{"id":92386,"date":"2017-01-04T10:00:20","date_gmt":"2017-01-04T12:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92386"},"modified":"2018-01-17T08:00:59","modified_gmt":"2018-01-17T10:00:59","slug":"o-fisico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/o-fisico","title":{"rendered":"O Fisco"},"content":{"rendered":"<p><strong>Conto de Natal<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pr\u00f3logo<\/strong><\/p>\n<p>No princ\u00edpio era o p\u00e2ntano, com valas de agri\u00e3o e r\u00e3s coaxantes. Hoje \u00e9 o parque do Anhangaba\u00fa, todo ele relvado, com ruas de asfalto, p\u00e9rgola grata a namoricos noturnos, e Eva de Brecheret, a est\u00e1tua dum adolescente nu que corre \u2013 e mais coisas. Autos voam pela vida central, e cruzam-se pedestres em todas as dire\u00e7\u00f5es. Lindo parque, civilizad\u00edssimo.<\/p>\n<p>Atravessando-o certa tarde, vi formar-se ali um bolo de gente, rumo ao qual vinha vindo um pol\u00edcia apressado.<\/p>\n<p>Fogocitose, pensei. A rua \u00e9 a art\u00e9ria; os passantes, o sangue. O desordeiro, o b\u00eabado, o gatuno s\u00e3o os micr\u00f3bios mal\u00e9ficos, perturbadores do ritmo circulat\u00f3rio. O soldado de pol\u00edcia \u00e9 o gl\u00f3bulo branco \u2013 o fog\u00f3cito de metchenikoff. Est\u00e1 de ordin\u00e1rio parado no seu posto, circunvagando olhares atentos. Mal se congestiona o tr\u00e1fego pela a\u00e7\u00e3o anti-social de desordeiro, o fag\u00f3cito move-se, caminha, corre, cai afunda sobre o mau elemento e arrasta-o para o xadrez.<\/p>\n<p>Foi assim naquele dia.<\/p>\n<p>Dia sujo, azedo. C\u00e9u d\u00fabio, de decalcomania vista pelo avesso. Ar arrepiado.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pertubara a paz do jardim, e em redor desse rebelde logo se juntou um grupo de gl\u00f3bulos vermelhos, vulgo passantes. E l\u00e1 vinha agora o fag\u00f3cito fardado restabelecer a harmonia universal.<\/p>\n<p>O caso girava em torno de uma crian\u00e7a maltrapilha, que tinha a tiracolo uma caixa tosca de engraxate, visivelmente feita pelas suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Muito sarapantado, com l\u00e1grimas a brilharem nos olhos cheios de pavor, o pequeno murmurava coisas de ningu\u00e9m atendidas. Sustinha-o pela gola um fiscal da C\u00e2mara.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o seu cachorrinho, sem licen\u00e7a, heim? \u2013 exclamava, entre col\u00e9rico e vitorioso, o mastim municipal, focinho muito nosso conhecido. \u2013 \u00c9 um que n\u00e3o \u00e9 um mas sim legi\u00e3o, e sabe ser tigre ou cordeiro conforme o naipe do contraventor.<\/p>\n<p>A miser\u00e1vel crian\u00e7a evidentemente n\u00e3o entendia, n\u00e3o sabia que coisa era aquela de licen\u00e7a, t\u00e3o importante, reclamada assim a empux\u00f5es brutais. Foi quando entrou em cena a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Este gl\u00f3bulo branco era preto. Tinha bei\u00e7o de sobejar e nariz invasor de meia cara, aberto em duas ventas acesas, relembrativas das cavernas de Trof\u00f4nio. Aproximou-se e rompeu o magote com um napole\u00f4nico \u2013 \u201cEspalha!\u201d.<\/p>\n<p>Humildes elas se abriram \u00e0quele S\u00e8samo, e a Autoridade, avan\u00e7ando, interpelou o fisco:<\/p>\n<p>&#8211; Que encrenca \u00e9 esta, chefe?