{"id":93054,"date":"2017-01-06T11:30:34","date_gmt":"2017-01-06T13:30:34","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=93054"},"modified":"2017-01-06T11:30:34","modified_gmt":"2017-01-06T13:30:34","slug":"poemas-basilio-da-gama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poemas-basilio-da-gama","title":{"rendered":"Poemas &#8211; Bas\u00edlio da Gama"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"2\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"159\" height=\"33\">\n<div align=\"center\"><a href=\"#1\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Morte<br \/>\nde Lind\u00f3ia<\/span><\/strong><\/a><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"154\">\n<div align=\"center\"><a href=\"#2\"><strong><span style=\"font-size: small;\">O<br \/>\nUruguai<\/span><\/strong><\/a><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Morte de Lind\u00f3ia<\/h2>\n<p class=\"imagem\">Um frio susto corre pelas veias<\/p>\n<p class=\"imagem\">De Caitutu que deixa os seus no campo;<\/p>\n<p class=\"imagem\">E a irm\u00e3 por entre as sombras do arvoredo<\/p>\n<p class=\"imagem\">Busca com a vista, e treme de encontr\u00e1-la.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Entram enfim na mais remota, e interna<\/p>\n<p class=\"imagem\">Parte de antigo bosque, escuro e negro,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Onde, ao p\u00e9 duma lapa cavernosa,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Cobre uma rouca fonte, que murmura,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Curva latada e jasmins e rosas.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Este lugar delicioso e triste,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Cansada de viver, tinha escolhido<\/p>\n<p class=\"imagem\">Para morrer a m\u00edsera Lind\u00f3ia.<\/p>\n<p class=\"imagem\">L\u00e1 reclinada, como que dormia,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Na branda relva e nas mimosas flores,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Tinha a face na m\u00e3o e a m\u00e3o no tronco<\/p>\n<p class=\"imagem\">Dum f\u00fanebre cipreste, que espalhava<\/p>\n<p class=\"imagem\">Melanc\u00f3lica sombra. Mais de perto<\/p>\n<p class=\"imagem\">Descobrem que se enrola no seu corpo<\/p>\n<p class=\"imagem\">Verde serpente, e lhe passeia e cinge<\/p>\n<p class=\"imagem\">Pesco\u00e7o e bra\u00e7os, e lhe lambe o seio.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Fogem de a ver assim sobressaltados<\/p>\n<p class=\"imagem\">E param cheios de temor ao longe;<\/p>\n<p class=\"imagem\">E nem se atrevem a cham\u00e1-la e temem<\/p>\n<p class=\"imagem\">Que desperte assustada e irrite o monstro,<\/p>\n<p class=\"imagem\">E fuja, e apresse no fugir a morte.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Por\u00e9m o destro Caitutu, que treme<\/p>\n<p class=\"imagem\">Do perigo da irm\u00e3, sem mais demora<\/p>\n<p class=\"imagem\">Dobrou as pontas do arco, e quis tr\u00eas vezes<\/p>\n<p class=\"imagem\">Soltar o tiro, e vacilou tr\u00eas vezes<\/p>\n<p class=\"imagem\">Entre a ira e o temor. Enfim sacode<\/p>\n<p class=\"imagem\">O arco e faz voar a aguda seta,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Que toca o peito de Lind\u00f3ia e fere<\/p>\n<p class=\"imagem\">A serpente na testa, e a boca e os dentes<\/p>\n<p class=\"imagem\">Deixou cravados no vizinho tronco.<\/p>\n<p class=\"imagem\">A\u00e7oita o campo com a ligeira cauda<\/p>\n<p class=\"imagem\">O irado monstro, e em tortuosos giros<\/p>\n<p class=\"imagem\">Se enrosca no cipreste, e verte envolto<\/p>\n<p class=\"imagem\">Em negro sangue o l\u00edvido veneno.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Leva nos bra\u00e7os a infeliz Lind\u00f3ia<\/p>\n<p class=\"imagem\">O desgra\u00e7ado irm\u00e3o, que ao despert\u00e1-la<\/p>\n<p class=\"imagem\">Conhece, com que dor! no frio rosto<\/p>\n<p class=\"imagem\">Os sinais do veneno, e v\u00ea ferido<\/p>\n<p class=\"imagem\">Pelo dente sutil o brando peito.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Os olhos, em que Amor reinava, um dia,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Cheios de morte; e muda aquela l\u00edngua,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes<\/p>\n<p class=\"imagem\">Contou a larga hist\u00f3ria de seus males.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Nos olhos Caitutu n\u00e3o sofre o pranto,<\/p>\n<p class=\"imagem\">E rompe em profund\u00edssimos suspiros,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Lendo na testa da fronteira gruta<\/p>\n<p class=\"imagem\">De sua m\u00e3o j\u00e1 tr\u00eamula gravado<\/p>\n<p class=\"imagem\">O alheio crime, e a volunt\u00e1ria morte.<\/p>\n<p class=\"imagem\">E por todas as partes repetido<\/p>\n<p class=\"imagem\">O suspirado nome de Cacambo.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Inda conserva o p\u00e1lido semblante<\/p>\n<p class=\"imagem\">Um n\u00e3o sei qu\u00ea de magoado, e triste,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Que os cora\u00e7\u00f5es mais duros enternece.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Tanto era bela no seu rosto a morte!<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>O Uruguai<\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"imagem\">&#8220;At specus, et Caci detecta apparuit ingens<br \/>\nRegia, et umbrosae penitus patuere cavernae.&#8221;<br \/>\nVIRG. A Eneid. Lib. VIII.<\/p>\n<p class=\"imagem\">AO ILUSTR\u00cdSSIMO E EXCELENT\u00cdSSIMO<\/p>\n<p class=\"imagem\">SENHOR CONDE DE OEIRAS<\/p>\n<h4>SONETO<\/h4>\n<p class=\"imagem\">Ergue de jaspe um globo alvo e rotundo,<br \/>\nE em cima a est\u00e1tua de um Her\u00f3i perfeito;<br \/>\nMas n\u00e3o lhe lavres nome em campo estreito,<br \/>\nQue o seu nome enche a terra e o mar profundo.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Mostra na jaspe, art\u00edfice facundo,<br \/>\nEm muda hist\u00f3ria tanto ilustre feito,<br \/>\nPaz, Justi\u00e7a, Abund\u00e2ncia e firme peito,<br \/>\nIsto nos basta a n\u00f3s e ao nosso mundo.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Mas porque pode em s\u00e9culo futuro,<br \/>\nPeregrino, que o mar de n\u00f3s afasta,<br \/>\nDuvidar quem anima o jaspe duro,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Mostra-lhe mais Lisboa rica e vasta,<br \/>\nE o Com\u00e9rcio, e em lugar remoto e escuro,<br \/>\nChorando a Hipocrisia. Isto lhe basta.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Do autor.<\/p>\n<p class=\"imagem\">&#8220;&#8230; saevis&#8230; periclis\/Servati facimus.&#8221;<\/p>\n<p class=\"imagem\">VIRG. A En. viii.<\/p>\n<h4>CANTO PRIMEIRO<\/h4>\n<p class=\"imagem\">Fumam ainda nas desertas praias<br \/>\nLagos de sangue t\u00e9pidos e impuros<br \/>\nEm que ondeiam cad\u00e1veres despidos,<br \/>\nPasto de corvos. Dura inda nos vales<br \/>\nO rouco som da irada artilheria.<br \/>\nMUSA, honremos o Her\u00f3i que o povo rude<br \/>\nSubjugou do Uraguai, e no seu sangue<br \/>\nDos decretos reais lavou a afronta.<br \/>\nAi tanto custas, ambi\u00e7\u00e3o de imp\u00e9rio!<br \/>\nE V\u00f3s, por quem o Maranh\u00e3o pendura<\/p>\n<p class=\"imagem\">Rotas cadeias e grilh\u00f5es pesados,<br \/>\nHer\u00f3i e irm\u00e3o de her\u00f3is, saudosa e triste<br \/>\nSe ao longe a vossa Am\u00e9rica vos lembra,<br \/>\nProtegei os meus versos. Possa entanto<br \/>\nAcostumar ao v\u00f4o as novas asas<br \/>\nEm que um dia vos leve. Desta sorte<br \/>\nMedrosa deixa o ninho a vez primeira<br \/>\n\u00c1guia, que depois foge \u00e0 humilde terra<br \/>\nE vai ver de mais perto no ar vazio<br \/>\nO espa\u00e7o azul, onde n\u00e3o chega o raio.<br \/>\nJ\u00e1 dos olhos o v\u00e9u tinha rasgado<br \/>\nA enganada Madri, e ao Novo Mundo<br \/>\nDa vontade do Rei n\u00fancio severo<br \/>\nAportava Cat\u00e2neo: e ao grande Andrade<br \/>\nAvisa que tem prontos os socorros<br \/>\nE que em breve sa\u00eda ao campo armado.<br \/>\nN\u00e3o podia marchar por um deserto<br \/>\nO nosso General, sem que chegassem<br \/>\nAs condu\u00e7\u00f5es, que h\u00e1 muito tempo espera.<br \/>\nJ\u00e1 por dilatad\u00edssimos caminhos<br \/>\nTinha mandado de remotas partes<br \/>\nConduzir os petrechos para a guerra.<br \/>\nMas entretanto cuidadoso e triste<br \/>\nMuitas cousas a um tempo revolvia<br \/>\nNo inquieto agitado pensamento.<br \/>\nQuando pelos seus guardas conduzido<br \/>\nUm \u00edndio, com ins\u00edgnias de correio,<br \/>\nCom cerim\u00f4nia estranha lhe apresenta<br \/>\nHumilde as cartas, que primeiro toca<br \/>\nLevemente na boca e na cabe\u00e7a.<br \/>\nConhece a fiel m\u00e3o e j\u00e1 descansa<br \/>\nO ilustre General, que viu, rasgando,<br \/>\nQue na cera encarnada impressa vinha<br \/>\nA \u00e1guia real do generoso Almeida.<br \/>\nDiz-lhe que est\u00e1 vizinho e traz consigo,<br \/>\nProntos para o caminho e para a guerra,<br \/>\nOs fogosos cavalos e os robustos<br \/>\nE tardos bois que h\u00e3o de sofrer o jugo<br \/>\nNo pesado exerc\u00edcio das carretas.<br \/>\nN\u00e3o tem mais que esperar, e sem demora<br \/>\nResponde ao castelhano que partia,<br \/>\nE lhe determinou lugar e tempo<br \/>\nPara unir os socorros ao seu campo.<br \/>\nJuntos enfim, e um corpo do outro \u00e0 vista,<br \/>\nFez desfilar as tropas pelo plano,<br \/>\nPor que visse o espanhol em campo largo<br \/>\nA nobre gente e as armas que trazia.