{"id":92428,"date":"2017-01-04T10:14:07","date_gmt":"2017-01-04T12:14:07","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92428"},"modified":"2017-01-04T10:14:07","modified_gmt":"2017-01-04T12:14:07","slug":"os-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros","title":{"rendered":"Os negros"},"content":{"rendered":"<p>Viajamos certa vez pelas regi\u00f5es est\u00e9reis por onde h\u00e1 um s\u00e9culo, puxado pelo negro, o carro triunfal de Sua Majestade o caf\u00e9 passou, quando grossas nuvens reunidas no c\u00e9u entraram a desmanchar-se.<\/p>\n<p>Sinal certo de chuva.<br \/>\nPara confirm\u00e1-lo, um vento brusco, raspante, veio quebrar o morma\u00e7o, vascolejando a terra como a preveni-la do iminente banho mete\u00f3rico. Remoinhos de poeira sorviam folhas e gravetos, que l\u00e1 torvelinhavam em espirais pelas alturas.<br \/>\nSofreando o animal, parei, a examinar o c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida \u2013 disse ao meu companheiro &#8211; , temo-la e boa! O rem\u00e9dio \u00e9 acoutar-nos quanto antes nalgum socav\u00e3o, que \u00e1gua vem a\u00ed de rachar.<\/p>\n<p>Circunvaguei o olhar em torno. Morraria \u00e1spera a perder-se de vista, sem uma casota de palha a acenar-nos com um \u201cVem c\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; E agora? \u2013 exclamou desnorteado o Jonas, marinheiro de primeira viagem, que tudo fiava da minha experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 galopar. Atr\u00e1s deste espig\u00e3o fica uma fazenda em ru\u00ednas, de m\u00e1 nota, mas \u00fanico o\u00e1sis poss\u00edvel nesta emerg\u00eancia. Casa do inferno, chama-lhe o povo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois toca para o inferno, j\u00e1 que o c\u00e9u nos amea\u00e7a \u2013 retorquiu Jonas, dando de esporas e seguindo-me por um atalho.<\/p>\n<p>&#8211; Tens coragem? \u2013 gritei-lhe. \u2013 Olha que \u00e9 casa mal-assombrada!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem-vinda seja. Anos h\u00e1 que procuro uma, sem topar coisa que preste. Correntes que se arrastam pela calada da noite?<\/p>\n<p>&#8211; Dum preto velho que foi escravo do defunto capit\u00e3o Aleixo, fundador da fazenda, ouvi coisas de arrepiar&#8230;<\/p>\n<p>Jonas, a criatura mais gabola deste mundo, n\u00e3o perdeu vasa duma pacholice:<\/p>\n<p>&#8211; De arrepiar a ti, que a mim, bem sabes, s\u00f3 me arrepiam correntes de ar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Acredito, mas toca, que o dil\u00favio n\u00e3o tarda.<\/p>\n<p>O c\u00e9u enegrecera por igual. Um rel\u00e2mpago fulgurou-se seguido de formid\u00e1vel ribombo, que l\u00e1 se foi \u00e0s cabe\u00e7adas pelos morros at\u00e9 perder-se distante. E os primeiros pingos vieram, escoteiro, pipocar no ch\u00e3o ressecado.<br \/>\n&#8211; Espora, espora!<\/p>\n<p>Em minutos ving\u00e1vamos o espig\u00e3o, de cujo topo vimos a casaria maldita, tragada a meio pelo matar\u00e9u invasor.<\/p>\n<p>Os ping\u00f5es mais e mais se amiudavam, e j\u00e1 eram \u00e1gua de molhar quando a ferradura das bestas estrepitou, com fa\u00edscas, no velho terreiro de pedra. Sururucados por ele adentro rumo a um telheiro em aberto, l\u00e1 apeamos afinal, esbaforidos, mas a salvo da molhadela.<\/p>\n<p>E as b\u00e1tegas vieram, furiosas, em acordas-d\u2019\u00e1gua a prumo, como devia ser no chuveiro b\u00edblico do dil\u00favio universal.<\/p>\n<p>Examinei o couto. Telheiro de carros e tropa, derru\u00eddo em parte. Os esteios, da cabi\u00fana eterna, tinham nabos \u00e0 mostra \u2013 tantos enxurros correram por ali erodindo o solo. Por eles marinhava a caetaninha, essa mimosa alcatifa dos tapumes, toda rosetada de flores amarelas e pingentada de mel\u00f5ezinhos de bico, cor de can\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m abobeiras vi\u00e7avam na tapera, galgando vitoriosas pelos espeques para enfolharem no alto, entremeio das ripas e caibros a nu. Suas flores grandalhudas, t\u00e3o caras \u00e0s mamangavas, manchavam d\u2019amarelo p\u00e1lido o tom cru da folhagem ver-negra.<\/p>\n<p>Fora, a pouca dist\u00e2ncia do telheiro, a \u201ccasa-grande\u201d se erguia, vislumbrada apenas atrav\u00e9s da cortina d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>E a \u00e1gua a cair.<\/p>\n<p>E a trovoada a escalejar seus ecos pela morraria int\u00e9rmina.<\/p>\n<p>E o meu amigo, t\u00e3o calmo sempre e alegre, a exasperar-se:<\/p>\n<p>&#8211; Raio de peste de tempo desgra\u00e7ado! J\u00e1 n\u00e3o posso almo\u00e7ar em Vassouras amanh\u00e3, como pretendia.<\/p>\n<p>&#8211; Chuva de corda n\u00e3o dura hora \u2013 consolei-o.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas ser\u00e1 poss\u00edvel alcan\u00e7ar o tal pouso do Alonso ainda hoje?<\/p>\n<p>Consultei o pulso.<\/p>\n<p>&#8211; Cinco e meia. \u00c9 tarde. Em vez de Alonso, temos que gramar o Aleixo. E dormir com as bruxas, mais a alma do capit\u00e3o infernal.<\/p>\n<p>&#8211; Inda \u00e9 o que nos vale \u2013 filosofou o impertinente Jonas. \u2013 Que assim, ao menos, haver\u00e1 o que contar amanh\u00e3.<\/p>\n<h4><strong>ll<\/strong><\/h4>\n<p>O temporal durou meia hora e ao cabo amainou, com os rel\u00e2mpagos espacejados e os trov\u00f5es a roncarem muito longe dali. Apesar de pr\u00f3xima a noite, inda t\u00ednhamos uma hora de luz para sondar o terreiro.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de morar aqui por perto algum urumbeva \u2013 disse eu. \u2013 N\u00e3o existe tapera sem lacraia. Vamos \u00e0 cata desse aben\u00e7oado urup\u00ea.<\/p>\n<p>Encavalgamos de novo e sa\u00edmos a rodear a fazenda.<\/p>\n<p>&#8211; Acertaste, amigo! \u2013 exclamou de repente Jonas, ao divisar uma casinhola erguida entre moitas, a duzentos passos de dist\u00e2ncia. \u2013 Bico-de-papagaio, p\u00e9 de mam\u00e3o, terreiro limpo; \u00e9 o urumbeva sonhando!<br \/>\nPara l\u00e1 nos dirigimos e j\u00e1 do terreiro gritamos o \u201c\u00d3 de casa!\u201d Uma porta se abriu-se, enquadrando o vulto dum negro velho, de cabelos ru\u00e7os. Com que alegria o saudei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pai Ad\u00e3o, viva!<\/p>\n<p>&#8211; Vassuncristo! \u2013 respondeu o preto.<\/p>\n<p>Era dos leg\u00edtimos&#8230;<\/p>\n<p>Pra sempre! \u2013 gritei eu. \u2013 Estamos aqui trancados pela chuva e impedidos de prosseguir viagem. Tio Ad\u00e3o h\u00e1 de&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tio Bento, pra servir os bancos.<\/p>\n<p>&#8211; Tio Bento h\u00e1 de arranjar-nos pouso por esta noite.<\/p>\n<p>&#8211; E b\u00f3ia \u2013 acrescentou Jonas &#8211; , visto que temos a caixa das empadas a tinir.<\/p>\n<p>O excelente negro sorriu-se, com a gengiva inteira \u00e0 mostra, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 ape\u00e1. Casa de pobre, mas de bom cora\u00e7\u00e3o. Quanto \u201cde comer\u201d, comidinha de negro velho, j\u00e1 sabe&#8230;<\/p>\n<p>Apeamos, alegremente.<\/p>\n<p>&#8211; Angu? \u2013 chasqueou o Jonas.<\/p>\n<p>O negro riu-se.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 se foi o tempo do angu com \u201cbacalhau\u201d&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o deixou saudades, hein, tio Bento?<\/p>\n<p>&#8211; Saudades n\u00e3o deixou, n\u00e3o, eh! eh!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para voc\u00eas, pretos; porque entre os brancos muitos h\u00e1 que choram aquele tempo de vacas gordas. N\u00e3o fosse o 13 de Maio e n\u00e3o estava agora eu aqui a arrebentar as unhas neste raio de l\u00e1tego, que encruou com a chuva e n\u00e3o desata. Era servicinho do pajem&#8230;<\/p>\n<p>Desarreamos as bestas e depois de solt\u00e1-las penetramos na casinha, sobra\u00e7ando os arreios. Vimos, ent\u00e3o, que era pequena demais para nos abrigar aos tr\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Amigos Bento, olha, n\u00e3o cabemos tanta gente aqui. O melhor \u00e9 acomodar-nos na casa-grande, que isto c\u00e1 n\u00e3o \u00e9 casa de bicho-homem, \u00e9 ninho de cuitelo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Os brancos querem dormir na casa mal-assombrada? \u2013 exclamou admirado o preto.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o aconselho, n\u00e3o. Algu\u00e9m j\u00e1 fez isso mas se arrependeu depois.<\/p>\n<p>&#8211; Arrepender-nos-emos tamb\u00e9m depois, amanh\u00e3, mas j\u00e1 com a dormida no papo \u2013 disse Jonas.<\/p>\n<p>E como o preto abrisse a boca:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9 coragem, tio Bento. Escoramos sete. E almas do outro mundo, ent\u00e3o, uma d\u00fazia! Vamos l\u00e1. Est\u00e1 aberta a casa?