{"id":93147,"date":"2017-01-06T15:00:50","date_gmt":"2017-01-06T17:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93147"},"modified":"2017-01-06T15:00:50","modified_gmt":"2017-01-06T17:00:50","slug":"poesias-bento-teixeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poesias-bento-teixeira","title":{"rendered":"Poesias &#8211; Bento Teixeira"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"159\" height=\"78\">\n<div align=\"center\"><a href=\"#1\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Canto<br \/>\nde Proteu<\/span><\/strong><\/a><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"102\"><\/td>\n<td width=\"154\">\n<div align=\"center\"><a href=\"#2\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Descri\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Recife de Pernambuco<\/span><\/strong><\/a><span style=\"font-size: small;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"100\"><\/td>\n<td width=\"163\">\n<div align=\"center\"><a href=\"#3\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Prosopop\u00e9ia<\/span><\/strong><\/a><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Canto de Proteu<\/h2>\n<p>Pelos ares retumbe o grave acento,<\/p>\n<p>De minha rouca voz, confusa, e lenta,<\/p>\n<p>Qual trov\u00e3o espantoso, e violento,<\/p>\n<p>De repentina, e h\u00f3rrida tormenta.<\/p>\n<p>Ao rio de Aqueronte turbulento,<\/p>\n<p>Que em sulf\u00fareas borbulhas arrebenta,<\/p>\n<p>Passe com tal vigor, que imprima espanto,<\/p>\n<p>em Minosrigoroso, e Radamanto.<\/p>\n<p>De lan\u00e7as, e d&#8217;escudos encantados,<\/p>\n<p>N\u00e3o tratarei em numerosa rima,<\/p>\n<p>Mas de bar\u00f5es ilustres afamados,<\/p>\n<p>Mais que quantos a Musa n\u00e3o sublima.<\/p>\n<p>Seus her\u00f3icos feitos extremados<\/p>\n<p>Afinar\u00e3o a dissoante prima,<\/p>\n<p>Que n\u00e3o \u00e9 muito t\u00e3o gentil sujeito,<\/p>\n<p>Suprir com seus quilates meu defeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero no meu Canto alguma ajuda,<\/p>\n<p>Das nove moradoras do Parnaso,<\/p>\n<p>Nem mat\u00e9ria t\u00e3o alta quer que aluda,<\/p>\n<p>Nada ao essencial deste meu caso.<\/p>\n<p>Porque dado que a forma se me muda,<\/p>\n<p>em falar a verdade, serei raso,<\/p>\n<p>Que assim conv\u00e9m faz\u00ea-lo, quem escreve,<\/p>\n<p>Se a justi\u00e7a quer dar o que se deve.<\/p>\n<h2><a id=\"2\" name=\"2\"><\/a>Descri\u00e7\u00e3o do Recife de Pernambuco<\/h2>\n<p>Pera a parte do sul, onde a pequena<\/p>\n<p>Ursa se v\u00ea de guardas rodeada,<\/p>\n<p>Onde o c\u00e9u luminoso, mais serena,<\/p>\n<p>Tem sua influi\u00e7\u00e3o, e temperada.<\/p>\n<p>Into da nova Lusit\u00e2nia ordena<\/p>\n<p>A natureza m\u00e3e bem atentada,<\/p>\n<p>Um porto t\u00e3o quieto e t\u00e3o seguro,<\/p>\n<p>Que para as curvas naus serve de muro.<\/p>\n<p>\u00c9 este porto tal, por estar posta<\/p>\n<p>Uma cinta de pedra inculta e viva,<\/p>\n<p>Ao longo da soberba e larga costa,<\/p>\n<p>Onde quebra Netuno a f\u00faria esquiva.<\/p>\n<p>Entre a praia e a pedra descomposta<\/p>\n<p>O estanhado elemento se deriva<\/p>\n<p>Com tanta mansid\u00e3o, que uma fateixa<\/p>\n<p>Basta ter \u00e0 fatal Argos aneixa.<\/p>\n<p>Em o meio desta obra alpestre e dura<\/p>\n<p>Uma boca rompeu o mar inchado,<\/p>\n<p>Que na l\u00edngua dos b\u00e1rbaros escura<\/p>\n<p>Paranambuco \u2013 de todos \u00e9 chamado:<\/p>\n<p>De \u2013 Paran\u00e1 \u2013 que \u00e9 Mar, \u2013 Puca, rotura;<\/p>\n<p>Feita com f\u00faria desse mar salgado,<\/p>\n<p>Que, sem no derivar cometer m\u00edngua,<\/p>\n<p>Cova do mar se chama em nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p>Para a entrada da barra, \u00e0 parte esquerda,<\/p>\n<p>Est\u00e1 uma lajem grande e espa\u00e7osa,<\/p>\n<p>Quede piratas fora total perda,<\/p>\n<p>Que uma torre tivera suntuosa.<\/p>\n<p>Mas quem por seus servi\u00e7os bons n\u00e3o herda,<\/p>\n<p>Desgosta de fazer cousa lustrosa;<\/p>\n<p>Que a condi\u00e7\u00e3o do rei, que n\u00e3o \u00e9 franco,<\/p>\n<p>O vassalo \u2013 faz ser nas obras manco&#8230;<\/p>\n<p>Sendo os deuses \u00e0 lajem j\u00e1 chegados,<\/p>\n<p>Estando o vento em calma, o mar quieto,<\/p>\n<p>Depois de estarem todos sossegados,<\/p>\n<p>Por mandado do rei, e por decreto.<\/p>\n<p>Proteu no c\u00e9u, c&#8217;os olhos enlevados,<\/p>\n<p>Como que investiga alto secreto,<\/p>\n<p>Com voz bem entoada, e bom meneio,<\/p>\n<p>Ao profundo sil\u00eancio, larga o freio.<\/p>\n<h2><a id=\"3\" name=\"3\"><\/a>Prosopop\u00e9ia<\/h2>\n<p>Pr\u00f3logo<\/p>\n<p>Dirigido a Jorge d\u2019Albuquerque Coelho, Capit\u00e3o e Governador<br \/>\nda Capitania de Pernambuco, das partes do Brasil da Nova Lusit\u00e2nia,<br \/>\netc.<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade o que diz Hor\u00e1cio, que Poetas e Pintores est\u00e3o<br \/>\nno mesmo predicamento; e estes para pintarem<\/p>\n<p>perfeitamente uma Imagem, primeiro na lisa t\u00e1voa fazem rascunho, para<br \/>\ndepois irem pintando os membros dela extensamente, at\u00e9 real\u00e7arem<br \/>\nas tintas, e ela ficar na fineza de sua perfei\u00e7\u00e3o; assim eu,<br \/>\nquerendo dibuxar com obstardo pinzel de meu engenho a viva Imagem da vida<br \/>\ne feitos memor\u00e1veis de vossa merc\u00ea, quis primeiro fazer este<br \/>\nrascunho, para depois, sendo-me concedido por vossa merc\u00ea, ir mui particularmente<br \/>\npintando os membros desta Imagem, se n\u00e3o me faltar a tinta do favor<br \/>\nde vossa merc\u00ea, a quem pe\u00e7o, humildemente, receba minhas Rimas,<br \/>\npor serem as prim\u00edcias com que tento servi-lo. E porque entendo que<br \/>\nas aceitar\u00e1 com aquela benevol\u00eancia e brandura natural, que costuma,<br \/>\nrespeitando mais a pureza do \u00e2nimo que a vileza do presente, n\u00e3o<br \/>\nme fica mais que desejar, se n\u00e3o ver a vida de vossa merc\u00ea aumentada<br \/>\ne estado prosperado, como todos os seus s\u00faditos desejamos.