilde;o, travada timidamente e a meia<br \/>\n    voz em um grupo de fiandeiras, entre as quais se achava Rosa.<\/p>\n<p> &#8211; Minhas camaradas, &#8211; dizia a suas vizinhas uma crioula idosa, matreira<br \/>\n    e sabida em todos os mist&eacute;rios da casa desde os tempos dos senhores<br \/>\n    velhos, &#8211; agora que sinh&ocirc; velho morreu, e que sinh&aacute; Malvina foi?se<br \/>\n    embora para a casa de seu pai dela, &eacute; que n&oacute;s vamos ver o que<br \/>\n    e rigor de cativeiro.<\/p>\n<p> &#8211; Como assim, tia Joaquina?!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Como assim!&#8230; voc&ecirc;s ver&atilde;o. Voc&ecirc;s bem sabem, que sinh&ocirc;<br \/>\n    velho n&atilde;o era de brinquedo; pois sim; l&aacute; diz o ditado &#8211; atr&aacute;s<br \/>\n    de mim vir&aacute; quem bom me far&aacute;. &#8211; Este sinh&ocirc; mo&ccedil;o<br \/>\n    Le&ocirc;ncio&#8230; hum!&#8230; Deus queira que me engane&#8230; quer?me parecer que<br \/>\n    vai?nos fazer ficar com saudade do tempo de sinh&ocirc; velho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cruz! ave Maria!&#8230; n&atilde;o fala assim, tia Joaquina!&#8230; ent&atilde;o<br \/>\n    &eacute; melhor matar a gente de uma vez&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Este n&atilde;o quer saber de fiados nem de tecidos, n&atilde;o; e daqui<br \/>\n    a pouco n&oacute;s tudo vai pra ro&ccedil;a puxar enxada de sol a sol, ou<br \/>\n    pra o cafezal apanhar caf&eacute;, e o pirai do feitor a&iacute; rente atr&aacute;s<br \/>\n    de n&oacute;s. Voc&ecirc;s ver&atilde;o. Ele o que quer &eacute; caf&eacute;,<br \/>\n    e mais caf&eacute;, que &eacute; o que d&aacute; dinheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Tamb&eacute;m, a dizer a verdade, n&atilde;o sei o que ser&aacute; melhor,<br \/>\n    &#8211; observou outra escrava, &#8211; se estar na ro&ccedil;a trabalhando de enxada,<br \/>\n    ou aqui pregada na roda, desde que amanhece at&eacute; nove, dez horas da<br \/>\n    noite. Quer?me parecer que l&atilde; ao menos a gente fica mais &agrave; vontade.<\/p>\n<p> &#8211; Mais &agrave; vontade?!.., que esperan&ccedil;a! &#8211; exclamou uma terceira.<\/p>\n<p> &#8211; Antes, aqui, mil vezes! aqui ao menos a gente sempre est&aacute; livre<br \/>\n    do maldito feitor.<\/p>\n<p> &#8211; Qual, minha gente! &#8211; ponderou a velha crioula &#8211; tudo &eacute; cativeiro.<br \/>\n    Quem teve a desgra&ccedil;a de nascer cativo de um mau senhor, d&ecirc; por<br \/>\n    aqui, d&ecirc; por acol&aacute;, h&aacute; de penar sempre. Cativeiro &eacute;<br \/>\n    m&aacute; sina; n&atilde;o foi Deus que botou no mundo semelhante coisa, n&atilde;o;<br \/>\n    foi inven&ccedil;&atilde;o do diabo. N&atilde;o v&ecirc; o que aconteceu com<br \/>\n    a pobre Juliana, m&atilde;e de Isaura? &#8211; Por falar nisso, &#8211; atalhou uma das<br \/>\n    fiandeiras, &#8211; o que fica fazendo agora a Isaura?&#8230; enquanto sinh&aacute;<br \/>\n    Malvina estava a&iacute;, ela andava de estad&atilde;o na sala, agora&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Agora fica fazendo as vezes de sinh&aacute; Malvina, &#8211; acudiu Rosa com<br \/>\n    seu sorriso maligno e zombeteiro.<\/p>\n<p> &#8211; Cala a boca, menina! &#8211; bradou com voz severa a velha crioula.<\/p>\n<p> &#8211; Deixa dessas falas. Coitada da Isaura. Deus te livre a voc&ecirc; de estar<br \/>\n    na pele daquela pobrezinha! se voc&ecirc;s soubessem quanto penou a pobre<br \/>\n    da m&atilde;e dela! ah! aquele sinh&ocirc; velho foi um home judeu mesmo,<br \/>\n    Deus te perdoe. Agora com Isaura e sinh&ocirc; Le&ocirc;ncio a coisa vai tomando<br \/>\n    o mesmo rumo. Juliana era uma mulata bonita e sacudida; era da cor desta Rosa<br \/>\n    mas inda mais bonita e mais bem feita&#8230;<\/p>\n<p> Rosa deu um muxoxo, e fez um momo desdenhoso.<\/p>\n<p> &#8211; Mas isso mesmo foi a perdi&ccedil;&atilde;o dela, coitada! &#8211; continuou<br \/>\n    a crioula velha. &#8211; O ponto foi sinh&ocirc; velho gostar dela&#8230; eu j&aacute;<br \/>\n    contei a voc&ecirc;s o que &eacute; que aconteceu. Juliana era uma rapariga<br \/>\n    de brio, e por isso teve de penar, at&eacute; morrer. Nesse tempo o feitor<br \/>\n    era esse si&ocirc; Miguel, que anda a&iacute;, e que &eacute; pai de Isaura.<br \/>\n    Isso &eacute; que era feitor bom!&#8230; todo mundo queria ele bem, e tudo andava<br \/>\n    direito. Mas esse si&ocirc; Francisco, que ai anda agora, cruz nele!&#8230; &eacute;<br \/>\n    a pior peste que tem botado os p&eacute;s nesta casa. Mas, como ia dizendo,<br \/>\n    o si&ocirc; Miguel gostava muito de Juliana, e trabalhou, trabalhou at&eacute;<br \/>\n    ajuntar dinheiro para forrar ela. Mas nhonh&ocirc; n&atilde;o esteve por isso,<br \/>\n    ficou muito zangado, e tocou o feitor para fora.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m Juliana pouco durou; pirai e servi&ccedil;o deu co&#8217;ela na<br \/>\n    cova em pouco tempo. Picou a&iacute; a pobre menina ainda de mama, e se n&atilde;o<br \/>\n    fosse sinh&aacute; velha, que era uma santa mulher, Deus sabe o que seria<br \/>\n    dela!&#8230; tamb&eacute;m, coitada!&#8230; antes Deus a tivesse levado!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;, tia Joaquina?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Porque est&aacute;?me parecendo, que ela vai ter a mesma sina da m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E o que mais merece aquela impostora? &#8211; murmurou a invejosa e mal&eacute;vola<br \/>\n    Rosa. &#8211; Pensa que por estar servindo na sala &eacute; melhor do que as outras,<br \/>\n    e n&atilde;o faz caso de ningu&eacute;m. Deu agora em namorar os mo&ccedil;os<br \/>\n    brancos, e como o pai diz que h&aacute; de forrar ela, pensa que e uma grande<br \/>\n    enhora. Pobre do senhor Miguel!&#8230; n&atilde;o tem onde cair morto, e h&aacute;<br \/>\n    de ter para forrar a filha! &#8211; Que m&aacute; l&iacute;ngua &eacute; esta Rosa!<br \/>\n    &#8211; murmurou enfadada a velha crioula, relanceando um olhar de repreens&atilde;o<br \/>\n    sobre a mulata. &#8211; Que mal te fez a pobre Isaura, aquela pomba sem fel, que<br \/>\n    com ser o que e, bonita e civilizada como qualquer mo&ccedil;a branca, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; capaz de fazer pouco caso de ningu&eacute;m?&#8230; Se voc&ecirc; se<br \/>\n    pilhasse no lugar dela, pachola e atrevida como &eacute;s, havias de ser mil<br \/>\n    vezes pior.<\/p>\n<p> Rosa mordeu os bei&ccedil;os de despeito, e ia responder com todo o atrevimento<br \/>\n    e desgarre, que lhe era pr&oacute;prio, quando uma voz &aacute;spera e atroadora,<br \/>\n    que, partindo da porta do sal&atilde;o, retumbou por todo ele, veio p&ocirc;r<br \/>\n    termo &agrave; conversa&ccedil;&atilde;o das fiandeiras.<\/p>\n<p> &#8211; Sil&ecirc;ncio! &#8211; bradava aquela voz. &#8211; Arre! que tagarelice!&#8230; pa? rece<br \/>\n    que aqui s&oacute; se trabalha de l&iacute;ngua!&#8230;<\/p>\n<p> Um homem espada&uacute;do e quadrado, de barba espessa e negra, de fisionomia<br \/>\n    dura e repulsiva, apresenta?se &agrave; porta do sal&atilde;o, e vai entrando.<br \/>\n    Era o feitor. Acompanhava?o um mulato ainda novo, esbelto e aperaltado, trajando<br \/>\n    uma bonita libr&eacute; de pajem, e conduzindo uma roda de fiar. Logo ap&oacute;s<br \/>\n    eles entrou Isaura.<\/p>\n<p> As escravas todas levantaram?se e tomaram a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o ao<br \/>\n    feitor.<\/p>\n<p> Este mandou colocar a roda em um espa&ccedil;o desocupado, que infelizmente<br \/>\n    para Isaura ficava ao p&eacute; de Rosa.<\/p>\n<p> &#8211; Anda c&aacute;, rapariga; &#8211; disse o feitor voltando?se para Isaura. &#8211;<br \/>\n    De hoje em diante &eacute; aqui o teu lugar; esta roda te pertence, e tuas<br \/>\n    parceiras que te d&ecirc;em tarefa para hoje. Bem vejo que te n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de agradar muito a mudan&ccedil;a; mas que volta se lhe h&aacute; de dar?&#8230;<br \/>\n    teu senhor assim o quer. Anda l&aacute;; olha que isto n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    piano, n&atilde;o; &eacute; acabar depressa com a tarefa para pegar em outra.<br \/>\n    Pouca conversa e muito trabalhar&#8230;<\/p>\n<p> Sem se mostrar contrariada nem humilhada com a nova ocupa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que lhe davam, Isaura foi sentar?se junto a roda, e p&ocirc;s?se a prepar&aacute;?la<br \/>\n    para dar come&ccedil;o ao trabalho. Posto que criada na sala e empregada quase<br \/>\n    sempre em trabalhos delicados, todavia era ela h&aacute;bil em todo o g&ecirc;nero<br \/>\n    de servi&ccedil;o dom&eacute;stico: sabia fiar, tecer, lavar, engomar, e cozinhar<br \/>\n    t&atilde;o bem ou melhor do que qualquer outra. Foi pois colocar?se com toda<br \/>\n    a satisfa&ccedil;&atilde;o e desembara&ccedil;o entre as suas parceiras; apenas<br \/>\n    notava?se no sorriso, que lhe adejava nos l&aacute;bios, certa express&atilde;o<br \/>\n    de melanc&oacute;lica resigna&ccedil;&atilde;o; mas isso era o reflexo das<br \/>\n    inquieta&ccedil;&otilde;es e ang&uacute;stias, que lhe oprimiam o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que n&atilde;o desgosto por se ver degradada do posto que ocupara toda sua<br \/>\n    vida junto de suas senhoras.<\/p>\n<p> C&ocirc;nscia de sua condi&ccedil;&atilde;o, Isaura procurava ser humilde<br \/>\n    como qualquer outra escrava, porque a despeito de sua rara beleza e dos dotes<br \/>\n    de seu espirito, os fumos da vaidade n&atilde;o lhe intumesciam o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nem turvavam?lhe a luz de seu natural bom senso. N&atilde;o obstante por&eacute;m<br \/>\n    toda essa mod&eacute;stia e humildade transiuzia?lhe, mesmo a despeito dela,<br \/>\n    no olhar, na linguagem e nas maneiras, certa dignidade e orgulho nativo, proveniente<br \/>\n    talvez da consci&ecirc;ncia de sua superioridade, e ela sem o querer sobressa&iacute;a<br \/>\n    entre as outras, bela e donosa, pela corre&ccedil;&atilde;o e nobreza dos<br \/>\n    tra&ccedil;os fision&ocirc;micos e por certa distin&ccedil;&atilde;o nos gestos<br \/>\n    e ademanes. Ningu&eacute;m diria que era uma escrava, que trabalhava entre<br \/>\n    as companheiras, e a tomaria antes por uma senhora mo&ccedil;a, que, por desenfado,<br \/>\n    fiava entre as escravas. Parecia a gar&ccedil;a?real, al&ccedil;ando o colo<br \/>\n    garboso e altaneiro, entre uma chusma de p&aacute;ssaros vulgares.<\/p>\n<p> As outras escravas a contemplavam todas com certo interesse e comisera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    porque de todas era querida, menos de Rosa, que lhe tinha inveja e avers&atilde;o<br \/>\n    mortal. Em duas palavras o leitor ficar&aacute; inteirado do motivo desta<br \/>\n    malevol&ecirc;ncia de Rosa. N&atilde;o era s&oacute; pura inveja; havia a&iacute;<br \/>\n    alguma coisa de mais positivo, que convertia essa inveja em &oacute;dio mortal.<\/p>\n<p> Rosa havia sido de h&aacute; muito am&aacute;sia de Le&ocirc;ncio, para<br \/>\n    quem fora f&aacute;cil conquista, que n&atilde;o lhe custou nem rogos nem<br \/>\n    amea&ccedil;as. Desde que, por&eacute;m, inclinou?se a Isaura, Rosa ficou<br \/>\n    inteiramente abandonada e esquecida.<\/p>\n<p> A gentil mulatinha sentiu?se cruelmente ferida em seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com esse desd&eacute;m, e como era maligna e vingativa, n&atilde;o podendo<br \/>\n    vingar?se de seu senhor, jurou descarregar todo o peso de seu rancor sobre<br \/>\n    a pessoa de sua infeliz rival.<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um raio que te parta, maldito! &#8211; M&aacute; lepra te consuma, coisa ruim!<br \/>\n    &#8211; Uma cascavel que te morda a l&iacute;ngua, c&atilde;o danado! &#8211; Estas e<br \/>\n    outras pragas vomitavam as escravas resmungando entre si contra o feitor,<br \/>\n    apenas este voltou?lhes as costas. O feitor &eacute; o ente mais detestado<br \/>\n    entre os escravos; um carrasco n&atilde;o carrega com tantos &oacute;dios.<\/p>\n<p> abominado mais do que o senhor cruel, que o muniu do azorrague desapiedado<br \/>\n    para a&ccedil;oit&aacute;?los e acabrunh&aacute;?los de trabalhos. &Eacute;<br \/>\n    assim que o paciente se esquece do juiz, que lavrou a senten&ccedil;a para<br \/>\n    revoltar?se contra o algoz, que a executa.<\/p>\n<p> Como j&aacute; dissemos, coube em sorte a Isaura sentar?se perto de Rosa.<br \/>\n    Esta assestou logo contra sua infeliz companheira a sua bateria de dit&eacute;rios<br \/>\n    e remoques sarc&aacute;sticos e irritantes.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho bastante pena de voc&ecirc;, Isaura. disse Rosa para dar come&ccedil;o<br \/>\n    &agrave;s opera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Deveras! &#8211; respondeu Isaura, disposta a opor &agrave;s provoca&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Rosa toda a sua natural brandura e paci&ecirc;ncia. Pois por qu&ecirc;,<br \/>\n    Rosa?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o &eacute; duro mudar?se da sala para a senzala, trocar<br \/>\n    o sof&aacute; de damasco por esse cepo, o piano e a almofada de cetim por<br \/>\n    essa roda? Por que te enxotaram de l&aacute;, Isaura? &#8211; Ningu&eacute;m me<br \/>\n    enxotou, Rosa; voc&ecirc; bem sabe. Sinh&aacute; Malvina foi?se embora em<br \/>\n    companhia de seu irm&atilde;o para a casa do pai dela.<\/p>\n<p> Portanto nada tenho que fazer na sala, e &eacute; por isso que venho aqui<br \/>\n    trabalhar com voc&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; E por que &eacute; que ela n&atilde;o te levou, voc&ecirc;, que era o<br \/>\n    ai?jesus dela?&#8230; Ah! Isaura, voc&ecirc; cuida que me emba&ccedil;a, mas est&aacute;<br \/>\n    muito enganada; eu sei de tudo. Voc&ecirc; estava ficando muito aperaltada,<br \/>\n    e por isso veio aqui para conhecer o seu lugar &#8211; Como &eacute;s maliciosa!<br \/>\n    &#8211; replicou Isaura sorrindo tristemente, mas sem se alterar; pensas ent&atilde;o<br \/>\n    que eu andava muito contente e cheia de mim por estar l&aacute; na sala no<br \/>\n    meio dos brancos?&#8230; como te enganas!&#8230; se me n&atilde;o perseguires com<br \/>\n    a tua m&aacute; l&iacute;ngua, como principias a fazer, creio que hei de ficar<br \/>\n    mais satisfeita e sossegada aqui.<\/p>\n<p> &#8211; Nessa n&atilde;o creio eu; como &eacute; que voc&ecirc; pode ficar satisfeita<br \/>\n    aqui, se n&atilde;o acha mo&ccedil;os para namorar? &#8211; Rosa, que mal te fiz<br \/>\n    eu, para estares assim a amofinar?me com essas falas?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Olhe a sinh&aacute;, n&atilde;o se zangue!&#8230; perd&atilde;o, dona Isaura;<br \/>\n    eu pensei que a senhora tinha esquecido os seus melindres l&aacute; no sal&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Podes dizer o que quiseres, Rosa; mas eu bem sei, que na sala ou na cozinha<br \/>\n    eu n&atilde;o sou mais do que uma escrava como tu. Tamb&eacute;m deves?te<br \/>\n    lembrar, que se hoje te achas aqui, amanh&atilde; sabe Deus onde estar&aacute;s.<br \/>\n    Trabalhemos, que &eacute; nossa obriga&ccedil;&atilde;o. deixemos dessas conversas<br \/>\n    que n&atilde;o t&ecirc;m gra&ccedil;a nenhuma.<\/p>\n<p> Neste momento ouvem?se as badaladas de uma sineta; eram tr&ecirc;s para<br \/>\n    quatro horas da tarde; a sineta chamava os escravos a jantar. As escravas<br \/>\n    suspendem seus trabalhos e levantam?se; Isaura por&eacute;m n&atilde;o se<br \/>\n    move, e continua a fiar.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o? &#8211; diz?lhe Rosa com o seu ar escarninho, &#8211; voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    ouve, Isaura? s&atilde;o horas; vamos ao feij&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, Rosa; deixem?me ficar aqui; n&atilde;o tenho fome nenhuma.<\/p>\n<p> Fico adiantando minha tarefa, que principiei muito tarde.<\/p>\n<p> &#8211; Tem raz&atilde;o; tamb&eacute;m uma rapariga civilizada e mimosa como<br \/>\n    voc&ecirc; n&atilde;o deve comer do caldeir&atilde;o dos escravos. Quer que<br \/>\n    te mande um caldinho, um chocolate?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Cala essa boca, tagarela! &#8211; bradou a crioula velha, que parecia ser a<br \/>\n    priora daquele rancho de fiandeiras. &#8211; Forte ling&uuml;inha de v&iacute;bora!&#8230;<br \/>\n    deixa a outra sossegar. Vamos, minha gente.<\/p>\n<p> As escravas retiraram?se todas do sal&atilde;o, ficando s&oacute; Isaura,<br \/>\n    entregue ao seu trabalho e mais ainda &agrave;s suas tristes e inquietadoras<br \/>\n    reflex&otilde;es. O fio se estendia como que maquinalmente entre seus dedos<br \/>\n    mimosos, enquanto o pezinho nu e delicado, abandonando o tamanquinho de marroquim,<br \/>\n    pousava sobre o pedal da roda, a que dava autom&aacute;tico impulso. A fronte<br \/>\n    lhe pendia para um lado como a&ccedil;ucena esmorecida, e as p&aacute;lpebras<br \/>\n    meio cerradas eram como v&eacute;us melanc&oacute;licos, que encobriam um<br \/>\n    pego insond&aacute;vel de tristura e desconforto. Estava deslumbrante de beleza<br \/>\n    naquela encantadora e singela atitude.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu Deus! &#8211; pensava ela; nem aqui posso achar um pouco de sossego!&#8230;<br \/>\n    em toda parte juraram martirizar?me!&#8230; Na sala, os brancos me perseguem e<br \/>\n    armam mil intrigas e enredos para me atormentarem. Aqui, onde entre minhas<br \/>\n    parceiras, que parecem me querer bem, esperava ficar mais tranq&uuml;ila,<br \/>\n    h&aacute; uma, que por inveja, ou seja l&aacute; pelo que for, me olha de<br \/>\n    rev&eacute;s e s&oacute; trata de achincalhar?me.<\/p>\n<p> Meu Deus! meu Deus!&#8230; j&aacute; que tive a desgra&ccedil;a de nascer cativa,<br \/>\n    n&atilde;o era melhor que tivesse nascido bruta e disforme, como a mais vil<br \/>\n    das negras, do que ter recebido do c&eacute;u estes dotes, que s&oacute; servem<br \/>\n    para amargurar?me a exist&ecirc;ncia? Isaura n&atilde;o teve muito tempo para<br \/>\n    dar larga expans&atilde;o &agrave;s suas angustiosas reflex&otilde;es. Ouviu<br \/>\n    rumor na porta, e levantando os olhos viu que algu&eacute;m se encaminhava<br \/>\n    para ela.<\/p>\n<p> &#8211; Ai! meu Deus! &#8211; murmurou consigo. &#8211; A&iacute; temos nova importuna&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    nem ao menos me deixam ficar sozinha um instante.<\/p>\n<p> Quem entrava era, sem mais nem menos, o pajem Andr&eacute;, que j&aacute;<br \/>\n    vimos em companhia do feitor, e que mui ancho, empertigado e petulante se<br \/>\n    foi colocar defronte de Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Boa tarde, linda Isaura. Ent&atilde;o, como vai essa flor? &#8211; saudou o<br \/>\n    pachola do pajem com toda a faceirice.<\/p>\n<p> &#8211; Bem, respondeu secamente Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute;s mudada?&#8230; tens raz&atilde;o, mas &eacute; preciso ir?se<br \/>\n    acomodando com este novo modo de vida. Deveras que para quem estava acostumada<br \/>\n    l&aacute; na sala, no meio de sedas e flores e &aacute;guas?de?cheiro, h&aacute;<br \/>\n    de ser bem triste ficar aqui metida entre estas paredes enfuma&ccedil;adas<br \/>\n    que s&oacute; tresandam a sarro de pito e morr&atilde;o de candeia.<\/p>\n<p> &#8211; Tamb&eacute;m tu, Andr&eacute;, vens por tua vez aproveitar?te da ocasi&atilde;o<br \/>\n    para me atirar lama na cara?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o, Isaura; Deus me livre de te ofender; pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    d&oacute;i?me deveras dentro do cora&ccedil;&atilde;o ver aqui misturada com<br \/>\n    esta corja de negras bei&ccedil;udas e catinguentas uma rapariga como tu,<br \/>\n    que s&oacute; merece pisar em tapetes e deitar em colch&otilde;es de damasco.<br \/>\n    Esse senhor Le&ocirc;ncio tem mesmo um cora&ccedil;&atilde;o de fera.<\/p>\n<p> &#8211; E que te importa isso? eu estou bem satisfeita aqui.<\/p>\n<p> &#8211; Qual!&#8230; n&atilde;o acredito; n&atilde;o &eacute; aqui teu lugar. Mas<br \/>\n    tamb&eacute;m por outra banda estimo bem isso.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;? &#8211; Porque, enfim, Isaura, a falar?te a verdade, gosto muito<br \/>\n    de voc&ecirc;, e aqui ao menos podemos conversar mais em liberdade&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Deveras!&#8230; declaro?te desde j&aacute; que n&atilde;o estou disposta a<br \/>\n    ouvir tuas liberdades.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! &eacute; assim! &#8211; exclamou Andr&eacute; todo enfunado com este brusco<br \/>\n    desengano. &#8211; Ent&atilde;o a senhora quer s&oacute; ouvir as finezas dos mo&ccedil;os<br \/>\n    bonitos l&aacute; na sala!&#8230; pois olha, minha camarada, isso nem sempre pode<br \/>\n    ser, e c&aacute; da nossa laia n&atilde;o &eacute;s capaz de encontrar rapaz<br \/>\n    de melhor figura do que este seu criado. Ando sempre engravatado, enluvado,<br \/>\n    cal&ccedil;ado, engomado, agaloado, perfumado, e o que mais e, &#8211; acrescentou<br \/>\n    batendo com a m&atilde;o na algibeira, &#8211; com as algibeiras sempre a tinir.<br \/>\n    A Rosa, que tamb&eacute;m &eacute; uma rapariguinha bem bonita, bebe os ares<br \/>\n    por mim; mas coitada!&#8230; o que &eacute; ela ao p&eacute; de voc&ecirc;?&#8230;<\/p>\n<p> Enfim, Isaura, se voc&ecirc; soubesse quanto bem te quero, n&atilde;o havias<br \/>\n    de fazer t&atilde;o pouco caso de mim. Se tu quisesses, olha&#8230; escuta.<\/p>\n<p> E dizendo isto o maroto do pajem, avizinhando?se de Isaura, foi?lhe lan&ccedil;ando<br \/>\n    desembara&ccedil;adamente o bra&ccedil;o em torno do colo, como quem queria<br \/>\n    falar?lhe em segredo, ou talvez furtar?lhe um beijo.<\/p>\n<p> &#8211; Alto l&aacute;! &#8211; exclamou Isaura repelindo?o com enfado. &#8211; Est&aacute;<br \/>\n    ficando bastante adiantado e atrevido. Retire?se daqui, se n&atilde;o irei<br \/>\n    dizer tudo ao senhor Le&ocirc;ncio.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! perdoa, Isaura; n&atilde;o h&aacute; motivo para voc&ecirc; se arrufar<br \/>\n    assim.<\/p>\n<p> &Eacute;s muito m&aacute;, para quem nunca te ofendeu, e te quer tanto bem.<br \/>\n    Mas deixa estar, que o tempo h&aacute; de te amaciar esse cora&ccedil;&atilde;ozinho<br \/>\n    de pedra.<\/p>\n<p> Adeus; eu j&aacute; me vou embora; mas olha l&aacute;, Isaura; pelo amor<br \/>\n    de Deus, n&atilde;o v&aacute; dizer nada a ningu&eacute;m. Deus me livre que<br \/>\n    sinh&oacute; mo&ccedil;o saiba do que aqui se passou; era capaz de me enforcar.<br \/>\n    O que vale, &#8211; continuou Andr&eacute; consigo e retirando?se, &#8211; o que vale<br \/>\n    &eacute; que neste neg&oacute;cio parece?me que ele anda t&atilde;o adiantado<br \/>\n    como eu.<\/p>\n<p> Pobre Isaura! sempre e em toda parte esta cont&iacute;nua importuna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de senhores e de escravos, que n&atilde;o a deixam sossegar um s&oacute; momento!<br \/>\n    Como n&atilde;o devia viver aflito e atribulado aquele cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Dentro de casa contava ela quatro inimigos, cada qual mais porfiado em roubar?lhe<br \/>\n    a paz da alma, e torturar?lhe o cora&ccedil;&atilde;o: tr&ecirc;s amantes,<br \/>\n    Le&ocirc;ncio, Belchior, e Andr&eacute;, e uma &ecirc;mula terr&iacute;vel<br \/>\n    e desapiedada, Rosa. F&aacute;cil lhe fora repelir as importuna&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e insol&ecirc;ncias dos escravos e criados; mas que seria dela, quando viesse<br \/>\n    o senhor?!&#8230;<\/p>\n<p> De feito, poucos instantes depois Le&ocirc;ncio, acompanhado pelo feitor,<br \/>\n    entrava no sal&atilde;o das fiandeiras. Isaura, que um momento suspendera<br \/>\n    o seu trabalho, e com o rosto escondido entre as m&atilde;os se embevecia<br \/>\n    em amargas reflex&otilde;es, n&atilde;o se apercebera da presen&ccedil;a deles.<\/p>\n<p> &#8211; Onde est&atilde;o as raparigas que aqui costumam trabalhar?&#8230; perguntou<br \/>\n    Le&ocirc;ncio ao feitor, ao entrar no sal&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Foram jantar, senhor; mas n&atilde;o tardar&atilde;o a voltar.<\/p>\n<p> &#8211; Mas uma c&aacute; se deixou ficar&#8230; ah! &eacute; a Isaura&#8230; Ainda bem!<br \/>\n    &#8211; refletiu consigo Le&ocirc;ncio, &#8211; a ocasi&atilde;o n&atilde;o pode ser mais<br \/>\n    favor&aacute;vel; tentemos os &uacute;ltimos esfor&ccedil;os para seduzir<br \/>\n    aquela empedernida criatura.<\/p>\n<p> Logo que acabem de comer, &#8211; continuou ele dirigindo?se ao feitor, &#8211; leve?as<br \/>\n    para a colheita do caf&eacute;. H&aacute; muito que eu pretendia recomendar?lhe<br \/>\n    isto e tenho?me esquecido. N&atilde;o as quero aqui mais nem um instante;<br \/>\n    isto &eacute; um lugar de vadia&ccedil;&atilde;o, em que perdem o tempo sem<br \/>\n    proveito algum, em continuas palestras. N&atilde;o faltam por a&iacute; tecidos<br \/>\n    de algod&atilde;o para se comprar.<\/p>\n<p> Mal o feitor se retirou, Le&ocirc;ncio dirigiu?se para junto de Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Isaura! murmurou com voz meiga e comovida.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor! &#8211; respondeu a escrava erguendo?se sobressaltada; de? pois murmurou<br \/>\n    tristemente dentro d&#8217;alma: &#8211; meu Deus! &eacute; ele!&#8230; &eacute; chegada a<br \/>\n    hora do supl&iacute;cio.<\/p>\n<h2><a name=\"8\" id=\"8\"> Cap&iacute;tulo 8<\/a><\/h2>\n<p>Agora nos &eacute; indispens&aacute;vel abandonar por alguns instantes Isaura<br \/>\n    em sua pen&iacute;vel situa&ccedil;&atilde;o diante de seu dissoluto e b&aacute;rbaro<br \/>\n    senhor para informarmos o leitor sobre o que ocorrera no seio daquela pequena<br \/>\n    fam&iacute;lia, e em que p&eacute; ficaram os neg&oacute;cios da casa, depois<br \/>\n    que a not&iacute;cia da morte do comendador, estalando como uma bomba no meio<br \/>\n    das intrigas dom&eacute;sticas, veio dar?lhes dolorosa divers&atilde;o no<br \/>\n    momento em que elas, refervendo no mais alto grau de ebuli&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    reclamavam for&ccedil;osamente um desenlace qualquer.<\/p>\n<p> Aquela morte n&atilde;o podia sen&atilde;o prolongar t&atilde;o melindrosa<br \/>\n    e deplor&aacute;vel situa&ccedil;&atilde;o, pondo nas m&atilde;os de Le&ocirc;ncio<br \/>\n    toda a fortuna patema, e desatando as &uacute;ltimas peias que ainda o tolhiam<br \/>\n    na expans&atilde;o de seus abomin&aacute;veis instintos.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio e Malvina estiveram de nojo encerrados em casa por alguns<br \/>\n    dias, durante os quais parece que deram tr&eacute;guas aos arrufos e despeitos<br \/>\n    rec&iacute;procos. Henrique, que queria absolutamente partir no dia seguinte,<br \/>\n    cedendo enfim aos rogos e inst&acirc;ncias de Malvina, consentiu em ficar?lhe<br \/>\n    fazendo companhia durante os dias de nojo.<\/p>\n<p> &#8211; Conforme for o procedimento de meu marido, disse?lhe ela, &#8211; iremos juntos.<br \/>\n    Se por estes dias n&atilde;o der liberdade e um destino qualquer a Isaura,<br \/>\n    n&atilde;o ficarei mais nem um momento em sua casa.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio encerrado em seu quarto a ningu&eacute;m falou, nem apareceu<br \/>\n    durante alguns dias, e parecia mergulhado no mais inconsol&aacute;vel e profundo<br \/>\n    pesar. Entretanto, n&atilde;o era assim. &Eacute; verdade que Le&ocirc;ncio<br \/>\n    n&atilde;o deixou de sofrer certo choque, certa surpresa, que n&atilde;o golpe<br \/>\n    doloroso, com a noticia do falecimento de seu pai; mas no fundo d&#8217;alma, &#8211;<br \/>\n    for&ccedil;a &eacute; diz&ecirc;?lo, &#8211; passado o primeiro momento de abalo<br \/>\n    e consterna&ccedil;&atilde;o chegou at&eacute; a estimar aquele acontecimento,<br \/>\n    que tanto a prop&oacute;sito vinha livr&aacute;?lo dos apuros em que se achava<br \/>\n    enleado em face de Malvina e de Miguel. Portanto, durante a sua reclus&atilde;o,<br \/>\n    em vez de entregar?se &agrave; dor que lhe deveria causar t&atilde;o sens&iacute;vel<br \/>\n    golpe, Le&ocirc;ncio, que por maneira nenhuma podia resignar?se a desfazer?se<br \/>\n    de Isaura, s&oacute; meditava os meios de safar?se das dificuldades, em que<br \/>\n    se achava envolvido, e urdia planos para assegurar?se da posse da gentil cativa.<br \/>\n    As dificuldades eram grandes, e constitu&iacute;am um n&oacute;, que poderia<br \/>\n    ser cortado, mas nunca desatado. Le&ocirc;ncio havia reconhecido a promessa<br \/>\n    que seu pai fizera a Miguel, de alforriar Isaura mediante a soma enorme de<br \/>\n    dez contos de r&eacute;is.<\/p>\n<p> Miguel tinha pronta essa quantia, e lha tinha vindo meter nas m&atilde;os,<br \/>\n    reclamando a liberdade de sua filha. Le&ocirc;ncio reconhecia tamb&eacute;m,<br \/>\n    e nem podia contestar, que sempre fora voto de sua falecida m&atilde;e deixar<br \/>\n    livre Isaura por sua morte. Por outro lado Malvina, sabedora de sua paix&atilde;o<br \/>\n    e de seus sinistros intentos sobre a cativa, justamente irritada, exigia com<br \/>\n    imp&eacute;rio a imediata alforria da mesma. N&atilde;o restava ao mancebo<br \/>\n    meio algum de se tirar decentemente de tantas dificuldades sen&atilde;o libertando<br \/>\n    Isaura. Mas Le&ocirc;ncio n&atilde;o podia se conformar com semelhante id&eacute;ia.<br \/>\n    O violento e cego amor, que Isaura lhe havia inspirado, o incitava a saltar<br \/>\n    por cima de todos os obst&aacute;culos, a arrostar todas as leis do decoro<br \/>\n    e da honestidade, a esmagar sem piedade o cora&ccedil;&atilde;o de sua meiga<br \/>\n    e carinhosa esposa, para obter a satisfa&ccedil;&atilde;o de seus fren&eacute;ticos<br \/>\n    desejos. Resolveu pois cortar o n&oacute;, usando de sua prepot&ecirc;ncia,<br \/>\n    e protelando indefinidamente o cumprimento de seu dever, assentou de afrontar<br \/>\n    com c&iacute;nica indiferen&ccedil;a e brutal sobranceria as justas exig&ecirc;ncias<br \/>\n    e exprobra&ccedil;&otilde;es de Malvina.<\/p>\n<p> Quando esta, depois de deixar passar alguns dias em respeito &agrave; dor<br \/>\n    de que julgava seu marido acabrunhado, lhe tocou naquele melindroso neg&oacute;cio:<br \/>\n    &#8211; Temos tempo, Malvina, &#8211; respondeu?lhe o marido com toda a calma. &#8211; &Eacute;?me<br \/>\n    preciso em primeiro lugar dar balan&ccedil;o e fazer o invent&aacute;rio da<br \/>\n    casa de meu pai. Tenho de ir &agrave; corte arrecadar os seus pap&eacute;is<br \/>\n    e tomar conhecimento do estado de seus neg&oacute;cios. Na volta e com mais<br \/>\n    vagar trataremos de Isaura.<\/p>\n<p> Ao ouvir esta resposta o rosto de Malvina cobriu?se de palidez mortal; ela<br \/>\n    sentiu esfriar?lhe o cora&ccedil;&atilde;o apertado entre as m&atilde;os geladas<br \/>\n    do mais pungente dissabor, como se ali se esmoronasse de repente todo o sonhado<br \/>\n    castelo de suas aventuras conjugais. Ela esperava que o marido fulminado por<br \/>\n    t&atilde;o doloroso golpe naqueles dias de amarga medita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e abatimento, retraindo?se no santu&aacute;rio da consci&ecirc;ncia, reconhecesse<br \/>\n    seus erros e desvanos, implorasse o perd&atilde;o deles, e se propusesse a<br \/>\n    entrar nas sendas do dever e da honestidade. As frias desculpas e f&uacute;teis<br \/>\n    evasivas do marido vieram submergi?la de chofre no mais amargo e profundo<br \/>\n    desalento.<\/p>\n<p> &#8211; Como?! &#8211; exclamou ela com um acento que exprimia a um tempo altiva indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o mais entranhado desgosto. &#8211; Pois ainda hesitas em cumprir t&atilde;o sagrado<br \/>\n    dever?&#8230; se tivesses alma, Le&ocirc;ncio, terias considerado Isaura como<br \/>\n    tua irm&atilde;, pois bem sabes que tua m&atilde;e a amava e idolatrava como<br \/>\n    a uma filha querida, e que era seu mais ardente desejo libert&aacute;?la por<br \/>\n    sua morte e deixar?lhe um legado consider&aacute;vel, que lhe assegurasse<br \/>\n    o futuro. Sabes tamb&eacute;m que teu pai havia feito promessa solene ao pai<br \/>\n    de Isaura de dar?lhe alforria pela quantia de dez contos de r&eacute;is, e<br \/>\n    Miguel j&aacute; te veio p&ocirc;r nas m&atilde;os essa exorbitante quantia.<br \/>\n    Sabes tudo isto, e ainda vens com d&uacute;vidas e demoras!&#8230;<\/p>\n<p> Oh! isto &eacute; muito!&#8230; n&atilde;o vejo motivo nenhum para demorar o<br \/>\n    cumprimento de um dever de que h&aacute; muito tempo j&aacute; devias ter?te<br \/>\n    desempenhado.<\/p>\n<p> &#8211; Mas para que semelhante pressa?&#8230; n&atilde;o me dir&aacute;s Malvina?<br \/>\n    &#8211; replicou Le&ocirc;ncio com a maior brandura e tranq&uuml;ilidade. &#8211; De que<br \/>\n    proveito pode ser agora a liberdade para Isaura? porventura n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    ela aqui bem? &eacute; maltratada?&#8230; sofre alguma priva&ccedil;&atilde;o?&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o continua a ser considerada antes como uma filha da fam&iacute;lia,<br \/>\n    do que como uma escrava? queres que desde j&aacute; a soltemos &agrave; toa<br \/>\n    por esse mundo?&#8230;<\/p>\n<p> assim decerto n&atilde;o cumpriremos o desejo de minha m&atilde;e, que t&atilde;o<br \/>\n    solicita se mostrava pela sorte futura de Isaura. N&atilde;o, minha Malvina;<br \/>\n    n&atilde;o devemos por ora entregar Isaura a si mesma. &Eacute; preciso primeiro<br \/>\n    assegurar?lhe uma posi&ccedil;&atilde;o decente, honesta e digna de sua beleza<br \/>\n    e educa&ccedil;&atilde;o, procurando?lhe um bom marido, e isso n&atilde;o<br \/>\n    se arranja assim de um dia para outro.<\/p>\n<p> &#8211; Que miser&aacute;vel desculpa, meu amigo!&#8230; Isaura por ora n&atilde;o<br \/>\n    precisa de marido para proteg&ecirc;?la; tem o pai, que &eacute; homem muito<br \/>\n    de bem, e acaba de dar provas de quanto adora sua filha. Entreguemo?la ao<br \/>\n    senhor Miguel, que ficar&aacute; em muito boas m&atilde;os, e debaixo de muito<br \/>\n    boa sombra.<\/p>\n<p> &#8211; Pobre do senhor Miguel! &#8211; replicou Le&ocirc;ncio com sorriso desdenhoso.<br \/>\n    &#8211; Ter&aacute; bons desejos, n&atilde;o duvido; mas onde est&atilde;o os meios,<br \/>\n    de que disp&otilde;e, para fazer a felicidade de Isaura, principalmente agora<br \/>\n    em que decerto empenhou os cabelos da cabe&ccedil;a para arranjar a alforria<br \/>\n    da filha, se &eacute; que isso n&atilde;o proveio de esmolas, que lhe fizeram,<br \/>\n    como me parece mais certo.<\/p>\n<p> Por &uacute;nica resposta Malvina abanou tristemente a cabe&ccedil;a e suspirou.<\/p>\n<p> Todavia quis ainda acreditar na sinceridade das palavras de seu marido,<br \/>\n    fingiu?se satisfeita e retirou?se sem dar mostras de agastamento. N&atilde;o<br \/>\n    podia, por&eacute;m, prolongar por mais tempo aquela situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para ela t&atilde;o humilhante, t&atilde;o cheia de ansiedade e desgosto,<br \/>\n    e no outro dia insistiu ainda com mais for&ccedil;a sobre o mesmo objeto.<br \/>\n    Teve em resposta as mesmas evasivas e morat&oacute;rias. Le&ocirc;ncio afetava<br \/>\n    mesmo tratar desse neg&oacute;cio com certa indiferen&ccedil;a desdenhosa,<br \/>\n    como quem estava definitivamente resolvido a fazer o que quisesse. Malvina<br \/>\n    desta vez n&atilde;o p&ocirc;de conter?se, e rompeu com seu marido. Este,<br \/>\n    como j&aacute; friamente havia deliberado, aparou os raios da c&oacute;lera<br \/>\n    feminina no escudo de uma imprud&ecirc;ncia c&iacute;nica e galhofeira, o<br \/>\n    que levou ao &uacute;ltimo grau de exacerba&ccedil;&atilde;o a c&oacute;lera<br \/>\n    e o despeito de Malvina.<\/p>\n<p> No outro dia Malvina, sem dar satisfa&ccedil;&atilde;o alguma a quem quer<br \/>\n    que fosse, deixava precipitadamente a casa de Le&ocirc;ncio, e partia em companhia<br \/>\n    de seu irm&atilde;o Henrique a caminho do Rio de Janeiro, jurando no auge<br \/>\n    da indigna&ccedil;&atilde;o nunca mais p&ocirc;r os p&eacute;s naquela casa,<br \/>\n    onde era t&atilde;o vilmente ultrajada, e varrer para sempre da lembran&ccedil;a<br \/>\n    a imagem de seu desleal e devasso marido. No assomo do despeito n&atilde;o<br \/>\n    calculava se teria for&ccedil;as bastantes para levar a efeito aqueles fren&eacute;ticos<br \/>\n    juramentos, inspirados pela febre do ci&uacute;me e da indigna&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    ignorava que nas almas tenras e bondosas como a sua o &oacute;dio se desvanece<br \/>\n    muito mais depressa do que o amor; e o amor, que Malvina consagrava a Le&ocirc;ncio,<br \/>\n    a despeito de seus desmandos e devassid&otilde;es, era muito mais forte do<br \/>\n    que o seu ressentimento, por mais justo que este fosse.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio por seu lado, levando por diante o seu plano de opor aos assomos<br \/>\n    da esposa a mais inerte e c&iacute;nica indiferen&ccedil;a, viu de bra&ccedil;os<br \/>\n    cruzados e sem fazer a minima observa&ccedil;&atilde;o, os preparativos daquela<br \/>\n    r&aacute;pida viagem, e recostado ao alpendre, fumando indolentemente o seu<br \/>\n    charuto, assistiu &agrave; partida de sua mulher, como se fora o mais indiferente<br \/>\n    dos h&oacute;spedes.<\/p>\n<p> Entretanto, essa indiferen&ccedil;a de Le&ocirc;ncio nada tinha de natural<br \/>\n    e sincera; n&atilde;o que ele sentisse pesar algum pela brusca partida de<br \/>\n    sua mulher; pelo contr&aacute;rio, era j&uacute;bilo, que sentia com a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquela caprichosa resolu&ccedil;&atilde;o de Malvina, que assim lhe abandonava<br \/>\n    o campo inteiramente livre de embara&ccedil;os, para prosseguir em seus nefandos<br \/>\n    projetos sobre a infeliz Isaura. Com aquele fingido pouco?caso, conseguia<br \/>\n    disfar&ccedil;ar o prazer e satisfa&ccedil;&atilde;o, em que lhe transbordava<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o; e como era aforismo adotado e sempre posto em pr&aacute;tica<br \/>\n    por ele, posto que em circunst&acirc;ncias menos graves, &#8211; que contra as c&oacute;leras<br \/>\n    e caprichos femininos n&atilde;o h&aacute; arma mais poderosa do que muito<br \/>\n    sangue?frio e pouco?caso, Malvina n&atilde;o p&ocirc;de descobrir no fundo<br \/>\n    daquela afetada indiferen&ccedil;a o j&uacute;bilo intenso em que nadava a<br \/>\n    alma de seu marido.<\/p>\n<p> O que era feito por&eacute;m da nobre e infeliz Isaura durante esses longos<br \/>\n    dias de luto, de consterna&ccedil;&atilde;o, de ansiedade e dissabores? Desde<br \/>\n    que ouviu a leitura da carta, em que se noticiava a morte do comendador, Isaura<br \/>\n    perdeu todas as lisonjeiras esperan&ccedil;as que um momento antes Miguel<br \/>\n    fizera desabrochar em seu cora&ccedil;&atilde;o. Transida de horror, compreendeu<br \/>\n    que um destino implac&aacute;vel a entregava v&iacute;tima indefesa entre<br \/>\n    as m&atilde;os de seu tenaz e desalmado perseguidor. Sabedora da miseranda<br \/>\n    sorte de sua m&atilde;e, n&atilde;o encontrava em sua imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    abalada outro rem&eacute;dio a t&atilde;o cruel situa&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o<br \/>\n    resignar?se e preparar?se para o mais atroz dos mart&iacute;rios. Um cruel<br \/>\n    desalento, um pavor mortal apoderou?se de seu esp&iacute;rito, e a infeliz,<br \/>\n    p&aacute;lida, desfeita, e como que alucinada, ora vagava &agrave; toa pelos<br \/>\n    campos, ora escondida nas mais espessas moitas do pomar, ou nos mais sombrios<br \/>\n    recantos das alcovas, passava horas e horas entre sustos e ang&uacute;stias,<br \/>\n    como a t&iacute;mida lebre, que v&ecirc; pairando no c&eacute;u a asa sinistra<br \/>\n    do gavi&atilde;o de garras sangrentas.<\/p>\n<p> Quem poderia ampar&aacute;?la? onde poderia encontrar prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contra as tir&acirc;nicas vontades de seu libertino e execr&aacute;vel senhor?<br \/>\n    S&oacute; duas pessoas poderiam ter por ela comisera&ccedil;&atilde;o e interesse;<br \/>\n    seu pai e Malvina. Seu pai, obscuro e pobre feitor, n&atilde;o tendo ingresso<br \/>\n    em casa de Le&ocirc;ncio, e s&oacute; podendo comunicar?se com ela a custo<br \/>\n    e furtivamente, em pouco ou nada podia valer?lhe. Malvina, que sempre a havia<br \/>\n    tratado com tanta bondade e carinho, ai! a pr&oacute;pria Malvina, depois<br \/>\n    da cena escandalosa em que colhera seu marido, dirigindo a Isaura palavras<br \/>\n    enternecidas, come&ccedil;ou a olh&aacute;?la com certa desconfian&ccedil;a<br \/>\n    e afastamento, terr&iacute;vel efeito do ci&uacute;me, que torna injustas<br \/>\n    e rancorosas as almas ainda as mais c&acirc;ndidas e benevolentes A senhora,<br \/>\n    com o correr dos dias, tornava?se cada vez menos trat&aacute;vel e benigna<br \/>\n    para com a escrava, que antes havia tratado com carinho e intimidade quase<br \/>\n    fraternal.<\/p>\n<p> Malvina era boa e confiante, e nunca teria duvidado da inoc&ecirc;ncia de<br \/>\n    Isaura, se n&atilde;o fosse Rosa, sua terr&iacute;vel &ecirc;mula e figadal<br \/>\n    inimiga.<\/p>\n<p> Depois do desaguisado, de que Isaura foi causa inocente, Rosa ficou sendo<br \/>\n    a mucama ou criada da c&acirc;mara de Malvina, e esta &agrave;s vezes desabafava<br \/>\n    em presen&ccedil;a da maligna mulata os ci&uacute;mes e desgostos que lhe<br \/>\n    ferviam e transvazavam do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Sinh&aacute; est&aacute;?se fiando muito naquela sonsa&#8230; &#8211; dizia?lhe<br \/>\n    a maliciosa rapariga. &#8211; Pois fique certa que n&atilde;o s&atilde;o de hoje<br \/>\n    esses namoricos; h&aacute; muito tempo que eu estou vendo essa impostora,<br \/>\n    que diante da sinh&aacute; se faz toda simpl&oacute;ria, andar?se derretendo<br \/>\n    diante de sinh&ocirc; mo&ccedil;o.<\/p>\n<p> Ela mesmo &eacute; que tem a culpa de ele andar assim com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    virada.<\/p>\n<p> Estes e outros quejandos enredos, que Rosa sabia habilmente insinuar nos<br \/>\n    ouvidos de sua senhora, eram bastantes para desvairar o esp&iacute;rito de<br \/>\n    uma c&acirc;ndida e inexperiente mo&ccedil;a como Malvina, e foram produzindo<br \/>\n    o resultado que desejava a perversa mulatinha.<\/p>\n<p> Acabrunhada com aquele novo infort&uacute;nio, Isaura fez algumas tentativas<br \/>\n    para achegar?se de sua senhora, e saber o motivo por que lhe retirava a afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e confian&ccedil;a, que sempre lhe mostrara, e a fim de poder manifestar sua<br \/>\n    inoc&ecirc;ncia. Mas era recebida com tal frieza e altivez, que a infeliz<br \/>\n    recuava espavorida para de novo ir mergulhar?se mais fundo ainda no pego de<br \/>\n    suas ang&uacute;stias e desalentos.