{"id":92756,"date":"2017-01-05T09:59:33","date_gmt":"2017-01-05T11:59:33","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92756"},"modified":"2017-01-05T09:59:33","modified_gmt":"2017-01-05T11:59:33","slug":"contos-artur-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/contos-artur-azevedo","title":{"rendered":"Contos &#8211; Artur Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"750\" height=\"148\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"116\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#1\">BARCA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#2\">345<\/a><br \/>\n              <a href=\"#3\">A &#8220;N\u00c3O-ME-TOQUES&#8221;<\/a><br \/>\n              <a href=\"#4\">A &#8220;R\u00c9CLAME&#8221;<\/a><br \/>\n              <a href=\"#5\">A \u00c1GUA DE JANOS<\/a><br \/>\n              <a href=\"#6\">A AMA &#8211; SECA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#7\">A CONSELHO DO MARIDO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#8\">A D\u00cdVIDA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#9\">A DOEN\u00c7A DE FABR\u00cdCIO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#10\">A FILHA DO PATR\u00c3O<\/a><br \/>\n              <a href=\"#11\">A FILOSOFIA DO MENDES<\/a><br \/>\n              <a href=\"#12\">A MARCELINA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#13\">A MELHOR AMIGA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#14\">A MELHOR VINGAN\u00c7A<\/a><br \/>\n              <a href=\"#15\">A MO\u00c7A MAIS BONITA DO RIO DE JANEIRO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#16\">A POL\u00caMICA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#17\">A RITINHA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#18\">A TIA ANINHA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#19\">A VI\u00daVA DO ESTASNISLAU<\/a><br \/>\n              <\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"> <\/td>\n<td width=\"151\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"><a href=\"#20\">AS ASNEIRAS DO GUEDES<\/a><br \/>\n              <a href=\"#21\">AS CEREJAS<\/a><br \/>\n              <a href=\"#22\">\u00c0S ESCURAS<br \/>\n              <\/a><\/font><\/strong><strong><font size=\"2\"><a href=\"#23\">AS PARADAS<\/a><br \/>\n              <a href=\"#24\">ASA NEGRA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#25\">ASSUNTO PARA UM CONTO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#26\">BANHOS DE MAR<\/a><br \/>\n              <a href=\"#27\">BLACK<\/a><br \/>\n              <a href=\"#28\">CAIPORISMO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#29\">CAVA\u00c7\u00c3O<\/a><br \/>\n              <a href=\"#30\">CHICO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#31\">COMES E BEBES<\/a><br \/>\n              <a href=\"#32\">COMO O DIABO AS ARMA!<\/a><br \/>\n              <a href=\"#33\">CONJUNTO VOBIS<\/a><br \/>\n              <\/font><\/strong><strong><font size=\"2\"><a href=\"#34\"> DE CIMA PARA<br \/>\n              BAIXO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#35\">DEN\u00daNCIA INVOLUNT\u00c1RIA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#36\">DEZ POR CENTO<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"> <\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"><a href=\"#37\">DOIS ANDARES<\/a><br \/>\n              <a href=\"#38\">DONA EUL\u00c1LIA<\/a><br \/>\n              <a href=\"#39\">DUAS APOSTAS<\/a><br \/>\n              <a href=\"#40\">ELEFANTES E URSOS<br \/>\n              <\/a><\/font><\/strong><strong><font size=\"2\"><a href=\"#41\">EM SONHOS<\/a><br \/>\n              <a href=\"#42\">ENCONTROS REVELADORES<\/a><br \/>\n              <a href=\"#43\">FATALIDADE<\/a><br \/>\n              <a href=\"#44\">HIST\u00d3RIA DE UM DOMIN\u00d3<\/a><br \/>\n              <a href=\"#45\">HIST\u00d3RIA DE UM SONETO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#46\">HIST\u00d3RIA VULGAR<br \/>\n              <\/a><\/font><\/strong><strong><font size=\"2\"><a href=\"#67\">O PAULO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#77\">PAULINO E ROBERTO<\/a><br \/>\n              <a href=\"#98\">VINGAN\u00c7A<\/a><br \/>\n              <a href=\"#99\">VOV\u00d3 ANDRADE<\/a><br \/>\n              <\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2><a name=\"1\">Barca<\/a><\/h2>\n<p>H\u00e1 maridos e mulheres, dizem as m\u00e1s l\u00ednguas, que passam o ver\u00e3o em Petr\u00f3polis<br \/>\n    para fazer das suas \u00e0 vontade. N\u00e3o sei se \u00e9 isso exato quanto \u00e0s mulheres;<br \/>\n    quanto aos maridos, tenho certeza de que o \u00e9.<br \/>\n    D. Senhorinha, esposa exemplar, exemplar\u00edssima, era casada com um negociante<br \/>\n    rico, o Jo\u00e3o Saraiva, que todos os anos, em fins de novembro, dava com ela<br \/>\n    em Petr\u00f3polis at\u00e9 abril, sob pretexto de que a cidade do Rio de Janeiro se<br \/>\n    tornava inabit\u00e1vel durante a can\u00edcula.<br \/>\n    O que ele queria era estar como o boi solto que, segundo o rif\u00e3o, se lambe<br \/>\n    todo. Havia na Rua do Riachuelo uma francesa que lhe dava volta ao miolo e<br \/>\n    constantemente o obrigava a perder a barca.<br \/>\n    Nessas ocasi\u00f5es, D. Senhorinha recebia sempre um telegrama, e acreditava,<br \/>\n    coitada, porque tinha a mais cega confian\u00e7a no marido, e sabia que ele era<br \/>\n    muito ocupado. Por fim, Jo\u00e3o Saraiva tantas e t\u00e3o repetidas vezes perdia a<br \/>\n    barca, por este ou aquele motivo, que marido e mulher resolveram adotar uma<br \/>\n    palavra convencional para cada vez que isso acontecesse. Adotaram a palavra<br \/>\n    &#8220;barca&#8221;.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> Uma vez, D. Senhorinha, ali por volta das 2 horas da tarde, bocejava na<br \/>\n    sua solid\u00e3o petropolitana, quando lhe levaram um telegrama.<br \/>\n    Ela abriu-o um pouco sobressaltada, pois o marido n\u00e3o costumava telegrafar<br \/>\n    \u00e0quela hora, e qual n\u00e3o foi a sua surpresa vendo que o telegrama dizia simplesmente:<br \/>\n    &#8220;Barca&#8221;.<br \/>\n    &#8211; N\u00e3o pode ser! pensou D. Senhorinha. A barca sai da Prainha \u00e0s 4 horas e<br \/>\n    s\u00e3o apenas 2! Com duas horas de anteced\u00eancia meu marido n\u00e3o podia adivinhar<br \/>\n    que perderia a barca! Aqui h\u00e1 coisa.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> Naquele dia o marido n\u00e3o apareceu em Petr\u00f3polis, e no dia imediato, quando<br \/>\n    a senhora lhe pediu uma explica\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o se atreveu a dizer-lhe que o progresso<br \/>\n    agora era tal que os telegramas chegavam ao seu destino antes de mandados,<br \/>\n    ou que houvesse duas horas de diferen\u00e7a entre o meridiano do Rio de Janeiro<br \/>\n    e o de Petr\u00f3polis.<br \/>\n    Jo\u00e3o Saraiva deu a D. Senhorinha uma raz\u00e3o esfarrapada, que ela fingiu aceitar,<br \/>\n    e na manh\u00e3 seguinte entrou furioso no escrit\u00f3rio, dirigindo-se imediatamente<br \/>\n    a um dos empregados.<br \/>\n    &#8211; \u00d3 seu Barros, a que horas voc\u00ea passou anteontem aquele telegrama?<br \/>\n    &#8211; Logo que o senhor m&#8217;o deu.<br \/>\n    &#8211; F\u00ea-la bonita! Pode limpar a m\u00e3o \u00e0 parede! Pois eu n\u00e3o lhe disse que s\u00f3 o<br \/>\n    passasse depois das 4 horas?<br \/>\n    &#8211; Disse, disse; mas como tive que ir l\u00e1 para os lados do Tel\u00e9grafo, julguei<br \/>\n    que n\u00e3o houvesse inconveniente.<br \/>\n    &#8211; Ora valha-o Deus, seu Barros! Voc\u00ea deu cabo da minha tranq\u00fcilidade dom\u00e9stica.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> D. Senhorinha desceu imediatamente de Petr\u00f3polis e nunca mais quis saber<br \/>\n    de vilegiaturas, receando que o marido continuasse a perder a barca. <\/p>\n<h2><a name=\"2\" id=\"2\">345<\/a><\/h2>\n<p>&#8211; &Eacute;s o rei dos caiporas, e, al&eacute;m disso, n&atilde;o tens a menor<br \/>\n    parcela de bom senso! N&atilde;o fosse eu tua mulher, e n&atilde;o sei o que<br \/>\n    seria de ti, porque decididamente n&atilde;o te sabes governar!<\/p>\n<p>&#8211; Exageras, nhanh&atilde;!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! n&atilde;o sabes! Tens deixado estupidamente um rol de vezes<br \/>\n    passar a fortuna perto de ti, sem a agarrar pelos cabelos! Dizem que ela &eacute;<br \/>\n    cega: cego &eacute;s tu!<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; v&ecirc;s que a culpa n&atilde;o &eacute; minha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando houve o Encilhamento, s&oacute; tu n&atilde;o te arranjaste!<\/p>\n<p>&#8211; Mas tamb&eacute;m n&atilde;o me desarranjei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para seres promovido a 1o oficial da tua Reparti&ccedil;&atilde;o, foi<br \/>\n    preciso que eu sa&iacute;sse dos meus cuidados e procurasse o ministro.<\/p>\n<p>&#8211; Fizeste mal.<\/p>\n<p>&#8211; Se o n&atilde;o fizesse, n&atilde;o passarias da cepa torta!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o quero obscurecer o m&eacute;rito da tua dilig&ecirc;ncia, mas<br \/>\n    olha que est&aacute;s enganada, nhanh&atilde;.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras?<\/p>\n<p>&#8211; Redondamente enganada. A nomea&ccedil;&atilde;o era minha. Quando fui agradec&ecirc;-la<br \/>\n    ao ministro, este disse-me: &quot;N&atilde;o era preciso que sua senhora se<br \/>\n    incomodasse: o decreto estava lavrado.&quot;<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim! isso disse ele&#8230; E quando o decreto estivesse, efetivamente,<br \/>\n    lavrado? &Aacute; &uacute;ltima hora seriam capazes de substitui-lo por outro!<br \/>\n    Pois se &eacute;s t&atilde;o caipora!<\/p>\n<p>&#8211; Perdoa, nhanh&atilde;, mas n&atilde;o sou t&atilde;o caipora assim&#8230; Pelo<br \/>\n    menos tive uma grande felicidade na vida!<\/p>\n<p>&#8211; Qual foi, n&atilde;o me dir&aacute;s?<\/p>\n<p>&#8211; A de ter casado contigo&#8230;<\/p>\n<p>Nhanh&atilde; mordeu os l&aacute;bios, porque n&atilde;o achou o que responder,<br \/>\n    e naquele dia as suas impertin&ecirc;ncias habituais n&atilde;o foram mais<br \/>\n    longe.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> O pobre Reginaldo &#8211; assim se chamava o marido &#8211; habituara-se de muito &agrave;quelas<br \/>\n    recrimina&ccedil;&otilde;es insensatas, e era um quase fen&ocirc;meno de resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Ela bem sabia que a coisa seria outra, se realmente a fortuna se deixasse<br \/>\n    agarrar pelos cabelos: o que nhanh&atilde; n&atilde;o lhe perdoava era a sua<br \/>\n    pobreza, &#8211; n&atilde;o era o seu caiporismo. Ela n&atilde;o podia ter em casa<br \/>\n    do marido o mesmo luxo que tinha em casa do pai; n&atilde;o podia rivalizar<br \/>\n    com alguma amiga em ostenta&ccedil;&atilde;o: era isto, s&oacute; isto que<br \/>\n    a afligia, ou antes, que os afligia a ambos, marido e mulher.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p>Reginaldo tinha avers&atilde;o ao jogo; nem mesmo a loteria o tentava.<\/p>\n<p>Entretanto, uma tarde meteu-se num bonde do Catete, para recolher-se &agrave;<br \/>\n    casa, e no Largo do Machado, onde se apeou, pois morava naquelas imedia&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    foi perseguido por um garoto que &agrave; viva for&ccedil;a lhe queria impingir<br \/>\n    um bilhete de loteria, &#8211; uma grande loteria de cem contos de r&eacute;is,<br \/>\n    cuja extra&ccedil;&atilde;o estava anunciada para o dia seguinte.<\/p>\n<p>Reginaldo resistiu, caminhando apressado sem dar resposta ao garoto, que<br \/>\n    o acompanhava insistindo; mas de repente lhe acudiu a id&eacute;ia de que<br \/>\n    aquele maltrapilho poderia ser a fortuna disfar&ccedil;ada. Era preciso agarr&aacute;-la<br \/>\n    pelos cabelos! Comprou o bilhete, e foi para casa, onde o esperavam os tristes<br \/>\n    feij&otilde;es quotidianos.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> Ele bem sabia que, se dissesse a nhanh&atilde; que havia feito essa despesa<br \/>\n    extra-or&ccedil;ament&aacute;ria, n&atilde;o teria a sua aprova&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas que querem, &#8211; o pobre rapaz era um desses maridos submissos, que n&atilde;o<br \/>\n    ficam em paz com a consci&ecirc;ncia quando n&atilde;o contam por mi&uacute;do<br \/>\n    &agrave;s caras-metades tudo quanto lhes sucede.<\/p>\n<p>Ao saber da compra do bilhete, nhanh&atilde; p&ocirc;s as m&atilde;os na<br \/>\n    cabe&ccedil;a:<\/p>\n<p>&#8211; Quando eu digo que tu n&atilde;o tens a menor parcela de bom senso&#8230;!<br \/>\n    A&iacute; est&aacute;! Dez mil-r&eacute;is deitados fora, e tanta coisa falta<br \/>\n    nesta casa!&#8230;<\/p>\n<p>E seguiu-se, durante meia hora, a rela&ccedil;&atilde;o dos objetos que poderiam<br \/>\n    ser comprados com aqueles dez mil-r&eacute;is perdidos.<\/p>\n<p>Depois disso, nhanh&atilde; pediu para ver o bilhete.<\/p>\n<p>Reginaldo, sem proferir uma palavra, tirou-o do bolso e entregou-lho.<\/p>\n<p>&#8211; N&uacute;mero 345! exclamou ela. Um n&uacute;mero t&atilde;o baixo numa<br \/>\n    loteria de cinq&uuml;enta mil n&uacute;meros! Isto &eacute; o que se chama<br \/>\n    vontade de gastar dinheiro &agrave; toa! Algum dia viste, nessas grandes loterias,<br \/>\n    ser premiado um n&uacute;mero de tr&ecirc;s algarismos?<\/p>\n<p>Reginaldo confessou que nem sequer olhara para o n&uacute;mero. Como o garoto<br \/>\n    se lhe afigurou a fortuna disfar&ccedil;ada, ele aceitou o bilhete que lhe<br \/>\n    fora oferecido, entendendo que n&atilde;o devia argumentar com a fortuna.<\/p>\n<p>&#8211; 345! Pois isto &eacute; l&aacute; n&uacute;mero que se compre!<\/p>\n<p>&#8211; Agora n&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio.<\/p>\n<p>&#8211; Como n&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio? P&otilde;e o chap&eacute;u e<br \/>\n    volta imediatamente ao Largo do Machado: o garoto ainda l&aacute; deve estar.<br \/>\n    D&aacute;-lhe o bilhete e ele que te d&ecirc; o dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Perdoa, nhanh&atilde;, mas isso n&atilde;o fa&ccedil;o eu: comprei! Nem<br \/>\n    o garoto desfazia a compra!<\/p>\n<p>&#8211; Ao menos vai trocar o bilhete por outro, que tenha, pelo menos, quatro<br \/>\n    algarismos! Se tiver cinco, melhor!<\/p>\n<p>&#8211; Fa&ccedil;o-te a vontade: mas olha que sempre ouvi dizer que bilhetes de<br \/>\n    loteria n&atilde;o se trocam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Faze o que eu disse e n&atilde;o resmungues! Tu &eacute;s o rei dos caiporas<br \/>\n    e eu tenho muita sorte!<\/p>\n<p>Reginaldo n&atilde;o disse mais nada: p&ocirc;s o chap&eacute;u, saiu de<br \/>\n    casa, foi ao Largo do Machado, e voltou com outro bilhete.<\/p>\n<p>Desta vez o n&uacute;mero tinha cinco algarismos: 38788; nhanh&atilde; devia<br \/>\n    ficar satisfeita.<\/p>\n<p>N&atilde;o ficou:<\/p>\n<p>&#8211; Devias escolher um n&uacute;mero mais variado: o 8 fica aqui tr&ecirc;s<br \/>\n    vezes.. &#8211; Mas, enfim, 38788 sempre inspira mais confian&ccedil;a que 345&#8230;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> Pois, senhores, no dia seguinte o n.0 38788 saiu branco, e o n.0 345 foi<br \/>\n    premiado com a sorte grande.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> Imagine-se o desespero de nhanh&atilde;:<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, eu n&atilde;o digo que &eacute;s o rei dos caiporas?<\/p>\n<p>&#8211; Perdoa, nhanh&atilde;, mas desta vez n&atilde;o fui o rei: tu &eacute;<br \/>\n    que foste a rainha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te! Se n&atilde;o fosses um songamonga, n&atilde;o me terias feito<br \/>\n    a vontade! Ter-me-ias roncado grosso!<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa!<\/p>\n<p>&#8211; Um marido n&atilde;o se deve deixar dominar assim pela mulher!<\/p>\n<p>&#8211; Olha que eu pego na palavra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Trocar um bilhete de loteria! Que absurdo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Absurdo aconselhado por ti&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas tu j&aacute; n&atilde;o est&aacute;s em idade de receber conselhos!<\/p>\n<p>&#8211; Bom; de hoje em diante baterei com o p&eacute; e roncarei grosso todas<br \/>\n    as vezes que me contrariares! Esta casa vai cheirar a homem!&#8230;<\/p>\n<p>A boas horas v&ecirc;m esses protestos de energia!<\/p>\n<p>E exclamando com os punhos cerrados e os olhos voltados para o teto: &quot;Cem<br \/>\n    contos de r&eacute;is&quot;!, nhanh&atilde; deixou-se cair sentada numa cadeira,<br \/>\n    e desatou a chorar.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> Mal que a viu naquele estado aflitivo, Reginaldo correu para junto dela,<br \/>\n    e disse-lhe com muito carinho:<\/p>\n<p>&#8211; Sossega. Eu fiz uma coisa&#8230; mas v&ecirc; l&aacute;! n&atilde;o ralhes<br \/>\n    comigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que foi?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o troquei o bilhete!<\/p>\n<p>N&atilde;o trocaste o bilhete? gritou nhanh&atilde; erguendo-se de um salto,<br \/>\n    com os olhos muito abertos.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! pois eu fazia l&aacute; essa asneira! Seria deixar fugir a<br \/>\n    fortuna, depois de a ter agarrado pelos cabelos!<\/p>\n<p>&#8211; Compraste ent&atilde;o o outro bilhete?<\/p>\n<p>&#8211; Comprei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso&#8230; estamos ricos?<\/p>\n<p>&#8211; Temos cem contos.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, gra&ccedil;as que um dia fizeste alguma coisa com jeito!<\/p>\n<p>&#8211; Qual! eu continuo a ser o rei dos caiporas.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o digas isso!<\/p>\n<p>&#8211; Digo, porque se o n&atilde;o fosse, o n&uacute;mero 38788 teria apanhado<br \/>\n    a sorte imediata&#8230;<\/p>\n<p>\n    (Correio da Manh&atilde;, 16 de outubro de 1904)<\/p>\n<h2><a name=\"3\">A &quot;N&Atilde;O &#8211; ME &#8211; TOQUES&quot; <\/a><\/h2>\n<h4>I<\/h4>\n<p>Passavam-se os anos, e Antonieta ia ficando para tia, &#8211; n&atilde;o que lhe<br \/>\n    faltassem candidatos, mas &#8211; infeliz mo&ccedil;a! &#8211; naquela capital de prov&iacute;ncia<br \/>\n    n&atilde;o havia um homem, um s&oacute;, que ela considerasse digno de ser<br \/>\n    seu marido.<\/p>\n<p>Ao Comendador Costa come&ccedil;avam a inquietar seriamente as exig&ecirc;ncias<br \/>\n    da filha, que repelira, j&aacute;, com desdenhosos muxoxos, uma boa d&uacute;zia<br \/>\n    de pretendentes cobi&ccedil;ados pelas principais donzelas da cidade. Nenhuma<br \/>\n    destas se casou com rapaz que n&atilde;o fosse primeiramente enjeitado pela<br \/>\n    altiva Antonieta.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! dizia o comendador &agrave; sua mulher, D. Guilhermina, &#8211; estou<br \/>\n    vendo que ser&aacute; preciso encomendar-lhe um pr&iacute;ncipe!<\/p>\n<p>&#8211; Ou ent&atilde;o, acrescentava D. Guilhermina, esperar que algum estrangeiro<br \/>\n    ilustre, de passagem nesta cidade..<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; voc&ecirc; bem aviada! Em quarenta anos que aqui estou, s&oacute;<br \/>\n    dois estrangeiros ilustres c&aacute; t&ecirc;m vindo: o Agassiz e o Herman.\n  <\/p>\n<p>Entretanto, eram os pais os culpados daquele orgulho indom&aacute;vel. Suficientemente<br \/>\n    ricos tinham dado &agrave; filha uma educa&ccedil;&atilde;o de fidalga, habituando-a<br \/>\n    desde pequenina a ver imediatamente satisfeitos os seus mais custosos e extravagantes<br \/>\n    caprichos.<\/p>\n<p>Bonita, rica, elegante, vestindo-se pelo &uacute;ltimo figurino, falando<br \/>\n    correntemente o franc&ecirc;s e o ingl&ecirc;s, tocando muito bem o piano,<br \/>\n    cantando que nem uma prima-dona, tinha Antonieta raz&otilde;es sobejas para<br \/>\n    se julgar um avis rara na sociedade em que vivia, e n&atilde;o encontrar em<br \/>\n    nenhuma classe homem que merecesse a honra insigne de acompanh&aacute;-la<br \/>\n    ao altar.<\/p>\n<p>Uma grande viagem &agrave; Europa, empreendida pelo comendador em companhia<br \/>\n    da esposa e da filha, completara a obra. Ter estado em Paris constitu&iacute;a,<br \/>\n    naquela boa terra, um t&iacute;tulo de superioridade.<\/p>\n<p>Ao cabo de algum tempo, ningu&eacute;m mais se atrevia a erguer os olhos<br \/>\n    para a filha do Comendador Costa, contra a qual se estabeleceu pouco a pouco<br \/>\n    certa corrente de animadvers&atilde;o.<\/p>\n<p>Come&ccedil;aram todos a notar-lhe defeitos parecidos com os das uvas de<br \/>\n    La Fontaine, e, como a qualquer indiv&iacute;duo, macho ou f&ecirc;mea, que<br \/>\n    estivesse em tal ou qual evid&ecirc;ncia, era dif&iacute;cil escapar ali a<br \/>\n    uma alcunha, em breve Antonieta se tornou conhecida pela &quot;N&atilde;o-me-toques&quot;.<\/p>\n<h4> II<\/h4>\n<p> Teria sido realmente amada? N&atilde;o, mas apenas desejada, &#8211; tanto assim<br \/>\n    que todos os seus namorados se esqueceram dela&#8230;<\/p>\n<p>Todos, menos o mais discreto, o mais humilde, o &uacute;nico talvez, que<br \/>\n    jamais se atrevera a revelar os seus sentimentos.<\/p>\n<p>Chamava-se Jos&eacute; Fernandes, e era o primeiro empregado da casa do Comendador<br \/>\n    Costa, onde entrara aos dez anos de idade, no mesmo dia em que chegara de<br \/>\n    Portugal.<\/p>\n<p>Por esse tempo veio ao mundo Antonieta. Ele vira-a nascer, crescer, instruir-se,<br \/>\n    fazer-se altiva e bela. Quantas vezes a trouxera ao colo, quantas vezes a<br \/>\n    acalentara nos bra&ccedil;os ou a embalara no ber&ccedil;o! E, alguns anos<br \/>\n    depois, era ainda ele quem todas as manh&atilde;s a levava e todas as tardes<br \/>\n    ia busc&aacute;-la no col&eacute;gio.<\/p>\n<p>Quando Antonieta chegou aos quinze anos e ele aos vinte e cinco, &quot;Seu<br \/>\n    Jos&eacute;&quot; (era assim que lhe chamavam) notou que a sua afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por aquela menina se transformava, tomando um car&aacute;ter estranho e indefin&iacute;vel;<br \/>\n    mas calou-se, e come&ccedil;ou de ent&atilde;o por diante a viver do seu sonho<br \/>\n    e do seu tormento Mais tarde, todas as vezes que aparecia um novo pretendente<br \/>\n    &agrave; m&atilde;o da mo&ccedil;a, ele assustava-se, tremia, tinha acessos<br \/>\n    de ci&uacute;mes, que lhe causavam febre, mas o pretendente era, como todos<br \/>\n    os outros, repelido, e ele exultava na solid&atilde;o e no sil&ecirc;ncio<br \/>\n    do seu platonismo.<\/p>\n<p>Materialmente, Seu Jos&eacute; sacrificara-se pelo seu amor. Era ele, como<br \/>\n    se costuma dizer (n&atilde;o sei com que propriedade) o &quot;tombo&quot;<br \/>\n    da casa comercial do Comendador Costa; entretanto, depois de tantos anos de<br \/>\n    dedica&ccedil;&atilde;o e amizade, a sua situa&ccedil;&atilde;o era ainda<br \/>\n    a de um simples empregado; o patr&atilde;o, ingrato e ego&iacute;sta, pagava-lhe<br \/>\n    em considera&ccedil;&atilde;o e elogios o que lhe devia em fortuna. Mais de<br \/>\n    uma vez apareceram a Seu Jos&eacute; ocasi&otilde;es de trocar aquele emprego<br \/>\n    por uma situa&ccedil;&atilde;o mais vantajosa; ele, por&eacute;m, n&atilde;o<br \/>\n    tinha &acirc;nimo de deixar a casa onde ao seu lado Antonieta nascera e crescera.<\/p>\n<h4>III<\/h4>\n<p> Um dia, tudo mudou de repente.<\/p>\n<p>Sem dar ouvidos a Seu Jos&eacute;, que lhe aconselhava o contr&aacute;rio,<br \/>\n    o Comendador Costa empenhou a sua casa numa grande especula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    cujos efeitos foram desastrosos, e, para n&atilde;o fechar a porta, viu-se<br \/>\n    obrigado a fazer uma concordata com os credores. Foi este o primeiro golpe<br \/>\n    atirado pelo destino contra a altivez da &quot;N&atilde;o-me-toques&quot;.<\/p>\n<p>A casa ia de novo se levantando, e j&aacute; estava quase livre dos seus<br \/>\n    compromissos de honra, quando o Comendador Costa, adoecendo gravemente, faleceu,<br \/>\n    deixando a fam&iacute;lia numa situa&ccedil;&atilde;o embara&ccedil;osa.<\/p>\n<p>Um verdadeiro deus ex machina apareceu ent&atilde;o na figura de Seu Jos&eacute;<br \/>\n    que, reunindo as suadas economias que ajuntara durante trinta anos, e associando-se<br \/>\n    a D. Guilhermina, fundou a firma Vi&uacute;va Costa &amp; Fernandes, e salvou<br \/>\n    de uma ru&iacute;na iminente a casa do seu finado patr&atilde;o.<\/p>\n<h4> IV<\/h4>\n<p> O estabelecimento prosperava a olhos vistos e era apontado como uma prova<br \/>\n    eloq&uuml;ente de quanto podem a intelig&ecirc;ncia, a boa f&eacute; e a for&ccedil;a<br \/>\n    de vontade, quando o falecimento da vi&uacute;va D. Guilhermina veio colocar<br \/>\n    a filha numa situa&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil&#8230;<\/p>\n<p>Sozinha, sem pai nem m&atilde;e, nem amigos, aos trinta e dois anos de idade,<br \/>\n    sempre bela e arrogante em que pesasse a todos os seus dissabores, aonde iria<br \/>\n    a &quot;N&atilde;o-me-toques&quot;?<\/p>\n<p>Antonieta foi a primeira a pensar que o seu casamento com Jos&eacute; Fernandes<br \/>\n    era um ato que as circunst&acirc;ncias impunham&#8230;<\/p>\n<p>Antes da sua orfandade, jamais semelhante coisa lhe passaria pela cabe&ccedil;a.<br \/>\n    N&atilde;o que Seu Jos&eacute; lhe repugnasse: bem sabia quanto esse homem<br \/>\n    era digno e honrado; estimava-o, por&eacute;m, como a um tio, ou a um irm&atilde;o<br \/>\n    mais velho, &#8211; e ela, que recusara a m&atilde;o de tantos doutores, n&atilde;o<br \/>\n    podia afazer-se a id&eacute;ia de se casar com ele.<\/p>\n<p>Entretanto, esse casamento era necess&aacute;rio, era fatal. Demais, a &quot;N&atilde;o-me-toques&quot;<br \/>\n    lembrava-se de que o pai, irritado contra os seus cont&iacute;nuos e impertinentes<br \/>\n    muxoxos, um dia lhe dissera:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;0 sei o que sup&otilde;es que tu &eacute;s, ou o que n&oacute;s<br \/>\n    somos! Culpa tive eu em dar-te a educa&ccedil;&atilde;o que te dei! Sabes<br \/>\n    qual &eacute; o marido que te convinha? Seu Jos&eacute;! Seria um continuador<br \/>\n    da minha casa e da minha ra&ccedil;a!<\/p>\n<p>Tratava-se por conseguinte, de homologar uma senten&ccedil;a paterna. A continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da casa j&aacute; estava confiada a Seu Jos&eacute;: era preciso confiar-lhe<br \/>\n    tamb&eacute;m a continua&ccedil;&atilde;o da ra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Assim, pois, uma noite ela chamou-o e, com muita gravidade, pesando as palavras,<br \/>\n    mas friamente, como se se tratasse de uma simples opera&ccedil;&atilde;o comercial,<br \/>\n    lhe deu a entender que desejava ser sua mulher, e ele, que secretamente alimentava<br \/>\n    a esperan&ccedil;a desse desenlace, confessou-lhe tr&ecirc;mulo, e com os<br \/>\n    olhos inundados de pranto, que esse tinha sido o sonho de toda a sua vida.<\/p>\n<h4> V<\/h4>\n<p> Casaram-se.<\/p>\n<p>Nunca um marido amou t&atilde;o apaixonadamente a sua esposa. Seu Jos&eacute;<br \/>\n    levou &agrave; Antonieta um cora&ccedil;&atilde;o virgem de outra mulher que<br \/>\n    n&atilde;o fosse ela; fora das suas obriga&ccedil;&otilde;es materiais, am&aacute;-la,<br \/>\n    ador&aacute;-la, idolatr&aacute;-la, tinha sempre sido e continuava a ser<br \/>\n    a &uacute;nica preocupa&ccedil;&atilde;o do seu esp&iacute;rito&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, n&atilde;o era feliz; sentia que ela o n&atilde;o amava, que<br \/>\n    se entregara a ele apenas para satisfazer a uma conveni&ecirc;ncia dom&eacute;stica:<br \/>\n    era ap&aacute;tica; sem querer, fazia-lhe sentir a cada instante a superioridade<br \/>\n    terr&iacute;vel das suas prendas. Ningu&eacute;m melhor que ele, tendo sido,<br \/>\n    ali&aacute;s, at&eacute; ent&atilde;o, o &uacute;nico homem que lhe tocara,<br \/>\n    se convenceu de quanto era bem aplicada aquela rid&iacute;cula alcunha de<br \/>\n    &quot;N&atilde;o-me-toques&quot;.<\/p>\n<p>O pobre diabo tinha agora saudades do tempo em que a amava em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    sem que ningu&eacute;m o soubesse, sem que ela pr&oacute;pria o suspeitasse.<\/p>\n<h4>VI<\/h4>\n<p> Antonieta aborrecia-se mortalmente naquele casar&atilde;o onde nascera,<br \/>\n    e onde ningu&eacute;m a visitava, porque o seu car&aacute;ter a incompatibilizara<br \/>\n    com toda a gente.<\/p>\n<p>O marido, avisado e sol&iacute;cito, bem o percebeu. Admitiu um bom s&oacute;cio<br \/>\n    na sua casa comercial, que prosperava sempre, e levou Antonieta &agrave; Europa,<br \/>\n    atordoando-a com o bul&iacute;cio das primeiras capitais do Velho Mundo.<\/p>\n<p>De volta, ao cabo de um ano, construiu uma bela casa no bairro mais elegante<br \/>\n    da cidade, encheu-a de mob&iacute;lias e adornos trazidos de Paris, e inaugurou-a<br \/>\n    com um baile para o qual convidou as fam&iacute;lias mais distintas.<\/p>\n<p>Come&ccedil;ou ent&atilde;o uma nova exist&ecirc;ncia para Antonieta, que,<br \/>\n    n&atilde;o obstante aproximar-se da medonha casa dos quarenta, era sempre<br \/>\n    formosa, com o seu porte de rainha e o seu colo opulento, de uma brandura<br \/>\n    de cisne.<\/p>\n<p>As suas salas, profundamente iluminadas, abriam-se quase todas as noites<br \/>\n    para grandes e pequenas recep&ccedil;&otilde;es: eram festas sobre festas.<\/p>\n<p>Agora j&aacute; lhe n&atilde;o chamavam a &quot;N&atilde;o-me-toques&quot;;<br \/>\n    ela tornara-se acess&iacute;vel, am&aacute;vel, insinuante, com um sorriso<br \/>\n    sempre novo e espont&acirc;neo para cada visita.<\/p>\n<p>Fizeram-lhe a corte, e ela, outrora impass&iacute;vel diante dos galanteios,<br \/>\n    escutava-os agora com prazer.<\/p>\n<p>Um gal&atilde;, mais atrevido que os outros, aproveitou o momento psicol&oacute;gico<br \/>\n    e conseguiu uma entrevista &#8211; Esse primeiro amante foi prontamente substitu&iacute;do.<br \/>\n    Seguiu-se outro, mais outro, seguiram-se muitos&#8230;<\/p>\n<h4>VII<\/h4>\n<p> E quando Seu Jos&eacute;, desesperado, fez saltar os miolos com uma bala,<br \/>\n    deixou esta frase escrita num peda&ccedil;o de papel:<\/p>\n<p>&quot;Enquanto foi solteira, achava minha mulher que nenhum homem era digno<br \/>\n    de ser seu marido; depois de casada (por conveni&ecirc;ncia) achou que todos<br \/>\n    eles eram dignos de ser seus amantes. Mato-me.&quot;<\/p>\n<p> (Correio da Manh&atilde;, 12 de outubro de 1902)<\/p>\n<h2><a name=\"4\">A &quot;RECLAME&quot; <\/a><\/h2>\n<p>Era um domingo. O comendador Viana acabou de almo&ccedil;ar, sentou numa<br \/>\n    cadeira de balan&ccedil;o, cruzou as m&atilde;os sobre o ventre, atirou olhar<br \/>\n    pela janela escancarada que enchia de ar e luz a sala de jantar, e no jardim<br \/>\n    vizinho, um homem a escrever, sentado &agrave; sombra de caramanch&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; menina, d&aacute; c&aacute; o bin&oacute;culo.<\/p>\n<p>Laura, a esposa do comendador Viana, trouxe-lhe o bin&oacute;culo, ele assestou<br \/>\n    contra o homem do caramanch&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me enganava: &eacute; ele&#8230; &Eacute; o tal Passos Nogueira!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que Passos Nogueira? &#8211; perguntou Laura.<\/p>\n<p>O comendador n&atilde;o respondeu; voltou-se para a criada, que leva a mesa,<br \/>\n    e interpelou-a:<\/p>\n<p>&#8211; Aquele sujeito mora ali h&aacute; muito tempo? Voc&ecirc; deve saber&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que sujeito?<\/p>\n<p>&#8211; Aquele que est&aacute; escrevendo acol&aacute;, no jardim da casa de pens&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o v&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! O poeta?<\/p>\n<p>&#8211; Quem lhe disse a voc&ecirc; que ele &eacute; poeta?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; como o ou&ccedil;o tratar na vizinhan&ccedil;a. J&aacute; ali<br \/>\n    morava quando viemos para esta casa.<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto &#8211; observou Laura &#8211; estamos aqui h&aacute; oito meses e &eacute;<br \/>\n    a primeira vez que o vejo.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras? &#8211; perguntou entre dentes o comendador, com um olhar de desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Ora esta! &#8211; murmurou Laura, muito admirada da inflex&atilde;o e do olhar<br \/>\n    do marido.<\/p>\n<p>&#8211; Parece imposs&iacute;vel que minha ama n&atilde;o tenha reparado &#8211; acudiu<br \/>\n    a criada &#8211; porque o poeta vai todas as manh&atilde;s e todas as tardes escrever<br \/>\n    naquele lugar.<\/p>\n<p>&#8211; Todas as manh&atilde;s? &#8211; indagou o dono da casa, levantando-se.<\/p>\n<p>&#8211; E todas as tardes &#8211; repetiu ingenuamente a criada.<\/p>\n<p>E foi para a cozinha.<\/p>\n<p>&#8211; Viana &#8211; obtemperou Laura, aproveitando a aus&ecirc;ncia da criada &#8211; voc&ecirc;<br \/>\n    faz umas coisas esquisitas! Esta mulher vai ficar convencida de que meu marido<br \/>\n    tem ci&uacute;mes de um homem que eu nem sequer conhe&ccedil;o!<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo &eacute; um bandido! &#8211; regougou o comendador.<\/p>\n<p>&#8211; Pois deixe-o ser! Que temos n&oacute;s com isso? Ele est&aacute; na sua<br \/>\n    casa e n&oacute;s na nossa.<\/p>\n<p>&#8211; Se eu soubesse que aquele patife morava ali, n&atilde;o t&iacute;nhamos<br \/>\n    vindo para c&aacute;!<\/p>\n<p>&#8211; Mas que importa que ele more ali?<\/p>\n<p>&#8211; Importa muito! Aquilo &eacute; sujeitinho capaz de manchar a reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma senhora com um simples cumprimento. Ele algum dia j&aacute; te cumprimentou?<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu j&aacute; n&atilde;o lhe disse que nunca reparei nesse homem?<\/p>\n<p>&#8211; Ali onde o v&ecirc;s tem causado a desgra&ccedil;a de umas poucas de senhoras!<br \/>\n    Por causa dele a mulher de um negociante deixou o marido, a filha de um despachante<br \/>\n    da Alf&acirc;ndega saiu da casa do pai, e a vi&uacute;va de um coronel tentou<br \/>\n    suicidar-se!<\/p>\n<p>Com efeito! &#8211; exclamou Laura, agarrando rapidamente no bin&oacute;culo. &#8211;<br \/>\n    Deve ser um homem excepcional!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! &eacute; melhor que o n&atilde;o vejas! &#8211; ponderou o marido,<br \/>\n    tomando-lhe o bin&oacute;culo das m&atilde;os. &#8211; Que interesse tens tu?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Apenas o interesse que voc&ecirc; mesmo me despertou, contando-me as conquistas<br \/>\n    desse Napole&atilde;o do amor.<\/p>\n<p>&#8211; Mulheres doentias e malucas&#8230; Pobrezinhas que se deixaram levar por cantigas,<br \/>\n    ora a&iacute; tens!&#8230; Aquele peralta faz versos, e os jornais levam a dizer<br \/>\n    todos os dias que ele tem muito talento&#8230; e que &eacute; muito inspirado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-me agora que j&aacute; tenho lido esse nome de Passos Nogueira.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, menina, v&ecirc; l&aacute; se tamb&eacute;m tu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Descanse: j&aacute; n&atilde;o estou em idade de me deixar levar por poesias.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, mas pe&ccedil;o-te que n&atilde;o te debruces nessa janela quando<br \/>\n    o tal poeta&ccedil;o estiver no seu caramanch&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu&ecirc;? Receia que eu caia? Ora deixe-se de ci&uacute;mes!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o s&atilde;o ci&uacute;mes, s&atilde;o zelos. N&atilde;o receio<br \/>\n    pelo que possas fazer&#8230; mas tenho medo que a vizinhan&ccedil;a murmure.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"> II<\/a><\/h2>\n<p> Laura, que at&eacute; ent&atilde;o ignorava a exist&ecirc;ncia do poeta<br \/>\n    Passos Nogueira, come&ccedil;ou a interessar-se muito por ele, gra&ccedil;as<br \/>\n    &agrave; r&eacute;clame feita pelo comendador. Sentia-se atra&iacute;da pela<br \/>\n    figura daquele horrendo sedutor de solteiras, casadas e vi&uacute;vas, e duas<br \/>\n    vezes ao dia, reclinada &agrave; janela, olhava longamente para o poeta.<\/p>\n<p>Este acabou por notar a insist&ecirc;ncia com que era contemplado pela vizinha,<br \/>\n    e prontamente correspondeu aos seus olhares l&acirc;nguidos e prometedores.<\/p>\n<p>Estabeleceu-se logo entre eles um desses namoros saborosos e terr&iacute;veis,<br \/>\n    rid&iacute;culos e absorventes, que monopolizam duas exist&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Para justificar a precipita&ccedil;&atilde;o dos fatos, digamos que Laura,<br \/>\n    mulher de vinte e seis anos, rom&acirc;ntica e nervosa, casara-se, muito nova<br \/>\n    ainda, com o comendador Viana, homem quinze anos mais velho que ela, curto<br \/>\n    e positivo, que n&atilde;o correspondia absolutamente ao seu ideal de mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>Digamos ainda que o poeta Passos Nogueira, rapaz de talento vantajosamente<br \/>\n    apreciado, atordoou-se quando se viu provocado pelos bonitos olhos de uma<br \/>\n    bela mulher casada. Apesar da reputa&ccedil;&atilde;o que gozava e da qual<br \/>\n    se fizera eco o pr&oacute;prio comendador, Passos Nogueira jamais inscrevera<br \/>\n    ao seu canhanho de conquistas f&aacute;ceis aventura t&atilde;o interessante<br \/>\n    e t&atilde;o consider&aacute;vel como essa que agora lhe desassossegava o<br \/>\n    esp&iacute;rito e lhe espantava as rimas.<\/p>\n<p>Digamos ainda que o comendador continuava todos os dias a fazer r&eacute;clame<br \/>\n    ao namorado, referindo-se &agrave; sua pessoa em termos desabridos, insultando-o<br \/>\n    de modo que ele n&atilde;o ouvisse e, finalmente, exprobrando a Laura, por<br \/>\n    mera presun&ccedil;&atilde;o, que ela o animasse e lhe desse corda.<\/p>\n<p>N&atilde;o tardou que o poeta escrevesse &agrave; vizinha um bilhete, lan&ccedil;ado<br \/>\n    por cima do muro que separava as duas casas. Perguntava pelo seu nome e pedia-lhe<br \/>\n    uma entrevista. Ela respondeu:<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o! N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel! N&atilde;o me persiga!<br \/>\n    Esque&ccedil;a-se de mim! Bem v&ecirc; que n&atilde;o sou livre! Um encontro<br \/>\n    poderia causar a nossa desgra&ccedil;a!&quot;<\/p>\n<p>Mas, n&atilde;o obstante desengano t&atilde;o decisivo e formal, no dia seguinte<br \/>\n    os olhos da mo&ccedil;a encontraram-se com os do poeta. Ela sentia a necessidade,<br \/>\n    o dever de fugir daquele homem, mas n&atilde;o tinha for&ccedil;as para faz&ecirc;-lo.<br \/>\n    E o namoro continuou.<\/p>\n<p>Dois dias depois, novo bilhete. Ela abriu-o s&ocirc;frega e palpitante &#8211;<br \/>\n    e leu estes versos:<\/p>\n<p> &quot;Eu n&atilde;o sou livre&quot;, escreveste; <\/p>\n<p> Por&eacute;m, se livre n&atilde;o eras, <\/p>\n<p> Por que com tantas quimeras <\/p>\n<p> Encheste um c&eacute;rebro nu? <\/p>\n<p> Pedes que n&atilde;o te persiga&#8230; <\/p>\n<p> Mas por teus olhos ferido, <\/p>\n<p> Reflete que o perseguido <\/p>\n<p> Sou eu meu anjo, e n&atilde;o tu! <\/p>\n<p>Quando da tua janela <\/p>\n<p> Atiras aos meus desejos <\/p>\n<p> Olhares que valem beijos, <\/p>\n<p> Porque tens beijos no olhar; <\/p>\n<p> Quando esses ternos olhares <\/p>\n<p> Com meus olhares se cruzam, <\/p>\n<p> Teus lindos olhos abusam <\/p>\n<p> Do seu cond&atilde;o de encantar! <\/p>\n<p>N&atilde;o te compreendo, vizinha; <\/p>\n<p> Tu mesma n&atilde;o te compreendes: <\/p>\n<p> Fazes-te amar, e pretendes <\/p>\n<p> Que eu fuja e te deixe em paz! <\/p>\n<p> Mas n&atilde;o v&ecirc;s que &eacute; negativo <\/p>\n<p> Este sistema que empregas? <\/p>\n<p> Tudo, escrevendo, me negas, <\/p>\n<p> &#8211; E, olhando, tudo me d&aacute;s! <\/p>\n<p>Vizinha, bela vizinha, <\/p>\n<p> Vizinha por quem pade&ccedil;o, <\/p>\n<p> Pois tais palavras mere&ccedil;o <\/p>\n<p> Que me fizeram chorar? <\/p>\n<p> O prometido &eacute; devido&#8230; <\/p>\n<p> Para que o peito me aquietes, <\/p>\n<p> Ou d&aacute;-me quanto prometes, <\/p>\n<p> Ou n&atilde;o prometas sem dar&#8217; <\/p>\n<h2><a name=\"1\"> III<\/a><\/h2>\n<p> Para encurtar raz&otilde;es: Passos Nogueira e Laura foram por muito tempo,<br \/>\n    e n&atilde;o sei se continuam a ser, os amantes mais apaixonados que ainda<br \/>\n    houve.<\/p>\n<p>Ela nunca perdoou ao marido o mau passo que deu. Seria ainda hoje o modelo<br \/>\n    das esposas, se o comendador n&atilde;o se lembrasse de fazer r&eacute;clame<br \/>\n    ao poeta.<\/p>\n<p>Este, por expressa recomenda&ccedil;&atilde;o da amante, nunca mais apareceu<br \/>\n    no caramanch&atilde;o fat&iacute;dico.<\/p>\n<p>Isto fez com que o marido tornasse &agrave;s boas.<\/p>\n<p>Uma tarde perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; menina, ent&atilde;o o poeta j&aacute; ali n&atilde;o mora?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei &#8211; respondeu Laura com uma deliciosa indiferen&ccedil;a.<br \/>\n    Se se mudou, melhor! Um libertino daqueles!<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-o l&aacute;, coitado! Muitas vezes s&atilde;o mais as vozes que as<br \/>\n    nozes.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! Foi voc&ecirc; mesmo quem falou da filha do despachante, da<br \/>\n    mulher do negociante e da vi&uacute;va do coronel!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Disseram-me. Este Rio de Janeiro, menina, &eacute; a terra da maledic&ecirc;ncia.<br \/>\n    Deus me livre de que algu&eacute;m se lembre de espalhar por a&iacute; que<br \/>\n    eu roubei o sino de S&atilde;o Francisco!<\/p>\n<h2><a name=\"5\">A &Aacute;GUA DE JANOS <\/a><\/h2>\n<h4>I<\/h4>\n<p>O Tenente de Cavalaria Rem&iacute;gio Soares teve a infelicidade de ver uma<br \/>\n    noite dona Andr&eacute;a num camarote do Teatro Lucinda, ao lado de seu leg&iacute;timo<br \/>\n    esposo, e pecou, infringindo impiamente o nono mandamento da lei de Deus.<\/p>\n<p>A &quot;mulher do pr&oacute;ximo&quot;, notando que a &quot;desejavam&quot;,<br \/>\n    deixou-se impressionar por aquela farda, por aqueles bigodes e por aqueles<br \/>\n    belos olhos negros e rasgados.<\/p>\n<p>Ao marido, interessado pelo enredo do dramalh&atilde;o que se representava,<br \/>\n    passou completamente despercebido o namoro aceso entre o camarote e a plat&eacute;ia.<\/p>\n<p>Premiada a virtude e castigado o v&iacute;cio, isto &eacute;, terminado o<br \/>\n    espet&aacute;culo, o tenente Soares acompanhou a certa dist&acirc;ncia o casal<br \/>\n    at&eacute; o largo de S&atilde;o Francisco e tomou o mesmo bonde que ele &#8211;<br \/>\n    um bonde do Bispo, &#8211; sentando-se, como por acaso, ao lado de dona Andr&eacute;a.<\/p>\n<p>Dizer que no bonde o p&eacute; do tenente e o pezinho da mo&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    continuaram a obra encetada no Lucinda &#8211; seria faltar &agrave; verdade que<br \/>\n    devo aos meus leitores. Acrescentarei at&eacute; que, ao sair do bonde, na<br \/>\n    pitoresca rua Malvino Reis, dona Andr&eacute;a, com r&aacute;pido e furtivo<br \/>\n    aperto de m&atilde;o, fez ao seu namorado as mais concludentes e escandalosas<br \/>\n    promessas.<\/p>\n<p>Ele ficou sabendo onde ela morava&#8230;<\/p>\n<h4> II<\/h4>\n<p> O Tenente Rem&iacute;gio Soares foi para casa, em S&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    e passou o resto da noite agitad&iacute;ssimo, &#8211; pudera! &Agrave;s dez horas<br \/>\n    da manh&atilde; atravessava j&aacute; o Rio Comprido ao trote do seu cavalo!<\/p>\n<p>Mas &#8211; que contrariedade! &#8211; as janelas de dona Andr&eacute;a estavam fechadas&#8230;<\/p>\n<p>O cavaleiro foi at&eacute; a rua de Santa Alexandrina e voltou &#8211; patati,<br \/>\n    patat&aacute;, patati, patat&aacute;! &#8211; e as janelas n&atilde;o se tinham<br \/>\n    aberto&#8230;<\/p>\n<p>O passeio foi renovado &agrave; tarde &#8211; o tenente passou, tornou a passar,<br \/>\n    &#8211; continuavam fechadas as janelas&#8230;<\/p>\n<p>Malditas janelas!<\/p>\n<p>Durante quatro dias o namorado foi e veio a cavalo, a p&eacute;, de bonde,<br \/>\n    fardado, &agrave; paisana: nada! Aquilo n&atilde;o era uma casa: era um convento!<\/p>\n<p>Mas ao quinto dia &#8211; oh, ventura! &#8211; ele viu sair do convento um molecote que<br \/>\n    se dirigia para a venda pr&oacute;xima. N&atilde;o refletiu: chamou-o de parte,<br \/>\n    untou-lhe as unhas e interpelou-o.<\/p>\n<p>Soube nessa ocasi&atilde;o que ela se chamava Andr&eacute;a. Soube mais que<br \/>\n    o marido era empregado p&uacute;blico e muito ciumento! Proibia expressamente<br \/>\n    a senhora sair sozinha e at&eacute; chegar &agrave; janela quando ele estivesse<br \/>\n    na rua. Soube, finalmente, que havia em casa dois C&eacute;rberos: uma tia<br \/>\n    do marido e um jardineiro muito dedicado ao patr&atilde;o.<\/p>\n<p>Mas o providencial moleque nesse mesmo dia se encarregou de entregar a dona<br \/>\n    Andr&eacute;a uma cartinha do inflamado tenente, e a resposta &#8211; digamo-lo<br \/>\n    para vergonha daquela formosa desmiolada &#8211; a resposta n&atilde;o se fez esperar<br \/>\n    por muito tempo:<\/p>\n<p>&quot;Pede-me uma entrevista, e n&atilde;o imagina como desejo satisfazer<br \/>\n    a esse pedido, porque tamb&eacute;m o amo. Mas uma entrevista como?&#8230; onde?&#8230;<br \/>\n    quando?&#8230; Saiba que sou guardada &agrave; vista por uma senhora de idade,<br \/>\n    tia dele, e por um jardineiro que lhe &eacute; muito dedicado. Pode ser que<br \/>\n    um dia as circunst&acirc;ncias se combinem de modo que nos possamos encontrar<br \/>\n    a s&oacute;s&#8230; Como h&aacute; um Deus para os que se amam, esperemos que<br \/>\n    chegue esse dia: at&eacute; l&aacute;, tenhamos um pouco de paci&ecirc;ncia.<br \/>\n    Mande-me dizer onde de pronto o poderei encontrar no caso de ter que preveni-lo<br \/>\n    de repente. O moleque &eacute; de confian&ccedil;a.&quot;<\/p>\n<p>Na esperan&ccedil;a de que o grande dia chegasse, o Tenente Rem&iacute;gio<br \/>\n    Soares mudou-se imediatamente para perto da casa de dona Andr&eacute;a: procurou<br \/>\n    e achou um c&ocirc;modo de onde se via, meio encoberta pelo arvoredo, a porta<br \/>\n    da cozinha do objeto amado. Dessa porta dona Andr&eacute;a fazia-lhe um sinal<br \/>\n    convencionado todas as vezes que desejava enviar-lhe uma cartinha.<\/p>\n<h4> III<\/h4>\n<p> Diz a cl&aacute;ssica sabedoria das na&ccedil;&otilde;es que o melhor da<br \/>\n    festa &eacute; esperar por ela.<\/p>\n<p>N&atilde;o era dessa opini&atilde;o o tenente, que h&aacute; dezoito meses<br \/>\n    suspirava noite e dia pela mulher mais bonita de todo aquele bairro do Rio<br \/>\n    Comprido, sem conseguir trocar uma palavra com ela!<\/p>\n<p>O namorados, gra&ccedil;as ao molecote, correspondiam-se epistolarmente,<br \/>\n    &eacute; verdade, mas essa correspond&ecirc;ncia, violenta e fogosa, contribu&iacute;a<br \/>\n    para mais ati&ccedil;ar a luta entre aqueles dois desejos e aumentar o tormento<br \/>\n    daquelas duas almas.<\/p>\n<h4> IV<\/h4>\n<p> Os leitores &#8211; e principalmente as leitoras &#8211; me desculpar&atilde;o de n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;r no final deste conto um gr&atilde;o de poesia; tenho de conclui-lo<br \/>\n    um pouco &agrave; Armand Silvestre. Em todo caso, ver&atilde;o que a moral<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; sacrificada.<\/p>\n<p>O meu her&oacute;i andava j&aacute; obsedado, menos pelo que acreditava ser<br \/>\n    o seu amor, que pelos dezoito meses de longa expectativa e lento desespero.<\/p>\n<p>Um dia, o Barroso, seu amigo &iacute;ntimo, seu confidente, foi encontr&aacute;-lo<br \/>\n    muito abatido, sem animo de se erguer da cama.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda mo perguntas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tem paci&ecirc;ncia: Jacob esperou quatorze anos.<\/p>\n<p>&#8211; Esta coisa tem-me posto doente. Bem sabes que eu gozava uma sa&uacute;de<br \/>\n    de ferro&#8230; Pois bem, neste momento a cabe&ccedil;a pesa-me uma arroba&#8230;<br \/>\n    tenho tonteiras!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; calor: a tua Andr&eacute;a n&atilde;o tem absolutamente nada<br \/>\n    que ver com esses fen&ocirc;menos patol&oacute;gicos. Queres um conselho?<br \/>\n    Manda buscar ali &agrave; botica uma garrafinha de &aacute;gua de Janos. &Eacute;<br \/>\n    o melhor rem&eacute;dio que conhe&ccedil;o para aliviar a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>O tenente aceitou o conselho, e o Barroso despediu-se dele depois que o viu<br \/>\n    esvaziar um bom copo da benem&eacute;rita &aacute;gua.<\/p>\n<p>Vinte minutos depois dessa liba&ccedil;&atilde;o desagrad&aacute;vel, Rem&iacute;gio<br \/>\n    Soares viu assomar ao longe, na porta da cozinha, o vulto airoso de dona Andr&eacute;a,<br \/>\n    anunciando-lhe uma carta.<\/p>\n<p>Pouco depois entrava o molecote, entregava-lhe um bilhete escrito &agrave;s<br \/>\n    pressas.<\/p>\n<p>&quot;A velha amanheceu hoje com febre e n&atilde;o sai do quarto. O jardineiro<br \/>\n    foi &agrave; cidade chamar um m&eacute;dico de confian&ccedil;a dela. Vem<br \/>\n    depressa, mal recebas este bilhete: h&aacute; de ser j&aacute;, ou nunca o<br \/>\n    ser&aacute; talvez.&quot;<\/p>\n<p>O tenente soltou um grito de raiva: a &aacute;gua de Janos come&ccedil;ava<br \/>\n    a produzir os seus efeitos fatais; era imposs&iacute;vel acudir ao doce chamado<br \/>\n    de dona Andr&eacute;a!<\/p>\n<p>Era imposs&iacute;vel tamb&eacute;m confessar-lhe a causa real do n&atilde;o<br \/>\n    comparecimento: nenhum namorado faria confiss&otilde;es dessa ordem&#8230;<\/p>\n<p>O m&iacute;sero pegou na pena, e escreveu, contendo-se para n&atilde;o fazer<br \/>\n    outra coisa:<\/p>\n<p>&quot;Que fatalidade! Um motivo poderos&iacute;ssimo constrange-me a n&atilde;o<br \/>\n    ir&#8230; Quando algum dia haja certa intimidade entre n&oacute;s, dir-te-ei qual<br \/>\n    foi esse motivo, e tenho certeza de que me perdoar&aacute;s.&quot;<\/p>\n<p>Dona Andr&eacute;a n&atilde;o perdoou. O Tenente Rem&iacute;gio Soares nunca<br \/>\n    mais a viu.<\/p>\n<h4>V<\/h4>\n<p>Quando, no dia seguinte, ele contou ao Barroso a desgra&ccedil;a de que este<br \/>\n    fora o causador involunt&aacute;rio, o confidente sorriu, e obtemperou:<\/p>\n<p>&#8211; V&ecirc; tu que grande rem&eacute;dio &eacute; a &aacute;gua de Janos:<br \/>\n    um s&oacute; copo bastou para aliviar tr&ecirc;s cabe&ccedil;as!<\/p>\n<h2><a name=\"6\">A AMA &#8211; SECA<\/a><\/h2>\n<p>O Romualdo, marido de D. Euf&ecirc;mia, era um rapaz s&eacute;rio, l&aacute;<br \/>\n    isso era, e t&atilde;o incapaz de cometer a mais leve infidelidade conjugal<br \/>\n    como de roubar o sino de S&atilde;o Francisco de Paula; mas &#8211; vejam como o<br \/>\n    diabo as arma! Um dia D. Euf&ecirc;mia foi chamada, a toda a pressa, a Juiz<br \/>\n    de Fora, para ver o pai que estava gravemente enfermo, e como o Romualdo n&atilde;o<br \/>\n    podia naquela ocasi&atilde;o deixar a casa comercial de que era guarda-livros<br \/>\n    (estavam a dar balan&ccedil;o), resignou-se a ver partir a senhora acompanhada<br \/>\n    pelos tr&ecirc;s meninos, o Zeca, o Cazuza, o Bibi, e a ama-seca deste &uacute;ltimo,<br \/>\n    que era ainda de colo. Foi a primeira vez que o Romualdo se separou da fam&iacute;lia.<br \/>\n    Custou-lhe muito, coitado, e mais lhe custou quando, ao cabo de uma semana,<br \/>\n    D. Euf&ecirc;mia lhe escreveu, dizendo que o velho estava livre de perigo,<br \/>\n    mas a convalescen&ccedil;a seria longa, e o seu dever de filha era ficar junto<br \/>\n    dele um m&ecirc;s pelo menos. O Romualdo resignou-se. Que rem&eacute;dio!&#8230;<br \/>\n    Durante os primeiros tempos sa&iacute;a do escrit&oacute;rio e metia-se em<br \/>\n    casa, mas no fim de alguns dias entendeu que devia dar alguns passeios pelos<br \/>\n    arrabaldes, hoje este, amanh&atilde; aquele. Era um meio, como outro qualquer,<br \/>\n    de iludir a saudade. Uma noite coube a vez ao Andara&iacute; Grande. O Romualdo<br \/>\n    tomou o bonde do Leopoldo, e teve a fortuna ou a desgra&ccedil;a de se sentar<br \/>\n    ao lado da mulatinha mais dengosa e bonita que ainda tentou um marido, cuja<br \/>\n    mulher estivesse em Juiz de Fora. Nessa noite fatal a virtude do Romualdo<br \/>\n    deu em pantanas: tencionando ele ir at&eacute; o fim da linha, como fazia<br \/>\n    todas as noites, apeou-se na Rua Mariz e Barros, ali pelas alturas da Travessa<br \/>\n    de S&atilde;o Salvador. A mulata havia se apeado algumas bra&ccedil;as antes.<\/p>\n<p> E ele viu, &agrave; luz de um lampi&atilde;o, o vulto dela saltitante e<br \/>\n    esquivo, e apressou o passo para apanh&aacute;-la, o que conseguiu facilmente,<br \/>\n    porque, pelos modos, ela j&aacute; contava com isso. &#8211; Boa noite!<\/p>\n<p> &#8211; Boa noite.<\/p>\n<p> &#8211; Como se chama?<\/p>\n<p> &#8211; Antonieta.<\/p>\n<p> &#8211; Pode dar-me uma palavra?<\/p>\n<p> &#8211; Por que n&atilde;o falou no bonde?<\/p>\n<p> &#8211; Era imposs&iacute;vel&#8230; estava tanta gente&#8230; e estes el&eacute;tricos<br \/>\n    s&atilde;o t&atilde;o iluminados.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o sinh&ocirc; bolinou que n&atilde;o foi gra&ccedil;a! vamos, diga:<br \/>\n    que deseja?<\/p>\n<p> &#8211; Desejo saber onde mora.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenho casa minha; tou empregada numa famia ali mais adiente,<br \/>\n    por sin&aacute; que n&atilde;o stou satisfeita, e ando procurando outra arruma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Onde poderemos falar em particular?<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; sai amanh&atilde; &agrave; noite?<\/p>\n<p> &#8211; Amanh&atilde; n&atilde;o, porque sa&iacute; hoje, e n&atilde;o quero abus&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, depois de amanh&atilde;?<\/p>\n<p> &#8211; Pois sim.<\/p>\n<p> &#8211; Onde a espero?<\/p>\n<p> &#8211; Onde o sinh&ocirc; quis&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Na Pra&ccedil;a Tiradentes, no ponto dos bondes. As oito horas.<\/p>\n<p> &#8211; Na porta do armaz&eacute;m do Derby?<\/p>\n<p> &#8211; Isso!<\/p>\n<p> &#8211; T&aacute; dito! Int&eacute; depois d&#8217;amanh&atilde; &agrave;s oito hora.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o falte!<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o farto n&atilde;o!<\/p>\n<p> No dia seguinte, o Romualdo contou a sua aventura a um companheiro de escrit&oacute;rio<br \/>\n    que era useiro e vezeiro nessas cavalarias&#8230; baixas, e o camarada levou a<br \/>\n    condescend&ecirc;ncia ao ponto de confiar-lhe a chave de um ninho que tinha<br \/>\n    preparado adrede para os contrabandos do amor.<\/p>\n<p> Antonieta foi pontual; &agrave; hora marcada l&aacute; estava &agrave; porta<br \/>\n    do Derby, com ares de quem esperava o bonde.<\/p>\n<p> O Romualdo aproximou-se, fez um sinal, afastou-se e ela seguiu-o&#8230;<\/p>\n<p> Dez dias depois, estava ele arrependid&iacute;ssimo da sua conquista f&aacute;cil,<br \/>\n    e com remorsos de haver enganado D. Euf&ecirc;mia, aquela santa! Procurava<br \/>\n    agora meios e modos de se ver livre da mulata, cuja pros&oacute;dia era capaz<br \/>\n    de lan&ccedil;ar &aacute;gua na fervura da mais violenta paix&atilde;o.<\/p>\n<p> Vendo que n&atilde;o podia evit&aacute;-la, tomou o Romualdo a delibera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de fugir-lhe, e uma noite deixou-a &agrave; porta do ninho, esperando debalde<br \/>\n    por ele. Lembrou-se, mas era tarde, que havia prometido dar-lhe uni anel,<br \/>\n    justamente nessa noite.<\/p>\n<p> &#8211; Diabo! pensou ele, Antonieta vai supor que lhe fugi por causa do anel!