<\/p>\n<p>Beija as m\u00e3os de vossa merc\u00ea: (Bento Teixeira)<\/p>\n<p>Seu vassalo.<\/p>\n<p>Dirigida a Jorge d\u2019Albuquerque Coelho,Capit\u00e3o e Governador<br \/>\nde Pernambuco, Nova Lusit\u00e2nia, etc.<\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p>Cantem Poetas o Poder Romano,<\/p>\n<p>Sobmetendo Na\u00e7\u00f5es ao jugo duro;<\/p>\n<p>O Mantuano pinte o Rei Troiano,<\/p>\n<p>Descendo \u00e0 confus\u00e3o do Reino escuro;<\/p>\n<p>Que eu canto um Albuquerque soberano,<\/p>\n<p>Da F\u00e9, da cara P\u00e1tria firme muro,<\/p>\n<p>Cujo valor e ser, que o C\u00e9u lhe inspira,<\/p>\n<p>Pode estancar a L\u00e1cia e Grega lira.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>As D\u00e9lficas irm\u00e3s chamar n\u00e3o quero,<\/p>\n<p>Que tal invoca\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e3o estudo;<\/p>\n<p>Aquele chamo s\u00f3, de quem espero<\/p>\n<p>A vida que se espera em fim de tudo.<\/p>\n<p>Ele far\u00e1 meu Verso t\u00e3o sincero,<\/p>\n<p>Quanto fora sem ele tosco e rudo,<\/p>\n<p>Que por raz\u00e3o negar n\u00e3o deve o menos<\/p>\n<p>Quem deu o mais a m\u00edseros terrenos.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>E v\u00f3s, sublime Jorge, em quem se esmalta<\/p>\n<p>A Estirpe d&#8217;Albuquerques excelente,<\/p>\n<p>E cujo eco da fama corre e salta<\/p>\n<p>Do Carro Glacial \u00e0 Zona ardente,<\/p>\n<p>Suspendei por agora a mente alta<\/p>\n<p>Dos casos v\u00e1rios da Olindesa gente,<\/p>\n<p>E vereis vosso irm\u00e3o e v\u00f3s supremo<\/p>\n<p>No valor abater Querino e Remo.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>Vereis um sinil \u00e2nimo arriscado<\/p>\n<p>A trances e conflitos temerosos,<\/p>\n<p>E seu raro valor executado<\/p>\n<p>Em corpos Luteranos vigorosos.<\/p>\n<p>Vereis seu Estandarte derribado<\/p>\n<p>Aos Cat\u00f3licos p\u00e9s vitoriosos,<\/p>\n<p>Vereis em fim o garbo e alto brio<\/p>\n<p>Do famoso Albuquerque vosso Tio.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p>Mas em quanto Talia no se atreve,<\/p>\n<p>No Mar do valor vosso, abrir entrada,<\/p>\n<p>Aspirai com favor a Barca leve<\/p>\n<p>De minha Musa inculta e mal limada.<\/p>\n<p>Invocar vossa gra\u00e7a mais se deve<\/p>\n<p>Que toda a dos antigos celebrada,<\/p>\n<p>Porque ela me far\u00e1 que participe<\/p>\n<p>Doutro licor melhor que o de Aganipe.<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p>O marchetado Carro do seu Febo<\/p>\n<p>Celebre o Sulmon\u00eas, com falsa pompa,<\/p>\n<p>E a ru\u00edna cantando do mancebo,<\/p>\n<p>Com importuna voz, os ares rompa.<\/p>\n<p>Que, posto que do seu licor n\u00e3o bebo,<\/p>\n<p>\u00c0 fama espero dar t\u00e3o viva trompa,<\/p>\n<p>Que a grandeza de vossos feitos cante,<\/p>\n<p>Com som que Ar, Fogo, Mar e Terra espante<\/p>\n<p>Narra\u00e7\u00e3o<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p>A L\u00e2mpada do Sol tinha encoberto,<\/p>\n<p>Ao Mundo, sua luz serena e pura,<\/p>\n<p>E a irm\u00e3 dos tr\u00eas nomes descoberto<\/p>\n<p>A sua tersa e circular figura.<\/p>\n<p>L\u00e1 do portal de Dite, sempre aberto,<\/p>\n<p>Tinha chegado, com a noite escura,<\/p>\n<p>Morfeu, que com sutis e lentos passos<\/p>\n<p>Atar vem dos mortais os membros lassos.<\/p>\n<h2>VIII<\/h2>\n<p>Tudo estava quieto e sossegado,<\/p>\n<p>S\u00f3 com as flores Z\u00e9firo brincava,<\/p>\n<p>E da v\u00e1ria fineza namorado,<\/p>\n<p>De quando em quando o respirar firmava<\/p>\n<p>At\u00e9 que sua dor, d\u2019amor tocado,<\/p>\n<p>Por entre folha e folha declarava.<\/p>\n<p>As doces Aves nos pendentes ninhos<\/p>\n<p>Cubriam com as asas seus filhinhos.<\/p>\n<h2>IX<\/h2>\n<p>As luzentes Estrelas cintilavam,<\/p>\n<p>E no estanhado Mar resplandeciam,<\/p>\n<p>Que, dado que no C\u00e9u fixas estavam,<\/p>\n<p>Estar no licor salso pareciam.<\/p>\n<p>Este passo os sentidos comparavam<\/p>\n<p>\u00c0queles que d\u2019amor puro viviam,<\/p>\n<p>Que, estando de seu centro e fim absentes,<\/p>\n<p>Com alma e com vontade est\u00e3o presentes.<\/p>\n<h2>X<\/h2>\n<p>Quando ao longo da praia, cuja area<\/p>\n<p>\u00c9 de Marinhas aves estampada,<\/p>\n<p>E de encrespadas Conchas mil se arrea,<\/p>\n<p>Assim de cor azul, como rosada,<\/p>\n<p>Do mar cortando a prateada vea,<\/p>\n<p>Vinha Trit\u00e3o em cola duplicada,<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe vi na cabe\u00e7a casca posta<\/p>\n<p>(Como Cam\u00f5es descreve) de Lagosta<\/p>\n<h2>XI<\/h2>\n<p>Mas uma Concha lisa e bem lavrada<\/p>\n<p>De rica Madrep\u00e9rola trazia,<\/p>\n<p>De fino Coral crespo marchetada,<\/p>\n<p>Cujo lavor o natural vencia.<\/p>\n<p>Estava nela ao vivo debuxada<\/p>\n<p>A cruel e espantosa bataria,<\/p>\n<p>Que deu a temer\u00e1ria e cega gente<\/p>\n<p>Aos Deuses do C\u00e9u puro e reluzente.<\/p>\n<h2>XII<\/h2>\n<p>Um B\u00fazio desigual e retrocido<\/p>\n<p>Trazia por Trombeta sonorosa,<\/p>\n<p>De P\u00e9rolas e Alj\u00f4far guarnecido,<\/p>\n<p>Com obra mui sutil e curiosa.<\/p>\n<p>Depois do Mar azul ter dividido,<\/p>\n<p>Se sentou numa pedra Cavernosa,<\/p>\n<p>E com as m\u00e3os limpando a cabeleira<\/p>\n<p>Da turtuosa cola fez cadeira.<\/p>\n<h2>XIII<\/h2>\n<p>Toca a Trombeta com crescido alento,<\/p>\n<p>Engrossa as veias, move os elementos,<\/p>\n<p>E, rebramando os ares com o acento,<\/p>\n<p>Penetra o v\u00e3o dos infinitos assentos.<\/p>\n<p>Os P\u00f3los que sustem o firmamento,<\/p>\n<p>Abalados dos pr\u00f3prios fundamentos,<\/p>\n<p>Fazem tremer a terra e C\u00e9u jucundo,<\/p>\n<p>E Netuno gemer no Mar profundo.<\/p>\n<h2>XIV<\/h2>\n<p>O qual vindo da v\u00e3 concavidade,<\/p>\n<p>Em Carro Triunfal, com seu tridente,<\/p>\n<p>Traz t\u00e3o soberba pompa e majestade,<\/p>\n<p>Quanta conv\u00e9m a Rei t\u00e3o excelente.