<\/p>\n<p> Todavia, enquanto Malvina se conservava em casa, era sempre uma salvaguarda,<br \/>\n    uma sombra protetora, que amparava Isaura contra as importuna&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e brutais tentativas de Le&ocirc;ncio. Por menor que fosse o respeito, que<br \/>\n    lhe tinha o marido, ela n&atilde;o deixava de ser um poderoso estorvo ao menos<br \/>\n    contra os atos de viol&ecirc;ncia, que quisesse p&ocirc;r em pr&aacute;tica<br \/>\n    para conseguir seus execrandos fins. Isaura ponderava isso tudo, e &eacute;<br \/>\n    custoso fazer?se id&eacute;ia do estado de terror e desfalecimento em que<br \/>\n    ficou aquela pobre alma quando viu partir sua senhora, deixando?a inteiramente<br \/>\n    ao desamparo, entregue sem defesa aos insanos e b&aacute;rbaros caprichos<br \/>\n    daquele que era seu senhor, amante e algoz ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> De feito, Le&ocirc;ncio mal viu sumir?se a esposa por tr&aacute;s da &uacute;ltima<br \/>\n    colina, n&atilde;o podendo conter mais a expans&atilde;o de seu sat&acirc;nico<br \/>\n    j&uacute;bilo, tratou logo de p&ocirc;r o tempo em proveito, e p&ocirc;s?se<br \/>\n    a percorrer toda a casa em procura de Isaura. Foi enfim dar com ela no escuro<br \/>\n    recanto de uma alcova, estendida por terra, quase ex&acirc;nime, banhada em<br \/>\n    pranto e arrancando do peito solu&ccedil;os convulsivos.<\/p>\n<p> Poupemos ao leitor a narra&ccedil;&atilde;o da cena vergonhosa que a&iacute;<br \/>\n    se deu.<\/p>\n<p> Contentemo?nos com dizer que Le&ocirc;ncio esgotou todos os meios brandos<br \/>\n    e suasivos ao seu alcance para convencer a rapariga que era do interesse e<br \/>\n    dever dela render?se a seus desejos. Fez as mais espl&ecirc;ndidas promessas,<br \/>\n    e os mais solenes protestos; abaixou?se at&eacute; &agrave;s mais humildes<br \/>\n    s&uacute;plicas, e arrastou?se vilmente aos p&eacute;s da escrava, de cuja<br \/>\n    boca n&atilde;o ouviu sen&atilde;o palavras amargas, e terr&iacute;veis exprobra&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    e vendo enfim que eram infrut&iacute;feros todos esses meios, retirou?se cheio<br \/>\n    de c&oacute;lera, vomitando as mais tremendas amea&ccedil;as.<\/p>\n<p> Para dar a essas amea&ccedil;as come&ccedil;o de execu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nesse mesmo dia mandou p&ocirc;?la trabalhando entre as fiandeiras, onde a<br \/>\n    deixamos no cap&iacute;tulo antecedente. Dali teria de ser levada para a ro&ccedil;a,<br \/>\n    da ro&ccedil;a para o tronco, do tronco para o pelourinho, e deste certamente<br \/>\n    para o t&uacute;mulo, se teimasse em sua resist&ecirc;ncia &agrave;s ordens<br \/>\n    de seu senhor.<\/p>\n<h2><a name=\"9\" id=\"9\">Cap&iacute;tulo 9<\/a><\/h2>\n<p> Le&ocirc;ncio impaciente e com o cora&ccedil;&atilde;o ardendo nas chamas<br \/>\n    de uma paix&atilde;o febril e delirante n&atilde;o podia resignar?se a adiar<br \/>\n    por mais tempo a satisfa&ccedil;&atilde;o de seus libidinosos desejos. Vagando<br \/>\n    daqui para ali por toda a casa como quem dava ordens para reformar o servi&ccedil;o<br \/>\n    dom&eacute;stico, que dai em diante ia correr todo por sua conta, n&atilde;o<br \/>\n    fazia mais do que espreitar todos os movimentos de Isaura, procurando ocasi&atilde;o<br \/>\n    de ach&aacute;?la a s&oacute;s para insistir de novo e com mais for&ccedil;a<br \/>\n    em suas abomin&aacute;veis pretens&otilde;es. De uma janela viu as escravas<br \/>\n    fiandeiras atravessarem o p&aacute;tio para irem jantar, e notou a aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Bom!&#8230; vai tudo &agrave;s mil maravilhas, murmurou Le&ocirc;ncio com<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o; nesse momento passava?lhe pela mente a feliz lembran&ccedil;a<br \/>\n    de mandar o feitor levar as outras escravas para o cafezal, ficando ele quase<br \/>\n    a s&oacute;s com Isaura no meio daqueles vastos e desertos edif&iacute;cios.<\/p>\n<p> Dir?me?&atilde;o que, sendo Isaura uma escrava, Le&ocirc;ncio, para achar?se<br \/>\n    a s&oacute;s com ela n&atilde;o precisava de semelhantes subterf&uacute;gios,<br \/>\n    e nada mais tinha a fazer do que mand&aacute;?la trazer &agrave; sua presen&ccedil;a<br \/>\n    por bem ou por mal. Decerto ele assim podia proceder, mas n&atilde;o sei que<br \/>\n    prest&iacute;gio tem, mesmo em uma escrava, a beleza unida &agrave; nobreza<br \/>\n    da alma, e &agrave; superioridade da intelig&ecirc;ncia, que imp&otilde;e<br \/>\n    respeito aos entes ainda os mais perversos e corrompidos. Por isso Le&ocirc;ncio,<br \/>\n    a despeito de todo o seu cinismo e obceca&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o podia<br \/>\n    eximir?se de render no fundo d&#8217;alma certa homenagem &agrave; beleza e virtudes<br \/>\n    daquela escrava excepcional, e de trat&aacute;?la com mais alguma delicadeza<br \/>\n    do que &agrave;s outras.<\/p>\n<p> &#8211; Isaura, &#8211; disse Le&ocirc;ncio, continuando o di&aacute;logo que deixamos<br \/>\n    apenas encetado, &#8211; fica sabendo que agora a tua sorte est&aacute; inteiramente<br \/>\n    entre as minhas m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8211; Sempre esteve, senhor, &#8211; respondeu humildemente Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Agora mais que nunca. Meu pai &eacute; falecido, e n&atilde;o ignoras<br \/>\n    que sou eu o seu &uacute;nico herdeiro. Malvina por motivos, que sem d&uacute;vida<br \/>\n    ter&aacute;s adivinhado, acaba de abandonar?me, e retirou?se para a casa de<br \/>\n    seu pai. Sou eu, pois, que hoje unicamente governo nesta casa, e disponho<br \/>\n    do teu destino. Mas tamb&eacute;m, Isaura, de tua vontade unicamente depende<br \/>\n    a tua felicidade ou a tua perdi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; De minha vontade!&#8230; oh! n&atilde;o, senhor; minha sorte depende unicamente<br \/>\n    da vontade de meu senhor.<\/p>\n<p> &#8211; E eu bem desejo &#8211; replicou Le&ocirc;ncio com a mais terna inflex&atilde;o<br \/>\n    de voz, &#8211; com todas as for&ccedil;as de minha alma, tornar?te a mais feliz<br \/>\n    das criaturas; mas como, se me recusas obstinadamente a felicidade, que tu,<br \/>\n    s&oacute; tu me poderias dar?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu, senhor?! oh! por quem &eacute;, deixe a humilde escrava em seu lugar;<br \/>\n    lembre?se da senhora D. Malvina, que &eacute; t&atilde;o formosa, t&atilde;o<br \/>\n    boa, e que tanto lhe quer bem. &Eacute; em nome dela que lhe pe&ccedil;o,<br \/>\n    meu senhor; deixe de abaixar seus olhos para uma pobre cativa, que em tudo<br \/>\n    est&aacute; pronta para lhe obedecer, menos nisso, que o senhor exige&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Escuta, Isaura; &eacute;s muito crian&ccedil;a, e n&atilde;o sabes dar<br \/>\n    &aacute;s coisas o devido peso. Um dia, e talvez j&aacute; tarde, te arrepender&aacute;s<br \/>\n    de ter rejeitado o meu amor., &#8211; Nunca! &#8211; exclamou Isaura. &#8211; Eu cometeria uma<br \/>\n    trai&ccedil;&atilde;o infame para com minha senhora, se desse ouvidos &agrave;s<br \/>\n    palavras amorosas de meu senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Escr&uacute;pulos de crian&ccedil;a!.., escuta ainda, Isaura. Minha m&atilde;e<br \/>\n    vendo a tua linda figura e a viveza de teu esp&iacute;rito, &#8211; talvez por n&atilde;o<br \/>\n    ter filha alguma, &#8211; desvelou?se em dar?te uma educa&ccedil;&atilde;o, como<br \/>\n    teria dado a uma filha querida. Ela amava?te extremosamente, e se n&atilde;o<br \/>\n    deu?te a liberdade foi com o receio de perder?te; foi para conservar?te sempre<br \/>\n    junto de si. Se ela assim procedia por amor, como posso eu largar?te de m&atilde;o,<br \/>\n    eu que te amo com outra sorte de amor muito mais ardente e exaltado, um amor<br \/>\n    sem limites, um amor que me levar&aacute; &agrave; loucura ou ao suic&iacute;dio,<br \/>\n    se n&atilde;o&#8230; mas que estou a dizer!&#8230; Meu pai, &#8211; Deus lhe perdoe, &#8211; levado<br \/>\n    por uma s&oacute;rdida avareza, queria vender tua liberdade por um punhado<br \/>\n    de ouro, como se houvesse ouro no mundo que valesse os inestim&aacute;veis<br \/>\n    encantos, de que os c&eacute;us te dotaram.<\/p>\n<p> Profana&ccedil;&atilde;o!&#8230; eu repeliria, como quem repele um insulto,<br \/>\n    todo aquele que ousasse vir oferecer?me dinheiro pela tua liberdade. Livre<br \/>\n    &eacute;s tu, porque Deus n&atilde;o podia formar um ente t&atilde;o perfeito<br \/>\n    para vot&aacute;?lo &agrave; escravid&atilde;o. Livre &eacute;s tu, porque<br \/>\n    assim o queria minha m&atilde;e, e assim o quero eu. Mas, Isaura, o meu amor<br \/>\n    por ti &eacute; imenso; eu n&atilde;o posso, eu n&atilde;o devo abandonar?te<br \/>\n    ao mundo. Eu morreria de dor, se me visse for&ccedil;ado a largar m&atilde;o<br \/>\n    da j&oacute;ia inestim&aacute;vel, que o c&eacute;u parece ter?me destinado,<br \/>\n    e que eu h&aacute; tanto tempo rodeio dos mais ardentes anelos de minha alma&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o, senhor; eu n&atilde;o posso compreend&eacute;?lo; diz?me<br \/>\n    que sou livre, e n&atilde;o permite que eu v&aacute; para onde quiser, e nem<br \/>\n    ao menos que eu disponha livremente de meu cora&ccedil;&atilde;o?! &#8211; Isaura,<br \/>\n    se o quiseres, n&atilde;o ser&aacute;s somente livre; ser&aacute;s a senhora,<br \/>\n    a deusa desta casa. Tuas ordens, quaisquer que sejam, os teus menores caprichos<br \/>\n    ser&atilde;o pontualmente cumpridos; e eu, melhor do que faria o mais terno<br \/>\n    e o mais leal dos amantes, te cercarei de todos os cuidados e carinhos, de<br \/>\n    todas as adora&ccedil;&otilde;es, que sabe inspirar o mais ardente e inextingu&iacute;vel<br \/>\n    amor. Malvina me abandona!&#8230; tanto melhor! em que dependo eu dela e de seu<br \/>\n    amor, se te possuo?! Quebrem?se de uma vez para sempre esses la&ccedil;os<br \/>\n    urdidos pelo interesse! esque&ccedil;a?se para sempre de mim, que eu nos bra&ccedil;os<br \/>\n    de minha Isaura encontrarei sobeja ventura para poder lembrar?me dela.<\/p>\n<p> &#8211; O que o senhor acaba de dizer me horroriza. Como se pode esquecer e abandonar<br \/>\n    ao desprezo uma mulher t&atilde;o amante e carinhosa, t&atilde;o cheia de<br \/>\n    encantos e virtudes, como sinh&aacute; Malvina? Meu senhor, perdoe?me se lhe<br \/>\n    falo com franqueza; abandonar uma mulher bonita, fiel e virtuosa por amor<br \/>\n    de uma pobre escrava, seria a mais feia das ingratid&otilde;es.<\/p>\n<p> A t&atilde;o severa e esmagadora exprobra&ccedil;&atilde;o, Le&ocirc;ncio<br \/>\n    sentiu revoltar?se o seu orgulho. escrava insolente! &#8211; bradou cheio de c&oacute;lera.<br \/>\n    &#8211; Que eu suporte sem irritar?me os teus desd&eacute;ns e repulsas, ainda v&aacute;:<br \/>\n    mas repreens&otilde;es!&#8230; com quem pensas tu que falas?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o! senhor!&#8230; exclamou Isaura aterrada e arrependida das palavras<br \/>\n    que lhe tinham escapado.<\/p>\n<p> &#8211; E, entretanto, se te mostrasses mais branda comigo&#8230; mas n&atilde;o,<br \/>\n    &eacute; muito aviltar?me diante de uma escrava; que necessidade tenho eu<br \/>\n    de pedir aquilo que de direito me pertence? Lembra?te, escrava ingrata e rebelde,<br \/>\n    que em corpo e alma me pertences, a mim s&oacute; e a mais ningu&eacute;m.<br \/>\n    &Eacute;s propriedade minha; um vaso, que tenho entre as minhas m&atilde;os<br \/>\n    e que posso usar dele ou despeda&ccedil;&aacute;?lo a meu sabor, &#8211; Pode despeda&ccedil;&aacute;?lo,<br \/>\n    meu senhor; bem o sei; mas, por piedade, n&atilde;o queira usar dele para<br \/>\n    fins impuros e vergonhosos. A escrava tamb&eacute;m tem cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e n&atilde;o &eacute; dado ao senhor querer governar os seus afetos.<\/p>\n<p> &#8211; Afetos!&#8230; quem fala aqui em afetos?! Podes acaso dispor deles?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, por certo, meu senhor; o cora&ccedil;&atilde;o &eacute; livre;<br \/>\n    ningu&eacute;m pode escraviz&aacute;?lo, nem o pr&oacute;prio dono.<\/p>\n<p> &#8211; Todo o teu ser &eacute; escravo; teu cora&ccedil;&atilde;o obedecer&aacute;,<br \/>\n    e se n&atilde;o cedes de bom grado, tenho por mim o direito e a for&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    mas para qu&ecirc;? para te possuir n&atilde;o vale a pena empregar esses<br \/>\n    meios extremos.<\/p>\n<p> Os instintos do teu cora&ccedil;&atilde;o s&atilde;o rasteiros e abjetos<br \/>\n    como a tua condi&ccedil;&atilde;o; para te satisfazer far?te?ei mulher do<br \/>\n    mais vil, do mais hediondo de meus negros.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! senhor! bem sei de quanto &eacute; capaz. Foi assim que seu pai fez<br \/>\n    morrer de desgosto e maus?tratos a minha pobre m&atilde;e; j&aacute; vejo<br \/>\n    que me &eacute; destinada a mesma sorte. Mas fique certo de que n&atilde;o<br \/>\n    me faltar&atilde;o nem os meios nem a coragem para ficar para sempre livre<br \/>\n    do senhor e do mundo.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! &#8211; exclamou Le&ocirc;ncio com sat&acirc;nico sorriso, &#8211; j&aacute; chegaste<br \/>\n    a t&atilde;o subido grau de exalta&ccedil;&atilde;o e romantismo!&#8230; isto<br \/>\n    em uma escrava n&atilde;o deixa de ser curioso. Eis o proveito que se tira<br \/>\n    de dar educa&ccedil;&atilde;o a tais criaturas! Bem mostras que &eacute;s<br \/>\n    uma escrava, que vives de tocar piano e ler romances. Ainda bem que me preveniste;<br \/>\n    eu saberei gelar a ebuli&ccedil;&atilde;o desse c&eacute;rebro escaldado.<br \/>\n    Escrava rebelde e insensata, n&atilde;o ter&aacute;s m&atilde;os nem p&eacute;s<br \/>\n    para p&ocirc;r em pr&aacute;tica teus sinistros intentos. Ol&aacute;, Andr&eacute;,<br \/>\n    &#8211; bra? dou ele e apitou com for&ccedil;a no cabo do seu chicote.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor! &#8211; bradou de longe o pajem, e um instante depois estava em presen&ccedil;a<br \/>\n    de Le&ocirc;ncio.<\/p>\n<p> &#8211; Andr&eacute;, &#8211; disse?lhe este com voz seca e breve &#8211; traze?me j&aacute;<br \/>\n    aqui um tronco de p&eacute;s e algemas com cadeado.<\/p>\n<p> &#8211; Virgem santa! &#8211; murmurou consigo Andr&eacute; espantado. &#8211; Para que ser&aacute;<br \/>\n    tudo isto?&#8230; ah! pobre Isaura!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu senhor, por piedade! &#8211; exclamou Isaura, caindo de joelhos aos<br \/>\n    p&eacute;s de Le&ocirc;ncio, e levantando as m&atilde;os ao c&eacute;u em<br \/>\n    contor&ccedil;&otilde;es de ang&uacute;stia; pelas cinzas ainda quentes de<br \/>\n    seu pai, h&aacute; poucos dias falecido, pela alma de sua m&atilde;e, que<br \/>\n    tanto lhe queria, n&atilde;o martirize a sua infeliz escrava. Acabrunhe?me<br \/>\n    de trabalhos, condene?me ao servi&ccedil;o o mais grosseiro e pesado, que<br \/>\n    a tudo me sujeitarei sem murmurar; mas o que o senhor exige de mim, n&atilde;o<br \/>\n    posso, n&atilde;o devo faz&ecirc;?lo, embora deva morrer.<\/p>\n<p> &#8211; Bem me custa tratar?te assim, mas tu mesma me obrigas a este excesso.<br \/>\n    Bem v&ecirc;s que me n&atilde;o conv&eacute;m por modo nenhum perder uma escrava<br \/>\n    como tu &eacute;s. Talvez ainda um dia me ser&aacute;s grata por ter?te impedido<br \/>\n    de matar?te a ti mesma.<\/p>\n<p> &#8211; Ser&aacute; o mesmo! &#8211; bradou Isaura levantando?se altiva, e com o acento<br \/>\n    rouco e tr&eacute;mulo da desespera&ccedil;&atilde;o, &#8211; n&atilde;o me matarei<br \/>\n    por minhas pr&oacute;prias m&atilde;os, mas morrerei &agrave;s m&atilde;os<br \/>\n    de um carrasco.<\/p>\n<p> Neste momento chega Andr&eacute; trazendo o tronco e as algemas, que deposita<br \/>\n    sobre um banco, e retira?se imediatamente.<\/p>\n<p> Ao ver aqueles b&aacute;rbaros e aviltantes instrumentos de supl&iacute;cio<br \/>\n    turvaram?se os olhos a Isaura, o cora&ccedil;&atilde;o se lhe enregelou de<br \/>\n    pavor, as pernas lhe desfaleceram, caiu de joelhos e debru&ccedil;ando?se<br \/>\n    sobre o tamborete, em que fiava, desatou uma torrente de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8211; Alma de minha sinh&aacute; velha! &#8211; exclamou com voz entrecortada de solu&ccedil;os,<br \/>\n    &#8211; valei?me nestes apuros; valei?me l&aacute; do c&eacute;u, onde estais, como<br \/>\n    me val&iacute;eis c&aacute; na Terra.<\/p>\n<p> &#8211; Isaura, &#8211; disse Le&ocirc;ncio com voz &aacute;spera apontando para os<br \/>\n    instrumentos de supl&iacute;cio, &#8211; eis ali o que te espera, se persistes em<br \/>\n    teu louco emperramento. Nada mais tenho a dizer?te; deixo?te livre ainda,<br \/>\n    e fica?te o resto do dia para refletires. Tens de escolher entre o meu amor<br \/>\n    e o meu &oacute;dio. Qualquer dos dois, tu bem sabes, s&atilde;o violentos<br \/>\n    e poderosos. Adeus!&#8230;<\/p>\n<p> Quando Isaura sentiu que seu senhor se havia ausentado, ergueu o rosto,<br \/>\n    e levantando ao c&eacute;u os olhos e as m&atilde;os juntas, dirigiu &agrave;<br \/>\n    Rainha dos anjos a seguinte fervorosa prece, exalada entre solu&ccedil;os<br \/>\n    do mais &iacute;ntimo de sua alma: &#8211; Virgem senhora da Piedade, Sant&iacute;ssima<br \/>\n    M&atilde;e de Deus!&#8230; v&oacute;s sabeis se eu sou inocente, e se mere&ccedil;o<br \/>\n    t&atilde;o cruel tratamento. Socorrei?me neste transe aflitivo, porque neste<br \/>\n    mundo ningu&eacute;m pode valer?me.<\/p>\n<p> Livrai?me das garras de um algoz, que amea&ccedil;a n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    a minha vida, como a minha inoc&ecirc;ncia e honestidade. Iluminai?lhe o esp&iacute;rito<br \/>\n    e infundi?lhe no cora&ccedil;&atilde;o brandura e miseric&oacute;rdia para<br \/>\n    que se compade&ccedil;a de sua infeliz cativa. &Eacute; uma humilde escrava<br \/>\n    que com as l&aacute;grimas nos olhos e a dor no cora&ccedil;&atilde;o vos<br \/>\n    roga pelas vossas dores sacrossantas, pelas chagas de vosso Divino Filho:<br \/>\n    valei?me por piedade.<\/p>\n<p> Quanto Isaura era formosa naquela suplicante e angustiosa atitude! oh! muito<br \/>\n    mais bela do que em seus momentos de serenidade e prazer!&#8230; se a visse ent&atilde;o,<br \/>\n    Le&ocirc;ncio talvez sentisse abrandar?se o f&eacute;rreo e obcecado cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Com os olhos arrasados em l&aacute;grimas, que em fio lhe escorregavam pelas<br \/>\n    faces desbotadas, entreaberta a boca melanc&oacute;lica, que lhe tremia ao<br \/>\n    passar da prece murmurada entre solu&ccedil;os, atiradas em desordem pelas<br \/>\n    esp&aacute;duas as negras e opulentas madeixas, voltando para o c&eacute;u<br \/>\n    o busto mavioso plantado sobre um colo escultural, ofereceria ao artista inspirado<br \/>\n    o mais belo e sublime modelo para a ef&iacute;gie da M&atilde;e Dolorosa,<br \/>\n    a quem nesse momento dirigia suas ardentes s&uacute;plicas. Os anjos do c&eacute;u,<br \/>\n    que por certo naquele instante adejavam em torno dela agitando as asas de<br \/>\n    ouro e carmim, n&atilde;o podiam deixar de levar t&atilde;o f&eacute;rvida<br \/>\n    e dolorosa prece aos p&eacute;s do trono da Consoladora dos aflitos.<\/p>\n<p> Absorvida em suas m&aacute;goas Isaura n&atilde;o viu seu pai, que, entrando<br \/>\n    pelo sal&atilde;o a passos sutis e cautelosos, encaminhava?se para ela.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! felizmente ela ali est&aacute;, &#8211; murmurava o velho, &#8211; o algoz aqui<br \/>\n    tamb&eacute;m andava! oh! pobre Isaura!&#8230; que ser&aacute; de ti?!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai por aqui!&#8230; &#8211; exclamou a infeliz ao avistar Miguel. &#8211; Venha,<br \/>\n    venha ver a que estado reduzem sua filha.<\/p>\n<p> &#8211; Que tens, filha?&#8230; que nova desgra&ccedil;a te sucede? &#8211; N&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    vendo, meu pai?&#8230; eis ali a sorte, que me espera, &#8211; respondeu ela apontando<br \/>\n    para o tronco e as algemas, que ali estavam ao p&eacute; dela.<\/p>\n<p> &#8211; Que monstro, meu Deus!&#8230; mas eu j&aacute; esperava por tudo isto&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; esta a liberdade que pretende dar &agrave;quela que a m&atilde;e<br \/>\n    dele criou com tanto amor e carinho. O mais cruel e aviltante cativeiro, um<br \/>\n    mart&iacute;rio continuado da alma e do corpo, eis o que resta &agrave; sua<br \/>\n    desventurada filha&#8230; Meu pai, n&atilde;o posso resistir a tanto sofrimento!&#8230;<br \/>\n    restava?me um recurso extremo; esse mesmo vai?me ser negado. Presa, algemada,<br \/>\n    amarrada de p&eacute;s e m&atilde;os!&#8230; oh!&#8230; meu pai! meu pai!&#8230; isto<br \/>\n    &eacute; horr&iacute;vel!&#8230;<\/p>\n<p> Meu pai, a sua faca, &#8211; acrescentou depois de ligeira pausa com voz rouca<br \/>\n    e olhar sombrio, &#8211; preciso de sua faca.<\/p>\n<p> &#8211; Que pretendes fazer com ela, Isaura? que louco pensamento &eacute; o teu?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; D&ecirc;?me essa faca, meu pai; eu n&atilde;o usarei dela sen&atilde;o<br \/>\n    em caso extremo; quando o infame vier lan&ccedil;ar?me as m&atilde;os para<br \/>\n    deitar?me esses ferros, farei saltar meu sangue ao rosto vil do algoz.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, minha filha; n&atilde;o ser&atilde;o necess&aacute;rios tais<br \/>\n    extremos. Meu cora&ccedil;&atilde;o j&aacute; adivinhava tudo isto, e j&aacute;<br \/>\n    tenho tudo prevenido. O dinheiro, que n&atilde;o serviu para alcan&ccedil;ar<br \/>\n    a tua liberdade, vai agora prestar?nos para arrancar?te &agrave;s garras desse<br \/>\n    monstro. Tudo est&aacute; j&aacute; disposto, Isaura. Fujamos.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, meu pai, fujamos; mas como? para onde? &#8211; Para longe daqui, seja para<br \/>\n    onde for; e j&aacute;, minha filha, enquanto n&atilde;o suspeitem coisa alguma,<br \/>\n    e n&atilde;o te carregam de ferros.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu pai, tenho bem medo; se nos descobrem, qual ser&aacute; a minha<br \/>\n    sorte!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; A empresa &eacute; arriscada, n&atilde;o posso negar?te; mas &acirc;nimo.<br \/>\n    Isaura; &eacute; nossa &uacute;nica t&aacute;bua de salva&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    agarremo?nos a ela com f&eacute;, e encomendemo?nos &agrave; divina provid&ecirc;ncia.<br \/>\n    Os escravos est&atilde;o na ro&ccedil;a; o feitor levou para o cafezal tuas<br \/>\n    companheiras, teu senhor saiu a cavalo com o Andr&eacute;; n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    talvez em toda a casa sen&atilde;o alguma negra l&aacute; pelos cantos da<br \/>\n    cozinha. Aproveitemos a ocasi&atilde;o, que parece mesmo nos vir das m&atilde;os<br \/>\n    de Deus, no momento em que aqui estou chegando. Eu j&aacute; preveni tudo.\n  <\/p>\n<p>L&aacute; no fundo do quintal &agrave; beira do rio est&aacute; amarrada<br \/>\n    uma canoa; &eacute; quanto nos basta. Tu sair&aacute;s primeiro e ir&aacute;s<br \/>\n    l&aacute; ter por dentro do quintal; eu sairei por fora alguns instantes depois<br \/>\n    e l&aacute; nos encontraremos. Em menos de uma hora estaremos em Campos, onde<br \/>\n    nos espera um navio, de que &eacute; capit&atilde;o um amigo meu, e que tem<br \/>\n    de seguir viagem para o Norte nesta madrugada. Quando romper o dia, estaremos<br \/>\n    longe do algoz que te persegue. Vamo?nos, Isaura; talvez por esse mundo encontremos<br \/>\n    alguma alma piedosa, que melhor do que eu te possa proteger.<\/p>\n<p> &#8211; Vamo?nos, meu pai; que posso eu recear?&#8230; posso acaso ser mais desgra&ccedil;ada<br \/>\n    do que j&aacute; sou?&#8230;<\/p>\n<p> Isaura, cosendo?se com a sombra do muro, que rodeava o p&aacute;tio, abriu<br \/>\n    o port&atilde;o, que dava para o quintal, e desapareceu. Momentos depois Miguel<br \/>\n    rodeando por fora os edif&iacute;cios costeava o quintal, e achava?se com<br \/>\n    ela &agrave; margem do rio.<\/p>\n<p> A canoa vogando sutilmente bem junto &agrave; barranca, impelida pelo bra&ccedil;o<br \/>\n    vigoroso de Miguel, em poucos minutos perdeu de vista a fazenda.<\/p>\n<h2><a name=\"10\" id=\"10\"> Capitulo 10<\/a><\/h2>\n<p> J&aacute; s&atilde;o passados mais de dois meses depois da fuga de Isaura,<br \/>\n    e agora, leitores, enquanto Le&ocirc;ncio emprega dilig&ecirc;ncias extraordin&aacute;rias<br \/>\n    e meios extremos, e desatando os cord&otilde;es da bolsa, p&otilde;e em atividade<br \/>\n    a pol&iacute;cia e uma multid&atilde;o de agentes particulares para empolgar<br \/>\n    de novo a presa, que t&atilde;o sorrateiramente lhe escapara, fa&ccedil;amo?nos<br \/>\n    de vela para as prov&iacute;ncias do Norte, onde talvez primeiro que ele deparemos<br \/>\n    com a nossa fugitiva hero&iacute;na.<\/p>\n<p> Estamos no Recife. &Eacute; noite e a formosa Veneza da Am&eacute;rica do<br \/>\n    Sul, coroada de um diadema de luzes, parece surgir dos bra&ccedil;os do oceano,<br \/>\n    que a estreita em carinhoso amplexo e a beija com amor. &Eacute; uma noite<br \/>\n    festiva: em uma das principais ruas nota?se um edif&iacute;cio esplendidamente<br \/>\n    iluminado, para onde concorre grande n&uacute;mero de cavalheiros e damas<br \/>\n    das mais distintas e opulentas classes. &Eacute; um lindo pr&eacute;dio onde<br \/>\n    uma sociedade escolhida costuma dar brilhantes e concorridos saraus. Alguns<br \/>\n    estudantes dos mais ricos e elegantes, tamb&eacute;m costumam descer da velha<br \/>\n    Olinda em noites determinadas, para ali virem se espanejar entre os esplendores<br \/>\n    e harmonias, entre as sedas e perfumes do sal&atilde;o do baile; e aos meigos<br \/>\n    olhares e ang&eacute;licos sorrisos das belas e espirituosas pernambucanas,<br \/>\n    esquecerem por algumas horas os duros bancos da Academia e os carunchosos<br \/>\n    praxistas.<\/p>\n<p> Suponhamos que tamb&eacute;m somos adeptos daquele templo de Terps&iacute;core,<br \/>\n    entremos por ele a dentro, e observemos o que por a&iacute; vai de curioso<br \/>\n    e interessante. Logo na primeira sala encontramos um grupo de elegantes mancebos,<br \/>\n    que conversam com alguma anima&ccedil;&atilde;o. Escutemo?los.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; mais uma estrela que vem brilhar nos sal&otilde;es do Recife,<br \/>\n    &#8211; dizia &Aacute;lvaro, &#8211; e dar lustre a nossos saraus. N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    ainda tr&ecirc;s meses, que chegou a esta cidade, e haver&aacute; pouco mais<br \/>\n    de um, que a conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> Mas creia?me, Dr. Geraldo, &eacute; ela a criatura mais nobre e encantadora<br \/>\n    que tenho conhecido. N&atilde;o &eacute; uma mulher; &eacute; uma fada, &eacute;<br \/>\n    um anjo, &eacute; uma deusa!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; C&aacute;spite! &#8211; exclamou o Dr. Geraldo; fada! anjo! deusa!&#8230; S&atilde;o<br \/>\n    portanto tr&ecirc;s entidades distintas, mas por fim de contas ver&aacute;s<br \/>\n    que n&atilde;o passa de uma mulher verdadeira. Mas dize?me c&aacute;, meu<br \/>\n    &Aacute;lvaro; esse anjo, fada, deusa, mulher ou o que quer que seja, n&atilde;o<br \/>\n    te disse de onde veio, de que fam&iacute;lia &eacute;, se tem fortuna, etc.,<br \/>\n    etc., etc.? &#8211; Pouco me importo com essas coisas, e poderia responder?te que<br \/>\n    veio do c&eacute;u, que &eacute; da fam&iacute;lia dos anjos, e que tem uma<br \/>\n    fortuna superior a todas as riquezas do mundo: uma alma pura, nobre e inteligente,<br \/>\n    e uma beleza incompar&aacute;vel. Mas sempre te direi que o que sei de positivo<br \/>\n    a respeito dela &eacute; que veio do Rio Grande do Sul em companhia de seu<br \/>\n    pai, de quem &eacute; ela a &uacute;nica fam&iacute;lia; que seus meios s&atilde;o<br \/>\n    bastantemente escassos, mas que em compensa&ccedil;&atilde;o ela &eacute;<br \/>\n    linda como os anjos, e tem o nome de Elvira, &#8211; Elvira! &#8211; observou o terceiro<br \/>\n    cavalheiro &#8211; bonito nome na verdade!&#8230; mas n&atilde;o poder&aacute;s dizer?nos,<br \/>\n    &Aacute;lvaro, onde mora a tua fada?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o fa&ccedil;o mist&eacute;rio disso; mora com seu pai em uma<br \/>\n    pequena ch&aacute;cara no bairro de Santo Ant&ocirc;nio, onde vivem modestamente,<br \/>\n    evitando rela&ccedil;&otilde;es, e aparecendo mui raras vezes em p&uacute;blico.<br \/>\n    Nessa ch&aacute;cara, escondida entre moitas de coqueiros e arvoredos, vive<br \/>\n    ela como a violeta entre a folhagem, ou como fada misteriosa em uma gruta<br \/>\n    encantada.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; c&eacute;lebre! &#8211; retorquiu o doutor &#8211; mas como chegaste a descobrir<br \/>\n    essa ninfa encantada, e a ter entrada em sua gruta misteriosa? &#8211; Eu vos conto<br \/>\n    em duas palavras. Passando eu um dia a cavalo por sua ch&aacute;cara, avistei?a<br \/>\n    sentada em um banco do pequeno jardim da frente. Surpreendeu?me sua maravilhosa<br \/>\n    beleza. Como viu que eu a contemplava com demasiada curiosidade, esgueirou?se<br \/>\n    como uma borboleta entre os arbustos floridos e desapareceu. Formei o firme<br \/>\n    prop&oacute;sito de v&ecirc;?la e de falar?lhe, custasse o que custasse. Por<br \/>\n    mais, por&eacute;m, que indagasse por toda a vizinhan&ccedil;a, n&atilde;o<br \/>\n    encontrei uma s&oacute; pessoa que se relacionasse com ela e que pudesse apresentar?me.<br \/>\n    Indaguei por fim quem era o propriet&aacute;rio da ch&aacute;cara, e fui ter<br \/>\n    com ele. Nem esse podia dar?me informa&ccedil;&otilde;es, nem servir?me em<br \/>\n    coisa alguma. O seu inquilino vinha todos os meses pontualmente adiantar o<br \/>\n    aluguel da ch&aacute;cara; eis tudo quanto a respeito dele sabia. Todavia<br \/>\n    continuei a passar todas as tardes por defronte do jardim, mas a p&eacute;<br \/>\n    para melhor poder surpreend&ecirc;la e admir&aacute;?la; quase sempre, por&eacute;m,<br \/>\n    sem resultado. Quando acontecia estar no jardim, esquivava?se sempre &agrave;s<br \/>\n    minhas vistas como da primeira vez. Um dia, por&eacute;m, quando eu passava,<br \/>\n    caiu?lhe o len&ccedil;o ao levantar?se do banco; a grade estava aberta; tomei<br \/>\n    a liberdade de penetrar no jardim, apanhei o len&ccedil;o, e corri a entregar?lho,<br \/>\n    quando j&aacute; ela punha o p&eacute; na soleira de sua casa. Agradeceu?me<br \/>\n    com um sorriso t&atilde;o encantador, que estive em termos de cair de joelhos<br \/>\n    a seus p&eacute;s; mas n&atilde;o mandou?me entrar, nem fez?me oferecimento<br \/>\n    algum.<\/p>\n<p> &#8211; Esse len&ccedil;o, &Aacute;lvaro, &#8211; atalhou um cavalheiro, &#8211; decerto ela<br \/>\n    o deixou cair de prop&oacute;sito, para que pudesses v&ecirc;?la de perto<br \/>\n    e falar?lhe. &Eacute; um apuro de romantismo, um delicado rasgo de coquetterie.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o creio; n&atilde;o h&aacute; naquele ente nem sombra de coquetterie;<br \/>\n    tudo nela respira candura e singeleza. O certo &eacute; que custei a arrancar<br \/>\n    meus p&eacute;s daquele lugar, onde uma for&ccedil;a magn&eacute;tica me retinha,<br \/>\n    e que parecia rescender um misterioso efl&uacute;vio de amor, de pureza e<br \/>\n    de aventura&#8230;<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro p&aacute;ra em sua narrativa, como que embevecido em t&atilde;o<br \/>\n    suaves recorda&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; E ficaste nisso, Alvaro! &#8211; perguntava outro cavalheiro; &#8211; o teu romance<br \/>\n    est&aacute;?nos interessando; vamos por diante, que estou aflito por ver a<br \/>\n    perip&eacute;cia&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; A perip&eacute;cia?.., oh! essa ainda n&atilde;o chegou, e nem eu mesmo<br \/>\n    sei qual ser&aacute;. Esgotei enfim os estratagemas poss&iacute;veis para<br \/>\n    ter entrada no santu&aacute;rio daquela deusa; mas foi tudo baldado. O acaso<br \/>\n    enfim veio em meu socorro, e serviu?me melhor do que toda a minha habilidade<br \/>\n    e dilig&ecirc;ncia. Passeando eu uma tarde de carro no bairro de Santo Ant&ocirc;nio,<br \/>\n    pelas margens do Beberibe, passeio que se tornara para mim uma devo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    avistei um homem e uma mulher navegando a todo pano em um pequeno bote.<\/p>\n<p> Instantes depois o bote achou?se encalhado em um banco de areia.<\/p>\n<p> Apeei?me imediatamente, e tomando um escaler na praia, fui em socorro dos<br \/>\n    dois navegantes que em v&atilde;o forcejavam por safar a pequena embarca&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o podem fazer id&eacute;ia da deliciosa surpresa que senti, ao reconhecer<br \/>\n    nas duas pessoas do bote a minha misteriosa da ch&aacute;cara e seu pai&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Por essa j&aacute; eu esperava; entretanto o lance n&atilde;o deixa de<br \/>\n    ser dram&aacute;tico; a hist&oacute;ria de seus amores com a tal fada misteriosa<br \/>\n    vai tomando visos de um poema fant&aacute;stico.<\/p>\n<p> &#8211; Entretanto, &eacute; a pura realidade. Como estavam molhados e enxovalhados,<br \/>\n    convidei?os a entrarem no meu carro. Aceitaram depois de muita relut&acirc;ncia,<br \/>\n    e dirigimo?nos para a casa deles. &Eacute; escusado contarvos o resto desde<br \/>\n    ent&atilde;o, se bem que com algum acanhamento foi?me franqueado o umbral<br \/>\n    da gruta misteriosa.<\/p>\n<p> &#8211; E pelo que vejo, &#8211; interrogou o doutor, &#8211; amas muito essa mulher? &#8211; Se<br \/>\n    amo! adoro?a cada vez mais, e o que &eacute; mais, tenho raz&otilde;es para<br \/>\n    acreditar que ela&#8230; pelo menos n&atilde;o me olha com indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Deus queira que n&atilde;o andes emba&iacute;do por alguma Circe de bordel,<br \/>\n    por alguma dessas aventureiras, de que h&aacute; tantas pelo mundo, e que,<br \/>\n    sabendo que &eacute;s rico, arma la&ccedil;os ao teu dinheiro! Esse afastamento<br \/>\n    da sociedade, esse mist&eacute;rio, em que procuram t&atilde;o cuidadosamente<br \/>\n    envolver a sua vida, n&atilde;o abonam muito em favor deles.<\/p>\n<p> &#8211; Quem sabe se s&atilde;o criminosos que procuram subtrair?se &agrave;s<br \/>\n    pesquisas da pol&iacute;cia? &#8211; observou um cavalheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Talvez moedeiros falsos, &#8211; acrescentou outro.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho m&aacute;?f&eacute;, &#8211; continuou o doutor &#8211; todas as vezes que vejo<br \/>\n    uma mulher bonita viajando em pa&iacute;ses estranhos em companhia de um homem,<br \/>\n    que de ordin&aacute;rio se diz pai ou irm&atilde;o dela. O pai de tua fada,<br \/>\n    &Aacute;lvaro, se &eacute; que &eacute; pai, &eacute; talvez algum cigano,<br \/>\n    ou cavalheiro de ind&uacute;stria, que especula com a formosura de sua filha.<\/p>\n<p> &#8211; Santo Deus!&#8230; miseric&oacute;rdia! &#8211; exclamou &Aacute;lvaro. &#8211; Se eu<br \/>\n    adivinhasse que veria a pessoa daquela criatura ang&eacute;lica apreciada<br \/>\n    com tanta atrocidade, ou antes t&atilde;o impiamente profanada, quereria antes<br \/>\n    ser atacado de mudez, do que traz&ecirc;?la &agrave; conversa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Creiam, que s&atilde;o demasiado injustos para com aquela pobre mo&ccedil;a,<br \/>\n    meus amigos. Eu a julgaria antes uma princesa destronizada, se n&atilde;o<br \/>\n    soubesse que &eacute; um anjo do c&eacute;u. Mas voc&ecirc;s em breve v&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;?la, e eu e ela estaremos vingados; pois estou certo que todos a uma<br \/>\n    voz a proclamar&atilde;o uma divindade. Mas o pior &eacute; que desde j&aacute;<br \/>\n    posso contar com um rival em cada um de voc&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; Por minha parte, disse um dos cavalheiros, &#8211; pode ficar tranq&uuml;ilo,<br \/>\n    pois sempre tive horror &agrave;s mo&ccedil;as misteriosas.<\/p>\n<p> &#8211; E eu, que n&atilde;o sou mais do que um simples mortal, tenho muito medo<br \/>\n    de fadas, &#8211; acrescentou o outro.<\/p>\n<p> &#8211; E como &eacute;, perguntou o Dr. Geraldo, &#8211; que vivendo ela assim arredada<br \/>\n    da sociedade, p&ocirc;de resolver?se a deixar a sua misteriosa solid&atilde;o,<br \/>\n    para vir a este baile t&atilde;o p&uacute;blico e concorrido?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E quanto n&atilde;o me custou isso, meu amigo! &#8211; respondeu &Aacute;lvaro.<br \/>\n    &#8211; Veio quase violentada. H&aacute; muito tempo que procuro convenc&ecirc;?la<br \/>\n    por todos os modos, que uma senhora jovem e formosa, como &eacute; ela, escondendo<br \/>\n    seus encantos na solid&atilde;o, comete um crime, contr&aacute;rio &agrave;s<br \/>\n    vistas do Criador, que formou a beleza para ser vista, admirada e adorada;<br \/>\n    pois sou o contr&aacute;rio desses amantes ciumentos e atrabili&aacute;rios,<br \/>\n    que desejariam ter suas amadas escondidas no &acirc;mago da terra. Argumentos,<br \/>\n    inst&acirc;ncias, s&uacute;plicas, tudo foi perdido; pai e filha recusavam?se<br \/>\n    constantemente a aparecerem em p&uacute;blico, alegando mil diversos pretextos.<br \/>\n    Vali?me por fim de um ardil; fiz?lhes acreditar que aquele modo de viver retra&iacute;do<br \/>\n    e sem contato com a sociedade em um pa&iacute;s, onde eram desconhecidos,<br \/>\n    j&aacute; come&ccedil;ava a dar que falar ao p&uacute;blico e a atrair suspeitas<br \/>\n    sobre eles, e que at&eacute; a pol&iacute;cia come&ccedil;ava a olh&aacute;?los<br \/>\n    com desconfian&ccedil;a: mentiras, que n&atilde;o deixavam de ter sua plausibilidade&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E tanta, &#8211; interrompeu o doutor. &#8211; que talvez n&atilde;o andem muito longe<br \/>\n    da verdade.<\/p>\n<p> &#8211; Fiz?lhes ver, &#8211; continuou &Aacute;lvaro, &#8211; que por infundadas e f&uacute;teis<br \/>\n    que fossem tais suspeitas, era necess&aacute;rio arred&aacute;?las de si,<br \/>\n    e para isso cumpria?lhes absolutamente freq&uuml;entar a sociedade. Este embuste<br \/>\n    produziu o desejado efeito.<\/p>\n<p> &#8211; Tanto pior para eles, &#8211; retorquiu o doutor; &#8211; eis a&iacute; um ind&iacute;cio<br \/>\n    bem mau, e que mais me confirma em minhas desconfian&ccedil;as. Fossem eles<br \/>\n    inocentes, e bem pouco se importariam com as suspeitas do p&uacute;blico ou<br \/>\n    da policia, e continuariam a viver como dantes.<\/p>\n<p> &#8211; Tuas suspeitas n&atilde;o t&ecirc;m o menor fundamento, meu doutor. Eles<br \/>\n    t&ecirc;m poucos meios, e por isso evitam a sociedade, que realmente, imp&otilde;e<br \/>\n    duros sacrif&iacute;cios &agrave;s pessoas desfavorecidas da fortuna, e eles&#8230;<br \/>\n    mas ei?los, que chegam&#8230; Vejam e conven&ccedil;am?se com seus pr&oacute;prios<br \/>\n    olhos.<\/p>\n<p> Entrava nesse momento na ante?sala uma jovem e formosa dama pelo bra&ccedil;o<br \/>\n    de um homem de idade madura e de respeit&aacute;vel presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Boa noite, senhor Anselmo!&#8230; boa noite, D. Elvira!&#8230; felizmente ei?los<br \/>\n    aqui! &#8211; isto dizia &Aacute;lvaro aos rec&eacute;m?chegados, separando?se de<br \/>\n    seus amigos, e apressurando?se para cumprimentar a aqueles com toda a amabilidade<br \/>\n    e cortesia. Depois oferecendo um bra&ccedil;o a Elvira e outro ao senhor Anselmo,<br \/>\n    os vai conduzindo para as salas interiores, por onde j&aacute; turbilhona<br \/>\n    a mais numerosa e brilhante sociedade. Os tr&ecirc;s interlocutores de &Aacute;lvaro,<br \/>\n    bem como muitas outras pessoas, que por ali se achavam, puseram?se em ala<br \/>\n    para verem passar Elvira, cuja presen&ccedil;a causava sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e murmurinho, mesmo entre os que n&atilde;o estavam prevenidos.<\/p>\n<p> &#8211; Com efeito!&#8230; &eacute; de uma beleza deslumbrante! Que porte de rainha!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que olhos de andaluza!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que magn&iacute;ficos cabelos! &#8211; E o colo!&#8230; que colo!&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    reparaste?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E como se traja com t&atilde;o elegante simplicidade! &#8211; assim murmuravam<br \/>\n    entre si os tr&ecirc;s cavalheiros como impressionados por uma apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    celeste.<\/p>\n<p> &#8211; E n&atilde;o reparaste, &#8211; acrescentou o Dr. Geraldo, &#8211; naquele feiticeiro<br \/>\n    sinalzinho, que tem na face direita?&#8230; &Aacute;lvaro tem raz&atilde;o; a<br \/>\n    sua fada vai eclipsar todas as belezas do sal&atilde;o. E tem de mais a mais<br \/>\n    a vantagem da novidade, e esse prest&iacute;gio do mist&eacute;rio, que a<br \/>\n    envolve. Estou ardendo de impaci&ecirc;ncia por lhe ser apresentado; desejo<br \/>\n    admir&aacute;?la mais de espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> Neste tom continuaram a conversar, at&eacute; que, passados alguns minutos,<br \/>\n    &Aacute;lvaro, tendo cumprido a grata comiss&atilde;o de apresentador daquela<br \/>\n    nova p&eacute;rola dos sal&otilde;es, estava de novo entre eles.<\/p>\n<p> &#8211; Meus amigos, &#8211; disse?lhes ele com ar triunfante. &#8211; convido?os para o sal&atilde;o.<br \/>\n    Quero j&aacute; apresentar?lhes D. Elvira para desvanecer de uma vez para<br \/>\n    sempre as injuriosas apreens&otilde;es, que ainda h&aacute; pouco nutriam<br \/>\n    a respeito do ente o mais belo e mais puro, que existe debaixo do Sol, se<br \/>\n    bem que estou certo que s&oacute; com a simples vista ficaram penetrados de<br \/>\n    assombro at&eacute; a medula dos ossos.<\/p>\n<p> Os quatro cavalheiros se retiraram e desapareceram no meio do turbilh&atilde;o<br \/>\n    das salas interiores. Foram, por&eacute;m, imediatamente substitu&iacute;dos<br \/>\n    por um grupo de lindas e elegantes mo&ccedil;as, que cintilantes de sedas<br \/>\n    e pedrarias como um bando de aves?do?para&iacute;so, passeavam conversando.<\/p>\n<p> O assunto da palestra era tamb&eacute;m D. Elvira; mas o diapas&atilde;o<br \/>\n    era totalmente diverso, e em nada se harmonizava com o da conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos rapazes. Nenhum mal nos far&aacute; escut&aacute;?las por alguns instantes.