{"id":92397,"date":"2017-01-04T10:05:12","date_gmt":"2017-01-04T12:05:12","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92397"},"modified":"2017-01-04T10:05:12","modified_gmt":"2017-01-04T12:05:12","slug":"o-presidente-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/o-presidente-negro","title":{"rendered":"O Presidente Negro"},"content":{"rendered":"<p> <center><\/p>\n<table width=\"656\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXV<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Monteiro Lobato<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">CAPITULO I &#8211; O Desastre<\/a><\/h4>\n<p>Achava-me um dia diante dos guich\u00eas do London Bank \u00e1 espera de que o pagador<br \/>\n    gritasse a minha chapa, quando vi a cochilar num banco ao fundo certo corretor<br \/>\n    de neg\u00f3cios meu conhecido. Fui-me a ele, alegre da oportunidade de iludir<br \/>\n    o fastio da espera com uns dedos de prosa amiga.<\/p>\n<p> &#8212; Esperando sua horinha, hein? disse-lhe com um tapa amig&aacute;vel<br \/>\n    no ombro, enquanto me sentava ao seu lado.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade. Espero pacientemente que me cantem o numero, e<br \/>\n    enquanto espero filosofo sobre os males que traz &aacute; vida a deshonestidade<br \/>\n    dos homens.<\/p>\n<p> &#8212; ? &#8212; Sim, porque se n&atilde;o fosse a deshonestidade dos homens<br \/>\n    tudo se simplificaria grandemente. Esta demora no pagamento do mais simples<br \/>\n    cheque, donde prov&eacute;m? Da necessidade de controle em vista dos artif&iacute;cios<br \/>\n    da deshonestidade. Fossem todos os homens s&eacute;rios, n&atilde;o houvesse<br \/>\n    hipotese de falsifica&ccedil;&otilde;es ou abusos, e o recebimento de um dinheiro<br \/>\n    far-se-ia instantaneo. Ponho-me &aacute;s vezes a imaginar como seriam as<br \/>\n    coisas c&aacute; na terra se um sabio eugenismo d&eacute;sse combate &aacute;<br \/>\n    deshonestidade por meio da completa elimina&ccedil;&atilde;o dos deshonestos.<\/p>\n<p> Que para&iacute;so! &#8212; Tem raz&atilde;o, concordei eu, com os olhos<br \/>\n    parados de quem pela primeira vez reflete uma ideia. A vida &eacute; complicada,<br \/>\n    existem leis, pol&iacute;cia, embara&ccedil;os de toda especie, burocracia<br \/>\n    e mil peia?, tudo porque a deshonestidade nas rela&ccedil;&otilde;es humanas<br \/>\n    constitue, como dizes, um elemento constante. Mas &eacute; mal sem remedio&#8230;<\/p>\n<p> E por a&iacute; fomos, no filosofar vadio de quem n&atilde;o possue coisa<br \/>\n    melhor a fazer e apenas procura matar o tempo. Passamos depois a analisar<br \/>\n    varios tipos ali presentes, ou que entravam e sa&iacute;am, na azafama peculiar<br \/>\n    aos negocios bancarios. O meu amigo, frequentador que era dos bancos, conhecia<br \/>\n    muitos deles e foi-me enumerando particularidades curiosas relativas a cada<br \/>\n    qual. Nisto entrou um velho de aparencia distinta, j&aacute; um tanto dobrado<br \/>\n    pelos anos.<\/p>\n<p> &#8212; E aquele velho que ali vem? perguntei.<\/p>\n<p> &#8212; Oh! Aquele &eacute; um caso s&eacute;rio. O professor Benson, nunca<br \/>\n    ouviu falar? &#8212; Benson&#8230; Esse nome me &eacute; desconhecido.<\/p>\n<p> &#8212; Pois o professor Benson &eacute; um homem misterioso que passa a<br \/>\n    vida no fundo dos laboratorios, talvez &aacute; procura da pedra filosofal.<\/p>\n<p> Sabio em ciencias naturais e sabio ainda em finan&ccedil;as, coisa ao meu<br \/>\n    ver muito mais importante. E t&atilde;o sabio que jamais perde.<\/p>\n<p> Dou-me com esses rapazes todos que trabalham nas se&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    cambio e por eles sei deste homem coisas impressionantes. Benson joga no cambio,<br \/>\n    mas com tal seguran&ccedil;a que n&atilde;o perde.<\/p>\n<p> &#8212; Sorte! &#8212; N&atilde;o &eacute; bem sorte. A sorte caracteriza-se<br \/>\n    por um afluxo de paradas felizes, por uma media mais alta de lucro do que<br \/>\n    de perda.<\/p>\n<p> Mas Benson n&atilde;o perde nunca.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; poss&iacute;vel? &#8212; &Eacute; mais que poss&iacute;vel,<br \/>\n    &eacute; fato. Deve possuir hoje enorme fortuna.<\/p>\n<p> Mora em um complicado castelo l&aacute; dos lados de Friburgo, mas n&atilde;o<br \/>\n    cultiva rela&ccedil;&otilde;es sociais. N&atilde;o tem amigos, ninguem ainda<br \/>\n    viu o interior do casar&atilde;o onde vive em companhia de uma filha, servido<br \/>\n    por criados mudos, ao que dizem. Voc&ecirc; sabe que depois da guerra o mundo<br \/>\n    inteiro jogou no marco alem&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sei, sim, e fui uma das vitimas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois o mundo inteiro perdeu, menos ele.<\/p>\n<p> &#8212; Absurdo! S&oacute; se fabricava marcos para vender.<\/p>\n<p> &#8212; Ao contrario, comprava e revendia marcos j&aacute; feitos. O marco,<br \/>\n    talvez voc&ecirc; se lembre, teve em certo periodo uma oscila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de alta.<\/p>\n<p> Renasceram as esperan&ccedil;as dos jogadores e o movimento de compras foi<br \/>\n    enorme. Benson vendeu nessa ocasi&atilde;o. Logo em seguida come&ccedil;ou<br \/>\n    o marco desandar at&eacute; zero e para nunca mais se erguer.<\/p>\n<p> &#8212; Vendeu no momento exato, como quem sabe qual o momento exato de<br \/>\n    vender&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Isso mesmo. Com o franco fez coisa identica. Comprou exatamente<br \/>\n    nos dias de maior baixa e vendeu exatamente nos dias de maior alta. Tem ganho<br \/>\n    o que quer ganhar, o raio do homenzinho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E para que necessita de tanto dinheiro? &#8212; Ignoro. N&atilde;o<br \/>\n    leva a vida comum dos nossos rica&ccedil;os, n&atilde;o d&aacute; festas,<br \/>\n    n&atilde;o consta que seja explorado por mulheres. &Eacute; positivamente<br \/>\n    misterioso o professor Benson &#8212; um verdadeiro magico que v&ecirc; atrav&eacute;s<br \/>\n    do futuro.<\/p>\n<p> Ri-me da express&atilde;o do meu amigo e qual filosofo barato murmurei com<br \/>\n    superioridade: &#8212; Como pode ver atrav&eacute;s do que n&atilde;o existe?<br \/>\n    O futuro n&atilde;o existe&#8230;<\/p>\n<p> O corretor respondeu-me com uma frase que naquele momento n&atilde;o compreendi:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o existe, sim, mas vai existir necessariamente.<\/p>\n<p> &#8212; Dois mais dois &#8212; &eacute; o presente. A soma quatro &eacute;<br \/>\n    o futuro.<\/p>\n<p> Um futuro previs&iacute;vel&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Vinte e dois!&quot; gritou uma voz da pagadoria.<\/p>\n<p> Era o meu numero.<\/p>\n<p> &#8212; Dois mais dois tambem podem ser vinte e dois, gracejei eu, despedindo-me<br \/>\n    do filosofo. Adeus, meu caro. Na proxima oportunidade voc&ecirc; continuar&aacute;<br \/>\n    com a demonstra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Recebi o dinheiro e sa&iacute; para o torvelinho das ruas, onde breve se<br \/>\n    me apagou do cerebro a impress&atilde;o do professor Benson e das palavras<br \/>\n    do meu amigo.<\/p>\n<p> Mas d&aacute; a vida misteriosas voltas e um belo dia, ao despertar de um<br \/>\n    sono letargico, quem vi eu diante dos meus olhos, qual um espetro? O professor<br \/>\n    Benson!&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o antecipemos, por&eacute;m; e antes de mais nada permitam-me que<br \/>\n    fale um bocado da minha pessoa.<\/p>\n<p> Era eu um pobre diabo para toda gente, exceto para mim mesmo. Para mim tinha-me<br \/>\n    na conta de centro do universo. Penso e sou, dizia comigo, repetindo certo<br \/>\n    filosofo franc&ecirc;s. Tudo gira em redor do meu ser. No dia em que eu deixar<br \/>\n    de pensar, o mundo acaba-se.<\/p>\n<p> Mas isto parece que n&atilde;o tinha grande originalidade, pois todos os<br \/>\n    meus conhecidos se julgavam da mesma forma.<\/p>\n<p> Eu vivia do meu trabalho, recebendo dele, n&atilde;o o produto, mas uma<br \/>\n    pequena quota, o necessario para pagar o quarto onde morava, a pens&atilde;o<br \/>\n    onde comia e a roupa que vestia. Quem propriamente se gozava do meu trabalho<br \/>\n    era a dupla S&aacute;, Pato &amp; Cia., gordos e solidos negociantes que me<br \/>\n    enterneciam a alma nas epocas de balan&ccedil;o ao concederem-me a pequena<br \/>\n    gratifica&ccedil;&atilde;o constituidora do meu lucro. Com eles trabalhei<br \/>\n    varios anos, conseguindo reunir o modesto peculio que transformei em marcos<br \/>\n    e, com grande dor d&#8217;alma, vi se reduzirem a zero absoluto, apesar da teoria<br \/>\n    de que tudo &eacute; relativo.<\/p>\n<p> Continuei no trabalho por mais quatro anos, da&iacute; por diante j&aacute;<br \/>\n    curado de jogatinas e megalomanias.<\/p>\n<p> Mas todos n&oacute;s possu&iacute;mos um ideal na vida. Meu amigo corretor<br \/>\n    sonha dirigir a carteira cambial de um banco. Aquele pobre que ali passa,<br \/>\n    tocando o realejo que herdou do pai e ao qual faltam tres notas, sonha com<br \/>\n    um realejo novo em que n&atilde;o falte nota nenhuma.<\/p>\n<p> Eu sonhava&#8230; com um automovel. Meu Deus! As noites que passei pensando<br \/>\n    nisso, vendo-me no volante, de olhar firme para a frente, fazendo, a berros<br \/>\n    de klaxon, disparar do meu caminho os pobres e assustadi&ccedil;os pedestres!<br \/>\n    Como tal sonho me enchia a imagina&ccedil;&atilde;o! Meu servi&ccedil;o na<br \/>\n    casa era todo de rua, recebimentos, pagamentos, comiss&otilde;es de toda especie.<br \/>\n    De modo que posso dizer que morava na rua, e o mundo para mim n&atilde;o passava<br \/>\n    de uma rua a dar uma por&ccedil;&atilde;o de voltas em torno da terra. Ora,<br \/>\n    na rua eu via a humanidade dividida em duas castas, pedestres e rodantes,<br \/>\n    como os batizei aos homens comuns e aos que circulavam sobre quatro pneus.<br \/>\n    O pedestre, casta em que nasci e em que vivi at&eacute; aos 26 anos, era um<br \/>\n    ser inquieto, de pouco rendimento, for&ccedil;ado a gastar a sola das botinas,<br \/>\n    a suar em bicas nos dias quentes, a molhar-se nos dias de chuva e a operar<br \/>\n    prod&iacute;gios para n&atilde;o ser amarrotado pelo orgulhoso e impass&iacute;vel<br \/>\n    rodante, o homem superior que n&atilde;o anda, mas desliza veloz. Quantas<br \/>\n    vezes n&atilde;o parei nas cal&ccedil;adas para gozar o espetaculo do formigamento<br \/>\n    dos meus irm&atilde;os pedestres, a abrirem alas inquietas &aacute; Cadillac<br \/>\n    arrogante que por eles se metia, a reluzir esmaltes e metais! O ronco de porco<br \/>\n    do klaxon parecia-me dizer &#8212; &quot;Arreda canalha!&quot; Sonhei, portanto,<br \/>\n    mudar de casta e por minha vez levar os pedestres a abrirem-me alas, sob pena<br \/>\n    de esmagamento. E o novo peculio, com tanto esfor&ccedil;o acumulado depois<br \/>\n    do desastre germanico, n&atilde;o visava outra coisa. Foi, pois, com o maior<br \/>\n    enlevo d&#8217;alma que entrei certa manh&atilde; numa agencia e comprei a maquina<br \/>\n    que me mudaria a situa&ccedil;&atilde;o social. Um Ford.<\/p>\n<p> Os efeitos dessa compra foram decisivos na minha vida. Ao veremme chegar<br \/>\n    ao escritorio fonfonando, os patr&otilde;es abriram as maiores bocas que ainda<br \/>\n    lhes vi e vacilaram entre porem-me no olho da rua ou dobrarem&#8211;me o ordenado.<br \/>\n    Por fim dobraram-me o ordenado, quando demonstrei o quanto lhes aumentaria<br \/>\n    o renome da firma o terem um auxiliar possuidor de automovel proprio. E tudo<br \/>\n    correria pelo melhor, no melhor dos mundos poss&iacute;veis, se eu me n&atilde;o<br \/>\n    excedesse na furia de fordizar a todo o transe com o fito de embasbacar pedestres.<br \/>\n    A paix&atilde;o da carreira grelara em mim e, depois de um m&ecirc;s, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o contente com a velocidade desenvolvida por aquele carro, pus-me<br \/>\n    a sonhar a aquisi&ccedil;&atilde;o de outro, que chispasse cem quilometros<br \/>\n    por hora. O aumento de ordenado permitiu-me varias excurs&otilde;es de maluco,<br \/>\n    nas quais me embriagava aos domingos da delicia de devorar quilometros.<\/p>\n<p> Paguei diversas multas, matei meia duzia de c&atilde;es e cheguei a atropelar<br \/>\n    um pobre surdo que n&atilde;o atendera ao meu insolente &quot;Arreda!&quot;<br \/>\n    Tornou-se-me o pedestre uma criatura odiosa, embara&ccedil;adora do meu direito<br \/>\n    &aacute; rapidez e &aacute; linha reta. Pensei at&eacute; em representar ao<br \/>\n    governo, sugerindo uma lei que proibisse a semelhantes trambolhos semoventes<br \/>\n    o transito pelas vias asfaltadas. Adquiri, em suma, a mentalidade dos rodantes,<br \/>\n    passando a desprezar o pedestre como coisa vil e de somenos importancia na<br \/>\n    vida.<\/p>\n<p> Por essa epoca um dos meus patr&otilde;es encarregou-me de liquidar pessoalmente<br \/>\n    certo negocio com um fregu&ecirc;s morador perto de Friburgo.<\/p>\n<p> Muito facil me seria l&aacute; ir de trem, mas um rodante da minha marca<br \/>\n    sorria dos trens. Fui no meu auto, apesar das ruins informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que me deram do caminho. Meti boa reserva de gasolina e atirei-me qual um<br \/>\n    doido por estradas de tropa em que, suponho, nenhum automovel ainda se arriscara<br \/>\n    a passar. Numerosos contratempos sofri nessa minha &quot;viagem a Damasco&quot;,<br \/>\n    mas mesmo assim tudo acabaria sem novidade se a estrada infame n&atilde;o<br \/>\n    desembocasse de improviso numa otima, recem-feita e t&atilde;o bem conservada<br \/>\n    como a melhor das pistas de corrida. Mal me vi naquele setimo c&eacute;u de<br \/>\n    macadame, dei toda a for&ccedil;a &aacute; maquina e desforrei-me da lentid&atilde;o<br \/>\n    de at&eacute; ali com uma chispada a 60 por hora, o maximo que o meu fordinho<br \/>\n    permitia.<\/p>\n<p> A regi&atilde;o que eu atravessava era de maravilhosa beleza. Serras azues<br \/>\n    ao longe, quais muralhas de safira a sopesarem um c&eacute;u de cobalto. Dia<br \/>\n    de limpidez absoluta. Paisagem das que vibram de nitidez. Desafeito aos formosos<br \/>\n    quadros da natureza, distrai-me com a novidade do espetaculo e&#8230; cataprus!\n  <\/p>\n<p> Dormi um longo sono. Quando acordei achava-me num quarto desconhecido, tendo<br \/>\n    na minha frente&#8230; o velho jogador de cambio que eu vira no banco &#8212;<br \/>\n    o professor Benson! Grande foi a minha surpresa, e ainda maior seria se uma<br \/>\n    forte dor no meu bra&ccedil;o direito me permitisse pensar em alguma coisa<br \/>\n    al&eacute;m da les&atilde;o sofrida nesse apendice do eixo central do universo.<\/p>\n<p> &#8212; Onde estou? murmurei, olhando muito espantado para o professor Benson.<\/p>\n<p> &#8212; Em minha casa, respondeu ele. Um dos meus homens o encontrou sem<br \/>\n    sentidos no fundo de um despenhadeiro, ao lado de um Ford em pandarecos.<\/p>\n<p> &#8212; O meu Ford em pandarecos! Desgra&ccedil;ado que sou&#8230; gemi.<\/p>\n<p> A dor do bra&ccedil;o ofendido era grande, mas a minha dor moral muito maior.<br \/>\n    Creio at&eacute; que entre perder o carro e perder um bra&ccedil;o eu n&atilde;o<br \/>\n    vacilaria na escolha. Custara-me tanto consegui-lo&#8230; E, al&eacute;m do mais,<br \/>\n    dada a psicologia dos meus patr&otilde;es, o certo era reduzirem-me o ordenado,<br \/>\n    j&aacute; que eu voltaria a servi-los a p&eacute; como outrora&#8230;<\/p>\n<p> T&atilde;o negra noticia me sombreou de crepes a alma. N&atilde;o podia<br \/>\n    conformar-me com o desastre. Delirei. Soube mais tarde, pelo professor, que<br \/>\n    nesse del&iacute;rio uma obsess&atilde;o unica transparecia: o desespero ante<br \/>\n    o meu retorno &aacute; miseravel casta dos pedestres&#8230;<\/p>\n<p> Mas tudo passa. A dor do bra&ccedil;o foi atenuando e a dor moral acompanhou-a<br \/>\n    nesse amortecimento, de modo que pude erguer-me da cama ao cabo de quinze<br \/>\n    ou vinte dias.<\/p>\n<p> Vi ent&atilde;o desenhar-se na minha frente um problema terr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Davam-me alta em breve e, n&atilde;o havendo mais raz&atilde;o para permanecer<br \/>\n    naquela casa estranha, for&ccedil;oso me seria regressar &aacute; cidade.<br \/>\n    E teria de me apresentar diante dos senhores S&aacute;, Pato &amp; Cia. a<br \/>\n    p&eacute;, murcho, resignado &aacute;s suas pilherias e &aacute; logica redu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de salario. Revoltado, deliberei mudar de vida. Quando na manh&atilde; seguinte<br \/>\n    o professor Benson me apareceu no quarto, abri-me com ele.<\/p>\n<p> &#8212; Professor, n&atilde;o sei como agradecer o bem que me fez!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Fiz o meu dever apenas, declarou com simplicidade o velho.<\/p>\n<p> &#8212; Salvou-me a vida, professor. N&atilde;o fosse a sua preciosa assistencia<br \/>\n    e o provavel era estar eu agora esvoa&ccedil;ando pelo outro mundo, como froco<br \/>\n    de paina ps&iacute;quica. Minha gratid&atilde;o &eacute; imensa. Mas seria<br \/>\n    infinita se o professor me ajudasse a resolver o problema muito serio que<br \/>\n    vejo armar-se diante de mim.<\/p>\n<p> &#8212; Diga qual &eacute;. J&aacute; resolvi diversos, tidos como insoluveis,<br \/>\n    e serme- ia grato resolver mais um&#8230;<\/p>\n<p> Animado pela bonomia do velho, abri meu cora&ccedil;&atilde;o. Contei-lhe<br \/>\n    a mediocridade da minha vida, os meus esfor&ccedil;os para juntar o peculio<br \/>\n    empatado no automovel, a transforma&ccedil;&atilde;o que as quatro rodas me<br \/>\n    operaram na mentalidade e o horror com que via agora o for&ccedil;ado regresso<br \/>\n    ao pedestrianismo.<\/p>\n<p> &#8212; O professor &eacute; opulento e pelo que vejo possue uma grande<br \/>\n    e linda propriedade. Precisar&aacute;, portanto, de homens que trabalhem nela.<br \/>\n    Eu n&atilde;o queria sair daqui. Arranje-me uma ocupa&ccedil;&atilde;o qualquer,<br \/>\n    seja l&aacute; qual for. Tenho algumas aptid&otilde;es e, como a boa vontade<br \/>\n    &eacute; grande, para isto ou aquilo sempre hei de servir. O que n&atilde;o<br \/>\n    desejo &eacute; voltar &aacute; cidade e ter de apresentar-me, assim deca&iacute;do,<br \/>\n    ante os meus truculentos patr&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> O professor Benson pareceu meditar. Tirou do nariz os oculos de ouro, limpou-lhes<br \/>\n    os vidros num len&ccedil;o de linho e depois disse: &#8212; N&atilde;o necessito<br \/>\n    aqui de ninguem. Possuo o numero de criados estritamente precisos para conserva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desta propriedade e nela n&atilde;o vejo fun&ccedil;&atilde;o que o amigo<br \/>\n    possa desempenhar. E n&atilde;o o admitiria em hipotese alguma, se de dias<br \/>\n    a esta parte n&atilde;o sentisse c&aacute; no cora&ccedil;&atilde;o prenuncios<br \/>\n    de que minha vida est&aacute; no fim. Isto me faz sair da pol&iacute;tica<br \/>\n    que tenho levado at&eacute; hoje e aceita-lo em minha companhia como&#8230; confidente.<\/p>\n<p> &#8212; Confidente?&#8230; repeti, sem compreender o alcance da express&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, confidente. Aproveito-me do acaso te-lo trazido ao meu encontro<br \/>\n    para confiar-lhe a historia da minha vida. Mas desde j&aacute; dou um conselho:<br \/>\n    guarde segredo de tudo, depois que eu morrer. N&atilde;o que seja caso de<br \/>\n    segredo, mas vai o amigo ouvir e ver coisas t&atilde;o extraordinarias que,<br \/>\n    se o for contar l&aacute; fora, o agarram e o metem no hosp&iacute;cio como<br \/>\n    doido varrido. Digo que guarde segredo para seu bem apenas. Agora saia. D&ecirc;<br \/>\n    pelos campos o seu primeiro passeio de convalescente e antes do almo&ccedil;o<br \/>\n    procure-me no gabinete.<\/p>\n<p> Findo o discurso o professor premiu o bot&atilde;o duma campainha.<\/p>\n<p> Sem demora vi surgir um criado.<\/p>\n<p> &#8212; Acompanhe este mo&ccedil;o num passeio pelos arredores e Se volta<br \/>\n    conduza-mo ao gabinete. <\/p>\n<h4><a name=\"2\">CAPITULO II &#8211; A Minha Aurora<\/a><\/h4>\n<p>Pela primeira vez depois de recolhido &aacute;quela mans&atilde;o punha eu<br \/>\n    o nariz fora do meu quarto de doente.<\/p>\n<p> Senti-me surpreso. A casa do professor Benson n&atilde;o era ao tipo da<br \/>\n    casa vulgar. Dava antes ideia de uma especie de castelo, n&atilde;o pelo estilo,<br \/>\n    que n&atilde;o lembrava nenhum dos castelos classicos que eu vira reproduzidos<br \/>\n    em cart&otilde;es postais, mas pela massa e o estranho da constru&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Olhei para aquilo com marcado espanto. Al&eacute;m do corpo fronteiro, evidentemente<br \/>\n    moradia familiar, erguiam-se pavilh&otilde;es, galerias envidra&ccedil;adas<br \/>\n    e varios minaretes alt&iacute;ssimos, ou, melhor, torres de ferro enxadrezado,<br \/>\n    entretecidas de fios de arame.<\/p>\n<p> &#8212; Que diabo de casa &eacute; esta? perguntei ao criado, voltando-me<br \/>\n    para ele.<\/p>\n<p> O criado, um tipo de misterioso aspecto e mais com ar de automato do que<br \/>\n    de gente, permaneceu imovel atr&aacute;s de mim, sem mostras de ter ouvido.<\/p>\n<p> Repeti-lhe a pergunta, e nada. Lembrei-me ent&atilde;o da minha conversa<br \/>\n    com o corretor, quando me deu informes sobre o sabio Benson e contou que vivia<br \/>\n    misteriosamente, servido por criados mudos. Sem duvida era aquele um dos tais.<br \/>\n    Isto fez-me estremecer. O pouco que eu vira j&aacute; me provara n&atilde;o<br \/>\n    ser o morador do castelo um homem comum &#8212; e o viver servido por mudos<br \/>\n    inda mais me agu&ccedil;ava a ponta do enigma.<\/p>\n<p> Prossegui, entretanto, no meu passeio, conformado em faze-lo cm silencio,<br \/>\n    uma vez que o mutismo era a senha da casa.<\/p>\n<p> Em redor do castelo estendiam-se campos e florestas. Regi&atilde;o montanhosa<br \/>\n    mas de relevo suave, cochilas mansas que ao longe ganhavam corpo at&eacute;<br \/>\n    se erguerem na morraria de um dos contrafortes da serra do Mar. Nos vales,<br \/>\n    belos cap&otilde;es de mata virgem; e nas lombas, um tapete de gramineas crioulas,<br \/>\n    naquela epoca revestidas de florinhas roseas.<\/p>\n<p> Notei logo que a natureza n&atilde;o era ali trabalhada. Tudo vivia em estado<br \/>\n    selvagem, sem sombra de interven&ccedil;&atilde;o humana al&eacute;m da impressa<br \/>\n    nos caminhos. Nem gado nas pastagens, nem sombras de cultura &#8212; porteiras<br \/>\n    ou cercas. Um peda&ccedil;o de natureza virgem onde o homem s&oacute; abriria<br \/>\n    passagens que lhe dessem o gozo das perspectivas naturais.<\/p>\n<p> Compreendi que n&atilde;o estava numa fazenda. Homem de posses, o professor<br \/>\n    Benson teria aquilo apenas para recreio dos sentidos, sem o menor recurso<br \/>\n    &aacute;s possibilidades do solo. Unicamente em redor da casa havia algo beneficiado:<br \/>\n    belo jardim todo garrido de rosas; aos fundos, o pomar.<\/p>\n<p> Caminhei por espa&ccedil;o de meia hora e, no alto de uma colina, sentei-me<br \/>\n    no topo de um cupim para admirar a vista soberba dali descortinada. Impressionava<br \/>\n    estranhamente aquele castelo de inexplicavel arquitetura, em meio duma natureza<br \/>\n    rude e calma, onde s&oacute; uma ou outra ave silvestre rompia o silencio<br \/>\n    com o seu piar.<\/p>\n<p> Afeito ao meu viver de cidade, no tumulto das ruas, aquele silencio e aquela<br \/>\n    solid&atilde;o punham-me novidades n&#8217;alma. Senti no cerebro um referver de<br \/>\n    ideias novas, a sairem da casca que nem pintos.<\/p>\n<p> A impress&atilde;o geral que tive diante da natureza liberta da presen&ccedil;a<br \/>\n    e a&ccedil;&atilde;o do homem, coisa que via pela primeira vez, foi da minha<br \/>\n    absoluta nihilidade &#8212; da nihilidade absoluta dos meus patr&otilde;es,<br \/>\n    naquele momento a se esbofarem no escritorio e a maldizerem do empregado desaparecido<br \/>\n    sem licen&ccedil;a. &#8212; Para eles era eu o empregado &#8212; e tambem<br \/>\n    vinte dias antes eu me considerava apenas um empregado, isto &eacute;, humilde<br \/>\n    pe&ccedil;a da maquina de ganhar dinheiro que os senhores S&aacute;, Pato<br \/>\n    &amp; Cia. houveram por bem montar dentro de uma certa aglomera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humana. Mas ali n&atilde;o me via empregado de ninguem; era um ser igual &aacute;s<br \/>\n    ervas que esverdeciam as colinas, &aacute;s arvores que frondejavam nas grotas<br \/>\n    e &aacute;s aves que piavam nas moitas. Sentia-me deliciosamente integrado<br \/>\n    na natureza.<\/p>\n<p> Minha loquela desaparecera. A necessidade de falar a todo o transe, tamanha<br \/>\n    que me fazia &aacute;s vezes falar sozinho, se substituira pela necessidade<br \/>\n    do silencio. Cheguei a agradecer a finura do velho sabio em dar-me um companheiro<br \/>\n    mudo, compreendendo que, se em vez dele ali estivesse o meu barbeiro, terr&iacute;vel<br \/>\n    altofalante de futebol e jogo de bicho, bem certo que eu chegaria ao extremo<br \/>\n    de amorda&ccedil;a-lo.<\/p>\n<p> Talvez at&eacute; nem fosse mudo de nascen&ccedil;a o criado, mas apenas<br \/>\n    emudecido por influi&ccedil;&atilde;o local. Comigo vi que tambem emudeceria,<br \/>\n    se permanecesse algum tempo naquele deserto.<\/p>\n<p> O ar livre abriu-me o apetite e o apetite aberto fez-me lembrar do almo&ccedil;o<br \/>\n    e da ordem de aparecer antes dele no gabinete do professor Benson. Tratei<br \/>\n    de voltar &#8212; e ao p&ocirc;r p&eacute; no castelo j&aacute; me sentia<br \/>\n    bem outro homem, varrido das preocupa&ccedil;&otilde;es de outrora e absolutamente<br \/>\n    exonerado, por incompatibilidade psicologica, das fun&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    factotum cronico dos senhores S&aacute;, Pato &amp; Cia.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">CAPITULO III &#8211; O Capit&atilde;o Nemo<\/a><\/h4>\n<p>Quando o criado me fez entrar no gabinete do doutor Benson o velho n&atilde;o<br \/>\n    se achava ali. Aproveitei o ensejo para correr os olhos pelas paredes e admirar,<br \/>\n    ou antes, embasbacar-me com as estranhas coisas que via. Devo dizer que n&atilde;o<br \/>\n    compreendi nada de nada.<\/p>\n<p> Conhecia o gabinete de trabalho dos meus patr&otilde;es e o de muitos outros<br \/>\n    negociantes. Tambem conhecia consultorios medicos, salas de advogado, sal&otilde;es<br \/>\n    de hotel, e facilmente tomava p&eacute; num deles. Os moveis, os quadros das<br \/>\n    paredes, os objetos de cima de mesa, os bibel&ocirc;s, as estatuetas, essas<br \/>\n    coisas todas me valiam por marcas digitais das que revelam a profiss&atilde;o<br \/>\n    do dono. No gabinete do professor Benson, por&eacute;m, tudo me era desnorteante<br \/>\n    e, fora as poltronas, nas quais o corpo afundava, como nas do Derby Club,<br \/>\n    onde estive uma vez &aacute; procura dum figur&atilde;o, tudo mais me valia<br \/>\n    por cita&ccedil;&otilde;es em caracteres chineses numa pagina em lingua materna.<br \/>\n    Pelas paredes, quadros &#8212; n&atilde;o quadros comuns com pinturas ou retratos,<br \/>\n    mas quadros de marmore, como os das usinas eletricas, in&ccedil;ados de bot&otilde;ezinhos<br \/>\n    de ebonite. E reentrancias, afunilamentos que se metiam pelos muros como cornetas<br \/>\n    de gramofone, lampadas eletricas dos mais estranhos aspectos, grupos de fios<br \/>\n    que vinham aos quatro, aos cinco, aos vinte e de repente se sumiam pelo muro<br \/>\n    a dentro.<\/p>\n<p> Todavia, o que mais me prendeu a aten&ccedil;&atilde;o foi, ao lado da secret&aacute;ria<br \/>\n    do professor, um enorme globo de cristal, e sobre ela, apontado para o globo,<br \/>\n    um curioso instrumento de olhar, ou que me pareceu tal por uma vaga semelhan&ccedil;a<br \/>\n    com o microscopio.<\/p>\n<p> Eu lera em crian&ccedil;a um romance de Julio Verne, Vinte Mil Leguas Submarinas,<br \/>\n    e aquele gabinete misterioso logo me evocou varias gravuras representando<br \/>\n    os aposentos reservados do capit&atilde;o Nemo.<\/p>\n<p> Lembrei-me tambem do professor Aronnax e senti-me na sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao ver-se prisioneiro no &quot;Nautilus&quot;.<\/p>\n<p> Nesse momento uma porta se abriu e o professor Benson entrou.<\/p>\n<p> &#8212; Bom dia, meu caro senhor&#8230; Seu nome? Ainda n&atilde;o sei o seu<br \/>\n    nome.<\/p>\n<p> &#8212; Ayrton Lobo, ex-empregado da firma S&aacute;, Pato &amp; Cia., respondi,<br \/>\n    fazendo uma reverencia de cabe&ccedil;a e carregando no ex com infinito prazer.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem, disse o professor. Queira sentar-se e ouvir-me.<\/p>\n<p> O habito de sempre falar de p&eacute; aos ex-patr&otilde;es impediu-me de<br \/>\n    cumprir a primeira ordem dada pelo meu novo chefe, e vacilei uns instantes,<br \/>\n    permanecendo perfilado. O professor Benson compreendeu a minha atitude; pos-me<br \/>\n    a m&atilde;o no ombro e, paternalmente, murmurou na sua voz cansada: &#8212;<br \/>\n    Sente-se. N&atilde;o creia que o vou reter aqui como a um subalterno. Disse<br \/>\n    que iria ser o meu confidente e os confidentes n&atilde;o se equiparam aos<br \/>\n    homens de servi&ccedil;o. Sente-se e conversemos.<\/p>\n<p> Sentei-me sem mais embara&ccedil;o, porque o tom do misterioso velho era<br \/>\n    na realidade cordial.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor Ayrton, pelo que vejo e adivinho, &eacute; um inocente,<br \/>\n    come&ccedil;ou ele. Chamo inocente ao homem comum, de educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mediana e pouco penetrado nos segredos da natureza. Empregado no comercio:<br \/>\n    quer dizer que n&atilde;o teve estudos.<\/p>\n<p> &#8212; Estudos ligeiros, ginasiais apenas, expliquei com modestia.<\/p>\n<p> &#8212; Isso e nada &eacute; o mesmo. Eu preferia ter para confidente um<br \/>\n    sabio ou, melhor, uma organiza&ccedil;&atilde;o de sabio, inteligencia de<br \/>\n    escol, das que compreendem. Em regra, o homem &eacute; um bipede incompreensivo.<\/p>\n<p> Alimenta-se de ideias feitas e desnorteia diante do novo. Mas costumo respeitar<br \/>\n    as injun&ccedil;&otilde;es do Acaso. Ele o trouxe ao meu encontro, seja pois<br \/>\n    o meu confidente. E saiba, senhor Ayrton, que &eacute; a primeira criatura<br \/>\n    humana aqui entrada desde que conclui a constru&ccedil;&atilde;o deste laboratorio.<\/p>\n<p> &#8212; O castelo, quer dizer? &#8212; Sim, o castelo, como romanticamente<br \/>\n    lhe apraz chamar esta oficina de estudos onde realizei a mais extraordinaria<br \/>\n    descoberta de todos os tempos.<\/p>\n<p> Sem querer dei um recuo na poltrona, pensando logo na pedra filosofal e<br \/>\n    no elixir da longa vida.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se assuste, nem arregale, dessa maneira, os olhos. Nem<br \/>\n    tente adivinhar o que &eacute;. Saiba apenas que se acha diante de um homem<br \/>\n    condenado a levar consigo ao tumulo o seu invento, porque esse invento excede<br \/>\n    &aacute; capacidade humana de adapta&ccedil;&atilde;o &aacute;s descobertas.<\/p>\n<p> Se eu o divulgasse, pobre humanidade! Seria imposs&iacute;vel prever a soma<br \/>\n    de consequencias que isso determinaria. Se houvesse, ou antes, se predominasse<br \/>\n    no homem o bom senso, a inteligencia superior, as qualidades nobres em suma,<br \/>\n    sem medo eu atiraria &aacute; divulga&ccedil;&atilde;o a minha maravilhosa<br \/>\n    descoberta. Mas sendo o homem como &eacute;, vicioso e mau, com um pendor<br \/>\n    irredut&iacute;vel para o despotismo, n&atilde;o posso deixar entre eles t&atilde;o<br \/>\n    perigosa arma.<\/p>\n<p> &#8212; Quer dizer, atrevi-me a murmurar, que se o doutor quisesse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Se eu quisesse, interrompeu-me o velho sabio, tornar-me-ia o senhor<br \/>\n    do mundo, pois me vejo armado de uma potencia que at&eacute; hoje os m&iacute;sticos<br \/>\n    julgaram atributo exclusivo da divindade.<\/p>\n<p> Dei novo recuo na cadeira, desta vez meio na duvida se falava com um somem<br \/>\n    sadio dos miolos ou com um maluco. O ar sempre sereno do professor Benson<br \/>\n    acomodou-me, por&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o quero. A domina&ccedil;&atilde;o sobre o mundo n&atilde;o<br \/>\n    me daria prazeres maiores que os que gozo. N&atilde;o me faria ver mais azul<br \/>\n    e l&iacute;mpida aquela serra, nem respirar com mais prazer este ar puro,<br \/>\n    nem ouvir melhor musica que a do sabi&aacute; que todas as tardes canta numa<br \/>\n    das laranjeiras do pomar. Al&eacute;m disso, estou velho, tenho os dias contados<br \/>\n    e nada do que &eacute; do mundo consegue interessar-me. Vivi demais, satisfiz<br \/>\n    demais a minha outrora insaciavel, mas hoje saciada, curiosidade de sabio.<br \/>\n    S&oacute; aspiro a morrer sem dor e desfazer-me na vida do universo transfeito<br \/>\n    em atomos. Quem sabe se cada um desses atomos n&atilde;o levar&aacute; consigo<br \/>\n    a capacidade de gozo que ha em mim, e se com esse desdobramento n&atilde;o<br \/>\n    elevo ao extremo as minhas possibilidades?&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o compreendi muito bem, lento que sou de espirito, a alta filosofia<br \/>\n    do professor; mas calei-me, cheio de admira&ccedil;&atilde;o pelo homem que<br \/>\n    podendo ser imperador, presidente de republica, rei do a&ccedil;o, sult&atilde;o<br \/>\n    ou o que lhe desse na telha, visto que podia tudo, contentavase com ser um<br \/>\n    misterioso velhinho ignorado do mundo e &aacute; espera da morte naquele sereno<br \/>\n    recanto da natureza.<\/p>\n<p> Nisto um criado surgiu &aacute; porta e fez sinal.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos ao almo&ccedil;o, senhor, Ayrton. Depois continuarei nas minhas<br \/>\n    confidencias, disse-me o professor erguendo-se com dificuldade da poltrona.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">CAPITULO IV &#8211; Miss Jane<\/a><\/h4>\n<p>Na sala de almo&ccedil;o tive uma nova surpresa. Estava l&aacute;, e recebeunos<br \/>\n    com gentil sorriso, a mais encantadora criatura que meus olhos ainda viram.<\/p>\n<p> &#8212; Minha filha Jane, apresentou-ma o velho.<\/p>\n<p> Como eu esperava tudo, menos encontrar ali uma figura feminina, atrapalhei-me<br \/>\n    e gaguejei, visto que sou timido diante das mulheres formosas. J&aacute; com<br \/>\n    as feias, ou velhas, sinto-me desembara&ccedil;ad&iacute;ssimo. Mas cabelos<br \/>\n    louros como aqueles, olhos azues como aqueles, esbelteza e elegancia de porte<br \/>\n    como as de miss Jane, eram ingredientes fortes demais para que n&atilde;o<br \/>\n    produzissem a ruptura do meu equil&iacute;brio nervoso. Gaguejei, j&aacute;<br \/>\n    disse, e fui logo trope&ccedil;ando num p&eacute; de cadeira, o que muito<br \/>\n    me vexou, embora n&atilde;o fizesse rir &aacute; mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> Esta contens&atilde;o de sua parte provou-me que eu estava diante de uma<br \/>\n    criatura finamente educada e generosa.<\/p>\n<p> Correu sem incidentes o almo&ccedil;o, e nada vi nele de misterioso.<\/p>\n<p> Pratos simples, servidos em baixela fina, tudo despido dos excessos que<br \/>\n    caracterizam a mesa dos rica&ccedil;os amigos de nas menores coisas exibirem<br \/>\n    o seu dinheiro.<\/p>\n<p> Miss Jane falou ao pai de tres filhotes de pintassilgos que encontrara no<br \/>\n    pomar, num ninho feito de ra&iacute;zes de capim.<\/p>\n<p> &#8212; Gosta de passaros, senhor Ayrton? perguntou-me num gracioso sorriso.<\/p>\n<p> Confesso que eu at&eacute; ignorava a existencia de passaros no mundo.<\/p>\n<p> A minha vida de cidade, no corre-corre das ruas desde menino, sem nunca<br \/>\n    umas f&eacute;rias passadas no campo, impedia-me de prestar aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a essas vidinhas aladas, que constituem um dos enlevos dos contemplativos.<\/p>\n<p> &#8212; Gosto, sim, senhora, respondi eu, se bem que em materia de passaros<br \/>\n    s&oacute; me lembre dum periquito vitima duma menina filha l&aacute; da firma.<\/p>\n<p> &#8212; Pois aprender&aacute; aqui a adora-los. O sabi&aacute; que todas<br \/>\n    as tardes canta numa das laranjeiras do pomar, com certeza j&aacute; lhe atraiu<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o. Temos tambem varios outros amiguinhos que de l&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o saem, pintassilgos, sanha&ccedil;os, rolinhas, sairas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O senhor Ayrton, interveio o professor, vai ficar aqui conosco.<\/p>\n<p> Tem muito que ouvir e aprender. Vou revelar-lhe os segredos da natureza,<br \/>\n    e tu, Jane, lhe revelar&aacute;s a poesia. Estes homens da cidade t&ecirc;m<br \/>\n    a vis&atilde;o muito restrita; o mundo para eles se resume na rua, nas casas<br \/>\n    marginais e no torvelinho humano.<\/p>\n<p> &#8212; Realmente, professor. A impress&atilde;o que tive hoje durante o<br \/>\n    meu passeio pelo campo abriu-me a alma. Verifiquei que o mundo n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; s&oacute; a cidade, e que o centro do universo n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a firma S&aacute;, Pato &amp; Cia., como toda vida supus.<\/p>\n<p> &#8212; O mundo, meu caro, &eacute; um imenso livro de maravilhas. A parte<br \/>\n    que o homem j&aacute; leu chama-se passado; o presente &eacute; a pagina em<br \/>\n    que est&aacute; aberto o livro; o futuro s&atilde;o as paginas ainda por cortar.<br \/>\n    E a uma criatura que nem conhece a pagina aberta ante os olhos, como o senhor,<br \/>\n    vou eu revelar o que a ningu&eacute;m ainda foi revelado: algumas futuras!<br \/>\n    Olhei para o professor Benson com ar palerma, porque sempre me apalermava<br \/>\n    o que ele dizia. Tinha o sabio uma linguagem nova para mim, da qual eu apreendia<br \/>\n    apenas o sentimento formal, n&atilde;o o sentido intimo. Animei-me, entretanto,<br \/>\n    a uma frase: &#8212; Miss Jane com certeza conhece tamb&eacute;m essas paginas<br \/>\n    futuras.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, eu e ela, respondeu o professor. S&oacute; n&oacute;s dois,<br \/>\n    no mundo inteiro e desde que o mundo &eacute; mundo, gozamos deste privilegio<br \/>\n    maravilhoso. Enviuvei muito cedo e minha fam&iacute;lia est&aacute; hoje reduzida<br \/>\n    a Jane. &Eacute; a minha companheira de analises dos cortes anatomicos do<br \/>\n    futuro.<\/p>\n<p> &quot;Cortes anatomicos do futuro&quot;&#8230; A express&atilde;o soou-me como<br \/>\n    outrora a do senhor S&aacute; quando pela primeira vez me falou em &#8216;lan&ccedil;amento<br \/>\n    por partidas dobradas&quot;, coisa que hoje n&atilde;o ignoro mas que na epoca<br \/>\n    me valeu por um &quot;corte anatomico&quot;.<\/p>\n<p> Nesse ponto do almo&ccedil;o fez-se notar certa zoada distante vinda n&atilde;o<br \/>\n    sabia eu de onde.<\/p>\n<p> &#8212; Deixaste o cronizador aberto, Jane? &#8212; Sim, meu pai. Deixei-o<br \/>\n    em marcha para 410 anos de hoje, focalizado para 80.&deg; de latitude N. e<br \/>\n    40 de longitude. Experiencia ao acaso, pois nem verifiquei onde fica esse<br \/>\n    ponto.<\/p>\n<p> &#8212; Groenlandia. O corte n&atilde;o revelar&aacute; coisa nenhuma, suponho.<\/p>\n<p> N&atilde;o creio que em 410 anos as condi&ccedil;&otilde;es do mundo se<br \/>\n    alterem a ponto de haver l&aacute; outra vida alem da dos esquim&oacute;s,<br \/>\n    ursos e focas.<\/p>\n<p> &#8212; Em todo o caso vejamos, disse a mo&ccedil;a. Temos tido tantas surpresas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Minha filha, senhor Ayrton, possue mais frieza de sabio do que eu.<br \/>\n    N&atilde;o perde tempo em formular hipoteses quando tem ao alcance meios de<br \/>\n    verificar experimentalmente.<\/p>\n<p> Ri-me. Acho que a melhor maneira de figurar numa roda onde se falam coisas<br \/>\n    acima da nossa compreens&atilde;o &eacute; sorrir para o interlocutor que<br \/>\n    nos dirige a palavra. Se o riso n&atilde;o engana a ele, engana-nos a n&oacute;s<br \/>\n    e livra-nos de uma replica verbal, que sai asneira infalivelmente. De todo<br \/>\n    o dialogo da filha com o pai s&oacute; me evocou uma imagem j&aacute; classificada<br \/>\n    em meu cerebro a palavra Groenlandia.<\/p>\n<p> Lembrei-me dos meus tempos de geografia e da impress&atilde;o que me causara<br \/>\n    a descri&ccedil;&atilde;o da Terra Verde, ou Groenlandia, feita pelo meu barbudo<br \/>\n    professor Maneco Lopes. E por associa&ccedil;&atilde;o me vieram &aacute;<br \/>\n    mente ursos brancos, focas, le&otilde;es marinhos, pinguins, esquim&oacute;s.<\/p>\n<p> Querendo contribuir com uma nota para a conversa, e fingindo entender o<br \/>\n    que eles haviam dito, arrisquei: &#8212; N&atilde;o ha duvida, a Groenlandia<br \/>\n    &eacute; um caso s&eacute;rio. Uma piririca! Foi a vez do professor Benson<br \/>\n    franzir os sobrolhos no gesto classico da incompreens&atilde;o. Vi que aquele<br \/>\n    homem, que sabia tudo e lia o futuro, ignorava alguma coisa do presente &#8212;<br \/>\n    a g&iacute;ria da cidade, e firmeime na resolu&ccedil;&atilde;o de dar com<br \/>\n    a giria em cima dele para ve-lo refranzir a testa muitas vezes.<\/p>\n<p> &#8212; Que? indagou o velho sabio.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, expliquei eu sem erguer os olhos para miss Jane com medo de<br \/>\n    desnortear. A Groelandia &eacute; um caso, um numero. Quanto o pinguim cisma<br \/>\n    p&#8217;ra cima do peixe e o urso gr&eacute;la a foca&#8230;<\/p>\n<p> Mas o professor Benson cortou-me as vazas.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o refletiu nunca, meu caro senhor Ayrton, na oportunidade<br \/>\n    do silencio? O silencio &eacute; sabio, &eacute; uma das mais altas formas<br \/>\n    da sabedoria. Foi silenciando que Jesus deu ao &quot;Que &eacute; a verdade?&quot;<br \/>\n    de Pilatos a unica resposta acertada&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Papai, interveio a mo&ccedil;a evidentemente apiedada da minha situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    est&aacute; a&iacute; uma experiencia que ainda n&atilde;o fizemos! Involuir<br \/>\n    a corrente e operar um corte no ano 33, a ver se apanhamos essa cena historica&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Realmente &eacute; uma ideia, minha filha, e mais curiosa do que<br \/>\n    o exame da Groenlandia, onde, como diz c&aacute; o amigo, o urso gr&eacute;la<br \/>\n    a foca&#8230; <\/p>\n<h4><a name=\"5\">CAPITULO V &#8211; Tudo Eter que Vibra<\/a><\/h4>\n<p>Sa&iacute; daquele almo&ccedil;o com as ideias mais desnorteadas do que nunca.<br \/>\n    Um elemento novo contribu&iacute;a para isso; miss Jane, criatura singularmente<br \/>\n    perturbadora, pois, al&eacute;m de agir sobre meus fragilimos nervos como<br \/>\n    todas as mo&ccedil;as bonitas, ainda me tonteava com a sua mentalidade de<br \/>\n    sabio. De tudo quanto a jovem disse s&oacute; me ficou claro no espirito a<br \/>\n    historia dos passarinhos do pomar. At&eacute; ali pareceu-me uma criatura<br \/>\n    tal as outras, mas depois do &quot;corte anatomico&quot; tudo se complicou<br \/>\n    e passei a ve-la qual um misterioso idolo de divindade dupla, mixto de Afrodite<br \/>\n    e Minerva.<\/p>\n<p> Depois do almo&ccedil;o levou-me o professor a ver os laboratorios.<\/p>\n<p> Atravessei numerosas salas e pavilh&otilde;es cuja composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entendi menos que a do gabinete. Quanta maquina esquisita, tubos de cristal,<br \/>\n    ampolas, pilhas eletricas, bobinas, d&iacute;namos &#8212; extravagancias<br \/>\n    de sabio! Eu conhecia varias oficinas mecanicas, mas nelas nunca me tonteava.<br \/>\n    Tornos, maquinas de cortar e furar, bigornas, martelos automaticos, laminadores,<br \/>\n    fresas, tudo isso eu via e compreendia, pois apesar de complicados na aparencia<br \/>\n    evidenciavam logo uma fun&ccedil;&atilde;o esclarecedora. Mas ali, santo Deus!<br \/>\n    Que caos! N&atilde;o consegui entender coisa nenhuma e mesmo depois que o<br \/>\n    velho sabio mas explicou manda a verdade confessar que fiquei na mesma.<\/p>\n<p> Isto aqui, disse ele na primeira sala, s&atilde;o aparelhos eletro-radioquimicos,<br \/>\n    na maioria criados ou adaptados por mim e que constitu&iacute;ram o ponto<br \/>\n    de partida da minha descoberta. Se o amigo Ayrton fosse tecnico, eu os explicaria<br \/>\n    um por um, mas ser&aacute; dif&iacute;cil fazerme entender por quem n&atilde;o<br \/>\n    possue uma solida base de ideias cientificas. Resumirei dizendo que neste<br \/>\n    velho laboratorio consumi os trinta anos da minha mocidade em pesquisas pacient&iacute;ssimas,<br \/>\n    culminantes na constru&ccedil;&atilde;o daquela antena que o amigo l&aacute;<br \/>\n    v&ecirc; no alto da torre.<\/p>\n<p> Olhei e vi uns fios entrecruzados formando um desenho geometrico.<\/p>\n<p> &#8212; Parece uma teia de aranha! murmurei.<\/p>\n<p> &#8212; E &eacute; de fato uma teia de aranha. A aranha sou eu. Com essa<br \/>\n    teia apanho a vibra&ccedil;&atilde;o atomica do momento.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Vibra&ccedil;&atilde;o atomica do momento&quot;&#8230; repeti,<br \/>\n    fazendo um furioso esfor&ccedil;o mental para compreender a novidade.<\/p>\n<p> &#8212; Sim. A vida na terra &eacute; um movimento de vibra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do eter, do atomo, do que quer que seja uno e primario, entende? &#8212; Estou<br \/>\n    quasi entendendo. J&aacute; li um artigo no jornal onde um sabio provava que<br \/>\n    s&oacute; ha for&ccedil;a e materia, mas que a materia &eacute; for&ccedil;a,<br \/>\n    de modo que os dois elementos s&atilde;o um, como os tres da Sant&iacute;ssima<br \/>\n    Trindade tambem s&atilde;o um, n&atilde;o &eacute; isso? &#8212; Mais ou menos.<br \/>\n    Nomes n&atilde;o v&ecirc;m ao caso. For&ccedil;a, eter, atomo: denomina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    arbitrarias de uma coisa una que &eacute; o principio, o meio e o fim de tudo.<br \/>\n    Por comodidade chamarei eter a esse elemento primario. Esse eter vibra e,<br \/>\n    conforme o grau ou intensidade da vibra&ccedil;&atilde;o, apresenta-se-nos<br \/>\n    sob formas. A vida, a pedra, a luz, o ar, as arvores, os peixes, a sua pessoa,<br \/>\n    a firma S&aacute;, Pato &amp; Cia.: modalidades da vibra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do eter. Tudo isso foi, &eacute; e ser&aacute; apenas eter.<\/p>\n<p> N&atilde;o pude deixar de sorrir lembrando-me da cara que fariam os senhores<br \/>\n    S&aacute;, Pato &amp; Cia. se ouvissem as palavras do sabio. Eter, eles&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o ha somente eter no mundo, continuou o mestre.<\/p>\n<p> Se s&oacute; houvesse eter e fosse de sua essencia vibrar, a vibra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seria uniforme e tornaria imposs&iacute;vel a manifesta&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    formas de vida.<\/p>\n<p> Seria o estatismo eterno.<\/p>\n<p> &#8212; Sei, um zum-zum, uma zoada de n&atilde;o acabar mais.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem, est&aacute; compreendendo. A vibra&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    eter, pois, sofreu a interferencia&#8230; Sabe o que &eacute; interferencia? &#8212;<br \/>\n    Uma coisa que se insinua pelo meio; intrometer a colher torta na conversa<br \/>\n    dos mais velhos deve ser, cientificamente, uma interferencia.<\/p>\n<p> &#8212; Perfeitamente. Sofreu a interferencia do que c&aacute; no vocabulario<br \/>\n    que criei com minha filha chamo &#8212; o Interferente. Isto de palavras n&atilde;o<br \/>\n    tem importancia, como j&aacute; disse. S&oacute; vale a ideia. O Interferente<br \/>\n    poder&aacute; para outros ter o nome de Deus, por exemplo, ou de Vontade.