<br \/>\nV\u00e3o passando as esquadras: ele entanto<br \/>\nTudo nota de parte e tudo observa<br \/>\nEncostado ao bast\u00e3o. Ligeira e leve<br \/>\nPassou primeiro a guarda, que na guerra<br \/>\n\u00c9 primeira a marchar, e que a seu cargo<br \/>\nTem descobrir e segurar o campo.<br \/>\nDepois desta se segue a que descreve<br \/>\nE d\u00e1 ao campo a ordem e a figura,<br \/>\nE transporta e edifica em um momento<br \/>\nO leve teto e as movedi\u00e7as casas,<br \/>\nE a pra\u00e7a e as ruas da cidade errante.<br \/>\nAtr\u00e1s dos for\u00e7os\u00edssimos cavalos<br \/>\nQuentes sonoros eixos v\u00e3o gemendo<br \/>\nCo\u2019 peso da funesta artilheria.<br \/>\nVinha logo de guardas rodeado<br \/>\n&#8211; Fontes de crimes &#8211; militar tesouro,<br \/>\nPor quem deixa no rego o curvo arado<br \/>\nO lavrador, que n\u00e3o conhece a gl\u00f3ria;<br \/>\nE vendendo a vil pre\u00e7o o sangue e a vida<br \/>\nMove, e nem sabe por que move, a guerra.<br \/>\nIntr\u00e9pidos e im\u00f3veis nas fileiras,<br \/>\nCom grandes passos, firme a testa e os olhos<br \/>\nV\u00e3o marchando os mitrados granadeiros,<br \/>\nSobre ligeiras rodas conduzindo<br \/>\nNovas esp\u00e9cies de fundidos bronzes<br \/>\nQue ami\u00fadam, de prontas m\u00e3os servidos,<br \/>\nE multiplicam pelo campo a morte.<br \/>\nQue \u00e9 este, Cat\u00e2neo perguntava,<br \/>\nDas brancas plumas e de azul e branco<br \/>\nVestido, e de gal\u00f5es coberto e cheio,<br \/>\nQue traz a rica cruz no largo peito?<br \/>\nGeraldo, que os conhece, lhe responde:<br \/>\n\u00c9 o ilustre Meneses, mais que todos<br \/>\nForte de bra\u00e7o e forte de conselho.<br \/>\nToda essa guerreira infanteria,<br \/>\nA flor da mocidade e da nobreza<br \/>\nComo ele azul e branco e ouro vestem.<br \/>\nQuem \u00e9, continuava o castelhano,<br \/>\nAquele velho vigoroso e forte,<br \/>\nQue de branco e amarelo e de ouro ornado<br \/>\nVem os seus artilheiros conduzindo?<br \/>\nV\u00eas o grande alpoim. Este o primeiro<br \/>\nEnsinou entre n\u00f3s por que caminho<br \/>\nSe eleva aos c\u00e9us a curva e grave bomba<br \/>\nPrenhe de fogo; e com que for\u00e7a do alto<br \/>\nAbate os tetos da cidade e lan\u00e7a<br \/>\nDo roto seio envolta em fumo a morte.<br \/>\nSeguiam juntos o paterno exemplo<br \/>\nDignos do grande pai ambos os filhos.<br \/>\nJustos c\u00e9us! E \u00e9 for\u00e7oso, ilustre Vasco,<br \/>\nQue te preparem as soberbas ondas,<br \/>\nLonge de mim, a morte e a sepultura?<br \/>\nNinfas do amor, que vistes, se \u00e9 que vistes,<br \/>\nO rosto esmorecido e os frios bra\u00e7os,<br \/>\nSobre os olhos soltai as verdes tran\u00e7as.<br \/>\nTriste objeto de m\u00e1goa e de saudade,<br \/>\nComo em meu cora\u00e7\u00e3o, vive em meus versos.<br \/>\nCom os teus encarnados granadeiros<br \/>\nTamb\u00e9m te viu naquele dia o campo,<br \/>\nFamoso Mascarenhas, tu, que agora<br \/>\nEm doce paz, nos menos firmes anos,<br \/>\nIgualmente servindo ao rei e \u00e0 p\u00e1tria,<br \/>\nDitas as leis ao p\u00fablico sossego,<br \/>\nHonra de Toga e gl\u00f3ria do Senado.<br \/>\nNem tu, Castro fort\u00edssimo, escolheste<br \/>\nO descanso da p\u00e1tria: o campo e as armas<br \/>\nFizeram renovar no \u00ednclito peito<br \/>\nTodo o her\u00f3ico valor dos teus passados.<br \/>\nOs \u00faltimos que em campo se mostraram<br \/>\nForam fortes drag\u00f5es de duros peitos,<br \/>\nProntos para dous g\u00eaneros de guerra,<br \/>\nQue pelejam a p\u00e9 sobre as montanhas,<br \/>\nQuando o pede o terreno; e quando o pede<br \/>\nErguem nuvens de p\u00f3 por todo o campo<br \/>\nCo\u2019 tropel dos magn\u00e2nimos cavalos.<br \/>\nConvida o General depois da mostra,<br \/>\nPago da militar guerreira imagem,<br \/>\nOs seus e os espanh\u00f3is; e j\u00e1 recebe<br \/>\nNo pavilh\u00e3o purp\u00fareo, em largo giro,<br \/>\nOs capit\u00e3es a alegre e rica mesa.<br \/>\nDesterram-se os cuidados, derramando<br \/>\nOs vinhos europeus nas ta\u00e7as de ouro.<br \/>\nAo som da eb\u00farnea c\u00edtara sonora<br \/>\nArrebatado de furor divino<br \/>\nDo seu her\u00f3i, Mat\u00fasio celebrava<br \/>\nAltas empresas dignas de mem\u00f3ria.<br \/>\nHonras futuras lhe promete, e canta<br \/>\nOs seus bras\u00f5es, e sobre o forte escudo<br \/>\nJ\u00e1 de ent\u00e3o lhe afigura e lhe descreve<br \/>\nAs p\u00e9rolas e o t\u00edtulo de Grande.<br \/>\nLevantadas as mesas, entretinham<br \/>\nO congresso de her\u00f3is discursos v\u00e1rios.<br \/>\nAli Cat\u00e2neo ao General pedia<br \/>\nQue do princ\u00edpio lhe dissesse as causas<br \/>\nDa nova guerra e do fatal tumulto.<br \/>\nSe aos Padres seguem os rebeldes povos?<br \/>\nQuem os governa em paz e na peleja?<br \/>\nQue do premeditado oculto Imp\u00e9rio<br \/>\nVagamente na Europa se falava<br \/>\nNos seus lugares cada qual im\u00f3vel<br \/>\nPende da sua boca: atende em roda<br \/>\nTudo em sil\u00eancio, e d\u00e1 princ\u00edpio Andrade:<br \/>\nO nosso \u00faltimo rei e o rei de Espanha<br \/>\nDeterminaram, por cortar de um golpe,<br \/>\nComo sabeis, neste \u00e2ngulo da terra,<br \/>\nAs desordens de povos confinantes,<br \/>\nQue mais certos sinais nos dividissem<br \/>\nTirando a linha de onde a est\u00e9ril costa,<br \/>\nE o cerro de Castilhos o mar lava<br \/>\nAo monte mais vizinho, e que as vertentes<br \/>\nOs termos do dom\u00ednio assinalassem.<br \/>\nVossa fica a Col\u00f4nia, e ficam nossos<br \/>\nSete povos, que os B\u00e1rbaros habitam<br \/>\nNaquela oriental vasta campina<br \/>\nQue o f\u00e9rtil Uraguai discorre e banha.<br \/>\nQuem podia esperar que uns \u00edndios rudes,<br \/>\nSem disciplina, sem valor, sem armas,<br \/>\nSe atravessassem no caminho aos nossos,<br \/>\nE que lhes disputassem o terreno!<br \/>\nEnfim n\u00e3o lhes dei ordens para a guerra:<br \/>\nFrustrada a expedi\u00e7\u00e3o, enfim voltaram.<br \/>\nCo\u2019 vosso general me determino<br \/>\nA entrar no campo juntos, em chegando<br \/>\nA doce volta da esta\u00e7\u00e3o das flores.<br \/>\nN\u00e3o sofrem tanto os \u00edndios atrevidos:<br \/>\nJuntos um nosso forte entanto assaltam.<br \/>\nE os padres os incitam e acompanham.<br \/>\nQue, \u00e0 sua discri\u00e7\u00e3o, s\u00f3 eles podem<br \/>\nAqui mover ou sossegar a guerra.<br \/>\nOs \u00edndios que ficaram prisioneiros<br \/>\nAinda os podeis ver neste meu campo.<br \/>\nDeixados os quart\u00e9is, enfim partimos<br \/>\nPor diversas estradas, procurando<br \/>\nTomar no meio os rebelados povos.<br \/>\nPor muitas l\u00e9guas de \u00e1spero caminho,<br \/>\nPor lagos, bosques, vales e montanhas,<br \/>\nChegamos onde nos impede o passo<br \/>\nArrebatado e caudaloso rio.<br \/>\nPor toda a oposta margem se descobre<br \/>\nDe b\u00e1rbaros o n\u00famero infinito<br \/>\nQue ao longe nos insulta e nos espera.<br \/>\nPreparo curvas balsas e pelotas,<br \/>\nE em uma parte de passar aceno,<br \/>\nEnquanto em outra passo oculto as tropas.<br \/>\nQuase tocava o fim da empresa, quando<br \/>\nDo vosso general um mensageiro<br \/>\nMe afirma que se havia retirado:<br \/>\nA disciplina militar dos \u00edndios<br \/>\nTinha esterilizado aqueles campos.<br \/>\nQue eu tamb\u00e9m me retire, me aconselha,<br \/>\nAt\u00e9 que o tempo mostre outro caminho.<br \/>\nIrado, n\u00e3o o nego, lhe respondo:<br \/>\nQue para tr\u00e1s n\u00e3o sei mover um passo.<br \/>\nVenha quando puder, que eu firme o espero.<br \/>\nPor\u00e9m o rio e a forma do terreno<br \/>\nNos faz n\u00e3o vista e nunca usada guerra.<br \/>\nSai furioso do seu seio, e toda<br \/>\nVai alagando com o desmedido<br \/>\nPeso das \u00e1guas a plan\u00edcie imensa.<br \/>\nAs tendas levantei, primeiro aos troncos,<br \/>\nDepois aos altos ramos: pouco a pouco<br \/>\nFomos tomar na regi\u00e3o do vento<br \/>\nA habita\u00e7\u00e3o aos leves passarinhos.<br \/>\nTece o emaranhad\u00edssimo arvoredo<br \/>\nVerdes, irregulares, e torcidas<br \/>\nRuas e pra\u00e7as, de uma e de outra banda<br \/>\nCruzadas de canoas. Tais podemos<br \/>\nCo\u2019a mistura das luzes, e das sombras<br \/>\nVer por meio de um vidro transplantados<br \/>\nAo seio de \u00c1dria os nobres edif\u00edcios,<br \/>\nE os jardins, que produz outro elemento.<br \/>\nE batidas do remo, e naveg\u00e1veis<br \/>\nAs ruas da mar\u00edtima Veneza.<br \/>\nDuas vezes a lua prateada<br \/>\nCurvou no c\u00e9u sereno os alvos cornos,<br \/>\nE inda continuava a grossa enchente.<br \/>\nTudo nos falta no pa\u00eds deserto.<br \/>\nTardar devia o espanhol socorro.<br \/>\nE de si nos lan\u00e7ava o rio e o tempo.<br \/>\nCedi, e retirei-me \u00e0s nossas terras.<br \/>\nDeu fim \u00e0 narra\u00e7\u00e3o o invicto Andrade<br \/>\nE antes de se soltar o ajuntamento,<br \/>\nCom os r\u00e9gios poderes, que ocultara,<br \/>\nSurpreende os seus, e os \u00e2nimos alegra,<br \/>\nEnchendo os postos todos do seu campo.<br \/>\nO corpo de drag\u00f5es a Almeida entrega,<br \/>\nE Campo das Merc\u00eas o lugar chama.<\/p>\n<h4>CANTO SEGUNDO<\/h4>\n<p class=\"imagem\">Depois de haver marchado muitos dias<br \/>\nEnfim junto a um ribeiro, que atravessa<br \/>\nSereno e manso um curvo e fresco vale,<br \/>\nAcharam, os que o campo descobriram,<br \/>\nUm cavalo anelante, e o peito e as ancas<br \/>\nCoberto de suor e branca escuma.