<\/p>\n<p>Vem Oceano, pai de mor idade,<\/p>\n<p>Com barba branca, com cerviz tremente:<\/p>\n<p>Vem Glauco, vem Nereu, Deuses Marinhos,<\/p>\n<p>Correm ligeiros Focas e Golfinhos.<\/p>\n<h2>XV<\/h2>\n<p>Vem o velho Proteu, que vaticina<\/p>\n<p>(Se f\u00e9 damos \u00e0 velha antiguidade)<\/p>\n<p>Os males a que a sorte nos destina,<\/p>\n<p>Nascidos da mortal temeridade.<\/p>\n<p>Vem numa e noutra forma peregrina,<\/p>\n<p>Mudando a natural propriedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o troque a forma, venha confiado,<\/p>\n<p>Se n\u00e3o quer de Aristeu ser sojigado.<\/p>\n<h2>XVI<\/h2>\n<p>T\u00e9tis, que em ser fermosa se recrea,<\/p>\n<p>Traz das Ninfas o coro brando e doce :<\/p>\n<p>Cl\u00edmene, Efire, \u00d3pis, Panopea,<\/p>\n<p>Com B\u00e9roe, Talia, Cimodoce;<\/p>\n<p>Drimo, Xanto, Lic\u00f3rias, Deiopea,<\/p>\n<p>Aretusa, Cidipe, Filodoce,<\/p>\n<p>Com Eristea, Espio, Semideas,<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as quais, cantando, vem Sereas.<\/p>\n<p>Descri\u00e7\u00e3o do Recife de Pernambuco<\/p>\n<h2>XVII<\/h2>\n<p>Pela a parte do Sul, onde a pequena<\/p>\n<p>Ursa se v\u00ea de guardas rodeada,<\/p>\n<p>Onde o C\u00e9u luminoso mais serena<\/p>\n<p>Tem sua influ\u00ef\u00e7\u00e3o, e temperada;<\/p>\n<p>Junto da Nova Lusit\u00e2nia ordena<\/p>\n<p>A natureza, m\u00e3e bem atentada,<\/p>\n<p>Um porto t\u00e3o quieto e t\u00e3o seguro,<\/p>\n<p>Que pela as curvas Naus serve de muro.<\/p>\n<p>XVIII<\/p>\n<p>\u00c9 este porto tal, por estar posta<\/p>\n<p>Uma cinta de pedra, inculta e viva,<\/p>\n<p>Ao longo da soberba e larga costa,<\/p>\n<p>Onde quebra Netuno a f\u00faria esquiva.<\/p>\n<p>Entre a praia e pedra descomposta,<\/p>\n<p>O estanhado elemento se diriva<\/p>\n<p>Com tanta mansid\u00e3o, que uma fateixa<\/p>\n<p>Basta ter \u00e0 fatal Argos aneixa.<\/p>\n<h2>XIX<\/h2>\n<p>Em o meio desta obra alpestre e dura,<\/p>\n<p>Uma boca rompeu o Mar inchado,<\/p>\n<p>Que, na l\u00edngua dos b\u00e1rbaros escura,<\/p>\n<p>Pernambuco de todos \u00e9 chamado.<\/p>\n<p>de Para\u2019na, que \u00e9 Mar; Puca, rotura,<\/p>\n<p>Feita com f\u00faria desse Mar salgado,<\/p>\n<p>Que, sem no dirivar cometer m\u00edngua,<\/p>\n<p>Cova do Mar se chama em nossa l\u00edngua.<\/p>\n<h2>XX<\/h2>\n<p>Pela entrada da barra, \u00e0 parte esquerda,<\/p>\n<p>Est\u00e1 uma lajem grande e espa\u00e7osa,<\/p>\n<p>Que de Piratas fora total perda,<\/p>\n<p>Se uma torre tivera sumtuosa.<\/p>\n<p>Mas quem por seus servi\u00e7os bons n\u00e3o herda<\/p>\n<p>Desgosta de fazer cousa lustrosa,<\/p>\n<p>Que a condi\u00e7\u00e3o do Rei que n\u00e3o \u00e9 franco<\/p>\n<p>O vassalo faz ser nas obras manco.<\/p>\n<h2>XXI<\/h2>\n<p>Sendo os Deuses \u00e0 lajem j\u00e1 chegados,<\/p>\n<p>Estando o vento em calma, o Mar quieto,<\/p>\n<p>Depois de estarem todos sossegados,<\/p>\n<p>Por mandado do Rei e por decreto,<\/p>\n<p>Proteu, no C\u00e9u c\u00b4os olhos enlevados,<\/p>\n<p>Como que invistigava alto secreto,<\/p>\n<p>Com voz bem entoada e bom meneio,<\/p>\n<p>Ao profundo sil\u00eancio larga o freio.<\/p>\n<p>Canto de Proteu<\/p>\n<h2>XXII<\/h2>\n<p>&#8220;Pelos ares retumbe o grave acento<\/p>\n<p>De minha rouca voz, confusa e lenta,<\/p>\n<p>Qual torv\u00e3o espantoso e violento<\/p>\n<p>De repentina e t\u00f3rrida tormenta;<\/p>\n<p>Ao Rio de Aqueronte turbulento,<\/p>\n<p>Que em sulf\u00fareas burbulhas arrebenta,<\/p>\n<p>Passe com tal vigor, que imprima espanto<\/p>\n<p>Em Minos riguroso e Radamanto.<\/p>\n<h2>XXIII<\/h2>\n<p>De lan\u00e7as e d\u2019escudos encantados<\/p>\n<p>N\u00e3o tratarei em numerosa Rima,<\/p>\n<p>Mais de Bar\u00f5es Ilustres afamados,<\/p>\n<p>Mais que quantos a Musa n\u00e3o sublima.<\/p>\n<p>Seus her\u00f3icos feitos extremados<\/p>\n<p>Afinar\u00e3o a dissoante prima,<\/p>\n<p>Que n\u00e3o \u00e9 muito t\u00e3o gentil sujeito<\/p>\n<p>Suplir com seus quilates meu defeito.<\/p>\n<h2>XXIV<\/h2>\n<p>N\u00e3o quero no meu Canto alguma ajuda<\/p>\n<p>Das nove moradoras de Parnaso,<\/p>\n<p>Nem mat\u00e9ria t\u00e3o alta quer que aluda<\/p>\n<p>Nada ao essencial deste meu caso.<\/p>\n<p>Porque, dado que a forma se me muda,<\/p>\n<p>Em falar a verdade serei raso,<\/p>\n<p>Que assim conv\u00e9m faz\u00ea-lo quem escreve,<\/p>\n<p>Se \u00e0 justi\u00e7a quer dar o que se deve.<\/p>\n<h2>XXV<\/h2>\n<p>A fama dos antigos co\u00b4a moderna<\/p>\n<p>Fica perdendo o pre\u00e7o sublimado:<\/p>\n<p>A fa\u00e7anha cruel, que a turva Lerna<\/p>\n<p>Espanta com estrondo d\u2019arco armado:<\/p>\n<p>O c\u00e3o de tr\u00eas gargantas, que na eterna<\/p>\n<p>Confus\u00e3o infernal est\u00e1 fechado,<\/p>\n<p>N\u00e3o louve o bra\u00e7o de H\u00e9rcules Tebano.<\/p>\n<p>Pois procede Albuquerque soberano.<\/p>\n<h2>XXVI<\/h2>\n<p>Vejo (diz o bom velho) que, na mente,<\/p>\n<p>O tempo de Saturno renovado,<\/p>\n<p>E a opulenta Olinda florescente<\/p>\n<p>Chegar ao cume do supremo estado.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 de fera e belicosa gente<\/p>\n<p>O seu largo destrito povoado;<\/p>\n<p>Por nome ter\u00e1 Nova Lusit\u00e2nia,<\/p>\n<p>Das Leis isenta da fatal ins\u00e2nia.<\/p>\n<h2>XXVII<\/h2>\n<p>As r\u00e9deas ter\u00e1 desta Lusit\u00e2nia<\/p>\n<p>O gr\u00e3o Duarte, valoroso e claro,<\/p>\n<p>Coelho por cognome, que a ins\u00e2nia<\/p>\n<p>Reprimir\u00e1 dos seus, com saber raro.<\/p>\n<p>Outro Troiano Pio, que em Dard\u00e2nia<\/p>\n<p>Os Penates livrou e o padre caro;<\/p>\n<p>Um P\u00fablio Cipi\u00e3o, na contin\u00eancia;<\/p>\n<p>Outro Nestor e F\u00e1bio, na prud\u00eancia.<\/p>\n<h2>XXVIII<\/h2>\n<p>O bra\u00e7o invicto vejo com que amansa<\/p>\n<p>A dura cerviz b\u00e1rbara insolente,<\/p>\n<p>Instruindo na F\u00e9, dando esperan\u00e7a<\/p>\n<p>Do bem que sempre dura e \u00e9 presente;<\/p>\n<p>Eu vejo c`o rigor da tesa lan\u00e7a<\/p>\n<p>Acossar o Franc\u00eas, impaciente<\/p>\n<p>De lhe ver alcan\u00e7ar uma vit\u00f3ria<\/p>\n<p>T\u00e3o capaz e t\u00e3o digna de mem\u00f3ria.