<br \/>\n    Os filosofos que filosofam com palavras passam a vida a debater qual a melhor<br \/>\n    palavra a aplicar ao meu Interferente, como se palavras jamais esclarecessem<br \/>\n    alguma coisa.<\/p>\n<p> &#8212; Vai indo muito bem, professor. Ha o eter que vibra e ha o Interferente<br \/>\n    que se mete no meio&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Isso. Interfere e provoca a varia&ccedil;&atilde;o vibratoria. Essa<br \/>\n    varia&ccedil;&atilde;o cria correntes que se chocam umas com as outras, modificam-e<br \/>\n    se d&atilde;o origem a todas as formas de vida existentes. A vida, pois, n&atilde;o<br \/>\n    passa da vibra&ccedil;&atilde;o do eter modificada pela a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Interferente! conclu&iacute;, glorioso.<\/p>\n<p> Parece que o professor Benson mudou a ideia que formava de mim. Viu que<br \/>\n    o disc&iacute;pulo aprendia depressa e, voltando atr&aacute;s, como se valesse<br \/>\n    a pena instrui-lo mais a fundo, passou a explicar-me dezenas de coisas do<br \/>\n    seu laboratorio, na inten&ccedil;&atilde;o de confirmar-me nos princ&iacute;pios<br \/>\n    que o levaram &aacute; dedu&ccedil;&atilde;o da formula: Eter + Interferencia<br \/>\n    = Vida.<\/p>\n<p> Depois que me viu j&aacute; bem seguro das suas teorias, continuou: &#8212;<br \/>\n    Preste aten&ccedil;&atilde;o agora, que este ponto &eacute; capital. O interferente<br \/>\n    n&atilde;o interfere sempre. O Interferente interferiu uma s&oacute; vez!<br \/>\n    Parei um pouco atordoado.<\/p>\n<p> &#8212; Espere, doutor. D&ecirc;-me tempo de assentar as ideias. O Interferente<br \/>\n    veio, interferiu e parou de interferir. &Eacute; isso? &#8212; Perfeitamente.<br \/>\n    Quebrou a uniformidade da vibra&ccedil;&atilde;o, perturbou o unissonismo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O zum-zum! &#8212; &#8230;e desde ent&atilde;o o fenomeno vida, que<br \/>\n    tambem podemos denominar universo, desenvolve-se por si, automaticamente,<br \/>\n    por determinismo. As coisas v&atilde;o-se determinando&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Uma puxa a outra.<\/p>\n<p> &#8212; Isso. Uma determina a outra. Da&iacute; vem falarem os velhos filosofos<br \/>\n    em lei da causalidade, &quot;todo efeito tem uma causa&quot;, &quot;toda causa<br \/>\n    produz efeitos&quot;, etc.<\/p>\n<p> &#8212; Aristoteles. . . ia eu arriscando.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe Aristoteles em paz. Estamos na determina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    universal, e a vida, ou o universo, &eacute; para n&oacute;s o momento consciente<br \/>\n    desta determina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Momento consciente&quot;&#8230; repeti for&ccedil;ando o cerebro.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor Ayrton, por exemplo, &eacute; um momento consciente da<br \/>\n    determina&ccedil;&atilde;o universal &aacute;s 13 horas e 14 minutos do dia<br \/>\n    3 de janeiro do ano de 1926, aos 22.&deg; e 35&#8242; de latitude S. e 35.&deg;<br \/>\n    e 3&#8242; de longitude ocidental do meridiano do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p> &#8212; Admiravel! exclamei com entusiasmo e cheio de orgulho, compreendendo<br \/>\n    afinal a minha verdadeira significa&ccedil;&atilde;o na vida. Mas o futuro,<br \/>\n    doutor? Muito mais que a defini&ccedil;&atilde;o cientifica do que sou, interessam-me<br \/>\n    as suas vis&otilde;es do futuro.<\/p>\n<p> &#8212; Para l&aacute; chegar temos que ir por este caminho. Come&ccedil;amos<br \/>\n    do eter inicial, admitimos a Interferencia e estamos na Determina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que &eacute; o que os filosofos chamam presente&#8230; O futuro &eacute; a Predetermina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Franzi os sobrolhos. A palavra era nova para mim e a ideia muito mais. O<br \/>\n    professor Benson expo-la com luminosa clareza e mostrou-me o maravilhoso do<br \/>\n    determinismo. Em certo ponto da sua exposi&ccedil;&atilde;o lembrei-me do<br \/>\n    amigo corretor e da sua compara&ccedil;&atilde;o do 2 + 2 = 4. Fingi que era<br \/>\n    minha a imagem e arrisquei: &#8212; Dois mais dois igual a quatro.<\/p>\n<p> O professor Benson entreparou, com a fisionomia radiante. Em seguida estendeu-me<br \/>\n    a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Meus parabens! Vejo que o senhor Ayrton &eacute; muito mais inteligente<br \/>\n    do que a principio supus. Nessa imagem est&aacute; toda a minha filosofia;<br \/>\n    2 + 2 significa o presente; 4 significa o futuro. Mas, assim que escrevemos<br \/>\n    o presente 2 + 2, o futuro 4 j&aacute; est&aacute; predetermindo antes que<br \/>\n    a m&atilde;o o transforme em presente lan&ccedil;ando-o no papel. Aqui, por&eacute;m,<br \/>\n    s&atilde;o t&atilde;o simples os elementos que o cerebro humano, por si mesmo,<br \/>\n    ao escrever o 2 + 2, v&ecirc; imediatamente o futuro 4. J&aacute; tudo muda<br \/>\n    num caso mais complexo, onde em vez de 2 + 2 tenhamos, por exemplo, a Bastilha,<br \/>\n    Luis 16, Danton, Hobespierre, Marat, o clima de Fran&ccedil;a, o odio da Inglaterra<br \/>\n    al&eacute;m Mancha, a heran&ccedil;a gaulesa combinada com a heran&ccedil;a<br \/>\n    romana, o bilh&atilde;o de fatores, em suma, que faziam a Fran&ccedil;a de<br \/>\n    89. Embora tudo isso predeterminasse o &quot;quatro&quot; Napole&atilde;o,<br \/>\n    esse futuro n&atilde;o poderia ser previsto por nenhum cerebro em virtude<br \/>\n    da fraqueza do cerebro humano. Pois bem: eu descobri o meio de predeterminar<br \/>\n    esse futuro &#8212; e ve-lo! &#8212; Mas &eacute; assombroso, professor! &Eacute;<br \/>\n    a mais espantosa descoberta de todos os tempos! exclamei de olhos arregalados.<br \/>\n    Entretanto, permita-me uma duvida. Se esse futuro ainda n&atilde;o existe,<br \/>\n    como o pode ver? &#8212; O 4 antes de ser escrito tambem n&atilde;o existe;<br \/>\n    no entanto o amigo o v&ecirc; t&atilde;o claro no presente 2 + 2 que o escreve<br \/>\n    incontinenti.<\/p>\n<p> O argumento calou fundo. Pisquei sete vezes, com a testa fortemente refranzida.<\/p>\n<p> &#8212; O futuro n&atilde;o existe, continuou o sabio, mas eu possuo o meio<br \/>\n    de produzir o momento futuro que desejo.<\/p>\n<p> Tonteando pelo tom categorico daquela afirmativa n&atilde;o ousei duvidar,<br \/>\n    e estava ainda apalermado com a maravilhosa revela&ccedil;&atilde;o quando<br \/>\n    miss Jane apereceu, esplendida de formosura.<\/p>\n<p> Esqueci toda aquela alt&iacute;ssima ciencia que j&aacute; me dava dor de<br \/>\n    cabe&ccedil;a e regalei os olhos na sua imagem perturbadora.<\/p>\n<p> Saudou-me com um gesto amavel e disse, dirigindo-se ao professor: &#8212;<br \/>\n    Tinha raz&atilde;o, meu pai. J&aacute; fiz o corte e l&aacute; s&oacute; vi<br \/>\n    as eternas brancuras da neve.<\/p>\n<p> E voltando-se para mim: &#8212; Tem aprendido muita coisa, senhor Ayrton?<br \/>\n    &#8212; Mais que em toda a minha vida, miss Jane, e come&ccedil;o a bendizer<br \/>\n    o acaso que me fez vitima de um desastre.<\/p>\n<p> &#8212; E est&aacute; t&atilde;o no come&ccedil;o ainda! Quando entrar no<br \/>\n    segredo de tudo e puder ver diretamente uns cortes, o seu assombro vai ser<br \/>\n    ilimitado.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; prevejo isso, senhorita, e&#8230;<\/p>\n<p> E engasguei-me. Miss Jane olhara-me nos olhos e eu n&atilde;o era criatura<br \/>\n    que suportasse de frente um olhar assim. Cheguei a corar, creio, o que inda<br \/>\n    mais aumentou a minha perturba&ccedil;&atilde;o. Felizmente a boa criatura,<br \/>\n    vendo que eu me calava, voltou-se para o professor Benson e disse: &#8212;<br \/>\n    Mas agora, meu pai, treguas &aacute;s revela&ccedil;&otilde;es. O caf&eacute;<br \/>\n    est&aacute; na mesa e com uns bolinhos tentadores que eu mesma fiz. Senhor<br \/>\n    Ayrton, vamos&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"6\">CAPITULO VI &#8211; O Tempo Artificial<\/a><\/h4>\n<p>Quando de novo me encontrei com o professor Benson no laboratorio prosseguiu<br \/>\n    ele na exposi&ccedil;&atilde;o interrompida.<\/p>\n<p> &#8212; Onde estavamos, senhor Ayrton? &#8212; Na pre-determina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sim. Foi nesse ponto que Jane nos interrompeu. Pois bem: se tudo<br \/>\n    inexoravelmente se determina pela influencia reciproca das vibra&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    se &eacute; isto pura mecanica, embora duma meta-mecanica inaccessivel &aacute;s<br \/>\n    for&ccedil;as da inteligencia do homem, &eacute; logico que a predetermina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; poss&iacute;vel em teoria.<\/p>\n<p> &#8212; E na pratica tambem! aventei eu iluminado de subita ideia.<\/p>\n<p> Homens ha que adivinham ocorrencias futuras. Eu mesmo j&aacute; tive ocasi&atilde;o<br \/>\n    de observar comigo um curioso caso de pressentimento l&aacute; nos negocios<br \/>\n    da firma. Veiu-me n&atilde;o sei de onde a ideia de que um fregu&ecirc;s ia<br \/>\n    falir. Disse-o ao senhor S&aacute;, o qual me chamou de tolo. Um m&ecirc;s<br \/>\n    mais tarde esse fregu&ecirc;s abria bancarrota! Nunca me pude explicar isso<br \/>\n    pois nada conhecia dos seus negocios, nem coisa nenhuma ouvira falar a respeito.<\/p>\n<p> &#8212; Esse caso pode ser visto de outra maneira. A ideia de requerer falencia<br \/>\n    podia estar em a&ccedil;&atilde;o no cerebro do fregu&ecirc;s. Ideia &eacute;<br \/>\n    vibra&ccedil;&atilde;o que repercute em ondas como tudo mais, e certos cerebros<br \/>\n    possuem bela faculdade emissiva ou receptora. Emitiu esse fregu&ecirc;s uma<br \/>\n    vibra&ccedil;&atilde;o da ideia e o cerebro do senhor Ayrton agiu como polo<br \/>\n    receptor.<\/p>\n<p> &#8212; Mas a leitura das linhas da m&atilde;o? A quiromante que na Martinica<br \/>\n    predisse a Josefina, ent&atilde;o simples burguesinha crioula, que seria imperatriz<br \/>\n    da Fran&ccedil;a? &#8212; A&iacute; j&aacute; o caso &eacute; diverso, como<br \/>\n    no de todas as profecias comprovadas. Havemos que conceber certas organiza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    possuidoras duma faculdade pre-determinante. E n&atilde;o me custa admitir<br \/>\n    isso, j&aacute; que construi o pre-determinador.<\/p>\n<p> &#8212; Que significa essa nova palavra, professor? &#8212; Vamos ao pavilh&atilde;o<br \/>\n    vizinho; l&aacute; me compreender&aacute; melhor.<\/p>\n<p> Passamos &aacute; sala imediata, recinto envidra&ccedil;ado e em forma de<br \/>\n    funil, cujo bico era uma das tais torres de ferro enxadrezado.<\/p>\n<p> &#8212; Aqui temos o nervo &oacute;tico do futuro. Chamo a este conjunto<br \/>\n    &quot;o grande coletor da onda Z.&quot; Eu andava de novidade em novidade<br \/>\n    e por mais alerta que pusesse o cerebro tinha de fazer paradas constantes,<br \/>\n    pedindo ao professor explica&ccedil;&otilde;es parciais.<\/p>\n<p> &#8212; Onda Z, professor Benson? Ainda n&atilde;o me falou nela.<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute; agora chegou o momento. A multiplicidade infinita das<br \/>\n    formas, isto &eacute;, das vibra&ccedil;&otilde;es do eter, produz turbilh&otilde;es<br \/>\n    ou ondas, que consegui classificar uma por uma e captar por meio deste conjunto<br \/>\n    receptor que as polariza&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; ?I &#8212; Polarizar &eacute; reunir tudo num s&oacute; ponto, num<br \/>\n    polo.<\/p>\n<p> &#8212; Compreendo.<\/p>\n<p> &#8212; Este conjunto receptor polariza os turbilh&otilde;es e os funde<br \/>\n    numa especie de corrente continua, ou, usando de imagem concreta, de um jacto.<br \/>\n    Suponha milh&otilde;es de gotas de chuva a ca&iacute;rem num imenso funil<br \/>\n    e a sairem pelo bico sob a forma continua de um jorro cristalino. Todas as<br \/>\n    gotas est&atilde;o no jacto, mas fundidas e sob outra forma. Assim o meu coletor.<br \/>\n    Apanha o turbilh&atilde;o das ondas e as polariza naquele aparelho.<\/p>\n<p> Olhei para o aparelho que o dedo do professor apontava e apenas vi um emaranhado<br \/>\n    de fios e grandes carreteis de arame, que em cal&atilde;o eu definiria muito<br \/>\n    bem com a palavra estrumela. Mas guardei o vocabulo, visto que a li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Groenlandia ainda estava muito fresca em minha memoria.<\/p>\n<p> &#8212; Consigo assim, prosseguiu o sabio, concentrar em minhas m&atilde;os<br \/>\n    o presente, isto &eacute;, o momento atual da vida do universo, como imensa<br \/>\n    paisagem panoramica que toda se reflete numa chapa fotografica e nela se conserva<br \/>\n    latente at&eacute; que v&aacute; ao banho revelador. Quer isto dizer que na<br \/>\n    corrente continua, invis&iacute;vel como o fluido eletrico, que gira naquele<br \/>\n    caos aparente de fios, solenoides e bobinas, est&aacute; tudo quanto constitue<br \/>\n    o momento universal! Apesar da seguran&ccedil;a do velho sabio e da solidez<br \/>\n    de suas dedu&ccedil;&otilde;es eu permanecia numa vaga duvida. Na minha curteza<br \/>\n    mental eu achava excessivo estar tudo quanto existe reduzido a t&atilde;o<br \/>\n    homeopaticas propor&ccedil;&otilde;es e, ainda mais, impalpavel e invis&iacute;vel.<br \/>\n    O professor Benson adivinhou a minha indecis&atilde;o e esmagou-a como quem<br \/>\n    esmaga uma pulga.<\/p>\n<p> &#8212; Sabe o que &eacute; isto? perguntou mostrando-me uma coisinha de<br \/>\n    minusculas dimens&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Uma semente, respondi.<\/p>\n<p> &#8212; E que &eacute; uma semente? Uma pre-determina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Aqui dentro est&aacute; predeterminada uma arvore de colossais dimens&otilde;es<br \/>\n    que se chama jequitib&aacute;. Se o amigo admite que desta semente, que analisada<br \/>\n    s&oacute; revela a presen&ccedil;a de um bocado de amido, sais, graxa, etc.<br \/>\n    Surja sempre, e de um modo fatal, um majestoso jequitib&aacute;, porque vacila<br \/>\n    em admitir um fenomeno semelhante, qual a polariza&ccedil;&atilde;o do momento<br \/>\n    universal numa semente, que no caso &eacute; o fluido que circula no meu aparelho?<br \/>\n    O simile matou-me de vez todas as veleidades de cepticismo e foi como quem<br \/>\n    ouve a voz de Deus que dali por diante me entreguei sem reservas &aacute;s<br \/>\n    palavras do s&aacute;bio.<\/p>\n<p> &#8212; Prossiga, doutor, murmurei.<\/p>\n<p> O professor Benson prosseguiu.<\/p>\n<p> &#8212; Obtenho, pois, neste aparelho, uma corrente continua, que &eacute;<br \/>\n    o presente. Tudo se acha impresso em tal corrente. Os cardumes de peixes que<br \/>\n    neste momento agonizem no seio do oceano ao serem apanhados pela agua tepida<br \/>\n    da Corrente do Golfo; o juiz bolchevista que neste momento assina a condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um mujik relapso num tribunal de Arkangel; a palavra que, em Zorn, neste<br \/>\n    momento, o kronprinz dirige ao ex-imperador da Alemanha; a flor do pessego<br \/>\n    que no sop&eacute; do Fushiama recebe a visita de uma abelha; o leucocito<br \/>\n    a envolver um microbio malevolo que penetrou no sangue dum fakir da India;<br \/>\n    a gota d&#8217;agua que espirra do Niagara e cai num liquen de certa pedra marginal;<br \/>\n    a matriz de linotipo que em certa tipografia de Calcut&aacute; acaba de cair<br \/>\n    no molde; a formiguinha que no pampa argentino foi esmagada pelo casco do<br \/>\n    potro que passou a galope; o beijo que num estudio de Los Angeles Gloria Swanson<br \/>\n    come&ccedil;a a receber de Valentino&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A fatura que neste momento o senhor S&aacute; est&aacute; acabando<br \/>\n    de somar&#8230; Compreendo, professor. Toda a vida, todas as manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    poliformes da vida, tudo est&aacute; ali, como o jequitib&aacute;, com todos<br \/>\n    os seus galhos e folhas e passarinhos que pousam nele e cigarras que o elegem<br \/>\n    para palco de suas cantorias, est&aacute; dentro da sementinha. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; isso? conclui radiante.<\/p>\n<p> O professor Benson riu-se do meu entusiasmo e pareceu-me na realidade satisfeito<br \/>\n    com o disc&iacute;pulo.<\/p>\n<p> &#8212; Perfeitamente, amigo Ayrton. Tudo est&aacute; ali. Pela primeira<br \/>\n    vez desde que o mundo &eacute; mundo consegue o homem esse espantoso milagre<br \/>\n    &#8212; mas s&oacute; eu sei o que isso me custou de experiencias e tentativas<br \/>\n    falhas!&#8230; Fui feliz. O Acaso, que &eacute; um Deus, ajudou-me e hoje me sinto<br \/>\n    na estranha posi&ccedil;&atilde;o de um homem que &eacute; mais do que todos<br \/>\n    os homens&#8230;<\/p>\n<p> Sua fisionomia irradiava tanta luz &#8212; a luz da inteligencia, &#8212;<br \/>\n    que s&oacute; a poderia suportar um inocente da minha marca. Estou convencido<br \/>\n    de que se outro sabio o defrontasse naquele instante estarreceria de assombro,<br \/>\n    considerado como Isaias diante das sar&ccedil;as ardentes quando delas trovejou<br \/>\n    a voz de Jeov&aacute;. A minha ingenuidade, a minha inocencia mental salvou-me.<br \/>\n    Hoje estreme&ccedil;o quando penso em tudo isso, como estremeceu Tartarin<br \/>\n    de Tarascon ao saber que os abismos que com risonha coragem ele arrostara<br \/>\n    nos Alpes eram de fato abismos e n&atilde;o cenografia como, iludido por Bompard,<br \/>\n    no momento sup&ocirc;s. Hoje que j&aacute; nada mais existe do professor Benson<br \/>\n    a n&atilde;o ser uma lapide no cemiterio, e nada existe sen&atilde;o cinzas<br \/>\n    do seu maravilhoso laboratorio, se me ponho a analisar esse per&iacute;odo<br \/>\n    da minha vida tenho sensa&ccedil;&atilde;o de que convivi com um Deus humanizado.<\/p>\n<p> O professor Benson falava das suas inven&ccedil;&otilde;es com tanta simplicidade<br \/>\n    e me tratava t&atilde;o familiarmente que jamais me senti tolhido em sua presen&ccedil;a<br \/>\n    &#8212; como me sentia, por exemplo, na do Senhor Pato, o socio comendador<br \/>\n    l&aacute; da firma. Sempre que me cruzava com o comendador eu tremia, tanto<br \/>\n    se impunha aos subalternos aquela formidavel massa de banhas, vestida de fraque,<br \/>\n    com anel de grande pedra no dedo e uma corrente de relogio toda berloques<br \/>\n    que nos esmagava a humildade sob a arrogancia e o peso do ouro maci&ccedil;o.<br \/>\n    Diante do comendador Pato eu tremia e balbuciava; mas diante do professor<br \/>\n    Benson, um deus, sempre me senti como em face de um igual.<\/p>\n<p> Compreendo hoje o fenomeno e sei que a verdadeira superioridade num homem<br \/>\n    n&atilde;o o extrema dos &quot;inocentes&quot;, como dizia o professor &#8212;<br \/>\n    e por isso chamava Jesus a si os pequeninos. At&eacute; na indumentaria aqueles<br \/>\n    dois homens eram ant&iacute;podas. Na do comendador, o fraque propunha-se<br \/>\n    a impressionar imagina&ccedil;&otilde;es, a estabelecer categorias, a amedrontar<br \/>\n    os palet&oacute;s sacos com a imponencia da sua cauda bipartida; na do professor<br \/>\n    Benson tinha a rouca por unica fun&ccedil;&atilde;o vestir um corpo a modo<br \/>\n    de resguarda-lo das bruscas varia&ccedil;&otilde;es atmosfericas.<\/p>\n<p> Mas voltemos atr&aacute;s. Ao ouvir dizer ao professor Benson que todo o<br \/>\n    momento universal estava ali, olhei para a maranha de fios e bobinas com um<br \/>\n    sentimento misto de orgulho e piedade. Orgulho de ver o Tudo escravizado diante<br \/>\n    de mim. Piedade, porque havia nisso uma certa humilha&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    o Tudo&#8230;<\/p>\n<p> A voz pausada do velho sabio tirou-me de tais cogita&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; aqui permanecemos no presente. A onda Z ali captada s&oacute;<br \/>\n    diz respeito ao presente, e se eu ficasse nessa etapa de pouco valeria a minha<br \/>\n    descoberta. Mas fui al&eacute;m. Descobri o meio de envelhecer essa corrente<br \/>\n    &aacute; minha vontade.<\/p>\n<p> &#8212; Envelhecer?&#8230; murmurei refranzindo a um tempo todos os musculos<br \/>\n    da cara.<\/p>\n<p> &#8212; Sim. Fa&ccedil;o-a passar pelo aparelho que tenho no pavilh&atilde;o<br \/>\n    imediato e ao qual denominei cronizador. Vamos para l&aacute;.<\/p>\n<p> O professor tomou a dianteira e eu o segui, ainda repuxado de musculos faciais.<br \/>\n    O pavilh&atilde;o imediato possuia ao centro um novo aparelho t&atilde;o incompreens&iacute;vel<br \/>\n    para a minha inteligencia como os anteriores.<\/p>\n<p> &#8212; Aqui temos o cronizador, disse o meu cicerone apontando para o esquisito<br \/>\n    conjunto. Este mostrador, que lembra o dos relogios, me permite marcar no<br \/>\n    futuro a epoca que desejo estudar.<\/p>\n<p> &#8212; ? ! &#8212; Perca o habito de assustar-se, porque sen&atilde;o acabar&aacute;<br \/>\n    card&iacute;aco. A corrente penetra por este fio, sofre um turbilhonamento<br \/>\n    e envelhece na medida que eu determino com o movimento deste ponteiro. &Eacute;<br \/>\n    como se eu tomasse a semente e por um golpe de magica dela fizesse brotar<br \/>\n    a arvore aos dez anos de idade, ou aos cinquenta, ou aos cem &#8212; ao arb&iacute;trio<br \/>\n    do experimentador. Compreende? &#8212; Compreendo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E destarte a evolu&ccedil;&atilde;o, que com o decorrer do tempo<br \/>\n    necessariamente vai ter a vida atual do universo, eu a apresso e a detenho<br \/>\n    no momento escolhido. Este meu cronizador, em suma, &eacute; um aparelho de<br \/>\n    produzir o tempo artificial com muito mais rapidez do que pelo sistema antigo,<br \/>\n    que &eacute; esperar que o tempo transcorra.<\/p>\n<p> Obtenho um ano num minuto de turbilhonamento; penetro no futuro, no ano<br \/>\n    2.000, por exemplo, em 74 minutos. Opera-se durante a croniza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma zoada, que &eacute; o som dos anos a se sucederem, som muito semelhante<br \/>\n    a um eco distante&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sei. O que ouvi na hora do almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Exatamente. Quis Jane visualizar o futuro no ano 2.336, ou seja<br \/>\n    a 410 anos deste em que estamos. Para isso colocou aqui o ponteiro e abriu<br \/>\n    o comutador. A corrente envelheceu e automaticamente parou no ponto marcado,<br \/>\n    isto &eacute;, no ano 2.336.<\/p>\n<p> A minha curiosidade crescia. Percebi que chegara ao ponto culminante da<br \/>\n    descoberta do professor Benson.<\/p>\n<p> &#8212; E depois? indaguei ansioso. Para ver, ou como diz o professor, para<br \/>\n    visualizar esse futuro, como procede? &#8212; Devagar!&#8230; Consigo, como ia<br \/>\n    dizendo, envelhecer a corrente at&eacute; o ponto desejado. Ao obter isso,<br \/>\n    a evolu&ccedil;&atilde;o determinista que rigorosamente vai dar-se no universo<br \/>\n    com o decorrer normal do tempo d&aacute;-se artificialmente dentro do aparelho.<br \/>\n    E, chegada ao termo da croniza&ccedil;&atilde;o que visamos, a corrente turbilhonada<br \/>\n    torna-se estatica, por assim dizer congelada. E fico eu na posse dum momento<br \/>\n    da vida universal futura &#8212; isto &eacute;, com o 4 da nossa primitiva<br \/>\n    imagem do 2 + 2. Resta-nos agora a ultima parte da opera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a qual, por comodidade, executo no meu gabinete. N&atilde;o notou l&aacute;<br \/>\n    uma especie de globo cristalino? &#8212; Foi a primeira coisa que me impressionou<br \/>\n    neste castelo.<\/p>\n<p> &#8212; Pois &eacute; o porviroscopio, o aparelho que toma o corte anatomico<br \/>\n    do futuro, como pitorescamente diz Jane, e o desdobra na multiplicidade infinita<br \/>\n    das formas de vida futura que est&atilde;o em latencia dentro da corrente<br \/>\n    congelada.<\/p>\n<p> &#8212; Por que, corte anatomico? indaguei, para n&atilde;o deixar ponto<br \/>\n    obscuro atr&aacute;s de mim.<\/p>\n<p> &#8212; Nunca esteve num laboratorio de miscroscopia? Com uma navalha afiadissima<br \/>\n    o anatomista opera um c&oacute;rte na ponta do seu dedo, por exemplo. Tira<br \/>\n    uma lamina de carne, a mais fina que possa, e estuda-a ao microscopio. A essa<br \/>\n    fatia do seu dedo chamar&aacute; ele &quot;corte anatomico&quot;. &Eacute;<br \/>\n    Jane uma menina muito viva e gosta de falar por imagens, algumas extraordinariamente<br \/>\n    pitorescas&#8230;<\/p>\n<p> A evoca&ccedil;&atilde;o de miss Jane veio perturbar a contens&atilde;o<br \/>\n    do espirito com que eu acompanhava as revela&ccedil;&otilde;es do mestre.<br \/>\n    Meu espirito cansado repousou nesse gracioso oasis, e foi com infinita inocencia<br \/>\n    que indaguei: &#8212; Que idade tem ela, professor? Mas o velho sabio talvez<br \/>\n    nem me ouvisse, porque entrou a dar explica&ccedil;&otilde;es sobre a segunda<br \/>\n    fun&ccedil;&atilde;o que possu&iacute;a o cronizador: involuir a corrente,<br \/>\n    rodar para tr&aacute;s &#8212; o que permitia cortes anatomicos no passado.<\/p>\n<p> &#8212; Mas isso n&atilde;o interessa, aventei levianamente. O passado &eacute;<br \/>\n    velho conhecido nosso.<\/p>\n<p> &#8212; Engano. &Eacute; t&atilde;o desconhecido como o futuro e o presente.<\/p>\n<p> Desta vez abri a boca, e l&aacute; por dentro me soou como tolice a frase<br \/>\n    do sabio. Mas vi logo que o tolo era eu.<\/p>\n<p> &#8212; Do presente que &eacute; que sabe o amigo Ayrton? Sabe apenas que<br \/>\n    est&aacute; neste minuto conversando comigo. Mais nada. N&atilde;o sabe nem<br \/>\n    sequer se os senhores S&aacute;, Pato &amp; Cia. est&atilde;o a esta hora<br \/>\n    de falencia aberta.<\/p>\n<p> &#8212; Impossivel! Aquela gente &eacute; solida como as montanhas!&#8230; S&oacute;<br \/>\n    vendem &aacute; vista&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Quantas plan&iacute;cies n&atilde;o marcam hoje o lugar outrora<br \/>\n    ocupado por montanhas!&#8230; Do presente o amigo Ayrton s&oacute; sabe, isto<br \/>\n    &eacute;, s&oacute; tem consciencia do que no momento lhe afeta os sentidos.<\/p>\n<p> &#8212; Na verdade! exclamei. Nem o meu Ford, que era tudo para mim, sei<br \/>\n    onde p&aacute;ra&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E se ignoramos o presente, que dizer do passado? &#8212; Mas a Historia?<br \/>\n    O professor Benson sorriu meigamente um sorriso de Jesus.<\/p>\n<p> &#8212; A Historia &eacute; o mais belo romance anedotico que o homem vem<br \/>\n    compondo desde que aprendeu a escrever. Mas que tem com o passado a Historia?<br \/>\n    Toma dele fatos e personagens e os vai estilizando ao sabor da imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    art&iacute;stica dos historiadores. S&oacute; isso.<\/p>\n<p> &#8212; E os documentos da epoca? insisti.<\/p>\n<p> &#8212; Estiliza&ccedil;&atilde;o parcial feita pelos interessados, apenas.<br \/>\n    Do presente, meu caro, e do passado, s&oacute; podemos ter vagas sensa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Ha uma obra de Stendhal, La Chartreuse de Parme, cujo primeiro capitulo<br \/>\n    &eacute; deveras interessante. Trata da batalha de Waterloo, vista por um<br \/>\n    soldado que nela tomou parte. O pobre homem andou pelos campos aos trambolh&otilde;es,<br \/>\n    sem ver o que fazia nem compreender coisa nenhuma, arrastado &aacute;s c&eacute;gas<br \/>\n    pelo instinto de conserva&ccedil;&atilde;o. S&oacute; mais tarde veio a saber<br \/>\n    que tomara parte na batalha que recebeu o nome de Waterloo e que os historiografos<br \/>\n    pintam de maneira t&atilde;o sugestiva. Os pobres seres que inconscientemente<br \/>\n    nela funcionaram como atores, confinados a um campo visual muito restrito,<br \/>\n    nada viram, nem nada podiam prever da tela heroica que os cenografos de historia<br \/>\n    iriam compor sobre o tema. Eis o presente&#8230; Vamos agora ao gabinete, concluiu<br \/>\n    o professor. O mais interessante se passa l&aacute;.<\/p>\n<p> Acompanhei-o, literalmente apatetado. Aquele homem pensava de modo t&atilde;o<br \/>\n    diferente de todo mundo que suas ideias me davam a impress&atilde;o de algo<br \/>\n    novo e operavam em meu cerebro como luz que invade aos poucos uma sala de<br \/>\n    museu. Mil coisas que nunca supus existirem em minha cabe&ccedil;a revelaram-se-me<br \/>\n    de pronto. Coisas m&iacute;nimas, germes de ideias, antigas impress&otilde;es<br \/>\n    recolhidas nos vaiv&eacute;ns do viver quotidiano ressurgiam animadas de estranha<br \/>\n    significa&ccedil;&atilde;o. Outras, que eram capitais outrora, diluiam-se.<br \/>\n    O comendador Pato, at&eacute; vinte dias antes tido por mim como o mais formidavel<br \/>\n    expoente do genio humano, decaia a irrisorias propor&ccedil;&otilde;es. Oh,<br \/>\n    como desejei ve-lo ali em contato com o professor, para gozar a derrocada<br \/>\n    das rid&iacute;culas ideias de fraque que ele tinha na cabe&ccedil;a!<\/p>\n<h4><a name=\"7\">CAP&Iacute;TULO VII &#8211; Futuro e Presente<\/a><\/h4>\n<p>Ao entrar no gabinete iluminei-me todo por dentro. Estava miss Jane adiante<br \/>\n    do globo de cristal, absorvida com certeza na visualiza&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    um corte anatomico. Um raio de sol coado pela vidra&ccedil;a transfazia em<br \/>\n    luz o louro de seus cabelos. Miss Jane era toda aten&ccedil;&atilde;o. Seus<br \/>\n    olhos azues verdadeiramente bebiam algum maravilhoso quadro. O professor Benson<br \/>\n    estacou &aacute; porta, fazendo-me gesto de silencio, e assim permaneceu at&eacute;<br \/>\n    que a mo&ccedil;a desse volta a um comutador e regressasse ao presente.<\/p>\n<p> &#8212; Papai, exclamou ela, estou no fim da tragedia, no crepusculo da<br \/>\n    ra&ccedil;a. Dudlee ganhou uma estatua&#8230; Boa tarde, senhor Ayrton.<\/p>\n<p> Desculpe-me o estar dizendo a meu pai coisas que nem por sombras o senhor<br \/>\n    pode desconfiar o que sejam. Compreendo que &eacute; indelicado falar em lingua<br \/>\n    estranha na presen&ccedil;a de pessoas que a desconhecem&#8230;<\/p>\n<p> A bondade de miss Jane encantou-me; e, como a jovem n&atilde;o me olhasse<br \/>\n    nos olhos, pude replicar: &#8212; Mas tudo nesta casa me &eacute; linguagem<br \/>\n    estranha! O que acabo de ver assombra-me de tal maneira que t&atilde;o cedo<br \/>\n    n&atilde;o me reconhecerei a mim mesmo.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; fazendo progressos, Jane, disse o professor. O amigo<br \/>\n    Ayrton compreendeu muito bem a parte teorica da minha exposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ou compreendi, exclamei, ou pareceu-me compreender. Aqui o professor<br \/>\n    fala com tal simplicidade e clareza que nem parece um sabio. Conheci um l&aacute;<br \/>\n    na cidade, e grande, a avaliar pela fama, com quem tive de tratar a mandado<br \/>\n    da firma. Pois confesso que n&atilde;o pesquei coisa nenhuma do que o homem<br \/>\n    disse. Esse, sim, parecia falar uma linguagem de mim nem sequer suspeitada&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o era um verdadeiro sabio, interveio miss Jane. Os verdadeiros<br \/>\n    s&atilde;o como meu pai, claros e fecundos como a luz do sol.<\/p>\n<p> Mas quer saber o senhor Ayrton o que eu fazia ha pouco? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    lhe contes ainda, Jane. Explica-lhe primeiro a fun&ccedil;&atilde;o do porviroscopio,<br \/>\n    enquanto vou repousar um bocado. Sou velho e qualquer esfor&ccedil;o al&eacute;m<br \/>\n    do habitual me cansa.<\/p>\n<p> Antes que o professor Benson se retirasse, deu miss Jane um salto na cadeira,<br \/>\n    leve como a cor&ccedil;a, e veiu beija-lo no rosto.<\/p>\n<p> &#8212; Este querido paizinho! murmurou, acompanhando-o com os olhos amorosamente.<\/p>\n<p> Depois voltando-se para mim: &#8212; N&atilde;o &eacute; uma ben&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das fadas ter um pai destes? Como sabe conciliar a maxima inteligencia com<br \/>\n    a maxima bondade! &#8212; E com a maxima simplicidade! acrescentei. N&atilde;o<br \/>\n    caibo em mim de gosto ao ver o homem que podia ser dono do mundo, se quisesse,<br \/>\n    tratar-me como se eu f&ocirc;ra alguem.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se espante disso. Meu pai &eacute; coerente com as suas<br \/>\n    ideias.<\/p>\n<p> Todos para ele somos meras vibra&ccedil;&otilde;es do eter.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; miss Jane? &#8212; Eu serei vibra&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    um eter especial, muito afim do que vibra nele, explicou ela a sorrir. Mas,<br \/>\n    sentemo-nos, senhor Ayrton, que ha muito que conversar.<\/p>\n<p> J&aacute; disse que eu era um rapaz acanhado, sobretudo em presen&ccedil;a<br \/>\n    de mo&ccedil;as bonitas; mas o ambiente de familiaridade e franqueza daquela<br \/>\n    casa modificou-me logo. Cheguei at&eacute; a suportar nos olhos os olhares<br \/>\n    da linda jovem, sem perder a tramontana como da primeira vez. &Eacute; que<br \/>\n    nem remotamente lembrava aquele olhar o olhar malicioso das mulheres que eu<br \/>\n    conhecera. Fui percebendo aos poucos que de feminino s&oacute; havia em miss<br \/>\n    Jane o aspecto. Seu espirito formado na ciencia e seu conv&iacute;vio com<br \/>\n    um homem superior, dela afastavam todas as preocupa&ccedil;&otilde;es de coquetismo,<br \/>\n    proprias da mulher comum.<\/p>\n<p> Isso me p&ocirc;s &aacute; vontade. Sentia-me, n&atilde;o um mo&ccedil;o<br \/>\n    em frente de uma donzela, mas um espirito diante do outro.<\/p>\n<p> Aproveitei o ensejo para esclarecer-me a respeito do professor Benson. Soube<br \/>\n    que era descendente de um mineralogista norteamericano que um seculo antes<br \/>\n    viera ao Brasil estudar a composi&ccedil;&atilde;o de certa zona aur&iacute;fera.<br \/>\n    Gostou da terra e nela se fixou, casando-se com a filha de um fazendeiro de<br \/>\n    S. Paulo.<\/p>\n<p> &#8212; Desse consorcio, explicou miss Jane, s&oacute; veio ao mundo meu<br \/>\n    pai, que cedo foi enviado &aacute; Europa, onde se dedicou a estudos cientificos.<br \/>\n    L&aacute; se casou tarde e l&aacute; residiu por certo tempo. Veio depois<br \/>\n    tomar posse dos bens deixados pelo meu av&ocirc; &#8212; e aqui nasci eu.<br \/>\n    Mas n&atilde;o me lembro de minha m&atilde;e. Morreu muito mo&ccedil;a, anos<br \/>\n    9 anos&#8230; Desde essa epoca estabeleceu-se meu pai neste recanto e consagrou-se<br \/>\n    integralmente &aacute; sua inven&ccedil;&atilde;o. Passou o nosso mundo a<br \/>\n    resumir-se neste laboratorio. Raras vezes vamos &aacute; cidade, pouco interesse,<br \/>\n    ali&aacute;s, achando n&oacute;s dois em seu tumulto.<\/p>\n<p> &#8212; Pudera! Quem tem o passado e o futuro nas m&atilde;os&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Realmente &eacute; isso. Este aparelho fornece-nos tamanhas maravilhas,<br \/>\n    que a bem dizer vivemos muito mais no porvir do que no presente. Meu gosto<br \/>\n    &eacute; realizar estudos dos anos mais remotos, e s&oacute; lamento n&atilde;o<br \/>\n    ter um cerebro imenso qual o oceano para reter tudo o que vejo. Outra coisa<br \/>\n    que lamento &eacute; n&atilde;o podermos dar a publico a nossa inven&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A bondade de meu pai o impede.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o alcan&ccedil;o muito bem o porqu&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pretende ele, e com muita logica, que a humanidade n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    apta a suportar a revela&ccedil;&atilde;o do futuro. Acha que a sua inven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cairia no poder de um grupo o qual abusaria da tremenda soma de superioridade<br \/>\n    que a descoberta lhe concederia. Fosse meu pai um homem vulgar, de pouca sensibilidade<br \/>\n    de cora&ccedil;&atilde;o, e ele mesmo assumiria o predom&iacute;nio que receia<br \/>\n    ver na posse de outrem. Basta dizer que at&eacute; hoje apenas se utilizou<br \/>\n    deste invento para reunir o dinheiro necessario &aacute; nossa vida e aos<br \/>\n    enormes dispendios dos seus estudos.<\/p>\n<p> &#8212; Agora me lembro, miss Jane, que l&aacute; fora &eacute; o professor<br \/>\n    Benson conhecido como um jogador de cambio que jamais perde.<\/p>\n<p> &#8212; E assim &eacute;. Fizemos experiencia com o marco e o franco e os<br \/>\n    fatos corresponderam com exatid&atilde;o &aacute;s indica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    deste aparelho. Mas meu pai limitou-se a ganhar o necessario para o trem de<br \/>\n    vida que leva. Estamos na posse de elementos para alcan&ccedil;ar o que quisermos,<br \/>\n    para reunirmos nas m&atilde;os a maior soma de ouro com que se possa sonhar.<br \/>\n    Isso, por&eacute;m, nos seria de todo inutil. Para que necessitamos da mesquinha<br \/>\n    riqueza do mundo se nada n&atilde;o nos d&aacute; ela que se aproxime do que<br \/>\n    temos aqui? &#8212; Por mais espantosa, miss Jane, que seja a descoberta do<br \/>\n    professor Benson, espanta-me ainda mais o carater das duas pessoas que est&atilde;o<br \/>\n    no seu segredo. Podem ser tudo e n&atilde;o querem ser nada&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ser tudo!&#8230; Que significa ser tudo? Quando penso nas grandezas<br \/>\n    do mundo, rio-me delas&#8230;<\/p>\n<p> Miss Jane conversou comigo por mais de um hora sobre os mais variados assuntos.<br \/>\n    E explicou-me depois o funcionamento do aparelho, recorrendo &aacute;s suas<br \/>\n    imagens habituais, t&atilde;o pitorescas. A corrente perdia no globo de cristal<br \/>\n    a sua forma concentrada e visualizava-se como numa proje&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cinema, reproduzindo momentos de vida futura cora a exatid&atilde;o que<br \/>\n    vai ter um dia.<\/p>\n<p> &#8212; Ficamos na posi&ccedil;&atilde;o de um espectador imovel num ponto.<\/p>\n<p> S&oacute; vemos e ouvimos o que passa ao alcance dos nossos olhos ou soa<br \/>\n    ao alcance dos nossos ouvidos. Isso &aacute;s vezes dificulta a compreens&atilde;o<br \/>\n    de certos momentos da vida futura. Aparecem-nos coisas que n&atilde;o podemos<br \/>\n    compreender por falta dos elos anteriores da evolu&ccedil;&atilde;o. No ano<br \/>\n    3.527, por exemplo, vi na popula&ccedil;&atilde;o da Fran&ccedil;a evidentes<br \/>\n    sinais de mongolismo. Os trajes n&atilde;o lembravam nada do que usam hoje<br \/>\n    as criaturas em parte nenhuma da terra, nem sequer pude perceber de que seriam<br \/>\n    feitos. Esqueci-me de dizer que o nosso aparelho n&atilde;o vai al&eacute;m<br \/>\n    do ano 3.527. Sua potencia p&aacute;ra a&iacute;. Focalizado para o ano de<br \/>\n    3.528 j&aacute; d&aacute; uma vis&atilde;o de tal modo ba&ccedil;a que n&atilde;o<br \/>\n    distinguimos nada.<\/p>\n<p> Ficamos, eu e meu pai, perplexos ante aquele mongolismo da Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p> S&oacute; depois, fazendo cortes menos recuados e combinando uns com os<br \/>\n    outros, conseguimos decifrar o misterio. Tinham-se derramado pela Europa os<br \/>\n    mongois e se substitu&iacute;do &aacute; ra&ccedil;a branca.<\/p>\n<p> N&atilde;o pude conter um gesto de espanto, e fiz tal cara que miss Jane<br \/>\n    sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; Que horror! Vai ent&atilde;o acontecer essa catastrofe? exclamei.<\/p>\n<p> A jovem sabia respondeu com serena impassibilidade: &#8212; Por que, catastrofe?<br \/>\n    Tudo que &eacute; tem raz&atilde;o de ser, tinha for&ccedil;osamente de ser;<br \/>\n    e tudo que ser&aacute; ter&aacute; raz&atilde;o de ser e ter&aacute; for&ccedil;osamente<br \/>\n    de ser. O amarelo vencer&aacute; o branco europeu por dois motivos muito simples:<br \/>\n    come menos e prolifera mais. S&oacute; se salvar&aacute; da absor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o branco da America. E como esta, quantas revela&ccedil;&otilde;es curiosas!<br \/>\n    Outra, que muito me impressionou, foi a transforma&ccedil;&atilde;o das ruas<br \/>\n    que se nota no ano 2.200 em diante. Cessa a era dos ve&iacute;culos.<\/p>\n<p> Nada de bondes, automoveis ou avi&otilde;es no c&eacute;u.<\/p>\n<p> &#8212; Como pode ser isso, miss Jane? &Eacute; quasi um absurdo.<\/p>\n<p> &#8212; Pois para l&aacute; caminhamos. Em cortes sucessivos que fiz de<br \/>\n    dez em dez anos observei a diminui&ccedil;&atilde;o rapida dos ve&iacute;culos<br \/>\n    atuais. A roda, que foi a maior inven&ccedil;&atilde;o mecanica do homem e<br \/>\n    hoje domina soberana, ter&aacute; seu fim. Voltar&aacute; o homem a andar<br \/>\n    a p&eacute;. O que se dar&aacute; &eacute; o seguinte: o radio-transporte<br \/>\n    tornar&aacute; inutil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado<br \/>\n    para o escritorio e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barulhentas<br \/>\n    rodas de a&ccedil;o, far&aacute; ele o seu servi&ccedil;o em casa e o radiar&aacute;<br \/>\n    para o escritorio. Em suma: trabalhar-se-&aacute; &aacute; distancia. E acho<br \/>\n    muito logica esta evolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o s&atilde;o hoje os recados transmitidos instantaneamente pelo<br \/>\n    telefone? Estenda esse principio a tudo e ver&aacute; que imensas possibilidades<br \/>\n    para vir traze-lo. O progresso foi grande, mas repare quando &aacute; radiocomunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se acrescentar o radio-transporte. Outrora, por exemplo, se o senhor Ayrton<br \/>\n    quisesse fumar um charuto tinha de mandar um criado busca-lo &aacute; charutaria;<br \/>\n    hoje pede-o pelo telefone, mas o charuteiro ainda &eacute; obrigado a mobilizar<br \/>\n    um carregador para vir trazelo.<\/p>\n<p> O progresso foi grande, mas repare que atraso ainda! Mobilizar um homem,<br \/>\n    isto &eacute;, uma massa de 60 ou 70 quilos de carne, faze-lo dar mil ou cinco<br \/>\n    mil passos, gastando vinte ou trinta minutos da sua vida. s&oacute; para transportar<br \/>\n    um simples charuto! Chega a ser grotesco&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Realmente. Mas no futuro? &#8212; No futuro o senhor Ayrton fumar&aacute;<br \/>\n    &aacute; distancia. Veja quanta economia de tempo e esfor&ccedil;o humano!<br \/>\n    Julguei que miss Jane estivesse a ca&ccedil;oar comigo e at&eacute; hoje permane&ccedil;o<br \/>\n    na duvida. Em seu rosto, por&eacute;m, n&atilde;o vi a menor sombra de motejo.<\/p>\n<p> &#8212; Pode ser, mas&#8230; duvidei.<\/p>\n<p> &#8212; Esse mesmo &quot;pode ser, mas&#8230;&quot; diria um romano do tempo<br \/>\n    de Cesar se alguem lhe predissesse que um romano do tempo do oleo de ricino<br \/>\n    n&atilde;o precisaria sair de sua casa para conversar com um cidad&atilde;o<br \/>\n    de Paris. Sabe o senhor Ayrton, no entanto, que isso &eacute; comezinho hoje<br \/>\n    e nem sequer admira a ninguem.<\/p>\n<p> &#8212; Falar &eacute; uma coisa e fumar &eacute; outra.<\/p>\n<p> &#8212; Hoje, que s&oacute; temos a radio-comunica&ccedil;&atilde;o. Mas<br \/>\n    chegar&aacute; o dia da radio-sensa&ccedil;&atilde;o e do radio-transporte,<br \/>\n    com radical mudan&ccedil;a do nosso sistema de vida. Os ve&iacute;culos ao<br \/>\n    sistema corrente desaparecer&atilde;o um por um. Voltar&aacute; o homem a<br \/>\n    caminhar a p&eacute;, por prazer, e as ruas se tornar&atilde;o uma delicia.<br \/>\n    O senhor Ayrton sabe o que quer dizer uma rua hoje&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ninguem melhor do que eu, miss Jane, pois desde menino vivo nelas.<br \/>\n    Que angustia, que permanente inquieta&ccedil;&atilde;o! Temos que andar com<br \/>\n    cinquenta olhos arregalados, para prevenirmos trancos e atropelamentos.<\/p>\n<p> &#8212; Tudo isso desaparecer&aacute;, e adquirir&atilde;o as cidades uma<br \/>\n    calma deliciosa, como hoje a de certas aldeias. Vi New York nesse periodo.<\/p>\n<p> Que diferen&ccedil;a do atropelado e doido formigueiro de agora! &#8212;<br \/>\n    Deve miss Jane ter observado coisas maravilhosas!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Menos maravilhosas do que desnorteantes para as nossas ideias atuais.<br \/>\n    As inven&ccedil;&otilde;es v&atilde;o sobrevivendo no decurso do tempo, umas<br \/>\n    saidas das outras, e as coisas tomam &aacute;s vezes rumo muito diverso do<br \/>\n    que a logica, com ponto de partida no estado atual, nos faria prever, O professor<br \/>\n    Benson reapareceu nesse momento e a conversa tomou outro rumo. Eu me achava<br \/>\n    na situa&ccedil;&atilde;o de um homem que ingerisse um estupefaciente desconhecido.<br \/>\n    Estava com a minha capacidade de assimila&ccedil;&atilde;o de ideias esgotada<br \/>\n    e j&aacute; com uma ponta de dor de cabe&ccedil;a a dar sinal de que o cerebro<br \/>\n    exigia repouso. Sem que eu o dissesse, o velho sabio, mais sua filha, compreenderam-no<br \/>\n    perfeitamente e dali at&eacute; o jantar s&oacute; me falaram de coisas repousantes.<\/p>\n<p> &Aacute; noite custei a conciliar o sono, o que era natural. Mas sinceramente<br \/>\n    o digo: o que mais me dansava na cabe&ccedil;a n&atilde;o era o desvendamento<br \/>\n    do futuro nem as suas abracadabrantes maravilhas, e sim a imagem de miss Jane.<br \/>\n    A estranha criatura loura, de olhos t&atilde;o azues, impressionara por igual<br \/>\n    meu cerebro e meu cora&ccedil;&atilde;o. Comecei a ver nela o verdadeiro tudo;<br \/>\n    e se me dessem a opinar entre a posse da descoberta do professor Benson e<br \/>\n    o te-la ao meu lado para o resto da vida, n&atilde;o vacilaria um instante<br \/>\n    na escolha.<\/p>\n<p> Dormi por fim e, em vez de sonhar com o mundo futuro entrevisto na palestra<br \/>\n    da mo&ccedil;a, sonhei no encanto do presente, todo resumido em conjugal convivencia<br \/>\n    com o meigo anjo sabio. <\/p>\n<h4><a name=\"8\">CAPITULO VIII &#8211; A Luz que se Apaga<\/a><\/h4>\n<p>No dia seguinte, logo pela manh&atilde;, soou-me aos ouvidos uma novidade<br \/>\n    desagrad&aacute;vel. N&atilde;o passara bem a noite o professor Benson.<\/p>\n<p> &#8212; Estou velho, meu caro senhor Ayrton, disse-me ele ao encontrar-se<br \/>\n    comigo. J&aacute; sinto c&aacute; dentro a maquina funcionar com esfor&ccedil;o.<br \/>\n    Jane ignora o meu estado, mas a pobre menina n&atilde;o me ter&aacute; por<br \/>\n    muito tempo na terra. Ficar&aacute; s&oacute;. Dei-lhe, entretanto, tal educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e possue ela tais qualidades de carater, que morrerei feliz.<\/p>\n<p> Saber&aacute; agir no mundo como se contasse sempre comigo.<\/p>\n<p> Veio-me aos labios um &iacute;mpeto de confidencia. Quis apresentar-me ao<br \/>\n    professor como o bra&ccedil;o forte que se oferecia a miss Jane quando o de<br \/>\n    seu pai viesse a faltar. Contive-me a tempo. Lembrei-me da minha insignificancia<br \/>\n    e do pouqu&iacute;ssimo que eu ainda era naquele lar. Limiteime, pois, a confirmar<br \/>\n    as ideias do velho em rela&ccedil;&atilde;o &aacute; filha, dizendo: &#8212;<br \/>\n    Pelo que com ela conversei ontem tive a mesma impress&atilde;o. &Eacute; miss<br \/>\n    Jane uma criatura superior, uma madame Curie capaz de prosseguir nos trabalhos<br \/>\n    de seu pai, se o quiser.<\/p>\n<p> &#8212; Jane o quereria talvez, mas n&atilde;o posso consentir nisso.<\/p>\n<p> Bastam-lhe, para lhe encher a vida, as vis&otilde;es que j&aacute; teve<br \/>\n    e a superioridade que adquiriu conhecendo o futuro proximo. Isso lhe permitir&aacute;<br \/>\n    por-se a salvo das contingencias da necessidade. Possue Jane um caderninho<br \/>\n    onde anotou a cota&ccedil;&atilde;o dos principais valores de bolsa nestes<br \/>\n    proximos cinquenta anos. Est&aacute; assim habilitada a ser detentora do dinheiro<br \/>\n    que quiser. O dinheiro ainda &eacute; tudo para os homens. O estranho dote<br \/>\n    que deixo &aacute; minha filha se resume nesse caderninho de notas&#8230; Mas<br \/>\n    conhe&ccedil;o Jane. Extremamente imune &aacute;s ambi&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    atormentam o comum das mulheres, levar&aacute; um viver apagado, sem exterioridade,<br \/>\n    toda entregue &aacute; vida cerebral, que a tem intensissima.