{"id":92544,"date":"2017-01-04T14:12:18","date_gmt":"2017-01-04T16:12:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92544"},"modified":"2017-01-04T14:12:18","modified_gmt":"2017-01-04T16:12:18","slug":"os-cus-de-judas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-cus-de-judas","title":{"rendered":"Os Cus de Judas"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"476\" height=\"148\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"116\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"><br \/>\n\t\t\t  <a href=\"#1\">A<\/a><br \/>\n              <a href=\"#2\">B<\/a><br \/>\n              <a href=\"#3\">C<\/a><br \/>\n              <a href=\"#4\">D<\/a><br \/>\n              <a href=\"#5\">E<\/a><br \/>\n              <a href=\"#6\">F<\/a><br \/>\n              <a href=\"#7\">G<\/a><br \/>\n              <a href=\"#8\">H<\/a><br \/>\n              <a href=\"#9\">I<\/a><br \/>\n              <a href=\"#10\">J<\/a><br \/>\n              <a href=\"#11\">L<\/a><br \/>\n\t\t\t  <a href=\"#12\">M<\/a><\/p>\n<p>              <\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"> <\/td>\n<td width=\"151\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"><\/p>\n<p>              <a href=\"#13\">N<\/a><br \/>\n              <a href=\"#14\">O<\/a><br \/>\n              <a href=\"#15\">P<\/a><br \/>\n              <a href=\"#16\">Q<\/a><br \/>\n\t\t\t  <a href=\"#17\">R<\/a><br \/>\n\t\t\t  <a href=\"#18\">S<\/a><br \/>\n\t\t\t  <a href=\"#19\">T<\/a><br \/>\n\t\t\t  <a href=\"#20\">U<\/a><br \/>\n\t\t\t  <a href=\"#21\">V<\/a><br \/>\n\t\t\t  <a href=\"#22\">X<\/a><br \/>\n\t\t\t  <a href=\"#23\">Z<\/a><br \/>\n              <\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4><strong><a name=\"1\">A<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Do que eu gostava mais no Jardim Zool\u00f3gico era do rinque de patinagem sob<br \/>\n    as\u00e1rvores e do professor preto muito direito a deslizar para tr\u00e1s no cimento<br \/>\n    em elipsesvagorosas sem mover um m\u00fasculo sequer, rodeado de meninas de saias<br \/>\n    curtas e botasbrancas, que, se falassem, possu\u00edam seguramente vozes t\u00e3o de<br \/>\n    gaze como as que nosaeroportos anunciam a partida dos avi\u00f5es, s\u00edlabas de algod\u00e3o<br \/>\n    que se dissolvem nosouvidos \u00e0 maneira de fins de rebu\u00e7ado na concha da l\u00edngua.\n  <\/p>\n<p>N\u00e3o sei se lhe parece idiotao que vou dizer mas aos domingos de manh\u00e3, quando<br \/>\n    n\u00f3s l\u00e1 \u00edamos com o meu pai, osbichos eram mais bichos, a solid\u00e3o de esparguete<br \/>\n    da girafa assemelhava-se \u00e0 de umGulliver triste, e das l\u00e1pides do cemit\u00e9rio<br \/>\n    dos c\u00e3es subiam de tempos a tempos latidosaflitos de caniche. Cheirava aos<br \/>\n    corredores do Coliseu ao ar livre, cheios de esquisitosp\u00e1ssaros inventados<br \/>\n    em gaiolas de rede, avestruzes id\u00eanticas a professoras de gin\u00e1sticasolteiras,<br \/>\n    pinguins tr\u00f4pegos de joanetes de cont\u00ednuo, catatuas de cabe\u00e7a \u00e0 banda comoapreciadores<br \/>\n    de quadros; no tanque dos hipop\u00f3tamos inchava a lenta tranquilidade dosgordos,<br \/>\n    as cobras enrolavam-se em espirais moles de cagalh\u00e3o, e os crocodilosacomodavam-se<br \/>\n    sem custo ao seu destino terci\u00e1rio de lagartixas patibulares. <\/p>\n<p>Os pl\u00e1tanosentre as jaulas acinzentavam-se como os nossos cabelos, e afigurava-se-me<br \/>\n    que, de certomodo, envelhec\u00edamos juntos: o empregao de ancinho que empurrava<br \/>\n    as folhas para umbalde aparentava-se, sem d\u00favida, ao cirurgi\u00e3o que me varreria<br \/>\n    as pedras da ves\u00edculapara um frasco coberto de r\u00f3tulo de adesivo; uma menopausa<br \/>\n    vegetal em que os caro\u00e7osda pr\u00f3stata e os n\u00f3s dos troncos se aproximavam e<br \/>\n    confundiam irmanar-nos-ia namesma melancolia sem ilus\u00f5es; os queixais tombavam<br \/>\n    da boca como frutos podres, apele da barriga pregueava-se de asperezas de<br \/>\n    casca. Mas n\u00e3o era imposs\u00edvel que umh\u00e1lito c\u00famplice nos sacudisse as madeixas<br \/>\n    do ramos mais altos, e uma tosse qualquerrompesse a custo o nevoeiro da surdez<br \/>\n    em mugidos de b\u00fazio, que a pouco e poucoadquiriam a tranquilizador tonalidade<br \/>\n    da bronquite conjugal.<\/p>\n<p>O restaurante do Jardim, onde o odor dos animais se insinuava em farraposdilu\u00eddos<br \/>\n    no fumo do cozido, apimentando de uma desagrad\u00e1vel sugest\u00e3o de cerdas osabor<br \/>\n    das batatas e conferindo \u00e0 carne gostos peludos de alcatifa, encontrava-seordinariamente<br \/>\n    repleto, em doses equitativas, de grupos excursionistas e de m\u00e3esimpacientes,<br \/>\n    que afastavam com os garfos bal\u00f5es \u00e0 deriva como sorrisos distra\u00eddos, aarrastarem<br \/>\n    pontas de guita atr\u00e1s de si, tal as noivas volantes de Chagall a bainha dosvestidos.<br \/>\n    Senhoras idosas vestidas de azul, com tabuleiros de bolos na barriga,ofereciam<br \/>\n    travesseiros mais poeirentos do que as suas bochechas folhadas, perseguidaspelo<br \/>\n    fastio pegajoso das moscas. C\u00e3es esquel\u00e9ticos de ret\u00e1bulo medieval hesitavamentre<br \/>\n    a biqueira dos empregados e as salsichas que sobravam dos pratos para o ch\u00e3o<br \/>\n    \u00e0laia de dedos sup\u00e9rfluos, luzidios da brilhantina do \u00f3leo. Os barcos que<br \/>\n    pedalavam notanque amea\u00e7avam a todo momento entrar vogando pelas janelas abertas,<br \/>\n    a oscilaremsobre ondas hostis de guardanapos de papel. E l\u00e1 fora, indiferente<br \/>\n    \u00e0 m\u00fasica fosca que osaltifalantes embaciavam, aos lamentos vi\u00favos do boi-cavalo,<br \/>\n    \u00e0 jovialidade depandeiretas cansadas dos excursionista e ao pasmo da minha<br \/>\n    admira\u00e7\u00e3o comovida, o professor preto continuava a deslizar im\u00f3vel no rinque<br \/>\n    de patinagem debaixo das\u00e1rvores com a majestade maravilhosa e ins\u00f3lita de<br \/>\n    um andor \u00e0s arrecuas.<\/p>\n<p>Se f\u00f4ssemos, por exemplo, papa-formigas, a senhora e eu, em lugar deconversarmos<br \/>\n    um com o outro neste \u00e2ngulo de bar, talvez que eu me acomodassemelhor ao seu<br \/>\n    sil\u00eancio, \u00e0s suas m\u00e3os paradas no copo, aos seus olhos de pescada devidro<br \/>\n    boiando algures na minha calva ou no meu umbigo, talvez que nos entender numacumplicidade<br \/>\n    de trombas inquietas farejando a meias no cimento saudades de insetosque n\u00e3o<br \/>\n    h\u00e1, talvez que nos un\u00edssemos, a coberto do escuro, em coitos t\u00e3o tristes como<br \/>\n    asnoites de Lisboa, quando os netunos dos lagos se despem do lodo do seu musgo<br \/>\n    epasseiam nas pra\u00e7as vazias ansiosas \u00f3rbitas ferrugentas. <\/p>\n<p>Talvez que finalmente mefalasse de si. Talvez que atr\u00e1s da sua testa de Cranach<br \/>\n    exista, adormecida, uma ternurasecreta pelos rinocerontes. Talvez que, palpando-me<br \/>\n    me descubra de repente unic\u00f3rnio,a abrace, e voc\u00ea agite os bra\u00e7os espantados<br \/>\n    de borboleta cravada em alfinete, pastosa deternura. Comprar\u00edamos bilhetes<br \/>\n    para o comboio que circula no jardim, de bicho embicho, o seu motor de corda,<br \/>\n    evadido de um castelo-fantasma de prov\u00edncia, acenando depassagem \u00e0 gruta de<br \/>\n    pres\u00e9pio dos ursos brancos, tapetes reciclados. Observar\u00edamosoftalmologicamente<br \/>\n    a conjuntivite anal dos mandris, cujas p\u00e1lpebras se inflamam dehemorroidas<br \/>\n    combust\u00edveis. Beijar-nos-\u00edamos diante das grades dos le\u00f5es, ro\u00eddos de tra\u00e7acomo<br \/>\n    casacos velhos, a arrega\u00e7arem os bei\u00e7os sobre as gengivas desmobiladas. Euafago-lhe<br \/>\n    os seios \u00e0 sombra obl\u00edqua das raposas, voc\u00ea compra-me um gelado depauzinho<br \/>\n    ao p\u00e9 do recinto dos palha\u00e7os, bofetadas de sobrancelha para cima que umsaxofone<br \/>\n    tr\u00e1gico sublinha. E ter\u00edamos recuperado dessa forma um pouco da inf\u00e2ncia quea<br \/>\n    nenhum de n\u00f3s pertence, e teima em descer pelo escorrega num riso de que nos<br \/>\n    chega,de longe em longe e numa esp\u00e9cie de raiva, o eco atenuado.<\/p>\n<p>Lembra-se das \u00e1guias de pedra da entrada do Jardim e das bilheteirassemelhantes<br \/>\n    a guaritas de sentinela onde oficiavam empregados bolorentos, a piscarem\u00f3rbitas<br \/>\n    m\u00edopes de mocho na penumbra \u00famida? Os meus pais moravam n\u00e3o muito longe,perto<br \/>\n    de uma ag\u00eancia de caix\u00f5es, m\u00e3os de cera e bustos do padre Cruz, que os uivosnoturnos<br \/>\n    dos tigres faziam vibrar de terror artr\u00edtico nas prateleiras da montra, inv\u00e1lidosdo<br \/>\n    com\u00e9rcio m\u00edsticos que decoravam os topos dos frigor\u00edficos sobre ovais de croch\u00ea,<br \/>\n    detal forma que o ronronar dos aparelhos se diria nascer dos seus es\u00f4fagos<br \/>\n    de barro,afligidos de indigest\u00f5es de galhetas. Da janela do quarto dos meus<br \/>\n    irm\u00e3os enxergava-sea cerca dos camelos, a cujas express\u00f5es aborrecidas faltava<br \/>\n    o complemento de umcharuto de gestor. Sentado na retrete, onde um resto de<br \/>\n    rio agonizava em gargarejos deintestino, escutava os lamentos das focas que<br \/>\n    um di\u00e2metro excessivo impedia deviajarem pela canaliza\u00e7\u00e3o e de descerem no<br \/>\n    jato das torneiras grunhidos impacientes deexaminador de Matem\u00e1tica. A cama<br \/>\n    da minha m\u00e3e gemia em certas madrugadas olumbago do elefante desdentado que<br \/>\n    tocava a sineta contra um molho de couves, numcom\u00e9rcio centenariamente inalter\u00e1vel<br \/>\n    \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, comandada pela asma do meu pai emassopros ritmados de cornaca.<br \/>\n    A mulher dos amendoins, a que faltava o cotoveloesquerdo, montava a sua ind\u00fastria<br \/>\n    de alcofas nos baixos da nossa varanda, e narrava \u00e0minha av\u00f3 em discursos<br \/>\n    verticais, de baixo para cima, as bebedeiras do marido, atrav\u00e9sde cuja viol\u00eancia<br \/>\n    explodiam cap\u00edtulos de M\u00e1ximo Gorki da Editorial Minerva. Asmanh\u00e3s povoavam-se<br \/>\n    e tucanos e de hibiscos servidos com as carca\u00e7as do pequenoalmo\u00e7oque abandonavam<br \/>\n    nos dedos a farinha ou o p\u00f3 dos m\u00f3veis por limpar. Amancha do sol da tarde<br \/>\n    trotava no soalho na cad\u00eancia furtiva das hienas, revelando eescondendo os<br \/>\n    desenhos sucessivos do tapete, o relevo lascado do rodap\u00e9, o retrato deum<br \/>\n    tio bombeiro na parede, iluminado de bigodes, de que o capacete areado cintilavareflexos<br \/>\n    dom\u00e9sticos de ma\u00e7aneta. No vest\u00edbulo havia um espelho biselado que de noitese<br \/>\n    esvaziava de imagens e se tornava t\u00e3o fundo como os olhos de um beb\u00ea que dorme,<br \/>\n    capaz de conter em si todas as \u00e1rvores do Jardim e os orangotangos dependurados<br \/>\n    dassuas argolas \u00e0 laia de enormes aranhas congeladas. Por essa \u00e9poca, eu alimentava<br \/>\n    aesperan\u00e7a insensata de rodopiar um dia espirais graciosas em torno das hip\u00e9rbolesmajest\u00e1ticas<br \/>\n    do professor preto, vestido de botas brancas e cal\u00e7as cor-de-rosa,deslizando<br \/>\n    no ru\u00eddo de roldanas com que sempre imaginei o voo dif\u00edcl dos anjos deGiotto,<br \/>\n    a espanejarem nos seus c\u00e9us b\u00edblicos numa inoc\u00eancia de cord\u00e9is. As \u00e1rvores<br \/>\n    dorinque fechar-se-iam atr\u00e1s de mim entrela\u00e7ando as suas sombras espessas,<br \/>\n    e seria essa aminha forma de partir. Talvez que quando eu for velho, reduzido<br \/>\n    aos meus rel\u00f3gios eaos meus gatos num terceiro andar sem elevador, conceba<br \/>\n    o meu desaparecimento n\u00e3ocomo o de um n\u00e1ufrado submerso por embalagens de<br \/>\n    comprimidos, cataplasmas, ch\u00e1smedicinais e ora\u00e7\u00f5es ao Divino Esp\u00edrito Santos,<br \/>\n    mas sob a forma de um menino que seerguer\u00e1 de mim como a alma do corpo nas<br \/>\n    gravuras do catecismo, para se aproximar,em piruetas inseguras, do negro muito<br \/>\n    direito, de cabelo esticado a brilhantina, cujosbei\u00e7os se curvam no sorriso<br \/>\n    enigm\u00e1tico e infinitamente indulgente de um buda depatins.<\/p>\n<p>Este anjo da guarda de gravata desde sempre substituiu dentro de mim a pagelavirtuosa<br \/>\n    da S\u00e3ozinha e as suas bochechas equ\u00edvocas de Mae West de sacristia, envolvidaem<br \/>\n    amores m\u00edsticos com um cristo de bigodinho \u00e0 Fairbanks no cinema mudo doorat\u00f3rio<br \/>\n    das tias, que moravam em grandes casas escuras, com os baixos-relevos dossof\u00e1s<br \/>\n    e dos m\u00f3veis adensando a penumbra, onde as teclas dos pianos cobertos por<br \/>\n    xailesde damasco cintilavam a sua c\u00e1rie de bem\u00f3is. Em cada edif\u00edcio da Rua<br \/>\n    BarataSalgueiro, triste como a chuva num recreio de col\u00e9gio, habitava uma<br \/>\n    parente idosaremando de bengala na vazante das alcatifas repletas de jarr\u00f5es<br \/>\n    chineses e de contadoresde embutidos, que o mar de gera\u00e7\u00f5es de comerciantes<br \/>\n    de pera ali abandonara comonuma praia final. Cheirava a fechado, a gripe e<br \/>\n    a biscoito, e s\u00f3 as grandes tinasoxidadas, de pernas em forma de garras de<br \/>\n    esfinge, com a linha da \u00e1gua ausenteassinalada por uma orla castanha semelhante<br \/>\n    a um vinco de bon\u00e9 na testa, se meafiguravam vivas, procurando com as \u00e1vidas<br \/>\n    goelas desmesuradas as tetas de cobre dastorneiras, de que desciam, de quando<br \/>\n    em quando, l\u00e1grimas raras como gotas de argirol.Nas cozinhas id\u00eanticas ao<br \/>\n    laborat\u00f3rio de qu\u00edmica do liceu, com um calend\u00e1rio dasMiss\u00f5es com muitos pretinhos<br \/>\n    na parede, criadas sem idade, que se chamavam todasAlbertina, preparavam canjas<br \/>\n    sem sal resmungando nos tachos peda\u00e7os de ter\u00e7o,destinados a condimentar o<br \/>\n    arroz branco. Nos esquentadores antiqu\u00edssimos,contempor\u00e2neos da marmita de<br \/>\n    Papin, as chamas do g\u00e1s adquiriam a forma inst\u00e1vel dep\u00e9talas fr\u00e1geis, oscilando<br \/>\n    \u00e0 beira de um estoiro catastr\u00f3fico que reduziria a cacosirreconhec\u00edveis a<br \/>\n    \u00faltima ch\u00e1vena de S\u00e8vres. As janelas n\u00e3o se distinguiam dos quadros:no vidro<br \/>\n    ou na tela, as mesmas \u00e1rvores de Outubro encolhiam-se como pilas transidasdepois<br \/>\n    de um banho de piscina, a que se enrolavam as serpentinas desbotadas de umcarnaval<br \/>\n    defunto. <\/p>\n<p>As tias avan\u00e7avam aos arrancos como dan\u00e7arinas de caixinha dem\u00fasica nos derradeiros<br \/>\n    impulsos da corda, apontavam-me \u00e0s costelas a amea\u00e7a poucosegura das bengalas,<br \/>\n    observavam-me com desprezo os enchuma\u00e7os do casaco eproclamavam azedamente:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s magro como se as minhas clav\u00edculas fossem mais vergonhosas que um<br \/>\n    rastro de b\u00e2ton no colarinho.<\/p>\n<p>Um p\u00eandulo inlocaliz\u00e1vel, perdido entre trevas de arm\u00e1rios, pingava horasabafadas<br \/>\n    num qulquer corredor distante, atravancado de arcas de c\u00e2nfora, conduzinho<br \/>\n    aquartos hirtos e \u00famidos, onde o cad\u00e1ver de Proust flutuava ainda, espalhando<br \/>\n    no arrarefeito um h\u00e1lito pu\u00eddo de inf\u00e2ncia. As tias instalavam-se a custo<br \/>\n    no rebordo depoltronas gigantescas decoradas por filigranas de croch\u00ea, serviam<br \/>\n    o ch\u00e1 em bules trabalhados como cust\u00f3dias manuelinas, e completavam a jaculat\u00f3ria<br \/>\n    designando com acolher do a\u00e7\u00facar fotografias de generais furibundos, falecidos<br \/>\n    antes do meu nascimentoap\u00f3s gloriosos combates de gam\u00e3o e de bilhar em messes<br \/>\n    melanc\u00f3licas como salas dejantar vazias, de \u00daltimas Ceias substitu\u00eddas por<br \/>\n    gravuras de batalha:<\/p>\n<p>&#8211; Felizmente que a tropa h\u00e1-de torn\u00e1-lo um homem.<\/p>\n<p>Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da inf\u00e2ncia e da adolesc\u00eancia<br \/>\n    pordentaduras posti\u00e7as de indiscut\u00edvel autoridade, prolongava-se em ecos estridentes<br \/>\n    nasmesas de canasta, onde as f\u00eameas do cl\u00e3 forneciam \u00e0 missa dos domingos<br \/>\n    umcontrapeso pag\u00e3o a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia<br \/>\n    de pretextopara expelirem, a prop\u00f3sito de um beste, \u00f3dios antigos pacientemente<br \/>\n    segregados. Oshomens da fam\u00edlia, cuja solenidade pomposa me fascinara antes<br \/>\n    da primeira comunh\u00e3o,quando eu n\u00e3o entendia ainda que os seus concili\u00e1bulos<br \/>\n    sussurrados, inacess\u00edveis evitais como as assembleias dos deuses, se destinavam<br \/>\n    simplesmente a discutir osm\u00e9ritos fofos das n\u00e1degas da criada, apoiavam gravemente<br \/>\n    as tias no intuito deafastarem uma futura m\u00e3o rival em belisc\u00f5es furtivos<br \/>\n    durante o levantar dos pratos. Oespectro de Salazar pairava sobre as calvas<br \/>\n    pias labaredazinhas de Esp\u00edrito Santocorporativo, salvando-nos da ideia tenebrosa<br \/>\n    e delet\u00e9ria do socialismo. A PIDEprosseguia corajosamente a sua valorosa cruzada<br \/>\n    contra a no\u00e7\u00e3o sinistra de democracia,primeiro passo para o desaparecimento,<br \/>\n    nos bolsos \u00e1vidos de ardinas e mar\u00e7anos, dofaqueiro de cristofle. O cardeal<br \/>\n    Cerejeira, emoldurado, garantia, de um canto, aperpetuidade da Confer\u00eancia<br \/>\n    de S\u00e3o Vicente de Paula, e, por iner\u00eancia, dos pobresdomesticados. O desenho<br \/>\n    que representava o povo em uivos de j\u00fabilo ateu em torno deuma guilhotina<br \/>\n    libert\u00e1ria fora definitivamente exilado para o s\u00f3t\u00e3o, entre bid\u00eas velhos ecadeiras<br \/>\n    coxas, que uma fresta poeirenta de sol aureolava do mist\u00e9rio que acentua asinutilidades<br \/>\n    abandonadas. De modo que quando embarquei para Angola, a bordo de umnavio<br \/>\n    cheio de tropas, para me tornar finalmente homem, a tribo, agradecida aoGoverno<br \/>\n    que me possibilitava, gr\u00e1tis, uma tal metamorfose, compareceu em peso nocais,<br \/>\n    consentindo, num arroubo de fervor patri\u00f3tico, ser acotovelada por uma multid\u00e3oagitada<br \/>\n    e an\u00f4nima semelhante \u00e0 do quadro da guilhotina, que ali vinha assistir,impotente,<br \/>\n    \u00e0 sua pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"2\">B<\/strong><\/a><\/h4>\n<p>Conhece Santa Margarida? Digo isto porque, \u00e0s vezes, na messe dos oficiaisdecorada<br \/>\n    com o mau gosto obstinadamente impessoal da sala de espera de um dentistade<br \/>\n    Moscavide (flores de pl\u00e1stico, oleografias imprecisas cujos arabescos mon\u00f3tonos<br \/>\n    seconfundem com o papel da parede, cadeiras hirtas semelhantes a quadr\u00fapedesdesirmanados<br \/>\n    pastando num acaso sem simetria as franjas gastas dos tapetes), osmajores<br \/>\n    em reboli\u00e7o abandonavam os copos de u\u00edsque, de cubos de gelo substitu\u00eddospor<br \/>\n    dados de p\u00f4quer, para, eretos como soldados de chumbo barrigudos, saudarem<br \/>\n    aentrada de uma senhora que qualquer coronel subitamente urbano comboiava,<br \/>\n    deixandoatr\u00e1s de si, percept\u00edvel na tremura dos gal\u00f5es, um rastro cochichado<br \/>\n    de cio de caserna,que se cristalizaria em esquemas explicativos no m\u00e1rmore<br \/>\n    venoso dos urin\u00f3is, destinado\u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o dos faxinas. A masturba\u00e7\u00e3o era<br \/>\n    a nossa gin\u00e1stica di\u00e1ria, \u00eambolosencolhidos nos len\u00e7\u00f3is gelados \u00e0 maneira<br \/>\n    de fetos idosos que nenhum \u00faterodesibernaria, enquanto, l\u00e1 fora, os pinheiros<br \/>\n    e a n\u00e9voa se confundiam numa tramainextric\u00e1vel de sussurros \u00famidos, sobrepondo<br \/>\n    \u00e0 noite a noite pegajosa dos seus troncos,a\u00e7ucarados do algod\u00e3o de feira popular<br \/>\n    da bruma. Como em pequeno na Praia das Ma\u00e7\u00e3s, percebe, no fim de Setembro,<br \/>\n    quando nos deit\u00e1vamos e o corpo se assemelhavaa uma sementinha perdida no<br \/>\n    colch\u00e3o enorme, enrugada e tr\u00eamula, agitando osfilamentos peludos dos membros<br \/>\n    em espasmos assustados pelo som do mar l\u00e1 em baixo,vinde de parte nenhuma,<br \/>\n    a retrair e a distender a bronquite pedregulhosa do seu pulm\u00e3oinvis\u00edvel. Os<br \/>\n    rel\u00f3gios de cuco davam lugar a cornetas igualmente irritantes, a farda e apele<br \/>\n    convergiam numa carapa\u00e7a \u00fanica de quitina militar, os cabelos rapados e asformaturas<br \/>\n    traziam-me \u00e0 mem\u00f3ria as col\u00f4nias de f\u00e9rias da inf\u00e2ncia e o seu cheiro a docee<br \/>\n    azedo de pouca \u00e1gua, feito de resigna\u00e7\u00e3o vagamente indignada. Aos domingos,<br \/>\n    afam\u00edlia em j\u00fabilo vinha espiar a evolu\u00e7\u00e3o da metamorfose da larva civil a<br \/>\n    caminho doguerreiro perfeito, de boina cravada na cabe\u00e7a como uma c\u00e1psula,<br \/>\n    e botas gigantescascobertas da lama hist\u00f3rica de Verdun, a meio caminho entre<br \/>\n    o escuteiro mit\u00f4mano e osoldado desconhecido de carnaval. E tudo decorria,<br \/>\n    entretanto, na atmosfera de col\u00e9giointerno que os quart\u00e9is sutilmente prolongam,<br \/>\n    com os seus segredos, os seus gruposinici\u00e1ticos, os seus estratagemas de perversidade<br \/>\n    prim\u00e1ria destinados a iludir avigil\u00e2ncia de prefeitos dos comandantes, mais<br \/>\n    preocupados com o trunfo do br\u00eddge, decuja escolha dependeria o rumo tranquilo<br \/>\n    ou tempestuoso da digest\u00e3o do jantar, do quecom as convuls\u00f5es noturnas das<br \/>\n    camaratas perdidas atr\u00e1s da caspa bolorenta dospl\u00e1tanos, onde c\u00e3es magros<br \/>\n    como galgos de Greco se uniam em coitos melanc\u00f3licos,fixando-nos com olhos<br \/>\n    dolorosamente implorativos de freiras moribundas.<\/p>\n<p>Em Mafra, sob a chuva, vi correr os ratos entre os beliches na tristezadesmesurada<br \/>\n    do convento, labirinto de corredores assombrados por fantasmas defurri\u00e9is.<br \/>\n    Em Tomar, onde os peixes sobem do Mouch\u00e3o para vogarem ao acaso pelasruas<br \/>\n    em cardumes cintilantes, constru\u00ed Jer\u00f4nimos de paus de f\u00f3sforo admirados pelasescler\u00f3ticas<br \/>\n    amarelas dos paraquedistas com hepatite. Em Elvas, \u00e0 ilharga de umaspirante<br \/>\n    gordo e inseguro como um pudim flan na borda de um prato, desejei evaporarmenas<br \/>\n    muralhas da cidade \u00e0 maneira dos violinistas de Chagall no azul espesso da<br \/>\n    tela,batendo as desajeitadas asas de cot\u00e3o das minhas mangas militares, at\u00e9<br \/>\n    pousar em Parispara uma revolu\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio feita de quadros abstrato e de<br \/>\n    poemas concretos, a que oDi\u00e1rio de Not\u00edcias da Casa de Portugal forneceria<br \/>\n    o lastro lusitano de an\u00fancios decasamento castos como not\u00e1rios hiperm\u00e9tropes,<br \/>\n    e de missas do s\u00e9timo dia ado\u00e7adas pelosorriso sem carne dos mortos. E em<br \/>\n    Santa Margarida, aguardando o embarque, pastoreeilongas bichas de soldados<br \/>\n    a caminho de um dentista demente que despovoava gengivasuivando de felicidade<br \/>\n    assassina:<\/p>\n<p>&#8211; Com os queixais da gajada n\u00e3o vai colega ter problemas &#8211; berrava-me ele,encostado<br \/>\n    \u00e0 sua cadeira horrenda, reluzente de satisfa\u00e7\u00e3o e de suor, a enterrar oma\u00e7arico<br \/>\n    em chamas da broca num maxilar apavorado.<\/p>\n<p>As senhoras do Movimento Nacional Feminino vinham por vezes distrair osvisons<br \/>\n    da menopausa distribuindo medalhas da Senhora de F\u00e1tima e porta-chaves com<br \/>\n    aef\u00edgie de Salazar, acompanhadas de padre-nossos nacionalistas e de amea\u00e7as<br \/>\n    do infernob\u00edblico de Peniche, onde os agentes da PIDE superavam em efic\u00e1cia<br \/>\n    os inocentes diabosde garfo em punho do catecismo. Sempre imaginei que os<br \/>\n    pelos dos seus p\u00fabis fossemde estola de raposa, e que das vaginas lhes escorressem,<br \/>\n    quando excitadas, gotas de MaGriffe e baba de caniche, que abandonavam rastros<br \/>\n    luzidios de caracol na murchid\u00e3odas coxas. Sentadas \u00e0 mesa do brigadeiro,<br \/>\n    comiam a sopa com a ponta dos bei\u00e7os talcomo os doentes das hemorroidas se<br \/>\n    acomodam no v\u00e9rtice dos sof\u00e1s, deixando nosguardanapos de papel pegadas de<br \/>\n    copas de b\u00e2ton de que se evolavam ainda desgostoscom as criadas e restos de<br \/>\n    tiradas patri\u00f3ticas, e reencontrei-as no portal\u00f3 do barco namanh\u00e3 da partida,<br \/>\n    encorajando-nos com ma\u00e7os de cigarros Tr\u00eas Vintes e apertos de m\u00e3oviris em<br \/>\n    que as falanges, falanginhas e falangetas se articulavam entre si por interm\u00e9diodos<br \/>\n    an\u00e9is de bras\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Sigam descansados que n\u00f3s na retaguarda permanecemos vigilantes.<\/p>\n<p>E com efeito, observando bem, pouca coisa havia a recear de n\u00e1degas t\u00e3o tristes,<br \/>\n    em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais as cintas se conformavam com o papel secund\u00e1rio de fundas<br \/>\n    herni\u00e1rias.<\/p>\n<p>E depois, sabe como \u00e9, Lisboa principiou a afastar-se de mim num turbilh\u00e3ocada<br \/>\n    vez mais atenuados de marchas marciais em cujos acordes rodopiavam os rostostr\u00e1gicos<br \/>\n    e im\u00f3veis de despedida, que a lembran\u00e7a paralisa nas atitudes de espanto.<br \/>\n    Oespelho do camarote devolvia-me fei\u00e7\u00f5es deslocadas pela ang\u00fastia, como um<br \/>\n    puzzledesarrumado, em que a careta aflita do sorriso adquiria a sinuosidade<br \/>\n    repulsiva de umacicatriz. Um dos m\u00e9dicos, dobrado no colch\u00e3o do beliche, solu\u00e7ava<br \/>\n    aos arrancos empalpita\u00e7\u00f5es irregulares de motor de t\u00e1xi que se engasga, o<br \/>\n    outro contemplava os dedoscom a aten\u00e7\u00e3o vazia dos rec\u00e9m-nascidos ou dos idiotas<br \/>\n    que lambem longamente asunhas com os olhos extasiados, e eu perguntava a mim<br \/>\n    pr\u00f3prio o que faz\u00edamos ali,agonizantes em suspenso no ch\u00e3o de m\u00e1quina de costura<br \/>\n    do navio, com Lisboa a afogarsena dist\u00e2ncia num suspiro derradeiro de hino.<br \/>\n    Subitamente sem passado, com o portachavese a medalha de Salazar no bolso,<br \/>\n    de p\u00e9 entre a banheira e o lavat\u00f3rio de quartode bonecas atarraxados \u00e0 parede,<br \/>\n    sentia-me como a casa dos meus pais no Ver\u00e3o, semcortinas, de tapetes enrolados<br \/>\n    em jornais, m\u00f3veis encostados aos cantos cobertos degrandes sud\u00e1rios poeirentos,<br \/>\n    as pratas emigradas para a copa da av\u00f3, e o gigantesco ecodos passos de ningu\u00e9m<br \/>\n    nas salas desertas. Como quando se tosse nas garagens \u00e0 noite,pensei, e se<br \/>\n    sente o peso insuport\u00e1vel da pr\u00f3pria solid\u00e3o, nas orelhas, sob a forma deestampidos<br \/>\n    reboantes, id\u00eanticos ao pulsar das t\u00eamporas no tambor do travesseiro.<\/p>\n<p>Ao segundo dia alcan\u00e7amos a Madeira, bolo-rei enfeitado de vivendascristalizadas<br \/>\n    a flutuar na bandeja de lou\u00e7a azul do mar, Alenquer \u00e0 deriva no sil\u00eancio datarde.<br \/>\n    A orquestra do navio resfolegava boleros para os oficiais melanc\u00f3licos comocorujas<br \/>\n    na aurora, e do por\u00e3o onde os soldados se comprimiam subia um bafo espessode<br \/>\n    vomitado, odor para mim esquecido desde os meios-dias remotos da inf\u00e2ncia,quando<br \/>\n    na cozinha, \u00e0 hora das refei\u00e7\u00f5es, se agitavam \u00e0 volta da minha sopa relutante<br \/>\n    ascaretas alternadamente persuasivas e amea\u00e7adoras da fam\u00edlia, sublinhando<br \/>\n    cada colhercom uma salva de palmas festiva, at\u00e9 que algu\u00e9m mais atento gritava:<\/p>\n<p>&#8211; Cantem o Papagaio Loiro que o mi\u00fado est\u00e1 a puxar o v\u00f4mito.<\/p>\n<p>Em resposta a este aviso terr\u00edvel, todos aqueles adultos desatavam a desafinarem<br \/>\n    un\u00edssono como no naufr\u00e1gio do Titanic, de bei\u00e7os arrepiados sobre os dentes<br \/>\n    deouro, uma criada batia tampas de tacho a compasso, o jardineiro fingia marchar<br \/>\n    devassoura ao ombro, e eu devolvia ao prato um rold\u00e3o de massa e arroz que<br \/>\n    meobrigavam a reengolir, desta vez sem coro, sibilando em voz baixa insultos<br \/>\n    furibundos.Agora, percebe, estendido no conv\u00e9s numa cadeira de repouso, a<br \/>\n    sentir no progressivosuor do colarinho a implac\u00e1vel metamorfose do Inverno<br \/>\n    de Lisboa no Ver\u00e3o gelatinosodo Equador, mole e quente como as m\u00e3os do senhor<br \/>\n    Melo, barbeiro do av\u00f4, no meupesco\u00e7o, na loja da Rua 1\u00ba de Dezembro, onde<br \/>\n    a umidade multiplicava o cromado dastesouras nos espelhos canhotos, o que<br \/>\n    com mais veem\u00eancia me apetecia era que, talcomo nesses tempos recuados, a<br \/>\n    Gija me viesse co\u00e7ar as costas estreitas de menino numvagar feito da paci\u00eancia<br \/>\n    da ternura, at\u00e9 eu adormecer de sonhos lavrados pelo ancinhodos seus dedos<br \/>\n    apaziguadores, capazes de me expulsarem do corpo os fantasmasdesesperados<br \/>\n    ou aflitos que o habitam.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"3\">C<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Luanda come\u00e7ou por ser um pobre cais sem majestade cujos armaz\u00e9nsondulavam<br \/>\n    na umidade e no calor. A \u00e1gua assemelhava-se a creme solar turvo a luzirsobre<br \/>\n    pele suja e velha que cordas podres sulcavam de veias ao acaso. Negrosdesfocados<br \/>\n    no excesso de claridade tr\u00eamula acocoravam-se em pequenos grupos,observando-nos<br \/>\n    com a distra\u00e7\u00e3o intemporal, ao mesmo tempo aguda e cega, que seencontra nas<br \/>\n    fotografias que mostram os olhos voltados para dentro de John Coltranequando<br \/>\n    sopra no saxofone a sua doce amargura de anjo b\u00eabedo, e eu imaginava adiantesdos<br \/>\n    bei\u00e7os grossos de cada um daqueles homens um trompete invis\u00edvel, pronto a<br \/>\n    subirverticalmente no ar denso como as cordas dos faquires. P\u00e1ssaros brancos<br \/>\n    e magrosdissolviam-se nas palmeiras da ba\u00eda ou nas casas de madeira da Ilha<br \/>\n    ao longe,submersas de arbustos e de insetos, nas quais putas cansadas por<br \/>\n    todos os homens semternura de Lisboa ali vinham beber os \u00faltimos champanhes<br \/>\n    de gasosa, \u00e0 maneira debaleias agonizantes ancoradas numa praia final, movendo<br \/>\n    de tempos a tempos as ancasao tirmo de pasodoble de uma ang\u00fastia indecifr\u00e1vel.<br \/>\n    Alferes pequeninos e de \u00f3culos,com ar competente de estudantes-trabalhadores<br \/>\n    escrupulosos, pastorearam-nos aossaltinhos na dire\u00e7\u00e3o de carruagens de gado<br \/>\n    que aguardavam num pont\u00e3o coberto dedetritos e de limos, pont\u00e3o da Cruz Quebrada,<br \/>\n    lembra-se, onde os esgotos morremestendidos aos p\u00e9s da cidade, c\u00e3es idosos<br \/>\n    que bolsam no capacho v\u00f4mitos de lixo: emtoda a parte do mundo a que aportamos<br \/>\n    vamos assinalando a nossa presen\u00e7a aventureiraatrav\u00e9s de padr\u00f5es manuelinos<br \/>\n    e de latas de conserva vazias, numa sutil combina\u00e7\u00e3o deescorbuto heroico e<br \/>\n    de folha-de-flandres ferrugenta. Sempre apoiei que se erguesse emqualquer<br \/>\n    pra\u00e7a adequada do Pa\u00eds um monumento ao escarro, escarro-busto, escarromarechal,escarro-poeta,<br \/>\n    escarr-homem de Estado, escarro-equestre, algo que contribua,no futuro, para<br \/>\n    a perfeita defini\u00e7\u00e3o do perfeito portugu\u00eas: gabava-se de fornicar eescarrava.<br \/>\n    Quanto \u00e0 filosofia, minha cara amiga, basta-nos o artigo de fundo do jornal,t\u00e3o<br \/>\n    rico de ideias como o deserto do Gobi de esquim\u00f3s. De modo que, de c\u00e9rebroexaurido<br \/>\n    por racioc\u00ednios complicados, tomamos ampolas beb\u00edveis \u00e0s refei\u00e7\u00f5es a fim deconseguir<br \/>\n    pensar.<\/p>\n<p>Apetece-lhe outro drambuie? Falar em ampolas beb\u00edveis d\u00e1-me sempre sede del\u00edquidos<br \/>\n    xaroposos, amarelos, na esperan\u00e7a insensata de descobrir, por interm\u00e9dio delese<br \/>\n    da suave e jovial tontura que me proporcionam o segredo da vida e das pessoas,<br \/>\n    aquadratura do c\u00edrculo das emo\u00e7\u00f5es. Por vezes, ao sexto ou s\u00e9timo c\u00e1lice,<br \/>\n    sinto quequase o consigo, que estou prestes a consegui-lo, que as pin\u00e7as canhestras<br \/>\n    do meuentendimento v\u00e3o colher, numa cautela cir\u00fargica, o delicado n\u00facleo do<br \/>\n    mist\u00e9rio, maslogo de imediato me afundo no j\u00fabilo informe de uma idiotia pastosa<br \/>\n    a que me arrancono dia seguinte, a golpes de aspirina e sais de frutos, para<br \/>\n    trope\u00e7ar nos chinelos acaminho do emprego, carregando comigo a opacidade irremedi\u00e1vel<br \/>\n    da minha exist\u00eancia,t\u00e3o densa de um lodo de enigmas como pasta de a\u00e7\u00facar na<br \/>\n    ch\u00e1vena matinal. Nunca lheaconteceu isto, sentir que est\u00e1 perto, que vai lograr<br \/>\n    num segundo a aspira\u00e7\u00e3o adiada eeternamente perseguida anos a fio, o projeto<br \/>\n    que \u00e9 ao mesmo tempo o seu desespero e asua esperan\u00e7a, estender a m\u00e3o para<br \/>\n    agarr\u00e1-lo numa alegria incontrol\u00e1vel e tombar, des\u00fabito, de costas, de dedos<br \/>\n    cerrados sobre nada, \u00e0 medida que a aspira\u00e7\u00e3o ou o projetose afastam tranquilamente<br \/>\n    de si no trote mi\u00fado da indiferen\u00e7a, sem a fitarem sequer?Mas talvez que voc\u00ea<br \/>\n    n\u00e3o conhe\u00e7a essa esp\u00e9cie horrorosa de derrota, talvez que ametaf\u00edsica constitua<br \/>\n    apenas para si um inc\u00f4modo t\u00e3o passageiro como uma comich\u00e3oef\u00eamera, talvez<br \/>\n    que a habite a jubilosa leveza dos botes ancorados, balou\u00e7ando devagarnuma<br \/>\n    cad\u00eancia aut\u00f4noma de ber\u00e7os. Uma das coisas, ali\u00e1s, que me encanta em si,<br \/>\n    permita-me que lho afirme, \u00e9 a inoc\u00eancia, n\u00e3o a inoc\u00eancia inocente das crian\u00e7as<br \/>\n    e dospol\u00edcias, feita de uma esp\u00e9cie de virgindade interior obtida \u00e0 custa<br \/>\n    da credulidade ou daestupidez, mas a inoc\u00eancia s\u00e1bia, resignada, quase vegetal,<br \/>\n    diria, dos que aguardam dosoutros e deles pr\u00f3prios o mesmo que voc\u00ea e eu,<br \/>\n    aqui sentados, esperamos do empregadoque se dirige para n\u00f3s chamado pelo meu<br \/>\n    bra\u00e7o no ar de bom aluno cr\u00f4nico: uma vagaaten\u00e7\u00e3o distra\u00edda e o absoluto desd\u00e9m<br \/>\n    pela magra gorjeta da nossa gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>O comboio cheio de malas e do receio t\u00edmido de estrangeiros em terradesconhecida,<br \/>\n    cuja lusitanidade se nos afigurava t\u00e3o problem\u00e1tica como a honestidadede um<br \/>\n    ministro, rolou do cais para os musseques num gingar inchado de pombo. Amis\u00e9ria<br \/>\n    colorida dos bairros que cercavam Luanda, as coxas lentas das mulheres, asgordas<br \/>\n    barrigas de fome das crian\u00e7as im\u00f3veis nos taludes a olharem-nos, arrastando<br \/>\n    poruma guita brinquedos irris\u00f3ris, principiaram a acordar em mim um sentimento<br \/>\n    esquisitode absurdo, cujo desconforto persistente vinha sentindo desde a partida<br \/>\n    de Lisboa, nacabe\u00e7a ou nas tripas, sob a forma f\u00edsica de uma afli\u00e7\u00e3o inlocaliz\u00e1vel,<br \/>\n    afli\u00e7\u00e3o que um dospadres presentes no navio parecia compartilhar comigo, afadigado<br \/>\n    em encontrar nobrevi\u00e1rio justifica\u00e7\u00f5es b\u00edblicas para massacres de inocentes.<br \/>\n    Encontr\u00e1vamo-nos \u00e0svezes, \u00e0 noite, na amurada, ele de livro em punho e eu<br \/>\n    de m\u00e3os nos bolsos, para fitar asmesmas ondas negras e opacas em que reflexos<br \/>\n    ocasionais (de que luzes? de queestrelas? de que gigantescas pupilas?) saltavam<br \/>\n    como peixes, como se busc\u00e1ssemos,naquela escura extens\u00e3o horizontal que as<br \/>\n    h\u00e9lices do barco aravam, uma esclarecedoraresposta a inquieta\u00e7\u00f5es informuladas.<br \/>\n    Perdi esse padre de vista (uma das minhas sinas,ali\u00e1s, consiste em perder<br \/>\n    rapidamente de vista todos os padres e todas as mulheres queencontro) mas<br \/>\n    recordo com a nitidez de um pesadelo infantil a sua careta de No\u00e9perplexo,<br \/>\n    embarcado \u00e0 for\u00e7a numa arca de bichos com c\u00f3licas, que arrancaram \u00e0sflorestas<br \/>\n    natais das suas reparti\u00e7\u00f5es, das suas mesas de bilhar e dos seus clubesrecreativos,<br \/>\n    para os lan\u00e7ar, em nome de ideais veementes e imbecis, em dois anos deang\u00fastia,<br \/>\n    de inseguran\u00e7a e de morte. Acerca da veracidade desta \u00faltima, de resto, n\u00e3osobejavam<br \/>\n    d\u00favidas: grandes caix\u00f5es repletos de f\u00e9retros ocupavam uma parte do por\u00e3o,e<br \/>\n    o jogo, um pouco macabro, consistia em tentar adivinhar, observando os rostos<br \/>\n    dosoutros e o nosso pr\u00f3prio, os seus habitantes futuros. Aquele? Eu? Ambos?<br \/>\n    O majorgordo l\u00e1 ao fundo a conversar com o alferes de transmiss\u00f5es? Sempre<br \/>\n    que se examinamexageradamente as pessoas elas come\u00e7am a adquirir, insensivelmente,<br \/>\n    n\u00e3o um aspectofamiliar mas um perfil p\u00f3stumo, que a nossa fantasia do desaparecimento<br \/>\n    delasdignifica. A simpatia, a amizade, um certa ternura at\u00e9, tornam-se mais<br \/>\n    f\u00e1ceis, acomplac\u00eancia surge sem custo, a idiotia ganha a sedu\u00e7\u00e3o am\u00e1vel da<br \/>\n    ingenuidade. Nofundo, claro, \u00e9 a nossa pr\u00f3pria morte que tememos na viv\u00eancia<br \/>\n    da alheia e \u00e9 em facedela e por ela que nos tornamos submissamente cobardes.<\/p>\n<p>N\u00e3o quer passar ao vodka? Enfrenta-se melhor o espectro da agonia com al\u00edngua<br \/>\n    e o est\u00f4mago a arder, e esse tipo de \u00e1lcool de lamparina que cheira a perfume<br \/>\n    detia-av\u00f3 possui a ben\u00e9fica virtude de me incendiar a gastrite e, em consequ\u00eancia,<br \/>\n    subir on\u00edvel da coragem: nada como a azia para dissolver o medo ou antes,<br \/>\n    se preferir, paratransformar o nosso passivo ego\u00edsmo habitual num estrebuchar<br \/>\n    impetuoso, n\u00e3o muitodiverso na esse\u00eancia mas pelo menos mais ativo: o segredo<br \/>\n    da famosa \u00falcera deNapole\u00e3o, percebe?, a chave que elucida Wagram e Austerlitz.<br \/>\n    E estes pires de coisaspequeninas, venenosas e salgadas, que o imperador nunca<br \/>\n    provou decerto, percorrer\u00e3oos nossos intestinos como pedrinhas de soda c\u00e1ustica<br \/>\n    capazes de nos atirarem, a favorda guinada de uma c\u00f3lica, para as mais loucas<br \/>\n    ou doces aventuras. Quem sabe seacabaremos a noite a fazer amor um com o outro,<br \/>\n    furibundos como rinocerontes comdores de dentes, at\u00e9 a manh\u00e3 aclarar lividamente<br \/>\n    os len\u00e7\u00f3is desfeitos pelas nossasmarradas de desespero? Os vizinhos do andar<br \/>\n    de baixo cuidar\u00e3o, at\u00f4nitos, que trouxe para casa dis paquidermes que se entredevoram<br \/>\n    num concerto de guinchos de \u00f3dio e departo, e quem sabe se tal novidade despertar\u00e1<br \/>\n    neles humores h\u00e1 muito tempoadormecidos, e os leve a engancharem-se \u00e0 maneira<br \/>\n    das pe\u00e7as desses puzzles japonesesimposs\u00edveis de separar, a n\u00e3o ser pela infinita<br \/>\n    paci\u00eancia de um cirurgi\u00e3o ou a facaexpedita de um capador definitivo. \u00c9 capaz<br \/>\n    de levar o pequeno-almo\u00e7o \u00e0 cama a cheirarj\u00e1 a dent\u00edfrico Binaca e a otimismo?<br \/>\n    De assobiar pelos incisivos como os padeiros deantigamente, anjos enfarinhados<br \/>\n    de cesto ao ombro que substitu\u00edam as corujas cansadasdos guarda-noturnos,<br \/>\n    e cuja recorda\u00e7\u00e3o constitui uma das menos melanc\u00f3licas fatias dasminhas lembran\u00e7as<br \/>\n    de inf\u00e2ncia? \u00c9 capaz de amar? Desculpe, a pergunta \u00e9 tola, todas asmulheres<br \/>\n    s\u00e3o capazes de amar e as que o n\u00e3o s\u00e3o amam-se a si pr\u00f3prias atrav\u00e9s dosoutros,<br \/>\n    o que na pr\u00e1tica, e pelo menos nos primeiros meses, \u00e9 quase indistingu\u00edvel<br \/>\n    doafeto genu\u00edno. N\u00e3o fa\u00e7a caso, o vinho segue o seu curso e daqui a nada pe\u00e7o-lhe<br \/>\n    paracasar comigo: \u00e9 o costume. Quando estou muito s\u00f3 ou bebi em excesso, um<br \/>\n    ramalhetede flores de cera de projetos conjugais desata a crescer em mim \u00e0<br \/>\n    maneira do bolor nosarm\u00e1rios fechados, e torno-me paegajoso, vulner\u00e1vel, piegas<br \/>\n    e totalmente d\u00e9bil; \u00e9 omomento, aviso-a, de se retirar \u00e0 sorrelfa com uma<br \/>\n    desculpa qualquer, de se meter nocarro num suspiro de al\u00edvio, de telefonar<br \/>\n    depois do cabeleireiro \u00e0s amigas a narrar-lhesentre risos as minhas propostas<br \/>\n    sem imagina\u00e7\u00e3o. No entanto e at\u00e9 l\u00e1, se n\u00e3o v\u00eainconveniente, aproximo um pouco<br \/>\n    mais a minha cadeira e acompanho-a durante umcopo ou dois.<\/p>\n<p>O comboio que fugiu conosco daquela Cruz Quebrada africana e da sua coroa<br \/>\n    deguindastes oxidados e gaivotas pernaltas acabou por depositar-nos numa esp\u00e9cie<br \/>\n    dequartel ao largo de Luanda, casernas de cimento a arderem no calor, onde<br \/>\n    o suorcrepitava na pele como bolhas de fervura. Nos alojamentos dos oficiais,<br \/>\n    cercados debananeiras de grandes folhas franjdas id\u00eanticas a asas de arcanjos<br \/>\n    em ru\u00edna, osmosquitos atravessavam a rede das janelas para produzirem no escuro,<br \/>\n    em conjunto, umrumor insistente e agudo em que o meu sangue, sorvido em bochechos<br \/>\n    r\u00e1pidos efinalmente liberto de mim, cantava. L\u00e1 fora, um c\u00e9u de estrelas desconhecidassurpreendia-me:<br \/>\n    assaltava-me por vezes a impress\u00e3o de que haviam sobreposto umuniverso falso<br \/>\n    ao meu universo habitual, e que me bastaria romper com os dedos essecen\u00e1rio<br \/>\n    fr\u00e1gil e ins\u00f3lito para reingressar de novo no quotidiano do costume, povoado<br \/>\n    derostos familiares e de cheiros que me acompanhavam com a fidelidade dos<br \/>\n    cachorros.Jant\u00e1vamos na cidade em esplanadas s\u00f3rdidas repletas de soldados,<br \/>\n    entre cujos joelhoscirculavam de c\u00f3coras engraxadores miser\u00e1veis, lan\u00e7ando-lhes<br \/>\n    \u00e0s botas soslaiosveementes de paix\u00e3o, ou indiv\u00edduos sem pernas que estendiam<br \/>\n    timidamente manipan\u00e7osesculpidos a canivete, equivalentes \u00e0s Torres de Bel\u00e9m<br \/>\n    de pl\u00e1stico do meu pa\u00eds natal.Sujeitos brancos sebentos, de pasta sob o bra\u00e7o,<br \/>\n    trocavam dinheiro portugu\u00eas pordinheiro angolano num vagar sabido de agiotas;<br \/>\n    ruas, que se pareciam todas com aMorais Soares, aproximavam-se e afastavam-se<br \/>\n    num labirinto atrapalhado a caminho dafortaleza; n\u00e9on provinciano espalhava-se<br \/>\n    nos passeios em po\u00e7as piscas de estrabismoalarajando. Ancorado na ba\u00eda, o<br \/>\n    navio que nos trouxera duplicava o reflexo na \u00e1guapreparando a partida: ia<br \/>\n    regressar sem mim ao Inverno e ao nevoeiro de Lisboa ondetudo prosseguia irritantemente<br \/>\n    na minha aus\u00eancia com o ritmo do costume, permitindomeimaginar, despeitado,<br \/>\n    o que se seguiria de modo inevit\u00e1vel \u00e0 minha morte e que era,afinal, o prolongamento<br \/>\n    da indiferen\u00e7a morna e neutra, sem entusiasmo nem trag\u00e9dias,que eu t\u00e3o bem<br \/>\n    conhecia, feita de dias cosidos uns aos outros numa f\u00fanebre burocraciadesprovida<br \/>\n    de inquieta\u00e7\u00f5es de labareda. Acredita nos sobressaltos, nos grandes lances,nos<br \/>\n    terramotos interiores, nos voos planados de \u00eaxtase? Desengane-se, minha cara,<br \/>\n    tudon\u00e3o passa de uma mistifica\u00e7\u00e3o \u00f3tica, de um engenhoso jogo de espelhos,<br \/>\n    de uma meramaquina\u00e7\u00e3o de teatro sem mais realidade que a cartolina e o celofane<br \/>\n    do cen\u00e1rio que a enformam e a for\u00e7a da nossa ilus\u00e3o a conferir-lhe uma apar\u00eancia<br \/>\n    de movimento. Comoeste bar e os seus candeeiros Arte Nova de gosto duvidoso,<br \/>\n    os seus habitantes decabe\u00e7as juntas segredando-se banalidades deliciosas na<br \/>\n    euforia suave do \u00e1lcool, am\u00fasica de fundo a conferir aos nossos sorrisos a<br \/>\n    misteriosa profundidade dossentimentos que n\u00e3o possu\u00edmos nunca; mais meia<br \/>\n    garrafa e cuidar-nos-\u00edamos Vermeer,t\u00e3o h\u00e1beis como ele para traduzir, atrav\u00e9s<br \/>\n    da simplicidade dom\u00e9stica de um gesto, atocante e inexprim\u00edvel amargura da<br \/>\n    nossa condi\u00e7\u00e3o. A proximidade da morte torna-nosmais avisados ou, pelo menos,<br \/>\n    mais prudentes: em Luanda, \u00e0 espera de seguir dentro dedias para a zona de<br \/>\n    combate, troc\u00e1vamos com vantagem a metaf\u00edsica pelos cabar\u00e9ssafados da ilha,<br \/>\n    um pega de cada lado, o balde de espumante Raposeira \u00e0 frente, e apequena<br \/>\n    vesga do strip-tease a despir-se no palco no mesmo alheamento cansado comque<br \/>\n    uma cobra velha muda de pele. Acordei algumas vezes em quartos de pens\u00e3omanhosa<br \/>\n    sem haver entendido sequer como para l\u00e1 entrara, e vesti-me em sil\u00eanciobuscando<br \/>\n    os sapatos sob um soutien de rendinhas pretas no intuito de n\u00e3o perturbar<br \/>\n    osono de um vulto qualquer enrolado nos len\u00e7\u00f3is, e de que percebia somente<br \/>\n    a massaconfusa dos cabelos. De fato, e consoante as profecias da fam\u00edlia,<br \/>\n    tornara-me umhomem: uma esp\u00e9cie de avidez triste e c\u00ednica, feita de desesperan\u00e7a<br \/>\n    c\u00fapida, de ego\u00edsmo,e da pressa de me esconder de mim pr\u00f3prio, tinha substitu\u00eddo<br \/>\n    para sempre o fr\u00e1gilprazer da alegria infantil, do riso sem reservas nem subentendidos,<br \/>\n    embalsamado depureza, e que me parece escutar, sabe?, de tempos a tempos,<br \/>\n    \u00e0 noite, ao voltar para casa,numa rua deserta, ecoando nas minhas costas numa<br \/>\n    cascata de tro\u00e7a.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"4\">D<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o me d\u00f3i nada, talvez um pouco a cabe\u00e7a, uma insignific\u00e2ncia, umaimpress\u00e3o,<br \/>\n    uma tontura. Este rumor mon\u00f3tono de conversa, estes odores misturados, asfei\u00e7\u00f5es<br \/>\n    que se desarrumam e se deslocam no ato de falar atordoam-me: n\u00e3o conhe\u00e7oningu\u00e9m,<br \/>\n    n\u00e3o possuo o h\u00e1bito destes tenplos ex\u00f3ticos em que se sacrificam n\u00e3o j\u00e1v\u00edsceras<br \/>\n    de animais mas o pr\u00f3prio f\u00edgado, modernas catacumbas a que as l\u00e2mpadasvotivas<br \/>\n    das luzes raras e o murm\u00fario de reza das conversas conferem uma tonalidade<br \/>\n    dereligi\u00e3o sacr\u00edlega de que o barman \u00e9 o bezerro de oiro, im\u00f3vel atr\u00e1s do<br \/>\n    altar-mor dobalc\u00e3o, cercado pelos di\u00e1conos dos frequentadores do costume,<br \/>\n    que erguem em seulouvor black-velvets rituais. As cruzes do timol substituem<br \/>\n    os crucifixos, jejuamos pelaP\u00e1scoa a fim de baixar as gorduras do sangue,<br \/>\n    comungamos aos domingos vitaminaspurificadoras, confessamos ao grupanalista<br \/>\n    os atropelos \u00e0 castidade, e recebemos depenit\u00eancia a sua conta mensal; nada<br \/>\n    mudou, como v\u00ea, salvo que nos consideramos ateusporque, em lugar de batermos<br \/>\n    com a m\u00e3o no peito, bate o m\u00e9dico por n\u00f3s com odiafragma do estetosc\u00f3pio.<br \/>\n    Sinto-me aqui, percebe, como sentia em pequeno o meu paina igreja, nas missas<br \/>\n    pelos defuntos da fam\u00edlia onde chegava invariavelmente a meio,plantado junto<br \/>\n    \u00e0 pia de \u00e1gua benta, de m\u00e3os atr\u00e1s das costas, Robespierre de canadiana adesafiar<br \/>\n    as caixas das esmolas e os olhos de barro triste dos santos. Perten\u00e7o sem<br \/>\n    d\u00favidaa outro s\u00edtio, n\u00e3o sei bem qual, ali\u00e1s, mas suponho que t\u00e3o recuado<br \/>\n    no tempo e noespa\u00e7o que jamais o recuperarei, talvez que ao Jardim Zool\u00f3gico<br \/>\n    de dantes e aoprofessor preto a deslizar para tr\u00e1s no rinque de patinagem<br \/>\n    sob as \u00e1rvores, entre osguinchos dos bichos e a campainha do vendedor de gelados.<br \/>\n    Se eu fosse girafa am\u00e1-la-iaem sil\u00eancio, fitando-a de cima da rede numa melancolia<br \/>\n    de guindaste, am\u00e1-la-ia com oamor desajeitado dos exageradamente altos, mastigando<br \/>\n    o chiclets de uma folhapensativa, ciumento dos ursos, dos papa-formigas, dos<br \/>\n    ornitorrincos, das catatuas e dos crocodilos, e desceria trabalhosamente o<br \/>\n    pesco\u00e7o pelas roldanas dos tend\u00f5es paraesconder a cabe\u00e7a no seu peito em tr\u00eamulas<br \/>\n    marradas de ternura. Porque, deixe-meconfidenciar-lho, sou terno, sou terno<br \/>\n    mesmo antes do sexto JB sem \u00e1gua ou do oitavodrambuie, sou estupidamente e<br \/>\n    submissamente terno como um c\u00e3o doente, um dessesc\u00e3es implorativos de \u00f3rbitas<br \/>\n    demasiado humanas que de quando em quando, na rua, semmotivo, nos colam o<br \/>\n    focinho aos calcanhares gemendo torturadas paix\u00f5es de escravo,que acabamos<br \/>\n    por sacudir o pontap\u00e9 e se afasta, a solu\u00e7ar, decerto, interiormentesonetos<br \/>\n    de almanaque, chorando l\u00e1grimas de violetas murchas. Duas coisas, minha boaamiga,<br \/>\n    continuo a partilhar com a classe de que venho, desapontando o poster doGuevara,<br \/>\n    esse Carlos Gardel da Revolu\u00e7\u00e3o, que pendurei sobre a cama a fim de que meproteja<br \/>\n    dos pesadelos burgueses, e que funciona um pouco para mim como uma esp\u00e9ciede<br \/>\n    joia magn\u00e9tica Vitaphor da alma: a emo\u00e7\u00e3o f\u00e1cil que me faz fungar diante datelevis\u00e3o<br \/>\n    da leitaria \u00e0 hora da novela, e o medo arrepiado do rid\u00edculo. O que eu gostava,por<br \/>\n    exemplo,de conseguir, sem ostenta\u00e7\u00e3o nem vergonha, coroar a minha calv\u00edcienascente<br \/>\n    de um chap\u00e9u tirol\u00eas de pena. Ou de deixar crescer a unha do dedo m\u00ednimo.Ou<br \/>\n    de entalar um bilhete de el\u00e9trico dobrado na alian\u00e7a. Ou de atender os meus<br \/>\n    doentesvestido de palha\u00e7o pobre. Ou de lhe oferecer o meu retrato em cora\u00e7\u00e3o<br \/>\n    de esmalte paravoc\u00ea usar quando for gorda, porque ser\u00e1 gorda um dia, descanse,<br \/>\n    todos n\u00f3s seremosgordos, gordos, gordos e tranquilos, como gatos capados \u00e0<br \/>\n    espera da morte nas matin\u00e9esdo Odeon.