<br \/>\nTemos perto o inimigo: aos seus dizia<br \/>\nO esperto General: Sei que costumam<br \/>\nTrazer os \u00edndios um vol\u00favel la\u00e7o,<br \/>\nCom o qual tomam no espa\u00e7oso campo<br \/>\nOs cavalos que encontram; e rendidos<br \/>\nAqui e ali com o continuado<br \/>\nGalopear, a quem primeiro os segue<br \/>\nDeixam os seus, que entanto se restauram.<br \/>\nNem se enganou; porque ao terceiro dia<br \/>\nFormados os achou sobre uma larga<br \/>\nVentajosa colina, que de um lado<br \/>\n\u00c9 coberta de um bosque e do outro lado<br \/>\nCorre escarpada e sobranceira a um rio.<br \/>\nNotava o General o s\u00edtio forte,<br \/>\nQuando Meneses, que vizinho estava,<br \/>\nLhe diz: Nestes desertos encontramos<br \/>\nMais do que se esperava, e me parece<br \/>\nQue s\u00f3 por for\u00e7a de armas poderemos<br \/>\nInteiramente sujeitar os povos.<br \/>\nTorna-lhe o General: Tentem-se os meios<br \/>\nDe brandura e de amor; se isto n\u00e3o basta,<br \/>\nFarei a meu pesar o \u00faltimo esfor\u00e7o.<br \/>\nMandou, dizendo assim, que os \u00edndios todos<br \/>\nQue tinha prisioneiros no seu campo<br \/>\nFossem vestidos das formosas cores,<br \/>\nQue a inculta gente simples tanto adora.<br \/>\nAbra\u00e7ou-os a todos, como filhos,<br \/>\nE deu a todos liberdade. Alegres<br \/>\nV\u00e3o buscar os parentes e os amigos,<br \/>\nE a uns e a outros contam a grandeza<br \/>\nDo excelso cora\u00e7\u00e3o e peito nobre<br \/>\nDo General famoso, invicto Andrade.<br \/>\nJ\u00e1 para o nosso campo v\u00eam descendo,<br \/>\nPor mandado dos seus, dous dos mais nobres.<br \/>\nSem arcos, sem aljavas; mas as testas<br \/>\nDe v\u00e1rias e altas penas coroadas,<br \/>\nE cercadas de penas as cinturas,<br \/>\nE os p\u00e9s, e os bra\u00e7os e o pesco\u00e7o. Entrara<br \/>\nSem mostras nem sinal de cortesia<br \/>\nSep\u00e9 no pavilh\u00e3o. Por\u00e9m Cacambo<br \/>\nFez, ao seu modo, cortesia estranha,<br \/>\nE come\u00e7ou: \u00d3 General famoso,<br \/>\nTu tens \u00e0 vista quanta gente bebe<br \/>\nDo soberbo Uraguai a esquerda margem.<br \/>\nBem que os nossos av\u00f4s fossem despojo<br \/>\nDa perf\u00eddia de Europa, e daqui mesmo<br \/>\nCo\u2019s n\u00e3o vingados ossos dos parentes<br \/>\nSe vejam branquejar ao longe os vales,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Eu, desarmado e s\u00f3, buscar-te venho.<br \/>\nTanto espero de ti. E enquanto as armas<br \/>\nD\u00e3o lugar \u00e0 raz\u00e3o, senhor, vejamos<br \/>\nSe se pode salvar a vida e o sangue<br \/>\nDe tantos desgra\u00e7ados. Muito tempo<br \/>\nPode ainda tardar-nos o recurso<br \/>\nCom o largo oceano de permeio,<br \/>\nEm que os suspiros dos vexados povos<br \/>\nPerdem o alento. O dilatar-se a entrega<br \/>\nEst\u00e1 nas nossas m\u00e3os, at\u00e9 que um dia<br \/>\nInformados os reis nos restituam<br \/>\nA doce antiga paz. Se o rei de Espanha<br \/>\nAo teu rei quer dar terras com m\u00e3o larga<br \/>\nQue lhe d\u00ea Buenos Aires, e Correntes<br \/>\nE outras, que tem por estes vastos climas;<br \/>\nPor\u00e9m n\u00e3o pode dar-lhes os nossos povos.<br \/>\nE inda no caso que pudesse d\u00e1-los,<br \/>\nEu n\u00e3o sei se o teu rei sabe o que troca<br \/>\nPor\u00e9m tenho receio que o n\u00e3o saiba.<br \/>\nEu j\u00e1 vi a Col\u00f4nia portuguesa<br \/>\nNa tenra idade dos primeiros anos,<br \/>\nQuando o meu velho pai cos nossos arcos<br \/>\n\u00c0s sitiadoras tropas castelhanas<br \/>\nDeu socorro, e mediu convosco as armas.<br \/>\nE querer\u00e3o deixar os portugueses<br \/>\nA pra\u00e7a, que avassala e que domina<br \/>\nO gigante das \u00e1guas, e com ela<br \/>\nToda a navega\u00e7\u00e3o do largo rio,<br \/>\nQue parece que p\u00f4s a natureza<br \/>\nPara servir-vos de limite e raia?<br \/>\nSer\u00e1; mas n\u00e3o o creio. E depois disto<br \/>\nAs campinas que v\u00eas e a nossa terra<br \/>\nSem o nosso suor e os nossos bra\u00e7os,<br \/>\nDe que serve ao teu rei? Aqui n\u00e3o temos<br \/>\nNem altas minas, nem caudalosos<\/p>\n<p class=\"imagem\">Aqui n\u00e3o temos. Os padres faziam crer aos \u00edndios<br \/>\nque os<br \/>\nportugueses eram gente sem lei, que adoravam o ouro.<br \/>\nRios de areias de ouro. Essa riqueza<br \/>\nQue cobre os templos dos benditos padres,<br \/>\nFruto da sua ind\u00fastria e do com\u00e9rcio<br \/>\nDa folha e peles, \u00e9 riqueza sua.<br \/>\nCom o arb\u00edtrio dos corpos e das almas<br \/>\nO c\u00e9u lha deu em sorte. A n\u00f3s somente<br \/>\nNos toca arar e cultivar a terra,<br \/>\nSem outra paga mais que o repartido<br \/>\nPor m\u00e3os escassas m\u00edsero sustento.<br \/>\nPodres choupanas, e algod\u00f5es tecidos,<br \/>\nE o arco, e as setas, e as vistosas penas<br \/>\nS\u00e3o as nossas fant\u00e1sticas riquezas.<br \/>\nMuito suor, e pouco ou nenhum fasto.<br \/>\nVolta, senhor, n\u00e3o passes adiante.<br \/>\nQue mais queres de n\u00f3s? N\u00e3o nos obrigues<br \/>\nA resistir-te em campo aberto. Pode<br \/>\nCustar-te muito sangue o dar um passo.<br \/>\nN\u00e3o queiras ver se cortam nossas frechas.<br \/>\nV\u00ea que o nome dos reis n\u00e3o nos assusta.<br \/>\nO teu est\u00e1 muito longe; e n\u00f3s os \u00edndios<br \/>\nN\u00e3o temos outro rei mais do que os padres.<br \/>\nAcabou de falar; e assim responde<br \/>\nO ilustre General: \u00d3 alma grande,<br \/>\nDigna de combater por melhor causa,<br \/>\nV\u00ea que te enganam: risca da mem\u00f3ria<br \/>\nV\u00e3s, funestas imagens, que alimentam<br \/>\nEnvelhecidos mal fundados \u00f3dios.<br \/>\nPor mim te fala o rei: ouve-me, atende,<br \/>\nE ver\u00e1s uma vez nua a verdade.<br \/>\nFez-vos livres o c\u00e9u, mas se o ser livres<br \/>\nEra viver errantes e dispersos,<br \/>\nSem companheiros, sem amigos, sempre<br \/>\nCom as armas na m\u00e3o em dura guerra,<br \/>\nTer por justi\u00e7a a for\u00e7a, e pelos bosques<br \/>\nViver do acaso, eu julgo que inda fora<br \/>\nMelhor a escravid\u00e3o que a liberdade.<br \/>\nMas nem a escravid\u00e3o, nem a mis\u00e9ria<br \/>\nQuer o benigno rei que o fruto seja<br \/>\nDa sua prote\u00e7\u00e3o. Esse absoluto<br \/>\nImp\u00e9rio ilimitado, que exercitam<br \/>\nEm v\u00f3s os padres, como v\u00f3s, vassalos,<br \/>\n\u00c9 imp\u00e9rio tir\u00e2nico, que usurpam.<br \/>\nNem s\u00e3o senhores, nem v\u00f3s sois escravos.<br \/>\nO rei \u00e9 vosso pai: quer-vos felices.<br \/>\nSois livres, como eu sou; e sereis livres,<br \/>\nN\u00e3o sendo aqui, em outra qualquer parte.<br \/>\nMas deveis entregar-nos estas terras.<br \/>\nAo bem p\u00fablico cede o bem privado.<br \/>\nO sossego de Europa assim o pede.<br \/>\nAssim o manda o rei. V\u00f3s sois rebeldes,<br \/>\nSe n\u00e3o obedeceis; mas os rebeldes,<br \/>\nEu sei que n\u00e3o sois v\u00f3s, s\u00e3o os bons padres,<br \/>\nQue vos dizem a todos que sois livres,<br \/>\nE se servem de v\u00f3s como de escravos.<br \/>\nArmados de ora\u00e7\u00f5es vos p\u00f5em no campo<br \/>\nContra o fero trov\u00e3o da artilheria,<br \/>\nQue os muros arrebata; e se contentam<br \/>\nDe ver de longe a guerra: sacrificam,<br \/>\nAvarentos do seu, o vosso sangue.<br \/>\nEu quero \u00e0 vossa vista despoj\u00e1-los<br \/>\nDo tirano dom\u00ednio destes climas,<br \/>\nDe que a vossa inoc\u00eancia os fez senhores.<br \/>\nDizem-vos que n\u00e3o tendes rei? Cacique,<br \/>\nE o juramento de fidelidade?<br \/>\nPorque est\u00e1 longe, julgas que n\u00e3o pode<br \/>\nCastigar-vos a v\u00f3s, e castig\u00e1-los?<br \/>\nGeneroso inimigo, \u00e9 tudo engano.<br \/>\nOs reis est\u00e3o na Europa; mas adverte<br \/>\nQue estes bra\u00e7os, que v\u00eas, s\u00e3o os seus bra\u00e7os.<br \/>\nDentro de pouco tempo um meu aceno<br \/>\nVai cobrir este monte e essas campinas<br \/>\nDe semivivos palpitantes corpos<br \/>\nDe m\u00edseros mortais, que inda n\u00e3o sabem<br \/>\nPor que causa o seu sangue vai agora<br \/>\nLavar a terra e recolher-se em lagos.<br \/>\nN\u00e3o me chames cruel: enquanto \u00e9 tempo<br \/>\nPensa e resolve, e, pela m\u00e3o tomando<br \/>\nAo nobre embaixador, o ilustre Andrade<br \/>\nIntenta reduzi-lo por brandura.<br \/>\nE o \u00edndio, um pouco pensativo, o bra\u00e7o<br \/>\nE a m\u00e3o retira; e, suspirando, disse:<br \/>\nGentes de Europa, nunca vos trouxera<br \/>\nO mar e o vento a n\u00f3s. Ah! n\u00e3o debalde<br \/>\nEstendeu entre n\u00f3s a natureza<br \/>\nTodo esse plano espa\u00e7o imenso de \u00e1guas.<br \/>\nProsseguia talvez; mas o interrompe<br \/>\nSep\u00e9, que entra no meio, e diz: Cacambo<br \/>\nFez mais do que devia; e todos sabem<br \/>\nQue estas terras, que pisas, o c\u00e9u livres<br \/>\nDeu aos nossos av\u00f4s; n\u00f3s tamb\u00e9m livres<br \/>\nAs recebemos dos antepassados.<br \/>\nLivres as h\u00e3o de herdar os nossos filhos.<br \/>\nDesconhecemos, detestamos jugo<br \/>\nQue n\u00e3o seja o do c\u00e9u, por m\u00e3o dos padres.<br \/>\nAs frechas partir\u00e3o nossas contendas<br \/>\nDentro de pouco tempo: e o vosso Mundo,<br \/>\nSe nele um resto houver de humanidade,<br \/>\nJulgar\u00e1 entre n\u00f3s; se defendemos<br \/>\nTu a injusti\u00e7a, e n\u00f3s o Deus e a P\u00e1tria.<br \/>\nEnfim quereis a guerra, e tereis guerra.<br \/>\nLhe torna o General: Podeis partir-vos,<br \/>\nQue tendes livres o passo. Assim dizendo,<br \/>\nManda dar a Cacambo rica espada<br \/>\nDe tortas guarni\u00e7\u00f5es de prata e ouro,<br \/>\nA que inda mais valor dera o trabalho.<br \/>\nUm bordado chap\u00e9u e larga cinta<br \/>\nVerde, e capa de verde e fino pano,<br \/>\nCom bandas amarelas e encarnadas.