<\/p>\n<p> O professor fez uma pausa, como se o esfor&ccedil;o daquelas confidencias<br \/>\n    o tivesse cansado. Depois, disse: &#8212; Realizei o que jamais sonhara nos<br \/>\n    delirantes sonhos da minha mocidade &#8212; e me vejo for&ccedil;ado a levar<br \/>\n    para o tumulo o grande segredo&#8230; Jane n&atilde;o o revelar&aacute; a ninguem<br \/>\n    e ainda que o fa&ccedil;a n&atilde;o estar&aacute; na posse da solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tecnica. O senhor Ayrton, unica testemunha presencial de tudo, tambem o n&atilde;o<br \/>\n    revelar&aacute; a ninguem.<\/p>\n<p> &#8212; Proibe-mo, professor? &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o proibo, j&aacute;<br \/>\n    disse. Mas se algum dia tiver a ingenuidade de o revelar a alguem, passar&aacute;<br \/>\n    por louco, e se insistir, por louco varrido, dos que os homens metem nos hosp&iacute;cios.<br \/>\n    O instinto de conserva&ccedil;&atilde;o e de sociabilidade &eacute; que o<br \/>\n    vai impedir de revelar o que est&aacute; vendo aqui.<\/p>\n<p> Miss Jane entrou nesse momento e notei que o velho sabio se contrafazia<br \/>\n    diante da mo&ccedil;a para n&atilde;o denunciar o seu estado de saude. Apesar<br \/>\n    disso ela observou.<\/p>\n<p> &#8212; Um pouco palido, meu pai&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim, mas estou perfeitamente bem. Temos aqui o senhor Ayrton e compete<br \/>\n    a ti, minha filha, organizar o programa do dia. Pouco posso acompanha-los.<br \/>\n    Uma delicada experiencia vai absorver-me por algumas horas.<\/p>\n<p> Miss Jane olhou-me com os seus lindos olhos claros e disse: &#8212; Escolha,<br \/>\n    senhor Ayrton. Ontem foi a teoria, hoje come&ccedil;a a ser a pratica. Vai<br \/>\n    estudar uns c&oacute;rtes. Escolha um momento da vida futura que o interessa.<\/p>\n<p> Miss Jane estava linda como uma rosa desabrochada naquela manh&atilde; na<br \/>\n    roseira proxima do meu quarto. Meus olhos envolveramna num veu de enlevo e<br \/>\n    se o cora&ccedil;&atilde;o pudesse falar ter-lhe-ia eu dito que s&oacute;<br \/>\n    me interessava o presente nela concentrado. Mas respondi de outro modo.<\/p>\n<p> &#8212; Sou um leigo em materia de futuro, miss Jane, e nem escolher posso.<br \/>\n    Deixo isso ao seu inteligente criterio.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tem vontade de ver o que se passar&aacute; aqui, neste<br \/>\n    lugar onde estamos, no ano 3000? &#8212; J&aacute; fizeste esse corte, Jane,<br \/>\n    interveio o professor.<\/p>\n<p> &#8212; Fiz, sim, meu pai, mas ser&aacute; curioso repeti-lo para o senhor<br \/>\n    Ayrton.<\/p>\n<p> &#8212; Perfeitamente, concordei. Ha sempre mais interesse para n&oacute;s<br \/>\n    em ver assim futurizado um ponto nosso conhecido do que um desconhecido.<\/p>\n<p> &#8212; Pois ent&atilde;o, resolveu o professor Benson, comecem por a&iacute;<br \/>\n    e n&atilde;o contem comigo. Vou trabalhar.<\/p>\n<p> Ergueu-se e saiu. Miss Jane acompanhou-o at&eacute; &aacute; porta e ao<br \/>\n    tornar me disse: &#8212; Acho meu pai um tanto abatido hoje. J&aacute; est&aacute;<br \/>\n    nos setenta anos e velhice &eacute; doen&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> Uma nuvem de melancolia sombreou-lhe os lindos olhos azues e um breve suspiro<br \/>\n    lhe escapou do peito. Tambem eu no intimo me sombreei de tristeza, embora<br \/>\n    mentisse exteriormente, nesse intuito de consola&ccedil;&atilde;o facil que<br \/>\n    tais lances imp&otilde;em.<\/p>\n<p> &#8212; Qual! exclamei. O professor &eacute; rijo. E com a vida calma que<br \/>\n    leva ainda viver&aacute; muito.<\/p>\n<p> &#8212; Assim seja, murmurou Miss Jane, porque n&atilde;o sei o que ser&aacute;<br \/>\n    de mim sem ele. Acho-me t&atilde;o identificada com meu pai&#8230;<\/p>\n<p> Arrisquei urna pergunta indiscreta: &#8212; Nunca pensou em casamento, miss<br \/>\n    Jane? A mo&ccedil;a entreparou, olhando-me entre admirada e divertida.<\/p>\n<p> &#8212; Casamento? Ora que coisa interessante, senhor Ayrton!&#8230;<\/p>\n<p> Ha de crer que &eacute; a primeira vez que tal palavra soa nesta casa? Ca-sa-men-to!&#8230;<\/p>\n<p> E repetiu-a diversas vezes como se repetisse uma palavra de som esquisito<br \/>\n    e nunca antes pronunciada.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, continuei eu, todas as mo&ccedil;as se casam. O amor um dia<br \/>\n    vem e&#8230;<\/p>\n<p> Miss Jane permaneceu alheada, como entregue a profundas cogita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    interiores.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Todas as mo&ccedil;as&quot;&#8230; repetiu. Mas serei eu mo&ccedil;a?<br \/>\n    Nunca me analisei, senhor Ayrton. Minha vida tem sido voar de seculo em seculo<br \/>\n    por esse futuro afora em companhia de meu pai. Sinto que sou apenas um espirito<br \/>\n    que observa e possue meios de visualizar o que est&aacute; fora do alcance<br \/>\n    humano. Ser&aacute; isso ser mo&ccedil;a? Amor?&#8230; Que &eacute; amor, senhor<br \/>\n    Ayrton? O seu vocabulario &eacute; t&atilde;o novo para mim como deve ser<br \/>\n    para o seu esp&iacute;rito esta nossa mentalidade futurista. Mas vamos ao<br \/>\n    que serve. &Eacute; tempo de operar um corte.<\/p>\n<p> Miss Jane dirigiu-se ao gabinete do porviroscopio e eu acompanhei-a, tomado<br \/>\n    de espanto diante de um ser t&atilde;o alheio ao seu tempo e &aacute; sua<br \/>\n    condi&ccedil;&atilde;o. L&aacute; fora, amor e casamento constituem a obsess&atilde;o<br \/>\n    unica de todas as mulheres. Em crian&ccedil;a, brincam de casar as bonecas.<br \/>\n    Nubeis, cuidam exclusivamente de casar a si proprias.<\/p>\n<p> Velhas, cuidam de casar ou descasar as outras. Havia, pois, uma mulher no<br \/>\n    mundo, e formos&iacute;ssima que n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o pensava em<br \/>\n    amor e casamento mas &aacute; qual tais express&otilde;es soavam como vozes<br \/>\n    ineditas&#8230;<\/p>\n<p> Era simplesmente prodigioso! Diante do porviroscopio ela se deteve e depois<br \/>\n    de algumas explica&ccedil;&otilde;es me fez colocar no ano 3000 o ponteiro.<br \/>\n    Em seguida viu num mapa a situa&ccedil;&atilde;o geografica do ponto onde<br \/>\n    nos achavamos e ensinou-me a mover o ponteiro marcador das latitudes e longitudes.<\/p>\n<p> &#8212; Pronto! exclamou. Basta agora abrir esta valvula. A corrente envelhecer&aacute;<br \/>\n    de 1074 anos, que s&atilde;o quantos v&atilde;o do em que estamos ao ano 3000.<br \/>\n    Envelhecer&aacute; e nos dar&aacute; sinal disso automaticamente. Mas como<br \/>\n    o envelhecimento de cada ano consome um minuto, teremos&#8230;<\/p>\n<p> Tomou de um lapis e calculou, rapida.<\/p>\n<p> &#8212; Teremos de esperar 17 horas e 54 minutos. O relogio marca as nove<br \/>\n    e, pois, s&oacute; conseguiremos ter c&aacute; o ano 3000 &aacute;s nossas<br \/>\n    ordens entre meia noite e uma da madrugada. Estou afeita a estas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a qualquer hora da noite, mas n&atilde;o sei se para o senhor Ayrton n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute; incomodo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Absolutamente n&atilde;o. S&oacute; lamento n&atilde;o poder satisfazer<br \/>\n    j&aacute;, j&aacute;, a minha curiosidade. Ver um peda&ccedil;o da nossa terra<br \/>\n    no ano 3000, que portentosa maravilha! Diga-me alguma coisa, miss Jane, do<br \/>\n    que me vai ser revelado&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o. N&atilde;o quero prejudicar a sua surpresa. Prefiro<br \/>\n    falar de aspectos que vi em outros tempos e outros paises.<\/p>\n<p> Lances ha na vida absolutamente indeleveis. Essa tarde que passei com a<br \/>\n    filha do professor Benson, a ouvir-lhe as revela&ccedil;&otilde;es do futuro,<br \/>\n    como esquece-la jamais? N&atilde;o poderei reproduzir aqui tudo quanto ela<br \/>\n    me disse; seria compor um catalogo sem fim. A invas&atilde;o mongolica, o<br \/>\n    feroz industrialismo da Europa mudado em contemplativismo asiatico, a evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da America num sentido inteiramente inverso&#8230; quanta coisa formidavel! Mas<br \/>\n    nada me interessou tanto como o drama do choque das ra&ccedil;as nos Estados<br \/>\n    Unidos.<\/p>\n<p> &#8212; Esse choque, disse miss Jane, deu-se no ano 2228 e assumiu t&atilde;o<br \/>\n    empolgantes aspectos que reduzido a livro d&aacute; uma perfeita novela. N&atilde;o<br \/>\n    sei se o senhor Ayrton &eacute; literato&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; fiz um soneto na idade em que todos desovam sonetos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois se n&atilde;o &eacute; poder&aacute; tornar-se. O principal<br \/>\n    para uma novela &eacute; ter o que dizer, estar senhor de um tema na verdade<br \/>\n    interessante.<\/p>\n<p> Ora, eu fornecerei os dados dessa novela e o senhor Ayrton ter&aacute; oportunidade<br \/>\n    otima para apresentar-se ao mundo das letras com um livro que a critica julgar&aacute;<br \/>\n    fic&ccedil;&atilde;o, embora n&atilde;o passe da simples verdade futura.<\/p>\n<p> A ideia sorriu-me, e todo me lisonjeei com a opini&atilde;o que miss Jane<br \/>\n    fazia das minhas capacidades art&iacute;sticas.<\/p>\n<p> &#8212; Quer tentar? insistiu ela. Contar-lhe-ei com a maxima fidelidade<br \/>\n    o que vai passar-se. De posse desse material, e depois de pessoalmente fazer<br \/>\n    varios cortes que o ajudem a formar ideia justa do ambiente futuro, atirar-se-&aacute;<br \/>\n    &aacute; tarefa. Desde j&aacute; asseguro uma coisa: sair&aacute; novela unica<br \/>\n    no genero. Ninguem lhe dar&aacute; nenhuma importancia no momento, julgando-a<br \/>\n    pura obra da imagina&ccedil;&atilde;o fantasista. Mas um dia a humanidade<br \/>\n    se assanhar&aacute; diante das previs&otilde;es do escritor, e os cientistas<br \/>\n    quebrar&atilde;o a cabe&ccedil;a no estudo de um caso, unico no mundo, de<br \/>\n    profecia integral e rigorosa at&eacute; nos m&iacute;nimos detalhes.<\/p>\n<p> &#8212; Realmente! exclamei. Ser&aacute; romance como os de Wells, por&eacute;m<br \/>\n    verdadeiro, o que lhe requintar&aacute; o sabor. Quanta novidade! &#8212;<br \/>\n    Os leitores andar&atilde;o pulando de surpresa, e estou j&aacute; a imaginar<br \/>\n    as caras de espanto que h&atilde;o de fazer quando o senhor Ayrton falar,<br \/>\n    por exemplo, da cirurgia do doutor Lewis.<\/p>\n<p> &#8212; Quem era? &#8212; Oh, um magico da anatomia, o primeiro que praticou<br \/>\n    o desdobramento do homem.<\/p>\n<p> Franzi os sobrolhos.<\/p>\n<p> &#8212; Desdobramento da personalidade? perguntei.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, mas desdobramento anatomico. O doutor Lewis, sabio que come&ccedil;ou<br \/>\n    a surgir em 2201, teve a ideia de romper com o plano simetrico do corpo humano.<br \/>\n    Possu&iacute;mos dois olhos e dois ouvidos que agem como a parelha de cavalos<br \/>\n    a puxar no mesmo rumo o carro. Lewis alterou isso. Por meio dum delicado processo<br \/>\n    cirurgico, desligou &#8212; desxifopagou os nervos &oacute;ticos e auditivos,<br \/>\n    dando autonomia aos dois ramos. Conseguiu dess&#8217;arte que o &quot;desdobrado&quot;<br \/>\n    pudesse ver uma coisa com o olho direito e outra com o esquerdo, e tambem<br \/>\n    ouvir &aacute;s duplas, com a audi&ccedil;&atilde;o assim desligada.<\/p>\n<p> Miss Jane fez breve pausa, como a recordar. Depois disse: &#8212; Lembro-me<br \/>\n    que no escritorio do Intermundane Herald observei o primeiro desdobrado em<br \/>\n    a&ccedil;&atilde;o, primeiro e unico ali&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Intermundane Herald, miss Jane? Cheira-me isso a psiquismo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E cheira certo. Era um jornal de radia&ccedil;&atilde;o metapsiquica,<br \/>\n    que veiu atender &aacute; velha sede de liame com os vivos que os mortos sempre<br \/>\n    manifestaram. Em vez das pobres almas penadas andarem pelo mundo em busca<br \/>\n    de mesinhas falantes e mediuns, unico meio que possuem hoje de conversar conosco,<br \/>\n    liam o Intermundane Herald.<\/p>\n<p> &#8212; E como se manifestavam? Pois n&atilde;o posso crer que tambem colaborassem<br \/>\n    nesse jornal&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Disso se encarregava a Psychical Corporation, dona de grande esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    central de Detroit. Aflu&iacute;am os esp&iacute;ritos para ali e chamavam<br \/>\n    os vivos pela linha metapsicotonica internacional, como hoje nos chamamos<br \/>\n    pela linha telefonica.<\/p>\n<p> O meu assombro era grande, embora tocado de uma pontinha de desconfian&ccedil;a.<br \/>\n    Estaria miss Jane a mangar comigo? Olhei-a firme nos olhos. A lealdade que<br \/>\n    neles vi era a mesma de sempre.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, continuou ela, voltando ao meu homem desdobrado direi que pude<br \/>\n    observa-lo em a&ccedil;&atilde;o no escritorio do Herald. Estava &aacute;<br \/>\n    mesa de trabalho, a examinar com o olho direito uma gravura antiga e a consultar<br \/>\n    uma tabua de logaritmos com o esquerdo. Ao mesmo tempo ouvia a musica da moda<br \/>\n    com o ouvido direito e com o esquerdo atendia a um colaborador do jornal.<br \/>\n    Ocupava-se em quatro coisas diversas, valendo assim por quatro homens n&atilde;o<br \/>\n    desdobrados.<\/p>\n<p> &#8212; h2&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o ficava nisso. Era bem um Homo elevado, n&atilde;o &aacute;<br \/>\n    quarta, mas &aacute; sexta potencia, porque ainda recolhia a queixa dum dos<br \/>\n    esp&iacute;ritos leitores do Herald &#8212; espirito rabugento, a avaliar<br \/>\n    por certos &iacute;mpetos nervosos da m&atilde;o que estenografava.<\/p>\n<p> &#8212; E com a outra m&atilde;o que fazia? &#8212; Alisava meigamente um<br \/>\n    gatinho que lhe sentara no colo.<\/p>\n<p> Encarei-a de novo, firme. Miss Jane n&atilde;o piscou. Logo, era verdade.<br \/>\n    A experiencia dos olhos que piscam sempre me pareceu infal&iacute;vel na pesca<br \/>\n    dos potoqueiros.<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o foi coisa que se generalizasse, continuou a mo&ccedil;a.<br \/>\n    A ruptura por interven&ccedil;&atilde;o humana dos planos normais da natureza<br \/>\n    nunca foi bem sucedida. Sobrevinham sempre complica&ccedil;&otilde;es imprevisiveis<br \/>\n    &aacute; argucia dos sabios, e irremediaveis. Esse pobre desdobrado, por exemplo,<br \/>\n    acabou logo depois de maneira tragica.<\/p>\n<p> Em vez de persistir na sua sexta potencia, empastelou-se, confundiu-se e<br \/>\n    acabou n&atilde;o sendo nem sequer um homem apenas, como antes da opera&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A mais horrorosa demencia veiu destruir aquela obra prima da cirurgia de 2228.<br \/>\n    Por esta amostra v&ecirc; o senhor Ayrton quantos episodios interessantes<br \/>\n    podem enriquecer a sua novela, concluiu miss Jane.<\/p>\n<p> Fiquei de olhos parados, a cismar.<\/p>\n<p> &#8212; Outra coisa que muito me maravilhou foi o Teatro On&iacute;rico,<br \/>\n    prosseguiu ela.<\/p>\n<p> &#8212; Que? &#8212; O teatro dos sonhos.<\/p>\n<p> &#8212; Fiquei na mesma&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Descobriu-se um processo de fixar na tela os sonhos, como hoje o<br \/>\n    cinematografo fixa em filmes o movimento material. E dada a riqueza do nosso<br \/>\n    subconsciente, mar donde emana o sonho, e mar profundo do qual a consciencia<br \/>\n    n&atilde;o passa da ex&iacute;gua superf&iacute;cie, pode o senhor Ayrton<br \/>\n    imaginar que maravilhosas representa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se davam<br \/>\n    nesse teatro. Nem as Mil e Uma Noites, nem Edgard Poe &#8212; nada valia um<br \/>\n    s&oacute; desses espetaculos onde o contra-regra se chamava Imprevisto. Tornou-se<br \/>\n    a arte suprema, a mais deleitosa de toda &#8212; e ainda uma ciencia. A alma<br \/>\n    humana s&oacute; deixou de ser o enigma que hoje &eacute; depois que p&ocirc;de<br \/>\n    ser assim fotografada em suas manifesta&ccedil;&otilde;es de absoluta nudez.<br \/>\n    At&eacute; ent&atilde;o apenas lhe conhec&iacute;amos as manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    vestidas pela Censura, isto &eacute;, as suas atitudes.<\/p>\n<p> Miss Jane pausou um bocado, enquanto eu refervia.<\/p>\n<p> Era de maravilhar a transforma&ccedil;&atilde;o que se operava em mim! Vinte<br \/>\n    dias antes eu n&atilde;o passava de modesto empregado de rua duma casa comercial<br \/>\n    &#8212; e estava agora na iminencia de tornar-me autor de um livro assombroso,<br \/>\n    capaz de cobrir meu nome de gloria. A ideia desvairoume e a novela principiou<br \/>\n    a formar-se-me nos miolos com fragmentos de romances lidos em rodap&eacute;<br \/>\n    de jornais. O come&ccedil;o do primeiro capitulo chegou a tra&ccedil;ar-se<br \/>\n    de chofre em minha cabe&ccedil;a: &#8212; &quot;Era por uma dessas tardes<br \/>\n    calmosas de ver&atilde;o, em que o astro rei, rubro como um disco de cobre,&quot;<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p> Estava eu nesse devaneio quando um criado penetrou de surpresa no gabinete.<br \/>\n    Chamou de parte miss Jane e disse-lhe algumas palavras agitadas. Sem pedir<br \/>\n    licen&ccedil;a a mo&ccedil;a retirou-se com precipita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Fiquei atonito, sem saber o que pensar. Delicada e fina como era, se assim<br \/>\n    se retirava de minha companhia sem o classico e sorridente &quot;com licen&ccedil;a&quot;<br \/>\n    &eacute; que algo de grave ocorria. Fiquei na minha poltrona ainda uns dez<br \/>\n    minutos com o ouvido atento aos menores rumores, tentando decifrar o misterio.<br \/>\n    O silencio era absoluto; nem sequer se ouvia o zum-zum do cronizador a trabalhar.<br \/>\n    Consultei o relogio.<\/p>\n<p> &#8212; Dez e quinze. A corrente j&aacute; est&aacute; no ano 2001, pensei<br \/>\n    comigo, ano que n&atilde;o alcan&ccedil;arei. Mas meu filho Ayrton Benson<br \/>\n    Lobo o alcan&ccedil;ar&aacute;.<\/p>\n<p> Pus-me a sonhar, e os sonhos logo me acalmaram a inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    produzida pela inexplicavel retirada de miss Jane. Vi-me amado de t&atilde;o<br \/>\n    gentil criatura e com ela casado. Por esse tempo j&aacute; n&atilde;o fazia<br \/>\n    parte deste mundo o professor Benson. Setenta anos tinha ele; era natural<br \/>\n    que n&atilde;o durasse muito. Miss Jane ficava s&oacute; na terra, sem rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sociais, sem sonhos de grandeza mundana. E n&atilde;o seria eu nessa epoca<br \/>\n    apenas o pobre diabo que era, triste exempregado dos senhores S&aacute;, Pato<br \/>\n    &amp; Cia. Seria um autor, um romancista! Os jornais dariam meu retrato e<br \/>\n    me tratariam de &quot;ilustre homem de letras&quot;. Talvez at&eacute; cavasse<br \/>\n    a Academia. Uma situa&ccedil;&atilde;o social, sem duvida, e das mais bonitas.<br \/>\n    Poderia aproximar-me da inconsolavel menina e oferecer-me para seu companheiro<br \/>\n    de vida. Claro que miss Jane aceitaria o meu cora&ccedil;&atilde;o. Viagens<br \/>\n    depois, mundo a correr &#8212; Paris, New York. Levariamos conosco o caderninho<br \/>\n    das cota&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Ol&aacute;, senhor corretor, compro mil a&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da Niagara Falls Company!&quot; A piedade do corretor vendo esta carinha chupada<br \/>\n    de brasileiro amarelo comprar a&ccedil;&otilde;es de uma empresa cuja bancarrota<br \/>\n    estava iminente! Sorri-se l&aacute; consigo e vende-mas, piscando o olho para<br \/>\n    os seus auxiliares. No dia seguinte noticia nos jornais: Uma jazida de platina<br \/>\n    encontrada nas terras da Niagara! As a&ccedil;&otilde;es da companhia centuplicam<br \/>\n    de valor. Reapare&ccedil;o no escritorio do corretor atonito a fumar um charuto<br \/>\n    imponente, e vingo-me do seu sorriso de vespera.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Hoje vendo, meu caro palerma. O brasileirinho amarelo hoje<br \/>\n    vende, sabe?&#8230;&quot; E l&aacute; deixo de novo as a&ccedil;&otilde;es da<br \/>\n    Niagara e embolso milh&otilde;es sonantes&#8230; Compro em seguida um hiate, o<br \/>\n    mais belo e comodo que houver&#8230;<\/p>\n<p> No meu sonho julguei ser o capit&atilde;o do hiate e ia responder-lhe com<br \/>\n    uma ordem &#8212; &quot;Rumo a boreste!&quot;, quando ao p&eacute; de mim<br \/>\n    vejo miss Jane, muito transtornada de fei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor Ayrton, meu pai passa mal! Venha ve-lo&#8230;<\/p>\n<p> Corri atr&aacute;s dela, tomado de negros pressentimentos. Penetrei no quarto<br \/>\n    do professor. L&aacute; estava o bom velho no fundo da cama, muito desfeito,<br \/>\n    dando mais a impress&atilde;o de um defunto que de um ser vivo.<\/p>\n<p> &#8212; Quer que v&aacute; buscar um medico? exclamei ansioso ao aproximar-me<br \/>\n    do enfermo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, respondeu lentamente a voz cava e debil do professor.<\/p>\n<p> &Eacute; inutil. Conhe&ccedil;o o meu estado e sei que chegou o momento&#8230;<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a atirou-se-lhe aos bra&ccedil;os e cobriu-lhe o rosto de beijos<br \/>\n    convulsos.<\/p>\n<p> &#8212; Boa Jane, disse ele, &eacute; hora de separar-nos. Tenho confian&ccedil;a<br \/>\n    em ti e espero que passado o rude momento te conformes com a situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    buscando conforto no estoicismo que te ensinei e de que te dei exemplo em<br \/>\n    vida. H&aacute; j&aacute; algum tempo que me sentia mal. Ocultava-o a ti para<br \/>\n    evitar-te um sofrimento inutil. Mas esta noite percebi que chegara o fim.<br \/>\n    Quando te deixei no gabinete com pretexto de concluir um trabalho, iludi-te,<br \/>\n    ou, melhor, vim fazer um trabalho muito diverso do que poderias supor. Vim<br \/>\n    destruir a minha descoberta.<\/p>\n<p> Queimei toda a papelada relativa e desmontei as pe&ccedil;as mestras dos<br \/>\n    aparelhos. O que resta nenhuma significa&ccedil;&atilde;o possue e n&atilde;o<br \/>\n    poder&aacute; ser restaurado. Desfiz em meia hora o trabalho de toda uma vida.<br \/>\n    Da minha inven&ccedil;&atilde;o restam apenas as impress&otilde;es que te<br \/>\n    ficaram na memoria. E quando por tua vez morreres, tudo se extinguir&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Meu pai! exclamou Jane achegando o seu rosto afogueado &aacute;<br \/>\n    face descorada do velho.<\/p>\n<p> &#8212; Teu pai, teu amigo, teu companheiro de trabalho&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o pude conter-me diante do doloroso lance e grossas lagrimas brotaram-me<br \/>\n    dos olhos. O moribundo n&atilde;o esqueceu o hospede.<\/p>\n<p> Volveu com esfor&ccedil;o um olhar para o meu lado e disse em voz cada vez<br \/>\n    mais fraca: &#8212; Adeus, Ayrton. O acaso o trouxe aqui para me ver morrer.<\/p>\n<p> Seja amigo de Jane. Adeus&#8230;<\/p>\n<p> Um impulso atirou-me de joelhos ao p&eacute; do leito do moribundo; tomei-lhe<br \/>\n    as palidas m&atilde;os e beijei-as t&atilde;o enternecido como se beijara<br \/>\n    as de meu proprio pai.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, Jane!&#8230; foram suas derradeiras palavras.<\/p>\n<p> Fechou os olhos e imobilizou-se. Minutos mais tarde estava apagada a luz<br \/>\n    daquele cerebro, o mais potente que ainda desabrochou no seio da humanidade&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"9\">CAPITULO IX &#8211; Entre S&aacute;, Pato &amp; Cia. e Miss Jane<\/a><\/h4>\n<p>Pobre mo&ccedil;a!&#8230; vinha eu pensando comigo ao voltar do enterro do professor<br \/>\n    Benson. Se &eacute; grande a dor de perder um bom pai, que dizer de quem perdia<br \/>\n    tal pai?&#8230;<\/p>\n<p> De fato, quasi que com seu pai perdera Jane a sua raz&atilde;o de ser na<br \/>\n    vida. Desde menina se consagrara a estudos do porvir, e &eacute; natural que<br \/>\n    quem possue tal faculdade de pre-videncia n&atilde;o se preocupe grande coisa<br \/>\n    com a atualidade. Para n&oacute;s, encerrados nas quatro paredes dos cinco<br \/>\n    sentidos, o presente &eacute; tudo; mas qu&atilde;o pouco n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    ele para uma criatura colocada no tope da montanha, podendo ver tanto a paisagem<br \/>\n    do que l&aacute; passou como a do que vai passar! O magico aparelho do professor<br \/>\n    Benson deixara de existir, e dele, como dissera o moribundo, s&oacute; restavam<br \/>\n    as impress&otilde;es subsistentes na memoria da filha. Tinha miss Jane, portanto,<br \/>\n    de refazer sua vida, adaptar-se &aacute; condi&ccedil;&atilde;o comum dos<br \/>\n    pobres seres humanos que s&oacute; v&ecirc;em um palmo adiante do nariz.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; como eu, murmurei em soliloquio. Passou tambem a pedestre&#8230;<\/p>\n<p> Mas vi logo o falso da compara&ccedil;&atilde;o. Eu podia com o tempo voltar<br \/>\n    &aacute; casta dos rodantes, adquirindo novo automovel. Miss Jane nunca mais<br \/>\n    alcan&ccedil;aria a onividencia&#8230;<\/p>\n<p> O castelo ficava a tres quilometros de Friburgo, pela estrada onde se dera<br \/>\n    o meu desastre. Ao passar por essa estrada reconheci o ponto e parei &aacute;<br \/>\n    borda do desbarrancado. Estavam ainda patentes os sinais do trambolh&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Estranhos caminhos da Interferencia! exclamei comigo mesmo.<\/p>\n<p> Para ver a maravilha das maravilhas e conhecer a mulher que me est&aacute;<br \/>\n    iluminando a alma e talvez fa&ccedil;a de mim um romancista, foi mister que<br \/>\n    eu passasse por este precip&iacute;cio aos trancos, e l&aacute; fosse parar<br \/>\n    semi-morto ao fundo da barroca&#8230;<\/p>\n<p> Logo adiante, dobrada uma curva da estrada, vi erguer-se o vulto misterioso<br \/>\n    do castelo, com suas torres metalicas. Parei tomado de viva emo&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Olhei para a singular fabrica e perdi-me em pensamentos de saudade e incerteza.<\/p>\n<p> Entre aquelas paredes duas nobres criaturas humanas me haviam abrigado com<br \/>\n    extremos de carinho; trataram-me do corpo, salvaram-me a vida e n&atilde;o<br \/>\n    satisfeitas ainda me revelaram o segredo irrevelado. No castelo conheci a<br \/>\n    mulher divina que jamais sair&aacute; do meu cora&ccedil;&atilde;o. L&aacute;<br \/>\n    estive em minha casa, como no seio da minha verdadeira familia&#8230;<\/p>\n<p> Mas qu&atilde;o tudo mudara! Eu n&atilde;o podia mais continuar naquela<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o de hospede depois de morto o hospedeiro. Tinha que<br \/>\n    afastarme dali &#8212; afastar-me do lugar que era na verdade o meu verdadeiro<br \/>\n    lugar na terra&#8230;<\/p>\n<p> O cora&ccedil;&atilde;o confrangeu-se-me dolorosamente e foi com o olhar<br \/>\n    sombrio e a cabe&ccedil;a baixa que transpus de novo os umbrais do castelo.<\/p>\n<p> Chamei um criado. Por coincidencia apareceu o surdo-mudo que me acompanhara<br \/>\n    na primeira sa&iacute;da pelos campos. Esqueci-me dessa circunstancia e perguntei-lhe:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel falar a miss Jane? O criado<br \/>\n    tambem se esqueceu de que era surdo-mudo e tornou: &#8212; Acho inconveniente.<br \/>\n    Miss Jane recolheu-se em tal estado de abatimento que nenhum de n&oacute;s<br \/>\n    se atreve a perturba-la.<\/p>\n<p> Vi que o homem tinha raz&atilde;o. Pedi-lhe papel e, ali mesmo no vest&iacute;bulo,<br \/>\n    tracei o seguinte bilhete: Com o cora&ccedil;&atilde;o alanceado Ayrton despede-se<br \/>\n    de miss Jane. Volta ao seu fado anterior, cheio, pelo resto da vida, dos sentimentos<br \/>\n    de gratid&atilde;o e enlevo que os donos deste castelo encantado lhe despertaram<br \/>\n    n&#8217;alma. Se acha miss Jane que o hospede ocasional lhe merece alguma coisa,<br \/>\n    permita-lhe que a venha ver de vez em quando .<\/p>\n<p> Entreguei-o ao criado e sai.<\/p>\n<p> Estava outra vez na rua &#8212; e nunca avaliei t&atilde;o bem a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do decair. Quando o anjo mau se viu expulso do para&iacute;so a sua impress&atilde;o<br \/>\n    devera ter sido igual &aacute; minha&#8230;<\/p>\n<p> Na curva da estrada volvi um ultimo olhar ao castelo. Lagrimas me vieram<br \/>\n    aos olhos, e foi com a infinita tristeza de um corvo triste que alcancei a<br \/>\n    esta&ccedil;&atilde;o de Friburgo. Rodei para o Rio.<\/p>\n<p> Ao apresentar-me no escritorio da firma o assombro do senhor S&aacute; foi<br \/>\n    enorme. Olhou-me com os olhos arregalados, como se visse aparecer um espetro;<br \/>\n    depois vincou a testa de todas as tem&iacute;veis rugas com que tanto nos<br \/>\n    apavorava e disse: &#8212; Muito bem, senhor Ayrton Lobo! Sempre contei com<br \/>\n    a sua presteza, quando o senhor me andava a p&eacute;. Agora, que se deu ao<br \/>\n    luxo de um automovel, gasta-me vinte e tantos dias numa simples cobran&ccedil;a<br \/>\n    e aparece-me com essa cara de cachorrinho que me quebrou a panela! Me, me,<br \/>\n    me, me&#8230; tudo para aquele homem se relacionava egoisticamente &aacute; sua<br \/>\n    pessoa&#8230;<\/p>\n<p> Procurei acalmar-lhe a furia, contando do desastre e da minha interna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    numa casa acolhedora. Mas o eter em vibra&ccedil;&atilde;o que era o senhor<br \/>\n    S&aacute; f&ocirc;ra evidentemente interferido por uma rabanada de saia das<br \/>\n    furias de Esquilo. Em vez de aceitar a minha escusa, o homem redobrou de acusa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; E por que me n&atilde;o preveniu? Um empregado decente, logo que<br \/>\n    se v&ecirc; numa situa&ccedil;&atilde;o dessas, a primeira coisa que faz &eacute;<br \/>\n    avisar aos patr&otilde;es. Pensa ent&atilde;o o senhor que isto aqui &eacute;<br \/>\n    brincadeira? N&atilde;o sabe que somos uma firma s&eacute;ria e temos o direito<br \/>\n    de ser bem servidos? Est&aacute; despachado. N&atilde;o nos servem empregados<br \/>\n    da sua ordem.<\/p>\n<p> Nesse momento um rumor muito meu conhecido denunciou a presen&ccedil;a da<br \/>\n    outra parte da firma. Era o senhor Pato que chegava. Ao ve-lo surgir &aacute;<br \/>\n    porta, dentro do seu formidavel fraque de elasticotine de cem mil r&eacute;is<br \/>\n    o metro e todo reluzente de penduricalhos de ouro maci&ccedil;o, confesso<br \/>\n    que tremi. Olhou-me o homem d&#8217;alto a baixo, fulminantemente, e sem dizer palavra<br \/>\n    foi para um canto confabular com o socio.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei o que disseram. S&oacute; sei que ao cabo de dois minutos<br \/>\n    o senhor S&aacute; voltou-se para mim e indagou: &#8212; E o seu automovel?<br \/>\n    &#8212; Perdi-o&#8230; respondi com voz sumida.<\/p>\n<p> S&aacute; trocou com o socio um olhar risonho e ironico; em seguida, divertido<br \/>\n    l&aacute; no intimo por uma ideia, humanizou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Pode ficar na casa, senhor Ayrton, mas compreende o caro amigo que<br \/>\n    n&atilde;o nos &eacute; poss&iacute;vel pagar a um mo&ccedil;o que anda a<br \/>\n    p&eacute; o mesmo ordenado que pagavamos a um que tinha automovel proprio&#8230;<\/p>\n<p> Pronunciou um &quot;proprio&quot; de boca cheia, trocando com o Patr&atilde;o<br \/>\n    um novo olhar de mal&iacute;cia.<\/p>\n<p> Resignei-me, j&aacute; que precisava viver. E murcho, de cabe&ccedil;a baixa,<br \/>\n    com o espirito a agarrar-se &aacute; lembran&ccedil;a de miss Jane, reassumi<br \/>\n    na casa as minhas velhas fun&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> A semana toda passei-a na rua, a trabalhar como um automato. Meu pensamento<br \/>\n    fugia para longe do que eu executava.<\/p>\n<p> Imposs&iacute;vel fixa-lo nas reles coisas que me mandavam fazer, quando<br \/>\n    havia um ponto luminoso a atrai-lo como &iacute;man. Imposs&iacute;vel tomar<br \/>\n    a serio os negocios de S&aaaacute;, Pato &amp; Cia. depois do deslumbramento<br \/>\n    daquelas semanas no castelo. Eu j&aacute; n&atilde;o era mais o mesmo. Era<br \/>\n    um ser que se dilatara imensamente &#8212; e que esperava&#8230;<\/p>\n<p> Executei mal as minhas comiss&otilde;es e sofri do senhor S&aacute; varias<br \/>\n    reprimendas. Ouvia-as, por&eacute;m, t&atilde;o absorto nos meus pensamentos<br \/>\n    que n&atilde;o poderei reproduzir nada do que ele me disse.<\/p>\n<p> Eu aguardava ansioso a chegada do proximo domingo. Iria novamente rever<br \/>\n    o castelo e extasiar-me ainda uma vez diante da imagem querida.<\/p>\n<p> O domingo chegou. Fui. Miss Jane recebeu-me no gabinete e fez-me sentar<br \/>\n    na poltrona onde me achava no momento em que o criado a chamou. Encontrei-a<br \/>\n    serena e resignada, embora com todos os estigmas da sua grande dor impressos<br \/>\n    na fisionomia. Seus olhos denunciavam o cansa&ccedil;o das lagrimas.<\/p>\n<p> Permaneci calado por uns instantes, sem ter o que dizer. Quem rompeu o silencio<br \/>\n    foi ela.<\/p>\n<p> &#8212; Obrigada, senhor Ayrton. A sua visita me far&aacute; bem, me acalmar&aacute;<br \/>\n    os nervos, coisa que nunca supus que tivesse&#8230; A minha solid&atilde;o &eacute;<br \/>\n    hoje extrema. Como castigo de ter tido &aacute;s m&atilde;os o tudo, vejome<br \/>\n    agora sem nada. Este casar&atilde;o vazio&#8230; os laboratorios j&aacute; sem<br \/>\n    fun&ccedil;&atilde;o&#8230; o porviroscopio, onde passei anos a me deslumbrar<br \/>\n    com vis&otilde;es ineditas, morto, reduzido a simples materia inerte, sem<br \/>\n    alma&#8230;<\/p>\n<p> A alma de tudo era meu pai&#8230;<\/p>\n<p> Alcancei a situa&ccedil;&atilde;o da querida criatura e foi com a alma &aacute;<br \/>\n    boca que lhe disse: &#8212; Compreendo como ninguem o seu caso, miss Jane,<br \/>\n    e sei que at&eacute; hoje no mundo pessoa alguma num s&oacute; dia perdeu<br \/>\n    tanto. Horas apenas convivi com o professor Benson e apesar disso a sua lembran&ccedil;a<br \/>\n    viver&aacute; em mim como n&atilde;o vive a de meu pai. Imagino, pois, a falta<br \/>\n    que faz ele &aacute; sua filha, &aacute; sua companheira de estudos e vis&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> Miss Jane sacudiu a cabe&ccedil;a como a espantar ideias importunas.<\/p>\n<p> Depois esbo&ccedil;ou o sorriso mais triste que inda vi. E com um suspiro<br \/>\n    murmurou: &#8212; Paciencia. Meu pai ensinou-me o estocismo, mas &eacute;<br \/>\n    bem dif&iacute;cil o estoicismo nos grandes momentos de dor. O estoicismo<br \/>\n    &eacute; uma atitude&#8230;<\/p>\n<p> Tres horas passei em companhia da desolada jovem, e consegui afinal distrair<br \/>\n    o seu espirito contando-lhe o meu reaparecimento no escritorio. Chegou a sorrir<br \/>\n    quando lhe desenhei a imagem hipopotamica do senhor Pato, todo a reluzir berloques<br \/>\n    de ouro maci&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Que felicidade ser como esse homem, agir como ele, formar de si<br \/>\n    proprio a ideia que ele forma! comentou miss Jane. Ignora tudo, mas n&atilde;o<br \/>\n    tem a sensa&ccedil;&atilde;o disso. Meu pai era o contrario. Levava ao extremo<br \/>\n    oposto o conceito da sua propria pequenez &#8212; e o senhor Ayrton sabe que<br \/>\n    se houve no mundo criatura mais que todas as outras foi meu pai&#8230; Imagine<br \/>\n    se tomba nas m&atilde;os desse senhor Pato a maquina de sondar o futuro! &#8212;<br \/>\n    Aplica-la-ia em enriquecer-se como dez Cresos, pendurando no corpo tanta quinquilharia<br \/>\n    de ouro que quando andasse na rua havia de tilintar. E a pobre humanidade,<br \/>\n    assombrada, era bem capaz de meter-se de joelhos &aacute; sua passagem, certa<br \/>\n    de que resurgira no mundo o Bezerro de Ouro disfar&ccedil;ado em homem.<\/p>\n<p> &#8212; Bem raz&atilde;o tinha meu pai em n&atilde;o tornar publica a sua<br \/>\n    descoberta. S&oacute; mesmo um espirito de elei&ccedil;&atilde;o como o dele<br \/>\n    poderia resistir &aacute;s tenta&ccedil;&otilde;es resultantes, concluiu miss<br \/>\n    Jane.<\/p>\n<p> Soube nesse domingo muitos detalhes curiosos da vida do professor Benson,<br \/>\n    e de como chegara &aacute; descoberta da onda Z, ponto de partida para o mais.<\/p>\n<p> &#8212; Foi o psiquismo que lhe revelou essa onda que resume e reflete a<br \/>\n    vida universal do momento. O fato de certos indiv&iacute;duos agirem como<br \/>\n    polarizadores de uma for&ccedil;a desconhecida impresionara profundamente<br \/>\n    a sua agudissima inteligencia. Meteu-se a estudar o fenomeno sob uma luz nova<br \/>\n    e chegou a apreende-lo de modo integral. Pobre pai! Falamos depois do nosso<br \/>\n    romance sobre o choque das ra&ccedil;as na America.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, disse miss Jane animando-se. Cont&iacute;nuo a pensar que o<br \/>\n    senhor Ayrton n&atilde;o deve perder a oportunidade. Ouvir&aacute; de mim<br \/>\n    tudo o que sei a respeito e escrever&aacute; um livro deveras interessante.<br \/>\n    N&atilde;o lhe prometo j&aacute;, j&aacute;, fazer essas revela&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Neste meu estado, compreende que me seria penoso. Mas o tempo cicatriza, eu<br \/>\n    sei, e l&aacute; chegaremos.<\/p>\n<p> Para mim ser&aacute; at&eacute; um derivativo &aacute; dor da saudade. Dizem<br \/>\n    que recordar &eacute; reviver e eu pressinto que minha vida vai resumir-se<br \/>\n    nisso: recordar, reviver o que tenho acumulado na memoria. Venha todos os<br \/>\n    domingos e creia que sua presen&ccedil;a me ser&aacute; sempre agradavel &#8212;<br \/>\n    al&eacute;m de que estamos ligados pelo grande segredo&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"10\">CAP&Iacute;TULO X &#8211; C&eacute;u e Purgatorio<\/a><\/h4>\n<p>Regressei &aacute; cidade alegre como um pardal depois da chuva. As palavras<br \/>\n    de miss Jane valeram-me pela abertura do c&eacute;u. Com que prazer n&atilde;o<br \/>\n    trabalharia a semana toda estimulado pela perspectiva de ve-la cada domingo!<br \/>\n    A firma chegou a notar o meu assanha-mento. O senhor S&aacute; olhou-me de<br \/>\n    soslaio e murmurou para o socio de fraque: &#8212; Parece que o seresma viu<br \/>\n    passarinho verde&#8230;<\/p>\n<p> Custou a passar o tempo, tanto a minha impaciencia alongava as horas. Mas<br \/>\n    passou e no domingo, depois de apurar-me na toalete como nunca, e lan&ccedil;ar<br \/>\n    ao pesco&ccedil;o uma gravata nova verde-oliva com pintas de tom mais sombrio,<br \/>\n    voei, positivamente voei, ao castelo dos meus sonhos.<\/p>\n<p> J&aacute; mais senhora de si, nesse dia miss Jane n&atilde;o falou t&atilde;o<br \/>\n    exclusivamente de seu pai. Muito falou dele ainda, mas tambem discorreu de<br \/>\n    outros assuntos, dando come&ccedil;o afinal &aacute;s revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que me serviram de base &aacute; novela.<\/p>\n<p> Antes de mais nada externou-se quanto &aacute; situa&ccedil;&atilde;o presente<br \/>\n    do povo americano &#8212; e com palavras que me derrancaram as ideias. Sim,<br \/>\n    porque eu tinha a ingenuidade de posuir ideias assentes sobre o povo americano,<br \/>\n    apesar da mais absoluta ignorancia da ps&iacute;quica e rumos que levava esse<br \/>\n    povo. Ideias pegadas no ar do escritorio, nas palestras dos caf&eacute;s,<br \/>\n    na leitura de jornais redigidos por criaturas t&atilde;o ignaras como eu,<br \/>\n    ideias que se nos grudam ao cerebro como o p&oacute; do asfalto nos adere<br \/>\n    ao rosto nos dias de calor. Do senhor S&aacute;, por exemplo, ouvi dizer do<br \/>\n    americano (n&atilde;o a mim, est&aacute; claro, que me n&atilde;o daria esta<br \/>\n    honra, mas ao senhor Pato): &quot;Povo sem ideais, o mais material&atilde;o<br \/>\n    da terra. A gente do the biggest&#8230;&quot; Era S&aacute; quem o dizia e pois<br \/>\n    a afirma&ccedil;&atilde;o me penetrou nos miolos como a propria Certeza. Nesse<br \/>\n    mesmo dia, num caf&eacute;, como na roda em que me achava se falasse da Am&eacute;rica,<br \/>\n    repeti a esmo, entre duas baforadas de um cigarro: &#8212; Povo sem ideais,<br \/>\n    o mais material&atilde;o da terra. A gente do the biggest&#8230;<\/p>\n<p> Causou sensa&ccedil;&atilde;o, e &eacute; provavel que algum dos presentes<br \/>\n    fosse repetir alem, a bela s&iacute;ntese dos meus patr&otilde;es &#8212;<br \/>\n    e por aqui se v&ecirc; como certas ideias circulam &aacute; maneira de moeda<br \/>\n    e v&atilde;o enriquecer o patrimonio ideologico de um povo&#8230;<\/p>\n<p> Quando miss Jane abordou o assunto e de chofre perguntou-me que &eacute;<br \/>\n    que eu pensava do americano, imediatamente a bela sintese sapatesca me veio<br \/>\n    aos labios: &#8212; Povo sem ideais, o mais material&atilde;o da terra, a<br \/>\n    gente do the biggest&#8230; murmurei com enfase.<\/p>\n<p> O efeito, por&eacute;m, falhou. Pela primeira vez n&atilde;o vi na cara<br \/>\n    de um interlocutor a express&atilde;o aprovativa a que eu j&aacute; me afizera.<br \/>\n    Miss Jane, ao contrario, sorriu com o inesquec&iacute;vel sorriso do professor<br \/>\n    Benson e disse: &#8212; Essa ideia n&atilde;o pode ser sua, senhor Ayrton.<br \/>\n    Soa-me a frase feita, das que se recebem no ar sem exame. A um povo que tenta<br \/>\n    romper com o alcool acha sem ideias? Poder&aacute; haver maior idealismo que<br \/>\n    o sacrif&iacute;cio de formidaveis interesses materiais do presente em vista<br \/>\n    de benef&iacute;cios que s&oacute; as gera&ccedil;&otilde;es futuras poder&atilde;o<br \/>\n    recolher? Se o senhor Ayrton observar um pouco a psique americana ver&aacute;,<br \/>\n    ao contrario, que &eacute; o unico povo idealista que floresce hoje no mundo.<br \/>\n    Unico, v&ecirc;? Apenas se d&aacute; o seguinte: o idealismo dos americanos<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; o idealismo latino que recebemos com o sangue. Possuem-no<br \/>\n    de forma especifica, proprio, e de implanta&ccedil;&atilde;o impossivel em<br \/>\n    povos n&atilde;o dotados do mesmo carater racial. Possuem o idealismo organico.<br \/>\n    N&oacute;s temos o utopico. Veja a Fran&ccedil;a. Estude a Conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Francesa. Sess&atilde;o permanente de utopismo furioso &#8212; e a resultar<br \/>\n    em que calamidades! Por que? Porque irrealizavel, contrario &aacute; natureza<br \/>\n    humana. Veja agora a America. Em todos os grandes momentos da sua historia,<br \/>\n    sempre vencedor o idealismo organico, o idealismo pragmatico, a programa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das possibilidades que se ajeitam dentro da natureza humana. Leia Emerson<br \/>\n    e leia Rousseau. Ter&aacute; os expoentes de duas mentalidades polares. N&atilde;o<br \/>\n    acha o senhor Ayrton que &eacute; assim? Apressei-me em achar, se n&atilde;o<br \/>\n    de todo convencido ao menos vencido por t&atilde;o ardorosos argumentos. Espantaram-me<br \/>\n    a fluidez, a clareza, o &iacute;mpeto com que miss Jane discordara. Vi bem<br \/>\n    clara a diferen&ccedil;a que existe entre ter ideias proprias, frutos faceis<br \/>\n    e logicos de uma arvore nascida de boa semente e desenvolvida sem peias ou<br \/>\n    imposi&ccedil;&otilde;es externas &#8212; ser &quot;arvore de natal&quot;,<br \/>\n    museu de ideias alheias pegadas daqui e dali, sem liga&ccedil;&atilde;o organica<br \/>\n    com os galhos, donde n&atilde;o pendem de pedunculos naturais e sim de ganchinhos<br \/>\n    de arame. E comecei a aprender a tambem ser arvore como as que crescem no<br \/>\n    campo, e a deixar-me engalhar, enfolhar e frutificar livremente por mim proprio.<br \/>\n    Sinto hoje que a minha arvore mental cresce desafogada no sitio tanto tempo<br \/>\n    ocupado por uma arvore-cabide, onde S&aacute;s, Patos et caterva penduravam<br \/>\n    papel-ideias, coisa peor que o papel-moeda. Foi com miss Jane que aprendi<br \/>\n    a pensar.<\/p>\n<p> &#8212; Idealista como nenhum outro povo, prosseguiu ela, e do unico idealismo<br \/>\n    verdadeiramente construtor da atualidade. Acompanhe a vida de Henry Ford,<br \/>\n    por exemplo, estude-lhe as ideias. Ver&aacute; que nelas est&atilde;o todas<br \/>\n    as solu&ccedil;&otilde;es que no seu desvario de doida a Europa procura no<br \/>\n    despotismo. Por mais audacioso que nos pare&ccedil;a o pensamento de Henry<br \/>\n    Ford, que &eacute; ele sen&atilde;o o reflexo do mais elementar bom senso?<br \/>\n    Todos n&oacute;s, creia, senhor Ayrton, temos conosco essas ideias, &aacute;<br \/>\n    primeira vista t&atilde;o novas. No entanto, tamanha &eacute; a crosta que<br \/>\n    nos recobre o bom senso natural que Ford nos parece um messias da Ideia Nova.<br \/>\n    Ha um aparelho de limpar os tubos das caldeiras por onde passa a chama vinda<br \/>\n    da fornalha. Esses tubos, com o tempo, v&atilde;o se encrostando de residuos<br \/>\n    carbonicos e acabam por se obstru&iacute;rem. &Eacute; necessario a espa&ccedil;os<br \/>\n    proceder-se a uma limpeza. Embora o uso das maquinas de vapor j&aacute; seja<br \/>\n    bem velho, s&oacute; recentemente se inventou o meio pratico de desencrosta-las:<br \/>\n    o martelo trepidante.<\/p>\n<p> Ford me d&aacute; a sensa&ccedil;&atilde;o desse instrumento. &Eacute; o<br \/>\n    martelo trepidante que nos desencrosta os tubos do cerebro, obstru&iacute;dos<br \/>\n    pela fuligem das ideias falsas. Ninguem melhor do que eu poder&aacute; dizer<br \/>\n    isto de Henry Ford, porquanto devassei o futuro e por toda parte vi reflexos<br \/>\n    do seu pensamento. &Eacute; pois o melhor tipo atual do idealista organico.<\/p>\n<p> Sonha, mas sonha a realidade de amanh&atilde;. A desaglomera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da industria urbana, por exemplo, a estandardiza&ccedil;&atilde;o de todos<br \/>\n    os produtos, a industria posta na base de uma associa&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    tres socios &#8212; trempe que abrange todas as classes sociais, a simplifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vida pela elimina&ccedil;&atilde;o dos milhares de coisas inuteis que hoje<br \/>\n    consomem tanto material e energia, tudo isso vai realizado no futuro e, no<br \/>\n    meu entender, com ponto de partida no idealismo pragmatico de Henry Ford.<\/p>\n<p> &#8212; Realmente!&#8230; exclamei. Agora vejo que fazemos c&aacute; uma ideia<br \/>\n    apressada desse povo.<\/p>\n<p> Eu me sentia cada vez mais desencrostado das minhas ideias falsas ante a<br \/>\n    vibra&ccedil;&atilde;o do gentil martelinho trepidante que era miss Jane&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E o mundo americano n&atilde;o podia deixar de ser assim, senhor<br \/>\n    Ayrton, continuou ela. Note apenas: que &eacute; a America, sen&atilde;o a<br \/>\n    feliz zona que desde o inicio atraiu os elementos mais eugenicos das melhores<br \/>\n    ra&ccedil;as europeias? Onde a for&ccedil;a vital da ra&ccedil;a branca, se<br \/>\n    n&atilde;o l&aacute;? J&aacute; a origem do americano entusiasma. Os primeiros<br \/>\n    colonos, quais foram eles? A gente do Mayflower, quem era ela? Homens de tal<br \/>\n    tempera, caracteres t&atilde;o shakespearianos, que entre abjurar das convic&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e emigrar para o deserto, para a terra vazia e selvagem onde tudo era inhospitalidade<br \/>\n    e dureza, n&atilde;o vacilaram um segundo. Emigrar ainda hoje vale por alto<br \/>\n    expoente de audacia, de eleva&ccedil;&atilde;o do tonus vital.