<\/p>\n<p>&#8211; Pois este cachorrinho n\u00e3o \u00e9 que est\u00e1 exercendo ilegalmente a profiss\u00e3o de engraxate? Encontrei-o banzando por aqui com estes tro\u00e7os, a fisgar com os olhos os p\u00e9s dos transeuntes e a dizer \u201cengraxa, fregu\u00eas\u201d. Eu vi a coisa de longe. Vim p\u00e9 ante p\u00e9, disfar\u00e7ando e, de repente, nhoc! \u201cMostre a licen\u00e7a\u201d, gritei. \u201cque licen\u00e7a?\u201d, perguntou ele, com arzinho de inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cAh, voc\u00ea diz que licen\u00e7a, cachorro? Est\u00e1 me debochando, ladr\u00e3o? Espera que te ensino o que \u00e9 licen\u00e7a, trapo!\u201d e agarrei-o. n\u00e3o quer pagar a multa. Vou lev\u00e1-lo ao dep\u00f3sito, autuar a infra\u00e7\u00e3o para proceder de acordo com as posturas \u2013 concluiu um soberbo entono o cariado canino de Maxila fiscal.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isso mesmo. Casca-lhe!<\/p>\n<p>E chiando por entre os dentes uma cusparada de esguicho, deu a sua sacudidela suplementar no menino. Depois voltou-se para os basbaques de ordenou com imp\u00e9rio de soba africano:<\/p>\n<p>&#8211; Circula, paisanada! \u00c9 \u201cpurivido\u201d ajuntamentos demais de um.<\/p>\n<p>Os gl\u00f3bulos vermelhos dispersaram-se em sil\u00eancio. O buldogue l\u00e1 seguiu com o pequeno nas unhas. E o Pau-de-fumo, em atitude de Bonaparte em face das pir\u00e2mides, ficou, de dedo no nariz e boca entreaberta, a gozar a prontid\u00e3o com que, num \u00e1pice, sua energia resolvera o tumor maligno formado na art\u00e9ria sob a sua fiscaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Br\u00e1s<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m l\u00e1, no princ\u00edpio, era o charco \u2013 terra negra, fofa, turfa tressuante, sem outra vegeta\u00e7\u00e3o al\u00e9m dessas plantinhas miser\u00e1veis que sugam o lodo como minhocas. Aqu\u00e9m da v\u00e1rzea, na terra firme e alta, s\u00e3o Paulo crescia. Erguiam-se casas nos cabe\u00e7os, e esgueiravam-se ladeiras encostas abaixo: a boa morte, o Carmo, o piques; e ruas, imperador, direita, s\u00e3o bento. Poetas cantavam-lhe as gra\u00e7as nascentes:<\/p>\n<p>\u00d3 Liberdade, \u00f3 Ponte Grande, \u00f3 Gl\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>Deram-lhe um dia o viaduto do ch\u00e1, esse arrojo&#8230; os paulistanos pagavam sessenta r\u00e9is para, ao atravess\u00e1-lo, conhecerem a vertigem dos abismos. E em casa narravam a aventura \u00e0s esposas e m\u00e3es, p\u00e1lidas de espanto. Que arrojo de homem, o Jules Martin que constru\u00edra aquilo!<\/p>\n<p>Enquanto S\u00e3o Paulo crescia o Br\u00e1s coaxava. Enluravam-se naquele brejal legi\u00f5es de sapos e r\u00e3s. A noite, do escuro da terra um coral subia de coaxos, pan-pans de ferreiro, latidos de miumbias, glus-glus de untanhas; e, por cima, no escuro do ar, vagalumes ziguezagueantes riscavam f\u00f3sforos \u00e0s tontas.<\/p>\n<p>E assim foi at\u00e9 o dia da avalanche italiana.<\/p>\n<p>Quando l\u00e1 no oeste a terra roxa se revelou mina de ouro das que pagam duzentos por um, a It\u00e1lia vazou para c\u00e1 a espuma da sua transbordante ta\u00e7a de vida. E s\u00e3o Paulo, n\u00e3o bastando ao abrigo da nova gente, assistiu, Antonio, ao surto do Br\u00e1s.