{"id":92409,"date":"2017-01-04T10:09:36","date_gmt":"2017-01-04T12:09:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92409"},"modified":"2017-01-04T10:09:36","modified_gmt":"2017-01-04T12:09:36","slug":"o-herdeiro-de-si-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/o-herdeiro-de-si-mesmo","title":{"rendered":"O Herdeiro de Si mesmo"},"content":{"rendered":"<p>O povo de Dois Rios n\u00e3o cessava de comentar a inconceb\u00edvel \u201csorte\u201d do coronel Lup\u00e9rcio Moura, o grande milion\u00e1rio local. Um homem que sa\u00edra do nada. Que come\u00e7ara modesto menino de escrit\u00f3rio dos que mal ganham para os sapatos, mas cuja vida, dura at\u00e9 aos 36 anos, fora da\u00ed por diante a mais espantosa subida pela escada do dinheiro, a ponto de aos 60 ver-se montado numa hipopot\u00e2mica fortuna de 60 mil contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve o que Lup\u00e9rcio n\u00e3o conseguisse da sorte \u2013 at\u00e9 o posto de coronel, apesar de j\u00e1 extinta a pitoresca institui\u00e7\u00e3o dos coron\u00e9is. A nossa velha Guarda Nacional era uma mil\u00edcia meramente decorativa, com os gal\u00f5es de capit\u00e3o, major e coronel reservados para coroamento das vidas felizes em neg\u00f3cios. Em todas as cidades havia sempre um coronel: o homem de mais posses. Quando Lup\u00e9rcio chegou aos 20 mil contos, agente de Dois Rios sentiu-se acanhado de trat\u00e1-lo apenas de \u201csenhor Lup\u00e9rcio\u201d. Era pouqu\u00edssimo. Era absurdo que um detentor de tanto dinheiro ainda se conservasse! \u201csoldado raso\u201d \u2013 e por consenso un\u00e2nime promoveram-no, com muita justi\u00e7a, a coronel, o posto mais alto da extinta mil\u00edcia.<\/p>\n<p>Criaturas h\u00e1 que nascem com misteriosa aptid\u00e3o para monopolizar dinheiro. Lembram \u00edm\u00e3s humanos. Atraem a moeda com a mesma inexplic\u00e1vel for\u00e7a com que o \u00edm\u00e3 atrai a limalha. Lup\u00e9rcio tornara-se \u00edm\u00e3. O dinheiro procurava-o de todos os lados, e uma vez aderido n\u00e3o o largava mais toda gente faz neg\u00f3cios em que ora ganha, ora perde. Ficam ricos os que ganham mais do que perdem e empobrecem os que perdem mais do que ganham. Mas caso de homem de mil neg\u00f3cios sem uma s\u00f3 falha, existia no mundo apenas um \u2013 o do coronel Lup\u00e9rcio.<\/p>\n<p>At\u00e9 aos 36 anos ganhou dinheiro de modo normal, e conservou-o \u00e0 for\u00e7a da mais acirrada economia. Juntou um pec\u00falio de 45:500$000 como juntam todos os forretas. Foi por essas alturas que sua vida mudou. A sorte \u201cencostou-se\u201d nele, dizia o povo. Houve aquela tacada inicial de santos e a partir da\u00ed todos os seus neg\u00f3cios foram tacada prodigiosas. Evidentemente, uma for\u00e7a misteriosa passara a porteg\u00ea-lo.<br \/>\nQue tacada inicial fora essa? Vale a pena record\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Certo dia, inopidanadamente, Lup\u00e9rcio apareceu com a id\u00e9ia, absurda para seu car\u00e1ter, de uma esta\u00e7\u00e3o de veraneio em Santos. Todo mundo se espantou. Pensar em veraneio, flanar, botar dinheiro fora, aquela criatura que nem sequer fumava para economia dos n\u00edqueis que custam os ma\u00e7os de cigarros? E quando o interpelaram, deu uma resposta esquisita:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei. Uma coisa me empurra para l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Lup\u00e9rcio foi para Santos. Arrastado, sim, mas foi. E l\u00e1 se hospedou no hotelzinho mais barato, sempre atento a uma s\u00f3 coisa: o saldo que ficaria dos 500 mil r\u00e9is que destinara \u00e0 \u201cmaluquice\u201d. Nem banhos de mar tomou, apesar da grande vontade, para economia dos 20 mil r\u00e9is de roupa de banho. Contentava-se com ver o mar.