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, na \u00e9poca de que lhe falo eu tinha cabelo, bastante cabelo, enfim,<br \/>\n    algumcabelo se bem que aparado regularmente curto e escondido dentro do pires<br \/>\n    da boinamilitar, e descia de Luanda a caminho de Nova Lisboa na dire\u00e7\u00e3o da<br \/>\n    guerra, atrav\u00e9s deinacredit\u00e1veis horizontes sem limites. Entenda-me: sou homem<br \/>\n    de um pa\u00eds estreito evelho, de uma cidade afogada de casas que se multiplicam<br \/>\n    e refletem umas \u00e0s outras nasfrontarias de azulejo e nos ovais dos lagos,<br \/>\n    e a ilus\u00e3o de espa\u00e7o que aqui conhe\u00e7o,porque o c\u00e9u \u00e9 feito de pombos pr\u00f3ximos,<br \/>\n    consiste numa magra fatia de rio que osgumes de duas esquinas apertam, e o<br \/>\n    bra\u00e7o de um navegador de bronze atravessaobliquamente num \u00edmpeto heroico.<br \/>\n    Nasci e cresci num acanhado universo de croch\u00ea,croch\u00ea de tia-av\u00f3 e croch\u00ea<br \/>\n    manuelino, filigranaram-me a cabe\u00e7a na inf\u00e2ncia,habituaram-me \u00e0 pequenez do<br \/>\n    bibelot, proibiram-me o canto nono de Os Lus\u00edadas eensinaram-me desde sempre<br \/>\n    a acenar com o len\u00e7o em lugar de partir. Policiaram-me oesp\u00edrito, em suma,<br \/>\n    e reduziram-me a geografia aos problemas dos fusos, a c\u00e1lculoshor\u00e1rios de<br \/>\n    amanuense cuja caravela de aportar \u00e0s \u00cdndias se metamorfoseou numa mesade<br \/>\n    f\u00f3rmica com esponja em cima para molhar os selos e a l\u00edngua. J\u00e1 lhe aconteceusonhar<br \/>\n    de cotovelos apoiados num desses tampos horr\u00edveis e acabar o dia num terceiroandar<br \/>\n    de Campo de Ourique ou da P\u00f3voa de Santo Adri\u00e3o, a ouvir crescer a pr\u00f3priabarba<br \/>\n    nos ser\u00f5es vazios? J\u00e1 sofreu a morte quotidiana de acordar todas as manh\u00e3s<br \/>\n    aolado de uma pessoa que mornamente se detesta? Irem os dois para o emprego<br \/>\n    no carro,olheirentos de sono, pesados j\u00e1 de decep\u00e7\u00e3o e cansa\u00e7o, ocos de palavras,<br \/>\n    desentimentos, de vida? Pois imagine que de repente, sem aviso, todo esse<br \/>\n    mundo emdiminutivo, toda essa teia de h\u00e1bitos tristes, toda essa reduzida<br \/>\n    melancolia de pisapap\u00e9isem que neva l\u00e1 dentro, em que neva monotonamente l\u00e1<br \/>\n    dentro, se evaporava, asra\u00edzes que a prendem a resigna\u00e7\u00f5es de almofada bordada<br \/>\n    desapareciam, os elos que aagarram a pessoas que a aborrecem se quebravam<br \/>\n    e voc\u00ea acordava numa camioneta, n\u00e3omuito confort\u00e1vel, \u00e9 certo, e cheia de<br \/>\n    tropas, \u00e9 verdade, mas circulando numa paisageminimagin\u00e1vel, onde tudo flutua,<br \/>\n    as cores, as \u00e1rvores, os gigantescos contornos dascoisas, o c\u00e9u abrindo e<br \/>\n    fechando escadarias de nuvens em que a vista trope\u00e7a at\u00e9 cair decostas, como<br \/>\n    um grande p\u00e1ssaro extasiado.<\/p>\n<p>De tempos a tempos, no entanto, Portugal reaparecia sob a forma de pequenaspovoa\u00e7\u00f5es<br \/>\n    \u00e0 beira da estrada, nas quais raros brancos transl\u00facidos de paludismotentavam<br \/>\n    desesperadamente recriar Moscavides perdidas, colando andorinhas de loi\u00e7anos<br \/>\n    intervalos das janelas ou pendurando lanternas de ferro forjado nos alpendres<br \/>\n    dasportas: quem levou s\u00e9culos a semear igrejas acaba inevitavelmente, por<br \/>\n    reflexo, acolocar jarras de flores de pl\u00e1stico no tampo dos frigor\u00edficos,<br \/>\n    do mesmo modo queTolstoi, agonizante, movia os dedos cegos no len\u00e7ol repetindo<br \/>\n    o ato de escrever, com adiferen\u00e7a de as nossas frases se resumirem a boas-vindas<br \/>\n    de azulejo e a palavras deacolhimento desbotado no capacho da entrada. At\u00e9<br \/>\n    que ao fim da tarde, um fim de tardesem crep\u00fasculo, com a noite a suceder-se<br \/>\n    abruptamente ao dia, chegamos a NovaLisboa, cidade ferrovi\u00e1ria no planalto,<br \/>\n    de que guardo uma confusa lembran\u00e7a de caf\u00e9sprovincianos e de montras poeirentas,<br \/>\n    e do restaurante onde jantamos, de espingardaentre os joelhos, obsevados por<br \/>\n    mulatos de \u00f3culos escuros parados diante de cervejasimemoriais, cujas fei\u00e7\u00f5es<br \/>\n    im\u00f3veis possu\u00edam a consist\u00eancia opaca das cicatrizes; durantetodo o bife senti-me<br \/>\n    como que no pref\u00e1cio do massacre de S. Valentim, prestes atiroteios de Lei<br \/>\n    Seca, e levava o garfo \u00e0 boca no aborrecimento mole de Al Capone,compondo<br \/>\n    nos espelhos sorrisos de crueldade manifesta; ainda hoje, sabe, saio docinema<br \/>\n    a acender o cigarro \u00e0 maneira de Humphrey Bogart, at\u00e9 que a vis\u00e3o da minhaimagem<br \/>\n    num vidro me desiluda: em vez de caminhar para os bra\u00e7os de Lauren Bacalldirijo-me<br \/>\n    de fato para a Picheleira, e a ilus\u00e3o desaba no fragor lancinante de um mitodesfeito.<br \/>\n    Meto a chava \u00e0 porta (Humphrey Bogart ou eu?), hesito, entro, olho a gravurado<br \/>\n    vest\u00edbulo (j\u00e1 definitivamente eu a olh\u00e1-la) e afundo-me no sof\u00e1 no suspiro<br \/>\n    de pneuque se esvazia de uma Gata Borralheira ao contr\u00e1rio. Como quando sair<br \/>\n    daqui, percebe,ao ter acabado de lhe contar esta hist\u00f3ria esquisita e de ter<br \/>\n    bebido, em vagares decamelo, todas as garrafas vis\u00edveis, e me achar l\u00e1 fora,<br \/>\n    ao frio, longe do seu sil\u00eancio e doseu sorriso, sozinho como um \u00f3rf\u00e3o, de<br \/>\n    m\u00e3os nos bolsos, a assistir ao nascer da manh\u00e3numa ang\u00fastia cremosa que a<br \/>\n    lividez das \u00e1rvores macabramente sublinha. Asmadrugadas, de resto, s\u00e3o o meu<br \/>\n    tormento, gordurosas, geladas, azedas, repletas deamargura e de rancor. Nada<br \/>\n    vive ainda e, todavia, uma amea\u00e7a indefin\u00edvel ganha corpo,aproxima-se, persegue-nos,<br \/>\n    incha-nos no peito, impede-nos de respirar livremente, aspregas do travesseiro<br \/>\n    petrificam-se, os m\u00f3veis, agudos, hostilizam-nos. As plantas dosvasos avan\u00e7am<br \/>\n    para n\u00f3s tent\u00e1culos sequiosos, do outro lado dos espelhos objetoscanhotos<br \/>\n    recusam-se aos dedos que lhes damos, os chinelos sumiram-se, o roup\u00e3o n\u00e3oexiste,<br \/>\n    e no interior de n\u00f3s, teimoso, insistente, dolorosamente lento, caminha estecomboio<br \/>\n    que atravessa Angola, de Nova Lisboa ao Luso, a transbordar de homensfardados<br \/>\n    que cabeceiam contra as janelas \u00e0 procura de um sono imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Conhece o general Machado? N\u00e3o, n\u00e3o se franza, n\u00e3o procure, ningu\u00e9m conheceo<br \/>\n    general Machado, cem em cada cem portugueses nunca ouviram falar do generalMachado,<br \/>\n    o planeta gira apesar desta ignor\u00e2ncia do general Machado, e eupessoalmentem<br \/>\n    odeio-o. Era o pai da minha av\u00f3 materna, a qual, aos domingos, antesdo almo\u00e7o,<br \/>\n    me apontava com orgulho a fotografia de uma esp\u00e9cie de bombeiroantip\u00e1tico<br \/>\n    de bigodes, dono de numerosas medalhas que tronavam no arm\u00e1rio de vidroda<br \/>\n    sala juntamente com outros trof\u00e9us guerreiros igualmente in\u00fateis, mas a que<br \/>\n    a fam\u00edliaparecia prestar uma venera\u00e7\u00e3o de rel\u00edquias. Pois fique sabendo que<br \/>\n    durante anos,aborrecido e pasmado, escutei semanalmente, em folhetins narrados<br \/>\n    pela vozemocionada da av\u00f3, as proezas vetustas do bombeiro elevadas na circunst\u00e2ncia<br \/>\n    a cumesde epopeia: o general Machado envenenou-me anos e anos o bife introduzinho<br \/>\n    na carneo mofo indigesto de uma dignidade hirta, cuja rigidez vitoriana me<br \/>\n    enjoava. E foiprecisamente esta criatura nefasta, de que as \u00f3rbitas globulosas<br \/>\n    de prefeito ou de curame reprovaram da parede, recusando-me mesmo a absolvi\u00e7\u00e3o<br \/>\n    d\u00fabia que paira como um halo nos sorrisos amarelos dos retratos antigos, que<br \/>\n    construiu, ou dirigiu a constru\u00e7\u00e3o,ou concebeu a constru\u00e7\u00e3o, ou concebeu e<br \/>\n    dirigiu a constru\u00e7\u00e3o do caminho de ferro emque segu\u00edamos, de rebenta-minas<br \/>\n    na dianteira, chocalhando numa plan\u00edcie sem princ\u00edpionem termo, mastigando<br \/>\n    as conservas da ra\u00e7\u00e3o de combate num desapetite em quemorava j\u00e1 o medo p\u00e2nico<br \/>\n    da morte, que durante vinte e sete meses cresceu na umidadedas minhas tripas<br \/>\n    os seus cogumelos esverdeados. Na messe de oficiais do Luso,esp\u00e9cie de Bairro<br \/>\n    da Madre de Deus de ruas geom\u00e9tricas e casas econ\u00f4micas plantadono planalto<br \/>\n    dos Bundas, no esp\u00edrito Portugal dos Pequeninos corporativo que fez doEstado<br \/>\n    Novo uma constante aberra\u00e7\u00e3o por defeito ou por excesso, vi, pela primeira<br \/>\n    vezem muito tempo, cortinas, c\u00e1lices, mulheres brancas e tapetes: a pouco<br \/>\n    e pouco aquilo aque durante tantos anos me habituara afastava-se de mim, fam\u00edlia,<br \/>\n    conforto, sossego, opr\u00f3prio prazer das ma\u00e7adas sem perigo, das melancolias<br \/>\n    mansas t\u00e3o agrad\u00e1veis quandonada nos falta, do t\u00e9dio \u00e0 Antonio Nobre nascido<br \/>\n    da cren\u00e7a convicta de umasuperioridade ilus\u00f3ria. Por exemplo, a tristeza depois<br \/>\n    do jantar substitu\u00eda as palavrascruzadas do jornal, e entretinha-me a preencher<br \/>\n    os quadradinhos em branco detrabalhosas elucubra\u00e7\u00f5es oscilando entre o idiota<br \/>\n    chapado e o vulgar profundo, limitesali\u00e1s entre os quais o pensamento lusitano<br \/>\n    se condensa, equivalentes metaf\u00edsicos dosversos dos cravos de papel. Compreenda-me:<br \/>\n    pertencemos a uma terra em que avivacidade faz as vezes do talento e onde<br \/>\n    a destreza ocupa o lugar da capacidadecriadora, e creio com frequ\u00eancia que<br \/>\n    n\u00e3o passamos de fato de d\u00e9beis mentaishabilidosos consertando os fus\u00edveis<br \/>\n    da alma \u00e0 custa de expedientes de arame. Inclusiveo estar aqui consigo talvez<br \/>\n    n\u00e3o passe de um expediente de arame que me salve da mar\u00e9baixade desespero<br \/>\n    que me amea\u00e7a, desespero de que n\u00e3o conhe\u00e7o a causa, percebe, eque \u00e0 noite<br \/>\n    me enrola no visco do seu lodo, me afoga de afli\u00e7\u00e3o e de receio, me molha<br \/>\n    obei\u00e7o de cima de um bigode de suor, me faz tremer os joelhos um contra o<br \/>\n    outro emcastanholas de dentadura posti\u00e7a de porteiro adormecido. N\u00e3o, a s\u00e9rio,<br \/>\n    o crep\u00fasculochega e o cora\u00e7\u00e3o acelera-se, palpo-o no pulso, as v\u00edsceras comprimem-se,<br \/>\n    a ves\u00edculad\u00f3i-me, os ouvidos zumbem, qualquer coisa de indefin\u00edvel e prestes<br \/>\n    a romper-se palpita,tenso, no meu peito: um dia destes, o porteiro d\u00e1 comigo<br \/>\n    estendido nu no ch\u00e3o da casade banho, um fio de pasta de dentes e de sangue<br \/>\n    ao canto da boca, as pupilassubitamente enorme contemplando nada, a cheirar<br \/>\n    mal, sem cor, inchado de gases. Voc\u00ea l\u00ea no jornal, n\u00e3o acredita, volta a ler,<br \/>\n    verifica o nome, a profiss\u00e3o, a idade, e passadasduas horas esqueceu-se e<br \/>\n    vir\u00e1 aqui, como de costume, ancorar o seu sil\u00eancio numaenseada de copos, tilintar<br \/>\n    em cada m\u00ednimo gesto as pulseiras indianas que recordamuma Londres m\u00edtica<br \/>\n    perdida no nevoeiro do passado, na \u00e9poca em que Bod Dylan falavae as pernas<br \/>\n    das vendedoras do Selfridges eram quase t\u00e3o atraentes como os sorrisos dos<br \/>\n    pol\u00edcias.<\/p>\n<p>Outro vodka? \u00c9 verdade que n\u00e3o acabei o meu mas neste passo da minhanarrativa<br \/>\n    perturbo-me invariavelmente, que quer, foi h\u00e1 seis anos e perturbo-me ainda:desc\u00edamos<br \/>\n    do Luso para as Terras do Fim do Mundo, em coluna, por picadas de areia,Lacusse,<br \/>\n    Luanguinga, as companhias independentes que protegiam a constru\u00e7\u00e3o daestrada,<br \/>\n    o deserto uniforme e feio do Leste, quimbos cercados de arame farpado emtorno<br \/>\n    dos pr\u00e9-fabricados dos quart\u00e9is, o sil\u00eancio de cemit\u00e9rio dos refeit\u00f3rios,<br \/>\n    casernasde zinco a apodrecer devagar, desc\u00edamos para as Terras do Fim do Mundo,<br \/>\n    a dois milquil\u00f4metros de Luanda, Janeiro acabava, chovia, e \u00edamos morrer,<br \/>\n    \u00edamos morrer echovia, chovia, sentado na cabina da camioneta, ao lado do condutor,<br \/>\n    de bon\u00e9 nos olhos,o vibrar de um cigarro infinito na m\u00e3o, iniciei a dolorosa<br \/>\n    aprendizagem da agonia.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"5\">E<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Gago Coutinho, a trezentos quil\u00f4metros ao sul do Luso e junto \u00e0 fronteira<br \/>\n    com aZ\u00e2mbia, era um mamilo de terra vermelha poeirenta entre duas chanas podres,<br \/>\n    umquartel, quimbos chefiados por sobas que o Governo Portugu\u00eas obrigava a<br \/>\n    fantasiascarnavalescas de estrelas e fitas rid\u00edculas, o posto da PIDE, a administra\u00e7\u00e3o,<br \/>\n    o caf\u00e9 doMete Lenha e a aldeia dos leprosos; uma vez por semana eu sacudia<br \/>\n    o badalo do sino decapela pendurado no meio de um c\u00edrculo de cubatas aparentemente<br \/>\n    desertas, no sil\u00eanciocarregado de ru\u00eddo que \u00c1frica tem quando se cala, e dezenas<br \/>\n    de larvas informesprincipiavam a surgir, manquejando, arrastando-se, trotando,<br \/>\n    dos arbustos, das \u00e1rvoresdas palhotas, dos contornos indecisos das sombras,<br \/>\n    larvas de Bosch de todas as idadesem cujos ombros se agitavam, como penas,<br \/>\n    franjas de farrapos, avan\u00e7ando para mim \u00e0maneira dos sapos monstruosos dos<br \/>\n    pesadelos das crian\u00e7as, a estenderem os cotosulcerados para os frascos de<br \/>\n    rem\u00e9dio. O senhor Jonat\u00e3o, o enfermeiro negro dadelega\u00e7\u00e3o de sa\u00fade nominal,<br \/>\n    que corria constantemente como os chineses do Tim-Tim,distribu\u00eda as pastilhas<br \/>\n    na majestade macabra de um ritual eucar\u00edstico para desenterradosvivos, alguns<br \/>\n    dos quais, j\u00e1 cegos, voltavam para ningu\u00e9m as \u00f3rbitas desabitadas,reduzidas<br \/>\n    a uma n\u00e9voa azul-\u00famida de muco repugnante. Mi\u00fados sem dedos, afligidosde moscas,<br \/>\n    agrupavam-se numa pinha muda de espanto, mulheres de fei\u00e7\u00f5es de g\u00e1rgulasegredavam-se<br \/>\n    di\u00e1logos que os c\u00e9us da boca em ru\u00edna tornavam numa pasta de gemidos,e eu<br \/>\n    pensava na ressurrei\u00e7\u00e3o da carne do catecismo, como peda\u00e7os de tripas e ergueremsedos<br \/>\n    buracos dos cemit\u00e9rios num despertar vagaroso de of\u00eddeos. Um pouco, percebe,como<br \/>\n    se toda esta gente p\u00e1lida que cochicha curvada em atitudes de feto, enrolando-semutuamente<br \/>\n    em torno das nucas os tent\u00e1culos sem ossos dos bra\u00e7os, sa\u00edsse de rold\u00e3o aporta<br \/>\n    do bar, n\u00e3o para a noite domesticada e c\u00famplice da Lapa, feita do ressonarconjunto<br \/>\n    de bassets e de condessas, mas para um dia excessivo iluminado pelo solvertical<br \/>\n    das salas de opera\u00e7\u00e3o dos ringues de boxe, que revelasse sem piedade asolheiras,<br \/>\n    as rugas, as pregas de cansa\u00e7o, a murchid\u00e3o dos seios, as express\u00f5es vazias<br \/>\n    quenenhum cognac mobila. O senhor Jonat\u00e3o, regiamente instalado numa cadeiradesconjuntada,<br \/>\n    absolvia de tintura de iodo as feridas que lhe ofereciam pincelando-as deextremas-un\u00e7\u00f5es<br \/>\n    expeditivas, in\u00fateis esconjuros contra a presen\u00e7a da morte, e eucirculava<br \/>\n    ao acaso de quimbo em quimbo assustando velhas esquel\u00e9ticas acocoradas \u00e0entrada<br \/>\n    das palhoras, e de que as saias, demasiado largas par as suas ancas de \u00edcones,<br \/>\n    seassemelhavam \u00e0s mangas de papel que embrulham as palhinhas de refresco.<br \/>\n    E havia ocheiro de decomposi\u00e7\u00e3o de mandioca a secar nas esteiras, a umidade,<br \/>\n    que se farejava noar, da chuva que crescia, excrementos secos como os cagalh\u00f5es<br \/>\n    de cart\u00e3o do Entrudo,ratos obesos remexendo o lixo, a chana horizontal ao<br \/>\n    longe atavessada por um riosinuoso e estreito como uma veia da m\u00e3o, e os morcegos<br \/>\n    a aguardarem o crep\u00fasculo nosvest\u00edgios de templo de Diana de uma casa de colono,<br \/>\n    afogada no capim sem cor doesquecimento.<\/p>\n<p>Gago Coutinho era tamb\u00e9m o caf\u00e9 do Mete Lenha, branco sopinha de massacujo<br \/>\n    esfor\u00e7o para falar o torcia de caretas de defeca\u00e7\u00e3o, casado com uma esp\u00e9cie<br \/>\n    debotija de gascidla enfeitada de colares estridentes, sempre a queixar-se<br \/>\n    aos oficiais dosbelisc\u00f5es com que os soldados lhe homenageavam as n\u00e1degas<br \/>\n    atl\u00e2nticas, dif\u00edceis, ali\u00e1s,de discernir numa mulher aparentada a um imenso<br \/>\n    gl\u00fateo rolando em que mesmo asbochechas possu\u00edam qualquer coisa de anal e<br \/>\n    o nariz se aparentava a a incha\u00e7oinc\u00f4modo de hemorroida, caf\u00e9 para refrescos<br \/>\n    inocentes nas t\u00e3o compridas tarde dedomingo, e onde pela primeira vez o tenente,<br \/>\n    confidencial, abriu a carteira para memostrar a fotografia da criada, e revelou,<br \/>\n    recostando-se para tr\u00e1s no assento de ferro por demais ex\u00edguo para as duas<br \/>\n    omoplatas enormes, o produto sint\u00e9tico das medita\u00e7\u00f5es de uma vida:<\/p>\n<p>&#8211; Sopeira em que o patr\u00e3o n\u00e3o se ponha nunca chega a criar amor \u00e0 casa.<\/p>\n<p>No edif\u00edcio sinistro do hospital civil, id\u00eantico a uma pens\u00e3o de prov\u00ednciamoribunda<br \/>\n    de paredes empoladas por fur\u00fanculos de umidade, os doentes de paludismoestremeciam<br \/>\n    de febre nos degraus da entrada, no corredor, na sala de consulta, nocub\u00edculo<br \/>\n    destinado \u00e0s inje\u00e7\u00f5es, \u00e0 espera das ampolas de quinino na tranquilidadeimemorial<br \/>\n    dos negros, para quem o tempo, a dist\u00e2ncia e a vida possuem umaprofundeza<br \/>\n    e um significado imposs\u00edveis de explicar a quem nasceu entre t\u00famulos deinfantas<br \/>\n    e despertadores de folha, aguilhoado por datas de batalhas, mosteiros e rel\u00f3giosde<br \/>\n    ponto. Diante da secret\u00e1ria, espessa como um bunker, \u00e0 qual instalava a minhaci\u00eancia<br \/>\n    de manual, a mis\u00e9ria e a fome desfilavam manh\u00e3 fora na serenidade mon\u00f3tonada<br \/>\n    chuva de Setembro, e a \u00fanica resposta que a minha impot\u00eancia me permitia eram<br \/>\n    aspastilhas de vitamina da tropa ado\u00e7adas por um sorriso de desculpa e de<br \/>\n    vergonha.Impedidos de pescar e de ca\u00e7ar, sem lavras, prisioneiros do arame<br \/>\n    farpado e das esmolasde peixe seco da administra\u00e7\u00e3o, espiados pela PIDE, tiranizados<br \/>\n    pelos cipaios, osluchazes fugiam para a mata, onde o MPLA, inimigo invis\u00edvel,<br \/>\n    se escondia, obrigandonosa uma alucinante guerra de fantasmas. A cada ferido<br \/>\n    de emboscada ou de mina amesma pergunta aflita me ocorria, a mim, filho da<br \/>\n    Mocidade Portuguesa, das Novidadese do Debate, sobrinho de catequistas e \u00edntimo<br \/>\n    da Sagrada Fam\u00edlia que nos visitava adomic\u00edlio numa redoma de vidro, empurrado<br \/>\n    para aquele espanto de p\u00f3lvora numaimensa surpresa: s\u00e3os os guerrilheiros<br \/>\n    ou Lisboa que nos assassinam, Lisboa, osAmericanos, os Russos, os Chineses,<br \/>\n    o caralho da puta que os pariu combinados para nofoderem os cornos em nome<br \/>\n    de interesses que me escapam, quem me enfiou sem avisoneste cu de Judas de<br \/>\n    p\u00f3 vermelho e de areia, a jogar as damas com o capit\u00e3o idoso sa\u00eddode sargento<br \/>\n    que cheirava a menopausa de escritur\u00e1rio resignado e sofria do azedumecr\u00f4nico<br \/>\n    da colite, quem me decifra o absurdo disto, as cartas que recebo e me falam<br \/>\n    deum mundo que a lonjura tornou estrangeiro e irreal, os calend\u00e1rios que risco<br \/>\n    de cruzes acontar os dias que me separam do regresso e apenas achando \u00e0 minha<br \/>\n    frente um t\u00fanelinfind\u00e1vel de meses, um escuro t\u00fanel de meses onde me precipito<br \/>\n    mugindo, boi feridoque n\u00e3o entende, que n\u00e3o entende, que n\u00e3o logra entender<br \/>\n    e acaba por enterrar o tristefocinho molhado nos ossos de frango com esparguete<br \/>\n    do rancho, do mesmo modo,percebe, que aqui, na sua companhia, me sinto cavalo<br \/>\n    de narinas enfiadas na alcofa devodka, mastigando o feno azedo do lim\u00e3o.<\/p>\n<p>A seguir ao jantar os jeeps dos oficiais giravam de palhota em palhota hesita\u00e7\u00f5esde<br \/>\n    pirilampos: o amor barato e r\u00e1pido em compartimentos abafados, aclarados porpavios<br \/>\n    indecisos de petr\u00f3leo que coloriam as paredes de barro de uma ilus\u00e3o de capelas.Chegava-se<br \/>\n    de bisnaga antiven\u00e9rea no bolso e aplicava-se a pomada atrav\u00e9s dabraguilha<br \/>\n    aberta \u00e0 maneira de uma vulva de pano, sob o olhar indiferente de mulheresde<br \/>\n    dentes serrados em tri\u00e2ngulo, acocoradas na cama no alheamento de perfil de<br \/>\n    certosretratos de Picasso, em cuja curva dos l\u00e1bios flutuam Guernicas desdenhosas.<br \/>\n    Nomesmo colch\u00e3o dormiam, em regra, os filhos, as galinhas e algum antepassadodecr\u00e9pito<br \/>\n    perdido em pesadelos de m\u00famia, rosnando os hier\u00f3glifos dos seus sonhos. Otenente<br \/>\n    fornicava de pala do bon\u00e9 para tr\u00e1s e pistola \u00e0 cinta, com o impedido deespingarda<br \/>\n    em riste a vigiar as redondezas, o oficial de opera\u00e7\u00f5es mandou vir umm\u00e1quina<br \/>\n    de costura do Luso e cozia bainhas de cal\u00e7a de madrugada ao lado de umanegra<br \/>\n    espl\u00eandida, de en\u00e9rgicos seios pendentes como os da loba de Roma, e o capit\u00e3odas<br \/>\n    damas, instalado ao volante, pedia a raparigas imp\u00faberes que o masturbassem,oferecendo<br \/>\n    em troca cartuchinhos de rebu\u00e7ados de hortel\u00e3-pimenta: o branco chegou com<br \/>\n    um chicote, cantava o mil\u00edcia na viola, o branco chegou com um chicote e bateu<br \/>\n    no soba e no povo, o branco chegou com um chicote e bateu no soba e no povo.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea soubesse o que \u00e9 acordar com vontade de urinar a meio da noite numanoite<br \/>\n    sem lua, vir c\u00e1 fora mijar e nada existir em torno, nenhuma luz, nenhuma caserna,nenhum<br \/>\n    vulto, s\u00f3 o ru\u00eddo do seu chichi invis\u00edvel e as estrelas congeladas na meia<br \/>\n    laranjado c\u00e9u, afastadas demais, pequenas demais, inacess\u00edveis demais, prestes<br \/>\n    a desaparecerporque a manh\u00e3 surge de repente e \u00e9 dia adulto, acordar a meio<br \/>\n    da noite e sentir naquietude e no sil\u00eancio, percebe?, o sono inumer\u00e1vel de<br \/>\n    \u00c1frica, e n\u00f3s ali de pernasafastadas, em camisa e cuecas, min\u00fasculos, vulner\u00e1veis,<br \/>\n    rid\u00edculos, estranhos, sempassado nem futuro, a flutuar na estreiteza assustada<br \/>\n    do presente, co\u00e7ando a flor-docongodos test\u00edculos. J\u00e1 nessa altura certamente<br \/>\n    voc\u00ea acostara neste bar, com o mesmocigarro na m\u00e3o esquerda, o mesmo copo<br \/>\n    na m\u00e3o direita e a mesma absoluta indiferen\u00e7anos olhos, inalteravelmente im\u00f3vel,<br \/>\n    p\u00e1ssaro de p\u00e1lpebras pintadas pousado no ramo dobanco a tilintar as pulseiras<br \/>\n    indianas na m\u00fasica precisa dos seus gestos. Gosto dos seusgestos, assim autom\u00e1ticos<br \/>\n    e lentos como os das figuras dos rel\u00f3gios prosseguindo o seutrajetozinho obstinado,<br \/>\n    acabava-se de urinar e as bolhas ferviam na terra como se abexiga, sabe como<br \/>\n    \u00e9, fosse uma chaleira a arder, voltava para dentro, e estendia-me nacama esmaltada<br \/>\n    de branco da enfermaria at\u00e9 o primeiro clarim me extrair emsobressalto dos<br \/>\n    meus vapores difusos.<\/p>\n<p>De tempos a tempos chegavam visitas inesperadas ao cu de Judas: oficiais<br \/>\n    doEstado-Maior de Luanda, que o formol do ar condicionado conservava, quinquagen\u00e1riassul-africanas<br \/>\n    que beijavam os doentes em arroubos de cio da menopausa, duas atrizes derevista<br \/>\n    a agitarem a descompasso as pernas gordas num palco de mesas, acompanhadaspor<br \/>\n    um acorde\u00e3o exausto; jantaram na messe ao lado do comandante reluzente deorgulho,<br \/>\n    cuja timidez se embrulhava nos sorrisos de um adolescente em falta, enquantoo<br \/>\n    tenente da criada lhes cirandava em torno, farejando os decotes num \u00eastase<br \/>\n    mudo. Ocapel\u00e3o, contrito, descia as p\u00e1lpebras virgens sobre o brevi\u00e1rio da<br \/>\n    sopa.<\/p>\n<p>&#8211; Quarenta anos a acumular esperma &#8211; calculava o capit\u00e3o idoso a medi-lo<br \/>\n    de longe.<\/p>\n<p>&#8211; Se aquele gajo se vier afoga-nos a todos na \u00e1gua benta dos tomates.<\/p>\n<p>As atrizes acabaram por dormi no posto da PIDE, vigiadas por agentes biliososcujas<br \/>\n    sobrancelhas se franziam de amea\u00e7as indecifr\u00e1veis. Dizia-se que a mulher doinspetor,<br \/>\n    espanhola magra com aspecto de contorcionista decadente que se exprimia aosgritos<br \/>\n    numa linguagem de circo, torturava ela mesma os prisioneiros inventandomart\u00edrios<br \/>\n    sem sutiliza de Lucr\u00e9cia B\u00f3rgia das Portas de Santo Ant\u00e3o. Mais tarde, naBaixa<br \/>\n    do Cassanje, ouvi falar do enforcamento de um ginga para edifica\u00e7\u00e3o da sanzala,e<br \/>\n    dos negros que cavavam um buraco na mata, desciam para dentro, e aguardavampacientemente<br \/>\n    que lhes rebentassem a cabe\u00e7a a tiro e os cobrissem de areia, puxandoum cobertor<br \/>\n    de terra por sobre o sangue dos cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>&#8211; Filhos da puta, filhos da puta, filhos da puta &#8211; repetia o tenente, siderado.<\/p>\n<p>O branco veio com um chicote, cantava o mil\u00edcia na viola, e bateu no soba<br \/>\n    e no povo. <\/p>\n<h4><strong><a name=\"6\">F<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>J\u00e1 reparou que a esta hora da noite e a este n\u00edvel do \u00e1lcool o corpo se come\u00e7a<br \/>\n    aemancipar de n\u00f3s, a recusar-se a acender o cigarro, a segurar o copo numa<br \/>\n    incertezatateante, a vaguear dentro da roupa oscila\u00e7\u00f5es de gelatina? O encanto<br \/>\n    dos bares, n\u00e3o \u00e9?,consiste em, a partir das duas da manh\u00e3, n\u00e3o ser a alma<br \/>\n    a libertar-se do seu inv\u00f3lucro terreste e a seguir verticalmente para o c\u00e9u<br \/>\n    no esvoa\u00e7ar m\u00edstico de cortinas brancas dasmortes do missal, mas a carne que<br \/>\n    se livra, um pouco espantada, do esp\u00edrito, e iniciauma dan\u00e7a pastosa de est\u00e1tua<br \/>\n    de cera que se funde at\u00e9 terminar nas l\u00e1grimas de remorsoda aurora, quando<br \/>\n    a primeira luz obl\u00edqua nos revela, com implacabilidade radiosc\u00f3pica,o triste<br \/>\n    esqueleto da solid\u00e3o sem rem\u00e9dio. Se no observarmos bem, ali\u00e1s, podemosprincipiar<br \/>\n    a entrever j\u00e1 o perfil dos nossos ossos, que as v\u00edrgulas das olheiras e o<br \/>\n    acentocircunflexo da boca disfar\u00e7am de sorrisos melanc\u00f3licos de que pendem<br \/>\n    restos murchosde ironia id\u00eanticos ao bra\u00e7o inerte de um ferido. Talvez o tipo<br \/>\n    da mesa ao lado, que od\u00e9cimo Carvalho Ribeiro Ferreira inclina dezassete graus<br \/>\n    para bombordo na rigidez deandor de uma torre de Pisa de casaco de veludo<br \/>\n    \u00e0 beira de queda catastr\u00f3fica, sejaAmedeo Modigliani a procurar no fundo do<br \/>\n    c\u00e1lice um rosto assassinado de mulher,talvez Fernando Pessoa habite aquele<br \/>\n    senhor de \u00f3culos ao p\u00e9 do espelho, em cujaaguardente de pera pulsa o volante<br \/>\n    comovido da Ode Mar\u00edtima, talvez o meu irm\u00e3oScott Fitzgerald, que o Blondin<br \/>\n    assemelhava a um tr\u00eas quartos ponta irland\u00eas, se sente aqualquer momento \u00e0<br \/>\n    nossa mesa e nos explique a desesperada ternura da noite e aimpossibilidade<br \/>\n    de amar, porque, sabe como \u00e9, o vodka confunde os tempos e abole asdist\u00e2ncias,<br \/>\n    voc\u00ea chama-se na realidade Ava Gardner e consome oito toureiros e seiscaixas<br \/>\n    de Logans por semana, e, quanto a mim, o meu verdadeiro nome \u00e9 MalcomLowry,<br \/>\n    sou escuro como o t\u00famulo onde jaz o meu amigo, escrevo romances imortais,recomendo<br \/>\n    Le gusta este jard\u00edn que es suyo? evite que sus hijos lo destru\u00edan, e o meucad\u00e1ver<br \/>\n    ser\u00e1 lan\u00e7ado na \u00faltima p\u00e1gina, como o de um c\u00e3o, para o fundo de um barranco.Viemos<br \/>\n    todos hoje ocupar a inocente Lapa cor-de-rosa imitada de Carlos Botelho damar\u00e9-baixa<br \/>\n    das nossas bebedeiras silenciosas, \u00e0 superf\u00edcie das quais cintila, de quandoem<br \/>\n    quando e by appointment of Her Majesty the Queen, o reflexo do g\u00eanio, e sobre<br \/>\n    asnossas cabe\u00e7as ungidas tombam as l\u00ednguas de fogo de Johnny Esp\u00edrito Santo<br \/>\n    Walker:Utrillo, que amarrotava postais ilustrados enquanto pintava, Soutine,<br \/>\n    o dos meninos docoro e das casas torturadas, Gomes Leal e a sua inocente e<br \/>\n    tonitruante mis\u00e9ria demenino velho, e n\u00f3s os dois observando, maravilhados,<br \/>\n    esta prociss\u00e3o de palha\u00e7ossublimes que uma m\u00fasica de circo acompanha. Pode<br \/>\n    parecer-lhe esquisito mas semprevivi rodeado de fantasmas numa casa antiga<br \/>\n    que era como que o espectro de si mesma,desde o port\u00e3o flanqueado por ananases<br \/>\n    de pedra \u00e0 mala dos ossos de Anatomia, queaguardava, arrecadada, a minha vez<br \/>\n    de a estudar, num perfume doce de incenso e degangrena. Gatos vadios escondiam-se<br \/>\n    nos ramos da figueira do quintal como frutosfurtivos, cujos olhos pingavam<br \/>\n    o leite verde de uma desconfian\u00e7a r\u00e1pida, nos vidros dasalamandra crescia<br \/>\n    a claridade opala dos versos de Ces\u00e1rio, e na sala o retrato deAntero, de<br \/>\n    uma dolorosa beleza que o g\u00eanio calcinava, opunha aos bigodes modestosdos<br \/>\n    av\u00f3s o oceano em desordem da sua barba loira, onde naufragavam destro\u00e7osquebrados<br \/>\n    de tercetos. O meu pai, magro e anguloso como um m\u00f3rmon, viajava \u00e0 derivana<br \/>\n    poltrona, impulsionado pela chamin\u00e9 de navio do cachimbo. a sombra inchavavolumes<br \/>\n    geom\u00e9tricos nos pr\u00e9dios vizinhos, desenhada por um Soulages triste. e eumasturbava-me<br \/>\n    no quarto sob a fotografia colorida da equipa do Benfica, na esperan\u00e7ade vir<br \/>\n    a ser um dia o \u00c1guas da literatura, que de c\u00f3coras, ao centro, desafiava o<br \/>\n    universocom o orgulho de m\u00e1rmore de um disc\u00f3bulo triunfal.<\/p>\n<p>No cu de Judas, oculto por uma farda de camuflado que me fornecia a apar\u00eanciaequ\u00edvoca<br \/>\n    de um camale\u00e3o desiludido, adiava a minha partida para Estocolmo a bordo deum<br \/>\n    barco de papel impresso, para viajar de helic\u00f3ptero, de bal\u00f5es de plasma entre<br \/>\n    osjoelhos, a recolher da mata os feridos das emboscadas, que sobreviventes<br \/>\n    estupefatoserguiam \u00e0 maneira dos corpos brandidos dos n\u00e1ufragos. O furriel<br \/>\n    enfermeiro, a quem avista do sangue enjoava, ficava \u00e0 porta da sala de opera\u00e7\u00f5es<br \/>\n    improvisada, dobrado comoum canivete, a vomitar num banco o feij\u00e3o do almo\u00e7o,<br \/>\n    e eu, tenso de raiva, imaginava a satisfa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia se lhe fosse dado<br \/>\n    observar, em conjunto e de chap\u00e9u de aba largacomo na Li\u00e7\u00e3o de Anatomia de<br \/>\n    Rembrandt, o m\u00e9dico competente e respons\u00e1vel quedesejavam que eu fosse, consertando<br \/>\n    a linha e agulhas os heroicos defensores doImp\u00e9rio, que passeavam nas picadas<br \/>\n    a incompreens\u00e3o do seu espanto: c&#8217;est un peu danschacun de ces hommes<br \/>\n    Mozart assassin\u00e9, dizia eu furioso dentro de mim, desbridandotibiais, rodando<br \/>\n    garrotes, regulando a botija de oxig\u00eanio, preparando os amputados paraseguirem<br \/>\n    para o Luso, assim que amanhecesse, na pequena avioneta da FAP, enquantoos<br \/>\n    maqueiros, no compartimento ao lado, procuravam as veias dos dadores, e o<br \/>\n    tenenteseguia inquieto os meus gestos numa ansiedade que se adensava. Nunca<br \/>\n    as palavras mepareceram t\u00e3o sup\u00e9rfluas como nesse tempo de cinza, desprovidas<br \/>\n    do sentido que mehabituara a dar-lhes, privadas de peso, de timbre, de significado,<br \/>\n    de cor, \u00e0 medida quetrabalhava o coto descascado de um membro ou reintroduzia<br \/>\n    numa barriga os intestinosque sobravam, nunca os protestos me surgiram t\u00e3o<br \/>\n    v\u00e3os, nunca os ex\u00edlios jacobinos deParia se me afiguraram t\u00e3o est\u00fapidos: se<br \/>\n    me perguntam porque continuo no Ex\u00e9rcitorespondo que a revolu\u00e7\u00e3o se faz por<br \/>\n    dentro, explicava o capit\u00e3o de \u00f3culos moles e dedosmembranosos atr\u00e1s do seu<br \/>\n    cigarro eterno, o capit\u00e3o qu puxou da pistola para o pidemagrinho que atirara<br \/>\n    um pontap\u00e9 a uma rapariga gr\u00e1vida e o expulsou da companhiindifetente \u00e0s amea\u00e7as<br \/>\n    azedas do outro, o capit\u00e3o de malas cheias de livros e de revistasestrangeiras<br \/>\n    que me contavam do que eu n\u00e3o sabia e a quem me juntei meses mais tardena<br \/>\n    ilha e arame de Ninda, ao p\u00e9 do rio, para a travessia sem b\u00fassola de uma longa<br \/>\n    noite.<\/p>\n<p>Os batuques dos luchazes eram concertos de cora\u00e7\u00f5es p\u00e2nicos, taquic\u00e1rdicos,retidos<br \/>\n    pelas trevas de galoparem sem controlo na dire\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ang\u00fastia, como,por<br \/>\n    exemplo, as minha pernas se aproximam a tremer das suas sob o tampo c\u00famplic<br \/>\n    damesa. As \u00f3rbitas dos tocadores aparentavam-se a ovos cozidos fosforescentes,<br \/>\n    sempupila, iluminados pelas fogueiras de palha destinadas a esticar a pele<br \/>\n    de cabrito dostambores, ou pelas n\u00e1degas que balou\u00e7avam, suspensas do nada,<br \/>\n    \u00e0 laia das lanternas deum comboio que se afasta. Cada palhora, flanqueada<br \/>\n    de uma miniatura id\u00eanticadestinada ao deus Zumbi, senhor dos antepassados<br \/>\n    e dos mortos, adquiria os contornosinformes da inquieta\u00e7\u00e3o e do terror, onde<br \/>\n    nos cabiris somavam os seus latidos de medoao choro das crian\u00e7as e aos cacarejos<br \/>\n    interrogativos das galinhas, p\u00e1ssaros imperfeitosreduzidos a um destino de<br \/>\n    churrasco. O escuro cavava-se de galerias, de corredores, dedegraus que os<br \/>\n    sons penetravam numa procura desesperada, folheando sombras,deslocando rostos,<br \/>\n    remexendo as gavetas vazias do sil\u00eancio em busca do eco de simesmos, tal como<br \/>\n    por vezes nos encontramos, aterrados e surpresos, nos objetosesquecidos nas<br \/>\n    prateleiras dos arm\u00e1rios a lembrarem-nos quem fomos numa insist\u00eanciacruel.<br \/>\n    O suor dos corpos, gordo e sumarento, possu\u00eda textura diversa das tristes<br \/>\n    gotasarrepiadas que me desciam a espinha, e sentia-me melancolicamente herdeiro<br \/>\n    de umvelho pa\u00eds desajeitado e agonizante, de uma europa repleta de fur\u00fanculos<br \/>\n    de pal\u00e1cios ede pedras da bexiga de catedrais doentes, confrontado com um<br \/>\n    povo cuja inesgot\u00e1velvitalidade eu entrevira j\u00e1, anos antes, no trompete solar<br \/>\n    de Louis Armstrong, expulsandoa neurastenia e o azedume com a musculosa alegria<br \/>\n    do seu canto. A essa hora, na minhacidade castrada pela pol\u00edcia e a censura,<br \/>\n    as pessoas coagulavam-se de frio nas paragensdos autocarros, a soprarem adiante<br \/>\n    da boca o vapor de \u00e1gua dos bal\u00f5es das legendas deuma hist\u00f3ria de quadradinhos<br \/>\n    que o Governo proibia. Em tronco nu, o meu pai deviabarbear-se ao espelho<br \/>\n    do quarto de banho nos gestos r\u00e1pidos e precisos do costume,dentro do \u00fatero<br \/>\n    da minha mulher uma crian\u00e7a prestes a nascer socav \u00e0s cegas as gradesde carne<br \/>\n    da sua pris\u00e3o, a minha m\u00e3e estendia o bra\u00e7o sonolento para o tabuleiro dopequeno-almo\u00e7o,<br \/>\n    na grande cama preta que sempre constituiu para mim como que os\u00edmbolo do lar.<br \/>\n    Pensei que nunca soubera de fato mostrar-lhes quanto gostava deles, portimidez<br \/>\n    ou por pudor, e a ternura tantos anos reprimida trazia-me \u00e0 boca o sabor amargo<br \/>\n    do remorso e o desgosto de haver frustrado as suas pequenas esperan\u00e7as ao<br \/>\n    transformara minha vida numa sucess\u00e3o sem nexo de cambalhotas desastrosas.<br \/>\n    Planosgrandiloquentes, em que Freud, Goethe e S. Francisco de Assis convergiam<br \/>\n    e secombinavam, come\u00e7aram a grelar-me na cabe\u00e7a arrependida, \u00e0 laia de feij\u00f5es<br \/>\n    noalgod\u00e3o molhado das experi\u00eancias do liceu, milagres de algibeira para Lavoisiersmongoloides:<br \/>\n    se regressasse vertical, jurava eu a mim mesmo num fervor de peregrinode Compostela,<br \/>\n    afadigar-me-ia a construir, a partir do meu nada confuso, a digna est\u00e1tuade<br \/>\n    bronze do marido e do filho ideais, talhado segundo o modelo das pagelas dosmortos<br \/>\n    no missal da av\u00f3, criaturas repletas de qualidades e virtudes \u00e0 Santa Teresinha<br \/>\n    edas quais conhecia apenas os sorrisos resignados. Talvez at\u00e9 que me inscrevesse<br \/>\n    nosescuteiros a fim de pastorear, de apito, cal\u00e7\u00f5es e autoridade paciente,<br \/>\n    um grupo deadolescentes borbulhosos atav\u00e9s do Museu dos Coches, ou vagueasse<br \/>\n    pelas esquinas \u00e0cata de anci\u00f5es de bengala com dificuldade em atravessar.<br \/>\n    Far-me-ia irm\u00e3o doSant\u00edssimo, clarinete de filarm\u00f4nica, colecionador de dentaduras<br \/>\n    posti\u00e7as no intuito deexpulsar do insuport\u00e1vel sossego dos ser\u00f5es o meu eterno<br \/>\n    e delet\u00e9rio desejo de evas\u00e3o.Calaria para sempre a vozinha interior que na<br \/>\n    cabe\u00e7a me reclama, teimosa, proezas deZorro. E ao termo de dolorosa enfermidade<br \/>\n    suportada com resigna\u00e7\u00e3o crist\u00e3 econfortado com os sacramentos da Santa Madre<br \/>\n    Igreja, ingressaria por meu turno napante\u00e3o do missal da av\u00f3 a juntar-me a<br \/>\n    uma extensa galeria de chatos bondosos,apontado como exemplo a netos indiferentes,<br \/>\n    que considerariam com enfado a absurdamornid\u00e3o da minha exist\u00eancia.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"7\">G<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Ninda. Os eucaliptos de Ninda nas demasiadamente grandes noites do Leste,formigantes<br \/>\n    de insetos, o ru\u00eddo de maxilares sem saliva das folhas secas l\u00e1 em cima, t\u00e3osem<br \/>\n    saliva como as nossas bocas tensas no escuro: o ataque come\u00e7ou do lado da<br \/>\n    pistade avia\u00e7\u00e3o, no extremo oposto \u00e0 sanzala, luzes m\u00f3veis acendiam-se e apagavam-se<br \/>\n    nachana num morse de sinais. A Lua enorme aclarava de vi\u00e9s os pr\u00e9-fabricados<br \/>\n    dascasernas, os postos de sentinela protegidos por sacos e toros de madeira,<br \/>\n    o ret\u00e2ngulo dezinco do paiol; \u00e0 porta do posto de socorros, estremunhado e<br \/>\n    nu, vi os soldadoscorrerem de arma em punho na dire\u00e7\u00e3o do arame, e depois<br \/>\n    as vozes, os gritos, osesguichos vermelhos que sa\u00edam das espingardas a disparar,<br \/>\n    tudo aquilo, a tens\u00e3o, a faltade comida decente, os alojamentos prec\u00e1rios,<br \/>\n    a \u00e1gua que os filtros transformavam numapapa de papel-cavalinho indigesta,<br \/>\n    o gigantesco, inacredit\u00e1vel absurdo da guerra, mefazia sentir na atmosfera<br \/>\n    irreal, flutuante e ins\u00f3lita, que encontrei mais tarde noshospitais psiqui\u00e1tricos,<br \/>\n    ilhas de desesperada mis\u00e9ria de que Lisboa se defendiacercando-as de muros<br \/>\n    e de grades, como os tecidos se previnem contra os corposestranhos envolvendo-os<br \/>\n    em c\u00e1psulas de fibrose. Internados em enfermariasdesconjuntadas, vestidos<br \/>\n    com o uniforme dos doentes, passe\u00e1vamos na cerca de areia doquartel os nossos<br \/>\n    sonhos incomunic\u00e1veis, a nossa ang\u00fastia informe, os nossos passadosvistos<br \/>\n    pelo bin\u00f3clo ao contr\u00e1rio das cartas da fam\u00edlia e dos retratos guardados no<br \/>\n    funtodas malas sob a cama, vest\u00edgios pr\u00e9-hist\u00f3ricos a partir dos quais poder\u00edamos<br \/>\n    conceber,como os bi\u00f3logos examinando uma falange, o esqueleto monstruoso da<br \/>\n    nossa amargura.<\/p>\n<p>Ocorria-me que quando a not\u00edcia da alta chegasse pelo r\u00e1dio ser-nos-ianecess\u00e1ria<br \/>\n    uma penosa reaprendizagem da vida, \u00e0 maneira dos hemipl\u00e9gicos queexercitam<br \/>\n    o esparguete dif\u00edcil dos membros em aparelhos e piscinas, e que talvezpermanec\u00eassemos<br \/>\n    para sempre incapazes de andar, reduzidos \u00e0 cadeira de rodas de uma resigna\u00e7\u00e3o<br \/>\n    paral\u00edtica, a observar a simplicidade do quotidiano como o Chaplin dosTempos<br \/>\n    Modernos as m\u00e1quinas pavorosas que implacavelmente o trituram: sair oporteiro<br \/>\n    e a falsa indulg\u00eancia dos m\u00e9dicos, constru\u00edda do cart\u00e3o pintado de uma boavontade<br \/>\n    posti\u00e7a, encontrar pouco a pouco, ladeira abaixo, a manh\u00e3 geom\u00e9trica da cidadeque<br \/>\n    os azulejos decepam em losangos desbotados, penetrar numa leitariafantasmag\u00f3rica<br \/>\n    para o primeiro gal\u00e3o livre, ver os reformados do domin\u00f3 na eternapostura<br \/>\n    dos jogadores de cartas de C\u00e9zanne, e sentir que se deixou irremediavelmentede<br \/>\n    pertencer a esse mundo n\u00edtido e direto onde as coisas possuem consist\u00eancia<br \/>\n    de coisas,sem subterf\u00fagios nem subentendidos, e os dias nos podem ainda oferecer,<br \/>\n    sabe como \u00e9,apesar das anginas, dos cobradores e da letra do carro, a surpresa<br \/>\n    de vig\u00e9simo premiadode um sorriso que se n\u00e3o pediu. Voc\u00ea, por exemplo, que<br \/>\n    oferece o ar ass\u00e9pticocompetente e sem caspa das secret\u00e1rias de administra\u00e7\u00e3o,<br \/>\n    era capaz de respirar dentrode um quadro de Bosch, sufocada de dem\u00f4nios, de<br \/>\n    lagartas, de gnomos nascidos decascas de ovo, de gelatinosas \u00f3rbitas assustadas?<br \/>\n    Estendido numa cova \u00e0 espera que oataque acabasse, olhando as hirtas silhuetas<br \/>\n    de chap\u00e9u alto dos eucaliptos id\u00eanticas af\u00fanebres testemunhas de duelo, de<br \/>\n    G3 in\u00fatil no suor das m\u00e3os e cigarro cravado na bocacomo palito em croquete,<br \/>\n    descobri-me personagem de Becket aguardando a granada demorteiro de um Godot<br \/>\n    redentor. Os romances por escrever acumulavam-se-me no s\u00f3t\u00e3oda cabe\u00e7a \u00e0 maneira<br \/>\n    de aparelhos antiquados reduzidos a um amontoado de pe\u00e7asd\u00edspares que eu n\u00e3o<br \/>\n    lograria reunir, as mulheres com quem me n\u00e3o deitaria ofereceriama outros<br \/>\n    as cosas afastadas de r\u00e3s de aula de Ci\u00eancias Naturais, onde eu n\u00e3o estaria<br \/>\n    paraas esquartejar com o canivete \u00e1vido da minha l\u00edngua, o filho por nascer<br \/>\n    constituiriaapenas a cristaliza\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel de ma distante tarde de Tomar,<br \/>\n    num quarto de messede oficiais de janela escancarada para a pra\u00e7a, com o sol<br \/>\n    coalhado nas ac\u00e1cias e n\u00f3scelebrando na cama a liturgia ardentes de um desejo<br \/>\n    cedo demais desaparecido. Tomar:colch\u00f5es que rangem como solas, abra\u00e7os r\u00e1pidos,<br \/>\n    o p\u00eanis a pique \u00famido de sede,grosso de veias, vermelho em flor de Pessanha,<br \/>\n    a m\u00e3o que o friccionava contra os seios,a boca que o bebia, os calcanhares<br \/>\n    a lavrarem-me as n\u00e1degas, o sil\u00eancio exausto, demarionetas desabitadas de<br \/>\n    dedos, de depois. Hoje, quando a encontro, \u00e9 como seobservasse o ret\u00e2ngulo<br \/>\n    p\u00e1lido que as molduras imprimem nas paredes sem que nosconsigamos lembrar<br \/>\n    do desenho da tela, e tento em v\u00e3o discernir, por detr\u00e1s das fei\u00e7\u00f5esenvelhecidas<br \/>\n    e s\u00e9rias, compondo a custo uma express\u00e3o de camaradagem benigna quenunca foi<br \/>\n    sua, o rosto jovem e alegre que amei, fechado sobre o seu pr\u00f3prio prazer comouma<br \/>\n    corola noturna. E todavia, percebe?, \u00e9 desse modo que ela permanece em mimapesar<br \/>\n    da usura dos anos e do azedume das reconcilia\u00e7\u00f5es frustradas, das feridas<br \/>\n    dasmentiras m\u00fatuas e do desencanto do afastamento definitivo: a rapariga morena<br \/>\n    e magra,de grandes olhos graves, que conheci na praia, a observar as ondas<br \/>\n    na majestadelong\u00ednqua dos carn\u00edvoros indiferentes, que parecem de s\u00fabito ausentar-se<br \/>\n    emmedita\u00e7\u00f5es dolorosas e im\u00f3veis, enxotando-nos para o canto de sombra das<br \/>\n    inutilidadesesquecidas. Lembra-se da voz de Paul Simon?<\/p>\n<p>Ninda: o milho encostado ao arame folheava toda a noite as p\u00e1ginas ressequidas,o<br \/>\n    feiticeiro sorvia o pesco\u00e7o das galinhas degoladas numa voracidade brutal.<br \/>\n    O capit\u00e3o eeu jog\u00e1vamos xadrez na mesa da sala de jantar, entre migalhas e<br \/>\n    cascas, avan\u00e7ando umpe\u00e3o interrogativo e reticente semelhante a um dedo que<br \/>\n    palpa a medo uma borbulha infectada, ou convers\u00e1vamos c\u00e1 fora, sentados em<br \/>\n    cadeiras curvas de t\u00e1buas de barril,julgando aproximativamente no escuro a<br \/>\n    posi\u00e7\u00e3o do outro atrav\u00e9s do eco devolvido dasnossas pr\u00f3prias vozes, morcegos<br \/>\n    aflitos que se procuram: no meu desordenado MuseuGr\u00e9vin interior de m\u00e9dicos<br \/>\n    e poetas, onde Ves\u00e1lio e Bocage discutiam pormenoresanat\u00f4micos picarescos<br \/>\n    e clandestinos sob as castas vistas reprovadoras do generalFernandes Costa<br \/>\n    dos sonetos do Almanaque Bertrand, a quem roubei sem vergonha, nainf\u00e2ncia,<br \/>\n    versos que cintilavam brilhos de vidro de met\u00e1foras de pacotilha que meencantavam,<br \/>\n    um impetuoso fluxo de barbudos iluminados penetrou de rold\u00e3o, a entoaralternadamente<br \/>\n    a Internacional e a Marselhesa, substituindo-se, autorit\u00e1rios, ao doutorJ\u00falio<br \/>\n    Dantas, ao doutor Augusto de Castro e a mais algumas dezenas de criaturasquitinosas,<br \/>\n    a bichanarem em sof\u00e1s Imp\u00e9rio dramas hist\u00f3ricos bordados no ponto de cruzde<br \/>\n    di\u00e1logos de tremo\u00e7o. O capit\u00e3o apresentou-me de passagem um Marx que meconsiderou<br \/>\n    de longe resmungando economias inintelig\u00edveis no segredo do colarinhos,Lenine<br \/>\n    a conspirar, de cabeleira posti\u00e7a, no meio de um grupo de sobrecasacas ardentes,Rosa<br \/>\n    Luxemburgo coxeando comovida nas ruas de Berlim, Jaur\u00e8s assassinado a tiro<br \/>\n    norestaurante, de guardanapo ao pesco\u00e7o, \u00e0 maneira dos g\u00e2nguesteres de Chicago<br \/>\n    arodopiarem, mortos, nas cadeiras do barbeiro, num estilha\u00e7ar de espelhos<br \/>\n    e de frascos, eeu imaginei-me a entrar casa adentro com eles para assistir<br \/>\n    ao fugir espavorido dosparentes na dire\u00e7\u00e3o da zona de influ\u00eancia dos seus<br \/>\n    \u00edcones corporativos, estendendo paraos vampiros socialistas que lhes arreganhavam<br \/>\n    a amea\u00e7a tremenda da nacionaliza\u00e7\u00e3odas porcelanas familiares, as tran\u00e7as de<br \/>\n    alho esconjurat\u00f3rias das pagelas da S\u00e3ozinha. Opelot\u00e3o que sa\u00eda \u00e0 noite para<br \/>\n    proteger o quartel, alapado nas matas rasas que cresciam,amarelentas, na areia,<br \/>\n    torcidas de anemia, aproximava-se no escuro, passava sob al\u00e2mpada coberta<br \/>\n    de um abat-jour de insetos, dispersava-se sem ru\u00eddo nas cabanas dascasernas,<br \/>\n    onde a profundidade do sono se media pela intensidade do cheiro dos corpos,amontoados<br \/>\n    ao acaso como nas fossas de Auschwitz, e eu perguntava ao capit\u00e3o O quefizeram<br \/>\n    do meu povo, O que fizeram de n\u00f3s aqui sentados \u00e0 espera nesta paisagem semmar,<br \/>\n    presos por tr\u00eas fieiras de arame farpado numa terra que nos n\u00e3o pertence,<br \/>\n    a morrerde paludismo e de balas cujo percurso silvado se aparenta a um nervo<br \/>\n    de nylon quevibra, alimentados por colunas aleat\u00f3rias cuja chegada depende<br \/>\n    de constantes acidentesde percurso, de emboscadas e de minas, lutando contra<br \/>\n    um inimigo invis\u00edvel, contra osdias que se n\u00e3o sucedem e indefinidamente se<br \/>\n    alongam, contra a saudade, a indigna\u00e7\u00e3oe o remorso, contra a espessura das<br \/>\n    trevas opacas tal um v\u00e9u de luto, e que puxo paracima da cabe\u00e7a a fim de dormir,<br \/>\n    como na inf\u00e2ncia utilizava a bainha do len\u00e7ol para medefender das pupilas<br \/>\n    de f\u00f3sforo azul dos meus fantasmas.