<\/p>\n<p>Drenos sangraram em todos os rumos o brejal turfoso; a \u00e1gua escorreu; os evaporidos sapos sumiram-se aos pulos para as baixadas do Tiet\u00ea; r\u00e3 comest\u00edvel n\u00e3o ficou uma para mem\u00f3ria da ra\u00e7a; e, breve, em substitui\u00e7\u00e3o aos guemb\u00eas, ressurtiu a cogumelagem de centenas e centenas de casinhas t\u00edpicas \u2013 porta, duas janelas e platibanda.<\/p>\n<p>Numerosas ruas, alinhadas na terra cor de ard\u00f3sia, que j\u00e1 o sol ressequira e o vento erguia em nuvens de p\u00f3 negro, margearam-se com febril rapidez desses prediozinhos t\u00e9rreos, iguais uns aos outros, como sa\u00eddos do mesmo molde, p\u00edfios, mas \u00fanicos poss\u00edveis ent\u00e3o. Casotas porvis\u00f3rias, desbravadoras da lama e vencedoras do p\u00f3, \u00e0 for\u00e7a de pre\u00e7o m\u00f3dico.<\/p>\n<p>E o Br\u00e1s cresceu, espraiou-se de todos os lados, comeu todo o barro preto da Mooca, bateu estacas no Marco da Meia L\u00e9gua, lan\u00e7ou-se rumo \u00e1 penha, p\u00f4s de p\u00e9 igrejas, macadamizou ruas, in\u00e7ou-se de f\u00e1bricas, viu surgirem avenidas e vida pr\u00f3pria, e cinemas, e o Colombo, e o namoro, e o corso pelo carnaval. E l\u00e1 est\u00e1 hoje enorme, feito a cidade do Br\u00e1s, separado de S\u00e3o Paulo pelo faix\u00e3o vermelho da v\u00e1rzea aterrada \u2013 Pest da Buda \u00e0 beira do Tamanduate\u00ed plantada.<\/p>\n<p>S\u00e3o duas cidades vizinhas, distintas de costumes e de almas j\u00e1 bem diversas. Ir ao Br\u00e1s \u00e9 uma viagem. O Br\u00e1s n\u00e3o \u00e9 ali, como o Ipiranga; \u00e9 l\u00e1 do outro lado, embora mais perto que o Ipiranga. Diz-se \u2013 vou ao Br\u00e1s, como quem diz \u2013 vou \u00e0 It\u00e1lia. Uma agregada como um bom b\u00f3cio recente e aut\u00f4nomo a uma urbs antiga, filha do pa\u00eds; uma It\u00e1lia fun\u00e7\u00e3o da terra negra, italiana por sete d\u00e9cimos e algo nuevo pelos restantes.<\/p>\n<p>O Br\u00e1s trabalha de dia e \u00e0 noite gesta. Aos domingos fandanga ao som do bandolim. Nos dias de festa nacional (destes tem predile\u00e7\u00e3o pelo 21 de Abril : vagamente o Br\u00e1s desconfia que o barbeiro da inconfid\u00eancia, porque barbeiro, havia de ser um patr\u00edcio), nos dias feriados o Br\u00e1s vem a S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Entope os bondes no travessio da v\u00e1rzea e c\u00e1 ensardinha-se nos autos: o pai, a m\u00e3e, a sogra, o genro e a filha casada no banco de tr\u00e1s; o tio, a cunhada, o sobrinho e o pepino escoteiro no da frente; filhos mi\u00fados por entremeio; filhos mais taludos ao lado do motorista; filhos engatinhantes debaixo dos bancos; filhos em estado fatal no ventre bojudo das matronas. Vergado de molas, o carro geme sob a carga e arrasta-se a meia velocidade, exibindo a Paulic\u00e9ia aos olhos arregalados daquele exuberante cacho humano.<\/p>\n<p>Finda a corrida, o auto debulha-se do enxame no tri\u00e2ngulo e o bando toma de assalto as confeitarias para um regabofe de spumones, gasosas, croquetes. E t\u00e3o a s\u00e9rio toma a tarefa, que ali pelas nove horas n\u00e3o restam iscas de empada nos arm\u00e1rios t\u00e9rmicos, nem vest\u00edgios de sorvete no fundo das galadeiras.