<br \/>\nQue enlevo d\u2019alma lhe vinha da imensid\u00e3o l\u00edquida, eternamente a aflar em ondas e a refletir os tons do c\u00e9u! Lup\u00e9rcio extasiava-se diante de tamanha beleza.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto sal! Quantos milh\u00f5es de toneladas de sal! \u2013 dizia l\u00e1 consigo, e seus olhos, em \u00eaxtase, ficavam a ver pilhas imensas de sacas amontoadas por toda a extens\u00e3o das praias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m gostava de assistir \u00e0 puxada das redes dos pescadores, enlevando-se no c\u00e1lculo do valor da massa de peixes recolhida. Seu c\u00e9rebro era a mais perfeita m\u00e1quina de calcular que o mundo ainda produzira.<br \/>\nNum desses passeios afastou-se mais que de costume e foi ter \u00e0 praia grande. Um enorme trambolho ferrugento semi-enterrado na areia chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Que \u00e9 aquilo? \u2013 indagou dum passante.<br \/>\nSoube tratar-se dum cargueiro ingl\u00eas que vinte anos antes dera \u00e0 costa naquele ponto. Uma tempestade arremessara-o \u00e0 praia onde encalhara e ficara a afundar-se lentissimamente. No come\u00e7o o grande caso aparecia quase todo de fora \u2013 \u201cmas ainda acaba engolido pela areia\u201d \u2013 concluiu o informante.<\/p>\n<p>Certas criaturas nunca sabem o que fazem q o que s\u00e3o, nem o que leva a isto e n\u00e3o \u00e0quilo. Lup\u00e9rcio era assim. Ou andava assim agora, depois do \u201cencostamento\u201d da for\u00e7a. Essa for\u00e7a o puxava \u00e0s vezes como cabreiro puxa para a feira um cabrito \u2013 arrastando-o. Lup\u00e9rcio veio para santos arrastado.<br \/>\nChegara at\u00e9 aquele casco arrastado \u2013 e era a contragosto que permanecia diante dele, porque o sol estava terr\u00edvel e Lup\u00e9rcio detestava o calor. Travava-se dentro dele uma luta. A for\u00e7a obrigava-o a atentar no casco, e calcular o volume daquela massa de ferro, o n\u00famero de quilos, o valor do metal, o custo do desmantelamento \u2013 mas Lup\u00e9rcio resistia. Queria sombra, queria escapar ao calor terr\u00edvel. Por fim, venceu. N\u00e3o calculou coisa nenhuma \u2013 e fez-se de volta para o hotelzinho com cara de quem brigou com a namorada \u2013 evidentemente amuado.<\/p>\n<p>Nessa noite todos os seus sonhos giraram em torno do casco velho. A for\u00e7a insistia para que ele calculasse a ferralha, mas mesmo em sonhos Lup\u00e9rcio resistia, alegava o calor reinante \u2013 e os pernilongos. Oh, como havia pernilongos em Santos! Como calcular qualquer coisa com o term\u00f4metro perto de 40 graus e aquela infernal m\u00fasica anof\u00e9lica? Lup\u00e9rcio amanheceu de mau humor, amuado. Amuado com a for\u00e7a.<br \/>\nFoi quando ocorreu o caso mais inexplic\u00e1vel de sua vida:<\/p>\n<p>O casual encontro de um corretor de neg\u00f3cios que seduziu de maneira estranha. Come\u00e7aram a conversar bobagens e gostaram-se. Almo\u00e7aram juntos. Encontraram-se de novo \u00e0 tarde para o jantar. Jantaram juntos e depois&#8230; a farrinha!