{"id":92417,"date":"2017-01-04T10:12:06","date_gmt":"2017-01-04T12:12:06","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92417"},"modified":"2017-01-04T10:12:06","modified_gmt":"2017-01-04T12:12:06","slug":"o-jardineiro-timoteo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/o-jardineiro-timoteo","title":{"rendered":"O Jardineiro Tim\u00f3teo"},"content":{"rendered":"<p>O casar\u00e3o da fazenda era ao jeito das velhas moradias: \u2013 frente com varanda, uma ala e p\u00e1tio interno. Neste ficava o jardim, tamb\u00e9m \u00e0 moda antiga, cheio de plantas antigas cujas flores punham no ar um saudoso perfume d\u2019antanho. Quarenta anos havia que lhe zelava dos canteiros o bom Tim\u00f3teo, um preto branco por dentro.<\/p>\n<p>Tim\u00f3teo o plantou quando a fazenda se abria e a casa inda cheirava a reboco fresco e tintas d\u2019\u00f3leo recentes, e desd\u2019a\u00ed \u2013 l\u00e1 se iam quarenta anos \u2013 ningu\u00e9m mais teve licen\u00e7a de p\u00f4r a m\u00e3o em \u201cseu jardim\u201d.<br \/>\nVerdadeiro poeta, o bom Tim\u00f3teo.<\/p>\n<p>N\u00e3o desses que fazem versos, mas desses que sentem a poesia sutil das coisas. Compusera, sem o saber, um maravilhoso poema onde cada plantinha era um verso que s\u00f3 ele conhecia, verso vivo, risonho ao reflorir anual da primavera, desmedrado e sofredor quando junho sibilava no ar os l\u00e1tegos do frio.<\/p>\n<p>O jardim tornara-se a mem\u00f3ria viva da casa. Tudo nele correspondia a uma significa\u00e7\u00e3o familiar de suave encanto, e assim foi desd\u2019o come\u00e7o, ao riscarem-se os canteiros na terra virgem ainda recendente \u00e0 escava\u00e7\u00e3o. O canteiro central consagrava-o Tim\u00f3teo ao \u201cSinh\u00f4-velho\u201d, tronco da estirpe e generoso amigo que lhe dera carta d\u2019alforria muito antes da Lei \u00c1urea. Nasceu faceiro e bonito, cercado de tijolos novos vindos do forno para ali ainda quentes, e embutidos no ch\u00e3o como rude c\u00edngulo de coral; hoje, semidesfeitos pela usura do tempo e t\u00e3o tenros que a unha os penetra, esses tijolos esverdecem nos musgos da velhice.<\/p>\n<p>Veludo de muro velho, \u00e9 como chama Tim\u00f3teo a essa musc\u00ednea invasora, filha da sombra e da umidade. E \u00e9 bem isso, porque o musgo foge sempre aos muros secos, vidrentos, esfogueados de sol, para estender devagarinho o seu veludo prenunciador de tapera sobre os muros alquebrados, de embo\u00e7o j\u00e1 corcomido e todo aberto em fendas.<\/p>\n<p>Bem no centro erguia-se um nodoso p\u00e9 de jasmim-do-cabo, de galhos negros e copa dominante, ao qual o zeloso guardi\u00e3o nunca permitiu que outra planta sobreexcedesse em altura. Simbolizava o homem que o havia comprado por dois contos de r\u00e9is, dum importador de escravos de Angola.<\/p>\n<p>\u2013 Tenha paci\u00eancia, minha negra! \u2013 conversa ele com as roseiras de setembro, teimosas em espichar para o c\u00e9u brotos audazes. Tenha paci\u00eancia, que aqui ningu\u00e9m olha de cima para o Sinh\u00f4-velho.<\/p>\n<p>E sua tesoura afiada punha abaixo, sem d\u00f3, todos os rebentos temer\u00e1rios.<\/p>\n<p>Cercando o jasmineiros havia uma coroa de periquitos, e outra menor cravinas.<\/p>\n<p>Mais nada.<\/p>\n<p>\u2013 Ele era um homem simples, pouco amigo de complica\u00e7\u00f5es. Que fique ali sozinho com o periquito e as irm\u00e3zinhas do cravo.