{"id":93164,"date":"2017-01-06T15:22:36","date_gmt":"2017-01-06T17:22:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93164"},"modified":"2017-01-06T15:22:36","modified_gmt":"2017-01-06T17:22:36","slug":"danca-dos-ossos-bernardo-guimaraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/danca-dos-ossos-bernardo-guimaraes","title":{"rendered":"Dan\u00e7a dos Ossos &#8211; Bernardo Guimar\u00e3es"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"159\" height=\"78\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong><span style=\"font-size: small;\">I<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"102\"><\/td>\n<td width=\"154\">\n<div align=\"center\"><a href=\"#3\"><strong><span style=\"font-size: small;\">III<\/span><\/strong><\/a><span style=\"font-size: small;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"100\"><\/td>\n<td width=\"163\">\n<div align=\"center\"><a href=\"#4\"><strong><span style=\"font-size: small;\">IV<\/span><\/strong><\/a><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I<\/h2>\n<p>A noite, l\u00edmpida e calma, tinha sucedido a uma tarde de pavorosa<br \/>\ntormenta, nas profundas e vastas florestas que bordam as margens do Parna\u00edba,<br \/>\nnos limites entre as prov\u00edncias de Minas e de Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Eu viajava por esses lugares, e acabava de chegar ao porto, ou recebedoria,<br \/>\nque h\u00e1 entre as duas prov\u00edncias. Antes de entrar na mata, a<br \/>\ntempestade tinha-me surpreendido nas vastas e risonhas campinas, que se estendem<br \/>\nat\u00e9 a pequena cidade de Catal\u00e3o, donde eu havia partido.<\/p>\n<p>Seriam nove a dez horas da noite; junto a um fogo aceso defronte da porta<br \/>\nda pequena casa da recebedoria, estava eu, com mais algumas pessoas, aquecendo<br \/>\nos membros resfriados pelo terr\u00edvel banho que a meu pesar tomara. A<br \/>\nalguns passos de n\u00f3s se desdobrava o largo veio do rio, refletindo<br \/>\nem uma chispa retorcida, como uma serpente de fogo, o clar\u00e3o avermelhado<br \/>\nda fogueira. Por tr\u00e1s de n\u00f3s estavam os cercados e as casinhas<br \/>\ndos poucos habitantes desse lugar, e, por tr\u00e1s dessas casinhas, estendiam-se<br \/>\nas florestas sem fim.<\/p>\n<p>No meio do sil\u00eancio geral e profundo sobressa\u00eda o rugido mon\u00f3tono<br \/>\nde uma cachoeira pr\u00f3xima, que ora estrugia como se estivesse a alguns<br \/>\npassos de dist\u00e2ncia, ora quase se esvaecia em abafados murm\u00farios,<br \/>\nconforme o correr da vira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No sert\u00e3o, ao cair da noite, todos tratam de dormir, como os passarinhos.<br \/>\nAs trevas e o sil\u00eancio s\u00e3o sagrados ao sono, que \u00e9 o sil\u00eancio<br \/>\nda alma.<\/p>\n<p>S\u00f3 o homem nas grandes cidades, o tigre nas florestas e o mocho nas<br \/>\nru\u00ednas, as estrelas no c\u00e9u e o g\u00eanio na solid\u00e3o<br \/>\ndo gabinete, costumam velar nessas horas que a natureza consagra ao repouso.<\/p>\n<p>Entretanto, eu e meus companheiros, sem pertencermos a nenhuma dessas classes,<br \/>\npor uma exce\u00e7\u00e3o de regra est\u00e1vamos acordados a essas<br \/>\nhoras.<\/p>\n<p>Meus companheiros eram bons e robustos caboclos, dessa ra\u00e7a semi-selv\u00e1tica<br \/>\ne n\u00f4made, de origem d\u00fabia entre o ind\u00edgena e o africano,<br \/>\nque vagueia pelas infindas florestas que correm ao longo do Parna\u00edba,<br \/>\ne cujos nomes, decerto, n\u00e3o se acham inscritos nos assentos das freguesias<br \/>\ne nem figuram nas estat\u00edsticas que d\u00e3o ao imp\u00e9rio &#8230;<br \/>\nn\u00e3o sei quantos milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>O mais velho deles, de nome Cirino, era o mestre da barca que dava passagem<br \/>\naos viandantes.<\/p>\n<p>De bom grado eu o compararia a Caronte, barqueiro do Averno, se as ondas<br \/>\nturbulentas e ruidosas do Parna\u00edba, que v\u00e3o quebrando o sil\u00eancio<br \/>\ndessas risonhas solid\u00f5es cobertas da mais vigorosa e luxuriante vegeta\u00e7\u00e3o,<br \/>\npudessem ser comparadas \u00e0s \u00e1guas silenciosas e let\u00e1rgicas<br \/>\ndo Aqueronte.<\/p>\n<p>\u2014 Meu amo decerto saiu hoje muito tarde da cidade, perguntou-me ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, era apenas meio-dia. O que me atrasou foi o aguaceiro,<br \/>\nque me pilhou em caminho. A chuva era tanta e t\u00e3o forte o vento que<br \/>\nmeu cavalo quase n\u00e3o podia andar. Se n\u00e3o fosse isso, ao por<br \/>\ndo sol eu estava aqui.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, quando entrou na mata, j\u00e1 era noite?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh!&#8230; se era!&#8230; j\u00e1 tinha anoitecido havia mais de uma hora.<\/p>\n<p>\u2014 E Vm. n\u00e3o viu a\u00ed, no caminho, nada que o incomodasse?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada, Cirino, a n\u00e3o ser \u00e0s vezes o mau caminho, e o<br \/>\nfrio, pois eu vinha ensopado da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>\u2014 Deveras, n\u00e3o viu nada, nada? \u00e9 o primeiro!&#8230; pois<br \/>\nhoje que dia \u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Hoje \u00e9 s\u00e1bado.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e1bado!&#8230; que me diz? E eu, na mente que hoje era sexta-feira!&#8230;<br \/>\noh! Senhorinha!&#8230; eu tinha precis\u00e3o de ir hoje ao campo buscar umas<br \/>\nlinhas que encomendei para meus anz\u00f3is, e n\u00e3o fui, porque esta<br \/>\nminha gentinha de casa me disse que hoje era sexta-feira&#8230; e esta! E hoje,<br \/>\ncom esta chuva, era dia de pegar muito peixe&#8230; Oh! Senhorinha!&#8230; gritou<br \/>\no velho com mais for\u00e7a.<\/p>\n<p>A este grito apareceu, saindo de um casebre vizinho, uma menina de oito a<br \/>\ndez anos, fusca e bronzeada, quase nua, bocejando e esfregando os olhos; mas<br \/>\nque me mostrava ser uma criaturinha esperta e viva como uma capivara.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, senhorinha, como \u00e9 que tu vais-me dizer que<br \/>\nhoje era sexta-feira?