<\/p>\n<h2>XXIX<\/h2>\n<p>Ter o var\u00e3o Ilustre da consorte,<\/p>\n<p>Dona Beatriz, preclara e excelente,<\/p>\n<p>Dois filhos, de valor e d\u2019alta sorte.<\/p>\n<p>Cada qual a seu Tronco respondente.<\/p>\n<p>Estes se isentar\u00e3o da cruel sorte,<\/p>\n<p>Eclipsando o nome \u00e0 Romana gente,<\/p>\n<p>De modo que esquecida a fama velha<\/p>\n<p>Fa\u00e7am arcar ao mundo a sobrancelha.<\/p>\n<h2>XXX<\/h2>\n<p>O Princ\u00edpio de sua Primavera<\/p>\n<p>Gastar\u00e3o seu destrito dilatando,<\/p>\n<p>Os b\u00e1rbaros cru\u00e9is e gente Austera,<\/p>\n<p>Com meio singular, domesticando.<\/p>\n<p>E primeiro que a espada lisa e fera<\/p>\n<p>Arranquem, com mil meios d\u2019amor brando,<\/p>\n<p>Pretender\u00e3o tir\u00e1-la de seu erro,<\/p>\n<p>E sen\u00e3o por\u00e3o tudo a fogo e ferro.<\/p>\n<h2>XXXI<\/h2>\n<p>Os bra\u00e7os vigorosos e constantes<\/p>\n<p>Fender\u00e3o peitos, abrir\u00e3o costados,<\/p>\n<p>Deixando de mil membros palpitantes<\/p>\n<p>Caminhos, arraiais, campos juncados;<\/p>\n<p>Cercas soberbas, fortes repugnantes<\/p>\n<p>Ser\u00e3o dos novos Martes arrasados,<\/p>\n<p>Sem ficar deles todos mais mem\u00f3ria<\/p>\n<p>Que a qu\u2019eu fazendo vou em esta Hist\u00f3ria.<\/p>\n<h2>XXXII<\/h2>\n<p>Quais dois soberbos Rios espumosos,<\/p>\n<p>Que, de montes alt\u00edssimos manando,<\/p>\n<p>Em T\u00e9tis de meter-se desejosos,<\/p>\n<p>Vem com f\u00faria crescida murmurando,<\/p>\n<p>E nas partes que passam furiosos<\/p>\n<p>Vem \u00e1rvores e troncos arrancando,<\/p>\n<p>Tal Jorge d\u2019Albuquerque e o gr\u00e3o Duarte<\/p>\n<p>Far\u00e3o destrui\u00e7\u00e3o em toda a parte.<\/p>\n<h2>XXXIII<\/h2>\n<p>Aquele branco Cisne venerando,<\/p>\n<p>Que nova fama quer o C\u00e9u que merque,<\/p>\n<p>E me est\u00e1 com seus feitos provocando,<\/p>\n<p>Que dele cante e sobre ele alterque;<\/p>\n<p>Aquele que na Idea estou pintando,<\/p>\n<p>Hier\u00f4nimo sublime d\u2019Albuquerque<\/p>\n<p>Se diz, cuja inven\u00e7\u00e3o, cujo artif\u00edcio<\/p>\n<p>Aos b\u00e1rbaros dar total ex\u00edcio.<\/p>\n<h2>XXXIV<\/h2>\n<p>Deste, como de Tronco florescente,<\/p>\n<p>Nascer\u00e3o muitos ramos, que esperan\u00e7a<\/p>\n<p>Prometer\u00e3o a todos geralmente<\/p>\n<p>De nos ber\u00e7os do Sol pregar a lan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas, quando virem que do Rei potente<\/p>\n<p>O pai por seus servi\u00e7os n\u00e3o alcan\u00e7a<\/p>\n<p>O galard\u00e3o devido e gl\u00f3ria digna,<\/p>\n<p>Ficar\u00e3o nos alpendres da Piscina.<\/p>\n<h2>XXXV<\/h2>\n<p>\u00d3 sorte t\u00e3o cruel, como mud\u00e1vel,<\/p>\n<p>Por que usurpas aos bons o seu direito?<\/p>\n<p>Escolhes sempre o mais abomin\u00e1vel,<\/p>\n<p>Reprovas e abominas o perfeito,<\/p>\n<p>O menos digno fazes agrad\u00e1vel,<\/p>\n<p>O agrad\u00e1vel mais, menos aceito.<\/p>\n<p>\u00d3 fr\u00e1gil, inconstante, quebradi\u00e7a,<\/p>\n<p>Roubadora dos bens e da justi\u00e7a!<\/p>\n<h2>XXXVI<\/h2>\n<p>N\u00e3o tens poder algum, se houver prud\u00eancia;<\/p>\n<p>N\u00e3o tens Imp\u00e9rio algum, nem Majestade;<\/p>\n<p>Mas a mortal cigueira e a dem\u00eancia<\/p>\n<p>Co t\u00edtulo te honrou de De\u00efdade.<\/p>\n<p>O s\u00e1bio tem dom\u00ednio na influ\u00eancia<\/p>\n<p>Celeste e na pot\u00eancia da vontade,<\/p>\n<p>E se o fim n\u00e3o alcan\u00e7a desejado,<\/p>\n<p>\u00c9 por n\u00e3o ser o meio acomodado.<\/p>\n<h2>XXXVII<\/h2>\n<p>Este meio faltar\u00e1 ao velho invicto,<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o cometer\u00e1 nenhum defeito,<\/p>\n<p>Que o seu qualificado e alto esprito<\/p>\n<p>Lhe far\u00e1 a quanto deve ter respeito.<\/p>\n<p>Aqui Balis\u00e1rio, e Pacheco aflito,<\/p>\n<p>Cerra com ele o n\u00famero perfeito.<\/p>\n<p>Sobre os tr\u00eas, uma d\u00favida se excita:<\/p>\n<p>Qual foi mais, se o esfor\u00e7o, se a desdita?<\/p>\n<h2>XXXVIII<\/h2>\n<p>Foi o filho de Anquises, foi Acates,<\/p>\n<p>\u00c0 regi\u00e3o do Caos litigioso,<\/p>\n<p>Com ramo d\u2019ouro fino e de quilates,<\/p>\n<p>Chegando ao campo El\u00edseo deleitoso.<\/p>\n<p>Qu\u00e3o mal, por falta deste, a muitos trates<\/p>\n<p>(\u00d3 sorte!) neste tempo trabalhoso,<\/p>\n<p>Bem claro no-lo mostra a experi\u00eancia<\/p>\n<p>Em poder mais que a justi\u00e7a a ader\u00eancia.<\/p>\n<h2>XXXIX<\/h2>\n<p>Mas deixando (dizia) ao tempo avaro<\/p>\n<p>Cousas que Deus eterno e ele cura,<\/p>\n<p>E tornando ao Pres\u00e1gio novo e raro,<\/p>\n<p>Que na parte mental se me figura,<\/p>\n<p>De Jorge d\u2019Albuquerque, forte e claro,<\/p>\n<p>A despeito direi da inveja pura,<\/p>\n<p>Pela o qual monta pouco a culta Musa,<\/p>\n<p>Que Me\u00f3nio em louvar Aquiles usa.<\/p>\n<h2>XL<\/h2>\n<p>Bem sei que, se seus feitos n\u00e3o sublimo,<\/p>\n<p>\u00c9 roubo que 1he fa\u00e7o mui not\u00e1vel;<\/p>\n<p>Se o fa\u00e7o como devo, sei que imprimo<\/p>\n<p>Esc\u00e2ndalo no vulgo vari\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas o dente de Zoilo, nem Minimo,<\/p>\n<p>Estimo muito pouco, que agrad\u00e1vel<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel ser nenhum que canta<\/p>\n<p>Proezas de valor e gl\u00f3ria tanta.<\/p>\n<h2>XLI<\/h2>\n<p>Uma cousa me faz dificuldade<\/p>\n<p>E o esprito prof\u00e9tico me cansa,<\/p>\n<p>A qual \u00e9 ter no vulgo autoridade<\/p>\n<p>S\u00f3 aquilo a que sua for\u00e7a alcan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas, se \u00e9 um caso raro, ou novidade<\/p>\n<p>Das que, de tempo em tempo, o tempo lan\u00e7a,<\/p>\n<p>Tal cr\u00e9dito lhe d\u00e3o, que me lastima<\/p>\n<p>Ver a verdade o pouco que se estima.