<br \/>\nE mandou que a Sep\u00e9 se desse um arco<br \/>\nDe pontas de marfim; e ornada e cheia<br \/>\nDe novas setas a famosa aljava:<br \/>\nA mesma aljava que deixara um dia,<br \/>\nQuando envolto em seu sangue, e vivo apenas,<br \/>\nSem arco e sem cavalo, foi trazido<br \/>\nPrisioneiro de guerra ao nosso campo.<br \/>\nLembrou-se o \u00edndio da passada inj\u00faria<br \/>\nE sobra\u00e7ando a conhecida aljava<br \/>\nLhe disse: \u00d3 General, eu te agrade\u00e7o<br \/>\nAs setas que me d\u00e1s e te prometo<br \/>\nMandar-tas bem depressa uma por uma<br \/>\nEntre nuvens de p\u00f3s no ardor da guerra.<br \/>\nTu as conhecer\u00e1s pelas feridas,<br \/>\nOu porque rompem com mais for\u00e7a os ares.<br \/>\nDespediram-se os \u00edndios, e as esquadras<br \/>\nSe v\u00e3o dispondo em ordem de peleja,<br \/>\nComo mandava o General. Os lados<br \/>\nCobrem as tropas de cavaleria,<br \/>\nE est\u00e3o no centro firmes os infantes.<br \/>\nQual fera boca de libr\u00e9u raivoso,<br \/>\nDe lisos e alvos dentes guarnecida,<br \/>\nOs \u00edndios amea\u00e7a a nossa frente<br \/>\nDe agudas baionetas rodeada.<br \/>\nFez a trombeta o som da guerra. Ouviram<br \/>\nAqueles montes pela vez primeira<br \/>\nO som da caixa portuguesa; e viram<br \/>\nPela primeira vez aqueles ares<br \/>\nDesenroladas as reais bandeiras.<br \/>\nSaem das grutas pelo ch\u00e3o cavadas,<br \/>\nEm que at\u00e9 li de ind\u00fastria se escondiam.<br \/>\nNuvens de \u00edndios, e a vista duvidava<br \/>\nSe o terreno os b\u00e1rbaros nasciam.<br \/>\nQual j\u00e1 no tempo antigo o errante Cadmo<br \/>\nDizem que vira da fecunda terra<br \/>\nBrotar a cruel\u00edssima seara.<br \/>\nErguem todos um b\u00e1rbaro alarido,<br \/>\nE sobre os nossos cada qual encurva<br \/>\nMil vezes, e mil vezes sota o arco,<br \/>\nUm chuveiro de setas despedindo.<br \/>\nGentil mancebo presumido e n\u00e9scio,<br \/>\nA quem a popular lisonja engana,<br \/>\nVaidoso pelo campo discorria,<br \/>\nFazendo ostenta\u00e7\u00e3o dos seus penachos.<br \/>\nImpertinente e de fam\u00edlia escura,<br \/>\nMas que tinha o favor dos santos padres,<br \/>\nContam, n\u00e3o sei se \u00e9 certo, que o tivera<br \/>\nA est\u00e9ril m\u00e3e por ora\u00e7\u00f5es de Balda.<br \/>\nChamaram-no Baldetta por mem\u00f3ria.<br \/>\nTinha um cavalo de manchada pele<br \/>\nMais vistoso que forte: a natureza<br \/>\nUm ameno jardim por todo o corpo<br \/>\nLhe debuxou, e era Jardim chamado.<br \/>\nO padre na saudosa despedida<br \/>\nDeu-lho em sinal de amor; e nele agora<br \/>\nGirando ao largo com incertos tiros<br \/>\nMuitos feria, e a todos inquietava.<br \/>\nMas se ent\u00e3o se cobriu de eterna inf\u00e2mia,<br \/>\nA gl\u00f3ria tua foi, nobre Gerardo.<br \/>\nTornava o \u00edndio jactancioso, quando<br \/>\nLhe sai Gerardo ao meio da carreira:<\/p>\n<p class=\"imagem\">Disparou-lhe a pistola, e fez-lhe a um tempo<br \/>\nCo\u2019reflexo do sol luzir a espada.<br \/>\nS\u00f3 de v\u00ea-lo se assusta o \u00edndio, e fica<br \/>\nQual quem ouve o trov\u00e3o e espera o raio.<br \/>\nTreme, e o cavalo aos seus volta, e pendente<br \/>\nA um lado e a outro de cair acena.<br \/>\nDeixando aqui e ali por todo o campo<br \/>\nEntornadas as setas; pelas costas,<br \/>\nFlutuavam as penas; e fugindo<br \/>\nSoltas da m\u00e3o as r\u00e9deas ondeavam.<br \/>\nInsta Gerardo, e quase o ferro o alcan\u00e7a,<br \/>\nQuando Tatu-Gua\u00e7u, o mais valente<br \/>\nDe quantos \u00edndios viu a nossa idade,<br \/>\nArmado o peito da escamosa pele<br \/>\nDe um jacar\u00e9 disforme, que matara,<br \/>\nSe atravessa diante. Intenta o nosso<br \/>\nCom a outra pistola abrir caminho,<br \/>\nE em v\u00e3o o intenta: a verde-negra pele,<br \/>\nQue ao \u00edndio o largo peito orna e defende,<br \/>\nFormou a natureza impenetr\u00e1vel.<br \/>\nCo\u2019a espada o fere no ombro e na cabe\u00e7a<br \/>\nE as penas corta, de que o campo espalha.<br \/>\nSepara os dous fort\u00edssimos guerreiros<br \/>\nA multid\u00e3o dos nossos, que atropela<br \/>\nOs \u00edndios fugitivos: t\u00e3o depressa<br \/>\nCobrem o campo os mortos e os feridos,<br \/>\nE por n\u00f3s a vit\u00f3ria se declara.<br \/>\nPrecipitadamente as armas deixam,<br \/>\nNem resistem mais tempo \u00e0s espingardas.<br \/>\nVale-lhe a costumada ligeireza,<br \/>\nDebaixo lhe desaparece a terra<br \/>\nE voam, que o temor aos p\u00e9s p\u00f5e asas,<br \/>\nClamando ao c\u00e9u e encomendando a vida<br \/>\n\u00c0s ora\u00e7\u00f5es dos padres. Desta sorte<br \/>\nTalvez, em outro clima, quando soltam<br \/>\nA branca neve eterna os velhos Alpes,<br \/>\nArrebata a corrente impetuosa<br \/>\nCo\u2019as choupanas o gado. Aflito e triste<br \/>\nSe salva o lavrador nos altos ramos,<br \/>\nE v\u00ea levar-lhe a cheia os bois e o arado.<br \/>\nPoucos \u00edndios no campo mais famosos,<br \/>\nServindo de reparo aos fugitivos,<br \/>\nSustentam todo o peso da batalha,<br \/>\nApesar da fortuna. De uma parte<br \/>\nTatu-Gua\u00e7u mais forte na desgra\u00e7a<br \/>\nJ\u00e1 banhado em seu sangue pertendia<br \/>\nPor seu bra\u00e7o ele s\u00f3 p\u00f4r termo \u00e0 guerra.<br \/>\nCaitutu de outra parte altivo e forte<br \/>\nOpunha o peito \u00e0 f\u00faria do inimigo,<br \/>\nE servia de muro \u00e0 sua gente.<br \/>\nFez proezas Sep\u00e9 naquele dia.<br \/>\nConhecido de todos, no perigo<br \/>\nMostrava descoberto o rosto e o peito<br \/>\nFor\u00e7ando os seus co\u2019 exemplo e co\u2019as palavras.<br \/>\nJ\u00e1 tinha despejado a aljava toda,<br \/>\nE destro em atirar, e irado e forte<br \/>\nQuantas setas da m\u00e3o voar fazia<br \/>\nTantas na nossa gente ensang\u00fcentava.<br \/>\nSetas de novo agora recebia,<br \/>\nPara dar outra vez princ\u00edpio \u00e0 guerra.<br \/>\nQuando o ilustre espanhol que governava<br \/>\nMontevidio, alegre, airoso e pronto<br \/>\nAs r\u00e9deas volta ao r\u00e1pido cavalo<br \/>\nE por cima de mortos e feridos,<br \/>\nQue lutavam co\u2019a morte, o \u00edndio afronta.<br \/>\nSep\u00e9, que o viu, tinha tomado a lan\u00e7a<br \/>\nE atr\u00e1s deitando a um tempo o corpo e o bra\u00e7o<br \/>\nA despediu. Por entre o bra\u00e7o e o corpo<br \/>\nAo ligeiro espanhol o ferro passa:<br \/>\nRompe, sem fazer dano, a terra dura<br \/>\nE treme fora muito tempo a h\u00e1stea.<br \/>\nMas de um golpe a Sep\u00e9 na testa e peito<br \/>\nFere o governador, e as r\u00e9deas corta<br \/>\nAo cavalo feroz. Foge o cavalo,<br \/>\nE leva involunt\u00e1rio e ardendo em ira<br \/>\nPor todo o campo a seu senhor; e ou fosse<br \/>\nQue regada de sangue aos p\u00e9s cedia<br \/>\nA terra, ou que pusesse as m\u00e3os em falso,<br \/>\nRodou sobre si mesmo, e na ca\u00edda<br \/>\nLan\u00e7ou longe a Sep\u00e9. Rende-te, ou morre,<br \/>\nGrita o governador; e o tape altivo,<br \/>\nSem responder, encurva o arco, e a seta<br \/>\nDespede, e nela lhe prepara a morte.<br \/>\nEnganou-se esta vez. A seta um pouco<br \/>\nDeclina, e a\u00e7outa o rosto a leve pluma.<br \/>\nN\u00e3o quis deixar o vencimento incerto<br \/>\nPor mais tempo o espanhol, e arrebatado<br \/>\nCom a pistola lhe fez tiro aos peitos.<br \/>\nEra pequeno o espa\u00e7o, e fez o tiro<br \/>\nNo corpo desarmado estrago horrendo.<br \/>\nViam-se dentro pelas rotas costas<br \/>\nPalpitar as entranhas. Quis tr\u00eas vezes<br \/>\nLevantar-se do ch\u00e3o: caiu tr\u00eas vezes,<br \/>\nE os olhos j\u00e1 nadando em fria morte<br \/>\nLhe cobriu sombra escura e f\u00e9rreo sono.<br \/>\nMorto o grande Sep\u00e9, j\u00e1 n\u00e3o resistem<br \/>\nAs t\u00edmidas esquadras. N\u00e3o conhece<br \/>\nLeis o temor. Debalde est\u00e1 diante,<br \/>\nE anima os seus o r\u00e1pido Cacambo.<br \/>\nTinha-se retirado da peleja<br \/>\nCaitutu mal ferido; e do seu corpo<br \/>\nDeixa Tatu-Gua\u00e7u por onde passa<br \/>\nRios de sangue. Os outros mais valentes<br \/>\nOu eram mortos, ou feridos. Pende<br \/>\nO ferro vencedor sobre os vencidos.<br \/>\nAo n\u00famero, ao valor cede Cacambo:<br \/>\nSalva os \u00edndios que pode, e se retira.<\/p>\n<h4>CANTO TERCEIRO<\/h4>\n<p class=\"imagem\">J\u00e1 a nossa do mundo \u00daltima Parte<br \/>\nTinha voltado a ensang\u00fcentada fronte<br \/>\nAo centro luminar quando a campanha<br \/>\nSemeada de mortos e insepultos<br \/>\nViu desfazer-se a um tempo a vila errante<br \/>\nAo som das caixas. Descontente e triste<br \/>\nMarchava o General: n\u00e3o sofre o peito<br \/>\nCompadecido e generoso a vista<br \/>\nDaqueles frios e sangrados corpos,<br \/>\nV\u00edtimas da ambi\u00e7\u00e3o de injusto imp\u00e9rio.<br \/>\nForam ganhando e descobrindo terra<br \/>\nInimiga e infiel; at\u00e9 que um dia<br \/>\nFizeram alto e se acamparam onde<br \/>\nIncultas v\u00e1rgeas, por espa\u00e7o imenso,<br \/>\nEnfadonhas e est\u00e9reis acompanham<br \/>\nAmbas as margens de um profundo rio.<br \/>\nTodas estas vast\u00edssimas campinas<br \/>\nCobrem palustres e tecidas canas<br \/>\nE leves juncos do calor tostados,<br \/>\nPronta mat\u00e9ria de voraz inc\u00eandio.<br \/>\nO \u00edndio habitador de quando em quando<br \/>\nCom estranha cultura entrega ao fogo;<br \/>\nMuitas l\u00e9guas de campo: o inc\u00eandio dura,<br \/>\nEnquanto dura e o favorece o vento.<br \/>\nDa erva, que renasce, se apascenta<br \/>\nO imenso gado, que dos montes desce;<br \/>\nE renovando inc\u00eandios desta sorte<br \/>\nA Arte emenda a Natureza, e podem<br \/>\nTer sempre n\u00e9dio o gado, e o campo verde.