{"id":92659,"date":"2017-01-04T15:57:03","date_gmt":"2017-01-04T17:57:03","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92659"},"modified":"2017-01-04T15:57:03","modified_gmt":"2017-01-04T17:57:03","slug":"o-santo-e-a-porca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-santo-e-a-porca","title":{"rendered":"O Santo e a Porca"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"750\" height=\"148\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"116\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#1\">Primeiro Ato<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"> <\/td>\n<td width=\"151\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><font size=\"3\"><font size=\"2\"><a href=\"#2\">Segundo Ato<\/a><\/font><\/font><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"> <\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#3\">Terceiro Ato<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2><a name=\"1\">PRIMEIRO ATO<\/a><\/h2>\n<h5>O pano abre na casa de EURICO AR&Aacute;BE, mais conhecido como EURIC&Atilde;O<br \/>\n    ENGOLE-COBRA<\/h5>\n<p> CAROBA &#8212; E foi ent&atilde;o que o patr&atilde;o dele disse: &quot;Pinh&atilde;o,<br \/>\n    voc&ecirc; sele o cavalo e v&aacute; na minha frente procurar Euric&atilde;o&#8230;&quot;<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Euric&atilde;o, n&atilde;o. Meu nome &eacute; Eurico.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Sim, &eacute; isso mesmo. Seu Eudoro Vicente disse: &quot;Pinh&atilde;o,<br \/>\n    voc&ecirc; sele o cavalo e v&aacute; na minha frente procurar Euriques&#8230;&quot;<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Eurico! CAROBA &#8212; &quot;V&aacute; procurar Eur&iacute;quio&#8230;&quot;<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Chame Euric&atilde;o mesmo.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; &quot;V&aacute; procurar Euric&atilde;o Engole-Cobra&#8230;&quot;<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Engole-Cobra &eacute; a m&atilde;e! N&atilde;o lhe<br \/>\n    dei licen&ccedil;a de me chamar de Engole- Cobra, n&atilde;o! S&oacute; de<br \/>\n    Euric&atilde;o! CAROBA &#8212; &quot;V&aacute; na minha frente procurar Euric&atilde;o<br \/>\n    para entregar essa carta a ele.&quot; EURIC&Atilde;O &#8212; Onde est&aacute;<br \/>\n    a carta? D&ecirc; c&aacute;! Que querer&aacute; Eudoro Vicente comigo? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Eu acho que &eacute; dinheiro emprestado.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; (Devolvendo a carta.) Hein? PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Toda vez que ele me manda assim na frente, a cavalo, &eacute; para isso.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E que id&eacute;ia foi essa de que eu tenho dinheiro?<br \/>\n    Voc&ecirc; andou espalhando isso! Foi voc&ecirc;, Caroba miser&aacute;vel,<br \/>\n    voc&ecirc; que n&atilde;o tem compaix&atilde;o de um pobre como eu! Foi voc&ecirc;,<br \/>\n    s&oacute; pode ter sido voc&ecirc;! CAROBA &#8212; Eu? Eu n&atilde;o! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Ai, meu Deus, com essa carestia! Ai a crise, ai a carestia! Tudo que<br \/>\n    se compra &eacute; pela hora da morte! CAROBA &#8212; E o que &eacute; que<br \/>\n    o senhor compra? Me diga mesmo, pelo amor de Deus! S&oacute; falta matar a<br \/>\n    gente de fome! EURIC&Atilde;O &#8212; Ai a crise, ai a carestia! E &eacute;<br \/>\n    tudo querendo me roubar! Mas Santo Ant&ocirc;nio me protege! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; O senhor pelo menos leia a carta! EURIC&Atilde;O &#8212; Eu? Deus<br \/>\n    me livre de ler essa maldita! Essa amaldi&ccedil;oada! Ai a crise, ai a carestia!<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio me proteja, meu Deus! Ai a crise, ai a carestia! Entra<br \/>\n    MARGARIDA atra&iacute;da pelo rumor. Vem acompanhada de DOD&Oacute; VICENTE,<br \/>\n    disfar&ccedil;ado com uma horr&iacute;vel barbicha, com a boca torta, com<br \/>\n    corcova, coxeando e vestido de preto.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Papai! Que foi, meu pai? Ouvi o senhor gritar! Est&aacute;<br \/>\n    sentindo alguma coisas? EURIC&Atilde;O &#8212; Ai minha filha, me acuda! Ai,<br \/>\n    ai! Os ladr&otilde;es, minha filha, os ladr&otilde;es! MARGARIDA &#8212; Socorro!<br \/>\n    Socorro! Pega o ladr&atilde;o! EURIC&Atilde;O &#8212; Ai minha filha, n&atilde;o<br \/>\n    grite assim n&atilde;o! N&atilde;o grite, sen&atilde;o v&atilde;o pensar que<br \/>\n    a gente tem o que roubar em casa. E v&ecirc;m roubar! Santo Ant&ocirc;nio,<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio! Ai a crise, ai a carestia! MARGARIDA &#8212; Mas o que<br \/>\n    foi que houve? EURIC&Atilde;O &#8212; Ainda n&atilde;o houve nada, mas est&aacute;<br \/>\n    para haver! Est&aacute; para haver, minha filha! MARGARIDA &#8212; O que &eacute;?<br \/>\n    Que foi que houve, Caroba? Que foi, Pinh&atilde;o! Pinh&atilde;o, voc&ecirc;<br \/>\n    aqui? Ah, j&aacute; sei o que houve, papai soube de tudo! &Eacute; melhor<br \/>\n    ent&atilde;o que eu confesse logo.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Que a senhora se confesse? Deixe para a sexta-feira, porque<br \/>\n    a senhora aproveita e comunga! Que coisa, Dona Margarida s&oacute; quer viver<br \/>\n    na igreja! EURIC&Atilde;O &#8212; Ai a crise, ai a carestia! MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    Mas afinal de contas, o que foi que houve? Meu pai, eu vou contar&#8230;<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; N&atilde;o! PINH&Atilde;O &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o,<br \/>\n    Dona Margarida, quem fala sou eu! O que houve &eacute; que meu patr&atilde;o<br \/>\n    escreveu uma carta ao senhor seu pai.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Uma carta? Dizendo o qu&ecirc;? EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Voc&ecirc; ainda pergunta? S&oacute; pode ser para pedir dinheiro emprestado!<br \/>\n    Aquele usur&aacute;rio! Aquele ladr&atilde;o! CAROBA &#8212; Mas Seu Euric&atilde;o,<br \/>\n    Seu Eudoro &eacute; um homem rico! EURIC&Atilde;O &#8212; E &eacute; por isso<br \/>\n    mesmo que eu estou com medo. Voc&ecirc; j&aacute; viu pobre pedir dinheiro<br \/>\n    emprestado? S&oacute; os ricos &eacute; que vivem com essa safadeza! Santo<br \/>\n    Ant&ocirc;nio, Santo Ant&ocirc;nio! MARGARIDA &#8212; Mas papai j&aacute;<br \/>\n    leu a carta? EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o! Nem quero ler! Nem quero que<br \/>\n    voc&ecirc; leia! Afaste-se, n&atilde;o toque nessa amaldi&ccedil;oada! MARGARIDA<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o tome.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o tomo! MARGARIDA &#8212; Leia o senhor<br \/>\n    mesmo! EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o leio! MARGARIDA &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    pode ser coisa ruim, papai! EURIC&Atilde;O &#8212; S&oacute; pode ser coisa<br \/>\n    ruim, minha filha! CAROBA &#8212; Mas se for dinheiro emprestado, &eacute;<br \/>\n    s&oacute; o senhor n&atilde;o emprestar, Seu Euric&atilde;o! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; &Eacute; mesmo! &Eacute; mesmo, Caroba! Eu nem me lembrei disso, no<br \/>\n    meu aperreio! CAROBA &#8212; Leia a carta, Seu Euric&atilde;o! MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    &Eacute;, papai, leia! Que mal faz? PINH&Atilde;O &#8212; Se for dinheiro<br \/>\n    emprestado&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; (Jogando a carta no ch&atilde;o.) Ai! MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    (Apanhando-a.) N&atilde;o &eacute; nada demais, est&aacute; vendo? Olhe, veja<br \/>\n    o senhor mesmo! EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o fala em dinheiro n&atilde;o?<br \/>\n    MARGARIDA &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Nem pede para eu avalizar alguma letra? MARGARIDA<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; jura? MARGARIDA &#8212; Juro.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ent&atilde;o eu leio. Mas Santo Ant&ocirc;nio, veja<br \/>\n    l&aacute;! N&atilde;o v&aacute; ser essa safadeza de me pedir dinheiro emprestado!<br \/>\n    MARGARIDA &#8212; Papai, leia a carta pelo amor de Deus! EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Voc&ecirc; acha que eu devo ler? MARGARIDA &#8212; Acho.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ent&atilde;o eu leio. Meu caro Eurico: espero que<br \/>\n    esta v&aacute; encontr&aacute;-lo como sempre com os seus, gozando paz e prosperidade!<br \/>\n    Ai! Margarida! MARGARIDA &#8212; Que &eacute;, papai? EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Voc&ecirc; passou o S&atilde;o Jo&atilde;o na fazenda de Eudoro Vicente.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; &Eacute; verdade, papai.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; foi dizer, l&aacute;, que eu era rico?<br \/>\n    MARGARIDA &#8212; Eu? E eu ia dizer uma coisa dessa, meu pai? N&oacute;s somos<br \/>\n    t&atilde;o pobres! EURIC&Atilde;O &#8212; E como &eacute; que ele fala em<br \/>\n    prosperidade, aqui? Isso &eacute; dinheiro emprestado, n&atilde;o tem pra<br \/>\n    onde! MARGARIDA &#8212; &Eacute; um modo de falar, papai, todo mundo diz isso<br \/>\n    nas cartas! EURIC&Atilde;O &#8212; &Eacute;? MARGARIDA &#8212; &Eacute;! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o eu leio. Gozando paz e prosperidade. Sobretudo, espero<br \/>\n    que esteja passando bem sua encantadora filha Margarida, cuja estada em minha<br \/>\n    casa ainda n&atilde;o consegui esquecer. Ah, isso a&iacute; ele tem que reconhecer,<br \/>\n    minha filha &eacute; um patrim&ocirc;nio que possuo. Hei de cas&aacute;-la<br \/>\n    com um homem rico e ela h&aacute; de amparar a velhice do paizinho dela. Eudoro,<br \/>\n    com todo o dinheiro que tem, n&atilde;o tem uma filha como a minha! CAROBA<br \/>\n    &#8212; E o senhor, com toda a filha que tem, n&atilde;o tem uma riqueza como<br \/>\n    a dele! EURIC&Atilde;O &#8212; Como foi? CAROBA &#8212; Nada! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Mando na frente meu criado Pinh&atilde;o, homem de toda confian&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Obrigado! EURIC&Atilde;O &#8212; &#8230;para avis&aacute;-lo<br \/>\n    de minha chegada a&iacute;. A&iacute; aonde? Eudoro Vicente pensa que, pelo<br \/>\n    simples fato de ter hospedado minha filha, eu estou obrigado a hosped&aacute;lo?<br \/>\n    Ele convidou Margarida porque quis, que n&atilde;o convidei ningu&eacute;m!<br \/>\n    MARGARIDA &#8212; Mas papai, ele foi t&atilde;o delicado comigo! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Mas eu n&atilde;o o convidei, esse &eacute; que &eacute; o fato! Eu<br \/>\n    n&atilde;o convidei ningu&eacute;m! E o que &eacute; isso aqui? O que &eacute;<br \/>\n    isso aqui? CAROBA &#8212; Que &eacute;, Seu Euric&atilde;o? EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; vendo? Eu n&atilde;o dizia? Minha filha, voc&ecirc; ainda<br \/>\n    causar&aacute; minha perdi&ccedil;&atilde;o, minha morte, meu assassinato!<br \/>\n    Ai a crise, ai a carestia! MARGARIDA &#8212; Que foi, meu pai? EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; A carta! A carta amaldi&ccedil;oada! Bem que eu estava com um pressentimento<br \/>\n    ruim! MARGARIDA &#8212; Mas o que &eacute; que tem a carta? D&ecirc; c&aacute;,<br \/>\n    deixe eu ver! Onde &eacute;? EURIC&Atilde;O &#8212; A&iacute; onde diz &quot;de<br \/>\n    minha chegada a&iacute;&quot;. Ah carta amaldi&ccedil;oada! Ai a crise, ai<br \/>\n    a carestia! MARGARIDA &#8212; De minha chegada a&iacute;, mas quero logo avis&aacute;-lo:<br \/>\n    pretendo priv&aacute;-lo de seu mais precioso tesouro! EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Est&aacute; vendo? Esse ladr&atilde;o! Esse criminoso! Meteu na cabe&ccedil;a<br \/>\n    que eu tenho dinheiro escondido e quer roub&aacute;-lo. Est&atilde;o me roubando!<br \/>\n    Ladr&otilde;es, s&oacute; pensam nisso! Mas vou tomar minhas provid&ecirc;ncias!<br \/>\n    Saiam, saiam imediatamente! Vou tranc&aacute;los, entrem aqui imediatamente!<br \/>\n    Entrem, entrem! Empurra os quatro num quarto qualquer, que tranca por fora.<br \/>\n    Tranca tamb&eacute;m as portas e janelas com barras de madeira e abre pelo<br \/>\n    meio uma grande porca de madeira, velha e feia, que deve estar em cena, atirada<br \/>\n    a um canto, como se fosse coisa sem import&acirc;ncia Dentro dela, pacotes<br \/>\n    e pacotes de dinheiro. EURIC&Atilde;O, enquanto ergue e deixa cair amorosamente<br \/>\n    os pacotes, vai falando, ora consigo mesmo, ora com Santo Ant&ocirc;nio, cuja<br \/>\n    imagem tamb&eacute;m deve estar em cena.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ladr&otilde;es, ladr&otilde;es! Ser&aacute; que me<br \/>\n    roubaram? E preciso ver, &eacute; preciso vigiar! Vivem de olho no meu dinheiro,<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio! Dinheiro conseguido duramente, dinheiro que juntei com<br \/>\n    os maiores sacrif&iacute;cios. Eurico Ar&aacute;be, Eurico Engole-Cobra! Pois<br \/>\n    sim! Mas &eacute; rico e os que vivem zombando dele n&atilde;o t&ecirc;m a<br \/>\n    garantia de sua velhice. Ah, est&aacute; aqui, os ladr&otilde;es ainda n&atilde;o<br \/>\n    conseguiram furtar nada. Ah, minha porquinha querida, que seria de mim sem<br \/>\n    voc&ecirc;? Chega d&aacute; uma vontade da gente se mijar! Fique a&iacute;<br \/>\n    at&eacute; outra oportunidade. Se eu pudesse, comia voc&ecirc; inteirinha!<br \/>\n    Ai, mas &eacute; imposs&iacute;vel! Sen&atilde;o, desconfiam! (Abre as portas,<br \/>\n    numa alegria sat&acirc;nica.) EURIC&Atilde;O &#8212; Venham! Ra, ra! Ent&atilde;o<br \/>\n    voc&ecirc;s queriam roubar o velho Euric&atilde;o Ar&aacute;be, hein? Euric&atilde;o<br \/>\n    Engole-Cobra! Pois sim! Mas, se eu n&atilde;o cuido, as cobras &eacute; que<br \/>\n    v&atilde;o me engolir.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; &Eacute; por isso que o povo diz que cobra que n&atilde;o<br \/>\n    anda n&atilde;o engole sapo.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Acabe com esses ditados! Trabalhei com as cobras,<br \/>\n    &eacute; verdade, vendendo meus rem&eacute;dios por todo o sert&atilde;o.<br \/>\n    Mas hoje&#8230; Voc&ecirc;s pensam que sou rico, n&atilde;o &eacute;? MARGARIDA<br \/>\n    &#8212; Mas papai, quem vai pensar uma coisa dessa? EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Vivo cercado de inimigos, de ladr&otilde;es. E agora, ainda mais esse Eudoro<br \/>\n    Vicente, querendo roubar o que &eacute; meu! Esse ladr&atilde;o, esse criminoso!<br \/>\n    Eu n&atilde;o convidei ningu&eacute;m, ele vem porque quer. E voc&ecirc;,<br \/>\n    Seu Dod&oacute;, n&atilde;o diz nada? O senhor ouve essa desgra&ccedil;a,<br \/>\n    v&ecirc; que est&atilde;o querendo me depenar, me explorar, e fica calado?<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; O senhor v&aacute; ao hotel de Dad&aacute; e reserve quarto<br \/>\n    para o fazendeiro. Quando ele chegar, paga a conta! EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    &Eacute; mesmo! Dod&oacute; Boca-da-Noite! Que talento, que g&ecirc;nio! &Eacute;<br \/>\n    a &uacute;nica pessoa que sabe me compreender! Se voc&ecirc; n&atilde;o fosse<br \/>\n    t&atilde;o pobre e t&atilde;o feio, minha filha bem que poderia&#8230; Eu vou,<br \/>\n    sua id&eacute;ia &eacute; boa. Mas cuidado, todo cuidado &eacute; pouco. Voc&ecirc;<br \/>\n    fica aqui, de olho. N&atilde;o deixa entrar ningu&eacute;m. Margarida, minha<br \/>\n    filha, voc&ecirc; jura que fica aqui? MARGARIDA &#8212; Juro.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Jura que n&atilde;o deixa ningu&eacute;m entrar at&eacute;<br \/>\n    que eu volte? MARGARIDA &#8212; Juro.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; tamb&eacute;m jura, Dod&oacute; Boca-da-Noite?<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Juro.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; vigia minha filha e ela vigia voc&ecirc;!<br \/>\n    Vou reservar o quarto para Eudoro. E se ele chegar na minha aus&ecirc;ncia,<br \/>\n    v&atilde;o logo esclarecendo tudo. Eu n&atilde;o convidei ningu&eacute;m e<br \/>\n    n&atilde;o tenho dinheiro nenhum. E que Santo Ant&ocirc;nio me proteja dos<br \/>\n    ladr&otilde;es! (Sai.) Imediatamente MARGARIDA abra&ccedil;a DOD&Oacute;.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Meu amor, o que &eacute; que se pode fazer para evitar<br \/>\n    isso? Espere, tire essa barba horr&iacute;vel, n&atilde;o consigo me convencer<br \/>\n    de que &eacute; voc&ecirc;! Estamos perdidos, v&atilde;o descobrir tudo.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; A que horas meu pai chega, Pinh&atilde;o? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Chega j&aacute;. Pelo menos foi o que ele disse na carta, mas falar<br \/>\n    &eacute; f&ocirc;lego.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Que ter&aacute; havido, Dod&oacute;, meu amor? Que foi<br \/>\n    que deu em seu pai de repente? Ter&aacute; desconfiado de que voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    aqui? DOD&Oacute; &#8212; Ele estava zangado, Pinh&atilde;o? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, pelo contr&aacute;rio, estava at&eacute; alegre.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Falou alguma coisa a meu respeito? A respeito de eu<br \/>\n    ter ou n&atilde;o ter ido para o Recife estudar? PINH&Atilde;O &#8212; N&atilde;o.<br \/>\n    Ele n&atilde;o tem a menor id&eacute;ia de que o senhor est&aacute; aqui.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; O melhor &eacute; a gente confessar tudo, querido. N&atilde;o<br \/>\n    ag&uuml;ento mais essa agonia. A todo instante penso que meu pai vai reconhecer<br \/>\n    voc&ecirc;.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; N&atilde;o est&aacute; vendo que &eacute; imposs&iacute;vel,<br \/>\n    meu bem? Quando seu pai me viu pela &uacute;ltima vez, eu era um menino. E<br \/>\n    com esta corcova, essa roupa, essa barba&#8230; N&atilde;o &eacute; Poss&iacute;vel<br \/>\n    de jeito nenhum! MARGARIDA &#8212; Mas o seu? Ele vai chegar e vai reconhec&ecirc;-lo.<br \/>\n    N&atilde;o seria melhor dizer tudo? DOD&Oacute; &#8212; Mas dizer tudo como,<br \/>\n    meu bem? N&atilde;o tenho um tost&atilde;o meu, meu pai &eacute; contra a<br \/>\n    id&eacute;ia de eu me casar sem estudar, seu pai s&oacute; deixa voc&ecirc;<br \/>\n    casar com um homem rico&#8230; O que &eacute; que eu posso fazer contra este inferno?<br \/>\n    MARGARIDA &#8212; Talvez se seu pai soubesse que a noiva sou eu, permitisse<br \/>\n    o casamento e lhe desse terra para voc&ecirc; trabalhar. Ele gostou tanto<br \/>\n    de mim quando estive l&aacute;! DOD&Oacute; &#8212; E eu mais ainda, tanto<br \/>\n    assim que abandonei meu estudo e vim me meter nesse armaz&eacute;m por sua<br \/>\n    causa.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Mas com a chegada de seu pai, tudo se complica! Ele vai<br \/>\n    descobrir! DOD&Oacute; &#8212; Talvez voc&ecirc; tenha raz&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    melhor confessar. Quando ele chegar, descobrimos tudo e ficamos de joelhos<br \/>\n    diante dos dois, pedindo consentimento para nos casar.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; O senhor quer um conselho? DOD&Oacute; &#8212; Quero, Caroba,<br \/>\n    estou completamente cego.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o descubra nada! MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    Por qu&ecirc;? Voc&ecirc; fala de um jeito t&atilde;o misterioso! CAROBA &#8212;<br \/>\n    &Eacute; porque estou maldando um neg&oacute;cio mais misterioso ainda. Vou<br \/>\n    dizer uma coisa curta e certa aos dois: n&atilde;o descubram a hist&oacute;ria<br \/>\n    n&atilde;o, porque o pai do senhor vem &eacute; para pedir Dona Margarida<br \/>\n    em casamento.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; O qu&ecirc;? Voc&ecirc; est&aacute; doida, mulher? CAROBA<br \/>\n    &#8212; Estou nada, homem! Seu pai n&atilde;o &eacute; vi&uacute;vo? DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; &Eacute;.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; A senhora n&atilde;o passou um tempo l&aacute;? MARGARIDA<br \/>\n    &#8212; Passei.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ele n&atilde;o simpatizou com a senhora? MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    Simpatizou.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ele n&atilde;o disse, na carta, que vinha roubar o tesouro<br \/>\n    mais precioso de Seu Euric&atilde;o? PINH&Atilde;O &#8212; Disse.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ent&atilde;o o que &eacute; que voc&ecirc;s querem mais?<br \/>\n    E casamento no duro! DOD&Oacute; &#8212; &Eacute; poss&iacute;vel? CAROBA<br \/>\n    &#8212; Por que n&atilde;o, Seu Dod&oacute;? E proibido casar? MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    Mas assim, sem um aviso, sem uma proposta! CAROBA &#8212; Dona Margarida,<br \/>\n    essas coisas s&oacute; se usam na primeira vez, na segunda, vai direto! Casamento<br \/>\n    de vi&uacute;vo &eacute; feito depressa e sem muita conversa! MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    Voc&ecirc; acha que &eacute; poss&iacute;vel? DOD&Oacute; &#8212; Ouvi papai<br \/>\n    falar em casamento mais de uma vez, para sondar minha opini&atilde;o.