&#8221;<\/p>\n<h2>XLII<\/h2>\n<p>E prosseguindo (diz: &#8220;que Sol luzente<\/p>\n<p>Vem d\u2019ouro as brancas nuvens perfilando,<\/p>\n<p>Que est\u00e1 com bra\u00e7o ind\u00f4mito e valente<\/p>\n<p>A fama dos antigos eclipsando;<\/p>\n<p>Em quem o esfor\u00e7o todo juntamente<\/p>\n<p>Se est\u00e1 como em seu centro tresladando?<\/p>\n<p>\u00c9 Jorge d&#8217;Albuquerque mais invicto<\/p>\n<p>Que o que desceu ao Reino de Cocito.<\/p>\n<h2>XLIII<\/h2>\n<p>Depois de ter o B\u00e1rbaro difuso<\/p>\n<p>E roto, as portas fechar\u00e1 de Jano,<\/p>\n<p>Por vir ao Reino do valente Luso<\/p>\n<p>E tentar a fortuna do Oceano.&#8221;<\/p>\n<p>Um pouco aqui Proteu, como confuso,<\/p>\n<p>Estava receando o grave dano,<\/p>\n<p>Que havia de acrescer ao claro Her\u00f3i<\/p>\n<p>No Reino aonde vive Cimotoe.<\/p>\n<h2>XLIV<\/h2>\n<p>&#8220;Sei mui certo do fado (prosseguia)<\/p>\n<p>Que trar\u00e1 o Lusitano por designo<\/p>\n<p>Escurecer o esfor\u00e7o e valentia<\/p>\n<p>Do bra\u00e7o Ass\u00edrio, Grego e do Latino.<\/p>\n<p>Mas este pressuposto e fantasia<\/p>\n<p>Lhe tirar\u00e1 de inveja o seu destino,<\/p>\n<p>Que conjurando com os Elementos<\/p>\n<p>Abalar\u00e1 do Mar os fundamentos.<\/p>\n<h3>XLV<\/h3>\n<p>Porque L\u00e9mnio cruel, de quem descende<\/p>\n<p>A B\u00e1rbara prog\u00eanie e insol\u00eancia,<\/p>\n<p>Vendo que o Albuquerque tanto ofende<\/p>\n<p>Gente que dele tem a descend\u00eancia,<\/p>\n<p>Com mil meios il\u00edcitos pretende<\/p>\n<p>Fazer irrepar\u00e1vel resist\u00eancia<\/p>\n<p>Ao claro Jorge, baroil e forte,<\/p>\n<p>Em quem n\u00e3o dominava a v\u00e1ria sorte.<\/p>\n<h3>XLVI<\/h3>\n<p>Na parte mais secreta da mem\u00f3ria,<\/p>\n<p>Ter\u00e1 mui escrita. impressa e estampada<\/p>\n<p>Aquela triste e maranhada Hist\u00f3ria,<\/p>\n<p>Com Marte, sobre V\u00eanus celebrada.<\/p>\n<p>Ver\u00e1 que seu primor e clara gl\u00f3ria<\/p>\n<p>H\u00e1 de ficar em Lete sepultada,<\/p>\n<p>Se o bra\u00e7o Portugu\u00eas vit\u00f3ria alcan\u00e7a<\/p>\n<p>Da na\u00e7\u00e3o que tem nele confian\u00e7a.<\/p>\n<h3>XLVII<\/h3>\n<p>E com rosto cruel e furibundo,<\/p>\n<p>Dos encovados olhos cintilando,<\/p>\n<p>F\u00e9rvido, impaciente, pelo mundo<\/p>\n<p>Andar\u00e1 estas palavras derramando&#8221;:<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4de Nict\u00e9lio s\u00f3 no Mar profundo<\/p>\n<p>Sorver as Naus Me\u00f3nias navegando,<\/p>\n<p>N\u00e3o sendo mor Senhor, nem mais possante<\/p>\n<p>Nem filho mais mimoso do Tonante?<\/p>\n<h3>XLVIII<\/h3>\n<p>E p\u00f4de Juno andar tantos enganos,<\/p>\n<p>Sem raz\u00e3o, contra Tr\u00f3ia maquinando,<\/p>\n<p>E fazer que o Rei justo dos Troianos<\/p>\n<p>Andasse tanto tempo o Mar sulcando?<\/p>\n<p>E que vindo no cabo de dez anos,<\/p>\n<p>De Cila e de Car\u00edbdis escapando,<\/p>\n<p>Chegasse \u00e0 desejada e nova terra,<\/p>\n<p>E c`o Latino Rei tivesse guerra?<\/p>\n<h3>XLIX<\/h3>\n<p>E p\u00f4de Palas subverter no Ponto<\/p>\n<p>O filho de Oileu por causa leve?<\/p>\n<p>Tentar outros casos que n\u00e3o conto<\/p>\n<p>Por me n\u00e3o dar lugar o tempo breve?<\/p>\n<p>E que eu por mil raz\u00f5es, que n\u00e3o aponto,<\/p>\n<p>A quem do fado a lei render se deve,<\/p>\n<p>Do que tenho tentado j\u00e1 desista,<\/p>\n<p>E a gente Lusitana me resista?<\/p>\n<h3>L<\/h3>\n<p>Eu por ventura sou Deus indigete,<\/p>\n<p>Nascido da prog\u00eanie dos humanos,<\/p>\n<p>Ou n\u00e3o entro no n\u00famero dos sete,<\/p>\n<p>Celestes, imortais e soberanos?<\/p>\n<p>A quarta Esfera a mim n\u00e3o se comete?<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho em meu poder os Centimanos?<\/p>\n<p>Jove n\u00e3o tem o C\u00e9u? O Mar, Tridente?<\/p>\n<p>Plut\u00e3o, o Reino da danada gente?<\/p>\n<h3>LI<\/h3>\n<p>Em pre\u00e7o, ser, valor, ou em nobreza,<\/p>\n<p>Qual dos supremos \u00e9 mais qu\u2019eu altivo?<\/p>\n<p>Se Netuno do Mar tem a braveza,<\/p>\n<p>Eu tenho a regi\u00e3o do fogo ativo.<\/p>\n<p>Se Dite aflige as almas com crueza,<\/p>\n<p>E v\u00f3s, Ciclopes tr\u00eas, com fogo vivo,<\/p>\n<p>Se os raios vibra Jove, irado e fero,<\/p>\n<p>Eu na forja do monte lhos tempero.<\/p>\n<h3>LII<\/h3>\n<p>E com ser de t\u00e3o alta Majestade,<\/p>\n<p>N\u00e3o me sabem guardar nenhum respeito?<\/p>\n<p>E um povo t\u00e3o pequeno em quantidade<\/p>\n<p>Tantas batalhas vence a meu despeito?<\/p>\n<p>E que seja agressor de tal maldade<\/p>\n<p>O ad\u00faltero lascivo do meu leito?<\/p>\n<p>N\u00e3o sabe que meu ser ao seu precede,<\/p>\n<p>E que prend\u00ea-lo posso noutra rede?<\/p>\n<h3>LIII<\/h3>\n<p>Mas seu intento n\u00e3o por\u00e1 no fito,<\/p>\n<p>Por mais que contra mim o C\u00e9u conjure,<\/p>\n<p>Que tudo tem em fim termo finito,<\/p>\n<p>E o tempo n\u00e3o h\u00e1 cousa que n\u00e3o cure.<\/p>\n<p>Moverei de Netuno o gr\u00e3o distrito<\/p>\n<p>Para que meu partido mais segure,<\/p>\n<p>E quero ver no fim desta jornada<\/p>\n<p>Se val a Marte escudo, lan\u00e7a, espada.<\/p>\n<h3>LIV<\/h3>\n<p>&#8220;Estas palavras tais, do cruel peito,<\/p>\n<p>Soltar\u00e1 dos Ciclopes o tirano,<\/p>\n<p>As quais procurar\u00e1 p\u00f4r em efeito,<\/p>\n<p>\u00c0s cavernas descendo do Oceano.<\/p>\n<p>E com mostras d\u2019amor brando e aceito,<\/p>\n<p>De ti, Netuno claro e soberano,<\/p>\n<p>Alcan\u00e7ar\u00e1 seu fim: o novo jogo,<\/p>\n<p>Entrar no Reino d\u2019\u00c1gua o Rei do fogo.<\/p>\n<h3>LV<\/h3>\n<p>Logo da P\u00e1tria E\u00f3lia vir\u00e3o ventos,<\/p>\n<p>Todos como esquadr\u00e3o mui bem formado,<\/p>\n<p>Euro, Noto os Mar\u00edtimos assentos<\/p>\n<p>Ter\u00e3o com seu furor demasiado.<\/p>\n<p>Far\u00e1 natura v\u00e1rios movimentos,<\/p>\n<p>O seu Caos repetindo j\u00e1 passado,<\/p>\n<p>De sorte que os var\u00f5es fortes e v\u00e1lidos<\/p>\n<p>De medo mostrar\u00e3o os rostos p\u00e1lidos.