<\/p>\n<p>O Br\u00e1s devora tudo, ruidosa, alegremente e, com massagens ajeitadoras do abdome, sai impando bem-aventuran\u00e7a estomacal. Caro\u00e7os de azeitonas, palitos de camar\u00f5es, guardanapos de papel, pratos de papel\u00e3o seguem nas munhecas da petizada como lembran\u00e7a da festa e consolo ao bersalherzinho que l\u00e1 ficou de castigo em casa, berrando com goela de Caruso.<\/p>\n<p>Em seguida, toca para o cinema! O Br\u00e1s abarrota os desess\u00e3o corrida. O Br\u00e1s chora nos lances lacrimog\u00eaneos da Bertini, e ri nas com\u00e9dias a g\u00e1s hilariante da L-Ko mais do que autorizam os mil e cem de entrada. E repete a sess\u00e3o, piscando o olho: \u00e9 o jeito de dobrar a festa em extens\u00e3o e obt\u00ea-la a meio pre\u00e7o \u2013 550 r\u00e9is, uma pechincha.<\/p>\n<p>As mulheres do Br\u00e1s, ricas de ov\u00e1rio, s\u00e3o vigoros\u00edssimas de \u00fatero. Desovam quase filho e meio por ano, sem interrup\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que se acabe a corda ou rebente alguma pe\u00e7a essencial da gestat\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 de v\u00ea-las na rua. Bojudas de seis meses, trazem um pepininho \u00e0 m\u00e3o e um choramingas \u00e0 mama. \u00c0 tarde o Br\u00e1s inteiro chia de crian\u00e7alha a chutar bolas de pano, a jogar pi\u00e3o, ou a piorra, ou o tento de telha, ou o tabefe, com palavreados mistos de portugu\u00eas e dialetos de It\u00e1lia . mulheres escarrancadas \u00e0s portas, com as m\u00e3os ocupadas em manobras de agulha de osso, espigaitam para os maridos os sucessos do dia, que eles ouvem filosoficamente, cachimbando calados ou confiando a bigodeira \u00e0 Humberto primo.<\/p>\n<p>De manh\u00e3 esfervilha o Br\u00e1s de gente estremunhada a caminho das f\u00e1bricas. A mesma gente reflui \u00e0 tarde aos magotes \u2013 homens e mulheres, de cesta no bra\u00e7o, ou garrafs de caf\u00e9 vazias penduradas no dedo; meninas, rapazes, raparigotas de pouco seio, galantes, tagarelas, com o namorente.<\/p>\n<p>Desce a noite, e nos desv\u00e3o de rua, nos becos, nas sombras, o amor lateja. Ciciam vozes cautelosas das janelas para os passeios; pares em conversa disfar\u00e7ada nos port\u00f5es emudecem quando passa algu\u00e9m ou tosse l\u00e1 dentro o pai.<\/p>\n<p>Durante o escuro das fitas, nos cinemas, h\u00e1 contatos longos, febricilantes; e quando nos intervalos irrompe a luz, n\u00e3o sabem os namorados o que se passou na tela \u2013 mas est\u00e3o de olhos langues, em quebreira de amor.<\/p>\n<p>\u00c9 o latejar da messe futura. Todo aquele eretismo por m\u00fasica, com cicios de pensamentos de cart\u00e3o postal, estar\u00e1 morto no ano seguinte \u2013 legalizado pela igreja e pelo juiz, transfeita a sua poesia em choro de crian\u00e7as e nas trabalhadeiras sem fim da casa humilde.<\/p>\n<p>Tal menina rosada, leve de andar, toda requebros e dengues, que passa na rua vestida com gra\u00e7a e atrai os olhares gulosos dos homens, n\u00e3o a reconhecereis dois anos depois na lambona filhenta que deblantera com verdureiro a prop\u00f3sito do feixe de cenouras em que h\u00e1 uma menor que as outras.