<\/p>\n<p> Deixar sua terra, seu lar, seus amigos, sua l&iacute;ngua, cortar as ra&iacute;zes<br \/>\n    todas que desde a infancia nos prendem ao solo patrio, haver&aacute; maior<br \/>\n    hero&iacute;smo? Quem o faz &eacute; um forte, e s&oacute; com esse fato j&aacute;<br \/>\n    revela um belo &iacute;ndice de energia. Mas emigrar para o deserto, deixar<br \/>\n    a patria pelo desconhecido, isto &eacute; formidavel! &#8212; Realmente, realmente&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem, continuou miss Jane, o processo inicial da America tornou-se<br \/>\n    o processo normal do seu acrescentamento no decorrer da historia. Ondas sucessivas<br \/>\n    dos melhores elementos europeus para l&aacute; se transportaram. Depois vieram<br \/>\n    as leis seletivas da emigra&ccedil;&atilde;o, e as massas que a procuravam,<br \/>\n    j&aacute; de si boas, viram&#8211;se peneiradas ao chegar. Ficava a flor. O restolho<br \/>\n    voltava&#8230; Note o enriquecimento de valores humanos que isso representou para<br \/>\n    aquela na&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Miss Jane falava com tanta alma, havia em suas palavras tal for&ccedil;a<br \/>\n    persuasiva, que senti um &iacute;mpeto de revolta contra o senhor S&aacute;.<\/p>\n<p> Se esse homem me aparece naquele momento, eu era capaz de erguer contra<br \/>\n    ele a minha outrora t&atilde;o humilde m&atilde;o! &#8212; E hoje, prosseguiu<br \/>\n    miss Jane, hoje que se deslocou para l&aacute; o centro economico do mundo?<br \/>\n    Reflita um bocado na significa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o digo do povo americano,<br \/>\n    mas do fenomeno americano &#8212; o fenomeno eugenico americano. Estados Unidos<br \/>\n    querem hoje dizer um imenso foco luminoso num mundo de candieiros de azeite<br \/>\n    e velas de sebo. Todas as mariposas da terra t&ecirc;m os olhos fixos no deslumbrante<br \/>\n    foco &#8212; todos os artistas, todos os sabios, todos os esp&iacute;ritos<br \/>\n    animados da centelha criadora, que na sua patria n&atilde;o encontram condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    propicias de desenvolvimento. L&aacute;, a manh&atilde; radiosa de sol. No<br \/>\n    resto do mundo, varias especies de crepusculos&#8230; Cada vez mais vai sendo<br \/>\n    a Europa drenada de seus melhores elementos &#8212; as suas mariposas, e a<br \/>\n    Europa acabar&aacute; amarelada pela pigmenta&ccedil;&atilde;o mongolica.<br \/>\n    Isso vi eu j&aacute; bem denunciado nos cortes feitos no seculo 25.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, miss Jane, atrevi-me a dizer, n&atilde;o &eacute; logico que<br \/>\n    tambem invada a America esse asiatismo entrevisto? &#8212; Logico por que?<br \/>\n    O logico &eacute; que da semente da couve nas&ccedil;a o p&eacute; de couve<br \/>\n    e da do jequitib&aacute; nas&ccedil;a o jequitib&aacute;. A semente americana<br \/>\n    lan&ccedil;ada em Plymouth era s&atilde; e era de jequitib&aacute;. O espirito<br \/>\n    de casta matou a Asia &#8212; do espirito de classe morrer&aacute; a Europa.<br \/>\n    A semente de que nasceu a America n&atilde;o continha em seus cotiledones<br \/>\n    essas venenosas toxinas.<\/p>\n<p> &#8212; Mas deu origem a classes, tambem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deu origem a classes, &eacute; certo, e os interesses das classes<br \/>\n    se tornaram antagonicos. Mas o espirito de exame dos fatos &#8212; e outra<br \/>\n    coisa n&atilde;o quer dizer o idealismo organico &#8212; interveio a tempo<br \/>\n    e harmonizou tais interesses. Quando Ford provou que n&atilde;o ha hostilidade<br \/>\n    entre o capital e o trabalho e sim mal-entendido &#8212; e o provou com o<br \/>\n    fato da sua formidavel realiza&ccedil;&atilde;o, todos os olhos se abriram,<br \/>\n    e a industria, at&eacute; ali Moloch devorador da classe que produz e da que<br \/>\n    consome em proveito da que detem os meios de produ&ccedil;&atilde;o, passou<br \/>\n    a ser a mais harmonizada das associa&ccedil;&otilde;es. Esse maravilhoso remedio<br \/>\n    criou a grande barreira contra o asiatismo invasor e ergueu a America do seculo<br \/>\n    25 &aacute; posi&ccedil;&atilde;o de um mundo sadio e vivo dentro de um marasmo<br \/>\n    fatalista.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; tudo muito bem, adverti eu, mas nos Estados Unidos n&atilde;o<br \/>\n    penetraram apenas os elementos espontaneos que miss Jane aponta. Entrou ainda,<br \/>\n    &aacute; for&ccedil;a, arrancado da Africa, o negro.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; ia chegar. Entrou o negro e foi esse o unico erro inicial<br \/>\n    cometido naquela feliz composi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Erro imposs&iacute;vel de ser corrigido, aventurei. Tambem aqui<br \/>\n    arrostamos com igual problema, mas a tempo acudimos com a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pratica &#8212; e por isso penso que ainda somos mais pragmaticos do que os<br \/>\n    americanos. A nossa solu&ccedil;&atilde;o foi admiravel. Dentro de cem ou<br \/>\n    duzentos anos ter&aacute; desaparecido por completo o nosso negro em virtude<br \/>\n    de cruzamentos sucessivos com o branco. N&atilde;o acha que fomos felic&iacute;ssimos<br \/>\n    na nossa solu&ccedil;&atilde;o? Miss Jane sorriu de novo com o meigo e enigmatico<br \/>\n    sorriso do professor Benson.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o acho, disse ela. A nossa solu&ccedil;&atilde;o foi med&iacute;ocre.<br \/>\n    Estragou as duas ra&ccedil;as, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiraveis<br \/>\n    qualidades f&iacute;sicas de selvagem e o branco sofreu a inevitavel peora<br \/>\n    de carater, consequente a todos os cruzamentos entre ra&ccedil;as dispares.<br \/>\n    Carater racial &eacute; uma cristaliza&ccedil;&atilde;o que &aacute;s lentas<br \/>\n    se vai operando atrav&eacute;s dos seculos. O cruzamento perturba essa cristaliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    liquefa-la, torna-a instavel. A nossa solu&ccedil;&atilde;o deu mau resultado.<\/p>\n<p> &#8212; Quer dizer que prefere a solu&ccedil;&atilde;o americana, que n&atilde;o<br \/>\n    foi solu&ccedil;&atilde;o de coisa nenhuma, j&aacute; que deixou as duas ra&ccedil;as<br \/>\n    a se desenvolverem paralelas dentro do mesmo territorio separadas por uma<br \/>\n    barreira de odio? Aprova ent&atilde;o o horror desse odio e todas as suas<br \/>\n    tristes consequencias? &#8212; Esse odio, ou melhor, esse orgulho, respondeu<br \/>\n    miss Jane, serena como se a propria Minerva falasse pela sua boca, foi a mais<br \/>\n    fecunda das profilaxias. Impediu que uma ra&ccedil;a desnaturasse descristalizasse<br \/>\n    a outra, e conservou a ambas em estado de relativa pureza. Esse orgulho foi<br \/>\n    o criador do mais belo fenomeno da eclos&atilde;o etnica que vi em meus cortes<br \/>\n    do futuro.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &eacute; horr&iacute;vel isso! exclamei revoltado, Miss Jane,<br \/>\n    um anjo de bondade, defende o mal&#8230;<\/p>\n<p> Pela terceira vez a mo&ccedil;a sorriu com o sorriso do professor Benson.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ha mal nem bem no jogo das for&ccedil;as cosmicas. O<br \/>\n    odio desabrocha tantas maravilhas quanto o amor. O amor matou no Brasil a<br \/>\n    possibilidade de uma suprema express&atilde;o biologica. O odio criou na America<br \/>\n    a gloria do eugenismo humano&#8230;<\/p>\n<p> Como era forte o pensamento de miss Jane! Dava-me a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos fenomenos naturais, ora da brisa que passa e treme a folha das arvores,<br \/>\n    ora do jorro de sol que tudo ilumina. Seus olhos fulguravam e por vezes eu<br \/>\n    sentia neles o impeto sereno que os poetas gregos atribu&iacute;am a Palas.<br \/>\n    Meu sentimentalismo sofria com isso. &quot;Poderia vir a amar-me uma criatura<br \/>\n    assim, t&atilde;o alta de cerebro?&quot;. Tudo me levava a crer que n&atilde;o,<br \/>\n    e apesar disso eu esperava&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Entre dar uma solu&ccedil;&atilde;o inepta e n&atilde;o dar solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nenhuma, o americano optou pela ultima alternativa, continuou miss Jane.<\/p>\n<p> &#8212; Quer dizer que eternizou o problema, conclui vitorioso.<\/p>\n<p> &#8212; A sua eternidade, senhor Ayrton, &eacute; bem precaria. Durar&aacute;<br \/>\n    apenas mais 302 anos. O inevitavel choque das duas ra&ccedil;as dar-se-&aacute;<br \/>\n    em 2228, e a solu&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei qual ser&aacute;! exclamei muito lampeiro. Um massacre<br \/>\n    em massa, uma chacina horrorosa!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nada disso.<\/p>\n<p> &#8212; Expulsam os negros de l&aacute;, ent&atilde;o! adverti apressadamente,<br \/>\n    na minha ansia de adivinhar.<\/p>\n<p> &#8212; Nada, nada disso.<\/p>\n<p> Parei atrapalhado, mas num clar&atilde;o apresentou-se-me a terceira hipotese.<\/p>\n<p> &#8212; Dividem o pa&iacute;s em duas partes, a negra e a branca! &#8212;<br \/>\n    Nada, ainda. Creio que por mais esfor&ccedil;os que o senhor Ayrton fa&ccedil;a<br \/>\n    n&atilde;o adivinhar&aacute;.<\/p>\n<p> Refleti alguns instantes a ver se me ocorria uma quarta hipotese.<\/p>\n<p> N&atilde;o ocorreu coisa nenhuma e confessei-me vencido.<\/p>\n<p> &#8212; Se a solu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vai ser alguma destas, quer<br \/>\n    dizer que o caso fica insoluvel, rematei.<\/p>\n<p> &#8212; Ao contrario. Ser&aacute; solvido da maneira mais completa, sem<br \/>\n    sacrif&iacute;cio dos negros existentes e sem transigencia dos brancos. O<br \/>\n    orgulho &eacute; criador, senhor Ayrton e al&eacute;m disso, extremamente<br \/>\n    engenhoso&#8230;<\/p>\n<p> Era hora de retirar-me.<\/p>\n<p> Beijei a m&atilde;o de miss Jane e sa&iacute; pela estrada afora a parafusar<br \/>\n    no tremendo quebra-cabe&ccedil;a. Depois volvi para ela os meus pensamentos<br \/>\n    e passei a semana inteira a recordar as suas palavras e gestos, num grande<br \/>\n    enlevo d&#8217;alma. O senhor S&aacute; notou-o e disse ao socio: &#8212; Isto ou<br \/>\n    &eacute; amor ou &eacute; espinhela caida.<\/p>\n<p> Era amor. Em tudo eu via miss Jane. Nas mo&ccedil;as que se cruzavam por<br \/>\n    mim nas ruas eu s&oacute; via os tra&ccedil;os que tinham de comum com miss<br \/>\n    Jane &#8212; esta a linha dos ombros; aquela o tom dos cabelos. Meus sonhos<br \/>\n    se complicavam estranhamente, mas neles Freud leria claro como numa cartilha<br \/>\n    infantil. O mundo futuro me surgia caotico, informe, com chins em Paris e<br \/>\n    homens sem pressa em New York, a conversarem sentados no meio das ruas &#8212;<br \/>\n    e que ruas! Wall Street, Broadway&#8230; Depois surgia miss Jane como o Tudo e<br \/>\n    eu mergulhava em extase.<\/p>\n<p> Amor! Amor! <\/p>\n<h4><a name=\"11\">CAPITULO XI &#8211; No Ano 2228<\/a><\/h4>\n<p>Voltei ao castelo e minha amiga deu come&ccedil;o enfim as suas revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre o choque das ra&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8212; Decifrou o quebra-cabe&ccedil;as? perguntou-me logo que entrei.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; dos indecifraveis, respondi &#8212; dos indecifraveis para<br \/>\n    quem n&atilde;o inventou nenhum porviroscopio. Um ponto, entretanto, me intriga.<\/p>\n<p> Acho que a popula&ccedil;&atilde;o negra da America &eacute; muito pequena<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o &aacute; branca para que possa jamais constituir<br \/>\n    perigo.<\/p>\n<p> &#8212; Seria assim, de fato, emendou a mo&ccedil;a, se com o crescer do<br \/>\n    pa&iacute;s a propor&ccedil;&atilde;o se conservasse sempre a mesma. N&atilde;o<br \/>\n    foi exatamente isso o que se deu. Enquanto a corrente imigratoria europeia<br \/>\n    trazia ondas e mais ondas de brancos a somarem-se aos j&aacute; estabelecidos<br \/>\n    no pa&iacute;s, nada alarmava, nem deixava vislumbrar um futuro agravamento<br \/>\n    da situa&ccedil;&atilde;o. Mas essas ondas foram diminuindo em virtude dos<br \/>\n    obstaculos opostos &aacute; entrada de imigrantes, e por fim sobreveio um<br \/>\n    maquiavelico sistema de drenagem. Em vez de entrada franca a quem quisesse<br \/>\n    vir localizar-se no pa&iacute;s, organizou o governo americano em todas as<br \/>\n    na&ccedil;&otilde;es do velho mundo um servi&ccedil;o de importa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de valores humanos, consistente em atrair para l&aacute; a fina flor eugenica<br \/>\n    das melhores ra&ccedil;as europeias. J&aacute; aliviada do seu ouro em favor<br \/>\n    da America, viu-se a Europa tambem aliviada da sua elite.<\/p>\n<p> &#8212; Desnataram a pobre Europa! S&oacute; deixaram no velho mundo o soro&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Isso mesmo. Da&iacute; a qualifica&ccedil;&atilde;o de maquiavelico<br \/>\n    dada ao sistema. Os mais perfeitos tipos de beleza plastica, as mais fortes<br \/>\n    inteligencias, os mais puros valores morais, eram descobertos onde quer que<br \/>\n    florescessem e seduzidos, de modo a, mais cedo ou mais tarde, se localizarem<br \/>\n    na Cana&atilde; americana. Por fim achou-se o pa&iacute;s bastante povoado;<br \/>\n    e a mentalidade proibicionista, assustada com o espetro do super-povoamento,<br \/>\n    suplantou a imigracionista. Fecharamse todas as portas ao fluxo europeu e<br \/>\n    a na&ccedil;&atilde;o passou a crescer vegetativamente apenas. Data da&iacute;<br \/>\n    a &quot;infla&ccedil;&atilde;o do pigmento&quot;.<\/p>\n<p> At&eacute; essa epoca a popula&ccedil;&atilde;o negra representava um sexto<br \/>\n    da popula&ccedil;&atilde;o total do pa&iacute;s. A predominancia do branco<br \/>\n    era pois esmagadora e de molde a n&atilde;o arrastar o americano a ver no<br \/>\n    negro um perigo serio. Mas com o proibicionismo coincidiu o surto das ideias<br \/>\n    eugenisticas de Francis Galton. As elites pensantes convenceram-se de que<br \/>\n    a restri&ccedil;&atilde;o da natalidade se impunha por mil e uma raz&otilde;es,<br \/>\n    resumiveis no velho truismo: qualidade vale mais que quantidade.<\/p>\n<p> Deu-se ent&atilde;o a ruptura da balan&ccedil;a. Os brancos entraram a primar<br \/>\n    em qualidade, enquanto os negros persistiam em avultar em quantidade.<\/p>\n<p> Foi a mar&eacute; montante do pigmento. Mais tarde, quando a eugenia venceu<br \/>\n    em toda a linha e se criou o Ministerio da Sele&ccedil;&atilde;o Artificial,<br \/>\n    o surto negro j&aacute; era imenso.<\/p>\n<p> &#8212; Ministerio da Sele&ccedil;&atilde;o Artificial? &#8212; Sim. O grande<br \/>\n    Ministerio, o verdadeiro fator da espantosa transforma&ccedil;&atilde;o sofrida<br \/>\n    pelo povo americano. O seu espirito criador, a coragem de enveredar por sendas<br \/>\n    novas sem esperar que outros o fizessem primeiro, deu &aacute;quele povo um<br \/>\n    enorme avan&ccedil;o sobre os demais.<\/p>\n<p> Essas restri&ccedil;&otilde;es melhoraram de maneira impressionante a qualidade<br \/>\n    do homem. O numero dos mal-formados no fisico desceu a propor&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    minimas &#8212; sobretudo depois do resurgimento da sabia lei espartana.<\/p>\n<p> &#8212; A que matava no nascedouro as crian&ccedil;as defeituosas? exclamei<br \/>\n    arrepiado. Tiveram eles a coragem de fazer isso? &#8212; Se o senhor Ayrton<br \/>\n    visse, como eu vi, o resultado dessa e de outras leis semelhantes, s&oacute;<br \/>\n    se admiraria da estupidez do homem em retardar por tanto tempo a ado&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de normas t&atilde;o fecundas. Entre cortar no inicio o fio da vida a uma<br \/>\n    posta de carne sem sombra de consciencia e deixar que dela saia o ser consciente<br \/>\n    que vai vegetar anos e anos na horr&iacute;vel categoria dos &quot;desgra&ccedil;ados&quot;,<br \/>\n    a crueldade est&aacute; no segundo processo. A lei espartana reduziu praticamente<br \/>\n    a zero o numero dos desgra&ccedil;ados por defeito fisico. Restavam os desgra&ccedil;ados<br \/>\n    por defeito mental.<\/p>\n<p> &#8212; De numero infinito&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Esses foram impedidos de se reproduzirem pela Lei Owen, fruto das<br \/>\n    grandes ideias pregadas por Walter Owen. Walter Owen foi o verdadeiro remodelador<br \/>\n    da ra&ccedil;a branca na America. Apareceu cento e poucos anos antes do choque<br \/>\n    das ra&ccedil;as com o seu famoso livro O Direito de Procriar, onde lan&ccedil;ava<br \/>\n    os fundamentos do Codigo da Ra&ccedil;a, conjunto de leis t&atilde;o sabias<br \/>\n    e fecundas em resultados que, podemos dizer, a Era Nova da ra&ccedil;a humana<br \/>\n    datou da sua promulga&ccedil;&atilde;o. A lei Owen, como era chamado esse<br \/>\n    Codigo da Ra&ccedil;a, promoveu a esteriliza&ccedil;&atilde;o dos tarados,<br \/>\n    dos mal-formados mentais, de todos os indiv&iacute;duos em suma capazes de<br \/>\n    prejudicar com m&aacute; progenie o futuro da especie. S&oacute; depois da<br \/>\n    aplica&ccedil;&atilde;o de tais leis &eacute; que foi poss&iacute;vel realizar<br \/>\n    o grandioso programa de sele&ccedil;&atilde;o que j&aacute; havia empolgado<br \/>\n    todos os esp&iacute;ritos. Os admiraveis processos hoje em emprego na cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos belos cavalos puro-sangue passaram a reger a cria&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    homem na America.<\/p>\n<p> &#8212; E l&aacute; se foram os peludos!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Exatissimamente&#8230; Desapareceram os peludos &#8212; os surdosmudos,<br \/>\n    os aleijados, os loucos, os morfeticos, os histericos, os criminosos natos,<br \/>\n    os fanaticos, os gramaticos, os misticos, os retoricos, os vigaristas, os<br \/>\n    corruptores de donzelas, as prostitutas, a legi&atilde;o inteira de mal-formados<br \/>\n    no fisico e no moral, causadores de todas as perturba&ccedil;&otilde;es da<br \/>\n    sociedade humana. Essas leis est&aacute; claro que eram fortemente restritivas<br \/>\n    da natalidade, sobretudo, no come&ccedil;o, quando havia quasi tanto joio<br \/>\n    quanto trigo. Crescer para a America n&atilde;o equivalia mais a avultar &aacute;s<br \/>\n    tontas em numero, como hoje, e sim a elevar o indice mental e fisico dos seus<br \/>\n    habitantes. Os Estados Unidos (e o Canad&aacute;, que j&aacute; se fundira<br \/>\n    neles) cresciam dessa maneira admiravel, se bem que incompreens&iacute;vel<br \/>\n    para n&oacute;s hoje, que vivemos em plena licenciosa anarquia procriadora.<\/p>\n<p> Miss Jane tomou folego e prosseguiu: &#8212; Mas&#8230; o &quot;mas&quot; perturbador<br \/>\n    de todos os calculos humanos surgiu. Apesar de submetida aos mesmos processos<br \/>\n    restritivos dos brancos, a ra&ccedil;a negra come&ccedil;ou desde logo a apresentar<br \/>\n    um indice mais alto de crescimento. A propor&ccedil;&atilde;o do negro puro<br \/>\n    relativa ao branco subiu a um quinto, a um quarto, a um ter&ccedil;o, e por<br \/>\n    fim chegou &aacute; metade&#8230; Quer dizer que o binomio racial, desprezado<br \/>\n    na era do crescimento imigratorio e descurado no inicio do regime seletivo,<br \/>\n    passou a entrar na fase aguda do &quot;resolve-me ou devoro-te&quot;.<\/p>\n<p> &#8212; Em quantos eram calculados os negros nesse momento? &#8212; Na era<br \/>\n    em que tomamos este corte anatomico do futuro, ano 2228, as estat&iacute;sticas<br \/>\n    apresentavam dados alarmantes. Negros, 108 milh&otilde;es; brancos, 206 milh&otilde;es.<br \/>\n    E como o coeficente da natalidade negra acusasse uma nova subida, o instinto<br \/>\n    de conserva&ccedil;&atilde;o dos brancos eri&ccedil;ou-se nos primeiros arrepios<br \/>\n    da legitima defesa. Dos muitos alvitres propostos para de uma vez por todas<br \/>\n    arrancar a America do seu beco sem saida predominavam duas correntes de ideias<br \/>\n    contrarias, conhecidas por &quot;solu&ccedil;&atilde;o branca&quot; e &quot;solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    negra&quot;.<\/p>\n<p> A solu&ccedil;&atilde;o branca&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei! exclamei aflito por acertar uma s&oacute; vez que<br \/>\n    fosse. A solu&ccedil;&atilde;o branca era expatriar o negro!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem! confirmou miss Jane, alegre de ter-me proporcionado um<br \/>\n    inocente prazer mental. Queriam os brancos a expatria&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    negros para o . . .<\/p>\n<p> &#8212; Vale do Amazonas! exclamei de novo, radiante do meu sucesso anterior<br \/>\n    e esperan&ccedil;oso de segunda vitoria. Dias antes eu lera n&atilde;o sei<br \/>\n    onde uma qualquer coisa que me deixara entrever isso.<\/p>\n<p> &#8212; Bravos! Nesse andar vai o senhor Ayrton substituir com vantagem<br \/>\n    o nosso porviroscopio perdido. Para esse vale, sim. O antigo Brasil cindira-se<br \/>\n    em dois pa&iacute;ses, um centralizador de toda a grandeza sul-americana,<br \/>\n    filho que era do imenso foco industrial surgido &aacute;s margens do rio Paran&aacute;.<br \/>\n    Com as cataratas gigantescas ao longo do seu curso, acabou esse fecundo Nilo<br \/>\n    da America transformado na espinha dorsal do pa&iacute;s que em eficiencia<br \/>\n    ocupava no mundo o lugar imediato aos Estados Unidos. O outro, uma republica<br \/>\n    tropical, agitava-se ainda nas velhas convuls&otilde;es pol&iacute;ticas e<br \/>\n    filologicas. Discutiam sistemas de voto e a coloca&ccedil;&atilde;o dos pronomes<br \/>\n    da semi-morta lingua portuguesa. Os sociologos viam nisso o reflexo do desequil&iacute;brio<br \/>\n    sangu&iacute;neo consequente &aacute; fus&atilde;o de quatro ra&ccedil;as<br \/>\n    distintas, o branco, o negro, o vermelho e o amarelo, este ultimo predominante<br \/>\n    no vale do Amazonas.<\/p>\n<p> N&atilde;o pude deixar de estremecer diante das revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de miss Jane sobre o futuro do meu pa&iacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Que tristeza, miss Jane! exclamei compungido. Pois vai dar-se isso<br \/>\n    ent&atilde;o? &#8212; N&atilde;o vejo motivos para a sua tristeza, respondeu<br \/>\n    ela. Acho at&eacute; que a divis&atilde;o do pa&iacute;s constitui uma solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    otima, a melhor poss&iacute;vel, dado o erro inicial da mistura das ra&ccedil;as.<br \/>\n    A parte quente ficou a sofrer o erro e suas consequencias; mas a parte temperada<br \/>\n    salvou-se e pode seguir o caminho certo. A sua tristeza vem da ilus&atilde;o<br \/>\n    territorial.<\/p>\n<p> Mas reflita que a muita terra n&atilde;o &eacute; que faz a grandeza de<br \/>\n    um povo e sim a qualidade dos seus habitantes. O Brasil temperado, al&eacute;m<br \/>\n    disso, continuou a ser um dos grandes paises do mundo em territorio, visto<br \/>\n    como fundia no mesmo bloco a Argentina, o Uruguai e o Paraguai.<\/p>\n<p> Enchi-me de orgulho patriotico e sem querer levantei-me da cadeira com um<br \/>\n    hurrah entalado na garganta.<\/p>\n<p> &#8212; Vencemos a Argentina, ent&atilde;o? Conquistamos todo o Prata? &#8212;<br \/>\n    Errou desta vez, senhor Ayrton. N&atilde;o houve guerra, nem conquista de<br \/>\n    qualquer especie. Os povos deste sul abriram os olhos a tempo, viram que a<br \/>\n    espinha dorsal da zona era o rio Paran&aacute; e foram-se arrumando ao longo<br \/>\n    das suas quedas como costelas, formando um todo unico, mais ligados pelos<br \/>\n    interesses economicos e geograficos do que por vinculas de sangue.<\/p>\n<p> &#8212; Mas a velha rivalidade entre brasileiros e argentinos? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    passava de uma ingenua voz de sangue. Brasileiros e argentinos, descendentes<br \/>\n    de lusos e espanhois, encampavam sem o saber o velho antagonismo que sempre<br \/>\n    dividiu a pen&iacute;nsula iberica.<\/p>\n<p> Mas tantas ondas de sangue novo despejou c&aacute; a imigra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que o elemento inicial luso-espanhol foi suplantado e n&atilde;o teve for&ccedil;as<br \/>\n    para perpetuar a ingenua rivalidade hereditaria &#8212; Mas por que dividiram<br \/>\n    o Brasil? perguntei ainda mal consolado. Era s&oacute; povoar o norte da mesma<br \/>\n    maneira que o sul. . .<\/p>\n<p> &#8212; Um pa&iacute;s n&atilde;o &eacute; povoado como se quer, senhor<br \/>\n    Ayrton, ou como apraz aos idealistas. Um pa&iacute;s povoa-se como pode. No<br \/>\n    nosso caso foi o clima que estabeleceu a separa&ccedil;&atilde;o. Dos europeus<br \/>\n    s&oacute; os portugueses se aclimavam na zona quente, onde, gra&ccedil;as<br \/>\n    &aacute;s afinidades com o negro, continuaram o velho processo de mesti&ccedil;amento,<br \/>\n    acabando por formar um povo de mentalidade incompat&iacute;vel com a do sul.<\/p>\n<p> Mas voltemos &aacute; America do Norte. O nosso caso &eacute; o americano.<br \/>\n    Mais tarde revelarei ao senhor Ayrton o que se passou no Brasil e como surgiu<br \/>\n    a grande Republica do Paran&aacute;. Estavamos na solu&ccedil;&atilde;o branca,<br \/>\n    e direi que todos os brancos americanos s&oacute; queriam uma coisa: exportar,<br \/>\n    despejar os cem milh&otilde;es de negros americanos no vale do Amazonas. Isso,<br \/>\n    entretanto, constituia uma empresa formidavel ou, melhor, impraticavel, n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; em virtude de tremendas dificuldades materiais como por ferir de<br \/>\n    face a Constitui&ccedil;&atilde;o Americana. O pacto fundamental do grande<br \/>\n    povo era profundamente sabio, t&atilde;o sabio que conseguira elevar a antiga<br \/>\n    colonia inglesa &aacute; lideran&ccedil;a universal e, pois, gozava de um<br \/>\n    respeito na verdade supersticioso. Essa carta impedia uma duplicidade de tratamento<br \/>\n    para cidad&atilde;os iguais entre si perante a sua serena majestade de lei<br \/>\n    substantiva.<\/p>\n<p> J&aacute; os negros se batiam por uma solu&ccedil;&atilde;o muito mais viavel<br \/>\n    e justa.<\/p>\n<p> Queriam a divis&atilde;o do pa&iacute;s em duas partes, o sul para os negros<br \/>\n    e o norte para os brancos. Alegavam que era a America tanto de uma ra&ccedil;a<br \/>\n    como de outra, visto como saira do esfor&ccedil;o de ambas; e j&aacute; que<br \/>\n    n&atilde;o podiam gozar juntas da obra feita em comum, o razoavel seria dividir-se<br \/>\n    o territorio em dois peda&ccedil;os. Mas como os brancos preferiam continuar<br \/>\n    no status-quo a resolver o caso por esse processo, o problema racial permanecia<br \/>\n    de p&eacute;, cada vez mais amea&ccedil;ador.<\/p>\n<p> Dez anos antes come&ccedil;ara a aparecer na cena americana um vulto de<br \/>\n    excepcional envergadura: Jim Roy, o negro de genio. Tinha a figura atletica<br \/>\n    do senegal&ecirc;s dos nossos tempos, apesar da modifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    craniana sofrida por influencia do meio. Tal modifica&ccedil;&atilde;o o aproximava<br \/>\n    do tipo dos antigos aborigines encontrados por Colombo. Era esse, ali&aacute;s,<br \/>\n    o tipo predominante no pa&iacute;s inteiro, e cada vez mais acentuado depois<br \/>\n    que a interrup&ccedil;&atilde;o da corrente imigratoria permitiu um evoluir<br \/>\n    etnico n&atilde;o perturbado por inje&ccedil;&otilde;es estranhas. At&eacute;<br \/>\n    na tez levemente acobreada come&ccedil;ava a transparecer nos americanos a<br \/>\n    misteriosa influencia do ambiente geografico.<\/p>\n<p> &#8212; Engra&ccedil;ado! Quer dizer que com o tempo todos iam virando indios&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o quer dizem bem isso, e sim que se aproximavam um pouco<br \/>\n    do tipo amerindio, no que pude observar. Talvez que dentro de vinte ou trinta<br \/>\n    mil anos a sua hipotese esteja realizada.<\/p>\n<p> Infelizmente o aparelho que meu pai construiu n&atilde;o ia al&eacute;m<br \/>\n    do ano 3257.<\/p>\n<p> Em Jim Roy a sua semelhan&ccedil;a com um mesti&ccedil;o de senegal&ecirc;s<br \/>\n    e pelevermelha (coisa imposs&iacute;vel, pois de ha muito j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    existia um s&oacute; indio na America) acentuava-se pela c&ocirc;r da pele,<br \/>\n    nada relembrativa da c&ocirc;r classica dos pretos de hoje.<\/p>\n<p> &#8212; Influencia do meio? &#8212; N&atilde;o. N&atilde;o foi isso milagre<br \/>\n    da influencia do meio, nem era coisa singular, privativa de Jim Roy. Quasi<br \/>\n    toda a popula&ccedil;&atilde;o negra da America apresentava pele igual &aacute;<br \/>\n    sua. A ciencia havia resolvido o caso de c&ocirc;r pela destrui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pigmento. De modo que se Jim Roy aparecesse diante de n&oacute;s hoje,<br \/>\n    surpreenderia da maneira mais desconcertante, visto como esse negro de ra&ccedil;a<br \/>\n    pur&iacute;ssima, sem uma s&oacute; gota de sangue branco nas veias, era,<br \/>\n    apesar de ter o cabelo carapinha, horrivelmente esbranqui&ccedil;ado.<\/p>\n<p> &#8212; Albino? &#8212; N&atilde;o albino. Esbranqui&ccedil;ado &#8212;<br \/>\n    um pouco desse tom duvidoso das mulatas de hoje que borram a cara de creme<br \/>\n    e p&oacute; de arroz&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Barata descascada, sei.<\/p>\n<p> &#8212; Mas nem eliminando com os recursos da ciencia o caracteristico essencial<br \/>\n    da ra&ccedil;a deixavam os negros de ser negros na America. Antes agravavam<br \/>\n    a sua situa&ccedil;&atilde;o social, porque os brancos, orgulhosos da pureza<br \/>\n    etnica e do privilegio da c&ocirc;r branca ingenita, n&atilde;o lhes podiam<br \/>\n    perdoar aquela camouflage da despigmenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Era Jim Roy na realidade um homem de imenso valor. Nascera fadado a altos<br \/>\n    destinos, com a marca dos condutores de povos impressa em todas as facetas<br \/>\n    da sua individualidade. Como organizador e menear talvez superasse os mais<br \/>\n    famosos organizadores surgidos entre os brancos. A historia da humanidade<br \/>\n    poucos exemplos apresentava de uma eficiencia igual &aacute; sua. Consagrara-se<br \/>\n    desde muito jovem &aacute; execu&ccedil;&atilde;o dum plano de genio, tra&ccedil;ado<br \/>\n    nas linhas mestras com a mais perfeita compreens&atilde;o do material humano<br \/>\n    sobre que pretendia agir.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; me lembrando o velho Mois&eacute;s&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Jim Roy conseguira o milagre da associa&ccedil;&atilde;o integral<br \/>\n    da popula&ccedil;&atilde;o negra sob a bandeira dum partido pol&iacute;tico<br \/>\n    cujas for&ccedil;as, coletadas por extensa cadeia de agentes distritais, vinham,<br \/>\n    como fios telefonicos, ter &aacute; esta&ccedil;&atilde;o central da sua chefia<br \/>\n    suprema. Sempre sabias e construtoras, suas instru&ccedil;&otilde;es desciam<br \/>\n    com autoridade de dogmas sobre todas as celulas da Associa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Negra (era o nome do partido) e as fazia moverem-se como puros automatos.<br \/>\n    Esta abdica&ccedil;&atilde;o, ou melhor, esta sujei&ccedil;&atilde;o consciente<br \/>\n    e consentida de todas as vontades a uma vontade unica aperfei&ccedil;oara-se<br \/>\n    de tal modo que no ano da tragedia a situa&ccedil;&atilde;o politica dos Estados<br \/>\n    Unidos passou de fato a depender do lider negro.<\/p>\n<p> &#8212; Passou a depender dele como? Pois n&atilde;o eram os negros apenas<br \/>\n    cem para duzentos milh&otilde;es de brancos? &#8212; N&atilde;o se impaciente,<br \/>\n    senhor Ayrton. Temos que ir por partes.<\/p>\n<p> Disse eu que a situa&ccedil;&atilde;o politica da America passou a depender<br \/>\n    de Jim Roy e foi fato. Mas antes de l&aacute; chegarmos temos que fazer um<br \/>\n    rodeio politico. Gosta de politica, senhor Ayrton? &#8212; Nem eleitor sou,<br \/>\n    miss Jane.<\/p>\n<p> &#8212; E da politica feminina? &#8212; Essa desconhe&ccedil;o. Suponho,<br \/>\n    entretanto, que ha de ser mais felina que a dos homens&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"12\">CAPITULO XII &#8211; A Simbiose Desmascarada<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Mais felina, sim, e muito mais pitoresca, prosseguiu miss Jane. N&atilde;o<br \/>\n    imagina o senhor Ayrton como o cerebro da mulher &eacute; rico de estratagemas,<br \/>\n    e com que ardor conduzem elas uma campanha politica. Vinha da&iacute; que<br \/>\n    o proximo pleito se desenhava renhidissimo.<\/p>\n<p> Ia a republica dos Estados Unidos eleger dentro de poucos dias o seu 88.&deg;<br \/>\n    presidente, proporcionando assim a um mundo perturbado por sucessivas mudan&ccedil;as<br \/>\n    de forma politica um exemplo de fixidez na forma inicial s&oacute; comparavel<br \/>\n    ao passado monarquico da Inglaterra. Os velhos partidos Democratico e Republicano<br \/>\n    haviam-se fundido num forte bloco sob a denomina&ccedil;&atilde;o de Partido<br \/>\n    Masculino. Mesmo assim n&atilde;o se via seguro da vitoria, porque o partido<br \/>\n    contrario, o Feminino, dispunha de maior numero de vozes. Estava pois em jogo<br \/>\n    o prestigio pol&iacute;tico do homem, batido pelo da mulher em todos os campos<br \/>\n    de atividade e a defender agora o seu ultimo reduto &#8212; a presidencia<br \/>\n    da republica. At&eacute; ent&atilde;o nenhuma mulher conseguira alcan&ccedil;ar<br \/>\n    ao posto supremo, embora no pleito anterior miss Evelyn Astor houvesse perdido<br \/>\n    por insignificante minoria.<\/p>\n<p> &#8212; Quem era essa bicha? Alguma chefa do partido feminino? &#8212; Sim,<br \/>\n    uma chefa que insistia na sua candidatura, e agora com mais probabilidade<br \/>\n    de vitoria, visto como era poss&iacute;vel que o grande l&iacute;der negro<br \/>\n    se deixasse levar pela sedu&ccedil;&atilde;o dos seus argumentos e desse apoio<br \/>\n    ao Partido Feminino.<\/p>\n<p> Do outro lado o senhor Kerlog, presidente em exerc&iacute;cio e candidato<br \/>\n    &aacute; reelei&ccedil;&atilde;o, s&oacute; via possibilidade de exito se<br \/>\n    obtivesse o concurso de Jim, como sucedera no pleito anterior.<\/p>\n<p> As melhores estat&iacute;sticas davam ao Partido Masculino 51 milh&otilde;es<br \/>\n    de vozes, ao Partido Feminino 51 e meio e &aacute; Associa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Negra, contados os votantes de ambos os sexos, 54 milh&otilde;es. A proxima<br \/>\n    elei&ccedil;&atilde;o dependeria pois exclusivamente da atitude do grande<br \/>\n    negro.<\/p>\n<p> &#8212; Miss Evelyn Astor! exclamei. Lindo nome. J&aacute; me estou simpatizando<br \/>\n    por essa criatura, que talvez esteja no meu proprio calcanhar. Havia de ser<br \/>\n    linda, n&atilde;o? &#8212; De fato, nessa criatura habilissima, rica de todos<br \/>\n    os dotes da inteligencia, da cultura e da maquiavelica sagacidade feminina,<br \/>\n    se juntava um elemento perturbador, novo no jogo pol&iacute;tico presidencial:<br \/>\n    a sua rara beleza fisica.<\/p>\n<p> Embora, gra&ccedil;as &aacute; vitoria da eugenia, fosse regra a beleza,<br \/>\n    em vez de exce&ccedil;&atilde;o como hoje, mesmo assim a formosura de miss<br \/>\n    Evelyn Astor se destacava de modo obsedante. Ninguem a defrontava sem sentir-se<br \/>\n    envolvido por uma aura de harmonia transfeita em for&ccedil;a de domina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Em todas as epocas as mulheres dotadas de beleza sempre dominaram, atr&aacute;s<br \/>\n    dos tronos como favoritas, na sociedade como cortes&atilde;s, no lar como<br \/>\n    boas deusas humanas, mas sempre por intermedio do homem &#8212; o despota,<br \/>\n    o amante, o marido, detentores em sua qualidade de machos de todas as prerrogativas<br \/>\n    sociais. No futuro a domina&ccedil;&atilde;o da beleza feminina n&atilde;o<br \/>\n    se far&aacute; mais por intermedio do macho. &Eacute;ra da Harmonia, a beleza<br \/>\n    se tornar&aacute; uma for&ccedil;a pura, como pura express&atilde;o que &eacute;<br \/>\n    da harmonia.<\/p>\n<p> Nesse ano de 2228 j&aacute; a mulher vencera o seu estagio de inferioridade<br \/>\n    pol&iacute;tica e cultural, consequencia menos duma pretensa inferioridade<br \/>\n    do cerebro, como dizia miss Elvin&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Miss Elvin? &#8212; Espere. Menos de uma pretensa inferioridade<br \/>\n    de cerebro do que de uma organiza&ccedil;&atilde;o cerebral diversa da do<br \/>\n    homem e, portanto, inapta a produzir o mesmo rendimento quando submetida ao<br \/>\n    mesmo regime de educa&ccedil;&atilde;o. Mis Elvin&#8230; Como est&aacute; assanhado<br \/>\n    o senhor Ayrton! N&atilde;o se contentou com a mulher futura que j&aacute;<br \/>\n    lhe dei, miss Astor, e quer outra? Que ilus&atilde;o a de miss Jane! Eu queria<br \/>\n    apenas, de todas as mulheres passadas, presentes e futuras, uma s&oacute;<br \/>\n    &#8212; a que me falava naquele momento, t&atilde;o alheia &aacute;s emo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    borbulhantes em meu cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Miss Elvin era a autoria de Simbiose Desmascarada, um livro que<br \/>\n    gra&ccedil;as &aacute; alegria do estilo e ao fulgor dos argumentos vinha<br \/>\n    causando verdadeira reviravolta no publico. A ideia central de miss Elvin<br \/>\n    cifrava-se em que a mulher n&atilde;o constitu&iacute;a a femea natural do<br \/>\n    homem, como a leoa o &eacute; do le&atilde;o, a galinha do galo, a delfina<br \/>\n    do delfim. A femea natural do homem ele a repudiara em epoca recuadissima<br \/>\n    &#8212; e tudo levava a crer na extin&ccedil;&atilde;o desse pobre animal.<\/p>\n<p> Repudiara-a e tomara para si, como os antigos romanos fizeram &aacute;s<br \/>\n    sabinas, a femea de um outro mam&iacute;fero de vagas semelhan&ccedil;as anatomicas<br \/>\n    com o Homo. Supunha miss Elvin que seriam anf&iacute;bios esses &quot;sabinos&quot;<br \/>\n    pre-historicos, assim romanamente despojados das suas femeas. E recreando<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o com um pouco de fantasia, chegou a descrever num<br \/>\n    segundo livro de igual sucesso o &quot;mas sacre dos sabinos&quot; quando,<br \/>\n    do seio das ondas acudiram &aacute;s praias em defesa das raptadas metades.<br \/>\n    Vinha da&iacute; o carater ondeante da mulher. &quot;She was false as water&quot;,<br \/>\n    j&aacute; o dissera Shakespeare.<\/p>\n<p> &#8212; Que topete! exclamei. Pelo que vejo as mulheres do futuro n&atilde;o<br \/>\n    beneficiaram grandemente os miolos com o remedio da eugenia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O senhor Ayrton est&aacute; um pouco passadista e corre muito depressa<br \/>\n    no Ford das suas conclus&otilde;es, respondeu miss Jane com doce ironia. Nada<br \/>\n    ha mais fecundo do que a ventila&ccedil;&atilde;o das ideias aceitas, do que<br \/>\n    o abalo violento em certas bases mentais. P&otilde;e-nas &aacute; prova e<br \/>\n    revelam-lhes alguma racha ou lacuna, se as ha. Com o seu exagero, miss Gloria<br \/>\n    Elvin n&atilde;o ressuscitou o sabino &#8212; mas quantas consequencias indiretas<br \/>\n    n&atilde;o brotaram da sua revolta! &#8212; Retiro o topete, miss Jane; continue.<\/p>\n<p> &#8212; Pois o Homo suplantou o mam&iacute;fero adverso e de posse da femea<br \/>\n    alheia veiu atrav&eacute;s das idades tentando um equil&iacute;brio sexual<br \/>\n    imposs&iacute;vel. A falsa femea, o ser estranho ligado a ele por simbiose,<br \/>\n    sempre resistiu ao seu dom&iacute;nio, apesar de um processo de domestica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    multi-milenar. Todas as formas de vida em comum, todos os modos de associa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sexual existentes na natureza foram tentados sem sucesso. O harem mu&ccedil;ulmano,<br \/>\n    a poligamia, a monogamia, a bigamia, a poliandria, o hetairismo, nada produzia<br \/>\n    bons resultados; e a mulher, por voz unanime dos poetas e pensadores, se viu<br \/>\n    classificada como um ser incompreens&iacute;vel.<\/p>\n<p> Miss Elvin desvendou o misterio. N&atilde;o era um ser incompreensivel.<\/p>\n<p> Era apenas diferente.<\/p>\n<p> Mais fraca em for&ccedil;a f&iacute;sica e, portanto, escravizavel, a sabina<br \/>\n    defendeu-se da tirania do raptor com o manejo de uma arma perigosissima, a<br \/>\n    dissimula&ccedil;&atilde;o &#8212; reflexo ainda do carater ondeante do seu<br \/>\n    elemento primitivo, o mar. Quando no mundo surgiu o feminismo, toda a gente<br \/>\n    sup&ocirc;s que a solu&ccedil;&atilde;o do problema da mulher estava em nivela-la<br \/>\n    ao homem pela cultura e igualdade de direitos.<\/p>\n<p> Erro cascudo, demonstrou miss Elvin. A cultura como a criara o homem n&atilde;o<br \/>\n    se adaptava ao cerebro da mulher, de funcionamento especialissimo e sempre<br \/>\n    influenciado por certas glandulas misteriosas.<\/p>\n<p> Falhou por isso o feminismo. De toda a sua agita&ccedil;&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    veio a resultar uma coisa; a feminista, a odiosa mulher-homem, que pensava<br \/>\n    com ideais de homem, usava colarinhos de homem, conseguindo com isso apenas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &#8230;n&atilde;o ser homem nem mulher, conclui eu, lembrando-me duma<br \/>\n    sufragista do meu conhecimento.<\/p>\n<p> &#8212; Perfeitamente. Os estudos de miss Elvin modificaram por completo<br \/>\n    os termos de equa&ccedil;&atilde;o sexual. Basta de simbiose, dizia ela; basta<br \/>\n    de vida em comum em troca de servi&ccedil;os rec&iacute;procos. A mulher passa<br \/>\n    doravante a viver vida autonoma; e se ainda permanece ao lado do &quot;gorila&quot;<br \/>\n    no antigo status-quo sexual, ser&aacute; a titulo provisorio apenas e em vista<br \/>\n    unicamente dos interesses proliferantes das especies respectivas. Porque miss<br \/>\n    Elvin n&atilde;o perdia a esperan&ccedil;a de promover o descobrimento e a<br \/>\n    ressurrei&ccedil;&atilde;o do sabino pre-historico&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Irra! exclamei com uma pontinha de despeito. Est&aacute; a&iacute;:<br \/>\n    a coisa unica que o homem jamais previu: o surto de uma especie rival! &#8212;<br \/>\n    De fato. Os arrojos de miss Elvin punham calafrios na espinha do Homo. Ela<br \/>\n    tirava todas as consequencias logicas da sua teoria, chegando ao extremo de<br \/>\n    pregar guerra de morte contra o &quot;insolente raptor&quot;.<\/p>\n<p> Miss Astor era elvinista e, pois, a sua candidatura &aacute; presidencia<br \/>\n    inquietava de modo duplo o Partido Masculino. Sua vitoria coroaria o movimento<br \/>\n    feminino com a unica san&ccedil;&atilde;o que lhe faltava, a do poder; seria,<br \/>\n    se n&atilde;o o crepusculo do dominio dos homens (j&aacute; de bases corroidas<br \/>\n    pelas vitorias parciais da mulher), pelo menos uma humilhante diminui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O problema americano se complicava assim da mais imprevista maneira. Alem<br \/>\n    do aspecto etnico &#8212; o inevitavel choque da ra&ccedil;a branca com a<br \/>\n    negra, &#8212; surgira o aspecto, como direi? especial, isto &eacute;, o conflito<br \/>\n    das duas especies de mam&iacute;feros &#8212; Homo e Sabinas &#8212; cuja<br \/>\n    simbiose f&ocirc;ra denunciada.<\/p>\n<p> O lider masculino, o Presidente Kerlog, tinha esperan&ccedil;as de um acordo<br \/>\n    com Jim Roy. Jim era homem e havia de inclinar-se para a fac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu sexo. Com miss Evelyn Astor &eacute; que n&atilde;o enxergava possibilidades<br \/>\n    de entendimento. Tivera com a formosa antagonista uma conferencia, mas a sua<br \/>\n    impress&atilde;o, resumida em poucas palavras na presen&ccedil;a do ministerio,<br \/>\n    f&ocirc;ra inquietante.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;N&atilde;o nos entendemos, declarou ele. As palavras que n&oacute;s<br \/>\n    homens usamos t&ecirc;m na boca de miss Astor um sentido diverso. Em certo<br \/>\n    ponto tive a sensa&ccedil;&atilde;o de que estavamos eu a falar ingl&ecirc;s<br \/>\n    e ela a responder-me em hebraico, lingua que positivamente desconhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> Estou quasi convencido de que nasceu nas mulheres alguma glandula nova&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Ou perderam alguma glandula velha&quot;, rosnou da sua poltrona<br \/>\n    Berald Shaw, o pachorrento ministro da Equidade.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">CAPITULO XIII &#8211; Pol&iacute;tica de 2228<\/a><\/h4>\n<p>Nessa mesma reuni&atilde;o ministerial, prosseguiu miss Jane, o Presidente<br \/>\n    Kerlog teve palavras de fazer refletir os ouvintes.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;O nosso predom&iacute;nio vejo-o amea&ccedil;ado, se n&atilde;o<br \/>\n    de ru&iacute;na, pelo menos de fundas transforma&ccedil;&otilde;es. Avoluma-se<br \/>\n    a onda negra &#8212; e a ela resistiriamos se a cis&atilde;o elvinista n&atilde;o<br \/>\n    viesse enfraquecer o nosso peso pol&iacute;tico. Mas o eleitorado branco est&aacute;<br \/>\n    cindido, e agora mais que nunca vai funcionar a massa negra como o fiel da<br \/>\n    balan&ccedil;a dos destinos da America. Venceremos, pois o concurso de Roy,<br \/>\n    embora negaceado para nos extorquir concess&otilde;es, vir&aacute; infalivelmente<br \/>\n    &aacute; ultima hora.<\/p>\n<p> Imagino com que horror n&atilde;o ver&aacute; ele os progressos do sabinismo!<br \/>\n    Mas havemos de confessar que &eacute; precaria a situa&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    nosso partido, com a vida assim dependente da boa vontade de um manhoso lider<br \/>\n    negro&#8230;&quot; &#8212; Que concess&otilde;es queria Jim Roy? perguntei.<\/p>\n<p> &#8212; Essa mesma pergunta fez ao senhor Kerlog o ministro da Sele&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Artificial. &quot;Quer, respondeu o presidente, uma entente no terreno seletivo.<br \/>\n    Insiste na atenua&ccedil;&atilde;o da lei Owen.&quot; Os rigores desta lei<br \/>\n    tinham-se agravado no ano anterior, com o fim muito claro de fazer cair o<br \/>\n    &iacute;ndice do crescimento negro. Isso contrariava a pol&iacute;tica racial<br \/>\n    de Jim Roy, toda resumida em favorecer a expans&atilde;o do seu povo at&eacute;<br \/>\n    o ponto que lhe permitisse for&ccedil;ar o branco &aacute; divis&atilde;o<br \/>\n    do pa&iacute;s.<\/p>\n<p> Por coisa nenhuma queriam os brancos transigir no terreno restritivo da<br \/>\n    Lei Owen &#8212; seria um suic&iacute;dio. Mas a situa&ccedil;&atilde;o metera<br \/>\n    a pol&iacute;tica naquele buraco: ou ceder &aacute;s exigencias de Jim Roy<br \/>\n    ou assistir &aacute; vitoria das mam&iacute;feras rebeldes.<\/p>\n<p> Quando o presidente terminou a sua exposi&ccedil;&atilde;o calaram-se os<br \/>\n    ministros por algum tempo, de queixo preso. Qualquer das hipoteses n&atilde;o<br \/>\n    agradava ao macho branco. Mas como a sabedoria pragmatica consiste cm acudir<br \/>\n    primeiro ao perigo mais proximo, foi acordado ceder &aacute;s exigencias do<br \/>\n    lider negro.<\/p>\n<p> Os ministros retiraram-se dessa reuni&atilde;o de tal modo apreensivos que<br \/>\n    n&atilde;o viram, no quadro onde se estampavam de minuto em minuto as comunica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos agentes do governo, um radio que naquele momento acabava de inscrever-se<br \/>\n    em letras luminosas: Miss Astor est&aacute; em conferencia com Jim Roy.<\/p>\n<p> O Presidente Kerlog fixou os olhos no quadro informativo e permaneceu uns<br \/>\n    instantes a morder uma espatula de vidro flex&iacute;vel como a&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;N&atilde;o a entendi&quot;, murmurou, &quot;n&atilde;o nos<br \/>\n    entendemos em nossa conferencia. Mas com Jim vai ela falar a velha linguagem<br \/>\n    intelig&iacute;vel&#8230;&quot; Mordiscou ainda por algum tempo a espatula. Depois<br \/>\n    ergueu-se, risonho.