<\/p>\n<h3>LVI<\/h3>\n<p>Se Jorge d\u2019Albuquerque soberano,<\/p>\n<p>Com peito juvenil, nunca domado,<\/p>\n<p>Vencer\u00e1 da Fortuna e Mar insano<\/p>\n<p>A braveza e rigor inopinado,<\/p>\n<p>Mil vezes o Argonauta desumano,<\/p>\n<p>Da sede e cruel fome estimulado,<\/p>\n<p>Urdir\u00e1 aos consortes morte dura,<\/p>\n<p>Para dar-lhes no ventre sepultura.<\/p>\n<h3>LVII<\/h3>\n<p>E vendo o Capit\u00e3o qualificado<\/p>\n<p>Empresa t\u00e3o cruel e t\u00e3o inica,<\/p>\n<p>Per meio mui secreto, acomodado,<\/p>\n<p>Dela como conv\u00e9m se certifica.<\/p>\n<p>E, duma gra\u00e7a natural ornado,<\/p>\n<p>Os peitos alterados edifica,<\/p>\n<p>Vencendo, com Tuliana eloq\u00fc\u00eancia,<\/p>\n<p>Do modo que direi, tanta dem\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<h3>LVIII<\/h3>\n<p>&#8211; Companheiros leais, a quem no Coro<\/p>\n<p>Das Musas tem a fama entronizado,<\/p>\n<p>N\u00e3o deveis ignorar, que n\u00e3o ignoro,<\/p>\n<p>Os trabalhos que haveis no Mar passado.<\/p>\n<p>Respondestes \u2018te \u2018gora com o foro,<\/p>\n<p>Devido a nosso Luso celebrado,<\/p>\n<p>Mostrando-vos mais firmes contra a sorte<\/p>\n<p>Do que ela contra n\u00f3s se mostra forte.<\/p>\n<h3>LIX<\/h3>\n<p>V\u00f3s de Cila e Car\u00edbdis escapando,<\/p>\n<p>De mil baixos e sirtes arenosas,<\/p>\n<p>Vindes num lenho c\u00f4ncavo cortando<\/p>\n<p>As inquietas ondas espumosas.<\/p>\n<p>Da fome e da sede o rigor passando,<\/p>\n<p>E outras faltas em fim dificultosas,<\/p>\n<p>Conv\u00e9m-vos aquirir uma for\u00e7a nova,<\/p>\n<p>Que o fim as cousas examina e prova.<\/p>\n<h3>LX<\/h3>\n<p>Olhai o grande gozo e doce gl\u00f3ria<\/p>\n<p>Que tereis quando, postos em descanso,<\/p>\n<p>Contardes esta larga e triste hist\u00f3ria,<\/p>\n<p>Junto do p\u00e1trio lar, seguro e manso.<\/p>\n<p>Que vai da batalha a ter vit\u00f3ria,<\/p>\n<p>O que do Mar inchado a um remanso,<\/p>\n<p>Isso ent\u00e3o haver\u00e1 de vosso estado<\/p>\n<p>Aos males que tiverdes j\u00e1 passado.<\/p>\n<h3>LXI<\/h3>\n<p>Por perigos cru\u00e9is, por casos v\u00e1rios,<\/p>\n<p>Hemos d\u2019entrar no porto Lusitano,<\/p>\n<p>E suposto que temos mil contr\u00e1rios<\/p>\n<p>Que se parcialidam com Vulcano,<\/p>\n<p>De nossa parte os meios ordin\u00e1rios<\/p>\n<p>N\u00e3o faltem, que n\u00e3o falta o Soberano,<\/p>\n<p>Poupai-vos para a pr\u00f3spera fortuna,<\/p>\n<p>E, adversa, n\u00e3o temais por importuna.<\/p>\n<h3>LXII<\/h3>\n<p>Os her\u00f3icos feitos dos antigos<\/p>\n<p>Tende vivos e impressos na mem\u00f3ria:<\/p>\n<p>Ali vereis esfor\u00e7o nos perigos,<\/p>\n<p>Ali ordem na paz, digna de gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ali, com dura morte de inimigos,<\/p>\n<p>Feita imortal a vida transit\u00f3ria,<\/p>\n<p>Ali, no mor quilate de fineza,<\/p>\n<p>Vereis aposentada a Fortaleza.<\/p>\n<h3>LXIII<\/h3>\n<p>Agora escurecer quereis o raio<\/p>\n<p>Destes Bar\u00f5es t\u00e3o claros e eminentes,<\/p>\n<p>Tentando dar princ\u00edpio e dar ensaio<\/p>\n<p>A cousas temer\u00e1rias e indecentes.<\/p>\n<p>Imprimem neste peito tal desmaio<\/p>\n<p>T\u00e3o graves e terr\u00edveis acidentes<\/p>\n<p>Que a dor crescida as for\u00e7as me quebranta,<\/p>\n<p>E se pega a voz d\u00e9bil \u00e0 garganta.<\/p>\n<h3>LXIV<\/h3>\n<p>De que servem proezas e fa\u00e7anhas,<\/p>\n<p>E tentar o rigor da sorte dura?<\/p>\n<p>Que aproveita correr terras estranhas,<\/p>\n<p>Pois faz um torpe fim a fama escura?<\/p>\n<p>Que mais torpe que ver umas entranhas<\/p>\n<p>Humanas dar a humanos sepultura,<\/p>\n<p>Coisa que a natureza e lei impede,<\/p>\n<p>E escassamente \u00e0s Feras s\u00f3 concede.<\/p>\n<h3>LXV<\/h3>\n<p>Mas primeiro crerei que houve Gigantes<\/p>\n<p>De cem m\u00e3os, e da M\u00e3e Terra gerados,<\/p>\n<p>E Quimeras ardentes e flamantes,<\/p>\n<p>Com outros feros monstros encantados;<\/p>\n<p>Primeiro que de peitos t\u00e3o constantes<\/p>\n<p>Veja sair efeitos reprovados,<\/p>\n<p>Que n\u00e3o podem (falando simplesmente)<\/p>\n<p>Nascer trevas da luz resplandecente.<\/p>\n<h3>LXVI<\/h3>\n<p>E se determinais a cega f\u00faria<\/p>\n<p>Executar de t\u00e3o feroz intento,<\/p>\n<p>A mim fazei o mal, a mim a inj\u00faria,<\/p>\n<p>Fiquem livres os mais de tal tormento.<\/p>\n<p>Mas o Senhor que assiste na alta C\u00faria<\/p>\n<p>Um mal atalhar\u00e1 t\u00e3o violento,<\/p>\n<p>Dando-nos brando Mar, vento galerno,<\/p>\n<p>Com que vamos no Minho entrar paterno.<\/p>\n<h3>LXVII<\/h3>\n<p>&#8220;Tais palavras do peito seu magn\u00e2nimo<\/p>\n<p>Lan\u00e7ar\u00e1 o Albuquerque famos\u00edssimo,<\/p>\n<p>Do soldado remisso e pusil\u00e2nimo,<\/p>\n<p>Fazendo com tal pr\u00e1tica fort\u00edssimo.<\/p>\n<p>E assim todos concordes, e num \u00e2nimo,<\/p>\n<p>Vencer\u00e3o o furor do Mar brav\u00edssimo,<\/p>\n<p>At\u00e9 que j\u00e1 a Fortuna, d\u2019enfadada,<\/p>\n<p>Chegar os deixe a P\u00e1tria desejada.<\/p>\n<h3>LXVIII<\/h3>\n<p>\u00c0 Cidade de Ulisses destro\u00e7ados<\/p>\n<p>Chegar\u00e3o da Fortuna e Reino salso,<\/p>\n<p>Os Templos visitando Consagrados,<\/p>\n<p>Em prociss\u00e3o, e cada qual descal\u00e7o.<\/p>\n<p>Desta maneira ficar\u00e3o frustrados<\/p>\n<p>Os pensamentos v\u00e3os de L\u00e9mnio falso,<\/p>\n<p>Que o mau tirar n\u00e3o pode o benef\u00edcio<\/p>\n<p>Que ao bom tem prometido o C\u00e9u prop\u00edcio.<\/p>\n<h3>LXIX<\/h3>\n<p>Neste tempo Sebasto Lusitano,<\/p>\n<p>Rei que domina as \u00e1guas do gr\u00e3o Douro,<\/p>\n<p>Ao Reino passar\u00e1 do Mauritano,<\/p>\n<p>E a lan\u00e7a tingir\u00e1 em sangue Mouro;<\/p>\n<p>O famoso Albuquerque, mais ufano<\/p>\n<p>Que Iason na conquista do veo d\u2019ouro,<\/p>\n<p>E seu Irm\u00e3o, Duarte valeroso,<\/p>\n<p>Ir\u00e3o c`o Rei altivo, Imperioso.<\/p>\n<h3>LXX<\/h3>\n<p>Numa Nau, mais que P\u00edstris, e Centauro,<\/p>\n<p>E que Argos venturosa celebrada,<\/p>\n<p>Partir\u00e3o a ganhar o verde Lauro<\/p>\n<p>\u00c0 regi\u00e3o da secta reprovada.