<\/p>\n<p>&#8211; A porta do meio emperrou, mas \u00e0 for\u00e7a de ombros deve abrir.<\/p>\n<p>&#8211; Abandonada h\u00e1 muito tempo?<\/p>\n<p>&#8211; \u201cQuinzano!\u201d Des\u2019 que morreu o \u00faltimo filho do capit\u00e3o Aleixo ficou assim, ninho de morcego e suindara.<\/p>\n<p>&#8211; E por que abandonaram?<\/p>\n<p>&#8211; \u201cDescabe\u00e7ada\u201d do mo\u00e7o. Pra mim, castigo de Deus. Os filhos pagam a ruindade dos pais, e o capit\u00e3o Aleixo, Deus que me perdoe, foi mau, mau, inteirado. Tinha fama! Aqui em dez l\u00e9guas de roda, quem queria amea\u00e7ar um negro reinador era s\u00f3 dizer: \u201cEspera, diabo, que te vendo pro capit\u00e3o Aleixo\u201d. O negro ficava que nem uma seda!&#8230;Mas o que ele fez os filhos pagaram. Eram quatro: Sinhozinho, o mais velho, que morreu \u201cmasgaiado\u201d num trem; nh\u00e1 zabelinha&#8230;<\/p>\n<p><strong>lll<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto o preto falava, insensivelmente fomos caminhando para casa maldita.<\/p>\n<p>Era o casar\u00e3o cl\u00e1ssico das antigas fazendas negreiras. Assombrado, erguido em alicerces e muramento de pedra at\u00e9 meia altura e da\u00ed por diante de pau-apique.<\/p>\n<p>Esteios de cabre\u00fava, entremostrando-se picados a enx\u00f3 nos trechos donde se esboroara o reboco. Janelas e portas em arco, de bandeiras em pandarecos. Pelos interst\u00edcios da pedra amoitavam-se as samambaias; e nas faces de sombra, avenquinhas raqu\u00edticas. Num cunhal crescia anosa figueira, enla\u00e7ando as pedras na terr\u00edvel cordoalha tentacular. \u00c0 porta de entrada ia ter uma escadaria dupla, com alpendre em cima e parapeito esborcinado.<\/p>\n<p>Pus-me a olhar para aquilo, invadido de saudade que sempre me causam ru\u00ednas, e parece que em Jonas a sensa\u00e7\u00e3o era a mesma, pois que o vi muito s\u00e9rio, de olhar pregado na casa, como quem recorda. Perdera o bom humor, o esp\u00edrito brincalh\u00e3o de inda h\u00e1 pouco. Emudecera.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 visto \u2013 murmurei depois dalguns minutos. \u2013 Vamos agora \u00e0 b\u00f3ia, que n\u00e3o \u00e9 sem tempo.<\/p>\n<p>Voltamos.<\/p>\n<p>O negro, que n\u00e3o parara de falar, agora de sua vida ali.<\/p>\n<p>&#8211; Morreu tudo, meu branco, e fiquei eu s\u00f3. Tenho umas plantas na beira do rio, palmito no mato e uma paquinha l\u00e1 de vez em quando na ponta do chu\u00e7o. Como sou s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3, s\u00f3, s\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; \u201cSuzinho, suzinho!\u201d A mer\u00eancia morreu faz tr\u00eas anos. Os filhos, n\u00e3o sei deles. Crian\u00e7a \u00e9 como ave: cria pena, avoa. O mundo \u00e9 grande \u2013 andam pelo mundo avoando&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois, amigo Bento, saiba que voc\u00ea \u00e9 um her\u00f3i e um grande fil\u00f3sofo por cima, digno de ser memorando em prosa ou verso pelos homens que escrevem nos jornais. Mas fil\u00f3sofo de pior esp\u00e9cie est\u00e1 me parecendo aquele sujeito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Conclu\u00ed referindo-me ao Jonas, que se atrasara e parara de novo em contempla\u00e7\u00e3o da casa.<\/p>\n<p>Gritei-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Mexe-te, \u00f3 poeta que ladras \u00e0s lagartixas! Olha que saco vazio n\u00e3o se p\u00f5e de p\u00e9, e temos dez l\u00e9guas a engolir amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Respondeu-me com um gesto vago e ficou-se no lugar im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Larguei m\u00e3o do cismabundo e entrei na casinhola do preto, que, acendendo luz \u2013 um candeeiro de azeite -, foi ao borralho buscar ra\u00edzes de mandioca assada. P\u00f4-las sobre um mocho, quentinhas, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que h\u00e1. Isto e um restico de paca moqueada.<\/p>\n<p>&#8211; E achas pouco, Bento? \u2013 disse eu, metendo os dentes na raiz deliciosa. \u2013 n\u00e3o sabes que se n\u00e3o fosse tua providencial presen\u00e7a ter\u00edamos de manducar viradinho de brisas com torresmos de z\u00e9firos at\u00e9 alcan\u00e7armos a venda do Alonso amanh\u00e3? Deus que te aben\u00e7oe e te d\u00ea no c\u00e9u um mandiocal imenso, plantado pelos anjos.<\/p>\n<h4><strong>lV<\/strong><\/h4>\n<p>Ca\u00edra de toda a noite. Que c\u00e9u! Alternavam viv\u00edssimas com rebojos negros de nuvens acasteladas. Na terra, escurid\u00e3o de breu, rasgada de piques de luz pelas estrelinhas avoantes. Uma coruja berrava longe, num esgalho morto de perobeira.<\/p>\n<p>Que solid\u00e3o, que espessura de trevas \u00e9 a de uma noite assim, no deserto! Nesses momentos \u00e9 que um homem bem compreende a origem tenebrosa do medo&#8230;<\/p>\n<p><strong>V<\/strong><\/p>\n<p>Acabada a magra refei\u00e7\u00e3o, observei ao preto:<\/p>\n<p>&#8211; Agora, amigo, \u00e9 agarrarmos estas mantas e pelegos, mais a luz, e irmo-nos \u00e0 casa grande. Dormes l\u00e1 conosco, a guisa de Par\u00e1-raios de almas. Topas?<\/p>\n<p>Contente de ser-nos \u00fatil, tio Bento sobra\u00e7ou a quitanda e deu-me a levar o candeeiro. E l\u00e1 fomos pelo escuro da noite, a chapinhar nas po\u00e7as e na grama empapada.<\/p>\n<p>Encontrei Jonas no mesmo lugar, absorto em frente \u00e0 casa.<\/p>\n<p>Est\u00e1s louco, rapaz? N\u00e3o comeres tu, que estavas de fome, e ficares a\u00ed como perereca diante da cascavel?<\/p>\n<p>Jonas olhou-me dum modo estranho e como \u00fanica resposta esgani\u00e7ou um \u201cdeixa-me\u201d. Fiquei a encar\u00e1-lo por uns instantes, deveras desnorteado por t\u00e3o inexplic\u00e1vel atitude. E foi assim, de rugas na testa, que galguei a escadaria musgosa do casar\u00e3o.<\/p>\n<p>Estava perra de fato a porta, como dissera o negro, mas com valentes ombradas abri-a no preciso para dar passagem a um homem. Mal entramos, morcegos \u00e0s dezenas, assustados com a luz, debandaram \u00e0s tontas, em voejos surdos.<\/p>\n<p>&#8211; Macacos me lambam se isto aqui n\u00e3o \u00e9 o quartel general de todos os ratos de asas deste e dos mundos vizinhos!<\/p>\n<p>&#8211; E das suindaras, patr\u00e3ozinho. Mora aqui um band\u00e3o delas que at\u00e9 d\u00e1 medo \u2013 acrescentou o preto, ao ouvir-lhes os pios no forro.<\/p>\n<p>A sala de espera toava com o restante da fazenda. Paredes lagarteadas de rachas, escorrida de goteiras, com vagos vest\u00edgios do papel. M\u00f3veis desaparelhados \u2013 duas cadeiras Luiz XV, de palhinha rota, e mesa de centro do mesmo estilo, com o m\u00e1rmore sujo pelo guano dos morcegos. No teto, t\u00e1buas despregadas, entremostrando rombos escuros.<\/p>\n<p>&#8211; Tio Bento \u2013 disse eu, procurando iludir com palavras a tristezas do cora\u00e7\u00e3o -, isto aqui cheira-me \u00e0 sala nobre do sab\u00e1 das bruxas. Que n\u00e3o venham hoje atropelar-nos, nem apare\u00e7a a alma do capit\u00e3o-mor a nos infernizar o sono. N\u00e3o \u00e9 verdade que a alma do capit\u00e3o-mor vagueia por aqui a desoras?<\/p>\n<p>&#8211; Dizem \u2013 respondeu o preto. \u2013 Dizem que aparece ali na casa do tronco, n\u00e3o \u00e0s dez, mas a meia-noite, e que sangra as unhas a arranhar as paredes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E depois vem c\u00e1 arrastar correntes pelos corredores, hein? Como \u00e9 pobre a imaginativa popular! Sempre e em toda parte a mesma \u00e1ria das correntes arrastadas! Mas vamos ao que serve. N\u00e3o haver\u00e1 um quarto melhor do que isto, nesta hospedaria de mestre tinhoso?<\/p>\n<p>&#8211; Haver, h\u00e1 \u2013 trocadilho sem querer o preto -, mas \u00e9 o quarto do capit\u00e3o-mor. Tem coragem?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o est\u00e1 convencido, Bento, de que sou um po\u00e7o de coragem?<\/p>\n<p>&#8211; Po\u00e7o tem fundo \u2013 retrucou ele, sorrindo filosoficamente. \u2013 O quarto \u00e9 aqui \u00e0 direita.<\/p>\n<p>Dirigi-me para l\u00e1. Entrei. Quarto amplo e em melhor estado que a sala de espera. Guarneciam-no duas velhas marquesas de palhinha bolorenta, al\u00e9m de v\u00e1rias cadeiras rotas. Na parede, um retrato na moldura cl\u00e1ssica da \u00e9poca dourada, de cantos redondos, com flor\u00f5es. Limpei com o len\u00e7o a poeira acumulada no vidro e vi que era um daguerre\u00f3tico esmaiado, representando imagem de mulher.