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Mas n&atilde;o vencer&aacute; o orgulho sexual de Roy! Jim<br \/>\n    Roy &eacute; homem e v&ecirc; como eu o perigo da vitoria sabina&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8212; Que curioso devia ter sido esse encontro de miss Astor com Jim Roy,<br \/>\n    dois seres t&atilde;o distantes! disse eu.<\/p>\n<p> &#8212; Realmente, concordou miss Jane. O ve-los um defronte do outro no<br \/>\n    gabinete de trabalho da grande elvinista lembrava acarea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de gar&ccedil;a do Amazonas com raposa branquicenta da Siberia. Eram dois<br \/>\n    seres sem a menor aproxima&ccedil;&atilde;o de aparencias externas, formando<br \/>\n    um quadro proprio como nenhum outro para ilustrar a teoria de miss Elvin.<br \/>\n    Parecia at&eacute; inconceb&iacute;vel que por tanto tempo fossem as duas<br \/>\n    criaturas classificadas na mesma especie pela ciencia macha. A radiosa beleza<br \/>\n    da Sabina mutans (assim a zoologia de miss Elvin classificava a ex-femea do<br \/>\n    Homo sapiens) iradiava um verdadeiro halo de fasc&iacute;nio. Criatura nenhuma<br \/>\n    envolvida por essa aura conseguia libertarse dos seus amavios magnetizadores.<br \/>\n    Miss Astor, se falava, n&atilde;o era por necessidade de falar, porque convencia<br \/>\n    pela presen&ccedil;a. Mas achava-se naquele momento em face do talvez unico<br \/>\n    representante da especie antagonista imunizado contra a a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    catalizadora da beleza. Jim Roy valia pelo s&iacute;mbolo da for&ccedil;a.<br \/>\n    A ra&ccedil;a espezinhada confluira-se toda nele, transformando-o num feixe<br \/>\n    de energias indomaveis. Em toda a sua vida publica jamais esse negro dera<br \/>\n    um s&oacute; passo ou pronunciara uma s&oacute; palavra que se n&atilde;o<br \/>\n    norteasse pela grande ideia que trazia embutida no cerebro. N&atilde;o era<br \/>\n    um indiv&iacute;duo, Jim. Era a propria ra&ccedil;a negra por um milagre de<br \/>\n    compress&atilde;o posta inteira dentro de um homem.<\/p>\n<p> Miss Astor o sentiu imediatamente. Percebeu que tinha diante de si uma for&ccedil;a<br \/>\n    insubornavel e inseduzivel. E, compreendendo o inutil dos volteios de onda<br \/>\n    em torno de rocha t&atilde;o dura, abordou de frente o assunto.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;O choque das ra&ccedil;as vai dar-se, disse ela. Precipita-se.<br \/>\n    Ser&aacute; um conflito tremendo, mas s&oacute; no caso de estar no poder<br \/>\n    o homem branco, criador do odio ao negro. Tudo mudar&aacute;, se em vez desse<br \/>\n    implacavel inimigo comum estivermos no poder n&oacute;s mulheres&quot;. Jim<br \/>\n    Roy franziu os sobrolhos.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Inimigo comum, sim, prosseguiu miss Astor. Ambas somos suas<br \/>\n    escravas; mas se a escraviza&ccedil;&atilde;o dos teus, Jim, data de seculos,<br \/>\n    a nossa data de milenios. Caso o poder supremo venha ter &aacute;s m&atilde;os<br \/>\n    da mulher, o choque se atenuar&aacute;, porque saberemos ser conciliantes,<br \/>\n    e haver&aacute; enorme economia de sofrimento futuro, se operar-se sem demora<br \/>\n    a alian&ccedil;a pol&iacute;tica do elvinismo com o elemento negro. Acresce<br \/>\n    uma circunstancia: os negros s&atilde;o conhecedores dos processos do macho<br \/>\n    branco e sabem muito bem o que dele podem esperar. Mas desconhecem os processos<br \/>\n    femininos; dada a contradi&ccedil;&atilde;o de ideias e sentimentos que hoje<br \/>\n    afasta as sabinas do gorila evolu&iacute;do, s&oacute; t&ecirc;m vantagens<br \/>\n    a esperar da vitoria elvinista&quot;.<\/p>\n<p> E foi por a&iacute; al&eacute;m miss Astor. Mostrou-se palavrosa e abundante,<br \/>\n    visto que sentia falhar ante a firmeza do grande l&iacute;der negro o prestigio<br \/>\n    da sua &quot;a&ccedil;&atilde;o de presen&ccedil;a&quot;.<\/p>\n<p> Jim Roy ouviu-a com serena impassibilidade, sem que um sorriso ou ruga de<br \/>\n    apreens&atilde;o lhe quebrasse a calma das fei&ccedil;&otilde;es, e ao responder<br \/>\n    limitou-se a promessas ondeantes, fechado em formulas vagas e de duplo sentido.<\/p>\n<p> Finda a conferencia miss Astor permaneceu imovel na sua poltrona, a refletir.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Como este diabo assimilou bem a lingua da velha diplomacia,<br \/>\n    a lingua que parecendo dizer alguma coisa n&atilde;o dizia nada!&quot; E quando<br \/>\n    naquele mesmo gabinete se reuniram suas amigas e colaboradoras, ansiosas por<br \/>\n    conhecerem os resultados da enterite com Jim Roy, foi com o olhar cismarento<br \/>\n    que miss Astor murmurou: &#8212; &quot;Qualquer coisa me diz que o lider negro<br \/>\n    incuba um plano secreto&#8230;&quot; &#8212; &quot;Contra quem?&quot; &#8212;<br \/>\n    &quot;Ignoro-o. Nada ha de deduzir das suas palavras, perfeitas palavras de<br \/>\n    diplomata. Mas o meu senso divinatorio n&atilde;o mente, Jim vai trair&#8230;&quot;\n  <\/p>\n<h4><a name=\"14\">CAPITULO XIV &#8211; Efici&ecirc;ncia e Eugenia<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; O aspecto da vida americana, continuou miss Jane, mudara muito por<br \/>\n    efeito das inven&ccedil;&otilde;es e de um grande principio peculiar ao yankee.<\/p>\n<p> Quem olhasse de um ponto elevado o panorama historico dos povos, veria,<br \/>\n    na Fran&ccedil;a, uma flamula com tres palavras; na Inglaterra, um principio<br \/>\n    diretor, Tradi&ccedil;&atilde;o; na Alemanha, uma formula, Organiza&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    na Asia, um sentimento, Fatalismo. Mas ao voltar os olhos para a America perceberia<br \/>\n    fluidificado no ambiente um principio novo &#8212; Eficiencia.<\/p>\n<p> S&oacute; a America encontrara o Sesamo que abre todas as portas. S&oacute;<br \/>\n    a America, portanto, era A&ccedil;&atilde;o num mundo a insistir em caminhos<br \/>\n    errados e sempre a oscilar entre dois polos &#8212; Agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Esteril e Marasmo Fatalista.<\/p>\n<p> O principio da Eficiencia resolvera todos os problemas materiais dos americanos,<br \/>\n    como o eugenismo resolvera todos os seus problemas morais. Na operosidade<br \/>\n    e uniformidade do tipo, aquele povo lembrava a colmeia das abelhas. Quasi<br \/>\n    n&atilde;o havia distinguir um indiv&iacute;duo de outro, pois tomar um homem<br \/>\n    ao acaso era ter nas m&atilde;os uma poderosa unidade de eficiencia dentro<br \/>\n    de um admiravel tipo de ariano peleavermelhado.<\/p>\n<p> As mulheres n&atilde;o mais evocavam fisicamente as suas av&oacute;s, magras<br \/>\n    umas, outras gordas, esta toda nadegas, aquela uma tabua ou de normes seios<br \/>\n    e dentes de cavalo &#8212; verdadeira cole&ccedil;&atilde;o de monstruosidades<br \/>\n    anatomicas. Nem recordavam socialmente as pobres cativas de dantes, for&ccedil;adas<br \/>\n    a girar no triangulo de ferro &#8212; casamento, celibato &aacute; for&ccedil;a<br \/>\n    ou promiscuidade.<\/p>\n<p> Finas sem magreza, ageis sem macaquice, treinadas de musculos por meio de<br \/>\n    sabios esportes, conseguiram alcan&ccedil;ar a beleza nervosa das eguas puro-sangue<br \/>\n    &#8212; o que trouxe a decadencia do hipismo. J&aacute; n&atilde;o necessitavam<br \/>\n    os homens de dedicar-se aos cavalos para satisfa&ccedil;&atilde;o da ansia<br \/>\n    secreta da beleza perfeita&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que pena ter-se perdido o porviroscopio do professor Benson! exclamei.<br \/>\n    O que eu n&atilde;o daria para uma espiadela nesse maravilhoso futuro!&#8230;<br \/>\n    Lindas, ent&atilde;o, assim? perguntei levemente assanhado.<\/p>\n<p> &#8212; E habeis, respondeu miss Jane. Competiam com o homem em todas as<br \/>\n    profiss&otilde;es num absoluto p&eacute; de igualdade, realizando o velho<br \/>\n    ideal da independencia. Os filhos lhes pertenciam e n&atilde;o ao progenitor,<br \/>\n    sistema matriarcal muito mais dentro da natureza, visto como o filho &eacute;<br \/>\n    mais da m&atilde;e do que do pai na propor&ccedil;&atilde;o de nove meses<br \/>\n    para meio minuto.<\/p>\n<p> Tossi uma tossezinha de encomenda; miss Jane n&atilde;o o percebeu e continuou:<br \/>\n    &#8212; O caracteristico mais frisante dessa epoca, toda via, estava na organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do trabalho. Todos produziam. Muito cedo chegou o americano &aacute; conclus&atilde;o<br \/>\n    de que os males do mundo vinham de tres pesos mortos que sobrecarregavam a<br \/>\n    sociedade &#8212; o vadio, o doente e o pobre. Em vez de combater esses pesos<br \/>\n    mortos por meio do castigo, do remedio e da esmola, como se faz hoje, adotou<br \/>\n    solu&ccedil;&atilde;o muito mais inteligente: suprimi-los. A eugenia deu cabo<br \/>\n    do primeiro, a higiene do segundo e a eficiencia do ultimo. Aliviada da carga<br \/>\n    inutil que tanto a embara&ccedil;ava e afeava, p&ocirc;de a America aproximar-se<br \/>\n    de um tipo de associa&ccedil;&atilde;o j&aacute; existente na natureza, a<br \/>\n    colmeia &#8212; mas a colmeia da abelha que raciocina.<\/p>\n<p> &#8212; Que maravilha! exclamei pesaroso de ter vindo ao mundo cedo demais.<br \/>\n    E o governo, miss Jane? Deixou de ser essa calamidade que &eacute; hoje? &#8212;<br \/>\n    Os princ&iacute;pios da eficiencia tambem haviam penetrado no organismo governamental.<br \/>\n    Deixou o governo de sugerir a lembran&ccedil;a dos hediondos &quot;sistemas<br \/>\n    de parasitismo&quot; de outrora e de hoje, como a realeza de Fran&ccedil;a<br \/>\n    ou o devorismo or&ccedil;amentario de certas republicas nossas conhecidas,<br \/>\n    onde fazer parte do estado &eacute; conquistar o direito &aacute; ina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da piolheira vitalicia &#8212; dormir, apodrecer na sonolencia da burocracia<br \/>\n    que n&atilde;o espera, n&atilde;o deseja, n&atilde;o quer, n&atilde;o age<br \/>\n    &#8212; suga apenas. Tudo isso desapareceu, todas essas baixas formas de parasitismo.<br \/>\n    Tornou-se o estado americano uma organiza&ccedil;&atilde;o em coisa nenhuma<br \/>\n    diversa das organiza&ccedil;&otilde;es particulares. Apenas maior e com fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    privativamente suas.<\/p>\n<p> &#8212; Sempre sob o sistema representativo? &#8212; Sim. O sistema representativo<br \/>\n    persistiu. Mas s&oacute; eram eleitos homens cujo viver social os apontava<br \/>\n    como seres de escol pela for&ccedil;a e equilibrio do cerebro. N&atilde;o<br \/>\n    constitu&iacute;a uma situa&ccedil;&atilde;o sujeita a disputas, o ser deputado<br \/>\n    ou senador. Era uma contingencia. Os homens de elite viam-se colocados nesses<br \/>\n    postos naturalmente, como o melhor musico das orquestras sobe naturalmente<br \/>\n    &aacute; cadeira da regencia. O equilibrio mental tornou-se perfeito &#8212;<br \/>\n    mas apenas da parte dos homens. As mulheres, n&atilde;o obstante o levantamento<br \/>\n    f&iacute;sico e moral, permaneciam variaveis como no tempo de Francisco I.<\/p>\n<p> &#8212; Souvent femme varie&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim. Conquistaram a mais perfeita igualdade de direitos, mas ondeavam,<br \/>\n    arrastadas pelo vento das ideias. Trocaram o souvent do bom Francisco I pelo<br \/>\n    toujours de miss Elvin. Como a simplicidade dos trajes fizera desaparecer<br \/>\n    a hoje obsedante preocupa&ccedil;&atilde;o da moda, talvez em virtude do vinco<br \/>\n    mental elas mudaram a moda para o campo das ideias. O elvinismo, por exemplo,<br \/>\n    avassalou as mulheres americanas com a tirania do nosso cabelo &aacute; la<br \/>\n    gar&ccedil;onne. Excelentes m&atilde;es de fam&iacute;lia e otimas esposas<br \/>\n    batiam-se pelo &quot;sabino&quot; com inconsciencia de pasmar. Mas chegadas<br \/>\n    em casa despiam o cerebro da extravagancia e beijavam na testa o Homo que<br \/>\n    na rua vinham de condenar como &quot;infame raptor&quot;.<\/p>\n<p> O org&atilde;o de miss Elvin &#8212; Remember sabino! mantinha a exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos esp&iacute;ritos num constante estado de fervura.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda havia jornais nesse tempo? &#8212; Sim, mas jornais nada relembrativos<br \/>\n    dos de hoje. Eram radiados e impressos em caracteres luminosos num quadro<br \/>\n    mural existente em todas as casas.<\/p>\n<p> &#8212; E os cegos? &#8212; O cego ficou para tr&aacute;s, Cegueira, mudez,<br \/>\n    surdez, estupidez, tudo isso n&atilde;o passava de reminiscencias dum tempo<br \/>\n    de que os homens sorriam com piedade.<\/p>\n<p> O radio que temos hoje &eacute; um simples ponto de partida. Vale como valem<br \/>\n    para a eletricidade moderna as primeiras experiencias de Volta. Descobriram-se<br \/>\n    novas ondas, e o transporte da palavra, do som e da imagem, do perfume e das<br \/>\n    mais finas sensa&ccedil;&otilde;es tacteis, passou a ser feito por intermedio<br \/>\n    delas. A consequencia logica foi uma grande transforma&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    vida. Pelo sistema atual vai o homem para o servi&ccedil;o, para o teatro,<br \/>\n    para o concerto &#8212; um ir e vir que constitue um enorme desperd&iacute;cio<br \/>\n    de energia e &eacute; o criador dos milh&otilde;es de ve&iacute;culos atravancadores<br \/>\n    do espa&ccedil;o, bondes, autos, bicicletas, trens, avi&otilde;es e outros.<br \/>\n    Com a fecunda descoberta das ondas hertzianas e afins, e sua consequente escraviza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos interesses do homem, o ir e vir for&ccedil;ado se reduziu a escala minima.<br \/>\n    O servi&ccedil;o, o teatro, o concerto &eacute; que passaram a vir ao encontro<br \/>\n    do homem. Foi espantosa a transforma&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do mundo quando a maior parte das tarefas industriais e comerciais come&ccedil;ou<br \/>\n    a ser feita de longe pelo radio-transporte. Para dar uma ideia do que isso<br \/>\n    representava de economia de esfor&ccedil;o e tempo, basta vermos o que era<br \/>\n    o jornal de miss Elvin. Pelo sistema atual, o colaborador ou escreve em casa<br \/>\n    o seu topico ou vai escrevelo na reda&ccedil;&atilde;o; depois de escrito,<br \/>\n    passa-o ao compositor; este o comp&otilde;e passa-o ao formista, este o enforma<br \/>\n    e passa-o ao tirador de provas; esse tira as provas e manda-o ao revisor;<br \/>\n    este o rev&ecirc; e envia-o ao corretor; este faz as emendas e. . . e a coisa<br \/>\n    n&atilde;o acaba mais! &Ecirc; uma cadeia de incontaveis elos, isto dentro<br \/>\n    das oficinas, pois que o jornal na rua d&aacute; inicio &aacute; nova cadeia<br \/>\n    que desfecha no leitor &#8212; correio, agentes, entregadores, vendedores,<br \/>\n    o diabo.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; estive numa oficina de jornal e sei o que &eacute; isso.<br \/>\n    Puro inferno&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois toda esta complica&ccedil;&atilde;o desapareceu. Cada colaborador<br \/>\n    do Remember radiava de sua casa, numa certa hora, o seu artigo, e imediatamente<br \/>\n    suas ideias surgiam impressas em caracteres luminosos na casa dos assinantes.<\/p>\n<p> &#8212; Que maravilha!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim, n&atilde;o houve industria que como a do jornal n&atilde;o<br \/>\n    sofresse a influencia simplificadora do radio-transporte &#8212; e isso tirou<br \/>\n    ao viver quotidiano a sua velha fei&ccedil;&atilde;o de atropelo e tumulto.<\/p>\n<p> As ruas tornaram-se amaveis, limpas e muito mansas de trafego.<\/p>\n<p> Por elas deslizavam ainda veiculos, mas raros, corno outrora nas velhas<br \/>\n    cidades provincianas de pouca vida comercial. O homem tomou gosto no andar<br \/>\n    a p&eacute; e perdeu os seus habitos antigos de pressa. Verificou que a pressa<br \/>\n    &eacute; indice apenas de uma organiza&ccedil;&atilde;o defeituosa e antinatural.<\/p>\n<p> A natureza n&atilde;o criou a pressa. Tudo nela &egrave; sossegado. Parece<br \/>\n    coisa muito evidente isto; no entanto foi a maior descoberta que fez o povo<br \/>\n    mais apressado do mundo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Realmente! exclamei, chocado pelo imprevisto daquele aspecto do<br \/>\n    futuro. Eu que por assim dizer moro na rua, s&oacute; com este quadro da rua<br \/>\n    futura j&aacute; me estou assombrando com o horror da rua moderna.<\/p>\n<p> E, no entanto, se miss Jane nada me revelasse continuaria a ter como muito<br \/>\n    natural o tumulto de hoje.<\/p>\n<p> &#8212; O habito n&atilde;o nos deixa ver os defeitos, e da&iacute; a vantagem<br \/>\n    de convuls&otilde;es como a de miss Elvin. O grande obstaculo ao progresso<br \/>\n    sempre foi o habito, a ideia feita, a pregui&ccedil;a de constante exame do<br \/>\n    unico problema material da vida &#8212; o do transporte.<\/p>\n<p> &#8212; Unico? &#8212; Sim, unico. Tudo &eacute; transporte na vida, senhor<br \/>\n    Ayrton, e o tumulto de hoje vem das imperfei&ccedil;&otilde;es dos nossos<br \/>\n    sistemas de transporte. Tudo &eacute; transporte! A minha voz transporta ideias<br \/>\n    do meu cerebro para o seu. Esse livro que o senhor tem nas m&atilde;os &eacute;<br \/>\n    um sistema de transporte de impress&otilde;es mentais. Que faz a firma S&aacute;,<br \/>\n    Pato &amp; Cia. sen&atilde;o transportar mercadorias de um lado para outro,<br \/>\n    com o fim ultimo de transportar para as burras dos socios o dinheiro dos clientes?<br \/>\n    E que &eacute; o dinheiro sen&atilde;o um maravilhoso e engenhosissimo meio<br \/>\n    de transporte? &#8212; For isso s&atilde;o as moedas redondas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Rodinhas&#8230; O homem deu o primeiro grande passo em materia de transporte<br \/>\n    com a inven&ccedil;&atilde;o da roda. Mas ficou nisso.<\/p>\n<p> Repare que a nossa civiliza&ccedil;&atilde;o industrial se cifra em desenvolver<br \/>\n    a roda e extrair dela todas as possibilidades. Daqui a seculos, quando for<br \/>\n    poss&iacute;vel ao homem uma ampla vis&atilde;o do seu panorama hist&oacute;rico,<br \/>\n    todo este per&iacute;odo que vem do albor da historia at&eacute; n&oacute;s<br \/>\n    e ainda vai prolongarse por muitas gera&ccedil;&otilde;es receber&aacute;<br \/>\n    o nome de Era da Roda. Mas do ano 2200 em diante come&ccedil;ar&aacute; o<br \/>\n    seu decl&iacute;nio e em 3000 e tantos estar&aacute; passada. Num corte anatomico<br \/>\n    dessa epoca vi certo museu nos arredores de Pittsburgh que muito me impressionou<br \/>\n    &#8212; o Museu da Roda. Dormiam nas vitrinas, como dormem hoje os machados<br \/>\n    de silex dos nossos av&oacute;s, as modalidades infinitas de rodas sobre as<br \/>\n    quais ainda gira hoje a civiliza&ccedil;&atilde;o, desde o rod&iacute;zio<br \/>\n    brutesco dos carros de boi at&eacute; a minima engrenagem dos relogios de<br \/>\n    pulso. O radio matar&aacute; a roda, concluiu miss Jane.<\/p>\n<p> Pus-me a refletir naquilo e a comparar a estreiteza do meu cerebro com a<br \/>\n    amplid&atilde;o do cerebro da filha do professor Benson.<\/p>\n<p> Quantas rodas tinha ele mais do que o meu! E como rodavam bem lubrificadas<br \/>\n    as rodinhas do cerebro de miss Jane, todas postas sobre mancais de bilhas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; De tudo quanto miss Jane acaba de expor concluo que a vida nos Estados<br \/>\n    Unidos passou a ser um c&eacute;u aberto, comentei eu.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o vou at&eacute; l&aacute;, contraveio ela. Havia uma pedra<br \/>\n    no sapato americano: o problema etnico. A permanencia no mesmo territorio<br \/>\n    de duas ra&ccedil;as dispares e infusiveis perturbava a felicidade nacional.<\/p>\n<p> Os atritos se faziam constantes e, embora n&atilde;o desfechassem como outrora<br \/>\n    nas violencias da Ku-Klux-Klan, constitu&iacute;am um permanente motivo de<br \/>\n    inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A ideia do expatriamento para o vale do Amazonas tinha um ponto fraco: s&oacute;<br \/>\n    podia ser voluntaria e o negro n&atilde;o se mostrava inclinado a trocar a<br \/>\n    cidadania americana por outra qualquer. O processo cientifico de embranquece-los<br \/>\n    aproximava-os dos brancos na c&ocirc;r, embora n&atilde;o lhes alterasse o<br \/>\n    sangue nem o encarapinhamento dos cabelos. O desencarapinhamento constitu&iacute;a<br \/>\n    o ideal da ra&ccedil;a negra, mas at&eacute; ali a ciencia lutara em v&atilde;o<br \/>\n    contra a fatalidade capilar. Se isso se d&eacute;sse, poderia o caso negro<br \/>\n    entrar por um caminho imprevisto, a perfeita camouflage do negro em branco,<br \/>\n    Tal saida, entretanto, era apenas um sonho dos imaginativos impenitentes.<br \/>\n    E como a reparti&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s em duas zonas n&atilde;o<br \/>\n    fosse forma aceita pelos brancos, iam os Estados Unidos entrar no seu 88.&deg;<br \/>\n    per&iacute;odo presidencial com o mesmo problema que trezentos e trinta e<br \/>\n    nove anos antes preocupara o grande George Washington.<\/p>\n<p> Enquanto miss Jane falava, naquele tom impessoal e frio de sabio a fazer<br \/>\n    conferencia publica, toda ela cerebro e cultas express&otilde;es na boca,<br \/>\n    eu, humano que sou, envolvia-a nos meus ternos olhares de carneiro amoroso,<br \/>\n    e essa minha excessiva aten&ccedil;&atilde;o &aacute; parte corporea da encantadora<br \/>\n    vidente me fez perder muita coisa interessante das suas revela&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Distraia-me, preso &aacute;quele lindo presente de olhos azues sempre a pairar<br \/>\n    pelas eras futuras. Quando, por exemplo, ela entrou a descrever o tipo dos<br \/>\n    negros descascados do ano 2228, confesso que perdi metade das suas observa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Achava-me no momento a namorar o mimoso lobulo da sua orelha esquerda, onde<br \/>\n    brincava um raio de sol. Esse fio de luz acendia-lhe em ouro a penugem fin&iacute;ssima<br \/>\n    e o tornava do roseo translucido de certos veios da agata. Perdi-me no gracioso<br \/>\n    pedacinho de carne, como a sua dona andava perdida em plena despigmenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seculo XXIII. A poesia falou em mim e uma imagem lirica entreabriu a pieguice<br \/>\n    das suas petalas. Lembrei-me do baiser de Rostand, point rose sur l&#8217;i du verbe<br \/>\n    aimer, e perpetrei coisa melhor: depor naquele ninho de colibri o ovinho de<br \/>\n    um beijo&#8230;<\/p>\n<p> Depois filosofei e pareceu-me apreender uma grande verdade: a beleza n&atilde;o<br \/>\n    passa de um total de parcelas que a m&atilde;o da Harmonia soma.<\/p>\n<p> Que terriveis torneiras abre o amor! Mas ao chegar naquele ponto das suas<br \/>\n    revela&ccedil;&otilde;es, miss Jane ergueu os olhos para o relogio. Em seguida<br \/>\n    apertou o bot&atilde;o da campainha.<\/p>\n<p> Veio um criado.<\/p>\n<p> &#8212; Ch&aacute;, disse ela.<\/p>\n<p> Eu j&aacute; sabia da significa&ccedil;&atilde;o do ch&aacute;, engenhoso<br \/>\n    ponto e virgula com que miss Jane punha fim &aacute;s nossas palestras domingueiras.<\/p>\n<p> Regressei &aacute; cidade mais apaixonado do que nunca pela encantadora<br \/>\n    filha do velho sabio &#8212; s&aacute;bia tambem ela, mas, ai! bem pouco feminina&#8230;<br \/>\n    O Amor que ardia em meu peito n&atilde;o a contagiava.<\/p>\n<p> Talvez nem sequer o percebesse. Ou percebera desde o inicio e dissimulava?<br \/>\n    Mulher, mulher&#8230; Sabina vingativa &#8212; false as water&#8230;<\/p>\n<p> Fiquei na duvida. Seria miss Jane um puro espirito, uma vibra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de eter jamais interferida, ou tinha nervos como as demais, cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sensibilidade como todas as mulheres? No dia seguinte, no escritorio, notou<br \/>\n    o patr&atilde;o o ar distante com que eu colecionava umas faturas. Meu pensamento<br \/>\n    estava longe da firma, vogando em pleno per&iacute;odo da simbiose desmascarada.<br \/>\n    N&atilde;o sei por que motivo o senhor S&aacute; mostrava-se nesse dia alegre<br \/>\n    e familiar.<\/p>\n<p> Vira o passarinho verde, com certeza. T&atilde;o familiar e alegre que em<br \/>\n    certo momento me atrevi a fazer&#8211;lhe uma pergunta: &#8212; Acha o senhor S&aacute;<br \/>\n    que &eacute; a mulher a femea natural do homem? O honrado negociante n&atilde;o<br \/>\n    respondeu, mas fulminou-me com tais olhos que achei prudente esgueirar-me<br \/>\n    para a sala vizinha com o pacote de faturas na m&atilde;o. Vim a saber depois<br \/>\n    que em conferencia com o senhor Pato ele chegara &aacute; conclus&atilde;o<br \/>\n    de que a queda no precip&iacute;cio me tinha evidentemente &quot;perturbado<br \/>\n    as faculdades mentais&quot;&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"15\">CAPITULO XV &#8211; Vesperas do Pleito<\/a><\/h4>\n<p>No proximo domingo voei mais cedo ao castelo, ansioso pela continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das revela&ccedil;&otilde;es de miss Jane.<\/p>\n<p> Encontrei-a triste.<\/p>\n<p> &#8212; Aconteceu-lhe alguma coisa? inquiri inquieto.<\/p>\n<p> &#8212; Nada! respondeu-me num suspiro. Saudades de meu pai apenas. Estive<br \/>\n    ontem no cemiterio e minha dor reavivou-se. Como ainda sinto pungente o desfalque<br \/>\n    sofrido pela sinfonia do universo com a perda de sua nota mais bela!&#8230;<\/p>\n<p> A tristeza de minha amiga contagiou-me de tal modo que quando dei por mim<br \/>\n    uma lagrima me descia pelo rosto.<\/p>\n<p> Miss Jane, comovida, apertou-me a m&atilde;o. Irmanavamo-nos dia a dia,<br \/>\n    &aacute; medida que as nossas afinidades se iam revelando. Afinidades mentais<br \/>\n    e de sentimento. Apesar da aparente divergencia das nossas ideias, eu sentia<br \/>\n    que no fundo pensavamos da mesma forma. Quem ali nos visse a conversar da<br \/>\n    vida futura, juraria sermos amigos velhos ou parentes muito proximos &#8212;<br \/>\n    e outra n&atilde;o era a minha impress&atilde;o.<\/p>\n<p> Parecia-me conhece-la de seculos, e nunca ter convivido com outra pessoa.<br \/>\n    A menor sombra que passasse pela sua alma logo se refletia na minha. Suas<br \/>\n    alegrias eram as minhas e minhas as suas tristezas.<\/p>\n<p> Como me punha feliz aquela doce convivencia&#8230;<\/p>\n<p> Mas a nuvem passou afinal e pude ve-la de novo entregue aos acontecimentos<br \/>\n    do ano 2228.<\/p>\n<p> &#8212; Na vespera da 88.a elei&ccedil;&atilde;o presidencial, prosseguiu<br \/>\n    miss Jane, o pa&iacute;s apresentava o grave aspecto desses instantes de imobilidade<br \/>\n    precursores de tormenta. Como que a armazenar for&ccedil;as para uma explos&atilde;o<br \/>\n    tragica, todos os homens permaneciam silenciosos, num estado de repouso muito<br \/>\n    semelhante a cansa&ccedil;o por antecipa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> S&oacute; nos arraiais femininos era intenso o reboli&ccedil;o. Estavam<br \/>\n    as sabinas seguras da vitoria e l&aacute; com as diretoras do movimento j&aacute;<br \/>\n    repartiam os despojos da batalha.<\/p>\n<p> Devo dizer que a presidencia de uma elvinista n&atilde;o inquietava grandemente<br \/>\n    os homens de espirito filosofico. Sabiam muito bem como o poder modifica as<br \/>\n    ideias dos que lhes galgam as cumeadas. E havia at&eacute; curiosidade pela<br \/>\n    vitoria sabina por parte dos homens de temperamento art&iacute;stico &#8212;<br \/>\n    dos que s&oacute; encaram o mundo atrav&eacute;s de prismas esteticos.<\/p>\n<p> J&aacute; a massa masculina enxergava na vitoria de miss Astor o fim do<br \/>\n    tradicional predom&iacute;nio do homem na terra.<\/p>\n<p> &#8212; Eram ainda as elei&ccedil;&otilde;es ao nosso sistema de hoje? &#8212;<br \/>\n    As elei&ccedil;&otilde;es do seculo 23 em nada lembravam as de hoje, consistentes<br \/>\n    na reuni&atilde;o dos votantes em pontos prefixados e no registro dos votos.<br \/>\n    Tudo mudara. Os eleitores n&atilde;o sa&iacute;am de casa &#8212; radiavam<br \/>\n    simplesmente os seus votos com destino &aacute; esta&ccedil;&atilde;o central<br \/>\n    receptora de Washington. Um aparelho engenhosissimo os recebia e apurava automatica<br \/>\n    e instantaneamente, imprimindo os totais definitivos na fachada do Capitolio.<\/p>\n<p> De ha muito se havia eliminado as hipoteses de fraude, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    porque a sele&ccedil;&atilde;o elevara fortemente o nivel moral do povo, como<br \/>\n    ainda porque a mecaniza&ccedil;&atilde;o dos tramites entregava todo o processo<br \/>\n    eleitoral &aacute;s ondas hertzianas e &aacute; eletricidade, elementos estranhos<br \/>\n    &aacute; pol&iacute;tica e da mais perfeita incorruptibilidade.<\/p>\n<p> Mas s&oacute; os habitantes de Washington gozavam do privilegio de ler no<br \/>\n    Capitolio os numeros decisivos. O resto da popula&ccedil;&atilde;o americana<br \/>\n    tambem os lia e na mesma hora, mas em suas proprias casas.<\/p>\n<p> Certo que estava da vitoria, o partido feminino delirava no antegozo de<br \/>\n    um prazer inedito: bater o macho em seu reduto supremo &#8212; a Presidencia<br \/>\n    da Republica! Na antevespera das elei&ccedil;&otilde;es miss Elvin organizou<br \/>\n    em Washington uma passeata memoravel.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda havia disso? perguntei.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; n&atilde;o havia disso, respondeu miss Jane. Miss Elvin<br \/>\n    apenas ressuscitou a velha praxe a titulo de curiosidade estetica. Como vemos<br \/>\n    hoje exposi&ccedil;&otilde;es de arte retrospectiva, teve ela a ideia de organizar<br \/>\n    coisa semelhante &#8212; uma passeata &aacute; nossa moda, com discursos em<br \/>\n    ran&ccedil;oso estilo retorico, nos quais se expusessem &aacute; luz do dia<br \/>\n    caducas imagens ha muito aposentadas. Reuniu um lote de dez mil correligionarias<br \/>\n    para um desfile diante do Capitolio. Cada qual traria uma bandeirola ou cartaz<br \/>\n    onde se caricaturassem de maneira cruel os homens ou se inscrevessem legendas<br \/>\n    insultantes &#8212; Abaixo o macaco glabro! Morram os raptores! Viva o sabino!<br \/>\n    Basta de gorilas evolu&iacute;dos! Essa manifesta&ccedil;&atilde;o realizou-se<br \/>\n    &aacute; noite &#8212; e por falar em noite&#8230;<\/p>\n<p> como imagina que eram as noites desse tempo, senhor Ayrton? &#8212; Como<br \/>\n    as de hoje, ora essa! Talvez com menos grilos, respondi.<\/p>\n<p> &#8212; Pois saiba que nenhum espetaculo futuro me surpreendeu tanto como<br \/>\n    as noites das cidades americanas. A noite urbana que temos hoje n&atilde;o<br \/>\n    passa da noite natural picada de focos luminosos &#8212; um jogo, portanto,<br \/>\n    de sombra e luz. O que l&aacute; vi n&atilde;o recordava essa alternativa.<br \/>\n    Sofrera completa mudan&ccedil;a a ilumina&ccedil;&atilde;o artificial &#8212;<br \/>\n    tamanha como a do transporte depois da vinda do radio. Inventara-se a luz<br \/>\n    fria. Por dentro e fora eram pintadas as casas de uma tinta de luar, que dava<br \/>\n    &aacute;s cidades o aspecto de emersas de um banho de fosforo. Paredes, muros,<br \/>\n    telhados, todas as superf&iacute;cies dimanavam um palor uniforme de sonho.<br \/>\n    Mas o escuro &eacute; t&atilde;o necessario ao homem como o luminoso, de modo<br \/>\n    que todas as casas possu&iacute;am comodos n&atilde;o revestidos de luar ou<br \/>\n    apenas aquarelados de leve. Que deliciosas penumbras vi no Oblivion Park,<br \/>\n    em Eropolis!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Qu&ecirc;? Havia Eropolis, a cidade do Amor? &#8212; Sim. Uma cidade<br \/>\n    das Mil e Uma Noites erguida no mais belo recanto dos Adirondacks e exclusivamente<br \/>\n    dedicada ao Amor. Para l&aacute; iam os enamorados, os casados em lua de mel,<br \/>\n    nela s&oacute; permanecendo durante o per&iacute;odo da ebriedade amorosa.<br \/>\n    O senhor Ayrton com certeza j&aacute; amou e sabe como o amor desabrocha as<br \/>\n    criaturas em flores e perfumes. Pois imagine um eden criado pela fantasia<br \/>\n    de todos os grandes amorosos &#8212; Dante, Petrarca, Romeu, Leandro, de colabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com todas as grandes amorosas, Julieta, Hero&#8230; Imagine a rainha Mab a provocar<br \/>\n    sonhos nesses inebriados, e Ariel a realiza-los com o carinho que punha nas<br \/>\n    comiss&otilde;es de Prospero. O bafo de Caliban nem de leve embaciava os marmores<br \/>\n    de Eropolis &#8212; a maravilha suprema das artes humanas ao servi&ccedil;o<br \/>\n    do Amor.<\/p>\n<p> Nada lembrava ali o organismo que &eacute; uma cidade comum &#8212; mixto<br \/>\n    de org&atilde;os nobres e v&iacute;sceras de fun&ccedil;&otilde;es humilhantes.<br \/>\n    Em vez de ruas geometricas, meandros irregulares, ganglionados magicamente<br \/>\n    de pelouses e moitas nupciais. Sumiam-se nelas os amorosos passeantes e em<br \/>\n    tais ninhos de do&ccedil;ura trocavam o beijo que elabora o porvir. Tudo f&ocirc;ra<br \/>\n    planejado em Eropolis com o intento de dar &aacute;s criaturas as mais finas<br \/>\n    sensa&ccedil;&otilde;es esteticas, de modo que os seres ali concebidos j&aacute;<br \/>\n    se plasmassem em beleza e harmonia desde o contacto inicial dos gametos.<\/p>\n<p> Os filhos de Eropolis passaram a constituir uma elite na America &#8212;<br \/>\n    a nova aristocracia dos filhos do Amor e da Beleza.<\/p>\n<p> Suspirei. Vi-me em Eropolis de m&atilde;os dadas a miss Jane, olhos nos<br \/>\n    seus olhos e em tal enlevo amoroso que todas as maravilhas da nova ilha de<br \/>\n    Calipso eram como se n&atilde;o existissem para mim&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas deixemos em paz a cidade do Amor, disse minha amiga fechando<br \/>\n    o delicioso parentesis. Trepada a uma estatua fronteira ao Capitolio espera-nos<br \/>\n    a irrequieta miss Elvin com o seu discurso flamante, perfeitamente vieux jeu.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Eis&quot;, dizia ela apontando para o Capitolio com ademanes<br \/>\n    dos nossos oradores mitingueiros, &quot;eis o simbolo da Bastilha masculina<br \/>\n    que ser&aacute; amanh&atilde; tomada de assalto! &Eacute; a casa-mestra da<br \/>\n    for&ccedil;a, a odiosa cabina das manivelas que dirigem tudo. Ali t&ecirc;m<br \/>\n    habitado os peores monstros da humanidade. Moraram ali Gengis-Kan, Cesar,<br \/>\n    Luis 14, Frederico da Prussia, Pedro o Grande, Crornwell, todos os gorilas<br \/>\n    cesareos que atrav&eacute;s dos seculos v&ecirc;m trazendo preso ao seu carro<br \/>\n    de triunfo um ser de especie diferente, arrancado ao companheiro natural por<br \/>\n    um gesto de violencia e rapina!&quot; e por a&iacute; al&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> O presidente Kerlog ouviu pelo seu receptor de bolso a curiosa arenga e<br \/>\n    disse com muita filosofia ao ministro da Equidade: &#8212; &quot;Parece grotesco<br \/>\n    tudo quanto ela diz, no entanto a historia mostra que n&oacute;s homens temos<br \/>\n    sido arrastados por fabulas ainda mais grosseiras&quot;.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Isso s&oacute; prova&quot;, retrucou Berald Shaw, &quot;que<br \/>\n    miss Elvin est&aacute; errada. Homens e mulheres somos positivamente da mesma<br \/>\n    especie&#8230;&quot; E enquanto a passeata de miss Elvin barulhentamente prosseguia<br \/>\n    no seu percurso, voltaram os ministros &aacute; conferencia, retomando-lhe<br \/>\n    o fio no ponto em que a arenga da sabina os interrompera.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Dentro de 48 horas tudo estar&aacute; resolvido, disse o Presidente,<br \/>\n    e conto com a reelei&ccedil;&atilde;o. Apesar de n&atilde;o haver obtido de<br \/>\n    Jim Roy promessa formal, estou absolutamente certo de que ele nos dar&aacute;<br \/>\n    os votos negros. Deve neste momento estar apreensivo, o pobre Jim, com o discurso<br \/>\n    de miss Elvin. Se ela nos trata a n&oacute;s brancos de gorilas, que express&otilde;es<br \/>\n    reservar&aacute; para os pretos de Jim?&quot; &#8212; &quot;Mas miss Astor<br \/>\n    tambem conta com os votos negros&quot;, disse o ministro da Sele&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Artificial.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Engano. Miss Astor espera de Jim uma trai&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ora, a trai&ccedil;&atilde;o para miss Astor significa n&atilde;o votar em<br \/>\n    seu nome. Logo, est&aacute; convencida de que Jim Roy nos dar&aacute; os votos<br \/>\n    negros.&quot; &#8212; &quot;E nesse caso derrogaremos a lei seletiva?&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Sem duvida. O pigmento reclama contra o rigor excessivo da Lei<br \/>\n    Owen. Isso ali&aacute;s pouco importa, porque antes dos maus efeitos da derroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dessa lei j&aacute; teremos solvido o problema. Os ultimos estudos tecnicos<br \/>\n    da exporta&ccedil;&atilde;o dos negros para a Amazonia j&aacute; se acham<br \/>\n    conclusos. Jim &eacute; habil e domina como despota a massa negra.<\/p>\n<p> Havemos de nos entender. Havemos de impor-lhe por bem ou por mal a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    branca. No momento o caso se resume em obtermos dele o concurso eleitoral,<br \/>\n    pois quem l&aacute; pode saber que rumo tomar&atilde;o os acontecimentos caso<br \/>\n    ven&ccedil;am as elvinistas? &Eacute; imposs&iacute;vel protelar por mais<br \/>\n    tempo com paliativos ilusorios a solu&ccedil;&atilde;o do binomio racial.<br \/>\n    Ou expatriamos os negros j&aacute;, ou dentro de meio seculo seremos for&ccedil;ados<br \/>\n    a aceitar a solu&ccedil;&atilde;o negra, asfixiados que estaremos pela mar&eacute;<br \/>\n    montante do pigmento.&quot; &#8212; &quot;Destru&iacute;do, ali&aacute;s&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Oh, antes o n&atilde;o fosse! A mim chega a me repugnar o<br \/>\n    aspecto desses negros de pele branquicenta e cabelos carapinha. D&atilde;o-me<br \/>\n    a ideia de descascados &#8230;&quot; &#8212; E miss Astor? perguntei. Continuava<br \/>\n    perplexa? Miss Jane respondeu: &#8212; A poucos passos da Casa Branca tambem<br \/>\n    miss Astor conferenciava com varias sumidades do seu partido.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Est&aacute;s ministra, minha cara Dorothy Glynor, se vencermos&#8230;&quot;<br \/>\n    dizia ela a uma linda criatura candidata ao Ministerio da Educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Social.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Se?&#8230;&quot; fez. Dorothy Glynor. &quot;Pois ainda admite<br \/>\n    duvidas depois da entente com Jim Roy?&quot; &#8212; &quot;Tudo me leva a<br \/>\n    crer que Jim Roy n&atilde;o perder&aacute; a oportunidade de ajudar-nos a<br \/>\n    apear o macho branco inimigo tradicional da sua ra&ccedil;a. A logica me conduz<br \/>\n    a esse racioc&iacute;nio, mas acima da logica ha em mim uma voz interna, uma<br \/>\n    ressonancia que raro falha &#8212; e essa voz me diz que Jim vai trair&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;A n&oacute;s?&quot; &#8212; &quot;N&atilde;o sei. Sinto no ar<br \/>\n    a trai&ccedil;&atilde;o, e sinto-a t&atilde;o forte que ando presa de um estranho<br \/>\n    mal estar. &Eacute; com esfor&ccedil;o que procuro conter os meus nervos.<br \/>\n    O entusiasmo com que me apresento em campo n&atilde;o passa de mera atitude.<br \/>\n    O que ha em mim &#8212; e cada vez mais angustiante &#8212; &eacute; uma profunda<br \/>\n    depress&atilde;o nervosa&#8230;&quot; Miss Evelyn Astor estava &aacute; sua mesa<br \/>\n    de trabalho, em permanente comunica&ccedil;&atilde;o com todos os distritos<br \/>\n    do pa&iacute;s. Recebia de minuto em minuto informa&ccedil;&otilde;es animadoras,<br \/>\n    mas ouvia-as quasi desatenta. O imenso entusiasmo reinante nos arraiais femininos<br \/>\n    &#8212; entusiasmo que ela mesma acendera com suas famosas irradia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    &#8212; s&oacute; n&atilde;o contagiava a sua autora. Miss Astor metia os<br \/>\n    olhos do pressentimento pela fachada do Capitolio e n&atilde;o lia l&aacute;<br \/>\n    o seu nome&#8230;<\/p>\n<p> Bem outra se apresentava a situa&ccedil;&atilde;o nos arraiais de Jim Roy.<br \/>\n    A popula&ccedil;&atilde;o negra permanecia numa especie de calma fatalista,<br \/>\n    aguardando com insidiosa quietude de pantano a senha que o grande lider ficara<br \/>\n    de irradiar uma hora antes do pleito. At&eacute; esse momento a formidavel<br \/>\n    massa de cincoenta e tantos milh&otilde;es de votantes conservarse- ia neutra.<br \/>\n    Tinham compreendido as imensas vantagens da coes&atilde;o e delega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todas as vontades numa s&oacute;, al&eacute;m de que depositavam em Jim<br \/>\n    Roy uma f&eacute; que nem Mois&eacute;s merecera do povo hebraico. Qualquer<br \/>\n    coisa de majestade havia naquele oceano submisso &#8212; escravo de novo,<br \/>\n    escravo como sempre, mas desta vez escravo por heroico e livre consentimento.<\/p>\n<h4><a name=\"16\">CAPITULO XVI &#8211; O Tit&atilde; Apresenta-se<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; F&ocirc;ra o pleito marcado para as onze horas da manh&atilde; e<br \/>\n    duraria apenas trinta minutos, continuou miss Jane. Em meia hora o assombroso<br \/>\n    fenomeno de um bloco de 150 milh&otilde;es de criaturas a imprimirem em s&iacute;mbolos<br \/>\n    numericos a sua vontade na fachada do Capitolio completar-se-ia de maneira<br \/>\n    perfeita.<\/p>\n<p> &#8212; Jim Roy avisara aos seus agentes distritais de que s&oacute; &aacute;s<br \/>\n    dez da manh&atilde; revelaria o nome do candidato em que os negros tinham<br \/>\n    de votar. Esses agentes, por sua vez, radiariam aos eleitores das respectivas<br \/>\n    zonas a esperada senha.<\/p>\n<p> &Aacute;s nove e meia Jim recolheu-se &aacute; sua sala de trabalho no palacio<br \/>\n    da Associa&ccedil;&atilde;o Negra e fechou-se por dentro.<\/p>\n<p> Apesar da solidez dos seus nervos o lider cavilava&#8230;<\/p>\n<p> &Aacute;s 9 e 45 aproximou-se da janela e correu os olhos pelo casario de<br \/>\n    Washington. O panorama que viu, entretanto, n&atilde;o foi o da cidade.<\/p>\n<p> Descortinou todo o lugubre passado da ra&ccedil;a infeliz. Viu muito longe,<br \/>\n    esfumado pela bruma dos seculos, o humilde kraal africano visado pelo feroz<br \/>\n    negreiro branco, que em frageis brigues vinha por cima das ondas qual espuma<br \/>\n    venenosa do oceano. Viu o assalto, a chacina dos moradores nus, o sangue a<br \/>\n    correr, o incendio a engulir as palho&ccedil;as.<\/p>\n<p> Depois, o saque, o apresamento dos homens palidos e das mulheres, a algema<br \/>\n    que lhes garroteava os pulsos, a canga que os metia dois a dois em comboios<br \/>\n    sinistros tocados a relho para a costa. Viu, como goelas escuras, abrirem-se<br \/>\n    os por&otilde;es dos brigues para tragar a dolorosa carne do eito. E recordou<br \/>\n    o interminavel suplicio da travessia&#8230; Carga humana, coisa, fardos de couro<br \/>\n    negro com carne vermelha por dentro, A fome, a sede, a doen&ccedil;a, a escurid&atilde;o.<br \/>\n    For sobre as cabe&ccedil;as da carga humana, um tabuado. Por cima do tabuado,<br \/>\n    rumores de vozes. Eram os brancos. Branco queria dizer uma coisa s&oacute;:<br \/>\n    crueldade fria&#8230;<\/p>\n<p> Viu depois o desembarque. Terra, arvores, sol &#8212; n&atilde;o mais como<br \/>\n    em Africa. Nada deles, agora &#8212; nem a terra, nem as arvores, nem o sol.<br \/>\n    Caminha, caminha! Se um trope&ccedil;a, canta-lhe o latego no lombo. Se cai<br \/>\n    desfalecido, trucidam-no. A caravana marcha, tropega, e penetra nos algodoais&#8230;<\/p>\n<p> Viu Jim vi&ccedil;arem luxuriosos os algodoais da Virg&iacute;nia depois<br \/>\n    que o negro chegou. Al&eacute;m das chuvas havia a rega-los agora o suor africano<br \/>\n    &#8212; suor e sangue.<\/p>\n<p> Viu dois seculos de chicote a lacerar carne e outros dois seculos de lagrimas,<br \/>\n    de gemidos e lamentosos uivos de dor. E viu a America ir saindo dessa dor,<br \/>\n    como a perola, filha do sofrimento do molusco, nasce na concha&#8230;<\/p>\n<p> Viu depois a Aurora da noite de duzentos anos: Lincoln. O Branco Bom disse:<br \/>\n    &quot;Basta!&quot; Ergueu exercitos e das unhas de Jefferson Davis arrancou<br \/>\n    a pobre carne-coisa.<\/p>\n<p> As algemas cairam dos pulsos mas o estigma ficou. As algemas de ferro foram<br \/>\n    substitu&iacute;das pelas algemas morais do p&aacute;ria. O socio branco negava<br \/>\n    ao socio negro a participa&ccedil;&atilde;o de lucros morais na obra comum.<br \/>\n    Negava a igualdade e negava a fraternidade, embora a Lei, que paira serena<br \/>\n    acima do sangue, consagrasse a equipara&ccedil;&atilde;o dos dois socios.<\/p>\n<p> E viu Jim que Justi&ccedil;a n&atilde;o passava de uma pura aspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; e que s&oacute; ha justi&ccedil;a na terra quando a for&ccedil;a a<br \/>\n    imp&otilde;e.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Hei de fazer-me for&ccedil;a e impor a justi&ccedil;a&quot;,<br \/>\n    murmurou o grande negro.<\/p>\n<p> Em sua testa profunda ruga se abriu. Seus olhos se cerraram e Jim permaneceu<br \/>\n    imovel, como que siderado por uma ideia de gigante.<\/p>\n<p> Soou a primeira badalada das dez. Era o momento de radiar a esperada senha.<\/p>\n<p> O tit&atilde; despertou. Dirigiu-se para a cabina emissora. De passagem<br \/>\n    deteve-se diante de um busto de Lincoln e disse, pausadamente, pondo-lhe a<br \/>\n    m&atilde;o sobre o ombro: &#8212; &quot;Tu come&ccedil;aste a obra, Jim vai<br \/>\n    conclui-la&#8230;&quot; Penetrou na cabina. Vacilou um instante em face do aparelho<br \/>\n    que lhe ia veicular a vontade. Contraiu os musculos num sorriso de senegal&ecirc;s<br \/>\n    descorticado &#8212; e pronunciou finalmente com voz segura a palavra secreta<br \/>\n    que at&eacute; ali escondera: &#8212; &quot;O candidato da ra&ccedil;a negra<br \/>\n    &eacute; Jim Roy&quot;.<\/p>\n<h4><a name=\"17\">CAPITULO XVII &#8211; A Ades&atilde;o das Elvinistas<\/a><\/h4>\n<p>Arregalei os olhos de surpresa. Nem por sombras eu havia imaginado aquela<br \/>\n    hipotese e confessei-o a miss Jane.<\/p>\n<p> &#8212; A surpresa n&atilde;o foi unicamente sua, senhor Ayrton. Alguns<br \/>\n    minutos passados depois do gesto decisivo do formidavel Jim Roy, e cinquenta<br \/>\n    milh&otilde;es de eleitores negros recebiam a imprevista senha como se recebessem<br \/>\n    violenta pancada no cranio. A sensa&ccedil;&atilde;o de atordoamento foi geral.<br \/>\n    Pelo cerebro dos despigmentados passara tudo, menos aquilo. Nem um negro sequer<br \/>\n    imaginara tal hipotese.<\/p>\n<p> Mas a perturba&ccedil;&atilde;o foi se desfazendo, e &aacute; medida que<br \/>\n    se ia desfazendo iam se iluminando as caras com um sorriso novo no mundo.<br \/>\n    Um sorriso sem significa&ccedil;&atilde;o, puramente reflexo. O sorriso do<br \/>\n    grilheta que nasceu de algemas ao pulso e de subito as v&ecirc; se esva&iacute;rem<br \/>\n    em nevoa ao contacto de magico talism&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Livre, apenas? N&atilde;o! Tambem senhor, agora&#8230;&quot; O<br \/>\n    sigilo das comunica&ccedil;&otilde;es radiadas era perfeito.