&#8230; ah! cachorrinha! deixa-te estar, que amanh\u00e3<br \/>\ntu me pagas&#8230; ent\u00e3o hoje que dia \u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sei, papai, foi a mam\u00e3e que me<br \/>\nmandou que falasse que hoje era sexta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que tua m\u00e3e sabe ensinar-te; \u00e9 a mentir!&#8230;<br \/>\ndeixa, que voc\u00eas outra vez n\u00e3o me enganam mais. Sai daqui: vai-te<br \/>\nembora dormir, velhaquinha!<\/p>\n<p>Depois que a menina, assim enxotada, se retirou, lan\u00e7ando um olhar<br \/>\ncobi\u00e7oso sobre umas espigas de milho verde que os caboclos estavam<br \/>\na assar, o velho continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Veja o que s\u00e3o artes de mulher! A minha velha \u00e9 muito<br \/>\nciumenta, e inventa todos os modos de n\u00e3o me deixar um passo fora daqui.<br \/>\nAgora n\u00e3o me resta um s\u00f3 anzol com linha, o \u00faltimo l\u00e1<br \/>\nse foi esta noite, na boca de um dourado; e, por culpa dessa gente, n\u00e3o<br \/>\ntenho maneiras de ir matar um peixe para meu amo almo\u00e7ar a amanh\u00e3!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te d\u00ea isso cuidado, Cirino; mas conta-me que te<br \/>\nimportava que hoje fosse sexta ou s\u00e1bado, para ires ao campo buscar<br \/>\nas tuas linhas?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea!&#8230; meu amo? Eu atravessar o caminho dessa mata em dia<br \/>\nde sexta-feira?!&#8230; \u00e9 mais f\u00e1cil eu descer por esse rio abaixo<br \/>\nem uma canoa sem remo!&#8230; n\u00e3o era \u00e0 toa que eu estava perguntando<br \/>\nse n\u00e3o lhe aconteceu nada no caminho.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que h\u00e1 nesse caminho?&#8230; conta-me, eu n\u00e3o vi<br \/>\nnada.<\/p>\n<p>\u2014 Vm. n\u00e3o viu, daqui a obra de tr\u00eas quartos de l\u00e9gua,<br \/>\n\u00e0 m\u00e3o direita de quem vem, um meio claro na beirada do caminho,<br \/>\ne uma cova meio aberta com uma cruz de pau?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o reparei; mas sei que h\u00e1 por a\u00ed uma sepultura<br \/>\nde que se contam muitas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u2014 Pois muito bem! A\u00ed nessa cova \u00e9 que foi enterrado o<br \/>\ndefunto Joaquim Paulista. Mas \u00e9 a alma dele s\u00f3 que mora a\u00ed:<br \/>\no corpo mesmo, esse anda espatifado a\u00ed por essas matas, que ningu\u00e9m<br \/>\nmais sabe dele.<\/p>\n<p>\u2014 Ora valha-te Deus, Cirino! N\u00e3o te posso entender. At\u00e9<br \/>\naqui eu acreditava que, quando se morre, o corpo vai para a sepultura, e a<br \/>\nalma para o c\u00e9u, ou para o inferno, conforme as suas boas ou m\u00e1s<br \/>\nobras. Mas, com o teu defunto, vejo agora, pela primeira vez, que se trocaram<br \/>\nos pap\u00e9is: a alma fica enterrada e o corpo vai passear.<\/p>\n<p>\u2014 Vm. n\u00e3o quer acreditar!&#8230; pois \u00e9 coisa sabida aqui,<br \/>\nem toda esta redondeza, que os ossos de Joaquim paulista n\u00e3o est\u00e3o<br \/>\ndentro dessa cova e que s\u00f3 v\u00e3o l\u00e1 nas sextas-feiras para<br \/>\nassombrar os viventes; e desgra\u00e7ado daquele que passar a\u00ed em<br \/>\nnoite de sexta-feira!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que acontece?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Aconteceu o que j\u00e1 me aconteceu, como vou lhe contar.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II<\/h2>\n<p>Um dia, h\u00e1 de haver coisa de dez anos, eu tinha ido ao campo, \u00e0<br \/>\ncasa de um meu compadre que nora da aqui a tr\u00eas l\u00e9guas.<\/p>\n<p>Era uma sexta-feira, ainda me lembro, como se fosse hoje.<\/p>\n<p>Quando montei no meu burro para vir-me embora, j\u00e1 o sol estava baixinho;<br \/>\nquando cheguei na mata, j\u00e1 estava escuro; fazia um luar manhoso, que<br \/>\nainda atrapalhava mais a vista da gente.<\/p>\n<p>J\u00e1 eu ia entrando na mata, quando me lembrei que era sexta-feira.<br \/>\nMeu cora\u00e7\u00e3o deu uma pancada e a modo que estava me pedindo que<br \/>\nn\u00e3o fosse para diante. Mas fiquei com vergonha de voltar. Pois um homem,<br \/>\nj\u00e1 de idade como eu, que desde crian\u00e7a estou acostumado a varar<br \/>\npor esses matos a toda hora do dia ou da noite, hei de agora ter medo? De<br \/>\nqu\u00ea?<\/p>\n<p>Encomendei-me de todo o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 Nossa Senhora da Abadia,<br \/>\ntomei um bom trago na guampa que trazia sortida na garupa, joguei uma masca<br \/>\nde fumo na boca, e toquei o burro para diante. Fui andando, mas sempre cismado;<br \/>\ntodas as hist\u00f3rias que eu tinha ouvido contar da cova de Joaquim Paulista<br \/>\nestavam-se-me representando na id\u00e9ia: e ainda, por meus pecados, o<br \/>\ndiabo do burro n\u00e3o sei o que tinha nas tripas que estava a refugar<br \/>\ne a passarinhar numa toada.<\/p>\n<p>Mas, a poder de esporas, sempre vim varando. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o<br \/>\nque ia chegando perto do lugar onde est\u00e1 a sepultura, meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nia ficando pequenino. Tomei mais um trago, rezei o Creio em Deus Padre, e<br \/>\ntoquei para diante. No momento mesmo em que eu ia passar pela sepultura, que<br \/>\neu queria passar de galope e voando se fosse poss\u00edvel, a\u00ed \u00e9<br \/>\nque o diabo do burro dos meus pecados empaca de uma vez, que n\u00e3o houve<br \/>\nfor\u00e7a de esporas que o fizesse mover.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 estava decidido a me apear, largar no meio do caminho burro<br \/>\ncom sela e tudo, e correr para a casa; mas n\u00e3o tive tempo. O que eu<br \/>\nvi, talvez Vm. n\u00e3o acredite; mas eu vi como estou vendo este fogo:<br \/>\nvi com estes olhos, que a terra h\u00e1 de comer, como comeu os do pobre<br \/>\nJoaquim Paulista&#8230; mas os dele nem foi a terra que comeu, coitado! Foram<br \/>\nos urubus, e os bichos do mato. Dessa feita acabei de acreditar que ningu\u00e9m<br \/>\nmorre de medo; se morresse, eu l\u00e1 estaria at\u00e9 hoje fazendo companhia<br \/>\nao Joaquim Paulista. Cruz!