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o saber&aacute; dizer?nos, D. Adelaide, quem &eacute;<br \/>\n    aquela mo&ccedil;a, que ainda h&aacute; pouco entrou na sala pelo bra&ccedil;o<br \/>\n    do senhor &Aacute;lvaro? &#8211; N&atilde;o, D. Laura; &eacute; a primeira vez que<br \/>\n    a vejo, parece?me que n&atilde;o &eacute; desta terra.<\/p>\n<p> &#8211; Decerto; que ar espantado tem ela!&#8230; parece uma matuta, que nunca pisou<br \/>\n    em um sal&atilde;o de baile; n&atilde;o acha, D. Rosalina? &#8211; Sem d&uacute;vida!..,<br \/>\n    e voc&ecirc; n&atilde;o reparou na toilette dela?&#8230; meu Deus!&#8230; que pobreza!<br \/>\n    a minha mucama tem melhor gosto para se trajar.<\/p>\n<p> Aqui a D. Em&iacute;lia &eacute; que talvez saiba quem ela &eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Eu? por qu&ecirc;? &eacute; a primeira vez que a vejo, mas o senhor &Aacute;lvaro<br \/>\n    j&aacute; me tinha dado not&iacute;cias dela, dizendo que era um assombro<br \/>\n    de beleza.<\/p>\n<p> N&atilde;o vejo nada disso; &eacute; bonita, mas n&atilde;o tanto, que assombre.<\/p>\n<p> &#8211; Aquele senhor &Aacute;lvaro sempre &eacute; um exc&ecirc;ntrico, um esquisito;<br \/>\n    tudo quanto &eacute; novidade o seduz. E onde iria ele escavar aquela p&eacute;rola,<br \/>\n    que tanto o traz embasbacado?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Veio de arriba&ccedil;&atilde;o l&aacute; dos mares do Sul, minha amiga,<br \/>\n    e a julgar pelas apar&ecirc;ncias n&atilde;o &eacute; de todo m&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Se n&atilde;o fosse aquela pinta negra, que tem na face, seria mais suport&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Pelo contr&aacute;rio, D. Laura; aquele sinal &eacute; que ainda lhe d&aacute;<br \/>\n    certa gra&ccedil;a particular&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! perd&atilde;o, minha amiga; n&atilde;o me lembrava que voc&ecirc;<br \/>\n    tamb&eacute;m tem na face um sinalzinho semelhante; esse deveras fica?te muito<br \/>\n    bem, e d&aacute;?te, muita gra&ccedil;a; mas o dela, se bem reparei, &eacute;<br \/>\n    grande demais; n&atilde;o parece uma mosca, mas sim um besouro, que lhe pousou<br \/>\n    na face.<\/p>\n<p> &#8211; A dizer?te a verdade, n&atilde;o reparei bem. Vamos, vamos para o sal&atilde;o;<br \/>\n    &eacute; preciso v&ecirc;?la mais de perto, estud&aacute;?la com mais vagar<br \/>\n    para podermos dar com seguran&ccedil;a a nossa opini&atilde;o.<\/p>\n<p> E, dito isto, l&aacute; se foram elas com os bra&ccedil;os enla&ccedil;ados,<br \/>\n    formando como longa grinalda de variegadas flores, que l&aacute; se foi serpeando<br \/>\n    perder?se entre a multid&atilde;o.<\/p>\n<h2><a name=\"11\" id=\"11\">Capitulo 11<\/a><\/h2>\n<p>&Aacute;lvaro era um desses privilegiados, sobre quem a natureza e a fortuna<br \/>\n    parece terem querido despejar &agrave; porfia todo o cofre de seus favores.<br \/>\n    Filho &uacute;nico de uma distinta e opulenta fam&iacute;lia, na idade de<br \/>\n    vinte e cinco anos, era &oacute;rf&atilde;o de pai e m&atilde;e, e senhor<br \/>\n    de uma fortuna de cerca de dois mil contos.<\/p>\n<p> Era de estatura regular, esbelto, bem feito e belo, mais pela nobre e simp&aacute;tica<br \/>\n    express&atilde;o da fisionomia do que pelos tra&ccedil;os f&iacute;sicos,<br \/>\n    que entretanto n&atilde;o eram irregulares. Posto que n&atilde;o tivesse o<br \/>\n    esp&iacute;rito muito cultivado, era dotado de entendimento l&uacute;cido<br \/>\n    e robusto, pr&oacute;prio a elevar?se &agrave; esfera das mais transcendentes<br \/>\n    concep&ccedil;&otilde;es. Tendo conclu&iacute;do os preparat&oacute;rios,<br \/>\n    como era fil&oacute;sofo, que pesava gravemente as coisas, ponderando que<br \/>\n    a fortuna de que pelo acaso do nascimento era senhor, por outro acaso lhe<br \/>\n    podia ser tirada, quis para ter uma profiss&atilde;o qualquer, dedicar?se<br \/>\n    ao estudo do Direito. No primeiro ano, enquanto pairava pelas altas regi&otilde;es<br \/>\n    da filosofia do direito, ainda achou algum prazer nos estudos acad&ecirc;micos;<br \/>\n    mas quando teve de embrenhar?se no intrincado labirinto dessa &aacute;rida<br \/>\n    e enfadonha casu&iacute;stica do direito positivo, seu esp&iacute;rito eminentemente<br \/>\n    sint&eacute;tico recuou enfastiado, e n&atilde;o teve &acirc;nimo de prosseguir<br \/>\n    na senda encetada. Alma original, cheia de grandes e generosas aspira&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    aprazia?se mais na indaga&ccedil;&atilde;o das altas quest&otilde;es pol&iacute;ticas<br \/>\n    e sociais, em sonhar brilhantes utopias, do que em estudar e interpretar leis<br \/>\n    e institui&ccedil;&otilde;es, que pela maior parte, em sua opini&atilde;o,<br \/>\n    s&oacute; tinham por base erros e preconceitos os mais absurdos.<\/p>\n<p> Tinha &oacute;dio a todos os privil&eacute;gios e distin&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sociais, e &eacute; escusado dizer que era liberal, republicano e quase socialista.<\/p>\n<p> Com tais id&eacute;ias &Aacute;lvaro n&atilde;o podia deixar de ser abolicionista<br \/>\n    exaltado, e n&atilde;o o era s&oacute; em palavras. Consistindo em escravos<br \/>\n    uma n&atilde;o pequena por&ccedil;&atilde;o da heran&ccedil;a de seus pais,<br \/>\n    tratou logo de emancip&aacute;?los todos. Como por&eacute;m &Aacute;lvaro<br \/>\n    tinha um esp&iacute;rito nimiamente filantr&oacute;pico, conhecendo quanto<br \/>\n    &eacute; perigoso passar bruscamente do estado de absoluta submiss&atilde;o<br \/>\n    para o gozo da plena liberdade, organizou para os seus libertos em uma de<br \/>\n    suas fazendas uma esp&eacute;cie de col&ocirc;nia, cuja dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    confiou a um probo e zeloso administrador. Desta medida podiam resultar grandes<br \/>\n    vantagens para os libertos, para a sociedade, e para o pr&oacute;prio &Aacute;lvaro.<\/p>\n<p> A fazenda lhes era dada para cultivar, a t&iacute;tulo de arrendamento,<br \/>\n    e eles sujeitando?se a uma esp&eacute;cie de disciplina comum, n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; preservavam?se de entregar?se &agrave; ociosidade, ao v&iacute;cio<br \/>\n    e ao crime, tinham segura a subsist&ecirc;ncia e podiam adquirir algum pec&uacute;lio,<br \/>\n    como tamb&eacute;m poderiam indenizar a &Aacute;lvaro do sacrif&iacute;cio,<br \/>\n    que fizera com a sua emancipa&ccedil;&atilde;o. Original e exc&ecirc;ntrico<br \/>\n    como um rico lorde ingl&ecirc;s, professava em seus costumes a pureza e severidade<br \/>\n    de um quaker. Todavia, como homem de imagina&ccedil;&atilde;o viva e cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    impression&aacute;vel, n&atilde;o deixava de amar os prazeres, o luxo, a eleg&acirc;ncia,<br \/>\n    e sobretudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal,<br \/>\n    pr&oacute;prios das almas elevadas e dos cora&ccedil;&otilde;es bem formados.<\/p>\n<p> Entretanto, &Aacute;lvaro ainda n&atilde;o havia encontrado at&eacute; ali<br \/>\n    a mulher que lhe devia tocar o cora&ccedil;&atilde;o, a encarna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do tipo ideal, que lhe sorria nos sonhos vagos de sua po&eacute;tica imagina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Com t&atilde;o excelentes e brilhantes predicados, &Aacute;lvaro por certo<br \/>\n    devia ser objeto de grande preocupa&ccedil;&atilde;o no mundo elegante, e<br \/>\n    talvez o almejo secreto, que fazia palpitar o cora&ccedil;&atilde;o de mais<br \/>\n    de uma ilustre e formosa donzela. Ele, por&eacute;m, igualmente cort&ecirc;s<br \/>\n    e am&aacute;vel para com todas, por nenhuma delas ainda havia dado o m&iacute;nimo<br \/>\n    sinal de predile&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Pode?se fazer id&eacute;ia do desencanto, do assombro, da terr&iacute;vel<br \/>\n    decep&ccedil;&atilde;o que reinou nos c&iacute;rculos das belas pernambucanas<br \/>\n    ao verem o vivo interesse e solicitude de que &Aacute;lvaro rodeava uma obscura<br \/>\n    e pobre mo&ccedil;a; a defer&ecirc;ncia com que a tratava, e os entusi&aacute;sticos<br \/>\n    elogios que sem rebu&ccedil;o lhe prodigalizava. Juno e Palas n&atilde;o ficaram<br \/>\n    t&atilde;o despeitadas, quando o formoso P&aacute;ris conferiu a V&ecirc;nus<br \/>\n    o pr&ecirc;mio da formosura.<\/p>\n<p> J&aacute; antes daquele sarau, &Aacute;lvaro em alguns c&iacute;rculos de<br \/>\n    senhoras havia falado de Elvira em termos t&atilde;o lisonjeiros e mesmo com<br \/>\n    certa eloqu&ecirc;ncia apaixonada, que a todas surpreendeu e inquietou. As<br \/>\n    mo&ccedil;as ardiam por ver aquele prot&oacute;tipo de beleza, e j&aacute;<br \/>\n    de antem&atilde;o choviam sobre a desconhecida e o seu campe&atilde;o mil<br \/>\n    chascos e malignos apodos. Quando, por&eacute;m, a viram, apesar dos contrafeitos<br \/>\n    e desdenhosos sornsos que apenas lhes ro&ccedil;avam a flor dos l&aacute;bios,<br \/>\n    sentiram uma desagrad&aacute;vel impress&atilde;o pungir?lhes no &iacute;ntimo<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o. Pe&ccedil;o perd&atilde;o &agrave;s belas, de minha<br \/>\n    rude franqueza; a vaidade &eacute;, com bem raras exce&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    companheira insepar&aacute;vel da beleza e onde se acha a vaidade, a inveja,<br \/>\n    que sempre a acompanha mais ou menos de perto, n&atilde;o se faz esperar por<br \/>\n    muito tempo. A beleza da desconhecida era incontest&aacute;vel; sua mod&eacute;stia<br \/>\n    e timidez em nada prejudicavam a singela e nativa eleg&acirc;ncia de que era<br \/>\n    dotada; o traje simples e mesmo pobre em rela&ccedil;&atilde;o ao luxo suntuoso,<br \/>\n    que a rodeava assentava?lhe maravilhosamente, e real&ccedil;ava?lhe ainda<br \/>\n    mais os encantos naturais. O efeito deslumbrante, que Elvira produziu logo<br \/>\n    ao primeiro aspecto, e o empenho com que &Aacute;lvaro procurava fazer sobressaltar<br \/>\n    os sedutores atrativos de Elvira, como de prop&oacute;sito para eclipsar as<br \/>\n    outras belezas do sal&atilde;o, eram de sobejo para irritar?lhes a vaidade<br \/>\n    e o amor?pr&oacute;prio. Uma e outra deviam ser naquela noite o alvo de mil<br \/>\n    olhares desdenhosos, de mil sorrisos zombeteiros, e acerados epigramas.<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro nem dava f&eacute; da mal disfar&ccedil;ada hostilidade com<br \/>\n    que ele e a sua protegida, &#8211; podemos dar?lhe esse nome, &#8211; eram acolhidos naquela<br \/>\n    reuni&atilde;o; mas a t&iacute;mida e modesta Elvira, que em parte alguma<br \/>\n    encontrava lhaneza e cordialidade, achava?se mal naquela atmosfera de fingida<br \/>\n    amabilidade e cortesania, e em cada olhar via um esc&aacute;rnio desdenhoso,<br \/>\n    em cada sorriso um sarcasmo.<\/p>\n<p> J&aacute; sabemos quem era &Aacute;lvaro; agora travemos conhecimento com<br \/>\n    o seu amigo, o Dr. Geraldo.<\/p>\n<p> Era um homem de trinta anos; bacharel em Direito e advogado altamente conceituado<br \/>\n    no foro do Recife. Entre as rela&ccedil;&otilde;es de &Aacute;lvaro era a<br \/>\n    que cultivava com mais afeto e intimidade; uma intelig&ecirc;ncia de bom quilate,<br \/>\n    firme e esclarecida, um car&aacute;ter sincero, franco e cheio de nobreza,<br \/>\n    davam?lhe direito a essa predile&ccedil;&atilde;o da parte de &Aacute;lvaro.<br \/>\n    Seu esp&iacute;rito pr&aacute;tico e positivo, como deve ser o de um consumado<br \/>\n    jurisconsulto, prestando o maior respeito &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e mesmo a todos os preconceitos e caprichos da sociedade, estava em completo<br \/>\n    antagonismo com as id&eacute;ias exc&ecirc;ntricas e reformistas de seu amigo;<br \/>\n    mas esse antagonismo, longe de perturbar ou arrefecer a rec&iacute;proca estima<br \/>\n    e afei&ccedil;&atilde;o, que entre eles reinava, servia antes para aliment&aacute;?las<br \/>\n    e fortalec&ecirc;?las, quebrando a monotonia que deve reinar nas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de duas almas sempre acordes e un&iacute;ssonas em tudo. Estas tais por fim<br \/>\n    de contas, vendo que o que uma pensa, a outra tamb&eacute;m pensa, o que uma<br \/>\n    quer, a outra igualmente quer, e que nada t&ecirc;m a se comunicarem, enjoadas<br \/>\n    de tanto se dizerem &#8211; am&eacute;m, &#8211; ver?se?&atilde;o for&ccedil;adas a recolherem?se<br \/>\n    ao sil&ecirc;ncio e a dormitarem uma em face da outra; pl&aacute;cida, c&ocirc;moda<br \/>\n    e sonolenta amizade!&#8230; De mais, a contrariedade de tend&ecirc;ncias e opini&otilde;es<br \/>\n    s&atilde;o sempre de grande utilidade entre amigos, modificando?se e temperando?se<br \/>\n    umas pelas outras.<\/p>\n<p> &Eacute; assim que muitas vezes o positivismo e o senso pr&aacute;tico do<br \/>\n    Dr. Geraldo serviam de corretivo &agrave;s utopias e exalta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de &Aacute;lvaro, e vice?versa.<\/p>\n<p> Da boca do pr&oacute;prio &Aacute;lvaro j&aacute; ouvimos por que acaso<br \/>\n    veio ele conhecer D. Elvira, e como conseguiu lev&aacute;?la ao sarau, a que<br \/>\n    ainda continuamos a assistir.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai, &#8211; dizia uma jovem senhora a um homem respeit&aacute;vel, em cujo<br \/>\n    bra&ccedil;o se arrimava, entrando na ante?sala, onde ainda nos conservamos<br \/>\n    de observa&ccedil;&atilde;o. &#8211; Meu pai, fiquemos por aqui um pouco nesta sala,<br \/>\n    enquanto est&aacute; deserta. Ah! meu Deus! &#8211; continuou ela com voz abafada,<br \/>\n    depois de se terem sentado junto um do outro; &#8211; que vim eu aqui fazer, eu<br \/>\n    pobre escrava, no meio dos saraus dos ricos e dos fidalgos!&#8230; este luxo,<br \/>\n    estas luzes, estas homenagens, que me rodeiam, me perturbam os sentidos e<br \/>\n    causam?me vertigem. &Eacute; um crime que cometo, envolvendo?me no meio de<br \/>\n    t&atilde;o luzida sociedade; &eacute; uma trai&ccedil;&atilde;o, meu pai;<br \/>\n    eu o conhe&ccedil;o, e sinto remorsos&#8230; Se estas nobres senhoras adivinhassem<br \/>\n    que ao lado delas diverte?se e dan&ccedil;a uma miser&aacute;vel escrava fugida<br \/>\n    a seus senhores!&#8230; Escrava! &#8211; exclamou levantando?se &#8211; escrava!&#8230;<\/p>\n<p> afigura?se?me que todos est&atilde;o lendo, gravada em letras negras em<br \/>\n    minha fronte, esta sinistra palavra!&#8230; fujamos daqui, meu pai, fujamos! esta<br \/>\n    sociedade parece estar escarnecendo de mim; este ar me sufoca&#8230; fujamos.<\/p>\n<p> Falando assim a mo&ccedil;a, p&aacute;lida e ofegante, lan&ccedil;ava a<br \/>\n    cada frase olhares inquietos em roda de si, e empuxava o bra&ccedil;o de seu<br \/>\n    pai, repetindo sempre com ansiosa sofreguid&atilde;o: &#8211; Vamo?nos, meu pai;<br \/>\n    fujamos daqui.<\/p>\n<p> &#8211; Sossega teu cora&ccedil;&atilde;o, minha filha, &#8211; respondeu o velho procurando<br \/>\n    acalm&aacute;?la. &#8211; Aqui ningu&eacute;m absolutamente pode suspeitar quem<br \/>\n    tu &eacute;s. Como poder&atilde;o desconfiar que &eacute;s uma escrava, se<br \/>\n    de todas essas lindas e nobres senhoras nem pela formosura, nem pela gra&ccedil;a<br \/>\n    e prendas do espirito nenhuma pode levar?te a palma? &#8211; Tanto pior, meu pai;<br \/>\n    sou alvo de todas as aten&ccedil;&otilde;es, e esses olhares curiosos, que<br \/>\n    de todos os cantos se dirigem sobre mim, fazem-me a cada instante estremecer;<br \/>\n    desejaria at&eacute; que a terra se abrisse debaixo de meus p&eacute;s, e<br \/>\n    me sumisse em seu seio.<\/p>\n<p> &#8211; Deixa?te dessas id&eacute;ias; esse teu medo e acanhamento &eacute; que<br \/>\n    poderiam nos p&ocirc;r a perder, se acaso houvesse o mais leve motivo de receio.<br \/>\n    Ostenta com desembara&ccedil;o todos os seus encantos e habilidades, dan&ccedil;a,<br \/>\n    canta, conversa, mostra?te alegre e satisfeita, que longe de te suporem uma<br \/>\n    escrava, s&atilde;o capazes de pensar que &eacute;s uma princesa.<\/p>\n<p> Toma &acirc;nimo, minha filha, ao menos por hoje; esta tamb&eacute;m, assim<br \/>\n    como &eacute; a primeira, ser&aacute; a derradeira vez que passaremos por<br \/>\n    este constrangimento; n&atilde;o nos &eacute; poss&iacute;vel ficar por mais<br \/>\n    tempo nesta terra, onde come&ccedil;amos a despertar suspeitas.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, meu pai!&#8230; que fatalidade!&#8230; &#8211; respondeu a mo&ccedil;a<br \/>\n    com uma triste oscila&ccedil;&atilde;o de cabe&ccedil;a. &#8211; Assim pois estamos<br \/>\n    condenados a vagar de pais em pa&iacute;s, sequestrados da sociedade, vivendo<br \/>\n    no mist&eacute;rio, e estremecendo a todo instante, como se o c&eacute;u nos<br \/>\n    tivesse marcado com um ferrete de maldi&ccedil;&atilde;o!&#8230; ah! esta partida<br \/>\n    h&aacute; de me doer bem no cora&ccedil;&atilde;o!&#8230; n&atilde;o sei que encanto<br \/>\n    me prende a este lugar. Entretanto, terei de dizer adeus eterno a&#8230; esta<br \/>\n    terra, onde gozei alguns dias de prazer e tranq&uuml;ilidade! Ah! meu Deus!&#8230;<br \/>\n    quem sabe se n&atilde;o teria sido melhor morrer entre os tormentos da escravid&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p> Neste momento entrava &Aacute;lvaro na ante?sala percorrendo?a com os olhos,<br \/>\n    como quem procurava algu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; Onde se sumiriam? &#8211; vinha ele murmurando; &#8211; teriam tido a triste lembran&ccedil;a<br \/>\n    de se irem embora?&#8230; oh! n&atilde;o; felizmente ei?los ali! &#8211; exclamou alegremente,<br \/>\n    dando com os olhos nos dois personagens que acabamos de ouvir conversar. &#8211;<br \/>\n    D. Elvira, V. Ex.&ordf;. &eacute; modesta demais; vem esconder?se neste recanto,<br \/>\n    quando devia estar brilhando no sal&atilde;o, onde todos suspiram pela sua<br \/>\n    presen&ccedil;a. Deixe isso para as t&iacute;midas e fanadas violetas; &agrave;<br \/>\n    rosa compete alardear em plena luz todos os seus encantos.<\/p>\n<p> &#8211; Desculpe?me, &#8211; murmurou Isaura &#8211; uma pobre mo&ccedil;a criada como eu<br \/>\n    na solid&atilde;o da ro&ccedil;a, e que n&atilde;o est&aacute; acostumada<br \/>\n    a t&atilde;o espl&ecirc;ndidas reuni&otilde;es, sente?se abafada e constrangida&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Oh! n&atilde;o&#8230; h&aacute; de acostumar?se, eu espero. As luzes, o esplendor,<br \/>\n    as harmonias, os perfumes, constituem a atmosfera em que deve brilhar a beleza,<br \/>\n    que Deus criou para ser vista e admirada. Vim busc&aacute;?la a pedido de<br \/>\n    alguns cavalheiros, que j&aacute; s&atilde;o admiradores de V. Ex.&ordf;.<br \/>\n    Para interromper a monotonia das valsas e quadrilhas, costumam aqui as senhoras<br \/>\n    encantar?nos os ouvidos com alguma can&ccedil;&atilde;o, &aacute;ria, modinha,<br \/>\n    ou seja o que for. Algumas pessoas a quem eu disse, &#8211; perdoe?me a indiscri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    filha do entusiasmo &#8211; que V. Ex.&ordf; possui a mais linda voz, e canta com<br \/>\n    maestria, mostram o mais vivo desejo de ouvi?la.<\/p>\n<p> &#8211; Eu, senhor &Aacute;lvaro!&#8230; eu cantar diante de uma t&atilde;o luzida<br \/>\n    reuni&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p> por favor, queira dispensar?me dessa nova prova. &Eacute; em seu pr&oacute;prio<br \/>\n    interesse que lhe digo; canto mal, sou muito acanhada, e estou certa que irei<br \/>\n    solenemente desmenti?lo. Poupe?nos a n&oacute;s ambos essa vergonha.<\/p>\n<p> &#8211; S&atilde;o desculpas, que n&atilde;o posso aceitar, porque j&aacute; a<br \/>\n    ouvi cantar, e creia?me, D. Elvira, se eu n&atilde;o tivesse a certeza de<br \/>\n    que a senhora canta admiravelmente, n&atilde;o seria capaz de exp&ocirc;?la<br \/>\n    a um fiasco. Quem canta como V. Ex.&ordf; n&atilde;o deve acanhar?se, e eu<br \/>\n    por minha parte pe&ccedil;o?lhe encarecidamente que n&atilde;o cante outra<br \/>\n    coisa, sen&atilde;o aquela maviosa can&ccedil;&atilde;o da escrava, que outro<br \/>\n    dia a surpreendi cantando, e afian&ccedil;o a V. Ex.&ordf; que arrebatar&aacute;<br \/>\n    os ouvintes.<\/p>\n<p> &#8211; Por que raz&atilde;o n&atilde;o pode ser outra? essa desperta?me recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    t&atilde;o tristes&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E &eacute; talvez por isso mesmo, que &eacute; t&atilde;o linda nos l&aacute;bios<br \/>\n    de V. Ex.&ordf;.<\/p>\n<p> &#8211; Ai! triste de mim! &#8211; suspirou dentro da alma D. Elvira: &#8211; aqueles mesmos<br \/>\n    que mais me amam, tomam?se, sem o saber, os meus algozes!&#8230;<\/p>\n<p> Elvira bem quisera escusar?se a todo transe; cantar naquela ocasi&atilde;o<br \/>\n    era para ela o mais penoso dos sacrif&iacute;cios. Mas n&atilde;o lhe era<br \/>\n    mais poss&iacute;vel relutar, e lembrando?se do judicioso conselho de seu<br \/>\n    pai, n&atilde;o quis mais ver?se rogada, e aceitando o bra&ccedil;o que &Aacute;lvaro<br \/>\n    lhe oferecia, foi por ele conduzida ao piano, onde sentou?se com a gra&ccedil;a<br \/>\n    e eleg&acirc;ncia de quem se acha completamente familiarizada com o instrumento.<\/p>\n<p> Uma multid&atilde;o de cabe&ccedil;as curiosas, e de cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    palpitando na mais ansiosa expecta&ccedil;&atilde;o, se apinharam em volta<br \/>\n    do piano; os cavalheiros estavam ansiosos por saberem se a voz daquela mulher<br \/>\n    correspondia &agrave; sua extraordin&aacute;ria beleza; se a fada seria tamb&eacute;m<br \/>\n    uma sereia; as mo&ccedil;as esperavam, que ao menos naquele terreno, teriam<br \/>\n    o prazer de ver derrotada a sua formid&aacute;vel &ecirc;mula, e j&aacute;<br \/>\n    contavam compar&aacute;?la com o pav&atilde;o da f&aacute;bula, queixando?se<br \/>\n    a Juno que, o tendo formado a mais bela das aves, n&atilde;o lhe dera outra<br \/>\n    voz mais que um guincho &aacute;spero e desagrad&aacute;vel.<\/p>\n<p>A conjuntura era delicada e solene; a mo&ccedil;a achava?se na dif&iacute;cil<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o de uma prima?dona, que, precedida de uma grande reputa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    faz a sua estr&eacute;ia perante um p&uacute;blico exigente e ilustrado. Em<br \/>\n    tomo dela fazia?se profundo sil&ecirc;ncio; as respira&ccedil;&otilde;es estavam<br \/>\n    como que suspensas, ao passo que parecia ouvir?se o palpitar de todos os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    no ofego da expecta&ccedil;&atilde;o. &Aacute;lvaro, apesar de conhecer j&aacute;<br \/>\n    a excel&ecirc;ncia da voz de Elvira e sua maestria no canto, n&atilde;o deixava<br \/>\n    de mostrar?se inquieto e comovido. Elvira por sua parte pouco se importaria<br \/>\n    de cantar bem ou mal; desejaria at&eacute; passar pela mo&ccedil;a a mais<br \/>\n    feia, a mais desengra&ccedil;ada e a mais tola daquela reuni&atilde;o, contanto<br \/>\n    que a deixassem a um canto esquecida e sossegada. Dir?se?ia que estava debaixo<br \/>\n    do imp&eacute;rio de algum terr&iacute;vel pressentimento. Mas Elvira amava<br \/>\n    a &Aacute;lvaro, e grata ao delicado empenho, com que este, cheio de solicitude<br \/>\n    e entusiasmo, se esfor&ccedil;ava por apresent&aacute;?la como um prot&oacute;tipo<br \/>\n    de beleza e de talento aos olhos daquela brilhante sociedade, para satisfaz&ecirc;?lo,<br \/>\n    e n&atilde;o desmentir a lisonjeira opini&atilde;o, que propalara a respeito<br \/>\n    dela, desejava cantar o melhor que lhe fosse poss&iacute;vel. Era ao triunfo<br \/>\n    de &Aacute;lvaro que aspirava mais do que ao seu pr&oacute;prio.<\/p>\n<p> Uma vez sentada ao piano, logo que seus dedos mimosos e flex&iacute;veis,<br \/>\n    pousando sobre o teclado, preludiaram alguns singelos acordes, a mo&ccedil;a<br \/>\n    sentiu?se outra, revelando aos circunstantes maravilhados um novo e original<br \/>\n    aspecto de sua formosura. A fisionomia, cuja express&atilde;o habitual era<br \/>\n    toda mod&eacute;stia, ingenuidade e candura, animou?se de luz ins&oacute;lita;<br \/>\n    o busto admiravelmente cinzelado, ergueu?se altaneiro e majestoso; os olhos<br \/>\n    ext&aacute;ticos al&ccedil;avam?se cheios de esplendor e serenidade; os seios,<br \/>\n    que at&eacute; ali apenas arfavam como as ondas de um lago em tranq&uuml;ila<br \/>\n    noite de luar, come&ccedil;aram de ofegar, t&uacute;rgidos e agitados, como<br \/>\n    oceano encapelado; seu colo distendeu?se alvo e esbelto como o do cisne que<br \/>\n    se apresta a desprender os divinais gorjeios. Era o sopro da inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    art&iacute;stica, que, ro&ccedil;ando?lhe pela fronte, a transformava em sacerdotisa<br \/>\n    do belo, em int&eacute;rprete inspirada das harmonias do c&eacute;u. Ali sentia?se<br \/>\n    ela rainha sobre seu trono ideal; ali era Cal&iacute;ope sentada sobre a tripo<br \/>\n    de sagrada, avassalando o mundo ao som de enlevadoras e inef&aacute;veis harmonias.<br \/>\n    Das pr&oacute;prias inquieta&ccedil;&otilde;es e ang&uacute;stias da alma<br \/>\n    soube ela tirar alento e inspira&ccedil;&atilde;o para vencer as dificuldades<br \/>\n    da &aacute;rdua situa&ccedil;&atilde;o em que se achava empenhada. Banhou<br \/>\n    os l&aacute;bios com as l&aacute;grimas do cora&ccedil;&atilde;o, e a voz<br \/>\n    lhe rompeu do peito com t&atilde;o original e arrebatadora vibra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    em modula&ccedil;&otilde;es t&atilde;o puras e suaves, t&atilde;o repassadas<br \/>\n    de sublime melancolia, que mais de uma l&aacute;grima viu?se rolar pelas faces<br \/>\n    dos freq&uuml;entadores daquele templo dos prazeres, dos risos, e da frivolidade!<br \/>\n    Elvira acabava de alcan&ccedil;ar um triunfo colossal. Mal terminara o canto,<br \/>\n    o sal&atilde;o restrugiu entre os mais estrondosos aplausos, e parecia que<br \/>\n    vinha desabando ao ru&iacute;do atordoador das palmas e dos vivas! A fada<br \/>\n    de &Aacute;lvaro &eacute; tamb&eacute;m uma sereia; &#8211; dizia o Dr. Geraldo<br \/>\n    a um dos cavalheiros, em cuja companhia j&aacute; o vimos. &#8211; Resume tudo em<br \/>\n    si&#8230; que timbre de voz t&atilde;o puro e t&atilde;o suave; julguei?me arrebatado<br \/>\n    ao s&eacute;timo c&eacute;u, ouvindo as harmonias dos coros ang&eacute;licos.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; uma consumada artista&#8230; no teatro faria esquecer a Malibran,<br \/>\n    e conquistaria reputa&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia. &Aacute;lvaro tem<br \/>\n    raz&atilde;o; uma criatura assim n&atilde;o pode ser uma mulher ordin&aacute;ria,<br \/>\n    e muito menos uma aventureira&#8230; A m&uacute;sica dando o sinal para a quadrilha,<br \/>\n    interrompe a conversa&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o n&ocirc;?la deixa ouvir.<\/p>\n<p> &#8211; D. Elvira, &#8211; diz &Aacute;lvaro dirigindo?se &agrave; sua protegida, que<br \/>\n    j&aacute; se achava sentada ao p&eacute; de seu pai, &#8211; lembre?se, que me fez<br \/>\n    a honra de conceder?me esta quadrilha.<\/p>\n<p> Elvira esfor&ccedil;ou?se por sorrir e combater o terr&iacute;vel abatimento,<br \/>\n    que ao deixar o piano de novo se apoderara de seu esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Tomou o bra&ccedil;o de &Aacute;lvaro, e ambos foram ocupar o seu lugar<br \/>\n    na quadrilha.<\/p>\n<h2><a name=\"12\" id=\"12\"> Capitulo 12<\/a><\/h2>\n<p>Agora os leitores j&aacute; sabem, se &eacute; que h&aacute; mais tempo n&atilde;o<br \/>\n    adivinharam, que a suposta Elvira n&atilde;o &eacute; mais do que A Escrava<br \/>\n    Isaura, assim como Anselmo n&atilde;o passa do feitor Miguel, ambos os quais<br \/>\n    s&atilde;o j&aacute; nossos conhecidos antigos. Como tamb&eacute;m sabem que<br \/>\n    Isaura n&atilde;o s&oacute; era dotada de esp&iacute;rito superior, como tamb&eacute;m<br \/>\n    recebera a mais fina e esmerada educa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o lhe estranharam<br \/>\n    a distin&ccedil;&atilde;o das maneiras, a eleg&acirc;ncia e eleva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da linguagem, e outros dotes, que faziam com que essa escrava excepcional<br \/>\n    pudesse aparecer e mesmo brilhar no meio da mais luzida e aristocr&aacute;tica<br \/>\n    sociedade.<\/p>\n<p> Foi a situa&ccedil;&atilde;o desesperada, em que via sua querida filha,<br \/>\n    que inspirou a Miguel o expediente extremo de uma fuga precipitada, exposta<br \/>\n    a mil azares e perigos. Lembrava?se ele com horror do miserando destino de<br \/>\n    que em iguais circunst&acirc;ncias fora v&iacute;tima a m&atilde;e de Isaura,<br \/>\n    e bem sabia que Le&ocirc;ncio, t&atilde;o desalmado como o pai, e ainda mais<br \/>\n    corrupto e libertino, era capaz de excessos e atentados ainda maiores.<\/p>\n<p> Tendo perdido a esperan&ccedil;a de libertar a filha, entendeu que podia<br \/>\n    utilizar?se da soma, que para esse fim tinha agenciado, empregando?a em arrancar<br \/>\n    a pobre vitima das m&atilde;os do algoz, por qualquer meio que fosse.<\/p>\n<p> Bem via que aos olhos do mundo tirar uma escrava da casa de seus senhores,<br \/>\n    e proteger?lhe a fuga, al&eacute;m de ser um crime, era um ato desairoso e<br \/>\n    indigno de um homem de bem; mas a escrava era uma filha idolatrada, e uma<br \/>\n    p&eacute;rola de pureza, prestes a ser polu&iacute;da ou esmagada pela m&atilde;o<br \/>\n    de um senhor verdugo, e esta considera&ccedil;&atilde;o o justificava aos<br \/>\n    olhos da pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Bem se lembrara o infeliz pai de dar den&uacute;ncia do fato &agrave;s autoridades,<br \/>\n    implorando a prote&ccedil;&atilde;o das leis em favor de sua filha para que<br \/>\n    n&atilde;o fosse vitima das viol&ecirc;ncias e sev&iacute;cias de seu dissoluto<br \/>\n    e brutal senhor. Mas todos a quem consultava respondiam?lhe a uma voz: &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    se meta em tal; &eacute; tempo perdido. As autoridades nada t&ecirc;m que<br \/>\n    ver com o que se passa no interior da casa dos ricos. N&atilde;o caia nessa;<br \/>\n    muito feliz ser&aacute;, se somente tiver de pagar as custas, e n&atilde;o<br \/>\n    lhe arrumarem por cima algum processo, com que tenha de ir dar com os costados<br \/>\n    na cadeia. &#8211; Onde se viu o pobre ter raz&atilde;o contra o rico, o fraco contra<br \/>\n    o forte?&#8230;<\/p>\n<p> Miguel entretinha rela&ccedil;&otilde;es ocultas com alguns dos antigos<br \/>\n    escravos da fazenda de Le&ocirc;ncio, os quais, lembrando?se ainda com saudades<br \/>\n    do tempo de sua boa administra&ccedil;&atilde;o, conservavam?lhe o mesmo respeito<br \/>\n    e afei&ccedil;&atilde;o, e por meio deles tinha exata informa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que se passava na fazenda. Sabendo dos cru&eacute;is apuros a que sua filha<br \/>\n    se achava reduzida depois da morte do comendador, n&atilde;o hesitou mais<br \/>\n    um instante, e tratou de tomar todas as provid&ecirc;ncias e medidas de seguran&ccedil;a<br \/>\n    para roubar a filha, e p&ocirc;?la fora do alcance de seu b&aacute;rbaro senhor.<br \/>\n    Na mesma madrugada, que seguiu?se &agrave; tarde, em que a raptou, fazia?se<br \/>\n    de vela com Isaura para as prov&iacute;ncias do Norte em um navio negreiro,<br \/>\n    de que era capit&atilde;o um portugu&ecirc;s, antigo e dedicado amigo seu.<br \/>\n    Este chegando &agrave;s alturas de Pernambuco, como da&iacute; tinha de singrar<br \/>\n    para a costa da &Aacute;frica, largou?os no Recife, prometendo?lhes que dentro<br \/>\n    em tr&ecirc;s ou quatro meses estaria de volta e pronto a conduzi?los para<br \/>\n    onde quisessem.<\/p>\n<p> Miguel que em sua profiss&atilde;o de jardineiro ou de feitor havia passado<br \/>\n    a vida desde a inf&acirc;ncia dentro de um horizonte acanhado e em c&iacute;rculo<br \/>\n    mui limitado de rela&ccedil;&oacute;es, tinha pouco conhecimento e nenhuma<br \/>\n    experi&ecirc;ncia do mundo, e portanto n&atilde;o podia calcular todas as<br \/>\n    conseq&uuml;&ecirc;ncias da dif&iacute;cil posi&ccedil;&atilde;o em que ia<br \/>\n    colocar a si e a sua filha. Durante os longos anos que esteve feitorando a<br \/>\n    fazenda do comendador e de outros, n&atilde;o se dera sen&atilde;o uma ou<br \/>\n    outra fuga insignificante de escravos, por alguns dias e para alguma fazenda<br \/>\n    vizinha, e, portanto, n&atilde;o &eacute; para admirar que ele quase completamente<br \/>\n    ignorasse a amplitude dos direitos, que tem um senhor sobre o escravo, e os<br \/>\n    infinitos meios e recursos de que pode lan&ccedil;ar m&atilde;o para captur&aacute;?los<br \/>\n    em caso de fuga. Entendeu, pois, que em Pernambuco poderia viver com sua filha<br \/>\n    em plena seguridade, ao menos por tr&ecirc;s ou quatro meses, uma vez que<br \/>\n    se afastassem da sociedade o mais que pudessem, e procurassem esconder sua<br \/>\n    vida na mais completa obscuridade.<\/p>\n<p> Isaura tamb&eacute;m, se bem que tivesse o esp&iacute;rito mais atilado<br \/>\n    e esclarecido, longe do objeto principal de seu terror e avers&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    deixava de sentir?se tranq&uuml;ila, e at&eacute; certo ponto descuidosa dos<br \/>\n    perigos a que vivia exposta. Mas essa tal ou qual tranquilidade s&oacute;<br \/>\n    durou at&eacute; o dia em que pela primeira vez viu &Aacute;lvaro. Amou?o<br \/>\n    com esse amor exaltado das almas elevadas, que amam pela primeira e &uacute;nica<br \/>\n    vez, e esse amor, como bem se compreende, veio tornar ainda mais cr&iacute;tica<br \/>\n    e angustiosa a sua j&aacute; t&atilde;o prec&aacute;ria e m&iacute;sera situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Alvaro tinha na fisionomia, nas maneiras, na voz e no gesto, um n&atilde;o<br \/>\n    sei qu&ecirc; de nobre, de am&aacute;vel e profundamente simp&aacute;tico,<br \/>\n    que avassalava todos os cora&ccedil;&otilde;es. O que n&atilde;o seria ele<br \/>\n    para aquela que &uacute;nica at&eacute; ali lhe soubera conquistar o amor?<br \/>\n    Isaura n&atilde;o p&ocirc;de resistir a t&atilde;o prestigiosa sedu&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    amou?o com o ardor e entusiasmo de um cora&ccedil;&atilde;o virgem; e com<br \/>\n    a imprevid&ecirc;ncia e cegueira de uma alma de artista, embora n&atilde;o<br \/>\n    visse nesse amor mais do que uma nova fonte de l&aacute;grimas e torturas<br \/>\n    para seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Medindo o abismo que a separava de &Aacute;lvaro, bem sabia que de nenhuma<br \/>\n    esperan&ccedil;a podia alimentar?se aquela paix&atilde;o funesta, que deveria<br \/>\n    ficar para sempre sepultada no &iacute;ntimo do cora&ccedil;&atilde;o, como<br \/>\n    um cancro a devor&aacute;?lo eternamente.<\/p>\n<p> No seu c&aacute;lice de amarguras, j&aacute; quase a transbordar, tinha<br \/>\n    de receber da m&atilde;o do destino mais aquele travo cruel, que lhe devia<br \/>\n    queimar os l&aacute;bios e envenenar?lhe a exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> J&aacute; bastante lhe pesava andar enganando a sociedade a respeito de<br \/>\n    sua verdadeira condi&ccedil;&atilde;o; alma sincera e escrupulosa, envergonhava?se<br \/>\n    consigo mesma de impor &agrave;s poucas pessoas que com ela tratavam de perto,<br \/>\n    um respeito e considera&ccedil;&atilde;o a que nenhum direito podia ter. Mas<br \/>\n    considerando que de tal disfarce nenhum grande mal podia resultar &agrave;<br \/>\n    sociedade, conformava?se com sua sorte. Deveria, por&eacute;m, ela, ou poderia<br \/>\n    sem inconveniente manter o seu amante na mesma ilus&atilde;o? Com seu sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    conservando?o na ignor&acirc;ncia de sua condi&ccedil;&atilde;o de escrava,<br \/>\n    deveria deixar alimentar?se, crescer profunda e en&eacute;rgica paix&atilde;o,<br \/>\n    que o mo&ccedil;o por ela concebera?&#8230; n&atilde;o seria isto um vil embuste,<br \/>\n    uma indignidade, uma trai&ccedil;&atilde;o infame? n&atilde;o teria ele o<br \/>\n    direito, ao saber da verdade, de acabrunh&aacute;?la de amargas exprobra&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de desprez&aacute;?la, de calc&aacute;?la aos p&eacute;s, de trat&aacute;?la<br \/>\n    enfim como escrava abjeta e vil, que ficaria sendo? &#8211; Oh! isto para mim seria<br \/>\n    mais horr&iacute;vel que mil mortes! &#8211; exclamava ela no meio do angustioso<br \/>\n    embate de id&eacute;ias que se lhe agitavam no esp&iacute;rito. &#8211; N&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o devo iludi?lo; isto seria uma inf&acirc;mia&#8230; vou?lhe descobrir<br \/>\n    tudo; &eacute; esse o meu dever, e hei de cumpri?lo. Ficar&aacute; sabendo<br \/>\n    que n&atilde;o pode, que n&atilde;o deve amar?me; por&eacute;m ao menos n&atilde;o<br \/>\n    ficar&aacute; com o direito de desprezar?me.. uma escrava, que procede com<br \/>\n    lisura e lealdade, pode ao menos ser estimada. N&atilde;o; n&atilde;o devo<br \/>\n    engan&aacute;?lo; hei de revelar?lhe tudo.<\/p>\n<p> Esta era a resolu&ccedil;&atilde;o que lhe inspiravam seu natural pundonor<br \/>\n    e lealdade, e os ditames de uma consci&ecirc;ncia reta e delicada, mas quando<br \/>\n    chegava o momento de p&ocirc;?la em pr&aacute;tica fraqueava?lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    e Isaura ia diferindo de dia para dia a execu&ccedil;&atilde;o de seu prop&oacute;sito.<\/p>\n<p> Falecia?lhe de todo a coragem para quebrar por suas pr&oacute;prias m&atilde;os<br \/>\n    a doce quimera, que t&atilde;o deliciosamente a embalava, e em que &agrave;s<br \/>\n    vezes conseguia esquecer por longo tempo sua m&iacute;sera condi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    para lembrar?se somente que amava e era amada.<\/p>\n<p> &#8211; Deixemos durar mais um dia &#8211; refletia consigo. &#8211; esta ilus&oacute;ria,<br \/>\n    mas inef&aacute;vel ventura. Sou uma condenada, que arrancam da masmorra para<br \/>\n    subir ao palco e fazer por momentos o papel de rainha feliz e poderosa; quando<br \/>\n    descer, serei de novo sepultada em minha masmorra para nunca mais sair. Prolonguemos<br \/>\n    estes instantes; n&aacute;o ser&aacute; l&iacute;cito deixar passar ao menos<br \/>\n    em sonhos uma hora de felicidade sobre a fronte do infeliz condenado?&#8230; sempre<br \/>\n    ser&aacute; tempo de quebrar esta fr&aacute;gil cadeia de ouro, que me prende<br \/>\n    ao c&eacute;u, e baquear de novo no inferno de meus sofrimentos.<\/p>\n<p> Nesta indecis&atilde;o, nesta luta interna, em que sempre a voz da paix&atilde;o<br \/>\n    abafava os ditames da raz&atilde;o e da consci&ecirc;ncia, passaram?se alguns<br \/>\n    dias at&eacute; &agrave;quele, em que Alvaro os induziu por meios quase violentos<br \/>\n    a aceitarem convite para um baile. Desde ent&atilde;o Isaura entendeu que<br \/>\n    seria uma deslealdade, uma inf&acirc;mia inqualific&aacute;vel, conservar<br \/>\n    por mais tempo o seu amante na ilus&atilde;o a respeito de sua condi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e que n&atilde;o havia mais meio de prolongar, sem desdouro para eles, t&atilde;o<br \/>\n    falsa e prec&aacute;ria situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Era muito abusar da ignor&acirc;ncia do nobre e generoso mancebo! Uma escrava<br \/>\n    fugida apresentar?se em um baile, e apavonar?se em seu bra&ccedil;o &agrave;<br \/>\n    face da mais brilhante e distinta classe de uma importante capital!&#8230;<\/p>\n<p> era pagar com a mais feia ingratid&atilde;o e a mais degradante deslealdade<br \/>\n    os servi&ccedil;os, que com tanta delicadeza e amabilidade lhe havia prestado.<br \/>\n    Isto repugnava absolutamente aos escr&uacute;pulos da melindrosa consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de Isaura. &Eacute; verdade que Miguel, aterrado pelas considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que &Aacute;lvaro lhe fizera, viu?se for&ccedil;ado a anuir ao seu gracioso<br \/>\n    convite; Isaura por&eacute;m guardara absoluto sil&ecirc;ncio, o que ambos<br \/>\n    tomaram por um sinal de aquiesc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Enganavam?se. Isaura recolhida ao sil&ecirc;ncio n&atilde;o fazia mais do<br \/>\n    que tentar esfor&ccedil;os supremos para sacudir o fardo daquele disfarce,<br \/>\n    que tanto lhe pesava sobre a consci&ecirc;ncia, rasgando resolutamente o v&eacute;u<br \/>\n    que encobria aos olhos do amante sua verdadeira condi&ccedil;&atilde;o. Por<br \/>\n    mais, por&eacute;m, que invocasse toda a sua energia e resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    no momento decisivo a coragem a abandonava. J&aacute; a palavra lhe pairava<br \/>\n    pelos l&aacute;bios entreabertos, j&aacute; tinha o passo formado para ir<br \/>\n    prostrar?se aos p&eacute;s de &Aacute;lvaro, mas encontrando pousado sobre<br \/>\n    ela o olhar meigo e apaixonado do mancebo, ficava como que fascinada; a palavra<br \/>\n    n&atilde;o ousava romper os l&aacute;bios paralisados e reflu&iacute;a ao<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, e os p&eacute;s recusavam?se ao movimento como se estivessem<br \/>\n    pregados no ch&atilde;o. Isaura estava como o desgra&ccedil;ado a quem circunst&acirc;ncias<br \/>\n    fatais arrastam ao suic&iacute;dio, mas que ao chegar &agrave; borda do precip&iacute;cio<br \/>\n    medonho em que deseja arrojar?se, recua espavorido.<\/p>\n<p> &#8211; Fraca e covarde criatura que eu sou! &#8211; pensou ela por fim esmorecida:<br \/>\n    &#8211; que mis&eacute;ria! nem tenho coragem para cumprir um dever! n&atilde;o<br \/>\n    importa; para tudo h&aacute; rem&eacute;dio; cumpre que ele ou&ccedil;a da<br \/>\n    boca de meu pai, o que eu n&atilde;o tenho &acirc;nimo de dizer?lhe.<\/p>\n<p> Esta id&eacute;ia luziu?lhe no esp&iacute;rito como uma t&aacute;bua salvadora;<br \/>\n    agarrou?se a ela com sofreguid&atilde;o, e antes que de novo lhe fraqueasse<br \/>\n    o &acirc;nimo, tratou de p&ocirc;?la em execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai, &#8211; disse ela resolutamente apenas &Aacute;lvaro transp&ocirc;s<br \/>\n    o port&atilde;o do pequeno jardim, &#8211; declaro?lhe que n&atilde;o vou a esse<br \/>\n    baile; n&atilde;o quero, nem devo por forma nenhuma l&aacute; me apresentar.