<\/p>\n<p> Onda que partisse com recado para fulano jamais errava de porta ou se deixava<br \/>\n    transviar pelo caminho. Mesmo assim miss Astor, cujo maquiavelismo de espirito<br \/>\n    n&atilde;o extremava a rubra ideologia elvinista dum maravilhoso senso das<br \/>\n    realidades, conseguira feliz exito na ca&ccedil;ada que armou &aacute; onda<br \/>\n    portadora da senha de Jim Roy. N&atilde;o corromperia a onda, de si incorrupt&iacute;vel,<br \/>\n    mas corromperia um dos seus destinatarios &#8212; talvez o unico agente infiel<br \/>\n    de quantos tinha Jim a seu servi&ccedil;o. Logo que recebeu a senha, esse<br \/>\n    espi&atilde;o chamou miss Astor ao aparelho das comunica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    reservadas.<\/p>\n<p> Estava ela a postos, na s&eacute;de do partido, rodeada do seu ardente estado<br \/>\n    maior. Mal soou o chamado, deixou as companheiras e literalmente atirou-se<br \/>\n    ao fone adivinhando do que se tratava. A viva express&atilde;o de curiosidade<br \/>\n    do Seu rosto, por&eacute;m, demudou-se em derrocada.<\/p>\n<p> Seus olhos arregalaram-se e seus labios, subitamente brancos, tremeram.<\/p>\n<p> Vendo o transtorno de fei&ccedil;&otilde;es da chefa suprema, o estado-maior<br \/>\n    elvinista acudiu inquieto.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Que ha? indagou miss Elvin, agarrando-a pelos ombros.<\/p>\n<p> Resolveu Jim votar com Kerlog?&quot; Miss Astor quis responder mas n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de. Sentiu uma nuvem turvar-lhe a vista, uma zoeira nos ouvidos, um<br \/>\n    turbilh&atilde;o no cerebro.<\/p>\n<p> E descaiu para tr&aacute;s, desmaiada.<\/p>\n<p> &#8212; Como as de hoje&#8230; murmurei contente com aquele desmaio.<\/p>\n<p> Miss Jane prosseguiu.<\/p>\n<p> &#8212; O panico apossou-se incontinenti do estado-maior elvinista e transformou<br \/>\n    a sala num rodamoinho de lindas baratas tontas. As sabinas entraram a correr<br \/>\n    de um lado para outro trefegamente a agarrar-se entre si, a gritar. Mas a<br \/>\n    voz aguda de miss Elvin se fez ouvir e as conteve: &#8212; &quot;Se Evelyn<br \/>\n    desmaiou, &eacute; que recebeu uma terrivel noticia, e a unica noticia terrivel<br \/>\n    que Evelyn poderia receber &eacute; a da ades&atilde;o de Jim a Kerlog. Logo,<br \/>\n    estamos derrotadas&#8230;&quot; E os olhos da sabina despediram uma terrivel faisca<br \/>\n    de odio &#8212; n&atilde;o pol&iacute;tico, n&atilde;o sexual apenas, mas<br \/>\n    especial, sentimento inedito do mundo e de pura cria&ccedil;&atilde;o elvinista.<br \/>\n    Miss Elvin cerrou o punho e ergueu-o na dire&ccedil;&atilde;o do Capitolio,<br \/>\n    ao mesmo tempo que uivava qual loba ferida: &#8212; &quot;N&atilde;o importa,<br \/>\n    Kerlog! Recorreremos aos grandes meios &#8212; &aacute; sabotagem, &aacute;<br \/>\n    boicotagem do gorila!&quot; &#8212; &quot;Bravos! gritaram as elvinistas,<br \/>\n    recompostas da momentanea desorienta&ccedil;&atilde;o. Viva o boicote!&quot;<br \/>\n    Miss Elvin rangia os dentes.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Os infames monstros jamais poder&atilde;o prever o plano infernal<br \/>\n    de sabotagem que contra eles organizei! Parecem ignorar, esses orgulhosos<br \/>\n    gorilas, que a natureza os criou de uma carne toda ela calcanhares de Aquiles.<br \/>\n    Convido as sabinas presentes para uma reuni&atilde;o amanh&atilde; em minha<br \/>\n    casa a fim de estudarmos a aplica&ccedil;&atilde;o imediata do plano diabolico.<br \/>\n    &Aacute;s oito horas l&aacute; todas!&quot; &#8212; &quot;Bravos! Bravos!<br \/>\n    Sabotemos o gorila!&quot; A grita fez efeito de sais nos nervos da chefa desmaiada.<br \/>\n    Miss Astor entreabriu os olhos, passou as m&atilde;os pelo rosto como a afastar<br \/>\n    as ultimas sombras e, reentrando na posse dos seus sentidos, ergueu-se de<br \/>\n    p&eacute;. Circunvagou pelo ambiente o olhar ainda trocado e em tom de misterio<br \/>\n    exclamou por fim, como se estivesse a falar consigo propria: &#8212; &quot;&Eacute;<br \/>\n    indispensavel um entendimento com Kerlog. Tudo mudou&#8230;&quot; O espanto das<br \/>\n    elvinistas atingiu o auge. Estarreceram todas, de olhos arregalados e bocas<br \/>\n    entreabertas. N&atilde;o compreendiam nada.<\/p>\n<p> Miss Astor prosseguiu: &#8212; &quot;Temos de nos aliar de novo ao homem&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Nunca! rugiu miss Elvin, escarlate de furor. Transigir, nunca!&#8230;&quot;<br \/>\n    O relogio da sala interrompeu o tumulto com o pingar das onze &#8212; a hora<br \/>\n    eleitoral.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Sim, declarou pausadamente miss Astor. Sim, porque j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o se trata de um mero choque pol&iacute;tico entre as duas fac&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da ra&ccedil;a branca. Trata-se da luva que nos vem de lan&ccedil;ar ao rosto<br \/>\n    a ra&ccedil;a negra.<\/p>\n<p> Jim Roy neste momento j&aacute; deve estar eleito Presidente da Republica&#8230;&quot;<br \/>\n    Se uma granada de g&aacute;s estupefaciente houvera explodido na sala, outro<br \/>\n    n&atilde;o seria o aspecto daquelas sabinas apalermadas pelo inaudito da surpresa.<br \/>\n    Transformaram-se em verdadeiras mulheres de Lot, mudas e imoveis, com os olhos<br \/>\n    cravados na lider feminina.<\/p>\n<p> Miss Astor continuou: &#8212; &quot;N&atilde;o me enganavam os meus pressentimentos!<br \/>\n    Eu senti que Jim traira. Ide ver na fachada do Capitolio o seu nome vitorioso&#8230;&quot;<br \/>\n    As elvinistas precipitaram-se para a janela e leram no front&atilde;o do monumento<br \/>\n    o nome de Jim Roy! Depois de 87 presidentes brancos surgia o primeiro negro,<br \/>\n    eleito por 54 milh&otilde;es de votos. Miss Astor obtivera 50 milh&otilde;es<br \/>\n    e meio e Kerlog 50 milh&otilde;es e pico. Apesar de disporem de um eleitorado<br \/>\n    quasi duplo do contrario, os brancos perdiam a presidencia gra&ccedil;as &aacute;<br \/>\n    cis&atilde;o entre os dois sexos provocada pelo elvinismo&#8230;<\/p>\n<p> Foi instantanea e radical a mudan&ccedil;a que se operou nas mulheres. Apreenderam<br \/>\n    num relance todas as consequencias poss&iacute;veis do golpe negro e tomaram-se<br \/>\n    de furiosa crise de sentimentalismo amoroso pelo homem branco, ser mau, opressivo,<br \/>\n    injusto, n&atilde;o havia duvida, mas afinal de contas o marido milenar da<br \/>\n    mulher. Mal com ele, peor sem ele. Estava t&atilde;o longe o hipotetico sabino&#8230;<\/p>\n<p> Miss Astor tomou a palavra e fez-se a interprete do pensamento dominante.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Mulheres! Eis as consequencias da nossa loucura! Divorciamo-nos<br \/>\n    do nosso velho companheiro sexual e&#8230;&quot; &#8212; &quot;Companheiro ileg&iacute;timo!&quot;<br \/>\n    aparteou miss Elvin.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Seja, mas nem por isso menos companheiro. Divorciamo-nos dele,<br \/>\n    declaramos-lhe guerra, difamamo-lo, e a paix&atilde;o nos cegou a ponto de<br \/>\n    n&atilde;o vermos o polvo que espiava a brecha afim de envolver o Capitolio<br \/>\n    nos seus tentaculos! Ah, Kerlog, que injusta fui contigo recusando a fus&atilde;o<br \/>\n    partidaria que me propunhas! E como fui cruel respondendo &aacute;s tuas leais<br \/>\n    palavras com anfigur&iacute;s em linguagem sabina! Vejo bem claro agora o<br \/>\n    nosso erro e, embora reconhecendo as queixas que a mulher tem do macho, tambem<br \/>\n    reconhe&ccedil;o que sem o concurso dele nada valer&iacute;amos no mundo.<br \/>\n    Bastou um momento de divorcio para que a ra&ccedil;a branca se visse nesta<br \/>\n    horr&iacute;vel situa&ccedil;&atilde;o: apeada do dom&iacute;nio e &aacute;<br \/>\n    merc&ecirc; de uma ra&ccedil;a de pitecos que, essa sim, tem contas terr&iacute;veis<br \/>\n    a justar conosco&#8230;&quot; Palmas e bravos estrepitaram. S&oacute; miss Elvin,<br \/>\n    irredut&iacute;vel no seu sonho, conservara-se de p&eacute; atr&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;E as minhas teorias? uivou ela. Que importa um momentaneo<br \/>\n    incidente eleitoral em face do fulgor das minhas ideias? Voto contra a aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com Kerlog e protesto contra o movimento de fraqueza, essa crise amorosa que<br \/>\n    vejo nas palavras de Evelyn! Proponho o prosseguimento da luta com redobrado<br \/>\n    ardor.<\/p>\n<p> Submiss&atilde;o de novo, nunca!&#8230;&quot; Mas nem uma s&oacute; voz se ergueu<br \/>\n    para apoia-la. Suas palavras tiveram como resposta um silencio de cemiterio.<br \/>\n    Estava morto o elvinismo e de cinzas varridas todos aqueles cerebros e cora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Diante do silencio da assembleia ainda mais se exaltou miss Elvin, rompendo<br \/>\n    em apostrofes violent&iacute;ssimas contra o &quot;gorila pelado&quot; e o<br \/>\n    &quot;sentimentalismo ovelhum&quot; das suas companheiras.<\/p>\n<p> Dessa vez n&atilde;o foi o silencio de cemiterio que acolheu sua arenga.<\/p>\n<p> Foi a assuada.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Fora! Abaixo o sabino! Viva o Homo! Viva o macho forte que<br \/>\n    suplantou o macho fraco!&#8230;&quot; &#8212; &quot;Sim, perorou miss Astor, viva<br \/>\n    o homem! Macho natural ou n&atilde;o, neto do gorila ou n&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    ele o nosso marido pela milenar consagra&ccedil;&atilde;o dos fatos. Sempre<br \/>\n    vivemos ao seu lado, ora escravas, ora deusas, mas como irm&atilde;s de peregrina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nesta vida. Peludas que eramos ainda, e l&aacute; no fundo das idades j&aacute;<br \/>\n    o ajudavamos a afiar o machado de silex com que nos amparou das agress&otilde;es<br \/>\n    do Urso speleus.<\/p>\n<p> Comemos juntos bifes crus de megaterios. Juntos nos derramamos por todos<br \/>\n    os recantos do globo e conseguimos a domina&ccedil;&atilde;o hoje absoluta.<br \/>\n    Juntos subimos aos tronos e juntos fomos lan&ccedil;ados &aacute;s feras do<br \/>\n    circo. De m&atilde;os dadas compusemos &aacute; sublime epopeia do amor &#8212;<br \/>\n    poema que principiou com a Vida e s&oacute; com ela ter&aacute; fim&#8230; O sabino,<br \/>\n    ainda que existisse, seria um fraco. O raptor valia muito mais do que esse<br \/>\n    hipotetico bicho marinho, s&oacute; existente, talvez, na imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exaltada da nossa querida miss Elvin&#8230;&quot; &#8212; &quot;Era o peixe-boi,<br \/>\n    o pesado animal&atilde;o que os homens arpoam no Amazonas&#8230;&quot; aparteou<br \/>\n    miss Dorothy Glynor.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;O homem &eacute; o gorila, o gorila, o gorila&#8230;&quot; urrava<br \/>\n    miss Elvin possessa.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Pois viva ent&atilde;o o gorila! concluiu miss Astor e os<br \/>\n    aplausos foram delirantes. Fique miss Elvin com o boi do mar que n&oacute;s<br \/>\n    ficaremos com o nosso velho e tradicional gorila. &Aacute; Casa Branca!&#8230;&quot;<br \/>\n    E numa verdadeira revoada precipitou-se para a Casa Branca o bando das ondeantes<br \/>\n    mam&iacute;feras com miss Astor &aacute; frente. S&oacute; ficou no recinto<br \/>\n    a sabina teimosa, a bater o p&eacute; e uivar para as cadeiras vazias: &#8212;<br \/>\n    &quot;Gorila, gorila, gorila, gorila&#8230;&quot; Nesse ponto miss Jane parou<br \/>\n    para tomar folego, enquanto eu dizia: &#8212; Toma! Como tenho muita honra<br \/>\n    de ser neto do meu av&ocirc; gorila, exulto com a derrota dessa renegada.<br \/>\n    Mas&#8230; e Kerlog, miss Jane? Como recebeu ele a noticia da vitoria do negro?<br \/>\n    &#8212; O presidente Kerlog recebeu o resultado do pleito com um asombro igual<br \/>\n    ao das mulheres, embora muito diferente na sua exterioriza&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Convicto do apoio de Jim Roy a um dos partidos brancos, chegara a admitir<br \/>\n    por hipotese o triunfo de miss Astor; mas l&aacute; no intimo contava com<br \/>\n    o seu. De modo que quando na fachada do Capitolio surgiu o nome de Jim Roy,<br \/>\n    a sensa&ccedil;&atilde;o que o empolgou foi de pesadelo. Kerlog apalpou-se<br \/>\n    e beliscou as carnes a ver se dormia. N&atilde;o era pesadelo, n&atilde;o.<br \/>\n    Era coisa peor &#8212; fato. E como a hipotese da elei&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    um negro nem por sombra lhe houvesse passado pela ideia, o seu desnorteamento<br \/>\n    fez-se absoluto.<\/p>\n<p> Kerlog reclinou-se sobre a secret&aacute;ria e permaneceu durante alguns<br \/>\n    instantes imovel, com a cabe&ccedil;a apoiada nas m&atilde;os. Dava tempo<br \/>\n    a que a ideia nova da elei&ccedil;&atilde;o de um presidente negro penetrasse<br \/>\n    em seu cerebro, criando l&aacute; pelas circunvolu&ccedil;&otilde;es um quadro<br \/>\n    inexistente. Custou a aboletar-se essa ideia. N&atilde;o cabia em quadro nenhum<br \/>\n    e punha arrepios em todos perto dos quais passava&#8230;<\/p>\n<p> Mas o 87.&deg; Presidente possu&iacute;a uma solida organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mental; reagiu contra o golpe e logo reentrou no controle dos seus esp&iacute;ritos.<\/p>\n<p> Tomou um gole d&#8217;agua e dirigiu a palavra aos atonitos ministros presentes.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Chegou afinal a crise prevista ha seculos e de maneira surpreendente.<br \/>\n    A hipotese que acaba de realizar-se creio que jamais passou pelo espirito<br \/>\n    de nenhum americano, branco ou preto. &Eacute; obra exclusiva de Jim Roy e<br \/>\n    explica a paciencia com que vem ele automatizando a massa negra. Mas o fato<br \/>\n    est&aacute; consumado. &Eacute; um desafio, uma luva lan&ccedil;ada ao rosto<br \/>\n    da ra&ccedil;a branca, &aacute; qual nos cumpre dar troco. N&atilde;o apresento<br \/>\n    nenhuma ideia porque n&atilde;o a tenho &#8212; ainda n&atilde;o houve tempo<br \/>\n    de se formarem ideias em meu cerebro.<\/p>\n<p> Creio que o mesmo se dar&aacute; com todos os presentes&#8230;&quot; Um movimento<br \/>\n    geral de cabe&ccedil;as apoiou suas palavras. Todos os ministros se achavam<br \/>\n    na mesma situa&ccedil;&atilde;o de espirito.<\/p>\n<p> Kerlog prosseguiu. Fez ver a que terrivel impasse a loucura das mulheres<br \/>\n    arrastara o pa&iacute;s, situa&ccedil;&atilde;o insoluvel caso elas persistissem<br \/>\n    em se &quot;desgorilarem&quot; de sua ascendencia.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;E dado o modo de pensar &eacute; falar da l&iacute;der feminina,<br \/>\n    disse ele, n&atilde;o prejulgo o que esteja agora se passando pelo cerebro<br \/>\n    de miss Evelyn Astor. Mas &eacute; indispensavel a todo o transe um entendimento<br \/>\n    com ela. &Eacute; indispensavel promovermos a harmonia dos partidos brancos,<br \/>\n    porque s&oacute; a uni&atilde;o da ra&ccedil;a branca nos salvar&aacute;.&quot;<br \/>\n    O ministro da Paz tomou a palavra (as guerras haviam cessado no mundo depois<br \/>\n    que aos ministros da Guerra se substitu&iacute;ram os ministros da Paz) e<br \/>\n    disse: &#8212; &quot;Acho inutil qualquer debate neste momento. A situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; obscura e&#8230;&quot; N&atilde;o p&ocirc;de acabar. Um tropel reboou<br \/>\n    nos corredores. Era o bando elvinista que penetrava, com miss Astor &aacute;<br \/>\n    frente.<\/p>\n<p> Kerlog empalideceu. Os extremismos daquela fac&ccedil;&atilde;o eram tantos<br \/>\n    que ele previu qualquer coisa semelhante aos assaltos histericos das antigas<br \/>\n    sufragistas britanicas. E apertou o bot&atilde;o da campainha de alarma, chamando<br \/>\n    a postos os guardas.<\/p>\n<p> Miss Astor avan&ccedil;ou para ele. Num instintivo gesto de defesa, Kerlog<br \/>\n    recuou em sua poltrona, vendo claramente definida a agress&atilde;o iminente.<br \/>\n    Os ministros lan&ccedil;aram-se das suas cadeiras em socorro do chefe supremo.<\/p>\n<p> Era tarde, Miss Astor agarrara o presidente Kerlog pelo pesco&ccedil;o&#8230;<\/p>\n<p> Agarrara-o n&atilde;o para o estrangular, mas para o beijar entre lagrimas<br \/>\n    e solu&ccedil;os de como&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Kerlog, querido Kerlog! Venho em nome de todas as mulheres<br \/>\n    pedir perd&atilde;o ao Homo, em ti representado, da loucura a que miss Elvin<br \/>\n    nos arrastou. Diante dos supremos interesses da ra&ccedil;a ofendida, cessa<br \/>\n    o divorcio sexual. Volta a mulher de novo aos bra&ccedil;os do seu velho companheiro<br \/>\n    de peregrina&ccedil;&atilde;o pelo mundo&#8230;&quot; Mal vindo do espanto, tonto<br \/>\n    ainda, o presidente Kerlog apenas murmurou: &#8212; &quot;A que horas, miss<br \/>\n    Astor! A que horas vem falar-me lingua compreensivel!&#8230;&quot; &#8212; &quot;Perdoa,<br \/>\n    Kerlog! Foi uma nuvem que passou.&quot; &#8212; &quot;Mas l&aacute; est&atilde;o<br \/>\n    as terriveis consequencias impressas na fachada do Capitolio.&quot; &#8212;<br \/>\n    &quot;Que importa? O que a m&atilde;o do negro escreveu a tua apagar&aacute;.&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Facil de dizer, miss Evelyn. Dentro da criatura civilizada dorme<br \/>\n    um troglodita. Receio que a exaspera&ccedil;&atilde;o desperte esse monstro.&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Temos tudo por n&oacute;s, o numero e a superioridade mental.&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Mas temos contra n&oacute;s o momento, o impulso, a colera,<br \/>\n    a vingan&ccedil;a &#8212; as velhas inferioridades adormecidas mas n&atilde;o<br \/>\n    mortas.<\/p>\n<p> Receio que a America se inunde de sangue&#8230;<\/p>\n<p> Miss Astor emudeceu por um momento, com os seios ofegantes.<\/p>\n<p> Depois disse: &#8212; &quot;E agora? Que vamos fazer?&quot; Kerlog respondeu<br \/>\n    com finura: &#8212; &quot;Vamos vencer. O perigo existia enquanto a palavra<br \/>\n    vamos s&oacute; representava metade da ra&ccedil;a branca. Se miss Astor me<br \/>\n    traz o concurso da metade rebelde, tudo muda &#8230;&quot; A ex-sabina desprendeu-se<br \/>\n    do pesco&ccedil;o presidencial e gritou, voltada para as suas companheiras:<br \/>\n    &#8212; &quot;Cerremos fileiras em torno de Kerlog! &Eacute; ele o nosso lider<br \/>\n    supremo &#8212; lider da ra&ccedil;a, e acaba de tra&ccedil;ar o incoerc&iacute;vel<br \/>\n    programa branco: &quot;Vencer!&quot; Viva Kerlog!&quot; Um burra delirante<br \/>\n    saudou as suas palavras.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Viva Kerlog! Viva o Homo!&quot; O ministro da Educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Social interveio malicioso: &#8212; &quot;Alia-se de novo ent&atilde;o ao<br \/>\n    &quot;gorila pelado&quot;, miss Astor? &#8212; &quot;Sim, respondeu ela, mais<br \/>\n    formosa do que nunca, tanto a sua fisionomia irradiava de entusiasmo. Acabamos<br \/>\n    de fazer uma grande descoberta: o sabino de miss Elvin n&atilde;o passa de<br \/>\n    um estupido boi de mar. Viva, portanto, o velho gorila!&quot; &#8212; &quot;Viva!<br \/>\n    Viva!&#8230;&quot; E a onda feminina derramou-se barulhentamente pelos corredores<br \/>\n    afora, at&eacute; despejar-se pelas escadarias.. .<\/p>\n<p> Aliviado de um grande peso Kerlog voltou-se para os ministros e repetiu<br \/>\n    risonho o verso de Shakespeare: &#8212; &quot;She is false as water,..<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Mas de muita for&ccedil;a catal&iacute;tica, rosnou o ministro<br \/>\n    da Equidade. Cura pela a&ccedil;&atilde;o da presen&ccedil;a &#8230;&quot; O ponto<br \/>\n    e virgula com torradas veio interromper naquele dia as revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de miss Jane. Retirei-me mais interessado do que nunca no desfecho da crise<br \/>\n    americana do seculo 23. <\/p>\n<h4><a name=\"18\">CAP&Iacute;TULO XVIII &#8211; O Orgulho da Ra&ccedil;a<\/a><\/h4>\n<p>Passei a semana agitado, menos com as revela&ccedil;&otilde;es do ano 2228<br \/>\n    do que com a impassibilidade de miss Jane.<\/p>\n<p> Eu ardia, positivamente ardia, e traia o meu amor em todos os meus olhares<br \/>\n    e gestos; mas a enigmatica jovem n&atilde;o dava ar de o perceber. No come&ccedil;o<br \/>\n    a admiti como um puro espirito, uma Cassandra sem nervos nem sangue. Depois<br \/>\n    duvidei da existencia de tais puros espiritos e passei a ver em miss Jane<br \/>\n    uma &quot;desentendida&quot;. Talvez que me julgasse muito inferior a si e<br \/>\n    adotasse semelhante atitude como o meio mais facil de guardar as distancias.<br \/>\n    Mas era-me imposs&iacute;vel conciliar isso com a amizade que ela me demonstrava<br \/>\n    e sobretudo com o ter s&oacute; a mim no mundo depois de perdido o pai. Se<br \/>\n    de fato me julgasse inferior ou indigno de sua pessoa, certo que j&aacute;<br \/>\n    me teria afastado do castelo. N&atilde;o havia duvida, miss Jane fazia-se<br \/>\n    de desentendida&#8230;<\/p>\n<p> Firmei-me nessa ideia e concebi um plano de ataque &#8212; uma demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    amorosa que a arrancasse da sua marmorea impassibilidade. Ou tudo ou nada.<br \/>\n    Ou dava-me o cora&ccedil;&atilde;o ou punhame no olho da rua.<\/p>\n<p> Restava saber uma coisa s&oacute; &#8212; se no momento da demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a timidez n&atilde;o me trairia a vontade&#8230;<\/p>\n<p> Quando chegou o domingo, levantei-me mais cedo e fui ao mercado de flores.<br \/>\n    Comprei as mais belas violetas e a sobra&ccedil;a-las parti para Friburgo<br \/>\n    no primeiro trem. L&aacute; me dirigi ao cemiterio onde repousavam os restos<br \/>\n    do professor Benson. Pela segunda vez eu levava flores ao jazigo do pai da<br \/>\n    maior maravilha do seculo &#8212; miss Jane&#8230;<\/p>\n<p> Ao transpor o port&atilde;o do pequeno cemiterio meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    bateu.<\/p>\n<p> Vi de longe um vulto querido a espalhar rosas sobre o tumulo do velho sabio.<br \/>\n    Aproximei&#8211;me com um pressentimento n&#8217;alma &#8212; &quot;&eacute; hoje&quot;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tambem aqui? disse miss Jane ao avistar-me, estendendo para mim<br \/>\n    a sua m&atilde;o gelada pelo frescor matutino.<\/p>\n<p> Vi que era chegado o momento. Armei-me de todas as coragens e comecei: &#8212;<br \/>\n    Miss Jane, eu&#8230;<\/p>\n<p> Mas engasguei. J&aacute; estava ela de olhos muito fixos no tumulo, com<br \/>\n    o ar de quem repete mentalmente o &quot;morrer&#8230; dormir&#8230; sonhar, quem sabe?&quot;<br \/>\n    de Shakespeare. Estava puro espirito em excesso&#8230;<\/p>\n<p> Ficamos os dois silenciosos por alguns momentos. Depois miss Jane falou,<br \/>\n    como respondendo a si propria e sempre de olhos cravados no tumulo: &#8212;<br \/>\n    Nem ele! Nem ele que penetrava o passado e o futuro adiantou um passo na decifra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do enigma da vida&#8230;<\/p>\n<p> Enguli de vez o meu proposito. N&atilde;o era o momento. O formoso Hamlet<br \/>\n    de faces roseas, cabelos afogados em boina de veludo negro e corpo revestido<br \/>\n    de perfeito tailleur, pairava muito distante de mim.,.<\/p>\n<p> Apesar disso tomei-lhe a m&atilde;o e apertei-a de novo, suavemente.<\/p>\n<p> Miss Jane olhou-me nos olhos com a funda melancolia dos que penetram no<br \/>\n    mui longe das coisas &#8212; e nada v&ecirc;em do que vai por perto.<\/p>\n<p> Dali seguimos juntos para o castelo, sem que a paisagem nem o ar fino da<br \/>\n    manh&atilde; dissipassem a tristeza dela e a minha decep&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    No castelo, por uma hora, s&oacute; falamos do professor Benson, com longos<br \/>\n    intervalos de silencio &#8212; intervalos de silencio em que eu lamentava<br \/>\n    a coexistencia de puros esp&iacute;ritos em corpos assim t&atilde;o perturbadores.<\/p>\n<p> Depois do almo&ccedil;o, o primeiro que fiz em sua companhia, a nuvem das<br \/>\n    saudades passou e retomamos a nossa excurs&atilde;o pelo ano 2228.<\/p>\n<p> &#8212; Onde estavamos? principiou ela.<\/p>\n<p> &#8212; Em Kerlog, j&aacute; libertado do pesadelo elvinista, respondi.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, &eacute; isso. As mulheres aderiram ao Homo e tudo mudou, como<br \/>\n    era natural. A ra&ccedil;a branca formava novamente um bloco unido e apto<br \/>\n    a organizar a resistencia.<\/p>\n<p> &#8212; Mas a impress&atilde;o do golpe de Jim? Como o recebeu o pa&iacute;s?<br \/>\n    perguntei suspirando.<\/p>\n<p> &#8212; Com estupefa&ccedil;&atilde;o. Pela primeira vez na vida de um povo<br \/>\n    ocorria um fato que interessava a todos os seus componentes, sem exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um s&oacute;. E como ninguem, a n&atilde;o ser Jim Roy, houvesse esperado<br \/>\n    por aquele desfecho, facil &eacute; de imaginar o grau de assombro do espirito<br \/>\n    publico.<\/p>\n<p> A estupefa&ccedil;&atilde;o dos brancos derrotados n&atilde;o era menor<br \/>\n    que a dos negros vencedores. Haviam estes agido como automatos; deram o voto<br \/>\n    a Roy como o dariam a Kerlog, a miss Astor, ou o n&atilde;o dariam a nenhum<br \/>\n    dos tres, se tal fosse a senha recebida. E agora olhavam-se uns para os outros<br \/>\n    num estonteamento de vitoria em absoluto inedito para eles.<\/p>\n<p> Quanto &aacute;s consequencias poss&iacute;veis, nem de um lado nem do outro<br \/>\n    ninguem podia prever coisa nenhuma. Extenso demais era o fenomeno para ser<br \/>\n    abarcado por uma cabe&ccedil;a e, alem disso, n&atilde;o tinha precedentes<br \/>\n    na historia.<\/p>\n<p> S&oacute; no dia seguinte &eacute; que o acesso de estupefa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    coletiva principiou a decair. As celulas do imenso organismo social foram<br \/>\n    saindo daquele penoso estado de anestesia para entrar na fase inversa da exalta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O velho desprezo racial do branco pelo negro transformavase em colera, e o<br \/>\n    recalcado odio do negro pelo branco, arreganhando os dentes, entreabria um<br \/>\n    monstruoso sorriso de revanche.<\/p>\n<p> Lentamente despertava a massa negra do longo letargo de submiss&atilde;o<br \/>\n    e tremia de narinas ao vento, como o tigre solto na jungle.<\/p>\n<p> Toda a barbarie atavica, todos os apetites em recalque, rancores impotentes,<br \/>\n    injusti&ccedil;as padecidas, todas as vergastadas que laceraram a sua pobre<br \/>\n    carne at&eacute; o advento de Lincoln, e depois de Lincoln todas as humilha&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da desigualdade de tratamento &#8212; essa legi&atilde;o de fantasmas irrompeu<br \/>\n    da alma negra como serpes de sob a lage que m&atilde;o imprudente levanta.<br \/>\n    E a ra&ccedil;a maior que o da mesquinha liberdade fisica, passou a sonhar<br \/>\n    o grande sonho branco da domina&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Tomado de receios ante a imensidade daquele despertar, Jim Roy auscultava<br \/>\n    os fremitos do seu povo e media a tarefa ingente que lhe pesava sobre os ombros.<br \/>\n    Se n&atilde;o conseguisse manter a&ccedil;aimado o monstro e submisso &aacute;<br \/>\n    sua voz de comando, a momentanea vitoria breve se transformaria num horrendo<br \/>\n    cataclismo. Jim Roy amava a America. N&oacute;s alicerces do colossal edificio<br \/>\n    o cimento ligador dos blocos f&ocirc;ra amassado com o suor dos seus ancestrais.<br \/>\n    A America surgira do esfor&ccedil;o bra&ccedil;al de um, dirigido pelo esfor&ccedil;o<br \/>\n    mental de outro, e pois tanto lhe falava a ele ao sangue como ao do mais orgulhoso<br \/>\n    neto dos pioneiros louros.<\/p>\n<p> De instante a instante recebia comunica&ccedil;&otilde;es dos seus agentes<br \/>\n    dando conta do estado d&#8217;alma da massa. A pantera negra distendia os musculos<br \/>\n    entorpecidos, com os olhos a se rajarem de sangue&#8230;<\/p>\n<p> Jim tremeu. Sabia conter os nervos da fera, dominar-lhe todos &iacute;mpetos<br \/>\n    instintivos. Al&eacute;m disso via o seu j&aacute; imenso prestigio de lider<br \/>\n    acrescentado com o de Presidente eleito &#8212; mas estaria em seu poder sofrear<br \/>\n    o maremoto africano? N&atilde;o faria dele um dique impotente a borrasca a<br \/>\n    desenhar-se? Jim sentia no ar as ondas de fluidos explosivos, um perfeito<br \/>\n    ambiente de polvora. O solo latejava pulsa&ccedil;&otilde;es vulcanicas. Jim<br \/>\n    tremeu diante de sua obra &#8212; e sem vacilar foi ao encontro de Kerlog.<br \/>\n    O momento impunha a conjuga&ccedil;&atilde;o da sua for&ccedil;a com a do<br \/>\n    lider branco.<\/p>\n<p> Defrontaram-se os dois chefes como duas for&ccedil;as da natureza, contrarias<br \/>\n    nos seus destinos, inimigas pela voz do sangue, mas irmanadas no momento por<br \/>\n    um nobre objetivo comum.<\/p>\n<p> No primeiro &iacute;mpeto Kerlog apostrofou o chefe negro.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;V&ecirc; tua obra, Jim! A America transformada num vulc&atilde;o<br \/>\n    e amea&ccedil;ada de morte!&quot; O negro cravou no lider branco os olhos<br \/>\n    frios, por um instante animados de estranho fulgor.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;N&atilde;o minha, Presidente Kerlog! N&atilde;o &eacute; minha<br \/>\n    esta obra. &Eacute; sua, &eacute; dos seus, &eacute; de Washington, &eacute;<br \/>\n    de Lincoln. Os brancos mentiram na lei basica. E ou confessam que mentiram<br \/>\n    ou reconhecem que a situa&ccedil;&atilde;o &eacute; perfeitamente normal.<br \/>\n    Que aconteceu, Presidente Kerlog? Houve um pleito e as urnas liberrimas conferiram<br \/>\n    a vitoria a um cidad&atilde;o eleg&iacute;vel. Acha o Presidente Kerlog que<br \/>\n    o Pacto Constitucional sofreu les&atilde;o? Naquele peito a peito Jim Roy<br \/>\n    dominava o adversario.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Mas n&atilde;o se trata disso, continuou ele. O momento n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; para recrimina&ccedil;&otilde;es &#8212; e em materia de recrimina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    o Presidente Kerlog bem sabe que jamais um branco venceria um negro&#8230; O fato<br \/>\n    est&aacute; consumado; e como chefes supremos das duas ra&ccedil;as a n&oacute;s<br \/>\n    s&oacute; incumbe atender &aacute; salva&ccedil;&atilde;o comum. Se n&atilde;o<br \/>\n    contivermos de redeas presas os dois monstros &#8212; o monstro da ebriedade<br \/>\n    negra e o monstro do orgulho branco, a chacina vai ser espantosa&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Ninguem sabe disso melhor que eu, retrucou o chefe da na&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Nos estados do Sul j&aacute; lavra o incendio &#8230;&quot; O negro deu um salto.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Jim o apagar&aacute;! Jim manter&aacute; presa em cadeia de<br \/>\n    a&ccedil;o a pantera africana. Ele a domina com os olhos como o soba a dominava<br \/>\n    no kraal donde a cupidez dos brancos a tirou. Jim &eacute; rei!&quot; Era<br \/>\n    tal a firmeza com que o grande lider negro emitia aquelas palavras que o tom<br \/>\n    de superioridade do branco se demudou em admira&ccedil;&atilde;o. Kerlog viu<br \/>\n    que tinha diante de si, n&atilde;o um feliz aventureiro pol&iacute;tico, mas<br \/>\n    uma dessas incoerc&iacute;veis express&otilde;es raciais a que chamamos condutores<br \/>\n    de povos. Pela primeira vez enfrentava um homem que era algo mais que um homem.<br \/>\n    E do fundo do cora&ccedil;&atilde;o Kerlog lamentou que a incompatibilidade<br \/>\n    racial o separasse de tamanho vulto.<\/p>\n<p> Jim prosseguiu: &#8212; &quot;Mas s&oacute; o farei se por sua vez o Presidente<br \/>\n    Kerlog a&ccedil;aimar o orgulho branco. Eu domino os meus com o olhar e a<br \/>\n    palavra. O Presidente Kerlog domina com a for&ccedil;a do estado. Em nossas<br \/>\n    m&atilde;os est&aacute; pois a paz da America.&quot; O lider branco baixou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a. Meditava.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Pois salvemos a America, Jim! disse erguendo-se. A&ccedil;aima<br \/>\n    tu a pantera negra que meterei luvas nas unhas da aguia branca.&quot; Um leal<br \/>\n    aperto de m&atilde;o selou aquele pacto de gigantes.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Mas a pantera que conte com o revide da aguia! continuou o<br \/>\n    lider branco depois que as m&atilde;os se desapertaram. A aguia &eacute; cruel&#8230;&quot;<br \/>\n    Jim Roy retesou-se de todos os musculos como a fera que se p&otilde;e em guarda.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Amea&ccedil;a-nos como sempre? Amea&ccedil;a-nos at&eacute;<br \/>\n    110 momento em que a America ou rompe a sua Constitui&ccedil;&atilde;o e afoga-se<br \/>\n    num mar de sangue ou submete-se ao meu comando?&quot; Kerlog olhou-o firme<br \/>\n    nos olhos e murmurou com nitidez de lamina: &#8212; &quot;N&atilde;o amea&ccedil;o.<br \/>\n    Previno lealmente. Vejo em ti uma for&ccedil;a demasiado grande para que eu<br \/>\n    a enfrente com palavras. Estamos face a face n&atilde;o dois homens, sim duas<br \/>\n    almas raciais arrostadas num duelo decisivo. N&atilde;o fala neste momento<br \/>\n    o Presidente Kerlog. Fala o branco de crueldade fria, o mesmo que vos arrancou<br \/>\n    do kraal, o mesmo que vos torturou nos brigues, o mesmo que vos espezinhou<br \/>\n    nos algodoais. Como ha raz&otilde;es de estado, Jim, ha raz&otilde;es de ra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Raz&otilde;es sobrehumanas, frias como o gelo, crueis como o tigre, duras<br \/>\n    como o diamante, implacaveis como o fogo. O sangue n&atilde;o raciocina, como<br \/>\n    os filosofos. O sangue sidera, qual o raio. Como homem admirote, Jim. Vejo<br \/>\n    em ti o irm&atilde;o e sinto o genio. Mas como branco s&oacute; vejo em ti<br \/>\n    o inimigo a esmagar&#8230;&quot; O largo peito de Jim Roy arfava. A fera ancestral<br \/>\n    nele alapada transpareceu no fremir das ventas grossas.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;E n&atilde;o trepidar&aacute; o branco em esmagar a America<br \/>\n    se for condi&ccedil;&atilde;o para esmagar o negro?&quot; rugiu.<\/p>\n<p> Kerlog retrucou calmamente como se pela sua boca falasse o proprio deus<br \/>\n    do Orgulho: &#8212; &quot;Acima da America est&aacute; o Sangue&quot;.<\/p>\n<p> Jim baixou a cabe&ccedil;a. Viu aberto &aacute; sua frente o eterno abismo.<\/p>\n<p> O sangue branco tinha a dureza do diamante. Armado de mais cerebro, dos<br \/>\n    vales dos Ganges partira para a ousada aventura conquistadora e vencera sempre<br \/>\n    e n&atilde;o cedera nunca. Era o nobre, o duro, o eterno senhor cujo raio<br \/>\n    fulmina. Era o criador. Do rude instinto de matar do troglodita extraira a<br \/>\n    sua grande arte, a Guerra.<\/p>\n<p> Forjara a espada, dominara o g&aacute;s que explode, violara o profundo<br \/>\n    das aguas e a amplid&atilde;o dos ares. E com esse feixe de armas incoerc&iacute;veis<br \/>\n    rodeara como de baionetas o diamante do seu Orgulho.<\/p>\n<p> Tudo isso, num clar&atilde;o, viu Jim Roy naquele homem que sereno o arrostava.<br \/>\n    E o que ainda havia de escravo no sangue do grande negro vacilou. Jim sentiu&#8211;se<br \/>\n    como retina ferida pelo sol. Mas sem demora reagiu. Ergueu-se e mais firme<br \/>\n    que nunca disse com dureza de rocha na voz: &#8212; &quot;Seja! E porque assim<br \/>\n    &eacute;, dei o supremo golpe. A America &eacute; t&atilde;o sua como minha.<br \/>\n    Tenho-a nas m&atilde;os. Vou dividi-la.&quot; &#8212; &quot;A justi&ccedil;a<br \/>\n    est&aacute; contigo, Jim. Manda a justi&ccedil;a dividir a America. Mas o<br \/>\n    Sangue est&aacute; acima da justi&ccedil;a. O Sangue tem a sua justi&ccedil;a.<br \/>\n    E para a justi&ccedil;a do Sangue Branco &eacute; um crime dividir a America.&quot;<br \/>\n    Jim novamente baixou a cabe&ccedil;a e emudeceu. Pela segunda vez sentia-se<br \/>\n    como a retina ofuscada pelo sol.<\/p>\n<p> O Presidente Kerlog aproximou-se dele e, com as m&atilde;os nos seus ombros<br \/>\n    largos, disse: &#8212; &quot;Vejo-te grande como Lincoln, Jim, e &eacute;<br \/>\n    com lagrimas nos olhos que contemplo a tua figura imensa, mas inutil&#8230; Adeus.<\/p>\n<p> Atendamos ao instante, a&ccedil;aimemos as nossas ra&ccedil;as &#8212; mas<br \/>\n    n&atilde;o fique entre n&oacute;s sombra de mentira. O teu ideal &eacute;<br \/>\n    nobil&iacute;ssimo, mas &aacute; solu&ccedil;&atilde;o de justi&ccedil;a com<br \/>\n    que sonhas s&oacute; poderemos responder com a eterna resposta do nosso orgulho:<br \/>\n    Guerra!&quot; E os dois seres humanos subsistentes no imo dos dois lideres<br \/>\n    raciais abra&ccedil;aram-se com lagrimas&#8230;<\/p>\n<p> Miss Jane fez uma pausa, atenta &aacute; minha como&ccedil;&atilde;o. Aquele<br \/>\n    duelo de gigantes agitara fundo o meu ser. Tive a impress&atilde;o de que<br \/>\n    jamais a historia oferecera lance mais grandioso &#8212; nem mais cruel. Vi<br \/>\n    claros inumeros pontos at&eacute; ali obscuros na marcha da caravana que do<br \/>\n    fundo das idades vem vindo a entredegolar-se com sanhudos odios.<\/p>\n<p> Vi um sonho de Ariel esfumado nas alturas &#8212; a Justi&ccedil;a Humana;<br \/>\n    e vi na terra, onipotente, a Justi&ccedil;a do Sangue &#8212; um raio cego&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E depois? perguntei. Voltou a paz &aacute; America? &#8212; Sim,<br \/>\n    respondeu miss Jane. Os dois lideres entraram a agir de pronto. A a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um foi t&atilde;o rapida e segura como a do outro. A pantera negra recolheu<br \/>\n    as garras e a aguia branca enluvou as unhas.<\/p>\n<p> Mas o beluario negro sentia-se ferido. As palavras que a ra&ccedil;a branca<br \/>\n    pusera na boca de Kerlog cravaram-se-lhe no cora&ccedil;&atilde;o como as<br \/>\n    zagaias dos seus av&oacute;s no peito dos le&otilde;es africanos &#8212; mortalmente&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"19\">CAPITULO XIX &#8211; Burrada<\/a><\/h4>\n<p>Para descan&ccedil;o do meu espirito miss Jane passou a falar do movimento<br \/>\n    feminino, tema que muito me interessava.<\/p>\n<p> &#8212; O partido elvinista, disse ela, desapareceu do cenario nacional<br \/>\n    como neve exposta ao fogo. Poderos&iacute;ssimo na vespera, t&atilde;o poderoso<br \/>\n    que batera seu adversario, o partido masculino, por meio milh&atilde;o de<br \/>\n    votos, achava-se agora reduzido a uma s&oacute; partidaria: miss Elvin. Todas<br \/>\n    as mais haviam aderido aos homens escandalosamente, como se l&aacute; no intimo<br \/>\n    nunca tivessem ansiado por outra coisa.<\/p>\n<p> O tempo ia passando e miss Elvin n&atilde;o se recompunha do formidavel<br \/>\n    trambolh&atilde;o sofrido. Para o meeting marcado em sua casa no dia das elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o aparecera ninguem, e atirada a uma poltrona do sal&atilde;o deserto<br \/>\n    a irredut&iacute;vel sabina permaneceu at&eacute; tarde da noite, furiosa,<br \/>\n    com os olhos cravados no aparelho por onde irradiara a ultima proclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Remember Sabino! &#8212; Ultima, miss Jane? &#8212; Ultima, sim, porque<br \/>\n    esse jornal havia morrido de subito colapso. Todas as assinantes haviam cortado<br \/>\n    a liga&ccedil;&atilde;o, e se miss Elvin tentasse radiar uma s&oacute; palavra<br \/>\n    que fosse ve-la-ia perder-se virgem de ouvidos pelos intermundios siderais.<\/p>\n<p> A um canto da sala havia um enorme gorila empalhado, com um d&iacute;stico<br \/>\n    insultante: &quot;O av&ocirc; do ladr&atilde;o&quot;. Era olhando para aquela<br \/>\n    bestial carca&ccedil;a avoenga que miss Elvin compunha as suas terr&iacute;veis<br \/>\n    catilinarias contra o Homo sapiens, ao qual jurara descer da sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de macho natural da mulher, &#8212; Mas haveria sinceridade nisso? perguntei.<\/p>\n<p> &#8212; Sinceridade estetica evidentemente, forma de sinceridade t&atilde;o<br \/>\n    legitima como outra qualquer.<\/p>\n<p> N&atilde;o entendi muito bem. Miss Jane dizia &aacute;s vezes coisas um<br \/>\n    tanto acima da minha debil compreens&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Essa teoria, prosseguiu ela, fez carreira e exerceu uma fun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    muito curiosa na America: congregar todas as femeas que por uma circunstancia<br \/>\n    ou outra se desavinham com os machos &#8212; esposos, noivos ou namorados,<br \/>\n    e foi com esses elementos que se constituiu o partido elvinista. Partido instavel,<br \/>\n    ali&aacute;s, e sempre renovado.<\/p>\n<p> Diariamente nele se inscreviam milhares de adeptas e se eliminavam outras<br \/>\n    tantas. Entravam as brigadas com o homem e saiam as reconciliadas&#8230;<\/p>\n<p> Mesmo assim miss Elvin elevou muito alto as suas constru&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    chegando at&eacute;, como j&aacute; disse, a criar ciencias novas, adaptadas<br \/>\n    &aacute; mentalidade das mulheres.<\/p>\n<p> A Universidade Sabina fez furor. N&atilde;o tinha s&eacute;de ao sistema<br \/>\n    de hoje, como ali&aacute;s a maioria dos estabelecimentos de ensino da epoca.<br \/>\n    As li&ccedil;&otilde;es eram radiadas diretamente para a residencia das alunas.<br \/>\n    A ciencia elvinista possu&iacute;a seus metodos proprios, nada semelhantes<br \/>\n    aos da velha ciencia dos homens. Em aritmetica, por exemplo 2 + 2 n&atilde;o<br \/>\n    era for&ccedil;osamente igual a quatro. Era igual ao que no momento conviesse.<\/p>\n<p> &#8212; Vejo, disse eu, que &eacute; bem verdade o &quot;nada ha de novo<br \/>\n    debaixo do sol&quot;. Para quanta gente hoje a verdadeira matematica n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; essa! Mas como era a ciencia sabina, miss Jane? Fale-me dela.<\/p>\n<p> Miss Jane explicou que o grande principio da ciencia sabina era admitir<br \/>\n    como base de tudo a veneta; e como a veneta &eacute; de si feminina e instavel<br \/>\n    nenhuma das ciencias novas, inclusive as matematicas, possu&iacute;a base<br \/>\n    fixa. Tudo ondeava, como o mar donde procediam as sabinas. E por absurdo que<br \/>\n    isto nos pare&ccedil;a, a n&oacute;s deste presente educado na rigidez da<br \/>\n    velha ciencia de Aristoteles e Bacon, as teorias de miss Elvin trouxeram ao<br \/>\n    espirito humano a sua contribui&ccedil;&atilde;o de beleza. Foi a vitoria<br \/>\n    do furta-c&ocirc;r, da onda, do reflexo fugidio do loie-fulerismo, contrapostos<br \/>\n    &aacute; c&ocirc;r fixa., &aacute; rididez do cubo, &aacute; constancia equacional<br \/>\n    dos termos. Isso se adaptava maravilhosamente &aacute; agilidade do pensamento<br \/>\n    mulheril, e foi justamente essa fei&ccedil;&atilde;o sedutora, amavel e liberrima<br \/>\n    da teoria que determinou o enlace de todas as mulheres para o terreno pol&iacute;tico,<br \/>\n    operando a cis&atilde;o branca.<\/p>\n<p> &#8212; Qualquer coisa como o futurismo de hoje, n&atilde;o acha? &#8212;<br \/>\n    Isso. Teorias de repouso, com base num sutil malabarismo de logica, que servem<br \/>\n    para romper o monotono de certeza, de verdade, da coisa tida e havida como<br \/>\n    justa. O espirito humano nelas se recreia e se espoja, como se espoja na poeira<br \/>\n    o cavalo cansado.<\/p>\n<p> Miss Elvin, entretanto, ao inv&eacute;s de mostrar-se desolada com as consequencias<br \/>\n    do seu movimento s&oacute; via o lado pessoal do desastre.<\/p>\n<p> F&ocirc;ra violenta demais a sua queda. O sonho maravilhoso erguera-a &aacute;s<br \/>\n    nuvens e a sabina acabou convencida de que era de fato messianica. E como<br \/>\n    tinha o genio impulsivo, n&atilde;o podia conter o furor diante da deser&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    at&eacute; das amigas mais proximas.<\/p>\n<p> Em certo momento, no dia do grande meeting, miss Elvin olhou para a cara<br \/>\n    bestial do gorila empalhado como quem olha para um inimigo de carne. O monstro,<br \/>\n    de dentes &aacute; mostra, parecia sorrir-lhe ironicamente.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Venceste ainda uma vez, meu celerado! Mas a crise passar&aacute;<br \/>\n    e justaremos contas&#8230;&quot; disse ela atirando-lhe &aacute; cara uma veneranda<br \/>\n    Origem das Especies de Charles Darwin.<\/p>\n<p> Estava plenamente convicta de que quando o pa&iacute;s reentrasse na normalidade<br \/>\n    resurgiria o partido sabino. A onda f&ocirc;ra-se. Mas o proprio da onda &eacute;<br \/>\n    ir e vir.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;She is false as water&#8230;&quot; repetiu miss Elvin por sua<br \/>\n    vez, espraiando o olhar para o futuro.<\/p>\n<p> E assim foi. Quando o pa&iacute;s recaiu na paz de sempre, o Remember Sabino!<br \/>\n    reapareceu e houve um perfeito da capo do elvinismo, como nas musicas&#8230;<\/p>\n<p> Miss Jane fez pausa. Notou talvez que eu estava inquieto, em luta com alguma<br \/>\n    ideia. E n&atilde;o errara. Qualquer coisa me dizia que era o momento de declarar<br \/>\n    a minha sopitada paix&atilde;o. O sangue estuavame nas veias e por fim a palavra<br \/>\n    de amor que romperia a barreira assomou-me &aacute; boca. Mas ao chegar &aacute;<br \/>\n    boca transformou-se, e o que saiu foi uma filha da timidez disfar&ccedil;ada<br \/>\n    em curiosidade: &#8212; E miss Astor? perguntei.<\/p>\n<p> &#8212; Essa irradiava de contentamento, como se o reatar rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com o difamado Homo lhe houvesse correspondido a um secreto anelo do cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Durante o per&iacute;odo agudo da agita&ccedil;&atilde;o elvinista operarase<br \/>\n    uma completa ruptura entre os membros dos dois partidos, e miss Astor chegou<br \/>\n    a zombar de Kerlog, por quem possuia uma s&eacute;ria inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sentimental. O desfecho inesperado das elei&ccedil;&otilde;es, entretanto,<br \/>\n    viera romper a frieza e aproximara-os de novo, fato que a enchia de secretas<br \/>\n    esperan&ccedil;as. As demais elvinistas, j&aacute; saudosas do macho tradicional,<br \/>\n    tambem aproveitaram o ensejo para uma reconcilia&ccedil;&atilde;o &#8212;<br \/>\n    e &eacute; de crer que nunca houvesse maior safra de beijos na America.<\/p>\n<p> Remexi-me na poltrona. Tanto beijo l&aacute; longe e uma criatura humana<br \/>\n    a definhar ali por falta de um s&oacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Isso explicava, continuou a desentendida miss Jane, o estranho fenomeno<br \/>\n    de s&oacute; as ex-adeptas de miss Elvin demonstrarem uma clara e inquieta<br \/>\n    alegria justamente na hora mais pressaga da na&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Enquanto todos se entregavam a penosas cogita&ccedil;&otilde;es, colhidos<br \/>\n    pela angustia do momento, as ex-sabinas vogavam em pleno mar de uma doce lua<br \/>\n    de mel.<\/p>\n<p> A crise de ternura n&atilde;o passou desapercebida ao ministro da Sele&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Artificial.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Vai altear-se o &iacute;ndice dos nascituros brancos, disse<br \/>\n    ele a um colega no momento em que subiam os degraus da Casa Branca para a<br \/>\n    reuni&atilde;o do ministerio. Prevejo o congestionamento de Eropolis&#8230;&quot;<br \/>\n    Kerlog j&aacute; l&aacute; estava no sal&atilde;o do conselho, mais sereno<br \/>\n    do que na vespera; embora ainda cheio de rugas na fronte. A conferencia com<br \/>\n    Jim Roy abalara-o profundamente. Sentira que n&atilde;o era o negro um ambicioso<br \/>\n    vulgar, como tinha suposto. Via agora em Jim uma nobre alma de patriota, capaz<br \/>\n    do supremo heroismo de sacrificar-se pela America. E gra&ccedil;as a seu concurso<br \/>\n    podia o governo estudar com a necessaria calma a grav&iacute;ssima situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Reunidos todos os secretarios, quem primeiro falou foi o ministro da Paz,<br \/>\n    antigo juiz cujo respeito pela Constitui&ccedil;&atilde;o tinha algo de supersticioso.