<\/p>\n<p>Dos outros canteiros dois eram em forma de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Este \u00e9 o de Sinhazinha; e como ela um dia h\u00e1 de casar, fica a par dele o canteiro do Sinh\u00f4-mo\u00e7o.<\/p>\n<p>O canteiro de Sinhazinha era de todos o mais alegre, dando bem a imagem de um cora\u00e7\u00e3o de mulher rico de todos as flores do sentimento. Sempre risonho, tinha a propriedade de prender os olhos de quantos penetravam no jardim.<\/p>\n<p>Tal qual a mo\u00e7a, que desde menina se habituara a monopolizar os carinhos da fam\u00edlia e a dedica\u00e7\u00e3o dos escravos, chegando esta a ponto de, ao sobrevir a Lei \u00c1urea, nenhum ter \u00e2nimo de afastar-se da fazenda. Emancipa\u00e7\u00e3o? Loucura! Quem, uma vez cativo de Sinhazinha, podia jamais romper as algemas da doce escravid\u00e3o?<\/p>\n<p>Assim ela na fam\u00edlia, assim o seu canteiro entre os demais. Livro aberto, s\u00edmbolo vivo, cr\u00f4nica vegetal, dizia pela boca das flores toda a sua vidinha de mo\u00e7a. O p\u00e9 de flor-de- noiva, primeira \u201cplanta s\u00e9ria\u201d ali brotada, marcou o dia em que foi pedida em casamento. At\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 vicejavam neles flores alegres de crian\u00e7a: \u2013 esporinhas, bocas-de-le\u00e3o, \u201cborboletas\u201d, ou flores am\u00e1veis da adolesc\u00eancia \u2013 amores-perfeitos, damas-entre-verdes, beijos-de-frade, escovinhas, mios\u00f3tes.<\/p>\n<p>Quando lhe nasceu, entre dores, o primeiro filho, plantou Tim\u00f3teo os primeiros tufos de violeta.<\/p>\n<p>\u2013 Come\u00e7a a sofrer&#8230;<\/p>\n<p>E no dia em que lhe morreu esse malogrado bot\u00e3ozinho de carne r\u00f3sea, o jardineiro, em l\u00e1grimas, fincou na terra os primeiros goivos e as primeiras saudades. E fez ainda outras substitui\u00e7\u00f5es: as alegres damas-entre-verdes cederam o lugar aos suspiros roxos, e a sempre-viva foi para o canto onde vi\u00e7avam as ridentes bocas-de-le\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 o canteiro de Sinh\u00f4-mo\u00e7o revelava inten\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas de energia. Cravos vermelhos em quantidade, roseiras fortes, ouri\u00e7adas de espinhos; palmas-de-santa-rita, de folhas laminadas; junquilhos nervosos.<\/p>\n<p>E tudo mais assim.<\/p>\n<p>Tim\u00f3teo compunha os anais vivos da fam\u00edlia, anotando nos canteiros, um por um, todos os fatos dalgumas significa\u00e7\u00f5es. Depois, exagerando, fez do jardim um canhenho de notas, o verdadeiro di\u00e1rio da fazenda. Registrava tudo.<\/p>\n<p>Incidentes corriqueiros, pequenas rusgas de cozinha, um lembrete azedo dos patr\u00f5es, um namoro de mucama, um h\u00f3spede, uma geada mais forte, um cavalo de estima\u00e7\u00f5es que morria \u2013 tudo memorava ele, com hier\u00f3glifos vegetais, em seu jardim maravilhoso.<\/p>\n<p>A hospedagem de certa fam\u00edlia do Rio \u2013 pai, m\u00e3e e tr\u00eas sapequ\u00edssimas filhas \u2013 l\u00e1 ficou assinalada por cinco p\u00e9s de ora-pro-n\u00f3bis. E a venda do pampa cal\u00e7udo, o melhor cavalo das redondezas, teve a mudan\u00e7a de dono marcada pela poda de um galho do jasmineiro.Al\u00e9m desta comemora\u00e7\u00e3o aned\u00f3tica, o jardim consagrava uma planta a subalterno ou animal dom\u00e9stico. Havia a roseira-ch\u00e1 da mucama de Sinhazinha; o sangue-de-ad\u00e3o do Tib\u00farcio; a rosa-maxixe da mulatinha Ces\u00e1ria, sirigaita enredeira, de cara fuxicada como essa flor. O Vinagre, o Meteoro, a Manjerona, a Tet\u00e9ia, todos os c\u00e3es que na fazenda nasceram e morreram, ali estavam lembrados pelo seu pezinho de flor, um resed\u00e1, um tufo de violetas, uma tou\u00e7a de perp\u00e9tuas. O c\u00e3o mais inteligente da casa, Otelo, morto hidr\u00f3fobo, teve as honras duma sempre-viva rajada.