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; E se for, o que &eacute; que a gente faz, meu Deus? CAROBA<br \/>\n    &#8212; &Eacute; deixar as coisas como est&atilde;o. Se o senhor tiver habilidade,<br \/>\n    pode ser que seu pai n&atilde;o o reconhe&ccedil;a, pelo menos hoje. Quando<br \/>\n    ele chegar, j&aacute; &eacute; quase noite. Com a corcova, a perna curta,<br \/>\n    a barbicha e a boca torta, o senhor bem que pode passar por outro. Ent&atilde;o<br \/>\n    a gente v&ecirc; o que faz, examina tudo, v&ecirc; se &eacute; casamento mesmo<br \/>\n    e pode ent&atilde;o partir da&iacute; para resolver tudo.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Como? CAROBA &#8212; Eu sei l&aacute;, na hora se v&ecirc;.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; (A DOD&Oacute;) Voc&ecirc; acha que est&aacute; bem assim?<br \/>\n    CAROBA &#8212; Pode ser que n&atilde;o esteja, mas &eacute; o jeito.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Est&aacute; bem, Caroba, vou seguir seu conselho. E<br \/>\n    se tudo se resolver a contento, eu saberei mostrar minha gratid&atilde;o.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Como? DOD&Oacute; &#8212; Eu descobrirei um modo.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Seguro morreu de velho.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; O senhor n&atilde;o tem uma terrinha que seu padrinho lhe<br \/>\n    deu? DOD&Oacute; &#8212; Tenho, mas &eacute; uma terrinha pequena, n&atilde;o<br \/>\n    d&aacute; para nada.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Para o senhor, para mim vale muito. A coisa que eu mais desejo<br \/>\n    na vida &eacute; casar com Pinh&atilde;o e ter uma terrinha para trabalhar<br \/>\n    nela com ele. Se a hist&oacute;ria se resolver e eu conseguir fazer seu casamento,<br \/>\n    o senhor passa a escritura dessa terra para n&oacute;s dois? DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    Passo.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Prometido? DOD&Oacute; &#8212; Prometido.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Quem vive de promessa &eacute; santo.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Mas a&iacute; &eacute; pegar ou largar.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Pois eu pego! Vou arranjar umas promiss&oacute;rias<br \/>\n    a&iacute; pela rua. O senhor assina uma no valor da terra. Quando passar a<br \/>\n    escritura, eu devolvo a que o senhor assinou, est&aacute; bem? DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;, homem desconfiado! PINH&Atilde;O &#8212; O velho dobrou<br \/>\n    na esquina.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Saiam, deixem eu enfrentar Seu Euric&atilde;o. &Eacute; preciso<br \/>\n    preparar o terreno.<\/p>\n<p> Cuidado, l&aacute; vem ele! Pinh&atilde;o, fique, preciso de sua ajuda!<br \/>\n    DOD&Oacute; p&otilde;e os disfarces e sai atr&aacute;s de MARGARIDA.<\/p>\n<p> Entra EURIC&Atilde;O.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ladr&otilde;es, s&oacute; vejo ladr&otilde;es! Mas<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio me protege. Caroba, voc&ecirc; sozinha aqui? Que &eacute;<br \/>\n    isso? Onde est&atilde;o os outros? Onde est&aacute; Dod&oacute; Boca-da- Noite?<br \/>\n    CAROBA &#8212; Para falar com franqueza, n&atilde;o prestei aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Deve ter sa&iacute;do.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Que conversa &eacute; essa? Voc&ecirc; andou remexendo<br \/>\n    no que &eacute; meu? CAROBA &#8212; Que interesse eu tinha em remexer nessa<br \/>\n    tro&ccedil;aria? S&oacute; se fosse para ficar com asma, nesse mofo.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Deixe ver os bolsos.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Veja.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Sacuda o vestido.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; (Obedecendo.) Est&aacute; quente hoje, hein, Seu Euric&atilde;o?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Vire-se de costas.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Pois n&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Deixe de manejos e abra as m&atilde;os.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Aqui est&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o ter&aacute; escondido nada embaixo da<br \/>\n    sa&iacute;a? CAROBA &#8212; Epa, v&aacute; pra l&aacute;! Que molecagem &eacute;<br \/>\n    essa? EURIC&Atilde;O &#8212; Idiota, eu sou um velho. Minha inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; outra.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Sei l&aacute;, isso &eacute; voc&ecirc; quem diz! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; &Eacute; melhor voc&ecirc; se garantir, Caroba.<\/p>\n<p> CAROBA, que tem se aproximado da porca, coloca a m&atilde;o descuidadamente<br \/>\n    em seu dorso.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; (Aterrado.) Saia da&iacute;! CAROBA &#8212; Que foi?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Uma aranha, a&iacute;! CAROBA &#8212; Ai! (Esconde-se<br \/>\n    atr&aacute;s da porca, abra&ccedil;ando-se com ela.) CAROBA &#8212; Ai, tenho<br \/>\n    horror a aranha! EURIC&Atilde;O &#8212; Saia da&iacute;! CAROBA &#8212; O<br \/>\n    que &eacute;? EURIC&Atilde;O &#8212; Um lacrau enorme! Saia, saia! Olhe o<br \/>\n    lacrau, Caroba! CAROBA &#8212; Ai! Aonde, Seu Euric&atilde;o? EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; A&iacute; na porca! PINH&Atilde;O &#8212; Aonde, que eu n&atilde;o<br \/>\n    estou vendo? EURIC&Atilde;O &#8212; Desapareceu, deve ter fugido! CAROBA &#8212;<br \/>\n    &Eacute; capaz de estar embaixo da porca.<\/p>\n<p> Abaixa-se e procura cuidadosamente, batendo na porca com os n&oacute;s dos<br \/>\n    dedos.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Caroba! Olhe a caranguejeira! CAROBA &#8212; Ai!<br \/>\n    Esta casa est&aacute; cheia de bichos, Seu Euric&atilde;o! PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Sabe por que &eacute; isso, Seu Euric&atilde;o? S&atilde;o essas velharias<br \/>\n    que o senhor guarda aqui. S&oacute; essa porca j&aacute; tem mais de duzentos<br \/>\n    anos.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Por que o senhor n&atilde;o joga isso fora? Outro dia eu<br \/>\n    e Dona Margarida quisemos fazer uma surpresa ao senhor. A gente ia jogar fora<br \/>\n    essa porca velha e comprar uma nova para lhe dar.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; (Arriando numa cadeira.) Ai, ai! Miser&aacute;veis,<br \/>\n    miser&aacute;veis, assassinas, bandidas! Logo minha porquinha que herdei de<br \/>\n    meu av&ocirc;! Toque nela e quem vai embora &eacute; voc&ecirc;, est&aacute;<br \/>\n    ouvindo, assassina? Sou louco por essa porca! Ai Santo Ant&ocirc;nio, querem<br \/>\n    me roubar, me assassinar, e ainda por cima comprar uma porca nova que deve<br \/>\n    custar uma fortuna! Ladr&otilde;es, ladr&otilde;es! Ai a crise, ai a carestia!<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio, Santo Ant&ocirc;nio! CAROBA &#8212; Est&aacute; certo,<br \/>\n    Seu Euric&atilde;o, est&aacute; certo! Diabo duma agonia danada! Deixe a porca<br \/>\n    de lado, ningu&eacute;m toca mais nela! Que &eacute; que vale uma porca? O<br \/>\n    neg&oacute;cio agora &eacute; evitar a facada que o tal do Eudoro vem lhe<br \/>\n    dar.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; A facada? CAROBA &#8212; E ent&atilde;o? O senhor<br \/>\n    vai ver se n&atilde;o &eacute;! Pinh&atilde;o me contou como ele faz.<\/p>\n<p> Chega cheio de delicadezas. A essa hora, j&aacute; se informou de sua devo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por Santo Ant&ocirc;nio.<\/p>\n<p> Ele chega e faz que &eacute; devoto do mesmo santo. Elogia o senhor, elogia<br \/>\n    sua filha, pergunta como v&atilde;o os neg&oacute;cios, todo am&aacute;vel,<br \/>\n    e vai amolando a faca. (&Agrave; medida que fala, vai evocando a cena imagin&aacute;ria<br \/>\n    com gestos significativos e cortantes.) CAROBA &#8212; Deve ser uma faca enorme,<br \/>\n    assim desse tamanho. Ele vai atol&aacute;-la at&eacute; o cabo em sua barriga,<br \/>\n    xuiu! (D&aacute; a facada com a m&atilde;o na barriga de EURIC&Atilde;O, que<br \/>\n    cai desfalecido numa cadeira.) EURIC&Atilde;O &#8212; Ai! Quanto voc&ecirc;<br \/>\n    calcula que vai ser a facada, Caroba? CAROBA &#8212; Homem, pelo tamanho da<br \/>\n    faca, calculo a&iacute; nuns vinte contos.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ai! Caroba! Tenha compaix&atilde;o de um pobre velho.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Mas &eacute; claro que tenho, Seu Euric&atilde;o! J&aacute;<br \/>\n    pensei em tudo e vou defend&ecirc;-lo contra esse urubu.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; vai, Caroba? Como? CAROBA &#8212; O meio<br \/>\n    &eacute; contra-atacar com as mesmas armas. O senhor lhe oferece jantar, d&aacute;-lhe<br \/>\n    vinho, cerveja, e quando ele estiver bem entusiasmado para dar o golpe, o<br \/>\n    senhor d&aacute; nele primeiro.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Como? CAROBA &#8212; Pedindo vinte contos emprestados.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ra, ra! Ra, ra! Grande id&eacute;ia, Caroba, id&eacute;ia<br \/>\n    genial! Mas como &eacute; que se paga o jantar? PINH&Atilde;O &#8212; O senhor<br \/>\n    tira dos vinte contos! EURIC&Atilde;O &#8212; Ladr&atilde;o, miser&aacute;vel!<br \/>\n    J&aacute; quer gastar meus vinte contos que eu arranquei daquele criminoso<br \/>\n    com tanto trabalho! Quer me matar de fome, bandida? Quer gastar meu dinheiro?<br \/>\n    CAROBA &#8212; Mas Seu Euric&atilde;o, o dinheiro n&atilde;o &eacute; dele?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Ai, &eacute; mesmo! E se ele n&atilde;o emprestar,<br \/>\n    Caroba? CAROBA &#8212; Ah, ele empresta! Vou dar um jeito nisso. O senhor<br \/>\n    me d&aacute; uma comiss&atilde;o? EURIC&Atilde;O &#8212; Se voc&ecirc; arranjar<br \/>\n    os vinte contos? Dou.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Quanto?<\/p>\n<p>EURIC&Atilde;O &#8212; Eu lhe dou metade daquele jerimum que o cego me deu<br \/>\n    ontem.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; &Eacute; pouco! Eu quero &eacute; dinheiro, Seu Euric&atilde;o!<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Ai, ai! Ainda n&atilde;o tenho os vinte contos e j&aacute;<br \/>\n    querem me roubar! N&atilde;o dou, n&atilde;o dou de jeito nenhum.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ent&atilde;o, estou fora do neg&oacute;cio.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o! Preciso de voc&ecirc;, Caroba, n&atilde;o<br \/>\n    me abandone! CAROBA &#8212; Ent&atilde;o me d&ecirc; minha comiss&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Quanto &eacute; que voc&ecirc; quer? CAROBA &#8212;<br \/>\n    Quinhentos. EURIC&Atilde;O &#8212; Dou cinq&uuml;enta.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Estou fora! EURIC&Atilde;O &#8212; Cem. CAROBA &#8212; Estou<br \/>\n    fora! EURIC&Atilde;O &#8212; Cento e cinq&uuml;enta.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Estou fora! EURIC&Atilde;O &#8212; Duzentos.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Estou fora! EURIC&Atilde;O &#8212; E eu tamb&eacute;m! Estou<br \/>\n    fora, porque da&iacute; n&atilde;o passo de jeito nenhum! Estou fora! CAROBA<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o eu entro! Fica pelos duzentos. Vou encomendar o jantar<br \/>\n    no hotel de Dad&aacute;.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E como &eacute; que ele vai pagar, se sou eu que<br \/>\n    encomendo? CAROBA &#8212; O senhor tira dos vinte contos.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E se ele n&atilde;o empresta? CAROBA &#8212; Ai,<br \/>\n    pelo menos a gente ganha o jantar.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E com que &eacute; que se paga o jantar? Com meu<br \/>\n    dinheiro? CAROBA &#8212; O jantar n&atilde;o vai ser pago com os vinte contos,<br \/>\n    Seu Euric&atilde;o? EURIC&Atilde;O &#8212; Ai, &eacute; mesmo. Assim, eu quero!<br \/>\n    CAROBA &#8212; Ent&atilde;o v&aacute;, Pinh&atilde;o. V&aacute; e encomende<br \/>\n    o jantar que hoje aqui se come de noite e se come bem. V&aacute;, Pinh&atilde;o.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Meu patr&atilde;o! CAROBA &#8212; Seu patr&atilde;o?<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Sim, chegou. Dona Benona Ar&aacute;be est&aacute; recebendo<br \/>\n    meu patr&atilde;o a&iacute; fora, na cal&ccedil;ada, perto do cemit&eacute;rio<br \/>\n    da igreja.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Saia por aqui, ent&atilde;o. &Eacute; preciso que ele pense<br \/>\n    que voc&ecirc; est&aacute; do lado dele.<\/p>\n<p> Sen&atilde;o ele desconfia, fica de sobreaviso e n&atilde;o empresta os<br \/>\n    vinte contos, n&atilde;o &eacute;, Seu Euric&atilde;o? EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    &Eacute;, Pinh&atilde;o, meu filho, saia por ali. Nessas coisas, a surpresa<br \/>\n    &eacute; tudo.<\/p>\n<p> V&aacute; e volte para nos ajudar, que a luta com esse criminoso vai ser<br \/>\n    grande.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O sai ao mesmo tempo que BENONA entra.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Eurico, Eudoro Vicente est&aacute; l&aacute; fora e quer<br \/>\n    falar com voc&ecirc;.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Benona, minha irm&atilde;, eu sei que ele est&aacute;<br \/>\n    l&aacute; fora, mas n&atilde;o quero falar com ele.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Mas Eurico, n&oacute;s lhe devemos certas aten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc;, que foi noiva dele. Eu, n&atilde;o! BENONA<br \/>\n    &#8212; Isso s&atilde;o coisas passadas.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Passadas para voc&ecirc;, mas o preju&iacute;zo foi<br \/>\n    meu. Esperava que Eudoro, com todo aquele dinheiro, se tornasse meu cunhado.<br \/>\n    Era uma boca a menos e um patrim&ocirc;nio a mais. E o peste me traiu. Agora,<br \/>\n    parece que ouviu dizer que eu tenho um tesouro. E vem louco atr&aacute;s dele,<br \/>\n    sedento, atacado de verdadeira hidrofobia. Vive farejando ouro, como um cachorro<br \/>\n    da molest&#8217;a, como um urubu, atr&aacute;s do sangue dos outros. Mas ele est&aacute;<br \/>\n    muito enganado. Santo Ant&ocirc;nio h&aacute; de proteger minha pobreza e<br \/>\n    minha devo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Mas enquanto Santo Ant&ocirc;nio n&atilde;o se vira, vamos<br \/>\n    ajud&aacute;-lo um pouco. Seu Euric&atilde;o, saia por um momento.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; se encarrega de preparar tudo? CAROBA<br \/>\n    &#8212; &Eacute; claro.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ent&atilde;o eu saio. Traga o cachorro, Benona, traga<br \/>\n    o urubu. Se Deus quiser e Santo Ant&ocirc;nio me ajudar, o golpe vai se virar<br \/>\n    por cima dele. Eu fico ali, assim que o terreno estiver preparado, me chame.<br \/>\n    (Sai.) CAROBA &#8212; Dona Benona, espere um instante. Quero lhe dizer um<br \/>\n    neg&oacute;cio, em car&aacute;ter confidencial.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Que &eacute;, Caroba? CAROBA &#8212; Pinh&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    desconfiado de que Seu Eudoro vem pedir a senhora em casamento.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Caroba! CAROBA &#8212; &Eacute; verdade, Dona Benona! A senhora<br \/>\n    n&atilde;o foi noiva dele? BENONA &#8212; Fui, mas briguei por uma besteira<br \/>\n    e ele se casou com outra.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Mas o fato &eacute; que est&aacute; vi&uacute;vo e arrependido!<br \/>\n    Ele mandou dizer a Seu Euric&atilde;o que vinha priv&aacute;-lo de seu tesouro<br \/>\n    e Pinh&atilde;o acha que s&oacute; pode ser a senhora.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; &Eacute; poss&iacute;vel? CAROBA &#8212; A senhora mesmo<br \/>\n    vai ver, daqui a pouco. Mas parece que ele est&aacute; meio envergonhado,<br \/>\n    depois de tanto tempo. &Eacute; natural, mas &eacute; preciso ajud&aacute;-lo.<\/p>\n<p> BENONA&#8212; (Faceira.) Ele est&aacute; acanhado porque quer, porque eu<br \/>\n    nunca o esqueci.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Foi nada?! BENONA &#8212; E ent&atilde;o? CAROBA &#8212;<br \/>\n    Pois eu vou ajudar Seu Eudoro a sair do acanhamento. A senhora me deixe s&oacute;<br \/>\n    com ele que eu vou me certificar. Se for verdade, pode deixar que eu puxo<br \/>\n    a conversa na frente de Seu Euric&atilde;o e a senhora noiva.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Ai, Caroba, estou t&atilde;o confusa! Foi tudo t&atilde;o<br \/>\n    de repente! E assim, de surpresa, sem me dizer nada! Mas Eudoro sempre foi<br \/>\n    meio doidinho! CAROBA &#8212; &Eacute; casamento na certa! A senhora saia<br \/>\n    e deixe tudo comigo! BENONA &#8212; Pois est&aacute; certo. Fique, fale com<br \/>\n    ele e que Santo Ant&ocirc;nio nos proteja.<\/p>\n<p> Entra EUDORO VICENTE. BENONA lan&ccedil;a-lhe um olhar provocante e terno.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Eudoro, meu irm&atilde;o vem j&aacute;. Com licen&ccedil;a,<br \/>\n    malvado! (Sai.) EUDORO &#8212; Que foi que houve aqui, meu Deus, para Benona<br \/>\n    me olhar assim.<\/p>\n<p> Que coisa esquisita! CAROBA &#8212; Ah, e o senhor ainda n&atilde;o soube<br \/>\n    de nada n&atilde;o? EUDORO &#8212; N&atilde;o, o que foi que houve? CAROBA<br \/>\n    &#8212; O que houve, Seu Eudoro, foi que o povo daqui est&aacute; desconfiado<br \/>\n    de que o senhor veio noivar.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; E por que est&atilde;o pensando nisso? CAROBA &#8212; O senhor<br \/>\n    mandou dizer na carta que ia roubar o tesouro de Seu Euric&atilde;o e todo<br \/>\n    mundo est&aacute; pensando que isso quer dizer &quot;casar com Dona Margarida&quot;.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Pois est&atilde;o pensando certo, Caroba. Desde que Dod&oacute;<br \/>\n    saiu de casa para estudar, estou me sentindo muito s&oacute;. Simpatizei com<br \/>\n    a filha de Euric&atilde;o e resolvi pedi-la, apesar da diferen&ccedil;a de<br \/>\n    idade.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; O senhor est&aacute; parecendo meio encabulado de pedir.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; &Eacute; verdade, Caroba. N&atilde;o sei como vou come&ccedil;ar.<br \/>\n    Minha idade n&atilde;o permite mais certas coisas que agradam &agrave;s mo&ccedil;as,<br \/>\n    de modo que&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ent&atilde;o deixe comigo. Seu Euric&atilde;o &eacute; louco<br \/>\n    pela filha. N&atilde;o gosta nem de falar em casamento para ela, com medo<br \/>\n    de perd&ecirc;-la. Mas, ao mesmo tempo, quer cas&aacute;-la, pois considera<br \/>\n    a mo&ccedil;a uma esp&eacute;cie de patrim&ocirc;nio. O senhor agrade o velho,<br \/>\n    seja delicado, diga que ele vai bem de sa&uacute;de e de neg&oacute;cios,<br \/>\n    fale em Santo Ant&ocirc;nio, que &eacute; a devo&ccedil;&atilde;o dele, e<br \/>\n    deixe o resto comigo. Depois que eu puxar o assunto, depois que tudo estiver<br \/>\n    encaminhado, a&iacute; o senhor faz o pedido, est&aacute; bem? EUDORO &#8212;<br \/>\n    Est&aacute; &oacute;timo, Caroba. Para anim&aacute;-la eu&#8230; (Remexe no bolso.)<br \/>\n    CAROBA &#8212; Nada disso, a &uacute;nica coisa que me interessa nisso &eacute;<br \/>\n    a estima que sempre lhe tive. Mas j&aacute; que o senhor insiste&#8230;<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Pois tome e puxe o assunto. Creio que Euric&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    criar&aacute; dificuldade.<\/p>\n<p> Gosta da filha, mas gosta ainda mais de dinheiro e, sabendo que tenho algum&#8230;<br \/>\n    Mas o que &eacute; isso? CAROBA &#8212; N&atilde;o &eacute; uma das velharias<br \/>\n    de Seu Euric&atilde;o? Herdou essa porca ainda do tempo do av&ocirc; e n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; quem fa&ccedil;a ele jog&aacute;-la fora.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Do tempo do av&ocirc;, &eacute;? Interessante, muito interessante!<br \/>\n    Gosto muito de antiguidades! CAROBA &#8212; Ent&atilde;o eu vou cham&aacute;-lo.<br \/>\n    Seu Euric&atilde;o! Seu Euric&atilde;o! Seu Euric&atilde;o Engole-Cobra! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; (Entrando.) Engole-Cobra &eacute; a m&atilde;e. Bom dia, Eudoro Vicente.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Bom dia, Eurico Ar&aacute;be. Santo Ant&ocirc;nio o guarde,<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio o proteja a voc&ecirc; e a toda a sua fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; (&Agrave; parte, a CAROBA.) Se n&atilde;o for dinheiro<br \/>\n    emprestado, eu estufe! Que Santo Ant&ocirc;nio tamb&eacute;m o proteja, Eudoro<br \/>\n    Vicente.