<\/p>\n<p> Voltou, afinal, D. Euf&ecirc;mia de Juiz de Fora. Veio no trem da manh&atilde;,<br \/>\n    inesperadamente, e j&aacute; n&atilde;o encontrou o marido em casa.<\/p>\n<p> Estava furiosa, porque a ama-seca de Bibi deixara-se ficar na esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Barra. Podia ser que n&atilde;o fosse de prop&oacute;sito. O mais certo,<br \/>\n    por&eacute;m, era o ter sido desencaminhada por um sujeito que vinha no trem<br \/>\n    a namor&aacute;-la desde Para&iacute;buna.<\/p>\n<p> Quando D. Euf&ecirc;mia contou isso ao marido, acrescentou indignada:<\/p>\n<p> &#8211; Que homens sem-vergonha!&#8230; N&atilde;o podem ver uma mulata!&#8230;<\/p>\n<p> O Romualdo perturbou-se, mas disfar&ccedil;ou, perguntando:<\/p>\n<p> &#8211; E agora? E preciso anunciar! N&atilde;o podemos ficar sem ama-seca!<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; mandei o Zeca p&ocirc;r um an&uacute;ncio no Jornal do Brasil.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o Romualdo saiu muito cedo; ao voltar para casa, a primeira<br \/>\n    coisa que perguntou &agrave; senhora foi:<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o? J&aacute; temos ama-seca?. .<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute;; &eacute; uma mulatinha bem jeitosa, mas tem cara de sapeca.<br \/>\n    Chama-se Antonieta.<\/p>\n<p> &#8211; Hem? Antonieta?<\/p>\n<p> &#8211; Que tens, homem?<\/p>\n<p> &#8211; Nada; n&atilde;o tenho nada&#8230; E jeitosa?&#8230; Tem cara de sapeca?&#8230; Manda-a<br \/>\n    embora! N&atilde;o serve! Nem quero v&ecirc;-la!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora essa! Por qu&ecirc;? Olha, ela a&iacute; vem.<\/p>\n<p> Antonieta chegou, efetivamente, com o Bibi ao colo; mas o Romualdo tinha<br \/>\n    fechado os olhos, dizendo consigo:<\/p>\n<p> &#8211; Que esc&acirc;ndalo!&#8230; rebenta a bomba!&#8230; este diabo vai reclamar o<br \/>\n    anel!.<\/p>\n<p> Mas como nada ouvisse, o m&iacute;sero abriu os olhos e &#8211; oh! milagre! &#8211;<br \/>\n    era outra Antonieta!.<\/p>\n<p> Ele pensou, os leitores tamb&eacute;m pensaram que fosse a mesma; n&atilde;o<br \/>\n    era.<\/p>\n<p> Decididamente, h&aacute; um Deus para os maridos que enganam as suas mulheres.\n  <\/p>\n<h2><a name=\"7\">A CONSELHO DO MARIDO<\/a><\/h2>\n<p>Estamos a bordo de um grande paquete da Messag&eacute;ries Maritimes, em<br \/>\n    pleno Atl&acirc;ntico, entre os dois hemisf&eacute;rios. Dois passageiros,<br \/>\n    que embarcaram no Rio de Janeiro, um de quarenta e outro de vinte e cinco<br \/>\n    anos, conversam animadamente, sentados ambos nas suas cadeiras de bordo.<\/p>\n<p> &#8211; Pois &eacute; como lhe digo, meu amiguinho! <\/p>\n<p>&#8211; dizia o passageiro de quarenta anos &#8211; o homem, todas as vezes que &eacute;<br \/>\n    provocado pela mulher, seja a mulher quem for, deve mostrar que &eacute; homem!<br \/>\n    Do contr&aacute;rio, arrisca-se a uma vingan&ccedil;a! O caso da mulher de<br \/>\n    Putifar reproduz-se todos os dias! &#8211; E se o marido for nosso amigo? &#8211; Se o<br \/>\n    marido for nosso amigo, maior perigo corremos fazendo como Jos&eacute; do<br \/>\n    Egito. <\/p>\n<p>&#8211; O que voc&ecirc; est&aacute; dizendo &eacute; simplesmente horr&iacute;vel!\n  <\/p>\n<p>&#8211; Talvez, mas o que &eacute; prefer&iacute;vel: ser amante da mulher de um<br \/>\n    amigo sem que este o saiba, ou passar aos olhos dele por amante dela sem o<br \/>\n    ser, em risco de pagar com a vida um crime que n&atilde;o praticou? <\/p>\n<p>&#8211; Acha ent&atilde;o que temos o direito sobre a mulher do pr&oacute;ximo&#8230;?\n  <\/p>\n<p>&#8211; Desde que a mulher do pr&oacute;ximo nos provoque. Se o pr&oacute;ximo<br \/>\n    &eacute; nosso amigo, paci&ecirc;ncia! N&atilde;o se casasse com uma mulher<br \/>\n    assim! Olhe, eu estou perfeitamente tranq&uuml;ilo a respeito da Mariquinhas!<br \/>\n    Trouxe-a comigo nesta viagem porque ela quis vir; se quisesse ficar no Rio<br \/>\n    de Janeiro teria ficado e eu estaria da mesma forma tranq&uuml;ilo. <\/p>\n<p>&#8211; Mas o grande caso &eacute; que se um dia algum dos seus amigos&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Desse susto n&atilde;o bebo &aacute;gua. J&aacute; um deles pretendeu conquist&aacute;-la&#8230;<br \/>\n    chegou a persegui-la&#8230; Ela foi obrigada a dizer-mo para se ver livre dele&#8230;<br \/>\n    Dei um esc&acirc;ndalo! Meti-lhe a bengala em plena Rua do Ouvidor!<\/p>\n<p> Dizendo isto, o passageiro de quarenta anos fechou os olhos, e pouco depois<br \/>\n    deixava cair o livro que tinha na m&atilde;o: dormia. Dormia, e aqueles sonos<br \/>\n    de bordo, antes do jantar, duravam pelo menos duas horas. O passageiro de<br \/>\n    vinte e cinco anos ergueu-se e desceu ao compartimento do paquete onde ficava<br \/>\n    o seu camarote. Bateu levemente &agrave; porta. Abriu-lhe uma linda mulher<br \/>\n    que se lan&ccedil;ou nos seus bra&ccedil;os. Era a Mariquinhas.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o? &#8211; perguntou ela &#8211; consultaste meu marido? &#8211; Consultei&#8230;<br \/>\n    &#8211; Que te disse ele? &#8211; Aconselhou-me a que n&atilde;o fizesse como Jos&eacute;<br \/>\n    do Egito. Amigos, amigos, mulheres &agrave; parte. E o passageiro de vinte<br \/>\n    e cinco anos correu cautelosamente o ferrolho do camarote.<\/p>\n<h2><a name=\"8\">A D&Iacute;VIDA<\/a><\/h2>\n<h4>I <\/h4>\n<p>Montenegro e Veloso formaram-se no mesmo dia, na Faculdade de Direito de<br \/>\n    S&atilde;o Paulo. Depois da cerim&ocirc;nia da cola&ccedil;&atilde;o do grau,<br \/>\n    foram ambos enterrar a vida acad&ecirc;mica num restaurante, em companhia<br \/>\n    de outros colegas, e era noite fechada quando se recolheram ao quarto que,<br \/>\n    havia dois anos, ocupavam juntos em casa de umas velhotas na Rua de S&atilde;o<br \/>\n    Jos&eacute;. A&iacute; se entregaram &agrave; recorda&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    sua vida escol&aacute;stica, e se enterneceram defronte um do outro, vendo<br \/>\n    aproximar-se a hora em que deviam separar-se, talvez para sempre. Montenegro<br \/>\n    era de Santa Catarina e Veloso do Rio de Janeiro; no dia seguinte aquele partiria<br \/>\n    para Santos e este para a capital do Imp&eacute;rio. As malas estavam feitas.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez ainda nos encontremos, disse Montenegro. O mundo d&aacute; tantas<br \/>\n    voltas!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o creio, respondeu Veloso. Vais para a tua prov&iacute;ncia, casas-te,<br \/>\n    e era uma vez o Montenegro.<\/p>\n<p>&#8211; Caso-me?! A&iacute; vens tu! Bem conheces as minhas id&eacute;ias a respeito<br \/>\n    do casamento, id&eacute;ias que s&atilde;o, ali&aacute;s, as mesmas que tu<br \/>\n    professas. Afian&ccedil;o-te que hei de morrer solteiro.<\/p>\n<p>&#8211; Isso dizem todos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Veloso, tu conheces-me h&aacute; muito tempo: j&aacute; deves estar farto<br \/>\n    de saber que eu quando digo, digo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, mas h&aacute; de ser dif&iacute;cil que em Santa Catarina te<br \/>\n    possas livrar do conjugo vobis. Na prov&iacute;ncia ningu&eacute;m toma a<br \/>\n    s&eacute;rio um advogado solteiro.<\/p>\n<p>&#8211; Enganas-te. Os m&eacute;dicos, sim; os m&eacute;dicos &eacute; que devem<br \/>\n    ser casados.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me engano tal. Na prov&iacute;ncia o homem solteiro, seja qual<br \/>\n    for a posi&ccedil;&atilde;o que ocupe, s&oacute; &eacute; bem recebido nas<br \/>\n    casas em que haja mo&ccedil;as casadeiras.<\/p>\n<p>&#8211; Quem te meteu essa caraminhola na cabe&ccedil;a?<\/p>\n<p>&#8211; Se fosses, como eu, para a Corte, acredito que nunca te casasses; mas vais<br \/>\n    para o Desterro: est&aacute;s aqui est&aacute;s com uma ninhada de filhos.<br \/>\n    Queres fazer uma aposta?<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?<\/p>\n<p>&#8211; O primeiro de n&oacute;s que se casar pagar&aacute; ao outro&#8230; Quanto?<\/p>\n<p>&#8211; V&ecirc; tu l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Deve ser uma quantia gorda.<\/p>\n<p>&#8211; Um conto de r&eacute;is.<\/p>\n<p>&#8211; Upa! Um conto de r&eacute;is n&atilde;o &eacute; dinheiro. &Eacute; preciso<br \/>\n    que a aposta seja de vinte contos, pelo menos.<\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; Veloso, tu est&aacute;s doido? Onde vamos n&oacute;s arranjar<br \/>\n    vinte contos de r&eacute;is?<\/p>\n<p>&#8211; O diabo nos leve se aqueles canudos n&atilde;o nos enriquecerem<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; dito! Aceito! Mas olha que &eacute; s&eacute;rio!<\/p>\n<p>&#8211; Muito s&eacute;rio. Vai preparando papel e tinta enquanto vou comprar duas<br \/>\n    estampilhas.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor! Quero o preto no branco! H&aacute; de ser uma obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rec&iacute;proca, passada com todos os efes e erres!<\/p>\n<p>Veloso saiu e logo voltou com as estampilhas.<\/p>\n<p>&#8211; Senta-te e escreve o que te vou ditar.<\/p>\n<p>Montenegro sentou-se, tomou a pena, mergulhou-a no tinteiro, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Pronto.<\/p>\n<p>Eis o que o outro ditou e ele escreveu:<\/p>\n<p>&quot;Devo ao Bacharel Jaime Veloso a quantia de vinte contos de r&eacute;is,<br \/>\n    que lhe pagarei no dia do meu casamento, oferecendo como fian&ccedil;a desse<br \/>\n    pagamento, al&eacute;m da presente declara&ccedil;&atilde;o, a minha palavra<br \/>\n    de honra.&quot;<\/p>\n<p>&#8211; Agora eu! disse Veloso, sentando-se:<\/p>\n<p>&quot;Devo ao Bacharel Gustavo Montenegro a quantia de vinte contos de r&eacute;is&#8230;<br \/>\n    etc.&quot;<\/p>\n<p>As declara&ccedil;&otilde;es foram estampilhadas, datadas e assinadas, ficando<br \/>\n    cada um com a sua.<\/p>\n<p>No dia seguinte Montenegro embarcava em Santos e seguia para o Sul, enquanto<br \/>\n    Veloso, arrebatado pelo trem de ferro, se aproximava da Corte.<\/p>\n<h4> II<\/h4>\n<p>Montenegro ficou apenas tr&ecirc;s anos em Santa Catarina, que lhe pareceu<br \/>\n    um campo demasiado estreito para as suas aspira&ccedil;&otilde;es: foi tamb&eacute;m<br \/>\n    para a Corte, onde o Conselheiro Brito, velho e conhecido advogado, amigo<br \/>\n    da fam&iacute;lia dele, paternalmente se ofereceu para encaminh&aacute;-lo,<br \/>\n    oferecendo-lhe um lugar no seu escrit&oacute;rio.<\/p>\n<p>Chegado ao Rio de Janeiro, o catarinense desde logo procurou o seu companheiro<br \/>\n    de estudos, e n&atilde;o encontrou da parte deste o afetuoso acolhimento que<br \/>\n    esperava. Veloso estava outro: em tr&ecirc;s anos transformara-se completamente.<br \/>\n    Montenegro veio ach&aacute;-lo satisfeito e feliz, com muitas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    no com&eacute;rcio, encarregado de causas importantes, morando numa bela casa,<br \/>\n    freq&uuml;entando a alta sociedade, gastando &agrave; larga.<\/p>\n<p>O catarinense, que tinha uma alma grande, sinceramente estimou que a sorte<br \/>\n    com tanta liberalidade houvesse favorecido o seu amigo; ficou, por&eacute;m,<br \/>\n    deveras magoado pela maneira fria e pelo mal disfar&ccedil;ado ar de prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com que foi recebido.<\/p>\n<p>Veloso n&atilde;o se demorou muito em falar-lhe da aposta de S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p>&#8211; Olha que aquilo est&aacute; de p&eacute;!<\/p>\n<p>&#8211; Certamente. A nossa palavra de honra est&aacute; empenhada.<\/p>\n<p>&#8211; Se te casas, n&atilde;o te perd&ocirc;o a d&iacute;vida. <\/p>\n<p>&#8211; Nem eu a ti.<\/p>\n<p>Os dois bachar&eacute;is separaram-se friamente. Veloso n&atilde;o pagou<br \/>\n    a visita a Montenegro, e Montenegro nunca mais visitou Veloso. Encontravam-se<br \/>\n    &agrave;s vezes, fortuitamente, na rua, nos bondes, nos tribunais, nos teatros,<br \/>\n    e Veloso perguntava infalivelmente a Montenegro:<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o? ainda n&atilde;o &eacute;s noivo?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! estou morto por entrar naqueles vinte contos&#8230;<\/p>\n<h4>III<\/h4>\n<p>Um dia, Montenegro foi convidado para jantar em casa do Conselheiro Brito.<br \/>\n    N&atilde;o podia faltar, porque fazia anos o seu venerando protetor, mestre<br \/>\n    e amigo. L&aacute; foi, e encontrou a casa cheia de gente.<\/p>\n<p>Passeando os olhos pelas pessoas que se achavam na sala, causou-lhe r&aacute;pida<br \/>\n    e agradabil&iacute;ssima impress&atilde;o uma bonita mo&ccedil;a que, pela<br \/>\n    eleg&acirc;ncia do vestu&aacute;rio e pela vivacidade da fisionomia, se destacava<br \/>\n    num grupo de senhoras.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que Montenegro descobria no mundo real um f&iacute;sico<br \/>\n    de mulher correspondendo pouco mais ou menos ao ideal que formara.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; mulher, por mais inexperiente, a quem escapem os olhares<br \/>\n    interessados de um homem. A mo&ccedil;a imediatamente percebeu a impress&atilde;o<br \/>\n    que produzira, e, ou fosse que por seu turno simpatizasse com Montenegro,<br \/>\n    ou fosse pelo desejo vaidoso de transformar em labareda a fagulha que faiscaram<br \/>\n    seus olhos, o caso &eacute; que se deixou vencer pela insist&ecirc;ncia com<br \/>\n    que o bacharel a encarava, e esbo&ccedil;ou um desses indefin&iacute;veis<br \/>\n    sorrisos que nas batalhas do amor eq&uuml;ivalem a uma capitula&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O acordo t&aacute;cito e imprevisto daquelas duas simpatias foi celebrado<br \/>\n    com tanta rapidez, que Montenegro, completamente h&oacute;spede na arte de<br \/>\n    namorar, chegou a perguntar a si mesmo se n&atilde;o era tudo aquilo o efeito<br \/>\n    de uma alucina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O namoro foi interrompido pela esposa do Conselheiro Brito, que entrou na<br \/>\n    sala e cortou o fio a todas as conversas, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos jantar.<\/p>\n<p>&Agrave; mesa, por uma coincid&ecirc;ncia que n&atilde;o qualificarei de<br \/>\n    not&aacute;vel, colocaram Montenegro ao lado da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>Escusado &eacute; dizer que ainda n&atilde;o tinham acabado a sopa, e j&aacute;<br \/>\n    os dois namorados conversavam um com o outro como se de muito se conhecessem.<br \/>\n    Na altura do assado, Montenegro acabava de ouvir a autobiografia, desenvolvida<br \/>\n    e completa, da sua fascinadora vizinha.<\/p>\n<p>Chamava-se Laurentina, mas todas as pessoas do seu conhecimento a tratavam<br \/>\n    por Lal&aacute;, gracioso diminutivo com que desde pequenina lhe haviam desfigurado<br \/>\n    o nome. Era &oacute;rf&atilde; de pai e m&atilde;e. Vivia com uma irm&atilde;<br \/>\n    de seu pai, senhora bastante idosa e bastante magra, que estava sentada do<br \/>\n    outro lado da mesa, cravando na sobrinha uns olhares penetrantes indagadores.<br \/>\n    Os pais n&atilde;o lhe deixaram absolutamente nada, al&eacute;m da esmerad&iacute;ssima<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o que lhe deram; mas a tia, que generosamente a acolheu<br \/>\n    em sua casa, tinha, gra&ccedil;as a Deus, alguma coisa, pouca, o necess&aacute;rio<br \/>\n    para viverem ambas sem recorrer ao auxilio de estranhos nem de parentes. Para<br \/>\n    n&atilde;o ser muito pesada &agrave; tia, Lal&aacute; ganhava algum dinheiro<br \/>\n    dando li&ccedil;&otilde;es de piano e canto em casas particulares; eram os<br \/>\n    seus alfinetes.<\/p>\n<p>&#8211; Fui educada um pouco &agrave; americana, acrescentou; saio sozinha &agrave;<br \/>\n    rua sem receio de que me faltem ao respeito, e sou o homem l&aacute; de casa.<br \/>\n    Quando &eacute; preciso, vou eu mesma tratar dos neg&oacute;cios de minha<br \/>\n    tia.<\/p>\n<p>E elevando a voz:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; assim, titia?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;, minha filha, respondeu do lado oposto a velha, embora sem saber<br \/>\n    de que se tratava.<\/p>\n<p>Lal&aacute; era suficientemente instru&iacute;da, e tinha algum esp&iacute;rito<br \/>\n    mais que o comum das senhoras brasileiras. Essas qualidades, realmente apreci&aacute;veis,<br \/>\n    tomaram propor&ccedil;&otilde;es exageradas na imagina&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Montenegro.<\/p>\n<p>Este disse tamb&eacute;m a Lal&aacute; quem era, e contou-lhe os fatos mais<br \/>\n    interessantes da sua vida, exce&ccedil;&atilde;o feita, j&aacute; se sabe,<br \/>\n    da famosa aposta de S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p>E t&atilde;o entretidos estavam Montenegro e Lal&aacute; nas m&uacute;tuas<br \/>\n    confid&ecirc;ncias que cada vez mais os prendiam, que nenhuma aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    prestaram aos incidentes da mesa, inclusive os brindes, que n&atilde;o foram<br \/>\n    poucos.<\/p>\n<p>Acabado de jantar, improvisou-se um concerto e depois dan&ccedil;ou-se. Lal&aacute;<br \/>\n    cantou um romance de Tosti. Cantou mal, com pouca voz, sem nenhuma express&atilde;o,<br \/>\n    e a Montenegro pareceu aquilo o non plus ultra da cantoria. Dan&ccedil;ou<br \/>\n    com ela uma valsa, e durante a dan&ccedil;a apertaram-se as m&atilde;os com<br \/>\n    uma for&ccedil;a equivalente a um pacto solene de amor e fidelidade.<\/p>\n<p>Ele sentia-se absolutamente apaixonado quando, de madrugada, se encaminhou<br \/>\n    para casa, depois de fechar a portinhola do carro e magoar os dedos da mo&ccedil;a<br \/>\n    num &uacute;ltimo aperto de m&atilde;o.<\/p>\n<p>Era dia claro quando o bacharel conseguiu adormecer. Sonhou que era quase<br \/>\n    marido. Estava na igreja, de bra&ccedil;o dado a Lal&aacute;, deslumbrante<br \/>\n    nas suas vestes de noiva. Mas ao subir com ela os degraus do altar, reconheceu<br \/>\n    na figura do sacerdote, que os esperava de bra&ccedil;os erguidos, o seu colega<br \/>\n    Veloso, credor de vinte contos de r&eacute;is.<\/p>\n<h4> IV<\/h4>\n<p> Nesse mesmo dia Montenegro estava sozinho no escrit&oacute;rio, e trabalhava,<br \/>\n    quando entrou o Conselheiro Brito.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia, Gustavo.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia, conselheiro.<\/p>\n<p>O velho advogado sentou-se e p&ocirc;s-se a desfolhar distraidamente uns<br \/>\n    autos; mas, passados alguns minutos, disse muito naturalmente, sem levantar<br \/>\n    os olhos:<\/p>\n<p>&#8211; Gustavo, aquilo n&atilde;o te serve.<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Faze-te de novas! A Lal&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o negues. Toda a gente viu. Voc&ecirc;s estiveram escandalosos.<br \/>\n    Se tens em alguma conta os meus conselhos, arrepia carreira enquanto &eacute;<br \/>\n    tempo. Tu conhece-la?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor; mas encontrei-a em sua casa, e tanto bastou para formar<br \/>\n    dela o melhor conceito.<\/p>\n<p>&#8211;L&aacute; por isso, n&atilde;o, meu rapaz! Eu n&atilde;o fumo, mas n&atilde;o<br \/>\n    me importa que fumem perto de mim.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o ela&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o digo que seja uma mulher perdida, mas recebeu uma educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    muito livre, saracoteia sozinha por toda a cidade e n&atilde;o tem podido,<br \/>\n    por conseguinte, escapar &aacute; implac&aacute;vel maledic&ecirc;ncia dos<br \/>\n    fluminenses. Demais, est&aacute; habituada ao luxo, ao luxo da rua, que &eacute;<br \/>\n    o mais caro; em casa arranjam-se ela e a tia sabe Deus como. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mulher com quem a gente se case. Depois, lembra-te que apenas come&ccedil;as<br \/>\n    e n&atilde;o tens ainda onde cair morto. Enfim, &eacute;s um homem: faze o<br \/>\n    que bem te parecer.<\/p>\n<p>Essas palavras, proferidas com uma franqueza por tantos motivos autorizada,<br \/>\n    calaram no &acirc;nimo do bacharel. Intimamente ele estimava que o velho amigo<br \/>\n    de seu pai o dissuadisse de requestar a mo&ccedil;a, &#8211; n&atilde;o pelas conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    morais do casamento, mas pela obriga&ccedil;&atilde;o, que este lhe impunha,<br \/>\n    de satisfazer uma d&iacute;vida de vinte contos de r&eacute;is, quando, apesar<br \/>\n    de todos os seus esfor&ccedil;os, n&atilde;o conseguira at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;r de parte nem o ter&ccedil;o daquela quantia.<\/p>\n<p>Mas o amor contrariado cresce com inaudita viol&ecirc;ncia. Por mais conselhos<br \/>\n    que pedisse &agrave; raz&atilde;o, por mais que procurasse iludir-se a si<br \/>\n    pr&oacute;prio, Montenegro n&atilde;o conseguia libertar-se da impress&atilde;o<br \/>\n    que lhe causara a mo&ccedil;a. O seu cora&ccedil;&atilde;o estava inteiramente<br \/>\n    subjugado. Ainda assim, lograria, talvez, vencer-se, se, vinte dias depois<br \/>\n    do seu encontro com Lal&aacute;, esta n&atilde;o lhe escrevesse um bilhete<br \/>\n    que neutralizou todos os seus elementos de rea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;Doutor. &#8211; Sinto que o nosso romance o enfastiasse tanto, que o senhor<br \/>\n    n&atilde;o quisesse ir al&eacute;m do primeiro cap&iacute;tulo. Entretanto,<br \/>\n    n&atilde;o imagina como sofro por n&atilde;o saber os motivos que atuaram<br \/>\n    no seu esp&iacute;rito para interromper t&atilde;o bruscamente&#8230; a leitura.<br \/>\n    Diga-me alguma coisa, d&ecirc;-me uma explica&ccedil;&atilde;o que me tranq&uuml;ilize<br \/>\n    ou me desengane. Esta incerteza mata-me. Escreva-me sem receio, porque s&oacute;<br \/>\n    eu abro as minhas cartas. &#8211; Lal&aacute;.&quot;<\/p>\n<p>A primeira id&eacute;ia de Montenegro foi deixar a carta sem resposta, e<br \/>\n    empregar todos os meios e modos para esquecer-se da mo&ccedil;a e fazer-se<br \/>\n    esquecer por ela; refletiu, por&eacute;m, que n&atilde;o poderia justificar<br \/>\n    o seu procedimento, se recusasse a explica&ccedil;&atilde;o com tanta delicadeza<br \/>\n    solicitada. Resolveu, portanto, responder a Lal&aacute; com um desengano categ&oacute;rico<br \/>\n    e formal, e mandou-lhe esta p&iacute;lula dourada:<\/p>\n<p>&quot;Lal&aacute;. &#8211; Deus sabe quanto eu a amo e que sacrif&iacute;cio me<br \/>\n    imponho para renunciar &agrave; ventura e &aacute; gl&oacute;ria de pertencer-lhe;<br \/>\n    mas um motivo imperioso existe, que se op&otilde;e inexoravelmente &aacute;<br \/>\n    nossa uni&atilde;o. N&atilde;o me pergunte que motivo &eacute; esse; se eu<br \/>\n    1h0 revelasse, a senhora achar-me-ia rid&iacute;culo. Basta dizer-lhe que<br \/>\n    a obje&ccedil;&atilde;o n&atilde;o parte de nenhuma circunst&acirc;ncia a<br \/>\n    que esteja ligada a sua pessoa; parte de mim mesmo, ou antes, da minha pobreza.<br \/>\n    Adeus, Lal&aacute;; creia que, ao escrever-lhe estas linhas, sinto a pena<br \/>\n    pesada como se estivessem fundidos nela todos os meus tormentos. &#8211; G. M.&quot;<\/p>\n<p>&#8211; Que conselho me d&aacute; vossemec&ecirc;? perguntou Lal&aacute; &agrave;<br \/>\n    sua tia, depois de ler para ela ouvir a carta de Montenegro.<\/p>\n<p>&#8211; O conselho que te dou &eacute; tratares de arranjar quanto antes uma entrevista<br \/>\n    com esse mo&ccedil;o, e entenderes-te verbalmente com ele. Isto de cartas<br \/>\n    n&atilde;o vale nada. Ele que te diga francamente qual &eacute; o tal motivo&#8230;<br \/>\n    e talvez possamos remover todas as dificuldades. N&atilde;o percas esse marido,<br \/>\n    minha filha. O Doutor Montenegro &eacute; um advogado de muito futuro; pode<br \/>\n    fazer a tua felicidade.<\/p>\n<p>No dia seguinte Montenegro recebeu as seguintes linhas:<\/p>\n<p>&quot;Amanh&atilde;, quinta-feira, &agrave;s duas horas da tarde, tomarei<br \/>\n    um bonde no Largo da Lapa, porque vou dar uma li&ccedil;&atilde;o na Rua do<br \/>\n    Senador Vergueiro. Esteja ali por acaso, e por acaso tome o mesmo bonde que<br \/>\n    eu e sente-se ao p&eacute; de mim. Recebi a sua carta; &eacute; preciso que<br \/>\n    nos entendamos de viva voz. &#8211; Lal&aacute;.&quot;<\/p>\n<p>O tom desse bilhete desagradou a Montenegro. Quem o lesse diria ter sido<br \/>\n    escrito por uma senhora habituada a marcar entrevistas. Entretanto, &agrave;<br \/>\n    hora aprazada o bacharel achou-se no Largo da Lapa. Recuar seria mostrar uma<br \/>\n    pusilanimidade moral, que o envergonharia eternamente. Depois, como ele possu&iacute;a<br \/>\n    todas as fraquezas do namorado, deixou-se seduzir pela prov&aacute;vel del&iacute;cia<br \/>\n    dessa viagem de bonde. Quando o ve&iacute;culo parou no Largo do Machado,<br \/>\n    Lal&aacute; sabia j&aacute; qual o motivo pecuni&aacute;rio que se opunha<br \/>\n    ao casamento. Ouvira sem pestanejar a confiss&atilde;o de Montenegro.<\/p>\n<p>&#8211; O motivo &eacute; grave, disse ela; o Doutor Veloso tem a sua palavra de<br \/>\n    honra, e o senhor n&atilde;o pode mudar de estado sem dispor de uma soma relativamente<br \/>\n    consider&aacute;vel; mas&#8230; eu sou mulher e talvez consiga&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu&ecirc;? perguntou Montenegro sobressaltado.<\/p>\n<p>&#8211; Descanse. Sou incapaz de cometer qualquer a&ccedil;&atilde;o que nos fique<br \/>\n    mal. Separemo-nos aqui. Eu lhe escreverei.<\/p>\n<p>Lal&aacute; estendeu a m&atilde;o enluvada que Montenegro apertou, desta<br \/>\n    vez sem lhe magoar os dedos.<\/p>\n<p>Ele apeou-se e galgou o estribo de outro bonde que partia para a cidade.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; est&aacute; pago, disse o condutor a Montenegro quando este lhe<br \/>\n    quis dar um n&iacute;quel.<\/p>\n<p>O bacharel voltou-se para verificar quem tinha pago por ele, e deu com os<br \/>\n    olhos em Veloso, que lhe disse de longe, rindo-se:<\/p>\n<p>&#8211; Foi por conta daqueles vinte, &#8211; sabes?<\/p>\n<p>&#8211; Reza-lhes por alma! bradou Montenegro, rindo-se tamb&eacute;m.<\/p>\n<h4> V<\/h4>\n<p> Esse &quot;reza-lhes por alma&quot; queria dizer que Montenegro voltara<br \/>\n    desencantado do seu passeio de bonde. Lal&aacute; parecera-lhe outra, mais<br \/>\n    desenvolta, mais americana, completamente despida do melindroso recato que<br \/>\n    &eacute; o mais precioso requisito da mulher virgem. Ele deixou-se convencer<br \/>\n    de que a mo&ccedil;a, depois de ouvir a exposi&ccedil;&atilde;o franca e leal<br \/>\n    das suas condi&ccedil;&otilde;es de insolvabilidade, desistira mentalmente<br \/>\n    de consider&aacute;-lo um noivo poss&iacute;vel, dizendo por dizer aquelas<br \/>\n    palavras &quot;talvez eu consiga&quot;, palavras &agrave;-toa, trazidas ali<br \/>\n    apenas para fornecer o ponto final a um di&aacute;logo que se ia tornando<br \/>\n    penoso e rid&iacute;culo.<\/p>\n<p>Montenegro fez ciente do seu desencanto ao Conselheiro Brito, que lhe deu<br \/>\n    parab&eacute;ns, e dai por diante s&oacute; se lembrou de Lal&aacute; como<br \/>\n    de uma bonita mulher de quem faria com muito prazer sua amante mas nunca sua<br \/>\n    esposa. Desaparecera completamente aquele doce enlevo causado pela primeira<br \/>\n    impress&atilde;o. O &quot;reza-lhes por alma&quot; saiu-lhe dos l&aacute;bios<br \/>\n    com a impetuosidade de um grito da consci&ecirc;ncia. A desilus&atilde;o foi<br \/>\n    t&atilde;o pronta como pronto havia sido o encanto. Fogo de palha.<\/p>\n<h4> VI<\/h4>\n<p> Entretanto, mal sabia Montenegro que Lal&aacute; concebera um plano extravagante<br \/>\n    e o punha em pr&aacute;tica enquanto ele, tranq&uuml;ilo e despreocupado,<br \/>\n    imaginava que ela o houvesse posto &agrave; margem. Depois de aconselhar-se<br \/>\n    com a tia, que n&atilde;o primava pelo bom senso, a professora de piano e<br \/>\n    canto encheu-se de decis&atilde;o e coragem, foi ter com o Doutor Veloso no<br \/>\n    seu escrit&oacute;rio e disse-lhe que desejava dar-lhe duas palavras em particular.<\/p>\n<p>A beleza de Lal&aacute; deslumbrou o advogado, e, como este era extremamente<br \/>\n    vaidoso, viu logo ali uma conquista amorosa em perspectiva.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha a bondade de entrar neste gabinete, minha senhora.<\/p>\n<p>Lal&aacute; entrou, sentou-se num div&atilde;, e contou ao Doutor Veloso<br \/>\n    toda a sua vida, repetindo, palavra por palavra, o que dissera a Montenegro<br \/>\n    durante o jantar do Conselheiro Brito.<\/p>\n<p>Admirado de tanta loquacidade e de tanto esp&iacute;rito, Veloso perguntou-lhe,<br \/>\n    terminada a hist&oacute;ria, em que poderia servi-la.<\/p>\n<p>&#8211; Sou amada por um homem que &eacute; digno de mim, e o nosso casamento depende<br \/>\n    exclusivamente do doutor.<\/p>\n<p>&#8211; De mim?<\/p>\n<p>&#8211; A minha ventura est&aacute; nas suas m&atilde;os. Custa-lhe apenas vinte<br \/>\n    contos de r&eacute;is. N&atilde;o quero crer que o doutor se negue a pagar<br \/>\n    por essa miser&aacute;vel quantia a felicidade&#8230; de uma &oacute;rf&atilde;.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o compreendo.<\/p>\n<p>&#8211; Compreender&aacute; quando eu lhe disser que o homem por quem sou amada<br \/>\n    &eacute; o seu amigo e colega Doutor Gustavo Montenegro.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! ah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Escusado &eacute; dizer que ele ignora absolutamente a resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que tomei, de vir falar-lhe.<\/p>\n<p>&#8211; Acredito.<\/p>\n<p>&#8211; Qual &eacute; a sua resposta?<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora, balbuciou Veloso, sorrindo; eu tenho algum dinheiro, tenho..<br \/>\n    . mas perder assim vinte contos de reis&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Recusa?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, n&atilde;o recuso; mas pe&ccedil;o algum tempo para refletir.<br \/>\n    Depois de amanh&atilde; venha buscar a resposta.<\/p>\n<p>A conversa&ccedil;&atilde;o continuou por algum tempo, e Veloso come&ccedil;ou<br \/>\n    a sentir pela mo&ccedil;a a mesm&iacute;ssima impress&atilde;o que ela causara<br \/>\n    a Montenegro.<\/p>\n<p>Lal&aacute; notou o efeito que produzia, e p&ocirc;s em distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    todos os seus diab&oacute;licos artif&iacute;cios de mulher astuta e avisada.<\/p>\n<p>&#8211; Feliz Gustavo!<\/p>\n<p>&#8211; Feliz&#8230; por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; amado!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! n&atilde;o v&aacute; agora supor que ele me inspirasse uma paix&atilde;o<br \/>\n    desenfreada!<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; um marido que me conv&eacute;m, isso &eacute;; mas se o doutor<br \/>\n    n&atilde;o abrir m&atilde;o da d&iacute;vida, e ele n&atilde;o se puder casar,<br \/>\n    n&atilde;o creia que eu me suicide!<\/p>\n<p>Ouvindo esta frase, Veloso adiantou-se tanto, tanto, que, dois dias depois,<br \/>\n    quando Lal&aacute; foi saber a resposta, ele recebeu-a com estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o!&#8230; Se eu abrisse m&atilde;o dos vinte contos, ele seria seu<br \/>\n    marido, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; E eu&#8230; tenho ci&uacute;mes.<\/p>\n<p>No dia seguinte ele era apresentado &agrave; tia, manejo aconselhado pela<br \/>\n    pr&oacute;pria velha.<\/p>\n<p>&#8211; Este &eacute; mais rico, mais bonito e at&eacute; mais inteligente que<br \/>\n    o outro&#8230; N&atilde;o o deixes escapar, minha filha!<\/p>\n<p>A verdade &eacute; que Veloso n&atilde;o se introduziu em casa de Lal&aacute;<br \/>\n    com boas inten&ccedil;&otilde;es; mas a esperteza da mo&ccedil;a e as indiscri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do advogado determinaram em breve uma situa&ccedil;&atilde;o de que ele n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de recuar.<\/p>\n<p>Imagine-se a surpresa de Montenegro quando lhe anunciaram o casamento de<br \/>\n    Lal&aacute; com o seu colega, e a indigna&ccedil;&atilde;o que dele se apoderou<br \/>\n    quando por portas travessas veio ao conhecimento do modo singular por que<br \/>\n    fora ajustado esse cons&oacute;rcio imprevisto.<\/p>\n<h4> VII<\/h4>\n<p> No dia seguinte ao do casamento, estava Montenegro no escrit&oacute;rio,<br \/>\n    quando recebeu um cheque de vinte contos de r&eacute;is, enviado pelo marido<br \/>\n    de Lal&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o acha que devo devolver este dinheiro? perguntou ele ao Conselheiro<br \/>\n    Guedes.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; mas n&atilde;o o gastes; afian&ccedil;o-te que ter&aacute;s<br \/>\n    ocasi&atilde;o mais oportuna para devolv&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>E assim foi.<\/p>\n<p>A lua-de-mel n&atilde;o durou dois meses. Os dois esposos desavieram-se e<br \/>\n    logo se separaram judicialmente. Ele voltou &agrave; vida de solteiro e ela<br \/>\n    tornou para casa da tia.<\/p>\n<p>Um dia Montenegro encontrou-a num armarinho da Rua do Ouvidor, e tais coisas<br \/>\n    lhe disse a mo&ccedil;a, tais protestos fez e t&atilde;o arrependida se mostrou<br \/>\n    de o haver trocado pelo outro, que dois dias depois ela entrava furtivamente<br \/>\n    em casa dele.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia o desleal Veloso recebeu uma cartinha concebida nos seguintes<br \/>\n    termos:<\/p>\n<p>&quot;Doutor Veloso. &#8211; Devolvo-lhe intacto o incluso cheque de vinte contos<br \/>\n    de r&eacute;is, porque a divida que ele representa &eacute; uma estudantada<br \/>\n    imoral, sem nenhum valor jur&iacute;dico. &#8211; Gustavo Montenegro.&quot;<\/p>\n<p> (Contos Fora da Moda)<\/p>\n<h2><a name=\"9\">A DOEN&Ccedil;A DE FABR&Iacute;CIO<\/a><\/h2>\n<p>O Fabr&iacute;cio era amanuense numa reparti&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica,<br \/>\n    e gostava muito da Zizinha, filha &uacute;nica do Major Sep&uacute;lveda.<br \/>\n    O seu desejo era casar-se com ela, mas para isso era preciso ser promovido<br \/>\n    porque os vencimentos de amanuense n&atilde;o davam para sustentar fam&iacute;lia.<br \/>\n    Portanto, o Fabr&iacute;cio limitava-se &agrave; posi&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    namorado, esperando ansioso o momento em que pudesse ter a de noivo. Um dia,<br \/>\n    o rapaz recebeu uma carta de Zizinha, participando-lhe que o pai, o Major<br \/>\n    Sep&uacute;lveda, resolvera passar um m&ecirc;s em Caxambu, com a fam&iacute;lia,<br \/>\n    e pedindo-lhe que tamb&eacute;m fosse, pois ela n&atilde;o teria for&ccedil;as<br \/>\n    para viver t&atilde;o longe dele. Sorriu ao amanuense a id&eacute;ia de ficar<br \/>\n    uma temporada em Caxambu, hospedado no mesmo hotel que Zizinha. Sendo como<br \/>\n    era, mo&ccedil;o econ&ocirc;mico, tinha de parte os recursos necess&aacute;rios<br \/>\n    para as despesas da viagem; faltava-lhe apenas a licen&ccedil;a, mas com certeza<br \/>\n    o ministro n&atilde;o lha negaria. Enganava-se o pobre namorado. O ministro,<br \/>\n    a quem ele se dirigiu pessoalmente, perguntou-lhe de car&atilde;o fechado:<br \/>\n    &#8211; Para que quer o senhor dois meses de licen&ccedil;a? <\/p>\n<p>&#8211; Para tratar-me.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o senhor n&atilde;o est&aacute; doente! <\/p>\n<p>&#8211; Estou, sim, senhor; n&atilde;o parece, mas estou. Nesse caso submeta-se<br \/>\n    &agrave; inspe&ccedil;&atilde;o de sa&uacute;de e traga-me o laudo. S&oacute;<br \/>\n    lhe darei a licen&ccedil;a sob essa condi&ccedil;&atilde;o. Tr&ecirc;s dias<br \/>\n    depois o Fabr&iacute;cio, metido numa capa, com len&ccedil;o de seda atado<br \/>\n    em volta do pesco&ccedil;o, a barba por fazer, algod&atilde;o nos ouvidos,<br \/>\n    foi &agrave; Diretoria Geral de Sa&uacute;de. O seu aspecto era t&atilde;o<br \/>\n    doentio que o doutor encarregado de examin&aacute;-lo disse logo que o viu:\n  <\/p>\n<p>&#8211; Aqui est&aacute; um que n&atilde;o engana: v&ecirc;-se que est&aacute;<br \/>\n    realmente enfermo! E dirigindo-se ao Fabr&iacute;cio: &#8211; Que sente o senhor?<br \/>\n    O Fabr&iacute;cio respondeu com uma voz arrastada e chorosa:<\/p>\n<p> &#8211; Sinto muitas coisas, doutor; dores pelo corpo, cansa&ccedil;o, ferroadas<br \/>\n    no est&ocirc;mago, opress&atilde;o no peito. <\/p>\n<p>&#8211; Vamos l&aacute; ver isso! Dispa o casaco! O Fabr&iacute;cio p&ocirc;s-se<br \/>\n    em mangas de camisa, e o m&eacute;dico auscultou-o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tem tosse? &#8211; Tenho, mas s&oacute; &agrave; noite; n&atilde;o<br \/>\n    me deixa dormir. <\/p>\n<p>&#8211; Bom. Pode vestir o casaco. E o doutor foi escrever o laudo, que entregou<br \/>\n    ao amanuense. Este na rua desdobrou o papel, para ver que esp&eacute;cie de<br \/>\n    doen&ccedil;a lhe arranjara o m&eacute;dico e leu: &quot;Cardialgia sintom&aacute;tica<br \/>\n    da di&aacute;tese artr&iacute;tica.&quot; N&atilde;o imaginem o efeito que<br \/>\n    lhe produziram essas palavras enigm&aacute;ticas para ele.<\/p>\n<p> &#8211; E n&atilde;o &eacute; que eu estou mesmo doente? &#8211; pensou o pobre rapaz.<br \/>\n    Ao chegar a casa, tinha as fontes a estalar. Vieram depois arrepios de frio,<br \/>\n    a que sucedeu uma febre violenta e febre foi ela, que durou vinte dias. O<br \/>\n    enfermo teve alta justamente quando Zizinha voltava de Caxambu com um noivo<br \/>\n    arranjado l&aacute;. Maldita cardialgia sintom&aacute;tica da di&aacute;tese<br \/>\n    artr&iacute;tica.<\/p>\n<h2><a name=\"10\">A FILHA DO PATR&Atilde;O<\/a><\/h2>\n<h4>A Artur de Mendon&ccedil;a <\/h4>\n<p>O comendador Ferreira esteve quase a agarr&aacute;-lo pelas orelhas e atir&aacute;-lo<br \/>\n    pela escada abaixo com um pontap&eacute; bem aplicado. Pois n&atilde;o! Um<br \/>\n    biltre, um farroupilha, um pobre diabo sem eira, nem beira, nem ramo de figueira,<br \/>\n    atrever-se a pedir-lhe a menina em casamento! Era o que faltava! Que ele estivesse<br \/>\n    durante anos a juntar dinheiro para encher os bolsos de um valdevinos daquela<br \/>\n    esp&eacute;cie, dando-lhe a filha ainda por cima, a filha, que era a mo&ccedil;a<br \/>\n    mais bonita e mais bem educada de toda a rua de S. Clemente! Boas!<\/p>\n<p>O Comendador Ferreira limitou-se a dar-lhe uma resposta seca e decisiva,<br \/>\n    um &quot;N&atilde;o, meu caro Senhor&quot; capaz de desanimar o namorado mais<br \/>\n    decidido ao emprego de todas as ast&uacute;cias do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O pobre rapaz saiu atordoado, como se realmente houvesse apanhado o pux&atilde;o<br \/>\n    de orelhas e o pontap&eacute;, que felizmente n&atilde;o passaram de t&iacute;mido<br \/>\n    projeto. <\/p>\n<p>Na rua, sentindo-se ao ar livre, cobrou &acirc;nimo e disse aos seus bot&otilde;es:<br \/>\n    &#8211; Pois h&aacute; de ser minha filha, custe o que custar! &#8211; Voltou-se, e viu<br \/>\n    numa janela Adosinda, a filha do comendador, que desesperadamente lha fazia<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a sinais interrogativos. Ele estalou nos dentes a unha do<br \/>\n    polegar, o que muito claramente queria dizer: &#8211; Babau! &#8211; e, como eram apenas<br \/>\n    onze horas, foi dali direitinho espairecer no Derby-Clube. Era domingo e havia<br \/>\n    corridas.<\/p>\n<p>O Comendador Ferreira, mal o rapaz desceu a escada, foi para o quarto da<br \/>\n    filha, e surpreendeu-a a fazer os tais sinais interrogativos. Dizer que ela<br \/>\n    n&atilde;o apanhou o pux&atilde;o de orelhas destinado ao mo&ccedil;o, seria<br \/>\n    faltar &agrave; verdade que devo aos pacientes leitores, apanhou-a, coitadinha!<br \/>\n    E naturalmente, a julgar pelo grito estr&iacute;dulo que deu, exagerou a dor<br \/>\n    f&iacute;sica produzida por aquela grosseira manifesta&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    c&oacute;lera paterna.<\/p>\n<p>Seguiu-se um di&aacute;logo terr&iacute;vel:<\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute; aquele pilantra?<\/p>\n<p>&#8211; Chama-se Borges.<\/p>\n<p>&#8211; De onde o conhece voc&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Do Clube Guanabarense&#8230; Daquela noite em que papai me levou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ele em que se emprega? Que faz ele?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Faz versos.<\/p>\n<p>&#8211; E voc&ecirc; n&atilde;o tem vergonha de gostar de um homem que faz versos?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenho culpa; culpado &eacute; o meu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Esse vagabundo algum dia lhe escreveu?<\/p>\n<p>&#8211; Escreveu-me uma carta.<\/p>\n<p>&#8211; Quem lha trouxe?<\/p>\n<p>&#8211; Ningu&eacute;m. Ele mesmo atirou-a com uma pedra, por esta janela.<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe diria ele nessa carta?<\/p>\n<p>&#8211; Nada que me ofendesse; queria a minha autoriza&ccedil;&atilde;o para pedir-me<br \/>\n    em casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Onde est&aacute; ela?<\/p>\n<p>&#8211; Ela quem?<\/p>\n<p>&#8211; A carta!<\/p>\n<p>Adosinda, sem dizer uma palavra, tirou a carta do seio. O comendador abriu-a,<br \/>\n    leu-a e guardou-a no bolso. Depois continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; respondeu a isso?<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a gaguejou.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o minta!<\/p>\n<p>&#8211; Respondi, sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Em que termos?<\/p>\n<p>&#8211; Respondi que sim, que me pedisse.<\/p>\n<p>&#8211; Pois olhe: pro&iacute;bo-lhe, percebe? Pro-&iacute;-bo-lhe que de hoje<br \/>\n    em diante d&ecirc; trela a esse peralvilho! Se me constar que ele anda a rodar-me<br \/>\n    a casa, ou que se corresponde com voc&ecirc;, mando desancar-lhe os ossos<br \/>\n    pelo Benvindo (Benvindo era o cozinheiro do Comendador Ferreira) e a voc&ecirc;,<br \/>\n    minha sirigaita&#8230; a voc&ecirc;&#8230; N&atilde;o lhe diga nada!<\/p>\n<p> Tr&ecirc;s dias depois desse di&aacute;logo, Adosinda fugiu de casa em companhia<br \/>\n    de seu Borges, e o rapto foi auxiliado pelo pr&oacute;prio Benvindo, com quem<br \/>\n    o namorado dividiu um dinheiro ganho nas corridas do Derby. At&eacute; hoje<br \/>\n    ignora o comendador que o seu fiel cozinheiro contribu&iacute;sse para t&atilde;o<br \/>\n    lastimoso incidente.<\/p>\n<p>O pai ficou possesso, mas n&atilde;o fez esc&acirc;ndalo, n&atilde;o foi<br \/>\n    &agrave; pol&iacute;cia, n&atilde;o disse nada nem mesmo aos amigos &iacute;ntimos;<br \/>\n    n&atilde;o se queixou, n&atilde;o desabafou, n&atilde;o deixou transparecer<br \/>\n    o seu profundo desgosto.<\/p>\n<p>E teve raz&atilde;o, porque, passados quarto dias, Adosinda e o Borges vinham,<br \/>\n    &agrave; noite, ajoelhar-se aos seus p&eacute;s e pedir-lhe a ben&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como nos dramalh&otilde;es e novelas sentimentais.<\/p>\n<p> Para que o conto acabasse a contento da maioria dos meus leitores, o Comendador<br \/>\n    Ferreira deveria perdoar aos dois namorados, e tratar de cas&aacute;-los sem<br \/>\n    perda de tempo; mas infelizmente as coisas n&atilde;o se passarem assim, e<br \/>\n    a moral, como v&atilde;o ver, foi sacrificada ao ego&iacute;smo.<\/p>\n<p>Com a resolu&ccedil;&atilde;o de quem longamente se preparara para o que<br \/>\n    desse e viesse, o comendador tirou do bolso um rev&oacute;lver e apontou-o<br \/>\n    contra o raptor de sua filha, vociferando:<\/p>\n<p>&#8211; Seu biltre, ponha-se imediatamente no olho da rua, se n&atilde;o quer que<br \/>\n    lhe fa&ccedil;a saltar os miolos!&#8230;<\/p>\n<p>A esse argumento intempestivo e concludente, o namorado, que tinha muito<br \/>\n    amor &agrave; pele, fugiu como se o arrebatassem asas invis&iacute;veis.<\/p>\n<p>O pai foi fechar a porta, guardou o revolver e, aproximando de Adosinda que<br \/>\n    encostada ao piano, tremia como varas verdes, abra&ccedil;ou-a, beijou-a com<br \/>\n    um carinho que nunca manifestava em ocasi&otilde;es menos inoportunas.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a estava assombrada; esperava, pelo menos, a maldi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    paterna; era, desde pequenina, &oacute;rf&atilde; de m&atilde;e e habituara-se<br \/>\n    &agrave;s brutalidades do pai; aquele beijo e aquele abra&ccedil;o afetuosos<br \/>\n    encheram-na de confus&atilde;o e de pasmo.<\/p>\n<p>O comendador foi o primeiro a falar:<\/p>\n<p>&#8211; V&ecirc;s? &#8211; disse ele, apontando para a porta. &#8211; V&ecirc;s? O homem por<br \/>\n    quem abandonaste teu pai &eacute; um covarde, um miser&aacute;vel, que foge<br \/>\n    diante do cano de um rev&oacute;lver! N&atilde;o &eacute; um homem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; ele &#8211; murmurou Adosinda baixando os olhos, ao mesmo tempo<br \/>\n    que duas rosas lhe desfaziam a palidez do rosto.<\/p>\n<p>O pai sentou-se no sof&aacute;, chamou a filha para perto de si, f&ecirc;-la<br \/>\n    sentar-se nos seus joelhos e, num tom de voz meigo e untuoso, pediu-lhe que<br \/>\n    se esquecesse do homem que a raptara, um troca-tintas, um leguelh&eacute;<br \/>\n    que lhe queria o dote, e nada mais, pintou-lhe um futuro de vicissitudes e<br \/>\n    mis&eacute;rias, longe do pai que a desprezaria se semelhante casamento se<br \/>\n    realizasse, desse pai que tinha exterioridades de bruto, mas no fundo era<br \/>\n    o melhor, o mais carinhoso dos pais.<\/p>\n<p>No fim dessa catequese, a mo&ccedil;a parecia convencida de que nos bra&ccedil;os<br \/>\n    do Borges n&atilde;o encontraria realmente toda a felicidade poss&iacute;vel,<br \/>\n    mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas agora&#8230; &eacute; tarde &#8211; balbuciou ela; e voltaram-lhe &agrave; face<br \/>\n    as purpurinas rosas de ainda h&aacute; pouco.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; n&atilde;o &eacute; tarde &#8211; disse o comendador. &#8211; Conheces<br \/>\n    o Manuel, o meu primeiro caixeiro do armaz&eacute;m?<\/p>\n<p>&#8211; Conhe&ccedil;o: &eacute; um enjoado.<\/p>\n<p>&#8211; Qual enjoado! &Eacute; um rapaz de muito futuro no com&eacute;rcio, um<br \/>\n    homem de conta, peso e medida! N&atilde;o descobriu a p&oacute;lvora, n&atilde;o<br \/>\n    faz versos, n&atilde;o &eacute; janota, mas tem um tino para o neg&oacute;cio,<br \/>\n    uma perspic&aacute;cia que o levar&aacute; longe, h&aacute;s de ver!<\/p>\n<p>E durante um quarto de hora o Comendador Ferreira gabou s excel&ecirc;ncias<br \/>\n    do seu caixeiro Manuel.<\/p>\n<p>Adosinda ficou convencida.<\/p>\n<p>A confer&ecirc;ncia terminou por estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Falo-lhe?<\/p>\n<p>&#8211; Fale, papai.<\/p>\n<p> No dia seguinte o comendador chamou o caixeiro ao escrit&oacute;rio, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Manuel, estou muito contente com os seus servi&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Patr&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; &eacute; um empregado zeloso, ativo e morigerado; &eacute; o<br \/>\n    modelo dos empregados.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Patr&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sou ingrato. Do dia primeiro em diante voc&ecirc; &eacute; interessado<br \/>\n    na minha casa: dou-lhe cinco por cento al&eacute;m do ordenado.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Patr&atilde;o! Isso n&atilde;o faz um pai ao filho!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n&atilde;o &eacute; tudo. Quero que voc&ecirc; se case com minha<br \/>\n    filha. Doto-a em cinq&uuml;enta contos. <\/p>\n<p>O pobre diabo sentiu-se engasgado pela como&ccedil;&atilde;o: n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de articular uma palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu sou um homem s&eacute;rio &#8211; continuou o patr&atilde;o; &#8211; a minha<br \/>\n    lealdade obriga-me a confessar-lhe que minha filha&#8230; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    virgem.<\/p>\n<p>O noivo espalmou as m&atilde;os, inclinou a cabe&ccedil;a para a esquerda,<br \/>\n    baixou as p&aacute;lpebras, ajustou os l&aacute;bios em bico, e respondeu<br \/>\n    com um sorriso resignado e humilde:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Patr&atilde;o! Ainda mesmo que fosse, n&atilde;o fazia mal!<\/p>\n<h2><a name=\"11\">A Fisolofia dos Mendes<\/a><\/h2>\n<p>Decididamente o Fulg&ecirc;ncio n&atilde;o nascera para cavalarias altas:<br \/>\n    n&atilde;o havia rapaz de trinta anos mais t&iacute;mido nem mais pacato vivendo<br \/>\n    s&oacute;, na sua casinha de solteiro, independente e feliz.<\/p>\n<p> Aconteceu, por&eacute;m, que um dia o Fulg&ecirc;ncio foi t&atilde;o provocado<br \/>\n    pelos bonitos olhos de uma senhora, que se sentara ao seu lado num bondinho<br \/>\n    da Carris Urbanos, que se deixou arrastar numa aventura de amor.<\/p>\n<p> Quando, depois da primeira entrevista, na casa dele, B&aacute;rbara &#8211; ela<br \/>\n    chamava-se B&aacute;rbara &#8211; lhe confessou que era casada com um sujeito chamado<br \/>\n    Mendes, o pobre rapaz, que a supunha solteira ou pelo menos vi&uacute;va,<br \/>\n    ficou horrorizado de si mesmo. Ficou horrorizado, mas era tarde: gostava dela,<br \/>\n    e n&atilde;o teve for&ccedil;as para fugir-lhe.<\/p>\n<p> As entrevistas amiudaram-se. Quando B&aacute;rbara n&atatilde;o ia ter pessoalmente<br \/>\n    com o Fulg&ecirc;ncio escrevia-lhe cartas inflamadas, e nenhuma ficava sem<br \/>\n    resposta.<\/p>\n<p> Essa imprud&ecirc;ncia teve mau resultado: um dia B&aacute;rbara Mendes<br \/>\n    entrou em casa do amante acompanhada de duas malas, uma trouxa e um ba&uacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; isto?<br \/>\n    &#8211; Alegra-te! Meu marido, que &eacute; muito abelhudo, encontrou debaixo do<br \/>\n    meu travesseiro a tua &uacute;ltima carta e expulsou-me de casa.<br \/>\n    &#8211; Hein?<br \/>\n    &#8211; Foi melhor assim: agora sou tua, s&oacute; tua, e por toda a vida!&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    est&aacute;s contente?<br \/>\n    &#8211; Muito&#8230;<br \/>\n    &#8211; Estou te achando assim a modo que&#8230;<br \/>\n    &#8211; &Eacute; a surpresa&#8230; a como&ccedil;&atilde;o&#8230; a alegria&#8230;<br \/>\n    &#8211; Como vamos ser felizes! Mas olha, pe&ccedil;o-te que n&atilde;o te exponhas<br \/>\n    nestes primeiros tempos&#8230; O Mendes &eacute; ciumento e brutal e, mesmo antes<br \/>\n    de ter certeza de que eu o enganava, andava armado de rev&oacute;lver!<\/p>\n<p> O Fulg&ecirc;ncio, que n&atilde;o tinha sangue de her&oacute;i, viveu dali<br \/>\n    por diante em transes terr&iacute;veis. Sa&iacute;a de casa o menos poss&iacute;vel,<br \/>\n    e nas ruas s&oacute; andava de tilburi, recomendando aos cocheiros que fossem<br \/>\n    depressa. Quando via ao longe um sujeito qualquer parecido com o Mendes, punha-se<br \/>\n    a tremer que nem varas verdes.<\/p>\n<p> Um dia, tendo descido de um t&iacute;lburi no Largo da Carioca, para comprar<br \/>\n    cigarros, encontrou na charutaria o Mendes, que comprava charutos. Ficou de<br \/>\n    repente muito p&aacute;lido e tr&ecirc;mulo e quis fugir, mas o outro agarrou-o<br \/>\n    por um bra&ccedil;o, dizendo-lhe com muita brandura:<\/p>\n<p> &#8211; Fa&ccedil;a favor&#8230; venha c&aacute;&#8230; n&atilde;o se assuste&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    trema&#8230; n&atilde;o lhe quero mal&#8230; ou&ccedil;a-me&#8230; &eacute; para o seu<br \/>\n    bem&#8230;<br \/>\n    O Fulg&ecirc;ncio caiu das nuvens. O marido continuou:<\/p>\n<p> &#8211; Eu sei que o sr. tem medo de mim que se p&eacute;la: receia que eu o mate,<br \/>\n    ou que lhe bata&#8230; Tranq&uuml;ilize-se: n&atilde;o lhe farei o menor mal.<br \/>\n    Pelo contr&aacute;rio!<\/p>\n<p> O pobre Fulg&ecirc;ncio n&atilde;o conseguiu articular um monoss&iacute;labo.<br \/>\n    As maxilas batiam uma na outra.<\/p>\n<p> &#8211; Mat&aacute;-lo? Bater-lhe? Seria uma ingratid&atilde;o! O Sr. Prestou-me<br \/>\n    um relevante servi&ccedil;o: livrou-me de B&aacute;rbara! E n&atilde;o era<br \/>\n    meu amigo, sim, porque em geral s&atilde;o os amigos que t&ecirc;m a especialidade<br \/>\n    desses obs&eacute;quios&#8230;<br \/>\n    O Fulg&ecirc;ncio continuava a tremer.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o esteja assim nervoso! Depois que o Sr. me libertou daquela<br \/>\n    peste, sou outro homem, vivo mais satisfeito, como com mais apetite, tudo<br \/>\n    me sabe melhor e durmo que &eacute; um regalo&#8230; Aqui entre n&oacute;s, se<br \/>\n    o amigo quiser uma indeniza&ccedil;&atilde;o em dinheiro, uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de luvas, n&atilde;o fa&ccedil;a cerim&ocirc;nia; estou pronto a pagar &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; nada mais justo&#8230; Ande desassombradamente por toda a parte&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    receie uma vingan&ccedil;a que seria absurda&#8230; e se, algum dia, eu lhe puder<br \/>\n    servir para alguma coisa, disponha de mim. N&atilde;o sou nenhum ingrato.<\/p>\n<p> Da&iacute; por diante, o Fulg&ecirc;ncio nunca mais teve receio de estar<br \/>\n    na rua, mas em pouco tempo se convenceu de que n&atilde;o podia estar em casa,<br \/>\n    porque B&aacute;rbara era definitivamente insuport&aacute;vel. O Mendes foi<br \/>\n    o mais feliz dos tr&ecirc;s.<\/p>\n<h2><a name=\"12\">A MARCELINA<\/a><\/h2>\n<h4>I<\/h4>\n<p>Naquele tempo (n&atilde;o h&aacute; necessidade de precisar a &eacute;poca)<br \/>\n    era o Doutor Pires de Aguiar o melhor fregu&ecirc;s da alfaiataria Raunier<br \/>\n    e uma das figuras obrigadas da Rua do Ouvidor. Como advogado diziam-no de<br \/>\n    uma compet&ecirc;ncia um pouco duvidosa, o que ali&aacute;s n&atilde;o obstava<br \/>\n    que ele ganhasse muito dinheiro, &#8211; mas como janota &#8211; for&ccedil;a &eacute;<br \/>\n    confess&aacute;-lo &#8211; n&atilde;o havia rapaz t&atilde;o elegante no Rio de<br \/>\n    Janeiro.<\/p>\n<p>Quando lhe perguntavam a idade, respondia invariavelmente:<\/p>\n<p>&#8211; Or&ccedil;o pelos quarenta, &#8211; e durante muito tempo n&atilde;o deu outra<br \/>\n    resposta. Os seus contempor&acirc;neos de Academia atribu&iacute;am-lhe cinq&uuml;enta,<br \/>\n    bem puxados. As senhoras, essas n&atilde;o lhe davam mais que trinta e cinco.<\/p>\n<p>Ele tinha um fraco pelas mulheres de teatro. Consistia o seu grande luxo<br \/>\n    em ser publicamente o amante oficial de alguma atriz. N&atilde;o fazia quest&atilde;o<br \/>\n    de esp&iacute;rito nem beleza; o indispens&aacute;vel &eacute; que ela ocupasse<br \/>\n    lugar saliente no palco, e fosse aplaudida e festejada pelo p&uacute;blico.<br \/>\n    N&atilde;o era o amor, era a vaidade que o conduzia &agrave; nauseabunda Citera<br \/>\n    dos bastidores.<\/p>\n<p>Essas liga&ccedil;&otilde;es depressa se desfaziam; duravam enquanto durava<br \/>\n    o brilho da estrela; desde que esta come&ccedil;ava a ofuscar&#8211;se, ele achava<br \/>\n    um pretexto para afastar-se dela e procurar imediatamente outra. Como era<br \/>\n    inteligente e generoso &#8211; muito mais generoso que inteligente, &#8211; nunca ficava<br \/>\n    mal com o astro ca&iacute;do.<\/p>\n<p>Algumas vezes o rompimento era provocado por elas &#8211; pelas de mais esp&iacute;rito,<br \/>\n    &#8211; que facilmente se enfaravam de um indiv&iacute;duo t&atilde;o preocupado<br \/>\n    com a pr&oacute;pria pessoa, e t&atilde;o vaidoso suas roupas.