<br \/>\nMas agora sabendo por espias<br \/>\nAs nossas marchas, conservavam sempre<br \/>\nSecas as torrad\u00edssimas campinas;<br \/>\nNem consentiam, por fazer-nos guerra,<br \/>\nQue a chama benfeitora e a cinza fria<br \/>\nFertilizasse o \u00e1rido terreno.<br \/>\nO cavalo at\u00e9 li forte e brioso,<br \/>\nE costumado a n\u00e3o ter mais sustento,<br \/>\nNaqueles climas, do que a verde relva<br \/>\nDa mimosa campina, desfalece.<br \/>\nNem mais, se o seu senhor o afaga, encurva<br \/>\nOs p\u00e9s, e cava o ch\u00e3o co\u2019as m\u00e3os, e o vale<br \/>\nRinchando atroa, e a\u00e7outa o ar co\u2019as clinas.<br \/>\nEra alta noite, e carrancudo e triste<br \/>\nNegava o c\u00e9u envolto em pobre manto<br \/>\nA luz ao mundo, e murmurar se ouvia<br \/>\nAo longe o rio, e menear-se o vento.<br \/>\nRespirava descanso a natureza.<br \/>\nS\u00f3 na outra margem n\u00e3o podia entanto<br \/>\nO inquieto Cacambo achar sossego.<br \/>\nNo perturbado interrompido sono<br \/>\n(Talvez fosse ilus\u00e3o) se lhe apresenta<br \/>\nA triste imagem de Sep\u00e9 despido,<br \/>\nPintado o rosto do temor da morte,<br \/>\nBanhado em negro sangue, que corria<br \/>\nDo peito aberto, e nos pisados bra\u00e7os<br \/>\nInda os sinais da m\u00edsera ca\u00edda.<br \/>\nSem adorno a cabe\u00e7a, e aos p\u00e9s calcada<br \/>\nA rota aljava e as descompostas penas.<br \/>\nQuanto diverso do Sep\u00e9 valente,<br \/>\nQue no meio dos nossos espalhava,<br \/>\nDe p\u00f3, de sangue e de suor coberto,<br \/>\nO espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:<br \/>\nFoge, foge, Cacambo. E tu descansas,<br \/>\nTendo t\u00e3o perto os inimigos? Torna,<br \/>\nTorna aos teus bosques, e nas p\u00e1trias grutas<br \/>\nTua fraqueza e desventura encobre.<br \/>\nOu, se acaso inda vivem no teu peito<br \/>\nOs desejos de gl\u00f3ria, ao duro passo<br \/>\nResiste valeroso; ah tu, que podes!<br \/>\nE tu, que podes, p\u00f5e a m\u00e3o nos peitos<br \/>\n\u00c0 fortuna de Europa: agora \u00e9 tempo,<br \/>\nQue descuidados da outra parte dormem.<br \/>\nEnvolve em fogo e fumo o campo, e paguem<br \/>\nO teu sangue e o meu sangue. Assim dizendo<br \/>\nSe perdeu entre as nuvens, sacudindo<br \/>\nSobre as tendas, no ar, fumante tocha;<br \/>\nE assinala com chamas o caminho.<br \/>\nAcorda o \u00edndio valeroso, e salta<br \/>\nLonge da curva rede, e sem demora<br \/>\nO arco e as setas arrebata, e fere<br \/>\nO ch\u00e3o com o p\u00e9: quer sobre o largo rio<br \/>\nIr peito a peito a contrastar co\u2019a morte.<br \/>\nTem diante dos olhos a figura<br \/>\nDo caro amigo, e inda lhe escuta as vozes.<br \/>\nPendura a um verde tronco as v\u00e1rias penas,<br \/>\nE o arco, e as setas, e a sonora aljava;<br \/>\nE onde mais manso e mais quieto o rio<br \/>\nSe estende e espraia sobre a ruiva areia<br \/>\nPensativo e turbado entra; e com \u00e1gua<br \/>\nJ\u00e1 por cima do peito as m\u00e3os e os olhos<br \/>\nLevanta ao c\u00e9u, que ele n\u00e3o via, e \u00e0s ondas<br \/>\nO corpo entrega. J\u00e1 sabia entanto<br \/>\nA nova empresa na limosa gruta<br \/>\nO p\u00e1trio rio; e dando um jeito \u00e0 urna<br \/>\nFez que as \u00e1guas corressem mais serenas;<br \/>\nE o \u00edndio afortunado a praia oposta<br \/>\nTocou sem ser sentido. Aqui se aparta<br \/>\nDa margem guarnecida e mansamente<br \/>\nPelo sil\u00eancio vai da noite escura<br \/>\nBuscando a parte donde vinha o vento.<br \/>\nL\u00e1, como \u00e9 uso do pa\u00eds, ro\u00e7ando<br \/>\nDous lenhos entre si, desperta a chama,<br \/>\nQue j\u00e1 se ateia nas ligeiras palhas,<br \/>\nE velozmente se propaga. Ao vento<br \/>\nDeixa Cacambo o resto e foge a tempo<br \/>\nDa perigosa luz; por\u00e9m na margem<br \/>\nDo rio, quando a chama abrasadora<br \/>\nCome\u00e7a a alumiar a noite escura,<br \/>\nJ\u00e1 sentido dos guardas n\u00e3o se assusta<br \/>\nE temer\u00e1ria e venturosamente,<br \/>\nFiando a vida aos animosos bra\u00e7os,<br \/>\nDe um alto precip\u00edcio \u00e0s negras ondas<br \/>\nOutra vez se lan\u00e7ou e foi de um salto<br \/>\nAo fundo rio a visitar a areia.<br \/>\nDebalde gritam, e debalde \u00e0s margens<br \/>\nCorre a gente apressada. Ele entretanto<br \/>\nSacode as pernas e os nervosos bra\u00e7os:<br \/>\nRompe as escumas assoprando, e a um tempo<br \/>\nSuspendido nas m\u00e3os, voltando o rosto,<br \/>\nVia nas \u00e1guas tr\u00eamulas a imagem<br \/>\nDo arrebatado inc\u00eandio, e se alegrava&#8230;<br \/>\nN\u00e3o de outra sorte o cauteloso Ulisses,<br \/>\nVaidoso da ru\u00edna, que causara,<br \/>\nViu abrasar de Tr\u00f3ia os altos muros,<br \/>\nE a perjura cidade envolta em fumo<br \/>\nEncostar-se no ch\u00e3o e pouco a pouco<br \/>\nDesmaiar sobre as cinzas. Cresce entanto<br \/>\nO inc\u00eandio furioso, e o irado vento<br \/>\nArrebata \u00e0s m\u00e3os cheias vivas chamas,<br \/>\nQue aqui e ali pela campina espalha.<br \/>\nComunica-se a um tempo ao largo campo<br \/>\nA chama abrasadora e em breve espa\u00e7o<br \/>\nCerca as barracas da confusa gente.<br \/>\nArmado o General, como se achava,<br \/>\nSaiu do pavilh\u00e3o e pronto atalha,<br \/>\nQue n\u00e3o prossiga o voador inc\u00eandio.<br \/>\nPoucas tendas entrega ao fogo e manda,<br \/>\nSem mais demora, abrir largo caminho<br \/>\nQue os separe das chamas. Uns j\u00e1 cortam<br \/>\nAs combust\u00edveis palhas, outros trazem<br \/>\nNos prontos vasos as vizinhas ondas.<br \/>\nMas n\u00e3o espera o b\u00e1rbaro atrevido.<br \/>\nA todos se adianta; e desejoso<br \/>\nDe levar a not\u00edcia ao grande Balda<br \/>\nNaquela mesma noite o passo estende.<br \/>\nTanto se apressa que na quarta aurora<br \/>\nPor veredas ocultas viu de longe<br \/>\nA doce p\u00e1tria, e os conhecidos montes,<br \/>\nE o templo, que tocava o c\u00e9u co\u2019as grimpas.<br \/>\nMas n\u00e3o sabia que a fortuna entanto<br \/>\nLhe preparava a \u00faltima ru\u00edna.<br \/>\nQuanto seria mais ditoso! Quanto<br \/>\nMelhor lhe fora o acabar a vida<br \/>\nNa frente do inimigo, em campo aberto,<br \/>\nOu sobre os restos de abrasadas tendas,<br \/>\nObra do seu valor! Tinha Cacambo<br \/>\nReal esposa, a senhoril Lind\u00f3ia,<br \/>\nDe costumes suav\u00edssimos e honestos,<br \/>\nEm verdes anos: com ditosos la\u00e7os<br \/>\nAmor os tinha unido; mas apenas<br \/>\nOs tinha unido, quando ao som primeiro<br \/>\nDas trombetas lho arrebatou dos bra\u00e7os<br \/>\nA gl\u00f3ria enganadora. Ou foi que Balda,<br \/>\nEngenhoso e sutil, quis desfazer-se<br \/>\nDa presen\u00e7a importuna e perigosa<br \/>\nDo \u00edndio generoso; e desde aquela<br \/>\nSaudosa manh\u00e3, que a despedida<br \/>\nPresenciou dos dous amantes, nunca<br \/>\nConsentiu que outra vez tornasse aos bra\u00e7os<br \/>\nDa formosa Lind\u00f3ia e descobria<br \/>\nSempre novos pretextos da demora.<br \/>\nTornar n\u00e3o esperado e vitorioso<br \/>\nFoi todo o seu delito. N\u00e3o consente<br \/>\nO cauteloso Balda que Lind\u00f3ia<br \/>\nChegue a falar ao seu esposo; e manda<br \/>\nQue uma escura pris\u00e3o o esconda e aparte<br \/>\nDa luz do sol. Nem os reais parentes,<br \/>\nNem dos amigos a piedade, e o pranto<br \/>\nDa enternecida esposa abranda o peito<br \/>\nDo obstinado juiz: at\u00e9 que \u00e0 for\u00e7a<br \/>\nDe desgostos, de m\u00e1goa e de saudade,<br \/>\nPor meio de um licor desconhecido,<br \/>\nQue lhe deu compassivo o santo padre,<br \/>\nJaz o ilustre Cacambo &#8211; entre os gentios<br \/>\n\u00danico que na paz e em dura guerra<br \/>\nDe virtude e valor deu claro exemplo.<br \/>\nChorado ocultamente e sem as honras<br \/>\nDe r\u00e9gio funeral, desconhecida<br \/>\nPouca terra os honrados ossos cobre.<br \/>\nSe \u00e9 que os seus ossos cobre alguma terra.<br \/>\nCru\u00e9is ministros, encobri ao menos<br \/>\nA funesta not\u00edcia. Ai que j\u00e1 sabe<br \/>\nA assustada amant\u00edssima Lind\u00f3ia<br \/>\nO sucesso infeliz. Quem a socorre!<br \/>\nQue aborrecida de viver procura<br \/>\nTodos os meios de encontrar a morte.<br \/>\nNem quer que o esposo longamente a espere<br \/>\nNo reino escuro, aonde se n\u00e3o ama.<br \/>\nMas a enrugada Tanajura, que era<br \/>\nPrudente e exprimentada (e que a seus peitos<br \/>\nTinha criado em mais ditosa idade<br \/>\nA m\u00e3e da m\u00e3e da m\u00edsera Lind\u00f3ia),<br \/>\nE lia pela hist\u00f3ria do futuro,<br \/>\nVision\u00e1ria, supersticiosa,<br \/>\nQue de abertos sepulcros recolhia<br \/>\nNuas caveiras e esburgados ossos,<br \/>\nA uma medonha gruta, onde ardem sempre<br \/>\nVerdes candeias, conduziu chorando<br \/>\nLind\u00f3ia, a quem amava como filha;<br \/>\nE em ferrugento vaso licor puro<br \/>\nDe viva fonte recolheu. Tr\u00eas vezes<br \/>\nGirou em roda, e murmurou tr\u00eas vezes<br \/>\nCo\u2019a carcomida boca \u00edmpias palavras,<br \/>\nE as \u00e1guas assoprou: depois com o dedo<br \/>\nLhe imp\u00f5e sil\u00eancio e faz que as \u00e1guas note.<br \/>\nComo no mar azul, quando recolhe<br \/>\nA lisonjeira vira\u00e7\u00e3o as asas,<br \/>\nAdormecem as ondas e retratam<br \/>\nAo natural as debru\u00e7adas penhas,<br \/>\nO copado arvoredo e as nuvens altas:<br \/>\nN\u00e3o de outra sorte \u00e0 t\u00edmida Lind\u00f3ia<br \/>\nAquelas \u00e1guas fielmente pintam<br \/>\nO rio, a praia o vale e os montes onde<br \/>\nTinha sido Lisboa; e viu Lisboa<br \/>\nEntre despeda\u00e7ados edif\u00edcios,<br \/>\nCom o solto cabelo descomposto,<br \/>\nTrope\u00e7ando em ru\u00ednas encostar-se.