{"id":92456,"date":"2017-01-04T10:56:07","date_gmt":"2017-01-04T12:56:07","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92456"},"modified":"2017-01-04T10:56:07","modified_gmt":"2017-01-04T12:56:07","slug":"os-pequeninos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-pequeninos","title":{"rendered":"Os Pequeninos"},"content":{"rendered":"<p>Ouvi certa vez uma conversa inesquec\u00edvel. A esponja de doze anos a esmaeceu em coisa nenhuma. Por que motivo certas impress\u00f5es se gravam de tal maneira e outras se apagam t\u00e3o profundamente?<br \/>\nEu estava no cais, \u00e0 espera do Arlanza, que me ia devolver de Londres um velho amigo j\u00e1 de longa aus\u00eancia. O nevoeiro atrasara o navio.<br \/>\n&#8211; S\u00f3 vai atracar \u00e0s dez horas \u2013 informou-me um sabe tudo de bon\u00e9.<\/p>\n<p>Bem. Tinha eu de matar uma hora de espera dentro dum nevoeiro absolutamente fora de comum, dos que negam aos olhos o consolo da paisagem distante. A vis\u00e3o morria a dez passos; para al\u00e9m, todas as formas desapareceriam no algodoamento da n\u00e9voa.<br \/>\nPensei nos fogs londrinos que o meu amigo devia trazer na alma, e comecei a andar por ali \u00e0 toa, entregue ao seu trabalho, t\u00e3o freq\u00fcente na vida, de \u201cmatar o tempo\u201d. Minha t\u00e9cnica em tais circunst\u00e2ncias se resume em recordar passagens da vida. Recordar \u00e9 reviver. Reviver. Reviver os bons momentos tem as del\u00edcias do sonho.<\/p>\n<p>Mas o movimento do cais interrompia ami\u00fade o meu sonho, for\u00e7ando-me a cortar e a reatar de novo o fio das recorda\u00e7\u00f5es. T\u00e3o cheio de n\u00f3s foi ele ficando que o abandonei. Uma das interrup\u00e7\u00f5es me pareceu mais interessante que a evoca\u00e7\u00e3o do passado, porque a vida exterior \u00e9 mais viva que a interior \u2013 e a conversa dos tr\u00eas carregadores era inegavelmente \u201c\u00e1gua-forte\u201d.<br \/>\nTr\u00eas portugueses bem t\u00edpicos, j\u00e1 maduros; um deles de rosto singularmente amarrotado pelos anos. Um incidente qualquer ali do cais dera origem \u00e0 conversa.<\/p>\n<p>&#8211; Pois esse caso, meu velho dizia um deles -, me lembra a historia da ema que tive num cercado. Tamb\u00e9m ela foi v\u00edtima dum animalzinho muit\u00edssmo menos, e que seria esmagado, como esmagamos moscas, se lhe ficasse ao alcance do bico \u2013 mas n\u00e3o ficava&#8230;<br \/>\n&#8211; Como foi? \u2013 perguntaram.<\/p>\n<p>&#8211; Eu nesse tempo estava de cima, dono de terras, com casa minha, meus animais de cocheira, fam\u00edlia. Foi um ano antes daquela rodada que me levou tudo&#8230; Peste de mundo!&#8230; t\u00e3o bem que ia indo bem e me afundei, perdi tudo, tive de rolar morro abaixo at\u00e9 bater com o lombo neste cais entregue ao mais baixo dos servi\u00e7os, que \u00e9 o de carregador&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas como foi o caso da ema?<\/p>\n<p>Os ouvintes n\u00e3o queriam filosofias; ansiavam por pitoresco \u2013 e o homem por fim contou, depois de sacar o cachimbo, ench\u00ea-lo, acende-lo. Devia ser hit\u00f3ria das que exigem pontua\u00e7\u00e3o a baforadas.