<\/p>\n<p>Diga-me l\u00e1: como \u00e9 que voc\u00ea dorme? Deitada de bru\u00e7os, de polegar na boca,num<br \/>\n    abandono em que se prolongam ainda restos hesitantes da fragilidade infantil,<br \/>\n    oude pala negra nos olhos e rolhas de borracha nas orelhas \u00e0 laia das artistas<br \/>\n    decadentes docinema americano ou das mulheres fatais desesperadas de solid\u00e3o<br \/>\n    e de champanhe, depesadelos povoados de div\u00f3rcios, de cirurgi\u00f5es pl\u00e1sticos<br \/>\n    e de ganidos de pelos de arameparecidos com a caricatura de Audrey Hepburn?<br \/>\n    Acho que deve ler poetas esot\u00e9ricosantes de apagar a luz, sujeitos de bigode<br \/>\n    complexo que aqui v\u00eam \u00e0s vezes esconder asua mediocridade intransigente atr\u00e1s<br \/>\n    de um gin-fizz, admirados por raparigas sem peito,fumando Gauloises amarrotados<br \/>\n    na sofreguid\u00e3o desgrenhada com que as velhas dosasilos devoram a fatia de<br \/>\n    p\u00e3o-de-l\u00f3 dos domingos. Deve ter uma gravura de Vieira daSilva na parede do<br \/>\n    quarto e o retrato do cineasta sem talento, com quem mant\u00e9m umarela\u00e7\u00e3o desiludida,<br \/>\n    \u00e0 cabeceira, deve acordar de manh\u00e3 num torpor de cris\u00e1lidatitubeante eternamente<br \/>\n    entre a larva e a borboleta, a trope\u00e7ar \u00e0s cegas para a cozinha naesperan\u00e7a<br \/>\n    insensata de que o primeiro nescaf\u00e9, bebido \u00e0 pressa entre ca\u00e7arolas sujas,<br \/>\n    lhegaranta que existe de fato, eficiente e de colete, na ger\u00eancia de uma qualquer<br \/>\n    multinacional de sabonetes, o research executive sabiamente terno, de t\u00eamporasgrisalhas<br \/>\n    e gravata Pestana &amp; Brito, que o seu hor\u00f3scopo lhe promete. Pela minha<br \/>\n    parte,sabe como \u00e9, n\u00e3o pe\u00e7o tanto \u00e0 vida: as minhas filhas crescem numa casa<br \/>\n    de que cadavez menos me recordo, de m\u00f3veis bebidos pelas \u00e1guas de sombra do<br \/>\n    passado, asmulheres que encontrei depois abandonei-as ou abandonaram-me numa<br \/>\n    tranquiladecep\u00e7\u00e3o m\u00fatua em que n\u00e3o houve sequer lugar para esse tipo de ressentimento<br \/>\n    que \u00e9como que o sinal retrospectivo de uma esp\u00e9cie de amor, e envelhe\u00e7o sem<br \/>\n    gra\u00e7a numandar demasiado grande para mim, observando \u00e0 noite, da secret\u00e1ria<br \/>\n    vazia, aspalpita\u00e7\u00f5es do rio, atrav\u00e9s da varanda fechada cujo vidro me devolve<br \/>\n    o reflexo de umhomem im\u00f3vel, de queixo nas m\u00e3os, em que me recuso a reconhecer-me,<br \/>\n    e que teimaem fitar-me numa obstina\u00e7\u00e3o resignada. Talvez que a guerra tenha<br \/>\n    ajudado a fazer demim o que sou hoje e que intimamente recuso: um solteir\u00e3o<br \/>\n    melanc\u00f3lico a quem se n\u00e3otelefona e cujo telefonema ningu\u00e9m espera, tossindo<br \/>\n    de tempos a tempos para seimaginar acompanhado, e que a mulher a dias acabar\u00e1<br \/>\n    por encontrar sentado na cadeirade baloi\u00e7o em camisola interior, de boca aberta,<br \/>\n    ro\u00e7ando os dedos roxos no pelo cor-denovembroda alcatifa.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"8\">H<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Escute. Olhe para mim e escute, preciso tanto que me escute, me escute com<br \/>\n    amesma aten\u00e7\u00e3o ansiosa com que n\u00f3s ouv\u00edamos os apelos do r\u00e1dio da coluna debaixo<br \/>\n    defogo, a voz do cabo de transmiss\u00f5es que chamava, que pedia, voz perdida<br \/>\n    de n\u00e1ufragoesquecendo-se da seguran\u00e7a do c\u00f3digo, o capit\u00e3o a subir \u00e0 pressa<br \/>\n    para a Mercedes commeia-d\u00fazia de volunt\u00e1rios e a sair o arame a derrapar na<br \/>\n    areia ao encntro da emboscada,escute-me tal como eu me debrucei para o h\u00e1lito<br \/>\n    do nosso primeiro morto nadesesperada esperan\u00e7a de que respirasse ainda, o<br \/>\n    morto que embrulhei num cobertor ecoloquei no meu quarto, era a seguir ao<br \/>\n    almo\u00e7o e um torpor esquisito bambeava-me aspernas, fechei a porta e declarei<br \/>\n    Dorme bem a sesta, c\u00e1 fora os soldados olhavam paramim sem dizer nada, Desta<br \/>\n    vez n\u00e3o h\u00e1 milagre meus chuchus, pensei eu, fitando-os,Est\u00e1 a dormir a sesta,<br \/>\n    expliquei-lhes, est\u00e1 a dormir a sesta e n\u00e3o quero que o acordemporque ele<br \/>\n    n\u00e3o quer acordar, e depois fui tratar dos feridos que se torciam nos panos<br \/>\n    detenda, nunca os eucaliptos de Ninda se me afiguraram t\u00e3o grandes como nesta<br \/>\n    tarde,grandes, negros, altos, verticais, assustadores, o enfermeiro que me<br \/>\n    ajudava repetiaCaralho caralho caralho com pron\u00fancia do Norte, viemos de todos<br \/>\n    os pontos do nossopa\u00eds amorda\u00e7ado para morrer em Nida, do nosso triste pa\u00eds<br \/>\n    de pedra e mar para morrerem Ninda, Caralho caralho caralho repetia eu com<br \/>\n    o enfermeiro no meu sotaqueeducado de Lisboa, o capit\u00e3o apeou-se da Mercedes<br \/>\n    num cansa\u00e7o infinito, segurava aarma \u00e0 laia de cana de pesca in\u00fatil, o povo<br \/>\n    da sanzala espreitava receoso l\u00e1 de baixo,escute-me como eu escutava o r\u00e1pido<br \/>\n    latir aflito do meu sangue nas t\u00eamporas, o meusangue intacto nas t\u00eamporas,<br \/>\n    pelos buracos da varanda via o capit\u00e3o a passear de umlado para o outro apertando<br \/>\n    o vi\u00e1tico de um copo de u\u00edsque contra o peito, falandosozinho, cada um conversava<br \/>\n    sozinho porque ningu\u00e9m conseguia conversar comningu\u00e9m, o meu sangue no copo<br \/>\n    do capit\u00e3o, tomai e bebei \u00f3 Uni\u00e3o Nacional, o corpo domorto crescia no quarto<br \/>\n    at\u00e9 rebentar as paredes, alastrar pela areia, alcan\u00e7ar a mata embusca do eco<br \/>\n    do tiro que o tocou, o helic\u00f3ptero transportou-o para Gago Coutinho comoquem<br \/>\n    varre lixo vergonhoso para debaixo de um tapete, morre-se mais nas estradas<br \/>\n    dePortugal do que na guerra de \u00c1frica, baixas insignificantes e adeus at\u00e9<br \/>\n    ao meu regresso,o furriel arrumou os instrumentos cir\u00fargicos na caixa cromada,<br \/>\n    os canivetes, as pin\u00e7as, os porta-agulhas, as sondas, sentou-se ao meu lado<br \/>\n    nos degraus do posto de socorros,esp\u00e9cie de vivenda pequenina para f\u00e9rias<br \/>\n    de reformados melanc\u00f3licos, mordomosidosos, governantas virgens, os eucaliptos<br \/>\n    de Ninda n\u00e3o cessavam de aumentar, estamosos dois aqui sentado agora como<br \/>\n    ele e eu nesse tempo, Abril de 71, a dez milquil\u00f4metros da minha cidade, da<br \/>\n    minha mulher gr\u00e1vida, dos meus irm\u00e3os de olhos azuiscujas cartas afetuosas<br \/>\n    se me enrolavam nas tripas em espirais de ternura. Foda-se, disseo furriel<br \/>\n    que limpava as botas com os dedos, Pois \u00e9, disse eu, e acho que at\u00e9 hoje nuncative<br \/>\n    um di\u00e1logo t\u00e3o comprido com quem quer que fosse.<\/p>\n<p>Escute: antes disso houvera a perna do Ferreira, ou seja, a aus\u00eancia da perna<br \/>\n    doFerreira que uma antipessoal transformou num saco agonizante, as coxas esfarrapadasdo<br \/>\n    cabo Mazunguidi, das quais at\u00e9 ilh\u00f3s de atacador retirei, o penso de frescura<br \/>\n    damanh\u00e3 na minha testa perplexa, chegar ao alpendre do posto de socorros com<br \/>\n    a camisamanchada de sangue e receber como um insulto a claridade indiferente<br \/>\n    do dia. Se arevolu\u00e7\u00e3o acabou, percebe?, e em certo sentido acabou de fato,<br \/>\n    \u00e9 porque os mortos de\u00c1frica, de boca cheia de terra, n\u00e3o podem protestar,<br \/>\n    e hora a hora a direita os vaimatando de novo, e n\u00f3s, os sobreviventes, continuamos<br \/>\n    t\u00e3o duvidosos de estar vivosque temos receio de, atrav\u00e9s da impossibilidade<br \/>\n    de um movimento qualquer, nosapercebermos de que n\u00e3o existe carne nos nossos<br \/>\n    gestos nem som nas palavras quedizemos, nos apercebermos que estamos mortos<br \/>\n    como eles, acomodados nas urnas dechumbo que o capel\u00e3o benzia e de que se<br \/>\n    escapava, apesar da solda, um odor grosso deestrume, urna do cabo Pereira,<br \/>\n    urna do Carpinteiro, urna do Macaco, que uma minaassassinou a cinquenta metros<br \/>\n    de mim, o saco de areia esmagou-lhe as costelas contra ovolante no carro tombado<br \/>\n    de lado, quis fazer massagem card\u00edaca e o peito era mole esem ossos e estalava,<br \/>\n    as palmas premiam um pasta confusa, bastou um estrondo paratornar o Macaco<br \/>\n    um fantoche de serradura e de pano, o capit\u00e3o sumiu-se no casinhotoda messe<br \/>\n    e voltou com mais u\u00edsque no copo, a chana desbotava-se anunciando a noite,<br \/>\n    oenfermeiro sempre a repetir Caralho caralho caralho veio acocorar-se ao p\u00e9<br \/>\n    de n\u00f3s,todos diz\u00edamos Caralho de boca fechada, o capit\u00e3o segredava Caralho<br \/>\n    ao copo deu\u00edsque, o oficial de dia colocou-se em sentido diante da bandeira<br \/>\n    e os seus dedos, queajeitavam a boina, gritavam Caralho, os c\u00e3es vadios que<br \/>\n    nos ro\u00e7avam os tornozelosgemiam Caralho nos implorativos olhos molhados, olhos<br \/>\n    de c\u00e3es t\u00e3o suplicantes comoos desta gente aqui, \u00famidos de resigna\u00e7\u00e3o e de<br \/>\n    est\u00fapida meiguice, olhos flutuando \u00e0deriva acima dos cognacs, olhos acusando<br \/>\n    os pr\u00f3prios rostos defuntos, desertos e semnuvens como os dos quadros de Magritte,<br \/>\n    dezenas de manequins de cera ocuparam estebar oscilando fei\u00e7\u00f5es compridas<br \/>\n    de cavalos de loi\u00e7a, mulheres e homens em cujadesilus\u00e3o defensiva e maligna<br \/>\n    me recuso a reconhecer a imagem fragment\u00e1ria da minhapr\u00f3pria derrota, por<br \/>\n    teimar em pertencer ao grupo das sar\u00e7as ardentes onde a melancoliaapaixonadamente<br \/>\n    devagar se consome em labaredazinhas magoadas, e depois, sabecomo \u00e9, a noite<br \/>\n    chegou de imprevisto \u00e0 maneira de uma cortina de teatro cobrindo depregas<br \/>\n    de aus\u00eancia os atores exaustos, o motor da luz principiou a trabalhar num<br \/>\n    ru\u00eddode t\u00e1xi, a l\u00e2mpada messe empalidecia e corava, empaledecia e corava,<br \/>\n    empalidecia ecorava, sentei-me defronte do capit\u00e3o, na mesa que o Bichezas<br \/>\n    pusera num \u00e1pice deprestidigitador, os alferes comiam em sil\u00eancio, de queixo<br \/>\n    no prato, id\u00eanticos a alunosem falta, cada um mastigava sozinho separados<br \/>\n    por quil\u00f4metros de irrecuper\u00e1veldist\u00e2ncia, form\u00e1vamos a cada jantar a anti-\u00daltima<br \/>\n    Ceia, o desejo comum de n\u00e3o morrerconstitu\u00eda, percebe?, a \u00fanica fraternidade<br \/>\n    poss\u00edvel, eu n\u00e3o quero morrer, tu n\u00e3o queresmorrer, ele n\u00e3o quer morrer, n\u00f3s<br \/>\n    n\u00e3o queremos morrer, v\u00f3s n\u00e3o quereis morrer, eles n\u00e3oquerem morrer, o primeiro-sargento,<br \/>\n    magro, grisalho, mesuroso, interrogativo, perfilouse\u00e0 porta numa contin\u00eancia<br \/>\n    sem fim guardando na m\u00e3o livre um ma\u00e7o de pap\u00e9is paraassinar at\u00e9 o capit\u00e3o<br \/>\n    atentar nele, erguer a cabe\u00e7a, proferir Porra e o sujeito se sumir apavorado<br \/>\n    com a sua pasta preciosa, o capit\u00e3o pousou os talheres em cruz e disse Cadavez<br \/>\n    mais isto me parece um absurdo formid\u00e1vel e eu pensei Acabada a cerim\u00f4nia<br \/>\n    c\u00e1temos o Ite, missa est do padre, Deo Gratias e d\u00e1-me a ben\u00e7\u00e3o que por mim<br \/>\n    me piro j\u00e1,saio o arame e sigo mata fora com um peda\u00e7o de mandioca no bolso<br \/>\n    como osguerrilheiros, um peda\u00e7o de mandioca a cheirar ao caix\u00e3o do Carpinteiro<br \/>\n    apodrecendo,branco, no meu bolso, levantei-me a fim de ver a pedra-pomes da<br \/>\n    lua na chana e veiomede s\u00fabito \u00e0 ideia o sorriso de Gagarine no regresso,<br \/>\n    Quando eu chegar que sorrisofarei?, perguntei alto, os alferes voltaram-se<br \/>\n    espantados para mim e o capit\u00e3o estendeu obra\u00e7o para a garrafa de u\u00edsque,<br \/>\n    como de manh\u00e3, gorduroso de sono, se palpa a mesa decabeceira \u00e0 procura do<br \/>\n    esguicho horr\u00edvel do despertador para calar a sua campainhadolorosamente estridente,<br \/>\n    a furar-nos os ouvidos com a l\u00e2mina imperiosa de um berrode metal.<\/p>\n<p>Escute: em 61 eu fugia diante da pol\u00edcia no Est\u00e1dio Universit\u00e1rio, chusmas<br \/>\n    deestudantes em debandada na dire\u00e7\u00e3o da cantina, o meu irm\u00e3o Jo\u00e3o chegou a<br \/>\n    casa muitos\u00e9rio e disse Parece que mataram um tipo, a pol\u00edcia de choque avan\u00e7ava<br \/>\n    de capacetenuma f\u00faria de bast\u00f5es e de coronhas, autom\u00f3veis da PIDE giravam<br \/>\n    em carrossel pelasFaculdades, o Salazar espetava o dedo, \u00fanica coisa, decerto,<br \/>\n    que ele alguma vezespetou, na televis\u00e3o, ventres calvos aplaudiam-no com fervor<br \/>\n    beato de sacristia,infelizmente o general Delgado era velho demais para Nuno<br \/>\n    \u00c1lvares e o Mestre de Avisum conezinho de p\u00f3 na Batalha, a guerra ou Paris<br \/>\n    e agora escolhe que o Capado \u00e9eterno, a segunda parte do segredo de F\u00e1tima<br \/>\n    \u00e9 a garantia da eternidade do Capado,durante a viagem a orquestra do navio<br \/>\n    tocava tangos mofentos para bodas de prata,embarquei a 6 de Janeiro e na noite<br \/>\n    do fim do ano tranquei-me no quarto de banho parachorar, um bolo-rei imposs\u00edvel<br \/>\n    de engolir entupia-me a garganta, empurrei-o achampanhe e ele tombou na barriga<br \/>\n    no som dos pedregulhos no po\u00e7o do jardim do av\u00f4,plof!, provocando c\u00edrculos<br \/>\n    conc\u00eantricos no lago da canja do jantar, o po\u00e7o sob as\u00e1rvores ao p\u00e9 do muro<br \/>\n    para a estrada onde se ia fumar \u00e0s escondidas, o caseiro tirou ochap\u00e9u e explicou<br \/>\n    respeitosamente a co\u00e7ar a cabe\u00e7a O que a gente precisa \u00e9 que venhaalgu\u00e9m tomar<br \/>\n    conta de n\u00f3s o menino n\u00e3o acha?, e se vier algu\u00e9m tomar conta de n\u00f3s oque<br \/>\n    pensa voc\u00ea que come\u00e7aria por fazer, levar-me para sua casa, lev\u00e1-la para minhacasa,<br \/>\n    lavar-nos os dentes, estender-nos na cama, e falar-nos em voz baixa at\u00e9adormecermos,<br \/>\n    falar-nos de serenidade e alegria at\u00e9 adormecermos, falar-nos doprimeiro de<br \/>\n    Maio de 74 que os pol\u00edticos inquinavamj\u00e1 da massa folhada sem recheiodos seus<br \/>\n    discursos veementes, mas onde crescia nas ruas uma irresist\u00edvel fermenta\u00e7aode<br \/>\n    esperan\u00e7a, os ministros do Caetano borravam-se de medo na Madeira, os pidesborravam-se<br \/>\n    de medo em Caxias, um festa de labaredas vermelhas alastravatriunfalmente<br \/>\n    em Lisboa, quiero que me perdones los muertos de mi felicidad, losmuertos<br \/>\n    de mi felicidad no cacimbo de Angola, seis meses de cacimbo enevoado ecapim<br \/>\n    amarelo a arder ao longe, perdoe-me os morros da minha felicidade quando lheseguro<br \/>\n    na m\u00e3o, quando os meus joelhos apertam os seus, quando a minha boca vai tocarna<br \/>\n    sua e os olhos se fecham devagar como corolas noturnas, todos os meus ontens<br \/>\n    seencontram presentes neste beijo, talvez que as m\u00famias do bar se esfarelem<br \/>\n    como osvampiros \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o do dia num concerto de dobradi\u00e7as que se quebram,<br \/>\n    todos osmeus ontens, percebe?, O que a gente precisa, menino, garantia o caseiro,<br \/>\n    \u00e9 que venhaalgu\u00e9m tomar conta de n\u00f3s, Foda-se, disse o furriel de queixo nos<br \/>\n    joelhos a limpar asbotas com o dedo, o corpo do primeiro defunto inchava sob<br \/>\n    o cobertor, na realidadetodo o cais \u00e9 uma saudade de pedra, Maria Jos\u00e9, e<br \/>\n    a\u00ed come\u00e7amos a perder-nos, tr\u00easgarrafas de u\u00edsque por m\u00eas a cada oficial para<br \/>\n    acender a lampadazinha votiva docora\u00e7\u00e3o mec\u00e2nico que teima, o sargento passou<br \/>\n    por mim e fez a d\u00e9cima nonacontin\u00eancia da \u00faltima meia hora, Boa noite senhor<br \/>\n    doutor, desapareceu no escuro a caminho da sua confus\u00e3o de impressos, instalado<br \/>\n    na cadeira de t\u00e1buas de barril lembreimedo soldado a dormir a sesta na gaveta<br \/>\n    de chumbo e do apontador de metralhadora achamar Cabr\u00f5es de merda aos cabr\u00f5es<br \/>\n    de merda que para aqui nos mandaram,professores patetas penteado e preciosos,<br \/>\n    Cabr\u00f5es de merda, cabr\u00f5es de merda, cabr\u00f5esde merda, o diretor do Hospital<br \/>\n    Militar de Tomar mandou chamar-me a anunciou O meuamigo foi mobilizado para<br \/>\n    Angola, era em Agosto e a claridade da manh\u00e3 fervia, verde,nas janelas, a<br \/>\n    cidade flutuava na luz, o reflexo do Mouch\u00e3o tremia na \u00e1gua, mobilizadopara<br \/>\n    Angola num batalh\u00e3o de Artilharia, Pai, fui mobilizado para Angola num batalh\u00e3ode<br \/>\n    Artilharia, na voz pequenina com que comunicava as reprova\u00e7\u00f5es na Faculdade,<br \/>\n    ocapit\u00e3o veio sentar-se na outra cadeira de barril e os cubos de gelo tiniam<br \/>\n    como moedasnuma algibeira no escuro, O rapaz chegou j\u00e1 morto, disse-lhe eu,<br \/>\n    e nenhum truque deilusionismo m\u00e9dico o safou, fez-me uma impress\u00e3o danada<br \/>\n    ver-lhe os cabelos loiros,parecia-se comigo aos vinte anos, Os tipos emboscaram-se<br \/>\n    a dois metros da picada,disse o capit\u00e3o, havia sangue deles nos arbustos,<br \/>\n    marcas de arrastarem corpos deferidos, a pedra-pomes da luz encalhou nos eucaliptos,<br \/>\n    enredada nos ramos, o capit\u00e3olevantou-se, a cara dele aparentava-se \u00e0 de Edward<br \/>\n    G. Robinson num filme de FritzLang, come\u00e7ou a afastar-se numa marcha de sapo<br \/>\n    no sentido do armaz\u00e9m dovagomestre, perguntei Onde \u00e9 que voc\u00ea vai?, o vulto<br \/>\n    respondeu-me continuando a andar Pendurar os tomates na arrecada\u00e7\u00e3o, doutor,<br \/>\n    se quiser d\u00ea-me tamb\u00e9m os seus que j\u00e1 n\u00e3oprecisamos dos gajos para continuar<br \/>\n    aqui.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"9\">I<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Porque camandro \u00e9 que n\u00e3o se fala nisso? Come\u00e7o a pensar que o milh\u00e3o equinhentos<br \/>\n    mil homens que passaram por \u00c1frica n\u00e3o existiram nunca e lhe estoucontando<br \/>\n    uma esp\u00e9cie de romance de mau gosto imposs\u00edvel de acreditar, uma hist\u00f3riainventada<br \/>\n    com que a comovo a fim de conseguir mais depressa (um ter\u00e7o de paleio, umter\u00e7o<br \/>\n    de \u00e1lcool, um ter\u00e7o de ternura, sabe como \u00e9?) que voc\u00ea veja nascer comigo<br \/>\n    amanh\u00e3 na claridade azul p\u00e1lida que fura as persianas e sobe dos len\u00e7\u00f3is,<br \/>\n    revela a curvaadormecida de uma n\u00e1dega, um perfil de bru\u00e7os no colch\u00e3o, os<br \/>\n    nossos corposconfundidos num torpor sem mist\u00e9rio. H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o consigo<br \/>\n    dormir? Entro nanoite como um vagabundo furtivo com bilhete de segunda classe<br \/>\n    numa carruagem deprimeira, passageiro clandestino dos meus des\u00e2nimos encolhido<br \/>\n    numa in\u00e9rcia que meaproxima dos defuntos e que o vodka anima de um frenesim<br \/>\n    posti\u00e7o e caprichoso, e astr\u00eas da manh\u00e3 v\u00eaem-me chegar aos bares ainda abertos,<br \/>\n    navegando nas \u00e1guas paradas dequem n\u00e3o espera a surpresa de nenhum milagre,<br \/>\n    a equilibrar com dificuldade na boca opeso fingido de um sorriso.<\/p>\n<p>H\u00e1 quanto tempo de fato n\u00e3o consigo dormir? Se fecho os olhos, uma rumorosaconstela\u00e7\u00e3o<br \/>\n    de pomboss levanta voo dos telhados das minhas p\u00e1lpebras descidas,vermelhas<br \/>\n    de conjuntivite e de cansa\u00e7o, e a agita\u00e7\u00e3o das suas asas prolonga-se nos meusbra\u00e7os<br \/>\n    em tremuras hep\u00e1ticas, apenas capazes de um trope\u00e7ar desajeitado de galinha,<br \/>\n    aspernas enrolam-se na colcha numa umidade de febre, por dentro da cabe\u00e7a<br \/>\n    uma chuvade Outubro tomba lentamente sobre os ger\u00e2nios tristes do passado.<br \/>\n    Em cada manh\u00e3, aoespelho, me descubro mais velho: a espuma de barbear transforma-me<br \/>\n    num Pai Natal depijama cujo cabelo desgrenhado oculta pudicamente as rugas<br \/>\n    perplexas da testa, e aolavar os dentes tenho a sensa\u00e7\u00e3o de escovar mand\u00edbulas<br \/>\n    de museu, de caninos malajustados nas gengivas poeirentas. Mas por vezes,<br \/>\n    em certos s\u00e1bados que o sol obl\u00edquoalegra de n\u00e3o sei que promessas, suspeito-me<br \/>\n    ainda no sorriso um reflexo de inf\u00e2ncia, e imagino, ensaboando os sova\u00e7os,<br \/>\n    que me despertar\u00e3o r\u00eamiges entre o musgo dos pelos, e sairei pela janela numa<br \/>\n    leveza f\u00e1cil de barco, a caminho da \u00cdndia do caf\u00e9.<\/p>\n<p>Como na tarde de 22 de Junho de 71, no Chi\u00fame, em que me chamaram ao r\u00e1diopara<br \/>\n    me anunciar de Gago Coutinho, letra a letra, o nascimento da minha filha,<br \/>\n    r\u00f4mio,alfa, pap\u00e1, alfa, r\u00f4mio, \u00edndia, golf, alfa, paredes forradas de fotografias<br \/>\n    de mulheres nuaspara a masturba\u00e7\u00e3o da sesta, mamas enormes que come\u00e7aram de<br \/>\n    s\u00fabito a avan\u00e7ar e arecuar, segurei com for\u00e7a as costas da cadeira do cabo<br \/>\n    de transmiss\u00f5es e pensei Vai-medar qualquer merda e estou fodido.<\/p>\n<p>O Chi\u00fame era o \u00faltimo dos cus de Judas do Leste, o mais distante da sede<br \/>\n    dobatalh\u00e3o e o mais isolado e miser\u00e1vel: os soldados dormiam em tendas c\u00f4nicas<br \/>\n    na areia,partilhando com os ratos a penumbra nauseabunda que a lona segregava<br \/>\n    como um frutopodre, os sargentos apinhavam-se na casa em ru\u00edna de um antigo<br \/>\n    com\u00e9rcio, quandoantes da guerra os ca\u00e7adores de crocodilos por ali passavam<br \/>\n    a caminho do rio, e eudividia com o capit\u00e3o um quarto do edif\u00edcio da chefia<br \/>\n    do posto, atrav\u00e9s de cujo tetoesburacado os morcegos vinham rodopiar por sobre<br \/>\n    as nossas camas espiraiscambaleantes de guarda-chuvas rasgados. Sessenta pessoas<br \/>\n    encerradas na sanzalaalimentavam-se em latas ferrugentas dos restos de comida<br \/>\n    do quartel, mulheresacocoradas sorriam para a tropa o riso vazio das ef\u00edgies<br \/>\n    das canecas de loi\u00e7a, a que asbocas sem incisivos conferiam uma profundidade<br \/>\n    inesperada, e o soba, septuagen\u00e1rioem farrapos reinando sobre um povo c\u00f4ncavo<br \/>\n    de fome, trazia-me \u00e0 lembran\u00e7a umavelha amiga aristocr\u00e1tica da minha m\u00e3e que<br \/>\n    vivia com os c\u00e3es e as filhas num andardesabitado de m\u00f3veis, de pegadas retangulares<br \/>\n    dos quadros nas paredes desertas e afalta das terrinas assinalada por uma<br \/>\n    aus~encia de p\u00f3 nas prateleiras dos arm\u00e1rios. Umenxame de credores impacientes,<br \/>\n    padeiro, leiteiro, mercearia, talho, etc., agitava\u00b4se \u00e0volta dela brandindo<br \/>\n    amea\u00e7adoramente faturas por pagar, as criadas exigiam aos gritosos ordenados<br \/>\n    em atraso, antigos lutadores de feira, de fato macaco, destro\u00e7ados pelaeros\u00e3o<br \/>\n    marinha do baga\u00e7o, empurravam pelas escadas, a caminho do prego, o piano decauda<br \/>\n    que soltava de tempos a tempos o ganido de protesto de um l\u00e1 desafinado. Emajestosamente<br \/>\n    alheia aos credores, \u00e0s criadas, \u00e0 amentosa partida do piano, aoscachorros<br \/>\n    que urinavam no tapete numa sem-cerim\u00f4nia medieval, a amiga, instaladanum<br \/>\n    sof\u00e1 de que as molas atravessavam o veludo como as clav\u00edculas das mulas idosas<br \/>\n    ocouro gasto dos seus ombros, mantinha a postura soberba das princesas exiladas,<br \/>\n    paraquem os rel\u00f3gios rodam para tr\u00e1s, marcando horas que j\u00e1 foram.<\/p>\n<p>Como ela, o soba morava num passado de muitas mulheres e muitas lavras, na\u00e9poca<br \/>\n    em que a sua gente, do Ninda ao Quando, plantava na mata a mandioca que osDakotas<br \/>\n    agora queimavam na tentativa de dificultar o avan\u00e7o dos guerrilheiros que<br \/>\n    daZ\u00e2mbia progrediam para o planalto do Huambo, com o objetivo de envolverem<br \/>\n    a poucoe pouco as cidades do Sul: sentado na cadeira de bra\u00e7os prec\u00e1rias,<br \/>\n    que eu levara daenfermaria para lhe oferecer, e cujo esmalte branco cintilava<br \/>\n    diamantes de trono com o\u00faltimo sol, o luchaze, distra\u00eddo dos gavi\u00f5es que lhe<br \/>\n    cobi\u00e7avam os pintos em elipses degula, vagueava ao acaso pela chana um olhar<br \/>\n    de Santa Helena, que a mem\u00f3ria de gl\u00f3riassuntuosas petrificava. A guerra reduzira-o<br \/>\n    ao of\u00edcio ins\u00f3lito de costureira do quartel, domesmo modo que os condes russos<br \/>\n    guiavam t\u00e1xis nos romances de Ohnet, e instalava \u00e0tarde, diante da cubata,<br \/>\n    uma m\u00e1quina de costura antiqu\u00edssima que se assemelhava aosnavios de rodas<br \/>\n    do Mississipi, na qual passajava as cal\u00e7as rasgadas da tropa nos gestosteatrais<br \/>\n    de um ilusionista pouco convicto da efic\u00e1cia dos seus dons, tal como eu pensoque<br \/>\n    a minha m\u00e3o, a afagar insistentemente a sua m\u00e3o im\u00f3vel, n\u00e3o conseguir\u00e1 mais<br \/>\n    queuma r\u00e1pida noite sem ternura.<\/p>\n<p>O trabalho dos outros, que me proporciona a confort\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o de espectado<br \/>\n    sem responsabilidade, fascina-me: em mi\u00fado demorava-me horas maravilhadas<br \/>\n    na oficina do sapateiro vizinho, cub\u00edculo onde pairava uma sombra fresca de<br \/>\n    latada,frequentado por cegos de Greco que, de bengala de listras entre os<br \/>\n    joelhos, conversavamcom o vulto desfocado que batia sola ao fundo, atr\u00e1s de<br \/>\n    uma muralha de botas,arrotando o bafo inseticida do tinto. Os cabeleireiros<br \/>\n    dos drugstores, a desenharem emtorno de nucas obedientes bailados de ademanes<br \/>\n    que se evaporam, levam-me a colar onariz \u00e0s cortinas numa imensa sofreguid\u00e3o<br \/>\n    de pasmo. O movimento das agulhas detricot da minha m\u00e3e, segregando camisolas<br \/>\n    num tinir de floretes dom\u00e9sticos, possuipara mim o inesgot\u00e1vel encanto do<br \/>\n    fogo na lareira ou do mar, cuja monotonia semprediversas me hipnotiza. E ap\u00f3s<br \/>\n    alguns meses de guerra, que assinalava tra\u00e7ando cruzesraivosas em todos os<br \/>\n    calend\u00e1rios ao alcance, ap\u00f3s a perna do Ferreira e a morte do caboPaulo, professor<br \/>\n    prim\u00e1rio que todas as noites, obl\u00edquo de vinho, dissertava aos berros,diante<br \/>\n    da messe de oficiais, discursos prolixos acerca das equa\u00e7\u00f5es de segundo grau,cercado<br \/>\n    por uma matilha de c\u00e3es ignorantes a ladraem furibundos no escuro, ocupava<br \/>\n    osfins de tarde assistindo aos arrancos exaustos da m\u00e1quina de costura do<br \/>\n    soba, de que oscotovelos agudos de bielas se assemelhavam aos de um corredor<br \/>\n    de marcha no termo deuma prova excessiva. Quando me chamaram ao r\u00e1dio, o aparelho<br \/>\n    acabava de seengasgar na degluti\u00e7\u00e3o da camisa de um alferes, tossia linhas,<br \/>\n    bot\u00f5es e peda\u00e7os detecido por diversos orif\u00edcios ferrugentos, e o soba, de<br \/>\n    m\u00e3os na cabe\u00e7a, aflit\u00edssimo,pulava \u00e0 volta daquela geringon\u00e7a vener\u00e1vel como<br \/>\n    Buster Keaton em torno das suasinven\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Espere um instante, deixe-me encher o copo. Quer chupar a rodela de laranja<br \/>\n    ecuspi-la a seguir no cinzeiro, id\u00eantica a uma fatia ba\u00e7a e seca de sol de<br \/>\n    Outubro, chuparaa laranja, de olhos baixos, para se poupar a si mesma o espet\u00e1culo<br \/>\n    deris\u00f3rio da minhacomo\u00e7\u00e3o, como\u00e7\u00e3o de b\u00eabedo, \u00e0s duas da manh\u00e3, quando os<br \/>\n    corpos se principiam adeslocar como limpa-para-brisas, o bar \u00e9 um Titanic<br \/>\n    que naufraga e as bocas caladasentoam hinos sem som, abrindo-se e fechando-se<br \/>\n    \u00e0 laia dos bei\u00e7os tumefatos dospeixes? H\u00e1 qualquer coisa, sabe como \u00e9, de<br \/>\n    gale\u00e3o espanhol submerso nesta sala,povoado dos cad\u00e1veres \u00e0 deriva da tripula\u00e7\u00e3o<br \/>\n    que uma claridade sublunardiagonalmente ilumina, cad\u00e1veres que flutuam sem<br \/>\n    aderir \u00e0s cadeiras, entre duas \u00e1guas,a ondularem os bra\u00e7os sem ossos num vagar<br \/>\n    de limos. At\u00e9 os empregados se tornamdemorados, sonolentos, criando ra\u00edzes<br \/>\n    no balc\u00e3o \u00e0 maneira de corais estupefatos que obarman estimula por vezes ao<br \/>\n    dar-lhes a cheirar o frasco de sais de uma aguardente depera, salvando-os<br \/>\n    dessa forma de um coma vegetal. E aqui estamos n\u00f3s, afogadostamb\u00e9m, franzindo<br \/>\n    de tempos a tempos as vieiras das p\u00e1lpebras, polvos de aqu\u00e1rioborbulhando<br \/>\n    palavras que a m\u00fasica de fundo dissolve num murm\u00fario de surdina demar\u00e9, voc\u00ea<br \/>\n    a escutar-me com a tranquila paci\u00eancia das est\u00e1tuas (que l\u00edngua falariam asest\u00e1tuas,<br \/>\n    se falassem, que frases se segredam \u00e0 noite no sil\u00eancio oco, de sarc\u00f3fago<br \/>\n    comescarradores, dos museus?), voc\u00ea a escutar-me, dizia, e eu contando-lhe<br \/>\n    da chamada aor\u00e1dio para ouvir de Gago Coutinho, palavra a palavra, a not\u00edcia<br \/>\n    do nascimento da minhafilha, agarrado \u00e0s costas da cadeira do cabo de transmiss\u00f5es<br \/>\n    e a pensar Vai-me dar umacamueca e estou fodido.<\/p>\n<p>Eu tinha-me casado, sabe como \u00e9, quatro meses antes de embarcar, em Agosto,numa<br \/>\n    tarde de sol de que conservo uma recorda\u00e7\u00e3o confusa e ardente, a que o som<br \/>\n    do\u00f3rg\u00e3o, as flores nos altares e as l\u00e1grimas da fam\u00edlia emprestavam um n\u00e3o<br \/>\n    sei qu\u00ea defilme de Bu\u00f1uel enternecido e suave, depois de breves encontros<br \/>\n    de fim-de-semana emque faz\u00edamos amor numa raiva de urg\u00eancia, inventando uma<br \/>\n    desesperada ternura emque se adivinhava a ang\u00fastia da separa\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima, e<br \/>\n    despedimo-nos sob a chuva, nocais, de olhos secos, presos um ao outro num<br \/>\n    abra\u00e7o de \u00f3rf\u00e3os. E agora, a dez milquil\u00f4metros de mim, a minha filha, ma\u00e7\u00e3<br \/>\n    do meu esperma, a cujo crescimento detouperia sob a pele do ventre eu n\u00e3o<br \/>\n    assistira, irrompia de s\u00fabito no cub\u00edculo das transmiss\u00f5es, entre recortes<br \/>\n    de revistas e calend\u00e1rios de atrizes nuas, trazida pelacegonha da vozinha<br \/>\n    n\u00edtida do furriel de Gago Coutinho, explicando, alfa, bravo, r\u00f4mio,alfa, charlie,<br \/>\n    \u00f4mega, o abra\u00e7o do batalh\u00e3o.<\/p>\n<p>Mille baisers pour ma fille et ma ch\u00e8re petite maman: a minha av\u00f3 mostrou-meum<br \/>\n    dia um peda\u00e7o de papel fr\u00e1gil como folha de herb\u00e1rio, telegrama em que o av\u00f4,<br \/>\n    naguerra de Fran\u00e7a, respondia ao parto da minha m\u00e3e, e lembrei-me, olhando<br \/>\n    umafotografia onde uma rapariga e um c\u00e3o se lambiam mutuamente o intervalo<br \/>\n    das coxas,de um homenzinho calado, de cabelos brancos e aparelho auditivo,<br \/>\n    sentado na varandada casa de Nelas a mirar a serra, lembrei-me dos fins de<br \/>\n    tarde na Beira, em Setembro, na\u00e9poca recuada em que a fam\u00edlia se agrupava<br \/>\n    \u00e0 minha volta e \u00e0 volta dos meus irm\u00e3osnuma esp\u00e9cie de ret\u00e1bulo enternecido<br \/>\n    e protetor, lembrei-me do sorriso da minha m\u00e3e,que t\u00e3o poucas vezes vi sorrir<br \/>\n    depois, e do ramo de trepadeira que todas as noites batiacontra a janela,<br \/>\n    chamando-nos para misteriosas proezas de Peter Pan. E agora,encostado ao arame,<br \/>\n    sozinho, a fim de que me n\u00e3o vissem as l\u00e1grimas, encostado aoarame do Chi\u00fame<br \/>\n    e assistindo ao descer do morro at\u00e9 \u00e0 chana e, para l\u00e1 da chana, \u00e0 matade<br \/>\n    morrer do Leste, \u00e0 mata de morrer magra e p\u00e1lida do Leste, pensava na minha<br \/>\n    filhadesconhecida num ber\u00e7o de cl\u00ednica, entre outros ber\u00e7os de cl\u00ednica que<br \/>\n    se espiam atrav\u00e9sda vigia de navio, pensava na filha que tanto desejara como<br \/>\n    testemunho vivo de mimpr\u00f3prio na esperan\u00e7a de que, por interm\u00e9dio dela, me<br \/>\n    redimisse um pouco dos meuserros, do meus defeitos e das minhas falhas, dos<br \/>\n    projetos abortados e dos sonhosgrandiloquentes a que me n\u00e3o atrevia a dar<br \/>\n    forma e sentido. Talvez que ela escrevesseum dia os romances que eu tinha<br \/>\n    medo de tentar e encontrasse para eles a cor e o ritmoexatos, talvez que ela<br \/>\n    lograsse com os outros a rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima e quente e generosa queeu ao mesmo<br \/>\n    tempo desejava e temia, talvez que nos fosse poss\u00edvel um entendimentopacientemente<br \/>\n    conquistado que de certa forma me justificasse, e que a m\u00e3e dela, duranteanos,<br \/>\n    aguardara em v\u00e3o. A pieguice, sabe como \u00e9, substitui com frequ\u00eancia em mim<br \/>\n    odesejo genu\u00edno de mudar, e vou ferindo imperturbavelmente as pessoas em nome<br \/>\n    dessaesp\u00e9cie peculiar de autocomisera\u00e7\u00e3o e arrependimento que reveste a maior<br \/>\n    parte dasvezes a forma de um ego\u00edsmo feroz. A lucidez que a segunda garrafa<br \/>\n    de vodka meconfere \u00e9 de tal maneira insuport\u00e1vel que, se n\u00e3o se importa, passamos<br \/>\n    \u00e0 claridadetamisada do cognac que tinge a minha mediocridade interior do lil\u00e1s<br \/>\n    de uma solid\u00e3oaflita, que ao menos parcialmente me justifica e me perdoa.<br \/>\n    N\u00e3o sucede o mesmoconsigo? Nunca teve vontade de se vomitar a si pr\u00f3pria?<br \/>\n    \u00c0 medida que envelhe\u00e7o e quea necessidade de sobreviver se vai tornando menos<br \/>\n    urgente e aguda, apercebo-me commaior nitidez de que&#8230; Mas aqui est\u00e1 o cognac:<br \/>\n    ao segundo gole, vai ver, a ansiedadeprincipia a mudar de rumo, a exist\u00eancia<br \/>\n    recobra a pouco e pouco uma tonalidadeagrad\u00e1vel, recome\u00e7amos lentamente a<br \/>\n    apreciar-nos, a defender-nos de n\u00f3s mesmos, aser capazes de continuar a destruir.<br \/>\n    Com este penso a 90 graus no es\u00f4fago sinto-me livrepara retomar a minha narrativa<br \/>\n    no ponto onde h\u00e1 momentos a deixei: estamos em 71, noChi\u00fame, e a minha filha<br \/>\n    acaba de nascer. Acaba de nascer e a essa hora as senhoras doMovimento Nacional<br \/>\n    Feminino devem estar pensando em n\u00f3s sob os capacetesmarcianos dos secadores<br \/>\n    dos cabeleireiros, os patriotas da Uni\u00e3o Nacional pensam emn\u00f3s comprando roupa<br \/>\n    interior preta, transparente, para as secret\u00e1rias, a MocidadePortuguesa pensa<br \/>\n    em n\u00f3s preparando carinhosamente her\u00f3is que nos substituam, oshomens de neg\u00f3cios<br \/>\n    pensam em n\u00f3s fabricando material de guerra a pre\u00e7o m\u00f3dico, oGoverno pensa<br \/>\n    em n\u00f3s atribuindo pens\u00f5es de mis\u00e9ria \u00e0s mulheres dos soldados, e n\u00f3s,mal agradecidos,<br \/>\n    alvos de tanto amor, sa\u00edmos do arame em que apodrecemos paramorrer por perversidade<br \/>\n    de mina ou emboscada, ou deixamos negligentemente filhossem pais a quem ensinam<br \/>\n    a apontar com o dedo o nosso retrato ao lado da televis\u00e3o, emsalas de estar<br \/>\n    onde t\u00e3o-pouco estivemos. O alferes Eleut\u00e9rio, pequenino e enrugado, com quem<br \/>\n    fora ter \u00e0 mata, numa Mercedes, quando um dos seus homens perdera aperna numa<br \/>\n    antipessoal e se torcia, ainda consciente, na areia, pousou a m\u00e3o, sem falar,no<br \/>\n    meu ombro, e foi essa, percebe?, uma das raras vezes em que at\u00e9 hoje me acheiacompanhado.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"10\">J<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Deixe-me pagar a conta. N\u00e3o, a s\u00e9rio, deixe-me pagar a conta e tome-me pelojovem<br \/>\n    tecnocrata ideal portugu\u00eas 79, intelig\u00eancia tipo Expresso, isto \u00e9, mundana,superficial<br \/>\n    e inofensiva, cultura g\u00eanero Cadernos Dom Quixote, ou seja, prolixa,esquisita<br \/>\n    e fininha, op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica Fox-Trot, Pedras d&#8217;El Rei e Casa da Coimida,<br \/>\n    umagravura de Pomar, uma escultura de Cutileiro e um gramofone de camp\u00e2nula<br \/>\n    noapartamento, mantendo uma rela\u00e7\u00e3o emancipada, sinuosa e repleta de curtos-circuitostempestuosos<br \/>\n    com uma arquiteta paisagista, que, ao deixar \u00e0 noite as lentes de contatono<br \/>\n    cinzeiro, perde com esse strip-tease de diotiras o encanto brumoso do olhar<br \/>\n    dasatrizes americanas de Nicholas Ray, para se transformar numa nudez sem<br \/>\n    mist\u00e9rio deCampo de Ourique, \u00e0 procura, \u00e0s apalpadelas, na carteira, da embalagem<br \/>\n    deMicroginon. Dev\u00edamos todos usar suspens\u00f3rios para que a alma nos ca\u00edsse<br \/>\n    um poucomenos sobre os calcanhares, aconselhava Vidalie aos amigos num bar<br \/>\n    que Maio de 68deixara intacto, do mesmo modo que as mar\u00e9s poupam, sem que<br \/>\n    se saiba bem porqu\u00ea,certos rochedos da praia, e talvez que assim cess\u00e1ssemos<br \/>\n    de trope\u00e7ar nas dobras dascal\u00e7as dos nossos projetos maquilhados, com t\u00e3o<br \/>\n    mau h\u00e1lito se vistos de perto. H\u00e1pouca coisa em que ainda acredito e a partir<br \/>\n    das tr\u00eas da manh\u00e3 o futuro reduz-se \u00e0spropor\u00e7\u00f5es angustiantes de um t\u00fanel<br \/>\n    onde se penetra mugindo a dor antiga que se n\u00e3oconsegue sarar, antiga como<br \/>\n    a morte que dentro de n\u00f3s cresce, desde a inf\u00e2ncia, o seumusgo pegajoso de<br \/>\n    febre, convidando-nos \u00e0 ina\u00e7\u00e3o dos moribundos, mas existe tamb\u00e9msabe como<br \/>\n    \u00e9, essa claridade difusa, vol\u00e1tiel, onipresente, apaixonada, comum aosquadros<br \/>\n    de Matisse e \u00e0s tardes de Lisboa, que como o p\u00f3 de Africa atravessa as frinchas,as<br \/>\n    janelas cerradas, os intervalos moles que separam uns dos outros os bot\u00f5es<br \/>\n    dacamisa, a parede porosa das p\u00e1lpebras e a textura de vidro assassinado do<br \/>\n    sil\u00eancio, e n\u00e3o\u00e9 imposs\u00edvel que a beleza inesperada de uma rapariga jovem,<br \/>\n    ao cruzar-se conosco semnos ver no restaurante em que a cabe\u00e7a da pescada<br \/>\n    nos fita do prato com \u00f3rbitas deorgasmo implorativo, nos toque de s\u00fabito da<br \/>\n    franja de milagre de uma c\u00f3lica de desejo ede alegria. \u00c9 esse instante de<br \/>\n    surpresa, esse Natal inesperado, esse j\u00fabilo no fundo semmotivo que possivelmente<br \/>\n    aguardamos aqui, neste bar que desejar\u00edamos habitado do paide Huckleberry<br \/>\n    Fynn e das suas bebedeiras furibundas e geniais, im\u00f3veis comocamale\u00f5es \u00e0 espera<br \/>\n    da mosca de uma ideia, e mudando de cor conforme a tonalidade do\u00e1lcool que<br \/>\n    engolimos. Como eu mudei de cor quando, ao entrar de manh\u00e3 na casa debanho,<br \/>\n    dei com o oficial catangu\u00eas a lavar os dentes, as gengivas, o c\u00e9u da boca,<br \/>\n    al\u00edngua, a cara toda, com a minha escova:<\/p>\n<p>&#8211; Bonjour, mon lieutenant &#8211; borbulhou ele num riso enorme que lhe escorria,<br \/>\n    em baba cor-de-rosa, pelo queixo.<\/p>\n<p>Tinham arribado dias antes ao Chi\u00fame, uma companhia inteira de negrospequeninos<br \/>\n    e cabe\u00e7udos, de len\u00e7o vermelho ao pesco\u00e7o, cujos bigodes por ajardinar lhesconferiam<br \/>\n    a apar\u00eancia falsamente intelectual dos saxofonistas do Festival de Jazz deCascais,<br \/>\n    g\u00eanios da semifusa que o m\u00ednimo Bem Webster excomungaria, comandadospor um<br \/>\n    alferes de meia-idade que se apresentou como primo de Tchomb\u00e9, exprimindosenum<br \/>\n    franc\u00eas de disco Linguaphone a girar na rota\u00e7\u00e3o errada:<\/p>\n<p>&#8211; J&#8217;ai tr\u00e8s bien connu Mobutu, mon lieutenant &#8211; avisou-me ele a puxar<br \/>\n    escarro dedesprezo das grutas de Altamira dos pulm\u00f5es -, il \u00e9tait caporal<br \/>\n    comptable \u00e0 l&#8217;arm\u00e9ebelge.<\/p>\n<p>Reunidos e armados pela PIDE, constitu\u00edam uma horda indisciplinada epetulante<br \/>\n    a que a emissora da A\u00e2mbia chamava &#8220;os assassinos a soldo dos colonialistasportugueses&#8221;;<br \/>\n    n\u00e3o faziam prisioneiros e regressavam da mata aos berros, com os bolsoscheios<br \/>\n    de quantas orelhas lograssem apanhar; apoderaram-se das mulheres da sanzalaperante<br \/>\n    o desespero resignado do soba, cada vez mais perdido na contempla\u00e7\u00e3o dachana,<br \/>\n    apoiando o cotovelo e o que lhe restava da alma na sua m\u00e1quina de costuradefinitivamente<br \/>\n    avariada e que principiava a assemelhar-se a uma baleia morta na praia;eri\u00e7avam-se<br \/>\n    constantemente em exig\u00eancias e amuos de h\u00f3spedes de luxo a esporearemde amea\u00e7as<br \/>\n    a solicitude dos empregados, recusavam servi\u00e7o numa arrog\u00e2ncia dediretores-gerais<br \/>\n    que se cuidam confundidos com o porteiro, e o primo de Tchomb\u00e9,imp\u00e1vido, banqueteava-se<br \/>\n    de ratos assados sob os nossos soslaios de v\u00f4mito, e lavava aseguir os dentes<br \/>\n    satisfeitos com a minha escova, justificando-se numa simplicidadedesarmante:<\/p>\n<p>&#8211; Excusez-moi, mon lieutenant, je pensais qu&#8217;elle \u00e9tait \u00e0 tout de le<br \/>\n    monde.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f4r pide manda mais que os tropa &#8211; verificava o soba numa incredulidadedesolada,<br \/>\n    apontando os paisanos brancos que vinham de tempos a tempos conspirar comos<br \/>\n    catangueses nos cantos do arame, cujo inspetor o tenente levantara uma ocasi\u00e3o,<br \/>\n    namesse de Gago Coutinho, pelo pesco\u00e7o, por haver insultado de cobarde um<br \/>\n    oficial quen\u00e3o estava presente:<\/p>\n<p>&#8211; Ponha-se l\u00e1 fora, seu sacana.<\/p>\n<p>Mas logo do Comando de Zona os brigadeiros, autorit\u00e1rios, deram a entender<br \/>\n    que quem entrasse em conflito com os heroicos patriotas da d\u00eag\u00ea\u00e9sse correria<br \/>\n    alguns riscos militares desagrad\u00e1veis, e o tenente embarafustou pelo meu quarto<br \/>\n    a rodopiar de indigna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e3o cabr\u00f5es s\u00e3o uns como os outros, doutor, e quem anda aqui a foder o<br \/>\n    coirosomos n\u00f3s. Veja l\u00e1 se me arranja uma doen\u00e7azita decente que tenho nojo<br \/>\n    do caralhodesta guerra.<\/p>\n<p>Eu estava de passagem na sede do batalh\u00e3o, a caminho de Luanda e das f\u00e9rias<br \/>\n    deLisboa, estendido na cama na sesta do almo\u00e7o, a sentir como um feto o peso<br \/>\n    doesparguete na barriga.<\/p>\n<p>&#8211; Uma doen\u00e7a, doutor &#8211; insistia o tenente -, anemia, leucemia, reumatismo,cancro,<br \/>\n    b\u00f3cio, uma doen\u00e7azeca, uma doen\u00e7a de merda que me passe \u00e0 reserva: o quefazemos<br \/>\n    n\u00f3s aqui? Voc\u00ea j\u00e1 se perguntou o que fazemos aqui? Pensa que algu\u00e9m nosagradece,<br \/>\n    n\u00e3o, porra, escute l\u00e1, pensa que algu\u00e9m nos agradece? Ainda por cima,imagine<br \/>\n    o meu azar, recebi ontem carta da minha mulher a participar-me que a criada<br \/>\n    sedespediu, foi-se embora, pirou-se: n\u00e3o estava l\u00e1 o rapaz para p\u00f4r o selo<br \/>\n    na pequena e oresultado viu-se. V\u00e1 por mim, doutor, sopeira em que o patr\u00e3o<br \/>\n    n\u00e3o se ponha nuncachega a criar amor \u00e0 casa. Tinha-lhe comprado meias de renda<br \/>\n    pretas e cuecasvermelhas, as cores da Artilharia, a minha mulher sa\u00eda cedo<br \/>\n    para o emprego, ela traziameo pequeno-almo\u00e7o \u00e0 cama com as meias e as cuecas,<br \/>\n    boa como o milho, levantava olen\u00e7ol, olhava e dizia Ai senhor tenente que<br \/>\n    hoje est\u00e1 t\u00e3o grande. \u00d3 doutor, s\u00f3 queriaque provasse aquela compet\u00eancia.<br \/>\n    E os modos? E a delicadeza? Nunca lhe ouvi nenhumpalavr\u00e3o, era sempre: o coiso.<br \/>\n    O seu coiso isto, o seu coiso aquilo, d\u00ea-me o seu coiso,senhor tenente, gosto<br \/>\n    tanto do seu coiso, meta o seu coiso na minha coisinha. Que \u00e9 queme responde<br \/>\n    a isto, h\u00e3?<\/p>\n<p>De olhos fechados, com a voz enorme do tenente a rebolar pelo quarto, eu<br \/>\n    pensava: h\u00e1 onze meses que n\u00e3o vejo cortinas, nem tapetes, nem c\u00e1lices, nem<br \/>\n    alcatr\u00e3o, e era como se essas quatro aus\u00eancias constitu\u00edssem a base elementar<br \/>\n    de qualquer esp\u00e9ciede felicidade, h\u00e1 onze meses que s\u00f3 vejo morte e ang\u00fastia<br \/>\n    e sofrimento e coragem emedo, h\u00e1 onze meses que me masturbo todas as noites,<br \/>\n    como um puto, a tecer varia\u00e7\u00f5esadolescentes em torno das mamas das fotografias<br \/>\n    do cub\u00edculo de transmiss\u00f5es, h\u00e1 onzemeses que n\u00e3o sei o que \u00e9 um corpo ao<br \/>\n    p\u00e9 do meu corpo e o sossego de poder dormirsem ansiedade, tenho uma filha<br \/>\n    que n\u00e3o conhe\u00e7o, uma mulher que \u00e9 grito de amorsufocado num aerograma, amigos<br \/>\n    cujas fei\u00e7\u00f5es come\u00e7o inevitavelmente a esquecer,uma casa mobilada sem dinheiro<br \/>\n    que n\u00e3o visitei nunca, tenho vinte e tal anos, estou ameio da minha vida e<br \/>\n    tudo me parece suspenso \u00e0 minha volta como as criaturas degestos congelados<br \/>\n    que posavam para os retratos antigos.<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3 sigo de bimotor para Luanda. Quer que d\u00ea uma tranca na sopeira por<br \/>\n    si?<\/p>\n<p>E de novo a ba\u00eda, as palmeiras, os p\u00e1ssaros brancos pernaltas, os caf\u00e9s dosmilitares,<br \/>\n    os homens de pasta sebenta que trocavam dinheiro a vinte por cento nasesplanadas,<br \/>\n    o jogo de ancas das mulatas, os engraxadores, os aleijados, a indescrit\u00edvelmis\u00e9ria<br \/>\n    dos musseques, as putas do Bairro Mar\u00e7al iluminadas de vi\u00e9s pelos far\u00f3is dosjeeps,<br \/>\n    os sujeitos das ro\u00e7as de caf\u00e9 nos cabar\u00e9s da Ilha, a palparem bailarinas decr\u00e9pitascom<br \/>\n    \u00f3rbitas globulosas de sapos, cidade colonial pretensiosa e suja de que nunca<br \/>\n    gostei,gordura de umidade e de calor, detesto as tuas ruas sem destino, o<br \/>\n    teu Atl\u00e2nticodomesticado de barrela, o suor dos teus sovacos, o mau gosto<br \/>\n    estridente do teu luxo.N\u00e3o te perten\u00e7o nem me pertences, tudo em ti me repele,<br \/>\n    recuso que seja este o meupa\u00eds, eu que sou homem de tantos sangues misturados<br \/>\n    por um esquisito acaso de av\u00f3s detoda a parte, su\u00ed\u00e7os, alem\u00e3es, brasileiros,<br \/>\n    italianos, a minha terra s\u00e3o 89.000 quil\u00f4metrosquadrados com centro em Benfica<br \/>\n    na cama preta dos meus pais, a minha terra \u00e9 onde oMarechal Saldanha aponta<br \/>\n    o dedo e o Tejo des\u00e1gua, obediente, \u00e0 sua ordem, s\u00e3o ospianos das tias e o<br \/>\n    espectro de Chopin a flutuar \u00e0 tarde no ar rarefeito pelo h\u00e1lito dasvisitas,<br \/>\n    o meu pa\u00eds, Ruy Belo, \u00e9 o que o mar n\u00e3o quer.<\/p>\n<p>P\u00e1ssaros brancos, traineiras que sa\u00edam para a pesca ao in\u00edcio da noite. Ahospedeira<br \/>\n    que me marcara o lugar no avi\u00e3o apareceu de repente a entregar-me umpapelinho<br \/>\n    dobrado enquanto eu me debatia com a complica\u00e7\u00e3o do cinto:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem olhos azuis. Venha ter comigo quando voltar.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"11\">L<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>\u00c0s quatro da manh\u00e3 os espelhos s\u00e3o ainda suficientemente misericordiosos<br \/>\n    ouopacos para nos n\u00e3o devolverem o rosto amarrotado e encolhido das noites<br \/>\n    sem sono,que os olhos ba\u00e7os animam de des\u00e2nimo pisco: o excesso de luz do<br \/>\n    aeroporto impediamede me confrontar nos vidros com a minha silhueta hesitante,<br \/>\n    inclinada como umacana de pesca para o peixe gordo da mala, com a gravata<br \/>\n    que as muitas horas de avi\u00e3ohaviam decerto desviado da bissetriz dos colarinhos,<br \/>\n    tranformando-a num trapo molecomo os rel\u00f3gios de Dali, com as rugas que se<br \/>\n    acumulavam em torno das p\u00e1lpebras, \u00e0maneira dos vincos conc\u00eantricos de areia<br \/>\n    dos jardins japoneses; entre o homem quevoltava sozinho da guerra \u00e0 sua cidade<br \/>\n    e caminhava atrav\u00e9s de cachos de estrangeirosindiferentes, e n\u00f3s que nos dirigimos<br \/>\n    para a sa\u00edda do bar ao longo de um corredor denucas e perfis cuja mon\u00f3tona<br \/>\n    diversidade os aproxima dos manequins da Baixa,petrificados em acenos im\u00f3veis<br \/>\n    de uma inutilidade pat\u00e9tica, h\u00e1 apenas a diferen\u00e7ainsignificante de alguns<br \/>\n    mortos na picada, cad\u00e1veres que voc\u00ea n\u00e3o conheceu, as nucas eos perfis nunca<br \/>\n    viram, os estrangeiros do aeroporto ignoravam, e que, portanto, s\u00e3o inexistentes,<br \/>\n    inexistentes, percebe?, inexistentes, inexistentes como a sua ternura pormim,<br \/>\n    esse r\u00e1pido sorriso sem afeto que quase n\u00e3o chega a nascer, a m\u00e3o quieta queaceita<br \/>\n    com indiferen\u00e7a os meus dedos, a coxa inerte que a minha coxa ansiosamenteprime.