<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, a id\u00e9ia da farra tinha assustado Lup\u00e9rcio. Significava desperd\u00edcio de dinheiro \u2013 um absurdo. Mas como o homem lhe pagara o almo\u00e7o e o jantar, era bem poss\u00edvel que tamb\u00e9m custeasse a farrinha. Essa hip\u00f3tese fez que Lup\u00e9rcio n\u00e3o repelisse de pronto o convite, e o corretor, como se lhe adivinhasse o pensamento, acudiu logo:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o pense em despesas. Estou cheio de \u201cmassa\u201d. Como o negoci\u00e3o que fiz ontem, posso torrar um conto sem que meu bolso d\u00ea por isso.<\/p>\n<p>A farra acabou diante de uma garrafa de whisky, bebida cara que s\u00f3 naquele momento Lup\u00e9rcio veio a conhecer. Uma, duas, tr\u00eas doses. Qualquer coisa levitante come\u00e7ou a desabrochar dentro dele. Riu-se \u00e0 larga. Contou casos c\u00f4micos. Referiu cem fatos de sua vida e depois, oh, oh, oh, falou em dinheiro e confessou quantos contos possu\u00eda no banco!<br \/>\n&#8211; Pois \u00e9! Quarenta e cinco contos \u2013 ali na batata!<\/p>\n<p>O corretor passou o len\u00e7o pela testa suada. Uf! At\u00e9 que enfim descobrira o peso met\u00e1lico daquele homem. A confiss\u00e3o dos 45 contos era algo absolutamente aberrante na psicologia de Lup\u00e9rcio. Artes do whisky, porque em estado normal ningu\u00e9m nunca lhe arrancaria semelhante confiss\u00e3o. Um dos seus princ\u00edpios instintivos era n\u00e3o deixar que ningu\u00e9m lhe conhecesse \u201cao certo\u201d o valor monet\u00e1rio. Habilmente despistava os curiosos, dando a uns a impress\u00e3o de possuir mais, e a outros a de possuir menos do que realmente possu\u00eda. Mas in whisky, diz o latim \u2013 e ele estava com quatro boas doses no sangue.<\/p>\n<p>O que se passou dali at\u00e9 a madrugada Lup\u00e9rcio nunca o soube com clareza. Vagamente se lembrava de um estranh\u00edssimo neg\u00f3cio em que entravam o velho casco do cargueiro ingl\u00eas e uma companhia de seguros mar\u00edtimos.<br \/>\nAo despertar no dia seguinte, ao meio-dia, numa ressaca horrorosa, tentou reconstruir o embrulho da v\u00e9spera. A princ\u00edpio, nada; tudo confus\u00e3o. De repente, empalideceu.<br \/>\nSua mem\u00f3ria come\u00e7ava a abrir-se.<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel?<br \/>\nFora poss\u00edvel, sim. O corretor havia \u201croubado\u201d os seus 45 contos! Como? Vendendo-lhe o ferro-velho. Esse corretor era agente da companhia que pagara o seguro do cargueiro naufragado e ficara dona do casco. Havia muitos anos que recebera a incumb\u00eancia de apurar qualquer coisa daquilo \u2013 mas nunca obtivera nada, nem 5, nem 3 nem 2 contos \u2013 e agora o vendera \u00e0quele imbecil por 45!<br \/>\nA entrada triunfal do corretor no escrit\u00f3rio da companhia, vibrando no ar o cheque! Os abra\u00e7os, os parab\u00e9ns dos companheiros tomados de inveja&#8230;<br \/>\nO diretor da sucursal f\u00ea-lo vir ao escrit\u00f3rio.<br \/>\n&#8211; Quero que receba o meu abra\u00e7o \u2013 disse. \u2013 A sua fa\u00e7anha vem p\u00f4-lo em primeiro lugar entre os nossos agentes.<br \/>\nO senhor acaba de tornar-se a grande estrela da companhia.<\/p>\n<p>Enquanto isso, l\u00e1 no hotelzinho, Lup\u00e9rcio amarfanhava o travesseiro desesperadamente. Pensou na pol\u00edcia. Pensou em contratar o melhor advogado de Santos. Pensou em dar tiro \u2013 um tiro na barriga do infame ladr\u00e3o; na barriga, sim, por causa da peritonite. Mas nada p\u00f4de fazer. A for\u00e7a l\u00e1 dentro o inibia. Impedia-o de agir neste ou naquele sentido. For\u00e7ava-o a esperar.<br \/>\n&#8211; Mas esperar que coisa?