<\/p>\n<p>&#8211; Eu morava em minhas terras, l\u00e1 onde voc\u00eas sabem \u2013 na Vacaria, zona de campos e mais campos, aquela planura sem fim. E h\u00e1 l\u00e1 muita ema. Conhecem? \u00c9 a avestruz do Brasil, menor que a avestruz africana, mas mesmo assim um avej\u00e3o dos mais alentados. Que for\u00e7a tem! Domar uma ema corresponde a domar um potro. Exige o mesmo muque. Mas s\u00e3o aves de boa \u00edndole. Domesticam-se facilmente e eu andava querendo ter uma em meus cercados.<br \/>\n&#8211; S\u00e3o utilidade? \u2013 perguntou o utilit\u00e1rio da roda.<\/p>\n<p>&#8211; De nenhuma; apenas enfeitam a casa. Aparece um visitante. \u201cViu minha ema?\u201d \u2013 e l\u00e1 o levamos a examin\u00e1-la de perto, a assombrar-se do tamanh\u00e3o, abrir a boca diante dos ovos. S\u00e3o assim como laranja baiana das gra\u00fadas.<br \/>\n&#8211; E o gosto?<\/p>\n<p>&#8211; Nunca provei. Ovos para mim s\u00f3 os de galinha. Mas, como ia dizendo, fiquei com id\u00e9ia de apanhar uma ema nova para domestic\u00e1-la \u2013 e um belo dia eu mesmo o consegui gra\u00e7as \u00e0 ajuda dum periperi.<br \/>\nA hist\u00f3ria come\u00e7ava a interessar. Os companheiros do narrador ouviam-no suspensos.<br \/>\n&#8211; Como foi? Ande logo.<\/p>\n<p>&#8211; Foi um dia em que sa\u00ed a cavalo para uma chegada \u00e0 fazendinha do Jo\u00e3o Coruja, que morava a uns seis quil\u00f4metros do meu rancho. Montei no meu pampa e fui varando a macega. Aquilo l\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 caminhos, s\u00f3 trilhas de vai-um pelo capim rasteiro. Os olhos alcan\u00e7am longe naquele mar de verde-sujo que some na dist\u00e2ncia. Fui andando. De repente vi a uns trezentos metros longe qualquer coisa que se movia na macega. Parei firme a vista. Era uma ema a dar voltas num c\u00edrculo estreito.<br \/>\n\u201cQue diabo disto ser\u00e1 aquilo?\u201d \u2013 perguntei comigo mesmo. Emas eu vira muitas, mas sempre a pastarem sossegadas ou a fugirem no galope, nadando com as asas curtas. Assim a dar voltas era novidade. Fiquei de rugas na testa. Que ser\u00e1? A gente da ro\u00e7a conhece muito bem a natureza de tudo; se v\u00ea qualquer coisa na \u201cforma da lei\u201d, n\u00e3o se espanta porque \u00e9 o natural; mas se v\u00ea qualquer coisa fora da lei, fica logo de orelha em p\u00e9 \u2013 porque n\u00e3o \u00e9 natural. Que tinha aquela ema para dar tantas voltas em torno do mesmo ponto? N\u00e3o era da lei. A curiosidade me fez esquecer o neg\u00f3cio do Jo\u00e3o Coruja. Torci a r\u00e9dea do pampa e l\u00e1 me fui para ema.<br \/>\n&#8211; E ela fugiu no galope&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O natural seria isto, mas n\u00e3o fugiu. Ora, n\u00e3o h\u00e1 ema que n\u00e3o fuja do homem \u2013 nem ema, nem animal nenhum. N\u00f3s somos o terror da bicharia toda. Parei o pampa a cinco passos dela e nada, e nada da ema fugir. Nem me viu; continuou nas suas voltas, com ar aflito. Pus-me a observ\u00e1-la, intrigado. Seria seu ninho ali? N\u00e3o havia sinal de ninho. A pobre ave girava e girava, fazendo movimentos de pesco\u00e7o sempre na mesma dire\u00e7\u00e3o, para a esquerda como se quizesse alcan\u00e7ar qualquer coisa com o bico. A roda que fazia era de raio curto, a\u00ed duns tr\u00eas metros, e pelo amassamento do capim calculei que j\u00e1 havia dado umas cem voltas.