{"id":92442,"date":"2017-01-04T10:37:22","date_gmt":"2017-01-04T12:37:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92442"},"modified":"2017-01-04T10:37:22","modified_gmt":"2017-01-04T12:37:22","slug":"sorte-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/sorte-grande","title":{"rendered":"Sorte Grande"},"content":{"rendered":"<p>Foi numa quieta cidadezinha entrevada, dessas que se alheiam do mundo com a discri\u00e7\u00e3o humilde dos musgos. Havia l\u00e1 a gente do Moura, o arrecadador de taxas municipais do mercado. A morte arrecadou o Moura muito fora de tempo e prop\u00f3sito. Consequ\u00eancia: vi\u00fava e sete filhos na dependura.<\/p>\n<p>Dona Teodora, quarentona que nunca soubera a significa\u00e7\u00e3o da palavra descanso, viu-se de trabalhos dobrados. Encher sete est\u00f4magos, vestir sete nudezas, educar outras tantas individualidades&#8230; Se houvesse justi\u00e7a no mundo, quantas est\u00e1tuas a certos tipos de m\u00e3es!<\/p>\n<p>A vida em tais lugarejos lembra a dos liquens na pedra. Tudo se encolhe no \u201climite\u201d \u2013 no m\u00ednimo que a civiliza\u00e7\u00e3o comporta. N\u00e3o h\u00e1 \u201coportunidades\u201d. Os meninos mal empanam emigram. As meninas, como n\u00e3o podem emigrar, viram mo\u00e7as; as mo\u00e7as passam a \u201ctias\u201d, e as tias evoluem para velhinhas enrugadas como maracuj\u00e1 murcho \u2013 sem que nunca venha ensejo para a realiza\u00e7\u00e3o dos grandes sonhos: casamento ou ocupa\u00e7\u00e3o decentemente remunerada.<\/p>\n<p>Os empreguinhos p\u00fablicos, de paga microsc\u00f3pica, s\u00e3o tremendamente disputados. Quem se aferra a um, dali s\u00f3 \u00e9 arrancado pela morte \u2013 e passa a vida invejado. Uma s\u00f3 sa\u00edda para as mulheres, afora o casamento: a meia d\u00fazia de cadeiras das escolinhas locais.<\/p>\n<p>O mulherio de Santa Rita lembra os rizomas de glad\u00edolos de certas casas de \u201ccera e sementes\u201d pouco freq\u00fcentadas. O dono do neg\u00f3cio os exp\u00f5e numa cesta \u00e0 porta, \u00e0 espera do fregu\u00eas eventual. N\u00e3o aparece fregu\u00eas nenhum \u2013 e o homem os vai retirando da cesta \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que murcham. Mas o estoque n\u00e3o diminui porque entram sempre rizomas novos. O dona da casa de \u201ccera e sementes\u201d de Santa Rita \u00e1 a Morte.<\/p>\n<p>A boa m\u00e3e revolta-se. Tinha culpa de terem vindo ao mundo as cinco meninas e dois meninos, e de nenhum modo admitia que elas virassem maracuj\u00e1s secos e eles se estiolassem na lembran\u00e7a viciosa dos zes-ningu\u00e9ns.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o era totalmente insol\u00favel como os meninos, porque podia mand\u00e1- los para fora no momento oportuno \u2013 mas, as meninas? Como arranjar a vida de cinco mo\u00e7as numa terra em que havia seis para cada homem casadouro \u2013 e s\u00f3 cinco cadeirinhas?<\/p>\n<p>A mais velha, Maricota, herdara o temperamento, a valentia materna. Estudou o que p\u00f4de e como p\u00f4de. Fez-se professora \u2013 mas j\u00e1 estava nos vinte e quatro e nem sombra de coloca\u00e7\u00e3o. As vagas iam sempre para as de maior peso pol\u00edtico, ainda que analfabetas.<\/p>\n<p>Maricota, um peso-pluma, que poderia esperar?