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o vais?! &#8211; exclamou Miguel at&ocirc;nito. &#8211; E por que n&atilde;o<br \/>\n    disseste isto h&aacute; mais tempo, quando o senhor &Aacute;lvaro ainda aqui<br \/>\n    se achava? agora que j&aacute; demos nossa palavra&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Para tudo h&aacute; rem&eacute;dio, meu pai, &#8211; atalhou a filha com febril<br \/>\n    vivacidade &#8211; e para este caso ele &eacute; bem simples. V&aacute; meu pai<br \/>\n    depressa &agrave; casa desse mo&ccedil;o, e diga?lhe o que eu n&atilde;o tive<br \/>\n    &acirc;nimo de dizer?lhe; declare?lhe quem eu sou, e est&aacute; tudo acabado.<\/p>\n<p> Dizendo isto, Isaura estava p&aacute;lida, falava com precipita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os l&aacute;bios descarados lhe tremiam, e as palavras, proferidas com voz<br \/>\n    convulsa e estridente, parecia que lhe eram arrancadas a custo do cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Era o resultado do extremo esfor&ccedil;o que fazia, para levar a efeito t&atilde;o<br \/>\n    pen&iacute;vel resolu&ccedil;&atilde;o. O pai olhava para ela com assombro<br \/>\n    e consterna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Que est&aacute;s a dizer, minha filha! &#8211; replicou?lhe ele &#8211; est&aacute;s<br \/>\n    t&atilde;o p&aacute;lida e alterada!.. parece?me que tens febre&#8230; sofres<br \/>\n    alguma coisa? &#8211; Nada sofro, meu pai; n&atilde;o se inquiete pela minha sa&uacute;de.<br \/>\n    O que eu estou lhe dizendo &eacute; que &eacute; absolutamente necess&aacute;rio<br \/>\n    que meu pai v&aacute; procurar esse mo&ccedil;o e confessar?lhe tudo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Isso nunca!&#8230; est&aacute;s louca, menina?&#8230; queres que eu te veja encerrada<br \/>\n    em uma cadeia, conduzida em ferros para a tua prov&iacute;ncia, entregue a<br \/>\n    teu senhor, e por fim ver?te morrer entre tormentos nas garras daquele monstro!<br \/>\n    oh! Isaura, por quem &eacute;s, n&atilde;o me fales mais nisso, Enquanto o<br \/>\n    sangue me girar nestas veias, enquanto me restar o mais pequenino recurso,<br \/>\n    hei de lan&ccedil;ar m&atilde;o dele para te salvar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Salvar?me por meio de uma indignidade, de uma inf&acirc;mia, meu pai!&#8230;<br \/>\n    retorquiu a mo&ccedil;a com exalta&ccedil;&atilde;o. &#8211; Como posso eu, sem<br \/>\n    cometer a mais vil deslealdade, aparecer apresentada por ele como uma senhora<br \/>\n    livre em uma sala de baile?&#8230; Quando esse senhor e tantas outras ilustres<br \/>\n    pessoas souberem que ombreou com elas, e a par delas dan&ccedil;ou uma miser&aacute;vel<br \/>\n    escrava fugida&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Cala?te, menina! &#8211; interrompeu o velho, incomodado com a exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da filha. &#8211; N&atilde;o fales assim t&atilde;o alto&#8230; tranq&uuml;iliza?te;<br \/>\n    eles nunca saber&atilde;o de nada. O mais breve que puder ser deixaremos esta<br \/>\n    terra; amanh&atilde; mesmo, se for poss&iacute;vel. Embarcaremos em qualquer<br \/>\n    paquete, e iremos para bem longe, para os Estados Unidos, por exemplo. L&aacute;,<br \/>\n    segundo me consta, poderemos ficar fora do alcance de qualquer persegui&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Eu com o meu trabalho, e tu com as tuas prendas e habilita&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    podemos viver sem sofrer necessidades em qualquer canto do mundo.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu pai! essa id&eacute;ia de irmos para t&atilde;o longe, sem esperan&ccedil;a<br \/>\n    de um dia podermos voltar, me oprime o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Que rem&eacute;dio, minha filha!.., j&aacute; agora, ainda que tenhamos<br \/>\n    de ir parar ao fim do mundo, nos &eacute; for&ccedil;oso fugir &agrave;s garras<br \/>\n    do monstro.<\/p>\n<p> &#8211; Mas esse mo&ccedil;o, que tanto se interessa por n&oacute;s, o senhor<br \/>\n    &Aacute;lvaro, nobre e generoso como &eacute;, sabendo da minha verdadeira<br \/>\n    condi&ccedil;&atilde;o, e das terr&iacute;veis circunst&acirc;ncias que nos<br \/>\n    obrigam a andar assim fugitivos e disfar&ccedil;ados pelo mundo, talvez queira<br \/>\n    e possa nos amparar e valer contra as persegui&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E quem nos afian&ccedil;a isso?&#8230; o mais certo &eacute; ele entregar?te<br \/>\n    ao desprezo, logo que saiba que n&atilde;o passas de uma escrava fugida, se,<br \/>\n    despeitado com o logro que levou, n&atilde;o for o primeiro a denunciar?te<br \/>\n    &agrave; pol&iacute;cia. No transe em que nos achamos, &eacute; de absoluta<br \/>\n    necessidade enganar a ele e a todos; se revelarmos a quem quer que seja o<br \/>\n    segredo de nossa posi&ccedil;&atilde;o, estamos perdidos. Toma coragem, e<br \/>\n    vamos ao baile, minha filha; &eacute; um sacrif&iacute;cio cruel, mas passageiro,<br \/>\n    a que devemos nos sujeitar a bem de nossa seguran&ccedil;a. Em breve estaremos<br \/>\n    longe, e se algum dia souberem quem tu eras, que nos importa? nunca mais nos<br \/>\n    ver&atilde;o o rosto, nem ouvir&atilde;o nossos nomes. Tens a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    escrupulosa em demasia. Se ignoram quem tu &eacute;s, a tua companhia em nada<br \/>\n    os pode infamar. Com isso n&atilde;o fazes mal a ningu&eacute;m; &eacute;<br \/>\n    uma medida de salva&ccedil;&atilde;o, que todos te perdoariam.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai parece que tem raz&atilde;o; mas n&atilde;o sei por que, repugna?me<br \/>\n    absolutamente ao cora&ccedil;&atilde;o dar esse passo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas &eacute; preciso d&aacute;?lo, minha filha, se n&atilde;o queres para<br \/>\n    n&oacute;s ambos a desgra&ccedil;a e a morte. Se n&atilde;o formos a esse<br \/>\n    baile, e desaparecermos de um dia para outro, como nos &eacute; for&ccedil;oso,<br \/>\n    ent&atilde;o as suspeitas que come&ccedil;amos a despertar tomar&atilde;o<br \/>\n    muito maior vulto, e a policia p&ocirc;r?se?&aacute; &agrave; nossa pista,<br \/>\n    e nos perseguir&aacute; por toda parte. &Eacute; um sacrif&iacute;cio na verdade,<br \/>\n    mas n&atilde;o ser&aacute; ele muito mais suave do que as persegui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da pol&iacute;cia, a pris&atilde;o, as torturas e a morte, que &eacute; o<br \/>\n    que podes esperar em casa de teu senhor?&#8230;<\/p>\n<p> Isaura n&atilde;o respondeu; seu esp&iacute;rito agitava?se entre as mais<br \/>\n    pungentes e amargas reflex&otilde;es.<\/p>\n<p> As palavras de seu pai a tinham abismado em glacial e profundo desalento.<br \/>\n    Aturdida por tantos golpes, sua alma debatia?se em um mar de d&uacute;vidas<br \/>\n    e perplexidades, como fr&aacute;gil barca em meio de um oceano irritado, sacudida<br \/>\n    aos bol&eacute;us por vagalh&otilde;es desencontrados.<\/p>\n<p> O grito de sua consci&ecirc;ncia escrupulosa e delicada, a lisura e sinceridade<br \/>\n    de seu cora&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o podia acomodar?se com o embuste<br \/>\n    e a mentira, e uma esp&eacute;cie de vago pressentimento que lhe pesava sobre<br \/>\n    o esp&iacute;rito, a desviavam daquele baile, e por momentos pareciam fixar<br \/>\n    definitivamente a sua resolu&ccedil;&atilde;o; e firme neste prop&oacute;sito<br \/>\n    dizia consigo mesma: &#8211; n&atilde;o, n&atilde;o irei.<\/p>\n<p> Por outro lado as considera&ccedil;&otilde;es de seu pai, que pareciam t&atilde;o<br \/>\n    razo&aacute;veis, bem como o desejo de ver &Aacute;lvaro ainda uma vez, de<br \/>\n    gozar por algumas horas a sua presen&ccedil;a, faziam?lhe de novo flutuar<br \/>\n    o esp&iacute;rito no mar das irresolu&ccedil;&otilde;es. A lembran&ccedil;a<br \/>\n    de que em breve, talvez no dia seguinte, tinha de deixar aquela terra e separar?se<br \/>\n    de &Aacute;lvaro, sem esperan&ccedil;a alguma de jamais tornar a v&ecirc;?lo,<br \/>\n    sem poder dizer?lhe um adeus, sem que ele pudesse saber quem ela era, nem<br \/>\n    para onde ia, dilacerava-lhe o cora&ccedil;&atilde;o. Partir sem ter um ente<br \/>\n    a quem apertar nos bra&ccedil;os na hora da despedida, nem ter um seio onde<br \/>\n    verter as l&aacute;grimas da mais pungente saudade; partir para levar uma<br \/>\n    vida errante e fugitiva, sem esperan&ccedil;a nem consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alguma, atrav&eacute;s de mil trabalhos e perigos, para termin&aacute;?la<br \/>\n    talvez entre os tormentos da mais atroz escravid&atilde;o, oh!&#8230;<\/p>\n<p> isto era pavoroso! &#8211; e, entretanto, era esse o &uacute;nico futuro que a<br \/>\n    pobre Isaura tinha diante dos olhos. Mas n&atilde;o; tinha ainda diante de<br \/>\n    si uma noite inteira de prazer e de ventura, uma noite espl&ecirc;ndida de<br \/>\n    baile e regozijo de seu amante, respirando o mesmo ar, inebriando?se de sua<br \/>\n    voz, bebendo o seu h&aacute;lito, recolhendo dentro d&#8217;alma seus olhares apaixonados,<br \/>\n    sentindo na sua a press&atilde;o daquela m&atilde;o adorada, contando as pulsa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    daquele cora&ccedil;&atilde;o, que s&oacute; por ela palpitava. Oh! uma noite<br \/>\n    assim valia bem uma eternidade, viessem depois embora as ang&uacute;stias<br \/>\n    e perigos, a escravid&atilde;o e a morte! C&acirc;ndida e modesta como era,<br \/>\n    nem por isso Isaura deixava de ter consci&ecirc;ncia do quanto valia. Vendo?se<br \/>\n    o objeto do amor de um jovem de esp&iacute;rito elevado, e dotado de t&atilde;o<br \/>\n    nobres e brilhantes qualidades como &Aacute;lvaro, ainda mais se confirmou<br \/>\n    na id&eacute;ia que de si mesma fazia.<\/p>\n<p> Com sua natural perspic&aacute;cia e penetra&ccedil;&atilde;o, bem depressa<br \/>\n    convenceu?se de que o afeto que o mancebo lhe consagrava n&atilde;o era simples<br \/>\n    e superficial homenagem rendida a seus encantos e talentos, nem tampouco passageiro<br \/>\n    capricho de mocidade, mas verdadeira paix&atilde;o, sincera, en&eacute;rgica<br \/>\n    e profunda. Era isso para ela motivo de um orgulho &iacute;ntimo, que a elevava<br \/>\n    a seus pr&oacute;prios olhos, e por momentos a fazia esquecer?se que era uma<br \/>\n    escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Estou convencida de que sou digna do amor de &Aacute;lvaro, sen&atilde;o,<br \/>\n    ele n&atilde;o me amaria; e se sou digna de seu amor, por que n&atilde;o o<br \/>\n    serei de me apresentar no seio da mais brilhante sociedade? A perversidade<br \/>\n    dos homens pode acaso destruir o que h&aacute; de bom e de belo na feitura<br \/>\n    do Criador? Assim refletia Isaura, e exaltada com estas id&eacute;ias e com<br \/>\n    a sedutora perspectiva de algumas horas de inef&aacute;vel ventura em companhia<br \/>\n    do amante exclamava dentro d&#8217;alma: &#8211; Hei de ir, hei de ir ao baile! Enquanto<br \/>\n    Isaura, silenciosa e com a face na m&atilde;o, se embebia em suas cismas,<br \/>\n    procurando firmar?se em uma resolu&ccedil;&atilde;o, o pai, n&atilde;o menos<br \/>\n    inquieto e preocupado, passeava distra&iacute;do entre os canteiros do jardim,<br \/>\n    aguardando com ansiedade uma resposta definitiva de sua filha.<\/p>\n<p> &#8211; Irei, meu pai, irei ao baile, &#8211; disse ela por fim levantando?se, mas vou<br \/>\n    preparar?me para ele como a v&iacute;tima que tem de ser conduzida ao sacrif&iacute;cio<br \/>\n    entre c&acirc;nticos e flores. Tenho um cruel pressentimento, que me acabrunha&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pressentimento de qu&ecirc;, Isaura?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei, meu pai; de alguma desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Pois quanto a mim, Isaura, o cora&ccedil;&atilde;o como que est&aacute;?me<br \/>\n    adivinhando que de ir a esse baile resultar&aacute; a nossa salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2><a name=\"13\" id=\"13\"> Capitulo 13<\/a><\/h2>\n<p> N&atilde;o pense o leitor que j&aacute; se acha terminado o baile a que<br \/>\n    est&aacute;vamos assistindo. A pequena digress&atilde;o que por fora dele<br \/>\n    fizemos no capitulo antecedente, nos pareceu necess&aacute;ria para explicar<br \/>\n    por que conjunto de circunst&atilde;ncias fatais a nossa hero&iacute;na, sendo<br \/>\n    uma escrava, foi impelida a tomar a audaciosa resolu&ccedil;&atilde;o de apresentar?se<br \/>\n    em um espl&ecirc;ndido e aristocr&aacute;tico sarau, &#8211; fraqueza de cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ou timidez de car&aacute;ter, que pode ser desculpada, mas n&atilde;o plenamente<br \/>\n    justificada em uma pessoa de consci&ecirc;ncia t&atilde;o delicada e de t&atilde;o<br \/>\n    esclarecido entendimento.<\/p>\n<p> O baile continua, mas j&aacute; n&atilde;o t&atilde;o animado e festivo<br \/>\n    como ao princ&iacute;pio.<\/p>\n<p> Os aplausos fren&eacute;ticos, a admira&ccedil;&atilde;o geral, de que Isaura<br \/>\n    se havia tornado objeto da parte dos cavalheiros, tinham produzido um completo<br \/>\n    resfriamento entre as mais belas e espirituosas damas da reuni&atilde;o.<\/p>\n<p> Arrufadas com seus cavalheiros prediletos, em raz&atilde;o das entusi&aacute;sticas<br \/>\n    homenagens, que francamente iam render aos p&eacute;s daquela que implicitamente<br \/>\n    estavam proclamando a rainha do sal&atilde;o, j&aacute; nem ao menos queriam<br \/>\n    dan&ccedil;ar, e em vez de tisos folgaz&otilde;es, e de uma conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    franca e jovial, s&oacute; se ouviam pelos cantos entre diversos grupos expans&otilde;es<br \/>\n    misteriosamente sussurradas, e cochichos segredados entre amarelas e sarc&aacute;sticas<br \/>\n    risotas.<\/p>\n<p> Propagava?se entre as mo&ccedil;as como que um sussurro geral de descontentamento.<br \/>\n    Era como esses rumores surdos e profundos, que restrugem ao longe pelo espa&ccedil;o,<br \/>\n    precedendo uma grande tempestade.<\/p>\n<p> Dir?se?ia que j&aacute; estavam adivinhando que aquela mulher, que por seus<br \/>\n    encantos e dotes incompar&aacute;veis as estava suplantando a todas, n&atilde;o<br \/>\n    era mais do que &#8211; uma escrava. Muitas mesmo se foram retirando, nomeadamente<br \/>\n    aquelas que afagavam alguma esperan&ccedil;a, ou se julgavam com algum direito<br \/>\n    sobre o cora&ccedil;&atilde;o de &Aacute;lvaro. Aniquiladas sob o peso dos<br \/>\n    esmagadores triunfos de Isaura, n&atilde;o se achando com &acirc;nimo de manterem?se<br \/>\n    por mais tempo na li&ccedil;a, tomaram o prudente partido de irem esconder<br \/>\n    no misterioso recinto das alcovas o despeito e vergonha de t&atilde;o cruel<br \/>\n    e solene derrota.<\/p>\n<p> N&atilde;o diremos todavia que no meio de tantas e t&atilde;o nobres damas,<br \/>\n    distintas pelos encantos do esp&iacute;rito e do corpo, n&atilde;o houvesse<br \/>\n    muitas que, com toda a isen&ccedil;&atilde;o e sem a menor sombra de inveja,<br \/>\n    admirassem a beleza de Isaura, e aplaudissem de cora&ccedil;&atilde;o e com<br \/>\n    sincero prazer os seus triunfos, e foram essas que conseguiram ir dando alguma<br \/>\n    vida ao sarau, que sem elas teria esmorecido inteiramente. Todavia n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; menos certo que do belo sexo, sem distin&ccedil;&atilde;o de classes,<br \/>\n    ao menos a metade &eacute; ludibrio dessas invejas, ci&uacute;mes e rivalidades<br \/>\n    mesquinhas.<\/p>\n<p> Deixamos Isaura indo tomar parte em uma quadrilha, tendo &Aacute;lvaro por<br \/>\n    seu par. Enquanto dan&ccedil;am, entremos em uma saleta, onde h&aacute; mesas<br \/>\n    de jogo, e bufetes guarnecidos de licoreiras, de garrafas de cerveja e champanha.<br \/>\n    Esta saleta comunica imediatamente com o sal&atilde;o onde se dan&ccedil;a,<br \/>\n    por uma larga porta aberta. Acham?se ai uma meia d&uacute;zia de rapazes,<br \/>\n    pela maior parte estudantes, desses com pretens&otilde;es a estr&oacute;inas<br \/>\n    e exc&ecirc;ntricos &agrave; Byron, e que j&aacute; enfastiados da sociedade,<br \/>\n    dos prazeres e das mulheres, costumam dizer que n&atilde;o trocariam uma fuma&ccedil;a<br \/>\n    de charuto, ou um copo de champanha, pelo mais fagueiro sorriso da mais formosa<br \/>\n    donzela; desses descridos, que vivem a apregoar em prosa e verso que na aurora<br \/>\n    da vida j&aacute; t&ecirc;m o cora&ccedil;&atilde;o mirrado pelo sopro do<br \/>\n    cepticismo, ou calcinado pelo fogo das paix&otilde;es, ou enregelado pela<br \/>\n    saciedade; desses misantropos enfim, cheios de esplim, que se acham sempre<br \/>\n    no meio de todos os bailes e reuni&otilde;es de toda esp&eacute;cie, alardeando<br \/>\n    o seu afastamento e desd&eacute;m pelos prazeres da sociedade e frivolidades<br \/>\n    da vida.<\/p>\n<p> Entre eles acha?se um, sobre o qual nos &eacute; mister deter por mais um<br \/>\n    pouco a aten&ccedil;&atilde;o, visto que tem de tomar parte um tanto ativa<br \/>\n    nos acontecimentos desta hist&oacute;ria. Este nada tem de esplen&eacute;tico<br \/>\n    nem de byroniano; pelo contr&aacute;rio o seu todo respira o mais chato e<br \/>\n    ign&oacute;bil prosa&iacute;smo.<\/p>\n<p> Mostra ser mais velho que os seus comparsas uma boa dezena de anos. Tem<br \/>\n    cabe&ccedil;a grande, cara larga, e fei&ccedil;&otilde;es grosseiras. A testa<br \/>\n    &eacute; desmesuradamente ampla, e estofada de enormes protuber&acirc;ncias,<br \/>\n    o que, na opini&atilde;o de Lavater, &eacute; indicio de esp&iacute;rito lerdo<br \/>\n    e acanhado a ro&ccedil;ar pela estupidez. O todo da fisionomia tosca e quase<br \/>\n    grotesca revela instintos ign&oacute;beis, muito ego&iacute;smo e baixeza<br \/>\n    de car&aacute;ter. O que, por&eacute;m, mais o caracteriza &eacute; certo<br \/>\n    esp&iacute;rito de cobi&ccedil;a, e de s&oacute;rdida gan&acirc;ncia, que<br \/>\n    lhe transpira em todas as palavras, em todos os atos, e principalmente no<br \/>\n    fundo de seus olhos pardos e pequeninos, onde reluz constantemente um raio<br \/>\n    de velhacaria. &Eacute; estudante, mas pelo desalinho do trajo, sem o menor<br \/>\n    esmero e nem sombra de eleg&acirc;ncia, parece mais um vendilh&atilde;o. Estudava<br \/>\n    h&aacute; quinze anos &agrave; sua pr&oacute;pria custa, mantendo?se do rendimento<br \/>\n    de uma taverna, de que era s&oacute;cio capitalista. Chama?se Martinho.<\/p>\n<p> &#8211; Rapaziada, &#8211; disse um dos mancebos, &#8211; vamos n&oacute;s aqui a uma partida<br \/>\n    de lansquen&ecirc;, enquanto esses basbaques ali est&atilde;o a arrastar os<br \/>\n    p&eacute;s e a fazer mesuras.<\/p>\n<p> &#8211; Justo! &#8211; exclamou outro, sentando?se a uma mesa e tomando baralhos. &#8211;<br \/>\n    J&aacute; que n&atilde;o temos coisa melhor a fazer, vamos &agrave;s cartas.<\/p>\n<p> Demais, no baralho &eacute; que est&aacute; a vida. A vista de uma sota<br \/>\n    me faz &agrave;s vezes estremecer o cora&ccedil;&atilde;o em emo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais vivas do que as sentiria Romeu a um olhar de Julieta&#8230; Afonso, Alberto,<br \/>\n    Martinho, andem para c&aacute;; vamos ao lansquen&ecirc;; duas ou tr&ecirc;s<br \/>\n    corridas somente&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; De boa vontade aceitaria o convite, &#8211; respondeu Martinho, &#8211; se n&atilde;o<br \/>\n    andasse ocupado com um outro jogo, que de um momento para outro, e sem nada<br \/>\n    arriscar, pode meter?me na algibeira n&atilde;o menos de cinco contos de r&eacute;is<br \/>\n    limpinhos.<\/p>\n<p> &#8211; De que diabo de jogo est&aacute;s a&iacute; a falar?&#8230; nunca deixar&aacute;s<br \/>\n    de ser maluco?&#8230; deixa?te de asneiras, e vamos ao lansquen&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Quem tem um jogo seguro como eu tenho, h&aacute; de ir meter?se nos azares<br \/>\n    do lansquen&ecirc;, que j&aacute; me tem engolido bem boas patacas?&#8230;<\/p>\n<p> Nem t&atilde;o tolo serei eu.<\/p>\n<p> &#8211; Com mil diabos, Martinho!&#8230; ent&atilde;o n&atilde;o te explicar&aacute;s?&#8230;<br \/>\n    que maldito jogo &eacute; esse?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora, adivinhem l&aacute;&#8230; N&atilde;o s&atilde;o capazes. uma bisca de<br \/>\n    estrondo.<\/p>\n<p> Se adivinharem, dou?lhes uma ceia espl&ecirc;ndida no melhor hotel desta<br \/>\n    cidade; bem entendido, se encartar a minha bisca.<\/p>\n<p> &#8211; Dessa ceia estamos n&oacute;s bem livres, pobre comedor de bacalhau ardido,<br \/>\n    e porque n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel haver quem adivinhe as asneiras<br \/>\n    que passam l&aacute; por esses teus miolos extravagantes. O que queremos &eacute;<br \/>\n    o teu dinheiro aqui sobre a mesa do lansquen&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, deixem?me em paz, &#8211; disse Martinho, com os olhos atentamente dirigidas<br \/>\n    para o sal&atilde;o de dan&ccedil;a. &#8211; Estou calculando o meu jogo&#8230; suponham<br \/>\n    que &eacute; o xadrez, e que eu vou dar xeque?mate &agrave; rainha&#8230; dito<br \/>\n    e feito, e os cinco contos s&atilde;o meus&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida, o rapaz est&aacute; doido varrido&#8230;<br \/>\n    Anda l&aacute;, Martinho; descobre o teu jogo, ou vai?te embora, e n&atilde;o<br \/>\n    nos estejas a ma&ccedil;ar a paci&ecirc;ncia com tuas maluquices.<\/p>\n<p> &#8211; Malucos s&atilde;o voc&ecirc;s. O meu jogo &eacute; este&#8230; mas quanto<br \/>\n    me d&atilde;o para descobri?lo? olhem que &eacute; coisa curiosa.<\/p>\n<p> &#8211; Queres?nos ati&ccedil;ar a curiosidade para nos chuchar alguns cobres,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; assim?&#8230; pois desta vez afian&ccedil;o?te da minha parte,<br \/>\n    que n&atilde;o arranjas nada. Vai?te aos diabos com o teu jogo, e deixa?nos<br \/>\n    c&aacute; com o nosso. As cartas, meus amigos, e deixemos o Martinho com suas<br \/>\n    maluquices.<\/p>\n<p>&#8211; Com suas velhacarias, dir&aacute;s tu&#8230; n&atilde;o me pilha.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! toleir&otilde;es! &#8211; exclamou o Martinho, &#8211; voc&ecirc;s ainda est&atilde;o<br \/>\n    com os bei&ccedil;os com que mamaram. Andem c&aacute;, andem, e ver&atilde;o<br \/>\n    se &eacute; maluquice, nem velhacaria. Enfim quero mostrar?lhes o meu jogo,<br \/>\n    porque desejo ver se a opini&atilde;o de voc&ecirc;s estar&aacute; ou n&atilde;o<br \/>\n    de acordo com a minha. Eis aqui a minha bisca. &#8211; concluiu Martinho mostrando<br \/>\n    um papel, que sacou da algibeira; &#8211; n&atilde;o &eacute; nada mais que um an&uacute;ncio<br \/>\n    de escravo fugido.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! ah! ah! esta n&atilde;o &eacute; m&aacute;!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que disparate!&#8230; decididamente est&aacute;s louco, meu Martinho.<\/p>\n<p> &#8211; A que prop&oacute;sito vem agora an&uacute;ncio de escravo fugido?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Foste acaso nomeado oficial de justi&ccedil;a ou capit&atilde;o?do?mato?<br \/>\n    Estas e outras frases escapavam aos mancebos de envolta, em um coro de intermin&aacute;veis<br \/>\n    gargalhadas, que competiam com a orquestra do baile.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei de que tanto se espantam, &#8211; replicou frescamente o Martinho;<br \/>\n    &#8211; o que admira &eacute; que ainda n&atilde;o vissem este grande an&uacute;ncio<br \/>\n    em avulso, que veio do Rio de Janeiro, e foi distribu&iacute;do por toda a<br \/>\n    cidade com o jornal do Com&eacute;rcio.<\/p>\n<p> &#8211; Porventura somos esbirros ou oficiais de justi&ccedil;a, para nos embara&ccedil;armos<br \/>\n    com semelhantes an&uacute;ncios? &#8211; Mas olhem que o neg&oacute;cio &eacute;<br \/>\n    dos mais curiosos, e as alv&iacute;ssaras n&atilde;o s&atilde;o para se desprezarem.<\/p>\n<p> &#8211; Pobre Martinho! quanto pode em teu esp&iacute;rito a gan&acirc;ncia de<br \/>\n    ouro, que faz?te andar &agrave; cata de escravos fugidos em uma sala de baile!<br \/>\n    &#8211; pois &eacute; aqui que poder&aacute;s encontrar semelhante gente?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ol&eacute;&#8230; quem sabe?!&#8230; tenho c&aacute; meus motivos para desconfiar<br \/>\n    que por aqui mesmo hei de ach&aacute;?la, assim como os cinco continhos que,<br \/>\n    aqui entre n&oacute;s, v&ecirc;m agora mesmo ao pintar, pois que o armaz&eacute;m<br \/>\n    de meu s&oacute;cio bem pouco tem rendido nestes &uacute;ltimos tempos.<\/p>\n<p> Martinho chamava armaz&eacute;m &agrave; pequena taverna de que era s&oacute;cio<br \/>\n    Ditas aquelas palavras foi postar?se junto &agrave; porta que dava para o<br \/>\n    sal&atilde;o e ali ficou por largo tempo a olhar, ora para os que dan&ccedil;avam,<br \/>\n    ora para o an&uacute;ncio, que tinha desdobrado na m&atilde;o, como quem averigua<br \/>\n    e confronta os sinais.<\/p>\n<p> &#8211; Que diabo faz ali o Martinho? &#8211; exclamou um dos mancebos que entretidos<br \/>\n    com as m&iacute;micas do Martinho, tomando?as por palha&ccedil;adas, tinham?se<br \/>\n    esquecido de jogar.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; doido, n&atilde;o resta a menor d&uacute;vida. &#8211; observou<br \/>\n    outro. &#8211; Procurar escravo fugido em uma sala de baile!&#8230; Ora n&atilde;o faltava<br \/>\n    mais nada! Se andasse &agrave; cata de alguma princesa, decerto a iria procurar<br \/>\n    no quilombos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas talvez seja algum pajem, ou alguma mucama, que por ai anda.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me consta que haja nenhum pajem nem mucama ali dan&ccedil;ando,<br \/>\n    e ele n&atilde;o tira os olhos dos que dan&ccedil;am.<\/p>\n<p> &#8211; Deix&aacute;?lo; este rapaz, al&eacute;m de ser um vil traficante, sempre<br \/>\n    foi um man&iacute;aco de primeira for&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; ela! &#8211; disse o Martinho, deixando a porta, e voltando?se para<br \/>\n    seus companheiros; &#8211; &eacute; ela; j&aacute; n&atilde;o tenho a menor d&uacute;vida;<br \/>\n    &eacute; ela, e est&aacute; segura.<\/p>\n<p> &#8211; Ela quem, Martinho?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora! pois quem mais h&aacute; de ser?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; A escrava fugida?!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; A escrava fugida, sim, senhores!&#8230; e ela est&aacute; ali dan&ccedil;ando.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! ah! ah! ora, vamos ver mais esta, Martinho!&#8230; at&eacute; onde queres<br \/>\n    levar a tua farsa? deve ser galante o desfecho. Isto &eacute; impag&aacute;vel,<br \/>\n    e vale mais que quantos bailes h&aacute; no mundo. &#8211; Se todos eles tivessem<br \/>\n    um epis&oacute;dio assim, eu n&atilde;o perdia nem um. &#8211; Assim clamavam os<br \/>\n    mo&ccedil;os entre estrondosas gargalhadas.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc;s zombam? &#8211; olhem que a farsa cheira um pouco a trag&eacute;dia.<\/p>\n<p> &#8211; Melhor! Melhor! &#8211; vamos com isso, Martinho! &#8211; N&atilde;o acreditam?&#8230;<br \/>\n    pois escutem l&aacute;, e depois me dir&atilde;o que tal &eacute; a farsa.<\/p>\n<p> Dizendo isto, Martinho sentou?se em uma cadeira, e desdobrando o an&uacute;ncio,<br \/>\n    p&ocirc;s?se em atitude de l&ecirc;?lo. Os outros se agruparam curiosos em<br \/>\n    torno dele.<\/p>\n<p> &#8211; Escutem bem, &#8211; continuou Martinho. &#8211; Cinco contos! &#8211; eis o t&iacute;tulo<br \/>\n    pomposo, que em eloq&uuml;entes e gra&uacute;dos algarismos se acha no frontisp&iacute;cio<br \/>\n    desta obra imortal, que vale mais que a Il&iacute;ada de Cam&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E que os Lus&iacute;adas de Homero, n&atilde;o &eacute; assim, Martinho?<br \/>\n    deixa?te de pre&acirc;mbulos asn&aacute;ticos, e vamos ao an&uacute;ncio.<\/p>\n<p> &#8211; Eu j&aacute; lhes satisfa&ccedil;o, &#8211; disse Martinho, e continuou lendo:<br \/>\n    Fugiu da fazenda do Sr. Le&ocirc;ncio Gomes da Fonseca, no munic&iacute;pio<br \/>\n    de Campos, prov&iacute;ncia do Rio de Janeiro, uma escrava por nome Is&aacute;ura,<br \/>\n    cujos sinais s&atilde;o os seguintes: Cor clara e tez delicada como de qualquer<br \/>\n    branca; olhos pretos e grandes; cabelos da mesma cor, compridos e ligeiramente<br \/>\n    ondeados; boca pequena, rosada e bem feita; dentes alvos e bem dispostos;<br \/>\n    nariz saliente e bem talhado; cintura delgada, talhe esbelto, e estatura regular;<br \/>\n    tem na face esquerda um pequeno sinal preto, e acima do seio direito um sinal<br \/>\n    de queimadura, mui semelhante a uma asa de borboleta. Traja?se com gosto e<br \/>\n    eleg&acirc;ncia, canta e toca piano com perfei&ccedil;&atilde;o. Como teve<br \/>\n    excelente educa&ccedil;&atilde;o e tem uma boa figura, pode passar em qualquer<br \/>\n    parte por uma senhora livre e de boa sociedade. Fugiu em companhia de um portugu&ecirc;s,<br \/>\n    por nome Miguel, que se diz seu pai. &Eacute; natural que tenham mudado o<br \/>\n    nome. Quem a apreender, e levar ao dito seu senhor, al&eacute;m de se lhe<br \/>\n    satisfazerem todas as despesas, receber&aacute; a gratifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de 5:OOO$OOO.<\/p>\n<p> &#8211; Deveras, Martinho? &#8211; exclamou um dos ouvintes, &#8211; est&aacute; nesse papel<br \/>\n    o que acabo de ouvir? acabas de nos tra&ccedil;ar o retrato de V&ecirc;nus,<br \/>\n    e vens dizer?nos que &eacute; uma escrava fugida!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Se n&atilde;o querem acreditar ainda, leiam com seus pr&oacute;prios olhos:<br \/>\n    aqui est&aacute; o papel&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Com efeito! acrescentou outro &#8211; uma escrava assim vale a pena apreend&ecirc;?la,<br \/>\n    mais pelo que vale em si, do que pelos cinco contos.<\/p>\n<p> Se eu a pilho, nenhuma vontade teria de entreg&aacute;?la ao seu senhor.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; n&atilde;o me admira que o Martinho a procure aqui; uma criatura<br \/>\n    t&atilde;o perfeita s&oacute; se pode encontrar nos pal&aacute;cios dos pr&iacute;ncipes.<\/p>\n<p> &#8211; Ou no reino das fadas; e pelos sinais e ind&iacute;cios estou vendo que<br \/>\n    n&atilde;o pode ser outra sen&atilde;o essa nova divindade que hoje apareceu&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sem mais nem menos; deu no vinte, atalhou Martinho, e cha? mando?os para<br \/>\n    junto da porta: &#8211; Agora venham c&aacute;, &#8211; continuou, &#8211; e reparem naquela<br \/>\n    bonita mo&ccedil;a, que dan&ccedil;a de par com &Aacute;lvaro. Pobre &Aacute;lvaro<br \/>\n    como est&aacute; cheio de si! se soubesse com quem dan&ccedil;a, ca&iacute;a?lhe<br \/>\n    a cara aos p&eacute;s. Reparem bem, meus senhores, e vejam se n&atilde;o combinam<br \/>\n    perfeitamente os sinais?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Perfeitamente! &#8211; acudiu um dos mo&ccedil;os, &#8211; &eacute; extraordin&aacute;rio!<br \/>\n    l&aacute; vejo o sinalzinho na face esquerda, e que lhe d&aacute; infinita<br \/>\n    gra&ccedil;a. Se tiver a tal asa de borboleta sobre o seio, n&atilde;o pode<br \/>\n    haver mais d&uacute;vida. O c&eacute;us! &eacute; poss&iacute;vel que uma<br \/>\n    mo&ccedil;a t&atilde;o linda seja uma escrava! &#8211; E que tenha a aud&aacute;cia<br \/>\n    de apresentar?se em um bailes destes? &#8211; acrescentou outro. Ainda n&atilde;o<br \/>\n    posso capacitar?me.<\/p>\n<p> &#8211; Pois c&aacute; para mim, &#8211; disse o Martinho &#8211; o neg&oacute;cio &eacute;<br \/>\n    liquido, assim como os cinco contos, que me parece estarem j&aacute; me cantando<br \/>\n    na algibeira; e at&eacute; logo, meus caros.<\/p>\n<p> E dizendo isto dobrou cuidadosamente o an&uacute;ncio, meteu?o na algi?<br \/>\n    beira, e esfregando as m&atilde;os com c&iacute;nico contentamento, tomou<br \/>\n    o chap&eacute;u, e retirou?se.<\/p>\n<p> &#8211; Forte miser&aacute;vel&#8230; &#8211; disse um dos comparsas &#8211; que vil gan&acirc;ncia<br \/>\n    de ouro a deste Martinho! estou vendo que &eacute; capaz de fazer prender<br \/>\n    aquela mo&ccedil;a aqui mesmo em pleno baile.<\/p>\n<p> &#8211; Por cinco contos &eacute; capaz de todas as inf&acirc;mias do mundo. T&atilde;o<br \/>\n    vil criatura &eacute; um desdouro para a classe a que pertencemos; devemos<br \/>\n    todos conspirar para expeli?lo da Academia. Cinco contos daria eu para ser<br \/>\n    escravo daquela rara formosura.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; assombroso! Quem diria, que debaixo daquela figura de anjo estaria<br \/>\n    oculta uma escrava fugida! &#8211; E tamb&eacute;m quem nos diz que no corpo da<br \/>\n    escrava n&atilde;o se acha asilada uma alma de anjo?&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"14\" id=\"14\">Capitulo 14<\/a><\/h2>\n<p>Havia terminado a quadrilha. &Aacute;lvaro ufano, e cheio de j&uacute;bilo,<br \/>\n    conduzia o seu formoso par atrav&eacute;s da multid&atilde;o, atrav&eacute;s<br \/>\n    de uma viva fuzilaria de olhares de inveja e de admira&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    se cruzavam em sua passagem; a pretexto de oferecer?lhe algum refresco, a<br \/>\n    foi levando para uma sala dos fundos, que se achava quase deserta. At&eacute;<br \/>\n    ali ainda ele n&atilde;o havia feito a Elvira uma declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de amor em termos positivos, se bem que esse amor se estivesse revelando a<br \/>\n    cada instante, e cada vez mais ardente e apaixonado, em seus olhos, em suas<br \/>\n    palavras, em todos os seus movimentos e a&ccedil;&oacute;es. Alvaro julgava<br \/>\n    j&aacute; ter adquirido completo conhecimento do cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    sua amada, e nos dois meses durante os quais a havia estudado, n&atilde;o<br \/>\n    havia descoberto nela sen&atilde;o novos encantos e perfei&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Estava plenamente convencido que de todas as formosuras que at&eacute; ali<br \/>\n    tinha conhecido, Elvira era em tudo a mais digna de seu amor, e j&aacute;<br \/>\n    nem por sombras duvidava da pureza de sua alma, da sinceridade do seu afeto.<br \/>\n    Pensava portanto que, sem receio algum de comprometer o seu futuro, podia<br \/>\n    abandonar o cora&ccedil;&atilde;o ao imp&eacute;rio daquela paix&atilde;o,<br \/>\n    que j&aacute; n&atilde;o podia dominar. Quanto &agrave; origem e proced&ecirc;ncia<br \/>\n    de Elvira, era coisa de que nem de leve se preocupava, e nunca se lembrou<br \/>\n    de indagar. A distin&ccedil;&atilde;o de classes repugnava a seus princ&iacute;pios<br \/>\n    e sentimentos filantr&oacute;picos. Fosse ela uma princesa que o destino obrigava<br \/>\n    a andar foragida, ou tivesse o ber&ccedil;o na palho&ccedil;a de algum pobre<br \/>\n    pescador, isso lhe era indiferente. Conhecia?a em si mesma, sabia que era<br \/>\n    uma das criaturas mais perfeitas e ador&aacute;veis que se pode encontrar<br \/>\n    sobre a Terra, e era quanto lhe bastava.<\/p>\n<p> Observava Alvaro em seus costumes, como j&aacute; sabemos, a severidade<br \/>\n    de um quaker, e seria incapaz de abusar do amor que havia inspirado &agrave;<br \/>\n    formosa desconhecida, aninhando em seu esp&iacute;rito um pensamento de sedu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Naquela noite pois o apaixonado mancebo, rendido e deslumbrado mais que<br \/>\n    nunca pelos novos encantos e atrativos que Elvira alardeava entre os esplendores<br \/>\n    do baile, n&atilde;o p&ocirc;de e nem quis dilatar por mais tempo a declara&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que a cada instante lhe ardia nos olhos, e esvoa&ccedil;ava pelos l&aacute;bios,<br \/>\n    e apenas achou?se em lugar onde pudesse n&atilde;o ser ouvido sen&atilde;o<br \/>\n    de Elvira: &#8211; D. Elvira, &#8211; lhe disse com voz grave e comovida, &#8211; se a senhora<br \/>\n    &eacute; um anjo em sua casa, nos sal&otilde;es do baile &eacute; uma deusa.<br \/>\n    O meu cora&ccedil;&atilde;o h&aacute; muito j&aacute; lhe pertence; sinto<br \/>\n    que o meu destino de hoje em diante depende s&oacute; da senhora. Funesta<br \/>\n    ou prop&iacute;cia, a senhora ser&aacute; sempre a minha estrela nos caminhos<br \/>\n    da vida. Creio que me conhece bastante para acreditar na sinceridade de minhas<br \/>\n    palavras. Sou senhor de uma fortuna consider&aacute;vel; tenho posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    honrosa e respeit&aacute;vel na sociedade; mas n&atilde;o poderia jamais ser<br \/>\n    feliz, se a senhora n&atilde;o consentir em partilhar comigo esses bens, que<br \/>\n    a fortuna prodigalizou?me.<\/p>\n<p> Estas palavras de &Aacute;lvaro, t&atilde;o meigas, t&atilde;o repassadas<br \/>\n    do mais sincera e profundo amor, que em outras condi&ccedil;&otilde;es teriam<br \/>\n    ca&iacute;do como b&aacute;lsamo celeste sobre o cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Isaura a banh&aacute;?lo em inef&aacute;veis efl&uacute;vios de ventura, eram<br \/>\n    agora para ela como um atroz e pungente sarcasmo do destino, um hino do c&eacute;u<br \/>\n    ouvido entre as torturas do inferno.<\/p>\n<p> Via de um lado um anjo, que, tomando?a pela m&atilde;o com um suave sorriso,<br \/>\n    mostrava?lhe um &eacute;den de del&iacute;cias, ao qual se esfor&ccedil;ava<br \/>\n    por conduzi?la, enquanto de outro lado a hedionda figura de um dem&ocirc;nio<br \/>\n    atava?lhe ao p&eacute; um pesado grilh&atilde;o, e com todo o seu peso a arrastava<br \/>\n    para um g&oacute;lf&atilde;o de eternos sofrimentos.<\/p>\n<p> &Eacute; que a pobre Isaura, cheia de sustos e desconfian&ccedil;as, durante<br \/>\n    uma pausa tinha notado os movimentos do infame Martinho, quando encostado<br \/>\n    ao umbral da saleta com um papel na m&atilde;o, parecia examin&aacute;?la<br \/>\n    com a mais minuciosa aten&ccedil;&atilde;o. Aquela vista produziu nela o efeito<br \/>\n    de um raio; n&atilde;o duvidou mais que estava descoberta, e irremissivelmente<br \/>\n    perdida para sempre. S&uacute;bita vertigem lhe escureceu os olhos, pareceu?lhe<br \/>\n    que o ch&atilde;o lhe faltava debaixo dos p&eacute;s, e que ia sendo tragada<br \/>\n    pelas fauces de um abismo imensur&aacute;vel. Para n&atilde;o cair foi?lhe<br \/>\n    preciso agarrar?se fortemente com ambas as m&atilde;os ao bra&ccedil;o de<br \/>\n    &Aacute;lvaro.<\/p>\n<p> arrimando?se em seu peito.<\/p>\n<p> &#8211; Que tem, minha senhora? &#8211; perguntara?lhe este, assustado. &#8211; Est&aacute;<br \/>\n    incomodada?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Algum tanto, &#8211; respondeu Elvira com voz desfalecida e arquejante, e reanimando?se<br \/>\n    pouco a pouco. &#8211; Foi uma dor aguda&#8230; uma pontada deste lado&#8230; mas vai passando&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o estou acostumada com este aperto&#8230; o remoinhar da dan&ccedil;a<br \/>\n    me fez mal.<\/p>\n<p> &#8211; Mas h&aacute; de acostumar?se em pouco tempo &#8211; replicou?lhe &Aacute;lvaro,<br \/>\n    segurando?lhe uma das m&atilde;os e sustendo?a com um bra&ccedil;o pela cintura.<br \/>\n    &#8211; A senhora nasceu para brilhar nos sal&otilde;es&#8230; mas, se quer retirar?se&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, senhor; continuemos; j&aacute; agora estamos na final&#8230;<\/p>\n<p> Com estas respostas evasivas &Aacute;lvaro tranq&uuml;ilizou?se, e em raz&atilde;o<br \/>\n    dos movimentos r&aacute;pidos da quadrilha na marca final, que imediatamente<br \/>\n    seguiu?se, n&atilde;o p&ocirc;de notar a extrema palidez e profundo transtorno<br \/>\n    das fei&ccedil;&otilde;es de Elvira. A infeliz j&aacute; n&atilde;o dan&ccedil;ava,<br \/>\n    arrastava?se automaticamente pela sala; seu esp&iacute;rito n&atilde;o estava<br \/>\n    ali, n&atilde;o ouvia nem via outra coisa sen&atilde;o a figura repugnante<br \/>\n    do Martinho, postada como esfinge amea&ccedil;adora junto &agrave; porta da<br \/>\n    saleta, para a qual ela volvia de quando em quando olhos cheios de ansiedade<br \/>\n    e pavor.<\/p>\n<p> E o sangue todo lhe reflu&iacute;a ao cora&ccedil;&atilde;o, que lhe tremia<br \/>\n    como o da pomba que sente estendida sobre o colo a garra desapiedada do gavi&atilde;o.<\/p>\n<p> Em tal estado de susto e perturba&ccedil;&atilde;o, Isaura n&atilde;o atinava<br \/>\n    com o que devia responder &agrave;quela t&atilde;o sincera e apaixonada declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do mancebo. Guardou sil&ecirc;ncio por alguns instantes, o que &Aacute;lvaro<br \/>\n    interpretou por timidez ou emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me quer responder? &#8211; continuou com voz meiga, &#8211; uma s&oacute;<br \/>\n    palavra &eacute; bastante&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! senhor, &#8211; murmurou ela suspirando, o que posso eu responder &agrave;s<br \/>\n    doces palavras que acabo de ouvir de sua boca? Elas me encantam, mas&#8230;<\/p>\n<p> Elvira interrompeu?se bruscamente; um s&uacute;bito estremecimento agitando<br \/>\n    o bra&ccedil;o de &Aacute;lvaro o fez olhar para ela com sobressalto e inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; ele!&#8230; &#8211; este som sussurrou?lhe pelos l&aacute;bios como um<br \/>\n    gemido rouco e convulsivo; acabava de avistar Martinho, entrando na sala em<br \/>\n    que se achavam, e sentiu mortal calafrio percorrer?lhe todo o como.<\/p>\n<p> &#8211; Desculpe?me, senhor &#8211; continuou ela &#8211; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    por hoje ouvir suas doces palavras; sinto?me mal; preciso retirar?me. Se o<br \/>\n    senhor tivesse a bondade de levar?me onde est&aacute; meu pai&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Por que n&atilde;o, D. Elvira?&#8230; mas oh!&#8230; como est&aacute; p&aacute;lida!&#8230;<br \/>\n    est&aacute; sofrendo muito, n&atilde;o &eacute; assim?&#8230; quer que eu a acompanhe?&#8230;<br \/>\n    que lhe chame um m&eacute;dico?&#8230; aqui mesmo os h&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Obrigada, senhor &Aacute;lvaro; n&atilde;o se inquiete; isto &eacute;<br \/>\n    um mal passageiro, cansa&ccedil;o talvez; em chegando a casa ficarei boa.<\/p>\n<p> &#8211; E quer ent&atilde;o retirar?se sem me deixar uma s&oacute; palavra de<br \/>\n    consola&ccedil;&atilde;o e de esperan&ccedil;a?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; De consola&ccedil;&atilde;o talvez, mas de esperan&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Por que n&atilde;o? &#8211; Se nem eu mesma posso t&ecirc;?la&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o me ama&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Amo?o muito.