<\/p>\n<h4>II<\/h4>\n<p>No tempo em que se passou a a&ccedil;&atilde;o deste ligeiro conto, a conquista<br \/>\n    do Doutor Pires de Aguiar era uma atriz portuguesa, a Clorinda, que viera<br \/>\n    de Lisboa apregoada pelas cem trombetas do reclame, e cuja estr&eacute;ia,<br \/>\n    num dos nossos teatrinhos de opereta, o p&uacute;blico esperava ansiosamente.<\/p>\n<p>Uma hora antes de come&ccedil;ar o espet&aacute;culo de estr&eacute;ia, entrou<br \/>\n    advogado triunfantemente na caixa do teatro, levando pelo bra&ccedil;o a sua<br \/>\n    nova amiga, elegantemente envolvida numa soberba de pel&uacute;cia. Ia fazer-lhe<br \/>\n    entrega do camarim, cujo arranjo confiara liberalmente ao bom gosto e &agrave;<br \/>\n    per&iacute;cia dos mais h&aacute;beis tapeceiros e estofadores.<\/p>\n<p>Ela ficou encantad&iacute;ssima, a agradeceu com beijos quentes sonoros a<br \/>\n    dedicada solicitude do amante.<\/p>\n<p>Que belo tapete felpudo! que bonitos quadros! que papel escolhido! que delicioso<br \/>\n    div&atilde;! que magn&iacute;fico espelho de faces, onde o seu vulto airoso<br \/>\n    se refletia tr&ecirc;s vezes por inteiro! e que profus&atilde;o de perfumarias!<br \/>\n    e que precioso servi&ccedil;o de toilette!.<\/p>\n<p>Nada faltava tamb&eacute;m sobre a mesinha da maquilagem, risamente iluminada<br \/>\n    por dois bicos de g&aacute;s.<\/p>\n<p>O Doutor Pires de Aguiar tinha longa pr&aacute;tica desses arranjos; n&atilde;o<br \/>\n    podia esquecer-se de nenhum dos ingredientes necess&aacute;rios camarim de<br \/>\n    uma atriz que se respeita; o arsenal estava completo.<\/p>\n<p>Dali a nada ouviu-se um &#8211; D&aacute; licen&ccedil;a?, &#8211; e o diretor cena entrou<br \/>\n    no camarim, acompanhado por uma mulher j&aacute; idosa, muito p&aacute;lida,<br \/>\n    de aspecto doentio, pobremente trajada.<\/p>\n<p>&#8211; Dona Clorinda, aqui tem a sua costureira.<\/p>\n<p>A estrela n&atilde;o conteve um gesto de despeito. O diretor de cena compreendeu-o,<br \/>\n    e saiu imediatamente, para n&atilde;o entrar em explica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; doente? perguntou Clorinda &agrave; costureira.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. senhora. Tive uma doen&ccedil;a grave, mas agora estou boa.<br \/>\n    Sa&iacute; h&aacute; dois dias da Santa Casa.<\/p>\n<p>Clorinda trocou um olhar com o advogado, e este disse-lhe, refestelando-se<br \/>\n    no div&atilde;:<\/p>\n<p>&#8211; Ma ch&ecirc;re, il faut se contender de cette habilleuse; noos ne sommes<br \/>\n    pos en Europe.<\/p>\n<p>Ele impingiu a frase em franc&ecirc;s, para que n&atilde;o a entendesse a<br \/>\n    costureira, mas a verdade &eacute; que Clorinda tamb&eacute;m n&atilde;o percebeu,<br \/>\n    o que ali&aacute;s n&atilde;o a impediu de responder: &#8211; Oui.<\/p>\n<p>Despojada da mantilha e da bela capa de pel&uacute;cia, Clorinda sentou-se<br \/>\n    entre os dois bicos de g&aacute;s, e come&ccedil;ou a pintar-se, dizendo:<br \/>\n    &#8211; Vamos a isto!<\/p>\n<p>E dirigindo-se &agrave; costureira:<\/p>\n<p>&#8211; Sente-se. Por que est&aacute; de p&eacute;?<\/p>\n<p>A pobre mulher sentou-se a medo, como receosa de macular a palhinha doirada<br \/>\n    da cadeira com o seu miser&aacute;vel vestido de chita.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que me disseram bonitas coisas a seu respeito? perguntou a atriz ao<br \/>\n    advogado, olhando-o pelo espelho.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras?<\/p>\n<p>&#8211; Ao que me parece, voc&ecirc; tem sido um gajo!<\/p>\n<p>O Doutor Pires de Aguiar teve um sorriso inexprim&iacute;vel. Aquele gajo<br \/>\n    entrou-lhe pela vaidade adentro como uma gr&atilde;-cruz.<\/p>\n<p>&#8211; Com que ent&atilde;o, a sua especialidade s&atilde;o as atrizes?<\/p>\n<p>&#8211; Sou doido pelo teatro.<\/p>\n<p>&#8211; E h&aacute; quanto tempo dura essa doidice?<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; muito tempo. Estou velho, bem v&ecirc;. Or&ccedil;o pelos quarenta.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu&eacute;m lhe dar&aacute; mais de trinta e cinco.<\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o os seus olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Qual foi a sua primeira paix&atilde;o no teatro?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! isso&#8230;<\/p>\n<p>O advogado levantou o bra&ccedil;o e estalou os dedos.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; isso &eacute; pr&eacute;-hist&oacute;rico; perde-se na noite dos tempos.<\/p>\n<p>&#8211; Como se chamava essa colega?<\/p>\n<p>&#8211; Chamava-se Marcelina. <\/p>\n<p>&#8211; Que fim levou?<\/p>\n<p>Ele encolheu os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Sei l&aacute;! provavelmente morreu. Nunca mais ouvi falar dela. H&aacute;<br \/>\n    mulheres que desaparecem como os passarinhos que n&atilde;o foram mortos a<br \/>\n    tiro nem engaiolados: ningu&eacute;m lhes v&ecirc; os cad&aacute;veres.<\/p>\n<p>&#8211; Gostou dela?<\/p>\n<p>&#8211; Foi talvez a paix&atilde;o mais s&eacute;ria da minha vida.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca mais a procurou?<\/p>\n<p>&#8211; Para qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Tinha talento?<\/p>\n<p>&#8211; Talento? N&atilde;o. Tinha habilidade.<\/p>\n<p>E depois de uma pausa:<\/p>\n<p>&#8211; Tinha habilidade e era muito boa rapariga.<\/p>\n<p>&#8211; Brasileira?<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Representava ing&ecirc;nuas em dramalh&otilde;es de capa e aspada,<br \/>\n    ali, no S&atilde;o Pedro de Alc&acirc;ntara. Um dia &#8211; eu j&aacute; a tinha<br \/>\n    deixado &#8211; um dia patearam-na por motivos que nada tinham que ver com a arte<br \/>\n    dram&aacute;tica; ela desgostou-se; andou mourejando pelas prov&iacute;ncias,<br \/>\n    e afinal desapareceu. Requiescat in pace!<\/p>\n<p>Entrou o cabeleireiro. Enquanto Clorinda lhe confiou a cabe&ccedil;a, o Doutor<br \/>\n    Pires de Aguiar divagou longamente sobre os m&eacute;ritos da Marcelina; depois<br \/>\n    falou de outras atrizes, desfiando o intermin&aacute;vel ros&aacute;rio das<br \/>\n    suas mancebias.<\/p>\n<p>Clorinda, a costureira e o cabeleiro ouviam sem dizer palavra .<\/p>\n<p>Terminado o servi&ccedil;o do cabeleireiro, que logo se retirou, Clorinda<br \/>\n    ergueu-se:<\/p>\n<p>&#8211; Agora, meu doutor, h&aacute; de me dar licen&ccedil;a, sim? Vou vestir-me.<\/p>\n<p>&#8211; At&eacute; logo, disse o advogado. O seu penteado ficou esplendido! Vou<br \/>\n    aplaudi-la. Bonne chonce!<\/p>\n<p>Deu-lhe um beijo &#8211; na testa para n&atilde;o desmanchar a pintura, &#8211; e saiu<br \/>\n    do camarim, cuja porta a costureira discretamente fechou.<\/p>\n<h4>III<\/h4>\n<p>Minutos depois, Clorinda estava completamente nua.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora &eacute; muito bem feita de corpo, disse-lhe, num tom adulat&oacute;rio,<br \/>\n    a costureira, enfiando-lhe pela cabe&ccedil;a uma camisa de seda.<\/p>\n<p>&#8211; Acha? perguntou desdenhosamente a atriz.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! eu tamb&eacute;m j&aacute; fui bem feita de corpo, mas.. &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    tive ju&iacute;zo: fiei-me demais nos homens. Se quer aceitar um conselho,<br \/>\n    filha, preste mais aten&ccedil;&atilde;o &agrave; sua arte do que a todos<br \/>\n    esses&#8230; gajos, que fazem das mulheres um objeto de luxo e nada mais. S&oacute;<br \/>\n    assim a senhora evitar&aacute; o hospital e a mis&eacute;ria.<\/p>\n<p>&#8211; Ora esta! exclamou Clorinda. Quem &eacute; voc&ecirc;, mulher, para me<br \/>\n    falar assim?<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou&#8230; a Marcelina.<\/p>\n<p>(Contos Poss&iacute;veis)<\/p>\n<h2><a name=\"13\">A MELHOR AMIGA <\/a><\/h2>\n<h4>I<\/h4>\n<p>A mais ing&ecirc;nua e virtuosa das esposas, D. Ritinha Torres, adquiriu<br \/>\n    h&aacute; tempos a dolorosa certeza de que o marido a enganava, namorando<br \/>\n    escandalosamente uma senhora, vizinha deles, que exercia, ou fingia exercer<br \/>\n    a profiss&atilde;o de modista.<\/p>\n<p>Havia muitas manh&atilde;s que Ven&acirc;ncio Torres &#8211; assim se chamava o<br \/>\n    p&eacute;rfido &#8211; acordava muito cedo, tomava o seu banho frio, saboreava sua<br \/>\n    x&iacute;cara de caf&eacute;, acendia o seu cigarro e ia ler a Gazeta de Noticias<br \/>\n    debru&ccedil;ado a uma das janelas da sala de visitas.<\/p>\n<p>Como D. Ritinha estranhasse o fato, porque havia j&aacute; quatro anos que<br \/>\n    estava casada com Ven&acirc;ncio, e sempre o conhecera pouco madrugador, uma<br \/>\n    bela manh&atilde; levantou-se da cama, envolveu-se numa colcha, e foi, p&eacute;<br \/>\n    ante p&eacute;, sem ser pressentida, dar com ele a namorar a vizinha, que<br \/>\n    o namorava tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>A pobre senhora n&atilde;o disse nada: voltou para o quarto, deitou-se de<br \/>\n    novo, e &agrave; hora do costume simulou que s&oacute; ent&atilde;o despertava.<\/p>\n<p>Tivera at&eacute; aquela data o marido na conta de um irrepreens&iacute;vel<br \/>\n    modelo de todas as virtudes conjugais; todavia, soube aparar o golpe: n&atilde;o<br \/>\n    deu a perceber o seu desgosto, n&atilde;o articulou uma queixa, n&atilde;o<br \/>\n    deixou escapar um suspiro.<\/p>\n<p>Mas &agrave;s dez horas, quando Ven&acirc;ncio Torres, perfeitamente almo&ccedil;ado,<br \/>\n    tomou o caminho da reparti&ccedil;&atilde;o, ela vestiu-se, saiu tamb&eacute;m,<br \/>\n    e foi bater &agrave; porta da sua melhor amiga, D. Ubaldina de MeIo, que se<br \/>\n    mostrou admirad&iacute;ssima.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isto? Tu aqui a estas horas! Temos novidade?<\/p>\n<p>&#8211; Temos&#8230; temos uma grande novidade; meu marido engana-me<\/p>\n<p>E deixando-se cair numa cadeira, D. Ritinha prorrompeu em solu&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8211; Engana-te? perguntou a outra, que empalidecera de s&uacute;bito.<\/p>\n<p>&#8211; E adivinha com quem?&#8230; Com aquela modista&#8230; aquela sujeita que mora defronte<br \/>\n    de nossa casa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Ritinha! isso &eacute; l&aacute; poss&iacute;vel!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me disseram: vi; vi com estes olhos que a terra h&aacute; de<br \/>\n    comer! Um namoro desbragado, escandaloso, de janela para janela!<\/p>\n<p>&#8211; Olha que as apar&ecirc;ncias enganam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E os homens ainda mais que as apar&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>O pranto recrudescia.<\/p>\n<p>&#8211; E eu que tinha tanta confian&#8230; an&#8230; &ccedil;a naquele ingra&#8230; a ..to!<\/p>\n<p>&#8211; Que queres tu que te fa&ccedil;a? perguntou D. Ubaldina, quando a amiga<br \/>\n    lhe pareceu mais serenada.<\/p>\n<p>&#8211; Vim consultar-te&#8230; pe&ccedil;o-te que me aconselhes&#8230; que me digas o<br \/>\n    que devo fazer&#8230; N&atilde;o tenho cabe&ccedil;a para tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    qualquer!<\/p>\n<p>&#8211; Disseste-lhe alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8211; A quem?<\/p>\n<p>&#8211; A teu marido.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; n&atilde;o lhe disse nada, absolutamente nada. Contive-me quanto<br \/>\n    pude. N&atilde;o quis decidir coisa alguma antes de te falar, antes de ouvir<br \/>\n    a minha melhor amiga.<\/p>\n<p>D. Ubaldina sentou-se ao lado dela, agradeceu com um beijo prolongado e sonoro<br \/>\n    essa prova decisiva de confian&ccedil;a e amizade, e, tomando-lhe carinhosamente<br \/>\n    as m&atilde;os, assim falou:<\/p>\n<p>&#8211; Ritinha, o casamento &eacute; uma cruz que &eacute; mister saber carregar.<br \/>\n    Teu marido engana-te&#8230; se &eacute; que te engana&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Engana-me!..<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, engana-te, sim, mas&#8230; com quem? Reflete um pouco, e v&ecirc;<br \/>\n    que esse rid&iacute;culo namoro de janela, que o obriga a madrugar, sair dos<br \/>\n    seus h&aacute;bitos, &eacute; uma fantasia passageira, um divertimento ef&ecirc;mero<br \/>\n    que n&atilde;o vale a pena tomar a serio.<\/p>\n<p>&#8211; Achas ent&atilde;o que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Filha, n&atilde;o h&aacute; no mundo marido algum que seja absolutamente<br \/>\n    fiel. Faze como eu, que fecho os olhos &agrave;s bilontrices do Melo, e digo<br \/>\n    como dizia a outra: &#8211; Enquanto andar l&aacute; fora, passeie o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; vontade, contanto que mo restitua quando se recolher ao lar dom&eacute;stico.<\/p>\n<p>&#8211; Filosofia no caso!<\/p>\n<p>&#8211; Vejo que n&atilde;o sente por teu marido o mesmo que sinto pelo meu&#8230;<\/p>\n<p>A fil&oacute;sofa conservou-se calada alguns segundos, e, dando em D. Ritinha<br \/>\n    outro beijo, ainda mais prolongado e sonoro que o primeiro, prosseguiu assim:<\/p>\n<p>&#8211; Se fizeres cenas de ci&uacute;mes a teu marido, apenas conseguir&aacute;s<br \/>\n    que ele se afei&ccedil;oe deveras &agrave; tal modista; o que por enquanto<br \/>\n    n&atilde;o passa, felizmente, de um namoro sem conseq&uuml;&ecirc;ncias, poder&aacute;<br \/>\n    um dia transformar-se em paix&atilde;o desordenada e furiosa!<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; mais nem meio! Cala-te, resigna-te, devora em sil&ecirc;ncio<br \/>\n    tuas l&aacute;grimas, e observa. Se daqui a oito ou dez dias durar ainda esse<br \/>\n    pequeno esc&acirc;ndalo, vem de novo ter comigo, e juntas combinaremos ent&atilde;o<br \/>\n    o que dever&aacute;s fazer.<\/p>\n<p>&#8211; Aceito de bom grado os conselhos, minha amiga, mas n&atilde;o sei se terei<br \/>\n    for&ccedil;as para sofrear a minha indigna&ccedil;&atilde;o e os meus ci&uacute;mes.<\/p>\n<p>&#8211; Faze o poss&iacute;vel por sofreares. Lembra-te que &eacute;s m&atilde;e.<br \/>\n    Quando um casal n&atilde;o vive na mais perfeita harmonia, a educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos filhos torna-se extremamente dif&iacute;cil.<\/p>\n<p>Alentada por esses conselhos amistosos e sensatos, D. Ritinha Torres despediu-se<br \/>\n    da sua melhor amiga, e foi para casa muito disposta a carregar com resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a cruz do casamento.<\/p>\n<h4> II<\/h4>\n<p> Logo que ficou sozinha, D. Ubaldina que at&eacute; ent&atilde;o a custo<br \/>\n    se contivera, teve tamb&eacute;m uma longa crise de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>Mas, serenada que foi essa violenta exacerba&ccedil;&atilde;o dos nervos,<br \/>\n    a mo&ccedil;a correu ao telefone, e pediu que a comunicasse com a reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    onde Ven&acirc;ncio Torres era empregado.<\/p>\n<p>&#8211; Al&ocirc;! Al&ocirc;!<\/p>\n<p>&#8211; Quem fala?<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Ven&acirc;ncio est&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;. Vou cham&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Minutos depois D. Ubaldina telefonava ao marido de D. Ritinha que precisava<br \/>\n    falar-lhe com toda urg&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Ele correu imediatamente &agrave; casa dela, onde foi recebido com uma explos&atilde;o<br \/>\n    de l&aacute;grimas e impreca&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isto?! que &eacute; isto?! perguntou at&ocirc;nito.<\/p>\n<p>&#8211; Sei tudo! bradou ela. Tua mulher esteve aqui e contou-me o teu namoro com<br \/>\n    a modista de defronte!<\/p>\n<p>Ven&acirc;ncio ficou aterrado.<\/p>\n<p>&#8211; A idiota veio perguntar-me, a mim, que sou tua amante, o que devia fazer!<br \/>\n    Eu disse-lhe que fechasse os olhos, que se resignasse.<\/p>\n<p>E agarrando-o com impetuosidade:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! mas eu &eacute; que me n&atilde;o resigno, sabes? Eu n&atilde;o sou<br \/>\n    tua mulher, sabes? Eu amo-te, sabes?<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o tola. Eu n&atilde;o namoro modistas.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, Ven&acirc;ncio, se continuares, tudo saberei, porque incumbi a tua<br \/>\n    pr&oacute;pria mulher de me p&ocirc;r ao fato de tudo quanto se passar! Se<br \/>\n    persistires em namorar essa costureira, darei um esc&acirc;ndalo descomunal,<br \/>\n    nunca visto&#8230; &#8211; Afian&ccedil;o-te que te arrepender&aacute;s amargamente!<br \/>\n    Tu ainda n&atilde;o me conheces!..<\/p>\n<p>Ven&acirc;ncio tinha l&aacute;bias: desfez-se em desculpas e explicou, o<br \/>\n    melhor que p&ocirc;de, as suas madrugadas.<\/p>\n<p>D. Ubaldina, que ardia em desejo de perdoar, aceitou a explica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Entretanto, amea&ccedil;ava-o sempre:<\/p>\n<p>&#8211; Olha que se me constar que&#8230; N&atilde;o te digo mais nada!&#8230;<\/p>\n<p>Pouco antes da hora em que devia chegar o dono da casa com o seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    intacto, Ven&acirc;ncio, que descia a escada, parou, e retrocedeu tr&ecirc;s<br \/>\n    ou quatro degraus para dizer a D. Ubaldina:<\/p>\n<p>&#8211; Queres saber de uma coisa? Essa hist&oacute;ria da modista &eacute; bem<br \/>\n    boa: serve perfeitamente para desviar qualquer suspeita que minha mulher possa<br \/>\n    ter da sua melhor amiga.<\/p>\n<p>E desceu.<\/p>\n<h4> III<\/h4>\n<p> Oito dias depois, D. Ubaldina de Melo recebia um bilhete concebido nos seguintes<br \/>\n    termos:<\/p>\n<p>&quot;Minha boa amiga. &#8211; Parece que tudo acabou, felizmente. Depois que estive<br \/>\n    contigo, nunca mais Ven&acirc;ncio madrugou nem foi &agrave; janela. Queira<br \/>\n    Deus que isto dure! Como sou feliz! &#8211; Tua do cora&ccedil;&atilde;o, Ritinha<br \/>\n    Torres.&quot;<\/p>\n<h2><a name=\"14\">A Melhor Vingan\u00e7a<\/a><\/h2>\n<p>O Vieirinha namorou durante dois anos a Xandoca; mas o pai dele, quando soube<br \/>\n    do namoro, fez intervir a sua autoridade paterna.<\/p>\n<p>&#8211; A rapariga n\u00e3o tem eira nem beira, meu rapaz; o pai \u00e9 um simples empregado<br \/>\n    p\u00fablico que mal ganha para sustentar a fam\u00edlia! Foge dela antes que as coisas<br \/>\n    assumam propor\u00e7\u00f5es maiores, porque, se te casares com essa mo\u00e7a, n\u00e3o contes<br \/>\n    absolutamente comigo &#8211; faze de conta que morri, e morri sem te deixar vint\u00e9m.<br \/>\n    Tu \u00e9s bonito, inteligente, e tens a ventura de ser meu filho; podes fazer<br \/>\n    um bom casamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se o V\u00edeirinha gostava deveras da Xandoca; s\u00f3 sei que depois dessa<br \/>\n    observa\u00e7\u00e3o do Comendador Vieira nunca mais passou pela Rua Francisco Eug\u00eanio,<br \/>\n    onde a rapariga todas as tardes o esperava com um sorriso nos l\u00e1bios e o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\n    a palpitar de esperan\u00e7a e de amor.<\/p>\n<p>O brusco desaparecimento do mo\u00e7o fez com que ela sofresse muito, pois que<br \/>\n    j\u00e1 se considerava noiva, e era tida como tal por toda a vizinhan\u00e7a; faltava<br \/>\n    apenas o pedido oficial.<\/p>\n<p>Entretanto, Xandoca, passado algum tempo, come\u00e7ou a consolar-se, porque outro<br \/>\n    homem, se bem que menos jovem, menos bonito e menos elegante que o Vieirinha,<br \/>\n    entrou a request\u00e1-la seriamente, e n\u00e3o tardou a oferecer-lhe o seu nome. Pouco<br \/>\n    tempo depois estavam casados.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que Xandoca foi uma boa fada que entrou em casa desse homem. Logo<br \/>\n    que ele se casou, o seu estabelecimento comercial entrou num maravilhoso per\u00edodo<br \/>\n    de prosperidade. Em pouco mais de dois anos, Cardoso &#8211; era esse o seu nome<br \/>\n    &#8211; estava rico; e era um dos negociantes mais considerados e mais adulados<br \/>\n    da pra\u00e7a do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Ele e Xandoca amavam-se e viviam na mais perfeita harmonia, gozando, sem<br \/>\n    ostenta\u00e7\u00e3o, os seus haveres e de vez em quando correndo mundo.<\/p>\n<p>Uma tarde em que D. Alexandrina (j\u00e1 ningu\u00e9m a chamava Xandoca) estava \u00e0 janela<br \/>\n    do seu palacete, em companhia do marido, viu passar na rua um b\u00eabedo maltrapilho,<br \/>\n    que servia de divertimento aos garotos, e reconheceu, surpresa, que o desgra\u00e7ado<br \/>\n    era o V\u00edeirinha.<\/p>\n<p>Ficou t\u00e3o comovida, que o Cardoso suspeitou, naturalmente, que ela conhecesse<br \/>\n    o pobre-diabo, e interrogou-a neste sentido.<\/p>\n<p>&#8211; Antes de nos casarmos, respondeu ela, confessei-te, com toda a lealdade,<br \/>\n    que tinha sido namorada e noiva, ou quase noiva, de um miser\u00e1vel que fugiu<br \/>\n    de mim, sem me dar a menor satisfa\u00e7\u00e3o, para obedecer a uma intima\u00e7\u00e3o do pai.<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei, o tal V\u00edeirinha, filho do Comendador Vieira, que morreu h\u00e1 tr\u00eas<br \/>\n    ou quatro anos, depois de ter perdido em especula\u00e7\u00f5es da bolsa tudo quanto<br \/>\n    possu\u00eda.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem &#8211; o Vieirinha ali est\u00e1!<\/p>\n<p>E Alexandrina apontou para o b\u00eabado, que afinal ca\u00edra sobre a cal\u00e7ada, e<br \/>\n    dormia.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, filha, disse o Cardoso, tens agora uma boa ocasi\u00e3o de te vingares!<\/p>\n<p>&#8211; Queres tu melhor vingan\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; Certamente, muito melhor, e, se me d\u00e1s licen\u00e7a, agirei por ti.<\/p>\n<p>&#8211; Faze o que quiseres, contanto que n\u00e3o lhe fa\u00e7as mal.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Quando no dia seguinte o V\u00edeirinha despertou, estava comodamente deitado<br \/>\n    numa cama limpa e tinha diante de si um homem de confian\u00e7a do Cardoso.<\/p>\n<p>&#8211; Onde estou eu?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se importe. Levante-se para tomar banho!<\/p>\n<p>O Vieir\u00ednha deixou-se levar como uma crian\u00e7a. Tomou banho, vestiu roupas<br \/>\n    novas, foi submetido \u00e0 tesoura e \u00e0 navalha de uni barbeiro, e almo\u00e7ou como<br \/>\n    um pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>Depois de tudo isso, foi levado pelo mesmo homem a uma f\u00e1brica, onde, por<br \/>\n    ordem do Cardoso, ficou empregado.<\/p>\n<p>Antes de se retirar, o homem que o levava deu-lhe algum dinheiro e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor fica empregado nesta f\u00e1brica at\u00e9 o dia em que torne a beber.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a quem devo tantos benef\u00edcios?<\/p>\n<p>&#8211; A uma pessoa que se compadeceu do senhor e deseja guardar o inc\u00f3gnito.<\/p>\n<p>O Vieirinha atribuiu tudo a qualquer velho amigo do pai; deixou de beber,<br \/>\n    tomou caminho, n\u00e3o \u00e9 mau empregado, e h\u00e1 de morrer sem nunca ter sabido que<br \/>\n    a sua regenera\u00e7\u00e3o foi uma vingan\u00e7a<\/p>\n<h2><a name=\"15\">A MO&Ccedil;A MAIS BONITA DO RIO DE JANEIRO<\/a><\/h2>\n<h4>I<\/h4>\n<p>\n    Era em 1875. Numa pequena casa do Engenho Novo habitava, em companhia dos<br \/>\n    pais, a mo&ccedil;a mais bonita do Rio de Janeiro. Como houvesse nascido a<br \/>\n    2 de maio, recebera na pia batismal, por simples indica&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    folhinha, o nome de Mafalda; entretanto, ningu&eacute;m a conhecia por esse<br \/>\n    nome, pois desde o ber&ccedil;o come&ccedil;aram todos de casa a chamar-lhe<br \/>\n    Fadinha, corruptela e diminutivo de Mafalda. E bem lhe assentavam aquelas<br \/>\n    tr&ecirc;s s&iacute;labas, porque a mo&ccedil;a, aos dezoito anos, possu&iacute;a<br \/>\n    todos os encantos que t&ecirc;m, ou devem ter, as fadas, e na sua beleza extraordin&aacute;ria<br \/>\n    havia, realmente, qualquer coisa de sobrenatural e fant&aacute;stico.<\/p>\n<p>Morena, desse moreno fluido que s&oacute; Murillo encontrou na sua maravilhosa<br \/>\n    paleta, de olhos negros e &uacute;midos, narinas dilatadas, l&aacute;bios<br \/>\n    grossos mas graciosamente contornados, abrindo-se, de vez em quando, para<br \/>\n    mostrar os mais belos dentes, cabelos negros como os olhos, abundantes, ligeiramente<br \/>\n    ondeados, apanhados sempre com um desalinho est&eacute;tico, deixando ver<br \/>\n    duas orelhas de um desenho t&atilde;o impec&aacute;vel, que fora crime cobri-las<br \/>\n    &#8211; e todas essas partes completando-se umas &agrave;s outras no oval harmonioso<br \/>\n    do rosto, Fadinha, por un&acirc;nime delibera&ccedil;&atilde;o do j&uacute;ri<br \/>\n    mais rigoroso, ganharia com toda a certeza o primeiro pr&ecirc;mio, se naquela<br \/>\n    &eacute;poca se lembrassem de abrir no Rio de Janeiro um concurso de beleza<br \/>\n    feminina. Todo o seu corpo se compadecia com a cabe&ccedil;a; era esbelta<br \/>\n    sem ser alta, robusta sem ser gorda, e as suas formas apresentavam uma extraordin&aacute;ria<br \/>\n    corre&ccedil;&atilde;o de linhas. As m&atilde;os e os p&eacute;s eram modelos.<\/p>\n<p>Exagerado parecerei, talvez, dizendo que Fadinha reunia a esses dotes f&iacute;sicos<br \/>\n    as melhores qualidades de alma; entretanto, a verdade &eacute; que era boa,<br \/>\n    afetuosa, submissa e compassiva. Tinha a sua ponta de vaidade, isso tinha,<br \/>\n    mas que outra mulher n&atilde;o a teria, sendo assim t&atilde;o bonita?<\/p>\n<p>Duas coisas, portanto, a desgostavam: ter vindo ao mundo a 2 de maio e chamar-se<br \/>\n    Mafalda, quando poderia nascer a 10 de julho e se chamar Am&eacute;lia &#8211; e<br \/>\n    n&atilde;o ter nascido rica, muito rica, para fazer valer ainda mais a sua<br \/>\n    formosura. Todavia conformava-se alegremente com a prec&aacute;ria condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de filha de um funcion&aacute;rio p&uacute;blico paup&eacute;rrimo. Sim, porque<br \/>\n    seu pai, o Raposo, chegara aos cinq&uuml;enta anos simples oficial de Secretaria,<br \/>\n    sendo obrigado, para ag&uuml;entar a vida, a empregar os afazeres escriturando<br \/>\n    livros comerciais, ora numa padaria, ora numa venda, ora numa casa de penhores.<br \/>\n    E a vida sedent&aacute;ria fez com que ele engordasse extraordinariamente.<br \/>\n    O dr. Souto, m&eacute;dico da fam&iacute;lia, costumava dizer: o Raposo &eacute;<br \/>\n    uma apoplexia ambulante.<\/p>\n<p>Fadinha n&atilde;o era filha &uacute;nica: tinha um irm&atilde;o mais velho<br \/>\n    arrumado no com&eacute;rcio, e outro, ainda muito novo, que estudava para<br \/>\n    doutor, porque o pai o considerava o &quot;talento da fam&iacute;lia&quot;.<\/p>\n<p>A m&atilde;e era uma senhora de quarenta e cinco anos, que n&atilde;o se<br \/>\n    parecia absolutamente com a filha. N&atilde;o sei por que fen&ocirc;meno fisiol&oacute;gico,<br \/>\n    de um casal t&atilde;o feio (porque o Raposo, coitado! era outro desfavorecido<br \/>\n    da natureza) saiu aquele espl&ecirc;ndido produto, aquela criatura escultural,<br \/>\n    aquela beleza inveross&iacute;mil! Note-se que os dois rapazes tamb&eacute;m<br \/>\n    eram feios, principalmente o futuro doutor &#8211; narigudo, orelhudo, enfezado,<br \/>\n    an&ecirc;mico, insignificante.<\/p>\n<p>N&atilde;o contente de levar parte da exist&ecirc;ncia &agrave;s voltas com<br \/>\n    os santos do seu orat&oacute;rio particular, d. Firmina &#8211; assim se chamava<br \/>\n    a m&atilde;e de Fadinha &#8211; andava constantemente pelas igrejas, adorando os<br \/>\n    de fora; mas, em que pesasse a tanta piedade n&atilde;o perdoava &agrave;<br \/>\n    filha o ser t&atilde;o bonita, e revoltava-se intimamente contra o singular<br \/>\n    monop&oacute;lio que a mo&ccedil;a recebera da natureza como se fosse uma<br \/>\n    d&aacute;diva escandalosa; entretanto, Fadinha era toda a sua ambi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de fortuna, toda a sua esperan&ccedil;a de melhores tempos. O seu sonho era<br \/>\n    ser sogra de um argent&aacute;rio, pois que o n&atilde;o poderia ser de um<br \/>\n    pr&iacute;ncipe. Se o Raposo n&atilde;o fosse um chefe de fam&iacute;lia,<br \/>\n    &agrave;s direitas, essa mulher t&ecirc;-lo-ia dominado, usurpando toda a<br \/>\n    autoridade no lar; felizmente ele batia o p&eacute;, n&atilde;o consentia<br \/>\n    em nada que lhe desagradasse.<\/p>\n<p>Mas a nossa Fadinha tem um namorado. E tempo de apresent&aacute;-lo aos leitores.<\/p>\n<h4> II<\/h4>\n<p> Linda como era, n&atilde;o faltavam &agrave; mo&ccedil;a adoradores de todas<br \/>\n    as idades e categorias. Muitos homens se abalavam da cidade at&eacute; o Engenho<br \/>\n    Novo, s&oacute; pela satisfa&ccedil;&atilde;o de contempl&aacute;-la, muitos<br \/>\n    deles conduzidos pela simples curiosidade, muitos deles instigados pela vaga<br \/>\n    esperan&ccedil;a de uma promessa envolvida num sorriso ou num olhar. Pode-se<br \/>\n    dizer que durante muito tempo a formosura c&eacute;lebre de Fadinha contribuiu<br \/>\n    para o aumento da receita dos trens dos sub&uacute;rbios, e para a anima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do bairro, que naquele tempo n&atilde;o tinha a popula&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    hoje. Muitos desses adoradores chegaram &agrave; fala, declarando-se animados<br \/>\n    das inten&ccedil;&otilde;es mais puras, e entre eles alguns havia realmente<br \/>\n    dignos da singular ventura de casar com Fadinha; ela, por&eacute;m, todos<br \/>\n    repeliu com a maior delicadeza e compostura.<\/p>\n<p>Um dia, o Raposo convidou para jantar em sua casa o Rem&iacute;gio, um bom<br \/>\n    rapaz, seu colega, empregado na mesma reparti&ccedil;&atilde;o em que ele<br \/>\n    exercia as suas fun&ccedil;&otilde;es oficiais. Esse Rem&iacute;gio era uma<br \/>\n    das p&eacute;rolas d&aacute; Secretaria, modelo de zelo, intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e assiduidade, funcion&aacute;rio &quot;de muito futuro&quot;, como diziam<br \/>\n    todos; mas n&atilde;o era bonito, nem elegante, nem primava por nenhuma outra<br \/>\n    qualidade exterior. Entretanto, de todos quantos passaram diante dos formosos<br \/>\n    olhos da Fadinha, foi esse o &uacute;nico homem que lhe mereceu aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Negociantes acreditados e dinheirosos, funcion&aacute;rios bem colocados,<br \/>\n    advogados, m&eacute;dicos, oficiais do Ex&eacute;rcito e da Armada, etc. &#8211;<br \/>\n    tiveram todos que ceder lugar, no cora&ccedil;&atilde;o de Fadinha, a esse<br \/>\n    amanuense p&aacute;lido, desajeitado, mal vestido, que apenas ganhava 166$666<br \/>\n    r&eacute;is mensais.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a parecia ansiosa por que o seu cora&ccedil;&atilde;o se manifestasse;<br \/>\n    imediatamente deu a entender ao Rem&iacute;gio que ele seria vencedor entre<br \/>\n    os numerosos candidatos &agrave; sua m&atilde;o. O amanuense, que era modesto<br \/>\n    por natureza, e nem mesmo em sonhos imaginara esposar algum dia a mo&ccedil;a<br \/>\n    mais bonita do Rio de Janeiro, ficou desvairado pela prefer&ecirc;ncia que<br \/>\n    n&atilde;o solicitara, e apaixonou-se deveras por Fadinha.<\/p>\n<p>Logo que se manifestaram claramente os primeiros sintomas daquele amor, houve<br \/>\n    um sobressalto na fam&iacute;lia. D. Firmina viu aproximar-se o perigo, e<br \/>\n    um dia, depois do almo&ccedil;o, quando o marido se dispunha a sair de casa,<br \/>\n    arrastando a sua obesidade at&eacute; o trem, comunicou-lhe os seus receios;<br \/>\n    mas o Raposo, que tinha pelo Rem&iacute;gio uma afei&ccedil;&atilde;o paternal,<br \/>\n    e n&atilde;o via com maus olhos a perspectiva do seu casamento com Fadinha,<br \/>\n    limitou-se a sorrir, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; muito natural que eles gostem um do outro e que se casem.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; est&aacute; falando s&eacute;rio?<\/p>\n<p>&#8211; Ora esta! Muito s&eacute;rio! Quem sabe se o Rem&iacute;gio n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; digno da pequena!<\/p>\n<p>&#8211; Um amanuense!<\/p>\n<p>&#8211; E eu quem sou?&#8230; Que era eu quando fomos &agrave; igreja?&#8230; Fadinha se<br \/>\n    casar&aacute; conforme a sua inclina&ccedil;&atilde;o; se gosta de um amanuense<br \/>\n    e n&atilde;o de um ministro, paci&ecirc;ncia! N&atilde;o quer ser rica; faz<br \/>\n    bem, porque a felicidade n&atilde;o est&aacute; no dinheiro. Demais o Rem&iacute;gio<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; para ai nenhum pobre-diabo carregado de esteiras velhas;<br \/>\n    o pai deixou-lhe alguma coisa; tem duas ou tr&ecirc;s casinhas, algumas ap&oacute;lices<br \/>\n    e muito ju&iacute;zo, que &eacute; o essencial Estimado como &eacute; na Secretaria,<br \/>\n    n&atilde;o lhe dou cinco anos para estar chefe de se&ccedil;&atilde;o. Acenda<br \/>\n    voc&ecirc; a lanterna de Di&oacute;genes, que n&atilde;o encontra genro mais<br \/>\n    ao pintar.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-se disso! Nossa filha &eacute; muito bonita, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A&iacute; vem voc&ecirc; com a boniteza de nossa filha! Isso n&atilde;o<br \/>\n    vale nada, absolutamente nada! E muito bonita, &eacute;, mas n&atilde;o tem<br \/>\n    vint&eacute;m, e se se casasse &agrave; for&ccedil;a com algum rica&ccedil;o,<br \/>\n    o casamento pareceria mais um neg&oacute;cio que outra coisa. Demais, seria<br \/>\n    humilhante para n&oacute;s que somos paup&eacute;rrimos. Que diabo! N&atilde;o<br \/>\n    quero especular com a beleza de minha filha, nem me opor &agrave; sua ventura<br \/>\n    contrariando os seus sentimentos. Voc&ecirc;, que &eacute; t&atilde;o religiosa,<br \/>\n    devia pensar como eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas n&oacute;s poder&iacute;amos fazer ver &agrave; Fadinha que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta! J&aacute; vejo que n&atilde;o nos entendemos neste particular. Na<br \/>\n    minha opini&atilde;o, o Rem&iacute;gio &eacute; um excelente partido, e n&atilde;o<br \/>\n    vejo a raz&atilde;o por que a pequena deva aspirar a outro!<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; mas nem meio mas! Ela que decida, porque &#8211; e pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    que tome em considera&ccedil;&atilde;o as minhas palavras &#8211; a Fadinha n&atilde;o<br \/>\n    se casar&aacute; com quem voc&ecirc; ou eu quisermos que se case, mas com<br \/>\n    o noivo que escolher por sua livre vontade, seja amanuense, praticante, czar<br \/>\n    da R&uacute;ssia, ou x&aacute; da P&eacute;rsia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nem mais uma palavra, Firmina! Voc&ecirc; bem sabe que isto aqui n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; casa de Gon&ccedil;alo! N&atilde;o admito que debaixo destas telhas<br \/>\n    outra voz se erga mais alto que a minha!<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que voc&ecirc; est&aacute; dizendo &eacute; uma asneira!<\/p>\n<p>&#8211; Uma asneira!&#8230; Uma asneira!&#8230; &Eacute; a mim que a senhora diz isso?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim&#8230; &eacute; ao senhor! Estou farta de representar nesta casa um<br \/>\n    papel t&atilde;o subalterno!<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso, vista as minhas cal&ccedil;as e passe para c&aacute; as saias!<br \/>\n    Ora n&atilde;o seja tola! Hoje mesmo vou dizer ao Rem&iacute;gio que a pequena<br \/>\n    &eacute; dele!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o h&aacute; de ser, digo-lhe eu! Quero fazer a felicidade<br \/>\n    de minha filha!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o minta!&#8230; A senhora quer fazer a sua pr&oacute;pria felicidade,<br \/>\n    n&atilde;o a dela! N&atilde;o me obrigue a falar, porque, se falo, temos esc&acirc;ndalo<br \/>\n    e esc&acirc;ndalo grosso!<\/p>\n<p>E o Raposo contrafazia-se, abaixando a voz para n&atilde;o ser ouvido pelos<br \/>\n    demais da casa:<\/p>\n<p>&#8211; A senhora nunca a estimou como devia; nunca lhe teve amor de m&atilde;e,<br \/>\n    de verdadeira m&atilde;e!&#8230; E agora quer vend&ecirc;-la&#8230; Boas!&#8230; Hoje<br \/>\n    mesmo falo ao Rem&iacute;gio!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; uma inf&acirc;mia! Eu sou m&atilde;e dela, e o senhor n&atilde;o<br \/>\n    tem certeza de ser seu pai!&#8230;<\/p>\n<p>-Hein?&#8230; Que &eacute; isso?&#8230;<\/p>\n<p>O Raposo cresceu para d. Firmina, mas uma onda de sangue lhe subiu &agrave;<br \/>\n    cabe&ccedil;a; ele abriu desmesuradamente os olhos e a boca, agitou os bra&ccedil;os<br \/>\n    no ar e caiu fulminado.<\/p>\n<p>Quando chegou o dr. Souto, chamado a toda a pressa, encontrou-o morto.<\/p>\n<p>&#8211; Bem dizia eu que o Raposo era uma apoplexia ambulante!<\/p>\n<h4> III<\/h4>\n<p> O Rem&iacute;gio mostrou-se verdadeiro amigo: pediu a d. Firmina licen&ccedil;a<br \/>\n    para tratar do enterro, e nem esta nem os filhos conheceram at&eacute; hoje<br \/>\n    a import&acirc;ncia das respectivas despesas.<\/p>\n<p>T&atilde;o piedosa solicitude, e as l&aacute;grimas acerbas que o mo&ccedil;o<br \/>\n    derramou sobre o cad&aacute;ver do velho colega aumentaram os sentimentos<br \/>\n    de Fadinha a seu respeito; agora n&atilde;o era somente o afeto, era tamb&eacute;m<br \/>\n    gratid&atilde;o que aproximava aqueles dois cora&ccedil;&otilde;es. Com a<br \/>\n    morte do Raposo, ambos se sentiram &oacute;rf&atilde;os, e essa identidade<br \/>\n    de situa&ccedil;&otilde;es cimentava ainda mais a m&uacute;tua simpatia que<br \/>\n    os dominava.<\/p>\n<p>N&atilde;o teve d. Firmina uma palavra de agradecimento para tais favores<br \/>\n    e, mentalmente, o Rem&iacute;gio atribuiu essa falta &agrave; dor violenta<br \/>\n    que a vi&uacute;va manifestava, a todos os momentos, com l&aacute;grimas e<br \/>\n    gritos. Na ocasi&atilde;o do enterro foram necess&aacute;rios tr&ecirc;s homens<br \/>\n    para arranc&aacute;-la de cima do caix&atilde;o e, sete dias depois, terminada<br \/>\n    a missa, ele teve, na sacristia da igreja de S&atilde;o Francisco de Paula,<br \/>\n    um ataque de nervos t&atilde;o violento, que parecia chegada a sua &uacute;ltima<br \/>\n    hora.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m os rapazes, quer o estudante, quer o empregado no com&eacute;rcio,<br \/>\n    n&atilde;o agradeceram ao Rem&iacute;gio o enterro e a missa; dir-se-ia que<br \/>\n    todos da casa consideravam aquilo uma obriga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Todos, n&atilde;o: Fadinha volta e meia falava da generosidade do mo&ccedil;o,<br \/>\n    e as suas palavras, a que ningu&eacute;m respondia, eram ouvidas com indiferen&ccedil;a<br \/>\n    pela m&atilde;e e pelos irm&atilde;os.<\/p>\n<p>O mais velho, o Alexandre, mo&ccedil;o de vinte e dois anos, empregado na<br \/>\n    casa comercial do bar&atilde;o de Moreira, estava lisonjead&iacute;ssimo pelo<br \/>\n    fato de haver o patr&atilde;o se dignado assistir pessoalmente &agrave; cerim&ocirc;nia<br \/>\n    f&uacute;nebre. N&atilde;o queria acreditar nos seus olhos quando, no corredor<br \/>\n    da igreja, encontrou o bar&atilde;o parado, segurando o chap&eacute;u com<br \/>\n    a m&atilde;o atr&aacute;s das costas, de cabe&ccedil;a erguida, a examinar<br \/>\n    atentamente o retrato de um benfeitor da Ordem, pintado pelo Fragoso. O caixeiro<br \/>\n    a princ&iacute;pio sup&ocirc;s que o bar&atilde;o viesse a outra missa qualquer,<br \/>\n    mas, n&atilde;o obstante a sua tristeza, rejubilou-se quando viu que, ao come&ccedil;ar<br \/>\n    a cerimonia, o titular tomava lugar entre os que tinham vindo render a derradeira<br \/>\n    homenagem ao defunto Raposo.<\/p>\n<p>Acabada a missa, quando o padre, acompanhado do seu ac&oacute;lito, voltou<br \/>\n    para a sacristia, dobrando o joelho diante de cada altar, o bar&atilde;o foi<br \/>\n    o primeiro a abra&ccedil;ar o Alexandre, que estava perto da m&atilde;e dos<br \/>\n    irm&atilde;os.<\/p>\n<p>&#8211; Seja homem! Todos n&oacute;s passamos por estes dissabores&#8230; O mundo &eacute;<br \/>\n    isto mesmo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, senhor bar&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o conhe&ccedil;o sua fam&iacute;lia; pe&ccedil;o-lhe que me apresente<br \/>\n    &agrave;s senhoras.<\/p>\n<p>A vi&uacute;va n&atilde;o p&ocirc;de ser apresentada porque chorava um oceano<br \/>\n    l&aacute;grimas, e n&atilde;o tinha aten&ccedil;&atilde;o para mais nada al&eacute;m<br \/>\n    da sua dor espetaculosa; mas o bar&atilde;o, pasmado diante da beleza de Fadinha,<br \/>\n    deu-lhe um longo aperto de m&atilde;o, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora, seu irm&atilde;o &eacute; empregado de nossa casa, e eu<br \/>\n    sou muito amigo de quantos me servem bem. Pe&ccedil;o-lhe que diga &agrave;<br \/>\n    senhora sua m&atilde;e que o bar&atilde;o de Moreira est&aacute; &agrave;<br \/>\n    sua disposi&ccedil;&atilde;o para tudo em que ela o queira ocupar, seja o<br \/>\n    que for.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigada, senhor bar&atilde;o.<\/p>\n<p>Este oferecimento surpreendeu Alexandre, que n&atilde;o estava habituado<br \/>\n    &agrave;s amabilidades do patr&atilde;o, homem ainda novo, mas seco, autorit&aacute;rio,<br \/>\n    frio, orgulhoso da sua educa&ccedil;&atilde;o, da sua eleg&acirc;ncia, do<br \/>\n    seu t&iacute;tu1o e dos seus contos de r&eacute;is; na sua humildade de subalterno,<br \/>\n    o rapaz imaginava que, se o bar&atilde;o o encontrasse na rua, n&atilde;o<br \/>\n    o reconheceria; admirava-se, portanto, de que esse rica&ccedil;o comodista<br \/>\n    se abalasse de Botafogo para vir assistir a missa rezada por alma de um funcion&aacute;rio<br \/>\n    obscuro, e t&atilde;o interessado se mostrasse pela fam&iacute;lia. Os leitores<br \/>\n    v&atilde;o ter mais adiante a explica&ccedil;&atilde;o desse fen&ocirc;meno.<\/p>\n<p>Quando todos os convidados se retiraram, e a fam&iacute;lia Raposo ficou<br \/>\n    s&oacute; na sacristia, os dois rapazes despediram-se da m&atilde;e e da irm&atilde;:<br \/>\n    o mais velho ia para a casa onde era empregado e onde almo&ccedil;ava, e o<br \/>\n    mais novo para a Escola de Medicina: estavam &agrave; porta os exames, n&atilde;o<br \/>\n    convinha faltar; almo&ccedil;aria no Rocher de Cancalle, &agrave; Travessa<br \/>\n    do Ouvidor.<\/p>\n<p>O Rem&iacute;gio ofereceu-se para acompanhar as senhoras at&eacute; o Engenho<br \/>\n    Novo; mas a vi&uacute;va, que na aus&ecirc;ncia de espectadores j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o parecia t&atilde;o angustiada, recusou formalmente.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor; n&atilde;o quero que se d&ecirc; a esse trabalho; o<br \/>\n    senhor precisa ir tamb&eacute;m para a sua reparti&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Fadinha interveio:<\/p>\n<p>&#8211; Um dia n&atilde;o s&atilde;o dias. Venha, seu Rem&iacute;gio; almo&ccedil;ar&aacute;<br \/>\n    conosco.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; disse que n&atilde;o!<\/p>\n<p>O amanuense curvou a cabe&ccedil;a e levou as duas senhoras at&eacute; o<br \/>\n    carro: f&ecirc;-las entrar e fechou a portinhola.<\/p>\n<p>&#8211; Apare&ccedil;a &#8211; disse Fadinha tristemente e agitou os dedos num delicado<br \/>\n    adeus.<\/p>\n<p>D. Firmina, essa n&atilde;o articulou uma palavra; mas quando o carro se<br \/>\n    afastou, na dire&ccedil;&atilde;o da rua do Teatro, ela vociferou, com uma<br \/>\n    ind&iacute;zivel express&atilde;o de c&oacute;lera no olhar:<\/p>\n<p>&#8211; Trata de te esqueceres deste sujeitinho! J&aacute; n&atilde;o tens o pai<br \/>\n    toleir&atilde;o que tinhas! Quem manda sou eu, est&aacute;s ouvindo?&#8230;<\/p>\n<h4> IV<\/h4>\n<p> Agora, a explica&ccedil;&atilde;o do fen&ocirc;meno:<\/p>\n<p>O bar&atilde;o Moreira tinha vindo para o escrit&oacute;rio mais cedo que<br \/>\n    nos outros dias, e entretinha-se a conversar com o seu amigo Pimenta, que<br \/>\n    de vez em quando o procurava para palestrar com ele, recordando juntos os<br \/>\n    bons tempos em que ambos freq&uuml;entavam o Col&eacute;gio Vit&oacute;rio.<\/p>\n<p>O Pimenta abra&ccedil;ara tamb&eacute;m a carreira comercial, mas n&atilde;o<br \/>\n    foi t&atilde;o feliz como o seu condisc&iacute;pulo. Percorrera, durante muitos<br \/>\n    anos, um grande n&uacute;mero de casas, e em nenhuma delas encontrou a fortuna<br \/>\n    a que lhe dava direito a sua prodigiosa atividade. Aos trinta e tantos anos<br \/>\n    ainda n&atilde;o tinha no com&eacute;rcio uma posi&ccedil;&atilde;o definida,<br \/>\n    mas, enfim, sempre se arranjava como corretor de mercadorias, cujas vendas,<br \/>\n    feitas por seu interm&eacute;dio, lhe deixavam pingues porcentagens.<\/p>\n<p>A sua longa passagem por um grande armarinho da rua do Ouvidor, de onde ao<br \/>\n    cabo de quinze anos de sonhos e esperan&ccedil;as, sa&iacute;ra irritado contra<br \/>\n    os patr&otilde;es, e com uma m&atilde;o atr&aacute;s e outra adiante, valeu-lhe<br \/>\n    duas qualidades excepcionais: conhecer como ningu&eacute;m aquele g&ecirc;nero<br \/>\n    de neg&oacute;cio e ser a cr&ocirc;nica viva de toda a popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    carioca. N&atilde;o havia fato, escandaloso ou n&atilde;o, que o Pimenta n&atilde;o<br \/>\n    armazenasse na mem&oacute;ria e n&atilde;o glosasse no momento oportuno.<\/p>\n<p>Era m&aacute; l&iacute;ngua, e, sem esse defeito, estaria talvez rico e independente<br \/>\n    como o bar&atilde;o de Moreira, escusado de andar acima e abaixo, de porta<br \/>\n    em porta, suando as estopinhas, munido de amostras, faturas e conhecimentos.<br \/>\n    Uns diziam: &#8211; O Pimenta n&atilde;o &eacute; mau sujeito, mas tem uma l&iacute;ngua<br \/>\n    que o perde &#8211; e outros: &#8211; &Eacute; muito vivo, muito esperto, mas n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; maior caipora. Entretanto, como se conservava solteiro e n&atilde;o<br \/>\n    tinha obriga&ccedil;&otilde;es de fam&iacute;lia, o Pimenta suportava de cara<br \/>\n    alegre o seu caiporismo, ganhando o preciso para viver sem ser pesado aos<br \/>\n    amigos.<\/p>\n<p>Naquele dia ele aparecera, como j&aacute; dissemos, no escrit&oacute;rio<br \/>\n    do bar&atilde;o de Moreira para dar dois dedos de palestra ao amigo de inf&acirc;ncia<br \/>\n    e talvez papar-lhe o almo&ccedil;o.<\/p>\n<p>Conversavam ambos, quando o Alexandre entrou no escrit&oacute;rio para participar<br \/>\n    ao bar&atilde;o ter recebido naquele instante a not&iacute;cia que seu pai<br \/>\n    falecera repentinamente, e pedir-lhe alguns dias de dispensa.<\/p>\n<p>O bar&atilde;o, que era de uma altivez de autocrata para com os empregados<br \/>\n    da sua casa, observou, sem levantar os olhos:<\/p>\n<p>&#8211; Isso &eacute; com o senhor Motta; j&aacute; lhe falou?<\/p>\n<p>&#8211; O senhor Motta n&atilde;o est&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Pois pode ir.<\/p>\n<p>E o Alexandre saiu sem receber uma palavra de condol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Conheces este teu empregado? &#8211; perguntou o Pimenta ao bar&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; quem o admitiu foi o meu s&oacute;cio, o Motta; creio ser esta<br \/>\n    a primeira vez que lhe falo; bem sabes que tenho por sistema ligar pouca import&acirc;ncia<br \/>\n    aos caixeiros&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Foi por isso que te perguntei se o conhecias.<\/p>\n<p>Houve uma pausa.<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso n&atilde;o conheceste o pai, o Raposo, que acaba de falecer<br \/>\n    repentinamente?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; E n&atilde;o sabes que o teu caixeiro &eacute; irm&atilde;o da mo&ccedil;a<br \/>\n    mais bonita do Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; singular! Nunca ouviste falar da Fadinha do Engenho Novo?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho id&eacute;ia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois &eacute; ela!<\/p>\n<p>&#8211; E &eacute; realmente bonita?<\/p>\n<p>&#8211; Se &eacute; bonita! &Eacute; formosa! &Eacute; linda!&#8230; N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    reputa&ccedil;&atilde;o mais merecida!<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! Est&aacute;s me agu&ccedil;ando a curiosidade! Como poderei<br \/>\n    v&ecirc;-la?<\/p>\n<p>&#8211; Muito simplesmente: vai a missa do s&eacute;timo dia. Como o irm&atilde;o<br \/>\n    &eacute; empregado em tua casa, procura esse pretexto para oferecer, mesmo<br \/>\n    na igreja, os teus servi&ccedil;os &agrave; fam&iacute;lia, e ter&aacute;s<br \/>\n    ocasi&atilde;o de v&ecirc;-la bem de perto.<\/p>\n<p>&#8211; Lembras bem. S&oacute; assim iria eu &agrave; missa do pai do senhor&#8230;<br \/>\n    como se chama o rapaz?<\/p>\n<p>&#8211; Alexandre.<\/p>\n<p>E ali est&aacute; por que o bar&atilde;o de Moreira compareceu a missa: mera<br \/>\n    curiosidade sacr&iacute;lega.<\/p>\n<p>Quando o titular voltou da igreja, encontrou no escrit&oacute;rio o Pimenta<br \/>\n    &agrave; sua espera.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o? Que tal?<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, aquela n&atilde;o &eacute; a mo&ccedil;a mais bonita do Rio<br \/>\n    de Janeiro, &eacute; a mulher mais bela do mundo!&#8230;<\/p>\n<h4> V<\/h4>\n<p> Se o Alexandre se admirara de que o bar&atilde;o de Moreira houvesse comparecido<br \/>\n    &agrave; igreja, mais admirado ficou vendo que o patr&atilde;o, daquele dia<br \/>\n    em diante, come&ccedil;ou a trat&aacute;-lo com uma simpatia e uma aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que em pouco tempo se transformaram em familiaridade. Chamava-o para o auxiliar<br \/>\n    em todos os trabalhos do escrit&oacute;rio, confiava-lhe servi&ccedil;os de<br \/>\n    responsabilidade, incumbia-o de receber grandes somas ou lev&aacute;-las ao<br \/>\n    banco, e um dia, estando o mo&ccedil;o a passar uma carta a limpo, carta confidencial,<br \/>\n    de muita import&acirc;ncia, o patr&atilde;o ofereceu-lhe um dos seus magn&iacute;ficos<br \/>\n    havanos, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Fume, Alexandre.<\/p>\n<p>Motta, o s&oacute;cio do bar&atilde;o, que era a ant&iacute;tese deste, bonacheir&atilde;o,<br \/>\n    am&aacute;vel, amigo dos empregados, estava estupefato e n&atilde;o sabia<br \/>\n    a que atribuir aquele favoritismo; o guarda-livros, por&eacute;m, e os outros<br \/>\n    caixeiros, j&aacute; enciumados, e talvez instru&iacute;dos pelas perversas<br \/>\n    insinua&ccedil;&otilde;es do linguarudo Pimenta, murmuravam: &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; nada como ter irm&atilde; bonita&#8230;<\/p>\n<p>O bar&atilde;o pedia constantemente noticias da fam&iacute;lia, interessando-se<br \/>\n    pela vi&uacute;va, e repetindo, quase todos os dias, o oferecimento dos seus<br \/>\n    servi&ccedil;os e da sua amizade para prevenir, remover ou sanar qualquer<br \/>\n    dificuldade criada pelo s&uacute;bito falecimento do velho Raposo. O rapaz<br \/>\n    desfazia-se em agradecimentos e, chegando &agrave; casa, contava &agrave;<br \/>\n    m&atilde;e todas as aten&ccedil;&otilde;es e finezas que merecia ao patr&atilde;o.<\/p>\n<p>D. Firmina, perspicaz e manhosa, desconfiou naturalmente que o bar&atilde;o,<br \/>\n    impressionado pela beleza de Fadinha, procurasse meios e modos de se aproximar<br \/>\n    da fam&iacute;lia, e um dia aconselhou o filho a que lhe oferecesse a casa<br \/>\n    dizendo-lhe que ela, d. Firmina, muito reconhecida a todos os favores do titular,<br \/>\n    teria muita satisfa&ccedil;&atilde;o em lhos agradecer pessoalmente.<\/p>\n<p>Se d. Firmina bem o disse, Alexandre melhor o fez, e o bar&atilde;o, j&aacute;<br \/>\n    se v&ecirc;, n&atilde;o deixou fugir uma ocasi&atilde;o que havia j&aacute;<br \/>\n    dois meses provocava. Um belo domingo resolveu ir almo&ccedil;ar no Engenho<br \/>\n    Novo. Para dar maior solenidade &agrave; visita, d. Firmina foi esper&aacute;-lo<br \/>\n    na esta&ccedil;&atilde;o, acompanhada pelos rapazes, s&oacute; pelos rapazes,<br \/>\n    porque Fadinha, sabendo da vinda do bar&atilde;o, fechou-se na alcova, pretextando<br \/>\n    uma enxaqueca violenta, e n&atilde;o houve s&uacute;plicas nem ralhos, carinhos<br \/>\n    nem amea&ccedil;as que a fizessem sair.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a estava desesperada: havia mais de um m&ecirc;s que n&atilde;o<br \/>\n    punha os olhos no seu querido Rem&iacute;gio. Foram tantas as grosserias de<br \/>\n    d. Firmina e dos rapazes, que o namorado, compreendendo que o queriam afastar,<br \/>\n    e vendo que era imposs&iacute;vel afrontar a p&eacute; firme aquela s&uacute;cia<br \/>\n    de ingratos, fez-lhes a vontade, sem, contudo, renunciar os seus projetos<br \/>\n    de casamento, porque Fadinha continuava a ser a mesma, e ele considerava-a<br \/>\n    digna, por todos os respeitos, do seu afeto e da sua const&acirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Fa&ccedil;am o que fizerem, serei tua, s&oacute; tua, juro-te por alma<br \/>\n    de meu pai! Quanto mais me oprimirem, quanto mais te ofenderem, mais crescer&aacute;,<br \/>\n    se &eacute; poss&iacute;vel, o ardente amor que te consagro! Sou tua noiva!<\/p>\n<p>Animado por essas palavras de fogo, em que Fadinha pusera toda a energia<br \/>\n    da sua alma, toda a sinceridade do seu cora&ccedil;&atilde;o, o Rem&iacute;gio<br \/>\n    esperava resignadamente ensejo de fazer valer os direitos do seu amor; entretanto<br \/>\n    &#8211; digamo-lo &#8211; o seu esp&iacute;rito vacilante e timorato n&atilde;o tinha<br \/>\n    for&ccedil;as para a luta a que o incitavam. Ele amava deveras, mas come&ccedil;ava<br \/>\n    a maldizer intimamente aquela singular formosura, que fazia de Fadinha um<br \/>\n    objeto de cobi&ccedil;a, uma esperan&ccedil;a de fortuna, esp&eacute;cie de<br \/>\n    seguro de vida de uma fam&iacute;lia inteira. N&atilde;o obstante a &uacute;ltima<br \/>\n    vontade, o desejo extremo e sagrado do venerando Raposo, receava que a sua<br \/>\n    insist&ecirc;ncia causasse a desuni&atilde;o e a desgra&ccedil;a da fam&iacute;lia.<br \/>\n    Entretanto, Fadinha, todas as vezes que, iludindo a vigil&acirc;ncia materna,<br \/>\n    lhe podia escrever, repetia cada vez mais veementes protestos de fidelidade.<\/p>\n<p>Mas voltemos ao bar&atilde;o de Moreira que, na esta&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    Engenho Novo, com o seu terno de flanela clara, o seu chap&eacute;u de palha<br \/>\n    branca, a sua gravata pol&iacute;croma, o seu alfinete de brilhantes e a rosa<br \/>\n    enorme que trazia ao peito, contrastava com o aspecto daquela matrona e daqueles<br \/>\n    dois rapazes vestidos de luto, luto fechado, em que eram pretos at&eacute;<br \/>\n    mesmo os punhos e os colarinhos.<\/p>\n<h4> VI<\/h4>\n<p> No dia seguinte, entrando no escrit&oacute;rio do bar&atilde;o, o Pimenta<br \/>\n    encontrou-o de mau humor.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o? Foste?<\/p>\n<p>&#8211; Fui. Fui a Roma e n&atilde;o vi o papa.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o entendo.<\/p>\n<p>&#8211; Roma &eacute; o Engenho Novo e o papa &eacute; Fadinha; entendes agora?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o a viste?<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; te disse que n&atilde;o. Estava doente; n&atilde;o me apareceu.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras?<\/p>\n<p>&#8211; Imagina que estupidez almo&ccedil;ar com dona Firmina e os filhos, e v&ecirc;-la<br \/>\n    por um &oacute;culo! Almo&ccedil;ar &eacute; um modo de dizer, porque n&atilde;o<br \/>\n    comi nada. Fiquei desesperado!<\/p>\n<p>&#8211; E que te disse a velha?<\/p>\n<p>&#8211; A velha estava ainda mais contrariada do que eu. Era uma coisa que entrava<br \/>\n    pelos olhos. Pediu-me muitas desculpas pela aus&ecirc;ncia da filha, e disse-me<br \/>\n    &#8211; sem nenhuma convic&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s &#8211; que ela estava realmente<br \/>\n    indisposta.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o creias.<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; visto que n&atilde;o creio.<\/p>\n<p>&#8211; Tens um rival.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; desconfiava disso.<\/p>\n<p>&#8211; Um concorrente s&eacute;rio. Informaram-me de tudo hoje pela manh&atilde;.<\/p>\n<p>E o Pimenta contou ao bar&atilde;o o que os leitores j&aacute; sabem: os<br \/>\n    amores de Rem&iacute;gio e Fadinha, a &uacute;ltima vontade do velho Raposo,<br \/>\n    os obs&eacute;quios prestados &agrave; fam&iacute;lia, a oposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de d. Firmina e dos filhos, o afastamento de Rem&iacute;gio &#8211; e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; A pequena desconfiou que te queriam impor-lhe para marido, e fechou-se<br \/>\n    no quarto. A&iacute; tens por que foste a Roma e n&atilde;o viste o papa.<\/p>\n<p>&#8211; Que me aconselhas tu?<\/p>\n<p>&#8211; Para responder a essa pergunta, preciso primeiramente saber quais s&atilde;o<br \/>\n    as tuas inten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Houve um longo sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8211; Gostas dela?<\/p>\n<p>&#8211; Muito. J&aacute; gostava, e depois do maldito almo&ccedil;o fiquei gostando<br \/>\n    ainda mais!<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;s disposto a ser seu marido?<\/p>\n<p>Houve outro sil&ecirc;ncio, ainda mais longo que o primeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Se n&atilde;o queres faz&ecirc;-la baronesa &#8211; redarg&uuml;iu o Pimenta<br \/>\n    &#8211; esquece-te da mo&ccedil;a. Que diabo! Ela pode ser feliz com o tal Rem&iacute;gio,<br \/>\n    que &eacute; rapaz honesto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem te disse que as minhas inten&ccedil;&otilde;es n&atilde;o sejam<br \/>\n    boas?<\/p>\n<p>&#8211; Tu ficaste calado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fiquei, porque o casamento me apavora. E t&atilde;o deliciosa e t&atilde;o<br \/>\n    completa a minha liberdade! Sim, confesso-te que o matrim&ocirc;nio jamais<br \/>\n    figurou no programa da minha vida, mas se for preciso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como &quot;se for preciso&quot;? Pois entrou-te em cabe&ccedil;a que Fadinha<br \/>\n    poderia pertencer-te independentemente da interven&ccedil;&atilde;o do padre?<br \/>\n    Aquela fam&iacute;lia &eacute; pobre, mas t&atilde;o honrada como a tua! Se<br \/>\n    queres ser seu marido, luta, e vencer&aacute;s, talvez; sen&atilde;o, desiste<br \/>\n    de uma id&eacute;ia indigna de ti!<\/p>\n<p>O bar&atilde;o olhou muito tempo para o havano que tinha entre os dedos,<br \/>\n    deixou cair a cinza numa escarradeira, meteu o charuto na boca, ergueu-se,<br \/>\n    e disse resolutamente, numa baforada de fumo:<\/p>\n<p>&#8211; Lutarei!<\/p>\n<p>Quando o Pimenta saiu do escrit&oacute;rio, encontrou no armaz&eacute;m o<br \/>\n    Alexandre, e disse-lhe rapidamente, a meia voz:<\/p>\n<p>&#8211; O homem casa.<\/p>\n<h2><a name=\"16\">A Pol\u00eamica<\/a><\/h2>\n<p>O Romualdo tinha perdido, havia j&aacute; dois ou tr&ecirc;s meses, o seu<br \/>\n    lugar de redator numa folha di&aacute;ria; estava sem ganhar vint&eacute;m,<br \/>\n    vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que, levado<br \/>\n    por uma quimera da juventude, se lembrara de abra&ccedil;ar uma carreira t&atilde;o<br \/>\n    incerta e prec&aacute;ria como a do jornalismo.<\/p>\n<p>Felizmente era solteiro, e o dono da &quot;pens&atilde;o&quot; onde ele morava<br \/>\n    fornecia-lhe casa e comida a cr&eacute;dito, em aten&ccedil;&atilde;o aos<br \/>\n    belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locat&aacute;rios.<\/p>\n<p>Cansado de oferecer em pura perda os seus servi&ccedil;os liter&aacute;rios<br \/>\n    a quanto jornal havia ent&atilde;o no Rio de Janeiro, o Romualdo lembrou-se,<br \/>\n    um dia, de procurar ocupa&ccedil;&atilde;o no com&eacute;rcio, abandonando<br \/>\n    para sempre as suas veleidades de escritor p&uacute;blico, os seus desejos<br \/>\n    de considera&ccedil;&atilde;o e renome.<\/p>\n<p>Para isso, foi ter com um negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido<br \/>\n    seu condisc&iacute;pulo no Col&eacute;gio Vit&oacute;rio, a quem jamais ocupara,<br \/>\n    embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando raras vezes se<br \/>\n    encontravam na rua.<\/p>\n<p>O negociante ouviu-o, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Tratarei mais tarde de arranjar um emprego que te sirva; por enquanto preciso<br \/>\n    da tua pena. Sim, da tua pena. Apareceste ao pintar! Foste a sopa que me caiu<br \/>\n    no mel! Quando entraste por aquela porta, estava eu a matutar, sem saber a<br \/>\n    quem me dirigisse para prestar-me o servi&ccedil;o que te vou pedir. Confesso<br \/>\n    que n&atilde;o me tinha lembrado de ti&#8230; perdoa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou &agrave;s tuas ordens.<\/p>\n<p>&#8211; Preciso publicar amanh&atilde;, impreterivelmente, no Jornal do Com&eacute;rcio,<br \/>\n    um artigo contra o Saraiva.<\/p>\n<p>&#8211; Que Saraiva?<\/p>\n<p>&#8211; O da rua Direita.<\/p>\n<p>&#8211; O Jo&atilde;o Fernandes Saraiva?<\/p>\n<p>&#8211; Esse mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Ganhar&aacute;s uns cobres que n&atilde;o te far&atilde;o mal algum.<\/p>\n<p>A essa palavra &quot;cobres&quot;, o Romualdo teve um estreme&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de alegria; mas caiu em si:<\/p>\n<p>&#8211; Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva &eacute;, como tu, meu amigo&#8230;<br \/>\n    como tu, foi meu companheiro de col&eacute;gio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando conheceres a quest&atilde;o que vai ser o assunto desse artigo,<br \/>\n    n&atilde;o te recusar&aacute;s a escrev&ecirc;-lo, porque n&atilde;o admito<br \/>\n    que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: n&atilde;o quero<br \/>\n    insult&aacute;-lo, n&atilde;o quero dizer nada que o fira na sua honra, quero<br \/>\n    trat&aacute;-lo com luva de pelica. Sou eu o primeiro a lastimar que uma quest&atilde;o<br \/>\n    de dinheiro destru&iacute;sse a nossa velha amizade. Escreves o artigo?<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; mas nem meio mas! O Saraiva nunca saber&aacute; que<br \/>\n    foi escrito por ti.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho escr&uacute;pulos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixa l&aacute; os teus escr&uacute;pulos, e ouve de que se trata. Presta-me<br \/>\n    toda a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E o Caldas exp&ocirc;s longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva.<br \/>\n    Tratava-se de uma pequena quest&atilde;o comercial, de um capricho tolo que<br \/>\n    s&oacute; poderia irritar, um contra o outro, dois amigos que n&atilde;o conhecessem<br \/>\n    o que a vida tem de &aacute;spero e dif&iacute;cil O artigo seria um desabafo<br \/>\n    menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena h&aacute;bil<br \/>\n    poderia, efetivamente, evitar uma inj&uacute;ria grave.<\/p>\n<p>O Romualdo, que h&aacute; muito tempo n&atilde;o pegava numa nota de cinco<br \/>\n    mil-r&eacute;is, e apanhara, na v&eacute;spera, uma descompostura de lavadeira,<br \/>\n    cedeu, afinal, &agrave;s tentadoras inst&acirc;ncias do amigo, e no pr&oacute;prio<br \/>\n    escrit&oacute;rio deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem! &#8211; exclamou o Caldas, depois de tr&ecirc;s leituras consecutivas.<\/p>\n<p>&#8211; Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente<br \/>\n    a quest&atilde;o!<\/p>\n<p>E, depois de um passeio &acirc; burra, meteu um envelope na m&atilde;o de<br \/>\n    Romualdo, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Aparece-me daqui a dias: vou procurar o emprego que desejas. &#8211; A &eacute;poca<br \/>\n    &eacute; dif&iacute;cil, mas h&aacute; de se arranjar.<\/p>\n<p>O Romualdo saiu, e, ao dobrar a primeira esquina, abriu sofregamente o envelope:<br \/>\n    havia dentro uma nota de cem mil-r&eacute;is! Exultou! Parecia-lhe ter tirado<br \/>\n    a sorte grande!<\/p>\n<p>Na manh&atilde; seguinte, o ex-jornalista pediu ao dono da &quot;pens&atilde;o&quot;<br \/>\n    que lhe emprestasse o Jornal do Com&eacute;rcio, e viu a sua prosa &quot;Eu<br \/>\n    e o sr. Jo&atilde;o Fernandes Saraiva&quot; assinada pelo Caldas; sentiu alguma<br \/>\n    coisa que se assemelhava ao remorso, o mal-estar que acomete o esp&iacute;rito<br \/>\n    e se reflete no corpo do homem todas as vezes que este pratica um ato inconfess&aacute;vel,<br \/>\n    e aquilo era uma quase trai&ccedil;&atilde;o. Entretanto almo&ccedil;ou com<br \/>\n    apetite.<\/p>\n<p>&Agrave; sobremesa entrou na sala de jantar um menino, que lhe trazia uma<br \/>\n    carta em cujo sobrescrito se lia a palavra &quot;urgente&quot;.<\/p>\n<p>Ele abriu-a e leu:<\/p>\n<p>&quot;Romualdo. &#8211; Preciso falar-lhe com a maior urg&ecirc;ncia. Pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    que d&ecirc; um pulo ao nosso escrit&oacute;rio hoje mesmo, logo que possa.<br \/>\n    Recado do &#8211; Jo&atilde;o Fernandes Saraiva.&quot;<\/p>\n<p>Este bilhete inquietou o ex-jornalista.<\/p>\n<p>Com certeza, pensou ele, o Saraiva soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente<br \/>\n    algu&eacute;m me viu entrar em casa do Caldas, demorar-me no escrit&oacute;rio&#8230;<br \/>\n    desconfiou da coisa e foi dizer-lhe&#8230; Mas para que me chamar&aacute; ele?<\/p>\n<p>O seu desejo era n&atilde;o acudir ao chamado; alegar que estava doente,<br \/>\n    ou n&atilde;o alegar coisa alguma, e l&aacute; n&atilde;o ir; mas o menino<br \/>\n    de p&eacute;, junto &agrave; mesa do almo&ccedil;o, esperava a resposta&#8230;<br \/>\n    Era imposs&iacute;vel fugir!<\/p>\n<p>&#8211; Diga ao seu patr&atilde;o que daqui a pouco l&aacute; estarei.<\/p>\n<p>O menino foi-se.<\/p>\n<p>O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o caf&eacute;, saiu, e dirigiu-se ao<br \/>\n    escrit&oacute;rio do Saraiva, receoso de que este o recebesse com duas pedras<br \/>\n    na m&atilde;o.<\/p>\n<p>\n    Foi o contr&aacute;rio. O amigo recebeu-o de bra&ccedil;os abertos, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado por teres vindo! Estava com medo de que o pequeno n&atilde;o te<br \/>\n    encontrasse! Vem c&aacute;!<\/p>\n<p>E levou-o para um compartimento reservado.<\/p>\n<p>&#8211; Leste o jornal do Com&eacute;rcio de hoje?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &#8211; mentiu prontamente o Romualdo. &#8211; Raramente leio o Jornal do<br \/>\n    Com&eacute;rcio.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui o tens; v&ecirc; que descompostura me passou o Caldas!<\/p>\n<p>O Romualdo fingiu que leu.<\/p>\n<p>&#8211; Isso que a&iacute; est&aacute; &eacute; uma borracheira, mas n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; escrito por ele! &#8211; bradou o Saraiva. &#8211; Aquilo &eacute; uma besta<br \/>\n    que n&atilde;o sabe pegar na pena sen&atilde;o para assinar o nome!<\/p>\n<p>&#8211; O artigo n&atilde;o est&aacute; mau&#8230; Tem at&eacute; estilo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Preciso responder!<\/p>\n<p>&#8211; Eu, no teu caso, n&atilde;o respondia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assim n&atilde;o penso. Preciso responder amanh&atilde; mesmo no pr&oacute;prio<br \/>\n    Jornal ao Com&eacute;rcio e, se te chamei, foi para pedir-te que escrevas<br \/>\n    a resposta.<\/p>\n<p>&#8211; Eu?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tu, sim! Eu podia escrever mas&#8230; que queres?&#8230; Estou fora de mim!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem sabes &#8211; gaguejou o Romualdo &#8211; que sou amigo do Caldas. N&atilde;o me<br \/>\n    fica bem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o te fica bem, por qu&ecirc;? Ele com certeza n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mais teu amigo que eu! Depois, n&atilde;o &eacute; inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    minha injuri&aacute;-lo; quero apenas dar-lhe o troco!<\/p>\n<p>No &iacute;ntimo o Romualdo estava satisfeito, por ver naquele segundo artigo<br \/>\n    um meio de atenuar, ou, se quiserem, de equilibrar o seu remorso.<\/p>\n<p>Ainda mastigou umas escusas, mas o outro insistiu:<\/p>\n<p>&#8211; Por amor de Deus n&atilde;o te recuses a este obs&eacute;quio t&atilde;o<br \/>\n    natural num homem que vive da pena! Tu est&aacute;s desempregado, precisas<br \/>\n    ganhar alguma coisa&#8230;<\/p>\n<p>O Romualdo cedeu a este &uacute;ltimo argumento, e, depois de convenientemente<br \/>\n    instru&iacute;do pelo Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena<br \/>\n    e escreveu ali mesmo o artigo.<\/p>\n<p>Reproduziu-se ent&atilde;o a cena da v&eacute;spera, com mudan&ccedil;a apenas<br \/>\n    de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler o artigo, exclamou: &#8211; Bravo!<br \/>\n    N&atilde;o podia sair melhor! &#8211; e, tirando da algibeira um ma&ccedil;o de<br \/>\n    dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil-r&eacute;is e entregou-a ao prosador.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Isto &eacute; muito, Saraiva!<\/p>\n<p>&#8211; Qual muito! Est&aacute;s a tocar leques por bandurra: &eacute; justo que<br \/>\n    te pague bem!<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, mas olha: recomendo-te que mandes copiar o artigo, porque no<br \/>\n    jornal pode haver algu&eacute;m que conhe&ccedil;a a minha letra.<\/p>\n<p>&#8211; Copi&aacute;-lo-ei eu mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus. Se o Caldas treplicar, aparece-me!<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; dito.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o Caldas entrou muito cedo no quarto do Romualdo, com o<br \/>\n    jornal do Com&eacute;rcio na m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; O bruto replicou! Vais escrever-me a tr&eacute;plica!<\/p>\n<p>E batendo com as costas da m&atilde;o no jornal:<\/p>\n<p>&#8211; Isto n&atilde;o &eacute; dele&#8230; Aquilo &eacute; incapaz de tra&ccedil;ar<br \/>\n    duas linhas sem quatro asneiras&#8230; mas ainda assim, quem escreveu por ele<br \/>\n    est&aacute; longe deter o teu estilo, a tua gra&ccedil;a&#8230; Anda! Escreve!&#8230;<\/p>\n<p>E o Romualdo escreveu&#8230;<\/p>\n<p>Durante um m&ecirc;s teve ele a habilidade de alimentar a pol&ecirc;mica,<br \/>\n    provocando a r&eacute;plica, para que n&atilde;o estancasse t&atilde;o cedo<br \/>\n    a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia insinua&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    vagas, mas p&eacute;rfidas, e depois, em conversa ora com um ora com outro,<br \/>\n    era o primeiro a aconselhar a retalia&ccedil;&atilde;o e o esfor&ccedil;o.<\/p>\n<p>Tanto o Caldas como o Saraiva se mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo<br \/>\n    nunca em dias de sua vida se viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores<br \/>\n    lhe diziam: &#8211; Escreve! Escreve! Eu quero ser o &uacute;ltimo!<\/p>\n<p> Por fim, vendo que a quest&atilde;o se eternizava, e de um momento para<br \/>\n    o outro a sua duplicidade podia ser descoberta, o Romualdo foi gradualmente<br \/>\n    ado&ccedil;ando o tom dos artigos, fazendo, por sua pr&oacute;pria conta,<br \/>\n    concess&otilde;es rec&iacute;procas, lembrando a velha amizade, e com tanto<br \/>\n    engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos<br \/>\n    e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagrad&aacute;veis em letra<br \/>\n    de forma.<\/p>\n<p>E o p&uacute;blico admirou essa pol&ecirc;mica, em que dois homens discutiam<br \/>\n    com estilos t&atilde;o semelhantes que o pr&oacute;prio estilo pareceu harmoniz&aacute;-los.<\/p>\n<p>O Caldas cumpriu a sua promessa: o Romualdo pouco depois entrou para o com&eacute;rcio,<br \/>\n    onde ainda hoje se acha, completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo.<\/p>\n<h2><a name=\"17\">A Ritinha<\/a><\/h2>\n<p>Naquela noite o Flores entrou em casa oprimido por um sentimento penoso,<br \/>\n    que n\u00e3o podia definir.<\/p>\n<p>Tinham-lhe dito que estava no Rio de Janeiro a Ritinha, aquela interessante<br \/>\n    menina que h\u00e1 trinta anos, l\u00e1 na prov\u00edncia, fora o seu primeiro amor e a sua<br \/>\n    primeira m\u00e1goa.<\/p>\n<p>Andou morto por v\u00ea-la, n\u00e3o que lhe restasse no cora\u00e7\u00e3o nem no esp\u00edrito outra<br \/>\n    coisa sen\u00e3o a saudade que todos n\u00f3s sentimos da inf\u00e2ncia e da adolesc\u00eancia,<br \/>\n    &#8211; queria v\u00ea-la por mera curiosidade.<\/p>\n<p>Satisfizera o seu desejo naquela noite, quando menos o esperava, num teatro.<br \/>\n    Ela ocupava quase um camarote inteiro com a sua corpul\u00eancia descomunal.<\/p>\n<p>Mostrou-lha um comprovinciano e amigo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o querias ver a Ritinha? Olha! Ali a tens!<\/p>\n<p>&#8211; Onde?<\/p>\n<p>&#8211; Naquele camarote.<\/p>\n<p>&#8211; Qu\u00ea! aquela velha gorda?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a Ritinha!<\/p>\n<p>&#8211; Virgem Nossa Senhora! &#8211; E aquele homem de \u00f3culos azuis, que est\u00e1 de p\u00e9,<br \/>\n    no fundo do camarote? \u00c9 o marido!<\/p>\n<p>&#8211; Qual marido! \u00c9 o genro, casado com a filha, aquela outra senhora muito<br \/>\n    magra que est\u00e1 ao lado dela. O marido \u00e9 o velhote que est\u00e1 quase escondido<br \/>\n    por tr\u00e1s do enorme corpanzil da tua ex-namorada.<\/p>\n<p>O Flores, estupefato, contemplou e analisou longamente aquela mulher, que<br \/>\n    fora o seu primeiro amor e a sua primeira m\u00e1goa.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia haver d\u00favida: era ela. O olhar tinha ainda coisa do olhar de outrora.<br \/>\n    Com aqueles destro\u00e7os ele foi reconstituindo mentalmente, pe\u00e7a por pe\u00e7a, a<br \/>\n    est\u00e1tua antiga. Tinha a vis\u00e3o exata do passado.<\/p>\n<p>Representava-se uma com\u00e9dia. Ritinha ria-se de tudo, de todas as frases,<br \/>\n    de todos os gestos, de todas as jogralices dos atores com uma complac\u00eancia,<br \/>\n    de espectadora mal-educada e por isso mesmo pouco exigente.<\/p>\n<p>Aquelas banhas fl\u00e1cidas, agitadas pelo riso, tremiam convulsivamente dentro<br \/>\n    da seda do vestido, manchado pelo suor dos sovacos.<\/p>\n<p>O genro, que se conservava s\u00e9rio e imperturb\u00e1vel, lan\u00e7ava-lhe uns olhos repreensivos<br \/>\n    e inquietos atrav\u00e9s dos \u00f3culos azuis. Ela n\u00e3o dava por isso.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo vieram eles fazer ao Rio de Janeiro? perguntou o Flores.<\/p>\n<p>&#8211; Nada&#8230; apenas passear.. . est\u00e3o de passagem para a Europa.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E a\u00ed est\u00e1 por que o Flores entrou em casa oprimido por um sentimento que<br \/>\n    n\u00e3o sabia definir.<\/p>\n<p>Quando ele se espichou na cama estreita de solteir\u00e3o, e abriu o livro que<br \/>\n    o esperava todas as noites sobre o velador, n\u00e3o conseguiu ler uma p\u00e1gina.<br \/>\n    Todo o seu passado lhe aflu\u00eda \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ele e Ritinha foram companheiros de inf\u00e2ncia. Eram vizinhos, &#8211; brincaram<br \/>\n    juntos e juntos cresceram. Tinham a mesma idade.<\/p>\n<p>Depois de dezessete anos, aquela afei\u00e7\u00e3o tomou, nele, nela n\u00e3o, um car\u00e1ter<br \/>\n    mais grave: transformou-se em amor.<\/p>\n<p>Mas Ritinha era j\u00e1 uma senhora e Flores ainda um fedelho.<\/p>\n<p>Como o desenvolvimento fisiol\u00f3gico da mulher \u00e9 mais precoce que o do homem,<br \/>\n    raro \u00e9 o mo\u00e7o que ao desabrochar da vida n\u00e3o teve amores malogrados.<\/p>\n<p>Foi o que sucedeu ao nosso Flores. Ritinha n\u00e3o esperou que ele crescesse<br \/>\n    e aparecesse: tendo-se-lhe apresentado um magn\u00edfico partido, fez-se noiva<br \/>\n    aos dezoito anos.<\/p>\n<p>O desespero do rapaz foi violento e sincero. Ele era ainda um crian\u00e7ola,<br \/>\n    mas tinha a idade de Romeu, a idade em que j\u00e1 se ama.<\/p>\n<p>Um pensamento horroroso lhe atravessou o c\u00e9rebro: assassinar Ritinha e em<br \/>\n    seguida suicidar-se.<\/p>\n<p>Premeditou e preparou a cena: comprou um rev\u00f3lver, carregou-o com seis balas,<br \/>\n    e marcou para o dia seguinte a perpetra\u00e7\u00e3o do atentado.<\/p>\n<p>Deitou-se, e naturalmente passou toda a noite em claro.<\/p>\n<p>Ergueu-se pela manh\u00e3, vestiu-se, apalpou a algibeira e n\u00e3o encontrou a arma.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>Procurou-a no ch\u00e3o, atr\u00e1s do ba\u00fa, por baixo da c\u00f4moda: nada!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&#8211; Para que precisas tu de um rev\u00f3lver, meu filho? perguntou a m\u00e3e do rapaz,<br \/>\n    entrando no quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 com a senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Mas como soube&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; As m\u00e3es adivinham.<\/p>\n<p>Flores n\u00e3o disse mais nada: caiu nos bra\u00e7os da boa senhora, e chorou copiosamente.<br \/>\n    &#8211;<\/p>\n<p>Ela, que conhecia os amores do filho, deixou-o chorar a vontade; depois,<br \/>\n    enxugou-lhe os olhos com os seus beijos sagrados, e perguntou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Que ias tu fazer, meu filho? Matar-te?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas primeiro mat\u00e1-la-ia tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o te lembraste de mim?&#8230; n\u00e3o te lembraste de tua m\u00e3e?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perdoe.<\/p>\n<p>E nova torrente de l\u00e1grimas lhe inundou a face.<\/p>\n<p>&#8211; Ouve meu filho: na tua idade feliz um amor cura-se com. outro. O que neste<br \/>\n    momento se te afigura uma desgra\u00e7a irremedi\u00e1vel, mais tarde se converter\u00e1<br \/>\n    numa recorda\u00e7\u00e3o risonha e apraz\u00edvel. Se todos os mo\u00e7os da tua idade se matassem<br \/>\n    por causa disso, e matassem tamb\u00e9m as suas ingratas, h\u00e1 muito tempo que o<br \/>\n    mundo teria acabado. Raros s\u00e3o os que se casam Com a sua primeira namorada.<br \/>\n    O que te sucedeu n\u00e3o \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 a regra. O mal de muitos consolo \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Eu quisera que Ritinha n\u00e3o pertencesse a nenhum outro homem!<\/p>\n<p>&#8211; Mat\u00e1-la? Para qu\u00ea? Ela desaparecer\u00e1 sem morrer&#8230; nunca mais ter\u00e1 dezoito<br \/>\n    anos&#8230; A idade transforma-nos tal qual a morte. N\u00e3o imaginas como tua m\u00e3e<br \/>\n    foi bela!<\/p>\n<p>O velho Flores, pai do rapaz, informado por sua mulher do que se passara,<br \/>\n    e receoso de que o filho, impulsivo por natureza, praticasse algum desatino,<br \/>\n    resolveu mand\u00e1-lo para o Rio de Janeiro, onde ele chegou meses antes do casamento<br \/>\n    de Rit\u00ednha.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Naquela noite o Flores, quase q\u00fcinquagen\u00e1rio, chefe de reparti\u00e7\u00e3o, lembrava-se<br \/>\n    das palavras maternas e reconhecia quanta verdade continham.<\/p>\n<p>Ainda naquele momento sua m\u00e3e, que h\u00e1 tantos anos estava morta, parecia falar-lhe,<br \/>\n    parecia dizer-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te dizia eu?<\/p>\n<p>&#8211; E que impress\u00e3o receberia Ritinha se me visse? pensou ele. Tamb\u00e9m eu sou<br \/>\n    uma ru\u00edna&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O Flores apagou a vela, adormeceu e sonhou com ambas as Ritinhas, a do passado<br \/>\n    e a do presente.<\/p>\n<p>Dali por diante, todas as vezes que encontrava esta \u00faltima, dizia consigo:<\/p>\n<p>&#8211; Olhem se eu a tivesse matado!<\/p>\n<h2><a name=\"18\">A TIA ANINHA<\/a><\/h2>\n<p>Ainda h&aacute; poucos anos havia, numa das capitais do Norte, uma velhinha<br \/>\n    pobre, paup&eacute;rrima que n&atilde;o mendigava, mas aceitava o agasalho<br \/>\n    que lhe davam algumas fam&iacute;lias compassivas, passando um m&ecirc;s aqui,<br \/>\n    outro ali, quinze dias acol&aacute;. Uma bela manh&atilde; chegava com sua<br \/>\n    lata de folha (tudo quanto possu&iacute;a) e aboletava-se entre afagos e sorrisos<br \/>\n    de boa-vinda.<\/p>\n<p>&#8211; Seja bem aparecida, tia Aninha! O seu quarto l&aacute; est&aacute;, tem<br \/>\n    sua cama preparada! Mas desta vez demore-se mais tempo: voc&ecirc; a ningu&eacute;m<br \/>\n    incomoda nesta casa, nem aumenta a despesa: fique o tempo que quiser.<\/p>\n<p>Mas a tia Aninha, quando suspeitava que a sua presen&ccedil;a ia se tornando<br \/>\n    aborrecida, levantava o v&ocirc;o e partia, com a sua lata de folha, para<br \/>\n    alojar-se noutra parte.<\/p>\n<p>Era uma velhinha alegre, mas de uma alegria que nenhum observador experimentado<br \/>\n    acharia natural e sincera.<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as adoravam-na, porque ela sabia contar-lhes muitas hist&oacute;rias<br \/>\n    bonitas de fadas e lobisomens &#8211; e a&iacute; est&aacute; um dos motivos por<br \/>\n    que a tia Aninha, depois de prolongada aus&ecirc;ncia, era sempre bem recebida,<br \/>\n    com a sua lata de folha.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Foi numa dessas casas hospitaleiras que a encontrei um dia (antes a n&atilde;o<br \/>\n    encontrasse!), rodeada de fedelhos boquiabertos e ofegantes. Interessou-me<br \/>\n    aquele rosto enrugado e macilento, em que julguei descobrir vest&iacute;gios<br \/>\n    de um passado cheio de perip&eacute;cias e vicissitudes.<\/p>\n<p>A velha bo&ecirc;mia simpatizou comigo, pelo que, ali&aacute;s nenhum merecimento<br \/>\n    me atribui, porque ela &#8211; coitadinha! &#8211; simpatizava com toda a gente. Nas suas<br \/>\n    palavras, nos seus gestos e nos seus olhares, que brilhavam ainda atrav&eacute;s<br \/>\n    de duas pequeninas frestas esquecidas entre as p&aacute;lpebras, nunca ningu&eacute;m<br \/>\n    descobriu a menor preven&ccedil;&atilde;o contra pessoa alguma.<\/p>\n<p>N&atilde;o pertencia ao tipo, muito comum no Brasil e creio que em toda a<br \/>\n    parte, da velha parasita, que anda de lar em lar, de alcova a alcova, trazendo<br \/>\n    e levando enredos, novidades e mexericos, dando f&eacute; do que se passa<br \/>\n    em casa de Fulano para chalrar em casa de Beltrano, adulando as donas e seduzindo<br \/>\n    as donzelas, embiocada e devotada.<\/p>\n<p>Como lhe mentissem, dizendo que eu era romancista, a tia Aninha me declarou,<br \/>\n    sorrindo, que a sua vida tinha sido um verdadeiro romance, e essa declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    me levou (antes n&atilde;o levasse!) a revolver aquelas cinzas, curioso de<br \/>\n    se embaixo delas crepitavam ainda as derradeiras brasas.<\/p>\n<p>Crepitavam; mas a hist&oacute;ria da tia Aninha era vulgar&iacute;ssima,<br \/>\n    sem incidentes excepcionais nem grandes lances e surpresas do acaso. Se ela<br \/>\n    imaginava que aquilo daria um romance, n&atilde;o fazia mais do que fazem<br \/>\n    todos os indiv&iacute;duos para quem o mundo n&atilde;o foi um mar de rosas.<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; criatura infeliz que n&atilde;o esteja persuadida que<br \/>\n    da sua exist&ecirc;ncia se faria a mais interessante das novelas.<\/p>\n<p>Nascera a tia Aninha pouco depois da independ&ecirc;ncia. Era filha &uacute;nica<br \/>\n    de um negociante portugu&ecirc;s, sofrivelmente apatacado. A sua vida correu<br \/>\n    pacifica e serena at&eacute; os vinte anos. Foi nessa idade que o seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    falou: ela apaixonou-se por um caixeiro do pai.<\/p>\n<p>A m&atilde;e que desejava ser sogra de um pr&iacute;ncipe, descobrindo um<br \/>\n    dia esses amores, que ali&aacute;s duravam, havia j&aacute; dois anos, foi<br \/>\n    ter com o marido e disse-lhe tudo.<\/p>\n<p>O negociante enfureceu-se; p&ocirc;s imediatamente no andar da rua o m&iacute;sero<br \/>\n    subalterno que se atrevia a levantar os olhos t&atilde;o alto, e andou por<br \/>\n    o todo bairro comercial a pedir de porta em porta que ningu&eacute;m o arrumasse.<br \/>\n    O rapaz ficou, portanto, incompatibilizado com a pra&ccedil;a, e resolveu<br \/>\n    partir para o Rio de Janeiro, procurando no Sul a fortuna que lhe fugia no<br \/>\n    Norte. Partiu.<\/p>\n<p>Partiu, mas antes disso, prometeu, por interm&eacute;dio de uma boa amiga<br \/>\n    da mo&ccedil;a, guardar-lhe fidelidade, e voltar um dia, quando melhorasse<br \/>\n    de posi&ccedil;&atilde;o, e de haveres, para casar-se com ela.<\/p>\n<p>Prometeu igualmente escrever-lhe por todos os correios, promessa que cumpriu,<br \/>\n    gra&ccedil;as ainda ao gracioso interm&eacute;dio da amiga, que recebia as<br \/>\n    cartas, embora endere&ccedil;adas &agrave; tia Aninha.<\/p>\n<p>Isto passava-se em 1844. Durante dois anos vieram cartas por todos os correios.<br \/>\n    Nas pen&uacute;ltimas, o mo&ccedil;o queixava-se, em caracteres tr&ecirc;mulos,<br \/>\n    de que se sentia muito enfermo, e nas &uacute;ltimas que eram lac&ocirc;nicas,<br \/>\n    escritas sob um esfor&ccedil;o violento e vis&iacute;vel j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    falava um doente mas um moribundo. &quot;Talvez seja esta a minha &uacute;ltima<br \/>\n    carta&quot; escreveu ele um dia &#8211; e a mo&ccedil;a n&atilde;o recebeu mais<br \/>\n    nenhuma.<\/p>\n<p>Dois ou tr&ecirc;s meses depois o pai friamente, &agrave; mesa do jantar,<br \/>\n    deu-lhe a not&iacute;cia da morte do noivo.<\/p>\n<p>A pobrezinha contava j&aacute; vinte e seis anos. Se at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    repelira todas as propostas de casamento que lhe foram feitas pelo pai, dali<br \/>\n    por diante n&atilde;o admitiu que lhe falassem mais nisso.<\/p>\n<p>O velho, depois de se meter imprudentemente numa arriscada especula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de a&ccedil;&uacute;cares, faliu em 1850, e alguns meses depois desaparecia,<br \/>\n    fulminado por uma congest&atilde;o.<\/p>\n<p>M&atilde;e e filha ficaram reduzidas &agrave; pobreza extrema. Os amigos<br \/>\n    de outrora, sumiram-se, afugentados pelo aspecto da mis&eacute;ria.<\/p>\n<p>Em 1855 redobraram ainda os infort&uacute;nios de Aninha, com a morte da<br \/>\n    m&atilde;e, v&iacute;tima do c&oacute;lera-morbo.<\/p>\n<p>Datavam dessa &eacute;poca a sua vida de bo&ecirc;mia e a sua lata de folha.<br \/>\n    Tinha ent&atilde;o apenas trinta e tr&ecirc;s anos, mas n&atilde;o lhe davam<br \/>\n    menos de cinq&uuml;enta tais foram os estragos causados pelo sofrimento.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Quando a tia Aninha acabou de me contar todas essas coisas, uma tarde em<br \/>\n    que por acaso nos achamos sozinhos, num dos seus asilos habituais, no jardim,<br \/>\n    &agrave; sombra de uma latada, n&atilde;o me atrevi a dizer-lhe que na sua<br \/>\n    exist&ecirc;ncia de vi&uacute;va-virgem n&atilde;o havia mat&eacute;ria para<br \/>\n    um romance, a menos que o talento e a imagina&ccedil;&atilde;o do romancista<br \/>\n    suprissem o que lhe faltava. Entretanto, proferi esta frase, que continha<br \/>\n    uma f&oacute;rmula de consola&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; A sua vida &eacute;, na realidade, um verdadeiro romance, tia Aninha; mas<br \/>\n    creia que esse mesmo tem sido o romance de muitas mulheres.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Se o senhor lesse as cartas que ele me escreveu! S&oacute; elas dariam<br \/>\n    p&aacute;ginas e p&aacute;ginas. Era um simples caixeiro, mas muito inteligente.<br \/>\n    Quer v&ecirc;-las?<\/p>\n<p>&#8211; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; As cartas!<\/p>\n<p>&#8211; Ainda as conserva?<\/p>\n<p>&#8211; Se ainda as conservo? S&atilde;o a minha fortuna. Vou busc&aacute;-las.<\/p>\n<p>A velha ergueu-se, foi ao seu quarto, e pouco depois voltou trazendo a sua<br \/>\n    insepar&aacute;vel lata de folha.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Li algumas das cartas: nada havia nelas de extraordin&aacute;rio, mas tinham,<br \/>\n    relativamente, muito valor material, porque estavam todas seladas com os selos<br \/>\n    das nossas primeiras emiss&otilde;es postais: o &quot;olho de boi&quot;, o<br \/>\n    &quot;trezentos r&eacute;is inclinados&quot; e outros.<\/p>\n<p>&#8211; Diz a senhora muito bem; a sua fortuna est&aacute; nestas cartas! Saiba,<br \/>\n    tia Aninha, que cada um destes selos vale centenas de mil r&eacute;is!<\/p>\n<p>A pobre velha, que ignorava a mania filat&eacute;lica, n&atilde;o compreendeu:<br \/>\n    foi preciso que eu lho explicasse.<\/p>\n<p>Ela protestou:<\/p>\n<p>&#8211; Desfazer-me das minhas cartas? Nunca!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se desfa&ccedil;a das cartas; desfa&ccedil;a-se dos selos.<\/p>\n<p>&#8211; Estes selos podem valer milh&otilde;es! N&atilde;o os venderei! Para que<br \/>\n    preciso de dinheiro?<\/p>\n<p>Deveria calar-me. Tenho remorsos de haver revelado ao dono da casa onde me<br \/>\n    achava a exist&ecirc;ncia dos selos da tia Aninha. Ele foi o primeiro a querer<br \/>\n    compr&aacute;-los para neg&oacute;cio.<\/p>\n<p>Pouco tardou que se espalhasse em toda a cidade a noticia de que a velha<br \/>\n    possu&iacute;a uma riqueza encerrada na sua lata de folha. Por fim, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o se dizia que eram selos do correio, mas velhas moedas de ouro,<br \/>\n    j&oacute;ias raras e precios&iacute;ssimas, o diabo!<\/p>\n<p>E era o seu tesouro t&atilde;o cobi&ccedil;ado, tanta gente lhe falava nele<br \/>\n    e manifestava o desejo de examin&aacute;-lo, que a tia Aninha, mais ciosa<br \/>\n    da sua lata de folha que Harpagon do seu cofre, tinha pesadelos e alucina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    terr&iacute;veis, vivia num cont&iacute;nuo sobressalto, n&atilde;o podia<br \/>\n    dormir duas horas que h&atilde;o despertasse aos gritos, sonhando que lhe<br \/>\n    roubavam a sua querida lata, o seu travesseiro.<\/p>\n<p>Agora havia empenhos para hosped&aacute;-la; aconselhavam-na a fazer testamento,<br \/>\n    adulavam-na, perseguiam-na com uma solicitude que a desvairou, que lhe tirou<br \/>\n    lentamente o racioc&iacute;nio e a sa&uacute;de.<\/p>\n<p>Mais do que nunca n&atilde;o esquentava lugar, aparecia e logo desaparecia;<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o contava &agrave;s crian&ccedil;as as suas bonitas hist&oacute;rias<br \/>\n    de fadas e lobisomens; j&aacute; n&atilde;o falava a ningu&eacute;m no seu<br \/>\n    romance, sem perceber, coitada! que o seu romance come&ccedil;ava agora.<\/p>\n<p>Os pequeninos, que dantes a adoravam, tinham medo dela, e os garotos apupavam-na<br \/>\n    quando a m&iacute;sera passava, com a desconfian&ccedil;a no olhar, desgrenhada,<br \/>\n    andrajosa, descal&ccedil;a, faminta, apertando nos bra&ccedil;os esquel&eacute;ticos<br \/>\n    a sua lata de folha, o seu travesseiro, o seu tesouro.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Uma noite em que a tia Aninha, vagabundeando &agrave;-toa, atravessava uma<br \/>\n    pra&ccedil;a deserta e silenciosa, foi assaltada por um malfeitor que a roubou,<br \/>\n    depois de atordo&aacute;-la com uma paulada. Conduzida, algumas horas depois,<br \/>\n    para um hospital, expirou pronunciando o nome do noivo, martirizada menos<br \/>\n    pela paulada assassina que pela id&eacute;ia de haver perdido as suas cartas<br \/>\n    de amor.<\/p>\n<h2><a name=\"19\">A VI&Uacute;VA DO ESTANISLAU<\/a><\/h2>\n<p>Por ocasi&atilde;o da morte do marido, aquele pobre Estanislau, que, depois<br \/>\n    de uma luta horr&iacute;vel, foi afinal vencido pela tuberculose, Adelaide<br \/>\n    parecia que ia tamb&eacute;m morrer. Dizia-se que ela amava tanto o marido,<br \/>\n    que fizera o poss&iacute;vel para contrair a mol&eacute;stia que o matou e<br \/>\n    acompanh&aacute;-lo de perto no t&uacute;mulo. Emagreceu a olhos vistos, e<br \/>\n    toda a gente contava que, mais dia menos dia, Deus lhe fizesse a vontade;<br \/>\n    mas o tempo, que tudo suaviza e repara, foi mais forte que a dor, e ano e<br \/>\n    meio depois de enviuvar, Adelaide estava rubicunda e linda como n&atilde;o<br \/>\n    estivera jamais. O Estanislau deixou-a paup&eacute;rrima. O pobre rapaz n&atilde;o<br \/>\n    contava arrumar a trouxa t&atilde;o cedo, ou, por outra, n&atilde;o teve com<br \/>\n    que preparar o futuro. Enquanto viveu, nada faltou em casa; depois que ele<br \/>\n    morreu, tudo faltou, e Adelaide, que felizmente n&atilde;o tinha filhos, aceitou<br \/>\n    a hospitalidade que lhe ofereceram seus pais. &#8211; Vem outra vez para o nosso<br \/>\n    lado, disseram-lhe os velhos; fa&ccedil;amos de conta que te n&atilde;o casaste.<br \/>\n    N&atilde;o tardou muito que aparecesse um namorado &agrave; vi&uacute;va.<br \/>\n    Era um excelente mo&ccedil;o, o Miranda, que freq&uuml;entava a casa dos velhos<br \/>\n    por ser funcion&aacute;rio da mesma secretaria onde o pai de Adelaide era<br \/>\n    chefe. Foi com muita satisfa&ccedil;&atilde;o que este notou a simpatia que<br \/>\n    o Miranda manifestava pela mo&ccedil;a, e pulou de contente quando o rapaz,<br \/>\n    um dia, na reparti&ccedil;&atilde;o, se abriu com ele, dizendo-lhe que ser<br \/>\n    seu genro era o que mais ambicionava neste mundo. O velho foi para casa alegre<br \/>\n    como um passarinho, e disse tudo &agrave; mulher. &#8211; Sabes, Henriqueta? O Miranda<br \/>\n    confessou-me hoje que gosta da Adelaide e quer casar-se com ela. Estou satisfeit&iacute;ssimo,<br \/>\n    porque nossa filha n&atilde;o poderia encontrar melhor marido! Que me dizes?<br \/>\n    &#8211; Digo que seu Miranda &eacute; uma sorte grande, mas duvido que Adelaide<br \/>\n    aceite. &#8211; Duvidas, por qu&ecirc;? &#8211; Porque ela s&oacute; pensa no Estanislau:<br \/>\n    &eacute; uma vi&uacute;va inconsol&aacute;vel. Engordou, tomou cores, goza<br \/>\n    sa&uacute;de, mas aposto que n&atilde;o admite que lhe falem noutro casamento.<br \/>\n    &#8211; Deixe-a comigo; vou sond&aacute;-la. O velho sondou-a, efetivamente, e reconheceu<br \/>\n    que D. Henriqueta calculava bem. &#8211; N&atilde;o me fale em casamento, papai!<br \/>\n    Eu considerar-me-ia uma mulher indigna se desse um substituto ao meu pobre<br \/>\n    Estanislau! Mas o velho que n&atilde;o era peco, n&atilde;o se deixou vencer<br \/>\n    e insistiu, lan&ccedil;ando m&atilde;o de quanto argumento lhe sugeriu a sua<br \/>\n    longa experi&ecirc;ncia do mundo. &#8211; Minha filha, numa terra de maldizentes<br \/>\n    como este Rio de Janeiro, a reputa&ccedil;&atilde;o de uma vi&uacute;va mo&ccedil;a<br \/>\n    e bonita corre tantos perigos, que a melhor resolu&ccedil;&atilde;o que tens<br \/>\n    a tomar, para fazer respeitar a mem&oacute;ria honrada do teu Estanislau,<br \/>\n    &eacute; casares-te em segundas n&uacute;pcias. Uma &uacute;nica dificuldade<br \/>\n    haveria para isso: o marido; mas neste particular, minha filha, foste de uma<br \/>\n    fortuna fenomenal. O Miranda caiu-te do c&eacute;u! Olha, eu, se tivesse que<br \/>\n    escolher um genro, n&atilde;o escolheria outro -, e tu, se te casares com<br \/>\n    ele, dar&aacute;s muito prazer a tua m&atilde;e, e tornar&aacute;s feliz a<br \/>\n    minha velhice. Essas palavras, que acabaram molhadas de l&aacute;grimas de<br \/>\n    enternecimento, calaram no &acirc;nimo de Adelaide, e na mesma noite, como<br \/>\n    a fam&iacute;lia se achasse reunida na sala de jantar, e o Miranda presente,<br \/>\n    ela dirigiu-se a este nos seguintes termos: &#8211; Meu amigo, sei que o senhor<br \/>\n    gosta muito de mim e deseja ser meu marido; sei que o nosso casamento daria<br \/>\n    muita satisfa&ccedil;&atilde;o a meus pais; mas devo dizer-lhe que ainda amo<br \/>\n    o Estanislau como se ele estivesse vivo, e n&atilde;o posso amar dois homens<br \/>\n    ao mesmo tempo. Os velhos morderam os bei&ccedil;os; o Miranda remexeu-se<br \/>\n    na cadeira, sem responder. &#8211; Sei tamb&eacute;m que o senhor &eacute; um perfeito<br \/>\n    cavalheiro e que nada lhe falta para ser um marido ideal; aprecio o seu car&aacute;ter,<br \/>\n    a sua bondade, a sua intelig&ecirc;ncia; mas, se nos casarmos, n&atilde;o<br \/>\n    poderei levar-lhe o sentimento que todo o homem tem o direito de exigir no<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o da sua noiva. Se depois desta declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    leal e honesta, persiste em querer ser meu esposo, aqui tem a minha m&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Aceito-a! respondeu prontamente o Miranda, tomando a m&atilde;o que lhe<br \/>\n    estendeu Adelaide. Aceito-a, porque &#8211; perdoe a minha vaidade &#8211; tenho alguma<br \/>\n    confian&ccedil;a no meu merecimento, e espero conquistar o seu amor! Casaram-se,<br \/>\n    e hoje, que est&atilde;o unidos h&aacute; um ano, podem gabar-se &#8211; ela de<br \/>\n    ter tido verdadeiras surpresas fisiol&oacute;gicas, e ele de ser amado como<br \/>\n    o Estanislau nunca o foi. &#8211; Es ent&atilde;o feliz, minha filha? &#8211; Muito feliz,<br \/>\n    mam&atilde;e; o Miranda &eacute; t&atilde;o bom marido, que, l&aacute; no<br \/>\n    outro mundo, o Estanislau, se meteu a m&atilde;o na consci&ecirc;ncia, com<br \/>\n    certeza me perdoou.<\/p>\n<h2><a name=\"20\">AS ASNEIRAS DO GUEDES<\/a><\/h2>\n<p>N&atilde;o &eacute; precisamente um conto o que hoje vou escrever.<\/p>\n<p>Voltou do seu passeio a S&atilde;o Paulo o Guedes &#8211; o Guedes sabem? &#8211; o maior<br \/>\n    asneir&atilde;o que o sol cobre, aquele mesmo que respondeu aqui h&aacute;<br \/>\n    tempos quando numa roda lhe perguntaram se tinha filhos:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho uma filha j&aacute; ad&uacute;ltera.<\/p>\n<p>&#8211; Ad&uacute;ltera?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, ad&uacute;ltera; vai fazer 17 anos.<\/p>\n<p>&#8211; Adulta quer o senhor dizer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ou isso. E uma boa menina; s&oacute; tem um defeito: &eacute; muito luxuriosa.<\/p>\n<p>&#8211; Luxuriosa?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, luxuriosa: gosta muito de luxar.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Mas l&aacute; est&aacute; minha mulher para lhe dar bons conselhos&#8230; sim,<br \/>\n    porque minha mulher &eacute; muito sensual.<\/p>\n<p>&#8211; Sensual?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, sensual: tem muito bom senso.<\/p>\n<p> Pois &eacute; como lhes digo: tive o prazer de encontrar ontem esse precioso<br \/>\n    Guedes, cujas asneiras, colecionadas, dariam um volume de trezentas p&aacute;ginas,<br \/>\n    ou mais.<\/p>\n<p>Eu estava num armarinho da rua do Ouvidor, onde entrava para cumprimentar<br \/>\n    a minha espirituosa amiga D. Henriqueta, que andava, como sempre, fazendo<br \/>\n    compras, enchendo-se de caixinhas e pequeninos embrulhos, adquiridos aqui<br \/>\n    e ali:<\/p>\n<p>O Guedes, mal que me viu, correu a dar-me um abra&ccedil;o, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Li no &quot;O Pa&iacute;s&quot; a not&iacute;cia do seu aniversario&#8230;<\/p>\n<p>E recuando dois passos, tomou uma atitude solene, deixou cair as p&aacute;lpebras,<br \/>\n    e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Fa&ccedil;o votos para que voc&ecirc; tenha um futuro t&atilde;o brilhante<br \/>\n    como o que passou.<\/p>\n<p>Agradeci comovido essa manifesta&ccedil;&atilde;o de apre&ccedil;o envolvida<br \/>\n    num disparate, e apresentei o Guedes &agrave; minha espirituosa amiga D. Henriqueta,<br \/>\n    que mordia os l&aacute;bios para n&atilde;o rir.<\/p>\n<p>&#8211; Apresento-lhe, minha senhora, o mais extraordin&aacute;rio reformador da<br \/>\n    l&iacute;ngua portuguesa: o Guedes, o grande Guedes, que acaba de chegar de<br \/>\n    S&atilde;o Paulo, onde esteve a passeio.<\/p>\n<p>&#8211; Era tempo de fazer uma viagem! &#8211; explicou ele. &#8211; Foi a primeira vez que<br \/>\n    sa&iacute; do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb&eacute;m n&atilde;o sa&iacute; ainda desta cidade sen&atilde;o<br \/>\n    para ir uma vez a Petr&oacute;polis e duas a Niter&oacute;i &#8211; disse D. Henriqueta.<\/p>\n<p>&#8211; Vejo ent&atilde;o que a senhora &eacute; cortes&atilde;&#8230; &#8211; acudiu o Guedes<br \/>\n    curvando os l&aacute;bios no mais am&aacute;vel dos seus sorrisos.<\/p>\n<p>&#8211; Cortes&atilde;?!<\/p>\n<p>&#8211; Cortes&atilde;, sim&#8230; filha da Corte&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Guedes! &#8211; observei baixinho. &#8211; Pois voc&ecirc; n&atilde;o v&ecirc;<br \/>\n    que est&aacute; dizendo uma inconveni&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz&atilde;o&#8230; Atualmente n&atilde;o se deve falar em Corte&#8230;<\/p>\n<p>E emendou:<\/p>\n<p>&#8211; Vejo ent&atilde;o que a senhora &eacute; capitalista federalista.<\/p>\n<p>D. Henriqueta desta vez riu-se a perder. &Eacute; prov&aacute;vel que ao<br \/>\n    leitor n&atilde;o aconte&ccedil;a o mesmo. Paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; Guedes! Vamos l&aacute;! Diga-me! Que impress&otilde;es trouxe<br \/>\n    de S&atilde;o Paulo?<\/p>\n<p>&#8211; Muito boas! Aquilo &eacute; uma grande terra!<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que h&aacute; l&aacute; muita sociabilidade.<\/p>\n<p>&#8211; Como?<\/p>\n<p>&#8211; Muita conviv&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso h&aacute;&#8230; As fam&iacute;lias visitam-se&#8230; Ou mo&ccedil;os coabitam<br \/>\n    tom as mo&ccedil;as.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa!<\/p>\n<p>&#8211; Que entende voc&ecirc; por &quot;coabitar&quot;?<\/p>\n<p>&#8211; E&#8230; &eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; uma indec&ecirc;ncia&#8230; uma inconveni&ecirc;ncia&#8230; uma coisa<br \/>\n    que n&atilde;o se diz!&#8230;<\/p>\n<p>O Guedes inflamou-se:<\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; voc&ecirc; muito enganado&#8230; &quot;Coabitar&quot; &eacute;&#8230;<\/p>\n<p>E voltando-se para um dos caixeiros do armarinho:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor tem a&iacute; um dicion&aacute;rio que me empreste?<\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o?<\/p>\n<p>E da&iacute; a dois minutos o Guedes tinha nas m&atilde;os os dois volumes<br \/>\n    do Aulete.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem! &#8211; disse eu. &#8211; Procure &quot;coabitar&quot;.<\/p>\n<p>Depois de folhear em v&atilde;o o dicion&aacute;rio durante um ror de tempo,<br \/>\n    o teimoso exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o d&aacute;! N&atilde;o d&aacute;! Vejam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o: voc&ecirc; est&aacute; procurando com u: deve ser com o!<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz&atilde;o, tem raz&atilde;o&#8230; Onde estava eu com a cabe&ccedil;a?<\/p>\n<p>E o Guedes p&ocirc;s-se de novo a folhear o Aulete.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o d&aacute;! Tamb&eacute;m n&atilde;o d&aacute; com o! Veja: de<br \/>\n    coa para coa&ccedil;&atilde;o! N&atilde;o d&aacute; com u nem com o!<\/p>\n<p>Valha-o Deus, Guedes, valha-o Deus! Voc&ecirc; est&aacute; procurando sem<br \/>\n    h? D&ecirc; c&aacute; o dicion&aacute;rio!<\/p>\n<p>E com um sorriso de triunfo mostrei ao Guedes a significa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, leia: &quot;Coabitar, habitar, viver conjuntamente&quot;.<\/p>\n<p>&#8211; Mas isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Agora veja o que o Aulete acrescenta entre par&ecirc;nteses:<\/p>\n<p>&quot;Diz-se particularmente de duas pessoas de diferente sexo&quot;.<\/p>\n<p>&#8211; Perd&atilde;o! &#8211; bradou o Guedes furioso. &#8211; Perd&atilde;o! Eu n&atilde;o<br \/>\n    disse particularmente, mas alto e bom som, e s&oacute; n&atilde;o me ouviu<br \/>\n    quem n&atilde;o me quis ouvir!<\/p>\n<p>E batendo com a m&atilde;o espalmada sobre o balc&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o sou homem que diga as coisas particularmente!<\/p>\n<h2><a name=\"21\">AS CEREJAS<\/a><\/h2>\n<p>&#8211; Que fazes tu a&iacute; parado? Est&aacute;s a comer com os olhos aquelas<br \/>\n    magn&iacute;ficas cerejas? <\/p>\n<p>&#8211; Estou simplesmente a namor&aacute;-las, ou antes, a resolver-me&#8230; Os cobres<br \/>\n    s&atilde;o t&atilde;o curtos!.<\/p>\n<p>&#8211; Gostas realmente de cerejas?<\/p>\n<p>&#8211; Eu? Nem por isso! Prefiro qualquer outra fruta do nosso pa&iacute;s! Mas<br \/>\n    minha mulher d&aacute; o cavaquinho por elas, e n&atilde;o se me dava de lhe<br \/>\n    levar aquelas, que t&ecirc;m boa cara.<\/p>\n<p>&#8211; Pois compra-as, que diabo! N&atilde;o s&atilde;o as cerejas que nos arruinam.<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz&atilde;o.<\/p>\n<p>Esse ligeiro di&aacute;logo foi travado em frente ao mostrador de uma loja<br \/>\n    de frutas, na Avenida, entre o Antunes e o seu velho amigo Martiniano.<\/p>\n<p>O Antunes comprou as cerejas. O Martiniano despediu-se e foi tomar o bonde.<\/p>\n<p>Aquele dispunha-se a fazer o mesmo, e j&aacute; estava num ponto de parada,<br \/>\n    esperando o el&eacute;trico de Vila Isabel, quando passou a Pintinha, um diabo<br \/>\n    de uma mulher que ele n&atilde;o podia ver sem sentir imediatamente o imperioso<br \/>\n    desejo de acompanh&aacute;-la, para reatar o fio de uma conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    agrad&aacute;vel que se interrompia de meses a meses.<\/p>\n<p>Acompanhou-a.<\/p>\n<p>Ela, quando o viu, disse-lhe com toda a franqueza:<\/p>\n<p>&#8211; Que fortuna encontrar-te! Estava com muitas saudades tuas. Jantas hoje<br \/>\n    comigo.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o admito desculpas, tanto mais que leio nos teus olhos que est&aacute;s<br \/>\n    morto por isso. Vou esperar-te em casa.<\/p>\n<p>Meia hora depois, o Antunes subia as escadas da Pintinha. Esta, a primeira<br \/>\n    coisa que fez foi tirar-lhe das m&atilde;os o embrulho que ele trouxera da<br \/>\n    loja de frutas e desamarr&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isso? Cerejas? Como &eacute;s am&aacute;vel! N&atilde;o te<br \/>\n    esqueceste da minha sobremesa predileta!<\/p>\n<p>O Antunes pensou consigo: &#8211; guardado est&aacute; o bocado para quem o come<br \/>\n    &#8211; e pediu mentalmente perd&atilde;o a dona Leopoldina, sua leg&iacute;tima<br \/>\n    esposa.<\/p>\n<p>Isto passava-se &agrave; tardinha, e era noite fechada quando as cerejas<br \/>\n    foram alegremente comidas.<\/p>\n<p>A hora em que o Antunes entrou no lar dom&eacute;stico, j&aacute; D. Leopoldina<br \/>\n    estava deitada, mas n&atilde;o dormia ainda.<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito, Antunes! J&aacute; lhe tenho pedido um milh&atilde;o de vezes<br \/>\n    que n&atilde;o jante fora sem me prevenir! Esperei-o at&eacute; &agrave;s<br \/>\n    7 horas!<\/p>\n<p>&#8211; Perdoa, benzinho, fui desencaminhado por um amigo que me levou ao P&atilde;o<br \/>\n    de A&ccedil;&uacute;car.<\/p>\n<p>&#8211; Ao P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, o P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car &eacute; um restaurante da Exposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Come-se ali muito bem, e o lugar &eacute; apraz&iacute;vel.<\/p>\n<p>&#8211; Demais, eu estava doida por que voc&ecirc; chegasse; nunca o esperei com<br \/>\n    tanta impaci&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>&#8211; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Por causa das cerejas.<\/p>\n<p>&#8211; Que cerejas?<\/p>\n<p>&#8211; As tais que voc&ecirc; comprou na Avenida para me trazer; voc&ecirc; bem<br \/>\n    podia t&ecirc;-las mandado pelo &quot;r&aacute;pido&quot; com o aviso de que<br \/>\n    n&atilde;o vinha jantar. Onde est&atilde;o elas?<\/p>\n<p>&#8211; As cerejas?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, as cerejas!<\/p>\n<p>&#8211; Mas como soubeste que eu&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; Muito simplesmente. Sa&iacute; para ir ao dentista, e quando voltava para<br \/>\n    casa encontrei no bonde aquele teu amigo Martiniano, que me disse: &quot;A<br \/>\n    senhora vai ter hoje magn&iacute;ficas cerejas ao jantar; vi seu marido compr&aacute;-las<br \/>\n    na Avenida. Ele disse-me que a senhora d&aacute; o cavaquinho por elas.&quot;<br \/>\n    Onde as puseste? Na sala de jantar?<\/p>\n<p>J&aacute; o Antunes tinha arranjado a mentira:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! diabo! E se n&atilde;o me falas n&atilde;o me lembrava! Deixei no bonde<br \/>\n    o embrulho das cerejas!.<\/p>\n<p>&#8211; Eu logo vi!&#8230;<\/p>\n<p>D. Leopoldina voltou-se para o outro lado e n&atilde;o disse mais palavra.<\/p>\n<p>No dia seguinte esteve amuada todo o dia, e s&oacute; voltou &agrave;s boas<br \/>\n    quando o Antunes, entrando em casa &agrave;s horas de jantar, lhe entregou<br \/>\n    um embrulho de cerejas, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Estavam na esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Pobre D. Leopoldina! Se soubesse que a Pintinha&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"22\">&Agrave;S ESCURAS <\/a><\/h2>\n<p>Havia baile naquela noite em casa do Cachap&atilde;o, o famoso mestre de<br \/>\n    dan&ccedil;a, que alugara um belo sobrado na Rua Formosa, onde todos os meses<br \/>\n    oferecia uma partida aos seus disc&iacute;pulos, sob condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de entrar cada um com dez mil-r&eacute;is.<\/p>\n<p>D. Maricota e sua sobrinha, a Alice, eram infal&iacute;veis nesses bailes<br \/>\n    do Cachap&atilde;o.<\/p>\n<p>D. Maricota era a velha mais rid&iacute;cula daquela cidadezinha da prov&iacute;ncia;<br \/>\n    muito asneirona, mas metida a literata, sexagen&aacute;ria, mas pintando os<br \/>\n    cabelos a cosm&eacute;tico preto, e dizendo a toda a gente contar apenas trinta<br \/>\n    e cinco primaveras &#8211; feia de meter medo e tendo-se em conta de bonita, era<br \/>\n    D. Maricota o divertimento da rapaziada.<\/p>\n<p>Em compensa&ccedil;&atilde;o, a sobrinha, a Alice, era linda como os amores<br \/>\n    e muito mais criteriosa que a tia.<\/p>\n<p>O L&iacute;rio, mo&ccedil;o da moda, que fazia sempre um extraordin&aacute;rio<br \/>\n    sucesso nos bailes de Cachap&atilde;o, namorava a Alice, e no baile anterior<br \/>\n    lhe havia pedido&#8230; um beijo.<\/p>\n<p>&#8211; Um beijo?! Voc&ecirc; est&aacute; doido, seu L&iacute;rio?! Onde? Como?<br \/>\n    Quando?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Assina voc&ecirc; queira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o dou; furte-o voc&ecirc; se quiser ou se puder. Isto dizia<br \/>\n    ela porque bem sabia que as salas estavam sempre cheias de gente, e a ocasi&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o poderia fazer o ladr&atilde;o.<\/p>\n<p>Demais, D. Maricota, a velha desfrut&aacute;vel, que andava um tanto apaixonada<br \/>\n    pelo mo&ccedil;o, que ali&aacute;s podia ser seu neto, tinha ci&uacute;mes<br \/>\n    e n&atilde;o os perdia de vista.