<br \/>\n&#8211; Interessante! \u2013 murmurou um dos companheiros.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o que pensei comigo mesmo. Mais que interessante: esquisit\u00edssimo. Primeiro, n\u00e3o fugir de mim; segundo, continuar nas voltas aflitas, sempre com aqueles movimentos de pesco\u00e7o para a esquerda. Que seria? Apeei e fui chegando. Olhei-a de bem perto. \u201cA coisa \u00e9 embaixo da asa\u201d, vi logo. A pobre criatura tinha qualquer coisa sob a asa, e aquelas voltas e aquele movimento de pesco\u00e7o eram para alcan\u00e7ar o sovaco. Aproximei- me mais. Segurei-a. a ema, arquejante, n\u00e3o fez a menor resist\u00eancia. Deixou-se agarrar. Ergui-lhe a asa e vi&#8230;<\/p>\n<p>Os ouvintes suspenderam o f\u00f4lego. &#8211; &#8230; e vi uma coisa vermelha atracada ali, uma coisa que se assustou e voou, e foi pousar num galho seco a vinte passos de dist\u00e2ncia. Sabem o que era? Um periperi&#8230;<br \/>\n&#8211; Que \u00e9 isso?<br \/>\n&#8211; Um gavi\u00e3ozinho dos menores que existem, assim do tamanho dum sanha\u00e7o \u2013 um gavi\u00e3ozinho-carij\u00f3.<br \/>\n&#8211; Mas n\u00e3o disse que era vermelho?<\/p>\n<p>&#8211; Estava vermelho do sangue da ema. Agarrara-se-lhe ao sovaco, que \u00e9 um ponto despido de penas, e ferrara-se \u00e0 carne com as unhas, enquanto com o bico ia arrancando nacos de carne viva e devorando-os. Aquele ponto do sovaco \u00e9 o \u00fanico sem defesa num corpo da ema, porque ela n\u00e3o alcan\u00e7a com o bico. \u00c9 como esse ponto que temos nas costas e n\u00e3o podemos co\u00e7ar com unhas. O periperi conseguira-se localizar-se ali e estava a seguro de bicadas.<\/p>\n<p>Examinei a ferida. Pobre ema! Uma ferida enorme, assim dum palmo de di\u00e2metro e onde o bico do periperi fizera menos mal que suas garras, pois, como tinha de manter-se aferrado, ia mudando as garras \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a carne dilacerada cedia. Nunca vi ferida mais arrepiante.<br \/>\n&#8211; Coitada!<br \/>\n&#8211; As emas s\u00e3o duma estupidez famosa, mas o sofrimento abriu a intelig\u00eancia daquela. F\u00ea-la compreender que eu era seu salvador \u2013 e a mim entregou-se como quem se entrega a um deus. O al\u00edvio que minha chegada lhe produziu, fazendo com que o periperi a largasse, iluminou-lhe os miolos.<br \/>\n&#8211; E o gavi\u00e3ozinho?<\/p>\n<p>&#8211; Ah, o patife, muito vermelho do sangue da ema, l\u00e1 ficou no galho seco \u00e0 espera de que eu me afastasse. Pretendia retornar ao banquete! \u201cEu j\u00e1 te curo, malvado!\u201d- exclamei, sacando o rev\u00f3lver. Um tiro. Errei. O periperi voou longe.<br \/>\n&#8211; Eaema?<\/p>\n<p>&#8211; Levei-a para casa, curei-a. E tive-a l\u00e1 por uns meses num cercado. Por fim, soltei-a. n\u00e3o vai comigo isso de escravisar os pobres animalzinhos que Deus fez para vida solta. Se no cercado estava livre dos periperis, era em compensa\u00e7\u00e3o uma escrava saudosa das correrias pelo campo. Se fosse consultada, certamente que preferiria os riscos da liberdade \u00e0 seguran\u00e7a da escravid\u00e3o. Soltei-a. \u201cVai, minha filha, segue o teu destino. Se outro periperi te apanhar, arruma-te l\u00e1 com ele.