<br \/>\n    O seu corpo escapa-se-me como os mesmbros se nos escapam com o sextodrunfo,<br \/>\n    independentes de n\u00f3s, flutuando gestos de polvo a que falta o arame dos ossos,<br \/>\n    epor dentro da sua cabe\u00e7a giram pensamentos indecifr\u00e1veis de que me sinto<br \/>\n    expulso,condenado a permanecer, de p\u00e9 e \u00e1 espera, no capacho da entrada dos<br \/>\n    seus soslaiosir\u00f4nicos, \u00e0 maneira, sabe como \u00e9, de uma lata de conservas de<br \/>\n    que se n\u00e3o tem a chave.Lembra-se dos pescadores de fim-de-semana da muralha<br \/>\n    da Marginal, a estenderemtoda a noite para o fio o anzolzinho obstinado e<br \/>\n    feliz? Pois bem, se voc\u00ea pousassedevagar a cabe\u00e7a no meu ombro, se a sua anca<br \/>\n    friccionasse a minha at\u00e9 saltar, doencontro de ambas, a chama de s\u00edlex de<br \/>\n    uma ere\u00e7\u00e3o contente, se as suas pestanasumedecessem de s\u00fabito, ao fitarem-me,<br \/>\n    de consentimento e abandono, poder\u00edamostalvez achar em n\u00f3s o mesmo subterr\u00e2neo<br \/>\n    j\u00fabilo que a pele cont\u00e9m a custo, o mesmodenso prazer de expectativa e esperan\u00e7a,<br \/>\n    a mesma alegria que se alimenta de si pr\u00f3priacomo a manh\u00e3 devora, nas suas<br \/>\n    pregas claras, o cintilante cora\u00e7\u00e3o do dia. Poder\u00edamosenvelhecer perto um<br \/>\n    do outro e da televis\u00e3o da sala, com a qual constituir\u00edamos osv\u00e9rtices de<br \/>\n    um tri\u00e2ngulo equil\u00e1tero dom\u00e9stico protegido pela sombra tutelar do abatjourde<br \/>\n    folhos e de uma natureza-morta de perdizes e ma\u00e7\u00e3s, melanc\u00f3lica como osorriso<br \/>\n    de um cego, e encontrar na garrafa de Drambuie do aparador um ant\u00eddotoa\u00e7ucarado<br \/>\n    contra a conforma\u00e7\u00e3o do reum\u00e1tico. Poder\u00edamos friccionar-nos mutuamenteos<br \/>\n    bicos de papagaio com b\u00e1lsamo Menopausol, pingar em un\u00edssono, no termo dasrefei\u00e7\u00f5es,<br \/>\n    as mesmas gotas para a tens\u00e3o, e aos domingos, depois do cinema, gra\u00e7as ao\u00faltimo<br \/>\n    beijo do filme indiano do Avis, unirmo-nos em abra\u00e7os espasm\u00f3dicos de rec\u00e9mnascidos,a<br \/>\n    soprar pelas dentaduras posti\u00e7as bronquites aflitas de chaleira. E eu, deitadode<br \/>\n    costas no colch\u00e3o ortop\u00e9dico reduzido a uma t\u00e1bua dura de faquir a fim de<br \/>\n    preveniras guinadas da ci\u00e1tica, lembrar-me-ia do jovem saud\u00e1vel e ardente<br \/>\n    que h\u00e1 muitos anosfui, capaz de repetir sem azia o frango na p\u00facara, para<br \/>\n    quem o horizonte do futuro n\u00e3oera limitado pelo perfil de cordilheiras dos<br \/>\n    Andes de um eletrocardiograma amea\u00e7ador,a regressar da guerra de \u00c1frica para<br \/>\n    conhecer a filha, numa dessas madrugadas deNovembro tristes como a chuva num<br \/>\n    p\u00e1tio de col\u00e9gio, durante a li\u00e7\u00e3o de Matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>A voz feminina, vinda de nenhum lado, que anuncia em tr\u00eas l\u00ednguas a partidados<br \/>\n    avi\u00f5es, flutuava, imaterial, por sobre a minha cabe\u00e7a, id\u00eantica a uma nuvem<br \/>\n    deDelvaux, at\u00e9 se dissolver a pouco e pouco numa espuma de s\u00edlabas em que<br \/>\n    os nomes decidades estranhas ecoavam, S\u00e3o Salvador, La Paz, Buenos Aires,<br \/>\n    Montevid\u00e9u, edif\u00edciosde cem andares que as ma\u00e7as de Ad\u00e3o dos elevadores percorrem<br \/>\n    de cont\u00ednuo para baixoe para cima em degluti\u00e7\u00f5es incessantes, vomitando funcion\u00e1rios<br \/>\n    escuros, de bigodes,cujos sorrisos se abrem como cortinas sobre dentes de<br \/>\n    oiro de uma amabilidadecarn\u00edvora. Nesses pa\u00edses veementes, onde os golpes<br \/>\n    de Estado e os tremores de terra sesucedem numa cad\u00eancia teatral destinada<br \/>\n    a tentar despertar (sem \u00eaxito) o desinteresseson\u00e2mbulo de um p\u00fablico de cantores<br \/>\n    de tango que esperam, desde o desastre deGardel, a Cumparsita que os acorde,<br \/>\n    poderia iniciar, entre um cacto e uma Dolores, aexist\u00eancia generosa do Camilo<br \/>\n    Torres que grita em mim, sob sucessivas camadasc\u00f3rneas de ego\u00edsmo e de pregui\u00e7a,<br \/>\n    a sua indigna\u00e7\u00e3o apaixonada. Dezenas de SierrasMaestras aguardavam as minhas<br \/>\n    barbas e o meu charuto, e resolveria tranquilamenteproblemas de xadez, encostado<br \/>\n    a uma \u00e1rvore, a fazer tremer de medo ditadoresbarrigudos protegidos pelos<br \/>\n    \u00f3culos Ray-Ban e as pastilhas el\u00e1sticas da CIA. Oempregado da Alf\u00e2ndega, magrinho<br \/>\n    intolerante que suspeitou decerto em mim oguerrilheiro em embri\u00e3o, vasculhou-me<br \/>\n    a mala num azedume minucioso em busca demetralhadoras libert\u00e1rias.<\/p>\n<p>&#8211; Trago um feto de oito meses escondido no meio das camisas &#8211; informei-oamavelmente<br \/>\n    para lhe agu\u00e7ar a irrita\u00e7\u00e3o e o zelo. Possu\u00eda o aspecto desiludido efren\u00e9tico<br \/>\n    de quem se estende ao lado de uma esposa fr\u00edgida, que apenas o pulm\u00e3o dea\u00e7o<br \/>\n    do folhetim do r\u00e1dio mant\u00e9m viva.- Voc\u00eas v\u00eam de Angola convencidos que s\u00e3o<br \/>\n    uns grandes homens mas isto aquin\u00e3o \u00e9 o mato, seu tropa <\/p>\n<p>&#8211; E a voz dele, a articular as palavras numa entoa\u00e7\u00e3o Assimil,trouxe-me de<br \/>\n    s\u00fabito \u00e0 lembran\u00e7a o professor de Portugu\u00eas do liceu, sujeitoexageradamente<br \/>\n    cuidado, de unhas polidas e anel de monograma, que recitava Tom\u00e1sRibeiro em<br \/>\n    bicos de sapatos de verniz, puxando do fundo do es\u00f4fago tremuras deemo\u00e7\u00e3o<br \/>\n    arrebatada:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Palram pega e papagaio<br \/>\n      E cacareja a galinha.<br \/>\n      Os ternos pombos arrulham,<br \/>\n      Geme a rola inocentinha.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&#8211; Se fosse, dava-lhe um tiro nos tomates.<\/p>\n<p>O burocrata idoso que seguia \u00e0 minha frente voltou-se para tr\u00e1s assarapantado,uma<br \/>\n    senhora disse para outra Chegam todos assim l\u00e1 de \u00c1frica, coitadinhos, e eu<br \/>\n    sentique me olhavam como se olham os aleijados que rastejam de muletas nas<br \/>\n    cercanias doHospital Militar, sapos coxos fabricados pela estupidez do Estado<br \/>\n    Novo, que ao fim datarde, no Ver\u00e3o, escondiam os cotos envergonhados nas mangas<br \/>\n    das camisolas, pombosdoentes pousados nos bancos do jardim da Estrela, ou<br \/>\n    misturando-se com as prostitutasque na Rua Artilharia Um ro\u00e7am as ancas ossudas<br \/>\n    pelos Mercedes a diesel deconstrutores civis de f\u00f3sforo nos dentes, a suarem<br \/>\n    de cio sob os chap\u00e9us tiroleses. Oempregado da Alf\u00e2ndega, que recuara dois<br \/>\n    passos de pavor, aguardava, encostado \u00e0parede, que eu varresse \u00e0 metralhadora<br \/>\n    os sacos de viagem empilhados no balc\u00e3o,sangrando cuecas e pe\u00fagas pelos buracos<br \/>\n    das balas. O burocrata idoso, assarapantado,tocou-me respeitosamente no ombro:<\/p>\n<p>&#8211; O feto que traz na mala est\u00e1 num frasco?<\/p>\n<p>Uma fieira de t\u00e1xis im\u00f3veis alongava-se diante do aeroporto, sob a noite<br \/>\n    e achuva, solenes como nos cortejos de enterro, pilotados por cabe\u00e7as que<br \/>\n    se distinguiammal no escuro dos estofos, mas que deviam fungar as sinusites<br \/>\n    perp\u00e9tuas dos infelizesresignados. O halo de claridade dos candeeiros aparentava-se<br \/>\n    \u00e0s aur\u00e9olas fumosas dossantos nos quadros das igrejas, e eu pensei, fitando<br \/>\n    as trevas desabitadas e murchas queuma aurora improv\u00e1vel desbotava, Afinal<br \/>\n    \u00e9 isto Lisboa, na mesma desilus\u00e3o incr\u00e9dulacom que visitara a casa de Nelas,<br \/>\n    muitos anos depois, e descobrira compartimentosex\u00edguos e sem mist\u00e9rio onde<br \/>\n    tinha deixado enormes salas reboantes percorridas pelosopro de epopeia da<br \/>\n    inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Sentado no banco traseiro do carro, com os estalos do contador a pularem-mecomo<br \/>\n    solu\u00e7os no es\u00f4fago, eu procurava desesperadamente reconhecer a minha cidadeatrav\u00e9s<br \/>\n    dos vidros cobertos de verrugas de \u00e1gua que deslizavam lentamente para baixonum<br \/>\n    vagar de estearina, e descobria apenas, na tremura prec\u00e1ria dos far\u00f3is, perfisr\u00e1pidos<br \/>\n    de \u00e1rvores e casas, que se me afiguravam imersas na atmosfera uniforme desolit\u00e1ria<br \/>\n    viuvez devota comum a certas terras de prov\u00edncia, quando o cinema do centroparoquial<br \/>\n    n\u00e3o emite um filme piedoso acerca da escassez de voca\u00e7\u00f5es. A minhalembran\u00e7a<br \/>\n    grandiosa de uma capital cintilante de agita\u00e7\u00e3o e de mist\u00e9rio copiada de Johndos<br \/>\n    Passos, que alimentara fervorosamente durante um ano nos areais de Angola,encolhia-se<br \/>\n    envergonhada defronte de pr\u00e9dios de sub\u00farbio onde um povo de terceirosescritur\u00e1riosressonava<br \/>\n    entre salvas de casquinha e ovais de croch\u00ea. Um grupo de homens de oleado<br \/>\n    regava camarariamente a rua na esperan\u00e7a obstinada de quenascessem cris\u00e2ntemos<br \/>\n    miraculosos do alcatr\u00e3o, poetas da aurora mascarados deescafandristas, os<br \/>\n    primeiros c\u00e3es, esquel\u00e9ticos como galgos do Escurial, farejavam nasmolduras<br \/>\n    vazias dos umbrais a ideia de um osso. Dentro em breve, sabe como \u00e9,mulheres<br \/>\n    de sapatos de homens e homens sem sapatos desceriam das barracas junto aocemit\u00e9rio<br \/>\n    para magras rapinas \u00e1vidas nos caixotes do lixo, vasculhando sobras decomida<br \/>\n    nas latas de conserva e nas garrafas quebradas: os pobrezinhos das minhas<br \/>\n    tias,a quem no Natal se ofereciam atrav\u00e9s do prior, demiurgo da caridade anual,<br \/>\n    fatias debolo-rei, palavras evang\u00e9licas e medicamentos fora do prazo de validade,<br \/>\n    rodeados defilhos, de piolhos e de gritos, personagens de Vittorio de Sica<br \/>\n    \u00e0 deriva no P\u00e1tio das Cantigas.<\/p>\n<p>&#8211; Merda de pa\u00eds de merda &#8211; declarei eu para o chauffeur, o qual me respondeucom<br \/>\n    um soslaio desconfiado no retrovisor que lhe reduzia o rosto a um par de pupilasmi\u00fadas<br \/>\n    e hostis, a que o espelho conferia a agudeza protuberante dos reflexos met\u00e1licos.Dois<br \/>\n    bilhetes postais colados ao tablier, um representando Nossa Senhora de F\u00e1tima<br \/>\n    e ooutro Santa Teresinha do Menino Jesus, ladeavam um letreiro a escantilh\u00e3o<br \/>\n    que exigiacom secura que se depositassem as pontas de cigarro numa esp\u00e9cie<br \/>\n    de bolsa marsupialde alum\u00ednio alojada como uma verruga nas costas do banco<br \/>\n    dianteiro. Estou fodido, umirm\u00e3o do Sant\u00edssimo, pensei eu. E acrescentei alto,<br \/>\n    no intuito de apaziguar a indigna\u00e7\u00e3ode cruzada do cat\u00f3lico:<\/p>\n<p>&#8211; Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo &#8211; tentando imitar o majestoso sotaquebeir\u00e3o<br \/>\n    dos cardeais-patriarcas, em cujos gestos lentos de tur\u00edbulo se escondemdesconfian\u00e7as<br \/>\n    ossificadas de campon\u00eas a quem os comboios confundem.<\/p>\n<p>&#8211; A mim, os caminhos de ferro fazem-me sonhar &#8211; expliquei ao pagar aocondutor<br \/>\n    diante do velho port\u00e3o franqueado de ananases de pedra: o homem consideroumenum<br \/>\n    imenso espanto incr\u00e9dulo esquecido do dinheiro, e foi como se tivesse emNovembro<br \/>\n    a revela\u00e7\u00e3o do Natal.<\/p>\n<p>A Travessa do Vint\u00e9m das Escolas, o beco, o muro alta da casa, o p\u00e1tio daf\u00e1brica<br \/>\n    de curtumes onde latia constantemente um cachorro desesperado, o c\u00e9u cor-deleiteda<br \/>\n    chuva, os ramos secos da buganv\u00edlia sobre o muro: cheguei, vou subir a escada<br \/>\n    aarrastar a mala atr\u00e1s de mim, abrir a porta, entrar, dissolver-me nos teus<br \/>\n    bra\u00e7os h\u00e1 tantotempo s\u00f3s, ver nascer a manh\u00e3 na janela estreita do teto, ao<br \/>\n    teu lado, assistir \u00e0 chegadade anjo do padeiro, vou tocar a tua pele, as tuas<br \/>\n    pernas, o intervalo macio e tenro ec\u00f4ncavo das coxas, o espa\u00e7o claro que separa<br \/>\n    os seios e possui o brilho nacarado decertas conchas secretas que a vazante<br \/>\n    exibe com o orgulho de um tesouro, vou entrar emti devagar, at\u00e9 ao fundo,<br \/>\n    apoiado nos bra\u00e7os estendidos para assistir \u00e0 alegria gritada doorgasmo, ao<br \/>\n    rosto a rodopiar na almofada coberto de uma elipse de madeixas, \u00e0s \u00f3rbitasde<br \/>\n    repente cegas, de repente opacas, que as pestanas escurecem de franjas tr\u00eamulas<br \/>\n    deparam\u00e9cia. \u00c9 dif\u00edcil falar disto assim, percebe?, junto ao porteiro do barsimultaneamente<br \/>\n    intransigente e obsequioso, que exige a gorjeta numa subservi\u00eanciaperempt\u00f3ria<br \/>\n    de assalto \u00e0 m\u00e3o armada, curvando para mim os gal\u00f5es da manga \u00e0 maneirado<br \/>\n    elefante do Jardim Zool\u00f3gico a estender a tromba mole para o molhe de cenouras<br \/>\n    dotratador. \u00c9 dif\u00edcil, compreende?, tanto mais que n\u00e3o encontro no bolso uma<br \/>\n    moedasequer para satisfazer os apetites autorit\u00e1rios da criatura que principia<br \/>\n    a franzir assobrancelhas na hostilidade sem nuances dos grandes animais irados,<br \/>\n    pronto aespezinhar-me com as patas enormes dos sapatos numa f\u00faria elementar<br \/>\n    de paquiderme,e a transformar-me os bra\u00e7os em arabescos torcidos Arte Nova<br \/>\n    id\u00eanticos \u00e0s hastessabiamente oxidadas dos candeeiros, capazes de arrancarem<br \/>\n    das calv\u00edcies cintila\u00e7\u00f5eslunares. De modo que trepei os degraus com a mala<br \/>\n    a arrastar atr\u00e1s de mim \u00e0 laia deuma cauda inc\u00f4moda e uma explos\u00e3o de l\u00e1grimas<br \/>\n    a inchar, enovelada, na garganta,<\/p>\n<p>encontrei uma mulher numa cama e uma crian\u00e7a num ber\u00e7o dormindo ambas na<br \/>\n    mesmacrispa\u00e7\u00e3o desprotegida feita da fragilidade e abandono, e fiquei parado<br \/>\n    no quarto com acabe\u00e7a cheia ainda dos ecos da guerra, do som dos tiros e do<br \/>\n    sil\u00eancio indignado dosmortos, a escutar, sabe como \u00e9, os sonos que se entrela\u00e7avam<br \/>\n    numa rede complicada deh\u00e1litos, um tornozelo da minha mulher sobrava, pendente,<br \/>\n    dos len\u00e7\u00f3is, e eu comecei aafag\u00e1-lo de leve at\u00e9 ela acordar, afastar os cobertores<br \/>\n    sem uma palavra, e me receberinteiro na cova morna do colch\u00e3o. A voz gorda<br \/>\n    do tenente, rebolando de muito longe,repetia P\u00f4r o selo na patroa, p\u00f4r o selo<br \/>\n    na patroa, p\u00f4r o selo na patroa, doutor \u00e9 precisop\u00f4r o seloa na patroa, os<br \/>\n    capit\u00e3es vindos de sargentos jogavam as damas na messe, oFerreira cicatrizava<br \/>\n    o coto da perna que j\u00e1 n\u00e3o tinha, no Luso, e eu sentia-me a fazeramor por<br \/>\n    todos eles, entende, a vingar o sofrimento e a ang\u00fastia de todos eles numcorpor<br \/>\n    aberto como uma corola noturna, a cerrar-se devagar sobre os meus rinsexaustos.<\/p>\n<p>Talvez que um dia, se nos conhecermos melhor, lhe mostre o retrato que guardona<br \/>\n    carteira da minha filha de olhos verdes que mudam de tonalidade quando chora,<br \/>\n    e setornam da cor do mar intrat\u00e1vel do equin\u00f3cio a saltar a muralha num tricot<br \/>\n    zangado deespuma, lhe mostre o seu sorriso, a sua boca, o seu cabelo loiro,<br \/>\n    a filha que sonhei novemeses nos suores de Angola porque a gente \u00e9 que somos<br \/>\n    de verdade e o resto nunca queexistiu, dizia o Luandino, a gente \u00e9 que somos<br \/>\n    de verdade, ela e eu, o seu corpo alto, assuas m\u00e3os t\u00e3o parecidas com as minhas,<br \/>\n    a infatig\u00e1vel curiosidade das suas perguntas, asua inquieta\u00e7\u00e3o aflita acerca<br \/>\n    do meu sil\u00eancio ou da minha tristeza, a gente \u00e9 quemsomos de verdade resto<br \/>\n    tudo \u00e9 mentira, lhe mostre a express\u00e3o s\u00e9ria da minha filha quen\u00e3o vi inchar<br \/>\n    na barriga crescida da m\u00e3e, a filha para quem eu era uma fotografia que seaponta<br \/>\n    com o dedo e me encarava com a raiva com que se recebem os intrusos, euchegado<br \/>\n    de \u00c1frica deitado com ela no meu colo tardes a fio, sorrindo um para o outro<br \/>\n    oriso de entendimento antigo e s\u00e1bio que as crian\u00e7as de quatro meses herdaram<br \/>\n    dos\u00e1lbuns e demoram anos e anos a perder, Est\u00e1 a dormir a sesta e n\u00e3o quero<br \/>\n    que oacordem, declarei eu para os soldados, o capel\u00e3o cirandava em torno da<br \/>\n    urna a desenharcruzes com os dedos, o tenente resmungava Caralho de guerra<br \/>\n    caralho de guerra caralhode guerra, sou paisano de novo por uns dias e viajo<br \/>\n    na geografia mansa do teu corpo, norio da tua voz, na sombra fresca das tuas<br \/>\n    palmas, na penugem de peito de pomba do teup\u00fabis, mas eu e Xana e tu chuva<br \/>\n    de s\u00e1bado \u00e9 que somos ainda a verdade, o choro s\u00fabitoda nossa filha na noite<br \/>\n    dos len\u00e7\u00f3is a acordar-nos, os biber\u00f5es aquecidos na cozinha emnoites de ang\u00fastia<br \/>\n    e de esperan\u00e7a, n\u00e3o, oi\u00e7a, hoje, quando me deito, o futuro \u00e9 umnevoeiro fechado<br \/>\n    sobre o Tejo sem barcos, s\u00f3 um grito aflito ocasional na bruma,viverei muito<br \/>\n    tempo dentro dos teus gestos, minha filha, a fam\u00edlia veio ver-me com acuriosidade<br \/>\n    com que se assiste a salvo a um tremor de terra, uma derrocada, umsuic\u00eddio,<br \/>\n    um desastre, um homem de bru\u00e7os no ch\u00e3o junto a um autom\u00f3vel amarrotado,um<br \/>\n    epil\u00e9tico aos saltos no passeio, um card\u00edaco abra\u00e7ado ao cora\u00e7\u00e3o na mercearia,<br \/>\n    asrugas graves do meu pai, as piadas dos tios, discursos b\u00eabedos do cabo Paulo<br \/>\n    que umamina levou, e de repente o avi\u00e3o da partida, a minha mulher encostada<br \/>\n    a uma colunasem falar, nenhum cuspo na boca, sabe como \u00e9, a l\u00edngua seca como<br \/>\n    a das galinhas, asluzes da minha cidade l\u00e1 de cima. Vi passar o boingue em<br \/>\n    que ias da janela da sala esenti um aperto que nem qu\u00ea.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"12\">M<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Para sua casa ou para a minha? Moro por tr\u00e1s da Fonte Luminosa, na Picheleira,num<br \/>\n    andar de onde se v\u00ea o rio, a outra banda, a ponte, a cidade \u00e0 noite estilo<br \/>\n    impressodesdobr\u00e1vel para turistas, e sempre que abro a porta e tusso o fim<br \/>\n    do corredor devolveem eco o meu pigarro e vem-me como que a sensa\u00e7\u00e3o esquisita,<br \/>\n    percebe?, de me dirigirao meu pr\u00f3prio encontro no espelho cego do quarto de<br \/>\n    banho onde um sorriso triste meaguarda, suspenso das fei\u00e7\u00f5es como a grinalda<br \/>\n    de um carnaval que acabou. J\u00e1 lheaconteceu observar-se quando est\u00e1 sozinha<br \/>\n    e os gestos se atrapalham numa desarmonia\u00f3rf\u00e3, os olhos procuram no seu reflexo<br \/>\n    uma companhia imposs\u00edvel, a gravata de bolasnos confere o aspecto deris\u00f3rio<br \/>\n    de um palha\u00e7o pobre a representar o seu n\u00famero semgra\u00e7a para um circo vazio?<br \/>\n    Costumo sentar-me em alturas como essas no ch\u00e3o do quartodas minhas filhas,<br \/>\n    que de quinze em quinze dias me visitam espalhando migalhas ecromos nos compartimentos<br \/>\n    desertos, e cujos sonos vigio numa solicitude comovida, atrope\u00e7ar em pernas<br \/>\n    de bonecas, em livros de quadradinhos e em ber\u00e7os de baquelite,dispostos na<br \/>\n    alcatifa segundo um c\u00f3digo misterioso que tento penosamente reconstituirna<br \/>\n    sua aus\u00eancia, do mesmo modo que, diante das fotografias dos mortos, procuramos<br \/>\n    namem\u00f3ria as espress\u00f5es fugitivas que por demasiado l\u00edquida os retratos deixam<br \/>\n    passarpor entre os dedos. \u00c0s ter\u00e7as e sextas-feiras, uma caboverdiana que<br \/>\n    nunca vi, e comquem comunico por interm\u00e9dio de mensagens cerimoniosas depositadas<br \/>\n    no arm\u00e1rio dacozinha, rep\u00f5e os objetos e os m\u00f3veis na ordem excessivamente<br \/>\n    geom\u00e9trica da solid\u00e3o,a que a falta de p\u00f3 confere a impessoalidade ass\u00e9ptica<br \/>\n    de uma sala de pensos, e pendurano arame da varanda a minha mon\u00f3tona roupa<br \/>\n    de home que nenhum soutien alegra desugest\u00f5es conjugais. De tempos a tempos,<br \/>\n    mulheres encontradas por acaso no canto desof\u00e1 de uma reuni\u00e3o de amigos, como<br \/>\n    quem descobre trocos inesperados no bolso docasado de Inverno, sobem comigo<br \/>\n    no elevador para uma r\u00e1pida imita\u00e7\u00e3o dodeslumbramento e da ternura de que<br \/>\n    conhe\u00e7o j\u00e1 de cor os m\u00ednimos detalhes, desde odesenvolto u\u00edsque inicial ao<br \/>\n    primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para n\u00e3oser sincero, at\u00e9<br \/>\n    o amor acabar no chapinhar do bid\u00ea, onde as grandes efus\u00f5es sedesvanecem \u00e0<br \/>\n    custa de sabonete, raiva e \u00e1gua morna. Despedimo-nos no vest\u00edbulotrocando<br \/>\n    n\u00famero de telefone que imediatamente se esquecem e um beijo desiludido quea<br \/>\n    falta de b\u00e2ton torna incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando<br \/>\n    no len\u00e7ola mancha de clara de ovo que constitui como que o selo branco que<br \/>\n    certifica o amoracabado: apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos<br \/>\n    de odores de cocote, e umtra\u00e7o de base no pesco\u00e7o descoberto na manh\u00e3 seguinte<br \/>\n    durante o harakiri sangrento dabarba, me garantem a breve passagem real pela<br \/>\n    minha cama do que cuidava j\u00e1 serem osimprecisos artefatos que a melancolia<br \/>\n    inventa. Entretanto, as torneiras e os autoclismosprincipiam um a um a deixar<br \/>\n    de funcionar, os estores empenam como p\u00e1lpebrascomplicadas imposs\u00edveis de<br \/>\n    abrir, a umidade cresce no interior dos arm\u00e1rios ilhasconfluentes de bolor;<br \/>\n    lentamente, insidiosamente, a casa morre; as pupilas fundidas dasl\u00e2mpadas<br \/>\n    fitam-me numa n\u00e9voa de agonia, da boca aberta escapa-se o h\u00e1lito de correntede<br \/>\n    ar das respira\u00e7\u00f5es exaustas; sentado \u00e0 secret\u00e1ria do escrit\u00f3rio sinto-me na<br \/>\n    ponte decomando deserta de um navio que se afunda, com os seus livros, as<br \/>\n    suas plantas, os seusmanuscritos inacabados, as cortinas que n\u00e3o h\u00e1 sopradas<br \/>\n    pelo vento p\u00e1lido de umafelicidade difusa. O pr\u00e9dio que constroem \u00e0 minha<br \/>\n    frente emparedar-me-\u00e1 em breve \u00e0maneira dos personagens de Poe e somente os<br \/>\n    meus dentes cintilir\u00e3o nas trevas, comoos dos esqueletos antigos acocorados<br \/>\n    num \u00e2ngulo de caverna, a abra\u00e7arem os ossos dosjoelhos com os tend\u00f5es amarelecidos<br \/>\n    dos cotovelos.<\/p>\n<p>E voc\u00ea como faz? Imagino-a, sabe como \u00e9, num cen\u00e1rio a meio caminho entre<br \/>\n    afilosofia oriental e a esquerda ponderada e l\u00facida, para quem Maio de 68<br \/>\n    representouuma esp\u00e9cie de aborrecida doen\u00e7a da inf\u00e2ncia que reduziu o sonho<br \/>\n    ao marxismodesencantado, utilit\u00e1rio e c\u00ednico de certas burocracias do Leste:<br \/>\n    muitas almofadas peloch\u00e3o, um odor de incenso e de patchouli a flutuar sobre<br \/>\n    os bibelots indianos, um gatosiam\u00eas desdenhoso como uma prima-dona, livros<br \/>\n    de Reich e Garaudy a prosseguiremnas prateleiras os seus mon\u00f3logos veementes<br \/>\n    de profetas, a voz de Leo Ferr\u00e9 queemerge em espirais de paix\u00e3o febril do<br \/>\n    gira-discos. Arquitetos de bigode,cuidadosamente mal vestidos, ocupam de tempos<br \/>\n    a tempos a sua cama de ferro deantiqu\u00e1rio de Sintra, enchendo de pontas de<br \/>\n    cigarro sem filtro os cinzeiros design, ouafagando os cabelos hirsutos do<br \/>\n    peito em elucubra\u00e7\u00f5es onde se adivinham perfis desupermercados por projetar.<br \/>\n    De manh\u00e3, a porteira, intrat\u00e1vel e gorda, recolhe os caixotesdo lixo vociferando<br \/>\n    insultos silenciosos pelas sobrancelhas pesadas de buldogue. Doandar do lado<br \/>\n    chegam as guinadas furibundas de uma discuss\u00e3o conjugal, acompanhadado som<br \/>\n    de loi\u00e7a que se quebra. Um sol alegre como o riso de um pol\u00edcia toca xilofonenas<br \/>\n    persianas. De chinelos, na cozinha, voc\u00ea prepara um caf\u00e9 forte como umeletrochoque<br \/>\n    que a projete para fora do seu inv\u00f3lucro de sono na dire\u00e7\u00e3o do emprego,ao<br \/>\n    volante de um R4 creme, de traseira amachucada por um t\u00e1xi col\u00e9rico. Habitantes<br \/>\n    damesma cidade, passamos talvez anos e anos um pelo outro sem nos vermos,frequentamos<br \/>\n    os mesmos cinemas, lemos os mesmos jornais, assistimos ambos,pontualmente,<br \/>\n    aos espis\u00f3dios da telenovela, na mesma irrita\u00e7\u00e3o interessada. Somos, seassim<br \/>\n    me posso exprimir, contempor\u00e2neos, e as nossas trajet\u00f3rias paralelas v\u00e3ofinalmente<br \/>\n    encontrar-se em minha casa (porque o odor do incenso me enjoa) no j\u00fabilomole<br \/>\n    com que dois fios de esparguete se cruzam. Quer que ligue o r\u00e1dio do carro?<br \/>\n    Podeser, pode sempre ser que o notici\u00e1rio das tr\u00eas nos anuncie a ressurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\n    da carne echeguemos ao cemit\u00e9rio de Benfica a tempo de ver sair do jazigo<br \/>\n    da fam\u00edlia as senhorasde sombrinha do \u00e1lbum de retratos cujos imensos bustos<br \/>\n    me continuam a intrigar. Oqu\u00ea? A guerra de \u00c1frica? Tem raz\u00e3o, divago, divago<br \/>\n    como um velho num banco dejardim perdido no esquisito labirinto do passado,<br \/>\n    a mastigar recorda\u00e7\u00f5es no meio debustos e de pombos, de bolsos cheios de selos,<br \/>\n    de palitos e de capicuas, movendocontinuamente os queixos como se premeditasse<br \/>\n    um escarro fant\u00e1stico e definitivo. Ocerto \u00e9 que, \u00e0 medida que Lisboa se afastava<br \/>\n    de mim, o meu pa\u00eds, percebe?, se metornava irreal, o meu pa\u00eds, a minha casa,<br \/>\n    a minha filha de olhos claros no seu ber\u00e7o,irreais como estas \u00e1rvores, estas<br \/>\n    fachadas, estas ruas mortas que a aus\u00eancia de luzassemelha a uma feira acabada,<br \/>\n    porque Lisboa, entende, \u00e9 uma quermesse de prov\u00edncia,um circo ambulante montado<br \/>\n    junto ao rio, uma inven\u00e7\u00e3o de azulejos que se repetem,aproximam e repelem,<br \/>\n    desbotando as suas cores indecisas, em ret\u00e2ngulos geom\u00e9tricos,nos passeios,<br \/>\n    n\u00e3o, a s\u00e9rio, moramos numa terra que n\u00e3o existe, \u00e9 absolutamenteescusado procur\u00e1-la<br \/>\n    nos mapas porque n\u00e3o existe, est\u00e1 l\u00e1 um olho redondo, um nome, en\u00e3o \u00e9 ela,<br \/>\n    Lisboa come\u00e7a a tomar forma, acredite, na dist\u00e3ncia, a ganhar profundidade<br \/>\n    evida e vibra\u00e7\u00e3o, Luanda enevoada subiu ao meu encontro, o alferes m\u00e9dico<br \/>\n    abandonouo avi\u00e3o dobrado pelo peso de trinta e cinco dias de ang\u00fastia e de<br \/>\n    alegria a repetir dentrode mim mesmo Surtout pas d&#8217;\u00e9motion, como aconselhava<br \/>\n    o Blondin, a repetir em cadadegrau Surtout pas d&#8217;\u00e9motion, Surtout pas<br \/>\n    d&#8217;\u00e9motion, Surtout pas d&#8217;\u00e9motion, a janela dapens\u00e3o abria para a<br \/>\n    manh\u00e3 confusa da Mutamba, tirei a fotografia da minha filha damala e coloquei-a<br \/>\n    entre o telefone e o copo de \u00e1gua naquele quarto an\u00f4nimo a cheirar adesinfetante,<br \/>\n    a f\u00f3rmica e a goma, estendi-me cal\u00e7ado e de casaco em cima da colcha, atulipa<br \/>\n    de vidro do teto dividiu-se em duas e adormeci.<\/p>\n<p>A noite surge depressa demais nos tr\u00f3picos, ap\u00f3s um crep\u00fasculo fugaz edesinterssante<br \/>\n    como o beijo de um casal divorciado por m\u00fatuo consentimento. As palmeiras<br \/>\n    que bordam a ba\u00eda acenavam as r\u00eamiges das folhas em voos pregui\u00e7osos, astraineiras<br \/>\n    abandonavam o cais arrotando o gas\u00f3leo do jantar, o n\u00e9on dos cabar\u00e9s da Ilhapiscava<br \/>\n    as p\u00e1lpebras demasiado pintadas, em cujo chamamento ansioso ecoavam osapelos<br \/>\n    das mulheres das barracas de tiro do Parque Mayer, cujas vozes roucas mepovoaram<br \/>\n    os sonhos, na adolesc\u00eancia, de crocitos apavorantes. O calor vestia-nos osgestos<br \/>\n    de algod\u00e3o pegajoso, e a \u00e1gua chegava a ferver dos canos num assobio de geiser.Jantei<br \/>\n    sozinho num restaurante da Baixa, repleto de homens n\u00e9dios, de pesco\u00e7os aluzirem<br \/>\n    de suor como os dos bois minhotos, e dedos povoados de an\u00e9is de pedras pretasou<br \/>\n    vermelhas, que submergiam no caldo verde bigodes de lontras esfomeadas. Umnegro<br \/>\n    corcunda tentava sem sucesso impingir de mesa em mesa bonecos talhados acanivete<br \/>\n    de uma vulgaridade de pl\u00e1stico, at\u00e9 o empregado o enxotar com o guardanapoque<br \/>\n    pendurava do ombro, t\u00e3o escuro de n\u00f3doas e fuligem como o len\u00e7o de um tomadorde<br \/>\n    rap\u00e9. Um velhote calvo, de carranca de chafariz, abocanhava num canto uma<br \/>\n    mulataprotegida da sua sanha por tr\u00eas voltas de colares, ocupada a devorar<br \/>\n    um geladogigantesco, monstruoso de frutas cristalizadas e de cremes, com uma<br \/>\n    cereja obscena dotopo. Uma m\u00e1quina el\u00e9trica de discos vomitava aos guinchos<br \/>\n    pasodobles de cluberecreativo paranoico, e com o pano de fundo dessas sugest\u00f5es<br \/>\n    toureiras que meobrigavam a berrar no bocal urros tremendos de cadeira de<br \/>\n    dentista, telefonei \u00e0hospedeira da TAP que me esperava, de Logan&#8217;s em<br \/>\n    riste, num terceiro andar do BairroPrenda, metida nuns jeans t\u00e3o apertados<br \/>\n    que quase se percebia, atrav\u00e9s do tecido, opulsar das veias das coxas. Um<br \/>\n    c\u00e3o min\u00fasculo, parecido com um rato pernalta e magro,reteso de hostilidade<br \/>\n    azeda, veio ladrar-me, furioso, aos tornozelos, e eu pensei em lev\u00e1lode presente<br \/>\n    ao alferes catangu\u00eas para o pequeno-almo\u00e7o de domingo, no intuitoam\u00e1vel de<br \/>\n    lhe variar a dieta. A rapariga agarrou nele por uma pata, atirou-o para ointerior<br \/>\n    da cozinha onde o bicho tombou num ganido lancinante de fratura m\u00faltiplas,<br \/>\n    efechou a porta com um pontap\u00e9; o passo seguinte seria, provavelmente, esmagar-me<br \/>\n    ostest\u00edculos com uma joelhada de artes marciais, e no dia imediato encontrariam<br \/>\n    o meucad\u00e1ver, horrorosamente mutilado, no meio de m\u00f3veis em desordem e de<br \/>\n    peda\u00e7os degarrafas.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1, Modesty Blaise &#8211; disse eu a encolher-me. Os peitos dela, sob a camisolaestampada,<br \/>\n    assemelhavam-se a duas peras enormes debaixo de um guardanapo Coca-Cola: sem<br \/>\n    a farda, perdia o coeficiente de mist\u00e9rio que eu teimo em atribuir aos anjospor<br \/>\n    v\u00edcio que me ficou do catecismo, mesmo aos que servem refei\u00e7\u00f5es de celofane<br \/>\n    numcorredor de avi\u00e3o. O apartamento cheirava a roupa por lavar e a comida<br \/>\n    enlatada deanimais, a noite de \u00c1frica entrave pela janela aberta num h\u00e1lito<br \/>\n    grosso de pres\u00e9pio, nacama por fazer um livro de poemas de Eluar veio prometer-me<br \/>\n    de repente um horizontede do\u00e7uras insuspeitadas e fr\u00e1geis naquela amazona<br \/>\n    violenta, chegada, sabe como \u00e9, den\u00e3o sei que c\u00e9u, incumbida da miss\u00e3o espec\u00edfica<br \/>\n    de quebrar as enervantes colunasvertebrais dos cachorros de luxo e de pulverizar<br \/>\n    os tomates medrosos dos guerreiros depassagem, em tr\u00e2nsito para o arame farpado<br \/>\n    e para a morte, pobres bichos fardadosescondidos nas gaiolas de madeira das<br \/>\n    casernas.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 que voc\u00ea toma, Olhos Azuis? &#8211; perguntou ela num sorriso carn\u00edvoro<br \/>\n    deacorde\u00e3o que se desdobra e me trouxe \u00e0 mem\u00f3ria o livro, cheio de imagens<br \/>\n    assustadoras, do Capuchinho Vermelho da minha inf\u00e2ncia: \u00c9 para te comer melhorminha<br \/>\n    netinha, e o Lobo, de touca, exibia dos len\u00e7\u00f3is, a babar-se, os dentespontiagudos.<\/p>\n<p>Para te comer melhor minha netinha, para te comer melhor minha netinha, parate<br \/>\n    comer melhor minha netinha: a boca dela crescia na minha dire\u00e7\u00e3o, c\u00f4ncava,gigantesca,<br \/>\n    sem fundo, as unhas vermelhas aumentavam at\u00e9 me ro\u00e7ar a pele, h\u00e1litosfrios<br \/>\n    de carne crua aproximavam-se de mim, a gruta de um es\u00f4fago de po\u00e7o, onde o<br \/>\n    pedregulho do meu corpo tombaria num rold\u00e3o de queda, nascia-lhe na raiz de<br \/>\n    ganganas coxas. O c\u00e3o min\u00fasculo arranhava a porta da cozinha em guinchos melanc\u00f3licos.Pousei<br \/>\n    o copo numa mesa de bambu onde o umbigo de um buda pantagru\u00e9licoestremecia<br \/>\n    gargalhadas de loi\u00e7a, e o tilintar dos cubos de gelo trouxe-me \u00e0 lembran\u00e7a<br \/>\n    osino que comprara para o ber\u00e7o da minha filha e que guitarrava vagarosamente<br \/>\n    umamelodia sem nexo; a essa hora, em casa, a minha mulher aquecia o biber\u00e3o<br \/>\n    da meianoite,o cigarro ardia no cinzeiro de estanho serenidades azuladas de<br \/>\n    tur\u00edbulo, o confortodos sil\u00eancios dom\u00e9sticos arredondava as dolorosas arestas<br \/>\n    do desespero, uma eternidadede ret\u00e1bulo medieval inventava anjos gordos pelo<br \/>\n    teto. Talvez que o sof\u00e1 da salaconservasse ainda a fugaz impress\u00e3o digital<br \/>\n    das minhas n\u00e1degas, e um resto dilu\u00eddo dosmeus tra\u00e7os flutuasse na \u00e1gua vazia<br \/>\n    dos espelhos, pupilas inertes que se esquecem.Todo um universo de que me achava<br \/>\n    cruelmente exclu\u00eddo prosseguia, imperturb\u00e1vel, naminha aus\u00eancia, o seu trote<br \/>\n    mi\u00fado ritmado pelo cora\u00e7\u00e3ozinho ofegante do despertador,uma torneira qualquer<br \/>\n    suava um pingo perp\u00e9tuo nas trevas. A rapariga sacudiu o livrode Eluard da<br \/>\n    cama (larmes des yeux les malheurs des malleureux) no gesto de quemenxota<br \/>\n    migalhas de p\u00e3o de uma toalha, e deslizou nua para fora da roupa a agitar<br \/>\n    ascrinas dos cabelos compridos \u00e0 laia de uma grande \u00e9gua \u00e1vida que espera,<br \/>\n    a relincharuma esp\u00e9cie de vapor pelas narinas abertas. Em Lisboa, a minha<br \/>\n    filha, de olhosfechados, come\u00e7ava o biber\u00e3o, e as orelhas dela, \u00e0 luz da l\u00e2mpada,<br \/>\n    adquiriam atranspar\u00eancia cor-de-rosa do mar de Antonioni, enrolando em si<br \/>\n    pr\u00f3prio espiraisdelicadas. Despi as cal\u00e7as, desabotoei a camisa, o umbigo<br \/>\n    do buda tro\u00e7ava da minhamagreza p\u00e1lida e aflita, estendi-me no colch\u00e3o, envergonhado<br \/>\n    do tamanho do meu p\u00eanismurcho que n\u00e3o crescia, n\u00e3o crescia, reduzido a uma<br \/>\n    tripa engelhada entre os pelosruivos l\u00e1 de baixo, a hospedeira pegou-lhe educadamente<br \/>\n    com dois dedos como numjantar de cerim\u00f4nia n\u00e3o sei se com surpresa ou com<br \/>\n    desgosto, Entesa-te minha besta,ordenei-me eu dentro de mim, a minha filha<br \/>\n    suspendeu o biber\u00e3o para arrotar e os olhosdela fitavam para dentro, desfocados,<br \/>\n    toquei a vulva da rapariga e era mole, e morna, etenra, e molhada, encontrei<br \/>\n    o nervo duro do clit\u00f3ris e ela soltou um suspirozinho dechaleira pelo bico<br \/>\n    esticado dos bei\u00e7os, Pela alminha de quem l\u00e1 tens entesa-te, supliqueia mirar<br \/>\n    de vi\u00e9s a minha pila morta, n\u00e3o me deixes ficar mal e entesa-te, pela tua<br \/>\n    sa\u00fadeentesa-te, entesa-te, foda-se, entesa-te, a minha mulher mudava fraldas<br \/>\n    de alfinete deama na boca, o tenente devia falar na criada ao capel\u00e3o aterrado<br \/>\n    que se benzia, oscaix\u00f5es na arrecada\u00e7\u00e3o aguardavam que eu me estendesse, obediente,<br \/>\n    no forro dechumbo, a rapariga parou de me beijar, apoiou-se no cotovelo como<br \/>\n    as figuras dost\u00famulos etruscos, passou-me a m\u00e3o na cara e perguntou O que<br \/>\n    \u00e9 que n\u00e3o vai bem, OlhosAzuis?, e eu encolhi os ombros, rodei at\u00e9 ficar de<br \/>\n    bru\u00e7os no len\u00e7ol e desatei a chorar.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"13\">N<\/strong><\/a><\/h4>\n<p>Depois de correr aflito pelo alcatr\u00e3o, a agitar as asas numa \u00e2nsia de asma<br \/>\n    embusca de ar que lhe faltava, o Nord Atlas soltou-se dificilmente da pista<br \/>\n    num voodesordenado e torto de perdiz, ro\u00e7ando com as penas gordas da barriga<br \/>\n    o telhado dezinco dos musseques, em que a mis\u00e9ria dos homens e dos c\u00e3es se<br \/>\n    afogava numaumidade quente de barrela. Apertado contra os outros nu \u00fanico<br \/>\n    banco comprido doavi\u00e3o, entre caixotes, fardos, sacos e malas (&#8220;o meu<br \/>\n    pa\u00eds na gare de Austerlitz&#8221;), eu,emigrante for\u00e7ado da guerra de regresso<br \/>\n    ao bidonville do arame, olhava pelas janelasestreitas do avi\u00e3o a Ilha de Luanda<br \/>\n    a encolher-se na dist\u00e2ncia, a cidade esvaziada devolume, subitamente pequena,<br \/>\n    o mar de vidro da ba\u00eda, ruas miniaturais que se torciam, sobrepunham e cruzavam<br \/>\n    como enguias num cesto, o Bairro prenda da minha derrota,onde o c\u00e3o execr\u00e1vel<br \/>\n    devia latir de j\u00fabilo em torno de um len\u00e7ol sem manchas: acabarapor esconder<br \/>\n    a vergonha nas cuecas \u00e0s primeiras horas da manh\u00e3, observado pelapiedade divertida<br \/>\n    da mulher, e introduzira-me obliquamente no elevador \u00e0 maneira deum passageiro<br \/>\n    clandestino que se evade, desiludido, de um navio que n\u00e3o largou docais, at\u00e9<br \/>\n    um t\u00e1xi me varrer os restos para a pens\u00e3o da Mutamba, cujo n\u00e9on leitosoestrebuchava<br \/>\n    os derradeiros estremecimentos de uma cobra que agoniza. A negraenorme a cabecear<br \/>\n    na entrada diante do painel das chaves ergueu para mim um p\u00e1lpebraindiferente<br \/>\n    de hipop\u00f3tamo em que julguei perceber a cintila\u00e7\u00e3o fugidia de um sarcasmo.E<br \/>\n    ao entrar no quarto apeteceu-me cuspir no copo de \u00e1gua o coral da dentadura<br \/>\n    posti\u00e7acapaz de me fazer aceitar com menor sofrimento o meu fracasso: mas<br \/>\n    os queixaispermaneciam teimosamente grudados \u00e0s gengivas, a testa n\u00e3o se me<br \/>\n    enrugava ainda nosespelhos, e alcan\u00e7aria provavelmente o ano dois mil com<br \/>\n    pr\u00f3stata em sossego e amargem suficiente de futuro para ajardinar a esperan\u00e7a.<br \/>\n    De modo que fechei a janela,desci os estores, e principiei a narrar mentalmente<br \/>\n    \u00e0 l\u00e2mpada do teto a hist\u00f3ria don\u00e1ufrago irremedi\u00e1vel que de quando em quando<br \/>\n    me sentia.<\/p>\n<p>\u00c9ramos cerca de vinte militares que tornavam ao Leste, a fumar em sil\u00eancio<br \/>\n    nobanco de pau, de fei\u00e7\u00f5es desabitadas de express\u00e3o \u00e0 laia dos retratos das<br \/>\n    fotomatons, pordetr\u00e1s das pupilas das quais se n\u00e3o adivinha a suspeita de<br \/>\n    qualquer emo\u00e7\u00e3o, e eu penseique vivia h\u00e1 um ano no arame com os mesmos homens<br \/>\n    sem os conhecer sequer,comendo a mesma comida e dormindo o mesmo sono inquieto<br \/>\n    entrecortadodesobressaltos e suores, unidos por uma esquisita solidariedade<br \/>\n    id\u00eantica \u00e0 que irmana osdoentes nas enfermarias de hospital, fieta do comum,<br \/>\n    sabe como \u00e9, recei, p\u00e2nico damorte, e da inveja feroz dos que prosseguem l\u00e1<br \/>\n    fora um quotidiano sem ame\u00e7as nemang\u00fastia a que se deseja desesperdamente<br \/>\n    voltar, escapando \u00e0 absurda paralisia dosofrimento, vivia h\u00e1 um ano com os<br \/>\n    mesmos homens e n\u00e3o sab\u00edamos nada uns dosoutros, o rosto com que se sa\u00eda para<br \/>\n    a mata era rigorosamente id\u00eantico ao que se traziada mata, s\u00f3 que mais amarrotado<br \/>\n    e coberto de um musgo verde de barba, as vozespossu\u00edam o timbre de neutralidade<br \/>\n    an\u00f4nima dos interfones, os sorrisos rarosassemelhavam-se \u00e0s chamas das velas<br \/>\n    apagadas de que Lewis Carroll fala, os corposestendidos nos beliches dir-se-iam<br \/>\n    fabricados por um \u00fanico molde apressado e cinzentoque se esquecera de incluir<br \/>\n    no report\u00f3rio dos nossos m\u00fasculos os s\u00fabitos gestos dealegria.<\/p>\n<p>A pouco e pouco a usura da guerra, a paisagem sempre igual de areia e bosquesmagros,<br \/>\n    os longos meses tristes do cacimbo que amareleciam o c\u00e9u e a noite do iododos<br \/>\n    daguerre\u00f3tipos desbotados, haviam-nos transformado numa esp\u00e9cie de insetosindiferentes,<br \/>\n    mecanizados par um quotidiano feito de espera sem esperan\u00e7a, sentadostardes<br \/>\n    e tardes nas cadeiras de t\u00e1buas de barril ou nos degraus da antiga administra\u00e7\u00e3ode<br \/>\n    posto, fitando os calend\u00e1rios excessivamente lentos onde os meses se demoravamnum<br \/>\n    vagar enlouquecedor, e dias bissextos, cheios de horas, inchavam, im\u00f3veis,<br \/>\n    \u00e0 nossavolta, como grandes ventres podres que nos aprisionavam sem salva\u00e7\u00e3o.<br \/>\n    \u00c9ramos peixes,percebe, peixes mudos em aqu\u00e1rios de pano e de metal, simultaneamente<br \/>\n    ferozes emansos, treinados para morrer sem protestos, para nos estendermos<br \/>\n    sem protestos noscaix\u00f5s da tropa, nos fecharem a ma\u00e7arico l\u00e1 dentro, nos cobrirem<br \/>\n    com a BandeiraNacional e nos reenviarem para a Europa no por\u00e3o dos navios,<br \/>\n    de medalha deidentifica\u00e7\u00e3o na boca no intuito de nos impedir a veleidade de<br \/>\n    um berro de revolta. Deforma que me viram tornar ao Chi\u00fame sem surpresa, e<br \/>\n    nenhum oficial levantou oqueixo do prato do almo\u00e7o quando me sentei a comer<br \/>\n    no meio deles, entre o capit\u00e3o e ocatangu\u00eas que sorria para toda a gente,<br \/>\n    sem encontrar resposta, a gargalhada cruel dosle\u00f5es de pedra das fachadas<br \/>\n    dos pr\u00eamios Valmor. O leitor de cassetes do alferes Eleut\u00e9rio tocava a 4\u00aa<br \/>\n    Sinfonia de Beethoven, e era como se a m\u00fasica soasse numa saladeserta para<br \/>\n    l\u00e1 de cujas janelas sem cortinas a chana desdobrava interminavelmente aspregas<br \/>\n    do seu lado, uma m\u00fasica que se prolongasse no eco de si pr\u00f3pria do mesmomodo<br \/>\n    que nos pianos cerrados teimam em morar ainda os compassos t\u00eanues de umavalsa<br \/>\n    antiga, t\u00e3o velha e hesitante como os rel\u00f3gios de parede do corredor. \u00c9ramospeixes,<br \/>\n    somos peixes, fomos sempre peixes, equilibrados entre duas \u00e1guas na busca<br \/>\n    deum compromisso imposs\u00edvel entre a inconformidade e a resigna\u00e7\u00e3o, nascidos<br \/>\n    sob osigno da Mocidade Portuguesa e do seu patriotismo veemente e est\u00fapido<br \/>\n    de pacotilha,alimentados culturalmente pelo ramal da Beira Baixa, os rios<br \/>\n    de Mo\u00e7ambique e asserras do sistema Galaico-Duriense, espiados pelos mil olhos<br \/>\n    ferozes da PIDE,condenados ao consumo de jornais que a censura reduzia a louvores<br \/>\n    melanc\u00f3licos aorelento de sacristia de prov\u00edncia do Estado Novo, e jogados<br \/>\n    por fim na viol\u00eanciaparanoica da guerra, ao som de marchas guerreiras e dos<br \/>\n    discursos heroicos dos queficavam em Lisboa, combatendo, combatendo corajosamente<br \/>\n    o comunismo nos gruposde casais do prior, enquanto n\u00f3s, os peixes, morr\u00edamos<br \/>\n    nos cus de Judas uns ap\u00f3soutros, tocava-se um fio de trope\u00e7ar, uma granada<br \/>\n    pulava e dividia-nos ao meio, tr\u00e1s!, oenfermeiro sentado na picada fitava<br \/>\n    estupefato os pr\u00f3prios intestinos que segurava nasm\u00e3os, uma coisa amarela<br \/>\n    e gorda e repugnante quente nas m\u00e3os, o apontador demetralhadora de garganta<br \/>\n    furada continuava a disparar, chegava-se sem vontade decombater ningu\u00e9m, tolhido<br \/>\n    de medo, e depois das primeiras baixas sa\u00eda-se para a matapor raiva na \u00e2nsia<br \/>\n    de vingar a perna do Ferreira e o corpo mole e de repente sem ossosdo Macaco,<br \/>\n    os prisioneiros eram velhos ou mulheres esquel\u00e9ticos menos lestos a fugir,c\u00f4ncavos<br \/>\n    de fome, o MPLA deixava mensagens nos trilhos a dizer Deserta mas paraonde<br \/>\n    se s\u00f3 havia areia em volta, Deserta, os tipos passavam da Z\u00e2mbia para o interiordetendo-se<br \/>\n    de quando em quando para dinamitar as pontes dos rios, um dia depois deum<br \/>\n    ataque encontrei uma ins\u00edgnia met\u00e1lica do Movimento na pista de avia\u00e7\u00e3o fiquei<br \/>\n    aolh\u00e1-la como o Louren\u00e7o mirava as tripas que se lhe escapavam da barriga,<br \/>\n    o cabomostrou-me uma carta ca\u00edda num arbusto I love to show you my entire<br \/>\n    body, explicavauma inglesa a um angolano que na v\u00e9spera nos metralhara oculto<br \/>\n    no escuro, leves armaschecoslovacas de som agudo e r\u00e1pido, m\u00e9dicos suecos<br \/>\n    trabalhavam no Chalala Nengo apoucos quil\u00f4metros de n\u00f3s, o Chalala Nengo que<br \/>\n    os T6 bombardeavam de napalm eresistiam, Uma destas manh\u00e3s os meus amigos<br \/>\n    acordam bem dispostos chegam l\u00e1 numrufo e destroem aquilo tudo encorajava<br \/>\n    o coronel otimista de camuflado engomadovindo de Luanda para nos estimular<br \/>\n    com boas palavras conselhos e amea\u00e7as, Vai tu \u00e0frente meu cara de caralho<br \/>\n    respondia o tenente indignado por entre dentes, Se queremrodar ir para um<br \/>\n    s\u00edtio melhor t\u00eam de nos mostrar resultados que se vejam minas turrastrotil,<br \/>\n    o comandante encolhia os ombros em tiques de afli\u00e7\u00e3o pequeno rid\u00edculo quasetocante<br \/>\n    de embara\u00e7o indicava no mapa a extens\u00e3o da zona que nos cabia, gaguejavaMeu<br \/>\n    coronel Meu coronel Meu coronel, do Mondego ao Algarve para quinhentoshomens<br \/>\n    mal alimentados, peixe quase podre carne em mau estado ossos de frango,gastos<br \/>\n    de paludismo e de cansa\u00e7o, a beber a \u00e1gua que pingava gota a gota, lamacenta,dos<br \/>\n    filtros, acabava-se a cerveja acabava-se o tabaco acabavam-se os f\u00f3sforos,<br \/>\n    n\u00e3o haviasequer f\u00f3sforos no Luso para n\u00f3s, Uma manh\u00e3 os meus amigos acordam<br \/>\n    bem dispostosgarantia o coronel e levam tudo \u00e0 frente, ali\u00e1s acho prefer\u00edvel<br \/>\n    que isso suceda depressaporque conseguiram t\u00e3o pouco at\u00e9 agora, o comandante<br \/>\n    esmagado rodava o bon\u00e9 depala na m\u00e3o, Aquele cabr\u00e3o ainda me desata a chorar<br \/>\n    diante deste mulo previa o tenentebaixinho, Estou farto desta merda pelo amor<br \/>\n    de Deus arranje-me uma doen\u00e7a qualquer,Deserta gritavam os pap\u00e9is do MPLA,<br \/>\n    Deserta Deserta Deserta Deserta DesertaDESERTA, a locutora da r\u00e1dio da Z\u00e2mbia<br \/>\n    perguntava Soldado portugu\u00eas porque lutascontra os teus irm\u00e3os mas era contra<br \/>\n    n\u00f3s pr\u00f3prios que lut\u00e1vamos, contra n\u00f3s que as nossas espingardas se apontavam,<br \/>\n    I love to show you my entire body e eu j\u00e1 me tinha denovo esquecido do teu<br \/>\n    corpo de coxas afastadas no quarto do s\u00f3t\u00e3o onde durante umm\u00eas vivi, esquecido<br \/>\n    do cheiro do sabor da elasticidade suave da tua pele, j\u00e1 me tinhaesquecido<br \/>\n    do som da voz do sorriso dos olhos eg\u00edpcios ir\u00f4nicos e ternos os seiosgrandes<br \/>\n    o cabelo na almofada os dedos perfeitos dos p\u00e9s, o capit\u00e3o chegou da mata<br \/>\n    comuma kalachnikov no sovaco e disse O tipo estava de costas a guardar a lavra<br \/>\n    n\u00e3o nos viusequer aproximar-nos, vamos todos acordar bem dispostos amanh\u00e3<br \/>\n    e ganhar a guerravivaportugal, que importa o nevoeiro do cacimbo at\u00e9 aos ossos<br \/>\n    se angol\u00e9nossa e assenhoras do movimento nacional feminino se interessam desveladamente<br \/>\n    pela gentetoma l\u00e1 dez aerogramas e vai-te curar, compreende o que \u00e9 querer<br \/>\n    fazer amor e n\u00e3ohaver com quem, a mis\u00e9ria de ter de masturbar-se a pensar<br \/>\n    em nada, puxar a pele paracima e para baixo at\u00e9 que, uma esp\u00e9cie de desmaio<br \/>\n    chocho um pouco de l\u00edquido eacabou-se limpar os dedos \u00e0s cuecas subir a braguilha<br \/>\n    e sair para a parada, Marcha lentoe \u00e0 vontade nossos cadetes ordenava o alferes<br \/>\n    na instru\u00e7\u00e3o de Mafra, convento absurdomonstruoso idiota cretino, Damas e<br \/>\n    cavalheiros perd\u00e3o senhores oficiais o conjuntoVera Cruz com o vocalista T\u00f3<br \/>\n    Man\u00e9 deseja a Vossas Excel\u00eancias um resto de tardefeliz, o sujeito do microfone<br \/>\n    desafinava boleros poeirentos de 78 rota\u00e7\u00f5es a brilhantinadas melenas cintilava<br \/>\n    o sapador girou a cadeira para o capel\u00e3o arreganhou a tacha einquiriu A menina<br \/>\n    dan\u00e7a, a primeira anticarro estoirou numa coluna dele e fui \u00e0 mata dehelic\u00f3ptero<br \/>\n    recolher-lhe os feridos, M\u00e9dico e sangue m\u00e9dico e sangue m\u00e9dico e sanguepedia<br \/>\n    o r\u00e1dio, dadores em bicha de bra\u00e7o arrega\u00e7ado \u00e0 entrada do posto, n\u00e1ufragosinertes<br \/>\n    nas macas de p\u00e1lpebras descidas a respirarem de leve por um canto dos l\u00e1bios,<br \/>\n    \u00e0noite os c\u00e3es selvagens ladravam em torno do arame Est\u00e1 a ouvir os gajos<br \/>\n    sussurrava otenente e o h\u00e1lito espalhava-se-me quente na orelha, como n\u00e3o<br \/>\n    h\u00e1 f\u00f3sforos acendem-seos cigarros uns nos outros, Mostrem resultados que se<br \/>\n    vejam discursava o coronel e n\u00f3ss\u00f3 t\u00ednhamos para exibir pernas amputadas caix\u00f5es<br \/>\n    hepatites paludismos defuntosviaturas transformadas em harm\u00f4nios de destro\u00e7os,<br \/>\n    o general perorou do