<\/p>\n<p>\u2013 Quem h\u00e1 de esquecer um bico daqueles, que at\u00e9 parecia gente?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os gatos tinham mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava a ciner\u00e1ria da gata branca morta nos dentes do Vinagre, e o p\u00e9 de alecrim relembrativo do velho gato Rom\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser Tim\u00f3teo, colhia flores naquele jardim. Sinhazinha o tolerava desde o dia em que ele explicou:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o s abem, Sinhazinha! V\u00e3o l\u00e1 e atrapalham tudo. Ningu\u00e9m sa be apanhar flor&#8230;<\/p>\n<p>Era verdade. S\u00f3 Tim\u00f3teo sabia escolh\u00ea-las com inten\u00e7\u00e3o e sempre de acordo com o destino. Se as queriam para florir a mesa em dia de anos da mo\u00e7a, Tim\u00f3teo combinava os buqu\u00eas como estrofes vivas. Colhia-as resmungando:<\/p>\n<p>\u2013 Perp\u00e9tua? N\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o vai pra mesa hoje. \u00c9 festa alegra. Nem voc\u00ea, dona violetinha!&#8230; Rosa-maxixe? Ah! Ah! Tinha gra\u00e7a a Ces\u00e1ria em festa de branco!&#8230;<\/p>\n<p>E sua tesoura ia cortando os caules com ci\u00eancia de mestre. \u00c0s vezes parava, a filosofar:<\/p>\n<p>\u2013 Ningu\u00e9m se lembra hoje do anjinho&#8230; Pra que, ent\u00e3o, goivo nos vasos? Quieto fique aqui o senhor goivo, que n\u00e3o \u00e9 flor de vida, \u00e9 flor de cemit\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>E sua linguagem de flores? Suas ironias, nunca percebidas de ningu\u00e9m? Seus louvores, de ningu\u00e9m suspeitados? Quantas vezes n\u00e3o dep\u00f4s na mesa, sobre um prato, um aviso a um h\u00f3spede, um lembrete \u00e0 patroa, uma censura ao senhor, composto sob forma dum ramalhete? Ignorantes da l\u00edngua do jardim, riam-se eles da maluquice do Tim\u00f3teo, incapazes de lhe alcan\u00e7ar o fino das inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tim\u00f3teo era feliz. Raras criaturas realizam na vida mais formoso del\u00edrio de poeta. Sem fam\u00edlia, criara uma fam\u00edlia de flores; pobre, vivia ao p\u00e9 de um tesouro.<\/p>\n<p>Era feliz, sim. Trabalhava por amor, conversando com a terra e as plantas \u2013 embora a copa e a cozinha implicassem com aquilo.<\/p>\n<p>\u2013 Que tanto resmunga o Tim\u00f3teo! Fica ali mamparreando horas, a cochichar, a rir, como se estivesse no meio duma crian\u00e7ada!&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 que na sua imagina\u00e7\u00e3o as flores se transfiguravam em seres vivos. Tinham cara, olhos, ouvidos&#8230; O jasmim-do-cabo, pois n\u00e3o \u00e9 que lhe dava a ben\u00e7\u00e3o todas as manh\u00e3s? Mal Tim\u00f3teo aparecia, murmurando \u201cA ben\u00e7\u00e3o, Sinh\u00f4\u201d, e j\u00e1 o velho, encarnado na planta, respondia com voz alegre: \u201cDeus te aben\u00e7oe, Tim\u00f3teo\u201d.