&#8230; Ave Maria!&#8230;<\/p>\n<p>Aqui o velho fincou os cotovelos nos n\u00f3s joelhos, escondeu a cabe\u00e7a<br \/>\nentre as m\u00e3os e pareceu-me que resmungou uma Ave-Maria. Depois, acendeu<br \/>\no cachimbo, e continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Vm. se reparasse, havia de ver que o mato faz uma pequena aberta<br \/>\nda banda, em que est\u00e1 a sepultura do Joaquim Paulista.<\/p>\n<p>A lua batia de chapa na areia branca do meio da estrada. Enquanto eu estou<br \/>\nesporeando com toda a for\u00e7a a barriga do burro, salta l\u00e1, no<br \/>\nmeio do caminho, uma cambada de ossinhos brancos, pulando, esbarrando uns<br \/>\nnos outros, e estalando numa toada certa, como gente que est\u00e1 dan\u00e7ando<br \/>\nao toque de viola. Depois, de todos os lados, vieram vindo outros ossos maiores,<br \/>\nsaltando e dan\u00e7ando da mesma maneira.<\/p>\n<p>Por fim de contas, veio vindo l\u00e1, de dentro da sepultura, uma caveira<br \/>\nbranca como papel, e com os olhos de fogo; e dando pulos como sapo, foi-se<br \/>\nchegando para o meio da roda. Dai come\u00e7aram aqueles ossos todos a dan\u00e7ar<br \/>\nem roda da caveira, que estava quieta no meio, dando de vez em quando pulos<br \/>\nno ar, e caindo no mesmo lugar, enquanto os ossos giravam num corrupio, estalando<br \/>\nuns nos outros, como fogo da queimada, quando pega forte num sapezal.<\/p>\n<p>Eu bem queria fugir, mas n\u00e3o podia; meu corpo estava como est\u00e1tua,<br \/>\nmeus olhos estavam pregados naquela dan\u00e7a dos ossos, como sapo quando<br \/>\nenxerga cobra; meu cabelo, enroscado como Vm. est\u00e1 vendo, ficou em<br \/>\np\u00e9 como espetos.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco os ossinhos mais mi\u00fados, dan\u00e7ando, dan\u00e7ando<br \/>\nsempre e batendo uns nos outros, foram-se ajuntando e formando dois p\u00e9s<br \/>\nde defunto.<\/p>\n<p>Estes p\u00e9s n\u00e3o ficam quietos, n\u00e3o; e come\u00e7am a<br \/>\nsapatear com os outros ossos numa roda viva. Agora s\u00e3o os ossos das<br \/>\ncanelas, que l\u00e1 v\u00eam saltando atr\u00e1s dos p\u00e9s, e de<br \/>\num pulo, tr\u00e1s!&#8230; se encaixaram em cima dos p\u00e9s. Da\u00ed<br \/>\na um nada v\u00eam os ossos das coxas, dan\u00e7ando em roda das canelas,<br \/>\nat\u00e9 que, tamb\u00e9m de um pulo, foram-se encaixar direitinho nas<br \/>\njuntas dos joelhos. Toca agora as duas pernas que j\u00e1 est\u00e3o prontas<br \/>\na dan\u00e7ar com os outros ossos.<\/p>\n<p>Os ossos dos quadris, as costelas, os bra\u00e7os, todos esses ossos que<br \/>\nainda agora saltavam espalhados no caminho, a dan\u00e7ar, a dan\u00e7ar,<br \/>\nforam pouco a pouco se ajuntando e embutindo uns nos outros, at\u00e9 que<br \/>\no esqueleto se apresentou inteiro, faltando s\u00f3 a cabe\u00e7a. Pensei<br \/>\nque nada mais teria que ver; mas ainda me faltava o mais feio. O esqueleto<br \/>\npega na caveira e come\u00e7a a faz\u00ea-la rolar pela estrada, e a fazer<br \/>\nmil artes e piruetas; depois entra a jogar peteca com ela, e a atir\u00e1-la<br \/>\npelos ares mais alto, mais alto, at\u00e9 o ponto de faz\u00ea-la sumir-se<br \/>\nl\u00e1 pelas nuvens; a caveira gemia zunindo pelos ares, e vinha estalar<br \/>\nnos ossos da m\u00e3o do esqueleto, como uma espoleta que rebenta. Afinal<br \/>\no esqueleto escanchou as pernas e os bra\u00e7os, tomando toda a largura<br \/>\ndo caminho, e esperou a cabe\u00e7a, que veio cair direito no meio dos ombros,<br \/>\ncomo uma caba\u00e7a oca que se rebenta em uma pedra, e olhando para mim<br \/>\ncom os olhos de fogo!&#8230;<\/p>\n<p>Ah! meu amo!&#8230; Eu n\u00e3o sei o que era feito de mim!&#8230; Eu estava sem<br \/>\nf\u00f4lego, com a boca aberta querendo gritar e sem poder, com os cabelos<br \/>\nespetados; meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o batia, meus olhos n\u00e3o<br \/>\npestanejavam. O meu burro mesmo estava tremer e encolhia-se todo, como quem<br \/>\nqueria sumir-se debaixo da terra. Oh! se eu pudesse..fugir naquela hora, eu<br \/>\nfugia ainda que tivesse de entrar pela goela de uma sucuri adentro.<\/p>\n<p>Mas ainda n\u00e3o contei tudo. O maldito esqueleto do inferno \u2014<br \/>\nDeus me perdoe! \u2014 n\u00e3o tendo mais nem um ossinho com quem dan\u00e7ar,<br \/>\nassentou de divertir-se comigo, que ali estava sem pingo de sangue, e mais<br \/>\nmorto do que vivo, e come\u00e7a a&#8217; dan\u00e7ar defronte de mim, como<br \/>\nessas figurinhas de papel\u00e3o que as crian\u00e7as, com uma cordinha,<br \/>\nfazem dar de m\u00e3o e de pernas; vai-se chegando cada vez mais para perto,<br \/>\nd\u00e1 tr\u00eas voltas em roda de mim, dan\u00e7ando e estalando as<br \/>\nossadas; e por fim de contas, de um pulo, encaixa-se na minha garupa&#8230;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o vi mais nada depois; fiquei atordoado. Pareceu-me que o burro<br \/>\nsaiu comigo e como maldito fantasma, zunindo pelos ares, e nos arrebatava<br \/>\npor cima das mais altas \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Valha-me Nossa Senhora da Abadia e todos os santos da corte celeste! gritava<br \/>\neu dentro do cora\u00e7\u00e3o, porque a boca essa nem podia piar. Era<br \/>\n\u00e0 toa; desacor\u00e7oei, e pensando que ia por esses ares nas unhas<br \/>\nde Satan\u00e1s, esperava a cada instante ir estourar nos infernos. Meus<br \/>\nolhos se cobriam de uma nuvem de fogo, minha cabe\u00e7a andar a roda, e<br \/>\nn\u00e3o sei mais o que foi feito de mim.<\/p>\n<p>Quando dei acordo de mim, foi no outro dia, na minha cama, a sol alto. Quando<br \/>\na minha velha, de manh\u00e3 cedo, foi abrir a porta, me encontrou no terreiro,<br \/>\nestendido no ch\u00e3o, desacordado, e o burro selado perto de mim.<\/p>\n<p>A porteira da manga estava fechada; como \u00e9 que esse burro p\u00f4de<br \/>\nentrar comigo para dentro, e que n\u00e3o sei. Portanto ningu\u00e9m me<br \/>\ntira da cabe\u00e7a que o burro veio comigo pelos ares.