<\/p>\n<p>Mesmo assim, dona Teodora n\u00e3o desanimava.<\/p>\n<p>\u2013 Estudem. Preparem-se. De repente qualquer coisa acontece e voc\u00eas se arrumam.<\/p>\n<p>Os anos, entretanto, passavam sem que a esperad\u00edssima \u201cqualquer coisa\u201d viesse \u2013 e os apertos recresciam. Por muito que trabalhassem em cocadas, bordados de enxoval e costurinhas, a renda n\u00e3o se distanciava do zero.<\/p>\n<p>Dizem que as desgra\u00e7as gostam de vir juntas. Quando a situa\u00e7\u00e3o dos Mouras atingiu o ponto perigoso da \u201cdependura\u201d, nova calamidade sobreveio. Maricota recebeu do c\u00e9u um estranho castigo: a singular\u00edssima doen\u00e7a que lhe atacou o nariz&#8230;<\/p>\n<p>No come\u00e7o n\u00e3o deram import\u00e2ncia ao caso; s\u00f3 no come\u00e7o, porque a doen\u00e7a entrou a progredir, com desorienta\u00e7\u00e3o de todos os entendidos em medicina das redondezas. Nunca, verdadeiramente nunca, ningu\u00e9m soubera por l\u00e1 de coisa assim.<\/p>\n<p>O nariz da mo\u00e7a crescia, engordava, engrouvinhava, lembrando o de certos b\u00eabados incorrig\u00edveis. A deforma\u00e7\u00e3o nessa parte do rosto \u00e9 sempre desastrosa. D\u00e1 \u00e0 fisionomia um ar c\u00f4mico. Todos se apiedavam da Maricota \u2013 mas riam-se sem querer.<\/p>\n<p>A maldade dos lugarejos tem a insist\u00eancia de certas moscas. Aquele nariz foi virando o prato predileto do Coment\u00e1rio. Nos momentos de escassez de assunto era infal\u00edvel porem-no \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>\u2013 Se aquilo pega, ningu\u00e9m mais planta rabanetes em Santa Rita. \u00c9 s\u00f3 levar a m\u00e3o ao rosto e colher&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 E dizem que est\u00e1 crescendo&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Se est\u00e1! A mo\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o p\u00f5e o p\u00e9 na rua \u2013 nem para a missa. Aquela negrinha, cria de dona Teodora, me disse que j\u00e1 n\u00e3o e nariz \u2013 \u00e9 beterraba&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e9rio?<\/p>\n<p>\u2013 Cresce tanto que se a coisa continua vamos ter um nariz com uma mo\u00e7a atr\u00e1s e n\u00e3o uma mo\u00e7a com um nariz na frente. O maior, o principal, ficar\u00e1 sendo o rabanete&#8230;<\/p>\n<p>Nos galinheiros tamb\u00e9m \u00e9 assim. Quando aparece uma ave doente, ou ferida, as s\u00e3s correm-na a bicadas \u2013 e bicam at\u00e9 destru\u00ed-la. Em mat\u00e9ria de maldade o homem \u00e9 galin\u00e1ceo. A tal ponto chegou a de Santa Rita que quando aparecia algu\u00e9m de fora na vacilavam em enfileirar entre as curiosidades locais a doen\u00e7a da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Temos v\u00e1rias coisas dignas de ver-se. H\u00e1 a igreja, cujo sino tem um som sem igual no mundo. Bronze do c\u00e9u. H\u00e1 o p\u00e9 de cacto da casa do major Lima, com quatro metros de roda na altura do peito. E h\u00e1 o rabanete da Maricota&#8230;<\/p>\n<p>O visitante espantava-se, est\u00e1 claro.<\/p>\n<p>\u2013 Rabanete?<\/p>\n<p>O informante desfiava a cr\u00f4nica do famoso nariz com inven\u00e7\u00f5ezinhas c\u00f4micas de sua lavra. \u201cN\u00e3o poderei ver isso?