Luso Asberliets s\u00e3o ouro piquem o trajeto inteiro de<br \/>\n    modo que tr\u00eas homens de cada ladoexploravam a areia adiante dos carros porque<br \/>\n    uma camioneta era mais necess\u00e1ria e maiscara do que um homem um filho faz-se<br \/>\n    em cinco minutos e de gra\u00e7a n\u00e3o \u00e9 verdade umaviatura demora semanas ou meses<br \/>\n    a atarraxar parafusos, ali\u00e1s havia ainda montes degente no pa\u00eds para mandar<br \/>\n    de barco para Angola mesmo descontando os filhos daspessoas importantes e<br \/>\n    os protegidos pelas amantes das pessoas importantes que n\u00e3oviriam nunca o<br \/>\n    paneleiro do rebento de um ministro foi declarado psicologicamenteincompat\u00edvel<br \/>\n    com o Ex\u00e9rcito, Est\u00e1 a ouvir os gajos sussurrava o tenente apontando assombras,<br \/>\n    Meu amor querido eis-me outra vez no Chi\u00fame depois de uma viagem semproblemas<br \/>\n    e isto sabes como \u00e9 continua na mesma um pouco isolado mas tranquilo nofundo<br \/>\n    \u00e9 id\u00eantico a morar dois anos em Vila Real ou em Espinho ou num monte doAlentejo<br \/>\n    com a vantagem de poder contar \u00e0 nossa filha que conversei com zebras eelefantes<br \/>\n    em zebr\u00eas e elefant\u00eas, todas as tardes escrevia rid\u00edculas mentiras joviais<br \/>\n    parauma mulher sem corpo, tendo no bolso o teu retrato a cores sentada numa<br \/>\n    rocha ao p\u00e9do mar de cabelo cortado e \u00f3culos escuros pernas cruzadas sob um<br \/>\n    vestido estampadovermelho e \u00e9s tu e n\u00e3 \u00e9s tu quem na fotografia me (me?) sorri,<br \/>\n    Angol\u00e9nossa senhorpresidente e viv\u00e1p\u00e1tria claro que somos e com que apaixonado<br \/>\n    orgulho os leg\u00edtimosdescendentes dos Magalh\u00e3es dos Cabrais e dos Gamas e a<br \/>\n    gloriosa miss\u00e3o quegarbosamente desempenhamos \u00e9 conforme o senhor presidente<br \/>\n    acaba de declarar no seunotabil\u00edssimo discurso parecida s\u00f3 nos faltam as barbas<br \/>\n    grisalhas e o escorbuto mas pelocaminho que as coisa levam eu seja cego se<br \/>\n    n\u00e3o l\u00e1 iremos, e j\u00e1 agora e se me permiteporque \u00e9 que os filhos dos seus ministros<br \/>\n    e dos seus eunucos, dos seus eunucosministros e dos seus ministros eunucos,<br \/>\n    dos seus miniucos e dos eunistros n\u00e3o malham com os cornos aqui na areia como<br \/>\n    a gente, o capit\u00e3o encostou a kalachnikov \u00e0 parede eficamos surpreendidos<br \/>\n    a olh\u00e1-la, Afinal \u00e9 este o aspecto da nossa morte perguntou umalferes, senhor<br \/>\n    doutor tem de ir \u00e0 mata porque pisaram uma antipessoal num trilho, seisquil\u00f4metros<br \/>\n    de Mercedes disparada e nisto o pelot\u00e3o numa clareira o cabo Pauloestendido<br \/>\n    a gemer e do joelho para baixo depois de uma pasta torcida de sangue nada,nada<br \/>\n    senhor presidente e senhores eunucos nada, calcule senhor presidente o que<br \/>\n    ser\u00e1desaparecer de s\u00fabito um bocado de si, os leg\u00edtimos descendentes dos Cabrais<br \/>\n    e dosGamas a sumirem-se por fra\u00e7\u00f5es um tornozelo um bra\u00e7o um tro\u00e7o de tripa<br \/>\n    ostomatinhos os ricos tomatinhos evaporados, faleceu em combate explica o<br \/>\n    jornal mas \u00e9isto falecer seus filhos da puta, eu ajudava-os a falecer com<br \/>\n    os meus rem\u00e9dios in\u00fateis eos olhos deles protestavam protestavam n\u00e3o entendiam<br \/>\n    e protestavam, ser\u00e1 falecer estaincompreens\u00e3o esta surpresa a boca aberta<br \/>\n    os bra\u00e7os bambos, cobriram-se as bombas denapalm com oleado e o governo afirmou<br \/>\n    solenemente Em caso algum recorrer\u00edamos at\u00e3o cruel meio de exterm\u00ednio, eu<br \/>\n    vi cobrir as bombas em Gago Coutinho, pedi umgarrote ao enfermeiro e logo<br \/>\n    a seguir lembrei-me Sempre que ponho um garrote morremde embolia gorda no<br \/>\n    Luso de forma que comecei a procurar a art\u00e9ria para a laquear, umfurriel espreitava<br \/>\n    por cima do meu ombro como um puto atr\u00e1s do muro que o protege,era dif\u00edcil<br \/>\n    pin\u00e7ar o vaso no meio de tanto m\u00fasculo e tanto sangue, como \u00e9 o teu corpocomo<br \/>\n    \u00e9 o teu sorriso como \u00e9 o teu cabelo na almofada acordavas-me de manh\u00e3 com<br \/>\n    ocalor das torradas e as coxas entre as minhas quando andavas as tuas n\u00e1degasendoideciam-me<br \/>\n    de desejo a maneira de mover as ancas o modo lento de beijarQueridos pais<br \/>\n    aqui no Chi\u00fame as coisas correm o melhor poss\u00edvel dentro do melhorposs\u00edvel<br \/>\n    que \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o h\u00e1 motivo nenhum para se preocuparem comigo at\u00e9engordei<br \/>\n    um quilo desde que cheguei e principio a assemelhar-me fisicamente a ummission\u00e1rio<br \/>\n    irlande\u00eas ou ao m\u00e9dio de abertura do Pa\u00eds de Gales, o soba afagava a suam\u00e1quina<br \/>\n    de costura in\u00fatil com olhos de Piet\u00e0 lamentosa, os gavi\u00f5es cobi\u00e7avam ospintos<br \/>\n    da sanzala em c\u00edrculos manhosos demorados tensos de gula, nuvens de trovoadaengordavam<br \/>\n    sobre a chana, os tend\u00f5es do vento contra\u00edam-se e distendiam-seassoprando<br \/>\n    a areia, o navio do Mississipi do soba acastanhava-se de ferrugem adornado,apliquei<br \/>\n    um rolh\u00e3o de compressas contra o coto para o impedir de sangrar, o furrielvomitava<br \/>\n    aos arrancos abra\u00e7ado \u00e0 arma abra\u00e7\u00e1vamo-nos \u00e0s espingardas como afogadosa<br \/>\n    peda\u00e7os irris\u00f3rios de madeira, \u00c9 este o aspecto da nossa morte interrogava<br \/>\n    o alferes aapontar a kalachnikov na parede, o aspecto da nossa morte s\u00e3o estes<br \/>\n    arbustos pind\u00e9ricose este homem prostrado cor-de-cinza que delira, o comandante<br \/>\n    do pelot\u00e3o assobiava def\u00faria, Prezado doutor Salazar se voc\u00ea estivesse vivo<br \/>\n    e aqui enfiava-lhe uma granada semcavilha pela peida acima uma granada defensiva<br \/>\n    sem cavilha pela peida acima, injeteisegunda ampola de morfina no deltoide,<br \/>\n    Depois deste trabalho todo n\u00e3o patines, doChi\u00fame informaram que o helic\u00f3ptero<br \/>\n    largara de Gago Coutinho com mais sangue abordo, gosto de ti gosto das tuas<br \/>\n    m\u00e3os cheias de an\u00e9is e das tuas pernas magras que seenrolam nas minhas id\u00eanticas<br \/>\n    a colares de muitas voltas gosto de jogar crapaud contigona cama desfeita<br \/>\n    e da batota que ambos fazemos e ambos sabemos que o outro faz paraganhar,<br \/>\n    um dia destes tiro o retrato e verificam espantad\u00edssimos que engordei, mais<br \/>\n    duascoraminas e tr\u00eas sympatol na esperan\u00e7a que o pulso me n\u00e3o fuja r\u00e1pido<br \/>\n    e t\u00eanue cora\u00e7\u00e3ode ave nos meus dedos, Marcha lento e \u00e0 vontade ofegava o alferes<br \/>\n    na estrada daEriceira uma filha de cadetes exaustos de cada lado do alcatr\u00e3o<br \/>\n    sob a chuva gelada deMar\u00e7o, o conjunto Vera Cruz deseja a Vossas Excel\u00eancias<br \/>\n    senhores oficiais um resto detarde descansado e feliz, n\u00e3o h\u00e1 motivo nenhum<br \/>\n    para se preocuparem comigo porqueesta perna esfacelada ainda n\u00e3o \u00e9 a minha<br \/>\n    perna e por assim dizer continuo se assim meposso exprimir mais ou menos vivo,<br \/>\n    o coronel em Luanda devia queixar-se aobrigadeiro de que falec\u00edamos demais,<br \/>\n    o helic\u00f3ptero desapareceu por sobre a matatoctoctoctoctoctoc, pusemo-nos de<br \/>\n    p\u00e9 para partir, recolhemos do ch\u00e3o os panos de tendaas cartucheiras os cantis<br \/>\n    e os bornais, o pelot\u00e3o formou em bicha e reparamos nacontagem que faltava<br \/>\n    o furriel dos v\u00f4mitos, estava sentado ali perto em cima da G3 dem\u00e3os no queixo,<br \/>\n    chamei-o, tornei a cham\u00e1-lo, acabei por sacudi-lo pelo ombro e elelevantou<br \/>\n    para mim olhos son\u00e2mbulos de muito longe e respondeu numa voz doce demenino<br \/>\n    N\u00e3o percam tempo comigo que eu estou t\u00e3o farto desta guerra que nem a tirovou<br \/>\n    sair daqui.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"14\">O<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Lisboa, mesmo a esta hora, \u00e9 uma cidade t\u00e3o desprovida de mist\u00e9rio como umapraia<br \/>\n    de nudistas, onde o revelador do sol exibe brutalmente n\u00e1degas planas e peitossem<br \/>\n    cones de sombra a aprofund\u00e1-los, que o mar parece abandonar na areia \u00e0 laia<br \/>\n    dosseixos sem arestas da vazante. Uma noite de cart\u00f3rio notarial, em cujos<br \/>\n    len\u00e7\u00f3is de papelselado ressona timidamente um povo de terceiros-oficiais resignados,<br \/>\n    transforma ascasas e os pr\u00e9dios em tristes jazigos de fam\u00edlia, no interior<br \/>\n    dos quais os casais azedosesquecem por algumas horas as suas querelas min\u00fasculas,<br \/>\n    para se assemelharem aest\u00e1tuas jacentes de pijama \u00e0s riscas, que o despertador<br \/>\n    \u00e0 cabeceira da cama empurrar\u00e1em breve para quotidianos fren\u00e9ticos e cinzentos.<br \/>\n    No Parque Eduardo VII, oshomossexuais surgem do escuro \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o dos carros,<br \/>\n    oferecendo de entre osarbustos os ademanes de alforreca de pl\u00e1stico dos seus<br \/>\n    gestos e a vibra\u00e7\u00e3o de pestanasdas p\u00e1lpebras m\u00edopes, que o excesso de r\u00edmel<br \/>\n    sublinha de promessas duvidosas. Dooutro lado da rua, o Pal\u00e1cio da Justi\u00e7a,<br \/>\n    ainda n\u00e3o invadido pelos sorrisos ferrugentos dec\u00e1rie das prostitutas que<br \/>\n    dividem com os insetos o duche de claridade p\u00e1lida doscandeeiros das redondezas,<br \/>\n    preenchia uma esp\u00e9cie de plataforma de relva do seu imensovolume reprovador:<br \/>\n    ali dentro, diante de um juiz desinteressado, ocupado a palparcautelosamente<br \/>\n    um fur\u00fanculo do pesco\u00e7o, o meu casamento terminar\u00e1 sem grandezanem gl\u00f3ria,<br \/>\n    ap\u00f3s v\u00e1rios meses lancinantes de reencontros e separa\u00e7\u00f5es, que meretalharam<br \/>\n    de ang\u00fastia os destro\u00e7os de um longo inverno de afli\u00e7\u00e3o. Separamo-nos, sabecomo<br \/>\n    \u00e9, numa paz feita de al\u00edvio e de remorso, e despedimo-nos no elevador como<br \/>\n    doisestranhos, trocando um \u00faltimo beijo em que morava ainda um resto indigerido<br \/>\n    dedesespero. N\u00e3o sei se consigo aconteceu assim, se por acaso conheceu a agonia<br \/>\n    dos finsde-semana clandestinos em estalagens \u00e0 beira-mar, numa desordem de<br \/>\n    ondas cor-dechumboesmagadas contra o cimento lascado da varanda e as dunas<br \/>\n    a tocarem o c\u00e9ubaixo de nuvens id\u00eantico a um teto de estuque esfarrapado,<br \/>\n    se abra\u00e7ou um corpo que aomesmo tempo se ama e se n\u00e3o ama na pressa ansiosa<br \/>\n    com que os macacos pequenos sedependuram dos pelos indiferentes da m\u00e3e, se<br \/>\n    juraram sem grande convic\u00e7\u00e3o promessasprecipitadas, mais decorrentes do p\u00e2nico<br \/>\n    da sua ang\u00fastia do que de uma ternuragenerosa e verdadeira. Durante um ano,<br \/>\n    percebe, tropecei de casa em casa e de mulherem mulher num frenesim de crian\u00e7a<br \/>\n    cega a tatear atr\u00e1s do bra\u00e7o que lhe foge, e acordeimuitas vezes, sozinho,<br \/>\n    em quartos de hotel impessoais como express\u00f5es depsicanalistas, unido por<br \/>\n    um telefone sem n\u00fameros \u00e0 amabilidade vagamente desconfiadada recep\u00e7\u00e3o, a<br \/>\n    quem a minha bagagem ex\u00edgua intrigava. Estraguei os dentes e oest\u00f4mago em<br \/>\n    casas de pasto todas semelhantes aos restaurantes das esta\u00e7\u00f5es de caminhode<br \/>\n    ferro, de que a comida sabe a carv\u00e3o de coque e a len\u00e7os \u00famidos do ranho j\u00e1<br \/>\n    saudosodas despedidas. Frequentei sess\u00f5es da meia-noite, de nuca arrepiada<br \/>\n    pela tosse dosolit\u00e1rio do banco de tr\u00e1s, que lia as legendas em voz alta para<br \/>\n    se inventar umacompanhia. E descobri, uma tarde, sentado numa esplanada de<br \/>\n    Alg\u00e9s, na borbulhosa presen\u00e7a de uma garrafa de \u00e1gua das Pedras, que estava<br \/>\n    morto, entende, morto como ossuicidas do viaduto que de quando em quando cruzamos<br \/>\n    na rua, p\u00e1lidos, dignos, dejornal dobrado no sovaco, os quais desconhecem<br \/>\n    que faleceram e cujos h\u00e1litos cheirama alm\u00f4ndegas com pur\u00e9 de batata e a trinta<br \/>\n    anos de funcion\u00e1rio exemplar.<\/p>\n<p>N\u00e3o sente uma esp\u00e9cie de choque interior diante das montras apagadas, id\u00eanticasao<br \/>\n    olhos ausente dos estr\u00e1bicos? Em pequeno imaginava muitas vezes, estendido<br \/>\n    nacama, de m\u00fasculos retesos no pavor de adormecer, que toda a gente desaparecia<br \/>\n    dacidade e eu circulava nas ruas vazias perseguido pelas \u00f3rbitas ocas das<br \/>\n    est\u00e1tuas que mevigiavam com a implac\u00e1vel ferocidade inerte das coisas, petrificadas<br \/>\n    na atitude artificiale pomposa das fotografias da \u00e9poca heroica, ou evitando<br \/>\n    as \u00e1rvores de que as folhastremiam numa inquieta\u00e7\u00e3o marinha de escamas, e<br \/>\n    memo hoje, sabe como \u00e9, continuo apensar-me sozinho na noite destas pra\u00e7as,<br \/>\n    destas melanc\u00f3licas avenidas sem grandeza,destas transversais secund\u00e1rias<br \/>\n    como afluentes, arrastando consigo capelistassuburbanas e cabeleireiros decr\u00e9pitos,<br \/>\n    Sal\u00e3o Nelinha, Sal\u00e3o Pareira, Sal\u00e3o P\u00e9rola doFaial, com penteados de revistas<br \/>\n    de modas colados ao vidro das janelas. Em casa, aalcatifa bebe o som dos meus<br \/>\n    passos reduzindo-me ao eco t\u00eanue de uma sombra, e tenhoa impress\u00e3o, ao barbear-me,<br \/>\n    que quando a l\u00e3mina me retirar das bochechas as su\u00ed\u00e7as dePai-Natal mentoladas<br \/>\n    da espuma, apenas ficar\u00e3o de mim as \u00f3rbitas a boiarem,suspensas, no espelho,<br \/>\n    indagando ansiosamente pelo corpo que perderam. <\/p>\n<p>Como no Chi\u00fame, entende, no Natal de 71, primeiro Natal de guerra ap\u00f3s quaseum<br \/>\n    ano na mata, um ano de desespero, expectativa e morte na mata, em que acordei<br \/>\n    demanh\u00e3 e pensei \u00c9 dia de Natal hoje, olhei para fora e nada mudara no quartel,<br \/>\n    asmesmas tendas, as mesmas viaturas em c\u00edrculo junto ao arame, o mesmo edif\u00edcioabandonado<br \/>\n    que uma granada de bazooka destru\u00edra, os mesmos homens lentos atrope\u00e7ar na<br \/>\n    areia ou acocorados nos degraus desfeitos da messe de sargentos, co\u00e7andoem<br \/>\n    sil\u00eancio a flor-do-congo dos cotovelos como mendigos nas escadas de uma igreja.Acordei<br \/>\n    de manh\u00e3 e pensei \u00c9 dia de Natal hoje, vi o c\u00e9u de trovoada do lado do rioQuando<br \/>\n    e a eterna segunda-feira do costume no cansa\u00e7o dos gestos, o calor escorria-medas<br \/>\n    costas em grossos pingos pegajosos de gordura, e disse dentro de mim N\u00e3o pode<br \/>\n    serh\u00e1 qualquer coisa de errado nisto tudo, o pijama demasiado largo n\u00e3o parecia<br \/>\n    conter emsi ossos e carne nenhuns e eu achei que n\u00e3o existia j\u00e1, o meu tronco,<br \/>\n    os meus membros,os meus p\u00e9s, n\u00e3o existia para al\u00e9m de um par de pupilas piscas<br \/>\n    que espiavam,surpreendidas, a plan\u00edcie da chana e a seguir \u00e0 chana as \u00e1rvores<br \/>\n    acumuladas na dira\u00e7\u00e3odo norte de onde chegava o avi\u00e3o da comida fresca e do<br \/>\n    correio, eu era s\u00f3 essas pupilasespantadas que fitavam e que hoje reencontro,<br \/>\n    mais velhas e descoloridas, no espelho doquarto de banho, ap\u00f3s o arrepio nos<br \/>\n    ombros da primeira urina, vociferando para opr\u00f3prio reflexo um apelo mudo<br \/>\n    sem resposta.<\/p>\n<p>Dias antes havia partido de coluna uma companhia de paraquedistas apoiada<br \/>\n    porhelic\u00f3pteros sul-africanos, chegados do Quito-Quanavale para uma opera\u00e7\u00e3o<br \/>\n    excessivae in\u00fatil na terra dos Luchazes, e todas as noites os pilotos, enormes,<br \/>\n    loiros, arrogantes,se embebedavam com estr\u00e9pito quebrando copos e garrafas<br \/>\n    e desafinando can\u00e7\u00f5es emafrikander, comandados por um David Niven esquecido<br \/>\n    da dieta, que considerava numaindulg\u00eancia de nurse os subordinados a vomitarem<br \/>\n    cerveja amparados uns aos outros,verdes de afli\u00e7\u00e3o e agonia:<\/p>\n<p>&#8211; If you worry you die. If you don&#8217;t wprry you die. So, why worry?<\/p>\n<p>Os oficiais paraquedistas, estritos e graves como seminaristas laicos, abra\u00e7andocontra<br \/>\n    o peito os crucifixos das armas, fitavam reprovadores aquele pandem\u00f4nio dearrotos<br \/>\n    e de cacos, movendo silenciosamente os l\u00e1bios em padre-nossos militares. Ocapit\u00e3o,<br \/>\n    em quem morava o esp\u00edrito Modas &amp; Bordados de uma dona de casaminuciosa,<br \/>\n    esvoa\u00e7ava preocupad\u00edssimo em torno das loi\u00e7as ainda intactas, lan\u00e7ando aos<br \/>\n    c\u00e1lices e aos pratos desgarradores soslaios de paix\u00e3o sem esperan\u00e7a. O alferes<br \/>\n    Eleut\u00e9rio,encarquilhado como um feto, escutava a um canto o seu Beethoven.<br \/>\n    O catangu\u00easdeslizava para a sanzala ao encontro de um churrasco de ratos.<br \/>\n    E eu, encostado aoscaixilhos, assistia \u00e0s elipses dos morcegos ao redor das<br \/>\n    l\u00e2mpadas, sem ouvir nada, sempensar nada, certo de que a minha vida se resumiria<br \/>\n    para sempre ao oval de arame emque me achava, sob um c\u00e9u baixo de chuva ou<br \/>\n    de cacimbo, conversando com o soba \u00e0sombras da m\u00e1quina de costura monumental,<br \/>\n    a escutar as hist\u00f3rias de crocodilos de umtempo mais feliz.<\/p>\n<p>A impertin\u00eancia brutal dos sul-africanos, que nos julgavam um pouco umaesp\u00e9cie<br \/>\n    de mulatos toler\u00e1veis, acendia em mim uma chama crescente de Manuelinho de\u00c9vora<br \/>\n    que a selvajaria dos pides e os abjetos discursos patri\u00f3ticos da r\u00e1dio alimentavam.Os<br \/>\n    pol\u00edticos de Lisboa surgiam-me como fantoches criminosos ou imbecis defendendointeresses<br \/>\n    que n\u00e3o eram os meus e que cada vez menos o seriam, e preparandosimultaneamente<br \/>\n    a sua pr\u00f3pria derrota: os homens sabiam bem que eles e os filhos delesn\u00e3o<br \/>\n    combatiam, sabiam bem de onde vinha quem na mata apodrecia, tinham morto evisto<br \/>\n    morrer demais para que o pesadelo se prolongasse muitos anos, os fuzileiroshaviam<br \/>\n    desfilado uma noite pelo quartel-general do Luso entoando insultos, todas<br \/>\n    astardes ouv\u00edamos a emiss\u00e3o do MPLA \u00e0s escondidas, aliment\u00e1vamos mulheres<br \/>\n    e filhoscom sal\u00e1rios de mis\u00e9ria, demasiados estropiados coxeavam ao fim da<br \/>\n    tarde por Lisboa,nas imedia\u00e7\u00f5es do anexo do Hospital Militar, e cada coto<br \/>\n    era um grito de revolta contrao incr\u00edvel absurdo das balas. Mais tarde conhecemos<br \/>\n    a hostilidade dos brancos deAngola, dos fazendeiros e dos industriais de Angola<br \/>\n    reclusos nas suas vivendasgigantescas repletas de antiguidades falsas, de<br \/>\n    que sa\u00edam para abocanhar prostitutasbrasileiras nos cabar\u00e9s da Ilha, entre<br \/>\n    baldes de p\u00e9ssimo champanhe nacional e beijossonoros como desentupidores de<br \/>\n    retrete que se despegam:<\/p>\n<p>&#8211; Se voc\u00eas c\u00e1 n\u00e3o estivessem limp\u00e1vamos isto de pretos num instante.<\/p>\n<p>Cabr\u00f5es, pensava eu a beber cubas-livres solit\u00e1rias ao balc\u00e3o, cabr\u00f5es gordos<br \/>\n    esuados, reca\u00e7os de merda, traficantes de escravos, e invejava as gargalhadas<br \/>\n    que asmulheres lhes segredavam nos pelos das orelhas, os abra\u00e7os dos ombros<br \/>\n    redondos delas,as nuvens de perfume espesso que os sovacos e as virilhas expeliam<br \/>\n    como tur\u00edbulos aomais m\u00ednimo aceno, a cama D. Maria em que as deitariam, ao<br \/>\n    aproximar da manh\u00e3,num cen\u00e1rio de espelhos foscos, de \u00e1rvores da borracha<br \/>\n    em vasos e de c\u00e3ezinhos Mingde queixos horrorosamente torcidos por dores de<br \/>\n    dentes de loi\u00e7a, como a minha cara setorcia de incredulidade no Chi\u00fame, nessa<br \/>\n    madrugada de Natal absolutamente id\u00eantica atodas as madrugas que conhecera<br \/>\n    em \u00c1frica, fitando os soldados que conversavam dooutro lado da parada nos<br \/>\n    degraus da messe de sargentos, e vendo as nuvens de chuvaque cresciam do Quando<br \/>\n    para mim, em enormes rolos de basalto pesados de umaamea\u00e7a de tempestade.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o falta muito, moro ali adiante, naquele renque de fe\u00edssimos pr\u00e9diosverdes<br \/>\n    a que a noite confere, por um estranho milagre, a profunda dignidade hirta<br \/>\n    deuma abadia \u00e0 medida da minha linhagem de comerciantes de bigode e corrente<br \/>\n    derel\u00f3gio, a encararem a objetiva numa desconfian\u00e7a bovina feita de medo e<br \/>\n    desupersticioso respeito. Acreditava-se em Deus nessa \u00e9poca mesmo atrav\u00e9s<br \/>\n    de umam\u00e1quina de trip\u00e9, um ser barbudo e severo, sexagen\u00e1rio de t\u00fanica, sand\u00e1lias<br \/>\n    e risca aomeio, que geria uma empresa de m\u00e1rtires e de santos t\u00e3o complicada<br \/>\n    como os Armaz\u00e9nsGrandela, distribuindo pecados, bulas, absolvi\u00e7\u00f5es e passa<br \/>\n    portes para o Inferno porinterm\u00e9dio de encarregados de neg\u00f3cios terrestres<br \/>\n    chamados padres, os quaistransmitiam aos domingos para a dire\u00e7\u00e3o da firma<br \/>\n    telex em latim. Estas casas, n\u00e3o acha,s\u00e3o ali\u00e1s constru\u00eddas \u00e0 medida das nossas<br \/>\n    ambi\u00e7\u00f5es quadradas e dos nossos pequeninossentimentos: a umidade infiltra-se,<br \/>\n    tudo empena, os canos entupidos gorgolejam guinadas de arrotos, as alcatifas<br \/>\n    descolam-se, inevit\u00e1veis correntes de ar assobiam nasfrinchas, mas compramos<br \/>\n    m\u00f3veis em Sintra para ocultar mis\u00e9rias e manchas atr\u00e1s devolutas de talha<br \/>\n    pretensamente antigas, do mesmo modo que vestimos o nosso ego\u00edsmoestreito<br \/>\n    das apar\u00eancias de uma generosidade vingativa. O meu pai costumava contar-meque<br \/>\n    o rei Filipe exclamara para o arquiteto do Escurial Fa\u00e7amos qualquer coisa<br \/>\n    que omundo diga de n\u00f3s que fomos loucos. Pois bem, neste caso a ordem recebida<br \/>\n    pelogorducho de capacete e palito que presidiu \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o destes monstros<br \/>\n    abstrusosagaiolado-pretensiosos deve ter sido Fa\u00e7amos qualquer coisa que o<br \/>\n    mundo diga de n\u00f3sque fomos mongoloides. E, de fato, os vizinhos que se comprimem<br \/>\n    comigo no elevadorex\u00edguo possuem a boca aberta, as escler\u00f3tidas ba\u00e7as, a pele<br \/>\n    amarela e o riso deincompreens\u00e3o contente das criaturas demasiado quotidianas<br \/>\n    para seremverdadeiramente infelizes, atravessando o deserto dos fins-de-semana<br \/>\n    diante dosaparelhos de televis\u00e3o, a beberem por uma palhinha o capil\u00e9 da sua<br \/>\n    mediocridade. Eu,que ainda conservo por milagre um t\u00eanue res\u00edduo de inquieta\u00e7\u00f5es<br \/>\n    metaf\u00edsicas, acordo demanh\u00e3 com ci\u00e1tica na alma, que os passos no andar de<br \/>\n    cima amachucam cruelmente, e aintelig\u00eancia enferrujada por v\u00e1rias horas de<br \/>\n    pris\u00e3o num andar insidiosamente preparadopara me transformar num funcion\u00e1rio<br \/>\n    exausto, carregando uma pasta com as Sele\u00e7\u00f5es,os termo do caf\u00e9 com leite do<br \/>\n    almo\u00e7o e o boi\u00e3o de geleia de abelhas cujo r\u00f3tulo mepromete a juventude ilus\u00f3ria<br \/>\n    de uma ere\u00e7\u00e3o ocasional.<\/p>\n<p>Era, portanto, dia de Natal no Chi\u00fame e nada mudara. Ningu\u00e9m da fam\u00edliaestava<br \/>\n    ali comigo, a casa do av\u00f4, com o seu jardim de est\u00e1tuas de loi\u00e7a, o lago deazulejos<br \/>\n    e a estufa em que a sala de jantar se prolongava, permanecia dolorosamenteancorada<br \/>\n    em Benfica, atr\u00e1s do port\u00e3o cor-de-tijolo e do p\u00e1tio repleto dos autom\u00f3veis<br \/>\n    dasvisitas, as pessoas, endomingadas, deviam estar a chegar para o almo\u00e7o,<br \/>\n    as criadasantigas da minha inf\u00e2ncia serviam as ch\u00e1venas da sopa, dentro em<br \/>\n    breve a av\u00f3 mandariaum neto chamar o pessoal para lhes distribuir embrulhos<br \/>\n    moles constelados de estrelasprateadas (meias, roupa de baixo, camisolas,<br \/>\n    ceroulas), numa pompa lenta de cerim\u00f4niaNobel. Sentado na cama, defronte da<br \/>\n    vastid\u00e3o verde-amarela da chana e da trovoada ainchar sobre o Quando, lembrei-me<br \/>\n    das tias velh\u00edssimas nos andares enormes daAlexandre Herculano e da Barata<br \/>\n    Salgueiro, mergulhados numa eterna penumbra ondecintilavam c\u00e1lices e bules,<br \/>\n    tia Mimi, tia Bilu, um senhor doente a babar interjei\u00e7\u00f5esnuma poltrona, sujeitos<br \/>\n    idosos que puxavam a risca da orelha para mascarar a calv\u00edcie eme beliscavam<br \/>\n    a bochecha com dois dedos distra\u00eddos, pianos verticais, o retratoassinado<br \/>\n    de D. Manuel II, latas de biscoitos com cenas de ca\u00e7a na tampa. O passado,sabe<br \/>\n    como \u00e9, vinha-me \u00e0 mem\u00f3ria como um almo\u00e7o por digerir nos chega em refluxosazedos<br \/>\n    \u00e0 garganta, o tio El\u00f3i a dar corda aos rel\u00f3gios de parede, o mar feroz da<br \/>\n    Praia dasMa\u00e7\u00e3s no Outono esmurrando a muralha, os grossos dedos subitamente<br \/>\n    delicados docaseiro inventando uma flor. Pulara sem transi\u00e7\u00e3o da comunh\u00e3o<br \/>\n    solene \u00e0 guerra,pensava eu a abotoar o camuflado, obrigaram-me a confrontar-me<br \/>\n    com uma morte emque nada havia de comum com a morte ass\u00e9ptica dos hospitais,<br \/>\n    agonia dedesconhecidos que apenas aumentava e refor\u00e7ava a minha certeza de<br \/>\n    estar vivo e aminha agrad\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o de criatura ang\u00e9lica e eterna, e ofereceram-me<br \/>\n    a vertigem domeu pr\u00f3prio fim no fim dos que comiam comigo, dormiam comigo,<br \/>\n    falavam comigo,ocupavam comigo os ninhos das trincheiras durante o tiroteio<br \/>\n    dos ataques.<\/p>\n<p>Uma agita\u00e7\u00e3o de silhuetas e de vozes borbulhou na sanzala, aproximou-se,tomou<br \/>\n    forma: os meus tios, os meus irm\u00e3os, os meus primos, o chauffeur da av\u00f3,afetado<br \/>\n    e delicad\u00edssimo, os sujeitos da risca na orelha, o caseiro, o senhor doente<br \/>\n    dapoltrona, fardados, exaustos, sujos, de arma ao ombro, chegavam de uma opera\u00e7\u00e3o<br \/>\n    namata e dirigiam-se para a enfermaria transportando, num pano de tenda entre<br \/>\n    dois paus,o meu corpo desarticulado e inerte com um garrote na cosa reduzida<br \/>\n    a um incha\u00e7o ensanguentado. Reconheci-me como num espelho excessivamente fiel<br \/>\n    ao examinar osmeus pr\u00f3prios olhos fechados, a boca p\u00e1lida, a relva loira da<br \/>\n    barba que me escurecia oqueixo, a marca mais clara da alian\u00e7a perdida na m\u00e3o<br \/>\n    sem an\u00e9is. Algu\u00e9m partia o boloreiem gestos rituais, a minha mulher, comovida,<br \/>\n    guardava num saco de pl\u00e1stico ospresentes que me cabiam. A fam\u00edlia, im\u00f3vel,<br \/>\n    \u00e0 porta do posto de socorros, aguardava,suspensa, que eu me reanimasse a mim<br \/>\n    mesmo, o cabo das transmiss\u00f5es pedia ohelic\u00f3ptero aos gritos para me conduzir<br \/>\n    a Benfica a tempo dos licores e do caf\u00e9.Auscultei-me e nenhum som me veio,<br \/>\n    pelas borrachas do estetosc\u00f3pio, aos ouvidos. Ofurriel enfermeiro estendeu-me<br \/>\n    a seringa de adrenalina, e eu, depois de me abrir acamisa e palpar o espa\u00e7o<br \/>\n    entre as costelas, cravei-a de um s\u00f3 golpe no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"15\">P<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>C\u00e1 estamos. N\u00e3o. N\u00e3o bebi demais mas engano-me sempre na chave, talvez pordificuldade<br \/>\n    em aceitar que este pr\u00e9dio seja o meu e aquela varanda l\u00e1 em cima, \u00e0sescuras,<br \/>\n    o andar onde moro. Sinto-me, sabe como \u00e9, como os c\u00e3es que farejamintrigados<br \/>\n    o odor da pr\u00f3pria urina na \u00e1rvore que acabaram de deixar, e acontece-mepermanecer<br \/>\n    aqui alguns minutos, surpreendido e incr\u00e9dulo, entre as caixas do correio<br \/>\n    eo elevador, procurando em v\u00e3o um sinal meu, uma pegada, um cheiro, uma pe\u00e7a<br \/>\n    deroupa, um objeto, na atmosfera vazia do vest\u00edbulo, cuja nudez silenciosa<br \/>\n    e neutra medesarma. Se abro o meu cacifo n\u00e3o encontro nunca uma carta, um<br \/>\n    prospecto, umsimples papel com o meu nome que me prove que existo, que habito<br \/>\n    aqui, que de certamaneira este lugar me pertence. N\u00e3o imagina como invejo<br \/>\n    a seguran\u00e7a tranquila dosvizinhos, a decis\u00e3o familiar com que abrem a porta,<br \/>\n    o sobrolho propriet\u00e1rio com queconsideram os t\u00edtulos do jornal enquanto aguardam<br \/>\n    o elevador, a c\u00famplice amabilidadedos seus sorrisos: existe sempre em mim<br \/>\n    a suspeita tenaz de que me v\u00e3o expulsar, deque ao entrar em casa encontrarei<br \/>\n    outros m\u00f3veis no lugar dos meus m\u00f3veis, livrosdesconhecidos nas estantes,<br \/>\n    uma voz de crian\u00e7a algures no corredor, um homeminstalado no meu sof\u00e1 a erguer<br \/>\n    para mim um olhar de perplexidade indignada. Umanoite, h\u00e1 pouco tempo, ao<br \/>\n    atender o telefone, perguntaram-me se falava de um n\u00famerocompletamente diferente<br \/>\n    do meu. Julga que desfiz o engano e desliguei? Pois bem, deipor mim a tremer,<br \/>\n    de palavras enroladas na garganta, \u00famido de suor e de afli\u00e7\u00e3o,sentindo-me<br \/>\n    um estranho numa casa estranha, a invadir em fraude a intimidade alheia,uma<br \/>\n    esp\u00e9cie de gatuno, percebe, do universo dom\u00e9stico de um outro, pousado na<br \/>\n    bordada cadeira num excesso de cerim\u00f4nia culpada. \u00c0 medida que os filhos passavam<br \/>\n    a viversozinhos e a abandonavam, a minha m\u00e3e ia transformando os nossos quartos<br \/>\n    em salas,os div\u00e3s sumiam-se, quadros desconhecidos surgiam nas paredes, a<br \/>\n    nossa presen\u00e7aapagava-se dos compartimentos que habit\u00e1ramos, do mesmo modo<br \/>\n    que nos apressamosa lavar os dedos depois de apertar uma m\u00e3o desagrad\u00e1vel<br \/>\n    ou oleosa. Quandoregress\u00e1vamos de visita para jantar era como se a casa fosse<br \/>\n    simultaneamente familiar eestrangeira: reconhec\u00edamos os cheiros, as c\u00f4modas,<br \/>\n    os rostos, mas em vez de n\u00f3sencontr\u00e1vamos os nossos retratos de inf\u00e2ncia espalhados<br \/>\n    pelas mesas, abertos emsorrisos de uma inoc\u00eancia inquietante, e afigurava-se-me<br \/>\n    que a minha fotografia demenino havia devorado o adulto que sou, e que quem<br \/>\n    de fato existia verdadeiramente aliera uma mecha de cabelos louros por cima<br \/>\n    de um babador de riscas, olhandoacusadoramente para mim atrav\u00e9s do difuso<br \/>\n    nevoeiro de anos que nos separava. Nuncaestamos onde estamos, n\u00e3o acha, nem<br \/>\n    sequer agora, comprimidos no espa\u00e7o ex\u00edguo doelevador, voc\u00ea hirta e calada,<br \/>\n    a medir-me de esguelha os \u00edmpetos de bode, eu a tilintar as chaves na impaci\u00eancia<br \/>\n    enervada que estes esquisitos aparelhos de subir e descerinvariavelmente me<br \/>\n    provocam, modernos suced\u00e2neos das barquinhas de bal\u00e3o, sempre \u00e0beira de uma<br \/>\n    queda desamparada e catastr\u00f3fica. A minha amiga est\u00e1, por exemplo, no\u00faltimo<br \/>\n    agosto, nua na praia em frente ao mar xaroposo e domesticado do Algarve, nacompanhia<br \/>\n    de uma dessas criaturas inteligentes e feias das quais \u00e9 f\u00e1cil gostar porque,por<br \/>\n    um lado, n\u00e3o competem consigo e, por outro, a salvam de ir sozinha aos ciclos<br \/>\n    decinema da Gulbenkian, frequentados por m\u00edopes l\u00facidos e soci\u00f3logas perempt\u00f3rias,<br \/>\n    e eucontinuo em Angola como h\u00e1 oito anos atr\u00e1s, e despe\u00e7o-me do soba-alfaiate<br \/>\n    junto \u00e0m\u00e1quina de costura pr\u00e9-hist\u00f3rica, coberta agora de um espesso musgo<br \/>\n    de ferrugem, eque a areia corr\u00f3i e tortura como Giacometti modela, numa esp\u00e9cie<br \/>\n    de raiva paciente, assuas dolorosas silhuetas pernaltas, id\u00eanticas a p\u00e1ssaros<br \/>\n    inventados, mais reais que osverdadeiros. Vamos abandonar o Chi\u00fame na dire\u00e7\u00e3o<br \/>\n    do norte, as viaturas em colunaaguardam que embarquemos, e eu, im\u00f3vel no centro<br \/>\n    da sanzala, enjoado pelo odordecomposto da mandioca a secar os ossos brancos<br \/>\n    no teto das palhotas, tentodesesperadamente fixar, nesta manh\u00e3 de janeiro<br \/>\n    lavada pela chuva da noite, imersanuma claridade excessiva que dissolve os<br \/>\n    contornos e afoga na sua luz sem piedade ossentimentos delicados ou demasiado<br \/>\n    fr\u00e1geis, tento desesperadamente fixar, dizia, ocen\u00e1rio que habitei tantos<br \/>\n    meses, as tendas de lona, os c\u00e3es vagabundos, os edif\u00edciosdecr\u00e9pitos da administra\u00e7\u00e3o<br \/>\n    defunta, morrendo pouco a pouco uma lenta agonia deabandono: a ideia de uma<br \/>\n    \u00c1frica portuguesa, de que os livros de Hist\u00f3ria do liceu, asarengas dos pol\u00edticos<br \/>\n    e o capel\u00e3o de Mafra me falavam em imagens majestosas, n\u00e3opassava afinal de<br \/>\n    uma esp\u00e9cie de cen\u00e1rio de prov\u00edncia a apodrecer na desmedidavastid\u00e3o do espa\u00e7o,<br \/>\n    projetos de Olivais Sul que o capim e os arbustos rapidamentedevoravam, e<br \/>\n    um grande sil\u00eancio de desola\u00e7\u00e3o em torno, habitado pelas carrancasesfomeadas<br \/>\n    dos leprosos. As Terras do Fim do Mundo eram a extrema solid\u00e3o e aextrema<br \/>\n    mis\u00e9ria, governadas por chefes de posto alco\u00f3licos e c\u00fapidos a tiritarem depaludismo<br \/>\n    nas suas casas vazias, reinando sobre um povo conformado, sentado \u00e0 portadas<br \/>\n    cubatas numa indiferen\u00e7a vegetal. O almirante Tom\u00e1s fitava-nos da parede compupilas<br \/>\n    de vidro idiota de urso empalhado, mil\u00edcias de espingardas vener\u00e1veisadormeciam<br \/>\n    encostados \u00e0 pr\u00f3pria sombra sob os telheiros de zinco dos postos desentinela<br \/>\n    junto ao arame in\u00fatil. E, no entanto, havia a quase imaterial beleza doseucaliptos<br \/>\n    de Ninda ou de Cessa, aprisionando nos seus ramos uma densa noiteperp\u00e9tua,<br \/>\n    a raivosa majestade da floresta do Chalala a resistir \u00e0s bombas, os p\u00fabistatuados<br \/>\n    das mulheres, por tr\u00e1s de cuja curva de bule cresciam, ao ritmo card\u00edaco dostambores,<br \/>\n    filhos que eu ansiosamente desejava menos passivos e melanc\u00f3licos do quen\u00f3s,<br \/>\n    que se n\u00e3o acocorassem, vencidos, diante das palhotas, passando-se uns aos<br \/>\n    outroso cachimbo de caba\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o, \u00e9 aqui, no 6\u00ba esquerdo, vest\u00edbulo de m\u00e1rmore, olal\u00e1, uma alcatifa de<br \/>\n    cadacor, uma ficha de televis\u00e3o por compartimento, cinco divis\u00f5es, tr\u00eas banheiros,<br \/>\n    duaslongas varandas para o cemit\u00e9rio e o Tejo, o sol cor de laranja ao fim<br \/>\n    da tardecomungado pelos telhados do Areeiro. Sinto-me neste andar, sabe como<br \/>\n    \u00e9, como umavestruz despaisado, e rodo de sala em sala a conversar sozinho,<br \/>\n    como os velhos, decopo de u\u00edsque na m\u00e3o, recitando aos cubos de gelo os sonetos<br \/>\n    a preto e branco deAntero que povoaram a inf\u00e2ncia de fantasmas c\u00f3smicos. O<br \/>\n    senhorio, sujeito de bigodeafirmativo, que me visita de quando em quando a<br \/>\n    bordo de um mirabolante autom\u00f3velamericano cuja espantosa profus\u00e3o de far\u00f3is,<br \/>\n    arrebiques e cromados me fazinvariavelmente pensar numa igreja manuelina de<br \/>\n    pneus radiais, muniu a casa delavat\u00f3rios id\u00eanticos a pias batismais que me<br \/>\n    obrigam a escovar os dentes de manh\u00e3murmurando rezas em latim, substituiu<br \/>\n    as portas dos roupeiros por pain\u00e9is de madeira aque apenas faltam os sorrisos<br \/>\n    d\u00fabios de uma galeria de santos medievais, e ofereceu-me a prenda suplementar<br \/>\n    de uma garagem-catacumba nas funda\u00e7\u00f5es do pr\u00e9dio, onde aminha tosse modesta<br \/>\n    reboa tr\u00e1gicos ecos de avalanche: pouco a pouco comecei ahabituar-me a esta<br \/>\n    catedral de Chartres \u00e0 medida de despachantes de alf\u00e2ndega sempoesia de que<br \/>\n    os pesadelos se eri\u00e7am de faturas e livros de balan\u00e7o, e principiei a amarestas<br \/>\n    tintas horr\u00edveis das paredes e esta aus\u00eancia de m\u00f3veis, do mesmo modo que<br \/>\n    segosta de um filho corcunda ou de uma mulher com mau h\u00e1lito, por aborrecimento,<br \/>\n    porh\u00e1bito, ou at\u00e9, talvez, por uma confusa expia\u00e7\u00e3o de erros obscuros. Gosto<br \/>\n    das piasbatismais, dos arm\u00e1rios, do Alto de S. Jo\u00e3o, que vejo da cozinha e<br \/>\n    que se me afigurauma not\u00e1vel combina\u00e7\u00e3o de Portugal dos Pequeninos com o cemit\u00e9rio<br \/>\n    dos c\u00e3es doJardim Zool\u00f3gico, em honra do ciclo do azoto. E depois, que al\u00edvio,<br \/>\n    percebe, n\u00e3o se v\u00eao mar, n\u00e3o existe o perigo de os olhos se alongarem para<br \/>\n    o horizonte em busca de ilhas\u00e0 deriva ou dos inquietantes veleiros da aventura<br \/>\n    interior, sempre prontos a aparelharempara a \u00cdndia de um sonho. N\u00e3o se v\u00ea<br \/>\n    o mar, apenas uma faixa de rio sem mist\u00e9rio que oBarreiro limita de concretas<br \/>\n    n\u00e9voas fabris, e telhados, telhados, telhados e fachadas queabrigam dentro<br \/>\n    de si os nossos conformados contempor\u00e2neos, a juntarem pacientementeas borboletas<br \/>\n    ou os selos do seu aborrecimento sem ambi\u00e7\u00f5es, ou apunhalandomentalmente as<br \/>\n    esposas que tricotam na poltrona vizinha com a faca do p\u00e3o. Tenho acerteza<br \/>\n    de que se fechasse a porta \u00e0 chave e permanecesse, por exemplo, aqui um m\u00eas<br \/>\n    \u00e0secret\u00e1ria, sem falar com ningu\u00e9m, sem atender a campainha da rua ou do telefone,<br \/>\n    semresponder \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es da diarista, do porteiro, ou do funcion\u00e1rio da<br \/>\n    companhia dog\u00e1s que de tempos em tempos vem verificar o rel\u00f3gio do contador,<br \/>\n    e rabiscar numbloco, de sobrancelhas juntas, anota\u00e7\u00f5es severas, me transformaria,<br \/>\n    de metamorfose emmetamorfose, no inseto perfeito de um coronel na reserva<br \/>\n    ou de um aposentado daCaixa Geral de Dep\u00f3sitos, correspondendo-se em esperanto<br \/>\n    com um banc\u00e1rio persa ouum relojoeiro sueco, e bebendo ch\u00e1 de t\u00edlia na marquise<br \/>\n    a seguir ao jantar, verificando abarba por fazer da cole\u00e7\u00e3o de cactos.<\/p>\n<p>N\u00e3o, a s\u00e9rio, a felicidade, esse estado difuso resultante da imposs\u00edvelconverg\u00eancia<br \/>\n    de paralelas de uma digest\u00e3o sem azia com o ego\u00edsmo satisfeito e semremorsos,<br \/>\n    continua a parecer-me, a mim, que perten\u00e7o \u00e0 dolorosa classe dos inquietostristes,<br \/>\n    eternamente \u00e0 espera de uma explos\u00e3o ou de um milagre, qualquer coisa de t\u00e3oabstrato<br \/>\n    e estranho como a inoc\u00eancia, a justi\u00e7a, a honra, conceitos grandiloquentes,profundos<br \/>\n    e afinal vazios que a fam\u00edlia, a escola, a catequese e o Estado me haviamsolenemente<br \/>\n    impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me possoexprimir,<br \/>\n    no ovo, os meus desejos de protesto e de revolta. O que os outros exigem den\u00f3s,<br \/>\n    entende, \u00e9 que os n\u00e3o ponhamos em causa, n\u00e3o sacudamos as suas vidasminiaturais<br \/>\n    calafetadas contra o desespero e a esperan\u00e7a, n\u00e3o quebremos os seusaqu\u00e1rios<br \/>\n    de peixes surdos a flutuarem na \u00e1gua limosa do dia a dia, aclarada de vi\u00e9s<br \/>\n    pelal\u00e2mpada sonolenta do que chamamos virtude e que consiste apenas, se observada<br \/>\n    deperto, na aus\u00eancia morna de ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quer um u\u00edsque? Este banal l\u00edquido amarelo constitui, nos tempos de hoje,depois<br \/>\n    da viagem de circunavega\u00e7\u00e3o e da chegada do primeiro escafandro \u00e0 Lua, anossa<br \/>\n    \u00fanica possibilidade de aventura: ao quinto copo o soalho adquire insensivelmenteuma<br \/>\n    agrad\u00e1vel inclina\u00e7\u00e3o de conv\u00e9s, ao oitavo, o futuro ganha vitoriosas amplid\u00f5es<br \/>\n    deAusterlitz, ao d\u00e9cimo, deslizamos devagar para um coma pastoso, gaguejando<br \/>\n    as s\u00edlabasdif\u00edceis da alegria: de forma que, se me d\u00e1 licen\u00e7a, instalo-me<br \/>\n    no sof\u00e1 ao p\u00e9 de si paraver melhor o rio, e brindo pelo futuro e pelo coma.<\/p>\n<p>O Leste? Ainda l\u00e1 estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa dascamionetas<br \/>\n    de areia a caminho de Malanje. Ninda, Luate, Lusse, Nengo, rios que achuva<br \/>\n    engrossara sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de<br \/>\n    GagoCoutinho que se prende \u00e0 pele e aos cabelos, o tenente-coronel eternamente<br \/>\n    aflito a encolher os ombros diante do licor de cacau, os agentes da PIDE no<br \/>\n    caf\u00e9 do Mete-Lenha, lan\u00e7ando soslaios foscos de \u00f3dio para os negros que bebiam<br \/>\n    nas mesas pr\u00f3ximasas cervejas t\u00edmidas do medo. Quem veio aqui n\u00e3o consegue<br \/>\n    voltar o mesmo, explicavaeu ao capit\u00e3o de \u00f3culos moles e dedos membranosos<br \/>\n    colocando delicadamente notabuleiro, em gestos de ourives, as pe\u00e7as de xadrez,<br \/>\n    cada um de n\u00f3s, os vivos, temv\u00e1rias pernas a menos, v\u00e1rios bra\u00e7os a menos,<br \/>\n    v\u00e1rios metros de intestino a menos,quando se amputou a coxa gangrenada ao<br \/>\n    guerrilheiro do MPLA apanhado no Mussumaos soldados tiraram o retrato com<br \/>\n    ela num orgulho de trof\u00e9u, a guerra tornou-nos embichos, percebe, bichos cru\u00e9is<br \/>\n    e est\u00fapidos ensinados a matar, n\u00e3o sobrava umcent\u00edmetro de parede nas casernas<br \/>\n    sem uma gravura de mulher nua, masturb\u00e1vamo-nose dispar\u00e1vamos, o mundo-que-o-portugu\u00eas-criou<br \/>\n    s\u00e3o estes luchazes c\u00f4ncavos de fomeque nos n\u00e3o entendem a l\u00edngua, a doen\u00e7a<br \/>\n    do sono, o paludismo, a ameb\u00edase, a mis\u00e9ria, \u00e0chegada ao Luso veio um jipe<br \/>\n    avisar-nos que o general n\u00e3o consentia que dorm\u00edssemosna cidade, que expus\u00e9ssemos<br \/>\n    na messe as nossas chagas evidentes. N\u00f3s n\u00e3o somos c\u00e3esraivosos, berrava o<br \/>\n    tenente de cabe\u00e7a perdida para o enviado do comando de Zona, digaa esse caralho<br \/>\n    do catano que n\u00f3s n\u00e3o somos c\u00e3es raivosos, um alferes amea\u00e7avabaixinho destruir<br \/>\n    a messe com as bazucas. Fodemos aquela porra toda meu tenente, n\u00e3osobeja um<br \/>\n    cabr\u00e3o sequer para nos enconar o ju\u00edzo, Um ano no cu de Judas n\u00e3o nos d\u00e1direito<br \/>\n    a dormir uma noite numa casa argumentava em sentido o oficial de opera\u00e7\u00f5es,<br \/>\n    otenente espalmou um murro enorme no cap\u00f4 do jipe Diga ao nosso general que<br \/>\n    v\u00e1 levarna anilha. N\u00f3s n\u00e3o \u00e9ramos c\u00e3es raivosos quando chegamos aqui disse<br \/>\n    eu ao tenente querodopiava de indigna\u00e7\u00e3o furiosa, n\u00e3o \u00e9ramos c\u00e3es raivosos<br \/>\n    antes das cartas censuradas,dos ataques, das emboscadas, das minas, da falta<br \/>\n    de comida, de tabaco, de refrigerantes,de f\u00f3sforos, de \u00e1gua, de caix\u00f5es, antes<br \/>\n    de uma berliet valer mais do que um homem eantes de um homem valer uma not\u00edcia<br \/>\n    de tr\u00eas linhas no jornal, Faleceu em combate naprov\u00edncia de Angola, n\u00e3o \u00e9ramos<br \/>\n    c\u00e3es raivosos mas \u00e9ramos nada para o Estado desacristia que se cagava em n\u00f3s<br \/>\n    e nos utilizava como ratos de laborat\u00f3rio e agora pelomenos nos tem medo,<br \/>\n    tem tanto medo da nossa presen\u00e7a, da imprevisibilidade dasnossas rea\u00e7\u00f5es e<br \/>\n    do remorso que representamos que muda de passeio se nos v\u00ea aolonge, evita-nos,<br \/>\n    foge de enfrentar um batalh\u00e3o destro\u00e7ado em nome de c\u00ednicos ideaisem que ningu\u00e9m<br \/>\n    acredita, um batalh\u00e3o destro\u00e7ado para defender o dinheiro das tr\u00eas ouquatro<br \/>\n    fam\u00edlias que sustentam o regime, o tenente gigantesco voltou-se para mim,tocou-me<br \/>\n    no bra\u00e7o e suplicou numa voz s\u00fabita de menino Doutor arranje-me a taldoen\u00e7a<br \/>\n    antes que eu rebente aqui na estrada da merda que tenho dentro.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"16\">Q<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Um pouco nu, o andar? Tem raz\u00e3o, faltam-lhe quadros, livros, bibel\u00f4s, cadeiras,<br \/>\n    a s\u00e1biadesordem de revistas e pap\u00e9is, de roupa ao acaso sobre a cama, de cinza<br \/>\n    no ch\u00e3o, emsuma, que nos asseguram continuarmos a existir, a agitar-nos, a<br \/>\n    respirar, a comer, asacudirmo-nos em v\u00e3o sob as esta\u00e7\u00f5es indiferentes e a<br \/>\n    silhueta distra\u00edda do an\u00fancioSandeman, que do alto dos telhados do Rossio<br \/>\n    nos prop\u00f5e, ora aceso ora apagado, umbrinde escarninho. Esta esp\u00e9cie de jazigo<br \/>\n    onde moro, assim vazio e hirto, oferece-me,ali\u00e1s, um sensa\u00e7\u00e3o de provis\u00f3rio,<br \/>\n    de ef\u00eamero, de intervalo, que, entre par\u00eanteses, meencanta; posso ainda considerar-me<br \/>\n    um homem para mais tarde, e adiar indefinidamenteo presente at\u00e9 apodrecer<br \/>\n    sem nunca haver amadurecido, de olhos brilhantes dejuventude e de mal\u00edcia<br \/>\n    como os de certas velhas de aldeia. Pelas janelas sem cortinasvejo, deitado<br \/>\n    na cama, os oper\u00e1rios que constroem o pr\u00e9dio em frente e principiam a trabalhar<br \/>\n    muito mais cedo do que eu, a fitarem-me do outro lado da rua numa invejaadmirada.<br \/>\n    Mulheres ensonadas sacodem das varandas panos en\u00e9rgicos e exaustos.Rebocadores<br \/>\n    min\u00fasculos, com h\u00e9rnias da coluna, puxam gordos navios pac\u00edficos nadire\u00e7\u00e3o<br \/>\n    da barra. Provavelmente, at\u00e9 no cemit\u00e9rio reina uma chocalhante atividadematinal<br \/>\n    de esqueletos de fam\u00edlia, catando-se mutuamente os vermes num cuidado demandris.<br \/>\n    E somente eu, \u00fanico habitante desta casa deserta, me permito generosamenteos<br \/>\n    doces langores da pregui\u00e7a porque apenas desibernarei \u00e0 noite, no bar onde<br \/>\n    nosencontramos, debaixo destes candeeiros Arte Nova e destas cenas de ca\u00e7a,<br \/>\n    de narizmergulhado na vodca com laranja de um caf\u00e9 da manh\u00e3 tardio.<\/p>\n<p>A vida contra a corrente possui tamb\u00e9m, no entanto, as suas desvantagens:<br \/>\n    osamigos afastaram-se pouco a pouco de mim, incomodados pelo que consideravam<br \/>\n    umaligeireza de sentimentos vizinha da vagabundagem libertina. A fam\u00edlia recuava<br \/>\n    diantedos meus beijos como de um acne peganhento. Os colegas de profiss\u00e3o<br \/>\n    propagaramjubilosamente a minha perigosa incompet\u00eancia, depois, \u00e9 claro, de<br \/>\n    se referirem depassagem a um radioso futuro malbaratado em orgias de mafioso<br \/>\n    com uma bailarinafrancesa do Cassino Estoril, esfuziante de plumas, em cada<br \/>\n    joelho de bode. Os pr\u00f3priosdoentes desconfiavam das minhas olheiras excessivas<br \/>\n    e do h\u00e1lito equ\u00edvoco em queflutuava um resto \u00f3bvio de \u00e1lcool. Cada vez mais<br \/>\n    fui prolongando as madrugadas eencurtando os dias, na esperan\u00e7a de que uma<br \/>\n    noite perp\u00e9tua me lan\u00e7asse um pudico v\u00e9ude sombra nas bochechas esverdeadas;<br \/>\n    esta cidade absurda, onde os azulejosmultiplicam e devolvem a m\u00ednima parcela<br \/>\n    de claridade num jogo de espelhos sem fim, eonde os objetos vogam suspensos<br \/>\n    na luz como nos quadros de Matisse, obrigava-me atrope\u00e7ar de quarto em quarto<br \/>\n    \u00e0 maneira de uma borboleta entontecida, passando umapalma mole pela lixa repelente<br \/>\n    da barba.<\/p>\n<p>Um pouco nu, o andar, de fato, mas j\u00e1 imaginou o espa\u00e7o que sobra para osonho,<br \/>\n    n\u00e3o um sonho de mob\u00edlias, dom\u00e9stico, conjugal, quin\u00e2nico, contandoangustiadamente<br \/>\n    os tost\u00f5es que faltam para uma escrivaninha ou uma c\u00f4moda, mas osonho tout-court,<br \/>\n    sem metas n\u00edtidas nem objetivos definidos, cuja tonalidade varia ecuja forma<br \/>\n    muda sem cessar, o sonho \u00e0 Infante D. Henrique feito de maresdesconhecidos,<br \/>\n    de monstrengos e de especiarias, a caravela que se envia pela alcatifa docorredor<br \/>\n    fora e de que se aguarda o problem\u00e1tico regresso sentado no m\u00e1rmore dovest\u00edbulo,<br \/>\n    consultando o curioso astrol\u00e1bio de uma hist\u00f3ria em quadradinhos. Esta casa,cara<br \/>\n    amiga, \u00e9 o deserto de Gobi, quil\u00f4metros e quil\u00f4metros de areia sem nenhum<br \/>\n    o\u00e1sis,e o sil\u00eancio da minha boca fechada sobre os dentes amarelos de camelo.<br \/>\n    De modo quequando algu\u00e9m invade a minha solid\u00e3o, me sinto, sabe como \u00e9, como<br \/>\n    um eremita queencontra outro eremita \u00e0 esquina de uma praga de gafanhotos,<br \/>\n    e tento penosamenterecordar-me do morse das palavras, reaprendendo os sons<br \/>\n    \u00e0 maneira de um af\u00e1sico querecome\u00e7a, dificilmente, a usar um c\u00f3digo que esqueceu.