<\/p>\n<p>E depois de chegar ao Reino Mauro,<\/p>\n<p>Os dois irm\u00e3os, com lan\u00e7a e com espada,<\/p>\n<p>Far\u00e3o nos Agarenos mais estrago<\/p>\n<p>Do que em Romanos fez o de Cartago.<\/p>\n<h3>LXXI<\/h3>\n<p>Mas, ah! \u00ednvida sorte, qu\u00e3o incertos<\/p>\n<p>S\u00e3o teus bens e qu\u00e3o certas as mudan\u00e7as;<\/p>\n<p>Qu\u00e3o brevemente cortas os enxertos<\/p>\n<p>A umas mal nascidas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Nos mais riscosos trances, nos apertos,<\/p>\n<p>Entre mortais pelouros, Entre lan\u00e7as,<\/p>\n<p>Prometes triunfal palma e vit\u00f3ria,<\/p>\n<p>Para tirar no fim a fama, a gl\u00f3ria.<\/p>\n<h3>LXXII<\/h3>\n<p>Assim suceder\u00e1 nesta batalha<\/p>\n<p>Ao mal afortunado Rei ufano,<\/p>\n<p>A quem n\u00e3o valer\u00e1 provada malha,<\/p>\n<p>Nem escudo d\u2019obreiros de Vulcano.<\/p>\n<p>Porque no tempo que ele mais trabalha<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria conseguir do Mauritano,<\/p>\n<p>Num momento se v\u00ea cego e confuso,<\/p>\n<p>E com seu esquadr\u00e3o roto e difuso&#8221;.<\/p>\n<h3>LXXIII<\/h3>\n<p>Anteparou aqui Proteu, mudando<\/p>\n<p>As cores e figura monstruosa,<\/p>\n<p>No gesto e movimento seu mostrando<\/p>\n<p>Ser o que h\u00e1 de dizer coisa espantosa.<\/p>\n<p>E com nova efic\u00e1cia come\u00e7ando<\/p>\n<p>A soltar a voz alta e vigorosa,<\/p>\n<p>Estas palavras tais tira do peito,<\/p>\n<p>Que \u00e9 cofre de prof\u00e9tico conceito:<\/p>\n<h3>LXXIV<\/h3>\n<p>&#8220;Entre armas desiguais, entre tambores<\/p>\n<p>De som confuso, rouco e redobrado,<\/p>\n<p>Entre cavalos bravos corredores,<\/p>\n<p>Entre a f\u00faria do p\u00f3, que \u00e9 salitrado;<\/p>\n<p>Entre sanha, furor, entre clamores,<\/p>\n<p>Entre tumulto cego e desmandado,<\/p>\n<p>Entre nuvens de setas Mauritanas,<\/p>\n<p>Andar\u00e1 o Rei das gentes Lusitanas.<\/p>\n<h3>LXXV<\/h3>\n<p>No animal de Netuno, j\u00e1 cansado<\/p>\n<p>Do prolixo combate, e mal ferido,<\/p>\n<p>Ser\u00e1 visto por Jorge sublimado,<\/p>\n<p>Andando quase fora de sentido.<\/p>\n<p>O que vendo o grande Albuquerque ousado,<\/p>\n<p>De t\u00e3o tr\u00e1gico passo condo\u00eddo,<\/p>\n<p>Ao peito fogo dando, aos olhos \u00e1gua,<\/p>\n<p>Tais palavras dir\u00e1, tintas em magoa&#8221;:<\/p>\n<h3>LXXVI<\/h3>\n<p>&#8211; T\u00e3o infelice Rei, como esfor\u00e7ado,<\/p>\n<p>Com l\u00e1grimas de tantos t\u00e3o pedido,<\/p>\n<p>Com l\u00e1grimas de tantos alcan\u00e7ado,<\/p>\n<p>Com l\u00e1grimas do Reino, em fim perdido.<\/p>\n<p>Vejo-vos c`o cavalo j\u00e1 cansado,<\/p>\n<p>A v\u00f3s, nunca cansado, mas ferido,<\/p>\n<p>Salvai em este meu a vossa vida,<\/p>\n<p>Que a minha pouco vai em ser perdida.<\/p>\n<h3>LXXVII<\/h3>\n<p>Em v\u00f3s do Luso Reino a confian\u00e7a<\/p>\n<p>Estriba, como em base s\u00f3, fort\u00edssimo;<\/p>\n<p>Com v\u00f3s ficardes vivo, seguran\u00e7a<\/p>\n<p>Lhe resta de ser sempre florent\u00edssimo.<\/p>\n<p>Entre duros farp\u00f5es e Maura lan\u00e7a,<\/p>\n<p>Deixai este vassalo fidel\u00edssimo,<\/p>\n<p>Que ele far\u00e1 por v\u00f3s mais que Zopiro<\/p>\n<p>Por Dario, at\u00e9 dar final suspiro.<\/p>\n<h3>LXXVIII<\/h3>\n<p>&#8220;Assim dir\u00e1 o Her\u00f3i, e com destreza<\/p>\n<p>Deixar\u00e1 o genete veloc\u00edssimo,<\/p>\n<p>E a seu Rei o dar\u00e1: \u00d3 Portuguesa<\/p>\n<p>Lealdade do tempo florent\u00edssimo!<\/p>\n<p>O Rei Promete, se de tal empresa<\/p>\n<p>Sai vivo, o far\u00e1 senhor grand\u00edssimo,<\/p>\n<p>Mas \u2018te nisto lhe ser\u00e1 avara a sorte,<\/p>\n<p>Pois tudo cubrir\u00e1 com sombra a morte.<\/p>\n<h3>LXXIX<\/h3>\n<p>Com l\u00e1grimas d\u2019amor e de brandura,<\/p>\n<p>De seu Senhor querido ali se espede,<\/p>\n<p>E que a vida importante e mal segura<\/p>\n<p>Assegurasse bem, muito lhe pede,<\/p>\n<p>Torna \u00e0 batalha sanguinosa e dura,<\/p>\n<p>O esquadr\u00e3o rompe dos de Mafamede,<\/p>\n<p>Lastima, fere, corta, fende, mata,<\/p>\n<p>Decepa, apouca, assola, desbarata.<\/p>\n<h3>LXXX<\/h3>\n<p>Com for\u00e7a n\u00e3o domada e alto brio,<\/p>\n<p>Em sangue Mouro todo j\u00e1 banhado,<\/p>\n<p>Do seu vendo correr um caudal Rio,<\/p>\n<p>De giolhos se p\u00f4s, debilitado.<\/p>\n<p>Ali dando a mortais golpes desvio,<\/p>\n<p>De feridas medonhas trespassado,<\/p>\n<p>Ser\u00e1 cativo, e da proterva gente<\/p>\n<p>Maniatado em fim mui cruelmente.<\/p>\n<h3>LXXXI<\/h3>\n<p>Mas adonde me leva o pensamento?<\/p>\n<p>Bem parece que sou caduco e velho,<\/p>\n<p>Pois sepulto no Mar do esquecimento<\/p>\n<p>A Duarte sem par, dito Coelho.<\/p>\n<p>Aqui mister havia um novo alento<\/p>\n<p>Do Poder Divinal e alto Conselho,<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o hai quem feitos tais presuma<\/p>\n<p>A termo reduzir e breve suma.<\/p>\n<h3>LXXXII<\/h3>\n<p>Mas se o C\u00e9u transparente e alta C\u00faria<\/p>\n<p>Me for t\u00e3o favor\u00e1vel, como espero,<\/p>\n<p>Com voz sonora, com crescida f\u00faria,<\/p>\n<p>Hei de cantar Duarte e Jorge fero.<\/p>\n<p>Quero livrar do tempo e sua inj\u00faria<\/p>\n<p>Estes claros Irm\u00e3os, que tanto quero,<\/p>\n<p>Mas, tornando outra vez a triste Hist\u00f3ria,<\/p>\n<p>Um caso direi digno de mem\u00f3ria.<\/p>\n<h3>LXXXIII<\/h3>\n<p>Andava o novo Marte destruindo<\/p>\n<p>Os esquadr\u00f5es soberbos Mauritanos,<\/p>\n<p>Quando sem tino algum viu ir fugindo<\/p>\n<p>Os t\u00edmedos e lassos Lusitanos.<\/p>\n<p>O que de Pura m\u00e1goa n\u00e3o sufrindo<\/p>\n<p>Lhe diz&#8221;; &#8211; Donde vos is, homens insanos?<\/p>\n<p>Que digo: homens, est\u00e1tuas sem sentido,<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o sentis o bem que haveis perdido?<\/p>\n<h3>LXXXIV<\/h3>\n<p>Olhai aquele esfor\u00e7o antigo e puro<\/p>\n<p>Dos \u00ednclitos e fortes Lusitanos,<\/p>\n<p>Da P\u00e1tria e liberdade um firme muro<\/p>\n<p>Verdugo de arrogantes Mauritanos;<\/p>\n<p>Exemplo singular para o futuro<\/p>\n<p>Ditado, e resplandor de nossos anos,<\/p>\n<p>Subjeito mui capaz, mat\u00e9ria digna<\/p>\n<p>Da Mantuana e Hom\u00e9rica Buzina.