<\/p>\n<p>Filho da lama negra, o Br\u00e1s \u00e9 como ela um sedimento de aluvi\u00e3o. \u00c9 s\u00e3o Paulo, mas n\u00e3o \u00e9 a Paulic\u00e9ia. Ligados pela expans\u00e3o urbana, separa-os uma barreira. O velho caso do fidalgo e do pe\u00e3o enriquecido.<\/p>\n<p>Pedrinho, sem ser consultado, nasce<\/p>\n<p>Viram-se ele e ela. Namoraram-se. Casaram.<\/p>\n<p>Casados, proliferaram.<\/p>\n<p>Eram dois. O amor transformou-se em tr\u00eas. Depois em quatro, em cinco, em seis&#8230;<\/p>\n<p>Chamava-se Pedrinho o filho mais velho.<\/p>\n<p>A vida<\/p>\n<p>De p\u00e9, na porta, a m\u00e3e espera o menino que foi \u00e0 padaria. Entra o pequeno com as m\u00e3os abandonado.<\/p>\n<p>&#8211; Diz que subiu; custa agora oitocentos.<\/p>\n<p>A mulher, com uma crian\u00e7a ao peito, franze a testa, desconsolada.<\/p>\n<p>&#8211; Meus Deus! Onde iremos parar? Ontem era a lenha: hoje \u00e9 o p\u00e3o&#8230; tudo sobe. Roupa, pela hora da morte. Jos\u00e9 ganhando sempre a mesma coisa. Que ser\u00e1 de n\u00f3s, Deus do c\u00e9u!<\/p>\n<p>E voltando-se para o filho:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 a outra padaria, quem sabe l\u00e1&#8230; se for a mesma coisa, traga s\u00f3 um peda\u00e7o.<\/p>\n<p>Pedrinho sai. Nove anos. Franzino, doentio, sempre mal alimentado e vestido com os restos das roupas do pai.<\/p>\n<p>Trabalha este no moinho de trigo, ganhando jornal insuficiente para manuten\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Se n\u00e3o fosse a bravura da mulher, que lavava para fora, n\u00e3o se sabe como poderiam substituir. Todas as tentativas feitas com intuito de melhorarem de vida com ind\u00fastrias caseiras esbarram no \u00f3bice tremendo do fisco. A fera condenava-os \u00e0 fome. Assim escravizados, Jos\u00e9 perdeu aos poucos a coragem, o gosto de viver, a alegria. Vegetava, recorrendo ao \u00e1lcool para al\u00edvio de uma situa\u00e7\u00e3o sem rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Bendito sejas, am\u00e1vel veneno, ref\u00fagio derradeiro do miser\u00e1vel, gole inebriante de morte que faz esquecer a vida e lhe resume o curso! Bendito sejas!<\/p>\n<p>Apesar da mo\u00e7a, 27 anos apenas, mariana aparentava o dobro. A labuta permanente, os partos sucessivos, a chiadeira da filharada, a canseira sem fim, o servi\u00e7o emendado com o servi\u00e7o, sem folga outra al\u00e9m da que o sono for\u00e7a, fizeram da bonita mo\u00e7a que fora a escanzelada besta de carga que era.<\/p>\n<p>Seus dez anos de casada&#8230; Que eternidade de canseiras!&#8230;<\/p>\n<p>Rumor \u00e0 porta. Entra o marido. A mulher, ninando a pequena de peito, recebe-o com a m\u00e1 nova.<\/p>\n<p>&#8211; O p\u00e3o subiu, sabe?<\/p>\n<p>Sem murmurar palavra o homem senta-se apoiando nas m\u00e3os a cabe\u00e7a. Est\u00e1 cansado.<\/p>\n<p><strong>A mulher prossegue:<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Oitocentos r\u00e9is o quilo agora. Ontem foi a lenha; hoje \u00e9 o p\u00e3o&#8230; e l\u00e1? Sempre aumentaram o jornal?<\/p>\n<p>O marido esbo\u00e7ou um gesto de desalento e permaneceu mudo, com o olhar vago. A vida era um jogo de engrenagens de a\u00e7o entre cujos dentes se sentia esmagar. In\u00fatil. Destino, sorte.