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o ser&aacute; minha&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Isso &eacute; imposs&iacute;vel&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Imposs&iacute;vel!&#8230; que obst&aacute;culo pode haver?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei dizer?lhe, senhor; minha desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Esta amorosa confid&ecirc;ncia no momento em que se achava no ponto mais<br \/>\n    interessante, foi bruscamente interrompida pela presen&ccedil;a de Martinho,<br \/>\n    que se lhes atravessou pela frente, fazendo uma profunda rever&ecirc;ncia.<br \/>\n    &Aacute;lvaro indignado carregou o sobrolho, e esteve a ponto de enxotar o<br \/>\n    importuno, como quem enxota um c&atilde;o. Elvira estacou como que petrificada<br \/>\n    de pavor.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &Aacute;lvaro, disse?lhe respeitosamente o Martinho, &#8211; com a permiss&atilde;o<br \/>\n    de V. Sa preciso dizer duas palavras a esta senhora, a quem V. S.a d&aacute;<br \/>\n    o bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; A esta senhora! &#8211; exclamou maravilhado o cavalheiro. &#8211; Que tem o senhor<br \/>\n    que ver com esta senhora? &#8211; Neg&oacute;cio de suma import&acirc;ncia; ela<br \/>\n    bem o sabe, melhor do que eu e o senhor.<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro, que bem conhecia o Martinho, e sabia quanto era abjeto e<br \/>\n    desprez&iacute;vel, julgando ser aquilo manobra de algum rival invejoso, e<br \/>\n    covarde, que se servia daquele miser&aacute;vel para ultraj&aacute;?lo ou<br \/>\n    exp&ocirc;?lo ao rid&iacute;culo, teve um assomo de indigna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas contendo?se por um momento: &#8211; Tem a senhora algum neg&oacute;cio com este<br \/>\n    homem? &#8211; perguntou a Elvira.<\/p>\n<p> &#8211; Eu?!&#8230; nenhum, por certo; nem mesmo o conhe&ccedil;o, &#8211; balbuciou a mo&ccedil;a,<br \/>\n    p&aacute;lida e a tremer.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, meu Deus! D. Elvira, por que treme assim? como est&aacute; p&aacute;lida!..,<br \/>\n    maldito importuno, que assim a faz sofrer!&#8230; oh! pelo c&eacute;u, D.<\/p>\n<p> Elvira, n&atilde;o se assuste assim. Aqui estou eu a seu lado, e ai daquele<br \/>\n    que ousar ultrajar?nos! &#8211; Ningu&eacute;m quer ultraj&aacute;?los, senhor &Aacute;lvaro<br \/>\n    &#8211; replicou o Martinho; mas o neg&oacute;cio &eacute; mais s&eacute;rio do<br \/>\n    que o senhor pensa.<\/p>\n<p> &#8211; Enfim, senhor Martinho, deixe?se de rodeios e diga?nos aqui mesmo o que<br \/>\n    quer com esta senhora.<\/p>\n<p> &#8211; Posso diz&ecirc;?lo; mas seria melhor que V. S.a o ignorasse.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! temos mist&eacute;rio!&#8230; pois nesse caso declaro?lhe que n&atilde;o<br \/>\n    abandonarei esta senhora um s&oacute; instante, e se o senhor n&atilde;o quer<br \/>\n    dizer ao que veio, pode retirar?se.<\/p>\n<p> &#8211; Nessa n&atilde;o caio eu, que n&atilde;o hei de perder o meu tempo, e<br \/>\n    o meu trabalho, e nem os meus cinco contos. &#8211; Estas &uacute;ltimas palavras<br \/>\n    resmungou?as ele entre os dentes.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Martinho, por favor queira n&atilde;o abusar mais da minha paci&ecirc;ncia.<br \/>\n    Se n&atilde;o quer dizer ao que veio, ponha?se j&aacute; longe da minha presen&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Oh! senhor! retorquiu Martinho, sem se perturbar; &#8211; j&aacute; que a isso<br \/>\n    me for&ccedil;a, pouco me custa fazer?lhe a vontade, e com bastante pesar<br \/>\n    tenho de declarar?lhe, que essa senhora a quem d&aacute; o bra&ccedil;o, &eacute;<br \/>\n    uma escrava fugida!&#8230;<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro, se bem que conhecesse a vilania e impud&ecirc;ncia do car&aacute;ter<br \/>\n    de Martinho, no primeiro momento ficou pasmo ao ouvir aquela s&uacute;bita<br \/>\n    e imprevista dela&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o podia dar?lhe cr&eacute;dito,<br \/>\n    e refletindo um instante confirmou?se mais na id&eacute;ia de que tudo aquilo<br \/>\n    n&atilde;o passava de uma farsa posta em jogo por algum indigno rival, com<br \/>\n    o fim de desgost&aacute;?lo ou insult&aacute;?lo. A pessoa do Martinho, que<br \/>\n    n&atilde;o poucas vezes, na qualidade de tru&atilde;o ou palha&ccedil;o, servia<br \/>\n    de instrumento &agrave;s vingan&ccedil;as e paix&otilde;es mesquinhas de entes<br \/>\n    t&atilde;o ign&oacute;beis como ele, servia para justificar a desconfian&ccedil;a<br \/>\n    de &Aacute;lvaro, que acabou por n&atilde;o sentir sen&atilde;o asco e indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por t&atilde;o infame procedimento.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Martinho, &#8211; bradou ele com voz severa, &#8211; se algu&eacute;m pagou?lhe<br \/>\n    para vir achincalhar?me a mim e a esta senhora, diga quanto ganha, que estou<br \/>\n    pronto a dar?lhe o dobro para nos deixar em paz.<\/p>\n<p> A esta sanguinolenta afronta, a larga e impudente cara do Martinho nem de<br \/>\n    leve se alterou, e por &uacute;nica resposta: &#8211; Torno a repetir, &#8211; bradou<br \/>\n    com todo o descaramento, &#8211; e em voz bem alta, para que todos ou&ccedil;am:<br \/>\n    esta senhora que aqui se acha, &eacute; uma escrava fugida, e eu estou encarregado<br \/>\n    de apreend&ecirc;?la e entreg&aacute;?la a seu senhor.<\/p>\n<p> Entretanto Isaura, avistando seu pai, que tamb&eacute;m a procurava por<br \/>\n    toda a parte com os olhos, largando o bra&ccedil;o de &Aacute;lvaro correu<br \/>\n    a ele, lan&ccedil;ou?se?lhe nos bra&ccedil;os, e escondendo o rosto em seu<br \/>\n    ombro: &#8211; Que opr&oacute;brio, meu pai! &#8211; exclamou com voz sumida e a solu&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8211; Eu bem estava pressentindo!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Este homem, se n&atilde;o &eacute; um insolente, ou est&aacute; louco<br \/>\n    ou b&ecirc;bado, &#8211; bradava &Aacute;lvaro p&aacute;lido de c&oacute;lera. &#8211;<br \/>\n    Em todo o caso deve ser enxotado como indigno desta sociedade.<\/p>\n<p> J&aacute; alguns amigos de &Aacute;lvaro agarrando o Martinho pelo bra&ccedil;o,<br \/>\n    se dispunham a p&oacute;?lo pela porta a fora, como a um &eacute;brio ou alienado.<\/p>\n<p> Devagar, meus amigos, devagar!.., disse?lhes ele com toda a calma. &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    me condenem sem primeiro ouvirem?me. Escutem primeiro este an&uacute;ncio<br \/>\n    que lhes vou ler, e se n&atilde;o for verdade o que eu digo, dou?lhes licen&ccedil;a<br \/>\n    para me cuspirem na cara, e me atirarem da janela abaixo.<\/p>\n<p> Entretanto, esta pequena alterca&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ava a atrair<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o geral, e numerosos grupos movidos de curiosidade se<br \/>\n    apinhavam em torno dos contendores. A frase fatal &#8211; esta senhora &eacute;<br \/>\n    uma escrava! &#8211; proferida em voz alta por Martinho, transmitida de grupo em<br \/>\n    grupo, de ouvido em ouvido, j&aacute; havia circulado com incr&iacute;vel<br \/>\n    celeridade por todas as salas e recantos do espa&ccedil;oso edif&iacute;cio.<br \/>\n    Um sussurro geral se propagara por todo ele, e damas e cavalheiros, e tudo<br \/>\n    o que ali se achava, inclusive m&uacute;sicos, porteiros e f&acirc;mulos,<br \/>\n    atropelando?se uns aos outros, arrojavam?se afanosos para a sala, onde se<br \/>\n    dava o singular incidente que estamos relatando.<\/p>\n<p> A sala estava literalmente apinhada de gente, que afiava o ouvido e alongava<br \/>\n    o pesco&ccedil;o o mais que podia para ver e ouvir o que se passava.<\/p>\n<p> Foi no meio desta multid&atilde;o silenciosa, im&oacute;vel, estupefata<br \/>\n    e anelante, que Martinho, sacando tranq&uuml;ilamente da algibeira o an&uacute;ncio,<br \/>\n    que n&oacute;s j&aacute; conhecemos, desdobrou?o ante seus olhos, e em voz<br \/>\n    bem alta e sonora o leu de principio a fim.<\/p>\n<p> &#8211; Bem se v&ecirc;, &#8211; continuou ele conclu&iacute;da a leitura, &#8211; que os<br \/>\n    sinais combinam perfeitamente, e s&oacute; um cego n&atilde;o ver&aacute;<br \/>\n    naquela senhora a escrava do an&uacute;ncio. Mas para tirar toda a d&uacute;vida,<br \/>\n    s&oacute; resta examinar se ela tem o tal sinal de queimadura acima do seio,<br \/>\n    e &eacute; coisa que desde j&aacute; se pode averiguar com licen&ccedil;a<br \/>\n    da senhora.<\/p>\n<p> Dizendo isto, Martinho com impudente desembara&ccedil;o se encaminhava para<br \/>\n    Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Alto l&aacute;, vil esbirro!&#8230; bradou &Aacute;lvaro com for&#038;cceccedil;a,<br \/>\n    e agarrando o Martinho pelo bra&ccedil;o, o arrojou para longe de Isaura,<br \/>\n    e o teria lan&ccedil;ado em terra, se ele n&atilde;o fosse esbarrar de encontro<br \/>\n    ao grupo, que cada vez mais se apertava em torno deles. &#8211; Alto l&aacute;!<br \/>\n    nem tanto desembara&ccedil;o! escrava, ou n&atilde;o, tu n&atilde;o lhe deitar&aacute;s<br \/>\n    as m&atilde;os imundas.<\/p>\n<p> Aniquilada de dor e de vergonha, Isaura erguendo enfim o rosto, que at&eacute;<br \/>\n    ali tivera sempre debru&ccedil;ado e escondido sobre o seio de seu pai, voltou?se<br \/>\n    para os circunstantes, e ajuntando as m&atilde;os convulsas no gesto da mais<br \/>\n    violenta agita&ccedil;&atilde;o: &#8211; N&atilde;o &eacute; preciso que me toquem,<br \/>\n    &#8211; exclamou com voz angustiada.<\/p>\n<p> &#8211; Meus senhores, e senhoras, perd&atilde;o! cometi uma inf&acirc;mia, uma<br \/>\n    indignidade imperdo&aacute;vel!&#8230; mas Deus me &eacute; testemunha, que uma<br \/>\n    cruel fatalidade a isso me levou. Senhores, o que esse homem diz, &eacute;<br \/>\n    verdade. Eu sou&#8230; uma escrava!&#8230;<\/p>\n<p> O rosto da cativa cobriu?se de lividez cadav&eacute;rica, como l&iacute;rio<br \/>\n    ceifado pendeu?lhe a fronte sobre o seio, e o donoso corpo desabou como bela<br \/>\n    est&aacute;tua de m&aacute;rmore, que o furac&atilde;o arranca do pedestal,<br \/>\n    e teria rojado pela terra, se os bra&ccedil;os de &Aacute;lvaro e de Miguel<br \/>\n    n&atilde;o tivessem prontamente acudido para amparar?lhe a queda.<\/p>\n<p> Uma escrava!&#8230; estas palavras, solu&ccedil;adas no peito de Isaura como<br \/>\n    o estertor do arranco extremo, murmuradas de boca em boca pela multid&atilde;o<br \/>\n    estupefata, ecoaram largo tempo pelos vastos sal&otilde;es, como o rugir sinistro<br \/>\n    das lufadas da noite pela grenha de f&uacute;nebre arvoredo.<\/p>\n<p> Este estranho incidente produziu no sarau o mesmo efeito que faria em um<br \/>\n    acampamento a explos&atilde;o de um paiol de p&oacute;lvora; nos primeiros<br \/>\n    momentos, susto, pasmo e uma esp&eacute;cie de estertor de ang&uacute;stia;<br \/>\n    depois, agita&ccedil;&atilde;o, alarma, movimento e alarido.<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro e Miguel conduziram Isaura desfalecida ao boudoir das damas,<br \/>\n    e a&iacute;, ajudados por algumas senhoras compassivas, prestaram?lhe os socorros<br \/>\n    que o caso reclamava, e n&atilde;o a abandonaram enquanto n&atilde;o recobrou<br \/>\n    completamente os sentidos. Martinho, inquieto e ressabiado, os seguia e espiava<br \/>\n    o mais de perto que lhe era poss&iacute;vel, com receio de que lhe roubassem<br \/>\n    a presa.<\/p>\n<p> &Eacute; imposs&iacute;vel descrever a celeuma que se levantou, a agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que sublevou todos os esp&iacute;ritos, e as diversas e opostas impress&otilde;es<br \/>\n    que produziu nos &acirc;nimos aquela inesperada revela&ccedil;&atilde;o. Com<br \/>\n    que cara ficariam tantas belezas de primeira ordem, tantas damas das mais<br \/>\n    distintas jerarquias sociais, ao saberem que aquela que as havia suplantado<br \/>\n    a todas, em formosura, donaire, talentos e gra&ccedil;as do esp&iacute;rito,<br \/>\n    n&atilde;o era mais que uma escrava! eu mesmo n&atilde;o sei dizer; os leitores<br \/>\n    que fa&ccedil;am id&eacute;ia.<\/p>\n<p> Entretanto em muitas delas o cruel desapontamento por que acabavam de passar<br \/>\n    n&atilde;o deixava de ser mesclado de um certo contentamento &iacute;ntimo,<br \/>\n    mormente naquelas que se sentiam enfadadas pelas defer&ecirc;ncias e homenagens<br \/>\n    que certos cavalheiros, tomados de entusiasmo, haviam francamente rendido<br \/>\n    &agrave; gentil desconhecida. Estavam humilhadas, mas tamb&eacute;m vingadas.<br \/>\n    Quanto &aacute;s que tinham esperan&ccedil;as ou pretens&otilde;es ao amor<br \/>\n    de Alvaro, &#8211; e n&atilde;o eram poucas, &#8211; essas exultaram de j&uacute;bilo<br \/>\n    ao saberem do caso, e o nobre mancebo tornou?se o alvo de mil desapiedados<br \/>\n    apodos e pilh&eacute;rias.<\/p>\n<p> &#8211; O que me diz do escravo da escrava? &#8211; diziam elas &#8211; com que cara n&atilde;o<br \/>\n    ficaria o pobre homem!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Com a mesma. Decerto vai forr&aacute;?la e casar?se com ela. Aquilo &eacute;<br \/>\n    um maluco capaz de todas as asneiras.<\/p>\n<p> &#8211; E que mau! Ter&aacute; ao mesmo tempo mulher e talvez uma boa cozinheira.<\/p>\n<p> Triste consola&ccedil;&atilde;o! o estigma do cativeiro n&atilde;o podia<br \/>\n    apagar da bela fronte de Isaura, antes mais real&ccedil;ava o cunho de superioridade<br \/>\n    que o sopro divino nela havia gravado em caracteres indel&eacute;veis.<\/p>\n<p> Entre os mancebos a impress&atilde;o era bem diferente. Poucos, bem poucos,<br \/>\n    deixavam de tomar vivo interesse e compaix&atilde;o pela sorte da infeliz<br \/>\n    e formosa escrava. Por todos os cantos falava?se e discutia?se com calor a<br \/>\n    respeito do caso. Alguns, a despeito da evid&ecirc;ncia dos ind&iacute;cios<br \/>\n    e da confiss&atilde;o de Isaura, ainda duvidavam da verdade que tinham diante<br \/>\n    dos olhos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o; aquela mulher n&atilde;o pode ser uma escrava, &#8211; diziam eles,<br \/>\n    &#8211; aqui h&aacute; algum mist&eacute;rio, que algum dia se desvendar&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Qual mist&eacute;rio? o caso &eacute; muito fact&iacute;vel, e ela mesma<br \/>\n    o confessou.<\/p>\n<p> Mas quem ser&aacute; esse bruto e desalmado fazendeiro, que conserva no<br \/>\n    cativeiro uma t&atilde;o linda criatura? &#8211; Deve ser algum lorpa de alma bem<br \/>\n    est&uacute;pida e s&oacute;rdida.<\/p>\n<p> &#8211; Se n&atilde;o for algum sult&atilde;ozinho de bom gosto, que a quer para<br \/>\n    o seu serralho.<\/p>\n<p> &#8211; Seja como for, esse bruto deve ser constrangido a dar?lhe a liberdade.<br \/>\n    Na senzala uma mulher que merecia sentar?se num trono!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Tamb&eacute;m s&oacute; o infame do Martinho, com o seu sat&acirc;nico<br \/>\n    instinto de cobi&ccedil;a, poderia farejar uma escrava na pessoa daquele anjo!<br \/>\n    que impud&ecirc;ncia! se o visse agora aqui, era capaz de estrangul&aacute;?lo!<br \/>\n    Entretanto, Martinho, que se havia previamente munido de um mandado de apreens&atilde;o,<br \/>\n    e se fazia acompanhar de um oficial de justi&ccedil;a, exigia terminantemente<br \/>\n    que se lhe fizesse entrega de Isaura. &Aacute;lvaro, por&eacute;m, interpondo<br \/>\n    o valimento e prest&iacute;gio de que gozava, op&ocirc;s?se decididamente<br \/>\n    a essa exig&ecirc;ncia, e tomando por testemunhas as pessoas que ali se achavam,<br \/>\n    constituiu?se fiador da escrava, comprometendo?se a entreg&aacute;?la a seu<br \/>\n    senhor, ou a quem por ordem dele a reclamasse. Em v&atilde;o Martinho quis<br \/>\n    insistir; uma multid&atilde;o de vozes, que o apupavam e cobriam de inj&uacute;rias,<br \/>\n    for&ccedil;aram?no a calar?se e desistir de sua pretens&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! malditos! querem?me roubar! &#8211; bradava Martinho como um possesso. &#8211;<br \/>\n    Meus cinco contos! ai! meus cinco contos! l&aacute; se v&atilde;o pela &aacute;gua<br \/>\n    abaixo.<\/p>\n<p> E dizendo isto procurou a escada, e saltando?a aos dois e tr&ecirc;s degraus,<br \/>\n    l&aacute; se foi bramindo pela porta a fora.<\/p>\n<h2><a name=\"15\" id=\"15\"> Cap&iacute;tulo 15<\/a><\/h2>\n<p> J&aacute; &eacute; passado cerca de um m&ecirc;s depois dos acontecimentos<br \/>\n    que acabamos de narrar. Isaura e Miguel, gra&ccedil;as &agrave; valiosa interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de &Aacute;lvaro, continuam a habitar a mesma pequena ch&aacute;cara no bairro<br \/>\n    de Santo Ant&ocirc;nio. J&aacute; n&atilde;o lhes sendo mais poss&iacute;vel<br \/>\n    pensar em fugir para mais longe nem ocultarem?se, ali se conservam por conselho<br \/>\n    de seu protetor, esperando o resultado dos passos que este se comprometera<br \/>\n    a dar em favor deles, por&eacute;m sempre na mais angustiosa inquieta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como D&acirc;mocles tendo sobre a cabe&ccedil;a aguda espada suspensa por<br \/>\n    um fio.<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro vai quase todos os dias &agrave; casa dos dois foragidos,<br \/>\n    e ali passa longas horas entretendo?os sobre os meios de conseguir a liberdade<br \/>\n    de sua protegida, e procurando confort&aacute;?los na esperan&ccedil;a de<br \/>\n    melhor destino.<\/p>\n<p> Para nos inteirarmos do que tem ocorrido desde a fatal noite do baile, ou&ccedil;amos<br \/>\n    a conversa&ccedil;&atilde;o que teve lugar em casa de Isaura, entre &Aacute;lvaro<br \/>\n    e o seu amigo Dr. Geraldo.<\/p>\n<p> Este, na mesma manh&atilde; que seguiu?se &aacute; noite do baile, deixara<br \/>\n    o Recife e partira para uma vila do interior, onde tinha sido chamado a fim<br \/>\n    de encarregar?se de uma causa importante. De volta &agrave; capital no fim<br \/>\n    de um m&ecirc;s, um de seus primeiros cuidados foi procurar &Aacute;lvaro,<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; pelo impulso da amizade, como tamb&eacute;m estimulado<br \/>\n    pela curiosidade de saber do desenlace que tivera a singular aventura do baile.<br \/>\n    N&atilde;o o tendo achado em casa por duas ou tr&ecirc;s vezes que a&iacute;<br \/>\n    o procurou, presumiu que o meio mais prov&aacute;vel de encontr&aacute;?lo<br \/>\n    seria procur&aacute;?lo em casa de Isaura, caso ela ainda se achasse no Recife<br \/>\n    residindo na mesma ch&aacute;cara; n&atilde;o se iludiu.<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro, tendo reconhecido a voz de seu amigo, que da porta do jardim<br \/>\n    perguntava por ele, saiu ao seu encontro; mas antes disso, tendo assegurado<br \/>\n    aos donos da casa que a pessoa que o procurava era um amigo &iacute;ntimo,<br \/>\n    em quem depositava toda confian&ccedil;a, pediu?lhes licen&ccedil;a para o<br \/>\n    fazer entrar.<\/p>\n<p> Geraldo foi introduzido em uma pequena sala da frente. Posto que pouco espa&ccedil;osa<br \/>\n    e mobiliada com a maior simplicidade, era esta salinha t&atilde;o fresca,<br \/>\n    sombria e perfumada, t&atilde;o cheia de flores desde a porta da entrada,<br \/>\n    a qual bem como as janelas estava toda entrela&ccedil;ada de ramos e fest&otilde;es<br \/>\n    de flores, que mais parecia um caramanch&atilde;o ou gruta de verdura, do<br \/>\n    que mesmo uma sala. Quase toda a luz lhe vinha pelos fundos atrav&eacute;s<br \/>\n    de uma larga porta dando para uma varanda aberta, que olhava para o mar. Dali<br \/>\n    a vista, enfiando?se por entre troncos de coqueiros, que derramavam sombra<br \/>\n    e fresquid&atilde;o em tomo da casa, deslizava pela superf&iacute;cie do oceano,<br \/>\n    e ia embeber?se na profundidade de um c&eacute;u l&iacute;mpido e cheio de<br \/>\n    fulgores.<\/p>\n<p> Miguel e Isaura depois de terem cumprimentado o visitante e trocado com<br \/>\n    ele algumas palavras de mera civilidade, presumindo que queriam estar s&oacute;s,<br \/>\n    retiraram?se discretamente para o interior da casa.<\/p>\n<p> &#8211; Na verdade, &Aacute;lvaro, &#8211; disse o doutor sorrindo?se, &#8211; &eacute; uma<br \/>\n    deliciosa morada esta, e n&atilde;o admira que gostes de passar aqui grande<br \/>\n    parte do teu tempo. Parece mesmo a gruta misteriosa de uma fada. &Eacute;<br \/>\n    pena que um maldito nigromante quebrasse de repente o encanto de tua fada,<br \/>\n    transformando?a em uma simples escrava! &#8211; Ah! n&atilde;o gracejes, meu doutor;<br \/>\n    aquela cena extraordin&aacute;ria produziu em meu esp&iacute;rito a mais estranha<br \/>\n    e dolorosa impress&atilde;o: por&eacute;m, francamente te confesso, n&atilde;o<br \/>\n    mudou sen&atilde;o por instantes a natureza de meus sentimentos para com essa<br \/>\n    mulher.<\/p>\n<p> &#8211; Que me dizes?&#8230; a tal ponto chegar&aacute; a tua excentricidade?!..<\/p>\n<p> &#8211; Que queres? a natureza assim me fez. Nos primeiros momentos a vergonha<br \/>\n    e mesmo uma esp&eacute;cie de raiva me cegaram; vi quase com prazer o transe<br \/>\n    cruel por que ela passou. Que triste e pungente decep&ccedil;&atilde;o! Vi<br \/>\n    em um momento desmoronar?se e desfazer?se em lama o brilhante castelo que<br \/>\n    minha imagina&ccedil;&atilde;o com tanto amor tinha erigido!&#8230; uma escrava<br \/>\n    iludir?me por tanto tempo, e por fim ludibriar?me, expondo?me em face da sociedade<br \/>\n    &agrave; mais humilhante irris&atilde;o! faze id&eacute;ia de quanto eu ficaria<br \/>\n    confuso e corrido diante daquelas ilustres damas, com as quais tinha feito<br \/>\n    ombrear uma escrava em pleno baile, perante a mais distinta e brilhante sociedade!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E o que mais &eacute;, &#8211; acrescentou Geraldo, &#8211; uma escrava que as ofuscava<br \/>\n    a todas por sua rara formosura e brilhantes talentos. Nem de prop&oacute;sito<br \/>\n    poderias preparar?lhes mais tremenda humilha&ccedil;&atilde;o, um crime, que<br \/>\n    nunca te perdoar&atilde;o, posto que saibam que tamb&eacute;m andavas iludido.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, Geraldo; eu, que naquela ocasi&atilde;o, desairado e confuso,<br \/>\n    n&atilde;o sabia onde esconder a cara, hoje rio e me aplaudo por ter dado<br \/>\n    ocasi&atilde;o a semelhante aventura. Parece que Deus de prop&oacute;sito<br \/>\n    tinha preparado aquela interessante cena, para mostrar de um modo palpitante<br \/>\n    quanto &eacute; v&atilde; e rid&iacute;cula toda a distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que prov&eacute;m do nascimento e da riqueza, e para humilhar at&eacute; o<br \/>\n    p&oacute; da terra o orgulho e fatuidade dos grandes, e exaltar e enobrecer<br \/>\n    os humildes de nascimento, mostrando que uma escrava pode valer mais que uma<br \/>\n    duquesa.<\/p>\n<p> Pouco durou aquela primeira e desagrad&aacute;vel impress&atilde;o. Bem<br \/>\n    depressa a compaix&atilde;o, a curiosidade, o interesse, que inspira o infort&uacute;nio<br \/>\n    em uma pessoa daquela ordem, e talvez tamb&eacute;m o amor, que nem com aquele<br \/>\n    estrondoso esc&acirc;ndalo pudera extinguir?se em meu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fizeram?me esquecer tudo, e resolvi?me a proteger francamente e a todo o transe<br \/>\n    a formosa cativa. Apenas consegui que Isaura recobrasse os sentidos, e a vi<br \/>\n    fora de perigo, corri &agrave; casa do chefe de pol&iacute;cia, e expondo-lhe<br \/>\n    o caso, gra&ccedil;as &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es de amizade, que com<br \/>\n    ele tenho, obtive permiss&atilde;o para que Isaura e seu pai, &#8211; fica sabendo<br \/>\n    que &eacute; realmente seu pai, &#8211; pudessem recolher?se livremente &agrave;<br \/>\n    sua casa, ficando eu por garantia de que n&atilde;o desapareceriam; e assim<br \/>\n    se efetuou, a despeito dos bramidos do Martinho, que teimava em n&atilde;o<br \/>\n    querer largar a presa. Todavia, no dia seguinte pela manh&atilde;, o mesmo<br \/>\n    chefe, pesando a gravidade e import&acirc;ncia do neg&oacute;cio, quis que<br \/>\n    ela fosse conduzida &agrave; sua presen&ccedil;a para interrog&aacute;?la<br \/>\n    e verificar a identidade de pessoa. <\/p>\n<p>Encarreguei?me de conduzi?la. Oh! se a visses ent&atilde;o!&#8230; Atrav&eacute;s<br \/>\n    das l&aacute;grimas, que lhe arrancava sua cruel situa&ccedil;&atilde;o, transparecia,<br \/>\n    em todo o seu brilho, a dignidade humana. Nada havia nela que denunciasse<br \/>\n    a abje&ccedil;&atilde;o do escravo, ou que n&atilde;o revelasse a candura<br \/>\n    e nobreza de sua alma. Era o anjo da dor exilado do c&eacute;u e arrastado<br \/>\n    perante os tribunais humanos.<\/p>\n<p> Cheguei a duvidar ainda da cruel realidade. O chefe de pol&iacute;cia, possu&iacute;do<br \/>\n    de respeito e admira&ccedil;&atilde;o diante de t&atilde;o gentil e nobre<br \/>\n    figura, tratou?a com toda a amabilidade, e interrogou?a com brandura e polidez.<br \/>\n    Coberta de rubor e pejo confessou tudo com a ingenuidade de uma alma pura.<br \/>\n    Fugira em companhia de seu pai, para escapar ao amor de um senhor devasso,<br \/>\n    libidinoso e cruel, que a poder de viol&ecirc;ncias e tormentos tentava for&ccedil;&aacute;?la<br \/>\n    a satisfazer seus brutais desejos. Mas Isaura, a quem uma natureza privilegiada<br \/>\n    secundada pela mais fina e esmerada educa&ccedil;&atilde;o, inspirara desde<br \/>\n    a inf&acirc;ncia o sentimento da dignidade e do pudor, repeliu com energia<br \/>\n    her&oacute;ica todas as sedu&ccedil;&otilde;es e amea&ccedil;as de seu indigno<br \/>\n    senhor. Enfim, amea&ccedil;ada dos mais aviltantes e b&aacute;rbaros tratamentos,<br \/>\n    que j&aacute; come&ccedil;avam a traduzir?se em vias de fato, tomou o partido<br \/>\n    extremo de fugir, o &uacute;nico que lhe restava.<\/p>\n<p> &#8211; O motivo da fuga, &Aacute;lvaro, a ser verdadeiro, &eacute; o mais honroso<br \/>\n    poss&iacute;vel para ela, e a toma uma hero&iacute;na; mas&#8230; enfim de contas<br \/>\n    ela n&atilde;o deixa de ser uma escrava fugida.<\/p>\n<p> &#8211; E por isso mesmo mais digna de interesse e compaix&atilde;o. Isaura tem?me<br \/>\n    contado toda a sua vida, e segundo creio, pode alegar, e talvez provar direito<br \/>\n    &agrave; liberdade. Sua senhora velha, m&atilde;e do atual senhor, a qual<br \/>\n    criou?a com todo o mimo, e a quem ela deve a excelente educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que tem, tinha declarado por vezes diante de testemunhas, que por sua morte<br \/>\n    a deixaria livre; a morte s&uacute;bita e inesperada desta senhora, que faleceu<br \/>\n    sem testamento, &eacute; a causa de Isaura achar?se ainda entre as garras<br \/>\n    do mais devasso e infame dos senhores.<\/p>\n<p> &#8211; E agora, o que pretendes fazer?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pretendo requerer que Isaura seja mantida em liberdade, e que lhe seja<br \/>\n    nomeado um curador a fim de tratar do seu direito.<\/p>\n<p> &#8211; E onde esperas encontrar provas ou documentos para provar as alega&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que fazes? &#8211; N&atilde;o sei, Geraldo; desejava consultar?te, e esperava?te<br \/>\n    com impaci&ecirc;ncia precisamente para esse fim. Quero que com a tua ci&ecirc;ncia<br \/>\n    jur&iacute;dica me esclare&ccedil;as e inspires neste neg&oacute;cio. J&aacute;<br \/>\n    lancei m&atilde;o do primeiro e mais &oacute;bvio expediente que se me oferecia,<br \/>\n    e logo no dia seguinte ao do baile escrevi ao senhor de Isaura com as palavras<br \/>\n    as mais comedidas e suasivas, de que pude usar, convidando?o a abrir pre&ccedil;o<br \/>\n    para a liberdade dela. Foi pior; o libidinoso e ciumento Raj&aacute; enfureceu?se<br \/>\n    e mandou?me em resposta esta carta insolente, que acabo de receber, em que<br \/>\n    me trata de sedutor e acoutador de escravas alheias, e protesta lan&ccedil;ar<br \/>\n    m&atilde;o dos meios legais para que lhe seja entregue a escrava.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; bem parvo e descort&ecirc;s o tal sultanete, &#8211; disse Geraldo<br \/>\n    depois de ter percorrido rapidamente a carta, que &Aacute;lvaro lhe apresentou;<br \/>\n    &#8211; mas o certo &eacute; que, pondo de parte a insol&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pela qual h&aacute; de me dar completa e solene satisfa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    eu o protesto.<\/p>\n<p> &#8211; Pondo de parte a insol&ecirc;ncia, se nada tens de valioso a apresentar<br \/>\n    em favor da liberdade da tua protegida, ele tem o incontest&aacute;vel direito<br \/>\n    de reclamar e apreender a sua escrava onde quer que se ache.<\/p>\n<p> &#8211; Infame e cruel direito &eacute; esse, meu caro Geraldo. &Eacute; j&aacute;<br \/>\n    um esc&aacute;rnio dar?se o nome de direito a uma institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    b&aacute;rbara, contra a qual protestam altamente a civiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a moral e a religi&atilde;o. Por&eacute;m, tolerar a sociedade que um senhor<br \/>\n    tirano e brutal, levado por motivos infames e vergonhosos, tenha o direito<br \/>\n    de torturar uma fr&aacute;gil e inocente criatura, s&oacute; porque teve a<br \/>\n    desdita de nascer escrava, &eacute; o requinte da celeradez e da abomina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; tanto assim, meu caro &Aacute;lvaro; esses excessos<br \/>\n    e abusos devem ser coibidos; mas como poder&aacute; a justi&ccedil;a ou o<br \/>\n    poder p&uacute;blico devassar o interior do lar dom&eacute;stico, e ingerir?se<br \/>\n    no governo da casa do cidad&atilde;o? que abomin&aacute;veis e hediondos mist&eacute;rios,<br \/>\n    a que a escravid&atilde;o d&aacute; lugar, n&atilde;o se passam por esses<br \/>\n    engenhos e fazendas, sem que, j&aacute; n&atilde;o digo a justi&ccedil;a,<br \/>\n    mas nem mesmo os vizinhos, deles tenham conhecimento?&#8230;<\/p>\n<p> Enquanto houver escravid&atilde;o, h&atilde;o de se dar esses exemplos.<br \/>\n    Uma institui&ccedil;&atilde;o m&aacute; produz uma infinidade de abusos, que<br \/>\n    s&oacute; poder&atilde;o ser extintos cortando?se o mal pela raiz.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; desgra&ccedil;adamente assim; mas se a sociedade abandona desumanamente<br \/>\n    essas v&iacute;timas ao furor de seus algozes, ainda h&aacute; no mundo almas<br \/>\n    generosas que se incumbem de proteg&ecirc;?las ou ving&aacute;?las. Quanto<br \/>\n    a mim protesto, Geraldo, enquanto no meu peito pulsar um cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    hei de disputar Isaura &agrave; escravid&atilde;o com todas as minhas for&ccedil;as,<br \/>\n    e espero que Deus me favorecer&aacute; em t&atilde;o justa e santa causa.<\/p>\n<p> &#8211; Pelo que vejo, meu &Aacute;lvaro, n&atilde;o procedes assim s&oacute;<br \/>\n    por esp&iacute;rito de filantropia, e ainda amas muito a essa escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Tu o disseste, Geraldo; amo?a muito, e hei de am&aacute;?la sempre e nem<br \/>\n    disso fa&ccedil;o mist&eacute;rio algum. E ser&aacute; coisa estranha ou vergonhosa<br \/>\n    amar?se uma escrava? O patriarca Abra&atilde;o amou sua escrava Agar, e por<br \/>\n    ela abandonou Sara, sua mulher. A humildade de sua condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o pode despojar Isaura da c&acirc;ndida e brilhante aur&eacute;ola<br \/>\n    de que a via e at&eacute; hoje a vejo circundada. A beleza e a inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    s&atilde;o astros que mais refulgem quando engolfados na profunda escurid&atilde;o<br \/>\n    do infort&uacute;nio.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; bela a tua filosofia, e digna de teu nobre cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas que queres? as leis civis, as conven&ccedil;&otilde;es sociais, s&atilde;o<br \/>\n    obras do homem, imperfeitas, injustas, e muitas vezes cru&eacute;is. O anjo<br \/>\n    padece e geme sob o jugo da escravid&atilde;o, e o dem&ocirc;nio exal&ccedil;a?se<br \/>\n    ao fast&iacute;gio da fortuna e do poder.<\/p>\n<p> &#8211; E assim pois, &#8211; refletiu &Aacute;lvaro com des&acirc;nimo, &#8211; nessas desastradas<br \/>\n    leis nenhum meio encontras de disputar ao algoz essa inocente v&iacute;tima?<br \/>\n    &#8211; Nenhum, &Aacute;lvaro, enquanto nenhuma prova puderes aduzir em prol do<br \/>\n    direito de tua protegida. A lei no escravo s&oacute; v&ecirc; a propriedade,<br \/>\n    e quase que prescinde nele inteiramente da natureza humana. O senhor tem direito<br \/>\n    absoluto de propriedade sobre o escravo, e s&oacute; pode perd&ecirc;?lo manumitindo?o<br \/>\n    ou alheando?o por qualquer maneira, ou por lit&iacute;gio provando?se liberdade,<br \/>\n    mas n&atilde;o por sev&iacute;cias que cometa ou outro qualquer motivo an&aacute;logo.<\/p>\n<p> &#8211; Miser&aacute;vel e est&uacute;pida papelada que s&atilde;o essas vossas<br \/>\n    leis. Para ilaquear a boa?f&eacute;, proteger a fraude, iludir a ignor&acirc;ncia,<br \/>\n    defraudar o pobre e favorecer a usura e rapacidade dos ricos, s&atilde;o elas<br \/>\n    fecundas em recursos e estratagemas de toda a esp&eacute;cie. Mas quando se<br \/>\n    tem em vista um fim humanit&aacute;rio, quando se trata de proteger a inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    desvalida contra a prepot&ecirc;ncia, de amparar o infort&uacute;nio contra<br \/>\n    uma injusta persegui&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o ou s&atilde;o mudas, ou<br \/>\n    s&atilde;o cru&eacute;is. Mas n&atilde;o obstante elas, hei de empregar todos<br \/>\n    os esfor&ccedil;os ao meu alcance para libertar a infeliz do afrontoso jugo<br \/>\n    que a oprime. Para tal empresa alenta?me n&atilde;o j&aacute; somente um impulso<br \/>\n    de generosidade, como tamb&eacute;m o mais puro e ardente amor, sem pejo o<br \/>\n    confesso.<\/p>\n<p> O amigo de &Aacute;lvaro arrepiou?se com esta delibera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o franca e entusiasticamente proclamada com essa linguagem t&atilde;o<br \/>\n    exaltada, que lhe pareceu um deplor&aacute;vel desvario da imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Nunca pensei, replicou com gravidade, &#8211; que a tal ponto chegasse a exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desse teu exc&ecirc;ntrico e malfadado amor. Que por um impulso de humanidade<br \/>\n    procures proteger uma escrava desvalida, nada mais digno e mais natural. O<br \/>\n    mais n&atilde;o passa de del&iacute;rio de uma imagina&ccedil;&atilde;o exaltada<br \/>\n    e romanesca. Ser&aacute; airoso e digno da posi&ccedil;&atilde;o que ocupas<br \/>\n    na sociedade, deixares?te dominar de uma paix&atilde;o violenta por uma escrava?<br \/>\n    &#8211; Escrava! &#8211; exclamou &Aacute;lvaro cada vez mais exaltado, &#8211; isso n&atilde;o<br \/>\n    passa de um nome v&atilde;o, que nada exprime, ou exprime uma mentira. Pureza<br \/>\n    de anjo, formosura de fada, eis a realidade! Pode um homem ou a sociedade<br \/>\n    inteira contrariar as vistas do Criador, e transformar em uma vil escrava<br \/>\n    o anjo que sobre a Terra caiu das m&atilde;os de Deus?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas por uma triste fatalidade o anjo caiu do c&eacute;u no loda&ccedil;al<br \/>\n    da escravid&atilde;o, e ningu&eacute;m aos olhos do mundo o poder&aacute;<br \/>\n    purificar dessa n&oacute;doa, que lhe mancha as asas. &Aacute;lvaro, a vida<br \/>\n    social est&aacute; toda juncada de forcas caudinas, por debaixo das quais<br \/>\n    nos &eacute; for&ccedil;oso curvar?nos, sob pena de abalroarmos a fronte em<br \/>\n    algum obst&aacute;culo, que nos fa&ccedil;a cair. Quem n&atilde;o respeita<br \/>\n    as conveni&ecirc;ncias e at&eacute; os preconceitos sociais, arrisca?se a<br \/>\n    cair no descr&eacute;dito ou no rid&iacute;culo.<\/p>\n<p> &#8211; A escravid&atilde;o em si mesma j&aacute; &eacute; uma indignidade, uma<br \/>\n    &uacute;lcera hedionda na face da na&ccedil;&atilde;o, que a tolera e protege.<br \/>\n    Por minha parte, nenhum motivo enxergo para levar a esse ponto o respeito<br \/>\n    por um preconceito absurdo, resultante de um abuso que nos desonra aos olhos<br \/>\n    do mundo civilizado. Seja eu embora o primeiro a dar esse nobre exemplo, que<br \/>\n    talvez ser&aacute; imitado. Sirva ele ao menos de um protesto en&eacute;rgico<br \/>\n    e solene contra uma b&aacute;rbara e vergonhosa institui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute;s rico, &Aacute;lvaro, e a riqueza te d&aacute; bastante independ&ecirc;ncia<br \/>\n    para poderes satisfazer os teus sonhos filantr&oacute;picos e os caprichos<br \/>\n    de tua imagina&ccedil;&atilde;o romanesca. Mas tua riqueza, por maior que<br \/>\n    seja, nunca poderia reformar os preju&iacute;zos do mundo, nem fazer com que<br \/>\n    essa escrava, a quem segundo todas as apar&ecirc;ncias quererias ligar o teu<br \/>\n    destino, fosse considerada, e nem mesmo admitida nos c&iacute;rculos da alta<br \/>\n    sociedade&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E que me importam os c&iacute;rculos da alta sociedade, uma vez que sejamos<br \/>\n    bem acolhidos no meio das pessoas de bom senso, e cora&ccedil;&atilde;o bem<br \/>\n    formado? Demais, enganas?te completamente, meu Geraldo. O mundo corteja sempre<br \/>\n    o dinheiro, onde quer que ele se ache. O ouro tem um brilho que deslumbra,<br \/>\n    e apaga completamente essas pretendidas n&oacute;doas de nascimento. N&atilde;o<br \/>\n    nos faltar&atilde;o, nunca, eu te afian&ccedil;o, o respeito, nem a considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social, enquanto nos n&atilde;o faltar o dinheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, &Aacute;lvaro, esqueces?te de uma coisa muito essencial; e se te<br \/>\n    n&atilde;o for poss&iacute;vel obter a liberdade de tua protegida?&#8230;<\/p>\n<p> A esta pergunta &Aacute;lvaro empalideceu, e oprimido pela id&eacute;ia<br \/>\n    de t&atilde;o cruel como poss&iacute;vel alternativa, sem responder ? palavra<br \/>\n    olhava tristemente para o horizonte, quando o boleeiro de &Aacute;lvaro, que<br \/>\n    se achava postado com sua cale&ccedil;a junto &agrave; porta do jardim, veio<br \/>\n    anunciar?lhe que algumas pessoas o procuravam e desejavam falar?lhe, ou ao<br \/>\n    dono da casa.<\/p>\n<p> &#8211; A mim! &#8211; resmungou &Aacute;lvaro; porventura estou eu em minha casa?&#8230;<br \/>\n    mas como tamb&eacute;m procuram o dono desta&#8230; fa&ccedil;a?os entrar.<\/p>\n<p> &#8211; &Aacute;lvaro, disse Geraldo espreitando por uma janela, &#8211; se me n&atilde;o<br \/>\n    engano, &eacute; gente da pol&iacute;cia; parece?me que l&aacute; vejo um<br \/>\n    oficial de justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> Teremos outra cena igual &agrave; do baile?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Imposs&iacute;vel!.., com que direito vir&atilde;o tocar?me no dep&oacute;sito<br \/>\n    sagrado, que a mesma pol&iacute;cia me confiou!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o te fies nisso. A justi&ccedil;a &eacute; uma deusa muito vol&uacute;vel<br \/>\n    e f&eacute;rtil em patranhas. Hoje desmanchar&aacute; o que fez ontem.<\/p>\n<h2><a name=\"16\" id=\"16\">Cap&iacute;tulo 16<\/a><\/h2>\n<p> O primeiro cuidado de Martinho logo ao sair do baile, em que viu malograda<br \/>\n    a sua tentativa de apreender Isaura, foi escrever ao senhor dela uma longa<br \/>\n    e minuciosa carta, comunicando?lhe que tinha tido a fortuna de descobrir a<br \/>\n    escrava que tanto procurava.<\/p>\n<p> Contava por mi&uacute;do as dilig&ecirc;ncias que fizera para esse fim,<br \/>\n    at&eacute; descobri?la em um baile p&uacute;blico e encarecia o seu pr&oacute;prio<br \/>\n    m&eacute;rito e perspic&aacute;cia para esbirro, dizendo que a n&atilde;o<br \/>\n    ser ele, ningu&eacute;m seria capaz de farejar uma escrava na pessoa de uma<br \/>\n    mo&ccedil;a t&atilde;o bonita e t&atilde;o prendada.<\/p>\n<p> Alterando os fatos e as circunst&acirc;ncias do modo o mais atroz e calunioso,<br \/>\n    dizia?lhe em frases de taverneiro, que Miguel se estabelecera no Recife com<br \/>\n    Isaura a fim de especular com a formosura da filha, a qual, a poder de armar<br \/>\n    la&ccedil;os &agrave; rapaziada vadia e opulenta, tinha por fim conseguido<br \/>\n    apanhar um patinho bem gordo e f&aacute;cil de depenar. Era este um pernambucano<br \/>\n    por nome &Aacute;lvaro, mo&ccedil;o duas vezes milion&aacute;rio, e mil vezes<br \/>\n    desmiolado, que tinha por ela uma paix&atilde;o louca. Este mo&ccedil;o, a<br \/>\n    quem ela trazia iludido e engodado ao ponto de ele querer despos&aacute;?la,<br \/>\n    caiu na tolice de lev&aacute;?la a um baile, onde ele Martinho teve a fortuna<br \/>\n    de descobri?la, e a teria apreendido, e estaria ela j&aacute; de marcha para<br \/>\n    o poder de seu senhor, se n&atilde;o fosse a oposi&ccedil;&atilde;o do tal<br \/>\n    senhor &Aacute;lvaro, que apesar de ficar sabendo de que ral&eacute; era a<br \/>\n    sua hero&iacute;na, teve a pouca?vergonha de proteg&ecirc;?la escandalosamente.<br \/>\n    Prevalecendo?se das valiosas rela&ccedil;&otilde;es, e da influ&ecirc;ncia<br \/>\n    de que gozava no pa&iacute;s em raz&atilde;o de sua riqueza, conseguiu impedir<br \/>\n    a sua apreens&atilde;o, e tornando?se fiador dela a conservava em seu poder<br \/>\n    contra toda a raz&atilde;o e justi&ccedil;a, protestando n&atilde;o entreg&aacute;?la<br \/>\n    sen&atilde;o ao seu pr&oacute;prio senhor. Julga que a inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de &Aacute;lvaro &eacute; tentar meios de libert&aacute;?la, a fim de faz&ecirc;?la<br \/>\n    sua mulher ou sua am&aacute;sia. Julgava de seu dever comunicar?lhe tudo isso<br \/>\n    para seu governo.<\/p>\n<p> Era este em suma o conte&uacute;do da carta de Martinho, a qual seguiu para<br \/>\n    o Rio de Janeiro no mesmo paquete que levava a carta de &Aacute;lvaro, fazendo<br \/>\n    proposi&ccedil;&otilde;es para a liberdade de Isaura. Le&ocirc;ncio, contente<br \/>\n    com a descoberta, mas cheio de ci&uacute;me e inquieta&ccedil;&atilde;o em<br \/>\n    vista das informa&ccedil;&otilde;es de Martinho, apressou?se em responder<br \/>\n    a ambos, e o mesmo paquete que trouxe a resposta insolente e insultuosa que<br \/>\n    dirigiu a &Aacute;lvaro, foi portador da que se destinava a Martinho, na qual<br \/>\n    o autorizava a apreender a escrava em qualquer parte que a encontrasse, e<br \/>\n    para maior seguran&ccedil;a remetia?lhe tamb&eacute;m procura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    especial para esse fim, e mais algumas cartas de recomenda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de pessoas importantes para o chefe de policia, para que o auxiliasse naquela<br \/>\n    dilig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Martinho mais que depressa dirigiu?se &agrave; casa da pol&iacute;cia, e<br \/>\n    apresentando ao chefe todos esses pap&eacute;is, requereu?lhe que mandasse<br \/>\n    entregar?lhe a escrava.