\u201d<br \/>\n&#8211; Mas ent\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n<p>&#8211; Um velho caboclo da zona informou-me que aquilo \u00e9 freq\u00fcente. Esses min\u00fasculos gavi\u00f5ezinhos procuram as emas. Ficam trai\u00e7oeiramente a rond\u00e1-las, \u00e0 espera de que se descuidem e levantem a asa. Eles, ent\u00e3o, r\u00e1pidos como setas, lan\u00e7am-se; e se conseguem alcan\u00e7ar-lhes o sovaco, ali enterram as garras e ficam como carrapatos. E as emas, apesar de imensas comparadas com eles, acabam vencidas. Caem exaustas; morrem, e os malvadinhos repastam-se no carname durante dias.<br \/>\n&#8211; Mas como eles sabem? \u00c9 o que mais admiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, meu caro, a natureza est\u00e1 in\u00e7ada de coisas assim, que para n\u00f3s s\u00e3o mist\u00e9rios. Com certeza houve um periperi que por acaso fez isso uma primeira vez, e como deu certo ensinou a li\u00e7\u00e3o aos outros. Estou convencido de que os animais ensinam uns aos outros os que v\u00e3o aprendendo. Oh, voc\u00eas, criaturas da cidade n\u00e3o imaginam que coisas h\u00e1 na natureza da ro\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>O caso da ema foi comentado sob todos os \u00e2ngulos \u2013 e deu um broto. Fez sair da mem\u00f3ria do carregador de cara amarrotada uma hist\u00f3ria vagamente similar, em que bichinhos muito pequenos destru\u00edram a vida moral dum homem.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, destru\u00edram a vida de um bicho imensamente maior, como sou eu em compara\u00e7\u00e3o com as formigas. Fiquem voc\u00eas sabendo que a mim aconteceu coisa ainda pior que o acontecido \u00e0 ema. Fui v\u00edtima dum formigueiro&#8230;<br \/>\nTodos arregalaram os olhos.<br \/>\n&#8211; S\u00f3 se j\u00e1 foste hortel\u00e3o e as formigas te comeram a fazenda \u2013 sugeriu um.<br \/>\n&#8211; Nada disso. Comeram-me mais que a fazenda, comeram-me a alma. Destru\u00edram-me moralmente \u2013 mas foi sem querer. Pobrezinhas. N\u00e3o as culpo de nada.<br \/>\n&#8211; Conta l\u00e1 isso depressa, Manuel. O arlanza n\u00e3o tarda.<br \/>\nE o velho contou.<\/p>\n<p>&#8211; Eu era fiel da firma Toledo &#038; Cia., com obriga\u00e7\u00e3o de tomar conta daquele grande armaz\u00e9m da rua tal. Voc\u00eas sabem que tomar conta dum dep\u00f3sito de mercadorias \u00e9 coisa s\u00e9ria, porque o homem se torna o \u00fanico respons\u00e1vel por tudo quanto entra e sai. Ora, eu, portugu\u00eas dos antigos, desses de antes quebrar que torcer, fui escolhido para \u201cfiel\u201d porque era fiel \u2013 era e sou.<br \/>\nN\u00e3o valho nada, sou um pobre homem ao l\u00e9u, mas honradez est\u00e1 aqui. Meu orgulho sempre foi esse. Criei reputa\u00e7\u00e3o desde menino. \u201cO Manuel \u00e9 dos bons; quebra mas n\u00e3o torce.\u201d Pois n\u00e3o \u00e9 que as formigas me quebraram?