\u201d \u201cCreio que n\u00e3o, porque ela j\u00e1 n\u00e3o tem \u00e2nimo de p\u00f4r o p\u00e9 na rua \u2013 nem para a missa.\u201d<\/p>\n<p>Chegou o momento de recorrer aos m\u00e9dicos especialistas. Como por l\u00e1 n\u00e3o houvesse nenhum, dona Teodora lembrou-se de um doutor Clarimundo, especialista de toas as especialidades na cidade pr\u00f3xima. Tinha de mandar-lhe a filha. O nariz de Maricota estava ficando clamoroso demais. Mas&#8230; mandar como?<\/p>\n<p>A dist\u00e2ncia era grande. Viagem por \u00e1gua \u2013 pelo rio S\u00e3o Francisco, em cuja margem direita se assentava Santa Rita. O percurso custaria dinheiro; e custariam dinheiro a consulta, o tratamento, a estada l\u00e1 \u2013 e onde o dinheiro? Como reunir os duzentos mil r\u00e9is necess\u00e1rios?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 barreiras para o hero\u00edsmo das m\u00e3es. Dona Teodora redobrou da faina, operou milagres de g\u00eanio e, por fim, reuniu o dinheiro da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegou o dia. Muito vexada de mostra-se em p\u00fablico depois de tantos meses de segrega\u00e7\u00e3o, Maricota embarcou para a viagem de dois dias. Embarcou numa gaiola \u2013 o \u201cComandante Exup\u00e9rio\u201d \u2013 e logo que se viu a bordo tratou de descobrir um cantinho em que ficasse a salvo da curiosidade dos passageiros.<\/p>\n<p>Inutilmente. Deu logo nos olhos de v\u00e1rios, sobretudo nos dum mo\u00e7o de bom aspecto, que entrou a mir\u00e1-la com singular insist\u00eancia. Maricota esgueirou-se de sua presen\u00e7a e, de bru\u00e7os na amurada, fingiu-se absorta na contempla\u00e7\u00e3o da paisagem. Fraude pura, coitadinha. A \u00fanica paisagem que via era a sua \u2013 a nasal. O passageiro, entretanto, n\u00e3o a largava.<\/p>\n<p>\u2013 Quem \u00e9 essa mo\u00e7a? Quis saber \u2013 e um de boca perdigotante, tamb\u00e9m embarcado em Santa Rita, regalou-se em contar permenorizadamente tudo quanto sabia a respeito.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o refranziu a testa. Reconcentrou-se a meditar. Por fim, seus olhos brilharam.<\/p>\n<p>\u2013 Ser\u00e1 poss\u00edvel? \u2013 murmurou em solil\u00f3quio, e resolutamente encaminhou-se na dire\u00e7\u00e3o da triste criatura, absorvida na contempla\u00e7\u00e3o da paisagem.<\/p>\n<p>\u2013 Perd\u00e3o, minha senhora, eu sou m\u00e9dico e&#8230;<\/p>\n<p>Maricota voltou para ele os olhos, muito vexada, sem saber o que dizer. Como um eco, repetiu:<\/p>\n<p>\u2013 M\u00e9dico?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, m\u00e9dico \u2013 e o seu caso est\u00e1 me interessando profundamente. Se \u00e9 o que suponho, talvez que&#8230; Mas, venha c\u00e1 \u2013 conte-me tudo \u2013 conte-me como isso come\u00e7ou. N\u00e3o se vexe. Sou m\u00e9dico \u2013 e para os m\u00e9dicos n\u00e3o h\u00e1 segredos. Vamos.<\/p>\n<p>Maricota, depois de alguma resist\u00eancia, contou tudo, e \u00e0 medida que falava o interesse do mo\u00e7o recrescia.<\/p>\n<p>\u2013 Com licen\u00e7a \u2013 disse ele, e p\u00f4s a examinar-lhe o nariz, sempre com perguntas cujo alcance a mo\u00e7a n\u00e3o percebia.<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 seu nome? \u2013 atreveu-se a indagar Maricota.<\/p>\n<p>\u2013 Doutor Cadaval.