<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o sabia, n\u00e3o compreendia, mas sentia aquela impuls\u00e3o tremenda que o for\u00e7ava a esperar. Por fim, exausto da luta, ficou de corpo largado \u2013 vencido. Sim, esperaria. N\u00e3o faria nada \u2013 nem pol\u00edcia, nem advogado, nem peritonite, apesar de ser um caso de escroqueria pura, desses que a lei pune.<br \/>\nE como n\u00e3o tivesse \u00e2nimo de regressar a Dois Rios, deixou-se ficar em Santos num empreguinho dos mais modestos \u2013 esperando&#8230; n\u00e3o sabia o qu\u00ea.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou muito. Dois meses depois rebentava a Grande Guerra, e a tremenda alta dos metais n\u00e3o demorou a sobrevir. No ano seguinte Lup\u00e9rcio revendeu o casco do \u201cSparrow\u2019 por 320 contos de r\u00e9is. A not\u00edcia encheu Santos \u2013 e o corretor-estrela foi tocado da companhia de seguros quase a pontap\u00e9s. O mesmo diretor que o promovera ao \u201cestrelato\u201d despediu-o com palavras ferozes;<\/p>\n<p>&#8211; Imbecil! Esteve anos e anos com o \u201cSparrow\u201d e vai vend\u00ea-lo por uma ninharia justamente nas v\u00e9speras da valoriza\u00e7\u00e3o. Rua! Fa\u00e7a-me o favor de nunca mais me p\u00f4r os p\u00e9s aqui, seu coisa!<\/p>\n<p>Lup\u00e9rcio voltou para Dois Rios com 320 contos no bolso e perfeitamente reconciliado com a for\u00e7a. Da\u00ed por diante nunca mais houve amuos, nem hiatos na sua ascens\u00e3o ao milionarismo. Lup\u00e9rcio dava id\u00e9ia do dem\u00f4nio. Enxergava no mais escuro de todos os neg\u00f3cios. Adivinhava. Recusava muitos que todos refugavam \u2013 e o que inevitavelmente sucedia era o fracasso desses neg\u00f3cios da china e a vit\u00f3ria dos de todos refugiados.<\/p>\n<p>No jogo dos marcos alem\u00e3es o mundo inteiro perdeu \u2013 menos Lup\u00e9rcio. Um belo dia deliberou \u201cembarcar nos marcos\u201d, contra o conselho de todos os prudentes locais. A moeda alem\u00e3 estava a 50 r\u00e9is. Lup\u00e9rcio comprou milho\u00f5es e mais milh\u00f5es, empatou nela todas as suas possibilidades. E com espanto geral, o marco principiou a subir. Foi a 60, a 70, a 100 r\u00e9is. O entusiasmo pelo neg\u00f3cio tornou-se imenso. Iria a 200, a 300 r\u00e9is, diziam todos \u2013 e n\u00e3o houve quem n\u00e3o se atirasse \u00e0 compra daquilo.<\/p>\n<p>Quando a cota\u00e7\u00e3o chegou a 110 r\u00e9is, Lup\u00e9rcio foi \u00e0 capital consultar um banqueiro das suas rela\u00e7\u00f5es, verdadeiro or\u00e1culo em finan\u00e7as internacionais \u2013 o \u201cinfal\u00edvel\u201d, como diziam nas rodas banc\u00e1rias.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o venda \u2013 foi o conselho do homem. \u2013 A moeda alem\u00e3 est\u00e1 firm\u00edssima, vai a 200, pode chegar mesmo a 300 \u2013 e s\u00f3 ser\u00e1 o momento de vender.<br \/>\nAs raz\u00f5es que o banqueiro deu para demonstrar matematicamente o asserto eram de perfeita solidez; eram a pr\u00f3pria evid\u00eancia materializada do racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>Lup\u00e9rcio ficou absolutamente convencido daquela matem\u00e1tica \u2013 mas, arrastado pela for\u00e7a, encaminhou-se para o banco onde tinha os seus marcos \u2013 arrastado como o cabritinho que o cabreiro conduz \u00e0 feira \u2013 e l\u00e1, em voz sumida, submisso, envergonhado, deu ordens para a venda imediata dos seus milh\u00f5es.<br \/>\n&#8211; Mas, o coronel \u2013 objetou o empregado a quem se dirigiu -, n\u00e3o acha que \u00e9 erro vender agora que a alta est\u00e1 em vertigem? Todos os progn\u00f3sticos s\u00e3o un\u00e2nimes em garantir que teremos o marco a 200, a 300, e isso antes de um m\u00eas&#8230;<br \/>\n&#8211; Acho, sim, que \u00e9 isso mesmo \u2013 respondeu Lup\u00e9rcio, como que agarrado pela garganta. \u2013 Mas quero, sou \u201cfor\u00e7ado\u201d a vender. Venda j\u00e1, j\u00e1, hoje mesmo.