<\/p>\n<h3>LXXXV<\/h3>\n<p>Ponde isto por espelho, por treslado,<\/p>\n<p>Nesta t\u00e3o temer\u00e1ria e nova empresa.<\/p>\n<p>Nele vereis que tendes j\u00e1 manchado<\/p>\n<p>De vossa descend\u00eancia a fortaleza.<\/p>\n<p>\u00c0 batalha tornai com peito ousado,<\/p>\n<p>Militai sem receio, nem fraqueza,<\/p>\n<p>Olhai que o torpe medo \u00e9 Crocodilo<\/p>\n<p>Que costuma, a quem foge, persegui-lo.<\/p>\n<h3>LXXXVI<\/h3>\n<p>E se o dito a tornar vos n\u00e3o compele,<\/p>\n<p>Vede donde deixais o Rei sublime?<\/p>\n<p>Que conta haveis de dar ao Reino dele?<\/p>\n<p>Que desculpa ter\u00e1, t\u00e3o grave crime?<\/p>\n<p>Quem haver\u00e1 que por trai\u00e7\u00e3o n\u00e3o sele<\/p>\n<p>Um mal que tanto mal no mundo imprime?<\/p>\n<p>Tornai, tornai, invictos Portugueses,<\/p>\n<p>Cerceai malhas e fendei arneses.<\/p>\n<h3>LXXXVII<\/h3>\n<p>&#8220;Assim dir\u00e1: mas eles sem respeito<\/p>\n<p>\u00c0 honra e ser de seus antepassados<\/p>\n<p>Com p\u00e1lido temor no frio peito,<\/p>\n<p>Ir\u00e3o por v\u00e1rias partes derramados.<\/p>\n<p>Duarte, vendo neles tal defeito,<\/p>\n<p>Lhe dir\u00e1&#8221;: &#8211; Cora\u00e7\u00f5es efeminados,<\/p>\n<p>L\u00e1 contareis aos vivos o que vistes,<\/p>\n<p>Porque eu direi aos mortos que fugistes.<\/p>\n<h3>LXXXVIII<\/h3>\n<p>&#8220;Neste passo carrega a Maura for\u00e7a<\/p>\n<p>Sobre o Bar\u00e3o insigne e velicoso;<\/p>\n<p>Ele, onde v\u00ea mais for\u00e7a, ali se esfor\u00e7a,<\/p>\n<p>Mostrando-se no fim mais animoso.<\/p>\n<p>Mas o fado, que quer que a raz\u00e3o tor\u00e7a.<\/p>\n<p>O caminho mais reto e proveitoso,<\/p>\n<p>Far\u00e1 que num momento abreviado<\/p>\n<p>Seja cativo, preso e mal tratado.<\/p>\n<h3>LXXXIX<\/h3>\n<p>Eis ambos os irm\u00e3os em cativeiro.<\/p>\n<p>De peitos t\u00e3o protervos e obstinados,<\/p>\n<p>Por c\u00f3pia inumer\u00e1vel de dinheiro<\/p>\n<p>Ser\u00e3o (segundo vejo) resgatados.<\/p>\n<p>Mas o resgate e pre\u00e7o verdadeiro,<\/p>\n<p>Por quem os homens foram libertados,<\/p>\n<p>Chamar\u00e1 neste tempo o gr\u00e3o Duarte,<\/p>\n<p>Para no claro Olimpo lhe dar parte.<\/p>\n<h3>XC<\/h3>\n<p>\u00d3 Alma t\u00e3o ditosa como pura,<\/p>\n<p>Parte a gozar dos dotes dessa gl\u00f3ria,<\/p>\n<p>Donde ter\u00e1s a vida t\u00e3o segura,<\/p>\n<p>Quanto tem de mudan\u00e7a a transit\u00f3ria!<\/p>\n<p>Goza l\u00e1 dessa luz que sempre dura;<\/p>\n<p>No mundo gozar\u00e1s da larga hist\u00f3ria,<\/p>\n<p>Ficando no lustroso e rico Templo<\/p>\n<p>Da Ninfa Gigantea por exemplo.<\/p>\n<h3>XCI<\/h3>\n<p>Mas, enquanto te d\u00e3o a sepultura,<\/p>\n<p>Contemplo a tua Olinda celebrada,<\/p>\n<p>Coberta de f\u00fanebre vestidura,<\/p>\n<p>Inculta, sem fei\u00e7\u00e3o, descabelada.<\/p>\n<p>Quero-a deixar chorar morte t\u00e3o dura<\/p>\n<p>\u2018T\u00e9 que seja de Jorge consolada,<\/p>\n<p>Que por ti na Ulissea fica em pranto,<\/p>\n<p>Em quanto me disponho a novo Canto.<\/p>\n<h3>XCII<\/h3>\n<p>N\u00e3o mais, esprito meu, que estou cansado,<\/p>\n<p>Deste difuso, largo e triste Canto,<\/p>\n<p>Que o mais ser\u00e1 de mim depois cantado<\/p>\n<p>Por tal modo, que cause ao mundo espanto.<\/p>\n<p>J\u00e1 no balc\u00e3o do C\u00e9u o seu toucado<\/p>\n<p>Solta V\u00eanus, mostrando o rosto Sancto;<\/p>\n<p>Eu tenho respondido c`o mandado<\/p>\n<p>Que mandaste Netuno sublimado&#8221;.<\/p>\n<h3>XCIII<\/h3>\n<p>Assim diz; e com alta Majestade<\/p>\n<p>O Rei do Salso Reino, ali falando,<\/p>\n<p>Diz: &#8211; Em satisfa\u00e7\u00e3o da tempestade<\/p>\n<p>Que mandei a Albuquerque venerando,<\/p>\n<p>Pretendo que a mortal posteridade<\/p>\n<p>Com Hinos o ande sempre sublimando,<\/p>\n<p>Quando vir que por ti o foi primeiro,<\/p>\n<p>Com fat\u00eddico esprito verdadeiro.<\/p>\n<p>Ep\u00edlogo<\/p>\n<h3>XCIV<\/h3>\n<p>Aqui deu [fim] a tudo, e brevemente<\/p>\n<p>Entra no Carro [de] Cristal lustroso;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s dele a demais Cer\u00falea gente<\/p>\n<p>Cortando a veia vai do Reino acoso.<\/p>\n<p>Eu que a tal espet\u00e1culo presente<\/p>\n<p>Estive, quis em Verso numeroso<\/p>\n<p>Escrev\u00ea-lo por ver que assim convinha<\/p>\n<p>Para mais perfei\u00e7\u00e3o da Musa minha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Canto de Proteu Descri\u00e7\u00e3o do Recife de Pernambuco Prosopop\u00e9ia &nbsp; Canto de Proteu Pelos ares retumbe o grave acento, De minha rouca voz, confusa, e lenta, Qual trov\u00e3o espantoso, e violento, De repentina, e h\u00f3rrida tormenta. Ao rio de Aqueronte turbulento, Que em sulf\u00fareas borbulhas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-93147","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Poesias - Bento Teixeira, Literatura Poesias - Bento Teixeira<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Poesias - Bento Teixeira, Literatura, Prosopop\u00e9ia, Descri\u00e7\u00e3o do Recife de Pernambuco, Canto de Proteu, Poesias - Bento Teixeira\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Poesias - Bento Teixeira, Literatura Poesias - Bento Teixeira\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Poesias - Bento Teixeira, Literatura, Prosopop\u00e9ia, Descri\u00e7\u00e3o do Recife de Pernambuco, Canto de Proteu, Poesias - Bento Teixeira\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poesias-bento-teixeira\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-06T17:00:50+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"29 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poesias-bento-teixeira#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poesias-bento-teixeira\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Poesias &#8211; 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