<br \/>\n&#8211; Conta l\u00e1 isso depressa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A coisa foi assim. Na qualidade de fiel do armaz\u00e9m, nada entrava nem sa\u00eda sem ser por minhas m\u00e3os. Eu fiscalizava tudo e com tal severidade que Toledo &#038; Cia. Juravam sobre mim como sobre a b\u00edblia. Certa vez entrou l\u00e1 uma partida de 32 sacos de arroz, que contei, conferi e fiz empilhar a um canto, junto a uma pilha de velhos caix\u00f5es que l\u00e1 estavam encostados de muito tempo. Trinta e dois.<br \/>\nContei-os e recontei-os e escrevi no livro de entradas 32, nem mais um, nem menos um. E no dia seguinte, conforme velho h\u00e1bito meu, ainda me fui \u00e0 pilha e recontei os sacos. Trinta e dois.<\/p>\n<p>Pois muito que bem. O tempo se passa. O arroz l\u00e1 fica meses \u00e0 espera de neg\u00f3cios, at\u00e9 que um dia recebo do escrit\u00f3rio ordem para entreg\u00e1-lo ao portador. Vou dirigir a entrega. Fico na porta do armaz\u00e9m conferindo os sacos que por ali passavam \u00e0s costas de dois carregadores \u2013 um, dois, vinte, trinta e um&#8230; faltava o \u00faltimo.<br \/>\n&#8211; Anda com isso! \u2013 berrei ao carregador que fora busc\u00e1-lo, mas o bruto apareceu-me l\u00e1 dos fundos com as m\u00e3os vazias: \u201cN\u00e3o h\u00e1 mais nada\u201d.<br \/>\n&#8211; Como n\u00e3o h\u00e1 mais nada? \u2013 exclamei. \u2013 s\u00e3o 32. Falta um. Vou busc\u00e1-lo, vai ver.<br \/>\nEle foi e voltou na mesma: \u201cN\u00e3o h\u00e1 mais nada\u201d.<br \/>\n&#8211; Imposs\u00edvel! \u2013 e fui eu mesmo fazer a verifica\u00e7\u00e3o e nada achei. Misteriosamente desaparecera um saco de arroz de pilha&#8230;<\/p>\n<p>Aquilo p\u00f4s-me tonto de cabe\u00e7a. Esfreguei os olhos. Cocei-me. Voltei ao livro de entradas; reli o assento; claro como o dia: 32. Al\u00e9m disso eu me lembrava muito bem daquela partida por causa dum incidente agrad\u00e1vel. Logo que terminei a contagem eu havia dito \u201c32, ultima dezena do camelo!\u201d e aproveitei o palpite na venda da esquina. Mil r\u00e9is na dezena 32: de tarde apareceu-me o empregadinho com 80 mil r\u00e9is. Dera o camelo com 32.<\/p>\n<p>Voc\u00eas bem sabem que essas coisas a gente n\u00e3o esquece. Eram pois 32 sacas \u2013 e como ent\u00e3o s\u00f3 estavam l\u00e1 31? Pus-me a parafusar. Furtar ningu\u00e9m furtara, porque eu era o mais fiel dos fi\u00e9is, n\u00e3o arredava p\u00e9 da porta e dormia l\u00e1 dentro. Janelas gradeadas de ferro. Porta uma s\u00f3.<\/p>\n<p>Que ningu\u00e9m furtara ao saco de arroz era coisa que eu juraria perante todos os tribunais do mundo, como o jurava para a minha consci\u00eancia. Mas a saca de arroz desaparecera&#8230; e como era?<br \/>\nTive de comunicar ao escrit\u00f3rio o desaparecimento \u2013 e foi o maior vexame da minha vida. Porque n\u00f3s, oper\u00e1rios, temos a nossa honra, e a minha honra era aquela \u2013 era ser o \u00fanico respons\u00e1vel por tudo quanto entrasse e sa\u00edsse daquele dep\u00f3sito.<br \/>\nChamaram-me ao escrit\u00f3rio.<br \/>\n&#8211; Como explica a diferen\u00e7a, Manuel?