<\/p>\n<p>Bento percebeu a minha curiosidade e explicou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o retrato da filha mais velha do capit\u00e3o Aleixo, nh\u00e1 Zab\u00e9, uma mo\u00e7a t\u00e3o desgra\u00e7ada&#8230;<\/p>\n<p>Contemplei longamente aquela antigualha vener\u00e1vel vestida \u00e0 moda da \u00e9poca.<\/p>\n<p>&#8211; Tempo das anquinhas, hein Bento? Lembras-te das anquinhas?<\/p>\n<p>Se me lembro! A sinh\u00e1-velha, quando vinha da cidade, era assim que ela andava, que nem uma perua choca&#8230;<\/p>\n<p>Recoloquei na parede o daguerre\u00f3tipo e pus-me a arranjar as marquesas, arrumando numa e noutra pelegos, \u00e0 guisa de travesseiros. Em seguida fui ao alpendre, de luz na m\u00e3o, a ver se amadrinhava o meu relapso companheiro. Era demais aquela maluquice! N\u00e3o jantar e agora ficar-se ali ao relento&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vl<\/strong><\/p>\n<p>Perdi meu requebrado. Chamei-o, mas nem com o \u201cdeixa-me\u201d respondeu desta vez.<\/p>\n<p>Tal atitude p\u00f4s-me seriamente apreensivo.<\/p>\n<p>&#8211; Se lhe desarranja a cabe\u00e7a, aqui nestas alturas&#8230;<\/p>\n<p>Torturado por esta id\u00e9ia, n\u00e3o pude sossegar. Confabulei com o Bento e resolvemos sair em procura do transviado.<\/p>\n<p>Fomos felizes. Encontramo-lo no terreiro, em face da antiga casa do tronco. Estava im\u00f3vel e mudo.<\/p>\n<p>Ergui-lhe a luz \u00e0 altura do rosto. Que estranha express\u00e3o a sua! N\u00e3o parecia o mesmo \u2013 n\u00e3o era o mesmo. Deu-me a impress\u00e3o de retesado no \u00faltimo arranco duma luta suprema, com todas as energias crispadas numa resist\u00eancia feroz. Sacudi-o com viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Jonas! Jonas!<\/p>\n<p>In\u00fatil. Era um corpo largado da alma. Era um homem \u201cvazio de si pr\u00f3prio!\u201d Assombrado com o fen\u00f4meno, concentrei todas as minhas for\u00e7as e, ajudado pelo Bento, trouxe-o para casa.<\/p>\n<p>Ao penetrar na sala de espera, Jonas estremeceu; parou, arregalou os olhos para a porta do quarto. Seus l\u00e1bios tremiam. Percebi que articulavam palavras incompreens\u00edveis. Precipitou-se, depois, para o quarto e, dando com o daguerre\u00f3tipo de Isabel, agarrou-o com frenesi, beijou-o, rompido em choro convulsivo.<\/p>\n<p>Em seguida, como exausto duma grande luta, caiu sobre a marquesa, prostado, sem articular nenhum som.<\/p>\n<p>Inutilmente interpelei-o, procurando a chave do enigma. Jonas permanecia vazio&#8230;<\/p>\n<p>Tomei-lhe o pulso: normal. A temperatura: boa. Mas largado, como um corpo morto.<\/p>\n<p>Fiquei ao p\u00e9 dele uma hora, com mil id\u00e9ias a me azoinarem a cabe\u00e7a. Por fim, vendo-o calmo, fui ter com o preto.<\/p>\n<p>&#8211; conta-me o que sabes desta fazenda \u2013 pedi-lhe. \u2013 Talvez que&#8230;<\/p>\n<p>Meu pensamento era deduzir das palavras do negro algo explicativo da misteriosa crise.<\/p>\n<p><strong>Vll<\/strong><\/p>\n<p>Nesse entremeio zangara de novo o tempo. As nuvens recobriam inteiramente o c\u00e9u, transformado num saco de carv\u00e3o. Os rel\u00e2mpagos voltaram a fulgurar, long\u00edquos, acompanhados de reb\u00f4os surdos. E para que ao horror do quadro nenhum tom falasse, a ventania cresceu, uivando lamentosa nas casuarinas<\/p>\n<p>Fechei a janela.<\/p>\n<p>Mesmo assim, pela frinchas, o assobio l\u00fagubre entrava a me ferir os ouvidos&#8230;<\/p>\n<p>Bento falou em voz baixa, receoso de despertar o doente. Contou como viera ali, comprado pelo pr\u00f3prio capit\u00e3o Aleixo, na feira de escravos do Valongo, molecote ainda. Disse da forma\u00e7\u00e3o da fazenda e do car\u00e1ter cruel do senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Era mau, meu branco, como deve ser mau o canhoto. Judiava da gente \u00e0 toa. Pelo gosto de judiar. No come\u00e7o n\u00e3o era assim, mas foi piorando com o tempo.<\/p>\n<p>No caso da Lidu\u00edna&#8230; era uma bonita crioula aqui da fazenda. Muito viva, desde bem crian\u00e7a passou da senzala pra casa-grande, como mucama de sinhazinha Zab\u00e9&#8230;<br \/>\nIsso foi&#8230; deve fazer sessenta anos, antes da guerra do Paraguai. Eu era moleque novo e trabalhava aqui dentro, no terreiro. Via tudo. A mucama, uma vez que Sinhazinha Zab\u00e9 veio da corte passar as f\u00e9rias na ro\u00e7a, protegeu o namoro dela com um portuguesinho, e foi ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Na marquesa, onde dormia, Jonas estremeceu. Olhei. Estava sentado e em convuls\u00f5es.<\/p>\n<p>Os olhos exorbitados fixavam-se nalguma coisa invis\u00edvel para mim. Suas m\u00e3os crispadas mordiam a palhinha rota.<\/p>\n<p>Agarrei-o, sacudi-o.<\/p>\n<p>&#8211; Jonas, Jonas, que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>Olhou-me sem ver, com a retina morta, num ar de desvario.<\/p>\n<p>&#8211; Jonas, fala!<\/p>\n<p>Tentou murmurar uma palavra. Seus l\u00e1bios tremeram na tentativa de articular um nome.<\/p>\n<p>Por fim enunciou-o,arquejante:<\/p>\n<p>&#8211; \u201cIsabel\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Mas aquela voz j\u00e1 n\u00e3o era a voz de Jonas. Era uma voz desconhecida. Tive a sensa\u00e7\u00e3o plena de que um \u201ceu\u201d alheio lhe tomara de assalto o corpo vazio. E falava por sua boca, e pensava com seu c\u00e9rebro. N\u00e3o era Jonas, positivamente, quem estava ali. Era \u201coutro\u201d!&#8230;<\/p>\n<p>Tio Bento, ao p\u00e9 de mim, olhava assombrado para aquilo, sem compreender coisa nenhuma; e eu, num horroroso estado de superexcita\u00e7\u00e3o, sentia-me \u00e0 beira do medo p\u00e2nico. N\u00e3o fossem os trov\u00f5es ecoantes e o ululo da ventania nas casuarinas denunciarem-me l\u00e1 fora um horror talvez maior, e \u00e9 poss\u00edvel que n\u00e3o resistisse ao lance e fugisse da casa maldita como criminoso. Mas ali ao menos havia precioso do que todos os bens da terra.<\/p>\n<p>Estava escrito, entretanto, que ao horror dessa noite de trovoada e mist\u00e9rio n\u00e3o faltaria uma nota sequer. Assim foi que, altas horas, a luz principiou a esmorecer.<\/p>\n<p>Estremeci, e fiquei de cabelos eri\u00e7ados quando a voz do negro murmurou a \u00fanica frase que eu n\u00e3o queria ouvir:<\/p>\n<p>&#8211; O azeite est\u00e1 no fim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E h\u00e1 mais l\u00e1 em tua casa?<\/p>\n<p>Era o restinho&#8230;<\/p>\n<p>Estarreci&#8230;<\/p>\n<p>As trov\u00f5es ecoavam longe, e o uivar do vento nas casuarinas era o mesmo de sempre. Parecia empenhada a natureza em p\u00f4r em prova a resist\u00eancia dos meus nervos. S\u00edbito, um estalido no candeeiro. A luz bruxuleou um clar\u00e3o final e extinguiu-se.<\/p>\n<p>Trevas. Trevas absolutas&#8230;<\/p>\n<p>Corri \u00e0 janela. Abri-a.<\/p>\n<p>As mesmas trevas l\u00e1 fora&#8230;<\/p>\n<p>Senti-me sem olhos.<\/p>\n<p>Procurei a cama \u00e0s apalpadas e ca\u00ed de bru\u00e7os na palhinha bolorenta.<\/p>\n<h4><strong>Vlll<\/strong><\/h4>\n<p>Pela madrugada come\u00e7ou Jonas a falar sozinho, como quem se recorda. Mas n\u00e3o era o meu Jonas quem falava \u2013 era o \u201coutro\u201d<br \/>\nQue cena!&#8230;<\/p>\n<p>Tenho at\u00e9 agora gravadas a burril no c\u00e9rebro todas as palavras dessa misteriosa confid\u00eancia, proferida pelo \u00edncubo no sil\u00eancio das trevas profundas. Mil anos que viva e nunca se me apagar\u00e1 da mem\u00f3ria o ressoar daquela voz de mist\u00e9rio. N\u00e3o reproduzo suas palavras de maneira como as enunciou. Seria imposs\u00edvel, sobre nocivo \u00e0 compreens\u00e3o de quem l\u00ea. O \u201coutro\u201d falava ao jeito de quem pensa em voz alta, como a recordar. Linguagem taquigr\u00e1fica, ponho-a aqui traduzida em, linguagem corrente.<\/p>\n<p><strong>lX<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMeu nome era Fern\u00e3o. Filho de pais inc\u00f3gnitos, quando me conheci por gente j\u00e1 rolava no mar da vida como rolha sobre a onda. Ao l\u00e9u, solto nos vaivens da mis\u00e9ria, sem carinhos de fam\u00edlia, sem amigos, sem ponto de apoio no mundo.<\/p>\n<p>Era no reino, na P\u00f3voa do Varzim; e do Brasil, a boa col\u00f4nia preluzida em todas as imagina\u00e7\u00f5es como Eldorado, eu ouvia ao marinheiros de torna-viagem contarem maravilhas.<\/p>\n<p>Fascinado, deliberei emigrar.<\/p>\n<p>Parti um dia para Lisboa, a p\u00e9, como vagabundinho de estrada. Caminhada inesquec\u00edvel, faminta, mas rica dos melhores sonhos da minha exist\u00eancia. Via-me na terra nova feito mascate de bugigangas. Depois, vendeiro; depois, j\u00e1 casado, com linda cachopa, via-me de novo na P\u00f3voa, rico, morando em quinta, senhor de vinhedo e terras de semeadura.