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Ent&atilde;o sempre em sa&uacute;de e prosperidade, hein?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; &Eacute; dinheiro, n&atilde;o tem pra onde! Prosperidade,<br \/>\n    eu? Voc&ecirc; sim, pode dizer que vai bem com todas aquelas fazendas! EUDORO<br \/>\n    &#8212; Que &eacute; que adianta a terra, Eurico? Vem a seca e morre tudo.<br \/>\n    A felicidade &eacute; que tenho amigos e s&atilde;o eles que me valem nas<br \/>\n    horas de aperto.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; &Eacute; dinheiro emprestado, n&atilde;o tem pra<br \/>\n    onde! Voc&ecirc; gosta de contar desgra&ccedil;a, mas &eacute; para esconder<br \/>\n    a fortuna. Eu &eacute; que s&oacute; tenho, para contar, mis&eacute;ria. Os<br \/>\n    ricos, como voc&ecirc;, contam dinheiro, Eudoro, os pobres, como eu, desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Que nada, isso &eacute; mod&eacute;stia! E quanto &agrave;<br \/>\n    crise, se puder fazer alguma coisa para ajud&aacute;-lo&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Isso parece promessa, mas &eacute; para preparar<br \/>\n    o pedido. Est&aacute; faminto, sedento por dinheiro emprestado.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Que tal lhe parece minha fam&iacute;lia? EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Boa.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; E meu car&aacute;ter? EURIC&Atilde;O &#8212; Bom.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; E meus atos? EURIC&Atilde;O &#8212; Nem maus nem desonestos.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Qual &eacute; a opini&atilde;o que voc&ecirc; tem de mim?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Sempre o considerei um cidad&atilde;o honrado.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Pois eu tamb&eacute;m acho voc&ecirc; um cidad&atilde;o sem<br \/>\n    defeitos.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Se n&atilde;o for dinheiro emprestado, eu me dane!<br \/>\n    O que &eacute; que voc&ecirc; quer? CAROBA &#8212; Seu Euric&atilde;o, o senhor<br \/>\n    sabe perfeitamente que Seu Eudoro gostou de uma pessoa de sua fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Sei, mas pensei que isso j&aacute; tivesse passado.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ora passado, agora foi que come&ccedil;ou! A simpatia que<br \/>\n    essa pessoa inspirou a Seu Eudoro s&oacute; fez aumentar com a separa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Pois bem, Seu Eudoro veio pedi-la em casamento.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Est&aacute; dada, pode se considerar noivo. Mas eu<br \/>\n    preciso de vinte contos emprestados para fazer a festa do casamento.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Mas eu ainda n&atilde;o sei se ela aceita! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; A responsabilidade &eacute; minha, pode se considerar noivo! N&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; vendo que eu n&atilde;o vou perder uma oportunidade dessa? Voc&ecirc;<br \/>\n    est&aacute; noivo, Eudoro, e eu preciso de vinte contos, esse &eacute; que<br \/>\n    &eacute; o fato.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Ent&atilde;o mande chamar Margarida.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Margarida? Pra qu&ecirc;? CAROBA &#8212; Seu Eudoro<br \/>\n    quer v&ecirc;-la depois de tanto tempo, &eacute; perfeitamente natural, Seu<br \/>\n    Euric&atilde;o. Ele j&aacute; viu Dona Benona, agora quer ver Dona Margarida!<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Ah, sim. Mas quero logo lhe dizer, Eudoro, que ela<br \/>\n    esteve l&aacute; foi a convite seu. Eu n&atilde;o convidei ningu&eacute;m,<br \/>\n    voc&ecirc; vai para o hotel de Dad&aacute;! EUDORO &#8212; Est&aacute; bem,<br \/>\n    mas posso ver Margarida? EURIC&Atilde;O &#8212; Pode, por que n&atilde;o?<br \/>\n    EUDORO &#8212; Diziam que voc&ecirc; era t&atilde;o cheio de coisas com ela!<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Ah, sou. Mas confio em voc&ecirc;, por causa de sua<br \/>\n    idade e porque agora voc&ecirc; &eacute; noivo. Voc&ecirc; promete ir para<br \/>\n    o hotel? EUDORO &#8212; Prometo, homem cuidadoso! N&atilde;o fica bem eu,<br \/>\n    noivo, hospedado em casa da noiva, n&atilde;o &eacute;? EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Ah, &eacute;, nessas coisas eu sou inflex&iacute;vel! Basta dizer que mantenho<br \/>\n    um guarda, pago com meu dinheiro, s&oacute; para tomar conta de Margarida.<br \/>\n    Tem ordem de n&atilde;o deix&aacute;-la um s&oacute; instante.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Um guarda? Um homem? EURIC&Atilde;O &#8212; Sim, mas &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o feio que n&atilde;o h&aacute; perigo. Margarida tem &oacute;dio<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p> Mas eu gosto, porque ele &eacute; prudente e econ&ocirc;mico, chega a me<br \/>\n    dar li&ccedil;&otilde;es. Chama-se Dod&oacute;.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Meu filho tem esse mesmo apelido de Dod&oacute;! CAROBA &#8212;<br \/>\n    Mas seu filho &eacute; coxo? EUDORO &#8212; Voc&ecirc; j&aacute; morou em<br \/>\n    minha terra e sabe que n&atilde;o.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; &Eacute; corcunda? EUDORO &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Tem uma barbicha? EUDORO &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Veste sempre preto? EUDORO &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; &Eacute; amarrado? EUDORO &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Tem a boca torta? EUDORO &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; esse n&atilde;o,<br \/>\n    porque Dod&oacute; Boca-da-Noite tem tudo isso e mais alguma coisa. Vou chamar<br \/>\n    os dois aqui. Margarida! Dod&oacute; Boca-da-Noite! Entra MARGARIDA.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Oi, voc&ecirc; n&atilde;o disse que ela &eacute; sempre vigiada?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Margarida, voc&ecirc; quer me desmoralizar? Sustente<br \/>\n    o pudor, Margarida! Olhe o recato, Margarida! Onde est&aacute; Dod&oacute;?<br \/>\n    MARGARIDA &#8212; Seu Dod&oacute; sentiu-se mal e ficou no armaz&eacute;m,<br \/>\n    papai.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Sentiu-se mal o qu&ecirc;? Empregado meu tem l&aacute;<br \/>\n    licen&ccedil;a de se sentir mal! Dod&oacute;, Dod&oacute;! Dod&oacute; Boca-da-Noite!<br \/>\n    DOD&Oacute; entra, exagerando a corcova, o andar e sempre de costas, para<br \/>\n    n&atilde;o ser reconhecido.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Cumpra com sua obriga&ccedil;&atilde;o, est&aacute;<br \/>\n    ouvindo? DOD&Oacute; &#8212; Estou.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; &Eacute; um bom servidor, gosto muito dele! Venha<br \/>\n    c&aacute; conhecer meu amigo, Dod&oacute;.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Ai! EURIC&Atilde;O &#8212; Que foi? MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    Eu n&atilde;o disse que ele estava doente? DOD&Oacute; &#8212; Seu Eurico,<br \/>\n    um copo d&aacute;gua, Seu Eurico! EUDORO &#8212; Tome, mo&ccedil;o.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; (Dando-lhe as costas.) N&atilde;o! J&aacute; passou,<br \/>\n    estou bonzinho! CAROBA &#8212; Seu Euric&atilde;o mandou chamar a senhora,<br \/>\n    Dona Margarida, porque Seu Eudoro Vicente fez o pedido de casamento.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E j&aacute; que ele vai entrar na fam&iacute;lia,<br \/>\n    minha filha&#8230;<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; &Eacute; verdade? EUDORO &#8212; &Eacute;, Margarida.<br \/>\n    Ainda n&atilde;o tive tempo de ir ao hotel, mudar de roupa, mas quero logo<br \/>\n    pedir uma entrevista a voc&ecirc; para conversarmos.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ah, n&atilde;o, entrevista n&atilde;o. A entrevista<br \/>\n    &eacute; essa! EUDORO &#8212; Mas Eurico&#8230;<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; N&atilde;o precisa nem o senhor falar, meu pai. Prefiro<br \/>\n    ir para um convento.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Est&aacute; vendo o que &eacute; recato, Eudoro?<br \/>\n    A&iacute;, Margarida! Sustente o pudor, Margarida, sustente o recato. Trata-se<br \/>\n    de Eudoro, &eacute; uma pessoa s&eacute;ria, de mais idade e al&eacute;m do<br \/>\n    mais vai entrar na fam&iacute;lia. Mas recato &eacute; recato! Entrevista,<br \/>\n    sozinha, com ningu&eacute;m! EUDORO &#8212; Mas Eurico&#8230;<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; J&aacute; disse que prefiro ir para um convento. E v&aacute;<br \/>\n    marcar entrevista com gente de sua idade, est&aacute; ouvindo? E saia daqui<br \/>\n    com seu casamento! Saia daqui porque eu&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA p&otilde;e o dedo nos l&aacute;bios e faz-lhe sinal para que ela<br \/>\n    saia. Margarida se interrompe bruscamente e come&ccedil;a a chorar, saindo<br \/>\n    arrebatadamente da sala, acompanhada sempre pelo fiel DOD&Oacute;.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Mas Eurico&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Coitada, foi pega de surpresa pela not&iacute;cia, &eacute;<br \/>\n    muito apegada com a fam&iacute;lia, principalmente com Dona Benona, e est&aacute;<br \/>\n    com medo de perd&ecirc;-la.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; &Eacute; isso mesmo. N&atilde;o se ofenda, Eudoro,<br \/>\n    vou acalm&aacute;-la. Uma conversa comigo e em dois tempos ela vai ser a primeira<br \/>\n    a apoiar a id&eacute;ia. (Sai.) EUDORO &#8212; A apoiar que id&eacute;ia?<br \/>\n    A da entrevista? CAROBA &#8212; N&atilde;o, a do casamento.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Bem que eu n&atilde;o queria fazer isso, assim de repente!<br \/>\n    Agora a mo&ccedil;a est&aacute; nervosa! CAROBA &#8212; Isso passa, deixe<br \/>\n    comigo! Ela faz isso porque est&aacute; na frente do pai.<\/p>\n<p> Mas quando ela falar com o senhor a s&oacute;s, h&aacute; de ver que ela<br \/>\n    quer o casamento.<\/p>\n<p>EUDORO &#8212; Mas o fato &eacute; que n&atilde;o vou poder falar com ela<br \/>\n    a s&oacute;s.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ah, isso n&atilde;o. Vai, e quem vai arranjar a entrevista<br \/>\n    sou eu.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Voc&ecirc;? Como? Onde? CAROBA &#8212; Aqui e de noite, depois<br \/>\n    que o velho estiver dormindo. Ele dorme cedo, de modo que depois do jantar&#8230;<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; E se algu&eacute;m acordar? CAROBA &#8212; &Eacute; f&aacute;cil<br \/>\n    disfar&ccedil;ar. Dona Margarida levanta-se &agrave;s vezes &agrave; noite,<br \/>\n    para rezar escondido pela m&atilde;e.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Escondido por qu&ecirc;? CAROBA &#8212; Seu Euric&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o gosta disso. A mulher abandonou-o e, depois que ela morreu, ele<br \/>\n    mandou buscar o corpo e enterrou a&iacute;. Mas n&atilde;o gosta nem que se<br \/>\n    fale dela. De modo que, se Dona Benona acordar, diz-se que foi isso. Dona<br \/>\n    Benona &eacute; a mais perigosa, tem mania de recato. E a conselho dela que<br \/>\n    Seu Euric&atilde;o fica t&atilde;o rigoroso com a filha.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Benona sempre foi assim, creio mesmo que foi por causa disso<br \/>\n    que ela&#8230; Mas enfim, voc&ecirc; arranja a entrevista? CAROBA &#8212; Arranjo.<br \/>\n    Depois do jantar, quando todo mundo estiver deitado, eu destranco essa porta.<br \/>\n    A&iacute; o senhor volta e pode falar com Dona Margarida, aqui.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Mas ser&aacute; que ela aceita? CAROBA &#8212; Aceita, a<br \/>\n    paix&atilde;o dela pelo senhor &eacute; grande, vai vencer de uma vez s&oacute;<br \/>\n    o pudor e o recato.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Est&aacute; bem, mas cale a boca. O homem vem a&iacute;.<\/p>\n<p> Entra EURIC&Atilde;O.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; A mo&ccedil;a se trancou e n&atilde;o houve jeito.<br \/>\n    &Eacute; o recato, coitada. Mas voc&ecirc; compreende isso, n&atilde;o &eacute;?<br \/>\n    EUDORO &#8212; &Eacute;.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ent&atilde;o adeus, Eudoro Vicente, n&atilde;o quero<br \/>\n    ret&ecirc;-lo mais, voc&ecirc; deve estar com fome e o hotel&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Patr&atilde;o! EURIC&Atilde;O &#8212; Hein? CAROBA &#8212;<br \/>\n    E o jantar? EURIC&Atilde;O &#8212; Cale a boca, miser&aacute;vel! CAROBA &#8212;<br \/>\n    O senhor n&atilde;o prometeu um jantar? &Eacute; para celebrar o noivado.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Um jantar? Ah, aceito, pois n&atilde;o. Venho jantar e depois<br \/>\n    vou dormir no hotel.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Est&aacute; bem, est&aacute; bem. Essa voc&ecirc;<br \/>\n    me paga, Caroba! E a respeito dos vinte contos? EUDORO &#8212; No jantar n&oacute;s<br \/>\n    falaremos.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; &Oacute;timo, &oacute;timo. Essa parte est&aacute;<br \/>\n    &oacute;tima.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Ent&atilde;o, at&eacute; j&aacute;! E preparem o esp&iacute;rito<br \/>\n    da noiva! (Sai.) CAROBA &#8212; Seu Euric&atilde;o, espero que o senhor n&atilde;o<br \/>\n    se esque&ccedil;a de minha comiss&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Que comiss&atilde;o? CAROBA &#8212; A que o senhor<br \/>\n    prometeu, se eu arranjasse os vinte contos.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E quem disse que voc&ecirc; me arranjou vinte contos?<br \/>\n    Ali&aacute;s, ningu&eacute;m me arranjou vinte contos. Eudoro Vicente prometeu,<br \/>\n    mas ainda n&atilde;o arranjou nada, vai arranjar! CAROBA &#8212; Mas quem<br \/>\n    planejou tudo fui eu! EURIC&Atilde;O &#8212; Mente, velhaca! Voc&ecirc; tinha<br \/>\n    planejado tudo para o jantar e, se eu tivesse esperado, talvez a essa hora<br \/>\n    estivesse esfaqueado. Quem pressentiu o perigo fui eu, quem pediu o dinheiro<br \/>\n    fui eu e quem arranjou o dinheiro fui eu! Voc&ecirc; n&atilde;o tem direito<br \/>\n    &agrave; comiss&atilde;o de qualidade nenhuma! CAROBA &#8212; Mas Seu Euric&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Adeus, Caroba, j&aacute; basta o preju&iacute;zo<br \/>\n    do jantar.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Mas Seu Euric&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; D&ecirc; o fora, Caroba.<\/p>\n<p> CAROBA sai de m&aacute; vontade. EURIC&Atilde;O vai at&eacute; a porca e<br \/>\n    alisa-a carinhosamente.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ai minha porquinha do cora&ccedil;&atilde;o, a luta<br \/>\n    &eacute; grande contra os ladr&otilde;es.<\/p>\n<p> Mas arranjei sempre mais vinte contos para seu buchinho.<\/p>\n<p> Entra EUDORO.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212;Eurico&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; (Dando um salto.) Santo Ant&ocirc;nio me proteja!<br \/>\n    Que neg&oacute;cio &eacute; esse de sair da casa dos outros e voltar nos mesmos<br \/>\n    p&eacute;s? Voc&ecirc; est&aacute; me vigiando? EUDORO &#8212; N&atilde;o,<br \/>\n    Eurico, desculpe.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; notou alguma coisa? EUDORO &#8212; Alguma<br \/>\n    coisa de qu&ecirc;? EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; pensa que sou idiota,<br \/>\n    para dizer? Notou ou n&atilde;o notou? EUDORO &#8212; N&atilde;o notei nada!<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; E que veio fazer aqui, entrando de emboscada, como<br \/>\n    um assassino? Como um ladr&atilde;o? EUDORO &#8212; Afinal, o que &eacute;<br \/>\n    isso? Que &eacute; que voc&ecirc; quer dizer? Voltei porque vim lhe oferecer<br \/>\n    pre&ccedil;o por essa porca que voc&ecirc; guarda a&iacute;.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Pre&ccedil;o por minha porca? Ai! Socorro! Ladr&atilde;o!<br \/>\n    Pega o ladr&atilde;o! EUDORO &#8212; Que &eacute; isso, homem? EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Ai a crise, ai a carestia! Ai Santo Ant&ocirc;nio! Veja o que querem<br \/>\n    fazer comigo! EUDORO &#8212; Mas afinal de contas&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ai minha porquinha que herdei de meu av&ocirc; e<br \/>\n    esse criminoso quer tomar! Ai minha porquinha! (Cai desfalecido numa cadeira,)<br \/>\n    EUDORO &#8212; Est&aacute; bem, homem de Deus, se n&atilde;o quer vender,<br \/>\n    n&atilde;o venda! Precisa essa agonia? Diabo duma esquisitice danada! V&aacute;<br \/>\n    ser esquisito assim no inferno! Vai saindo, quando encontra BENONA.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Dod&oacute;! EUDORO &#8212; (Formal) Minha senhora! BENONA<br \/>\n    &#8212; Que minha senhora que nada, malandro! J&aacute; soube de tudo e vim<br \/>\n    lhe dizer que concordo de todo cora&ccedil;&atilde;o! Est&aacute; tudo esquecido.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Fico muito contente com isso, Benona.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; E eu mais ainda, Dod&oacute;. Olhe como estou! Desde que<br \/>\n    voc&ecirc; apareceu que meu cora&ccedil;&atilde;o come&ccedil;ou a bater.<br \/>\n    Voc&ecirc; acha que eu devo lhe dar um beijo? EUDORO &#8212; Mas Benona, voc&ecirc;<br \/>\n    acha que ficaria pr&oacute;prio? BENONA &#8212; Deixe de preconceitos, homem!<br \/>\n    Agora estou diferente, a vida me ensinou a ser menos tola! N&atilde;o quer?<br \/>\n    Bem, ent&atilde;o fica para mais tarde. Vou me vestir para o jantar. Mas n&atilde;o<br \/>\n    deixo voc&ecirc; sair sem lhe dar um belisc&atilde;o no espinha&ccedil;o de<br \/>\n    jeito nenhum, quero me lembrar dos velhos tempos. Chegue aqui esse espinhacinho,<br \/>\n    safado! EUDORO &#8212; Benona! BENONA &#8212; Ai meu Deus, quanta timidez,<br \/>\n    como &eacute; lindo isso! Esse Dod&oacute; sempre foi doidinho! N&atilde;o<br \/>\n    tem isso n&atilde;o, l&aacute; vai belisc&atilde;o! EUDORO &#8212; (Correndo.)<br \/>\n    Benona! Diabo de povo mais esquisito! Benona! Ai! (Sai correndo, com BENONA<br \/>\n    atr&aacute;s.) EURIC&Atilde;O &#8212; Ai minha porquinha adorada, ai minha<br \/>\n    porquinha do cora&ccedil;&atilde;o! Querem roub&aacute;-la, querem levar meu<br \/>\n    sangue, minha carne, meu p&atilde;o de cada dia, a seguran&ccedil;a de minha<br \/>\n    velhice, a tranq&uuml;ilidade de minhas noites, a deposit&aacute;ria de meu<br \/>\n    amor! Mas parece que Santo Ant&ocirc;nio me abandonou por causa da porca.<br \/>\n    Que santo mais ciumento, &eacute; &quot;ou ele ou nada&quot;! &Eacute; assim?<br \/>\n    Pois eu fico com a porca. Fui seu devoto a vida inteira: minha mulher me deixou,<br \/>\n    a porca veio para seu lugar. E nunca nem ela nem voc&ecirc; me deram a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que a porca d&aacute;. Ah, minha bela, ah, minha amada! Aqui voc&ecirc; fica<br \/>\n    muito &agrave; vista de todos, todo mundo deseja a sua beleza, a sua bondade.<br \/>\n    &Eacute; melhor lev&aacute;-la para um lugar escondido. A mala do por&atilde;o,<br \/>\n    &eacute; l&aacute;! A&iacute; voc&ecirc; ficar&aacute; em seguran&ccedil;a<br \/>\n    e eu poderei dormir de novo.<\/p>\n<p> Entra num socav&atilde;o sob a escada, sobra&ccedil;ando a grande porca<br \/>\n    de madeira, e volta sem ela.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Agora, sim. E voc&ecirc;, Santo Ant&ocirc;nio, deve<br \/>\n    se contentar agora com minha pobreza e minha devo&ccedil;&atilde;o. Eu n&atilde;o<br \/>\n    o esqueci. N&atilde;o deixe que esses urubus descubram meu dinheiro! Fa&ccedil;a<br \/>\n    isso, meu santo, e a banda de jerimum que eu ia dar a Caroba ser&aacute; sua.<br \/>\n    Menos as sementes, viu? As sementes eu quero para fazer xarope e vender no<br \/>\n    armaz&eacute;m. Ganha-se pouco, mas sempre &eacute; alguma coisa para se enfrentar<br \/>\n    a crise e a carestia! (Persigna-se e sai.) <\/p>\n<h2>FIM DO PRIMEIRO ATO<\/h2>\n<h2><a name=\"2\">SEGUNDO ATO<\/a><\/h2>\n<p><b>Mesma sala. Entram CAROBA, MARGARIDA e DOD&Oacute;.<\/b><\/p>\n<p>CAROBA &#8212; Mas que jeito eu podia dar? Ele queria a entrevista, eu estava<br \/>\n    precisando agrad&aacute;-lo para ele confiar em mim, o jeito foi marcar! DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; Que jeito que nada! O que h&aacute; &eacute; que voc&ecirc; se acostumou<br \/>\n    a agradar meu pai e ficou contra mim! CAROBA &#8212; Deixe de ser ingrato,<br \/>\n    Seu Dod&oacute;. Eu estou tentando arranjar seu casamento e o senhor vem dizer<br \/>\n    isso! MARGARIDA &#8212; &Eacute;, meu amor, que mal faz? Eu vou, e, se achar<br \/>\n    um modo de afastar seu pai sem m&aacute;goa, afasto.