<\/p>\n<p> O chefe em vista dos documentos de que Martinho se achava munido, entendeu<br \/>\n    que n&atilde;o lhe era poss&iacute;vel denegar?lhe o que pedia, e expediu<br \/>\n    ordem por escrito, para que lhe fosse entregue a escrava em quest&atilde;o.<br \/>\n    e deu?lhe um oficial de justi&ccedil;a e dois guardas para efetuarem a dilig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Foi, portanto, o Martinho, que, munido de todos os poderes, competentemente<br \/>\n    autorizado pela pol&iacute;cia, apresentou?se com sua escolta &agrave; porta<br \/>\n    da casa de Isaura, para arrebatar a Alvaro a cobi&ccedil;ada presa.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda este infame! &#8211; murmurou &Aacute;lvaro entre os dentes ao ver entrar<br \/>\n    o Martinho. &#8211; Era um rugido de c&oacute;lera impotente, que o angustiado mancebo<br \/>\n    arrancara do &iacute;ntimo da alma.<\/p>\n<p> &#8211; Que deseja de mim o senhor? &#8211; perguntou &Aacute;lvaro em tom seco e altivo.<\/p>\n<p> &#8211; V. S.&ordf; que bem me conhece, &#8211; respondeu Martinho, &#8211; j&aacute; pode<br \/>\n    presumir pouco mais ou menos o motivo que aqui me traz.<\/p>\n<p> &#8211; Nem por sombras posso adivinh&aacute;?lo, antes me causa estranheza esse<br \/>\n    aparato policial, de que vem acompanhado.<\/p>\n<p> &#8211; Sua estranheza cessar&aacute;, sabendo que venho reclamar uma escrava<br \/>\n    fugida, por nome Isaura, que h&aacute; muito tempo foi por mim apreendida<br \/>\n    no meio de um baile, no qual se achava V. S.&ordf; e devendo eu envi&aacute;?la<br \/>\n    a seu senhor no Rio de Janeiro, V. S.&ordf; a isso se op&ocirc;s sem motivo<br \/>\n    algum justific&aacute;vel, conservando?a at&eacute; hoje em seu poder contra<br \/>\n    todo o direito.<\/p>\n<p> &#8211; Alto l&aacute;, senhor Martinho! penso que n&atilde;o &eacute; pessoa<br \/>\n    competente para dar ou tirar direito a quem lhe parecer. O senhor bem sabe<br \/>\n    que eu sou deposit&aacute;rio dessa escrava, e que com todo o direito e consentimento<br \/>\n    da autoridade a tenho debaixo de minha prote&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Esse direito, se &eacute; que se pode chamar direito a uma arbitrariedade,<br \/>\n    cessou, desde que V. S.&ordf; nada tem alegado em favor da mesma escrava.<\/p>\n<p> E demais, &#8211; continuou apresentando um papel, &#8211; aqui est&aacute; ordem expressa<br \/>\n    e terminante do chefe de pol&iacute;cia, mandando que me seja entregue a dita<br \/>\n    escrava.<\/p>\n<p> A isto nada se pode opor legalmente.<\/p>\n<p> &#8211; Pelo que vejo, senhor Martinho, &#8211; disse &Aacute;lvaro depois de examinar<br \/>\n    rapidamente o papel que Martinho lhe entregara, &#8211; ainda n&atilde;o desistiu<br \/>\n    de seu indigno procedimento, tornando?se por um pouco de dinheiro o vil instrumento<br \/>\n    do algoz de uma infeliz mulher? Reflita, e ver&aacute; que essa infame a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; pode inspirar asco e horror a todo o mundo.<\/p>\n<p> Martinho achando?se acostado pela policia, julgou?se com direito de mostrar?se<br \/>\n    &aacute;spero e arrogante, e, portanto, com imperturb&aacute;vel sangue-frio:<br \/>\n    &#8211; Senhor &Aacute;lvaro, &#8211; respondeu, &#8211; eu vim a esta casa somente com o fim<br \/>\n    de exigir em nome da autoridade a entrega de uma escrava fugida, que aqui<br \/>\n    se acha acoutada, e n&atilde;o para ouvir repreens&otilde;es, que o senhor<br \/>\n    n&atilde;o tem direito de dar?me. Trate de fazer o que a lei ordena e a prud&ecirc;ncia<br \/>\n    aconselha, se n&atilde;o quer que use de meu direito&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual direito?!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; De varejar esta casa e levar &agrave; for&ccedil;a a escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Retira?te, miser&aacute;vel esbirro! &#8211; bradou &Aacute;lvaro com for&ccedil;a,<br \/>\n    n&atilde;o podendo mais sopear a c&oacute;lera. &#8211; Desaparece de minha presen&ccedil;a,<br \/>\n    se n&atilde;o queres pagar caro o teu atrevimento!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &Aacute;lvaro!&#8230; veja o que faz! O Dr. Geraldo, n&atilde;o achando<br \/>\n    muita raz&atilde;o em seu amigo, por prud&ecirc;ncia at&eacute; ali se tinha<br \/>\n    conservado silencioso, mas vendo que a c&oacute;lera e imprud&ecirc;ncia de<br \/>\n    Alvaro ia excedendo os limites, julgou de seu dever intervir na quest&atilde;o,<br \/>\n    e aproximando?se de Alvaro, e puxando?lhe o bra&ccedil;o: &#8211; Que fazes, &Aacute;lvaro?<br \/>\n    &#8211; disse?lhe em voz baixa. &#8211; N&atilde;o v&ecirc;s que com esses arrebatamentos<br \/>\n    n&atilde;o consegues sen&atilde;o comprometer?te, e agravar a sorte de Isaura?<br \/>\n    mais prud&ecirc;ncia, meu amigo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas&#8230; que devo eu fazer?&#8230; n&atilde;o me dir&aacute;s? &#8211; Entreg&aacute;?la.<\/p>\n<p> &#8211; Isso nunca!&#8230; &#8211; replicou &Aacute;lvaro terminantemente.<\/p>\n<p> Conservaram?se todos silenciosos por alguns momentos. &Aacute;lvaro parecia<br \/>\n    refletir.<\/p>\n<p> &#8211; Ocorre?me um expediente, &#8211; disse ele ao ouvido de Geraldo, &#8211; vou tent&aacute;?lo.<\/p>\n<p> E sem esperar resposta aproximou?se de Martinho.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Martinho, &#8211; disse?lhe ele, &#8211; desejo dizer?lhe duas palavras em<br \/>\n    particular, com permiss&atilde;o aqui do doutor.<\/p>\n<p> &#8211; Estou &agrave;s suas ordens, &#8211; replicou Martinho.<\/p>\n<p> &#8211; Estou persuadido, senhor Martinho, &#8211; disse?lhe Alvaro em voz baixa, tomando?o<br \/>\n    de parte, &#8211; que a gratifica&ccedil;&atilde;o de cinco contos &eacute; o motivo<br \/>\n    principal que o leva a proceder desta maneira contra uma infeliz mulher, que<br \/>\n    nunca o ofendeu. Est&aacute; em seu direito, eu reconhe&ccedil;o, e a soma<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; para desprezar. Mas se quiser desistir completamente desse<br \/>\n    neg&oacute;cio, e deixar em paz essa escrava, dou?lhe o dobro dessa quantia.<\/p>\n<p> &#8211; O dobro!&#8230; dez contos de r&eacute;is! exclamou Martinho arregalando os<br \/>\n    olhos.<\/p>\n<p> &#8211; Justamente; dez contos de r&eacute;is de hoje mesmo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, senhor Alvaro, j&aacute; empenhei minha palavra para com o senhor<br \/>\n    da escrava, dei passos para esse fim, e&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que importa!&#8230; diga que ela evadiu?se de novo, ou d&ecirc; outra qualquer<br \/>\n    desculpa&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Como, se &eacute; t&atilde;o p&uacute;blico que ela se acha em poder de<br \/>\n    V. S.&ordf; ?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora!&#8230; isso &eacute; sua vontade, senhor Martinho; pois um homem vivo<br \/>\n    e atilado como o senhor embara&ccedil;a?se com t&atilde;o pouca coisa!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; V&aacute;, feito &#8211; disse Martinho depois de refletir um instante. &#8211; J&aacute;<br \/>\n    que Sa. tanto se interessa por essa escrava, n&atilde;o quero mais afligi?lo<br \/>\n    com semelhante neg&oacute;cio, que a dizer?lhe a verdade bem me repugna.<\/p>\n<p> Aceito a proposta.<\/p>\n<p> &#8211; Obrigado; &eacute; um importante servi&ccedil;o que vai me prestar.<\/p>\n<p> &#8211; Mas que volta darei eu ao neg&oacute;cio para sair?me bem dele? &#8211; Veja<br \/>\n    l&aacute;; sua imagina&ccedil;&atilde;o &eacute; f&aacute;cil em recursos,<br \/>\n    e h&aacute; de inspirar?lhe algum meio de safar?se de dificuldades com a maior<br \/>\n    limpeza.<\/p>\n<p> Martinho ficou por alguns momentos a roer as unhas, pensativo e com os olhos<br \/>\n    pregados no ch&atilde;o. Por fim levantando a cabe&ccedil;a e levando &agrave;<br \/>\n    testa o dedo &iacute;ndice: &#8211; Atinei! exclamou. &#8211; Dizer que a escrava desapareceu<br \/>\n    de novo, n&atilde;o &eacute; conveniente, e iria comprometer a V. S.&ordf;<br \/>\n    que se responsabilizou por ela. Direi somente que, bem averiguado o caso,<br \/>\n    reconheci que a mo&ccedil;a, que Sa. tem em seu poder, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a escrava em quest&atilde;o, e est&aacute; tudo acabado.<\/p>\n<p> &#8211; Essa n&atilde;o &eacute; mal achada&#8230; mas foi um neg&oacute;cio t&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blico&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que importa!&#8230; n&atilde;o se lembra V. S.&ordf; de um sinal em forma<br \/>\n    de queimadura em cima do seio esquerdo, que vem consignado no an&uacute;ncio?<br \/>\n    direi, que n&atilde;o se achou semelhante sinal, que &eacute; muito caracter&iacute;stico,<br \/>\n    e est&aacute; destru&iacute;da a identidade de pessoa. Acrescentarei mais<br \/>\n    que a mo&ccedil;a, por quem V. S.&ordf; se interessa, vista de noite &eacute;<br \/>\n    uma coisa, e de dia &eacute; outra; que em nada se parece com a linda escrava<br \/>\n    que se acha descrita no an&uacute;ncio, e que em vez de ter vinte anos mostra<br \/>\n    ter seus trinta e muitos para quarenta, e que toda aquela mocidade e formosura<br \/>\n    era efeito dos arrebiques, e da luz vacilante dos lustres e candelabros.<\/p>\n<p> &#8211; O senhor &eacute; bem engenhoso. &#8211; observou Alvaro sorrindo?se; &#8211; mas<br \/>\n    os que a viram nenhum cr&eacute;dito dar&atilde;o a tudo isso. Resta, por&eacute;m,<br \/>\n    ainda uma dificuldade, senhor Martinho; &eacute; a confiss&atilde;o que ela<br \/>\n    fez em p&uacute;blico!&#8230; isto h&aacute; de ser custoso de embara&ccedil;ar?se.<\/p>\n<p> &#8211; Qual custoso!&#8230; alega?se que ela &eacute; sujeita a acessos de histerismo,<br \/>\n    e &eacute; sujeita a alucina&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Bravo, senhor Martinho; confio absolutamente em sua per&iacute;cia e habilidade.<br \/>\n    E depois? &#8211; E depois comunico tudo isso ao chefe de policia, declaro?lhe que<br \/>\n    nada mais tenho com esse neg&oacute;cio, passo a procura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a qualquer meirinho, ou capit&atilde;o?do?mato, que se queira encarregar dessa<br \/>\n    dilig&ecirc;ncia, e em ato cont&iacute;nuo escrevo ao senhor da escrava comunicando?lhe<br \/>\n    o meu engano, com o que ele por certo desistir&aacute; de procur&aacute;?la<br \/>\n    mais por aqui, e levar&aacute; a outras partes as suas pesquisas. Que tal<br \/>\n    acha o meu plano?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Admir&aacute;vel, e cumpre n&atilde;o perdermos tempo, senhor Martinho.<\/p>\n<p> &#8211; Vou j&aacute; neste andar, e em menos de duas horas estou aqui de volta,<br \/>\n    a dar parte do desempenho de minha comiss&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Aqui n&atilde;o, que n&atilde;o poderei demorar?me muito. Espero?o em<br \/>\n    minha casa, e l&aacute; receber&aacute; a soma convencionada.<\/p>\n<p> &#8211; Podem?se retirar, &#8211; disse Martinho ao oficial de justi&ccedil;a e aos<br \/>\n    guardas, que se achavam postados do lado de fora da porta. &#8211; Sua presen&ccedil;a<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; mais necess&aacute;ria aqui. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida!<br \/>\n    &#8211; continuou ele consigo mesmo: &#8211; isto vai a dobrar como no lansquen&ecirc;.<br \/>\n    Esta escrava &eacute; uma mina, que me parece n&atilde;o estar ainda esgotada.<\/p>\n<p> E retirou?se, esfregando as m&atilde;os de contentamento.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, que arranjo fizeste com o homem, meu &Aacute;lvaro? &#8211; perguntou<br \/>\n    Geraldo, apenas Martinho voltou as costas.<\/p>\n<p> &#8211; Excelente, &#8211; respondeu &Aacute;lvaro; &#8211; a minha lembran&ccedil;a surtiu<br \/>\n    o desejado efeito, e ainda mais do que eu esperava.<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro em poucas palavras deu conta ao seu amigo do mercado que fizera<br \/>\n    com o Martinho.<\/p>\n<p> &#8211; Que car&aacute;ter desprez&iacute;vel e abjeto o deste Martinho! &#8211; exclamou<br \/>\n    Geraldo. &#8211; De um tal instrumento n&atilde;o se pode esperar obra que preste.<br \/>\n    E julgas ter conseguido muita coisa, &Aacute;lvaro, com o passo que acabas<br \/>\n    de dar?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o muito, por&eacute;m alguma coisa sempre posso conseguir. Pelo<br \/>\n    menos consigo deter o golpe por algum tempo, e como diz l&aacute; o rif&atilde;o<br \/>\n    popular, meu Geraldo, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.<\/p>\n<p> Enquanto Le&ocirc;ncio, persuadido que a sua escrava n&atilde;o se acha<br \/>\n    aqui no Recife, a procura por todo esse mundo, ela fica aqui tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    &agrave; minha sombra, livre das persegui&ccedil;&otilde;es e dos maus?tratos<br \/>\n    de um b&aacute;rbaro senhor; e eu terei tempo para ativar os meios de arranjar<br \/>\n    provas e documentos que justifiquem o seu direito &agrave; liberdade. &Eacute;<br \/>\n    quanto me basta por agora; quanto ao resto, j&aacute; que pareces julgar a<br \/>\n    minha causa irremissivelmente perdida, a justi&ccedil;a divina me inspirar&aacute;<br \/>\n    o modo por que devo proceder.<\/p>\n<p> &#8211; Como te enganas, meu pobre &Aacute;lvaro!&#8230; cuidas que arredando o Martinho<br \/>\n    ficas por enquanto livre de persegui&ccedil;&otilde;es e pesquisas contra<br \/>\n    a tua protegida? que cegueira!&#8230; n&atilde;o faltar&atilde;o malsins igualmente<br \/>\n    esganados por dinheiro, que pelos cinco contos de r&eacute;is, que para estes<br \/>\n    miser&aacute;veis &eacute; uma soma fabulosa, se ponham &agrave; cata de t&atilde;o<br \/>\n    preciosa presa. Agora principalmente, que o Martinho deu o alarma, e que esse<br \/>\n    neg&oacute;cio tem atingido a um certo grau de celebridade, em vez de um,<br \/>\n    aparecer&atilde;o cem Martinhos no encal&ccedil;o da bela fugitiva, e n&atilde;o<br \/>\n    ter&atilde;o mais que fazer sen&atilde;o seguir a trilha batida pelo primeiro.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute;s muito meticuloso, Geraldo, e encaras as coisas sempre pelo lado<br \/>\n    pior. &Eacute; bem prov&aacute;vel que peguem as patranhas inventadas pelo<br \/>\n    Martinho, e que ningu&eacute;m mais se lembre de descobrir a cativa Isaura<br \/>\n    nessa mo&ccedil;a, por quem me interesso, e embora mil malsins a procurem<br \/>\n    por todos os cantos do mundo, pouco me importar&aacute;. Sempre obtenho uma<br \/>\n    dila&ccedil;&atilde;o, que poder&aacute; me ser muito vantajosa.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, &Aacute;lvaro; vamos que assim aconte&ccedil;a; mas tu n&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;s que semelhante procedimento n&atilde;o &eacute; digno de ti?&#8230;<br \/>\n    que assim incorres realmente nos ep&iacute;tetos afrontosos, com que obsequiou?te<br \/>\n    o tal Le&ocirc;ncio, e que te tomas verdadeiramente um sedutor e acoutador<br \/>\n    de escravos alheios?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Desculpa?me, meu caro Geraldo; n&atilde;o posso aceitar a tua reprimenda.<\/p>\n<p> Ela s&oacute; pode ter aplica&ccedil;&atilde;o aos casos vulgares, e n&atilde;o<br \/>\n    &agrave;s circunst&acirc;ncias especial&iacute;ssimas em que eu e Isaura nos<br \/>\n    achamos colocados. Eu n&atilde;o dou couto, nem capeio a uma escrava: protejo<br \/>\n    um anjo, e amparo uma v&iacute;tima inocente contra a sanha de um algoz. Os<br \/>\n    motivos que me impelem, e as qualidades da pessoa por quem dou estes passos,<br \/>\n    nobilitam o meu procedimento, e s&atilde;o bastantes para justificar?me aos<br \/>\n    olhos de minha consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, Alvaro; faze o que quiseres; n&atilde;o sei que mais possa dizer?te<br \/>\n    para demover?te de um procedimento, que julgo n&atilde;o s&oacute; imprudente,<br \/>\n    como, a falar?te com sinceridade, rid&iacute;culo, e indigno da tua pessoa.<\/p>\n<p> Geraldo n&atilde;o podia dissimular o descontentamento que lhe causava aquela<br \/>\n    cega paix&atilde;o, que levava o seu amigo a atos que qualificava de burlesco<br \/>\n    desatino, e loucura inqualific&aacute;vel. Por isso, longe de auxili&aacute;?lo<br \/>\n    com seus conselhos, e indicar?lhe os meios de promover a liberta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Isaura, procurava com todo o empenho demov&ecirc;?lo daquele prop&oacute;sito,<br \/>\n    pintando o neg&oacute;cio ainda mais dif&iacute;cil do que realmente o era.<br \/>\n    De bom grado, se lhe fosse poss&iacute;vel, teria entregado Isaura a seu senhor<br \/>\n    somente para livrar &Aacute;lvaro daquela terr&iacute;vel tenta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que o ia precipitando na senda das mais rid&iacute;culas extravag&acirc;ncias.<\/p>\n<h2><a name=\"17\" id=\"17\"> Capitulo 17<\/a><\/h2>\n<p> Achando?se s&oacute;, Alvaro sentou?se junto a uma mesa, e apoiando nela<br \/>\n    os cotovelos com a fronte entre as m&atilde;os, ficou a cismar profundamente.<\/p>\n<p> Isaura, por&eacute;m, pressentindo pelo sil&ecirc;ncio que reinava na sala,<br \/>\n    que j&aacute; ali n&atilde;o havia pessoas estranhas, foi ter com ele.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &Aacute;lvaro, &#8211; disse ela chegando?se de manso e timidamente;<br \/>\n    &#8211; desculpe?me&#8230; eu venho decerto lhe aborrecer&#8230; queria talvez estar s&oacute;&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o, minha Isaura; tu nunca me aborreces; pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    &eacute;s sempre bem?vinda junto de mim&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas vejo?o t&atilde;o triste!&#8230; parece?me que aqui entrou mais gente,<br \/>\n    e alteravam?se vozes. Deram?lhe algum desgosto, meu senhor?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nada houve de extraordin&aacute;rio, Isaura; foram algumas pessoas que<br \/>\n    vieram procurar o doutor Geraldo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas ent&atilde;o, por que est&aacute; assim triste e abatido? &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    estou triste nem abatido. Estava meditando nos meios de arrancar?te do abismo<br \/>\n    da escravid&atilde;o, meu anjo, e elevar?te &agrave; posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para que o c&eacute;u te criou.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! senhor, n&atilde;o se mortifique assim por amor de uma infeliz, que<br \/>\n    n&atilde;o merece tais extremos, &Eacute; in&uacute;til lutar contra o destino<br \/>\n    irremedi&aacute;vel que me persegue.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o fales assim, Isaura. Tens em bem pouca conta a minha prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o meu amor!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sou digna de ouvir de sua boca essa doce palavra. Empregue<br \/>\n    seu amor em outra mulher que dele seja merecedora, e esque&ccedil;a?se da<br \/>\n    pobre cativa, que tornou?se indigna at&eacute; de sua compaix&atilde;o ocultando?lhe<br \/>\n    a sua condi&ccedil;&atilde;o, e fazendo?o passar pelo vergonhoso pesar de&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Cala?te, Isaura&#8230; at&eacute; quando pretendes lembrar?te desse maldito<br \/>\n    incidente?&#8230; eu somente fui o culpado for&ccedil;ando?te a ir a esse baile,<br \/>\n    e tinhas raz&atilde;o de sobra para n&atilde;o revelar?me a tua desgra&ccedil;a.<br \/>\n    Esquece?te disso; eu te pe&ccedil;o pelo nosso amor, Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o posso esquecer?me, porque os remorsos me avivam sempre n&#8217;alma<br \/>\n    a lembran&ccedil;a dessa fraqueza. A desgra&ccedil;a &eacute; m&aacute; conselheira,<br \/>\n    e nos perturba e anuvia o espirito. Eu o amava, assim como o amo ainda, e<br \/>\n    cada vez mais&#8230; perdoe?me esta declara&ccedil;&atilde;o, que &eacute; sem<br \/>\n    d&uacute;vida uma ousadia na boca de uma escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Fala, Isaura, fala sempre, que me amas. Pudesse eu ouvir de teus l&aacute;bios<br \/>\n    essa palavra por toda a eternidade.<\/p>\n<p> &#8211; Era um triste amor na verdade, um amor de escrava, um amor sem sorriso<br \/>\n    nem esperan&ccedil;a. Mas a ventura de ser amada pelo senhor era uma id&eacute;ia<br \/>\n    t&atilde;o consoladora para mim! Amando?me o senhor me nobilitava, a meus<br \/>\n    pr&oacute;prios olhos, e quase me fazia esquecer a realidade de minha humilde<br \/>\n    condi&ccedil;&atilde;o. Eu tremia ao pensar que descobrindo?lhe a verdade,<br \/>\n    ia perder para sempre essa doce e &uacute;nica consola&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    me restava na vida. Perdoe, meu senhor, perdoe &agrave; escrava infeliz, que<br \/>\n    teve a louca ousadia de am&aacute;?lo.<\/p>\n<p> &#8211; Isaura, deixa?te de v&atilde;os escr&uacute;pulos, e dessas frases humildes,<br \/>\n    que de modo nenhum podem caber em teus l&aacute;bios ang&eacute;licos. Se<br \/>\n    me amas, eu tamb&eacute;m te amo, porque em tudo te julgo digna do meu amor;<br \/>\n    que mais queres tu?&#8230; Se antes de conhecer a condi&ccedil;&atilde;o em que<br \/>\n    nasceste, eu te amei subjugado por teus raros encantos, hoje que sei que a<br \/>\n    tantos atrativos re&uacute;nes o prestigio do infort&uacute;nio e do mart&iacute;rio,<br \/>\n    eu te adoro, eu te idolatro mais que nunca.<\/p>\n<p> &#8211; Ama?me, e &eacute; essa id&eacute;ia, que ainda mais me mortifica!&#8230;<br \/>\n    de que nos serve esse amor, se nem ao menos posso ter a fortuna de ser sua<br \/>\n    escrava, e devo sem rem&eacute;dio morrer entre as m&atilde;os de meu algoz..<\/p>\n<p> &#8211; Nunca, Isaura! &#8211; exclamou &Aacute;lvaro com exalta&ccedil;&atilde;o: &#8211;<br \/>\n    minha fortuna, minha tranquilidade, minha vida, tudo sacrificarei para libertar-te<br \/>\n    do jugo desse vil tirano. Se a justi&ccedil;a da Terra n&atilde;o me auxilia<br \/>\n    nesta nobre e generosa empresa, a justi&ccedil;a do c&eacute;u se far&aacute;<br \/>\n    cumprir por minhas maos.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! senhor Alvaro!&#8230; n&atilde;o v&aacute; sacrificar?se por uma pobre<br \/>\n    escrava, que n&atilde;o merece tais excessos. Abandone?me &agrave; minha sina<br \/>\n    fatal; j&aacute; n&atilde;o &eacute; pouca felicidade para mim ter merecido<br \/>\n    o amor de um cavalheiro t&atilde;o nobre e t&atilde;o am&aacute;vel, como<br \/>\n    o senhor; esta lembran&ccedil;a me servir&aacute; de alento e consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em minha desgra&ccedil;a. N&atilde;o posso, por&eacute;m, consentir que o<br \/>\n    senhor avilte o seu nome e a sua reputa&ccedil;&atilde;o, amando com tal extremo<br \/>\n    a uma escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Por piedade, Isaura, n&atilde;o me martirizes mais com essa maldita palavra,<br \/>\n    que constantemente tens nos l&aacute;bios. Escrava tu!&#8230; n&atilde;o o &eacute;s,<br \/>\n    nunca o foste, e nunca o ser&aacute;s. Pode acaso a tirania de um homem ou<br \/>\n    da sociedade inteira transformar em um ente vil, e votar &agrave; escravid&atilde;o<br \/>\n    aquela que das m&atilde;os de Deus saiu um anjo digno do respeito e adora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todos? N&atilde;o, Isaura; eu saberei erguer?te ao nobre e honroso lugar<br \/>\n    a que o c&eacute;u te destinou, e conto com a prote&ccedil;&atilde;o de um<br \/>\n    Deus justo, porque protejo um dos seus anjos.<\/p>\n<p>Alvaro, n&atilde;o obstante ficar sabendo, depois da noite do baile, que<br \/>\n    Isaura era uma simples escrava, nem por isso deixou de trat&aacute;?la da&iacute;<br \/>\n    em diante com o mesmo respeito, defer&ecirc;ncia e delicadeza, como a uma<br \/>\n    donzela da mais distinta jerarquia social. Procedia assim de acordo com os<br \/>\n    elevados principios que professava, e com os nobres e delicados sentimentos<br \/>\n    do seu cora&ccedil;&atilde;o. O pudor, a inoc&ecirc;ncia, o talento, a virtude<br \/>\n    e o infort&uacute;nio, eram sempre para ele coisas respeit&aacute;veis e sagradas,<br \/>\n    quer se achassem na pessoa de uma princesa, quer na de uma escrava. Sua afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era t&atilde;o casta e pura como a pessoa que dela era objeto, e nunca de<br \/>\n    leve lhe passara pelo pensamento abusar da prec&aacute;ria e humilde posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de sua amante, para profanar?lhe a candura imaculada.<\/p>\n<p> Nunca de sua parte um gesto mais ousado, ou uma palavra menos casta haviam<br \/>\n    feito assomar ao rosto da cativa o rubor do pejo, e nem tampouco os l&aacute;bios<br \/>\n    de Alvaro lhe haviam ro&ccedil;ado o mais leve beijo pelas virginais e pudicas<br \/>\n    faces. Apenas depois de instantes e repetidas s&uacute;plicas de Isaura, havia<br \/>\n    tomado a liberdade de trat&aacute;?la por tu, e isso mesmo quando se achavam<br \/>\n    a s&oacute;s.<\/p>\n<p> Somente agora pela primeira vez, &Aacute;lvaro, dominado pela mais suave<br \/>\n    e veemente emo&ccedil;&atilde;o, ao proferir as &uacute;ltimas palavras, enla&ccedil;ando<br \/>\n    o bra&ccedil;o em torno ao colo de Isaura a cingia brandamente contra o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Estavam ambos enlevados na do&ccedil;ura deste primeiro amplexo de amor,<br \/>\n    quando o ru&iacute;do de um carro, que parou &agrave; porta do jardim, e logo<br \/>\n    ap&oacute;s um forte e estrondoso &#8211; &oacute; de casa! &#8211; os fizeram separar?se.<\/p>\n<p> No mesmo momento entrava na sala o baleeiro de &Aacute;lvaro, e anunciava?lhe<br \/>\n    que novas pessoas o procuravam.<\/p>\n<p> &#8211; Oh, meu Deus!&#8230; que ser&aacute; isto hoje!&#8230; ser&atilde;o ainda os malditos<br \/>\n    esbirros?&#8230; &#8211; refletiu &Aacute;lvaro, e depois dirigindo?se a Isaura: &#8211; &Eacute;<br \/>\n    prudente que te retires, minha amiga, &#8211; disse?lhe; ningu&eacute;m sabe o que<br \/>\n    ser&aacute; e n&atilde;o conv&eacute;m que te vejam.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! que eu n&atilde;o sirva sen&atilde;o para perturbar?lhe o sossego!<br \/>\n    &#8211; murmurou Isaura retirando?se.<\/p>\n<p> Um momento depois Alvaro viu entrar na sala um elegante e belo mancebo,<br \/>\n    trajado com todo o primor, e afetando as mais polidas e aristocr&aacute;ticas<br \/>\n    maneiras; mas apesar de sua beleza, tinha ele na fisionomia, como Lusbel,<br \/>\n    um n&atilde;o seu qu&ecirc; de torvo e sinistro, e um olhar sombrio, que incutia<br \/>\n    pavor e repuls&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Este por certo n&atilde;o &eacute; um esbirro, &#8211; pensou &Aacute;lvaro,<br \/>\n    e indicando uma cadeira ao rec&eacute;m?chegado: &#8211; Queira sentar?se, &#8211; disse?lhe,<br \/>\n    e &#8211; tenha a bondade de dizer o que pretende deste seu criado.<\/p>\n<p> &#8211; Desculpe?me, &#8211; respondeu?lhe o cavalheiro, passeando um olhar escrutador<br \/>\n    em roda da sala: &#8211; n&atilde;o &eacute; a V. S.&ordf; que eu desejava falar,<br \/>\n    mas sim ao morador desta casa ou &agrave; sua filha.<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro estremeceu. Estava claro que aquele mancebo, se bem que nenhuma<br \/>\n    apar&ecirc;ncia tivesse de um esbirro, andava &agrave; pista de Isaura.<\/p>\n<p> Todavia no intuito de verificar se era fundada a sua apreens&atilde;o, antes<br \/>\n    de chamar os donos da casa quis sondar as inten&ccedil;&otilde;es do visitante.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o obstante, &#8211; respondeu ele, como estou autorizado pelos donos<br \/>\n    da casa a tratar de todos os seus neg&oacute;cios, pode V. S.&ordf; dirigir?se<br \/>\n    a mim, e dizer o que deles pretende.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhor; n&atilde;o ponho a menor d&uacute;vida, pois o que pretendo<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; nenhum mist&eacute;rio. Constando?me com certeza, que<br \/>\n    aqui se acha acoutada uma escrava fugida, por nome Isaura, venho apreend&ecirc;?la&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nesse caso deve entender?se comigo, que sou o deposit&aacute;rio dessa<br \/>\n    escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!.. pelo que vejo, V. S.&ordf; &eacute; o senhor &Aacute;lvaro!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Um criado de V. S.&ordf;.<\/p>\n<p> &#8211; Bem; muito estimo encontr&aacute;?lo por aqui; pois saiba tamb&eacute;m<br \/>\n    que eu sou Le&ocirc;ncio, o leg&iacute;timo senhor dessa escrava.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio. &#8230; o senhor de Isaura! &Aacute;lvaro ficou como esmagado<br \/>\n    sob o peso desta fulminante e tremenda revela&ccedil;&atilde;o. Mudo e at&ocirc;nito,<br \/>\n    contemplou por alguns instantes aquele homem de sombria catadura, que se lhe<br \/>\n    apresentava aos olhos, implac&aacute;vel e sinistro como L&uacute;cifer, prestes<br \/>\n    a empolgar a v&iacute;tima, que deseja arrastar aos infernos. Suor frio porejou-lhe<br \/>\n    pela testa, e a mais pungente ang&uacute;stia apertou?lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; ele!&#8230; &eacute; o pr&oacute;prio algoz!&#8230; ai, pobre Isaura!&#8230;<br \/>\n    &#8211; foi este o eco l&uacute;gubre, que remurmurou?lhe dentro d&#8217;alma enregelada<br \/>\n    pelo desalento.<\/p>\n<h2><a name=\"18\" id=\"18\"> Capitulo 18<\/a><\/h2>\n<p> O leitor provavelmente n&atilde;o ter&aacute; ficado menos at&ocirc;nito<br \/>\n    do que ficou &Aacute;lvaro, com o imprevisto aparecimento de Le&ocirc;ncio<br \/>\n    no Recife, e indo bater certo na casa em que se achava refugiada a sua escrava.<\/p>\n<p> &Eacute; preciso, portanto, explicar?lhe como isso aconteceu, para que n&atilde;o<br \/>\n    pense que foi por algum milagre.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio, depois de ter escrito e entregado no correio as duas cartas<br \/>\n    que conhecemos, uma dirigida a &Aacute;lvaro, outra a Martinho, nem por isso<br \/>\n    ficou mais tranq&uuml;ilo. Devorava?lhe a alma uma inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mortal, um ci&uacute;me desesperador. A not&iacute;cia de que Isaura se achava<br \/>\n    em poder de um belo e rico mancebo, que a amava loucamente, era para ele um<br \/>\n    supl&iacute;cio insuport&aacute;vel, um cancro, que lhe corro&iacute;a as<br \/>\n    entranhas, e o fazia estrebuchar em &acirc;nsias de desespero, avivando?lhe<br \/>\n    cada vez mais a paix&atilde;o furiosa que concebera por sua escrava. Achava?se<br \/>\n    ele na corte, para onde, logo que teve not&iacute;cias de Isaura, se dirigia<br \/>\n    imediatamente, a fim de se achar em um centro, de onde pudesse tomar medidas<br \/>\n    prontas e en&eacute;rgicas para a captura da mesma.<\/p>\n<p> Tendo escrito e entregue as cartas na v&eacute;spera da partida do vapor<br \/>\n    pela manh&atilde;, levou o resto do dia a cismar. A terr&iacute;vel ansiedade<br \/>\n    em que se achava n&atilde;o lhe permitia esperar a resposta e o resultado<br \/>\n    daquelas cartas, sendo muito mais morosas e espa&ccedil;adas do que hoje as<br \/>\n    viagens dos paquetes naquela &eacute;poca, em que apenas se havia inaugurado<br \/>\n    a navega&ccedil;&atilde;o a vapor pelas costas do Brasil. Demais, ocorria?lhe<br \/>\n    freq&uuml;entemente ao esp&iacute;rito o anexim popular &#8211; quem quer vai, quem<br \/>\n    n&atilde;o quer manda. &#8211; N&atilde;o podia fiar?se na dilig&ecirc;ncia e boa<br \/>\n    vontade de pessoas desconhecidas, que talvez n&atilde;o pudessem lutar vantajosamente<br \/>\n    contra a influ&ecirc;ncia de Alvaro, o qual, segundo lho pintavam, era um<br \/>\n    potentado em sua terra. O ci&uacute;me e a vingan&ccedil;a n&atilde;o gostam<br \/>\n    de confiar a olhos e m&atilde;os alheias a execu&ccedil;&atilde;o de seus<br \/>\n    des&iacute;gnios.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; indispens&aacute;vel que eu mesmo v&aacute;, &#8211; pensou Le&ocirc;ncio,<br \/>\n    e firme nesta resolu&ccedil;&atilde;o foi ter com o ministro da justi&ccedil;a,<br \/>\n    com quem cultivava rela&ccedil;&otilde;es de amizade, e pediu?lhe uma carta<br \/>\n    de recomenda&ccedil;&atilde;o, &#8211; o que equivale a uma ordem, &#8211; ao chefe de<br \/>\n    pol&iacute;cia de Pernambuco, para que o auxiliasse eficazmente para o descobrimento<br \/>\n    e captura de uma escrava. J&aacute; de antem&atilde;o Le&ocirc;ncio tamb&eacute;m<br \/>\n    se havia munido de uma precat&oacute;ria e mandado de pris&atilde;o contra<br \/>\n    Miguel, a quem havia feito processar e pronunciar como ladr&atilde;o e acoutador<br \/>\n    de sua escrava. O sanhudo pax&aacute; de nada se esquecia para tornar completa<br \/>\n    a sua vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> No outro dia Le&ocirc;ncio seguia para o Norte no mesmo vapor que conduzia<br \/>\n    suas cartas.<\/p>\n<p> Estas, por&eacute;m, chegaram ao seu destino algumas horas antes que o seu<br \/>\n    autor desembarcasse no Recife.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio, apenas p&ocirc;s p&eacute; em terra, dirigiu?se ao chefe<br \/>\n    de policia, e entregando?lhe a carta do ministro inteirou?o de sua pretens&atilde;o.<\/p>\n<p> Tenho a informar?lhe, senhor Le&ocirc;ncio, &#8211; respondeu?lhe o chefe &#8211; que<br \/>\n    haver&aacute; talvez pouco mais de duas horas que daqui saiu uma pessoa autorizada<br \/>\n    por V. S.a para o mesmo fim de apreender essa escrava, e ainda h&aacute; pouco<br \/>\n    aqui chegou de volta declarando que tinha-se enganado, e que acabava de reconhecer<br \/>\n    que a pessoa, de quem desconfiava, n&atilde;o &eacute; e nem pode ser a escrava<br \/>\n    que fugiu a V. S.a.<\/p>\n<p> &#8211; Um certo Martinho, n&atilde;o, senhor doutor?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Justamente.<\/p>\n<p> &#8211; Deveras!&#8230; que me diz, senhor doutor? &#8211; A verdade; ainda a&iacute; est&atilde;o<br \/>\n    &agrave; porta o oficial de justi&ccedil;a e os guardas, que o acompanharam.<\/p>\n<p> &#8211; De maneira que terei perdido o meu tempo e a minha viagem!&#8230;<\/p>\n<p> oh! n&atilde;o, n&atilde;o; isto n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel. Creia?me,<br \/>\n    senhor doutor, aqui h&aacute; patranha&#8230; o tal senhor &Aacute;lvaro dizem<br \/>\n    que &eacute; muito rico&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E o tal Martinho um valdevinos capaz de todas as inf&acirc;mias.<\/p>\n<p> Tudo pode ser; mas a V. S.&ordf; como interessado, compete averiguar essas<br \/>\n    coisas.<\/p>\n<p> &#8211; E &eacute; o que venho disposto a fazer. Irei l&aacute; eu mesmo verificar<br \/>\n    o neg&oacute;cio por meus pr&oacute;prios olhos, e j&aacute;, se for poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Quando quiser. Ali est&atilde;o o oficial de justi&ccedil;a e os guardas,<br \/>\n    que ainda agora de l&aacute; vieram, e ningu&eacute;m melhor do que eles pode<br \/>\n    guiar a V. S.&ordf; e efetuar a captura, caso reconhe&ccedil;a ser a sua pr&oacute;pria<br \/>\n    escrava.<\/p>\n<p> &#8211; Tamb&eacute;m me &eacute; preciso que V. S.&ordf; ponha o &#8211; cumpra?se<br \/>\n    &#8211; nesta precat&oacute;ria &#8211; disse Le&ocirc;ncio apresentando a precat&oacute;ria<br \/>\n    contra Miguel &#8211; &eacute; necess&aacute;rio punir o patife que teve a aud&aacute;cia<br \/>\n    de desencaminhar e roubar?me a escrava.<\/p>\n<p> O chefe satisfez sem hesitar ao pedido de Le&ocirc;ncio, que acompanhado<br \/>\n    da pequena escolta, que fez subir ao seu carro, no mesmo momento se dirigiu<br \/>\n    &agrave; casa de Isaura, onde o deixamos em face de &Aacute;lvaro.<\/p>\n<p> A situa&ccedil;&atilde;o deste n&atilde;o era s&oacute; cr&iacute;tica;<br \/>\n    era desesperada. O seu antagonista ali estava armado de seu incontest&aacute;vel<br \/>\n    direito para humilh&aacute;?lo, esmag&aacute;?lo, e o que mais &eacute;, despeda&ccedil;ar?lhe<br \/>\n    a alma, roubando?lhe a amante adorada, o &iacute;dolo de seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que ia?lhe ser arrancada dos bra&ccedil;os para ser prostitu&iacute;da ao<br \/>\n    amor brutal de um senhor devasso, se n&atilde;o sacrificada ao seu furor.<br \/>\n    N&atilde;o tinha rem&eacute;dio sen&atilde;o curvar?se sem murmurar ao golpe<br \/>\n    do destino, e ver de bra&ccedil;os cruzados metida em ferros, e entregue ao<br \/>\n    azorrague do algoz a nobre e ang&eacute;lica criatura, que, &uacute;nica entre<br \/>\n    tantas belezas, lhe fizera palpitar o cora&ccedil;&atilde;o em emo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do mais extremoso e puro amor.<\/p>\n<p> Deplor&aacute;vel conting&ecirc;ncia, a que somos arrastados em conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    de uma institui&ccedil;&atilde;o absurda e desumana! O devasso, o libertino,<br \/>\n    o algoz, apresenta?se altivo e arrogante, tendo a seu favor a lei, e a autoridade,<br \/>\n    o direito e a for&ccedil;a, lan&ccedil;a a garra sobre a presa, que &eacute;<br \/>\n    objeto de sua cobi&ccedil;a ou de seu &oacute;dio, e pode frui?la ou esmag&aacute;?la<br \/>\n    a seu talante, enquanto o homem de nobre cora&ccedil;&atilde;o, de impulsos<br \/>\n    generosos, inerme perante a lei, a&iacute; fica suplantado, tolhido, manietado<br \/>\n    sem poder estender o bra&ccedil;o em socorro da inocente e nobre v&iacute;tima,<br \/>\n    que deseja proteger. Assim, por uma estranha aberra&ccedil;&atilde;o, vemos<br \/>\n    a lei armando o v&iacute;cio, e decepando os bra&ccedil;os &agrave; virtude.<\/p>\n<p> Estava pois &Aacute;lvaro em presen&ccedil;a de Le&ocirc;ncio como o condenado<br \/>\n    em presen&ccedil;a do algoz. A m&atilde;o da fatalidade o socalcava com todo<br \/>\n    o seu peso esmagador, sem lhe deixar livre o m&iacute;nimo movimento.<\/p>\n<p> Vinha Le&ocirc;ncio ardendo em f&uacute;rias de raiva e de ci&uacute;me,<br \/>\n    e prevalecendo?se de sua vantajosa posi&ccedil;&atilde;o, aproveitou a ocasi&atilde;o<br \/>\n    para vingar?se de seu rival, n&atilde;o com a nobreza de cavalheiro, mas procurando<br \/>\n    humilh&aacute;?lo &agrave; for&ccedil;a de improp&eacute;rios.<\/p>\n<p> &#8211; Sei que h&aacute; muito tempo, &#8211; disse Le&ocirc;ncio, continuando o di&aacute;logo<br \/>\n    que deixamos interrompido no cap&iacute;tulo antecedente, &#8211; V. S.&ordf; ret&ecirc;m<br \/>\n    essa escrava em seu poder contra toda a justi&ccedil;a, iludindo as autoridades<br \/>\n    com falsas alega&ccedil;&otilde;es, que nunca poder&aacute; provar. Por&eacute;m<br \/>\n    agora venho eu mesmo reclam&aacute;?la e burlar os seus planos, e artif&iacute;cios.<\/p>\n<p> &#8211; Artif&iacute;cios n&atilde;o, senhor. Protegi e protejo francamente uma<br \/>\n    escrava contra as viol&ecirc;ncias de um senhor, que quer tornar?se seu algoz;<br \/>\n    eis a&iacute; tudo.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!&#8230; agora &eacute; que sei que qualquer a&iacute; pode subtrair um<br \/>\n    escravo ao dom&iacute;nio de seu senhor a pretexto de proteg&ecirc;?lo, e<br \/>\n    que cada qual tem o direito de velar sobre o modo por que s&atilde;o tratados<br \/>\n    os escravos alheios.<\/p>\n<p> &#8211; V. S.a. est&aacute; de disposi&ccedil;&atilde;o a escarnecer, e eu declaro?lhe<br \/>\n    que nenhuma vontade tenho de escarnecer, nem de ser escarnecido.<\/p>\n<p> Confesso?lhe que desejo muito a liberdade dessa escrava, tanto quanto desejo<br \/>\n    a minha felicidade, e estou disposto a fazer todos os sacrif&iacute;cios poss&iacute;veis<br \/>\n    para consegui?la. J&aacute; lhe ofereci dinheiro, e ainda ofere&ccedil;o.<\/p>\n<p> Dou?lhe o que pedir&#8230; dou?lhe uma fortuna por essa escrava. Abra pre&ccedil;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; dinheiro que a pague; nem todo o ouro do mundo, porque<br \/>\n    n&atilde;o quero vend&ecirc;?la.<\/p>\n<p> &#8211; Mas isso &eacute; um capricho b&aacute;rbaro, uma perversidade&#8230;<\/p>\n<p> -Seja capricho da qualidade que V. S.&ordf; quiser; porventura n&atilde;o<br \/>\n    posso ter eu os meus caprichos, contanto que n&atilde;o ofenda direitos de<br \/>\n    ningu&eacute;m?&#8230; porventura V. S.&ordf; n&atilde;o tem tamb&eacute;m o seu<br \/>\n    capricho de quer&ecirc;?la para si?&#8230; mas o seu capricho ofende os meus direitos,<br \/>\n    e eis a&iacute; o que n&atilde;o posso tolerar.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o meu capricho &eacute; nobre e benfazejo, e o seu &eacute; uma tirania,<br \/>\n    para n&atilde;o dizer uma vilania. V. S.&ordf; mancha a sua vida com uma n&oacute;doa<br \/>\n    indel&eacute;vel conservando na escravid&atilde;o essa mulher; cospe o desrespeito<br \/>\n    e a inj&uacute;ria sobre o t&uacute;mulo de sua santa m&atilde;e, que criou<br \/>\n    com tanta delicadeza, educou com tanto esmero essa escrava, para torn&aacute;?la<br \/>\n    digna da liberdade que pretendia dar?lhe, e n&atilde;o para satisfazer aos<br \/>\n    caprichos de V. S.a. Ela por certo l&aacute; do c&eacute;u, onde est&aacute;,<br \/>\n    o amaldi&ccedil;oar&aacute;, e o mundo inteiro a acompanhar&aacute; na maldi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao homem que ret&eacute;m no mais infamante cativeiro uma criatura cheia de<br \/>\n    virtudes, prendas e beleza.<\/p>\n<p> &#8211; Basta, senhor!.. agora fico tamb&eacute;m sabendo, que uma escrava, s&oacute;<br \/>\n    pelo fato de ser bonita e prendada, tem direitos &agrave; liberdade. Pique<br \/>\n    tamb&eacute;m V. S.&ordf; sabendo, que se minha m&atilde;e n&atilde;o criou<br \/>\n    essa rapariga para satisfazer aos meus caprichos, muito menos para satisfazer<br \/>\n    aos de V. S.&ordf; a quem nunca conheceu nesta vida. Senhor &Aacute;lvaro,<br \/>\n    se deseja ter alguma linda escrava para sua am&aacute;sia procure outra, compre?a,<br \/>\n    que a respeito desta, pode perder toda a esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Le&ocirc;ncio, V. S.&ordf; decerto esquece?se do lugar onde est&aacute;,<br \/>\n    e da pessoa com quem fala, e julga que se acha em sua fazenda falando aos<br \/>\n    seus feitores ou a seus escravos. Advirto?lhe, para que mude de linguagem.<\/p>\n<p> &#8211; Basta, senhor; deixemo?nos de v&aacute;s disputas, e nem eu vim aqui para<br \/>\n    ser catequizado por V. S.