<\/p>\n<p>Contar isso aos outros? Nunca! \u201cEst\u00e1 louco\u201d, haviam de dizer. Mas bem que as plantinhas falavam&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 E como n\u00e3o h\u00e3o de falar, se tudo \u00e9 criatura de Deus, hom\u2019essa!&#8230;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m dialogava com elas.<\/p>\n<p>\u2013 Contentinha, hein? Boa chuva a de ontem, n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 &#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Sim, l\u00e1 isso \u00e9 verdade. As chuvas mi\u00fadas s\u00e3o mais criadeiras, mas voc\u00ea bem sabe que n\u00e3o \u00e9 tempo. E o grilo? Voltou? Voltou, sim, o ladr\u00e3o&#8230; E aqui roeu mais esta folhinha&#8230; Mas deixe estar, que eu curo ele!<\/p>\n<p>E punha-se a procurar o grilo. Achava-o.<\/p>\n<p>\u2013 Seu malfeitor!&#8230; Quero ver se continua agora a judiar das minhas flores.<\/p>\n<p>Matava-o, enterrava-o. \u201cVira esterco, diabinho!\u201d<\/p>\n<p>Pelo tempo da seca era um regalo ver Tim\u00f3teo a chuviscar amorosamente sobre as flores com o seu velho regador.\u2013 O sol seca a terra? Bobice!&#8230; Como se o Tim\u00f3teo n\u00e3o estivesse aqui de chovedor na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Chega tamb\u00e9m, u\u00e9! Ent\u00e3o quer sozinho um regador inteiro? Boa moda! N\u00e3o v\u00ea que as esporinhas est\u00e3o com a l\u00edngua de fora?<\/p>\n<p>\u2013 E esta boca-de-le\u00e3o, ah! ah! est\u00e1 mesmo com uma boca de cachorro que correu veado! Tome l\u00e1, beba, beba!<\/p>\n<p>\u2013 E voc\u00ea tamb\u00e9m, seu rosed\u00e1, tome l\u00e1 seu banho pra depois, namorar aquela dona hort\u00eansia, mo\u00e7a bonita do \u201cz\u00f3io\u201d azul&#8230;<br \/>\nE l\u00e1 ia&#8230;<\/p>\n<p>Plantas novas que abrolhavam o primeiro bot\u00e3o punham alvoro\u00e7o de noivo no peito do poeta, que falava do acontecimento na copa provocando as risadinhas impertinentes da Ces\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u2013 Diabo do negro velho, cada vez caducando mais! Conversa com flor como se fosse gente.<\/p>\n<p>S\u00f3 a mo\u00e7a, com seu fino instinto de mulher, lhe compreendia as delicadezas do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 aqui Sinh\u00e1, a primeira rainha margarida deste ano!<\/p>\n<p>Ela fingia-se extasiada e punha a flor no corpete.<\/p>\n<p>\u2013 Que beleza!<\/p>\n<p>E Tim\u00f3teo ria-se, feliz, feliz&#8230;<\/p>\n<p>Certa vez falou-se na reforma do jardim.<\/p>\n<p>\u2013 Precisamos mudar isto \u2013 lembrou-se o mo\u00e7o, de volta dum passeio a S\u00e3o Paulo. \u2013 H\u00e1 tantas flores modernas, linda, enormes, e n\u00f3s toda a vida com estas ciner\u00e1rias, estas esporinhas, estas flores caipiras&#8230; Vi l\u00e1 crisand\u00e1lias magn\u00edfias, cris\u00e2ntemos deste tamanho e uma rosa nova, branca, t\u00e3o grande que at\u00e9 parece flor artificial.<\/p>\n<p>Quando soube da conversa, Tim\u00f3teo sentiu gelo no cora\u00e7\u00e3o. Foi agarrar-se com a mo\u00e7a. Ele tamb\u00e9m conhecia essas flores de fora, vira cris\u00e2ntemos na casa do Coronel Barroso, e as tais d\u00e1lias mesti\u00e7as no peito duma faceira, no leil\u00e3o do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>\u2013 Mas aquilo nem \u00e9 flor, Sinh\u00e1! Coisas da estranja que o Canhoto inventa para perder as criaturas de Deus. Eles l\u00e1 que plantem. N\u00f3s aqui devemos zelar das plantas de fam\u00edlia. Aquela d\u00e1lia rajada, est\u00e1 vendo? \u00c9 singela, n\u00e3o tem o crespo das dobradas; mas quem troca uma menina de sainha de chita cor-de-rosa por uma semostradeira da cidade, de muita seda no corpo, mas sem f\u00e9 no cora\u00e7\u00e3o? De manh\u00e3 \u201cfica assim\u201d de abelhas e cuitelos em volta delas!