<br \/>\n&#8211; Olhe, olhe&#8230; \u2013 disse ainda o empregado. \u2013 n\u00e3o se precipite. Deixe essa resolu\u00e7\u00e3o para amanh\u00e3. Durma sobre o caso.<br \/>\nA for\u00e7a quase estrangulou Lup\u00e9rcio, que com os \u00faltimos restos de voz apenas p\u00f4de dizer:<br \/>\n&#8211; \u00c9 verdade, tem raz\u00e3o \u2013 mas venda, e hoje mesmo&#8230;<br \/>\nNo dia seguinte come\u00e7ou a degringolada final dos marcos alem\u00e3es, na descida vertiginosa que os levou ao zero absoluto.<br \/>\nLup\u00e9rcio, comprador a 50 r\u00e9is, vendera-os pelo m\u00e1ximo da cota\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada \u2013 e justamente na v\u00e9spera de d\u00e9b\u00e2cle! O seu lucro foi milhares de contos.<\/p>\n<p>Os contos de Lup\u00e9rcio foram vindo aos milhares, mas tamb\u00e9m lhe vieram vindo aos anos, at\u00e9 que um dia se convenceu de estar velho e inevitavelmente pr\u00f3ximo do fim. Dores aqui e ali \u2013 doencinhas insistentes, cr\u00f4nicas. Seu organismo evidentemente de ca\u00eda \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a fortuna aumentava. Ao completar os 60 anos Lup\u00e9rcio tomou-se de uma sensa\u00e7\u00e3o nova, de pavor \u2013 o pavor de ter de largar a maravilhosa fortuna reunida. T\u00e3o integrado estava no dinheiro, que a id\u00e9ia de separar-se dos milh\u00f5es lhe parecia uma aberra\u00e7\u00e3o da natureza. Morrer! Teria ent\u00e3o de morrer, ele que era diferente dos outros homens? Ele que viera ao mundo com a miss\u00e3o de chamar a si quanto dinheiro houvesse?<br \/>\nEle que era o \u00edm\u00e3 atrator da limalha?<\/p>\n<p>O que foi a sua luta com a id\u00e9ia de inevitabilidade da morte n\u00e3o cabe em descri\u00e7\u00e3o nenhuma. Exigiria volumes. Sua vida ensombreceu. Os dias iam se passando e o problema se tornava cada vez mais augustioso. A morte \u00e9 um fato universal. At\u00e9 aquela data n\u00e3o lhe constava que ningu\u00e9m houvesse deixado de morrer. Ele, portanto, morreria tamb\u00e9m \u2013 era o inevit\u00e1vel.<br \/>\nO mais que poderia fazer era prolongar a sua vida at\u00e9 os 70, at\u00e9 80. Poderia mesmo chegar a quase 100, como o rockefeller \u2013 mas ao cabo teria de ir-se, e ent\u00e3o? Quem ficaria com 200 ou 300 mil contos que deveria ter por essa \u00e9poca?<\/p>\n<p>Aquela hist\u00f3ria de herdeiros era o absurdo dos absurdos para um celibat\u00e1rio de sua marca. Se a fortuna era dele, s\u00f3 dele, como deix\u00e1-la quem quer que fosse? N\u00e3o&#8230; Tinha de descobrir um jeito de n\u00e3o morrer ou&#8230; Lup\u00e9rcio interrompeu-se no meio do racioc\u00ednio, tomado de s\u00fabita id\u00e9ia. Uma id\u00e9ia tremenda, que por minutos o deixou de c\u00e9rebro paralisado. Depois, sorriu.<br \/>\n&#8211; Sim, sim&#8230; quem sabe? E seu rosto iluminou-se de uma luz nova. As grandes id\u00e9ias emitem luz&#8230;<br \/>\nDesde esse momento Lup\u00e9rcio revelou-se outro, com preucupa\u00e7\u00f5es que nunca tivera antes. N\u00e3o houve em Dois Rios quem o n\u00e3o notasse.<br \/>\n&#8211; O homem mudou completamente \u2013 diziam. \u2013 est\u00e1 se espiritualizando. Compreendeu que a morte vem mesmo e come\u00e7a a arrepender-se da sua feroz materialidade.