<\/p>\n<p>Mas o L&iacute;rio, que era f&eacute;rtil em id&eacute;ias extraordin&aacute;rias,<br \/>\n    combinou com um camarada, o Galv&atilde;o, que este entrasse no corredor do<br \/>\n    sobrado &agrave;s 10 horas em ponto, e fechasse o registro do g&aacute;s.<\/p>\n<p>Se o L&iacute;rio bem o disse, melhor o fez o Galv&atilde;o; mas ao namorado<br \/>\n    saiu-lhe o trunfo &agrave;s avessas, como v&atilde;o ver.<\/p>\n<p>Faltavam dois ou tr&ecirc;s minutos para as 10 horas, quando ele se aproximou<br \/>\n    de Alice e murmurou-lhe ao ouvido:<\/p>\n<p>&#8211; Aquela autoriza&ccedil;&atilde;o est&aacute; de p&eacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Que autoriza&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Posso furtar o beijo?<\/p>\n<p>&#8211; Quando quiser.<\/p>\n<p>&#8211; Bom; vamos dan&ccedil;ar esta quadrilha.<\/p>\n<p>Mas a velha D. Maricota levantou-se prontamente da cadeira em que estava<br \/>\n    sentada e enfiou o bra&ccedil;o no bra&ccedil;o do mo&ccedil;o, dizendo:<\/p>\n<p>Perd&atilde;o, seu L&iacute;rio! Esta quadrilha &eacute; minha! O senhor<br \/>\n    j&aacute; dan&ccedil;ou uma quadrilha e uma valsa com Alice!<\/p>\n<p>E arrastou o L&iacute;rio para o meio da sala.<\/p>\n<p>De repente, ficou tudo &agrave;s escuras.<\/p>\n<p>Passado um momento de pasmo, D. Maricota agarrou-se ao pesco&ccedil;o do<br \/>\n    L&iacute;rio e encheu-o de beijos, dizendo muito baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; Ingrato! Ingrato! Foi o meu bom amigo que apagou as luzes!<\/p>\n<p>E aqui est&aacute; como ao L&iacute;rio saiu o trunfo &agrave;s avessas.<\/p>\n<h2><a name=\"23\">As Paradas<\/a><\/h2>\n<p>O Norberto, que a princ\u00edpio aceitou com entusiasmo as paradas dos bondes<br \/>\n    de Botafogo, \u00e9 hoje o maior inimigo delas. Querem saber por qu\u00ea? Eu lhes conto:<\/p>\n<p>O pobre rapaz encontrou uma noite, na Exposi\u00e7\u00e3o, a mulher mais bela e mais<br \/>\n    fascinante que os seus olhos ainda viram, e essa mulher &#8211; oh, felicidade!&#8230;<br \/>\n    oh, ventura!&#8230; -, essa mulher sorriu-lhe meigamente e com um doce olhar convidou-o<br \/>\n    a acompanh\u00e1-la.<\/p>\n<p>O Norberto n\u00e3o esperou repeti\u00e7\u00e3o do convite: acompanhou-a.<\/p>\n<p>Ela desceu a Avenida dos Pavilh\u00f5es, encaminhou-se para o port\u00e3o, e saiu como<br \/>\n    quem ia tomar o bonde; ele seguiu-a, mas estava tanto povo a sair, que a perdeu<br \/>\n    de vista.<\/p>\n<p>Desesperado, correu para os bondes, que uns seis ou sete havia prontos a<br \/>\n    partir, e subiu a todos os estribos, procurando em v\u00e3o com os olhos esbugalhados<br \/>\n    a formosa desconhecida.<\/p>\n<p>&#8211; Provavelmente foi de carro, pensou o Norberto, que logo se p\u00f4s a caminho<br \/>\n    de casa.<\/p>\n<p>Deitou-se mas n\u00e3o p\u00f4de conciliar o sono: a imagem daquela mulher n\u00e3o lhe<br \/>\n    sa\u00eda da mente. Rompia a aurora quando conseguiu adormecer para sonhar com<br \/>\n    ela, e no dia seguinte n\u00e3o se passou um minuto sem que pensasse naquele feliz<br \/>\n    encontro.<\/p>\n<p>Da\u00ed por diante foi um mart\u00edrio. O desditoso namorado come\u00e7ou a emagrecer,<br \/>\n    muito admirado de que lhe causassem tais efeitos um simples olhar e um simples<br \/>\n    sorriso.<\/p>\n<p>Passaram-se alguns dias e cada vez mais crescia aquele amor singular, quando<br \/>\n    uma tarde &#8211; oh, que ventura!&#8230; oh, que felicidade!&#8230; -, uma tarde passeando<br \/>\n    no Catete, o Norberto v\u00ea, num bonde das Laranjeiras, a dama da Exposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n    Ela n\u00e3o o viu.<\/p>\n<p>O pobre-diabo fez sinal ao condutor para parar, mas por fatalidade o poste<br \/>\n    da parada estava muito longe e o bonde n\u00e3o parou. E n\u00e3o haver ali \u00e0 m\u00e3o um<br \/>\n    t\u00edlburi, uma cale\u00e7a, um autom\u00f3vel!&#8230;<\/p>\n<p>O Norberto deitou a correr atr\u00e1s do bonde, mas s\u00f3 conseguiu esfalfar-se.<br \/>\n    Que pernas humanas haver\u00e1 t\u00e3o r\u00e1pidas como a eletricidade?<\/p>\n<p>Esse novo encontro acendeu mais viva chama no peito do Norberto, e n\u00e3o tiveram<br \/>\n    conta os passeios que ele deu do Largo do Machado \u00e0s \u00c1guas F\u00e9rreas, na esperan\u00e7a<br \/>\n    de ver a sua amada e falar-lhe.<\/p>\n<p>Oito dias depois, o Norberto percorria de bonde, pela cent\u00e9sima vez, as Laranjeiras,<br \/>\n    quando, nas alturas do Instituto Pasteur, viu passar &#8211; oh, felicidade!&#8230;<br \/>\n    oh, ventura!&#8230; -, viu passar na rua a mulher que tanto o sobressaltava.<\/p>\n<p>&#8211; Pare! pare!&#8230; gritou ele ao condutor.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui n\u00e3o posso; vamos ao poste de parada!<\/p>\n<p>O Norberto quis descer, mas a rapidez com que o bonde rodava era tamanha,<br \/>\n    que n\u00e3o se atreveu.<\/p>\n<p>Chegando ao poste de parada, ele atirou-se \u00e0 rua, e deitou a correr para<br \/>\n    o lugar onde vira a mulher, mas, onde estava ela? Tinha desaparecido!.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 por que o Norberto \u00e9 hoje o maior inimigo das paradas.<\/p>\n<h2><a name=\"24\">ASA NEGRA <\/a><\/h2>\n<p>Quando, em 185&#8230; poucos momentos antes de nascer Raimundo, sua m&atilde;e<br \/>\n    curtia as dores do parto e curvava-se instintivamente, agarrando-se aos m&oacute;veis<br \/>\n    e &agrave;s paredes, mandaram chamar a toda pressa a &uacute;nica parteira<br \/>\n    que naquele tempo havia na pequena cidade de Alc&acirc;ntara.<\/p>\n<p>A comadre prodigalizava, naquele momento, os cuidados da sua arte hipot&eacute;tica<br \/>\n    &agrave; m&atilde;e de Aureliano, que era mais rica.<\/p>\n<p>S&oacute; algumas horas mais tarde p&ocirc;de acudir ao chamado; mas j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o era tempo: a m&atilde;e sucumbira &agrave; eclampsia; o filho salvara-se<br \/>\n    por um milagre, que ficou at&eacute; hoje gravado na tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    obst&eacute;trica de Alc&acirc;ntara.<\/p>\n<p>O pobre &oacute;rf&atilde;o devia sofrer, enquanto vivesse, as terr&iacute;veis<br \/>\n    conseq&uuml;&ecirc;ncias, n&atilde;o s&oacute; da in&eacute;pcia das mulheres<br \/>\n    que assistiram a sua m&atilde;e, como do falecimento desta. Era aleijado,<br \/>\n    entanguecido, e tinha a cabe&ccedil;a singularmente achatada, nas cavidades<br \/>\n    frontais, pela press&atilde;o grosseira de dedos imperitos. Um menino feio,<br \/>\n    muito feio.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Quando Raimundo entrou para a escola, j&aacute; l&aacute; encontrou Aureliano,<br \/>\n    rapazito lindo, vigoroso e rubicundo; mas uma antipatia invenc&iacute;vel<br \/>\n    afastou-o logo desse causador involunt&aacute;rio dos infort&uacute;nios que<br \/>\n    lhe cercaram o ber&ccedil;o.<\/p>\n<p>Aureliano, que era de um natural orgulhoso, n&atilde;o perdia ensejo de vingar-se<br \/>\n    da antipatia do outro. N&atilde;o houve diabrura de que o n&atilde;o acusasse<br \/>\n    falsamente, e, como Raimundo n&atilde;o era estimado, por ser feio, n&atilde;o<br \/>\n    encontrava defesa, e estendia resignado a m&atilde;o pequenina &agrave;s palmatoadas<br \/>\n    est&uacute;pidas do mestre escola. Isto acontecia diariamente.<\/p>\n<p>O mestre, afinal. cansado de castig&aacute;-lo em pura perda, pois que as<br \/>\n    acusa&ccedil;&otilde;es continuavam da parte de Aureliano, expulsou-o da escola;<br \/>\n    e, como n&atilde;o houvesse outra em Alc&acirc;ntara, o bode expiat&oacute;rio<br \/>\n    cresceu &agrave; bruta, sem instru&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o tendo achado<br \/>\n    no mundo esp&iacute;rito compadecido que lhe levasse um raio de luz &agrave;<br \/>\n    treva da intelig&ecirc;ncia med&iacute;ocre.<\/p>\n<p>Mais tarde meteram-no a bordo de um barco, e mandaram-no para a capital,<br \/>\n    consignado a uma casa de comercio.<\/p>\n<p>A&iacute; encontrou Raimundo um protetor desinteressado, que lhe mandou ensinar<br \/>\n    primeiras letras e rudimentos de escritura&ccedil;&atilde;o mercantil. A pr&aacute;tica<br \/>\n    faria o resto.<\/p>\n<p>Dentro de algum tempo o menino, que j&aacute; contava dezesseis anos, deveria<br \/>\n    entrar, corno ajudante de guarda-livros, para certo escrit&oacute;rio de comiss&otilde;es;<br \/>\n    mas oito dias antes daquele em que devia tomar conta do emprego, morreu inesperadamente<br \/>\n    o seu protetor.<\/p>\n<p>Entretanto, Raimundo apresentou-se, no dia aprasado, em casa do futuro patr&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; C&aacute; estou eu.<\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute; voc&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; O ajudante de guarda-livros de quem lhe falou o defunto Sr. F.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! sim&#8230; lembra-me&#8230; mas o meu amiguinho chore na cama que &eacute;<br \/>\n    lugar quente; o servi&ccedil;o n&atilde;o podia esperar, e eu tive que admitir<br \/>\n    outra pessoa.<\/p>\n<p>E apontou para um rapaz que, sentado, em mangas de camisa, a uma carteira<br \/>\n    elevada, parecia absorvido pelo trabalho de escrita.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! murmurou despeitado o infeliz alcantarense.<\/p>\n<p>O outro levantou os olhos, e Raimundo reconheceu-o: era Aureliano, que tinha<br \/>\n    os l&aacute;bios arqueados por um sorriso verdadeiramente sat&acirc;nico.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Passaram-se alguns meses, durante os quais Raimundo passeou a sua pen&uacute;ria<br \/>\n    pelas ruas de S. Lu&iacute;s. Andava maltrapilho e quase descal&ccedil;o.<\/p>\n<p>Arranjou, afinal, um modesto emprego bra&ccedil;al, numa ag&ecirc;ncia de<br \/>\n    leil&otilde;es. S&oacute; quatro anos mais tarde julgou prudente troc&aacute;-lo<br \/>\n    por um lugar de condutor de bonde.<\/p>\n<p>Durante todo esse tempo, Aureliano, o seu asa-negra, moveu-lhe toda a guerra<br \/>\n    poss&iacute;vel. Diariamente lhe chegavam aos ouvidos os improp&eacute;rios<br \/>\n    gratuitos e as pequeninas intrigas do seu patr&iacute;cio.<\/p>\n<p>Raimundo convenceu-se de que Aureliano, rapaz simp&aacute;tico e geralmente<br \/>\n    estimado na sociedade em que ambos viviam, nascera no mesmo momento em que<br \/>\n    ele, como um estorvo ao mecanismo da sua exist&ecirc;ncia. Era o seu asa-negra.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Foi no bonde que Raimundo viu pela primeira vez os olhos negros e inquietos<br \/>\n    de Leopoldina.<\/p>\n<p>N&atilde;o se descreve a paix&atilde;o que lhe inspirou essa morena bonita,<br \/>\n    cujos contornos opulentos causariam inveja &agrave;s louras nap&eacute;ias<br \/>\n    de R&uacute;bens. A rapariga tinha nos olhos a altivez selvagem e nos l&aacute;bios<br \/>\n    a vol&uacute;pia ing&ecirc;nita das mamelucas. O seu cabelo grosso, abundante<br \/>\n    e negro, prendia-se, enrolado no descuido art&iacute;stico das velhas est&aacute;tuas<br \/>\n    gregas, deixando ver um cacha&ccedil;o que estava a pedir, n&atilde;o os beijos<br \/>\n    de um Raimundo an&ecirc;mico e doentio, por&eacute;m as rijas dentadas de<br \/>\n    um gigante.<\/p>\n<p>Pois Raimundo, que n&atilde;o era nenhum Polifemo, um belo dia conduziu ao<br \/>\n    altar a mameluca bonita, e at&eacute; o instante da cerim&ocirc;nia esteve,<br \/>\n    coitado, v&ecirc; n&atilde;o v&ecirc; o momento em que Aureliano surgia inopinadamente<br \/>\n    de tr&aacute;s do altar-mor, para arrebatar-lhe a noiva.<\/p>\n<p>Infelizmente assim n&atilde;o sucedeu.<\/p>\n<p>Nos primeiros tempos de casado, tudo lhe correu &agrave;s mil maravilhas;<br \/>\n    mas pouco a pouco a sua insufici&ecirc;ncia foi se tornando flagrante. O seu<br \/>\n    organismo fazia prod&iacute;gios para corresponder &agrave;s exig&ecirc;ncias<br \/>\n    da esposa, cuja natureza n&atilde;o lhe indagava das for&ccedil;as.<\/p>\n<p>As mulheres ardentes e mal-educadas, como Leopoldina, quando lhe faltam os<br \/>\n    maridos com a dosimetria do amor, confundem a mis&eacute;ria do sangue com<br \/>\n    a pobreza da casa. Quest&atilde;o de disfar&ccedil;ar sentimentos, e de aplicar<br \/>\n    o abstrato ao concreto. Leopoldina, que at&eacute; ent&atilde;o se contentara<br \/>\n    com a aurea mediocritas relativa do condutor de bonde, come&ccedil;ou um dia<br \/>\n    a manifestar apetites de luxo, a sonhar frandulagens e modas.<\/p>\n<p>De ent&atilde;o em diante tornou-se um inferno a exist&ecirc;ncia dom&eacute;stica<br \/>\n    de Raimundo. Ano e meio depois de casado, ele evitava a conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    da esposa, jantava com os amigos, e s&oacute; aparecia em casa para pedir<br \/>\n    ao sono for&ccedil;as para o trabalho do dia seguinte.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas, de uma feita em que se viu for&ccedil;ado a ir &agrave; casa em hora<br \/>\n    desacostumada, surpreendeu Leopoldina nos bra&ccedil;os herc&uacute;leos de<br \/>\n    Aureliano.<\/p>\n<p>Excitado pelo desespero, cresceu para eles fren&eacute;tico, espumante; mas<br \/>\n    os quatro bra&ccedil;os infames desentrela&ccedil;aram-se das criminosas delicias,<br \/>\n    e repeliram-no vigorosamente.<\/p>\n<p>O pobre marido rolou sobre os calcanhares, e caiu de chapa, estatelado, sem<br \/>\n    sentidos.<\/p>\n<p>Quando voltou a si, os dois amantes haviam desaparecido.<\/p>\n<p>Raimundo n&atilde;o derramou uma l&aacute;grima, e voltou cabisbaixo para<br \/>\n    o trabalho.<\/p>\n<p>Ao chegar &agrave; esta&ccedil;&atilde;o dos bondes, o chefe de servi&ccedil;o<br \/>\n    repreendeu-o, fazendo-lhe ver que a sua falta se tornara sens&iacute;vel.<br \/>\n    Despedi-lo-ia, se n&atilde;o fosse empregado antigo, que t&atilde;o boas provas<br \/>\n    dera at&eacute; ent&atilde;o de si.<\/p>\n<p>O alcantarense ergueu a cabe&ccedil;a. Os olhos desvairados saltavam-lhe<br \/>\n    das &oacute;rbitas com lampejos estranhos. E respondeu coisas incoerentes.<br \/>\n    Estava doido.<\/p>\n<p>Dali a uma semana, foi para Alc&acirc;ntara, requisitado por um tio, derradeiro<br \/>\n    destro&ccedil;o de toda a fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Pouco tempo durou, iludindo a vigil&acirc;ncia do parente, saiu de casa uma<br \/>\n    noite, e atirou-se ao mar, afogando consigo as suas desgra&ccedil;as nas &aacute;guas<br \/>\n    da Ba&iacute;a de S&atilde;o Marcos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Dois dias depois deste suic&iacute;dio, a Ilha do Livramento, &aacute;rido<br \/>\n    promont&oacute;rio situado perto de Alc&acirc;ntara, em frente &agrave;quela<br \/>\n    Baia de S&atilde;o Nilarcos, regurgitava alegremente de povo. Realizava-se<br \/>\n    a festa de Nossa Senhora, e os fi&eacute;is aflu&iacute;am, tanto da capital<br \/>\n    como de Alc&acirc;ntara, &agrave; velha ermida solit&aacute;ria.<\/p>\n<p>Aureliano, alcantarense da gema e figura obrigada de todas as festas e romarias,<br \/>\n    compareceu tamb&eacute;m ao arraial, exibindo publicamente a sua personalidade,<br \/>\n    que se tornara escandalosa depois do adult&eacute;rio de Leopoldina.<\/p>\n<p>No Maranh&atilde;o as paredes n&atilde;o t&ecirc;m somente ouvidos, como<br \/>\n    diz o ad&aacute;gio: t&ecirc;m tamb&eacute;m olhos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Conquanto o c&eacute;u anunciasse pr&oacute;xima borrasca, Aureliano resolveu<br \/>\n    deixar a Ilha do Livramento e embarcar, ao escurecer, numa delgada canoa,<br \/>\n    em demanda de Alc&acirc;ntara, onde tencionava pernoitar. A empresa era sem<br \/>\n    d&uacute;vida arriscada; mas l&aacute;, na colina escura que se refletia vagamente<br \/>\n    nas &aacute;guas negras da ba&iacute;a, esperam-no os bra&ccedil;os roli&ccedil;os<br \/>\n    da vi&uacute;va do doido.<\/p>\n<p>Embarcou.<\/p>\n<p>Acompanhava-o apenas um remador, que desde pela manh&atilde; tomara a seu<br \/>\n    servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Em meio da viagem, soprou de s&uacute;bito rijo nordeste, e o mar, que at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o se conservara pl&aacute;cido e pr&oacute;spero, encapelou-se<br \/>\n    raivoso. Em tr&ecirc;s minutos as ondas esbravejavam j&aacute; terrivelmente,<br \/>\n    e a canoa, erguida a grande altura, e de novo arremessada ao p&eacute;lago,<br \/>\n    num estardalha&ccedil;o de vagas, recebia no bojo quantidade de &aacute;gua<br \/>\n    suficiente para met&ecirc;-la a pique.<\/p>\n<p>&#8211; Cada um cuide de si! bradou o remador, atirando-se ao mar, e oferecendo<br \/>\n    combate her&oacute;ico &agrave; impetuosidade das ondas. Nadava que nem Leandro.<\/p>\n<p>Aureliano viu-se perdido. A canoa mergulhava. Ele n&atilde;o sabia nadar,<br \/>\n    o desgra&ccedil;ado! Preparou-se para morrer&#8230;<\/p>\n<p>A embarca&ccedil;&atilde;o submergiu-se.<\/p>\n<p>O n&aacute;ufrago agitava instintivamente os bra&ccedil;os e as pernas, esperando<br \/>\n    talvez que o desespero lhe ensinasse milagrosamente uma prenda que nunca aprendera.<\/p>\n<p>Debalde!<\/p>\n<p>Foi ao fundo, vertiginosamente. Voltou de novo &agrave; tona d&#8217;&aacute;gua,<br \/>\n    chamado &agrave; vida pelo seu sangue de mo&ccedil;o. Bracejou&#8230; tentou bracejar&#8230;<br \/>\n    A sua m&atilde;o encontrou alguma coisa fria. muito fria&#8230; que flutuava.<br \/>\n    Agarrou-se a esse objeto salvador&#8230; boiou muito tempo com ele&#8230; e com ele<br \/>\n    finalmente foi arremessado &agrave; praia&#8230;<\/p>\n<p>O cad&aacute;ver de Raimundo salvara Aureliano. <\/p>\n<p>(Contos Poss&iacute;veis)<\/p>\n<h2><a name=\"25\">Assunto Para um Conto<\/a><\/h2>\n<p>Como sou um contador de hist\u00f3rias, e tenho que inventar um conto por semana,<br \/>\n    sendo, ali\u00e1s, menos infeliz que Scherazada, porque o p\u00fablico \u00e9 um sult\u00e3o Shariar<br \/>\n    menos exigente e menos sanguin\u00e1rio que o das Mil e Urna Noites, sou constantemente<br \/>\n    abordado por indiv\u00edduos que me oferecem assuntos, e aos quais n\u00e3o dou aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\n    porque eles em geral n\u00e3o t\u00eam uma id\u00e9ia aproveit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Entre esses indiv\u00edduos h\u00e1 um funcion\u00e1rio aposentado, que na sua roda \u00e9 tido<br \/>\n    por espirituoso, o qual, todas as vezes que me encontra, obriga-me a parar,<br \/>\n    diz-me, invariavelmente, que estou ficando muito pregui\u00e7oso, e, com um ar<br \/>\n    de prote\u00e7\u00e3o, o ar de um Mecenas desejoso de prestar um servi\u00e7o que ali\u00e1s n\u00e3o<br \/>\n    lhe foi pedido, conclui, tamb\u00e9m invariavelmente:<\/p>\n<p>&#8211; Deixe estar, que tenho um magn\u00edfico assunto para voc\u00ea escrever um conto!<br \/>\n    Qualquer dia destes, quando eu estiver de mar\u00e9, l\u00e1 lh&#8217;o mandarei.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias, tomando o bonde para ir ao Leme espairecer as id\u00e9ias, sentei-me<br \/>\n    por acaso ao lado do meu Mecenas, que na forma do costume come\u00e7ou por invectivar<br \/>\n    a minha pregui\u00e7a, e prosseguiu assim:<\/p>\n<p>&#8211; Creio que j\u00e1 lhe disse que tenho um assunto para o amiguinho escrever um<br \/>\n    conto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 m&#8217;o disse mais de vinte vezes!<\/p>\n<p>&#8211; Qualquer dia l\u00e1 lh&#8217;o mandarei.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! H\u00e1 de ser agora! O senhor tem me prometido esse assunto um rol de<br \/>\n    vezes, e n\u00e3o cumpre a sua promessa. N\u00f3s vamos a Copacabana, estamos ao lado<br \/>\n    um do outro, temos multo tempo&#8230; Venha o assunto!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; agora n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Pois h\u00e1 de ser agora, ou ent\u00e3o conven\u00e7o-me de que tal assunto n\u00e3o existe,<br \/>\n    e o senhor mentiu todas as vezes que m&#8217;o prometeu!<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, que o senhor tem feito como aquele cidad\u00e3o que prometia ao Eduardo<br \/>\n    Garrido, todas as vezes que o encontrava, um calembour para ser encaixado<br \/>\n    na primeira pe\u00e7a que ele escrevesse. At\u00e9 hoje o Garrido espera pelo calembour!<\/p>\n<p>&#8211; Eu tenho o assunto do conto, explicou o Mecenas, mas queria escrev\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea? Basta que m&#8217;o exponha verbalmente.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o l\u00e1 vai: \u00e9 a hist\u00f3ria de uma heran\u00e7a falsa, um sujeito residente na<br \/>\n    Espanha escreve a outro sujeito residente no Rio de Janeiro uma carta dizendo<br \/>\n    que morreu l\u00e1 um homem podre de rico, chamado, por exemplo, D. Ramon, e que<br \/>\n    esse homem n\u00e3o deixou herdeiros conhecidos: a heran\u00e7a foi toda recolhida pela<br \/>\n    na\u00e7\u00e3o; mas o tal sujeito residente na Espanha, que \u00e9 um fin\u00f3rio, manda dizer<br \/>\n    ao tal sujeito residente no Rio de Janeiro, que \u00e9 um simpl\u00f3rio, que existem<br \/>\n    aqui herdeiros, cujos nomes ele n\u00e3o revelar\u00e1 ao simpl\u00f3rio sem que este mande<br \/>\n    pelo correio tantas mil pesetas. O simpl\u00f3rio manda-lhe o dinheiro, e fica<br \/>\n    eternamente \u00e0 espera dos nomes dos herdeiros. &#8211; Que tal?<\/p>\n<p>&#8211; Muito bom!<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o acha aproveit\u00e1vel este assunto?<\/p>\n<p>&#8211; Acho-o magn\u00edfico, interessant\u00edssimo, espirituoso! Tanto assim que vou escrever<br \/>\n    o conto e public\u00e1-lo no pr\u00f3ximo n\u00famero d&#8217;O S\u00e9culo!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, ainda bem! Quando lhe faltar assunto, venha bater-me \u00e0 porta: o que<br \/>\n    n\u00e3o me falta \u00e9 imagina\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado; n\u00e3o me despe\u00e7o do favor.<\/p>\n<p>Como v\u00ea o leitor, aproveitei o assunto do imaginoso Mecenas.<\/p>\n<h2><a name=\"26\">BANHOS DE MAR<\/a><\/h2>\n<p class=\"imagem\">Manuel Ant&ocirc;nio de Carvalho Santos,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Negociante dos mais acreditados,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Tinha, em sessenta e tantos,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Uma casa de secos e molhados<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Na Rua do Trapiche. Toda a gente<\/p>\n<p class=\"imagem\"> &#8211; Gente alta e gente baixa &#8211;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> O respeitava. Merecidamente:<\/p>\n<p class=\"imagem\">A sua firma era dinheiro em caixa.<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Rubicundo, roli&ccedil;o,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Era j&aacute; outoni&ccedil;o,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Pois h&aacute; muito passara dos quarenta<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E caminhava j&aacute; para os cinq&uuml;enta.<\/p>\n<p class=\"imagem\"> O bom Manuel Ant&ocirc;nio<\/p>\n<p class=\"imagem\"> (Que assim era chamado),<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Quando do amor o deus (Deus ou dem&ocirc;nio,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Porque como um dem&ocirc;nio os homens tenta,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Trazendo-os num cortado)<\/p>\n<p class=\"imagem\"> F&ecirc;-lo gostar deveras<\/p>\n<p class=\"imagem\"> De uma menina que contava apenas<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Dezoito primaveras,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E na candura de anjo<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Causava inveja &agrave;s pr&oacute;prias a&ccedil;ucenas.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Tinha a menina um namorado, &eacute; certo;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Por&eacute;m o pai, um madeireiro esperto,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Que no outro viu muito melhor arranjo,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Tratou de convenc&ecirc;-la<\/p>\n<p class=\"imagem\"> De que, aceitando a m&atilde;o que lhe estendia<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Manuel Ant&ocirc;nio, a mo&ccedil;a trocaria<\/p>\n<p class=\"imagem\"> De um vaga-lume a luz por uma estrela<\/p>\n<p class=\"imagem\">Ela era boa, compassiva, terna,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E havia feito ao mo&ccedil;o o juramento<\/p>\n<p class=\"imagem\"> De que a sua afei&ccedil;&atilde;o seria eterna;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Por&eacute;m dobrou-se &agrave; l&oacute;gica paterna<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Como uma planta se dobrara ao vento.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Sabia que seria<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Tempo perdido protestar; sabia<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Que, na opini&atilde;o do pai, o casamento<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Era um neg&oacute;cio e nada mais. Amava;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Sentia-se abrasada em chama viva;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Mas&#8230; tinha-se na conta de uma escrava,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Esperando, passiva,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Que um marido qualquer lhe fosse imposto,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Contra o seu cora&ccedil;&atilde;o, contra o seu gosto.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Calou-se. Que argumento<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Podia a planta contrapor ao vento?<\/p>\n<p class=\"imagem\">No dia em que a not&iacute;cia<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Do casamento se espalhou na pra&ccedil;a,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> A Praia Grande inteira achou-lhe gra&ccedil;a<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E comentou-a com feroz mal&iacute;cia,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E na porta da Alf&acirc;ndega,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E no leil&atilde;o do Basto<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Outro caso n&atilde;o houve era uma p&acirc;ndega!<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Que &agrave;s l&iacute;nguas fornecesse melhor pasto<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Durante uma semana, ou uma quinzena,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Pois em terra pequena<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Nenhum assunto &eacute; facilmente gasto,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E raramente um esc&acirc;ndalo se pilha.<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Quando um dizia: &#8211; A noiva do pateta<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Podia muito bem ser sua filha,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Logo outro exagerava: &#8211; Ou sua neta!<\/p>\n<p class=\"imagem\">O mo&ccedil;o desdenhado,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Que na tesouraria era empregado,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E metido a poeta,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Durante muito tempo andou de preto,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Co&#8217;a barba por fazer, muito abatido;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Mas, se a barba n&atilde;o fez, fez um soneto,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Em que chorava o seu amor perdido.<\/p>\n<p class=\"imagem\">D0 barbeiro esquecido<\/p>\n<p class=\"imagem\"> S&oacute; foi &agrave; loja, e vestiu roupa clara,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Depois que a virgem que ele tanto amara<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Saiu da igreja ao bra&ccedil;o do marido.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Pois, meus senhores, o Manuel Ant&ocirc;nio<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Jamais se arrependeu do matrim&ocirc;nio;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Mas, passados tr&ecirc;s anos,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Sentiu que alguma coisa lhe faltava:<\/p>\n<p class=\"imagem\"> N&atilde;o se realizava<\/p>\n<p class=\"imagem\"> O melhor dos seus planos.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Sim, faltava-lhe um filho, uma crian&ccedil;a,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Na qual pudesse reviver contente,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E este sonho insistente,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E essa firme esperan&ccedil;a<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Fugiam lentamente.<\/p>\n<p class=\"imagem\">&Agrave; propor&ccedil;&atilde;o que os dias e os trabalhos\n  <\/p>\n<p class=\"imagem\"> Seus cabelos tornavam mais grisalhos.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Recorreu &agrave; Ci&ecirc;ncia:<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Foi consultar um m&eacute;dico famoso,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> De muita experi&ecirc;ncia,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E este, num tom bondoso,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Lhe disse: &#8211; A Medicina<\/p>\n<p class=\"imagem\"> For&ccedil;ar n&atilde;o pode a natureza humana.<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Se o contr&aacute;rio imagina,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Digo-lhe que se engana.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Manuel Ant&ocirc;nio, logo entristecido,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> P&ocirc;s os olhos no ch&atilde;o; mas, decorrido<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Um ligeiro intervalo,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> O m&eacute;dico aduziu, para anim&aacute;-lo:<\/p>\n<p class=\"imagem\"> &#8211; Todavia, Verrier, se n&atilde;o me engano,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Diz que os banhos salgados<\/p>\n<p class=\"imagem\"> D&atilde;o belos resultados&#8230;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Experimente o oceano! &#8211;<\/p>\n<p class=\"imagem\">No mesmo dia o bom Manuel Ant&ocirc;nio,<\/p>\n<p class=\"imagem\">&Aacute; vista de ju&iacute;zo t&atilde;o id&ocirc;neo,Tinha<br \/>\n    casa alugada <\/p>\n<p class=\"imagem\"> L&aacute; na Ponta d&#8217;Areia,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Praia de banhos muito freq&uuml;entada,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Que est&aacute; do porto &agrave; entrada<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E o porto aformoseia.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Nessa praia, onde um forte<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Do s&eacute;c&#8217;lo dezessete<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Tem tido v&aacute;ria sorte<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E medo a ningu&eacute;m mete;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Nessa praia, afamada<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Pela revolta, logo sufocada<\/p>\n<p class=\"imagem\"> De um Manuel Joaquim Gomes,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Nome olvidado, como tantos nomes;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Nessa praia que&#8230; (Vide o dicion&aacute;rio<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Do Doutor C&eacute;sar Marques) nessa praia,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Passou tr&ecirc;s meses o q&uuml;inquagen&aacute;rio,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Com a esposa e uma aia.<\/p>\n<p class=\"imagem\">N&atilde;o sei se coincid&ecirc;ncia<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Ou prop&oacute;sito foi: o namorado<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Que n&atilde;o tivera um dia a prefer&ecirc;ncia,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Maldade que tamanhos<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Ais lhe arrancou do cora&ccedil;&atilde;o magoado,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Tamb&eacute;m se achava a banhos<\/p>\n<p class=\"imagem\"> L&aacute; na Ponta d&#8217;Areia&#8230;<\/p>\n<p class=\"imagem\">Creia, leitor, ou, se quiser, n&atilde;o creia:<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Manuel Ant&ocirc;nio nunca o viu; bem cedo,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Sem receio, sem medo<\/p>\n<p class=\"imagem\"> De deixar a senhora ali sozinha,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Para a cidade vinha<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Num escaler que havia contratado,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E voltava &agrave; tardinha.<\/p>\n<p class=\"imagem\">Tempos depois &#8211; marido afortunado!<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Viu que a senhora estava de esperan&ccedil;as&#8230;<\/p>\n<p class=\"imagem\">Ela teve, de fato,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Duas belas crian&ccedil;as,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> E o bondoso doutor, estupefato,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Um &oacute;timo presente,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Que o pagou larga e principescamente!<\/p>\n<p class=\"imagem\">Viva o banho de mar! ditoso banho!<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Dizia, ardendo em j&uacute;bilo, o marido.<\/p>\n<p class=\"imagem\"> &#8211; Eu pedia-lhe um filho, e dois apanho!<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Doutor, meu bom doutor, agradecido!<\/p>\n<p class=\"imagem\">Pouco tempo durou tanta ventura;<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Fulminado por uma apoplexia,<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Baixou Manuel Ant&ocirc;nio &agrave; sepultura.<\/p>\n<p class=\"imagem\">O desdenhado mo&ccedil;o um belo dia<\/p>\n<p class=\"imagem\"> A vi&uacute;va esposou, que lhe trazia<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Amor, contos de r&eacute;is e formosura.<\/p>\n<p class=\"imagem\">E no leil&atilde;o do Basto<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Diziam todos os desocupados<\/p>\n<p class=\"imagem\">Que nunca houve padrasto<\/p>\n<p class=\"imagem\"> Mais carinhoso para os enteados.<\/p>\n<p class=\"imagem\">(Contos em Verso)<\/p>\n<h2><a name=\"27\">BLACK <\/a><\/h2>\n<p>Leandrinho, o mo&ccedil;o mais elegante e mais peralta do bairro de S&atilde;o<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o, freq&uuml;entava a casa do Senhor Martins, que era<br \/>\n    casado com a mo&ccedil;a mais bonita da rua do Pau-Ferro.<\/p>\n<p>Mas, por uma singularidade not&aacute;vel, t&atilde;o not&aacute;vel que<br \/>\n    a vizinhan&ccedil;a logo notou, Leandrinho s&oacute; ia &agrave; casa do Senhor<br \/>\n    Martins quando o Senhor Martins n&atilde;o estava em casa.<\/p>\n<p>Esperava que ele sa&iacute;sse e tomasse o bonde que o transportava &agrave;<br \/>\n    cidade, quase &agrave; porta da sua reparti&ccedil;&atilde;o; entrava no corredor<br \/>\n    com a petul&acirc;ncia do guerreiro em terreno conquistado, e Dona Candinha<br \/>\n    (assim se chamava a mo&ccedil;a mais bonita da rua do Pau-Ferro) introduzia-o<br \/>\n    na sala de visitas, e de l&aacute; passavam ambos para a alcova, onde os esperava<br \/>\n    o t&aacute;lamo aviltado pelos seus amores ign&oacute;beis.<\/p>\n<p>A ventura de Leandrinho tinha um &uacute;nico sen&atilde;o: havia na casa<br \/>\n    um c&atilde;ozinho de ra&ccedil;a, um bull-terrier, chamado Black, que latia<br \/>\n    desesperadamente sempre que farejava a presen&ccedil;a daquele estranho.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que o inteligente animal compreendia tudo e daquele modo exprimia<br \/>\n    a indigna&ccedil;&atilde;o que tamanha patifaria lhe causava.<\/p>\n<p>Entretanto, o inconveniente, foi remediado. A poder de car&iacute;cias e<br \/>\n    p&atilde;es-de-l&oacute;, a pouco e pouco logrou o afortunado Leandrinho captar<br \/>\n    a simpatia de Black, e este, afinal, vinha aos pulos receb&ecirc;-lo &agrave;<br \/>\n    porta da rua, e acompanhava-o no corredor, saltando-lhe &agrave;s pernas,<br \/>\n    lambendo-lhe as m&atilde;os, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta<br \/>\n    e curva.<\/p>\n<p> As mulheres viciosas e apaixonadas comprazem-se na aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do perigo; por isso, Dona Candinha desejava ardentemente que Leandrinho travasse<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es de amizade com o Senhor Martins.<\/p>\n<p>Tudo se combinou, e uma bela noite os dois amantes se encontraram, como por<br \/>\n    acaso, num sarau do Clube Familiar da Cancela. Depois de dan&ccedil;ar com<br \/>\n    ele uma valsa e duas polcas, ela teve o desplante de apresent&aacute;-lo ao<br \/>\n    marido.<\/p>\n<p>Sucedeu o que invariavelmente sucede. A manifesta&ccedil;&atilde;o da simpatia<br \/>\n    do Senhor Martins n&atilde;o se demorou tanto como a de Black: foi fulminante.<\/p>\n<p>Os maridos s&atilde;o por via de regra menos desconfiados que os bull-terriers.<\/p>\n<p>O pobre homem nunca tivera diante de si cavalheiro t&atilde;o simp&aacute;tico,<br \/>\n    t&atilde;o bem-educado, t&atilde;o insinuante. Ao terminar o sarau, pareciam<br \/>\n    dois velhos amigos.<\/p>\n<p>&Agrave; sa&iacute;da do clube, Leandrinho deu o bra&ccedil;o a Dona Candinha,<br \/>\n    e, como &quot;tamb&eacute;m morava para aqueles lados&quot;, acompanhou o<br \/>\n    casal at&eacute; a rua do Pau-Ferro.<\/p>\n<p>Separaram-se &agrave; porta de casa.<\/p>\n<p>O marido insistiu muito para que o outro aparecesse. Teria o maior prazer<br \/>\n    em receber a sua visita. Jantavam &agrave;s cinco. Aos domingos um pouco mais<br \/>\n    cedo, pois nesses dias a cozinheira ia passear.<\/p>\n<p>&#8211; Hei de aparecer &#8211; prometeu Leandrinho.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, venha quarta-feira &#8211; disse o Senhor Martins. &#8211; Minha mulher faz anos<br \/>\n    nesse dia. Mata-se um peru e h&aacute; mais alguns amigos &agrave; mesa, poucos,<br \/>\n    muito poucos, e de nenhuma cerim&ocirc;nia. Venha. Dar-nos-&aacute; muito<br \/>\n    prazer.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o faltarei &#8211; protestou Leandrinho.<\/p>\n<p>E despediu-se.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; muito simp&aacute;tico &#8211; observou o Senhor Martins metendo a chave<br \/>\n    no trinco.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; &#8211; murmurou secamente Dona Candinha.<\/p>\n<p>Black, que os farejava, esperava-os l&aacute; dentro, no corredor, grunhindo,<br \/>\n    arranhando a porta, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta e curva.<\/p>\n<p> Na quarta-feira aprazada Leandrinho embonecou-se todo e foi &agrave; casa<br \/>\n    do Senhor Martins, levando consigo um soberbo ramo de violetas.<\/p>\n<p>O dono da casa, que estava na sala de visitas com alguns amigos, encaminhou-se<br \/>\n    para ele de bra&ccedil;os abertos, e dispunha-se a apresent&aacute;-lo &agrave;s<br \/>\n    pessoas presentes, quando Black veio a correr l&aacute; de dentro, e come&ccedil;ou<br \/>\n    a fazer muitas festas ao rec&eacute;m-chegado, saltando-lhe &agrave;s pernas,<br \/>\n    lambendo-lhe as m&atilde;os, corcoveando, arfando, sacudindo a cauda irrequieta<br \/>\n    e curva.<\/p>\n<p>O Senhor Martins, que conhecia o c&atilde;o e sabia-o incapaz de tanta familiaridade<br \/>\n    com pessoas estranhas, teve uma id&eacute;ia sinistra, e como os dois amantes<br \/>\n    enfiassem, a situa&ccedil;&atilde;o ficou para ele perfeitamente esclarecida.<\/p>\n<p>N&atilde;o se descreve o esc&acirc;ndalo produzido pela inocente indiscri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Black. Basta dizer que, a despeito da interven&ccedil;&atilde;o dos parentes<br \/>\n    e amigos ali reunidos, Dona Candinha e Leandrinho foram postos na rua a pontap&eacute;s<br \/>\n    valentemente aplicados.<\/p>\n<p>O Senhor Martins, que n&atilde;o tinha filhos, a princ&iacute;pio sofreu<br \/>\n    muito, mas afinal habituou-se &agrave; solid&atilde;o.<\/p>\n<p>Nem era esta assim t&atilde;o grande, pois, todas as vezes que ele entrava<br \/>\n    em casa, vinha receb&ecirc;-lo o seu bom amigo, o indiscreto Black, saltando-lhe<br \/>\n    &agrave;s pernas, lambendo-lhe as m&atilde;os, corcoveando, arfando, sacudindo<br \/>\n    a cauda irrequieta e curva.<\/p>\n<h2><a name=\"28\">Caiporismo<\/a><\/h2>\n<p>Naquele dia o Ladislau entrou em casa radiante e alegre. A sua cara-metade,<br \/>\n    n\u00e3o habituada a isso, perguntou-lhe se tinha visto passarinho verde.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o vi passarinho verde, mas calcula que&#8230; Ainda me parece um sonho!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas que foi, homem de Deus?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tu sabes que eu sou o maior caipora em tudo quanto \u00e9 jogo&#8230; Em Caxambu<br \/>\n    &#8211; lembras-te? &#8211; todos ganhavam, menos eu, e o processo era muito simples:<br \/>\n    jogavam onde eu n\u00e3o jogava. Bastava que eu pusesse uma fichazinha num n\u00famero<br \/>\n    para que ele ficasse abandonado pelos demais pontos! J\u00e1 toda a gente sabia<br \/>\n    que o diabo do n\u00famero n\u00e3o safa nem a cacete!.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que te aconteceu? Estou morta de curiosidade! Tiraste algum pr\u00eamio<br \/>\n    na loteria?<\/p>\n<p>&#8211; Oh, a loteria!&#8230; a loteria \u00e9 outra!&#8230; Bem sabes que ainda n\u00e3o me foi<br \/>\n    dada a satisfa\u00e7\u00e3o de comprar um bilhete e tirar, n\u00e3o a sorte grande, n\u00e3o um<br \/>\n    pr\u00eamio qualquer, mas o mesmo dinheiro! N\u00e3o sei o gosto que isso tem!.<\/p>\n<p>&#8211; Na realidade \u00e9s muito caipora.<\/p>\n<p>&#8211; E os bichos? Se jogo na borboleta, d\u00e1 o elefante; se arrisco cinco ou dez<br \/>\n    mil-r\u00e9is na \u00e1guia, \u00e9 contar que sai o burro!&#8230; Sempre contrastes!&#8230; sempre<br \/>\n    ant\u00edteses!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o me dir\u00e1s?. .<\/p>\n<p>&#8211; O Balisa, aquele alfaiate da Rua do Ouvidor, que me fez o terno marrom<br \/>\n    &#8211; sabes? -, organizou um &#8220;club de roupas&#8221; a cinco mil-r\u00e9is por semana, e instou<br \/>\n    comigo para que eu entrasse. Entrei, paguei a primeira presta\u00e7\u00e3o, e saiu o<br \/>\n    meu n\u00famero! Comprei por cinco mil-r\u00e9is um terno que vale duzentos!.<\/p>\n<p>&#8211; Deveras?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que te digo! J\u00e1 tomei medida! Desta vez n\u00e3o fui caipora!&#8230;<\/p>\n<p>Ainda bem!<\/p>\n<p>O Balisa pediu-me que continuasse, e eu continuei: paguei j\u00e1 a primeira presta\u00e7\u00e3o<br \/>\n    para outro terno.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois desse di\u00e1logo, o Ladislau j\u00e1 tinha pago integralmente os<br \/>\n    duzentos mil-r\u00e9is do segundo terno, e o alfaiate n\u00e3o lhe dera ainda o primeiro:<br \/>\n    desculpava-se com o mestre da oficina, com a grande quantidade de roupa que<br \/>\n    tinha a entregar, e hoje-amanh\u00e3, hoje-amanh\u00e3, passaram-se dias, semanas, e<br \/>\n    nada&#8230;<\/p>\n<p>Um dia o Ladislau saiu de casa disposto a zangar-se com o Balisa: se n\u00e3o<br \/>\n    tivesse para ali os ternos, ou pelo menos um, faria um tempo quente! Pois<br \/>\n    se estava t\u00e3o precisado de roupa!<\/p>\n<p>Mas qual foi a sua surpresa quando, ao chegar \u00e0 loja, encontrou a porta fechada.<\/p>\n<p>Um vizinho informou-o de que o alfaiate morrera falido e na mis\u00e9ria, sem<br \/>\n    ter em casa fazenda que chegasse para a ter\u00e7a parte dos ternos que devia.<\/p>\n<p>E o Ladislau se convenceu de que ter apanhado cal\u00e7a, colete e palet\u00f3 por<br \/>\n    cinco mil-r\u00e9is foi ainda uma pirra\u00e7a do seu medonho caiporismo.<\/p>\n<h2><a name=\"29\">Cava\u00e7\u00e3o<\/a><\/h2>\n<p>Naquela manh\u00e3 o Saldanha estava desesperado: n\u00e3o havia quinze dias que lhe<br \/>\n    entrara na algibeira, inesperadamente, uma bela nota de quinhentos mil-r\u00e9is,<br \/>\n    e j\u00e1 n\u00e3o lhe restava um n\u00edquel desse dinheiro!<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que ele passou uma semana de patuscadas, uma semana cheia! A inesperada<br \/>\n    fortuna coincidira com o anivers\u00e1rio natal\u00edcio de um dos pequenos, o Nh\u00f4-nh\u00f4,<br \/>\n    e tinha havido peru de forno e at\u00e9 champanhe \u00e0 mesa! Que diabo, um dia n\u00e3o<br \/>\n    s\u00e3o dias!<\/p>\n<p>O semi-conto de r\u00e9is voou, sem que o imprevidente Saldanha empregasse dez<br \/>\n    tost\u00f5es em qualquer coisa \u00fatil. A conta da venda &#8211; uma conta de cabelos brancos<br \/>\n    &#8211; ficou por pagar, n\u00e3o se comprou um trapinho para as crian\u00e7as, t\u00e3o precisadas<br \/>\n    de roupa!<\/p>\n<p>O dinheiro viera das m\u00e3os de certo negociante da rua da Alf\u00e2ndega, que encomendara<br \/>\n    ao Saldanha uma s\u00e9rie de artigos metendo \u00e0 bulha uma companhia em liquida\u00e7\u00e3o,<br \/>\n    isto \u00e9, os respectivos liquidantes. O nosso homem, que tinha dedo para essa<br \/>\n    esp\u00e9cie de literatura, fez obra asseada: as descomposturas produziram o desejado<br \/>\n    efeito. O prosador contava com cem mil-r\u00e9is. recebeu quinhentos.<\/p>\n<p>Foi um del\u00edrio! O Saldanha subiu radiante a rua do Ouvidor, com c\u00f3cegas de<br \/>\n    comprar tudo quanto via exposto nos mostradores das lojas. Parou durante cinco<br \/>\n    minutos diante de um gramofone. &#8211; Que surpresa seria para a pequenada! &#8211; Mas<br \/>\n    resistiu e passou. Foi esse o \u00fanico movimento bom que teve depois de endinheirado.<\/p>\n<p>E assim vivia o pobre-diabo, desde que, por negligente e ocioso, perdera<br \/>\n    sucessivamente dezenove empregos e desesperara de obter o vig\u00e9simo. Era um<br \/>\n    bo\u00eamio incorrig\u00edvel, um desgra\u00e7ado, que chegara aos trinta e oito anos sem<br \/>\n    uma on\u00e7a de ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Um dia em que lhe pareceu, e pareceu a todos, que estava definitiva e solidamente<br \/>\n    arrumado num cart\u00f3rio de tabeli\u00e3o, o Saldanha casou-se com uma pobre mo\u00e7a<br \/>\n    a quem fazia versos, e n\u00e3o de p\u00e9 quebrado, porque para esse outro g\u00eanero de<br \/>\n    literatura tamb\u00e9m n\u00e3o lhe faltavam aptid\u00f5es.<\/p>\n<p>Tanto assim que, durante muito tempo, viveu quase exclusivamente dos seus<br \/>\n    Gemidos sonoros, cole\u00e7\u00e3o de poesias, cujos dois mil exemplares passou um a<br \/>\n    um pelos parentes, amigos, conhecidos e desconhecidos, dizendo sempre que<br \/>\n    fazia aquilo apenas para pagar as despesas de impress\u00e3o, pois n\u00e3o mercadejava<br \/>\n    a sua musa.<\/p>\n<p>Depois de esgotada completamente a edi\u00e7\u00e3o, o Saldanha, freq\u00fcentador ass\u00edduo<br \/>\n    de todas as lojas de alfarr\u00e1bios, comprava por baixo pre\u00e7o quantos exemplares,<br \/>\n    e n\u00e3o eram poucos, apareciam, e vendia-os no bairro comercial, aos negociantes<br \/>\n    dinheirosos.<\/p>\n<p>O expediente dava o melhor resultado, porque o poeta, fren\u00f3logo intuitivo,<br \/>\n    conhecia pela cara, ou, segundo a sua pr\u00f3pria express\u00e3o, &#8220;pela pinta&#8221;, esses<br \/>\n    mecenas fortuitos, e, al\u00e9m disso, aprendera de cor uma infinidade de l\u00e1bias<br \/>\n    para impingir o volume. Ou por esses motivos, ou porque as pessoas a quem<br \/>\n    se dirigia quisessem se ver livres de um importuno, a colheita era certa.<\/p>\n<p>Note-se que ningu\u00e9m duvidava da identidade do poeta, porque o seu retrato<br \/>\n    l\u00e1 estava, litografado pelo A. de Pinho, e parecid\u00edssimo, na primeira p\u00e1gina<br \/>\n    dos Gemidos sonoros.<\/p>\n<p>Entretanto, esse ardiloso manejo era como o enlevo d&#8217;alma da linda Ign\u00eas:<br \/>\n    n\u00e3o podia durar muito. Os volumes, \u00e0 for\u00e7a de viajar dos primitivos donos<br \/>\n    para os alfarrabistas, dos alfarrabistas para o Saldanha, do Saldanha para<br \/>\n    os protetores das letras nacionais, e destes outra vez para os alfarrabistas,<br \/>\n    ficaram t\u00e3o ensebados (&#8220;fatigados&#8221;, como se diz em linguagem bibliogr\u00e1fica),<br \/>\n    que j\u00e1 n\u00e3o havia meio de lhes dar sa\u00edda.<\/p>\n<p>Por isso, a mais s\u00e9ria, a mais firme preocupa\u00e7\u00e3o do industrioso Saldanha<br \/>\n    era que uma nova edi\u00e7\u00e3o dos Gemidos fizesse gemer os prelos. Por conta dele,<br \/>\n    j\u00e1 se sabe, porque n\u00e3o havia editor que se arrojasse \u00e0 empresa. E essa preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\n    de tal modo absorvia, que ele absolutamente n\u00e3o pensava noutra coisa e vivia<br \/>\n    de expedientes.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 ficou dito, naquela manh\u00e3 o Saldanha estava desesperado. Durante<br \/>\n    os tr\u00eas \u00faltimos dias, ele, a mulher e os quatro filhos tinham-se alimentado<br \/>\n    com as derradeiras cinco patacas, melanc\u00f3licos vest\u00edgios dos quinhentos mil-r\u00e9is.<br \/>\n    O homem da venda j\u00e1 lhe n\u00e3o fiava mais nada. A cozinheira abandonara-os.<\/p>\n<p>O autor dos Gemidos sonoros saiu de casa sem um vint\u00e9m, dizendo: &#8211; Vou cavar!<br \/>\n    &#8211; e baixou \u00e0 cidade a p\u00e9. Morava l\u00e1 para os lados de Est\u00e1cio de S\u00e1.<\/p>\n<p>Parecia uma fatalidade! Todas as bolsas a que recorreu encontrou implacavelmente<br \/>\n    fechadas. J\u00e1 tantas vezes tinham servido.<\/p>\n<p>N\u00e3o teve coragem de pedir cinco mil-r\u00e9is ao negociante que dias antes remunerara<br \/>\n    com tanta liberalidade a sua prosa agressiva. Chegou a penetrar no escrit\u00f3rio<br \/>\n    do capitalista, mas limitou-se a comer-lhe o almo\u00e7o &#8211; e comeu-o com remorsos,<br \/>\n    porque tinha deixado em casa a prole a fazer cruzes na boca.<\/p>\n<p>Sem ser bom pai, pois ningu\u00e9m pode ser bom pai sem ter ju\u00edzo, o Saldanha<br \/>\n    era meigo e carinhoso para os filhos. Pudesse ele e comeriam todos em pratos<br \/>\n    de ouro. Em se apanhando com dinheiro, corria logo para casa, embora pelo<br \/>\n    caminho fosse esbanjando algum em companhia dos gaud\u00e9rios que topava.<\/p>\n<p>Depois do almo\u00e7o, abundantemente regado por um magn\u00edfico virgem &#8220;vindo diretamente&#8221;,<br \/>\n    o Saldanha atirou-se de novo ao terr\u00edvel trabalho de &#8220;cava\u00e7\u00e3o&#8221;. Passaram-se<br \/>\n    duas, passaram-se tr\u00eas horas, e nada, nada, nada! E os pequenos sem comer!<\/p>\n<p>\u00c1s tr\u00eas e meia, com o c\u00e9rebro ainda escaldado pelo vinho do almo\u00e7o, derreado<br \/>\n    por um calor sufocante, suando por todos os poros, o bo\u00eamio sentou-se extenuado<br \/>\n    nos degraus do chafariz do Largo do Pa\u00e7o, e a\u00ed, pela primeira vez na sua vida<br \/>\n    errante, atravessou-lhe o esp\u00edrito a id\u00e9ia n\u00edtida da dolorosa situa\u00e7\u00e3o em<br \/>\n    que se achava. A mis\u00e9ria apresentou-se diante dos seus olhos com um aspecto<br \/>\n    at\u00e9 aquele momento estranho \u00e0 sua percep\u00e7\u00e3o moral, e a lembran\u00e7a do seu in\u00fatil<br \/>\n    passado o oprimiu tanto que as l\u00e1grimas lhe saltaram aos olhos.<\/p>\n<p>Passavam, na dire\u00e7\u00e3o das barcas de Niter\u00f3i, muitos homens apressados, e o<br \/>\n    Saldanha notando que raro era aquele que n\u00e3o levava um embrulho enfiado no<br \/>\n    dedo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 para os filhos, pensava; s\u00e3o homens que trabalham, que t\u00eam como eu poderia<br \/>\n    ter, o ordenado certo no fim do m\u00eas&#8230; N\u00e3o s\u00e3o ociosos nem bo\u00eamios, como eu&#8230;<\/p>\n<p>Id\u00e9ias negras acudiram-lhe em tropel ao c\u00e9rebro avinhado, produzindo febre.<br \/>\n    As horas correram sem que ele desse f\u00e9, subjugado como estava pelo sofrimento.<br \/>\n    Numa esp\u00e9cie de del\u00edrio, ouvia apenas rumor &#8211; o choro dos filhos.<\/p>\n<p>Quando saiu desse torpor, caia a tarde. O lusco-fusco envolvia o mar e os<br \/>\n    lados da Tijuca estavam coloridos por um crep\u00fasculo de fogo.<\/p>\n<p>As pernas tr\u00f4pegas, a cabe\u00e7a pesada, a l\u00edngua seca, o Saldanha levantou-se<br \/>\n    com a firme resolu\u00e7\u00e3o de tomar uma barca e, chegando ao meio da baia, atirar-se<br \/>\n    ao mar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o melhor que tenho a fazer; a minha gente achar\u00e1 quem a ampare melhor<br \/>\n    do que eu. Os \u00f3rf\u00e3os mais infelizes s\u00e3o os que t\u00eam pai&#8230;<\/p>\n<p>Depois dessa reflex\u00e3o filos\u00f3fica, ele encaminhou-se para a esta\u00e7\u00e3o das barcas,<br \/>\n    e s\u00f3 ent\u00e3o se lembrou de que n\u00e3o tinha dinheiro para a passagem; avistou,<br \/>\n    por\u00e9m, um sujeito que levava \u00e1 mesma dire\u00e7\u00e3o, e dizendo consigo: &#8216;vou cavar<br \/>\n    pela \u00faltima vez&#8221;, dirigiu-se ao transeunte com toda a resolu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; O cavalheiro disp\u00f5e de trezentos r\u00e9is? N\u00e3o tenho dinheiro comigo, estou<br \/>\n    doente, e seria para mim um grande transtorno perder esta barca.<\/p>\n<p>O outro mediu-o de alto a baixo, fez uma careta, introduziu dois dedos no<br \/>\n    bolso do colete, hesitou, arrependeu-se, enfiou a m\u00e3o na algibeira do casaco,<br \/>\n    tirou um caderninho de cupons de passagens, destacou um deles, e deu-o ao<br \/>\n    Saldanha, com uma express\u00e3o no rosto em que se lia perfeitamente o seguinte:<br \/>\n    &#8220;A mim n\u00e3o me enganas tu; com este pedacinho de papel n\u00e3o ir\u00e1s beber.&#8221;<\/p>\n<p>O bo\u00eamio agradeceu, sorrindo tristemente \u00e0 id\u00e9ia de que o tal pedacinho de<br \/>\n    papel era o seu passaporte para a eternidade.<\/p>\n<p>O sujeito seguiu o seu caminho, e ele ia seguir tamb\u00e9m quando viu no ch\u00e3o<br \/>\n    outro peda\u00e7o de papel, de maiores dimens\u00f5es, dobrado em quatro, que lhe pareceu<br \/>\n    &#8211; oh, fortuna &#8211; uma nota de banco.<\/p>\n<p>Apanhou-o. Era, efetivamente, uma nota de cem mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>Tr\u00eamulo, nervoso, abriu a nota, percorreu-a no verso e no reverso, e, desconfiado<br \/>\n    de uma alucina\u00e7\u00e3o dos sentidos, examinou-a \u00e0 luz de um lampi\u00e3o aceso naquele<br \/>\n    instante.<\/p>\n<p>Depois, meteu-a no bolso, e &#8220;tocou \u00e1 toda&#8221; para a rua do Ouvidor, l\u00e9pido,<br \/>\n    contente, como se momentos antes n\u00e3o se houvesse representado um drama dentro<br \/>\n    de sua alma.<\/p>\n<p>Entrou no Caf\u00e9 do Rio, onde ofereceu cerveja a alguns amigos depois, na Confeitaria<br \/>\n    Pascoal, arranjou um opulento farnel de comes e bebes: frangos assados, empadinhas,<br \/>\n    doces, vinho do Porto, etc.<\/p>\n<p>Tomou um t\u00edlburi no 1argo de s\u00e3o Francisco, e ao chegar perto de casa, ainda<br \/>\n    na rua, gritou como um possesso:<\/p>\n<p>&#8211; Terezinha! Cota! Chiquinha! Nh\u00f4-nh\u00f4! Eduardinho! aqui estou eu, aqui esta<br \/>\n    papai com um banquete op\u00edparo! Toca a m\u00fasica!<\/p>\n<p>Foi um alvoro\u00e7o em casa. Era de ver toda aquela crian\u00e7ada a com os olhos<br \/>\n    ainda vermelhos de tanto chorar.<\/p>\n<p>O Saldanha abriu o embrulho na sala de jantar e, com um ar vitorioso, espalhou<br \/>\n    a comezaina sobre a mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas dize-me: como foi que tu&#8230; &#8211; ia perguntar a esposa.<\/p>\n<p>&#8211; Come! come!, interrompeu o marido; come, depois te contarei. D\u00e1 c\u00e1 dali<br \/>\n    o saca-rolhas!