&ordf;. O que quero &eacute; a entrega da escrava<br \/>\n    e nada mais. N&atilde;o me obrigue a usar do meu direito levando?a &agrave;<br \/>\n    for&ccedil;a.<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro, desvairado por t&atilde;o grosseiras e ferinas provoca&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    perdeu de todo a prud&ecirc;ncia e sangue?frio.<\/p>\n<p> Entendeu que para sair?se bem na terrivel conjuntura em que se achava, s&oacute;<br \/>\n    havia um caminho, &#8211; matar o seu antagonista ou morrer?lhe &agrave;s m&atilde;os,<br \/>\n    &#8211; e cedendo a essas sugest&otilde;es da c&oacute;lera e do desespero, saltou<br \/>\n    da cadeira em que estava, agarrou Le&ocirc;ncio pela gola e sacudindo?o com<br \/>\n    for&ccedil;a: &#8211; Algoz! &#8211; bradou espumando de raiva, &#8211; ai tens a tua escrava!<br \/>\n    mas antes de lev&aacute;?la, h&aacute;s de responder pelos insultos que me<br \/>\n    tens dirigido, ouviste?&#8230; ou acaso pensas que eu tamb&eacute;m sou teu escravo?..<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; louco, homem! &#8211; disse Le&ocirc;ncio amedrontado. &#8211; As leis<br \/>\n    do nosso pa&iacute;s n&atilde;o permitem o duelo.<\/p>\n<p> &#8211; Que me importam as leis!&#8230; para o homem de brio a honra &eacute; superior<br \/>\n    &agrave;s leis, e se n&atilde;o &eacute;s um covarde, como penso&#8230;<\/p>\n<p> Socorro, que querem assassinar?me, &#8211; bradou Le&ocirc;ncio desembara&ccedil;ando?se<br \/>\n    das m&atilde;os de &Aacute;lvaro, e correndo para a porta.<\/p>\n<p> &#8211; Infame! &#8211; rugiu &Aacute;lvaro, cruzando os bra&ccedil;os e rangendo os<br \/>\n    dentes num sorrir de c&oacute;lera e desd&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> No mesmo momento, atra&iacute;dos pelo barulho, entravam na sala de um lado<br \/>\n    Isaura e Miguel, do outro o oficial de justi&ccedil;a e os guardas.<\/p>\n<p> Isaura estava com o ouvido agu&ccedil;ado, e do interior da casa ouvira<br \/>\n    e compreendera tudo.<\/p>\n<p> Viu que tudo estava perdido, e correu a atalhar o desatino, que por amor<br \/>\n    dela &Aacute;lvaro ia cometer.<\/p>\n<p> &#8211; Aqui estou, senhor! &#8211; foram as &uacute;nicas palavras que pronunciou apresentando?se<br \/>\n    de bra&ccedil;os cruzados diante de seu senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Ei?los ai; s&atilde;o estes! &#8211; exclamou Le&ocirc;ncio indicando aos guardas<br \/>\n    Isaura e Miguel. Prendam?os!.. prendam?os!&#8230;<\/p>\n<p> Vai?te, Isaura, vai?te, &#8211; murmurou &Aacute;lvaro com voz tr&ecirc;mula e<br \/>\n    sumida, achegando?se da cativa. &#8211; N&atilde;o desanimes; eu n&atilde;o te abandonarei.<\/p>\n<p> Confia em Deus e em meu amor.<\/p>\n<p> Uma hora depois &Aacute;lvaro recebia em casa a visita de Martinho. Vinha<br \/>\n    este mui ancho e lampeiro dar conta de sua comiss&atilde;o, e s&ocirc;frego<br \/>\n    por embolsar a soma convencionada.<\/p>\n<p> &#8211; Dez contos!&#8230; oh! &#8211; vinha ele pensando. &#8211; uma fortuna! agora sim, posso<br \/>\n    eu viver independente!&#8230; Adeus, surrados bancos de Academia!&#8230; adeus, livros<br \/>\n    sebosos, que tanto tempo andei folheando &agrave; toa!&#8230; vou atirar?vos pela<br \/>\n    janela a fora; n&atilde;o preciso mais de v&oacute;s: meu futuro est&aacute;<br \/>\n    feito. Em breve serei capitalista, banqueiro, comendador, bar&atilde;o, e<br \/>\n    ver&atilde;o para quanto presto!&#8230;<\/p>\n<p> E &agrave; for&ccedil;a de multiplicar c&aacute;lculos de usura e agiotagem,<br \/>\n    j&aacute; Martinho havia centuplicado aquela soma em sua imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Meu caro senhor &Aacute;lvaro, &#8211; veio logo dizendo sem mais pre&acirc;mbulos,<br \/>\n    &#8211; est&aacute; tudo arranjado &agrave; medida de nossos desejos. Pode V. S.&ordf;<br \/>\n    viver tranq&uuml;ilo em companhia da gentil fugitiva, que daqui em diante<br \/>\n    ningu&eacute;m mais o importunar&aacute;.<\/p>\n<p> De feito o procedimento de V. S.&ordf; nesta quest&atilde;o tem sido muito<br \/>\n    belo e digno de elogios; &eacute; pr&oacute;prio de um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    grande e generoso como o de V. S.&ordf;. N&atilde;o se d&aacute; maiar desaforo!<br \/>\n    no cativeiro uma menina t&atilde;o mimosa e t&atilde;o prendada!&#8230;<\/p>\n<p> Agora aqui est&aacute; a carta, que escrevo ao lorpa do sult&atilde;ozinho.<br \/>\n    Prego?lhe meia d&uacute;zia de carapet&otilde;es, que o h&atilde;o de desorientar<br \/>\n    completamente.<\/p>\n<p> Assim falando, Martinho desdobrou a carta, e j&aacute; come&ccedil;ava a<br \/>\n    l&ecirc;?la, quando &Aacute;lvaro impacientado o interrompeu.<\/p>\n<p> &#8211; Basta, senhor Martinho, &#8211; disse?lhe com mau humor; &#8211; o neg&oacute;cio<br \/>\n    est&aacute; arranjado; n&atilde;o preciso mais de seus servi&ccedil;os.<\/p>\n<p> Arranjado!&#8230; como?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; A escrava est&aacute; em poder de seu senhor.<\/p>\n<p> &#8211; De Le&ocirc;ncio!&#8230; imposs&iacute;vel! &#8211; Entretanto, &eacute; a pura<br \/>\n    verdade; se quiser saber mais v&aacute; &agrave; pol&iacute;cia, e indague.<\/p>\n<p> &#8211; E os meus dez contos?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Creio que n&atilde;o lhos devo mais.<\/p>\n<p> Martinho soltou um urro de desespero, e saiu da casa de &Aacute;lvaro com<br \/>\n    tal precipita&ccedil;&atilde;o, que parecia ir rolando pelas escadas abaixo.<\/p>\n<p> Descrever o m&iacute;sero estado em que ficou aquela pobre alma, &eacute;<br \/>\n    empresa em que n&atilde;o me meto; os leitores que fa&ccedil;am id&eacute;ia.<\/p>\n<p> O c&atilde;o faminto, iludido pela sombra, largou a carne que tinha entre<br \/>\n    os dentes, e ficou sem uma nem outra.<\/p>\n<h2><a name=\"19\" id=\"19\">Cap&iacute;tulo 19<\/a><\/h2>\n<p>&#8211; Olha como arranjas isso, Rosa; esta rapariga &eacute; mesmo uma estouvada;<br \/>\n    n&atilde;o tem jeito para nada. Bem mostras que n&atilde;o nasceste para a<br \/>\n    sala; o teu lugar &eacute; na cozinha.<\/p>\n<p> &#8211; Ora vejam l&aacute; a figura de quem quer me dar regras!&#8230; quem te chamou<br \/>\n    aqui, intrometido? O teu lugar tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; aqui, &eacute;<br \/>\n    l&aacute; na estrebaria. Vai l&aacute; governar os teus cavalos, Andr&eacute;,<br \/>\n    e n&atilde;o te intrometas no que n&atilde;o te importa.<\/p>\n<p> &#8211; Cala?te dai, toleirona; &#8211; replicou Andr&eacute; mudando de lugar algumas<br \/>\n    cadeiras. &#8211; O que sabes &eacute; s&oacute; tagarelar. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    aqui o lugar destas cadeiras&#8230; Olha como est&atilde;o estes jarros!&#8230; ainda<br \/>\n    nem alimpaste os espelhos!&#8230; forte desajeitada e pregui&ccedil;osa que &eacute;s!&#8230;<br \/>\n    No tempo de Isaura andava tudo isto aqui que era um mimo; fazia gosto entrar?se<br \/>\n    nesta sala. Agora, &eacute; isto. Est&aacute; claro que n&atilde;o &eacute;s<br \/>\n    para estas coisas.<\/p>\n<p> &#8211; Essa agora &eacute; bem lembrada! &#8211; retorquiu Rosa, altamente despeitada.<br \/>\n    &#8211; Se tens saudades do tempo de Isaura, vai l&aacute; tir&aacute;?la do quarto<br \/>\n    escuro do tronco, onde ela est&aacute; morando. Esse decerto ela n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; de ter gosto para enfeit&aacute;?lo de flores.<\/p>\n<p> &#8211; Cala a boca, Rosa; olha que tu tamb&eacute;m l&aacute; podes ir parar.<\/p>\n<p> &#8211; Eu n&atilde;o, que n&atilde;o sou fujona.<\/p>\n<p> &#8211; Por que n&atilde;o achas quem te carregue, se n&atilde;o fugirias at&eacute;<br \/>\n    com o diabo. Coitada da Isaura! uma rapariga t&atilde;o boa e t&atilde;o mimosa,<br \/>\n    tratada como uma negra da cozinha! e n&atilde;o tens pena dela, Rosa? &#8211; Pena<br \/>\n    por que, agora?&#8230; quem mandou ela fazer das suas? &#8211; Pois olha, Rosa, eu estava<br \/>\n    pronto a ag&uuml;entar a metade do castigo que ela est&aacute; sofrendo, mas<br \/>\n    na companhia dela, est&aacute; entendido.<\/p>\n<p> &#8211; Isso pouco custa, Andr&eacute;; &eacute; fazer o que ela fez. Vai, como<br \/>\n    ela, tomar ares em Pernambuco, que infalivelmente vais para a companhia de<br \/>\n    Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Quem dera!&#8230; se soubesse que me prendiam com ela, isso &eacute; que era<br \/>\n    um fugir. Mas o diabo &eacute; que a pobre Isaura agora vai deixar a n&oacute;s<br \/>\n    todos para sempre. Que falta n&atilde;o vai fazer nesta casa!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Deixar como? &#8211; Voc&ecirc; ver&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Foi vendida?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual vendida! &#8211; Alheada? &#8211; Nem isso &#8211; Est&aacute; forra?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que abelhuda!&#8230; Espera, Rosa; tem paci&ecirc;ncia um pouco, que hoje<br \/>\n    mesmo talvez voc&ecirc; venha a saber tudo.<\/p>\n<p> &#8211; Ora ponha?se com mist&eacute;rios&#8230; ent&atilde;o o que voc&ecirc; sabe<br \/>\n    os outros n&atilde;o podem saber?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; mist&eacute;rio, Rosa; &eacute; desconfian&ccedil;a<br \/>\n    minha. Aqui em casa n&atilde;o tarda a haver novidade grossa; vai escutando.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! ah! &#8211; respondeu Rosa galhofando. &#8211; Voc&ecirc; mesmo est&aacute; com<br \/>\n    cara de novidade.<\/p>\n<p> &#8211; Psiu!&#8230; bico calado, Rosa!&#8230; ai vem nhonh&ocirc;.<\/p>\n<p> Pelo di&aacute;logo acima o leitor bem v&ecirc;, que nos achamos de novo<br \/>\n    na fazenda de Le&ocirc;ncio, no munic&iacute;pio de Campos, e na mesma sala,<br \/>\n    em que no come&ccedil;o desta hist&oacute;ria encontramos Isaura entoando<br \/>\n    sua can&ccedil;&atilde;o favorita.<\/p>\n<p> Cerca de dois meses s&atilde;o decorridos depois que Le&ocirc;ncio fora<br \/>\n    ao Recife apreender sua escrava. Le&ocirc;ncio e Malvina tinham?se reconciliado,<br \/>\n    e vindos da corte tinham chegado &agrave; fazenda na v&eacute;spera. Alguns<br \/>\n    escravos, entre os quais se acham Rosa e Andr&eacute;, est&atilde;o asseando<br \/>\n    o soalho, arranjando e espanando os m&oacute;veis daquele rico sal&atilde;o,<br \/>\n    testemunha impass&iacute;vel dos mist&eacute;rios da fam&iacute;lia, de tantas<br \/>\n    cenas ora tocantes e enlevadoras, ora vergonhosas e sinistras, e que durante<br \/>\n    a aus&ecirc;ncia de Malvina se conservara sempre fechado.<\/p>\n<p> Qual &eacute;, por&eacute;m, a sorte de Isaura e de Miguel, desde que deixaram<br \/>\n    Pernambuco? que destino deu Le&ocirc;ncio ou pretende dar &agrave;quela?&#8230;<br \/>\n    por que maneira se reconciliou com sua mulher? Eis o que passamos a explicar<br \/>\n    ao leitor, antes de prosseguirmos nesta narrativa.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio, tendo trazido Isaura para sua fazenda, a conservara na mais<br \/>\n    completa e rigorosa reclus&atilde;o. N&atilde;o era isto s&oacute; com o fim<br \/>\n    de castig&aacute;?la ou de cevar sua feroz vingan&ccedil;a sobre a infeliz<br \/>\n    cativa. Sabia quanto era ardente e capaz de extremos o amor que o jovem pernambucano<br \/>\n    concebera por Isaura; tinha ouvido as &uacute;ltimas palavras que &Aacute;lvaro<br \/>\n    lhe dirigia &#8211; confia em Deus, e em meu amor; eu n&atilde;o te abandonarei.<\/p>\n<p> &#8211; Era uma amea&ccedil;a, e &Aacute;lvaro, rico e audacioso como era, dispunha<br \/>\n    de grandes meios para p&oacute;?la em execu&ccedil;&atilde;o, quer por alguma<br \/>\n    viol&ecirc;ncia, quer por meio de ast&uacute;cias e ins&iacute;dias. Le&ocirc;ncio,<br \/>\n    portanto, n&atilde;o s&oacute; encarcerava com todo o rigor a sua escrava,<br \/>\n    como tamb&eacute;m armou todos os seus escravos, que da&iacute; em diante<br \/>\n    distra&iacute;dos quase completamente dos trabalhos da lavoura, viviam em<br \/>\n    alerta dia e noite como soldados de guarni&ccedil;&atilde;o a uma fortaleza.<\/p>\n<p> Mas a alma ardente e feroz do jovem fazendeiro n&atilde;o desistia nunca<br \/>\n    de seu louco amor, e nem perdia a esperan&ccedil;a de vencer a isen&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Isaura.<\/p>\n<p> E j&aacute; n&atilde;o era s&oacute; o amor ou a sensualidade que o arrastava;<br \/>\n    era um capricho tir&acirc;nico, um desejo feroz e sat&acirc;nico de vingar?se<br \/>\n    dela e do rival preferido. Queria goz&aacute;?la, fosse embora por um s&oacute;<br \/>\n    dia, e depois de profanada e polu&iacute;da, entreg&aacute;?la desdenhosamente<br \/>\n    ao seu antagonista, dizendo?lhe: &#8211; Venha comprar a sua amante; agora estou<br \/>\n    disposto a vend&ecirc;?la, e barato.<\/p>\n<p> Encetou pois contra ela nova campanha de promessas, sedu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e protestos, seguidos de amea&ccedil;as, rigores e tiranias. Le&ocirc;ncio<br \/>\n    s&oacute; recuou diante da tortura e da viol&ecirc;ncia brutal, n&atilde;o<br \/>\n    porque lhe faltasse ferocidade para tanto, mas porque conhecendo a t&ecirc;mpera<br \/>\n    her&oacute;ica da virtude de Isaura, compreendeu que com tais meios s&oacute;<br \/>\n    conseguiria mat&aacute;?la, e a morte de Isaura n&atilde;o satisfazia o seu<br \/>\n    sensualismo, e nem tampouco a sua vingan&ccedil;a. Portanto tratou de meditar<br \/>\n    novos planos, n&atilde;o s&oacute; para recalcar debaixo dos p&eacute;s o<br \/>\n    que ele chamava o orgulho da escrava, como de frustrar e escarnecer completamente<br \/>\n    as vistas generosas de &Aacute;lvaro, tomando assim de ambos a mais cabal<br \/>\n    vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Al&eacute;m de tudo, Le&ocirc;ncio via?se na absoluta necessidade de reconciliar?se<br \/>\n    com Malvina, n&atilde;o que o pundonor, a moral, e muito menos a afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    conjugal a isso o induzissem, mas por motivos de interesse, que em breve o<br \/>\n    leitor ficar&aacute; sabendo. Com esse fim pois, Le&ocirc;ncio foi &agrave;<br \/>\n    corte e procurou Malvina.<\/p>\n<p> Al&eacute;m de todas as m&aacute;s qualidades que possu&iacute;a, a mentira,<br \/>\n    a cal&uacute;nia, o embuste eram armas que manejava com a habilidade do mais<br \/>\n    refinado hip&oacute;crita. Mostrou?se envergonhado e arrependido do modo por<br \/>\n    que a havia tratado, e jurou apagar com o seu futuro comportamento at&eacute;<br \/>\n    a lembran&ccedil;a de seus passados desvarios. Confessou, com uma sinceridade<br \/>\n    e candura de anjo, que por algum tempo se deixara enlevar pelos atrativos<br \/>\n    de Isaura, mas que isso n&atilde;o passara de passageiro desvario, que nenhuma<br \/>\n    impress&atilde;o lhe deixara na alma.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso assacou mil aleives e cal&uacute;nias por conta da pobre<br \/>\n    Isaura. Alegou que ela, como refinada loureira que era, empregara os mais<br \/>\n    sutis e ardilosos artif&iacute;cios para seduzi?lo e provoc&aacute;?lo, no<br \/>\n    intuito de obter a liberdade em troco de seus favores. Inventou mil outras<br \/>\n    coisas, e por fim fez Malvina acreditar que Isaura fugira de casa seduzida<br \/>\n    por um gal&atilde;, que h&aacute; muito tempo a req&uuml;estava, sem que eles<br \/>\n    o soubessem; que fora este quem fornecera ao pai dela os meios de alforri&aacute;?la,<br \/>\n    e que, n&atilde;o o podendo conseguir, combinaram de m&atilde;os dadas e efetuaram<br \/>\n    o plano de rapto; que chegando ao Recife, um mo&ccedil;o que tanto tinha de<br \/>\n    rico, como de extravagante e desmiolado, enamorando?se dela a tomara a seu<br \/>\n    primeiro amante; que Isaura com seus artif&iacute;cios, dando?se por uma senhora<br \/>\n    livre o tinha enleado e iludido por tal forma, que o pobre mo&ccedil;o estava<br \/>\n    a ponto de casar?se com ela, e mesmo depois de saber que era cativa n&atilde;o<br \/>\n    queria larg&aacute;?la, e praticando mil esc&acirc;ndalos e disparates estava<br \/>\n    disposto a tudo para alforri&aacute;?la. Fora das m&atilde;os desse mo&ccedil;o<br \/>\n    que ele a fora tomar no Recife.<\/p>\n<p> Malvina, mo&ccedil;a ing&ecirc;nua e cr&eacute;dula, com um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sempre propenso &agrave; ternura e ao perd&atilde;o, deu pleno cr&eacute;dito<br \/>\n    a tudo quanto aprouve a Le&ocirc;ncio inventar n&atilde;o s&oacute; para justificar<br \/>\n    suas faltas passadas, como para predispor o comportamento que dai em diante<br \/>\n    pretendia seguir.<\/p>\n<p> Na qualidade de esposa ofendida irritara?se outrora contra Isaura, quando<br \/>\n    surpreendera seu marido dirigindo?lhe falas amorosas; mas o seu rancor ia?se<br \/>\n    amainando, e se desvaneceria de todo, se Le&ocirc;ncio n&atilde;o viesse com<br \/>\n    falsas e aleivosas informa&ccedil;&otilde;es atribuir?lhe os mais torpes procedimentos.<br \/>\n    Malvina come&ccedil;ou a sentir por Isaura desde esse momento, n&atilde;o<br \/>\n    &oacute;dio, mas certo afastamento e desprezo, mesclado de compaix&atilde;o,<br \/>\n    tal qual sentiria por outra qualquer escrava atrevida e mal comportada.<\/p>\n<p> Era quanto bastava a Le&ocirc;ncio para associ&aacute;?la ao plano de castigo<br \/>\n    e vingan&ccedil;a, que projetava contra a desditosa escrava. Bem sabia que<br \/>\n    Malvina com a sua alma branda e compassiva jamais consentiria em castigos<br \/>\n    cru&eacute;is; o que meditava, por&eacute;m, nada tinha de b&aacute;rbaro<br \/>\n    na apar&ecirc;ncia, se bem que fosse o mais humilhante e doloroso flag&iacute;cio<br \/>\n    imposto ao cora&ccedil;&atilde;o de uma mulher, que tinha consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de sua beleza, e da nobreza e eleva&ccedil;&atilde;o de seu esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8211; E o que pretendes fazer de Isaura? perguntou Malvina.<\/p>\n<p> &#8211; Dar?lhe um marido e carta de liberdade.<\/p>\n<p> &#8211; E j&aacute; achaste esse marido? &#8211; Pois faltam maridos?&#8230; para ach&aacute;?lo<br \/>\n    n&atilde;o precisei sair de casa.<\/p>\n<p> &#8211; Algum escravo, Le&ocirc;ncio?&#8230; oh!&#8230; isso n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; E que tinha isso, uma vez que eu tamb&eacute;m forrasse o marido? era<br \/>\n    cr&eacute; com cr&eacute;, l&eacute; com l&eacute;. Bem me lembrei do Andr&eacute;,<br \/>\n    que bebe os ares por ela; mas por isso mesmo n&atilde;o a quero dar &agrave;quele<br \/>\n    maroto.<\/p>\n<p> Tenho para ela pe&ccedil;a muito melhor.<\/p>\n<p> &#8211; Quem, Le&ocirc;ncio? &#8211; Ora quem!&#8230; o Belchior.<\/p>\n<p> &#8211; O Belchior!&#8230; exclamou Malvina rindo?se muito. Est&aacute;s ca&ccedil;oando;<br \/>\n    fala s&eacute;rio, quem &eacute;?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O Belchior, senhora; falo s&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Mas esperas acaso, que Isaura queira casar?se com aquele monstrengo? &#8211;<br \/>\n    Se n&atilde;o quiser, pior para ela; n&atilde;o lhe dou a liberdade, e h&aacute;<br \/>\n    de passar a vida enclausurada e em ferros.<\/p>\n<p> &#8211; Oh!&#8230; mas isso &eacute; demasiada crueldade, Le&ocirc;ncio. De que serve<br \/>\n    dar?lhe a liberdade em tudo, se n&atilde;o lhe deixas a de escolher um marido?&#8230;<\/p>\n<p> D&aacute;?lhe a liberdade, Le&ocirc;ncio, e deixa ela casar?se com quem<br \/>\n    quiser.<\/p>\n<p> &#8211; Ela n&atilde;o se casar&aacute; com ningu&eacute;m: ir&aacute; voando<br \/>\n    direitinho para Pernambuco, e l&aacute; ficar&aacute; muito lampeira nos bra&ccedil;os<br \/>\n    de seu insolente taful, escarnecendo de mim&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E que te importa isso, Le&ocirc;ncio? &#8211; perguntou Malvina com certo ar<br \/>\n    desconfiado.<\/p>\n<p> &#8211; Que tenho!&#8230; &#8211; replicou Le&ocirc;ncio um pouco perturbado com a pergunta.<br \/>\n    &#8211; Ora que tenho!&#8230; &eacute; o mesmo que perguntar?me se tenho brio nas faces.<br \/>\n    Se soubesses como aquele papalvo provocou?me atirando?me insultos atrozes!&#8230;<br \/>\n    Como desafiou?me com mil bravatas e amea&ccedil;as, protestando que havia<br \/>\n    de arrancar Isaura ao meu poder&#8230;<\/p>\n<p> Se n&atilde;o fosse por tua causa, e tamb&eacute;m por satisfazer os votos<br \/>\n    de minha m&atilde;e, eu nunca daria a liberdade a essa escrava, embora nenhum<br \/>\n    servi&ccedil;o me prestasse, e tivesse de trat&aacute;?la como uma princesa,<br \/>\n    s&oacute; para quebrar a proa e castigar a aud&aacute;cia e petul&acirc;ncia<br \/>\n    desse impudente rufi&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, Le&ocirc;ncio; mas eu entendo que Isaura mais facilmente se<br \/>\n    deixar&aacute; queimar viva, do que casar?se com Belchior.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o te d&ecirc; isso cuidado, minha querida; havemos de catequiz&aacute;?la<br \/>\n    convenientemente. Tenho c&aacute; forjado o meu plano, com o qual espero reduzi?la<br \/>\n    a casar?se com ele de muito boa vontade.<\/p>\n<p> &#8211; Se ela consentir, n&atilde;o tenho motivo para me opor a esse arranjo.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio de feito havia habilmente preparado o seu plano atroz.<\/p>\n<p> Tendo trazido do Recife a Miguel debaixo de pris&atilde;o, juntamente com<br \/>\n    Isaura, ao chegar em Campos f&ecirc;?lo encerrar na cadeia, e condenar a pagar<br \/>\n    todas as despesas e preju&iacute;zos que tivera com a fuga de Isaura, as quais<br \/>\n    fizera or&ccedil;ar em uma soma exorbitante. Ficou, portanto, o pobre homem<br \/>\n    exausto dos &uacute;ltimos recursos que lhe restavam, e ainda por sobrecarga<br \/>\n    devendo uma soma enorme, que s&oacute; longos anos de trabalho poderiam pagar.<br \/>\n    Como Le&ocirc;ncio era rico, amigo dos ministros e tinha grande influ&ecirc;ncia<br \/>\n    no lugar, as autoridades locais prestaram?se de boa mente a todas estas persegui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Depois que Le&ocirc;ncio, desanimado de poder vencer a obstinada relut&acirc;ncia<br \/>\n    de Isaura, mudou o seu plano de vingan&ccedil;a, foi ele em pessoa procurar<br \/>\n    a Miguel.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Miguel, &#8211; disse?lhe em tom formalizado, &#8211; tenho comisera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do senhor e de sua filha, apesar dos inc&ocirc;modos e preju&iacute;zos que<br \/>\n    me t&ecirc;m dado, e venho propor?lhe um meio de acabarmos de uma vez para<br \/>\n    sempre com as desordens, intrigas e transtornos com que sua filha tem perturbado<br \/>\n    minha casa e o sossego de minha vida.<\/p>\n<p>&#8211; Estou pronto para qualquer arranjo, senhor Le&oacute;ncio, &#8211; respondeu<br \/>\n    respeitosamente Miguel, &#8211; uma vez que seja justo e honesto.<\/p>\n<p> &#8211; Nada mais honesto, nem mais justo. Quero casar sua filha com um homem<br \/>\n    de bem, e dar?lhe a liberdade; por&eacute;m para esse fim preciso muito de<br \/>\n    sua coadjuva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Pois diga em que lhe posso servir.<\/p>\n<p> &#8211; Sei que Isaura h&aacute; de sentir alguma repugn&acirc;ncia em casar?se<br \/>\n    com a pessoa que lhe destino, em raz&atilde;o de tola e extravagante paix&atilde;o,<br \/>\n    que parece ainda ter por aquele infame peralvilho de Pernambuco, que meteu?lhe<br \/>\n    mil caraminholas na cabe&ccedil;a, e encheu?a de id&eacute;ias extravagantes<br \/>\n    e loucas esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8211; Creio que ela n&atilde;o deve lembrar?se desse mo&ccedil;o sen&atilde;o<br \/>\n    por grati? d&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual gratid&atilde;o!&#8230; pensa vossemec&ecirc; que ele est&aacute; fazendo<br \/>\n    muito caso dela?&#8230; tanto como do primeiro sapato que cal&ccedil;ou. Aquilo<br \/>\n    foi um capricho de cabe&ccedil;a estonteada, uma fantasia de fidalgote endinheirado,<br \/>\n    e a prova aqui est&aacute;; leia esta carta&#8230; O patife tem a sem?cerim&ocirc;nia<br \/>\n    de escrever?me, como se entre n&oacute;s nada houvesse, assim com ares de<br \/>\n    amigo velho, participando?me que se acha casado!&#8230; que tal lhe parece esta?&#8230;<br \/>\n    que tenho eu com seu casamento!&#8230; Mas isto ainda n&atilde;o &eacute; tudo;<br \/>\n    aproveitando a ocasi&atilde;o, pede?me com todo o desfa&ccedil;amento que<br \/>\n    em todo e qualquer tempo, que eu me resolva a dispor de Isaura, nunca o fa&ccedil;a<br \/>\n    sem participar?lhe, porque muito deseja t&ecirc;?la para mucama de sua senhora!<br \/>\n    at&eacute; onde pode chegar o cinismo e a impud&ecirc;ncia!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Com efeito, senhor!&#8230; isto da parte do senhor &Aacute;lvaro &eacute;<br \/>\n    custoso de acreditar! &#8211; Pois capacite?se com seus pr&oacute;prios olhos; leia;<br \/>\n    n&atilde;o conhece esta letra?&#8230;<\/p>\n<p> E dizendo isto Le&ocirc;ncio apresentou a Miguel uma carta, cuja letra imitava<br \/>\n    perfeitamente a de &Aacute;lvaro.<\/p>\n<p> &#8211; A letra &eacute; dele; n&atilde;o resta d&uacute;vida, &#8211; disse Miguel<br \/>\n    pasmado do que acabava de ler. &#8211; H&aacute; neste mundo inf&acirc;mias que<br \/>\n    custa?se a compreender.<\/p>\n<p> &#8211; E tamb&eacute;m li&ccedil;&otilde;es cru&eacute;is, que &eacute; preciso<br \/>\n    n&atilde;o desprezar, n&atilde;o &eacute; assim, senhor Miguel?&#8230; Pois bem;<br \/>\n    guarde essa carta para mostrar &agrave; sua filha; &eacute; bom que ela saiba<br \/>\n    de tudo para n&atilde;o contar mais com esse homem, e varrer do esp&iacute;rito<br \/>\n    as fuma&ccedil;as que porventura ainda lhe toldam o ju&iacute;zo. Fa&ccedil;a<br \/>\n    tamb&eacute;m vossemec&ecirc; o que estiver em seu poss&iacute;vel a fim de<br \/>\n    predispor sua filha para esse casamento, que &eacute; de muita vantagem, e<br \/>\n    eu n&atilde;o s&oacute; lhe perdoarei tudo quanto me fica devendo, como lhe<br \/>\n    restituo o que j&aacute; me deu, para vossemec&ecirc; abrir um neg&oacute;cio<br \/>\n    aqui em Campos e viver tranq&uuml;ilamente o resto de seus dias, em companhia<br \/>\n    de sua filha e de seu genro.<\/p>\n<p> &#8211; Mas quem &eacute; esse genro? V. S.&ordf; me n&atilde;o disse ainda.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade&#8230; esquecia?me. &Eacute; o Belchior, o meu jardineiro;<br \/>\n    n&atilde;o conhece?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Muito!&#8230; oh! senhor!&#8230; com que miser&aacute;vel figura quer casar minha<br \/>\n    filha!&#8230; pobre Isaura!&#8230; duvido muito que ela queira.<\/p>\n<p> &#8211; Que importa a figura, se tem uma boa alma, e &eacute; honesto e trabalhador?&#8230;<br \/>\n    L&aacute; isso &eacute; verdade; o ponto &eacute; ela querer.<\/p>\n<p> &#8211; Estou certo que aconselhada e bem catequizada por vossemece h&aacute;<br \/>\n    de se resolver.<\/p>\n<p> &#8211; Farei o que puder; mas tenho poucas esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8211; E se n&atilde;o quiser, pior para ela e para vossemec&ecirc;: o dito por<br \/>\n    n&atilde;o dito; fica tudo como estava, &#8211; disse terminantemente Le&ocirc;ncio.<\/p>\n<p> Miguel n&atilde;o era homem de t&ecirc;mpera a lutar contra a adversidade.<br \/>\n    O cativeiro e reclus&atilde;o perene de sua filha, a mis&eacute;ria que se<br \/>\n    lhe antolhava acompanhada de mil ang&uacute;stias, eram para ele fantasmas<br \/>\n    hediondos, cujo aspecto n&atilde;o podia encarar sem sentir mortal pavor e<br \/>\n    abatimento.<\/p>\n<p> N&atilde;o achou muito oneroso o pre&ccedil;o pelo qual o desumano senhor,<br \/>\n    livrando?o da mis&eacute;ria, concedia liberdade &agrave; sua filha, e aceitou<br \/>\n    o conv&ecirc;nio.<\/p>\n<h2><a name=\"20\" id=\"20\"> Cap&iacute;tulo 20<\/a><\/h2>\n<p>Enquanto Rosa e Andr&eacute; espanejavam os m&oacute;veis do sal&atilde;o,<br \/>\n    tagarelando alegremente, uma cena bem triste e compungente se passava em um<br \/>\n    escuro aposento atinente &agrave;s senzalas, onde Isaura sentada sobre um<br \/>\n    cepo, com um dos alvos e mimosos artelhos preso por uma corrente cravada &agrave;<br \/>\n    parede, h&aacute; dois meses se achava encarcerada.<\/p>\n<p> Miguel ai tinha sido introduzido por ordem de Le&ocirc;ncio, para dar parte<br \/>\n    &agrave; filha do projeto de seu senhor, e exort&aacute;?la a aceitar o partido<br \/>\n    que lhes propunha. Era pungente e desolador o quadro que apresentavam aquelas<br \/>\n    duas m&iacute;seras criaturas, p&aacute;lidas, extenuadas e abatidas pelo<br \/>\n    infort&uacute;nio, encerrados em uma estreita e l&ocirc;brega espelunca. Ao<br \/>\n    se encontrarem depois de dois longos meses, mais oprimidos e desgra&ccedil;ados<br \/>\n    que nunca, a primeira linguagem com que se saudaram n&atilde;o foi mais do<br \/>\n    que um coro de l&aacute;grimas e solu&ccedil;os de indiz&iacute;vel ang&uacute;stia,<br \/>\n    que abra&ccedil;ados por largo tempo estiveram entornando no seio um do outro.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha filha; &eacute; preciso que te resignes a esse sacrif&iacute;cio,<br \/>\n    que &eacute; desgra&ccedil;adamente o &uacute;nico recurso que nos deixam.<br \/>\n    &Eacute; com esta condi&ccedil;&atilde;o que venho abrir?te as portas desta<br \/>\n    triste pris&atilde;o, em que h&aacute; dois meses vives encerrada. &Eacute;,<br \/>\n    sem d&uacute;vida, um cruel sacrif&iacute;cio para teu cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas &eacute; sem compara&ccedil;&atilde;o mais suport&aacute;vel do que esse<br \/>\n    duro cativeiro, com que pretendem matar?te.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, meu pai; o meu carrasco d&aacute;?me a escolha entre<br \/>\n    dois jugos; mas eu ainda n&atilde;o sei qual dos dois ser&aacute; mais odioso<br \/>\n    e insuport&aacute;vel.<\/p>\n<p> Eu sou linda, dizem; fui educada como uma rica herdeira; inspiraram?me uma<br \/>\n    alta estima de mim mesma com o sentimento do pudor e da dignidade da mulher;<br \/>\n    sou uma escrava, que faz muita mo&ccedil;a formosa morder?se de inveja; tenho<br \/>\n    dotes incompar&aacute;veis do corpo e do esp&iacute;rito; e tudo isto para<br \/>\n    qu&ecirc;, meu Deus!?&#8230; para ser dada de mimo a um m&iacute;sero idiota!&#8230;<br \/>\n    Pode?se dar mais cruel e pungente esc&aacute;rnio?!&#8230;<\/p>\n<p> E uma risada convulsiva e sinistra desprendeu?se dos l&aacute;bios descorados<br \/>\n    de Isaura, e reboou pelo l&uacute;gubre aposento, como o estr&iacute;dulo<br \/>\n    ulular do mocho entre os sepulcros.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; tanto como se te afigura na imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    abalada pelos sofrimentos. O tempo pode muito, e com paci&ecirc;ncia e resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;s de te acostumar a esse novo viver, sem d&uacute;vida muito mais<br \/>\n    suave do que este inferno de mart&iacute;rios, e poderemos ainda gozar dias<br \/>\n    se n&atilde;o felizes, ao menos mais tranq&uuml;ilos e serenos.<\/p>\n<p> &#8211; Para mim a tranq&uuml;ilidade n&atilde;o pode existir sen&atilde;o na<br \/>\n    sepultura, meu pai. Entre os dois supl&iacute;cios que me deixam escolher,<br \/>\n    eu vejo ainda alguma coisa, que me sorri como uma id&eacute;ia consoladora,<br \/>\n    um recurso extremo, que Deus reserva para os desgra&ccedil;ados, cujos males<br \/>\n    s&atilde;o sem rem&eacute;dio.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; da resigna&ccedil;&atilde;o sem d&uacute;vida, que queres falar,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute;, minha filha?&#8230; Ah! meu pai, quando a resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, s&oacute; a morte&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Cala?te, filha!&#8230; n&atilde;o digas blasf&ecirc;mias e palavras loucas.<br \/>\n    Eu quero, eu preciso, que tu vivas. Ter&aacute;s &acirc;nimo de deixar teu<br \/>\n    pai neste mundo sozinho, velho e entregue &agrave; mis&eacute;ria e ao desamparo?<br \/>\n    Se me faltares, o que ser&aacute; de mim nas tristes conjunturas em que me<br \/>\n    deixas?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Perdoe?me, meu bom, meu querido pai; s&oacute; em um caso extremo eu me<br \/>\n    lembraria de morrer. Eu sei que devo viver para meu pai, e &eacute; isso que<br \/>\n    eu quero; mas para isso ser&aacute; preciso que eu me case com um disforme?&#8230;<br \/>\n    oh! isto &eacute; esc&aacute;rnio e opr&oacute;brio demais! Tenham?me debaixo<br \/>\n    do mais rigoroso cativeiro, ponham?me na ro&ccedil;a de enxada na m&atilde;o,<br \/>\n    descal&ccedil;a e vestida de algod&atilde;o, castiguem?me, tratem?me enfim<br \/>\n    como a mais vil das escravas, mas por caridade poupem?me este ignominioso<br \/>\n    sacrif&iacute;cio!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Belchior n&atilde;o &eacute; t&atilde;o disforme como te parece; e demais<br \/>\n    o tempo e o costume te far&atilde;o familiarizar com ele. H&aacute; muito<br \/>\n    tempo n&atilde;o o v&ecirc;s; com a idade ele vai?se endireitando, que &eacute;<br \/>\n    ele ainda muito crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Agora o desconhecer&aacute;s; j&aacute; n&atilde;o tem aquele exterior t&atilde;o<br \/>\n    grosseiro e desagrad&aacute;vel, e tem tomado outras maneiras menos toscas.<br \/>\n    Toma &acirc;nimo, minha filha; quando sa&iacute;res deste triste calabou&ccedil;o,<br \/>\n    o ar da liberdade te restituir&aacute; a alegria e a tranq&uuml;ilidade, e<br \/>\n    mesmo com o marido que te d&atilde;o poder&aacute;s viver feliz&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Feliz! &#8211; exclamou Isaura com amargo sorriso: &#8211; nao me fale em felicidade,<br \/>\n    meu pai. Se ao menos eu tivesse o cora&ccedil;&aacute;o livre como outrora&#8230;<br \/>\n    se n&atilde;o amasse a ningu&eacute;m. Oh!&#8230; n&atilde;o era preciso que ele<br \/>\n    me amasse, n&atilde;o; bastava que me quisesse para escrava, aquele anjo de<br \/>\n    bondade, que em v&atilde;o empregou seus generosos esfor&ccedil;os para arrancar?me<br \/>\n    deste abismo. Quanto eu seria mais feliz do que sendo mulher desse pobre homem,<br \/>\n    com quem me querem casar! Mas ai de mim! devo eu pensar mais nele? pode ele,<br \/>\n    nobre e rico cavalheiro, lembrar?se ainda da pobre e infeliz cativa!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sim, minha filha, n&atilde;o penses mais nesse homem; varre da tua id&eacute;ia<br \/>\n    esse amor tresloucado; sou eu quem te pe&ccedil;o e te aconselho.<\/p>\n<p> &#8211; Por que, meu pai?&#8230; como poderei ser ingrata a esse mo&ccedil;o?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas n&atilde;o deves contar mais com ele, e muito menos com o seu amor.<\/p>\n<p> &#8211; Por que motivo? porventura se ter&aacute; ele esquecido de mim?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Tua humilde condi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o permite que olhes com amor<br \/>\n    para t&atilde;o alto personagem; um abismo te separa dele. O amor que lhe<br \/>\n    inspiraste, n&atilde;o passou de um capricho de momento, de uma fantasia de<br \/>\n    fidalgo. Bem me pesa dizer?te isto, Isaura; mas &eacute; a pura verdade.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! meu pai! que est&aacute; dizendo!&#8230; se soubesse que mal me fazem<br \/>\n    essas terr&iacute;veis palavras!&#8230; deixe?me ao menos a consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de acreditar que ele me amava, que me ama ainda. Que interesse tinha ele em<br \/>\n    iludir uma pobre escrava?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu bem quisera poupar?te ainda este desgosto; mas &eacute; preciso que<br \/>\n    saibas tudo. Esse mo&ccedil;o&#8230; ah! minha filha, prepara teu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para mais um golpe bem cruel.<\/p>\n<p> &#8211; Que tem esse mo&ccedil;o?&#8230; perguntou Isaura tr&ecirc;mula e agitada.<br \/>\n    Fale, meu pai; acaso morreu?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, minha filha, mas&#8230; est&aacute; casado.<\/p>\n<p> &#8211; Casado!&#8230; &Aacute;lvaro casado!&#8230; oh! n&atilde;o; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel!&#8230; quem lhe disse, meu pai?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ele mesmo, Isaura; l&ecirc; esta carta.<\/p>\n<p> Isaura tomou a carta com m&atilde;o tr&ecirc;mula e convulsa, e a percorreu<br \/>\n    com olhos desvairados. Lida a carta, n&atilde;o articulou uma queixa, n&atilde;o<br \/>\n    soltou um solu&ccedil;o, n&atilde;o derramou uma l&aacute;grima, e ela, p&aacute;lida<br \/>\n    como um cad&aacute;ver, os olhos estatelados, a boca entreaberta, muda, im&oacute;vel,<br \/>\n    hirta, ali ficou por largo tempo na mesma posi&ccedil;&atilde;o; dir?se?ia<br \/>\n    que fora petrificada como a mulher de L&oacute;, ao encarar as chamas em que<br \/>\n    ardia a cidade maldita.<\/p>\n<p> Enfim por um movimento r&aacute;pido e convulso atirou?se ao seio de seu<br \/>\n    pai, e inundou?o de uma torrente de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Este pranto copioso aliviou?a; ergueu a cabe&ccedil;a, enxugou as l&aacute;grimas,<br \/>\n    e pareceu ter recobrado a tranq&uuml;ilidade, mas uma tranq&uuml;ilidade g&eacute;lida,<br \/>\n    sinistra, sepulcral. Parecia que sua alma se tinha aniquilado sob a viol&ecirc;ncia<br \/>\n    daquele golpe esmagador, e que de Isaura s&oacute; restava o fantasma.<\/p>\n<p> &#8211; Estou morta, meu pai!&#8230; n&atilde;o sou mais que um cad&aacute;ver&#8230;<br \/>\n    fa&ccedil;am de mim o que quiserem&#8230;<\/p>\n<p> Foram estas as &uacute;ltimas palavras que com voz f&uacute;nebre e sumida<br \/>\n    proferiu naquele l&ocirc;brego recinto.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos, minha filha, disse Miguel beijando?a na fronte. N&atilde;o te entregues<br \/>\n    assim ao desalento; tenho esperan&ccedil;a de que h&aacute;s de viver e ser<br \/>\n    feliz.<\/p>\n<p> Miguel, esp&iacute;rito acanhado e rasteiro, cora&ccedil;&atilde;o bom e<br \/>\n    sens&iacute;vel, mas inteiramente estranho &agrave;s grandes paix&otilde;es,<br \/>\n    n&atilde;o podia compreender todo o alcance do sacrif&iacute;cio que impunha<br \/>\n    &agrave; sua filha. Encarando a felicidade mais pelo lado dos interesses da<br \/>\n    vida positiva e material, n&atilde;o pelos gozos e exig&ecirc;ncias do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ousava conceber sinceras esperan&ccedil;as de mais felizes e tranq&uuml;ilos<br \/>\n    dias para sua filha, e n&atilde;o via que, sujeitando?a a semelhante opr&oacute;brio,<br \/>\n    aviltando?lhe a alma, ia esmagar?lhe o cora&ccedil;&atilde;o. Queria que ela<br \/>\n    vivesse, e n&atilde;o via que aquele ignominioso cons&oacute;rcio, depois<br \/>\n    de tantas e t&atilde;o acerbas torturas por que passara, era o golpe de compaix&atilde;o,<br \/>\n    que, terminando?lhe a exist&ecirc;ncia, vinha abreviar?lhe os sofrimentos.<\/p>\n<p> Malvina achava?se no sal&atilde;o, e ali esperava o resultado da confer&ecirc;ncia<br \/>\n    que Miguel fora ter com sua filha. Rosa e Andr&eacute;, de bra&ccedil;os cruzados<br \/>\n    junto &agrave; porta da entrada, tamb&eacute;m ali se achavam &agrave;s suas<br \/>\n    ordens.<\/p>\n<p> Malvina sentiu um doloroso aperto de cora&ccedil;&atilde;o ao ver assomar<br \/>\n    na porta o vulto de Isaura, arrimada ao bra&ccedil;o de Miguel, l&iacute;vida<br \/>\n    e desfigurada como enferma em agonia, os cabelos em desalinho, e com passos<br \/>\n    mal seguros penetrar, como um duende evocado do sepulcro, naquele sal&atilde;o,<br \/>\n    onde n&atilde;o h&aacute; muito tempo a vira t&atilde;o radiante de beleza<br \/>\n    e mocidade, naquele sal&atilde;o, que parecia ainda repetir os &uacute;ltimos<br \/>\n    acentos de sua voz suave e melodiosa.<\/p>\n<p> Mesmo assim ainda era bela a m&iacute;sera cativa. A magreza fazendo sobressa&iacute;rem<br \/>\n    os contornos e &acirc;ngulos faciais, real&ccedil;ava a pureza ideal e a severa<br \/>\n    energia daquele tipo antigo.<\/p>\n<p> Os grandes olhos pretos cobertos de luz ba&ccedil;a e melanc&oacute;lica<br \/>\n    eram como cirios fun&eacute;reos sob a arcada sombria de uma capela tumular.<br \/>\n    Os cabelos entornados em volta do colo, faziam ondular por eles leves sombras<br \/>\n    de maravilhoso efeito, como fest&otilde;es de hera a se debru&ccedil;arem<br \/>\n    pelo m&aacute;rmore vetusto de est&aacute;tua empalidecida pelo tempo. Naquela<br \/>\n    miseranda situa&ccedil;&atilde;o, Isaura oferecia ao escultor um formoso modelo<br \/>\n    da N&iacute;obe antiga.<\/p>\n<p> &#8211; Aquela &eacute; Isaura!&#8230; oh!&#8230; meu Deus! coitada! &#8211; murmurou Malvina<br \/>\n    ao v&ecirc;?la, e foi?lhe mister enxugar duas l&aacute;grimas, que a seu pesar<br \/>\n    umedeceram?lhe as p&aacute;lpebras. Esteve a ponto de ir implorar clem&ecirc;ncia<br \/>\n    a seu esposo em favor da pobrezinha, mas lembrou?se das perversas inclina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e mau comportamento, que Le&ocirc;ncio aleivosamente atribu&iacute;ra a Isaura,<br \/>\n    e assentou de revestir?se de toda a impassibilidade que lhe fosse poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, Isaura, &#8211; disse Malvina com brandura, &#8211; j&aacute; tomaste<br \/>\n    a tua resolu&ccedil;&atilde;o?&#8230; est&aacute;s decidida a casar com o marido<br \/>\n    que te queremos dar? Isaura por &uacute;nica resposta abaixou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e fitou os olhos no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhora, &#8211; respondeu Miguel por ela &#8211; Isaura est&aacute; resolvida<br \/>\n    a se conformar com a vontade de V. S.a.<\/p>\n<p> &#8211; Faz muito bem. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que ela esteja a sofrer<br \/>\n    por mais tempo esse cruel tratamento, em que n&atilde;o posso consentir enquanto<br \/>\n    estiver nesta casa. N&atilde;o foi para esse fim que sua defunta senhora criou?a<br \/>\n    com tanto mimo, e deu?lhe t&atilde;o boa educa&ccedil;&atilde;o. Isaura, apesar<br \/>\n    de tua desca&iacute;da, quero?te bem ainda, e n&atilde;o tolerarei mais semelhante<br \/>\n    esc&acirc;ndalo. Vamos dar?te ao mesmo tempo a liberdade e um excelente marido.<\/p>\n<p> &#8211; Excelente!&#8230; meu Deus! Que esc&aacute;rnio! &#8211; refleliu Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Belchior &eacute; muito bom mo&ccedil;o, inofensivo, pac&iacute;fico e<br \/>\n    trabalhador; creio que h&aacute;s de dar?te otimamente com ele. Demais para<br \/>\n    obter a liberdade nenhum sacrif&iacute;cio &eacute; grande, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    assim, Isaura? &#8211; Sem d&uacute;vida, minha senhora; j&aacute; que assim o quer,<br \/>\n    sujeito?me humildemente ao meu destino. Arrancam?me da masmorra &#8211; (continuou<br \/>\n    Isaura em seu pensamento), &#8211; para levarem?me ao supl&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem, Isaura; mostras que &eacute;s uma rapariga d&oacute;cil e de<br \/>\n    ju&iacute;zo.