<\/p>\n<p>Acordei como o corpo todo mo\u00eddo, e com os miolos pesando como se fossem<br \/>\nde chumbo, e sempre com aquele maldito estalar de ossos nos ouvidos, que me<br \/>\nperseguiu por mais de um m\u00eas.<\/p>\n<p>Mandei dizer duas missas pela alma de Joaquim Paulista, e jurei que nunca<br \/>\nmais havia de p\u00f4r meus p\u00e9s fora de casa em dia de sexta-feira.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III<\/h2>\n<p>O velho barqueiro contava esta tremenda hist\u00f3ria de modo mais tosco,<br \/>\npor\u00e9m muito mais vivo do que eu acabo de escrev\u00ea-lo, e acompanhava<br \/>\na narra\u00e7\u00e3o de uma gesticula\u00e7\u00e3o selv\u00e1tica<br \/>\ne expressiva e de sons imitativos que n\u00e3o podem ser representados por<br \/>\nsinais escritos. A hora avan\u00e7ada, o sil\u00eancio e solid\u00e3o<br \/>\ndaqueles s\u00edtios, teatro desses assombrosos acontecimentos, contribu\u00edram<br \/>\ntamb\u00e9m grandemente para torn\u00e1-los quase vis\u00edveis e palp\u00e1veis.<br \/>\nOs caboclos, de boca aberta, o escutavam como olhos e ouvidos transidos de<br \/>\npavor, e de vez em quando, estremecendo, olhavam em derredor pela mata, como<br \/>\nque receando ver surgir o tem\u00edvel esqueleto a empolgar e levar pelos<br \/>\nares alguns deles.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito, Cirino! disse-lhe eu, foste v\u00edtima da mais pavorosa<br \/>\nassombra\u00e7\u00e3o de que ha exemplo, desde que andam por este mundo<br \/>\nas almas do outro. Mas quem sabe se n\u00e3o foi a for\u00e7a do medo<br \/>\nque te fez ver tudo isso? Al\u00e9m disso, tinhas ido muitas vezes \u00e0<br \/>\nguampa, e talvez ficasse com a vista turva e a cabe\u00e7a um tanto desarranjada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, meu amo, n\u00e3o era a primeira vez que eu tomava o meu gole,<br \/>\nnem que andava de noite por esses matos, e como \u00e9 que eu nunca vi ossos<br \/>\nde gente dan\u00e7ando no meio do caminho?<\/p>\n<p>\u2014 Os teus miolos \u00e9 que estavam dan\u00e7ando, Cirino; disso<br \/>\nestou eu certo. Tua imagina\u00e7\u00e3o, exaltada a um tempo pelo medo<br \/>\ne pelos repetidos beijos que davas na tua guampa, \u00e9 que te fez ir voando<br \/>\npelos ares nas garras de Satan\u00e1s. Escuta; vou te explicar como tudo<br \/>\nisso te aconteceu muito naturalmente. Como tu mesmo disseste, entraste na<br \/>\nmata com bastante medo, e, portanto, disposto a transformar em coisas do outro<br \/>\nmundo tudo quanto confusamente vias no meio de uma floresta frouxamente alumiada<br \/>\npor um luar escasso. Acontece ainda para teu mal que, no momento mais cr\u00edtico,<br \/>\nquando ias passando pela sepultura, empaca-te o maldito burro. Fa\u00e7o<br \/>\nid\u00e9ia de como ficaria essa pobre alma, e at\u00e9 me admiro de que<br \/>\nn\u00e3o visses coisas piores!<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o que diabo eram aqueles ossos a dan\u00e7arem,<br \/>\ndan\u00e7arem t\u00e3o certo, como se fosse a toque de m\u00fasica,-<br \/>\ne aquele esqueleto branco, que trepou na garupa, e me levou por esses ares?<\/p>\n<p>\u2014Eu te digo. Os ossinhos que dan\u00e7avam, n\u00e3o eram mais<br \/>\ndo que os raios da lua, que vinham peneirados por entre os ramos dos arvoredos<br \/>\nbalan\u00e7ados pela vira\u00e7\u00e3o, brincar e dan\u00e7ar na areia<br \/>\nbranca do caminho. Os estalos, que ouvias, eram sem d\u00favida de alguns<br \/>\nporcos do mato, ou qualquer outro qualquer bicho, que andavam ali por perto<br \/>\na quebrar nos dentes cocos de baguassu, o que, como bem sabes, faz uma estralada<br \/>\ndos diabos.<\/p>\n<p>\u2014E a caveira, meu amo?&#8230; de certo era alguma caba\u00e7a velha que<br \/>\num rato do campo vinha rolando pela estrada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o era preciso tanto; uma grande folha seca, uma pedra, um<br \/>\ntoco, tudo te podia parecer uma caveira naquela ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isto te fez andar \u00e0 roda a cabe\u00e7a azoinada, e o mais tudo<br \/>\nque viste foi obra de tua imagina\u00e7\u00e3o e de teus sentidos perturbados.<br \/>\nDepois, qualquer coisa, talvez um maribondo que o picou.<\/p>\n<p>\u2014 Maribondo de noite!&#8230; ora, meu amo!&#8230; exclamou o velho com uma<br \/>\ngargalhada.<\/p>\n<p>\u2014Pois bem!&#8230; fosse o que fosse; qualquer outra coisa ou capricho de<br \/>\nburro, o certo \u00e9 que o teu macho saiu contigo aos corcovos; ainda que<br \/>\natordoado, o instinto da conserva\u00e7\u00e3o fez que te agarrasses bem<br \/>\n\u00e0 sela, e tiveste a felicidade de vir dar contigo em terra mesmo \u00e0<br \/>\nporta de tua casa, e eis a\u00ed tudo.<\/p>\n<p>O velho barqueiro ria com a melhor vontade, zombando de minhas explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Qual, meu amo, disse ele, r\u00e9stea de luar n\u00e3o tem parecen\u00e7a<br \/>\nnenhuma com osso de defunto, e bicho do mato, de noite, est\u00e1 dormindo<br \/>\nna toca, e n\u00e3o anda roendo coco.<\/p>\n<p>E pode Vm. ficar certo de que, quando eu tomo um gole, ali \u00e9 que minha<br \/>\nvista fica mais limpa e o ouvido mais afiado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, e, a tal ponto, que at\u00e9 chegas a ver e ouvir<br \/>\no que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>\u2014 Meu amo tem raz\u00e3o; eu tamb\u00e9m, quando era mo\u00e7o,<br \/>\nn\u00e3o acreditava em nada disso por mais que me jurassem. Foi-me preciso<br \/>\nver para crer; e Deus o livre a Vm. de ver o que eu j\u00e1 vi.<\/p>\n<p>\u2014Eu j\u00e1 vi, Girino; j\u00e1 vi, mas nem assim acreditei.<\/p>\n<p>\u2014Como assim, meu amo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014\u00c9 que nesses casos eu n\u00e3o acredito nem nos meus pr\u00f3prios<br \/>\nolhos, sen\u00e3o depois de estar bem convencido, por todos os modos, de<br \/>\nque eles n\u00e3o enganam.<\/p>\n<p>Eu te conto um caso que me aconteceu.