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; E ainda por cima, o perigo que voc&ecirc; nos fez correr!<br \/>\n    Imagine se Margarida n&atilde;o visse o gesto que voc&ecirc; fez! Era capaz<br \/>\n    de deitar tudo a perder.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Que &eacute; que eu podia fazer? Era preciso que eu pai acreditasse<br \/>\n    que a noiva era ela. Agora, que j&aacute; est&aacute; encaminhado, o senhor<br \/>\n    fica a&iacute; dando jeito em tudo.<\/p>\n<p> queria ver era na hora, inventar tudo isso de repente, noivar seu pai com<br \/>\n    Dona Benona, quando ele pensava que era com Dona Margarida, noivar Dona Benona<br \/>\n    no pedido da sobrinha, fazer Seu Euric&atilde;o acreditar que o candidato<br \/>\n    a genro queria ser cunhado&#8230; O senhor acha pouco? MARGARIDA &#8212; &Eacute;,<br \/>\n    meu bem, Caroba j&aacute; fez demais! Por que voc&ecirc; n&atilde;o concorda<br \/>\n    com essa tolice de entrevista? DOD&Oacute; &#8212; N&atilde;o concordo porque<br \/>\n    n&atilde;o gosto de ver voc&ecirc; metida nisso! MARGARIDA &#8212; Mas meu<br \/>\n    bem, trata-se de seu pai! DOD&Oacute; &#8212; N&atilde;o tenho nada com isso,<br \/>\n    agora &eacute; candidato a se casar com voc&ecirc;.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; A entrevista &eacute; que vai resolver tudo, Seu Dod&oacute;!<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Resolver tudo o qu&ecirc;? Ela vai &eacute; complicar<br \/>\n    tudo, isso sim! Na hora, papai pode entender a hist&oacute;ria de repente<br \/>\n    e a gente est&aacute; desgra&ccedil;ado. Porque, se Seu Euric&atilde;o descobrir<br \/>\n    que papai quer casar &eacute; com Margarida, desfaz o noivado de Dona Benona<br \/>\n    na mesma hora e faz o que meu pai quer! Seu Euric&atilde;o faz qualquer acordo,<br \/>\n    contanto que n&atilde;o perca o dinheiro de meu pai! MARGARIDA &#8212; N&atilde;o,<br \/>\n    isso tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; direito n&atilde;o, meu bem! Voc&ecirc;,<br \/>\n    zombar da pobreza de meu pai? Ele e pobre mas n&atilde;o v&ecirc; nada no<br \/>\n    mundo al&eacute;m de mim! DOD&Oacute; &#8212; (Duvidoso.) Eu sei! MARGARIDA<br \/>\n    &#8212; Voc&ecirc; &eacute; quem parece de repente cheio de dureza para com<br \/>\n    ele! Voc&ecirc; n&atilde;o j&aacute; sabia como ele era? Por que, ent&atilde;o,<br \/>\n    esses modos, de repente? Parece &eacute; que voc&ecirc; quer me deixar de<br \/>\n    lado e est&aacute; procurando um pretexto! DOD&Oacute; &#8212; E voc&ecirc;?<br \/>\n    Parece estar ansiosa por essa entrevista! Pois v&aacute;! V&aacute;, siga<br \/>\n    os conselhos de Caroba e, quando estiver de volta, jogue fora a alian&ccedil;a<br \/>\n    que lhe dei. N&atilde;o quero casar com uma mo&ccedil;a que marca entrevista<br \/>\n    com outro! (Sai, MARGARIDA chora.) CAROBA &#8212; N&atilde;o chore n&atilde;o,<br \/>\n    Dona Margarida. Quando Seu Dod&oacute; chegar &agrave; conclus&atilde;o de<br \/>\n    que tudo est&aacute; bem, acaba com essa besteira.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Eu sei l&aacute;, eu sei l&aacute;, Caroba! Que complica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    meu Deus! E essa trapalhada de entrevista&#8230; N&atilde;o vou, Caroba, n&atilde;o<br \/>\n    vou de jeito nenhum. Afinal de contas, quem marcou a entrevista? CAROBA &#8212;<br \/>\n    Eu! MARGARIDA &#8212; Pois v&aacute; voc&ecirc;, est&aacute; ouvindo? Voc&ecirc;<br \/>\n    foi Quem marcou, voc&ecirc; &eacute; quem vai.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Mas Dona Margarida, eu quero lhe explicar que&#8230;<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Vai! Vai e n&atilde;o adianta discutir! CAROBA &#8212;<br \/>\n    Mas Dona Margarida, eu&#8230;<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Eu lhe dou um vestido meu e voc&ecirc; vai em meu lugar!<br \/>\n    Voc&ecirc; &eacute; mais ou menos de meu tipo: com meu vestido, de noite,<br \/>\n    no escuro, pode passar por mim, perfeitamente! CAROBA &#8212; Tem que ser<br \/>\n    um vestido que Seu Eudoro conhe&ccedil;a, sen&atilde;o n&atilde;o d&aacute;<br \/>\n    certo! MARGARIDA &#8212; Eu lhe dou este, antes da hora! CAROBA &#8212; Sim,<br \/>\n    Dona Margarida, mas&#8230;<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; N&atilde;o admito discuss&atilde;o! &Eacute; isso e &eacute;<br \/>\n    isso mesmo. Prepare-se, porque na hora eu lhe dou o vestido e voc&ecirc; vai<br \/>\n    &agrave; entrevista! (Vai saindo.) CAROBA &#8212; Mas &eacute; claro que vou<br \/>\n    &agrave; entrevista, se meu plano todo era esse! MARGARIDA tem sa&iacute;do.<br \/>\n    PINH&Atilde;O, que vem entrando, ouve a frase.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Que hist&oacute;ria &eacute; essa, Caroba? &Eacute;<br \/>\n    a entrevista que o patr&atilde;o marcou com Dona Margarida? CAROBA &#8212;<br \/>\n    &Eacute;, eu vou no lugar dela! PINH&Atilde;O &#8212; Eu n&atilde;o quero<br \/>\n    voc&ecirc; com o patr&atilde;o aqui, de jeito nenhum! Aquilo &eacute; um vi&uacute;vo<br \/>\n    sonso dos seiscentos diabos.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Espere l&aacute;, Pinh&atilde;o, voc&ecirc; n&atilde;o entendeu<br \/>\n    nada! PINH&Atilde;O &#8212; N&atilde;o entendi, nem quero entender, est&aacute;<br \/>\n    ouvindo? Voc&ecirc; foi ao hotel falar com ele? CAROBA &#8212; Fui, e ent&atilde;o?<br \/>\n    Precisava esclarecer certas coisas e fui! PINH&Atilde;O &#8212; E por que<br \/>\n    n&atilde;o me disse que ia? CAROBA &#8212; Ainda mais essa! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Voc&ecirc; foi para falar sobre a entrevista? CAROBA &#8212; Fui!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; E vai a essa entrevista com ele, de noite? CAROBA &#8212;<br \/>\n    Vou! PINH&Atilde;O &#8212; Vai como? CAROBA &#8212; Vou do jeito que entender!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Pois quero lhe dizer logo que &eacute; essa entrevista<br \/>\n    ou eu, est&aacute; ouvindo? Trate de escolher! CAROBA &#8212; J&aacute; escolhi!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Quem ganhou? CAROBA &#8212; A entrevista! Voc&ecirc;<br \/>\n    quer mandar em mim, &eacute;, Pinh&atilde;o? Que desconfian&ccedil;a &eacute;<br \/>\n    essa, se nunca lhe dei motivo? Vou e &eacute; quer voc&ecirc; queria, quer<br \/>\n    n&atilde;o! PINH&Atilde;O &#8212; Pois adeus, Caroba. Quem gosta de dormente<br \/>\n    &eacute; o trem. (Sai.<\/p>\n<p> CAROBA chora, mas logo enxuga as l&aacute;grimas.) CAROBA &#8212; Essa &eacute;<br \/>\n    boa, ningu&eacute;m deixa eu falar e haja todo mundo contra mim! Entra BENONA.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Caroba, estava precisando falar com voc&ecirc;. Que &eacute;<br \/>\n    isso? Que &eacute; que voc&ecirc; tem? CAROBA &#8212; Cada um sabe de si e<br \/>\n    de suas agonias, Dona Benona! BENONA &#8212; &Eacute; verdade, Caroba. Eu<br \/>\n    mesma, t&atilde;o contente que estava e come&ccedil;o a ficar inquieta.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Inquieta? Por qu&ecirc;? BENONA &#8212; &Eacute; Eudoro,<br \/>\n    Caroba! Achei Eudoro t&atilde;o esquisito para uma pessoa que veio reatar<br \/>\n    um noivado interrompido! CAROBA &#8212; &Eacute; o tempo que passou, Dona<br \/>\n    Benona! BENONA &#8212; Voc&ecirc; acha? CAROBA &#8212; N&atilde;o tenha d&uacute;vida,<br \/>\n    ele continua no mesmo entusiasmo! Chegou at&eacute; a pedir que eu arranjasse<br \/>\n    uma entrevista dele com a senhora! BENONA &#8212; Uma entrevista? Quando?<br \/>\n    CAROBA &#8212; &Agrave; noite, quando o povo estiver dormindo.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Eurico vai estranhar.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Para estranhar, ele vai ter que saber, e Seu Euric&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o vai saber de nada.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; E se algu&eacute;m acordar? CAROBA &#8212; A senhora vem<br \/>\n    disfar&ccedil;ada. Veste um vestido de Dona Margarida. Se algu&eacute;m acordar,<br \/>\n    a senhora faz que &eacute; ela, que veio rezar, e ningu&eacute;m desconfia.<br \/>\n    De noite, &eacute; f&aacute;cil.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; E como &eacute; que eu vou arranjar o vestido de Margarida?<br \/>\n    CAROBA &#8212; Pode deixar que disso eu me encarrego. Depois do jantar, deixo<br \/>\n    a porta destrancada e Seu Eudoro vem. Quando tudo estiver preparado, canto<br \/>\n    como gia, entrego o vestido e a senhora fala com ele.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Foi Eudoro quem pediu isso? CAROBA &#8212; Foi.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Ent&atilde;o eu vou.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Mas n&atilde;o v&aacute; falar com ele sobre isso antes,<br \/>\n    n&atilde;o! Algu&eacute;m pode ouvir e vai tudo d&#8217;&aacute;gua abaixo.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; N&atilde;o tenha cuidado, ningu&eacute;m vai entender nada!<br \/>\n    Pinh&atilde;o encomendou o jantar? CAROBA &#8212; Encomendou, j&aacute; chegaram<br \/>\n    alguns dos Pratos.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Ent&atilde;o vamos ajeitar tudo, porque o noivo chega j&aacute;.<\/p>\n<p> Saem. PINH&Atilde;O e DOD&Oacute; entram, vindos de lados opostos, ambos<br \/>\n    arrependidos.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Margarida&#8230; Pinh&atilde;o! Que h&aacute;? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Nada, Seu Dod&oacute;. Fui eu que peguei uma briga com Caroba e vinha<br \/>\n    fazer as pazes.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Eu tamb&eacute;m peguei uma com Margarida e vinha para<br \/>\n    isso mesmo, Pinh&atilde;o! PINH&Atilde;O &#8212; Ter&aacute; sido um neg&oacute;cio<br \/>\n    de uma entrevista, Seu Dod&oacute;? DOD&Oacute; &#8212; Foi, Pinh&atilde;o.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Eu fiquei danado porque Caroba disse que ia no lugar<br \/>\n    de Dona Margarida.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Como, se Margarida me disse, aqui, que ia &agrave; entrevista?<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Pois ent&atilde;o j&aacute; vi que seu pai marcou entrevista<br \/>\n    foi com as duas, Seu Dod&oacute;.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Voc&ecirc; o que acha dessa entrevista, Pinh&atilde;o?<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Seu Dod&oacute;, de sua noiva quem sabe &eacute; o senhor,<br \/>\n    mas a minha, eu n&atilde;o quero que v&aacute; de jeito nenhum.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; A&iacute; h&aacute; alguma coisa, Pinh&atilde;o. Todas<br \/>\n    duas deram de repente para querer ir &agrave; entrevista. Que ser&aacute;?<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Eu sei l&aacute;, Seu Dod&oacute;! DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o custa nada esclarecer, n&atilde;o &eacute;? Vamos fazer o seguinte:<br \/>\n    quando Caroba abrir a porta, a gente vem antes e se esconde aqui. Assim, assiste-se<br \/>\n    &agrave; entrevista e pode-se saber, afinal de contas, o que &eacute; isso.<br \/>\n    Est&aacute; certo? PINH&Atilde;O &#8212; Est&aacute;, Seu Dod&oacute;.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; E o jantar? Voc&ecirc; arranjou tudo? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Arranjei, os pratos come&ccedil;aram a chegar.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Chegaram uns homens a&iacute; fora.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; S&atilde;o os dois empregados do hotel, certamente<br \/>\n    v&ecirc;m com a porca.<\/p>\n<p> Arranjei uma porca assada para n&oacute;s.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Ent&atilde;o, pelo menos, hoje se tira a barriga da<br \/>\n    mis&eacute;ria! Estou aqui h&aacute; dois meses, &eacute; a segunda vez que<br \/>\n    vou comer de noite. V&aacute; receber a porca.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; (Gritando para fora, enquanto sai.) &Eacute; a porca?<br \/>\n    Levem l&aacute; para tr&aacute;s, nossa alegria hoje &eacute; essa porca.<br \/>\n    &Eacute; a porca? (Sai. EURIC&Atilde;O cruza a cena, transtornado.) EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Ai, a porca! Pega, pega o ladr&atilde;o! Sai no encal&ccedil;o de<br \/>\n    PINH&Atilde;O. Ouvem-se gritos, som de pancadas, impreca&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    PINH&Atilde;O entra correndo, com EURIC&Atilde;O atr&aacute;s, amea&ccedil;ador,<br \/>\n    EURIC&Atilde;O vai investir sobre PINH&Atilde;O, que puxa uma faca.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Pega, pega o ladr&atilde;o! Assassino, ladr&atilde;o!<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; O que &eacute; isso, Seu Eurico? Que &eacute; isso, Pinh&atilde;o?<br \/>\n    Guarde essa faca imediatamente.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o, deixe ele assim, quero mesmo que a pol&iacute;cia<br \/>\n    veja! Pega, pega o ladr&atilde;o! Vou denunci&aacute;-lo &agrave; pol&iacute;cia!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212;Porqu&ecirc;? EURIC&Atilde;O &#8212; Porque voc&ecirc;<br \/>\n    anda com uma faca.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Aqui todo mundo anda! EURIC&Atilde;O &#8212; Mas voc&ecirc;<br \/>\n    me amea&ccedil;ou.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Ameacei para n&atilde;o apanhar, Seu Dod&oacute; &eacute;<br \/>\n    testemunha.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Dod&oacute; n&atilde;o &eacute; testemunha de coisa<br \/>\n    nenhuma, que o patr&atilde;o dele sou eu! PINH&Atilde;O &#8212; Por que o<br \/>\n    senhor deu em mim? EURIC&Atilde;O &#8212; Ainda pergunta? Quer mais? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Venha! EURIC&Atilde;O &#8212; (Avan&ccedil;ando para PINH&Atilde;O,<br \/>\n    que recua.) Que &eacute; que voc&ecirc; veio fazer em minha casa sem minha<br \/>\n    ordem? PINH&Atilde;O &#8212; (Mesmo tom, mesmo ritmo, com EURIC&Atilde;O recuando.)<br \/>\n    Vim trazer o jantar que o senhor encomendou EURIC&Atilde;O &#8212; (Idem.)<br \/>\n    E &eacute; de sua conta que se coma ou n&atilde;o se coma em minha casa? Voc&ecirc;<br \/>\n    &eacute; meu pai? PINH&Atilde;O &#8212; (Idem.) O que eu quero saber &eacute;<br \/>\n    se &eacute; para trazer o jantar ou n&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; (Idem.) E eu, o que quero saber &eacute; se minha<br \/>\n    casa se salvar&aacute;.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; (Idem.) E eu, o que quero &eacute; me salvar com minha<br \/>\n    porca.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Com a porca? Ai, ai, minha porca! Ai minha porca,<br \/>\n    pelo amor de Deus! Santo Ant&ocirc;nio, Santo Ant&ocirc;nio! Saiam, saiam<br \/>\n    daqui imediatamente. Entrem a&iacute; que eu vou trancar voc&ecirc;s dois,<br \/>\n    seus ladr&otilde;es! Seus criminosos! Entrem j&aacute;. (Vai tranc&aacute;-los<br \/>\n    no por&atilde;o, mas de repente, aterrorizado, lembra-se de que a porca est&aacute;<br \/>\n    l&aacute;.) EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o entra ningu&eacute;m!<br \/>\n    Fiquem de costas, todos dois. Tapem os olhos com as m&atilde;os. J&aacute;!<br \/>\n    Se tirarem as m&atilde;os, denuncio voc&ecirc;s dois ao Delegado como ladr&otilde;es<br \/>\n    de cavalo. Fiquem a&iacute;. N&atilde;o se virem. Olhe a den&uacute;ncia,<br \/>\n    boto todos dois na cadeia. Voc&ecirc; se virou, Dod&oacute;? DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o, Seu Eurico.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E voc&ecirc;, ladr&atilde;o? PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Sou eu, &eacute;? EURIC&Atilde;O &#8212; Quem mais havia de ser? Voc&ecirc;<br \/>\n    se virou? PINH&Atilde;O &#8212; Eu n&atilde;o! EURIC&Atilde;O &#8212; Fiquem<br \/>\n    como estavam, n&atilde;o se virem.<\/p>\n<p> Entra de novo no quarto e volta rapidamente, aliviado.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Est&aacute; bem, podem se virar. Que foi que houve<br \/>\n    aqui? DOD&Oacute; &#8212; Nada! EURIC&Atilde;O &#8212; Ouvi esse tal de Pinh&atilde;o<br \/>\n    gritar.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; E eu gritei mesmo, Seu Euric&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; O que foi que voc&ecirc; gritou? PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Gritei pela porca! EURIC&Atilde;O &#8212; Est&aacute; vendo, ladr&atilde;o?<br \/>\n    &Eacute; um ladr&atilde;o, um criminoso, um bandido que quer sugar meu sangue.<br \/>\n    O que &eacute; que voc&ecirc; quer com minha porca? PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Quero comer, Seu Euric&atilde;o! EURIC&Atilde;O &#8212; Comer? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Sim, comer, a porca que Seu Dad&aacute; mandou para o jantar e que<br \/>\n    chegou agora! EURIC&Atilde;O &#8212; A porca? O jantar (Entendendo e disfar&ccedil;ando.)<br \/>\n    Ah, sim, naturalmente, a porca! Assada ou cozida, Pinh&atilde;o? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Eu sei l&aacute;! EURIC&Atilde;O &#8212; Est&aacute; bem, o certo<br \/>\n    &eacute; que &eacute; preciso cuidado! Todo cuidado &eacute; pouco, Santo<br \/>\n    Ant&ocirc;nio, todo cuidado &eacute; pouco! E antes que me enganem, &eacute;<br \/>\n    melhor eu me certificar. Saiam. Se n&atilde;o existir essa porca mesmo, vou<br \/>\n    fazer a den&uacute;ncia e o Delegado Cabo Rangel prende voc&ecirc; como ladr&atilde;o<br \/>\n    de cavalo. (Sai.) PINH&Atilde;O, desconfiado, vai at&eacute; a porta e fica<br \/>\n    olhando o quarto, pensativo.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; O senhor entendeu alguma coisa, Seu Dod&oacute;? DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; Isso &eacute; um louco! Voc&ecirc; n&atilde;o imagina at&eacute; onde<br \/>\n    vai a avareza dele. Desde que estou aqui, s&oacute; se comeu &agrave; noite<br \/>\n    uma vez. E ele exige que a gente pague a refei&ccedil;&atilde;o, porque acha<br \/>\n    que mais de uma refei&ccedil;&atilde;o por dia &eacute; luxo! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; E quem n&atilde;o tem para pagar, como Caroba? DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    De quem n&atilde;o paga, ele desconta o pre&ccedil;o no ordenado.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; A&iacute; &eacute; que quero saber como! Ela me disse<br \/>\n    que desde que chegou aqui ainda n&atilde;o recebeu um tost&atilde;o! DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; O golpe dele &eacute; esse! Deu o primeiro jantar, cobrou o pre&ccedil;o.<br \/>\n    Caroba n&atilde;o p&ocirc;de pagar porque n&atilde;o tinha recebido o ordenado.<br \/>\n    Agora, quando Caroba cobra o ordenado, ele diz que ela primeiro pague o jantar.<br \/>\n    Como Caroba n&atilde;o tem o dinheiro, n&atilde;o paga. Assim, por conta do<br \/>\n    jantar que ele d&aacute; cada m&ecirc;s, economiza o sal&aacute;rio dos empregados.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Que ladr&atilde;o! DOD&Oacute; &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; ladr&atilde;o n&atilde;o, Pinh&atilde;o, &eacute; louco.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Seu Dod&oacute;, eu s&oacute; acredito que uma pessoa<br \/>\n    &eacute; doida quando ela come&ccedil;a a rasgar dinheiro. Com fama de doido,<br \/>\n    Z&eacute; Sabido enriqueceu.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; A felicidade nossa &eacute; que deixei um rapaz no Recife<br \/>\n    recebendo a mesada que meu pai me manda e ele remete o dinheiro pelo correio.<br \/>\n    &Eacute; assim que vamos passando, eu e Caroba. Mas j&aacute; estou ficando<br \/>\n    cansado de ter que suportar a loucura desse ar&aacute;be, esses fingimentos,<br \/>\n    essas mentiras, estes disfarces&#8230; Sabe de uma coisa, Pinh&atilde;o? N&atilde;o<br \/>\n    estou mais disposto a suportar isso e vou descobrir tudo! PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Seu Dod&oacute;! DOD&Oacute; tira os disfarces e se endireita. Entram CAROBA<br \/>\n    e MARGARIDA, conduzindo EUDORO VICENTE.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Venha por aqui, Seu Eudoro.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O acena para CAROBA, mostrando DOD&Oacute; sem os disfarces,<br \/>\n    mas ela n&atilde;o entende e d&aacute;-lhe as costas, zangada. DOD&Oacute;<br \/>\n    volta-se para ela, com EUDORO no limiar.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Margarida&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ai! Um ladr&atilde;o! DOD&Oacute; &#8212; Um ladr&atilde;o?<br \/>\n    EUDORO &#8212; Um ladr&atilde;o? CAROBA &#8212; (Agarrando-se com ele.) Um<br \/>\n    ladr&atilde;o, Seu Eudoro! Ai, o ladr&atilde;o! (Empurra EUDORO, saindo de<br \/>\n    cena com ele.) DOD&Oacute; &#8212; Pega! Pega o ladr&atilde;o! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; (Avisando.) Seu Dod&oacute;! Seu Dod&oacute;! Sai correndo atr&aacute;s<br \/>\n    de DOD&Oacute;, este sem o disfarce.