<\/p>\n<p>Assim embalado em sonhos \u00e1ureos, alcancei o porto de Lisboa, onde passei o primeiro dia no cais, namorando os navios surtos no Tejo. Um havia em aprestos para largar de rumo \u00e0 col\u00f4nia, a caravela \u201cSanta Tereza\u201d.<\/p>\n<p>Acamaradando-me com velhos marujos de gandaia por ali, consegui nela, por interm\u00e9dio deles, o engajamento necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1, foges \u2013 aconselhou-me um \u2013 e afundas no sert\u00e3o. E mercadejas, e enriqueces, e voltas c\u00e1 excelent\u00edssimo. \u00c9 o que eu faria se tivesse os verdes anos que tens.<\/p>\n<p>Assim fiz e, grumete do \u201cSanta Teresa\u201d, boiei no oceano, rumo \u00e0s terras de ultramar.<\/p>\n<p>Aportamos em \u00c1frica para recolher pretos d\u2019Angola, metidos nos por\u00f5es como fardos de couro suado com carne viva por dentro. Pobres pretos!<\/p>\n<p>Desembarcado no Rio, tive ainda ocasi\u00e3o de v\u00ea-los no Valongo, semius, expostos \u00e1 venda como reses. Os pretendentes chegavam, examinavam-nos, fechava neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Foi assim, nessa tarefa, que conheci o capit\u00e3o Aleixo. Era um homem alentado, de fei\u00e7\u00f5es duras, olhar de gelo. Trazia botas, chap\u00e9us largo e rebenque na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s dele, como sombra, um capataz mal-encarado.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o notou o meu tipo, fez perguntas e ao cabo prop\u00f4s-me servi\u00e7o em sua fazenda. Aceitei e fiz a p\u00e9, em companhia do lote de negros adquiridos, essa viagem pelo interior de um pa\u00eds onde tudo me era novidade.<\/p>\n<p>Chegamos.<\/p>\n<p>Sua fazenda, formada de pouco tempo, ia ent\u00e3o no apogeu, riqu\u00edssima de canaviais, gado e caf\u00e9 em in\u00edcios. Deram-me servicinhos leves, compat\u00edveis com a idade e a minha nenhuma experi\u00eancia de terra. E, sempre subindo de posto, ali continuei at\u00e9 ver-me homem.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia do capit\u00e3o morava na corte. Os filhos vinham todos os anos passar temporadas na ro\u00e7a, enchendo a fazenda de travessuras loucas. J\u00e1 as meninas, ent\u00e3o no col\u00e9gio, l\u00e1 se deixavam ficar mesmo na f\u00e9rias. S\u00f3 vieram uma vez, com a m\u00e3e, dona Teodora \u2013 e foi isso a minha desgra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Eram duas, In\u00eas, a ca\u00e7ula, e Isabel, a mais velha, lindas meninas de luxo, radiosas de mocidade. Eu as via de longe, como nobres figuras de romance, inacess\u00edveis, e lembro-me do efeito que naquele sert\u00e3o bruto, asselvajado pela escravaria retinta, fazia a presen\u00e7a das meninas ricas, sempre vestidas \u00e0 moda da corte. Eram princesinhas de conto de fadas que s\u00f3 provocavam uma atitude: adora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm dia&#8230;<\/p>\n<p>Aquela cachoeira \u2013 l\u00e1 lhe ou\u00e7o o remoto rumorejo \u2013 era a piscina da fazenda. Escondida numa grota, como j\u00f3ia de cristal vivo de defluir com permanente escach\u00f4o num engaste r\u00fastico de taquaris, caet\u00e9s e ingazeiros, formava um recesso grato ao pudor dos banhistas.<br \/>\nUm dia&#8230;<br \/>\nLembro-me bem \u2013 era domingo e eu, de vadiagem, sa\u00edra cedo a passarinhar. Seguia pela margem do ribeir\u00e3o tocaiando os p\u00e1ssaros ribeirinhos.<\/p>\n<p>Um pica-pau-de-cabe\u00e7a-vermelha zombou de mim. Errei a bodocada e, metido em brios, afreimei-me em perseguilo. E, salta daqui, salta dali, quando dei acordo estava embrenhado na grota da cachoeira, onde, num, galho de ing\u00e1, pude visar melhor a minha presa e espelote\u00e1-la.<\/p>\n<p>Caiu a avezinha longe do meu alcance; barafustei pela trama dos taquaris para colh\u00ea- la. Nisto, por uma abertura na verdura, avistei embaixo a bacia de pedra onde a \u00e1gua chofrava. Mas estarreci. Duas ninfas nuas brincavam na espuma. Reconheci-as. Eram Isabel e sua mucama dileta, da mesma idade, a Lidu\u00edna.<\/p>\n<p>O improviso da vis\u00e3o ofuscou-me os olhos. Quem h\u00e1 insens\u00edvel \u00e0 beleza da mulher em flor e, a mais, vista assim em nudez num quadro agreste daqueles? Isabel deslumbrou-me.<\/p>\n<p>Corpo escultural, nesse per\u00edodo entontecedor em que florescem as promessas da puberdade, diante dele senti a explos\u00e3o subit\u00e2nea dos instintos. Ferveu-me nas veias o sangue. Fiz-me cachoeira de apetites. Vinte anos! O momento das erup\u00e7\u00f5es incoerc\u00edveis&#8230;<\/p>\n<p>Im\u00f3vel como est\u00e1tua, ali me quedei em \u00eaxtase o tempo que durou o banho. E estou ainda com o quadro na imagina\u00e7\u00e3o. A gra\u00e7a com que ela, de cabe\u00e7a eguida, boca entreaberta, apresentava os pequeninos seios ao jato das \u00e1guas&#8230; os sustos e gritinhos nervosos quando gravetos derivantes lhe esfrolavam a epiderme. Os mergulhos de sereia na bacia e o emergir do corpo aljofrado de espuma&#8230;<\/p>\n<p>Durou minutos o banho fatal. Depois vestiram-se numa laje seca e l\u00e1 se foram, contentes como borboletinhas ao sol.<\/p>\n<p>Fiquei-me por ali, ext\u00e1tico, rememorando a cena mais linda que meus olhos viram.<\/p>\n<p>Impress\u00e3o de sonho&#8230;<\/p>\n<p>\u00c1guas de cristal rumorejantes orvalhadas pedidas para a linfa como a lhe escutar o murm\u00fario; um raio de sol matutino, coado pelas fran\u00e7as, a pintalgar de ouro tremeluzente a nudez menineira das n\u00e1iades.<br \/>\nQuem poder\u00e1 esquecer um quadro assim?<\/p>\n<p><strong>X<\/strong><\/p>\n<p>Esta impress\u00e3o matou-me. Matou-nos.<\/p>\n<p><strong>XI<\/strong><\/p>\n<p>Sa\u00ed dali transformado.<\/p>\n<p>N\u00e3o era mais o humilde servi\u00e7al da fazenda, contente de sua sorte. Era um homem branco e livre que desejava uma mulher formosa.<\/p>\n<p>Daquele momento em diante minha vida iria girar em torno dessa aspira\u00e7\u00e3o. Nascera em mim o amor, vigoroso e forte como as ervas loucas da tig\u00fcera. Dia e noite s\u00f3 um pensamento ocuparia meu c\u00e9rebro: Isabel. Um s\u00f3 desejo: v\u00ea-la. Um s\u00f3 objetivo \u00e0 minha frente: possu\u00ed-la.<\/p>\n<p>Todavia, apesar de branco e livre, que abismo me separava da filha do fazendeiro! Eu era pobre. Era um subalterno. Era nada.<\/p>\n<p>Mas o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o raciocina, nem o amor olha para conveni\u00eancias sociais. E assim, desprezando obst\u00e1culos, cresceu o amor no meu peito como crescem rios em tempo de cheia.<\/p>\n<p>Aproximei-me da mucama e, depois de lhe cair em gra\u00e7a e lhe conquistar a confian\u00e7a, contei-lhe um dia a minha tortura.<\/p>\n<p>&#8211; Lidu\u00edna, tenho um segredo n\u2019alma que me mata, mas tu poder\u00e1s salvar-me. S\u00f3 tu.<\/p>\n<p>Preciso do teu socorro&#8230; Juras auxiliar-me?<\/p>\n<p>Ela espantou-se da confid\u00eancia, mas, insistida, rogada, implorada. Prometeu tudo quanto pedi.<\/p>\n<p>Pobre criatura! Tinha alma irm\u00e3 da minha e foi compreender su\u2019alma que pela primeira vez alcancei todo o horror da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Abri-lhe o meu peito e revelei-lhe em frases cadentes a paix\u00e3o que me consumia.<\/p>\n<p>Lindu\u00edna a princ\u00edpio assustou-se. Era grave o caso. Mas quem resiste \u00e0 dial\u00e9tica dos apaixonados? E Lindu\u00edna, vencida, afinal, prometeu auxiliar-me.<\/p>\n<p><strong>XII<\/strong><\/p>\n<p>A mucama agiu por partes, fazendo desabrochar o amor no cora\u00e7\u00e3o da senhora sem que esta o percebesse \u00e0 minha pessoa.<\/p>\n<p>&#8211; Sinhazinha conhece o Fern\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Fern\u00e3o?!&#8230; Quem \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Um mo\u00e7o que veio do reino e toma conta do engenho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se j\u00e1 o vi, n\u00e3o me lembro.<\/p>\n<p>&#8211; Pois repare nele. Tem uns olhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 teu namorado?<\/p>\n<p>&#8211; Quem me dera!&#8230;<\/p>\n<p>Foi essa a abertura do jogo. E assim, aos poucos, em dosagem h\u00e1bil, hoje uma palavra, amanh\u00e3 outra, no esp\u00edrito de Isabel nasceu a curiosidade \u2013 passou n\u00famero um do amor.<\/p>\n<p>Certo dia Isabel quis ver-me.<\/p>\n<p>&#8211; Falas tanto nesse Fern\u00e3o, nos olhos desse Fern\u00e3o, que estou curiosa de v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>E viu-me.<\/p>\n<p>Eu estava no engenho, dirigindo a moagem da cana, quando as duas apareceram de copo na m\u00e3o. Vinham com o pretexto da garapa.