<\/p>\n<p>Outro u\u00edsque? Conv\u00e9m prevenirmo-nos contra esta noite prestes a empalidecersem<br \/>\n    aviso, a dar lugar a uma manh\u00e3 demasiado n\u00edtida, demasiado clara, sem que<br \/>\n    asnossas silhuetas imprecisas, fabricadas para a indulgente cumplicidade da<br \/>\n    penumbra, sedissolver\u00e3o como o perfume dos frascos antigos, de que se escapa<br \/>\n    o cheiro doce daspaix\u00f5es defuntas, conv\u00e9m muralharmo-nos de \u00e1lcool para nos<br \/>\n    defendermos do reveladorda claridade, exibindo aos nossos pr\u00f3prios olhos,<br \/>\n    na crueza implac\u00e1vel dos espelhos,fei\u00e7\u00f5es amarrotadas pela aus\u00eancia de sono,<br \/>\n    a piscarem as p\u00e1lpebras foscas sob adesastrosa desordem dos cabelos. Acontece-me<br \/>\n    por vezes acordar, sabe como \u00e9, ao ladode uma mulher que conheci poucas horas<br \/>\n    antes, junto a um candeeiro prop\u00edcio de bar,de que o cone opalino confere<br \/>\n    \u00e0s rugas e aos p\u00e9s-de-galinha o insidioso encanto de umas\u00e1bia maturidade,<br \/>\n    e eis que o subir da persiana me mostra, brutalmente, uma criaturaavelhentada<br \/>\n    e vulner\u00e1vel, naufragada nos len\u00e7\u00f3is num abandono cuja fragilidade me enfurece.<br \/>\n    Sentado na cama, de cabe\u00e7a no travesseiro que encostei \u00e0 parede, acendoent\u00e3o<br \/>\n    o cigarro da desilus\u00e3o e da raiva, fitando com acidez as pulseiras e os an\u00e9ispousados<br \/>\n    num mont\u00edculo cauteloso na mesinha de cabeceira, a roupa estranha peloch\u00e3o,<br \/>\n    um soutien preto que se pendura de uma cadeira \u00e0 laia de um morcego queaguarda<br \/>\n    a chegada do crep\u00fasculo na sua trave de s\u00f3t\u00e3o. A boca delas borbulha detempos<br \/>\n    a tempos palavras evadidas sorrateiramente de sonhos a que n\u00e3o tenho acesso,<br \/>\n    acurva mole dos ombros agita-se de sobressaltos indecifr\u00e1veis, o velo das<br \/>\n    coxas abertasperde o mist\u00e9rio de bosque \u00famido que me recebia na sua mansa<br \/>\n    concavidade vegetal.Uma zanga de logro incha-me dos test\u00edculos para o sexo,<br \/>\n    imposs\u00edvel de dominar, decontrolar, de diminuir, e acabo por penetr\u00e1-las,<br \/>\n    tonto de \u00f3dio, como quem espeta umafaca num ventre em rixa de taberna, para<br \/>\n    escutar depois, rangendo os dentes, os seusgemidos agradecidos de caniche,<br \/>\n    pelo que imaginavam uma entusi\u00e1stica homenagem \u00e0qualidade dos seus dons.<\/p>\n<p>Um duplo sem gelo? Tem raz\u00e3o, talvez desse modo logre a lucidez sem ilus\u00f5esdos<br \/>\n    b\u00eabados de Hemingway que passaram, gole a gole, para o outro lado da ang\u00fastia,alcan\u00e7ando<br \/>\n    uma esp\u00e9cie de serenidade polar, vizinha da morte, \u00e9 certo, mas que aaus\u00eancia<br \/>\n    de esperan\u00e7a e do frenesi ansioso que ela inevitavelmente traz consigo tornaquase<br \/>\n    apaziguadora e feliz, e consiga enfrentar a ferocidade da manh\u00e3 dentro de<br \/>\n    umfrasco de Logans que a proteja, tal como os cad\u00e1veres dos bichos se conservam<br \/>\n    eml\u00edquidos especiais nas prateleiras dos museus. Talvez desse modo se consigam<br \/>\n    sorrirrisos de S\u00f3crates depois da cicuta, levantar-se do colch\u00e3o, ir \u00e0 janela,<br \/>\n    e defronte dacidade matinal, n\u00edtida, atarefada, ruidosa, n\u00e3o se sentir perseguidos<br \/>\n    pelos impiedososfantasmas da pr\u00f3pria solid\u00e3o, de que os rostos sard\u00f4nicos<br \/>\n    e tristes, t\u00e3o semelhantes aonosso, se desenham no vidro para melhor nos tro\u00e7arem;<br \/>\n    h\u00e1 derrotas, percebe, que agente sempre pode transformar, pelo menos, em vitoriosas<br \/>\n    calamidades.<\/p>\n<p>No Norte, \u00e0 falta de u\u00edsque, beb\u00edamos as sulf\u00faricas mistelas do administrador,indiano<br \/>\n    gordo e grande, recebendo os oficiais numa pomposidade am\u00e1vel de monarcaabsoluto,<br \/>\n    a fim de se escutar a si pr\u00f3prio nos ouvidos dos outros, cuja aten\u00e7\u00e3o distra\u00eddao<br \/>\n    certificava da exist\u00eancia de um p\u00fablico, como as nossas caretas ao espelho,<br \/>\n    durante abarba, nos garantem a certeza do rosto de que duvid\u00e1vamos, anjos<br \/>\n    tr\u00f4pegos que hesitamacerca da opacidade da carne. A minha companhia passou<br \/>\n    em flecha por Malanje, ondea sede do batalh\u00e3o se acomodou no choco desconfort\u00e1vel<br \/>\n    do quartel, e abandonou anoite da cidade, escura e opaca como as pupilas de<br \/>\n    um cigano, na dire\u00e7\u00e3o da Baixa doCassanje, ilimitadas searas de girassol e<br \/>\n    algod\u00e3o no cen\u00e1rio de uma beleza irreal, e amis\u00e9ria das sanzalas \u00e0 beira da<br \/>\n    picada, com negros imemoriais acocorados em pedrasmorenas e sem arestas, id\u00eanticas<br \/>\n    a p\u00e3es de segunda. Ancoramos em Marimba, fila demangueiras enormes no topo<br \/>\n    de um morro cercado pela dist\u00e2ncia azul dos campos, numc\u00edrculo de arame de<br \/>\n    que os garotos dos quimbos vizinhos suspendiam as fei\u00e7\u00f5esesfomeadas, enquanto<br \/>\n    nuvens gordas de chuva, pesadas como odres, se acumulavam norio Cambo, habitado<br \/>\n    pelo sil\u00eancio mineral dos crocodilos.<\/p>\n<p>A\u00ed, durante um ano, morremos n\u00e3o a morte da guerra, que nos despovoa derepente<br \/>\n    a cabe\u00e7a num estrondo fulminante, e deixa em torno de si um desertodesarticulado<br \/>\n    de gemidos e uma confus\u00e3o de p\u00e2nico e de tiros, mas a lenta, aflita,torturante<br \/>\n    agonia da espera, a espera dos meses, a espera das minas na picada, a esperado<br \/>\n    paludismo, a espera do cada vez mais improv\u00e1vel regresso, com a fam\u00edlia e<br \/>\n    osamigos no aeroporto ou no cais, a espera do correio, a espera do jipe da<br \/>\n    PIDE quesemanalmente passava a caminho dos informadores da fronteira, trazendo<br \/>\n    consigo tr\u00easou quatro prisioneiros que abriam a pr\u00f3pria cova, se encolhiam<br \/>\n    l\u00e1 dentro, fechavam osolhos com for\u00e7a, e amoleciam depois da bala como um<br \/>\n    sufl\u00ea se abate, de flor vermelhade sangue a crescer as p\u00e9talas na testa:<\/p>\n<p>&#8211; O bilhete para Luanda &#8211; explicava tranquilamente o agente a guardar a pistola<br \/>\n    no sovaco. &#8211; N\u00e3o se pode dar c\u00fafia a estes cabr\u00f5es.<\/p>\n<p>De forma que na noite em que o sujeito rasgou a n\u00e1dega no caco quebrado daretrete,<br \/>\n    entende, lhe cosi o pandeiro sem anestesia, no cub\u00edculo do posto de socorros,sob<br \/>\n    as vistas contentes do enfermeiro, vingando um pouco, em cada berro seu, oshomens<br \/>\n    calados que cavavam a terra, de p\u00e2nico a fundir-se em enormes placas de suornas<br \/>\n    costas magras, e nos fixavam com \u00f3rbitas duras e neutras como seixos, esvaziadasde<br \/>\n    luz, tal as dos defuntos sem roupa, estendidos nos frigor\u00edficos do hospital.<\/p>\n<p>Depois do jantar, o motor reticente da eletricidade dava corda a uma constela\u00e7\u00e3ode<br \/>\n    candeeiros gagos que aclaravam de vi\u00e9s o renque das mangueiras, arrancando<br \/>\n    ramostr\u00e1gicos do escuro, e os oficiais visitavam cerimoniosamente a administra\u00e7\u00e3o<br \/>\n    para oloto, em que a D. \u00c1urea, esposa do imperador das cercanias, a extrair<br \/>\n    as amplid\u00f5es dopeito murcho da larguras do decote, cintilante de brincos e<br \/>\n    colares, distribu\u00eda os cart\u00f5ese o gr\u00e3o-de-bico, e extra\u00eda de um saco que se<br \/>\n    me afigurava id\u00eantico aos sud\u00e1rios que naminha inf\u00e2ncia se lan\u00e7avam sobre<br \/>\n    as m\u00e1quinas de costura, em salas estreitas repletas decestos de roupa e da<br \/>\n    frescura dos len\u00e7\u00f3is lavados, n\u00fameros de madeira, que anunciavaem voz baixa,<br \/>\n    numa confid\u00eancia \u00edntima de revela\u00e7\u00e3o. O marido, no outro extremo dasala, convidava<br \/>\n    em inclina\u00e7\u00f5es galantes a professora prim\u00e1ria para dan\u00e7ar os tangosarrastados<br \/>\n    do toca-discos, criatura magrinha, de clav\u00edculas t\u00e3o salientes como assobrancelhas<br \/>\n    de Brejnev, cujas menstrua\u00e7\u00f5es intermin\u00e1veis a afligiam de c\u00f3licas e deanemia,<br \/>\n    voltando para n\u00f3s olheiras exaustas em que se adivinhavam desmaios e contasde<br \/>\n    somar. Aquarelas de jacintos e de d\u00e1lias emolduradas a dourado desbotavam-se<br \/>\n    nasparedes. A trovoada do Cambo iluminava a janela de clar\u00f5es fingidos de<br \/>\n    pe\u00e7a de teatroportuguesa, em que se suspeita um sujeito operoso a acionar<br \/>\n    interruptores atr\u00e1s de umacortina. O mulato, dono da \u00fanica loja de com\u00e9rcio,<br \/>\n    adormecia de palito na boca no seucanto, roncando comas pac\u00edficos de hipop\u00f3tamo.<br \/>\n    O condutor da camioneta de carreiraajeitava a popa com um pente de pl\u00e1stico<br \/>\n    amarelo made in praia de Santo Amaro dasOeiras. O ser\u00e3o trotava num langor<br \/>\n    de tosses dispersas e de amabilidades fatigadas, at\u00e9 aD. \u00c1urea voltar a cabe\u00e7a<br \/>\n    para a porta, erguer o queixo \u00e0 laia de coiote prestes a uivar,encher os seios<br \/>\n    tristes numa inspira\u00e7\u00e3o de mergulhador e berrar<\/p>\n<p>&#8211; Bonif\u00e1cioooooooooooo<\/p>\n<p>num ganido intermin\u00e1vel e imperioso. Seguiam-se uns segundos de sil\u00eancio<br \/>\n    expectante que o mulato, despertado em tumulto, preenchia perguntando \u00e0 roda<\/p>\n<p>&#8211; O que foi? O que foi?<\/p>\n<p>numa inquieta\u00e7\u00e3o de jangada \u00e0 deriva. Vai na volta escutava-se um tilintar<br \/>\n    de coposapressados na cozinha, e um negro chaplinesco, contido a custo numa<br \/>\n    jaqueta demordomo da Ge\u00f3rgia, surgia do corredor a dan\u00e7ar nos sapatos excessivos,<br \/>\n    transportandouma bandeja de garrafas de que se aguardava, a cada instante,<br \/>\n    o despenhar no soalho,numa chuva de estilha\u00e7os de cinema mudo. O u\u00edsque sabia<br \/>\n    a \u00e1lcool de lamparina e assb\u00e3o-macaco, e cada um de n\u00f3s comungava dois dedos<br \/>\n    daquele sacrif\u00edcio ict\u00e9rico,torcendo-se de caretas atr\u00e1s do pudor da m\u00e3o,<br \/>\n    enquanto o administrador, que guardava ogr\u00e3o-de-bico do loto no saco dos n\u00fameros,<br \/>\n    exclamava:<\/p>\n<p>&#8211; Boa pomada, h\u00e3?<\/p>\n<p>obtendo do capit\u00e3o um sorriso obediente de \u00f3leo de f\u00edgado de bacalhau resignado.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, o cipaio que vigiava o motor da eletricidade munido de uma esp\u00e9cie<br \/>\n    demosquete de conquistador espanhol, ressonava sob o telheiro de cimento.<br \/>\n    Morcegos dotamanho de perdizes rodopiavam a cambalear nas proximidades dos<br \/>\n    candeeiros, fogosp\u00e1lidos consumiam-se na penumbra densa das sanzalas, soba<br \/>\n    Macau, soba PedroMacau, soba Marimba, junto \u00e0 pista da avia\u00e7\u00e3o, que o capim<br \/>\n    constantemente invadia, asluzes da Chiquita tremiam, n\u00edtidas, na dist\u00e2ncia,<br \/>\n    constela\u00e7\u00e3o de estrelas improv\u00e1veis. A seguir ao in\u00edcio da guerra haviam morto<br \/>\n    ou expulso para o Congo os M\u00f4-Holos e osBundi-B\u00e2ngalas que habitavam primitivamente<br \/>\n    a Baixa do Cassanje, e substitu\u00eddo assuas aldeias por Gingas da \u00e1rea de Luanda,<br \/>\n    mais obedientes e acomodat\u00edcios depois de oseu chefe ter apodrecido vinte<br \/>\n    anos nas pris\u00f5es colonais a pretexto de um crimequalquer. De coroa de lata<br \/>\n    na cabe\u00e7a, incrustada de brilhantes de vidro, posto a rid\u00edculo,perante o seu<br \/>\n    povo, pelo Estado corporativo, que o obrigava a um humilhante uniformedo imperador<br \/>\n    de carnaval, o rei vagueava no seu quimbo \u00e0 maneira dos doentes mentaisnas<br \/>\n    enfermarias psiqui\u00e1tricas, olhado com desgosto incr\u00e9dulo pelos velhos da tribo.<br \/>\n    Noentanto, o soba Bimbe e o soba Caputo, do outro lado da fronteira, continuavam<br \/>\n    a luta, eavistavam-se de Marimbanguengo as bases do MPLA no Congo, constru\u00e7\u00f5esmin\u00fasculas<br \/>\n    que cresciam. A D. \u00c1urea inclinou-se amavelmente para a professora dasmenstrua\u00e7\u00f5es<br \/>\n    de Ni\u00e1gara, que co\u00e7ava \u00e0 socapa a flor-de-congo dos sovacos:<\/p>\n<p>&#8211; Como vai de s\u00e1ude, D. Olinda?<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o calcula (um dedo, se faz favor, perfeitamente, basta) a sensa\u00e7\u00e3oesquisita<br \/>\n    daquele loto no meio da mata, dos tangos poeirentos do toca-discos, dastoaletes<br \/>\n    pat\u00e9ticas das mulheres, das mesuras dos homens, das d\u00e1lias europeiasaquareladas<br \/>\n    na parede, enquanto os condenados pela PIDE se enrolavam comotent\u00e1culos inertes<br \/>\n    nos seus buracos, os soldados tremiam de paludismo nos beliches dascasernas,<br \/>\n    os generais no ar condicionado de Luanda inventavam a guerra de que n\u00f3smorr\u00edamos<br \/>\n    e eles viviam, a noite de \u00c1frica se desdobrava numa majestosa infinidade deestrelas,<br \/>\n    os bailundo comprados em Nova Lisboa agonizavam de despaisamento nassanzalas<br \/>\n    das fazendas, e eu escrevia para casa Tudo vai bem, na esperan\u00e7a de quecompreendessem<br \/>\n    a cruel inutilidade do sofrimento, do sadismo, da separa\u00e7\u00e3o, daspalavras de<br \/>\n    ternura e da saudade, que compreendessem o que n\u00e3o podia dizer por detr\u00e1sdo<br \/>\n    que eu dizia e que era o Caralho caralho caralho caralho caralho do enfermeiro<br \/>\n    aseguir \u00e0 emboscada, lembra-se, no Leste, no pa\u00eds de areia vazia dos Luchazes,<br \/>\n    com ocorpo do cabo defunto a apodrecer, sob a manta, no meu quarto, e eu sentado<br \/>\n    nosdegraus do posto como me sento agora aqui consigo nesta sala, vendo os<br \/>\n    barcos do riono nosso reflexo no vidro da janela, eu a falar e voc\u00ea a ouvir-me<br \/>\n    nessa aten\u00e7\u00e3osarc\u00e1stica que me enerva e confunde, As mulheres, sentenciava<br \/>\n    o Voltaire, s\u00e3oincapazes de ironia, catorze pontos no cu do agente a demorar,<br \/>\n    deliciado, a agulha pelacarne, deixe-me encostar por um momento a cabe\u00e7a aos<br \/>\n    seus joelhos e fechar os olhos,os mesmos com que observei o cipaio a enfiar<br \/>\n    cubos de gelo no \u00e2nus de um tipo semque eu protestasse sequer porque o medo,<br \/>\n    percebe, me tolhia o menor gesto de revolta, omeu ego\u00edsmo queria regressar<br \/>\n    inteiro e depressa antes que uma porta de pris\u00e3o sefechasse, impeditiva, \u00e0<br \/>\n    minha frente, regressar e esquecer e retomar o hospital e aescrita e a fam\u00edlia<br \/>\n    e o cinema ao s\u00e1bado e os amigos como se nada me tivesse,entretanto, sucedido,<br \/>\n    desembarcar na Rocha do Conde de \u00d3bidos e declarar dentro demim Era tudo mentira<br \/>\n    e acordei, e todavia, entende, em noites como esta, em que o\u00e1lcool me acentua<br \/>\n    o abandono e a solid\u00e3o e me acho no fundo de um po\u00e7o interiordemasiado alto,<br \/>\n    demasiado estreito, demasiado liso, surge dentro de mim, t\u00e3o n\u00edtidacomo h\u00e1<br \/>\n    oito anos, a lembran\u00e7a da covardia e do comodismo que cuidava afogados parasempre<br \/>\n    numa qualquer gaveta perdida da mem\u00f3ria, e uma esp\u00e9cie de, como exprimirme?,remorso,<br \/>\n    leva-me a acocorar-me num \u00e2ngulo do meu quarto como um bichoacossado, branco<br \/>\n    de vergonha e de pavor, aguardando, de joelhos na boca, a manh\u00e3 quen\u00e3o chega.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"17\">R<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>N\u00e3o chega, a manh\u00e3, n\u00e3o vai chegar nunca, \u00e9 in\u00fatil esperar que os telhadosempalide\u00e7am,<br \/>\n    uma lividez gelada aclare tremulamente os estores, pequenos cachos decriaturas<br \/>\n    transidas, brutalmente arrancadas ao \u00fatero do sono, se agrupem nas paradas<br \/>\n    de\u00f4nibus a caminho de um trabalho sem prazer: achamo-nos condenados, voc\u00ea<br \/>\n    e eu, a umanoite sem fim, espessa, densa, desesperante, desprovida de ref\u00fagios<br \/>\n    e sa\u00eddas, umlabirinto de ang\u00fastia que o u\u00edsque ilumina de vi\u00e9s da sua claridade<br \/>\n    turva, segurando oscopos vazios na m\u00e3o como os peregrinos de F\u00e1tima as suas<br \/>\n    velas apagadas, sentadoslado a lado no sof\u00e1, ocos de frases, de sentimentos,<br \/>\n    de vida, a sorrir um para o outrocaretas de c\u00e3es de faian\u00e7a numa prateleira<br \/>\n    de sala, de olhos exaustos por semanas esemanas de apavoradas vig\u00edlias. J\u00e1<br \/>\n    reparou como o sil\u00eancio das quatro horas instila emn\u00f3s a mesma esp\u00e9cie de<br \/>\n    inquieta\u00e7\u00e3o que habita as \u00e1rvores antes da vinda do vento, umfr\u00eamito de folhas<br \/>\n    de cabelos, uma tremura de troncos de intestinos, a agita\u00e7\u00e3o de ra\u00edzesdos<br \/>\n    p\u00e9s que se cruzam e descruzam sem motivo? Pois bem, aguardamos no fundo o<br \/>\n    quen\u00e3o ir\u00e1 acontecer, a ansiedade que nos acelera as veias pedala em n\u00f3s em<br \/>\n    v\u00e3o \u00e0 maneiradas bicicletas im\u00f3veis dos gin\u00e1sios, porque esta noite, percebe,<br \/>\n    \u00e9 um por\u00e3o \u00e0 deriva, umenorme arm\u00e1rio de que se perdeu a chave, um aqu\u00e1rio<br \/>\n    sem peixes naufragado numaaus\u00eancia de pedras, e apenas percorrido pelas sombras<br \/>\n    na \u00e1gua de um desassossegoinforme: ficaremos aqui a escutar o motor da geladeira,<br \/>\n    \u00fanica companhia viva nestastrevas, cuja l\u00e2mpada branca acende nos azulejos<br \/>\n    fosforesc\u00eancias de iglu, at\u00e9 queconstruam outros pr\u00e9dios sobre este pr\u00e9dio,<br \/>\n    outras ruas sobre esta rua, rostosindiferentes se sobreponham \u00e0 amabilidade<br \/>\n    r\u00e1pida dos vizinhos, o porteiro adquira asbarbas majestosas e esgazeadas de<br \/>\n    um louco de aldeia, e os arque\u00f3logos do futuroencontrem os nossos corpos plasmados<br \/>\n    em atitudes de espera, id\u00eanticos \u00e0s figuras degreda dos t\u00famulos etruscos,<br \/>\n    aguardando, de u\u00edsque em punho, a claridade de uma auroraat\u00f4mica.<\/p>\n<p>Entretanto, e se estiver de acordo, talvez possamos tentar fazer amor, ou<br \/>\n    seja,essa esp\u00e9cie de gin\u00e1stica pag\u00e3 que nos deixa no corpo, depois de acabado<br \/>\n    o exerc\u00edcio,um gosto suado de tristeza no desastre dos len\u00e7\u00f3is: a cama n\u00e3o<br \/>\n    range, \u00e9 improv\u00e1vel quea v\u00e1lvula de descarga do andar de cima vomite a esta<br \/>\n    hora o conte\u00fado limoso do seuest\u00f4mago, perturbando as car\u00edcias sem ternura<br \/>\n    que s\u00e3o como que o motor de arranquedo desejo, nenhum de n\u00f3s sente pelo outro<br \/>\n    mais do que uma cumplicidade detuberculosos num sanat\u00f3rio, feita da melanc\u00f3lica<br \/>\n    tristeza de um destino comum; j\u00e1vivemos demais para correr o risco idiota<br \/>\n    de nos apaixonarmos, de vibrarmos nas tripase na alma exalta\u00e7\u00f5es de aventura,<br \/>\n    de nos demorarmos tardes a fio diante de uma portafechada, de ramo de flores<br \/>\n    em riste, rid\u00edculos e tocantes, a engolir cuspes aflitos de Jos\u00e9Matias. O<br \/>\n    tempo trouxe-nos a sabedoria da incredulidade e do cinismo, perdemos afranca<br \/>\n    simplicidade da juventude com a segunda tentativa de suic\u00eddio, em queacordamos<br \/>\n    num banco de hospital sob o olho celeste de um S. Pedro de estetosc\u00f3pio, edesconfiamos<br \/>\n    tanto da humanidade como de n\u00f3s mesmos, por conhecermos o ego\u00edsmoazedo do<br \/>\n    nosso car\u00e1ter oculto sob as enganadoras apar\u00eancias de um verniz generoso.N\u00e3o<br \/>\n    \u00e9 em si que n\u00e3o acredito, \u00e9 em mim, na minha repugn\u00e2ncia em me dar, no meup\u00e2nico<br \/>\n    de que me queiram, na minha inexplic\u00e1vel necessidade de destruir os fugazesinstantes<br \/>\n    agrad\u00e1veis do quotidiano, triturando-os de acidez e ironia at\u00e9 os transformarno<br \/>\n    Cerelac da chata amargura habitual. O que seria de n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9, se f\u00f4ssemos,<br \/>\n    de fato,felizes? J\u00e1 imaginou como isso nos deixaria perplexos, desarmados,<br \/>\n    mirandoansiosamente em volta em busca de uma desgra\u00e7a reconfortadora, como<br \/>\n    as crian\u00e7asprocuram os sorrisos da fam\u00edlia numa festa de col\u00e9gio? Viu por<br \/>\n    acaso como nos assustamos se algu\u00e9m, genuinamente, sem segundos pensamentos,<br \/>\n    se nos entrega, comon\u00e3o suportamos um afeto sincero, incondicional, sem exig\u00eancia<br \/>\n    de troca? A esses, osCamilos Torres, os Guevaras, os Allendes, apressamo-nos<br \/>\n    a mat\u00e1-los porque o seucombativo amor nos incomoda, procuramo-los, de bazuca<br \/>\n    ao ombro, raivosos, nasflorestas da Bol\u00edvia, bombardeamos-lhes os pal\u00e1cios,<br \/>\n    colocamos no seu lugar sujeitoscru\u00e9is e viscosos, mais parecidos conosco,<br \/>\n    cujos bigodes nos n\u00e3o trepam pelo es\u00f4fagorefluxos verdes de remorso. De forma<br \/>\n    que as rela\u00e7\u00f5es sexuais constituem entre n\u00f3s,percebe, uma viola\u00e7\u00e3o mole, uma<br \/>\n    apressada exibi\u00e7\u00e3o de \u00f3dio sem j\u00fabilo, a derrotamolhada de dois corpos exaustos<br \/>\n    no colch\u00e3o, \u00e0 espera de reencontrarem o f\u00f4lego quelhe foge para verificarem<br \/>\n    as horas no rel\u00f3gio de pulso \u00e0 cabeceira, se vestirem sem umapalavra, examinarem<br \/>\n    sumariamente no espelho do banheiro a pintura e o cabelo, epartirem, a coberto<br \/>\n    da noite, ainda \u00famidos do outro, a caminho da solid\u00e3o das suascasas. Os que<br \/>\n    moram a dois, ali\u00e1s, e dividem com m\u00e1 vontade o edred\u00e3o e o dentifr\u00edcio,padecem,<br \/>\n    de resto, de um isolamento semelhante: ah, as refei\u00e7\u00f5s frente a frente, emsil\u00eancio,<br \/>\n    cheias de um rancor que se palpa no ar como a \u00e1gua-de-col\u00f4nia das vi\u00favas!<br \/>\n    Osser\u00f5es junto \u00e0 televis\u00e3o acariciando projetos vingativos de assass\u00ednio conjugal,<br \/>\n    a faca dopeixe, a jarra da China, um oportuno empurr\u00e3o pela janela! Os sonhos<br \/>\n    minuciosamentedetalhados do enfarte do mioc\u00e1rdio do marido ou da trombose<br \/>\n    da mulher, a dor no peito,a boca \u00e0 banda, as palavras infantis babadas a custa<br \/>\n    na almofada da cl\u00ednica! Possu\u00edmos,pelo menos, a vantagem, sabe como \u00e9, de<br \/>\n    dormir sozinhos, sem uma perna alheia aexplorar as zonas frescas do len\u00e7ol<br \/>\n    que por direito geogr\u00e1fico nos cabem, mas falta-nossimultaneamente algu\u00e9m<br \/>\n    que possamos culpar do nosso fundo descontentamento de n\u00f3spr\u00f3prios, um alvo<br \/>\n    f\u00e1cil para os nossos insultos, uma v\u00edtima, em suma, da nossamediocridade despeitada.<br \/>\n    Voc\u00ea e eu, gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o corremos esse risco, somoscomo dois judocas<br \/>\n    que se temem o suficiente para se n\u00e3o ferirem, e inventam, quandomuito, falsos<br \/>\n    golpes inofensivos que se det\u00eam a meio do trajeto, \u00e0 maneira de tent\u00e1culossubitamente<br \/>\n    inertes que desistem: se eu lhe dissesse que a amava, voc\u00ea responder-me-ia,no<br \/>\n    tom mais s\u00e9rio deste mundo, que desde os dezoito anos n\u00e3o sentia por um homemum<br \/>\n    entusiasmo id\u00eantico, que qualquer coisa de diferente e de estranho a perturbava,<br \/>\n    quelhe apetecia com uma for\u00e7a de novilho nunca mais se separar de mim, e acabar\u00edamos<br \/>\n    arir, dentro dos copos respectivos, da in\u00f3cua inoc\u00eancia das nossas mentiras.<br \/>\n    Mas suponhaque hav\u00edamos despido, por minutos, o colete \u00e0 prova de bala de<br \/>\n    uma maldade sabida, e\u00e9ramos, por exemplo, sinceros? Que ao afagar-lhe a m\u00e3o<br \/>\n    eu tocava, para al\u00e9m dos seusdedos de agora, que principiam a envelhecer sob<br \/>\n    os an\u00e9is, o pulso estreito de umamenina vulner\u00e1vel e fr\u00e1gil, a mastigar goma<br \/>\n    de mascar \u00e0 sombra do desdenhoso retratotr\u00e1gico de James Dean, arcanjo louro<br \/>\n    cujo breve trajeto de cometa terminouabruptamente num cone fumegante de sucata?<br \/>\n    Que os seus seios endureciam de desejoverdadeiro, um arrepio esquisito lhe<br \/>\n    separava as coxas, o ventre se cavava de uma fomeinexplic\u00e1vel e veemente de<br \/>\n    mim? Que ma\u00e7ada, h\u00e3? Os ci\u00fames, as necessidadesexclusivas, o tormento obn\u00f3xio<br \/>\n    da saudade? Descanse, \u00e9 tarde j\u00e1, ser\u00e1 sempre tarde paran\u00f3s, o excesso de<br \/>\n    lucidez impede-nos os est\u00fapidos e calorosos impulsos da paix\u00e3o, omeu cabelo<br \/>\n    ralo e os seus p\u00e9s-de-galinha, imposs\u00edveis de disfar\u00e7ar sob a delicadeza dosorriso,<br \/>\n    defendem-nos do entusiasmo de estar vivos, do sonho sem mal\u00edcia, do purocontentamento<br \/>\n    sem mancha de acreditar nos outros.<\/p>\n<p>Achamo-nos em condi\u00e7\u00f5es, portanto, de fazer na cama l\u00e1 do fundo um amor t\u00e3oinsosso<br \/>\n    como a pescada congelada do restaurante, de que a \u00fanica \u00f3rbita nos fita agoniasv\u00edtreas<br \/>\n    de octogen\u00e1rio entre os verdes desbotados das alfaces. A sua boca possui o<br \/>\n    gostosem gosto dos biscoitos antigos envoltos no a\u00e7\u00facar do b\u00e2ton, a minha<br \/>\n    l\u00edngua \u00e9 umpeda\u00e7o de esponja enrolada nos dentes, inchada pela espuma oleosa<br \/>\n    da saliva. Unir-nosemos,percebe, como dois monstros terci\u00e1rios, eri\u00e7ados de<br \/>\n    cartilagens e de ossos, balindo ganidos onomatopaicos de lagartixas imensas,<br \/>\n    enquanto l\u00e1 fora as picadas doNorte, destru\u00eddas pelas chuvas, substituem a<br \/>\n    faixa de vidro preto do rio, borbulhante deluzes, e eu salto e balan\u00e7o ao<br \/>\n    lado do condutor do unimogue, protegido por uma escoltaque chocalha atr\u00e1s<br \/>\n    no seu banco de pau, a caminho de Dala-Samba, com a caixa dasvacinas da c\u00f3lera<br \/>\n    a tremer entre os joelhos.<\/p>\n<p>De tempos em tempos, quando me sentia apodrecer demais na in\u00e9rcia do arame,diante<br \/>\n    dos morcegos das mangueiras e do loto do administrador, a observar \u00e0 noite<br \/>\n    as\u00f3rbitas minerais das osgas do teto, a engolirem borboletas em comunh\u00f5es<br \/>\n    instant\u00e2neas,esmagado de monotonia e impaci\u00eancia, quando o King dos oficiais<br \/>\n    se me afigurava umritual absurdo que adquiria pouco a pouco as tenebrosas<br \/>\n    caracter\u00edsticas de umacerim\u00f4nia sangrenta (&#8220;Oito ou nulos e fodo-te os<br \/>\n    cornos se mos deres&#8221;), quando depoisde me masturbar permanecia acordado<br \/>\n    e sem sono, a fitar pela janela as trovoadas doCambo e a pensar nas tuas coxas<br \/>\n    em Lisboa, no atrito leve das meias ao cruzar daspernas, na penugem afagada<br \/>\n    a contrapelo, no tri\u00e2ngulo, que sabia a ostras, escondido narenda das calcinhas,<br \/>\n    quando os c\u00e3es latiam das bandas da cozinha gemidos quasehumanos de crian\u00e7as<br \/>\n    com fome, quando a minha filha come\u00e7ava a andar de cadeira emcadeira passos<br \/>\n    hesitantes e aplicados de motor de corda, quando o tempo se imobilizavano<br \/>\n    po\u00e7o dos calend\u00e1rios em teimosias de pedra com ra\u00edzes e as tardes demoravam<br \/>\n    mesese meses em sestas enervadas, partia para Dala-Samba ao longo da Baixa<br \/>\n    do Cassanje, avisitar os cemit\u00e9rios dos reis Gingas no alto dos morros nus,<br \/>\n    cercados de tufos, depalmeiras que o vento da morte inclinava. E havia o t\u00famulo<br \/>\n    do Z\u00e9 do Telhado em Dala,perto dos dois ou tr\u00eas com\u00e9rcios poeirentos da povoa\u00e7\u00e3o<br \/>\n    abandonada, velhos colonosquase miser\u00e1veis que o paludismo esverdeava, cabras<br \/>\n    com peras de escultor em torno dosil\u00eancio das cubatas, o enfermeiro do hospital<br \/>\n    do Caombo na sua bata imaculada,exprimindo-se num portugu\u00eas precioso de condessa.<br \/>\n    Dorm\u00edamos nas camas de ferrobranco das parturientes, entre arm\u00e1rios de instrumentos<br \/>\n    cir\u00fargicos e mesasginecol\u00f3gicas, ao acordarmos o temporal da v\u00e9spera lavara<br \/>\n    a manh\u00e3, esfregando-lhe osbrilhos e as cores, e ao sairmos para os carros<br \/>\n    sentia-me ingressar no primeiro dia dacria\u00e7\u00e3o, antes da partilha das \u00e1guas,<br \/>\n    e era como se vogasse, de botas da tropa abalan\u00e7arem, na claridade irreal<br \/>\n    das fotografias antigas, onde o iodo dilui as express\u00f5es eos contornos numa<br \/>\n    n\u00f3doa solar que nos afoga.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea conhecesse as madrugadas de \u00c1frica na Baixa do Cassanje, o odorvigoroso<br \/>\n    da terra ou do capim, o perfil confundido das \u00e1rvores, o algod\u00e3o aberto at\u00e9<br \/>\n    aohorizonte numa pureza de neve amortalhada, talvez nos fosse poss\u00edvel regressar<br \/>\n    aoprinc\u00edpio, \u00e0s r\u00e9plicas ainda t\u00edmidas do u\u00edsque inicial, ao sorriso que pede<br \/>\n    e ao soslaioque consente, e construir a partir disso a cumplicidade sem arestas<br \/>\n    dos amantes, quematam em tr\u00eas lances a desconfian\u00e7a e o receio, e ressonam<br \/>\n    a duas vozes nas pens\u00f5es daAvenida, saciados e satisfeitos. Mas a poeira de<br \/>\n    greda de Marrocos, a julgar pelaprofus\u00e3o dos seus colares, \u00e9 o equador de<br \/>\n    que \u00e9 capaz, e um bairro de casas sujas e dehomens acocorados, esp\u00e9cie de<br \/>\n    Algarve invadido por ciganos a impingirem alcatifas deArraiolos e pulseiras<br \/>\n    de arame num palavreado nauseabundo, a sua antevis\u00e3o dopara\u00edso. Longe da filigrana<br \/>\n    manuelina dos Jer\u00f4nimos, Reboleira dos Descobrimentos, edas praias da Costa<br \/>\n    da Caparica em que as pessoas miraculosamente se multiplicam \u00e0laia de formigas<br \/>\n    num bolo de arroz, o despaisamento f\u00e1-la enrugar e definhar como umcacto no<br \/>\n    polo. Os t\u00faneis do metr\u00f4 constituem no fundo as suas tripas verdadeiras,percorridas<br \/>\n    por dejetos de carruagens, e as micros da Pra\u00e7a do Chile, o negativo, emponto<br \/>\n    pequeno, da sua alma. O que de certo modo irremediavelmente nos separa \u00e9 quevoc\u00ea<br \/>\n    leu nos jornais os nomes dos militares defuntos, e eu partilhei com eles a<br \/>\n    salada defrutas da ra\u00e7\u00e3o de combate e vi soldarem-lhes os caix\u00f5es na arrecada\u00e7\u00e3o<br \/>\n    da companhia,entre caixotes de muni\u00e7\u00f5es e capacetes ferrugentos. O cabo Pereira,<br \/>\n    por exemplo, antes de estilha\u00e7ar a cabe\u00e7a na estrada da Chiquita, vinha pingar<br \/>\n    a blenorragia ao posto desocorros, exibindo a pica mole como uma vela de estearina,<br \/>\n    de que surdia a gota a arderde um leite inflamado. O padeiro comp\u00f4s um poema<br \/>\n    autobiogr\u00e1fico que demorava duashoras a recitar e me fez adormecer de exaust\u00e3o<br \/>\n    sobre o prato do almo\u00e7o. O tenentegabava-me os m\u00e9ritos da criada num extasiamento<br \/>\n    de milagre. O comandante procuravaos seios macios como uvas das adolescentes,<br \/>\n    remexendo-lhes os panos dos vestidos.Um capit\u00e3o na quarta comiss\u00e3o apodrecia<br \/>\n    como um Dr\u00e1cula na aurora, de fei\u00e7\u00f5esdecompostas na lama p\u00e1lida dos cad\u00e1veres.<br \/>\n    E eu conferenciava de sanzala em sanzalacom a gravidade dos sobas, acocorado<br \/>\n    nos bancos de pele de cabrito destinados aosvisitantes de qualidade, distribu\u00eda<br \/>\n    quinino por extensas filas de paludismos tr\u00eamulos,drenava abscessos, desinfetava<br \/>\n    feridas, fumava liamba na febre dos batuques, quandohomens desorbitados ajoelhavam<br \/>\n    a vibrar defronte dos cora\u00e7\u00f5es em p\u00e2nico dostambores. Os brancos do mato,<br \/>\n    isolados e sem meios nas fazendas por explorar,deitavam-se de arma \u00e0 cabeceira<br \/>\n    junto das amantes negras, obedientes e mudas como asombra obl\u00edqua de uma apari\u00e7\u00e3o.<br \/>\n    O capim engolia os tratores avariados numa fome demil bocas vegetais vitoriosas,<br \/>\n    devorava as casas, pulava as veda\u00e7\u00f5es, destru\u00eda as cruzesan\u00f4nimas das campas<br \/>\n    espalhadas ao acaso na orla das picadas. Um dia, um homemlouro apareceu no<br \/>\n    quartel a bordo de uma camioneta em ru\u00edna, desembarcou com umamala de paramentos<br \/>\n    de padre na m\u00e3o e apresentou-se aos oficiais:<\/p>\n<p>&#8211; Soy basco y amigo intimo del cabr\u00f3n Francisco Franco.<\/p>\n<p>Ou\u00e7a: em Gago Coutinho havia uma miss\u00e3o abandonada, um velho edif\u00edcio decolunas<br \/>\n    protegido pela frescura das ac\u00e1cias, um o\u00e1sis de sil\u00eancio onde os passosreboavam<br \/>\n    como nos filmes de Hitchcock. \u00c0 tarde, o tenente e eu costum\u00e1vamos parar ojipe<br \/>\n    na cerca de grades oxidadas, retirar o assento traseiro, instalarmo-nos junto<br \/>\n    de uma\u00e1rvore sob o sossego gordo dos p\u00e1ssaros, um sil\u00eancio grande e bom de<br \/>\n    folhas altas, efum\u00e1vamos sem falar porque as palavras se tornavam subitamente<br \/>\n    desnecess\u00e1rias comoum barco na cidade, um aqu\u00e1rio no mar, um fingimento de<br \/>\n    orgasmo durante o orgasmo,fum\u00e1vamos sem falar e uma quietude de paz deslizava<br \/>\n    devagarinho pelas veias areconciliar-nos conosco, a perdoar-nos estarmos ali,<br \/>\n    ocupantes involunt\u00e1rios em pa\u00edsestrangeiro, agentes de um fascismo provinciano<br \/>\n    que a si mesmo se minava e corro\u00eda,no lento \u00e1cido de uma triste estupidez<br \/>\n    de presbit\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8211; Soy basco y amigo intimo del cabr\u00f3n Francisco Franco.<\/p>\n<p>Em Dala-Samba, o administrador vivia sozinho com a mulher e os filhos numacasa<br \/>\n    vazia, de cuja varanda se avistava a incr\u00edvel extens\u00e3o azul do Cassange e<br \/>\n    afronteira do Congo, l\u00e1 embaixo, no rio dos diamantes, a pular escamas de<br \/>\n    luz nas pedrassem facetas. Os filhos torciam-se de lombrigas na varanda. A<br \/>\n    mulher fazia croch\u00easemanas a fio, de chinelos, naperons ovais em que se pressentiam<br \/>\n    Campos de Ouriqueperdidos, com a sua constela\u00e7\u00e3o de capelistas manhosas em<br \/>\n    torno da Igreja do SantoCondest\u00e1vel, g\u00f3tico estilo M\u00e3os de Fada para casamentos<br \/>\n    de tecnocratas. O candeeirode petr\u00f3leo iluminava um jantar de La Tour, onde<br \/>\n    os rostos se assemelhavam a ma\u00e7\u00e3satentas recortadas num fundo cambaleante<br \/>\n    de trevas, e a sanzala vizinha, voltada para ointerior de si pr\u00f3pria como<br \/>\n    um fil\u00f3sofo que medita, recuava no escuro com os seusfogos esparsos e as suas<br \/>\n    silhuetas acocoradas, assando os grilos esperneantes da ceia.<\/p>\n<p>&#8211; Soy basco&#8230;<\/p>\n<p>Foda-se, tamb\u00e9m vim para aqui porque me expulsaram do meu pa\u00eds a bordo deum<br \/>\n    navio cheio de tropas desde o por\u00e3o \u00e0 ponte e me aprisionaram em tr\u00eas voltas<br \/>\n    dearame cercadas de minas e de guerra, me reduziram \u00e0s garrafas de oxig\u00eanio<br \/>\n    das cartasda fam\u00edlia e das fotografias da filha, Angola era um ret\u00e2ngulo cor-de-rosa<br \/>\n    no mapa dainstru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, freiras pretas a sorrirem no calend\u00e1rio das<br \/>\n    Miss\u00f5es, mulheres deargolas no nariz, Mouzinho de Albuquerque e hipop\u00f3tamos,<br \/>\n    o hero\u00edsmo da Mocidade Portuguesa a marcar passo, sob a chuva de abril, no<br \/>\n    p\u00e1tio do liceu. Um amigo negro daFaculdade levou-me um dia ao seu quarto no<br \/>\n    Arco do Cego, e mostrou-me o retrato deuma velha esquel\u00e9tica, em cujo rosto<br \/>\n    se adivinhavam gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es de petrificadarevolta:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a nossa Guernica. Queria que a visses antes de me ir embora porque me<br \/>\n    chamaram da tropa e fujo amanh\u00e3 para a Tanz\u00e2nia.<\/p>\n<p>E s\u00f3 compreendi isso quando vi os prisioneiros no quartel da PIDE, a resignadaespera<br \/>\n    dos seus gestos, as barrigas gigantescas de fome das crian\u00e7as, a aus\u00eancia<br \/>\n    del\u00e1grimas no pavor dos olhos. \u00c9 preciso que entenda, percebe, que no meio<br \/>\n    em que nascia defini\u00e7\u00e3o de preto era &#8220;criatura amorosa em pequenino&#8221;,<br \/>\n    como quem se refere a c\u00e3esou a cavalos, a animais esquisitos e perigosos parecidos<br \/>\n    com pessoas, que no escuro dasanzala Santo Ant\u00f4nio me gritavam<\/p>\n<p>&#8211; Vai na tua terra, portugu\u00eas<\/p>\n<p>cagando-se nas minhas vacinas e nos meus rem\u00e9dios e desejando intensamente<br \/>\n    que euquebrasse os cornos na picada porque n\u00e3o era a eles que eu tratava mas<br \/>\n    \u00e0 m\u00e3o-de-obrabarata dos fazendeiros, dezessete escudos por um dia de trabalho,<br \/>\n    dez tost\u00f5es para cadasaco de algod\u00e3o, quem eu tratava atrav\u00e9s deles era o<br \/>\n    branco de Malanje ou de Luanda, obranco ao sol na Ilha, o branco de Alvalade,<br \/>\n    o branco do Clube Ferrovi\u00e1rio que recusavadesdenhosamente conversar com a<br \/>\n    tropa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o precisamos de voc\u00eas para nada<\/p>\n<p>de forma que essa Guernica se transformou pouco a pouco na minha Guernica<br \/>\n    domesmo modo que me tornei basco y amigo intimo del cabr\u00f3n Francisco Franco<br \/>\n    eaguardei as vacinas e os rem\u00e9dios na caixa e voltei ao arame e \u00e0s mangueiras<br \/>\n    deMarimba, cheguei ao posto de socorros, fechei a porta, instalei-me \u00e0 secret\u00e1ria,<br \/>\n    e sentime,de s\u00fabito, sabe como \u00e9, acossado como um bicho.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"18\">S<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Sofia, eu disse na sala Volto j\u00e1, e vim aqui, e sentei-me no sanit\u00e1rio, diante<br \/>\n    do espelhoonde todas as manh\u00e3s me barbeio, para falar contigo. Falta-me o<br \/>\n    teu sorriso, as tuasm\u00e3os no meu corpo, as c\u00f3cegas dos teus p\u00e9s nos meus p\u00e9s.<br \/>\n    Falta-me o cheiro bom doteu cabelo. Esse banheiro \u00e9 um aqu\u00e1rio de azulejos<br \/>\n    que o foco do teto abliquamenteilumina, varando a \u00e1gua da noite em que o meu<br \/>\n    rosto se move em gestos lentos dean\u00eamona, os meus bra\u00e7os adquirem o espasmo<br \/>\n    de adeus sem ossos dos polvos, o troncoreaprende a imobilidade branca dos<br \/>\n    corais. Quando ensaboo a cara, Sofia, sinto asescamas v\u00edtreas da pele nos<br \/>\n    meus dedos, os olhos tornam-se salientes e tristes como osdos gorazes na mesa<br \/>\n    da cozinha, nascem-me barbatanas de anjo dos sovacos. Dissolvome,parado, na<br \/>\n    banheira cheia, como imagino que os peixes morrem, evaporados numaespumazinha<br \/>\n    viscosa \u00e0 tona, como decerto os peixes morrem no rio, de \u00f3rbitasapodrecidas<br \/>\n    a boiarem. Sofia, aqui, aurora ap\u00f3s aurora, quando ainda nenhuma manh\u00e3sublinha<br \/>\n    de verde os telhados, e as luzes se destacam, n\u00edtidas, no escuro, \u00e0 laia deverrugas<br \/>\n    fosforescentes, quando a amplid\u00e3o das trevas de Lisboa me envolve nas suaspregas<br \/>\n    apavorantes e moles, venho verter a medo na retrete uma urina furtiva de crian\u00e7a,empurrado<br \/>\n    pela m\u00e3o enorme da m\u00e3e que j\u00e1 n\u00e3o tenho. Agora, Sofia, que sou homem,moro<br \/>\n    s\u00f3, e o porteiro me cumprimenta de v\u00eanias respeitosas, assalta-me por vezes<br \/>\n    acerteza esquisita de ser um peixe morto neste aqu\u00e1rio de azulejos, cumprindo<br \/>\n    um ritualdi\u00e1rio entre o espelho e o bid\u00ea no des\u00e2nimo com que os defuntos se<br \/>\n    movem, talvez, porsob a terra, fitando-se uns aos outros com pupilas de inexprim\u00edvel<br \/>\n    terror. Falta-me o teu ventre junto do meu ventre, a floresta das tuas coxas<br \/>\n    negras enroladas nas minhas, o teumisterioso e quente e forte riso de mulher<br \/>\n    que a PIDE, o governo, os tratoristas daCetec, a gula do administrador e a<br \/>\n    f\u00faria s\u00e1dica e perversa dos brancos deixaram intactosna sua cascata alegre<br \/>\n    de vit\u00f3ria. Falta-me a tua cama para o meu longo cansa\u00e7o deeuropeu com oito<br \/>\n    s\u00e9culos de infantas de pedra \u00e0s costas, falta-me a tua vaginaensolarada para<br \/>\n    ancorar a minha vergonha de ternura, o meu p\u00eanis ereto que se curvapara ti<br \/>\n    como os mastros se inclinam na dire\u00e7\u00e3o do vento, esta sede de amor raivoso<br \/>\n    quete escondo. Sofia, instalo-me no sanit\u00e1rio como uma galinha a ajeitar-se<br \/>\n    no seu choco,abanando as n\u00e1degas murchas das penas na aur\u00e9ola de pl\u00e1stico,<br \/>\n    solto um ovo de ouroque deixa na lou\u00e7a um rastro ocre de merda, puxo a v\u00e1lvula<br \/>\n    de descarga, cacarejocontentamentos de poedeira, e \u00e9 como se essa melanc\u00f3lica<br \/>\n    proeza me justificasse aexist\u00eancia, como se sentar-me aqui, noite ap\u00f3s noite,<br \/>\n    diante do espelho, a observar novidro os vincos amarelos das olheiras e as<br \/>\n    rugas que em torno da boca se multiplicamnuma fina teia misteriosa, id\u00eantica<br \/>\n    \u00e0 que cobre de leve os quadros de Leonardo, meassegurasse que ao fim de tantos<br \/>\n    anos de deixar-te permane\u00e7o vivo, durando, Sofia,neste aqu\u00e1rio de azulejos<br \/>\n    que o foco do teto obliquamente ilumina, peixe morto \u00e0 tona,de \u00f3rbitas apodrecidas<br \/>\n    a boiarem.<\/p>\n<p>Conheci-te em Gago Coutinho, num s\u00e1bado de manh\u00e3, quando as lavadeirasvinham<br \/>\n    ao arame entregar a roupa engomada dos soldados, e ficavam de c\u00f3coras, \u00e0espera,<br \/>\n    num talude, perto da passagem de n\u00edvel desarticulada da porta de armas, aconversarem<br \/>\n    numa esquisita linguagem que eu entendia mal, mas se aparentava aosaxofone<br \/>\n    de Charlie Parker quando n\u00e3o grita o seu \u00f3dio ferido pelo mundo cruel erid\u00edculo<br \/>\n    dos brancos. O odor putrefato da terra vermelha de \u00c1frica enjoava-nos como<br \/>\n    ocheiro de defuntos no hospital, os insetos do Leste entredevoram-se em sil\u00eancio<br \/>\n    nocapim, e as lavadeiras, com a roupa pronta embrulhada em panos coloridos,<br \/>\n    deixavamque os soldados lhes corressem a m\u00e3o pelos rins, pelas costas, pelo<br \/>\n    peito, sob o enormee denso e fixo sol de Angola, enquanto escarneciam, conversando<br \/>\n    umas com as outras,do desejo ansioso dos brancos, do seu desajeitamento e<br \/>\n    da sua pressa, e tamb\u00e9m doaroma de cad\u00e1ver que traziam consigo desde o navio<br \/>\n    de Lisboa, homens tornados larvasde espingarda assassina nas patas, por um<br \/>\n    Portugal de esbirros.<\/p>\n<p>Aos s\u00e1bados de manh\u00e3, os velhos reuniam-se ao centro da sanzala em torno<br \/>\n    deuma caba\u00e7a de tabaco e soltavam, pelo nariz e pela boca, fumos castanhos<br \/>\n    e serenoscomo as locomotivas antigas, com o \u00f3dio pelo ocupante escrito em<br \/>\n    grandes letrasvermelhas na sua indiferen\u00e7a vegetal. Eram os velhos do Nengo,<br \/>\n    do Lusse, os velhos deCessa e de Mussuma, os velhos do Luanguina e do Lucusse,<br \/>\n    os velhos de Narriquinha,os velhos do Chalala, os velhos e orgulhosos luchazes,<br \/>\n    senhores das Terras do Fim doMundo, vindos h\u00e1 muitos s\u00e9culos da Eti\u00f3pia em<br \/>\n    migra\u00e7\u00f5es sucessivas, que tinhamexpulso os hotentotes, os Kamessekeles, os<br \/>\n    povos que habitavam aquele pa\u00eds de areia enoites frias, em que os arbustos<br \/>\n    estremeciam quando ro\u00e7avam por eles apari\u00e7\u00f5esfosforescentes de deuses. Velhos<br \/>\n    livres tornados reles escravos do arame peloscanhangulos dos mil\u00edcias, pelos<br \/>\n    rostos triangulares de lagartos furiosos dos pides, pelorancor do Estado colonial<br \/>\n    que os tratava como a uma ra\u00e7a ign\u00f3bil, e que cuspiam noch\u00e3o escuro a saliva<br \/>\n    fumegante do tabaco, em escarros pesados de desprezo.<\/p>\n<p>Os velhos reuniam-se ao centro da sanzala, os cabiris latiam atr\u00e1s das galinhasmagras<br \/>\n    de quimbo em quimbo, um p\u00f3len impalp\u00e1vel e lev\u00edssimo, semelhante ao que sesolta<br \/>\n    das caixas de ruge antigas, acumuladas nas gavetas empenadas do quarto dosarm\u00e1rios<br \/>\n    da minha inf\u00e2ncia, descia das \u00e1rvores im\u00f3veis como pedras, criando estranhasra\u00edzes<br \/>\n    de basalto na terra alucinada de \u00c1frica. O comandante encolhia os ombros no<br \/>\n    seugabinete blindado, escravo ele tamb\u00e9m do arame e dos orgulhosos e desumanos<br \/>\n    donosda guerra que em Luanda, cravando pontos coloridos nos seus mapas, um<br \/>\n    a um nos matavam, e eu olhava-te, Sofia, acocorada no talude na mancha verde,<br \/>\n    azul e negra dasmulheres, das mulheres que conversavam e se riam e tro\u00e7avam<br \/>\n    dos dedos dos soldadosque angustiadamente as tocavam, das mulheres luchazes<br \/>\n    que abriam para os brancos asvulvas das coxas desinteressadas, nas cubatas<br \/>\n    cheias do \u00famido sil\u00eancio dos filhosmudos a um canto, brincando com peda\u00e7os<br \/>\n    de cana os jogos solenes dos meninos.<\/p>\n<p>Conheci-te numa manh\u00e3 de s\u00e1bado, Sofia, e a tua gargalhada de prisioneira<br \/>\n    livre,harmoniosa e estranha como o voo dos corvos que Van Gogh pintara antes<br \/>\n    de se matarno meio do trigo e do sol, tocou-me como um gesto de irreprim\u00edvel<br \/>\n    ternura me toca seme sinto mais s\u00f3, ou os sussurros dos mortos na nossa casa<br \/>\n    de Benfica, perto docemit\u00e9rio, cercada pelos lamentos doces e tristes dos<br \/>\n    defuntos.<\/p>\n<p>Eu estava farto da guerra, Sofia, farto da obstinada maldade da guerra e<br \/>\n    deescutar, na cama, os protestos dos camaradas assassinados que me perseguiam<br \/>\n    no meusono, pedindo-me que os n\u00e3o deixasse apodrecer emparedados nos seus<br \/>\n    caix\u00f5es dechumbo, inquietantes e frios como os perfis das oliveiras, farto<br \/>\n    de ser larva entre larvasna c\u00e2mara-ardente da messe que o motor da eletricidade<br \/>\n    aclarava de vacila\u00e7\u00f5eshesitantes de desmaio, farto do jogo das damas dos capit\u00e3es<br \/>\n    idosos e das melanc\u00f3licaspiadas dos alferes, farto de trabalhar, noite ap\u00f3s<br \/>\n    noite, na enfermaria, molhado at\u00e9 oscotovelos do sangue viscoso e quente dos<br \/>\n    feridos. <\/p>\n<p>Eu estava farto, Sofia, e todo o meucorpo me implorava o sossego que apenas<br \/>\n    se encontra nos corpos serenos das mulheres,na curva dos ombros das mulheres<br \/>\n    onde podemos descansar o nosso desespero e onosso medo, na ternura sem sarcasmo<br \/>\n    das mulheres, na sua macia generosidade,c\u00f4ncava como um ber\u00e7o para a minha<br \/>\n    ang\u00fastia de homem, a minha ang\u00fastia carregadade \u00f3dio de homem s\u00f3, com o peso<br \/>\n    insuport\u00e1vel da pr\u00f3pria morte no dorso. O furrielenfermeiro, que possu\u00eda descoloridas<br \/>\n    \u00f3rbitas salientes de cavalo cego e um grandep\u00e2nico de \u00c1frica nas tripas, trouxe-te<br \/>\n    por um bra\u00e7o, um bra\u00e7o escuro e redondo e firmee jovem, ao ponto do arame,<br \/>\n    diante da estrada branca para o Luso, onde eu ficara aolhar-te, e para al\u00e9m<br \/>\n    de ti a extens\u00e3o de azebre da mata que as m\u00e1quinas da Cetec,estupidamente,<br \/>\n    tronco a tronco, derrubavam, e perguntou-me numa voz dorida, id\u00eanticaa uma<br \/>\n    antena que se retrai, timidamente, no receio de si mesma, a voz com que oscamaradas<br \/>\n    assassinados me chamavam no meu sono, de cabelos envoltos em gazesin\u00fateis<br \/>\n    como trapos, a flutuarem na desordem molhada das madeixas, a voz do meu c\u00e3omorto<br \/>\n    h\u00e1 muitos anos, a farejar a figueira do quintal em ecos de uivos que se meevaporavam<br \/>\n    na mem\u00f3ria:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor doutor precisa de uma lavadeira?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o precisava de uma lavadeira, Sofia, porque os maqueiros me arranjavamas<br \/>\n    camisas e as toalhas e as cuecas e as meias, mas precisava de ti, do cheiro<br \/>\n    de fruta doteu ventre, do teu p\u00fabis tatuado, do colar de mi\u00e7anga que te apertava<br \/>\n    a cintura, dos p\u00e9sduros e longos de p\u00e1ssaro dos rios, circulando de seixo<br \/>\n    em seixo numa nervosamajestade.<\/p>\n<p>Eu estava farto da guerra, Sofia, farto de ver chegar os feridos da picada,<br \/>\n    emmacas improvisadas de lona, os feridos cujas bocas se abriam e fechavam<br \/>\n    em apelosindecifr\u00e1veis e magoados como os chamamentos do mar, o mar da Praia<br \/>\n    das Ma\u00e7\u00e3s quevinha mugir aos meus len\u00e7\u00f3is gritos de touro com cio, soltando<br \/>\n    das narinas uma espumade ondas a ferver. Os meus irm\u00e3os e eu, acordados, escut\u00e1vamos<br \/>\n    sem entender alinguagem rouca do mar, dobrados nos colch\u00f5es \u00famidos, sobre<br \/>\n    a farm\u00e1cia, como fetosaflitos, escut\u00e1vamos sem entender o touro do mar que<br \/>\n    marrava e marrava contra a portado quarto, saltava a muralha, corria, \u00e0 desfilada,<br \/>\n    pelas ruas, deitava o enorme focinhogelado na almofada ao p\u00e9 de n\u00f3s para tentar<br \/>\n    dormir, porque o mar, Sofia, sofre dapertinaz ins\u00f4nia dos mortos que estalavam<br \/>\n    os soalhos da casa de Benfica com os seuspassos insuport\u00e1veis e gasosos.<\/p>\n<p>Eu estava farto da guerra, de me debru\u00e7ar, at\u00e9 de madrugada, para camaradasque<br \/>\n    agonizavam, sob a l\u00e2mpada vertical da sala de opera\u00e7\u00f5es improvisada, farto<br \/>\n    donosso sangue t\u00e3o cruelmente derramado, de sair para fora, a fumar um cigarro,<br \/>\n    aindaantes do dia, na completa noite escura que antecede o dia, e ver um s\u00fabito<br \/>\n    c\u00e9u sereno ecurvo povoado de desconhecidas estrelas, n\u00e3o o c\u00e9u de alfazema<br \/>\n    e naftalina de Benfica,nem o duro c\u00e9u de pinheiros de granito da Beira, nem<br \/>\n    sequer o c\u00e9u de tempestuosa \u00e1guada Praia das Ma\u00e7\u00e3s em que navegava ao acaso<br \/>\n    como um barco \u00e0 deriva, mas o sereno ealto e inating\u00edvel c\u00e9u de \u00c1frica e as<br \/>\n    suas constela\u00e7\u00f5es que brilhavam, geom\u00e9tricas, \u00e0 laiade pupilas ir\u00f4nicas. De<br \/>\n    p\u00e9, \u00e0 porta da sala de opera\u00e7\u00f5es, com os c\u00e3es do quartel afarejarem-me a roupa,<br \/>\n    gulosos do sangue dos meus camarados feridos, a lamberem osangue dos meus<br \/>\n    camaradas feridos nas n\u00f3doas escuras das minhas cal\u00e7as, da minhacamisa, dos<br \/>\n    pelos claros dos meus bra\u00e7os, eu odiava, Sofia, os que nos mentiam e nosoprimiam,<br \/>\n    nos humilhavam e nos matavam em Angola, os senhores s\u00e9rios e dignos quede<br \/>\n    Lisboa nos apunhalavam em Angola, os pol\u00edticos, os magistrados, os policiais,<br \/>\n    osbufos, os bispos, os que ao som de hinos e discursos nos enxotavam para<br \/>\n    os navios daguerra e nos mandavam para \u00c1frica, nos mandavam morrer em \u00c1frica<br \/>\n    e teciam \u00e0 nossavolta melopeias sinistras de vampiros.