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O e MARGARIDA d&atilde;o a volta &agrave; casa e regressam &agrave;<br \/>\n    cena, cada qual por um lado.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Onde est&atilde;o eles?<\/p>\n<p>MARGARIDA &#8212; N&atilde;o sei. Ave Maria, Pinh&atilde;o, veja se pega<br \/>\n    Dod&oacute; e avisa a ele! PINH&Atilde;O &#8212; E a senhora, veja se leva<br \/>\n    Seu Eudoro para a outra sala! MARGARIDA &#8212; Est&aacute; bem, v&aacute;<br \/>\n    por l&aacute; que eu vou por c&aacute;.<\/p>\n<p> Saem. Aparecem DOD&Oacute; e EUDORO, cada um por um lado, com jeito de quem<br \/>\n    procura. Os dois caminham um para o outro e v&atilde;o se encontrar, mas na<br \/>\n    hora exata, cada um vira o rosto para o lado oposto e por um triz n&atilde;o<br \/>\n    se v&ecirc;em. V&atilde;o ao limiar da cena, tendo se cruzado, e param ambos.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Escondeu-se! Ser&aacute; que est&aacute; por aqui? DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o vi nada, &eacute; melhor voltar! (Os dois se voltam, d&atilde;o-se<br \/>\n    um encontr&atilde;o e um grito de susto.) EUDORO &#8212; Ai, o ladr&atilde;o!<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Ai! (EUDORO agarra DOD&Oacute; pelo pesco&ccedil;o, por<br \/>\n    tr&aacute;s, e este cobre o rosto com as m&atilde;os.) EUDORO &#8212; Caroba!<br \/>\n    Pinh&atilde;o! Agarrei! Peguei o ladr&atilde;o! Os dois acorrem, com MARGARIDA.<br \/>\n    CAROBA imediatamente d&aacute; um salto, escancha-se no lombo de EUDORO, e<br \/>\n    PINH&Atilde;O agarra-o. BENONA &#8212; que ouviu os gritos e entrou &#8212;<br \/>\n    agarra-se com EUDORO.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Ah, ladr&atilde;o safado! MARGARIDA &#8212; Ah, bandido!<br \/>\n    Bote a barba, Dod&oacute;! PINH&Atilde;O &#8212; Ladr&atilde;o da peste! MARGARIDA<br \/>\n    &#8212; Ah, ladr&atilde;o safado! CAROBA &#8212; (Aos sopapos com EUDORO.)<br \/>\n    Ladr&atilde;o, ladr&atilde;o safado! BENONA &#8212; Que &eacute; isso, Caroba?<br \/>\n    Que &eacute; isso? EUDORO &#8212; Espere a&iacute;, sou eu, Caroba! CAROBA<br \/>\n    &#8212; Eu o qu&ecirc;, safado! Roubando a casa do meu patr&atilde;o! (D&aacute;-lhe<br \/>\n    umas tapas na cara.) BENONA &#8212; Caroba, voc&ecirc; est&aacute; doida?<br \/>\n    CAROBA &#8212; &Eacute; o ladr&atilde;o, Dona Benona! Ah, ladr&atilde;o safado!<br \/>\n    (DOD&Oacute; p&otilde;e os disfarces.) EUDORO &#8212; Caroba! Sou eu, Caroba!<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Esperem, sou eu! Que ladr&atilde;o, que nada! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Era o senhor, Seu Dod&oacute;? CAROBA &#8212; Espere, &eacute; o senhor,<br \/>\n    Seu Eudoro? EUDORO &#8212; Claro que sou eu, criatura! Voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    doida? Que confus&atilde;o &eacute; essa? CAROBA &#8212; &Eacute; Seu Dod&oacute;<br \/>\n    Boca-da-Noite com essa cara de fantasma, assombrando a gente! Fui entrando,<br \/>\n    pensei que era um ladr&atilde;o! EUDORO &#8212; Pois trate de olhar em quem<br \/>\n    d&aacute;, est&aacute; ouvindo? Est&aacute; me achando com cara de ladr&atilde;o?<br \/>\n    BENONA &#8212; Ladr&atilde;o pode n&atilde;o ser, mas &eacute; um atrevidinho,<br \/>\n    um bandido! EUDORO &#8212; Eu? BENONA &#8212; Sim, depois de certas coisas<br \/>\n    que ouvi, estou considerando voc&ecirc; um ladr&atilde;ozinho bem perigoso.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Eu, Benona? BENONA &#8212; Sim, voc&ecirc;, atrevido! Seu<br \/>\n    atrevidinho, seu moleque audacioso! EUDORO &#8212; Minha senhora&#8230;<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Minha senhora o qu&ecirc;, malandro! Planeja suas hist&oacute;rias<br \/>\n    e depois vem com fingimento! Mas eu concordei de todo cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e quero que voc&ecirc; saiba que a noiva estar&aacute; presente.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; (Inocente.) Estar&aacute; presente onde? BENONA &#8212; Olhe<br \/>\n    a inoc&ecirc;ncia dele! Que fingido, que malandro! EUDORO &#8212; Malandro,<br \/>\n    eu? Por qu&ecirc;? BENONA &#8212; Ora por qu&ecirc;! Marca suas entrevistas,<br \/>\n    vem com suas aud&aacute;cias e depois ainda se admira quando a gente o chama<br \/>\n    de malandro! EUDORO &#8212; Ai, e voc&ecirc; sabe? CAROBA &#8212; Sabe, Seu<br \/>\n    Eudoro, ela sabe de tudo, mas felizmente fez uma exce&ccedil;&atilde;o e est&aacute;<br \/>\n    inteiramente de acordo, eu consegui convenc&ecirc;-la, n&atilde;o foi, Dona<br \/>\n    Benona? BENONA &#8212; Foi, ora se foi! CAROBA &#8212; Vamos saindo para o<br \/>\n    jantar? EUDORO &#8212; Mas tinham me dito que voc&ecirc; era t&atilde;o severa!<br \/>\n    BENONA &#8212; Com os outros, com voc&ecirc; nunca mais! Quero recuperar&#8230;<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Pega o ladr&atilde;o! PINH&Atilde;O &#8212; Pega! Pega<br \/>\n    o ladr&atilde;o! BENONA &#8212; Ai, socorro, Eudoro! (Abra&ccedil;a-se com<br \/>\n    ele.) EUDORO &#8212; N&atilde;o vejo ladr&atilde;o nenhum, que neg&oacute;cio<br \/>\n    &eacute; esse? Voc&ecirc;s est&atilde;o loucos? Quem foi que gritou? MARGARIDA<br \/>\n    &#8212; Eu, mas n&atilde;o estava gritando por ladr&atilde;o nenhum! Estava<br \/>\n    somente me lembrando de ainda agora! Foi t&atilde;o engra&ccedil;ado! CAROBA<br \/>\n    &#8212; Eu vinha entrando, vi Seu Dod&oacute; e de repente gritei &quot;Pega<br \/>\n    o ladr&atilde;o!&quot;.<\/p>\n<p> Foi t&atilde;o engra&ccedil;ado! EUDORO permanece de cara enfarruscada diante<br \/>\n    de todos os outros, que v&atilde;o desfilando diante dele e repetindo a frase,<br \/>\n    para desanuvi&aacute;-lo.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Foi! Caroba vinha entrando, viu Seu Dod&oacute; e<br \/>\n    gritou &quot;Pega o ladr&atilde;o!&quot;.<\/p>\n<p> Foi t&atilde;o engra&ccedil;ado! DOD&Oacute; &#8212; Eu vinha entrando,<br \/>\n    Caroba me viu e gritou &quot;Pega o ladr&atilde;o!&quot;. Foi t&atilde;o engra&ccedil;ado!<br \/>\n    BENONA &#8212; Que coisa! Caroba vinha entrando, avistou Dod&oacute; e gritou<br \/>\n    &quot;Pega o ladr&atilde;o!&quot;. Foi t&atilde;o engra&ccedil;ado! (Somente<br \/>\n    ent&atilde;o EUDORO ri.) CAROBA&#8212; &quot;Pega o ladr&atilde;o!&quot; Foi<br \/>\n    t&atilde;o engra&ccedil;ado! Vamos? Ai, meu Deus, eu hoje estufo de tanto<br \/>\n    rir! (Sai empurrando todo mundo e todo mundo rindo. PINH&Atilde;O por&eacute;m<br \/>\n    fica pensativo, olhando toda a sala.) VOZ DE EURIC&Atilde;O &#8212; Ai, ai,<br \/>\n    meu Deus! Pega, pega o ladr&atilde;o! Est&atilde;o me roubando! PINH&Atilde;O<br \/>\n    se esconde e EURIC&Atilde;O entra, aterrorizado.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ai, gritaram &quot;Pega o ladr&atilde;o!&quot;. Quem<br \/>\n    foi? Onde est&aacute;? Pega, pega! Santo Ant&ocirc;nio, Santo Ant&ocirc;nio,<br \/>\n    que diabo de prote&ccedil;&atilde;o &eacute; essa? Ouvi gritar &quot;Pega<br \/>\n    o ladr&atilde;o!&quot;. Ai, a porca, ai meu sangue, ai minha vida, ai minha<br \/>\n    porquinha do cora&ccedil;&atilde;o! Levaram, roubaram! Ai, n&atilde;o, est&aacute;<br \/>\n    l&aacute;, gra&ccedil;as a Deus! Que ter&aacute; havido, minha Nossa Senhora?<br \/>\n    Ter&atilde;o desconfiado porque tirei a porca do lugar? Deve ter sido isso,<br \/>\n    desconfiaram e come&ccedil;aram a rondar para furt&aacute;-la! &Eacute; melhor<br \/>\n    deix&aacute;-la aqui mesmo, &agrave; vista de todos, assim ningu&eacute;m<br \/>\n    lhe dar&aacute; import&acirc;ncia! Ou n&atilde;o? Que &eacute; que eu fa&ccedil;o,<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio? Deixo a porca l&aacute;, ou trago-a para aqui, sob sua<br \/>\n    prote&ccedil;&atilde;o? Desde que ela saiu daqui que come&ccedil;aram as amea&ccedil;as!<br \/>\n    &Eacute; melhor traz&ecirc;-la. Com a capa, porque algu&eacute;m pode aparecer.<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio, fa&ccedil;a com que n&atilde;o apare&ccedil;a ningu&eacute;m!<br \/>\n    N&atilde;o deixe ningu&eacute;m entrar aqui. Vou buscar minha porquinha, mas<br \/>\n    n&atilde;o quero ningu&eacute;m aqui.<\/p>\n<p> Entra no socav&atilde;o e volta com a porca. EUDORO VICENTE entra e EURIC&Atilde;O<br \/>\n    imediatamente cobre a porca com a capa, que colocou nos ombros para a eventualidade.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Santo Ant&ocirc;nio, que safadeza &eacute; essa?<br \/>\n    Isso &eacute; coisa que se fa&ccedil;a? EUDORO se aproxima de EURIC&Atilde;O<br \/>\n    e come&ccedil;a a olh&aacute;-lo, examinando-o com um misto de curiosidade,<br \/>\n    desgosto e compaix&atilde;o. Chega mesmo a tocar na roupa de EURIC&Atilde;O<br \/>\n    para inspecion&aacute;-la. EURIC&Atilde;O, desconfiado, vai se afastando dele,<br \/>\n    aos arranc&otilde;es, mas sem querer sair para n&atilde;o despertar suspeitas.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Euric&atilde;o, n&atilde;o repare eu dizer isso, mas voc&ecirc;<br \/>\n    podia ter se vestido melhor para o jantar.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; A apar&ecirc;ncia depende da fortuna e a fortuna<br \/>\n    depende do que se tem.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o tenho nada. Os ricos, como voc&ecirc;, &eacute; que t&ecirc;m<br \/>\n    essas obriga&ccedil;&otilde;es. Os pobres, como eu, n&atilde;o! EUDORO &#8212;<br \/>\n    Nada, n&atilde;o h&aacute; quem me conven&ccedil;a de que voc&ecirc; &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o pobre como vive dizendo! V&aacute; ver que com essa cara e com<br \/>\n    essa mod&eacute;stia, tem, no m&iacute;nimo, uma botija escondida.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ai! EUDORO &#8212; Que &eacute;? EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Ora o que &eacute;? Voc&ecirc; vem com suas insinua&ccedil;&otilde;es e depois<br \/>\n    se admira! EUDORO &#8212; Mas foi uma brincadeira, Eurico! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o gosto dessa qualidade de brincadeira! EUDORO &#8212; Est&aacute;<br \/>\n    bem, desculpe. Afinal de contas, eu vou entrar na fam&iacute;lia e posso me<br \/>\n    permitir certas intimidades! EURIC&Atilde;O &#8212; Por falar nisso, voc&ecirc;<br \/>\n    pode me emprestar logo os vinte contos de que lhe falei! Preciso deles para<br \/>\n    fazer a festa, porque sozinho n&atilde;o vou poder enfrentar essa despesa!<br \/>\n    EUDORO &#8212; Est&aacute; bem, no jantar, trataremos disso.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; No jantar, n&atilde;o! No jantar a gente come&ccedil;a<br \/>\n    a comer, a beber, o cora&ccedil;&atilde;o afraca, a vontade se abranda, o<br \/>\n    tempo vai passando, daqui a pouco a oportunidade tem passado! Voc&ecirc; quer<br \/>\n    casar ou n&atilde;o quer? EUDORO &#8212; Quero! EURIC&Atilde;O &#8212; Com<br \/>\n    festa ou sem festa? EUDORO &#8212; Bem, alguns amigos daqui a gente tem de<br \/>\n    convidar! EURIC&Atilde;O &#8212; Ent&atilde;o passe os vinte contos. Agora!<br \/>\n    J&aacute;! EUDORO &#8212; E quem lhe disse que eu tenho os vinte contos aqui?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; pode me dar um vale e eu vou receber o dinheiro<br \/>\n    no armaz&eacute;m que compra seu algod&atilde;o! EUDORO &#8212; Mas Eurico&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Tem papel e caneta a&iacute;! Fa&ccedil;a o vale!<br \/>\n    EUDORO &#8212; Eu&#8230; Est&aacute; bem, vou fazer. Est&aacute; a&iacute;.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Obrigado, obrigado, obrigado! Agora sinto-me seguro!<br \/>\n    Grande coisa &eacute; o dinheiro! EUDORO &#8212; &Eacute; verdade. Que &eacute;<br \/>\n    isso? EURIC&Atilde;O &#8212; Isso o qu&ecirc;? EUDORO &#8212; Voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    com alguma coisa embaixo da capa? EURIC&Atilde;O &#8212; Saia da&iacute;!<br \/>\n    EUDORO &#8212; Meu Deus, que homem mais esquisito! EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Voc&ecirc; n&atilde;o tem nada que me cutucar, atr&aacute;s do que eu carrego!<br \/>\n    EUDORO &#8212; E eu sabia l&aacute; que era segredo? EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Segredo o qu&ecirc;? Quem vive escondendo o que tem s&atilde;o os ricos, como<br \/>\n    voc&ecirc;. O que eu trago aqui &eacute; somente uma cervejinha para o jantar.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Ah, Eurico, que delicadeza a sua! Uma cervejinha agora, depois<br \/>\n    dessa caminhada! Est&aacute; gelada? EURIC&Atilde;O &#8212; Ai! V&aacute;<br \/>\n    pra l&aacute;! EUDORO &#8212; Que &eacute; isso, homem? Quero somente ver<br \/>\n    a cerveja! EURIC&Atilde;O &#8212; V&aacute; pra l&aacute;, v&aacute; pra l&aacute;,<br \/>\n    pelo amor de Deus! Tenho horror a mostrar a cerveja que vou beber! EUDORO<br \/>\n    &#8212; Por que, homem de Deus? EURIC&Atilde;O &#8212; Porque n&atilde;o gosto,<br \/>\n    pronto! E uma esquisitice minha! N&atilde;o gosto de mostrar cerveja! &Eacute;<br \/>\n    proibido ter esquisitice, &eacute;? EUDORO &#8212; N&atilde;o! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o, pronto, v&aacute; esperar o jantar na sala! EUDORO &#8212;<br \/>\n    Est&aacute; bem. Que homem mais esquisito, minha Nossa Senhora! (Sai.) EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Foi-se, com todos os diabos! Pronto, a porca fica aqui, agora! Aqui,<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio, servindo de suporte &agrave; sua imagem. Fica sob sua<br \/>\n    prote&ccedil;&atilde;o, meu santo, estou arrependido de tudo o que disse!<br \/>\n    Ai, meu Deus, o santo ou a porca? Os dois! N&atilde;o h&aacute; necessidade<br \/>\n    de escolher, fico com os dois! Ouvi dizer que voc&ecirc;, Santo Ant&ocirc;nio,<br \/>\n    era cabo do ex&eacute;rcito brasileiro: fique a&iacute; como cabo-de-dia,<br \/>\n    guardando o que &eacute; meu.<\/p>\n<p> Vou lhe confiar o que n&atilde;o confiaria mais nem a minha m&atilde;e.<br \/>\n    Mas veja como corresponde a esta confian&ccedil;a! Est&aacute; a&iacute;,<br \/>\n    confiei em voc&ecirc;: retribua agora essa confian&ccedil;a, dandome toda<br \/>\n    a sua prote&ccedil;&atilde;o. (Sai. PINH&Atilde;O sai do esconderijo.) PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Ah, Santo Ant&ocirc;nio, n&atilde;o d&ecirc; mais prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a ele do que a mim! O que &eacute; que h&aacute; aqui? &Eacute; essa porca<br \/>\n    que ele defende com tanta raiva? Por que esse cuidado todo? Quero apurar tudo<br \/>\n    isso direitinho, Santo Ant&ocirc;nio, porque essa peste n&atilde;o pode ter<br \/>\n    esse amor todo por uma porca s&oacute; porque ela pertenceu ao av&ocirc; dele!<br \/>\n    Esclare&ccedil;a tudo, Santo Ant&ocirc;nio! Esclare&ccedil;a que eu&#8230; (Vendo<br \/>\n    EURIC&Atilde;O, que se aproxima cuidadosamente)&#8230; Se o senhor me esclarecer&#8230;<br \/>\n    Ai, esclare&ccedil;a, meu Santo Ant&ocirc;nio, esclare&ccedil;a um pobre pecador,<br \/>\n    um &oacute;rf&atilde;o que n&atilde;o tem ningu&eacute;m por ele! Quero aproveitar<br \/>\n    e rezar pela seguran&ccedil;a e pela salva&ccedil;&atilde;o de todas as pessoas<br \/>\n    que me protegem e protegem Caroba! Seu Eudoro Vicente, aquele santo, Seu Euric&atilde;o<br \/>\n    Ar&aacute;be, aquele outro santo, a irm&atilde; de Seu Euric&atilde;o, aquela<br \/>\n    santa, a filha de Seu Euric&atilde;o, aquela santinha&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Pra fora! Pra fora daqui, conversador! Que devo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi essa que lhe deu de repente? Voc&ecirc; pensa que me engana, mas eu sei<br \/>\n    quem voc&ecirc; &eacute;! E agora voc&ecirc; me paga! (Agarra-o pelo pesco&ccedil;o.)<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Mas afinal, que diabo &eacute; isso? A todo instante<br \/>\n    &eacute; pancada, esbregue, bofete, o diabo! Que diabo o senhor tem? EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; O que &eacute; que tenho, &eacute;? E o que &eacute; que voc&ecirc;<br \/>\n    tem com isso, seu ladr&atilde;o? PINH&Atilde;O &#8212; Mas ladr&atilde;o por<br \/>\n    qu&ecirc;? O que foi que eu roubei?<\/p>\n<p>EURIC&Atilde;O &#8212; Bote j&aacute; a&iacute;, ponha j&aacute; a&iacute;!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; O senhor pensa que eu sou alguma galinha? O que &eacute;<br \/>\n    que eu posso botar, o que &eacute; que eu posso p&ocirc;r, o que &eacute;<br \/>\n    que o senhor quer? EURIC&Atilde;O &#8212; (Ir&ocirc;nico.) Voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    sabe! PINH&Atilde;O &#8212; Como &eacute; que eu posso saber, se n&atilde;o<br \/>\n    tirei nada? EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o tirou porque n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de. Mas tenho certeza de que voc&ecirc; tem. Que &eacute; isso? Est&aacute;<br \/>\n    com as m&atilde;os para tr&aacute;s? Mostre a m&atilde;o direita! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Veja.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Agora, a esquerda.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Veja.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Mostrou a primeira? PINH&Atilde;O &#8212; Mostrei.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E a segunda? PINH&Atilde;O &#8212; Mostrei.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Mostre a terceira.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; O senhor est&aacute; &eacute; doido! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Estou mesmo, porque o que eu devia era ter lhe dado um tiro! E &eacute;<br \/>\n    o que hei de fazer se voc&ecirc; n&atilde;o confessar! PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Mas confessar o qu&ecirc;? EURIC&Atilde;O &#8212; Que foi que voc&ecirc; tirou<br \/>\n    daqui? PINH&Atilde;O &#8212; Santo Ant&ocirc;nio me cegue se eu tirei alguma<br \/>\n    coisa! EURIC&Atilde;O &#8212; Sacuda o palet&oacute;.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; &Agrave; vontade.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E capaz de estar no fundo das cal&ccedil;as.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Quer ver? EURIC&Atilde;O &#8212; &Eacute;, voc&ecirc;<br \/>\n    est&aacute; rindo para eu pensar que voc&ecirc; &eacute; de confian&ccedil;a,<br \/>\n    cheio de boas inten&ccedil;&otilde;es. Mas eu conhe&ccedil;o suas manhas.<br \/>\n    Mostre outra vez a m&atilde;o direita.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Tome.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Agora a esquerda.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Veja logo as duas.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Agora me d&ecirc; aquilo.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Aquilo o qu&ecirc;? EURIC&Atilde;O &#8212; Ra, ra!<br \/>\n    Voc&ecirc; gosta de brincar, mas tenho certeza de que voc&ecirc; tem.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Eu tenho? Tenho o qu&ecirc;? EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Ah, isso &eacute; o que eu n&atilde;o digo. Queria saber, hein? Est&aacute;<br \/>\n    bem, saia. Afinal de contas, j&aacute; o revistei todo. Fora daqui! E que<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio lhe cegue os olhos e lhe d&ecirc; paralisia nos dois bra&ccedil;os<br \/>\n    e nas duas pernas duma vez.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; &Eacute; muita bondade sua! EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Fora, fora daqui! (Faz que sai por um lado, PINH&Atilde;O faz o mesmo pelo<br \/>\n    outro lado e os dois voltam ao mesmo tempo.) EURIC&Atilde;O &#8212; (Cruzando<br \/>\n    os bra&ccedil;os.) Vai ou n&atilde;o? PINH&Atilde;O &#8212; (Dando meia-volta<br \/>\n    r&aacute;pida e saindo.) Vou! (Mesmo movimento anterior de ambos.) EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o quero mais v&ecirc;-lo! Saem, sendo que PINH&Atilde;O na<br \/>\n    carreira. Ele d&aacute; uma volta por fora da cena; subentende-se que ele<br \/>\n    rodeou a casa; ent&atilde;o, pula uma janela, novamente para dentro de cena,<br \/>\n    e esconde-se. EURIC&Atilde;O volta por onde saiu.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ah, agora estou s&oacute;. Estar&aacute; escondido?<br \/>\n    O quarto est&aacute; vazio. E aqui? Ningu&eacute;m. Agora, n&oacute;s, Santo<br \/>\n    Ant&ocirc;nio! Isso &eacute; coisa que se fa&ccedil;a? Pensei que podia confiar<br \/>\n    em sua prote&ccedil;&atilde;o mas ela me traiu! Voc&ecirc;, que dizem ser<br \/>\n    o santo mais achador! &Eacute; isso, Santo Ant&ocirc;nio &eacute; achador<br \/>\n    e esta ajudando a achar minha porca! Eu devia ter me pegado era com um santo<br \/>\n    perdedor! Agora n&atilde;o deixo mais meu dinheiro aqui de jeito nenhum. O<br \/>\n    cemit&eacute;rio da igreja! &Eacute; aqui perto e &eacute; lugar seguro. Entre<br \/>\n    o t&uacute;mulo de minha mulher e o muro, h&aacute; um socav&atilde;o: &eacute;<br \/>\n    l&aacute; que guardarei meu tesouro. Prefiro a companhia dos mortos &agrave;<br \/>\n    dos vivos, e ali minha porca ficar&aacute; em seguran&ccedil;a. Com medo dos<br \/>\n    mortos, os vivos n&atilde;o ir&atilde;o l&aacute; e os mortos, ah, os mortos<br \/>\n    n&atilde;o desejam mais nada, n&atilde;o t&ecirc;m mais nenhum sonho a realizar,<br \/>\n    nenhuma desgra&ccedil;a a remediar. Ao cemit&eacute;rio! Escondo a porca no<br \/>\n    socav&atilde;o e &agrave; noite, quando todos estiverem dormindo, cavo a terra<br \/>\n    e hei de enterr&aacute;-la o mais fundo que puder. E voc&ecirc;, Santo Ant&ocirc;nio,<br \/>\n    fiquese a&iacute; com sua prote&ccedil;&atilde;o e seu poder de encontrar.