<\/p>\n<p>Lidu\u00edna achegou-se a mim e:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Fern\u00e3o, uma garapinha de espuma para sinh\u00e1 Isabel.<\/p>\n<p>A menina olhou-me de frente, mas n\u00e3o lhe pude sustentar o olhar. Baixei os olhos, conturbado. Eu tremia, balbuciava apenas, nessa ebriez do primeiro encontro.<\/p>\n<p>Dei ordens aos pretos e logo jorrou da bica uma jato fofo da garapa espumejante. Tomei o copo da m\u00e3o da mucama, enchi-o e ofereci-o \u00e0 N\u00e1iade. Ela o recebeu com simpatia, bebeu aos golinhos e pegou-me o servi\u00e7o com um gentil \u201cobrigada\u201d, olhando- me de novo nos olhos.<\/p>\n<p>Pela segunda vez baixei os olhos.<\/p>\n<p>Sa\u00edram.<\/p>\n<p>Mais tarde, Lidu\u00edna contou-me o resto \u2013 um pequeno di\u00e1logo.<\/p>\n<p>&#8211; Tinha raz\u00e3o \u2013 dissera-lhe Isabel -, um bonito rapaz. Mas n\u00e3o lhe vi bem os olhos. Que acanhamento! Parece que tem medo de mim&#8230; Duas vezes que olhei de frente, duas vezes os baixou.<\/p>\n<p>&#8211; Vergonha \u2013 disse Lindu\u00edna. \u2013 Vergonha ou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; ou qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digo&#8230;<\/p>\n<p>A mucama, com seu fino instinto de mulher, compreendeu que n\u00e3o ainda tempo de pronunciar a palavra amor. Pronuncio-a dias mais tarde, quando percebeu a menina suficientemente madura para ouvi-la sem esc\u00e2ndalo.<br \/>\nPasseavam pelo pomar da fazenda, ent\u00e3o no auge da floresc\u00eancia.<\/p>\n<p>O ar embriagava, tanto era o perfume nele solto.<\/p>\n<p>Abelhas aos milhares, e colibris, zumbiam e esfuziavam numa del\u00edrio org\u00edaco.<\/p>\n<p>Era a festa anual do mel.<\/p>\n<p>Percebendo em Isabel o trabalho dos amavios ambientes, Lidu\u00edna aproveitou o ensejo para um passo a mais.<\/p>\n<p>&#8211; Quando eu vinha vindo vi o seu Fern\u00e3o sentado na pedra do muro. Uma tristeza&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que ser\u00e1 que ele tem? Saudades da terra?<\/p>\n<p>&#8211; Quem sabe?! Saudades ou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; ou qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Ou amor.<\/p>\n<p>&#8211; Amor! Amor! \u2013 disse Isabel sorvendo com vol\u00fapia o ar embalsamado. \u2013 Que linda palavra, Lindu\u00edna! Eu, quando vejo um laranjal assim florido, a palavra que me vem \u00e0 id\u00e9ia \u00e9 essa: amor! Mas amar\u00e1 ele a algu\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; Pois decerto. Quem n\u00e3o ama neste mundo? Os passarinhos, as borboletas, as vespas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem amar\u00e1 ele? A alguma preta do eito, com certeza&#8230; \u2013 E Isabel riu-se desabaladamente.<\/p>\n<p>&#8211; Aquele? \u2013 fez Lindu\u00edna num muxoxo. \u2013 N\u00e3o \u00e9 desses, n\u00e3o, sinhazinha. Mo\u00e7o pobre, mais de condi\u00e7\u00e3o. Para mim, at\u00e9 penso que ele \u00e9 filho de algum fidalgo do reino. Anda por aqui escondido&#8230;<\/p>\n<p>Isabel quedou-se pensativa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a quem amar\u00e1, ent\u00e3o, aqui, neste deserto de brancas?<\/p>\n<p>&#8211; Pois as brancas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que brancas?<\/p>\n<p>&#8211; Dona Inesinha&#8230; Dona Isabelinha&#8230;<\/p>\n<p>A mulher desapareceu por um momento para ceder o lugar \u00e0 filha do fazendeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu? Engra\u00e7adinha! Era s\u00f3 o que faltava&#8230;<\/p>\n<p>Lidu\u00edna calou-se. Deixou que a semente lan\u00e7ada corresse o prazo da germina\u00e7\u00e3o. E, vendo um casal de borboletas a perseguirem-se com estalidos de asas, mudou o rumo \u00e0 conversa.<\/p>\n<p>&#8211; sinhazinha j\u00e1 reparou nestas borboletas de perto? Tem dois n\u00fameros debaixo das asas<\/p>\n<p>\u2013 oito, oito. Quer ver?<\/p>\n<p>Correu atr\u00e1s delas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pegas ! \u2013 gritou Isabel, divertida.<\/p>\n<p>&#8211; Mas pego esta aqui \u2013 retrucou Lidu\u00edna apanhando putra, lerdota. E trazendo-a espernear entre os dedos.<\/p>\n<p>\u00c9 ver uma casca de \u00e1rvore com musgo. Espertalhona! Assim se disfar\u00e7a, que ningu\u00e9m a percebe quando est\u00e1 sentadinha. \u00c9 como o periquito, que est\u00e1 gritando numa \u00e1rvore, em cima da cabe\u00e7a da gente, e a gente nada v\u00ea. Por falar em periquito, Por que sinhazinha n\u00e3o arranja um casal?<\/p>\n<p>Isabel tinha o pensamento longe Dal\u00ed. A mucama bem o sentia, mas muito de ind\u00fastria continuava na tagarelice.<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que se querem tanto, os periquitos, que quando um morre o companheiro se mata. Tio Ad\u00e3o teve um assim, que se afogou numa pocinha d\u2019\u00e1gua no dia em que a periquita morreu. S\u00f3 entre os p\u00e1ssaros h\u00e1 coisas dessas&#8230;<\/p>\n<p>Isabel continuava absorta. Mas em d\u00e3o momento quebrou o mutismo.<\/p>\n<p>&#8211; Por que lembraste de mim desse neg\u00f3cio do Fern\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; por qu\u00ea? \u2013 repetiu Lidu\u00edna cavorteiramente. Por que \u00e9 t\u00e3o natural isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Algu\u00e9m te disse alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m. Mas se ele ama de amor, aqui neste sert\u00e3o, e foi assim agora, depois que sinhazinha chegou, a quem h\u00e1 de amar?&#8230; Ponha o caso em si. Se Sinhazinha fosse ele, e ele fosse Sinhazinha&#8230;<br \/>\nCalaram-se ambas e o passeio terminou no sil\u00eancio de quem dialoga consigo mesmo.<\/p>\n<p><strong>XIII<\/strong><\/p>\n<p>Isabel dormiu tarde essa noite. A id\u00e9ia de que sua imagem enchia o cora\u00e7\u00e3o de um homem esvoa\u00e7ava-lhe na imagina\u00e7\u00e3o como as abelhas no laranjal.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 um subalterno! \u2013 alegava o orgulho.<\/p>\n<p>&#8211; Qu\u2019importa, se \u00e9 um mo\u00e7o rico de bons sentimentos? \u2013 retorquiu a Natureza.<\/p>\n<p>&#8211; E bem pode ser que fidalgo!&#8230; \u2013 acrescentava, insinuante, a fantasia.<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m veio \u00e0 tribuna.<\/p>\n<p>&#8211; E pode vir a ser poderoso fazendeiro. Quem era o capit\u00e3o Aleixo na idade dele? Um simples arreador&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 era o amor quem assoprava tais argumentos.<\/p>\n<p>Isabel ergueu-se da cama e foi \u00e0 janela. A lua em minguante quebrava de tons cin\u00e9reos o escuro da noite. Os sapos no brejal coaxavam melanc\u00f3licos. Vagalumes tontos riscavam f\u00f3sforos no ar.<br \/>\nEra aqui&#8230; Era aqui neste quarto, era aqui nesta janela!<\/p>\n<p>Eu a espiava de longe, nesse estado de \u00eaxtase que o amor provoca na presen\u00e7a do objeto amado. Longo tempo a vi assim, imersa em cisma. Depois fechou-se a persiana, e o mundo para mim se encheu de trevas.<\/p>\n<p><strong>XIV<\/strong><\/p>\n<p>No outro dia, antes que Lidu\u00edna abordasse o tema dileto, disse-lhe Isabel:<\/p>\n<p>&#8211; Mas Lidu\u00edna, que \u00e9 amor?<\/p>\n<p>&#8211; Amor? \u2013 respondeu a arguta mucama em que o instinto substitu\u00eda a cultura. \u2013 Amor \u00e9 uma coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; que&#8230;<br \/>\n&#8211; &#8230; quem vem vindo, vem vindo &#8230;<br \/>\n&#8211; &#8230; e chega!<br \/>\n&#8211; e chega e toma conta da gente. Tio Ad\u00e3o diz que o amor \u00e9 doen\u00e7a. Que agente tem sarampo, catapora, tosse comprida, caxumba e amor \u2013 cada doen\u00e7a no tempo.<br \/>\n&#8211; Pois eu tive tudo isso \u2013 replicou Isabel \u2013 e n\u00e3o tive amor.<\/p>\n<p>&#8211; Sossegue que n\u00e3o escapa. Teve as piores e n\u00e3o h\u00e1 de ter a melhor? Espere que um dia ele vem&#8230;<br \/>\nSilenciaram.<br \/>\nS\u00fabito, agarrando o bra\u00e7o da mucama, Isabel encarou-a a fito nos olhos.<br \/>\n&#8211; \u00c9s minha amiga do cora\u00e7\u00e3o, Lidu\u00edna?<br \/>\n&#8211; Um raio me parta neste momento se&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00c9s capaz de um segredo, mas dum segredo eterno, eterno, eterno?<br \/>\n&#8211; Um raio me parta se&#8230;<br \/>\n&#8211; Cala a boca.<\/p>\n<p>Isabel vacilava.<br \/>\nDepois, nessa \u00e2nsia que nasce ao primeiro luar do amor, disse, corando:<br \/>\n&#8211; Lidu\u00edna, parece-me que estou ficando doente&#8230; da doen\u00e7a que faltava.<br \/>\n&#8211; Pois \u00e9 tempo \u2013 exclamou a fin\u00f3ria arregalando os olhos. \u2013 Dezessete anos&#8230;<br \/>\n&#8211; Dezesseis.