<br \/>\nCocei a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Meu senhor \u2013 respondi ao patr\u00e3o &#8211; , bem quizera eu explic\u00e1-la, mas por mais que tor\u00e7a os miolos n\u00e3o o consigo. Recebi os 32 sacos de arroz, contei-os e recontei-os, e tanto eram 32 que nesse dia deu essa dezena e \u201cmamei\u201d do vendeiro da esquina 80 \u201cpaus\u201d. O arroz demorou l\u00e1 meses. Agora recebo ordem para entreg\u00e1-lo ao caminh\u00e3o. Vou presidir \u00e0 retirada e s\u00f3 encontro 31. Furt\u00e1-lo, ningu\u00e9m o furtou; isso juro, porque a entrada do armaz\u00e9m \u00e9 uma s\u00f3 e eu sempre fui c\u00e3o de fila \u2013 mas o fato \u00e9 que o saco de arroz desapareceu. N\u00e3o sei explicar o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>As casas comerciais t\u00eam que seguir certas normas, e se eu fosse o patr\u00e3o faria o que ele fez. J\u00e1 que era o Manuel o respons\u00e1vel \u00fanico, se n\u00e3o havia explica\u00e7\u00e3o para o mist\u00e9rio, pior para o Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; Manuel \u2013 disse o patr\u00e3o -, a nossa confian\u00e7a em voc\u00ea sempre foi completa, como voc\u00ea muito bem sabe, confian\u00e7a de doze anos; mas o arroz n\u00e3o podia ter-se evaporado como \u00e1gua ao fogo. E como desapareceu um saco podem desaparecer mil. Quero que voc\u00ea mesmo nos diga o que devemos fazer.<br \/>\nRespondi como devia.<\/p>\n<p>&#8211; O que h\u00e1 de fazer, meu senhor, \u00e9 despedir o Manuel. Ningu\u00e9m furtou a saca de arroz mas a saca de arroz confiada \u00e0 guarda do Manuel desapareceu. O que o patr\u00e3o tem a fazer o que o Manuel faria se estivesse em seu lugar: despedi-lo e contratar outro.<br \/>\nO patr\u00e3o disse:<br \/>\n&#8211; Muito lamento ter de agir assim, Manuel, mas tenho s\u00f3cios que me fiscalizam os atos, e serei criticado se n\u00e3o fizer como voc\u00ea mesmo me aconselha.<br \/>\nO velho carregador parou para avivar o cachimbo.<\/p>\n<p>&#8211; E foi assim, meus caros, que, depois de doze anos de servi\u00e7o no armaz\u00e9m de Toledo &#038; Cia., fui para o olho da rua, suspeitado de ladr\u00e3o por todos meus colegas. Se ningu\u00e9m podia furtar aquele arroz e o arroz desaparecera, qual o culpado? O Manuel evidentemente.<\/p>\n<p>Fui para a rua, meus caros, j\u00e1 velhusco e sem carta de recomenda\u00e7\u00e3o, porque recusei a que a firma me quis dar por esmola. Em boa consci\u00eancia, que carta poderiam darme os Srs. Toledo &#038; Cia.?<\/p>\n<p>Ah, o que sofri! Saber-me inocente e sentir-me suspeitado \u2013 e sem meios de defesa. Roubar \u00e9 roubar, seja um mil r\u00e9is, sejam contos. Cesteiro que faz um cesto faz um cento. E eu, que era um homem feliz porque compensava a minha pobreza com a fama de honestidade sem par, rolei para a classe dos duvidosos.<br \/>\nE o pior era o rato que me roia os miolos. Os outros podiam satisfazer-se atribuindo a mim o furto, mas eu, que sabia da minha inoc\u00eancia, n\u00e3o arrancava aquele rato da cabe\u00e7a. Quem tiraria de l\u00e1 o saco de arroz? Esse pensamento ficou-me l\u00e1 dentro como um berne dos cabeludos.<\/p>\n<p>Dois anos se passaram, em que envelheci dez. um dia recebo recado da firma: \u201cque aparecesse no escrit\u00f3rio\u201d. Fui. Dera -, o mist\u00e9rio desaparecimento do saco de arroz est\u00e1 decifrado e voc\u00ea reabilitado da maneira mais completa. Ladr\u00f5es tiraram de l\u00e1 o arroz sem que voc\u00ea visse&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o pode ser, meu senhor! Tenho orgulho do meu trabalho de guarda. Sei que ningu\u00e9m entrou l\u00e1 durante aqueles meses. Sei.