<\/p>\n<p> Andr&eacute;, vai chamar aqui o senhor Belchior. Quero eu mesma ter o gosto<br \/>\n    de anunciar?lhe que vai enfim realizar o seu sonho querido de tantos anos.<br \/>\n    Creio que o senhor Miguel tamb&eacute;m n&atilde;o ficar&aacute; mal satisfeito<br \/>\n    com o arranjo que damos a sua filha; sempre &eacute; alguma coisa sair do<br \/>\n    cativeiro e casar?se com um homem branco e livre. Antes assim do que fugir,<br \/>\n    e andar foragida por esse mundo. Isaura, para prova de quanto desejo o teu<br \/>\n    bem, quero ser madrinha neste casamento, que vai p&ocirc;r termo a teus sofrimentos,<br \/>\n    e restabelecer nesta casa a paz e o contentamento, que h&aacute; muito tempo<br \/>\n    dela andavam arredados.<\/p>\n<p> Ditas estas palavras, Malvina abriu um cofre de j&oacute;ias, que estava<br \/>\n    sobre uma mesa, e dele tirou um rico colar de ouro, que foi colocar no pesco&ccedil;o<br \/>\n    de Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Aceita isto, Isaura, &#8211; disse ela, &#8211; &eacute; o meu presente de noivado.<\/p>\n<p>&#8211; Agradecida, minha boa senhora, &#8211; disse Isaura, e acrescentou em seu cora&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; &eacute; a corda, que o carrasco vem lan&ccedil;ar ao pesco&ccedil;o da<br \/>\n    v&iacute;tima.<\/p>\n<p> Neste momento vem entrando Belchior acompanhado por Andr&eacute;.<\/p>\n<p> Eis?me aqui, senhora minha, &#8211; diz ele, &#8211; o que deseja deste seu menor criado?<br \/>\n    &#8211; Dar?lhe os parab&eacute;ns, senhor Belchior, &#8211; respondeu Malvina.<\/p>\n<p> &#8211; Parab&eacute;ns!&#8230; mas eu n&atilde;o sei por qu&ecirc;!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pois eu lhe digo; fique sabendo que Isaura vai ser livre, e&#8230;<\/p>\n<p> adivinhe o resto.<\/p>\n<p> &#8211; E vai?se embora decerto&#8230; oh!&#8230; &eacute; uma desgra&ccedil;a! &#8211; J&aacute;<br \/>\n    vejo que n&atilde;o &eacute; bom adivinhador. Isaura est&aacute; resolvida<br \/>\n    a casar?se com o senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Que me diz, patroa!&#8230; perd&atilde;o, n&atilde;o posso acreditar. Vossemec&ecirc;<br \/>\n    est&aacute; zombando comigo.<\/p>\n<p> Digo?lhe a verdade; ai est&aacute; ela, que n&atilde;o me deixar&aacute;<br \/>\n    mentir.<\/p>\n<p> Apronte?se, senhor Belchior, e quanto antes, que amanh&atilde; mesmo h&aacute;<br \/>\n    de se fazer o casamento aqui mesmo em casa.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! senhora minha! divindade da Terra! &#8211; exclamou Belchior indo?se atirar<br \/>\n    aos p&eacute;s de Malvina e procurando beij&aacute;?los, &#8211; deixe?me beijar<br \/>\n    esses p&eacute;s&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Levante?se da&iacute;, senhor Belchior; n&atilde;o &eacute; a mim, &eacute;<br \/>\n    a Isaura que deve agradecer.<\/p>\n<p> Belchior levanta?se e corre a prostrar?se aos p&eacute;s de Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! princesa de meu cora&ccedil;&atilde;o! &#8211; exclamou ele atracando?se<br \/>\n    &aacute;s pernas da pobre escrava, que fraca como estava, quase foi &agrave;<br \/>\n    terra com a for&ccedil;a daquela furiosa e entusi&aacute;stica atraca&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Era para fazer rebentar de riso, a quem n&atilde;o soubesse quanto havia de<br \/>\n    tr&aacute;gico e doloroso no fundo daquela &iacute;mpia e ign&oacute;bil farsa.<\/p>\n<p> &#8211; Isaura!&#8230; n&atilde;o olhas para mim? aqui tens a teus p&eacute;s este<br \/>\n    teu menor cativo, Belchior!&#8230; olha para ele, para este teu adorador, que<br \/>\n    hoje &eacute; mais do que um pr&iacute;ncipe.., d&aacute; c&aacute; essa m&atilde;ozinha,<br \/>\n    deixa?me com&ecirc;?la de beijos&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus! que farsa hedionda obrigam?me a representar! &#8211; murmurou Isaura<br \/>\n    consigo, e voltando a face abandonou a m&atilde;o a Belchior, que colando<br \/>\n    a ela a boca no transporte do entusiasmo, desatou a chorar como uma crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Olha que palerma! &#8211; disse Andr&eacute; para Rosa, que observava de parte<br \/>\n    aquela cena tragic&ocirc;mica. &#8211; E venham c&aacute; dizer?me que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o mel para a boca do asno! &#8211; Eu antes queria que me casassem com<br \/>\n    um jacar&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Este meu sinh&ocirc; mo&ccedil;o tem id&eacute;ias do diabo! quem havia<br \/>\n    de lembrar?se de casar uma sereia com um boto? &#8211; Invejoso!&#8230; voc&ecirc; &eacute;<br \/>\n    que queria ser o boto, por isso est&aacute; a&iacute; a torcer o nariz. Toma!&#8230;<br \/>\n    bem feito!&#8230; agora o que faltava era que o nhonh&ocirc; te desse de dote<br \/>\n    &agrave; Isaura.<\/p>\n<p> &#8211; Isso queria eu!&#8230; aposto que Isaura n&atilde;o vai casar de livre vontade!<br \/>\n    e depois&#8230; n&oacute;s c&aacute; nos arranjar&iacute;amos&#8230; havia de enfiar<br \/>\n    o boto pelo fundo de uma agulha.<\/p>\n<p> &#8211; Sai da&iacute;, tolo!&#8230; pensa que Isaura faz caso de voc&ecirc;?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o te arrebites, minha Rosa; j&aacute; agora n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    rem&eacute;dio sen&atilde;o contentar?me contigo, que em fim de contas tamb&eacute;m<br \/>\n    &eacute;s bem bonitinha, e&#8230; tudo que cai no jequi, &eacute; peixe.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; baixo!&#8230; ag&uuml;ente a sua t&aacute;bua, e v&aacute; consolar?se<br \/>\n    com quem quiser, menos comigo.<\/p>\n<h2><a name=\"21\" id=\"21\"> Cap&iacute;tulo 21<\/a><\/h2>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, Le&ocirc;ncio, &#8211; dizia Malvina a seu esposo no outro dia<br \/>\n    pela manh&atilde;, &#8211; deste as provid&ecirc;ncias necess&aacute;rias para arranjar?se<br \/>\n    esse neg&oacute;cio hoje mesmo? &#8211; Creio que &eacute; a cent&eacute;sima vez<br \/>\n    que me fazes essa pergunta, Malvina, &#8211; respondeu Le&ocirc;ncio sorrindo?se.<br \/>\n    &#8211; Todavia pela cent&eacute;sima vez te responderei tamb&eacute;m, que as provid&ecirc;ncias<br \/>\n    que est&atilde;o da minha parte, j&aacute; foram todas dadas. Ontem mesmo<br \/>\n    mandei um pr&oacute;prio a Campos, e n&atilde;o tardar&atilde;o a chegar por<br \/>\n    a&iacute; o tabeli&atilde;o para passar escritura de liberdade a Isaura com<br \/>\n    toda a solenidade, e tamb&eacute;m o padre para celebrar o casamento. Bem<br \/>\n    v&ecirc;s que de nada me esqueci. Tratem de estar todos prontos; e tu, Malvina,<br \/>\n    manda j&aacute; preparar a capela para se efetuar esse casamento, que pareces<br \/>\n    desejar com mais ardor, &#8211; acrescentou sorrindo, &#8211; do que desejaste o teu pr&oacute;prio.<\/p>\n<p> Malvina saiu do sal&atilde;o, deixando Le&ocirc;ncio em companhia de um<br \/>\n    terceiro personagem, que tamb&eacute;m ali se achava, por nome Jorge, a quem<br \/>\n    o leitor ainda n&atilde;o conhece. Dizendo que era um parasita, ainda n&atilde;o<br \/>\n    temos dito tudo.<\/p>\n<p> Este g&ecirc;nero cont&eacute;m muitas variedades, e mesmo cada individuo<br \/>\n    tem sua cor e fei&ccedil;&atilde;o particular. Era um homem bem apessoado,<br \/>\n    espirituoso servi&ccedil;al, cheio de cortesia e amabilidade, condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    indispens&aacute;veis a um bom parasita. Jorge n&atilde;o vivia da seiva e<br \/>\n    da sombra de uma s&oacute; &aacute;rvore; saltava de uma a outra, e assim<br \/>\n    peregrinava por longas dist&acirc;ncias, o que era da sua parte um excelente<br \/>\n    c&aacute;lculo, pois proporcionava?lhe uma vida mais variada e recreativa,<br \/>\n    ao mesmo tempo que tornava sua companhia menos inc&ocirc;moda e fatigante<br \/>\n    aos seus numerosos amigos. Conhecia e entretinha rela&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    amizade com todos os fazendeiros das margens do Para&iacute;ba desde S&atilde;o<br \/>\n    Jo&atilde;o da Barra at&eacute; S&atilde;o Fid&eacute;lis. A crer no que dizia,<br \/>\n    andava sempre cheio de afazeres e dando andamento a mil neg&oacute;cios importantes,<br \/>\n    mas estava sempre pronto a prescindir deles a convite de qualquer desses amigos<br \/>\n    para passar uns oito ou quinze dias em sua companhia.<\/p>\n<p> Na solid&atilde;o em que Le&ocirc;ncio se achou depois de seu rompimento<br \/>\n    com Malvina, Jorge foi para ele um excelente recurso quando se achava na fazenda.<br \/>\n    Servia?lhe de companheiro n&atilde;o s&oacute; &agrave; mesa, como ao jogo<br \/>\n    e &agrave; ca&ccedil;a: entretinha?o a contar?lhe anedotas divertidas e escandalosas,<br \/>\n    aplaudia?lhe os desvarios e extravag&acirc;ncias, e lisonjeava?lhe as ruins<br \/>\n    paix&otilde;es, enquanto Le&ocirc;ncio, que o acreditava realmente um amigo,<br \/>\n    fazia dele o seu confidente, e comunicava?lhe os seus mais &iacute;ntimos<br \/>\n    pensamentos, os seus planos de perversidade, e os mais secretos neg&oacute;cios<br \/>\n    de fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Para melhor entrarmos no mist&eacute;rio dos planos atrozes e ign&oacute;beis,<br \/>\n    das sat&acirc;nicas maquina&ccedil;&otilde;es de Le&ocirc;ncio, ou&ccedil;amos<br \/>\n    a conversa&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima, que v&atilde;o tratar estes dois<br \/>\n    entes dignos um do outro.<\/p>\n<p> &#8211; At&eacute; que por fim, Jorge, achei um meio engenhoso e seguro de aplanar<br \/>\n    todas as dificuldades. Desta maneira espero que tudo se vai arranjar &aacute;s<br \/>\n    mil maravilhas.<\/p>\n<p> &#8211; Seguramente, e j&aacute; de antem&atilde;o te dou os parab&eacute;ns pelos<br \/>\n    teus triunfos, e aplaudo?te pela feliz combina&ccedil;&atilde;o de teus planos.<\/p>\n<p> &#8211; Mas escuta ainda para melhor poderes compreend&ecirc;?los. Com este casamento<br \/>\n    ficam satisfeitos os desejos de minha mulher, sem que Isaura escape de todo<br \/>\n    ao meu poder. Como o pai dela est&aacute; debaixo de minha restrita depend&ecirc;ncia,<br \/>\n    eu saberei reter junto de mim esse est&uacute;pido jardineiro com quem caso?a,<br \/>\n    e depois&#8230; tu bem sabes, o tempo e a perseveran&ccedil;a amansam as feras<br \/>\n    mais bravias. Entretanto a atrevida escrava receber&aacute; o castigo que<br \/>\n    merece sua inqualific&aacute;vel rebeldia. Era?me absolutamente necess&aacute;rio<br \/>\n    dar este passo, porque minha mulher recusa?se obstinadamente a reconciliar?se<br \/>\n    comigo, enquanto eu conservar Isaura cativa em meu poder, capricho de mulher,<br \/>\n    com que bem pouco me importaria, se n&atilde;o fosse&#8230; &#8211; isto aqui entre<br \/>\n    n&oacute;s, meu amigo; confio em tua discri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Podes falar sem susto, que meu cora&ccedil;&atilde;o &eacute; como um<br \/>\n    t&uacute;mulo para o segredo da amizade.<\/p>\n<p> &#8211; Bem; dizia?te eu, que bem pouco me importaria com os arrufos e caprichos<br \/>\n    de minha mulher, se n&atilde;o fosse o completo desarranjo em que desgra&ccedil;adamente<br \/>\n    v&atilde;o os meus neg&oacute;cios. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia de uma infinidade<br \/>\n    de circunst&acirc;ncias, que &eacute; escusado agora explicar?te, a minha<br \/>\n    fortuna est&aacute; amea&ccedil;ada de levar um baque horrendo, do qual n&atilde;o<br \/>\n    sei se me ser&aacute; poss&iacute;vel levant&aacute;?la sem auxilio estranho.<br \/>\n    Ora meu sogro &eacute; o &uacute;nico que com o auxilio de seu dinheiro ou<br \/>\n    de seu cr&eacute;dito pode ainda escorar o edif&iacute;cio de minha fortuna<br \/>\n    prestes a desabar.<\/p>\n<p>&#8211; Em verdade procedes com tino e prud&ecirc;ncia consumada. Oh! teu sogro!&#8230;<br \/>\n    conhe&ccedil;o?o muito; &eacute; uma fortuna s&oacute;lida, e uma das casas<br \/>\n    mais fortes do Rio de Janeiro; teu sogro n&atilde;o te deixar&aacute; ficar<br \/>\n    mal. Quer extremosamente &agrave; filha, e n&atilde;o querer&aacute; ver arruinado<br \/>\n    o marido dela.<\/p>\n<p> &#8211; Disso estou eu certo. Mas isto ainda n&atilde;o &eacute; tudo; escuta<br \/>\n    ainda, Jorge. O meu rival, esse tal senhor &Aacute;lvaro, que tanto cobi&ccedil;ou<br \/>\n    a minha Isaura para sua amizade, que n&atilde;o teve pejo de seduzi?la, acout&aacute;?la<br \/>\n    e proteg&ecirc;?la p&uacute;blica e escandalosamente no Recife, esse grotesco<br \/>\n    campe&atilde;o da liberdade das escravas alheias, que protestou me disputar<br \/>\n    Isaura a todo o risco, ficar&aacute; de uma vez para sempre desenganado de<br \/>\n    sua estulta pretens&atilde;o. V&ecirc; pois, Jorge, quantos interesses e vantagens<br \/>\n    se conciliam no simples fato desse casamento.<\/p>\n<p> &#8211; Plano admir&aacute;vel na verdade, Le&ocirc;ncio! &#8211; exclamou Jorge enfaticamente.<\/p>\n<p> &#8211; Tens um tino superior, e uma intelig&ecirc;ncia sutil e f&eacute;rtil<br \/>\n    em recursos!., se te desses &aacute; pol&iacute;tica, asseguro?te que farias<br \/>\n    um papel eminente; serias um estadista consumado. Esse Dom Quixote de nova<br \/>\n    esp&eacute;cie, amparo da liberdade das escravas alheias, quando s&atilde;o<br \/>\n    bonitas, n&atilde;o achar&aacute; sen&atilde;o moinhos de vento a combater.<br \/>\n    Muito havemos de nos rir de seu desapontamento, se lhe der na cabe&ccedil;a<br \/>\n    continuar sua burlesca aventura.<\/p>\n<p> &#8211; Creio que nessa n&atilde;o cair&aacute; ele; mas se por c&aacute; aparecesse,<br \/>\n    muito t&iacute;nhamos que debic&aacute;?lo.<\/p>\n<p> &#8211; Meu senhor, &#8211; disse Andr&eacute; entrando na sala, &#8211; a&iacute; est&atilde;o<br \/>\n    na porta uns cavalheiros, que pedem licen&ccedil;a para apear e entrar.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! j&aacute; sei, &#8211; disse Le&ocirc;ncio, &#8211; s&atilde;o eles, s&atilde;o<br \/>\n    as pessoas que mandei chamar; o vig&aacute;rio, o tabeli&atilde;o e mais outros&#8230;<br \/>\n    bom! j&aacute; n&atilde;o nos falta tudo. Vieram mais depressa do que eu esperava.<br \/>\n    Manda?os apear e entrar, Andr&eacute;.<\/p>\n<p> Andr&eacute; sai, Le&ocirc;ncio toca uma campainha, e aparece Rosa.<\/p>\n<p> &#8211; Rosa, diz?lhe ele, &#8211; vai j&aacute; chamar sinh&aacute; Malvina e Isaura,<br \/>\n    e o senhor Miguel e Belchior. J&aacute; devem estar prontos; precisa?se aqui<br \/>\n    j&aacute; da presen&ccedil;a de todos eles.<\/p>\n<p> &#8211; Estou aflito por ver o fim a esta farsa, &#8211; disse Le&ocirc;ncio a seu amigo,<br \/>\n    &#8211; mas quero que ela se represente com certo aparato e solenidade, para inculcar<br \/>\n    que tenho grande prazer em satisfazer o capricho de Malvina e melhor iludir<br \/>\n    a sua credulidade; mas &#8211; fique isto aqui entre n&oacute;s, &#8211; este casamento<br \/>\n    n&atilde;o passa de uma burla. Tenho toda a certeza de que Isaura despreza<br \/>\n    do fundo d&#8217;alma esse miser&aacute;vel idiota, que s&oacute; em nome ser&aacute;<br \/>\n    seu marido. Entretanto ficarei me aguardando para melhores tempos, e espero<br \/>\n    que o meu plano surtir&aacute; o desejado efeito.<\/p>\n<p> &#8211; C&aacute; por mim n&atilde;o tenho a menor d&uacute;vida a respeito do<br \/>\n    resultado de um plano t&atilde;o maravilhosamente combinado.<\/p>\n<p> Mal Jorge acabava de pronunciar estas palavras, apareceu &agrave; porta<br \/>\n    do sal&atilde;o um belo e jovem cavalheiro, em elegantes trajos de viagem,<br \/>\n    acompanhado de mais tr&ecirc;s ou quatro pessoas. L&ecirc;oncio, que j&aacute;<br \/>\n    ia pressuroso receb&ecirc;?los e cumpriment&aacute;?los, estacou de repente.<\/p>\n<p> -Oh!&#8230; n&atilde;o s&atilde;o quem eu esperava!&#8230; murmurou consigo. &#8211; Se<br \/>\n    me n&atilde;o engano&#8230; &eacute; &Aacute;lvaro!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Senhor Le&ocirc;ncio! &#8211; disse o cavalheiro cumprimentando?o.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &Aacute;lvaro, &#8211; respondeu Le&ocirc;ncio, &#8211; pois creio que &eacute;<br \/>\n    a esse senhor, que tenho a honra de receber em minha casa.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; ele mesmo, senhor; um seu criado.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! muito estimo&#8230; n&atilde;o o esperava&#8230; queira sentar?se&#8230; quis<br \/>\n    ent&atilde;o vir dar um passeio c&aacute; pelas nossas prov&iacute;ncias do<br \/>\n    Sul?&#8230;<\/p>\n<p> Estas e outras frases banais dizia Le&ocirc;ncio, procurando refazer?se<br \/>\n    da perturba&ccedil;&atilde;o em que o lan&ccedil;ara a s&uacute;bita e inesperada<br \/>\n    apari&ccedil;&atilde;o de &Aacute;lvaro naquele momento cr&iacute;tico e solene.<\/p>\n<p> No mesmo momento entravam no sal&atilde;o por uma porta interior Malvina,<br \/>\n    Isaura, Miguel e Belchior. Vinham j&aacute; preparados com os competentes<br \/>\n    trajos para a cerim&ocirc;nia do casamento.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus!&#8230; o que estou vendo!&#8230; &#8211; murmurou Isaura, sacudindo vivamente<br \/>\n    o bra&ccedil;o de Miguel: &#8211; estarei enganada?&#8230; n&atilde;o&#8230; &eacute; ele.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; ele mesmo&#8230; Deus!&#8230; como &eacute; poss&iacute;vel? &#8211; Oh! &#8211;<br \/>\n    exclamou Isaura; e nesta simples interjei&ccedil;&atilde;o, que exalou como<br \/>\n    um suspiro, expressava o desafogo de um pego de ang&uacute;stias, que lhe<br \/>\n    pesava sobre o cora&ccedil;&atilde;o. Quem de perto a olhasse com aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    veria um leve rubor naquele rosto, que a dor e os sofrimentos pareciam ter<br \/>\n    condenado a uma eterna e marm&oacute;rea palidez; era a aurora da esperan&ccedil;a,<br \/>\n    cujo primeiro e t&iacute;mido arrebol assomava nas faces daquela, cuja exist&ecirc;ncia<br \/>\n    naquele momento ia sepultar?se nas sombras de um l&uacute;gubre ocaso.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o esperava pela honra de receb&ecirc;?lo hoje nesta sua casa,<br \/>\n    &#8211; continuou Le&ocirc;ncio recobrando gradualmente o seu sangue?frio e seu<br \/>\n    ar arrogante. &#8211; Entretanto h&aacute; de permitir que me felicite a mim e ao<br \/>\n    senhor por t&atilde;o oportuna visita. A chegada de V. S.a. hoje nesta casa<br \/>\n    parece um acontecimento auspicioso, e at&eacute; providencial.<\/p>\n<p> &#8211; Sim?!&#8230; muito folgo com isso..,.mas n&atilde;o ter&aacute; V. S.a. a<br \/>\n    bondade de dizer por qu&ecirc;?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Com muito gosto. Saiba que aquela sua protegida, aquela escrava, por quem<br \/>\n    fez tantos extremos em Pernambuco, vai ser hoje mesmo libertada e casada com<br \/>\n    um homem de bem. Chegou V. S.a.<\/p>\n<p> mesmo a ponto de presenciar com os seus pr&oacute;prios olhos a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos filantr&oacute;picos desejos, que tinha a respeito da dita escrava, e<br \/>\n    eu da minha parte muito folgarei se V. S.a. quiser assistir a esse ato, que<br \/>\n    ainda mais solene se tornar&aacute; com a sua presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; E quem a liberta? &#8211; perguntou &Aacute;lvaro sorrindo?se sardonicamente.<\/p>\n<p> &#8211; Quem mais sen&atilde;o eu, que sou seu legitimo senhor? &#8211; respondeu Le&ocirc;ncio<br \/>\n    com altiva seguridade.<\/p>\n<p> &#8211; Pois declaro?lhe, que o n&atilde;o pode fazer, senhor: &#8211; disse &Aacute;lvaro<br \/>\n    com firmeza. &#8211; Essa escrava n&atilde;o lhe pertence mais.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me pertence!&#8230; &#8211; bradou Le&ocirc;ncio levantando?se de um<br \/>\n    salto, &#8211; o senhor delira ou est&aacute; escarnecendo?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nem uma, nem outra coisa, &#8211; respondeu &Aacute;lvaro com toda a calma:<br \/>\n    &#8211; repito?lhe; essa escrava n&atilde;o lhe pertence mais.<\/p>\n<p> &#8211; E quem se atreve a esbulhar?me do direito que tenho sobre ela? &#8211; Os seus<br \/>\n    credores, senhor, &#8211; replicou &Aacute;lvaro, sempre com a mesma firmeza e sangue?frio.<br \/>\n    &#8211; Esta fazenda com todos os escravos, esta casa com seus ricos m&oacute;veis,<br \/>\n    e sua baixela, nada disto lhe pertence mais; de hoje em diante o senhor n&atilde;o<br \/>\n    pode dispor aqui nem do mais insignificante objeto. Veja, &#8211; continuou mostrando?lhe<br \/>\n    um ma&ccedil;o de pap&eacute;is, &#8211; aqui tenho em minhas m&atilde;os toda a<br \/>\n    sua fortuna. O seu passivo excede extraordinariamente a todos os seus haveres;<br \/>\n    sua ru&iacute;na &eacute; completa e irremedi&aacute;vel, e a execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todos os seus bens vai lhe ser imediatamente intimada.<\/p>\n<p> A um aceno de &Aacute;lvaro, o escriv&atilde;o que o acompanhava apresentou<br \/>\n    a Le&ocirc;ncio o mandado de seq&uuml;estro e execu&ccedil;&atilde;o de seus<br \/>\n    bens. Le&ocirc;ncio, arrebatando o papel com m&atilde;o tr&ecirc;mula, passeou<br \/>\n    rapidamente por ele os olhos faiscantes de c&oacute;lera.<\/p>\n<p> &#8211; Pois qu&ecirc;! &#8211; exclamou ele, &#8211; &eacute; assim violenta e atropeladamente<br \/>\n    que se fazem estas coisas! porventura n&atilde;o posso obter alguma morat&oacute;ria,<br \/>\n    e salvar minha honra e meus bens por outro qualquer meio?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Seus credores j&aacute; usaram para com o senhor de todas as condescend&ecirc;ncias<br \/>\n    e contemporiza&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis. Saiba ainda demais, que<br \/>\n    hoje sou eu o principal, se n&atilde;o o &uacute;nico credor seu; pertencem?me,<br \/>\n    e est&atilde;o em minhas m&atilde;os quase todos os seus t&iacute;tulos de<br \/>\n    d&iacute;vida, e eu n&atilde;o estou de &acirc;nimo a admitir transa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nem protela&ccedil;&otilde;es de natureza alguma.<\/p>\n<p> Dar seus bens a invent&aacute;rio eis o que lhe cumpre fazer; toda e qualquer<br \/>\n    evasiva que tentar ser&aacute; in&uacute;til.<\/p>\n<p> &#8211; Maldi&ccedil;&atilde;o! &#8211; bradou Le&ocirc;ncio, batendo com o p&eacute;<br \/>\n    no ch&atilde;o e arrancando os cabelos.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus!&#8230; meu Deus!&#8230; que desgra&ccedil;a!&#8230; e que&#8230; vergonha!&#8230;<\/p>\n<p> exclamou Malvina, solu&ccedil;ando.<\/p>\n<h2><a name=\"22\" id=\"22\"> Cap&iacute;tulo 22<\/a><\/h2>\n<p> Deixemos por um momento suspensa a cena do cap&iacute;tulo antecedente,<br \/>\n    e interrompido o di&aacute;logo entre os dois mancebos. Eles ai ficam em face<br \/>\n    um do outro, como o le&atilde;o altivo e magn&acirc;nimo tendo subjugado o<br \/>\n    tigre daninho e trai&ccedil;oeiro, que rosna em v&atilde;o debaixo das possantes<br \/>\n    garras de seu antagonista. &Eacute;?nos preciso explicar por que s&eacute;rie<br \/>\n    de circunst&acirc;ncias &Aacute;lvaro veio aparecer em casa do senhor de Isaura,<br \/>\n    a ponto de vir burlar os seus planos atrozes, mesmo no momento em que iam<br \/>\n    ter final execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Depois que Isaura lhe fora arrebatada, &Aacute;lvaro caiu na mais acerba<br \/>\n    prostra&ccedil;&atilde;o de &acirc;nimo.<\/p>\n<p> Ferido em seu orgulho, esbulhado do objeto de seu amor, escarnecido e vilipendiado<br \/>\n    pela arrog&acirc;ncia de um insolente escravocrata, entregou?se ao mais sombrio<br \/>\n    desespero. Mal soube o seu rev&eacute;s, o Dr. Geraldo correu em socorro daquela<br \/>\n    nobre alma t&atilde;o cruelmente golpeada pelo destino. Gra&ccedil;as aos<br \/>\n    cuidados e conselhos daquele t&atilde;o sol&iacute;cito qu&atilde;o inteligente<br \/>\n    amigo, a dor de &Aacute;lvaro foi?se tornando mais calma e resignada. Por<br \/>\n    suas exorta&ccedil;&otilde;es &Aacute;lvaro chegou mesmo a convencer?se que<br \/>\n    o melhor partido que lhe ficava a tomar nas dif&iacute;ceis conjunturas em<br \/>\n    que se achava, era procurar esquecer?se de Isaura.<\/p>\n<p> Todo o esfor&ccedil;o que fizeres, &#8211; dizia?lhe o amigo, &#8211; em favor da liberdade<br \/>\n    de Isaura, ser&aacute; rematada loucura, que n&atilde;o ter&aacute; outro<br \/>\n    resultado sen&atilde;o envolver?te em novas dificuldades, cobrindo?te de rid&iacute;culo<br \/>\n    e de humilha&ccedil;&atilde;o. J&aacute; passaste por duas decep&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    bem cru&eacute;is, a do baile, e esta &uacute;ltima ainda mais triste e humilhante.<br \/>\n    Quase te fizeste r&eacute;u de pol&iacute;cia, querendo disputar uma escrava<br \/>\n    a seu leg&iacute;timo senhor. Pois bem; as seguintes ser&atilde;o ainda piores,<br \/>\n    eu te asseguro, e te far&atilde;o ir rolando de abismo em abismo at&eacute;<br \/>\n    tua completa perdi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Atendendo a estas e mil outras considera&ccedil;&otilde;es de Geraldo, &Agrave;lvaro<br \/>\n    procurou firmar o esp&iacute;rito e a vontade no prop&oacute;sito de renunciar<br \/>\n    ao seu amor, e a todas as suas pretens&otilde;es filantr&oacute;picas sobre<br \/>\n    Isaura. Foi debalde.<\/p>\n<p> Depois de um m&ecirc;s de luta consigo mesmo, de sempre frustradas veleidades<br \/>\n    de revolta contra os impulsos do cora&ccedil;&atilde;o, &Aacute;lvaro sentiu?se<br \/>\n    fraco, e compreendeu que semelhante tentativa era uma luta insensata contra<br \/>\n    a for&ccedil;a onipotente do destino. Embalde procurou, j&aacute; nas graves<br \/>\n    ocupa&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito, j&aacute; nas distra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    fr&iacute;volas da sociedade, um meio de apagar da lembran&ccedil;a a imagem<br \/>\n    da gentil cativa. Ela lhe estava sempre presente em todos os sonhos d&#8217;alma,<br \/>\n    ora resplendente de beleza e gra&ccedil;a, donosa e sedutora como na noite<br \/>\n    do baile, ora p&aacute;lida e abatida, vergada ao peso de seu infort&uacute;nio,<br \/>\n    com os pulsos algemados, cravando nele os olhos suplicantes como que a dizer?lhe:<br \/>\n    &#8211; Vem, n&atilde;o me abandones; s&oacute; tu podes quebrar estes ferros que<br \/>\n    me oprimem.<\/p>\n<p> O esp&iacute;rito de &Aacute;lvaro firmou?se por fim na &iacute;ntima e<br \/>\n    inabal&aacute;vel convic&ccedil;&atilde;o de que o c&eacute;u, pondo em contato<br \/>\n    o seu destino com o daquela encantadora e infeliz escrava, tivera um des&iacute;gnio<br \/>\n    providencial, e o escolhera para instrumento da nobre e generosa miss&atilde;o<br \/>\n    de arrebat&aacute;?la &agrave; escravid&atilde;o, e dar?lhe na sociedade o<br \/>\n    elevado lugar que por sua beleza, virtudes e talentos, lhe competia.<\/p>\n<p> Resolveu?se portanto, fosse qual fosse o resultado, a prosseguir nessa generosa<br \/>\n    tentativa, com a cegueira do fanatismo, sen&atilde;o com o arrastamento de<br \/>\n    uma inspira&ccedil;&atilde;o providencial.<\/p>\n<p> &Aacute;lvaro partiu para o Rio de Janeiro. Ia ao acaso, sem plano nenhum<br \/>\n    formado, sem bem saber o que devia fazer para chegar aos seus fins; mas tinha<br \/>\n    como uma intui&ccedil;&atilde;o vaga de que o c&eacute;u lhe depararia ocasi&atilde;o<br \/>\n    e meios de levar a cabo a sua empresa. O que queria em primeiro lugar era<br \/>\n    colocar?se nas vizinhan&ccedil;as de Le&ocirc;ncio, a fim de poder colher<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es e investigar se porventura algum recurso haveria<br \/>\n    para obrigar o senhor de Isaura a manumiti?la.<\/p>\n<p> Desembarcou na corte com o fim de dirigir?se brevemente para Campos. Antes<br \/>\n    por&eacute;m de partir para seu destino, procurou colher entre as pessoas<br \/>\n    do com&eacute;rcio algumas informa&ccedil;&otilde;es a respeito de Le&ocirc;ncio.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! conhe&ccedil;o muito esse sujeito, &#8211; disse logo o primeiro negociante,<br \/>\n    a quem &Aacute;lvaro se dirigiu. &#8211; Esse mo&ccedil;o est&aacute; falido, e<br \/>\n    em completa ru&iacute;na. Se V. S.&ordf; tamb&eacute;m &eacute; credor dele,<br \/>\n    pode p&ocirc;r as suas barbas de molho, porque as dos vizinhos est&atilde;o<br \/>\n    a arder. Essa casa bem liquida, mal dar&aacute; para um rateio, em que toque<br \/>\n    cinquenta por cento a cada credor.<\/p>\n<p> Esta revela&ccedil;&atilde;o foi para &Aacute;lvaro como um rel&acirc;mpago<br \/>\n    que se abre aos olhos do viandante extraviado em noite tormentosa, mostrando?lhe<br \/>\n    de repente e bem ao perto o albergue hospitaleiro que demanda.<\/p>\n<p> &#8211; E V. S.&ordf; porventura &eacute; tamb&eacute;m credor desse fazendeiro?<br \/>\n    &#8211; perguntou &Aacute;lvaro.<\/p>\n<p> &#8211; Infelizmente, e um dos principais&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E a quanto montar&aacute; a fortuna do tal Le&ocirc;ncio? &#8211; A menos de<br \/>\n    nada, presentemente, pois como j&aacute; lhe disse, o seu passivo excede talvez<br \/>\n    em mais do dobro a todos os seus bens.<\/p>\n<p> &#8211; Mas esse passivo mesmo, em que soma &eacute; calculado pouco mais ou menos?<br \/>\n    &#8211; Calcula?se aproximadamente em quatrocentos e tantos a quinhentos contos,<br \/>\n    enquanto que a fazenda de Campos, com escravos e todos os mais acess&oacute;rios,<br \/>\n    n&atilde;o exceder&aacute; talvez a duzentos. J&aacute; temos tido com esse<br \/>\n    fazendeiro todas as aten&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis, e lhe temos dado<br \/>\n    mais morat&oacute;rias do que a lei concede; n&atilde;o somos obrigados a<br \/>\n    mais, e agora estamos resolvidos a cair?lhe em cima com a execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; E quais s&atilde;o os outros credores? V. S.&ordf; querer&aacute; indicar?mos?<br \/>\n    &#8211; E por que n&atilde;o? &#8211; respondeu o negociante, e passou a indicar a &Aacute;lvaro<br \/>\n    os nomes e moradas dos demais credores.<\/p>\n<p> De feito, a casa de Le&ocirc;ncio, j&aacute; desde os &uacute;ltimos anos<br \/>\n    da vida de seu pai, ia em cont&iacute;nuo regresso e desmantelamento. O velho<br \/>\n    comendador, entregando?se no &uacute;ltimo quartel da vida a excessos e devassid&otilde;es,<br \/>\n    que nem na mocidade s&atilde;o desculp&aacute;veis, vivendo quase sempre na<br \/>\n    corte, e deixando quase em completo abandono a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fazenda, havia j&aacute; esbanjado n&atilde;o pequena por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de sua fortuna.<\/p>\n<p> Por efeito da m&aacute; administra&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    as safras come&ccedil;aram a escassear consideravelmente, como tamb&eacute;m<br \/>\n    o n&uacute;mero de escravos foi?se reduzindo pela morte e pelas freq&uuml;entes<br \/>\n    fugas, sem que tanto o comendador como seu filho deixassem de substitu&iacute;?los<br \/>\n    por outros novos, que iam comprando a prazo, tornando cada vez mais pesado<br \/>\n    o &ocirc;nus das d&iacute;vidas.<\/p>\n<p> Depois da morte do comendador, as coisas foram de mal a pior.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio, com a educa&ccedil;&atilde;o e a &iacute;ndole que lhe conhecemos,<br \/>\n    era o homem menos pr&oacute;prio poss&iacute;vel para dirigir e explorar um<br \/>\n    grande estabelecimento agr&iacute;cola.<\/p>\n<p> Seus desvarios e extravag&acirc;ncias, e por &uacute;ltimo sua nefasta e<br \/>\n    insensata paix&atilde;o por Isaura, fizeram?no perder de todo a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    arrojando?se em um plano inclinado de despesas ruinosas, sem c&aacute;lculo<br \/>\n    nem previs&atilde;o alguma. Com os enormes disp&ecirc;ndios que teve de fazer<br \/>\n    em conseq&uuml;&ecirc;ncia da fuga de Isaura, mandando procur&aacute;?la por<br \/>\n    todos os cantos do imp&eacute;rio, acabou de cavar o abismo de sua ru&iacute;na.<br \/>\n    Em pouco tempo o jovem fazendeiro estava de todo insolv&aacute;vel, sem um<br \/>\n    real em caixa, e com uma multid&atilde;o de letras protestadas na carteira<br \/>\n    de seus credores. Quando estes acordaram e se lembraram de lhe abrir a fal&ecirc;ncia<br \/>\n    e executar os seus bens, compreenderam que mal poderiam embolsar?se da metade<br \/>\n    do que lhes era devido, e, portanto, trataram com sofreguid&atilde;o de promover<br \/>\n    os meios executivos, antes que o mal fosse a mais.<\/p>\n<p> Depois de conferenciar com os credores de Le&ocirc;ncio, prop&ocirc;s?lhes<br \/>\n    a compra de todos os seus cr&eacute;ditos pela metade do seu valor. Para evitar<br \/>\n    qualquer odiosidade, que semelhante procedimento pudesse acarretar sobre sua<br \/>\n    pessoa, declarou?lhes que nenhuma inten&ccedil;&atilde;o tinha de vexar nem<br \/>\n    oprimir o infeliz fazendeiro, que pelo contr&aacute;rio era seu intuito proteg&ecirc;?lo<br \/>\n    e livr&aacute;?lo do vexame de uma rigorosa execu&ccedil;&atilde;o judicial,<br \/>\n    e deix&aacute;?lo ao abrigo da mis&eacute;ria. E realmente, a despeito da<br \/>\n    avers&atilde;o e desprezo que Le&ocirc;ncio lhe merecia, &Aacute;lvaro n&atilde;o<br \/>\n    pretendia levar ao &uacute;ltimo extremo os meios de vingan&ccedil;a, que<br \/>\n    por um acaso as circunst&acirc;ncias tinham posto em suas m&atilde;os. Era<br \/>\n    ele dez vezes mais rico do que o seu advers&aacute;rio, e de muito bom grado,<br \/>\n    se n&atilde;o houvesse outro recurso, por um contrato amig&aacute;vel daria<br \/>\n    uma soma igual a toda a fortuna deste, pela liberdade de Isaura.<\/p>\n<p> Agora, que o destino vinha p&ocirc;r em suas m&atilde;os toda a fortuna<br \/>\n    desse advers&aacute;rio caprichoso, arrogante e desalmado, &Aacute;lvaro,<br \/>\n    sempre generoso, nem por isso desejava v&ecirc;?lo reduzido &agrave; mis&eacute;ria.<\/p>\n<p> Os credores n&atilde;o hesitaram um momento em aceitar a proposta.<\/p>\n<p> Com raz&atilde;o preferiram saldar suas contas por um modo f&aacute;cil<br \/>\n    e expedito, em dinheiro contado, recebendo a metade, do que sujeitando?se<br \/>\n    &agrave;s despesas, delongas e dificuldades de uma execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em escravos e bens de raiz, quando nenhuma probabilidade havia de que no rateio<br \/>\n    pudessem obter mais de metade.<\/p>\n<p> Senhor de todos os t&iacute;tulos de divida de Le&ocirc;ncio, isto &eacute;,<br \/>\n    de toda a sua fortuna, &Aacute;lvaro partiu para Campos a fim de promover<br \/>\n    por sua conta a execu&ccedil;&atilde;o dos bens do mesmo, e munido de todos<br \/>\n    os pap&eacute;is e documentos, acompanhado de um escriv&atilde;o e dois oficiais<br \/>\n    de justi&ccedil;a, apresentou?se em pessoa em casa de Le&ocirc;ncio para intimar?lhe<br \/>\n    em pessoa a senten&ccedil;a de sua perdi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! maldi&ccedil;&atilde;o! &#8211; exclamara Le&ocirc;ncio, arrancando os cabelos<br \/>\n    em desespero, depois que ouvira dos l&aacute;bios de &Aacute;lvaro aquele<br \/>\n    arresto esmagador.<\/p>\n<p> Atordoado e quase louco com a viol&ecirc;ncia do golpe, ia sair correndo<br \/>\n    pela porta a fora.<\/p>\n<p> &#8211; Espere ainda, senhor, &#8211; disse &Aacute;lvaro detendo?o pelo bra&ccedil;o.<br \/>\n    &#8211; Agora quanto &agrave; escrava de que h&aacute; pouco se falava, o que pretendia<br \/>\n    fazer dela? &#8211; Libert&aacute;?la, j&aacute; lhe disse, &#8211; respondeu Le&ocirc;ncio<br \/>\n    com rudeza.<\/p>\n<p> &#8211; E mais alguma coisa; creio que tamb&eacute;m me disse que ia cas&aacute;?la;<br \/>\n    e, desculpe?me a pergunta, haveria para isso consentimento da parte dela?<br \/>\n    &#8211; Oh! n&atilde;o! n&atilde;o!&#8230; eu era arrastada, senhor! &#8211; exclamou Isaura<br \/>\n    resolutamente.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, senhor &Aacute;lvaro, &#8211; atalhou Miguel, ela ia casar?se,<br \/>\n    por assim dizer, for&ccedil;ada. O senhor Le&ocirc;ncio, como condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da liberdade dela obrigava?a a casar?se com aquele pobre homem que V. S.&ordf;<br \/>\n    ali v&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Com aquele homem?! &#8211; exclamou &Aacute;lvaro cheio de pasmo e indigna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    olhando para o hom&uacute;nculo que Miguel lhe indicava com o dedo.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhor, &#8211; continuou Miguel, &#8211; e se ela n&atilde;o se sujeitasse a<br \/>\n    esse casamento, teria de passar o resto da vida presa em um quarto escuro,<br \/>\n    incomunic&aacute;vel, com o p&eacute; enfiado em uma grossa corrente, como<br \/>\n    tem vivido desde que veio do Recife at&eacute; o dia de hoje&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Verdugo! &#8211; bradou &Aacute;lvaro, n&atilde;o podendo mais sopear sua indigna&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; A m&atilde;o da justi&ccedil;a divina pesa enfim sobre ti para punir tuas<br \/>\n    monstruosas atrocidades! &#8211; O que vergonha!.., que opr&oacute;brio, meu Deus!<br \/>\n    &#8211; exclamou Malvina, debru&ccedil;ando? se a uma mesa, e escondendo o rosto<br \/>\n    entre as m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8211; Pobre Isaura! &#8211; disse &Aacute;lvaro com voz comovida, estendendo os bra&ccedil;os<br \/>\n    &agrave; cativa. &#8211; Chega? te a mim&#8230; Eu protestei no fundo de minha alma<br \/>\n    e por minha honra desafrontar? te do jugo opressor e aviltante, que te esmagava,<br \/>\n    porque via em ti a pureza de um anjo, e a nobre e altiva resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da m&aacute;rtir. Foi uma miss&atilde;o santa, que julgo ter recebido do c&eacute;u,<br \/>\n    e que hoje vejo coroada do mais feliz e completo resultado.<\/p>\n<p> Deus enfim, por minhas m&atilde;os vinga a inoc&ecirc;ncia e a virtude oprimida,<br \/>\n    e esmaga o algoz.<\/p>\n<p> &#8211; Deixe? se de blasonar, senhor! &#8211; gritou Le&ocirc;ncio agitando? se em<br \/>\n    gesticula&ccedil;&otilde;es de furor: &#8211; isto n&atilde;o passa de uma inf&acirc;mia,<br \/>\n    uma trai&ccedil;&atilde;o, e ladroeira&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Isaura! &#8211; continuou &Aacute;lvaro com voz sempre firme e grave: &#8211; se esse<br \/>\n    algoz ainda h&aacute; pouco tinha em suas m&atilde;os a tua liberdade e a<br \/>\n    tua vida, e n&atilde;o tas cedia sen&atilde;o com a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de desposares um ente disforme e desprez&iacute;vel, agora tens nas tuas a<br \/>\n    sua propriedade; sim, que as tenho nas minhas, e as passo para as tuas. Isaura,<br \/>\n    tu &eacute;s hoje a senhora, e ele o escravo; se n&atilde;o quiser mendigar<br \/>\n    o p&atilde;o, h&aacute; de recorrer &agrave; nossa generosidade.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor! &#8211; exclamou Isaura correndo a lan&ccedil;ar?se aos p&eacute;s de<br \/>\n    &Aacute;lvaro; &#8211; oh! quanto sois bom e generoso para com esta infeliz escrava!&#8230;<br \/>\n    mas em nome dessa mesma generosidade, de joelhos eu vos pe&ccedil;o, perd&atilde;o!<br \/>\n    perd&atilde;o para eles&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Levanta? te, mulher generosa e sublime! &#8211; disse &Aacute;lvaro estendo?lhe<br \/>\n    as m&atilde;os para levantar? se. &#8211; Levanta?te, Isaura; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a meus p&eacute;s, mas sim em meus bra&ccedil;os, aqui bem perto do meu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que te deves lan&ccedil;ar, pois a despeito de todos os preconceitos do mundo,<br \/>\n    eu me julgo o mais feliz dos mortais em poder oferecer? te a m&atilde;o de<br \/>\n    esposo!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Senhor, &#8211; bradou Le&ocirc;ncio com os l&aacute;bios espumantes e os olhos<br \/>\n    desvairados, &#8211; a&iacute; tendes tudo quanto possuo; pode saciar sua vingan&ccedil;a,<br \/>\n    mas eu lhe juro, nunca h&aacute; de ter o prazer de ver?me implorar a sua<br \/>\n    generosidade.<\/p>\n<p> E dizendo isto entrou arrebatadamente em uma alcova cont&iacute;gua &agrave;<br \/>\n    sala.<\/p>\n<p> &#8211; Le&ocirc;ncio! Le&ocirc;ncio!&#8230; onde vais! &#8211; exclamou Malvina precipitando?se<br \/>\n    para ele; mal, por&eacute;m, havia ela chegado &agrave; porta, ouviu?se a<br \/>\n    explos&atilde;o atroadora de um tiro.<\/p>\n<p> &#8211; Ai!&#8230; &#8211; gritou Malvina, e caiu redondamente em terra.<\/p>\n<p> Le&ocirc;ncio tinha?se rebentado o cr&acirc;nio com um tiro de pistola.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap&iacute;tulo 1 Cap&iacute;tulo 2 Cap&iacute;tulo 3 Cap&iacute;tulo 4 Cap&iacute;tulo 5 Cap&iacute;tulo 6 Cap&iacute;tulo 7 &nbsp; &nbsp; Cap&iacute;tulo 8 Cap&iacute;tulo 9 Cap&iacute;tulo 10 Cap&iacute;tulo 11 Cap&iacute;tulo 12 Cap&iacute;tulo 13 Cap&iacute;tulo 14 &nbsp; Cap&iacute;tulo 15 Cap&iacute;tulo 16 Cap&iacute;tulo 17 Cap&iacute;tulo 18 Cap&iacute;tulo 19 Cap&iacute;tulo 20 Cap&iacute;tulo 21 Cap&iacute;tulo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-93167","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Escrava Isaura - Bernardo Guimar\u00e3es, Romance A Escrava Isaura - Bernardo Guimar\u00e3es<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Escrava Isaura - Bernardo Guimar\u00e3es, Romance, Personagens, Obra, Romantismo, Segunda Gera\u00e7\u00e3o, An\u00e1lise, Hist\u00f3ria, A Escrava Isaura - Bernardo Guimar\u00e3es\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Escrava Isaura - Bernardo Guimar\u00e3es, Romance A Escrava Isaura - Bernardo Guimar\u00e3es\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A Escrava Isaura - Bernardo Guimar\u00e3es, Romance, Personagens, Obra, Romantismo, Segunda Gera\u00e7\u00e3o, An\u00e1lise, Hist\u00f3ria, A Escrava Isaura - Bernardo Guimar\u00e3es\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-escrava-isaura-bernardo-guimaraes\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-06T17:25:58+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"337 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-escrava-isaura-bernardo-guimaraes#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-escrava-isaura-bernardo-guimaraes\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"A Escrava Isaura &#8211; 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