<br \/>\n    L&aacute;, meu ouro, meu sangue, estar&aacute; em seguran&ccedil;a: o mundo<br \/>\n    dos mortos &eacute; mais tranq&uuml;ilo, e, digam o que disserem os idiotas,<br \/>\n    l&aacute; &eacute; o lugar em que se perde tudo e n&atilde;o se acha nada!<br \/>\n    Pega a porca, coloca-a sob a capa e, quando vai saindo, encontra CAROBA que<br \/>\n    vem entrando.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O imediatamente volta-se de costas.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, assim tamb&eacute;m<br \/>\n    &eacute; demais, Deus! CAROBA &#8212; Ah, est&aacute; a&iacute;, hein, Seu<br \/>\n    Euric&atilde;o? Procurei-o Por toda parte. O jantar demorou, mas agora vai<br \/>\n    sair. O senhor deve estar com fome, hein? Coitado, chega est&aacute; de barriga<br \/>\n    vazia! (Bate com a m&atilde;o na barriga dele, que vai se livrando para evitar<br \/>\n    que ela descubra a porca.) EURIC&Atilde;O &#8212; Isso &eacute; que &eacute;<br \/>\n    um azar da peste! CAROBA &#8212; Mas n&atilde;o se incomode n&atilde;o, essa<br \/>\n    barriga hoje se enche, mais ainda! EURIC&Atilde;O &#8212; Ai! V&aacute; pra<br \/>\n    l&aacute;! Diabo de mulher enxerida! CAROBA &#8212; Que &eacute; isso, Seu<br \/>\n    Euric&atilde;o? Parece at&eacute; que o senhor andou engolindo cobra! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Engole-Cobra &eacute; a m&atilde;e! V&aacute; pra l&aacute;! CAROBA<br \/>\n    &#8212; Calma, calma! Que &eacute; que h&aacute; por aqui? De capa, todo misterioso,<br \/>\n    antes do jantar? Para onde &eacute; que se bota? EURIC&Atilde;O &#8212; Para<br \/>\n    a casa da m&atilde;e! CAROBA &#8212; Ra, ra! Que &eacute; que o senhor est&aacute;<br \/>\n    escondendo a&iacute; nesse bucho? EURIC&Atilde;O &#8212; Ai, ai, ladrona,<br \/>\n    assassina! Ai! (Sai na carreira.) CAROBA &#8212; Est&aacute; doido, o diabo<br \/>\n    do velho! (PINH&Atilde;O sai do quarto.) PINH&Atilde;O &#8212; Doido, &eacute;?<br \/>\n    E voc&ecirc;, que intimidade com ele &eacute; essa? Estava disposto a lhe<br \/>\n    pedir desculpas, mas agora mantenho o que disse. Que diabo de intimidade com<br \/>\n    o velho &eacute; essa? CAROBA &#8212; Mas Pinh&atilde;o, um velho daquele!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; &Eacute;! &Eacute; um velho mas n&atilde;o gosto de<br \/>\n    mulher que bate no bucho dos outros n&atilde;o! Boa romaria faz quem em sua<br \/>\n    casa fica em paz! CAROBA &#8212; N&atilde;o me venha com ditado agora! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; &Eacute;, n&atilde;o me venha com ditado, mas seguro morreu de velho<br \/>\n    e desconfiado ainda est&aacute; vivo. Vivo e de testa limpa! CAROBA &#8212;<br \/>\n    Voc&ecirc; quer saber do que mais, Pinh&atilde;o? V&aacute; se danar! Eu comecei<br \/>\n    a lhe dar muito valor, voc&ecirc; ficou convencido demais. D&ecirc; o fora!<br \/>\n    Eu tamb&eacute;m ia lhe explicar tudo sobre a entrevista, mas se voc&ecirc;<br \/>\n    vem com essa desconfian&ccedil;a de minuto em minuto, pode se danar! Dou-lhe<br \/>\n    somente uma explica&ccedil;&atilde;o: brinco com o velho Euric&atilde;o porque<br \/>\n    gosto dele, est&aacute; ouvindo? Com toda a avareza, com toda a ruindade e<br \/>\n    as manias, &eacute; um dos homens mais sofredores que conhe&ccedil;o. Nada<br \/>\n    na vida dele deu certo, casou-se, a mulher o deixou e toda a esperan&ccedil;a<br \/>\n    dele agora &eacute; essa filha que n&oacute;s lhe vamos tirar. Por isso e<br \/>\n    muitas coisas mais, tenho pena do velho Euric&atilde;o, de quem ningu&eacute;m<br \/>\n    gosta! Queria lhe dizer isso. Mas n&atilde;o para me justificar, pode ir para<br \/>\n    o inferno, com sua mania de mandar e sua desconfian&ccedil;a! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Mas Caroba&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; V&aacute; se danar, Pinh&atilde;o.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Est&aacute; bem, depois n&atilde;o se arrependa. Voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o sabe o que est&aacute; perdendo, principalmente agora.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Por que principalmente agora? PINH&Atilde;O &#8212; Por causa<br \/>\n    de tudo o que eu agora sei, dos lugares, dos planos, dos sonhos e dos desejos<br \/>\n    desse velho com quem voc&ecirc; est&aacute; estragando sua compaix&atilde;o.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Que &eacute; que voc&ecirc; quer dizer? PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Nada.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Que &eacute; que voc&ecirc; sabe? PINH&Atilde;O &#8212; Nada.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ai, Pinh&atilde;o, me diga! PINH&Atilde;O &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    posso, estou sem tempo e sem vontade.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; O que &eacute; que voc&ecirc; vai fazer, Pinh&atilde;o? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Vou me danar, Caroba. Adeus! (Sai CAROBA.) Pois sim! Disse o velho<br \/>\n    que o sangue dele est&aacute; em seguran&ccedil;a e o mundo dos mortos &eacute;<br \/>\n    um mundo tranq&uuml;ilo! Mas n&atilde;o h&aacute; sangue que n&atilde;o se<br \/>\n    possa derramar e h&aacute; mortos que ressuscitam! Ao cemit&eacute;rio! Desta<br \/>\n    vez eu enrique&ccedil;o, nem que seja &agrave; custa de minha caveira! (Sai.)<\/p>\n<h2> FIM DO SEGUNDO ATO<\/h2>\n<h2><a name=\"3\">TERCEIRO ATO<\/a><\/h2>\n<h5>mesma sala. Entram CAROBA e MARGARIDA.<\/h5>\n<p> CAROBA aponta a MARGARIDA um lugar qualquer onde ela deve se esconder. MARGARIDA<br \/>\n    assente com a cabe&ccedil;a e se esconde. Ent&atilde;o CAROBA joga um pacote<br \/>\n    que dever&aacute; conter o vestido, de que depois ela vir&aacute; a precisar,<br \/>\n    atr&aacute;s de um m&oacute;vel qualquer.<\/p>\n<p> Um barulho de fim de jantar e vozes que se aproximam. CAROBA se esconde<br \/>\n    no mesmo lugar com MARGARIDA. Entram EURIC&Atilde;O, BENONA e EUDORO.<\/p>\n<p>&#8212; Muito, Eurico, muito. Se n&atilde;o fosse pelo jantar, a companhia&#8230;<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Sempre delicado! EURIC&Atilde;O &#8212; Infelizmente tenho<br \/>\n    que me recolher. N&atilde;o tome isso como uma desaten&ccedil;&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    um velho h&aacute;bito.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Desaten&ccedil;&atilde;o nenhuma, Eurico, eu tamb&eacute;m<br \/>\n    durmo cedo. E, mesmo, Benona est&aacute; aqui.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ah, &eacute; assim, hein? Voc&ecirc; tem raz&atilde;o,<br \/>\n    ela far&aacute; as honras da casa muito melhor do que eu. Mas voc&ecirc;s<br \/>\n    n&atilde;o demorem muito tempo aqui.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; N&atilde;o seja t&atilde;o severo, Eurico.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Todo cuidado &eacute; pouco, todo cuidado &eacute;<br \/>\n    pouco! EUDORO &#8212; Mas sendo eu noivo&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Mesmo assim, Eudoro, mesmo assim! At&eacute; amanh&atilde;!<br \/>\n    Euric&atilde;o Ar&aacute;be dorme hoje tranq&uuml;ilo, finalmente livre da<br \/>\n    tirania desse santo sem confian&ccedil;a, que ia causando minha perdi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; N&atilde;o diga isso, meu irm&atilde;o! EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Digo, minha irm&atilde;, digo porque &eacute; verdade! Eu vou esper&aacute;-la,<br \/>\n    venha arrumar meus len&ccedil;&oacute;is, como sempre fez desde que minha<br \/>\n    mulher&#8230; desde que comecei a precisar de Santo Ant&ocirc;nio. N&atilde;o<br \/>\n    demore muito, eu a chamarei. Boa noite, Eudoro.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Boa noite, Eurico. (Sai EURIC&Atilde;O.) EUDORO &#8212; O<br \/>\n    que foi que ele quis dizer? Quando disse que come&ccedil;ou a precisar de<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio? BENONA &#8212; Foi quando a mulher dele nos deixou. Voc&ecirc;<br \/>\n    ainda se lembra dela? EUDORO &#8212; Quando comecei a freq&uuml;entar sua<br \/>\n    casa ela j&aacute; tinha fugido.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; &Eacute; verdade, foi no come&ccedil;o do nosso namoro.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Para que falar mais nisso? Voc&ecirc; mesma n&atilde;o disse<br \/>\n    que tudo estava enterrado? BENONA &#8212; &Eacute; verdade, mas com o que<br \/>\n    aconteceu hoje&#8230;<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Muitas voltas o mundo d&aacute;! BENONA &#8212; Mas &eacute;<br \/>\n    por isso mesmo que n&atilde;o me incomodo de tocar nessas coisas.<\/p>\n<p> Em outras circunst&acirc;ncias, era um assunto muito doloroso para mim.<br \/>\n    Mas agora&#8230;<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; &Eacute;, talvez voc&ecirc; tenha raz&atilde;o. &Eacute;<br \/>\n    melhor do que ficar com essa hist&oacute;ria pendendo eternamente entre n&oacute;s.<br \/>\n    Se as circunst&acirc;ncias tivessem sido outras&#8230;<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Reconhe&ccedil;o que a maior parte da culpa foi minha. Mas<br \/>\n    eu era t&atilde;o mo&ccedil;a, t&atilde;o sem conhecimento das coisas, Eudoro!<br \/>\n    Voc&ecirc; se lembra da noite que passei em sua fazenda com Eurico? EUDORO<br \/>\n    &#8212; Como havia de n&atilde;o me lembrar? Foi desde aquele dia que voc&ecirc;<br \/>\n    me deixou. Por que foi aquilo, Benona? Eu nunca pude me conformar com aquele<br \/>\n    sil&ecirc;ncio, de repente, sem uma explica&ccedil;&atilde;o! BENONA &#8212;<br \/>\n    Eu era muito mo&ccedil;a, Eudoro. Eurico n&atilde;o me deixava sair para lugar<br \/>\n    nenhum, eu n&atilde;o conhecia o mundo, n&atilde;o conhecia voc&ecirc; direito,<br \/>\n    nada! Bem, naquela noite em sua casa&#8230; Voc&ecirc; sabe o que foi, fiquei<br \/>\n    com medo de voc&ecirc;.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Mas Benona, foi s&oacute; por causa daquilo? E voc&ecirc;,<br \/>\n    por t&atilde;o pouco, estragar nosso casamento! Se eu soubesse, teria vindo<br \/>\n    e falado de tal maneira, que voc&ecirc; me perdoaria e teria talvez casado<br \/>\n    comigo.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Ah, Eudoro, &eacute; verdade? EUDORO &#8212; E voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o me dar uma explica&ccedil;&atilde;o, me deixar no engano de que<br \/>\n    era algum empecilho de sua parte, mesmo! VOZ DE EURIC&Atilde;O &#8212; Benona!<br \/>\n    BENONA &#8212; &Eacute; Eurico, tenho que ir. At&eacute; mais tarde, Eudoro.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; At&eacute; amanh&atilde;, Benona.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; At&eacute; amanh&atilde;? &Eacute; verdade, voc&ecirc; tem<br \/>\n    raz&atilde;o, &eacute; mais prudente dizer assim.<\/p>\n<p> VOZ DE EURIC&Atilde;O &#8212; Benona! Benona! BENONA &#8212; J&aacute; vou!<br \/>\n    At&eacute; amanh&atilde;, ent&atilde;o, fingido! (Sai.) CAROBA sai do esconderijo,<br \/>\n    pelas costas de EUDORO, e fala de uma porta, como se tivesse entrado por ela.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Seu Eudoro! EUDORO &#8212; Caroba! Eu j&aacute; vou! Est&aacute;<br \/>\n    combinado? Margarida sabe de tudo? CAROBA &#8212; Sabe e est&aacute; de acordo.<\/p>\n<p> VOZ DE EURIC&Atilde;O &#8212; Caroba, tranque as portas, a rua est&aacute;<br \/>\n    cheia de ladr&otilde;es! CAROBA &#8212; Est&aacute; certo, Seu Euric&atilde;o,<br \/>\n    vou trancar tudo. Vou trancar as portas e depois destrancar uma, &eacute;<br \/>\n    por essa que o senhor volta.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Voc&ecirc; esperar&aacute; tamb&eacute;m? CAROBA &#8212;<br \/>\n    Eu? Por que eu? Quem vai esper&aacute;-lo &eacute; gente muito melhor do que<br \/>\n    eu.<\/p>\n<p> Por aqui, Seu Eudoro. Volte e n&atilde;o tenha cuidado, que tudo vai dar<br \/>\n    mais certo do que o senhor imagina! Sai EUDORO, MARGARIDA sai do esconderijo.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Por que voc&ecirc; n&atilde;o aproveitou a deixa da desist&ecirc;ncia,<br \/>\n    mulher? CAROBA &#8212; Mas logo agora que tudo vai dar certo? MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o suporto mais essas agonias de jeito nenhum. Que jantar mais angustiado!<br \/>\n    De vez em quando Tia Benona dizia uma frase perigosa, papai outra&#8230; Eu via<br \/>\n    a hora de se descobrir tudo. Ser&aacute; que esta hist&oacute;ria vai dar<br \/>\n    certo, Caroba? CAROBA &#8212; O casamento de Seu Eudoro com Dona Benona dando,<br \/>\n    o resto vem na esteira, o seu com Seu Dod&oacute;, e at&eacute; o meu com<br \/>\n    o moleque do Pinh&atilde;o.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Voc&ecirc; gosta muito dele, n&atilde;o, Caroba? CAROBA<br \/>\n    &#8212; Gosto, Dona Margarida! Agora, por que, n&atilde;o sei, porque aquilo<br \/>\n    &eacute; safado que fede! Mas hoje ele vai me pagar o novo e o velho. A senhora<br \/>\n    trouxe o vestido? MARGARIDA &#8212; Trouxe, tome. Tome e assuma a responsabilidade.<br \/>\n    Se essa confus&atilde;o toda acabar meu casamento, voc&ecirc; me paga! Eu<br \/>\n    me vingo de voc&ecirc;! CAROBA &#8212; Danou-se, Dona Margarida! MARGARIDA<br \/>\n    &#8212; Depois n&atilde;o diga que n&atilde;o avisei, est&aacute; ouvindo?<br \/>\n    Passe bem, Caroba. Espero que tudo d&ecirc; certo, tanto no meu interesse<br \/>\n    como no seu.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Espere, Dona Margarida! &Eacute; melhor eu tranc&aacute;-la.<br \/>\n    N&atilde;o tenho confian&ccedil;a em homem nenhum nesse mundo e muito menos<br \/>\n    em Seu Eudoro. A senhora n&atilde;o viu o que ia acontecendo com Dona Benona?<br \/>\n    Entre que eu trancarei a porta.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Est&aacute; bem.<\/p>\n<p> Entra no quarto e CAROBA tranca a porta, guardando a chave.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; O neg&oacute;cio come&ccedil;a a caminhar. Mas, meu Deus,<br \/>\n    a confus&atilde;o vai ser a maior do mundo. O vestido, aqui. (Esconde o vestido<br \/>\n    que recebeu de MARGARIDA.) Falta alguma coisa, meu Deus! Ah, sim, a v&iacute;tima!<br \/>\n    Dona Benona! Crote, crote, crote! Dona Benona! Entra BENONA.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Caroba! Ouvi o sinal! Ent&atilde;o? CAROBA &#8212; Est&aacute;<br \/>\n    tudo combinado. E Seu Euric&atilde;o? BENONA &#8212; Dormindo como uma pedra.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Dona Margarida tamb&eacute;m j&aacute; se deitou.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Voc&ecirc; conseguiu o vestido dela? CAROBA &#8212; Ainda<br \/>\n    n&atilde;o, estava esperando exatamente que todo mundo adormecesse.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Qual foi a combina&ccedil;&atilde;o com Eudoro? CAROBA &#8212;<br \/>\n    A senhora fica em seu quarto. Eu vou escutar na porta de Seu Euric&atilde;o,<br \/>\n    depois na de Dona Margarida. Se eles estiverem agarrados no sono, eu tiro<br \/>\n    o vestido de Dona Margarida e vou entreg&aacute;-lo &agrave; senhora. A&iacute;<br \/>\n    destranco a porta de entrada e fico esperando Seu Eudoro. Quando ele vier,<br \/>\n    canto como gia, chamo a senhora e desapare&ccedil;o.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Mas n&atilde;o desapare&ccedil;a para muito longe n&atilde;o,<br \/>\n    est&aacute; ouvindo, Caroba? CAROBA &#8212; Estou, Dona Benona, eu fico por<br \/>\n    perto. Se precisar, grite, que eu venho. Entre, se embeleze, trate Seu Eudoro<br \/>\n    com carinho e deixe o resto que eu garanto.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Ent&atilde;o eu vou. E que Santo Ant&ocirc;nio nos proteja,<br \/>\n    Caroba! CAROBA &#8212; Am&eacute;m, Dona Benona.<\/p>\n<p> Sai BENONA.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Am&eacute;m, Dona Benona, porque bem precisadas andamos disso.<br \/>\n    O que eu n&atilde;o sei &eacute; se Santo Ant&ocirc;nio vai querer se meter<br \/>\n    numa hist&oacute;ria dessa! Entra atr&aacute;s de algum m&oacute;vel, ou biombo,<br \/>\n    e veste o vestido de MARGARIDA, se poss&iacute;vel por cima do seu, para tornar<br \/>\n    poss&iacute;veis mudan&ccedil;as r&aacute;pidas. Ela abaixa as luzes, ajeita<br \/>\n    o cabelo, tudo isso enquanto vai falando e mudando a roupa.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Ser&aacute; que vai, meu santo? Acho que vai dar bem. Com<br \/>\n    a luz assim, com o cabelo ajeitado, estou uma Dona Margarida bem apreci&aacute;vel.<br \/>\n    E agora, meu Deus? (Destranca a porta e escuta no quarto do velho.) At&eacute;<br \/>\n    j&aacute;, Santo Ant&ocirc;nio, e veja l&aacute; o que pode fazer por n&oacute;s.<br \/>\n    N&atilde;o estou metendo o senhor em molecagem n&atilde;o! Assim que Seu Eudoro<br \/>\n    entrar no quarto de Dona Benona, eu dou o alarma e ele se compromete, a simples<br \/>\n    entrada no quarto basta. De modo leve isso em conta e trate de me ajudar.<br \/>\n    (Sai.) Entra PINH&Atilde;O, com um grande saco de estopa, velho e sujo, no<br \/>\n    qual carrega a porca.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; &Ocirc; l&iacute;rio, &ocirc; l&iacute;rio, &ocirc;<br \/>\n    l&iacute;rio, &ocirc; l&iacute;rio como &eacute;? Bom almo&ccedil;o, boa janta,<br \/>\n    boa ceia e bom caf&eacute;, da roseira eu quero o galho, do craveiro eu quero<br \/>\n    o p&eacute;.<\/p>\n<p> Agora, &eacute; assim, Santo Ant&ocirc;nio, meu velho, &quot;bom almo&ccedil;o,<br \/>\n    boa janta, boa ceia e bom caf&eacute;&quot;. Mas ali onde diz &quot;da roseira<br \/>\n    eu quero o galho, do craveiro eu quero o p&eacute;&quot;, agora &eacute; assim:<br \/>\n    &quot;da porquinha eu quero as tripas, quero p&aacute;, cabe&ccedil;a e p&eacute;&quot;.<br \/>\n    Sou o homem mais rico do mundo, Santo Ant&ocirc;nio, trate de me agradar de<br \/>\n    hoje em diante. N&atilde;o h&aacute; como um dia atr&aacute;s do outro e uma<br \/>\n    noite no meio. O velho Engole-Cobra, de tanto engolir cobra, terminou achando<br \/>\n    uma que o engolisse. Ra, ra! Plantou o ro&ccedil;adinho dele, mas quem arrancou<br \/>\n    o milho foi Pinh&atilde;o.<\/p>\n<p> VOZ DO DOD&Oacute; &#8212; (Fora.) Pinh&atilde;o, &eacute; voc&ecirc;? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; (Trancando rapidamente a porta.) Calma l&aacute;, Seu Dod&oacute;!<br \/>\n    Deve ser Seu Dod&oacute;! Seu Dod&oacute; o qu&ecirc;? Deve ser Dod&oacute;,<br \/>\n    Dod&oacute; Boca-da-Noite! Agora &eacute; assim! Espere l&aacute;, Dod&oacute;<br \/>\n    Boca-da-Noite! &Eacute; melhor guardar o saco! (Beija a Porca e esconde-a<br \/>\n    no socav&atilde;o.) DOD&Oacute; &#8212; (Fora.) Pinh&atilde;o! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; J&aacute; vou, j&aacute; vou, Dod&oacute;! Por causa de pressa, morreu<br \/>\n    z&eacute; apressado. Voc&ecirc; n&atilde;o perde por esperar. (Destranca a<br \/>\n    porta. Entra DOD&Oacute;.) DOD&Oacute; &#8212; Ent&atilde;o? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o o qu&ecirc;? DOD&Oacute; &#8212; Vai tudo bem, Pinh&atilde;o?<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Vai tudo &oacute;timo, Dod&oacute;.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Margarida apareceu? PINH&Atilde;O &#8212; Ai, e ela<br \/>\n    agora deu para aparecer, feito alma, foi? DOD&Oacute; &#8212; Deixe de brincadeira,<br \/>\n    viu? Cad&ecirc; Margarida? Onde est&aacute; Caroba? PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Eu vou l&aacute; perder meu tempo com o que essas mulheres andam fazendo!<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; O que &eacute; que voc&ecirc; est&aacute; dizendo, Pinh&atilde;o?<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Isso que voc&ecirc; est&aacute; ouvindo, Dod&oacute;!<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Voc&ecirc; bebeu? PINH&Atilde;O &#8212; N&atilde;o, mas<br \/>\n    comi! DOD&Oacute; &#8212; Comeu o qu&ecirc;? PINH&Atilde;O &#8212; Porca!<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Deve ter lhe feito mal, Pinh&atilde;o! PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Pelo contr&aacute;rio, fez um bem danado, Dod&oacute;! DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    Voc&ecirc; pode me dizer o que foi que meteu na cabe&ccedil;a? PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; E voc&ecirc; pode me dizer o que &eacute; que tem a ver com isso?<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Voc&ecirc; vai&#8230; Chi, ouvi um barulho! Esconda-se, &eacute;<br \/>\n    o velho! (Tranca a porta de entrada.) Entra EURIC&Atilde;O, de camis&atilde;o,<br \/>\n    com um candeeiro e uma p&aacute;.