<br \/>\nE Lidu\u00edna, cavilosa:<br \/>\n&#8211; Algum fidalguinho da corte?<br \/>\nIsabel vacilou de novo; por fim disse:<br \/>\n&#8211; Eu tenho um namorado no Rio \u2013 mas \u00e9 namoro s\u00f3. Amor, amor desse que bole c\u00e1 dentro com o cora\u00e7\u00e3o, desse que vem vindo, vem vindo chega, n\u00e3o! N\u00e3o, l\u00e1&#8230;<br \/>\nE em cochicho ao ouvido da mucama, corando:<br \/>\n&#8211; Aqui!&#8230;<br \/>\n&#8211; Quem? \u2013 perguntou Lidu\u00edna, simulando espanto.<br \/>\nIsabel n\u00e3o respondeu com palavras. Ergueu-se e:<br \/>\n&#8211; Mas \u00e9 um comecinho s\u00f3. Vem vindo&#8230;<\/p>\n<p><strong>XV<\/strong><\/p>\n<p>O amor veio vindo e chegou. Chegou e destruiu todas as barreiras. Destruiu nossas vidas e acabou destruindo a fazenda. Estas ru\u00ednas, estas corujas, este morcegal, tudo n\u00e3o passa da floresc\u00eancia de um grande amor&#8230;<\/p>\n<p>Por que h\u00e1 de ser a vida assim? Por que h\u00e3o de os homens, \u00e0 for\u00e7a do orhulho, impedir que o bot\u00e3o da maravilhosa planta passe a flor? E por que h\u00e3o de transformar o que \u00e9 c\u00e9u em inferno, o que \u00e9 perfume em dor, o que \u00e9 luz em negrume, o que \u00e9 beleza em caveira?<\/p>\n<p>Isabel, mimo de fragilidade feminil, avivada de gra\u00e7a Bras\u00edlia, tinha o qu\u00ea perturbador das orqu\u00eddeas. Sua beleza n\u00e3o era ao molde da beleza rechonchuda e corada, forte e sadia, das cachopas da minha terra. Por isso mesmo mais fortemente me seduzia a p\u00e1lida princesinha tropical.<\/p>\n<p>Ao inverso, o que em mim a seduzia era a for\u00e7a varonil e transbordante, e a nobre rudeza dos meus instintos, que iam at\u00e9 a aud\u00e1cia de p\u00f4r os olhos na altura em que ela pairava.<\/p>\n<p><strong>XVI<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro encontro foi&#8230; casual. Meu acaso chamava-se Lidu\u00edna. Seu g\u00eanio instintivo f\u00ea-la boa fada de nossos amores.<br \/>\nFoi assim.<br \/>\nEstavam as duas no pomar diante duma pitangueira enrubescida de frutos.<br \/>\n&#8211; Lindas pitangas! \u2013 disse Isabel. \u2013 Sobe, Lidu\u00edna, e apanha um punhado.<br \/>\nAproximou-se Lidu\u00edna da pitangueira e fez v\u00e3s tentativas para trepar.<br \/>\n&#8211; Imposs\u00edvel, sinhazinha, s\u00f3 chamando algu\u00e9m. Quer?<\/p>\n<p>&#8211; Pois vai chamar algu\u00e9m.<br \/>\nLidu\u00edna partiu correndo e Isabel teve a impress\u00e3o n\u00edtida de quem viria. De fato, momentos depois apareci eu.<br \/>\n&#8211; Senhor Fern\u00e3o, desculpe-me \u2013 disse a mo\u00e7a. \u2013 Pedi \u00e0quela maluca que chamasse algum preto para colher pitangas \u2013 e foi ela incomod\u00e1-lo.<br \/>\nPerturbado pela sua presen\u00e7a e com o cora\u00e7\u00e3o aos pulos, gaguejei, para dizer algo:<br \/>\n&#8211; S\u00e3o pitangas que quer?<br \/>\n&#8211; Sim. Mas falta uma cestinha que Lidu\u00edna foi buscar.<br \/>\nPausa.<br \/>\nIsabel, t\u00e3o senhora de si, percebi-a nesse momento embara\u00e7ada como eu. N\u00e3o tinha o que dizer. Silenciava. Por fim:<br \/>\n&#8211; Moem cana hoje? Pergutou-me.<br \/>\nGaguejei que sim e novo sil\u00eancio se fez. Para quebr\u00e1-lo, Isabel gritou em dire\u00e7\u00e3o da casa:<br \/>\n&#8211; Anda depressa, rapariga! Que lesmice&#8230;<br \/>\nE depois, para mim:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tem saudades de sua terra?<br \/>\nDespregou-se-me a l\u00edngua. Perdi o embara\u00e7o. Respondi que tive, mas n\u00e3o as tinha mais.<\/p>\n<p>&#8211; Os primeiros anos passei-os a suspirar \u00e0 noite, saudoso de tudo de l\u00e1. S\u00f3 quem emigrou sabe a dor do fruto arrancado \u00e0 \u00e1rvore. Conformei-me, afinal. E hoje&#8230; o mundo inteiro para mim est\u00e1 aqui nestas montanhas.<br \/>\nIsabel compreendeu-me a inten\u00e7\u00e3o e quis perguntar-me por qu\u00ea. Mas n\u00e3o teve \u00e2nimo.<br \/>\nSaltou para outro assunto.<br \/>\n&#8211; Por que motivo s\u00f3 as pitangas desta \u00e1rvore prestam? As outras s\u00e3o azedas&#8230;<br \/>\n&#8211; Vai ver \u2013 disse eu \u2013 que esta \u00e1rvore \u00e9 feliz e as outras n\u00e3o. O que azeda os homens e as coisas \u00e9 a desgra\u00e7a. Fui doce como lima, logo que vim para c\u00e1. Hoje sou amargo&#8230;<br \/>\n&#8211; Julga-se infeliz?<br \/>\n&#8211; Mais do que nunca.<br \/>\nIsabel arriscou-se:<br \/>\n&#8211; Por qu\u00ea?<br \/>\nRespondi intrepidamente:<\/p>\n<p>&#8211; Dona Isabel, que \u00e9 menina rica, n\u00e3o imagina a posi\u00e7\u00e3o desgra\u00e7ada de quem \u00e9 pobre. O pobre forma neste mundo uma casta maldita, sem direito a coisa nenhuma. O pobre n\u00e3o pode nada&#8230;<br \/>\n&#8211; Pode, sim&#8230;<br \/>\n&#8211; ?<br \/>\n&#8211; Deixar de ser pobre.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falo da riqueza do dinheiro. Essa \u00e9 f\u00e1cil de alcan\u00e7ar, depende apenas de esfor\u00e7o e habilidade. Falo das coisas mais preciosas que o ouro. Um pobre, tenha o cora\u00e7\u00e3o que tiver, seja mais nobre das almas, n\u00e3o tem o direito de erguer os olhos para certas alturas&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas se a altura quiser descer at\u00e9 ele? \u2013 retrucou audaciosa e vivamente a menina.<br \/>\n&#8211; Esse caso acontece \u00e0s vezes nos romances. Na vida nunca&#8230;<br \/>\nCalamo-nos de novo. Neste entremeio Lidu\u00edna reapareceu, esbaforida, com a cestinha na m\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Custou-me a achar \u2013 disse a velhaca, justificando a demora. \u2013 Estava ca\u00edda atr\u00e1s do toucador.<br \/>\nO olhar que lhe lan\u00e7ou Isabel dizia: \u2018Mentirosa!\u201d<br \/>\nTomei a cesta e preparei-me para trepar \u00e0 \u00e1rvore.<br \/>\nIsabel, por\u00e9m, interveio:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! N\u00e3o quero mais pitangas. V\u00e3o tirar-me o apetite para a garapa do meio-dia.<\/p>\n<p>Ficam para outra vez.<br \/>\nE para mim, am\u00e1vel:<br \/>\n&#8211; Queira desculpar-me&#8230;<br \/>\nSaudei-a, \u00e9brio de felicidade, e l\u00e1 me fui de aleluias n\u2019alma, com o mundo a dan\u00e7ar em torno de mim.<br \/>\nIsabel seguiu-me com o olhar, pensativamente.<br \/>\n&#8211; Tinha raz\u00e3o, Lidu\u00edna, \u00e9 um rapag\u00e3o que vale todos os pelintras da corte. Mas, coitado!&#8230; Queixa-se tanto do seu destino&#8230;<br \/>\n&#8211; Bobagens \u2013 muxoxou a mucama, trepando \u00e0 pitangueira com agilidade de macaco.<br \/>\nVendo aquilo, Isabel sorriu e murmurou, entre repreensiva e maliciosa:<br \/>\nVoc\u00ea, Lidu\u00edna&#8230;<br \/>\nA rapariga que tinha entre os dentes alv\u00edssimos o vermelho duma pitanga, esgani\u00e7ou uma risada velhaca.<br \/>\n&#8211; Pois sinhazinha n\u00e3o sabe que sou mais sua amiga do que sua escrava?<\/p>\n<p><strong>XVII<\/strong><\/p>\n<p>O amor \u00e9 o mesmo em toda parte e em todos os tempos. Aquele enleio do primeiro encontro \u00e9 o eterno enleio dos primeiros encontros. Aquele di\u00e1logo \u00e0 sombra da pitangueira \u00e9 o eterno di\u00e1logo da abertura. Assim, nosso amor t\u00e3o novo para n\u00f3s, reproduzia um jogo velho qual o mundo.<\/p>\n<p>Nascera em Isabel e em mim um sexto sentido maravilhoso. Compreend\u00edamo-nos, adivinh\u00e1vamo-nos e descobria-nos meios de inventar os mais imprevistos encontros \u2013 encontros deliciosos, em que um olhar bastava para permuta de mundos de confid\u00eancias&#8230;<\/p>\n<p>Isabel amou-me.<br \/>\nQue per\u00edodo de vida, esse!<br \/>\nEu sentia-me alto como montanhas, forte como o oceano e todo a coruscar de estrelas por dentro.<br \/>\nEra rei.<br \/>\nA terra, a natureza, os c\u00e9us, a luz, a luz, a cor, tudo existia para ambiente do meu amor.<br \/>\nN\u00e3o era mais vida aquele meu viver, sim um \u00eaxtase cont\u00ednuo.<br \/>\nAlheado de tudo, uma s\u00f3 coisa eu via, duma s\u00f3 coisa me alimentava.<br \/>\nRiquezas, poderio, honras \u2013 que vale tudo isso ante a sensa\u00e7\u00e3o divina de amar e ser amado?<\/p>\n<p>Nessa abriedade vivi \u2013 quanto tempo n\u00e3o sei. O tempo n\u00e3o contava para meu amor. Vivia \u2013 tinha impress\u00e3o de que s\u00f3 nessa \u00e9poca entrara a viver. Antes, a vida n\u00e3o me fora mais que simples agita\u00e7\u00e3o animalesca.<br \/>\nPoetas! Como vos compreendi a voz interior ressonada em rimas, como me irmanei convosco no esvoa\u00e7ar pelos interm\u00fandios do sonho!