<\/p>\n<p>A express\u00e3o do m\u00e9dico lembrava a do garimpeiro que encontra um diamante de valor fabuloso \u2013 um Cullinan! Nervosamente, ele insistia:<\/p>\n<p>\u2013 Conte, conte&#8230;<\/p>\n<p>Queria saber tudo; como aquilo come\u00e7ara, como se desenvolvera, que perturba\u00e7\u00e3o ela sentira e outras coisinhas t\u00e9cnicas. E as respostas da mo\u00e7a tinham o cond\u00e3o de aumentar-lhe o entusiasmo. Por fim:<\/p>\n<p>\u2013 Maravilhoso! Exclamou. Um caso \u00fanico de boa sorte&#8230;<\/p>\n<p>Tais exclama\u00e7\u00f5es desnortearam a doente. Maravilhoso? Que maravilhamento poderia causar a sua desgra\u00e7a? Chegou a ressentir-se. O m\u00e9dico tentou sosseg\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2013 Perdoe-me, dona Maricota, mas o seu caso \u00e9 positivamente extraordin\u00e1rio. De momento n\u00e3o posso firmar parecer \u2013 estou sem livros; mas macacos me lembram se o que a senhora tem n\u00e3o \u00e9 um rinofima \u2013 um RINOFIMA, imagine!<\/p>\n<p>Rinofima! Aquela palavra estranha, dita naquele tom de entusiasmo, em coisa nenhuma melhorou a situa\u00e7\u00e3o de atrapalhamento de Maricota. O fato de sabermos o nome de uma doen\u00e7a n\u00e3o nos consola nem cura.<\/p>\n<p>\u2013 E que tem isso? perguntou ela.<\/p>\n<p>\u2013 Tem, minha senhora, que \u00e9 uma doen\u00e7a rar\u00edssima. Pelo que sei a respeito, n\u00e3o se conhece um s\u00f3 caso em toda a Am\u00e9rica do Sul&#8230;<\/p>\n<p>Compreende agora o meu entusiasmo de profissional? M\u00e9dico que descobre casos \u00fanicos \u00e9 m\u00e9dico de nome feito&#8230;<\/p>\n<p>Maricota come\u00e7ou a compreender.<\/p>\n<p>Longamente Cadaval debateu a situa\u00e7\u00e3o, informando-se de tudo \u2013 da fam\u00edlia, do objeto da viagem. Ao saber de sua ida \u00e0 cidade pr\u00f3xima em busca do dr. Clarimundo, rebelou-se.<\/p>\n<p>\u2013 Qual Clarimundo, minha senhora! Esses m\u00e9dicos da ro\u00e7a n\u00e3o passam de perfeitas cavalgaduras. Formam-se e afundam nos lugarejos, nunca l\u00eaem nada. Atrasad\u00edssimos. Se a senhora vai consult\u00e1-lo, perder\u00e1 o seu tempo e o seu dinheiro. Ora, o Clarimundo!<\/p>\n<p>\u2013 Conhece-o?<\/p>\n<p>\u2013 Claro que n\u00e3o, mas adivinho. Conhe\u00e7o a classe. O seu caso, minha senhora, \u00e9 a maravilha das maravilhas, desses que s\u00f3 podem ser tratados pelos grandes m\u00e9dicos dos grandes centros \u2013 e estudado pelas academias. A senhora vai mas \u00e9 para o Rio de Janeiro. Tive a sorte de encontr\u00e1-la e n\u00e3o a largo mais. Ora esta! Um rinofima destes nas m\u00e3os do Clarimundo! Tinha gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>A mo\u00e7a alegou que a sua pobreza n\u00e3o lhe permitia tratar-se na capital. Eram paup\u00e9rrimos.<\/p>\n<p>\u2013 Sossegue. Eu farei todas as despesas. Um caso como o seu vale ouro. Rinofima! O primeiro observado na Am\u00e9rica do Sul! Isso \u00e9 ouro em barra, minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>E tanto falou, e tanto gabou a beleza do rinofima, que Maricota deu de sentir uns come\u00e7os de orgulho. Depois de duas horas de debates e combina\u00e7\u00f5es, j\u00e1 estava outra \u2013 sem vexame nenhum dos passageiros \u2013 e a exibir pelo tombadilho o seu rabanete com quem exibe algo fascinante.