<\/p>\n<p>Na cama, \u00e0 noite, confabulavam. A mesma conversa de sempre. Jos\u00e9 acabava gruninho rugidos surdos de revolta. Falava em revolu\u00e7\u00e3o, saque. A esposa consolava-o, de esperan\u00e7a posta nos filhos.<\/p>\n<p>&#8211; Pedrinho tem nove anos. Logo estar\u00e1 em ponto de ajudar-nos. Um pouco mais de paci\u00eancia e a vida melhora.<\/p>\n<p>Aconteceu que nessa noite Pedrinho ouviu a conversa e a refer\u00eancia \u00e0 sua futura a\u00e7\u00e3o. Entrou a sonhar. Que fariam dele? Na f\u00e1brica, como o pai? Se lhe dessem a escolher, iria a engraxador. Tinha um tio no of\u00edcio, e em casa do tio era menor a mis\u00e9ria. Pingavam n\u00edqueis.<\/p>\n<p>Sonho vai, sonho vem, brota na cabe\u00e7a do menino uma id\u00e9ia, que cresceu, tomou vulto extraordin\u00e1rio e f\u00ea-lo perder o sono.. come\u00e7ar j\u00e1, amanh\u00e3, por que n\u00e3o? Faria mesmo a caixa; escovas e graxa, com o tio arranjaria. Tudo \u00e0s ocultas, para surpresa dos pais! Iria postar-se num ponto por onde passasse muita gente.<\/p>\n<p>Diria como os outros \u201cengraxa, fregu\u00eas!\u201d e n\u00edqueis haviam de juntar-se no seu bolso. Voltaria para casa recheado, bem tarde, com ar de quem as fez&#8230; E mal m\u00e3e come\u00e7asse a ralhar, ele taparia a boca despejando na mesa um monte de dinheiro.<\/p>\n<p>O espanto dela, a cara admirada do pai, o regalo da crian\u00e7ada com a perspectiva da ra\u00e7\u00e3o em dobro! E a m\u00e3e a apont\u00e1-lo aos vizinhos: \u201cEst\u00e3o vendo que coisa? Ganhou, s\u00f3 ontem, primeiro dia, dois mil r\u00e9is!\u201d e a not\u00edcia a correr&#8230; e murm\u00farios na rua quando o vissem passar: \u201c\u00c9 aquele!\u201d<\/p>\n<p>Pedrinho n\u00e3o dormiu essa noite. De manh\u00e3zinha j\u00e1 estava a dispor a madeira dum caixote velho sob forma da caixa de engraxate ao molde cl\u00e1ssico. L\u00e1 a fez. Os pre\u00e7os, bateu com o salto de uma velha botina. As t\u00e1buas serrou pacientemente com um fac\u00e3o dentado. Saiu coisa tosca e mal-ajambrada, de fazer rir a qualquer carapina, e pequena demais \u2013 sobre ela s\u00f3 caberia um p\u00e9 de crian\u00e7a igual ao seu. Mas Pedrinho n\u00e3o notou nada disso, e nunca trabalho nenhum de carpintaria lhe pareceu mais perfeito.<\/p>\n<p>Conclusa a caixa, p\u00f4-la a tiracolo e esgueirou-se para a rua, \u00e0s escondidas. Foi \u00e0 casa do tio e l\u00e1 obteve duas velhas escovas fora de uso, j\u00e1 sem p\u00ealos, mas que \u00e0 sua exaltada imagina\u00e7\u00e3o se afiguraram \u00f3timas. Graxa, conseguiu alguma raspando o fundo de quanta lata velha encontrou no quintal.<\/p>\n<p>Aquele momento marcou em sua vida um apogeu de felicidade vitoriosa. Era como um sonho \u2013 e sonhando saiu para a rua. Em caminho viu o dinheiro crescer-lhe nas m\u00e3os, aos montes. Dava \u00e0 fam\u00edlia parte e o resto encafuava.<\/p>\n<p>Quando enchesse o canto da arca onde tinha suas roupas, montaria um \u201ccorredor\u201d, pondo a jornal outros colegas. Aumentaria as rendas! Enriqueceria! Compraria bicicletas, autom\u00f3vel, doces todas as tardes na confeitaria, livros de figuras, uma casa, um pal\u00e1cio, outro pal\u00e1cio para os pais. Depois&#8230;<\/p>\n<p>Chegou ao parque. T\u00e3o bonito aquilo \u2013 a relva t\u00e3o verde, tosadinha&#8230; havia de ser bom o ponto. Parou perto de um banco de pedra e. sempre as futuras grandezas, p\u00f4s-se a murmurar para cada passante, fisgando-lhe os p\u00e9s: \u201cEngraxa, fregu\u00eas!