<\/p>\n<p>Lup\u00e9rcio fez-se espiritualista. Comprou livros, leu-os, meditou-os. Passou a freq\u00fcentar o centro esp\u00edrita local e ao ouvir com a maior aten\u00e7\u00e3o as vozes do al\u00e9m, transmitida pelo Chico vira, o famoso m\u00e9dium da zona.<\/p>\n<p>&#8211; Quem havia de dizer! \u2013 era o coment\u00e1rio geral. \u2013 Esse usu\u00e1rio que passou a vida inteira s\u00f3 pensando em dinheiro e nunca foi capaz de dar um tost\u00e3o de esmola, est\u00e1 virando santo. E v\u00e3o ver que faz como o Rockfeller: deixa toda a fortuna para o asilo de mendigos&#8230;<\/p>\n<p>Lup\u00e9rcio, que nunca lera coisa nenhuma, estava agora se tornando um s\u00e1bio, a avaliar pelo n\u00famero de livros que adquiria. Entrou a estudar a fundo. Sua casa fez-se centro de reuni\u00f5es de quanto m\u00e9dium aparecia por l\u00e1 \u2013 e muitos de fora vieram Dois Rios a convite seu. Geralmente hospedava-os, pagava-lhes a conta do hotel \u2013 coisa inteiramente aberrante dos seus princ\u00edpios financeiros. O assombrado da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha limites.<\/p>\n<p>Mas o dr. Dunga, diretor do centro esp\u00edrita, come\u00e7ou a estranhar uma coisa: o interesse do coronel Lup\u00e9rcio pela metaps\u00edquica centrava-se num s\u00f3 ponto \u2013 a reencarna\u00e7\u00e3o. S\u00f3 isso o preucupava realmente. Pelo resto passava como gato por brasas.<\/p>\n<p>&#8211; Escute, irm\u00e3o \u2013 disse ele um dia ao dr. Dunga. \u2013 h\u00e1 na teoria da reencarna\u00e7\u00e3o um ponto para mim obscuro e que no entanto me apaixona. Por mais autores que eu leia, n\u00e3o consigo firmar as id\u00e9ias.<br \/>\n&#8211; Que ponto \u00e9 esse? \u2013 indagou o dr. Dunga.<\/p>\n<p>&#8211; Vou dizer. J\u00e1 n\u00e3o tenho duv\u00eddas sobre a reencarna\u00e7\u00e3o. Estou plenamente convencido de que a alma, depois da morte do corpo, volta \u2013 reencarna-se em outro ser. Mas em quem?<br \/>\n&#8211; Como em quem?<br \/>\n&#8211; Em quem, sim. Meu ponto \u00e9 saber se a alma do desencarnado pode escolher o corpo em que vai novamente encarnar-se.<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 claro que escolhe.<br \/>\nAt\u00e9 a\u00ed vou eu. Sei que escolhe. Mas \u201cquando\u201d escolhe?<br \/>\nO dr. Dunga n\u00e3o percebia o alcance da pergunta.<br \/>\n&#8211; Escolhe quando chega o momento de escolher \u2013 respondeu.<br \/>\nA resposta n\u00e3o contentou o coronel. O momento de escolher! Bolas! Mas que momento \u00e9 esse?<br \/>\n&#8211; Meu ponto \u00e9 o seguinte: saber se a alma de um vivo pode antecipadamente escolher a criatura em que vai futuramente encarnar-se.<br \/>\nO dr. Dunga estava tonto. Fez cara de n\u00e3o entender nada.<br \/>\n&#8211; Sim \u2013 continuou Lup\u00e9rcio. \u2013 Quero saber, por exemplo, se a alma de um vivo pode, antes de morrer, marcar a mulher que vai ter um filho em que essa alma se encarne.<br \/>\nA perplexidade do dr. Dunga recrescia.<br \/>\n&#8211; Meu caro \u2013 disse por fim Lup\u00e9rcio &#8211; , estou disposto a pagar at\u00e9 cem contos por uma informa\u00e7\u00e3o segura \u2013 segur\u00edssima. Quero saber se a alma de um vivo pode antes de desencarnar-se escolher o corpo da sua futura reencarna\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Antes de morrer?<br \/>\n&#8211; Sim&#8230;<br \/>\n&#8211; Em vida ainda?<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 claro&#8230;<br \/>\nO dr. Dunga quedou-se pensativo. Estava ali uma hip\u00f3tese em que jamais refletia sobre o que nada lera.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei, coronel. S\u00f3 vendo, s\u00f3 consultando os autores \u2013 e as autoridades. N\u00f3s aqui somos bem poucos neste assunto, mas h\u00e1 mestres na Europa e nos Estados Unidos.