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ai, ter&aacute; sido pesadelo? Acordei com os fantasmas<br \/>\n    puxando meu p&eacute;, meu santo! Mas &eacute; preciso ir de qualquer modo,<br \/>\n    tenho que enterrar a porca. (Sai.) Voltam DOD&Oacute; e PINH&Atilde;O.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Entendeu alguma coisa? PINH&Atilde;O &#8212; Eu n&atilde;o<br \/>\n    lhe disse que esse velho era maluco? DOD&Oacute; &#8212; Sair a essas horas,<br \/>\n    de camis&atilde;o, para o cemit&eacute;rio, atr&aacute;s de uma porca! Que<br \/>\n    diabo de porca ser&aacute; essa? PINH&Atilde;O &#8212; Alguma porca que fugiu<br \/>\n    da&iacute; do quintal.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; E o velho Euric&atilde;o tem l&aacute; nada para fugir,<br \/>\n    homem? PINH&Atilde;O &#8212; Ent&atilde;o &eacute; capaz dele estar dormindo<br \/>\n    ainda. Al&eacute;m de todas as qualidades ruins que possui, esse peste ainda<br \/>\n    deve ser son&acirc;mbulo! DOD&Oacute; &#8212; Pinh&atilde;o, sinceramente,<br \/>\n    estou certo de que voc&ecirc; tem alguma coisa! Voc&ecirc; est&aacute; doente!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Agora sou eu quem digo: Cuidado! Vem gente a&iacute;<br \/>\n    e parece que &eacute; sua noiva. Ou melhor, sua madrasta. Candidata a madrasta,<br \/>\n    noiva de seu pai! DOD&Oacute; &#8212; Esconda-se, idiota! (Escondem-se.) Entra<br \/>\n    CAROBA, vestida de MARGARIDA.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Tudo pronto. Agora, s&oacute; falta o noivo.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; O noivo est&aacute; aqui.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Seu Eudoro?<\/p>\n<p>DOD&Oacute; &#8212; N&atilde;o, sou eu, Margarida! Sou eu, que vim me certificar<br \/>\n    de sua trai&ccedil;&atilde;o! CAROBA &#8212; (Trancando a porta.) Mas Seu<br \/>\n    Dod&oacute;&#8230;<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; N&atilde;o me chame assim, pelo amor de Deus! CAROBA<br \/>\n    &#8212; O senhor n&atilde;o sabe de nada e veio foi atrapalhar tudo! DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; Tudo est&aacute; esclarecido.<\/p>\n<p> VOZ DE EUDORO &#8212; (Fora.) Margarida! CAROBA &#8212; Meu Deus, &eacute;<br \/>\n    seu pai. Que &eacute; que eu fa&ccedil;o agora, meu Deus? Com esta eu n&atilde;o<br \/>\n    contava! Entre aqui neste quarto, &eacute; o jeito.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Nunca! Vou ficar e contar tudo a meu pai! CAROBA &#8212;<br \/>\n    Homem, quer saber do que mais? Entre e n&atilde;o converse mais n&atilde;o!<br \/>\n    (Empurra DOD&Oacute; no quarto de MARGARIDA e tranca a porta. Enquanto fala,<br \/>\n    tira o vestido de MARGARIDA.) CAROBA &#8212; Santo Ant&ocirc;nio, o senhor<br \/>\n    vai me desculpar, mas foi um imprevisto! No quarto de Dona Benona &eacute;<br \/>\n    que eu n&atilde;o podia empurr&aacute;-lo. Mas eu destranco j&aacute; a porta!<br \/>\n    VOZ DE EUDORO &#8212; Margarida! CAROBA &#8212; J&aacute; vou, espere um pouco!<br \/>\n    Diabo de homem mais apressado! (Bate no quarto de BENONA, cantando como gia.)<br \/>\n    CAROBA &#8212; Tia Benona! Tia Benona! Crote, crote, crote, tia Benona! BENONA<br \/>\n    &#8212; (Saindo.) Ave Maria, estive em tempo de me acabar de medo! CAROBA<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o perca tempo, que o homem est&aacute; a&iacute;! BENONA<br \/>\n    &#8212; Meu Deus! CAROBA &#8212; Tome o vestido! Me d&ecirc; o seu! Logo,<br \/>\n    mulher! VOZ DE EUDORO &#8212; Margarida! CAROBA &#8212; J&aacute; vou! Isto,<br \/>\n    agora, fique a&iacute; e espere. Me d&ecirc; a chave do quarto.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Pra qu&ecirc;? CAROBA &#8212; N&atilde;o discuta mais, mulher<br \/>\n    de Deus! Vou abrir! BENONA &#8212; Est&aacute; bem, mas n&atilde;o saia da&iacute;!<br \/>\n    (Entra no quarto e CAROBA tranca-a, vestindo rapidamente o vestido dela.)<br \/>\n    CAROBA &#8212; Nossa Senhora, eu hoje estufo de tanto mudar vestido! VOZ DE<br \/>\n    EUDORO &#8212; (Impaciente.) Como &eacute;, Margarida? CAROBA &#8212; Espere,<br \/>\n    homem, espere! (Destranca a porta, com o vestido de BENONA.) EUDORO &#8212;<br \/>\n    Eu&#8230; Benona, &eacute; voc&ecirc;? CAROBA &#8212; (Imitando a voz e os gestos<br \/>\n    de BENONA.) Sou, Eudoro.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Margarida&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Margarida est&aacute; dormindo. Dorme o sono profundo de<br \/>\n    sua juventude, Eudoro. E eu vim esper&aacute;-lo, como fiz tantas vezes, no<br \/>\n    tempo em que ainda nos am&aacute;vamos! EUDORO &#8212; Mas Benona, isso n&atilde;o<br \/>\n    fica bem! CAROBA &#8212; N&atilde;o fica bem, por qu&ecirc;? Voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    esquecido de tudo o que aconteceu? EUDORO &#8212; Voc&ecirc; mesma disse que<br \/>\n    tudo aquilo estava morto e enterrado.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Voc&ecirc; acha, Eudoro? Ent&atilde;o um amor como aquele<br \/>\n    pode morrer? Voc&ecirc; pensa que eu n&atilde;o vi como estava preocupado<br \/>\n    quando saiu daqui? Eu tamb&eacute;m sa&iacute; com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sangrando, Eudoro.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Mas Benona&#8230; Mesmo que estiv&eacute;ssemos sentindo isso,<br \/>\n    agora seria tarde. Estou noivo de sua sobrinha. Por que voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    me disse tudo? Agora, Margarida&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Deixe l&aacute; Margarida, homem de Deus! Voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc; o rid&iacute;culo em que vai cair? Ela podia ser filha sua, podia<br \/>\n    ser sua nora! EUDORO &#8212; Pensei nisso, Benona, mas voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    sabe como eu me sentia solit&aacute;rio! Agora, estou noivo! CAROBA &#8212;<br \/>\n    Que noivo que nada! Para mim, o que existe &eacute; nosso amor! Entre neste<br \/>\n    quarto! EUDORO &#8212; Benona! CAROBA &#8212; Que Benona que nada, entre e<br \/>\n    deixe de conversa! EUDORO &#8212; Mas Benona, podem falar de n&oacute;s! CAROBA<br \/>\n    &#8212; Falar o qu&ecirc;? Que &eacute; que voc&ecirc; est&aacute; pensando?<br \/>\n    Que eu vou tentar contra voc&ecirc; o que voc&ecirc; tentou contra mim, &eacute;?<br \/>\n    Eu sou uma mulher s&eacute;ria, Eudoro, incapaz de atentar contra os vi&uacute;vos<br \/>\n    honestos! EUDORO &#8212; Voc&ecirc; &eacute; incompar&aacute;vel, Benona,<br \/>\n    como voc&ecirc; nunca existir&aacute; outra! CAROBA &#8212; Ent&atilde;o entre.<br \/>\n    Entre e tudo se explicar&aacute;! (D&aacute; uma pancada nele, com o pr&oacute;prio<br \/>\n    traseiro, empurrando-o.) EUDORO entra, CAROBA fecha a porta.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Pronto, agora &eacute; chamar o velho. Do jeito que as coisas<br \/>\n    est&atilde;o, ele ter&aacute; que fazer os dois casamentos. E vamos logo,<br \/>\n    Santo Ant&ocirc;nio, antes que seja tarde e aconte&ccedil;a alguma coisa,<br \/>\n    sen&atilde;o eu estou complicada com Nosso Senhor! (Sai. PINH&Atilde;O sai<br \/>\n    do esconderijo.) PINH&Atilde;O &#8212; Que confus&atilde;o mais danada &eacute;<br \/>\n    essa, meu santo? Dona Margarida e Dona Benona a trancar homens nos quartos!<br \/>\n    Aqui h&aacute; alguma coisa. Vou tirar as chaves e ver se me aproveito da<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o! Epa, vem gente! (Esconde-se.) Entra CAROBA, ainda<br \/>\n    com o vestido de BENONA.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Onde diabo o velho se meteu? Vou abrir! Ai meu Deus, onde<br \/>\n    est&atilde;o as chaves? Que &eacute; que fa&ccedil;o, meu Santo Ant&ocirc;nio?<br \/>\n    O jeito &eacute; gritar que tem inc&ecirc;ndio! O povo corre e o velho vai<br \/>\n    ter que fazer os casamentos! Vou gritar, &eacute; o jeito! Ou &eacute; melhor<br \/>\n    tocar fogo nas cortinas? (PINH&Atilde;O sai do esconderijo.) PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Dona Benona, eu&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Voc&ecirc; o que, safado! Que &eacute; que est&aacute; fazendo<br \/>\n    em minha casa, espionando, de noite? PINH&Atilde;O &#8212; Alto l&aacute;,<br \/>\n    veja como fala! Pensa que eu n&atilde;o ouvi sua conversa aqui com Seu Eudoro<br \/>\n    n&atilde;o, &eacute;? Ent&atilde;o a senhora se vira quando o povo dorme,<br \/>\n    hein? CAROBA &#8212; O que, moleque? PINH&Atilde;O &#8212; &Eacute; isso mesmo,<br \/>\n    Dona Benona! Mas n&atilde;o precisa se zangar n&atilde;o, eu sou de toda confian&ccedil;a!<br \/>\n    Pode confiar em mim, por esta boca ningu&eacute;m saber&aacute; de nada! Acho<br \/>\n    perfeitamente natural que a senhora, que &eacute; livre e independente, queira<br \/>\n    se divertir um pouco! E se Dona Benona n&atilde;o reparasse, eu at&eacute;<br \/>\n    lhe dizia uma coisa! CAROBA &#8212; N&atilde;o reparo n&atilde;o, Pinh&atilde;o,<br \/>\n    pode dizer! PINH&Atilde;O &#8212; A senhora pode j&aacute; ter passado a primeira<br \/>\n    mocidade, mas eu lhe digo uma coisa, Dona Benona, &eacute; nesse tempo que<br \/>\n    eu acho as mulheres mais bonitas! E a senhora pode n&atilde;o ser mais muito<br \/>\n    mo&ccedil;a, mas &eacute; enxuta que faz gosto! CAROBA&#8212; (&Agrave; parte.)<br \/>\n    Ah, safado! PINH&Atilde;O &#8212; A senhora n&atilde;o estava procurando as<br \/>\n    chaves? CAROBA &#8212; Estava! PINH&Atilde;O &#8212; Eu tirei todas duas!<br \/>\n    Pelo que a senhora disse, elas s&atilde;o muito importantes. Assim, a gente<br \/>\n    podia fazer um acordo. Eu lhe dava as chaves e&#8230; A senhora n&atilde;o repare<br \/>\n    n&atilde;o, mas j&aacute; que estamos aqui e Seu Eudoro dormiu no ponto, a<br \/>\n    gente bem que podia entrar num acordo e fazer um amorzinho, para passar o<br \/>\n    tempo! CAROBA &#8212; Voc&ecirc; est&aacute; muito enganado! Eu estava deixando<br \/>\n    voc&ecirc; falar, para ver at&eacute; onde ia seu atrevimento! Mas vou gritar!<br \/>\n    Vou gritar e voc&ecirc; vai se arrepender da gra&ccedil;a! PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Ai, a porca! N&atilde;o grite n&atilde;o, Dona Benona! N&atilde;o grite n&atilde;o,<br \/>\n    que eu retiro o que disse! Tome as chaves, Dona Benona! CAROBA &#8212; As<br \/>\n    chaves? Ah, n&atilde;o, agora quem n&atilde;o quer as chaves sou eu! Vou chamar<br \/>\n    o Delegado! Vou gritar! PINH&Atilde;O &#8212; Pelo amor de Deus, n&atilde;o<br \/>\n    grite n&atilde;o, Dona Benona! CAROBA &#8212; Ent&atilde;o venha para c&aacute;!<br \/>\n    Quero lhe dar uma surra por seu atrevimento! PINH&Atilde;O &#8212; Mas Dona<br \/>\n    Benona, a senhora me interpretou mal! CAROBA &#8212; Vou gritar! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Ai n&atilde;o, eu vou! CAROBA &#8212; Ajoelhe-se! Isto! Agora, tome!<br \/>\n    Tome, tome, e tome! Tome, para deixar de ser safado! Um sujeito como voc&ecirc;,<br \/>\n    que devia dar gra&ccedil;as a Deus por ter uma noiva como Caroba, com essas<br \/>\n    molecagens para as senhoras de respeito! Tome, safado! PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Ai, ai, ai! Ai, Dona Benona! CAROBA &#8212; Vou parar! Mas vou por causa de<br \/>\n    Caroba, est&aacute; ouvindo? Aquilo &eacute; uma santa, gosto tanto dela!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Eu tamb&eacute;m, Dona Benona! CAROBA &#8212; Devia<br \/>\n    gostar mais, safado! Voc&ecirc; devia beijar os p&eacute;s de Caroba todo<br \/>\n    dia, porque aquilo &eacute; uma santa! Agora, fique a&iacute;. Eu vou cham&aacute;-la.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Mas Dona Benona, o que &eacute; que a senhora vai<br \/>\n    dizer a Caroba? CAROBA &#8212; N&atilde;o tenha medo, sua sujeira fica em<br \/>\n    segredo! Voc&ecirc; acha que eu iria magoar aquela mo&ccedil;a maravilhosa<br \/>\n    que gosta de voc&ecirc; n&atilde;o sei mesmo por qu&ecirc;? Fique a&iacute;.<\/p>\n<p> Sen&atilde;o eu descubro tudo! PINH&Atilde;O &#8212; Pode ficar descansada,<br \/>\n    eu daqui n&atilde;o saio.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Pois ent&atilde;o eu vou chamar Caroba, aquela santa! (Com<br \/>\n    PINH&Atilde;O de costas, entra atr&aacute;s do biombo, j&aacute; tirando o<br \/>\n    vestido.) PINH&Atilde;O &#8212; (S&oacute;.) Ah, ar&aacute;be miser&aacute;vel!<br \/>\n    Em que diabo fui me meter, meu Deus? Ia perdendo a porca, por causa da mulher!<br \/>\n    Mas ela bem que valia a pena, sabe? Pode n&atilde;o ser mais muito mo&ccedil;a,<br \/>\n    mas que est&aacute; enxuta, isso est&aacute;! CAROBA &#8212; (Chegando para<br \/>\n    perto.) Muito bem, senhor meu noivo! PINH&Atilde;O &#8212; Quem &eacute;?<br \/>\n    &Eacute; Caroba? CAROBA &#8212; E quem mais havia de ser, canalha? Peste,<br \/>\n    miser&aacute;vel, traidor! Olhe o cinismo dele! Moleque, canalha! Ouvi tudo,<br \/>\n    bandido! Eu estava aqui e vi tudo, sua molecagem com Dona Benona Ar&aacute;be,<br \/>\n    seus enxerimentos, sua trai&ccedil;&atilde;o! E se ao menos tivesse coragem!<br \/>\n    Mas n&atilde;o, levou uma surra da ar&aacute;be na minha frente! Essa voc&ecirc;<br \/>\n    me paga! PINH&Atilde;O &#8212; Mas Caroba, eu&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Cale a boca, bem caladinha, est&aacute; ouvindo? Porque agora<br \/>\n    voc&ecirc; vai levar umas tapas! PINH&Atilde;O &#8212; Eu? Mas Caroba! CAROBA<br \/>\n    &#8212; Vai e sou eu que dou! PINH&Atilde;O &#8212; Mas eu n&atilde;o j&aacute;<br \/>\n    levei a surra de Dona Benona? CAROBA &#8212; Aquela foi a dela, agora se prepare<br \/>\n    que l&aacute; vai a minha! (D&aacute;-lhe algumas tapas.) PINH&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Ai, Caroba, ai Carobinha, ai Carobinha do meu cora&ccedil;&atilde;o! (Consegue<br \/>\n    beij&aacute;-la por entre as tapas, abra&ccedil;a-a, CAROBA vai diminuindo<br \/>\n    as tapas, retribui o beijo, depois o abra&ccedil;o.) CAROBA &#8212; Safado!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Beleza! CAROBA &#8212; Pinh&atilde;o! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Caroba! Agora, podemos casar! Vamos casar amanh&atilde; e voc&ecirc;<br \/>\n    vai ser a mulher mais rica daqui! CAROBA &#8212; Mentiroso! Ai, as chaves!<br \/>\n    (Destranca os dois quartos e entra, abra&ccedil;ada com PINH&Atilde;O, num<br \/>\n    terceiro quarto. DOD&Oacute; e MARGARIDA saem do quarto.) MARGARIDA &#8212;<br \/>\n    Est&aacute; vendo? Est&aacute; aberta! Gra&ccedil;as a Deus! Voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    zangado comigo, meu amor? DOD&Oacute; &#8212; N&atilde;o, pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    voc&ecirc; estava certa e eu fui quem perdi a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; E n&atilde;o vai me desprezar porque eu o repeli? DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; Pelo contr&aacute;rio, cada vez aprendo a respeit&aacute;-la mais.<br \/>\n    Eu &eacute; que devo pedir perd&atilde;o a voc&ecirc; por ter me descontrolado.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Cuidado, vem algu&eacute;m. Entre no quarto, ningu&eacute;m<br \/>\n    deve v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; entra no quarto. Entra PINH&Atilde;O, que tira a porca do socav&atilde;o<br \/>\n    e volta com ela para o quarto.<\/p>\n<p> MARGARIDA v&ecirc; quando ele passa. Entra no por&atilde;o e MARGARIDA se<br \/>\n    esconde. PINH&Atilde;O volta e entra no quarto em que estava com CAROBA, de<br \/>\n    saco &agrave;s costas. Volta DOD&Oacute;.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Quem era? MARGARIDA &#8212; Era Pinh&atilde;o, carregando<br \/>\n    um tro&ccedil;o nas costas. Que &eacute; que ele ter&aacute; vindo fazer aqui<br \/>\n    a essas horas? DOD&Oacute; &#8212; Veio comigo, vigiar Caroba. Eu e ele, com<br \/>\n    ci&uacute;me, combinamos vir, quando Caroba destrancasse a porta! VOZ DE EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; (Fora.) Ai, ai! DOD&Oacute; &#8212; Quem &eacute;? Veja na janela!<br \/>\n    MARGARIDA &#8212; &Eacute; papai! Meu Deus, ele viu tudo! DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    Por que voc&ecirc; diz isso? MARGARIDA &#8212; Est&aacute; com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    encostada na janela de meu quarto, chorando! Certamente viu voc&ecirc; no<br \/>\n    meu quarto! Meu Deus, estou perdida! DOD&Oacute; &#8212; Acalme-se, meu amor!<br \/>\n    Entre aqui comigo. Vamos ver se &eacute; poss&iacute;vel apurar o que ele<br \/>\n    viu. Depois a gente sai, fala com ele e explica tudo! {MARGARIDA e DOD&Oacute;<br \/>\n    se escondem. Entra EURIC&Atilde;O.) EURIC&Atilde;O &#8212; Ai, ai! Estou perdido,<br \/>\n    estou morto, fui assassinado! Para onde correr? Para onde n&atilde;o correr?<br \/>\n    Pega, pega! Mas pegar a quem? N&atilde;o vejo nada, estou cego. N&atilde;o<br \/>\n    sei mais para onde vou, n&atilde;o sei mais onde estou, n&atilde;o sei mais<br \/>\n    quem sou! Ah, dia infeliz, dia funesto, dia desgra&ccedil;ado! Que fazer agora<br \/>\n    da vida, tendo perdido aquilo que eu guardava com tanto cuidado? Roubei-me<br \/>\n    a mim pr&oacute;prio, furtei a minha alma! Agora outros gozam com ela, para<br \/>\n    meu desgosto e preju&iacute;zo! N&atilde;o, &eacute; demais para mim! (Cai<br \/>\n    desfalecido, chorando. Entram DOD&Oacute; e MARGARIDA.) DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    Seu Eurico! EURIC&Atilde;O &#8212; Quem me fala? DOD&Oacute; &#8212; Um desgra&ccedil;ado!<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Pois est&aacute; falando com outro! Eu me tornei desgra&ccedil;ado<br \/>\n    por causa de um acidente funesto.<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; Console-se.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Consolar-me? Como? DOD&Oacute; &#8212; A culpa foi<br \/>\n    minha, fui eu que causei sua desgra&ccedil;a e vim confessar tudo! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; O qu&ecirc;? Quem &eacute;? Dod&oacute;? Que &eacute; que voc&ecirc;<br \/>\n    est&aacute; me dizendo? DOD&Oacute; &#8212; A verdade! EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Voc&ecirc;! Foi voc&ecirc;, cachorro, canalha, cobra que eu guardava em minha<br \/>\n    casa para me assassinar! Que mal tinha eu lhe feito para voc&ecirc; me tratar<br \/>\n    assim? DOD&Oacute; &#8212; Foi ao mesmo tempo um acaso e uma necessidade,<br \/>\n    Seu Euric&atilde;o! EURIC&Atilde;O &#8212; Acaso e necessidade! Isso pode<br \/>\n    l&aacute; justificar um ato como esse, assassino? DOD&Oacute; &#8212; Agi<br \/>\n    mal, confesso, minha falta &eacute; grave mas vim exatamente pedir que me<br \/>\n    perdoe.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Como &eacute; que voc&ecirc; teve coragem de tocar<br \/>\n    naquilo que n&atilde;o lhe pertencia? DOD&Oacute; &#8212; Espere a&iacute;!<br \/>\n    Apesar das circunst&acirc;ncias serem um tanto esquisitas, o que aconteceu<br \/>\n    foi coisa sem import&acirc;ncia! O que eu toquei nela foi muito pouco! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; O que, canalha? Tanto assim que se voc&ecirc; tocasse em meu tesouro,<br \/>\n    seria um crime inomin&aacute;vel! Com que direito voc&ecirc; foi tocar naquilo<br \/>\n    que era meu? DOD&Oacute; &#8212; A culpa foi das circunst&acirc;ncias. E eu<br \/>\n    n&atilde;o j&aacute; vim pedir desculpas? EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    gosto desses criminosos que prejudicam os outros e depois v&ecirc;m pedir<br \/>\n    desculpas! Voc&ecirc; sabia que ela n&atilde;o era sua, n&atilde;o devia ter<br \/>\n    tocado nela! DOD&Oacute; &#8212; Mas eu n&atilde;o j&aacute; disse que o que<br \/>\n    aconteceu foi coisa tola? EURIC&Atilde;O &#8212; Coisa tola o qu&ecirc;? Voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o veio confessar? E depois, de repente, come&ccedil;a a se desdizer,<br \/>\n    dizendo que n&atilde;o tocou nela! Como &eacute;, tocou ou n&atilde;o tocou?<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Bem, tocar, toquei, mas n&atilde;o foi nada que pudesse<br \/>\n    ofend&ecirc;-la. Mas j&aacute; que o senhor considera essa tolice um crime,<br \/>\n    por que n&atilde;o aceita os fatos e n&atilde;o me d&aacute; de vez esse tesouro?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Como &eacute;, assassino? Voc&ecirc; quer ficar com<br \/>\n    meu tesouro? Contra minha vontade? DOD&Oacute; &#8212; Eu n&atilde;o estou<br \/>\n    lhe pedindo? A coisa que eu mais desejo no mundo &eacute; ficar com ela! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Voc&ecirc;? Ficar com ela? DOD&Oacute; &#8212; Sim.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ah, n&atilde;o, voc&ecirc; tem que devolver! DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; Devolver? Eu n&atilde;o j&aacute; disse que n&atilde;o tirei nada?<br \/>\n    Devolver o qu&ecirc;? EURIC&Atilde;O &#8212; Aquilo que me pertencia e que<br \/>\n    voc&ecirc; tirou! DOD&Oacute; &#8212; Que eu tirei? De onde? Afinal, o que<br \/>\n    &eacute; que voc&ecirc; quer? EURIC&Atilde;O &#8212; (Ir&ocirc;nico, amargo.)