<\/p>\n<p>E desarrolhando com um estouro alegre a garrafa de vinho do Porto:<\/p>\n<p>&#8211; Ah, Terezinha! decididamente sou a criatura mais feliz que o c\u00e9u cobre!<\/p>\n<p>E durante tr\u00eas dias o Saldanha n\u00e3o &#8220;cavou&#8221;.<\/p>\n<h2><a name=\"30\">CHICO<\/a><\/h2>\n<p>Um dia o Chico, mo\u00e7o muito servi\u00e7al, muito amigo do seu amigo, foi chamado<br \/>\n    \u00e0 casa do Dr. Miranda, que o conhecia desde pequeno, e abusava sempre do seu<br \/>\n    car\u00e1ter obsequioso e humilde.<br \/>\n    &#8211; Mandei-te chamar, meu rapaz, para te incumbir de uma comiss\u00e3o que s\u00f3 tu<br \/>\n    poder\u00e1s desempenhar a meu gosto.<br \/>\n    &#8211; Estou \u00e0s suas ordens.<br \/>\n    &#8211; Conheces a Maricota, minha irm\u00e3. \u00c9 uma tola que, em rapariga, enjeitou bons<br \/>\n    casamentos, sempre \u00e0 espera de um pr\u00edncipe, como nos contos de fadas, e agora,<br \/>\n    que vai caminhando a passos agigantados para os quarenta, embei\u00e7ou-se por<br \/>\n    um tipo que costuma passar c\u00e1 por casa e nem ela, nem eu, sabemos quem \u00e9.<br \/>\n    &#8211; Ele chama-se&#8230;?<br \/>\n    &#8211; Alexandrino Pimentel. \u00c9 o nome com que assinou a carta, assaz lac\u00f4nica,<br \/>\n    em que declarou \u00e0 Maricota que a amava e desejava ser seu esposo. J\u00e1 me disseram<br \/>\n    &#8211; e \u00e9 tudo quanto sei a seu respeito &#8211; que esteve empregado na estrada de<br \/>\n    ferro, onde n\u00e3o esquentou lugar. Preciso de mais amplas e completas informa\u00e7\u00f5es<br \/>\n    a respeito desse indiv\u00edduo e, para obt\u00ea-las, lembrei-me de ti que \u00e9s esperto<br \/>\n    e conheces meio mundo.<br \/>\n    O Chico dissimulou uma careta.<br \/>\n    &#8211; Minha irm\u00e3, continuou o Dr. Miranda, j\u00e1 fez 37 anos, mas \u00e9 minha irm\u00e3, e<br \/>\n    eu, como chefe de fam\u00edlia, farei o poss\u00edvel para evitar que ela se ligue a<br \/>\n    um homem que n\u00e3o seja um homem de bem, n\u00e3o achas?<br \/>\n    &#8211; Certamente.<br \/>\n    &#8211; Portanto, meu rapaz, pe\u00e7o-te que indagues e me venhas dizer quem \u00e9, ao certo,<br \/>\n    esse Alexandrino Pimentel, que quer ser meu cunhado. Pe\u00e7o-te igualmente que<br \/>\n    desempenhes essa comiss\u00e3o com a brevidade poss\u00edvel, pois uma senhora de 37<br \/>\n    anos, quando lhe falam em casamento, fica assanhada que nem um macaco a quem<br \/>\n    se mostra uma banana.<br \/>\n    O Chico p\u00f4s-se a co\u00e7ar a cabe\u00e7a e n\u00e3o disse nada. Bem sabia quanto era espinhosa<br \/>\n    tal comiss\u00e3o, mas n\u00e3o tinha for\u00e7as para recusar os seus servi\u00e7os a pessoa<br \/>\n    alguma, e muito menos ao Dr. Miranda, que era o seu m\u00e9dico, j\u00e1 o havia sido<br \/>\n    de seus pais e nunca lhes mandara a conta.<br \/>\n    &#8211; Est\u00e1 dito?<br \/>\n    &#8211; Est\u00e1 dito. Vou indagar quem \u00e9 o tal Alexandrino Pimentel, e pode contar<br \/>\n    que dentro de tr\u00eas ou quatro dias ter\u00e1 os esclarecimentos que deseja.<br \/>\n    No mesmo dia, o Chico foi ter com um velho camarada, empregado antigo da Central,<br \/>\n    e perguntou-lhe se conhecia um sujeito que ali tinha estado algum tempo, chamado<br \/>\n    Alexandrino Pimentel.<br \/>\n    &#8211; Um b\u00eabado! &#8211; respondeu prontamente o outro.<br \/>\n    &#8211; B\u00eabado?<br \/>\n    &#8211; B\u00eabado, sim! Foi por isso que o Passos o p\u00f4s na rua!<br \/>\n    &#8211; Mas n\u00e3o se ter\u00e1 corrigido?<br \/>\n    &#8211; N\u00e3o sei; nunca mais ouvi falar nele. Quem te pode informar com seguran\u00e7a<br \/>\n    \u00e9 o Trancoso. &#8211; Sim, que ele era casado com a filha do Trancoso, por sinal<br \/>\n    que n\u00e3o se dava com o sogro.<br \/>\n    &#8211; Casado?<br \/>\n    &#8211; Casado, sim!<br \/>\n    &#8211; Quem \u00e9 esse Trancoso?<br \/>\n    &#8211; Um ex-colega meu, aposentado h\u00e1 uns quatro anos. Mora l\u00e1 para os lados de<br \/>\n    Inha\u00fama.<br \/>\n    &#8211; Podes dar-me um bilhete de apresenta\u00e7\u00e3o para ele?<br \/>\n    &#8211; Pois n\u00e3o!<br \/>\n    No dia seguinte o Chico estava em Inha\u00fama, \u00e0 procura do tal Trancoso, que<br \/>\n    j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o morava; havia seis meses que se mudara para Copacabana, onde adquirira<br \/>\n    uma casinha; entretanto o pobre rapaz n\u00e3o esmoreceu diante de uma tremenda<br \/>\n    ma\u00e7ada, e no outro dia, depois de duas horas de indaga\u00e7\u00f5es, batia \u00e0 porta<br \/>\n    do Trancoso.<br \/>\n    Veio abrir-lha um velho asm\u00e1tico, envolvido numa capa, len\u00e7o de seda ao pesco\u00e7o,<br \/>\n    carapu\u00e7a enterrada at\u00e9 \u00e0s orelhas, barba por fazer, cara de poucos amigos.<br \/>\n    Quando o Chico pronunciou o nome de Alexandrino Pimentel, o velho enfureceu-se,<br \/>\n    gritando que nada tinha de comum com &#8220;esse bandido&#8221;!<br \/>\n    &#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 ele seu genro?<br \/>\n    &#8211; Foi por desgra\u00e7a minha, mas j\u00e1 o n\u00e3o \u00e9, pois deu tantos desgostos \u00e0 minha<br \/>\n    filha, que a matou!<br \/>\n    &#8211; Eu desejava apenas tomar algumas informa\u00e7\u00f5es a respeito desse homem. Trata-se<br \/>\n    de coisa grave. Ele pretende casar-se em segundas n\u00fapcias, e foi a fam\u00edlia<br \/>\n    da noiva que me pediu para&#8230;<br \/>\n    &#8211; Pois, meu caro senhor, as informa\u00e7\u00f5es que lhe tenho a dar s\u00e3o as seguintes:<br \/>\n    o sujeito de quem se trata \u00e9 malandro, b\u00eabado, devasso jogador e bruto. Bruto<br \/>\n    a ponto de bater, como batia na sua pr\u00f3pria mulher! Se a tal senhora, com<br \/>\n    quem ele se pretende casar, quiser passar fome e ser armaz\u00e9m de pancada, n\u00e3o<br \/>\n    poder\u00e1 escolher melhor! E agora, meu caro amigo, que tem as informa\u00e7\u00f5es que<br \/>\n    desejava, passe muito bem! Deixe-me em paz, porque sou doente, e as visitas<br \/>\n    aborrecem-me!&#8230;<br \/>\n    Dizendo isto, o velho foi empurrando o Chico para a porta da rua.<br \/>\n    Este saiu perfeitamente edificado a respeito de Alexandrino Pimentel, mas,<br \/>\n    ao ar livre, refletiu que todas essas informa\u00e7\u00f5es, partindo de um homem t\u00e3o<br \/>\n    apaixonado e t\u00e3o grosseiro, poderiam ser, pelo menos at\u00e9 certo ponto, injustas;<br \/>\n    por isso p\u00f4s-se de novo em campo e, indaga daqui, pergunta dacol\u00e1, chegou,<br \/>\n    depois de conversar com dez ou doze pessoas fidedignas, \u00e0 firme convic\u00e7\u00e3o<br \/>\n    de que tudo aquilo era a pura express\u00e3o da verdade.<br \/>\n    Essas pesquisas tomaram-lhe mais tempo do que tr\u00eas ou quatro dias dentro dos<br \/>\n    quais prometera voltar \u00e0 casa do Dr. Miranda. Quando voltou, j\u00e1 os amores<br \/>\n    de Maricota e Alexandrino haviam assumido propor\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis, e o Dr.<br \/>\n    Miranda tinha revelado \u00e0 irm\u00e3 que o obsequioso Chico se incumbira de tomar<br \/>\n    informa\u00e7\u00f5es a respeito do pretendente.<br \/>\n    &#8211; Que diabo! Julguei que voc\u00ea n\u00e3o me aparecesse mais. &#8211; exclamou o m\u00e9dico<br \/>\n    ao ver ent\u00e3o o seu cliente gratuito.<br \/>\n    &#8211; A coisa deu mais trabalho do que eu supunha, e eu n\u00e3o quis fazer nada no<br \/>\n    ar. Trago-lhe informa\u00e7\u00f5es seguras!<br \/>\n    &#8211; Boas ou m\u00e1s?<br \/>\n    &#8211; P\u00e9ssimas.<br \/>\n    O Dr. Miranda chamou a irm\u00e3, que acudiu logo.<br \/>\n    &#8211; Olha, Maricota, aqui tens o Chico; vai dizer-nos quem e o teu Pimentel.<br \/>\n    &#8211; Pois diga! &#8211; resmungou Maricota com um olhar zangado, adivinhando os horrores<br \/>\n    trazidos pelo Chico.<br \/>\n    Este voltou-se para o Dr. Miranda e disse-lhe:<br \/>\n    &#8211; O senhor coloca-me numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Julguei que isto n\u00e3o passasse<br \/>\n    de n\u00f3s dois, mas agora, em presen\u00e7a de D. Maricota, sinto-me acanhado e receoso,<br \/>\n    porque n\u00e3o posso dizer sen\u00e3o a verdade, e a verdade \u00e9 muito desagrad\u00e1vel.<br \/>\n    &#8211; Minha irm\u00e3 \u00e9 a principal interessada neste assunto, redarguiu o doutor,<br \/>\n    e deve at\u00e9 agradecer-lhe o trabalho que voc\u00ea teve com esse inqu\u00e9rito. O seu<br \/>\n    dever de amigo est\u00e1 cumprido; ela que o ou\u00e7a e fa\u00e7a o que entender; \u00e9 senhora<br \/>\n    das suas a\u00e7\u00f5es.<br \/>\n    O Chico, arrependido j\u00e1 de se haver metido naquele incidente de fam\u00edlia, contou<br \/>\n    minuciosamente as dilig\u00eancias que fizera e o resultado a que chegara.<br \/>\n    Quando ele acabou o relat\u00f3rio:<br \/>\n    &#8211; Tudo isso \u00e9 cal\u00fania, cal\u00fania, cal\u00fania torpe! &#8211; bradou Maricota, fula de<br \/>\n    raiva e batendo o p\u00e9. &#8211; E quando seja verdade, gosto dele. Ele gosta de mim,<br \/>\n    e havemos de ser um do outro, venha embora o mundo abaixo!<br \/>\n    N\u00e3o houve palavras que a convencessem de que tal casamento seria um desastre.<br \/>\n    Diante da vergonha, com que ela amea\u00e7ou o irm\u00e3o de sair de casa para ir ter<br \/>\n    com o seu amado, o Dr. Miranda curvou a cabe\u00e7a, e o casamento fez-se.<br \/>\n    Fez-se, e n\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia de casal mais venturoso!<br \/>\n    Alexandrino, que se empregara numa importante casa comercial, era um marido<br \/>\n    sol\u00edcito, dedicado, carinhoso e previdente; n\u00e3o ia a passeio ou a divertimento<br \/>\n    sem levar Maricota; n\u00e3o bebia sen\u00e3o \u00e1gua; n\u00e3o jogava sen\u00e3o a bisca em fam\u00edlia<br \/>\n    &#8211; e todas essas virtudes eram naturalmente real\u00e7adas pela terr\u00edvel perspectiva<br \/>\n    de que ele seria o contr\u00e1rio.<br \/>\n    &#8211; Maricota apanhou a sorte grande! &#8211; diziam os amigos e parentes, inclusive<br \/>\n    o Dr. Miranda.<br \/>\n    Este, desde que as virtudes do cunhado se manifestaram, come\u00e7ou a tratar com<br \/>\n    frieza o informante.<br \/>\n    O pobre Chico perdeu o amigo e o m\u00e9dico, foi odiado por Maricota por ter pretendido<br \/>\n    frustrar a sua aventura, e o regenerado Pimentel, quando soube da comiss\u00e3o<br \/>\n    que ele desempenhara, segurou-o um dia com as duas m\u00e3os pela gola do casaco,<br \/>\n    e sacudiu-o dizendo-lhe:<br \/>\n    &#8211; Eu devia quebrar-te a cara, miser\u00e1vel, mas perd\u00f4o-te, porque \u00e9s um desgra\u00e7ado!.<br \/>\n    Moralidade do conto: ningu\u00e9m se meta na vida alheia, principalmente quando<br \/>\n    se trate de evitar um casamento ser\u00f4dio.<\/p>\n<h2><a name=\"31\">COMES E BEBES<\/a><\/h2>\n<p>Algum tempo antes de entrar definitivamente, na vida pr&aacute;tica, o bacharel<br \/>\n    Sesostris, que hoje &eacute; pai de fam&iacute;lia e magistrado, teve as suas<br \/>\n    veleidades liter&aacute;rias, e topava a tudo; poesia, conto, folhetim, romance<br \/>\n    e teatro.<\/p>\n<p>Foi o manuscrito da sua primeira e &uacute;nica pe&ccedil;a que o introduziu<br \/>\n    na caixa de um teatro, e o aproximou de Rosalina, que das nossas atrizes era<br \/>\n    naquele tempo a primeira em beleza e a &uacute;ltima em talento. Essa Rosalina,<br \/>\n    que o empres&aacute;rio conservava no elenco da companhia em aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    unicamente &agrave;s suas virtudes pl&aacute;sticas, casara-se com um ator<br \/>\n    por seu turno ali conservado t&atilde;o somente por ser marido dela.<\/p>\n<p>Dizer que era uma segunda Pen&eacute;lope no tocante &agrave; fidelidade<br \/>\n    conjugal seria faltar descaradamente &agrave; verdade que devo aos leitores<br \/>\n    das minhas historietas; pelo menos as m&aacute;s l&iacute;nguas, e mesmo as<br \/>\n    boas, n&atilde;o a poupavam: mais de um freq&uuml;entador habitual do teatro<br \/>\n    onde ela se exibia era apontado como tendo solicitado, e obtido os seus favores<br \/>\n    mais &iacute;ntimos.<\/p>\n<p>O bacharel Sesostris foi convidado pelo empres&aacute;rio para fazer a leitura<br \/>\n    da pe&ccedil;a uma tarde, no palco, depois do ensaio e a hora aprazada, sentou-se<br \/>\n    diante de uma pequena mesa rodeado de quase toda a companhia, e abriu um manuscrito.<\/p>\n<p>Ia em meio o primeiro ato, ouvido em sil&ecirc;ncio com um recolhimento digno<br \/>\n    de uma trag&eacute;dia, quando o comedi&oacute;grafo sentiu que do joelho<br \/>\n    de Rosalina, sentada &agrave; sua direita, se. desprendia um calor comunicativo<br \/>\n    que o perturbava. Sabe Deus como p&ocirc;de o rapaz concluir a leitura daquele<br \/>\n    primeiro ato!<\/p>\n<p>Durante o segundo, continuaram as manifesta&ccedil;&otilde;es equivocas,<br \/>\n    ou antes, inequ&iacute;vocas, e o bacharel, suando frio, tremendo, gracejando,<br \/>\n    deixava que se perdessem todos os efeitos c&ocirc;micos das situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e do di&aacute;logo. Os ouvintes, cada vez mais frios e reservados, atribu&iacute;am<br \/>\n    a indisposi&ccedil;&atilde;o do leitor &agrave; impress&atilde;o terr&iacute;vel<br \/>\n    de se achar ali submetido &agrave; opini&atilde;o e ao julgamento de tantas<br \/>\n    sumidades art&iacute;sticas.<\/p>\n<p>Durante o terceiro ato, Rosalina completou com o p&eacute; &#8211; um p&eacute;<br \/>\n    pequenino, admiravelmente cal&ccedil;ado &#8211; a obra de sedu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que principiara com o joelho.<\/p>\n<p>Terminada a leitura o empres&aacute;rio, que durante os dois primeiros atos<br \/>\n    a interrompera com significativos e irreverentes bocejos, e agora dormia a<br \/>\n    sono solto, despertou logo que ouviu as consoladoras palavras: &quot;cai o<br \/>\n    pano&quot;, e disse ao comedi&oacute;grafo:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, &eacute; uma bonita com&eacute;dia&#8230; mas n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    para o meu teatro&#8230; &eacute; muito fina, tem pouca bexigada&#8230; Entretanto,<br \/>\n    n&atilde;o digo que a n&atilde;o represente&#8230; hei de represent&aacute;-la,<br \/>\n    mas quando o teatro estiver mais encarreirado. O doutor tem muito talento:<br \/>\n    escreva outra com&eacute;dia, mas com sal mais grosso, com sal de cozinha.<\/p>\n<p>&#8211; De cozinha?!<\/p>\n<p>&#8211; De cozinha, sim senhor! Isto de sal fino n&atilde;o traz dez r&eacute;is<br \/>\n    &agrave; bilheteria!<\/p>\n<p>O bacharel Sesostris, que tinha a inestim&aacute;vel fortuna de contar apenas<br \/>\n    vinte e dois anos, deixou-se iludir; mas, quando mesmo recebesse, como dramaturgo,<br \/>\n    um desengano formal, que lhe importava, se Rosalina, a formosa Rosalina, t&atilde;o<br \/>\n    cobi&ccedil;ada por todos os homens, ali estava para consol&aacute;-lo das<br \/>\n    medonhas lutas de autor incipiente?<\/p>\n<p>Quando o empres&aacute;rio acabou de lhe recomendar o sal grosso, ele voltou-se<br \/>\n    e procurou-a com os olhos: ela desaparecera, sem ao menos dizer-lhe adeus&#8230;<\/p>\n<p>Dali por diante, o bacharel entrou a freq&uuml;entar a caixa do teatro, e<br \/>\n    especialmente o camarim de Rosalina; esta, por&eacute;m, n&atilde;o renovou<br \/>\n    as manifesta&ccedil;&otilde;es do joelho e do p&eacute;, como se resolvida<br \/>\n    estivesse a mostrar ao mo&ccedil;o que ele n&atilde;o podia subir mais alto&#8230;<\/p>\n<p>Figurava na companhia um velho ator que se dizia muito amigo de Sesostris,<br \/>\n    e lhe captara a confian&ccedil;a; este escolheu-o para confidente dos seus<br \/>\n    amores, e contou-lhe as provoca&ccedil;&otilde;es da atriz.<\/p>\n<p>O velho ator sorriu maliciosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Como se explica &#8211; perguntou o bacharel &#8211; que essa mulher depressa mudasse<br \/>\n    de sentimento a meu respeito?<\/p>\n<p>&#8211; Explica-se perfeitamente: voc&ecirc; ia ler uma com&eacute;dia e ela queria<br \/>\n    apanhar o primeiro papel. Desde o momento em que percebeu a pe&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    seria representada, fez tanto caso de voc&ecirc; como da primeira camisa que<br \/>\n    vestiu.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o se a com&eacute;dia fosse aceita&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; Se a com&eacute;dia fosse aceita, a Rosalina seria sua! E s&oacute; assim<br \/>\n    poderia t&ecirc;-la de gra&ccedil;a &#8211; aquilo &eacute; mulher de dinheiro.<\/p>\n<p>Passaram-se tr&ecirc;s meses, e o teatro longe de se encarreirar como crava<br \/>\n    o empres&aacute;rio, entrou numa dessas crises t&atilde;o comuns na vida nossos<br \/>\n    teatros. Depois de cinco ou seis desastres, o p&uacute;blico afastou-se e<br \/>\n    o empres&aacute;rio deixou de pagar regularmente aos artistas. A situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era desesperada.<\/p>\n<p>Rosalina e o marido sofreram como os demais, considerando-se felizes quando<br \/>\n    apanhavam dez ou vinte mil-r&eacute;is por conta dos vencimentos atrasados.<\/p>\n<p>Foi nestas circunst&acirc;ncias que o p&eacute; e o joelho da atriz voltaram<br \/>\n    a perturbar o sossego do bacharel Sesostris.<\/p>\n<p>A opini&atilde;o do velho ator n&atilde;o a desmerecera no esp&iacute;rito<br \/>\n    do mo&ccedil;o; aos vinte e dois anos o cora&ccedil;&atilde;o &eacute; cego<br \/>\n    para os defeitos da mulher por quem palpita, e quando por ventura resolva<br \/>\n    analis&aacute;-los, acaba verificando que s&atilde;o qualidades e n&atilde;o<br \/>\n    defeitos.<\/p>\n<p>Uma noite, Sesostris, ao despedir-se dela, deixou-lhe nas m&atilde;os bilhete<br \/>\n    pedindo-lhe uma entrevista, e dizendo-lhe que na noite seguinte, durante o<br \/>\n    espet&aacute;culo, iria buscar a resposta ao camarim.<\/p>\n<p>E foi.<\/p>\n<p>A atriz deixou sair o cabeleireiro que a penteava, e disse ao namorado:<\/p>\n<p>&#8211; Seja prudente! Nem uma palavra sobre o assunto do seu bilhete.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; a resposta?<\/p>\n<p>&#8211; Disfarce&#8230; Est&aacute; ali sobre a janela&#8230; por baixo do pratinho da<br \/>\n    moringa&#8230; Fa&ccedil;a de conta que vai beber &aacute;gua&#8230; Olhe que a porta<br \/>\n    do camarim est&aacute; aberta, e h&aacute; por a&iacute; muita gente desconfiada<br \/>\n    da sua assiduidade.<\/p>\n<p>Sesostris disfar&ccedil;ou, foi ao lugar da moringa, levantou o pratinho,<br \/>\n    encontrou o bilhete, meteu-o na algibeira, conversou ainda alguns momentos,<br \/>\n    em voz alta, sobre o calor, a falta do p&uacute;blico, etc&#8230; e saiu, impaciente<br \/>\n    por ler a desejada resposta.<\/p>\n<p>Para fugir a quaisquer olhares indiscretos, meteu-se no mict&oacute;rio do<br \/>\n    teatro e foi ali, meio sufocado pelas exala&ccedil;&otilde;es amoniacais,<br \/>\n    que leu o seguinte:<\/p>\n<p>&quot;Doutor. &#8211; Antes de responder ao seu am&aacute;vel bilhete, quero merecer-lhe<br \/>\n    um grande obs&eacute;quio. Como sabe, a empresa est&aacute; nos devendo tr&ecirc;s<br \/>\n    quinzenas, o dia 15 est&aacute; na porta, e &eacute; prov&aacute;vel que ainda<br \/>\n    desta vez fiquemos a ver navios, porque o teatro n&atilde;o tem feito nada.<br \/>\n    Estamos na mis&eacute;ria. Embora isto muito me custe, pe&ccedil;o-lhe que<br \/>\n    nos mande, amanh&atilde;, para a nossa casa, que o doutor sabe onde &eacute;,<br \/>\n    os mantimentos constantes da inclusa lista, e que s&atilde;o para a nossa<br \/>\n    despensa. Desculpe o inc&ocirc;modo e creia na amizade da sua &#8211; Rosalina.&quot;<\/p>\n<p>A esta carta inveross&iacute;mil, estava, efetivamente anexa, uma lista de<br \/>\n    secos e molhados &#8211; tantos litros de feij&atilde;o, tantos quilos de carne-seca,<br \/>\n    etc. Nada faltava: azeite, macarr&atilde;o, azeitonas, vinho, pacotes de velas,<br \/>\n    lamparinas, manteiga, o diabo!<\/p>\n<p>No dia seguinte parava uma carro&ccedil;a &agrave; porta de Rosalina, levando<br \/>\n    todos esses comes e bebes; mas o bacharel Sesostris, apesar dos seus vinte<br \/>\n    e dois anos, entendeu que nunca mais deveria aparecer &agrave;quela est&uacute;pida.<\/p>\n<h2><a name=\"32\">COMO O DIABO AS ARMA!<\/a><\/h2>\n<p>O Sr. Paulino era o marido mais irrepreens&iacute;vel desta cidade em que<br \/>\n    s&atilde;o rar&iacute;ssimos os maridos irrepreens&iacute;veis; entretanto<br \/>\n    (vejam como o diabo as arma!), um dia foi morar mesmo defronte da casa onde<br \/>\n    ele morava, na Rua Frei Caneca, uma linda mulher, que lhe deu volta ao miolo.<\/p>\n<p>Apesar de casado com uma senhora ainda bonita e frescalhona, mais nova dez<br \/>\n    anos que ele, que or&ccedil;ava pelos quarenta e tantos, o Sr. Paulino resolveu<br \/>\n    chegar &agrave; fala com a sua encantadora vizinha, que, pelos modos, era<br \/>\n    livre como os p&aacute;ssaros. Pelo menos morava sozinha, e recebia de vez<br \/>\n    em quando visitas misteriosas de tr&ecirc;s ou quatro sujeitos discretos que,<br \/>\n    antes de entrar, olhavam para tr&aacute;s, para adiante e para cima, o que<br \/>\n    era um meio mais seguro de serem observados.<\/p>\n<p>Essas visitas encorajaram necessariamente o Sr. Paulino; mas&#8230; como chegar<br \/>\n    &agrave; fala?&#8230; Da sua janela, onde ele raras vezes aparecia, limitando-se<br \/>\n    a espiar a vizinha por tr&aacute;s das venezianas, o pobre namorado jamais<br \/>\n    se animaria a fazer o menor gesto suspeito. Resolveu, pois, esperar que alguma<br \/>\n    circunst&acirc;ncia fortuita o favorecesse, ou por outra, que o diabo as armasse.<\/p>\n<p>N&atilde;o tardou a aparecer a circunst&acirc;ncia fortuita, que o diabo<br \/>\n    armou: uma tarde em que o Sr. Paulino voltava do emprego de guarda-livros<br \/>\n    de uma importante casa comercial, viu passar na Avenida a linda mulher que<br \/>\n    tanto o impressionara, e acompanhou-a at&eacute; a esta&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    Jardim Bot&acirc;nico, onde ela tomou um bonde 1!para o Leme.<\/p>\n<p>O Sr. Paulino, j&aacute; se sabe, tomou o mesmo bonde e sentou-se ao lado<br \/>\n    dela, que lhe cedeu gentilmente a ponta. A sujeita, que era matreira, percebeu<br \/>\n    que tinha sido acompanhada e aplanava o terreno para uma explica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O guarda-livros cobriu o rosto com A Not&iacute;cia e, fingindo que estava<br \/>\n    lendo, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Preciso muito falar-lhe.<\/p>\n<p>&#8211; Pois fale &#8211; respondeu ela fazendo com o leque o mesmo que o outro fazia<br \/>\n    com a r&oacute;sea folha vespertina.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui n&atilde;o; em sua casa. Quando h&aacute; de ser?<\/p>\n<p>&#8211; Quando quiser.<\/p>\n<p>&#8211; Amanh&atilde;?<\/p>\n<p>&#8211; Amanh&atilde;, seja! Sabe onde &eacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Sei; mas s&oacute; poderei l&aacute; ir depois das dez horas da noite,<br \/>\n    quando a rua estiver completamente deserta.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; Depois lhe direi.<\/p>\n<p>&#8211; Bom. Esper&aacute;-lo~ei &agrave;s dez e meia.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus!<\/p>\n<p>&#8211; At&eacute; amanh&atilde;!<\/p>\n<p>E o Sr. Paulino saltou no Largo da Lapa.<\/p>\n<p>No dia seguinte &agrave; hora indicada, o guarda-livros entrava em casa da<br \/>\n    vizinha, cuja porta achou entreaberta.<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que todo este mist&eacute;rio? &#8211; perguntou a tipa, que o recebeu<br \/>\n    como se o conhecesse de longos anos.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; porque moram ali defronte uns conhecidos meus.<\/p>\n<p>&#8211; Quem? O tal Paulino?<\/p>\n<p>&#8211; Conhece-o?<\/p>\n<p>&#8211; De nome apenas; nunca o vi. Querem ver que tamb&eacute;m voc&ecirc; gosta<br \/>\n    da mulher dele?<\/p>\n<p>&#8211; Da mulher de quem?&#8230; do Paulino?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, fa&ccedil;a-se de novas! Aquela &eacute; pior do que eu!<\/p>\n<p>&#8211; Mas de que Paulino fala a senhora? &#8211; perguntou o pobre homem, j&aacute;<br \/>\n    tr&ecirc;mulo e agitado.<\/p>\n<p>&#8211; Do Paulino que mora ali defronte. A ele nunca o vi, mas tenho visto os<br \/>\n    amantes da mulher!<\/p>\n<p>&#8211; Os amantes da mulher?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, coitado. &Eacute; ele a sair de casa, e os outros a entrar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Os outros?&#8230; Ent&atilde;o s&atilde;o muitos?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mais de um &eacute;, com certeza&#8230; J&aacute; vi dois: um rapaz alto, louro,<br \/>\n    rosado, elegante.<\/p>\n<p>&#8211; Deve ser o Gouveia!<\/p>\n<p>&#8211; E o outro baixinho, cheio de corpo, de bigode e p&ecirc;ra, pince-nez azul&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deve ser o Magalha-es! Dois amigos!&#8230;<\/p>\n<p>E o Sr. Paulino caiu desalentado numa cadeira. Tudo lhe andava &agrave; roda.<br \/>\n    Sentia as faces em fogo. Receou uma congest&atilde;o cerebral.<\/p>\n<p>A mulher notou que ele estava incomodado, e foi buscar &aacute;gua-da-col&ocirc;nia,<br \/>\n    que o reanimou.<\/p>\n<p>&#8211; Fui, talvez, indiscreta, disse ela; o tal Paulino &eacute; seu amigo, e<br \/>\n    voc&ecirc; n&atilde;o sabia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O tal Paulino sou eu, minha senhora; sou eu em carne e osso, e agrade&ccedil;o-lhe<br \/>\n    a informa&ccedil;&atilde;o. Se n&atilde;o viesse &agrave; sua casa, jamais<br \/>\n    saberia o que se passa na minha, e continuaria a ser um marido rid&iacute;culo<br \/>\n    sem o saber! Para alguma coisa me serviu essa aventura amorosa!<\/p>\n<p>E o Sr. Paulino saiu sem exigir da vizinha, at&ocirc;nita, outra coisa al&eacute;m<br \/>\n    de um copo d&#8217;&aacute;gua.<\/p>\n<p>No dia seguinte p&ocirc;s a mulher fora de casa, e cortou a chicote a cara<br \/>\n    do Gouveia. O Magalh&atilde;es escondeu-se e n&atilde;o foi encontrado, mas<br \/>\n    n&atilde;o perde por esperar.<\/p>\n<p>Ora, ai t&ecirc;m como o diabo as arma!<\/p>\n<h2><a name=\"33\">CONJUGO VOBIS<\/a><\/h2>\n<p>A formosa Angelina, filha do Seabra, tinha um namorado misterioso, que via<br \/>\n    passar todas as tardes por baixo das suas janelas. Era um bonito rapaz, dos<br \/>\n    seus trinta anos, esbelto, elegante, sempre muito bem trajado, sobrecasaca,<br \/>\n    chap&eacute;u alto, botinas de bico finas, bengala de cast&atilde;o de prata,<br \/>\n    pincenez de ouro. Limitava-se a cumpriment&aacute;-la sorrindo. Ela sorria<br \/>\n    tamb&eacute;m, para anim&aacute;-lo, mas, qual!, o mo&ccedil;o parecia de<br \/>\n    uma timidez invenc&iacute;vel, e o romance n&atilde;o passava do primeiro<br \/>\n    cap&iacute;tulo. &#8211; Com certeza um rapaz bem colocado, pensava Angelina, mas<br \/>\n    o diabo &eacute; que n&atilde;o se explica, e n&atilde;o hei de ser eu a primeira<br \/>\n    a chegar &agrave; fala! Afinal, um dia, passando, como de costume, ele atirou<br \/>\n    para dentro do corredor da mo&ccedil;a um bilhete em que estavam estas palavras:<br \/>\n    &quot;Amo-a, e desejava saber se sou correspondido.&quot; No dia seguinte<br \/>\n    ele apanhou a resposta, que ela atirou &agrave; rua: &quot;N&atilde;o posso<br \/>\n    dizer que o amo, porque n&atilde;o o conhe&ccedil;o, mas simpatizo muito com<br \/>\n    a sua pessoa. Diga-me quem &eacute;.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>Nessa mesma tarde, por uma dessas fatalidades a que est&atilde;o sujeitos<br \/>\n    os cora&ccedil;&otilde;es humanos, o Seabra, pai de Angelina, entrou em casa<br \/>\n    como uma bomba, esbaforido, carregado com muitos embrulhos, suando por todos<br \/>\n    os poros, e intimou a esposa e a filha (eram toda a sua fam&iacute;lia) a<br \/>\n    fazerem as malas, porque no dia seguinte, &agrave;s 5 horas da manh&atilde;,<br \/>\n    partiam para Caxambu. &#8211; Mas isto assim de repente! &#8211; protestou a velha. &#8211;<br \/>\n    Vai ser uma atrapalha&ccedil;&atilde;o! &#8211; N&atilde;o quero saber de nada!<br \/>\n    O m&eacute;dico disse-me que, se eu n&atilde;o partisse imediatamente para<br \/>\n    Caxambu, era um homem morto! Eu devia at&eacute; seguir pelo noturno! Estou<br \/>\n    com uma congest&atilde;o de f&iacute;gado em perspectiva!. Angelina ficou<br \/>\n    desesperada por n&atilde;o ter meios de prevenir o mo&ccedil;o e l&aacute;<br \/>\n    partiu para Caxambu com o cora&ccedil;&atilde;o amargurado. * * * N&atilde;o<br \/>\n    a lastimem compadecidas leitoras: com 10 dias de Caxambu Angelina tinha se<br \/>\n    esquecido completam ente do namorado. Isso n&atilde;o foi devido aos efeitos<br \/>\n    das &aacute;guas, que n&atilde;o servem para o cora&ccedil;&atilde;o como<br \/>\n    servem para o f&iacute;gado, mas &agrave; presen&ccedil;a de um rapaz que<br \/>\n    estava hospedado no mesmo hotel que a fam&iacute;lia Seabra e, em corre&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e eleg&acirc;ncia, nada ficava a dever ao outro. Era um m&eacute;dico do Rio<br \/>\n    de Janeiro, recentemente formado, mo&ccedil;o de talento e de futuro, que,<br \/>\n    de mais a mais, tinha fortuna pr&oacute;pria. O Seabra, que estava satisfeito<br \/>\n    da vida, porque o seu f&iacute;gado melhorava a olhos vistos, acolheu com<br \/>\n    entusiasmo a id&eacute;ia de um casamento entre Angelina e o jovem doutor,<br \/>\n    e era o primeiro a meter-lhe a filha &agrave; cara. Em conclus&atilde;o, o<br \/>\n    casamento foi tratado l&aacute; mesmo, sob o formoso e po&eacute;tico c&eacute;u<br \/>\n    do sul de Minas, para realizar-se, o mais breve poss&iacute;vel, na Capital<br \/>\n    Federal. <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> Regressando das &aacute;guas, onde se demorou um m&ecirc;s, Angelina viu<br \/>\n    passar o primeiro namorado, que olhou para ela com uma express&atilde;o de<br \/>\n    surpresa e de alegria, mas a mo&ccedil;a fechou o semblante. O semblante e<br \/>\n    a janela. E, para nunca mais ver passar o importuno, deixou dali em diante<br \/>\n    de debru&ccedil;ar-se no peitoril.<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>No dia do casamento, os noivos, as fam&iacute;lias dos noivos, as testemunhas<br \/>\n    e os convidados l&aacute; foram para a pretoria. &#8211; Tenham a bondade de esperar<br \/>\n    &#8211; disse-lhes o escriv&atilde;o. &#8211; O doutor n&atilde;o tarda a&iacute;. Sentaram-se<br \/>\n    todos em sil&ecirc;ncio, e pouco depois o pretor fazia a sua entrada solene.<br \/>\n    Angelina, ao v&ecirc;-lo, tornou-se l&iacute;vida e esteve a ponto de perder<br \/>\n    os sentidos. Ele estava at&ocirc;nito e surpreso. Era o primeiro namorado.<br \/>\n    O m&iacute;sero disfar&ccedil;ou como p&ocirc;de a como&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e resignou-se ao destino singular que o escolhia, a ele, para unir a outro<br \/>\n    &agrave; mulher que o seu cora&ccedil;&atilde;o desejava.<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>Quando todos os estranhos se retiraram, ficando na sala da pretoria apenas<br \/>\n    o juiz e o escriv&atilde;o, este perguntou &agrave;quele: &#8211; Que foi isso,<br \/>\n    doutor? O senhor sofreu qualquer abalo! N&atilde;o parecia o mesmo! Que lhe<br \/>\n    sucedeu? O mo&ccedil;o confiou-lhe tudo. O escriv&atilde;o, que era um velhote<br \/>\n    retr&oacute;grado e carola, ponderou: <\/p>\n<p>&#8211; Ora, a&iacute; est&aacute; um fato que s&oacute; se pode dar no casamento<br \/>\n    civil; no religioso &eacute; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<h2><a name=\"34\">DE CIMA PARA BAIXO<\/a><\/h2>\n<p>Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete, e imediatamente<br \/>\n    mandou chamar o diretor-geral da Secretaria<\/p>\n<p>Este, como se movido fosse por uma pilha el&eacute;trica, estava, poucos<br \/>\n    instantes depois, em presen&ccedil;a de sua excel&ecirc;ncia, que o recebeu<br \/>\n    com duas pedras na m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Estou furioso! &#8211; exclamou o conselheiro. &#8211; Por sua causa passei por uma<br \/>\n    vergonha diante de sua majestade o imperador!<\/p>\n<p>&#8211; Por minha causa? &#8211; perguntou o diretor-geral, abrindo muito olhos e batendo<br \/>\n    nos peitos.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor mandou-me na pasta um decreto de nomea&ccedil;&atilde;o sem o<br \/>\n    nome do funcion&aacute;rio nomeado!<\/p>\n<p>&#8211; Que me est&aacute; dizendo, excelent&iacute;ssimo&#8230;?<\/p>\n<p>E o diretor-geral, que era t&atilde;o passivo e humilde com os superiores<br \/>\n    qu&atilde;o arrogante e autorit&aacute;rio com os subalternos, apanhou rapidamente<br \/>\n    no ar o decreto que o ministro lhe atirou, em risco de lhe bater na cara,<br \/>\n    e, depois de escanchar a luneta no nariz, confessou em voz sumida:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade! Passou-me! N&atilde;o sei como isto foi&#8230;!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; imperdo&aacute;vel esta falta de cuidado! Deveriam merecer-lhe<br \/>\n    um pouco mais de aten&ccedil;&atilde;o os atos que t&ecirc;m de ser submetidos<br \/>\n    &agrave; assinatura de sua majestade, principalmente agora que, como sabe,<br \/>\n    est&aacute; doente o meu oficial de gabinete!<\/p>\n<p>E, dando um murro sobre a mesa, o ministro prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Por sua causa esteve iminente uma crise ministerial: ouvi palavras t&atilde;o<br \/>\n    desagrad&aacute;veis proferidas pelos augustos l&aacute;bios de sua majestade,<br \/>\n    que dei a minha demiss&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sua majestade n&atilde;o a aceitou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente; fez sua majestade muito bem.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o a aceitou porque me considera muito, e sabe que a um ministro<br \/>\n    ocupado como eu &eacute; f&aacute;cil escapar um decreto mal copiado.<\/p>\n<p>&#8211; Pe&ccedil;o mil perd&otilde;es a vossa excel&ecirc;ncia &#8211; protestou o diretor-geral,<br \/>\n    terrivelmente impressionado pela palavra demiss&atilde;o. O ac&uacute;mulo<br \/>\n    de servi&ccedil;o fez com que me escapasse t&atilde;o grave lacuna; mas afirmo<br \/>\n    a vossa excel&ecirc;ncia que de agora em diante hei de ter o maior cuidado<br \/>\n    em que se n&atilde;o reproduzam fatos desta natureza.<\/p>\n<p>O ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Bom! Mande reformar essa porcaria!<\/p>\n<p> O diretor-geral saiu, fazendo muitas mesuras, e chegando no seu gabinete,<br \/>\n    mandou chamar o chefe da 3&ordf; se&ccedil;&atilde;o que o encontrou fulo<br \/>\n    de c&oacute;lera.<\/p>\n<p>&#8211; Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do sr. ministro!<\/p>\n<p>&#8211; Por minha causa?<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. mandou-me na pasta um decreto sem o nome do funcion&aacute;rio nomeado!<\/p>\n<p>E atirou-lhe o papel, que caiu no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>O chefe da 3&ordf; se&ccedil;&atilde;o apanhou-o, at&ocirc;nito, e, depois<br \/>\n    de se certificar do erro, balbuciou:<\/p>\n<p>&#8211; Queira vossa senhoria desculpar, Sr. diretor&#8230; s&atilde;o coisas que acontecem&#8230;<br \/>\n    havia tanto servi&ccedil;o&#8230; e todo t&atilde;o urgente!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. ministro ficou, e com raz&atilde;o, exasperado! Tratou-me com toda<br \/>\n    a considera&ccedil;&atilde;o, com toda a afabilidade, mas notei que estava<br \/>\n    fora de si!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o era o caso para tanto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o era caso para tanto? Pois olhe, sua excel&ecirc;ncia disse-me<br \/>\n    que eu devia suspender o chefe de se&ccedil;&atilde;o que me mandou isto na<br \/>\n    pasta!<\/p>\n<p>&#8211; Eu&#8230; vossa senhoria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o o suspendo; limito-me a fazer-lhe uma simples advert&ecirc;ncia,<br \/>\n    de acordo com o regulamento.<\/p>\n<p>&#8211; Eu&#8230; vossa senhoria.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me responda! N&atilde;o fa&ccedil;a a menor observa&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Retire-se, e mande reformar essa porcaria!<\/p>\n<p> O chefe da 3&ordf; se&ccedil;&atilde;o retirou-se confundido, e foi ter<br \/>\n    &agrave; mesa do amanuense que t&atilde;o mal copiara o decreto:<\/p>\n<p>&#8211; Estou furioso, Sr. Godinho! Por sua causa passei por uma vergonha diante<br \/>\n    do Sr. diretor-geral!<\/p>\n<p>&#8211; Por minha causa?<\/p>\n<p>&#8211; O senhor &eacute; um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrig&iacute;vel!<br \/>\n    Este decreto n&atilde;o tem o nome do funcion&aacute;rio nomeado!<\/p>\n<p>E atirou o papel, que bateu no peito do amanuense.<\/p>\n<p>&#8211; Eu devia propor a sua suspens&atilde;o por quinze dias ou um m&ecirc;s:<br \/>\n    limito-me a repreend&ecirc;-lo na forma do regulamento! O que eu teria ouvido,<br \/>\n    se o Sr. diretor-geral n&atilde;o me tratasse com tanto respeito e considera&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; O expediente foi tanto, que n&atilde;o tive tempo de reler o que escrevi&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda o confessa!<\/p>\n<p>&#8211; Fiei-me em que o Sr. chefe passasse os olhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cale-se!&#8230; Quem sabe se o senhor pretende ensinar-me quais sejam as minhas<br \/>\n    atribui&ccedil;&otilde;es?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor, e pe&ccedil;o-lhe que me perdoe esta falta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cale-se, j&aacute; lhe disse, e trate de reformar essa porcaria!&#8230;<\/p>\n<p>O amanuense obedeceu.<\/p>\n<p>Acabado o servi&ccedil;o, tocou a campainha.<\/p>\n<p>Apareceu um continuo.<\/p>\n<p>&#8211; Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe da se&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; Por minha causa?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, por sua causa! Se voc&ecirc; ontem n&atilde;o tivesse levado tanto<br \/>\n    tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, n&atilde;o teria<br \/>\n    eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado!<\/p>\n<p>&#8211; Foi porque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se desculpe: voc&ecirc; &eacute; um cont&iacute;nuo muito relaxado!<br \/>\n    Se o chefe n&atilde;o me considerasse tanto, eu estava suspenso, e a culpa<br \/>\n    seria sua! Retire-se!<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Retire-se, j&aacute; lhe disse! E deve dar-se por muito feliz: eu poderia<br \/>\n    queixar-me de voc&ecirc;!&#8230;<\/p>\n<p> O continuo saiu dali, e foi vingar-se num servente preto, que cochilava<br \/>\n    num corredor da secretaria.<\/p>\n<p>&#8211; Estou furioso! Por tua causa passei pela vergonha de ser repreendido por<br \/>\n    um bigorrilhas!<\/p>\n<p>&#8211; Por minha causa?<\/p>\n<p>&#8211; Sim; quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel<br \/>\n    imperial, por que te demoraste tanto?<\/p>\n<p>&#8211; Porque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca! Isto aqui &eacute; andar muito direitinho, entendes? Porque,<br \/>\n    no dia em que eu me queixar de ti ao porteiro, est&aacute;s no olho da rua!<br \/>\n    Serventes n&atilde;o faltam!&#8230;<\/p>\n<p>O preto n&atilde;o redarg&uuml;iu.<\/p>\n<p>O pobre diabo n&atilde;o tinha ningu&eacute;m abaixo de si, em quem pudesse<br \/>\n    desforrar-se da agress&atilde;o do cont&iacute;nuo; entretanto, quando depois<br \/>\n    de jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava,<br \/>\n    deu um tremendo pontap&eacute; no seu c&atilde;o.<\/p>\n<p>O m&iacute;sero animal que vinha, alegre, dar-lhe as boas-vindas, grunhiu,<br \/>\n    grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os p&eacute;s.<\/p>\n<p>O c&atilde;o pagou pelo servente, pelo cont&iacute;nuo, pelo amanuense, pelo<br \/>\n    chefe de se&ccedil;&atilde;o, pelo diretor-geral e pelo ministro!&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"35\">DEN&Uacute;NCIA INVOLUNT&Aacute;RIA<\/a><\/h2>\n<p>O Lustosa era muito boa pessoa, mas tinha um defeito: gostava de intrometer-se<br \/>\n    na vida alheia, e bisbilhotar o que se passava em casa dos outros. Ele observou<br \/>\n    que uma bonita senhora, que morava defronte da casa dele, na Rua S&atilde;o<br \/>\n    Francisco Xavier, era regularmente visitada por dois amantes &#8211; um, j&aacute;<br \/>\n    de meia-idade, gordo, calvo, pesado, feio, e outro, muito novo ainda, bonito<br \/>\n    e elegante. O Lustosa imaginou logo, e imaginou muito bem, que o primeiro<br \/>\n    era o pagador e o segundo o amant de coeur. O primeiro, al&eacute;m de ser<br \/>\n    mais velho, tinha uns ares de dono de casa que n&atilde;o enganava a ningu&eacute;m;<br \/>\n    as suas visitas eram mais demoradas, duravam &agrave;s vezes toda a noite;<br \/>\n    ao passo que o outro aparecia de fugida, e n&atilde;o sa&iacute;a para a rua<br \/>\n    sem primeiro examinar se n&atilde;o passava algu&eacute;m. Ora, aconteceu<br \/>\n    que certa noite, achando-se numa soir&eacute;e familiar em casa de um amigo<br \/>\n    que fazia anos, o Lustosa foi apresentado ao rapaz, que tamb&eacute;m l&aacute;<br \/>\n    estava. A pessoa que fez a apresenta&ccedil;&atilde;o afastou-se, e o nosso<br \/>\n    indiscreto disse logo ao Peixoto que j&aacute; o conhecia. O mo&ccedil;o chamava-se<br \/>\n    Peixoto. <\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; me conhecia?<\/p>\n<p> De onde? <\/p>\n<p>&#8211; perguntou este muito intrigado. &#8211; Da Rua S&atilde;o Francisco Xavier. .\n  <\/p>\n<p>&#8211; Cale-se! Por amor de Deus, n&atilde;o me comprometa! <\/p>\n<p>Eu tenho fam&iacute;lia, sou casado, e minha mulher est&aacute; aqui! <\/p>\n<p>Olhe, &eacute; aquela senhora vestida de azul. <\/p>\n<p>&#8211; Pois eu supunha-o solteiro; mas descanse; por mim ningu&eacute;m saber&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Aquilo &eacute; um contrabando. S&atilde;o destas coisas em que a gente<br \/>\n    se mete n&atilde;o sabe como, e de que &eacute; muito dif&iacute;cil livrar-se.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Ora! <\/p>\n<p>O amigo ainda est&aacute; na idade, n&atilde;o acabou ainda de pagar o seu<br \/>\n    tributo; mas tenha cuidado: sexta-feira passada, quando o senhor entrou, o<br \/>\n    outro mal tinha acabado de sair! <\/p>\n<p>Por mais dois ou tr&ecirc;s minutos encontravam-se &agrave; porta. Eu moro<br \/>\n    defronte, e vi tudo por tr&aacute;s da veneziana. <\/p>\n<p>&#8211; O senhor disse &quot;o outro&quot;. Que outro? <\/p>\n<p>&#8211; O dono. <\/p>\n<p>&#8211; Como o dono? <\/p>\n<p>O dono sou eu! &#8211; Quero dizer: o &quot;marchante&quot;. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; outro marchante sen&atilde;o este seu criado! Dar-se-&aacute;<br \/>\n    caso que aquela mulher receba um homem quando eu l&aacute; n&atilde;o estou?<\/p>\n<p> Dar-se-&aacute; que me engane? <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! N&atilde;o creio que ela o engane com um homem feio, que podia<br \/>\n    ser pai do senhor&#8230; um sujeito barrigudo&#8230; careca&#8230; O Lustosa reconheceu<br \/>\n    a asneira que tinha feito, mas era tarde. <\/p>\n<p>&#8211; Meu caro senhor, disse o Peixoto, as mulheres s&atilde;o capazes de tudo.<br \/>\n    Tenho a&iacute; um carro &agrave; porta. Vou at&eacute; l&aacute;. Quero verificar<br \/>\n    agora mesmo se sou tra&iacute;do por aquele diabo. A ocasi&atilde;o e excelente.<br \/>\n    Ela n&atilde;o me espera, porque sabe que vim a esta reuni&atilde;o&#8230; minha<br \/>\n    mulher est&aacute; distra&iacute;da&#8230; At&eacute; logo! O Peixoto saiu, e<br \/>\n    pouco depois ouvia-se rodar o carro. O Lustosa ficou perguntando a si mesmo<br \/>\n    quando se corrigiria daquele mau costume de intrometer-se na vida alheia.<br \/>\n    O Peixoto voltou ao cabo de uma hora, e foi logo ter com ele. &#8211; Obrigado pelo<br \/>\n    servi&ccedil;o que me prestou. Surpreendi l&aacute; dentro o careca em ceroulas.<br \/>\n    Ela quis me convencer que era um tio. <\/p>\n<p>Desavergonhada! <\/p>\n<p>Estou livre daquela p&eacute;la! <\/p>\n<p>&#8211; Pois, senhores, disse o Lustosa, dei rata, dei: mas quem podia supor que<br \/>\n    o senhor, com essa mocidade e com esses olhos, era o marchante, e o outro,<br \/>\n    com aquela cara, o coi&oacute;! Decididamente, em se tratando de mulheres,<br \/>\n    devemos sempre contar com o absurdo e o inveross&iacute;mil!<\/p>\n<h2><a name=\"36\">D\u00e9z por Cento<\/a><\/h2>\n<p>Naquela noite o Gama e o Carvalho, dois famosos banqueiros de roleta, inauguravam<br \/>\n    a sua casa de jogo no Rocio, que naquele tempo n\u00e3o era ainda a Pra\u00e7a Tiradentes.<\/p>\n<p>Os dois s\u00f3cios n\u00e3o se furtaram a despesas; o antro estava mobiliado e alcatifado<br \/>\n    com certo luxo; os m\u00f3veis eram do Moreira Santos.<\/p>\n<p>Na sala de frente, em cujas paredes se ostentavam dois suntuosos espelhos<br \/>\n    e quatro enormes gravuras de Jazet, ricamente emolduradas, havia um magn\u00edfico<br \/>\n    bilhar.<\/p>\n<p>Na sala de jantar, a mesa, posta para um banquete, agradava aos olhos, pela<br \/>\n    risonha promiscuidade das flores, dos frutos, das porcelanas e dos cristais.<\/p>\n<p>A roleta ficava ao fundo, num vasto compartimento que tinha sido dormit\u00f3rio<br \/>\n    nos bons tempos em que a casa era habitada por uma fam\u00edlia patriarcal e honesta.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>\u00c0s nove horas o Carvalho dava \u00e0 bola com a serenidade ol\u00edmpica de um veterano<br \/>\n    encanecido naquelas campanhas.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 todos os lugares estavam ocupados, como havia muitos indiv\u00edduos de<br \/>\n    p\u00e9, uns em volta da banca, debru\u00e7ados, enchendo de fichas policromas o pano<br \/>\n    verde, outros afastados, assistindo de longe \u00e0 batalha, esperando o palpite.<\/p>\n<p>De todos os jogadores o mais calmo era o Coronel Mascarenhas.<\/p>\n<p>Sentado \u00e0 extremidade da banca, a luneta bifurcada no nariz, olhando com<br \/>\n    tranq\u00fcilidade, ora para as soberbas paradas que fazia, ora para o banqueiro,<br \/>\n    sem que nada mais lhe distra\u00edsse a aten\u00e7\u00e3o, ele apontava exclusivamente nos<br \/>\n    seis \u00faltimos n\u00fameros do pano: 31, 32, 33, 34, 35 e 36.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Esse homem que, havia cinco anos, a fatalidade afastara da sua bela fazenda<br \/>\n    de Cantagalo, e conduzira a uma casa de jogo da Rua da Constitui\u00e7\u00e3o, estava<br \/>\n    completamente subjugado pelos tent\u00e1culos do vicio.<\/p>\n<p>Todos os seus teres e haveres tinham, pouco a pouco, desaparecido naquele<br \/>\n    medonho sorvedouro: terras, casas, ap\u00f3lices, tudo perdeu, inclusive mulher<br \/>\n    e filhos, que se apartaram dele, salvando uns tristes vest\u00edgios da fortuna<br \/>\n    de outrora.<\/p>\n<p>Mascarenhas n\u00e3o tinha agora outra ocupa\u00e7\u00e3o nem outra preocupa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o<br \/>\n    fosse o jogo. Dormia numa casa de pens\u00e3o at\u00e9 \u00e0s duas horas da tarde, e dessa<br \/>\n    hora em diante deixava-se absorver pelo v\u00edcio at\u00e9 de madrugada, jantando e<br \/>\n    ceando fartamente nas casas onde jogava.<\/p>\n<p>Dantes era um parceiro arrogante, muito orgulhoso da sua propriedade agr\u00edcola,<br \/>\n    afrontando a sorte com um garbo e uma sobranceria que todos admiravam; depois<br \/>\n    de arruinado, tornara-se uma criatura humilde, jo\u00e3o-ningu\u00e9m vencido pela adversidade,<br \/>\n    tolerado pelos banqueiros apenas em aten\u00e7\u00e3o ao seu passado de perdul\u00e1rio.<br \/>\n    Era mal visto pelos jogadores felizes, que o consideravam &#8220;cabuloso&#8221;; vivia<br \/>\n    de expedientes, freq\u00fcentando muitas vezes as casas de jogo apenas para alimentar-se,<br \/>\n    aproveitando as &#8220;aragens&#8221; para tentar reaver a sua posi\u00e7\u00e3o e o seu dinheiro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da inaugura\u00e7\u00e3o do &#8220;clube&#8221; (chamavam-lhe clube) do Gama e do Carvalho,<br \/>\n    o Coronel Mascarenhas tivera, sem d\u00favida, uma dessas &#8220;aragens&#8221;: dez vezes<br \/>\n    comprou cem fichas de dez tost\u00f5es, e dez vezes, coitado! a bola rodou sem<br \/>\n    cair em nenhum dos seis n\u00fameros em que ele apontava. O rateau do banqueiro<br \/>\n    levou-lhe um conto de r\u00e9is.<\/p>\n<p>Depois de perdido o \u00faltimo vint\u00e9m, o desgra\u00e7ado passeou pelos circunstantes<br \/>\n    um olhar que solicitava um pouco de piedade, mas ningu\u00e9m deu por isso. Dirigiu-se<br \/>\n    ent\u00e3o ao Carvalho, que continuava a dar \u00e0 bola, imperturbavelmente, e disse-lhe<br \/>\n    em voz alta:<\/p>\n<p>&#8211; Faz favor de me dar os vinte por cento?<\/p>\n<p>&#8211; Quais vinte por cento? perguntou o banqueiro, arregalando os olhos. \u00c9 boa!<br \/>\n    Os vinte por cento a que t\u00eam direito os pontos sobre as quantias que perdem.<\/p>\n<p>&#8211; Direito?!<\/p>\n<p>&#8211; Direito, sim, senhor! \u00c9 uma concess\u00e3o que fazem hoje todas as casas de<br \/>\n    jogo!<\/p>\n<p>&#8211; Todas, menos esta!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me diga isso!<\/p>\n<p>&#8211; Digo, sim senhor! A casa n\u00e3o preveniu a ningu\u00e9m que faria semelhante concess\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o preveniu, mas estava subentendido, porque n\u00e3o h\u00e1 hoje banqueiro de<br \/>\n    roleta que n\u00e3o d\u00ea os vinte por cento&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1, sim, senhor, e esse banqueiro sou eu!<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso devia ter-me avisado que os n\u00e3o dava, porque t\u00e3o tolo n\u00e3o seria<br \/>\n    eu que, gozando dessa vantagem na casa do Jojoca, na do Quincas e na do Machado,<br \/>\n    viesse jogar aqui!<\/p>\n<p>&#8211; O que disse est\u00e1 dito! N\u00e3o dou os vinte por cento!<\/p>\n<p>&#8211; Mas atenda.<\/p>\n<p>Entretanto, os outros pontos come\u00e7avam a impacientar-se; o gordo Comendador<br \/>\n    Fraga, que jogava muito, com uma felicidade assombrosa, e suava por todos<br \/>\n    os poros, gritou brutalmente:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4 Carvalho! d\u00ea os tais vinte por cento a esse homem, e ele que nos favore\u00e7a<br \/>\n    com a sua aus\u00eancia!<\/p>\n<p>&#8211; E insuport\u00e1vel! bradou outro ponto. Quem n\u00e3o pode perder n\u00e3o joga!<\/p>\n<p>Um vencido, que assistia de parte, ao jogo, depois de ter colocado, muito<br \/>\n    dobradinha, em cima do 17, uma velha nota de quinhentos r\u00e9is, a derradeira,<br \/>\n    observou:<\/p>\n<p>&#8211; Perdi tudo quanto trazia e n\u00e3o exigi porcentagem&#8230;<\/p>\n<p>Mas o Coronel Mascarenhas insistia, lamuriento, com l\u00e1grimas na voz, desfiando<br \/>\n    o longo ros\u00e1rio das suas mis\u00e9rias, humilhando-se, amea\u00e7ando suicidar-se, e,<br \/>\n    afinal, chorando, chorando, como uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Excusado \u00e9 dizer que ningu\u00e9m se sensibilizou com isso; mas o Carvalho, querendo<br \/>\n    ver-se livre do importuno, foi consultar o Gama, que jogava bilhar, na sala<br \/>\n    da frente e voltou com a seguinte decis\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Coronel, a casa n\u00e3o se comprometeu a fazer concess\u00f5es de esp\u00e9cie alguma<br \/>\n    aos jogadores infelizes; entretanto, para se ver livre do senhor, resolveu<br \/>\n    dar-lhe, n\u00e3o vinte, ruas dez por cento, sob a condi\u00e7\u00e3o de que o senhor nunca<br \/>\n    mais h\u00e1 de jogar aqui.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 l\u00e1, murmurou o desgra\u00e7ado; aceito.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tem cem mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>O coronel apanhou no v\u00f4o a nota que o Carvalho atirou com o firme prop\u00f3sito<br \/>\n    de lhe bater com ela no rosto, amarrou-a nas m\u00e3os, guardou-a na algibeira<br \/>\n    do colete, ergueu-se lentamente, e saiu, dizendo: &#8211; Seja tudo por amor de<br \/>\n    Deus! Meus senhores, muito boas noites!<\/p>\n<p>Acompanharam-no risos sard\u00f4nicos e dit\u00e9rios ofensivos, como: &#8211; Ora gra\u00e7as!<br \/>\n    &#8211; Que tipo! &#8211; N\u00e3o tem vergonha! &#8211; Quem n\u00e3o chora n\u00e3o mama! etc.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Uma hora depois, terminada a banca, estavam todos \u00e0 mesa, fazendo honra \u00e0<br \/>\n    op\u00edpara ceia com que os regalavam os donos do estabelecimento, quando entrou,<br \/>\n    como um foguete, o Costinha, tipo que passava as noites percorrendo aquelas<br \/>\n    casas, uma por uma, para contar aqui, o que se passava acol\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Querem saber uma grande novidade? perguntou o rec\u00e9m-chegado.<\/p>\n<p>&#8211; Qual? interrogaram todos em coro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu estava em casa do Jojoca quando l\u00e1 apareceu o Coronel Mascarenhas, que<br \/>\n    ia correndo de c\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o? perguntou o Carvalho, que presidia o banquete.<\/p>\n<p>&#8211; Ele contou a hist\u00f3ria dos cem mil-r\u00e9is&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Canalha! Sem vergonha! Malandro! Miser\u00e1vel! etc., vociferaram todos os<br \/>\n    convivas.<\/p>\n<p>&#8211; E ainda foi gabar-se aquele c\u00ednico! obtemperou o Comendador Fraga.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7am o resto! bradou o Costinha. Ele tirou da algibeira a nota amarrotada,<br \/>\n    comprou cinq\u00fcenta fichas e jogou-as todas no &#8220;esguicho&#8221; do 31 ao 36. Saiu<br \/>\n    o 31.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Dobrou a parada e jogou em pleno em todos os seis n\u00fameros, carregando no<br \/>\n    34. Repetiu o 34!<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>&#8211; Na parada seguinte deu o 32, depois veio mais uma vez o 34, para encurtar<br \/>\n    raz\u00f5es: em dez ou doze bolas o coronel deu um tiro de quarenta contos! O Jojoca<br \/>\n    est\u00e1 furioso!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&#8211; Quarenta contos! quarenta contos!&#8230;<\/p>\n<p>Os jogadores estavam at\u00f4nitos. Alguns se ergueram, outros cruzaram os talheres,<br \/>\n    todos se entreolharam. Houve um momento de sil\u00eancio glacial.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, o coronel n\u00e3o \u00e9 peco&#8230; sabe jogar&#8230; quando ganha, atira-se, e faz<br \/>\n    muito bem, disse o Carvalho.<\/p>\n<p>&#8211; Decerto, concordaram alguns.<\/p>\n<p>&#8211; E ele acaba de provar, replicou o gordo Comendador Fraga, que n\u00e3o deixava<br \/>\n    de ter raz\u00e3o exigindo a porcentagem.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, concluiu outro; a porcentagem \u00e9 muitas vezes a salva\u00e7\u00e3o do ponto.<br \/>\n    Vejam como os dez por cento grelaram!<\/p>\n<p>&#8211; E o que nos pareceu uma canalhice&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Era um ato inteligente, isso era, e a prova a\u00ed est\u00e1 que com os cem mil-r\u00e9is<br \/>\n    levantou quarenta contos.<\/p>\n<p>&#8211; A sorte foi justa, ponderou o Gama, o Coronel Mascarenhas perdeu \u00e0 roleta<br \/>\n    tudo quanto possu\u00eda.<\/p>\n<p>&#8211; Era um fazendeiro importante.<\/p>\n<p>&#8211; Muito boa pessoa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E honesto; nunca jogou sen\u00e3o o que era seu.