<br \/>\nDesamparada dos habitadores<br \/>\nA Rainha do Tejo, e solit\u00e1ria,<br \/>\nNo meio de sepulcros procurava<br \/>\nCom seus olhos socorro; e com seus olhos<br \/>\nS\u00f3 descobria de um e de outro lado<br \/>\nPendentes muros e inclinadas torres.<br \/>\nV\u00ea mais o Luso Atlante, que forceja<br \/>\nPor sustentar o peso desmedido<br \/>\nNos roxos ombros. Mas do c\u00e9u sereno<br \/>\nEm branca nuvem Pr\u00f3vida Donzela<br \/>\nRapidamente desce e lhe apresenta,<br \/>\nDe sua m\u00e3o, Esp\u00edrito Constante,<br \/>\nG\u00eanio de Alcides, que de negros monstros<br \/>\nDespeja o mundo e enxuga o pranto \u00e0 p\u00e1tria.<br \/>\nTem por despojos cabeludas peles<br \/>\nDe ensang\u00fcentados e famintos lobos<br \/>\nE fingidas raposas. Manda, e logo<br \/>\nO inc\u00eandio lhe obedece; e de repente<br \/>\nPor onde quer que ele encaminha os passos<br \/>\nD\u00e3o lugar as ru\u00ednas. Viu Lind\u00f3ia<br \/>\nDo meio delas, s\u00f3 a um seu aceno,<br \/>\nSair da terra feitos e acabados<br \/>\nVistosos edif\u00edcios. J\u00e1 mais bela<br \/>\nNasce Lisboa de entre as cinzas &#8211; gl\u00f3ria<br \/>\nDo grande conde, que co\u2019a m\u00e3o robusta<br \/>\nLhe firmou na alta testa os vacilantes<br \/>\nMal seguros castelos. Mais ao longe<br \/>\nProntas no Tejo, e ao curvo ferro atadas<br \/>\nAos olhos d\u00e3o de si terr\u00edvel mostra,<br \/>\nAmea\u00e7ando o mar, as poderosas<br \/>\nSoberbas naus. Por entre as cordas negras<br \/>\nAlvejam as bandeiras: geme atado<br \/>\nNa popa o vento; e alegres e vistosas<br \/>\nDescem das nuvens a beijar os mares<br \/>\nAs fl\u00e2mulas guerreiras. No horizonte<br \/>\nJ\u00e1 sobre o mar azul aparecia<br \/>\nA pintada Serpente, obra e trabalho<br \/>\nDo Novo Mundo, que de longe vinha<br \/>\nBuscar as nadadoras companheiras<br \/>\nE j\u00e1 de longe a fresca Sintra e os montes,<br \/>\nQue inda n\u00e3o conhecia, saudava.<br \/>\nImpacientes da fatal demora<br \/>\nOs lenhos mercen\u00e1rios junto \u00e0 terra<br \/>\nRecebem no seu seio e a outros climas,<br \/>\nLonge dos doces ares de Lisboa,<br \/>\nTransportam a Ignor\u00e2ncia e a magra Inveja,<br \/>\nE envolta em negros e compridos panos<br \/>\nA Disc\u00f3rdia, o Furor. A torpe e velha<br \/>\nHipocrisia vagarosamente<br \/>\nAtr\u00e1s deles caminha; e inda duvida<br \/>\nQue houvesse m\u00e3o que se atrevesse a tanto.<br \/>\nO povo a mostra com o dedo; e ela,<br \/>\nCom os olhos no ch\u00e3o, da luz do dia<br \/>\nFoge, e cobrir o rosto inda procura<br \/>\nCom os peda\u00e7os do rasgado manto.<br \/>\nVai, filha da ambi\u00e7\u00e3o, onde te levam<br \/>\nO vento e os mares: possam teus alunos<br \/>\nAndar errando sobre as \u00e1guas; possa<br \/>\nNegar-lhe a bela Europa abrigo e porto.<br \/>\nAlegre deixarei a luz do dia,<br \/>\nSe chegarem a ver meus olhos que \u00c1dria<br \/>\nDa alta inj\u00faria se lembra e do seu seio<br \/>\nTe lan\u00e7a &#8211; e que te lan\u00e7am do seu seio<br \/>\nG\u00e1lia, Ib\u00e9ria e o pa\u00eds belo que parte<br \/>\nO Apenino, e cinge o mar e os Alpes.<br \/>\nPareceu a Lind\u00f3ia que a partida<br \/>\nDestes monstros deixava mais serenos<br \/>\nE mais puros os ares. J\u00e1 se mostra<br \/>\nMais distinta a seus olhos a cidade.<br \/>\nMas viu, ai vista lastimosa! a um lado<br \/>\nIr a fidelidade portuguesa,<br \/>\nManchados os pur\u00edssimos vestidos<br \/>\nDe roxas n\u00f3doas. Mais ao longe estava<br \/>\nCom os olhos vendados, e escondido<br \/>\nNas roupas um punhal banhado em sangue,<br \/>\nO Fanatismo, pela m\u00e3o guiando<br \/>\nUm curvo e branco velho ao fogo e ao la\u00e7o.<br \/>\nGeme ofendida a Natureza; e geme<br \/>\nAi! Muito tarde, a cr\u00e9dula cidade.<br \/>\nOs olhos p\u00f5e no ch\u00e3o a Igreja irada<br \/>\nE desconhece, e desaprova, e vinga<br \/>\nO delito cruel e a m\u00e3o bastarda.<br \/>\nEmbebida na m\u00e1gica pintura<br \/>\nGoza as imagens v\u00e3s e n\u00e3o se atreve<br \/>\nLind\u00f3ia a perguntar. V\u00ea destru\u00edda<br \/>\nA Rep\u00fablica infame, e bem vingada<br \/>\nA morte de Cacambo. E atenta e im\u00f3vel<br \/>\nApascentava os olhos e o desejo,<br \/>\nE nem tudo entendia, quando a velha<br \/>\nBateu co\u2019a m\u00e3o e fez tremer as \u00e1guas.<br \/>\nDesaparecem as fingidas torres<br \/>\nE os verdes campos; nem j\u00e1 deles resta<br \/>\nLeve sinal. Debalde os olhos buscam<br \/>\nAs naus: j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o naus, nem mar, nem montes,<br \/>\nNem o lugar onde estiveram. Torna<br \/>\nAo pranto a saudos\u00edssima Lind\u00f3ia<br \/>\nE de novo outra vez suspira e geme.<br \/>\nAt\u00e9 que a noite compassiva e atenta,<br \/>\nQue as magoadas l\u00e1stimas lhe ouvira,<br \/>\nAo partir sacudiu das fuscas asas,<br \/>\nEnvolto em frio orvalho, um leve sono,<br \/>\nSuave esquecimento de seus males.<\/p>\n<h4>CANTO QUARTO<\/h4>\n<p class=\"imagem\">Salvas as tropas do noturno inc\u00eandio,<br \/>\nAos povos se avizinha o grande Andrade,<br \/>\nDepois de afugentar os \u00edndios fortes<br \/>\nQue a subida dos montes defendiam,<br \/>\nE rotos muitas vezes e espalhados<br \/>\nOs tapes cavaleiros, que arremessam<br \/>\nDuas causas de morte em uma lan\u00e7a<br \/>\nE em largo giro todo o campo escrevem.<br \/>\nQue negue agora a p\u00e9rfida cal\u00fania<br \/>\nQue se ensinava aos b\u00e1rbaros gentios<br \/>\nA disciplina militar, e negue<br \/>\nQue m\u00e3os traidoras a distantes povos<br \/>\nPor \u00e1speros desertos conduziam<br \/>\nO p\u00f3 sulf\u00fareo, e as sibilantes balas<br \/>\nE o bronze, que rugia nos seus muros.<br \/>\nTu que viste e pisaste, \u00f3 Blasco insigne,<br \/>\nTodo aquele pa\u00eds, tu s\u00f3 pudeste,<br \/>\nCo\u2019a m\u00e3o que dirigia o ataque horrendo<br \/>\nE aplanava os caminhos \u00e0 vit\u00f3ria,<br \/>\nDescrever ao teu rei o s\u00edtio e as armas,<br \/>\nE os \u00f3dios, e o furor, e a incr\u00edvel guerra.<br \/>\nPisaram finalmente os altos riscos<br \/>\nDe escalvada montanha, que os infernos<br \/>\nCo\u2019o peso oprime e a testa altiva esconde<br \/>\nNa regi\u00e3o que n\u00e3o perturba o vento.<br \/>\nQual v\u00ea quem foge \u00e0 terra pouco a pouco<br \/>\nIr crescendo o horizonte, que se encurva,<br \/>\nAt\u00e9 que com os c\u00e9us o mar confina,<br \/>\nNem tem \u00e0 vista mais que o ar e as ondas:<br \/>\nAssim quem olha do escarpado cume<br \/>\nN\u00e3o v\u00ea mais do que o c\u00e9u, que o mais lhe encobre<br \/>\nA tarda e fria n\u00e9voa, escura e densa.<br \/>\nMas quando o Sol de l\u00e1 do eterno e fixo<br \/>\nPurp\u00fareo encosto de dourado assento,<br \/>\nCo\u2019a criadora m\u00e3o desfaz e corre<br \/>\nO v\u00e9u cinzento de ondeadas nuvens,<br \/>\nQue alegre cena para os olhos! Podem<br \/>\nDaquela altura, por espa\u00e7o imenso,<br \/>\nVer as longas campinas retalhadas<br \/>\nDe tr\u00eamulos ribeiros, claras fontes<br \/>\nE lagos cristalinos, onde molha<br \/>\nAs leves asas o lascivo vento.<br \/>\nEngra\u00e7ados outeiros, fundos vales<br \/>\nE arvoredos copados e confusos,<br \/>\nVerde teatro, onde se admira quanto<br \/>\nProduziu a sup\u00e9rflua Natureza.<br \/>\nA terra sofredora de cultura<br \/>\nMostra o rasgado seio; e as v\u00e1rias plantas,<br \/>\nDando as m\u00e3os entre si, tecem compridas<br \/>\nRuas, por onde a vista saudosa<br \/>\nSe estende e perde. O vagaroso gado<br \/>\nMal se move no campo, e se divisam<br \/>\nPor entre as sombras da verdura, ao longe,<br \/>\nAs casas branquejando e os altos templos.<br \/>\nAjuntavam-se os \u00edndios entretanto<br \/>\nNo lugar mais vizinho, onde o bom padre<br \/>\nO bom padre. Balda.<br \/>\nQueria dar Lind\u00f3ia por esposa<br \/>\nAo seu Baldetta, e segurar-lhe o posto<br \/>\nE a r\u00e9gia autoridade de Cacambo.<br \/>\nEst\u00e3o patentes as douradas portas<br \/>\nDo grande templo, e na vizinha pra\u00e7a<br \/>\nSe v\u00e3o dispondo de uma e de outra banda<br \/>\nAs vistosas esquadras diferentes.<br \/>\nCo\u2019a chata frente de urucu tingida,<br \/>\nVinha o \u00edndio Cob\u00e9 disforme e feio,<br \/>\nQue sustenta nas m\u00e3os pesada ma\u00e7a,<br \/>\nCom que abate no campo os inimigos<br \/>\nComo abate a seara o rijo vento.<br \/>\nTraz consigo os salvages da montanha,<br \/>\nQue comem os seus mortos; nem consentem<br \/>\nQue jamais lhes esconda a dura terra<br \/>\nNo seu avaro seio o frio corpo<br \/>\nDo doce pai, ou suspirado amigo.<br \/>\nFoi o segundo, que de si fez mostra,<br \/>\nO mancebo Pind\u00f3, que sucedera<br \/>\nA Sep\u00e9 no lugar: inda em mem\u00f3ria<br \/>\nDo n\u00e3o vingado irm\u00e3o, que tanto amava,<br \/>\nLeva negros penachos na cabe\u00e7a.<br \/>\nS\u00e3o vermelhas as outras penas todas,<br \/>\nCor que Sep\u00e9 usara sempre em guerra.<br \/>\nV\u00e3o com eles os seus tapes, que se afrontam<br \/>\n\u00c9 que t\u00eam por inj\u00faria morrer velhos.<br \/>\nSegue-se Caitutu, de r\u00e9gio sangue<br \/>\nE de Lind\u00f3ia irm\u00e3o. N\u00e3o muito fortes<br \/>\nS\u00e3o os que ele conduz; mas s\u00e3o t\u00e3o destros<br \/>\nNo exerc\u00edcio da frecha que arrebatam<br \/>\nAo verde papagaio o curvo bico,<br \/>\nVoando pelo ar. Nem dos seus tiros<br \/>\nO peixe prateado est\u00e1 seguro<br \/>\nNo fundo do ribeiro. Vinham logo<br \/>\nAlegres guaranis de am\u00e1vel gesto.