<\/p>\n<p>Na noite do dia em que te conheci, a seguir ao jantar, fugi das damas doscapit\u00e3es<br \/>\n    idosos e do p\u00f4quer dos alferes, enxotei os c\u00e3es que rondavam a messe emelipses<br \/>\n    de fome submissa e teimosa, agora que a popula\u00e7\u00e3o da sanzala lhes disputava<br \/>\n    osratos do capim, os pequenos animais s\u00f4fregos e t\u00edmidos do capim, farejando<br \/>\n    as nossassombras de brancos numa afli\u00e7\u00e3o inquieta, e sa\u00ed a passagem de n\u00edvel<br \/>\n    desconjuntada daporta de armas na dire\u00e7\u00e3o da mancha confusa da sanzala l\u00e1<br \/>\n    embaixo, de onde o odor damandioca subia como um relento de jazigo, a mandioca<br \/>\n    a secar nos telhados dascubatas, parecida com os ossos que o senhor Joaquim,<br \/>\n    que vendia os esqueletos aosestudantes de Medicina, comprava ao coveiro do<br \/>\n    Alto de S. Jo\u00e3o e deixava a secar nasua mansarda do Campo de Santana, inquinando<br \/>\n    docemente o triste odor citadino das\u00e1rvores do jardim.<\/p>\n<p>Ia jurar que me esperavas, Sofia, para l\u00e1 das paredes grossas de adobe queconservavam<br \/>\n    ainda, na dureza do barro, as marcas dos dedos an\u00f4nimos que as haviamerguido,<br \/>\n    porque a porta de madeira se abriu, sem que lhe tocasse, para um escuro maisescuro<br \/>\n    do que o escuro da noite, mas povoado do sil\u00eancio das respira\u00e7\u00f5es e dossussurros,<br \/>\n    de um cacarejo suave de galinhas adormecidas, de um dorso fugidio decabiri,<br \/>\n    da tua m\u00e3o, Sofia, que me guiava nas trevas, como um dia, quando for cego,<br \/>\n    aminha filha me guiar\u00e1, me guiava atrav\u00e9s do escuro e do sil\u00eancio, e eu sentia<br \/>\n    a tuagargalhada vitoriosa im\u00f3vel na boca, riso de mulher liberta que nenhum<br \/>\n    pide, nenhumtropa, nenhum cipaio calaria, o teu riso que mesmo hoje, neste<br \/>\n    ass\u00e9ptico e odiosoaqu\u00e1rio de azulejos, continuo a escutar, sentado no sanit\u00e1rio,<br \/>\n    olhando no espelho o meurosto que irremediavelmente envelheceu, as falanges<br \/>\n    amarelas dos cigarros, os cabelosbrancos, que eu n\u00e3o tinha, as rugas, Sofia,<br \/>\n    que me vincam a testa do mole cansa\u00e7o dosque em definitivo desistiram.<\/p>\n<p>Ia jurar que a cova do colch\u00e3o de palha possu\u00eda a exata forma do meu corpo,como<br \/>\n    se desde sempre pacientemente me aguardasses, que a largura da tua vagina<br \/>\n    era amiraculosa medida do meu p\u00eanis, que o filho mulato a ressonar no ber\u00e7o<br \/>\n    de bord\u00e3o e ocomerciante Afonso, gordo, ruivo e fanhoso, tinha por seu, e<br \/>\n    recebia de tempos emtempos, com uma palmada desdenhosa, na estreita loja nauseabunda<br \/>\n    de peixe seco,prolongava nas fei\u00e7\u00f5es em repouso algo das minhas fei\u00e7\u00f5es de<br \/>\n    antes, quando aamargura e o sofrimento da guerra me n\u00e3o haviam transformado<br \/>\n    ainda numa esp\u00e9cie debicho desencantado e c\u00ednico, procedendo mecanicamente<br \/>\n    ao ato do amor nos gestos indiferentes e alheios dos comensais solit\u00e1rios<br \/>\n    nos restaurantes, olhando para dentro de si pr\u00f3prios as sombras melanc\u00f3licas<br \/>\n    que os habitam.<\/p>\n<p>Esperavas-me, Sofia, na espessa noite da tua casa na sanzala, acendias um<br \/>\n    paviode petr\u00f3leo numa garrafa, e as guinadas de claridade frouxa e romba revelavam-me,<br \/>\n    aespa\u00e7os, latas em prateleiras, um cesto de roupa, o quadrado fechado da janela,<br \/>\n    umavelha acocorada a um canto a fumar o cachimbo de cana numa absoluta quietude,<br \/>\n    umavelha muito velha de carapinha mais branca que o algod\u00e3o do Cassanje, e<br \/>\n    cujos peitoschatos e vazios se colavam \u00e0s costelas como as p\u00e1lpebras ocas<br \/>\n    dos mortos aderem \u00e0s\u00f3rbitas vazias. Esperavas-me, Sofia, e nunca houve entre<br \/>\n    n\u00f3s quaisquer palavras, porquetu entendias a minha ang\u00fastia de homem, a minha<br \/>\n    ang\u00fastia carregada de \u00f3dio de homems\u00f3, a indigna\u00e7\u00e3o que a minha covardia provocava<br \/>\n    em mim, a minha submissa aceita\u00e7\u00e3oda viol\u00eancia e da guerra que os senhores<br \/>\n    de Lisboa me impuseram, entendias as minhasdesesperadas car\u00edcias e a ternura<br \/>\n    medrosa que te dava, e os teus bra\u00e7os desciam-melentamente ao longo das costas,<br \/>\n    sem zanga nem sarcasmo, subiam e desciam lentamenteao longo do suor gelado<br \/>\n    dos meus flancos, apertavam-me devagar a cabe\u00e7a contra o teuombro redondo,<br \/>\n    e eu tinha a certeza, Sofia, que sorrias no escuro o calado e misteriosoriso<br \/>\n    das mulheres quando os homens se tornam de s\u00fabito meninos e se lhes entregamcomo<br \/>\n    filhos desprotegidos e fr\u00e1geis, exaustos de lutarem dentro de si mesmos contra<br \/>\n    oque de si mesmos os revolta.<\/p>\n<p>A tua casa, Sofia, cheirava a vivo, a coisa viva e alegre como o teu risorepentino,<br \/>\n    a coisa quente e saud\u00e1vel e delicada e invenc\u00edvel, e a mim, que vinha doquartel<br \/>\n    e do desesperado azedume dos oficiais fartos de matar e ver morrer, torcidos,como<br \/>\n    eu, pelas dolorosas c\u00f3licas da saudade e do medo, sabia-me \u00e0 inf\u00e2ncia estarcontigo,<br \/>\n    sabia-me \u00e0s unhas suaves da Gija nos meus rins, ao meu av\u00f4 que se debru\u00e7avapara<br \/>\n    o meu sono e me deixava na t\u00eampora a violeta de um beijo, sabia-me ao modocomo<br \/>\n    a minha tia Madalena me dizia Meu filho e me tocava o cabelo, eu que passava<br \/>\n    otempo no meu quarto, desdenhosamente s\u00f3, a fitar de quando em quando a figueira<br \/>\n    doquintal e a estremecer nas tripas os cogumelos de febre de um lancinante<br \/>\n    isolamentointerior.<\/p>\n<p>Porque sempre estive isolado, Sofia, durante a escola, o liceu, a faculdade,<br \/>\n    ohospital, o casamento, isolado com os meus livros por demais lidos e os meus<br \/>\n    poemaspretensiosos e vulgares, a \u00e2nsia de escrever e o torturante p\u00e2nico de<br \/>\n    n\u00e3o ser capaz, den\u00e3o lograr traduzir em palavras o que me apetecia berrar<br \/>\n    aos ouvidos dos outros e queera Estou aqui, Reparem em mim que estou aqui,<br \/>\n    Ou\u00e7am-me at\u00e9 no meu sil\u00eancio ecompreendam, mas n\u00e3o se pode compreender, Sofia,<br \/>\n    o que se n\u00e3o diz, as pessoas olham,n\u00e3o entendem, v\u00e3o-se embora, conversam<br \/>\n    umas com as outras longe de n\u00f3s, esquecidasde n\u00f3s, e sentimo-nos como as praias<br \/>\n    em outubro, desabitadas de p\u00e9s, que o mar assaltae deixa no balan\u00e7ar inerte<br \/>\n    de um bra\u00e7o desmaiado. Sempre estive sozinho, Sofia,mesmo na guerra, sobretudo<br \/>\n    na guerra, porque a camaradagem da guerra \u00e9 umacamaradagem de generosidade<br \/>\n    falsa, feita de um inevit\u00e1vel destino comum que se sofreem conjunto sem de<br \/>\n    fato se partilhar, estendidos no mesmo abrigo enquanto osmorteiros estouram<br \/>\n    como os ventres repletos de ferro ferido dos cancerosos nasenfermarias do<br \/>\n    hospital, apontando ao teto narizes agudos de p\u00e1ssaros que apodrecem,sozinho,<br \/>\n    mesmo na miss\u00e3o abandonada, sentado com o tenente no banco traseiro do jipesob<br \/>\n    as ac\u00e1cias, a escutar os insetos e os p\u00e1ssaros e o ensurdecedor sil\u00eancio de<br \/>\n    \u00c1frica,sozinho na enfermaria no meio dos feridos que gemiam, e choravam, e<br \/>\n    chamavam pormim noite a fio, dobrados pelo medo e pelas dores. Que imbecil<br \/>\n    aquela guerra, Sofia,digo-te eu aqui acocorado no sanit\u00e1rio diante do espelho<br \/>\n    que implacavelmente meenvelhece, sob esta luz de aqu\u00e1rio e estes azulejos<br \/>\n    vidrados, estes metais, estes frascos,estas lou\u00e7as sem arestas, que imbecil<br \/>\n    aquela guerra numa \u00c1frica miraculosa e ardente onde apetecia nascer com o<br \/>\n    girassol, o arroz, o algod\u00e3o e as crian\u00e7as surdem num\u00edmpeto de g\u00eaiser, fumegante<br \/>\n    e triunfal.<\/p>\n<p>Por que \u00e9 que as mulheres negras, Sofia, permanecem silenciosas enquantoparem,<br \/>\n    silenciosas e serenas nas esteiras \u00e0 medida que a cabe\u00e7a de um filho rompedevagar<br \/>\n    do intervalo das coxas, ganha forma, se solta, um ombro se desembara\u00e7a daprega<br \/>\n    do \u00fatero que o prende, o tronco desliza para fora da vagina como o p\u00eanis a<br \/>\n    seguirao coito, num \u00fanico movimento implac\u00e1vel e liso, sem dor, apenas a doce<br \/>\n    separa\u00e7\u00e3o deduas vidas, o simples afastamento de dois corpos que nunca mais<br \/>\n    se juntar\u00e3o, tal comon\u00f3s, Sofia, nos perdemos, quando cheguei \u00e0 tua casa e<br \/>\n    a porta n\u00e3o se abriu, raspei amadeira com as unhas, rondei o adobe \u00e0 escuta<br \/>\n    e uma mudez vazia me respondeu,nenhuma respira\u00e7\u00e3o, nenhum cacarejo suave de<br \/>\n    galinhas no seu sono me chegou pelasfrinchas, pelos intervalos do barro, pelas<br \/>\n    madeixas escovadas do capim do teto, tornei araspar a madeira e a velha de<br \/>\n    cachimbo na boca descerrou o postigo, deslizou para mimum soslaio mineral,<br \/>\n    o pano ondulava um pouco em torno do seu ventre murcho,aproximei-me dela,<br \/>\n    espreitei para dentro, o pavio iluminava a cama deserta, as pregas decalc\u00e1rio<br \/>\n    dos len\u00e7\u00f3is, as latas oxidadas na prateleira, o horr\u00edvel c\u00f4ncavo da aus\u00eancia.<br \/>\n    Avelha retirou o cachimbo da boca como quem descola a custo um selo de um<br \/>\n    envelope,cuspiu para as minhas coxas um escarro escuro como nuvem de chuva,<br \/>\n    os l\u00e1biosrodeavam-se de pregas conc\u00eantricas de \u00e2nus, o cachimbo aceso formou<br \/>\n    uma volutatr\u00eamula no ar, e a velha disse:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f4 pide levou.<\/p>\n<p>Era tua m\u00e3e ou tua av\u00f3, e n\u00e3o havia nenhum sentimento aparente de desgosto<br \/>\n    oualarme no seu tom, ou, se havia, n\u00e3o atentei nele, pasmado como fiquei por<br \/>\n    a ouvirfalar, como teria ficado se uma cadeira ou uma mesa recitasse de s\u00fabito,<br \/>\n    em voz cava,um dos sonetos de Antero do meu pai.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a caminho do hospital civil, passei pelo quartel da PIDE<br \/>\n    ondeos prisioneiros sachavam a lavra dos agentes sob a vigil\u00e2ncia feroz de<br \/>\n    um carcereiroarmado, encostado \u00e0 sombra da casa como uma hiena retesa antes<br \/>\n    do salto, pastoreandohomens e mulheres magros, quase nus, de cabe\u00e7a raspada,<br \/>\n    inchados de pontap\u00e9s ebofet\u00f5es, inclinando-se para a terra em gestos moles<br \/>\n    de cad\u00e1veres adiados. Passei peloquartel da PIDE, Sofia, entrei o port\u00e3o a<br \/>\n    estremecer de medo e nojo, e perguntei por tiao chefe de brigada que junto<br \/>\n    ao Land-Rover dava instru\u00e7\u00f5es a duas criaturas p\u00e1lidas,de pistola \u00e0 cinta,<br \/>\n    a tomarem notas aplicadas em blocos de argolas de estudantes deliceu. O cabr\u00e3o<br \/>\n    escorregou risos contentes de frade diante de um banquete de galhetas:<\/p>\n<p>&#8211; Era boa, h\u00e3? Estava feita com os turras. Comiss\u00e1ria, entendes? Demos-lhe<br \/>\n    umageral para mudar o \u00f3leo \u00e0 rapaziada, e, a seguir, o bilhete para Luanda.<\/p>\n<p>Tenho que voltar l\u00e1 para dentro, Sofia. \u00c9 quase manh\u00e3 e o u\u00edsque evapora-se<br \/>\n    nasparedes do meu corpo como um h\u00e1lito embaciado num vidro, deixando-me aestrebuchar,<br \/>\n    aflito, contra a desencantada lucidez da madrugada, em que o vento dosanos<br \/>\n    devolutos sopra, pelo nariz exausto, o seu rumor transparente de tristeza.<br \/>\n    A \u00e1rvoredo meu sangue desdobra os transidos ramos incont\u00e1veis pelos membros<br \/>\n    fora,espalhando-me na pele um nevoeiro t\u00e3o melanc\u00f3lico como o da cidade em<br \/>\n    novembro, aminha gasta e humilde cidade que acorda, casa a casa, para um quotidiano<br \/>\n    de not\u00e1rio. Esaio deste aqu\u00e1rio de azulejos como sa\u00ed do quartel da PIDE, em<br \/>\n    que os prisioneirossachavam a lavra dos agentes inclinando-se para a terra<br \/>\n    em curtos gestos moles decad\u00e1veres, sem a coragem de um grito de indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\n    ou de revolta, a acabar de cumpriresta noite como outrora cumpri, sem protestar,<br \/>\n    vinte e sete meses de escravid\u00e3osangrenta, saio para o corredor, Sofia, apago<br \/>\n    a luz, e recome\u00e7o a sorrir a gargalhadafradesca, filha-da-puta, desprovida<br \/>\n    de j\u00fabilo, do chefe de brigada junto ao Land-Rover,descerrando os dentes enormes<br \/>\n    numa satisfa\u00e7\u00e3o de hiena. Porque foi nisto que me transformei, que me transformaram,<br \/>\n    Sofia: uma criatura envelhecida e c\u00ednica a rir de sipr\u00f3pria e dos outros o<br \/>\n    riso invejoso, azedo, cruel dos defuntos, o riso s\u00e1dico e mudo dosdefuntos,<br \/>\n    o repulsivo riso gorduroso dos defuntos, e a apodrecer por dentro, \u00e0 luz dou\u00edsque,<br \/>\n    como apodrecem os retratos nos \u00e1lbuns, magoadamente, dissolvendo-sedevagarinho<br \/>\n    numa confus\u00e3o de bigodes.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"19\">T<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>N\u00e3o, a s\u00e9rio, espere, deixe-me desapertar-lhe o soutien. Apaga-se uma das<br \/>\n    luzes namesa de cabeceira, um pudico v\u00e9u de penumbra desce sobre os len\u00e7\u00f3is<br \/>\n    como no rostodas graves senhoras desconhecidas das visitas de p\u00easames da minha<br \/>\n    inf\u00e2ncia, instaladasem torno de um bule de prata para ch\u00e1s solenes, ro\u00e7ando<br \/>\n    de leve os pratos de biscoitoscom as luvas de camur\u00e7a. Eu descal\u00e7o as pe\u00fagas<br \/>\n    sentado na cama, voc\u00ea luta com ofecho eclair das cal\u00e7as numa impaci\u00eancia de<br \/>\n    taxista diante do sinal vermelho, e pode serque pairem, com um pouco de sorte,<br \/>\n    neste quarto, doces atmosferas conjugais feitas deuma teia de h\u00e1bitos comuns<br \/>\n    pacientemente conquistados. Mas deixe-me desapertar-lheo soutien: adoro estes<br \/>\n    fechos pequeninos, complicados, que se abrem sempre aocontr\u00e1rio do que de<br \/>\n    in\u00edcio se pensa, e os seios que por fim me deixam na m\u00e3o o seuinv\u00f3lucro de<br \/>\n    pano, como as cobras dependuram nos arbustos as peles abandonadas. J\u00e1reparou<br \/>\n    que os seios nascem como luas dos vestidos, redondos, brancos, macios,opalinos,<br \/>\n    de uma morna claridade interior de veias e de leite, erguendo-se sobre a cidadedeitada<br \/>\n    do meu corpo num vagar triunfal? Gosto de ver os seios surgirem-me do flanco,subirem,<br \/>\n    indiferentes, \u00e0 altura tr\u00eamula e sequiosa dos meus beijos, cobrir com a nuvemdo<br \/>\n    bra\u00e7o a sua suavidade calma, debru\u00e7ar-me para a aur\u00e9ola dos mamilos em cuidadosdesajeitados<br \/>\n    de astronauta, pousar a testa no c\u00f4ncavo intervalo que os separa, e sentirdentro<br \/>\n    de mim, de olhos fechados, a funda tranquilidade de um mar finalmente emrepouso,<br \/>\n    tocado de leve pelo halo indeciso de um peito que amanhece.<\/p>\n<p>Estendido ao seu lado, junto ao seu perfil nu e im\u00f3vel de defunta, das coxasderramadas<br \/>\n    nos len\u00e7\u00f3is, do bosquezinho tocante, geom\u00e9trico e fr\u00e1gil do p\u00fabis, dos pelosarruivados<br \/>\n    do p\u00fabis que a l\u00e2mpada torna n\u00edtidos e precisos como os ramos dos chouposno<br \/>\n    crep\u00fasculo, vem-me \u00e0 ideia o soldado de Mangando que se instalou de costas<br \/>\n    nobeliche, encostou a arma ao pesco\u00e7o, disse Boa noite, e a metade inferior<br \/>\n    da caradesapareceu num estrondo horr\u00edvel, o queixo, a boca, o nariz, a orelha<br \/>\n    esquerda,peda\u00e7os de cartilagem e de ossos e de sangue cravaram-se no zinco<br \/>\n    do teto tal as pedrasse incrustam nos an\u00e9is, e agonizou quatro horas no posto<br \/>\n    de socorros, estrebuchando apesar das sucessivas inje\u00e7\u00f5es de morfina, a borbulhar<br \/>\n    um l\u00edquido pegajoso pelo buracoesbei\u00e7ado da garganta.<\/p>\n<p>Eu estava sentado no jango de Marimba, a olhar a noite e os insetos fant\u00e1sticosque<br \/>\n    habitam o denso escuro de \u00c1frica e que as trevas incansavelmente segregam<br \/>\n    eexpulsam, no jango de Marimba pegado \u00e0 casa da professora cujas ancas estreitas<br \/>\n    sedissolviam em dolorosas menstrua\u00e7\u00f5es intermin\u00e1veis. As varetas de guarda-chuva<br \/>\n    dosmorcegos rodopiavam como pap\u00e9is ao vento sob a muralha imensa das mangueiras,<br \/>\n    aBaixa do Cassanje era um Alentejo enevoado de entusiasmo ardente, da furiosa<br \/>\n    alegriade Angola onde at\u00e9 o sofrimento e a morte adquirem triunfais resson\u00e2ncias<br \/>\n    de vit\u00f3ria,quando me vieram do r\u00e1dio avisar do tiro, Um tipo deu um tiro em<br \/>\n    Mangando, o furrielenfermeiro empurrou as seringas e os ferros para um saco,<br \/>\n    a escolta esperava j\u00e1 por n\u00f3sperto da messe de sargentos, partimos aos saltos<br \/>\n    para o norte, a acordar os mochos quedormiam, de c\u00f3coras, na picada e agitavam<br \/>\n    as asas defronte dos far\u00f3is como osafogados esbracejam, cerca da praia, a<br \/>\n    afli\u00e7\u00e3o desordenada das penas.<\/p>\n<p>Mangando, Marimbanguengo, Bimbe e Caputo, eis os pontos cardeais da minhaang\u00fastia:<br \/>\n    Bimbe e Caputo eram sanzalas fechadas na mata, policiadas por mil\u00edcias e GE,espiadas<br \/>\n    pelos informantes da PIDE e pelos brancos da OPVDCA, esp\u00e9cie de chuislaicos,<br \/>\n    fardados como os ca\u00e7adores de hipop\u00f3tamos e elefantes dos livros de gravuras<br \/>\n    daminha inf\u00e2ncia, livros do s\u00f3t\u00e3o do tio El\u00f3i com homens de botas altas e<br \/>\n    espingarda dedois canos risonhamente instalados sobre os enormes pedregulhos<br \/>\n    cinzentos dosanimais inertes. Da janela do s\u00f3t\u00e3o avistava-se a pris\u00e3o de Monsanto,<br \/>\n    que eu supunharepleta de criaturas simiescas, de barba por fazer, a abanarem<br \/>\n    as grades de olhosalucinados e cintilantes, e cuja respira\u00e7\u00e3o julgava escutar,<br \/>\n    colada ao meu ouvido, seacordava a meio da noite, e me paralisava de terror.<br \/>\n    O tio El\u00f3i dava corda aos rel\u00f3giosda parede, bebia-se anis del mono por c\u00e1lices<br \/>\n    de vidro azul, uma doce paz intemporaldescia do aparador, como do rosto de<br \/>\n    uma pessoa que se ama. O tio El\u00f3i, pensava euaos saltos na picada a caminho<br \/>\n    de Mangando, as tardes de Benfica no ver\u00e3o, pesadascomo frutos rumorosos de<br \/>\n    luz, a voz de Chaby Pinheiro no gramofone de camp\u00e2nula, arouquejar versos<br \/>\n    entre estalos e silvos, em que fundo de mim deixei que essa inoc\u00eanciase perdesse?<br \/>\n    Os far\u00f3is do carro arrancavam as \u00e1rvores do escuro puxando-asviolentamente<br \/>\n    para si, a chuva cavara desn\u00edveis enormes na estrada improvisada, emBimbe<br \/>\n    e Caputo sobas fantoches, impostos pelo governo, fechavam-se receosos naprote\u00e7\u00e3o<br \/>\n    dos quimbos, encostados aos panos do Congo das mulheres. Os fascistasfizeram<br \/>\n    grandes erros em \u00c1frica, porque o fascismo felizmente \u00e9 est\u00fapido,suficientemente<br \/>\n    est\u00fapido e cruel para se devorar a si mesmo, e um deles foi substituir oschefes<br \/>\n    de sangue, os nobres, altivos e indom\u00e1veis chefes de sangue, por sobas falsos,que<br \/>\n    o povo escarnecia e desprezava, fingia venerar diante dos brancos satisfeitos<br \/>\n    masdesprezava em segredo, continuava a obedecer \u00e0s autoridades verdadeiras<br \/>\n    ocultas namata, o soba Caputo, por exemplo, agarrou na imagem de madeira do<br \/>\n    deus Zumbi,desapareceu na noite, e a sua gente, perplexa, contemplava o nicho<br \/>\n    vazio numaconsterna\u00e7\u00e3o aflita, recebia as instru\u00e7\u00f5es dos tambores que latiam<br \/>\n    na treva as suasenormes t\u00eamporas reboantes de ecos.<\/p>\n<p>Mangando, Marimbanguengo, Bimbe e Caputo: em Mangando eMarimbanguengo a tropa<br \/>\n    estacionada tiritava de paludismo e afli\u00e7\u00e3o, soldados seminuscambaleavam no<br \/>\n    calor insuport\u00e1vel da caserna, que o relento do suor e dos corpos porlavar<br \/>\n    entontecia como os h\u00e1bitos nauseabundos dos cad\u00e1veres, se nos inclinamos paraeles<br \/>\n    \u00e0 espera das tristes palavras apodrecidas que os mortos legam aos vivos numborbulhar<br \/>\n    de s\u00edlabas informes. Em Mangando e Marimbanguengo, vi a mis\u00e9ria e amaldade<br \/>\n    da guerra, a inutilidade da guerra nos olhos de p\u00e1ssaros feridos dos militares,no<br \/>\n    seu desencorajamento e no seu abandono, o alferes em cal\u00e7\u00f5es espojado pela<br \/>\n    mesa,c\u00e3es vadios a lamberem restos na parada, a bandeira pendente do seu mastro<br \/>\n    id\u00eantica aum p\u00eanis sem for\u00e7a, vi homens de vinte anos sentados \u00e0 sombra, em<br \/>\n    sil\u00eancio, como osvelhos nos parques, e disse ao furriel enfermeiro, que desinfetava<br \/>\n    o joelho com tintura,\u00c9 imposs\u00edvel que um dia destes n\u00e3o tenhamos por aqui<br \/>\n    uma merd\u00f3sia qualquer, porque,sabe como \u00e9, quando homens de vinte anos se<br \/>\n    sentam assim \u00e0 sombra, num t\u00e3ocompleto desamparo, algo de inesperado, e estranho,<br \/>\n    e tr\u00e1gico acontece sempre, at\u00e9 queme vieram informar do r\u00e1dio Um tipo deu<br \/>\n    um tiro em Mangando, e eu corri para o carroonde a escolta me aguardava a<br \/>\n    aprontar-se ainda, e seguimos aos saltos para o norte pelapicada que a chuva<br \/>\n    destru\u00edra.<\/p>\n<p>\u00c9 esquisito falr-lhe disto enquanto lhe toco os seios, lhe percorro o ventre,procuro<br \/>\n    com os dedos a jun\u00e7\u00e3o \u00famida das coxas onde realmente tudo come\u00e7a, porquefoi<br \/>\n    das pernas da minha m\u00e3e que divisei pela primeira vez, com \u00f3rbitas recentes<br \/>\n    comomoedas novas, o universo ciciado e estranho dos adultos, a sua inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\n    e a suapressa. \u00c9 esquisito falar-lhe disto em Lisboa, neste quarto forrado<br \/>\n    de papel de flores que uma namorada escolheu antes de se evaporar de mim,<br \/>\n    se sumir da minha vida t\u00e3orepentina e obliquamente como veio e me deixar nas<br \/>\n    tripas uma esp\u00e9cie de ferida queainda me d\u00f3i quando lhe toco, neste quarto<br \/>\n    de onde se v\u00ea o rio, as luzes de Almada e doBarreiro, o grosso azul fosforescente<br \/>\n    da \u00e1gua. T\u00e3o esquisito, entende, que me pergunto\u00e0s vezes se a guerra acabou<br \/>\n    de fato ou continua ainda, algures em mim, com os seusnojentos odores de suor,<br \/>\n    e de p\u00f3lvora, e de sangue, os seus corpos desarticulados, osseus caix\u00f5es que<br \/>\n    me aguardam. Penso que quando eu morrer a \u00c1frica colonial voltar\u00e1ao meu encontro,<br \/>\n    e procurarei em v\u00e3o, no nicho do deus Zumbi, os olhos de madeiraque n\u00e3o h\u00e1,<br \/>\n    que verei de novo o quartel de Mangando a dissolver-se no calor, os negrosda<br \/>\n    sanzala ao longe, a manga da pista de avia\u00e7\u00e3o acenando escarninhamente para<br \/>\n    ningu\u00e9m. De novo ser\u00e1 noite e apear-me-ei do unimogue a caminho do posto desocorros,<br \/>\n    onde o tipo sem rosto agoniza, aclarado pelo petromax que um cabo segura \u00e0altura<br \/>\n    da cabe\u00e7a e contra o qual os insetos de desfazem num ruidozinho quitinoso<br \/>\n    detorresmos.<\/p>\n<p>O tipo sem rosto agoniza numa agita\u00e7\u00e3o incontrol\u00e1vel, amarrado \u00e0 marquesa<br \/>\n    deferro que oscila, e vibra, e parece desfazer-se a cada um dos seus sac\u00f5es,<br \/>\n    gemendo pelalepra de ferrugem das juntas. Ventas curiosas espreitam das janelas,<br \/>\n    um pequeno cachoacumula-se \u00e0 porta para assistir, fascinado e em p\u00e2nico, ao<br \/>\n    sangue e \u00e0 saliva queborbulham pela garganta inexistente, aos sons indefin\u00edveis<br \/>\n    que o que sobeja de narizemite, aos olhos que a p\u00f3lvora rebentou como ovos<br \/>\n    cozidos que explodissem. Asampolas de morfina sucessivamente injetadas no<br \/>\n    deltoide parecem esporear cada vezmais o corpo amarrado que se rebola e torce,<br \/>\n    e o petromax multiplica nas paredes emsombras que confluem, se sobrep\u00f5em e<br \/>\n    se afastam, formando uma dan\u00e7a fren\u00e9tica demanchas na geometria suja do estuque.<br \/>\n    Apetece-me abrir a porta de golpe, abandon\u00e1-lo,sair dali, trope\u00e7ar ao acaso,<br \/>\n    c\u00e1 fora, nos c\u00e3es do quartel e nos mi\u00fados espantados que senos enrodilham<br \/>\n    nas pernas, respirar o algod\u00e3o \u00famido do ar de \u00c1frica, sentar-me nosdegraus<br \/>\n    de uma velha casa de colono, de m\u00e3o no queixo, vazio de indigna\u00e7\u00e3o, deremorso,<br \/>\n    de piedade, a lembrar as \u00edris de capim da minha filha nos retratos que deLisboa,<br \/>\n    pelo correio, me mandam, e imaginar-me a vigiar-lhe o sono, dobrado para ospanos<br \/>\n    do seu ber\u00e7o num desvelo comovido. Os gritos de Mangando enchem a noite deru\u00eddos,<br \/>\n    um dilatado e grave som cont\u00ednuo sobe da terra e canta, as \u00e1rvores, os arbustos,a<br \/>\n    miraculosa flora de \u00c1frica solta-se do ch\u00e3o e flutua, livre, na atmosfera<br \/>\n    espessa devibra\u00e7\u00f5es e de cicios, o tipo amarrado \u00e0 marquesa agoniza a um metro<br \/>\n    de mim \u00e0 laia dasr\u00e3s crucificadas nas pranchetas de corti\u00e7a do liceu, introduzo-lhe<br \/>\n    ampola ap\u00f3s ampolanos m\u00fasculos do bra\u00e7o, e queria estar a treze mil quil\u00f4metros<br \/>\n    dali, a vigiar o sono daminha filha nos panos do seu ber\u00e7o, queria n\u00e3o ter<br \/>\n    nascido para assistir \u00e0quilo, \u00e0 idiota ecolossal inutilidade daquilo, queria<br \/>\n    achar-me em Paris a fazer revolu\u00e7\u00f5es no caf\u00e9, ou adoutorar-me em Londres e<br \/>\n    a falar do meu pa\u00eds com a ironia horrivelmente provincianado E\u00e7a, falar na<br \/>\n    choldra do meu pa\u00eds para amigos ingleses, franceses, su\u00ed\u00e7os,portugueses, que<br \/>\n    n\u00e3o tinham experimentado no sangue o vivo e pungente medo demorrer, que nunca<br \/>\n    viram cad\u00e1veres destro\u00e7ados por minas ou por balas. O capit\u00e3o de\u00f3culos moles<br \/>\n    repetia na minha cabe\u00e7a A revolu\u00e7\u00e3o faz-se por dentro, e eu olhava osoldado<br \/>\n    sem cara a reprimir os v\u00f4mitos que me cresciam na barriga, e apetecia-meestudar<br \/>\n    Economia, ou Sociologia, ou a puta que o pariu em Vincennes, aguardartranquilamente,<br \/>\n    desdenhando a minha terra, que os assassinados a libertassem, que oschacinados<br \/>\n    de Angola expulsassem a esc\u00f3ria covarde que escravizava a minha terra, eregressar,<br \/>\n    ent\u00e3o competente, grave, s\u00e1bio, social-democrata, sard\u00f4nico, transportando<br \/>\n    namala dos livros a esperteza f\u00e1cil da \u00faltima verdade de papel.<\/p>\n<p>Mangando, Marimbanguengo, Bimbe e Caputo: o sujeito imobilizou-se por fimnum<br \/>\n    estreme\u00e7\u00e3o derradeiro, o que restava da garganta cessou o seu borbulho ansioso,<br \/>\n    o cabo do petromax deixou pender o bra\u00e7o e as sombras estenderam-se no soalho<br \/>\n    numavergonha de cachorros, subitamente im\u00f3veis. Ficamos muito tempo a contemplar<br \/>\n    ocad\u00e1ver agora em sossego, as m\u00e3os molemente cavadas sobre as coxas, as botas<br \/>\n    que seme afiguravam dilatadas de um recheio de palha, quietas na placa de<br \/>\n    ferro branco, malpintada, da marquesa. Os que espreitavam pela janela sumiram-se<br \/>\n    dos caixilhos nadire\u00e7\u00e3o da caserna, o pequeno grupo apinhado dissolveu-se<br \/>\n    devagar num murm\u00farioindistinto, e eu, sabe como \u00e9, dava o cu para estar longe<br \/>\n    dali, longe do gajo morto quemudamente me acusava, longe das ampolas de morfina<br \/>\n    que se amontoavam, vazias, nobalde de pensos, no meio da gaze, do algod\u00e3o,<br \/>\n    das compressas, estar em Paris a explicarno caf\u00e9 como se combate o fascismo,<br \/>\n    estar em Londres a catequizar de Marcuse aspernas de uma inglesa deslumbrada,<br \/>\n    estar em Benfica a tocar de leve, com o dedo, atesta da minha filha que dormia,<br \/>\n    a ler Salinger diante das cortinas abertas para a figueirado quintal, onde<br \/>\n    a noite se enredava como as minhas m\u00e3os desajeitadas enredavam asmeadas de<br \/>\n    l\u00e3 das minhas tias.<\/p>\n<p>N\u00e3o. Ainda n\u00e3o. Deixe-me abra\u00e7\u00e1-la devagar, sentir a sua pele de encontro<br \/>\n    \u00e0minha, o flanco, a curva leve da cintura. Gosto do sabor da sua boca, de<br \/>\n    tocar com al\u00edngua a placa dos dentes que me garante uma maravilhosa perecibilidade,<br \/>\n    de ver asp\u00e1lpebras descerem quando os seus l\u00e1bios se aproximam, de assistir<br \/>\n    \u00e0 morna entregainteira do seu corpo. Esta cama \u00e9 uma ilha \u00e0 deriva no mar<br \/>\n    de pr\u00e9dios e telhados deLisboa, os nossos cabelos, as farripas das palmeiras<br \/>\n    ao vento, as falanges que seprocuram, uma repta\u00e7\u00e3o ansiosa de ra\u00edzes,. No<br \/>\n    momento em que os seus joelhos seafastarem docemente, os cotovelos me apertarem<br \/>\n    as costelas, e o seu p\u00fabis ruivodescerrar as p\u00e9talas carnudas numa \u00famida entrega<br \/>\n    de vulvas quentes e macias,penetrarei em si, percebe, como um cachorro humilde<br \/>\n    e sarnento num v\u00e3o de escadapara tentar dormir, procurando um aconchego imposs\u00edvel<br \/>\n    na madeira dura dos degraus,porque o tipo de Mangando e todos os tipos de<br \/>\n    Mangando e Marimbanguengo e Cessa eMussuma e Ninda e Chi\u00fame se erguer\u00e3o no<br \/>\n    interior de mim nos seus caix\u00f5es dechumbo, envolto em ligaduras sangrentas<br \/>\n    que esvoa\u00e7am, exigindo-me, nos resignadoslamentos dos mortos, o que por medo<br \/>\n    lhes n\u00e3o dei: o grito de revolta que esperavam demim e a insubmiss\u00e3o contra<br \/>\n    os senhores da guerra de Lisboa, os que no quartel doCarmo se cagavam e choravam<br \/>\n    vergonhosamente, tontos de p\u00e2nico, no dia da suamiser\u00e1vel derrota, perante<br \/>\n    o mar em triunfo do povo, que arrastava, no seu impetuosocanto, como o Tejo,<br \/>\n    as \u00e1rvores magras do Largo. Os tipos de Marimba que recusaram orefeit\u00f3rio<br \/>\n    e o rancho do jantar e permaneceram formados na parada, com o cabo maisantigo<br \/>\n    ao lado, um homem louro, s\u00e9rio, sem palavras, em sentido na parada, at\u00e9 o<br \/>\n    oficialde servi\u00e7o, \u00e0 minha frente, o desfazer de tareia com a pistola, o cabo<br \/>\n    ca\u00eda, levantava-se,punha-se de novo em sentido, sangrava pelo nariz, pelos<br \/>\n    sobrolhos, pela boca, acompanhia, formada, olhava fixamente para diante, o<br \/>\n    oficial pontapeava o corpo degatas que buscava alcan\u00e7ar a boina para a colocar<br \/>\n    ainda na cabe\u00e7a, e que repetia Meualferes meu alferes meu alferes numa indestrut\u00edvel<br \/>\n    teimosia paciente, e por fim acompanhia marchou lentamente para o refeit\u00f3rio<br \/>\n    e aceitou a lavadura do rancho. N\u00e3oera o rancho que estava em causa, percebe,<br \/>\n    todos com\u00edamos o mesmo alimento turvo,quase podre, que as crian\u00e7as da sanzala,<br \/>\n    munidas de latas ferrugentas, desejavam comgrandes \u00f3rbitas c\u00f4ncavas de fome<br \/>\n    penduradas suplicantemente do arame, era a guerra, acabronice da guerra, os<br \/>\n    calend\u00e1rios im\u00f3veis em intermin\u00e1veis dias, fundos com ostristes e suaves sorrisos<br \/>\n    das mulheres sozinhas, eram as silhuetas dos camaradasassassinados que rondavam<br \/>\n    as casernas \u00e0 noite conversando conosco na p\u00e1lida vozamarela dos defuntos,<br \/>\n    fitando-nos com as pupilas magoadas e acusadoras dosesquel\u00e9ticos c\u00e3es vadios<br \/>\n    do quartel. Os soldados acreditavam em mim, viam-metrabalhar na enfermaria<br \/>\n    os seus corpos esquartejados pelas minas, viam-me \u00e0 beira dos beliches se<br \/>\n    tiritavam de paludismo nos len\u00e7\u00f3is desfeitos, de modo que, sabe como \u00e9, mecuidavam<br \/>\n    um deles, pronto a encabe\u00e7ar a sua zanga e o seu protesto, assistiram \u00e0 minhaentrada<br \/>\n    na caserna onde um homem se trancara brandindo uma catana e amea\u00e7andomatar<br \/>\n    toda a gente e a si pr\u00f3prio, e viram-me sair com ele, momentos depois, a solu\u00e7arno<br \/>\n    meu ombro abandonos de beb\u00ea disforme, os soldados julgavam-me capaz de osacompanhar<br \/>\n    e de lutar por eles, de me unir ao seu ing\u00eanuo \u00f3dio contra os senhores deLisboa<br \/>\n    que disparavam sobre n\u00f3s as balas envenenadas dos seus discursos patri\u00f3ticos,<br \/>\n    eassistiram enojados \u00e0 minha passividade im\u00f3vel, aos meus bra\u00e7os pendentes,<br \/>\n    \u00e0 minhaaus\u00eancia de combatividade e de coragem, \u00e0 minha pobre conforma\u00e7\u00e3o de<br \/>\n    prisioneiro.<\/p>\n<p>Espere mais um pouco, deixe-me abra\u00e7\u00e1-la devagar, sentir o latir das suas<br \/>\n    veiasno meu ventre, o crescer de onda do desejo que se nos espalha pela pele<br \/>\n    e canta, aspernas que pedalam nos len\u00e7\u00f3is, ansiosas, \u00e0 espera. Deixe que o<br \/>\n    quarto se povoe det\u00eanues sons de gemidos em busca de uma boca onde ancorar.<br \/>\n    Deixe que eu volte de\u00c1frica para aqui e me sinta feliz, quase feliz, acariciando-lhe<br \/>\n    as n\u00e1degas, o dorso, ointerior fresco e macio das pernas, ao mesmo tempo rijo<br \/>\n    e tenro como um fruto. Deixeque eu esque\u00e7a, olhando-a bem, o que n\u00e3o consigo<br \/>\n    esquecer, a viol\u00eancia assassina naterra prenhe de \u00c1frica, e tome-me dentro<br \/>\n    de voc\u00ea quando do redondo das minhaspupilas espantadas, enodoadas da vontade<br \/>\n    de si de que sou feito agora, surgirem as\u00f3rbitas c\u00f4ncavas de fome das crian\u00e7as<br \/>\n    da sanzala, penduradas do arame, a estenderempara os seus seios brancos, na<br \/>\n    manh\u00e3 de Lisboa, as latas ferrugentas.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"20\">U<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Gostou? Assim, assim? Desculpe, n\u00e3o estou em forma hoje, sinto-me azelha,<br \/>\n    alheado,n\u00e3o domino o meu corpo, o u\u00edsque inquina-me o h\u00e1lito de um relento<br \/>\n    de urina, adolorosa consci\u00eancia das minhas insufici\u00eancias preocupa-me. Durante<br \/>\n    muitos anospensei em inscrever-me num desses cursos de que nos enviam os prospectosdesdobr\u00e1veis<br \/>\n    pelo correio, e que em quinze dias nos transformam em h\u00e9rcules eficazes,bem<br \/>\n    penteados, bem barbeados, nodosos de m\u00fasculos, cercados por uma nuvemadmirativa<br \/>\n    de raparigas maravilhadas:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Em sua casa, sem aparelhos, com dez minutos de exerc\u00edcio apenas, torne-se<br \/>\n      um homem;<br \/>\n      Ganhe a confian\u00e7a dos seus chefes e o amor das mulheres gra\u00e7as ao M\u00e9todo<br \/>\n      Culturista Sans\u00e3o;<br \/>\n      Cres\u00e7a treze cent\u00edmetros sem palmilhas com a t\u00e9cnica de prolongar as T\u00edbias<br \/>\n      Gulliver;<br \/>\n      A Lo\u00e7\u00e3o Azeviche far\u00e1 o seu cabelo recuperar a cor natural, brilhante, sedoso<br \/>\n      e macio com uma \u00fanica aplica\u00e7\u00e3o;<br \/>\n      \u00c9 ansioso? Vive triste? O Magnetismo Astral, em cinco li\u00e7\u00f5es, dar-lhe-\u00e1<br \/>\n      confian\u00e7a no futuro;<br \/>\n      Perca o seu ventre incomodativo pedalando a domic\u00edlio com a bicicleta abdominal;<br \/>\n      N\u00e3o consegue arranjar emprego? Combata a calv\u00edcie com o \u00f3leo biol\u00f3gico Hirsutex<br \/>\n      (rico em algas canadianas) e todas as portas se lhe abrir\u00e3o;<br \/>\n      Se n\u00e3o se despe na praia por ter vergonha dos seus ombros estreitos solicitenas<br \/>\n      boas casas da especialidade o folheto explicativo &#8220;conquistei minha<br \/>\n      esposagra\u00e7as ao Claviculone Eletr\u00f4nico&#8221;;<br \/>\n      Mau h\u00e1lito? Experimente o spray noruegu\u00eas Cebolov (\u00e0 base de casca decebola<br \/>\n      e ess\u00eancia de alho) e os seus amigos aproximar-se-\u00e3o, fascinados, dassuas<br \/>\n      palavras;<br \/>\n      \u00c9 gago? A Psican\u00e1lise Parapsicol\u00f3gica do Professor Azeredo conferirlhe-\u00e1<br \/>\n      a flu\u00eancia elegante de um locutor de televis\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o, ou\u00e7a, s\u00f3 estou a ironizar em parte, sobretudo para disfar\u00e7ar a humilha\u00e7\u00e3odo<br \/>\n    meu fracasso e a desilus\u00e3o que atravessa de leve o seu sil\u00eancio, como as sombras<br \/>\n    quecruzam, de quando em quando, o alegre sorriso da minha filha mais nova,<br \/>\n    e me tocamno fundo das tripas a gota de \u00e1cido de um remorso ou de uma d\u00favida.<br \/>\n    Quereriadesesperadamente ser outro, sabe, algu\u00e9m que se pudesse amar sem vergonha<br \/>\n    e de queos meus irm\u00e3os se orgulhassem, de que eu pr\u00f3prio me orgulhasse ao<br \/>\n    observar noespelho da barbearia ou do alfaiate o sorriso contente, o cabelo<br \/>\n    louro, as costas direitas,os m\u00fasculos \u00f3bvios sob a roupa, o sentido de humor<br \/>\n    \u00e0 prova de bala e a intelig\u00eanciapr\u00e1tica. Irrita-me este inv\u00f3lucro in\u00e1bil e<br \/>\n    feio que \u00e9 o meu, as frases enroladas nagarganta, a falta de lugar para as<br \/>\n    minhas m\u00e3os defronte das pessoas que n\u00e3o conhe\u00e7o eme amedrontam. Irrita-me<br \/>\n    o receio que tenho de si, de lhe desagradar, de n\u00e3o conseguirque o seu corpo<br \/>\n    se erga, em ondas, do len\u00e7ol, ao mesmo tempo vitorioso e vencido, queo seu<br \/>\n    peito estreme\u00e7a de prazer como uma enorme vaga antes de rebentar, que a suaboca<br \/>\n    me fale, no instante do orgasmo, a linguagem gasosa dos anjos, em que flutuam<br \/>\n    \u00e0deriva beijos em latim. Consinta-me que tente outra vez, d\u00ea outra oportunidade<br \/>\n    \u00e0 minhaafli\u00e7\u00e3o sem esperan\u00e7a, porque desisti de a seduzir, de a fazer render-se<br \/>\n    \u00e0s minhasproezas ou ao meu encanto, de a conceber a procurar o meu nome na<br \/>\n    lista dos telefones,para me pedir, no s\u00e1bado, para jantar consigo, e ficar<br \/>\n    fitando-me, esquecida do rosbife edo tempo, num maravilhamento de descoberta.<br \/>\n    Uma oportunidade, n\u00e3o por si, n\u00e3o porn\u00f3s, mas por mim: seja um pouco o CLAVICULONE<br \/>\n    ELETR\u00d4NICO da alma, ajude aque me cres\u00e7am vigorosos ombros de esperan\u00e7a das<br \/>\n    omoplatas finas do des\u00e2nimo, e queo meu tronco, de repente triangular, erga<br \/>\n    num j\u00fabilo f\u00e1cil o homenzinho derrotado quesou. Transporte-me como uma Piet\u00e0<br \/>\n    herc\u00falea o seu Cristo exausto, como eu transporteiao colo, h\u00e1 muitos anos,<br \/>\n    o negro a quem os crocodilos do rio Cambo haviam devorado aperna esquerda,<br \/>\n    e que gemia docemente, tal os filhos das hienas nos ninhos apodrecidos,rodeados<br \/>\n    de excrementos e de ossos espumosos de gazela.<\/p>\n<p>Eu odiava o rio Cambo, o rio dos jacar\u00e9s e das jiboias, porque das suas \u00e1guaslentas<br \/>\n    nasciam, na \u00e9poca das chuvas, as trovoadas que avan\u00e7avam, em rolos escuros,sobre<br \/>\n    o quartel, rebolando pelas escadas do ar abaixo os enormes planos das nuvens.Durante<br \/>\n    as trovoadas, no Cassanje, as pessoas juntavam-se sob os mesmos telhados dezinco<br \/>\n    a tiritar de pavor, enquanto um odor de f\u00f3sforo e de enxofre flutuava no ozonosaturado<br \/>\n    do ar, madeixas de chispas prolongavam os nossos cabelos r\u00edgidos e azuis,<br \/>\n    as\u00e1rvores amoleciam humildemente \u00e0 chuva, amedrontadas, as altivas \u00e1rvores<br \/>\n    de Angolaapequenavam-se, receosas, \u00e0 chuva, e n\u00f3s olh\u00e1vamos uns para os outros<br \/>\n    enquanto osrel\u00e2mpagos ca\u00edam, e nos iluminavam de vi\u00e9s o rosto do seu magn\u00e9sio<br \/>\n    instant\u00e2neo defotografia, revelando, sob a pele, a textura tr\u00e1gica dos malares.<br \/>\n    Na margem do rioCambo, junto \u00e0 jangada, vi uma jiboia morrer com uma cabra<br \/>\n    na garganta, torcendo-sena relva como os doentes de enfarte se torciam nos<br \/>\n    bancos de hospital, implorando entresolu\u00e7os que os matassem, tentando arrancar<br \/>\n    do peito, com os dedos, as veias quevibravam \u00e0 maneira de cordas tensas de<br \/>\n    guitarra. Vi as \u00f3rbitas dos crocodilos \u00e0 derivana corrente, pensativas e atentas<br \/>\n    como as de uma rapariga \u00e0 escuta, a pestanejarem aironia mineral de certos<br \/>\n    bustos de Voltaire, sob cuja aparente simplicidade cintila odesd\u00e9m carn\u00edvoro<br \/>\n    dos homens. E vi uma cubata, onde um raio tombara, enegrecidacomo a p\u00e1lpebra<br \/>\n    fatal de uma dan\u00e7arina de flamengo, e l\u00e1 dentro, sentada na esteira, uma mulher<br \/>\n    im\u00f3vel, cercada do halo de claridade verde que emana das Senhoras deF\u00e1tima<br \/>\n    de pl\u00e1stico e dos ponteiros dos despertadores.<\/p>\n<p>Eu odiava o rio Cambo e os arbustos decompostos que lhe limitavam o curso,<br \/>\n    osedif\u00edcios abandonados, de varanda de colunas, perdidos no capim, e de cujos<br \/>\n    sobradosem ru\u00edna os lagartos e os ratos nos espiavam com rancor. Odi\u00e1vamos<br \/>\n    o rio em quetristes deuses de pau se chamavam com vozes guturais repletas<br \/>\n    de apelos e amea\u00e7as, orio em que as lavadeiras esfregavam na pedra limosa<br \/>\n    a nossa roupa militar, seguidaspela fome suspensa dos soldados, masturbando-se,<br \/>\n    de joelhos na terra, junto da armaque esqueciam. Traz\u00edamos vinte e cinco meses<br \/>\n    de guerra nas tripas, vinte e cinco mesesde comer merda, e beber merda, e<br \/>\n    lutar por merda, e adoecer por merda, e cair pormerda, nas tripas, vinte e<br \/>\n    cinco intermin\u00e1veis meses dolorosos e rid\u00edculos nas tripas, detal jeito rid\u00edculos<br \/>\n    que, por vezes, \u00e0 noite, no jango de Marimba, desat\u00e1vamos de s\u00fabito arir,<br \/>\n    na cara uns dos outros, gargalhadas imposs\u00edveis de estancar, observ\u00e1vamos<br \/>\n    asfei\u00e7\u00f5es uns dos outros e a tro\u00e7a escorria-nos em l\u00e1grimas de piedade, e<br \/>\n    de esc\u00e1rnio, e deraiva, pelas bochechas magras, at\u00e9 que o capit\u00e3o, com a boquilha<br \/>\n    sem cigarro entaladanos dentes, se sentava no jipe e principiava a buzinar,<br \/>\n    espantando os morcegos dasmangueiras e os insetos fant\u00e1sticos de Angola, e<br \/>\n    nos cal\u00e1vamos como as crian\u00e7as secalam a meio do seu choro, olhando as trevas<br \/>\n    em torno numa surpresa imensa.<\/p>\n<p>Traz\u00edamos vinte e cinco meses de guerra nas tripas, de viol\u00eancia insensata<br \/>\n    eimbecil nas tripas, de modo que nos divert\u00edamos mordendo-nos como os animais<br \/>\n    semordem nos seus jogos, nos amea\u00e7\u00e1vamos com as pistolas, nos insult\u00e1vamos,furibundos,<br \/>\n    numa raiva invejosa de c\u00e3es, nos espoj\u00e1vamos, latindo, nos charcos dachuva,<br \/>\n    mistur\u00e1vamos comprimidos para dormir no u\u00edsque da Manuten\u00e7\u00e3o, ecircul\u00e1vamos<br \/>\n    a cambalear pela parada, entoando em coro obscenidades de col\u00e9gio. Diasantes,<br \/>\n    tr\u00eas camaradas nossos haviam morrido num acidente de unimogue, uma \u00e1rvoreinesperada<br \/>\n    saiu da mata e plantou-se, vertical, ao centro da picada, diante da viatura<br \/>\n    quelargara do com\u00e9rcio da Chiquita, a seguir a umas cervejas moles no balc\u00e3o<br \/>\n    das fazendas,e encontramos os corpos disseminados no capim, de cr\u00e2nio fraturado,<br \/>\n    com as formigasvermelhas de \u00c1frica a treparem, obstinadas, pelos bra\u00e7os inertes.<br \/>\n    Dias antes, os nossos\u00faltimos companheiros assassinados partiram, embrulhados<br \/>\n    em lonas, para as urnas deMalanje, que exalavam um odor repugnante e f\u00e9tido<br \/>\n    apesar do chumbo soldado e damadeira, e os rostos defuntos deles, estendidos<br \/>\n    lado a lado no armaz\u00e9m de g\u00eaneros doquartel, tinham adquirido uma serenidade<br \/>\n    de paz sem sobressaltos, a am\u00e1vel indiferen\u00e7adistra\u00edda dos jovens que me esquecera<br \/>\n    que eram, envelhecidos por um sofrimento semraz\u00e3o. Invejei-os, percebe, entre<br \/>\n    os sacos de batata e de farinha, as garrafas derefrigerante, os volumes de<br \/>\n    tabaco, a enorme balan\u00e7a que se aparentava a um aparelhode tortura medieval,<br \/>\n    invejei a sua tranquilidade vazia de medo e a esperan\u00e7a ba\u00e7a que seescapava,<br \/>\n    vaga, das p\u00e1lpebras mal cerradas, invejei o voltarem a Lisboa primeiro do<br \/>\n    queeu, com a tatuagem de uma flor de sangue seco na testa.<\/p>\n<p>Escute. Vai come\u00e7ar a amanhecer, o ladrar dos c\u00e3es nas quintas longe mudouligeiramente<br \/>\n    de tonalidade, adquiriu o eco l\u00edvido e p\u00e1lido da aurora. Pelas frestas daspersianas<br \/>\n    o dia incha, dolorido e pesado como um fur\u00fanculo, abrigando dentro de si umpus<br \/>\n    de rel\u00f3gios e cansa\u00e7o. Nos cigarros que acendemos h\u00e1 algo do incenso que paira<br \/>\n    nasigrejas depois das cerim\u00f4nias acabadas, entre os dedos agudos das velas<br \/>\n    e a bondadepintada das imagens, as barbas dissolvidas na fuligem do tempo<br \/>\n    dos pain\u00e9is dos santos.Vai come\u00e7ar a amanhecer e todos os candeeiros se tornar\u00e3o<br \/>\n    in\u00fateis, o sol exibir\u00e1 sempiedade os nossos corpos deitados, as rugas, as<br \/>\n    pregas tristes da boca, o cabeloemaranhado, os restos de pintura e de creme<br \/>\n    na almofada. Como um campo de batalha,sabe como \u00e9, juncado da desordem j\u00e1<br \/>\n    nem pat\u00e9tica dos cad\u00e1veres, uma simplesdesarruma\u00e7\u00e3o de s\u00f3t\u00e3o em que os m\u00f3veis<br \/>\n    fossem corpos decepados e ris\u00edveis. A energia musculosa do dia empurra-nos,<br \/>\n    como \u00e0s corujas, para as derradeiras pregas de sombra,onde agitamos as penas<br \/>\n    \u00famidas numa ansiedade inquieta, encolhidos um contra o outro\u00e0 procura da prote\u00e7\u00e3o<br \/>\n    que n\u00e3o h\u00e1. Porque ningu\u00e9m nos salva, ningu\u00e9m pode maissalvar-nos, nenhuma<br \/>\n    companhia vir\u00e1, de morteiro em punho, ao nosso encontro. Eis-nosirremediavelmente<br \/>\n    s\u00f3s no conv\u00e9s desta cama sem b\u00fassola, balan\u00e7ando pela alcatifa doquarto hesita\u00e7\u00f5es<br \/>\n    de jangada. De certa forma continuaremos em Angola, voc\u00ea e eu,entende, e fa\u00e7o<br \/>\n    amor consigo como na cubata da sanzala Macau da tia Teresa, negragorda, maternal<br \/>\n    e s\u00e1bia, recebendo-me na palha do colch\u00e3o numa indulg\u00eancia suave dematrona.<br \/>\n    Os dedos dela arrepiam-me a espinha, o seu h\u00e1lito grosso de peixe e de tabacodesce-me<br \/>\n    o peito a caminho do p\u00eanis, que endurece, os seios enormes e escurosbalan\u00e7am-me<br \/>\n    adiante da boca, t\u00fargidos do transparente leite da ternura. O pavio doazeite<br \/>\n    aclara imagens piedosas, postais ilustrados colados na parede, os bei\u00e7os peludosda<br \/>\n    vulva que me ro\u00e7am o ombro, id\u00eantica \u00e0s escovas dos barbeiros, adejando-me<br \/>\n    nocasaco \u00e0 espera da gorjeta, e eu sinto-me como os mortos do unimogue no<br \/>\n    armaz\u00e9m deg\u00eaneros, de flor de sangue na testa, tranquilos entre os sacos de<br \/>\n    farinha e de batata, asgarrafas de refrigerante e os volumes de tabaco. Os<br \/>\n    oficiais jogam o loto na casa novado administrador, a professora das menstrua\u00e7\u00f5es<br \/>\n    dan\u00e7a em torno da mesa da sala dejantar com o condutor da carreira, a p\u00e1lida<br \/>\n    alegria colonial tinge de tristeza cada gesto, ea tia Teresa fecha a porta<br \/>\n    por dentro para que ningu\u00e9m, percebe, nos incomode, edesabotoa-me a camisa<br \/>\n    num vagar sapiente de ritual. O quimbo da tia Teresa, cercadopelo odor doce<br \/>\n    dos p\u00e9s de liamba e de tabaco, \u00e9 talvez o \u00fanico s\u00edtio que a guerra n\u00e3ologrou<br \/>\n    invadir do seu cheiro pestilento e cruel. Alastrou por Angola, a terra sacrificada<br \/>\n    evermelha de Angola, alcan\u00e7ou Portugal a bordo dos barcos de militares queregressavam,<br \/>\n    desorientados e tontos, de um inferno de p\u00f3lvora, insinuou-se na minhahumilde<br \/>\n    cidade que os senhores de Lisboa mascararam de falsas pompas de cartolina,encontrei-a<br \/>\n    deitada no ber\u00e7o da minha filha como um gato, fitando-me com pupilas demaldade<br \/>\n    obl\u00edqua, a mirar-me dos len\u00e7\u00f3is com a turva raiva invejosa dos alferes nasmesas<br \/>\n    de jogo, medindo com rancor, de pistola \u00e0 cinta, as cartas do parceiro. A<br \/>\n    guerrapropagou-se aos sorrisos das mulheres nos bares, sob as ampolas despolidas<br \/>\n    doscandeeiros que lhes multiplicam de sombras a curva indagadora dos narizes,<br \/>\n    turvou asbebidas de um gosto azedo de vingan\u00e7a, aguarda-nos no cinema, instalada<br \/>\n    no nossolugar, vestida de preto como um not\u00e1rio vi\u00favo a retirar do bolso do<br \/>\n    casaco o estojo depl\u00e1stico dos \u00f3culos. Est\u00e1 aqui, nesta casa vazia, nos roupeiros<br \/>\n    desta casa vazia, gr\u00e1vidados fetos moles das minhas cuecas, no geom\u00e9trico<br \/>\n    espa\u00e7o de trevas que as l\u00e2mpadas n\u00e3oalcan\u00e7am nunca, est\u00e1 aqui e chama-me baixinho<br \/>\n    com a p\u00e1lida voz ferida dos camaradasassassinados nas picadas de Ninda e de<br \/>\n    Chi\u00fame, estende para mim os cotovelos brancose ossudos num abra\u00e7o gasoso que<br \/>\n    me agonia. Est\u00e1 em si, no seu perfil sarc\u00e1sticodesprovido de amor, na obstina\u00e7\u00e3o<br \/>\n    do seu sil\u00eancio e no mover mec\u00e2nico das suas ancasdurante o coito, devorando<br \/>\n    o meu p\u00eanis como um est\u00f4mago digere, indiferente, oalimento que lhe oferecem,<br \/>\n    recebendo os meus beijos na paci\u00eancia vagamenteaborrecida das prostitutas<br \/>\n    da minha inf\u00e2ncia, decr\u00e9pitas bonecas insufl\u00e1veis, ancoradasnas manchas de<br \/>\n    esperma seco das colchas. Deito um cent\u00edmetro mentolado de guerra naescova<br \/>\n    de dentes matinal, e cuspo no lavat\u00f3rio a espuma verde-escura dos eucaliptos<br \/>\n    deNinda, a minha barba \u00e9 a floresta do Chalala a resistir ao napalm da gilete,<br \/>\n    um granderumor de tr\u00f3picos ensanguentados cresce-me das v\u00edsceras, que protestam.