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Refleti durante a noite sobre o caso, disse ele, e cheguei<br \/>\n    &aacute; conclus&atilde;o de que a n&oacute;s s&oacute; compete uma coisa:<br \/>\n    mostrar-nos fieis &aacute; memoria dos instituidores da na&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A lei basica existe e a nossa miss&atilde;o suprema &eacute; faze-la cumprir.<br \/>\n    Foi eleito um cidad&atilde;o americano t&atilde;o eleg&iacute;vel como o senhor<br \/>\n    Kerlog ou miss Astor. Governo que somos, a lei nos obriga a aceitar o fato,<br \/>\n    mantendo a ordem e empossando Jim Roy no dia que a lei manda.&quot; &#8212;<br \/>\n    &quot;Perd&atilde;o! interveio o ministro da Equidade. Creio que o senhor<br \/>\n    Kerlog n&atilde;o nos convocou para o exame formal do problema. Seria inutil,<br \/>\n    sobre infantil. O problema transcende a esfera politica e tornase racial.<br \/>\n    Neste momento n&atilde;o estamos aqui como secretarios de estado e sim como<br \/>\n    brancos afrontados pelos negros. Acima das leis pol&iacute;ticas vejo a lei<br \/>\n    suprema da Ra&ccedil;a Branca. Acima da Constitui&ccedil;&atilde;o vejo o<br \/>\n    Sangue Ariano. O negro nos desafia. Cumpre-nos aceitar a luva e organizar<br \/>\n    a guerra.&quot; Kerlog sorriu. Via o seu ministro expender as mesmas raz&otilde;es<br \/>\n    que ele lan&ccedil;ara contra Jim. A voz do Sangue, sempre&#8230;<\/p>\n<p> A discuss&atilde;o foi breve. Tirante o ministro da Paz, todos apoiaram<br \/>\n    o ponto de vista do ministro da Equidade &#8212; e Kerlog encerrou a audiencia<br \/>\n    com estas palavras: &#8212; &quot;Possuimos uma delega&ccedil;&atilde;o politica<br \/>\n    e com os poderes que ela nos outorga n&atilde;o podemos resolver um problema<br \/>\n    de sangue. Meu pensamento &eacute; que se convoque a conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Ra&ccedil;a Branca. Como ha raz&otilde;es de estado, tambem ha razoes de<br \/>\n    ra&ccedil;a que nos cumpre ouvir e atender.&quot; A ideia foi unanimemente<br \/>\n    aprovada.<\/p>\n<p> &#8212; O que admiro, comentei eu, &eacute; a concis&atilde;o e firmeza<br \/>\n    dessa gente da America futura. Se fosse entre n&oacute;s hoje, que barulheira,<br \/>\n    que discurseira de n&atilde;o acabar mais! &#8212; Tem raz&atilde;o, senhor<br \/>\n    Ayrton. A uma criatura de hoje que assistisse aos acontecimentos do ano de<br \/>\n    2228 nos Estados Unidos, nada espantaria tanto como o alto controle de si<br \/>\n    proprio que o homem revelava. Nada de tumulto, de anarquia individualista,<br \/>\n    de desnecessarias violencias na linguagem e nos atos. &Eacute; que os processos<br \/>\n    seletivos tinham banido da sociedade os tarados, inclusive os retoricos. Todas<br \/>\n    as perturba&ccedil;&otilde;es do mundo vinham da a&ccedil;&atilde;o anti-social<br \/>\n    desses maus elementos. At&eacute; &aacute; vitoria pratica do eugenismo, a<br \/>\n    desordem humana raiara pelo destempero e n&atilde;o podia deixar de ser assim,<br \/>\n    visto como um alcoolatra, um retorico ou um burocrata tinham tanta liberdade<br \/>\n    de encher o mundo de futuros pensionistas das pris&otilde;es, dos prost&iacute;bulos<br \/>\n    e das camaras de deputados como um homem s&atilde;o de o povoar de silenciosos<br \/>\n    homens de bem. A m&aacute; semente humana gozava de tantos direitos como a<br \/>\n    semente que abrolhou em Lincoln. E a caridade, a filantropia, a assistencia<br \/>\n    publica em materia de defesa social, n&atilde;o faziam sen&atilde;o despender<br \/>\n    enormes quantidades de dinheiro e esfor&ccedil;o na cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de hospitais, asilos, hosp&iacute;cios, pris&otilde;es, casas de congresso,<br \/>\n    reparti&ccedil;&otilde;es publicas, isto &eacute;, abrigos para os produtos<br \/>\n    logicos da m&aacute; origem. A ideia de sele&ccedil;&atilde;o da semente,<br \/>\n    de ha muito vitoriosa na agricultura e na pecuaria, s&oacute; n&atilde;o se<br \/>\n    via aceita no campo que mais deveria interessar ao homem. Uma velha ideologia<br \/>\n    m&iacute;stica vinda da Asia hebraica, e um falso conceito de liberdade vindo<br \/>\n    do 89 franc&ecirc;s, a isso se opunham tenazmente. Quando em 2031 Owen prop&ocirc;s<br \/>\n    a lei espartana, a resistencia ainda se mostrou forte; mas o alto progresso<br \/>\n    do espirito da America permitiu-lhe a vitoria. Pouco depois, quando o mesmo<br \/>\n    Owen formulou a lei da esteriliza&ccedil;&atilde;o dos tarados, embora fosse<br \/>\n    colossal o numero dos atingidos, j&aacute; se revelou menor a resistencia<br \/>\n    e a lei venceu por esmagadora maioria.<\/p>\n<p> Bastou um seculo de inteligente e sistematica aplica&ccedil;&atilde;o dessas<br \/>\n    leis aureas para que o povo americano se al&ccedil;asse a um grau de eleva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    f&iacute;sica, mental e moral que nem o proprio Owen chegara a sonhar. Fecharam&#8211;se<br \/>\n    as pris&otilde;es e com elas os hospitais, os hosp&iacute;cios e asilos de<br \/>\n    toda especie. E os sociologos da epoca entraram a assombrar-se da estupidez<br \/>\n    dos seus ancestrais&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &#8230; que passavam a vida lutando contra os produtos do mal sem terem<br \/>\n    a ideia de suprimi-lo com supress&atilde;o da m&aacute; semente.<\/p>\n<p> At&eacute; a miseria, cancro julgado pelos velhos filosofos como contingencia<br \/>\n    humana, viu-se gradualmente extinta &aacute; propor&ccedil;&atilde;o que o<br \/>\n    progresso seletivo operava os seus logicos efeitos. Com ela desapareceram<br \/>\n    automaticamente a prostitui&ccedil;&atilde;o e as formas baixas do crime.<\/p>\n<p> O direito de reprodu&ccedil;&atilde;o passou a ser regido pelo Codigo da<br \/>\n    Ra&ccedil;a, o mais alto monumento da sabedoria humana. S&oacute; quem apresentasse<br \/>\n    a serie completa de requisitos que a Eugenia impunha &#8212; requisitos que<br \/>\n    assegurassem a perfeita qualidade dos produtos, &eacute; que recebia o ministerio<br \/>\n    da Sele&ccedil;&atilde;o Artificial o brevet de &quot;pai autorizado&quot;.<\/p>\n<p> &#8212; Mas realmente parece incr&iacute;vel, miss Jane, exclamei com horror,<br \/>\n    que ainda hoje tenha o direito de ser pai quem quer! Morfeticos ha ali na<br \/>\n    ro&ccedil;a que botam no mundo anualmente pequeninos lazaros. E ninguem v&ecirc;,<br \/>\n    ninguem diz nada, todos acham que est&aacute; tudo direito. ..<\/p>\n<p> Eu sentia-me a ferver, com impetos de pular para a rua e berrar para todos<br \/>\n    os ventos: &#8212; Burrada!&#8230;<\/p>\n<p> Miss Jane acalmou-me a furia e prosseguiu: &#8212; E n&atilde;o parava a&iacute;<br \/>\n    a interven&ccedil;&atilde;o seletiva. Se um &quot;pai autorizado&quot; pretendia<br \/>\n    casar-se, tinha de apresentar-se com a noiva a um Gabinete Eugenometrico,<br \/>\n    onde lhes avaliavam o indice eugenico e lhes estudavam os problemas relativos<br \/>\n    &aacute; harmoniza&ccedil;&atilde;o somatica e psiquica. Caso um deles n&atilde;o<br \/>\n    atingisse o &iacute;ndice exigido, poderiam contrair nupcias mas sob a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de infecundidade.<\/p>\n<p> &#8212; Como &eacute; claro e inteligente isso! exclamei. Burrada!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Reproduzir a especie tornou-se um ato de alt&iacute;ssima responsabilidade,<br \/>\n    j&aacute; que era de alt&iacute;ssima relevancia para o progresso da especie.<br \/>\n    A ideia de exigir habilita&ccedil;&otilde;es oficiais para certos atos da<br \/>\n    vida &eacute; velha &#8212; mas exclue o ato de dar vida &aacute; prole futura.<br \/>\n    Exige o estado de hoje habilita&ccedil;&atilde;o brevetada para quasi tudo,<br \/>\n    para que um homem trabalhe no f&ocirc;ro, construa uma casa, cure uma dor<br \/>\n    de barriga&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; enrole uma p&iacute;lula &#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &#8230;mas nada exige de quem pretende dar vida a um novo ser humano,<br \/>\n    elo inicial, muitas vezes, de uma cadeia sem fim de desgra&ccedil;ados ou<br \/>\n    criminosos.<\/p>\n<p> &#8212; Burrada! Burrada&#8230; exclamei deveras revolta do contra a estupidez<br \/>\n    vigente. E como n&atilde;o ser assim, se qualquer S&aacute; ou qualquer Pato<br \/>\n    dirige a opini&atilde;o? Depois que meu &iacute;mpeto de revolta serenou,<br \/>\n    voltei a interpela-la acerca de um ponto que andava a espica&ccedil;ar a minha<br \/>\n    curiosidade.<\/p>\n<p> &#8212; E o casamento, miss Jane? J&aacute; falou diversas vezes em casamento<br \/>\n    e estou curioso por saber se essa palavra em 2228 diz o mesmo que hoje.<\/p>\n<p> &#8212; Diz e n&atilde;o diz, respondeu miss Jane. Nos casamentos em que<br \/>\n    o fim era a procria&ccedil;&atilde;o, o estado intervinha com olhos de lince.<br \/>\n    Sendo o objetivo a prole s&atilde; de corpo e alma, compreende o senhor Ayrton<br \/>\n    que todo o rigor era pouco para evitar desvios funestos ao futuro da ra&ccedil;a.<\/p>\n<p> As criaturas autorizadas a procriar constitu&iacute;am uma especie de nobreza.<br \/>\n    Todos as respeitavam como as eleitas da especie, preciosas linhas diretrizes<br \/>\n    do amanh&atilde;. O supersticioso acato que mereciam outrora os duques, marqueses<br \/>\n    e bar&otilde;es por merc&ecirc;s arbitrarias de tronos e solios pontif&iacute;cios,<br \/>\n    passou a caber aos pais pelo simples fato de serem pais. Ser pai valia por<br \/>\n    um diploma de superioridade mental, moral e fisica, conferido pela natureza<br \/>\n    e confirmado pelos poderes publicos.<\/p>\n<p> Esse casamento aproximava-se do nosso em muitos pontos. Era tambem dissoluvel.<br \/>\n    Mas conquanto dissoluvel, raro se dissolvia: a harmoniza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pre-nupcial dos Gabinetes Eugenometricos quasi n&atilde;o dava oportunidade<br \/>\n    a erros.<\/p>\n<p> Nos outros casos os conjuges uniam-se e desuniam-se com a maxima liberdade<br \/>\n    e desembara&ccedil;o. Nada tinha que fazer o governo em um contrato bilateral<br \/>\n    onde s&oacute; valia a vontade dos contratantes.<\/p>\n<p> &#8212; Quer dizer que o numero dos divorcios cresceu espantosamente&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ao contrario, diminuiu como nunca se esperou. E diminuiu em virtude<br \/>\n    da unica imposi&ccedil;&atilde;o que a lei fazia a esses contratos: as f&eacute;rias<br \/>\n    conjugais obrigatorias.<\/p>\n<p> &#8212; ? ! &#8212; Sim, f&eacute;rias. A experiencia psicologica demonstrou<br \/>\n    que o mal do casamento vinha mais do enfaro reciproco dos conjuges do que<br \/>\n    da essencia dessa forma de associa&ccedil;&atilde;o sexual. Instituiram-se<br \/>\n    as f&eacute;rias, como temos hoje as forenses, as colegiais, etc. E essa separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    periodica agiu com tamanha eficacia que os casais passaram a ter duas luas<br \/>\n    de mel por ano, luazinha ap&oacute;s as f&eacute;rias pequenas e lua cheia<br \/>\n    ap&oacute;s &aacute;s grandes. N&atilde;o houve mais necessidade de recorrer-se<br \/>\n    ao violento drastico do divorcio, como o temos hoje. O suave laxante das f&eacute;rias<br \/>\n    limpava os conjuges das toxinas do enfaro e renascia-lhes o amor ao petit-feu<br \/>\n    das saudades.<\/p>\n<p> &#8212; Puro ovo de Colombo! exclamei. Estou vendo que tudo &eacute; ovo<br \/>\n    de Colombo na vida. ..<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute;, mas o Colombo deste ovo s&oacute; apareceu no seculo<br \/>\n    XXIII.<\/p>\n<p> Foi Johnston Coolidge, autor do famoso livro Toxinas Conjugais, concluiu<br \/>\n    miss Jane.<\/p>\n<p> Pela primeira vez fui eu quem p&ocirc;s fim a um domingo. Estava ansioso<br \/>\n    por voltar &aacute; cidade e nos caf&eacute;s, na rua, no escritorio, pr&eacute;gar<br \/>\n    a eugenia e insultar a estupida gente que n&atilde;o v&ecirc; as coisas mais<br \/>\n    simples. A consequencia foi que s&oacute; dormi pela madrugada. E sonhei,<br \/>\n    agitado.<\/p>\n<p> Sonhei a cidade t&atilde;o limpa dos seus aleij&otilde;es que ficava reduzida<br \/>\n    unicamente a duas criaturas de m&atilde;os presas &#8212; eu e miss Jane&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"20\">CAP&Iacute;TULO XX &#8211; A Conven&ccedil;&atilde;o Branca<\/a><\/h4>\n<p>Desta vez n&atilde;o tive paciencia de esperar novo domingo. Havia um feriado<br \/>\n    no meio da semana e aproveitei-o para voar ao castelo antes do almo&ccedil;o.<br \/>\n    Delicioso almo&ccedil;o! Figurei-me durante ele j&aacute; marido da gentil<br \/>\n    hospedeira e dono do castelo. Cheguei a olhar com olhos de proprietario atrav&eacute;s<br \/>\n    das vidra&ccedil;as, por onde se viam terras e mais terras otimas para a cultura.<br \/>\n    Mas foi momentaneo o meu deslize. Do fundo d&#8217;alma eu s&oacute; queria ser<br \/>\n    dono do cora&ccedil;&atilde;ozinho que palpitava no seio da castel&atilde;.<\/p>\n<p> Tomamos caf&eacute; na varanda e em seguida miss Jane retomou o fio da historia.<\/p>\n<p> &#8212; A eleva&ccedil;&atilde;o do &iacute;ndice eugenico-mental do povo<br \/>\n    da America no ano do choque das ra&ccedil;as j&aacute; era notabilissima;<br \/>\n    o modo como agiu a Conven&ccedil;&atilde;o Branca o demonstrou mais uma vez.<br \/>\n    Falar em conven&ccedil;&atilde;o &eacute; lembrar a Conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Francesa, aquele tumulto utopico que fez retorica &aacute;s toneladas e decepou<br \/>\n    cabe&ccedil;as aos mont&otilde;es, como se a produ&ccedil;&atilde;o de frases<br \/>\n    e a redu&ccedil;&atilde;o de vidas pudesse aumentar o trigo dos celeiros,<br \/>\n    causa real de todos os males da Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p> A Conven&ccedil;&atilde;o Branca de 2228 nem por sombras lembraria o redemoinho<br \/>\n    alto-falante de 1789.<\/p>\n<p> J&aacute; na composi&ccedil;&atilde;o desse corpo representativo nada se<br \/>\n    fez como outrora. Os convencionais n&atilde;o penetraram nele pela for&ccedil;a<br \/>\n    dos azares eleitorais e sim por um processo novo de delega&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Todos os ramos da atividade americana tinham &aacute; sua testa, naturalmente<br \/>\n    levados a esse posto pelo grau de eficiencia mental demonstrado, homens que<br \/>\n    mereceriam o nome de chefes naturais, ou lideres natos. Como hoje &eacute;<br \/>\n    Henry Ford o lider nato da industria americana em virtude da higidez universalmente<br \/>\n    reconhecida das suas ideias e realiza&ccedil;&otilde;es, assim naquele tempo<br \/>\n    cada ramo de atividade possuia um lider natural, mantido nessa situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por consenso unanime. Funcionavam tais chefes naturais como org&atilde;os<br \/>\n    especialissimos, apices, vertices, cimos, esta&ccedil;&otilde;es centrais,<br \/>\n    bulbos raquideanos da classe. Ninguem lhes discutia as ideias de decis&otilde;es,<br \/>\n    sumulas sempre da mais alta sabedoria poss&iacute;vel no momento &#8212; e<br \/>\n    o chefe cujas ideias passavam a ser discutidas via-se logo automaticamente<br \/>\n    apeado dessa posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> De modo que foi fac&iacute;limo convocar a Conven&ccedil;&atilde;o Branca.<br \/>\n    Alem de j&aacute; estarem naturalmente indicados, os convencionais se resumiam<br \/>\n    em seis criaturas, respetivamente lideres da industria, do comercio, das finan&ccedil;as,<br \/>\n    da arte, das ciencias e das letras. Eram eles os senhores George Abbot, morador<br \/>\n    em Detroit e chefe da industria das bonecas falantes, o supremo encanto das<br \/>\n    crian&ccedil;as americanas; John Perkins, morador em Hudson, onde mantinha<br \/>\n    um pequeno comercio de peles de lontra branca; Harmsworth, diretor do Banco<br \/>\n    Universal; John Leland, criador da Puericultura Estetica; John Dudley, pai<br \/>\n    da c&ocirc;r numero 8 e autor de 72 inven&ccedil;&otilde;es; e finalmente<br \/>\n    Dorian Davis, poeta de um soneto unico sobre o qual se achava a America dividida<br \/>\n    em dois imensos grupos &#8212; os que tinham como defeituoso o quarto verso<br \/>\n    e os que o tinham como uma forma de beleza s&oacute; percept&iacute;vel no<br \/>\n    futuro.<\/p>\n<p> O Presidente Kerlog n&atilde;o encontrou dificuldades em reunir a Conven&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Radiou uma sucinta mensagem na qual pedia a cada uma das classes sociais a<br \/>\n    indica&ccedil;&atilde;o do seu representante para o exame do impasse criado<br \/>\n    pela vitoria dos negros. Uma hora depois o aparelho receptor do Capitolio<br \/>\n    registrava os seis nomes previstos, s&oacute; n&atilde;o havendo unanimidade<br \/>\n    quanto &aacute; indica&ccedil;&atilde;o do representante das letras.<\/p>\n<p> Os que consideravam defeituoso o quarto verso do soneto de Davis preferiram<br \/>\n    votar em branco.<\/p>\n<p> Dois dias mais tarde congregavam-se na Casa Branca os seis expoentes supremos<br \/>\n    da ra&ccedil;a, sob a presidencia do senhor Kerlog.<\/p>\n<p> Solenidade de protocolo, nenhuma. Eram homens simples no trajar e nos modos,<br \/>\n    criaturas nada relembrativas dos figur&otilde;es que se reunem hoje em conferencias<br \/>\n    internacionais, vestidos de solen&iacute;ssimas sobrecasacas e com solenerrimos<br \/>\n    tubos de chamin&eacute; reluzentes nas cabe&ccedil;as, como se a plumagem<br \/>\n    dos perus influ&iacute;sse alguma coisa nas ideias dos perus.<\/p>\n<p> Sentaram-se os seis expoentes e ouviram a breve exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de motivos do chefe do estado. Declarou este que ocupava apenas um posto politico<br \/>\n    e se via numa emergencia racial. Nada fizera, nem faria, antes que a suprema<br \/>\n    delega&ccedil;&atilde;o da ra&ccedil;a definisse com rigor o caso e lhe estabelecesse<br \/>\n    um rumo. Como governo, executaria em seguida o veredictum alt&iacute;ssimo.<br \/>\n    Pedia, pois, aos presentes que lhe dessem as &quot;raz&otilde;es da ra&ccedil;a&quot;.<\/p>\n<p> Os convencionais ouviram-no com amavel aten&ccedil;&atilde;o e passaram<br \/>\n    a conversar de outros assuntos, como se estivessem num garden-party.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;A minha ultima boneca&quot;, disse George Abbot, &quot;alem<br \/>\n    de falar, cose, varre e lava roupa&quot;, na perfei&ccedil;&atilde;o. Tenho<br \/>\n    uma netinha de seis anos que est&aacute; positivamente encantada.. .<\/p>\n<p> Ao lado dele Harmsworth confessava que ainda n&atilde;o lera o soneto maravilhoso.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Falta de tempo?&quot; indagou Davis.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;N&atilde;o. Ha em minha casa uma harmonia perfeita sobre o<br \/>\n    asunto e receio perturba-la adotando um ponto de vista discordante&#8230;&quot;<br \/>\n    J&aacute; Leland debatia com Dudley a possibilidade da c&ocirc;r numero 9<br \/>\n    e propunha um lindo nome para essa poss&iacute;vel filha futura do espetro<br \/>\n    solar.<\/p>\n<p> &Aacute; encasacada e encartolada gente de hoje parecer&aacute; estranho<br \/>\n    que homens de tal envergadura e em momento t&atilde;o angustioso, assim puerilmente<br \/>\n    se recreassem num congresso presidido pelo chefe da na&ccedil;&atilde;o. &Eacute;<br \/>\n    que os nossos medalh&otilde;es, envenenados pela retorica e pelo atitudismo<br \/>\n    n&atilde;o alcan&ccedil;am certas formas da ultra beleza, nem compreendem<br \/>\n    certos segredos de ultra psicologia.<\/p>\n<p> Justamente porque era grav&iacute;ssima a decis&atilde;o que iam tomar,<br \/>\n    e na realidade decisiva para os destinos do genero humano, procuravam manter<br \/>\n    a serenidade de espirito com repousantes trocas de ideias gentis, enquanto<br \/>\n    nas profundas dos respectivos cerebros a senten&ccedil;a suprema se elaborava.<\/p>\n<p> Passados quinze minutos nesta recrea&ccedil;&atilde;o espiritual, John Leland<br \/>\n    ergueu-se e disse com grande calma, depois de grafar num papel meia duzia<br \/>\n    de sinais: &#8212; &quot;Senhor Presidente, minha ideia est&aacute; formada<br \/>\n    e eu a consigno nesta mo&ccedil;&atilde;o, que tenho a honra de submeter a<br \/>\n    votos. Vou le-la&quot;.<\/p>\n<p> Fez-se no recinto um augusto silencio. Se ainda houvesse moscas no ano 2228<br \/>\n    poder-se-ia ouvir alguma voar na sala. Todos sentiam que a Ra&ccedil;a Branca<br \/>\n    ia falar a palavra ultima, a palavra de senten&ccedil;a do mais alto tribunal<br \/>\n    que ainda se reuniu no mundo.<\/p>\n<p> Leu Leland a sua mo&ccedil;&atilde;o, sucinta e nitida como era de esperar.<\/p>\n<p> Sua voz soou como um dobre a finados. Apesar da firmeza de animo dos convencionais,<br \/>\n    sentia&#8211;se que estavam todos de alma tensa como corda de violino em ponto<br \/>\n    de romper-se. Fugira-lhes das faces o sangue; at&eacute; o senhor Kerlog,<br \/>\n    sempre rosado, parecia um vulto de cera.<\/p>\n<p> Quando o ultimo eco da mo&ccedil;&atilde;o Leland morreu naquele ambiente<br \/>\n    de tumba, todas as cabe&ccedil;as se inclinaram para o peito e todos os olhos<br \/>\n    se fecharam. A Ra&ccedil;a Branca elaborava o seu voto decisivo&#8230;<\/p>\n<p> Alguns minutos transcorreram assim. Ao cabo o Presidente Kerlog murmurou:<br \/>\n    &#8212; &quot;Est&aacute; a votos a mo&ccedil;&atilde;o Leland&quot;.<\/p>\n<p> O primeiro que se ergueu foi Dudley.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Voto com Leland&quot;, disse ele e sentou-se. Ergueu-se em<br \/>\n    seguida Harmsworth e disse: &#8212; &quot;Voto com Leland&quot;.<\/p>\n<p> O terceiro foi Abbot, que murmurou sem levantar-se da cadeira: &#8212; &quot;Idem&quot;.<\/p>\n<p> Os outros limitaram-se a dar igual voto com uma simples indica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Estava lavrada a senten&ccedil;a de ponto final do negro na America? Sem<br \/>\n    verborreia, sem inutil dispendio de retorica, sem cita&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    gros bonnets da etnologia e da sociologia, a Suprema Conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Ra&ccedil;a Branca tra&ccedil;ara o diagnostico e dera o remedio exato.<\/p>\n<p> O Presidente Kerlog pronunciou mais meia duzia de palavras e&#8230; pronto!<br \/>\n    concluiu miss Jane.<\/p>\n<p> Confesso que fiquei desapontando. Quando miss Jane abordou aquele assunto<br \/>\n    preparei-me para ouvir coisas tremendas. Uma Conven&ccedil;&atilde;o! A Conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Ra&ccedil;a Branca! Nunca no mundo se reunira congresso mais alto e proposto<br \/>\n    a fins mais terr&iacute;veis. Esperei portanto qualquer coisa de t&atilde;o<br \/>\n    eloquente como um jacto de seis Mirabeaus, multiplicados por seis Dantons.<br \/>\n    Em vez disso, um homem que apresenta uma breve mo&ccedil;&atilde;o e mais<br \/>\n    cinco sujeitos ultra pac&iacute;ficos que a aprovam friamente &#8212; alguns<br \/>\n    at&eacute; com a cabe&ccedil;a, sem se erguerem das suas poltronas. Era demais!<br \/>\n    &#8212; S&oacute; isso, miss Jane? exclamei com cara de espectador roubado.<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute;, respondeu ela, muito divertida com o meu logro. Que mais<br \/>\n    queria? M&iacute;nh&#8217;alma de latino espalhafatoso n&atilde;o se conformava<br \/>\n    com a falta de espalhafato.<\/p>\n<p> &#8212; Eu queria uma tempestade com raios e trov&otilde;es. Queria um Jeov&aacute;<br \/>\n    tonitroando na sar&ccedil;a ardente. Ou, pelo menos, eloquencia, que diabo!<br \/>\n    &#8212; Haver&aacute; maior eloquencia do que a da precis&atilde;o absoluta?<br \/>\n    N&atilde;o me convenci. N&atilde;o ia comigo tanta frieza. Meu sangue quente<br \/>\n    pedia barulho, berros, murros na mesa, desaforos&#8230; Resignei-me, por&eacute;m,<br \/>\n    e minha curiosidade tomou p&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, afinal de contas, que &eacute; que dizia a mo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Leland? indaguei.<\/p>\n<p> &#8212; Ignoro, respondeu miss Jane. Foi secreta. S&oacute; o Presidente,<br \/>\n    os seis convencionais e depois os tecnicos do estado tiveram conhecimento<br \/>\n    dos seus termos.<\/p>\n<p> Miss Jane sorria. Ocultava-me qualquer coisa, com certeza para me surpreender<br \/>\n    no fim. N&atilde;o insisti e, resignado, disse-lhe: &#8212; Continue, miss<br \/>\n    Jane&#8230;<\/p>\n<p> Miss Jane continuou. <\/p>\n<h4><a name=\"21\">CAP&Iacute;TULO XXI &#8211; Uma Dor de Cabe&ccedil;a Historica<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Quando os convencionais deixaram a Casa Branca o &uacute;ltimo a<br \/>\n    despedir-se foi o senhor John Dudley, pai da c&ocirc;r numero 8 e autor das<br \/>\n    72 inven&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Era esse Dudley um velhinho de olhar muito vivo e alegre, cuja inteligencia<br \/>\n    tinha fama de ser a mais pronta da America, a mais facetada e contornante.<br \/>\n    Apreendia tudo instantaneamente, sob todos os aspectos poss&iacute;veis.<\/p>\n<p> Ao apertar a m&atilde;o do Presidente Kerlog, disse ele com ar enigmatico:<br \/>\n    &#8212; &quot;Fa&ccedil;o votos para que o senhor Presidente descubra a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pratica com a mesma facilidade com que o senhor Leland descobriu a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    teorica. Isso lhe trar&aacute;, talvez, uma certa dorzinha de cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Se por acaso se agravar essa dor de cabe&ccedil;a e n&atilde;o ceder a nenhum<br \/>\n    sedativo, lembre-se deste seu criado e chame-o.<\/p>\n<p> Quero ter a honra de curar uma dor de cabe&ccedil;a historica&#8230;<\/p>\n<p> Disse e saiu a sorrir. Kerlog ficou uns instantes a meditar naquelas palavras<br \/>\n    enigmaticas, que traziam evidentemente uma inten&ccedil;&atilde;o oculta.<br \/>\n    O homem das setenta e duas inven&ccedil;&otilde;es nada dizia &aacute;s tontas.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Ser&aacute; que John Dudley possue de sua inven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alguma famosa super-aspirina?&quot; pensou consigo o chefe de estado. Mas<br \/>\n    o tumulto das preocupa&ccedil;&otilde;es governamentais fe-lo em breve esquecer-se<br \/>\n    do incidente.<\/p>\n<p> A semana que se seguiu &aacute; Conven&ccedil;&atilde;o foi o peor momento<br \/>\n    de vida que ainda passou um presidente americano. O ministerio vivia em reuni&otilde;es<br \/>\n    continuas, e era de fuga que aqueles homens tomavam algum repouso. A tarefa<br \/>\n    de manter o pa&iacute;s em calma, de evitar a explos&atilde;o das duas masas<br \/>\n    prenhes de eletricidades contrarias e suscetiveis de explos&atilde;o ao menor<br \/>\n    choque, agravava-se com a premencia de solver o caso dentro da formula votada<br \/>\n    pelos convencionais. Mas entre propor com toda a frieza uma solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquelas e descobrir os meios de possibiliza-la, ia um abismo.<\/p>\n<p> O ministro da Paz chegou a irritar-se.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;S&atilde;o fac&iacute;limas as solu&ccedil;&otilde;es dessa<br \/>\n    ordem&quot;, disse ele. &quot;Creio at&eacute; que se em vez de seis velhos<br \/>\n    lideres reunissemos aqui seis crian&ccedil;as de escola, o resultado seria<br \/>\n    o mesmo. &Eacute; absolutamente impraticavel a formula Leland.&quot; O Presidente<br \/>\n    Kerlog possu&iacute;a um carater mais obstinado do que o do seu ministro.<br \/>\n    Assim foi que objetou: &#8212; &quot;Costumamos chamar impraticavel ao que<br \/>\n    n&atilde;o praticamos ainda. Lembre-se de Colombo com o ovo&#8230;&quot; &#8212;<br \/>\n    &quot;Perfeitamente&quot;, contraveio o ministro, &quot;mas j&aacute; se passou<br \/>\n    uma semana e n&atilde;o nos ocorre sa&iacute;da. Estou cansado de examinar<br \/>\n    as sugest&otilde;es dos nossos tecnicos, todas absurdas, porque em grau maior<br \/>\n    ou menor implicam o emprego da for&ccedil;a, o que seria desencadear a tormenta.<br \/>\n    As sugest&otilde;es de hoje &#8212; sete! &#8212; parecem-me t&atilde;o idiotas<br \/>\n    como as anteriores.<\/p>\n<p> Na realidade assim era. Debaixo do mais absoluto segredo cerca de cinquenta<br \/>\n    tecnicos do estado, dos mais habeis que se puderam reunir, davam aos miolos<br \/>\n    as maiores torturas para afastar do remedio proposto por Leland o termo coa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Os ministros j&aacute; manifestavam sintomas de surmenage. Horas e horas<br \/>\n    perdiam a debater o caso, e nem no sono tinham repouso; o trabalho mental<br \/>\n    subconsciente os torturava de pesadelos.<\/p>\n<p> No oitavo dia o Presidente apareceu na sala de trabalho a cheirar um frasco<br \/>\n    de sais. Era a dorzinha de cabe&ccedil;a prevista por John Dudley. No decimo<br \/>\n    dia essa dor agravou-se de modo a inspirar receio aos ministros. Felizmente<br \/>\n    a memoria do senhor Kerlog funcionou a tempo e fe-lo recordar-se das palavras<br \/>\n    do convencional Dudley ao despedir-se.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;A dor de cabe&ccedil;a mata-me&quot;, radiou ele para o homem<br \/>\n    das 72 inven&ccedil;&otilde;es. &quot;Acuda-me com o remedio, caro Dudley!&quot;<br \/>\n    Naquele mesmo dia, &aacute; noite, reapareceu John Dudley na Casa Branca,<br \/>\n    sendo logo introduzido nos aposentos particulares do Presidente.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Benvindo seja!&quot; disse este com a m&atilde;o na testa.<br \/>\n    &quot;A cabe&ccedil;a estala-me e a dor n&atilde;o cede a sedativo nenhum.<br \/>\n    Acuda-me com a sua ultra-aspirina.&quot; John Dudley sorriu com malicia.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Ou&ccedil;a-me&quot;, disse ele, &quot;ou&ccedil;a-me com<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o que sarar&aacute; dentro de cinco minutos. O seu mal<br \/>\n    cura-se com um topico que s&oacute; eu possuo.&quot; E Dudley come&ccedil;ou<br \/>\n    a falar. Ao cabo do segundo minuto, o Presidente Kerlog tirava a m&atilde;o<br \/>\n    da testa. Ao fim do terceiro sorria. Ao quinto, saltava da poltrona e vinha<br \/>\n    apertar nos bra&ccedil;os o terr&iacute;vel velhinho.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Maravilhoso!&#8230; Mas ent&atilde;o &eacute; assim absoluto o<br \/>\n    efeito?&quot; &#8212; &quot;Fiz todas as experiencias e tirei todas as contra<br \/>\n    provas,&quot; respondeu Dudley. &quot;O efeito &eacute; absoluto!&quot; &#8212;<br \/>\n    &quot;Sem dor, sem les&atilde;o, sem que o paciente sequer o suspeite?&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Exatamente!&quot; Kerlog sorria, com o olhar distante. O problema<br \/>\n    que em v&atilde;o a pol&iacute;tica tentara solver, a ciencia resolvia por<br \/>\n    um processo magico.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Efeito duplo, ent&atilde;o?&quot; insistiu o Presidente.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Triplo, ali&aacute;s&quot;, retrucou o malicioso sabio.<\/p>\n<p> O presidente fez cara de surpresa.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Sim, pois cura tambem as dores de cabe&ccedil;a historicas&#8230;&quot;<br \/>\n    Kerlog sorriu e novamente abra&ccedil;ou o homem das 73 inven&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    &#8212; Miss Jane, disse eu interrompendo: est&aacute; a senhora a judiar<br \/>\n    comigo! Macacos me lambam se percebo qualquer coisa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Uma pontinha de mist&eacute;rio &eacute; indispensavel no tempero<br \/>\n    dos romances, respondeu a linda criatura. O senhor Ayrton vai ser romancista;<br \/>\n    deve pois ir aprendendo o sutil segredo da dosagem dos ingredientes&#8230;<\/p>\n<p> Miss Jane estava a brincar comigo, n&atilde;o havia duvida. Punha fogo ao<br \/>\n    estopim de minha curiosidade e deixava-o a arder&#8230;<\/p>\n<p> No dia seguinte, continuou ela, reapareceu na Casa Branca o senhor John<br \/>\n    Dudley, desta vez sobra&ccedil;ando um esquisito embrulho &#8212; um embrulho<br \/>\n    f&ocirc;fo, como se contivesse cabelos humanos.<\/p>\n<p> Entrou e passou uma boa hora em conferencia com o Presidente e mais os seus<br \/>\n    ministros.<\/p>\n<p> O que l&aacute; houve ninguem conseguiu saber. S&oacute; se soube que, finda<br \/>\n    a reuni&atilde;o, ao descerem a escadaria, disse o ministro da Paz ao da Equidade:<br \/>\n    &#8212; &quot;O eterno ovo de Colombo! Bem dizia o Presidente que era necessario<br \/>\n    teimar&#8230;&quot; &#8212; &quot;E que lindos ficam os cabelos!&quot; comentou<br \/>\n    o da Equidade.<\/p>\n<p> &quot;N&atilde;o s&oacute; se alisam, como afinam e se tornam sedosos. O<br \/>\n    peixe morrer&aacute; pela carapinha, n&atilde;o ha que ver&#8230;&quot; &#8212;<br \/>\n    Miss Jane&#8230; comecei eu, interrompendo-a nesse ponto.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a, por&eacute;m, tapou-me a boca e deu o sinal do ch&aacute;.<\/p>\n<p> Fiz a cara de compun&ccedil;&atilde;o com que sempre recebia o tal ponto<br \/>\n    e v&iacute;rgula. Mas errei.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o fa&ccedil;a esse bico de crian&ccedil;a, disse miss Jane<br \/>\n    com a sua finura habitual. O ch&aacute; &eacute; apenas virgula. O senhor<br \/>\n    Ayrton est&aacute; convidado a jantar aqui.<\/p>\n<p> Meu cora&ccedil;&atilde;o deu cabriolas dentro do peito, e arrastado por<br \/>\n    um impulso incoerc&iacute;vel tomei&#8230; a m&atilde;o da minha amiga e beijei-a.<br \/>\n    A m&atilde;o! Apenas a m&atilde;o! Timidez &#8212; teu nome era Ayrton Lobo!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas o enigma dos cabelos, miss Jane? Decifre-mo logo, que estou<br \/>\n    a arder de curiosidade, pedi-lhe logo depois do ch&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Uma historia muito simples, senhor Ayrton. John Dudley dedicava-se,<br \/>\n    havia longo tempo, ao estudo do cabelo negro, esperan&ccedil;ado em descobrir<br \/>\n    o meio de alisa-lo e torna-lo sedoso e absolutamente igual ao da ra&ccedil;a<br \/>\n    branca &#8212; e muito se falou na America, alguns anos antes, nos admiraveis<br \/>\n    resultados das suas experiencias. At&eacute; 2228, por&eacute;m, o sabio n&atilde;o<br \/>\n    havia tornado publica essa inven&ccedil;&atilde;o, que seria a 73.a. E ninguem<br \/>\n    mais pensava no caso quando, dois dias depois da sua conferencia particular<br \/>\n    com o Presidente Kerlog, esvoa&ccedil;ou pelos Estados Unidos uma noticia<br \/>\n    de sensa&ccedil;&atilde;o: John Dudley havia enfim resolvido o dif&iacute;cil<br \/>\n    problema capilar.<\/p>\n<p> Os raios Omega, de sua descoberta, tinham a propriedade miraculosa de modificar<br \/>\n    o cabelo africano. Com tres aplica&ccedil;&otilde;es apenas o mais rebelde<br \/>\n    pixaim tornava-se n&atilde;o s&oacute; liso, como ainda fino e sedoso como<br \/>\n    o cabelo do mais apurado tipo de branco. Os raios Omega influ&iacute;am no<br \/>\n    foliculo e destru&iacute;am nele a tendencia de dar forma el&iacute;ptica<br \/>\n    ao filamento capilar. Vencido este pendor para a forma el&iacute;ptica, cessava<br \/>\n    o encarapinhamento, que n&atilde;o passa de mera consequencia mecanica.<\/p>\n<p> Como &eacute; de supor, imensa foi a repercuss&atilde;o da noticia. Cem<br \/>\n    milh&otilde;es de criaturas reviravam para o ceu os olhos agradecidos. Os<br \/>\n    negros chegaram a tomar-se de puro extase, convictos de que das Alturas descera<br \/>\n    a pugnar por eles alguma alta divindade, como outrora os bons deuses do Olimpo.<br \/>\n    Mal repostos ainda da emo&ccedil;&atilde;o consequente &aacute; vitoria de<br \/>\n    Jim Roy, outra os empolgava agora &#8212; e esta mais fecunda, pois redundaria<br \/>\n    num aperfei&ccedil;oamento f&iacute;sico da ra&ccedil;a.<\/p>\n<p> J&aacute; o pigmento f&ocirc;ra destruido e, embora o esbranqui&ccedil;ado<br \/>\n    da pele n&atilde;o se revelasse c&ocirc;r agradavel &aacute; vista, tinham<br \/>\n    esperan&ccedil;a de obter com o tempo a perfeita equipara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cutanea. Vir agora, e assim de chofre, o resto, o cabelo liso e sedoso, a<br \/>\n    supress&atilde;o do teimoso estigma de Cam, era, n&atilde;o havia duvida,<br \/>\n    sinal de um fim de estagio. Reduzidas desse modo as duas caracter&iacute;sticas<br \/>\n    estigmatizantes da ra&ccedil;a, o tipo africano melhorava a ponto de em numerosos<br \/>\n    casos provocar confus&atilde;o com o ariano. Entre a miss naturalmente branca<br \/>\n    e loura e a negra despigmentada e omegada pelo processo Dudley, era quasi<br \/>\n    nula a diferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Mas a c&ocirc;r dos cabelos? perguntei eu, sempre curioso de minucias.<\/p>\n<p> &#8212; C&ocirc;r de cabelo bem sabe o senhor Ayrton que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    coisa que dependa da natureza e sim da moda. Hoje, por exemplo, &eacute; moda<br \/>\n    o louro, e nas ruas s&oacute; vemos louras &#8212; louras que amanh&atilde;<br \/>\n    aparecer&atilde;o de cabelos negros como asas de corvo, se assim o determinar<br \/>\n    a moda.<\/p>\n<p> Logo em seguida &aacute; noticia, estupefaciente como pitada de coca&iacute;na,<br \/>\n    incorporou-se a Dudley Uncurling Company, que estabeleceu em todas as cidades,<br \/>\n    e nestas em todos os bairros, Postos Desencarapinhantes, como hoje vemos surgir<br \/>\n    Postos de Vacina&ccedil;&atilde;o nos anos em que irrompe a var&iacute;ola.<br \/>\n    Esses postos multiplicaram-se ao infinito e de um modo magico, como se uma<br \/>\n    for&ccedil;a oculta empurrasse a Dudley Uncurling Company ao desencarapinhamento<br \/>\n    da America negra ao menor espa&ccedil;o de tempo poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Era dos mais simples o processo. Tres aplica&ccedil;&otilde;es apenas, de<br \/>\n    tres minutos cada uma. Tais facilidades juntas ao custo m&iacute;nimo &#8212;<br \/>\n    dez centavos por cabe&ccedil;a &#8212; fizeram que os negros acorressem aos<br \/>\n    postos como c&atilde;es famintos a bofes fumegantes. A vida americana chegou<br \/>\n    a sofrer um colapso. S&oacute; se falava em raio Omega, em foliculo, em se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    elipsiforme e mais capilotecnicas. A principio irritaram-se os brancos com<br \/>\n    o que chamavam a segunda camouflage do negro, por fim passaram a divertir-se<br \/>\n    com o espet&aacute;culo deveras curioso da subita transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    capilar de cem milh&otilde;es de criaturas. As fabricas de pentes, grampos,<br \/>\n    lo&ccedil;&otilde;es, shampoos, brilhantinas, tinturas, etc, trabalhavam dia<br \/>\n    e noite sem conseguirem atender &aacute; subitanea procura de tais produtos.<\/p>\n<p> Cabelereiros novos surgiam em todos os cantos e por mais que trabalhassem<br \/>\n    n&atilde;o davam conta do recado. As negras, sobretudo, viviam num perpetuo<br \/>\n    sorrir-se a si proprias, metidas dentro de um c&eacute;u aberto. Passavam<br \/>\n    os dias ao espelho, muito derretidas, penteando-se e despenteando-se gozosamente.<br \/>\n    O seu envelo ao correrem as m&atilde;os pelas macias comas omegadas levava-as<br \/>\n    a esquecer o longu&iacute;ssimo passado da humilhante carapinha. Brancas,<br \/>\n    afinal! Libertas afinal do odioso estigma! Neste ponto da narrativa um raio<br \/>\n    de luz chofrou-me o cerebro.<\/p>\n<p> &#8212; Adivinho tudo agora, miss Jane! gritei batendo na testa.<\/p>\n<p> Adivinho a verdadeira solu&ccedil;&atilde;o do problema negro na America!<br \/>\n    Nem expatria&ccedil;&atilde;o, nem divis&atilde;o do pa&iacute;s. Apenas branqueamento<br \/>\n    do negro, igualifica&ccedil;&atilde;o com o branco! decifrei eu, content&iacute;ssimo<br \/>\n    com a minha tacada.<\/p>\n<p> Mas vi logo que errara de novo. No sorriso com que ela esfriou o meu entusiasmo<br \/>\n    percebi uma pontinha de piedade pela minha argucia &#8212; pela minha pobre<br \/>\n    argucia&#8230; Mas era t&atilde;o boa miss Jane que n&atilde;o teve animo de humilhar-me,<br \/>\n    como devia. Disse apenas, delicadamente: &#8212; Quasi, quasi adivinhou! Est&aacute;<br \/>\n    pertinho&#8230;<\/p>\n<p> Como um caramujo cutucado, encolhi-me na poltrona donde me erguera no assomo<br \/>\n    de ardor divinatorio, e para disfar&ccedil;ar a rata estranhei aquele desvio<br \/>\n    do assunto principal: &#8212; Mas a que vem esse incidente dos raios Omega<br \/>\n    no nosso romance, miss Jane? A mo&ccedil;a respondeu de lado: &#8212; Joga<br \/>\n    xadrez, senhor Ayrton? Eu s&oacute; jogava no bicho, mas menti, corando de<br \/>\n    leve: &#8212; Assim, assim.<\/p>\n<p> Pois nesse caso deve saber que nas partidas bem jogadas um humilde movimento<br \/>\n    de pe&atilde;o tem tanta importancia para o xeque-mate como um espetaculoso<br \/>\n    movimento de rainha. Considere este capitulo capilar um movimento de pe&atilde;o<br \/>\n    e ou&ccedil;a agora o que vou dizer de miss Astor.<\/p>\n<p> &#8212; Movimento de rainha&#8230; rosnei.<\/p>\n<p> Miss Jane aprovou com um olhar a minha agudeza.<\/p>\n<p> &#8212; E de rainha amorosa!completou.<\/p>\n<p> &#8212; Amor em 2228? Ainda haver&aacute; semelhante coisa em tempo t&atilde;o<br \/>\n    recuado? &#8212; O amor &eacute; eterno, senhor Ayrton e al&eacute;m de eterno<br \/>\n    invariavel.<\/p>\n<p> O que Dafnis sussurrou ao ouvido de Clo&eacute; l&aacute; nos fundos da<br \/>\n    Grecia de Longus, sussurraria miss Elvin a um &quot;gorila pelado&quot; de<br \/>\n    2228, se porventura descresse do sabino e aderisse ao Homo, como suas companheiras<br \/>\n    o fizeram.<\/p>\n<p> Pus em miss Jane os meus olhos de carneiro flechado e suspirei. Seria capaz<br \/>\n    de &quot;sussurrar&quot; ao meu ouvido uma criatura que assim t&atilde;o cientificamente<br \/>\n    falava do amor?<\/p>\n<h4><a name=\"22\">CAPITULO XXII &#8211; Amor! Amor!<\/a><\/h4>\n<p>Miss Jane continuou: &#8212; Depois de sua espaventosa ades&atilde;o ao Homo,<br \/>\n    a l&iacute;der do partido feminino caiu em si. Percebeu que o desvairamento<br \/>\n    no dia da vitoria negra lhe quebrara a soberba linha das belas atitudes e<br \/>\n    a transformara numa perfeita louca &aacute; moda das velhas sufragistas britanicas.<br \/>\n    E envergonhou-se. Que pensaria dela o Presidente Kerlog? Como teria o lider<br \/>\n    branco, l&aacute; no intimo, recebido aquele arroubo de sinceridade explosiva?<br \/>\n    Miss Astor amava a Kerlog. A nobre figura do Presidente, sua firmeza no governo,<br \/>\n    sua agilidade de espirito e sua serenidade de for&ccedil;a construtiva, seduziam-na<br \/>\n    de modo incoerc&iacute;vel. E talvez at&eacute; que no fundo toda a atua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica de miss Astor n&atilde;o visasse outro fim al&eacute;m de<br \/>\n    aproxima-la do lider branco, por emparelhamento num mesmo nivel de prestigio<br \/>\n    social.<\/p>\n<p> &#8212; Por que ent&atilde;o contrapos-se a ele nas elei&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    perguntei sapatescamente.<\/p>\n<p> &#8212; Porque a linha reta da mulher &eacute; sempre torta. Elvinismo,<br \/>\n    senhor Ayrton!&#8230; Matematica, ciencia elvinista! Dois mais dois igual&#8230;<\/p>\n<p> ao que convem. Mas miss Astor errava, se acaso se supunha diminu&iacute;da<br \/>\n    na opini&atilde;o de Kerlog. O presidente era Homo e, apesar de todos os progressos<br \/>\n    da eugenia, um Homo t&atilde;o sens&iacute;vel ao contacto feminino como&#8230;<br \/>\n    como o senhor Ayrton, por exemplo.<\/p>\n<p> Corei forte. Momentos antes havia eu, sem o querer, est&aacute; visto, tocado<br \/>\n    com o meu p&eacute; o mimoso p&eacute; de miss Jane, e n&atilde;o pude esconder<br \/>\n    a corrente eletrica que me percorreu o corpo. Seria que miss Jane, sempre<br \/>\n    t&atilde;o desentendida, aludia a esse fato? Estava a minha amiga um tanto<br \/>\n    diferente naquela tarde. Menos impass&iacute;vel que de costume e assim como<br \/>\n    quem quer e n&atilde;o quer, como quem vai e n&atilde;o vai, como quem diz<br \/>\n    e n&atilde;o diz. Apesar de toda a minha pouca penetra&ccedil;&atilde;o feminina<br \/>\n    eu sentia isso, adivinhando nela os primeiros estremecimentos da mulher.<\/p>\n<p> &#8212; E j&aacute; que era assim sens&iacute;vel, continuou a jovem, o<br \/>\n    amplexo que no momento do perigo p&ocirc;s miss Astor em contacto com Kerlog<br \/>\n    calou fundo nas celulas presidenciais e impregnou-as disso que os homens chamam<br \/>\n    desejo.<\/p>\n<p> Tive vontade de perguntar a miss Jane como as mulheres chamavam isso que<br \/>\n    os homens chamam desejo &#8212; mas me faltou a coragem.<\/p>\n<p> &#8212; E da&iacute; por diante, sempre que a raz&atilde;o do senhor Kerlog<br \/>\n    se punha a pesar os pr&oacute;s e contras relativos a miss Astor intervinham<br \/>\n    as celulas abra&ccedil;adas, colocando na concha dos pr&oacute;s a tara da<br \/>\n    saudade &#8212; e l&aacute; se ia a frieza da raz&atilde;o do senhor Kerlog.<br \/>\n    Pobre raz&atilde;o humana.<\/p>\n<p> Pobre hoje, pobre em 2228!. . . E tanto era assim, que logo depois da invas&atilde;o<br \/>\n    da sala pelas elvinistas arrependidas o senhor Kerlog comentou o fato nestes<br \/>\n    termos, dirigindo-se ao ministro da Equidade: &#8212; &quot;Miss Astor sempre<br \/>\n    se apresentou diante de mim envolvida em atitudes, belas, n&atilde;o resta<br \/>\n    duvida, porque ha sempre beleza em todos os seus movimentos &#8212; mas atitudes<br \/>\n    que me chocavam como falsas.<\/p>\n<p> Nem uma s&oacute; vez a vi ao natural. Foi preciso que o desastre sobre<br \/>\n    viesse e o terror se apossasse de sua alma para que eu a conhecesse como sempre<br \/>\n    desejei conhece-la: mulher.&quot; E l&aacute; consigo recordava a do&ccedil;ura<br \/>\n    do seu abra&ccedil;o.<\/p>\n<p> Esse abra&ccedil;o ficou. Os dias se foram passando. Veio a Conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Branca. Veio a dor de cabe&ccedil;a. Veio o omeguismo. Nada apagava das celulas<br \/>\n    cervicais do senhor Kerlog a impress&atilde;o do doce contacto.<\/p>\n<p> Certa vez, reunido o ministerio, os ministros perceberam que o Presidente<br \/>\n    olhava muito amiude para o relogio. O assunto em debate era o progresso do<br \/>\n    desencarapinhamento dos negros, materia de especial aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para o chefe do estado. Especial e demorada &#8212; menos naquele dia. Naquele<br \/>\n    dia o Presidente atropelava os seus auxiliares como que desejoso de encerrar<br \/>\n    mais cedo a reuni&atilde;o.<\/p>\n<p> As informa&ccedil;&otilde;es estat&iacute;sticas apresentadas pela Dudley<br \/>\n    Uncurling Company deviam ser bastante favoraveis, a avaliar-se pelo sorriso<br \/>\n    com que o lider branco as recebera.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Estamos no fim,&quot; disse ele. A ciencia resolveu de fato<br \/>\n    o grave problema etnico &#8212; e que magistral solu&ccedil;&atilde;o! Em<br \/>\n    vez de expatriar o negro ou dividir o pa&iacute;s&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Desencarapinha-lo!&quot; completou, piscando o olho, o ministro<br \/>\n    da Sele&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Todos se entreolharam com certo ar de velhacaria. O da Equidade disse: &#8212;<br \/>\n    &quot;O binomio racial passa a monomio. S&oacute; o ariano &eacute; grande<br \/>\n    e Dudley &eacute; o seu profeta.&quot; Eu cocei a cabe&ccedil;a num gesto<br \/>\n    muito l&aacute; do escritorio.