<br \/>\nPodemos consult\u00e1-los.<br \/>\n&#8211; Pois fa\u00e7a-me o favor. N\u00e3o olhe as despesas. Darei cem contos, e at\u00e9 mais, em troca de uma informa\u00e7\u00e3o segura.<br \/>\n&#8211; Sei. Quer saber se ainda em vida do corpo podemos escolher a criatura em que vamos reencarnar-nos.<br \/>\n&#8211; Exatamente.<br \/>\n&#8211; E por que isso?<\/p>\n<p>&#8211; Maluquices de velho. Como ando a estudar as teorias da reencarna\u00e7\u00e3o, l\u00f3gico que me interessa pelos pontos obscuros. Os pontos claros esses j\u00e1 os conhe\u00e7o. N\u00e3o acha natural a minha atitude?<br \/>\nO dr. Dunga teve de achar natural\u00edssima aquela atitude.<br \/>\nEnquanto as cartas de consulta cruzaram o oceano, endere\u00e7ada \u00e0s mais famosas sociedades ps\u00edquicas do mundo, o estado de sa\u00fade do coronel Lup\u00e9rcio agravou-se \u2013 e concomitantemente se agravou sua pressa pela solu\u00e7\u00e3o do problema. Chegou a autorizar pedido de resposta pelo tel\u00e9grafo \u2013 custasse o que custasse.<br \/>\nCerto dia, o dr. Dunga, tomado de vaga desconfian\u00e7a, foi procur\u00e1-lo em casa.<br \/>\nEncontrou-o mal, respirando c esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Nada ainda, coronel. Mas a minha visita tem outro fim. Quero que o amigo fale claro, abra esse cora\u00e7\u00e3o! Quero que me explique a verdadeira causa do seu interesse pela consulta. Francamente, n\u00e3o acho natural isso. Sinto, percebo, que o coronel tem uma id\u00e9ia secreta na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Lup\u00e9rcio olhou-o de rev\u00e9s, desconfiado. Mas resistiu. Alegou que era apenas curiosidade. Como nos seus estudos sobre a reencarna\u00e7\u00e3o nada vira sobre aquele ponto, viera-lhe a lembran\u00e7a de esclarec\u00ea-lo. S\u00f3 isso&#8230;<br \/>\nO dr. Dunga n\u00e3o se satisfaz. Insistiu:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, coronel, n\u00e3o \u00e9 isso, n\u00e3o. Eu sinto, eu vejo, que o senhor tem uma id\u00e9ia oculta na cabe\u00e7a. Seja franco. Bem sabe que sou seu amigo.<br \/>\nLup\u00e9rcio resistiu ainda por algum tempo. Por fim confessou, com relut\u00e2ncia.<br \/>\n&#8211; \u00c9 que estou no fim, meu caro \u2013 tenho de fazer o testamento&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o disse mais, nem foi preciso. Um clar\u00e3o iluminou o esp\u00edrito do dr. Dunga. O coronel Lup\u00e9rcio, a mais pura encarna\u00e7\u00e3o humana do dinheiro, n\u00e3o admitia a id\u00e9ia de morrer e deixar a fortuna aos parentes. N\u00e3o se conformando com a hip\u00f3tese de separar-se dos 60 mil contos, pensava em fazer-se o herdeiro de si mesmo em outra reencarna\u00e7\u00e3o&#8230; seria isso?<\/p>\n<p>Dunga olhou-o firmamente, sem dizer palavra. Lup\u00e9rcio leu-lhe o pensamento leu-lhe o pensamento nos olhos inquisitores. Corou \u2013pela primeira vez na vida. E, baixando a cabe\u00e7a. Abriu o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Sim, Dunga, \u00e9 isso. Quero que voc\u00eas me descubram a mulher em que vou nascer de novo \u2013 para faz\u00ea-la em meu testamento, a deposit\u00e1ria de minha fortuna.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O povo de Dois Rios n\u00e3o cessava de comentar a inconceb\u00edvel \u201csorte\u201d do coronel Lup\u00e9rcio Moura, o grande milion\u00e1rio local. Um homem que sa\u00edra do nada. 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