<\/p>\n<p>Eu ia viajando sozinho \u2014 por onde n\u00e3o importa \u2014 de noite,<br \/>\npor um caminho estreito, em cerrad\u00e3o fechado, e vejo ir, andando a<br \/>\nalguma dist\u00e2ncia diante de mim, qualquer coisa, que na escurid\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o pude distinguir. Aperto um pouco o passo para reconhecer o que<br \/>\nera, e vi clara e perfeitamente dois pretos carregando um defunto dentro de<br \/>\numa rede.<\/p>\n<p>Bem poderia ser tamb\u00e9m qualquer criatura viva, que estivesse doente<br \/>\nou mesmo em perfeita sa\u00fade; mas, nessas ocasi\u00f5es, a imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o sei por qu\u00ea, n\u00e3o nos representa sen\u00e3o defuntos.<br \/>\nUma apari\u00e7\u00e3o daquelas, em lugar t\u00e3o ermo e longe de povoa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o deixou de me causar terror.<\/p>\n<p>Contudo o caso n\u00e3o era extraordin\u00e1rio; carregar um cad\u00e1ver<br \/>\nem rede, para ir sepult\u00e1-lo em algum cemit\u00e9rio vizinho, \u00e9<br \/>\ncoisa que se v\u00ea muito nesses sert\u00f5es, ainda que \u00e0quelas<br \/>\nhoras o neg\u00f3cio n\u00e3o deixasse de tornar bastante suspeito.<\/p>\n<p>Piquei o cavalo para passar adiante daquela sinistra vis\u00e3o que me<br \/>\nestava incomodando o espirito, mas os condutores da rede tamb\u00e9m apressaram<br \/>\no passo, e se conservavam sempre na mesma dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Pus o cavalo a trote; os pretos come\u00e7aram tamb\u00e9m a correr com<br \/>\na rede. O neg\u00f3cio ia-se tornando mais feio. Retardei o passo para deix\u00e1-los<br \/>\nadiantarem-se: tamb\u00e9m foram indo mais devagar. Parei; tamb\u00e9m<br \/>\npararam. De novo marchei para eles; tamb\u00e9m se puseram a caminho.<\/p>\n<p>Assim andei por mais de meia hora, cada vez mais aterrado, tendo sempre diante<br \/>\ndos olhos aquela sinistra apari\u00e7\u00e3o que parecia apostada em n\u00e3o<br \/>\nme querer deixar, at\u00e9 que, exasperado, gritei-lhes que me deixassem<br \/>\npassar ou ficar atr\u00e1s, que eu n\u00e3o estava disposto a fazer-lhes<br \/>\ncompanhia. Nada de resposta!&#8230; o meu terror subiu de ponto, e confesso que<br \/>\nestive por um nada a dar de r\u00e9dea para tr\u00e1s a bom fugir.<\/p>\n<p>Mas neg\u00f3cios urgentes me chamavam para diante: revesti-me de um pouco<br \/>\nde coragem que ainda me restava, cravei as esporas no cavalo e investi para<br \/>\no sinistro vulto a todo galope. Em poucos instantes o alcancei de perto e<br \/>\nvi&#8230; adivinhem o que era?&#8230; nem que d\u00eaem volta ao miolo um ano inteiro,<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o capazes de atinar com o que era. Pois era uma vaca!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Uma vaca!&#8230; como!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhores, uma vaca malhada, que tinha a barriga toda branca<br \/>\n\u2014 era a rede, \u2014 e os quartos traseiros e dianteiros inteiramente<br \/>\npretos; era os dois negros que a carregavam. Pilhada por mim naquela caminho<br \/>\nestreito, sem poder desviar nem para uma banda nem para outra, porque o mato<br \/>\nera um cerrad\u00e3o tapado o pobre animal ia fugindo diante de mim, se<br \/>\neu parava, tamb\u00e9m parava, porque n\u00e3o tinha necessidade de viajar;<br \/>\nse eu apertava o passo l\u00e1 ia ela tamb\u00e9m para diante, fugindo<br \/>\nde mim. Entretanto se eu n\u00e3o fosse reconhecer de perto o que era aquilo,<br \/>\nainda hoje havia de jurar que tinha visto naquela noite dois pretos carregando<br \/>\num defunto em uma rede, t\u00e3o completa era a ilus\u00e3o. E depois<br \/>\nse quisesse indagar mais do neg\u00f3cio, como era natural, sabendo que<br \/>\nnenhum cad\u00e1ver se tinha enterrado em toda aquela redondeza, havia de<br \/>\nficar acreditando de duas uma: ou que aquilo era coisa do outro mundo, ou,<br \/>\no que era mais natural, que algum assassinato horr\u00edvel e misterioso<br \/>\ntinha sido cometido por aquelas criaturas.<\/p>\n<p>A minha hist\u00f3ria nem de leve abalou as cren\u00e7as do velho barqueiro<br \/>\nque abanou a cabe\u00e7a, e disse-me, chasqueando:<\/p>\n<p>\u2014 A sua hist\u00f3ria est\u00e1 muito bonita; mas, perdoe que lhe<br \/>\ndiga, eu por mais escuro que estivesse a noite e por mais que eu tivesse entrado<br \/>\nno gole, n\u00e3o podia ver uma rede onde havia uma vaca; s\u00f3 pelo<br \/>\nfaro eu conhecia. Meu amo decerto tinha poeira nos olhos.<\/p>\n<p>Mas vamos que Vm., quando investiu para os vultos, em vez de esbarrar com<br \/>\numa vaca, topasse mesmo uma rede carregando um defunto, que este defunto saltando<br \/>\nfora da rede lhe lhe pulasse na garupa e o levasse pelos ares com cavalo e<br \/>\ntudo, de modo que Vm., n&amp;atiatilde;o desse acordo de si, sen\u00e3o no outro<br \/>\ndia em sua casa e sem saber como?&#8230; havia de pensar, ainda, que que eram<br \/>\nabus\u00f5es? \u2014 Esse n\u00e3o era o meu medo: o que eu temia, era<br \/>\nque aqueles negros acabassem ali comigo, e, em vez de um, carregassem na mesma<br \/>\nrede dois defuntos para a mesma cova!<\/p>\n<p>O que dizes era imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014Esse n\u00e3o era o meu medo: o que eu temia, era que aqueles negros<br \/>\nacabassem ali comigo, e, em vez de um, carregassem na mesma r\u00eade dois<br \/>\ndefuntos para a mesma cova!<\/p>\n<p>O que dizes era imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014Imposs\u00edvel!&#8230; e como \u00e9 que me aconteceu?&#8230; Se n\u00e3o<br \/>\nfosse t\u00e3o tarde, para Vm. acabar de crer, eu lhe contava por que motivo<br \/>\na sepultura de Joaquim Paulista ficou sendo assim mal-assombrada. Mas meu<br \/>\namo viajou; h\u00e1 de estar cansado da jornada e com sono.<\/p>\n<p>\u2014Qual sono!&#8230; conta-me; vamos a isso. Pois v\u00e1 escutando.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV<\/h2>\n<p>O tal Joaquim Paulista era um cabo do destacamento que naquele tempo havia<br \/>\naqui no Porto. Era bom rapaz e ningu\u00e9m tinha queixa dele.<\/p>\n<p>Havia aqui, tamb\u00e9m, por este tempo, uma rapariga, por nome Carolina,<br \/>\nque era o desassossego de toda a rapaziada.