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, ent&atilde;o, miss Jane, a solu&ccedil;&atilde;o &eacute; mesmo<br \/>\n    a que eu adivinhei &#8212; a igualifica&ccedil;&atilde;o das ra&ccedil;as!&#8230;<\/p>\n<p> Miss Jane tossiu uma tossezinha de encomenda e desconversou: &#8212; O neologismo<br \/>\n    est&aacute; bom, senhor Ayrton. Por mais rica que seja uma lingua, a express&atilde;o<br \/>\n    humana tem sempre necessidade de palavras novas. &quot;Igualifica&ccedil;&atilde;o&quot;<br \/>\n    &#8212; muito bem! Encolhi-me no fundo da minha poltrona.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, continuou ela, o relogio do senhor Kerlog, consultado pela<br \/>\n    decima vez, marcava tres horas. O Presidente ergueu-se e deu por finda a reuni&atilde;o.<br \/>\n    Os ministros sairam. Na escada disse o da Paz ao da Equidade: &#8212; &quot;Notou<br \/>\n    a impaciencia de Kerlog?&quot; &#8212; &quot;Notei sim. Estava inquieto&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Cherchez&#8230;&quot; &#8212; &quot;N&atilde;o &eacute; necessario.<br \/>\n    Se ninguem resiste &aacute; a&ccedil;&atilde;o catalitica de miss Evelyn,<br \/>\n    quem lhe resistir&aacute; ao contacto?&quot; Riram-se, e l&aacute; se foram<br \/>\n    cada qual para o seu lado.<\/p>\n<p> N&atilde;o erraram os dois ministros. Logo depois miss Evelyn Astor parava<br \/>\n    em frente da Casa Branca e agil como as deusas &#8212; ou as amorosas &#8212;<br \/>\n    subia as escadas.<\/p>\n<p> Foi introduzida incontinenti.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Benvinha seja a minha formosa rival&quot;, disse com o mais<br \/>\n    amavel dos seus sorrisos o Presidente flecha do.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Ex, ali&aacute;s, Presidente Kerlog!&quot; respondeu a encantadora<br \/>\n    Circe com um sorriso que era outra flecha.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Abandona ent&atilde;o a pol&iacute;tica? N&atilde;o insiste<br \/>\n    na sua candidatura?&quot; &#8212; &quot;Abandono. Perdi a confian&ccedil;a<br \/>\n    nos meus nervos. Al&eacute;m disso, mudei de ideia a respeito de um homem&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8212; &quot;Fazia mau juizo dele?&quot; &#8212; &quot;Mau n&atilde;o. Erroneo,<br \/>\n    apenas. Vejo hoje que esse homem est&aacute; no seu lugar.&quot; &#8212; &quot;Obrigado,<br \/>\n    miss Astor&quot;, exclamou o Presidente. &quot;Recebo a sua alta homenagem<br \/>\n    como ao premio dos premios.&quot; &#8212; &quot;Pague-me ent&atilde;o com<br \/>\n    outra. L&iacute;der que ainda sou de um partido, creio merecer a confian&ccedil;a<br \/>\n    do lider branco. N&atilde;o &eacute; justo que eu conhe&ccedil;a o pensamento<br \/>\n    intimo do governo relativo &aacute; quest&atilde;o negra?&quot; O Presidente<br \/>\n    Kerlog sorriu com afetada diplomacia.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Segredos de estado, miss Astor!&#8230;&quot; &#8212; &quot;E j&aacute;<br \/>\n    houve algum segredo de estado que n&atilde;o fosse conhecido das&#8230; mulheres<br \/>\n    de estado?&quot; retrucou a ex-sabina com vivacidade.<\/p>\n<p> Kerlog, bom esgrimista, tinha fama de pronto nas replicas.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;As rainhas, as favoritas de outrora, eram de fato cofres,<br \/>\n    lindos cofres de segredos. Hoje, por&eacute;m, que n&atilde;o ha mais rainhas<br \/>\n    nem favoritas, s&oacute; podem conhecer os segredos de estado as&#8230;&quot;<br \/>\n    Parou. Embebeu os olhos nos de miss Astor. Viu neles o que procurava e concluiu<br \/>\n    numa gentil mesura: &#8212; &quot;&#8230; as Presidentas!&quot; Miss Astor fez<br \/>\n    ar de desapontada e armou bico de crian&ccedil;a a quem negam doce.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Quer dizer que s&oacute; conhecerei tal segredo quando for<br \/>\n    eleita Presidenta&#8230;&quot; Os olhos de ambos encontraram-se de novo e meteram-se<br \/>\n    pelas respectivas almas a dentro. Liam-se os dois amorosos como em livros<br \/>\n    abertos.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Cr&ecirc; ent&atilde;o, miss Astor, que s&oacute; as elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    fazem Presidentas?&quot; Nova cara de desentendida, novo bico de crian&ccedil;a.<br \/>\n    A coitadinha n&atilde;o percebia coisa nenhuma e foi mister que o lider branco<br \/>\n    dissesse tudo: &#8212; &quot;Esposa do Presidente, Presidenta &eacute;&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8212; Novo olhar&#8230; ia dizendo eu.<\/p>\n<p> Miss Jane atalhou-me: &#8212; N&atilde;o. Desta vez os olhos ficaram em<br \/>\n    paz. As m&atilde;os de Kerlog &eacute; que se estenderam para miss Astor.<br \/>\n    As de miss Astor foram-lhes ao encontro. Uniram-se no eterno gesto das m&atilde;os<br \/>\n    amorosas que se unem &#8212; e&#8230; o silencio que diz tudo se fez entre aqueles<br \/>\n    dois admiraveis tipos de gorilas evoluidos.<\/p>\n<p> A minha amiga parou, a olhar-me muito firme nas m&atilde;os, como Kerlog,<br \/>\n    mas n&atilde;o tive animo de declarar-me. A sua superioridade amedrontava-me<br \/>\n    ainda.<\/p>\n<p> Miss Jane fez uma pausa de alguns segundos &#8212; essa pausa de quem espera<br \/>\n    e n&atilde;o v&ecirc; chegar. Por fim disse, como que inconscientemente desapontada:<br \/>\n    &#8212; Quer que continue ou prefere aqui uma linha de reticencias? Eu n&atilde;o<br \/>\n    queria coisa nenhuma. Eu s&oacute; queria estender as m&atilde;os como Kerlog<br \/>\n    e embeber meus olhos nos de Jane e ficar assim a vida inteira. Mas os musculos<br \/>\n    me tra&iacute;ram miseravelmente. &quot;Qual!&quot; pensei furioso comigo<br \/>\n    mesmo. &quot;Quem nasceu para empregado de S&aacute;, Pato &amp; Cia., n&atilde;o<br \/>\n    chegar&aacute; nunca a esposo da filha do professor Benson&#8230;&quot; Miss Jane<br \/>\n    (pareceu-me) deixou escapar um impercept&iacute;vel suspiro de despeito e<br \/>\n    rematou a historia do duo presidencial com desinteresse evidente.<\/p>\n<p> &#8212; O mais o senhor Ayrton imaginar&aacute;, disse ela. O ano 2228 em<br \/>\n    materia de amor n&atilde;o se distinguia dos anteriores. O dialogo de Ad&atilde;o<br \/>\n    e Eva &eacute; talvez a coisa unica que n&atilde;o sofre grande influencia<br \/>\n    da evolu&ccedil;&atilde;o. &Aacute;s vezes at&eacute; involue&#8230;<\/p>\n<p> Tocou a campainha.<\/p>\n<p> &#8212; Ponha o jantar, disse com certa secura ao criado que apareceu. E<br \/>\n    traga uma aspirina.<\/p>\n<p> &#8212; Sente alguma coisa? indaguei com timidez.<\/p>\n<p> &#8212; Um fio de dor de cabe&ccedil;a apenas, foi a sua breve resposta.<\/p>\n<p> Que jantar frio e desenxabido aquele! Quando me vi fora do castelo, desabafei.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;s um animal de rabo, senhor Ayrton, e bem mereces o desprezo<br \/>\n    com que o senhor S&aacute; te trata!&#8230;<\/p>\n<p> E furioso dei varios belisc&otilde;es nos musculos covardes que me falharam<br \/>\n    o movimento de m&atilde;os talvez mais oportuno da minha vida.<\/p>\n<p> &#8212; Asno, asno, asno!&#8230; fui-me repetindo pelo caminho todo.<\/p>\n<p> Estupido eter que n&atilde;o age nem quando interferido por uma interferencia<br \/>\n    t&atilde;o clara&#8230;<\/p>\n<p> A semana que se seguiu foi a mais desastrosa da minha vida. Na segunda-feira<br \/>\n    briguei com varios amigos, atirei com uma x&iacute;cara de caf&eacute; &aacute;<br \/>\n    cara dum gar&ccedil;on e cheguei a ir parar na policia.<\/p>\n<p> Ter&ccedil;a-feira pela manh&atilde; bebi tres garrafas de cerveja e contra<br \/>\n    todos os meus habitos fui assim para o escritorio. O senhor S&aacute; olhoume<br \/>\n    de esguelha por varias vezes. Por fim, notando a m&aacute; vontade com que<br \/>\n    eu fazia o servi&ccedil;o, piou: &#8212; Comeu cobra? Tive &iacute;mpetos<br \/>\n    de morde-lo. Mas era o patr&atilde;o e recolhi os dentes.<\/p>\n<p> S&aacute; insistiu: &#8212; Comeu cobra, mo&ccedil;o? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    comi coisa nenhuma. Eu l&aacute; como? Quem ama l&aacute; come? respondi de<br \/>\n    mau modo.<\/p>\n<p> &#8212; Hum! fez ele. Percebo agora. De ha muito venho notando que j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o me &eacute; o mesmo. N&atilde;o me d&aacute; aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao servi&ccedil;o, atropela-me tudo. O Pato me disse ontem&#8230;<\/p>\n<p> Estourei a boiada.<\/p>\n<p> &#8212; Importa-me l&aacute; o Pato! O Pato l&aacute; diz ontem! Pat&atilde;o<br \/>\n    choco &eacute; o que ele &eacute;! Pat&iacute;bulo&#8230; Pat&iacute;bulo de fraque!&#8230;<\/p>\n<p> O assombro do senhor S&aacute; chegou ao auge. Um empregado tratar assim<br \/>\n    ao comendador Manoel Pereira Pato, socio da firma, dono de cinco mil apolices,<br \/>\n    irm&atilde;o do Sant&iacute;ssimo Sacramento, provedor da Santa Casa. .. E<br \/>\n    tamanho foi o seu assombro que o pobre homem engasgou Continuei no meu estouro:<br \/>\n    &#8212; Estou farto sabe? Isto por c&aacute; n&atilde;o passa de uma burrada.<\/p>\n<p> Mas a Lei Owen rompe a&iacute; qualquer dia e quero ver! E a lei espartana<br \/>\n    tambem! E outras leis terr&iacute;veis, leis de dar cabo do canastro, entende?<br \/>\n    Seletivas! O senhor S&aacute; continuava mudo, de boca aberta, num estarrecimento<br \/>\n    de assustar um homem com menos cerveja no estomago.<\/p>\n<p> Olhei para ele firme e senti uma impress&atilde;o comica. Disparei na gargalhada.<\/p>\n<p> &#8212; Parece o Presidente Kerlog quando soube da vitoria do Jim! Ah! Ah!<br \/>\n    Ah!&#8230; N&atilde;o sabe quem &eacute; Jim? Sabe nada&#8230; Era um lider! O lider<br \/>\n    negro. Negro descascado. Despigmentado, entende? Omegado! Um bicho! Um&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o pude continuar. Senti revolu&ccedil;&atilde;o no estomago e ignominiosamente<br \/>\n    destripei um &quot;mico&quot; de marcar epoca no austero escritorio dos senhores<br \/>\n    S&aacute;, Pato &amp; Cia.<\/p>\n<p> N&atilde;o me lembro de mais nada, a n&atilde;o ser que fui posto no olho<br \/>\n    da rua violentamente.<\/p>\n<p> Amor! Amor! Amor!<\/p>\n<h4><a name=\"23\">CAPITULO XXIII &#8211; A Derrocada de um Tit&atilde;<\/a><\/h4>\n<p>Mas sarei, e o que me curou foi um filme que andava a empolgar as multid&otilde;es<br \/>\n    &#8212; A Fera do Mar, por John Barrymore. Havia nele um beijo como nunca<br \/>\n    no mundo se dera outro igual. Um beijo shakespeariano, um beijo for&ccedil;a-da-natureza.<\/p>\n<p> Eu como de habito assistia &aacute; fita pensando em miss Jane e ligando<br \/>\n    todas as cenas ao meu amor. No momento do beijo vi-me a beija-la e tal foi<br \/>\n    o meu &iacute;mpeto que cravei as unhas numa coisa gorda que pousara no bra&ccedil;o<br \/>\n    da minha poltrona.<\/p>\n<p> &#8212; S&ecirc;o bruto! berrou uma voz.<\/p>\n<p> Olhei. Uma velha matrona de bigodes e verruga no nariz fulminava-me com<br \/>\n    os olhos.<\/p>\n<p> Ergui-me numa tontura e sa&iacute;. O ar frio da noite serenou-me.<\/p>\n<p> Errei longo tempo pelas ruas desertas, at&eacute; que em certo ponto me<br \/>\n    pilhei a monologar em voz alta: &#8212; Mas n&atilde;o me escapa! Agarro-a<br \/>\n    e dou-lhe o beijo de John Barrymore! Quero ver onde vai parar aquela impassibilidade<br \/>\n    de puro espirito. &quot;Interfiro-a&quot; e quero ver&#8230;<\/p>\n<p> Quarta, quinta, sexta, sabado&#8230; Uf! como custou a chegar o domingo! Miss<br \/>\n    Jane recebeu-me com a serenidade antiga, curada j&aacute; da sua momentanea<br \/>\n    fraqueza.<\/p>\n<p> &#8212; Um pouco palido, senhor Ayrton! Esteve doente? &#8212; Um fiozinho<br \/>\n    de nervoso, miss Jane, mas j&aacute; passou.<\/p>\n<p> &#8212; Aborrecimentos l&aacute; na firma com certeza&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Talvez, miss Jane. Est&aacute;-me envenenando este negocio de viver<br \/>\n    os domingos no ano 2228. N&atilde;o suporto mais a burrice, a cegueira, a<br \/>\n    suficiencia destes &quot;sapat&otilde;es&quot; que atravancam o mundo com<br \/>\n    os seus horr&iacute;veis fraques internos e externos.<\/p>\n<p> Miss Jane consolou-me.<\/p>\n<p> &#8212; Paciencia, senhor Ayrton. A vida &eacute; cheia de maus peda&ccedil;os<br \/>\n    &#8212; mas ha bons peda&ccedil;os para os que sabem esperar&#8230;<\/p>\n<p> Passei a lingua pelos bei&ccedil;os, j&aacute; agitado.<\/p>\n<p> &#8212; Jim Roy por exemplo&#8230; continuou ela.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, sim, o negro&#8230; gemi com displicencia, como quem se recorda<br \/>\n    de uma coisa muito distante. Naquele momento eu estava muito longe de Jim<br \/>\n    Roy.<\/p>\n<p> Miss Jane, por&eacute;m, conseguiu recolocar-me no ano 2228.<\/p>\n<p> &#8212; Jim Roy, por exemplo, ia ter o seu bom peda&ccedil;o. Embora n&atilde;o<br \/>\n    compreendesse a calma dos brancos e ainda tivesse a tinir na cabe&ccedil;a<br \/>\n    as crueis palavras de Kerlog ditas naquele encontro, passou a aceitar como<br \/>\n    fato consumado o seu triunfo. O perigo passara. O perigo era o choque das<br \/>\n    duas ra&ccedil;as, uma embriagada com a vitoria, outra ofendida no seu orgulho.<br \/>\n    Para isso contribuiu n&atilde;o s&oacute; o vigor de Kerlog como tambem o<br \/>\n    oportunismo da 73.&ordf; inven&ccedil;&atilde;o de John Dudley. Que maravilhoso<br \/>\n    derivativo! A furia desencarapinhante dos negros fe-los se esquecerem completamente<br \/>\n    da pol&iacute;tica. Datava de tres meses a entrada em cena dos aben&ccedil;oados<br \/>\n    raios Omega, e pelas estat&iacute;sticas oficiais 97% da popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    negra estava j&aacute; omegada. Mais uma semana, e os ultimos postos se fechariam<br \/>\n    por falta de carapinha a alisar. Que magnifico dividendo iria distribuir a<br \/>\n    Dudley Uncurling Company! At&eacute; Jim se omegara e o seu aspecto impressionava<br \/>\n    agora mais do que nunca. Tornara-se um admiravel tipo de branco artificial,<br \/>\n    diverso dos brancos nativos, apenas pela grossura dos labios, saliencia zigomatica<br \/>\n    e chateza do nariz.<\/p>\n<p> Jim entretanto n&atilde;o se sentia o mesmo. Diminuir&aacute; o seu vigor.<\/p>\n<p> Aqueles impulsos ferozes, a violencia selvagem que tantas vezes deflagrava<br \/>\n    em sua alma for&ccedil;ando-o a impor-se a mascara do self-control, estavam<br \/>\n    morrendo nele. J&aacute; n&atilde;o era com ardor belicoso que, derramando<br \/>\n    o olhar da imagina&ccedil;&atilde;o sobre o rebanho dos cem milh&otilde;es<br \/>\n    de negros, sentia em si a possan&ccedil;a de um novo Mois&eacute;s. Cansa&ccedil;o,<br \/>\n    talvez, No ardor da luta os musculos operam prod&iacute;gios de resistencia.<br \/>\n    O abatimento s&oacute; vem depois da vitoria. Jim sentia o abatimento da vitoria<br \/>\n    depois de haver gozado at&eacute; &aacute; exaspera&ccedil;&atilde;o o del&iacute;rio<br \/>\n    do triunfo.<\/p>\n<p> Ia realizar um ideal. O problema negro da America teria com ele no governo<br \/>\n    a unica solu&ccedil;&atilde;o justa.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;A America &ecirc; nossa&quot; monologava. &quot;O branco n&atilde;o<br \/>\n    quer vida em comum? Dividamo-la. Jim dividir&aacute; a America!&quot; Avaliava<br \/>\n    muito bem os obstaculos tremendos que haviam de embara&ccedil;ar a sua a&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas com pulso forte saberia quebrar todas as resistencias. E que gloria para<br \/>\n    a ra&ccedil;a negra caber a ela o gesto decisivo na eterna quest&atilde;o!<br \/>\n    E que vitoria o ve-la atestar ao mundo uma capacidade evolutiva e de realiza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    igual &aacute; do branco! Mo&ccedil;o ainda que era, havia de dar-se inteiro<br \/>\n    &aacute; nova republica negra e encaminha-la aos mais gloriosos destinos.<\/p>\n<p> E Jim sonhava o maior sonho que ainda se sonhou no continente.<\/p>\n<p> Na vespera do dia da posse estava ele &aacute; noite em sua residencia particular,<br \/>\n    solitario como sempre e imerso como sempre no seu grande sonho, quando alguem<br \/>\n    bateu.<\/p>\n<p> O lider negro despertou e franziu a testa. N&atilde;o esperava ninguem,<br \/>\n    n&atilde;o marcara encontro com pessoa alguma&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Est&aacute; ai um homem branco natural&quot;, veio dizer-lhe<br \/>\n    um criado.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Que entre&quot;, respondeu Jim, ainda com as rugas do &quot;quem<br \/>\n    ser&aacute;?&quot; na testa.<\/p>\n<p> Breve pausa. Subito, a porta do gabinete abre-se e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &quot;O Presidente Kerlog!&#8230;&quot; exclamou Jim, surpreso da inesperada<br \/>\n    visita.<\/p>\n<p> O lider branco, palido como no dia da Conven&ccedil;&atilde;o, entrou.<\/p>\n<p> Aproximou-se vagarosamente do lider negro e pos-lhe a m&atilde;o sobre o<br \/>\n    ombro num gesto de piedade comovida.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Sim, o Presidente Kerlog, o branco que vem assassinar-te,<br \/>\n    Jim&#8230;&quot; Aquelas estranhas palavras desnortearam o lider negro, cujos<br \/>\n    sobrolhos se franziram interrogativamente. Por mais esfor&ccedil;o que fizesse<br \/>\n    n&atilde;o penetrava o sentido da estranha sauda&ccedil;&atilde;o. Mas sorriu<br \/>\n    e disse: &#8212; &quot;A ra&ccedil;a branca n&atilde;o poderia prestar maior<br \/>\n    homenagem &aacute; ra&ccedil;a negra do que elegendo para carrasco de Jim<br \/>\n    Roy t&atilde;o nobre chefe.<\/p>\n<p> Que arma escolhe para a miss&atilde;o que traz, Presidente Kerlog? Veneno<br \/>\n    dos Borgias ou lamina de a&ccedil;o?&quot; O tom faceto de Jim Roy n&atilde;o<br \/>\n    desanuviou o ar sinistro do lider branco, antes o fez ainda mais doloroso.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Minha linguagem n&atilde;o &eacute; figurada, Jim. Venho de<br \/>\n    fato assassinar-te, repito&quot;.<\/p>\n<p> Jim continuou a sorrir.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;E eu repito: com o punhal de Brutus ou com o veneno dos Borgias?&quot;<br \/>\n    Kerlog encarou-o com infinita piedade e disse: &#8212; &quot;Arma peor, Jim.<br \/>\n    Trago na boca a palavra que mata&#8230;&quot; O sorriso que pairava nos labios<br \/>\n    do negro come&ccedil;ou a desaparecer.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Ninguem admira mais&quot;, prosseguiu Kerlog, &quot;ninguem<br \/>\n    respeita mais o lider negro do que eu. Ouso at&eacute; afirmar que dentro<br \/>\n    da America branca s&oacute; eu o justifico e compreendo de maneira absoluta.<br \/>\n    Vejo nele um avatar de Lincoln, o sonhador de um sonho imenso de justi&ccedil;a.<br \/>\n    O homem que ha em Kerlog rende ao homem que ha em Jim todas as homenagens.<br \/>\n    Mas o branco que ha em Kerlog vem friamente assassinar com a palavra que mata<br \/>\n    o negro que ha em Jim Roy&#8230;&quot; Tonto pelo imprevisto rumo que ia tomando<br \/>\n    o duelo, o lider negro nada replicou. Limitou-se a verrumar com os olhos o<br \/>\n    seu antagonista como para extorquir&#8211;lhe o pensamento oculto. A pausa que<br \/>\n    se fez foi lugubre. Mas Jim logo readquiriu a sua habitual firmeza e disse<br \/>\n    com ironia dolorosa: &#8212; &quot;N&atilde;o creio que o Presidente Kerlog<br \/>\n    possua a palavra que mata.<\/p>\n<p> O peito de Jim tem coura&ccedil;as por dentro. Quatro seculos de mart&iacute;rio<br \/>\n    nas torturas fisicas da escravid&atilde;o e nas torturas morais do p&aacute;ria<br \/>\n    enfibram a alma de quem resume cem milh&otilde;es de irm&atilde;os. O peito<br \/>\n    de Jim traz coura&ccedil;as de rinoceronte por dentro. Coura&ccedil;as &aacute;<br \/>\n    prova das palavras que matam&#8230;&quot; &#8212; &quot;Trazia&#8230;&quot; emendou<br \/>\n    mansamente o lider louro. O Jim de hoje n&atilde;o &eacute; mais o tit&atilde;<br \/>\n    que o Presidente Kerlog recebeu na Casa Branca.<\/p>\n<p> Quando o corisco fulmina a sequoia, a arvore solitaria continua de p&eacute;,<br \/>\n    por&eacute;m outra.<\/p>\n<p> O negro pressentiu a verdade daquilo. Recordou-se de que j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    era o mesmo. Mas como Kerlog o adivinhava? Como penetrava assim no seu imo?<br \/>\n    Ele n&atilde;o confessara a ninguem a subitanea queda da sua for&ccedil;a<br \/>\n    vital, e nada a definia melhor do que a imagem do lider branco: arvore siderada<br \/>\n    onde a seiva j&aacute; n&atilde;o circula&#8230;<\/p>\n<p> Jim, entretanto, reagiu; retesou-se de todas as suas energias em decl&iacute;nio<br \/>\n    e disse com glacial firmeza: &#8212; &quot;N&atilde;o importa, Presidente<br \/>\n    Kerlog. A Casa Branca restituir&aacute; amanh&atilde; a Jim Roy a for&ccedil;a<br \/>\n    que o cansa&ccedil;o da vitoria lhe roubou.&quot; Kerlog pousou a m&atilde;o<br \/>\n    sobre o ombro do lider negro e disse com profunda piedade: &#8212; &quot;N&atilde;o<br \/>\n    subir&aacute;s os degraus da Casa Branca, Jim&#8230;&quot; O negro deu um salto<br \/>\n    de pantera acuada e explodiu: &#8212; &quot;Por que? Acaso conspiram os brancos<br \/>\n    contra a Constitui&ccedil;&atilde;o? Querem o crime?&quot; Seu peito arfava.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Nada disso&quot;, retrucou suavemente Kerlog. &quot;N&atilde;o<br \/>\n    penetrar&aacute;s na Casa Branca porque l&aacute; n&atilde;o cabe Sans&atilde;o<br \/>\n    de cabelos cortados. Tua presidencia seria inutil. Tudo &eacute; inutil quando<br \/>\n    o futuro j&aacute; n&atilde;o existe.<\/p>\n<p> O tom misterioso de Kerlog impacientava o negro, que sentia algo de terr&iacute;vel<br \/>\n    prestes a revelar-se.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Diga tudo, Presidente Kerlog, diga essa palavra que mata!&quot;<br \/>\n    gritou ele irritado.<\/p>\n<p> O lider branco deixou cair novas palavras de misterio e tortura, cortantes<br \/>\n    como o fio das navalhas.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Tua ra&ccedil;a foi v&iacute;tima do que chamar&aacute;s a<br \/>\n    trai&ccedil;&atilde;o do branco e do que chamarei as raz&otilde;es do branco.&quot;<br \/>\n    O negro esbo&ccedil;ou um rictus de odio.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Trai&ccedil;&atilde;o!&#8230; E &eacute; o Presidente Kerlog quem<br \/>\n    justifica a trai&ccedil;&atilde;o!&#8230;&quot; &#8212; &quot;N&atilde;o justifico,<br \/>\n    Jim, consigno-a. N&atilde;o ha trai&ccedil;&atilde;o quando a senha &eacute;<br \/>\n    Vencer.&quot; Jim sorriu com desprezo.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;A moral branca&#8230;&quot; &#8212; &quot;N&atilde;o ha moral<br \/>\n    entre ra&ccedil;as, como n&atilde;o ha moral entre povos.<\/p>\n<p> Ha vitoria ou derrota. Tua ra&ccedil;a morreu, Jim&#8230;&quot; O negro imobilizou-se.<br \/>\n    Suas narinas entraram a afiar. Suas fei&ccedil;&otilde;es se decompunham horrorosamente.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Tua ra&ccedil;a morreu, Jim&quot;. &#8212; repetiu Kerlog.<br \/>\n    &quot;Com a frieza implacavel do Sangue que nada v&ecirc; acima de si, o branco<br \/>\n    p&ocirc;s um ponto final no negro da America.&quot; Jim quedou-se um instante<br \/>\n    imovel, como que adivinhando.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Os raios Omega!&quot; exclamou afinal num clar&atilde;o, agarrando<br \/>\n    os bra&ccedil;os de Kerlog com os dedos crisapdos.<\/p>\n<p> &#8212; &quot;Sim&quot;, confirmou Kerlog. &quot;Os raios de John Dudley<br \/>\n    possuem virtude dupla&#8230; Ao mesmo tempo que alisam os cabelos&#8230;&quot; Os<br \/>\n    olhos de Jim saltaram das orbitas. Seu transtorno de fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    era tamanho que o lider branco vacilou de piedade. A ra&ccedil;a cruel, por&eacute;m,<br \/>\n    reagiu nele. E, surda, quasi impercept&iacute;vel, aflorou em seus labios<br \/>\n    a palavra fatal: &#8212; &quot;&#8230; esterilizam o homem.&quot; Nem Shakespeare<br \/>\n    descreveria o aspecto do lider negro no momento em que a palavra assassina<br \/>\n    lhe despeda&ccedil;ou o cora&ccedil;&atilde;o. Um terremoto d&#8217;alma aluiu por<br \/>\n    terra o tit&atilde;. Fe-lo tombar sobre a poltrona, com esgares de idiota,<br \/>\n    encolhido como a crian&ccedil;a inerme que v&ecirc; serpente. Breves crispa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de musculos passearam-lhes pelas faces. Dobrou o corpo sobre a secret&aacute;ria.<br \/>\n    Imobilizou-se.<\/p>\n<p> O lider branco aproximou-se daquela massa de tit&atilde; extinto, afagou-lhe<br \/>\n    a pobre cabe&ccedil;a omegada e disse com voz rompida de solu&ccedil;os: &#8212;<br \/>\n    &quot;Perdoa-me, Jim&#8230;&quot;<\/p>\n<h4><a name=\"24\">CAPITULO XXIV &#8211; Crepusculo<\/a><\/h4>\n<p>O inesperado desenlace do drama negro da America deixou-me tonto por varios<br \/>\n    minutos. Depois que voltei ao normal miss Jane prosseguiu: &#8212; No dia<br \/>\n    seguinte a essa noite tragica devia realizar-se a posse do 88.&deg; presidente<br \/>\n    americano, James Roy Wilde, vulgarmente Jim Roy, negro de ra&ccedil;a pura<br \/>\n    nascido em Sonora aos 23 de abril de 2188, doutor em ciencias de governo pela<br \/>\n    Escola Tecnica de Dire&ccedil;&atilde;o Social, despigmentado em 2201 e omegado<br \/>\n    vinte dias depois da vitoria nas urnas.<\/p>\n<p> Lider inconteste da ra&ccedil;a negra, para a qual sonhava um destino altissimo,<br \/>\n    merecia ainda dos brancos um respeito semelhante ao que na velha Roma o patriciado<br \/>\n    conferia aos libertos de excepcional valor. Era Jim um liberto do pigmento.<\/p>\n<p> O choque das ra&ccedil;as f&ocirc;ra prevenido, o que valeu por nova vitoria<br \/>\n    da eugenia. A sociedade, livre de tarados, viu-se no momento do embate isenta<br \/>\n    dos perturbadores ao molde dos retoricos e fanaticos cujas palavras outrora<br \/>\n    impeliam as multid&otilde;es aos peores crimes coletivos. A exaspera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    branca do primeiro momento breve desapareceu. O bom senso tomou p&eacute;<br \/>\n    e o ariano p&ocirc;de filosofar com a necessaria calma. A opini&atilde;o corrente<br \/>\n    admitia n&atilde;o passar a vitoria negra de um curioso incidente na vida<br \/>\n    americana. Oriunda de cis&atilde;o sexual do grupo ariano, f&ocirc;ra golpeada<br \/>\n    de morte no proprio dia das elei&ccedil;&otilde;es pela ades&atilde;o das<br \/>\n    sabinas ao Homo. O proximo pleito restabeleceria o ritmo quebrado e do incidente<br \/>\n    nada restaria no futuro al&eacute;m de um pouco mais de pitoresco na historia<br \/>\n    da America &#8212; qualquer coisa como na serie dos papas, o pontificado da<br \/>\n    papisa Joana.<\/p>\n<p> A serenidade dos brancos refor&ccedil;ava-se ainda na confian&ccedil;a que<br \/>\n    todos depositavam em seus lideres reunidos em conven&ccedil;&atilde;o. Embora<br \/>\n    se ignorasse o que os chefes natos haviam decidido no concilio secreto, nem<br \/>\n    por sombras ninguem admitia que a ideia l&aacute; vencedora n&atilde;o fosse<br \/>\n    a mais eficiente e justa do ponto de vista racial.<\/p>\n<p> Do outro lado os negros, passada a crise de entusiasmo do primeiro momento<br \/>\n    e dada a f&eacute; que lhes merecia Jim Roy, entraram mais a gozar as delicias<br \/>\n    do &quot;omeguismo&quot; do que a deslumbrar-se com uma vitoria pol&iacute;tica<br \/>\n    evidentemente precaria. E assim a mais inesperada surpresa da vida americana<br \/>\n    n&atilde;o trouxe nenhuma das calamidades publicas que fatalmente acarretaria<br \/>\n    no passado &#8212; no tempo em que o desprezo da sele&ccedil;&atilde;o humana<br \/>\n    deixava a sociedade encher-se de perigosissimos bub&otilde;es infecciosos.<\/p>\n<p> Na vespera da posse de Jim, por precau&ccedil;&atilde;o contra qualquer<br \/>\n    violencia, Kerlog, de combina&ccedil;&atilde;o com Abbot, fez irradiar a noticia<br \/>\n    do novo brinquedo inventado por esse encantador das crian&ccedil;as. Tratava-se<br \/>\n    de uma nova bonequinha que sabia dansar o tango da moda com perfei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de maravilhar a gente grande e mergulhar em extases de sonhos a crian&ccedil;ada.<\/p>\n<p> A crian&ccedil;a tinha na America de 2228 uma importancia capital.<\/p>\n<p> Toda a vida do pa&iacute;s girava-lhe em torno, Era a crian&ccedil;a, al&eacute;m<br \/>\n    do encanto do presente, o futuro plasmavel como a cera. Os maiores genios<br \/>\n    da ra&ccedil;a se consagravam a estuda-la, para com t&atilde;o ductil materia<br \/>\n    prima irem esculpindo a obra unica que apaixonava o americano &#8212; o Amanh&atilde;.<br \/>\n    E a tal grau chegou a afina&ccedil;&atilde;o da Puericultura Estetica, a sublime<br \/>\n    arte definida por John Leland, que uma imaginativa de hoje, desta epoca em<br \/>\n    que o homem, absorvido nos horrores da luta pelo p&atilde;o, quasi ignora<br \/>\n    a existencia da crian&ccedil;a, nem de leve pode apreender o que significava<br \/>\n    em 2228 a Realeza do Baby. Realeza sim, como foi na velha Fran&ccedil;a a<br \/>\n    dos ultimos Luises divinizados. Em vez, por&eacute;m, de toda a vida da na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    revolutear em roda de um pach&aacute; como Luis 14, girava em torno da Aurora<br \/>\n    Humana. Sua Majestade Baby era o Luis 14 do seculo.<\/p>\n<p> Em virtude disso &eacute; que o governo americano combinou com o senhor<br \/>\n    Abbot o lan&ccedil;amento da nova boneca nas vesperas da posse de Jim, como<br \/>\n    o melhor meio de prevenir a explos&atilde;o de qualquer res&iacute;duo anti-social<br \/>\n    ainda subsistente na alma americana. E foi assim que o dia da posse chegou<br \/>\n    sem prenuncios da menor tormenta.<\/p>\n<p> Subito, por&eacute;m, &aacute;s primeiras horas da manh&atilde;, o radio<br \/>\n    encheu a America de uma nova sensacional: Jim Roy amanhecera morto em seu<br \/>\n    gabinete de trabalho! Violentissimo foi o abalo publico, dada a coincidencia<br \/>\n    de sobrevir essa morte justamente no dia da posse do Presidente eleito.<\/p>\n<p> Os negros viram nisso um golpe de for&ccedil;a dos brancos, e estes ficaram<br \/>\n    em suspenso, na duvida se seria um deliberado ato de violencia resolvido pelos<br \/>\n    convencionais ou uma das muitas surpresas de que &eacute; fertil o acaso.<br \/>\n    Chegou a haver por parte dos negros um instintivo movimento de revolta. Implantou-se-lhes<br \/>\n    nos cerebros a convic&ccedil;&atilde;o do crime, e a velha selvageria racial<br \/>\n    rajou de sangue os olhos da pantera.<\/p>\n<p> Foi passageiro, entretanto, o assomo. Aquela quebreira vital que Roy havia<br \/>\n    percebido em si ganhara tambem toda a massa negra. O fatalismo ancestral sobrepairou<br \/>\n    &aacute; raiva e o imenso corpo sem cabe&ccedil;a, num recuo de instinto,<br \/>\n    repos-se no lugar humilde donde o tirara a vitoria de Roy.<\/p>\n<p> A r&atilde; a que o vivisseccionista extrai o cerebro passa a viver uma<br \/>\n    vida muscular cujos movimentos s&atilde;o apenas reflexos. Assim a popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    negra americana a partir do momento em que a morte de Jim Roy lhe arrancou<br \/>\n    o encefalo. Agitava-se ainda, viva &#8212; mas perdera o org&atilde;o coordenador<br \/>\n    de movimentos para fins definidos.<\/p>\n<p> O segredo quanto &aacute; a&ccedil;&atilde;o esterilizadora dos raios Omega<br \/>\n    conservava-se absoluto. Al&eacute;m do ministerio, dos tecnicos do estado,<br \/>\n    de John Dudley e de miss Astor, j&aacute; esposa do Presidente Kerlog, ninguem<br \/>\n    mais o conhecia. Dos negros um s&oacute; tivera a sua revela&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Jim Roy &#8212; mas levara-o consigo para o forno crematorio.<\/p>\n<p> Procederam-se a novas elei&ccedil;&otilde;es e foi reeleito Kerlog por 100<br \/>\n    milh&otilde;es de votos. Normalizou-se a vida da America. Sua Majestade Baby<br \/>\n    reentrou no monopolio de toda a aten&ccedil;&atilde;o, por um instante desviada<br \/>\n    pelo choque das ra&ccedil;as.<\/p>\n<p> Um fato entretanto fez-se notado. Meses depois do aparecimento dos raios<br \/>\n    Omega o indice da natalidade negra caiu de chofre. Mar&ccedil;o, precisamente<br \/>\n    o nono m&ecirc;s a datar da abertura dos primeiros postos desencarapinhantes,<br \/>\n    acusa uma queda de 30%. Esta porcentagem subiu ao dobro em abril e chegou<br \/>\n    a 97% em maio. Em junho as estat&iacute;sticas s&oacute; registravam 122 negrinhos<br \/>\n    novos.<\/p>\n<p> Em agosto fechavam-se os postes e a Dudley Uncurling Company distribu&iacute;a<br \/>\n    o seu dividendo.<\/p>\n<p> Tornou-se imposs&iacute;vel guardar por mais tempo aquele segredo de estado<br \/>\n    &#8212; e nem havia raz&otilde;es para isso. O fato caiu no dom&iacute;nio<br \/>\n    publico por meio de uma mensagem irradiada pelo Presidente Kerlog, o documento<br \/>\n    que at&eacute; hoje, na vida da humanidade, mais fundo calou na alma do homem.<br \/>\n    Dizia essa pe&ccedil;a, para sempre memoravel: &quot;O governo americano vem<br \/>\n    dar conta ao povo do golpe de for&ccedil;a a que foi arrastado em cumprimento<br \/>\n    da suprema delibera&ccedil;&atilde;o dos chefes da ra&ccedil;a branca, reunidos<br \/>\n    em palacio no dia 7 de maio de 2228. Foi aprovada nessa assembleia a mo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Leland, resumida nestas palavras: &quot;A conven&ccedil;&atilde;o da ra&ccedil;a<br \/>\n    branca decide alterar a Lei Owen no sentido de incluir entre as taras que<br \/>\n    implicam a esteriliza&ccedil;&atilde;o o pigmento negro camuflado&#8230; A ra&ccedil;a<br \/>\n    branca autoriza o governo americano a lan&ccedil;ar m&atilde;os dos recursos<br \/>\n    que julgar convenientes para a execu&ccedil;&atilde;o desta senten&ccedil;a<br \/>\n    suprema e inapelavel.&quot; Assim autorizado, o governo procurou agir de modo<br \/>\n    a evitar perturba&ccedil;&otilde;es na vida nacional: estava em estudos da<br \/>\n    materia quando John Dudley apareceu com a revela&ccedil;&atilde;o da virtude<br \/>\n    dupla dos raios Omega. Adotado esse maravilhoso processo, operou-se a esteriliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos homens pigmentados pelo unico meio talvez em condi&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    n&atilde;o acarretar para o pa&iacute;s um desastre. O problema negro da America<br \/>\n    est&aacute; pois resolvido da melhor forma para a ra&ccedil;a superior, detentora<br \/>\n    do cetro supremo da realeza humana&quot;.<\/p>\n<p> Nem a noticia da vitoria eleitoral de Roy, nem a revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos raios Omega, nem a nova da morte do negro causaram t&atilde;o profunda<br \/>\n    impress&atilde;o como a fria mensagem do presidente reeleito.<\/p>\n<p> Brancos e pretos a receberam com igual asombro &#8212; seguido logo de uma<br \/>\n    sensa&ccedil;&atilde;o de alivio por parte dos primeiros e de uma sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nova na terra por parte dos segundos.<\/p>\n<p> Pela primeira vez na vida dos povos realizava-se uma opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cirurgica de tamanha envergadura. O frio bisturi de um grupo humano fizera<br \/>\n    a abla&ccedil;&atilde;o do futuro de um outro grupo de cento e oito milh&otilde;es<br \/>\n    sem que o paciente nada percebesse. A ra&ccedil;a branca, afeita &aacute;<br \/>\n    guerra como a ultima ratio da sua majestade, desviava-se da velha trilha e<br \/>\n    impunha um manso ponto final etnico ao grupo que a ajudara a criar a America,<br \/>\n    mas com o qual n&atilde;o mais podia viver em comum.<\/p>\n<p> Tinha-o como obstaculo ao ideal da Super-Civiliza&ccedil;&atilde;o ariana<br \/>\n    que naquele territorio come&ccedil;ava a desabrochar, e pois n&atilde;o iria<br \/>\n    render-se a fraquezas de sentimento, nocivas &aacute; esplendorosa florescencia<br \/>\n    do homem branco.<\/p>\n<p> A ra&ccedil;a ferida na fonte vital pendeu sobre o peito a cabe&ccedil;a<br \/>\n    como a planta a que o podador estrangula a circula&ccedil;&atilde;o da seiva.<br \/>\n    Ia passar. Esteril como a pedra, iria extinguir-se num crepusculo indolor,<br \/>\n    mas de tragica melancolia.<\/p>\n<p> E passou&#8230;<\/p>\n<p> Decenios mais tarde, no maravilhoso jardim americano onde s&oacute; abrolhavam<br \/>\n    camelias de petalas levemente acobreadas pela for&ccedil;a misteriosa do geo-ambiente,<br \/>\n    erguia-se, ao alto do monumento de gratid&atilde;o erigido pelo socio branco<br \/>\n    em homenagem ao socio negro, o busto do velhinho magico que em 2228 curara<br \/>\n    a dor de cabe&ccedil;a historica do 87.&deg; Presidente&#8230; <\/p>\n<h4><a name=\"25\">CAPITULO XXV &#8211; O Beijo de Barrymore<\/a><\/h4>\n<p>O desfecho do drama racial da America comoveu-me profundamente.<\/p>\n<p> N&atilde;o ter futuro, acabar&#8230; Que torturante a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dessa massa de cem milh&otilde;es de criaturas assim amputadas do seu porvir!<br \/>\n    Por outro lado, que maravilhoso surto n&atilde;o ia ter na America o homem<br \/>\n    branco, a expandir-se liberrimo na sua Can&atilde;a prodigiosa! Se somos,<br \/>\n    se existimos, se apesar de todos os males da vida tanto a ela nos apegamos,<br \/>\n    &eacute; que no intimo do nosso ser a voz da persistencia da especie nos ampara.<br \/>\n    A meio da vida de cada criatura j&aacute; &eacute; a prole o que lhe d&aacute;<br \/>\n    coragem de a viver at&eacute; o fim. O celibatario, ser que vale por triste<br \/>\n    ponto final, sente-se um corpo estranho no tumulto biologico &#8212; quasi<br \/>\n    um amaldi&ccedil;oado. Que dizer de um povo inteiro assim amputado da sua<br \/>\n    descendencia? A ver-se envelhecer sem um choro de crian&ccedil;a que o fa&ccedil;a<br \/>\n    pensar no amanh&atilde;? Dia final.<\/p>\n<p> Dia j&aacute; em crepusculo rapido para uma noite eterna&#8230;<\/p>\n<p> Fosse eu um filosofo e teria ali materia para esmoer o cerebro no imaginar<br \/>\n    e re-imaginar a infinita maravilha do formidando quadro.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o era filosofo. Quem ama n&atilde;o filosofa, apenas suspira<br \/>\n    &#8212; e eu suspirava de comover penedos.<\/p>\n<p> &#8212; Jane, Jane, Jane!&#8230; como se repetia em minha boca febrenta essa<br \/>\n    palavra e com que extase meus ouvidos a ouviam! Lembrei-me do romance. Senti<br \/>\n    que era talvez o caminho mais curto para alcan&ccedil;ar o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da filha do professor Benson. Lanceime a ele. Comprei uma resma de papel e<br \/>\n    com furiosa sofreguid&atilde;o fiz e refiz o primeiro capitulo, entusiasmado<br \/>\n    com os per&iacute;odos redondos e cantantes que me saiam da pena. Burilei-o<br \/>\n    qual um soneto, aprimorei-o de todos os arrebiques da forma, orientado por<br \/>\n    modelos que me pareceram os melhores. E nunca me hei de esquecer da ansia<br \/>\n    com que corri ao castelo com a minha obra em punho! Ia pelo caminho prelibando<br \/>\n    a surpresa de miss Jane ante aquela forte revela&ccedil;&atilde;o dum genio<br \/>\n    literario que morreria latente se esse meu anjo bom lhe n&atilde;o provocasse<br \/>\n    o surto.<\/p>\n<p> Encontrei-a na varanda, radiosa na formosura avivada pelo ar fino da manh&atilde;.<br \/>\n    Sem sauda-la, fui logo gritando de longe, com infantil alegria: &#8212; J&aacute;<br \/>\n    fiz o primeiro, miss Jane! O primeiro capitulo! E estou ansioso por ouvir<br \/>\n    a sua opini&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bravos! exclamou ela. N&atilde;o esperei que t&atilde;o rapidamente<br \/>\n    pusesse m&atilde;os &aacute; obra.<\/p>\n<p> Abri o meu pacote de tiras em belo cursivo e entreguei-lhas com quem &aacute;<br \/>\n    sua dama entrega a mais preciosa das gemas. Imposs&iacute;vel que ap&oacute;s<br \/>\n    sua leitura miss Jane n&atilde;o me desse o seu amor.<\/p>\n<p> Vendo a minha sofreguid&atilde;o, ali mesmo a jovem as leu, enquanto meus<br \/>\n    olhos avidos acompanhavam em seu rosto o efeito da narrativa.<\/p>\n<p> Mas, ai de mim, tudo saiu bem ao contrario do esperado&#8230; Miss Jane atenuou<br \/>\n    quanto p&ocirc;de a sua critica, delicada e gentil que era; mas n&atilde;o<br \/>\n    logrou impedir que de volta &aacute; cidade eu rasgasse em mil peda&ccedil;os<br \/>\n    a minha obra prima e pela janelinha do vag&atilde;o, melancolicamente, os<br \/>\n    lan&ccedil;asse ao vento. Azedei a semana inteira e no proximo domingo reapareci<br \/>\n    no castelo de m&atilde;os vazias.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o refez ent&atilde;o o capitulo? indagou ela logo que entrei.<\/p>\n<p> &#8212; Oh, n&atilde;o, miss Jane. Suas palavras abriram-me os olhos.<\/p>\n<p> Convenci-me de que n&atilde;o possuo qualidades literarias e n&atilde;o<br \/>\n    quero insistir, retruquei com ar ressentido.<\/p>\n<p> &#8212; Pois tem que insistir, foi a sua resposta. Em nome da nossa amizade<br \/>\n    o exijo, e pelas qualidades que vi em germe no seu primeiro escrito tenho<br \/>\n    a certeza de que far&aacute; a obra como &eacute; mister.<\/p>\n<p> &#8212; Confesso, miss Jane, que a sua aprecia&ccedil;&atilde;o do ultimo<br \/>\n    domingo me desalentou, e ainda permane&ccedil;o sob essa impress&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que vaidosos os mo&ccedil;os! Lembre-se de meu pai. Quantas vezes<br \/>\n    fazia e refazia a mesma experiencia, com uma paciencia de beneditino! Por<br \/>\n    isso venceu. Lembre-se do esfor&ccedil;o incessante de Flaubert para atingir<br \/>\n    a luminosa clareza que s&oacute; a s&aacute;bia simplicidade d&aacute;. A<br \/>\n    enfase, o empolado, o enfeite, o contorcido, o rebuscamento de express&otilde;es,<br \/>\n    tudo isso nada tem com a arte de escrever, porque &eacute; artificio e o artificio<br \/>\n    &eacute; a cuscuta da arte. Puros maneirismos que em nada contribuem para<br \/>\n    o fim supremo: a clara e facil express&atilde;o da ideia.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, miss Jane, mas sem isso fico sem estilo&#8230;<\/p>\n<p> Que finura de sorriso temperado de meiguice aflorou nos labios da minha<br \/>\n    amiga! &#8212; Estilo o senhor Ayrton s&oacute; o ter&aacute; quando perder<br \/>\n    em absoluto a preocupa&ccedil;&atilde;o de ter estilo. Que &eacute; estilo,<br \/>\n    afinal? &#8212; Estilo &eacute;&#8230; ia eu responder de pronto, mas logo engasguei,<br \/>\n    e assim ficaria se ela muito naturalmente n&atilde;o mo definisse de gentil<br \/>\n    maneira.<\/p>\n<p> &#8212; &#8230; &eacute; o modo de ser de cada um. Estilo &eacute; como o rosto:<br \/>\n    cada qual possue o que Deus lhe deu. Procurar ter um certo estilo vale tanto<br \/>\n    como procurar ter uma certa cara. Sai mascara fatalmente &#8212; essa horr&iacute;vel<br \/>\n    coisa que &eacute; a mascara&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas o meu modo natural de ser n&atilde;o tem encantos, miss Jane,<br \/>\n    &eacute; bruto, grosseiro, inhabil, ingenuo. Quer ent&atilde;o que escreva<br \/>\n    desta maneira? &#8212; Pois certamente! Seja como &eacute;, e tudo quanto<br \/>\n    lhe parece defeito surgir&aacute; como qualidades, visto que ser&aacute; reflexo<br \/>\n    da coisa unica que tem valor num artista &#8212; a personalidade.<\/p>\n<p> Refleti comigo uns instantes e disse por fim: &#8212; Est&aacute; bem, miss<br \/>\n    Jane. Vou tentar mais uma vez. Vou escrever como sair, sem preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de especie nenhuma &#8212; nem de gramatica, e ver&aacute; que horror&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Isso! exclamou ela encantada. Acertou. Isso &eacute; que &eacute;<br \/>\n    escrever bem. Refa&ccedil;a o primeiro capitulo com esse criterio e traga-mo<br \/>\n    no proximo domingo. Serei franca como o fui na tentativa anterior, e se me<br \/>\n    parecer que de fato n&atilde;o tem as qualidades precisas, di-lo-ei francamente<br \/>\n    e n&atilde;o pensaremos mais nisso.<\/p>\n<p> De regresso ao meu quartinho humilde, nessa mesma noite dei come&ccedil;o<br \/>\n    &aacute; obra. O meu amuo, consequente &aacute; vaidade literaria ofendida,<br \/>\n    ainda n&atilde;o passara de todo, e resolvi escrever mal, de um jacto, com<br \/>\n    a inten&ccedil;&atilde;o deliberada de desapontar miss Jane. Ela me condenaria<br \/>\n    a segunda tentativa, punhamos um ponto final na literatura e passar&iacute;amos<br \/>\n    a cuidar de outra coisa. Escrevi at&eacute; madrugada, sem rasuras, sem escolha<br \/>\n    de palavras, como se estivesse a correr no meu saudoso Ford ao acaso das estradas<br \/>\n    sem fim. Ao soarem tres horas atirei com a caneta e fui dormir o sono mais<br \/>\n    pesado da minha vida. No dia seguinte fui ve-la.<\/p>\n<p> &#8212; Aqui est&aacute;, miss Jane, o horror que me saiu da pena.<\/p>\n<p> Escrevi de acordo com a sua receita e nem coragem tive de reler.<\/p>\n<p> Condene-me de uma vez e passemos a cuidar de outra coisa.<\/p>\n<p> Miss Jane tomou as tiras e logo ao fim da primeira abriu a express&atilde;o<br \/>\n    que na tentativa anterior eu tanto ansiava por ver. E nesse estado de extase<br \/>\n    sofrego permaneceu at&eacute; o fim.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute;timo! exclamou. O senhor Ayrton acaba de revelar-se um verdadeiro<br \/>\n    escritor &#8212; impetuoso, irregular, incorreto, ingenuo, mas expressivo,<br \/>\n    original e forte. Ha aqui verdadeiros achados de express&atilde;o.<\/p>\n<p> Fa&ccedil;a o livro inteiro neste tom que eu lhe garanto a vitoria.<\/p>\n<p> Olhei para a minha amiga quasi com rancor, t&atilde;o certo estava eu da<br \/>\n    ironia de suas palavras.<\/p>\n<p> &#8212; Tem coragem de ser assim impiedosa com o pobre Ayrton? murmurei<br \/>\n    em tom magoado.<\/p>\n<p> Ela olhou-me nos olhos fixamente, sem dizer palavra, e nos seus lindos olhos<br \/>\n    azues vi refletida com tamanha nitidez a pureza de sua alma que logo me envergonhei<br \/>\n    do meu &iacute;mpeto, filho exclusivo da ignorancia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, meu amigo! disse-me por fim. Sou incapaz de ironia.<br \/>\n    O que acabo de dizer &eacute; a fiel express&atilde;o do meu pensamento. Estas<br \/>\n    paginas est&atilde;o cheias de defeitos, mas dos defeitos naturais ao primeiro<br \/>\n    jacto de toda obra sincera e espontanea. S&atilde;o as rebarbas que com a<br \/>\n    lima o fundidor suprime. Mas se noto defeitos que a lima tira, n&atilde;o<br \/>\n    noto nenhum vicio literario, e por isso considero otimo o come&ccedil;o do<br \/>\n    seu romance. Fa&ccedil;a-o todo nesse tom e far&aacute; a obra que imagino.<br \/>\n    O trabalho de rebarba deixe-o comigo. Sou mulher e paciente. Deixe-me o menos<br \/>\n    e fa&ccedil;a o mais. Seja o fundidor apenas, o obreiro que cria o grande<br \/>\n    bloco e n&atilde;o perde tempo com detalhes subalternos.<\/p>\n<p> Calaram fundo no meu cora&ccedil;&atilde;o aquelas palavras. Vi nelas um<br \/>\n    interesse mais de amorosa do que de simples amiga &#8212; de amorosa que o<br \/>\n    &eacute; sem o saber. Imergida que sempre vivera em suas vis&otilde;es do<br \/>\n    futuro, e sempre presa da mais intensa atividade cerebral, miss Jane ignorava-se.<\/p>\n<p> Olhei-a com o cora&ccedil;&atilde;o nos olhos. O &quot;puro espirito&quot;<br \/>\n    viu em mim a ta&ccedil;a cheia em excesso, cuja espuma se derrama &#8212;<br \/>\n    e perturbou-se. Seus olhos baixaram-se. Seu peito ofegou.<\/p>\n<p> Era o ceu. Atirei-me como quem se atira &aacute; vida, e esmagueilhe nos<br \/>\n    labios o beijo sem fim de John Barrymore. E qual o raio que acende em chamas<br \/>\n    o tronco impass&iacute;vel, meu beijo arrancou da gelada filha do professor<br \/>\n    Benson a ardente mulher que eu sonhara.<\/p>\n<p> &#8212; Minha, afinal!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Cap\u00edtulo XXII Cap\u00edtulo XXIII 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