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Todos os comensais se desfaziam em louvores ao Coronel Mascarenhas, quando<br \/>\n    este assomou \u00e0 porta da sala.<\/p>\n<p>O Carvalho e o Gama ergueram-se de um salto e foram ao encontro dele para<br \/>\n    apertar-lhe a m\u00e3o e abra\u00e7\u00e1-lo. Alguns dos circunstantes fizeram o mesmo, e<br \/>\n    o ex-fazendeiro foi alvo de uma verdadeira ova\u00e7\u00e3o. Entretanto, conservava-se<br \/>\n    calado.<\/p>\n<p>&#8211; Venha cear, coronel! A canja est\u00e1 deliciosa! disse o Carvalho.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, respondeu Mascarenhas, com toda a simplicidade; eu fui expulso<br \/>\n    desta casa, e aqui n\u00e3o tornaria a p\u00f4r os p\u00e9s, se a sorte n\u00e3o me favorecesse,<br \/>\n    proporcionando-me ocasi\u00e3o de restituir dez por cento a que n\u00e3o tinha direito,<br \/>\n    e que me atiraram como uma esmola infame&#8230;<\/p>\n<p>Estas palavras foram acolhidas com mil protestos e desculpas, mas o Coronel<br \/>\n    Mascarenhas, que recuperara a sua antiga arrog\u00e2ncia, a nada atendeu, e atirou<br \/>\n    \u00e0 cara do Carvalho a mesma nota amarrotada com que sa\u00edra.<\/p>\n<p>Alguns dias depois o pobre homem aparecia inopinadamente \u00e0 mulher e aos filhos,<br \/>\n    dizendo-lhes:<\/p>\n<p>&#8211; Passei ultimamente por tamanha vergonha, e ao mesmo tempo tive uma felicidade<br \/>\n    t\u00e3o inaudita, que os dois fatos se combinaram para salvar-me, evitando que<br \/>\n    eu descesse ainda mais abaixo.<\/p>\n<p>&#8220;Trago o preciso para come\u00e7ar de novo a trabalhar, e trabalharei, se voc\u00eas<br \/>\n    me perdoarem.&#8221;<\/p>\n<p>Perdoado, o Coronel Mascarenhas, se bem o disse, melhor o fez. Hoje n\u00e3o joga<br \/>\n    nem mesmo a bisca em fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O jogo passa por ser um v\u00edcio incur\u00e1vel, mas afian\u00e7o ao leitor que esse final<br \/>\n    \u00e9 verdadeiro. L\u00e1 disse o outro que a verdade nem sempre \u00e9 veross\u00edmil<\/p>\n<h2><a name=\"37\">OS DOIS ANDARES<\/a><\/h2>\n<p>Um dos mais importantes estabelecimentos da capital de prov&iacute;ncia onde<br \/>\n    se passa este conto, era, h&aacute; vinte anos, a casa importadora Cerqueira<br \/>\n    &amp; Santos, na qual se sortiam numerosos lojistas da cidade e do interior.<\/p>\n<p>O Santos era pai de fam&iacute;lia e morava num arrabalde; o Cerqueira, solteir&atilde;o,<br \/>\n    ocupava, sozinho, o segundo andar do magn&iacute;fico pr&eacute;dio erguido<br \/>\n    sobre o armaz&eacute;m.<\/p>\n<p>No primeiro andar, que era menos arejado, moravam os caixeiros, e se hospedavam,<br \/>\n    de vez em quando, alguns fregueses do interior, que vinham &agrave; cidade<br \/>\n    &quot;fazer sortimento&quot;, e bem caro pagavam essa hospedagem.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O principal caixeiro era o Novais, mo&ccedil;o de vinte e cinco anos, apessoado<br \/>\n    e simp&aacute;tico.<\/p>\n<p>De uma janela do primeiro e de todas as janelas do segundo andar avistavam-se<br \/>\n    os fundos da casa do Capit&atilde;o Linhares, situada numa rua perpendicular<br \/>\n    &agrave; de Cerqueira &amp; Santos.<\/p>\n<p>Esse Capit&atilde;o L&iacute;nhares tinha uma filha de vinte anos, que era,<br \/>\n    na opini&atilde;o geral, uma das mo&ccedil;as mais bonitas da cidade.<\/p>\n<p>Helena (ela chamava-se Helena) costumava ir para os fundos da casa paterna<br \/>\n    e postar-se, todas as tardes, a uma janela da cozinha, precisamente &agrave;<br \/>\n    hora em que, fechado o armaz&eacute;m, terminado o jantar e saboreado o caf&eacute;,<br \/>\n    o Novais por seu turno se debru&ccedil;ava &agrave; janela do primeiro andar.<\/p>\n<p>O caixeiro pensou, e pensou bem, n&atilde;o ser coisa muito natural que,<br \/>\n    desejando espairecer &agrave; janela, a rapariga deixasse a sala pela cozinha,<br \/>\n    a frente pelos fundos, e logo se convenceu de que era ele o objeto que a atra&iacute;a<br \/>\n    todas as tardes a um lugar t&atilde;o impr&oacute;prio.<\/p>\n<p>As duas janelas, a dela e a dele, ficavam longe uma da outra, e o Novais,<br \/>\n    que n&atilde;o tinha olhos de lince, n&atilde;o podia verificar, num sorriso,<br \/>\n    num olhar, num gesto, se efetivamente era em sua inten&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    Helena se sujeitava &agrave;quele ambiente culin&aacute;rio.<\/p>\n<p>Uma tarde lembrou-se de assestar contra ela um bin&oacute;culo de teatro,<br \/>\n    e teve a satisfa&ccedil;&atilde;o de distinguir claramente um sorriso que<br \/>\n    o estonteou.<\/p>\n<p>Entretanto, a mo&ccedil;a, desde que se viu observada t&atilde;o de perto,<br \/>\n    fugiu arrebatadamente para o interior da casa.<\/p>\n<p>O Novais imaginou logo que a ofendera aquela engenhosa interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da &oacute;tica; ela, por&eacute;m, voltou &agrave; janela da cozinha, trazendo,<br \/>\n    por sua vez, um bin&oacute;culo, que assestou resolutamente contra o vizinho.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ficou radiante o Novais, e lembrou-se ent&atilde;o de que certo domingo,<br \/>\n    passando pela casa do Capit&atilde;o Linhares, a filha, que se achava &agrave;<br \/>\n    janela, cuspiu-lhe na manga do palet&oacute;. Ele olhou para cima, e ela,<br \/>\n    sorrindo, disse-lhe: &#8211; Desculpe.<\/p>\n<p>Agora via o ditoso caixeiro que aquele cuspo tinha sido o meio mais simples<br \/>\n    e mais r&aacute;pido que no momento ela encontrou para chamar-lhe a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o era um meio limpo nem rom&acirc;ntico; original, isso era.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A princ&iacute;pio, n&atilde;o passou o namoro de inocentes sorrisos, porque<br \/>\n    os bin&oacute;culos, ocupando as m&atilde;os, impediam, naturalmente, os gestos;<br \/>\n    mas, passados alguns dias, tanto ela como ele pegavam no bin&oacute;culo com<br \/>\n    a m&atilde;o esquerda e com a direita atiravam beijos um ao outro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Aconteceu que o Novais apanhou um resfriamento e foi obrigado a ficar alguns<br \/>\n    dias de cama, ardendo em febre. Quando se levantou, pronto para outra, o seu<br \/>\n    primeiro cuidado foi, necessariamente, mostrar-se a Helena. Esperou com impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    pela hora costumada, que nunca lhe tardou tanto.<\/p>\n<p>Afinal, &agrave;s cinco e meia correu &agrave; janela; mas, antes de abri-la,<br \/>\n    ocorreu-lhe espreitar por uma fresta&#8230; Ficou pasmado! A mo&ccedil;a l&aacute;<br \/>\n    estava, de bin&oacute;culo, a atirar beijos de longe!. &#8211; Mas a quem?&#8230; Ela<br \/>\n    n&atilde;o o via, n&atilde;o o podia ver: a janela estava fechada!&#8230; Quem<br \/>\n    era o destinat&aacute;rio daqueles beijos?&#8230;<\/p>\n<p>Uma id&eacute;ia atravessou-lhe o c&eacute;rebro: o Novais debru&ccedil;ou-se<br \/>\n    a janela cont&iacute;gua e olhou para cima&#8230; O seu patr&atilde;o, o Cerqueira,<br \/>\n    na janela do segundo andar, munido tamb&eacute;m de um bin&oacute;culo, namorava<br \/>\n    a sua namorada!&#8230;<\/p>\n<p>A coisa explica-se:<\/p>\n<p>O negociante, surpreendendo, alguns dias antes, os beijos da rapariga, sup&ocirc;s<br \/>\n    que eram para ele e correspondeu imediatamente.<\/p>\n<p>Helena, que era paup&eacute;rrima e ambiciosa, fez consigo esta reflex&atilde;o<br \/>\n    pr&aacute;tica:<\/p>\n<p>&#8211; Que feliz engano! Apanhei um marido rico! O Novais &eacute; um simples<br \/>\n    caixeiro&#8230; o Cerqueira &eacute; o chefe de uma firma importante. . . Aquele<br \/>\n    namora para divertir-se&#8230; este casa-se&#8230;<\/p>\n<p>E o seu cora&ccedil;&atilde;o passou com armas e bagagens do primeiro para<br \/>\n    o segundo andar.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s meses depois, Helena casava-se com o patr&atilde;o de Novais,<br \/>\n    e ia morar no segundo andar, convenientemente preparado para receb&ecirc;-la.<\/p>\n<p>Ela e o caixeiro encontravam-se diariamente ao almo&ccedil;o e ao jantar.<br \/>\n    Os patr&otilde;es, a patroa, o guarda-livros, os h&oacute;spedes e o Novais<br \/>\n    comiam em mesa comum.<\/p>\n<p>Durante os primeiros dias que se seguiram ao casamento, n&atilde;o se atrevia<br \/>\n    Helena a encarar o ex-namorado, mas pouco a pouco foi se desenvergonhando,<br \/>\n    e por fim j&aacute; lhe dizia: &#8211; Bom dia, seu Novais! &#8211; Boa tarde, seu Novais!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Certa manh&atilde; em que o rapaz acordou muito cedo e foi para a janela<br \/>\n    antes que abrissem o armaz&eacute;m, viu cair-lhe na manga do palet&oacute;<br \/>\n    um pequeno c&iacute;rculo de saliva, muito alvo, que parecia um bot&atilde;o.<\/p>\n<p>Olhou para o segundo andar, e deu com os olhos em Helena, que lhe disse muito<br \/>\n    risonha: &#8211; Desculpe -, e em seguida lhe deu uns bons dias sonoros e argentinos.<\/p>\n<p>O cuspo da mo&ccedil;a avivou-lhe as recorda&ccedil;&otilde;es do seu namoro<br \/>\n    pulha; mas o Novais teve ju&iacute;zo: n&atilde;o abusou da situa&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O Cerqueira, que um ano depois de casado foi pai de uma linda crian&ccedil;a,<br \/>\n    n&atilde;o gozou por longo tempo as del&iacute;cias da paternidade; morreu.<\/p>\n<p>Morreu, e a vi&uacute;va, passado o luto, casou-se com o Novais, que se tornara<br \/>\n    o &quot;bra&ccedil;o direito da casa&quot;.<\/p>\n<p>O mo&ccedil;o a princ&iacute;pio protestou briosameate, rejeitando a posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que a fortuna lhe deparava; mas, como era feito da mesma lama que a maioria<br \/>\n    dos homens, cedeu &agrave;s sedu&ccedil;&otilde;es e &aacute;s l&aacute;grimas<br \/>\n    de Helena, e passou do primeiro para o segundo andar.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A&iacute; est&aacute; por que a casa Cerqueira &amp; Santos &eacute; hoje<br \/>\n    Santos &amp; Novais.<\/p>\n<p>(Contos Poss&iacute;veis)<\/p>\n<h2><a name=\"38\">DONA EUL&Aacute;LIA<\/a><\/h2>\n<p>Quando cheguei, a casa mortu&aacute;ria estava cheia de gente.<\/p>\n<p>No centro da sala, forrada de preto, havia uma essa entre quatro enormes<br \/>\n    tochas acesas, e sobre a essa um caix&atilde;o, dentro do qual D. Eul&aacute;lia<br \/>\n    dormia o &uacute;ltimo sono.<\/p>\n<p>J&aacute; tinha passado a hora do saimento.<\/p>\n<p>Faltava apenas o padre.<\/p>\n<p>O padre n&atilde;o aparecia.<\/p>\n<p>O vi&uacute;vo, comovido, mas calmo, perfeitamente calmo, perguntou a um<br \/>\n    parente, que pelos modos tinha se encarregado do enterro:<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o?.. . esse padre?..<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; c&aacute; devia estar. O Tio Eus&eacute;bio quer que eu v&aacute;<br \/>\n    busc&aacute;-lo?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; favor, Casuza.<\/p>\n<p>E o parente saiu muito apressado.<\/p>\n<p>Dez minutos depois, o Ens&eacute;bio aproximou-se de mim e disse-me baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; E nada de padre! Estava escrito que este dia n&atilde;o passava para mim<br \/>\n    sem alguma contrariedade&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Justifiquemos esse grito do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O Eus&eacute;bio n&atilde;o foi um marido feliz; D. Eul&aacute;lia, que tinha<br \/>\n    muito mau g&ecirc;nio, transformara-lhe a vida num verdadeiro inferno.<\/p>\n<p>O pobre homem n&atilde;o tinha voz ativa dentro de casa; era repreendido<br \/>\n    como um f&acirc;mulo quando entrava mais tarde; devia dar contas de um n&iacute;quel,<br \/>\n    de um miser&aacute;vel n&iacute;quel que lhe desaparecesse do bolso!<\/p>\n<p>Apesar de casado havia j&aacute; quinze anos, ele n&atilde;o se pudera habituar<br \/>\n    a essa exist&ecirc;ncia rid&iacute;cula, e sentia-se envelhecer prematuramente<br \/>\n    na alma e no corpo.<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha filhos, &#8211; e era melhor assim, porque com certeza, D. Eul&aacute;lia<br \/>\n    n&atilde;o lhos perdoaria. Pensava bem: pudesse ela contrariar a natureza,<br \/>\n    e fecund&aacute;-lo-ia, para humilh&aacute;-lo ainda mais!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Durante os primeiros tempos de regime conjugal, o Eus&eacute;bio tentou reagir<br \/>\n    contra o mau g&ecirc;nio de D. Eul&aacute;lia; num dia, por&eacute;m, que<br \/>\n    lhe falou mais alto e lhe bateu o p&eacute;, recebeu em troca uma tremenda<br \/>\n    bofetada, cujo estalo ressoou em todo o quarteir&atilde;o. Durante quinze<br \/>\n    dias a vizinhan&ccedil;a n&atilde;o se ocupou de outra coisa.<\/p>\n<p>O marido que apanha da cara metade est&aacute; perdido; o que apanha e chora,<br \/>\n    est&aacute; irremessivelmente perdido. O Eus&eacute;bio apanhou e chorou&#8230;<\/p>\n<p>Daquele dia em diante foi-se-lhe toda a autoridade marital: tornou-se em<br \/>\n    casa um manequim, um pax vobis, um jo&atilde;o-ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Era, entretanto, um homem simp&aacute;tico, virtuoso, apreciad&iacute;ssimo<br \/>\n    por numerosos amigos e muito conceituado na reparti&ccedil;&atilde;o de onde<br \/>\n    tirava o necess&aacute;rio para que nada faltasse a D. Eul&aacute;lia.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>De todas as ma&ccedil;adas a que estava afeito o nosso Eus&eacute;bio, nenhuma<br \/>\n    o ralava tanto como a de procurar cozinheira, o que lhe acontecia a mi&uacute;do,<br \/>\n    porque, gra&ccedil;as ao mau g&ecirc;nio da dona da casa, a cozinha estava<br \/>\n    constantemente abandonada.<\/p>\n<p>Como as impertin&ecirc;ncias de D. Eul&aacute;lia j&aacute; tinham fama no<br \/>\n    bairro, e nenhuma criada queria servir aquela ama, o Eus&eacute;bio era obrigado<br \/>\n    a procurar cozinheira muito longe de casa.<\/p>\n<p>O que ele queria era alug&aacute;-la, mas bem sabia que, na venda, a rec&eacute;m-chegada<br \/>\n    seria logo posta ao corrente de tais impertin&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Um dia o pobre marido foi muito cedo arrancado da cama pela mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Levante-se, tome banho, vista-se e v&aacute; procurar uma cozinheira!<\/p>\n<p>&#8211; Qu&ecirc;!&#8230; pois a Maria&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; Acabo de p&ocirc;-la no olho da rua!<\/p>\n<p>&#8211; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute; da sua conta! Mexa-se!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uma cozinheira que n&atilde;o estava em casa h&aacute; oito dias!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta de observa&ccedil;&otilde;es! Quem manda aqui sou eu! Vamos! vista-se!<br \/>\n    E nada de ag&ecirc;ncias, hem? olhe que se me traz cozinheira de ag&ecirc;ncia,<br \/>\n    n&atilde;o passa da porta da rua!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Nesse dia o Eus&eacute;bio teria purgado todos os seus pecados, se os tivera,<br \/>\n    e se D. Eul&aacute;lia n&atilde;o fosse j&aacute; um purgat&oacute;rio bastante.<\/p>\n<p>O pobre-diabo, que morava no Rio Comprido, foi, levado por informa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    procurar uma cozinheira em S&atilde;o Francisco Xavier. J&aacute; estava alugada;<br \/>\n    entretanto, l&aacute; lhe disseram que no Morro do Pinto havia outra, muito<br \/>\n    boa, que lhe devia servir.<\/p>\n<p>O desgra&ccedil;ado almo&ccedil;ou numa casa de pasto, encheu-se de coragem<br \/>\n    e subiu o Morro do Pinto.<\/p>\n<p>A cozinheira n&atilde;o estava em casa; tinha ido passar uns dias com uma<br \/>\n    parenta, na Rua de Sorocaba, em Botafogo; mas um vizinho aconselhou o Eus&eacute;bio<br \/>\n    a que n&atilde;o adiasse a dilig&ecirc;ncia; a mulher trabalhava primorosamente<br \/>\n    em forno e fog&atilde;o, era morigerada e estava morta por achar emprego.<\/p>\n<p>Abalou o Eus&eacute;bio para Botafogo, e encontrou, efetivamente, a mulher<br \/>\n    na Rua de Sorocaba, em casa da parenta, pronta j&aacute; para sair. Por pouco<br \/>\n    mais, a viagem teria sido baldada.<\/p>\n<p>Era uma mulata quarentona, muito limpa, de um aspecto simp&aacute;tico e<br \/>\n    humilde, que &agrave; primeira vista inspirava certa confian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ela, pelo seu lado, simpatizou com o Eus&eacute;bio, a julgar pela prontid&atilde;o<br \/>\n    com que se ajustaram.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; amanh&atilde; l&aacute; estarei, meu patr&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Amanh&atilde;, n&atilde;o: h&aacute; de ser hoje, porque se entro em casa<br \/>\n    sem cozinheira, minha mulher&#8230;<\/p>\n<p>O Eus&eacute;bio interrompeu-se &#8211; ia deitando tudo a perder, &#8211; e emendou:<\/p>\n<p>&#8230; minha mulher, que &eacute; muito boa senhora, mas nem sempre acredita<br \/>\n    no que eu digo, h&aacute; de supor que me remanchei.<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso, meu patr&atilde;o, &eacute; preciso que eu v&aacute; primeiramente<br \/>\n    ao Morro do Pinto.<\/p>\n<p>&#8211; Pois vamos ao Morro do Pinto&#8230; respondeu resignado o resignado Eus&eacute;bio.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Era quase noite fechada, quando o infeliz marido, fatigad&iacute;ssimo, doente,<br \/>\n    sem jantar, entrou em casa acompanhado da mulata.<\/p>\n<p>D. Eul&aacute;lia recebeu-o com duas pedras na m&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; Onde esteve o senhor metido at&eacute; estas horas? oh! que coisa ruim&#8230;<br \/>\n    que homem insuport&aacute;vel&#8230; S&oacute; a minha paci&ecirc;ncia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A senhora n&atilde;o calcula como me custou encontrar esta mulher, mas,<br \/>\n    enfim&#8230; parece que desta vez ficamos bem servidos.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, resmungou D. Eul&aacute;lia, &#8211; v&atilde;o ver que &eacute; alguma<br \/>\n    vagabunda!<\/p>\n<p>E, voltando-se para a mulata, disse-lhe com a sua habitual arrog&acirc;ncia:<\/p>\n<p>&#8211; Chegue-se mais! N&atilde;o gosto de gritar e quero que me ou&ccedil;am!<\/p>\n<p>A cozinheira aproximou-se com um sorriso humilde de subalterna.<\/p>\n<p>&#8211; Como se chama? perguntou D. Eul&aacute;lia.<\/p>\n<p>&#8211; Eul&aacute;lia.<\/p>\n<p>&#8211; Eul&aacute;lia?!<\/p>\n<p>&#8211; Eul&aacute;lia, sim, senhora!<\/p>\n<p>&#8211; Eul&aacute;lia?! Rua! Rua!<\/p>\n<p>E voltando-se para o marido:<\/p>\n<p>&#8211; Pois o senhor tem a pouca vergonha de trazer para casa uma cozinheira com<br \/>\n    o mesmo nome que eu? Que desaforo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Cale-se! N&atilde;o seja burro!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Creio que o Eus&eacute;bio est&aacute; justificado: a morte de D. Eul&aacute;lia<br \/>\n    n&atilde;o poderia contrari&aacute;-lo.<\/p>\n<p>(Contos Fora da Moda)<\/p>\n<h2><a name=\"39\">DUAS APOSTAS<\/a><\/h2>\n<p>Quando apareceu o primeiro n\u00famero d&#8217;o S\u00e9culo, o Comendador Salazar, que encontrou<br \/>\n    um exemplar em casa, tomou-o entre as m\u00e3os, percorreu-o rapidamente com os<br \/>\n    olhos e disse, com aquele ar impertinente e desdenhoso que faz dele, benza-o<br \/>\n    Deus, um dos negociantes mais antip\u00e1ticos da nossa pra\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Isto n\u00e3o tem vida para um m\u00eas!<\/p>\n<p>&#8211; Por que, papai? &#8211; perguntou a senhorita Esmeralda.<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o tem. \u00c9 um jornaleco que n\u00e3o me inspira a menor confian\u00e7a.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a, que gostava de contrariar o autor dos seus dias, redarg\u00fciu logo:<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu estou convencida de que este jornal tem vida para muito tempo!<\/p>\n<p>&#8211; Por que, minha filha?<\/p>\n<p>&#8211; Porque tem.<\/p>\n<p>&#8211; Veremos.<\/p>\n<p>Havia oito dias que Esmeralda tinha sido pedida em casamento pelo Sousinha,<br \/>\n    e o Comendador Salazar respondera que era muito cedo: a filha n\u00e3o tinha ainda<br \/>\n    completado 17 anos, e o pretendente acabava apenas de atingir a maioridade.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 muito cedo para pensarem em casamento! &#8211; sentenciara ele.<\/p>\n<p>Mas, voltando a O S\u00e9culo:<\/p>\n<p>&#8211; Com que ent\u00e3o, papai \u00e9 de parecer que este jornal ser\u00e1 ef\u00eamero?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 te disse que sim!<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem: fa\u00e7amos uma aposta. Se O S\u00e9culo n\u00e3o viver um ano, eu bordarei<br \/>\n    um par de chinelos de l\u00e1 para papai; se viver&#8230; no dia em que ele completar<br \/>\n    o primeiro anivers\u00e1rio, papai consentir\u00e1 no meu casamento com seu Sousinha.<\/p>\n<p>O comendador soltou uma gargalhada e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Pois est\u00e1 dito!<\/p>\n<p>Imaginem agora os leitores com que interesse Esmeralda e o Sousinha acompanhavam<br \/>\n    a vida d&#8217;O S\u00e9culo! A mo\u00e7a comprava todas as tardes um n\u00famero da folha, e colocava-o<br \/>\n    bem \u00e0 vista, sobre a mesa de jantar, para que o pai o visse.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o O S\u00e9culo ainda vive?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda, e n\u00e3o parece disposto a morrer!<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim! Qualquer dia desaparece da circula\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>No dia em que O S\u00e9culo completou o seu primeiro anivers\u00e1rio, Esmeralda lembrou<br \/>\n    ao pai a aposta, e o nosso comendador teve que se submeter.<\/p>\n<p>Fez-se o casamento, e, passados alguns dias, o sogro lamentava-se em conversa<br \/>\n    com sua esposa:<\/p>\n<p>&#8211; Casamos a pequena com um crian\u00e7ola! H\u00e1s de ver que aquele maricas t\u00e3o cedo<br \/>\n    n\u00e3o nos dar\u00e1 um neto!<\/p>\n<p>A filha, que passava e ouviu, acudiu prontamente:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos fazer uma aposta, papai?<\/p>\n<p>&#8211; Que aposta?<\/p>\n<p>&#8211; Se no dia em que O S\u00e9culo completar o segundo anivers\u00e1rio o senhor n\u00e3o<br \/>\n    tiver ainda a satisfa\u00e7\u00e3o de ser av\u00f4, eu bordarei aquelas famosas chinelas&#8230;<br \/>\n    se tiver, abrir\u00e1 com um conto de r\u00e9is uma caderneta da Caixa Econ\u00f4mica, em<br \/>\n    favor do pequeno&#8230; ou da pequena&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 dois meses Esmeralda \u00e9 m\u00e3e e o comendador j\u00e1 se explicou com o conto de<br \/>\n    r\u00e9is.<\/p>\n<p>O outro dia ela chegou-se ao pai, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos fazer outra aposta?<\/p>\n<p>&#8211; Qual?<\/p>\n<p>&#8211; Se no dia em que O S\u00e9culo completar o terceiro anivers\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nada! nada! n\u00e3o me apanhas! O tal S\u00e9culo tem vida para&#8230; um s\u00e9culo!<\/p>\n<h2><a name=\"40\">ELEFANTES E URSOS<\/a><\/h2>\n<p>Era uma del\u00edcia ouvir o coronel Ferraz contar as suas fa\u00e7anhas de ca\u00e7a; mas<br \/>\n    ele s\u00f3 vibrava, e s\u00f3 era verdadeiramente genial a inventar carapet\u00f5es quando<br \/>\n    tinha um bom audit\u00f3rio, quando via em volta de si olhos espantados e bocas<br \/>\n    abertas.<\/p>\n<p> Dizem que na intimidade, conversando com um amigo, ou mesmo dois, era incapaz<br \/>\n    de pregar uma peta.<br \/>\n    Ora, uma ocasi\u00e3o estava ele no meio de um grupo de vinte pessoas, em que estavam<br \/>\n    representados ambos os sexos e todas as idades.<\/p>\n<p> As palavras do coronel, proferidas com aquela voz reboante e \u00e1spera, feita<br \/>\n    para comandar ex\u00e9rcitos, eram avidamente bebidas. Apenas um rapaz do grupo,<br \/>\n    o Miranda, o maior estr\u00f3ina que Deus pusera no mundo, tinha na fisionomia<br \/>\n    um ar de mofa e parecia n\u00e3o tomar a s\u00e9rio as proezas cineg\u00e9ticas do nosso<br \/>\n    her\u00f3i.<\/p>\n<p> Mas isso n\u00e3o foi nada &#8211; dizia este retorcendo as pontas dos seus enormes<br \/>\n    bigodes grisalhos. &#8211; Isso n\u00e3o foi nada \u00e0 vista do que me aconteceu numa aldeia<br \/>\n    do Ganges, aonde me levou a minha vida aventurosa. Um casal de elefantes corria<br \/>\n    atr\u00e1s de um mo\u00e7o que lhes maltratara o filho, um elefantinho deste tamanho<br \/>\n    (e o coronel indicou o tamanho de um elefant\u00e3o). O macho ia atingir o mo\u00e7o<br \/>\n    com a tromba, quando o abati com um tiro da minha espingarda, que nunca falhou.<br \/>\n    Mas restava a f\u00eamea&#8230; A arma estroa descarregada, mas eu, carioca da gema,<br \/>\n    lembrei-me do nosso jogo de capoeira, e passei-lhe uma rasteira t\u00e3o na regra,<br \/>\n    que a prostrei por terra! Antes que se erguesse aquela pesada massa, tive<br \/>\n    tempo de carregar a espingarda e mand\u00e1-la passear no outro mundo. O mo\u00e7o estava<br \/>\n    salvo.<\/p>\n<p> Houve no audit\u00f3rio um murm\u00fario de admira\u00e7\u00e3o. O coronel continuou:<br \/>\n    &#8211; O mo\u00e7o, mal o sabia eu, era um pr\u00edncipe, filho de um raj\u00e1, ou coisa que<br \/>\n    o valha, muito estimado na localidade: por isso, ergueram sobre o corpo do<br \/>\n    elefante macho uma esp\u00e9cie de trono em que me colocaram, deram-me a beber<br \/>\n    um licor sagrado, investiram-me n\u00e3o sei de que dignidade oficial, e fizeram-me<br \/>\n    assistir a umas dan\u00e7as intermin\u00e1veis. Foi uma festa a que concorreram mais<br \/>\n    de vinte mil pessoas.<\/p>\n<p> Passado o fr\u00eamito do audit\u00f3rio, o Miranda tomou a palavra:<\/p>\n<p> &#8211; O coronel foi mais feliz no Ganges do que eu em Ceil\u00e3o.<br \/>\n    &#8211; Voc\u00ea j\u00e1 esteve em Ceil\u00e3o? &#8211; perguntou o coronel.<br \/>\n    &#8211; Ora! Onde n\u00e3o tenho estado? Um dia, estando a ca\u00e7ar &#8211; sim, porque tamb\u00e9m<br \/>\n    sou ca\u00e7ador! &#8211; saiu-me pela frente um enorme urso, que avan\u00e7ou para mim. Quis<br \/>\n    levar a m\u00e3o \u00e0 espingarda, mas tremia tanto, que n\u00e3o consegui peg\u00e1-la. E o<br \/>\n    urso a avan\u00e7ar! Nisto, senti um bafo no meu cacha\u00e7o. Olhei para tr\u00e1s: era<br \/>\n    outro urso, de goela aberta e dentes arreganhados!<br \/>\n    &#8211; E que fez voc\u00ea? &#8211; perguntou o coronel, interessado deveras.<br \/>\n    &#8211; N\u00e3o fiz nada &#8211; respondeu o Miranda. &#8211; Fui comido!<\/p>\n<h2><a name=\"41\">EM SONHOS<\/a><\/h2>\n<p>&#8211; Ora, sempre h&aacute; sonhos muito exquisitos! &#8211; exclamou o C&eacute;sar,<br \/>\n    logo pela manh&atilde;, quando se ergueu da cama.<\/p>\n<p>&#8211; Com quem sonhaste? &#8211; perguntou D. Margarida, que ainda se achava deitada.<\/p>\n<p>&#8211; Sonhei que est&aacute;vamos num jardim, D. Eponina, a senhora do S&aacute;<br \/>\n    Coelho, e eu, e que ela se atirou a mim aos beijos apertando-me nos bra&ccedil;os<br \/>\n    dizendo que me adorava!<\/p>\n<p>&#8211; E que necessidade tinha eu de saber desse teu sonho? &#8211; perguntou D. Margarida<br \/>\n    um tanto contrariada e, c&aacute; entre n&oacute;s, com toda a raz&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! meu amor! Pois queres que eu tenha segredos para ti? Eu conto-te a<br \/>\n    minha vida toda, inclusive os meus sonhos!<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, mas uma reserva natural, ou por outra, a delicadeza mais rudimentar<br \/>\n    deveria fazer com que n&atilde;o me contasses coisas que n&atilde;o me podem<br \/>\n    ser agrad&aacute;veis, e cuja revela&ccedil;&atilde;o nenhum interesse, nenhuma<br \/>\n    conveni&ecirc;ncia tem.<\/p>\n<p>&#8211; Ora esta! Nunca esperei que te zangasses!.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o estou zangada, mas simplesmente ressentida; nenhuma esposa gosta<br \/>\n    de saber que mesmo em sonhos seu marido andou aos beijos com outra mulher!<\/p>\n<p>&#8211; Em primeiro lugar, eu n&atilde;o beijei, fui beijado! Fui violentado!&#8230;<br \/>\n    Eu n&atilde;o queria!&#8230; D. Eponina caiu sobre mim com uma f&uacute;ria!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois olha! Eu estou mais magoada contigo que com ela. .<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te disso, Margarida! Os sonhos n&atilde;o querem dizer nada!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o querem dizer nada, mas s&atilde;o sempre o resultado de uma<br \/>\n    impress&atilde;o qualquer, recebida na vida real: se tu n&atilde;o tivesses<br \/>\n    tido um mau pensamento a respeito de Eponina, jamais sonharias que ela caiu<br \/>\n    sobre ti aos beijos!<\/p>\n<p>&#8211; Por pouco mais, darias raz&atilde;o &agrave;quele fazendeiro, que mandou<br \/>\n    surrar o escravo por ter sonhado que este queria assassin&aacute;-lo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, tens raz&atilde;o, C&eacute;sar&#8230; Sonhos s&atilde;o sonhos&#8230; uma<br \/>\n    tolice minha aborrecer-me por causa de uns beijos quim&eacute;ricos, de que<br \/>\n    nenhuma culpa tens.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, ainda bem que te chegas &agrave; raz&atilde;o!.<\/p>\n<p>E n&atilde;o se falou mais nisso: a discuss&atilde;o passou&#8230; como um sonho.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s ou quatro dias depois, Margarida foi a primeira a erguer-se da<br \/>\n    cama.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isto? &#8211; perguntou C&eacute;sar despertando. &#8211; Ergueste hoje<br \/>\n    mais cedo?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, porque estou aborrecida; tive um sonho terr&iacute;vel!<\/p>\n<p>&#8211; Sim?&#8230; Com quem sonhaste?.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o quero ter segredos para meu marido: sonhei com o Braguinha!<\/p>\n<p>&#8211; Com aquele patife, com aquele desavergonhado, que entendeu que podia namorar-te<br \/>\n    &agrave;s minhas barbas! Pois tu sonhaste com esse homem?!.<\/p>\n<p>&#8211; Sonhei; que tem isso?&#8230; Que culpa tenho eu?<\/p>\n<p>&#8211; Conta-me o teu sonho.<\/p>\n<p> Isso n&atilde;o! Tu j&aacute; ficaste t&atilde;o zangado sabendo que sonhei<br \/>\n    com o Braguinha; que n&atilde;o farias se eu te contasse o resto?!<\/p>\n<p> Margarida! Nunca esperei que tu.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te disso!&#8230; Os sonhos n&atilde;o querem dizer nada. Demais, aconteceu-me<br \/>\n    o mesmo que a ti o outro dia: n&atilde;o beijei &#8211; fui beijada!.<\/p>\n<p>O C&eacute;sar saltou da cama furioso:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o calculas a vontade com que estou de quebrar a cara do Braguinha!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, a&iacute; tens! ~ exatamente o caso do fazendeiro!<\/p>\n<h2><a name=\"42\">ENCONTROS REVELADORES<\/a><\/h2>\n<p>Contarei hoje aos meus leitores um caso que se passou no tempo do Segundo<br \/>\n    Imp&eacute;rio. A historieta n&atilde;o ser&aacute; talvez muito divertida,<br \/>\n    mas &eacute; humana. L&aacute; vai: Para mostrar-se agradecido ao ministro<br \/>\n    da Justi&ccedil;a, que o nomeara juiz de Direito de Niter&oacute;i, lembrou-se<br \/>\n    o Dr. Sales de convid&aacute;-lo para padrinho de seu &uacute;ltimo pimpolho.<br \/>\n    O ministro aceitou o convite, mas como a &eacute;poca era de grande agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica e n&atilde;o lhe sobravam lazeres para batizados, passou procura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao seu oficial de gabinete, Dr. Pinheiro, para represent&aacute;-lo na cerim&ocirc;nia,<br \/>\n    e levar o pequeno &agrave; pia.<\/p>\n<p> &Agrave; hora aprazada, o Dr. Pinheiro apresentou-se em casa do Dr. Sales,<br \/>\n    onde o receberam com a mesma solenidade com que receberiam o pr&oacute;prio<br \/>\n    conselheiro.<\/p>\n<p> O bom homem j&aacute; estava, ali&aacute;s, habituado a esses togat&eacute;s.<br \/>\n    Depois que o ministro, seu companheiro de inf&acirc;ncia e amigo &iacute;ntimo,<br \/>\n    fizera dele o seu oficial de gabinete, o seu auxiliar de imediata confian&ccedil;a,<br \/>\n    quase o seu alter ego, o Dr. Pinheiro verificou, surpreso, que tinha in&uacute;meros<br \/>\n    amigos de cuja exist&ecirc;ncia nem sequer suspeitava. Antes que ele exercesse<br \/>\n    aquela posi&ccedil;&atilde;o oficial, pouca gente o cumprimentava; depois<br \/>\n    que a exercia, todos lhe tiravam o chap&eacute;u!<\/p>\n<p> Terminada a cerim&ocirc;nia do batizado, o Dr. Pinheiro quis retirar-se:<br \/>\n    estava cumprida a sua miss&atilde;o, mas o Dr. Sales e toda a fam&iacute;lia<br \/>\n    instaram com ele para almo&ccedil;ar.<\/p>\n<p> O almo&ccedil;o fez-lhe mal. Na ocasi&atilde;o em que o padrinho por procura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ergueu a sua ta&ccedil;a de champanha para agradecer um brinde feito pelo<br \/>\n    juiz de Direito ao seu ilustre compadre, o Exmo. Sr. conselheiro X, ministro<br \/>\n    e secret&aacute;rio de Estado dos neg&oacute;cios da Justi&ccedil;a, o Sr.<br \/>\n    Pinheiro sentiu turbar-se-lhe a vista e a casa andar &agrave; roda. Caiu sentado<br \/>\n    sobre a cadeira, quebrando a ta&ccedil;a que tinha na m&atilde;o, e perdeu<br \/>\n    os sentidos. Foi um alvoro&ccedil;o. Sa&iacute;ram todos dos seus lugares<br \/>\n    e cercaram o Sr. Pinheiro, que n&atilde;o dava acordo de si. Entre os comensais<br \/>\n    havia, felizmente, um m&eacute;dico. Transportado para um quarto e estendido<br \/>\n    sobre um leito, o Dr. Pinheiro foi imediatamente socorrido e medicado.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; de ser nada, explicou o m&eacute;dico, mas &eacute;<br \/>\n    preciso que o doente fique no mais absoluto repouso; que ningu&eacute;m lhe<br \/>\n    fale nem ele fale a ningu&eacute;m!<\/p>\n<p> &#8211; Mas, que foi?<\/p>\n<p> &#8211; Um amea&ccedil;o de congest&atilde;o. No mesmo dia o Dr. Sales mandou<br \/>\n    &agrave; casa do Dr. Pinheiro, que era vi&uacute;vo e n&atilde;o tinha fam&iacute;lia<br \/>\n    de esp&eacute;cie alguma e morava com ele apenas um criado, que foi ter logo<br \/>\n    com o amo enfermo, levando-lhe roupa branca.<\/p>\n<p> No dia seguinte o Dr. Sales procurou o ministro, seu compadre, para participar-lhe<br \/>\n    que o seu oficial de gabinete adoecera em Niter&oacute;i, mas S. Exa. n&atilde;o<br \/>\n    lhe p&ocirc;de dar ouvidos: preparava-se para responder a uma interpela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na C&acirc;mara, e n&atilde;o podia pensar noutra coisa.<\/p>\n<p> O Dr. Pinheiro logo no outro dia pretendeu recolher-se aos penates, mas<br \/>\n    o m&eacute;dico proibiu-lhe terminantemente, dizendo: &#8211; uma imprud&ecirc;ncia<br \/>\n    pela qual n&atilde;o me responsabilizo!<\/p>\n<p> Ficou, pois, o Dr. Pinheiro cinco dias em Niter&oacute;i, metido entre quatro<br \/>\n    paredes, sem conversar nem ler. Ao sexto dia sentiu-se completamente restabelecido,<br \/>\n    e teve alta. Durante esse tempo alguma coisa se passara, de certa import&acirc;ncia,<br \/>\n    mas em casa do Dr. Sales nada disseram ao Dr. Pinheiro, receando que qualquer<br \/>\n    como&ccedil;&atilde;o moral lhe produzisse novo ataque.<\/p>\n<p> Seguido pelo seu fiel criado, que o n&atilde;o abandonou um instante, o<br \/>\n    Dr. Pinheiro tomou a barca, e chegando ao Pharoux, entrou num carro que estava<br \/>\n    &agrave; sua espera, indo o criado para a bol&eacute;ia.<\/p>\n<p> Ao passar pelo Largo do Pa&ccedil;o, notou que certo pretendente, figura<br \/>\n    obrigada do gabinete do ministro, sujeito que costumava saud&aacute;-lo com<br \/>\n    muitos rapap&eacute;s, agora, ao v&ecirc;-lo, apenas levou a m&atilde;o &agrave;<br \/>\n    aba do chap&eacute;u.<\/p>\n<p> Mais adiante, na Rua da Assembl&eacute;ia, outro importuno olhou para ele<br \/>\n    e desviou os olhos, fingindo que n&atilde;o o via.<\/p>\n<p> No Largo da Carioca, um oficial da secretaria, que se empenhara, n&atilde;o<br \/>\n    havia muito, com o Dr. Pinheiro para ser, como foi, promovido, teve para o<br \/>\n    oficial de gabinete um olhar de prote&ccedil;&atilde;o. .<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; que ver, pensou o Dr. Pinheiro, caiu o minist&eacute;rio!<\/p>\n<p> De fato, havia tr&ecirc;s dias que o minist&eacute;rio ca&iacute;ra, depois<br \/>\n    da tal interpela&ccedil;&atilde;o. Ningu&eacute;m o dissera ao Dr. Pinheiro,<br \/>\n    nem verbalmente nem por escrito: ele adivinhou-o, gra&ccedil;as &agrave;queles<br \/>\n    tr&ecirc;s encontros reveladores.<\/p>\n<h2><a name=\"43\">FATALIDADE<\/a><\/h2>\n<h4>I<\/h4>\n<p>O Tenente de Cavalaria Rem\u00edgio Soares, teve a infelicidade ver, uma noite,<br \/>\n    D. Andr\u00e9ia num camarote do teatro Lucinda, ao lado do seu leg\u00edtimo esposo,<br \/>\n    e pecou, infringindo impiamente o nono mandamento da lei de Deus.<\/p>\n<p>A &#8220;mulher do pr\u00f3ximo&#8221;, notando que a &#8220;desejavam&#8221;, deixou-se impressionar<br \/>\n    por aquela farda, por aqueles bigodes, e por aqueles belos olhos negros e<br \/>\n    rasgados.<\/p>\n<p>Ao marido, interessado pelo enredo do dramalh\u00e3o, que se apresentava, passou<br \/>\n    completamente despercebido o namoro aceso entre o camarote e a plat\u00e9ia.<\/p>\n<p>Premiada a virtude e castigado o v\u00edcio, isto \u00e9, terminado o espet\u00e1culo, o<br \/>\n    Tenente Soares acompanhou, a certa dist\u00e2ncia, casal at\u00e9 o Largo de S\u00e3o Francisco<br \/>\n    e tomou o mesmo bonde que ele &#8211; um bonde do Bispo -, sentando-se, como por<br \/>\n    acaso, o lado de D. Andr\u00e9ia.<\/p>\n<p>Dizer que no bonde o p\u00e9 do tenente e o p\u00e9zinho da mo\u00e7a n\u00e3o continuaram a<br \/>\n    obra encetada no Lucinda, seria faltar \u00e0 verdade. Acrescentarei at\u00e9 que, ao<br \/>\n    sair do bonde, na pitoresca Rua Malvino Reis, D. Andr\u00e9ia, com r\u00e1pido e furtivo<br \/>\n    aperto de m\u00e3o, fez ao namorado as mais concludentes e escandalosas promessas.<\/p>\n<p>Ele ficou sabendo onde ela morava.<\/p>\n<h4>II<\/h4>\n<p>O Tenente Rem\u00edgio Soares foi para a casa, em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, e passou o resto<br \/>\n    da noite agitad\u00edssimo, &#8212; pudera! \u00c0s dez horas da manh\u00e3 atravessava j\u00e1 o Rio<br \/>\n    Comprido ao trote do seu cavalo!<\/p>\n<p>Mas &#8211; que contrariedade! -~ as janelas de D. Andr\u00e9ia estavam fechadas.<\/p>\n<p>O cavaleiro foi at\u00e9 a Rua de Santa Alexandrina, e voltou patati, patat\u00e1,<br \/>\n    patati, patat\u00e1! e as janelas n\u00e3o se tinham aberto!<\/p>\n<p>O passeio foi novamente renovado \u00e0 tarde, &#8211; o tenente passou, tornou a passar,<br \/>\n    &#8211; continuavam fechadas as janelas!<\/p>\n<p>Malditas janelas!&#8230;<\/p>\n<p>Durante quatro dias o namorado foi e veio, a cavalo, a p\u00e9, de bonde, fardado,<br \/>\n    \u00e0 paisana: nada! Aquilo n\u00e3o era uma casa: era um convento!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, ao quinto dia &#8211; 0h! ventura! &#8211; ele viu sair do convento um molecote<br \/>\n    que se dirigia para a venda pr\u00f3xima. N\u00e3o refletiu: chamou-o de parte, untou-lhe<br \/>\n    as unhas e interpelou-o.<\/p>\n<p>Soube nessa ocasi\u00e3o que ela se chamava And\u00e9\u00eda. Soube mais que o marido era<br \/>\n    empregado p\u00fablico e muito ciumento: proibia expressamente \u00e0 senhora sair sozinha<br \/>\n    e at\u00e9 chegar \u00e0 janela quando ele estivesse na rua. Soube, finalmente, que<br \/>\n    havia em casa dois c\u00e9rebros; uma tia do marido e um jardineiro muito fiel<br \/>\n    ao patr\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o providencial moleque nesse mesmo dia se encarregou de entregar \u00e0 patroa<br \/>\n    uma cartinha do inflamado tenente, e a resposta &#8211; digamo-lo para vergonha<br \/>\n    daquela formosa desmiolada &#8211; a resposta n\u00e3o se fez esperar por muito tempo.<\/p>\n<p>Ei-la:<\/p>\n<p>&#8220;O senhor pede-me uma entrevista e n\u00e3o imagina como desejo satisfazer a esse<br \/>\n    pedido, porque tamb\u00e9m o amo. Mas uma entrevista como?&#8230; onde?&#8230; quando?&#8230;<br \/>\n    Saiba que sou guardada \u00e0 vista por uma senhora de idade, tia dele, e por um<br \/>\n    jardineiro que lhe \u00e9 muito dedicado. Pode ser que um dia as circunst\u00e2ncias<br \/>\n    se combinem de modo que nos possamos encontrar a s\u00f3s&#8230; Como h\u00e1 um deus para<br \/>\n    os que se amam, esperemos que chegue esse dia: at\u00e9 l\u00e1, tenhamos ambos um pouco<br \/>\n    de paci\u00eancia. Mande-me dizer onde de pronto o poderei encontrar no caso de<br \/>\n    ter que preveni-lo de repente. O moleque \u00e9 de confian\u00e7a.&#8221;<\/p>\n<p>Na esperan\u00e7a de que o grande dia chegasse, o Tenente Rem\u00edgio Soares mudou-se<br \/>\n    imediatamente para perto da casa de D. Andr\u00e9ia; procurou e achou um c\u00f4modo<br \/>\n    de onde se via, meio encoberta pelo arvoredo, a porta da cozinha do objeto<br \/>\n    amado. Dessa porta D. Andr\u00e9ia fazia-lhe um sinal convencionado todas as vezes<br \/>\n    que desejava enviar-lhe uma cartinha.<\/p>\n<h4>III<\/h4>\n<p>Diz a cl\u00e1ssica sabedoria das na\u00e7\u00f5es que o melhor da festa e esperar por ela.<\/p>\n<p>N\u00e3o era dessa opini\u00e3o o tenente, que h\u00e1 dezoito meses suspirava noite e dia<br \/>\n    pela mulher mais bonita e mais vigiada de todo aquele bairro do Rio Comprido,<br \/>\n    sem conseguir trocar uma palavra com ela!<\/p>\n<p>Os namorados, gra\u00e7as ao molecote, correspondiam-se epistolarmente, \u00e9 verdade,<br \/>\n    mas essa correspond\u00eancia, violenta e fogosa, contribu\u00eda para mais ati\u00e7ar a<br \/>\n    luta entre aqueles dois desejos e aumentar o tormento daquelas duas almas.<\/p>\n<h4>IV<\/h4>\n<p>Os leitores, &#8211; e principalmente as leitoras &#8211; me desculpar\u00e3o de n\u00e3o p\u00f4r no<br \/>\n    final deste ligeiro conto um gr\u00e3o de poesia: tenho de conclu\u00ed-lo um pouco<br \/>\n    \u00e0 Armando Silvestre. Em todo o caso, ver\u00e3o que a moral n\u00e3o \u00e9 sacrificada.<\/p>\n<p>O meu her\u00f3i andava j\u00e1 obcecado, menos pelo que acreditava ser o seu amor,<br \/>\n    que pelos dezoito meses de longa expectativa e lento desespero.<\/p>\n<p>Um dia, o Barroso, seu amigo \u00edntimo, seu confidente, foi encontr\u00e1-lo muito<br \/>\n    abatido, sem \u00e2nimo de se erguer da cama.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda mo perguntas!<\/p>\n<p>&#8211; Paci\u00eancia, meu velho; Jac\u00f3 esperou quatorze anos.<\/p>\n<p>&#8211; Esta coisa tem-me posto doente&#8230; &#8211; Bem sabes que gozava uma sa\u00fade de ferro&#8230;<br \/>\n    Pois bem neste momento a cabe\u00e7a pesa-me uma arroba&#8230;. tenho tonteiras!<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 calor; a tua Andr\u00e9ia n\u00e3o tem absolutamente nada que ver com esses<br \/>\n    fen\u00f4menos cerebrais. Queres um conselho? Manda buscar ali \u00e0 botica uma garrafinha<br \/>\n    de \u00e1gua de Janos. \u00c9 o melhor rem\u00e9dio que conhe\u00e7o para tonteiras!<\/p>\n<p>O tenente aceitou o conselho, e o Barroso despediu-se dele depois que o viu<br \/>\n    esvaziar um bom copo de benem\u00e9rito laxativo.<\/p>\n<p>Vinte minutos depois dessa liba\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel, Rem\u00edgio Soares viu assomar<br \/>\n    ao longe, na porta da cozinha, o vulto de D. Andr\u00e9ia, anunciando-lhe uma carta.<\/p>\n<p>Pouco depois entrava o molecote e entregava-lhe um bilhete escrito \u00e0s pressas.<\/p>\n<p>&#8220;A velha amanheceu hoje com febre, e n\u00e3o sai do quarto. O jardineiro foi<br \/>\n    \u00e0 cidade chamar um m\u00e9dico da confian\u00e7a dela. Vem depressa, mal recebas este<br \/>\n    bilhete: h\u00e1 de ser j\u00e1, ou nunca o ser\u00e1 talvez.&#8221;<\/p>\n<p>O tenente soltou um grito de raiva: a \u00e1gua de Janos come\u00e7ava a produzir os<br \/>\n    seus efeitos fatais; era imposs\u00edvel acudir ao doce chamado de D. Andr\u00e9ia!<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel tamb\u00e9m confessar-lhe a causa real do n\u00e3o comparecimento; nenhum<br \/>\n    namorado faria confiss\u00f5es dessa ordem&#8230;<\/p>\n<p>O m\u00edsero pegou na pena, e escreveu, contendo-se para n\u00e3o fazer outra coisa:<\/p>\n<p>&#8220;Que fatalidade! Um motivo poderos\u00edssimo constrange-me a n\u00e3o ir! Quando algum<br \/>\n    dia houver certa intimidade entre n\u00f3s, dir-te-ei qual foi esse motivo, e tenho<br \/>\n    certeza de que me perdoar\u00e1s.&#8221;<\/p>\n<h4>V<\/h4>\n<p>Quando, no dia seguinte, ele contou ao Barroso a desgra\u00e7a de que este fora<br \/>\n    o causador involunt\u00e1rio, o confidente sorriu, e obtemperou:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea tu que grande rem\u00e9dio \u00e9 a \u00e1gua de Janos! Um s\u00f3 copo serviu para tr\u00eas<br \/>\n    cabe\u00e7as!<\/p>\n<p>&#8211; Como tr\u00eas?<\/p>\n<p>&#8211; A tua, que tinha tonteiras, &#8211; a de D. Andr\u00e9ia que estava cheia de fantasias,<br \/>\n    &#8211; e a do marido que andava muito arriscada.<\/p>\n<p>Efetivamente, a mo\u00e7a n\u00e3o perdoou.<\/p>\n<p>O Tenente Rem\u00edgio Soares nunca mais a viu.<\/p>\n<h2><a name=\"44\">HIST\u00d3RIA DE UM DOMIN\u00d3<\/a><\/h2>\n<p>Perdoem-me os leitores se eu, de ordin\u00e1rio alegre, venho contar-lhes uma<br \/>\n    hist\u00f3ria triste, num dia em que todos est\u00e3o predispostos ao riso; mas. . .<br \/>\n    que querem? Tenho uma natureza especial: o carnaval entristece-me, e o &#8220;Abre<br \/>\n    alas, que quero passar&#8221; soa aos meus ouvidos como um canto de agonia e de<br \/>\n    morte.<br \/>\n    * * *<\/p>\n<p>Dado esse pequeno cavaco, saibam os leitores que conhe\u00e7o um homem, o Abreu,<br \/>\n    que \u00e9 o mais triste dos homens: s\u00f3 se compraz na solid\u00e3o e no sil\u00eancio, n\u00e3o<br \/>\n    tem amigos, vive s\u00f3, e nunca ningu\u00e9m o viu rir, nem mesmo sorrir.<\/p>\n<p> Entretanto, esse casmurro, em chegando o carnaval, veste um domin\u00f3 e sai<br \/>\n    \u00e0 rua mascarado. Isto s\u00e3o favas contadas todos os anos.<\/p>\n<p> O ano passado um vizinho teve a curiosidade e a pachorra de mascarar-se<br \/>\n    tamb\u00e9m para acompanh\u00e1-lo a certa dist\u00e2ncia, e observar o que ele fazia.<\/p>\n<p> Era domingo gordo; toda a popula\u00e7\u00e3o estava na rua. O Abreu apeou-se do bonde,<br \/>\n    o mesmo bonde em que vinha o curioso que o acompanhava, um bonde do Catumbi,<br \/>\n    o bairro onde moravam ambos, e desceu com muita dificuldade a Rua do Ouvidor.<br \/>\n    Chegando em frente \u00e0 casa de um alfaiate, em cuja porta estavam sentadas algumas<br \/>\n    donas e donzelas \u00e0 espera das sociedades, parou, encostando-se na parede da<br \/>\n    casa fronteira, e ali se deixou ficar, pegando no grupo das senhoras os olhos,<br \/>\n    que faiscavam atrav\u00e9s dos dois buracos da m\u00e1scara de seda.<\/p>\n<p> O Abreu demorou-se ali seguramente meia hora, e o vizinho, farto de esperar,<br \/>\n    resolveu abandon\u00e1-lo, dizendo consigo: &#8211; Ora! \u00e9 um esquisito!&#8230; Deixemo-lo!&#8230;<\/p>\n<p> Deixou-o efetivamente, mas uma hora depois voltou, e ainda l\u00e1 encontrou<br \/>\n    o Abreu no mesmo ponto e na mesma posi\u00e7\u00e3o em que o havia deixado. Examinou<br \/>\n    ent\u00e3o com mais cuidado o grupo das senhoras, e reconheceu, surpreso, que uma<br \/>\n    delas era a mulher do Abreu.<br \/>\n    * * *<\/p>\n<p>Sim, que o Abreu tinha sido casado com uma bonita mulher que um dia o abandonou<br \/>\n    para amancebar-se com um sujeito que ele supunha seu amigo, e ao qual abrira<br \/>\n    confiadamente as portas de sua casa. O amante l\u00e1 estava por tr\u00e1s do grupo<br \/>\n    tamb\u00e9m \u00e0 espera das sociedades. Toda a gente os sup\u00f5e casados.<\/p>\n<p> Desde que lhe sucedeu essa desgra\u00e7a, o Abreu tornou-se triste, e sua tristeza<br \/>\n    durou e dura ainda, porque ele amava profundamente aquela ingrata. Amava-a<br \/>\n    tanto, que neste mundo s\u00f3 uma coisa lhe proporcionava um simulacro de prazer:<br \/>\n    v\u00ea-la de perto.<\/p>\n<p> Entretanto os leitores compreendem que o Abreu n\u00e3o poderia procurar a mi\u00fado<br \/>\n    t\u00e3o singular esp\u00e9cie de consola\u00e7\u00e3o, e nos raros encontros fortuitos que tinha<br \/>\n    com ela, n\u00e3o a encarava de modo a satisfazer aquele apetite m\u00f3rbido.<\/p>\n<p> Mas uma vez, h\u00e1 cinco anos, disseram-lhe que sua mulher tinha assistido<br \/>\n    ao carnaval sentada \u00e0 porta do alfaiate e, no ano seguinte, o Abreu, metido<br \/>\n    num domin\u00f3 alugado, foi verificar se ela escolhera o mesmo ponto. Encontrou-a,<br \/>\n    e durante muitas horas conseguiu v\u00ea-la de perto e \u00e0 vontade.<\/p>\n<p> Da\u00ed por diante o infeliz marido n\u00e3o perdeu um carnaval, e \u00e9 muito prov\u00e1vel<br \/>\n    que amanh\u00e3 l\u00e1 esteja a postos em frente \u00e0 casa do alfaiate. Os leitores, com<br \/>\n    alguma pachorra, poder\u00e3o certificar-se de que este conto n\u00e3o \u00e9 inventado.<\/p>\n<h2><a name=\"45\">HIST\u00d3RIA DE UM SONETO<\/a><\/h2>\n<p>Antes de entrar definitivamente na vida pr\u00e1tica, Ludgero Baptista, hoje um<br \/>\n    dos nossos industriais de polpa, fazia versos. Eram rimas inofensivas; entretanto,<br \/>\n    um dos seus sonetos &#8211; um, pelo menos &#8211; foi escrito com m\u00e1s ten\u00e7\u00f5es, e, se<br \/>\n    alguma desculpa tem o poeta, deve-a unicamente aos seus vinte e tr\u00eas anos,<br \/>\n    idade em que o homem n\u00e3o sabe medir bem as conseq\u00fc\u00eancias dos seus atos&#8230;<br \/>\n    nem dos seus versos.<\/p>\n<p>Havia naquele tempo, como ainda as h\u00e1, e em maior n\u00famero, talvez, uma senhora<br \/>\n    casada, por nome Laura Rosa, um nome de flor, a qual se comprazia em arrastar<br \/>\n    atr\u00e1s de si uma chusma de cora\u00e7\u00f5es masculinos, e cuja formosura fazia sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\n    em toda a parte aonde a levava o marido, um tal comendador Rosa, muito dado<br \/>\n    a festas e espet\u00e1culos.<\/p>\n<p>Ludgero encontrou-a um dia no Jockey Club, e aconteceu-lhe o mesmo que a<br \/>\n    todos os rapazes do seu g\u00eanero: enamorou-se dela. Dali por diante n\u00e3o perdia<br \/>\n    corrida de cavalos em que Laura Rosa estivesse, e, ou fosse que realmente<br \/>\n    os olhos da formosa dama lhe prometessem mais do que deviam, ou fosse natural<br \/>\n    fil\u00e1ucia de namorado jovem, ele considerou-se autorizado a empregar algumas<br \/>\n    dilig\u00eancias, a fim de que os seus amores sa\u00edssem do per\u00edodo ingrato do platonismo,<br \/>\n    e entrassem numa situa\u00e7\u00e3o mais positiva.<\/p>\n<p>Para isso, recorreu \u00e0 musa, que n\u00e3o abandona o poeta nessas emerg\u00eancias ex\u00f3ticas,<br \/>\n    e escreveu o soneto em quest\u00e3o. Era nada mais nem menos que uma inj\u00faria, at\u00e9<br \/>\n    certo ponto atenuada pela rima e pelo metro; mas, como se sabe, os fazedores<br \/>\n    de versos tiveram, em todos os tempos, o privil\u00e9gio de insultar as senhoras,<br \/>\n    sem que a moral p\u00fablica os responsabilizasse por isso.<\/p>\n<p>Eis aqui o soneto, que se intitulava:<\/p>\n<p>S\u00daPLICA<\/p>\n<p>Desde o dia feliz em que, pasmado,<\/p>\n<p>Pela primeira vez te vi, senhora,<\/p>\n<p>Um sentimento no meu peito mora<\/p>\n<p>Feito de ang\u00fastia e feito de pecado.<\/p>\n<p>N\u00e3o creias que ningu\u00e9m houvesse amado<\/p>\n<p>T\u00e3o loucamente como eu te amo agora,<\/p>\n<p>Nem mesmo, oh! linda Laura, no de outrora<\/p>\n<p>Cavalheiresco tempo celebrado!<\/p>\n<p>Para que finde o meu supl\u00edcio airoso, <\/p>\n<p>Ou me concede o mendigado beijo, <\/p>\n<p>Este mart\u00edrio transformado em gozo,,<\/p>\n<p>Ou revela ao teu dono o meu desejo:<\/p>\n<p>Talvez ele me fa\u00e7a venturoso, <\/p>\n<p>Dando-me a doce morte, enfim, que almejo!<\/p>\n<p>Ludgero Baptista assinou esse desaforo com as iniciais do seu nome, L.B.,<br \/>\n    e publicou-o na revista liter\u00e1ria Nova Aurora, \u00f3rg\u00e3o especial dos &#8220;novos&#8221;<br \/>\n    daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Publicado o soneto, mandou o poeta entregar um n\u00famero do peri\u00f3dico \u00e0 &#8220;linda<br \/>\n    Laura&#8221;, procurando, naturalmente, ocasi\u00e3o em que o comendador Rosa n\u00e3o estava<br \/>\n    em casa, e tendo o cuidado de chamar, com um tra\u00e7o de l\u00e1pis vermelho, a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\n    da mo\u00e7a para os versos em que t\u00e3o indiscretamente ia envolvido o nome dela.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei qual foi o resultado obtido por Ludgero, nem isso importa \u00e0 narrativa;<br \/>\n    creio, entretanto, que a s\u00faplica n\u00e3o foi atendida: nem Laura Rosa lhe deu<br \/>\n    aquele &#8220;mendigado beijo&#8221;, que era um eufemismo bandalho, nem disse nada ao<br \/>\n    seu dono, e ainda bem, porque se o poeta n\u00e3o logrou a ventura que almejava,<br \/>\n    tamb\u00e9m n\u00e3o perdeu a vida, que aproveitou mais tarde, nem mesmo apanhou a sova<br \/>\n    que merecia.<\/p>\n<p>O caso \u00e9 que o nosso homem tomou ju\u00edzo, e abriu m\u00e3o de todas as suas veleidades<br \/>\n    po\u00e9ticas, para cuidar de coisas mais s\u00e9rias e mais \u00fateis.<\/p>\n<p>A fortuna sorriu-lhe. Aos trinta anos, estava ele senhor de algumas centenas<br \/>\n    de contos de r\u00e9is, e aos trinta e sete principiou a sentir, pela primeira<br \/>\n    vez, necessidade de constituir fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Isso coincidiu com o encontrar, em casa de uma fam\u00edlia de amigos, a interessante<br \/>\n    Blandina, mo\u00e7a pobre, que realizava perfeitamente o seu ideal, quer no moral,<br \/>\n    quer no f\u00edsico.<\/p>\n<p>Blandina contava apenas vinte e tr\u00eas primaveras, justamente a idade que ele<br \/>\n    tinha quando escrevera a &#8220;S\u00faplica&#8221;; mas, n\u00e3o obstante essa diferen\u00e7a de quatorze<br \/>\n    anos, o casamento n\u00e3o lhes pareceu desproporcionado: queriam-se deveras.<\/p>\n<p>Ela talvez fosse um pouco rom\u00e2ntica, cheia de mist\u00e9rios e devaneios, sequiosa<br \/>\n    do imprevisto e do ignorado; mas esse defeito, se o era, n\u00e3o repugnava ao<br \/>\n    que em Ludgero ficara do sonhador de outrora.<\/p>\n<p>Casaram-se.<\/p>\n<p>Casaram-se, e foram excepcionalmente felizes durante os dez primeiros anos;<br \/>\n    mas passado esse tempo, ele que estava \u00e0s portas do semicenten\u00e1rio e poderia<br \/>\n    passar por mais velho, ao passo que ela n\u00e3o parecia ter ainda os seus trinta<br \/>\n    e tr\u00eas, julgou que sua mulher j\u00e1 n\u00e3o o amava como dantes&#8230;<\/p>\n<p>Perdi o encanto &#8211; disse ele aos seus bot\u00f5es &#8211; tenho agora os cabelos grisalhos,<br \/>\n    engordei muito, sofro de reumatismo, e Blandina conserva a mocidade, a beleza<br \/>\n    e a eleg\u00e2ncia que tinha na ocasi\u00e3o do nosso primeiro encontro&#8230; O nosso enlace<br \/>\n    n\u00e3o era, mas tornou-se desigual&#8230; Para sermos felizes at\u00e9 a morte, fora preciso<br \/>\n    que envelhec\u00eassemos juntos, como Fil\u00eamon e B\u00e1ucis&#8230;<\/p>\n<p>Efetivamente, Blandina, que, durante os primeiros dez anos de casada nunca<br \/>\n    reparou que seu marido ressonava alto, n\u00e3o o podia agora suportar, queixando-se<br \/>\n    de n\u00e3o poder dormir ao som de um rabec\u00e3o. Ao mesmo tempo deixava-se absorver,<br \/>\n    horas esquecidas, em longas cismas, e suspirava de instante a instante, como<br \/>\n    se alguma coisa lhe faltasse&#8230;<\/p>\n<p>Ludgero inquietou-se, e come\u00e7ou a observar com olhos ciumentos o que se passava<br \/>\n    em torno de si. N\u00e3o lhe tardou perceber que a sua casa era constantemente<br \/>\n    rondada por um rapazola, que poderia ser seu filho e, mesmo, filho de sua<br \/>\n    mulher. De uma feita, deu com ele \u00e0 esquina entregando uma carta \u00e0 cozinheira;<br \/>\n    escondeu-se, entrou em casa de mansinho, sem ser visto, e interceptou a missiva<br \/>\n    no momento preciso em que esta passava das m\u00e3os da intermedi\u00e1ria para as de<br \/>\n    sua mulher.