<\/p>\n<p>O doutor Cadaval era um mo\u00e7o extremamente expansivo, dos que n\u00e3o param de falar. O empolgamento em que ficou f\u00ea-lo debater o assunto com todos a bordo.<\/p>\n<p>\u2013 Comandante \u2013 disse ao capit\u00e3o horas depois \u2013, aquilo \u00e9 uma preciosidade sem par. \u00danico na Am\u00e9rica do Sul, imagine! O sucesso que vou fazer no Rio \u2013 na Europa. \u00c9 dessas coisas que arrumam a carreira de um m\u00e9dico. Um rinofima! Um ri-no-fi-ma, capit\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o houve passageiro que n\u00e3o se inteirasse da hist\u00f3ria do rinofima da mo\u00e7a \u2013 e o sentimento de inveja tornou-se geral. Evidentemente Maricota fora marcada pelo Destino. Possu\u00eda algo \u00fanico, uma coisa de fazer a carreira de um m\u00e9dico e de figurar em todos os tratados de medicina. Muitos houve que instintivamente correram os dedos pelo nariz na esperan\u00e7a de apalpar um comecinho da maravilha&#8230;<\/p>\n<p>Maricota, ao recolher-se \u00e0 cabine, escreveu \u00e1 m\u00e3e:<\/p>\n<p>\u201cTudo est\u00e1 mudando da maneira mais esquisita, mam\u00e3e! Encontrei a bordo um m\u00e9dico distint\u00edssimo que, ao dar com o meu nariz, abriu a boca no maior entusiasmo. Eu s\u00f3 queria que a senhora visse. Acha que \u00e9 uma grande \u2013 uma grand\u00edssima coisa, a coisa mais rara do mundo, \u00fanica na Am\u00e9rica do Sul, imagine!<\/p>\n<p>Disse que vale um tesouro, que para ele foi o mesmo que ter encontrado um tal diamante Cullinan. Quer que eu v\u00e1 para o Rio de Janeiro. Paga tudo. Como aleguei que somos muitos pobres, prometeu que depois da opera\u00e7\u00e3o me arranja um lugar de professora no Rio!&#8230; At\u00e9 a vergonha l\u00e1 se foi. Passeio com o nariz \u00e0 mostra, alto.<\/p>\n<p>E, coisa incr\u00edvel, mam\u00e3e, todos me olham com inveja! Inveja sim \u2013 eu leio nos olhos de todos. Decore esta palavra: RINOFIMA. \u00c9 o nome da doen\u00e7a. Ah, eu s\u00f3 queria ver a cara desses bobos de Santa Rita, que tanto ca\u00e7oavam de mim \u2013 quando souberem&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Maricota mal conseguiu dormir essa noite. Grande mudan\u00e7a de id\u00e9ias se operava em sua cabe\u00e7a. Qualquer coisa a advertia de que era chegado o momento de uma grande tacada. Tinha de tirar vantagens da situa\u00e7\u00e3o \u2013 e como ainda n\u00e3o dera resposta definitiva ao dr. Cadaval, deliberou executar um plano.<\/p>\n<p>No dia seguinte o m\u00e9dico abordou-a de novo.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, dona Maricota, est\u00e1 resolvida, afinal?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a estava resolvid\u00edssima; mas, boa mulher que era, fingiu.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sei ainda. Escrevi \u00e0 mam\u00e3e&#8230; H\u00e1 a minha situa\u00e7\u00e3o pessoal e a da minha gente. Para que eu v\u00e1 ao Rio preciso ficar sossegada quanto a estes dois pontos. Tenho dois irm\u00e3os e quatro irm\u00e3s \u2013 e como \u00e9? Ficar l\u00e1 no Rio sem eles, imposs\u00edvel. E como deix\u00e1- los ficar sozinhos em Santa Rita, se sou o esteio da casa?