&#8230;<\/p>\n<p>E eles sabem, eles n\u00e3o ignoram quem merece. Se as das cidades fossem mais de estima\u00e7\u00e3o, por que \u00e9 que esses bichinhos de Deus ficam aqui e n\u00e3o v\u00e3o pra l\u00e1? N\u00e3o, Sinh\u00e1! \u00c9 preciso tirar essa id\u00e9ia da cabe\u00e7a de Sinh\u00f4-mo\u00e7o. Ele \u00e9 crian\u00e7a ainda, n\u00e3o sabe a vida. \u00c9 preciso respeitar as coisas de dantes&#8230;<\/p>\n<p>E o jardim ficou.<\/p>\n<p>Mas um dia&#8230; Ah! Bem sentira-se Tim\u00f3teo tomado de avers\u00e3o pela fam\u00edlia dos ora-pro- n\u00f3bis! Pressentimento puro&#8230; O ora-pro-n\u00f3bis pai voltou e esteve ali uma semana em concili\u00e1bolo com o mo\u00e7o. Ao fim deste tempo, explodiu como bomba a grande not\u00edcia: estava negociada a fazenda, devendo a escritura passar-se dentro de poucos dias.<\/p>\n<p>Tim\u00f3teo recebeu a nova como quem recebe uma senten\u00e7a de morte. Na sua idade, tal mudan\u00e7a lhe equivalia a um fim de tudo. Correu a agarrar-se \u00e0 mo\u00e7a, mas desta vez nada puderam contra as armas do dinheiro os seus pobres argumentos de poeta.<\/p>\n<p>Vendeu-se a fazenda. E certa manh\u00e3 viu Tim\u00f3teo arrumarem-se no trole os antigos patr\u00f5es, as mucamas, tudo o que constitu\u00eda a alma do velho patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>\u2013 Adeus, Tim\u00f3teo! \u2013 disseram alegremente os senhores-mo\u00e7os, acomodando-se no ve\u00edculo.<\/p>\n<p>\u2013 Adeus! Adeus!&#8230;<\/p>\n<p>E l\u00e1 partiu o trole, a galope&#8230; Dobrou a curva da estrada&#8230; Sumiu-se para sempre&#8230;<\/p>\n<p>Pela primeira vez na vida Tim\u00f3teo esqueceu de regar o jardim. Quedou-se plantando a um canto, a esmoer o dia inteiro o mesmo pensamento doloroso:\u2013 Branco n\u00e3o tem cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Os novos propriet\u00e1rios eram gente da moda, amigos do luxo e das novidades. Entraram na casa com franzimentos de nariz para tudo.<br \/>\n\u2013 Velharias, velharias&#8230;<\/p>\n<p>E tudo reformaram. Em vez da austera mob\u00edlia de cabi\u00fana, adotaram m\u00f3veis pechisbeques, com veludinhos e friso. Determinaram o empapelamento das salas, a abertura de um hal l, mil coisas esquisitas&#8230;<\/p>\n<p>Diante do jardim, abriram-se em gargalhadas. \u2013 \u00c9 incr\u00edvel! Um jardim destes, cheirando a Tom\u00e9 de Sousa, em pleno s\u00e9culo das crisand\u00e1lias!<\/p>\n<p>E correram-no todo, a rir, como perfeitos malucos.<\/p>\n<p>\u2013 Olhe, Ivete, as esporinhas! \u00c9 inconceb\u00edvel que inda haja esporinhas no mundo!<\/p>\n<p>\u2013 E periquito, Odete! Pe-ri-qui-to!&#8230; \u2013 disse uma das mo\u00e7as, torcendo-se em gargalhadas.<\/p>\n<p>Tim\u00f3teo ouvia aquilo com mil mortes n\u2019alma. N\u00e3o restava d\u00favida, era o fim de tudo, como pressentira: aqueles bugres da cidade arrasariam a casa, o jardim e o mais que lembrasse o tempo antigo. Queriam s\u00f3 o moderno.<\/p>\n<p>E o jardim foi condenado. Mandariam vir o Ambrogi para tra\u00e7ar um plano novo, de acordo com a arte modern\u00edssima dos jardins ingleses. Reformariam as flores todas, plantando as \u00faltimas cria\u00e7\u00f5es da floricultura alem\u00e3. Ficou decidido assim.