&#8230;<\/p>\n<p>Lidu\u00edna comportava-se como a fada boa dos nossos destinos. Sempre vigilante, e ela dev\u00edamos inteirinho o mar de felicidade em que boi\u00e1vamos. L\u00e9pida, mimosa, travessa, a gentil crioula enfeixava em si toda a artimanha da ra\u00e7a perseguida \u2013 e todo g\u00eanio do sexo escravizado \u00e0 prepot\u00eancia do homem.<br \/>\nEntretanto, o bem que nos fizeste como se avinagrou para ti, Lidu\u00edna!&#8230; Em que fel horroroso se transfez para ti, afinal&#8230;<\/p>\n<p>Eu sabia que o mundo \u00e9 governado pelo monstro Estupidez. E que sua Majestade n\u00e3o perdoa o crime de amor. Mas nunca supus que esse monstro fosse a fera delirante que \u00e9 \u2013 t\u00e3o sanguissedenta, t\u00e3o requintada em fer\u00f3ica. Nem que houvesse monstro mais bem servido que fosse.<\/p>\n<p>Que comitiva numerosa traz!<br \/>\nQue servos diligentes possui!<br \/>\nA sociedade, as leis, os governos, as religi\u00f5es, os ju\u00edzes, as morais, tudo que \u00e9 for\u00e7a social organizada presta m\u00e3o forte \u00e0 estupidez Onipotente.<br \/>\nE assanha-se em punir, em torturar o ing\u00eanuo que, conduzido pela natureza, arrosta com os mandamentos da megera.<\/p>\n<p>Ai dele, se comete um crime de lesa-estupidez! M\u00e3os de ferro constringem-lhe a garganta. Seu corpo rola por terra, espezinhado; seu nome perpetua-se com pechas infames.<br \/>\nNosso crime \u2013 que lindo crime: amar! \u2013 foi descoberto. E monstruosa engrenagem de a\u00e7o triturou-nos, ossos e almas, aos tr\u00eas&#8230;<\/p>\n<p><strong>XVIII<\/strong><\/p>\n<p>Uma noite&#8230;<\/p>\n<p>A lua, bem no alto, empalidecia as estrelas e eu, triste, velava, rememorando o \u00faltimo encontro com Isabel. Fora \u00e0 tardinha, numa volta do ribeir\u00e3o, \u00e0 sombra dum tufo de marianeiras cacheadas de frutos. M\u00e3os unidas, cabe\u00e7a contra cabe\u00e7a, num enlevo de comunh\u00e3o d\u2019alma, assist\u00edamos ao alvoro\u00e7o da peixaria assanhada na disputa das frutinhas amarelas que a espa\u00e7os pipocavam na \u00e1gua remansosa do rio. Isabel, absorta, mirava aquelas ariscas ling\u00fcinhas de prata, apinhadas em torno das iscas.<br \/>\n&#8211; Sinto-me triste, Fern\u00e3o. Tenho medo da nossa felicidade. Qualquer coisa me diz que isso vai ter fim \u2013 e fim tr\u00e1gico&#8230;<br \/>\nMinha resposta foi aconcheg\u00e1-la ainda mais no meu peito.<\/p>\n<p>Um bando de sa\u00edras e sanha\u00e7os, de pouso nas marianeiras, entraram a debicar energicamente os cachos de frutinha silvestre. E o espelho das \u00e1guas piriricou ao chuveiro das migalhas ca\u00eddas. Coalhou-se ao rio de lambaris famintos, engalfinhados num del\u00edrio de rega-bofe, com saltos de prata faiscantes no ar.<br \/>\nIsabel, sempre absorta, dizia:<br \/>\n&#8211; Como s\u00e3o felizes!&#8230; E s\u00e3o felizes porque s\u00e3o livres. \u2013 N\u00f3s \u2013 pobres de n\u00f3s!&#8230; \u2013 N\u00f3s somos ainda mais escravos do que os escravos do eito&#8230;<\/p>\n<p>Duas \u201cviuvinhas\u201d pousaram numa haste de Peri emersa da margem fronteira. A vara vergou-se ao peso, oscilou uns instantes e estabilizou-se de novo. E o lindo casal permaneceu im\u00f3vel, juntinho, comentando talvez, como n\u00f3s, a festa glutona dos peixes.<br \/>\nIsabel murmurou, num sorriso de infinita melancolia:<br \/>\n&#8211; Que cabecinha sossegada eles t\u00eam&#8230;<br \/>\nEu rememorava frase por frase esse \u00faltimo encontro com a minha amada, quando, dentro da noite, ouvi bulha \u00e0 porta.<br \/>\nAlgu\u00e9m corria o ferrolho e entrava.<br \/>\nSentei-me na cama, de sobressalto.<br \/>\nEra Lidu\u00edna. Tinha os olhos esgazeados de pavor e foi em voz arquejante que atropelou as derradeiras palavras que lhe ouvi na vida.<br \/>\nFuja! O capit\u00e3o Aleixo sabe tudo. Fuja, que estamos perdidos&#8230;<br \/>\nDisse, e esgueirou-se para o terreiro como sombra.<\/p>\n<p><strong>XIX<\/strong><\/p>\n<p>O choque foi tamanho que me senti vazio de c\u00e9rebro. Parei de pensar&#8230;<br \/>\nO capit\u00e3o Aleixo&#8230;<\/p>\n<p>Lembro-me bem dele. Era o plenipotenci\u00e1rio de sua majestade a estupidez nestas paragens. Frio e duro, n\u00e3o reconhecia sensibilidade em carne alheia.<\/p>\n<p>Recomendava sempre aos feitores a sua receita de bem conduzir os escravos: \u201cAngu por dentro e relho por fora, sem economia e sem d\u00f3\u201d.<br \/>\nConsoante tal programa, a vida na fazenda escoava-se entre trabalhos de eito, comezaina farta e \u201cbacalhau\u201d.<br \/>\nCom o tempo desenvolveu-se nele a crueldade in\u00fatil. N\u00e3o limitava a impor castigos: ia presenci\u00e1-los. Gozava de ver a carne humana avergoar-se aos golpes do couro cru.<br \/>\nNingu\u00e9m, entretanto, estranhava aquilo. Os pretos sofriam como predestinados \u00e0 dor. E os brancos tinham como dogma que de outra maneira n\u00e3o se levavam pretos.<\/p>\n<p>O sentimento de revolta n\u00e3o latejava em ningu\u00e9m, salvo em Isabel, que se fechava no quarto, de dedos fincados nos ouvidos, sempre que na casa do tronco o bacalhau arrancava urros a um pobre infeliz.<\/p>\n<p>A mim, em come\u00e7o, tamb\u00e9m me era indiferente a dor alheia. Ao depois \u2013 depois que o amor me floriu a alma de todas as flores do sentimento \u2013 aquelas barbaridades di\u00e1rias punham-me fremente de c\u00f3lera.<br \/>\nUma vez tive \u00edmpetos de estrangular o d\u00e9spota. Foi o caso dum vizinho que lhe trouxera um c\u00e3o de fila para vender.<\/p>\n<p><strong>XX<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bom? Bem bravo? \u2013 perguntou o fazendeiro, examinando o animal.<br \/>\n&#8211; Uma fera! Para apanhar negro fugido, nada melhor.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o compro nabos em sacos \u2013 disse o capit\u00e3o. \u2013 Experimentemo-lo.<\/p>\n<p>Ergueu os olhos para o terreiro que fulgurava ao sol. Deserto. A escravaria inteira na ro\u00e7a. Mas naquele momento o port\u00e3o se abriu e um preto velho entrou, cambaio, de jac\u00e1 ao ombro, rumo ao chiqueiro dos porcos. Era um estropiado do eito que pagava o que comia tratando da cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO fazendeiro teve uma id\u00e9ia. Tirou o c\u00e3o da corrente e atirou-o contra o preto.<br \/>\n&#8211; Pega, vinagre!<br \/>\nO mastim partiu como bala e instantes depois ferrava o pobre velho, dando com ele em terra. Estra\u00e7alhou-o&#8230;<br \/>\nO fazendeiro sorria-se com entusiasmo.<br \/>\n&#8211; \u00c9 de primeira \u2013 disse ao sujeito. \u2013 Dou-lhe cem mil r\u00e9is pelo vinagre.<br \/>\nE como o sujeito, assombrado daqueles processos, lamentasse a desgra\u00e7a do estra\u00e7alho, o capit\u00e3o fez cara de espanto.<br \/>\n&#8211; Ora bolas! Um caco de vida&#8230;<\/p>\n<p><strong>XXI<\/strong><\/p>\n<p>Pois foi esse homem que vi subitamente penetrar no meu quarto, essa noite, logo depois que se sumiu Lidu\u00edna. Acompanhavam-no dois feitores, como sombras. Entrou e fechou a porta sobre si. Parou a alguma dist\u00e2ncia. Olhou-me e sorriu.<br \/>\n&#8211; Vou dar-te uma bela noivinha \u2013 disse ele. E num gesto ordenou aos carrascos que me amarrassem.<\/p>\n<p>Despertei da vacuidade. O instinto de conserva\u00e7\u00e3o retesou-me todas as energias e, mal os capangas vieram a mim, atirei-me a eles com furor de on\u00e7a f\u00eamea a quem roubam os cachorrinhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto tempo durou a luta horrorosa; sei apenas que tantas perdi os sentidos em virtude das violentas pancadas que me racharam a cabe\u00e7a.<br \/>\nQuando despertei pela madrugada vi-me por terra, com os p\u00e9s doridos entalados no tronco. Levei a m\u00e3o aos olhos sujos de p\u00f3 e sangue e entrevi \u00e0 aminha esquerda, no extremo do madeiro hediondo, um corpo desmaiado de mulher.<br \/>\nLidu\u00edna&#8230;<br \/>\nPercebi ainda que havia mais gente ali.<br \/>\nOlhei.<br \/>\nDois homens de picaretas abriam um largo rombo no espesso muro de taipa.<br \/>\nOutro, um pedreiro, misturava cal e areia no ch\u00e3o, rente a uma pilha de tijolos.<\/p>\n<p>O fazendeiro tamb\u00e9m ali estava, de bra\u00e7os cruzados, dirigindo o servi\u00e7o. Vendo-me desperto, aproximou-se do meu ouvido e murmurou com g\u00e9lido sarcasmo as \u00faltimas palavras que ouvi sobre a terra:<br \/>\n&#8211; Olhe! A tua noivinha \u00e9 aquela parede&#8230;<br \/>\nCompreendi tudo: iam emparedar-me vivo&#8230;<\/p>\n<p><strong>XXII<\/strong><\/p>\n<p>Aqui se interrompe a hist\u00f3ria do \u201coutro\u201d, como a ouvi naquela horrorosa noite. Repito que n\u00e3o a ouvi assim, nessa ordem liter\u00e1ria, mas murmurada em solil\u00f3quio, aos arrancos, \u00e0s vezes entre solu\u00e7os, outras num cicio impercept\u00edvel. T\u00e3o estranha era essa forma de narrar que o velho tio Bento n\u00e3o apanhou coisa nehuma.