<\/p>\n<p>Era uma caboclinha escura, mas bonita e sacudida, como ela aqui ainda n\u00e3o<br \/>\npisou outra; com uma viola na m\u00e3o, a rapariga tocava e cantava que<br \/>\ndava gosto; quando saia para o meio de uma sala, tudo ficava de queixo ca\u00eddo;<br \/>\na rapariga sabia fazer requebrados e sapateados, que era um feiti\u00e7o.<br \/>\nEm casa dela, que era um ranchinho ali da outra banda, era s\u00facias todos<br \/>\nos dias; tamb\u00e9m todos os dias havia solados de castigo por amor de<br \/>\nbarulhos e desordens.<\/p>\n<p>Joaquim Paulista tinha uma paix\u00e3o louca pela Carolina; mas ela anda<br \/>\nde amizade com um outro camarada, de nome Tim\u00f3teo, que a tinha traz<br \/>\ndo de Goi\u00e1s, ao qual queria muito bem. Vai um dia, n\u00e3o sei que<br \/>\ndiabo de d\u00favida tiveram os dois, que a Carolina se desapartou do Tim\u00f3teo<br \/>\ne fugiu para a casa, de uma amiga, aqui no campo Joaquim Paulista, que h\u00e1<br \/>\nmuito tempo bebia os ares por ela, achou que a ocasi\u00e3o era boa, e tais<br \/>\nartes armou, tais agrados fez \u00e0 rapariga, que tomou conta dela. Ali!<br \/>\npobre rapaz!&#8230; se ele adivinhasse nem nunca teria olhado para aquela rapariga.<br \/>\nO Tim\u00f3teo, quando soube do caso, urrou de raiva e de ci\u00fame;<br \/>\nele estava esperando que, passados os primeiros arrufos da briga, ela o viria<br \/>\nprocurar se ele n\u00e3o fosse busc\u00e1-la, como j\u00e1 de outras<br \/>\nvezes tinha acontecido. Mas desta vez tinha-se enganado.<\/p>\n<p>A rapariga estava por tal sorte embei\u00e7ada com o Joaquim Paulista,<br \/>\nque de modo nenhum quis saber do outro, por mais que esse rogasse, teimasse,<br \/>\nchorasse e amea\u00e7asse mesmo de matar uma ou outro. O Tim\u00f3teo<br \/>\ndesenganou-se, mas ficou calado e guardou seu \u00f3dio no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estava esperando uma ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim passaram-se meses, sem que houvesse novidade. O Tim\u00f3teo vivia<br \/>\nem muito boa paz com o Joaquim Paulista, que, tendo muito bom cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnem de leve cismava que seu camarada lhe guardasse \u00f3dio.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, Joaquim Paulista teve ordem do comandante do destacamento<br \/>\npara marchar para a cidade de Goi\u00e1s. Carolina, que era capaz do dar<br \/>\na vida por ele, jurou que havia de acompanh\u00e1-lo. O Tim\u00f3teo danou.<br \/>\nViu que n\u00e3o era poss\u00edvel guardar para mais tarde o cumprimento<br \/>\nde sua ten\u00e7\u00e3o danada, jurou que ele havia de acabar desgra\u00e7ado,<br \/>\nmas que Joaquim Paulista e Carolina n\u00e3o haviam de ir viver sossegados<br \/>\nlonge dele, e assim combinou, com outro camarada, t\u00e3o bom ou pior do<br \/>\nque ele, para dar cabo do pobre rapaz.<\/p>\n<p>Nas v\u00e9speras da partida, os dois convidaram ao Joaquim para irem ao<br \/>\nmato ca\u00e7ar. Joaquim Paulista, que n\u00e3o maliciava nada, aceitou<br \/>\no convite, e no outro dia, de manh\u00e3, sa\u00edram os tr\u00eas a<br \/>\nca\u00e7ar pelo mato. S\u00f3 voltaram no outro dia de manh\u00e3, mais<br \/>\ndois somente; Joaquim Paulista, esse tinha ficado, Deus sabe aonde.<\/p>\n<p>Vieram contando, com l\u00e1grimas nos olhos, que uma cascavel tinha mordido<br \/>\nJoaquim Paulista em duas partes, e que o pobre rapaz, sem que eles pudessem<br \/>\nvaler-lhe, em poucas horas tinha expirado, no meio do mato; que n\u00e3o<br \/>\npodendo carregar o corpo, porque era muito longe, e temendo que o n\u00e3o<br \/>\npudessem encontrar mais, e que os bichos o comessem, o tinham enterrado l\u00e1<br \/>\nmesmo; e, para prova disso, mostravam a camisa do desgra\u00e7ado, toda<br \/>\nmanchada de sangue preto envenenado.<\/p>\n<p>Mentira tudo!&#8230; O caso foi este, como depois se soube.<\/p>\n<p>Quando os dois malvados j\u00e1 estavam bem longe por essa mata abaixo,<br \/>\ndeitaram a m\u00e3o no Joaquim Paulista, o agarraram, e amarraram em uma<br \/>\n\u00e1rvore. Enquanto estavam nesta lida, o coitado do rapaz, que n\u00e3o<br \/>\npodia resistir \u00e0queles dois ursos, pedia por quantos santos h\u00e1<br \/>\nque n\u00e3o judiassem com ele, que n\u00e3o sabia que mal tinha feito<br \/>\na seus camaradas, que se era por causa da Carolina ele jurava nunca mais p\u00f4r<br \/>\nos olhos nela, e iria embora para Goi\u00e1s, sem ao menos dizer-lhe adeus.<br \/>\nEra \u00e0 toa. Os dois malvados nem ao menos lhe davam resposta.<\/p>\n<p>O camarada de Tim\u00f3teo era mandigueiro e curado de cobra, pegava ai<br \/>\nno mais grosso jaracussu ou cascavel, as enrolava no bra\u00e7o, no pesco\u00e7o,<br \/>\nmetia a cabe\u00e7a, delas dentro da boca, brincava e judiava com elas de<br \/>\ntoda a maneira, sem que lhe fizessem mal algum. Na hora em que ele enxergava<br \/>\numa cobra, bastava pregar os olhos nela, a cobra n\u00e3o se mexia do lugar.<br \/>\nEm cima de tudo, o diabo do soldado sabia um assovio com que chamava cobra,<br \/>\nquando queria.<\/p>\n<p>A hora que ele dava esse assovio, se havia por ali perto alguma cobra, havia<br \/>\nde aparecer por for\u00e7a. Dizem que ele tinha parte com o diabo, e todo<br \/>\nmundo tinha medo dele como do pr\u00f3prio capeta.<\/p>\n<p>Depois que amarraram bem amarrado o pobre Joaquim Paulista, o camarada do<br \/>\nTim\u00f3teo desceu pelas furnas de uns grot\u00f5es abaixo, e andou &#8211;<br \/>\npor l\u00e1 muito tempo, assoviando o tal assovio que ele conhecia. O Tim\u00f3teo<br \/>\nficou de sentinela ao Joaquim Paulista, que estava caladinho, coitado encomendando<br \/>\nsua alma a Deus. Quando o soldado voltou, trazia em cada uma das ma os, apertado<br \/>\npela garganta, uma cascavel mais grossa do que esta minha perna. Os bichos<br \/>\ndesesperados batiam e se enrolavam pelo corpo do soldado, que nessa hora devia<br \/>\nestar medonho que nem o diabo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Joaquim Paulista compreendeu que qualidade de morte lhe iam<br \/>\ndar aqueles dois desalmados. Pediu, rogou, mas debalde, que, se queriam mat\u00e1-lo,<br \/>\npregassem-lhe uma bala na cabe\u00e7a, ou enterrassem-lhe uma faca no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npor piedade, mas n\u00e3o o fizeram morrer de um modo t\u00e3o cruel.