<br \/>\n    Voc&ecirc; n&atilde;o sabe? DOD&Oacute; &#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o diz!<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; O que eu quero &eacute; minha porca que voc&ecirc;<br \/>\n    confessou ter roubado! MAGARIDA &#8212;Ai, meu Deus, por que o senhor me insulta?<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Isso &eacute; coisa que o senhor diga? Porca por qu&ecirc;?<br \/>\n    Sua filha &eacute; a mais pura das mo&ccedil;as, portou-se com toda a prud&ecirc;ncia<br \/>\n    e o senhor a trata com essa grosseria! EURIC&Atilde;O &#8212; Minha filha?<br \/>\n    Que &eacute; que minha filha tem a ver com isso? Que &eacute; que voc&ecirc;<br \/>\n    est&aacute; fazendo aqui, Margarida? MARGARIDA &#8212; Mas papai, eu n&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> DOD&Oacute; &#8212; N&atilde;o &eacute; ela que o senhor est&aacute; reclamando?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Olhe a inoc&ecirc;ncia do ladr&atilde;o! O que eu quero<br \/>\n    &eacute; minha porca, cheia de dinheiro, que voc&ecirc; confessou ter roubado!<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Uma porca? MARGARIDA &#8212; A porca? DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    Cheia de dinheiro? Que diabo de confus&atilde;o &eacute; essa? Eu seria l&aacute;<br \/>\n    capaz de roubar ningu&eacute;m! Que &eacute; que o senhor est&aacute; pensando?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Ah, ent&atilde;o nega! DOD&Oacute; &#8212; Claro que<br \/>\n    nego! Nunca imaginei que o senhor guardasse dinheiro dentro de porca nenhuma!<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; (S&uacute;plice.) Me d&ecirc; minha porquinha que voc&ecirc;<br \/>\n    tirou do cemit&eacute;rio da igreja! Voc&ecirc; a roubou, mas eu n&atilde;o<br \/>\n    o denunciarei e lhe dou a metade do dinheiro que ela tem dentro! A metade<br \/>\n    n&atilde;o, seria uma injusti&ccedil;a, afinal de contas, quem juntou o dinheiro<br \/>\n    fui eu, n&atilde;o &eacute;? Um ter&ccedil;o &eacute; muito, voc&ecirc; leva<br \/>\n    um quarto e me devolve o meio, como comiss&atilde;o por eu ter tido o trabalho.<br \/>\n    Fa&ccedil;a o que quiser, mas me d&ecirc; minha porquinha! DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    Como &eacute; que eu posso lhe dar a porca se n&atilde;o sei onde est&aacute;?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; Est&aacute; bem, quem gosta de voc&ecirc; &eacute;<br \/>\n    a pol&iacute;cia. Vou gritar! Acordem! Acordem! Acordem todos! Pega, pega<br \/>\n    o ladr&atilde;o! CAROBA e PINH&Atilde;O saem do quarto.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Que &eacute; isso? CAROBA &#8212; Que &eacute; isso,<br \/>\n    Seu Euric&atilde;o? EURIC&Atilde;O &#8212; Foi esse ladr&atilde;o, foi esse<br \/>\n    ladr&atilde;o que entrou na minha casa para me roubar! DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    Mas para roub&aacute;-lo como, se n&atilde;o sei nem not&iacute;cia de sua<br \/>\n    porca! EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o sabe o que, safado! Voc&ecirc; mesmo<br \/>\n    n&atilde;o disse que tinha sido a causa de minha desgra&ccedil;a? CAROBA &#8212;<br \/>\n    Um momento, Seu Euric&atilde;o, eu sei o que foi que ele quis dizer.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Que foi? CAROBA &#8212; Ele disse que foi a causa<br \/>\n    de sua desgra&ccedil;a porque comprometeu sua filha para o resto da vida.<br \/>\n    Esse tal de Seu Dod&oacute; entrou aqui, nas caladas da noite, iludiu Dona<br \/>\n    Margarida n&atilde;o sei de que jeito, e trancou-se com ela a&iacute; nesse<br \/>\n    quarto. Eu vi tudo! EURIC&Atilde;O &#8212; Ai! &Eacute; verdade? MARGARIDA<br \/>\n    &#8212; &Eacute;, papai, mas&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Era isso que voc&ecirc; estava confessando? DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; Era.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ainda mais essa! Por cima de queda, coice! Canalha,<br \/>\n    safado, por que voc&ecirc; n&atilde;o disse logo? Por que deixou que eu confessasse<br \/>\n    meu segredo? DOD&Oacute; &#8212; A culpa foi sua, era eu falando da filha<br \/>\n    e o senhor pensando na porca! EURIC&Atilde;O &#8212; Ai, a porca! Juntei dinheiro<br \/>\n    a vida inteira, para a velhice, e agora perco, num dia s&oacute;, a porca<br \/>\n    e a filha! CAROBA &#8212; E v&aacute; logo se preparando para perder a irm&atilde;<br \/>\n    tamb&eacute;m porque a situa&ccedil;&atilde;o de Dona Benona &eacute; muito<br \/>\n    dif&iacute;cil! EURIC&Atilde;O &#8212; Benona? Que h&aacute;? CAROBA &#8212;<br \/>\n    Seu Eudoro resolveu matar saudades e est&aacute; a&iacute;, trancado nesse<br \/>\n    quarto, com ela. Eu vou sair desta casa, porque para falar com franqueza,<br \/>\n    nunca pensei em ver tanto esc&acirc;ndalo num dia s&oacute;! EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel! Eudoro e Benona aqui! Entram<br \/>\n    EUDORO e BENONA.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; &Eacute; verdade, Eurico. E se voc&ecirc; n&atilde;o se ofendesse,<br \/>\n    eu queria lhe pedir a m&atilde;o de Benona em casamento.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; E voc&ecirc; n&atilde;o j&aacute; pediu? EUDORO &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o! EURIC&Atilde;O &#8212; Quer me levar ao rid&iacute;culo, &eacute;,<br \/>\n    Eudoro? Faz uma coisa dessa, compromete minha irm&atilde; e ainda vem com<br \/>\n    pilh&eacute;rias, logo agora que ela foi roubada! BENONA &#8212; Quem, eu?<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o, a porca! Ai, a porca! EUDORO &#8212; Mas<br \/>\n    Eurico, eu&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Um momento, um momento, quem fala sou eu. O senhor j&aacute;<br \/>\n    se explicou com Dona Benona, n&atilde;o foi? EUDORO &#8212; Foi.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; A senhora tamb&eacute;m j&aacute; entendeu tudo, n&atilde;o<br \/>\n    foi? BENONA &#8212; J&aacute;! CAROBA &#8212; Entendeu o noivado, a confus&atilde;o,<br \/>\n    laral&aacute;, laral&aacute;, tudo? BENONA &#8212; O noivado, a confus&atilde;o,<br \/>\n    laral&aacute;, laral&aacute;, tudo! CAROBA &#8212; Ent&atilde;o, viva! O senhor<br \/>\n    consente no casamento de Seu Eudoro com Dona Benona, n&atilde;o &eacute;,<br \/>\n    Seu Euric&atilde;o? EURIC&Atilde;O &#8212; Consinto, n&atilde;o! Exijo! Agora,<br \/>\n    ou ele casa, ou morre! Ai, Santo Ant&ocirc;nio, ela est&aacute; perdida! BENONA<br \/>\n    &#8212; Eu? EURIC&Atilde;O &#8212; A porca! Mas voc&ecirc;s dois agora casam,<br \/>\n    e tem que ser j&aacute;! CAROBA &#8212; Pois ent&atilde;o, eles casam amanh&atilde;.<br \/>\n    O senhor ganhou um grande cunhado, Seu Euric&atilde;o! EURIC&Atilde;O &#8212;<br \/>\n    Mas perdi a porca! Ai, a porca! Ai, a porca! E ainda por cima o que aconteceu<br \/>\n    com meu patrim&ocirc;nio! PINH&Atilde;O &#8212; Seu patrim&ocirc;nio? Qual?<br \/>\n    A porca? EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o, Margarida! Benona est&aacute;<br \/>\n    garantida, mas essa a&iacute; me arranjou um genro corcunda e de boca torta,<br \/>\n    um miser&aacute;vel que n&atilde;o tem nem onde cair morto! Mas ele me paga!<br \/>\n    Mato esse miser&aacute;vel, quebro-lhe a cara! Tome, safado, tome! Que &eacute;<br \/>\n    isso? A barba! EUDORO &#8212; Dod&oacute;! Voc&ecirc; aqui? DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    Sou eu, meu pai. Pe&ccedil;o-lhe que me perdoe, mas deixei o estudo. N&atilde;o<br \/>\n    havia outro jeito, eu estava apaixonado por Margarida, o senhor n&atilde;o<br \/>\n    queria que eu me casasse. Por outro lado, Seu Euric&atilde;o s&oacute; queria<br \/>\n    cas&aacute;-la com um homem rico. O jeito foi esse.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Voc&ecirc; deixou de estudar? DOD&Oacute; &#8212; Deixei.<br \/>\n    Ajudado por Caroba, entrei aqui, disfar&ccedil;ado, como empregado de Seu<br \/>\n    Euric&atilde;o. Ganhei a confian&ccedil;a dele, fingindo que era avarento,<br \/>\n    e fui ficando at&eacute; que Margarida correspondeu a meu amor e jurou casar<br \/>\n    comigo. E agora, tenho que casar, papai, porque apesar de n&atilde;o ter acontecido<br \/>\n    nada de mais entre n&oacute;s, ningu&eacute;m vai acreditar nisso.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Mas esse casamento assim, meu filho! MARGARIDA &#8212; Esse<br \/>\n    casamento assim o qu&ecirc;? &Eacute; igual ao do senhor com tia Benona! EUDORO<br \/>\n    &#8212; Voc&ecirc; precisa terminar seu estudo! DOD&Oacute; &#8212; Meu pai,<br \/>\n    eu s&oacute; gosto no mundo de criar boi. &Eacute; a &uacute;nica coisa que<br \/>\n    me d&aacute; gosto. Deixe eu me casar! Se eu n&atilde;o casar amanh&atilde;,<br \/>\n    todo mundo vai saber a hist&oacute;ria e Margarida fica comprometida! EUDORO<br \/>\n    &#8212; Mas ningu&eacute;m vai saber de nada, meu filho! Nenhum de n&oacute;s<br \/>\n    vai espalhar essa hist&oacute;ria, que eu sei! CAROBA &#8212; Quem n&atilde;o<br \/>\n    vai espalhar? O senhor est&aacute; muito enganado, eu vou espalhar tudinho!<br \/>\n    Vi tudo, assisti tudo e n&atilde;o estou pronta para sofrer essas humilha&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    n&atilde;o! Casa em que eu trabalho, tem que ser casa de respeito, nessas<br \/>\n    coisas eu sou dura! EUDORO &#8212; Mas Caroba&#8230;<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Vou come&ccedil;ar e &eacute; agora! Meu povo&#8230;<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Voc&ecirc; tem raz&atilde;o, &eacute; melhor que ele case.<br \/>\n    Voc&ecirc; fica trabalhando comigo na fazenda e eu fa&ccedil;o uma casa para<br \/>\n    voc&ecirc;.<\/p>\n<p>DOD&Oacute; &#8212; Meu pai, o senhor concorda! EUDORO &#8212; Concordo.<br \/>\n    Pensando bem, vejo que tudo terminou pelo melhor, eu com Benona, voc&ecirc;<br \/>\n    com Margarida.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Isso &eacute; o que voc&ecirc; diz, mas o fato &eacute;<br \/>\n    que ela est&aacute; perdida.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Eu, meu pai? EURIC&Atilde;O &#8212; A porca! Ora bolas,<br \/>\n    n&atilde;o j&aacute; disse que &eacute; a porca? Voc&ecirc; est&aacute; a&iacute;,<br \/>\n    sua tia est&aacute; a&iacute;, quando eu digo ela, s&oacute; pode ser a minha<br \/>\n    porquinha! Serei cego, por acaso? Estou vendo voc&ecirc;s, mas agora pergunto:<br \/>\n    e minha porquinha, onde &eacute; que est&aacute;? MARGARIDA &#8212; Espere,<br \/>\n    meu pai, eu sei quem &eacute; que tem sua porca.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc;? Sabe? Ave Maria, valha-me Deus! Quem<br \/>\n    &eacute;? Quem &eacute;? Quem &eacute; o ladr&atilde;o, o assassino que roubou<br \/>\n    minha porquinha? MARGARIDA &#8212; &Eacute; Pinh&atilde;o, papai! PINH&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Eu? EURIC&Atilde;O &#8212; Ah, bandido, criminoso, assassino! Agora<br \/>\n    voc&ecirc; me paga! Onde est&aacute; minha porquinha? (Agarra PINH&Atilde;O<br \/>\n    pelo pesco&ccedil;o.) PINH&Atilde;O &#8212; Seu Euric&atilde;o, eu&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Diz ou n&atilde;o diz? PINH&Atilde;O &#8212; Eu n&atilde;o<br \/>\n    sei nem que porca &eacute; essa! EURIC&Atilde;O &#8212; Ent&atilde;o vou apert&aacute;-lo<br \/>\n    at&eacute; sua alma sair pelo fiof&oacute;! Diz ou n&atilde;o diz? CAROBA<br \/>\n    &#8212; Mas afinal de contas, o que &eacute; isso? Pinh&atilde;o roubou uma<br \/>\n    porca, foi? MARGARIDA &#8212; Foi.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Pois se o barulho todo &eacute; esse, a gente paga a porca!<br \/>\n    EURIC&Atilde;O &#8212; E aquilo &eacute; porca que se pague, danada? DOD&Oacute;<br \/>\n    &#8212; Era aquela porca velha de madeira, Caroba! Estava cheia de dinheiro!<br \/>\n    EURIC&Atilde;O agarra PINH&Atilde;O de novo.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; Um momento, me solte! V&aacute; pra l&aacute;! Eu<br \/>\n    confesso que furtei essa porca, mas o senhor n&atilde;o ganha nada mandando<br \/>\n    me entregar &agrave; pol&iacute;cia. Eu morro e n&atilde;o digo onde ela est&aacute;!<br \/>\n    Todo mundo fala em furto, em roubo, e s&oacute; se lembra da porca! Est&aacute;<br \/>\n    bem, eu furtei a porca! Sou cat&oacute;lico, li o catecismo e sei que isso<br \/>\n    n&atilde;o se faz! Mas onde est&aacute; o sal&aacute;rio de todos estes anos<br \/>\n    em que trabalhamos, eu, meu pai, meu av&ocirc;, todos na terra de sua fam&iacute;lia,<br \/>\n    Seu Eudoro? Onde est&aacute; o sal&aacute;rio da fam&iacute;lia de Caroba,<br \/>\n    na mesma terra, Seu Eudoro? N&atilde;o resta nada! Onde est&aacute; o sal&aacute;rio<br \/>\n    de Caroba durante o tempo em que ela trabalhou aqui, Seu Euric&atilde;o? Seu<br \/>\n    Euric&atilde;o Engole-Cobra? EURIC&Atilde;O &#8212; Engole-Cobra &eacute;<br \/>\n    a m&atilde;e! PINH&Atilde;O &#8212; N&oacute;s n&atilde;o temos nada! A coisa<br \/>\n    que a gente mais deseja na vida, eu e ela, &eacute; casar! At&eacute; agora,<br \/>\n    n&atilde;o pudemos. Onde est&aacute; a minha porca? Ningu&eacute;m diz nada!<br \/>\n    Pois bem, proponho um acordo a todos. Seu Eudoro n&atilde;o emprestou vinte<br \/>\n    contos a Seu Euric&atilde;o? Eu entrego a porca por esses vinte contos.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; N&atilde;o dou, os vinte contos s&atilde;o meus!<br \/>\n    PINH&Atilde;O &#8212; Ent&atilde;o pode chamar a pol&iacute;cia, porque eu<br \/>\n    n&atilde;o entrego a porca de jeito nenhum. Ela tem cem vezes isso. Com os<br \/>\n    vinte contos posso comprar uma terrinha.<\/p>\n<p> Junto com a do padrinho de Seu Dod&oacute;, caso e vou fazer minha vidinha<br \/>\n    com Caroba.<\/p>\n<p> MARGARIDA &#8212; Ceda, papai! N&oacute;s devemos tanto a Caroba! Deixe<br \/>\n    pelos vinte contos! J&aacute; que n&atilde;o tem outro jeito e a porca vale<br \/>\n    mais.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Est&aacute; bem, voc&ecirc;s querem assistir &agrave;<br \/>\n    minha morte, a meu assassinato! Pois assistam! O vale est&aacute; aqui. Agora<br \/>\n    v&aacute; buscar minha porquinha, pelo amor de Deus.<\/p>\n<p> PINH&Atilde;O &#8212; N&atilde;o precisa ir buscar, ela est&aacute; aqui.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Aqui? PINH&Atilde;O &#8212; Claro, era o &uacute;ltimo<br \/>\n    lugar do mundo de que voc&ecirc;s desconfiariam! Est&aacute; aqui perto, no<br \/>\n    quarto, atr&aacute;s de uma mala velha! (Entra no quarto.) DOD&Oacute; &#8212;<br \/>\n    E eu que pensava que Pinh&atilde;o era idiota! CAROBA &#8212; Idiota por qu&ecirc;?<br \/>\n    DOD&Oacute; &#8212; Porque ele s&oacute; vivia dizendo ditados.<\/p>\n<p> CAROBA &#8212; Pois aprenda a conhecer com quem vive, sen&atilde;o o senhor<br \/>\n    est&aacute; desgra&ccedil;ado. Uma pessoa capaz de me enrolar como ele pode<br \/>\n    l&aacute; ser idiota, Seu Dod&oacute;? Volta PINH&Atilde;O com o saco.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Ah, Santo Ant&ocirc;nio poderoso! At&eacute; que<br \/>\n    enfim voc&ecirc; se compadeceu de seu velhinho, de seu devoto de todos os<br \/>\n    momentos e de todas as horas! Pensei que estava obrigado a escolher entre<br \/>\n    o santo e a porca! Mas Santo Ant&ocirc;nio n&atilde;o podia me exigir esse<br \/>\n    absurdo! Ai, minha porquinha, que alegria apert&aacute;-la de novo contra<br \/>\n    o meu cora&ccedil;&atilde;o! Que alegria beij&aacute;-la! &Oacute; minha esperan&ccedil;a,<br \/>\n    &oacute; minha vida! Agora que a encontrei n&atilde;o a largarei um s&oacute;<br \/>\n    instante! Afastem-se, saiam de perto de mim! Agora &eacute; assim, minha porca<br \/>\n    e eu! Afastam-se todos, A cena deve dar id&eacute;ia da solid&atilde;o de<br \/>\n    EURIC&Atilde;O, solid&atilde;o que vai crescendo at&eacute; o fim.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Mas espere&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Afaste-se! Saia de junto de mim! EUDORO &#8212; Eurico,<br \/>\n    voc&ecirc; guardou esse dinheiro muito tempo, n&atilde;o foi? EURIC&Atilde;O<br \/>\n    &#8212; Guardei, toda a minha vida! Quase toda a minha vida! Desde que minha<br \/>\n    mulher me deixou! Agora, posso falar nisso, pois tudo perdeu a import&acirc;ncia<br \/>\n    diante da porca! EUDORO &#8212; Eurico, o dinheiro n&atilde;o &eacute; tudo<br \/>\n    neste mundo. Voc&ecirc; tem sua filha, tem a todos n&oacute;s que agora somos<br \/>\n    sua fam&iacute;lia. Deixe de depositar toda a sua vida nesse dinheiro! N&atilde;o<br \/>\n    d&ecirc; tanta import&acirc;ncia ao que n&atilde;o vale nada! Porque&#8230;<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Por que o qu&ecirc;? Que &eacute; que voc&ecirc;<br \/>\n    quer dizer? Diga, termine! EUDORO &#8212; Ser&aacute; melhor dizer mesmo,<br \/>\n    Eurico? EURIC&Atilde;O &#8212; Dizer o qu&ecirc;? Diga logo, &eacute; melhor<br \/>\n    do que me esconder alguma coisa grave. Que &eacute;? EUDORO &#8212; Esse dinheiro<br \/>\n    est&aacute; todo recolhido, Eurico! Tudo o que voc&ecirc; tem a&iacute; n&atilde;o<br \/>\n    vale nem um tost&atilde;o! EURIC&Atilde;O &#8212; Nossa Senhora, Santo Ant&ocirc;nio!<br \/>\n    Voc&ecirc; jura pelos ossos de sua m&atilde;e como &eacute; verdade? EUDORO<br \/>\n    &#8212; Juro.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Est&aacute; bem, eu acredito. Foi uma cilada de Santo<br \/>\n    Ant&ocirc;nio, para eu ficar novamente com ele. Vou ent&atilde;o ficar sozinho,<br \/>\n    novamente. E j&aacute; que tem de ser assim, quero ficar aqui. Trancarei a<br \/>\n    porta e n&atilde;o a abrirei mais para ningu&eacute;m. Porque n&atilde;o quero<br \/>\n    mais ficar num mundo em que acontecem estas coisas imposs&iacute;veis de prever.<\/p>\n<p> EUDORO &#8212; Eurico, o mundo n&atilde;o se acabou por causa disso. Voc&ecirc;<br \/>\n    perdeu seu dinheiro, mas ganhou uma experi&ecirc;ncia e uma fam&iacute;lia!<br \/>\n    Acabe com essa id&eacute;ia de se enterrar vivo! EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc;<br \/>\n    pensa que est&aacute; melhor do que eu? A &uacute;nica diferen&ccedil;a entre<br \/>\n    mim e voc&ecirc;, Eudoro, &eacute; que sua porca ainda est&aacute; diante<br \/>\n    de seus olhos. N&atilde;o, eu estou farto! MARGARIDA &#8212; Seu Eudoro tem<br \/>\n    raz&atilde;o, papai, o mundo n&atilde;o se acabou. Tudo pode recome&ccedil;ar,<br \/>\n    o senhor vende esta casa e vai morar conosco.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o est&aacute; entendendo nada!<br \/>\n    E como ficaria eu? Voc&ecirc; casa com Dod&oacute;, Benona com Eudoro, Caroba<br \/>\n    com Pinh&atilde;o. N&atilde;o v&ecirc; que eu fico s&oacute;? No meio disso<br \/>\n    tudo, com quem casaria eu? CAROBA &#8212; Com a porca. E, se ela n&atilde;o<br \/>\n    serve mais, com Santo Ant&ocirc;nio! EURIC&Atilde;O &#8212; Est&atilde;o ouvindo?<br \/>\n    &Eacute; a voz da sabedoria, da justi&ccedil;a popular. Tomem seus destinos,<br \/>\n    eu quero ficar s&oacute;. Aqui hei de ficar at&eacute; tomar uma decis&atilde;o.<br \/>\n    Mas agora sei novamente que posso morrer, estou novamente colocado diante<br \/>\n    da morte e de todos os absurdos, nesta terra a que cheguei como estrangeiro<br \/>\n    e como estrangeiro vou deixar. Mas minha condi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; pior nem melhor do que a de voc&ecirc;s. Se isso aconteceu comigo,<br \/>\n    pode acontecer com todos, e se aconteceu uma vez pode acontecer a qualquer<br \/>\n    instante. Um golpe do acaso abriu meus olhos, voc&ecirc;s continuam cegos!<br \/>\n    Agora v&atilde;o, quero ficar s&oacute;! EUDORO &#8212; Adeus, Eurico.<\/p>\n<p> BENONA &#8212; Adeus, Eurico.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Adeus, escravos! MARGARIDA &#8212; Adeus, meu pai.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Adeus, escravos. Saiam. Saiam todos, escravos! CAROBA<br \/>\n    &#8212; Adeus, Seu Euric&atilde;o.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Adeus, escravos! Saem todos, menos EURIC&Atilde;O.<\/p>\n<p> EURIC&Atilde;O &#8212; Bem, e agora come&ccedil;a a pergunta. Que sentido<br \/>\n    tem toda essa conjura&ccedil;&atilde;o que se abate sobre n&oacute;s? Ser&aacute;<br \/>\n    que tudo isso tem sentido? Ser&aacute; que tudo tem sentido? Que quer dizer<br \/>\n    isso, Santo Ant&oacute;nio? Ser&aacute; que s&oacute; voc&ecirc; tem a resposta?<br \/>\n    Que diabo quer dizer tudo isso, Santo Ant&ocirc;nio?<\/p>\n<h2> PANO<\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Primeiro Ato &nbsp; Segundo Ato &nbsp; Terceiro Ato PRIMEIRO ATO O pano abre na casa de EURICO AR&Aacute;BE, mais conhecido como EURIC&Atilde;O ENGOLE-COBRA CAROBA &#8212; E foi ent&atilde;o que o patr&atilde;o dele disse: &quot;Pinh&atilde;o, voc&ecirc; sele o cavalo e v&aacute; na minha frente procurar Euric&atilde;o&#8230;&quot; EURIC&Atilde;O [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92659","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site 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