<br \/>\nO chefe sorriu.<br \/>\n&#8211; Pois saiba que in\u00fameros ladr\u00f5ezinhos entraram e sa\u00edram com o arroz.<br \/>\nFiquei tonto. Abri a boca.<br \/>\n&#8211; Sim, as formigas&#8230;<br \/>\n&#8211; As formigas? N\u00e3o estou entendendo nada, patr\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ele contou ent\u00e3o tudo. A partida dos 32 sacos fora arrumada, como j\u00e1 disse, junto a uma pilha de velhos caix\u00f5es vazios. E o \u00faltimo saco ficava pouco acima do n\u00edvel do ultimo caix\u00e3o \u2013 disso eu me lembrava perfeitamente. Fora esse caso desaparecido. Pois bem. Um belo dia o escrit\u00f3rio d\u00e1 ordem ao novo fiel para remover de l\u00e1 os caix\u00f5es. O fiel executa-a \u2013 mas ao faz\u00ea-lo nota uma coisa: gr\u00e3os de arroz derramados no ch\u00e3o, em redor dum olheiro de formigas sa\u00favas. Foram as sa\u00favas as roubadoras da saca de arroz n\u00famero 32!<br \/>\n&#8211; Como?<\/p>\n<p>&#8211; Subiram pelos interst\u00edcios da caixotaria e furaram o saco \u00faltimo, o qual ficava um pouco acima do n\u00edvel do \u00faltimo caix\u00e3o. E foram retirando os gr\u00e3os um a um. Com o progressivo esvaziar-se, o saco perdeu o equil\u00edbrio e escorregou da pilha para cima do \u00faltimo caix\u00e3o \u2013 e nessa posi\u00e7\u00e3o as formigas completaram o esvaziamento&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00c9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Os Srs. Toledo &#038; Cia. Pediram-me desculpas e ofereceram-me de novo o lugar, com paga melhorada a titulo de indeniza\u00e7\u00e3o. Sabem o que respondi? \u201cMeus senhores, \u00e9 tarde. J\u00e1 n\u00e3o me sinto o mesmo. O desastre matou-me por dentro. Um rato robou-me todo o arroz que havia dentro de mim.<br \/>\nDeixou-me o que sou: carregador do porto, saco vazio. J\u00e1 n\u00e3o tenho interesse em nada. Continuarei portanto carregador. \u00c9 servi\u00e7o de menos responsabilidade \u2013 al\u00e9m de que este mundo \u00e9 uma pin\u00f3ia. Pois um mundo onde uns bichinhos inocentes d\u00e3o cabo da alma dum homem, ent\u00e3o isso \u00e9 l\u00e1 mundo? Obrigado, meus senhores!\u201d e sa\u00ed.<br \/>\nNesse momento o Arlanza apitou. O grupo dissolveu-se e tamb\u00e9m eu fui colocar-me a postos. O amigo de Londres causou-me m\u00e1 impress\u00e3o. Magro, corcovado.<br \/>\n&#8211; Que te aconteceu, Marinho?<br \/>\n&#8211; Estou com os pulm\u00f5es afetados.<br \/>\nHum! Sempre a mesma \u2013 o pequenininho a derrear o grande. Periperi, sa\u00fava, bacilo de koch&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouvi certa vez uma conversa inesquec\u00edvel. A esponja de doze anos a esmaeceu em coisa nenhuma. Por que motivo certas impress\u00f5es se gravam de tal maneira e outras se apagam t\u00e3o profundamente? Eu estava no cais, \u00e0 espera do Arlanza, que me ia devolver de Londres um velho amigo j\u00e1 de longa aus\u00eancia. 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