<\/p>\n<p>O dr. Cadaval refletiu uns momentos. Depois disse:<\/p>\n<p>\u2013 Os rapazes eu posso colocar facilmente. J\u00e1 suas irm\u00e3s, n\u00e3o sei. Que idade t\u00eam elas?<\/p>\n<p>\u2013 Alzira, a logo abaixo de mim, est\u00e1 com 25 anos. Muito boa criatura. Borda que \u00e9 um primor. Bonitinha.<\/p>\n<p>\u2013 Se tem essas prendas poderemos coloc\u00e1-la numa boa casa de modas. E as outras?\u2013 H\u00e1 a Anita, com 22, mas essa s\u00f3 sabe ler e escrever versos. Sempre teve um jeito extraordin\u00e1rio para a poesia.<\/p>\n<p>O dr. Cadaval co\u00e7ou a cabe\u00e7a. Colocar uma poetisa n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil \u2013 mas veria.<\/p>\n<p>H\u00e1 os empregos do governo, nos quais cabem at\u00e9 os poetas.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 a Olga, com 20 anos, que s\u00f3 pensa em casar. Essa n\u00e3o quer outro emprego. Nasceu para o casamento \u2013 e l\u00e1 em Santa Rita est\u00e1 secando porque n\u00e3o h\u00e1 homens \u2013 todos emigram.<\/p>\n<p>\u2013 Arranjaremos um bom casamento para Olga \u2013 prometeu o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 a Odete, com 19 anos, que ainda n\u00e3o revelou posi\u00e7\u00e3o para coisa nenhuma.<\/p>\n<p>Boa criatura, mas muito crian\u00e7ola, bobinha.<\/p>\n<p>\u2013 Vai ser outro casamento \u2013 sugeriu o m\u00e9dico. \u2013 Arranja-se. Arranjaremos a vida de todos.<\/p>\n<p>O dr. Cadaval ia prometendo com aquela facilidade porque no \u00edntimo n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de colocar tanta gente. Poderia, sim, arrumar a vida de Maricota \u2013 depois de oper\u00e1-la. Mas o resto da fam\u00edlia que se fomentasse.<\/p>\n<p>Assim n\u00e3o sucedeu, entretanto. As aperturas da vida tinham dado a Maricota um senso das realidades verdadeiramente totalit\u00e1rio. Percebendo que aquela oportunidade era a maior de sua vida, resolveu n\u00e3o deix\u00e1-la escapar. De modo que, ao chegar ao Rio, antes de entregar-se ao tratamento e exibir na Academia de Medicina o seu caso \u00fanico, imp\u00f4s condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Alegou que sem a irm\u00e3 Alzira n\u00e3o tinha jeito de ficar sozinha na capital \u2013 e o rem\u00e9dio foi a vinda de Alzira. Mal pilhou l\u00e1 a irm\u00e3, insistiu em coloc\u00e1-la \u2013 porque n\u00e3o tinha o menor prop\u00f3sito ficarem as duas nas costas do m\u00e9dico. \u201cAssim, a Alzira acanha-se e volta.\u201d<\/p>\n<p>Ansioso por dar in\u00edcio \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do rinofima, o m\u00e9dico pulou para arranjar a coloca\u00e7\u00e3o da Alzira. E depois disso deu novos pulos para mandar vir e colocar a Anita. E depois da Anita chegou a vez de Olga. E depois de Olga chegou a vez de Odete. E depois de Odete chegou a vez de dona Teodora e dos dois rapazes.<\/p>\n<p>O caso de Olga foi dif\u00edcil. Casamento! Mas Cadaval teve uma id\u00e9ia filha do desespero: intimou um seu ajudante no consult\u00f3rio, portugu\u00eas quarent\u00e3o de nome Nic\u00e9foro, a casar-se com a menina. Ultimatum da Moral.<\/p>\n<p>\u2013 Ou casa-se ou vai para o olho da rua. N\u00e3o quero mais saber de auxiliares solter\u00f5es.<\/p>\n<p>Nic\u00e9foro, tipo bastante pai-da-vida, co\u00e7ou a cabe\u00e7a mas casou-se \u2013 e foi o mais feliz dos Nic\u00e9foros.