\u201d<\/p>\n<p>Os fregueses passavam sem lhe dar aten\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 assim mesmo\u201d, refletia consigo o menino, \u201cno come\u00e7o custa. Depois se afreguesam.\u201d<\/p>\n<p>S\u00fabito, viu um homem de bon\u00e9 caminhando para seu lado. Olhou-lhe para as botinas. Sujas. Viria engraxar, com certeza \u2013 e o cora\u00e7\u00e3o bateu-lhe apressado, no tumulto delicioso da estr\u00e9ia. Encarou o homem j\u00e1 a cinco passos e sorriu com infinita ternura nos olhos, num agradecimento antecipado em que havia tesouros de gratid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas em vez de lhe espichar o p\u00e1, o homem rosnou aquela terr\u00edvel interpela\u00e7\u00e3o inicial:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, cachorrinho, que \u00e9 da licen\u00e7a?<\/p>\n<p>Ep\u00edlogo? N\u00e3o! Primeiro Ato&#8230;<\/p>\n<p>Horas depois o fiscal aparecia em casa de Pedrinho com o pequeno pelo bra\u00e7o. Bateu. O pai estava, mas quem abriu foi a m\u00e3e. O homem nesses momentos n\u00e3o aparecia, para evitar explos\u00f5es. Ficou a ouvir do quarto o bate-boca.<\/p>\n<p>O fiscal exigia o pagamento da multa. A mulher debateu-se, arrepelou-se. Por fim, rompeu em choro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o venha com lam\u00farias \u2013 rosnou o buldogue. \u2013 conhe\u00e7o o truque dessa ag\u00fcinha nos olhos, n\u00e3o me emba\u00e7a, n\u00e3o. Ou bate aqui os vinte mil r\u00e9is, ou penhoro toda essa cacaria.<\/p>\n<p>Exercer ilegalmente a profiss\u00e3o! Ora, d\u00e1-se! E olha c\u00e1 madama, considere-se feliz de serem s\u00f3 vinte. Eu \u00e9 de d\u00f3 de voc\u00eas, uns miser\u00e1veis; se n\u00e3o aplicava o m\u00e1ximo. Mas se resiste dobro a dose!<\/p>\n<p>A mulher limpou as l\u00e1grimas. Seus olhos endureceram, com uma chispa m\u00e1 de \u00f3dio represado a faiscar. O fisco, percebendo-o, mojetou:<\/p>\n<p>&#8211; Isso. \u00c9 assim que as quero \u2013 tesinhas, ah, ah.<\/p>\n<p>Mariana nada mais disse. Foi \u00e0 arca, reuniu o dinheiro existente \u2013 dezoito mil r\u00e9is ratinhados havia meses, aos vint\u00e9ns, para o caso dalguma doen\u00e7a, e entregou-os ao fisco.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que h\u00e1 \u2013 murmurou com tremura voz.<\/p>\n<p>O homem pegou o dinheiro e gostosamente o afundou no bolso, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Sou generoso, perd\u00f4o o resto. Adeuzinho, amor!<\/p>\n<p>E foi \u00e0 venda pr\u00f3xima beber dezoito mil r\u00e9is de cerveja!<\/p>\n<p>Enquanto isso, no fundo do quintal, o pai batia furiosamente no menino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conto de Natal Pr\u00f3logo No princ\u00edpio era o p\u00e2ntano, com valas de agri\u00e3o e r\u00e3s coaxantes. Hoje \u00e9 o parque do Anhangaba\u00fa, todo ele relvado, com ruas de asfalto, p\u00e9rgola grata a namoricos noturnos, e Eva de Brecheret, a est\u00e1tua dum adolescente nu que corre \u2013 e mais coisas. 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