<\/p>\n<p>\u2013 E para n\u00e3o perder tempo, enquanto o Ambrogi n\u00e3o chega ponho aquele macaco e me arrasar isto \u2013 disse o homem apontando para Tim\u00f3teo.<\/p>\n<p>\u2013 \u00d3 ti\u00e7\u00e3o, vem c\u00e1!<\/p>\n<p>Tim\u00f3teo aproximou-se com ar apatetado.<\/p>\n<p>\u2013 Olha, ficas encarregado de limpar de limpar este mato e deixar a terra nuazinha. Quero fazer aqui um lindo jardim. Arrasa-me isto bem arrasadinho, entendes?<\/p>\n<p>Tim\u00f3teo, tr\u00eamulo, mal p\u00f4de engrolar uma palavra:<\/p>\n<p>\u2013Eu?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, tu! Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>O velho jardineiro, atarantado e fora de si, repetiu a pergunta:<\/p>\n<p>\u2013 Eu? Eu, arrasar o jardim?<\/p>\n<p>O fazendeiro encarou-o, espantado da sua aud\u00e1cia, sem nada compreender daquela resist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2013 Eu? Pois me acha com cara de criminoso?<\/p>\n<p>E, n\u00e3o podendo mais conter-se, explodiu num assomo estupendo de c\u00f3lera \u2013 o primeiro e o \u00fanico de sua vida.<\/p>\n<p>\u2013 Eu vou mas \u00e9 embora daqui, morrer l\u00e1 na porteira como um cachorro fiel. Mas, olhe, mo\u00e7o, que hei de rogar tanta praga que isto h\u00e1 de virar um tapera de lacraias! A geada h\u00e1 de torrar o caf\u00e9. A peste h\u00e1 de levar at\u00e9 as vacas de leite! N\u00e3o h\u00e1 de ficar aqui nenhuma galinha, nem um p\u00e9 de vassoura! E a fam\u00edlia amaldi\u00e7oada, coberta de lepra, h\u00e1 de comer na gamela com os cachorros lazarentos!&#8230; Deixa estar, gente amaldi\u00e7oada! N\u00e3o se assassina assim uma coisa que dinheiro nenhum paga.<\/p>\n<p>N\u00e3o se mata assim um pobre negro velho que tem dentro do peito uma coisa que l\u00e1 na cidade ningu\u00e9m sabe o que \u00e9. Deixa estar, branco de m\u00e1 casta! Deixa estar, caninana! Deixa estar!&#8230;<\/p>\n<p>E fazendo com a m\u00e3o espalmada o gesto fat\u00eddico, saiu \u00e0s arrecuas, repetindo cem vezes a mesma amea\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2013 Deixa estar! Deixa estar!<\/p>\n<p>E longe, na porteira, ainda espalmava a m\u00e3o para a fazenda, num gesto mudo:<\/p>\n<p>\u2013 Deixa estar!<\/p>\n<p>Anoitecia. Os curiangos andavam a espacejar silenciosamente v\u00f4os de sombra pelas estradas desertas. O c\u00e9u era todo um recamo fulgurante de estrelas. Os sapos coaxavam nos brejos e vagalumes silenciosos piscavam piques de luz no sombrio das capoeiras.<\/p>\n<p>Tudo adormecera na terra, em breve pausa de vida para o ressurgir do dia seguinte.S\u00f3 n\u00e3o ressurgir\u00e1 Tim\u00f3teo. L\u00e1 agoniza ao p\u00e9 da porteira. L\u00e1 morre.<\/p>\n<p>E l\u00e1 encontrar\u00e1 a manh\u00e3 enrijecido pelo relento, de borco na grama orvalhada, com a m\u00e3o estendida para a fazenda num derradeiro gesto de amea\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2013 Deixa estar!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O casar\u00e3o da fazenda era ao jeito das velhas moradias: \u2013 frente com varanda, uma ala e p\u00e1tio interno. Neste ficava o jardim, tamb\u00e9m \u00e0 moda antiga, cheio de plantas antigas cujas flores punham no ar um saudoso perfume d\u2019antanho. 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