<br \/>\n    Mas nacubata da tia Teresa, adocicada pelas folhas de liamba num vaso, as<br \/>\n    folhas que ossoldados trouxeram de Angola, em caixas de pensos, para vender<br \/>\n    aos jovens fr\u00e1geis doRossio, aos jovens parecidos com aves doentes do Rossio,<br \/>\n    coxeando em volta dosrepuxos num vagar t\u00edmido e perverso, na cubata da tia<br \/>\n    Teresa, quando a porta setrancava \u00e0 chave e os postigos se corriam para uma<br \/>\n    intimidade de sacr\u00e1rio, a guerra circulava de mangueira em mangueira, trazendo<br \/>\n    pela m\u00e3o os seus her\u00f3is mortos e o seufalso patriotismo de estuque e gesso,<br \/>\n    sem se atrever a entrar. Eu escutava, na palha docolch\u00e3o, os seus passos aflitos<br \/>\n    l\u00e1 fora, sabia-a que espreitava pelas frinchas o meu corpoestreito e cansado,<br \/>\n    calculava o seu furioso e mudo azedume de se sentir expulsa,desprezada pelo<br \/>\n    pavio de azeite, pelas imagens piedosas e pelos postais colados naparede,<br \/>\n    e sorria, de rosto na almofada, por me achar tranquilo, em paz e tranquilo<br \/>\n    numpa\u00eds que ardia.<\/p>\n<p>Escute. Vai come\u00e7ar a amanhecer, os despertadores do pr\u00e9dio em frenteempurrar\u00e3o,<br \/>\n    brutalmente, para fora do sono, as pessoas que dormem, extraindo-as do\u00fatero<br \/>\n    lunar dos len\u00e7\u00f3is na dire\u00e7\u00e3o de quotidianos sem alegria, de empregosmelanc\u00f3licos,<br \/>\n    dos riss\u00f3is de pl\u00e1stico das cantinas. O ladrar dos c\u00e3es nas quintasassemelha-se<br \/>\n    agora ao regougo dos encarregados nas f\u00e1bricas, aos berros dos policiais,que<br \/>\n    em 61, durante as greves universit\u00e1rias, protegidos por uma esp\u00e9cie de viseiras,<br \/>\n    nosperseguiam de cacetes e de gases. Dentro em breve o sol exibir\u00e1 duramente<br \/>\n    esta jangadade len\u00e7\u00f3is de n\u00e1ufragos, partilhando o \u00faltimo cigarro e o \u00faltimo<br \/>\n    u\u00edsque numafraternidade de mendigos, sabe, de roupa espalhada ao acaso na<br \/>\n    alcatifa, mendigos nus eindiferentes sob um arco de ponte, co\u00e7ando-se com<br \/>\n    as unhas sujas de dedos poeirentosdos p\u00e9s. De modo que, se faz favor, chegue-se<br \/>\n    para o meu lado da cama, fareje a minhacova do colch\u00e3o, passe a m\u00e3o no meu<br \/>\n    cabelo como se tivesse por mim a suave esequiosa viol\u00eancia de uma ternura<br \/>\n    verdadeira, expulse para o corredor o cheiropestilento, e odioso, e cruel<br \/>\n    da guerra, e invente uma di\u00e1fana paz de inf\u00e2ncia para osnossos corpos devastados.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"21\">V<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Conhece Malanje? Estava \u00e0 espera da manh\u00e3 para lhe falar de Malanje, da irrealidade<br \/>\n    decrep\u00fasculo polar que envolve os objetos e os rostos dessa esp\u00e9cie de halo<br \/>\n    transparentepousado nas copas dos pinhais da Beira, da manh\u00e3, do sil\u00eancio<br \/>\n    de mar suspenso, \u00e0escuta, a respirar de leve, da manh\u00e3, para lhe falar de<br \/>\n    Malanje. Malanje, sabe como \u00e9, \u00e9hoje o monte de destro\u00e7os e de ru\u00ednas em que<br \/>\n    a guerra civil a tornou, uma terrairreconhec\u00edvel pela est\u00fapida viol\u00eancia in\u00fatil<br \/>\n    das bombas, um campo raso de cad\u00e1veres,de costelas fumegantes de casas, e<br \/>\n    de morte. Talvez que nesse tempo, quando passei porela de regresso ao meu<br \/>\n    pa\u00eds, pudesse adivinhar os destro\u00e7os e as ru\u00ednas sob o perfilintacto dos pr\u00e9dios,<br \/>\n    as \u00e1rvores do jardim, o caf\u00e9 repleto de mulatos pretensiosos, cujosenormes<br \/>\n    carros de luxo apoiavam no passeio os narizes de esqualo dos far\u00f3is. Talvezque<br \/>\n    pudesse prever, sob a sa\u00fade aparente do sol, a sua morte pr\u00f3xima, tal como<br \/>\n    certosdoentes nos revelam, por tr\u00e1s do sorriso alegre ou dos olhos carregados<br \/>\n    de uma falsaesperan\u00e7a, o esgar, n\u00e3o de medo nem de nojo, mas de vergonha,<br \/>\n    da agonia. A vergonhade estar deitado, a vergonha de n\u00e3o ter for\u00e7as, a vergonha<br \/>\n    de desaparecer em breve, daagonia, a vergonha perante os outros, os que dos<br \/>\n    p\u00e9s da cama nos olham no horroraliviado dos sobreviventes, inventam palavras<br \/>\n    de um otimismo doloroso, conversam emvoz baixa com a enfermeira nos cantos<br \/>\n    do quarto, que a janela ilumina em diagonal deum dia ilus\u00f3rio. Malanje, percebe,<br \/>\n    \u00e9 hoje o monte de destro\u00e7os e de ru\u00ednas em que aguerra civil a tornou, uma<br \/>\n    cidade devastada, desaparecida, um templo de Diana deparedes escuras e de<br \/>\n    muros derrubados, mas em 73, no in\u00edcio de 73, era a terra dosdiamantes, dos<br \/>\n    que enriqueciam e engordavam \u00e0 custa do contrabando dos diamantes, \u00e0custa<br \/>\n    da camanga, do com\u00e9rcio furtivo das pedras: todas as pessoas traziam frasquinhosde<br \/>\n    reagentes na algibeira, os negros, a popula\u00e7\u00e3o branca, a pol\u00edcia, a PIDE,<br \/>\n    os administrativos, os professores, a tropa, e \u00e0 noite, na cintura suja das<br \/>\n    sanzalas,comprava-se o min\u00e9rio a quem chegava do rio ou da fronteira com uma<br \/>\n    cintila\u00e7\u00e3o devidro embrulhada em peda\u00e7os de pano, protegido pelas facas atentas<br \/>\n    dos c\u00famplices.Sanzalas e casas de putas sob os eucaliptos, colchas de chita,<br \/>\n    bonecas, mulheresenvelhecidas de dentes de prata, toca-discos entoando aos<br \/>\n    berros os merenguescard\u00edacos do Congo, e a felicidade por duzentos escudos<br \/>\n    numa s\u00fabita gargalhada depreta jovem, recebendo-nos dentro de si numa alegria<br \/>\n    de tro\u00e7a.<\/p>\n<p>Malanje era o oficial pequeno, calvo, enrugado, parado \u00e0 porta do liceu paraassistir<br \/>\n    \u00e0 sa\u00edda das meninas das aulas, molhando o papel dos cigarros de um desejoporco<br \/>\n    de velho, ou instalado a seguir ao jantar no passeio fronteiro \u00e0 varanda da<br \/>\n    messe,observando a vizinha imp\u00fabere, que levantava os pratos da mesa, com<br \/>\n    \u00f3rbitasprotuberantes, de animal empalhado. Vi-o no Chi\u00fame abrir a braguilha<br \/>\n    diante de umaprisioneira, obrig\u00e1-la a erguer uma das pernas colocando-a sobre<br \/>\n    o bid\u00ea, e penetr\u00e1-la, deboina na cabe\u00e7a, a soprar pelo nariz uma asma repelente<br \/>\n    de bode. Entrei no banheirodos sargentos, na pocilga eternamente inundada<br \/>\n    e nauseabunda a que se chamavabanheiro dos sargentos, vi o oficial abra\u00e7ado,<br \/>\n    numa esp\u00e9cie de desespero epil\u00e9tico, \u00e0prisioneira, criatura muda e t\u00edmida<br \/>\n    encostada aos azulejos, de pupilas ocas, e por cimada cabe\u00e7a deles, atrav\u00e9s<br \/>\n    da janela, a chana abria-se num majestoso leque de verdesmatizados, em que<br \/>\n    se adivinhava o brilho lento, ziquezagueante, quase met\u00e1lico do rio,e a grande<br \/>\n    paz de Angola no cacimbo, \u00e0s cinco da tarde, refratada por sucessivascamadas<br \/>\n    contradit\u00f3rias da neblina. As n\u00e1degas do homem formavam um movimento de\u00eambolo<br \/>\n    que se apressava, a camisa pegava-se \u00e0s costas em ilhas imprecisas de suor,<br \/>\n    oqueixo tremia como os dos reformados nos refeit\u00f3rios dos asilos, as pupilas<br \/>\n    ocas daprisioneira miravam-me numa fixidez insuport\u00e1vel, e apeteceu-me, entende,<br \/>\n    tirartamb\u00e9m a minha pica para fora e urinar sobre eles, urinar demoradamente<br \/>\n    sobre eles,como em pequeno mijava para os sapos do quintal, abrigados no meio<br \/>\n    de dois troncosnuma afli\u00e7\u00e3o de pedras que respiram.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o pod\u00edamos urinar sobre a guerra, sobre a vileza e a corrup\u00e7\u00e3o da guerra:era<br \/>\n    a guerra que urinava sobre n\u00f3s os seus estilha\u00e7os e os seus tiros, nos confinava<br \/>\n    \u00e0estreiteza da ang\u00fastia e nos tornava em tristes bichos rancorosos, violando<br \/>\n    mulherescontra o frio branco e luzidio dos azulejos, ou nos fazia masturbar<br \/>\n    \u00e0 noite, na cama, \u00e0espera do ataque, pesados de resigna\u00e7\u00e3o e de u\u00edsque, encolhidos<br \/>\n    nos len\u00e7\u00f3is, \u00e0 laia defetos espavoridos, a escutar os dedos gasosos do vento<br \/>\n    nos eucaliptos, id\u00eanticos afalanges muito leves ro\u00e7ando por um piano de folhas<br \/>\n    emudecidas. N\u00e3o temos \u00e1rvoresaqui: apenas o p\u00f3 dos edif\u00edcios que se erguem,<br \/>\n    em torno deste, segundo o mesmomodelo deprimentemente igual para banc\u00e1rios<br \/>\n    melanc\u00f3licos, as luzes do Areeiro l\u00e1 emcima, azuladas e vagas como \u00f3rbitas<br \/>\n    de c\u00e3es cegos, a Avenida Almirante Reis e as suaslojas fechadas sobre si pr\u00f3prias<br \/>\n    \u00e0 maneira dos punhos de uma crian\u00e7a que dorme: aspessoas acordam, afastam<br \/>\n    as cortinas da janela, espreitam para fora, observam as ruascinzentas, os<br \/>\n    autom\u00f3veis cinzentos, as silhuetas cinzentas que cinzentamente sedeslocam,<br \/>\n    sentem crescer dentro de si um desespero cinzento e deitam-se de novo,conformadas,<br \/>\n    resmungando palavras cinzentas no seu sono que se espessa.<\/p>\n<p>J\u00e1 reparou que moro numa Pompeia de pr\u00e9dios em constru\u00e7\u00e3o, de paredes, devigas,<br \/>\n    de escombros que crescem, de guindastes abandonados, de montes de areia, e<br \/>\n    dem\u00e1quinas de cimento redondas como est\u00f4magos ferrugentos? Daqui a algumas<br \/>\n    horas,oper\u00e1rios de capacete principiar\u00e3o a martelar estas ru\u00ednas empoleirados<br \/>\n    em esbo\u00e7os decaixilhos, os ma\u00e7aricos furar\u00e3o o bet\u00e3o numa raiva teimosa, os<br \/>\n    canalizadores abrir\u00e3oarbustos de art\u00e9rias na carne enteiri\u00e7ada das casas.<br \/>\n    Vivo num mundo morto, semcheiros, de poeira e de pedra, onde o enfermeiro<br \/>\n    da policl\u00ednica do primeiro andarpasseia, de bata, a barba surpreendida de<br \/>\n    fauno, buscando ao seu redor, em v\u00e3o, relvas fofas de margem. Vivo num mundo<br \/>\n    de poeira, de pedra e de lixo, principalmente delixo, lixo das obras, lixo<br \/>\n    das barracas clandestinas, lixo de pap\u00e9is que virevolteiam e seperseguem,<br \/>\n    ao longo dos tapumes, sarjetas fora, soprados por um h\u00e1lito que n\u00e3o h\u00e1, lixode<br \/>\n    ciganos vestidos de preto, instalados nos desn\u00edveis da terra, numa espera<br \/>\n    imemorialde ap\u00f3stolos sabidos.<\/p>\n<p>Queria falar-lhe de Malanje, agora que me portei mais ou menos, n\u00e3o \u00e9verdade?,<br \/>\n    voc\u00ea gemeu mesmo, uma ou duas vezes, latidos de cadelinha contente,agitou-se<br \/>\n    numa esp\u00e9cie de espasmo de coreia ou de desmaio, o seu rosto, de olhosfechados<br \/>\n    e de boca aberta, assemelhou-se por instantes ao das velhas que comungavamnas<br \/>\n    igrejas da minha inf\u00e2ncia, velhas de dentadura solta, arfando, de l\u00edngua de<br \/>\n    fora, peloc\u00edrculo branco da h\u00f3stia. Eu, menino de coro, acompanhava o padre<br \/>\n    e contemplava,fascinado, o inacredit\u00e1vel comprimento das l\u00ednguas das velhas<br \/>\n    que se empurravam eacotovelavam, armadas de guarda-chuvas de cabo de osso<br \/>\n    e de grandes ter\u00e7ossemelhantes a colares de atrizes, defronte do prior, de<br \/>\n    ta\u00e7a na m\u00e3o, resmungando arrotosm\u00edsticos pela ponta dos bei\u00e7os. Queria falar-lhe<br \/>\n    de Malanje, da cidade cercada de casasde putas e de eucaliptos, p\u00e1tria da<br \/>\n    camanga repleta de aventureiros palavrosos ouesquivos, tipos de pupilas cautelosas,<br \/>\n    obl\u00edquas, instalados de leve nas esplanadas doscaf\u00e9s. Queria falar-lhe da<br \/>\n    miraculosa claridade de Malanje, da luz que se diria nascer doch\u00e3o num j\u00fabilo<br \/>\n    impetuoso, e violento, do bunker da PIDE e do quartel pretensiosoembaixo,<br \/>\n    quartel de prov\u00edncia, percebe, a cheirar a desinteresse e a sargento.<\/p>\n<p>De Malanje a Luanda, quatrocentos quil\u00f4metros de estrada atravessavam osmorros<br \/>\n    fant\u00e1sticos de Salazar, aldeias \u00e0 beira do alcatr\u00e3o como verrugas no contorno<br \/>\n    deum bei\u00e7o, o fluir majestoso do Dondo em que se adivinha a presen\u00e7a do mar,<br \/>\n    na demoradas suas ancas lentas de mulher de Pavia, e nos p\u00e1ssaros brancos<br \/>\n    e pernaltas da ba\u00eda deLuanda, a ro\u00e7arem a \u00e1gua com os corpos de esferovite<br \/>\n    fusiforme. Mas o importante, emMalanje, eram os minutos que precedem a aurora,<br \/>\n    os minutos irreais, pungentes,absurdos que precedem a aurora, incolores e<br \/>\n    distorcidos como os rostos da ins\u00f4nia oudo medo, a perspectiva deserta das<br \/>\n    ruas, o sil\u00eancio transido das \u00e1rvores e os seus bra\u00e7osque parecem retrair-se,<br \/>\n    hesitantes, magoados por um p\u00e2nico sem raz\u00e3o. Antes damadrugada, sabe como<br \/>\n    \u00e9, todas as cidades se inquietam, se enrugam de desconfortocomo as p\u00e1lpebras<br \/>\n    de um homem que n\u00e3o dormiu, espiam a claridade, o nascer indecisoda luz, se<br \/>\n    arrepiam como pombos doentes num telhado, a estremecerem as penasnoturnas<br \/>\n    no receio fr\u00e1gil e oco dos ossos. O primeiro sol, p\u00e1lido, cor de laranja,<br \/>\n    comoque pintado a l\u00e1pis no c\u00e9u de prata desbotada, encontra, ao surgir devagar<br \/>\n    da confus\u00e3ogeom\u00e9trica das casas, pra\u00e7as pregueadas, avenidas encolhidas, travessas<br \/>\n    sem espa\u00e7o,sombras desprovidas de mist\u00e9rio refugiadas no interior das salas,<br \/>\n    entre o brilho doscopos e os sorrisos dos mortos nas molduras, de bigodes<br \/>\n    encurvados como assobrancelhas sarc\u00e1sticas dos professores de Matem\u00e1tica,<br \/>\n    depois do enunciado de umproblema de torneiras dif\u00edcil. Todas as cidades se<br \/>\n    inquietam, mas Malanje, percebe,dobrava-se a estremecer sobre si pr\u00f3pria como<br \/>\n    eu me debru\u00e7o, na cama, para si,temeroso do dia que me aguarda, com o seu<br \/>\n    peso insuport\u00e1vel de pedra no meu peito, ea cinza que se me acumula nas m\u00e3os<br \/>\n    e deixo nos restaurantes ao lav\u00e1-las, antes doeterno bife sem gosto do almo\u00e7o.<br \/>\n    Queria pedir-lhe que n\u00e3o sa\u00edsse daqui, meacompanhasse, ficasse comigo deitada<br \/>\n    aguardando n\u00e3o s\u00f3 a manh\u00e3 mas a pr\u00f3xima noite,e a outra noite, e a noite seguinte,<br \/>\n    porque o isolamento e a solid\u00e3o se me enrolam nastripas, no est\u00f4mago, nos<br \/>\n    bra\u00e7os, na garganta, me impedem de me mover e de falar, metornam num vegetal<br \/>\n    agoniado incapaz de um grito ou de um gesto, \u00e0 espera do sono quen\u00e3o chega.<br \/>\n    Fique comigo at\u00e9 que eu, finalmente, adorme\u00e7a, me afaste de si numa dessasinexplic\u00e1veis<br \/>\n    repta\u00e7\u00f5es frouxas com que os afogados oscilam nas vazantes, me estendade bru\u00e7os,<br \/>\n    de boca na almofada, babando na barriga da fronha palavras indistintas, me<br \/>\n    afunde no po\u00e7o pantanoso de uma esp\u00e9cie de morte, a ressonar o meu grosso<br \/>\n    coma depastilhas e de \u00e1lcool. Fique comigo agora que a manh\u00e3 de Malanje incha<br \/>\n    dentro de mim,vibra dentro de mim, invertida, agita\u00e7\u00f5es deformadas de reflexo,<br \/>\n    e estou sozinho noasfalto da cidade, perto dos caf\u00e9s e do jardim, possu\u00eddo<br \/>\n    de um ins\u00f3lito desejo semobjeto, indefinido e veemente, a pensar em Lisboa,<br \/>\n    na Gija ou no mar, a pensar nascasas de putas sob os eucaliptos e nas suas<br \/>\n    camas repletas de bonecas e naperons. Omedo de voltar ao meu pa\u00eds comprime-me<br \/>\n    o es\u00f4fago, porque, entende, deixei de terlugar fosse onde fosse, estive longe<br \/>\n    demais, tempo demais para tornar a pertencer aqui,a estes outonos de chuvas<br \/>\n    e de missas, estes demorados invernos despolidos comol\u00e2mpadas fundidas, estes<br \/>\n    rostos que reconhe\u00e7o mal sob as rugas desenhadas, que umcaracterizador ir\u00f4nico<br \/>\n    inventou. Flutuo entre dois continentes que me repelem, nu dera\u00edzes, em busca<br \/>\n    de um espa\u00e7o branco onde ancorar, e que pode ser, por exemplo, acordilheira<br \/>\n    estendida do seu corpo, um rec\u00f4ncavo, uma cova qualquer do seu corpo,para<br \/>\n    deitar, sabe como \u00e9, a minha esperan\u00e7a envergonhada.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"22\">X<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>N\u00e3o, palavra, ou\u00e7a: agora que nos vamos separar, depois de combinarmos um<br \/>\n    vagoencontro num vago restaurante de que nenhum de n\u00f3s amanh\u00e3 se lembrar\u00e1,<br \/>\n    que nos n\u00e3ovoltaremos a ver sen\u00e3o no acaso fugitivo de um bar ou de um cinema,<br \/>\n    com tempoapenas para um breve aceno e um sorriso, um desses sorrisos instant\u00e2neos,<br \/>\n    sem afeto,que se abrem e se fecham, num brilho circular de dentes, \u00e0 maneira<br \/>\n    dos diafragmas dasm\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas, agora que voc\u00ea se vai vestir nos<br \/>\n    gestos neutros e apressados dasmulheres a seguir \u00e0 mesa do ginecologista,<br \/>\n    apertando bot\u00f5es como quem se agrafa,posso confessar-lhe, de cotovelo apoiado<br \/>\n    no colch\u00e3o, junto ao cinzeiro a transbordar decinza e de pontas de cigarro,<br \/>\n    de que sobe o odor repugnante de tabaco frio das coisasacabadas, que gosto<br \/>\n    de si. A s\u00e9rio. Gosto da ironia atenta do seu sil\u00eancio, da gargalhadaque paira,<br \/>\n    de quando em quando, sobre as fei\u00e7\u00f5es em sossego, \u00e0 laia de uma nuvemindecisa,<br \/>\n    gosto das suas pulseiras ex\u00f3ticas, do luzir avaliador dos seus olhos, da raizel\u00e1stica<br \/>\n    das coxas que se fecham acima do meu corpo tal como a \u00e1gua cobre, num \u00fanicomovimento<br \/>\n    sem rumor, o \u00faltimo aceno, j\u00e1 de alga, com que os afogados se dissolvemnuma<br \/>\n    espumazinha sem peso. Gosto da noite \u00e0 sua beira, lenta e pesada como uma<br \/>\n    nucaadormecida, imaginar que voc\u00ea voltaria logo, com uma mala de roupa, a<br \/>\n    fitar-me docapacho da entrada com as \u00f3rbitas ao mesmo tempo agudas e turvas<br \/>\n    da paix\u00e3o, eficar\u00edamos juntos nesta triste casa sem m\u00f3veis, abra\u00e7ados, a observar<br \/>\n    o rio, onde asluzes se coalham em reflexos coloridos que pulsam, id\u00eanticas<br \/>\n    a veias sob um dedo desombra. Invent\u00e1vamos ementas esquisitas na cozinha,<br \/>\n    mistur\u00e1vamos frascos, temperos ebeijos nos tachos ao lume, inund\u00e1vamos as<br \/>\n    salas de pregui\u00e7osos odores orientais, derevistas fr\u00edvolas e de desenhos de<br \/>\n    crian\u00e7as, cont\u00e1vamos os cabelos brancos um do outrono inocente j\u00fabilo da velhice<br \/>\n    esconjurada, voc\u00ea tirava-me os pontos pretos com asunhas, eu passava a minha<br \/>\n    l\u00edngua entre os dedos excitados dos seus p\u00e9s, eadormecer\u00edamos na alcatifa,<br \/>\n    indiferentes \u00e0 cama, \u00e0s exig\u00eancias do emprego, \u00e0 tirania derob\u00f4 do despertador,<br \/>\n    se n\u00e3o felizes, percebe, pelo menos, como dizer?, alegrementesaciados.<\/p>\n<p>Desculpe falar-lhe assim mas acho-me t\u00e3o farto de me sentir sozinho, t\u00e3o<br \/>\n    fartoda tr\u00e1gica farsa rid\u00edcula da minha vida, do bife raspado do snack e da<br \/>\n    diarista que merouba nas horas e no p\u00f3 da m\u00e1quina, que \u00e0s vezes, sabe como<br \/>\n    \u00e9, me v\u00eam ganas deafastar de mim a aflita desordem de que enojadamente me<br \/>\n    alimento, como certos bichos do lixo em que moram, e assobiar para o espelho<br \/>\n    um contentamento sem mancha.Apetece-me vomitar no sanit\u00e1rio o desconforto<br \/>\n    da morte di\u00e1ria que carrego comigocomo uma pedra de \u00e1cido no est\u00f4mago, se<br \/>\n    me ramifica nas veias e me desliza nosmembros num fluir oleado de terror,<br \/>\n    tornar, penteado e saud\u00e1vel, \u00e0 linha de partida ondeum c\u00edrculo de rostos compassivos<br \/>\n    e af\u00e1veis me espera, a fam\u00edlia, os irm\u00e3os, os amigos,as filhas, os desconhecidos<br \/>\n    que aguardam de mim o que, por timidez ou vaidade, lhesn\u00e3o soube dar, e oferecer-lhes<br \/>\n    a lucidez sem ressentimento e o calor desprovido decinismo de que at\u00e9 agora<br \/>\n    nunca fui capaz. Apetece-me expulsar estes defuntos hirtosinstalados nas minhas<br \/>\n    cadeiras numa expectativa p\u00e1lida e tenaz, a minha m\u00e3e a passarindiferente<br \/>\n    por mim a pensar noutra coisa, o meu pai a erguer da poltrona pupilas queme<br \/>\n    atravessam sem me ver, os manos embrulhados nos seus esquisitos novelosinteriores<br \/>\n    sem poss\u00edvel desmancho, expulsar os pianos verticais cobertos por panos dedamasco<br \/>\n    cujos Chopins me enredam em melancolias de narciso, apetece-me a Isabel, arealidade<br \/>\n    de Isabel, a realidade independente de mim da Isabel, os dentes da Isabel,<br \/>\n    oriso da Isabel, os seios da Isabel em forma de focinho de gazela debaixo<br \/>\n    da camisa dehomem, as suas m\u00e3os nas minhas n\u00e1degas durante o amor, e as p\u00e1lpebras<br \/>\n    que tremiam evibravam como espetadas por um alfinete cruel numa folha de alma\u00e7o.<\/p>\n<p>Pode apagar a luz: j\u00e1 n\u00e3o preciso dela. Quando penso na Isabel cesso de terreceio<br \/>\n    do escuro, uma claridade ambarina reveste os objetos da serenidade c\u00famplice<br \/>\n    dasmanh\u00e3s de julho, que se me afiguraram sempre disporem diante de mim, com<br \/>\n    o seu solintantil, os materiais necess\u00e1rios para construir algo de inefavelmente<br \/>\n    agrad\u00e1vel que eun\u00e3o lograria jamais elucidar. A Isabel que substitu\u00eda aos<br \/>\n    meus sonhos paralisados o seupragmatismo docemente implac\u00e1vel, consertavas<br \/>\n    as fissuras da minha exist\u00eancia com or\u00e1pido arame de duas ou tr\u00eas decis\u00f5es<br \/>\n    de que a simplicidade me assombrava, e depois,de s\u00fabito menina, se deitava<br \/>\n    sobre mim, me segurava a cara com as m\u00e3os, e me pediaDeixa-me beijar-te, numa<br \/>\n    vozinha min\u00fascula cuja s\u00faplica me transtornava. Acho que aperdi como perco<br \/>\n    tudo, que a sacudi de mim com o meu humor vari\u00e1vel, as minhasc\u00f3leras inesperadas,<br \/>\n    as minhas exig\u00eancias absurdas, esta angustiada sede de ternura querepele o<br \/>\n    afeto, e permanece a latejar, dorida, no mudo apelo cheio de espinhos de umahostilidade<br \/>\n    sem raz\u00e3o. E lembro-me, comovido e suspenso, da casa do Algarve rodeadade<br \/>\n    ralos e figueiras, do c\u00e9u morno da noite tingido pelo halo long\u00ednquo do mar,<br \/>\n    da caldas paredes quase fosforescente no escuro, e da violenta e informulada<br \/>\n    paix\u00e3o dasminhas car\u00edcias que pareciam deter-se, irresolutas, a cent\u00edmetros<br \/>\n    do rosto dela, e sedissolviam por fim num afago indefinido. Penso na Isabel,<br \/>\n    e uma esp\u00e9cie de mar\u00e9, tensade amor, indomada e vigorosa, sobe-me das pernas<br \/>\n    para o sexo, endurece-me ostest\u00edculos em crispa\u00e7\u00f5es de desejo, alarga-se-me<br \/>\n    no ventre como se abrisse grandes asascalmas nas minhas v\u00edsceras em batalha.<br \/>\n    Percorremos de novo os antiqu\u00e1rios poeirentosde Sintra \u00e0 procura de m\u00f3veis<br \/>\n    de talha, entramos no aqu\u00e1rio azul da boate onde pelaprimeira vez toquei,<br \/>\n    maravilhado, a sua boca, inventamos um fant\u00e1stico futuro de filhosmorenos<br \/>\n    numa profus\u00e3o de ber\u00e7os, e sinto-me feliz, justificado e feliz, ao abra\u00e7ar<br \/>\n    o seucorpo na vazante dos len\u00e7\u00f3is, de que as pregas formam como que ondas<br \/>\n    a caminho dapraia branca da almofada, onde as nossas cabe\u00e7as, a tua escura,<br \/>\n    a minha, clara, sejuntam numa fus\u00e3o que cont\u00e9m em si os germens estranhos<br \/>\n    de um milagre.<\/p>\n<p>Pode apagar a luz: talvez n\u00e3o fique t\u00e3o sozinho como isso neste quarto enorme,talvez<br \/>\n    que a Isabel ou voc\u00ea voltem um dia destes a visitar-me, eu ou\u00e7a a voz ao telefone,a<br \/>\n    voz miudamente precisa pelos furos de baquelite do telefone, o ol\u00e1 dela e<br \/>\n    o seu ol\u00e1 aentrarem-me na orelha na oleosidade agrad\u00e1vel e morna dos pingos<br \/>\n    de tirar a cera daminha inf\u00e2ncia, a v\u00e1 buscar no emprego, esperando dentro<br \/>\n    do carro numa impaci\u00eanciade cigarros, a corrigir o n\u00f3 da gravata, em bicos<br \/>\n    de n\u00e1degas, no espelho, ela ou voc\u00ea seinstale no meu lado no autom\u00f3vel \u00e0s<br \/>\n    escuras, me sorria, se debruce para colocar o cassete da Maria Beth\u00e2nia no<br \/>\n    gravador, e me passe ao redor da nuca os firmes cotovelosda ternura. Deixa-me<br \/>\n    beijar-te. Deixe-me beij\u00e1-la enquanto se veste, enquanto aperta osoutien nas<br \/>\n    costas em gestos cegos e canhotos que lhe tornam as omoplatas salientescomo<br \/>\n    as asas de um frango, enquanto procura os an\u00e9is de prata na mesinha de cabeceiracom<br \/>\n    uma ruga de aten\u00e7\u00e3o infantil, vertical, na testa, enquanto luta com a escova<br \/>\n    contra aresist\u00eancia ondulada do cabelo, o cabelo excessivo que a minha calv\u00edcie<br \/>\n    inveja, numci\u00fame feroz a que n\u00e3o consigo fugir. Todas as manh\u00e3s penso quando<br \/>\n    come\u00e7arei a fazera risca na orelha, puxando trabalhosamente uma madeixa esfiada<br \/>\n    pelo cocuruto nu, eprincipio a ler sem ironia os an\u00fancios de posti\u00e7os do jornal,<br \/>\n    acompanhados pelasfotografias de hirsutos carecas satisfeitos, sorrindo risos<br \/>\n    peludos de gorilas. Afasto-medos retratos do ano passado como um barco do<br \/>\n    cais, e parece-me \u00e0s vezes assemelharmea uma esquisita caricatura de mim pr\u00f3prio,<br \/>\n    que as rugas deformam de um arremedode trejeitos. Deixa-me beijar-te: que<br \/>\n    criatura vai querer beijar a par\u00f3dia triste do que fui,o est\u00f4mago que cresce,<br \/>\n    as pernas que se afilam, o saco vazio dos test\u00edculos cobertos delongas crinas<br \/>\n    cor de couro? Refletindo melhor, n\u00e3o apague a luz: quem sabe se estamanh\u00e3<br \/>\n    oculta dentro de si uma noite mais opaca do que todas as noites que at\u00e9 agoraatravessei,<br \/>\n    a que vive no fundo das garrafas de u\u00edsque, das camas desfeitas e dos objetosde<br \/>\n    aus\u00eancia, uma noite com um cubo de gelo \u00e0 superf\u00edcie, tr\u00eas dedos de l\u00edquido<br \/>\n    amarelopor baixo, e um sil\u00eancio insuport\u00e1vel no interior vazio, uma noite<br \/>\n    em que me perco, atrope\u00e7ar de parede a parede, tonto de \u00e1lcool, falando comigo<br \/>\n    o discurso da solid\u00e3ograndiosa dos b\u00eabados, para quem o mundo \u00e9 um reflexo<br \/>\n    de gigantes contra os quais,inutilmente, se encrespam.<\/p>\n<p>N\u00e3o apague a luz: quando voc\u00ea sair a casa aumentar\u00e1 inevitavelmente detamanho,<br \/>\n    transformando-se numa esp\u00e9cie de piscina sem \u00e1gua em que os sons seampliam<br \/>\n    e ecoam, agressivos, retesos, enormes, batendo-me violentamente contra ocorpo<br \/>\n    como se as mar\u00e9s do equin\u00f3cio na muralha da praia, rolando sobre mim espumasfoscas<br \/>\n    de s\u00edlabas. De novo escutarei a fermenta\u00e7\u00e3o da geladeira, a ronronar o seu<br \/>\n    sonode mamute, os pingos que se escapam do rebordo das torneiras como as l\u00e1grimas<br \/>\n    dosvelhos, pesadas de conjuntivite ferrugenta. Hesitarei na camisa, na gravata,<br \/>\n    no terno, eacabarei por bater a porta da rua como se abandonasse atr\u00e1s de<br \/>\n    mim um jazigo intactoonde a morte floresce nas jarras de vidro facetado e<br \/>\n    nos caules podres dos cris\u00e2ntemos.Bater a porta da rua, percebe, como bati<br \/>\n    a porta de \u00c1frica de regresso a Lisboa, a portarepugnante da guerra, as putas<br \/>\n    de Luanda e os fazendeiros do caf\u00e9 em torno dos baldesde champanhe, reluzentes<br \/>\n    como as caixas forradas de lantejoulas dos ilusionistas,fumando cigarros americanos<br \/>\n    de contrabando na penumbra de um tango. A porta de\u00c1frica, Isabel: um m\u00e9dico<br \/>\n    homossexual, cujas pestanas se enrolam em n\u00f3s como ostent\u00e1culos de um polvo,<br \/>\n    acolitado por um cabo trocista, de patilhas, ao qual se deve unirde pens\u00e3o<br \/>\n    em pens\u00e3o num suspirozinho exausto de ventosa, examina-nos o mijo, amerda,<br \/>\n    o sangue, para que n\u00e3o infectemos o Pa\u00eds do nosso p\u00e2nico da morte, dalembran\u00e7a<br \/>\n    do rapaz louro coberto por um pano no meu quarto, dos eucaliptos de Nindae<br \/>\n    do enfermeiro sentado na picada de intestinos nas m\u00e3os, a olhar para n\u00f3s num<br \/>\n    espantotriste de bicho. Trazemos o sangue limpo, Isabel: as an\u00e1lises n\u00e3o acusam<br \/>\n    os negros aabrirem a cova para o tiro da PIDE, nem o homem enforcado pelo<br \/>\n    inspetor na Chiquita,nem a perna do Ferreira no balde dos pensos, nem os ossos<br \/>\n    do tipo de Mangando notelhado de zinco. Trazemos o sangue t\u00e3o limpo como o<br \/>\n    dos generais nos gabinetes comar condicionado de Luanda, deslocando pontos<br \/>\n    coloridos no mapa de Angola, t\u00e3o limpocomo o dos cavalheiros que enriqueciam<br \/>\n    traficando helic\u00f3pteros e armas em Lisboa, aguerra \u00e9 nos cus de Judas, entende,<br \/>\n    e n\u00e3o nesta cidade colonial que desesperadamenteodeio, a guerra s\u00e3o pontos<br \/>\n    coloridos no mapa de Angola e as popula\u00e7\u00f5es humilhadas, transidas de fome<br \/>\n    no arame, os cubos de gelo pelo rabo acima, a inaudita profundidadedos calend\u00e1rios<br \/>\n    im\u00f3veis.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, sabe como \u00e9, acordo a meio da noite, sentado nos len\u00e7\u00f3is, inteiramentedesperto,<br \/>\n    e parece-me ouvir, vindo do banheiro, ou do corredor, ou da sala, ou dobeliche<br \/>\n    das mi\u00fadas, o apelo p\u00e1lido dos defuntos nos caix\u00f5es de chumbo, como amedalha<br \/>\n    identificativa que trazemos ao pesco\u00e7o pousada na l\u00edngua \u00e0 maneira de umah\u00f3stia<br \/>\n    de metal. Parece-me ouvir o rumor das folhas das mangueiras de Marimba e o<br \/>\n    seuimenso perfil contra o c\u00e9u enevoado do cacimbo, parece-me ouvir o riso<br \/>\n    s\u00fabito eorgulhosamente livre dos Luchazes, que estala junto de mim como o<br \/>\n    trompete de DizzieGillespie, esguichando do sil\u00eancio num \u00edmpeto de art\u00e9ria<br \/>\n    que se rasga. Acordo no meioda noite, e saber que tenho o mijo, a merda e<br \/>\n    o sangue limpos, n\u00e3o me tranquiliza nemme alegra: estou sentado com o tenente<br \/>\n    na miss\u00e3o abandonada, o tempo parou em todosos rel\u00f3gios, no do seu pulso,<br \/>\n    no despertador, na telefonia, no que a Isabel deve usaragora e n\u00e3o conhe\u00e7o,<br \/>\n    no que existe, desconexo e palpitante, na cabe\u00e7a dos mortos, op\u00f3len das ac\u00e1cias<br \/>\n    envolve-nos de leve de um ouro sem peso e sem ru\u00eddo, a tarde arrastaseno capim<br \/>\n    numa moleza animal, levanto-me para urinar contra o que resta de um muroe<br \/>\n    tenho o mijo limpo, percebe, o mijo irrepreensivelmente limpo, posso regressar<br \/>\n    aLisboa sem alarmar ningu\u00e9m, sem pegar os meus mortos a ningu\u00e9m, a lembran\u00e7a<br \/>\n    dosmeus camaradas mortos a ningu\u00e9m, voltar para Lisboa, entrar nos restaurantes,<br \/>\n    nosbares, nos cinemas, nos hot\u00e9is, nos supermercados, nos hospitais, e toda<br \/>\n    a genteverificar que trago a merda limpa no cu limpo, porque se n\u00e3o podem<br \/>\n    abrir os ossos docr\u00e2nio e ver o furriel a raspar as botas com um peda\u00e7o de<br \/>\n    pau e a repetir Caralho caralhocaralho caralho caralho, acocorado nos degraus<br \/>\n    da administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim tive o cuidado de me despedir da ba\u00eda, concha de \u00e1gua p\u00fatrida,onde<br \/>\n    os edif\u00edcios, invertidos, vibravam. As traineiras sa\u00edam o cais para a pesca<br \/>\n    no ru\u00eddoamortecido e irregular dos motores, assustando os grandes p\u00e1ssaros<br \/>\n    brancos quepasseavam no lodo em pernadas propriet\u00e1rias de gerentes, e arrepiando<br \/>\n    os repuxos decabelos pendentes das palmeiras, que lan\u00e7avam as sombras estreitas<br \/>\n    nos bancosdesertos. No caf\u00e9 das arcadas, garotos negros impingiam os pensos<br \/>\n    r\u00e1pidos dos seusmanipan\u00e7os horrorosos. Os engraxates arrastavam-se por entre<br \/>\n    as mesas, debru\u00e7adospara sapatos cintilantes. O m\u00e9dico homossexual, na cadeira<br \/>\n    ao lado da minha, acendeulanguidamente um cigarro de filtro dourado, e apagou<br \/>\n    o f\u00f3sforo com o bico em copa,delicado, dos bei\u00e7os. Usava um perfume denso<br \/>\n    de prima solteira, que incensava o ar delargas baforadas de a\u00e7\u00facar gasoso.<br \/>\n    T\u00ednhamo-nos conhecido em Londres, no outonogrisalho de Saint James Park, partilh\u00e1ramos<br \/>\n    o mesmo quarto alugado, e eu assistiadiariamente ao ritual complicado da sua<br \/>\n    toalete, cercado de cremes, de escovas, depin\u00e7as depilat\u00f3rias e de caixinhas<br \/>\n    de tartaruga de produtos de beleza, que ele manejavanuma destra paci\u00eancia<br \/>\n    de Ver Meer, compondo um rosto maquilado que se diriaevadido, \u00e0 socapa, de<br \/>\n    um filme de vampiros. A sua roupa interior assemelhava-se aosternos dos trapezistas<br \/>\n    de circo, onde o lil\u00e1s dos projetores se demora numa admira\u00e7\u00e3oextasiada. De<br \/>\n    certo modo estim\u00e1vamo-nos um ao outro porque as nossas solid\u00f5es, a deleautocomplacente,<br \/>\n    a minha raivosa, se tocavam e conflu\u00edam num qualquer ponto comum,porventura<br \/>\n    o da inconforma\u00e7\u00e3o resignada. Era de tal maneira feminino que a farda oaparentava<br \/>\n    a uma mulher-pol\u00edcia. Levou o cigarro \u00e1 boca num gesto cauteloso de ch\u00e1vena<br \/>\n    de ch\u00e1 demasiado quentem e ro\u00e7ou por mim, de leve, os grandes olhos meigosde<br \/>\n    uma inoc\u00eancia sabida:<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 que te vais aguentar em Lisboa depois dos cus de Judas?<\/p>\n<p>Os candeeiros da Marginal acenderam-se \u00e0 uma, num repente, e milhares deinsetos<br \/>\n    principiaram de imediato a agitar-se nos cones azulados das l\u00e2mpadas, fren\u00e9ticos<br \/>\n    como as bolhas de luz das frontarias dos cinemas. Um ru\u00eddo inlocaliz\u00e1vel de<br \/>\n    talheresanunciava a hora do jantar.<\/p>\n<p>&#8211; Nas calmas &#8211; respondi-lhe, afastando com a m\u00e3o os cad\u00e1veres estilha\u00e7ados<br \/>\n    napicada. &#8211; Tu pr\u00f3prio certificaste que tenho o sangue limpo.<\/p>\n<h4><strong><a name=\"23\">Z<\/a><\/strong><\/h4>\n<p>Espere a\u00ed, vou acompanh\u00e1-la \u00e0 porta. Desculpe o tempo que demoro a levantar-me,<br \/>\n    e,em vez de m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o, pe\u00e7o-lhe que veja nisso apenas o lament\u00e1vel resultado<br \/>\n    doexcesso de u\u00edsque, da noite sem sono, e da emo\u00e7\u00e3o do meu longo relato que<br \/>\n    est\u00e1chegando ao fim. Ali\u00e1s, amanheceu: ouvem-se distintamente as camionetas<br \/>\n    das obras narua, uma v\u00e1lvula de descarga qualquer, no andar de cima, anuncia<br \/>\n    o despertar dosvizinhos. Tudo \u00e9 real agora: os m\u00f3veis, as paredes, o nosso<br \/>\n    cansa\u00e7o, a cidade demasiadocheia de monumentos e de gente como uma c\u00f4moda<br \/>\n    com muitos bibel\u00f4s no tampo, queamorosamente odeio. Tudo \u00e9 real: passo a m\u00e3o<br \/>\n    pela cara e a lixa da barba por fazerarrepela-me a pele, a bexiga repleta<br \/>\n    incha-me na barriga o seu l\u00edquido morno, pesadacomo um feto redondo que geme.<br \/>\n    Um feixe obl\u00edquo de luz aclara anemicamente umlosango de papel de parede,<br \/>\n    junto ao roupeiro, e desce pouco a pouco a caminho daalcatifa, da placa cinzenta<br \/>\n    do calor\u00edfico, das pernas harmoniosamente arqueadas dacadeira de balan\u00e7o,<br \/>\n    onde a minha roupa jaz na desordem esquecida dos trapos. S\u00e3o reaisas n\u00f3doas<br \/>\n    amarelas do estuque do teto, de que agora facilmente me apercebo, os sorrisosdas<br \/>\n    minhas filhas nas molduras, o telefone que se diria estar constantemente aencrespar-se,<br \/>\n    prestes aos berros de f\u00faria aguda da campainha. \u00c9 real a sua impaci\u00eancia,a<br \/>\n    carteira pendurada do ombro, os tornozelos bem feitos, nos quais n\u00e3o tinha<br \/>\n    aindareparado em pormenor, a estremecerem de pressa nos sapatos. Hoje n\u00e3o<br \/>\n    vai chover:sinto-o nos ossos tranquilos, em paz, apenas mo\u00eddos por tantas<br \/>\n    horas sem repouso, nosossos secos, duros, leves, porosos como pedras-pomes,<br \/>\n    que me pedem, no interior docorpo, que flutue de alcatifa em alcatifa numa<br \/>\n    gra\u00e7a tr\u00f4pega de anjo, ro\u00e7ando as unhasdos p\u00e9s pelas sombras de t\u00fanel do corredor.<br \/>\n    N\u00e3o vai chover: o c\u00e9u cor-de-rosa, vaziocomo o bojo de uma boca sem dentes,<br \/>\n    adensa-se j\u00e1 de calor na linha quebrada em que ostelhados o tocam, adquirindo<br \/>\n    um tom vermelho e esverdeado que incendeia os terra\u00e7os,as varandas, o rebordo<br \/>\n    exageradamente n\u00edtido dos edif\u00edcios ao longe. \u00c0s duas da tardeas \u00e1rvores suar\u00e3o<br \/>\n    l\u00e1grimas de resina pelos troncos calcinados, o bronze das est\u00e1tuas daspra\u00e7as<br \/>\n    dobrar-se-\u00e1 como o ferro que arde, numa obedi\u00eancia mole de gesto sem for\u00e7a.Voc\u00ea<br \/>\n    vai chegar a casa, tomar um banho r\u00e1pido, procurar um vestido no mostru\u00e1rio<br \/>\n    demangas penduradas de lado no arm\u00e1rio, e, antes de sair para o emprego, disfar\u00e7ar<br \/>\n    asolheiras com os \u00f3culos escuros enormes que a aparentam, sabe como \u00e9, a um<br \/>\n    insetoaltivo. O que existe por detr\u00e1s dos \u00f3culos escuros das mulheres com<br \/>\n    quem me cruzo nasruas de Lisboa intriga-me e fascina-me: a opacidade dos rostos<br \/>\n    sem express\u00e3o acordaem mim o desejo de as despir, num movimento delicado,<br \/>\n    dos seus peda\u00e7os de vidrocastanho ou verde, a fim de me confrontar com o p\u00e2nico,<br \/>\n    a ternura, a indiferen\u00e7a, osarcasmo, algo, em suma, que me garanta uma humanidade<br \/>\n    semelhante \u00e0 minha, emlugar da condi\u00e7\u00e3o marciana que se me afigura a sua.<br \/>\n    E os andares iluminados, na alturado jantar, pela claridade docemente dom\u00e9stica<br \/>\n    dos abajures e pela fosforesc\u00eanciaretangular das televis\u00f5es acesas, fazem-me<br \/>\n    sentir irremediavelmente de fora de milharesde pequenos universos confort\u00e1veis,<br \/>\n    em que me seria grato incluir, num canto do sof\u00e1,diante de uma reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n    de Mir\u00f3, a minha solid\u00e3o envergonhada de c\u00e3o t\u00edmido, aarquear constantemente<br \/>\n    o dorso de falsas zangas submissas. As lojas de m\u00f3veis, nas quais se reproduzem<br \/>\n    intimidades estereotipadas com um poster barato por cima,representando uma<br \/>\n    menina e um gatinho ternamente enla\u00e7ados, encantam-me: afelicidade dos desdobr\u00e1veis<br \/>\n    a ectacrome constitui, n\u00e3o diga a ningu\u00e9m, o meu alvo navida, e projeto sempre<br \/>\n    substituit as complicadas escrivaninhas da alma por prateleirasquinane e almofadas<br \/>\n    em quadrados pretos e brancos, a que se juntam tapetes ovais depelo t\u00e3o alto<br \/>\n    como as sobrancelhas dos tios e grandes objetos de lou\u00e7a sem formadefinida,<br \/>\n    pintados em pinceladas ao acaso. N\u00e3o, escute, pode ser que o cen\u00e1rio seinsinue<br \/>\n    pouco a pouco pela nossa exist\u00eancia dentro, a inunde de candeeiros esquisitoseri\u00e7ados<br \/>\n    de molas e de \u00e2ngulos e de carantonhas sard\u00f4nicas de barro, e um grossosangue<br \/>\n    Robiallac nos des\u00e7a pelas veias, forrando-as de um j\u00fabilo metalizado, \u00e0 prova<br \/>\n    daumidade das l\u00e1grimas. Vou comprar um Bambi de biscuit para a secret\u00e1ria<br \/>\n    do escrit\u00f3rio,coloc\u00e1-lo bem \u00e0 frente dos meus pap\u00e9is e dos meus livros, entre<br \/>\n    mim e o rio, e vai vercomo a minha vida se inflete no sentido de um futuro<br \/>\n    de toureiro ou de cantor da r\u00e1dio,sentado na borda da piscina particular abra\u00e7ado<br \/>\n    a uma loura sorridente.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 real: o tilintar das suas pulseiras possui agora um som diverso,desprovido<br \/>\n    dos misteriosos prolongamentos e ecos que a noite lhes conferia, o sombanal<br \/>\n    da manh\u00e3, que vulgariza o sofrimento e a exalta\u00e7\u00e3o, e os reduz perante asexig\u00eancias<br \/>\n    pr\u00e1ticas do quotidiano, o emprego, a revis\u00e3o do carro, a consulta do dentista,o<br \/>\n    jantar com um amigo de inf\u00e2ncia palavroso, a expandir-se por cima dos talheres<br \/>\n    emaborrecidas narra\u00e7\u00f5es intermin\u00e1veis. Tudo \u00e9 real, sobretudo a agonia, o<br \/>\n    enjoo do \u00e1lcool,a dor de cabe\u00e7a a apertar-me a nuca com o seu alicate tenaz,<br \/>\n    os gestos lentificados porum torpor de aqu\u00e1rio, que me prolonga os bra\u00e7os<br \/>\n    em dedos de vidro, dif\u00edceis como aspin\u00e7as de uma pr\u00f3tese por afinar. Tudo<br \/>\n    \u00e9 real menos a guerra que n\u00e3o existiu nunca:jamais houve col\u00f4nias, nem fascismo,<br \/>\n    nem Salazar, nem Tarrafal, nem PIDE, nemrevolu\u00e7\u00e3o, jamais houve, compreende,<br \/>\n    nada, os calend\u00e1rios deste pa\u00eds imobilizaram-seh\u00e1 tanto tempo que nos esquecemos<br \/>\n    deles, mar\u00e7os e abris sem significado apodrecemem folhas de papel pelas paredes,<br \/>\n    com os domingos a vermelho \u00e0 esquerda numa colunain\u00fatil, Luanda \u00e9 uma cidade<br \/>\n    inventada de que me despe\u00e7o, e, na Mutamba, pessoasinventadas tomam \u00f4nibus<br \/>\n    inventados para locais inventados, onde o MPLA sutilmenteinsinua comiss\u00e1rios<br \/>\n    pol\u00edticos inventados. O avi\u00e3o que nos traz a Lisboa transportaconsigo uma<br \/>\n    carga de fantasmas que lentamente se materializam, oficiais e soldadosamarelos<br \/>\n    de paludismo, atarraxados nos assentos, de pupilas ocas, observando pelajanela<br \/>\n    o espa\u00e7o sem cor, de \u00fatero, do c\u00e9u. Reais s\u00e3o as camionetas cinzentas \u00e0 espera<br \/>\n    noaeroporto, o frio de Lisboa, os sargentos que nos examinam os documentos<br \/>\n    no vagarlasso dos funcion\u00e1rios desinteressados, o trajeto at\u00e9 ao quartel onde<br \/>\n    as nossas malas seempilham numa confus\u00e3o c\u00f4nica de volumes, as despedidas<br \/>\n    r\u00e1pidas na parada.<\/p>\n<p>Passamos vinte e sete meses juntos nos cus de Judas, vinte e sete meses deang\u00fastia<br \/>\n    e de morte juntos nos cus de Judas, nas areias do Leste, nas picadas dosQuiocos<br \/>\n    e nos girass\u00f3is do Cassanje, comemos a mesma saudade, a mesma merda, omesmo<br \/>\n    medo, e separamo-nos em cinco minutos, um aperto de m\u00e3o, uma palmada nascostas,<br \/>\n    um vago abra\u00e7o, e eis que as pessoas desaparecem, vergadas ao peso dabagagem,<br \/>\n    pela porta de armas, evaporadas no redemoinho civil da cidade.<\/p>\n<p>Fardado, com um saco cheio de livros ao ombro e outro de roupa na m\u00e3o, Lisboaergue<br \/>\n    perante mim a sua opacidade de cen\u00e1rio intranspon\u00edvel, subitamente vertical,<br \/>\n    lisa,hostil, sem que nenhuma janela abra, diante dos meus olhos sequiosos<br \/>\n    de repouso,c\u00f4ncavos favor\u00e1veis de ninho. O tr\u00e2nsito roda majestosamente na<br \/>\n    Rotunda daEncarna\u00e7\u00e3o, numa indiferen\u00e7a puramente mec\u00e2nica que me exclui, os<br \/>\n    rostos na ruadeslizam ao lado do meu num alheamento absoluto, em que qualquer<br \/>\n    coisa da in\u00e9rciageom\u00e9trica dos cad\u00e1veres se insinua. A minha filha de olhos<br \/>\n    verdes deve, com certeza,considerar-me um estranho indesej\u00e1vel, deitando ao<br \/>\n    lado da m\u00e3e o estreito corpo sup\u00e9rfluo. A vida dos meus amigos, que se programou<br \/>\n    sem mim na minha aus\u00eancia,acomodar-se-\u00e1 a custo a este ressuscitar de L\u00e1zaro<br \/>\n    desnorteado, que reaprendepenosamente o uso dos objetos e dos sons. Habituara-me<br \/>\n    demais ao sil\u00eancio e \u00e0 solid\u00e3ode Angola, e afigurava-se-me inimagin\u00e1vel que<br \/>\n    o capim n\u00e3o rompesse do alcatr\u00e3o dasavenidas os seus longos dedos verdes acerados<br \/>\n    pelas primeiras chuvas. N\u00e3o existianenhuma m\u00e1quina de costura ferrugenta e<br \/>\n    avariada na casa dos meus pais, e o soba doChi\u00fame n\u00e3o me esperava na sala,<br \/>\n    a fitar, para l\u00e1 da estante envidra\u00e7ada dos livros, avastid\u00e3o, \u00famida de sapos<br \/>\n    e de lodo, da chana. Id\u00eantico a uma crian\u00e7a quando nasce,contemplava, com<br \/>\n    \u00f3rbitas redondas de surpresa, os sinais, os cinemas, o contornodesequilibrado<br \/>\n    das pra\u00e7as, as melanc\u00f3licas esplanadas dos caf\u00e9s, e tudo se diria possuir,ao<br \/>\n    meu redor, uma carga de mist\u00e9rio que eu seria sempre incapaz de elucidar.<br \/>\n    De formaque encolhi a cabe\u00e7a entre os ombros e curvei as omoplatas como as<br \/>\n    pessoas semgabardina perante uma chuva inesperada, oferecendo o m\u00ednimo poss\u00edvel<br \/>\n    do meu corpo aum pa\u00eds que n\u00e3o entendia j\u00e1, e embarafustei pelo janeiro da<br \/>\n    cidade.<\/p>\n<p>Visitei as tias algumas semanas depois, envergando um terno de antes da guerraque<br \/>\n    me boiava na cintura \u00e0 laia de uma aur\u00e9ola ca\u00edda, apesar dos esfor\u00e7os dossuspens\u00f3rios,<br \/>\n    a arrepanharem para cima as pernas, como se armados de uma h\u00e9liceinvis\u00edvel.<br \/>\n    Esperei de p\u00e9, junto ao piano de casti\u00e7ais, a entalar os ossos t\u00edmidos entre<br \/>\n    umaconsola Imp\u00e9rio de coxas tortas, cheia de molduras de generais defuntos,<br \/>\n    e um rel\u00f3gioenorme cujo grandioso cora\u00e7\u00e3o solu\u00e7ava mansamente os estalos r\u00edtmicos<br \/>\n    de um budapac\u00edfico que digere. As cortinas das janelas ondulavam acenos evasivos<br \/>\n    de core\u00f3grafoentediado, os olhos agudos das pratas cintilavam dos aparadores<br \/>\n    no escuro. As tiasacenderam o candeeiro para me observar melhor, e a luz revelou<br \/>\n    subitamente tapetes deArraiolos desbotados, jarras chinesas disparando drag\u00f5es<br \/>\n    de l\u00edngua torcida dassuperf\u00edcies brancas, a curiosidade das criadas que espreitavam<br \/>\n    da porta, a enxugarem asm\u00e3os gordas nos aventais da cozinha. Instintivamente<br \/>\n    coloquei-me na atitude hirta es\u00e9ria que se oferece aos fot\u00f3grafos de feira,<br \/>\n    examinando-nos por detr\u00e1s das grossaslentes impiedosas das m\u00e1quinas de trip\u00e9,<br \/>\n    ou em sentido, como quando cadete, emMafra, perante o mau humor autorit\u00e1rio<br \/>\n    e cr\u00f4nico do capit\u00e3o, a franzir-se de botasafastadas numa arrog\u00e2ncia agourenta.<br \/>\n    Cheirava a c\u00e2nfora, a naftalina e a mijo de siam\u00eas,e apeteceu-me veementemente<br \/>\n    sair dali para a Rua Alexandre Herculano, onde, pelomenos, se visionava, no<br \/>\n    alto, um bocadinho turvo de c\u00e9u. Uma bengala de bambuformou um arabesco desdenhoso<br \/>\n    no ar saturado da sala, aproximou-se do meu peito,enterrou-se-me como um florete<br \/>\n    na camisa, e uma voz fraca, amortecida pela dentaduraposti\u00e7a, como que chegada<br \/>\n    de muito longe e muito alto, articulou, a raspar s\u00edlabas demadeira com a esp\u00e1tula<br \/>\n    de alum\u00ednio da l\u00edngua:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s mais magro. Sempre esperei que a tropa te tornasse um homem, mascontigo<br \/>\n    n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer.<\/p>\n<p>E os retratos dos generais defuntos nas consolas aprovaram com feroz acordo<br \/>\n    aevid\u00eancia desta desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o, siga sempre em frente, vire na primeira \u00e0 direita, na segunda \u00e0<br \/>\n    direita aseguir, e como quem n\u00e3o quer a coisa est\u00e1 na Praceta do Areeiro.<br \/>\n    A salvo. Eu? Fico ainda mais um bocado por aqui. Vou despejar os cinzeiros,<br \/>\n    lavar os copos, dar umarranjo \u00e0 sala, olhar o rio. Talvez volte para a cama<br \/>\n    desfeita, puxe os len\u00e7\u00f3is para cima efeche os olhos. Nunca se sabe, n\u00e3o \u00e9?,<br \/>\n    mas pode bem acontecer que a tia Teresa mevisite.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: A B C D E F G H I J L M N O P Q R S T U V X Z A Do que eu gostava mais no Jardim Zool\u00f3gico era do rinque de patinagem sob as\u00e1rvores e do professor preto muito direito a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92544","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Os Cus de Judas, Ant\u00f4nio Lobo Antunes Os Cus de Judas<\/title>\n<meta name=\"description\" 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