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia j\u00e1 estava toda arrumada, quando Maricota se lembrou de dois primos. O m\u00e9dico, por\u00e9m, resistiu.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o. Isso tamb\u00e9m \u00e9 demais. Se continuar assim a senhora acaba for\u00e7ando-me a arranjar um bispado para o padre de Santa Rita. N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria do dr. Cadaval foi verdadeiramente estrondosa. Encheram-se as revistas m\u00e9dicas e os jornais com a not\u00edcia da solene apresenta\u00e7\u00e3o \u00e0 Academia de Medicina do bel\u00edssimo caso \u2013 \u00fanico da Am\u00e9rica do Sul \u2013 dum maravilhoso rinofima, o mais belos dos rinofimas. As publica\u00e7\u00f5es estrangeiras acompanharam as nacionais.<\/p>\n<p>O mundo cient\u00edfico de todos os continentes ficou sabendo de Maricota, do seu \u201crabanete\u201d e do eminente doutor Cadaval Lopeira \u2013 luminar da ci\u00eancia m\u00e9dica sul-americana.<\/p>\n<p>Dona Teodora, felic\u00edssima, n\u00e3o cessava de comentar o estranho curso dos acontecimentos.<\/p>\n<p>\u2013 Bem se diz que Deus escreve direito por linhas tortas. Quando havia eu de imaginar, ao nos surgir aquela horr\u00edvel coisa no nariz de minha filha, que era para o bem geral de todos!<\/p>\n<p>Restava a parte \u00faltima \u2013 a opera\u00e7\u00e3o. Maricota, entretanto, ainda nas v\u00e9speras do dia marcado vacilava.<\/p>\n<p>\u2013 Que acha, mam\u00e3e? Deixo ou n\u00e3o deixo que o doutor me opere?<\/p>\n<p>Dona Teodora abriu a boca.<\/p>\n<p>\u2013 Que id\u00e9ia, menina! Claro que deixa. Pois h\u00e1 de ficar toda vida assim com esse esc\u00e2ndalo na cara?<\/p>\n<p>Maricota n\u00e3o se decidia.<\/p>\n<p>\u2013 Podemos demorar um pouco mais, mam\u00e3e. Tudo quanto nos veio de bom saiu do rinofima. Quem sabe se nos rende mais alguma coisa? H\u00e1 ainda o Zezinho a colocar \u2013 e o pobre Quind\u00f3, que nunca achou emprego&#8230;<\/p>\n<p>Mas dona Teodora, arquifarta do rabanete, amea\u00e7ou de lev\u00e1-la de volta para Santa Rita, se ela teimasse na asneira de retardar, por um s\u00f3 dia, a opera\u00e7\u00e3o. E Maricota foi operada. Perdeu o rinofima, ficando com um nariz igual ao de todas as outras, apenas levemente enrugadinho em conseq\u00fc\u00eancia dos enxertos de epiderme.<\/p>\n<p>Quem positivamente desapontou foi a gente maldosa do lugarejo. O maravilhoso romance de Maricota era comentado em todas as rodinhas com grandes exageros \u2013 at\u00e9 com o exagero de que ela estava noiva do dr. Cadaval.<\/p>\n<p>\u2013 Como a gente se engana neste mundo! \u2013 filosofou o farmac\u00eautico. \u2013 Todos pensamos que aquilo fosse doen\u00e7a \u2013 mas o verdadeiro nome de tais rabanetes, sabem qual \u00e9?\u2013?<\/p>\n<p>\u2013 Sorte grande, minha gente! Sorte Grande da Espanha&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi numa quieta cidadezinha entrevada, dessas que se alheiam do mundo com a discri\u00e7\u00e3o humilde dos musgos. Havia l\u00e1 a gente do Moura, o arrecadador de taxas municipais do mercado. A morte arrecadou o Moura muito fora de tempo e prop\u00f3sito. 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