<br \/>\nE foi com ela a me doer no c\u00e9rebro que vi chegar a manh\u00e3.<br \/>\n&#8211; Bendita sejas, luz!<br \/>\nErgui-me, alvoro\u00e7ado.<br \/>\nAbri a janela, todo a renascer-me dos horrores noturnos.<\/p>\n<p>O sol l\u00e1 estava espiando-me dentre a copa do arvoredo. Seus raios de ouro invadiram- me a alma. Varreram dela os frocos de trevas que a entenebreciam qual cabelugem de pesadelo.<br \/>\nO ar lavado e alerta encheu-me os pulom\u00f5es da delirante vida matutina. Respirei-o alegremente, em haustos largos.<br \/>\nE Jonas? Dormia ainda, repousado de fei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEra \u201cele\u201d outra vez. O \u201coutro\u201d fugira com as trevas da noite.<br \/>\n&#8211; Tio Bento \u2013 exclamei &#8211; , conte-me o resto da historia. Que fim teve Lidu\u00edna?<br \/>\nO velho preto recome\u00e7ou a cont\u00e1-la a partir do ponto em que a interrompera na v\u00e9spera.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! \u2013 gritei eu \u2013 dispenso tudo isso. S\u00f3 quero saber que fim teve Lidu\u00edna depois que o capit\u00e3o deu sumi\u00e7o ao mo\u00e7o.<br \/>\nTio Bento abriu cara de espanto.<br \/>\nComo o meu branco sabe disso?<br \/>\n&#8211; Sonhei , tio Bento.<br \/>\nEle permaneceu ainda uns instantes admirado, custando a crer. Depois narrou:<\/p>\n<p>&#8211; Lidu\u00edna morreu no chicote, coitadinha \u2013 t\u00e3o na flor, dezenove anos&#8230; O Gabriel e o Estev\u00e3o, os carrascos, retalharam o seu corpinho de crian\u00e7a com rabos do bacalhau&#8230; A m\u00e3e dela, que s\u00f3 na hora do castigo soube do acontecido na v\u00e9spera. Correu feito louca para a casa do tronco. No momento em que empurrou a porta e olhou, uma chicotada cortava o seio esquerdo da filha. Ant\u00f4nia deu um grito e caiu para tr\u00e1s como morta.<br \/>\nApesar do radioso da manh\u00e3 meus nervos fremiram \u00e0s palavras do preto.<br \/>\n&#8211; Basta, basta&#8230; De Lindu\u00edna basta. S\u00f3 quero agora saber o que se sucedeu a Isabel<\/p>\n<p>&#8211; Nha Zab\u00e9 ningu\u00e9m mais viu ela na fazenda. Foi levada para corte e acabou mais tarde no hosp\u00edcio, \u00e9 o que dizem.<br \/>\n&#8211; E Fern\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Esse sumiu. Ningu\u00e9m nunca soube dele \u2013 Nunca, nunca&#8230;<br \/>\nJonas acabava de despertar. E ao ver luz no quarto sorriu. Queixava-se de peso na cabe\u00e7a.<br \/>\nInterpelei-o sobre o eclipse noturno de sua alma, mas Jonas mostrou-se alheio a tudo.<\/p>\n<p>Enrugou a testa, recordando-se.<br \/>\n&#8211; Lembro-me que uma coisa me invadiu, que fui empolgado, que lutei com desespero&#8230;<br \/>\n&#8211; E depois?<br \/>\nDepois?&#8230; Depois um v\u00e1cuo&#8230;<br \/>\nSa\u00edmos para fora.<br \/>\nA casa maldita, mergulhada na onda de luz matutina, perdera o aspecto tr\u00e1gico.<br \/>\nDisse-lhe adeus \u2013 para sempre&#8230;<br \/>\n&#8211; vade retro!&#8230;<br \/>\nE fomo-nos \u00e0 casinhola do preto engolir o caf\u00e9 e arrear os animais.<br \/>\nDe caminho espiei pelas grades da casa do tronco: na taipa grossa da parede havia um trecho murado a tijolos&#8230;<br \/>\nAfastei-me horripilado.<br \/>\nE guardei comigo o segredo da trag\u00e9dia de Fern\u00e3o. S\u00f3 eu no mundo a conhecia, contada por ele mesmo, oitenta anos ap\u00f3s a cat\u00e1strofe.<br \/>\nS\u00f3 eu!<br \/>\nMas como n\u00e3o sei guardar segredo, revelei-o em caminho a Jonas.<br \/>\nJonas riu-se \u00e0 larga e disse, estendendo-me o dedo minguinho:<br \/>\n&#8211; Morde aqui!..<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viajamos certa vez pelas regi\u00f5es est\u00e9reis por onde h\u00e1 um s\u00e9culo, puxado pelo negro, o carro triunfal de Sua Majestade o caf\u00e9 passou, quando grossas nuvens reunidas no c\u00e9u entraram a desmanchar-se. Sinal certo de chuva. Para confirm\u00e1-lo, um vento brusco, raspante, veio quebrar o morma\u00e7o, vascolejando a terra como a preveni-la do iminente banho [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[378],"tags":[],"class_list":["post-92428","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-literatura-infantil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Os Negros, Monteiro Lobato, Obra Completa, Poesia, Poema, Os Negros Monteiro Lobato<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Os Negros, Monteiro Lobato, Literatura, Infantil, Conto, Obra, Cr\u00f4nica, Livro, Cl\u00e1ssico, Narrativas, Texto, Personagens, Escritor, Brasileiro Os Negros\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Os Negros, Monteiro Lobato, Obra Completa, Poesia, Poema, Os Negros Monteiro Lobato\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Os Negros, Monteiro Lobato, Literatura, Infantil, Conto, Obra, Cr\u00f4nica, Livro, Cl\u00e1ssico, Narrativas, Texto, Personagens, Escritor, Brasileiro Os Negros\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-04T12:14:07+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"44 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/os-negros#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/os-negros\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Os negros\",\"datePublished\":\"2017-01-04T12:14:07+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/os-negros\"},\"wordCount\":8839,\"articleSection\":[\"Literatura Infantil\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/os-negros\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/os-negros\",\"name\":\"Os Negros, Monteiro Lobato, Obra Completa, Poesia, Poema, Os Negros Monteiro Lobato\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-01-04T12:14:07+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Os Negros, Monteiro Lobato, Literatura, Infantil, Conto, Obra, Cr\u00f4nica, Livro, Cl\u00e1ssico, Narrativas, Texto, Personagens, Escritor, Brasileiro Os Negros\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/os-negros#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/os-negros\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\\\/os-negros#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Literatura Infantil\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/literatura-infantil\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Os negros\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Os Negros, Monteiro Lobato, Obra Completa, Poesia, Poema, Os Negros Monteiro Lobato","description":"Os Negros, Monteiro Lobato, Literatura, Infantil, Conto, Obra, Cr\u00f4nica, Livro, Cl\u00e1ssico, Narrativas, Texto, Personagens, Escritor, Brasileiro Os Negros","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Os Negros, Monteiro Lobato, Obra Completa, Poesia, Poema, Os Negros Monteiro Lobato","og_description":"Os Negros, Monteiro Lobato, Literatura, Infantil, Conto, Obra, Cr\u00f4nica, Livro, Cl\u00e1ssico, Narrativas, Texto, Personagens, Escritor, Brasileiro Os Negros","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-01-04T12:14:07+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"44 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Os negros","datePublished":"2017-01-04T12:14:07+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros"},"wordCount":8839,"articleSection":["Literatura Infantil"],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros","name":"Os Negros, Monteiro Lobato, Obra Completa, Poesia, Poema, Os Negros Monteiro Lobato","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-01-04T12:14:07+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Os Negros, Monteiro Lobato, Literatura, Infantil, Conto, Obra, Cr\u00f4nica, Livro, Cl\u00e1ssico, Narrativas, Texto, Personagens, Escritor, Brasileiro Os Negros","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/os-negros#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Literatura Infantil","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Os negros"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92428","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92428"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92428\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92428"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92428"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92428"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}