<br \/>\nEsta foi de Cacambo a esquadra antiga.<br \/>\nPenas da cor do c\u00e9u trazem vestidas,<br \/>\nCom cintas amarelas: e Baldetta<br \/>\nDesvanecido a bela esquadra ordena<br \/>\nNo seu Jardim: at\u00e9 o meio a lan\u00e7a<br \/>\nPintada de vermelho, e a testa e o corpo<br \/>\nTodo coberto de amarelas plumas.<br \/>\nPendente a rica espada de Cacambo,<br \/>\nE pelos peitos ao trav\u00e9s lan\u00e7ada<br \/>\nPor cima do ombro esquerdo a verde faixa<br \/>\nDe donde ao lado oposto a aljava desce.<br \/>\nNum cavalo da cor da noite escura<br \/>\nEntrou na grande pra\u00e7a derradeiro<br \/>\nTatu-Gua\u00e7u feroz, e vem guiando<br \/>\nTropel confuso de cavaleria,<br \/>\nQue combate desordenadamente.<br \/>\nTrazem lan\u00e7as nas m\u00e3os, e lhes defendem<br \/>\nPeles de monstros os seguros peitos.<br \/>\nRevia-se em Baldetta o santo padre;<br \/>\nE fazendo profunda rever\u00eancia,<br \/>\nFora da grande porta, recebia<br \/>\nO esperado Tedeu ativo e pronto,<br \/>\nA quem acompanhava vagaroso<br \/>\nCom as chaves no cinto o Irm\u00e3o Patusca,<br \/>\nDe pesada, enorm\u00edssima barriga.<br \/>\nJamais a este o som da dura guerra<br \/>\nTinha tirado as horas do descanso.<br \/>\nDe indulgente moral e brando peito,<br \/>\nQue penetrado da fraqueza humana<br \/>\nSofre em paz as del\u00edcias desta vida,<br \/>\nTais e quais no-las d\u00e3o. Gosta das cousas<br \/>\nPorque gosta, e contenta-se do efeito<br \/>\nE nem sabe nem quer saber as causas.<br \/>\nAinda que talvez, em falta de outro,<br \/>\nCom grosseiras a\u00e7\u00f5es o povo exorte,<br \/>\nGritando sempre, e sempre repetindo,<br \/>\nQue do bom Pai Ad\u00e3o a triste ra\u00e7a<br \/>\nPor degraus degenera, e que este mundo<br \/>\nPiorando envelhece. N\u00e3o faltava,<br \/>\nPara se dar princ\u00edpio \u00e0 estranha festa,<br \/>\nMais que Lind\u00f3ia. H\u00e1 muito lhe preparam<br \/>\nTodas de brancas penas revestidas<br \/>\nFest\u00f5es de flores as gentis donzelas.<br \/>\nCansados de esperar, ao seu retiro<br \/>\nV\u00e3o muitos impacientes a busc\u00e1-la.<br \/>\nEstes de crespa Tanajura aprendem<br \/>\nQue entrara no jardim triste e chorosa,<br \/>\nSem consentir que algu\u00e9m a acompanhasse.<br \/>\nUm frio susto corre pelas veias<br \/>\nDe Caitutu, que deixa os seus no campo;<br \/>\nE a irm\u00e3 por entre as sombras do arvoredo<br \/>\nBusca co\u2019a vista, e teme de encontr\u00e1-la.<br \/>\nEntram enfim na mais remota e interna<br \/>\nParte de antigo bosque, escuro e negro,<br \/>\nOnde ao p\u00e9 de uma lapa cavernosa<br \/>\nCobre uma rouca fonte, que murmura,<br \/>\nCurva latada de jasmins e rosas.<br \/>\nEste lugar delicioso e triste,<br \/>\nCansada de viver, tinha escolhido<br \/>\nPara morrer a m\u00edsera Lind\u00f3ia.<br \/>\nL\u00e1 reclinada, como que dormia,<br \/>\nNa branda relva e nas mimosas flores,<br \/>\nTinha a face na m\u00e3o, e a m\u00e3o no tronco<br \/>\nDe um f\u00fanebre cipreste, que espalhava<br \/>\nMelanc\u00f3lica sombra. Mais de perto<br \/>\nDescobrem que se enrola no seu corpo<br \/>\nVerde serpente, e lhe passeia, e cinge<br \/>\nPesco\u00e7o e bra\u00e7os, e lhe lambe o seio.<br \/>\nFogem de a ver assim, sobressaltados,<br \/>\nE param cheios de temor ao longe;<br \/>\nE nem se atrevem a cham\u00e1-la, e temem<br \/>\nQue desperte assustada, e irrite o monstro,<br \/>\nE fuja, e apresse no fugir a morte.<br \/>\nPor\u00e9m o destro Caitutu, que treme<br \/>\nDo perigo da irm\u00e3, sem mais demora<br \/>\nDobrou as pontas do arco, e quis tr\u00eas vezes<br \/>\nSoltar o tiro, e vacilou tr\u00eas vezes<br \/>\nEntre a ira e o temor. Enfim sacode<br \/>\nO arco e faz voar a aguda seta,<br \/>\nQue toca o peito de Lind\u00f3ia, e fere<br \/>\nA serpente na testa, e a boca e os dentes<br \/>\nDeixou cravados no vizinho tronco.<br \/>\nA\u00e7outa o campo co\u2019a ligeira cauda<br \/>\nO irado monstro, e em tortuosos giros<br \/>\nSe enrosca no cipreste, e verte envolto<br \/>\nEm negro sangue o l\u00edvido veneno.<br \/>\nLeva nos bra\u00e7os a infeliz Lind\u00f3ia<br \/>\nO desgra\u00e7ado irm\u00e3o, que ao despert\u00e1-la<br \/>\nConhece, com que dor! no frio rosto<br \/>\nOs sinais do veneno, e v\u00ea ferido<br \/>\nPelo dente sutil o brando peito.<br \/>\nOs olhos, em que Amor reinava, um dia,<br \/>\nCheios de morte; e muda aquela l\u00edngua<br \/>\nQue ao surdo vento e aos ecos tantas vezes<br \/>\nContou a larga hist\u00f3ria de seus males.<br \/>\nNos olhos Caitutu n\u00e3o sofre o pranto,<br \/>\nE rompe em profund\u00edssimos suspiros,<br \/>\nLendo na testa da fronteira gruta<br \/>\nDe sua m\u00e3o j\u00e1 tr\u00eamula gravado<br \/>\nO alheio crime e a volunt\u00e1ria morte.<br \/>\nE por todas as partes repetido<br \/>\nO suspirado nome de Cacambo.<br \/>\nInda conserva o p\u00e1lido semblante<br \/>\nUm n\u00e3o sei qu\u00ea de magoado e triste,<br \/>\nQue os cora\u00e7\u00f5es mais duros enternece<br \/>\nTanto era bela no seu rosto a morte!<br \/>\nIndiferente admira o caso acerbo<br \/>\nDa estranha novidade ali trazido<br \/>\nO duro Balda; e os \u00edndios, que se achavam,<br \/>\nCorre co\u2019a vista e os \u00e2nimos observa.<br \/>\nQuando pode o temor! Secou-se a um tempo<br \/>\nEm mais de um rosto o pranto; e em mais de um peito<br \/>\nMorreram sufocados os suspiros.<br \/>\nFicou desamparada na espessura,<br \/>\nE exposta \u00e0s feras e \u00e0s famintas aves,<br \/>\nSem que algu\u00e9m se atrevesse a honrar seu corpo<br \/>\nDe poucas flores e piedosa terra.<br \/>\nFastosa eg\u00edpcia, que o maior triunfo<br \/>\nTemeste honrar do vencedor Latino,<br \/>\nSe desceste inda livre ao escuro reino<br \/>\nFoi vaidosa talvez da imaginada<br \/>\nB\u00e1rbara pompa do real sepulcro.<br \/>\nAm\u00e1vel indiana, eu te prometo<br \/>\nQue em breve a in\u00edqua p\u00e1tria envolta em chamas<br \/>\nTe sirva de urna, e que misture e leve<br \/>\nA tua e a sua cinza o irado vento.<br \/>\nConfusamente murmurava entanto<br \/>\nDo caso atroz a lastimada gente.<br \/>\nDizem que Tanajura lhes pintara<br \/>\nSuave aquele g\u00eanero de morte,<br \/>\nE talvez lhe mostrasse o s\u00edtio e os meios.<br \/>\nBalda, que h\u00e1 muito espera o tempo e o modo<br \/>\nDe alta vingan\u00e7a, e encobre a dor no peito,<br \/>\nExcita os povos a exemplar castigo<br \/>\nNa desgra\u00e7ada velha. Alegre em roda<br \/>\nSe ajunta a petulante mocidade<br \/>\nCo\u2019as armas que o acaso lhe oferece.<br \/>\nMas neste tempo um \u00edndio pelas ruas<br \/>\nCom gesto espavorido vem gritando,<br \/>\nSoltos e arrepiados os cabelos:<br \/>\nFugi, fugi da mal segura terra,<br \/>\nQue est\u00e3o j\u00e1 sobre n\u00f3s os inimigos.<br \/>\nEu mesmo os vi, que descem do alto monte,<br \/>\nE v\u00eam cobrindo os campos; e se ainda<br \/>\nVivo chego a trazer-vos a not\u00edcia,<br \/>\nAos meus ligeiros p\u00e9s a vida eu devo.<br \/>\nDebalde nos expomos neste s\u00edtio,<br \/>\nDiz o ativo Tedeu: melhor conselho<br \/>\n\u00c9 ajuntar as tropas no outro povo:<br \/>\nPerca-se o mais, salvemos a cabe\u00e7a.<br \/>\nEmbora seja assim: fa\u00e7a-se em tudo<br \/>\nA vontade do c\u00e9u; mas entretanto<br \/>\nVejam os contumazes inimigos<br \/>\nQue n\u00e3o t\u00eam que esperar de n\u00f3s despojos,<br \/>\nFalte-lhe a melhor parte ao seu triunfo.<br \/>\nAssim discorre Balda; e entanto ordena<br \/>\nQue todas as esquadras se retirem,<br \/>\nDando as casas primeiro ao fogo, e o templo.<br \/>\nParte, deixando atada a triste velha<br \/>\nDentro de uma choupana, e vingativo<br \/>\nQuis que por ela come\u00e7asse o inc\u00eandio.<br \/>\nOuviam-se de longe os altos gritos<br \/>\nDa miser\u00e1vel Tanajura. Aos ares<br \/>\nV\u00e3o globos espess\u00edssimos de fumo,<br \/>\nQue deixa ensang\u00fcentada a luz do dia.<br \/>\nCom as grossas cam\u00e1ldulas \u00e0 porta,<br \/>\nDevoto e penitente os esperava<br \/>\nO Irm\u00e3o Patusca, que ao rumor primeiro<br \/>\nTinha sido o mais pronto a p\u00f4r-se em salvo<br \/>\nE a desertar da perigosa terra.<br \/>\nPor mais que o nosso General se apresse,<br \/>\nN\u00e3o acha mais que as cinzas inda quentes<br \/>\nE um deserto onde h\u00e1 pouco era a cidade.<br \/>\nTinham ardido as m\u00edseras choupanas<br \/>\nDos pobres \u00edndios, e no ch\u00e3o ca\u00eddos<br \/>\nFumegavam os nobres edif\u00edcios,<br \/>\nDeliciosa habita\u00e7\u00e3o dos padres.<br \/>\nEntram no grande templo e v\u00eaem por terra<br \/>\nAs imagens sagradas. O \u00e1ureo trono,<br \/>\nO trono em que se adora um Deus imenso<br \/>\nQue o sofre, e n\u00e3o castiga os temer\u00e1rios,<br \/>\nEm peda\u00e7os no ch\u00e3o. Voltava os olhos<br \/>\nTurbado o General: aquela vista<br \/>\nLhe encheu o peito de ira, e os olhos de \u00e1gua.<br \/>\nEm roda os seus fort\u00edssimos guerreiros<br \/>\nAdmiram, espalhados, a grandeza<br \/>\nDo rico templo e os desmedidos arcos,<br \/>\nAs bases das firm\u00edssimas colunas<br \/>\nE os vultos animados, que respiram<br \/>\nNa ab\u00f3beda o art\u00edfice famoso<br \/>\nPintara&#8230; mas que intento! as roucas vozes<br \/>\nSeguir n\u00e3o podem do pincel os rasgos.<br \/>\nG\u00eanio da inculta Am\u00e9rica, que inspiras<br \/>\nA meu peito o furor que me transporta,<br \/>\nTu me levanta nas seguras asas.<br \/>\nSer\u00e1s em paga ouvido no meu canto.