<\/p>\n<p>\u2014 Isso querias tu, disse o soldado, para n\u00f3s irmos para \u00e0<br \/>\nforca! nada! estas duas meninas \u00e9 que h\u00e3o de carregar com a<br \/>\nculpa de tua morte; para isso \u00e9 que fui busc\u00e1-las; n\u00f3s<br \/>\nn\u00e3o somos carrascos.<\/p>\n<p>\u2014 Joaquim, disse o Tim\u00f3teo, faze teu ato de contri\u00e7\u00e3o<br \/>\ne deixa-te de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenhas medo, rapaz!&#8230; continua o outro. Estas meninas<br \/>\ns\u00e3o muito boazinhas; olha como elas est\u00e3o me abra\u00e7ando!..<br \/>\nFaze de conta que s\u00e3o os dois bra\u00e7os da Carolina, que v\u00e3o<br \/>\nte apertar num gostoso abra\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Aqui o Joaquim p\u00f5e-se a gritar com quanto for\u00e7a tinha, a ver<br \/>\nse algu\u00e9m, acaso, podia ouvi-lo e acudir-lhe. Mas, sem perder tempo,<br \/>\no Tim\u00f3teo pega num len\u00e7o e atocha-lhe na boca; mais que depressa<br \/>\no outro atira-lhe por cima os dois bichos, que no mesmo instante o picaram<br \/>\npor todo o corpo. Imediatamente mataram as duas cobras, antes que fugissem.<br \/>\nN\u00e3o levou muito tempo, o pobre rapaz estrebuchava, dando gemidos de<br \/>\ncortar o cora\u00e7\u00e3o, e deitava sangue pelo nariz, pelos ouvidos<br \/>\ne por todo o corpo.<\/p>\n<p>Quando viram que o Joaquim j\u00e1 quase n\u00e3o podia falar, nem mover-se,<br \/>\ne que n\u00e3o tardava a dar o \u00faltimo suspiro, desamarraram-no, tiraram-lhe<br \/>\na camisa, e o deixaram ai perto das duas cobras mortas.<\/p>\n<p>Sa\u00edram e andaram todo o dia, dando voltas pelo campo.<\/p>\n<p>Quando foi anoitecendo, embocaram pela estrada da mata, e vieram descendo<br \/>\npara o porto. Teriam andado obra de uma l\u00e9gua, quando enxergaram um<br \/>\nvulto, que ia andando adiante deles, devagarinho, encostado num pau e gemendo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9&#8217; ele, disse um deles espantado; n\u00e3o pode ser outro.<\/p>\n<p>\u2014 Ele!&#8230; \u00e9 imposs\u00edvel&#8230; s\u00f3 por um milagre.<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu juro em como n\u00e3o \u00e9 outro, e nesse caso toca<br \/>\na dar cabo dele j\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Que d\u00favida!<\/p>\n<p>Nisto adiantaram-se e alcan\u00e7aram o vulto<\/p>\n<p>Era o pr\u00f3prio Joaquim Paulista!<\/p>\n<p>Sem mais demora- socaram-lhe a faca no cora\u00e7\u00e3o, e deram-lhe<br \/>\ncabo dele. \u2014 Agora como h\u00e1 de ser?, diz um deles n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nrem\u00e9dio sen\u00e3o fugir, sen\u00e3o estamos perdidos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual fugir! o comandante talvez n\u00e3o cisme nada; e no caso<br \/>\nque haja alguma cousa, estas cadeiazinhas desta terra s\u00e3o nada para<br \/>\nmim?&#8230; Portanto vai tu escondido, l\u00e1 embaixo no porto, e traz uma<br \/>\nenxada; enterremos o corpo ai no mato; e depois diremos que morreu picado<br \/>\nde cobra.<\/p>\n<p>Isto dizia o Tim\u00f3teo, que, com o sentido na Carolina, n\u00e3o queria<br \/>\nperder o fruto do sangue que derramou.<\/p>\n<p>Com efeito assim fizeram; levaram toda a noite a abrir a sepultura para o<br \/>\ncorpo, no meio do mato, de uma banda do caminho que, nesse tempo, n\u00e3o<br \/>\nera por ai, passava mais arredado. Por isso n\u00e3o chegaram, sen\u00e3o<br \/>\nno outro dia de manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Cirino, como \u00e9 que Joaquim p\u00f4de escapar das mordeduras<br \/>\ndas cobras, e como se veio a saber de tudo isso?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 lhe conto, disse o velho.<\/p>\n<p>E depois de fazer uma pausa para acender o cachimbo, continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Deus n\u00e3o queria que o crime daqueles amaldi\u00e7oados ficasse<br \/>\nescondido. Quando os dois soldados deixaram por morto o Joaquim Paulista,<br \/>\nandava por aquelas alturas um caboclo velho, cortando palmitos. Aconteceu<br \/>\nque, passando por ai n\u00e3o muito longe, ouvi voz de gente, e veio vindo<br \/>\ncom cautela a ver o que era: quando chegou a descobrir o que se estava passando,<br \/>\nfrio e tremendo de susto, o pobre velho ficou espiando de longe, bem escondido<br \/>\nnuma mota, e viu tudo, desde a hora em que o soldado veio da furna com as<br \/>\ncobras na m\u00e3o. Se aqueles malditos o tivessem visto ali, tinham dado<br \/>\ncabo dele tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Quando os dois se foram embora, ent\u00e3o o caboclo, com muito<br \/>\ncuidado, saiu da moita, e veio ver o pobre rapaz, que estava morre n\u00e3o<br \/>\nmorre!&#8230; O velho era mesinheiro muito mestre, e benzedor, que tinha fama<br \/>\nem toda a redondeza.<\/p>\n<p>Depois que olhou bem o rapaz, que j\u00e1 com a l\u00edngua perra n\u00e3o<br \/>\npodia falar, e j\u00e1 estava cego, andou catando pelo mato umas folhas<br \/>\nque ele l\u00e1 conhecia, mascou-as bem, cuspiu a saliva nas feridas do<br \/>\nrapaz, e depois benzeu bem benzidas elas todas, uma por uma.<\/p>\n<p>Quando foi da\u00ed a uma hora, j\u00e1 o rapaz estava mais aliviado,<br \/>\ne foi ficando cada vez a melhor, at\u00e9 que, enfim, p\u00f4de ficar em<br \/>\np\u00e9, j\u00e1 enxergando alguma cousa.<\/p>\n<p>Quando se podendo andar um pouco, o caboclo cortou um pau, botou na m\u00e3o<br \/>\ndele, e veio com ele, muito devagar, ajudando-o a caminhar at\u00e9 que,<br \/>\na muito custo, chegaram na estrada.<\/p>\n<p>Ai o velho disse:<\/p>\n<p>\u2014 Agora voc\u00ea esta na estrada, pode ir indo sozinho com seu vagar,<br \/>\nque daqui a nada voc\u00ea est\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3, querendo Deus, eu l\u00e1 vou v\u00ea-lo outra vez. Adeus,<br \/>\ncamarada; Nossa Senhora te acompanhe.