<\/p>\n<p>Ludgero tomou a m\u00e3o de Blandina, que tremia como varas verdes, e levou-a<br \/>\n    para o interior do seu gabinete.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 aquele sujeitinho que te mandou esta carta?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei &#8211; respondeu ela, e desatou a chorar.<\/p>\n<p>&#8211; Por que choras?<\/p>\n<p>&#8211; Choro, porque n\u00e3o tenho culpa. N\u00e3o sei quem me escreveu&#8230; Desconfio de<br \/>\n    um mocinho impertinente que costuma passar por aqui e me cumprimenta com um<br \/>\n    sorriso muito am\u00e1vel quando me v\u00ea \u00e0 janela&#8230; Juro-te que eu devolvia essa<br \/>\n    carta sem abrir!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Abro-a eu! &#8211; disse Ludgero, engasgado pela como\u00e7\u00e3o &#8211; e rasgou o inv\u00f3lucro.<br \/>\n    Estava dentro um soneto, escrito em papel rid\u00edculo, cercado de florinhas e<br \/>\n    rendilhado nos cantos.<\/p>\n<p>Ao ler o primeiro verso,<\/p>\n<p> Desde o dia feliz em que, pasmado,<\/p>\n<p>o marido reconheceu logo o seu velho soneto, que tinha sido copiado, palavra<br \/>\n    por palavra, sofrendo apenas uma altera\u00e7\u00e3o no segundo quarteto: o nome de<br \/>\n    &#8220;Laura&#8221; fora substitu\u00eddo pelo de &#8220;Blandina&#8221;, o que, ali\u00e1s, desfigurava o verso,<br \/>\n    evidenciando que o copista era inteiramente h\u00f3spede em metrifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ludgero deu uma gargalhada.<\/p>\n<p>&#8211; De que te ris?&#8230; Que h\u00e1 que te fa\u00e7a rir? &#8211; perguntou Blandina.<\/p>\n<p>&#8211; Ri-me, porque o teu infeliz namorado te mandou um soneto que n\u00e3o \u00e9 dele,<br \/>\n    e sim meu!<\/p>\n<p>&#8211; Teu?<\/p>\n<p>&#8211; Sim! A coincid\u00eancia \u00e9 not\u00e1vel&#8230; Vais ver!<\/p>\n<p>Ludgero abriu uma gaveta, e tirou de dentro dela o n\u00famero amarelado da Nova<br \/>\n    Aurora, em que vinha estampada a sua &#8220;S\u00faplica&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tens! Olha! Compara! Est\u00e1 assinado com as minhas iniciais!<\/p>\n<p>&#8211; Tu fazias versos?<\/p>\n<p>&#8211; Fazia-os, e ainda os farei, se quiser &#8211; tanto assim, que vou escrever outro<br \/>\n    soneto em resposta a este, e h\u00e1s de tu copi\u00e1-lo com tua letra, e eu mesmo<br \/>\n    o entregarei ao tal mocinho.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 dito!<\/p>\n<p>A prontid\u00e3o com que Blandina proferiu esse &#8220;est\u00e1 dito&#8221; foi a melhor prova<br \/>\n    que Ludgero teve de que poderia continuar a conserv\u00e1-la junto de si. O mesmo<br \/>\n    n\u00e3o sucedeu \u00e0 cozinheira, que foi posta na rua.<\/p>\n<p>No dia seguinte estava escrita a resposta. Blandina copiou-a, e, na mesma<br \/>\n    tarde, quando o rapazola, parado \u00e0 esquina, interrogava as janelas, Ludgero<br \/>\n    aproximou-se dele, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Jovem, aqui tem a resposta de minha mulher ao seu soneto. Espero que, depois<br \/>\n    de l\u00ea-la, o meu amiguinho n\u00e3o me rondar\u00e1 mais a porta; mas, se continuar,<br \/>\n    previno-o de que o mato a bengaladas!&#8230;<\/p>\n<p>O rapazola fugiu, e n\u00e3o consta que reaparecesse no bairro. Foi esta a:<\/p>\n<h4>RESPOSTA<\/h4>\n<p>Para satisfazer ao seu pedido,<\/p>\n<p>Na parte da den\u00fancia e n\u00e3o do beijo,<\/p>\n<p>Revelei a meu dono o seu desejo.<\/p>\n<p>Os versos entreguei a meu marido.<\/p>\n<p>Este em vez de ficar enfurecido,<\/p>\n<p>E de agarrar um ferro malfazejo,<\/p>\n<p>Tomou a coisa \u00e1 conta de gracejo,<\/p>\n<p>E p\u00f4s-se a rir como um perdido!<\/p>\n<p>Pois se e ele o autor do tal soneto!<\/p>\n<p>O senhor copiou-o da Nova Aurora, <\/p>\n<p>Estragando-lhe apenas um quarteto&#8230;<\/p>\n<p> Ele, que a Musa j\u00e1 mandou embora, <\/p>\n<p>Cede-lhe os versos (discri\u00e7\u00e3o prometo), <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quer sociedade na senhora.<\/p>\n<h4> Blandina Baptista<\/h4>\n<p> Blandina leu todos os versos antigos de seu marido, e perdoou-lhe os cabelos<br \/>\n    grisalhos, o abd\u00f4men, o reumatismo e, at\u00e9, o ressonar alto: adora-o.<\/p>\n<p>Ludgero descobriu que o rapazola era filho de Laura Rosa; provavelmente,<br \/>\n    encontrou o soneto entre os pap\u00e9is da m\u00e3e, que j\u00e1 n\u00e3o existia&#8230;<\/p>\n<p>O ex-poeta viu em tudo isso uma esp\u00e9cie de puni\u00e7\u00e3o, e, como tem os seus momentos<br \/>\n    de filosofia barata, pensa muitas vezes que um homem pode ser ferido, mais<br \/>\n    dia menos dia, pela pr\u00f3pria arma que forja com inten\u00e7\u00e3o maligna, mesmo quando<br \/>\n    essa arma seja simplesmente um mau soneto.<\/p>\n<h2><a name=\"\">HIST&Oacute;RIA VULGAR<\/a><\/h2>\n<p>Era a primeira vez que o Get&uacute;lio vinha ao Rio de Janeiro. Conquanto<br \/>\n    filho do bar&atilde;o de Batatais, lavrador abastado, jamais se divertira.<br \/>\n    Depois de formado em Direito, sabe Deus como, na capital de S&atilde;o Paulo,<br \/>\n    voltara para a fazenda do pai, onde nasceu, e onde esperava morrer.<\/p>\n<p>Aos vinte e oito anos chegaram-lhe desejos de ver mundo. Falou ao bar&atilde;o<br \/>\n    de uma viagem &agrave; Europa. &#8211; Para que Europa? &#8211; disse o velho. &#8211; Vai ao<br \/>\n    Rio de Janeiro, que ainda n&atilde;o conheces, e &eacute; uma capital digna<br \/>\n    de ser vista. A Europa ir&aacute;s depois comigo, tua m&atilde;e e tua irm&atilde;<br \/>\n    se Deus nos der vida e sa&uacute;de. &#8211; O bacharel contentou-se, pois, com<br \/>\n    o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Quando se despediu do filho, na plataforma da esta&ccedil;&atilde;o, o bar&atilde;o<br \/>\n    recomendou-lhe, pela cent&eacute;sima vez, que tivesse muito cuidado com as<br \/>\n    m&aacute;s companhias, o que n&atilde;o impedia que o rapaz, aqui chegado,<br \/>\n    se entregasse confiadamente ao Al&iacute;pio.<\/p>\n<p>&Eacute; verdade que o Al&iacute;pio tinha exterioridades que enganavam,<br \/>\n    e n&atilde;o vivia sen&atilde;o &agrave; custa delas. Delas e do pr&oacute;ximo.<br \/>\n    Era um rapaz da moda, mas passou pelo servi&ccedil;o antropom&eacute;trico<br \/>\n    e ainda hoje tem o retrato na pol&iacute;cia.<\/p>\n<p>Ele e o paulista encontraram-se dir-se-ia que por acaso, sentados &agrave;<br \/>\n    mesma mesa, para tomar caf&eacute;, num botequim da rua do Ouvidor, e quando<br \/>\n    as duas colherinhas, batendo uma na outra, tiniram no a&ccedil;ucareiro, o<br \/>\n    Al&iacute;pio ergueu os olhos, apertou-os como para reconhecer o Get&uacute;lio,<br \/>\n    e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Cavalheiro, creio que j&aacute; nos encontramos.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>&#8211; Mas onde? N&atilde;o me posso lembrar!<\/p>\n<p>&#8211; Em S&atilde;o Paulo?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, n&atilde;o creio.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez em Po&ccedil;os de Caldas. Estive l&aacute; duas vezes.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; isso. Foi em Po&ccedil;os de Caldas! O cavalheiro &eacute; paulista?<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, e &eacute; a primeira vez que venho ao Rio.<\/p>\n<p>&#8211; Tem gostado?<\/p>\n<p>&#8211; Muito, mas ainda n&atilde;o vi nada; cheguei ontem.<\/p>\n<p>&#8211; Conquanto n&atilde;o tenha a satisfa&ccedil;&atilde;o de o conhecer, ofere&ccedil;o-lhe<br \/>\n    os meus fracos pr&eacute;stimos.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado, mas n&atilde;o venho aqui fazer outra coisa sen&atilde;o<br \/>\n    passear. H&aacute; sete anos que me meti na fazenda de meu pai; era tempo<br \/>\n    de espairecer.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! O cavalheiro &eacute; lavrador?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, formei-me em Direito, mas sou um simples fazendeiro, s&oacute;cio<br \/>\n    de meu pai. O senhor nunca ouviu falar do bar&atilde;o de Batatais?<\/p>\n<p>&#8211; Batatais? Pois n&atilde;o, doutor! Ora essa! &Eacute; uma das primeiras<br \/>\n    fortunas de S&atilde;o Paulo!<\/p>\n<p>&#8211; Pois &eacute; meu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Se o doutor vem ao Rio de Janeiro simplesmente para se distrair, raz&atilde;o<br \/>\n    de mais para aceitar os meus fracos pr&eacute;stimos. Sou carioca da gema,<br \/>\n    conhe&ccedil;o toda a cidade como as palmas das minhas m&atilde;os, e posso<br \/>\n    mostrar-lhe o que ela tem de mais interessante.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Senhor! N&atilde;o sei a que deva&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Agrave; simpatia. O doutor n&atilde;o imagina como simpatizei com a sua<br \/>\n    pessoa!<\/p>\n<p>&#8211; Mas o senhor naturalmente tem mais que fazer do que me servir de cicerone.<\/p>\n<p>&#8211; Que fazer? Eu? Ah, meu doutor, infelizmente a minha vida &eacute; esta<br \/>\n    &#8211; andar pelos caf&eacute;s, pelos teatros, pelos clubes, pelas casas de jogo,<br \/>\n    pelas alcovas &#8211; enfim, pelo monde ou l&#8217;on s&#8217;amuse! N&atilde;o sei o que &eacute;<br \/>\n    trabalhar! E n&atilde;o tenho remorsos, porque meu pai trabalhou por si e<br \/>\n    por mim. O que fa&ccedil;o &eacute; gozar o que ele n&atilde;o gozou, para<br \/>\n    que me n&atilde;o aconte&ccedil;a o mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o &eacute; rico?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho alguma coisinha, tenho&#8230;<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia jantaram juntos no Brito (o Al&iacute;pio n&atilde;o consentiu<br \/>\n    que o Get&uacute;lio pagasse), e &agrave; noite foram ao Cassino, onde o paulista<br \/>\n    se divertiu a valer. Separaram-se amigos &agrave;s tr&ecirc;s horas da madrugada,<br \/>\n    na rua Senador Dantas, concertando encontrar-se ao meio-dia para almo&ccedil;arem<br \/>\n    juntos.<\/p>\n<p>Almo&ccedil;aram, deram um longo passeio a Botafogo, e foram jantar numa<br \/>\n    casa de jogo, que o Al&iacute;pio quis mostrar ao Get&uacute;lio, a t&iacute;tulo<br \/>\n    de curiosidade.<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute; a t&iacute;tulo de curiosidade &#8211; repetiu o carioca. &#8211; Eu jogo,<br \/>\n    mas n&atilde;o te aconselho que jogues. (J&aacute; se tratavam por tu.) O<br \/>\n    jogo &eacute; est&uacute;pido: tira sempre o necess&aacute;rio e n&atilde;o<br \/>\n    d&aacute; nunca sen&atilde;o o sup&eacute;rfluo. Tu alguma vez jogaste?<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute;, em Po&ccedil;os de Caldas, mas jurei que nunca mais jogaria!<br \/>\n    Perdi uma boa bolada, e o velho ficou furioso!<\/p>\n<p>&#8211; Devo prevenir-te de uma coisa: esta casa de jogo &eacute; uma das mais<br \/>\n    decentes do Rio de Janeiro, mas tem cuidado. Aqui vem de tudo. V&ecirc;s aquele<br \/>\n    sujeito gordo? &Eacute; um magistrado integ&eacute;rrimo! V&ecirc;s aquele<br \/>\n    sujeito magro? Tem o retrato na pol&iacute;cia!<\/p>\n<p>Depois do jantar, que foi magn&iacute;fico, regado por excelentes vinhos,<br \/>\n    aparelharam a roleta. O banqueiro, ex-advogado sem causa, tomou o seu lugar<br \/>\n    sobre um estrado, diante das fichas multicores alinhadas em ordem, formando<br \/>\n    pequenas colunas, e o pessoal do v&iacute;cio abancou-se em volta do tapete<br \/>\n    verde.<\/p>\n<p>&#8211; Eu vou piabar &#8211; disse o Get&uacute;lio ao Al&iacute;pio.<\/p>\n<p>&#8211; V&ecirc;, v&ecirc; s&oacute;, n&atilde;o jogues! Eu teria remorsos se te<br \/>\n    trouxesse a esta casa para perderes dinheiro!<\/p>\n<p>Come&ccedil;ou o jogo. Depois das tr&ecirc;s primeiras bolas, o bacharel<br \/>\n    n&atilde;o resistiu: comprou cem mil-r&eacute;is de fichas, que voaram logo.<\/p>\n<p>O Al&iacute;pio lan&ccedil;ou-lhe um olhar repreensivo.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o posso ver defunto sem chorar &#8211; respondeu o outro, que insiste<br \/>\n    e em dez minutos perdeu oitocentos mil-r&eacute;is.<\/p>\n<p>Acendeu-se-lhe, ent&atilde;o toda, a sua coragem de paulista, e fez a &uacute;ltima<br \/>\n    parada, t&atilde;o forte, que ressarciu todo o preju&iacute;zo e ganhou perto<br \/>\n    de um conto de r&eacute;is.<\/p>\n<p>O Al&iacute;pio que, jogando, ou antes, fingindo jogar, examinava-o de soslaio,<br \/>\n    viu-o aproximar-se do banqueiro, receber um ma&ccedil;o de notas, e arrum&aacute;-las<br \/>\n    na carteira, que guardou sorridente no bolso do peito.<\/p>\n<p>&#8211; Vou-me embora &#8211; disse-lhe o Get&uacute;lio. &#8211; Preciso recolher-me hoje<br \/>\n    um pouco mais cedo: estou com dor de cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>O Al&iacute;pio deixou a sala do jogo para acompanh&aacute;-lo at&eacute;<br \/>\n    o corredor, e perguntou-lhe indiferentemente, ajudando-o a vestir o sobretudo:<\/p>\n<p>&#8211; Ganhaste?<\/p>\n<p>&#8211; Alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, mas n&atilde;o tornes a jogar, vai com o que te digo! aconselhou,<br \/>\n    abotoando-lhe o sobretudo. &#8211; Levanta a gola, agasalha-te bem, n&atilde;o brinques<br \/>\n    com este clima. Eu ainda fico.<\/p>\n<p>&#8211; Precisas de algum dinheiro?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o at&eacute; amanh&atilde;?<\/p>\n<p>&#8211; Decerto. Irei buscar-te ao hotel &agrave;s mesmas horas de hoje. Adeus!<\/p>\n<p>O paulista desceu as escadas l&eacute;pido e contente, foi para o hotel,<br \/>\n    que n&atilde;o era longe, entrou para o seu quarto, despiu-se e resolveu dar,<br \/>\n    antes de dormir, um balan&ccedil;o ao dinheiro para saber ao certo qual tinha<br \/>\n    sido o seu lucro. Foi ao bolso: a carteira l&aacute; n&atilde;o estava&#8230;<br \/>\n    Escusado &eacute; dizer que o Al&iacute;pio nunca mais o procurou.<\/p>\n<h2><a name=\"67\">O PAULO<\/a><\/h2>\n<p>Se o senhor conhecesse o meu amigo Paulo, com certeza o estimaria: era um<br \/>\n    excelente rapaz, um belo camarada.<\/p>\n<p>H&aacute; dezesseis anos que ele se tinha casado, por amor, com uma linda<br \/>\n    mo&ccedil;a, e nunca houve marido mais amante, mais sol&iacute;cito, mais<br \/>\n    cumpridor dos seus deveres, para empregar aqui esta frase c&ocirc;moda, em<br \/>\n    que o vulgo envolve todas as virtudes maritais.<\/p>\n<p>Ao cabo de um ano de casamento, nasceu ao Paulo uma filha que completou a<br \/>\n    sua felicidade, e fez com que ele se considerasse a mais venturosa das criaturas<br \/>\n    humanas.<\/p>\n<p>Essa ilus&atilde;o durou muito tempo, durou at&eacute; o dia em que o pobre<br \/>\n    rapaz, perdendo o emprego que tinha, e arranjando outro menos rendoso, foi<br \/>\n    obrigado a mudar-se para uma casa mais modesta e a restringir as suas despesas.<br \/>\n    A mulher, que gostava muito de se embonecar e de se divertir, achou que isso<br \/>\n    era a mis&eacute;ria e o deu a perceber ao marido. Este afligiu-se tanto que<br \/>\n    adoeceu.<\/p>\n<p>Em janeiro deste ano, uma tarde, voltando para casa, depois do trabalho,<br \/>\n    o Paulo n&atilde;o encontrou a mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; de tua m&atilde;e? &#8211; perguntou &agrave; filha.<\/p>\n<p>&#8211; Saiu; n&atilde;o me disse onde ia, mas deixou uma carta para papai.<\/p>\n<p>Ele sentiu logo um grande abalo no cora&ccedil;&atilde;o e teve um terr&iacute;vel<br \/>\n    pressentimento. As mulheres que abandonam o domic&iacute;lio conjugal fazem,<br \/>\n    por via de regra, como os homens que se matam: deixam uma carta. O Paulo sabia<br \/>\n    disso e tremeu.<\/p>\n<p>N&atilde;0 se enganava. A desgra&ccedil;ada deixou-o e deixou tamb&eacute;m<br \/>\n    a filha, uma pobre mo&ccedil;a de quatorze anos, que precisava tanto dos cuidados<br \/>\n    maternos.<\/p>\n<p>O Paulo era forte de cora&ccedil;&atilde;o, mas fraco de esp&iacute;rito;<br \/>\n    o golpe aniquilou-o; entretanto, fez das fraquezas for&ccedil;a e continuou<br \/>\n    a viver e a trabalhar por amor da filha, que confiou a uma fam&iacute;lia<br \/>\n    amiga.<\/p>\n<p>Passados alguns meses, a mulher, que tinha ido viver em companhia de um amante,<br \/>\n    sentiu saudades da menina, e tentou reav&ecirc;-la. N&atilde;o o conseguindo,<br \/>\n    naturalmente, por meio de s&uacute;plicas e sabendo que n&atilde;o tinha a<br \/>\n    lei por si, a desgra&ccedil;ada teve uma id&eacute;ia monstruosa, talvez sugerida<br \/>\n    pelo seu digno amante: escreveu uma carta ao marido afian&ccedil;ando-lhe<br \/>\n    que ele n&atilde;o era pai daquela crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>A carta infame produziu o desejado efeito: o pobre Paulo, depois de alguns<br \/>\n    dias de profunda melancolia, teve um violento acesso de loucura e foi internado<br \/>\n    no Hosp&iacute;cio.<\/p>\n<p>Ao cabo de algum tempo foi removido para a casa de um parente, mas durou<br \/>\n    apenas uma semana. Faleceu anteontem e foi enterrado ontem.<\/p>\n<p>A vi&uacute;va provavelmente vai casar-se com o amante, e a infeliz menina<br \/>\n    ficar&aacute; sob a tutela do padrasto.<\/p>\n<p>A&iacute; tem, meu ilustre amigo, um caso que se passou neste ano de 1908,<br \/>\n    caso ver&iacute;dico e pungente pelo qual substituo hoje um conto inventado,<br \/>\n    sem mesmo disfar&ccedil;ar o nome do meu desventurado amigo, que se chamava<br \/>\n    realmente Paulo.<\/p>\n<h2><a name=\"77\">PAULINO E ROBERTO<\/a><\/h2>\n<p>O Paulino toda a vida remou contra a mar&eacute;! Para c&uacute;mulo da desgra&ccedil;a,<br \/>\n    o destino atirou-lhe nos bra&ccedil;os uma esposa que n&atilde;o era precisamente<br \/>\n    o sonhado modelo de meiguice e dedica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Adelaide n&atilde;o lhe perdoava o ser pobre, o ganhar apenas o necess&aacute;rio<br \/>\n    para viver. O seu desejo era ter um vestido por semana e um chap&eacute;u<br \/>\n    de quinze em quinze dias, &#8211; possuir um escr&iacute;nio de magn&iacute;ficas<br \/>\n    j&oacute;ias, &#8211; deslumbrar a Rua do Ouvidor, &#8211; freq&uuml;entar bailes e espet&aacute;culos,<br \/>\n    &#8211; tornar-se a rainha da moda. N&atilde;o se podia conformar com aquela vida<br \/>\n    de priva&ccedil;&atilde;o e trabalho.<\/p>\n<p>O Paulino, que era a bondade em pessoa, afligia-se muito por n&atilde;o poder<br \/>\n    proporcionar &agrave; sua mulher a exist&ecirc;ncia que ela ambicionava. Fazendo<br \/>\n    um exame de consci&ecirc;ncia, o m&iacute;sero acusava-se de haver sacrificado<br \/>\n    a pobre mo&ccedil;a, que, bonita e espirituosa como Deus a fizera, teria facilmente<br \/>\n    encontrado um marido com recursos bastantes para satisfazer todos os seus<br \/>\n    caprichos de Frou-frou sem dote.<\/p>\n<p>Ele s&oacute; tinha um amigo, um amigo &iacute;ntimo, seu companheiro de<br \/>\n    inf&acirc;ncia, o Vespasiano, que um dia lhe disse com toda a brutalidade:<\/p>\n<p>&#8211; Tua mulher &eacute; insuport&#038;aacaacute;vel! Eu, no teu caso, mandava-a para<br \/>\n    o pasto!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Vespasiano! n&atilde;o digas isso!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Digo, sim!, senhor! digo e redigo&#8230; &#8211; Voc&ecirc;s n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    filhos; portanto, n&atilde;o h&aacute; considera&ccedil;&atilde;o nenhuma<br \/>\n    que te obrigue a aturar um diabo de mulher que todos os dias te lan&ccedil;a<br \/>\n    em rosto a tua pobreza, como se ela te houvesse trazido algum dinheiro, e<br \/>\n    o esbanjasses!.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n&atilde;o &eacute; conselho que se d&ecirc; a um amigo, nem eu tenho<br \/>\n    raz&otilde;es para me separar de Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o te parece raz&atilde;o suficiente essa eterna humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a que ela te condena?<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, mas quem me manda ser t&atilde;o caipora?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o creias que, se melhorasses de posi&ccedil;&atilde;o, ela melhoraria<br \/>\n    de g&ecirc;nio. Aquela &eacute; das tais que nunca est&atilde;o contentes<br \/>\n    com a sorte, nem se lembram de que Deus d&aacute; o frio conforme a roupa.<br \/>\n    Se algum dia chegasses a ministro, ela n&atilde;o te perdoaria n&atilde;o<br \/>\n    seres presidente da Rep&uacute;blica!<\/p>\n<p>&#8211; Exageras.<\/p>\n<p>Pode ser; mas afian&ccedil;o-te que mulher assim n&atilde;o a quisera eu<br \/>\n    nem pesada a ouro! Prefiro ficar solteiro.<\/p>\n<p>Efetivamente, Vespasiano, apesar de ser muito amigo de Paulino, n&atilde;o<br \/>\n    o freq&uuml;entava, tal era a avers&atilde;o que lhe causava a presen&ccedil;a<br \/>\n    de Adelaide. N&atilde;o a podia ver.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> Paulino em v&atilde;o procurava por todos os meios e modos melhorar de vida,<br \/>\n    aumentando o parco rendimento, quando um comerciante, seu conhecido, lhe prop&ocirc;s<br \/>\n    uma pequena viagem ao Rio Grande do Sul, para a liquida&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    certo neg&oacute;cio. Era empresa que lhe poderia deixar um par de contos<br \/>\n    de r&eacute;is, se fosse bem sucedida.<\/p>\n<p>Instigado pela mulher, a quem sorria a perspectiva de alguns vestidos novos,<br \/>\n    Paulino partiu para o Rio Grande a bordo do Rio Apa; tendo, por&eacute;m,<br \/>\n    desembarcado em Santa Catarina, perdeu, n&atilde;o sei como, o paquete, e<br \/>\n    foi obrigado a esperar por outro.<\/p>\n<p>Antes que esse outro chegasse, recebeu a not&iacute;cia de que o Rio Apa<br \/>\n    naufragara, n&atilde;o escapando nenhum homem da tripula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nem passageiro algum. Do pr&oacute;prio paquete n&atilde;o havia o menor vest&iacute;gio.<br \/>\n    Sabia-se que naufragara porque desaparecera.<\/p>\n<p>Paulino agradeceu a Deus o ter escapado milagrosamente ao naufr&aacute;gio.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ao ver o seu nome impresso, nos jornais, entre os das v&iacute;timas, atravessou-lhe<br \/>\n    o esp&iacute;rito a id&eacute;ia de calar-se, fazendo-se passar por morto.<br \/>\n    N&atilde;o sei se ele teria lido o Jacques Amour, de Zola, ou a Viuvinha,<br \/>\n    do nosso Alencar.<\/p>\n<p>&#8211; Em vez de me livrar da Adelaide, como aconselhava o Vespasiano, livr&aacute;-la-ei<br \/>\n    de mim. Ora est&aacute; dito! Seremos ambos assim mais felizes&#8230; &#8211; Ningu&eacute;m<br \/>\n    o conhecia em Santa Catarina, e ele, de ordin&aacute;rio taciturno e reservado,<br \/>\n    a ningu&eacute;m se queixara de haver perdido a viagem, de modo que p&ocirc;de<br \/>\n    executar perfeitamente o seu plano. Calou-se, muito caladinho, e deixou que<br \/>\n    a not&iacute;cia da sua morte circulasse livremente, como a dos demais passageiros<br \/>\n    do Rio Apa.<\/p>\n<p>Escusado &eacute; dizer que mudou de nome.<\/p>\n<p> Tendo feito conhecimento com um rico industrial teuto-brasileiro, ex-colono<br \/>\n    de Blumenau, foi com este para o interior da prov&iacute;ncia, e, como era<br \/>\n    inteligente e trabalhador, n&atilde;o tendo mulher que o &quot;encabulasse&quot;,<br \/>\n    arranjou muito bem a vida, conseguindo at&eacute; p&ocirc;r de parte algum<br \/>\n    pec&uacute;lio.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> Passaram-se anos sem que Roberto, o ex-Paulino, tivesse not&iacute;cias<br \/>\n    de Adelaide.<\/p>\n<p>Resolveu um dia ir ao Rio de Janeiro, a passeio, convencido de que ningu&eacute;m<br \/>\n    mais se lembrava dele, nem o reconheceria, pois deixara crescer a barba, engordara<br \/>\n    extraordinariamente, e tinha um tipo muito diverso do de outrora.<\/p>\n<p>O seu primeiro cuidado foi passar pela casinha de porta e janela onde morava,<br \/>\n    na Rua do Alc&acirc;ntara, quando embarcou para o Sul. N&atilde;o a encontrou:<br \/>\n    tinham erguido um pr&eacute;dio no local outrora ocupado pelo ninho dos seus<br \/>\n    amores sem ventura.<\/p>\n<p>Informou-se na venda pr&oacute;xima que fim levara a vi&uacute;va de um tal<br \/>\n    Paulino, morador naquela rua, n&aacute;ufrago do Rio Apa; ningu&eacute;m se<br \/>\n    lembrava dessa fam&iacute;lia, e ele tevei a sensa&ccedil;&atilde;o de que<br \/>\n    era realmente um defunto.<\/p>\n<p>Procurou ver Vespasiano, e viu-o, quando sa&iacute;a da Alf&acirc;ndega,<br \/>\n    onde era empregado. O seu movimento foi correr para o amigo e dizer-lhe: &#8211;<br \/>\n    Olha! sou eu! n&atilde;o morri! venha de l&aacute; um abra&ccedil;o! -; mas<br \/>\n    conteve-se, e deixou-o passar, saboreando um cigarro.<\/p>\n<p>&#8211; Como est&aacute; velho! pensou Paulino; eu decerto n&atilde;o o reconheceria,<br \/>\n    se o supusesse t&atilde;o morto como ele me sup&otilde;e a mim! Deix&aacute;-lo!<br \/>\n    Eu morri deveras, e nada lucraria em ressuscitar, mesmo para ele, que era<br \/>\n    o meu &uacute;nico amigo.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> Bem inspirado andou o morto em n&atilde;o se dar a conhecer, porque, alguns<br \/>\n    dias depois, achando-se num bondinho da Pra&ccedil;a Onze, atravessando a<br \/>\n    Rua do Riachuelo, viu entrar no carro o Vespasiano acompanhado por uma senhora<br \/>\n    que era Adelaide sem tirar nem p&ocirc;r.<\/p>\n<p>Paulino conteve o natural sobressalto que lhe causou aquela apari&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ela vinha muito irritada. Logo que se sentou, voltou-se com mau modo para<br \/>\n    Vespasiano, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Eu logo vi que voc&ecirc; me dizia que n&atilde;o!<\/p>\n<p>Paulino reconheceu a voz da sua vi&uacute;va.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, reflete bem, Adelaide; aquele dinheiro est&aacute; destinado para<br \/>\n    o aluguel da casa, e tu n&atilde;o tens assim tanta necessidade de uma capa<br \/>\n    de seda!<\/p>\n<p>Adelaide soltou um longo suspiro, e expectorou esta queixa bem alto para<br \/>\n    que todos a ouvissem:<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! que sina a minha de ter maridos pingas! Voc&ecirc; ainda &eacute;<br \/>\n    pior que o outro!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! se ele pudesse ver-nos l&aacute; do outro mundo, murmurou entre os<br \/>\n    dentes Vespasiano, como se riria de mim!<\/p>\n<p>Roberto ficou muito s&eacute;rio, olhando com indiferen&ccedil;a para a rua,<br \/>\n    mas Paulino riu-se, efetivamente, no fundo do oceano.<\/p>\n<p> (Correio da Manha; 5 de abril de 1903)<\/p>\n<h2><a name=\"98\">VINGAN&Ccedil;A<\/a><\/h2>\n<p>Quando Madame d&#8217;Arbois chegou ao Rio de Janeiro, escriturada numa troupe<br \/>\n    parisiense que fez as delicias dos freq&uuml;entadores do Cassino Franco Br&eacute;silien,<br \/>\n    muitos rapazes se apaixonaram por ela. Dizia-se que Madame d&#8217;Arbois resistia<br \/>\n    heroicamente a todas as sedu&ccedil;&otilde;es, guardando absoluta fidelidade<br \/>\n    ao marido, um cabotin qualquer, que ficara em Fran&ccedil;a, esperando filosoficamente<br \/>\n    que ela voltasse da Am&eacute;rica, endinheirada e feliz.<\/p>\n<p>O jovem Comendador Cardoso, que n&atilde;o acreditava em Pen&eacute;lopes<br \/>\n    de bastidores, e era, em quest&otilde;es er&oacute;ticas, de uma diplomacia<br \/>\n    insigne, com tanta habilidade soube levar &aacute;gua ao seu moinho, que,<br \/>\n    ao cabo de dois meses, vivia maritalmente com Madame d&#8217;Arbois.<\/p>\n<p>Por esse tempo dissolveu-se a troupe, e o jovem Comendador Cardoso aproveitou.<br \/>\n    o ensejo para pedir &agrave; amiga que abandonasse o teatro Nada lhe faltaria<br \/>\n    em casa dele, que era negociante e rico. Ela aceitou depois de muito hesitar,<br \/>\n    impondo como condi&ccedil;&atilde;o, que ele estabeleceria ao marido, em Paris,<br \/>\n    uma pequena mesada de quinhentos francos.<\/p>\n<p>Durante um ano as del&iacute;cias dessa mancebia n&atilde;o foram perturbadas<br \/>\n    pela mais leve contrariedade. O jovem Comendador Cardoso e Madame d&#8217;Arbois<br \/>\n    pareciam talhados um para o outro. Ele era um homem simp&aacute;tico, de trinta<br \/>\n    anos, pouco instru&iacute;do &eacute; verdade, mas senhor desses h&aacute;bitos<br \/>\n    sociais que at&eacute; certo ponto dispensam a educa&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria.<br \/>\n    Ela era uma mulher bonita, alegre, quase espirituosa, e uma senhora dona de<br \/>\n    casa, econ&ocirc;mica e asseada como todas as francesas. Que mais poderiam<br \/>\n    ambos desejar&#8230;.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> Tudo cansa. Ao cabo de um ano, Madame d&#8217;Arbois come&ccedil;ou a sentir nostalgia<br \/>\n    dos bastidores. Demais a mais, aconteceu que o empres&aacute;rio da melhor<br \/>\n    companhia brasileira de operetas, m&aacute;gicas e revistas, lhe ofereceu<br \/>\n    um vantajoso contrato, convidando-a, nada mais nem menos para substituir a<br \/>\n    estrela de maior grandeza que ent&atilde;o brilhava no firmamento do teatro<br \/>\n    fluminense, estrela que se retirava temporariamente para a Europa.<\/p>\n<p>O jovem Comendador Cardoso p&ocirc;s os p&eacute;s &agrave; parede. Que n&atilde;o,<br \/>\n    que n&atilde;o, que n&atilde;o! A Lolotte &#8211; Madame d&#8217;Arbois chamava-se Charlotte<br \/>\n    &#8211; n&atilde;o precisava trabalhar para viver! Que o n&atilde;o aborrecessem!<\/p>\n<p>&#8211; Mais non, mais non! Il ne s&#8217;agit point d&#8217;argent, mon pauvre ch&ecirc;ri<br \/>\n    &#8211; obtemperava Lolotte. &#8211; Je sens que je ferai une g&#8217;rosse maladie si je ne<br \/>\n    r&eacute;tourne pas au th&eacute;&acirc;tre! Eh bien&#8230; voyons&#8230; sois gentil&#8230;<br \/>\n    Il faut que tu y consentes&#8230;<\/p>\n<p>Um negociante, compadre do empres&aacute;rio, foi ter com o jovem Comendador<br \/>\n    Cardoso, de quem era amigo &iacute;ntimo, e interveio com muito empenho:<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! Consente, Cardosinho, consente! Se n&atilde;o lhe fazes a vontade,<br \/>\n    ela contraria-se, e n&atilde;o h&aacute; nada pior que uma mulher contrariada.<br \/>\n    Depois, v&ecirc; l&aacute;: n&atilde;o &eacute; nada, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    nada, mas sempre s&atilde;o seiscentos bagarotes que a pequena mete no banco<br \/>\n    todos os meses! N&atilde;o v&aacute;s tu priv&aacute;-la desse pec&uacute;lio!<\/p>\n<p>Este &uacute;ltimo argumento foi irresist&iacute;vel. M&ecirc;s e meio depois,<br \/>\n    Madame d&#8217;Arbois estreava-se no papel da protagonista de uma opereta.<\/p>\n<p>Foi completo o seu triunfo. Ela falava um portugu&ecirc;s fant&aacute;stico,<br \/>\n    e na cantoria desafinava que era um horror, mas o p&uacute;blico, o magn&acirc;nimo<br \/>\n    p&uacute;blico fluminense, fechou os olhos a esses defeitos, e aplaudiu-a<br \/>\n    freneticamente. Madame d&#8217;Arbois teve que repetir tr&ecirc;s vezes certas coplas<br \/>\n    cuja letra ningu&eacute;m percebia, mas eram cantadas com um movimento de<br \/>\n    quadris capaz de entontecer um santo.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> Raz&atilde;o tinha o jovem Comendador Cardoso em n&atilde;o querer que a<br \/>\n    amiga voltasse para o teatro. Dentro de pouco tempo notou nas suas maneiras<br \/>\n    uma diferen&ccedil;a enorme. A diva contrariava-se visivelmente quando ele,<br \/>\n    cansado de esper&aacute;-la no sagu&atilde;o do teatro, penetrava at&eacute;<br \/>\n    o camarim.<\/p>\n<p>Uma vez encontrou l&aacute; dentro, familiarmente sentado, o Lopes, o primeiro<br \/>\n    ator c&ocirc;mico da companhia, que logo se retirou, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Adeusinho, comendador; vim c&aacute; restituir &agrave; colega o rouge<br \/>\n    que lhe pedira emprestado.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o podia desconfiar do Lopes. Era este um artista de talento,<br \/>\n    e o p&uacute;blico estimava-o deveras, mas a Lolotte poderia l&aacute; gostar<br \/>\n    de um homem t&atilde;o feio, t&atilde;o desdentado e t&atilde;o pouco cuidadoso<br \/>\n    da sua roupa!<\/p>\n<p>Entretanto, uma carta an&ocirc;nima, escrita com letra de mulher, tudo lhe<br \/>\n    disse. A primeira atriz cantora e o primeiro ator c&ocirc;mico encontravam-se,<br \/>\n    quase todos os dias, depois do ensaio, em casa de uma corista, perto do teatro.<\/p>\n<p>Um dia, o jovem Comendador Cardoso, depois de se haver posto em observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    numa casa que ficava em frente &agrave; da hospitaleira corista, saiu, atravessou<br \/>\n    a rua e entrou na sala das entrevistas. Lolotte estava sentada, de pernas<br \/>\n    cruzadas, a fumar um cigarro turco; o Lopes de p&eacute;, em ceroulas.<\/p>\n<p>O primeiro ator c&ocirc;mico, ao ver o jovem Comendador Cardoso, n&atilde;o<br \/>\n    perdeu o sangue-frio, e come&ccedil;ou a fingir que estava a ensaiar.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; como vos digo, Princesa Briolanja; o rei, vosso pai, n&atilde;o<br \/>\n    acredita nas palavras da Fada das Safiras, e quer absolutamente encontrar<br \/>\n    TIOS seus remos um mancebo, fidalgo ou vil&atilde;o, que ven&ccedil;a o Drag&atilde;o<br \/>\n    Vermelho, e vos despose!&#8230;<\/p>\n<p>Mas o jovem Comendador Cardoso n&atilde;o engoliu a p&iacute;lula, e disse,<br \/>\n    dirigindo-se &agrave; Princesa Briolanja, que continuava a fumar o seu cigarro<br \/>\n    turco:<\/p>\n<p>&#8211; Bem; estou satisfeito; vi o que queria ver. Fique-se com o senhor Lopes,<br \/>\n    que realmente &eacute; digno da senhora!<\/p>\n<p>E saiu arrebatadamente.<\/p>\n<p>&#8211; E agora? &#8211; perguntou o c&ocirc;mico.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Ele voltar&aacute;! &#8211; afirmou ela, carregando os erres, entre uma baforada<br \/>\n    de fumo.<\/p>\n<p>E foram deitar-se.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> O jovem Comendador Cardoso n&atilde;o voltou, e Madame d&#8217;Arbois ficou bastante<br \/>\n    contrariada, porque o ator Lopes tinha numerosa fam&iacute;lia &#8211; mulher e<br \/>\n    filhos &#8211; e n&atilde;o lhe dava um vint&eacute;m. Demais, ela bem depressa<br \/>\n    fartou-se desses amores reles. Que doidice a sua: trocar por aquele tipo um<br \/>\n    rapaz rico, inteligente, simp&aacute;tico e generoso!<\/p>\n<p>Acresce que a opereta, recebida com grande entusiasmo durante as primeiras<br \/>\n    trinta representa&ccedil;&otilde;es, j&aacute; n&atilde;o atra&iacute;a o<br \/>\n    p&uacute;blico; o teatro ficava agora todas as noites vazio e o empres&aacute;rio<br \/>\n    j&aacute; devia um m&ecirc;s de ordenados &agrave; companhia&#8230;<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> A primeira representa&ccedil;&atilde;o da pe&ccedil;a que estava em ensaios,<br \/>\n    a tal em que entravam a Fada das Safiras e o Drag&atilde;o Vermelho, devia<br \/>\n    ser dada em beneficio do Lopes, e esse espet&aacute;culo era ansiosamente<br \/>\n    esperado. O beneficiado via-se doido para atender aos numerosos pedidos de<br \/>\n    bilhetes. Nos jornais apareciam todos os dias grandes reclames &agrave; &quot;festa<br \/>\n    art&iacute;stica&quot;, anunciada tamb&eacute;m pelas esquinas em vistosos<br \/>\n    cartazes, onde este nome &#8211; LOPES &#8211; se destacava em enormes caracteres vermelhos.<\/p>\n<p>Chegou a noite do espet&aacute;culo. &Agrave;s sete horas e meia as torrinhas,<br \/>\n    os corredores e o jardim do teatro j&aacute; estavam apinhados. Uma hora depois,<br \/>\n    a sala transbordava, e toda aquela gente abanava-se com leques, ventarolas,<br \/>\n    len&ccedil;os e programas, bufando de calor. Os espectadores das torrinhas<br \/>\n    batiam com os p&eacute;s e as bengalas, e dirigiam chufas aos da plat&eacute;ia<br \/>\n    e dos camarotes, talvez com a id&eacute;ia de se vingarem de os ver em lugares<br \/>\n    menos inc&ocirc;modos. Os cr&iacute;ticos teatrais estavam a postos. Os m&uacute;sicos<br \/>\n    afinavam os instrumentos; um garoto apregoava o retrato e a biografia do glorioso<br \/>\n    Lopes; as conversa&ccedil;&otilde;es cruzavam-se; e todos esses ru&iacute;dos<br \/>\n    juntos produziam um barulho ensurdecedor e terr&iacute;vel.<\/p>\n<p>De repente, ouviu-se o agudo som de uma sineta ao mesmo tempo que uma campainha<br \/>\n    el&eacute;trica retinia longamente, e a sala, at&eacute; ent&atilde;o que<br \/>\n    se escura, aparecia numa intensidade de luz, arrancando um prolongado O&#8230;<br \/>\n    o&#8230; 0k&#8230; das torrinhas&#8230; Eram nove horas.<\/p>\n<p>Restabelecido o sil&ecirc;ncio, o regente da orquestra subiu vagarosamente<br \/>\n    para o seu lugar, abriu a partitura, falou em voz baixa a alguns m&uacute;sicos,<br \/>\n    bateu tr&ecirc;s pancadas na estante, levantou a batuta, e fez executar a<br \/>\n    ouverture.<\/p>\n<p>Terminada esta, naturalmente esperavam todos que o pano subisse, mas n&atilde;o<br \/>\n    subiu.<\/p>\n<p>Passaram-se alguns minutos.<\/p>\n<p>Come&ccedil;ou o p&uacute;blico a impacientar-se, batendo com os p&eacute;s.<br \/>\n    A pateada cresceu. Uma ordenan&ccedil;a foi destacada do camarote da pol&iacute;cia<br \/>\n    para o palco. O beneficiado, vestido de escudeiro de m&aacute;gica, surdiu<br \/>\n    no prosc&ecirc;nio e foi recebido com uma salva de palmas. Mas de todos os<br \/>\n    lados fizeram: Psiu! psiu! &#8211; e o barulho cessou.<\/p>\n<p>&#8211; Respeit&aacute;vel p&uacute;blico &#8211; disse o primeiro ator c&ocirc;mico<br \/>\n    &#8211; o espet&aacute;culo n&atilde;o pode ter come&ccedil;o, porque a atriz Madame<br \/>\n    d&#8217;Arbois, incumbida de um dos principais pap&eacute;is, at&eacute; agora n&atilde;o<br \/>\n    apareceu no teatro. Rogo-vos humildemente que espereis alguns minutos mais,<br \/>\n    e me perdoeis esta falta, inteiramente alheia &agrave; minha vontade.<\/p>\n<p>Esse cavaco foi acolhido com outra salva de palmas. O Lopes retirou-se, cumprimentando<br \/>\n    e agradecendo para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo, e os<br \/>\n    coment&aacute;rios, os risos, as impreca&ccedil;&otilde;es e os gracejos come&ccedil;aram<br \/>\n    num vozerio atroador.<\/p>\n<p>De vez em quando sa&iacute;am da caixa do teatro, ou para l&aacute; entravam,<br \/>\n    correndo pelo corredor, pessoas azafamadas, espavoridas &#8211; empregados da contra-regra,<br \/>\n    costureiras, etc. &#8211; mandadas &agrave; procura de Madame d&#8217;Arbois.<\/p>\n<p>Passava das nove e meia quando o Lopes, coagido pela pol&iacute;cia, veio<br \/>\n    de novo ao prosc&ecirc;nio declarar que, n&atilde;o se achando Madame d&#8217;Arbois<br \/>\n    no teatro nem na casa de sua resid&ecirc;ncia, ficava o espet&aacute;culo<br \/>\n    transferido para quando se anunciasse.<\/p>\n<p>Desta vez n&atilde;o houve palmas que saudassem o primeiro ator c&ocirc;mico.<\/p>\n<p>A sa&iacute;da dos espectadores fez-se no meio de uma confus&atilde;o indescrit&iacute;vel.<br \/>\n    Muitos exigiram que lhes fosse restitu&iacute;do o dinheiro, e promoveram<br \/>\n    desordem na bilheteria. Foi necess&aacute;ria a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da pol&iacute;cia. S&oacute; &agrave;s onze horas pode ser restabelecida a<br \/>\n    ordem e fechado o teatro.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> Onde estava Madame d&#8217;Arbois?<\/p>\n<p>No dia do espet&aacute;culo ela acabara de jantar, e, reclinada na sua espregui&ccedil;adeira,<br \/>\n    relia mais uma vez o interessante papel de Princesa Briolanja, que devia representar<br \/>\n    essa noite, quando lhe trouxeram uma carta do jovem Comendador Cardoso.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Ah! &#8211; pensou a francesa com um sorriso de triunfo. &#8211; Voltou ou n&atilde;o<br \/>\n    voltou?<\/p>\n<p>E abriu a carta:<\/p>\n<p>&quot;Lolotte &#8211; Escreveste-me, pedindo que te perdoasse. Perd&ocirc;o-te,<br \/>\n    mas sob uma condi&ccedil;&atilde;o: deixar&aacute;s de representar hoje no<br \/>\n    beneficio do homem que foi o causador da nossa separa&ccedil;&atilde;o, ou,<br \/>\n    por outra, nunca mais representar&aacute;s. S&oacute; assim serei para ti<br \/>\n    o mesmo que j&aacute; fui. Se aceitas, mete-te no carro que ai te ir&aacute;<br \/>\n    buscar &agrave;s sete horas da noite, e vai ter comigo no Hotel Laroche, no<br \/>\n    alto da Tijuca, onde estou passando uns dias, e onde ficaras em minha companhia.<br \/>\n    Se n&atilde;o, n&atilde;o. &#8211; Cardoso.&quot;<\/p>\n<p>Princesa Briolanja leu e releu esse bilhete.<\/p>\n<p>Era o perd&atilde;o, era o descanso, era a fortuna, que lhe traziam aquelas<br \/>\n    letras. Deixando de comparecer ao espet&aacute;culo, ela praticava uma a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    feia, provocava um esc&acirc;ndalo inaudito, mas isso que lhe importava, se<br \/>\n    sa&iacute;a do teatro e ia outra vez estar de casa e pucarinha com aquele<br \/>\n    homem distinto a quem tantos favores e tanto afeto devia?<\/p>\n<p>Pouco depois da hora aprazada, Lolotte entrou no discreto coup&eacute; que<br \/>\n    a esperava &agrave; porta de casa, e chegou ao Hotel Laroche precisamente<br \/>\n    na ocasi&atilde;o em que o Lopes, desesperado, apelava para a paci&ecirc;ncia<br \/>\n    do p&uacute;blico.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> Ao entrar no hotel, Madame d&#8217;Arbois perguntou a um criado:<\/p>\n<p>&#8211; O Comendador Cardoso?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o est&aacute;, mas deixou um bilhete para Madame d&#8217;Arbois. ~ a<br \/>\n    senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sou eu.<\/p>\n<p>E a desgra&ccedil;ada leu o seguinte:<\/p>\n<p>&quot;Ca&iacute;ste como um patinho, minha toleirona. Estou vingado de ti<br \/>\n    e do teu Lopes. Volta para ele; &eacute; t&atilde;o pulha, que talvez te aceite<br \/>\n    ainda. &#8211; Cardoso.&quot;<\/p>\n<h2><a name=\"99\">VOV&Oacute; ANDRADE<\/a><\/h2>\n<p>Ele aparecera um belo dia na casa de pens&atilde;o de Dona Eug&ecirc;nia,<br \/>\n    acompanhado de tr&ecirc;s ba&uacute;s e um pequeno cofre de ferro. Pedira<br \/>\n    o aposento mais barato, e regateara o pre&ccedil;o da comida, porque, dizia<br \/>\n    ele, estava habituado a tomar uma &uacute;nica refei&ccedil;&atilde;o por<br \/>\n    dia, e parca, muito parca.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m sabia de onde vinha aquele velho, nem ele o dizia, conquanto<br \/>\n    n&atilde;o fosse precisamente um taciturno. Gostava de dar &agrave; l&iacute;ngua,<br \/>\n    mas quando algum abelhudo o interrogava sobre a sua vida, ele n&atilde;o respondia,<br \/>\n    dando a entender apenas, por meias palavras, que passara por s&eacute;rios<br \/>\n    dissabores, que tinha sofrido muito e mudara de terra para que ningu&eacute;m<br \/>\n    lhe lembrasse o passado.<\/p>\n<p>Sabia-se apenas que se chamava Andrade, era portugu&ecirc;s, e emigrara muito<br \/>\n    crian&ccedil;a para uma das nossas prov&iacute;ncias onde viveu perto de sessenta<br \/>\n    anos.<\/p>\n<p>N&atilde;o consentia entrassem no seu quarto que ele pr&oacute;prio varria<br \/>\n    e espanava, deixando-se ficar horas e horas sozinho, fechado &agrave; chave,<br \/>\n    abrindo e remexendo o cofre e os ba&uacute;s.<\/p>\n<p>Um dos h&oacute;spedes, o Braguinha, guarda-livros de uma casa importante,<br \/>\n    afirmou ouvir no aposento do velho o tilintar de moedas de ouro.<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo &eacute; uma esp&eacute;cie de tio Gaspar, dos Sinos de Corneville<br \/>\n    &#8211; afirmava o dito Braguinha com uma convic&ccedil;&atilde;o que se comunicou<br \/>\n    aos outros h&oacute;spedes.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> Mas podia l&aacute; ser! O velho Andrade tinha a roupa no fio, o chap&eacute;u<br \/>\n    surrado, os sapatos a rir, e era com um suspiro doloroso e profundo que pagava,<br \/>\n    no fim do m&ecirc;s, a sua m&oacute;dica pens&atilde;o.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> A dona da casa, que era vi&uacute;va, e tinha tr&ecirc;s filhos, tr&ecirc;s<br \/>\n    bonitos rapazes, o mais velho dos quais contava apenas treze anos, tamb&eacute;m<br \/>\n    se convenceu de que o seu novo h&oacute;spede era um avarento s&oacute;rdido;<br \/>\n    intim&aacute;-lo-ia, talvez, a procurar c&ocirc;modo noutra parte, se ele<br \/>\n    n&atilde;o se tivesse afei&ccedil;oado desde logo aos tr&ecirc;s meninos,<br \/>\n    mostrando-lhes uma simpatia fora do comum, contando-lhes hist&oacute;rias<br \/>\n    que os divertiam. Quem meus filhos beija minha boca ado&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Adoro as crian&ccedil;as &#8211; dizia o velho a Dona Eug&ecirc;nia. &#8211; Que quer?<br \/>\n    N&atilde;o tenho mais ningu&eacute;m sobre a terra: sou completamente s&oacute;.<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute;? Pois nem um parente?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nem um aderente, minha senhora! A morte levou-me quantos eu amava, e esqueceu-se<br \/>\n    de mim neste mundo de atribula&ccedil;&otilde;es e mis&eacute;rias.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> Havia um negociante, o Barbosa, sujeito de meia idade, compadre da Dona<br \/>\n    Eug&ecirc;nia, que a visitava mi&uacute;do e a assistia com os seus conselhos<br \/>\n    de homem pr&aacute;tico. As m&aacute;s l&iacute;nguas diziam que esse amigo<br \/>\n    do defunto era alguma coisa mais que um simples conselheiro, por&eacute;m<br \/>\n    sobre esse ponto n&atilde;o tenho nenhuma indica&ccedil;&atilde;o exata, nem<br \/>\n    ele importa &agrave; minha narrativa.<\/p>\n<p>A verdade &eacute; que, com a morte do marido, Dona Eug&ecirc;nia se achou<br \/>\n    numa situa&ccedil;&atilde;o muito prec&aacute;ria, e foi o compadre quem lhe<br \/>\n    forneceu o capital necess&aacute;rio para o estabelecimento da casa de pens&atilde;o,<br \/>\n    que prosperava.<\/p>\n<p>Um dia em que Dona Eug&ecirc;nia lhe disse que a presen&ccedil;a do misterioso<br \/>\n    velhote a aborrecia, e ela j&aacute; o teria posto a andar, se ele se n&atilde;o<br \/>\n    mostrasse t&atilde;o amigo dos rapazes, o Barbosa retorquiu:<\/p>\n<p>&#8211; P&ocirc;-lo a andar? Que lembran&ccedil;a! Pelo contr&aacute;rio: conserve-o.<br \/>\n    Este h&oacute;spede foi a fortuna que lhe entrou em casa!<\/p>\n<p>&#8211; A fortuna?<\/p>\n<p>&#8211; A fortuna, sim! &Eacute; um velho rico e avarento, que n&atilde;o tem herdeiros&#8230;<br \/>\n    P&ocirc;-lo fora! Que id&eacute;ia! Trate-o com todo o carinho, e fa&ccedil;a<br \/>\n    com que seus filhos o respeitem e o amem.<\/p>\n<p>Naquela casa o Barbosa tinha sempre raz&atilde;o. Poucos dias depois, Dona<br \/>\n    Eug&ecirc;nia oferecia ao velho Andrade, pelo mesmo pre&ccedil;o, um aposento<br \/>\n    maior, mais espa&ccedil;oso, mais arejado, com boa mob&iacute;lia, colch&atilde;o<br \/>\n    de arame e duas janelas dizendo para o jardim.<\/p>\n<p>Fez mais: obrigou-o, com bons modos, a tomar duas refei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    por dia, como os demais h&oacute;spedes, e pela manh&atilde; mandava-lhe chocolate<br \/>\n    ou caf&eacute; com leite e biscoitos.<\/p>\n<p>O velho derramava l&aacute;grimas de reconhecimento, admirando-se, dizia<br \/>\n    ele, de tanta bondade para com um pobre diabo in&uacute;til, que n&atilde;o<br \/>\n    tinha onde cair morto.<\/p>\n<p>Dona Eug&ecirc;nia conseguiu, com a habilidade de um diplomata, saber o dia<br \/>\n    em que fazia anos o velho, e nesse dia o pobre homem foi presenteado pelos<br \/>\n    menos com roupa e cal&ccedil;ado. Agora n&atilde;o lhe faltava nada.<\/p>\n<p>O Braguinha, vendo que o velho simpatizava com ele, e na esperan&ccedil;a<br \/>\n    de ser contemplado por sua morte, come&ccedil;ou tamb&eacute;m a mimose&aacute;-lo<br \/>\n    com guloseimas, charutos finos, livros interessantes, jornais ilustrados,<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>Entretanto, o velho n&atilde;o modificou os seus h&aacute;bitos de solid&atilde;o.<br \/>\n    Ningu&eacute;m lhe entrava no quarto onde continuava diariamente, durante<br \/>\n    horas e horas &#8211; a abrir e fechar o cofre e os ba&uacute;s.<\/p>\n<p>Um dia, quando ele ia pagar a Dona Eug&ecirc;nia a sua pens&atilde;o, esta<br \/>\n    disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se ofenda com ~ que lhe vou pedir: guarde o seu dinheiro; n&atilde;o<br \/>\n    tem que pagar coisa alguma; a sua mensalidade n&atilde;o me faz ficar mais<br \/>\n    rica nem mais pobre; quero que o senhor seja considerado nesta casa como pessoa<br \/>\n    da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> A situa&ccedil;&atilde;o durou assim muito tempo. O velho Andrade passava<br \/>\n    uma vida de lorde, tratado a vela de libra.<\/p>\n<p>Agora manifestava desejos, apetecia coisas, e bastava a mais leve insinua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para ser logo presenteado tanto pela vi&uacute;va como pelo Braguinha.<\/p>\n<p>Este foi afastado a conselho do prudente Barbosa. Era um concorrente perigoso.<br \/>\n    Tantas &#8216;fizeram que o guarda-livros foi obrigado a mudar-se, n&atilde;o deixando,<br \/>\n    contudo, de visitar o velho todas as vezes que o podia fazer, porque a vi&uacute;va<br \/>\n    seq&uuml;estrava o seu precioso h&oacute;spede.<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> J&aacute; estava o Andrade havia dois anos na casa de pens&atilde;o, quando<br \/>\n    uma noite, achando-se a s&oacute;s com Dona Eug&ecirc;nia, disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Quero fazer-lhe urna comunica&ccedil;&atilde;o, minha santa protetora.<br \/>\n    Estou velho ~ posso morrer de um momento para outro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o diga isso; o senhor tem para dar e levar!<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; l&aacute; no meu quarto um cofre de ferro cuja chave est&aacute;<br \/>\n    sempre comigo. Esse cofre &eacute; um absurdo, uma fantasia, porque nada tenho<br \/>\n    sen&atilde;o quatro patacas e umas bugigangas sem valor. Pois bem; previno-a<br \/>\n    de que l&aacute; dentro est&aacute; o meu testamento&#8230; &#8211; O seu testamento!<br \/>\n    dir&aacute; a senhora; mas voc&ecirc; n&atilde;o tem o que deixar! &#8211; Pois<br \/>\n    tenho. sim, senhora &#8211; tendo naqueles ba&uacute;s muitos objetos, de nenhum<br \/>\n    valor, &eacute; verdade, mas que, se eu fechasse os olhos sem ter feito as<br \/>\n    minhas disposi&ccedil;&otilde;es testament&aacute;rias, seriam arrecadados<br \/>\n    pelo consulado portugu&ecirc;s e vendidos em hasta p&uacute;blica. &Eacute;<br \/>\n    isso que desejo evitar, dando destino ao que &eacute; meu.<\/p>\n<p>Essa revela&ccedil;&atilde;o fez com que redobrassem os carinhos que cercavam<br \/>\n    o velho. Levavam-no aos teatros, &agrave;s festas, aos passeios; enchiam-no<br \/>\n    de marmeladas e vinhos finos. Os meninos habituaram-se a chamar-lhe &quot;vov&ocirc;<br \/>\n    Andrade&quot;.<\/p>\n<p>E o h&oacute;spede tornou-se caro. S&oacute; n&atilde;o lhe davam m&eacute;dico<br \/>\n    e botica, porque tinha uma sa&uacute;de de ferro, e nunca precisou disso.<\/p>\n<p>E sempre a mesma reserva, sempre o mesmo mist&eacute;rio sobre o seu passado;<br \/>\n    n&atilde;o havia meio de lhe arrancar uma confid&ecirc;ncia!<\/p>\n<p> *<\/p>\n<p> Dona Eug&ecirc;nia come&ccedil;ou a impacientar-se:<\/p>\n<p>&#8211; Este velho &eacute; capaz de nos enterrar a todos!<\/p>\n<p>&#8211; Tenha paci&ecirc;ncia; ature-o, que h&aacute; de receber capital e juros<br \/>\n    acumulados &#8211; dizia o Barbosa. &#8211; Naquela idade o homenzinho n&atilde;o pode<br \/>\n    ir muito longe.<\/p>\n<p>E n&atilde;o foi.<\/p>\n<p>Justamente no dia em que se completavam cinco anos que era h&oacute;spede<br \/>\n    da casa de pens&atilde;o, vov&ocirc; Andrade caiu fulminado por uma apoplexia.<br \/>\n    Para festejar o quinto anivers&aacute;rio das suas rela&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    Dona Eug&ecirc;nia obsequiara-o com um op&iacute;paro jantar, abundantemente<br \/>\n    regado e ele comeu e bebeu demais.<\/p>\n<p>Os meninos que j&aacute; estavam crescidos (o mais velho ia fazer dezoito<br \/>\n    anos) choraram sinceramente. A vi&uacute;va, insofrida, quis abrir logo o<br \/>\n    cofre, e t&ecirc;-lo-ia feito se o discreto Barbosa lho n&atilde;o obstasse.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o mexa em cousa alguma. Vou chamar quem de direito.<\/p>\n<p>Veio a autoridade consular, que abriu o cofre. Este continha, efetivamente,<br \/>\n    um inv&oacute;lucro subscritado com estas palavras: &quot;Meu testamento&quot;,<br \/>\n    e cerca de trezentos mil r&eacute;is em notas do Tesouro e moedas de prata<br \/>\n    e ouro, as tais que tilintavam aos ouvidos do Braguinha.<\/p>\n<p>Dois ba&uacute;s estavam cheios de ferros velhos, trapos, coisas in&uacute;teis,<br \/>\n    e o outro continha objetos que representavam algum valor: a roupa e os demais<br \/>\n    presentes com que o vov&ocirc; Andrade tinha sido durante cinco anos obsequiado<br \/>\n    na casa de pens&atilde;o.<\/p>\n<p>O testamento dizia:<\/p>\n<p>&quot;Achando-me septuagen&aacute;rio e reduzido &agrave; mis&eacute;ria,<br \/>\n    sem um parente, sem um amigo, depois de uma vida inteira de trabalhos e infort&uacute;nios,<br \/>\n    tinha que optar entre a mendicidade e o suic&iacute;dio.<\/p>\n<p>N&atilde;o optei por uma nem por outra coisa: mudei de terra, fingi-me rico<br \/>\n    e avarento, bastante para isso dois velhos ba&uacute;s e um cofre de ferro,<br \/>\n    &uacute;ltimo vest&iacute;gio de melhores tempos.<\/p>\n<p>Gra&ccedil;as a esse ardil, encontrei tudo quanto me faltava, e mais alguma<br \/>\n    coisa.<\/p>\n<p>Uns dir&atilde;o que fui tratante; dir&atilde;o outros que fui fil&oacute;sofo.<br \/>\n    Para mim &eacute; o mesmo.<\/p>\n<p>Dentro do cofre encontrar&atilde;o a quantia necess&aacute;ria para o meu<br \/>\n    enterro&quot;.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Quem se lavou em &aacute;gua de rosas foi o Braguinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: BARCA 345 A &#8220;N\u00c3O-ME-TOQUES&#8221; A &#8220;R\u00c9CLAME&#8221; A \u00c1GUA DE JANOS A AMA &#8211; SECA A CONSELHO DO MARIDO A D\u00cdVIDA A DOEN\u00c7A DE FABR\u00cdCIO A FILHA DO PATR\u00c3O A FILOSOFIA DO MENDES A MARCELINA A MELHOR AMIGA A MELHOR VINGAN\u00c7A A MO\u00c7A MAIS BONITA DO RIO [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92756","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Contos - Artur Azevedo, Literatura Contos - Artur Azevedo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Contos - Artur Azevedo, Literatura, Barca, Caiporismo, A \u00c1gua de Janos, A Marcelina, A Filha do Patr\u00e3o, Asa Negra, Contos - Artur Azevedo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Contos - Artur Azevedo, Literatura Contos - Artur Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Contos - Artur Azevedo, Literatura, Barca, Caiporismo, A \u00c1gua de Janos, A Marcelina, A Filha do Patr\u00e3o, Asa Negra, Contos - Artur Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/contos-artur-azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-05T11:59:33+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"311 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/contos-artur-azevedo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/contos-artur-azevedo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Contos &#8211; 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