<br \/>\nE te prometo que pendente um dia<br \/>\nAdorne a minha lira os teus altares.<\/p>\n<h4>CANTO QUINTO<\/h4>\n<p class=\"imagem\">Na vasta e curva ab\u00f3beda pintara<br \/>\nA destra m\u00e3o de art\u00edfice famoso,<br \/>\nEm breve espa\u00e7o, e Vilas, e Cidades,<br \/>\nE Prov\u00edncias e Reinos. No alto s\u00f3lio<br \/>\nEstava dando leis ao mundo inteiro<br \/>\nA Companhia. Os Cetros, e as Coroas,<br \/>\nE as Tiaras, e as P\u00farpuras em torno<br \/>\nSemeadas no ch\u00e3o. Tinha de um lado<br \/>\nD\u00e1divas corruptoras: do outro lado<br \/>\nSobre os brancos altares suspendidos<br \/>\nAgudos ferros, que gotejam sangue.<br \/>\nPor esta m\u00e3o ao p\u00e9 dos altos muros<br \/>\nUm dos Henriques perde a vida e o reino.<br \/>\nE cai por esta m\u00e3o, oh c\u00e9us! debalde<br \/>\nRodeado dos seus o outro Henrique,<br \/>\nDel\u00edcia do seu povo e dos humanos.<br \/>\nPr\u00edncipes, o seu sangue \u00e9 vossa ofensa.<br \/>\nNovos crimes prepara o horrendo monstro.<br \/>\nArmai o bra\u00e7o vingador: descreva<br \/>\nSeus tortos sucos o luzente arado<br \/>\nSobre o seu trono; nem aos tardos netos<br \/>\nO lugar, em que foi, mostrar-se possa.<br \/>\nViam-se ao longe errantes e espalhados<br \/>\nPelo mundo os seus filhos ir lan\u00e7ando<br \/>\nOs fundamentos do esperado Imp\u00e9rio<br \/>\nDe dous em dous: ou sobre os coroados<br \/>\nMontes do Tejo; ou nas remotas praias,<br \/>\nQue habitam as pintadas Amazonas,<br \/>\nPor onde o rei das \u00e1guas escumando<br \/>\nFoge da estreita terra e insulta os mares.<br \/>\nOu no Ganges sagrado; ou nas escuras<br \/>\nNunca de humanos p\u00e9s trilhadas serras<br \/>\nAonde o Nilo tem, se \u00e9 que tem, fonte.<br \/>\nCom um gesto inocente aos p\u00e9s do trono<br \/>\nVia-se a Liberdade Americana<br \/>\nQue arrastando enorm\u00edssimas cadeias<br \/>\nSuspira, e os olhos e a inclinada testa<br \/>\nNem levanta, de humilde e de medrosa.<br \/>\nTem diante riqu\u00edssimo tributo,<br \/>\nBrilhante pedraria, e prata, e ouro,<br \/>\nFunesto pre\u00e7o por que compra os ferros.<br \/>\nAo longe o mar azul e as brancas velas<br \/>\nCom estranhas divisas nas bandeiras<br \/>\nDenotam que aspirava ao senhorio,<br \/>\nE da navega\u00e7\u00e3o e do com\u00e9rcio.<br \/>\nOutro tempo, outro clima, outros costumes.<br \/>\nMais al\u00e9m t\u00e3o diversa de si mesma,<br \/>\nVestida em larga roupa flutuante<br \/>\nQue distinguem barb\u00e1ricos lavores,<br \/>\nRespira no ar chin\u00eas o mole fasto<br \/>\nDe asi\u00e1tica pompa; e grave e lenta<br \/>\nPermite aos bonzos, apesar de Roma,<br \/>\nDo seu Legislador o indigno culto.<br \/>\nAqui entrando no Jap\u00e3o fomenta<br \/>\nDom\u00e9sticas disc\u00f3rdias. L\u00e1 passeia<br \/>\nNo meio dos estragos, ostentando<br \/>\nOrvalhadas de sangue as negras roupas.<br \/>\nC\u00e1 desterrada enfim dos ricos portos,<\/p>\n<p class=\"imagem\">Voltando a vista \u00e0s terras que perdera,<br \/>\nQuer pisar temer\u00e1ria e criminosa&#8230;<br \/>\nOh c\u00e9us! Que negro horror! Tinha ficado<br \/>\nImperfeita a pintura, e envolta em sombras.<br \/>\nTremeu a m\u00e3o do art\u00edfice ao fingi-la,<br \/>\nE desmaiaram no pincel as cores.<br \/>\nDa parte oposta, nas soberbas praias<br \/>\nDa rica Londres tr\u00e1gica e funesta,<br \/>\nEnsang\u00fcentado o T\u00e2mega esmorece.<br \/>\nVendo a conjura\u00e7\u00e3o p\u00e9rfida e negra<br \/>\nQue se prepara ao crime; e intenta e espera<br \/>\nErguer aos c\u00e9us nos inflamados ombros<br \/>\nE espalhar pelas nuvens denegridos<br \/>\nTodos os grandes e a famosa sala.<br \/>\nPor entre os troncos de umas plantas negras,<br \/>\nPor obra sua, viam-se arrastados<br \/>\n\u00c0s ardentes areias africanas<br \/>\nO valor e alta gl\u00f3ria portuguesa.<br \/>\nAi mal aconselhado quanto forte,<br \/>\nGeneroso Mancebo! eternos lutos<br \/>\nPreparas \u00e0 chorosa Lusit\u00e2nia.<br \/>\nDesejado dos teus, a incertos climas<br \/>\nV\u00e1s mendigar a morte e a sepultura.<br \/>\nJ\u00e1 satisfeitos do fatal des\u00edgnio,<br \/>\nPor m\u00e3o de um dos Felipes afogavam<br \/>\nNos abismos do mar e emudeciam<br \/>\nQueixosas l\u00ednguas e sagradas bocas<br \/>\nEm que ainda se ouvia a voz da p\u00e1tria.<br \/>\nCrescia o seu poder e se firmava<br \/>\nEntre surdas vingan\u00e7as. Ao mar largo<br \/>\nLan\u00e7a do profanado oculto seio<br \/>\nO irado Tejo os frios nadadores.<br \/>\nE deixa o barco e foge para a praia<br \/>\nO pescador que at\u00f4nito recolhe<br \/>\nNa longa rede o p\u00e1lido cad\u00e1ver<br \/>\nPrivado de sepulcro. Enquanto os nossos<br \/>\nApascentam a vista na pintura,<br \/>\nNova empresa e outro g\u00eanero de guerra<br \/>\nEm si resolve o General famoso.<br \/>\nApenas esperou que ao sol brilhante<br \/>\nDesse as costas de todo a opaca terra,<br \/>\nPrecipitou a marcha e no outro povo<br \/>\nFoi sorprender os \u00edndios. O Cruzeiro,<br \/>\nConstela\u00e7\u00e3o dos europeus n\u00e3o vista,<br \/>\nAs horas declinando lhe assinala.<br \/>\nA corada manh\u00e3 serena e pura<br \/>\nCome\u00e7ava a bordar nos horizontes<br \/>\nO c\u00e9u de brancas nuvens povoado<br \/>\nQuando, abertas as portas, se descobrem<br \/>\nEm trajes de caminho ambos os padres,<br \/>\nQue mansamente do lugar fugiam,<br \/>\nDesamparando os miser\u00e1veis \u00edndios<br \/>\nDepois de expostos ao furor das armas.<br \/>\nLobo voraz que vai na sombra escura<br \/>\nMeditando trai\u00e7\u00f5es ao manso gado,<br \/>\nPerseguido dos c\u00e3es, e descoberto<br \/>\nN\u00e3o arde em tanta c\u00f3lera, como ardem<br \/>\nBalda e Tedeu. A soldadesca alegre<br \/>\nCerca em roda o fleum\u00e1tico Patusca,<br \/>\nQue pr\u00f3vido de longe os acompanha<br \/>\nE mal se move no jumento tardo.<br \/>\nPendem-se dos ar\u00e7\u00f5es de um lado e de outro<br \/>\nOs paios saborosos e os vermelhos<br \/>\nPresuntos europeus; e a tiracolo,<br \/>\nInsepar\u00e1vel companheira antiga<br \/>\nDe seus caminhos, a borracha pende.<br \/>\nEntra no povo e ao templo se encaminha<br \/>\nO invicto Andrade; e generoso, entanto,<br \/>\nReprime a militar licen\u00e7a, e a todos<br \/>\nCo\u2019a grande sombra ampara: alegre e brando<br \/>\nNo meio da vit\u00f3ria. Em roda o cercam<br \/>\n(Nem se enganaram) procurando abrigo<br \/>\nChorosas m\u00e3es, e filhos inocentes,<br \/>\nE curvos pais e t\u00edmidas donzelas.<br \/>\nSossegado o tumulto e conhecidas<br \/>\nAs vis ast\u00facias de Tedeu e Balda,<br \/>\nCai a infame Rep\u00fablica por terra.<br \/>\nAos p\u00e9s do General as toscas armas<br \/>\nJ\u00e1 tem deposto o rude Americano,<br \/>\nQue reconhece as ordens e se humilha,<br \/>\nE a imagem do seu rei prostrado adora.<br \/>\nSer\u00e1s lido, Uraguai. Cubra os meus olhos<br \/>\nEmbora um dia a escura noite eterna.<br \/>\nTu vive e goza a luz serena e pura.<br \/>\nVai aos bosques de Arc\u00e1dia: e n\u00e3o receies<br \/>\nChegar desconhecido \u00e0quela areia.<br \/>\nAli de fresco entre as sombrias murtas<br \/>\nUrna triste a Mireo n\u00e3o todo encerra.<br \/>\nLeva de estranho c\u00e9u, sobre ela espalha<br \/>\nCo\u2019a peregrina m\u00e3o b\u00e1rbaras flores.<br \/>\nE busca o sucessor, que te encaminhe<br \/>\nAo teu lugar, que h\u00e1 muito que te espera.<\/p>\n<p class=\"imagem\">AO AUTOR*<\/p>\n<h4>SONETO<\/h4>\n<p class=\"imagem\">Parece-me que vejo a grossa enchente,<br \/>\nE a vila errante, que nas \u00e1guas b\u00f3ia:<br \/>\nDetesto os crimes da infernal tram\u00f3ia;<br \/>\nChoro a Cacambo e a Sep\u00e9 valente.<\/p>\n<p class=\"imagem\">N\u00e3o \u00e9 press\u00e1gio v\u00e3o: ler\u00e1<br \/>\na gente<br \/>\nA guerra do Uraguai, como a de Tr\u00f3ia;<br \/>\nE o lagrimoso caso de Lind\u00f3ia<br \/>\nFar\u00e1 sentir o peito que n\u00e3o sente.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Ao longe, a Inveja um pa\u00eds ermo e bronco<br \/>\nInfecte com seu h\u00e1lito perverso,<br \/>\nQue a ti s\u00f3 chega o mal distinto ronco.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Ah! consente que o meu junto ao teu verso,<br \/>\nQual fraca vide que se arrima a um tronco,<br \/>\nTamb\u00e9m v\u00e1 discorrer pelo Universo.<\/p>\n<p class=\"imagem\">JOAQUIM IN\u00c1CIO DE SEIXAS BRAND\u00c3O<\/p>\n<p class=\"imagem\">Doutor em Medicina pela Universidade de Montpellier<\/p>\n<h4>SONETO<\/h4>\n<p class=\"imagem\">Entro pelo Uraguai: vejo a cultura<br \/>\nDas novas terras por engenho claro;<br \/>\nMas chego ao Templo magn\u00edfico e paro<br \/>\nEmbebido nos rasgos da pintura.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Vejo erguer-se a Rep\u00fablica perjura<br \/>\nSobre alicerces de um dom\u00ednio avaro:<br \/>\nVejo distintamente, se reparo,<br \/>\nDe Caco usurpador a cova escura.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Famoso Alcides, ao teu bra\u00e7o forte<br \/>\nToca vingar os cetros e os altares:<br \/>\nArranca a espada, descarrega o corte.<\/p>\n<p class=\"imagem\">E tu, Termindo, leva pelos ares<br \/>\nA grande a\u00e7\u00e3o j\u00e1 que te coube em sorte<br \/>\nA gloriosa parte de a cantares<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Morte de Lind\u00f3ia O Uruguai &nbsp; Morte de Lind\u00f3ia Um frio susto corre pelas veias De Caitutu que deixa os seus no campo; E a irm\u00e3 por entre as sombras do arvoredo Busca com a vista, e treme de encontr\u00e1-la. 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