<\/p>\n<p>O bom velho mal pensava, que, fazendo aquela obra de caridade, ia entregar<br \/>\noutra vez \u00e0 morte aquele infeliz a quem acaba de dar a vida. Um quarto<br \/>\nde hora, aos que se demorasse, Joaquim Paulista estava escapo. Mas o que tinha<br \/>\nde acontecer estava escrito l\u00e1 em cima.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastava ao coitado do Joaquim Paulista ter sido t\u00e3o infeliz<br \/>\nem vida, a infelicidade o perseguiu at\u00e9 depois de morto.<\/p>\n<p>O comandante do destacamento, que n\u00e3o era nenhum samora, desconfiou<br \/>\ndo caso. Mandou prender os dois soldados, e deu parte na vila ao juiz, que<br \/>\nda\u00ed a dois dias veio com o escriv\u00e3o para mandar desenterrar<br \/>\no corpo. Vamos agora saber onde \u00e9 que ele estava enterrado. Os dois<br \/>\nsoldados, que eram os \u00fanicos que podiam saber, andavam guiando a gente<br \/>\npara uns rumos muito diferentes, e como nada se achava, fingiam que tinham<br \/>\nperdido o lugar.<\/p>\n<p>Bateu-se mato um dia inteiro sem se achar nada.<\/p>\n<p>Afinal de contas os urubus \u00e9 que vieram mostrar onde estava a sepultura.<br \/>\nOs dois soldados tinha enterrado mal o corpo. Os urubus pressentiram o f\u00e9tido<br \/>\nda carni\u00e7a e vieram-se ajuntar nas \u00e1rvores em redor. Desenterrou-se<br \/>\no corpo, e via-se ent\u00e3o uma grande facada no peito, do lado esquerdo.<br \/>\nO corpo j\u00e1 estava apodrecendo e com muito mau cheiro. Os que o foram<br \/>\nenterrar de novo, aflitos por se verem livres daquela fedentina, mal apenas<br \/>\njogaram \u00e0 pressa alguns punhados de terra na cova, e deixaram o corpo<br \/>\nainda mais mal enterrado do que estava.<\/p>\n<p>Vieram depois os porcos, os tatus, e outros bichos, cavoucaram a cova, espatifaram<br \/>\no cad\u00e1ver, e andar espalhando os ossos do defunto ai por toda essa<br \/>\nmata.<\/p>\n<p>S\u00f3 a cabe\u00e7a \u00e9 que dizem que ficou na sepultura.<\/p>\n<p>Uma alma caridosa, que um dia encontrou um bra\u00e7o do defunto no meio<br \/>\nda estrada, levou-o para a sepultura, encheu a cova da terra, socou bem, e<br \/>\nfincou ai uma cruz. Foi tempo perdido; no outro dia a cova estava aberta tal<br \/>\nqual como estava dantes. Ainda outras pessoas depois teimavam em ajuntar os<br \/>\nossos e enterr\u00e1-los bem. Mas no outro dia a cova estava aberta, assim<br \/>\ncomo at\u00e9 hoje est\u00e1.<\/p>\n<p>Diz o povo que enquanto n\u00e3o se ajuntar na sepultura at\u00e9 o \u00faltimo<br \/>\nossinho do corpo de Joaquim Paulista, essa cova n\u00e3o se fecha. Se \u00e9<br \/>\nassim, j\u00e1 se sabe que tem de ficar aberta para sempre. Quem \u00e9<br \/>\nque h\u00e1 de achar esses ossos que, levados pelas enxurradas, j\u00e1<br \/>\nl\u00e1 foram talvez rodando por esse Parna\u00edba abaixo?<\/p>\n<p>Outros dizem que, enquanto os matadores de Joaquim Paulista estivessem vivos<br \/>\nneste mundo, a sua sepultura havia de andar sempre aberta, nunca os seus ossos<br \/>\nteriam sossego, e haviam de andar sempre assombrando os viventes c\u00e1<br \/>\nneste mundo.<\/p>\n<p>Mas esses dois malvados j\u00e1 h\u00e1 de muito tempo foram dar contas<br \/>\nao diabo do que andavam fazendo por este mundo, e a cousa continua na mesma.<\/p>\n<p>O antigo camarada da Carolina, esse morreu no caminho de Goi\u00e1s; a<br \/>\nescolta que o levava, para cumprir senten\u00e7a de gal\u00e9s por toda<br \/>\na vida, com medo que ele fugisse, pois o rapaz tinha artes do diabo, assentou<br \/>\nde acabar com ele; depois contaram uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia,<br \/>\ne n\u00e3o tiveram nada.<\/p>\n<p>O outro, que era currado de cobra, tinha fugido; mas como ganhava a vida<br \/>\nbrincando com cobras e matava gente com elas, veio tamb\u00e9m a morrer<br \/>\nna boca de uma delas.<\/p>\n<p>Um dia em que estava brincando com um grande urutu preto, \u00e0 vista<br \/>\nde muita gente que estava a olhar de queixo ca\u00eddo, a bicha perdeu-lhe<br \/>\no respeito, e em tal parte e em t\u00e3o m\u00e1 hora lhe deu um bote,<br \/>\nque o maldito caiu logo estrebuchando, e em poucos instantes deu a alma ao<br \/>\ndiabo. Deus me perdoe, mas aquela fera n\u00e3o podia ir para o c\u00e9u.<br \/>\nO povo n\u00e3o quis por maneira nenhuma que ele fosse enterrado no sagrado,<br \/>\ne mandou atirar o corpo no campo para os urubus.<\/p>\n<p>Enfim eu fui \u00e0 vila pedir ao vig\u00e1rio velho, que era o defunto<br \/>\npadre Carmelo, para vir bendizer a sepultura de Joaquim Paulista, e tirar<br \/>\ndela essa assombra\u00e7\u00e3o que aterra todo este povo. Mas o vig\u00e1rio<br \/>\ndisse que isso n\u00e3o valia de nada; que enquanto n\u00e3o se dissessem<br \/>\npela alma do defunto tantas missas quantos ossos tinha ele no corpo, contando<br \/>\ndedos, unhas, dentes e tudo, nem os ossos teriam sossego, nem a assombra\u00e7\u00e3o<br \/>\nacabaria, nem a cova se havia de fechar nunca.<\/p>\n<p>Mas se os povos quisessem, e aprontassem as esmolas, que ele dizia as missas,<br \/>\ne tudo ficaria acabado. Agora que h\u00e1 de contar quantos ossos a gente<br \/>\ntem no corpo, e quando \u00e9 que esses moradores, que n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\ntodos pobres como eu, h\u00e3o de aprontar dinheiro para dizer tanta missa?&#8230;<\/p>\n<p>Portanto j\u00e1 se v\u00ea, meu amo, que o que lhe contei n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 nenhum abus\u00e3o; \u00e9 cousa certa e sabida em toda esta<br \/>\nredondeza. Todo esse povo ai est\u00e1 que n\u00e3o me h\u00e1 de deixar<br \/>\nficar mentiroso.<\/p>\n<p>\u00c0 vista de t\u00e3o valentes provas, dei pleno cr\u00e9dito a<br \/>\ntudo quanto o barqueiro me contou, e espero que a meus leitores acreditar\u00e3o<br \/>\ncomigo, piamente, que o velho barqueiro do Parna\u00edba, uma bela noite,<br \/>\nandou pelos ares montado em um burro, com um esqueleto na garupa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II III IV &nbsp; I A noite, l\u00edmpida e calma, tinha sucedido a uma tarde de pavorosa tormenta, nas profundas e vastas florestas que bordam as margens do Parna\u00edba, nos limites entre as prov\u00edncias de Minas e de Goi\u00e1s. 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